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ROMANCE ESCANDALOSO / Adele Ashworth
ROMANCE ESCANDALOSO / Adele Ashworth

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ROMANCE ESCANDALOSO

 

                   Paris, França, janeiro de 1860.

Lady Olivia Shea, que tinha casada pouco mais de doze horas com lorde Edmund Carlisle, encontrava-se frente a uma das enormes janelas com cortinados verdes de sua elegante habitação no hotel Grillon, situado na Praça da Concórdia, contemplando como o sol aparecia pelo horizonte e iluminava lentamente a capa de gelo invernal que cobria a parte leste do Jardim das Tullerías.

Permanecia imóvel enquanto o fôlego que escapava de seus lábios empanava o cristal com pequenos e previsíveis círculos. Notava o corpo gelado, já que estava descalça sobre o chão de madeira, mas sua mente era alheia a toda sensação que não fossem a raiva e uma desesperada apatia.

Seu marido e ela tinham chegado ao hotel à noite antes para dar começo a sua lua de mel, para começar sua nova vida juntos, ou ao menos isso tinha acreditado ela. Embargada pela felicidade, Olivia se tinha posto a roupa de cama para aguardar a consumação de seu amor e seu compromisso, mas, por estranho que parecesse, Edmund tinha recordado de repente que devia encarregar-se de um assunto de negócios antes de partir de Grasse para uma estadia de um mês: necessitava mais dinheiro para a viagem. Durante as horas que seguiram, enquanto esperava a que seu marido retornasse, a excitação e os medos típicos de todas as virgens tinham desaparecido para ser substituídos primeiro pelo chateio que lhe provocava sua marcha, depois pelo pânico e finalmente pelo desespero, sobre tudo quando começou a avaliar o que tinha acontecido entre eles nos três últimos meses: o encontro casual de dois aristocratas ingleses com muito em comum que vivia rodeado de extravagantes franceses; o vertiginoso romance no que ele se comportou como o perfeito cavalheiro transbordante de encanto; o cortejo calculado e o empenho em umas bodas rápidas... Por desgraça, pouco antes da alvorada chegou à horrível e dilaceradora conclusão de que a relação não tinha sido mais que uma farsa e que seu flamejante marido a tinha tomado por tola.

Por que, Edmund? Por que eu? O que tenho feito eu?

Ainda não tinha chorado. Não lhe encontrava nenhum sentido a fazê-lo, embora soubesse que logo seria incapaz de conter a angústia e que as lágrimas se derramariam por suas bochechas como um manancial inesgotável nascido nas profundidades de seu coração.

Edmund não a tinha abandonado ante o altar, a não ser no tálamo nupcial. Com um sorriso e uma mentira, tinha-a deixado entre os custosos lençóis perfumados, tinha-lhe dado um tenro beijo e se partiu sem o menor rastro de inquietação ou remorso. Em sua opinião, esse ato tão desprezível tinha sido o pior dos enganos. Depois do afeto e a confiança que tinha depositado nele, o último adeus do Edmund tinha suposto a humilhação definitiva. Suspeitava que a tivesse convencido com falsas e engenhosas artimanhas dos benefícios de umas bodas rápida com o único fim de poder ter acesso a suas contas como seu marido, mas lhe tinha resultado muito mais singelo chegar a essa conclusão depois de passar toda a noite acompanhada tão somente por seus pensamentos e a luz tênue do gélido amanhecer.

Nesse instante, enquanto o sol despertava a cidade que se estendia ante ela com seus edifícios cinza e a luz lhe pisquem dos últimos faróis, começou a idear um plano. Era certo que a maior parte da culpa era dela, já que tinha permitido que se apropriassem de sua herança, mas não era tão ingênua como sem dúvida acreditava Edmund. Possuía recursos, determinação e habilidades que ele desconhecia. E sobre tudo, estava dotada de um intelecto brilhante que estava muito disposta a utilizar.

Nesse preciso instante, embelezada ainda com a maravilhosa camisola tecida a mão com seda importada e encaixe da Índia, Olivia fez o juramento mais importante de todos quantos tinha pronunciado essa semana.

Encontrá-lo-ia.

Sim, decidiu enquanto apertava os punhos aos flancos. Daria com ele, encontraria um modo de recuperar sua fortuna e conseguiria a anulação dessa paródia de matrimônio. E depois o arruinaria.

Talvez lhe levasse algum tempo, mas o encontraria.

«Vou à por ti, Edmund, e vai me pagar por isso.»...

 

 

                   Londres, Inglaterra, finais de março de 1860.

Tinham passado quatro meses da última vez que tinha estado com uma mulher, e talvez um ano desde que acariciasse a uma cujo nome recordasse. Essa noite, entretanto, tinha a intenção de procurar-se companhia fossem quais fossem as circunstâncias. Necessitava um escarcéu entre os lençóis mais que nunca. Por desgraça, a circunstância a superar era que na festa de apresentação em sociedade do Beatrice, uma prima longínqua, só havia damas de bom berço que flertavam com dissimulação, riam pelo baixo e se pavoneavam frente a ele embelezadas com ricos vestidos em todos os tons do arco íris. Era uma dessas típicas festas às que se via obrigado a assistir, a primeira da temporada, e a oferta de fêmeas dispostas a solucionar seu problema era, mas bem escassa.

A ausência absoluta de presença feminina em sua vida de um tempo a essa parte era sem dúvida um pouco patético, em especial para ele: Samson Carlisle, o distinto, libertino e escandaloso quarto duque de Durham. Ou isso lhe havia dito. Os que pensariam os descarados de seus amigos se averiguassem essa recente despreocupação pelo gênero feminino? Tinha uma reputação infame que manter. É obvio ninguém o conhecia em realidade tão bem como acreditava. Nem sequer seus melhores amigos. E assim devia ser.

Apoiado contra uma enorme coluna de mármore com volutas em bronze e ouro que estava situada no extremo oposto ao da escada principal, Sam bebia com calma um uísque bastante mau enquanto contemplava a derrota da pista de baile. Desde sua avantajada posição podia apreciar a maior parte do salão de baile e passar mais ou menos despercebido. Aborrecia as festas. Em realidade desprezava tudo aquilo que o convertesse no centro de atenção, e ocorria que, dado que quase sempre era o indivíduo com o título de maior fila em qualquer ato social e também o mais rico, estava acostumado a ter a muitas pessoas revoando a seu redor. Em algumas ocasiões resultava do mais óbvio, mas em outras não. Os cavalheiros queriam lhe fazer propostas de negócios, as jovens inocentes riam como tolas enquanto suplicavam seu interesse com o olhar e as damas casadas paqueravam de maneira sutil ou lhe faziam descarados convites que ele sempre, sempre, rechaçava. Se havia algo que tinha aprendido bem a seus trinta e quatro anos era que nunca, em nenhuma circunstância, devia confiar-se em uma mulher casada. Confiar nos encantos e a experiência dessas mulheres podiam levar a um homem à ruína. Algo que tinha estado a ponto de acontecer a ele.

Sam grunhiu para si mesmo enquanto se perguntava por que sua mente voltava sempre para passado em ocasiões como aquela, por que rememorava coisas que não podia trocar e que não faziam a não ser desassossegá-lo a muitos níveis diferentes. E estava claro que o desassossego, por mínimo que fosse não o ajudaria a seduzir a uma mulher em uma reunião intranscendente como aquela, e esse era seu único objetivo essa noite. Precisava trocar rapidamente de atitude se não queria voltar para casa sozinho.

— Só outra vez, né?

Esse irônico comentário tão similar a seus pensamentos procedia de Colin Ramsey, um de seus melhores amigos, um rival ocasional no que às mulheres se referia e o único homem da festa que o igualava em fila. Além disso, não havia dois homens mais distintos em toda a Inglaterra.

— Por isso pude ver, não pode dizê-lo mesmo de ti... — replicou Sam com ar arrogante sem sequer olhá-lo. — Acredito que estiveste com todas as damas presente esta noite.

Colin riu entre dentes.

— Suponho que te refere a que estive com elas na pista de baile...

— Certamente.

— Certamente... Nesse caso, sim, dancei com quase todas as damas que foram à festa. — Soltou um grunhido. — Doem-me os pés.

— Prova a pô-los em água morna — murmurou Sam.

— Vá... — comentou Colin imediatamente. — Isso é o que faz você depois de te passar toda a noite dançando a valsa?

Sam reprimiu o impulso de soprar.

— Sim, isso é o que faço depois de me passar toda a noite dançando valsa.

Colin se pôs a rir de novo enquanto contemplava os arredores e elevava a mão para dar outro gole à bebida.

— Você dançando uma valsa... Quando se congelar o inferno — acrescentou por cima do beira da taça.

Sam o deixou acontecer e deu um novo gole de uísque enquanto se fixava o olhar na filha de Lady Swan, Edna, que tinha um aspecto do mais ridículo, com esse vestido de gaze rosa bolo cujo decote baixo deixava ao descoberto seu grosso pescoço. Entretanto, Edna, que não tinha deixado de olhá-lo e de sorrir enquanto dançava com lorde Fulano de Tal, não era de tudo feia. Talvez em um futuro chegasse a considerá-la como uma possível esposa, já que procedia de uma boa família, tinha um rosto aceitável, gozava de boa saúde em geral e possuía uns quadris arredondados aptas para dar a luz com facilidade. Depois de tudo, a única coisa que lhe exigia o título era engendrar um herdeiro. Além disso, todas as mulheres inglesas lhe pareciam iguais em última instância: damas de expressão delicada, pele clara e cabelo castanho... E a maioria delas o aborrecia. Sabia que em algum momento teria que escolher a sua duquesa, antes de morrer por causa de uma enfermidade ou outra e de que sua fortuna passasse às mãos de seu irmão. Estaria disposto a casar-se com o anjo da morte antes que permitir que isso ocorresse. Contudo, não era provável que a escolhida fosse a doce e singela Edna, e sem dúvida não tinha nenhuma pressa por entrar em formar parte das filas dos casados.

— Sabe que está apaixonada por ti, verdade? — inquiriu Colin, interrompendo seus pensamentos.

Sam observou a seu amigo, tão só cinco centímetros mais baixo que ele, que media um metro oitenta e sete centímetros. Colin, que só se vestia com os melhores e mais custosos ornamentos e que essa noite levava um traje negro e uma camisa branca de seda, não tinha afastado o olhar da pista de baile e, como de costume, parecia muito cômodo sob o escrutínio da alta sociedade. Sam esteve a ponto de comentar seu chateio, já que desde que podia recordar sentia uma estranha mescla de ciúmes e admiração pela serenidade, o encanto, o aprumo e a perspicácia que seu amigo mostrava com as damas. Ele não tinha passado um momento relaxado com uma mulher em toda sua vida.

— Está apaixonada com meu dinheiro — corrigiu-o.

— Um reparo de que deveria te sentir muito orgulhoso — acrescentou Colin.

Sam não fez comentário algum a respeito.

— Suponho que nela, você não goste de nada — assinalou seu amigo.

— Nem o mais mínimo.

Colin deu outro gole à bebida.

— Sei que sua família lhe tem entre sua lista direta de possíveis candidatos e que ela possui uma dote mais que considerável...

— O que é um maldito casamenteiro enviado por sua mãe? — Inclinou a cabeça em direção a Edna Swan. — Você tampouco está casado, assim corteja-a.

— Eu tampouco necessito seu dote — replicou Colin com ar despreocupado.

Sam ficou calado uma vez mais, embora seu companheiro tampouco esperasse uma resposta. Chatearam-se o um ao outro durante anos aproveitando qualquer motivo, uma parte de sua relação que Sam encontrava do mais divertida.

— Santa mãe de Deus, viu isso?

Sam deu um coice, desconcertado pela exclamação de assombro de Colin. Olhou a seu amigo uma vez mais e notou que ele tinha a vista cravada no patamar da escada principal que havia justo por cima da multidão, cujo objetivo não era outro que mostrar às damas e a suas mães embelezadas com seus melhores ornamentos.

— Ver o que? — perguntou, molesto.

Colin esboçou um sorriso torto.

— Um anjo coberto de ouro.

Sam desviou a vista para a escada de mármore, mas somente viu duas moças normais e correntes que descendiam para a pista de baile com seus vestidos em tons bolo. Nada tão passado de moda como o dourado. Ou os vestidos dourados estavam de moda esse ano?

— Devo entender que viu a uma dama com a que não te importaria te casar?

— Sim.

Semelhante afirmação o deixou absolutamente atônito.

— Sim? — repetiu com as sobrancelhas arqueadas. — Sabe que a palavra «matrimônio» implica toda uma vida de compromisso, verdade? Algo que até agora te resististe a provar.

Colin não lhe fez o menor caso, concentrado como estava na mulher desaparecida que tinha provocado seu súbito amor.

— É magnífica, mas a perdi que vista assim que baixou a escada.

Sam soltou um grunhido de satisfação.

— Que lástima. É provável que não volte a vê-la nunca.

Colin se pôs a rir.

— Asseguro-te que vou vê-la a de novo. O mais adequado é que nos pressentem antes das bodas, não achas?

Ao parecer não era mais que uma pergunta retórica, já que Colin entregou à taça vazia a um criado que passava perto e se afastou para dali se misturar na multidão.

— O mais provável é que já esteja casada — murmurou Sam para si mesmo, e essa afirmação fez que se sentisse um pouco melhor.

As mulheres mais lindas, as mulheres mais desejáveis tão dentro como fora da cama, sempre estavam casadas. E essa opinião o tinha acompanhado com o passar dos anos. Embora de vez em quando o tivesse salvado.

Uma verdadeira lástima.

— Excelência?

Um tanto vexado, Sam desviou a vista para a direita ao dar-se conta de que Lady Ramona Greenfield tinha situado sua descomunal figura junto a ele e o olhava com um sorriso de autêntico prazer desenhada em sua enorme boca de lábios finos.

— Como se encontra esta noite, Lady Ramona? — perguntou-lhe, lhe dando um marcado tom interrogante a sua voz.

Só podia haver uma razão para que essa mulher o buscasse essa noite.

— Excelência — repetiu ela, que se inclinou em uma reverência quando ele se levou sua mão aos lábios. — Tenho notícias interessantes para você.

Sam suspirou. Aquela mulher vivia para servir de casamenteira.

— Notícias? — foi o único que pôde oferecer como resposta.

— Suponho que se trata, mas bem de uma oportunidade do mais incomum. — aparou-se o cabelo cinza com fingida vacilação. — Para falar a verdade, e se me permite a insolência, eu gostaria de lhe apresentar a alguém. Embora deva dizer que esta apresentação poderia ser um pouco... Insólita.

A palavra «insólita» lhe fez franzir o cenho. Tinha dado por feito que a intromissão do Lady Ramona estava relacionada com a senhorita Edna Swan, mas não conseguia imaginar-se a essa moça tímida e reservada lhe pedindo à dama que os apresentasse.

— Continue, por favor — conseguiu dizer; tinha picado sua curiosidade.

A mulher trocou de posição com nervosismo e tirou com suavidade do lenço de renda que continha nas mãos.

— Verá Excelência, ao parecer há uma... — inclinou-se para ele e disse em um tom quase inaudível — francesa... A que gostaria de conhecê-lo.

Sam ficou completamente imóvel. Sentiu um súbito nó nas vísceras e sua mão pareceu aferrar-se à taça por iniciativa própria.

Uma francesa. Algo do mais estranho, tendo em conta seu passado... E algo para o que não tinha nem paciência nem tempo. Rechaçá-la seria para ele o maior dos prazeres.

Depois de dedicar ao Lady Ramona a que ele considerava o mais encantador de seus sorrisos, replicou com uma leve inclinação de cabeça:

— Agradeço-lhe a oportunidade, minha senhora, mas acredito que uma apresentação seria do mais inapropriada nestes instantes.

Era uma resposta arruda, e se deu conta disso no momento em que os lábios da mulher se separaram para deixar escapar uma pequena exclamação. Contudo, dado sua posição, ela jamais se atreveria a questionar seu comportamento nem a comentá-lo entre a alta sociedade.

Entretanto e para sua mais absoluta surpresa, Lady Ramona não se intimidou. A mulher se ruborizou e se removeu com desconforto, mas a expressão decidida de seu semblante não se alterou nem um ápice.

— Rogo-lhe que me desculpe Excelência — disse em voz baixa ao tempo que se inclinava para ele — mas esta francesa é... Diferente. Mostrou-se bastante insistente, e é de uma natureza excepcional, se me permite dizê-lo.

Sam supôs que a mulher não podia dizer outra coisa em semelhantes circunstâncias. Embora essa descrição tivesse avivado seu interesse, e ela sabia.

— Não me diga? — perguntou com as sobrancelhas arqueadas.

Lady Ramona se ergueu uma vez mais com um sorriso que revelava sem disfarces o muito que a deleitava sua própria capacidade de persuasão.

— Sim, Excelência. E perguntou explicitamente por você.

Isso sim que assegurava uma apresentação. Sam trocou de idéia em um abrir e fechar de olhos e decidiu que conhecer uma francesa «de uma natureza excepcional», significasse isso o que significasse, acrescentaria ao menos um ponto interessante à, pelo resto, insossa festa.

Depois de entregar a taça meio vazia a um de quão criados entravam por ali, esboçou um sorriso irônico e lhe fez uma reverência à dama.

— Nesse caso, será um prazer para mim me reunir com a dama para uma apresentação formal.

Lady Ramona titubeou durante um instante, embora a julgar pela forma em que elevava o queixo, era óbvio que tinha recuperado o aprumo. Parecia a ponto de acrescentar algo quando outra mulher corpulenta a que Sam não conhecia se situou entre ambos, sussurrou-lhe algo ao ouvido à dama e depois partiu.

Lady Ramona se inclinou em uma pequena cortesia.

— Se me fizer o favor de ficar aqui, Excelência, retornarei em um instante.

— Então não me moverei daqui e a aguardarei com impaciência — replicou.

A dama, que não sabia se o havia dito em tom sarcástico nem se devia responder, optou por não acrescentar nada. Depois de esboçar um sorriso inseguro, deu-se a volta e desapareceu entre a gente.

Sam esfregou os olhos, presa uma vez mais da exasperação. Seu objetivo essa noite era seduzir uma mulher, não desiludir-se e tornar- se impotente ao conhecer uma francesa, uma mulher a quem odiava por princípios e com a que jamais se deitaria sem importar quão grande fora seu atrativo sexual. Meter-se na cama com ela avivaria muitos lembranças dolorosas sobre um passado que levava muito tempo tratando de esquecer. Havia ocasiões nas que estar à altura do título resultava do mais exaustivo, além de alimentar sua má sorte com as mulheres. Teria que acabar quanto antes com essa apresentação a que tinha aceitarei a contra gosto e depois formular as desculpas de rigor e partir em busca de uma presa mais atrativa.

Foi nesse preciso instante quando viu o anjo dourado. Não, não era um anjo, como Colin a havia descrito, porque estava claro que era a mesma criatura que seu amigo tinha visto minutos antes; era uma deusa exótica de singular beleza e excitantes olhos azuis.

Devia ser o cintilação do resplandecente vestido o que chamou sua atenção em primeiro lugar e atraiu seu olhar para a alta e curvilínea figura feminina, embora sem dúvida para isso tivesse sido desenhada esse objeto. O rico tecido cintilava à luz das velas, convidando-o a admirarem a extraordinária e distinguida silhueta da dama (de pernas longas e esbeltas, quadris ligeiramente arredondados, cintura estreita e seios erguidos que encheriam à perfeição as mãos de um homem) e esse rosto que somente podia descrever-se como dourado e perfeito.

Sam cravou o olhar nela, cativado, e por um momento interminável ficou sem fala.

Ela deve ter percebido sua confusão, e o quanto chamava a atenção a sua beleza sem mácula, porque esse tipo de mulheres sempre o notavam. De repente, enquanto se aproximava dele, seus lábios cheios e rosados se curvaram em um sorriso sagaz, irônica e satisfeita. Estava claro que se mostraria muito segura de si mesmo em sua presença, quase desafiante. Depois de tudo, era francesa. Uma feiticeira embriagadora disposta a utilizar todos seus encantos. E seus encantos eram mais que evidentes... Embora Sam não quisesse saber nada deles.

Uma vez recuperada a compostura, entrelaçou as mãos às costas, endireitou os ombros e se ergueu em toda sua estatura para erigir uma barreira invisível entre eles. A mulher se deteve justo diante dele e ao lado do Lady Ramona, quem parecia radiante de júbilo ao ver que todas as pessoas que os rodeavam tinham fixado a vista neles.

Por alguma razão que desconhecia, Sam desconfiou dela imediatamente, assim que Lady Ramona começou com as apresentações e percebeu o aroma a baunilha e a canela que parecia emanar da francesa.

— Milord, permita que apresente lady Olivia Shea, anteriormente Elmsboro, residente em Paris. Lady Olivia, apresenta a Sua Excelência, o duque de Durham.

— Excelência — murmurou ela com uma reverência ao tempo que estendia sua mão enluvada.

Sua voz encaixava a perfeição com seu aspecto: uma mescla estranha e fascinante de sensualidade, tragédia e intriga, com tão somente um pingo de acento.

Sam lhe rodeou os dedos com os seus e lhe apertou o suficiente para lhe fazer entender que não era um homem com o que se podia jogar que era o mais forte dos dois nesse pequeno encontro que Lady Olivia Shea tinha planejado.

Além de um leve cenho franzido, ela não deu mostra alguma de ter captado seu sinal de superioridade. Sam sentiu a calidez de sua pele através das luvas de cetim.

A música se deteve quando ele começou a falar.

— É um prazer, Lady Olivia.

Lady Ramona uniu as Palmas de suas mãos à altura do seio.

— Bem, agora os deixo para que se conheçam.

Sam não olhou à mulher, mas assentiu com a cabeça.

— Estou-lhe muito agradecida, Lady Ramona — disse Lady Olivia.

A mulher maior vacilou um instante e depois se esclareceu garganta para recordar a Sam que ainda sujeitava os dedos da linda dama. Aquilo era um fauxpas social sob qualquer circunstância, e era de esperar que uma das matronas do baile considerasse sua responsabilidade proteger a reputação do duque. Sam esteve a ponto de tornar-se a rir ante semelhante idéia, mas em vez disso soltou a mão da francesa tal e como devia havê-lo feito segundos antes. Depois daquilo, Lady Ramona fez uma rápida reverência e voltou a concentrar-se na multidão antes de saudar com a mão a alguma outra alma cândida.

Começou a tocar uma valsa que Sam não reconheceu. Esperava de coração que Lady Olivia não acreditasse que fossem dançar. Detestava dançar. Embora a essas alturas não soubesse muito bem o que dizer à dama.

Ela seguia olhando-o fixamente enquanto retorcia o leque de ouro e marfim que sujeitava contra sua cintura.

— Acabou-se a fuga, carinho — sussurrou com tom arrogante ao tempo que se inclinava para ele com um sorriso. — Não poderá escapar de mim agora que te encontrei.

«Agora que te encontrei»? As francesas eram do mais atrevidas em suas propostas. Recordava-o por experiência própria, e isso o esfriou um pouco.

Sam esboçou um sorriso de desdém e se meteu as mãos nos bolsos.

— Acredito que nenhuma dama tenha feito esse tipo de insinuações logo de primeira — replicou, arrastando as palavras.

Pela primeira vez desde que se viram, Lady Olivia pareceu insegura. Piscou com rapidez e se ergueu um pouco antes de apagar o sorriso de seu rosto, mas imediatamente voltou a elevar o queixo em um gesto desafiante.

— Por que está jogando comigo? — perguntou com um tom mais zangado. — Não vais saudar-me? Tanta importância tem esta gente para sua estelar reputação? Nem sequer parece surpreso.

Nesse instante foi Sam quem se sentiu confuso, embora fizesse todo o possível por ocultá-lo.

— Surpreso? Asseguro-lhe, Lady Olivia, anteriormente Elmsboro, residente em Paris, que há muito poucas coisas que me surpreendam já das francesas. — Baixou a voz e inclinou a cabeça para ela. — E para que saiba, faz já muito tempo que deixei os joguinhos.

As bochechas da dama se ruborizaram a luz das velas e seus olhos relampejaram de raiva. Sam não sabia de que demônio falava essa mulher, mas o que mais o irritava era que desejava seguir com a conversa. Supôs que gostava de olhá-la.

— Arruinaste-me — murmurou ela com voz furiosa.

Sam foi às nuvens assim que compreendeu do que estavam falando. Apertou as mãos dentro dos bolsos e pôs muito cuidado em não atrair a atenção sobre eles mais do que ela já o fazia com sua simples presença.

— Se acreditar que pode me tirar dinheiro com tão absurda reclamação — replicou com tom gélido — devo lhe advertir que não conseguirá nada, por mais audazes que sejam suas asseverações. Minha reputação tem já pouco que perder bela dama, e possuo o dinheiro suficiente para lutar contra você até a morte.

Ela desejava lhe dar um soco. Podia lê-lo em seus olhos, na forma em que o percorreu com o olhar em busca do melhor lugar para golpeá-lo, na tensão patente em todos os músculos de seu corpo. Não obstante, uma mulher assim jamais faria algo semelhante em presença da elite da sociedade; era muito refinada. Por estranho que parecesse, Sam encontrou essa idéia do mais excitante, e isso o deixou perplexo.

— Vá não parece surpreso?

Sam voltou à cabeça de repente ao notar que Colin estava de novo a seu lado com outra monopoliza na mão, passeando o olhar entre um e outro. Lady Olivia deu um passo atrás, também surpreendida e acalorada ao parecer, já que abriu o leque e começou a agitá-lo frente a seus seios.

— É você a dama mais linda de entre todas as presente hoje — disse Colin ao tempo que se inclinava ante ela. — Como é possível que me tenha perdido esta apresentação?

Lady Olivia tratou de esboçar um sorriso e lhe fez uma pequena reverência.

— É você muito amável senhor.

Colin tomou uma de suas mãos e lhe beijou os dedos por cima da luva.

— Sou Colin Ramsey, de Newark, embora veja que já conheceu a meu amigo... Os anjos devem estar chorando.

Ela trocou de posição e Sam se deu conta de que estava tão alterada pela interrupção como ele; não sabia o que dizer.

De repente, Sam se sentiu encerrado, incômodo e acalorado no salão de baile, e desejou poder dar volta e partir dali sem mais. Mas essa mulher entrou em seu ordenado e aborrecido mundo, com acusações e ameaças que o pertubaram. A noite tinha dado uma reviravolta e para pior, e Colin, em sua ignorância, mostrava-se tão encantado como sempre.

— Lady Olivia Shea — grunhiu a modo de apresentação — anteriormente Elmsboro, residente em Paris.

Colin o olhou com expressão confusa antes de voltar os olhos para a deusa dourada.

— Nesse caso, considera-se você francesa ou inglesa? — inquiriu.

— Ambas as coisas — respondeu ela com um genuíno sorriso. — Meu defunto pai era inglês, mas minha mãe nasceu em Paris. — Franziu os lábios e cravou em Sam um olhar envenenado. — Meu marido é inglês.

Por Deus. Uma francesa casada afirmando que a tinha arruinado. Contudo, possivelmente esquecera que o tinha acusado de certas impropriedades depois de conhecer Colin, o solteiro mais cobiçado e encantado de todo Londres. Embora dada sua sorte, era improvável que isso ocorresse.

— Marido? — Colin se deu uma palmada no seio. — Feriu-me você, milady.

Sam começou a sentir-se violento e desejou poder dizer a Colin que acabasse de uma vez e se largasse dali.

Lady Olivia, entretanto, teve a decência de ruborizar-se ante o ridículo e fingido amor de seu amigo. Ou isso pareceu a ele. Podia que a cor que tingia suas bochechas não se devesse mais que ao calor.

— Está seu marido aqui esta noite? — perguntou Colin em tom jovial. — Eu gostaria de conhecer homem cuja fortuna está tão por cima da minha.

A francesa pôs-se a rir baixo, um som melodioso que ressonou em seus ouvidos como uma composição inocente e alegre. E isso o tirou de gonzo.

Depois, em questão de um segundo, Lady Olivia suspirou e voltou a concentrar-se nele para lhe dirigir um olhar assassino, passando do timidez à altivez.

— Em efeito, Milord — apressou-se a dizer com um sorriso pretensioso e um olhar penetrante. — Este é meu marido. Não lhe falou de mim? Estou casada com o Edmund.

Entraram horas, ou isso lhe pareceu a Sam, até que esse escandaloso e descarado comentário conseguiu penetrar em sua calculadora e bem ordenada memoria; horas até que chegou a compreender as palavras que ela tinha pronunciado e o significado que encerravam; horas até que se deu conta de que, em um simples instante, essa francesa «de uma natureza excepcional» que se encontrava ante ele tinha trocado o curso de sua vida.

Edmund. Ela acreditava que era Edmund.

O calor do salão de baile se voltou sufocante e opressivo; a música se converteu em uma cacofonia ensurdecedora. Sam controlou sua expressão e apertou a mandíbula, decidido a manter-se imperturbável apesar de que lhe custava trabalho respirar e de que seu coração pulsava com força por causa da súbita e sinistra ira que lhe borbulhava sob a pele.

Ela acreditava que era Edmund. Tinha afirmado conhecer irmão que tinha estado a ponto de arruiná-lo socialmente, que lhe tinha roubado à mulher que amava e que se partiu do país dez anos atrás para não retornar jamais.

Essa francesa se casou com o Edmund. Ou isso dizia.

Santa mãe de Deus...

Ela deve ter notado sua reação, ou talvez sua falta desta ante tão descarada afirmação, já que nesse momento deu um passo atrás e o observou atentamente com os lábios apertados.

— Achou que não o encontraria querido? — inquiriu com arrogância ao tempo que erguia os ombros em um gesto indignado. — Achou que não teria recursos suficientes para fazê-lo? Ou talvez assumisse que carecia do dinheiro necessário para sair da França depois de que me roubasse isso?

Se Sam não ficou mudo de assombro ao contemplar sua beleza pela primeira vez, nesses instantes sim que estava sem fala. Havia um montão de perguntas revoando em sua mente. Muitas respostas que teria que obter; respostas que em realidade não queria conhecer, em especial se estavam relacionadas com ela. Não obstante, à medida que foram esclarecendo idéias e lhe regularizava o pulso, deu-se conta de que essa mulher era a chave para encontrar ao Edmund, para descobrir por fim o que tinha sido de seu perverso irmão depois de partir fazia tantos anos.

Por sorte, Colin ficou calado ao compreender o que tinha ocorrido, sem dúvida tão confundido como ele pelo comentário da dama. Não obstante, tinha um pequeno sorriso nos lábios, o que indicava que lhe divertia aquele absurdo giro dos acontecimentos. Contemplou-os a ambos enquanto dava um gole ao uísque.

Sam passou os dedos pelo cabelo e decidiu, sem muita má intenção, lhe seguir o jogo. Se encarregaria mais tarde que esclarecer-lhe tudo. Nesse instante queria levar as rédeas da situação, por dizê-lo de algum jeito.

— Parece que me encontraste sem problemas, Olivia — disse arrastando as palavras ao tempo que esboçava um sorriso irônico.

Colin riu pelo baixo.

— Ah, que rede tão emaranhada urdiu...

Sam jogou uma rápida olhada de advertência. Em seguida, depois de assegurar-se de que ninguém nos arredores parecia interessado no que falavam, estendeu uma mão para aferrar o braço da francesa.

— Dança comigo — sussurrou.

Ela pareceu um pouco surpreendida por sua insolência, mas esboçou um sorriso carente de humor.

— Acredito que não. Vim para me enfrentar a ti, Edmund, não para dançar...

— Nesse caso, enfrente a mim enquanto dançamos — interveio Sam, que a puxou dela antes que pudesse acrescentar um novo protesto.

Estava claro que Olivia não queria dançar. Tinha o corpo rígido por causa da fúria e as bochechas ruborizadas, embora não teria sabido dizer se isso se devia ao calor que reinava na estadia ou à indignação.

Arrastou-a até o centro da pista e a guiou a um ritmo suave, mesclando-se com a multidão. Supôs que formavam um casal bastante chamativo: ambos altos e morenos; ela com a pele clara e os olhos azuis que contrastavam com a cor quase negro do cabelo e o dourado resplandecente do vestido. Não, Sam estava quase seguro de que era essa mulher quem monopolizava todas as olhares. Ele tinha o aspecto de um nobre inglês; ela... Era magnífica. Lady Olivia Shea era sem dúvida a mulher mais linda do baile, e possivelmente a mais linda que tinha visto em muitos anos. E acreditava que ele era Edmund. Um imprevisto do mais inconveniente, em todos os sentidos.

— Vejo que praticaste — disse ela com um toque de ousadia, irritada a bom seguro por ver-se obrigada a dançar com ele.

«Assim que meu irmão não perdeu sua habilidade para conquistar às deusas de língua afiada...», disse-se Sam para si próprio.

— O que outra coisa poderia fazer um homem em minha posição, minha querida Olivia? — inquiriu em resposta ao dar-se conta de que a mulher dançava bastante bem e o seguia à perfeição.

— Certo. Não tinha a menor idéia de que é um homem de tão alta fila, «Excelência» — espetou-lhe, furiosa. — foi muito preparado ao me ocultar uma informação tão interessante.

Sam tratou de conter a risada. Por Deus, essa mulher era deslumbrante.

— Não o perguntou.

Ela ficou com a boca aberta.

— É desprezível.

Essa vez sim que sorriu. Não pôde evitá-lo.

— Para falar a verdade, chamaram-me coisas piores, mas nunca uma mulher tão bela.

Ao parecer, essa suave confissão, fora sincera ou não, deixou-á desconcertada por um instante, já que a mulher enrugou a testa e ficou calada. Depois, baixou a vista e observou às pessoas que os rodeavam.

— Não vim aqui para dançar — repetiu presa da raiva.

Sam entrecerrou os olhos e esboçou um sorriso irônico.

— Isso já me disse, mas a verdade é que dança maravilhosamente. Eu poderia passar o resto da noite dançando contigo.

Um tanto confusa, Olivia titubeou uma vez mais, a ponto de quase errar o passo. Entretanto, recuperou-se em seguida e piscou com rapidez para seguir o baile.

Olhou-o nos olhos e lhe apertou com força um ombro com sua mão enluvada.

— Por que faz isto? Não quero nem seu título, nem seu sobrenome nem a ti. E sobre tudo, não quero que me diga coisas românticas que, como ambos sabemos muito bem, não significa nada. Nunca significou.

Sam não respondeu a isso e se limitou a olhá-la.

A música se deteve e ambos deixaram de mover-se pouco a pouco.

Olivia se afastou dele como se seu contato a queimasse.

Elevou o queixo e aferrou o delicado leque entre os dedos antes de cravar o olhar nele uma vez mais.

— Quero que me devolva meu dinheiro, Edmund — sussurrou. — E depois, a anulação de nosso matrimônio. A humilhação terminará aqui, porque se não, Eu te juro por tudo que é mais sagrado que acabarei com você.

Embora Sam não tivesse levado ameaça a sério, sentiu-se em certo modo preocupado por semelhante testemunho. Entretanto, não lhe surpreendia no mais mínimo. Se de verdade essa mulher tinha conhecido ao Edmund, tudo o que havia dito essa noite podia ser certo. O Edmund que ele recordava não teria mostrado reparo algum em arruinar a uma jovem, lhe arrebatar sua fortuna e desaparecer, mesmo que para isso tivesse que casar-se com ela primeiro. Contudo, fazia muito tempo que não sabia nada de seu irmão desaparecido e, até onde sabia, essa francesa podia formar parte de alguma estratagema urdida com o fim de lhe tirar o dinheiro... Tanto com a ajuda do Edmund como sem ela. Qualquer um poderia utilizar seu sórdido passado e o de seu irmão para chantagêa-lo, e Lady Olivia Shea, anteriormente Elmsboro, residente em Paris, possuía o talento necessário para fazê-lo. Disso tinha tido provas suficientes nos dez últimos minutos.

Não podia confiar nela nem em nenhuma das palavras que tinham pronunciado esses belos e exuberantes lábios, ao menos no momento. Isso estava claro. Entretanto, era a primeira pessoa em muitos anos que afirmava ter mantido uma relação recente e íntima com o Edmund, e essa informação tinha para ele muito mais valor que um cofre cheio de diamantes.

A música começou a soar uma vez mais e ambos retornaram à zona da coluna para evitar às pessoas que girava a seu redor. Colin se tinha ficado ali de pé, embora nesses momentos ria de boa vontade enquanto falava e paquerava com três de suas devotas damas. Nada tinha trocado. .. Salvo que nessa festa Sam contava com a atenção da espantosa Lady Olivia.

— Muito bem — disse com tom prático enquanto a olhava aos olhos e enlaçava as mãos às costas. — Posto que não tenha desejo algum de que acabe comigo, cumprirei com meu dever. — Fez uma pausa antes de acrescentar com tom de brincadeira — Se você cumprir com o teu, Olivia.

Ela piscou, surpreendida.

— Meu dever? Não tenho que cumprir dever algum nesta farsa.

Ele arqueou as sobrancelhas em um gesto inocente.

— Não? Nesse caso me encarregarei de te dar um.

Olivia ficou aturdiada, com as bochechas ruborizadas de novo. Era óbvio que estava enfurecido, e Sam se perguntou se seu irmão também o tinha conseguido; sentiu uma estranha satisfação ante semelhante idéia.

— Minha única preocupação é a Casa Nevam, e você sabe — sussurrou ela em um tom de voz apenas audível por cima da música. — Além disso, não há nada entre nós, seu covarde.

Sam se sentiu quase ferido. Não tinha a menor idéia do que era a Casa Nevam, mas se ela não o tivesse tomado pelo Edmund, o comentário lhe teria doído muito.

Alguém da pista de baile se chocou com ela e a empurrou perigosamente para perto dele. Olivia não se deu conta ou não lhe deu importância, porque seu olhar penetrante não vacilou.

— Ponha suas finanças em ordem — continuou muito devagar — e recorda uma coisa...

— Que coisa? — perguntou ele com suavidade.

Agarrou-lhe por um braço com audácia em busca de apoio.

— Jamais voltará a ter isto.

Continuando, no meio de centenas de pessoas, ficou nas pontas dos pés e colocou seus quentes lábios sobre os dele para beijá-lo durante uns segundos antes de percorrer seu lábio superior com a língua e afastar-se dele.

Sam tragou saliva; sentia o corpo tenso e a mente agitada por um repentino tumulto de sensações, nenhuma delas boa.

Utilizava a experiência das francesas para jogar com ele e nesses momentos lhe sorria com um brilho satisfeito nos olhos.

Ele não se moveu, não reagiu.

— Tem uma semana, meu querido «marido», antes que diga a todo mundo o que me fez.

Depois de recolhê-la saia, Lady Olivia Shea lhe deu as costas e desapareceu entre a multidão.

Sam permaneceu rígido e ignorou as risadas de Colin e as olhares atônitas de outros enquanto se concentrava em um único pensamento: «Esta mulher é perigosa».

 

Olivia passeava pelo tapete vermelho brilhante do antigo salão do Lady Abethnot com as mãos enlaçadas às costas, contemplando as diminutas maçãs vermelhas com o caule verde do papel das paredes enquanto aguardava com impaciência a chegada de Edmund, tal e como lhe havia dito que faria em uma nota que lhe tinha enviado essa mesma manhã.

Tinham passado três dias da festa. Três dias nos que tinha tido tempo para refletir sobre a acalorada discussão que tinham mantido no incômodo baile e aquele beijo... Tão pouco convencional. Se é que de verdade podia chamar-se beijo. Estremeceu-se ao recordar o calor dos lábios masculinos e a audácia que ela mesma tinha demonstrado ao dar-lhe embora tivesse sido algo de tudo improvisado.

Seu marido tinha mudado muito nos últimos meses, e não só fisicamente. Era certo que nesse momento levava o cabelo muito mais curto, que não estava tão bronzeado (embora isso se devesses sem dúvida a que tinha trocado o sol da França pelo frio de Londres), e que agora prescindia da colônia e das jóias... Que era o que mais a tinha de surpreendente. Entretanto, era algo mais que isso. Atuava de uma maneira diferente a de Edmund que ela recordava, e era o estranho comportamento que tinha mostrado três dias atrás o que a tinha confundida, o que a tinha feito parar e a pensar nele com atenção pela primeira vez desde que abadonara Paris dois meses antes.

Para falar a verdade, não tinha chegado a conhecer muito bem ao Edmund antes de casar-se. Mas se tinham afeiçoado em seguida, quase com imprudente abandono, e naquela época tinha pensado que chegariam a conhecer-se muito melhor quando desfrutassem das maravilhas da vida matrimonial. Que ingênua tinha sido! Edmund jamais a tinha amado, a não ser a seu dinheiro; embora isso somente o tivesse descoberto ao ir ao banco pouco depois dele lhes desse as costas a ela, a sua posição social e a sua capacidade para dirigir um difícil negocio do que seu marido podia aproveitar-se mediante o roubo. Apesar de sua inteligência, tinham ficado cega pelo aspecto desse homem, suas maneiras suaves e elegantes e seus juramentos de amor imperecível.

Nunca mais. Jamais voltaria a deixar-se enganar pelo encanto de um homem. Nunca voltaria a permitir que um mentiroso profissional lhe roubasse o cérebro e sua habilidade como empresaria. Sua mãe lhe tinha ensinado a utilizar muito bem o sentido comum.

Não tinha deixado de pensar em todo isso desde que a abandonara na noite de núpcias... Até fazia três noites, quando encontrou a seu marido naquele baile.

Do momento em que posaram os olhos nele sentiu algo mais que a dor e a humilhação que esperava. Também admitiu imediatamente que se sentia muito atraída por ele fisicamente, algo que já acreditava superado a essas alturas. Sabia que já não o amava, mas para sua desgraça era evidente que ainda a atraía como homem. E isso era o pior de tudo.

Mesmo assim, as mudanças que se produziram nele, embora sutis, eram o que mais a desconcertavam. Tornou-se muito mais reservado, quase retraído; inclusive tinha permanecido toda a noite ao lado da coluna, observando tudo em lugar de mesclar-se com a gente. O Edmund que ela conhecia teria dançado com todas e cada uma das mulheres presente, desde o começo até o final, e teria deixado escutar sua linda risada para enfeitiçá-las a todas... Igual a tinha feito com ela.

Deixou de passear-se imediatamente. Retirou um pouco as cortinas de veludo para olhar através das janelas salpicadas pela chuva e contemplar a sombria escuridão de finais da tarde. Pegou uma almofada de cetim do sofá que havia a sua direita e começou a retorcê-lo entre os dedos sem dar-se conta, absorta em suas reflexões.

Não era seu marido.

Miúda idiotice... É obvio que o era.

Entretanto, em algum estranho sentido... Não o era. Não de tudo. Não era absolutamente o que ela recordava. Podia trocar tanto uma pessoa em questão de meses? Além disso, ele jamais tinha mencionado que fora duque. Pelo amor de Deus, casou-se com um membro da alta aristocracia e ele nem sequer o havia dito. Em seu lugar, tinha optado por lhe roubar a herança.

«Não é o Edmund com quem me casei...»

Deu um coice ao escutar os golpes na porta do salão. Sem esperar uma resposta, Lady Abethnot entrou na sala com as bochechas avermelhadas, acompanhada do frufru das saias cor rosa.

— Olivia — disse com um agradável sorriso nos lábios — tem uma visita. Sua Excelência, o duque de Durham.

Lady Abethnot fez um gesto com o braço e o homem passou a seu lado para entrar na estadia, alto e elegante, muito arrumado com seu traje de colete marrom escuro. Nada em seu rosto delatava o que sentia, à exceção de seus olhos, que a observavam com a expressão ardente de alguém disposto a enfrentar-se com o demônio.

— Milady... — murmurou.

Fez-lhe uma reverência.

— Excelência.

— Bem — interveio Lady Abethnot com um ruidoso suspiro. — Deixar-lhes-ei um momento a sós.

— Obrigado — disse Olivia a sua anfitriã com um sorriso.

A dama lhe devolveu o gesto.

— Estarei na habitação do lado se quiserem algo para beber, Chame-me se me necessitar.

E atrás disso partiu da estadia, embora deixasse uma fresta aberta na porta, tal e como ditava o decoro.

O homem nem sequer notou a saída de Lady Abethnot. Limitava-se a olhá-la com gesto sério. Esse jeito dele não era seu marido. Em nenhum sentido.

Olivia conteve a inapropriada gargalhada que ameaçava brotando de seus lábios diante do absurdo da situação. Porque nesse preciso instante teve a certeza de que esse homem, que era idêntico ao Edmund em aspecto físico, não era o homem com quem se casou.

Em uma reação instintiva, arrojou-lhe a almofada antes que ele pudesse dizer nada. O homem o apanhou com uma mão e depois o jogou no canapé que havia juntado a ele.

— Quem é você? — perguntou-lhe com amargura, rompendo o silêncio.

— Sou Samson Carlisle, duque de Durham — respondeu imediatamente com toda sinceridade. — Edmund é meu irmão.

Olivia conseguiu ocultar sua surpresa entrelaçando as mãos nas costas.

— Seu irmão gêmeo.

— Sim.

Isso o explicava tudo.

O duque a percorreu de cima abaixo com o olhar sem nenhum motivo aparente e ela se estremeceu por dentro ante semelhante escrutínio. Era sem dúvida muito mais arrogante que Edmund, e por um instante lhe pareceu que seu atrativo era também muito mais devastador.

— Mas é óbvio que é você o mais velho — afirmou ao tempo que o estudava com atenção.

Ele arqueou uma sobrancelha ao escutar o comentário.

— Só três minutos mais velho, para ser preciso.

Olivia se pôs a rir ante o tom ofendido de sua voz e inclinou a cabeça para um lado.

— Não pretendia ofendê-lo, Excelência. Por idênticos que pareçam, é você quem leva o título.

O duque esboçou um sorriso torto.

— Isso mesmo me há dito meu irmão em numerosas ocasiões.

— Ah... Já vejo.

Agora o compreendia tudo. O ciúmes do Edmund eram o núcleo do problema. Por isso sabia de seu marido, isso não sentiu saudades no mais mínimo.

Fez-se o silêncio durante um par de minutos, e Olivia começou a sentir-se um pouco violenta. Até certo ponto, esse homem a surpreendia. Não paquerava com ela, não se tinha sentado e nem sequer lhe tinha jogado uma olhada a elegante decoração do salão. Limitava-se a olhá-la com um rosto inexpressivo. E ela não sabia muito bem o que fazer.

— Suponho que agora sou sua cunhada — comentou em uma tentativa por quebrar o gelo.

— Isso diz você — replicou ele imediatamente.

Esse insulto a desconcertou.

— Isso me diz. — Essa vez foi ela quem o olhou de cima abaixo. — Sempre é você tão desagradável Milord?

O duque jogou a cabeça para trás, claramente aturdido por sua audácia.

— Em geral, sim — respondeu sem mais. — Não me pareço com o Edmund em nada.

— Isso quer dizer o brandamente — disse ela com um grunhido.

O homem entrecerrou os olhos e se levou as mãos às costas.

— E estou aqui, milady — disse com tom sério — porque sei que não me pareço em nada ao Edmund.

De algum estranho modo, esse comentário, que sem dúvida pretendia resultar lhe intimidar, comoveu-a; entretanto, jamais mostraria uma debilidade semelhante ante uma declaração tão prosaica, nem com gestos nem com palavras.

Com um sorriso satisfeito, baixou a vista para o sofá e acariciou o encosto acolchoado com a ponta dos dedos.

— parece-se muito a ele — a admitiu com tom agradável — embora tenha demorado ao redor de dez minutos em me dar conta de quão distintas são suas personalidades.

Por fim, o duque adentrou uns quantos passos na estadia.

— Não saberia lhe dizer. Não vi ao Edmund nem falei com ele há quase dez anos.

Olivia afogou uma exclamação. Levantou a cabeça de repente para olhá-lo aos olhos.

— Suponho que essa é a razão pela que jamais me mencionou que tinha um irmão gêmeo. Imagino que vocês dois tiveram algum tipo de desavença.

O homem não respondeu imediatamente, embora deixasse de olhá-la pela primeira vez desde que entrasse em casa do Lady Abethnot.

— Quando o conheceu? — resmungou enquanto seguia aproximando-se dela.

Olivia não passou por cima da tentativa de desviar a conversa. É obvio, queria (necessitava, em realidade) saber o que tinha ocorrido anos atrás, averiguar o que era o que tinha convertido a dois irmãos em inimigos amargos. Mas manteve a raia sua curiosidade no momento. Tal e como estavam às coisas, havia assuntos mais importantes a ter em conta. Esse homem não era seu marido, e tinha sido Edmund quem lhe roubasse seu dinheiro. No dia anterior acreditava ter respostas; essa tarde tinha compreendido que podia estar mais longe que nunca de recuperar sua fortuna, ou ao menos de conseguir um pouco de justiça. E agora, além disso, devia enfrentar-se a esse homem. Miúdo pesadelo.

Sentiu um súbito estremecimento de inquietação quando viu que se aproximava mais. Em lugar de responder, perguntou a sua vez:

— por que me mentiu a respeito de sua identidade no baile?

O duque riu pelo baixo, o primeiro sinal de algo remotamente parecido ao senso de humor.

— Porque resultava do mais divertido ver como me ameaçava acreditando que era Edmund.

Furiosa, Olivia não pôde encontrar uma réplica razoável a esse comentário. Retrocedeu um pouco quando ele deu um passo mais para ela. Nesses momentos estavam quase juntos, tão perto que a prega das saias rosas roçava seus brilhantes sapatos negros. Não obstante, manteve-se em seu lugar, decidida a não lhe deixar ver o muito que a desconcertava sua simples presença. Tinha a impressão de que esse homem utilizava a propósito sua incrível altura e sua forte constituição para intimidá-la. Edmund jamais tinha feito um pouco parecido, embora seu marido conseguisse o que queria mediante o flerte, não com a intimidação. De repente se perguntou se esse homem tinha paquerado com uma mulher alguma vez em sua vida.

— Quando conheceu meu irmão? — inquiriu o duque uma vez mais, embora de forma mais insistente.

Ela piscou antes de entrá-las Palmas das mãos pela rodeada cintura do sutiã.

— Não seria melhor que se sentasse para falar disto?

O duque franziu o cenho durante um instante, o que revelava que nem sequer tinha considerado a idéia de sentar-se.

— Está bem — disse com tom seco ao tempo que se voltava para dirigir-se ao canapé — mas meu tempo é ouro, Lady Olivia.

— Também o meu, Excelência — replicou ela imediatamente com um tom que dava claras amostras da crescente impaciência que a consumia. — Sou consciente de que não ficará aqui nem um minuto mais do necessário.

Ao parecer, fez-lhe graça a eleição de palavras. Olivia soube pela expressão que atravessou seu rosto enquanto se deixava cair sobre o canapé estofado de vermelho, embora o homem não fizesse comentário algum. Ela se sentou com elegância em uma pequena cadeira que havia juntado à janela para enfrentar-se a ele do outro lado da mesinha de chá.

O duque aguardou a que ela começasse a falar, e Olivia não esbanjou seu tempo.

— Conheci seu irmão em uma velada que celebrava o aniversário de nossa ilustre imperatriz Eugenia. Certamente, ela não estava presente, mas dado que era em sua honra, todo mundo importante estava ali.

— Naturalmente — comentou-o com apatia.

Olivia se deu conta de que corria o perigo de ir-se pelos ramos; os nervos a faziam parecer à típica jovenzinha frívola, e não uma dama inteligente educada para utilizar o cérebro. Trocou de posição no assento para adotar uma postura mais solene e enlaçou as mãos sobre seu regaço, disposta a ir ao grão.

— Edmund é um homem com bastante encanto, Excelência, e conseguiu me enrolar. Consta-me que está você a par de seu talento e sua reputação de libertino. Como poderá supor, eu albergava certas dúvidas sobre sua suposta adoração, mas também parecia fascinado por meu trabalho na empresa, e isso sim que me impressionava...

— Fascinado por seu trabalho na empresa? — interveio o duque, que cruzou as pernas e estendeu os braços sobre o encosto do sofá.

Olivia fez um supremo esforço por evitar fixar-se nos músculos de seu peito, que se tencionaram e imediatamente o tecido branco de sua camisa delineou os seus musculos. Esse homem tinha... Um físico do mais saudável. Ou isso lhe parecia. Negava-se a observá-lo atentamente para assegurar-se.

— Sim — respondeu depois de esclareceu a garganta. — Suponho que esse foi o motivo pelo que... Apaixonei-me tão rápido dele.

— Que tipo de trabalho leva você a cabo, Lady Olivia? — perguntou com um tom no que se mesclavam o humor e a curiosidade.

Assim não sabia... E isso significava que não se incomodou em investigar seu passado depois do encontro no baile. Por uns segundos, Olivia se sentiu um tanto ofendida ao saber que não lhe tinham preocupado muito as ameaças veladas que tinha formulado três dias antes, mas para falar a verdade não havia muitas pessoas em Londres que soubessem que se criou na França e que vivia ali. Contudo, produzia-lhe uma estranha satisfação lhe informar de que «seu trabalho» não estava relacionado com os trabalhos domésticas nem exercendo de voluntária em alguma das causas humanitárias da Eugenia. O certo era que adorava ver como se instigavam os cavalheiros quando lhes dizia que dirigia um negócio comercial, e além com bastante êxito.

— Sou a proprietária da companhia de meu defunto padrasto. Em essência, sou a diretora da Casa Nevam de Paris.

Olivia não demorou mais que um instante em dar-se conta de que o duque não sabia do que lhe estava falando. Recordou que a noite do baile ele tinha permanecido inexpressivo quando mencionou Nevam. Nesse instante soube por que.

Com um suspiro, relaxou-se um pouco no assento e se dispôs a explicar-se.

— A Casa Neva é uma companhia de perfumes, Excelência, e se considera uma das melhores de toda a França. Também fabricamos sabões perfumados, essências e sai aromática, e exportamos nossos produtos a todo mundo civilizado há mais de quarenta anos.

Se essa informação o tinha surpreso, mostrou-se tão reservado a respeito como ela orgulhosa. Franziu ligeiramente o cenho e a percorreu de novo com o olhar, embora essa vez com uma expressão calculadora. Olivia sentiu uma quebra de onda de calor sob o vestido de seda e se ruborizou, mas decidiu acontecê-lo por alto com a esperança de que suas bochechas não estivessem muito ruborizadas.

Ao final, o duque tomou uma larga e profunda baforada de ar.

— assim, suponho que você, ou sua fábrica, elaborou um perfume para a imperatriz Eugenia, não é assim?

— Assim é — replicou ela. — Servimos a elite francesa, junto a outras três ou quatro casas de perfumes importantes. Não obstante, a que freqüenta a imperatriz se considera sempre a mais elegante, embora em realidade não o seja. Até recentemente, sempre escolhia seu perfume em Nevam; foi-nos fiel há quase uma década. E quando começou a acudir exclusivamente a nosso estabelecimento, trouxe consigo um grande número de clientes importantes. Ela é muito livre, é obvio, de ir a qualquer outro estabelecimento no momento em que o deseje se um deles cria uma essência que seja mais de seu gosto, assim trabalhamos com esforço para ser competitivos. Graças a seu irmão, Excelência, minha empresa perdeu por completo essa capacidade competitiva. — inclinou-se um pouco para diante e o olhou aos olhos. — E quero recuperá-la.

O duque trocou de posição no sofá para relaxar-se enquanto a estudava.

— Estou impressionado — disse por fim.

Olivia piscou, sem saber muito bem se o havia dito a sério nem o que tinha sido com exatidão o que o tinha impressionado. Não parecia interessado absolutamente na arte de criar fragrâncias, mas a observava com atenção, como se esperasse que ela abordasse de uma vez a medula da questão.

Os dedos masculinos começaram a tamborilar sobre a parte superior do sofá.

— Devo supor que Edmund roubou o dinheiro destinado a conservar o interesse da imperatriz em suas fragrâncias?

Olivia cruzou os braços à altura do seio.

— Isso seria dizer o de uma maneira um tanto simplista. Mas sim, roubou grande parte do dinheiro que eu tinha reservado para a investigação depois da morte de minha mãe, faz dois anos. Se não pagar o dinheiro necessário para manter a empresa em marcha, verei-me obrigada a fechar Nevam. — Fez uma pausa antes de elevar o queixo para adicionar com amargura — Acredito que Edmund me utilizou com esse propósito, e que o planejou desde dia em que me conheceu.

O duque de Durham permaneceu em silencio durante comprido momento, observando-a com uma expressão especulativo em seus olhos escuros. Depois se tornou para diante, apoiou os cotovelos nos joelhos e enlaçou as mãos por diante.

— E como conseguiu meu irmão lhe roubar seu dinheiro?

Olivia o olhou como se fora tolo.

— Casou-se comigo.

O homem riu pelo baixo.

— Sim, isso parece, mas não consigo compreender como é possível que uma mulher tão inteligente como você, com tanto... tino para os negócios limitasse-se a lhe entregar o dinheiro quando ele o pediu. Eu gostaria de saber como o conseguiu meu irmão.

Tanto suas palavras como seu tom denotavam sinceridade, e Olivia se sentiu agradecida no mais fundo do seu coração por semelhante elogio, embora se cuidasse muito de ocultá-lo e de não sorrir de orelha a orelha. Nenhum homem, além de seu pai, havia-lhe dito jamais que ela era inteligente.

— Edmund pegou algumas copia de nossos documentos matrimoniais e retirou o dinheiro de meu banco como só poderia fazê-lo meu marido, com a ajuda de meu banqueiro, é obvio.

— Entendo — comentou-o sem expressão alguma. — Algo do mais conveniente.

Olivia não tinha claro se esse comentário a tinha incomodado ou não.

— Há alguma razão para que não me crie?

Ele respirou fundo de novo e se tornou para trás.

— Não tenho razão alguma para não acreditá-la, Lady Olivia, porque conheço o Edmund. Eu jamais roubaria o dinheiro a minha esposa para abandoná-la depois, mas ele... O irmão que lembrança... Não duvidaria em fazê-lo. Como já lhe hei dito antes, Edmund e eu somos muito diferentes. Nossas personalidades são tão distintas como parecido é nosso aspecto.

Olivia não tinha nada que dizer a respeito. Não sabia se conseguiria diferenciá-los se estivessem o um junto ao outro.

— Você não usa perfume — disse ela em voz alta sem pensá-lo enquanto o observava.

Ele pareceu bastante surpreso ante um comentário tão inesperado.

— Prefiro me banhar. Detesto as colônias.

— Na sociedade moderna atual — replicou ela com um sorriso — a gente já não fica perfume para ocultar os aromas que possam resultar ofensivos, Excelência. A eleição de um perfume por parte de um homem diz muito a respeito de sua personalidade e de seu estilo, e o cavalheiro usa esse perfume para expressar essa parte de si mesmo.

O duque soltou um grunhido ao escutá-la.

— Acaso insinua que careço de estilo e de personalidade, milady?

— É obvio que não — assegurou-lhe ela. — O que ocorre é que ainda não encontrou a fragrância que encaixa com você.

Pela primeira vez, o duque de Durham lhe sorriu de verdade, e seu aspecto, tão incrivelmente arrumado e encantador, esteve a ponto de obter que se derretesse na cadeira.

— Você encontrou a sua?

Olivia sentiu que o suor lhe cobria o pescoço e o lábio superior, e lutou contra o impulso de secar-lhe por que demônios esse homem parecia tão... Fresco?

— Utilizo muitas fragrâncias — replicou com tom neutro. — Pelo geral uso uma ou outra segundo meu estado de ânimo.

— Sim, isso eu percebi.

— Você percebeu? — repetiu incapaz de idear uma réplica mais adequada.

Ele se encolheu de ombros, como se o comentário não significasse nada.

— Hoje cheira diferente. — Sua expressão se voltou séria uma vez mais quando acrescentou — Sou muito perceptivo quando é necessário, Lady Olivia.

Essa advertência causou um silencio súbito e incomodo. O Duque manteve a vista cravada nela durante uns instantes, mas por sorte Olivia não perdeu a compostura; manteve o olhar altivo e direto, embora se ruborizasse até as sobrancelhas ao descobrir que ele sabia como cheirava. Somente esperava que o duque não notasse também seu abafado... Até no caso de que fora tão perceptivo como afirmava ser.

Finalmente, o homem se esfregou o queixo com seus largos dedos e ficou em pé uma vez mais. Ela o imitou com tanta delicadeza como pôde em semelhantes circunstâncias.

— Preciso ver as cópias de seus documentos matrimoniais — disse.

— É obvio; as trarei.

O semblante masculino refletiu sua surpresa, e Olivia teve que reprimir um sorriso satisfeito enquanto se recolhia as saias e passava a seu lado para dirigir-se ao pequeno escrivaninha de carvalho que havia juntado à janela.

— Encarreguei-me de que realizassem cópias. Edmund tem uma delas. Mas este é o documento original, e necessito seja deveolvido.

Levantou a vista para olhá-lo e viu que sorria com ironia.

— Parece que você pensou em tudo, Lady Olivia.

— Claro que sim — replicou ela imediatamente ao tempo que lhe oferecia uma pluma. — Também necessito de sua assinatura, caso você decida não me devolver isso.

O duque deu uns passos para aproximar-se dela. Embora se negasse a afastar o olhar do dele, Olivia não pôde evitar de dar um passo atrás nessa ocasião, intimidada por sua impressionante estatura e sua pose autoritária.

— Certamente, Lady Olivia — falou com voz grave e sincera enquanto estudava seu rosto ruborizado.

Olivia tentou deixa-lo perceber as suas mãos ao lhe entregar a pluma.

— Terá notado que a folha de papel superior indica que lhe faço entrega de meu certificado de matrimônio e que me deve devolver isso depois do tempo que estime necessário para examiná-lo.

O homem baixou a vista por fim para os papéis. Continuando, pegou a pluma que ela sustentava entre os dedos, afundou-a na tinta e assinou o documento.

— Obrigado, Excelência — disse Olivia uma vez que ele voltou a colocar a pluma no tinteiro.

— foi um prazer satisfazer sua petição, milady — replicou ele com voz lânguida, erguido em toda sua estatura uma vez mais e sem deixar de olhá-la aos olhos.

Olivia não podia suportar mais o cansativo calor do salão do Lady Abethnot, ou possivelmente fora à sufocante presencia do duque. Não importava: por esse dia, tinha terminado com ele.

Apressou-se a recolher o documento e lhe entregou o certificado.

— Obrigado, Milord, pela rapidez com a que atendeu este assunto — disse com cordialidade.

— Não foi nada — disse ele, sem acrescentar nada mais.

Durante um desconcertante momento, nenhum deles realizou o menor movimento. Depois, Samson Carlisle inclinou a cabeça a um lado e perguntou:

— Como se considera Lady Olivia, inglesa ou francesa?

Ela deu um passo para trás, surpreendida, e enlaçou os dedos às costas.

— Ambas as coisas.

Ele a olhou aos olhos por uns segundos antes de assentir levemente.

— É obvio.

Olivia não sabia muito bem como tomar-se isso, e ele não lhe ofereceu mais explicações.

Produziu-se outro incômodo instante de silêncio antes que o homem se afastasse um pouco dela e inclinasse a cabeça uma única vez.

— Entrarei em contato com você dentro de poucos dias, milady, e discutiremos o que vamos fazer com minha incorrigível irmão.

— Muito obrigado, Excelência.

Percorreu-a com o olhar uma última vez, embora, em opinião de Olivia, deteve-se durante muito tempo em seus seios. Ela não se moveu.

— Que tenha um bom dia, Lady Olivia — disse sem mais antes de dar a volta e sair da estadia.

Olivia sentia ainda o coração palpitando, muito depois de escutar que Lady Abethnot fechava a porta principal. Depois se deixou cair no sofá sem pensar nas possíveis rugas que apareceriam na saia de seu vestido e se dedicou a contemplar a chuva que caía ao outro lado da janela com um único pensamento em mente: “Este homem pode chegar a ser muito mais perigoso que Edmund...”.

 

                   «Ambas as coisas.»

Ela havia dito esta frase também a noite do baile, embora daquela vez Sam o tivesse considerado ridículo. Como era possível ser inglês e francês ao mesmo tempo? Era certo que alguém podia ser ambas as coisas por nascimento, como no caso do Lady Olivia, que tinha pai inglês e mãe francesa. Entretanto, não conseguia entender como alguém podia decantar-se por ambas as nacionalidades. A gente podia ser francês ou inglês. Mas não as duas coisas. Era uma mulher do mais irritante, e em mais sentidos dos que podia nomear; possuía um intelecto brilhante para ser uma inglesa de origem aristocrática e um corpo e um rosto que foram além de toda descrição. E isso era o que mais o chateava.

Não deveria ser assim, repreendeu-se ao tempo que trocava de posição no assento da carruagem que o levava pelo Upper Rhine Street para a casa que Colin tinha na cidade. O fato de que seguisse parecendo à deusa francesa que tinha visto a noite do baile não era culpa dela. Tinha esperado que fora menos atrativa sob a luz reveladora da tarde, mas não havia nada nela nem em seu vestuário que pudesse considerar-se ordinário. Para falar a verdade, esse dia se pôs um traje muito mais formal. Um vestido de dia... Azul? Não o recordava. Contudo, era evidente que tinha um aspecto extraordinário tanto com roupa como sem ela, e isso tinha feito que lhe resultasse extremamente difícil concentrar-se no que dizia. E detestava admitir que se sentisse atraído por ela... Era a mulher de seu irmão, pelo amor de Deus! Tudo aquilo podia acabar convertendo-se em um pesadelo.

