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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RUBICON / Steven Saylor
RUBICON / Steven Saylor

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 

 

 

                                         MINERVA

 

Pompeu vai ficar muito irritado disse Davo.

 

Genro, tu tens uma propensão para afirmar o óbvio. Suspirei, ajoelhei-me e preparei-me para o choque de uma visão de perto. O corpo sem vida estava deitado de bruços no meio do meu jardim, mesmo em frente à estátua de bronze de Minerva, como um adorador prostrado aos pés da deusa.

 

Davo deu uma volta sobre si próprio, protegendo os olhos do sol da manhã e espreitando para os quatro cantos do telhado do peristilo.

 

O que eu não consigo perceber é como é que o assassino entrou e saiu sem que nenhum de nós se apercebesse disso. Franziu a testa, num gesto que o fazia parecer um miúdo perplexo e grande demais para a idade. Constituição de estátua grega e inteligência correspondente; era a piada de Betesda. A minha mulher não apreciara a ideia de a nossa única filha se casar com um escravo, especialmente um escravo que tivera a ousadia, ou a estupidez, de a engravidar. Mas, se Davo tinha uma propensão para o óbvio, Diana tinha uma propensão para Davo. E não era possível negar que, em conjunto, tinham produzido um lindo filho, que neste preciso momento gritava com a mãe e com a avó, que não o deixavam sair para o jardim, chorando como só uma criança de dois anos sabe chorar. Mas Aulo não podia vir brincar cá para fora nesta tarde suave e luminosa de januarius, porque havia um cadáver no jardim.

 

E não era um cadáver qualquer. O morto era Numério Pompeu e pertencia à família de Pompeu era um dos primos do Grande, embora fosse um par de gerações mais jovem que ele. Tinha chegado a minha casa, sozinho, meia hora antes. Agora, estava morto a meus pés.

 

Não consigo perceber. Davo coçava a cabeça. Antes de deixar Numério à porta, olhei com atenção para um lado e para o outro da rua, como sempre faço. Não vi ninguém que viesse a segui-lo. Quando era escravo, Davo pertencera a Pompeu e fora guarda-costas uma atribuição óbvia, dada a corpulência da sua constituição. Fora treinado, não apenas para lutar, mas para estar atento ao perigo. Na qualidade de meu genro, Davo era o protector da família e, nestes tempos de perigos, competia-lhe ir receber os visitantes à porta. Um assassínio dentro de casa, praticamente debaixo do seu nariz, era para ele um fracasso pessoal. Se estivesse ao serviço de Pompeu, semelhante lapso ter-lhe-ia custado, no mínimo, um interrogatório severo. Em face do meu silêncio, Davo parecia decidido a fazer o interrogatório a si próprio. Andava de um lado para o outro, enumerando as perguntas com os dedos.

 

Por que o deixei entrar? Bem, porque o conhecia de vista, dos tempos em que estava com Pompeu. Não era um estranho; era Numério, o primo mais novo preferido do meu antigo senhor, que tinha sempre uma palavra simpática para toda a gente. E vinha sozinho. Nem sequer tive de me preocupar com guarda-costas, por isso não vi necessidade de o fazer esperar na rua. Deixei-o entrar para o átrio. Perguntei-lhe se vinha armado? E ilegal andar armado dentro das muralhas da cidade, claro, mas ultimamente ninguém liga a isso, pelo que, sim, perguntei-lhe, e ele não levantou qualquer dificuldade e entregou-me imediatamente o punhal. Revistei-o para ver se tinha outras armas, como tu me disseste que fizesse, mesmo com cidadãos? Sim, revistei, e ele nem sequer protestou. Deixei-o sozinho, mesmo que apenas por momentos? Não. Fiquei com ele no átrio, e mandei Mopso dizer-te que tinhas uma visita, depois esperei que mandasses dizer que podias recebê-lo. Acompanhei-o pela casa, até aqui ao jardim. Diana e Aulo estavam aqui fora contigo, a brincar naquela ponta de sol aos pés de Minerva... precisamente onde Numério está agora deitado... mas tu mandaste-os para dentro. Fiquei contigo? Não, porque também me mandaste para dentro. Mas eu não devia ter ido.

 

Numério disse que tinha uma mensagem que só devia ser ouvida por mim disse eu. Se um homem já não pode ter uma conversa privada em segurança na sua própria casa... Olhei à volta do jardim, para os arbustos cuidadosamente aparados e as colunas coloridas que delineavam a passagem circundante. Ergui os olhos para a estátua de bronze de Minerva; passados tantos anos, o rosto que espreitava do seu imponente elmo de guerra continuava a parecer-me imperscrutável. O jardim ficava no centro de minha casa, era o seu coração o coração do meu mundo

 

e se eu não estava seguro aqui, não estava seguro em parte nenhuma. Não te castigues, Davo. Fizeste o que te competia. Sabias que Numério era quem afirmava ser, e ficaste com a arma que ele trazia.

 

Mas Pompeu nunca teria ficado sozinho e desguardado, nem sequer...

 

Teremos chegado a um ponto em que um cidadão comum tem de imitar Pompeu e César, tendo um guarda-costas ao seu lado em todos os momentos de todas as horas, mesmo quando está a limpar o rabo?

 

Davo franziu o sobrolho. Eu sabia em que estava ele a pensar. Que não era vulgar eu usar aquele género de expressões grosseiras, que devia estar profundamente abalado e a evitar que se notasse, que o sogro começava a não ter idade para lidar com choques como a descoberta de um cadáver no jardim antes da refeição do meio-dia.

 

Mas o perigo não era Numério, pois não? Foi quem o seguiu até aqui. O sujeito devia ser metade lagarto, para conseguir trepar pelas paredes sem fazer barulho nenhum! Tu não ouviste nada, sogro?

 

Já te disse que Numério e eu conversámos um pouco, e depois deixei-o sozinho por momentos para ir ao meu escritório.

 

Mas o teu escritório é mesmo ali. Ainda assim, presumo que a estátua de Minerva poderia ter-te bloqueado a visão. E a tua audição...

 

Oiço tão bem como qualquer homem de sessenta e um anos! Davo acenou com a cabeça, respeitosamente.

 

Como quer que tenha acontecido, ainda bem que tu não estavas cá fora quando o assassino chegou, senão...

 

Senão também podia ter sido estrangulado? Toquei na corda que ainda rodeava o pescoço de Numério, cortando a carne lívida. Tinha sido morto com um garrote simples, uma volta curta de corda, com as extremidades presas a um curto e sólido pau de rodar.

 

Davo ajoelhou-se ao meu lado.

 

O assassino deve ter-se aproximado por trás dele, lançou-lhe o garrote por cima da cabeça e enrolou-lho à volta do pescoço com a ajuda do pau, apertando-o até o estrangular. Que maneira horrível de morrer.

 

Eu desviei o olhar, sentindo-me enjoado.

 

Mas silenciosa prosseguiu Davo. Numério nem sequer pôde gritar! Talvez tenha conseguido dar um ronco ou um gemido, ao princípio, mas depois, quando ficou sem respirar, a única maneira de fazer algum ruído era bater contra qualquer coisa. Estás a ver aqui, sogro, como Numério escavou o cascalho com os tornozelos? Mas não teria feito grande ruído com isso. Se ao menos tivesse dado um murro à Minerva de bronze... mas tinha as duas mãos apertadas à volta do pescoço. O instinto leva um homem a fazer isso, a tentar arrancar a corda do pescoço. Pergunto a mim próprio... Davo ergueu novamente os olhos para o telhado. O assassino não precisava de ser muito grande. Não é necessário ter muita força para garrotear um homem, mesmo que ele seja grande, desde que a pessoa o apanhe desprevenido.

 

Falas por experiência, genro?

 

Oh, aprendi muitas coisas desse género durante o treino que fiz para guarda-costas de Pompeu. Davo sorriu-me de esguelha, depois viu a minha expressão. O sorriso desvaneceu-se-lhe. Não estás a pensar que eu...

 

Claro que não. Mas pergunto a mim próprio: Poderá semelhante ideia ocorrer a Pompeu? Tens alguma razão para ter rancor a Pompeu? Alguma coisa que eu não saiba? Quando eras escravo dele, foste maltratado?

 

Não, sogro. Alguma vez me queixei dele? Era um excelente senhor. Davo conseguiu fazer outro sorriso de esguelha. De resto, não foi Pompeu que me emprestou a tua casa para servir de guarda durante os tumultos clodianos, e não foi assim que conheci Diana e que... Corou.

 

Pompeu emprestou-te a minha casa para servires de guarda, tornaste-te amante da minha filha em segredo, fiaram os dois um bebé e depois competiu-me decidir se processava Pompeu por perdas e danos, fazendo com que tu fosses açoitado até à morte, ou te adquiria a Pompeu, te libertava e fazia de ti meu genro. Era eu que devia ter rancor a Pompeu! Pensei tudo isto, mas não o disse.

 

Queria apenas dizer gaguejou Davo que só tenho bons sentimentos para com Pompeu, como ele deve saber, se é que alguma vez pensa em mim.

 

E Numério? Dizes que era o primo mais novo preferido de Pompeu. Ele abusava dos escravos quando estava em casa do Grande? Numério alguma vez te maltratou, fez troça de ti, insultou-te de alguma maneira? Alguns homens poderiam aproveitar-se de um escravo com a inteligência de uma estátua grega e a correspondente constituição.

 

Nunca! Já te disse que Numério falava bem com toda a gente. Eu gostava dele.

 

Então não há razão, nenhuma, para vires a aparecer como suspeito na mente de Pompeu quando ele souber que Numério foi assassinado debaixo do meu tecto?

 

Absolutamente nenhuma!

 

É que, genro, se eu achasse que Pompeu poderia suspeitar de ti, sentir-me-ia tentado a arrastar Numério para a rua, fingindo que ele nunca entrou nesta casa. Nos tempos que vivemos, um homem bem pode fazer todos os esforços para evitar aborrecimentos, em especial aborrecimentos com o Grande. Estudei a cara de Davo, que era incapaz de duplicidade. Acenei com a cabeça. Muito bem, nesse caso temos de comunicar a Pompeu. Calculo que terei de ser eu a fazê-lo, terei de sair das muralhas da cidade e ir até à villa de Pompeu, esperar que ele me conceda uma entrevista, dar-lhe a notícia, e depois deixar que ele resolva o assunto como entender. Ajuda-me aqui a virar o corpo para cima.

 

Dentro de casa, ouvi o meu neto gritar outra vez, exigindo que o deixassem sair para o jardim. Olhei em direcção à porta. Betesda e Diana espreitaram para fora, ansiosamente. Era uma espécie de milagre que, até agora, me tivessem obedecido, não saindo cá para fora. Betesda começou a falar, mas eu ergui a mão e abanei a cabeça. Fiquei um tanto surpreendido quando ela fez um aceno e se retirou, levando Diana consigo.

 

Obriguei-me a olhar para a cara estrangulada de Numério. Era uma visão que provocaria pesadelos a qualquer pessoa.

 

Ele era jovem, andava pelos vinte anos, talvez fosse um pouco mais velho do que Davo. As suas feições claras, suavemente belas, estavam agora descoloridas e distorcidas, quase irreconhecíveis num ricto de agonia. Engoli em seco. Ao erguer dois dedos para lhe fechar as pálpebras, vi o meu reflexo no fundo preto dos seus olhos fixos. Não era de espantar que a minha mulher e a minha filha me tivessem obedecido sem hesitar. A minha expressão era assustadora, até para mim.

 

Levantei-me, com os joelhos a estalar como o cascalho que pisava aos pés. Davo pôs-se de pé ao meu lado, flexível como um gato, apesar do seu tamanho.

 

Pompeu vai ficar muito irritado disse eu gravemente.

 

Eu já disse isso!

 

Pois disseste, Davo. Mas as más notícias merecem ser repetidas, como diz o poeta. O dia é uma criança, não vejo necessidade de me pôr a correr Roma fora, para levar a notícia a Pompeu. O que dizes de darmos uma vista de olhos, para vermos o que Numério trará consigo?

 

Mas eu já te disse que o revistei quando lhe fiquei com o punhal. Só tinha uma pequena bolsa com dinheiro à volta da cintura, e um grampo para a bainha do punhal. Mais nada.

 

Eu não estaria tão certo. Ajuda-me a despi-lo. Tem cuidado; vamos ter de pôr tudo outra vez como estava, antes de os homens de Pompeu virem buscar o corpo.

 

Por baixo da túnica de lã de bom corte, Numério trazia uma tanga de linho. Estava molhada de urina, mas ele não se tinha sujado. Não usava jóias, à excepção do anel de cidadão. Tirei-lhe o anel e examinei-o; parecia de ferro maciço, sem compartimentos secretos nem dispositivos ocultos. Tinha apenas um par de moedas na bolsa; considerando o estado caótico da cidade, não teria sido prudente um homem andar com mais do que isso sem um guarda-costas. Virei a bolsa do avesso; não tinha segredos.

 

Talvez tenhas razão, Davo. Talvez ele não trouxesse mesmo nada com interesse. A não ser... Tira-lhe os sapatos, por favor. Estou com dores nas costas, de estar inclinado.

 

Os sapatos eram feitos de couro preto finamente curtido, gravado com um desenho intrincado de triângulos interconectados, fechados e afivelados com correias que davam a volta ao tornozelo e à barriga da perna. As solas eram bastante espessas, feitas de diversas camadas de couro endurecido, presas à parte de cima por cravos de ferradura. Nada havia dentro delas. Estavam quentes e guardavam o odor dos pés de Numério; pegar nelas era um gesto de maior intimidade do que pegar nas roupas ou mesmo no anel. Estava a ponto de as devolver a Davo, quando reparei numa irregularidade na sola, na zona do calcanhar. A mesma irregularidade aparecia no mesmo ponto de ambos os sapatos. Havia dois golpes na zona intermédia da sola, distanciados um do outro aproximadamente o comprimento de um polegar. Perto de um dos golpes, via-se um pequeno orifício.

 

Tens o punhal que tiraste a Numério? Davo franziu a testa.

 

Tenho. Ah, estou a ver! Mas, se pretendes abrir-lhe um corte nos sapatos, posso ir à cozinha buscar uma faca melhor para isso.

 

Não, deixa-me ver o punhal de Numério.

 

Davo meteu a mão dentro da túnica. Eu entreguei-lhe os sapatos, e ele entregou-me o punhal, dentro da bainha. Eu fiz um aceno de cabeça.

 

Reparaste em alguma coisa nesta bainha, Davo?

 

Ele franziu o sobrolho, suspeitando de que eu estava a fazer-lhe uma espécie de teste.

 

É feita de couro.

 

Sim, mas de que género de couro?

 

Preto. Viu que eu não tinha ficado impressionado, e tentou outra vez. É decorada.

 

Como?

 

Tem um desenho... que se repete no copo de madeira do punhal.

 

Sim, um padrão de triângulos interligados. Davo olhou para os sapatos, que tinha nas mãos.

 

É o mesmo padrão dos sapatos!

 

Exactamente. E o que significa isso? Davo ficou desnorteado.

 

Significa disse eu que a oficina que fez os sapatos foi a mesma que fez o punhal. Que eles formam um conjunto. É um tanto invulgar, não te parece, que a mesma oficina produza objectos tão diferentes?

 

Davo fez um aceno de cabeça, seguindo o curso dos meus pensamentos.

 

Então... vais desembainhar o punhal e abrir os sapatos, ou não?

 

Não, Davo, vou desapertar os sapatos. Deixei o punhal dentro da bainha e observei o copo, que era feito de terebinto siríaco, uma madeira preta e dura, ligada ao metal por botões de marfim. O padrão de triângulos escondia engenhosamente o compartimento disfarçado no copo, que se abriu sem grande dificuldade, quando eu descobri o sítio onde devia carregar com o polegar. Dentro do compartimento, estava uma chave minúscula, que pouco mais era do que uma lasca de bronze com um ganchinho numa das extremidades. Genro, ergue os sapatos com os calcanhares voltados para mim.

 

Comecei por aquele que tinha à minha esquerda. A irregularidade do calcanhar, os dois golpes em que tinha reparado no centro da camada de couro, eram uma porta estreita, com uma dobradiça de um lado e um buraco de fechadura do outro. Inseri a chave minúscula no orifício minúsculo. Depois de protestar um pouco, a porta deu um ligeiro salto e abriu-se.

 

Extraordinário! murmurei. Uma obra de arte! Tão delicada, mas suficientemente robusta para se poder caminhar sobre ela. Tirei o sapato da mão de Davo, pu-lo ao sol e espreitei para o pequeno compartimento. Não vi nada. Virei o sapato ao contrário e bati com ele na palma da minha mão. Não saiu coisa nenhuma.

 

Vazio! disse eu.

 

Mas podíamos fazer-lhe um corte sugeriu Davo. Eu lancei-lhe um olhar fulminante.

 

Genro, eu não te disse que tínhamos de colocar as coisas de Numério exactamente como estavam, para que os homens de Pompeu não detectassem nenhum sinal da nossa curiosidade quando viessem buscá-lo?

 

Davo acenou com a cabeça.

 

Incluindo os sapatos! Dá-me o outro. Inseri a chave e manobrei até a porta se abrir.

 

Dentro deste, havia qualquer coisa. Retirei o que me pareceram ser diversos fragmentos de fino pergaminho.

 

O que diz aí, sogro?

 

Ainda não sei.

 

Está em latim?

 

Também ainda não sei.

 

Estou a ver letras gregas e letras latinas, todas misturadas.

 

É inteligente da tua parte conseguires perceber a diferença, Davo. Ultimamente, Davo andava a ter lições com Diana, que estava decidida a ensiná-lo a ler. Os seus progressos eram lentos.

 

Mas como é que isso pode ser, letras gregas e latinas juntas?

 

É uma espécie de código, Davo. Até eu perceber como funciona o código, não conseguirei ler o documento.

 

Tínhamos entrado para o meu escritório, e estávamos sentados em frente um do outro, na pequena mesa de tripé colocada ao pé da janela, debruçados sobre os finos pedaços de pergaminho que eu tinha extraído do sapato de Numério. Eram cinco fragmentos ao todo, cada um deles coberto com uma escrita minúscula, tão pequena que eu tinha de semicerrar os olhos para conseguir distinguir as letras. À primeira vista, o texto parecia destituído de sentido, uma sequência de letras dispostas de maneira fortuita umas ao lado das outras. Suspeitei do uso de uma cifra, a que se acrescentava a complicação da mistura de caracteres gregos e latinos.

 

Tentei explicar a Davo como funcionava uma cifra. Graças a Diana, ele dominava a ideia básica de que as letras podiam representar sons e de que sequências de letras representavam palavras, mas o seu domínio do alfabeto era vago. Quando lhe expliquei que as letras podiam ser transformadas, e depois recombinadas, o seu rosto registou uma crescente perplexidade.

 

Mas eu pensei que a ideia das letras era não mudarem, representarem sempre a mesma coisa.

 

Sim. Bem... Tentei pensar numa metáfora. Imagina que todas as letras se disfarçam. Pensa no teu nome. O D podia mascarar-se de M, o A de T, e por aí fora, e no final tinhas quatro letras que não pareciam palavra nenhuma. Mas, se descobrisses uma maneira de ver para além dos disfarces, serias capaz de retirar a máscara à palavra. Sorri, pensando que tinha sido uma explicação inteligente mas, por esta altura, a expressão de Davo era de total confusão, em transição para o pânico.

 

Se Meto aqui estivesse murmurei. O mais jovem dos meus dois filhos adoptivos revelara uma propensão para as letras. Os seus dons naturais tinham-lhe sido muito úteis nas fileiras de César, permitindo-lhe ascender à categoria de coadjutor literário do general. De acordo com a descrição do próprio Meto, fora ele o verdadeiro autor de grande parte de A Guerra das Gálias, o relato assinado por César que Roma inteira andara a ler no último ano. Não havia ninguém mais hábil do que Meto a decifrar códigos, anagramas e cifras.

 

Mas Meto não estava em Roma pelo menos por enquanto, embora a expectativa da iminente chegada de César continuasse a aumentar dia após dia, suscitando o júbilo em alguns quadrantes, e o terror noutros.

 

Há regras para a resolução de cifras murmurei eu em voz alta, tentando recordar-me dos truques simples que Meto me tinha ensinado. Uma cifra é apenas um quebra-cabeças, resolver um quebra-cabeças é um mero jogo, e...

 

E todos os jogos têm regras, que qualquer palerma pode conhecer.

 

Ergui os olhos e vi a minha filha à porta.

 

Diana! Disse-vos que se deixassem estar na parte da frente da casa. E se o pequeno Aulo...

 

A mãe está a vigiá-lo. Ela impede-o de sair para o jardim. Sabes como ela é supersticiosa com cadáveres. Diana fez estalar a língua. O pobre tipo está com um aspecto horrível!

 

Queria poupar-te à sua visão.

 

Papá, já vi outros cadáveres.

 

Mas não...

 

Não estrangulados daquela maneira, não. Embora já tivesse visto um garrote. É muito parecido com o que foi usado para assassinar Tito Trebónio há uns anos, o sujeito que tu provaste ter sido assassinado pela mulher. Guardaste o garrote como recordação, lembras-te? A mãe ameaçou usá-lo em Davo se ele alguma vez me desagradasse.

 

Estava a brincar, acho eu. Hoje em dia, essas armas são tão vulgares como os punhais disse eu.

 

Davo, como te estás a sair a ajudar o papá? Diana aproximou-se do marido, apoiou um braço magro sobre os seus ombros robustos e poisou-lhe os lábios na testa. Davo riu-se. Uma madeixa do cabelo comprido e preto de Diana caiu-lhe sobre a cara, fazendo-lhe cócegas no nariz.

 

Eu pigarreei.

 

Parece que o problema é uma cifra. Davo e eu estamos quase a resolvê-lo. Vai-te embora, Diana, volta para o pé da tua mãe.

 

Isis e Osíris, papá! Como é que vão conseguir ler uma caligrafia tão pequena? Ela franziu os olhos para o pergaminho.

 

Contrariamente à opinião prevalecente nesta família, eu não sou surdo nem cego disse eu. E não é conveniente as raparigas falarem impiedosamente em frente dos pais, mesmo que os deuses invocados sejam egípcios. A paixão por tudo quanto era egípcio constituía a mania mais recente de Diana. Ela chamava-lhe uma homenagem às origens de sua mãe. Eu chamava-lhe uma afectação.

 

Eu não sou uma rapariga, papá. Tenho vinte anos, sou casada e mãe.

 

Sim, eu sei. Olhei de esguelha para Davo, que estava completamente absorvido a soprar da frente do nariz madeixas do cabelo preto e brilhante da mulher.

 

Se o problema é resolver uma cifra, papá, deixa-me ajudar-te. Davo pode ir pôr-se de guarda ao jardim, para garantir que mais ninguém desce do telhado.

 

Davo iluminou-se ao ouvir esta sugestão. Eu acenei com a cabeça. Ele afastou-se imediatamente.

 

Tu também, Diana disse eu. Saiam os dois! Mas ela tomou o lugar de Davo na cadeira à minha frente. Eu suspirei. Temos de ser rápidos. O sujeito morto que está ali fora é um parente de Pompeu. Tanto quanto sei, Pompeu até já pode ter mandado alguém à procura dele.

 

De onde vieram estes fragmentos de pergaminho?

 

Estavam escondidos num compartimento secreto do sapato dele. Diana ergueu uma sobrancelha.

 

Este sujeito era um dos espiões de Pompeu?

 

Talvez disse eu, hesitante.

 

O que veio ele aqui fazer? Por que queria ver-te, papá? Eu encolhi os ombros.

 

Quase não falámos antes de eu o deixar sozinho por momentos.

 

E depois?

 

Davo chegou ao jardim, encontrou o corpo, e deu o alarme. Diana estendeu avidamente a mão para a folha de pergaminho.

 

Se procurarmos as vogais e as combinações mais comuns de consoantes...

 

E as palavras comuns e as terminações de casos.

 

Exacto.

 

E as palavras mais prováveis acrescentei eu.

 

Prováveis?

 

Palavras que têm probabilidade de ocorrer num documento que um espião de Pompeu traga consigo. Tais como... como "Pompeu", por exemplo. Ou outra palavra ainda mais provável, "Magnus" o Grande.

 

Diana acenou com a cabeça.

 

Ou... "Gordiano", talvez? Olhou para mim de esguelha.

 

Talvez disse eu.

 

Diana pegou em dois estiletes e duas tabuinhas de cera para escrevinhar umas notas. Cada um de nós estudou os seus fragmentos de pergaminho em silêncio. Lá fora, no jardim, Davo andava de um lado para o outro, ao sol, assobiando desafinadamente e observando o telhado. Desembainhou o punhal de Numério e limpou as unhas. Da parte da frente da casa, chegaram mais gritos de Aulo, e depois o som de Betesda trauteando uma canção de embalar.

 

Tenho a impressão...

 

Sim, Diana?

 

Tenho a impressão de que descobri "Magnus". A mesma sequência

 

de letras ocorre por três vezes neste fragmento. Olha, e também ocorre no teu fragmento.

 

Onde?

 

Aqui: WFCZQ.

 

Por Hércules, estas letras são minúsculas! Se tiveres

razão, ficamos com K para M, V para A... T para G...

 

Escrevinhámos nas nossas tabuinhas de cera. Diana observou o seu fragmento de pergaminho, poisou-o e esquadrinhou outros dois.

 

Papá, posso ver o teu?

 

Eu entreguei-lho. Os seus olhos percorreram a página, e pararam. Ela conteve a respiração.

 

O que foi, filha?

 

Olha, aqui! Apontou para um grupo de letras. Começavam por e terminavam em CSQ, ou, de acordo com a nossa cifra, começavam por G e terminavam em NUS, havendo cinco letras no meio.

 

"Gordianus" murmurou ela. O coração deu-me um salto no peito.

 

Talvez. Deixa os outros fragmentos. Vamos trabalhar neste. Concentrámo-nos na secção de texto imediatamente a seguir ao meu nome. Foi Diana quem detectou os diversos números elevados, espalhados pelo documento; mais do que quantidades, pareciam ser anos, respeitando o novo sistema de Varrão, que datava todas as coisas a partir da fundação de Roma. As letras que substituíam o D e o na cifra (já presumidas a partir de GORDIANUS) também representavam os numerais D (500) e (um). A decifração dos anos proporcionou-nos ainda as letras que representavam o C, o L, o X e o V.

 

Através da crescente lista de letras decifradas, detectámos rapidamente os nomes conhecidos presentes no texto: METO, CÉSAR... ECO

 

Nota: Mantivemos o nome do protagonista no original, para tornar clara a decifração do documento em questão. (N. da T.)

 

(o meu outro filho)... CÍCERO... e até BETESDA e DIANA, que me pareceu mais divertida do que assustada ao ver o seu nome no documento de um morto. A medida que íamos progredindo, o aspecto mais tortuoso do texto tornou-se óbvio: para além de a cifra misturar letras gregas e latinas, o texto também alternava frases nas duas línguas, com uma miscelânea de gramática truncada e irregular. Nos últimos anos, o meu grego tinha-se enferrujado. Felizmente, a egiptomania de Diana incluíra uma revisão da língua dos Ptolemeus.

 

Com os seus olhos mais perspicazes e o estilete mais rápido, Diana ultrapassou-me. Por fim, e apesar de ainda haver algumas falhas aqui e ali, conseguiu fazer uma tradução rápida de toda a passagem para latim, escrevendo-a num comprido fragmento de pergaminho em branco. Quando acabou, eu pedi-lhe que lesse em voz alta.

 

Tema: Gordiano, chamado o Descobridor. Lealdade ao Grande: Questionável.

 

Um relatório de lealdade! Abanei a cabeça. Estes fragmentos de pergaminho devem ser uma espécie de dossier secreto sobre diversos homens de Roma: as impressões de alguém sobre a posição que tomariam em caso de...

 

Na guerra iminente entre Pompeu e César? Com que naturalidade conseguia Diana pronunciar as palavras com que eu me engasgava; não tinha qualquer experiência da guerra civil, memórias de Roma cercada e conquistada, de listas de inimigos e propriedades confiscadas e cabeças espetadas em estacas no Fórum.

 

Diana continuou a ler:

 

"Plebeu. Origens familiares obscuras. Que se saiba, não fez serviço militar. Cerca de sessenta anos." Depois, há uma espécie de currículo, uma lista cronológica com os pontos principais da tua ilustre carreira.

 

Diz lá.

 

Poucas actividades conhecidas antes do ano 674 de Roma, altura em que, a pedido de Cícero, reuniu informações para o julgamento de Sexto Róscio, por parricídio. Conquistou a gratidão de Cícero (foi o seu primeiro caso importante) e a inimizade do ditador Sila. Numerosos episódios de emprego por Cícero e outros em anos subsequentes, frequentemente relacionados com julgamentos por assassínio. Viagens à Hispânia e à Sicília.

 

"Ano 681 de Roma: Virgens Vestais Fábia e Licínia acusadas de relações sexuais com Catilina e Crasso, respectivamente. Pensa-se que Gordiano deu uma ajuda à defesa, mas o seu papel permanece obscuro.

 

"Ano 682 de Roma: Empregue por Crasso (pouco tempo antes do seu ataque a Espártaco) para investigar o assassínio de um parente em Baias. Uma vez mais, o seu papel é obscuro. A partir daí, as suas relações com Crasso esfriaram.

 

"Ano 684 de Roma: Nascimento de Diana, a sua bela e inteligente filha..."

 

Isso não está aí escrito!

 

Pois não. É manifesto que quem fez esta pequena compilação não sabe tudo. Na verdade, a entrada seguinte diz:

 

"Ano 690 de Roma: Morte do seu patrono, o patrício Lúcio Cláudio. Herda quinta etrusca e sai de Roma.

 

"Ano 691 de Roma: Desempenha um papel confuso na conspiração de Catilina. Espiou Catilina a pedido de Cícero, ou vice-versa, ou ambos? A partir daí, relações com Cícero esfriaram. Trocou a quinta etrusca pela sua actual residência no Monte Palatino. Assumiu pretensa respeitabilidade."

 

Pretensa? Não leias essa parte à tua mãe! Continua.

 

"Ano 698 de Roma: Ajudou Clódio na atribuição a Marco Célio do assassínio de filósofo Díon." A sua voz teve uma quebra. "Acentua-se o afastamento de Cícero (o defensor de Célio)."

 

Quanto menos se disser sobre esse caso... resmunguei eu... melhor concluiu Diana, que partilhava comigo um segredo relativo à morte extemporânea de Díon. Ela pigarreou. "Ano 702 de Roma: Empregue pelo Grande para investigar o assassínio de Clódio na Via Ápia. Serviço satisfatório."

 

Satisfatório! Depois do que esta família sofreu para descobrir a verdade, por encargo de Pompeu?

 

Estou certa de que Pompeu havia de dizer que fomos bem recompensados. Diana lançou um olhar anelante para o jardim. Davo devolveu-lhe o sorriso e acenou-lhe com a mão.

 

E quanto menos se disser sobre isso, melhor resmunguei eu de novo. São essas as únicas entradas?

 

Há mais uma, datada do mês passado. "Dezembro, ano 704 de Roma: Não se conhecem actividades em favor de nenhum dos lados nas recentes..." Franziu o sobrolho e mostrou-me o texto. É uma palavra grega que não consegui traduzir.

 

Eu franzi os olhos.

 

É um termo náutico. Significa "manobras".

 

Manobras?

 

No sentido de dois navios tomarem posição para se envolverem numa batalha.

 

Oh, nesse caso fica: "Não se conhecem actividades em favor de nenhum dos lados nas recentes manobras entre Pompeu e César."

 

É tudo? A minha carreira, reduzida a uns quantos episódios arbitrários? Acho que não gosto muito de ser resumido desta maneira por um estranho.

 

Há mais um bocadinho, sobre a família.

 

Diz lá.

 

"Mulher: ex-escrava, adquirida em Alexandria, chamada Betesda. Sem qualquer importância política.

 

"Uma filha natural, Gordiana, tratada por Diana, cerca de vinte anos, casada com um escravo liberto, um tal Davo, anterior propriedade do Grande." Esta última parte está sublinhada no texto cifrado.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

É natural, se este documento é o que parece ser, um relatório confidencial destinado a Pompeu. Davo constitui a minha única ligação de carne e osso com Pompeu. É o género de coisa que ele devia gostar de ver posta em relevo. Continua.

 

"Dois filhos. Eco, adoptado quando era um miúdo de rua, cerca de quarenta anos, casado com uma filha da família Menénio. Sem carreira militar. Reside na antiga casa da família, no Monte Esquilino. Por vezes, ajuda o pai. Ligações políticas semelhantes às do pai: amplas, mas fluidas e incertas. Lealdade ao Grande: Questionável." Ergueu os olhos do texto. A parte que se segue também está sublinhada. "Particularmente interessante: segundo filho, Meto, também adoptado. Originalmente, escravo de Marco Crasso. Cerca de trinta anos. Carreira militar desde muito novo.

 

Consta que terá lutado ao lado de Catilina na batalha de Pistória. Serviu pompeu por breve período no ano 692 de Roma. Está com César desde 693. Numerosos episódios de coragem na Gália. Foi subindo nas fileiras à custa da sua bravura, até se juntar ao círculo dos íntimos. Notável pelas suas qualidades literárias: trata da correspondência, ajudou a melhorar o relato das campanhas da Gália. Firmemente do lado de César, há quem diga que também..." A voz morreu-lhe na garganta.

 

Sim? Continua.

 

"Há quem diga que também na cama de César."

 

O quê?

 

É o que diz aqui, papá. Mais ou menos; o original é um bocadinho mais grosseiro. Esta parte estava em grego, mas eu conheço bem as palavras.

 

Ultrajante!

 

É mesmo?

 

Meto adora César, evidentemente. É preciso adorar um homem para arriscar a vida por ele todos os dias. É a veneração do herói, um culto entre os militares. Pessoalmente, nunca a percebi. Mas não é o mesmo que...