A manhã tinha amanhecido tormentosa, cinza e taciturna, mas a chuva tinha diminuído um pouco conforme anoitecia, o que lhe permitiu descender da carruagem frente à porta principal do lar de Colin sem acabar empapado. Aproximou-se a toda pressa até a enorme porta negra e chamou um par de vezes, com força. Depois de um bom momento, um mordomo de cabelo prateado ao que nunca tinha visto abriu à porta e se afastou imediatamente para lhe permitir passar. Sam reprimiu uma gargalhada. Colin trocava de empregados com tanta freqüência como de calções. Jamais tinha visto os mesmos serventes duas vezes, e cada vez que o visitava se perguntava se seu amigo substituía com tanta freqüência a seus criados devido a seu trabalho encoberto para a Coroa. De qualquer forma, não era assunto dele e jamais se expôs perguntar-lhe Nesses momentos tinha coisas mais importantes na cabeça.

Depois de atravessar rapidamente a sala de estar e o corredor, longo e pouco iluminado, chamou duas vezes à porta do amplo estudo de seu amigo, onde lhe haviam dito que este o aguardava, e a abriu sem aguardar uma resposta. O calor do fogo que ardia na chaminé o assaltou imediatamente, assim como o forte aroma da fumaça do tabaco que envolvia a cabeça de Colin, sentado depois da enorme escrivaninha de carvalho.

Sir Walter Stemmons, da Scotland Yard, um homem forte de ombros amplos com um rosto marcado pela varíola e uns olhos sagazes aos que não lhes escapava nada, estava ao lado de seu amigo, observando um documento no que ambos estavam absortos. Foi nesse instante quando Colin levantou a vista e esboçou um sorriso irônico.

Sam soltou um grunhido e entrou na estadia antes de fechar a porta. Sabia o que ia ocorrer.

— Bem, a rapariga conseguiu te dar o laço? — perguntou seu amigo com um gesto da cabeça.

— Em sentido literal ou figurado? — inquiriu ele a sua vez com tom despreocupado enquanto se aproximava de uma poltrona estofada em couro negro que havia juntado à chaminé.

Sir Walter riu pelo baixo e se ergueu antes de começar a baixar as mangas da camisa.

— Se minha esposa soubesse de que coisas falam os solteiros...

— o têm amarrado? — interrompeu-o Sam.

— Muito temo que sim, a verdade — admitiu sir Walter com um gesto afirmativo da cabeça e um sorriso torto que dava a seus rasgos um aspecto do mais juvenil, em que pese a que já tinha sessenta anos. — Colin me explicou seu peculiar problema, Excelência. Será um prazer para ajudá-lo no que possa, é obvio.

Sam assentiu para dar as graças ao homem antes de sentar-se na poltrona, inclinar-se ligeiramente a um lado e estirar a perna contrária para diante.

— Temo-me que este assunto poderia complicar-se bastante. Não quero afastá-lo muito tempo de seu trabalho no Scotland Yard.

Sir Walter rechaçou a possibilidade com um gesto da mão e apoiou o quadril sobre o beirada da escrivaninha.

— Virtualmente, já estou quase retirado — assegurou-lhe com voz orgulhosa. — A maior parte de meu tempo me pertence e isso significa que posso aceitar os casos que goste; para falar a verdade, qualquer possível ameaça à nobreza é meu assunto.

Sam não sabia se podia considerar-se a Olivia Shea como uma ameaça à nobreza, a menos que se tivesse em conta sua incrível beleza.

«Maldita seja!», exclamou para si próprio.

— Não me parece uma ameaça — disse Colin com tom frívolo.

Sam soltou um bufo e tratou de aliviar o cansaço de seus olhos esfregando-os com o dedo indicador e o polegar.

— Afirma que Edmund se casou com ela e depois desapareceu, levando-se sua fortuna com ele.

Sir Walter resmungou pelo baixo. Colin deixou escapar um grave assobio antes de murmurar:

— Incrível.

Sam levantou a vista para observar aos dois homens.

— Você crê? Não me parece isso. Recorda que estamos falando do Edmund. Deixaria-me surpreso se ele tivesse casado com uma garota caseira e a tivesse enganado. Mas no mínimo, não se pode dizer que Olivia seja caseira .

— Certamente que não — conveio Colin com um sorriso. Inclinou-se para diante e apoiou os antebraços sobre os papéis e as notas que enchiam a escrivaninha. — O que me trouxe?

— Sua licença matrimonial.

Sam sacudiu o papel que tinha entre as mãos, mas seguiu sentado, já que desejava falar da situação antes de entregar o documento a seu amigo para que o examinasse.

Colin arqueou as sobrancelhas.

— Sério? O original? Ela confia em ti o suficiente para lhe dar isso.

Sam apertou os lábios em um gesto irritado.

— Fez-me assinar um documento no que constava que me tinha entregado isso.

Sir Walter e Colin puseram-se a rir, e Sam sentiu que o calor do abafado subia por seu pescoço.

— Parece que pensou em tudo, verdade? — assinalou Colin.

Sam entrecerrou os olhos.

— Parece é algo assim como uma perfumista, e dirige um negócio chamado Casa Nevam, em Paris.

Sir Walter permaneceu calado, esfregando-a queixo com os dedos enquanto assimilava a informação, tal e como o faria qualquer bom detetive.

— Fascinante — disse Colin segundos depois, absorto. — E deduzo que veio aqui procurando a esse incorrigível libertino que tem por marido e encontrou a ti.

Sam decidiu não responder a isso.

— O que pensa dela? — perguntou em seu lugar.

Colin se encolheu de ombros.

— É assombrosa: fala bem, viu bem e tem um aspecto extraordinário.

Sam suspirou.

— Não falava de seu físico.

A cadeira de Colin rangeu quando seu amigo se reclinou no encosto e se relaxou uma vez mais.

— Não sei.

— Isso não me ajuda muito — disse Sam com um bufo. — Preciso saber algo mais da primeira impressão que te causou essa mulher... Os pensamentos, as idéias que lhe passaram pela cabeça... Algo, por insignificante que te pareça.

— É uma mulher... Inteligente — comentou Colin depois de meditá-lo com seriedade durante um bom momento — e sem dúvida fogosa. Uma mulher apaixonada, embora isso, conforme tenho entendido, é bastante típico das francesas.

Muito certo, pensou Sam, em todos os sentidos. E isso o preocupava sobremaneira.

— Nas circunstâncias adequadas — acrescentou Colin — poderia resultar uma amiga do mais interessante; parece muito rápida com as palavras e... Bastante sofisticada, certamente devido ao muito que viajou e a sua boa educação. Não obstante, tudo isso não são mais que impressione depois de falar um instante com ela, Sam.

— Posso sugerir que também é extremamente organizada? — comentou Sir Walter. Afastou-se da escrivaninha e ficou de novo em pé antes de cruzar os braços e começar a passear-se ao redor, com a vista cravada no chão de madeira. — Sei que nunca a vi, mas se for certo que dirige uma próspera indústria de perfumes (e digo próspera porque se Edmund lhe roubou seu dinheiro, devia ter o bastante para que ele esbanjasse seu tempo tramando toda esta farsa), está claro que sabe como planejar e executar um plano. É óbvio que é o bastante decidida e independente para viajar a Inglaterra sem companhia com a intenção de procurar a seu marido desaparecido. À maioria das damas nem sequer lhes ocorreria fazer algo assim.

— Organizada, decidida e independente. Más qualidades para uma mulher — disse Sam, que se esfregou o rosto com uma mão em um falso gesto de dor.

Sir Walter soltou uma gargalhada.

— Consta-me que as há piores.

— A estupidez, por exemplo — interveio Colin com uma voz que soou muito séria para o tom da conversa. — Não terá que esquecer que se de verdade se casou com seu irmão, Sam, não demonstrou ser muito inteligente. Não me pareceu absolutamente estúpida, e tampouco tímida. Está claro que é uma mulher sensual, mas nada frívola no sentido romântico, assim vete, ou seja, o que lhe disse Edmund, como conseguiu aquecê-la para que se casasse com ele. — Respirou fundo e soltou o ar lentamente. — Também existe a possibilidade de que tenha sido ela quem há planejado toda esta farsa depois de conhecer o Edmund e descobrir que seu irmão gêmeo é um membro rico da nobreza britânica. Acredito que é o bastante preparada para fazer algo assim.

Sam também acreditava.

— Também é possível que Edmund e ela sejam amantes, tanto se estão casados como se não, e que trabalhem juntos para tentar me tirar dinheiro apelando à compaixão que me inspira uma mulher abandonada e ao desprezo que sinto por meu irmão — acrescentou antes de olhar aos outros dois homens de relance. — Sua aparição no baile de faz três noites poderia ter sido o primeiro ato de uma larga obra de sagacidade, joguinhos e arrevesadas conjeturas. Não a conheço, mas creio que Edmund é capaz de algo. E, além disso, ela é meio francesa.

— Não significa isso que também é meio inglesa? — perguntou sir Walter com muito tato.

Sam optou por não responder, já que sabia que não era senão uma pergunta retórica. Tanto Colin como uns quantos homens do Scotland Yard, entre os que se contava Sir Walter, conheciam sua antiga relação com uma francesa em particular. Alguns escândalos nunca desapareciam de tudo, por mais que um se empenhasse em esquecê-los ou que os amigos tratassem de lhe dar uma luz positiva a todo o assunto.

Colin tamborilou com os dedos sobre uma grosa pilha de documentos.

— O fato de que seja tão linda não é de grande ajuda, verdade?

— Não, não ajuda absolutamente — replicou Sam em voz baixa, com os dentes apertados.

Fez-se o silêncio durante uns segundos.

— Me deixe ver esse documento — disse Colin finalmente.

Sam ficou em pé a contra gosto e se aproximou da escrivaninha com a licença matrimonial em uma mão.

Colin estirou um braço para recolhê-la e, depois de acender o abajur de seu escritório, colocou o papel sob a luz e começou a examiná-lo centímetro a centímetro.

Sir Walter se situou detrás de seu amigo para observar a licença com o cenho franzido. Sam esperou tão pacientemente como pôde, dadas as circunstâncias, e tratou de não fazer perguntas a Colin antes que este terminasse sua avaliação. Colin ganhava a vida com isso e era possivelmente o melhor falsificador (e o melhor detector de documentos falsificados) que jamais tivesse conhecido a Inglaterra. Tinham-no apanhado aos vinte e quatro anos e o tinham sentenciado a trabalhar para a Coroa, e isso levava ficando mais de doze anos. Entretanto, muito poucas pessoas conheciam seu trabalho. Para todo aquele que não pertencia a seu reduzido círculo de amigos e colegas, Colin não era mais que o impetuoso e folgazão duque de Newark, que esbanjava seu tempo assistindo a festas e paquerando com as damas. Era muito importante para o governo que seu trabalho permanecesse em segredo.

Colin começou a rir e levantou a cabeça.

— Isto é maravilhoso...

Sam franziu o cenho e se inclinou sobre a escrivaninha.

— O que?

Seu amigo se apoiou sobre o braço da cadeira de balanço e deu uns golpes ao documento.

— É uma falsificação excelente. Bom... Não é exatamente uma falsificação, mas tampouco é um certificado legal de matrimônio.

— E isso o que significa? — perguntou sir Walter antes de aproximar-se para vê-lo melhor.

— O documento é autêntico, mas foi modificado. Olhem isto.

Sam jogou a cabeça a um lado para ter uma vista melhor da parte inferior do documento, a zona do selo que Colin percorria com a ponta do polegar.

— O documento em si é autêntico, o que significa que é o certificado genuíno que se utiliza para registrar os matrimônios civis em todas as paróquias francesas. — Pegou uma velha lupa de aço e examinou a esquina inferior direita. — Não obstante, o selo está desconjurado, foi estampado muito alto. Também há um par de entalhes na parte inferior que não são habituais.

— Viu suficientes certificados matrimoniais para sabê-lo? — perguntou Sam.

Colin elevou o olhar imediatamente, perplexo.

— É obvio.

Sam não tinha nada que dizer a isso.

— Além disso, quando se observa o documento com a lupa — acrescentou seu amigo — vêem-se letras impressas que não estão centradas, com uma separação da horizontal de ao redor de um milímetro. Vê-o?

Sam entrecerrou os olhos e se fixou na zona falsificada que Colin percorria com o dedo, mas não viu nada que não parecesse perfeito.

— Não, não vejo nada.

Seu amigo não ofereceu elucidação alguma. Em seu lugar, sacudiu o papel um par de vezes e depois repetiu o movimento. Em seguida pegou a lupa de novo e seguiu muito devagar a beira do documento antes de enfocar a parte impressa, seguindo as linhas uma por uma com todo parada.

Instantes depois se ergueu uma vez mais e arrojou o certificado falso sobre a pilha de documentos que tinha em cima da escrivaninha.

— Teria que ver uma assinatura recente do Edmund para saber se realmente assinou isto. Mas, além disso, o documento é genuíno e foi modificado, o que o converte em uma falsificação... E uma falsificação muito cara. Disso estou seguro.

Produziu-se um longo momento de silêncio antes que Sam falasse por fim.

— Isso significa que alguém gastou um montão de dinheiro para realizar esta fraude. Conhece alguém que possa realizar este tipo de trabalho?

— Pessoalmente? — Colin franziu o cenho e sacudiu a cabeça. — Não, agora não me ocorre ninguém. Não obstante, pensarei nisso e falarei com alguns de meus contatos, se quiser. Poderia me levar algum tempo.

Por desgraça, o tempo era um luxo que Sam não podia permitir-se. Passou-se uma mão pelo cabelo em um gesto brusco.

— Faz o que possa. Poderia servir de ajuda.

— Bem — interveio Sir Walter, que lhes deu as costas e rodeou a escrivaninha para dirigir-se para a janela com as mãos entrelaçadas às costas — então estão casados ou não? Ou seguiria sendo um matrimônio legal se levou a cabo ante os olhos da Igreja, independentemente da autenticidade do documento assinado? Eu diria que sim.

Sam sentiu de repente uma incômoda opressão no estômago; essa era a pergunta que ele não se decidiu a formular ainda.

Colin o meditou durante um instante.

— Creio que sim, mas depende de quem oficiasse a cerimônia. O nome que aparece neste documento não significa nada. — inclinou-se para diante para ler o certificado. — Jean Pierre Savant. Tenho a certeza de que é um nome bastante corrente na França, e poderia ser inventado.

— Ou legítimo — acrescentou Sam.

— Sim — conveio Colin. — No caso de que fora a assinatura de um membro do clero ordenado para poder oficiar matrimônios, estariam legalmente casados, sem ter em conta o documento; ao menos, aos olhos da Igreja. E não esqueça que sempre terá que contar com testemunhas.

— Contudo, deveríamos recordar — disse sir Walter, que se voltou para lhes falar — que os atores e também as testemunhas podem comprar. Está-se casada com o Edmund, embora somente seja aos olhos da Igreja, seu dinheiro também é o dele. E nesse caso, o tipo não seria culpado mais que de abandoná-la.

Sam soltou um grunhido e se esfregou os olhos uma vez mais.

— O que a converteria em minha responsabilidade.

Sir Walter deixou escapar um longo e ruidoso suspiro antes de meter as mãos nos bolsos.

— É muito provável. Ao menos, até que se conseguisse a anulação. Essa mulher tem família?

Sam fez um gesto negativo com a cabeça.

— Não tenho nem idéia. Embora suponha que se houver algo positivo em tudo isto é que não há filhos de por meio.

— Disso não pode estar seguro — assinalou Colin com muito tato.

Sam o pensou uns instantes. Depois, afastou-se da escrivaninha para dirigir-se à chaminé e contemplar as brasas.

— Não acredito. Ela não mencionou a nenhum filho, embora fosse um argumento de muitíssimo peso para reclamar minha ajuda, tanto financeira como de qualquer outro tipo. — Meneou a cabeça muito devagar e uniu as mãos depois das costas. — Desconheço quanto tempo tinham casados antes que meu irmão a abandonasse, mas acredito que se tivesse algum filho me haveria isso dito, embora somente fosse para apelar a minha simpatia. — Fez uma pausa antes de acrescentar — Além disso, é muito... Esbelta.

— Esbelta... — repetiu Colin com ar absorto, — e incrivelmente bem proporcionada, acrescentaria eu.

Sam passou por cima o comentário e fechou os olhos durante um instante para repreender-se a si mesmo. Não deveria ter mencionado sua figura. Seu aspecto era irrelevante, ao menos para ele. Ou assim deveria ser.

Depois de respirar fundo, voltou-se para eles uma vez mais com uma pose autoritária e uma expressão séria.

— Tal e a meu ver, cavalheiros — refletiu — temos duas possibilidades. Ou ela está dizendo a verdade, ao menos tal e como a conhece, e meu irmão se casou com ela com falsos pretextos para escapar com a fortuna conseguida com os perfumes, ou mentiu e veio aqui a tentar conseguir parte de minha fortuna. Agora bem, se disser a verdade e Edmund lhe roubou o dinheiro, pode ser que estejam casados e pode ser que não. Em qualquer dos casos, se ela não mentiu com respeito ao Edmund, é provável que crie que o matrimônio é válido. A única outra possibilidade é que Edmund e ela hajam planejado tudo isto juntos, em cujo caso eu poderia chegar a me converter no estúpido da história.

Embora a simples idéia o pusesse doente, também notou que não o surpreendia absolutamente. As destrezas do Edmund tinham deixado de surpreendê-lo fazia muitos anos.

Sir Walter pigarreou.

— Bem, o mais inteligente é pecar de prudente, é obvio. Até que saiba algo mais sobre a situação e sobre ela, não pode confiar mais que no que lhe diga, e tomar-lhe tal qual.

Sam assentiu para mostrar seu acordo. Quão último queria fazer era mostrar ao Olivia suas cartas, por mais que fora de blefe.

— Quer que faça uma cópia do certificado matrimonial? — ofereceu - se Colin, tirando o de suas reflexões.

— Poderia fazê-lo rápido? — perguntou a sua vez ao tempo que se aproximava de novo aos dois homens.

Colin pegou uma vez mais a falsificação e lhe jogou uma olhada, tanto por diante como por detrás.

— Suponho que poderia te fazer uma boa cópia em um par de dias.

— Isso servirá — replicou Sam, agradecido. — Convidarei-a para jantar ou algo assim dentro de poucos dias. Isso deveria lhe dar tempo para perguntar-se o que vou fazer com respeito a sua ameaça.

— Não confia nela, verdade? — inquiriu Colin, embora em realidade fosse mais uma afirmação que uma pergunta.

— Nem o mais mínimo — respondeu Sam imediatamente — e por razões que não têm nada que ver com o fato de que seja francesa. — Começou a passear-se por diante da escrivaninha e se deu conta pela primeira vez de que Colin tinha decorado as paredes de seu estúdio com um espantoso tom marrom. Embora isso carecesses de importância, é obvio. — Ponhamos o desta maneira — acrescentou com voz firme à medida que suas idéias sobre a situação começavam a ordenar-se — se for sincera e acredita seriamente que está legalmente casada com o Edmund, tenho a vantagem de saber que foi enganada por meu irmão. Se não o for, perguntará-se até onde me traguei sua história e se acreditar ou não algo do que me há dito.

— É muito provável que se pergunte isso de qualquer forma — assinalou sir Walter.

— Certo — reconheceu Sam. Deixou de passear-se e olhou pela janela que tinha à esquerda. — O que significa que meu plano é melhor o que o seu.

— Que plano? — Colin suspirou e se reclinou na cadeira de balanço, entrelaçando os dedos por detrás da cabeça. — Me diga que não pensa ir à França...

— Claro que vou à França.

— Com ela?

Sam esteve a ponto de soltar uma gargalhada ao ver a expressão atônita, quase invejosa, de Colin.

— É obvio. — inclinou-se sobre a escrivaninha de seu amigo e apoiou as Palmas em cima dos papéis que tinha disseminados sobre ele. — Para falar a verdade, importa-me saber quem é essa mulher, tanto se for uma ingênua ou uma pessoa que minta por prazer, como se trabalha com o Edmund ou está buscando-o, tal e como diz. Quero encontrar a meu irmão...

— E Claudette?

Sam se ergueu imediatamente e voltou a sentir um ardor no estômago causado pela ira e o ressentimento que tinha tratado de ocultar durante anos.

— Possivelmente, ainda segue com ele.

— Quer vingança — disse Colin com tom insolente.

— Quero deixar as coisas claras.

Colin sacudiu a cabeça muito devagar. Depois, depois de endireitar-se no assento, apoiou os braços sobre a escrivaninha, entrelaçou os dedos e olhou a seu amigo aos olhos.

— Os anos que aconteceram não trocaram nada — disse em um tom de advertência. — Sabe por que se largou seu irmão, e embora esta beleza que afirma ser sua esposa seja francesa em parte...

— E em parte inglesa... — interrompeu-o ele.

Colin piscou com ar inocente. — Está-a defendendo?

Sam não sabia se zangar-se ou sentir-se agradecido pelo fato de que seu amigo tratasse de lhe pôr as coisas em perspectiva.

— Sei muito bem o que faço.

— Ainda assim — interveio sir Walter, que passou as palmas das mãos pelo amplo torso — eu seria muito precavido se estivesse em seu lugar. Pela descrição que tem feito do Lady Olivia, não parece uma dessas mulheres que se deixam avassalar. Em especial se está jogando com você...

Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça para aceitar o conselho do homem com uma incômoda sensação de desassossego.

— Assim que a utilizará para te vingar — comentou Colin com secura.

Sam permaneceu calado um instante antes de responder.

— Se tiver a oportunidade... — sussurrou.

De repente, a chuva começou a cair com mais força e a salpicar a enorme janela que havia depois da escrivaninha, interrompendo a conversa com um toque de realidade.

Colin ficou em pé antes de estirar-se.

— Vamos comer cavalheiros. Tenho um cozinheiro novo que sabe fazer maravilhas com o frango.

Estava claro que tinham retornado ao mundo real.

— Como você faz com as mulheres, meu amigo.

Sir Walter esboçou um sorriso irônico, mas Colin soltou uma gargalhada.

— Não obstante, é você o que parece atrair às belezas sem comparação.

— Que já pertencem a outros — replicou Sam imediatamente.

— Sempre haverá Edna Swan...

Essa opção tampouco o fazia nenhuma graça.

 

Olivia chamou com impaciência à porta principal do número 2 da Parson Street com o convite na mão. Não estava segura de se essa era a residência do duque de Durham ou tão somente a de um amigo com o que se alojava enquanto estava na cidade. Lady Abethnot lhe tinha contado que o homem passava a maior parte do ano encerrado na propriedade que tinha no Cornwall, perto de Penzance. Não obstante, tinha-lhe enviado uma nota escrita a toda pressa para convidá-la para jantar ali e discutir sobre «a delicada situação que atravessavam», fora qual fosse, de modo que ela tinha aceitado imediatamente. Se o jantar estava incluído, melhor que melhor.

A primeira impressão que teve ao ver a enorme casa de pedra foi uma sensação de assombro ante o fato de que alguém pudesse «esconder» uma moradia de tal tamanho e beleza em metade de uma ocupada rua da cidade. É obvio, o dono da casa vivia em um bairro muito bom, mas sua aparente modéstia estava garantida sem dúvida pela maneira em que o edifício parecia esconder-se depois da fileira de árvores e arbustos recortados, que flanqueavam o atalho de paralelepípedos do beira do caminho no que ela se desembarcou da carruagem enviada pelo duque até a entrada iluminada por faróis de gás. Os aromas da primavera impregnavam o ar e os insetos zumbiam com a chegada do crepúsculo. Olivia inalou profundamente para saborear o sutil perfume de uma ampla variedade de rosas, ao que se somavam o dos zimbros e o da chuva. Esses aromas, tão embriagadores e refrescantes, lhe teriam provocado uma sensação de calma e tranqüilidade... De não ter sido por quão nervosa a punha voltar a ver esse homem.

A porta se abriu nesse preciso instante, tirando a de suas reflexões. Endireitou as costas de maneira instintiva para saudar o mordomo, embelezado com um traje formal em branco e negro, mas antes que pudesse abrir a boca ou lhe entregar o cartão de convite, o homem se inclinou em uma ligeira reverência.

— Lady Olivia — disse com uns lábios largos e grossos que mal se moviam. — Sua Excelência a espera no sala de jantar.

— Obrigado — replicou ela, e entrou na casa assim que o mordomo se pôs de lado para lhe permitir o passar.

Não se tinha posto xale, já que tinha feito bastante calor durante o dia, assim que o único que lhe entregou ao criado foi seu chapéu. Depois, colocou-se bem as mechas que lhe tinham soltado da massa de cachos recolhimento no cocuruto.

— me siga, por favor — pediu-lhe o mordomo, que ainda não lhe havia dito seu nome, antes de dá-la volta para guiá-la através de um escuro corredor.

Olivia não vacilou; não tinha nenhum medo. Pode que estivesse nervosa, mas não assustada. Elevou o queixo, endireitou os ombros e caminhou com aprumo pelo muito caro chão de mármore coberto com tapetes persas em tons verde escuro e Borgonha. O interior da casa a assombrou até mais que o exterior: estava decorada com distintos matizes de dourado, vermelho e bronze, e incluía o parecer uma grande coleção de móveis importados e acessórios de um estilo decididamente masculino. Se algo podia dizer do duque de Durham (ou talvez de seu amigo) era que tinha um gosto delicioso e muitíssimo dinheiro. Também cheirava bem, até sem colônia, algo que nunca tinha notado em um homem com antecedência. Todos os que conhecia utilizavam perfume, inclusive Edmund.

Repreendeu-se a si mesmo por tão ridículos pensamentos. Não entendia por que demônios pensava em seu aroma nesse instante. Essa noite necessitava mais que nenhuma outra coisa, centrar-se em seus objetivos.

Dado que lhe tinham roubado os recursos da companhia, concentrou-se no precário futuro de Nevam e se obrigou a preparar-se para a entrevista que certamente haveria enquanto entrava no sala de jantar. O aroma das laranjas e o veado assado a assaltaram imediatamente, ao igual à agradável atmosfera criada pelas grosas tapetes de cor Borgonha, as paredes pintadas em tons verde — azulados e marrons, os brilhantes móveis de madeira de cerejeira e o calor do pequeno fogo que ardia na chaminé.

Depois viu o duque e seu coração se deteve... Antes de começar a pulsar a um ritmo frenético, presa de um pingo de desconcerto e incerteza.

Se concentre, se concentre se concentre..., pensou com bastante força..

O duque de Durham se achava junto ao fogo, com um cotovelo apoiado sobre a grosa suporte de carvalho e uma taça de um líquido ambarino entre seus largos dedos; tinha a outra mão metida no bolso das calças, com o que a jaqueta da colete ficava separada de seu corpo. Olivia demorou seu primeiro olhar na camisa de seda branca que se tencionava sobre seu peito, largo e forte. Os objetos, branco sobre negro, tinham sido confeccionadas a medida para adaptar-se à perfeição a sua enorme estatura; a única peça de cor era a gravata, de um tom verde esmeralda, e é obvio tudo o que levava era da melhor qualidade. Olivia compreendeu nesse mesmo instante que não podia esperar outra coisa desse homem, e pela primeira vez começou a perguntar-se por que Edmund havia sentido a necessidade de chegar até semelhantes extremos para lhe roubar o dinheiro quando seu irmão possuía uma enorme fortuna. Não obstante, possivelmente fora justo por isso.

Quando por fim se decidiu a olhá-lo à face, todo pensamento relacionado com seu marido se desvaneceu imediatamente. Embora se parecesse muito ao Edmund no plano físico, a expressão e a pose do duque de Durham não tinham nada que ver com as de seu irmão. Edmund se mostrava sempre jovial e afável, mas esse homem exsudava um poder, uma autoridade e uma energia que era aconselhável ter em conta. Ambos os indivíduos eram incrivelmente arrumados, mas enquanto Edmund era dado ao flerte, não podia dizê-lo mesmo do duque. Absolutamente.

O duque enfrentou seu olhar com uma expressão que pretendia intimidá-la e que irradiava tal intensidade que Olivia esteve a ponto de dar um passo par trás.

Estremecida, deteve-se um momento para esclarecer as idéias. O olhar penetrante desses olhos castanhos dizia às claras que não confiava nela nem um pouco. Não confiava nela..., mas mesmo assim a tinha convidado para jantar essa noite, o que significava que sim acreditava que conhecia seu irmão, fora qual fosse sua relação. Tinha esperado algo mais, embora supusesse que o fato de que a aceitasse ali, por mais duvida que tenha, era um bom começo.

Nervosa, respirou fundo para tentar controlar a crescente ansiedade que a invadia e permitiu que a ampla saia de cetim do vestido se separasse do vão da porta e caísse com elegância a seu redor enquanto entrava no sala de jantar. Inclinou a cabeça para saudar o homem cujo olhar tinha começado a percorrê-la muito, muito devagar, da cabeça aos pés.

— Boa noite, Excelência — disse com uma voz tão agradável como foi possível, já que desejava estabelecer uma conversa aprazível, como a discussão entre um irmão e uma irmã.

Não obstante, sua própria voz lhe soou bastante tensa e suas bochechas se ruborizaram ante tão aberto escrutínio.

— Olivia — replicou ele, obtendo que seu singelo nome soasse... Sensual.

Sentia-se um tanto violenta, de modo que entrelaçou os dedos com força à altura do regaço.

— Obrigado pelo convite para o jantar.

O duque esboçou um sorriso torto.

— É o menos que posso fazer pela mulher que afirma haver-se casado com meu irmão.

«Que afirma»? Tinha-lhe entregue a licença matrimonial para que a examinasse pelo amor de Deus. O que outra prova necessitava? E o fato de que tivesse utilizado a palavra «mulher» em lugar de «dama» a chateou até mais. De ter sido qualquer outro homem, lhe teria posto em seu lugar. Não era nenhum estúpido, e o fato de que tivesse utilizado essa palavra insinuava que ela mentia. E isso era um insulto a sua pessoa. Estava claro que não devia confiar nele mais do que ele confiava nela.

— Então eu terei que ver quão adulador pode chegar a ser você, Milord — replicou com uma expressão aborrecida e o queixo em alto.

O homem piscou com rapidez, assombrado claramente por semelhante comentário e, para alegria da Olivia, também desconcertado. Isso desenhou um sorriso de satisfação em seus lábios. Se o duque esperava que fosse como o resto de mulheres que conhecia, que se tornavam submissas diante dessa arrogante... Prepotência, ia ter uma boa decepção.

Recolheu-se a saia com delicadeza uma vez mais e caminhou para ele com uma expressão risonha a pesar do nervosismo.

— Esta encantadora casa é sua? — inquiriu com um tom tão prosaico como a pergunta.

O duque deu um bom gole da bebida sem despregar os olhos dela.

— Não, é de um amigo.

— Ah... Certamente.

O cenho masculino se franziu um pouco ao escutar isso. Não tinha nem a menor idéia do que tinha querido dizer, mas se negava a perguntar. Que homem mais teimoso... Embora isso não devesses parecer estranho, porque sem dúvida parecia teimoso.

— Gostaria de tomar uma taça de xerez? — ofereceu-lhe com tom indiferente ao tempo que se afastava por fim da chaminé.

— Sim, obrigado — replicou Olivia, que se deteve pouca distância dele.

Depois de percorrê-la com o olhar uma última vez, o duque se deu a volta para dirigir-se a um excelente móvel de licores situado detrás da mesa, que já tinha sido preparada para duas pessoas com uma toalha de encaixe Borgonha e uma baixela de porcelana branca.

— O dono também é amigo do Edmund?

— Era-o.

Olivia observou como o homem pegava uma garrafa, tirava-lhe a rolha e derramava uma pequena quantidade de líquido ambarino na taça de xerez. Estava claro que a arte de conversar não era um dos talentos do duque de Durham.

— Como se chama?

Permaneceu calado durante um instante, enquanto voltava a colocar a garrafa de cristal em seu lugar. Depois se deu a volta e se aproximou dela com sua bebida na mão.

— Colin Ramsey, o cavalheiro ao que conheceu no baile, embora não acredito que Edmund o mencionasse nunca, já que você o teria recordado.

Olivia entrecerrou os olhos enquanto tomava a taça, pondo muito cuidado em não lhe roçar os dedos.

— Não, Edmund jamais mencionou a ninguém da Inglaterra a não ser você, e inclusive nessas ocasiões, você não era mais que um longínquo irmão, mais velho que, segundo ele, seguia ciumento de sua boa fortuna. Acreditei que seria um homem velho e casado que vivia no campo e cuidava de sua prole. — Fez uma pequena pausa antes de acrescentar com tom insolente — Jamais mencionou que fossem gêmeos.

— E não lhe parece isso bastante estranho? — perguntou ele segundos depois.

— Que você não seja um homem velho e casado ou que não mencionasse que eram gêmeos?

O duque soprou com força antes de lhe dar um novo gole à bebida, mas não afastou o olhar dela.

— Que não queria lhe falar de mim.

— Sim, é obvio que me pareceu estranho — admitiu com sinceridade — mas nas poucas ocasiões em que lhe perguntei sobre sua família e seus velhos amigos me deu uma resposta rápida e trocou de assunto com a jovialidade suficiente para que eu não me preocupasse com o que agora tomo como evasivas.

— Sem dúvida o eram — assinalou-o em tom irônico. — Quando a gente foge de algo, ou de alguém, não está acostumado a querer falar do assunto.

Olivia deu um pequeno gole do delicioso xerez, desesperada por obter respostas, mas sem querer parecer muito ansiosa.

— Bom, posto que ao menos o mencionasse a você, suponho que me devo sentir aliviada ao saber que não fugia de seu irmão.

Os olhos escuros do homem se entrecerraram significativamente, e Olivia se viu obrigada a admitir que se sentisse bastante orgulhosa de ter conseguido irritá-lo. O duque não sabia se sua intenção era brincar ou se em realidade não sabia o muito que Edmund o desprezava; e lhe alegrava muito contar com essa vantagem, ao menos em certo sentido.

Um instante mais tarde, Carlisle se aproximou um pouco mais, o bastante para que ela pudesse apreciar a tênue sombra da barba que lhe obscurecia a mandíbula. Se tivesse sido qualquer outro cavalheiro, lhe teria incomodado bastante que não tivesse se dignado a barbear-se de para o jantar. Mas a ele, essa ligeira sombra de barba lhe dava um aspecto quase... Distinto. De uma maneira estranha e atrativa.

— Tão terrível sou, Lady Olivia?

Repreendeu-se imediatamente, exasperada por haver-se deixado levar por seus pensamentos.

Se concentre! Exclamou para si mesmo.

— Terrível? — Endireitou os ombros. — Terrível em que sentido?

Ele se pôs a rir. Uma risada grave de autêntica diversão.

Olivia se surpreendeu tanto que esteve a ponto de deixar cair à taça de xerez. O duque de Durham era um homem de um atrativo devastador quando ria.

Um instante depois, uma vez que as risadas se apagaram, ele a olhou aos olhos e murmurou:

— No passado, milady, era considerado certamente terrível pelas damas audazes que compreendiam que tinha descoberto suas mentiras, por pequenas que fossem. — inclinou-se para ela e baixou a voz — Ou por mais extravagantes que fossem.

Olivia demorou vários segundos em reagir ante essa reveladora informação.

— Nesse caso, alegra-me muito saber que seguirá sendo encantado comigo — replicou com um sorriso eloqüente.

O duque tentou não tornar-se a rir de novo, mas fracassou estrepitosamente, e Olivia não pôde evitar fixar-se na covinha que lhe saía na bochecha direita... Um rasgo facial do que Edmund carecia. Compreendeu de repente de que estava desfrutando de do intercâmbio de brincadeiras. Inclinou a cabeça em sua direção, como se fora a compartilhar um segredo.

— Mas eu gostaria de saber quem são essas damas audazes, Excelência, já que devo me mostrar mais cautelosa.

Imediatamente, o sorriso masculino se converteu em uma careta de amargura.

— As francesas, Lady Olivia. Jamais conheci a nenhuma digna de confiança.

Neste instante, o duque já não o fazia nenhuma graça. De fato, pela expressão de absoluto desprezo que tinha aparecido em seu rosto atrás desse singelo e inocente comentário, Olivia se deu conta de que jamais confiaria nela, que nem sequer chegaria a cair bem, devido a sua ascendência. Desejou conhecer as razões que fundamentavam tanta animosidade, embora isso não criasses diferença alguma na relação que pudessem chegar a manter. Tampouco gostava desse homem. Um autentico asno pomposo...

Com um sorriso desdenhoso, Olivia bebeu um pouco mais de xerez e lhe deu as costas antes de percorrer o tapete até o outro extremo da mesa principal; sabia com certeza que ele seguia com o olhar a todos e cada um de seus movimentos. Estendeu o braço e deslizou a ponta dos dedos sobre a superfície de madeira polida antes de acariciar o encaixe de um guardanapo.

— assim, à luz de tão... Refinado raciocínio, suponho que ao menos a metade das vezes não sabe se lhe estou dizendo a verdade ou não. Que lástima.

Tal e como tinha esperado, ele não respondeu imediatamente, embora somente fosse para não atiçar mais o fogo entre eles. Ao final, depois de um momento de silêncio, deu uma olhada para trás e descobriu com certo prazer que o duque parecia estudar cada centímetro de seu corpo: dos escuros cachos que emolduravam seu rosto e que tinha contido com uma fileira de pérolas em seu cocuruto, até os intrincados detalhes do custoso vestido de noite de cor escarlate. E estava claro que gostava do que via. Como mulher que era Olivia sabia sem necessidade de que o dissesse.

Sentiu uma estranha opressão no estômago e um peculiar formigamento sob a pele. Jamais tinha reagido de uma maneira tão intensa a esse tipo de... «escrutínio» com o Edmund. E a sensação a surpreendeu e a desconcertou há um tempo; não só pelo homem que se encontrava ao outro lado da estadia, mas sim porque fazia apenas uns instantes que se deu conta do muito que a desprezava, de que não confiaria nela e de que lhe desagradava o fato de que tivesse irrompido em sua bem ordenada vida.

— Está claro que sabe como estimular a um homem, Lady Olivia — murmurou com voz rouca, embora a veemência de suas palavras se abrisse caminho nos pensamentos do Olivia.

Ela arqueou as sobrancelhas e tentou dominar-se com todas suas forças para manter o tom civilizado e agradável da conversa.

— Estimular? De que forma o estou estimulando a você, Milord?

O duque entrecerrou os olhos antes de apurar a bebida com um rápido movimento e deixar a taça sobre o suporte da chaminé.

— Não queria dizer que me estimulasse milady — replicou muito devagar — ao menos não nestes momentos ou de maneira intencionada. — Uniu as mãos às costas e começou a caminhar para ela com o olhar cravado no tapete enquanto falava com tom pensativo — Referia-me, mas bem a que tudo em você, tanto seu aspecto altivo e refinado como sua elegância e seu evidente... Magnetismo está perfeitamente desenhado e disposto para despertar o desejo de um homem, de qualquer homem. — Tornou a olhá-la aos olhos quando se situou junto a ela uma vez mais. — Não posso saber se tiver sido você quem criou essa imagem ou se converteu em uma criatura deslumbrante por obra e graça de Deus, e o mais provável é que careça de importância. — Baixou a voz a fim de convertê-la em um sussurro grave e duro para acrescentar — É você um formoso produto, Olivia, ao igual ao perfume que fabrica, e não posso negar que me sinto muito impressionado, algo que sem dúvida você já se esperava. Mas um produto não é mais que um produto. E não me deixarei enganar.

Enganar? Acaso acreditava que tratava de enganá-lo? Seus insultos, embora mesclados com adulações, enfureceram-na. Tinha menosprezado de forma deliberada tudo o que a definia como mulher ao descrever sua simples aparência como algo com o que terei que mostrar-se cauteloso. Olivia não conseguia recordar nenhuma outra ocasião em que um homem a tivesse insultado de uma forma tão desprezível. Não obstante, negava-se a afastar-se dele, a sucumbir ante esse caráter avassalador ou a reagir como ele esperava e esbofetear seu rosto arrumado e enigmático. Não, era muito melhor do que ele se acreditava, e tinha a intenção de demonstrar-lhe. Esse homem a considerava frívola e narcisista, quão mesmo pensava de todas as francesas, mas ela pensava lhe demonstrar o que eram o comedimento e o aprumo.

Com um brilho desafiante nos olhos, deixou o xerez sobre a mesa e entrelaçou os dedos com força à altura do regaço.

— Agradeço-lhe tão amáveis cumpridos, Milord — disse com fingida doçura. — Adula-me que tenha apreciado meus esforços por luzir o melhor aspecto possível quando estou em companhia de outros.

As bochechas masculinas se contraíram ao escutá-la, mas o duque não disse nada.

Satisfeita, Olivia esboçou um sorriso.

— Não obstante — acrescentou — como bem sabe, embora os produtos comprem e se vendem, não pode dizê-lo mesmo de mim. Faria bem em recordá-lo.

O tempo transcorreu com incrível lentidão enquanto ele a observava sem disfarces, e por um fugaz instante, Olivia temeu que a expulsasse dali... Ou que a sacudisse até deixá-la sem sentido.

— Amava a meu irmão?

Essa pergunta formulada em voz baixa pareceu sair de um nada, e para ser sincera, deixou-a perplexa. Abriu os olhos de par em par e se afastou um pouco dele, turvada por sua proximidade e furiosa por sua insolência. Resultava-lhe em extremo difícil compreender o motivo daquela repentina mudança de assunto.

— Como diz?

Os lábios masculinos desenharam um diminuto e eloqüente sorriso.

— Perguntei-lhe se amava a meu irmão. Conversamos sobre três ocasiões sobre ele, sobre o fato de que lhe roubou o dinheiro depois de casar-se com você e sobre seu desejo de encontrá-lo a qualquer preço, mas nenhuma única vez mencionou o amor que sentia por ele. — Encolheu um de seus fortes ombros. — A verdade é que é algo que me intriga muitíssimo.

Olivia sabia que seu rosto se pôs do mesmo tom que seu vestido ante tão intenso olhar.

— É obvio que fui — afirmou depois de respirar fundo.

Durante alguns segundos, o duque de Durham se limitou a olhá-la aos olhos com uma expressão séria e indecifrável. Talvez estivesse avaliando sua resposta, ou possivelmente esperasse algo mais, mas não estava disposta a oferecer-lhe Os pormenores não eram assunto dele.

Depois, para a mais absoluta surpresa da Olivia, fez o impensável. Sujeitou - lhe o queixo com uma de suas fortes mãos e a levantou a fim de colocar seus lábios sobre os dela... Não em um beijo carregado de paixão, mas sim em uma carícia doce e tenra que não encaixava absolutamente com a exasperação que reinava entre eles.

Olivia demorou o que lhe pareceram dias em dar-se conta de que a estava beijando de verdade. Aturdida, tratou de afastar-se dele e soltou um grunhido de protesto ao tempo que levantava as mãos para lhe dar um empurrão no seio, talher pela jaqueta de seda. A resposta do duque foi colocar uma das mãos na parte posterior de sua cabeça para mantê-la imóvel enquanto intensificava o beijo, lhe acariciando os lábios até que a Olivia não ficou outro remédio que render-se.

E o fez. A relutância diminuiu pouco a pouco e começou a notar um súbito redemoinho de sensações em seu interior que lhe afrouxou os joelhos e fez que seu corpo cobrasse vida sob o espartilho. O homem irradiava calor, cheirava de maravilha e sabia... A glória. Magia em seu estado mais puro. Nesse mesmo instante, justo quando estava disposta a derreter-se entre seus braços e a aceitar por completo seu assalto, o duque a soltou com delicadeza e afastou seu rosto do dela ao tempo que deslizava a ponta do polegar sobre seus lábios.

Olivia ofegava e, passado um instante, abriu os olhos para contemplar o fino tecido de seu colete, pondo muito cuidado em não olhá-lo aos olhos.

Pelo amor de Deus, tinha-a beijado! A propósito. Tinha sido um beijo esplêndido.

A culpa e o arrependimento a alagaram imediatamente e deu um passo atrás para afastar do capitalista físico masculino.

— Está louco? — sussurrou.

O duque tomou uma profunda baforada de ar.

— Por um momento, sim — admitiu em um murmúrio rouco.

— Não tinha direito a fazê-lo — disse Olivia com voz grave e trêmula. — Estou casada com seu irmão.

— E eu tenho todo o direito de julgar seus propósitos ao tirar esse assunto a reluzir, milady.

Olivia levantou a cabeça imediatamente com a intenção de atacá-lo verbalmente. Mas em lugar disso, foi consciente do muito que lhe tinha afetado a ele esse abraço. Tragou saliva com força ao ver o rubor de seu rosto, o muito que lhe custava respirar e a intensidade do olhar que tinha parecido nela. O simples feito de saber que o tinha excitado com somente acariciar seus lábios a deixou perplexa.

— E lhe importaria me explicar que demônios pretendia demonstrar me beijando? — perguntou em um sussurro furioso.

— Que se sente atraída por mim — respondeu ele sem o menor hesitação.

E você por mim, acrescentou Olivia para si mesma.

— Está louco. E é um canalha — foi o único que conseguiu dizer.

A confusão lhe impedia de idear uma resposta mais lógica a um comentário tão absurdo e perturbador.

O homem esteve a ponto de sorrir e se meteu as mãos nos bolsos.

— Não é a primeira francesa que me diz isso.

Olivia se levou uma mão à acalorada bochecha.

— Consta-me que tampouco sou a única inglesa que o há dito.

Ele não respondeu; limitou-se a olhá-la de cima abaixo uma vez mais muito devagar, com uma expressão dura e desconfiada. Depois de esperar um instante a que o duque fizesse algo, algo, Olivia deu um novo passo atrás e cravou a vista nas grosas cortinas enquanto se entrava os dedos pelos lábios, como se queria livrar-se da avaliação masculina.

Depois de uns segundos de desconforto, ao menos por sua parte, ele se afastou por fim para dirigir-se à sala de jantar e tirou da grosa corda cor bronze para avisar ao serviço. Quase imediatamente apareceram três criados com bandejas prateadas cheias de comida que deixaram sobre o aparador de carvalho, situado ao outro extremo da estadia. Não os olharam nenhuma única vez enquanto trabalhavam em silêncio e de maneira profissional.

Olivia não tinha claro se sentia agradecida pela interrupção ou molesta pela repentina presença de outras pessoas, apesar de que se supunha que os criados deviam resultar invisíveis. Sabia por experiência que os serventes cochichavam, mas decidiu que a essas alturas os rumores eram a última de suas preocupações.

De repente, o mordomo entrou na sala e começou a falar com o duque em voz baixa. Olivia aproveitou a oportunidade para tentar recuperar a compostura; respirou fundo umas quantas vezes enquanto se alisava a saia com as mãos e aguardava a que o ritmo de seu pulso se normalizasse.

Seu cunhado estava erguido em toda sua magnífica estatura, nada afetado ao parecer por sua pequena discussão, enquanto dava as instruções ao mordomo, que assentia com expressão obediente. Uma vez que o diálogo chegou a seu fim, todos os serventes partiram sem olhar sequer em sua direção, fecharam a porta e os deixaram a sós uma vez mais. O jantar tinha um aspecto delicioso, mas teriam que servir-se eles mesmos e conversar como se nada tivesse ocorrido. Vá uma idéia ridícula...

O duque a olhou de novo e se esfregou o queixo com os dedos.

— Jantamos queridíssima cunhada?

Olivia esteve a ponto de pôr os olhos em branco. Era possível que seu sarcasmo fora mais descarado?

Esboçou um sorriso doce, embora já não tivesse vontades de comer.

— É obvio Excelência.

Em um alarde de amabilidade, lhe fez um gesto com a mão para assinalar a mesa.

— Por favor. Temos muito do que falar.

Queria falar nesse instante? Pelo amor de Deus, o duque de Durham acabava de beijá-la. Sem explicações, sem avisos... E lhe tinha gostado. Para falar a verdade, tinha-lhe encantado... O bastante para que qualquer tipo de conversa resultasse em extremo difícil, ao menos para ela. De repente se deu conta de que ele poderia ter planejado com antecipação um ato tão desprezível e prazenteiro a fim de desconcertá-la e conseguir certa vantagem na discussão que sobreviria. Se esse era o caso, esse pobre homem arrogante descobriria o que era um desafio de proporções femininas. Não tinha nem a menor idéia de com quem estava tratando, e isso sem dúvida lhe daria certa vantagem.

Sam estava furioso consigo mesmo por haver-se aproveitado dela dessa maneira, por utilizar a situação em benefício próprio e enfrentar-se à suposta esposa de seu irmão não com palavras, a não ser com uma luxúria abrasadora. Mesmo assim, não tinha claro que Olivia estivesse muito surpreendida. Depois de tudo, tinha sido ela quem tinha irrompido em sua vida com seus próprios planos de ataque. Entretanto, essa noite o tinha deixado assombrado. Em lugar de sair da casa furiosa, tornar-se a chorar ou esbofeteá-lo como teria feito qualquer outra mulher, tinha conseguido manter a compostura. Nesse instante estava sentada frente a ele, comendo pato à laranja cheio de castanhas com suma elegância depois de ter compartilhado um beijo que os tinha desconcertado a ambos. Lady Olivia Shea era diferente, uma mulher ardilosa que na aparência desfrutava cercando batalhas de inteligência com os cavalheiros que a rodeavam, e Sam não estava seguro de se gostava ou não esse peculiar caráter dela. Embora, é obvio, suas opiniões careciam de relevância nesse assunto.

— Como está seu jantar, Olivia? — perguntou em tom afável.

Ela levantou o olhar enquanto empilhava delicadamente um salgadinho de cheio sobre o garfo com a faca.

— Deliciosa obrigado. E o seu, Excelência?

Sam grunhiu para si mesmo diante de tanta formalidade.

— Perfeita.

A mulher esboçou um doce sorriso e cortou outro pedaço do veado assado.

— Terá que dizer a seu amigo que seu cozinheiro é extraordinário. Está aqui esta noite?

Sam se viu obrigado a reprimir um juramento. A conversa era substancial e sem sentido.

—Falemos melhor desse encantador beijo que compartilhamos.

Viu-a vacilar um segundo, com o garfo a meio caminho da boca. Em seguida, sem olhá-lo, voltou a deixá-lo no prato.

— Se vamos falar de algo que não sejam o clima e a comida, preferiria falar do Edmund e a quero saber o que pensa fazer para me ajudar a recuperar meu dinheiro. — reclinou-se na cadeira e se deu uns tapinhas na boca com o guardanapo. — Já estou a muito tempo separada de Nevam, Excelência; preciso voltar para casa para que assim seja possível fiscalizar minha empresa. Embora acredito que você entenda, já que você herdou sua fortuna.

Embora o impressionasse a capacidade dessa mulher para permanecer imperturbável e concentrada depois de uma sugestão tão inapropriada, sentiu-se insultado pelo sorrido condescendente que tinha aparecido em seus lábios rosados. Por estranho que parecesse, essa falsa segurança em si mesmo que mostrava o chateava e o excitava há um tempo.

Trocou de posição na cadeira e deixou os talheres sobre o prato antes de relaxar-se contra o encosto e apoiar os cotovelos nos braços do assento.

— Tenho uma proposta que lhe fazer, Olivia — disse, observando-a fixamente.

Ela se levou a taça de vinho até a boca, deu um gole e se lambeu os lábios.

— Dou por feito que se trata de uma proposta para recuperar meu dinheiro — replicou ela ao tempo que deixava a taça sobre a mesa.

Nessa ocasião, seu aprumo o tirou de gonzo, embora se negasse a lhe dar a satisfação de sabê-lo. Em seu lugar, assentiu muito devagar com a cabeça e franziu os lábios em um gesto pensativo.

— Talvez, embora não esteja seguro de que esteja tão satisfeita consigo mesma depois de ouvir o que penso.

Olivia abriu a boca um pouco, mas a fechou de novo antes de apertar os lábios.

— Não sou uma presunçosa, mas, de qualquer forma, isso não vem ao caso, Excelência. Se lhe for sincera, traz-me sem cuidado o que pense de mim.

— A questão é — explicou Sam com uma voz carregada de ameaças enquanto se inclinava para diante — que o que pensemos um do outro é muito menos importante que o que podemos fazer para nos ajudar neste assunto, Olivia.

O sorriso desapareceu de seu rosto quando a mulher inclinou a cabeça a um lado para estudá-lo com atenção.

— E o que podemos fazer o um pelo outro?

Sam se esclareceu garganta e levantou a taça de vinho para estudar a sua cunhada por cima da beira do cristal.

— Necessita minha ajuda, e depois de considerar todas as possibilidades, decidi brindar-lhe.

— Preciso recuperar meu dinheiro — afirmou ela depois de um momento de silêncio — esse é meu objetivo principal. A você parece diverti-lo evitar este assunto, mas o certo é que o fato de que seja o irmão de meu marido o converte em responsável por seu engano. Acredito que sempre fui que o mais clara a respeito.

— Certamente que sim — replicou ele enquanto se levava a taça aos lábios. Depois de beber, acrescentou — Mas tenho motivos pessoais para encontrar a meu irmão, e você é a primeira pessoa em muitos anos que afirma havê-lo visto recentemente e ter acontecido algum tempo em sua companhia.

Ela o fulminou com o olhar.

— Em realidade, muito recentemente que me casei com ele.

Sam esteve a ponto de sorrir. O comentário encaixava a perfeição com o que estava pensando.

— Sim, certo, e por estranho que pareça começo a acreditar que diz a verdade.

Olivia se endireitou na cadeira e enlaçou as mãos sobre o regaço.

— Deveria agradecer-lhe? perguntou em tom sarcástico, claramente aturdida.

Essa vez não pôde evitar sorrir, mas embora desejasse responder, conseguiu deixar a um lado a questão.

— Proponho-lhe que procuremos o Edmund juntos, Lady Olivia. Na França.

Ela não respondeu imediatamente, limitou-se a olhá-lo desconfiada.

— E como sugere que o façamos? — perguntou com pés de chumbo. — Por onde começaríamos e quem seria nosso acompanhante nessa cruzada? Por que na França? O mais provável é que abandonasse o país depois de me roubar o dinheiro.

Sam tomou uma profunda baforada de fôlego, desfrutando de do momento apesar de que a espera lhe tinha provocado palpitações nas têmporas.

— Acredito que deveríamos começar por Paris, já que foi ali onde foi visto por última vez. Podemos rastrear seus movimentos, visitar seus conhecidos e às pessoas com a que se relacionava. Se houver mais pessoas envoltas no plano para roubar sua fortuna, iremos pega-las despreparadas.

Olivia deixou escapar um bufo.

— Quem demônios ia ser tão desprezível?

Sam se encolheu de ombros.

— Não tenho a menor idéia. Mas o melhor lugar para descobri-lo, o melhor lugar para começar a procurar, é Paris.

Ela o meditou durante um momento.

— Supus que teria tornado aqui, a seu lar, com sua família.

— Edmund jamais retornará a Inglaterra — replicou ele com secura.

A dama arqueou as sobrancelhas.

— E como sabe Milord?

Sam voltou a acomodar-se na cadeira. Ainda não estava disposto a revelar muitas coisas sobre seu passado, já que não confiava de tudo no que lhe havia dito.

— Baste dizer que sei como pensa meu irmão.

Olivia soltou um bufo.

— Sim, já... Eu acreditei sabê-lo também.

Ele entrecerrou os olhos para observá-la.

— Iremos à França — murmurou. — Começaremos em qualquer sítio e veremos se alguém nos revela seu paradeiro acreditando que sou ele.

— O que quer dizer com isso de «acreditando que sou ele»? — perguntou ela desconfiada.

— Está casada com um homem que é meu irmão gêmeo, Olivia — sussurrou com tom grave, enfatizando a palavra «gêmeo». Esboçou um sorriso torcido. — Qualquer pessoa envolta se surpreenderá à lombriga com você depois de que ele fugisse com seu dinheiro. — Fez uma pausa antes de acrescentar com tom despreocupado — A menos que você tenha uma idéia melhor...

Ao parecer, Olivia demorou um bom momento em compreender sua proposta, em assimilar o que era o que estava sugerindo com exatidão. Depois, em lugar de mostrar-se ofendida ou escandalizada, seus lábios se curvaram em um sorriso.

— Está falando a sério... — murmurou.

Sam tomou outro gole de vinho para demorar sua resposta.

— Certamente que falo a sério; por isso a beijei. Se devo fingir que sou Edmund, você e eu teremos que nos comportar como se estivéssemos casados. — ficou calado uns segundos antes de acrescentar — Existe certa atração entre nós, de modo que não deveria nos resultar difícil.

Ela ficou muito quieta e seus rasgos adquiriram um gesto inexpressivo, embora tivesse os olhos totalmente abertos por causa da incredulidade. Sam aguardou, deleitando-se com a situação.

— Não... Sei o que dizer — sussurrou Olivia instantes depois.

Ele agarrou o garfo de novo e cravou um bocado do pato à laranja.

— Acredito que isso é bom para uma mulher.

— Parece-me desprezível que se atreveu a sugerir que... — Tossiu antes de tragar saliva. — Que nós...

Não pôde terminar a frase. Sam permaneceu em silêncio a fim de alargar seus temores o maior tempo possível; para falar a verdade, não tinha nenhuma outra razão para fazê-lo que o fato de desfrutar de do rubor de suas bochechas e da forma em que se movia no assento ao pensar em uma relação íntima entre ambos. E sabia que estava pensando nisso, porque ela piscou com rapidez e afastou o olhar com um gesto incômodo antes de agarrar a taça de vinho e apurar o conteúdo de dois grandes goles de tudo impróprios em uma dama.

Sam descansou os cotovelos sobre os braços da cadeira e uniu as pontas dos dedos de ambas as mãos a fim de dar tempo à dama para imaginar-lhe tudo, a fim de recrear-se da resposta de seu próprio corpo ante a simples idéia de vê-la nua sobre os lençóis, convidando-o com esses abrasadores olhos azuis a que tomasse. É obvio isso não ocorreria jamais se ainda amava ao Edmund e estavam legalmente casados, mas era uma idéia fascinante de qualquer forma.

Ao final, ela meneou a cabeça como se desejasse tirar-se essas idéias descabeladas da mente e depois sorriu com ar despreocupado.

— Não podemos... — começou, olhando-o aos olhos.

Ele arqueou as sobrancelhas.

— Não podemos?

Olivia não afastou o olhar.

— Não podemos nos comportar com indiscrição, Excelência.

Não pôde evitar sentir-se admirado por sua audácia, apesar de que o comentário podia significar umas quantas coisas.

— Certamente que não, Lady Olivia. Posto que seja minha irmã política, está você sob minha responsabilidade, e eu tomo minhas responsabilidades muito a sério.

Ela se relaxou um pouco na cadeira e a ponto esteve de tornar-se a rir de alívio.

— Não me cabe nenhuma dúvida. — Calou um momento antes de admitir — Embora haja que discutir alguns detalhes, parece um começo bastante bom, dada a pouca informação da que dispomos. Quando nos partiremos?

Sam tentou não mostrar o assombro que lhe produzia essa rápida aceitação. De repente lhe ocorreu que em outras circunstâncias poderia gostar muito dessa mulher, com toda sua astucia e sua inteligência. Sua indescritível beleza física não era mais que uma bonificação extra. E não podia dizer o mesmo de nenhuma das damas às que conhecia. De fato, posto a pensá-lo, não conhecia nenhuma outra mulher que possuísse essa estranha mescla de sofisticação, energia e engenho. E esta pertencia a seu irmão. Se não tivesse resultado tão ridículo, ficaria furioso.

— Partiremos dentro de duas semanas — replicou com muita dureza antes de voltar a concentrar-se na comida.

Ela ficou calada uma vez mais, possivelmente para tratar de avaliar essa repentina mudança de humor. Sam sozinho desejava poder lhe dizer o muito que o incomodava tratar com ela nessas circunstâncias, mas isso não serviria mais que para admitir sua indecorosa luxúria. Preferia com muito parecer louco.

— O agradeço muito, Excelência — replicou ela com um tom carregado de sarcasmo enquanto pegava também o garfo. — você incrivelmente generoso.

Sam não levantou o olhar e ambos seguiram comendo em silêncio. Olivia não entendia por que se zangou e, para ser franco, preferia deixar as coisas assim. Quanto menos se gostasse, mais fácil e mais rápida seria a viagem.

Ao menos, isso esperava.

 

O pôr do sol parisiense mostrava um vasto desdobramento de brilhantes tons laranja e dourados, turvados tão somente pela neblina de fumaça que se elevava sobre os altos edifícios da rua Gabrielle, onde Olivia acabava de desembarcar da carruagem privada junto a seu cunhado, o irritante, teimoso... Masculino duque de Durham. Dessas três características, a que melhor o descrevia era a última, embora também fosse arrogante, presunçoso e sério até não poder mais.

A viagem de Londres até Paris através do Canal tinha transcorrido sem incidentes, tão rápido como cabia esperar de uma viagem tão longa. Embora o simples fato de estar em sua presença a punha dos nervos, um sentimento que jamais tinha experiente com o Edmund. O duque não lhe tinha dirigido a palavra mais do necessário. Não obstante, a seu parecer a contemplava com muita freqüência, e essa vigilância constante somente tinha servido para incrementar seu desassossego. Tinham suportado o melhor possível a mútua companhia: tinham conversado quando era apropriado e tinham dormido em habitações separadas durante a noite, quando precisavam um descanso. Nesse momento, já em Paris, daria começo a farsa e Olivia teria que fingir que era sua esposa... Um engano que lhe resultava tão excitante como aterrador.

Tinham chegado apenas um momento antes, mas as dúvidas que lhe provocava o fato de ter aceitado participar de tão indecoroso ardil já tinham começado a atormentá-la. E já não havia como voltar atrás. Entretanto, quando se situou na calçada que havia frente à fachada de Nevam, inclusive o zelador se dirigiu ao duque como se fora seu marido; conforme parecia, não lhe surpreendia nada vê-la com o homem ao que acreditava Edmund depois de tantas semanas. O duque interpretou muito bem seu papel; falou uns momentos em francês com o homem para lhe informar de que a bagagem não demoraria em chegar e para lhe pedir que o levassem até as dependências que possuíam na planta superior. Tanto seu vocabulário como seu acento eram excelentes. Olivia nem sequer se parou a pensar se conhecia ou não o idioma, mas não era algo de sentir saudades em um membro da aristocracia que tinha recebido uma excelente educação. Edmund falava francês, mas tinha vivido no país durante anos.

— Indica-me o caminho, milady? — murmurou-lhe o duque ao ouvido detrás inclinar-se para ela.

Sentir o calor de seu fôlego no lóbulo da orelha lhe provocou um calafrio, apesar da atmosfera sufocante que reinava na cidade a finais da primavera.

— Vamos — respondeu ela com brutalidade, como se tratasse de uma pergunta estúpida.

Sabia que ele tinha esboçado um sorriso irônico a suas costas, mas se prontificou a ignorá-la enquanto se recolhia a saia e se dirigia para as portas principais, que um dos criados mantinha abertas para que pudesse entrar sem diminuir o passo.

O aroma familiar da lavanda e as especiarias alagou seus sentidos imediatamente, anulando o aroma dos cavalos e o dos postos de comida guias de ruas. Por fim estava em casa, de volta em território aliado, e o simples feito se soubesse conseguiu tranqüilizá-la pela primeira vez em muitas semanas.

— Retornou madame Carlisle!

Olivia esboçou um sorriso quando Normand Paquette, seu amigo, ajudante e conselheiro durante muitos anos, afastou-se do mostrador de vendas para aproximar-se dela com os braços abertos.

— É um prazer retornar a casa, Normand — replicou enquanto o homem a abraçava e lhe dava um beijo em cada bochecha.

— Oui, essa horrível viagem ao norte lhe levou muito tempo — disse Normand com uma careta amarga e o cenho franzido.

Olivia lhe deu um apertão na parte superior dos braços com as mãos enluvadas.

— Como vai tudo? Chegou por fim o envio de sândalo? Escolheu já madame seu Gauthier...?

Detrás dela, o duque pigarreou. Olivia se voltou de repente, ainda entre os braços do Normand.

— Ai, me perdoe céu — comentou em seu benefício. — Recorda a monsieur Paquette, minha ajudante?

Normand assentiu com a cabeça a modo de saudação.

— Bem vindo a casa, monsieur Carlisle.

Olivia notou que o duque avançava para situar-se justo a suas costas, e durante um segundo acreditou que lhe rodearia os ombros em um arrebatamento de possesividade. Soltou ao vendedor imediatamente, como se seu contato a abrasasse.

— Monsieur Paquette — disse seu suposto marido com tom grave e formal — voltamos a nos encontrar.

— Me chame Normand, por favor — insistiu o francês com um sorriso despreocupado. — Não há necessidade de formalidade alguma entre nós. Devemos muitíssimo de menos a sua esposa. Em Nevam nos consideramos muito afortunados de que tenha retornado.

Foi muito revelador que seu ajudante tivesse comentado sua larga ausência dessa maneira. Não tinha sido exatamente grosseiro, embora Normand nunca o fosse. Contudo, o francês jamais tinha sentido simpatia ou confiança alguma no Edmund, e Olivia notou certa tensão no ambiente que não existia momentos antes. Decidiu passá-la por alto e seguir à frente.

— Monsieur Carlisle e eu iremos casa a descansar, Normand. Amanhã, você e eu falaremos de negócios enquanto tomamos o chá — informou-lhe com um sorriso.

Normand se pôs-se a rir e se inclinou para diante para lhe dar outro beijo na bochecha.

— Me alegro muito de voltar a vê-la, Olivia. Vá descansar, por favor. Ontem mesmo avisei madame Allard de que chegava esta tarde, assim já o terá ordenado tudo, e seguro que lhe preparou um pouco de comida.

Madame Allard era sua ama de chaves e cozinheira a tempo parcial, e pelo general trabalhava sozinho alguns dias, embora a ajudava muitíssimo com os assuntos do lar quando estava ocupada com os negócios. Olivia deixou escapar um suspiro de alívio ao inteirar-se de que a mulher tinha recebido a mensagem a tempo para trocar os lençóis da cama. Para ela isso era muito mais importante que a comida.

— Merci, Normand. Verei-lhe pela manhã.