 

Diana encolheu os ombros.

 

Meto nunca me disse nada explicitamente sobre ele e César, mas, apesar disso, só pela maneira como fala sobre a relação que eles têm, eu sempre presumi que...

 

Presumiste o quê?

 

Papá, não há motivo para falares tão alto.

 

Bem! Parece que não és a única que tem andado a fazer suposições estouvadas. E num relatório confidencial destinado a Pompeu, nada menos! Há trinta anos que os inimigos de César andam a espalhar este género de histórias, desde que ele protegeu o rei Nicomedes. No Fórum, ainda lhe chamam "Rainha da Bitínia". Mas como se atrevem a arrastar Meto para esses boatos? Não revires os olhos, Diana! Pareces pensar que estou a fazer uma tempestade num copo de água.

 

Acho que não é preciso gritares, papá.

 

Pois. Bem...

 

Ela poisou a mão sobre a minha.

 

Andamos todos preocupados com Meto, papá. Com o facto de ele estar tão próximo de César... e com o que vai acontecer a seguir. Só os deuses sabem qual será o resultado.

 

Eu acenei com a cabeça. Subitamente, o quarto pareceu-me ficar mergulhado num profundo silêncio. A luz do Sol proveniente do jardim começava a diminuir; os dias de anuarius são curtos. Senti palpitar as têmporas. Estávamos a trabalhar há várias horas. Só tínhamos feito um intervalo para espevitar o lume da braseira, por causa do frio crescente. A braseira estava acesa desde o princípio do dia. O compartimento estava cheio de fumo.

 

Deitei um olhar ao texto de Diana e vi que ainda lhe faltava ler uma parte.

 

Continua disse calmamente. Que mais?

 

"Poucos escravos domésticos. Entre eles: dois rapazes, irmãos, que adquiriu à viúva de Clódio pouco depois da morte deste, e que trabalhavam nos estábulos da villa da Via Ápia. Mopso (o mais velho) e Ândrocles (o mais novo). Costumam fazer recados a Gordiano. Os cântaros pequenos têm asas grandes." Diana franziu o sobrolho. Tenho a certeza de que é o que lá está escrito.

 

É uma citação de uma peça de Énio disse eu. Significa que os miúdos têm grandes orelhas, ou seja, que Mopso e Ândrocles poderiam ser úteis como informadores. Continua.

 

Há mais umas frases sobre Mopso e Ândrocles. "Dada a tendência de Gordiano para adoptar órfãos e escravos, acabará com mais dois filhos?" Ergueu uma sobrancelha e ficou à espera de um comentário.

 

Continua disse eu por fim. Que mais?

 

Um resumo: "Não tem qualquer poder político e a sua fortuna é escassa, mas é muito considerado por quem dispõe de ambos. Já foi descrito por Cícero como "o homem mais honesto de Roma", mas de onde provém esta fama de integridade? Pelo facto de nunca ter tomado seriamente partido em nenhuma controvérsia perigosa, consegue dar a impressão de estar acima das refregas, mantendo assim a liberdade de circular entre ambos os lados. Mesmo quando é empregue por um dos lados, mantém uma aparência de independência e neutralidade, de estar comprometido com a descoberta da "verdade" sem se incomodar com os propósitos políticos de quem o contratou. Combina as suas capacidades de investigador com as de diplomata. Esta poderá ser a sua principal valia numa crise: ser o intermediário em quem ambos os lados confiam.

 

"Por outro lado, há quem o veja como um tipo pragmático e astucioso, que explora a confiança de homens poderosos sem lhes entregar a sua lealdade. Que género de homem aluga a sua integridade, caso a caso?

 

"Na circunstância de ocorrer uma crise sem precedentes, quem será objecto da sua lealdade? Tem uma bela casa no Palatino e conseguiu não incorrer em dívidas (outro factor que contribui para a sua independência); é difícil perceber que interesse poderá ter para ele uma revolução ou uma guerra civil. Por outro lado, a sua família pouco convencional, de filhos adoptados e escravos libertos, aponta para um homem sem grande preocupação pelos valores romanos tradicionais. Especialmente preocupante é a sua relação com César por intermédio do seu filho Meto. Mais do que qualquer outro, este facto poderá atraí-lo para a órbita de César.

 

"Conclusão: Gordiano poderá ser útil ao Grande, mas terá de ser cuidadosamente vigiado."

 

Diana ergueu os olhos.

 

É tudo.

 

Eu franzi o nariz.

 

"Pragmático e astucioso"? Aquilo atingia-me tão profundamente como o mexerico acerca de Meto.

 

A mim parece-me elogioso, de uma maneira geral disse Diana. Apresenta-te como um sujeito bastante subtil.

 

Os sujeitos subtis perdem a cabeça em tempos como estes.

 

Nesse caso, Davo, pelo menos, não terá problemas. Olhou para mim muito séria, depois riu-se. Eu consegui sorrir. Sabia que ela estava apenas a tentar animar-me; mas a verdade é que ignorava por completo a enormidade do perigo que se agigantava sobre nós. De repente, senti uma grande ternura por ela. Fiz-lhe uma festa no cabelo.

 

Houve uma agitação na parte da frente da casa. Davo saiu do jardim. Momentos depois, tinha regressado. Avançou para o meu escritório.

 

Outra visita disse. Estava pálido.

 

A esta hora?

 

Sim, sogro. O Grande em pessoa.

 

Pompeu? Impossível!

 

No entanto, sogro, ele está à espera na entrada, com guarda-costas armados.

 

Nesse caso, está a violar a lei! Pompeu tem um exército permanente. Mesmo que as suas legiões estejam na Hispânia... pró-cônsules ao comando de exércitos não estão autorizados a entrar dentro das muralhas da cidade.

 

"Parem de citar as leis. Nós trazemos espadas na mão." disse Diana, que citava uma frase tornada famosa por Pompeu quando se encontrava na Sicília e alguns habitantes locais objectaram que ele estava a passar por cima dos tratados que tinham feito com Roma.

 

Eu inspirei profundamente.

 

Quantos homens vêm com ele, Davo?

 

Na entrada só estão dois. Os restantes guarda-costas ficaram à espera na rua.

 

Eu olhei para os fragmentos de pergaminho que estavam sobre a mesa de tripé.

 

Numério! Em nome do Hades, onde foram parar os sapatos dele? Se Pompeu o vir descalço...

 

Acalma-te, sogro. Os sapatos voltaram para os pés dele. O que julgas que eu estive a fazer no jardim a tarde toda? Vesti Numério, pus-lhe o anel no dedo e a bolsa das moedas no cinto. O corpo está exactamente como o encontrámos.

 

E o punhal?

 

Pus a chavinha lá dentro e meti o punhal na bainha.

 

E o garrote à volta do pescoço?

 

Davo acenou com a cabeça, sombriamente.

 

- Ainda lá está.

 

Eu baixei os olhos para a mesa.

 

Nesse caso, está tudo no lugar... à excepção destes fragmentos de pergaminho. Tencionava voltar a pô-los onde os encontrámos antes que viesse alguém reclamar o corpo. Se Pompeu descobre que estão em falta...

 

Davo franziu o sobrolho.

 

Talvez possamos impedir Pompeu de ver Numério...

 

Esconder o corpo? Não me parece, Davo. Pompeu deve saber que Numério veio cá a casa; foi por isso que ele próprio cá veio. Se fizermos alguma tentativa desajeitada para esconder o corpo, e Pompeu descobrir, o que irá pensar?

 

Diana tocou-me no braço.

 

Se estás preocupado com a possibilidade de Pompeu nos apanhar com os documentos, papá, podemos queimá-los. A braseira está acesa. Não demoramos mais do que uns momentos.

 

Olhei fixamente para os pedaços de pergaminho.

 

Podíamos queimá-los, sim. Ou voltar a metê-los dentro do sapato de Numério, se tivéssemos tempo. Seja como for, nunca saberemos que outras informações contêm. Talvez mais coisas sobre os teus irmãos, ou sobre outras pessoas que nos são queridas...

 

Por que não os escondemos, para podermos decifrá-los mais tarde?

 

E se Pompeu decidir revistar a casa, e os encontrar? Gordiano, o "pragmático astucioso" de lealdade dúbia, apanhado na posse de documentos secretos, com um parente do Grande morto no seu jardim...

 

Diana cruzou os braços.

 

Pompeu não tem o direito de se intrometer em nossa casa. Não tem o direito de revistar a casa de um cidadão. O fogo que ardia nos seus olhos recordou-me a mãe dela.

 

Tens a certeza, filha? Há dez dias, o Senado aprovou o Decreto Ultimo. A última vez que isso aconteceu foi quando Cícero era cônsul, e acusou Catilina de conspirar para provocar uma insurreição. Eras muito novinha na altura, não deves lembrar-te...

 

Eu sei o que significa o Decreto Ultimo, papá. Li a informação no Fórum. Os cônsules e os pró-cônsules ficam autorizados a usar todos os meios que considerem necessários à salvaguarda do Estado.

 

Todos os meios que considerem necessários... e achas que Pompeu hesitaria em revistar esta casa? Em termos práticos, Roma está sob lei marcial. O próprio facto de Pompeu se atrever a entrar na cidade com homens armados significa que as leis comuns deixaram de existir. Tudo pode acontecer. Tudo!

 

A segurança de Diana vacilou. Ela apertou mais os braços.

 

Sabendo tudo isso, papá, o que queres fazer com estes documentos? Eu olhei para eles, hesitante, paralisado pela indecisão. Tinha conseguido assustar-me a mim próprio mais do que assustara Diana.

 

Ouvi vozes na parte da frente da casa e ergui os olhos, vendo Pompeu sair para o jardim, acompanhado por dois guarda-costas. As expressões de todos eles eram de sombria determinação. Eu tinha esperado tempo demais. A situação estava fora do meu controlo.

 

Pela janela, fiquei a vê-los voltar à direita, depois à esquerda, percorrendo a colunata que rodeia o perímetro do pátio, em direcção ao meu escritório. Pompeu olhou para a esquerda. Parou de forma tão abrupta, que um dos seus homens chocou com ele. Pela sua expressão, percebi o que ele tinha visto. Segui a direcção do seu olhar, mas a estátua de Minerva bloqueava-me a vista. A única coisa que conseguia ver do corpo de Numério era um dos pés, que tinha calçado o sapato de onde eu retirara os documentos.

 

Olhei para Pompeu. Num piscar de olhos, o seu rosto contorceu-se de agonia. Deu um grito e correu para o corpo. Os dois guardas desembainharam as espadas, alarmados.

 

Sem uma palavra da minha parte, Diana reuniu os documentos que estavam em cima da mesa, juntamente com os pergaminhos onde tinha escrito o texto decifrado, dirigiu-se à braseira e lançou-os às chamas. Nem Davo nem eu poderíamos tê-lo feito. Pompeu ou um dos seus guardas podiam ter-nos visto, e recordar-se do facto mais tarde. Mas ninguém repararia na filha da casa a atiçar a braseira.

 

Eu inspirei profundamente. Lá se iam os documentos; quaisquer outros segredos que pudessem conter ficariam agora por decifrar.

 

De trás da estátua, ouvi Pompeu emitir outro gemido de angústia. Os seus guardas percorreram rapidamente o jardim, metendo as espadas nos arbustos e olhando para o telhado, como Davo tinha feito. Um deles tentou arrastar Pompeu para longe do corpo, e novamente para a entrada. Pompeu afastou o homem. Momentos depois, chegaram ao pátio mais guardas, atraídos pelo grito de Pompeu.

 

Diana! Davo! Encostem-se à parede! disse eu. Davo, desembainha o punhal e atira-o ao chão. Depressa! Se eles te virem pegar nele, o mais provável é atirarem-se a ti.

 

Ainda antes de eu acabar de falar, já o punhal de Davo estava no chão e as suas mãos abertas contra a parede. No instante seguinte, três dos homens de Pompeu estavam no compartimento, de olhos muito abertos e espadas na mão.

 

No jardim, Pompeu rugiu o meu nome:

 

Gordiano!

 

Eu tossi e endireitei os ombros. Voltei-me para a braseira e fingi aquecer as mãos, enquanto olhava para as chamas para ter a certeza de que apenas restavam cinzas, depois virei-me para a porta.

 

Olhei de frente o guarda mais próximo. Vinha formalmente vestido, com a armadura de batalha, incluindo um capacete que lhe tapava a maior parte da cara.

 

Deixa-me passar disse-lhe. O Grande está a chamar-me. O homem olhou para mim por longos momentos, e depois rosnou.

 

Os três guardas afastaram-se uns dos outros, apenas o suficiente para me deixar passar. Um deles soprou-me deliberadamente para a cara, para ter a certeza de que eu captava o cheiro a alho do seu hálito. Os gladiadores e os guarda-costas comem cabeças inteiras de alho cru, convencidos de que lhes reforça as energias. Outro passou-me o gume cego da espada pelo braço. Este comportamento deu-me a entender que se tratava de escravos privados de Pompeu, e não de legionários; alguns escravos gostam de se tornar um pouco atrevidos quando as circunstâncias colocam um cidadão em desvantagem. Não me agradava a ideia de deixar Diana e Davo sozinhos no escritório com três criaturas como aquelas. Inspirei profundamente e dirigi-me ao centro do jardim. Pompeu ouviu o som do cascalho a ranger debaixo dos meus pés e ergueu os olhos. A sua cara cheia e roliça fora feita para o riso ou para lançar olhares sardónicos; a dor dava-lhe um contorno estranho às feições. Eu teria tido dificuldade em o reconhecer.

 

Ele largou o corpo, que tinha apertado contra si, olhou por momentos para o rosto do seu parente, e depois voltou a olhar para mim.

 

O que aconteceu, Gordiano? Quem fez isto?

 

Pensei que talvez pudesses responder a essa pergunta, Grande.

 

Não me respondas com enigmas, Descobridor! Pompeu largou o corpo e pôs-se de pé.

 

Como bem vês, Grande, ele foi estrangulado aqui no meu jardim.

 

Ainda tem o garrote à volta do pescoço. Eu estava a preparar-me para ir à tua villa, para te dar pessoalmente a notícia...

 

Quem fez isto?

 

Nenhum dos habitantes desta casa viu ou ouviu fosse o que fosse. Deixei Numério sozinho por momentos, para ir ao escritório. Foi nessa altura...

 

Pompeu cerrou as mãos e abanou a cabeça.

 

Quer dizer que ele é o primeiro. O primeiro a morrer! Quantos mais? Maldito César! Olhou para mim. Não tens nenhuma explicação para isto, Descobridor? Absolutamente nenhuma explicação? Como é que isto pode ter acontecido, aqui em tua casa, sem que ninguém se tenha apercebido? Queres que eu acredite que César tem o poder de enviar harpias do céu para matar os seus inimigos?

 

Eu olhei-o de frente. Engoli em seco.

 

Grande, trouxeste homens armados para dentro de minha casa.

 

O quê?

 

- Grande, tenho de te pedir, antes de mais nada, que chames os teus guarda-costas. Não há nenhum assassino escondido em minha casa...

 

Como podes garantir-me semelhante coisa, se não chegaste a ver o homem que fez isto?

 

Pelo menos, chama os teus homens que estão no meu escritório. Não têm qualquer razão para estar a vigiar a minha filha e o meu genro. Por favor, Grande. É certo que ocorreu um crime, mas, apesar disso, tenho de te pedir que respeites a sacralidade da casa de um cidadão.

 

Pompeu lançou-me um olhar tal que, durante um longo e terrível momento, eu esperei o pior. Havia pelo menos dez guarda-costas no jardim. Podia haver mais, noutros pontos da casa. Quanto tempo levariam a saquear a casa e a matar todos os que nela habitavam? Não destruiriam tudo nem matariam toda a gente, claro, só Davo e eu. As coisas de valor e os escravos seriam confiscados. Quanto a Betesda e a Diana... não consegui concluir o pensamento.

 

Olhei Pompeu nos olhos. Na sua juventude, ele fora extraordinariamente formoso um segundo Alexandre, diziam as pessoas, inteligente e belo como o primeiro, um comandante tocado pelos deuses. Com a idade, perdera a beleza, à medida que as suas feições suaves iam dando lugar à crescente corpulência do seu rosto. Havia quem dissesse que a inteligência também se ressentira. A sua falta de previsão e a sua indisponibilidade para o compromisso tinham produzido a crise actual, em que César desafiava o Senado e marchava sobre Roma, enquanto Pompeu respondia com indecisão e hesitações. Pompeu era um homem encostado à parede, e naquele momento estava em minha casa, furioso de dor, acompanhado por uma guarda numerosa de assassinos treinados.

 

Olhei firmemente para ele. Consegui não vacilar. Por fim, o momento passou. Pompeu respirou fundo. Eu também.

 

És um homem corajoso, Descobridor.

 

Tenho direitos, Grande. Sou um cidadão. Esta é a minha casa.

 

E este é o meu parente. Pompeu baixou o olhar, depois tornou-se rígido e olhou para o guarda que estava à entrada do meu escritório. Tu, aí! Chama os teus companheiros daí para fora. Saiam todos para o jardim.

 

Mas, Grande, está aqui um homem com um punhal aos pés.

 

E uma rapariga muito bonita nos braços acrescentou lá de dentro uma voz que abafava uma gargalhada.

 

Seus idiotas! Numério não foi morto com um punhal. Pelo menos isso é óbvio. Venham cá e deixem em paz a família do Descobridor. Pompeu suspirou, e nesse momento pareceu-me que o pior fora evitado.

 

Obrigado, Grande.

 

Ele fez uma careta, como se lhe desagradasse a sua própria contenção.

 

Podes mostrar a tua gratidão oferecendo-me de beber.

 

Claro. Diana, vai chamar Mopso. Diz-lhe que nos traga vinho. Ela olhou para Davo, depois para mim, e entrou em casa. Tu também, Davo disse eu. Vai para dentro.

 

Mas, sogro, não queres que eu explique...

 

Não disse eu, rangendo os dentes. Quero que vás com Diana. Vai tomar conta de Betesda e de Aulo.

 

Se ele sabe alguma coisa, é melhor que fique! lançou Pompeu. Olhou Davo de alto a baixo. Tenho a impressão de que te conheço. Oh, sim, já estou a recordar-me. És aquele que eu emprestei a Gordiano há uns anos, para lhe guardar a casa enquanto ele partia para a Via Ápia para me fazer um trabalho. Mas guardaste a filha dele bem demais, tanto quanto me lembro. Por mim, tinha-te feito largar a pele, e depois cortava-te a cabeça. Mas Gordiano quis-te para si, por isso eu deixei-te ir, e aqui estás tu. O que sabes sobre isto?

 

Fiquei a ver a cor esvair-se do rosto de Davo. Pompeu falava-lhe no tom com que se fala a um escravo, e Davo reagia com subserviência, correspondendo a um hábito antigo. Baixou os olhos.

 

Foi como o meu sogro te disse, Grande. Não se ouviu um grito. Ninguém ouviu passos, nem nada. O assassino chegou e partiu em silêncio. Só soube quando ouvi o meu sogro dar um berro e vim a correr.

 

Pompeu olhou para mim.

 

Como foi que o descobriste?

 

Como te disse, deixei-o sozinho no jardim enquanto fui ao escritório um momento...

 

Só um momento?

 

Encolhi os ombros e baixei os olhos para o morto.

 

O que estava ele a fazer aqui? Por que veio visitar-te? perguntou Pompeu.

 

Eu ergui uma sobrancelha.

 

Pensei que tu pudesses responder a essa pergunta, Grande. Não foste tu que mo enviaste?

 

Mandei-o à cidade, entregar umas quantas mensagens, sim. Mas nenhuma delas era para ti.

 

Então para que vieste a minha casa, se não foi à procura dele? Pompeu protestou.

 

Então esse vinho?

 

Os jovens escravos apareceram, Ândrocles com as taças e Mopso com um jarro de cobre. Lançando olhares furtivos de esguelha ao cadáver, atrapalharam-se a servir o vinho. Eu acompanhei Pompeu no primeiro copo, mas ele engoliu o segundo sozinho, consumindo-o sem prazer, como se fosse um medicamento. Limpou a boca, entregou o copo a Ândrocles e despediu os miúdos com um gesto brusco de mão. Eles voltaram a correr para dentro de casa.

 

Se queres saberdisse ele, venho do fundo da tua rua, de casa de Cícero. Ao princípio do dia, mandei Numério entregar uma mensagem a Cícero. Cícero declarou-me que, em seguida, Numério vinha a tua casa. Já não esperava encontrá-lo. Pensei apenas que talvez soubesses onde ele tinha ido depois. O que veio ele tratar contigo, Descobridor?

 

Eu abanei a cabeça.

 

Fosse o que fosse, está silenciado para sempre.

 

Em nome do Hades, como é que alguém entrou e saiu deste jardim? Achas que era possível um homem descer pelo telhado e retirar-se da mesma maneira? Não vejo como seria possível. O telhado está fora do alcance de um homem, e as colunas são lisas demais para se conseguir trepar por elas para o telhado. Nem um macaco africano seria capaz!

 

Mas dois homens podiam ter conseguido observou Davo. Um içava o outro, e depois o outro puxava-o.

 

Davo tem razão disse eu. Um homem sozinho também podia tê-lo feito, se trouxesse uma corda de tamanho suficiente.

 

O olhar carregado de Pompeu intensificou-se.

 

Mas quem? E como sabiam que ele estava aqui?

 

Tenho a certeza, Grande, de que, se fizeres uma investigação...

 

Não tenho tempo para isso. Parto de Roma esta noite.

 

Vais-te embora?

 

Parto para sul antes de amanhecer. O mesmo fará qualquer pessoa com o mínimo de bom senso ou um iota de lealdade ao Senado. Será possível que não tenhas ouvido as últimas informações? Nunca sais do teu escritório?

 

Ultimamente, o menos possível.

 

Ele lançou-me um olhar irritado, onde brilhava uma sugestão de inveja.

 

Mas sabes que, há seis dias, César atravessou o rio Rubicão, entrando em Itália com as suas tropas, e ocupando Arímino. Depois, tomou Pisauro e Ancona, e mandou Marco António tomar Arécio. Move-se como um turbilhão! Agora diz-se que António e César marcham ambos sobre Roma, pretendendo encerrar-nos como um torno. A cidade está sem defesas. A legião leal que se encontra mais perto está em Cápua. Se os boatos forem verdadeiros, César pode chegar dentro de poucos dias, ou mesmo horas.

 

Boatos, dizes tu. Talvez não passem disso mesmo. Pompeu olhou para mim, desconfiado.

 

O que sabes tu sobre o assunto, aqui metido neste buraco que é o teu jardim? Tens um filho com César, não tens? Aquele rapaz que era escravo de Crasso, e afirma ter lutado ao lado de Catilina. Dorme na mesma tenda que César, segundo me disseram, e ajuda-o a escrever aquelas memórias pomposas, de autopromoção. Que contactos mantém ele contigo, Gordiano?

 

O meu filho Meto é um homem independente, Grande.

 

É um homem de César! E tu, de quem és, Descobridor?

 

A conquista da Gália demorou muitos anos e custou a vida a muitos romanos, Grande. Muitos cidadãos têm parentes que serviram nas legiões de César. Isso não faz de nós partidários de César. Olha, Cícero, o irmão dele, Quinto, é um dos oficiais de César, e o protegido, Marco Célio, fugiu para se juntar a César. Apesar disso, nunca ninguém disse que Cícero era cesariano.

 

Evitei salientar que o próprio Pompeu fora casado com a filha de César, e que só depois da morte de Júlia as diferenças entre ambos se tinham tornado irreconciliáveis.

 

Grande, não te servi com lealdade quando me contrataste para investigar o assassínio de Clódio?

 

Porque eu te paguei, e porque, nessa circunstância, não estavas obrigado a escolher entre César e eu. Isso não é lealdade! A lealdade tem a ver com soldados e escravos, com lutas, sangue e batalhas. Esses são os únicos laços que verdadeiramente ligam os homens entre si. "O homem mais honesto de Roma", chamou-te Cícero. Não é de espantar que ninguém confie em ti!

 

Pompeu desviou-se de mim com desagrado e ajoelhou-se ao lado do seu parente. Observou o corpo com mais cuidado do que aquando do choque inicial.

 

Tem a bolsa do dinheiro, com as moedas lá dentro. O assassino não era um ladrão. E tem o punhal, ainda metido na bainha. Nem sequer teve tempo de o tirar. Deve ter sido como tu disseste. O assassino aproximou-se silenciosamente, e apanhou-o por trás. Ele não chegou a ver a cara do homem que o matou!

 

Na verdade, Numério não tinha o punhal consigo quando morreu; Davo tinha-lho tirado, e voltara a pôr-lho na bainha depois de termos revistado o corpo. Eu não podia explicar nada disto a Pompeu. Ele tinha razão em não confiar em mim.

 

Pompeu tocou na cara do morto com a ponta dos dedos. Rangeu os dentes, lutando contra o desgosto.

 

Deve ter sido seguido até aqui quando saiu de casa de Cícero. Talvez o tenham seguido a partir do momento em que saiu da minha villa, esta manhã, à espera de uma oportunidade para o atacarem. Mas quem? Um partidário de César? Ou um dos meus? Se houver um traidor em minha casa...

 

Ergueu o rosto irado para a estátua de Minerva, que se avultava sobre nós. A deusa da sabedoria estava retratada com a sua armadura de guerra, preparada para a batalha, com a espada numa mão, um escudo na outra e um elmo com um penacho na cabeça. Tinha uma coruja empoleirada no ombro e uma cobra enrolada aos pés. Fora deitada ao chão e quebrada em dois durante os tumultos clodianos. Eu tinha gasto uma pequena fortuna a mandar reparar e pintar novamente o bronze. As cores eram tão vivas, que a deusa virgem quase parecia respirar. Olhava de frente para nós, mas o seu olhar permanecia distante, ignorando a tragédia que tinha lugar a seus pés.

 

Tu! Pompeu pôs-se em pé e sacudiu o punho fechado. Como pudeste permitir que semelhante coisa acontecesse, mesmo diante dos teus olhos? César reclama Vénus como sua antepassada, mas tu devias estar do meu lado!

 

Houve um sussurro entre os guarda-costas, incomodados com a impiedade do seu senhor.

 

E tu! Pompeu voltou-se para mim. Ficas encarregado de descobrir o homem que fez isto. Traz-me o seu nome. Eu tratarei de que se faça justiça.

 

Eu abanei a cabeça, desviando os olhos do rosto bravio de Pompeu.

 

Não, Grande. Não posso.

 

Não podes? Já fizeste trabalhos semelhantes.

 

Tenho feito muito poucos, desde a última vez que trabalhei para ti, Grande. Já não tenho estômago para esta actividade. Prometi a mim próprio retirar-me da vida pública se conseguisse chegar aos sessenta anos. E cheguei há um ano.

 

Parece-me que não estás a compreender, Descobridor. Eu não estou a pedir-te que descubras o assassino de Numério. Não estou a contratar-te. Estou a mandar-te!

 

Com que autoridade?

 

Com a autoridade com que fui investido pelo Decreto Último do Senado!

 

Mas a lei...

 

Não me cites a lei, Descobridor! Q Decreto Último confere-me o poder de fazer tudo o que for necessário para preservar o Estado. O assassínio do meu parente, que era meu representante, é um crime contra o Estado. A descoberta do homem que o matou é necessária à protecção do Estado. O Decreto Último confere-me o poder de convocar o teu auxílio, mesmo contra a tua vontade!

 

Grande, garanto-te que, se tivesse a força necessária, e se a minha perspicácia fosse o que foi...

 

Se precisas de quem te guie, como se fosses um Tirésias cego, pede ao teu outro filho. Ele está em Roma, não está?

 

Não posso arrastar Eco para isto disse eu. Ele tem uma família a seu cargo.

 

Como entenderes. Nesse caso, trabalha sozinho.

 

Mas, Grande...

 

Não digas mais nada, Descobridor. Olhou friamente para mim, depois voltou-se para Davo. Tu aí! Ainda tens um ar saudável.

 

Nunca estive doente, Grande respondeu Davo, circunspecto.

 

E não és um cobarde.

 

Certamente que não!

 

Óptimo. Porque um dos poderes que me foram conferidos pelo Decreto Último foi de reunir tropas. Tu, Davo, serás o meu primeiro recruta. Vai buscar as tuas coisas. Partes esta noite de Roma comigo.

 

Davo ficou de boca aberta. Diana, que tinha estado a assistir à cena da porta, correu para o seu lado.

 

Isto não está certo, Grande disse eu, tão calmamente quanto pude. Davo é agora um cidadão. Não podes coagi-lo a...

 

É um cidadão, mas é um liberto, e um liberto tem obrigações para com o seu antigo senhor. Comprometi-me a reunir um certo número de tropas entre os meus dependentes. Davo será um deles.

 

Mas ele já não pertence à tua casa. Deste-mo, em pagamento pelos meus serviços. Fui eu que o libertei.

 

Ah, mas ele continua a ter obrigações para com o seu primeiro senhor.

 

Obrigações legais, não.

 

Obrigações legais, sim! Se não estás convencido, sugiro que examines o contrato que assinaste quando eu to entreguei, nomeadamente a cláusula referente à anterior servidão e às futuras obrigações em caso de emergência marcial. É uma cláusula padronizada, que coloco em todos os contratos quando vendo ou liberto um escravo; de outra maneira, os meus antigos escravos poderiam vir a ser usados em combate contra mim, em vez de estarem do meu lado. Estamos em situação de emergência marcial, e Davo vai ter de submeter-se ao serviço militar, quando, onde e como eu entender, E não te atrevas a citar-me a lei!

 

Papá, ele tem razão? Diana apertou o braço do marido.

 

Eu olhei para o círculo de homens armados que nos rodeavam. Se Pompeu tinha razão ou não, parecia pouco importante.

 

Grande, a cidade poderá ficar em breve mergulhada no caos. Eu preciso do meu genro, para proteger a minha família.

 

Não me parece que ele se tenha desempenhado assim muito bem dessa tarefa! A voz de Pompeu quebrou ao olhar para Numério. Engoliu em seco. Mas não vou privar-te de protecção às tuas mulheres e aos teus escravos, enquanto andas à procura do assassino do meu parente. Deixo-te um guarda-costas para o lugar de Davo. Tu aí! Chamou um dos guardas que tinham entrado no meu escritório, aquele que me soprara na cara para que eu sentisse o cheiro a alho. Ainda era maior do que Davo, e seria feio, mesmo que não tivesse o nariz partido e uma cicatriz horrenda na cara. Chamas-te Cicatrix, não é verdade?

 

Sim, Grande.

 

Vais ficar aqui, de guarda a esta casa por ordem minha.

 

Sim, Grande. Cicatrix lançou-me um olhar carrancudo.

 

Gneu Pompeu, por favor, não faças isto murmurei eu.

 

Sim, Gordiano. Insisto em que assim seja.

 

Eu olhei para as caras atordoadas de Davo e Diana. Senti-me como se tivesse uma grande pedra em cima do peito.

 

Grande, o teu parente está morto. O facto de semelhante coisa ter acontecido em minha casa enche-me de vergonha. Mas, como tu próprio disseste, ele é apenas o primeiro. Poderão morrer milhares. O que significa um assassínio, quando todas as leis foram suspensas?

 

Estás a fazer perguntas, Descobridor. E eu quero respostas. Descobre quem assassinou Numério, e veremos então se o teu genro pode voltar para ti.

 

Quando os últimos raios de sol se retiravam do jardim, o mesmo fizeram os homens de Pompeu, levando consigo Davo e o corpo de Numério. Pompeu deixou comigo o dispositivo que tinha sido usado para o estrangular, porque podia ser-me útil na descoberta do assassino. Eu quase não conseguia tocar-lhe.

 

Diana chorava. Betesda saiu para o jardim e lançou-me um olhar acusador. Mopso e Ândrocles vieram atrás dela, com o meu neto entre eles, todos de mãos dadas. Ao ver o horrendo gigante que Pompeu tinha deixado no lugar de Davo, o pequeno Aulo desatou a chorar, soltou as mãos e correu freneticamente para dentro de casa.

 

A casa de Cícero ficava a breve distância da minha, ao longo da rua que contornava o Monte Palatino. Embora se tratasse de um percurso muito curto, normalmente teria levado Davo comigo, para me proteger, especialmente depois de escurecer. Nesta noite, tive imensas saudades dele.

 

Sentia à minha volta o desconforto da cidade, como um homem adormecido mergulhado num pesadelo. Do vale subia até mim o barulho apressado dos muitos passos que atravessavam o Fórum. Havia tochas, que a esta distância mais pareciam minúsculos pirilampos, andando de um lado para o outro nas praças descobertas. O que estaria tanta gente a fazer na rua depois de escurecer? Estavam a acender luzes votivas nos templos, pensei, a pedir pela paz... preparavam-se para abandonar apressadamente a cidade... batiam às portas trancadas dos seus banqueiros... compravam as últimas sobras de alimentos e combustível que restavam nas prateleiras do mercado. Contornei uma esquina, e o Monte Capitolino tornou-se visível diante de mim. No cume do monte, tinham acendido enormes fogueiras nas braseiras colocadas diante do Templo de Júpiter fogueiras de alerta, para avisar as pessoas de que se aproximava um exército invasor.

 

Havia dois guardas estacionados à porta da casa de Cícero. Não se mostraram minimamente impressionados com a chegada de um visitante de cabelo grisalho, que nem sequer vinha acompanhado de um guarda-costas.

 

As minhas relações com Cícero eram, nas melhores ocasiões, tensas. Pedi para ser recebido pelo secretário particular dele, com quem sempre mantivera um relacionamento mais próximo.

 

O mais jovem dos dois guardas coçou a cabeça.

 

Tiro? Nunca ouvi falar dele. Não, espera, não foi aquele que morreu quando o senhor regressava da Cilicia?

 

O outro guarda, um sujeito com uma barba eriçada, viu que eu tinha ficado alarmado e riu-se.