O francês se afastou a um lado para lhes deixar passar e o duque a tirou do cotovelo para escoltá-la entre os mostradores e duas garotas de olhos atentos às que Olivia nem sequer recordava. Contudo, as vendedoras foram e vinham, e pelo general era Normand quem se encarregava das contratar, ou das despedir se não trabalhavam como era devido.

Quando se aproximaram da parte traseira do edifício, Olivia conduziu ao duque através do pequeno e formoso salão privado no que as damas tomavam o chá ou um vinho enquanto falavam sobre as novas essências e se recolheu a saia com ambas as mãos para subir a escada de caracol que havia ao fundo, recém pintadas de um branco resplandecente e acarpetadas com grosso brocado vermelho. Dita escada conduzia à moradia do terceiro andar, onde tinha sua residência em Paris.

Samson Carlisle a seguiu em silêncio e permaneceu muito próximo enquanto Olivia tirava a chave de seu ridículo de veludo e a inseria na fechadura de seus aposentos privados. Com um rápido giro para a direita, a fechadura se abriu sem problemas e ela entrou imediatamente na estadia, com seu cunhado lhe pisando os talões.

Dirigiu-se à sala de estar que havia a sua esquerda, fechou os olhos e respirou profundamente, notando que a tensão abandonava seu corpo enquanto inalava os familiares aromas de seu lar.

— Deixe a porta entreaberta para os criados que nos trazem a bagagem — disse ao tempo que começava a tirá-los luvas.

— Não sou um servente, milady.

Olivia se deu a volta, surpreendida, e a saia do vestido roçou as pernas masculinas.

— Não... Não pretendia insinuar que o fora, Excelência — declarou com determinação enquanto retorcia as luvas entre os dedos.

Ele baixou a vista para olhá-la no rosto; sua boca esboçava um sorriso torto e em seus olhos se apreciava um pingo de irritação.

-Pode que este seja seu lar, Olivia, mas sou eu quem está ao cargo da operação, de modo que faria bem em recordá-lo.

Ela piscou, aturdida. A sensação de bem estar que lhe tinha produzido estar em casa se derreteu como a neve sobre a pele cálida assim que jogou uma olhada ao rígido corpo masculino.

— «Operação»? Que operação?

O duque respirou fundo e enlaçou as mãos às costas sem deixar de olhá-la aos olhos.

— Vamos deixar as coisas claras, minha querida cunhada — assinalou com tom grave e sério. — Está de volta em Nevam e se encontra no ambiente cômodo e próspero ao que está acostumada; mas não retornou para retomar sua rotina diária, feliz e contente ao mando de tudo o que a rodeia. Vim com você com um objetivo muito claro em mente, e ficarei o tempo necessário para completar a missão.

— Já sei! — exclamou, exasperada.

— Seriamente?

— Sim — insistiu com veemência, furiosa pelo fato de que se dirigisse a ela como se tivesse cinco anos. — Sei para que viessem à França, Milord, mas devemos ser realistas. Não deixa de utilizar palavras como «operação» e «missão», como se este viaje de busca de seu irmão fora algum tipo de... Ação militar. Não o é. Tudo isto está relacionado com minha forma de ganhar a vida, com minhas obrigações e com o homem com o que me casei, sem importar quais sejam suas considerações. — Endireitou os ombros em um gesto indignado e começou a retirar de novo das luvas, que quase se arrancou das mãos. — Talvez deva pensar um pouco menos em você mesmo e mais na razão pela que se encontra aqui.

O homem permaneceu em silêncio um momento, olhando-a com olhos calculadores, quase rudes.

— Não lhe ocorreu pensar que poderia ter vindo aqui por você, e não por desejo próprio?

Isso a deixou perplexa, já que não tinha nem a mais mínima idéia do que responder a uma pergunta que sem dúvida tinha muitos mais significados que o óbvio. Deu um passo instintivo para trás para afastar-se da entristecedora estatura masculina, acalorada e incômoda diante de sua proximidade.

Antes de perder a compostura, cruzou os braços à altura do seio.

— Possivelmente seu desejo fora vir aqui por mim, Excelência — replicou de maneira sucinta — já que parece desfrutar muitíssimo observando meu rosto e minha pessoa.

O duque não podia acreditar que lhe houvesse dito algo assim. Olivia pôde apreciá-lo no súbito movimento de sua cabeça, na incredulidade que apareceu em seus olhos, totalmente aberto. Por um instante, produziu-lhe uma imensa satisfação havê-lo desconcertado com sua inteligência... Até que ele se aproximou um passo, tomou as luvas que ainda aferrava nas mãos e os utilizou para arrastá-la muito devagar para ele.

— Seu rosto e sua silhueta são deliciosos. Asseguro-lhe, Olivia Shea, que não vi em toda minha vida tal perfeição esculpida pelos de uses em um sussurro rouco. — É você um compêndio de beleza que desafia qualquer possível descrição, e não posso evitar me dar conta disso cada vez que ponho os olhos em sua pessoa, algo do que sem dúvida alguma também você desfruta de muito.

Foi Olivia quem se sentiu desconcertada nesse momento; o rubor lhe tingia o pescoço e as bochechas.

— Como se atreve a sugerir...

O duque atirou dela com mais força para interrompê-la. Estavam tão próximos que o peito do homem lhe roçava os braços nus, agora apertados contra seu busto, e a saia do vestido cobria as pernas masculinas. Olivia não podia mover-se, ofuscada pela estranha habilidade do duque para deixá-la sem fala.

— A experiência me demonstrou que o desejo não é sozinho doce e amargo há um tempo, mas sim, além disso, é quase sempre recíproco. — Sua mandíbula se endureceu ao tempo que entrecerrava os olhos. — É possível que seu simples presencie suponha uma tentação para mim, Lady Olivia, mas lhe prometo que nunca, jamais, conseguirá ganhar.

Ganhá-lo?

Seu fôlego quente e úmido agitou as mechas frisadas que lhe caíam sobre a bochecha, lhe provocando um comichão na pele. Durante um bom momento, Olivia não foi consciente mais que de seu maravilhoso aroma e da calor desse corpo tão... Viril.

— Isto não é uma competição, Excelência — sussurrou com os dentes apertados ao tempo que o olhava aos olhos com expressão desafiante.

Ele começou a separar-se pouco a pouco e os rasgos duros de seu rosto se relaxaram um tanto.

Logo inclinou a cabeça para um lado e deixou de aferrar suas luvas com tanta força.

— Começo a pensar que é possível que o seja — replicou com calma — ao menos, desde seu ponto de vista.

A súbita chamada à porta os sobressaltou a ambos e interrompeu o incômodo momento de proximidade. Olivia deu um passo atrás e se afastou dele, que o permitiu sem opor resistência.

— Sua bagagem, madame — disse o zelador do edifício depois de esclarecê-la garganta.

Ruborizada, Olivia dirigiu o olhar para o francês.

— Merci, Antoine — replicou ao tempo que passava junto ao duque com elegância. — Por favor, deixa meus baús em meus aposentos e os de meu marido, na habitação de convidados.

Se ao zelador lhe pareceu estranha sorte petição, não o demonstrou. Dispôs-se a cumprir as ordens imediatamente e utilizou a dois dos criados para levar seus pertences às respectivas habitações. Mais que vê-lo, Olivia sentiu que o duque se afastava dela para encaminhar-se para a janela da sala de estar que dava ao oeste, onde o céu tinha começado a obscurecer-se.

Momentos mais tarde e sem mediar palavra, Antoine e os criados partiram e fecharam a porta ao sair. Fez-se um silêncio ensurdecedor quando ficaram de novo a sós.

— Terá que deixar de me chamar «Excelência».

Olivia respirou fundo e se voltou para enfrentar-se a ele. Notou que lhe acelerava o pulso ao ver como o homem se afrouxava a gravata e se desabotoava o pescoço da camisa. Nem sequer Edmund se despiu diante dela, e ver o duque de Durham fazendo-o a impressionou e a excitou até um ponto inimaginável. Obrigou-se a desterrar os indecorosos pensamentos que tinham alagado sua mente e elevou as mãos para colocá-los mechas de cabelo que tinham escapado do penteado.

— Faz apenas uns instantes — replicou em um intento por evitar que a conversa se desviasse — proibiu-me tratá-lo como a um servente.

Ele esboçou um sorriso e apoiou as Palmas das mãos no batente da janela que tinha às costas.

— Há um término médio, Olivia.

A despreocupação que mostrava a enfureceu, embora não sabia muito bem por que.

— Seriamente? Deveria chamá-lo Edmund, nesse caso?

— Quando estivermos acompanhados, sim. Quando estivermos sozinhos, como agora, preferiria que me chamasse Sam. — Esperou antes de acrescentar com um pouco mais de amabilidade — É meu nome de batismo.

Desde que o conhecia, embora para falar a verdade não fizesse muito tempo, jamais se tinha parado a pensar em seu nome de batismo. Nesse instante recordou que o tinha mencionado em seu primeiro encontro privado, mas somente de passagem. Era estranho que não o tivesse considerado como um ser individual até agora. Sempre lhe tinha parecido uma réplica ou, mais exatamente, uma variação de seu marido, e não um homem diferente. Um homem com suas próprias experiências, esperanças, sonhos e decepções.

Olivia afastou o olhar dele e se aproximou do pequena escrivaninha de pinheiro para pegar o montão de notas e cartões que havia em cima, o correio que tinha chegado a sua ausência.

— Creio que Sam é o diminutivo do Samuel, não? — inquiriu enquanto olhava os remetentes sem muita atenção.

— Não, de Samson — respondeu ele.

Olivia franziu o cenho ao dar-se conta de que se perdeu a velada anual da primavera de madame Leblanc enquanto estava na Inglaterra, uma festa em que estava acostumado a promover os perfumes de verão.

— Samson? Como Sansón? Nesse caso, creio que terei que interpretar o papel de seu Dalila nesta pequena farsa — comentou meio em brincadeira.

— Esse é seu objetivo? — murmurou o duque com um tom carregado de intensidade. — Me seduzir?

Olivia perdeu a concentração no que estava ficando e deixou cair vários cartões sobre a grosa atapeta verde que tinha aos pés. Jogou-lhe uma rápida olhada, morta de calor pela maneira em que o homem tinha interpretado um comentário tão simples. Ou acaso só tratava de escandalizá-la? Para falar a verdade, ele não parecia desconcertado no mais mínimo.

O duque observou como recolhia a correspondência e voltava a colocá-la em um desordenado montão sobre a escrivaninha sem fazer o menor intento por ajudá-la, desfrutando ao máximo de sua confusão. Olivia decidiu não lhe proporcionar a satisfação de acreditar que podia importuná-la cada vez que abria a boca para formular um comentário sarcástico ou uma pergunta.

Depois de alisá-la saia, voltou-se para enfrentar-se a ele uma vez mais com uma postura solene e o que esperava fora um sorriso arrogante.

— Sam... — começou depois de esclarecer a garganta e enlaçar as mãos às costas. — O que queria dizer era que desfrutarei imensamente interpretando a Dalila de seu Sansón em cada um dos movimentos ladinos, ocultos ou manipuladores que devamos realizar para encontrar a meu marido e recuperar meu dinheiro. — Entrecerrou os olhos em um gesto desafiante com a esperança de que o homem compreendesse que não permitiria que a utilizasse. — Cumprirei com minha parte e realizarei uma atuação soberba, mas sedução? Jamais. Você e eu nunca seremos amantes.

O duque a observou com uma expressão especulativo do outro lado da habitação antes de cruzar os braços sobre o seio e franzir o cenho.

— Não é isso o que Sansón disse a Dalila? E olhe como acabou... — pôs-se a rir pelo baixo e esboçou um sorriso torcido. — Deve saber Olivia, que não me sinto tão atraído por você (nem por nenhuma outra mulher) para me arriscar a perder minha fortuna ou, muito mais importante, minha vida e minha prudência. E espero não me sentir assim nunca.

Olivia ficou um tanto desconcertada. Por irônico que parecesse, não conseguia recordar se Sansón ou Dalila haviam dito algo assim, nem quem seduziu a quem em primeiro lugar; seus conhecimentos bíblicos deixavam muito que desejar. Não obstante, todo isso carecia de importância. Sabia muito bem o que havia entre o duque de Durham e ela. Não lhe caía bem, não confiava nela, e a manipulava de forma deliberada para conseguir que reagisse de maneira negativa sempre que conversavam sobre privado. Que tipo de homem o fazia algo assim a uma mulher a quem não conhecia?

Um cínico.

Alguém te fez muito dano também, né? Disse-se para si próprio.

Pensar que alguém tinha ferido a tão enigmático personagem a surpreendeu. Não tinha nem a menor intenção de intimar com esse homem, nem física nem emocionalmente, e não desejava considerar a idéia. Não tinham por que desfrutar da companhia do outro, mas era em extremo necessário que se levassem bem. Seu meio de vida dependia da cooperação mútua.

Olivia se rendeu com um suspiro.

— Talvez, Excelência...

— Sam.

— É obvio. Esqueci-o. — Depois de plantar o que esperava parecesse um genuíno sorriso em seus lábios, assentiu uma vez para mostrar seu acordo. — Talvez, Sam, nossos passados e necessidades futuras não sejam tão diferentes como acreditam.

Ele arqueou uma sobrancelha ao escutar o comentário, embora não disse nada.

Olivia deixou cair os braços aos flancos e se aproximou um passo a ele.

— Quero dizer que, apesar do que opinemos um do outro e de nossas desconfiança, deveríamos fazer a um lado nossas diferenças, combinar nossas experiências comuns e tratar de trabalhar juntos.

Olivia decidiu com petulância que a sugestão tinha sido bastante satisfatória e acreditou que ele a aceitaria imediatamente, talvez inclusive com um apertão de mãos para selar uma espécie de acordo.

Ao parecer, o homem não pensava o mesmo absolutamente.

O duque de Durham ficou em pé uma vez mais e a contemplou do alto, embora sua expressão parecesse mais reservada que furiosa.

— Somos muito distintos, Lady Olivia — resmungou com o rosto e o corpo tensos por causa de um cansaço que não conseguia ocultar. — Mas isso não deveria importar, e não o fará, assim não tem sentido insistir nisso. De momento, estou exausto e não tenho vontades de jantar, de modo que eu gostaria de me retirar. — Entrou a seu lado em direção ao dormitório de convidados, onde o criado tinha deixado seu baú e seus objetos pessoais. Sem voltar a olhá-la, acrescentou por cima do ombro — Começaremos a procurar a meu irmão pela manhã. — Fechou a porta e jogou o ferrolho com um estalo.

Olivia ficou imóvel durante um par de minutos, olhando o carvalho recém pintado com a boca aberta e um pouco desiludida. O céu ainda não se obscureceu de tudo e ele já se foi à cama... Sem pensar em comer ou em que deviam conhecer-se melhor, sem intenções de passar a noite planejando seu seguinte movimento. Sem pensar nela absolutamente.

Muito bruto.

Pela primeira vez, sentiu um ligeiro golpe de alívio ao dar-se conta de que tinha sido muito afortunada ao conhecer o Edmund em primeiro lugar... E não ter terminado casada com seu irmão.

 

Sam não podia dormir. Tinham passado horas (ou ao menos isso lhe parecia) desde que se metesse sob as frescas lençóis e apoiasse a cabeça no travesseiro de plumas em um intento por afogar as lembranças e os recentes motivos de irritação sob o mar de ruídos que enchiam a rua e seu estômago. Tinha sido um estúpido ao anunciar que não jantaria que queria ir-se diretamente à cama. Estava cansado, isso era certo, mas também morto de fome. Além disso, não tinha sonho... Sobre tudo porque sabia que ela se encontrava na habitação do lado.

Estava muito tenso para dormir. Exasperado, tinha tratado de relaxar-se, mas quanto mais o tentava, mais cravava a vista no teto e mais pensava em seu irmão, no furioso que estava com ele; também em Claudette, a linda mulher que se havia interposto entre eles e tinha trocado seus destinos. Todo um torvelinho de sensações e pensamentos passados que se mesclavam e que lhe impediam de dormir. E logo estava à nova esposa de seu irmão, sempre de fundo, que se deslizava em cada recordo para chateá-lo e provocá-lo com seu deslumbrante aspecto, seu sorriso arrogante e seu malévolo inteligência, tentando-o com sua simples e repentina aparição, completamente indesejada.

Duas semanas atrás, recordou Sam, estava farto; farto do tedioso trabalho na propriedade, das damas conhecidas que pululavam ao redor dele (ou melhor, dizendo, ao redor de seu título e suas riquezas) como abutres à espera; farto da rotina que se apropriou de sua vida. Nesse instante, é obvio, tinha deixado atrás o aborrecimento para entrar em um novo reino de exasperação, de incerteza com respeito ao futuro, de desassossego e de um constante estado de excitação física.

Soltou um grunhido e se virou para um lado para observar a luz da luz, que cobria de pequenas bolinhas a escura parede do dormitório de hóspedes. O luxuoso lar de Olivia se encontrava no buliçoso bairro comercial, embora fosse uma zona limpa e respeitável de Paris. A Sam não lhe agradavam muito os ruídos e a sujeira da cidade, de nenhuma cidade, e certamente não gostava os dessa. Embora ela tivesse adornado sua casa com um estilo encantador, cheio de flores e tons bolo que seguiam a moda atual, Sam se negava a considerar a idéia de sentir-se cômodo ali.

Mas esse não era o problema. O problema era ela.

Pela primeira vez em sua vida se sentia absolutamente desconcertado por uma mulher. Não sabia o que pensar dela, como interpretar seus estados de ânimo ou seus objetivos, até onde confiar em suas decisões, atos ou palavras. Devido a essa incomum falta de conhecimentos no que a ela se referia, Sam se limitava a reagir quando estava a seu lado, mas como, conforme tinha descoberto durante o transcurso da noite, não só poderia ser um engano, mas também um perigo para a relação que mantinham ainda decorosa. Pelo general, considerava-se um indivíduo frio e de temperamento calmo, controlado e dono de si mesmo até um ponto vizinho no exagero. Mas de algum modo, nos poucos dias que tinham acontecido juntos, Lady Olivia tinha conseguido provocar respostas do mais estranhas nele, embora, graças a Deus, tinha conseguido ocultar-lhe bastante bem. Ou isso acreditava.

Tinha-o vexado com seu caráter combativo; tinha conseguido que desejasse sacudi-la para acabar com essa desafiante determinação que possuía. E para seu abafado, o simples feito de pensar que essa linda mulher estava casada com seu irmão o tirava de gonzo. Enfurecia-o, por inexplicável que parecesse. Não podia livrar-se das lembranças de sua infância nos que Edmund sempre parecia sair ganhando, em todas e cada uma das competições nas que ambos tinham participado. Se o pensava de maneira racional, Sam sabia que muitos dos triunfos de seu irmão estavam relacionados com as responsabilidades que conduzia seu próprio título e que todas essas lembranças estavam exacerbadas pela idade e a imaturidade. Mesmo assim, a ele não lhe permitia, e jamais lhe tinha permitido, desfazer-se das responsabilidades; Edmund não só tinha tido a oportunidade de fazê-lo, mas sim sempre se aproveitou disso a vontade. Sam supôs que em certo sentido o invejava. Ele tinha obrigações e Edmund, dinheiro, tempo e oportunidades. Ele teria que casar-se com a mulher apropriada, sem ter em conta seu aspecto e sua inteligência, enquanto que Edmund podia casar-se com quem lhe viesse em vontade. Nesse momento foi consciente de que o antigo golpe de ciúmes que lhe provocava seu irmão tinha retornado em toda sua intensidade para esbofeteá-lo em plena cara. Edmund não só se casou com uma mulher inteligente e incrivelmente bela, mas sim o matrimônio tinha sido do mais conveniente. Lady Olivia Shea, filha do defunto conde do Elmsboro, tinha sido um partido excelente.

Mas estavam casados de verdade? Isso seguiria sendo um mistério até que encontrassem a seu irmão e descobrissem até onde chegavam suas mentiras. Quão único sabia com certeza era que Olivia acreditava seriamente que eram marido e mulher. Depois de entrar vários dias com ela, tinha conseguido convencer o de que acreditava com convicção que era a esposa do Edmund, apesar das circunstâncias nas que se encontrava. Mas como, pensou Sam com uma consternação que o aniquilava, supunha o maior obstáculo para sua relação, fora qual fosse, e para seu crescente desejo de possuí-la.

Com um suspiro, fechou os olhos com força e ficou de costas uma vez mais para afastar os lençóis com os pés nus, cada vez mais acalorado e incômodo na abafadiça estadia. Tendido sobre a cama, com a cabeça apoiada nos braços que tinha enterrado sob o travesseiro, imaginou nua, amontoada sobre uma suave capa de plumas brancas e pétalas de rosas vermelhas, olhando-o com os olhos carregados de paixão e o cabelo solto sobre os ombros. O extremo das escuras mechas de cabelo se enroscava ao redor dos mamilos endurecidos, que pareciam lhe pedir que os saboreasse. Muito devagar, Olivia esboçou um sorriso sedutor e estendeu o braço com a palma da mão aberta enquanto elevava pouco a pouco as largas e torneadas pernas para lhe oferecer uma vista frontal completa de seu delicioso corpo. Convidou - o a reunir-se com ela baixando a mão e acariciando-se essa coxa perfeita com uma de suas brilhantes unhas, roçando-se com suavidade os cachos negros da entre pernas enquanto separava os joelhos para agradá-lo...

Sam sentiu uma opressão no seio ao dar-se conta de que seu corpo se endureceu uma vez mais a causa do desejo. Tanto tempo tinha entrado sem uma mulher que sua mente já não distinguia entre as que podia e não podia ter? Entre aquelas a quem nem sequer teria que desejar por causa das cicatrizes que lhe tinha deixado o passado?

Não, aquilo era muito mais complicado; ia muito além da simples luxúria. Tinha sido Olivia quem lhe tinha provocado essa reação, e o mais provável era que nem sequer se deu conta, o que fazia que as coisas resultassem ainda pior... Ou possivelmente mais excitantes? Pelo amor de Deus, nesse instante teria dado algo porque ela abrisse a porta que comunicava sua habitação com a de convidados, aproximasse-se dele e estirasse o braço para acariciar sua carne ardente e rígida com a palma de sua mão, suave e cálida. Suas carícias lhe provocariam um alívio e uma satisfação indescritíveis.

«Sim, Olivia... “Faz que me...»

Abriu os olhos de repente e apoiou os cotovelos para incorporar-se muito devagar. Sacudiu a cabeça a fim de limpar-se, atento aos pequenos ruídos que se escutavam além de seu dormitório. E então o escutou de novo: um rangido do chão e o chiado provocado ao arrastar uma cadeira de madeira.

Olivia estava acordada, ao igual a ele. Estaria pensando nele também? Provavelmente não. Jamais tinha ouvido dizer que as mulheres fantasiassem com os homens dessa maneira, nem sequer que tivessem pensamentos libidinosos. E embora a sensatez e a inteligência de sua bem ordenada mente lhe diziam que voltasse a derrubar-se na cama e «acabasse» com suas eróticas devaneios, seus instintos tomaram o mando da situação.

Baixou as pernas na beirada da cama e aguardou um instante a que a ereção chegasse a um lento e doloroso fim. Depois, depois de decidir que o melhor para ambos seria que estivesse vestido de um modo apropriado, procurou as calças e uma camisa de linho. Com um pouco de sorte, ela não teria posto mais que uma camisola de seda transparente.

Permaneceu de pé junto à porta durante uns segundos, atento ao menor ruído. Não escutou nada, assim abriu a porta com muito cuidado e saiu ao corredor em penumbra.

Posto que sua própria teimosia lhe tivesse feito retirar-se a dormir tão cedo essa noite, não tinha tido tempo para observar o traçado da casa. Não obstante, sim que tinha visto a sala de estar, que nesse momento estava diante dele, e deduziu que o sala de jantar e a cozinha estariam a sua esquerda, onde agora via uma fresta de luz sob uma porta.

Caminhou em silencio para ali, estirou o braço para o trinco e abriu a porta.

O ruído a pilhou despreparada, já que Sam pôde escutar um pequeno ofego antes de vê-la.

Estava sentada ao outro extremo da mesa, com esses formosos olhos azuis carregados de incerteza, sobressaltada claramente por sua presença. Sustentava uma xícara do que supunha era chá próximo dos lábios.

— Excelência...

— Sam — interrompeu-a ele, molesto pelo fato de que ela insistisse em não utilizar seu nome de batismo. Embora supusesse que era algo do mais normal, dadas sua educação e as circunstâncias que os rodeavam. — A molesto? — perguntou com tom indiferente enquanto entrava uns quantos passos na estadia.

A indecisão da Olivia, apoiada na discussão que tinham mantido poucas horas antes, foi evidente em seu rosto, mas para alivio de Sam, a mulher pareceu superá-la em seguida.

— É obvio que não. Entre, por favor — disse com voz agradável ao tempo que deixava a xícara sobre a mesa.

Sam jogou uma rápida olhada à estadia e se deu conta de que a cozinha carecia dos adornos e o encanto do resto da casa. Contudo, embora fosse um pouco pequena, podia considerar-se funcional e ordenada. Tudo na Olivia Shea, decidiu, falava de uma curiosidade impossível de descrever com palavras. Entretanto, a cozinha não era um lugar para receber convidados e, portanto não se dedicou muito tempo a seu desenho. Além do pequeno fogão, não havia mais que uma pia e umas quantas despensas pequenas, e tudo à exceção do fogão estava pintado de um branco acetinado. Havia uma fruteira quadrado cheio de maçãs e ameixas junto a um abajur de azeite acesa, no centro da mesa, e a fruta era o único objeto de cor da habitação. Desde não ser por seu brilhante cabelo negro, que nesse instante lhe caía sobre as costas, e por seus assombrosos olhos azuis, inclusive Olivia se teria fundido com o entorno. Para falar a verdade, não se parecia em nada à deliciosa e sensual criatura com a que tinha fantasiado minutos antes, já que por desgraça não levava a camisola transparente que se imaginou, a não ser um singelo objeto de algodão branco abotoada até o pescoço que lhe cobria os braços até os nódulos. Viu-se obrigado a admitir, não obstante, que seu atrativo natural seguia presente em toda seu inocente glorifica apesar de tudo.

— Dá a impressão de que me estivesse avaliando — disse ela com um tom curioso e a cabeça inclinada a um lado.

Com um sorriso, Sam afastou a cadeira que havia frente a ela e, depois de sentar-se, reclinou-se no encosto e estirou as pernas para diante para as cruzar à altura dos tornozelos.

— Certamente que não.

Sabia que ela desejava mais explicações, mas não as pediria. Era muito educada para fazê-lo, embora a Sam lhe parecesse espionar um relampejo de chateio em seus olhos.

— Despertei-o? — perguntou depois de fazer uma pausa para dar um gole de sua xícara.

Sam respirou fundo e cruzou os braços sobre o peito.

— Para falar a verdade, não podia dormir.

Olivia franziu o cenho e o percorreu com o olhar de cima abaixo para estudar tudo o que ficava à vista por cima do tabuleiro da mesa.

Sam supôs que tinha um aspecto desalinhado e do mais inapropriado com a camisa por fora das calças e os pés nus. Contudo, ela não parecia julgar seu traje, tão somente fixar-se nele.

— Sinto escutar isso — disse ao tempo que levantava a xícara uma vez mais para dar outro gole. — As luzes e os ruídos da cidade podem resultar bastante molestos quando a gente não está acostumado, até a pesar do cansaço.

— O problema não é a cidade. Embora passado a maior parte do tempo na propriedade que possuo no Cornwall, também vivo em Londres parte do ano. — Sorriu de novo. — Não, quando estou cansado sou capaz de dormir em qualquer lugar.

— Entendo. — Olivia acariciou a parte lateral da xícara com os dedos. — Nesse caso, por que se retirou tão logo esta noite se não estava cansado?

A indiscreta pergunta o pilhou despreparado, e em certo modo também o preocupou. Se queriam ter êxito na hora de encontrar a seu irmão, deviam levar-se bem e entender-se a distintos níveis de intimidade, mesmo que seu instinto de sobrevivência lhe fizesse desconfiar dela. Olivia era o bastante preparada para precaver-se de se mentia.

Depois de tornar-se para diante e apoiar o braço na mesa, Sam a olhou aos olhos.

— Para falar a verdade, minha senhora, sua presença (a presença de qualquer mulher, em realidade) ocasiona-me às vezes certa... Desconforto. — Vacilou um instante antes de acrescentar — O sexo débil e eu jamais nos levamos bem.

— Entendo.

Por estranho que parecesse e para seu chateio, Sam descobriu que ela não parecia muito surpreendida.

— Isso significa que se retirou a dormir horas antes e sem jantar para... Livrar-se de mim, não é assim?

Ele trocou de posição na cadeira.

— Talvez.

Ela riu entre dentes.

— Queridíssimo cunhado, não imaginei que pudesse resultar tão aterradora para alguém de sua estatura.

Sam percebeu que uma estranha e instigada tensão os envolvia a ambos, e não pelo fato de que ela tivesse brincado sobre sua suposta covardia, mas sim porque o tinha chamado «cunhado». Quanto mais pensava nisso, menos gostava que ela o visse dessa maneira; em especial porque quanto mais a conhecia, mais lhe atraía sexualmente.

— O que está bebendo? — perguntou em um intento por trocar o assunto da conversa.

Se a desconcertou dita mudança, não o demonstrou.

— Leite morno com mel. Ajuda-me a dormir quando tenho problemas para fazê-lo. Gostaria de tomar uma xícara?

— Não, obrigado — replicou ele com uma careta. — parece asqueroso.

Olivia sorriu.

— Acaso sua mãe não a oferecia quando não podia dormir?

Sam compôs uma careta desdenhosa.

— Em realidade não conheci minha mãe.

A expressão do rosto feminino foi do mais reveladora, embora não pôde decidir se ela parecia atônita ou horrorizada.

— Não a conheceu? — Inclinou a cabeça a um lado para olhá-lo com ar pensativo. — Edmund me disse que ela se transladou ao continente antes de morrer e que os negócios lhe impediram de assistir ao funeral.

— Morreu faz sete anos — confirmou Sam. Depois, encolheu-se de ombros e explicou — Mas me consta que você sabe que, em meu mundo, não podia me relacionar muito com minha mãe. Em troca, relacionava-me com minha babá, com meu tutora, com minha ajuda de quarto, com meu professor de música, com meus tutores... Quer que continue?

Para seu deleite, Olivia perdeu sua expressão curiosa e enrugou a testa.

— Não, já o entendi — admitiu em voz baixa ao tempo que se afundava um pouco em seu assento. — Não obstante, Edmund disse que tinha desfrutado de uma infância cheia de afeto e que guardava lembranças maravilhosas de seus pais...

— Edmund mentiu — interveio Sam com um bufo.

Olivia piscou por causa da surpresa.

— Mentiu... Claro.

Arrependeu-se de havê-lo dito imediatamente, assim que viu que ela vacilava e encolhia os ombros, como se tratasse de desprezar semelhante idéia. Momentos depois aferrou-se os braços com as mãos e baixou o olhar até a mesa.

Sam se esclareceu garganta, um tanto deprimido ao ver como tinha reagido ela ante uma nova confirmação do caráter embusteiro e enganador de seu irmão.

— De qualquer forma, deve compreender que Edmund e eu temos perspectivas muito diferentes de nossa infância.

Lhe ofereceu um sorriso indeciso e o olhou aos olhos.

— Disso não me cabe nenhuma dúvida. Ocorre em todas as famílias.

— Certo. Entretanto, criaram-nos da mesma forma e nos educaram nas mesmas disciplinas a fim de que desfrutássemos das mesmas oportunidades na vida. A única diferença era que, à larga, sempre se esperava mais de mim.

— Devido a sua ordem de nascimento — assinalou ela.

Depois de assentir com a cabeça, Sam pegou uma das maçãs vermelhas da terrina que havia no centro da mesa e a girou entre os dedos enquanto a estudava com o olhar perdido.

— Inclusive a dia de hoje, Edmund desfruta de umas liberdades que eu jamais chegarei a ter, entre as que se inclui o luxo de poder fazer o que lhe venha em vontade. Entretanto, meu irmão está ressentido comigo por ter nascido três minutos antes que ele e porque graças a esse golpe do destino, favorável ou não, eu sempre terei oportunidades e riquezas que ele nunca poderá possuir. Essa é uma das razões principais pelas que partiu faz dez anos.

— Não obstante, foi ele quem se casou em primeiro lugar — comentou Olivia depois de uma larga pausa para refletir.

Sam franziu o cenho.

— Sim.

Não tinha claro se devia acrescentar que Edmund não tinha obrigação de casar-se e que jamais o tinha desejado, ao menos até que o viu por última vez.

— Por que não se casou Sam? Está claro que essa é uma de suas maiores obrigações.

Essa pergunta tão pessoal o deixou desconcertado. Era a primeira vez que ela mostrava mais interesse em sua vida e em suas finalidades que nas do Edmund e, se devia ser sincero, isso o incomodava e o agradava há um tempo.

Durante um segundo, teve a impressão de que ela poria-se a rir. Olivia piscou e apertou os lábios com força antes de tornar-se para diante e apoiar os braços na mesa com as Palmas para baixo, deixando a xícara justo debaixo de seu queixo.

— Para ser um homem devido a suas obrigações, Excelência, surpreende-me que possa conceder o luxo de mostrar-se tão suscetível, quando é óbvio que deveriam lhe haver consertado um matrimônio faz já muitos anos. Acaso me está dizendo que não há damas apropriadas de bom berço que estejam dispostas a sucumbir a seus incríveis encantos?

Sam não sabia se lhe devolver uma réplica furiosa ou rir de sua ingenuidade. Não obstante, estava seguro de que Olivia Shea tirava o sarro de propósito, e esse era o primeiro passo para uma relação mais relaxada entre eles.

— Escolheram uma noiva para mim, a encantada Lady Rowena Downsbury, filha do conde do Layton. Mas por desgraça, ela fez o impensável e se fugiu com um capitão de navio norte-americano; partiu por volta dos Estados Unidos cinco semanas antes de nossas bodas.

— Pequeno escândalo... — murmurou ela com um brilho de assombro nos olhos intensificado pela luz do abajur.

Sam sorriu com ironia e tamborilou com os dedos sobre a mesa.

— Não se faz uma idéia...

Olivia permaneceu em silêncio um momento mais, assimilando os detalhes da história. Depois, seu sorriso diminuiu um pouco.

— Suponho que isso lhe danificou. A nível emocional quero dizer.

Ele franziu o cenho e inclinou a cabeça a um lado.

— Me danificou? Não. Oxalá se tivesse partido antes, já que desse modo me teria economizado o dinheiro que gastei na cerimônia e nos preparativos da lua de mel. É obvio, ao final foi seu pai quem mais perdeu e quem ficou mais furioso.

— Naturalmente.

Sam ergueu as costas ao detectar o sarcasmo, embora não pôde evitar perguntar-se se era dirigido para ele ou para o pai de Rowena.

— Não estava apaixonado pela Rowena — explicou, embora desejasse imediatamente poder retirar esse ridículo comentário.

Ela esboçou um pequeno sorriso.

— Já o tinha imaginado. O matrimônio tem pouco que ver com o amor, em especial dentro de nossa classe social. — Enlaçou as mãos sobre o regaço. — aprendi muito bem a lição, Excelência. Jamais terá que confiar em um homem que diz estar apaixonado por ti.

Por irracional que parecesse, essas palavras o incomodaram muito... Muitíssimo.

— Suponho que Edmund lhe disse que o estava.

— Apaixonado por mim?

— O disse?

Olivia o olhou aos olhos com as pálpebras entrecerrados, como se queria averiguar se podia confiar nele. Ou se a enganava.

— Cortejaram-me muitos homens, Excelência — replicou com tom indiferente, recuperando parte da formalidade. — A maioria deles desejava ou mi... Inocência, ou meu dinheiro, sempre com propósitos infames. Por sorte, até que conheci o Edmund, meu cérebro funcionou à perfeição e fui capaz de resistir a todos eles.

— Mas não ao Edmund.

Ela refletiu sobre o tema uns momentos.

— Edmund era diferente.

— Quer dizer que se comportava de um modo distinto? — inquiriu Sam, cada vez mais interessado.

— Sim, poderíamos dizê-lo assim. — Franziu o cenho. — Não... Não reagiu a minha aparência como outros cavalheiros; e devo admitir que isso me desconcertou um pouco no princípio. Suponho que conseguir que se fixasse em mim se converteu em uma questão de orgulho.

Isso o deixou aniquilado.

— Está-me dizendo, senhora, que ele não se fixou em sua extraordinária beleza?

Olivia se ruborizou ante semelhante franqueza. Sam pôde apreciar o rubor de suas bochechas até a luz do abajur, e foi uma visão arrebatadora que o afetou a um nível primitivo, por mais que tratasse de ignorá-lo.

Depois de esfregá-la nariz com o dorso da mão e secá-las Palmas sobre o regaço, Olivia trocou de posição no assento e cruzou as pernas.

— Não exatamente. — Titubeou um instante antes de prosseguir — Edmund me disse que lhe parecia preciosa em muitas ocasiões, mas é algo mais complexo que isso. Tomou... Um interesse bastante especial em mim. Parecia desfrutar muito de minha companhia, e gostava que o vissem comigo em público. Entretanto, ele... — encolheu-se de ombros e sacudiu a cabeça. — É muito difícil de explicar.

Sam assentiu.

— Mesmo assim, preciso sabê-lo — insistiu.

Olivia não parecia ter claro se devia acreditá-lo ou não. Sam o percebeu em seu olhar dúbio. Mas sua persuasão funcionou.

— Interessava-se muito pouco por minha família e meu passado, mas parecia fascinado por minhas capacidades como empresaria e meu trabalho em Nevam — continuou ela muito devagar e em voz baixa. — Parecia muito orgulhoso de mim, de meu aspecto e de minhas aptidões. Mas ele... Ele não pensava em mim como...

Ficou calada uma vez mais e começou a retorcê-las mãos sobre o regaço.

Sam aguardou; seu embaraço lhe resultava absolutamente delicioso e estava desfrutando de do momento muito mais do que tinha imaginado. Com tudo e para ser franco, essas revelações o tinham cativado.

As pestanas femininas descenderam; Olivia não era capaz de olhá-lo aos olhos.

— Embora Edmund assegurasse que me amava que se casava comigo por amor, jamais pareceu sentir... Paixão em minha presença. Não havia nada apaixonado em nossa relação. E devo admitir que isso chegou a me incomodar depois de um tempo.

Pela primeira vez em muitos anos, Sam ficou petrificado, sem fala.

— Entendo — foi o único que lhe ocorreu dizer.

Depois de um breve hesitação, Olivia levantou a vista, olhou-o aos olhos e tomou ar para dar-se ânimos.

— Tem que entender Milord, que quando conheci seu irmão me resultou do mais refrescante ver que se comportava como um cavalheiro em todos os sentidos da palavra. Senti-me... Atraída para ele porque me deu a impressão de que ... Gostava de mim de verdade. Havia algo diferente, uma possibilidade de camaradagem em nosso matrimônio que terminou por me conquistar.

Sam o entendeu por fim. Mais ou menos.

— Para falar a verdade, soa como um matrimônio de conveniência.

— Bem cuidadoso, Excelência, seu irmão não era, e nunca foi conveniente absolutamente.

Essa réplica lhe fez graça.

— Não, suponho que não.

Depois de um momento de silêncio, Olivia franziu o cenho em um gesto pensativo.

— Edmund disse que me amava e eu acreditei. Não obstante, desde que partiu dei conta de que teria sido mais apropriado dizer que lhe caía bem, já que ele sozinho amava o que me converteu na pessoa que sou. Tem isso sentido?

Só para uma mulher, disse-se Sam.

— Não muito — respondeu.

Olivia deixou escapar um suspiro irritado e se esfregou a testa e as têmporas com ambas as mãos.

— O que quero dizer é que Edmund me amava, ou, mas bem desejava o que me converte em quem sou: minha riqueza, meu aspecto, minha inteligência, minha posição social, meus contatos na sociedade.. Pode que inclusive a influência que me outorga Nevam ao ser um negócio apadrinhado pela imperatriz. Mas o certo é que, embora ao Edmund parecesse agradável entrar o tempo comigo, jamais me amou pelo que sou de verdade. Jamais me amou. Oxalá me tivesse dado conta disso antes de pronunciar os votos.

A cadeira rangeu quando Sam se tornou para diante para apoiar os cotovelos nos joelhos e entrelaçar as mãos.

— Utilizou-a, Olivia.

Ela se endireitou na cadeira e o olhou com expressão desafiante.

— Essa é uma maneira algo simples de dizê-lo.

Sam se encolheu de ombros.

— Mesmo assim e em poucas palavras, isso é exatamente o que fez. Casou-se com você por tudo menos por você.

Pela primeira vez desde que a conhecia, Olivia parecia com o beira das lágrimas. Piscou umas quantas vezes e olhou o teto durante um bom momento. Para ser sincero, detestava ver chorar às mulheres, mas naquela ocasião lhe parecia inclusive justificado. Foi um momento crucial, já que nesse instante se deu conta de que sentia algo por ela que ia além da irritação e da luxúria. Olivia despertava uma compaixão nele que não acreditava ter experiente com nenhuma outra mulher, embora a lógica lhe dissesse que esse sentimento se apoiava no fato de que ela se converteu em outra de suas responsabilidades. Ao menos, esperava que assim fora. Não obstante, existia a possibilidade de que estivesse jogando com ele; a maioria das mulheres tratava de fazê-lo. Mostrar-se compassivo não significava que tivesse que baixar o guarda com ela.

Olivia se esclareceu garganta e meneou a cabeça uma vez mais.

— A maior parte dos membros de nossa classe social se casa por esses motivos, Excelência. Não é nada novo. Eu estava, e ainda o estou, preparada para um matrimônio sólido sem o menor espiono de idéias românticas ou de amor. Não necessito essas coisas para me sentir satisfeita.

— Já, mas a maioria das damas que se casam por conveniência, ou por um acordo familiar, conseguem algo em compensação pela falta de interesse romântico de seus maridos. Tanto se houver amor como se não, sentem-se satisfeitas graças à estabilidade que lhes proporciona o enlace, os filhos, a família ou as causas sociais relacionadas com o matrimônio. Conforme parece, meu irmão a deixou sem nada, e isso não só é injusto, mas também desonesto.

Em lugar de vir-se abaixo, tal e como teria feito qualquer outra dama, Olivia inclinou a cabeça e o observou durante uns segundos com os olhos entrecerrados e um pequeno sorriso nos lábios.

— Conforme parece? — repetiu em voz muito baixa.

— Sim — murmurou Sam.

Teria desejado que ela não captasse esse pequeno matiz, mas a essas alturas não podia mentir sobre o receio que lhe provocava o que lhe tinha contado sobre seu irmão. Gostasse dessa mulher ou não, não tinha intenção de acreditá-la com convicção sem provas. Por isso sabia, Edmund e ela podiam estar trabalhando juntos em todo aquilo, embora quanto mais a conhecia, menos provável lhe parecia essa possibilidade. Mesmo assim, não pensava dizer-lhe no momento.

Olivia o estudou com gesto espectador durante uns segundos mais, esperando algum tipo de explicação. Quando por fim se deu conta de que não ia receber nenhuma, assentiu com a cabeça e ficou em pé muito devagar. Tinham chegado a um ponto morto.

— Há brandy, se o preferir — ofereceu com voz suave.

Sam se entrou os dedos pelo cabelo.

— Se o preferir?

— Ao leite morno. — Tragou saliva. — Para ajudá-lo a dormir.

Fez-se um silêncio do mais incômodo, embora não podia dizer-se que a estadia ou a casa estivessem em calma, já que se escutavam um montão de ruídos (risadas, canções de bêbados e coisas parecidas) procedentes da rua. Não obstante, isso carecia de importância, dado que tanto sua atenta observação como sua doçura o tinham apanhado de repente, tinham-no cativado e envolto em uma imprevista borbulha de excitação.

Olivia abriu os olhos de par em par e aferrou com força a xícara.

Ela também sente o mesmo..., disse-se Sam.

— Não, obrigado — sussurrou antes de ficar em pé e aproximar um passo a ela. — Estou seguro de que conseguirei dormir ao final.

Observou seu rosto, notando-se na suavidade de sua pele, na vacilação de seus olhos e no pulso que pulsava acelerado em suas têmporas.

Edmund poderia perder esta vez.

Era uma idéia surpreendente, explosiva, e a satisfação que o alagou nesse instante, unida ao milhar de estranhas possibilidades, deixou-o afligido.

Edmund se tinha levado ao Claudette. E a esposa de seu irmão estava ante ele, doce, inocente e incrivelmente linda, lutando contra o impulso de deixar-se seduzir. Mas teria sentido esse jogo se Edmund não a desejava?

— parte à cama, então? — perguntou ela com a testa enrugada, interrompendo seus pensamentos.

Sam voltou à realidade.

— Assim é Lady Olivia — replicou com um breve assentimento formal.

Ela esboçou um sorriso doce.

— Livi.

Tinha uns lábios cativantes.

— Como diz?

— Aqueles que me conhecem bem me chamam Livi — disse em um sussurro.

Olharam-se o um ao outro durante um bom momento antes que ela se inclinasse para apagar o abajur e lhe oferecesse uma rápida embora arrebatadora visão do movimento de seus seios nus sob a camisola de algodão.

Pelo amor de Deus, como é possível que Edmund não a desejasse? Perguntou-se.

— Boa noite, Livi.

— Que durma bem, Sam — murmurou em meio da escuridão total.

Sam lhe deu as costas e partiu da cozinha para dirigir em silencio à habitação de convidados sob a luz pálida da lua. Sentia-se excitado e incômodo, e em sua mente só havia um pensamento: «Edmund já perdeu».

 

Fazia um dia esplêndido para uma viagem, ao menos no que ao clima se referia. A ligeira chuva que tinha caído antes do alvorada tinha dado lugar a um sol radiante e a uma brisa úmida e fresca, presságio de um dia caloroso na buliçosa cidade. Como era de esperar, Olivia tinha dormido a rajadas depois da cordial conversa que tinham mantido a noite anterior; não tinha deixado de dar voltas entre os lençóis enquanto sua mente girava uma e outra vez em torno de pensamentos estranhos e do mais.... Indecentes sobre ele. Miúda forma de desfrutar da primavera. E estava claro que o leite morno não tinha funcionado.

Sua donzela pessoal Enjoe Nicole, que com quinze anos era a menor das filhas do Normand, tinha chegado justo as sete em ponto, tal e como fazia todas as manhãs para ajudá-la com o asseio e a roupa. A eleição desse dia tinha sido um vestido singelo de gaze amarela dotado de um discreto decote quadrado de encaixe branco e mangas bufastes. Depois de lhe trançar o cabelo em dois coques e recolher-lhe no cocuruto com pentes de prender cabelos de madrepérola, Enjoe Nicole se partiu e a tinha deixado única para enfrentar-se ao duque de Durham.

Nesse instante caminhava atrás dela enquanto saíam da casa para descer a boutique, onde lhe explicaria umas quantas coisas sobre a história e os misteres do perfume e sua indústria. Tinham compartilhado um breve café da manhã consistente em café, fruta e queijo durante o que ambos tinham mantido um agradável silêncio, falando sozinho quando era necessário. Supunha que ambos se sentiam um pouco incômodos depois das intimidades que tinham compartilhado a noite anterior, embora possivelmente tivesse sido mais apropriado dizer que o duque tinha um ar distraído.

Para falar a verdade, ela tinha desfrutado desse bate papo tardio. Sam parecia não haver-se fixado em que ia embelezada com a roupa de cama, o que, dadas as circunstâncias, não era de tudo indecente, já que a camisola a cobria do queixo até os pés. O, entretanto, tinha-a deixado fascinada com essa roupa informal e esse comportamento depravado. Jamais tinha estado em presença de um homem ao meio vestir, nem sequer com seu marido. Não obstante, tampouco podia dizer-se que seu cunhado estivesse nu. Levava umas calças gastas e uma camisa; contudo, estava descalço e Olivia quase não tinha conseguido afastar a vista de seu magnífico seio, onde se apreciava um leve rastro de pêlo negro e encaracolado que aparecia por cima do pescoço aberto da camisa. Somente esperava que não se desse conta do muito que o tinha observado. Em realidade não parecia havê-lo feito, ao menos não até o final da conversa, quando tinha tido esse lugar... «um pouco» tão peculiar entre eles.

Olivia jamais tinha experiente uma sensação tão estranha com nenhum outro homem antes, e isso era o que mais a preocupava. Tinha sido um instante muito especial, um instante único, e o mais curioso de tudo era que em realidade não tinha ocorrido nada.

Nesse momento, enquanto baixavam os degraus em direção ao salão, o duque caminhava um pouco por detrás dela e Olivia percebia sua proximidade com tanta intensidade como de costume, o que a fez desejar ter levado consigo um leque. Ao menos, isso lhe teria dado algo com o que ocupar as mãos.

O plano, tal e como tinham combinado durante o café da manhã, consistia em utilizar parte dessa manhã para pô-lo a par dos distintos aspectos de Nevam e da indústria do perfume em geral, coisas que Edmund já conhecia. Mais tarde, sentariam-se a tomar o chá e falariam sobre qual seria seu seguinte movimento.

Olivia atravessou a toda pressa o salão para entrar na loja e inalou as maravilhosas fragrâncias do dia, catalogando imediatamente os subgrupos orientais como os aromas da estação. Esse era o trabalho que adorava, e tinha permanecido se separada de sua paixão durante muito tempo.

Normand parecia ocupado com duas elegantes damas perto do mostrador principal, o que lhe proporcionava tempo mais que suficiente para começar com as lições antes que os interrompesse.

— Reconhece o perfume que flutua no ar? — perguntou para dar início à conversa; esboçou um sorriso agradável em um intento por controlar seu nervosismo enquanto o olhava aos olhos.

— Lembrança a fragrância — replicou ele com tom indiferente. — Levava-a você.

Essa resposta rápida a pilhou despreparada. E não só por seu imediatismo, mas sim porque ele recordava uma sutil essência que somente tinha levado em sua presença uma única vez.

— Certo — confirmou-lhe sem deter-se. — É a essência da primavera.

— A essência da primavera?

— Sim. Aqui na França se criam novos perfumes cada ano, embora também importássemos alguns da Itália e o mundo asiático. Pelo general não são mais que distintas combinações dos clássicos, embora em ocasiões sejam totalmente originais. Algumas damas, e inclusive certos cavalheiros, escolhem um novo perfume todos os anos; alguns inclusive trocam de perfume com cada estação.

Ao ver que o duque não dizia nada, Olivia se aproximou da parte central do estabelecimento para situar-se junto a uma vitrine redonda que continha frascos de perfume ou flacons, pérolas aromáticas, terrinas de composição e saquinhos perfumadas. Depois de colocar-se de costas ao Normand e às damas a fim de evitar que escutassem seu conversa, apoiou as mãos sobre a vitrine e o olhou aos olhos.

— O perfume e sua indústria são tão antigos como o próprio mundo. Não o aborrecerei com os detalhes do processo de destilação, mas deveria dominar os aspectos básicos, já que Edmund os conhece.

O duque cruzou os braços à altura do seio e rodeou a vitrine para aproximar-se dela. O movimento a pôs nervosa e monopolizou todos seus pensamentos, de modo que não pôde evitar o instintivo gesto de afastar-se dele. Samson estendeu um braço a toda pressa e apoiou a palma da mão sobre seus nódulos.

— Não — murmurou. — Estão-nos olhando e, depois de tudo, estamos casados.

— Certamente — replicou Olivia apesar de que o calor da mão masculina lhe tinha provocado um súbito sufoco.

Tomou uma profunda baforada de ar e se dispôs a continuar, decidindo que o melhor era ir ao grão.

— Existem seis fragrâncias essenciais, Excelência...

— Sam — sussurrou ele.

Terei que reconhecer que esse homem tinha um dom para distraí-la, embora não estava segura de por que.

— Edmund — replicou com um sorriso irônico.

— Não podem nos ouvir, Olivia.

Ela jogou uma rápida olhada por cima do ombro e descobriu que Normand e as damas estavam absortos na conversa que mantinham. Uma vez mais, o duque tinha razão.

— Isso carece de importância.

O homem arqueou as sobrancelhas e assentiu com a cabeça.

— Se isso fizer que se sinta mais cômoda...

Mais cômoda? Não podia estar mais incômoda nesses momentos. Entretanto, em lugar de admiti-lo optou por deixar acontecer o comentário e concentrar-se de novo na conversa original.

— Como lhe dizia, utilizamos seis fragrâncias básicas com o passar do tempo. O que eu gostaria de fazer é lhe falar com tudo detalhe sobre elas e lhe dar a oportunidade das provar.

— Não acredito que seja necessário as provar — assinalou ele.

Olivia detectou certa exasperação em seu tom, mas decidiu ignorá-la por alto.

— É preciso que escolha uma fragrância.

O duque suspirou com força e afastou a mão por fim.

— Por quê?

Olivia franziu o cenho, desconcertada.

— Porque tem que cheirar como Edmund.

O homem a olhou de marco em marco e ela notou que lhe ruborizavam as bochechas ao dar-se conta do que havia dito e de que ele estava a ponto de estalar em gargalhadas.

— E... Bom... O que ocorreria se preferir não cheirar como meu irmão? — perguntou o duque com um tom de voz que revelava uma mescla de diversão e chateio.

Olivia fechou os olhos por um segundo e se entrou a palma da mão pela testa.

— Para falar a verdade, não fica outro remédio, Milord; tem que escolher um perfume. Edmund sempre o levava, e alguém poderia notar que você não o faz.

O duque jogou uma olhada à loja e se meteu as mãos nos bolsos da jaqueta.

— Nesse caso, escolherei algo original. Algo que lhe gostaria que levasse, Olivia.

Sua voz se converteu em um sussurro rouco, em especial quando pronunciou seu nome, e Olivia sentiu que se derretia por dentro de uma maneira muito peculiar.

— Mas você...

— Sou um homem diferente — murmurou com seriedade.

Ela piscou com rapidez, com uma réplica na ponta da língua que não se atreveu a pronunciar. O duque não tinha afastado o olhar de seus olhos, à espera que ela reconheça esse fato; um fato que, é obvio, era do mais óbvio. Ou talvez esperasse que se rendesse a ele de alguma forma feminina. Não obstante, o único no que Olivia podia pensar nesses momentos era que esse homem tinha uns olhos absolutamente fascinantes: escuros como o chocolate e rodeados por grosas pestanas negras. Por estranho que parecesse, não conseguia recordar se os do Edmund tinham o mesmo tom; nem sequer recordava o aspecto que tinham quando a olhava. Edmund parecia sempre sorridente. Mas os olhos desse homem a atravessavam como se tratassem de ler sua mente, como se tentassem obrigá-la a capitular. De repente, sentiu-se tão confundida como a primeira vez que a beijou em Londres.

O duque aguardou sem dar a menor amostra de haver-se precavido de sua agitação; depois de um instante, Olivia se repreendeu por entreter-se com semelhantes pensamentos e respirou fundo para reunir coragem.

— Acredito — disse detrás esclarecê-la garganta — que poderemos chegar a um acordo e criar algo único tanto para você como para a temporada.

Seu cunhado elevou as sobrancelhas uma vez mais e seus lábios se curvaram em uma careta de diversão. Olivia se negou a admitir que ele tivesse sugerido mais ou menos o mesmo.

Começou a deslizar os dedos pela parte superior da vitrine.

— Sou consciente de que não gosta de ficar colônia...

— Jamais levo colônia — corrigiu-a ele sem deixar de olhá-la.

Desprezou a interrupção com um pequeno sorriso.

— Assim acredito que o melhor será escolher uma fragrância nova para você e criar outra para mim; desse modo, ninguém se dará conta de que em realidade não é Edmund. Ele troca de perfume com muita freqüência.

O duque soltou um bufo e esteve a ponto, a ponto, de pôr os olhos em branco. Olivia não soube se tornar-se a rir ou aborrecê-lo.

— Farei-o por você, Sam, para que não tenha que cheirar como ele.

Ele esboçou um sorriso amargo.

— Só cheirarei como...

— Você mesmo.

— Em uma fábrica de perfumes.

Essa vez foi Olivia quem esteve em um tris de pôr os olhos em branco.

— Confie um pouco em mim. Sei muito bem o que faço.

— Não me cabe a menor duvida — disse ele, arrastando as palavras.

— Posso continuar?

— Por favor — respondeu ele com tom sarcástico.

Olivia assentiu com a cabeça.

— Como ia dizendo, com o passar do tempo utilizamos seis tipos básicos de fragrâncias. Em primeiro lugar está o olíbano, uma essência cálida e balsâmica procedente da Ásia que se utilizava originalmente em forma de incenso; era muito apreciada pelos cessar do Mundo Antigo, pelo Alexandro Magno e inclusive pela rainha Hatshepsut do Antigo o Egito. Com o tempo, converteu-se em uma das fragrâncias favoritas na China, e mais tarde na Itália renascentista.

»A seguinte é a essência de rosa, a mais utilizada e apreciada em todo mundo, dos antigos gregos e os romanos até, muito mais tarde, os parisienses. É especialmente valorada pelas damas inglesas e uma das favoritas da rainha Isabel.

»Em terceiro lugar está o sândalo — jasmim, um maravilhoso acerto botânico importado originalmente da Índia e Cachemira. O sândalo tem um aroma quente e sensual, enquanto que o jasmim possui uma generosa essência floral a que se atribui grande parte do auge da perfumaria durante o Renascimento.

»A quarta é à flor de laranja, um aroma delicioso e doce procedente da parte oriental da Ásia. Possui uma fragrância floral que utilizamos como componente primitiva na água de colônia, que lhe mostrarei dentro de um momento.

O duque deixou escapar um comprido suspiro; um signo de impaciência, Olivia estava segura disso. O passou por cima.

— Em quinto lugar estão às especiarias, o ingrediente principal da fragrância que pode apreciar em Nevam neste instante. — Deixou a lição por um instante e se inclinou sobre a coberta de cristal para sussurrar — Sempre colocamos saquinhos perfumados com a fragrância da temporada por toda a loja: sob as almofadas do salão, detrás dos mostradores e os sofás, nas mesas e nas gavetas, e inclusive nos cestos de papéis. Funciona às mil maravilhas, já que insiste ao cliente a perguntar sobre o aroma. Assim podemos apresentá-lo como algo novo e excitante que é a fofoca em todo Paris e que todas as damas necessitam em sua coleção de perfumes. Dá muito bons resultados para o negócio.

Seu cunhado não havia dito uma palavra desde que começasse a lição sobre perfumaria, embora tivesse cruzado os braços sobre o peito e seguia olhando-a tinha uma expressão insossa, mas seus olhos pareciam apanhados pelo discurso. Olivia não sabia se isso era bom ou mau. Entretanto, queria acabar com aquilo. Normand os interromperia breve, disso estava segura.

Deu-se uns nos golpeie para colocar o penteado com o simples fim de ocupar as mãos e decidiu terminar quanto antes.

— Bom, em qualquer caso, esta essência provém do Oriente, e está acostumado a ser uma mescla de gengibre, cravo, noz moscada e canela em distintas proporções, e em ocasiões se combina com outras essências.

— E é a fragrância da temporada — comentou ele com voz rouca ao tempo que apoiava o quadril contra o cristal.

Olivia se sentiu desconcertada ao ver que o homem tinha participado um pouco na conversa.

— Sim, assim é.

Desejava poder interpretar seu comportamento, poder ler o que pensava na expressão sóbria de seu rosto. Seguro que encontrava tudo aquilo um pouco interessante ao menos. Edmund o tinha feito. Não obstante, ele não era Edmund, e com cada minuto que entrava em sua companhia ficava mais claro esse fato.

— Só fica uma mais, Excelência — assinalou em um tom prático, embora se sentisse um pouco desiludida ao ver que ele não a repreendia por utilizar a designação formal.

Endireitou as costas e continuou.

— A última é a água de colônia, uma das favoritas francesas; foi criada pela família Farina em 1709 e tenho a obrigação de acrescentar que é o aroma que impregna tanto os pulsos como os saquinhos perfumados de madame Du Barry. — encolheu-se de ombros. — E, como todo mundo sabe, era a fragrância favorita do Napoleão, é obvio.

— É obvio — conveio ele.

Olivia titubeou; não estava segura de se estava burlando dela ou não, mas decidiu que não importava. O objetivo de tudo aquilo era lhe dar a conhecer os fundamentos básicos da indústria.

— Bom — continuou ao tempo que inclinava a cabeça a um lado para olhá-lo com expressão pensativa — Edmund estava acostumado a preferir a água de colônia, uma mescla de flor de laranja e sândalo com um pingo de especiarias. Para você, entretanto, acredito que...

— Nego-me a cheirar a flores — assinalou o duque.

Acaso pensava que era estúpida? Olivia não pôde evitar sorrir.

— Nada de rosas para você, verdade?

Não lhe devolveu o sorriso.

— Não.

Suspirou ao escutar a veemente resposta.

— Bem, acredito que posso criar algo com o olíbano e as especiarias, e acrescentar um toque de almíscar talvez. Não obstante, querido, é preciso que entenda que terá que ficar perfume.

O duque entrecerrou os olhos, embora ela não tivesse claro se tratava de um gesto de chateio ou de desafio, assim não pôde evitar perguntar-se se devia a que lhe tinha dado uma ordem ou ao feito de que o tinha chamado «querido». Samson Carlisle, duque de Durham, era um homem dominante. Isso sabia por instinto. E aquele ia ser um dia muito longo.

Uma das damas que se encontrava na loja soltou uma súbita e estrondosa gargalhada que fez pedacinhos a intimidade da conversa. Ambos voltaram à cabeça em direção ao som e descobriram que a mais corpulenta e esganiçada das mulheres se inclinou para diante para lhe sussurrar algo ao ouvido ao Normand, que nesses momentos se esfregava a enrugada camisa com a palma da mão e ria de boa vontade, sacudindo a cabeça como se essas damas fossem as criaturas mais extraordinárias de todas quantas tinham posto o pé em Nevam. É obvio, elas não tinham a menor idéia de que o homem tratava por igual a todas as denta. Era um dos motivos pelos que Nevam tinha tão boas vendas.

Com expressão esgotada, Olivia voltou a concentrar sua atenção em Sam.

Se não tivesse sido por ela (pela cativante perfeição de seu rosto, pelo entusiasmo que mostravam seus rasgos enquanto falava do trabalho que adorava, pelo ligeiro balanço de seus quadris e de seus seios sob o encantado embora recatado vestido e sim, também pela sutil fragrância que levava), Sam se teria posto-se a chorar de aborrecimento. Para falar a verdade, não podiam lhe importar menos o perfume e sua história, salvo se a informação podia aplicar-se ao Edmund e à relação que mantinha com sua suposta esposa. Entretanto, dado que era um homem inteligente, compreendeu que era preciso escutar suas explicações e tratar das assimilar, ao menos em parte.

Em realidade, quanto mais a escutava, maior era seu interesse. Essa mulher o fascinava de uma forma que não conseguia entender. Levava seu trabalho muito a sério (possivelmente muito a sério, tendo em conta seu sexo), mas isso lhe resultava quase... Tentador. Era óbvio que sentia paixão pelo perfume, sua história, sua função na sociedade e sua elaboração, cujos detalhes ele não tinha nenhum interesse em escutar; além disso, possuía um sagaz instinto para os negócios que não era habitual nas mulheres. Para ser sincero, começava a admirar a essa mulher, e se a memória não lhe falhava, não acreditava ter admirado em toda sua vida a nenhuma mulher por algo que não fora o aspecto que mostrava quando ia paga-la pelo braço ou na cama. Era uma sensação do mais estranha.

Olivia lhe fez um gesto para que a seguisse até uma escrivaninha esculpida e pintado de branco, depois do qual havia uma série de prateleiras de madeira da mesma cor pegas a uma parede estofada com veludo vermelho. Umas borlas douradas penduravam das esquinas das prateleiras para lhe dar um toque ornamental ao conjunto e para emoldurar várias dúzias de frasquinhos: alguns de cristal transparente e colorido, outros de cerâmica; uns com elaborados desenhos e outros que pareciam adornados com ouro e jóias, embora Sam não tivesse sabido dizer se eram jóias autênticas ou bijuteria. Contudo, a julgar pela clientela, supôs que ao menos parte delas eram genuínas. Deduziu que os frascos continham as distintas fragrâncias do dia. Grunhiu para si mesmo e rogou a Deus que Olivia não lhe obrigasse a cheiraria todas. Ao menos devia dar obrigado pelo fato de que seus amigos não estivessem ali para presenciar aquilo.

— Sente-se, por favor — disse ela com tom agradável ao tempo que o fazia um gesto com a mão para que hospedasse seu enorme figura na diminuta cadeira de veludo vermelho que havia em frente à escrivaninha.

Obedeceu sem pigarrear, mas não pôde evitar perguntar-se como conseguiam as damas francesas com traseiros grandes e enormes aros sentar-se ali. De qualquer forma estava claro que a função da cadeira não era a comodidade, a não ser adornar, e o mesmo podia dizer do resto de objetos da loja.

Olivia se afastou a saia a um lado com mestria e tomou assento com elegância em uma cadeira do mesmo estilo que havia ao outro lado da escrivaninha, antes de atirá-la um pouco para diante a fim de apoiar os pulsos na beirada da mesa.

— Bem — começou, — aqui é onde provamos as fragrâncias.

— Não me obrigará a cheirar todos esses frascos, verdade? — perguntou Sam, assinalando com um gesto da cabeça as fileiras de garrafinhas de fantasia.

Olivia enrugou a testa durante um par de segundos antes de desviar a vista para os frascos que tinha detrás.

— Esses? — Voltou a cravar o olhar nele. — Esses estão vazios. Vendemo-los como complemento dos distintos perfumes criados para cada indivíduo.

— Ah — murmurou ele, incapaz de idear uma resposta melhor.