 

Não ligues a este jovem idiota. Está por cá há poucos meses, nem sequer conheceu Tiro, que não morreu, mas está muito doente para poder viajar.

 

Não compreendo. Tiro está em casa ou não?

 

Não está.

 

Onde está ele?

 

O guarda mais velho mostrou-se pensativo.

 

Como é que se chama aquele sítio? É na Grécia, perto do mar...

 

Mas há alguma cidade da Grécia que não fique perto do mar? disse eu.

 

Esta começa por P...

 

Pireu?

 

Não...

 

Patras?

 

É isso! Eu estive com o Senhor na Cilicia quando ele foi governador, compreendes, e Tiro também, evidentemente. No Verão passado, voltámos todos para Roma. Escolhemos um percurso lento e suave. Por volta de Novembro, Tiro adoeceu e teve de ficar para trás, com um dos amigos do Senhor, que vive em Patras. O Senhor continuou e regressámos a Roma este mês, mesmo a tempo de celebrar o aniversário dele.

 

O aniversário de Cícero?

 

Três dias antes da Nonas de Januarius. Cinquenta e sete, a mesma idade que Pompeu, segundo dizem.

 

E Tiro?

 

Ele e o Senhor escrevem um ao outro, mas ele está na mesma. Parece que não piora, mas também não melhora. Continua a não estar suficientemente bem para poder viajar.

 

Estou a ver. Não fazia ideia. Não é uma boa notícia.

 

Para Tiro? Isso não sei. Calculo que, por esta altura, esteja num bom sítio. Eu diria que em Patras há muita paz e tranquilidade. Um sítio óptimo para convalescer. Não gostaria de estar em Roma por estes dias se não tivesse umas pernas fortes e não corresse bem.

 

Percebo o que queres dizer.

 

E queres falar com mais alguém?

 

Se quero falar com mais alguém? Não. Apesar disso, vai dizer ao teu senhor que Gordiano, o Descobridor, pede para ser recebido por ele.

 

Cícero parecia ter-se esquecido por completo das frequentes recriminações que tínhamos feito um ao outro em tempos idos. Só esperei uns momentos na entrada antes de ele vir receber-me. Deixei-me abraçar com uma certa rigidez, espantado com semelhante cordialidade. Perguntei a mim próprio se teria estado a beber, mas não tinha o hálito a cheirar a vinho. Quando ele recuou, observei-o com atenção.

 

Eu tinha-me preparado para encontrar Cícero com uma das suas disposições menos agradáveis o moralista auto-suficiente, o amigo enfatuado dos poderosos, saldando velhas contas de forma impertinente, o árbitro pedante da virtude. Mas o que vi foi um homem com duplo queixo, falta de cabelo e olhos lacrimosos, que parecia ter acabado de receber a pior notícia da sua vida.

 

Com um gesto, indicou-me que o seguisse. O estado de espírito desta casa estava de acordo com o estado de espírito da cidade um pânico mal contido por uma actividade orientada, os escravos a correrem de um lado para o outro, falando em sussurros. Cícero começou por me conduzir ao seu escritório, mas o compartimento parecia uma colmeia, com os escravos a arrumarem rolos de pergaminho dentro de caixas.

 

Aqui não pode ser disse ele, em tom de desculpa. Anda, há uma salinha ao pé do jardim onde poderemos falar calmamente.

 

A salinha era uma câmara requintadamente decorada, com um sumptuoso tapete grego. Uma braseira colocada em cima de um tripé no meio da sala iluminava paredes pintadas com paisagens campestres. Pastores dormitando no meio de ovelhas, e sátiros espreitando de trás de pequenos templos de beira da estrada.

 

Nunca tinha entrado nesta sala disse eu.

 

Não? Foi uma das primeiras salas que Terência decorou quando reconstruímos a casa, depois de Clódio e o seu bando a terem incendiado e me terem obrigado a exilar-me. Sorriu, pesaroso. Agora, Clódio é pó, e eu continuo por cá... e tu também, Gordiano. Mas para quê? Para ver as coisas chegarem a isto...

 

Cícero começou a andar nervosamente em círculos à volta da braseira, criando sombras profundas nas paredes. Subitamente, parou e lançou-me um olhar zombeteiro.

 

É possível que tenham realmente passado trinta anos desde que nos conhecemos, Gordiano?

 

Na verdade, passaram trinta e um.

 

O julgamento de Sexto Róscio. Abanou a cabeça. Éramos tão novos! E corajosos, como os jovens costumam ser, porque são pouco sensatos. Eu, Marco Túlio Cícero, confrontei-me com o ditador Sila em tribunal... e levei a melhor sobre ele! Quando olho para trás, pergunto a mim próprio como é possível que tenha sido tão louco. Mas não foi loucura. Foi coragem. Vi um erro terrível e uma maneira de o remediar. Conhecia o perigo mas, apesar de tudo, avancei, porque era jovem e achava que podia mudar o mundo. Agora... agora pergunto-me se conseguirei voltar a ser corajoso. Receio estar velho, Gordiano. Assisti a demasiadas coisas... sofri demasiado...

 

Tal como eu as recordava, as motivações de Cícero não tinham sido tão puras como ele estava a pintá-las, mas antes coloridas por ambições astuciosas. Teria sido corajoso? Certamente que tinha corrido riscos e fora recompensado com fama, honra e dinheiro. É certo que a Fortuna nem sempre lhe tinha sorrido; sofrera derrotas e humilhações, especialmente nos últimos anos. Mas fizera, com que outros sofressem muito mais. Alguns homens tinham sido mortos sem julgamento durante o seu consulado, em nome da preservação do Estado.

 

Poderia um homem ascender politicamente como Cícero ascendera, mantendo as mãos limpas? Talvez não. O que mais me irritava era a sua insistência em se apresentar como o campeão imaculado da virtude e da razão. Não era uma pose; era a imagem que ele tinha de si próprio. A sua persistente autojustificação exasperara-me e enfurecera-me muitas vezes. Mas agora, na escuridão que se abatera sobre Roma, com as possibilidades de escolha reduzidas a dois chefes militares, Cícero começava a não me parecer um sujeito assim tão mau.

 

Ele abanou a cabeça.

 

Acreditas nisto? Que está a acontecer outra vez? Que vamos ter de passar, uma vez mais, pela mesma loucura? As nossas vidas começaram com a guerra civil, e vão terminar com ela. Passou uma geração e as pessoas esqueceram. Mas será possível que não se recordem mesmo de como foi, da guerra entre Sila e os seus inimigos? Roma sitiada e conquistada! E os horrores que se seguiram, quando Sila foi ditador! Tu lembras-te, Gordiano. Estavas cá. Viste as cabeças espetadas em estacas sangrentas no Fórum, de boca aberta homens decentes, respeitáveis, perseguidos e assassinados por caçadores contratados, as suas propriedades confiscadas, leiloadas e entregues aos favoritos de Sila, as suas famílias empobrecidas e caídas em desgraça. Sila livrou-se dos seus inimigos. Limpou o Estado, como ele dizia, fez umas quantas reformas, depois afastou-se e depôs o poder novamente nas mãos do Senado. A partir desse dia, até hoje, eu passei cada hora de cada dia a fazer tudo o que podia para evitar que semelhante catástrofe se repetisse. E, contudo, voltámos ao mesmo. A República está prestes a ruir à nossa volta. Teria sido inevitável? Não haveria maneira de impedir que isto acontecesse?

 

Eu tinha a boca seca. Estava ansioso por que ele me oferecesse um pouco de vinho.

 

Ainda é possível que Pompeu e César resolvam as suas divergências.

 

Não! Ele abanou a cabeça, fazendo gestos violentos. César poderá enviar mensagens de paz e fingir que está disposto a negociar, mas será apenas a fingir, para depois poder dizer: "Fiz o possível por manter a paz." No momento em que atravessou o Rubicão, desvaneceram-se quaisquer esperanças de um acordo de paz. Do outro lado do rio, ele era um promagistrado legalmente mandatado, no comando de legiões romanas. Quando atravessou a ponte para Itália, à frente de homens armados, transformou-se num salteador à cabeça de um exército invasor. Neste momento, não há maneira de lhe responder, a não ser por meio de outro exército.

 

Algumas pessoas disse eu, falando lenta e cautelosamente poderão dizer que as esperanças de paz se desvaneceram alguns dias antes de César atravessar o Rubicão, no dia em que o Senado aprovou o Decreto Último, expulsando da cidade Marco António, o amigo de César. Foi o mesmo que declarar César inimigo do Estado. Tu fizeste o mesmo com Catilina, quando eras cônsul. Conhecemos o fim de Catilina. Poderás censurar César por ter reunido as suas tropas, para tomar a iniciativa do jogo? Cícero olhou para mim sombriamente. O velho antagonismo que nos opunha começava a vir à superfície.

 

Falaste como um verdadeiro cesariano, Gordiano. Foi esse o lado que escolheste?

 

Eu avancei para a braseira, para aquecer as mãos. Chegara o momento de falar de outra coisa.

 

Lamento a doença de Tiro. Disseram-me que ele ainda estava na Grécia. Tens sabido notícias dele? Está melhor?

 

Cícero pareceu desconcertado com a mudança de assunto.

 

Tiro? Mas que...? Mas, claro, tu e Tiro continuaram amigos, mesmo quando o mesmo não aconteceu entre nós. Sim, penso que está um pouco melhor.

 

Que doença tem ele?

 

Uma febre recorrente, problemas de digestão, fraqueza. Não pode sair da cama, e muito menos viajar.

 

Lamento muito. Deves sentir imenso a falta dele, nestas circunstâncias.

 

Não há homem no mundo em quem confie como confio em Tiro. Seguiu-se um silêncio, finalmente quebrado por Cícero. Foi isso que vieste cá fazer, Gordiano? Perguntar por Tiro?

 

Não.

 

Então o que foi? Certamente não terá sido por estares preocupado com o teu velho amigo e patrono, Cícero, que saíste de casa numa noite como esta, sem sequer trazeres aquele corpulento rapaz que é teu genro para te proteger.

 

Sim, sem sequer trazer o meu genro disse eu devagar, recordando a expressão do rosto de Diana, e a de Davo, a olhar por cima do ombro, quando os homens de Pompeu o arrastaram para fora de minha casa. Soube que Pompeu veio visitar-te hoje. E que, antes dele, veio também um parente seu, Numério.

 

Cícero franziu o sobrolho.

 

Aqueles malditos guardas que estão à porta! Estão sempre a abrir as goelas.

 

Não foram os guardas que me disseram. Foi o próprio Pompeu.

 

Depois de te deixar, passou por minha casa. Numério tinha feito a mesma coisa, mais cedo. Numério veio a tua casa e depois foi à minha.

 

E então?

 

Numério não saiu vivo de minha casa. Foi assassinado no meu jardim.

 

Cícero mostrou-se horrorizado. A sua reacção pareceu-me quase excessiva. Eu recordei a mim próprio que ele era um orador, habituado a representar para a última fila de público, e que era natural que reagisse exageradamente pela força do hábito.

 

Mas isso é terrível! Estás a dizer-me que ele foi assassinado. Mas como?

 

Foi estrangulado.

 

Por quem?

 

Era isso que Pompeu gostaria de saber.

 

Cícero inclinou a cabeça para trás e ergueu as sobrancelhas.

 

Estou a ver. O velho cão de caça anda outra vez atrás de uma pista.

 

O primeiro sítio onde a pista conduz é esta casa.

 

Se pensas que há alguma relação entre a visita de Numério a minha casa e... o que lhe aconteceu depois, isso é um disparate.

 

Ainda assim, tu foste uma das últimas pessoas com quem ele falou. Uma das últimas... para além de mim... a vê-lo com vida. Conhecia-lo bem?

 

Numério? Razoavelmente.

 

Pelo teu tom de voz, presumo que não gostasses especialmente dele. Cícero encolheu os ombros. Uma vez mais, pareceu-me um gesto excessivo. Em que estaria Cícero a pensar realmente?

 

Era uma pessoa agradável. Um jovem encantador, diria muita gente. A menina dos olhos de Pompeu.

 

Por que veio visitar-te esta manhã?

 

Veio trazer-me notícias de Pompeu. "O Grande vai sair de Roma, parte para sul. O Grande afirma que qualquer amigo leal da República fará o mesmo, e sem demora." Foi a mensagem que ele me trouxe.

 

Parece quase uma ameaça disse eu. Um ultimato. Cícero lançou-me um olhar fatigado, mas nada disse.

 

E depois foi-se embora?

 

Não foi logo. Nós... conversámos um bocado, sobre o estado da cidade, e assim. Pompeu não apelou a todos os seus aliados para que partissem imediatamente. Os cônsules e alguns magistrados ficam por cá, formando uma espécie de esqueleto de governo, o suficiente para impedir que a cidade se afunde por completo no caos. Apesar disso, o tesouro será encerrado, os banqueiros vão fugir, vai ficar tudo paralisado... Abanou a cabeça. Conversámos um bocado... e depois Numério foi-se embora.

 

Estava alguém com ele?

 

Veio sozinho e partiu sozinho.

 

É estranho que andasse pela cidade a fazer recados a Pompeu, sem trazer sequer um guarda-costas.

 

Tu acabas de fazer o mesmo, Gordiano, e depois de escurecer. Calculo que Numério quisesse mover-se com o máximo de rapidez e liberdade. Devia estar encarregado de visitar diversos senadores, por toda a cidade.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Quer dizer que não trocaram nenhuma palavra mais áspera? Cícero olhou para mim.

 

É possível que eu tenha levantado a voz. Malditos guardas! Disseram-te que me tinham ouvido gritar?

 

Não. Gritaste assim tanto com Numério? Sobre que foi a altercação?

 

Ele engoliu em seco. O nó da garganta subiu e desceu.

 

Como é que achas que eu me senti, quando Numério me disse que devia partir da cidade antes do amanhecer? Estive ausente de Roma ano e meio, a governar uma província miserável, e agora que regressei, ainda nem respirei fundo e vêm dizer-me que faça as malas e fuja como se fosse um refugiado. Achas estranh o que tenha erguido a voz, gritado um pouco?

 

Estás a erguer a voz neste momento, Cícero.

 

Ele levou uma mão ao peito e inspirou profundamente, por várias vezes. Eu nunca o tinha visto tão perturbado; estava a enervar-me. Fossem quais fossem os seus defeitos, Pompeu e Cícero representavam modelos da autoconfiança e autodisciplina romanas, o gigante militar e o génio político. Ambos tinham conhecido derrotas, mas tinham acabado sempre por triunfar, no longo prazo. Agora, qualquer coisa tinha mudado e ambos pareciam aperceber-se disso. Nascidos no mesmo ano, eram uns anos mais novos do que eu, mas eu sentia-me como uma criança que vê os pais entrarem em pânico: se eles tinha perdido o controlo, então o caos havia de reinar.

 

Ele prosseguiu, num tom mais baixo:

 

Ao fugir, Pompeu está a cometer um erro. Se César puder entrar na cidade sem oposição, apodera-se do tesouro, e dissipa as riquezas dos nossos antepassados em subornos aos bandos de rua. Há-de convocar aquilo que restar do Senado devedores, descontentes, agitadores, afirmando que se trata do governo legítimo. Nessa altura, os salteadores serão Pompeu e aqueles que fugiram.

 

Disseste-o a Pompeu?

 

Disse. Sabes o que ele me replicou? "Se Sila pôde fazê-lo, por que não eu?" Volta sempre a Sila!

 

Não compreendo.

 

Sila abandonou a cidade aos seus inimigos e depois recuperou-a, e Pompeu era um dos seus generais. Trinta anos depois, Pompeu está convencido de que poderá fazer o mesmo, se houver necessidade. Consegues imaginar a cidade sitiada? Doenças, fome, incêndios propagando-se sem controlo, e depois, o horror da conquista...

 

Olhou fixamente para as chamas da braseira e tentou de novo acalmar-se.

 

Desde há muito tempo que Pompeu tomou a decisão de imitar Sila. Quando César for derrotado, Pompeu fará o que Sila fez. Tornar-se-á ditador, a fim de purgar o Senado. Fará uma lista dos seus inimigos. Confiscações, cabeças espetadas em estacas no Fórum...

 

Mas não a tua cabeça, com certeza, Cícero. Eu tentei aliviar a tensão do ambiente, mas o olhar que ele me lançou em resposta foi sinistro.

 

Por que não? Se ainda estiver em Roma amanhã, Pompeu considerar-me-á seu inimigo.

 

Nesse caso, vai atrás dele.

 

Tornando-me inimigo de César? E se César vencer? Nunca poderei regressar. Já estive exilado de Roma. Nunca mais! Deu a volta à braseira até ficar de frente para mim. Tinha os olhos brilhantes, do reflexo da luz. As chamas e as sombras vacilantes transformavam a sua cara numa máscara lúgubre. Todos temos de escolher um lado, Gordiano. Acabaram as discussões e os adiamentos. Este lado, ou aquele lado. Mas para quê? Ganhe quem ganhar, o resultado será sempre uma tirania. Que alternativa: ser decapitado se escolher o vencido, ser escravo se escolher o vencedor!

 

Olhei para ele por cima das chamas.

 

Até parece que ainda não decidiste quem escolherás, se Pompeu se César.

 

Ele baixou os olhos.

 

Na próxima hora... Estou sempre a dizer a mim próprio, antes que passe outra hora, lançarei os dados e deixarei a Fortuna escolher por mim.

 

Olhou fixamente para o chão, com as mãos bem apertadas diante de si, a testa rígida, os cantos da boca voltados para baixo. Ergueu os olhos ao ouvir um ruído à porta. Uma escrava entrou furtivamente na sala e murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido.

 

A minha mulher está a chamar-me, Gordiano. Pobre Terència. Será melhor deixá-la aqui, a cuidar da casa, ou levá-la comigo? E a minha filha? Enquanto estive ausente na Cilicia, Túlia casou-se com aquele inútil do Dolabela! O jovem idiota tem ambos os pés firmemente assentes no campo de César. Fará todos os possíveis por arrastá-la consigo. E ela está à espera de um bebé! A que mundo será o meu neto trazido. E o meu filho! Marco faz dezasseis anos este ano. Quando chegar a altura de ele vestir a toga da masculinidade, estaremos em Roma para organizar a cerimónia? Por Hércules, estaremos sequer em Itália?

 

Com essa nota abrupta, Cícero saiu da sala, e a escrava saiu apressada atrás dele.

 

Eu fiquei sozinho.

 

Inspirei profundamente. Fiquei a aquecer-me ao fogo. Estudei as imagens nas paredes. O rosto de um pastor, em particular, fascinou-me; recordou-me o meu antigo guarda-costas, Belbo. Ergui os olhos para o tecto, onde a luz emitida pelas chamas e as sombras tremeluziam à volta do ponto escuro causado pelo fumo. Voltei os olhos para baixo e percorri com o dedo do pé o traçado geométrico da carpete.

 

Sozinho e esquecido em casa de outro homem, rodeado pelo silêncio senti-me dominado por uma curiosa paralisia, incapaz de me ir embora. Era o único momento de paz que tinha tido em todo o dia. Sentia relutância em desistir dele. Ser abandonado e esquecido pelo mundo, ser deixado sozinho, verdadeiramente sozinho, sem receios nem obrigações. Por breves momentos, naquele compartimento silencioso, deixei-me levar pela fantasia de como seria, e saboreei-a, mergulhei nela como um homem mergulha em águas escuras, profundas e apaziguadoras.

 

Ponderei o dilema de Cícero. Pompeu e César não estavam apenas a dilacerar o Estado; estavam a dilacerar as famílias. Não era fácil dividir Roma em duas facções. Roma era uma meada inapelavelmente emaranhada de laços familiares sobrepostos e interligados a laços políticos, de casamento, de honra e de dívidas. Como poderia rede tão complexa de obrigações mútuas ser cortada ao meio sem ficar completamente destruída? Nessa noite, quantos lares de Roma espelhariam o lar de Cícero, com os seus ocupantes a correr de um lado para o outro numa agonia de indecisão? Sem olhos para ver o futuro, como poderia alguém estar seguro das suas opções?

 

Em última análise, as coisas resumiam-se ao seguinte: que um homem pudesse ter uma filha voluntariosa, que escolhesse o marido indo contra a opinião mais lúcida do pai, e que o sujeito, intrometendo-se de fora, tivesse uma ligação Dolabela com César, Davo com Pompeu passível de conduzir a família inteira à ruína. A Túlia de Cícero e a minha Diana: criadas por nós, tinham-se tornado independentes, mostrando a vaidade que era um homem pensar em controlar o seu próprio destino.

 

Por fim, obriguei-me a sair do pacífico compartimento. Ao atravessar a casa, passei por diversos escravos apressados, mas nenhum deles reparou em mim. No vestíbulo, o escravo que estava de serviço ergueu a trave e abriu a porta para me deixar passar.

 

Havia mais actividade na rua do que no momento da minha chegada a esta casa. Carretas e liteiras, mensageiros e transportadores de tochas, corriam de um lado para o outro. No Monte Palatino habitavam muitos dos homens mais ricos e mais poderosos de Roma, aqueles que mais tinham a perder, ou a ganhar, caso houvesse uma guerra civil. A decisão de Pompeu de abandonar a cidade tinha posto o bairro em alvoroço, como um pau espetado num formigueiro.

 

Diante da casa de Cícero continuavam postados os mesmos dois guardas. Tinham-se deslocado para um lado, onde o tronco de um grande teixo os albergava do rebuliço da rua. Pensei em pedir a um deles que me acompanhasse até casa uma delicadeza vulgar, que Cícero teria certamente aprovado, mas decidi não o fazer. Ainda que involuntariamente, já lhes tinha provocado suficientes sarilhos, suscitando a desconfiança do seu senhor.

 

Mas, se eles tinham a língua tão solta como Cícero parecia pensar, seria uma tolice não lhes fazer um par de perguntas.

 

Que noite tão movimentada comentei.

 

Lá dentro e cá fora respondeu o mais velho, acenando com a cabeça.

 

Lá dentro? Dentro de casa?

 

Tem sido uma loucura. O dia todo. Ainda bem que estou cá fora, apesar do frio.

 

- Ouvi dizer que houve uns gritos, há bocado.

 

Bem...

 

Foi o teu senhor que me contou. Isto soltou a língua ao homem.

 

Os gritos foram quase todos dele.

 

Foi quando esteve cá o tal Numério, o parente de Pompeu?

 

Foi.

 

Numério vinha visitar o teu senhor muitas vezes? O guarda encolheu os ombros.

 

Veio algumas vezes, desde que o Senhor regressou a Roma.

 

Quer dizer que tiveram um belo concurso de berros, foi? Para os teres ouvido aqui fora...

 

Ele inclinou ligeiramente a cabeça e baixou a voz:

 

É engraçado como o som do pátio, que fica no meio da casa, parece que passa por cima do telhado e vem poisar aqui à porta. Chamam-lhe acústica. Este ponto aqui ao pé do teixo é como a última fila do teatro de Pompeu. Pode não se ver o palco, por causa da distância, mas ouve-se tudo!

 

Mesmo tudo?

 

Bem, talvez não se oiça tudo, tudo. Mas quase.

 

Como por exemplo...?

 

O guarda mais velho franziu o sobrolho e recuou um pouco, apercebendo-se de que eu andava à pesca, mas o mais jovem parecia ansioso por falar.

 

Como por exemplo "traidor" disse ele. E "segredo"... e "mentiroso"... e "o dinheiro que deves a César"... ou "e se eu disser a Pompeu?"

 

Era Cícero que estava a falar, ou Numério?

 

Era difícil perceber, porque eles falavam um por cima do outro. Embora me parecesse que a voz do Senhor se sobrepunha, provavelmente porque é uma voz treinada.

 

Pobre Cícero, atraiçoado pela sua competência oratória.

 

Mas qual deles disse o quê? Quem disse a palavra "traidor"? Quem tem uma dívida para com...

 

O guarda mais velho avançou, dando uma cotovelada brusca ao companheiro, para o afastar. Já chega de perguntas.

 

Pronto, estava apenas com curiosidade... disse eu, sorrindo.

 

Se tens mais alguma coisa a perguntar, o melhor é ires perguntar ao Senhor. Queres que volte a anunciar-te?

 

Já ocupei suficientemente o tempo de Cícero.

 

Então pronto. Ele cruzou os braços. A sua barba eriçada roçou-me o queixo quando me fez recuar para a rua.

 

Só mais uma pergunta disse eu. Numério chegou sozinho a esta casa e partiu sozinho... disse-me o teu senhor. Mas ele veio mesmo sozinho? Não ficou ninguém a vaguear aqui pela rua enquanto ele falava com Cícero? E, quando se foi embora, reparaste em alguém que se tenha juntado a ele, ou que pudesse estar a segui-lo?

 

O guarda nada disse. O companheiro ajudou-o a obrigar-me a recuar para a rua, quase me fazendo derrubar uma carreta puxada por dois escravos descuidados. A carreta deu uma guinada para não chocar com um grupo de transportadores de liteira. A liteira balançou e quase cuspiu o passageiro, um mercador gordo e careca que parecia levar postas todas as jóias que possuía, verdadeiras e de pechisbeque, relutante em deixar para trás qualquer objecto de valor na sua fuga da cidade.

 

A cadeia de quase colisões distraiu momentaneamente os guardas. Eles recuaram, e depois voltaram a avançar em direcção a mim. Eu firmei os pés, olhando alternadamente para um e outro. Subitamente, a situação parecia cómica, uma espécie de pantomima no teatro. A ameaça que os guardas projectavam era apenas para impressionar. Comparados com o brutamontes que Pompeu estacionara em minha casa, não passavam de rapazinhos crescidos.

 

Inspirei profundamente e sorri, o que pareceu confundi-los. Ao voltar-me para me afastar, vi o guarda mais velho dar um safanão no cachaço ao mais novo.

 

Palrador! murmurou. O companheiro encolheu-se e recebeu a reprimenda em silêncio.

 

A estrada que contorna a crista do Monte Palatino é mais larga do que a maioria das estradas de Roma. Podem passar por ela duas liteiras a par, e ainda há espaço para um peão circular de cada lado, sem ir de encontro a um suado carregador de liteira. Semelhante congestionamento era invulgar; esta estrada, onde se alinham grandes casas, tem menos movimento do que a maioria das estradas de Roma, e está situada acima da turbulência do Fórum e do mercado. Porém, nessa noite, a estrada estava cheia de veículos e pessoas, e tão iluminada que parecia dia, pelo que aparentava ser um exército de carregadores de tochas. Iluminadas por essas tochas, vi uma sucessão de caras infelizes cidadãos confusos, fugindo da cidade, escravos cansados, transportando cargas, mensageiros decididos, empurrando os restantes.

 

Imaginei por várias vezes que estava a ser seguido. Sempre que me voltava para verificar, a confusão que se vivia na rua tornava impossível decidir se estava ou não. A minha vista e o meu ouvido já não eram tão bons como antes, pensei. Era uma loucura andar na rua sem protecção numa noite como esta.

 

Cheguei à porta de minha casa e olhei para trás pela última vez. Houve qualquer coisa que me chamou a atenção. O porte de um certo homem e o seu aspecto geral atraíram o meu olhar. Pareceu-me reconhecê-lo de imediato, como muitas vezes se reconhece uma pessoa familiar à distância, pelo canto do olho. O homem voltou-se para o outro lado antes que eu pudesse observar-lhe bem a cara e recuou a grande velocidade na direcção de onde eu tinha vindo, desaparecendo por entre a multidão.

 

Eu estava capaz de jurar por Minerva que o homem que tinha visto era o secretário de Cícero, Tiro, que supostamente estava na Grécia, demasiado doente para poder levantar-se da cama.

 

Durante essa noite, tive frio, sofri de insónias e senti-me inquieto. Teria tido menos frio se Betesda estivesse ao meu lado. Mas ela dormiu no quarto de Diana. Eu desconfiei que o facto de ter abandonado a nossa cama não visava menos castigar-me do que consolar a nossa filha; se Diana tinha de dormir sem o esposo, eu também teria. Levantei-me por diversas vezes, para verter águas e passear pela casa.

 

Do quarto de Diana, chegava até mim o ruído das vozes de ambas, conversando baixinho, por vezes chorando, noite fora.

 

Na manhã seguinte, antes de me ter vestido e de ter comido, mesmo antes de Betesda, que continuava fechada no quarto de Diana, me ter lançado o seu primeiro olhar depreciativo do dia, veio um escravo bater à porta de minha casa com uma mensagem. Mopso entrou a correr no meu quarto sem bater à porta e entregou-me a tabuinha de cera. Eu limpei o sono dos olhos e li:

 

"Se ainda estiveres em Roma e esta mensagem te encontrar, peço-te que venhas imediatamente a minha casa. O mensageiro dir-te-á onde é. Não nos conhecemos. Chamo-me Mécia, sou a mãe de Numério Pompeu. Por favor, vem logo que possas."

 

Enquanto o mensageiro esperava na rua, eu retirei-me para o jardim, ainda com as roupas com que tinha dormido. Pus-me a andar de um lado para o outro diante da estátua de Minerva, erguendo para ela uns olhares furtivos. Havia dias em que os seus olhos respondiam aos meus, mas tal não aconteceu nessa manhã. O que poderia a deusa virgem saber acerca do sofrimento de uma mãe?

 

Tinha o estômago vazio, mas não tinha apetite. Estremeci dentro da minha veste de lã, e pus os braços à volta do corpo. Depois de passar uma certa idade, o sangue de um homem torna-se cada ano mais diluído, até ficar semelhante a água tépida.

 

Finalmente, voltei ao meu quarto. Como prova de respeito pelo morto, e pela mãe de um homem morto, decidi vestir a minha melhor toga. O facto de a levar vestida serviria igualmente para demonstrar a quem me visse que pelo menos Gordiano continuava a tratar dos seus assuntos com a calma dos dias normais. Abri a arca e cheirei as lascas de madeira de cedro espalhadas no interior para afastar as traças; não há nada mais triste do que uma toga comida pelas traças. A veste estava exactamente como tinha regressado da última ida ao pisoeiro, branca como um cordeiro, muito bem dobrada e atada com um cordel.

 

Chamei Mopso e Ândrocles para me ajudarem a vestir. Normalmente, era Betesda quem me ajudava a vestir a toga; tinha-lhe ganho de tal maneira o jeito, que o processo se tornara muito fácil. Mopso e Ândrocles também já me tinham ajudado algumas vezes, mas ainda tinham uma ideia vaga do que era necessário fazer. Seguindo as minhas instruções, dispuseram-me o pedaço irregular e oblongo de tecido sobre os ombros, enrolaram-mo à volta do peito e tentaram compor as pregas. Parecia que havia quatro entidades naquele compartimento: eu próprio, os dois escravos e uma toga impertinente, que tinha a intenção de frustrar os nossos esforços. Logo que uma das pregas ficava presa, outra se soltava. Os miúdos estavam agitados e protestavam um com o outro. Eu revirei os olhos, admoestando-me a ser paciente e a não erguer a voz.

 

Por fim, fiquei pronto. Ao passar pelo corredor, encontrei Betesda, que vinha a sair do quarto de Diana. Olhou-me friamente de alto a baixo, como se eu não tivesse o direito de usar veste tão elegante quando a vida da minha filha fora arruinada. Tinha o cabelo solto e caído em madeixas, e não era provável que tivesse dormido muito mais do que eu; ainda assim, naquele momento, pareceu-me espantosamente bela. O tempo não fizera diminuir o brilho dos seus olhos escuros. Talvez ela tenha lido os meus pensamentos.

 

Parou para me dar um beijo fugaz, e sussurrou-me ao ouvido: Tem cuidado, marido!

 

Na entrada, encontrei Cicatrix. O corpulento monstro estava encostado à porta da frente, de braços cruzados, a coçar ociosamente a feia cicatriz que tinha na cara. Lançou-me um olhar impertinente, e afastou-se da porta para me deixar passar. Eu pigarreei.

 

Não deixes entrar ninguém enquanto eu estiver ausente disse-lhe. E não aceites ordens de ninguém à excepção da minha mulher e da minha filha. Compreendes?

 

Ele acenou com a cabeça, devagar.

 

Compreendo que tenho de vigiar esta casa por ordem do meu Senhor, o Grande. Lançou-me um sorriso perturbador.

 

Ao sair de casa para me juntar ao mensageiro que estava à minha espera, murmurei uma oração a Minerva, para que tomasse conta da minha família.

 

Onde vamos? perguntei ao escravo.

 

Além. O enorme sujeito apontou para o outro lado do Fórum, na direcção do Monte Esquilino. Suspeitei de que não era muito inteligente. É frequente os poderosos preferirem recorrer a escravos iletrados para o transporte de mensagens, e só com um escravo demasiadamente pateta para aprender a ler se pode ter a certeza de que isso não acontecerá.

 

Ao princípio da manhã, a rua que contornava a colina continuava tão movimentada como na noite anterior. Atravessámos para o outro lado, esgueirando-nos por entre liteiras e carretas, e dirigimo-nos à Rampa, que nos levaria até ao Fórum. A Rampa estava tão cheia de gente, que as pessoas tocavam nos ombros umas das outras, e não havia espaço para veículos. A descida foi lenta e entediante. Seguíamos encostados à face de rocha íngreme do Palatino, com a vista do Fórum, à nossa direita, bloqueada pela multidão. As pessoas empurravam-se, pisavam-se, guinchavam de dor e cuspiam insultos. A certa altura, desencadeou-se um combate ao nosso lado.

 

Fomos prosseguindo a descida, e a vista do Fórum ficou bloqueada pela maciça parede das traseiras da Casa das Vestais. Por fim, chegámos à base da inclinação, tão apertados como ovelhas num rebanho. Neste ponto, a Rampa estreitava ainda mais, formando uma curva apertada para a direita, em direcção ao intervalo entre a Casa das Vestais e o Templo Castor e Pólux. O ajuntamento tornou-se perigoso. Atrás de mim, ouvi gritar uma mulher.