Sentia-se completamente ridículo.

— Dessa maneira — continuou Olivia, — cada dama ou cada cavalheiro dispõe não só de uma essência única, mas sim, além disso, pode levá-la em um flacon (a palavra que utilizam os franceses para «frasco» ou, no assunto que nos incumbe botellitas de perfume) selecionado pessoalmente e original de Nevam. Todas as casas de perfume de categoria fazem o mesmo.

Incômodado, Sam se esfregou a nuca com a palma da mão. Voltou a olhá-la de novo e se fixou em quão relaxada parecia em seus domínios, sentada com as costas erguida em uma cadeira estofada em veludo. E devia admitir que não tivesse tentado fazer que se sentisse como um estúpido.

— Entendo — comentou ele.

O sorriso que esboçou Olivia, um sorriso de autêntico prazer em que não havia nem rastro de arrogância ou de brincadeira, fez que a boa opinião que tinha dela se incrementasse ainda mais.

— Bem — começou uma vez mais, — tenho umas quantas... — inclinou-se para um lado e abriu uma pequena gaveta que havia sob a mesa da escrivaninha. — amostras aqui. As suficientes para lhe dar uma idéia de qual é nossa oferta nas fragrâncias básicas das que lhe falei faz uns minutos.

Com muito cuidado, deixou uma pequena bandeja de madeira frente a ele. Dentro, inseridos em uns compartimentos especialmente desenhados a tal efeito, havia uma fileira de diminutos frascos quadrados de cristal de uns dois centímetros e médio por cada lado, etiquetados com o nome de cada fragrância. Olivia tirou um deles com dedos ágeis e tirou com muito tato o rolha de cortiça.

— Isto é sândalo. — Entrou duas ou três vezes sob seu nariz. — Seguro que detectou sem problemas seu calor, mas isso não significa que fosse doce... Ao menos até que lhe acrescenta a essência floral do jasmim. Isso incrementa a intensa essência botânica da fragrância.

O que se supunha que devia dizer ele? Não tinha a mais mínima idéia do que significava, mas detectava a essência das flores. Ao menos, podia considerar um progresso. Assentiu e voltou a reclinar-se na cadeira, à espera do seguinte frasco.

— Isto é flor-de-laranja — prosseguiu ela, entusiasmada. — É uma de minhas essências favoritas, em especial quando se mescla com a quantidade apropriada de especiarias.

Sam podia perceber sem problemas a flor -de -laranja, mas não conseguia imaginá-la fragrância da «flor -de -laranja picante», nem que alguém estivesse disposto a ficar esse perfume. Entretanto, sim que se precaveu das mechas frisadas que tinham escapado das tranças femininas e lhe caíam sobre o ombro para acabar aninhados entre as curvas de seus seios, pondo de manifesto a claridade de sua pele. Essa visão obteve que deixasse de emprestar atenção à lição de perfumes.

— das favoritas do Edmund, a água de colônia.

Havia dito algo enquanto lhe punha outro dos frasquinhos sob os narizes, assim Sam cumpriu com sua obrigação e inalou a garrafinha para agradá-la. Tornou-se para trás imediatamente.

— Essa eu não gosto de nada.

— Não? Está bem — replicou ela sem julgar do tempo que lhe punha a cortiça ao frasco para voltar a deixá-lo no lugar que ocupava na bandeja.

— Sobre tudo porque é o favorito do Edmund — acrescentou ele com tom receoso ao tempo que apoiava um cotovelo no braço acolchoado da cadeira e entrelaçava os dedos sobre o regaço.

Ela o olhou com as pálpebras entreabertas e esboçou um sorriso torcido.

— E o do Napoleão?

— Exato.

— Aaah...

Sam desejou saber que pensamentos ocultava ela atrás dessa fachada profissional, mas não tinha nenhuma intenção de perguntar-lhe Olivia continuou sem perder o sorriso e pegou outro frasquinho. O certo era que encontrava essa conversa quase divertida. Algo do mais surpreendente... Já que estava desfrutando da companhia de uma mulher fora da cama.

— Esta é a fragrância especial, uma de meus favoritas, já que possui uma base muito limpa e não é muito doce; poderia ser um perfume em si mesmo.

Conteve a garrafinha com a mão para que ele a cheirasse.

— Detecto o aroma do prego — disse Sam, quase sem pensar.

Não havia dito ela que também levava prego? Devia havê-lo feito, porque seus olhos se iluminaram e assentiu com a cabeça.

— Muito bem, Sam.

Sentiu-se estranhamente orgulhoso de havê-la impressionado.

— A fragrância das especiarias é adequada tanto para as damas como para os cavalheiros. Com um toque de outras essências pode voltar-se mais doce, ou mais sóbria e masculina com um toque de almíscar. Acredito que isso seria o apropriado para você.

— Bem. Perfeito — apressou -se a dizer ele.

Olivia devolveu o frasco a seu lugar e em seguida afastou a bandeja a um lado para cruzar os braços sobre a escrivaninha e olhá-lo aos olhos.

— Está aborrecido, verdade? — perguntou com os olhos entrecerrados e um sorriso travesso.

— Certamente que não.

— Embusteiro — brincou.

Sam se limitou a encolher-se de ombros.

Ela pegou as amostras para as guardar.

— Nesse caso e para economizar tempo, não me incomodarei em lhe mostrar a essência de rosas, já que imagino que sabe como cheira.

— É a favorita de minha irmã — comentou Sam com uma careta ao tempo que negava com a cabeça. — Sempre é possível detectar o instante no que Elise entra em uma habitação, já que seu aroma a precede. Em minha opinião fica muito perfume, mas a verdade é que ela nunca se incomodou em me perguntar o que penso.

Olivia ficou imóvel, com a bandeja na mão e uma expressão de um completo assombro.

— De modo que hoje pensa escolher um novo perfume, não é assim, monsieur Carlisle? — Normand rodeou a vitrine de cristal para aproximar-se deles por fim. — Algo para a primavera?

A interrupção a tinha desconcertado e, por alguma razão que não chegava a entender, isso o irritou sobremaneira. Sam se endireitou no assento e assentiu com a cabeça enquanto ela deixava a bandeja de amostras na gaveta.

— Acredito que é um momento do mais oportuno, já que teremos que assistir a algumas reuniões sociais durante nos próximos dias — replicou Olivia, que já tinha recuperado sua pose agradável quando elevou a cabeça para o Normand para lhe dar um beijo em cada bochecha. — Mas minha querido marido se está mostrando bastante exigente hoje.

— Seriamente?

— Como sempre. — A mulher deixou escapar um suspiro exagerado. — Embora acredite que demos com uma mescla que irá à perfeição.

O francês o observou desde detrás da cadeira da Olivia, com as mãos apoiadas sobre o respaldo e os dedos próximo de seus ombros.

— E qual foi sua eleição, monsieur?

— Uma base especial, é obvio — respondeu Sam em perfeito francês; esboçou um sorriso amável, tal e como supôs que teria feito Edmund, embora se sentisse molesto sem nenhum motivo aparente. — É a fragrância da temporada, não?

— Pois sim, sim que o é.

Estudou ao Normand enquanto a luz do sol que entrava pela janela iluminava seu rosto de meia idade. Sam não acreditava que nenhuma mulher o encontrasse arrumado, mas possuía um caráter encantador, já fora fingido ou não, do que as damas sem dúvida desfrutariam. Mostrava-se como um homem pouco agressivo, quase suave e complacente, algo que provavelmente era necessário na indústria do perfume, onde as mulheres constituíam a maior parte da clientela.

Entretanto, havia algo no francês que o incomodava, embora não teria sabido dizer por que nem o que era com exatidão. Tinha uns olhos um pouco afundados, escuros e sagazes; um nariz bulboso, a linha do nascimento do cabelo muito alta e um queixo quase inexistente, embora a grossura de seu pescoço ajudasse a dissimular esse defeito em particular. Não era gordo, mas alcançava certa dimensão na cintura que o fazia parecer bem alimentado.

Não, não era o aspecto ordinário do homem o que o desconcertava, a não ser outra coisa, algo que não podia definir, e supôs que era sua incapacidade para fazê-lo o que mais lhe incomodava. Além disso, mostrava-se quase possessivo com a Olivia. E isso também o chateava. Não pôde evitar perguntar-se o que tinha pensado Edmund a esse respeito, ou se seu irmão tinha chegado a detectá-lo.

— Bom, suponho que deveríamos ir a comer já, carinho — disse Olivia depois de uma breve e incômoda pausa.

Fez gesto de ficar em pé e Normand a sujeitou por um cotovelo imediatamente para ajudá-la.

Sam se levantou imediatamente e, sem pensar-lhe duas vezes, estirou um braço para apanhar uma das mãos femininas.

— Quer que procuremos uma cafeteria com terraço, Livi? — perguntou com seu tom mais autoritário. — Nos desculpe, por favor, Normand.

Ela vacilou um instante e o olhou com o cenho franzido.

— É obvio — replicou Normand, que soltou o cotovelo de sua chefa rapidamente.

O francês não perdeu o sorriso, mas Sam teve a impressão de que se tornou suspicaz e pensativo de repente. Em sua testa apareceram umas ligeiras rugas enquanto retrocedia um passo para que Olivia pudesse afastar do escritório. Ela se recolheu as saias e, sem olhar a nenhum deles, caminhou para a saída da loja.

— Faz um dia precioso, carinho, e estou morta de fome — assinalou com um estranho tom alegre.

— Normand — despediu -se Sam antes de situar-se ao lado da Olivia, que o aguardava contemplando a ocupada rua através do cristal da porta.

Tirou-a do cotovelo, tal e como tinha feito o francês, mas a manteve pega a ele enquanto abria a porta para que passasse, sabendo que Normand tinha o olhar cravado neles enquanto saíam à rua.

 

Normand guardava um segredo. Um segredo maravilhoso. Um segredo muito, muito importante e potencialmente lucrativo. E seria do mais divertido chatear a condessa com ele... Somente chateá-la, é obvio, já que não desejava desvelá-lo tudo e permitir que tivesse mais controle sobre toda aquela estratagema do que já tinha. Queria ser ele quem estivesse ao mando, para variar. E, mon Dieu, a informação lhe tinha caído em cima como se caído do céu.

Depois de esboçar o primeiro sorriso genuíno em muitas semanas, Normand puxou da corda da campainha da suíte da condessa Renier, situada no último andar do hotel Imperatriz. Alojava-se ali somente quando visitava Paris e, até onde ele sabia, ainda não tinha retornado ao campo da última vez que falou com ela, fazia mais de três semanas.

Segundos depois, a porta se abriu com um rangido e seu mordomo, Rene, convidou-o a entrar com um gesto formal do braço.

— Madame se encontra no penteadeira, monsieur Paquette, mas estou seguro de que o receberá se a espera.

Se a esperava? Esperaria ali até o segundo advento de Cristo se fazia faltar para poder ver a expressão de seu rosto quando lhe contasse o que sabia. A vida não poderia lhe dar uma satisfação maior que essa.

— Esperarei-a — informou-lhe com insolência ao homem alto e grisalho. — E eu gostaria de tomar um café.

— Certamente — replicou Rene de maneira educada. — por aqui.

Normand seguiu ao corpulento mordomo até a sala de estar da condessa, uma estadia saturada que ela tinha adornado com um alarde de brilhantes tons rosados e rosas vermelhas. Embora a condessa ainda conservasse sua beleza depois de tantos anos e se cuidava muito para manter esse ar de sofisticação e elegância em tudo o que fazia e parecia, ao Normand provocavam náuseas os lugares nos que vivia, tanto em Paris como no campo, sempre que se via obrigado a sentar-se com ela para fofocar em meio de toda aquela esplendorosa estridência.

Esse dia, a dama tinha deixado as janelas entreabertas para permitir a entrada da brisa e tinha colocado rosas vermelhas em um vaso de cristal sobre a mesinha de chá, assim era evidente que esperava receber visitas. Os móveis se aglomeravam na pequena sala, já que a condessa tinha acrescentado um novo canapé rosa estofado de veludo desde que ele a visitasse por última vez. Era algo de tudo desnecessário, em sua opinião, e sem dúvida pretendia fazer jogo com o enorme sofá que ocupava o centro da habitação e cujo estofo estava composto pelas rosas vermelhas maiores e horrorosas que tinha visto jamais. Distintas paisagens florais ocupavam quase o total do espaço disponível nas paredes, todos emoldurados no mesmo tom rosa que as grosas borlas que sujeitavam as cortinas de veludo vermelho. E todo o conjunto se achava sobre um quilômetro ao menos de grosa atapeta rosa.

Como de costume, Normand tomou assento em uma das poltronas estofadas a raias rosa e brancas que havia frente ao sofá e começou a tamborilar com os dedos em um gesto de impaciência. Rene retornou acontecidos um par de minutos e depositou uma bandeja prateada frente a ele, na mesinha de chá, antes de pegar o recipiente de porcelana e servir seu fervente conteúdo em uma das dois xícaras de cor rosa; em seguida, com uma rígida reverência, abandonou a sala. Normand acrescentou açúcar e leite a seu gosto. Sabia com certeza que a condessa o faria esperar; sempre o fazia. A mulher jamais se levantava antes do meio dia e passava quase duas horas em frente à penteadeira, um fato que Normand conhecia porque em uma ocasião tinha tido a audácia de visitá-la as onze e tinha sido informado bruscamente de que a senhora estava dormida e de que jamais recebia visitas antes das três.

Bom, esse dia tinha chegado bastante antes das três, já que desde que começaram a trabalhar juntos (se a gente podia utilizar essa palavra para descrever sua peculiar colaboração) tinham-lhe outorgado privilégios dos que outros não gozavam, sobre tudo quando dispunha de informação vital, como era o caso.

Entretanto, essa tarde estava esperando mais do habitual. Depois de considerar a idéia de tomar uma terceira xícara de café e decidir-se a não fazê-lo, já que pedir permissão para utilizar seu quarto de banho privado seria um motivo de vergonha, meteu-se a mão no bolso esquerdo da jaqueta e tirou o relógio dourado que lhe tinha agradável sua avó. A uma e meia. Levava ali quase quarenta e cinco minutos. Sentia-se do mais irritado, mas chegou à conclusão de que a encantadora condessa se repreenderia por havê-lo feito esperar quando descobrisse a importância crucial de sua visita. Normand teve que reprimir o impulso de esfregar as mãos a causa do regozijo.

Por fim se escutaram passos no corredor que havia a suas costas. Normand deixou a xícara e o pires sobre a bandeja e ficou em pé imediatamente antes de voltar-se para a entrada. Estirou-se a jaqueta do traje justo no momento em que Rene entrou na sala de estar e anunciou em tom formal à condessa, como se o convidado fora um maldito dignatarios e não um simples vendedor de perfumes. Embora tenha que admitir, disse-se com orgulho, que ninguém que freqüentasse a loja descreveria Nevam e seu estabelecimento como simples.

Enlaçou as suarentas mãos às costas, ergueu os ombros com aprumo e compôs uma expressão séria e agradável enquanto a condessa do Renier entrava na estadia como se flutuasse em uma rajada de ar quente e perfumado, com seu habitual sorriso arrogante plantado nesses lábios pintados de vermelho. Para falar a verdade, estava tão linda como sempre: embelezada, maquiada e perfumada da maneira apropriada para receber uma visita em uma tarde primaveril.

Normand bateu os talões, concentrado em sua própria pose, em sua expressão e, sobre tudo, em manter as mãos unidas depois das costas para não incomodá-la; a condessa lhe tinha explicado a última vez que estiveram juntos que ele falava muito com as mãos. Pelo general, Normand detestava a essa mulher, sobre tudo por esse ar de superioridade com o que o tratava. Entretanto, era ela quem levava as rédeas de sua incomum relação, e não tinha podido fazer nada para trocá-lo. Ao menos até esse momento.

— Normand — saudou -o a dama, que inclinou a cabeça enquanto se aproximava de seu lado com expressão agradável.

Lhe fez uma reverência e depois tomou a mão suave e de manicura perfeita que lhe ofereciam para levar-lhe aos lábios.

— Madame comtesse, esta tarde está deslumbrante, como de costume.

— Merci — replicou ela inclinando a cabeça.

Normand se afastou.

— Trago notícias.

— Seriamente? Nesse caso, senta-se -se, senta -se.

Assinalou-lhe a poltrona a fim de lhe dar permissão para voltar a tomar assento.

Normand se acomodou de novo, embora permanecesse erguido e com os ombros tensos por causa da antecipação.

A condessa seguiu seu exemplo e se sentou com elegância no sofá que havia em frente. Alisou-se as amplas saias de seda do vestido até que ficaram perfeitamente situadas ao redor de seus tornozelos e depois enlaçou as mãos sobre o regaço para lhe emprestar toda sua atenção.

— Bem, meu queridíssimo Normand — disse com um exagerado suspiro, — quais são essas... Notícias que tem para mim?

Graças a um rigoroso autocontrole, Normand conseguiu esboçar um sorriso distinguido e se manter calado o tempo necessário para esclarecer as idéias... E ser ele quem a fizesse esperar por uma vez.

— Esta manhã tive uma conversa do mais interessante com monsieur Carlisle, em Nevam.

Durante alguns segundos, a dama pareceu confusa e suas perfiladas sobrancelhas se uniram brevemente. Em seguida relaxou contra o encosto do sofá e elevou o queixo em um pequeno gesto de beligerância.

— Equivoca-se. Edmund está em Grasse — replicou ela com um tom autoritário um pouco mais frio. — Recebi sua carta faz tão só três dias, e não dizia nada de retornar. Ao menos, não tão logo.

Normand não tinha pensado nisso, e quase se deu de patadas por não ter considerado sequer a possibilidade de que eles dois mantiveram uma comunicação constante. Mesmo assim, podia tirar vantagem daquilo se ela chegava a suspeitar das intenções de seu querido Edmund.

Reclinou-se no assento, tal e como tinha feito a condessa, e descansou os cotovelos nos braços da poltrona antes de entrelaçar os dedos por diante do abdômen.

— Desculpe madame, mas não estou equivocado. Edmund está aqui, em Paris, em Nevam. Retornou ontem, com Olivia. — Fez uma pausa com a única intenção de enfatizar suas palavras e depois se encolheu de ombros para acrescentar: — É evidente que se entenderam.

— E o que? — espetou-lhe a condessa imediatamente. — Obrigou-o a retornar com ela?

— Não tenho a menor idéia — disse.

E era certo. Mas sabia, ou ao menos suspeitava que houvesse algo mais relacionado com a volta do homem, algo que não lhe mencionaria à mulher que estava sentada frente a ele. Guardar-se certas coisas lhe proporcionaria uma vantagem que sem dúvida poderia utilizar em um futuro próximo.

Era evidente que ela tratava de assimilar a informação, debatendo-se entre várias possibilidades: a de acreditar ou não em sua palavra; a de expulsá-lo dali imediatamente ou indagar em busca de respostas. Não sabia se partia dali imediatamente para ir à busca do Edmund, pilhá-lo despreparado e costurá-lo a perguntas sobre sua inesperada volta com a Olivia ou tomar-se seu tempo para refletir sobre as opções que tinha e pensar-se bem as coisas, como faria uma dama inteligente e culta que não se sentisse absolutamente intimidada.

Como era de esperar, ganhou a boa educação.

— Bem, e o que lhe disse? — inquiriu uns instantes depois.

Normand deixou escapar um longo suspiro, quase alegre ante a possibilidade de lhe desordenar as plumas à condessa.

— Muito pouco. Quase não passei cinco minutos com o feliz casal na loja esta manhã, enquanto monsieur Carlisle escolhia um novo perfume para esta primavera.

Ela sorriu com ironia.

— Feliz?

Essa era a pergunta que esperava. Franziu o cenho deliberadamente e assentiu.

— Em realidade, agora que o penso, eu não diria que parecessem exatamente felizes — comentou com tom pensativo. — Mas bem... — Elevou o olhar um instante até o teto dourado e vulgar antes de tornar a cravá-lo nela. — Parecia que tivessem chegado a uma espécie de... Novo acordo entre eles. Ou possivelmente para eles.

Era óbvio que a condessa não tinha nem idéia do que queria dizer.

— Um acordo — repetiu, olhando -o como tivesse um cérebro de mosquito e não soubesse explicar-se com claridade.

Normand sabia que desfrutaria recordando esse momento o resto de sua vida.

— Algo trocou entre eles. Não podiam tirá-los olhos de cima. — lambeu-se os lábios e acrescentou com mordacidade: — Ou, para ser mais preciso, ele não podia afastar os olhos dela.

A condessa não se moveu, não trocou sua expressão, nem sequer piscou. Limitou-se a olhá-lo absolutamente silencio enquanto passavam os minutos. Normand aguardou sem saber muito bem que reação devia esperar; não obstante, sabia que ela tinha digerido e processado a informação, todas suas possíveis facetas e implicações.

— Pareceu-me que você devia sabê-lo disse com voz grave e séria.

Por fim, a condessa respirou fundo e seus lábios vermelhos esboçaram um sorriso, embora Normand soubesse que era falsa pela rigidez de sua mandíbula... E pelo fato de que seu olhar seguia sendo dura implacável e calculadora.

— Por mais interessante que seja esta notícia, Normand, custa-me muito trabalho acreditar que a pequena e adorável Olivia, embora seja muito linda, tenha conseguido apanhar o interesse de Edmund. Se não o conseguiu antes das bodas, por que ia fazer o agora? — Sacudiu a cabeça como se queria convencer-se a si mesmo de quão absurda era semelhante possibilidade. — Não, o que você... Sugere é impossível.

Normand enfrentou as pontas dos dedos de ambas as mãos e assentiu com a cabeça.

— Consta-me que tem você razão, madame comtesse.

— É obvio que tenho razão replicou ela com uma exasperação evidente sob suas secos maneiras.

— Contudo... — continuou Normand, — entraram a noite juntos em sua casa.

Isso a enfureceu; Normand pôde ver como se continha a força de autocontrole e como seu rosto, perfeitamente empoeirado, ruborizava-se até as raízes de seu brilhante e trancado cabelo loiro. Mesmo assim, não podia estar seguro de se esse súbito arranque de fúria se devia à delicada informação que lhe tinha proporcionado ou ao feito de que tivesse tido a audácia de lhe dizer algo assim sabendo do que ela sentia pelo Edmund. De qualquer forma, a reação da dama o agradou em extremo, e isso era suficiente.

— Não sou nenhuma estúpida, Normand — disse -lhe ela a modo de advertência, desafiando-o com o olhar.

Ele se levou a mão ao seio e compôs uma falsa expressão de consternação.

— Jamais me ocorreria pensar tal coisa. Somente vim para lhe contar o que sabia.

— E é óbvio que não é muito.

Um comentário do mais ridículo, já que tinha ido ver a com o que ambos sabiam que eram notícias extraordinárias. Entretanto, exibindo sua sagacidade habitual, Normand mordeu a língua e deixou passar a grosseira observação.

A condessa pegou a jarra de porcelana para servir uma xícara de café, que já devia estar frio. Normand viu como acrescentava dois colherinhas de açúcar e teria podido jurar que lhe tremiam as mãos. Ver a condessa do Renier nervosa era toda uma novidade, e uma experiência do mais satisfatória.

— Bem, e o que acredita que devemos fazer a respeito? — perguntou há segundos dama mais tarde.

Essa pergunta o surpreendeu. A condessa tinha por costume não solicitar jamais sua opinião sobre algo que não estivesse relacionada com uma nova fragrância para seus saquinhos. E não recordava nenhuma ocasião em que lhe tivesse pedido conselho. Nesse preciso instante, Normand foi consciente do alarmada que se sentia a dama.

Inclinou-se para diante na poltrona e enlaçou as mãos antes de apoiar os cotovelos nos joelhos.

— Eu diria madame comtesse, que se ele veio aqui sem que você saiba é que esconde algo.

— Tolices — espetou ela antes de deixar a xícara e o pires sobre a bandeja com tal descuido que se produziu um estrépito.

— De qualquer forma, ele está aqui com sua esposa, quem ao parecer segue acreditando que estão casados de verdade, e você não foi informada disso. — calou-se de novo para estudar sua reação com atenção. — Algo anda mal.

A condessa tragou saliva com força e pegou de novo sua xícara, embora não bebeu.

— Sabemos que foi buscá-lo — continuou Normand em voz mais baixa. — Não lhe ocorreu pensar que poderia buscá-lo em Grasse?

— É obvio que sim — assinalou a dama, que franziu o cenho ao baixar o olhar para observar o conteúdo da xícara antes de deslizar o polegar pela beirada do pires. — Mas jamais imaginei que Edmund responderia a sua súbita e inesperada aparição seguindo a de volta até aqui. Por que ia fazer algo assim?

Era o comentário mais sincero e franco que tinha expressado diante dele. Era evidente que em sua mente buliam muitas possibilidades e que nenhuma delas era positiva; em caso contrário, teria mantido a pose de sofisticado cinismo muito melhor que nesses momentos.

— A verdade é que não sei — respondeu ele ao tempo que se esfregava as Palmas. — Mas acredito que deveríamos averiguar por que não se pôs em contato com você. Poderia haver uma boa razão...

— Estou segura de que a há — interrompeu ela, que recuperou o ar distinto imediatamente. — Mas não quero que você lhe diga nada. De momento.

— Certamente — aceitarei Normand com um sorriso. — Nem sequer lhe fiz saber que encontrava algo estranho em sua volta, e ele não me deu razão alguma para questionar suas intenções.

— É obvio que não. É muito inteligente para isso — replicou a condessa ao tempo que depositava a xícara de café frio sobre a bandeja uma vez mais.

Normand se esforçou por não mostrar a intensa fúria que o tinha invadido de repente ante a calculada insinuação da dama sobre sua inteligência... Ou mas bem, sobre sua intuição, que funcionava tão bem como sempre. E algum dia, de algum modo, utilizá-la-ia contra ela. Entretanto, por desgraça, esse dia não chegaria muito logo.

— Acredito que deveria vê-los juntos — assinalou com um nó na garganta. — Ver o que diz Edmund quando ela está a seu lado e como reage Olivia ante ele. Dessa maneira descobrirá mais costure que lhe enviando uma mensagem para reunir-se com ele em privado.

A condessa respirou o bastante fundo para elevar os ombros e encher seu busto; depois sorriu de novo e recuperou sua pose arrogante como se jamais tivesse albergado a menor duvida com respeito a nada.

— Já tinha pensado nisso, Normand — explicou enquanto deslizava a ponta dos dedos pela cintura do vestido. — na sábado de noite irei à festa de compromisso da comtesse Brillon. Olivia estará ali, e se seu «marido» se encontra na cidade, seguro que a acompanha.

Normand sabia que isso era certo. A condessa Brillon era uma das mais ricas e devotas denta de Nevam. Olivia receberia um convite e, posto que tivesse voltado para a cidade, assistiria sem lugar a dúvidas.

— Mas seguro que ela espera vê-la a você ali, e o mesmo pode dizer -se do Edmund — sugeriu com pés de chumbo.

A dama sorriu de orelha a orelha.

— O que poderia fazer ou dizer Edmund diante de uma multidão de pessoas? — encolheu-se de ombros e sacudiu a mão em um gesto que pretendia descartar suas preocupações. — Não pode esconder-se de mim para sempre. E se não assistissem, eu teria a segurança de que algo anda mal. Não posso tirar conclusões precipitadas a respeito este novo... Giro dos acontecimentos me apoiando unicamente em sua palavra e seu bom julgamento.

A mulher tinha razão, como de costume, e Normand sentiu um novo golpe de fúria. Cachorra condescendente...

A condessa ficou em pé de repente em um claro sinal de despedida, e a Normand não ficou mais remedeio que seguir seu exemplo; embora, por estranho que parecesse, não pôde evitar fixar-se em que seu vestido verde lima parecia desafinar em extremo em uma habitação cheia de tons rosa e rosas vermelhas. Não teria sido capaz de criar uma mescla de essências apropriada para ela nesse momento nem que sua vida tivesse dependido disso.

— Deveria partir já — disse com um sorriso educado.

— Certamente, querido Normand.

Baixou a vista até o serviço de café e se esfregou a bochecha com a palma da mão, vacilante pela primeira vez essa tarde; contudo, ao final decidiu que essa mulher já o tinha enfurecido o suficiente. Daria-lhe um pouco de seu próprio remédio.

— Sabe? — disse em voz baixa, — sempre existe a possibilidade de que Edmund tenha conseguido o dinheiro de alguma forma e que cria que a Casa de Goyance está ao alcance de sua mão.

Esqueceu mencionar que seu querido e adorado Edmund poderia estar guardando o dinheiro, e os benefícios colhidos da jovem herdeira a que tratava de extorquir essa vez, para si mesmo. Uma dedução razoável se tinha em conta que o homem tinha retornado a Paris sem notificar-lhe à condessa.

Entretanto, não precisava mencionar esse aspecto. Voltou a observar o rosto da dama e percebeu em seu olhar que estava furiosa de novo... Depois de notar um breve hesitação. Uma vez mais, conteve o regozijo do triunfo. Ela não tinha pensado nisso.

Seus adoráveis olhos azuis se entrecerraram; as suspeitas e a irritação que a embargavam se converteram de repente em uma força quase evidente.

— Já há dito suficiente por hoje, Normand — advertiu -lhe a dama com suavidade, já sem rastro de sorriso alguma.

Lhe deu a razão com um assentimento de cabeça.

— Peço-lhe desculpas. Minha única intenção era lhe informar de meus pensamentos.

— Assim o tem feito. O agradeço. Agora estou cansada e quero me deitar um momento.

Cansada? Ao parecer, o passeio pelo penteadeira tinha resultado exaustivo.

A condessa estendeu a mão para que a beijasse e Normand a agradou depositando um breve beijo sobre seus nódulos antes de voltar a ficar em pé com os braços aos flancos.

— Bem, pois se me inteiro de algo mais...

— Deverá contar me o imediatamente, sei — terminou por ele ao tempo que se recolhia a saia para dirigir-se com toda elegância para a porta da sala de estar. — Obrigado, Normand. Rene o acompanhará até a saída.

Normand ficou onde estava uns instantes mais, escutando os passos femininos que se afastavam e apertando os punhos sem dar-se conta. Entretanto, enquanto caminhava para a porta onde o esperava o obediente e inexpressivo mordomo com seu chapéu de feltro na mão, Normand riu por última vez para si mesmo. Por Deus, se ela tivesse sido um pouco mais amável um pouco mais generosa em termos econômicos, lhe teria contado tudo. Tal e como estavam às coisas, teria renunciado a um ano de salário para poder assistir à festa de compromisso da comtesse do Brillon na sábado seguinte, onde essa mulher altiva e calculadora que acreditava poder controlá-lo todo se enfrentaria não com seu queridíssimo Edmund, mas sim com seu irmão: o autêntico Samson Carlisle, duque de Durham. A última pessoa na terra a que esperaria ver na França; a única pessoa a que não quereria voltar a ver jamais.

Deixou atrás o atalho do jardim para entrar no agitação da rua e se deteve perto do carro de um vendedor de flores, onde fechou os olhos e respirou fundo para inalar o afresco e doce perfume. Logo, elevou o rosto para o sol.

Para falar a verdade, aquele era um dia maravilhoso.

 

Olivia adorava quase qualquer tipo de festa. Pelo general, os ornamentos proporcionavam um ambiente perfeito para ver e ser visto, no que podia promover seu negócio e as novas essências da temporada. A velada dessa noite, entretanto, não se pareceria em nada a nenhuma das anteriores. Não só porque teria que atuar diante de diferentes conhecidos, clientes e a elite da sociedade, mas também porque seu companheiro de farsa era o homem mais lhe exasperem que tinha conhecido em sua vida.

Os últimos dias juntos tinham sido do mais interessantes. Tinham conversado sobre várias ocasiões, quase sempre sobre assuntos corriqueiros, embora tivesse conseguido esclarecer o que mais a tinha desconcertado de quanto lhe tinha contado: tinha uma irmã. Ou, para ser mais precisa, Edmund e ele tinham uma irmã; uma irmã cuja existência seu marido jamais tinha mencionado. Embora levasse dias lhe dando voltas, ainda não entendia por que o tinha feito. O tinha comentado a Sam, e segundo ele, Edmund o tinha oculto porque não queria compartilhar seu passado com ela. Isso a tinha deixado muito frustrada, mas devia admitir que quanto mais conhecesse Sam, mais convencida estava de que seu marido era um embusteiro e um enganador que somente desejava seu dinheiro. Dizer que se sentia humilhada, enganada e, sim, também estúpida por ter caído nas redes de semelhante estelionatário, teria sido ficar muito curta. Desde o começo, do momento em que Edmund a abandonou, tinha albergado a esperança de estar equivocada.

Embora lhe tivesse explicado que sua irmã Elise, de vinte e sete anos, casou-se com um importante latifundiário e vivia no campo dedicada a cuidar de seus quatro filhos, Sam tinha evitado qualquer questão pessoal e não lhe tinha formulado nenhuma pergunta enquanto ela trabalhava na loja. Entretanto, negava -se a afastar -se de seu lado e essa atenção constante tinha começado a curvá-la; não porque fizesse ou dissesse algo particularmente irritante, mas sim porque sua simples presença a distraía muitíssimo.

O instinto lhe dizia que seguia sem confiar nela. Além disso, não lhe tirava os olhos de cima, como se esperasse que algum de seus atos ou palavras revelassem de forma inadvertida suas más intenções. Entretanto, Olivia não lhe tinha dado motivos para suspeitar de seus argumentos e tinha a impressão de que nos últimos dias tinham conseguido alcançar certo grau de companheirismo. Essa noite, não obstante, seria uma prova crucial. Muitos dos assistentes à festa dariam por feito que ele era Edmund, fariam-lhe perguntas e, talvez, revelariam informação importante sobre seu irmão que ela desconhecia. A interpretação que teriam que levar a cabo para descobrir o paradeiro do Edmund estava a ponto de começar. Ao menos, isso esperavam.

Sam a seguia de perto nesse instante, enquanto descendiam as escadas da carruagem de aluguel e começavam a caminhar em silencio para as enormes leva principais da fabulosa propriedade da condessa Louise de Brillon, localizada a vários quilômetros ao oeste de Paris. O nervosismo que a embargava se incrementava com cada passo que davam pelo atalho pavimentado que serpenteava através da grama recém talhada, as coloridas roseiras e as buganvillas, que despediam um sedutor aroma floral. O ambiente da noite estava carregado de espera e calor. As estrelas do céu mal se distinguiam sobre a brilhante iluminação da casa; as risadas, a música e o murmúrio das conversas aumentavam conforme se aproximavam das portas.

Olivia se tinha embelezado com um de seus melhores vestidos de noite, uma custosa criação de cetim bordado em tons escarlate e ouro. O traje levava uns aros enormes, um sutiã muito ajustado e um decote baixo e quadrado que ressaltava o tamanho de seu busto, embora uma magra franja de encaixe dourado transparente ocultava a maior parte do vale entre os seios. Os bordados de flores que adornavam a barra do vestido e as mangas três quartos foram jogo com os detalhes do leque de marfim que levava. Para completar sua aparência, pôs-se um conjunto de brincos e pendentes longos de rubis, e se tinha feito um suave recolhido de cachos no cocuruto.

Sam a tinha observado atentamente para avaliar cada um dos aspectos de sua aparência com calculada deliberação quando por fim se apresentou ante ele antes de sair. Olivia sabia que lhe tinha dado sua aprovação, embora não havia dito nada em particular a respeito da eleição do vestido nem sobre sua aparência em geral. Por sua parte, ele estava magnífico com o traje formal de noite. Pôs-se um traje negro azeviche de corte impecável que destacava ainda mais graças à camisa branca de seda com séries, ao pescoço e os punhos brancos da jaqueta e ao colete cruzado que delineava os músculos de seu peito. Não recordava ter visto o Edmund tão bonito jamais. Não obstante, o corte de cabelo de Sam lhe dava um ar distinto; levava-o mais curto que seu marido e o tinha penteado para trás, longe do rosto, o que proporcionava uma vista perfeita de seus rasgos cinzelados, de seus escuros olhos castanhos e de sua expressão perspicaz. Isso também há preocupava um pouco, já que Edmund sempre parecia de bom humor, sobre tudo em público. Para que seu plano funcionasse, seria necessário recordar a Sam que devia fazer o mesmo.

Tinha estado em casa da condessa em várias ocasiões, a maioria relacionadas com o suntuoso gosto em perfumes da dama e seu desejo de provar as últimas fragrâncias na comodidade de seu luxuoso salão. Olivia sempre tinha agradado à mulher, em parte porque lhe caía bem, mas também porque era uma das melhores denta de Nevam e sua influência entre os aristocratas franceses despertava um contínuo interesse por seu estabelecimento. As aquisições da condessa de Brillon rivalizavam com as da imperatriz Eugenia. Era muito provável que essas duas mulheres comprassem os mais caros perfumes, saquinhos, sai de banho e azeites em maior quantidade que o resto da clientela em seu conjunto.

Essa noite, Olivia notou imediatamente que a condessa tinha embelezado o interior de sua propriedade para a festa acrescentando adornos dourados e laços verde azulados ao redor dos acertos florais e as toalhas que encaixavam a perfeição com o estilo neo renascentista dos móveis e com as grosas e coloridos tapetes orientais.

Muitos dos convidados se encontravam já ali quando Sam e ela entraram por fim no gigantesco salão de baile. Através de uma neblina de fumaça e risadas, do aroma da comida e o intenso aroma dos perfumes, Olivia divisou a condessa e a seu prometido ao pé da escada, saudando a elite da sociedade parisiense a sua chegada.

Sam a sujeitou com suavidade por um cotovelo para guiá-la para a fila de entrada numa tentativa de apressar as apresentações antes de mesclar-se com a multidão. Ela o seguiu sem pigarrear, embora compreendesse nesse preciso momento que levar a cabo essa farsa lhes resultaria muito mais difícil do que tinham planejado. Durante os últimos dias, tinha-lhe proporcionado a Sam uma breve descrição das pessoas que estariam ali, da aparência e as excentricidades, tão usuais como não, daqueles com quem teria que conversar. Mesmo assim, o homem distinto e incrivelmente arrumado, que nesses instantes permanecia atrás dela com ar frio e decidido, não se comportava absolutamente como seu marido. Os convidados dessa noite tomariam pelo Edmund, mas quanto mais o conhecia Olivia, mais fácil lhe resultava advertir as diferenças entre ambos. Sua aparência era idêntica, mas eram quase opostos em todos outros aspectos. Sam teria que demonstrar uma capacidade de interpretação notável a fim de não levantar suspeitas e fofocas. Olivia só indicava para que pudessem mesclar-se com outros sem despertar muita atenção ou especulações.

Descobriu imediatamente que isso não ia ocorrer. No instante em que pisaram no tapete vermelho da escada que conduziam ao salão de baile, loja de comestíveis de conversas e de casais que dançavam, a atmosfera pareceu congelar-se a seu redor. As cabeças se voltaram e começaram os sussurros, que se escutavam inclusive por cima da valsa do Chopin interpretado pelo excelente sexteto da orquestra. O ambiente se voltou subitamente tenso por causa da espera.

— fixaram -se em nós — sussurrou Olivia apertando o leque fechado que levava a cintura.

Sam segurou seu cotovelo com firmeza enquanto baixava a vista até seu rosto.

— fixaram-se em ti, e todos esses homens que olham com a boca aberta morrem de inveja ao ver que te levo do braço. — Fez uma pausa antes de acrescentar em tom pensativo: — Oxalá meus amigos estivessem aqui para presenciar este momento.

— Amigos?

Ele esteve a ponto de soltar um bufo, mas voltou a centrar sua atenção na multidão enquanto descendiam os degraus.

— Sim, Olivia, por mais escandaloso que seja meu passado, sigo tendo amigos.

Olivia piscou um tanto surpreendida pela irritação que destilava seu tom e pela intrigante alusão a um escândalo que não lhe tinha mencionado. Não obstante, podia referir-se sem mais às vergonhosas temeridades de seu irmão. De qualquer forma, o mais importante era que ela não tinha pretendido insultá-lo e necessitava que ele soubesse.

— É obvio que tem amigos — burlou -se em voz baixa ao tempo que se inclinava para ele. — Eu conheci um deles, recorda? Além disso, jamais teria pensado o contrário.

— Não? — inquiriu ele sem olhá-la.

Ao Olivia deu a impressão de que o duque estava pensando em outra coisa quando se deteve dois degraus por cima do salão de baile para inspecionar aos convidados da condessa de Brillon. Ela, entretanto, estava mais interessada em centrar a atenção do homem nela e na conversa que mantinham nesses momentos.

— Que escândalo poderia ser tão grande para fazer perder a seus amigos?

Ele voltou à cabeça imediatamente para olhá-la e a estudou com o cenho franzido.

Olivia aguardou sem lhe tirar a vista de cima, sabendo de que logo teriam que falar com a condessa.

— Que escândalo? — perguntou de novo segundos mais tarde, com a esperança de não ter parecido muito premente.

De repente, o duque baixou o olhar até seus seios e há observou o tempo suficiente para que ela começasse a sufocar-se. Em seguida voltou a olhá-la aos olhos.

— Esta noite está muito linda, Livi — murmurou com uma expressão mais suave. — O escândalo é que meu irmão extorquisse a uma dama tão extraordinária em todos os aspectos. Edmund é um estúpido.

Olivia notou que lhe ruborizavam as bochechas e que lhe secava a boca. O sufoco que tinha sentido instantes atrás se converteu em um fogo que se estendeu entre eles e a deixou sem fôlego antes de transformar-se em um estranho nervosismo, quase em antecipação. Tinha-a adulado e desconcertado há um tempo, e em algum recôndito lugar de sua mente surgiu à idéia de que não só o tinha feito com toda deliberação, mas também com a maior honestidade. Deu-se conta nesse preciso instante de que jamais a tinha cortejado um homem que lhe fizesse sentir o que o duque de Durham conseguia com um simples olhar e um par de palavras. Demorou uns segundos em controlar o desejo de inclinar-se para ele e beijá-lo ali mesmo no salão de baile, diante de todo mundo. Uma idéia do mais indecorosa olhasse-se como se olhasse.

A boca masculina se curvou uma vez mais em um sorriso eloqüente.

— Também cheira muito bem.

Depois de dizer isso, voltou-se para guiá-la para a anfitriã.

Olivia se repreendeu para seu próprio em um intento por recuperar a compostura com rapidez.

— Descarado — sussurrou depois de aproximar -se dele.

Sam se pôs-se a rir pelo baixo, mas não disse nada mais. E um instante mais tarde, como se fosse à coisa mais natural do mundo, tirou ela para diante e a apresentou como sua esposa à condessa de Brillon, exibindo da elegância e a perícia de um ator consumado. Sua interpretação de Edmund era mais que perfeita. Era absolutamente brilhante.

— Olivia, querida! — exclamou Louise Brillon, que estendeu os braços enluvados para abraçá-la e lhe dar um beijo em cada bochecha antes de olhá-la aos olhos. — Me alegro muito de que tenha retornado. E vejo que trouxeste contigo a seu elegante marido. Uma surpresa maravilhosa.

Sam tomou com delicadeza a mão estendida da dama e se inclinou em uma solene reverencia enquanto a levava aos lábios.

— Madame comtesse, esta noite está deslumbrante — disse com um sorriso arrebatador. — Dou-lhe meu mais sincero parabéns por seu iminente matrimônio. Deve sentir-se muito feliz.

Olivia observou como a condessa, embelezada com um formoso vestido de cetim azul marinho, inchava-se de orgulho e se aferrava ao braço de seu prometido.

— Este homem é uma jóia — replicou com calidez. — Me permita que apresente a monsieur Antonio Salana, meu futuro esposo.

E desse modo, Sam e ela conheceram rico exportador italiano que estava a ponto de converter-se no terceiro marido da condessa de Brillon, um homem de alta linhagem que lhe dobrava a idade e que sem dúvida possuía a riqueza que a dama exigia em um matrimônio.

— Por favor, divirtam-se muito esta noite - disse o homem em francês antes de pôr sua atenção no seguinte convidado da cauda.

— Ah, Olivia, tesouro — acrescentou a condessa quando ambos deram um passo para a pista de baile, — sua tia chegará de um momento a outro. Ficou encantada ao inteirar-se de que tinha retornado à cidade com seu marido. — Apoiou uma mão enluvada sobre um ombro da Olivia. — E, é obvio, todos sabem que ela nunca se perderia uma de minhas festas.

Olivia grunhiu para si mesma. Detestava a irmana de seu defunto padrasto, uma mulher a que gostava de muito beber e que cobiçava a fortuna de sua herança familiar. Entretanto, era sua obrigação fingir justamente o contrário, e jamais mencionaria o muito que desprezava a dama diante de ninguém.

— Esplêndido! — replicou com alegria. — Estou impaciente por vê-la, madame comtesse. — Elevou a vista para Sam, que a estava olhando com um gesto interrogante. — Vamos à por uma taça de champanha, querido?

Ele assentiu e esboçou um sorriso cheia de encanto, tal e como teria feito Edmund.

— Certamente. E depois, dançaremos.

Olivia apoiou a mão em seu braço e juntos se abriram caminho entre a multidão de convidados em direção ao este muro, onde as enormes janelas ovaladas permaneciam abertas para que a brisa da noite refrescasse o abarrotado salão. Tinha criados embelezados com libre escarlate frente a elas, servindo pratos de peças e uma inesgotável oferta de champanha. Sam a conduziu até o canto pegou um par de taças altas de uma bandeja prateada e lhe ofereceu uma delas.

Olivia deu um par de goles para acalmar os nervos e saboreou a bebida, que estava deliciosa. Ele, em troca, limitou-se a sujeitar a taça e a observá-la com atenção, como se não houvesse ninguém mais no salão de baile.

— Quem é sua tia? — perguntou depois de um momento.

Temia que quisesse sabê-lo.

— A irmã de meu defunto padrasto. Uma dama do mais pesada a quem gosta de muito o vinho e os cavalheiros. — Deixou escapar um suspiro. — Estou segura de que a conhecerá esta noite. — Olhou-o de cima abaixo. — de que lhe cairá muito bem.

Sam arqueou as sobrancelhas com um sorriso irônico.

— Seriamente? Nesse caso será um prazer conhecê-la.

— Não, não o será. Pode me acreditar.

O homem voltou a rir pelo baixo, e Olivia descobriu que a fascinava sua risada.

— Então por que crie que gostará?

Ela fechou os olhos e se mordeu os lábios durante um instante. Estava-a chateando a propósito, mas supôs que não podia ocultar-lhe Descobriria-o cedo ou tarde.

— Porque flertou abertamente com meu marido diante de todo mundo, me incluindo a mim — replicou depois de tomar outro comprido gole de champanha.

Semelhante declaração a deixou envergonhada, assim desviou o olhar para a parede norte da estadia para contemplar sem interesse algum a fileira de espelhos com o Marcos dourados que refletiam o variopinto desdobramento de cores e a luz de um milhar de velas.

— Quero dançar contigo — disse Sam um instante depois com um tom grave e quase afetuoso.

Aliviada pela mudança de assunto, Olivia plantou um sorriso em seus lábios e respirou fundo antes de olhá-lo de novo aos olhos.

— Sabe que isso eu adoraria.

A intensidade do olhar masculino apanhou a sua.

— A mim também, Livi.

Ela se estremeceu pela forma em que tinha pronunciado seu nome e a estranha maneira em que a olhava como se compartilhassem um segredo íntimo que somente eles conheciam. Entretanto, isso também lhe recordou qual era a razão pela que tinham ido ao baile essa noite.

Deu um passo para diante para cortar a distância que os separava com o leque em uma mão e a taça de champanha na outra. Ele não se moveu; não lhe tirou os olhos de cima.

— Tenho que te contar algo que provavelmente deveria te haver dito antes — disse -lhe, elevando a voz para fazer-se ouvir sobre os ruídos da festa. — Por muito que... Eu goste de te ouvir me chamar Livi, Edmund se negava a fazê-lo, e todo mundo sabe. — esclareceu-se garganta. — Chamou-me assim diante do Normand o outro dia, embora duvide que ele notasse semelhante detalhe, já que não se relacionava muito com meu marido. Entretanto, não deveria me chamar dessa forma quando houver outras pessoas diante. No caso de.

Sam não reagiu em forma alguma o que significava que ou não a tinha entendido ou ainda tentava fazê-lo. Cada vez mais incômoda Olivia se removeu com nervosismo entre as rodeadas baleias do espartilho e depois tomou outro gole de champanha.

— me deveria haver isso dito antes — replicou ele depois de uns instantes.

Ela deixou escapar um breve suspiro.

— Sei... O que ocorre é que a mim... — Tragou saliva. — A mim...

— Você gosta que te chame assim — terminou em seu lugar, repetindo o que lhe havia dito antes.

Olivia sentiu um desagradável calor e abriu o leque pela primeira vez essa noite para agitá-lo com suavidade diante de seu rosto.

— Sim, admito-o. Assim é como me chamavam minha mãe, meu pai e meus amigos íntimos. Ao Edmund não gostava. Mas quando te ouço dizê-lo... — Olhou a seu redor para comprovar se havia alguém escutando a conversa íntima que compartilhavam e descobriu com alívio que os convidados se comportavam como se eles não estivessem ali. — Não sei. Não posso explicá-lo.

— Eu sim. Resulta-te íntimo.

Olivia voltou a olhá-lo aos olhos.

— Não — explicou ao tempo que negava com a cabeça. — É sozinho mais... Informal, mais familiar, e posto que você e eu seja... Parentes, tem muito mais sentido que me chame assim.

Sam esboçou um sorriso irônico.

— Mas também é mais íntimo, e eu gosto. Por essa razão.

— Acredito que eu gostaria de dançar já — disse Olivia, obrigando -se a sorrir com doçura.

— De qualquer forma — continuou ele, que passou por cima o intento de trocar de assunto, — posto que me pedisse isso amavelmente, deixarei de te chamar Livi quando houver outras pessoas diante. Do mesmo modo, a partir de agora em adiante nunca, jamais, voltará a me chamar «cunhado».

Isso a deixou desconcertada. Era seu irmão político.

— De acordo? — insistiu Sam.

Olivia se mordeu o lábio inferior durante um instante antes de aceitar.

— De acordo.

— Y... — acrescentou ele em voz mais baixa ao tempo que se aproximava o suficiente para que a saia do vestido roçasse suas pernas. — Quando se der uma situação íntima em que possa te chamar Livi, você me chamará Sam. Nada de «cunhado», «Milord» ou «Excelência», e jamais «Edmund». Só Sam.

Olivia só pôde olhá-lo com a boca aberta.

— A menos — assinalou ele enquanto se encolhia de ombros e se tornava um pouco para trás — que prefira te dirigir a mim com algum termo carinhoso, em cujo caso me sentiria do mais... Agradado.

Término carinhoso? Agradado?

De repente, Sam sorriu... Esboçou um sorriso arrebatador que fez que lhe tremessem as pernas.

— Dancemos minha linda Olivia — disse quase em um sussurro.

Sem lhe dar a mais mínima oportunidade de protestar ou dizer nada, tirou-lhe a taça de champanha e a deixou junto à sua, que nem sequer havia mencionado, sobre uma mesa que havia a sua direita. A seguir lhe ofereceu o braço, e Olivia o aceitou sem pensar-lhe duas vezes.

Conduziu-a para o centro da pista de baile enquanto ela rendia o leque. Instantes depois se encontrava entre seus braços e girava ao compasso de uma formosa valsa interpretada à perfeição.

Quase não era consciente de que havia muitas pessoas observando-os, embora supusesse que deviam resultar um casal bastante chamativo, em especial dada à estatura de seu suposto marido, a qual, por sorte, podia ajustar-se sem sentir-se muito afligida. Samson não afastava a vista dela enquanto a guiava ao ritmo da música. Era um bailarino maravilhoso, e isso pôs uma vez mais de manifesto as diferenças entre esse homem e seu marido. Edmund dançava tão bem como qualquer, mas Sam estava concentrado, absorto nela; seu marido freqüentemente parecia pensar em outras coisas, como se tivesse preferido alternar com outras pessoas. Quanto mais conhecia esse homem, mais lhe preocupava a relação que tinha mantido com o Edmund.

— me fale de sua família — sussurrou-lhe Sam ao ouvido.

Ela se tornou um pouco para trás, surpreendida.

— De minha família?

O homem esboçou um sorriso pícaro.

— Digamos que estou muito mais interessado em seu passado que nos eflúvios do perfume da temporada.

Olivia sorriu.

— Não são eflúvios, querido, mas sim essências.

— Ah. Sim, certamente.

Fez-a girar ao compasso da música, embora Olivia se desse conta de que cada vez se aproximavam mais às portas da terraço, algo que a alegrou sobremaneira. Necessitava com desespero um pouco de brisa fresca.

— Bom, já que falamos do assunto, que perfume leva esta noite? — perguntou ele instantes depois.

Olivia sabia que lhe importava um cominho, mas se sentiu agradecida pela mudança de assunto e satisfez sua curiosidade.

— Levo uma base especial de baunilha com um ligeiro toque cítrico para lhe dar cor.

— Mmm... Sonha delicioso.

Ela se pôs-se a rir e jogou a cabeça para trás, o que a fez ficar um pouco mais perto dele: seus seios se esmagaram contra seu torso e os aros empurraram o vestido para trás. Era indecente estar tão perto, mas se negava a afastar-se de seu poderoso abraço. Não tinha nenhuma vontade de mover-se.

— Me diga Olivia, lhe... Banha também com essas fragrâncias? — perguntou ele com voz rouca.

Piscou com rapidez, escandalizada pelo fato de que ele imaginasse essas coisas, e o golpeou levemente no ombro com o leque.

— Isso, querido «marido», não é teu assunto — replicou com timidez. Estava desfrutando muitíssimo de sua companhia e não podia apagar o sorriso de seus lábios. — E me nego a permitir que me mordisque o pescoço para comprová-lo.

Demorou um momento em dar-se conta do que havia dito, e quando o fez, foi como uma bofetada em pleno rosto. Ficou rígida e abriu os olhos de par em par em um gesto preocupado. Tinha ido muito longe.

— Sinto muito...

— Se limite a dançar comigo, Olivia — interrompeu -a ele com um tom pensativo, quase distante.

Sam tinha deixado de sorrir, mas não se afastou dela. Para falar a verdade, sujeitou-a com mais força enquanto percorria com o olhar seu rosto, seu cabelo, seus ombros e seus lábios antes de voltar para seus olhos. Parecia incrivelmente poderoso, com músculos grandes e sólidos, muito mais fortes do que ela tinha imaginado. Seus marcados rasgos faciais tinham um toque tosco, embora em extremo atrativo. Irresistíveis. Olivia ficou sem fôlego.

Seus movimentos se fizeram mais lentos e se detiveram o fim quando a valsa acabou minutos depois, mas Olivia não pôde afastar-se dele. Ainda não. Tomou ar para acalmar os acelerados pulsados de seu coração, mas seguiu obstinada a ele. Notava o braço que lhe rodeava a cintura e a forte palma que apertava sua mão contra o seio masculino. Descobriu que se pôs o perfume que tinha criado para ele e que sentava às mil maravilhas.

— Quer que tomemos um pouco de ar fresco? — perguntou ele, interrompendo seus pensamentos com uma delicada amostra de realidade.

Olivia se afastou imediatamente com as bochechas rosadas, o corpo acalorado e os sentidos aguçados até um ponto que não conseguia compreender. Quando Sam lhe soltou a mão, piscou com rapidez, baixou a vista para o vestido e se alisou a saia, embora mais por livrar-se desse instante de desconforto que por qualquer outro motivo.

Então, como se as luzes se apagaram durante horas e brilhassem nesse instante mais que nunca, deu-se conta de que estavam na pista, rodeados de convidados que tratavam de dançar a seu redor.

— Damos um passeio, carinho? — inquiriu a sua vez, com a cabeça feita uma confusão.

Contudo, endireitou os ombros para recuperar a compostura que não tinha chegado a perder de tudo e espremeu o leque contra o sutiã com ambas as mãos.

Teria jurado que Sam parecia a ponto de partir-se de risada. Via-o em seus olhos.

— Vamos a terraço, Lady Olivia? — perguntou ele com um consumado encanto.

Olivia esboçou um sorriso tenso enquanto se esclarecia idéias.

— Certamente. — Fez uma pausa antes de acrescentar em voz mais baixa: — A minha tia adora chamar a atenção a sua chegada, assim imagino que não demorará a aparecer... E preferiria demorar o momento das saudações tanto como me seja possível.

Era uma desculpa do mais pobre, mas ele pareceu aceitá-la.

Sam esboçou um sorriso atrativo e cheia de bom humor.

— Teme que não esteja à altura do que se espera de um marido?

Lhe tirou do braço e se voltou para as portas da terraço.

— Nego-me a responder a isso.

Sam soltou uma gargalhada enquanto a acompanhava ao exterior.

 

Sam não tinha nem idéia de que demônios lhe passava, embora esperasse que o ar fresco da rua lhe limpasse a cabeça o bastante para esclarecer-lhe depois de uma semana em que o único que lhe tinha salvado do aborrecimento tinham sido a vibrante personalidade da Olivia e seu desejo de lhe explicar as operações rotineiras de Nevam (que não lhe interessavam nem o mais mínimo) estava impaciente porque chegasse essa noite e poder começar a fazer algo de verdade, ou ao menos descobrir algo que pudesse conduzi-lo até o Edmund. Deveria ter falado com as pessoas que conheciam seu irmão como o marido da proprietária de Nevam, tão social como profissionalmente, e avaliar suas reações e suas respostas à espera de qualquer tipo de deslize. E não haver-se dedicado a dançar. Detestava dançar, e isso fazia que seu desejo de compartilhar uma valsa com lhe resultasse ainda mais suspeito. Em lugar de atuar de maneira racional e aproveitar essa noite como era devido, até o momento se comportou como um colegial caprichoso. E havida conta de que tinha quase trinta e cinco anos e de sua vasta experiência com as mulheres, isso era totalmente inaceitável. Nesse instante teria que estar dentro, conversando e relacionando-se com outros; pode que inclusive devesse afastar-se da Olivia durante boa parte da noite para averiguar o que pudesse sem interferências, por mais inocentes que fossem.

Entretanto, devia admitir que a mulher de seu irmão o tivesse deixado mudo de assombro em várias ocasiões durante as últimas horas. Em primeiro lugar, quando se plantou diante dele em sua casa como a elegância personificada e o deslumbrou com tão extraordinária combinação de beleza e aprumo; depois, quando se tinha rido de algo que havia dito, como se desfrutasse seriamente de sua companhia; e por último quando tinha mencionado a idéia de lhe mordiscar o pescoço, lhe provocando uma irreprimível tormenta de emoções. Havia-lhe flanco um esforço enorme tirar-se da cabeça a imagem da Olivia aproximando-se dele, ainda molhada depois do banho perfumado, e convidando-o a saborear todas e cada uma das deliciosas curvas desse corpo quente e suave.

Contudo, o que mais o tinha desconcertado tinha sido sua forma de aferrar-se a ele enquanto dançavam, quão bem encaixava entre seus braços e o olhar carregado de confusão e desejo que lhe tinha dirigido sem dar-se conta sequer, ou isso preferia pensar ele. Não conseguia acostumar-se a essa mulher inocente e sedutora há um tempo, sobre tudo porque jamais tinha conhecido a nenhuma que não quisesse algo dele. Era possível que Olivia desejasse, ou, mas bem necessitasse sua ajuda para encontrar ao Edmund e salvar seu negócio, mas estava claro que a dama queria manter uma relação inocente e fraternal. Não era de sentir saudades que se sentisse confusa.

Cauda brisa noturna lhe acariciou a pele e o ajudou a relaxar-se, a assimilar essas novas apreciações, a voltar para a realidade. Nesses instantes ela caminhava em silencio a seu lado, embora se tivesse detido em um par de ocasiões para falar com uns casais conhecidos que saíam do salão. Sam tinha seguido seu exemplo e se comportou tal e como o teria feito Edmund, e devia admitir que Olivia o tivesse ajudado bastante ao lhe dizer: «Recorda a monsieur Levesque, verdade, querido?» ou «Acredito que jantamos em casa de madame Valois em setembro, não é assim?», ao que ele tinha respondido com o falso encanto do Edmund: «Certamente, madame Valois, e está tão adorável como sempre». Sim, não era um mau ator. Só teria desejado não ter que fingir que era o irmão que tinha arruinado sua reputação e lhe tinha roubado a seu amante tantos anos atrás. Além disso, nesse momento tinha Olivia pendurada ao braço; à esposa do Edmund, ou isso acreditava ela. Por Deus, o que ia fazer com ela...

— No que está pensando?

Tinha-lhe feito a pergunta em voz baixa, mas a voz feminina penetrou em suas reflexões quando ela se deteve o beira da terraço para olhá-lo à cara e se afastou uma mecha da testa com os dedos.

Sam se inclinou sobre o corrimão de ferro e apoiou os cotovelos em cima antes de enlaçar as mãos por diante e voltar à cabeça para olhá-la.

— Acredito que sou um ator magnífico. Deveria trabalhar no teatro.

Ela riu pelo baixo e se voltou um pouco para contemplar também a colina cheia de erva e flores que se estendia por volta do este durante quilômetros, como se queria alcançar a lua que começava a elevar-se no céu.

— De alguma estranha maneira perversa resulta divertido, verdade? Refiro ao de fingir que estamos casados para encontrar a seu irmão e recuperar minha herança. — Respirou fundo e baixou a vista até a fonte iluminada pela luz das tochas que gorgolejava justo por debaixo da terraço. — É provável que devamos alternar mais com a gente se queremos descobrir algo esta noite.

Sam pensou que já tinham descoberto muitas coisas, embora nenhuma delas relacionada com o Edmund.

— Acredito que estou preparado para o desafio — assegurou ao tempo que se esfregava as Palmas das mãos.

— Seriamente? — inquiriu ela, embora fosse, mas bem uma pergunta retórica pronunciada com certo toque de humor. — Mesmo assim — prosseguiu com tom amável, — parece-me que não deveria abandonar Durham para viver com uma companhia itinerante de atores.

Sam se deu uma palmada no seio com fingido desalento.

— Isso doeu minha senhora. Crie que não tenho o talento necessário?

— Não, Por Deus, Sobra-te talento. — O olhou de esguelha com um sorriso travesso. — O que quero dizer é que está claro que você... Maior destreza reside em outras coisas.

— Sim, isso é certo — conveio ele, observando -a com atenção.

Depois de uma breve pausa, Olivia se relaxou e afastou o olhar, com o que seu rosto ficou médio oculto pelas sombras.

— Acredito que sua maior destreza consiste em provocar a damas despreparadas.

Tamanha acuidade o intrigou tanto como o surpreendeu.

— Devo te dizer, Olivia Shea, anteriormente Elmsboro, que jamais, em toda minha vida, fui acusado de provocar a uma mulher com agrados. Acusaram-me que ser muito sério com elas ou das ignorar por completo. Mas jamais de provocador. — aproximou-se muito devagar a ela, até que notou a saia do vestido contra as acne. — Assim suponho que a esse respeito é a primeira.

— A primeira? — Olivia sorriu, mas se negou a olhá-lo. — Duvido-o o bastante, Sam. Estou segura de que atrai a muitas mulheres, sem importar o que disser ou faça. Tem uma personalidade muito carismática. É nessa provocação onde reside seu maior encanto.

Sam não conseguia recordar uma ocasião em que um completo o tivesse adulado tanto como esse, e ela o havia dito como se não fora mais que uma idéia que lhe tinha passado pela cabeça.

— Edmund e eu não nos parecemos em nada — murmurou; sentia a imperiosa necessidade de enfatizar o que ambos sabiam com absoluta certeza.

Ela assentiu e voltou à cabeça para olhá-lo de novo com expressão pensativa.

— Sim, mas Edmund é como a maioria dos cavalheiros: ostensivamente encantador quando espera conseguir algum tipo de favor; jovial mesmo que não se sente de humor para sê-lo; e também adulador, mas não porque deseje compartilhar sua apreciação por algo, mas sim porque quer algo em troca. O triste é que todo isso é falso e egoísta. — Deslizou o dedo indicador ao longo do corrimão. — O que mais admiro por ti, Sam, é que é honesto. Pode que seja sério até limites insuspeitáveis, mas isso em si mesmo resulta encantador, porque é genuíno. Se houver damas que não o entendem, que não percebem esse encanto especial que poses, elas o perdem.

Sua voz tinha tomado uma aparência reflexiva, mas a Sam não lhe cabia dúvida de que ela falava a sério. Não soube o que dizer. Para falar a verdade, encontrava suas idéias do mais aduladoras. Nenhuma outra mulher tinha conseguido jamais que se sentisse apreciado pelo que era.

Olivia permaneceu calada durante um bom momento e ele permaneceu a seu lado, compartilhando esse agradável silêncio. A música do salão de baile chegava até eles das muitas janelas abertas e, de vez em quando, escutava-se uma conversa animada ou alguma gargalhada ao longe. Entretanto, eles dois estavam virtualmente a sós, algo que ele tinha previsto quando escolheu esse ponto da terraço, tão afastado das portas como permitia o decoro.

— perguntaste por minha família — disse ela ao final.

— Sim — replicou ele.

Por estranho que parecesse, estava desfrutando da intimidade e da disposição da Olivia a lhe revelar certas coisas.

— Bom, vejamos... — começou. — Sou filha única. Conheci minha mãe muito melhor que a meu pai, embora naquela época não fosse mais que uma menina e suponho que ele pensaria que não temamos muitas coisas das que falar.

Sam não se sentia surpreso absolutamente, mas decidiu não mencioná-lo. Permaneceu em silencio para permitir que continuasse a seu próprio ritmo.

Olivia girou o leque entre as mãos sem deixar de olhá-lo e esboçou um pequeno sorriso enquanto recordava.

— Quando meu pai morreu, faz sete anos, minha mãe (francesa de nascimento e com uma enorme família neste país) decidiu que queria retornar a França. Quase imediatamente estávamos a bordo do navio que nos levava de volta a Paris. Pouco depois de nossa volta, conheceu monsieur Jean Francois Nevam.

— O proprietário da loja.

Olivia assentiu com a cabeça.

— Sim, o estabelecimento tinha pertencido a sua família durante três gerações. Era um bom homem, um bom padrasto e um bom comerciante, e suponho que a minha mãe gostava de verdade, embora quase lhe dobrasse a idade e não gozava de boa saúde. Contudo, seu matrimônio nos proporcionou estabilidade econômica. A sua morte, minha mãe se converteu na proprietária de Nevam, mas embora lhe gostasse do ambiente social que lhe proporcionava a loja, carecia de instinto para os negócios. Quando morreu faz um par de anos, eu tomei o controle do estabelecimento, obtive que voltasse a ser rentável e popularizar seu nome em toda a França. Essa é precisamente a razão pela que Eugenia compra sozinho nossos produtos, embora acredite que isso pode trocar graças a seu irmão.

— Como morreu sua mãe? — perguntou Sam um momento depois.

Olivia suspirou com suavidade.

— Por causa de uma gripe muito forte. Ao menos, isso foi o que disse seu médico.

— E te deixou só.

Ela inclinou a cabeça para um lado.

— Não exatamente. Tenho família aqui, embora esteja disseminada por todo o país. — Franziu o cenho antes de acrescentar: — Meus parentes mais próximos som minha tia e os muitos primos de monsieur Nevam que vivem e trabalham no Grasse, o lugar que se converteu no centro mundial da indústria do perfume nos últimos anos. Vejo-os de vez em quando, já que viajo até ali ao menos duas vezes ao ano para me manter a par de quais são as últimas essências e as novidades dentro do negócio. — Baixou a voz até convertê-la quase em um sussurro. — Estava utilizando parte do dinheiro da herança em nos criar um nome, mas Edmund me arrebatou essa possibilidade. Se te for de tudo sincera, Sam, quanto mais te conheço e compreendo as malignas e sinistras intenções que tinha meu marido para comigo de um princípio, mais difícil me resulta não odiá-lo.

Ao ver o muito que a tinham ferido os atos de covardia de seu irmão, Sam notou que o ressentimento que sentia para o Edmund cobrava vida de novo. Quanto mais conhecia a Olivia, mais convencido estava de que ela era inocente em tudo aquilo. A precaução lógica que guardava com ela começava a dissipar-se, que Deus o ajudasse.

— Suponho que também sentirá curiosidade por saber por que permaneço a cargo do negócio, verdade?

Sam não estava pensando nisso nesses momentos, mas passou por cima esse fato.

— Não é usual que uma dama de sua riqueza e sua posição social seja... Trabalhadora, por dizê-lo de algum jeito.

Ela voltou a sorrir.

— O irmão de meu padrasto, Robert, era o beneficiário, e até o momento segue sendo o dono, embora também viva no Grasse. Confia plenamente em minhas capacidades e, posto que adore meu trabalho, dedico-me em corpo e alma a manter a Nevam entre as casas de perfume mais importantes de toda a França.

— E essa reputação está em perigo por causa de seu matrimônio com o Edmund — interveio Sam com voz suave.

Ela respirou fundo e elevou o rosto para o céu enquanto fechava os olhos.

— Edmund jamais compreendeu minha dedicação. Para ele, Nevam não era mais que um estabelecimento que vende perfumes a damas consentidas. Mas pensava isso porque nunca se incomodou em tratar de entender o funcionamento do mercado e porque, a bom seguro, jamais me entendeu. — Abriu os olhos uma vez mais e se voltou um pouco para observá-lo. — Nevam foi à única e verdadeira alegria de minha vida. Minha maior lucro pessoal foi conhecer todos e cada um dos detalhes de meu negócio, até as menores excentricidades das denta habituais, e utilizar esses conhecimentos para dirigir a loja com mestria. Nevam e eu somos famosos em todo o país por ser os melhores no que fazemos e em como o fazemos. Nenhum dos êxitos que tenha podido obter em minha vida pode comparar-se com esse. E muito menos meu matrimônio, embora deva confessar que em certo momento albergava esperanças do contrário.

Sam ficou calado; admirava-a por semelhante capacidade de compromisso, embora o invadisse uma desagradável frustração ao dar-se conta de que ele nunca tinha dedicado tanto empenho a nada que não fora dirigir sua propriedade como era devido. Pela primeira vez desde que se conheceram, compreendeu que tinha diante a uma mulher extraordinária. Jamais tinha conhecido a ninguém como ela. Edmund não só tinha sido um imbecil por rechaçar o presente que lhe havia tocado em sorte; também se tinha mostrado do mais desumano ao lhe roubar essa inocência que, junto com sua ardilosa personalidade, fazia dela uma mulher única.

— Olivia? — murmurou com tom rouco e suave.

Ela se ergueu com decisão e endireitou os ombros ao tempo que aferrava o leque.

— Sinto me haver estendido tanto. Quer retornar ao salão já?

Sam sacudiu a cabeça muito devagar antes de alargar o braço e lhe sujeitar o queixo entre o índice e o polegar.

Ela ficou tensa e abriu os olhos tanto que podia ver-se a lua refletida em suas escuras profundidades.

— Deveríamos falar com outros. Não... Não descobriremos muito aqui sozinhos.

Ficou sem voz, e Sam teria jurado que tremia um pouco. Maravilhou-o descobrir que, embora parecesse saber o que ia ocorrer e perceber o desejo que o invadia, Olivia não fazia tento algum por afastar-se dele.

— Acredito que estamos descobrindo muitas coisas — sussurrou com voz rouca.

Depois, baixou a cabeça com agonizante lentidão e cobriu sua boca com os lábios.

Sam não sabia muito bem que reação devia esperar dela, mas ambos compreenderam imediatamente que esse beijo era muito diferente do primeiro que tinham compartilhado na Inglaterra. Em lugar de mostrar-se surpreendida ou tratar de liberar-se, Olivia permaneceu muito, muito quieta e deixou que ele explorasse seus lábios com suavidade. E Sam se tomou seu tempo, sabendo de que teria que instigar sua resposta, de que teria que esperar para abraçá-la até que ela se desse conta do muito que desejava fazê-lo.

Entraram horas, ou isso lhe pareceu, até que Olivia começou a responder à urgência do beijo. Quando por fim começou a sucumbir, Sam baixou pouco a pouco o braço e lhe rodeou as costas antes de estender a palma sobre sua coluna para estreitá-la contra si. Ela se apoiou contra seu corpo e se entregou às sensações enquanto inclinava a cabeça a um lado para lhe devolver o beijo.

E beijava como os anjos. Ou possivelmente isso imaginava ele, já que fazia uma eternidade que não o beijava uma mulher que o desejasse tanto como ele a ela. Podia escutar os batimentos do coração de seu próprio coração nas têmporas e sentir o rápido que lhe corria o sangue pelas veias. Também percebeu a insegurança que invadia a Olivia, inclusive quando deixou cair o leque ao chão sem dar-se conta e elevou os braços para lhe rodear o pescoço.

Cada vez mais crédulo, apoiou a mão livre em sua cintura. Olivia suspirou e enredou os dedos em seu cabelo para acariciá-lo com suavidade. Sam sentia seus seios esmagados contra o torso, e essa plenitude incrementava seu desejo de acariciá-la, de lhe fazer saber o efeito que tinha nele, de lhe mostrar até onde chegava sua necessidade. Percorreu-lhe o lábio superior com a língua antes de voltar a apertar sua boca contra a dela para lhe exigir mais, para tentá-la e saboreá-la.

Olivia deixou escapar um pequeno gemido e se deixou levar, entregou-se ao momento enquanto lhe acariciava o rosto com a palma da mão e lhe percorria a bochecha com o polegar. Sam seguiu seu exemplo e a estreitou com força antes de elevar uma mão até sua cabeça para enredar os dedos na suavidade de seu cabelo; depois, aproximou a outra emano à delicada curva de seu seio. Não podia, não devia acariciá-la ali ainda. Ainda não. Não até que ela deixasse claro que o necessitava.

A respiração de Olivia se voltou tão rápida como a sua, acelerada pela crescente paixão que os embargava, e Sam se permitiu por fim separar-se um pouco para percorrer com os lábios a suave pele de seu queixo, de sua garganta e da linha da mandíbula. Ela ofegou entre seus braços e lhe segurou a cabeça ao tempo que elevava o rosto para o céu para lhe proporcionar um melhor acesso.

Sua impaciência ficou clara. De forma impulsiva, Sam elevou a mão para lhe cobrir o seio por cima do vestido e notou o encaixe dourado baixou a palma.

Olivia voltou a gemer, mas essa vez com um indisputável desejo de que a tocassem, assim Sam procurou seus lábios uma vez mais enquanto introduzia os dedos por debaixo da franja de encaixe para cobrir a parte superior do suave montículo de carne. Ela nem sequer pareceu notá-lo. Aferrava-se a ele, saboreando-o, e Sam a estreitou contra seu torso. Sentia os músculos tensos e sabia que perdia o controle, tanto de seu corpo como de sua mente, com cada segundo que acontecia.

E então, antes que pudesse compreender o que ocorria, Olivia se afastou um pouco e retirou o braço de seu pescoço para sujeitar a mão que lhe cobria o seio.

Sam se viu obrigado a dar mão de sua força de vontade para afastar os dedos dessa suavidade proibida; dava-lhe voltas à cabeça, ardia-lhe a pele e seu coração martelava desmedido no seio. Demorou o que lhe pareceram horas em dar-se conta de que ela tinha retrocedido um passo e que sujeitava sua mão entre as suas enquanto lhe dava pequenos beijos nos nódulos e percorria a ponta de seus dedos com a bochecha e os lábios.

Por fim, abriu os olhos para contemplá-la e soube imediatamente que aquele seria um momento crucial em sua vida. Nenhuma mulher o tinha tratado jamais com tanta ternura em metade de um arrebatamento de desejo. Dizer que se sentia desconcertado teria sido um eufemismo. Olivia tremia, respirava com tanta dificuldade como ele, e, entretanto o acariciava como se fosse algo formoso e delicado, quase apreciado.

Muito devagar, enquanto recuperava o julgamento, Sam cobrou consciência de onde estavam da música e o alvoroço que os rodeavam do aroma da cálida brisa noturna misturado com a tentadora fragrância da pele feminina, que ainda invadia seus sentidos.

Olivia seguia com os olhos fechados, mas Sam quase podia perceber a intensidade do desejo que emanava dela. Com um rápido movimento, estendeu os braços para sujeitá-la pelos ombros e arrastá-la contra seu corpo. A jovem guardou silêncio quando a rodeou com um braço para estreitá-la e utilizou a outra mão para lhe colocar a cabeça sob seu pescoço, a fim de que a bochecha descansasse sobre seu seio.

Por Deus, devia lhe passar algo errado. Jamais se tinha mostrado tão protetor com uma mulher com a qual só tinha compartilhado um beijo apaixonado; jamais havia sentido uma necessidade tão urgente de experimentar um prazer que não lhe pertencia. Essa mulher o confundia e o assombrava há um tempo; entregou-se a ele, mas não em um arrebatamento de luxúria, mas sim como uma pessoa se desesperada por sentir a paixão, por sentir-se desejada. Ainda podia saborear a doçura dos lábios femininos nos seus; ainda lhe dava voltas à cabeça ao pensar em sua pele, em seu perfume, nessa atração mútua que invadia a atmosfera que os rodeava.

Abraçou-a até que notou que sua respiração se normalizava e deixava de tremer, mas não pôde deixar de perguntar-se com certo chateio e um pingo de desespero o que teria ocorrido se tivessem estado longe de ali.

— Acredito que me ocorre algo estranho — disse Olivia.

Esse comentário pronunciado com voz rouca mostrava uma preocupação tão semelhante à sua que lhe chegou à alma.

— Não te ocorre nada estranho Livi — assegurou-lhe em voz baixa, sorrindo para seu próprio.

Olivia permaneceu imóvel uns segundos mais, contemplando a noite à luz da lua. Ele se inclinou por volta de diante para lhe dar um beijo no cocuruto e inalar esse perfume picante de baunilha que sempre associaria com ela e com sua incomparável beleza. Ao final, muito devagar, ela apoiou as palmas em seu peito e se afastou dele.

Sam permaneceu erguido, com as mãos aos flancos, embora não lhe tirou a vista de cima. Entretanto, ela não se atrevia a olhá-lo, de modo que lhe concedeu uns momentos para que recuperasse a compostura.

— Isto... Isto não está bem — sussurrou Olivia. Tomou uma profunda baforada de ar antes de tentá-lo de novo. — Não esteve bem, foi...

— Perfeito — terminou Sam.

Ela sacudiu a cabeça e se cobriu a boca com os dedos.

— Estou casada, Sam.

Ele tragou saliva, enfurecido pela vergonha que denotava esse desesperado intento de convencer o de algo que o carcomia por dentro.

— O que teve com meu irmão jamais foi um matrimônio — assegurou -lhe depois de uma larga pausa ao tempo que se metia as mãos nos bolsos do traje.

— Isso é irrelevante.

Não tem nem idéia do que diz, pensou Sam para si próprio.

— Temos trabalho que fazer Olivia — disse com uma determinação que o surpreendeu inclusive a ele. — Até que encontremos ao Edmund, tomaremos cada dia como venho.

Pela primeira vez desde que se beijassem, ela levantou as pálpebras e o olhou à face. Sam sentiu que lhe retorciam as vísceras ao ver as lágrimas que tratava de esconder com todas suas forças. Por muito que desejasse abraçá-la nesse instante, por muito que desejasse estreitá-la entre seus braços de novo e protegê-la da dor e a consternação que tanto ele como seu irmão lhe tinham causado, não se atrevia a fazê-lo. Essa atração explosiva e pouco convencional que sentiam provocava nela emocione do mais voláteis... E também nele.

— Tudo sairá bem — disse em um intento por tranqüilizá-la ao tempo que lhe acariciava a linha do nascimento do cabelo com a ponta dos dedos. — As coisas voltarão para seu lugar.

Ela se limitou a observá-lo durante um bom momento com os olhos totalmente abertos, preocupada. Depois, ergueu os ombros com decisão.

— Sinto que tenha ocorrido isto.

Sam esboçou um sorriso irônico.

— Não o sente, e eu tampouco. Ambos sabíamos que ocorreria cedo ou tarde.

— Não acontecerá de novo.

Entraram-lhe vontades de soltar uma gargalhada ao escutá-la.

— Como vocês desejem milady — replicou em troca.

Olivia o olhou de esguelha.

— Embora deva confessar que me gostou...

Sam não pôde acreditar que admitisse algo assim. E isso deu ao traste com seu esforço por controlar a excitação que o embargava.

— A mim também. — Tanto sua expressão como sua voz se tornaram mais sérias. — Acredito que nunca tinha desfrutado tanto de um beijo. E o digo a sério, Livi.

Ela aspirou com força.

— por quê? — sussurrou com voz trêmula.

Não tinha esperado que lhe perguntasse isso, e o certo era que não estava preparado para responder. Contudo, a verdade saiu à luz por seus próprios meios.

— Nunca conheci a uma mulher como você. É única em tudo o que faz e o que diz, e também quando beija.

— Eu posso dizer exatamente o mesmo de ti, Sam — replicou em um murmúrio, olhando-o com o indício de um sorriso nos lábios. — Jamais conheci a um homem como você.

— Nem sequer Edmund? — perguntou sem poder evitá-lo.

Olivia respondeu com absoluta certeza.

— Edmund menos que ninguém.

Alagou-o uma esmagadora maré de sensações. Ninguém o tinha considerado diferente a seu irmão. O fato de que Olivia fora a primeira em fazê-lo devia ser a maior ironia do mundo.

— Deveríamos retornar à festa — disse ela depois de um longo suspiro.

— A festa pode ir-se ao inferno.

Ela sorriu, e seu sorriso foi alargando-se com cada instante que passava.

— Vá, aqui estão. Como demônios conseguistes chegar até este lugar?

Olivia se apressou a afastar-se dele e se virou para a escura silhueta de uma mulher que os observava da distância. Mas a Sam foi essa voz o que mais o desconcertou.

A voz dela.

Notou como seu sangue se convertia em um rio gelado que alagava todo seu corpo e o deixava petrificado. Envolveu-o uma peculiar sensação de irrealidade que lhe provocou um suor frio e seu coração começou a pulsar com força dentro do peito.

— Parece... Que deixaste cair o leque, querida.

Olivia se recuperou com rapidez.

— Vá, é certo. — agachou-se para recuperá-lo. — Meu marido e eu estávamos falando, tia Claudette.

— Claro... O que outra coisa poderiam fazer aqui fora? — replicou a outra mulher.

Foi então quando se aproximou deles, e a imagem que Sam tinha tentado desterrar de seus pensamentos, de suas lembranças, de seu passado, retornou com força para esbofeteá-lo em pleno rosto.

Santa mãe de Deus...

— Faz uma noite preciosa, tia, e Edmund e eu...

— Estavam conversando à luz da lua. Sim, já me há isso dito. Que tocante.

Sam não podia mover-se. Ficou-se petrificado, revivendo um pesadelo que acabava de começar uma vez mais.

Claudette... Pelo amor de Deus, Edmund, o que é o que tem feito, Perguntou-se.

Olivia se aproximou dela, apoiou as mãos em seus ombros e lhe deu um beijo em cada bochecha.

— Me alegro muito de te ver — disse com tom alegre. — Edmund, a condessa de Renier chegou.

Tinha mencionado o título de sua tia em seu benefício, o que lhe deu a entender que Olivia não tinha nem a menor idéia de até aonde chegava o engano de seu irmão.

Claudette voltou à cabeça em sua direção e Sam pôde sentir o intenso olhar da mulher e a multidão de emoções que emanava dela, nenhuma delas agradável.

Santa mãe de Deus...

— Vejo que encontraste a seu marido — brincou Claudette ao tempo que avançava para que a lua iluminasse finalmente os rasgos de seu rosto. Um instante mais tarde, cobriu-lhe as bochechas com as mãos e lhe deu um rápido beijo na boca. — Edmund, querido, me alegro muito de que tenha retornado a casa. Olivia te deu muitíssimo de menos.

Por um muito breve instante, Sam não soube o que fazer. Mas depois sua mente cobrou vida e, por muito que detestasse fazê-lo, transformou-se em seu irmão uma vez mais.

— Preocupava-nos um pouco que não viesse esta noite — comentou com um sorriso diabólico, — mas logo compreendemos que nunca te perderia uma festa como esta. — Fez uma pausa antes de acrescentar: — Olivia e eu lhe conhecemos muito bem, não é assim, Claudette?

Ela o olhou à cara e enrugou o cenho por um instante.

— Sim, certamente.

Produziu-se um momento de extremo desconforto. A tensão era evidente, e ameaçava igualando a rigidez dos músculos de seu corpo. Sam apertou as mãos até as converter em punhos antes de estirar os dedos de novo. Olivia o observava, preocupada sem dúvida por sua falta de diplomacia, mas ela não podia imaginá-lo difícil que lhe resultava permanecer ali e não partir sem dizer sequer uma palavra mais. Por mais vergonhosa que fora a idéia, era consciente de que ainda não tinha descartado por completo que Olivia formasse parte da farsa que tinha presenciado até o momento. O fato de que o tivesse beijado e de que o desejasse fisicamente não significava que não pudesse enganá-Lo. Tinha aprendido muito bem essa lição anos atrás graças a sua enganadora tia Claudette. Custava-lhe muito acreditar que a intimidade que acabavam de compartilhar fora outra coisa que um genuíno desdobramento de sentimentos por parte da Olivia, mas ficava a possibilidade de que eles três tratassem de tomá-lo por tolo... E de lhe arrebatar seu dinheiro.

Contudo, se de verdade não era mais que uma pessoa inocente em mãos de duas víboras, merecia-se justiça, e não havia ninguém mais adequado para proporcionar-lhe que o irmão do homem que tinha planejado sua ruína.

Esclareceu-se garganta e assentiu com a cabeça antes de lhe oferecer o braço à mulher que o tinha traído fazia tantos anos.

— Bem, queridíssima tia, agora que chegaste para nos deleitar com sua adorável companhia, seria para mim um prazer inenarrável que aceitasse dançar comigo.

Sentiu o olhar perplexo da Olivia sobre ele, mas esse incrível giro dos acontecimentos o tinha deixado tão aturdido que não se atreveu sequer a olhá-la. E isso o assustou mais que nenhuma outra costure no mundo.

Claudette sorriu com ar satisfeito ante a sugestão e colocou uma mão de unhas perfeitas sobre a manga da jaqueta.

— O prazer será todo meu, queridíssimo sobrinho. — Enquanto tirava de seu braço para afastá-lo dali, acrescentou por cima do ombro: — Talvez queira utilizar este tempo para te refrescar um pouco, Olivia. Parece um pouco cansada. Levarei-me daqui a seu marido e o manterei entretido durante um momento.

Com isso, Claudette, sempre proprietária da situação, guiou-o pelo atalho da terraço para as portas do salão de baile enquanto Olivia os seguia a curta distância, lhe brocando as costas com o olhar.

 

A impressão que lhe tinha causado vê-la de novo começava a dissipar-se; algo do mais conveniente, já que precisava concentrar-se para seguir adiante com a farsa. Claudette ainda não tinha descoberto sua identidade, ou ao menos isso acreditava. Não obstante, era impossível predizer quando o averiguaria. Para falar a verdade, não a tinha visto em dez anos, mas deixando a um lado sua inegável inteligência, Claudette era uma mulher ardilosa e manipuladora por natureza que sempre esperava certa hipocrisia por parte das demais pessoas e se gabava de descobri-la sem problemas. Nesse instante, enquanto caminhava com ela do braço, o recolhido de cachos loiros que se feito no cocuruto lhe roçava o queixo e seu intenso perfume de rosas lhe enchia as fossas nasais.

Rosas. Claudette sempre cheirava a rosas, e sempre relacionaria essa essência com ela. O aroma lhe resultou nauseabundo, em especial misturado com a densa neblina de fumaça e o calor cansativo que reinavam no salão de baile. Havia muita mais gente que quando chegaram e isso dificultava em grande medida o percurso para a pista, mas a dama esperava que conversasse com ela, que a cortejasse. E com tanto em jogo, Sam decidiu que era preciso ser algo mais que convincente. Essa noite precisava ser Edmund.

— Cheira de maravilha — sussurrou -lhe ao ouvido depois de inclinar-se para ela.

Claudette levantou a cabeça e lhe sorriu com picardia.

— Meu querido Edmund, sempre tão adulador...

— Só quando merece — admitiu com jovialidade e um sorriso natural que o deixou perplexo até a ele.

A mulher soltou uma gargalhada.

— Dancemos céu. Temos muito do que falar.

Sam sabia que essa atitude alegre expressava um estado de ânimo que não era real. Tinham entrado muitos anos, mas recordava seu temperamento à perfeição. Sua aparição essa noite a havia posto furiosa, e também sentia ciúmes da Olivia, algo que ele encontrava estranhamente divertido e suspeito há um tempo. Era óbvio que mantinha algum tipo de relação com seu irmão, embora não sabia qual nem até onde chegava.

Alcançaram por fim o centro da pista de baile e, sem vacilar nem mediar palavra, Sam se voltou e tomou entre seus braços à mulher que em certa época fora seu amante, a mulher que tinha convertido sua vida em um escândalo muitos anos atrás. Ela não demorou em ir ao grão.

Plantou um falso sorriso em seus lábios pintados e o fulminou com o olhar.

— por que voltaste para Paris? É impossível que tenha terminado já com a herdeira Govance.

Sam desejou saber quem era a «herdeira Govance» e onde vivia, mas a pergunta do Claudette lhe deu a entender que Edmund se partiu da cidade para cumprir suas ordens e que provavelmente estaria cortejando a outra incauta mulher para fazer-se com sua fortuna. Algo que não o surpreendia nem o mais mínimo.

— Olivia me encontrou — respondeu com ar despreocupado. — E como poderá supor, não podia lhe explicar que ainda não tinha acabado com... Minha obrigação, por dizê-lo de algum jeito.

Ela deixou escapar um bufo que agitou o cabelo de sua testa.

— E o que lhe disse? Devia estar furiosa contigo.

Sam esboçou um sorriso torcido.

— Em realidade, disse-lhe muito pouco.

— Mas o que lhe disse com exatidão?

Embora tivesse utilizado um tom amargo e cortante, não tinha perdido o sorriso. Se havia algo que recordava do Claudette era que sempre, em todo momento, precisava levar as rédeas da situação. Que se mostrasse tão irritada ante suas evasivas, sem mencionar que tinha retornado sem dar-lhe a conhecer, significava que se retorcia de fúria por dentro. Sam podia perceber sua raiva na forma em que lhe cravava as unhas no ombro e no fato de que lhe apertava a outra emano até um ponto vizinho na dor.

Em benefício de todos aqueles que dançavam a seu redor, riu pelo baixo como se ela houvesse dito um pouco divertido e desejou que sua explicação soasse plausível.

— Disse-lhe que, sendo tão estúpido como sou, perdi a maior parte do dinheiro nas mesas de jogo e temia retornar a seu lado. Disse-lhe que semelhante fraqueza era um defeito de família, mas que seguia adorando-a. E depois lhe pedi que me perdoasse.

Claudette soltou um bufo muito pouco feminino e, pela primeira vez, seu rosto se enrugou em um gesto de desagrado. Por surpreendente que parecesse, depois de todo esse tempo seguia considerando-a uma mulher linda, embora nesse instante não se sentisse absolutamente atraído por seus encantos.

— E te acreditou?

Sam lhe piscou os olhos um olho.

— Estou aqui, verdade? — murmurou.

Ela não afastou a vista de seu rosto e seus olhos se entrecerraram em um gesto de suspeita.

— Segue apaixonada por ti? — inquiriu com tom suave, embora não conseguiu evitar que sua voz revelasse certo matiz de insegurança.

Sam notou o martelar de seu coração no peito. Desejava lhe gritar com fúria, lhe explicar com enorme regozijo que Olivia, sua queridíssima sobrinha, não podia estar apaixonada por seu suposto marido e beijá-lo a ele da forma em que acabava de fazê-lo. E estranho que parecesse dar-se conta disso o acalmou por dentro, tranqüilizou-o de tal maneira que pôde lhe oferecer um sorriso genuíno à dama.

— Isso acho madame comtesse. Mas não era isso o que queria?

Durante alguns segundos, enquanto a fazia girar com mestria pela pista ao compasso da valsa, Claudette se negou a responder, embora ele soubesse que sua mente fervia com distintas idéias e preocupações. Parecia mais velha; as finas linhas de seu rosto se viam mais pronunciadas, quase flagrantes sob a brilhante luz, apesar de que os cosméticos que se aplicou conseguiam ocultar em parte alguns dos dilatadores sinais de sua idade. Não obstante, possivelmente ele a observasse com um olho muito crítico. Sem dúvida, os ingênuos infelizes que a olhavam viam nela a uma mulher loira de generoso busto e com o rosto de um anjo. Isso mesmo tinha visto ele o dia que a conheceu.

— Eu não gosto de nada que tenha retornado sem me consultar isso querido — ronronou ao fim, devolvendo -o à realidade com suas palavras.

Sam franziu o cenho e lhe acariciou as costas com a ponta dos dedos.

— Claro que não... Sinto muitíssimo havê-lo feito.

— por que não me disse isso?

A famosa choramingarão do Claudette. Isso sim que não o tinha sentido falta de em todos esses anos. Depois de tomar uma profunda baforada de ar, replicou:

— Porque Olivia não se afastou de meu lado desde nossa volta, e está claro que não podia lhe dizer que ia fazer te uma visita. Sem dúvida, isso teria despertado suas suspeitas.

Ela suspirou e começou a diminuir o ritmo dos passos de baile quando a peça, expertamente interpretada pela orquestra, chegou a seu fim.

— De qualquer modo, eu gostaria que me esclarecesse o que fazia faz um momento na terraço com minha adorável sobrinha, Edmund. Pareciam absortos em uma... Conversa íntima. — Muito devagar, aceitou o braço que lhe oferecia para dirigir-se à mesa do bufet. — Deu-me a impressão de que algo tinha trocado entre vós dois.

Esse sim que é o eufemismo do século, disse-se Sam.

— Bobagens... Dançamos e ela tinha calor, assim que a levei fora para que tomasse um pouco de ar fresco. Por que o pergunta?

Era estupendo poder pôr a defensiva por uma vez.

Lhe deu um apertão no braço e entreabriu as pálpebras enquanto aceitava a taça de champanha que lhe oferecia.

— Estou ciumenta, carinho.

Sam sentiu que parte da tensão de suas costas cedia e pôs-se a rir. Com que ciumenta... Somente quando algo interfere com seus calculados planos, pensou. Inclinou-se para ela e lhe sussurrou:

— Cachorra ardilosa...

Claudette soltou uma gargalhada.

— Não sabe até que ponto.

Sam a olhou aos olhos.

— Não? Conheço-te muito bem, ou acaso o esqueceste queridíssima tia?

Insegura, Claudette perdeu o sorriso e piscou com rapidez umas quantas vezes antes de apurar o conteúdo de sua taça de champanha e agarrar outra. Sam se manteve firme, à espera, desejando poder ser mais direto com ela sem despertar seus receios.

Ao final, Claudette se aproximou um pouco mais e o agarrou por um cotovelo para arrastá-lo longe da multidão, para as janelas abertas.

— ouvi que dorme com ela em sua casa — murmurou. Em seguida, com um suspiro exasperado, acrescentou: — Acreditei que tínhamos um acordo, Edmund.

Sam não chegava a imaginar-se qual era esse acordo, mas o mais importante era que ao parecer Olivia e ele estavam sendo vigiados por alguém que acontecia informação ao Claudette. Isso lhe resultou um tanto perturbador, embora nada surpreendente.

— Edmund?

— por agora durmo em sua habitação de convidados — admitiu com um encolhimento de ombros. «por agora.» Não pôde evitar sorrir ante a fascinante idéia de trocar essa circunstância. — Não acredito que Olivia esteja disposta a aceitar um tipo de relação mais íntima.

Claudette pareceu relaxar-se.

— Não pode consumar sua relação com ela, Edmund — confessou com o primeiro sinal de verdadeira preocupação. — Já falamos que as possíveis conseqüências, e acredito que estas seriam inclusive piores agora que retornaste. Olivia quererá te colocar em sua cama, mas deve te mostrar assine. Seguimos estando de acordo neste assunto?

Sam se sentiu como se lhe tivessem dado uma patada no estômago e lhe tivessem tirado o ar dos pulmões com a força de um milhar de cavalos.

Seu irmão não se deitou com a Olivia. Ou ao menos Claudette acreditava que não o tinha feito. De verdade Edmund podia ser tão imbecil? Ou tão inteligente? Parecia lógico, tanto para um como para outro, manter aberta a opção da anulação em caso de que apresentassem sua licença matrimonial como legítima, e nesse sentido Edmund tinha feito um tremendo favor a Olivia. Se a gente podia chamá-lo assim. Também podia dar o caso de que seu irmão se mantivera fiel ao Claudette por amor, embora dadas as passadas experiências Sam duvidassem de que isso fora certo. Possivelmente Edmund só queria evitar o risco de deixar grávida a Olivia, uma possibilidade muito mais provável. No que ao Claudette se referia, ou não queria que consumassem o falso matrimônio porque sentia certo afeto familiar por sua sobrinha ou tinha razões de tipo muito mais pessoal, algo que a Sam lhe parecia muito mais factível. O que mais lhe tinha surpreso era que Edmund não tivesse querido deitar-se com a mulher que o considerava seu marido. Olivia se teria entregado a ele de boa vontade; se não pelo prouver, sim porque era sua obrigação. Devia ter sido seu irmão quem rechaçasse as relações íntimas. Edmund e Claudette estavam juntos nisto. Edmund e Claudette, como sempre.

Mesmo assim, não podia desfazer-se por completo da irritante idéia de que Olivia estava envolta na farsa e de que eles três estavam tratando de enganá-lo para fazer-se com seu dinheiro e levá-lo a ruína. Existia a possibilidade de que Olivia lhe houvesse dito a sua tia quem era ele antes da festa dessa noite. O receio que despertavam seu irmão e Claudette sempre lhe tinha levado a considerar a pior das possibilidades. E o incomodava em extremo não conhecer a Olivia o bastante bem para confiar nela. Tinha-o beijado com paixão, mas seria capaz de atuar tão bem? Não sabia.

Pelo amor de Deus, que diabos devo acreditar, perguntou-se.

A incerteza provocada pelo milhar de implicações possíveis deveu refletir-se em sua expressão.

— Vejo que te deixei perplexo — comentou Claudette com uma careta torcida nos lábios que não a favorecia absolutamente. — Esperava-me isso. Sei que jamais desejou lhe fazer o amor antes, mas ao lhes ver esta noite na terraço... Bom... — recolheu-se as saias de cetim rosa e as sacudiu um pouco. — Suponho que me deixei levar pela imaginação.

Sam estava bastante seguro de que não os tinha visto beijar-se nem tinha escutado a conversa, já que do contrário se teria posto muito mais histérica.

— Sabe que não a desejo — disse em voz baixa, embora lhe resultasse difícil não engasgar-se com semelhante afirmação, — mas terá que guardar as aparências.

— É obvio. — Seus olhos se iluminaram enquanto dava conta do conteúdo da segunda taça de champanha com três enormes goles. — Céus, parece que você também necessita um pouco de champanha, carinho — disse com tom afetuoso ao tempo que lhe dava um golpesinhos na bochecha. Depois ficou nas pontas dos pés para lhe sussurrar ao ouvido: — Passarei a noite na habitação de hóspedes do segundo andar, na esquina esta asa. Verei-te ali mais tarde. — E sem esperar resposta, separou-se dele. — Estou segura de que seu adorável esposa já te sente falta de, Edmund, e eu devo me relacionar com outros. — entrou-se a mão pela nuca. — Já conversaremos com mais calma em outro momento. Estou impaciente por te ouvir falar de seus últimos viagens — assegurou-lhe.

Em seguida, depois de recolhê-la saia, deu-se a volta e partiu.

Sam não deixou de contemplar suas costas até que ela desapareceu entre a multidão. Depois, presa de um súbito desespero, foi em busca de um gole de uísque.

 

Olivia não se havia sentido tão confusa em toda sua vida. Aquela tinha sido uma noite memorável, certamente, e não só pelo fato de ter compartilhado um beijo extraordinário com alguém a quem jamais tinha sonhado beijar. Desejá-lo como homem estava mal por um milhar de motivos sobre os que ainda não tinha refletido com atenção. Sam tinha tecido a seu redor um indisputável, desumano e delicioso enfeitiço do que não conseguia livrar-se por muito que o tentasse, embora devesse admitir que até esse momento não tivesse rechaçado com muita convicção seus avanços, já fossem físicos ou não. Como demônios podia albergar esses... Sentimentos pelo irmão de seu marido? E por que, em nome de Deus, seguia provocando-a ele, como se seus atos não pudessem ter conseqüências negativas? O que tinham feito essa noite ia muito além de uma relação entre amigos, embora entendesse que não podia culpar sozinho a Sam de tamanha indiscrição. Também ela tinha reagido de uma maneira totalmente imprópria de uma dama, ao menos fora da privacidade do dormitório matrimonial. Mas por cima de tudo, por cima de qualquer outra consideração, ambos deviam compreender que não existia nem a mais mínima possibilidade de um futuro romântico para eles. A atração que sentiam o um pelo outro tinha que acabar; devia acabar imediatamente. O único problema era que não sabia muito bem como lhe pôr fim.

Tentou não olhá-lo enquanto dançava com sua tia, e se repreendeu a si mesmo em mais de uma ocasião por ser incapaz de controlar-se e segui-los com os olhos durante o bate-papo que mantinha com dois das denta de Nevam frente à mesa do bufet. Pareciam felizes o um em braços do outro, mas detectava certa rigidez na postura e a expressão de Sam que não tinha mostrado com ela. Embora a irrupção de Claudette na terraço os tinha surpreso a ambos, tinha sido Sam quem a tinha deixado perplexa ao lhe pedir um baile a sua tia, sobre tudo depois do momento íntimo que acabavam de compartilhar. Não esperava que a abandonasse de uma maneira tão brusca depois de haver advertido o muito que a Claudette gostava dos encantos de seu marido. Não obstante, talvez Sam tivesse mostrado interesse nela por essa precisa razão. Mesmo assim, Olivia teria preferido não haver sentido essa ferroada de ciúmes na boca do estômago quando os viu juntos. Não tinha direito a sentir-se ciumenta, e isso era o que mais a chateava. Mas o mais importante de tudo era que a farsa seguia tendo êxito. Conforme parecia, Claudette não se precaveu de que não estava com o Edmund, algo que Olivia tinha temido de um princípio.

Nesse momento viajavam juntos de volta a Nevam; Sam estava sentado em frente com os olhos fechados, mas ela sabia que não estava dormido. Não havia dito mais de duas palavras desde que abandonassem a festa. Ela não queria partir do baile e, segundo o plano original, não deveriam have-lo feito. Não obstante, Sam tinha insistido, aduzindo sem mais que era imperativo que não voltasse a ver sua tia essa noite. Negou-se a lhe dizer por que, ou do que tinham falado Claudette e ele nos poucos minutos que tinham acontecido juntos, e a Olivia a enfurecia que guardasse silêncio incluso agora que estavam a sós. Queria respostas e começava a fartar-se de esperar a que falasse.

— por que estava tão impaciente por partir do baile, Sam? — perguntou quando o chofer abandonou o caminho da propriedade Brillon para dirigir-se à cidade.

Ele se limitou a grunhir sem elevar as pálpebras.

— Falaremos disso quando estivermos de volta em Nevam.

— Tem descoberto algo que me está ocultando? — insistiu com um suspiro exasperado. — Do que falou com minha tia?

— Tenha um pouco de paciência, Olivia.

Havia certo matiz em seu tom que não tinha escutado com antecedência. Contudo, as evasivas e esse empenho em fazê-la esperar não conseguiam mais que incrementar seu aborrecimento. Tinham planejado ficar a dormir em casa da condessa; entretanto, logo que acabou de dançar a valsa com sua tia, Sam tinha ido procurar a com um uísque duplo na mão e virtualmente a tinha obrigado a sair pela porta enquanto apurava a bebida com um par de goles. Isso também a tinha surpreso, já que ele parecia algo mais perturbado do que a situação merecia. Para falar a verdade, morria por saber o que lhe havia dito Claudette para alterá-lo tanto... Ou o que tinha feito.

— Sente-se enjoado pela bebida? — perguntou com cautela.

Ele esboçou um sorriso irônico.

— Não bebi o suficiente.

Olivia não estava segura de se queria dizer que não tinha bebido o suficiente para notar os efeitos do álcool ou se não tinha bebido suficiente para acalmar-se depois das emoções da noite. Logo que podia ver os rasgos de seu rosto, já que o interior da carruagem permanecia quase às escuras, iluminado tão somente pela luz da lua e a das escassas luzes que deixavam atrás no caminho.

Olivia se colocou a saia do vestido, alisou-a sobre as coxas, abriu o leque e começou a deslizar a ponta do dedo pela beira.

— Poderia deixar de te mover um momento? — disse ele com brutalidade.

Isso a zangou ainda mais.

— Sinto te incomodar, Milord, mas de verdade espera que me acalme depois de tudo o que aconteceu esta noite? Nem sequer me contaste o que te há dito Claudette...

— Falaremos disso quando chegarmos a casa. — Levantou as pálpebras um pouco, o justo para que Olivia soubesse que a estava olhando. — Nestes momentos preciso pensar, assim será melhor que te relaxe um pouco.

Relaxar-se? Como ia relaxar se? Quando viu que ele fechava os olhos de novo, soltou um bufo exagerado e muito pouco feminino. Em seguida chegou à conclusão de que se seguia importunando-o somente conseguiria que se zangasse com ela e que guardasse silêncio incluso quando chegassem a casa. Com isso em mente, afundou-se no assento e se tornou para trás para apoiar a cabeça no respaldo, tal e como tinha feito ele, antes de fechar os olhos.

Deveu adormecer-se, porque lhe pareceu que só tinham acontecido uns segundos quando a carruagem diminuiu a marcha e se deteve frente à loja. Piscou com rapidez para limpar -se, incorporou -se no assento ao mesmo tempo em que Sam, e depois se recolheu a saia com uma mão enquanto aceitava com a outra a ajuda que lhe oferecia o chofer para baixar até a rua.

Sam a seguiu sem mediar palavra enquanto ela tirava a chave do bolso do vestido, atravessava a loja às escuras, subia a escada e percorria o corredor que conduzia a seu lar. Uma vez dentro, aproximou-se imediatamente à escrivaninha de pinheiro, acendeu o abajur de gás e se voltou para ele com os braços cruzados sobre o peito.

— Parece-te bem que comecemos a falar já?

Supôs que isso tinha divulgado um tanto brusco, se não absolutamente grosseiro, mas estava cansada e zangada, e lhe importava um cominho o que ele pensasse.

Sam se tomou seu tempo para fechar a porta com suavidade e assegurar o ferrolho. Depois se enfrentou a ela e passou os dedos pelo cabelo; o esgotamento era evidente em seus olhos entrecerrados e na dureza de seus rasgos.

— Sugiro-te que te troque primeiro — assinalou com frieza enquanto começava a tirá-la jaqueta com movimentos pausados.

Olivia ficou onde estava com as costas erguida.

— Me trocar? Me trocar para que?

A irritação escureceu os rasgos masculinos.

— Para te pôr um pouco mais cômodo.

— Já estou cômoda.

— Não, não o está, e eu tampouco. — encaminhou-se para a habitação de convidados. — Te reúna comigo na cozinha quando estiver preparada.

Olivia odiava que os homens lhe dessem ordens que não gostava de cumprir. O problema era que essa noite ele tinha razão. Tinha posto um espartilho muito apertado desde fazia várias horas e isso não ajudava absolutamente a suavizar seu temperamento. Além disso, trocar-se de roupa lhe daria tempo suficiente para esclarecer suas idéias, algo que evidentemente não tinha feito durante a viagem de volta a casa.

Demorou uns vinte minutos, já que não tinha a ninguém que a ajudasse a tirar o vestido, as jóias e as forquilhas do penteado, mas quando por fim entrou na cozinha com a bata atada à cintura e o cabelo solto às costas, descobriu-o sentado na cadeira que tinha ocupado a primeira noite que falaram, embora a tinha girado para poder apoiar a cabeça contra a parede.

Olivia rodeou suas pernas estendidas e se fixou em que ele não se trocou: tinha-se limitado a tirar a jaqueta e a gravata, de modo que somente levava as calças e a camisa enrugada, com o pescoço e os punhos desabotoados e as mangas enroladas até os cotovelos. Imaginou que estava o bastante cômodo e decente para estar em companhia de uma dama que não era sua esposa.

Olivia tomou assento na cadeira de em frente, enlaçou as mãos sobre a mesa e o olhou fixamente para lhe dar a entender que queria sinceridade e que a queria já.

Sam permaneceu calado durante um momento, mas não a olhava a ela, mas sim para diante, para o relógio que ela tinha situado junto aos fogões.

Ao final, Olivia decidiu romper o silêncio.

— São mais das duas.

Sam não deu amostras de havê-lo notado.

— Não acredito que esteja muito cansada, já que dormiste durante todo o caminho até casa.

Olivia suspirou.

— Eu não o chamaria dormir... Estava pensando com os olhos fechados, igual a você.

Sam voltou à cabeça em sua direção e a olhou com uma careta zombadora nos lábios.

— Roncavas Olivia.

Ela o olhou com a boca aberta.

— Não rouco absolutamente!

— Embora deva dizer — continuou ele ficando caso omisso de sua exclamação — que é um ronco do mais delicado e feminino. Um que encaixa a perfeição com uma dama linda e atrativa como você.

Disse-o com tom despreocupado, como se tivessem reunido em metade da maldita noite para conversar sobre a qualidade do chá e os benefícios de seu comércio. Parecia desfrutar de muito desconcertando-a, algo que, tendo em conta o que tinha ocorrido essa noite, fazia que se sentisse um pouco incômoda a sós com ele. O melhor seria deixar acontecer o irritante comentário e encarar o assunto que se traziam entre mãos.

— Se importa em me contar de uma vez por que estava tão impaciente por partir do baile? — perguntou sem rodeios. — E não me diga que foi devido a que eu parecia cansada.

Sam esteve a ponto de sorrir.

— Isso foi bastante cruel por parte do Claudette.

Olivia se encolheu de ombros.

— Envergonha-me admitir que Claudette esteja acostumado a fazer esse tipo de comentários, em especial quando se dirige para mim.

Ele apoiou um antebraço sobre a mesa e percorreu seu rosto com o olhar.

— Não são mais que ciúmes.

Olivia franziu o cenho, perplexa.

— Ciúmes? Duvido-o muito. Minha tia é uma beleza, todo mundo sabe. E ela também.

— Certo.

Trocou de posição na cadeira, um tanto perturbada pelo fato de que ele não se dignou a negá-lo... Ou a lhe dizer que ela era muito mais bela, como teria feito seu marido sem pensar duas vezes. Não obstante, talvez ele não acreditasse assim, e devia confessar que isso a preocupava de uma forma que não deveria.

— Edmund a considerava linda? — perguntou Sam pouco depois.

Ela inclinou a cabeça para um lado.

— Suponho que sim, embora para falar a verdade nunca me dissesse o que pensava dela. Agora que o penso, resulta um pouco estranho.

— por quê?

Sua curiosidade parecia genuína, assim Olivia deixou escapar um suspiro antes de responder.

— Como já saberá a estas alturas, Claudette se sentia fisicamente atraída pelo Edmund, embora me atrevesse a dizer que ela nunca chegou a fazer nada de tudo indecente em companhia de outros. É minha tia, depois de tudo, e é uma dama educada e respeitada. — Possivelmente tinha exagerado um pouco, mas ao ver que ele não dizia nada, continuou: — Era evidente para todo mundo que Edmund parecia desfrutar de certa... Harmonia com ela, mas que eu recorde, jamais mencionou o que pensava ou sentia com respeito a ela, nem em um sentido nem em outro. Ao menos, a mim não.

— Entendo — murmurou ele depois de uma larga pausa em silêncio.

Olivia não acreditou que entendesse nada, mas Claudette carecia de importância em seu conversa. Se Sam suspeitava que Edmund e sua tia mantivesse um romance, estava equivocado, já que de ser certo Edmund estaria em Paris, e ela estava segura de que era assim. Voltou de novo ao que tinha ocorrido essa noite.

— vais dizer me por que me tirou virtualmente a rastros do baile?

Sam a estudou à luz do abajur com uma expressão séria e pensativa.

— Porque sua tia esperava que me reunisse com ela em seu dormitório mais tarde — explicou por fim com tom grave e aprazível. — Eu não estava interessado e não queria estar ali quando ela descobrisse esse fato.

Olivia ficou imóvel; sua mente e seu corpo ficaram petrificados quando uma estranha sensação de medo e incredulidade lhe percorreu as veias.

— Minha tia... — Nem sequer era capaz de repeti-lo. Semelhante pensamento, semelhante idéia, passava do inverossímil ao desprezível. — Isso é impossível — conseguiu sussurrar com voz afogada ao tempo que baixava o olhar.

Sam respirou fundo e girou a cadeira para poder olhar a de testa; depois enlaçou as mãos e estendeu os braços sobre a mesa.

— Sinto muito.

— Talvez a tenha interpretado mal — balbuciou com a boca seca; de repente, sentia muito frio na esquentada cozinha. Amassou-se sob a bata e se rodeou com os braços.

— Não interpretei mal nada, Olivia.

Não, o mais seguro era que não o tivesse feito. Além disso, sabia que Claudette era muito capaz de sugerir algo semelhante. Mesmo assim... Olhou-o imediatamente aos olhos.

— Acreditou que foi Edmund?

Ele respondeu sem a menor vacilação.

— Sim. Acreditou. —

Com um estremecimento, Olivia elevou os ombros e se abraçou com força enquanto piscava para evitar tornar-se a chorar diante dele. A idéia de que Edmund pudesse ter mantido uma... Relação com sua tia lhe dava vontade de vomitar, punha-a fisicamente doente.

— Mas isso não tem sentido — murmurou com voz trêmula. — Edmund jamais mostrou o mais mínimo interesse nela, ao menos estando eu presente.

Sam se limitou a olhá-la sem dizer nada, e lhe levou quase um minuto dar-se conta de que não era necessário que respondesse. Ao fim compreendeu as implicações de suas próprias palavras: seu marido não tinha mostrado interesse algum em sua tia quando os três estavam juntos.

— É bastante possível — acrescentou em um sussurro depois de umedecer os lábios — que Edmund a rechaçasse. É conhecida por mostrar-se um pouco... Agressiva quando quer conseguir algo.

Ele aguardou um pouco antes de responder.

— De verdade crie isso, apesar de tudo o que te tem feito meu irmão?

Sua voz tinha um tom molesto, como se desejasse com desespero que ela compreendesse o que tinha ocorrido, mas não pudesse explicar-lhe sem mais. Olivia precisava assimilar os detalhes, concentrar-se no que Edmund havia dito e feito, em como era sua tia. Quando o pensou desse modo (sua insistência em um matrimônio apressado, a noite de núpcias que não foi tal, seu execrável estratagema para lhe roubar a herança), a conclusão óbvia foi a que Sam lhe tinha dado a entender.

Não pôde controlar-se mais e os olhos lhe encheram de lágrimas.

— Como pôde meu marido me trair desse modo? — sentiu-se invadida por um arrebatamento de fúria. — Está claro que você o conhece muito melhor que eu, Sam — assinalou, olhando -o aos olhos. — Acaso sugere que planejou casar-se comigo e me roubar o dinheiro com a ajuda de minha própria tia?

Ele permaneceu calado uns instantes e a olhou com os olhos entrecerrados. Depois se esfregou a cara com a palma da mão.

— Olivia, acredito que há muitas coisas nesta situação das que não está inteirada.

Ela sorriu com amargura.

— Isso é bastante óbvio. Nem sequer vou fingir que sigo entendendo algo.

Com isso, ficou em pé de repente e se rodeou com os braços antes de começar a passear-se pela cozinha. Não o olhava, embora notasse seus olhos postos nela, controlando tudo o que fazia com a intenção de averiguar o que lhe passava pela cabeça. Por fim, deteve-se diante da pia e contemplou a pilha sem ver nada em realidade.

— De modo que, ao contrário que a seu irmão, não te interessava nem o mais mínimo seu convite, não? — perguntou em voz um pouco mais alta.

— Se quer saber a verdade — replicou ele muito devagar, — não. Não me interessava no mais mínimo.

— por quê?

O silêncio da estadia se tornou denso e opressivo.

— Acredito que já lhe têm feito bastante danifico, Olivia — respondeu depois de um momento.

Era uma resposta bastante evasiva, mas o que esperava? Devoção eterna? Em realidade, nem sequer devia haver o perguntado. Essa situação não tinha nada que ver com ele e estava em seu direito de manter uma relação com quem lhe desse a vontade, inclusive com uma de seus familiares. Contudo, Olivia não podia negar que sua sinceridade e sua preocupação a tinham feito sentir-se muito melhor.

— Não vai dizer onde acha que está seu irmão? O que acha que está acontecendo? — inquiriu com uma voz serena embora carregada de fúria.

Ouviu que Sam respirava fundo uma vez mais e reuniu a coragem necessária para levantar a cabeça e dar a volta a fim de enfrentar-se a ele. A luz do abajur projetava sombras sobre os formosos rasgos de seu rosto e se refletia em seus olhos escuros, que permaneciam fixos nela; também iluminava o cabelo que lhe caía sobre a testa, à linha firme de sua mandíbula e a careta séria de seus lábios. Sentiu um borboleteio no estômago ao contemplar seu extraordinário atrativo, mas aguardou a que respondesse a essa pergunta crucial com uma postura decidida e um olhar curvado, rogando que lhe dissesse a verdade.

— Direi-te o que penso se você também é sincera comigo.

Reagiu surpreendida:

— Sincera com respeito ao que?

Sam inclinou a cabeça um pouco.

— Já chegaremos a isso. Primeiro há algo que devo saber: o que é Govance?

Olivia franziu o cenho e sacudiu a cabeça, confundida.

— Onde ouviu falar de Govance?

— Claudette o mencionou.

Isso era bastante estranho, já que nem sua tia nem Edmund tinham nada que ver com as outras casas de perfumes. Apoiou-se contra a beira da pia e cruzou os braços à altura do seio.

— Govance é uma importante e respeitada casa de perfumes, embora abasteça a uma indústria mais ampla, sobre tudo ao mercado asiático. Só têm uma pequena loja em Paris, mas... Por que quer sabê-lo?

Sam ficou calado um momento sem deixar de olhá-la.

— Quem é sua herdeira?

A mente da Olivia começou a funcionar a toda pressa, cheia de possibilidades.

— A herdeira do Govance? O mais provável é que seja Brigitte Marcotte. É a neta do proprietário.

Ele se olhou os dedos enquanto os golpeava contra a mesa.

— Que idade tem?

Olivia começou a entender para onde se dirigiam suas perguntas, mas isso não fez mais que aumentar a confusão e o medo que sentia.

— Não sei que idade tem exatamente — disse, — mas deve andar pelos dezenove ou vinte anos. Passaram ao menos cinco da última vez que a vi.

Sam se endireitou um pouco no assento.

— Não vive aqui?

— Não, vive em Grasse, onde o mundo comercial do perfume... — Abriu os olhos de par em par e baixou muito devagar os braços aos flancos quando as peças do quebra-cabeças começaram a encaixar. — Crie que Edmund...

— Está em Grasse, cortejando à ingênua Brigitte para lhe arrebatar sua fortuna — terminou em seu lugar. — Igual à fez contigo.

Olivia tentou concentrar-se todo o possível, digerir as implicações, assimilar o significado de semelhante idéia.

— Mas se averiguou isso falando com o Claudette, então... Então ela sabe onde está, onde esteve todo este tempo. Ela forma parte do engano.

— Edmund é um enganador e tem cérebro próprio, mas seguro que não sabe quem som as partes interessadas na indústria do perfume. Acredito — admitiu com voz séria — que sua tia não só pretende obter benefícios, mas sim também o planejou tudo, incluído seu matrimônio com o Edmund.

Olivia já não tinha vontades de chorar, somente desejava quebrar algo. De repente, sentia-se incapaz de respirar; não podia entender tamanha indecência, não podia acreditar que a gente a que amava a gente que acreditava que a amava a ela, estivesse disposta a arruinar seu futuro para conseguir dinheiro. Ofegou em busca de ar e se deu a volta para olhar pela janela; depois se voltou de novo e deixou os braços mortos aos flancos enquanto se movia em semicírculos pela cozinha sem ver nada, chocada.

Sam deveu perceber a intensidade de sua estupefação, já que ficou em pé imediatamente e arrastou a cadeira para trás sem o menor olhar para aproximar-se dela.

— Claudette... — Tragou saliva e enterrou os dedos de ambas as mãos em seu cabelo para recolher-lhe para trás. — Claudette foi quem me apresentou isso, quem quis que me casasse com ele. Quem me recomendou encarecidamente que o fizesse — resmungou com fúria.

— Olivia — disse Sam com um tom tranqüilizador ao tempo que lhe apoiava as mãos nos ombros para impedir que se movesse.

Ela não podia suportar o contato; necessitava ar. Afastou-lhe os braços imediatamente e se aproximou a toda pressa à parede oposta para contemplar as preciosas bules de porcelana que tinha colecionado ao longo dos anos e que estavam colocadas em uma prateleira da despensa. Lutou contra o intenso impulso das fazer pedacinhos contra o chão.

Tudo começava a ficar claro: as mentiras, as artimanhas, a ardilosa fraude. E os motivos.

— Claudette queria fazer-se parte de Nevam quando Jean Francois morreu — declarou com amargura, — porque sabia que minha mãe carecia da habilidade necessária para fazê-lo e todos outros viviam em Grasse. E tinha razão. — estremeceu-se. — Mas se tivesse conseguido o controle, Claudette se teria embolsado cada peni e teria levado a Nevam à bancarrota, e todo mundo sabia. Todo mundo. Essa é a razão pela que inclusive seu irmão, Robert Nevam, negou-lhe a oportunidade de fazê-lo e me deixou a direção da loja. — Olhou a Sam por cima do ombro com expressão cáustica. — Conforme parece, ao ver que não conseguiria o que desejava, traçou um plano para arruinar a sua própria sobrinha com a ajuda de um canalha encantado e espetacularmente atraente.

— Recuperaremos seu dinheiro — disse Sam com voz tensa.

Uma risada histérica borbulhou em sua garganta.

— Meu dinheiro? Crie que tudo isto é pela herança?

Voltou-se bruscamente para enfrentar-se a ele.

— O que acontece minha dignidade, com meus sentimentos? Sei que me utilizaram. Até você o disse, Sam. Edmund me utilizou. Os dois me utilizaram.

Sam cruzou os braços sobre o peito e se limitou a olhá-la com o corpo rígido e uma expressão tensa.

— Sei. E o sinto — admitiu com calma. — Mas terá que confiar em mim.

— Confiar em ti? — ergueu-se em toda sua estatura e o fulminou com o olhar antes de perguntar: — Me diga uma coisa, Excelência, por que me beijaste esta noite?

Essa pergunta o pilhou despreparado. Abriu a boca um pouco enquanto a olhava de cima abaixo. Depois, apertou os dentes, entrecerrou as pálpebras e começou a aproximar-se dela muito devagar.

— Acredito que você também me beijou, milady, embora não consigo me fazer uma idéia de por que saiu a colação esse maravilhoso momento de paixão, nem o que tem que ver com esta conversa.

Olivia negou com a cabeça em um gesto desafiante, ignorando o formigamento de regozijo que lhe tinham provocado suas palavras.

— Tem muito que ver — assegurou com voz tremente na tentativa por não perder o fio. — Beijou-me, e beijar a uma mulher casada dessa maneira não é algo que engendre confiança. Beija a todas as damas casadas que conhece?

— Casada... — repetiu ele em um sussurro.

Olivia se manteve em seus treze, com as costas contra a parede e a mão apoiada na prateleira das bules. Preocupou-se um pouco ao notar que a voz masculina se tornou tão fria como sua expressão.

— O que ocorreria se te dissesse que acredito que não está legalmente casada com meu irmão?

Ela sorriu com desprezo.

— Diria-te que perdeste a cabeça. Ou que é um embusteiro e tratas de me confundir para que me renda ante seus encantos, como fez Edmund.

Sam deu um passo mais para ela enquanto apertava a mandíbula com fúria.

— Crie que por isso te beijei esta noite? Para que te apaixonasse por mim? — Esboçou um sorriso sarcástico. — Me acredite, encanto, não preciso mentir a uma mulher para conseguir seu interesse.

Posto que isso fosse bastante certo, a Olivia não lhe ocorreu nada que dizer.

— Então por que o fez?

— me diga uma coisa, minha linda e encantada Lady Olivia — murmurou ele, passando por cima sua pergunta, — Edmund te fez o amor alguma vez?

Horrorizada, Olivia afogou uma exclamação e guardou silêncio enquanto ele se situava justo diante dela. Seus olhos, que pareciam brilhantes bolas de quartzo à luz do abajur, destilavam fúria.

— Fez-te amor? — sussurrou uma vez mais. — E não me refiro a te fazer o amor com palavras e adulações, mas sim a fazer amor como um marido o faz a sua esposa, fisicamente, na cama de matrimônio.

Ela piscou com rapidez, assustada tanto por sua postura lhe intimidem como pela paixão que parecia haver-se aceso entre eles.

— O grau de intimidade que eu tenha compartilhado com o Edmund não vem ao caso — conseguiu balbuciar.

Isso não o dissuadiu absolutamente.

— Foi você quem abriu a porta com sua pergunta sobre o beijo que compartilhamos — resmungou ele com voz rouca — e suas inquietações com respeito à confiança. Possivelmente eu tema confiar em ti. Me responda, e seja sincera.

Ainda não a havia tocado, mas já não podia aproximar-se mais sem fazê-lo. Olivia sentiu que lhe dobravam os joelhos.

— Vou à cama.

— Responde primeiro.

— Não.

Às escuras sobrancelhas masculinas se arquearam um pouco.

— Quer dizer que Edmund não te fez o amor como deveria fazê-lo um marido?

As lágrimas encheram seus olhos de novo, embora nesta ocasião se devessem à frustração mais absoluta.

— É desprezível.

— Chamaram -me coisas piores — reconheceu ele sem mais. — Edmund fez amor com você?

Por que não deixava de lhe perguntar isso?

— É meu marido — disse ela ao tempo que apertava os punhos. — Você o que crie?

Sam se afastou um pouco, o justo para poder olhá-la de cima abaixo e comer-lhe com os olhos. Olivia se sentiu nua e vulnerável.

— Acredito que qualquer mulher com seu aroma, seu aspecto e sua forma de beijar se está perdendo o que mais necessita de um marido.

Olivia ardeu de fúria e levantou a mão para esbofeteá-lo com força. Entretanto, jamais chegou a lhe tocar a bochecha, já que ele reagiu com a mesma rapidez e lhe sujeitou o pulso.

— Lhe... Fez... Amor, Livi? — sussurrou, desafiando-a a desafiá-lo.

Olivia sentiu uma lágrima na bochecha, mas se negou a acovardar-se, a dobrar-se ante as emoções que a embargavam.

— Não — sussurrou com os dentes apertados.

Sam pareceu cambalear-se ante semelhante admissão, como se jamais se esperou algo assim. Aspirou o ar entre dentes enquanto afrouxava a mão com a que lhe sujeitava o pulso e dava um passo atrás. Olivia observou como trocava sua expressão em questão de segundos, passando de uma determinação férrea a uma estranha incredulidade. E em seguida deixou escapar um suspiro quente que lhe acariciou a pele e a estremeceu por dentro.

— Abandonou-me a noite de núpcias — acrescentou com a voz rota enquanto o recordava. — Beijou-me como me beijou você e depois me humilhou igual a você nestes momentos. — Elevou o queixo antes de assinalar com desprezo: — É igual a ele.

Isso transformou imediatamente o aborrecimento de Sam em uma fúria de primeira categoria, tal e como ela tinha previsto. Mas em lugar de soltá-la com desagrado como ela esperava, colocou-lhe a mão livre sobre o seio, justo por debaixo da base da garganta, e a empurrou contra a parede antes que pudesse piscar.

— Não me pareço com o Edmund em nada, Olivia, e você sabe-assinalou com um tom grave carregado de ameaças. — Eu jamais te teria deixado, e jamais te deixarei, atormentada e ofegante. Minha dignidade está por cima disso.

Ao perceber a honestidade que destilavam suas palavras e a angústia que mostravam seus olhos, Olivia notou que se derretia por dentro e começou a tremer sem poder conter as lágrimas.

— Sei... — admitiu em um murmúrio mal audível.

Essa tenra claudicação o fez titubear um instante. Depois, a expressão de seu olhar trocou da fúria mais absoluta a um desejo intenso e abrasador. Sam se apoderou de sua boca com um beijo impetuoso e devastador, sossegando o grito que se formou em sua garganta ante um contato tão súbito... E tão necessitado.

Beijou-a com um desejo reprimido que ia além de toda lógica; sua língua procurava, arrasava, suplicava uma resposta. Olivia gemeu e lutou por respirar quando a imobilizou contra a parede com o peso de seu corpo. Sentia a tensão de seus poderosos músculos, a incrível força que a atraía e a envolvia... Essa força que lhe impediria de escapar no caso de que queria fazê-lo.

Quando escutou o gemido gutural que saiu da garganta masculina, o som do desejo em sua mais pura forma, Olivia se excitou como nunca antes.

As lágrimas corriam por suas bochechas quando começou a lhe devolver o beijo com avidez, sem pensar com claridade. Sua mente, seu corpo e suas boas intenções tinham sido assaltados e conquistados por um desejo tão intenso como o dele. Apoiou uma mão em seu ombro, mas, invadido por uma ferocidade que ela não compreendia nem esperava, Sam lhe aferrou ambos os pulsos com a mão esquerda e as sujeitou por cima da cabeça, contra a parede, enquanto seguia atormentando sua boca com essa doce agonia.

Depois, Olivia notou vagamente que retirava do laço da bata com a mão livre. Lutou um pouco, mas ele fez caso omisso de seus protestos e perseverou no desejo de avivar sua paixão. Beijou-a de maneira implacável até que, em um momento dado, apanhou sua língua e a sugou.

Olivia estalou em chamas. Não podia deter os estremecimentos que a sacudiam nem quão gemidos escapavam de sua boca para esse mundo de súbito prazer. Foi então quando lhe cobriu o seio com a mão através do delicado algodão da camisola, e ela não pôde suportá-lo mais.

Consciente de sua vulnerabilidade, Sam não lhe soltou os pulsos enquanto introduzia o joelho entre suas pernas para ajudá-la a manter-se em pé. Olivia ofegou com força quando ele começou a lhe acariciar o mamilo com o polegar, animando-o a continuar com uma luxúria que já não podia controlar.

Quando Sam se afastou de sua boca por fim, ela pôde apoiar a cabeça na parede. Fechou os olhos com força e respirou em busca de fôlego enquanto ele beijava seus maçãs do rosto, seu queixo e seu pescoço e lhe acariciava os seios com ardente determinação.

Olivia quase não podia respirar. E a Sam lhe ocorria o mesmo: podia sentir sua respiração cálida e irregular sobre a garganta, as bochechas e a orelha. Quando lhe mordiscou o lóbulo, Olivia deixou escapar um gemido gutural e se esfregou de maneira instintiva contra sua coxa, lhe demonstrando com essa incontrolável resposta o muito que gostava. Sam inalou com força e lhe beliscou os mamilos antes de esfregá-los com o polegar, acariciando-a com mestria com uma de suas enormes mãos.