 

O pânico difundiu-se pela multidão como uma onda. Houve uma debandada.

 

Eu apertei o braço do mensageiro. Ele olhou por cima do ombro e lançou-me um sorriso pateta, depois agarrou-me no braço e puxou-me para diante, quase me erguendo do chão. À minha volta, rodopiava um mar de caras. Algumas faziam caretas de dor. Umas berravam. Outras gritavam. Algumas tinham os olhos muito abertos de medo, enquanto outras olhavam sem ver, perplexas. Eu estava a ser beliscado e picado de todas as direcções por cotovelos e braços agitados. Sentia-me tão impotente como um seixo numa avalancha.

 

Depois, subitamente, o estreito caminho transformou-se no espaço aberto do Fórum. O mensageiro puxou-me e dobrámos a esquina. Cambaleámos em direcção aos degraus do Templo de Castor e Pólux. Eu sentei-me, recuperando o fôlego.

 

Podíamos ter sido esmagados! disse o grandalhão. A sua tendência para afirmar o óbvio fez-me recordar Davo. Ficámos a ver as pessoas a serem empurradas para o Fórum, com um ar espantado e abalado, muitas delas a chorar. Por fim, a torrente diminuiu de volume; os retardatários que agora emergiam da Rampa pareciam desconhecer totalmente o pânico que os precedera.

 

Logo que eu recuperei o fôlego, prosseguimos. O Fórum tinha um ar de irrealidade, uma continuação do pesadelo que começara na Rampa. Senti-me como se estivesse a passar por uma sucessão de cenas teatrais, levadas ao palco por um encenador maníaco. As pessoas entravam e saíam a correr dos templos, com círios votivos nas mãos e gritando orações aos deuses. Membros da mesma família despediam-se uns dos outros, apertando as mãos e chorando, ajoelhando-se juntos para beijarem o chão do Fórum, enquanto garotos de rua empoleirados em muros próximos lhes atiravam pedrinhas, dizendo comentários ofensivos. As multidões enfurecidas amontoadas à entrada de bancos e casas de câmbio apedrejavam as portas bem trancadas. Mulheres desanimadas circulavam por entre as bancas vazias do mercado, limpas pelos açambarcadores e aqueles que tencionavam enriquecer com a situação. A coisa mais estranha era a forma como os desconhecidos pareciam ignorar-se uns aos outros. Toda a gente parecia fechada dentro da sua própria tragédia, relativamente à qual o pânico precipitado dos demais era apenas um pano de fundo.

 

Nem toda a gente partia de Roma. Hordas de pessoas que viviam no campo chegavam à cidade, à procura de refúgio. De acordo com um boato, César encontrava-se na periferia de Roma, a não mais de uma hora de distância, à frente de um exército de gauleses selvagens a quem prometera direitos de cidadania um gaulês registado por cada romano morto, até à completa substituição da população da cidade por bárbaros leais a César.

 

No meio deste movimento caótico, a minha atenção foi subitamente captada pela visão de um cordão formal de magistrados com as togas senatoriais de listas cor de púrpura as únicas togas, para além da minha, que eu tinha visto no Fórum naquele dia. A comitiva avançou pelo Fórum a um passo invulgarmente rápido, precedida por doze lictores em fila única, cada um dos quais levava ao ombro o cerimonial feixe de varas chamado fasces. Uma dúzia de lictores era uma procissão consular, e de facto, no meio do cordão de senadores, reconheci os dois cônsules recém-eleitos, Lentulo e Marcelo. Estavam com um ar carregado mas alerta, como se um súbito ruído pudesse fazê-los correr para a toca mais próxima.

 

O que será aquilo? perguntei em voz alta.

 

Estão a fechar o Templo dos Lares Públicos disse o mensageiro de Mécia. Vi-os entrar quando ia para tua casa. Estavam a fazer uma cerimónia especial. Como é que se chama? O "rito da salvaguarda" para pedir aos deuses dos lares que protejam a cidade na ausência dos dois cônsules.

 

Só sai de Roma um cônsul de cada vez expliquei-lhe eu, recordando-me de que ele não era muito inteligente. Pode sair um à cabeça de um exército, mas o outro fica a governar a cidade.

 

É possível, mas desta vez partem ambos.

 

Lancei um último olhar de esguelha a Lentulo e Marcelo, e percebi que ele tinha razão. Eram cônsules há menos de um mês, mas era bem possível que fosse a última vez que atravessavam formalmente o Fórum. daí as expressões carregadas; daí os olhares atentos e o passo pouco decoroso da procissão. Os cônsules desertavam de Roma. O Estado abandonava o povo. Dentro de horas o tempo que Lentulo e Marcelo demorassem a regressar a casa e a juntar-se à louca corrida que saía de Roma não haveria governo na cidade.

 

A casa de Mécia ficava no Bairro de Carinas, na encosta do Monte Esquilino, grande parte de cujas propriedades pertencia há várias gerações à família Pompeu. O complexo privado de Pompeu não ficava longe. A casa de Mécia não era propriamente imponente. Dava para uma rua calma e fora recentemente pintada em tons vivos de azul e amarelo. A faixa preta lançava uma nota dissonante sobre a porta amarela.

 

O escravo bateu à porta com o pé. Do interior, um olho espreitou pelo orifício de segurança para ver quem era, e em seguida a porta abriu-se para trás. Quando atravessei o limiar, preparei-me para a visão que me esperava.

 

O corpo de Numério Pompeu estava poisado sobre um ataúde, no átrio, por baixo da clarabóia. Tinha os pés voltados para a porta. O cheiro dos ramos de sempre-verdes que o rodeavam misturava-se com o odor capitoso de uma panela de incenso colocada sobre uma braseira, ali ao pé. A luz sombria da manhã rodeava-lhe a túnica branca e a pele encerada de um pálido nimbo de marfim.

 

Obriguei-me a aproximar-me e a olhá-lo de frente. Alguém tinha feito um bom trabalho, removendo a horrível careta. Por vezes, os embalsamadores partem o queixo ou enchem as faces para conseguirem o efeito pretendido. Numério quase parecia estar a sorrir, como se estivesse a ter um sonho agradável. A toga fora disposta de tal maneira, que escondia as feias marcas que ele tinha à volta do pescoço. No entanto, eu vi a sua imagem na minha memória e cerrei os dentes.

 

É assim tão difícil olhar para ele?

 

Ergui os olhos e vi uma matrona romana vestida de preto. Tinha o cabelo por arranjar e o rosto sem maquilhagem, mas o brilho de marfim proveniente da clarabóia caía-lhe bem. Por momentos, pensei que se tratasse da irmã de Numério, mas depois olhei melhor e decidi que devia ser a mãe.

 

Acho que ele tem um aspecto bastante pacífico disse eu. Ela acenou com a cabeça.

 

Mas a tua expressão... calculo que estivesses a recordar-te do aspecto que tinha quando o encontraste. Eu só o vi mais tarde, evidentemente, e só... só depois de Pompeu o ter mandado pôr apresentável. Foi simpático da parte de Pompeu, pensar nos sentimentos de uma mãe, numa altura em que está tão ocupado. Numério estava com um aspecto assim tão horrível quando o encontraste?

 

Eu tentei pensar numa resposta.

 

O teu filho... Abanei a cabeça. Quanto mais velho me torno, melhor vou conhecendo a morte, e apesar disso mais difícil se me torna olhar para ela.

 

Ela acenou com a cabeça.

 

E vamos conhecê-la com muita frequência, nos dias que se aproximam. Mas não me respondeste. Acho que sabes o que estava a perguntar. Ele tinha ar de quem... de quem sofreu muito? De pessoa cujos derradeiros pensamentos foram de horror perante o que estava a acontecer-lhe?

 

Senti arrepiar-se-me a pele da parte de trás do pescoço. Como podia eu responder a semelhante pergunta? Para evitar o seu olhar, baixei de novo os olhos para Numério. Por que razão não se contentava em se recordar dele como estava agora, com os olhos fechados e uma expressão de serenidade?

 

Vi as marcas que ele tinha no pescoço disse ela calmamente. E as mãos... não conseguiram abrir-lhas completamente. Imagino-o com aquela coisa à volta do pescoço, erguendo os braços para a arrancar. Imagino o que terá sentido... que pensamentos lhe terão passado pela cabeça. Tento não pensar nessas coisas, mas não consigo impedir-me. Olhou para mim com firmeza. Tinha os olhos vermelhos de chorar, mas neste momento estavam secos. A sua voz soava calma. Estava muito direita, com as mãos apertadas diante de si. Não precisas de te preocupar com a possibilidade de eu me deixar cair ao chão a soluçar disse ela. Não me parece que arrancar os cabelos sirva de grande coisa, especialmente diante de estranhos. Acabaram-se-me as lágrimas. Pelo menos aquelas que um estranho poderia ver. Sorriu amargamente. Todos os homens desta casa fugiram, à excepção dos escravos. Deixaram-me sozinha, com o encargo de sepultar Numério.

 

O teu marido?

 

Morreu há dois anos. Os homens desta casa são os dois irmãos mais novos de Numério e o tio dele, Mécio; o meu irmão assumiu o cargo de chefe da família quando eu enviuvei. Agora, fugiram todos com Pompeu, deixando-me a tratar disto. Sabem que serei capaz, compreendes. Viram a minha força quando o meu marido morreu, e a minha força desde então. Eu nunca vacilo, nunca me esquivo. Sou famosa por isso. Sou um modelo de matrona romana. Por isso, compreenderás que, quando te peço que me digas como foi o fim do meu filho, e peço-te a ti porque aconteceu em tua casa, porque tu estavas presente, e ninguém mais poderia dizer-mo, não deves evitar responder-me por receio de me reduzires a lágrimas e de ficares com uma mulher histérica e afogada em soluços nos braços. Deves responder-me como se eu fosse um homem.

 

Fora-se aproximando gradualmente de mim, de maneira que estava agora muito perto, com o rosto erguido em direcção ao meu. A beleza do filho provinha dela. O cabelo solto caía-lhe pelas costas abaixo em tranças escuras e brilhantes. O vestido preto salientava-lhe a carne leitosa do pescoço e o suave rubor das faces. Os seus olhos verdes olhavam para mim com desconcertante intensidade. Era impossível pensar nela como se fosse um homem.

 

Certamente que o Grande te terá dito tudo aquilo que precisas de saber. Era o seu dever, como primo do rapaz e seu parente...

 

Pompeu disse-me aquilo que achava que eu precisava de saber, que Numério tinha sido... estrangulado. Que devia ter sido apanhado de surpresa por trás, e não teve possibilidade de reagir. Pompeu disse-me que devia ter sido rápido. Rápido e... não muito doloroso.

 

Não necessariamente, pensei. Quereria Mécia de facto que eu confirmasse os seus piores receios? Que lhe dissesse que um homem estrangulado por um garrote, sem qualquer hipótese de escapar, poderia apesar disso lutar contra o inevitável durante algum tempo que para ele seria indubitavelmente uma eternidade, antes de sucumbir? Quereria realmente deter-se naquilo que Numério poderia ter pensado e sentido nos momentos finais da sua vida, em que fora tomado pelo pânico?

 

Pompeu... contou-te a verdade.

 

Mas não entrou em pormenores disse ela. Quando insisti com ele... deves saber como ele é. Quando o Grande não quer dizer mais nada, nada mais será dito. Mas tu estavas lá. Foste tu que encontraste o meu filho. Viste...

 

Vi um jovem deitado no meu jardim, diante da minha estátua de Minerva.

 

E o instrumento que foi usado para matá-lo...

 

Não faças isto disse eu, abanando a cabeça.

 

Diz-me, por favor.

 

Foi um garrote suspirei. Um dispositivo simples que não tem outro objectivo, senão matar.

 

Pompeu disse-me que o deixou contigo, porque podias precisar dele para as tuas investigações. Nem sequer imagino que aspecto terá semelhante coisa.

 

É um pedaço de madeira do tamanho do meu antebraço, mas menos grosso, com um orifício em cada extremidade; e um pedaço ligeiramente mais comprido de corda resistente, que é passada pelos orifícios e atada com nós.

 

Como é que funciona?

 

Por favor...

 

Diz-me!

 

Passa-se a corda por cima da cabeça de um homem, depois faz-se girar o pedaço de madeira.

 

Pompeu disse-me que ele ainda o tinha à volta do pescoço.

 

Há maneiras de prender a corda à madeira, para que ela fique bem apertada e não possa ser retirada pela vítima.

 

Ela levou os dedos à pele leitosa do seu próprio pescoço.

 

Vi as marcas. Já percebi. Os seus olhos cintilaram. Quando o descobriste, ainda com aquela coisa à volta do pescoço, que aspecto tinha a cara dele?

 

Eu baixei os olhos.

 

O mesmo que tem agora.

 

No entanto, recusas-te a olhar para mim ao dizer isso. Consegues olhar para ele?

 

Tentei voltar o olhar para Numério, mas não fui capaz.

 

Devia estar com um aspecto verdadeiramente horrível, para ter tido semelhante efeito num homem com a tua experiência.

 

Era difícil olhar para ele, sim.

 

Ela fechou os olhos. Brilharam-lhe lágrimas nas pestanas. Pestanejou até elas desaparecerem.

 

Obrigada. Precisava de saber como é que ele tinha morrido. Agora, já posso dedicar-me a perguntar por quê e às mãos de quem. Pompeu disse-me que a tua profissão é fazer este género de investigações.

 

Era.

 

Pompeu disse-me que vais ajudar-nos.

 

Ele não me deixou alternativa. Ela ergueu as sobrancelhas. Afinal, tinha-me exigido respostas francas. O Grande não te explicou que me coagiu a aceitar esta tarefa?

 

Não. Eu nunca lhe faço perguntas sobre os seus métodos. Mas vais ajudar-nos?

 

Pensei em Davo e em Diana, e em Cicatrix em minha casa.

 

Farei o que for preciso para satisfazer Pompeu. Mécia acenou com a cabeça.

 

Há uma coisa... Uma coisa que eu não consegui contar a Pompeu.

 

Um segredo? Qualquer coisa que me digas poderá chegar aos ouvidos do Grande. Não posso prometer-te que isso não acontecerá.

 

Ela encolheu os ombros, indecisa.

 

Se há alguma coisa a descobrir, Numério já sofreu as consequências. Nem sequer tenho a certeza de que seja alguma coisa. Suspeitas de mãe...

 

O que queres dizer com isso?

 

É possível que as relações de Numério e Pompeu não fossem exactamente o que pareciam.

 

Numério era o favorito do Grande, não era?

 

Era. Pompeu gostava muito dele. E Numério sempre fora leal a Pompeu. Mas, nos últimos meses... Tinha sido ela a falar no assunto, mas agora parecia relutante em prosseguir. Nos últimos meses... à medida que a situação com César se ia tornando mais tensa, e que os debates no Senado se tornavam mais azedos... que se tornava evidente que poderia haver uma guerra, e em breve, eu comecei a pensar que talvez Numério não fosse tão leal a Pompeu como todos nós pensávamos.

- O que te fez duvidar dele?

 

Ele estava envolvido em qualquer coisa. Qualquer coisa de que se recusava a falar. Havia dinheiro...

 

Dinheiro e segredos. Estás a dizer-me que ele era um espião?

 

Um espião... ou coisa pior. Agora, era Mécia que não conseguia olhar-me de frente, nem suportava olhar para o filho.

 

O que queres dizer com isso? perguntei eu suavemente.

 

Descobri uma caixa no quarto dele. Estava cheia de moedas de ouro; era tão pesada que eu não consegui levantá-la do chão. Nós não somos, nem nunca fomos, uma família rica, apesar das nossas ligações a Pompeu. Não consigo imaginar onde é que Numério terá ido buscar tanto dinheiro.

 

Quando foi isso?

 

Há cerca de um mês. Lembro-me de que foi no dia em que um dos tribunos Marco António, o cão de ataque de César fez aquele discurso horrível contra Pompeu no Senado, pondo-Lhe a ridículo a carreira, exigindo uma amnistia para todos os criminosos políticos expulsos da cidade em consequência das reformas de Pompeu. "Todos os homens virtuosos que estão exilados devem regressar e devem ser-lhes devolvidos os seus bens, ainda que para isso seja necessária uma guerra!" Como vês, uma mulher também pode estar a par da política.

 

E de forma mais atenta do que muitos homens, estou certo. E quanto ao ouro?

 

Nessa noite, perguntei a Numério qual era a sua origem. Apanhei-o de surpresa. Ele ficou furioso. Não quis dizer-me. Eu insisti. Ele recusou. Falou-me... asperamente. Foi nessa altura que eu percebi que se passava qualquer coisa, e muito grave. Numério e eu nunca tínhamos discutido. Sempre tínhamos sido muito chegados, desde o dia em que ele nasceu. E, depois da morte do meu marido... era Numério o que mais me recordava o pai, mais do que os irmãos mais novos. Aborrecia-me muito que ele tivesse segredos comigo. Preocupava-me. A cidade no estado em que estava, e Numério a amealhar dinheiro, recusando-se a explicar de onde vinha, agindo como se fosse culpado de qualquer coisa quando o interroguei...

 

Culpado?

 

Disse-me que eu não podia falar a Pompeu do dinheiro. Portanto, estás a ver que o dinheiro não podia ter origem em Pompeu. Então, quem lho dera? E por que motivo Pompeu não podia saber? Disse-lhe que aquilo não me agradava. Disse-lhe: "Estás metido em qualquer coisa perigosa, não estás?"

 

O que te respondeu ele?

 

Disse-me que não me preocupasse. Disse-me que sabia o que estava a fazer. Segurança cega! Todos os homens da família do lado do pai dele são assim. Não conheço nenhum Pompeu que não esteja convencido de que é indestrutível.

 

Fazes alguma ideia daquilo que ele andava a fazer?

 

Especificamente não. Sabia que Pompeu tinha feito dele seu mensageiro confidencial. Pompeu confiava nele. Era natural. Pompeu frequentava assiduamente esta casa enquanto Numério estava a crescer; viu-o fazer-se homem. Numério sempre foi o seu favorito da geração mais jovem. Mas ultimamente as coisas andam todas alteradas e viradas ao contrário. Os jovens deixaram de ter a noção do que significa ser romano. É cada homem por si, nem sequer põem a família em primeiro. Há tanto dinheiro a entrar das províncias, que corrompe tudo. Os jovens estão confusos...

 

Refugiou-se em abstracções; era mais fácil falar dos problemas de Roma do que das suas próprias suspeitas. Eu acenei com a cabeça.

 

Quando dizes que Numério era mensageiro confidencial de Pompeu, queres dizer que transmitia informações secretas?

 

Sim. - Ela mordeu o lábio. Os seus olhos brilharam. As informações secretas têm valor, não é verdade? Há homens dispostos a pagar por elas em ouro.

 

Talvez disse eu cautelosamente. Dizes que encontraste uma caixa cheia de ouro. Encontraste mais alguma caixa com surpresas lá dentro?

 

O que queres dizer com isso?

 

Se Numério possuía informações valiosas documentos, tinha de as guardar em algum sítio.

 

Ela abanou a cabeça.

 

Não. Só encontrei a caixa com o ouro.

 

E voltaste a procurar? Quero eu dizer, desde... Olhei de viés para o corpo.

 

Ontem à noite, não me deitei, andei a revistar a casa, fingindo que estava a ajudar o meu irmão e os meus filhos a arrumar as suas coisas. Se houvesse mais surpresas, queria ser eu a descobri-las. Não queria que fosse o meu irmão, nem Pompeu... nem o assassino que matou o meu filho. Nada encontrei. Exalou fatigadamente. Tomas como certo que Numério era um espião, não é verdade? Nem sequer ficas chocado.

 

Como tu própria disseste, vivemos num mundo de pernas para o ar. Os homens tornaram-se capazes de... tudo. Mesmo os homens bons.

 

O meu filho era um espião. Pronto, já disse, pela primeira vez em voz alta. Não foi tão difícil como pensei que seria. Mas dizer o resto... chamar-lhe...

 

Traidor? Talvez não fosse. Talvez fosse um espião de Pompeu, e não contra Pompeu.

 

Nesse caso, por que terá insistido em que Pompeu nada soubesse sobre o ouro? Não, ele estava a fazer qualquer coisa nas costas de Pompeu. Tenho a certeza disso.

 

E tu achas que foi por isso que foi morto?

 

Não consigo pensar noutra razão. Ele não tinha inimigos pessoais.

 

A não ser que houvesse outros segredos que tu não conhecias. Ela atirou-me um olhar tão feroz, que eu tive um arrepio pela espinha acima. Subitamente, o átrio pareceu-me muito frio. A luz proveniente do céu enublado tornou-se ainda mais fraca, diminuindo para um brilho suave e incerto que não produzia sombras. Deitado no seu ataúde, exangue e vestido de branco, Numério brilhava como uma estátua esculpida em marfim compacto.

 

Ao passar pelo Fórum, a caminho de casa, o cenário estava ainda mais febril do que anteriormente, as pessoas mais frenéticas, os boatos mais desenfreados.

 

Diante do Templo de Vesta, um velho apertou-me o braço.

 

Já ouviste dizer? César está na Porta Colina!

 

Que estranho respondi eu. Ainda há momentos um vendedor de peixe me disse que César estava do outro lado da cidade, a entrar pela Porta Capena à frente de um exército de gauleses, com a cabeça de Pompeu espetada numa estaca.

 

O velhote recuou, horrorizado.

 

Quer dizer que ele e os seus bárbaros nos cercaram! Júpiter nos ajude! Afastou-se a correr antes que eu pudesse dizer palavra. Ocorrera-me consolar o pobre homem, troçando do seu boato com outro contraditório, mas ele acreditou nos dois e afastou-se a correr, para ir contar a toda a gente que a cidade estava condenada.

 

Prossegui pelo Fórum, sozinho. Mécia oferecera-se para mandar o seu mensageiro acompanhar-me, para me proteger. Eu tinha declinado. Uma coisa era ele conduzir-me a casa dela, outra coisa era aproveitar-me da sua generosidade. O irmão e os filhos tinham-se ido embora, e ela apenas dispunha da protecção dos escravos. Quem poderia prever que desacatos devastariam a cidade nas próximas horas, especialmente se os boatos da proximidade de César fossem verdadeiros?

 

Do Templo de Vesta, vi que a Rampa estava cheia de gente, mas não obstruída. O tráfego de pessoas circulava em ambas as direcções. Ainda assim, o meu coração bateu mais depressa quando entrei na passagem apertada entre a Casa das Vestais e o Templo de Castor e Pólux. Não vi sinais da debandada da manhã, provocada pelo pânico, senão quando fiz a curva apertada para a esquerda que ia dar à Rampa. Sustive a respiração quando vi sangue nas lajes, repisado por centenas de pés. Lembrei-me da mulher que gritava. Afinal, sempre tinha havido alguém esmagado pela multidão. Apressei o passo e iniciei a subida.

 

Há partes da Rampa que são uma espécie de túnel, densamente sombreado por ramos de teixos. Foi numa dessas passagens que, olhando para cima, me pareceu, pela segunda vez em dois dias, ter avistado Tiro.

 

Não consegui ver a cara do homem, mas apenas a parte de trás da sua cabeça. Aparentemente, a subida fizera-lhe calor porque, sem parar de andar, ele estava a afastar uma capa escura dos ombros, pondo à vista a túnica verde que tinha por baixo. Fora qualquer coisa na maneira como ele se deslocava que me despertara a memória, desencadeando aquela sensação perturbadora, poderosa mas fugaz, que por vezes se tem de se reviver um momento já vivido. Eu já teria subido a Rampa atrás de Tiro, talvez trinta anos antes, vendo-o afastar uma capa dos ombros exactamente da mesma maneira? Ou seria a minha memória que estava a pregar-me uma partida? És um homem velho, disse a mim próprio, ligeiramente ofegante e com pontinhos nos olhos, que está a olhar para as costas de uma pessoa que parou à sombra densa de uma árvore, num dia encoberto. A ideia de que estava a olhar para um velho amigo, que supostamente se encontrava a centenas de quilómetros de distância, do outro lado do mar, não valia grandes reconsiderações. Apesar disso, se eu pudesse ver a cara do homem, poderia pelo menos confirmar que me tinha enganado.

 

Apressei o passo. O caminho tornou-se mais íngreme e o meu fôlego mais curto. Dançaram-me diante dos olhos mais alguns pontinhos. Outros transeuntes bloqueavam-me a visão. Deixei de ver o homem que seguia à minha frente, e cheguei a pensar que o tinha perdido por completo. Depois, tive um vislumbre da túnica verde, mais longe de mim do que anteriormente.

 

Tiro! chamei.

 

O homem teria parado por momentos, de cabeça inclinada, para depois prosseguir apressado? Ou teria sido imaginação minha?

 

Tiro! gritei, tentando recuperar o fôlego.

 

Desta vez, o homem da túnica verde não parou. Se teve alguma reacção, foi avançar mais depressa. Chegou ao alto da Rampa bem à minha frente. Antes de desaparecer, pareceu-me que tinha voltado para a direita, na direcção da casa de Cícero.

 

Cheguei ao alto da Rampa e sentei-me pesadamente num cepo de teixo. Há anos que aquela árvore majestosa estava ali, desde muito antes de eu ter vindo viver para o Palatino; conseguia ver-lhe o topo do meu jardim. No princípio daquele Inverno, uma tempestade particularmente violenta derrubara a árvore. Os ramos tinham sido cortados para lenha, mas o cepo fora deixado, porque estava num lugar conveniente para uma pessoa se sentar a descansar da subida do Fórum. Pobre e velho teixo, pensei, já não servias para grande coisa, mas ainda servias para alguma coisa. Ter-me-ia rido, se tivesse fôlego para isso. Pompeu esperava que eu apanhasse um assassino, e eu nem sequer era capaz de seguir um homem pela Rampa acima.

 

Um carrancudo Cicatrix deixou-me entrar de má vontade em minha própria casa.

 

Tens uma visita disse num tom grosseiro, respirando para cima de mim, com o seu hálito a alho.

 

No jardim, encontrei Betesda, Diana e o pequeno Aulo à minha espera. Tinha-se-lhes juntado Eco.

 

Papá! Ele lançou-me um olhar desamparado e abraçou-me com força, magoando-me. Ouvi dizer o que se passou com Davo. Maldito seja Pompeu, que o Hades o leve!

 

Não fales tão alto. O homem de Pompeu está mesmo ali.

 

Sim, eu vi-o quando vinha a entrar. A mãe e Diana também me explicaram isso. Pompeu é um grande mandão.

 

Fala mais baixo.

 

Mas Eco falou ainda mais alto, como se estivesse a fazer de propósito para Cicatrix ouvir.

 

É absurdo, um cidadão ter de sussurrar em sua própria casa sempre que se refere ao chamado Grande!

 

Não me lembrava da última vez que vira este meu filho, sempre tão cordato, num estado de espírito tão beligerante como o de hoje. A crise estava a suscitar reacções em todos nós.

 

Trouxeste Menénia e os gémeos contigo? perguntei.

 

Para os obrigar a passar pela multidão que invadiu o Fórum? Não, estão em casa, sãos e salvos.

 

Como é que eles estão a reagir?

 

Tito e Titânia já têm idade para perceber que se passa qualquer coisa de muito grave. Não se pode esconder grande coisa a dois miúdos de onze anos. Mas não percebem bem o que está a acontecer, ou é provável que aconteça.

 

Não tenho a certeza de que alguém perceba, incluindo César e Pompeu. E a mãe deles?

 

Serena como a superfície do lago Alba, embora os Menénios estejam tão divididos como as restantes famílias de Roma: uns são a favor de Pompeu, outros de César, e os restantes andam a tentar encontrar um buraco para se meterem até isto acabar. Mas não te preocupes connosco, papá. Depois dos tumultos clodianos, eu fiz um grande esforço e gastei bom dinheiro a tornar segura a velha casa da família. Neste momento, é praticamente uma fortaleza, tantas barras tem na porta e estacas no telhado. E parece-me que tu também gostarias de dispor de qualquer coisa que tivesse mantido à distância os trepadores de telhados. Voltou os olhos para o telhado que rodeava o pátio. Lamento muito o que aconteceu ao infeliz parente de Pompeu. E o ultraje que é Pompeu ter usado semelhante tragédia para te obrigar a pores-te ao seu serviço, praticamente raptando Davo...

 

O que está feito, está feito disse eu. Ele acenou com a cabeça.

 

É apenas mais um problema a resolver, hem? Sempre me disseste que não havia problemas grandes, mas apenas uma colecção de problemas pequenos interligados, como nós de uma corda. Começa-se numa ponta e avança-se em direcção à outra. É uma excelente atitude quando o mundo está a desmoronar-se à nossa volta. Por onde começamos?

 

Tu deves começar por ir para casa, para junto de Menénia e dos gémeos. É possível que esteja a preparar-se uma noite perigosa.

 

Então e o nosso problema com...

 

Satisfazer Pompeu e recuperar Davo não é um problema nosso, Eco. É um problema meu. Eu sou o responsável por aquilo que aconteceu. Eu hei-de descobrir maneira de o resolver.

 

Papá, não sejas tonto. Vais precisar que Eco... disse Diana.

 

Não. Não quero vê-lo envolvido nisto. Até agora, nem Pompeu nem César têm opiniões formadas sobre Eco. Deixemos as coisas nesse pé.

 

Eco abanou a cabeça e começou a falar, mas eu ergui a mão.

 

Não, Eco. Tu tens a tua própria família, com os teus próprios problemas. Quem sabe o que poderá acontecer nos próximos dias e nos próximos meses? É preferível que permaneças tão independente quanto puderes, enquanto puderes. No longo prazo, isso poderá contribuir para nos salvar a todos.

 

Percebi que não tinham ficado satisfeitos, mas até numa família tão pouco convencional como a minha, "sem grande preocupação pelos valores romanos tradicionais", como dizia o relatório que encontrámos no sapato de Numério, há um ponto para além do qual a vontade do pater-famílias não pode ser posta em causa. Eu tinha dificuldade em me apresentar como um pai romano rigoroso, à maneira do velho Catão, mas se fosse pressionado conseguiria fazer uma imitação bastante convincente. Eco e Diana calaram-se.

 

Mas os outros dois ocupantes do jardim não se deixaram intimidar. O pequeno Aulo, que não estava a prestar-me qualquer atenção, tropeçou num pé e desatou a berrar. Betesda cruzou os braços e olhou atentamente para mim.

 

E esta noite? disse ela. Se a cidade está tão perigosa como tu dizes, o que vamos fazer? Com Davo ausente, estamos sem guarda-costas em casa, a não ser que contes com o monstro que Pompeu nos deixou à porta.

 

Duvido de que alguém consiga passar por Cicatrix, mulher.

 

A não ser que entre pelo telhado disse ela, retorcidamente.

 

Talvez possamos pôr Mopso e Ândrocles de guarda disse eu, hesitante.

 

Posso dispensar-te um homem para vir ajudar a proteger a casa ofereceu Eco. Podias colocá-lo aqui no pátio, ou lá em cima no telhado.

 

Ficava-te agradecido disse eu, despindo a capa do pater-famílias com o alívio que se sente quando se tira um par de sapatos apertados.

 

E se as coisas piorarem? perguntou Betesda.

 

Talvez nos refugiemos todos em casa de Eco, no Esquilino, uma vez que é mais defensável do que esta. Mas é possível que não venha a ser necessário. É possível que estes boatos sobre César não passem de boatos. Tanto quanto sabemos, ele pode ter-se retirado para o outro lado do Rubicão.

 

Mas, com tantas casas abandonadas, não é provável que haja saques? observou Diana, enquanto fazia caretas a Aulo para o distrair.

 

Talvez não. Os ricos deixaram criados e gladiadores de guarda às suas propriedades. Uns quantos candidatos a saqueadores enforcados nas ruas poderão ser suficientes para manter a calma.

 

Betesda olhou-nos do alto do seu nariz.

 

Roma está como estava Alexandria quando eu era miúda. Pior! Tumultos e assassínios e insurreições, uma após outra, sem fim à vista.

 

Calculo que isto só terminará quando Pompeu ou César morrerem disse Eco. Baixou a voz sem que ninguém lho pedisse.

 

Receio que isso possa ser apenas o começo disse eu. Se Cícero tiver razão, é inevitável que um ou outro venha a ser ditador, e não será por um ano ou dois, como Sila, mas para toda a vida. Os Romanos podem ter-se esquecido de como se governa uma república, mas não há dúvida de que não se recordam de como se vive governado por um rei. O final desta crise pode marcar o começo de outra, bem pior do que esta.

 

Que tempos para Aulo crescer disse Diana. Cícero expressara a mesma ansiedade relativamente ao neto que esperava. Ela desviou o rosto, escondendo de Aulo as lágrimas que lhe tinham chegado aos olhos, mas o miúdo não se deixou enganar. A sua face revelou confusão, e em seguida ele abriu a boca para juntar os seus próprios lamentos ao choro silencioso da mãe. Betesda aproximou-se rapidamente e estendeu os braços para ambos, lançando-me um olhar cortante por cima do ombro.

 

Eco e eu, e Ândrocles e Mopso, que espreitavam sub-repticiamente da porta, contemplámos a cena, impotentes. De que servia o tão alardeado poder do pater-famílias, se não era capaz de impedir uma mulher de chorar?

 

Afinal, César não cercou Roma nesse dia, nem no dia seguinte, nem no outro. Os restantes dias de januarius passaram despercebidamente. Cada madrugada gerava novos boatos e mais pânico. Cada pôr do Sol morria sem a chegada de César às portas da cidade.

 

Do sul, chegava a notícia de que Pompeu se juntara às legiões lealistas, estacionadas em Cápua, atribuíra a Cícero a tarefa de organizar a resistência no litoral da Campânia, e consultava diariamente os cônsules e o círculo de senadores que tinham fugido com ele.

 

Durante vários dias, as conversas de Roma centraram-se na famosa escola de treino de gladiadores de Cápua, pertencente a César e conhecida pela ferocidade dos seus alunos. Primeiro, ouvi dizer que cinco mil gladiadores, a quem o seu senhor prometera a liberdade, tinham massacrado as tropas de Pompeu e marchavam sobre Roma, ao encontro de César. Depois, espalhou-se o rumor de que Pompeu se antecipara à manobra de César, libertara ele os gladiadores e os alistara no seu exército passando por cima das furiosas objecções dos seus conselheiros, que argumentavam que a libertação maciça de escravos em tempo de crise constituía um precedente perigoso. O último boato a chegar menos espectacular e mais provável declarava que a escola tinha sido encerrada e os gladiadores dispersos por vários senhores e por toda a região, como simples medida de precaução.

 

Todos os dias Betesda me perguntava que progressos estava eu a fazer no sentido de recuperar Davo a Pompeu. Eu explicava-lhe que proceder a um verdadeiro inquérito à morte de Numério era virtualmente impossível. Tanto os partidários de César como os de Pompeu tinham partido de Roma, para irem juntar-se aos respectivos comandantes.

 

Qualquer pessoa que tivesse razões para ter morto Numério, ou para saber quem o tinha morto, estaria provavelmente num campo qualquer a milhas de distância de Roma.

 

Betesda não se deixava impressionar.

 

Pompeu não permitirá que Davo regresse enquanto não descobrires o assassino do parente dele. Se te falta energia, marido, por que não pedes a Eco que o faça?

 

Ocorre-me, mulher, que te compete fazer com que esta família se mantenha aconchegada e alimentada, tarefa de que, até agora, te tens desempenhado de forma brilhante, apesar da escassez e dos escandalosos preços dos mercados. Esses deveres não chegam para te manter ocupada, e afastada dos meus assuntos?

 

Nesses primeiros dias de Februarius, instalou-se entre nós uma frieza que tornou o interior da casa tão gelado como o seu exterior. À nossa volta, a crise mantinha-se.

 

Apesar dos meus protestos a Betesda, não me mantive completamente ocioso. Se Roma era um navio que estava a afundar-se, e do qual capitães, tripulação e passageiros mais abastados tinham fugido, os ratos permaneciam a bordo e os ratos têm olhos e ouvidos atentos. Restabeleci contactos antigos e fiz investigações entre as ordens inferiores da cidade pequenos ladrões, negociantes de venenos, proxenetas e taberneiros, procurando vestígios das sombrias transacções de Numério.

 

As poucas migalhas de informação que consegui desencantar ou, mais precisamente, comprar, a preços tão escandalosamente inflacionados como tudo o resto que se vendia na cidade, eram fragmentárias e em segunda mão, de uma forma geral pouco fiáveis e quase todas inúteis. Disseram-me repetidamente aquilo que eu já sabia, que Numério passava a maior parte do seu tempo a fazer recados a Pompeu, o que implicava que fosse visto com frequência no Fórum e à porta de casa de senadores e mercadores abastados. Os seus contactos entre os poderosos eram amplos. Mas, pelo menos de vez em quando, o primo favorito do Grande tinha apadrinhado ambientes bem mais humildes; mais do que um dos meus contactos afirmava ter visto Numério a entrar ou a sair de um estabelecimento particularmente conhecido de um bairro de armazéns pouco recomendável, situado entre o Fórum e o rio. Eu conhecia o local de outras investigações: era a Taberna Salaz.

 

Há muito tempo que eu não ia à taberna; tinham passado mais de dois anos desde a última vez que ali passara uma tarde, na companhia de Tiro, imagine-se!, afogando cada um de nós o seu respectivo desgosto na sequência do julgamento de Milo. Na tarde fria em que decidi fazer uma visita à taberna, quase me perdi no labirinto de ruas estreitas que a rodeiam. Cheguei finalmente à viela indicada, onde era impossível deixar de reparar no distintivo familiar, um poste vertical encimado por um falo erecto, em mármore. Sobre a porta, estava pendurada uma lamparina em forma de falo, crepitando aos arrancos sob o céu coberto. Bati à porta.

 

A portinhola do orifício de segurança abriu-se e voltou a fechar-se. A porta abriu-se, revelando um eunuco carnudo, dentro de uma larga túnica branca e ostensivamente adornado com jóias de vidro. Os anéis brilhavam-lhe nos dedos como pequenos arco-íris. Usava contas de topázio, ametista e esmeraldas de pechisbeque à volta do pescoço e penduradas dos lóbulos das orelhas. A sala comprida e mal iluminada que tinha atrás de si exalava um odor quente a madeira apodrecida, fumo de óleo e vinho azedo. Aos meus olhos, não adaptados à escuridão, aquele lugar parecia tão negro como uma caverna.

 

Cidadão! O eunuco sorriu. Eu conheço-te?

 

Não me parece. Eu não te conheço. Calculo que a taberna esteja com nova gestão?

 

Sim! Já a conhecias?

 

Vim cá uma vez ou duas.

 

Nesse caso, vais encontrar grandes melhoramentos. Entra! Fechou a porta atrás de nós.

 

É curioso, cheira à mesma coisa. Franzi o nariz. Ao mesmo óleo rançoso de lamparina, enchendo o ar de fumo. Ao mesmo vinho de má qualidade a tresandar do chão.

 

O sorriso do eunuco desvaneceu-se.

 

Os meus olhos adaptaram-se um pouco à obscuridade. Encostada a uma parede, alguns pés atrás do eunuco, detectei uma ruiva com ar entediado, que também me era familiar. Ipsitila já pertencia à taberna da primeira vez que eu lá entrara, seis anos antes, na companhia de Catulo, o poeta alcoólico. Ao brilho cor de laranja de uma lamparina próxima, ela ainda parecia relativamente jovem e fresca, o que provava que a luz era realmente fraca.

 

Até as raparigas são as mesmas! disse eu. O eunuco encolheu os ombros.

 

O número de prazeres que este mundo tem para nos oferecer é limitado, cidadão. Mas prometo-te que os encontrarás a todos aqui... se tiveres com que pagar.

 

Aquilo que eu quero mesmo é uma informação. Poderei encontrá-la aqui, se tiver com que pagá-la?

 

O eunuco ergueu uma sobrancelha.

 

Nesse dia, saí da Taberna Salaz sem ter saciado um único desejo, mas na posse de umas quantas informações intrigantes. Numério Pompeu fora de facto um cliente regular; o eunuco conhecia-o de vista, e tinha sabido da sua morte. Numério, disse-me o eunuco, costumava chegar à taberna sozinho e partir igualmente sozinho. Sentava-se sempre no mesmo canto. Por vezes, encontrava-se com outras pessoas, mas aquilo que discutiam, e quem eram esses outros, eram coisas que o eunuco não sabia; era sua política nunca ouvir as conversas, e os homens com que Numério se encontrava eram estranhos à Taberna Salaz, que nunca mais voltavam à excepção de um.

 

Ah, sim disse-me o eunuco, lembro-me de que um dia Numério partilhou o banco do canto com aquele sujeito, Soscarides.

 

Soscarides?

 

Um nome estranho, não é? Suponho que é grego. De Alexandria. Um sujeitinho moreno, de barba. Há um par de meses que vem por cá. É filósofo... e famoso, segundo me dizem. Talvez o conheças, cidadão?

 

Tenho a certeza de que não conheço.

 

Bem, Numério Pompeu conhecia-o. Nesse dia, estiveram sentados no canto durante muito tempo, a falar e a beber, a beber e a falar.

 

A falar sobre quê?

 

Infelizmente, cidadão, eu nunca oiço as conversas, e as minhas raparigas também não. Os segredos de um homem estão a salvo na Taberna Salaz, até dos ouvidos dos deuses.

 

Quando foi isso?

 

Oh, deixa-me pensar! Olha, foi mesmo antes de Pompeu ter fugido da cidade, por isso calculo que deve ter sido um dia ou dois antes de Numério ser assassinado.

 

Eu acenei com a cabeça e murmurei o nome de Soscarides. Tinha a certeza de que nunca ouvira falar dele. Um filósofo, um sujeitinho moreno, de barba...

 

O eunuco, apalpando a bolsa das moedas, que já estava bastante cheia, mostrava-se ansioso por ser útil.

 

Como te disse, Soscarides vem cá de vez em quando. Da próxima vez que o vir, queres que lhe diga que andas à procura dele, cidadão?

 

Eu nunca aqui estive disse, abanando a cabeça. Dei-lhe mais uma moeda, para ter a certeza de que ele havia compreendido.

 

A minha visita à Taberna Salaz foi seguida por vários dias de tempestades. O tempo estava tão mau, que ninguém saía de casa; até o Fórum estava deserto. Passei esses dias enfiado no escritório, a ler filosofia. Nos raros momentos em que a chuva parava, dava umas voltas no jardim, erguendo os olhos para contemplar as feições imperscrutáveis de Minerva. Ela era a única testemunha de tudo o que se tinha passado no dia da morte de Numério Pompeu. Tinha ouvido as suas últimas palavras, visto o rosto do seu assassino.

 

O que hei-de fazer a seguir? perguntei-lhe. Ela não deu mostras de me ter ouvido.

 

A tempestade passou. Dois dias depois dos Idos de Februarius, desci até ao Fórum para conhecer os últimos boatos. Por insistência de Betesda, levei Mopso e Ândrocles comigo, a fim de proporcionar aos rapazes a possibilidade de despenderem uma parte das energias que tinham sido obrigados a conter pelo facto de a tempestade os ter retido em casa. Enquanto descíamos a Rampa, eles corriam à minha frente, voltando depois para trás, uma vez e outra, fazendo daquilo um jogo. Eu estava cansado, só de olhar para eles.

 

O pânico diário por causa da iminente ocupação da cidade por César tinha acalmado. Por esta altura, os relatórios mais fiáveis colocavam-no a nordeste, ao longo da costa do Adriático. Todo o Piceno se lhe tinha rendido. Dizia-se que o povo das cidades por onde ele passava o acolhia jubilosamente, fazendo-lhe orações como se ele fosse um deus. Ele deixara tropas em cidades estratégicas, e dirigia-se para sul, onde Pompeu e as forças lealistas tinham recuperado a região da Apúlia, mas estavam divididas ao meio. Lúcio Domício Aenobarbo que, por decreto do Senado, devia ter substituído César no governo da Gália no princípio do ano ocupara a cidade central de Corfínio, situada apenas a cem quilómetros a leste de Roma, com 30 coortes, 18 mil homens. Entretanto, Pompeu deslocara-se mais para sul. Parecia haver uma situação de guerra entre os dois generais lealistas, com Domício a querer que Pompeu fosse reforçá-lo em Corfínio, e Pompeu a exigir que Domício abandonasse a cidade e fosse juntar-se a ele.

 

Se Domício conseguisse o que queria, teria a batalha decisiva lugar em Corfínio, com as legiões de César enfrentando as forças lealistas combinadas? Ou seria Corfínio abandonada, na sequência da retirada lealista? Se isso acontecesse, era fácil, olhando para o mapa, imaginar as tropas de César obrigando implacavelmente Pompeu a retirar-se para sul, para o tacão da bota italiana, em direcção ao porto de mar de Brundísio. De acordo com alguns rumores, Pompeu já estava a reunir uma armada em Brundísio, pois sempre tencionara fugir pelo mar Adriático em direcção a Dirráquio, evitando confrontar-se com César.

 

Ouvir discutir estas questões tácticas nas filas para a compra de potes de azeitonas rançosas e pão bolorento era uma experiência estranha. Era bastante comum ouvir os homens especularem no Fórum sobre batalhas e movimentos de tropas em províncias distantes mas nunca em solo italiano, e com o destino de Roma em causa.

 

Começou a chuviscar. Eu estava farto do Fórum.

 

Voltei à Rampa, com Mopso e Ândrocles a girar à minha volta. A meio do caminho, parado debaixo dos ramos de um enorme teixo que impedia a passagem da chuva, olhei para cima por acaso. O meu coração deu um salto.

 

Teria perdido a noção da realidade? Ou estaria a mesma experiência estranha a acontecer de novo? À minha frente, pareceu-me ver uma figura familiar, só que desta vez o homem da túnica verde estava a enrolar-se na capa, em vez de a afastar dos ombros.

 

Rapazes! disse eu, chamando-os para junto de mim. Estão a ver aquele sujeito que vai ali em cima, sozinho?

 

Mopso e Ândrocles acenaram com a cabeça em uníssono.

 

Quero que o sigam. Mas não de muito perto! Não quero que ele perceba. Acham que são capazes?

 

Eu sou, Senhor disse Mopso, encostando o polegar ao peito.

 

E eu também insistiu Ândrocles.

 

Óptimo. Quando ele chegar ao seu destino, um de vocês esconde-se e fica a vigiar o local, enquanto o outro me vem contar. Vão-se embora!

 

E lá foram eles. Quando se aproximaram do homem da capa escura, separaram-se, um para a direita e o outro para a esquerda, como um par de chacais à caça. Um após outro, chegaram os três ao alto da Rampa e desapareceram. Eu resisti ao impulso de acelerar o passo. Assobiei uma toada egípcia cómica, que Betesda costumava entoar nos velhos tempos em que era minha escrava, e não minha mulher, e não tinha escravos seus, que lhe fizessem os trabalhos domésticos. Tempos felizes, pensei. Fora nesses tempos que eu conhecera Tiro.

 

Cheguei ao alto da Rampa. O cepo do teixo caído estava abrigado da chuvinha, por isso sentei-me ali, à espera. Se tivesse razão, o homem da capa escura não teria ido longe, e um dos rapazes não tardaria a regressar com as novidades.

 

Esperei. E voltei a esperar. Finalmente, comecei a perguntar a mim próprio se não me teria enganado, mandando os miúdos ao engano. A chuvinha parou. Levantei-me do cepo e avancei em direcção a casa de Cícero. Ocorreu-me que, se o homem não era quem eu pensava, talvez tivesse colocado os miúdos em perigo. A crise tinha desgastado os nervos de toda a gente. Até um cidadão respeitável podia reagir imprevisivelmente se descobrisse que estava a ser seguido por dois rapazes desconhecidos.

 

Segui a estrada que contorna a colina até à casa de Cícero e parei na rua deserta. Não se via ninguém. Afinal, tinha-me enganado, pensei antes de ouvir um assobio do outro lado da rua, de um ponto onde os cedros e os ciprestes tinham sido desbastados e se avistava o Monte Capitolino.

 

Senhor! Aqui!

 

Espreitei para a vegetação rasteira, por baixo de uns arbustos emaranhados, salpicados de minúsculas bagas vermelhas.

 

Não te vejo.

 

Claro que não. Disseste-me que me escondesse. Era Mopso.

 

Ele disse para eu me esconder. Era Ândrocles.

 

 

Não, para eu me esconder e para tu ires contar-lhe.

 

Rapazes interrompi eu, podem sair os dois.

 

Uma das cabeças emergiu, seguida da outra. Ambas tinham pedaços de galhos e bagas vermelhas no cabelo despenteado.

 

Não foi, Senhor? disse Mopso. Eu era para ficar de vigia, e Ândrocles para ir ter contigo.

 

Eu suspirei.

 

Meto diz que uma das características de um grande general é nunca dar ordens ambíguas. É manifesto que eu não sou um César. E vocês dois não são melhores do que Domício Aenobarbo e Pompeu Magno, a discutirem dessa maneira em vez de fazerem o que têm de fazer.

 

Ouviste? disse Mopso a Ândrocles, emergindo para a rua e pavoneando-se ligeiramente. Ele comparou-te com o Barba Ruiva e a mim com o Grande!

 

Não foi nada. Eu sou Pompeu e tu és Domício!

 

Meninos, chega! Digam-me para onde foi o sujeito e o que viram.

 

Seguimo-lo até aqui, a casa de Cícero disse Ândrocles, ansioso por comunicar as informações antes do irmão mais velho.

 

E ele entrou em casa pela porta?

 

Não foi bem...

 

Fizeram descer uma escada do telhado. Ele subiu. Depois retiraram a escada explicou Mopso.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Obrigado, rapazes. Fizeram um excelente trabalho. Certamente melhor do que Pompeu e Domício parecem estar a fazer. Agora, podem voltar os dois para casa.

 

E deixamos-te sozinho, Senhor? perguntou Mopso, alarmado.

 

Mas o sujeito não é terrivelmente perigoso? Não é um ladrão ou um assassino?

 

Não me parece. Sorri perante a ideia de o suave e intelectual Tiro assumir o papel de assassino.

 

Quando os rapazes se afastaram, bati à porta. Não houve resposta. Recuei e observei o telhado, mas não vi sinais de vida. Voltei a bater à porta. Finalmente, o orifício de segurança abriu-se e um olho castanho espreitou por ele.

 

Não está ninguém em casa disse uma voz masculina grosseira.

 

Estás tu disse eu.

 

Eu não conto. O Senhor não está cá. A casa está fechada.

 

Apesar disso, tenho uma coisa a tratar com alguém que está aí dentro.

 

O olho desapareceu e reapareceu momentos depois.

 

Quem...?

 

Chamo-me Gordiano. Cícero conhece-me. Estive com ele na véspera da sua partida de Roma.

 

Sabemos quem tu és. Com quem desejas falar?

 

Com o homem que entrou há bocado. Aquele que entrou em casa pela escada.

 

Essa pessoa não existe.

 

Não era um fantasma.

 

Se calhar era.

 

Chega de brincadeiras! Diz a Tiro que preciso de falar com ele.

 

Tiro? O secretário do Senhor está na Grécia. Muito doente para poder viajar...

 

Disparate. Eu sei que ele está cá. Diz-lhe que Gordiano precisa de falar com ele.

 

O olho desapareceu e esteve ausente durante muito tempo. Eu pus-me em bicos de pés e tentei espreitar pelo orifício de segurança, mas apenas consegui avistar sombras. Qualquer coisa se moveu por entre as sombras. Eu recuei. O olho reapareceu.

 

Não, não há cá nenhum Tiro. Não há ninguém com esse nome.

 

Eu dei uma palmada na porta. O olho castanho pestanejou assustado e recuou.

 

Tiro! gritei eu. Quero falar contigo! Ou preferes que eu fique aqui na rua a gritar o teu nome até que todos os desgraçados de Roma saibam que tu voltaste? Tiro! Tiro!

 

Um silvo passou pelo orifício de segurança.

 

Está bem, está bem! Pára de gritar.

 

Muito bem, então abre a porta.

 

Não posso.

 

O quê? Tiro!

 

Shhh! Não posso abrir a porta.

 

Por quê?

 

Está barricada.

 

Barricada?

 

Tábuas pregadas à porta e sacos de areia empilhados por trás das tábuas. Tenho de rastejar por um túnel, para chegar onde estou! Recua para a estrada.

 

Eu recuei para o meio da estrada e olhei para cima. Momentos depois, apareceram dois homens no telhado. Reconheci-os como sendo os dois guardas que estavam postados diante da casa de Cícero na noite em que eu o vira pela última vez. Juntos, baixaram uma comprida escada de madeira até à rua.

 

Não me digas que a mulher e a filha de Cícero, que está grávida, sobem e descem esta coisa de cada vez que têm de sair de casa! Olhei para a escada de alto a baixo, e senti a fragilidade dos meus ossos.

 

Claro que não disse o mais velho. Era ele que tinha estado a falar comigo do outro lado da porta. A Senhora e Túlia foram-se embora há vários dias. Ficaram algum tempo alojadas em casa de Ático, um amigo de Cícero, e depois foram ter com o Senhor à villa de Fórmias, na costa. Neste momento, não está mais ninguém em casa, à excepção de alguns escravos, como nós, que ele deixou de guarda às coisas de valor.

 

Mais ninguém? perguntei eu.

 

Mais ninguém, excepto eu. A pessoa que falava avançou, colocando-se entre os dois homens que estavam empoleirados no telhado, pôs as mãos nas ancas e olhou para baixo, para mim. Vestia uma túnica verde e uma capa escura. Subitamente, apercebi-me de que devia ter-me enganado por completo, ou então estavam outra vez a brincar comigo. O homem era da altura de Tiro e tinha uma certa semelhança com ele, mas tinha de ser mais novo. A sua pele era escura como a de um egípcio o cabelo tinha um matiz arruivado, sem qualquer sugestão de cinzento era esguio como um jovem e usava uma barbinha elegante do género que Tiro desprezava desde que Catilina a tornara popular.

 

Não percebo bem que género de brincadeira é esta disse eu, mas tenciono descobrir. Avancei para a escada.

 

Não, não subas disse o desconhecido. Eu desço.

 

Recuei enquanto ele descia. Os seus movimentos pelos degraus instáveis denunciaram-no; não era, nem de longe, tão jovem como parecia à distância. Quando poisou o pé no chão e se voltou para olhar para mim, o desconhecido voltara a ser Tiro... Tiro, com a pele tingida e o cabelo pintado com hena, o rosto mais esguio e uma barba totalmente improvável, mas Tiro, ainda assim.

 

Parece que tiveste uma recuperação miraculosa disse eu. Como foi que voltaste tão depressa da Grécia... montado no Pégaso?

 

Ele silenciou-me levando um dedo aos lábios. Atrás de nós, içaram a escada. Os dois guardas desapareceram.

 

Não podemos falar aqui disse ele. Mas eu conheço um sítio sossegado, cujo anfitrião não escuta as conversas...

 

Do outro lado da rua, mesmo em frente à casa de Cícero, no meio dos arbustos onde Mopso e Ândrocles se tinham escondido, Tiro afastou um ramo coberto de pequenas bagas vermelhas e pareceu avançar para o vazio.

 

Cuidado com o ramo, podes magoar-te avisou-me. E vê onde pões os pés. O caminho é mais íngreme do que parece.

 

Não era possível. O caminho nem era bem um caminho, era mais uma série descendente de pequenos pontos de apoio limpos e suficientemente espaçosos para um homem colocar um pé, no meio das árvores nodosas e dos arbustos cheios de espinhos que germinavam da face ocidental do Monte Palatino. Mesmo por baixo de nós, ficava o congestionado bairro dos armazéns.

 

Tiro, para onde estás a levar-me? Se é para descer, por que não vamos pela Rampa?

 

É arriscado. Podemos ser vistos.

 

Mas tu não evitas a Rampa. Já te vi por lá duas vezes.

 

Oh, eu não estou preocupado em ser reconhecido. Mas tu serias. E as pessoas podiam começar a perguntar: quem era aquele sujeito moreno e de barba que estava hoje com Gordiano, o Descobridor?

 

Nesse caso, por que não falamos em privado dentro da casa de Cícero?

 

Primeiro, por causa dos guardas. Têm tendência para ouvir coisas que não deviam ouvir. E depois falam.

 

Era verdade...

 

Além disso... Tiro hesitou, tentando decidir onde poria o pé a seguir. Para ser franco, Cícero não gosta que as pessoas andem a entrar e a sair de sua casa estando ele ausente.

 

Achas que eu ia pôr-me a mexericar?

 

Não foi isso que eu disse, Gordiano. Mas trata-se da casa de Cícero. Enquanto ele estiver ausente, eu respeito os seus desejos.

 

Uma pedra soltou-se debaixo dos meus pés e deslizou pela encosta abaixo. Agarrei um ramo de cipreste para me equilibrar, recuperando o fôlego, e procurei cautelosamente o apoio seguinte.

 

Por fim, chegámos à parte inferior do Palatino, onde o carreiro se foi tornando gradualmente plano, serpenteando por entre as pilhas de lixo acumulado por trás dos armazéns. Tiro conduziu-me por um lado e por outro, não se deixando perturbar pelo labirinto de vielas estreitas que fediam a urina. Por fim, voltámos uma esquina e vimos diante de nós um distintivo familiar um poste vertical, encimado por um falo de mármore erecto.

 

Vamos à Taberna Salaz?

 

Encontrámo-nos aqui, por acaso, a seguir ao julgamento de Milo disse Tiro. Lembras-te? Foi a última vez que eu te vi. Há mais de dois anos.

 

Lembro-me da ressaca disse eu, mas estava a pensar na minha mais recente visita à taberna, e na descrição que o dono fizera de um estrangeiro moreno, de barba...

 

Estavas a recuperar de uma ressaca no dia em que nos conhecemos. Lembras-te disso? disse Tiro, rindo-se.

 

Um jovem escravo de olhos claros foi à minha casa do Monte Esquilino, para me pedir que fosse ajudar o seu jovem e ambicioso senhor a defender um homem acusado de parricídio.

 

Sim, mas antes que eu pudesse falar, tu fizeste uma demonstração do melhor tratamento para a ressaca.

 

Fiz? E o que era?

 

Concentração mental, para atrair sangue novo ao cérebro. Foi notável.

 

Pouco mais eras do que um rapaz, Tiro. Deixavas-te impressionar com facilidade.

 

Mas foi espantoso! Deduziste quem me tinha enviado e por quê, sem que eu tivesse dito uma palavra.

 

Foi? É uma pena que já não consiga concentrar-me da mesma maneira. Não consigo imaginar, por exemplo, por que razão andará o liberto que é a mão direita de Cícero a vaguear por Roma, incógnito.

 

Tiro olhou para mim de esguelha.

 

Não te tornaste menos capaz, Gordiano, mas sim mais astuto. Podias perfeitamente deduzir a razão, se quisesses, mas preferes obrigar-me a revelar-ta.

 

Por cima da porta da taberna, a lamparina suspensa em forma de falo lançava um brilho mortiço, que iluminava a tarde fria e encoberta.

 

Que desperdício de óleo observei a Tiro, considerando a escassez que reina na cidade.

 

Palavras como "escassez" não têm qualquer significado na Taberna Salaz disse Tiro, batendo à porta.

 

Vieste cá no último ano, ou isso?

 

Eu encolhi os ombros.

 

Acho que passei por cá uma vez.

 

A gerência mudou prosseguiu ele. Mas o resto está na mesma. As mesmas raparigas, os mesmos cheiros, o mesmo vinho de má qualidade, mas o gosto melhora depois da segunda taça.

 

O orifício de segurança abriu-se, seguido da porta.

 

Soscarides! O eunuco quase guinchou, agarrando as mãos de Tiro. Ainda não tinha reparado em mim. O meu cliente favorito, que por acaso também é o meu filósofo favorito!

 

Nunca leste uma palavra minha, cão. Disseste-mo da primeira vez que cá estive, há dois meses disse Tiro.

 

Mas tenciono fazê-lo insistiu o eunuco. Encomendei um livro a um vendedor do Fórum. A sério, encomendei mesmo! Pelo menos tentei. O sujeito afirmou que nunca tinha ouvido falar de Soscarides de Alexandria. Pouco lhe faltou para se rir de mim. Idiota! Agora, todos os vendedores de livros fecharam as lojas e saíram da cidade. Vou ter de continuar a ignorar a tua sabedoria.

 

Por vezes, a ignorância é a verdadeira sabedoria observou Tiro, sarcasticamente.

 

Oh! Isso é um dos teus provérbios famosos, Soscarides? Gosto que a taberna seja frequentada por filósofos. São mais higiénicos do que os poetas e mais calmos do que os políticos. O teu amigo também é um filósofo famoso? O eunuco olhou finalmente para mim. Ficou de boca aberta.

 

Tanto como eu respondeu Tiro, e ainda mais famoso. Foi por isso que aqui viemos, à procura de um pouco de paz e sossego.

 

O eunuco teve um momento de atrapalhação, mas depois recuperou. Comportou-se como se nunca me tivesse visto.

 

Que tal um recanto na sala pública? As salas privadas do andar de cima estão todas ocupadas com grupos de jogo.

 

Vamos sentar-nos naquele banco ali do canto disse Tiro, apontando para uma zona tão escura, que eu apenas pude conjecturar a existência de um canto, quanto mais de um banco. E duas taças de vinho. Do melhor.

 

Tiro avançou para o canto e eu segui-o de perto.

 

Não sabia que este estabelecimento tinha mais do que uma qualidade de vinho disse eu.

 

Claro que tem. O melhor é um bocadinho mais caro.

 

E que tal é?

 

É o mesmo vinho, mas coado. Não se encontram surpresas desagradáveis a flutuar na taça.

 

Grunhi ao embater numa coisa, que me respondeu com outro grunhido. Pedi desculpa a uma forma sombria, que roncava, e prossegui, sentindo-me satisfeito quando cheguei à outra extremidade da sala. O banco do canto estava embutido na parede. Encostei-me e esperei que os meus olhos se adaptassem à obscuridade. Chegou o nosso vinho. Era tão mau como eu me recordava. A Taberna Salaz parecia invulgarmente apinhada, considerando que o Sol ainda não se tinha posto. Com as actividades normais da cidade em suspenso, que melhor programa para uma tarde enublada do que a satisfação de alguns desejos? Por entre os murmúrios, ouvi risos e pragas e o matraquear de dados.

 

Os dados estão lançados! gritou um dos jogadores. Seguiu-se uma rodada de gargalhadas alcoólicas. Eu tardei um momento a compreender a graça. César dissera as mesmas palavras aos seus homens depois de atravessar o Rubicão.

 

Também o imortalizaram com um lance observou Tiro.

 

Um lance?

 

De dados. O Lance de Vénus é a combinação suprema, que bate todas as outras. Ultimamente, os jogadores chamam-lhe Lance de César e gritam "Caio Júlio" quando lançam os dados. Não me parece que queira necessariamente dizer que tomaram o partido de César, são apenas supersticiosos. César afirma que é parcialmente divino, descendente de Vénus. Por isso, o Lance de Vénus transformou-se no Lance de César.

 

Que bate todos os outros. Haverá também um Lance de Pompeu? Tiro fungou.

 

Acho que deve ser quando os dados saltam da mesa.

 

A posição de Pompeu é assim tão má?

 

Sabes o que diz Cícero? "Quando procedia mal, Pompeu sempre conseguiu levar a sua avante. Agora que está a proceder bem, fracassou por completo." César apanhou-os a todos de surpresa. Nem sequer os apoiantes dele acreditavam que fosse capaz de entrar em Itália com as suas tropas. Bem viste o pânico que daí resultou. Pompeu dirigiu a debandada! Desde então, tem-se esforçado por dominar a situação, dia após dia. De manhã, está exuberante e fanfarrão. À tarde, fica apavorado, e ordena às suas tropas que recuem ainda mais para sul.

 

Estás muito bem informado, para um homem que desde Novembro se encontra de cama, na Grécia disse eu, olhando-o de esguelha.

 

Ele sorriu.

 

Tiro continua de cama, doente, e assim estará durante mais algum tempo. Eu sou Soscarides, um filósofo de Alexandria, desempregado e à deriva por causa da crise.

 

Qual é o objectivo deste elaborado disfarce?

 

Cícero e eu concebemos juntos este esquema, na viagem de regresso da Cilicia. A cada etapa da viagem, as notícias de Roma eram mais e mais perturbadoras: César troçava da constituição, recusava-se a abandonar o comando das suas tropas na Gália, exigia ser autorizado a ocupar o consulado sem regressar a Roma. Pompeu tinha-se posto em bicos de pés, recusando-se a fazer mais concessões a César, amuando fora das muralhas da cidade e apoiando-se nas suas próprias legiões, estacionadas na Hispânia. E o Senado, aquela patética, confusa, cobarde, somítica, gananciosa colecção dos chamados melhores homens de Roma, andava envolvido em debates azedos à beira da violência declarada. Não era preciso ser Cassandra, para perceber que a situação estava a progredir para uma crise. Cícero decidiu que seria prudente que eu chegasse a Roma antes dele; não havia mais ninguém em quem ele confiasse, e a quem pudesse pedir uma descrição precisa da realidade.

 

Mas porquê incógnito?

 

Para reunir informações sem chamar as atenções para Cícero. O disfarce é simples. Uma barba, uma mudança de cor: é tudo.

 

Mas estás novamente esguio, tão magro como eras quando te conheci. Altera-te a forma do rosto.

 

Acontece que de facto adoeci na viagem de regresso da Cilicia, logo ao princípio, e perdi bastante peso. Decidi manter-me assim, para completar o disfarce. Acabaram-se os bolos de sésamo e mel! Só por si, cada uma das alterações não seria grande disfarce, mas combinadas funcionam. À distância, ainda ninguém me reconheceu, ou se alguém pensou reconhecer-me, terá decidido que era engano, porque Cícero teve o cuidado de comunicar a toda a gente que o seu querido Tiro ficou na Grécia, a sofrer com uma doença prolongada. As pessoas confiam mais naquilo que "sabem" do que naquilo que vêem. Excepto tu, Gordiano. Devia ter previsto que, se alguém me descobrisse, serias tu.

 

Desde que regressaste, tens estado sempre aqui na cidade?

 

Por Hércules, não! Tenho andado por toda a Itália, visitando as guarnições de César, observando os movimentos de António, controlando a situação de Domício em Corfínio, fazendo de correio entre Cícero e Pompeu...

 

Transformaste-te num agente secreto de Cícero. Tiro encolheu os ombros.

 

Ensaiei para o papel durante o período em que ele foi governador da Cilicia. Ninguém falava com Tiro, o secretário do governador. Mas Soscarides, o alexandrino, era amigo de toda a gente.

 

Eu olhei para ele por cima da taça de vinho.

 

Por que estás a contar-me tudo isto?

 

Depois de teres percebido que eu tinha regressado a Roma, acabarias por descobrir sozinho, mais cedo ou mais tarde. E podias tirar conclusões erradas.

 

Podias ter-te recusado a receber-me, hoje.

 

Enquanto tu ficavas a gritar o meu nome da rua e mandavas os dois miúdos perseguir-me como cães atrás de um rasto? Não, Gordiano, conheço bem a tua tenacidade, és como um cão que não se lembra onde enterrou um osso. É melhor dizer-te onde ele está, do que ficar a ver-te abrir buracos pelo quintal fora. Os buracos são coisas perigosas. Podem magoar inocentes. O mesmo pode acontecer quando se tiram conclusões erradas.