: — Por Deus, Livi — sussurrou-lhe ao ouvido com um tom carregado de agonia. — Me deixe te dar o que necessita. Me deixe...

Olivia se apertou contra ele enquanto seus ofegos ressonavam na escura cozinha em uma silenciosa súplica de satisfação. Faminto, Sam se apoderou de sua boca de novo para inflamar seu desejo. Afastou a mão do seio para levá-la mais abaixo; tirou sob a camisola e o levantou pouco a pouco até que conseguiu deixar livres suas pernas. E logo fez o que não tinha feito nenhum homem: riscou uma deliciosa e abrasadora linha ascendente por sua coxa até que encontrou o núcleo de seu desejo, seu prazer oculto.

Olivia começou a retorcer-se; tinha medo, embora desejasse essas carícias com desespero. Quando notou como roçava o pêlo encaracolado de seu sexo, invadiu-a um golpe de culpabilidade, mas este entrou rapidamente ao esquecimento quando Sam deslizou os dedos entre as suaves dobras de carne e começou a tocá-la muito devagar, com suavidade, aproveitando a umidade que molhava sua pele.

Afastou a boca dela.

— me sinta aqui — sussurrou com voz rouca e entrecortada contra sua bochecha. — Isto é o que necessito.

Seus movimentos provocavam sensações deliciosas dentro dela, que já não escutava outra coisa que os ensurdecedores batimentos do coração de seu próprio coração. Depois de fechar os olhos com força, emitiu um suave gemido e se apertou contra seus dedos. Depois, jogou a cabeça para trás e permitiu que ele sustentasse o peso de seus braços por cima de sua cabeça.

Sam a acariciou com deliberada lentidão, deslizando um dedo dentro e fora dela uma e outra vez antes de acelerar o ritmo para satisfazer suas demandas. Com a bochecha apoiada sobre a sua e a testa contra a parede, beijava-lhe a orelha e lhe esfregava o cabelo com o nariz. Apesar de que sua mente lhe gritava que se detivera, Olivia seguiu o ritmo das mãos masculinas entre ofegos, lhe rogando sem palavras que indagasse com os dedos mais a fundo e lhe desse tudo.

De repente, todo seu corpo se tencionou contra ele. Ao perceber que se aproximava da culminação, Sam introduziu um dedo em seu interior enquanto ela se esfregava contra outros.

— Deus, não... — sussurrou ela contra seus lábios. — Deus, não...

— Sim — replicou ele com veemência. — Deixa que sinta como te corre...

Olivia abriu os olhos imediatamente.

— Não...

Ele se afastou um pouco para observá-la e apertou a mandíbula ao olhá-la aos olhos.

— claro que sim...

De repente, uma maré de êxtase proibido estalou em seu interior e a fez gritar, obtendo que seu corpo se estremecesse com cada crista de intenso prazer, com cada uma das contrações que apertavam o dedo masculino e a deixavam sem fôlego.

Ofegou com força.

— Sam...

— Estou aqui — sussurrou ele para tranqüilizá-la , — te observando, sentindo-o tudo.

Olivia voltou a apertar as pálpebras, incapaz de olhá-lo, incapaz de compreender o que acabava de fazer com ele, o que lhe tinha feito. Sam seguiu acariciando-a para manter as sensações vivas e moveu os dedos com suavidade, quase com carinho, como se desfrutasse da umidade que emanava dela com cada espasmo de prazer.

Por fim, Olivia ficou quieta e se obrigou a acalmar-se enquanto lhe soltava os pulsos para que pudesse baixar os braços aos flancos. Mantinha-a pega à parede com o peso de seu corpo e, pela primeira vez, Olivia foi consciente da rígida necessidade que se apertava contra seu ventre. Fechou os olhos com a intenção de ignorá-la e se concentrou em suavizar o ritmo de sua respiração, dos batimentos do coração de seu coração. Devia assimilar o que acabava de ocorrer.

Nenhum deles disse nada durante um momento, embora Olivia pudesse sentir a tensão e o calor que emanavam do corpo masculino. Soube que ele tentava manter o controle quando apoiou a testa na parede e sentiu o calor de sua bochecha contra a dela. Moveu um joelho contra sua coxa para lhe fazer entender que se sentia incômoda com a mão que ainda permanecia entre suas pernas e Sam a retirou por fim, deixando que sua camisola caísse até o chão.

Quando lhe limpou a cabeça e compreendeu o que esse homem acabava de lhe fazer... E com quanto descaramento tinha respondido ela a suas carícias, esteve a ponto de morrer de vergonha.

— Não — disse Sam com voz débil ao perceber seu repentino desejo de fugir. — Não vá ainda.

Olivia não podia falar, não queria fazê-lo, mas ficou quieta como lhe tinha pedido, sem saber muito bem o que fazer nem o que esperava dela nesses momentos.

Sam seguia ofegando, mas jogou seu corpo a um lado a fim de lhe permitir que respirasse profundamente e deixasse de tremer.

Em sua cabeça buliam emoções que não conseguia compreender... Um milhar de emoções que a paralisavam e lhe provocavam sentimentos contraditórios: sentia-se única e vulnerável, apreciada e respeitada, atemorizada e afligida, e mais que nenhuma outra coisa, maravilhada.

Sam não deveria ter feito algo assim e em certo modo o odiava por haver-se aproveitado dela. Mas apesar de que o odiava, confiava nele e o necessitava; necessitava tudo o que fazia por ela.

Nessa ocasião não pôde conter as lágrimas que se acumulavam atrás de suas pálpebras fechadas: lágrimas de frustração, de fúria, de dor e de sonhos perdidos. Sam poderia havê-la tomado; desejava estar com ela de um modo mais íntimo e, entretanto não a tinha obrigado a fazer nada mais que trair-se a si mesmo. Nesse momento, em que pese a que ainda se encontrava entre seus braços e não se recuperou de tudo da deliciosa tormenta de sensações, desprezava-o na mesma medida que o desejava.

— Perguntou-me por que te beijei esta noite — murmurou ele por fim para romper o silêncio.

Olivia sacudiu a cabeça de uma maneira quase imperceptível, incapaz de responder.

— Livi — murmurou ao tempo que lhe roçava a orelha com o nariz, — beijei-te porque tudo o que há em ti me rogava que o fizesse.

— Não — replicou ela com um fio de voz.

Sam respirou fundo antes de afastar-se pouco a pouco dela, que até com os olhos fechados pôde sentir o calor de seu olhar sobre o rosto. E depois notou como as pontas de seus dedos se deslizavam sobre a testa antes de entrar às bochechas e retirar uma lágrima.

— É tão doce, tão linda... — resmungou ele com um tom rouco e ausente. — Por favor...

Mas Olivia já se afastou. Em sua pressa por escapar, golpeou com o quadril a prateleira da porcelana e fez tilintar suas encantadores bules. Dirigiu-se para a porta, longe da vergonha e a confusão. Deixou-o sozinho no silêncio e a penumbra da cozinha.

 

Claudette passeava por sua sala de estar, completamente furiosa. Furiosa. Edmund nunca a tinha tratado com tanto desdém como a noite anterior. Comportou-se como de costume enquanto dançavam... Possivelmente um pouco distante, embora ela o tivesse atribuído ao feito de que tinha retornado a Paris sem avisá-la e se mostrava como um cachorrinho mau com o rabo entre as pernas. Mas desatender um convite noturno a sua habitação era quão pior tinha feito nunca. Não lhe tinha negado os prazeres do dormitório nenhuma única vez em todos os anos que tinham acontecido desde que o conhecia. Descobrir à uma da madrugada, depois de uma conscienciosa busca no salão de baile, que se tinha partido com seu mulherzinha pouco depois da meia-noite a tinha enfurecido em extremo. Não podia dormir nem comer, de modo que tinha voltado para a suíte do hotel pouco antes das oito dessa mesma manhã, algo que deixou boquiabertos aos membros de seu pessoal de serviço.

O certo era que devia ter um aspecto espantoso, já que o delicado penteado se afrouxou durante a viagem de volta na carruagem e ainda levava o vestido de baile, agora cheio de rugas. Mas tinha todo o direito do mundo a zangar-se! Primeiro se tinha informado de que Edmund tinha retornado a Paris sem consultar-lhe e logo o tinha descoberto na terraço a sós com sua esposa, conversando como dois pombinhos, como se não existisse ninguém mais no mundo! Embora em alguma ocasião tivesse sentido ciúmes da Olivia, não eram nada comparável com o torvelinho de emoções que a tinha embargado ao descobri-la junto ao Edmund, com as cabeças unidas como se mantivessem uma conversa do mais íntima. Nunca tinha visto o Edmund tão interessado em nada do que Olivia tivesse que lhe dizer, e quando os encontrou à luz da lua teve que reprimir o impulso de esfolar a essa pequena cachorra com as unhas. Tinham-lhe dado tentações de aproximar-se do Edmund e beijá-lo apaixonadamente diante dos formosos e inocentes olhos de sua sobrinha para reclamá-lo e lhe fazer saber de uma vez que o homem com quem se acreditava casada tinha proprietária desde fazia muitos anos. Por desgraça, os bons maneiras se impuseram e conseguiu conter-se, recordando-se com eufórica satisfação que Edmund podia fingir interesse por Olivia, mas que era em sua cama onde despertaria ao amanhecer.

A estocada final tinha sido averiguar que ele não tinha a menor intenção de satisfazer suas exigências sexuais essa noite.

Nesse momento, depois do que não podia tomar-se mais que como um rechaço deliberado e cruel, não sabia o que fazer. Precisava falar com ele, descobrir como lhe tinham ido às coisas em Grasse até a chegada da Olivia e o que tinha ocorrido exatamente entre eles durante esses dias para que a tratasse com tanta desconsideração. A explicação que lhe tinha dado sobre fazer as pazes com sua suposta esposa e retornar com ela a Paris tinha sentido, mas... Resultava estranha. Edmund nunca fazia nada sem seu consentimento ou sem informá-la primeiro ao menos, em especial um pouco tão importante e delicado como isso. Mas o mais significativo era que Claudette sabia sem o menor gênero de dúvidas que era impossível que tivesse terminado com o cortejo da herdeira Govance.

Depois de várias horas de cuidadosa reflexão, decidiu que não tinha mais remedeio que enfrentar-se a ele em Nevam, onde a bom seguro estaria nesses momentos, amontoados na cama de sua sobrinha. Por Deus, não sabia como fazer as coisas sem contar-lhe tudo a Olivia, sem revelar que formava parte daquela extraordinária fraude. Desejava fazê-lo, mas o que ocorreria depois? Onde a deixaria isso? Na prisão, o mais seguro; e se negava em terminante a acabar nessa situação. Contudo, Olivia necessitaria alguma prova de sua participação, e sua sobrinha ainda se acreditava casada com o Edmund, já que em caso contrário não se teria mostrado tão cordial nem tão afetuosa com ele a noite anterior.

Mesmo assim, a partir desse momento teria um só objetivo em mente: reunir-se com o Edmund e certificar-se de que não tinha decidido deitar-se com a pequena e encantada Olivia. E a única forma de estar segura disso era aparecer de improviso em casa de sua sobrinha.

 

A loja estava suspeitamente vazia quando chegou. Normand se encontrava em seu posto habitual, junto à vitrine dianteira, repassando as faturas ou algo pelo estilo. O homem levantou a vista quando se abriu a porta e a olhou de marco em marco, tão estupefato ao parecer como seus criados pelo fato de vê-la acordada e passeando-se pela cidade antes da hora do almoço.

— vim a visitar o feliz casal — disse com um sorriso arrogante.

O homem fechou a boca imediatamente, e também o livro de contabilidade. Depois de jogar uma rápida olhada a seu redor para assegurar-se de que estavam sozinhos, afastou-se da vitrine para caminhar para ela.

— Madame comtesse, hoje está maravilhosa — disse ao tempo que honrava sua presença com uma pequena reverência.

Claudette soltou um bufo; sabia que tinha um aspecto horroroso devido à falta de sono e de seu asseio matinal, mas não tinha tempo para discutir esse ridículo comentário. Dobrou a sombrinha com fúria.

— Sei como chegar até suas dependências, Normand.

— OH, é obvio, madame — resmungou o vendedor, que se endireitou imediatamente e enlaçou as mãos às costas. — Mas me temo que não os encontre aqui.

Claudette deu um coice e cravou a vista no homem.

— O que é o que disse?

Normand se encolheu de ombros.

— Ela não está aqui. Quando cheguei esta manhã, madame Carlisle já tinha saído.

— saiu? — Claudette entrecerrou as pálpebras com avessas intenções. — Para que saiu? Onde?

O homem franziu o sobrecenho.

— Não tenho nem a menor idéia, embora fosse bastante óbvio que tinha pressa. Além disso, pediu que lhe baixassem a bagagem e levava uma mala bastante grande.

A testa de Claudette se encheu de enruga.

— A bagagem? E a que hora foi isso, querido Normand? — inquiriu com exagerada doçura.

— Bom, pois sobre... As nove ou assim.

— As nove — repetiu ela. Ao ver que Normand não acrescentava mais, perguntou: — Seu marido está sozinho acima, então?

Ele negou com a cabeça.

— Não, em realidade saiu justo depois que ela.

Lhe tinha escapado? Sem fazer a menor tentativa já por ocultar sua irritação, Claudette estendeu os braços aos lados e golpeou a vitrine de cristal com a sombrinha.

— Bem, não me faça esperar, aonde foram?

Normand soltou uma exclamação afogada de fingido horror e depois colocou a palma de sua mão sobre a muito caro camisa de linho.

— Como compreenderá madame comtesse, não tinha direito algum a perguntar-lhe.

Claudette notou que seu rosto se ruborizava com renovada fúria. Nada lhe teria proporcionado mais satisfação que estrangular a esse homem para lhe arrancar a informação. Essa pequena formiga... Não obstante, antes que pudesse dar começo à enxurrada de comentários mordazes, a porta principal se abriu a suas costas e entraram duas damas, mãe e filha, conversando e rindo, o que interrompeu seu delicado interrogatório.

Normand compôs uma expressão agradável e centrou sua atenção nelas.

— Madame e mademoiselle Tanquay. É um enorme prazer as ver esta encantadora manhã. Estarei com vocês em um momentinho.

Claudette não tinha tempo que perder.

— Normand...

— Madame comtesse — interrompeu-a ao tempo que se tornava de novo para ela, — posso falar com você um instante no salão?

Durante um segundo, Claudette ficou muda de assombro, mas depois se recuperou e sorriu com ar satisfeito ao dar-se conta de que talvez quisesse compartilhar com ela alguma informação importante.

— É obvio — respondeu com o queixo em alto e os ombros erguidos antes de encaminhar-se para ali.

Normand lhe pisava nos talões e, logo que entraram no salão, Claudette se voltou para ele com ar majestoso e expressão impaciente.

— O que tem que me contar Normand? — inquiriu com tom brusco.

O homem se tomou seu tempo. Esfregou-se a mandíbula com a palma da mão enquanto jogava uma olhada por cima do ombro para as cortinas de veludo vermelhas, parcialmente abertas, para vigiar às denta, que nesse instante estavam absortas nos saquinhos perfumados colocados na prateleira situada detrás da vitrine.

Claudette aguardou com crescente irritação. Sabia que a aparente relutância a falar do Normand era deliberada e que estava destinada a lhe provocar certa espera... A bom seguro esperava receber uma recompensa. Era um homem detestável.

Por fim, Normand lhe concedeu toda sua atenção.

— Tenho certa informação... — disse em voz baixa.

— Disso não me cabe dúvida — espetou-lhe ela. — Não acreditará que aceitarei a vir a este espantoso salão vermelho para conseguir uma taça de champanha ou para conversar com você sobre as fragrâncias da temporada...

Esse comentário arrogante não o amedrontou nem o mais mínimo.

— pela que terá que me dar uma compensação econômica, certamente — finalizou com um sorriso complacente.

Normand a formiga. Sempre tão previsível...

— Do que se trata?

O homem cruzou os braços sobre o peito e se aproximou um passo a ela.

— Eu gosto especialmente do bracelete de diamantes que tem posto.

Claudette seguiu o olhar do vendedor até seu pulso esquerda, onde o bracelete de deliciosas pedras de vinte quilates que lhe tinha agradável seu primeiro marido quinze anos atrás brilhava em todo seu esplendor. Era com muito sua melhor jóia, e só a punha em ocasiões elegantes, como o baile da noite anterior. Essa insinuação, o fato de que Normand acreditasse que consideraria sequer a idéia de entregar -lhe deixou -a sem palavras.

— Não pode falar a sério — assinalou estupefata. — Deve ter perdido a cabeça se acreditar que vou entregar lhe os diamantes... Estes diamantes nada menos... Em troca de um pouco de informação, Normand.

O homem soltou um suspiro exagerado e sacudiu a cabeça enquanto baixava a vista até a ponta de um seus brilhantes sapatos negros, que não deixava de mover sobre o tapete.

— Acredito que eu me pensaria isso melhor se estivesse em seu lugar, madame. A... Informação... Que possuo é muito, muito valiosa. — Voltou a olhá-la aos olhos. — Ao menos para você.

Pela primeira vez desde que o conhecia, Normand conseguiu desconcertá-la por completo. Claudette não o tinha visto nunca tão arrogante, tão seguro de levar as rédeas, como nesse instante.

— O que é o que quer Normand? — perguntou com muita cautela, deixando claro com a seriedade de sua voz e a rigidez de sua postura que não permitiria que jogasse mais com ela.

O homem voltou a jogar uma olhada por cima do ombro, evasivo. Depois, inclinou-se para diante e murmurou:

— Acredito que preferiria que me entregasse o primeiro bracelete.

Claudette não podia dar crédito à semelhante insolência. Inclinou a cabeça antes de esboçar um sorriso desdenhoso.

— me diga onde estão e aonde foram e talvez me pense isso.

Normand se pôs-se a rir baixo e começou a coçar as costeletas.

— Ai, madame comtesse, sei muito mais que isso.

Atônita uma vez mais, Claudette piscou com rapidez e o olhou de cima abaixo com uma careta de desprezo e incredulidade.

— O bracelete? — pediu de novo o homem, que estendeu o braço para ela com a palma aberta.

Desejava assassiná-lo... Mas não antes de ter descoberto o que sabia; seu sorriso satisfeito revelava por si única a importância da informação que tinha em seu poder, e isso era do mais significativo. Jamais lhe teria pedido algo de tanto valor pessoal para ela sem uma boa razão. Talvez fora um asqueroso bastardo, mas não era estúpido.

Depois de arrojar o guarda-sol ao sofá de veludo que havia a suas costas, Claudette se arrancou os diamantes do pulso.

— Sabe que o recuperarei — advertiu-lhe, fulminando-o com o olhar. — E farei que o prenda por roubo.

— Não, acredito que não — replicou ele imediatamente com tom despreocupado. — Terei-o desmontado e vendido por peças antes do meio-dia. Tenho... Conhecidos, digamo-lo assim, que se encarregam dessas coisas. Por uma pequena quantidade de dinheiro, certamente.

Odiava-o. Odiava-o de verdade. Com os rasgos tensos por causa da fúria, Claudette lhe arrojou o bracelete com força e lhe deu no peito, embora ele o apanhasse sem problemas com uma mão.

— Comece a falar — exigiu entre dentes ao tempo que apertava os punhos aos flancos.

O homem aguardou, desafiando-a a propósito enquanto elevava a jóia para inspecioná-la; cada diamante refletia a luz do sol que entrava por uma janela próxima enquanto ele o fazia girar entre o dedo indicador e o polegar.

— Normand, juro-lhe que...

O vendedor fechou a mão em torno do bracelete e sorriu.

— Talvez queira sentar-se.

Claudette se inclinou para ele.

— diga-me isso agora mesmo, pequeno sapo, ou lhe juro Por Deus que lhe atravessarei a garganta com a sombrinha e deixarei que sangre até a morte sobre esta horrível atapeta vermelha.

A ameaça nem sequer o fez piscar.

— Apostaria esta preciosa peça de ourivesaria a que ambos estão agora de caminho ao Grasse.

Claudette soltou uma exclamação afogada e o olhou com a boca aberta.

— Isso é tudo?

— Nooo...

Estava a ponto de explorar, e o fato de que ele fora consciente disso não fazia a não ser piorar as coisas.

— Pense-o, madame comtesse — continuou em voz baixa; entrecerrou os olhos enquanto e se meteu as mãos nos bolsos da jaqueta do traje. — por que acredita que viajam para o Grasse?

Algo estranho começou a lhe roer as vísceras e a fez vacilar; algo que ainda não conseguia definir.

— por que você crie que vão para ali, Normand? — replicou com voz tensa.

Ele respirou fundo e se balançou sobre os pés.

— Acredito que vão de caminho para ali para enfrentar-se ao homem ao que Olivia considera seu marido e que nestes momentos trata de seduzir ao Brigitte Marcotte do Govance.

Claudette se limitou a olhá-lo e sacudiu a cabeça muito devagar, perplexa. Logo, como se do estalo de um trovão próximo se tratasse, a verdade penetrou em sua cabeça. Afastou-se do homem de um salto com os olhos abertos como pratos e estupefata além de toda explicação, apanhada em uma tormenta da mais pura incredulidade.

— Ai, Meu deus... — sussurrou enquanto a habitação começava a dar voltas a seu redor.

— Quer sentar-se agora? — perguntou Normand com tom afável.

Claudette não podia respirar, não podia falar. Sentiu que lhe dobravam as pernas e, quando deu um passo atrás, pisou-se na prega do vestido e caiu sobre o sofá. A muito caro sombrinha ficou esmagada sob seu traseiro, mas ela nem sequer se deu conta.

Demorou longos e dolorosos segundos em assimilar esse giro tão inesperado e perigoso dos acontecimentos. Cravou a vista no tapete, presa dos tremores, e começou a suar quando começou a entender o que tinha ocorrido a seu redor sem seu conhecimento, sem que se desse conta; quando começou a compreender o que ocorreria no Grasse enquanto ela permanecia ali sentada na ignorância, encaixando as peças daquela terrível revelação.

Samson estava ali. Tinha ido à França em segredo a pedido da Olivia, ou pode que inclusive com ela. A jovem tinha ido única em busca de seu extraviado marido, mas não ao Grasse como ela tinha suposto, a não ser a Inglaterra, e tinha retornado Sam em vez de com ele.

Samson e Olivia.

Santa mãe de Deus...

Elevou a vista para o Normand, que seguia igual à antes, tamborilando no chão com as pontas dos pés e com um sorriso satisfeito em sua desprezível boca.

— Você sabia.

Ele se encolheu de ombros.

— Supunha-o.

Jamais tinha experiente uma mescla de sensações como a que a embargava nesses momentos: confusão, frustração, medo e pura raiva. Sobre tudo raiva, em especial contra si mesmo por ter sido tão estúpida para não precaver-se do que tinha ocorrido diante de seus narizes nos últimos dias.

Deveria ter descoberto a farsa, tal e como o tinha feito Normand, e muito mais rápido. Deveria havê-lo sabido. Tudo os sinais estavam presente: as excelentes aptidões de Sam para o baile, o cabelo mais curto, sua falta de interesse quando flertava com ele e o momento íntimo que tinha compartilhado com sua sobrinha na terraço. Por Deus, se até o tinha convidado a sua habitação! Não era de sentir saudades que tivesse fugido. Estava claro que tinha ficado como uma estúpida diante de todo mundo, e sem dúvida Samson o tinha desfrutado mais que ninguém.

— Quando? — conseguiu pronunciar com voz rota. — Como se deu conta, Normand?

— Monsieur? O parfum, s’il vous plaît?

Normand se voltou para a voz que os tinha interrompido e ficou tão surpreso ao ver as duas damas que se achavam atrás dele como ela mesma.

Uma fúria irracional se apoderou do Claudette.

— Está ocupado — assinalou com um tom irado que pareceu transpassar as paredes.

As mulheres a olharam de marco em marco. Normand se interpôs entre elas para solucionar o assunto.

— me dêem um momento, por favor, senhoras. Escolham qualquer fragrância ou artigo que queiram e, em troca de sua paciência, eu lhes subtrairei a metade do preço de venda.

Não lhe deram as obrigado por sua generosidade, mas tampouco partiram da loja. Claudette fez caso omisso de sua presença quando as damas titubearam uns instantes antes de aproximar-se de novo às vitrines sem deixar de sussurrar.

Normand voltou a cravar a vista nela com os olhos entrecerrados em um gesto de chateio.

Claudette tampouco lhe emprestou atenção a isso.

— Como o adivinhou? — repetiu, embora já tivesse recuperado um pouco de sensatez.

O homem suspirou.

— Em primeiro lugar, chamou-a Livi...

— Edmund detesta os apelidos carinhosos — interveio ela ao tempo que aferrava a saia do vestido com ambas as mãos.

— Sim, sei — assegurou -lhe Normand com tom frio. — Isso despertou minhas suspeitas imediatamente. Mas também havia algo mais... «sutil» entre eles.

— O que? — pressionou-o Claudette com a testa enrugada.

O vendedor sorriu com malícia, desfrutando em extremo com toda aquela situação.

— Sua forma de olhá-la.

— Sua forma de olhá-la?

— Eu diria — começou com regozijo ao tempo que se inclinava para ela, — que parecia enfeitiçado por sua sobrinha. E Olivia por ele.

Claudette notou que se ruborizava que o suor umedecia seu lábio superior e que seu coração começava a pulsar mais às pressas.

Isto não pode estar ocorrendo, pensou.

Pela primeira vez em sua vida, acreditou que se deprimiria de verdade. O salão vermelho começou a girar a seu redor em um torvelinho carmesim que lhe produziu náuseas. Sentia-se enjoada em meio daquele calor cansativo, dentro do apertado e pesado vestido.

Fechou os olhos para respirar tão profundamente como foi possível um par de vezes e tentou concentrar-se, recuperar o controle de seus sentidos e de seus pensamentos, digerir aquela inesperada revelação e as possíveis conseqüências que teria para ela e inclusive para o Edmund. Para ambos como casal. Tudo tinha trocado e precisava pensar tomar uma boa decisão agora que Sam e Olivia estavam a par da maior parte de seu estratagema, mas sim de toda ela. Tudo tinha trocado, e não podia refletir a respeito das opções que tinha nesse lugar, com a pequena formiga observando cada um de seus movimentos.

Ficando ornamento de um grande aprumo, levantou as pálpebras para olhar ao Normand uma vez mais. Ele não tinha afastado o olhar dela, embora sua expressão nesse momento fosse de curiosidade e não de insolência, como a que mostrava instantes atrás. Sorriu-lhe com cinismo enquanto recuperava a compostura. Depois, ficou em pé muito devagar para enfrentar seu olhar atrevido com uma similar de colheita própria e se alisou a saia antes de afastar o cabelo da testa, ainda coberta de suor.

— Bom — disse com tom prático, — suponho que terei que me preparar para uma viagem ao Grasse.

Normand sorriu com desdém e começou a mover as pontas dos pés uma vez mais.

— Consta-me que monsieur Carlisle estará encantado de vê-la.

Claudette arqueou uma sobrancelha.

— Disso não me resta à menor duvida — replicou.

— Além disso, tenho denta que precisam minha atenção — acrescentou o homem. — Mais tarde procurarei a alguém que se encarregue de vender os diamantes.

Havia-o dito por puro despeito, para lhe recordar quanto lhe havia flanco conhecer os detalhes que lhe permitiriam estar um passo por diante de todos outros. Para falar a verdade, tinha sido um preço pequeno a pagar por semelhante informação: Samson e a encantada e doce Olivia não tinham nem a mais mínima idéia de que ela estava à corrente de tudo.

Claudette estirou o braço para trás para pegar seu guarda — sol. Logo, aproximou-se até o Normand com um par de passos.

— Desfrute do dinheiro que consiga com a venda do bracelete, Normand. Tenho a certeza de que o gastará com prudência.

O homem assentiu com a cabeça.

— Disso pode estar segura, madame comtesse. Desejo-lhe uma viagem tranqüila e frutífera.

Com absoluto regozijo, Claudette lhe cravou a sombrinha na ponta do pé e apertou com força sobre seus dedos.

— É um bode, Normand.

E atrás disso se afastou dele. Passou por cima o atormentado ofego do homem e o enrijecimento de seu rosto enquanto atravessava o salão de Nevam em direção à porta principal.

 

A última coisa que Sam desejava era viajar a Grasse. Por Deus, a costa mediterrânea em junho? Já fazia bastante calor, e a temperatura abrasadora do sul da França certamente o mataria. Não obstante, ali era onde vivia seu irmão, e posto que não fosse permitir que Olivia fora até esse lugar única, sua opinião sobre o clima era de tudo irrelevante.

Tinha aguardado Olivia essa manhã sabendo de que ela tentaria ir Grasse sem ele depois da surpreendente noite de paixão que tinham compartilhado. E quando suas suspeitas se viram confirmadas, estava preparado: seguiu-a fora de Nevam e a agarrou por braço antes que subisse à carruagem que a esperava.

É obvio, Olivia se tinha enfurecido com ele por ter descoberto sua intenção de abandonar Paris única em busca do Edmund, mas Sam se deu conta de que a verdadeira razão pela que queria fugir dele estava justo diante de seus narizes. Não deveria havê-la beijado, não deveria havê-la levado até o orgasmo sem seu consentimento, sem ter em conta as conseqüências e, em especial, seus sentimentos. E esmagando-a contra a parede da cozinha, nada menos. Por todos os Santos, no que estava pensando? Tinha-o enfeitiçado, tinha utilizado com ele uma espécie de... Poder misterioso. Um poder que somente Olivia possuía, já que nas relações que tinha mantido com antecedência nenhuma mulher, nem sequer Claudette, tinha-lhe feito experimentar os estranhos e conflitivos sentimentos que lhe provocava: uma luxúria irrefreável chateio, e uma urgente necessidade de seduzir, dominar e proteger.

Não podia tirar-se a da cabeça. Não tinha deixado de pensar nela nem um só minuto da noite que a conheceu na Inglaterra, e lhe parecia que tinha entrado uma eternidade após. Olivia o assombrava e o fascinava em todos os sentidos imagináveis: com sua inteligência e sua peculiar aptidão para os negócios; com essa risada doce e sedutora; com sua resolvida determinação; e sim, também com sua inocência. E para dificultar ainda mais as coisas entre eles, tinha que ser a mulher mais bela que tivesse visto jamais. Entretanto e por cima de tudo, Olivia o confundia até um ponto vizinho no irracional; e a irracionalidade não só era algo impróprio dele, mas sim o incomodava mais que todas as demais costure juntas.

Tinha-a desejado com desespero a noite do baile e, por muito que o negasse, ela tinha respondido com paixão a essa urgente e inexplicável necessidade de tocá-la. Conhecia gênero feminino e suas reações muito bem, e não acreditava ter estado nunca com uma mulher tão úmida e tão disposta; não tinha estado nunca com nenhuma que tivesse chegado ao clímax com apenas umas simples carícias. Observar seu orgasmo o tinha levado a beira do abismo, e sem dúvida ela tinha notado sua reação quando se apertou contra seu corpo para que soubesse como o tinha afetado fisicamente.

Mas era virgem? Não podia deixar de perguntar-lhe Tinha reagido a suas carícias, mas isso não significava que tivesse alguma experiência real. Além disso, o fato de que não se deitou com o Edmund não queria dizer que não o tivesse feito com outro antes. Depois de tudo, era uma francesa de quase vinte e cinco anos, e todas quão francesas tinha conhecido ao longo de sua vida eram bastante promíscuas. Contudo, talvez não fossem mais que prejuízos associados com esse passado que em ocasiões retornava para atormentá-lo, como tinha ocorrido ao ver o Claudette de novo depois de tantos anos.

Ao menos já se encontravam próximo de Grasse, no lance final da viagem através da Provenza. Foram sozinhos na carruagem de aluguel, embora tivesse tido que pagar uma soma considerável a fim de assegurar um passeio privado. A viagem tinha transcorrido com bastante lentidão, já que tinha caído uma garoa constante desde que abandonassem a cidade para entrar no campo. O sol não tinha feito sua aparição até no dia anterior, quando deixaram atrás Gorges Du Loup e começaram a atravessar um campo atrás de outro de aromática lavanda.

Essa mesma manhã, enquanto tomavam o café da manhã café e pão-doces, Sam se tinha dado conta de que ambos tinham começado a ficar nervosos ante a iminente chegada. Isso não queria dizer que Olivia lhe tivesse dirigido a palavra, porque de fato se negava a falar com menos que fora estritamente necessário. Ele tinha aceitarei a alugar quartos separados quando se detiveram passar a noite, mas somente depois de lhe advertir que a perseguiria até lhe dar caça se lhe ocorria partir dali em meio da noite sem seu conhecimento. Tinha a certeza de que Olivia se atendría ao lembrado, já que viajavam ao mesmo lugar com um propósito muito particular, e ela o necessitava em muitos sentidos, o que sem dúvida a enfurecia ainda mais.

Nesse instante se dedicou a observá-la. Estava sentada frente a ele no assento acolchoado da carruagem, com os olhos fechados a fim de aliviar o estalo continuado constante do veículo e o leque de marfim obstinado entre as mãos, sobre o regaço. Esse dia se recolheu o cabelo trancado no cocuruto e tinha posto um típico vestido de amanhã de seda azul esverdeado; era a primeira oportunidade que tinha de ficar algo distinto ao traje de viagem azul marinho, que segundo ela era bastante cômodo apesar de que ia abotoado até o pescoço. O certo era que o vestido de viagem não lhe sentava muito bem, mas Sam sabia que teria apreciado seus deliciosos encantos com qualquer objeto que levasse posta. Entretanto, esse dia era diferente. Logo se enfrentariam ao homem que a tinha arruinado economicamente, o homem que somente se parecia com ele no plano físico, e era óbvio que Olivia desejava ter o melhor aspecto possível. O vestido azul esverdeado, com um decote quadrado e baixo, realçava sua figura, suas bochechas ruborizadas e o vibrante azul de seus olhos, e devia lhe resultar mais afresco agora que o calor do verão tinha retornado para acompanhá-los durante o último dia de viagem.

Não tinha falado muito com ele esse dia e se negava em terminante a conversar sobre o encontro íntimo que tinham mantido a outra noite. Não havia muito que dizer a esse respeito, supôs Sam, embora esperasse que Olivia pensasse nisso tão freqüentemente como ele. Entretanto, deviam falar antes de chegar ao Grasse para intercambiar idéias e organizar seus planos. Deviam chegar a um acordo e seguir adiante. Com isso em mente, Sam decidiu que tinha chegado o momento de quebrar o gelo e ficar mãos à obra.

— O que vais dizer lhe a meu irmão quando o vir?

Olivia piscou várias vezes antes de abrir os olhos.

— Não sei — replicou depois de um muito breve hesitação. — Ainda não sei muito bem como me enfrentar a ele.

Isso o surpreendeu, tendo em conta a determinação e a coragem que estava acostumado a mostrar.

— Quer que me primeiro reúna com ele?

— Não — respondeu ela de maneira brusca.

Sam apoiou a cabeça sobre o respaldo, mas não lhe tirou a vista de cima.

— Não pode seguir zangada comigo para sempre, Olivia.

Isso captou sua atenção. Suas bochechas se ruborizaram e sua mandíbula se tensionou.

— Não estou zangada; estou cansada.

— Já... — Entrelaçou os dedos das mãos. — Bom, posto que não esteja zangada comigo, importaria-te falar do que ocorreu a outra noite entre nós?

Olivia guardou silêncio durante uns instantes. Depois fechou os olhos de novo.

— Já esqueci esse incidente.

Incidente? Sam teve que apertar os lábios para não soltar uma gargalhada.

— Pois eu não o esqueci, Olivia — disse arrastando as palavras. — Revivo-o uma e outra vez a cada minuto do dia. — Sabia que a estava envenenando, mas por alguma razão desejava que soubesse quanto o afetava a nível sexual.

Olivia compôs uma careta indignada e levantou as pálpebras uma vez mais para fulminá-lo com o olhar.

— Se eu o revivesse uma e outra vez, como você afirma fazer — revelou com voz rouca, — estaria traindo a meu marido. E por muito que despreze o que me tem feito, pronunciei meus votos e tenho a intenção de mantê-los. Ao parecer, o único que fica é minha palavra.

Essa resposta o deixou atônito. Não estava acostumado à fidelidade no matrimônio nem em nenhum outro tipo de relação, assim não lhe tinha ocorrido pensar que ela pudesse sentir-se molesta pelo que considerava uma debilidade da carne. Nesse instante compreendeu o muito que a tinha perturbado o momento de paixão que tinham compartilhado, e em certo sentido, sentiu-se admirado por sua devoção... Embora o irritasse em extremo que ela pudesse esquecer sem mais o que tinham compartilhado.

Olhou-a aos olhos durante vários segundos, indeciso. Logo decidiu mandar ao inferno as dúvidas e quis que ela conhecesse a verdade; devia conhecê-la antes de enfrentar-se a seu irmão.

— Olivia — começou ao tempo que se endireitava um pouco no assento e se passava os dedos pelo cabelo, — tenho que te contar algo que não vai fazer te nenhuma graça.

Ela esteve a ponto de soltar um bufo.

— Não sei se poderei suportar outra de suas surpresas, Excelência.

— Deixa de me chamar assim — queixou -se, exasperado. — Parece-me que já deixamos atrás as formalidades, não crie?

Ela contemplou uma colina coalhada de lavanda através do guichê antes de voltar a dirigir-se a ele com expressão decidida.

— Não quero seguir com os joguinhos, Sam.

— Eu tampouco — disse ele em voz baixa enquanto estirava as pernas para poder colocar os pés sob as saias de seu vestido. — Nada de jogos. Não mais mentiras.

Ela se deu uns batidinhas no regaço com o leque e entrecerrou as pálpebras em um gesto suspicaz.

— Quer dizer que me mentiste?

Sam detectou certo matiz de dor em sua pergunta, e isso lhe provocou um nó nas vísceras. Esboçou um leve sorriso.

— Não, nunca te menti, Livi; mas tampouco te contei toda a verdade.

A Olivia lhe encheu a testa de rugas enquanto o percorria com o olhar.

— O que é o que não me contaste?

— Certa informação importante, pode que inclusive crucial. E que te vai enfurecer.

Olivia tragou saliva com força, mas se manteve erguida, preparando-se sem dúvida para a tormenta que estava por chegar. Sam desejou que houvesse algum modo suave e fácil de lhe explicar tudo o que sabia sobre seu matrimônio, mas não lhe ocorria nenhum. Depois de respirar fundo, decidiu decantar-se pela sinceridade.

— Tenho que te dizer algo Olivia, e sem importar como se sinta, quero que saiba que é a verdade tal e como eu a conheço.

Esperou a que ela dissesse algo, mas somente se limitou a olhá-lo.

Sam se inclinou para diante e apoiou os cotovelos nos joelhos antes de entrelaçar as mãos por diante.

— Recorda a Colin Ramsey, o homem ao que conheceu no baile de Londres?

Olivia inclinou a cabeça um pouco.

— Sim, é obvio que sim. É um homem bastante difícil de esquecer.

Não sabia se devia tomar-se isso bem ou mal, embora a pontada de ciúmes que sentiu no peito o incomodou sobremaneira. Colin, o preferido das damas: sociável, encantador e galante. Tudo o que ele não era.

— Caiu-te bem, verdade? — inquiriu, embora se arrependesse de querer saber algo tão estúpido e irrelevante no preciso momento em que formulou a pergunta.

Ela sorriu com ironia.

— É muito arrumado.

Arrumado? Isso era tudo? O que queria ouvir era que ela jamais se interessaria por um homem como ele, mas não tinha modo de conseguir que Olivia lhe fizesse uma descrição mais extensa de seu amigo.

Assentiu com a cabeça, decidindo que seria melhor continuar.

— O que vou dizer te deve ficar entre nós, compreendido?

— vais dizer me que esse homem está envolto em algo ilegal? — perguntou ela depois de uma larga pausa.

— Sim — murmurou Sam sem vacilar.

Olivia franziu o cenho e abriu o leque antes de começar a agitá-lo muito devagar diante de seu rosto.

— Não consigo imaginar o que têm que ver comigo as... Atividades de seus amigos, milorde.

Esse tom frio e formal começava a irritá-lo.

— Que Deus me ajude Livi, meu amor, mas se me chama «milorde» ou «Excelência» outra vez quando estivermos a sós e em privado, beijarei-te até te deixar sem fôlego.

O leque se deteve em seco e ela o olhou com a boca aberta. Depois, apertou os dentes e aspirou de maneira brusca.

— Não me chame «meu amor» — exigiu enquanto começava a abanar-se de novo. — Não sou seu amor, e esse tipo de familiaridade entre nós resulta do mais indecorosa.

Havia tornado a dizer algo que ele não tinha previsto, e esse súbito e descarado comentário lhe doeu muito mais do esperado.

— Está claro que não é o amor do Edmund — disse em voz muito baixa, — e disso é do que quero falar.

Olivia piscou com vacilação antes de voltar a desviar a vista para o guichê.

— Não faz mais que te andar com rodeios, Sam.

— Suponho que isso é certo — reconheceu ele com um suspiro. Observou-a durante uns instantes e tomou nota de sua postura rígida, da tensão que irradiava sua expressão impassível. Aquilo ia fazer lhe muito dano, mas não lhe ocorria outra forma de lhe contar as coisas mais que lhe revelar os fatos tal e como os conhecia. — Deixa que vá direto ao grão.

— Por favor — disse ela com tom cortante.

Sam uniu as pontas dos dedos.

— Colin Ramsey é um agente do governo britânico.

Ao parecer, Olivia demorou uns segundos em assimilar essa informação. Logo, afastou a vista da janela com o cenho franzido e o olhou como se tornou louco. Sam continuou antes que ela pudesse expressar sua incredulidade.

— Sua especialidade são as falsificações — acrescentou com voz séria, — os documentos falsificados que se encarrega de realizar e de identificar a instâncias do governo. Lhe dá muito, muito bem seu trabalho, e tem muita experiência; pagam-lhe somas exorbitantes por seus serviços. Até a data, jamais errou na hora de identificar um trabalho de falsificação. — Fez uma pausa para observá-la com atenção e depois perguntou: — Entende-o?

Olivia ficou calada enquanto o estudava ao detalhe, embora já não parecesse zangada, a não ser nervosa. Não deixava de retorcer o leque entre as mãos.

— O que tem isso que ver comigo? — inquiriu ao final.

Sam não sabia como expor o de maneira delicada, de modo que se limitou a revelar:

— Fiz que revisasse e analisasse a licença matrimonial que me entregou.

Olivia sacudiu a cabeça muito devagar, sem ter muito claro o significado que se ocultava atrás dessas palavras.

— Mas te entreguei o original — disse com tom grave e controlado, — não uma cópia. Se tomou por uma falsificação, está equivocado.

— Não está equivocado — assinalou Sam com amabilidade. — O documento matrimonial que assinaram Edmund e você, o documento original, não é legal.

Olivia permaneceu imóvel, com os olhos exagerados por causa da incredulidade.

— Isso não é possível. — Tomou fôlego de forma entrecortada. — Pronunciei os votos; casou-nos um sacerdote...

— Olivia — interrompeu -a Sam com voz solene. — Suspeito que pronuncie esses votos frente a um ator contratado.

Não podia afastar a vista dela. A mulher piscou várias vezes seguidas com uma expressão que delatava a mescla de estupefação e confusão que sentia a angústia e os receios que a embargavam. Sam tinha esperado esse tipo de dor, mas experimentou a estranha necessidade de compartilhá-lo com ela. Edmund lhe tinha feito muito dano, e esse simples feito avivou o desprezo que sentia por seu irmão.

— Não... Não acredito — murmurou ela depois de um momento; tinha os olhos cheios de lágrimas que tentava não derramar diante dele.

— me diga uma coisa — pressionou -a depois de tomar uma profunda baforada de ar, — pareceu -te que Edmund estava impaciente por anunciar seu matrimônio em sociedade?

Pergunta-a a surpreendeu e titubeou antes de responder.

— Não. Posto que nos tivessem casado muito pouco tempo depois de nos haver conhecido, disse-me que seria melhor esperar para anunciá-lo, e eu estive de acordo com ele.

— Já vejo. Assim, é muito possível que ninguém conheça seu suposto matrimônio salvo a gente de Paris que se move dentro de seus círculos sociais...

— É muito provável, sim.

Sam se esfregou a cara com a palma da mão.

— Eu diria que se faz entrar por solteiro. Por que crie que está no Grasse, cortejando a outra herdeira incauta? Porque pode fazê-lo. Por que crie que não se deitou contigo a noite de núpcias? Porque te fazer o amor não só complicaria seus planos de manter-se afastado de ti sentimentalmente; não podia permitir o risco de te deixar grávida, já que tinha pensado te abandonar do preciso momento em que te conheceu. Não tinha intenção de enfrentar o obstáculo que suporia um menino não desejado, algo que, de alguma retorcida maneira, seria provavelmente o mais honorável que tivesse feito em sua vida. — ficou calado uns segundos antes de acrescentar com veemência: — Todos os fatos desta sórdida farsa indicam que não está casada com o Edmund, Olivia. E por muito que me alegre essa idéia pessoalmente, jamais te mentiria sobre algo assim. Jamais.

Ao parecer, Olivia necessitou vários minutos para digerir sua declaração, suas explicações e raciocínios, e o que significavam para ela e para a relação que a unia a seu irmão. Baixou os olhos e cravou a vista em seu regaço enquanto respirava com regularidade, quase sem fazer ruído.

— por quê? — perguntou ao fim.

Ao igual a ele, Olivia podia compreender o porquê de semelhante escárnio, as razões pelas que seu irmão a tinha enganado dessa forma.

— Edmund é um bode embusteiro, sempre o foi. A única explicação das coisas que faz é seu próprio egoísmo.

Olivia levantou a vista uma vez mais. Tinha o rosto pálido e uma expressão ausente; cravou os olhos nele como se refletisse sobre as mentiras em busca de uma resposta.

— E minha tia estava inteirada de tudo; planejou-o com ele.

— Sim — replicou Sam, que teve que lutar contra o impulso de estirar um braço para acariciá-la, sabendo de que se o fazia, ela o rechaçaria imediatamente. — Disso estou seguro.

Finalmente, Olivia ergueu os ombros e recuperou um pouco o controle antes de esfregá-los olhos e enxugá-la bochecha com a palma da mão.

— Crie que...? — esclareceu-se garganta e retorceu o leque com ambas as mãos. — Crie que são amantes?

A Sam lhe fez um nó nas vísceras. Ela tinha cravado a vista em seu colo, incapaz de olhá-lo no rosto, e tinha um aspecto tão doce que lhe derreteu o coração.

— Olivia...

Ela sorriu com amargura.

— Crie-o, não é assim?

Sam tornou a reclinar-se no assento.

— Acredito que foram amantes durante anos — admitiu com ternura.

Olivia meneou a cabeça antes de apoiar a têmpora contra o lateral da carruagem e contemplar a paisagem que deixavam atrás através do guichê.

Não tinha nem idéia do que lhe dizer, assim Sam também guardou silêncio e apoiou a cabeça no encosto. O dia tinha passado muito depressa e já quase estavam nos subúrbios da cidade. Deviam encontrar um lugar onde passar a noite, pensar bem as coisas, traçar um plano de ação e enfrentar se por fim ao inimigo, a seu irmão.

— por que não me contou isto antes, Sam?

Voltou à cabeça para observá-la uma vez mais. Seguia olhando pela janela.

— Não sabia se me estava mentindo — respondeu depois de pensá-lo uns segundos — se Edmund e você tinham planejado toda esta farsa juntos para lhes fazer com minha herança. — Respirou fundo antes de acrescentar com tom vacilante — Não sabia se podia confiar em ti.

Ela sacudiu a cabeça.

— E o que te faz pensar que pode confiar em mim agora?

— Não sei — replicou imediatamente. — Em realidade não sei por que confio em ti, mas o faço. E essa é a resposta mais sincera que posso te dar.

Olivia trocou de posição no assento e o olhou de soslaio.

— Odeio-te por não me haver isso dito até agora — sussurrou com uma voz carregada de ira.

Sam se sentiu como um verme.

— Sei — disse depois de um longo suspiro. — Sinto muito.

Ela se limitou a olhá-lo com expressão reservada enquanto acariciava o suave marfim do leque com a ponta dos dedos. Depois, para seu mais absoluto assombro, deixou o leque a seu lado no assento e se levantou de seu assento para situar-se a seu lado, deixando que a saia do vestido lhe cobrisse as pernas. Esquadrinhou cada rasgo de seu rosto, seu seio e seus ombros. A seguir lhe rodeou o pescoço com os braços e o abraçou com força enquanto aconchegava a cabeça sob seu queixo.

— Odeio-te, Sam — sussurrou -lhe ao ouvido. Deu-lhe um beijo na mandíbula antes de aconchegar-se de novo contra ele. — Odeio-te... Mas te necessito com desespero. Que Deus me ajude, mas é a única pessoa no mundo em que confio.

Sam se sentiu envolto por uma curiosa sensação de irrealidade que lhe nublou o julgamento e a sensatez com uma bruma de sentimentos desconcertantes que não conseguia identificar nem dominar. Não sabia o que dizer o que se esperava que fizesse; não sabia nada. Olivia cheirava às mil maravilhas e parecia muito doce entre seus braços; se mal não recordava, era a primeira vez que desfrutava da proximidade de uma mulher sem nenhum tipo de intenção sexual. Acomodou-se no assento para poder rodeá-la com os braços e estreitá-la com facilidade.

Ela afrouxou o abraço um pouco.

— Obrigado — murmurou depois de um instante de silêncio.

Sam morria por beijá-la ali mesmo; por liberar a das preocupações, do medo e da angústia com beijos; por explorar a consciência cada uma das emoções que provocava nele e lhe demonstrar o muito que se preocupava com ela e por seu futuro.

Como se lhe tivesse lido os pensamentos, Olivia se inclinou para ele sem prévio aviso e posaram os lábios sobre os seus com suavidade, sem mover-se, somente roçando-os. Sam sentiu um nó na garganta ao perceber o desejo e a solidão que destilava esse quente contato. Entretanto, não se moveu não a pressionou em busca de mais, já que sabia que o momento de paixão chegaria mais tarde. Todas as dúvidas sobre o desejo que sentia por essa mulher, sobre sua necessidade de formar parte de sua vida, esclareceram-se imediatamente; de fato, desvaneceram-se no preciso momento que admitiu que confiasse nele. Esperá-la-ia, mas não voltaria a questionar-se se seria dela ou não.

Pouco a pouco, Olivia se afastou e se endireitou no assento; afastou os braços dele e apoiou as mãos no regaço. Percorreu-lhe o rosto com o olhar, atrasando-se nos lábios, o cabelo e os olhos, e depois franziu o sobrecenho em um gesto de curiosidade... Ou talvez de desconcerto.

— Sei o que está pensando — disse Olivia finalmente.

Sam sorriu para seu próprio, muito consciente de que ela não tinha nem a menor idéia.

— Seriamente?

Olivia assentiu muito devagar, com as pálpebras entreabertas, como se o estivesse pensando com atenção.

— Quer representar um papel, lhe fazer acreditar no Edmund que você e eu estamos casados.

Para falar a verdade nem sequer lhe tinha entrado pela cabeça essa idéia, mas por um instante se perguntou se daria resultado. Embora fingir-se casado com ela complicaria um pouco as coisas, sem dúvida lhe proporcionaria uns momentos dos mais satisfatórios. Em realidade, poderia ser a melhor maneira de enfrentar-se a seu irmão e pilhá-lo despreparado.

— Seria capaz de atuar tão bem, Lady Olivia? — perguntou em tom de brincadeira.

Ela se afastou dele a toda pressa para ocupar seu assento uma vez mais e o olhou com picardia enquanto se colocava a saia com um sorriso ladino. Logo se inclinou para ele para lhe oferecer uma vista clara de seu decote.

— Nem sequer terei que atuar querido meu — murmurou com voz rouca. — Acredito que a estas alturas já sente fascinado.

Sam esboçou uma careta zombadora.

— Te dá muito bem...

— Só quando é necessário — replicou ela antes de reclinar-se por fim no assento e abrir de novo o leque.

Sam fechou os olhos e apoiou a cabeça no respaldo.

— Sam? — sussurrou ela segundos mais tarde.

— Mmm?

Fez uma pausa antes de admitir em voz baixa:

— Em realidade não te odeio.

Ele sorriu e a observou com as pálpebras entreabertas.

— Sei. Eu tampouco te odeio Livi.

 

Embora suas famílias sempre tivessem estado bastante unidas, Olivia não tinha visto a Brigitte Marcotte desde fazia anos. Mesmo assim, não teve o mais mínimo problema para reconhecer à jovem quando entrou na sala de jantar do Maison da Fleur do Grasse, o hotel no que Sam e ela se alojaram dois dias atrás. Em que pese a que Sam opinava que não era boa idéia, queria reunir-se as sós com o Brigitte em um lugar da cidade no que fora difícil que Edmund aparecesse para interrompê-las e, tal e como tinham comprovado a sua chegada, seu suposto marido não estava hospedado nesse hotel. Sentia-se mais que preparada para enfrentar-se a ele, mas decidiu que seria melhor deixar que a herdeira Govance conhecesse com exatidão as desonestas intenções de seu pretendente. Contudo, era muito provável que Brigitte já lhe tivesse entregado seu coração a esse canalha, e isso complicaria muito a reunião dessa tarde. De qualquer forma, Olivia sentia a obrigação moral de informar a jovem.

Em um princípio, Sam tinha sugerido que ambos se enfrentassem ao Edmund em primeiro lugar; desse modo, poderiam pilhá-lo despreparado e lhe informar de que estavam a par de seu infame comportamento e de sua relação clandestina com o Claudette. Entretanto, depois de um dia e meio de investigações na cidade, não tinham descoberto nada sobre seu paradeiro. Sabiam que estava ali, assim chegaram à conclusão de que devia estar agasalhado na propriedade Govance, e a situação podia voltar-se muito mais complicada se Edmund tinha cercado uma boa relação com a família. A única forma de assegurar-se era falar com Brigitte.

Assim, Olivia tinha enviado uma nota a Brigitte no dia anterior para convidá-la a tomar o chá no hotel às quatro da tarde. O sala de jantar encaixava no ambiente da cidade, com suas pequenas amostras de arte local e os jarrinhos feitos à mão cheios de flores que ocupavam todas e cada uma das mesas brancas de uso provenzal. Olivia tinha elegido uma ao lado da janela onde poderiam falar em privado, já que não tinha claro como reagiria Brigitte ao descobrir que o homem arrumado e encantador que a cortejava só queria sua fortuna.

No instante em que Brigitte fez sua aparição no sala de jantar, Olivia ficou em pé para chamar sua atenção. Fez-lhe um gesto com a mão e Brigitte se encaminhou para ela com um sorriso.

Apesar de que tinha quase vinte anos, a jovem herdeira Govance quase não tinha mudado da última vez que a visse. Sempre tinha sido uma moça bastante alta e desajeitada, com o cabelo loiro, a pele clara e umas quantas sardas no nariz. Nesses momentos só parecia algo major: seguia magra, mas se tinha trancado o cabelo no alto do cocuruto e seu rosto, embora nunca tivesse sido formoso ou chamativo, tinha adquirido certo toque de feminilidade que a Olivia pareceu atrativo, inclusive bonito. Já não saltava como uma menina; caminhava com elegância para ela embelezada com um vestido de dia de cor lavanda escuro, cujos amplos aros melhoravam muito sua magra figura.

Olivia lhe devolveu o sorriso quando a moça se aproximou da mesa.

— Me alegro muito de verte depois de tantos anos, Brigitte — disse com sinceridade.

— Não posso acreditá-lo! — A jovem apoiou ambas as mãos nos ombros da Olivia e se inclinou para lhe dar um beijo em cada bochecha, deixando que o ridículo a jogo com o vestido ficasse pendurado de seu pulso. — Sua nota foi uma autêntica surpresa.

Olivia assinalou com um gesto a cadeira que tinha em frente antes de tomar assento na sua. Imediatamente, o garçom trouxe chá para ambas, tal e como lhe tinha pedido, e colocou entre elas dois pratos individuais com tarte aux myrtilles antes de desculpar-se com uma inclinação de cabeça.

— Consta-me que deveu te surpreender, já que não tinha voltado para o Grasse desde que morreu monsieur Nevam-começou Olivia, que desejava ir ao grão antes de perder a coragem. — Mas tenho uma razão de peso para estar hoje aqui.

Brigitte se apressou a servir o chá na delicada xícara de porcelana com incrustações douradas; depois acrescentou duas colheradas de açúcar e o removeu com suavidade.

— Bom, já me esperava isso — replicou a jovem enquanto centrava sua atenção no torta de arándanos. — Suponho que me há convidado hoje aqui para falar do Edmund, não é assim?

Olivia esteve a ponto de cair da cadeira. Tal e como havia dito a Sam, seu irmão tinha mantido os preparativos de seu matrimônio em segredo. Não obstante, estava claro que Brigitte sabia que conhecia o Edmund e que ele era o motivo pelo que tinha viajado de forma tão inesperada até o sul da França.

Brigitte parecia ter antecipado sua perplexidade. Esboçou um sorriso satisfeito ao ver sua expressão e se apoiou com ar despreocupado no encosto da cadeira.

— Edmund me contou com todo detalhe sua derrota romântica — revelou em um tom afável. — Espero seriamente que não tenha vindo até aqui com a esperança de me roubar isso porque se te sou sincera, não acredito que ele esteja interessado.

Olivia deveu olhá-la boquiaberta, porque a moça soltou uma gargalhada antes de negar com a cabeça.

— Vejo que te deixei atônita — disse Brigitte ao tempo que cortava outro pedaço de bolo — mas é certo: Edmund me contou tudo o que ocorreu entre voces.

Olivia sentiu a boca seca e estirou um braço em busca da nata para tornar-se um pouco na xícara de chá.

— O que te contou Edmund exatamente, Brigitte? — perguntou quando recuperou por fim a fala.

A jovem se encolheu de ombros enquanto degustava o bolo de arándanos. Logo, depois de deixar a colher sobre o prato, deu-se uns batidinhas nos lábios com o guardanapo, enlaçou as mãos sobre o regaço e a observou do outro lado da mesa com a cabeça inclinada a um lado, como se refletisse.

— Disse-me que se acreditava apaixonado por ti, mas que depois de que lhe rompesse o coração se deu conta de que não era assim. — Depois de uma pausa, acrescentou com tom alegre — muito melhor para mim. Espero que não tenha vindo ao Grasse com a idéia de recuperar seu amor.

Olivia se precaveu de que era a segunda vez que Brigitte tinha insinuado que desejava recuperar o afeto do Edmund, o que dava a entender que essa possibilidade a preocupava o bastante. Embora, por isso recordava Brigitte sempre tinha sido um pouco apreensiva.

Uma vez recuperada, Olivia se levou a xícara de porcelana aos lábios e decidiu que o chá era muito suave para seu gosto, embora isso resultasses de tudo irrelevante agora que seu plano de salvar a pobre herdeira Govance se foi ao traste.

— Não tenho nenhuma intenção de recuperá-lo admitiu com certa dureza. Logo, depois de decidir que o melhor era ir ao grão, perguntou por fim: — O que te contou Edmund sobre nossa relação, sobre nosso matrimônio?

Isso deveu tocar uma fibra sensível, já que os olhos cinza azulados do Brigitte se entrecerraram e seus lábios se converteram em uma linha muito pouco favorecedora.

— Contou-me que o abandonou cruelmente poucos dias antes das bodas e lhe rompeu o coração, algo pelo que te estou agradecida, já que desse modo eu pude curar-lhe com minha constante devoção.

Olivia ficou sem fala com escutar semelhante descrição dos acontecimentos. Jamais teria imaginado que Edmund pudesse ser tão perverso: não contente cortejando a uma dama inocente com falsos pretextos, tinha acrescentado também uma fileira de mentiras para respaldar seu asqueroso plano. Ao parecer tinha pensado em tudo, inclusive na possibilidade de que seu anterior esposa acudisse ao Grasse para «salvar» à incauta herdeira. A única vantagem com a que parecia contar ainda era que Edmund não podia ter previsto que Sam a acompanhasse. Ficaria chocado ao descobri-lo, e de repente Olivia se sentiu impaciente por presenciar esse encontro cara a cara.

Esquecido o chá, reclinou-se também na cadeira e contemplou a jovem com expressão especulativo.

— Sei que não te fará graça escutar isto, Brigitte, mas Edmund te mentiu. Mentiu a ambas...

— Tolices — interrompeu -a Brigitte com um gesto da mão. — Não tem razão alguma para mentir. — inclinou-se para diante e apoiou as mãos na beira da mesa. As suaves linhas de seu rosto se endureceram e suas bochechas se tingiram com um intenso rubor. — Pode que você não goste de escutar isto, Olivia, mas Edmund me ama, e não penso afastar o de meu lado me apoiando nas mentiras que me conte sobre ele. Tem-me proposto matrimônio e eu aceitei, assim que nos casaremos em menos de um mês. — relaxou-se pouco a pouco na cadeira. — Se tiver vindo até aqui para recuperar seu amor, tem minhas benções para tentá-lo. Mas se o que quer é pôr em marcha algum tipo de plano perverso, advirto-te que não funcionará. É o homem melhor que conheci, e ainda segue bastante furioso contigo pelo que lhe fez.

Olivia sentiu um intenso golpe de fúria e frustração, sabia que a mulher que estava sentada frente a ela não demoraria em experimentar a angústia que tinha padecido ela, embora tampouco a merecesse.

— Falou-te de seu irmão? — perguntou com um digno autocontrole. — Disse-te que também tem uma irmã?

Brigitte piscou, surpreendida, e em seguida franziu o cenho, como se a pergunta a tivesse desconcertado.

— É obvio que sim.

Olivia não sabia se acreditá-lo ou não. A resposta parecia muito defensiva, embora a essas alturas não soubesse se Brigitte admitiria desconhecer a existência dos irmãos do Edmund.

Inclinou-se para diante uma vez mais.

— Brigitte — disse em voz baixa a modo de advertência — acredito que Edmund está detrás de sua herança, de tudo o que será legalmente teu quando seu grand-père mora...

A jovem ficou em pé imediatamente e a fulminou com o olhar enquanto esboçava uma careta de desprezo.

— Pode dizer o que te venha em vontade, Olivia, mas conheço o Edmund... Há meses. Teria que ser muito bom ator para me enganar tanto a mim como a minha família confessando um amor que não sente.

E o é, pensou Olivia.

Apertou os punhos sobre o regaço.

— me enganou.

Brigitte fechou os olhos com força e sacudiu a cabeça. Depois, separou as pálpebras uma vez mais e a olhou com os olhos cheios de lágrimas.

— Sabe Olivia? Pode ser que não seja tão bonita como você, e tampouco tão elegante nem encantadora, mas estou disposta a aceitar ao homem com o que decidiu não te casar. Possivelmente não me ame tanto como amo a ti, mas isso carece de importância. Está consagrado a mim, ao Govance e a minha família, e sei que será um bom marido.

Olivia não sabia o que dizer nem o que fazer como reagir ante uma determinação tão firme e cega. Brigitte era muito teimosa, e era óbvio que estava enfeitiçada pelo encanto e a atitude do Edmund, algo do mais compreensível. O mesmo lhe tinha entrado a ela, que se tinha deixado enganar por completo por esse canalha sem escrúpulos. Faria caso das advertências do Brigitte se Edmund tivesse atuado primeiro no Grasse e lhe tivesse roubado o dinheiro antes de abandoná-la - a noite de núpcias para centrar suas infames intenções nela como herdeira de Nevam? Era muito provável que não, já que ao Edmund lhe dava muito bem seduzir a uma mulher com suas falsas declarações de amor eterno. Pela primeira vez, Olivia compreendeu que tinha sido um engano reunir-se com o Brigitte em primeiro lugar, embora não podia saber que Edmund tinha fundo bem as garras no pescoço da jovem.

— Sinto muito — disse com um suspiro ao tempo que colocava a mão sobre o antebraço do Brigitte. — Eu... Não pretendia te incomodar. Nunca tive essa intenção. — Decidiu que tinha chegado o momento de pôr em marcha seu próprio plano. — Se Edmund for o homem de sua eleição, vos desejo muitos anos de felicidade, é obvio. Além disso, meus sentimentos por ele são irrelevantes. Estou casada com outra pessoa.

Brigitte pareceu afundar-se literalmente no sutiã do vestido, e seus rasgos se relaxaram com um alívio que não foi capaz de ocultar.

— Eu também o sinto, Olivia. Sinto muito que decidisse deixá-lo com o coração quebrado, mas graças a isso encontrou e agora sou feliz. — Respirou fundo e tratou de sorrir. — E, posto que esteja segura do amor do Edmund, convido a nossa festa de compromisso, que se celebrará esta sexta-feira as sete, e ao baile de compromisso que terá lugar na sábado de noite.

Olivia a observou com o coração desbocado. Essa seria a ocasião perfeita para esclarecer tudo.

— Será uma honra aceitar seu convite — replicou com a esperança de não parecer muito contente.

— A reunião da sexta-feira não terá muitos convidados, tão somente uns quantos conhecidos da localidade — continuou Brigitte, que falava mais depressa conforme a invadia o entusiasmo. — O baile do sábado, por descontado, será o maior acontecimento da temporada. Quase todos os clientes de Govance e os membros da classe alta local estarão ali. — Colheu o bolsa com ambas as mãos e o apertou contra a cintura. — Grand-père sempre lhes quis muito a sua mãe e a ti, Olivia, e estou segura de que estará encantado de te ver depois de tantos anos. Jamais me perdoaria se inteirasse de que está no Grasse e não te hei convidado.

Olivia ficou em pé muito devagar para enfrentar o olhar da jovem.

— Conhece o ocorrido entre o Edmund e eu? — perguntou com muito tato.