 

O nosso anfitrião trouxe-nos mais vinho. A segunda taça soube melhor do que a primeira, mas só um pouco. Os meus olhos tinham-se adaptado à escuridão. Por entre a névoa cor de laranja provocada pelo fumo das lamparinas, conseguia distinguir algumas caras, mas só de forma vaga. O ruído impediria quem quer que fosse de ouvir o que nós estávamos a dizer.

 

Lembrei-me de uma coisa.

 

Os guardas disseram-me que Cícero te escreve constantemente para a Grécia.

 

E escreve. O nosso anfitrião em Patras, que está supostamente a vigiar a minha recuperação, está dentro do esquema. Logo que recebe as cartas, manda as falsas respostas, em meu nome.

 

Quer dizer que as cartas que Cícero te envia vão em branco?

 

Claro que não! Estão cheias de coscuvilhices, citações de peças, exortações para que eu melhore. Como sabes, ele manda sempre fazer as cartas em duplicado. Isso nada tem de estranho, mas agora envia os dois exemplares. Um deles por mensageiro regular, até Patras, a fim de manter o disfarce. O outro é-me enviado por um mensageiro secreto, para onde quer que eu esteja.

 

Mas, se as mensagens são idênticas, Cícero está apenas a enviar-te mexericos e desejos de melhoras.

 

Aparentemente, sim. É mais seguro. Sorriu, pareceu meditar em qualquer coisa, depois tirou uma bolsa de dentro da túnica. Da bolsa, tirou um pedaço dobrado de pergaminho. Pediu a uma empregada que baixasse uma das lamparinas suspensas e a pousasse na nossa mesa. Ao seu brilho crepitante, eu li a carta. Estava datada do primeiro dia do mês, cerca de 15 dias antes.

 

DE FÓRMIAS, NAS CALENDAS DE FEBRUARIUS

Marco Túlio Cícero, para Marco Túlio Tiro, em Pairas:

Continuo muito preocupado com a tua saúde. A notícia de que o teu estado não suscita cuidados reconforta-me, mas o facto de se prolongar aflige-me. A ausência do meu competente secretário aborrece-me, mas ainda mais aborrecida é a ausência de alguém que me é tão querido. Contudo embora anseie rever-te, insisto em que não te levantes enquanto não estiveres completamente restabelecido, especialmente enquanto o mau tempo se mantiver. Mesmo nas casas mais aconchegadas, é difícil escapar ao frio, já para não falar do tempo permanentemente húmido e ventoso da costa. Como diz Eurípides, "o frio é o pior inimigo de uma pele frágil".

César continua a fingir negociar com Pompeu, no preciso momento em que age como invasor. Como Aníbal, enviando diplomatas à frente dos seus elefantes! Diz agora que está disposto a entregar a Gália a Domício e a regressar a Roma para desempenhar presencialmente o seu cargo de cônsul, como a lei exige, mas apenas se Pompeu dissolver as forças lealistas recentemente reunidas em Itália e partir imediatamente para Hispânia. César nada refere acerca das guarnições que tomou desde que atravessou o Rubicão.

A nossa esperança é que os gauleses que fazem parte das forças de César o abandonem, pois a verdade é que têm boas razões para o odiar depois dos sofrimentos que lhes infligiu na conquista da Gália. Assim, ele teria, a norte, uma Gália em rebelião; a oeste, na Hispânia, as seis legiões de Pompeu; e, para leste, as províncias que Pompeu pacificou há muito e onde o Grande continua a ser objecto de profunda estima. Se ao menos o centro aguentar o suficiente para impedir que César saqueie Roma!

Terência pergunta se tens usado o cachecol amarelo que te deu quando partimos para a Cilicia. Faz o que puderes para te resguardares do frio!

 

Eu ergui os olhos da carta.

 

A esperança de que os gauleses abandonem César parece-me um pouco forçada. O meu filho Meto afirma que eles se mantêm fiéis a César com o fervor de conversos religiosos. À parte isso, a carta parece-me bastante clara.

 

Parece, não parece?

 

O que queres dizer com isso?

 

As palavras podem ter mais do que um sentido.

 

Eu franzi o sobrolho e analisei o texto à luz bruxuleante da lamparina

 

Estás a dizer-me que a carta está escrita numa espécie de código? Fora Tiro quem, durante o consulado de Cícero, inventara e introduzira a utilização de um sistema de escrita abreviada para o registo dos debates do Senado. Mas isto não era a escrita de Tiro; nem era uma escrita cifrada.

 

Todos sabemos o que significa a palavra "azul", por exemplo disse Tiro, sorrindo. Mas, se eu te disser antecipadamente: "Utiliza "azul" para referir uma legião e "vermelho" para significar uma coorte", e depois tu me escreveres falando de um cachecol azul, só nós saberemos o que isso significa.

 

Estou a ver. E se Cícero citar uma linha de Eurípedes...

 

Pode significar uma coisa diferente do que significaria se citasse Enio. O conteúdo da citação é irrelevante. Se ele fizer referência a viagens marítimas, pode querer dizer que Pompeu está indeciso. "Casas aconchegadas" poderá estar relacionado com determinado senador, que tem de ser vigiado. Até a menção dos elefantes poderá ter um significado secreto.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Tu e Cícero são uma equipa e tanto. Que necessidade têm de espadas, se têm as palavras como arma?

 

Estamos juntos há muito tempo, Gordiano. Eu ajudei Cícero a escrever todos os discursos que ele pronunciou. Transcrevi-lhe os tratados, aperfeiçoei-lhe os comentários. Muitas vezes, sei o que ele vai dizer mesmo antes de ele o ter dito. Não tivemos grande dificuldade em conceber uma linguagem invisível, para uso de ambos. Qualquer pessoa pode ler as palavras. Mas só nós conhecemos o seu significado.

 

Olhei para os cantos mal iluminados da sala.

 

Pergunto a mim próprio se Meto e César terão sido igualmente íntimos.

 

Ele pareceu não reparar no tom magoado da minha voz. Deu uma pancadinha na testa.

 

Talvez. Os homens grandes como Cícero, ou mesmo César, calculo eu, precisam de mais do que uma cabeça para armazenar o seu intelecto.

 

A liberdade não te mudou, Tiro. Continuas a subestimar-te e a sobrestimar o teu antigo senhor.

 

Veremos.

 

Enquanto ele dobrava a carta e voltava a metê-la na bolsa, eu tive uma súbita intuição.

 

Foi Cícero, não foi?

 

O que pretendes dizer, Gordiano?

 

Foi Cícero que escreveu aquele relatório confidencial para ser entregue a Pompeu, sobre mim e a minha família.

 

Tiro hesitou.

 

Que relatório?

 

Sabes muito bem do que eu estou a falar.

 

Sei?

 

Tiro, podes esconder-te atrás das palavras, mas não podes esconder-te atrás da tua cara, pelo menos comigo. Sabes perfeitamente do que eu estou a falar.

 

Talvez.

 

Faz todo o sentido. Se Pompeu queria informações sobre diversos homens de Roma, e precisava delas rapidamente, e da parte de uma pessoa em quem confiasse, quem melhor do que Cícero, que anda a descobrir fantasmas debaixo de camas desde que cheirou a chamada conspiração de Catilina? O mais provável é que Cícero tenha um dossier sobre mim há anos! Aquela observação sobre a minha falta de respeito pelos "valores romanos", a piada de que eu tenho o hábito de adoptar escravos! Oh, sim, é mesmo Cícero, olhando para mim de cima, como habitualmente. E quem poderia ajudar Cícero a transcrever o relatório confidencial em código cifrado melhor do que tu, Tiro, o seu secretário de confiança, o inventor da escrita abreviada, a outra metade do cérebro dele? Estavas na cidade naquele dia, não estavas... no dia em que Numério morreu? Eu avistei-te na rua, depois de sair de casa de Cícero. Foi esse o último trabalho que Numério fez ao serviço do Grande, ir buscar o relatório secreto de Cícero sobre as minhas lealdades?

 

Tiro olhou para mim com uma expressão de astúcia.

 

Se esse relatório alguma vez existiu... a cópia que Cícero entregou a Numério desapareceu. Pompeu não chegou a encontrá-la, embora tivesse voltado do avesso as roupas de Numério e descosido as bainhas. Presumiu que quem tinha morto Numério o tivesse subtraído. Como foi que soubeste da sua existência, Gordiano?

 

Li-o. Pelo menos a parte que era sobre mim. Encontrei-o no corpo de Numério, dentro de um compartimento secreto que ele tinha no salto do sapato.

 

Do sapato! Tiro riu-se. Essa é nova. Mas o que fizeste ao relatório? Ainda o tens?

 

Queimei-o.

 

Mas disseste-me que só leste a parte que era sobre ti. Queimaste-o sem o leres todo? A cifra não era assim tão complicada.

 

Pompeu chegou inesperadamente a minha casa. Não tive tempo de voltar a colocá-lo no sapato de Numério. Se Pompeu o encontrasse no meu escritório...

 

Estou a ver. Bem, já temos um enigma resolvido. Cícero e eu temos andado a perguntar a nós próprios onde teria ido parar o relatório.

 

Quando lhe escreveres a contar este nosso encontro, como presumo que farás, calculo que menciones uma "madrugada rósea", ou seja o que for que, entre vós, significa "relatório secreto foi queimado".

 

Será uma determinada citação de Sófocles, na verdade. Achas que Numério foi assassinado porque alguém sabia que ele tinha consigo a "lista de lealdades", como tu lhe chamas, elaborada por Cícero?

 

Eu hesitei.

 

Podia haver quem tivesse outras razões para querer vê-lo morto.

 

Tais como?

 

A mãe parece estar convencida de que ele tinha uma vida secreta. Trabalhando como espião contratado, talvez.

 

Tiro franziu o sobrolho.

 

Para outra pessoa, que não Pompeu?

 

Sim. Ela até tem vergonha de pôr essa hipótese, mas não deixou de me confidenciar as suas suspeitas. A pobre mulher está desesperada por conhecer a verdade acerca da morte do filho.

 

Tiro acenou com a cabeça.

 

Eu conheci Mécia. É uma mulher extraordinária. Foi ela que te contratou para descobrires o assassino de Numério?

 

Não, foi Pompeu. Ou antes, o Grande ordenou-me que investigasse.

 

Ordenou-te? Ele ainda não é o nosso ditador.

 

Apesar disso, foi muito persuasivo. Obrigou o meu genro a colocar-se ao seu serviço, contra a vontade de Davo mas aproveitando a letra da lei. Pompeu foi explícito: Davo não regressará enquanto eu não lhe disser o nome do assassino do seu parente. A minha filha está muito perturbada. Davo pode ir parar à Grécia, à Hispânia, ou mesmo ao Egipto. E, se Pompeu perder a paciência comigo... Abanei a cabeça. Os generais atribuem tarefas perigosas aos homens de quem não gostam. Davo está à mercê dele.

 

Tiro olhou pensativamente para a taça de vinho, que era de louça de barro barata. Passou o dedo pelo rebordo lascado.

 

Estás a ser muito honesto comigo, Gordiano.

 

E tu foste honesto comigo, Tiro.

 

Nós dois nunca fomos inimigos.

 

E espero que nunca venhamos a ser.

 

Vou contar-te um segredo, Gordiano. Provavelmente não devia fazê-lo. Baixou a voz. Tive de fazer um esforço para conseguir ouvi-lo, por cima das gargalhadas ruidosas e do matraquear dos dados. Poucos dias antes de ele morrer, encontrei-me com Numério Pompeu. Tínhamos de trocar umas mensagens, destinadas a Pompeu e a Cícero. Encontrámo-nos aqui na Taberna Salaz, precisamente neste canto. Era o seu canto, dizia ele. Fiquei com a impressão de que ele conduzia um ou dois negócios exactamente do local onde estás sentado.

 

Eu estremeci, perante a ideia de o lémure do morto poder estar sentado ao meu lado.

 

Que género de negócios? Tiro hesitou.

 

Tanto quanto sei, Numério era leal a Pompeu. Nunca tive razões para pensar o contrário. Mas, da última vez que me encontrei com ele, afirmou saber umas coisas interessantes. Coisas perigosas.

 

Continua, Tiro. Estou a ouvir-te com atenção.

 

Numério bebeu mais do que devia. O que lhe soltou a língua. E estava muito excitado.

 

Com quê?

 

Com uns documentos a que tinha tido acesso. "Sentei-me em cima de uma coisa extraordinária", disse-me, sorrindo como uma raposa. "Uma coisa tão grande, que podia ser morto se tu soprasses uma palavra que fosse a alguém."

 

O que era, Tiro?

 

Tinha a ver com uma conspiração para matar César. Eu consegui emitir uma gargalhada sinistra.

 

Planeada por Pompeu?

 

Não! Uma conspiração no interior do campo do próprio César, envolvendo homens próximos dele. Como podia Numério saber da existência dessa conspiração, e que género de documentos tinha em seu poder, não sei. Mas foi isso que ele me disse. - Quando é que esse assassínio teria lugar?

 

Devia ter acontecido quando César atravessou o Rubicão, no momento em que invadiu a pátria e mostrou as suas reais intenções. Por qualquer razão, não aconteceu. Mas a verdade é que Numério continuava a pensar que ainda havia possibilidades de que acontecesse.

 

Esperanças! trocei eu.

 

Talvez. Mas ele afirmava dispor de provas da conspiração, sob a forma de documentos. Tiro inclinou-se para mim. Tu não sabes nada sobre isso, pois não, Gordiano?

 

O que queres dizer com isso?

 

Dizes que encontraste o relatório de Cícero no sapato de Numério. Que mais encontraste no mesmo sítio? Sê sincero comigo, Gordiano. Eu fui sincero contigo.

 

Eu inspirei profundamente.

 

Encontrei exactamente cinco fragmentos de pergaminho, todos da mesma cor e da mesma qualidade, escritos pela mesma mão e com a mesma cifra.

 

Tiro acenou com a cabeça.

 

Devia ser o relatório completo de Cícero; eram ao todo cinco páginas. E não encontraste mais nada?

 

Foi tudo o que encontrei no sapato de Numério.

 

Tiro encostou-se para trás. Momentos depois ergueu a taça e pediu mais vinho.

 

E uma taça decente, com um rebordo alisado! acrescentou, num tom suficientemente severo para desvanecer o sorriso do eunuco. Subitamente, apercebi-me da razão por que fora tão generoso com as suas informações. Estava à espera de que, em troca, eu lhe fornecesse informações relativas aos documentos da conspiração. Eu tinha-o desiludido.

 

Esperámos que chegasse o vinho, e bebemo-lo em silêncio. Do outro lado da sala, alguém gritou: "Caio Júlio!" Os dados matraquearam e o jogador pôs-se de pé com um salto. "Lance de César! O Lance de César bate todos!" O homem cantou vitória e apoderou-se dos ganhos.

 

Não sabe ganhar murmurei eu.

 

Pergunto a mim próprio se César saberá murmurou Tiro, em resposta.

 

Essa conversa que tiveste com Numério aqui na taberna, acerca de uma conspiração para matar César... foi uns dias antes de ele morrer.

 

Foi.

 

Mas, no dia em que morreu, eram os documentos de Cícero que ele trazia consigo. E não houve... Tinha de avançar com cautela. Não houve uma espécie de altercação nesse dia, entre Cícero e Numério, mesmo antes de ele sair de casa de Cícero para minha casa?

 

Altercação?

 

Gritos, suficientemente fortes para se ouvirem na rua.

- Malditos guardas! Foram eles que te disseram?

 

Não quero arranjar-lhes sarilhos... Tiro encolheu os ombros.

 

É possível que, nesse dia, Cícero tenha falado mais alto a Numério.

 

Falado mais alto? Praticamente berrava, de acordo com os guardas. Qualquer coisa sobre uma dívida a César. Era Numério que devia dinheiro a César... ou Cícero?

 

O rosto de Tiro revelou-me que tinha tocado num ponto sensível.

- Muitas pessoas devem dinheiro a César. Mas isso não põe em causa a sua lealdade a Pompeu ou ao Senado.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Só que... pela conversa que tive com a mãe dele, fiquei com a impressão de que Numério podia andar a fazer chantagem com alguém.

 

Tiro mudou de posição.

 

Acho que já estou farto deste vinho horrível. A partir de certo ponto, começa a piorar, em vez de melhorar. E esta maldita taça tem mais lascas do que a outra!

 

Tu estavas em Roma nesse dia, Tiro, no dia em que Numério morreu. Tê-lo-ás por acaso... seguido... quando ele saiu de casa de Cícero?

 

Acho que não estou a gostar do teu tom de voz, Gordiano. Estaria a pensar que eu suspeitava de que fosse ele o assassino?

 

Estava apenas a pensar se terias seguido Numério, e visto algum pormenor significativo. Outra pessoa a segui-lo, para além de ti, por exemplo. Ou alguém a quem ele pudesse ter entregue documentos antes de entrar em minha casa...

 

Tiro olhou-me de frente.

 

Sim, segui Numério. Cícero tinha curiosidade em saber onde ele ia. Por isso, eu segui-o ao longo da rua que contorna a colina, até tua casa. Esperei tanto tempo que ele voltasse a sair, que acabei por me convencer de que me tinha escapado. Como havia de saber que continuava lá dentro, mas morto? E não, não o vi passar por nada nem por ninguém, nem reparei em mais ninguém que fosse a segui-lo. E antes que me perguntes, não, também não vi ninguém saltar para o teu jardim pelo telhado... embora não pudesse propriamente vigiar os quatro lados de tua casa ao mesmo tempo, não achas?

 

Eu sorri.

 

E nem sequer te passe pela cabeça perguntar-me se eu trepei ao telhado para saltar para o teu jardim! Tentou ejectar na voz uma certa frivolidade. Viste bem com que cuidado tive de descer aquela escada vacilante em casa de Cícero!

 

Vi. Mas consegues subir e descer a escada, não consegues? Também tentei manter um tom ligeiro.

 

Pedi licença para ir à privada, que era à saída da porta das traseiras, do outro lado da viela, encostada a um muro. Havia diversos orifícios no chão pavimentado, mas os clientes alcoólicos da Taberna Salaz tinham má pontaria e o local fedia a urina estagnada. Ocorreu-me que a Cloaca Máxima, a linha central de esgotos que ia dar ao Tibre, devia estar localizada mesmo por baixo dos meus pés.

 

Quando regressei ao banco do canto, Tiro tinha desaparecido. Sentei-me e bebi mais uma taça de vinho, sem pressa de voltar para casa. A entrevista tinha rendido mais do que eu esperava. Onde estariam os documentos sobre os quais Numério se tinha gabado a Tiro poucos dias antes da sua morte? Quem mais saberia da sua existência? Tal como o pobre Numério, senti que me tinha sentado em cima de uma coisa extraordinária, se ao menos conseguisse deitar-lhe as mãos.

 

Os restantes dias de Februarius trouxeram o desespero aos apoiantes de Pompeu, e a alegria aos de César.

 

Animado por uma sequência permanente de vitórias, César continuou a avançar para sul e cercou Corfínio. Domício Aenobarbo, apanhado numa armadilha, enviou mensagens desesperadas a Pompeu, solicitando reforços. Pompeu respondeu secamente que não tinha qualquer intenção de auxiliar Corfínio, até porque Domício nem sequer tinha nada que estar ali.

 

Domício ocultou o conteúdo da carta aos seus oficiais, declarando que Pompeu ia a caminho, mas o seu comportamento agitado não iludiu ninguém. Nas costas dele, os seus oficiais decidiram entregar a cidade a César e evitar uma batalha.

 

O ressentimento de Domício contra César era pessoal e antigo. O avô e o pai de Domício tinham iniciado a colonização da Gália, conquistado os Alóbrogos e os Arvernos, construído estradas e estabelecido colónias romanas na costa, reunindo pelo caminho uma colossal fortuna familiar. A família acabara por considerar a região o seu domínio pessoal, do qual Domício seria o herdeiro. César era por eles considerado um arrivista, que se apoiara nos seus feitos para lançar as suas próprias conquistas. Quando Domício fizera a primeira tentativa de ascender ao governo da Gália do Sul, seis anos antes, César conseguira opor-se-lhe, mantendo o comando da região. Agora, a comissão de César expirara finalmente. A lei obrigava-o a resignar à Gália e a permitir que Domício lhe sucedesse. A resposta de César fora atravessar o Rubicão à cabeça do seu exército. Domício tinha boas razões para o detestar, e razões ainda melhores para o temer.

 

Apercebendo-se de que fora traído e prevendo uma morte ignóbil às mãos de César, ou uma morte ainda mais ignóbil às mãos dos seus próprios homens, em rebelião, Domício pediu ao seu médico que o envenenasse. Logo que Domício engoliu a dose, chegou a notícia de que César estava a tratar todos os prisioneiros, mesmo os seus piores inimigos, com clemência e respeito. Domício gemeu, arrancou o cabelo e amaldiçoou-se por ter sido precipitado até o médico, que conhecia o seu paciente melhor do que ele se conhecia a si próprio, lhe revelar que o que ele tinha bebido não era veneno, mas um narcótico inofensivo. Domício rendeu-se a César e foi autorizado a manter a cabeça em cima dos ombros.

 

Em Roma, os apoiantes de César afixaram no Fórum cópias do seu discurso ao entrar em Corfínio:

 

"Não deixei a minha província com o objectivo de fazer mal fosse a quem fosse. Apenas pretendo proteger-me contra as calúnias dos meus inimigos, devolver aos tribunos do povo, expulsos por terem aderido à minha causa, os cargos que legalmente lhes pertencem, e reclamar, para mim e para o povo romano, a independência relativamente ao domínio de uma pequena clique."

 

Os ricos e poderosos que se tinham mantido neutrais sentiram-se animados pelas notícias da clemência de César. Alguns dos que tinham fugido começaram a regressar à cidade.

 

Com o seu exército aumentado pelas tropas de Domício Aenobarbo e pelos reforços acabados de chegar da Gália, César prosseguiu o seu avanço para sul. Pompeu recuou e convocou todas as tropas lealistas para um encontro em Brundísio, no tacão de Itália.

 

É aí que Davo vai morrer disse Diana. Vai morrer entalado em Brundísio, com os restantes homens de Pompeu. César vai meter o pé na bota de Itália e esmagá-los a todos debaixo do tacão.

 

Até agora, César tem-se mostrado clemente disse eu, cautelosamente. Tomou Corfínio sem derramar uma única gota de sangue.

 

Mas agora é pior. Trata-se de Pompeu. Ele nunca se renderá a César.

 

Talvez Pompeu decida fugir, em vez de lutar.

 

Pelo mar? Mas Davo não sabe nadar! Eu tentei não sorrir.

 

Imagino que vão de barco, Diana.

 

Eu sei! Estou a pensar no clima. Ninguém anda de barco nesta altura do ano, se puder evitar. É muito perigoso, em especial a travessia do Adriático. Tempestades e naufrágios... estou sempre a ver Davo a flutuar, agarrado a um pedaço de madeira, com as ondas a cobrirem-lhe a cabeça, relâmpagos a toda a volta...

 

A maldição de uma imaginação hiperactiva era algo que ela herdara da mãe.

 

Davo é mais inteligente do que tu pensas disse eu. E sabe cuidar de si.

 

Isso não é verdade! É doce como o mel numa manhã de frio e igualmente lento, e tu bem sabes. E se Pompeu não fugir, e houver uma batalha, os homens de César contra os de Pompeu? Davo nunca tomaria a atitude mais sensata, que seria fugir. Havia de sentir que tinha obrigação de combater, por causa dos outros soldados. É assim que as coisas funcionam quando os homens participam em batalhas, não é? Camaradas e lealdade, até à última gota de sangue?

 

Eu não tinha resposta para aquilo. Participara numa única batalha na minha vida, lutando em Pistória ao lado de Catilina; o que ela dizia era verdade.

 

Diana fez uma careta.

 

Meto afirma que nem se sentem as feridas. A pessoa continua a combater, até não poder mais. Olhou para mim com os olhos cheios de um súbito horror. Davo e Meto poderão participar na mesma batalha, em lados diferentes. Poderão matar-se um ao outro!

 

A imaginação estava a tomar definitivamente conta dela. Levantei-me da cadeira e atravessei o escritório. Poisei-lhe as mãos nos ombros. Ela encostou-se a mim, e eu enlacei-a nos meus braços.

 

Davo foi treinado para guarda-costas, e não para soldado. Sabes isso perfeitamente, Diana. É dessa maneira que Pompeu vai usá-lo... para guardar a sua pessoa. Ele manterá Davo perto de si, dia e noite. Agora pergunto-te, onde é que Davo poderia estar mais a salvo? Pompeu não é um idiota. Vê como ele tem sido cauteloso até agora, recuando dois passos sempre que César avança um. É provável que Davo esteja mais seguro com Pompeu do que estaria em Roma.

 

E se houver uma batalha, e Pompeu estiver à frente da carga, conduzindo os seus homens? César faz isso; Meto diz que ele faz. Nessa altura, Davo estaria condenado. Como tu próprio disseste, foi treinado para ser guarda-costas. Preferirá sacrificar-se a permitir que Pompeu seja ferido. Nem sequer vai hesitar. Se vir uma espada dirigida ao coração de Pompeu, avança para ela!

 

Diana, Diana! Tens de parar de imaginar essas coisas! suspirei. Ouve, quero que feches os olhos. Agora, imagina Davo. O que estará ele a fazer neste preciso instante? Vou dizer-te. Está de guarda à tenda de Pompeu, entediado de morte, a esforçar-se por não bocejar. Pronto, consegues vê-lo? Eu consigo. Até consigo ver a mosca que anda a zumbir à volta da cabeça dele. Se ele bocejar, a mosca pode entrar-lhe na boca!

 

Oh, papá! Diana fungou e riu-se, apesar de si... Eu apertei-a mais.

 

Em que te parece que Davo estará a pensar neste momento? disse eu baixinho.

 

Na refeição seguinte, provavelmente disse ela, a rir.

 

Não. Está a pensar em ti, Diana. Em ti e no pequeno Aulo. Diana suspirou e aninhou-se contra mim. Eu fiquei satisfeito por ter conseguido consolá-la prematuramente, na verdade, porque logo a seguir ela estremeceu e desatou a chorar, afastando-se de mim.

 

Diana, o que foi agora?

 

Oh, papá, não consigo aguentar imaginar Davo assim, tão longe de casa, com tantas saudades de nós! Deve sentir-se completamente miserável, e não pode fazer nada contra isso. Papá, tens de prometer que o trazes de volta. Tens de fazer o que for preciso para no-lo trazeres de volta!

 

Mas, Diana...

 

Tens de descobrir quem matou o parente de Pompeu, e dizer a Pompeu, e obrigá-lo a devolver-nos Davo!

 

Eu abanei a cabeça.

 

Não sabes o que estás a pedir, filha.

 

Ela lançou-me um olhar confuso, insatisfeito e desesperado. Vi nos seus olhos uma coisa que nunca vira anteriormente. Pela primeira vez, ocorreu-lhe que o seu querido pai, que sempre tivera a solidez de uma rocha, poderia muito simplesmente, passada a Primavera da sua vida, ter envelhecido e sentir-se incapaz de proteger a família. Eu queria garantir-lhe que nada poderia estar mais longe da verdade, mas parecia-me que a minha língua se tinha transformado em chumbo.

 

Era como se aquele dia, o primeiro de Martius, estivesse destinado a entrevistas com jovens perturbadas.

 

Mal Diana saiu do meu escritório, entrou Mopso a correr. No irritável estado de espírito em que me encontrava, ocorreu-me que ele e o irmão nunca andavam, fosse onde fosse, dentro ou fora de casa. Parecia que só tinham dois estados de ser: em repouso ou numa correria desenfreada.

 

Senhor, tens uma visita.

 

E ele tem nome?

 

Não é um ele. É uma ela. Eu encostei-me na cadeira.

 

Ainda assim, imagino que tenha nome.

 

Ele franziu o sobrolho e eu percebi que, entre o átrio e o meu escritório, se tinha esquecido do nome da visitante. Os humanos são como os animais de Esopo, pensei; a sua natureza essencial nunca muda. Davo seria sempre um guarda-costas. O meu filho Meto seria sempre um estudioso e um soldado. E Mopso, educado num estábulo para cuidar de animais de transporte, nunca seria aceitável como escravo de portaria.

 

De que género de mulher se trata? perguntei. É da alta? Ele pensou um pouco.

 

Tem guarda-costas. À parte isso, é difícil dizer, pela maneira como vem vestida. Toda de preto.

 

Seria Mécia, que teria vindo questionar-me sobre os progressos, ou a falta deles, na investigação da morte do seu filho? Não exultei à ideia de voltar a vê-la... a não ser que ela tivesse encontrado em sua casa novas provas das actividades de Numério... talvez mesmo os documentos onde estavam registados os pormenores da conspiração contra a vida de César...

 

Velha ou nova?

 

Mopso reflectiu.

 

Nova. Talvez da idade de Diana.

 

Nesse caso, não se tratava de Mécia, embora viesse de preto. Franzi o sobrolho. Numério não era casado. Nem tinha irmãs. Mas talvez...

 

Manda-a entrar disse.

 

E os guarda-costas?

 

Têm de ficar à porta, evidentemente. Mopso riu-se.

 

Eles são três, mas aposto que nem todos juntos conseguiam passar pelo Cara de Cicatriz! Ultimamente, Mopso e o irmão tinham-se tornado amigos de Cicatrix. Curiosamente, o horrendo monstro parecia corresponder ao sentimento; era frequente ouvir os risos dos três na entrada ou do lado de fora da porta principal, as gargalhadas ásperas de Cicatrix em estranho contraponto com os risos leves dos rapazes. Eu continuava a desconfiar do sujeito, e teria todo o gosto em me livrar dele, mas já não tinha medo dele, como tivera ao princípio. Ele desempenhava-se de forma excelente da tarefa de guardar a porta principal. A sua atitude relativamente a Betesda e a Diana era taciturna, mas não ameaçadora. Era manifesto que preferia estar a guardar o Grande e considerava o serviço em casa de uma não-entidade como eu abaixo da sua categoria, mas tínhamos conseguido elaborar uma forma rabugenta de comunicar um com o outro. Eu dava-lhe ordens secas. Cicatrix franzia o sobrolho e rosnava, mas fazia o que eu lhe mandava.

 

Mopso saiu a correr do escritório. Eu fui até ao jardim, pensando que seria um local mais agradável para receber uma jovem. O tempo estava temperado para as Calendas de Martius, com pouco vento e uma ou duas nuvens altas percorrendo o céu frio e azul.

 

Momentos depois, entrou a visitante. Não usava a estola das mulheres casadas, mas a túnica comprida das raparigas, vinha toda de preto e coberta por uma pesada capa, tão preta como o seu cabelo, que estava preso no alto da cabeça com ganchos e pentes, num estilo elaborado que não combinava com a leveza do seu rosto. O perfume que usava também parecia adulto de mais para ela; chegou-me às narinas uma lufada de jasmim e nardo indiano. Mopso tinha calculado que ela fosse da idade de Diana. A mim pareceu-me mais nova, com uns dezassete ou dezoito anos, no máximo. Tinha as mãos e o rosto tão brancos como um peito de rola.

 

Olhou para mim com circunspecção, de baixo das sobrancelhas escuras.

 

Chamas-te Gordiano?

 

Chamo. Quem és tu?

 

Sou Emília, filha de Tito Emílio.

 

Olhei para a porta por onde ela tinha entrado, na expectativa.

 

Onde está a tua acompanhante?

 

Emília mostrou-se pouco à vontade e baixou os olhos.

 

Vim sozinha.

 

Uma rapariga com a tua idade e a tua posição, circulando por Roma sem uma acompanhante?

 

Trouxe guarda-costas.

 

Ainda assim... O teu pai sabe que andas na rua?

 

O meu pai está ausente. Foi com Pompeu.

 

Claro. E a tua mãe?

 

Voltámos a Roma há poucos dias. Estávamos na nossa villa da costa, mas a mãe diz que, nesta altura, devemos estar mais seguras aqui em Roma. Ela está ocupada, anda pelas lojas e pelos mercados. Eu devia ter ido com ela. Mas disse-lhe que não me sentia bem e que precisava de ficar em casa.

 

E em vez disso vieste visitar-me.

 

Sim.

 

E sentes-te realmente mal? Pareces pálida.

 

Ela não respondeu, mas olhou nervosamente à volta do jardim, até que o seus olhos se fixaram na estátua de Minerva, que estava atrás de mim. A visão da deusa pareceu dar-lhe forças. Era para o rosto de Minerva, e não para o meu, que estava a olhar quando falou. Provavelmente, não teria grande experiência de se dirigir a um homem adulto.

 

Venho de casa de Mécia. Foi ela que me falou de ti.

 

E o que foi que Mécia te disse?

 

Que tu andavas à procura... A coragem pareceu faltar-lhe. Baixou os olhos para o chão. Foi aqui que aquilo aconteceu?

 

Eu inspirei profundamente.

 

Se estás a referir-te à morte de Numério Pompeu, sim, foi neste jardim que isso aconteceu.

 

Ela estremeceu e apertou mais a capa preta à volta do pescoço.

 

Eras parente dele? perguntei.

 

Não.

 

Mas estás de luto.

 

Ela mordeu os lábios, que pareciam vermelhos de sangue por contraste com as faces pálidas.

 

Ele era... ele e eu... íamos casar-nos. Eu abanei a cabeça.

 

Não sabia.

 

Ninguém sabia.

 

Não compreendo.

 

Ninguém sabia. Pompeu tinha planos para ele se casar com outra pessoa. Mas Numério tinha-me escolhido. Numério escolheu-me a mim.

 

De repente compreendi, pela maneira como ela tocava em si própria, com uma mão inconscientemente poisada sobre o ventre.

 

Estou a ver.

 

Estás? A sua cara registou uma confusão de orgulho e alarme. Mécia também percebeu. É assim tão óbvio?

 

Eu abanei a cabeça.

 

Ainda não se nota, se é isso que queres dizer.

 

Aqui não. Ela olhou para baixo e tocou no ventre. Mas deve notar-se na minha cara. E por que não? Eu devia ser a viúva dele. O bebé devia nascer com o nome dele. E agora...

 

O que vieste aqui fazer, Emília? Ver o sítio onde ele morreu? Ela fez uma careta.

 

Não. Não gosto de pensar nisso.

 

Nesse caso, o que vieste aqui fazer? O que queres de mim? Os seus olhos encontraram-se com os meus um instante, depois ela olhou para além de mim, para Minerva, enquanto se esforçava por pôr os seus pensamentos em palavras. Eu ergui a mão. Deixa lá. Já sei. Queres de mim o mesmo que toda a gente quer: Pompeu, Mécia, até Diana... Abanei a cabeça. Por que razão terei percebido imediatamente tratando-se de ti, e quando foi a minha filha quase tive de ser atingido por um relâmpago antes de ver o que era óbvio? E as pessoas acham que Gordiano é muito inteligente, capaz de ver aquilo que os outros não vêem! Emília olhou para mim, estupefacta. Eu suspirei.

 

Há quanto tempo sabes?

 

Do bebé? Soube antes de a mãe e eu sairmos de Roma. Não tinha a certeza, mas sabia. Desde essa altura, a lua inchou e desinchou, e voltou a inchar, e agora não há dúvida nenhuma. Sinto-o dentro de mim. Sei que ainda é cedo para isso, mas juro que por vezes o sinto.

 

O filho dele... disse eu. Tal como Emília, imaginando que sentia a nova vida dentro de si, eu parecia sentir neste jardim outra presença, uma presença muito diferente. Que engodo mais forte do que esta criança por nascer poderia atrair o lémure de um homem assassinado ao local onde fora morto? Voltei-me e tive um sobressalto, quase certo de ter visto uma sombra mover-se por trás da estátua de Minerva. Mas era apenas um efeito da luz.

 

Ele sabia? Contaste a Numério? Ela acenou com a cabeça.

 

Da última vez que o vi... na véspera de ele morrer. Tínhamos um local secreto onde nos encontrávamos. Ela baixou os olhos. Nós... depois... eu contei-lhe. Estava com receio de que ele ficasse furioso. Mas não ficou. Ficou feliz. Nunca o tinha visto tão feliz. Disse-me: "Agora Pompeu vai ter de desistir dos seus planos e deixar-nos casar. Vou contar-lhe esta noite." No dia seguinte, tínhamos combinado encontrar-nos outra vez, para ele me dizer como tinha Pompeu reagido, mas ele não apareceu. Mordeu o lábio. Foi no dia em que toda a gente pensava que César estava a chegar, e Pompeu decidiu sair de Roma, e o meu pai decidiu mandar-nos, à mãe e a mim, para a villa, e passámos a noite inteira a arrumar coisas, como doidas, e eu não dormi nada... Inspirou, ergueu os olhos e olhou intensamente para o rosto de Minerva. Na manhã seguinte, estávamos na carroça, atrás das outras carroças que iam partir pela Porta Capena. Uma amiga da mãe aproximou-se. Falaram sobre a possibilidade de César estar realmente a chegar à cidade, e dos partidos que as pessoas estavam a tomar, e depois, para ela, foi apenas mais um mexerico, a mulher disse: "Ouviste o que aconteceu? Numério Pompeu foi assassinado ontem! Estrangulado..." Disse aquilo tão depressa, e mudou de assunto com tanta rapidez, que eu pensei que devia ter sido imaginação minha. Mas sabia que não tinha sido. Sabia que era verdade. Senti uma coisa afiada dentro do peito, como uma pedra denteada. Acho que devo ter desmaiado. Só me lembro de estarmos já na Via Ápia. Por momentos, pensei que tinha sonhado com tudo aquilo, mas sabia que não. Continuava a ter a pedra dentro do peito. Doía-me respirar.

 

Quem mais sabe da existência do bebé?

 

Escondi-o à minha mãe enquanto pude. Ela sabia que se passava qualquer coisa, mas pensou que eu estivesse apenas preocupada por causa do pai, e perturbada por tudo aquilo que estava a acontecer. Mas quando regressámos a Roma tive de lhe contar. Não ficou tão zangada como eu pensei que ficaria.

 

Quer dizer que o teu pai não sabe? Ela baixou o rosto.

 

A mãe diz que ele nunca pode saber.

 

Mas como é. que isso pode ser? Mesmo que Pompeu saia de Itália e leve o teu pai consigo, é possível que regressem antes de a gravidez chegar ao fim. E, quando tiveres o bebé, alguém há-de falar; há sempre alguém que fala. Não podes esperar... Depois calei-me, porque compreendi o que ela me tinha dito.

 

Esta manhã, quando fui visitá-la, contei tudo a Mécia... sobre Numério e eu, sobre o bebé. Chorámos juntas. Ela diz que eu não posso livrar-me dele. Diz que é tudo quanto resta do seu menino, do seu filho. Mas não é a ela que compete tomar a decisão. Também não me compete a mim. A mãe diz que eu tenho de me livrar dele.

 

Eu tinha a boca seca.

 

Não é a tua mãe, mas o teu pai, quem tem poder legal sobre o bebé que trazes dentro de ti.

 

Se o pai soubesse, mandava-me matar! Seria legal e adequado, não seria?

 

Certamente não faria semelhante coisa! E se ele estiver ausente um ano e, ao voltar, te encontrar, a ti e à criança...

 

Pode livrar-me dele na mesma, expondo-o numa colina fora da cidade, deixando-o morrer à fome ou ser comido pelos chacais. Depois, mandava-me embora para um sítio qualquer, como se esconde um pote rachado no fundo de um armário. Engoliu em seco. Não, a mãe tem razão. Se o pai cá estivesse, exigiria que eu me livrasse do bebé enquanto posso. Pode ser que ainda consigam encontrar um marido para mim, compreendes? A mãe diz que, de qualquer maneira, não estaria certo trazer uma criança sem pai a um mundo como este...

 

Começou a chorar.

 

Eu resisti ao impulso de a consolar. Estiquei os braços na vertical e fechei os punhos. Olhei por cima do ombro e pareceu-me que Minerva me contemplava com um sorriso trocista.

 

Emília, o que vieste aqui fazer?

 

Não sei... Mécia disse-me que tinhas sido a última pessoa a vê-lo... e que agora tudo depende de ti.

 

Mas, Emília, eu nada posso fazer por ti.

 

Podes pelo menos descobrir quem o matou... quem matou... o meu bebé. Ela viu a confusão estampada na minha cara. Não percebes? Se Numério não tivesse sido assassinado, teria arranjado maneira de se casar comigo. Tenho a certeza disso. Eu podia ter tido o nosso filho! Depois, mesmo que Numério me fosse arrancado, morto numa batalha ou perdido no mar, eu teria o bebé, e o bebé teria o nome dele. Mas agora... agora não haverá bebé nenhum. Não percebes? Quem matou Numério, é como se me tivesse espetado uma faca no ventre!

 

A sua dor irrompeu num longo e intenso gemido, que chegou até à parte da frente da casa. Ouvi pancadas na porta e uma rixa, e momentos depois os três guarda-costas que ela trouxera consigo irromperam no jardim, de espada na mão. Cicatrix vinha atrás deles, rugindo furiosamente e brandindo a sua própria espada. A cicatriz que lhe atravessava a cara estava lívida, como se tivesse sido acabada de fazer. Ele contornou os guarda-costas e correu para o meu lado, onde assumiu uma posição defensiva, com os braços estendidos e os joelhos flectidos, pronto para saltar. Os três homens armados aproximaram-se de nós com expressões bravias.

 

Emília olhou à volta, espantada, depois apercebeu-se do que se estava a passar. Engoliu os soluços e ergueu os braços, chamando os guarda-costas para junto de si. Eles recuaram e rodearam-na. Um deles trocou uns sussurros com ela, depois com os outros dois. A ameaça de derramamento de sangue permanecia no ar, como um odor pungente e penetrante.

 

Emília avançou para mim, de cabeça baixa. Os guarda-costas avançaram com ela, de espadas em punho, olhando cautelosamente para mim.

 

Perdoa-me murmurou ela. Não queria... Eu acenei com a cabeça.

 

Vou-me embora. Não sei o que vim cá fazer. Mas pensei... Esperava que tu pudesses... Não sei. Voltou-se para se ir embora. Os guarda-costas retiraram-se com ela, o último às arrecuas, sem tirar os olhos de Cicatrix e de mim.

 

Espera! disse eu.

 

Ela parou e olhou por cima do ombro. Eu avancei na sua direcção, aproximando-me o máximo que me atrevia. Mas foi demasiado para Cicatrix, que me agarrou no braço para me impedir de prosseguir.

 

Emília, falaste de um local secreto onde vocês se encontravam. A sua cara, já vermelha, ficou ainda mais corada.

 

Sim.

 

Esse local pertencia a Numério?

 

Pertencia à família dele. Eles têm uma série de propriedades no Bairro de Carinas.

 

E esse sítio... onde é?

 

Ela avançou na minha direcção e fez um gesto, indicando aos guarda-costas que recuassem. Eu fiz um gesto a Cicatrix para que se afastasse.

 

Era um edifício de apartamentos arrendados disse Emília em voz baixa. Um sítio horrível, malcheiroso. Mas havia um apartamento vazio no andar superior. Da janela, via-se um bocadinho do Monte Capitolino... Ela olhou para o vazio, com os olhos brilhantes de lágrimas.

 

E só tu e Numério sabiam da existência desse local?

 

Não sei. Acho que ele herdou o edifício do pai, mas o tio dele, Mécio, também participava na gestão.

 

Mas o apartamento... era o esconderijo de Numério?

 

Sim. Ele tinha lá algumas coisas. Uma lamparina, umas roupas... uns poemas que eu lhe dei.

 

Poemas?

 

Poemas gregos de amor que eu copiei para lhe dar. Costumávamos lê-los um ao outro...

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Quer dizer que era um local onde ele poderia guardar... outras coisas secretas?

 

Não sei. Por que perguntas?

 

Podem lá estar uns documentos. Ela abanou a cabeça.

 

Não me parece. Não havia nenhuma estante para rolos de pergaminho. Nem sequer um cofre para guardar papéis. Ele tinha de guardar os meus poemas debaixo da cama.

 

Apesar disso, tenho de lá ir.

 

Ela mordeu o lábio, depois abanou a cabeça.

 

Por favor, Emília. Pode ser muito importante. Posso vir a descobrir os documentos que foram responsáveis pela morte de Numério.

 

Ela olhou para Minerva, depois para mim. Tinha tomado uma decisão.

 

O edifício fica na esquina da Rua dos Cesteiros com uma pequena viela que segue para norte. Está pintado de vermelho, mas a tinta começou a cair, e vê-se uma camada amarela por baixo. O apartamento fica no quarto andar, no canto sudoeste. A porta tem uma fechadura, mas a chave está por baixo de uma tábua solta do chão, uma tábua que tem um arranhão profundo ao comprimento e fica a três passos do patamar.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Hei-de descobri-la.

 

Se lá fores, hás-de encontrar os poemas de amor. Ficar-te-ia grata se pudesses... disse ela, tocando-me no braço.

 

Com certeza. Hei-de arranjar maneira de tos devolver. Ela abanou a cabeça.

 

Não, não posso tê-los em minha casa. Mas não consigo suportar a ideia de que sejam lidos por outra pessoa. Queima-os. Voltou-se e juntou-se aos guarda-costas

 

Eu segui atrás deles pela casa fora. Quando íamos a chegar ao átrio, o pequeno Aulo apareceu não se sabe de onde e atravessou-o a correr, rindo e batendo as palmas mesmo em frente de Emília. Mopso e Ândrocles chegaram a correr atrás dele, mas nessa altura já Emília tinha estremecido e fugido a correr pela porta fora, com os guardas atrás dela em bom ritmo.

 

Nessa noite, não conseguia parar de me agitar e me voltar. Finalmente, Betesda virou-se para mim:

 

Não consegues dormir, marido?

 

O luar colocava reflexos de prata nos seus cabelos soltos, mas deixava-lhe os olhos na sombra.

 

Estou a pensar na rapariga que veio visitar-me hoje. Tinha-lhe contado a história de Emília ao jantar.

 

Uma tristeza disse Betesda.

 

Sim. Estava a perguntar a mim próprio... Não sei muito bem como é que se faz.

 

O quê?

 

- Como é que as pessoas se livram de um bebé.

 

Betesda suspirou na escuridão.

 

- É uma daquelas coisas que a maioria dos homens não tem grande interesse em saber. Há várias maneiras. Pode ser com uma vara de salgueiro...

 

De salgueiro?

 

Descascada. Tem de ser esguia e flexível, para chegar até ao útero. Eu acenei com a cabeça.

 

A rapariga pode tomar veneno.

 

Veneno?

 

Uma coisa suficientemente forte para matar o bebé e expulsá-lo do corpo dela. Faz-se um chá forte, com raízes e ervas e fungos. Arruda, erva-moura, morrão...

 

Mas isso não pode matar também a mãe?

 

Às vezes mata. Vi a rapariga quando ela ia a sair. Pareceu-me bastante frágil. Betesda suspirou fatigadamente e voltou-se para o outro lado.

 

Eu fiquei a olhar para o tecto. Emília achava que o assassino de Numério era igualmente responsável pela destruição do seu filho por nascer.

 

Se Emília morresse ao abortar o bebé, tornar-se-ia o assassino de Numério responsável por três mortes?

 

Perguntei a mim próprio se, nas horas frias e escuras da noite, homens como César ponderariam jamais estas cadeias de responsabilidade. César considerava que matar um homem no campo de batalha era um acto honroso. E quanto à viúva e aos filhos do homem, condenados a morrer de fome, ou aos pais, que morriam de desgosto, ou à amante, que se matava em desespero, ou a aldeias inteiras que perecem de fome e doença na esteira da guerra? Quantas cadeias semelhantes de sofrimento e morte irradiavam de todos os campos de batalha da Gália? Quantas baixas destas haveria em Itália, agora que César tinha atravessado o Rubicão?

 

Continuei a agitar-me e a voltar-me, sem conseguir adormecer.

 

No dia seguinte, levando Mopso e Ândrocles comigo, dirigi-me ao Bairro de Carinas. Tinha-me esquecido onde ficava exactamente a Rua dos Cesteiros. Mopso achava que sabia. E Ândrocles também. Para a direita, dizia Mopso. Para a esquerda, dizia Ândrocles. Enquanto eles discutiam, eu perguntei a um escravo que ia a passar com os braços carregados de cestos. Ele apontou em frente. Eu segui as indicações dele e já quase tinha dobrado uma esquina quando os miúdos se aperceberam e correram atrás de mim.

 

Ao longo da rua, que era estreita e em curva, alinhava-se uma série de lojas com as portas abertas e as mercadorias em exposição. Cestos dispersos sobre mesas de tripé. Mais cestos suspensos de cordas que se entrecruzavam por cima da nossa cabeça. Muitos deles eram produtos locais, mas os melhores e mais caros vinham do Egipto, eram feitos de juncos do Nilo, com fios coloridos entrelaçados na estrutura, formando padrões intrincados e imagens repetidas. Cometi o erro de parar para ver um curioso espécime, decorado com uma banda circular de hipopótamos do Nilo. O proprietário da loja aproximou-se imediatamente de mim.

 

Chamam-lhes hipopótamos disse ele.

 

Sim, eu sei. Vivi algum tempo no Egipto quando era novo.

 

Então de certeza que queres comprar o cesto, como recordação. Foi feito para ti!

 

Eu sorri, abanei a cabeça, e segui em frente. O homem veio atrás de mim pela rua fora, a atormentar-me e a acenar com o cesto. Quando me recusei a comprá-lo, atirou o cesto ao chão, soltando uma praga. Os tempos estavam difíceis na Rua dos Cesteiros.

 

Não foi difícil localizar o edifício vermelho e amarelo que Emília me tinha descrito. Tinha uma aparência gasta, com camadas sobrepostas de tinta e portadas partidas penduradas das janelas. Alguém estava a cozer couves num dos apartamentos. Um bebé chorava. O som fez-me pensar em Emília.

 

Há proprietários de edifícios de apartamentos que colocam um escravo à porta para impedir a entrada de ladrões e desordeiros, mas eu não vi escravo nenhum à entrada e, quando experimentei a porta, também não encontrei fechadura. Era difícil imaginar que dentro de semelhante edifício houvesse alguma coisa capaz de tentar um ladrão.

 

Mopso disse eu, quero que fiques de guarda do outro lado da rua enquanto Ândrocles e eu entramos. Tenta não parecer um escravo fugido a preparar alguma.

 

Eu fico de guarda! disse Mopso com ardor. Se aparecer alguém com aspecto perigoso e entrar atrás de ti, corro lá acima a avisar-te.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Não, Mopso. Parece-me muito provável que neste edifício vivam diversos homens de aspecto perigoso, e mulheres, já agora; isto é um bairro perigoso. Mas as pessoas que habitam nos edifícios têm de entrar e sair deles. Como é que conseguias distinguir aqueles que têm assuntos legítimos a tratar neste edifício, dos que não têm?

 

Mopso coçou a cabeça.

 

E se algum assassino entrasse neste edifício, tencionando fazer-me mal, como é que passavas por ele para me avisar?

 

Mopso franziu o sobrolho. Ândrocles tapou a boca, rindo-se da consternação do irmão mais velho. Eu apoiei as mãos nos ombros de ambos e levei-os para o outro lado da rua.

 

Mopso, quero que fiques precisamente aqui. Muito bem, estás a ver aquela janela de esquina, no quarto andar? A que tem as portadas intactas? Quero que vigies essa janela. Daqui a bocado, se tudo correr bem, eu vou abrir essa janela e acenar-te. Não me respondas ao aceno. Mas continua a vigiar a janela. Se alguma coisa correr mal, voltarás a ver-me, ou a Ândrocles, naquela janela. Se nós gritarmos a pedir ajuda, vais a correr a casa de Eco avisá-lo. Achas que consegues descobrir o caminho para casa de Eco a partir daqui? É no cimo do Monte Esquilino.

 

Mopso acenou com a cabeça em silêncio, com os olhos muito abertos perante a gravidade do encargo.

 

Óptimo. Agora, não tires os olhos da janela!

 

Atravessei a rua com Ândrocles e entrei no edifício. O átrio, estreito e deserto, estava silencioso, à excepção do bebé que chorava. Os inquilinos, à semelhança da maioria dos habitantes de Roma, encontravam-se nos mercados à procura dos bens necessários à vida, que se tornavam cada dia mais raros.

 

Ao fundo do átrio, havia uma escada que ia dar aos andares superiores. Comecei a subi-la, com Ândrocles atrás de mim.

 

Vamos visitar um apartamento secreto, Ândrocles, onde não temos nada que estar. Vou precisar que fiques de guarda à porta.

 

Ele imitou o solene aceno de cabeça do irmão.

 

E também posso precisar de ti para algo ainda mais importante.

 

O quê, Senhor?

 

Vou à procura de uma coisa. É possível que esteja bem escondida e seja difícil de encontrar. E que um par de mãozinhas pequenas se tornem muito úteis.

 

Eu tenho as mãos mais pequenas do que Mopso gabou-se ele, erguendo-as diante de mim.

 

Pois tens.

 

Chegámos ao patamar do terceiro andar. O som do choro do bebé tinha diminuído de volume. O cheiro a couve era cada vez mais intenso, agora combinado com outros cheiros: cebolas, perfume, óleo de lamparina, urina velha. O que teria a filha de Tito Emílio pensado de semelhante lugar?

 

Chegámos ao último andar. O corredor estava vazio e pouco iluminado. Com um gesto, indiquei a Ândrocles que avançasse em silêncio.

 

Localizei a tábua solta, que ficava exactamente onde Emília me dissera. A chave estava metida num pequeno espaço por baixo dela. Não se tratava de uma chave clássica, com entalhes, destinada a ser inserida numa fechadura para dar uma volta, mas de uma pequena vara de bronze, com curvas excêntricas para um lado e para o outro, como se tivesse sido acidentalmente pisada pela roda de uma carroça. Na ponta, tinha um minúsculo gancho.

 

A descoberta de semelhante chave é apenas meio caminho andado para abrir a respectiva porta. A forma excêntrica permite-lhe deslizar pela passagem igualmente excêntrica que constitui a fechadura. Uma vez lá dentro, é preciso que o gancho da ponta encontre o olho para que foi feito, coisa que, a não ser que o utilizador já tenha aberto aquela fechadura, pode exigir uma quantidade razoável de tentativas e erros.

 

Voltei a pôr a tábua no lugar e avancei para a porta. A fechadura era uma caixa de bronze aparafusada à madeira a partir de dentro. Num edifício negligenciado e inseguro como aquele, o elaborado mecanismo parecia manifestamente deslocado.

 

Meti a chave, fi-la girar para um lado e para o outro, para tentar perceber como era o orifício, depois tentei imaginar como seria a estrutura onde o gancho tinha de entrar. Estaria voltada para cima ou para baixo? Estaria mais para dentro ou mais para fora? Seria de agitar ou de rodar? Tentei diversos movimentos, por fim retirei a chave e recomecei. Voltei a não ter sorte. Já com a paciência prestes a esgotar-se, Voltei a tirá-la e tentei de novo. Desta vez, pareceu-me ter localizado um orifício divergente. A chave penetrou noutra direcção. O gancho ficou preso em qualquer coisa. Sustive a respiração, dei a volta à chave e puxei para mim. A fechadura deu um estalido convincente. A porta abriu-se.

 

Atrás de mim, ouvi Ândrocles soltar uma respiração longo tempo sustida. Olhei por cima do ombro e fiz um aceno de cabeça em direcção às escadas.

 

Fica de guarda ao patamar sussurrei. Se ouvires alguém subir, vem dizer-me, mas sem fazer barulho. És capaz?

 

Ele acenou com a cabeça e aproximou-se das escadas em bicos de pés.

 

Eu entrei e encostei a porta atrás de mim. O quarto estava ainda mais escuro do que o corredor. Fui até à janela, que ficava no canto sudoeste e estava tapada com umas pesadas cortinas de Inverno, feitas de um tecido de qualidade muito superior, calculei eu, a qualquer coisa que se encontrasse nos restantes apartamentos. Afastei-as e abri as portadas. Por cima dos telhados, tal como Emília me dissera, avistei os templos sagrados que ficavam no alto do Monte Capitolino. Mopso estava do outro lado da rua, encostado a um muro, de braços cruzados, a bater ociosamente com os calcanhares no chão. Ergueu os olhos quando ouviu abrir as portadas. Eu acenei-lhe. Ele descruzou os braços e começou a responder ao aceno, mas depois parou. Espreitou para um lado e o outro da rua, endurecendo a sua postura e tentando ter um aspecto formidável. Abanei a cabeça. Se eu lhe tivesse pedido especificamente que tivesse o aspecto de um escravo fugido a preparar-se para fazer estragos, ele não teria dado melhor conta de si.

 

Voltei-me e observei o quarto. Estava escassamente mobilado, com um canapé baixo e uma pequena arca encostada a uma parede. Talvez não passasse, afinal, de um ninho de amor. As necessidades dos amantes são simples.

 

Em cima da arca, via-se uma vulgar lamparina de óleo, um recipiente com óleo de reserva, e um pequeno espelho redondo. Espreitei para dentro da lamparina e do recipiente e despejei óleo de um para outro até ficar com a certeza de que não continham mais nada. O espelho era de prata compacta, sem compartimentos secretos. Olhei de relance para o meu reflexo. Vi um homem de barba, de sobrancelhas espessas e olhos claros, ainda não totalmente grisalho e com um aspecto bastante jovem para a idade, um sinal do favor dos deuses. O facto de se tratar do espelho de Emília incomodou-me. Poisei-o.

 

A arca não estava fechada. Lá dentro, encontrei algumas peças de roupa uma tanga e uma túnica de homem, uma capa que podia ser usada por qualquer dos sexos. Havia também uma segunda coberta para a cama. Mesmo ao fundo, um pequeno punhal. Era tudo.

 

A arca não parecia conter nada de significativo. Mas, recordando-me de que Numério Pompeu transportava relatórios confidenciais no sapato, voltei a olhar para todos os objectos. Seguro de que não havia compartimentos secretos no punhal, usei-o para abrir as bainhas de todas as peças de roupa. Tinha trazido um punhal para este fim, mas o dele pareceu-me estar mais afiado. Nada encontrei.

 

Examinei a arca vazia. Com o punhal, desfiz as dobradiças e cortei o couro. Virei-a ao contrário e dei umas pancadinhas na base, atento ao possível eco de vazio de algum compartimento escondido. A arca era apenas uma arca vulgar.

 

Voltei a minha atenção para a cama.

 

Tratava-se de uma peça de mobiliário de excelente qualidade, tal como as cortinas, certamente melhor do que qualquer coisa passível de ser encontrada nos humildes apartamentos deste andar ou dos andares inferiores. A base era totalmente em ébano, com as pernas floreadamente esculpidas. Encostada à parede, uma cabeceira de ébano com incrustações de marfim corria a todo o comprimento da base, desde o tecto até ao chão. Emília devia deitar-se do lado de dentro, encostada à cabeceira e à parede; Numério teria ficado do lado de fora, como é habitual nos homens. Certa vez, expliquei a Betesda que era assim para o homem proteger a mulher durante o sono. Ela riu-se e disse que era assim porque os homens precisavam de se levantar para ir verter águas com mais frequência durante a noite.

 

Mas eu imaginei que os amantes pouco tivessem dormido nesta cama. Deviam encontrar-se aqui durante o dia; parecia-me duvidoso que Emília conseguisse escapar à vigilância dos pais depois de escurecer. Era uma cama para as horas de luz, uma cama para amar, e não para dormir. A cama onde fora concebido o filho de ambos.

 

O espesso colchão estava coberto com um lençol de linho, negligentemente entalado nos cantos. Sobre ele, fora lançada uma colcha de lã. Havia diversas almofadas espalhadas. A cama tinha uma aparência amarrotada, usada. Era óbvio que tanto Numério como Emília estavam habituados a que um escravo lhes fizesse a cama e, ou não sabiam fazê-la, ou pouco lhes importava. Não era a arrumar a casa que eles ocupavam o seu tempo neste quarto.

 

Puxei a colcha e descosi as bainhas. Não havia nada escondido no seu interior.

 

Puxei o lençol de linho. Era fino de mais para esconder fosse o que fosse. Tinha um leve odor. Levei-o ao nariz e cheirou-me a jasmim, a espicanardo, a corpos quentes. Por instantes, imaginei-o enrolado à volta de Emília, colado a ela. Imaginei os dois deitados lado a lado, só com o lençol a tapá-los. Abanei a cabeça para afastar estes pensamentos.

 

As almofadas e o colchão eram os locais mais prováveis para esconder qualquer coisa. Puxei-os da cama e vi diversos fragmentos de pergaminho escondidos por baixo do colchão, por cima da rede de tiras de couro esticadas entre os quatro pés da cama. Se se tratava dos poemas de amor gregos de Emília, copiados à mão por ela, eu não tinha qualquer desejo de os ler. Mas não tinha maneira de saber do que se tratava se não os examinasse.

 

Olhei para o primeiro poema. A letra era timidamente fantasista, dolorosamente infantil. As palavras nem por isso.

 

Quando olho para ti fico sem fala.

 

Quebra-se-me a língua. Uma chama ténue percorre-me o interior da pele. Deixo de ver. Os meus ouvidos ribombam. Desato a suar.

 

Uma tremura toma conta de mim.

 

Fico mais verde do que a erva. Sinto-me perto da morte. Sem saber bem como, consigo suportar tudo isto, quando olho para ti...

 

Safo, claro. Que adolescente enamorada seria capaz de resistir à poetisa de Lesbos?

 

Obriguei-me a ler os outros poemas, um por um. As palavras fizeram-me corar intensamente.

 

Por fim, tendo-os lido todos, examinei os fragmentos de pergaminho pela frente e pelo verso. Fui até à janela e ergui cada um deles contra a luz, procurando vestígios de tinta invisível de limão ou de perfurações que pudessem constituir um código, mas nada encontrei. Os poemas de amor eram apenas isso, pedaços de Safo e do meu velho amigo Catulo, copiados por uma rapariga sonhadora, para passar as horas que mediavam entre as visitas ao seu amado. Incriminadores, sem dúvida, mas apenas se fossem lidos pelos pais dela.

 

Pelo canto do olho, vi Mopso à esquina da rua. Estava a acenar-me. Franzi o sobrolho, abanei a cabeça, e recusei-me a olhar para ele. Tinha-lhe dito especificamente que não acenasse, pois isso atrairia as atenções sobre nós. Ao ver que eu o ignorava, Mopso começou a acenar freneticamente. Eu decidi que havia de zurzi-lo com a língua quando saíssemos dali. Afastei-me da janela.

 

Ao lado da cama, encontrei uma taça de boca larga e pouco profunda. Levei a taça para o meio do quarto e poisei-a no chão. Ajoelhei-me e atirei os poemas lá para dentro. Meti a mão dentro da túnica, à procura da caixinha de pederneira que tinha trazido comigo para este fim, e concentrei-me de tal maneira em produzir uma chispa, que nem ouvi os passos de Ândrocles no corredor. Apanhei um susto quando ele abriu a porta e meteu a cabeça lá dentro.

 

Senhor! Vem um homem a subir as escadas! Subitamente, percebi por que razão Mopso estava a acenar freneticamente. Olhei para Ândrocles.

 

Então entra, depressa! murmurei eu.

 

Ândrocles meteu-se lá dentro, depois voltou-se para fechar a porta. Demasiado tarde. A porta chocou com qualquer coisa. Ândrocles empurrou com toda a força, mas de nada lhe valeu. Estava o pé de um homem metido na fresta. Ândrocles lançou um pequeno guincho de pânico. Uns dedos passaram à volta da aresta da porta. Ândrocles lançou todo o seu corpo contra ela, mas não estava à altura do homem que se encontrava do outro lado. A porta começou a abrir-se implacavelmente.

 

Eu larguei a caixinha de pederneira. Estendi a mão para o punhal. Pus-me de pé e preparei-me para o embate, com o coração a bater desordenadamente.

 

Senhor, não consigo detê-lo! exclamou Ândrocles.

 

Lenta mas firmemente, a porta abriu-se, até a luz do Sol embater no rosto zombeteiro e artificialmente escurecido do meu velho amigo Tiro.

 

Uma vista bastante agradável do Capitolino observou Tiro, olhando pela janela. Pergunto a mim próprio quanto valerá no mercado um apartamento como este?

 

Depois de ter entrado e dado umas palmadinhas na cabeça a um espantado Ândrocles, Tiro dera uma volta pausada ao quarto, notando a arca vazia, pisando o colchão e as almofadas espalhadas pelo chão e parando junto da janela.

 

Tiro, o que estás aqui a fazer? Ele baixou os olhos.

 

Aquele rapaz ali em baixo, que está a olhar para mim como se eu fosse uma górgona, não é um dos teus rapazes, Gordiano?

 

Aproximei-me da janela e acenei a Mopso, para lhe mostrar que estava tudo bem. Visivelmente aliviado, ele perguntou-me por sinais se podia subir para vir ter connosco, mas eu abanei a cabeça e indiquei-lhe que continuasse de guarda.

 

Ândrocles disse eu, volta para o patamar das escadas, e continua de guarda, como há bocado. Talvez consigamos evitar ser surpreendidos pela segunda vez.

 

Mas, Senhor, este não é o assassino que tu nos mandaste seguir no outro dia? protestou Ândrocles.

 

Tiro ergueu uma sobrancelha.

 

Nunca lhes disse semelhante coisa. Estes miúdos têm mais imaginação do que bom senso. Vai lá, Ândrocles.

 

Mas, Senhor...

 

Não me vai acontecer nada de mal. Pelo menos julgo que não. Foi a minha vez de erguer uma sobrancelha para Tiro. Quando Ândrocles saiu do quarto, repeti a pergunta que lhe tinha feito anteriormente. O que estás aqui a fazer?

 

Ele deu umas pancadinhas no nariz.

 

O mesmo que tu, suponho. A seguir uma pista com o faro.

 

A seguir-me, queres tu dizer.

 

Talvez.

 

Adquiriste o hábito de me seguir sempre que eu saio de casa?

 

Tenho a impressão de que não te sigo com mais frequência do que tu me segues a mim.

 

Nesse caso, por que o fizeste hoje?

 

Porque ontem a jovem amante de Numério foi fazer-te uma visita.

 

Como é que sabes que eles eram amantes?

 

Sei uma data de coisas.

 

E como é que sabias que ela foi a minha casa ontem? Estavas a vigiar a minha casa ou andavas a segui-la a ela?

 

Ele abanou a cabeça.

 

Gordiano, não podes esperar que eu te diga tudo, da mesma maneira que eu não posso esperar que tu me contes todos os pormenores das tuas descobertas. Ainda assim, julgo que serviria os interesses de ambos se partilhássemos aquilo que sabemos. Sobre Numério, quero eu dizer.

 

Vinhas à procura dos documentos de que ele te falou, não vinhas?

 

Não é também disso que tu andas à procura, Gordiano? Dado que andamos à procura da mesma coisa, por que não nos ajudamos um ao outro a encontrá-la?

 

Eu não respondi.

 

Tiro avançou para o meio do quarto e ajoelhou-se ao lado da taça que continha os poemas de Emília. A caixinha de pederneira estava ao pé.

 

Ias queimar isto antes de eu chegar observou. O que é?

 

Nada que te interesse.

 

Como é que podes ter a certeza disso? Eu suspirei.

 

São poemas eróticos copiados por uma rapariga apaixonada. Emília tinha-me falado deles. Pediu-me que os queimasse. Não vejo qualquer motivo para não o fazer.

 

Mas podem não ser aquilo que parecem.

 

Não são aquilo de que ambos andamos à procura, Tiro.

 

Como é que sabes?

 

Sei!