— Grand-père? Non — respondeu Brigitte com tom desafiante, surpreendida pela pergunta. — Não há razão para isso, e se o conta, somente conseguirá parecer egoísta e rancorosa.

Era muito provável que isso fora certo. Olivia enlaçou as mãos às costas.

— Nesse caso, será um prazer para eu assistir, tanto à festa como ao baile de compromisso. — Logo disse com voz afogada — Poderia... Levar a meu marido?

Brigitte pareceu entusiasmar-se com a idéia.

— É obvio que sim. Estou segura de que Edmund se alegrará muito de conhecê-lo.

Não faz a menor idéia..., disse Olivia para si mesma.

— Estupendo — replicou em voz alta, lhe devolvendo o sorriso. Logo, esfregou-se a mandíbula de forma deliberada e franziu o sobrecenho com atitude pensativa. — Poderia te pedir que não lhe mencione que vou assistir?

— Ao Edmund? Está em Niza, encarregando-se dos preparativos de nossa lua de mel, e não retornará até na sexta-feira. Além disso — acrescentou com certa brutalidade — nem me ocorreria fazê-lo. Não quero que se zangue comigo quando falta tão pouco para nosso grande dia.

Algo que, como Olivia compreendeu, significava que Brigitte albergava certas dúvidas sobre seu prometido e seu passado. Talvez fora melhor assim, já que a sórdida verdade se revelaria na festa desse fim de semana. E seria muito mais apropriado que dita revelação tivesse lugar antes das bodas, e não depois.

Brigitte se inclinou para diante para lhe dar o par de beijos de rigor.

— Até na sexta-feira, querida Olivia. E merci pelo chá.

Deu a volta, pronta para partir, mas de repente se deteve e deu uma olhada por cima do ombro.

— por que vieste ao Grasse? Não é possível que tenha viajado até aqui com o único fim de te enfrentar ao Edmund e a mim, já que está casada com outro homem.

Olivia sorriu.

— Devia visitar Govance e ver por mim mesma que fragrâncias escolhestes para a temporada. Somente me inteirei de seu compromisso quando chegamos.

Isso pareceu satisfazer à jovem, que elevou o queixo em um gesto quase triunfal.

— Não se fala de outra costure em toda a cidade.

Depois, depois de despedir-se com um gesto da mão, virou-se e saiu do sala de jantar como se flutuasse.

 

Decidiram de mútuo acordo que só ela assistiria à festa essa noite. Depois de muito falar, Sam e ela tinham chegado à conclusão de que o melhor seria que se reunisse com o Brigitte e Edmund em companhia de outros para poder presenciar como reagia seu suposto marido ao vê-la e a relação que mantinha com a família de sua prometida. Além disso, na propriedade Govance estaria a salvo, e era pouco provável que Edmund a atacasse verbalmente ali. Não podia delatá-la como seu «anterior esposa», nem fazê-la vítima diante da família Govance e seus conhecidos na indústria do perfume, que a bom seguro estariam convidados essa noite. Edmund não podia lhe fazer nada; tampouco poderia lhe dizer nada de importância, mas a reação que mostrasse ao vê-la seria do mais significativa. Assim, tinham decidido surpreendê-lo, confundi-lo e desconcertá-lo. Essa noite jogariam a ceva; a noite seguinte empreenderiam a batalha.

Seu maior desejo era ver como se retorcia Edmund diante de sua futura família política. Desejava mais que nenhuma outra coisa dançar uma valsa com ele, atuar como se somente estivesse ali por Brigitte, e ver o que ele fazia. O ia passar em grande.

Embelezada com um vestido de noite de cetim escarlate com mangas inchadas e decote baixo, com seus melhores brincos de rubis e o cabelo encaracolado e recolhido no alto da cabeça, Olivia deixou a Sam no hotel e lhe prometeu que iria à festa, faria sua aparição estelar, apresentaria suas desculpas e partiria logo para subir à carruagem de aluguel as sete em ponto, tal e como ele tinha insistido em que fizesse.

Sentia-se inquieta; seu coração pulsava a toda velocidade e tinha os nervos à flor de pele. Nos três dias transcorridos desde que se reunisse com o Brigitte para tomar o chá tinha lutado contra uma estranha mescla de emoções, não todas elas boas. Sam e ela não tinham falado muito, e parecia que o humor de seu companheiro também tinha decaído um pouco. Olivia se tinha tomado um dia para visitar a boutique que Govance tinha no centro da cidade, e também seu armazém, a fim de descobrir tudo que o fora possível sobre suas novas fragrâncias e suas expectativas para a temporada e o ano vindouros. Sam não tinha querido acompanhá-la, algo que Olivia se tomou como uma simples falta de interesse. Ao menos, isso esperava. A ela, por sua parte, resultava-lhe extremamente difícil concentrar-se no negócio, já que sua mente retornava uma e outra vez a ele, ao encontro com o Edmund e ao fim de semana. Compartilhavam a mesma suíte do hotel, mas dormiam em habitações separadas. Imaginava que Sam não tinha falado muito com ela porque estava riscando seus próprios planos para apresentar-se ante um irmão ao que fazia mais de dez anos que não via.

Não compreendia muito bem o ressentimento que Sam albergava pelo Edmund, e não lhe tinha mencionado o motivo, ou os motivos, que o tinham originado. Não o tinha pressionado para que lhe contasse o que pensava, mas sua curiosidade tinha ido aumento conforme se aproximava o enfrentamento. A essas alturas, Olivia estava mais que impaciente por que se revelasse tudo.

Não tinham levado o plano de ação além das idéias gerais, embora se tivesse mostrado de acordo em seguir fingindo que eram um casal casado, sobre tudo porque compartilhavam a habitação do hotel, e todos aqueles que se inteirassem se questionariam sua decência, se não sua prudência, por fazer algo assim sem estar devidamente casada. Devia olhar por seu negócio e, nesse momento de sua vida, Nevam importava mais que nenhuma outra coisa. Quão único a preocupava era o que seria de sua reputação uma vez que todos descobrissem a verdade, algo que, muito se temia, ocorreria com o tempo. Mas não podia pensar nisso agora. Quão único importava essa noite era enfrentar-se ao homem que tinha tentado destrui-la.

A viagem até a propriedade Govance foi rápido e muito em breve se encontrou na escada de tijolo situada frente à casa de cor bege escura que, à luz das tochas, parecia fundir-se com a colina salpicada de flores e os vinhedos que havia ao fundo. Os dois criados de libre situados junto às enormes leva de madeira para receber aos convidados a saudaram com uma simples inclinação de cabeça antes de lhe permitir o passo.

Fazia muitos anos que não pisava nessa casa, mas o primeiro que lhe veio à cabeça quando entrou no vestíbulo, cheio de luzes e engalanado para a festa, foi que nada tinha trocado. Com três novelo de altura, o interior da casa, decorado em tons castanhos, dourados e púrpuras, encaixava a perfeição com as colinas de lavanda e a paisagem do exterior, e o mesmo podia dizer-se dos abajures de aranha de bronze, dos candelabros de parede de ferro forjado e dos tapetes e as tapeçarias florais disseminadas pelas estadias do primeiro andar.

Olivia só levava um ridículo de cor rubi e seu leque de marfim com incrustações de ouro, de modo que não teve que lhe deixar nada ao mordomo quando este a conduziu para o salão, onde os convidados tomariam uns aperitivos e champanha antes do jantar.

Depois de respirar fundo para acalmar-se, deu-se conta de que tinha o momento da revelação ao alcance da mão; assim, endireitou as costas com aprumo, ergueu os ombros e entrou no salão. O murmúrio das conversas cessou imediatamente quando algumas pessoas, a maioria conhecidas, ficaram mudas ao vê-la aparecer.

Percorreu a multidão com o olhar para lhe dar uma primeira olhada ao homem que uma vez acreditou seu marido. Entretanto e para sua enorme decepção, descobriu que ainda não se encontrava entre a multidão. Tampouco viu o Brigitte, assim não teve mais remedeio que alternar com a família e os conhecidos, em sua maioria gente que trabalhava para a indústria do perfume na Casa do Govance, até que os dois convidados de honra fizessem suas respectivas aparições.

Sorriu ao ver o Ives — Francois Marcotte, o pai da finada mãe do Brigitte, o patriarca da propriedade Govance e de sua fortuna, e o único membro supervivente da família além do pai da jovem, que vivia na Bélgica com sua segunda esposa e seus filhos.

O homem a divisou assim que começou a dirigir-se para ele. Seus olhos se iluminaram com um sorriso enquanto se separava da chaminé apagada e de um cavalheiro ao que Olivia não conhecia para reunir-se com ela a metade de caminho.

— Grand -père Marcotte — saudou-o com autêntica alegria ao tempo que ficava nas pontas dos pés para lhe dar um par de beijos nas bochechas. — Me alegro muitíssimo de te ver.

— Ai, Olivia — replicou ele, que lhe pôs as mãos nos ombros e a segurou durante um momento para percorrê-la de cima abaixo com o olhar. — Tem o mesmo aspecto que sua mãe faz vinte e cinco anos, e é igual de linda.

— Você também tem um aspecto maravilhoso, e está tão arrumado como sempre.

E era certo, pensou Olivia, já que apesar de que rondava os setenta e cinco anos, tinha um cabelo abundante, embora totalmente branco, e seus vibrantes olhos azuis irradiavam inteligência e boa saúde.

O homem sorriu e sacudiu a cabeça.

— Sou um ancião, mas suponho que meus passeios diários pela colina me mantêm feliz e contente.

— Como o bom vinho? — inquiriu ela com um sorriso pícaro nos lábios.

— É obvio que sim — respondeu o ancião com uma gargalhada. — A vida não merece a pena sem um bom vinho.

Olivia lhe deu uns batidinhas carinhosos na mão que seguia apoiada em seu ombro.

— Nesse caso, consta-me que seguirá feliz e contente outros trinta anos mais.

— Deus o queira, querida moça, Deus o queira. — Deixou cair os braços aos flancos. — Estou seguro de que conhece a maioria dos convidados. A festa de esta noite não é mais que uma pequena reunião para apresentar a monsieur Carlisle aos amigos; amanhã será o grande baile, embora suponha que Brigitte já lhe haverá isso dito. Parecia muito feliz de te haver visto depois de tantos anos, assim espero que venha também ao baile.

Olivia não pôde evitar perguntar-se se Brigitte lhe tinha mencionado que conhecia a perfeição ao prometido de sua neta ou que agora estava casada, mas decidiu não comentar nenhuma dessas coisas no momento.

— Não me perderia isso por nada do mundo, grand-père Marcotte. — Jogou uma olhada à estadia. — E onde está Brigitte?

O ancião se meteu as mãos nos bolsos da jaqueta de cor cinza escura.

— Bom, acredito que ainda não terminou que vestir-se; já sabe como são as jovenzinhas...

Olivia riu pelo baixo e assentiu com a cabeça.

— Certamente que sim.

— Mas monsieur Carlisle está por aqui... Em algum lugar. — Também ele olhou a seu redor. — Brigitte me há dito que o conhece, é certo?

Era uma pergunta, não uma afirmação, assim Olivia decidiu lhe oferecer a resposta que tinha preparada.

— Sim, claro. É um bom amigo de minha tia Claudette.

As grosas sobrancelhas brancas do avô Marcotte se arquearam com aparente surpresa.

— Edmund nunca mencionou a comtesse do Renier, mas suponho que não é algo estranho, já que somente te conhece de suas viagens a Paris.

— Estou segura de que ali é onde se conheceram eles também.

— E como vai Nevam? — inquiriu em voz mais baixa.

Olivia se encolheu de ombros, agradecida pela mudança de assunto.

— Vai bastante bem, creio. Dou-lhe as graças a Deus por poder contar com o Normand e seu olfato para os negócios. Emprestou-nos uma inestimável ajuda na hora de manter o patrocínio de muitos dos membros da aristocracia, incluindo o da imperatriz Eugenia.

— Ah, muito bem, muito bem. — inclinou-se para diante com um brilho especial nos olhos. — É uma dama do mais fastidiosa no que aos perfumes se refere, não crie? Embora seja obvio, jamais admitirei te haver dito algo assim.

Olivia se pôs-se a rir de boa vontade.

— Jamais!

O homem se afastou um pouco e viu alguém que chamava sua atenção detrás dela.

— Devo atender a outros, querida minha. Mas por favor, Olivia, passe pela loja e teste alguma das novas coleções que trouxemos da Ásia enquanto estiver em Grasse. Eu gostaria de muito conhecer sua opinião.

Ou me vender alguma, disse-se ela com um sorriso.

— Já o fiz, grand-père Marcotte, e encarreguei que me enviem algumas a Nevam no fim de ano, já que a temporada o merece.

— Magnífico — replicou o ancião, do mais agradado. Tomou as mãos enluvadas da Olivia entre as suas com delicadeza. — Me alegro muito de te ver, Olivia. Desfruta da festa, quer?

Mais do que imagina, grand-père, pensou ela.

— Certamente que sim.

— Bem.

E com isso, soltou-lhe as mãos, deu-lhe uns tapinhas na bochecha e se afastou dela.

Encostada próxima da chaminé situada na parede sul, Olivia desviou a vista para a parte central da estadia em busca do Edmund. Devia admitir que, embora se sentisse mais que preparada para enfrentar-se a ele, jamais tinha estado tão nervosa em toda sua vida. Viu várias pessoas a quem conhecia de vista ou de ouvidas, e depois de intercambiar alguns cumpridos com duas damas que compravam perfumes em Grasse para sua boutique de Paris, abriu-se passo para o extremo oposto da sala, onde se encontrava a entrada à sala de jantar adjacente, e se situou junto ao bufê de chasse de madeira de nogueira esculpida, de onde tinha uma visão muito mais clara de ambas às entradas.

Como se sentia muito nervosa para comer optou por pegar uma das muitas taças cheias de champanha que havia sobre a mesa do bufet com coberta de mármore e tomou três ou quatro goles rápidos para manter a ansiedade a raia. Embora Sam se mostrasse de acordo com seu plano de ataque, Olivia sabia com certeza que não o fazia nenhuma graça que fora única à festa essa noite. Não havia dito nada a respeito, mas a essas alturas ela conhecia suas expressões faciais bastante bem, e tinha percebido a relutância escrita nos rasgos duros de seu rosto e no olhar que lhe tinha dirigido quando o deixou no vestíbulo do hotel para encarar ao Edmund sem ele. Inclusive nesse instante, já na festa, enquanto tentava concentrar-se na oportunidade que tinha imaginado durante meses, não conseguia afastar sua mente do irmão que a distraía com um simples olhar, com um beijo, com uma carícia. Não podia tirar-se da cabeça a lembrança do que tinha ocorrido àquela noite na cozinha, algo do mais inapropriado por parte de Sam, horrível e imoral por parte dela, e total e inexplicavelmente... Maravilhoso.

Sam. Sam. Sam...

De repente, endireitou os ombros e sentiu que lhe acelerava o coração. Seus olhos se cravaram no objeto de sua ira e de sua angústia. Do lugar que ocupava junto ao corredor do sala de jantar, localizou a serpente que se converteu no objetivo de sua missão, tão alto e imponente como sempre em toda sua aposta glorifica, olhando a uma Brigitte radiante que lhe cravava seus dez dedos de unhas perfeitas no cotovelo enquanto caminhava com ele do braço.

Notou que lhe secava a boca e retrocedeu um par de passos para esconder-se entre a mesa do bufet e uma corpulenta dama embelezada com um vestido de aros amplos, a fim de tomar uns segundos de ar e observar a esse canalha antes que a visse.

Essa noite vestia um traje de cor azul marinho, um colete azul claro, uma camisa de seda branca e uma gravata a raias azuis e brancas. Tinha o cabelo tão largo como ela o recordava, embora o tivesse recortado um pouco por detrás das orelhas e o tinha penteado para trás, como Sam.

Nesse momento lhe ocorreu que embora os dois homens fossem fisicamente idênticos, Sam tinha uma presença muito mais autoritária que seu irmão menor; possivelmente se devesse a que tinha recebido uma educação apoiada nas expectativas de seu título, mas a Olivia dava a impressão de que era mais uma questão de discrepância entre suas personalidades. Sam parecia sempre atrativo e distante; Edmund tinha um aspecto jovial. Pícaro. Pícaro e feliz, como parecia nesse instante, enquanto sorria a sua prometida.

Brigitte levantou a vista para contemplar seu rosto com adoração quando os convidados à festa romperam em aplausos ao vê-los chegar juntos e se sossegou o rumor das conversas. A futura noiva parecia radiante e era óbvio que não lhe preocupava absolutamente que algum dos assistentes pudesse lhe arruinar a festa. Edmund também parecia despreocupado, o que significava que ou Brigitte tinha mantido sua palavra e não lhe tinha falado do chá que tinham tomado juntas, ou que esse fato não lhe importava no mais mínimo porque confiava na devoção de sua dama e em seu próprio plano de ataque.

Uma vez que o grand-père do Brigitte realizou uma breve apresentação e ofereceu um brinde para lhes desejar o melhor, o casal começou a mesclar-se com a multidão enquanto os convidados voltavam a degustar o champanha e os aperitivos entre risadas e bate papos. Olivia estudou aos prometidos desde sua posição e se deu conta de que Brigitte tinha escolhido um vestido de noite em cetim de cor celeste, com babados de encaixe branco que harmonizavam com o traje do Edmund. Levava aros de amplitude medeia e o cabelo loiro trancado e penteado em dois coques ao redor das orelhas. Luzia poucas jóias e não se maquiou, embora estivesse bastante bonita, quase resplandecente, devido sem dúvida à excitação da noite e ao entusiasmo pela futura bodas.

Por um segundo, Olivia sentiu um golpe de culpa ao saber que ia interferir em tão ditosa ocasião... Até que recordou por que tinha acudido ali em primeiro lugar, quanto dano lhe tinha feito esse homem e o fato de que pretendia fazer exatamente o mesmo ao Brigitte. Com esse pensamento em mente, decidiu que já tinha chegado à hora de aproximar-se do feliz casal para lhes dar o parabéns.

Depois de reunir toda a coragem que possuía, deixou o que ficava de bebida na mesa auxiliar de nogueira que havia a sua direita, recolheu-se a saia e caminhou com decisão para o Edmund, que nesse instante se encontrava no centro do salão com uma taça de champanha na mão.

Brigitte a viu primeiro e a olhou de cima abaixo com uma expressão calculadora. Depois tirou da manga do Edmund até que conseguiu que deixasse de prestar atenção a conversa que mantinha com dois homens mais velhos e se inclinava para ela para poder lhe sussurrar algo ao ouvido. De repente, Edmund levantou a cabeça e pousou o olhar nela pela primeira vez.

Para falar a verdade, foi um instante de valor incalculável. O típico sorriso falso do Edmund se desvaneceu de seu rosto e sua tez empalideceu ao vê-la caminhar com ar despreocupado para ele. No único que pensava Olivia nesse instante era no muito, muitíssimo, que desejava que Sam estivesse ali para poder presenciá-lo.

Com um enorme sorriso de satisfação, aproximou-se deles com o ridículo e o leque na mão esquerda a fim de oferecer a direita ao Brigitte.

— Queridíssima Brigitte, esta noite está radiante — disse com tom alegre enquanto se inclinava para lhe dar um beijo.

Depois se afastou um pouco e concentrou sua atenção no Edmund, a Serpente.

Brigitte foi primeira em falar.

— Carinho, recorda ao Lady Olivia Shea, da Casa de Nevam?

Edmund piscou uns instantes, como se sentisse de tudo confundido, e depois a observou da cabeça aos pés, como se tratasse de assimilar o fato de que a tinha diante de seus narizes, composta, educada e desafiando-o a reagir em primeiro lugar. Olivia estendeu uma mão com a palma para baixo para que a beijasse.

— boa noite, monsieur Carlisle — saudou -o com voz amável e um sorriso inocente.

O canalha se recuperou por fim ao dar-se conta de que o melhor seria cumprimentar, já que ela não ia deixar o em ridículo nem a ficar a destrambelhar nesse instante.

— Certamente que sim. Lady Olivia... — Pigarreou um par de vezes enquanto lhe pegava a mão para levar-lhe aos lábios. — Tem... Muito bom aspecto.

Olivia notou sua mão fria e úmida; estava claro que o pânico o fazia suar. Esboçou um sorriso enquanto entesourava esse instante de abafado para ele.

— É um prazer vê-lo de novo em tão... Extraordinárias circunstâncias.

Edmund esteve a ponto de perder o sorriso e franziu ligeiramente o sobrecenho.

— É claro que sim. Não tinha nem idéia de que conhecia os Marcotte nem a Casa do Govance.

Serpente mentirosa...

— Bom, é uma surpresa maravilhosa para todos, não acredita? — Abriu o leque e começou a agitá-lo com lentidão ante seu rosto. — Estou segura de que você sabe que minha tia Claudette tem família no Grasse, embora seja certo que eu não havia tornado aqui há anos. É uma sorte que tenha vindo a tempo para celebrar seu futuro matrimônio.

Depois de olhá-la suspicacia e com um sorriso mulher esperta nos lábios, Brigitte perguntou com descaramento:

— E onde está seu marido, Olivia? Acreditei que viria contigo esta noite.

Justo no momento oportuno. Edmund não poderia haver-se sentido mais atônito ante semelhante revelação. Tornou-se para trás de repente e começou a ruborizar-se.

— Temo-me que hoje se sentia um pouco indisposto — respondeu Olivia imediatamente para não lhe dar a oportunidade de intervir — mas me pediu que lhes transmitissem seus melhores desejos.

— Sinto muito — replicou Brigitte enquanto esfregava a manga do Edmund com a palma da mão, embora obviamente não fosse certo.

Olivia suspirou.

— Sim, bom, já sabe que aqui faz muito calor.

Brigitte sacudiu a cabeça.

— Sim, a verdade é que acostuma a fazê-lo.

— E é obvio, como é inglês não está acostumado a que o sol brilhe tanto.

— Certo — conveio a jovem com um leve gesto de preocupação. — Creio que não chove há mais de uma semana.

Olivia lhe seguiu a corrente.

— Não tem caído nenhuma gota desde que estamos aqui, temo-me.

Edmund tinha entrecerrado as pálpebras para observá-la com atenção.

— Casaste-te — disse de repente.

Foi um comentário absurdo, mas ao parecer a seu falso marido estava custando muito digerir a informação.

— Sim — respondeu sem mais ao tempo que cravava a vista nele.

— E com um inglês como você, carinho — acrescentou Brigitte, que lhe deu um apertão no braço ao que seguia obstinada.

— Sim, agora que o penso se parece bastante a você, monsieur — disse Olivia com regozijo ao tempo que inclinava a cabeça a um lado para examinar o da cabeça aos pés. — Embora acredite que é um pouco mais alto, talvez mais do meio centímetro.

— Mas é impossível que seja tão bonito — ronronou Brigitte, que elevou o olhar até o rosto de seu prometido.

Edmund lhe dedicou um sorriso... Um sorriso do mais falsa, em opinião da Olivia, mas sua mente devia ser como um hervidero no que buliam comentários e questões que não podia pronunciar. Olivia não poderia ter desfrutado mais desse momento.

— A verdade é que acredito que é também igual de bonito — assegurou olhando ao Brigitte enquanto fechava o leque para sustentá-lo com ambas as mãos diante de seu regaço. — Mas não é isso o que acreditam todas as esposas de seus maridos?

— claro que sim — conveio Brigitte.

— Imagino que seu marido e você se hospedam no hotel Maison da Fleur, verdade? — inquiriu Edmund com tom frio e calculador, algo mais recuperado.

— Certamente que sim — respondeu ela com ar ingênuo detrás decidir que o descobriria de todos os modos, o dissesse ou não. — Parece-nos o lugar mais bonito do Grasse, e não desejava importunar a família, já que chegamos sem avisar.

— Certamente... — repetiu ele sem deixar de estudá-la. Esboçou um sorriso ladino antes de acrescentar — Dado que é da Inglaterra, possivelmente conheça seu marido. Como se chama se posso perguntá-lo?

Olivia se repreendeu para si mesma por não ter previsto as possíveis pergunta sobre seu marido; contudo, aquela era uma pergunta estúpida, tendo em conta que Edmund tinha permanecido muitos anos longe de seu país natal e que estava claro que não conhecia nem a uma pequena fração da população inglesa. Entretanto, o mais importante era que se mencionava o nome de Sam, Edmund iria ao hotel essa mesma noite para enfrentar-se a eles, e isso era algo que não podia permitir, ao menos até que estivessem preparados. Não, desejava que a grande revelação tivesse lugar à noite do dia seguinte, no baile, onde todos pudessem presenciá-la.

— chama-se John — murmurou sem pensar lhe John Andrews. É um banqueiro de Londres.

Edmund arqueou um pouco as sobrancelhas enquanto a examinava com meticulosidade em busca de mentiras ocultas.

— Um banqueiro? — perguntou.

Olivia sorriu de brinca a orelha, muito orgulhosa de sua capacidade de invenção.

— A verdade é que sim. Está-me ajudando a levar as finanças.

Teria jurado que Edmund soltava um bufo.

Brigitte a olhou com a boca aberta.

— Nevam atravessa dificuldades financeiras? — perguntou, embora nessa ocasião seu interesse fosse genuíno.

Olivia compôs uma careta de despreocupação e fez um gesto com a mão para lhe subtrair importância.

— Não, não, é obvio que não. Nossas vendas foram mais que bem até agora. — Jogou uma olhada ao Edmund antes de voltar a dirigir-se ao Brigitte. — Não, em realidade monsieur Andrews foi uma verdadeira jóia na hora de me ajudar a reestruturar minha herança. Ao parecer — acrescentou em voz baixa com um sorriso cínico — depois de examinar os papéis se deu conta de que havia... «desaparecido» parte dela de algum modo.

— Ah, entendo — murmurou segundos Brigitte depois com tom distante.

Edmund, rígido e com um semblante inexpressivo à exceção das janelas do nariz dilatados, parecia a ponto de estalar. Ou de equilibrar-se sobre sua garganta. Seu inocente prometida não era consciente da fúria que o embargava, embora franzisse o cenho, provavelmente porque se deu conta de que, ao tocar o assunto das heranças, Olivia podia dar a entender que Edmund pretendia fazer-se com a fortuna do Govance através do matrimônio. Apesar de que estava desfrutando da situação, Olivia não estava preparada ainda para uma batalha verbal, e tampouco para um estalo de lágrimas.

Apressou-se a desprezar o assunto com um movimento de cabeça e um leve encolhimento de ombros.

— Suponho que ninguém deveria exigir a uma dama que esteja a par de sua fortuna. Ao menos, isso é o que pensa meu marido.

Edmund não podia dizer nada a respeito, mas seus rasgos pareceram petrificar-se; Brigitte se limitou a assentir.

— Enfim, acredito que não deveria lhes reter mais — disse com jovialidade enquanto olhava a seu redor. — Pelo amor de Deus, não deveria lhes haver monopolizado durante tanto tempo quando há tantas pessoas que vieram a celebrar seu compromisso. — Voltou a olhá-los com um sorriso. — Possivelmente possamos conversar depois.

Brigitte sorriu com evidente alívio.

— Sim, suponho que deveríamos alternar com outras pessoas, não te parece, carinho?

Nesse preciso instante, duas damas maiores às que Olivia não conhecia pessoalmente os interromperam com abraços e felicitações, e ela retrocedeu um passo para lhes dar espaço.

Depois de cravar uma última e significativo olhar nos olhos do Edmund, deu-lhe as costas e se aproximou da mesa de bufet em busca de outra taça de champanha; necessitava-a com desespero, já que suas mãos tinham começado a tremer.

Devia partir dali o antes possível, apresentar suas desculpas e retornar à segurança que lhe proporcionavam os braços de Sam e os sólidos muros do hotel. Ali se sentia vulnerável e Edmund não lhe tiraria os olhos de cima, procurando possivelmente uma oportunidade para enfrentar-se a ela; contudo, Olivia não conseguia imaginar que pretexto poderia dar ao Brigitte para separar-se dela o tempo necessário para uma discussão privada.

Com a mente feita uma confusão e os nervos de ponta, estirou a mão para pegar uma taça de champanha. Não se deu conta de que Edmund estava a seu lado até que a agarrou do braço com a força suficiente para derramar parte do líquido sobre seu vestido de noite e a grosa atapeta floral que tinha aos pés.

Aterrorizada, Olivia foi incapaz de mover — se. Posto que se encontrasse em uma das esquinas da sala, estavam afastados de todo o mundo.

— Reunirá-te comigo manhã as dez, no caramanchão do jardim do hotel — disse-lhe ele desde atrás com voz grave e tensa. — Vê até ali única. Temos que falar, Olivia.

Antes que pudesse mediar palavra, Edmund se afastou e se afastou tão rápido que no momento em que pôde voltar-se já tinha desaparecido entre a multidão de joviais convidados, que seguiam desfrutando de do ambiente festivo e conversando como se nada. Ao parecer não se fixaram nela nem nos poucos segundos que tinha passado com o Edmund.

 

Sam não tinha deixado de passear-se de um lado ao outro do vestíbulo do hotel desde que ela partisse. Estava mais preocupado do que recordava havê-lo estado em toda sua vida, embora soubesse que o plano que tinham esboçado serviria muito bem a seus propósitos e que ela estaria a salvo em companhia de outras pessoas. Mesmo assim, irritava-lhe não estar com ela para observá-la em ação, para ver a expressão do rosto do Edmund quando lhe pusesse a vista em cima pela primeira vez. Não ficava mais remedeio que esperar a que lhe desse os detalhes, e posto que já tivessem passado mais de duas horas desde que partisse, sua paciência começava a esgotar-se.

Já tinha caído à noite, e quase não tinha terminado de decidir que a esperaria dentro quando viu que sua carruagem se detinha testa ao hotel e que o chofer desembarcava do assento para lhe abrir a portinhola.

Correu para o veículo, mas Olivia sorriu de orelha a orelha assim que pôs os olhos nele, detendo-o imediatamente.

— Parece um pouco nervoso — comentou ela com um sorriso satisfeito que não conseguiu dissimular.

Sam entrelaçou as mãos às costas e a observou com interesse enquanto ela se aproximava.

— Não tinha outra coisa melhor que fazer que te esperar Lady Olivia.

— Como deve ser — assinalou ela com expressão pícara.

Estava linda; resplandecia com uma rosada vitalidade que não tinha quando partiu.

— E bem? — perguntou ele com as sobrancelhas arqueadas depois de um longo silencio.

Nesse instante, ela soltou um grito e saltou a seus braços.

— Ai, Deus, Sam, foi maravilhoso! Simplesmente maravilhoso! — exclamou em um estalo de regozijo ao tempo que o estreitava com força e enterrava o rosto em seu pescoço.

Sam se sentia tão aturdido por seu comportamento, por semelhante familiaridade, que por um momento não pôde responder. Em seguida, como se fora a coisa mais natural do mundo, rodeou-a com os braços e a apertou contra ele. Levantou-lhe os pés do chão enquanto ela ria e depositava um milhar de pequenos beijos em seu pescoço.

Essa mulher o fascinava. Inalou o aroma a vinho e a flores que emanava dela e se deleitou com a suavidade do cabelo que lhe roçava a bochecha enquanto se tomava um momento, um momento roubado, para saborear seus sutis curva e o contato de seus lábios sobre a pele, para inundar-se na inocência de sua risada. Sua felicidade o embriagava, e quando sentiu por fim que Olivia lhe punha as mãos nos ombros para tentar liberar-se pensou em quão solitário seria seu mundo sem ela.

Um pouco preocupado, soltou-a pouco a pouco e a baixou ao chão.

Olivia retrocedeu um passo sem deixar de sorrir e o olhou aos olhos.

— Tenho que lhe contar isso tudo, mas vamos dentro.

— Muito boa idéia — replicou ele sem afastar ainda as mãos de sua cintura.

Olivia tomou uma delas e, sem dizer uma palavra mais, arrastou-o até o terceiro andar.

A suíte que compartilhavam possuía comodidades modestas, entre as que se contavam dois dormitórios separados e uma sala central. Esta última era uma pequena estadia com as paredes empapeladas, um sofá de cerejeira estofada com um desenho floral e uma singela mesa a jogo com duas cadeiras. Olivia se situou perto da mesa, sobre a qual havia um abajur que ela tinha acendido ao entrar, e se tirou os brincos antes de arrojá-los, junto com o leque e o ridículo, sobre a superfície de madeira.

Em seguida se virou para olhá-lo sem perder o sorriso.

— Foi maravilhoso.

Sam cruzou os braços à altura do peito.

— Isso já o há dito.

— Estava desconcertado, absolutamente desconcertado. — Entrelaçou as mãos por diante do regaço. — Ai, Sam, foi tão divertido...

Ele se dirigiu ao sofá e se deixou cair nele antes de estender as pernas e cruzar os braços sobre o abdômen, olhando-a com diversão.

— Aconteceste-o bem, né?

— Nem lhe imagina. — Atirou de uma das cadeiras e tomou assento com delicadeza antes de colocar a saia do vestido vermelho ao redor dos tornozelos. — ficou pálido quando me viu pela primeira vez. Logo, depois de falar uns momentos com Brigitte e com ele, zangou-se muitíssimo, embora isso conseguisses ocultá-lo com mais êxito que seu desconcerto. Sua reação foi muito melhor do que teria podido imaginar, e o mais divertido foi que não pôde dizer uma palavra sem delatar-se ante sua prometida, já que ela não se afastou de seu lado nem um momento. Tinha-o em minhas mãos. — cobriu-se a boca com a mão durante uns segundos para sossegar as risinhos. — Disse-lhe que estava casada com tal senhor John Andrews, um banqueiro londrino que me estava ajudando com minhas finanças porque parte de minha herança tinha «desaparecido». — Deixou cair os braços sobre o regaço. — Ai, Deus, Sam, oxalá tivesse estado ali para vê-lo. Aquele momento não teve preço.

Seu entusiasmo era contagioso e Sam tirou o chapéu rindo pelo baixo, com a cabeça apoiada sobre o encosto do sofá.

— eu adoraria ter estado ali para vê-la em ação, encanto. Tive que dar mão de toda minha força de vontade para não pegar um cavalo e me aproximar até ali a olhar.

Ela inclinou a cabeça a um lado e lhe dedicou um sorriso.

— Não deixei de pensar em ti nem um instante.

Essa revelação pronunciada em voz baixa lhe fez um nó na boca do estômago.

— Isso espero — murmurou em resposta, embora se desse conta de que possivelmente o comentário não significasse o que ele desejava.

— Não deixava de pensar em quão bem o teríamos passado nos enfrentando a ele juntos — continuou — com a pobre Brigitte pendurada de seu braço, completamente cativada e obstinada a ele como se temesse que fora a roubar-lhe diante de seus narizes. — Soltou um bufo exagerado e pôs os olhos em branco. — Uma idéia do mais absurda.

Nesse instante, Sam quis beijá-la até deixá-la sem sentido.

— Ocorreu algo mais? Disse-te algo sobre Nevam ou sobre seu dinheiro?

Olivia se removeu um pouco e manuseou a saia de seu vestido com o cenho franzido.

— Não, nada em particular, mas a verdade é que não teve oportunidade de fazê-lo. Acredito que o deixei muito confuso, em especial porque não atuei absolutamente como uma mulherzinha com o coração quebrado. Entretanto, Brigitte e eu conversamos em certo momento sobre as diferenças entre o Edmund e meu marido. — Dirigiu-lhe um olhar travesso e sorriu uma vez mais. — Disse-lhes que meu marido não só era quase meio centímetro mais alto, mas sim também era tão bonito como ele.

Sam se deu conta de que não poderia escutar muito mais sem agarrá-la em seus braços e lhe fazer o amor ali no tapete, mandando todas as incertezas e os receios ao inferno. O fato de que Olivia tivesse notado que uma das escassas diferenças que existiam entre o Edmund e ele era que sua estatura era ligeiramente superior tinha muita mais importância para ele da que ela podia imaginar-se.

— Falou muito tempo com ele? — perguntou, procurando qualquer possível detalhe que ela tivesse podido esquecer.

Olivia se encolheu de ombros enquanto o pensava.

— Não muito, talvez cinco minutos, embora suponha que foi melhor assim. Havia ao redor de... Bom... Três dúzias de pessoas ali, e todo mundo queria lhe dar o parabéns, assim não pude entretê-lo muito. Contudo, não disse uma única palavra de ti... Ai! Mencionei à tia Claudette, embora somente de entrada. — inclinou-se para diante com um brilho especial nos olhos. — Me teria encantado lhe ouvir falar dela, mas, se te disser a verdade, Sam, o que mais eu gostei da noite foi saber que ele não podia fazer comentário algum em relação ao que eu dizia. Não podia fazer outra coisa que retorcer-se e rogar que eu não lhe revelasse muitas coisas a sua querida Brigitte.

Essa mulher o deslumbrava: tanto por sua inteligência e seu encanto, como por sua beleza, exterior e interior. Nesse preciso instante, Sam decidiu que o mais estúpido que Edmund fazia em sua vida tinha sido deixar que essa extraordinária mulher lhe escapasse das mãos.

— O que sentiu por ele, Olivia? — perguntou com certa vacilação ao tempo que se inclinava para diante para apoiar os cotovelos sobre os joelhos.

— O que senti por ele? — repetiu ela, perplexa. — A que te refere?

Sam se esfregou as Palmas das mãos e escolheu as palavras com muito cuidado.

— Há-me dito como se sentia ao te enfrentar a ele esta noite, que você adorava estar ao mando da situação, mas uma vez me disse que o amava. Sinto curiosidade por saber se ainda sente o mesmo. Sentiu ciúmes da atenção que emprestava ao Brigitte? — Fez uma pausa e, depois de olhá-la aos olhos, perguntou-lhe sem rodeios: — Segue apaixonada por ele?

Ela se limitou a permanecer sentada e a olhá-lo com semblante inexpressivo durante muitos minutos... Ou ao menos isso pareceu a ele. Mas em um momento dado, ficou em pé de repente.

— Edmund é um estúpido — assegurou -lhe com um tom carregado de certeza. — Jamais poderia amar a um estúpido.

Sam apoiou as Palmas nos joelhos e se levantou para situar-se ao lado dela, afligido por um alívio que nem sequer entendia de tudo.

— Sabe, Olivia, Eu estava pensando exatamente o mesmo.

Ela entrecerrou os olhos e pôs os braços em jarras.

— Seriamente?

Sam se aproximou um passo mais e baixou a vista para contemplar seu rosto. — Seriamente.

Olivia começou a sacudir a cabeça muito devagar e recuperou a expressão de regozijo e espera.

— O baile de amanhã de noite será uma revelação para todos, Sam, e estou impaciente por entrar nesse salão contigo.

— Eu também — murmurou ele, reprimindo o impulso de acariciá-la.

Durante alguns instantes, olharam-se o um ao outro em silêncio. A tensão do ambiente se incrementou tanto que inclusive Olivia se deu conta. Abriu os olhos de par em par ao entender o que ocorria; separou os lábios um pouco e os lambeu com vacilação. Depois retrocedeu um passo para romper o feitiço.

— Acredito... Acredito que é hora de me retirar — disse.

O comichão que sentia nas vísceras, o urgente desejo que não podia saciar, ameaçou afligindo-o. Se ela soubesse o que o fazia sentir...

— Date a volta — ordenou -lhe com um tom um pouco mais brusco do que pretendia.

Olivia moveu a cabeça, confundida.

— Eu... Eu não...

— Só quero te desabotoar o vestido — disse com suavidade.

Posto que carecesse de donzela, tinha-a ajudado a abotoá-lo essa mesma tarde, e então ela tinha considerado que o espartilho e as anáguas eram objetos suficientes para manter o decoro. As situações se desesperadas precisavam medidas se desesperadas e todo isso. Não obstante, nesse instante parecia pouco disposto a deixar que a ajudasse.

Sam estirou uma mão e deslizou os dedos por sua bochecha.

— Não passa nada, Olivia. Deixa que te desabotoe o vestido e poderá ir à cama.

Depois de um segundo de indecisão, ela baixou as pestanas e se deu a volta sem mediar palavra para lhe deixar fazer o que lhe tinha pedido.

Começou pela parte superior, perto de suas omoplatas. Sam notou como se arrepiava a pele feminina quando começou a desabotoar os botões um a um, descendendo sem problemas pelas costas coberta pelo espartilho até a cintura. Depois a sujeitou pela parte superior dos braços com o fim de que se desse a volta de novo.

O olhar da Olivia o deixou destroçado. Seus olhos estavam cheios de aceitação, de compreensão, de confiança e de devoção.

Com o vestido apertado contra seu seio para evitar que caísse, colocou a mão livre sobre sua bochecha e disse com voz rouca:

— Obrigado, Sam. Por tudo.

Lhe elevou o queixo com os dedos.

— Faria algo por ti — sussurrou com tom sério; a intensidade de seu olhar encerrava esperanças e significados ocultos.

Olivia tragou saliva com força. — boa noite, Sam.

Ele suspirou para si mesmo. — boa noite, Livi.

Ela se voltou uma vez mais e se encaminhou para seu dormitório sem tornar a olhar atrás. Uma vez dentro, fechou a porta com suavidade.

 

Naquela manhã, pela primeira vez desde que conheceu Sam tantas semanas atrás, tinha-lhe mentido deliberadamente. Não só lhe tinha oculto que se reuniria com o Edmund a sós no jardim do hotel as dez, algo que já tinha feito a noite anterior, mas sim tinha inventado uma desculpa razoável para sua ausência a fim de poder escapulir-se. O estranho era que ao fazê-lo se havia sentido como a serpente com a que ia reunir se. Entretanto, não lhe ocorria outra maneira de livrar-se de seu constante presencia. Se Sam se inteirou de seu plano, não lhe teria permitido ir; ou pior ainda, teria insistido em acompanhá-la, o que lhe impediria em última instância enfrentar-se ao Edmund como queria.

Assim, depois de tomar o café da manhã café e pãozinho com geléia de limão no sala de jantar do hotel, trouxe a tona o assunto do que tinha pensado fazer, enfatizando a necessidade de sair uns minutos antes das dez para ir examinar umas amostras em uma das lojas de Govance. Ele a tinha olhado com suspicacia do outro lado da mesa, mas não havia dito nada. Em um momento de inspiração tinha perguntado se queria acompanhá-la, sabendo de que se negaria se isso implicasse ter que cheirar perfumes de novo, embora tivesse dado a entender que seriam essências muito distintas das que tinha provado em Nevam. Ficou um pouco nervosa ao ver que ele não rechaçava sua oferta imediatamente, e durante um par de segundos se perguntou se descobriria seu engano... Até que disse que preferia esperar em sua habitação e ler o periódico.

O céu esteve nublado toda a manhã, e quando se despediu de Sam e saiu à rua dez minutos antes das dez, a escuridão pressagiava uma tormenta.

Olivia caminhou a toda pressa pela calçada e deixou atrás as janelas do sala de jantar sem olhar para o interior com a esperança de que Sam a visse tomar a direção da boutique que havia a três maçãs dali; entretanto, logo que chegou ao final da rua girou para rodear o edifício.

O hotel Maison da Fleur se construiu em forma de «Ou», e o jardim de flores estava situado justo no meio, para que os clientes pudessem aceitarei com facilidade a ele do vestíbulo da planta principal e contemplar sua beleza das habitações superiores.

Posto que se visse obrigada a percorrer o comprido caminho que rodeava a parte posterior do edifício de pedra, deviam ter acontecido uns minutos da hora da encontro quando chegou à entrada do jardim, situada frente à parte central do hotel. A porta branca de ferro forjado que protegia o recinto se abriu facilmente com um suave rangido e Olivia entrou com rapidez no caminho de sobrecarrega.

O céu estava cada vez mais escuro, a brisa se intensificava com a chegada da tormenta e, estremecida, Olivia se rodeou com os braços. De repente, o vestido de amanhã de seda lavanda com mangas curtas parecia insuficiente para o afresco da manhã.

Olhou a seu redor; não estava muito assustada, mas sentia a necessidade instintiva de mostrar-se precavida. Seguiu o atalho em direção para a grade central sem fixar-se apenas na elaborada forma dos arbustos e nos cuidados canteiros com flores de todas as cores.

A zona proporcionava bastante intimidade e nesse instante lhe ocorreu que qualquer que os visse ali juntos acreditaria que compartilhavam um momento romântico, nada novo para os franceses. A menos, é obvio que Edmund queria lhe fazer danifico.

Descartou esse pensamento imediatamente. Talvez Edmund fora um canalha calculador, mas estava segura de que não era perigoso. De qualquer forma, a simples idéia de que pudesse tratar de feri-la fisicamente lhe pôs os nervos de ponta. Avançou através do atalho com os sentidos alerta, mais inquieta com cada passo, até que a grade ficou por fim à vista.

Uma repentina rajada de vento agitou umas mechas de cabelo contra suas bochechas e seus olhos, e Olivia amaldiçoou a brilhante idéia que lhe tinha feito conter o cabelo na nuca com uma singela cinta. Deteve-se um momento para afastar o cabelo da face, e foi então quando o viu.

Sentiu uma opressão no estômago ao ver o de pé no interior da estrutura de ferro forjado pintado de branco, com a parte superior do torso e a cabeça ocultos pelas buganvillas em flor que penduravam das grades. Tinha uma postura relaxada, com o quadril apoiado contra a perto, os braços cruzados sobre o peito e as pernas cruzadas à altura dos tornozelos.

Depois de tomar ar para dar-se ânimos, Olivia se ergueu, endireitou os ombros e enlaçou as mãos às costas antes de começar a caminhar com ar despreocupado por volta dos três pequenos degraus de entrada. Deteve-se um instante para que ele pudesse apreciar a determinação de seu queixo elevado e seu sorriso.

— Edmund — saudou com voz séria.

Ele cravou o olhar em seus olhos com a intenção de intimidá-la. Olivia tentou ignorá-la com todas suas forças.

— Olivia — imitou -a ele com um tom grave e gélido.

Muito devagar, Olivia subiu os três degraus que conduziam ao caramanchão propriamente dito e se situou à esquerda, em frente dele, de costas a perto.

— Parece que nos encontramos uma vez mais... — disse ela com amabilidade.

— Assim é. — Edmund esperou um pouco antes de perguntar: — por que vieste ao Grasse?

Olivia arrastou a ponta do sapato sobre o chão de madeira, afligida pela excitação que lhe provocava esse momento com o que tinha sonhado durante meses. Levantou as pálpebras para fulminá-lo com o olhar.

— Quero recuperar meu dinheiro imediatamente. Lembra-te de minha fortuna, Edmund, a que me roubou de um modo tão cruel?

Ele permaneceu em silencio durante um bom momento, olhando-a com a cabeça inclinada, os olhos entrecerrados e os dentes apertados. Depois, baixou os braços aos flancos e se ergueu antes de caminhar lentamente para ela.

Olivia ficou onde estava, embora perdesse o sorriso.

— Não irás matar me, verdade? — perguntou com tom sarcástico.

Os lábios masculinos se curvaram em um sorriso zombador.

— Tão insolente como sempre...

— Alguém se torna insolente quando a espezinha um canalha embusteiro — assinalou ela, deixando que saísse a reluzir parte da raiva que sentia.

Edmund levantou a mão para arranhá-la mandíbula sem deixar de vigiá-la. Seguia aproximando-se dela, embora tão devagar que resultava quase imperceptível.

— Onde está seu marido? — perguntou com tom indiferente.

— me esperando na entrada — replicou ela imediatamente. — Por segurança, já sabe, se por acaso me visse obrigada a gritar.

Ele se pôs-se a rir e sacudiu a cabeça.

— E agora quem é a embusteira?

Olivia tragou com força para desfazer do nó de medo que tinha na garganta, embora se aferrasse, sem dar-se conta da beirada da cerca de madeira que tinha às costas.

— Suponho que nunca saberá com segurança — repôs ao tempo que elevava uma sobrancelha.

Nesse instante ele estava a um par de passos de distância, com os braços aos flancos e uma expressão implacável.

— O que é o que esperas que faça Olivia? Que entregue uma bolsa cheia de moedas?

Olivia cravou nele um olhar furioso.

— Espero que me devolva cada centavo que me roubou, preferivelmente com um cheque bancário — disse ao tempo que se inclinava para ele. — E não te ocorra me dizer que lhe gastaste isso tudo em minha tia Claudette.

O comentário sarcástico pareceu desconcertá-lo de verdade. Por um momento, sua expressão implacável se veio abaixo e a percorreu de cima abaixo com o olhar. Depois, esboçou uma careta desdenhosa.

— É uma cachorra.

Era óbvio que tratava de desconcertá-la, inclusive assustá-la. Mas ela tinha esperado esse momento durante muito tempo para permitir que esse tipo de intimidação a fizesse retroceder.

Afastou-se um pouco e se encolheu de ombros.

— Se for uma Cachorra, sou uma Cachorra muito preparada, não lhe parece? E estou segura de que já te terá dado conta, posto que seja evidente que trataste com umas quantas cachorras ao longo de sua vida.

Olivia nunca se mostrou tão grosseira com ele, e a forma em que Edmund negava com a cabeça e franzia o sobrecenho demonstrava seu assombro.

Com um bufo de absoluto desprezo, Olivia se afastou da cerca e começou a caminhar em torno dele com os dedos entrelaçados às costas. Olhou-o de cima abaixo como se não fora mais que uma barata.

— O que acreditava que faria quando me abandonou? Que choraria sobre o travesseiro e aceitaria a perda? Ou possivelmente que iria ver minha tia e choraria sobre seu ombro enquanto você escutava e te ria de minha ingenuidade da habitação do lado?

Deixou de mover-se quando esteve a suas costas, no meio do caramanchão. Cruzou os braços à altura do seio enquanto observava como Edmund se voltava para enfrentar-se a ela com o semblante endurecido por causa da fúria contida.

— O que esperava Edmund? — perguntou de novo, sentindo que sua própria ira se acrescentava — Alguma vez te ocorreu pensar que te perseguiria? Acreditou que me limitaria a aceitar o fato de que um bastardo pérfido e embusteiro se casou comigo por minha fortuna e me tivesse roubado tudo pelo que trabalhei em Nevam antes de me abandonar no que eu acreditava que era minha noite de núpcias? — Sorriu com desprezo. — Por Deus, Edmund, de verdade pode chegar a ser tão estúpido?

Ele apertou os punhos aos flancos com tanta força que lhe puseram brancos os nódulos, mas não disse uma palavra durante vários e intensos segundos de incerteza.

— Tome cuidado, Olivia — advertiu -lhe por fim com voz grave e tensa.

Posto que tivesse alardeado de sua inteligência, Olivia optou por ser lista e seguir seu conselho. Parecia a ponto de explorar: tinha a cara avermelhada e os olhos frágeis por causa da ira.

— Planeja tratar Brigitte da mesma forma? — perguntou com frieza, embora o certo fosse que não esperava que ele o admitisse sem mais.

Não a decepcionou.

— Como descobriu que nosso matrimônio não era real? — inquiriu ele com as janelas do nariz dilatados; pelo visto, pensava passar por cima sua pergunta.

— Acaso não deixamos claro isso já? — Sorriu com desdém antes de assinalar: — Sou inteligente, Edmund.

Edmund não fez nem disse nada durante ao menos um minuto; limitou-se a olhá-la enquanto tratava de encaixar todas as peças do quebra — cabeças. E então, de repente, sua tática trocou por completo. Abriu os punhos e estirou os dedos antes de entrar-lhe pelo cabelo, tal e como o fazia Sam. Por um instante, isso a deixou perplexa.

Começou a passear-se diante dela com a cabeça, encurvada e um indício de sorriso nos lábios.

— Assim quer que te devolva o dinheiro — disse com um tom um pouco menos sério.

Embora o medo que lhe inspirava se aplacou um pouco, um comentário tão repetitivo despertou suas suspeitas. Conhecia-o muito melhor do que ele se acreditava.

— E você quer algo em troca — comentou Olivia, uma idéia que parecia ter saído de um nada, mas que tinha todo o sentido do mundo. Ao fim e ao cabo estava falando com o Edmund.

Ele se pôs-se a rir pelo baixo e cruzou os braços sobre o seio ao tempo que se detinha para olhá-la.

— Devolverei-te imediatamente até o último peni se...

Deixou-a esperando de propósito, em um intento por mostrar-se provocador. Era o Edmund de sempre.

— Se me jurar que jamais lhe mencionará nada disto a ninguém, em especial ao Brigitte.

O que sugeria era de tudo revoltante e carente de escrúpulos; se aceitarei, converteria-se em alguém tão falso como ele. Não obstante, isso era o que ele desejava: colocá-la em uma posição em que se sentisse obrigada por seus atos. Seu silêncio em troca de sua herança. E sabendo o muito que lhe importava Nevam, Edmund estava seguro de que a tinha apanhada entre suas sujas e gordurentas mãos.

— Seriamente crie que rebaixaria a seu desprezível nível e permitiria que roubasse a outra mulher não só seu futuro, mas também sua dignidade? — perguntou com mais indecisão da que teria desejado.

— Amo ao Brigitte — assegurou ele com tom prático, — e jamais lhe faria mal.

Olivia sacudiu a cabeça e entrecerrou os olhos.

— Não me faça rir, Edmund. Nem sequer sabe o que significa amar.

Ele se encolheu de ombros.

— O fato de que não seja tão bonita como você, Olivia, não significa que não possa sentir nada por ela.

Olivia não pôde acreditar que tivesse tanto descaramento.

— É desprezível.

Edmund fez caso omisso do comentário e deu um passo para ela.

— Já me deitei com ela — comentou com ar despreocupado. — Estou seguro de que não quererá arruinar sua reputação...

O estalo de um trovão longínquo a sobressaltou... Quase tanto como essa incrível revelação.

— Isso é impossível — disse enquanto uma rajada de vento fez que o cabelo lhe cobrisse de novo o rosto. O afastou quase sem pensar. — Brigitte nunca permitiria que te aproveitasse dela de semelhante forma antes das bodas.

Ele sacudiu a cabeça muito devagar, com os rasgos desfigurados por uma repugnância que não se dignou em ocultar.

— A diferença de você, Olivia, Brigitte não é uma mulher fria e insensível às necessidades de seu futuro marido.

Olivia deixou escapar uma exclamação afogada quando Edmund se aproximou um pouco mais para contemplar seu rosto atônito.

— Consta-me que não quererá vê-la arruinada — repetiu com tom sinistro e admonitório a fim de dar ênfase ao comentário, — assim que te sugiro que mantenha essa boquinha insolente fechada e não conte nada do que sabe. Em troca, enviarei-te um cheque bancário a Nevam em menos de uma semana.

Olivia o olhou fixamente e se rodeou com os braços para proteger do frio; enfurecia-a tanta audácia, embora a essas alturas já não tivesse nenhum medo.

— É um ser repugnante.

Edmund percorreu seu rosto com o olhar.

— Só para aqueles que não me conhecem bem, e você jamais chegou a me conhecer de verdade, Olivia.

Olivia o observou da cabeça aos pés.

— É impossível que possa ser mais arrogante.

Edmund lhe ofereceu seu acostumada sorriso encantador e lhe cobriu a bochecha com a palma da mão.

— Asseguro-te que posso sê-lo muito mais.

Olivia afastou seu braço de um tapa.

— Não conseguirá me assustar nem me enganar, Edmund. Sei muito bem como é.

A expressão jovial dele se desvaneceu os olhos da Olivia. Depois de inclinar-se para diante para colocar-se a escassos centímetros de seu rosto, entrecerrou as pálpebras e apertou os lábios antes de murmurar:

— Estou seguro de que esse teu marido... «banqueiro» não poderá lhes manter a ti e a Nevam tão bem como sua herança. Isso sempre que não me tenha mentido e esteja casada de verdade, algo que para ser sincero duvido muito... — pôs-se a rir pelo baixo. — Eu também sou inteligente, e sei que necessita que te devolva o dinheiro. Pense-lhe isso bem, Olivia. — tornou-se para trás sem afastar seu gélido olhar dela. — Jamais voltarei a te incomodar — continuou em voz baixa, com expressão séria, — sempre e quando não mencionar nada disto ao Brigitte ou a qualquer outra pessoa. — Fez uma pausa para observá-la com atenção antes de acrescentar: — Acha que podemos chegar a um acordo?

Edmund sabia qual seria sua resposta, embora não tinha a menor idéia de que Sam e lhe levavam um passo de vantagem.

— Sim — aceitou em um sussurro.

— Estupendo — disse com tom satisfeito. Entrou-se as Palmas pela camisa e a parte dianteira das calças. — Nesse caso, parto-me, porque parece que vai chover. — deu-se a volta e, depois de realizar um gesto por cima do ombro, disse: — Au revoir. Até esta noite.

A Olivia custou um verdadeiro esforço conter um grito de triunfo até que ele se perdeu de vista. Em seguida, enquanto as gotas de chuva começavam a lhe molhar as bochechas, afastou-se quase flutuando do caramanchão.

«Até esta noite, sim...»

 

Sam nunca tinha estado mais furioso em sua vida. Furioso pelo fato de que Olivia o tinha enganado e pelo enorme risco que tinha deslocado ao encontrar-se com o Edmund a sós em um recinto isolado sem seu amparo; furioso por não havê-la seguido quando lhe pareceu que essa desculpa de visitar uma loja de perfumes por terceiro dia consecutivo era do mais suspeita e, sobre tudo, furioso consigo mesmo por sentir o ciúmes mais absurdos e irracionais que tinha experiente jamais. Tinha-a visto imediatamente ao olhar pela janela da suíte, já que a habitação do segundo andar que ocupavam dava ao jardim e ao caramanchão central. Era impossível passar por cima esse vestido lavanda entre a vegetação e só lhe tinha levado uns segundos passar da confusão à perplexidade quando viu seu irmão pela primeira vez em uma década... Aproximando-se dela, atormentando-a, tocando-a com a mão. Certo era que ela o tinha afastado de um tapa, mas o contato, as palavras sussurradas, a idéia de que estivessem juntos de novo e essa vez sem seu conhecimento o deixaram estremecido, incrédulo e aterrorizado diante da possibilidade de perdê-la.

Sobressaltou-a quando a segurou no braço no instante em que Olivia entrou no vestíbulo depois de seu breve encontro, mas Sam fez caso omisso de seu assombro e a arrastou de volta à suíte sem mediar palavra. Olivia não se incomodou em protestar, certamente porque se sentia culpado, embora mais que nada porque teria tido que estar inconsciente para não detectar a intensidade da fúria que o consumia.

Nem sequer eram às onze da manhã, mas no instante em que a viu com o Edmund tomou uma decisão final e irrevogável. Ia levar se a cama. Nesse mesmo momento.

Fechou a porta com chave a toda pressa e logo se afastou da Olivia para fechar as janelas e as assegurar também. O céu estava quase negro e a chuva caía cada vez com mais força: uma atmosfera perfeita para entrar a tarde ficando o amor. Depois de respirar fundo para aliviar a tensão que o invadia, deu-se a volta para enfrentar-se a ela.

Olivia fervia de cólera. Tinha as bochechas rosadas por causa da indignação e permanecia junto ao sofá com estampado floral olhando-o com expressão desafiante, com as mãos nos quadris em uma pose que pretendia intimidá-lo. Sam quase pôs-se a rir.

— O que está fazendo? — perguntou ela, suspicaz.

Olhou-a aos olhos uns instantes antes de começar a desabotoá-la camisa.

— vou fazer te amor.

Ela soltou um ofego e retrocedeu até que suas pernas encontraram com a beirada do sofá; tinha os olhos abertos como pratos, carregados de mortificação.

— Certamente que não!

— OH, sim — replicou ele com voz rouca ao tempo que iniciava um lento avanço em sua direção e se concentrava nos punhos da camisa.

Em seu favor terei que dizer que Olivia não gritou nem tentou fugir, uma indubitável manifestação de quão assombrada a tinha deixado sua declaração... Ou do muito que o necessitava, embora ainda não soubesse.

Olivia se deslizou com o passar do beirada do sofá para afastar-se dele.

— Eu... Nego-me a me entregar a um homem que não seja meu marido.

Supôs que era um argumento razoável, mas isso não o desalentou no mais mínimo.

— Acabaram-se os jogos, Olivia — disse com contundência.

Ela o olhou de cima abaixo enquanto se aproximava e cravou a vista em seu torso nu enquanto se levava as mãos ao seio, presa de um pânico que não conseguia ocultar.

— Está louco — sussurrou com lentidão.

— Sim, é provável que o esteja — conveio Sam com um sorriso satisfeito. — Completamente louco por ti.

Olivia piscou, surpreendida.

— Gritarei — resmungou com voz trêmula.

Sam meneou a cabeça muito devagar.

— Não, não o fará.

— O primeiro dia que passamos em Paris me disse que nós nunca... — assinalou ela detrás pensar com rapidez.

— Menti — assegurou -lhe ele sem mais.

Nesse momento estava justo diante dela. Olivia tinha as costas apoiada contra a porta e seus olhos se converteram em lagos de consternação, de preocupação e de um desejo que a bom seguro nem sequer compreendia.

— Chegou o momento, Livi — murmurou com uma voz grave carregada de certeza.

— Você... — lambeu-se os lábios. — Não te atreveria a me forçar.

Sam não soube se tornar-se a rir ou sentir-se insultado.

— Consta-me que sabe que nunca faria nada parecido — disse ao tempo que lhe acariciava os lábios com o polegar. — Mas isso carece de importância, porque não terei que fazê-lo. — Deslizou a ponta do dedo de um lado a outro de seus lábios. — Deseja-me tanto como eu a ti.

Olivia começou a tremer.

— Você não sabe o que eu desejo — sussurrou.

Esse comentário o torturou por dentro e rasgou a minúscula parte de si mesmo que temia que ela ainda preferisse ao Edmund.

— Não vou perder te agora — murmurou com uma voz rouca e afogada contra seus lábios.

Depois a beijou, não com doçura, mas sim com uma intensa e urgente necessidade. Não lhe preocupava sua resposta, porque sabia que chegaria.

Em um princípio, Olivia lutou contra ele e tratou de afastá-lo lhe colocando as mãos sobre o seio.

Sam já tinha tido suficiente. Sem dizer uma palavra, interrompeu o beijo e a observou para examinar o desejo que ela tratava de ocultar, o desejo que lhe ruborizava as bochechas e brilhava nas profundidades de seus olhos. Em seguida se inclinou para ela e a deu ao ombro como se tratasse de um saco de cereais.

— Que demônios pensa que esta fazendo? — gemeu ela enquanto apoiava as mãos em suas costas e o empurrava com força em uma vã tentativa por liberar-se.

Sam fez caso omisso dessa débil tentativa por resistir e se encaminhou com ela para a cama de sua habitação. Uma vez dentro, fechou a porta de uma patada, dirigiu-se até a cama e deixou cair à pilha de renda e seda lavanda que transportava sobre o edredom de tons púrpuras e verdes.

Baixou o olhar para contemplá-la e observou com certa diversão como ela soprava para tirar o cabelo da boca e o separava da bochecha com a ponta dos dedos.

— Isto é de tudo indecoroso — espetou, embora não fez o menor gesto de fugir.

— Em que sentido? — quis saber Sam, reprimindo um sorriso.

Olivia o olhou como se fora estúpido.

— Estamos à plena luz do dia, pedaço de idiota — disse com os dentes apertados.

— Estupendo. — mordeu-se os lábios para não brincar com sua adorável inocência e se desfez do calçado de uma patada antes de tirá-la camisa. — Quero ver cada delicioso centímetro de seu corpo, assim não poderia ter escolhido um momento melhor.

Olivia afogou uma exclamação e o olhou com a boca aberta, absolutamente desconcertada.

Muito devagar, sem afastar o olhar de seus olhos, Sam colocou um joelho sobre a cama e depois começou a aproximar as mãos até ela.

Olivia reagiu imediatamente e retrocedeu até a fileira de grossos almofadões apoiados contra a cabeceira de ferro forjado da cama.

— Não te aproxime mais a mim, Samson. Advirto-lhe isso.

Ele não disse nada; limitou-se a olhá-la com um sorriso ladino enquanto se sentava escarranchado sobre seus pés e apoiava os joelhos sobre as amplas saias do vestido para mantê-la imóvel.

— Sam, por favor, não te está comportando de forma racional — disse Olivia com um tom prático a fim de tentar raciocinar com ele.

Sam pegou um de seus pés e tirou do suave sapato de couro até que conseguiu tirar-lhe logo o jogou no chão e começou a fazer o mesmo com o outro.

— Sabe uma coisa, Livi? Acredito que não me comportei que uma forma tão racional em toda minha vida.

Ela sacudiu a cabeça com movimentos breves e rápidos e tentou retroceder para os almofadões um pouco mais.

— Isto não está bem — disse, embora sua voz começasse a titubear quando se deu conta de que não poderia convencê-lo.

Uma vez que se desfez do outro sapato, Sam começou a deslizar as Palmas das mãos pelo arco dos pés cobertos de meias em direção aos tornozelos. Acariciou-a em círculos e se deteve uns instantes antes de voltar-se mais atrevido e subir com os dedos sob o vestido, tudo sem afastar o olhar dela.

— O que... O que é o que está fazendo?

— Estou -te despindo — murmurou ele.

— Não, disso nada.

Sorriu de novo.

— E agora quem se mostra irracional?

Olivia não disse nada; limitou-se a olhá-lo, mortificada.

Sam lhe acariciou as panturrilha com as Palmas.

— Leva espartilho?

— Isso não é teu assunto!

— Suponho que isso significa que não.

Não tinha feito tentativa alguma de fugir, não tinha lutado contra ele fisicamente, mas estava claro que poria a prova sua paciência a cada passado do caminho. Um esforço pensou Sam, que sem dúvida teria uma maravilhosa recompensa.

Inclinou-se para diante e lhe beijou com doçura os dedos dos pés, ainda talheres pelas médias. Depositou pequenos beijos na ponta de cada um deles antes de entrar para o talão.

— Não pode fazer isto — exclamou ela ao tempo que tentava ocultar as pernas sob as saias do vestido, algo que não podia conseguir, já que Sam as mantinha bem seguras com as palmas.

Só tinha estado com uma mulher virgem quando tinha dezessete anos, e tinha sido ela quem o tinha seduzido. Nesta ocasião, uma ocasião muito mais importante, teria que ser ele quem o iniciasse tudo, e pensava desfrutar desse papel cada segundo; utilizaria toda a resistência da que dispunha para atrasar o máximo possível o momento de afundar-se dentro dela.

— Inclusive suas meias estão perfumadas — murmurou enquanto deslizava os lábios pela planta do pé.

Ela o olhava com os olhos exagerados e uma expressão aturdida.

— Isso se deve a que as guardo em uma gaveta com saquinhos de essência de lilás.

— Deixa de falar, Olivia — ordenou -lhe em um sussurro enquanto lhe percorria as pernas com as mãos e lhe mordiscava os dedos dos pés.

Um momento depois, elevou-se sobre ela e colocou os joelhos a ambos os lados de seus quadris antes de inclinar-se para beijá-la.

Essa vez, Olivia não protestou. Não se moveu, não reagiu, com a esperança de que a encontrasse fria e indesejável, supôs Sam. Quão único conseguiu em troca foi que se sentisse impaciente por conseguir sua aceitação, seu coração e sua mente.

Enrolou-a com doçura para que se rendesse enquanto desfrutava de do sabor de seus lábios, da suave essência especial de sua pele, da agilidade desse corpo que logo que roçava com o torso nu. Beijou-a uma e outra vez, tentando-a com a promessa do que estava por vir, sem pressioná-la, sem exigir uma resposta, até que por fim sentiu que se acomodava na cama e começava a relaxar-se.

Sam se afastou um pouco para contemplar seu rosto ruborizado, seus lábios vermelhos e úmidos, e o brilho de seus olhos, carregados de um desejo cada vez maior.

Sem afastar o olhar dela, moveu-se um pouco para um lado e estirou o braço para afastar uma das mangas de encaixe lavanda de seu ombro.

— Sam...

Foi seu último intento, e Sam devia reconhecer que se resistiu com força.

— Chist. — inclinou-se para diante e colocou os lábios sobre a pele cálida e sedosa da clavícula para percorrer a de um lado a outro. — É tão suave...

— Por favor... — sussurrou ela, ofegante.

E nesse momento, entregou-se a ele.

Sam afastou a cabeça de seu ombro e se apoderou de sua boca uma vez mais para beijá-la sem restrições; notou que ela a abria e lhe devolvia o beijo por fim. Permitiu-lhe saborear sua doçura enquanto explorava sua boca cálida e úmida com a língua antes de apanhar a sua e sugá-la com suavidade. Deslizou a palma da mão desde seu ombro até seu pescoço, lhe acariciando a pele com a ponta dos dedos enquanto lhe esfregava a mandíbula com o polegar.

O beijo se intensificou a medida que seu desejo crescia, à medida que sentia que Olivia respondia presa de sua própria necessidade, e começava a respirar com ofegos. Muito devagar, Sam moveu a mão desde sua garganta, passando pela clavícula, até chegar à zona do decote e em seguida a baixou ainda mais, até que a introduziu por debaixo da linha do decote do vestido e a regata. Depois, cobriu por fim um de seus grandes seios.

Olivia ofegou, e esse leve som procedente de seus lábios avivou o fogo que o consumia e intensificou sua determinação. Começou a massagear a carne sob o tecido e a mover o polegar sobre o mamilo endurecido antes de acariciá-la com os dedos em lentos e pequenos círculos.

Ela se retorceu um pouco, mas não para protestar, mas sim porque necessitava que ele não se detivesse.

Tinha os olhos fechados, respirava de maneira irregular e suas bochechas estavam ruborizadas. Sam seguiu lhe acariciando o seio enquanto a observava com atenção, deleitando-se com sua resposta.

— Livi...

As pestanas da Olivia tremeram enquanto abria os olhos para enfrentar-se com seu olhar com uma expressão carregada de puro desejo.

Sam elevou a mão até seu rosto para lhe cobrir a bochecha.

— vou despir te.

Uma leve vacilação atravessou seu rosto antes que assentira com a cabeça e fechasse os olhos de novo.

Sam estirou o braço para desatar a singela cinta lavanda que lhe afastava o cabelo das têmporas e a testa. As mechas se liberaram com facilidade e ele enterrou os dedos entre os sedosos fios para que o formoso cabelo negro caísse em cascata sobre a pele suave do rosto e o pescoço femininos.

Depois de apoiar-se sobre um cotovelo, sujeitou-a do ombro e a empurrou com delicadeza.

— Ponha de lado — pediu-lhe com ternura.

Ela obedeceu sem mediar palavra e lhe deu as costas para que ele pudesse desabotoar os seis botões que continham o sutiã ao vestido de seda.

Sam não demorou em finalizar a tarefa e depois introduziu a mão sob o tecido para lhe acariciar as costas com a ponta dos dedos, justo por cima do beira da regata de algodão.

Olivia deixou escapar um longo suspiro de prazer, e essa doce provocação foi suficiente para respirá-lo a seguir adiante. Baixou a boca até sua pele e a beijou de cima abaixo, deslizando os lábios e a ponta do nariz de um lado a outro enquanto exalava baforadas de fôlego quente e úmido que conseguiram lhe pôr a pele de galinha. Logo, com toda deliberação, deslizou a língua pouco a pouco por sua coluna, do ponto mais baixo até o pescoço.

Olivia gemeu com suavidade, cativada pelas sensações, e Sam introduziu por fim a mão por debaixo da parte superior do vestido a fim de baixar-lhe pelo ombro e cobrir com a mão a carne nua de seu seio.

Com a cabeça contra seu cabelo, Sam gemeu e inalou sua essência ao tempo que golpeava o lóbulo de sua orelha com a língua. Deixou um rastro de pequenos beijos por seu pescoço e sua bochecha enquanto começava a massageá-la de novo, a deslizar a ponta dos dedos sobre o mamilo ereto para depois beliscá-lo com delicadeza e rodeá-lo suavemente com a palma.

— Sam... — murmurou ela, presa do desejo.

— Jamais havia tocado nada tão suave como você — sussurrou -lhe ao ouvido, quase sem fôlego. — Me deixe te amar...

Olivia deixou escapar um gemido rouco e gutural antes de voltar -se para colocar -se de frente a ele e procurar seu olhar. Seus formosos olhos azuis lhe rogavam que fizesse realidade seus sonhos, seu maior desejo.

Tragou saliva com força, tremendo; sua expressão mostrava um oceano de emoções tenras e sensuais quando ele levantou a mão para lhe acariciar o rosto e lhe cobrir a bochecha com a palma antes de deslizar o polegar por seus lábios.

Sam fechou os olhos um instante para saborear sua entrega. Em seguida, muito devagar, abriu os olhos e a observou com atenção enquanto colocava a mão de maneira que o dorso pressionasse sobre a parte superior do vestido; depois, começou a baixar-lhe centímetro a centímetro.

Não deixou de olhá-la nem um só instante. A respiração da Olivia se acelerou e suas bochechas se ruborizaram de novo quando ele aferrou por fim o decote do vestido e da regata e atirou deles para baixo para liberar primeiro um braço e logo o outro, até que ficou nua até a cintura.

Sam examinou cada parte de seu corpo, da linha esbelta do pescoço até o ventre plano. Seu olhar faminto se atrasou nos mamilos rosados e endurecidos, no diminuto lunar que tinha na base do seio direito.

Ela ficou quieta, olhando-o, desejando seu contato. Em seguida, depois de um mero segundo de vacilação e exibiu um enorme autocontrole, Sam baixou a boca até um dos seios e se meteu o mamilo na boca.

Olivia aspirou com força, estremecida, e afundou os dedos em seu cabelo para lhe aproximar a cabeça a seu seio.

Sam sugou a delicada carne com muito cuidado e agitou a língua sobre a ponta cálida, esperando sua reação; sentiu-se invadido por uma súbita quebra de onda de desejo quando ela gemeu e começou a balançar-se contra ele.

Acelerou os movimentos e percorreu seu seio com a língua para explorá-la, para inalar a essência de sua pele, para saboreá-la, acariciá-la e lhe mostrar o muito que gostava de lhe proporcionar agradar.

Olivia ofegou com satisfação enquanto lhe dava o que lhe suplicava com seu corpo; provocou-a com cada carícia, com cada roce de sua língua, com cada suave apertão de sua palma, até que começou a mover as pernas e os quadris sob as saias do vestido.

Ao perceber essa resposta instintiva, Sam trocou ligeiramente de posição a fim de deixar um último barril descendente de beijos ao longo de seu abdômen; fez uma pausa para passar a língua pelo lunar que havia sob o seio e se deteve sozinho ao chegar ao umbigo.

Olivia choramingou faminta, e ele pegou por fim a beira do vestido e da regata para deslizados juntos por seus quadris.

Ao contemplar seu rosto, deu-se conta de que Olivia tinha os olhos fechados e de que se levou o dorso da mão aos lábios enquanto se preparava mentalmente para que ele contemplasse a beleza de seu corpo nu.

Elevou os quadris para lhe facilitar as coisas enquanto ele atirava do vestido até que por fim deixou ao descoberto a parte mais íntima das curvas femininas.

Sam tragou saliva com força em uma tentativa por controlar-se; devia regular sua respiração e os batimentos do coração de seu coração.

Havia visto muitos corpos femininos ao longo de sua vida adulta, mas nenhuma das mulheres de seu passado poderia havê-lo preparado para a incomparável visão que tinha diante de si nesse instante.

Essa mulher era extraordinária, do longo e suave cabelo negro e os seios redondos e excitados, até a esbelta cintura e os suaves cachos escuros que havia entre suas pernas. Esses cachos que ocultavam a parte dela que com tanto desespero desejava beijar e estimular; essa parte dela em que desejava enterrar-se em corpo e mente para sempre.

Tomou uma trêmula baforada de ar, impaciente por acariciá-la ali, por incrementar a paixão que a consumia. Nesse instante crucial, Sam se deu conta de que jamais poderia permitir que um pouco tão perfeito, tão formoso, fora acariciado por ninguém mais.

Olivia pareceu precaver-se de que ele tinha deixado de lhe fazer o amor e baixou os braços de maneira instintiva em um intento por cobrir-se. Sam sorriu; esse gesto inocente lhe tinha provocado uma estranha sensação de serenidade. Em seguida afastou a última fresta de roupa de suas largas e esbeltas pernas e a jogou no chão, junto à cama.

Ela seguia com os olhos fechados; sua timidez o fascinava, apesar de que o que mais desejava era sua paixão. Mas isso chegaria depois.

Colocou-se a seu lado uma vez mais e se inclinou para lhe beijar os lábios, o rosto e o pescoço enquanto voltava a lhe acariciar os seios a fim de reavivar seu desejo.

— Olivia — sussurrou contra a suave pele de seu rosto, — é muito mais linda do que tinha imaginado...

Ela choramingou de novo e Sam se afastou um pouco para contemplá-la; seguiu lhe acariciando um seio com uma mão enquanto apoiava a outra em sua testa para deslizar o polegar pela linha de suas sobrancelhas. Olivia não o tinha cuidadoso ainda, mas a ele lhe formou um nó nas vísceras ao dar-se conta de que tinha as pestanas cobertas de lágrimas.

— Não chore — murmurou, preocupado de repente pela possibilidade de que esse intento de sedução pudesse fracassar.

Ela sacudiu a cabeça muito devagar.

— Não posso evitá-lo — replicou, fechando os olhos com mais força ainda. — Desejo-te, mas tenho muito medo.

A absoluta perplexidade que o alagou nesse instante ficaria gravada para sempre em sua memória.

Santa mãe de Deus...

Com um estremecimento, Sam afastou a mão de seu seio e colocou a ponta dos dedos sobre seus lábios. Logo observou maravilhado como os beijava ela.

Olivia tinha admitido que o temesse que temesse o ato sexual que estava por chegar. Mas o que mais temia ele, o que o aterrorizava, era que se estava apaixonando por ela.

Por Deus...

Sentiu-se enrolado por uma intensa tormenta de emoções que o surpreendeu além de toda explicação. Depois se inclinou e lhe beijou as pálpebras para não lhe revelar uns sentimentos que nem sequer ele compreendia de tudo.

Ela respondeu ao contato e respirou fundo antes de lhe rodear o pescoço com a mão livre para impedir que se afastasse.

Sam se apoderou de sua boca de novo e a beijou com ferocidade, com toda a paixão que sentia lhe entregando tudo o que tinha dentro, lhe dando tudo o que ela desejava sentir.

Logo, baixou a mão até os cachos de seu entre pernas e deslizou os dedos no paraíso que ocultavam.

Ela esticou as pernas de maneira instintiva.

— Chist... Te abra para mim, encanto — sussurrou contra seus lábios.

Olivia fez o que lhe pedia e separou os joelhos muito devagar. Antes que trocasse de opinião, Sam introduziu os dedos entre as dobras suaves e úmidas; sentiu uma opressão no seio quando escutou como pronunciava seu nome e percebeu que arqueava os quadris para lhe dar um acesso mais profundo.

A umidade que a alagava o envolveu. Sam apertou os dentes e conteve a respiração em um intento por controlar-se, por não deixar ir antes inclusive de tirar as calças e satisfazê-la.

Olivia ofegou quando começou a acariciá-la e balançou os quadris para seguir seu ritmo. Chegaria ao orgasmo em um instante. Estava tão molhada, tão preparada...

— Livi, amor, sabe que vou introduzir me em seu interior, verdade? — perguntou com os lábios pegos a sua orelha antes de lhe sugar o lóbulo; rogou a Deus não ter que lhe explicar o ato antes de fazê-lo.

Ela assentiu.

— Sim... — sussurrou.

Alagou-o o alívio, acompanhado de uma sensação de fôlego e uma nova quebra de onda de desejo.

Continuou acariciando-a muito devagar e conseguiu que começasse a respirar com baforadas rápidas enquanto ele elevava os quadris e se trabalhava com os botões das calças. Os baixou mais rápido que em toda sua vida e terminou de tirar-lhe com os pés. Em seguida, voltou a situar-se junto à Olivia outra vez, tão nu como ela.

O corpo da Olivia ardia e seu desejo estava a ponto de culminar quando se inclinou sobre seus seios para sugá-los e estimulá-los. Introduziu um dedo ligeiramente em seu interior antes de retirar-se de novo, e utilizou outros para realizar carícias circulares sobre o núcleo de seu prazer até que ela esteve a ponto de gritar.

Ao final, com um único e rápido movimento, cruzou uma perna sobre as dela para que o extremo de sua ereção descansasse sobre o quadril feminino.

Olivia ofegou e se retorceu um pouco ao notá-lo, mas Sam a manteve a seu lado para que percebesse a intensidade de sua necessidade e se acostumasse a esse contato íntimo.

Depois, com uma velocidade que revelava o desejo criado pela prolongada excitação, retirou os dedos de seu entre pernas e se elevou sobre ela ao tempo que se apoderava de seus lábios em um ardente arrebatamento. Introduziu a língua na suavidade de sua boca procurando, sugando, respirando de uma forma tão irregular como ela. Empurrou suas coxas com o joelho para conseguir que separasse as pernas e colocou os quadris entre elas antes de apoiar os antebraços no travesseiro que havia juntado a sua cabeça.

Cobriu-lhe as bochechas com as Palmas das mãos e deslizou os lábios por sua boca, seu nariz e suas pestanas. Logo, muito devagar, elevou a cabeça para contemplar seu rosto.

— me olhe, Livi — exigiu -lhe em um sussurro, quase sem fôlego.

Ela fez o que pedia, e seus arrebatadores olhos azuis, nublados pelo desejo, observaram-no uma última vez antes que ele começasse a introduzir-se na tensa calidez de seu interior para fazê-la sua.

— Não tenha medo — suplicou -lhe em um murmúrio rouco.

Olivia assentiu com a cabeça e inalou de maneira brusca enquanto lhe acariciava a pele do pescoço com a ponta dos dedos sem dar-se conta.

Depois disso, Sam colocou o extremo de sua ereção na entrada úmida e cálida de sua feminilidade e se deteve um segundo para relaxar-se um pouco.

— Sam... — sussurrou ela, enquanto fechava os olhos e se elevava um pouco para beijá-lo.

Essa doce aceitação era tudo o que Sam necessitava. Começou a afundar-se nela com muita lentidão, mas se deteve quando notou que ofegava e ficava rígida.

Ficou imóvel ao perceber seu desconforto. Seguiu beijando-a enquanto esperava a que Olivia se relaxasse, mas não com frenesi, mas sim roçando seus lábios com delicadeza e afastando-se um pouco a fim de poder lhe colocar a mão sob o joelho e lhe elevar a perna para conseguir um acesso mais fácil.

Ela introduziu os dedos em seu cabelo e lhe devolveu o beijo entre gemidos que delatavam sua crescente necessidade.

— te relaxe, Livi, meu amor — sussurrou contra sua boca com uma voz rouca que revelava o muito que lhe estava custando controlar -se.

Sabia que ela tentava fazer o que lhe tinha pedido que tratasse de afrouxar a tensão que notava em seus quadris e em suas pernas.

Começou a penetrá-la uma vez mais, embora nessa ocasião se afundasse mais profundamente e sentiu que as paredes cálidas e úmidas de seu interior cediam um pouco para lhe permitir o passo. Sabia que lhe estava lhe machucando, e lhe doía tanto ou mais saber que não havia nenhuma maneira de evitá-lo. As lágrimas silenciosas que se deslizaram pelas bochechas femininas lhe molharam os lábios enquanto a beijava, enquanto se introduzia cada vez mais em seu interior em uma ascensão constante para o paraíso.

— É maravilhoso estar dentro de ti... — sussurrou com voz atormentada.

Sentia o corpo rígido devido ao esforço de reter o clímax que estava a ponto de alcançar.

Olivia choramingou e arqueou as costas quando ele se afundou nela uma última vez até o fundo. Logo, Sam ficou imóvel, lhe dando uns segundos para que se acostumasse à sensação de plenitude e para que a dor remetesse.

Ela jamais saberia quão importante era esse momento, o que supunha para ele estar dentro de uma mulher pela primeira vez em dez anos. Afligido, tragou saliva com força antes de fechar os olhos para controlar as emoções, para desfrutar de o delicioso poder que ela ostentava sobre ele sem sabê-lo sequer.

Nesse preciso instante, Olivia o beijou. Percorreu com os lábios suas bochechas, sua testa, sua boca e sua mandíbula, e a doçura do gesto expressou tudo aquilo que não podia lhe dizer com palavras, revelou quanto tinha desejado esse momento, quanto tinha desejado senti-lo em seu interior pela primeira vez.

— Por Deus, Livi...

— dêem-me isso tudo... — murmurou contra sua pele.

Sam conteve um soluço de puro êxtase. Com os dentes apertados, retirou-se um pouco e apoiou o peso de seu corpo em um braço a fim de elevar os quadris e introduzir uma mão entre seus corpos para acariciá-la com os dedos.

Olivia arqueou as costas e lhe cravou as unhas nos ombros enquanto os músculos de seu interior o insistiam a continuar, empapando-o com sua ardente umidade.

Ela começou a relaxar-se, a gemer, e apoiou a cabeça contra o travesseiro enquanto se rendia ao prazer. Sam a acariciou sem cessar e acelerou o ritmo para levá-la cada vez mais perto do topo.

Permaneceu imóvel em seu interior, sabendo de que se a investia embora fora uma vez mais esquecesse a decisão de vê-la chegar ao orgasmo em primeiro lugar e acompanhá-la depois. Seu corpo se cobriu com um filme de suor enquanto tencionava a mandíbula para concentrar-se nela, em suas necessidades.

Com os dedos cravados em seus ombros, Olivia se retorceu sob seu corpo para insisti-lo a continuar. Sam contemplava seu formoso rosto sentindo-o tudo, sentindo a proximidade de seu clímax.

De repente, ela ofegou e se sacudiu bruscamente. Abriu os olhos de repente para olhá-lo.

— Sim, meu amor... Te corra para mim...

Ela gritou e lhe afundou as unhas na pele ao tempo que se arqueava e saltava ao abismo.

Sam nem sequer teve que mover-se. As contrações de prazer, as palpitações que apertavam seu membro o levaram imediatamente até o topo do paraíso.

Deleitou-se com a beleza dessa mulher, de sua mulher... E o momento chegou.

Explorou em seu interior e jogou a cabeça para trás enquanto apertava os dentes e a investia sem poder controlar-se, embargado por uma sensação de satisfação que sacudiu seu corpo, que uniu seu coração ao dela e lhe produziu um estalo de felicidade que fez realidade todos seus sonhos.

 

Olivia abriu os olhos. Ainda dormitada e sem saber muito bem onde estava, contemplou os diminutos cachos de frutas e dentes de pinheiro que adornavam o papel das paredes do dormitório. O dormitório dele.

Ai, Meu deus, o que tenho feito, Disse-se.

Gemeu para si próprio e se cobriu os olhos com a palma da mão enquanto a lembrança do que tinham feito e do incrível prazer que tinha experiente retornava a sua cabeça. Perguntou-se que demônios poderia dizer a Sam depois disso...

Deviam haver ficado dormidos, já que nesse instante percebeu o corpo nu que havia a seu lado. Sam tinha a cabeça amontoada em seu pescoço e seu fôlego, quente e regular, roçava-lhe a pele. Tinha apoiado um braço sobre seu ventre, justo por debaixo de seus seios, e uma das panturrilha sobre suas pernas.

Deu-se conta de que não poderia mover-se sem incomodá-lo, embora sentisse o impulso de saltar da cama e fugir dali... Depois de vestir-se como era devido, é obvio.

Possivelmente Sam não esperasse que fizesse ou dissesse nada. Possivelmente se limitasse a levantar-se e a vestir-se, sem mencionar jamais esse... Contratempo. Entretanto, não acreditava que ele considerasse um «contratempo» o fato de fazer o amor, e o mesmo ocorria a ela.

Em que pese a que sua mente borbulhava de incertezas e possibilidades, soube que tinha compartilhado com esse homem a experiência mais dolorosa, maravilhosa, excitante e... Extraordinária de toda sua vida.

Sam era um homem impressionante. Impressionante, generoso e amável. Tinha-a tratado como se lhe importasse de verdade, como se lhe importasse o que pensava e o que sentia. Nenhum homem se comportou assim com ela, e muito menos Edmund.

— No que pensa? — inquiriu ele com um tom lânguido e satisfeito.

Apesar do envergonhada que estava Olivia sabia que devia falar com ele. Sacudiu a cabeça e se afastou a mão dos olhos antes de apoiá-la na cama.

— Não tem importância.

Sam riu pelo baixo e o som reverberou em seu seio, que se encontrava muito próximo dela.

— Olivia, sabe quantos homens formulam essa pergunta enquanto sonham que a mulher que os acompanha responda exatamente isso mesmo?

Isso a deixou desconcertada.

— Não entendo o que quer dizer.

Ele levantou um pouco a cabeça para poder olhá-la, mas ela manteve os olhos cravados no teto.

— A maioria das mulheres não pára de falar — explicou com um grunhido. — Quão único querem é tagarelar sem cessar.

Olivia se pôs-se a rir, muito a seu pesar.

— Isso é ridículo.

— Não, não o é, e você sabe muito bem, já que é um exemplar perfeito do gênero feminino.

Sem perder o sorriso, fechou os olhos e pensou que Sam tinha uma aguda capacidade para compreender às mulheres e que era maravilhoso o ter a seu lado.

— Bem — começou uma vez mais ao tempo que se apoiava em um cotovelo para olhá-la no rosto, — no que pensava?

Olivia suspirou e abriu os olhos para olhá-lo por fim. Lhe derreteu o coração ao observar sua expressão divertida, seu cabelo enredado e seus espetaculares olhos escuros.

— No que você crie que pensava? — perguntou a sua vez com voz suave.

Sam sacudiu a cabeça diante de tanta obstinação e esboçou um sorriso ladino.

— Pensava que sou um amante maravilhoso.

Olivia se limitou a olhá-lo boquiaberta enquanto o rubor da vergonha lhe tingia as bochechas.

— Isso é absurdo.

Ele encolheu um ombro, embora seus olhos brilhassem com perverso humor.

— Não, não o é. É o normal.

Ela fingiu sentir-se indignada.

— Se de verdade quer sabê-lo, pensava que é... Do mais adequado.

Sam se afastou um pouco e franziu o cenho; olhava-a como se tornou louca.

— Adequado? Adequado?

Ela se encolheu de ombros.

— É evidente que crie que é maravilhoso, assim que mais dá o que eu opine?

Estava-lhe tirando o sarro, é obvio, e ele sabia.

— Nesse caso, suponho que terei que fazê-lo melhor a próxima vez — disse ao tempo que meneava a cabeça e contemplava seu corpo nu.

Não podia falar a sério.

— Sam — começou com voz séria, — não podemos fazer isto de novo. Está... Mau.

Para seu mais absoluto assombro, Sam se pôs-se a rir e deslizou a mão livre sobre seu ventre, lhe arrepiando a pele.

— Ai, Olivia... Há tantas coisas que tenho que te ensinar... E a primeira delas é que nunca, jamais, deve dizer isso a um homem. — Olhou-a com intensidade aos olhos. — Com isso somente consegue se desesperar, e aumentar sua determinação.

Ela se pôs-se a rir, apesar de que tinha tomado a decisão de mostrar-se firme.

Sam sorriu antes de voltar a tombar-se de costas a seu lado para contemplar o teto.

— O que de verdade eu gostaria de saber é que demônios fazia com o Edmund aí fora.

Isso a pilhou completamente despreparada.

— Se lhe disser isso — disse com um suspiro, — promete que alguma vez mais me obrigará a compartilhar sua cama?

Ele soltou uma gargalhada e isso a incomodou, já que não parecia haver-se tomado a sério sua petição.

— Juro-te que jamais te obrigarei a compartilhar minha cama — replicou, olhando a de relance. — Agora, quero todos os detalhes.

Olivia respirou fundo, sabendo de que essa promessa não tinha nenhum valor. Não podia dizer-se que esse dia a tivesse obrigado e, entretanto, tinha conseguido despi-la e que estivesse a ponto de lhe suplicar que tomasse, quando era quão último desejava no mundo.

Deitou-se de flanco para vê-lo melhor e apoiou a cabeça na palma da mão, embora mantivesse a mão livre entre eles para cobrir os seios, ao menos em parte.

— Queria reunir-se comigo. Aproximou-se de mim na festa e me exigiu que me encontrasse com ele no caramanchão às dez.

Sam a observou com uma expressão em que já não havia nem rastro de humor.

— me deveria haver isso dito.

O que em realidade significava que lhe tinha doído que lhe mentisse.

— Sei. Sinto muito.

Ele soltou um grunhido de chateio e depois se passou os dedos pelo cabelo.

— Não acredito que tivesse sido capaz de te ferir fisicamente, mas te reunir com ele a sós depois de pilhá-lo despreparado na festa não foi algo muito inteligente, Olivia.

O comentário, ou, mas bem a preocupação e o carinho que revelava, chegou-lhe à alma. Com um leve sorriso nos lábios, Olivia estirou a mão para deslizar os dedos por sua testa.

— Estava ciumento? — murmurou com malícia.

Ele entrecerrou os olhos ao tempo que compunha uma expressão um tanto divertida.

— Talvez.

Olivia sorriu de orelha a orelha.

— Talvez?

— Estava muito perto de ti.

— Assim estava ciumento... — ronronou.

Ele respondeu com um gemido rouco.

— Não me fez nenhuma graça.

— A mim tampouco — replicou ela com uma expressão de radiante satisfação. — Cheirava a colônia troca.

Sam deixou escapar uma gargalhada gutural. Depois, sem prévio aviso, cobriu-lhe um seio com a palma da mão.

— Para falar a verdade, o mais acertado seria dizer que me embargou um estranho sentimento de possesividade e que me preocupou muito não poder sair correndo a te resgatar, porque para isso teria tido que te tirar a vista de cima durante vários minutos. Minutos nos quais podia acontecer algo.

Seu mamilo se endureceu quando ele o acariciou com o polegar, e Olivia notou que a paixão a alagava de novo e percorria todo seu corpo. Retirou o braço e apoiou a cabeça no travesseiro para observá-lo, alvoroçada pelos sentimentos que despertava nele.

— O que sentia nesses momentos, Livi? — perguntou-lhe em voz baixa enquanto a olhava com intensidade.

Ela suspirou.

— Pôs-me furiosa, mas acredito que ao Edmund gosta de me enfurecer. O certo é que penso que não se tomou a sério nada do que lhe disse, embora me desse a impressão de que o assustava que estivesse aqui.

— Mencionou sua herança?

Olivia se afastou as mechas de cabelo que lhe caíam sobre a bochecha.

— Disse que está apaixonado pela Brigitte, embora me resulte incrível.

Sam arqueou as sobrancelhas.

— Seriamente?

Olivia o observou com expressão séria.

— Não acredito que seja capaz de amar, Sam. Disse-me que já se deitou com ela... Mas não posso acreditá-lo.

— por quê? — inquiriu ele com um sorriso zombador. — Talvez ela o deseje fisicamente e o ame o suficiente para entregar-se a ele antes do matrimônio.

A menção de semelhante possibilidade fez que se sentisse incômoda, já que tocava uma fibra muito sensível.

— As damas de bom berço não fazem esse tipo de coisas, Samson — assinalou, embora sentisse que o calor da culpabilidade invadia seu rosto.

De maneira inesperada, Sam tomou sua mão e a levou até os lábios para lhe beijar o pulso e o dorso dos dedos.

— Acredito que isso ocorre muito mais freqüentemente do que você imagina — explicou com voz grave.

Olivia não podia pensar nisso agora. Sam lhe tinha arrebatado a virgindade, mas não queria pensar no que aquilo criaria para seu futuro..., para o futuro de ambos, se acaso tinham algum.

Depois de decidir que era melhor voltar para o tema anterior, comentou:

— Disse-me que me devolveria o dinheiro que me roubou, até o último peni, se não dizia uma palavra do que me tinha feito nem do que sabia a ninguém, em especial a Brigitte.

Sam lhe apertou a mão e a levou até seu seio.

— Isso tem sentido, sobre tudo se sentir afeto por ela ou quer fazer-se também com sua herança.

Olivia se tendeu de costas para cravar a vista no teto.

— Mas não entendo como conseguirá fazer-se com seu dinheiro, independentemente de se o matrimônio for real ou não. É seu grand-père quem controla a fortuna, e tem uma saúde de ferro. — voltou-se de repente para ele. — A menos...

Sam meneou a cabeça com firmeza.

— Não acredito que chegue tão longe como matar a alguém, Livi. E se dermos por feito que jamais recorreria ao assassinato, a única conclusão possível é que terá que casar-se com ela de verdade e esperar a morte natural do ancião. Está claro que enquanto isso viverá com toda classe de comodidades. — Soprou com força. — Isso encaixa muito melhor com a personalidade do Edmund.

Olivia deslizou os dedos sobre a colcha e franziu o cenho enquanto pensava.

— Mas ele sabe que posso dizer o que me venha em vontade, e é óbvio que vim ao Grasse para deixá-lo ao descoberto.

— Não se te devolve o dinheiro — recordou-lhe Sam. — Ao parecer, segundo seus planos, o dinheiro que te roubou servirá para manter sua boca fechada. Necessita-o, e ele sabe.

Isso a enfureceu imediatamente.

— Essa serpente perfumada com colônia troca vai utilizar meu dinheiro para me chantagear. Se te disser a verdade, estou impaciente por ver a cara que põe esta noite. Juro-te que me dá vontade de matá-lo. Ou de proporcionar uma patada com todas minhas forças.

De repente, Sam voltou a cabeça para ela e a agarrou pela cintura para colocá-la em cima de seu corpo nu, firme... Perfeito.

— O que está fazendo? — perguntou enquanto tentava afastar o cabelo dos olhos.

— Quero te sentir — respondeu ele com um sorriso pomposo.

— Me sentir? Está louco?

— Sabe que o mais fascinante de ti é sua inocência, Livi?

Isso fez que se ruborizasse. Começou a se retorcer para livrar do delicioso contato desse corpo duro e masculino que tinha debaixo, mas foi em vão, já que ele a imobilizou com seus fortes braços. Ao final, deixou de tentá-lo.

— Jamais me considerei inocente Sam — assinalou com dureza. — Cuido de mim mesma e de Nevam; levo uma vida respeitável em uma cidade moderna...

Ele se pôs-se a rir, e Olivia pôde sentir sua risada até nos dedos dos pés.

— Deixa que te esclareça umas quantas coisas, encanto — disse ele com um tom prático embora divertido. — Casou-te com um homem ao que quase não conhecia um homem que te arrebatou sua herança sem que te desse conta sequer. Dirigiu-te para mim acreditando que era Edmund e sem comprovar sua informação. Dirige a loja enquanto alguém que trabalha para ti informa a sua tia de todos seus movimentos...

Olivia soltou uma exclamação incrédula, mas ele a passou por cima.

— Aceitarei a viajar a sós comigo, outro homem ao que quase não conhecia, confiando em que minhas intenções fossem honoráveis. Ficou estupefata ao descobrir que Claudette e Edmund são amantes e que, muito provavelmente, foram-no durante todo o tempo que acontecestes juntos. Mentiu-me ao não me contar que pensava te reunir com o Edmund a sós e depois te encontrou com ele em um jardim solitário no que ninguém poderia te ajudar se surgia algum problema. Para terminar, devo te dizer que é a mulher mais linda, teimosa e inocente que conheci, e que sua forma de fazer o amor desafia qualquer tipo de descrição. — Fez uma pausa para contemplar seus olhos desconcertados. — Nem sequer sabia que podiam te beijar a planta dos pés. Quer que continue?

Olivia ficou sem fala. Jamais se tinha parado a pensar nessas singelas coisas sobre ela nem no que tinha feito estando em sua companhia, e há deixou um pouco perplexa saber que ele a tinha estudado com tanta atenção, que a visse dessa forma. Entretanto, quando por fim recuperou a capacidade de falar, o único que lhe ocorreu perguntar estava relacionado com sua vaidade.

— De verdade acha que sou linda? — inquiriu com voz tímida.

Esperava que ele pusesse-se a rir e tirasse o sarro de novo, mas a surpreendeu quando a olhou aos olhos com uma expressão do mais séria.

— Acho que é deliciosa — replicou ao final com voz rouca — em todos os aspectos: sua mente, seu corpo, os dedos de seus pés, sua risada... Até o modo em que me faz amor. E nunca, jamais, deixarei que te separe de meu lado.

As palavras, seu significado e a intensidade de sua voz a comoveram até o mais fundo. Começou a tremer e lhe fez um nó na garganta. Assustava-a muito a possibilidade de tornar-se a chorar ali mesmo, diante dele. Assim, inclinou-se para diante e o beijou com toda a paixão que sentia, lhe revelando todos e cada um dos sentimentos que albergava por ele, amando-o com cada fôlego e com cada carícia.

Sam demorou um instante em responder, mas quando o fez começou a lhe acariciar as costas com a ponta dos dedos e a lhe devolver os beijos com uma necessidade incomensurável.

Olivia afundou suas mãos entre as suaves mechas de seu cabelo; sentia como se contraíam os músculos do torso masculino sob seus seios e como se endurecia sua masculinidade, algo que já não temia e que desejava sentir em seu interior mais que nenhuma outra costure no mundo.

Por fim e sem afastar os lábios dos seus, Sam a fez voltar-se muito devagar para tendê-la de costas e lhe apoiar a cabeça sobre o travesseiro. Beijou-a até que o fogo se avivou de novo, até que o desejo a consumiu entre suas chamas, até que começou a ofegar e a arquear-se com frenesi. Acariciou-lhe as pernas com as suas sem dar-se conta, incapaz de reprimir os diminutos gemidos que escaparam de seus lábios quando lhe acariciou os seios e fez girar os mamilos entre o índice e o polegar. Sam abandonou seus lábios para deixar um abrasador atalho de beijos por sua garganta, seu torso e a parte lateral dos seios; depois, meteu-se um deles na boca e começar a sugá-lo.

Olivia acreditou que morreria de prazer. Desejava-o mais e mais com cada roce, com cada carícia deliciosa de suas mãos.

Finalmente, Sam a liberou e se incorporou um pouco para olhá-la.

— Quero te fazer amor outra vez, Olivia.

Ela sorriu e separou as pálpebras muita devagar para observar a sinceridade que brilhava em seus olhos.

— Tem minha permissão, bobalhão — ronronou em um sussurro afogado. — Nem sequer terá que me forçar.

Sam lhe devolveu o sorriso enquanto ela deslizava os dedos por seu rosto. Depois percorreu seus lábios com a ponta do polegar até que lhe deu um pequeno beijo.

— Mas estará um pouco dolorida da primeira vez — acrescentou ele a contra gosto, — assim teremos que fazer o de outra maneira.

Louca de desejo, com o corpo em chamas e a pele ardendo por suas carícias, Olivia não sabia se tinha escutado corretamente.

— Há...? — Ofegou quando ele colocou a mão entre suas pernas. — Há outra maneira?

Sam soltou um gemido antes de beijá-la de novo.

— Minha doce e inocente Olivia... — sussurrou contra seus lábios depois de percorrê-los com a língua.

Logo, sem prévio aviso, afastou-se de sua boca e se deslocou aos pés da cama para colocar a cabeça no mesmo lugar que instantes antes tinha ocupado sua mão.

Olivia não afastou os olhos dos seus e deu um coice quando lhe levantou os joelhos e começou a deslizar a língua de cima abaixo pelas dobras suaves e úmidas ocultas entre os cachos de seu entre pernas.

O sobressalto durou pouco, já que em questão de segundos Sam conseguiu que começasse a lhe dar voltas a cabeça com essas carícias maravilhosas e proibidas que procurassem a protuberância oculta entre as dobras. Depois acelerou o ritmo, concentrando-se no núcleo de seu desejo, movendo a língua em círculos cada vez mais rápidos e mais fortes, até que ela se relaxou e fechou os olhos para deixar-se levar.

Olivia soube quase imediatamente que estava a ponto de alcançar o topo e começou a mover os quadris acima e abaixo para acompanhar o ritmo de suas carícias. Soltou um gemido e afundou os dedos em seu cabelo enquanto se imaginava sua boca sobre ela, essa língua em seu interior, sua ereção grande e dura pronta para tomá-la.

— Sam... — sussurrou, procurando o momento da liberação enquanto respondia a cada movimento de sua língua com uma aposta de quadris. A tensão que crescia em seu interior estava a ponto de estalar. — Sam... Meu deus, Sam...

Ele estirou os braços para entrelaçar os dedos com os seu no preciso instante em que chegou ao orgasmo.

Olivia gritou e lhe apertou as mãos enquanto balançava os quadris e se entregava ao delicioso prazer gemendo seu nome. Manteve os olhos fechados, sacudida por uma quebra de onda atrás de outra de prazer.

Logo que Sam percebeu que seus movimentos começavam a reduzir -se, incorporou -se e se colocou sobre ela; apoiou o peso de seu corpo sobre a mão que tinha juntado colocada a sua cabeça e a olhou aos olhos ao tempo que situava sua ereção entre as dobras úmidas. Mas não a penetrou. Em seu lugar, começou a mover os quadris com muita suavidade para deixar que o extremo de sua masculinidade lhe esfregasse o clitóris.

Olivia ofegou ante a intensidade da sensação e abriu os olhos para olhá-lo, para observá-lo, para deleitar-se com o prazer de vê-lo chegar ao clímax.

Sam manteve seu corpo sobre ela apoiando-se sobre a palma; tinha o braço flexionado a causa do peso e os músculos do seio e dos ombros, tensos pelo esforço. Com a outra mão sujeitava a base de sua ereção a fim de acariciá-la de cima abaixo, cada vez mais rápido à medida que se aproximava do orgasmo.

Olivia jamais tinha imaginado algo tão erótico em toda sua vida. Contemplou-o fascinada e desejou com toda sua alma que se afundasse nela e a enchesse como o tinha feito antes, embora aquilo lhe resultasse inclusive mais embriagador, mais estimulante.

Sam soltou um grunhido. Os músculos de seu rosto se contraíram e esticou a mandíbula. Entre ofegos, fechou os olhos para deixar-se levar pelas sensações.

E então, de repente, algo cresceu no interior da Olivia. Sentiu uma súbita maré de êxtase, mais rápida esta vez, que a arrastou até a cúpula da paixão em questão de segundos.

Sam abriu os olhos ao escutar seu gemido e a olhou com uma expressão um pouco surpreendida.

— Deus, Livi... Sim, venha para mim outra vez. Goze carinho...

Sua voz soava atormentada, rouca, mas começou a mover-se cada vez mais rápido contra ela.

Olivia levantou a mão para lhe acariciar o rosto. E depois, com um gemidos, chegou ao orgasmo pela segunda vez e sussurrou seu nome. Ofegou com cada uma das deliciosas pulsações de prazer, que foram ainda mais perfeitas porque sabia que o arrastariam com ela.

— Deus... — murmurou ele. — Deus, Olivia...

Instantes depois, Sam soltou um grunhido enquanto seu poderoso corpo se sacudia contra ela a causa do estalo de intenso prazer. Não deixou de esfregar-se contra seu sexo com os olhos fechados, a mandíbula apertada e a cabeça arremesso para trás, enquanto gemia e aceitava tudo o que lhe dava.

Quando por fim diminuiu o ritmo de seus movimentos e se tendeu junto a ela, rodeou-a com os braços e a estreitou com força.

Olivia notou que começava a relaxar-se e desfrutou da sensação do ter a seu lado enquanto sentia os batimentos do coração de seu coração sob a bochecha.

O que tinha experiente esse dia com ele, graças a ele, ficaria gravado a fogo em sua memória para sempre. Esse homem maravilhoso tinha convertido seu mundo em um lugar mais formoso e lhe tinha dado sentido a sua vida.

Foi nesse instante quando compreendeu a verdadeira natureza do amor. Quando se deu conta de que o amava.

 

Ia ser uma noite memorável. Olivia estava sentada frente a Sam no que devia ser a carruagem mais cara e luxuosa no que tinha viajado em toda sua vida.

Tinha estado muito ocupado toda a semana, e ela soube nesse momento no que tinha investido o tempo. Era óbvio que tinha adquirido esse formoso e enorme veículo, com seu brasão pintado em dourado sobre as portinholas laqueadas em negro, para o baile dessa noite. O interior era incrivelmente cômodo, com assentos estofados em veludo vermelho rubi, cortinas para as janelas e tapetes para o chão.

Também tinha encarregado o espetacular traje à medida que Luzia essa noite e que lhe dava um aspecto magnífico. Estava confeccionado em seda negra italiana e ia acompanhado de uma camisa branca, com o pescoço e as lapelas debruados em seda, e de um colete negro cruzado.

Ambos tinham solicitado um banho antes de vestir-se, já que o serviço do hotel preparava a banheira e a água quente em menos de uma hora. Olivia tinha utilizado o sabão com essência de baunilha que tinha comprado no Govance na semana anterior e depois se aplicou a água de colônia especial com base de baunilha em todo o corpo.

Depois de escovar o cabelo para secá-lo, o tinha trancado com uma cadeia dourada e uma fileira de pérolas e depois o tinha recolhido no cocuruto, deixando que uns quantos mechas lhe rodeassem o pescoço e o rosto para suavizar o efeito.

Depois de colocar a roupa interior e o apertado espartilho, que se grampeava na parte dianteira e lhe elevava os seios, embelezou-se com o mesmo vestido dourado que levava a noite que conheceu Sam. Era seu melhor vestido de noite, com esse brilho espantoso, a cintura ajustada e o decote baixo que permitia uma sedutora vista de seus seios. Tinha pedido a Sam que lhe grampeasse os botões das costas sem pensar-lhe duas vezes. Depois da tarde que tinham compartilhado, não sentiu a mais mínima vergonha ao sentir seu contato ou o beijo que lhe deu na nuca ao terminar.

Abandonaram o hotel justo depois das sete e meia, o que lhes dava tempo de sobra para chegar às oito em ponto. Puseram-se de acordo nos detalhes, já que ambos desejavam fazer sua aparição quando a maioria dos convidados já estivessem ali, o que lhes proporcionaria a oportunidade de mesclar-se com a gente antes que reparassem em Sam. E para falar a verdade, Olivia queria chegar o bastante tarde para que Edmund se cozesse a fogo lento enquanto aguardava vê-la chegar com seu marido.

Sam, que nesse instante ia sentado frente a ela, tinha um aspecto sofisticado e espetacular, e estava muito mais arrumado do que o tinha visto jamais. Depois do banho e o barbeado, penteou-se o cabelo para trás e inclusive se pôs um toque de colônia... Não porque gostasse, mas sim porque se tratava da mescla única que ela tinha elegido e criado para ele.

Olivia tinha começado a ficar nervosa assim que viu a carruagem e Sam a ajudou a subir. Nesse instante, quando já estavam a ponto de chegar à propriedade, quase não podia conter-se. Tinham falado muito pouco durante o trajeto. Sam estava absorto em suas reflexões sobre a noite que tinham por diante, embora parecesse lhe fazer graça sua inquietação e tinha comentado algo sobre que não deveria retorcer o leque de marfim sobre o regaço.

A carruagem diminuiu a velocidade para deter-se detrás da fila de veículos, tanto privados como de aluguel. A casa estava tão iluminada como a noite anterior, embora de um modo incluso mais espetacular, se isso era possível.

Impaciente, Olivia se inclinou para diante para jogar uma olhada pelo guichê enquanto aferrava com a mão a magra cadeia do ridículo bordado em ouro.

— Está preparada para isto? — perguntou Sam em voz baixa, rompendo o silêncio.

Ela o olhou e sorriu.

— Jamais desejei tanto assistir a um baile em toda minha vida.

Pôde ver que lhe devolvia o sorriso graças à iluminação da mansão, que nesses momentos se refletia em sua cara.

— Está arrebatadora — murmurou.

Olivia esteve a ponto de derreter-se sobre o assento enquanto o observava com absoluta adoração.

— Você também, Excelência.

Os lábios masculinos se curvaram em uma careta zombadora.

— Além disso, cheira muito bem.

— É uma fragrância especial com base de baunilha, uma nova aquisição do Govance.

— Assim compras na competência, né? — brincou ele.

Em uma decisão totalmente desconcertante por sua parte, Olivia baixou a voz até convertê-la em um sussurro e se inclinou para ele para lhe perguntar:

— Você gostaria de conhecer um dos segredos de sedução dos perfumistas?

Sam arqueou as sobrancelhas, interessado.

— Agora?

Ela se encolheu de ombros.

— por que não?

— Certo, por que não... — repetiu ele com ironia.

— Ao longo dos anos — começou com tom travesso — muitas grandes sedutoras utilizaram uma única fragrância embriagadora, exótica e almiscarada para... Atrair aos cavalheiros que queriam ver em sua cama.

Sam ficou boquiaberto, mas não disse nada; limitou-se a olhá-la.

Olivia se tornou para diante no assento para colocar-se a beirada.

— Introduziam os dedos em seu entre pernas para recolher o fluxo que umedecia seu sexo — explicou em um sussurro rouco sem deixar de sorrir — e depois o aplicavam detrás das orelhas, na garganta e entre os seios, lugares nos que os homens revistam fixar-se bastante. — endireitou-se um pouco. — A essência do almíscar sempre foi uma das preferidas pelo gênero masculino. E, como é natural, aos maridos adoram, já que não os costa nem um peni.

Tinha-o deixado desconcertado e isso lhe provocou uma gargalhada. Sam meneou a cabeça muito devagar.

— Livi, amor, puseste meu mundo pernas para o ar.

A carruagem se deteve nesse preciso instante e, justo quando um dos lacaios tirava o seguro da portinhola, Olivia se inclinou para diante para lhe dar um rápido beijo na boca.

— Para te desejar sorte, carinho.

Depois, aceitou a mão que lhe oferecia o criado e desembarcou do magnífico veículo.

Subiram juntos os degraus que conduziam a enorme porta principal detrás de outros convidados cujas carruagens tinham precedido ao dele. Foram agarrados por braço e Olivia se aferrava a ele com mais força da que a situação requeria. Sam parecia acalmado, embora agora que o conhecia o bastante bem para poder identificar cada uma de suas expressões faciais e seus movimentos, sabia sem a menor duvida que a emoção o invada.

Os criados só se fixaram neles por um breve instante quando entraram no vestíbulo junto com outros convidados. A maioria dos assistentes recém chegados ainda não conheciam prometido do Brigitte, de modo que não lhes emprestaram mais atenção do que teriam feito em circunstâncias normais, apesar de que Sam e ela, com seus magníficos e custosos trajes, formavam um casal do mais chamativa.

Em lugar de girar imediatamente para a esquerda para dirigir-se ao salão, tal e como ela tinha feito a noite anterior, caminharam muito devagar para um amplo corredor que conduzia à parte traseira da propriedade.

O pessoal de serviço dos Marcotte tinha decorado a casa de maneira esplêndida para essa noite: velas acesas por toda parte e flores recém cortadas em coloridos vasos de importação se localizados em todas as superfícies disponíveis. A fragrância das flores se mesclava com os distintos perfumes, a fumaça dos charutos e o aroma dos deliciosos mantimentos do salão de baile situado justo diante deles.

Sam mantinha a vista cravada à testa e justo quando chegaram à entrada, Olivia lhe apertou o braço com suavidade. Ele baixou o olhar e sorriu de uma maneira que a acalmou e a reconfortou imediatamente. Lhe devolveu um sorriso de colheita própria; não o sorriso de excitação que tinha momentos antes, a não ser uma que revelava um entendimento total e a esperança de que essa noite fora tão somente um presságio das coisas maravilhosas que estavam por chegar.

Em seguida, por fim, entraram no salão de baile, iluminado por um milhar de velas que se refletiam nos enormes espelhos situados nas paredes e nos intrincadas gravuras de oropel que cobriam o elevado teto. Os criados, embelezados com libres de cor carmesim, abriam-se passo entre a multidão com bandejas douradas cheias de taças altas de champanha e antepastos. O sexteto da orquestra situado no extremo noroeste da sala tocava uma gavota enquanto um montão de coloridas saias giravam ao redor da pista ao compasso da música.

A Olivia adorava as festas, e o fato de poder contemplar tanta beleza acompanhada pelo homem de seus sonhos convertia aquela em uma ocasião mágica.

Sam começou a dirigir-se para a direita para rodear a um grupo de convidados cujas vozes e risadas se escutavam por cima do estrépito.

— vamos dançar? — perguntou ela com a esperança de que lhe respondesse que sim, já que uma vez que a família os descobrisse, a alegria da noite chegaria a seu fim e começaria o drama.

Ele agachou a cabeça para que pudesse escutá-lo.

— Não até que toquem uma valsa. Detesto dançar, e me nego a sofrer qualquer outra peça.

Olivia jogou os ombros para diante, de maneira que não ficasse mais remedeio que olhá-la.

— Detesta dançar? — inquiriu, surpreendida.

Sam esboçou um sorriso zombador.

— Só há uma coisa que deteste mais: ir à ópera.

Ela se pôs-se a rir.

— Nesse caso jamais te farei sofrer te obrigando a assistir a nenhuma que não seja A flauta mágica. Eu adoro A flauta mágica.

Sam soprou.

— Acredito que poderei me manter acordado em uma obra do Mozart. Pelo menos durante o primeiro ato.

— Aaah... Será um prazer vai sofrer para me agradar — brincou ela ao tempo que lhe apertava o braço.

— Suportaria qualquer sofrimento por ti, Olivia — admitiu ele, que voltou a dirigir seu olhar vigilante para a multidão.

Havia-o dito em um tom casual, como se não fosse mais que uma idéia que lhe tinha passado pela cabeça, mas o significado dessas palavras encheu o coração da Olivia de uma extraordinária e inexplicável felicidade. Foi então quando começou a valsa e, sem dizer uma palavra, Sam a conduziu diretamente para a pista de baile.

Olivia desfrutou de do momento e pensou no muito que lhe recordava à primeira vez que dançaram em Londres, quando ia embelezada com esse mesmo vestido e contemplava com fúria os formosos olhos do homem que a acompanhava porque acreditava que era Edmund. Neste instante só via Sam, um indivíduo distinto a qualquer outro, com seus próprios desejos, temores e sonhos.

Dedicou-lhe um sorriso enquanto a fazia girar com uma mestria que desafiava sua impressionante estatura ou sua afirmação de que detestava dançar. Era um bailarino maravilhoso.

— Quero te contar algo que jamais te hei dito antes — confessou Olivia sem deixar de olhá-lo aos olhos.

Sam franziu o cenho por um momento e depois, em lugar de sorrir, tomar o cabelo ou mostrar um pouco de curiosidade, compôs uma expressão solene e seu olhar tomou uma intensidade que Olivia não acreditava ter apreciado nunca antes.

— Adiante — solicitou com voz séria e grave, apenas audível por cima da música.

— Já te conheço quase tanto como ao Edmund — disse com voz trêmula. — E desejo com toda minha alma que saiba que não lhes parecem em nada. É um homem maravilhoso. — Respirou fundo para reunir coragem. — Se ambos estivessem ao lado, levassem a mesma roupa, o mesmo penteado e tivessem a mesma expressão, reconheceria-te com os olhos fechados, com somente te tocar o rosto.

Ele se limitou a observá-la durante uns instantes. Seus rasgos revelavam uma miríade de emoções e seus passos se fizeram mais lentos à medida que o significado das palavras penetrava em seu cérebro.

Sam tragou saliva com força e apertou a mandíbula enquanto lhe rodeava a cintura com o braço e oprimia o torso contra seus seios para aproximá-la tanto como o fora possível. Depois apoiou a testa sobre a dela.

— Olivia...

Sua voz, o som de seu nome em seus lábios, envolveram-na como uma súplica de toda uma vida de sonhos.

Fechou os olhos e desfrutou de do baile, sabendo de que este se converteu em bamboleio de um só coração, de uma alma compartilhada.

— Amo -te — sussurrou Olivia.

Sam se estremeceu antes de responder em um murmúrio rouco e maravilhado:

— Eu também te amo.

Olivia sabia que nada em sua vida poderia comparar-se ao momento que estava compartilhando com ele, à assombrosa e deliciosa felicidade que lhe tinha enchido o coração para lhe ouvir repetir essas palavras com absoluta sinceridade. Recordaria sempre que as tinha pronunciado enquanto a estreitava em uma bonita habitação cheia de gente, enquanto a fazia girar ao compasso da música de um milhar de anjos que cantavam sozinho para eles uma ode ao triunfo da felicidade eterna.

Desejava beijá-lo, fugir com ele a uma terra exótica e não retornar jamais, não olhar nunca atrás. Estar com ele assim para sempre.

As lágrimas umedeceram suas pestanas quando sentiu que afastava a testa da dela e lhe dava um suave beijo na testa; um beijo que se atrasou um par de segundos mais do necessário.

Olivia elevou o olhar e descobriu a adoração que brilhava em seus olhos escuros e o sorriso que elevava uma das comissuras de seus lábios.

De repente, Sam cravou o olhar em algum lugar por cima de sua cabeça e ela pôde ver como se transfigurava sua expressão. O sorriso desapareceu de seu semblante à medida que seus rasgos se endureciam e seus olhos se entrecerravam.

Nesse instante se deu conta de que tudo tinha trocado a seu redor. A música seguia soando, mas já não era uma valsa, e aqueles que tinham dançado em torno deles formavam agora um círculo. Todos os olhavam sem deixar de sussurrar.

Olivia era consciente da imagem que deviam apresentar, abraçados de uma maneira indecorosa, como dois amantes perdidos em seu próprio e diminuto universo.

Notou que Sam a soltava e colocava as mãos na parte superior de seus braços para afastá-la um pouco. Seu rosto se tingiu de um intenso rubor devido à súbita e intensa vergonha.

— chegou o momento — sussurrou Sam.

Foi então quando compreendeu que todos tinham a vista cravada nele.

O drama tinha começado.

 

Sam sentiu que lhe acelerava o pulso e que seus sentidos entravam imediatamente em alerta. O momento da revelação tinha chegado.

Empurrou a Olivia com delicadeza para colocá-la a seu lado e lhe deu um suave apertão na mão antes de soltá-la.

Ainda não tinha visto o Edmund, mas notou que os convidados à festa o estavam olhando com atenção, alguns deles com a boca aberta, e sabia que não se devia ao feito de que tivessem dançado tão juntos.

Fez-se o silêncio e, com ele, a maior vilã da obra de sua vida se abriu caminho entre a multidão em meio de muito saias de cetim rosa para situar-se frente a ele. Era curioso, mas não lhe surpreendia nem o mais mínimo que ela tivesse assistido à festa para deixá-lo ao descoberto.

— Samson — saudou-o Claudette com um sorriso, embora seus olhos revelassem a fúria que sentia.

Não sabia muito bem o que dizer depois de todos esses anos, em especial diante da elite da Revisse. Não obstante, Olivia o salvou de responder, já que, em uma amostra de amparo ou de possesividade, situou-se diante dele com os braços em jarras para enfrentar-se à condessa.

— O que faz aqui, tia Claudette? — perguntou com voz grave e surpreendida.

Antes que a mulher pudesse responder, um cavalheiro de certa idade ao que Sam não conhecia se esclareceu garganta detrás de um grupo de damas e avançou com porte régio e expressão tensa. Tratou de sorrir com amabilidade, mas seu olhar refletia a raiva que o consumia.

Sam compreendeu imediatamente que aquele homem devia ser o avô e tutor do Brigitte. Era óbvio que o ancião se sentia confundido e indignado, e que não tinha nem a menor idéia do que ocorria no baile de compromisso de sua neta.

— Monsieur — interveio com tom afável, — teriam Olivia e você a bondade de me acompanhar?

Por sorte, Olivia respondeu em seu lugar.

— É obvio grand-père Marcotte.

O homem apenas lhe dirigiu o olhar antes de lhes dar as costas, dando por feito que o seguiriam sem pigarrear.

Seguiram seus rápidos passos através da multidão, que se afastou imediatamente para lhes permitir o caminho. Claudette lhes pisava nos talões, e Sam podia perceber seu escrutínio e o intenso ódio que emanava dela como um rio gelado.

A música começou a soar de novo e os bailarinos retornaram pouco a pouco à pista enquanto os quatro se aproximavam das portas do salão de baile. Os murmúrios e as olhares de esguelha não tinham cessado, mas se aplacaram um pouco quando os convidados retornaram a suas conversas e a suas bebidas para integrar-se uma vez mais na atmosfera da festa.

Percorreram em silêncio o corredor que conduzia à parte dianteira da mansão e depois giraram para o que devia ser o salão. Sam ouviu a voz do Edmund no interior antes de entrar.

O momento da verdade tinha chegado e, embora lhe doesse a cabeça devido à tensão e parecia uma confusão depois da confissão de amor da Olivia, sentia-se bastante acalmado.

Marcotte entrou na estadia em primeiro lugar, seguido da Olivia, ele mesmo e por último, Claudette.

— Fora — ordenou-lhe sem mais o ancião a uma das criadas, quem depois de uma rápida reverência saiu da estadia e fechou as portas.

Edmund estava no extremo mais afastado, próximo da chaminé apagada, falando com uma mulher loira que devia ser Brigitte, a herdeira do Govance a que seu irmão tinha ido cortejar e a extorquir. Entretanto, no momento em que escutou o tom brusco do Marcotte, levantou a cabeça e olhou a Sam pela primeira vez em dez anos.

Fez-se um lúgubre silêncio na habitação. Ninguém disse uma palavra durante um comprido e angustiante momento. Depois, Marcotte se colocou em metade da estadia, afastou-se a jaqueta a um lado e apoiou as mãos nos quadris.

— Faria alguém o favor de me dizer que demônios ocorre aqui?

Sua voz sacudiu as vigas. De maneira instintiva, Sam deu a mão a Olivia, embora não afastou o olhar de seu irmão nem por um instante.

Edmund se tinha ficado pálido e boquiaberto, e movia os olhos de um a outro enquanto o suor cobria a testa e as têmporas.

Desconcertada, Brigitte afogou uma exclamação e contemplou de maneira alternativa o rosto de seu prometido e o de Sam.

Como era de esperar, Claudette foi primeira em recuperar-se. Recolheu-se a saia e começou a dirigir-se muito devagar para o centro da estadia, onde o ancião ainda aguardava uma explicação.

— Monsieur Marcotte — ronronou com altivez, — é evidente que houve um terrível mal-entendido...

— Mal entendido? — bramou o ancião.

A dureza de sua voz a deteve meia pernada e os aros do vestido se balançaram adiante e atrás devido ao repentino da parada.

— Quem demônios é você? — perguntou a Sam.

— O gêmeo do Edmund — assinalou Claudette, que se comportava como se fora o centro de atenção, como se suas explicações fossem as mais importantes.

Marcotte compôs uma careta furiosa.

— Acredito que todo mundo se deu conta disso, madame comtesse. Resulta bastante evidente.

Claudette pareceu doída; seus olhos se abriram de par em par e suas bochechas se ruborizaram visivelmente a pesar da maquiagem.

Marcotte deixou escapar um longo suspiro e olhou a Sam desconfiado.

— Assim, pois, monsieur, o perguntarei de novo: quem é você?

— Sou Samson Carlisle — respondeu Sam imediatamente, — duque de Durham. Vim a França para me enfrentar a meu irmão menor, Edmund, a quem não vi há mais de dez anos.

Decidiu que isso bastaria no momento.

Fez-se o silêncio uma vez mais, embora a música do salão de baile conseguisse penetrar na estadia.

— Grand -père Marcotte — começou segundos mais tarde Olivia, — acredito que há algumas coisas que deve saber com respeito ao prometido de sua neta.

Sam se precaveu de que, pela primeira vez desde que fizesse sua aparição, Edmund afastava a vista dele para criava-la na Olivia. O tom de sua pele tinha entrado do branco fantasmagórico em questão de segundos.

Marcotte cruzou os braços à altura do peito.

— Sigo esperando — assinalou.

Olivia tomou uma profunda baforada de ar para dar-se forças. Logo, soltou-lhe a mão e deu um passo à frente com os braços aos flancos para situar-se diante dele.

— Conheci o Edmund o verão entrado, em Paris. Apresentou-nos minha tia Claudette.

Todos olharam à condessa Renier, cujo rosto se pôs da mesma cor que seu vestido.

— Eu... Isso não é de tudo certo...

— É obvio que o é. Deixa de mentir, tia Claudette — exigiu Olivia, que já tinha recuperado a compostura por completo.

Claudette afogou uma exclamação e a olhou de cima abaixo.

— Eu não minto.

Olivia soltou um bufo.

— Não tem feito mais que mentir desde o começo.

Marcotte se esfregou a cara com a palma da mão enquanto refletia sobre a complexidade das relações que enlaçavam aos presente e, a bom seguro, também sobre o terrível desenlace da cena.

Brigitte também tinha começado a compreendê-lo, já que se tinha soltado do braço do Edmund e tinha dado um passo atrás para afastar-se dele.

— É... É Edmund seu marido? — perguntou Brigitte com voz tímida e rouca.

Seus olhos pareciam dois lagos cheios de incredulidade.

Claudette fez um dramático gesto com um braço antes de colocar as mãos nos quadris.

— É obvio que não. Isso é uma ridicularia...

— Em realidade, seu marido sou eu — replicou Sam com um suspiro de chateio.

A mentira saiu de seus lábios com tanta naturalidade como o ar que respirava.

Ninguém fez nem disse nada durante um instante. Depois, Edmund ergueu os ombros e atirou das lapelas de sua jaqueta em uma tentativa por redimir seu mais que questionável honra.

— Olivia não está casada com ele, Ives — Francois — disse, concentrando por fim sua atenção no Marcotte. — Ela mente, e ele também. E conhecendo meu irmão como o conheço, estou seguro de que veio até o Grasse com o único fim de arruinar meus planos de matrimônio com sua neta esgrimindo meias verdades e tolices com as que não pretende a não ser confundir a todo mundo. — Cravou a vista em Sam, e seus olhos estavam carregados de uma intensa hostilidade que não conseguia dissimular. — Forma parte de sua natureza.

Sam o observou do lugar que ocupava e sentiu que sua fúria aumentava com cada pulsado de seu coração.

— por que não explica a sua futura esposa e a seu avô como conheceu minha esposa, irmão? — exigiu com um tom áspero e duro. — Esclareça-o.

— Sim, esclareça — repetiu Olivia, que inclinou a cabeça a um lado e pôs também os braços em jarras. — eu adoraria escutar sua versão dos fatos.

A tensão, tão densa como um molho rançoso, envolveu-os a todos e prendeu fogo ao ambiente.

— Edmund? — exigiu-lhe Marcotte.

Edmund contemplou a Sam com os olhos entrecerrados.

— Não faça isto, Samson — advertiu-lhe com os dentes apertados, presa de uma evidente fúria.

Era um momento crucial para todos eles.

— acabaram-se as mentiras, Edmund — replicou Sam com um tom indiferente e carregado de desprezo. — Todas.

Durante um par de segundos, o rosto do Edmund avermelhou tanto por causa da frustração e a ira que Sam acreditou que se equilibraria sobre ele.

— vou casar me com o Brigitte Marcotte — assegurou Edmund em um amargo sussurro. Tinha os punhos apertados aos flancos e seus lábios se converteram em uma magra linha. — Essa é a única verdade que terá que dizer.

Olivia endireitou as costas, indignada, e Sam lhe pôs as mãos sobre os ombros para serená-la.

— Grand -père Marcotte — começou ela com surpreendente calma, — seu futuro neto político me mentiu do momento em que nos conhecemos. Disse-me que me amava, cortejou-me e arrumou um falso matrimônio...

— Olivia! — gritou Edmund.

— e a noite de nossas supostas bodas — continuou sem intimidar-se — enquanto eu o esperava para consumar nosso matrimônio, ele me