 

Mas vais deixar-me levá-los, não vais? Que mal pode ter isso, Gordiano? Eu próprio os queimarei, depois de os ter examinado com cuidado. Mais ninguém os verá.

 

Não, Tiro!

 

Olhámo-nos fixamente por longos momentos, nenhum de nós disposto a desviar os olhos. Por fim, ele pôs-se de pé e afastou-se da taça.

 

Muito bem, Gordiano. Vejo que não te deixarás convencer. Que obrigações tens para com essa rapariga?

 

Não respondi, mas ajoelhei-me ao lado da taça e recomecei a riscar a pederneira. Uma faísca saltou para a taça. O pergaminho seco incendiou-se. A princípio, a chama foi diminuta, depois espalhou-se ao longo da borda do pergaminho. Eu fiquei a ver as palavras incendiarem-se: Uma chama ténue percorre-me o interior da pele. Deixo de ver...

 

Ergui os olhos, e vi o brilho reflectido nas feições morenas de Tiro.

 

Não há nada tão fascinante como o fogo, não achas? disse ele, com um leve sorriso. Depois das chamas, não fica nada, à excepção de um montinho de cinzas, que se desfaz em nada, se lhe tocarmos. De onde vem a chama? Para onde vai o pergaminho? Ninguém sabe. Agora, é como se a rapariga nunca tivesse copiado os poemas, e Numério nunca os tivesse ouvido ler. Ou até como se Numério nunca tivesse existido.

 

Mas existiu. E Emília amava-o. Dentro dela, ainda existia uma parte de Numério, pensei eu, pelo menos durante algum tempo. Dentro em breve, também o bebé se transformaria em cinzas.

 

Tiro fez um ruído de mofa.

 

Ela amava-o? Talvez. Mas ele, amá-la-ia?

 

Estava decidido a casar com ela, apesar dos desejos de Pompeu. Emília tinha a certeza disso.

 

Tinha? Não há dúvida de que ela imaginava todo o género de coisas, deitada com ele naquela cama depois de terem feito amor durante uma hora, olhando pela janela para os templos do Capitolino. E não há dúvida de que ele lhe contou todo o género de mentiras as que fossem precisas para fazer com que ela continuasse a vir encontrar-se com ele.

 

Uma vida ao lado de Cícero fez de ti um moralista enfadonho, Tiro.

 

Que disparate! Mas quando vejo um ninho de amor como este, e depois de ter visto a rapariga, jovem e ingénua como é, o tipo de rapaz que Numério terá sido deixou de ser um mistério. Um espécime perfeito da sua geração: egoísta, amoral, disposto a deitar a mão a tudo aquilo que pudesse agarrar, sem qualquer preocupação com as consequências. Se não fosse parente de Pompeu, era precisamente do tipo que se juntaria a César.

 

Eu olhei firmemente para Tiro.

 

Estás a dar a ideia de que ele era o género de homem que ninguém lamentaria ter morto.

 

Tiro lançou-me um olhar amargo.

 

Não faças troça de mim, Gordiano. E não me acuses de assassínio, nem a brincar.

 

Não estava a acusar-te.

 

Estou apenas a dizer que, se Numério amasse a rapariga, teria feito o que devia, tomando-a como sua mulher, com ou sem a bênção do Grande, em vez de a tomar como sua amante num buraco esquálido como este.

 

Tiro! Já te esqueceste do caso de amor que mantinhas às escondidas de Cícero quando nos conhecemos? Nessa altura, eras um escravo, e ela era a filha do cliente do teu senhor, e as consequências teriam sido terríveis para ambos... já para não falar da criança que poderiam ter gerado.

 

Isso é injusto, Gordiano! Eu era jovem e estúpido...

 

E Numério não era?

 

Tiro olhou fixamente para as cinzas da taça.

 

"Os homens gostam de se recordar das indiscrições da sua juventude, mas não gostam que outros lhas recordem" disse eu, suavemente.

 

Enio disse Tiro, reconhecendo a citação. Conseguiu fazer um vago sorriso. Tens razão. Não estamos aqui para julgar Numério. Estamos aqui para descobrir os seus segredos. Vamos trabalhar juntos, Gordiano, ou não?

 

Há dois punhais disse eu, pegando naquele que tinha trazido e oferecendo-lhe o que tinha encontrado dentro da arca.

 

Eu trouxe o meu disse ele, mas este parece mais afiado. Juntos, começámos a cortar e a abrir as almofadas e o colchão.

 

Continham pelo menos uma surpresa. Em vez de palha ou lã vulgares, estavam cheios de penas de cisne, misturadas com ervas secas, que perfumavam o quarto de uma forma suave; eu tinha perguntado a mim próprio de onde proviria o cheiro. Numério era do género de não se poupar a luxos quando se tratava de amor.

 

Quando cortávamos uma almofada, as penas espalhavam-se pelo chão. O quarto não tardou a ficar coberto de uma penugem branca. Pedacinhos de plumas flutuavam pelo ar, como flocos de neve. O absurdo da situação fez-nos rir a ambos. A tensão que se instalara entre nós dissolveu-se. Talvez não tivesse sido assim caso tivéssemos encontrado o que procurávamos, mas tornou-se rapidamente óbvio que não havia nada escondido entre o recheio das almofadas.

 

Não consigo lembrar-me de mais nenhum sítio onde procurar disse eu a Tiro. Por que não dás tu uma vista de olhos, a começar pela arca? Talvez descubras alguma coisa que me tenha escapado.

 

Ele examinou cuidadosamente o conteúdo do quarto, peça a peça, incluindo as pernas da cama, à procura de compartimentos ocos. Juntos, examinámos as tábuas do chão, para ver se detectávamos alguma que estivesse solta. Passámos as mãos pelas paredes de argamassa e espetámos o tecto. Nada encontrámos.

 

Se tiver existido algum documento referente a uma conspiração para matar César, aqui não está disse Tiro, pondo a língua de fora para soprar uma peninha que lhe tinha ficado presa ao lábio superior.

 

Nem estava escondido em casa de Numério. A mãe disse-me que tinha feito uma busca completa à procura de qualquer coisa do género, e nada encontrou.

 

E, no entanto, Numério disse-me que "se tinha sentado em cima de uma coisa extraordinária", uma coisa tão perigosa, que podiam matá-lo por causa dela.

 

Como de facto mataram disse eu, baixando os olhos.

 

Tiro deu uma volta ao quarto, criando remoinhos de penas de cisne.

 

Quer isto dizer que eu não estou mais perto de encontrar aquilo de que ando à procura, nem tu mais perto de descobrir quem assassinou Numério, e de recuperar o teu genro das garras de Pompeu. Ouve, Gordiano: saio amanhã de Roma. Vem comigo. Eu ergui uma sobrancelha.

 

Por que não? disse ele. Estou farto de viajar sozinho.

 

Certamente levarás um guarda-costas.

 

Sim, um daqueles idiotas que se encontram em casa de Cícero.

 

O mais velho é mais inteligente disse eu. Pelo menos, não é tão estúpido.

 

Referes-te a Fortex?

 

Não sei como é que ele se chama.

 

Fortex nunca será um grande companheiro de viagem. Podia ter conversas mais interessantes com o meu cavalo. Tu és um excelente companheiro, Gordiano.

 

Queres que eu vá contigo apenas para te entreter, Tiro? Alguém tem de cuidar da minha família.

 

Tens aquele ciclope de Pompeu à porta de tua casa, não tens? E o teu filho Eco pode ir lá de vez em quando.

 

Talvez. Mas dá-me uma boa razão para sair de Roma. Tiro olhou-me com gravidade.

 

Queres recuperar o teu genro, não queres? Já não tens muito tempo, Gordiano. Pompeu recuou para Brundísio, e tem o mar nas suas costas. César foi atrás dele. Será apenas uma questão de dias. Se tens a intenção de conseguir que Davo regresse a Roma...

 

Percebo onde queres chegar. E tu, Tiro? Por que vais sair de Roma?

 

Recebi hoje uma mensagem de Cícero. Quer que eu passe pela sua villa de Fórmias e leve umas cartas a Pompeu...

 

De Fórmias? Cícero continua na costa?

 

Sim.

 

Mas Pompeu convocou todos os senadores lealistas para uma reunião em Brundísio.

 

Pois foi. Bem... A expressão de Tiro tornou-se reservada.

 

Não me digas que Cícero continua a hesitar! Está à espera de que a guerra acabe para tomar partido?

 

Não é bem isso, Gordiano; não é tão mau como estás a fazer parecer. Cícero considera que está, como dizer, invulgarmente posicionado para desempenhar um papel especial. Que outro homem com a sua eminência pode ainda comunicar com ambos os lados?

 

Cícero mantém contactos com César?

 

Cícero e César nunca deixaram de se corresponder. Isso é do conhecimento de Pompeu. Cícero nunca o enganou. Agora que a crise entrou numa fase diferente, Cícero poderá estar em posição de agir como intermediário e alcançar a paz. Para isso, tem de manter um equilíbrio delicado...

 

Que disparate! A verdade é que Cícero não tem coragem suficiente para tomar o partido de Pompeu. Detesta César, mas receia que César vença, por isso mantém conversações secretas com ambos os lados. É a pior espécie de cobarde.

 

Tiro fez uma careta.

 

Quem é agora o moralista enfadonho, Gordiano? Todos nós nos encontramos numa situação que não escolhemos. Cada homem tem de seguir o seu caminho. Feliz o homem que conseguir sair vivo disto, sem a consciência ligeiramente embaciada.

 

Eu não tinha resposta para aquilo. Ele inspirou profundamente:

 

Então, Gordiano, vens comigo a Brundísio ou não?

 

A caminho de casa, comprei o cesto egípcio debruado de hipopótamos, para oferecer a Betesda. Precisava de qualquer coisa que suavizasse a notícia de que tencionava partir de Roma. Na verdade, foi o presente ideal, porque um cesto de juncos pode ser atirado do outro lado de um compartimento sem se partir.

 

Ao contrário da mãe, Diana pareceu-me acolher a novidade com entusiasmo. Qualquer passo que pudesse resultar no regresso de Davo seria bem-vindo. Porém, nessa noite, enquanto eu arrumava num saco as coisas de que ia precisar para a viagem, Diana veio ter comigo ao meu quarto. Falou sem olhar para mim.

 

Acho que estás a mostrar muita coragem com esta atitude, papá. Fora da cidade, as coisas devem estar tremendamente perigosas.

 

Não mais do que a cidade tem estado nos últimos tempos, calculo eu. Ela observou-me a dobrar uma túnica. Estava a desempenhar-me tão mal da tarefa, que se sentiu obrigada a substituir-me.

 

Papá, sei que estás a fazer isto por mim. Embora... quer dizer, sei que nunca ficaste muito... satisfeito... com o meu casamento. Mas agora estás disposto a... Lutou contra as lágrimas que lhe chegavam subitamente aos olhos. E estou preocupada com a possibilidade de não te voltar a ver!

 

A túnica dobrada caiu-lhe das mãos. Eu pus o braço à volta dela. Ela levou a mão aos meus dedos, apoiados no seu ombro.

 

Não sei o que se passa comigo, papá. Desde que Davo se foi embora...

 

Todos nós temos os nervos à flor da pele, Diana. Queres apostar que Cícero desata a chorar duas vezes por dia?

 

Ela sorriu.

 

Duvido de que César faça o mesmo.

 

Talvez não. Mas não ponho as mãos no fogo por Pompeu. Aqui tens um belo quadro: Davo a bocejar à porta da tenda do Grande, e Pompeu lá dentro, a chorar como uma criança e a arrancar os cabelos.

 

Parece uma cena de Plauto.

 

Exactamente. Às vezes dá jeito pensar na vida como se fosse uma comédia a decorrer num palco. É assim que os deuses devem vê-la.

 

Os deuses podem ser muito cruéis.

 

Umas vezes sim, outras não.

 

Ficámos em silêncio por momentos. Eu tive um profundo sentimento de paz, ao lado da minha filha, com o braço à volta dos seus ombros.

 

Mas, papá disse ela, suavemente, como vais conseguir arrancar Davo a Pompeu? Se não descobriste quem matou Numério, Pompeu não permitirá que o tragas contigo.

 

Não te preocupes. Tenho um plano.

 

Tens? Então conta-me.

 

Não, Diana.

 

Ela afastou o meu braço do seu ombro e recuou.

 

Por quê, papá? Costumavas contar-me tudo.

 

Porque não precisas de saber, Diana.

 

Ela apertou os lábios.

 

Nesse caso, não me contes o teu plano, papá. Se calhar, nem sequer tens plano nenhum.

 

Eu peguei-lhe nas mãos e beijei-lhe a testa.

 

Oh, garanto-te que tenho um plano, minha filha. E tinha... ainda que levá-lo à prática pudesse implicar não sair de Brundísio com vida.

 

                                           MARTE

 

Havia dificuldade em arranjar cavalos. Os melhores tinham sido levados por aqueles que fugiram da cidade na primeira vaga de pânico, ou requisitados pelas forças de Pompeu. Tiro prometeu encontrar-se comigo à saída da Porta Capena, no dia seguinte antes do amanhecer, com montadas frescas, mas o que haveria ainda nos estábulos? Tive uma visão de mim próprio em cima de um pónei de dorso encurvado, articulações nodosas e o couro gasto até à pele, mas tinha subestimado o desembaraço de Tiro. Encontrei-o à minha espera com Fortex, o guarda-costas, ambos montados. Tinham consigo um terceiro cavalo, que estava por ali a mordiscar a erva que nascera entre duas urnas funerárias cobertas de musgo erguidas à beira da estrada. Qualquer das montadas irradiava saúde e estava em excelente forma.

 

Partimos imediatamente. O Sol não era mais do que uma insinuação de ouro refulgente que ainda não começara a erguer-se para além das cristas baixas das colinas, a leste. Fragmentos de escuridão prolongavam-se como vestígios do longo sudário da noite. A esta luz incerta, havia qualquer coisa de fantástico naquela tira de estrada, flanqueada de ambos os lados por túmulos de mortos.

 

A Via Ápia propriamente dita é lisa como o tampo de uma mesa, com uma superfície de pedras de calçada poligonais, de tal maneira encaixadas umas nas outras, que nem um grão de areia poderia passar pelo meio delas. Há qualquer coisa de repousante na sólida imutabilidade de uma estrada romana. Certa vez, Meto contou-me a aventura que era fazer uma missão de reconhecimento nos bosques desertos da Gália. Deuses estranhos pareciam espreitar das raízes nodosas das árvores. Os lémures esvoaçavam pelo meio das sombras. Criaturas invisíveis corriam por entre folhas de árvores desfeitas. Depois, num sítio onde nunca esperaria que isso lhe acontecesse, Meto deparou com uma estrada construída por instigação de César, uma tira brilhante de pedra que atravessava o coração da floresta, deixando entrar o ar e a luz.

 

A Via Ápia não está rodeada de bosques, mas de túmulos, numa extensão de vários quilómetros e de ambos os lados. Alguns dos monumentos são elaborados e de grandes dimensões, semelhantes a templos em miniatura. Outros não passam de simples placas comemorativas, um poste de pedra na vertical, com uma curta inscrição. Alguns estão limpos e bem cuidados, rodeados de flores e arbustos. Outros foram abandonados, têm as colunas caídas e as fundações estaladas, sufocadas por ervas daninhas.

 

Mesmo à luz do dia, uma viagem pela Via Ápia tem qualquer coisa de melancólico. À luz ténue que antecede a madrugada, em que os espíritos inquietos parecem esconder-se nas sombras, a estrada que pisávamos significava mais do que a ordem e o engenho romanos. Era um caminho através do qual os vivos podiam atravessar a cidade dos mortos. Mas o ruído das passadas dos cavalos contra as pedras da calçada garantia-nos que estávamos apenas de passagem.

 

Chegámos junto da urna de Públio Clódio, erguida no meio das dos seus antepassados. A última vez que eu tinha percorrido uma extensão significativa da Via Ápia fora para investigar o assassínio de Clódio. Ele fora o bem-amado e a esperança da ralé urbana. O seu assassínio desencadeara tumultos em Roma; de tochas na mão, a populaça fizera do Senado a sua pira funerária. Em desespero de causa pelo restabelecimento da ordem, o Senado apelara a Pompeu, e o Grande recorrera a poderes de emergência para instigar aquilo a que chamara reformas judiciais. O resultado fora a perseguição e o exílio de um número significativo de homens poderosos, que viam em César a sua única hipótese de regresso. A classe governante estava irreparavelmente fragmentada, a ralé mais descontente do que nunca. Numa visão de perspectiva, teria sido o assassínio de Clódio na Via Ápia o verdadeiro começo da guerra civil, a escaramuça inaugural, a primeira baixa?

 

O seu túmulo era simples, como competia a um patrício com pretensões de proximidade com o povo. Sobre um pedestal liso, fora colocada uma esteia de mármore com cerca de três metros de altura, onde tinham sido gravadas espigas de trigo, como recordação da distribuição de cereais que Clódio instituíra. O Sol começava a iluminar os campos. A luz crescente permitiu-me ver que o pedestal estava coberto de humildes oferendas votivas círios ardidos e paus de incenso, ramos de ervas doces e das primeiras flores da Primavera. Mas também havia uma pilha que parecia e cheirava a excrementos humanos, e um escrito no mesmo material manchava a base do pedestal: CLÓDIO FODIA A IRMÃ.

 

Tiro franziu o nariz. Fortex soltou uma gargalhada. Prosseguimos.

 

Um pouco mais adiante, do outro lado da estrada, passámos pelo lote da família Pompeu. O túmulo do pai de Pompeu era uma coisa berrante e elaborada. Todos os deuses do Olimpo se amontoavam no frontão, como que ciosos da honra, pintados em cores naturais e rodeados por um remate dourado, que reflectia o vermelho dos raios do sol nascente. O túmulo parecia ter sido pintado e redecorado há pouco tempo, mas ultimamente fora negligenciado; desde a fuga para sul de Pompeu e da sua família, tinham crescido ervas daninhas à volta da base. Fora isso, tudo parecia perfeito; mas depois reparei nas pilhas de excrementos de cavalo, certamente recolhidas da estrada, que tinham sido depositadas sobre o telhado de bronze. Ao meio da manhã de um dia cheio de sol como este prometia ser, os viajantes sentiriam o cheiro do túmulo do Pompeu mais velho muito antes de o terem avistado.

 

Fortex relinchou.

 

Escandaloso! murmurou Tiro. Quando eu era novo, os homens lutavam pelo poder tão perigosamente como fazem hoje, mas ninguém se teria atrevido a profanar um túmulo, nem sequer como um acto de guerra. O que pensarão os deuses? Merecemos todos os sofrimentos que eles decidam enviar-nos. Tu aí! Sobe lá acima e limpa aquilo.

 

Quem, eu? disse Fortex.

 

Sim, tu. Vai imediatamente.

 

Fortex fez uma careta, depois desmontou a resmungar, e olhou à volta à procura de qualquer coisa que pudesse usar como pá.

 

Enquanto estávamos à espera, eu deixei o meu cavalo vaguear ociosamente ao longo da beira da estrada, procurando erva tenra entre os túmulos dos Pompeus. Fechei os olhos, sentindo o calor do Sol da manhã nas pálpebras e gozando os movimentos casuais e desconexos do animal por baixo de mim. Ao meu lado, ouvi o escravo trepar ao telhado de metal, depois um som de raspagem, seguido pelo suave impacto dos excrementos a caírem na estrada.

 

Devo ter dormitado. O momento deslizou para fora do tempo comum. Quando voltei a abrir os olhos, vi diante de mim o túmulo de Numério Pompeu.

 

Era uma simples esteia, daquelas que se adquirem já feitas, e tinha gravada uma cabeça de cavalo, símbolo da partida final. Ficava um pouco distante da estrada, ao lado de uma fila de túmulos mais salientes. Comparado com os seus vizinhos, era pequeno e insignificante. Eu nunca teria reparado nele ao passar na estrada. Era muito estranho que o cavalo me tivesse trazido até aqui, e que a primeira coisa que eu tivesse visto, ao abrir os olhos, fossem as palavras recentemente gravadas no pequeno espaço de cinco linhas reservado à personalização do monumento:

 

               NUMÉRIO POMPEU DOM DOS DEUSES

 

               QUE CIOSAMENTE O RECLAMARAM

 

               DEPOIS DE TER PASSADO 21 ANOS

 

               ENTRE OS VIVOS

 

Estas palavras deviam ser da mãe. Não tendo mais ninguém a quem responsabilizar pela sua morte, Mécia responsabilizava os deuses. Senti uma pontada de vergonha.

 

Baixei os olhos. Na verdade, não era assim tão inexplicável que a minha montada tivesse vagueado até aqui. Aos pés da esteia, alguém, Mécia, evidentemente plantara flores, que ainda não tinham germinado. O cavalo gostara da folhagem tenra e já havia comido a maior parte até ao solo.

 

Eu puxei as rédeas e repreendi-o. Nesse momento, apercebi-me de um movimento pelo canto do olho. Uma figura emergiu de trás de um monumento próximo.

 

O meu coração deu um salto. A madrugada tinha feito erguer as sombras, mas algo de sinistro parecia ocultar-se no meio dos túmulos.

 

Perversamente, parecia de certo modo adequado que o lémure de Numério emergisse do mundo subterrâneo para vir pedir-me satisfações no preciso momento em que os pássaros começavam a cantar e o mundo inteiro ganhava vida.

 

Mas a criatura andrajosa que emergiu de trás do monumento não era um lémure. Nem eram lémures os restantes, pelo menos três, que rapidamente se juntaram a ele. Fiz o cavalo dar meia volta no espaço apertado entre os monumentos.

 

Tiro! gritei. Bandidos!

 

Algumas extensões da Via Ápia são notoriamente pouco seguras. A área que rodeia o túmulo de Basílio, que fica situado a uma distância considerável dos muros da cidade e marca o verdadeiro começo da zona rural, é especialmente perigosa; eu próprio fora certa vez apanhado numa emboscada e raptado nesse local. Mas ainda não tínhamos avançado até esse ponto, e eu nunca ouvira dizer que os bandidos se atrevessem a aproximar-se tanto da Porta Capena. Quão desesperados estavam estes homens, e que caos reinava em Roma, para ousarem atacar viajantes praticamente à distância de um grito da cidade! A culpa era nossa. Tiro nunca devia ter mandado o único guarda-costas que trazíamos connosco ocupar-se de uma tolice como limpar excrementos de cavalo. Eu nunca devia ter fechado os olhos e permitido que o meu cavalo andasse a vaguear. Os bandidos viram-nos desprevenidos e decidiram atacar.

 

Eu tentei freneticamente reconduzir a montada para a estrada. Momentos antes, estivera a repreendê-lo por comer as flores de Mécia. Agora, ele hesitava, confuso. Uma mão agarrou-me no tornozelo. Dei um pontapé e perdi o equilíbrio. Oscilei e quase caí, roçando ao de leve num obelisco de pedra. Outra mão agarrou-me no pé. Voltei-me e vi uma cara feia, com uma boca desdentada, erguendo os olhos para mim. Quando um homem está decidido a matar, se for necessário, adquire uma certa expressão. Eu vi essa expressão na cara deste homem.

 

Instantes depois, um pedaço de excremento endurecido pelo sol, o que fazia dele um projéctil adequado, atingia o homem em cheio entre os olhos. Ele deu um guincho e soltou a mão que me agarrava. Finalmente segura de si, a minha montada galopou por entre os monumentos, até à estrada.

 

Tiro andava por ali às voltas, com um punhal comprido na mão. Fortex deu um grito, saltou do telhado do monumento funerário e montou o cavalo com um único movimento fluido. Um dos bandidos aproximou-se por trás dele. O cavalo, assustado, escoiceou o homem no peito. Ele voou pelos ares como um boneco, bateu com a cabeça contra o muro do túmulo, e escorregou para o chão, sem vida.

 

Fomos atacados de ambos os lados da estrada, por um grupo de pelo menos dez homens, talvez mais. Dentro de instantes, talvez nos tivessem rodeado e deitado ao chão. Mas, aparentemente, não tinham chefe e a visão de um deles caído e morto fê-los hesitar. À uma, nós três fizemos virar os cavalos e pusemo-nos a andar em galope ruidoso.

 

Alguns dos bandidos correram atrás de nós. Um deles conseguiu agarrar o tornozelo de Tiro. Eu avistei um brilho de aço, senti umas gotas de sangue na cara e ouvi um grito que ficou rapidamente para trás. Voltei a cabeça. O homem ferido estava agarrado ao braço. Alguns dos seus companheiros continuavam a correr atrás de nós. Nenhum deles parecia estar armado, à excepção das pedras que tinham na mão, uma das quais atingiu o cavalo de Fortex na garupa. O animal relinchou e deu uma guinada, mas não abrandou o passo.

 

Um por um, os homens foram desistindo da caçada. Fiquei a vê-los distanciarem-se e diminuírem de tamanho, tal como a Porta Capena por trás deles, tal como os túmulos de Clódio e de Pompeu-pai. A esteia de Numério Pompeu tinha-se perdido entre as restantes.

 

Subitamente, Fortex, que seguia ao meu lado, deu uma gargalhada e soltou um berro. Momentos depois, Tiro desatou a rir e fez o mesmo. Que desculpa teriam para semelhante alegria? Aquilo que acabava de ocorrer podia ser lido como um presságio, um presságio muito mau. Poucos momentos depois de termos iniciado uma viagem de vários dias, tínhamos baixado as nossas defesas e quase perdêramos a vida. Os deuses tinham-me assinalado o túmulo de Numério Pompeu, e em seguida lançaram sobre nós uma horda desesperada. Fora um episódio sinistro, que terminara em derramamento de sangue e em morte.

 

Mas o alívio era contagioso. Momentos depois, eu também comecei a rir-me e a berrar com eles. Amanhecia um novo dia, o Sol brilhava intensamente sobre os campos, e estávamos vivos! Não apenas vivos, mas deixando Roma para trás, deixando para trás a mãe enlutada de Numério e a sua amante grávida, deixando para trás a minha filha chorosa e a minha mulher rezingona, deixando para trás os macambúzios comerciantes e o pânico diário do Fórum, tirando de cima dos ombros a melancolia gelada da cidade, galopávamos em direcção ao futuro com um vento estimulante a bater-nos na cara.

 

Eu sabia que este sentimento de liberdade não podia ser duradouro; nunca é. Mas também sabia que podia ser a última vez que experimentava semelhante alívio. Incitei o meu cavalo a um galope ainda mais veloz. Passei à frente de Tiro e de Fortex, até ficar com a ilusão de que me encontrava sozinho na estrada, qual cavaleiro solitário, invencível, imparável. Lancei a cabeça para trás e atirei um clamor aos céus.

 

Depois de termos passado o túmulo de Basílio, abrandámos o passo para dar descanso aos cavalos. Quando a estrada começou a subir em direcção às faldas do Monte Alba, chegámos à aldeia de Bovilas, e passámos pelo local onde Clódio tinha sido morto. O terreno tornou-se mais acidentado, o percurso menos recto. Passámos pela estrada que ia dar à villa de montanha de Clódio, uma verdadeira fortaleza, que já não seria concluída, onde eu conhecera Mopso e Androcles.

 

Na cidade de Arícia, obtivemos montadas frescas no estábulo local, onde Tiro apresentou um documento oficial, um passaporte de correio diplomático assinado pelo próprio Pompeu e que tinha estampado o selo do anel do Grande. A folha de pergaminho dava ao seu portador o direito de trocar de cavalos sem qualquer encargo, por ordem do Decreto de Emergência do Senado. Enquanto Tiro discutia a qualidade dos cavalos que o estalajadeiro lhe propunha em troca dos nossos, eu ouvi roncar o meu estômago e reparei que havia uma taberna do outro lado da estrada. Ao atravessar a rua, olhei na direcção das colinas, e vislumbrei a villa do senador Sexto Tédio, onde me tinha sido revelado o segredo da morte de Clódio. Diante de um pedaço de pão seco e de um guisado de carneiro, entabulei conversa com um proprietário local. Perguntei-lhe o que andava a fazer o velho senador Tédio.

 

Foi juntar-se a Pompeu respondeu-me o homem.

 

Deves estar enganado disse eu. Sexto Tédio é demasiado velho e fraco para isso. O homem é aleijado.

 

Não há engano nenhum, cidadão disse o homem, a rir. Deixou a solteirona da filha a cuidar da villa e partiu para a guerra. Tenho a certeza porque, antes de partir, convocou toda a gente para o Fórum da cidade, e pronunciou um longo discurso, dizendo que todos devíamos fazer a mesma coisa, e que a vergonha se abateria sobre o homem que se deixasse ficar. E nós que somos apenas agricultores, com a estação das plantações quase a chegar! Quem é que ele pensa que alimenta os soldados? Pateta do velho! O homem abanou a cabeça e baixou a voz. Talvez as coisas mudem quando o poder passar para as mãos de César. Qual é a tua opinião, cidadão?

 

Passado o Monte Alba, o caminho começava a descer lentamente. Estava a cair o crepúsculo, quando Tiro nos conduziu para fora da estrada principal, para um posto de muda chamado Fórum Ápio, à beira dos pântanos de Pontino. Pensei que ele procurava alojamento para passarmos a noite; o passaporte de correio dava direito a quem o apresentasse a quarto e comida, bem como a cavalos frescos. Mas passámos por diversas estalagens e só parámos no final da estrada, no termo de um largo canal, onde havia uma aglomeração de edifícios, incluindo armazéns, estábulos, uma taberna e uma plataforma de embarque para a barcaça que fazia o transporte pelo canal.

 

Tiro explicou-me que o canal atravessava os pântanos, em paralelo a uma estrada elevada. A barcaça era uma embarcação comprida e plana, com a amurada à altura da cintura. Era puxada da estrada, por várias parelhas de mulas, guiadas por barqueiros com estacas robustas.

 

Há uma cerca para o gado na parte de trás da barcaça, de maneira que podemos levar os cavalos connosco explicou-me Tiro. Pagamos a passagem, instalamo-nos a bordo e partimos ao cair da noite. Jantamos calmamente e viajamos enquanto dormimos. Amanhã de manhã, estamos quase em Tarracina, descansados e prontos para seguir até Fórmias. Não há no mundo maneira mais civilizada de viajar.

 

Parecia-me bastante razoável. Havia apenas um ou dois inconvenientes, que Tiro se esqueceu de referir, como o preço exorbitante do pão e do vinho em todas as tabernas das cercanias (as provisões que se vendiam a bordo eram ainda mais caras, e duplicavam de preço depois de iniciada a viagem); os apertos (o vendedor de bilhetes deixava entrar cada vez mais passageiros, até que finalmente o comandante mandou para trás alguns retardatários, declarando que podiam afundar a embarcação); a incompetência do condutor de mulas (que demorou uma hora a engatar as parelhas depois de o último passageiro ter embarcado); a quase impossibilidade de comer por entre os odores combinados do charco e do gado (a cerca para os animais ficava na parte de trás da embarcação, e o vento soprava da retaguarda); os zumbidos dos insectos invisíveis (mosquitos no nariz, moscas nos olhos); as torturantes acomodações (deitados lado a lado, de cabeça e pés, como cadáveres jazendo após uma batalha, se exceptuarmos o facto de que os cadáveres não se peidam, nem ressonam, nem cantam ebriamente a noite toda); e a total perversidade dos barqueiros, que pareciam divertir-se a provocar solavancos capazes de acordar toda a gente de tantos em tantos minutos, fazendo chocar a barcaça contra a margem do canal, e ainda melhor quando conseguiam atolar-nos por completo, ao que se seguia uma hora de marteladas, pancadas e gritos de um lado para o outro, no período mais escuro da noite.

 

Nessa noite, dormi apenas cerca de uma hora. Quando acostámos, na manhã seguinte, desembarquei aos tropeções na companhia de todos os outros passageiros, e fui tomar banho numa torrente de água que ficava ali perto, num bosque sagrado dedicado à ninfa Ferónia, deusa protectora dos libertos. A água reanimou-me um pouco. Depois, partimos de novo.

 

Em Tarracina, voltámos à Via Ápia. Eu sentia nas nádegas e nas coxas as dores da cavalgada do dia anterior, e julgo que Fortex sentia o mesmo, porque estava sempre a encolher-se e a franzir o sobrolho. Mas talvez estivesse apenas a ensaiar caretas ferozes, para o caso de encontrarmos mais bandidos. Tiro, já habituado aos rigores das viagens, estava muito bem-disposto. Dentro de poucas horas, encontrar-se-ia com Cícero.

 

Chegámos a Fórmias na tarde desse dia. Tiro, que não queria ser visto, evitou a cidade e a estrada larga de acesso à villa de Cícero. Tomámos, pois, uma via alternativa, que passava por bosques cerrados. A estrada transformava-se num caminho para cavalos, o caminho num trilho e o trilho num vago vestígio de passagem, que circulava por entre sarças e espinheiros. Caía o crepúsculo. As sombras começavam a juntar-se nos bosques. Eu receei que nos perdêssemos, mas Tiro conhecia o percurso. No momento em que o Sol se afundava no horizonte, emergimos dos bosques para um campo de vinhedos. Para além das vinhas, vislumbrei uma elegante villa, de paredes brancas e telhado vermelho.

 

A todo o comprimento da parte de trás da casa, havia um pequeno pórtico coberto onde estava sentado um homem que vestia uma túnica comprida, com um rolo de pergaminho no regaço. Estava voltado de lado e, com uma mão erguida, indicava a um jovem escravo onde devia pendurar uma lamparina para que ele pudesse continuar a ler. O escravo viu-nos chegar por entre as vinhas. Deu um grito e apontou. O homem voltou-se e pôs-se de pé, sobressaltado. O rolo de pergaminho caiu-lhe aos pés e desenrolou-se.

 

Eu nunca tinha visto semelhante expressão de pânico na cara de um homem, nem tão completa transformação quando reconheceu os visitantes. Sorriu, depois riu-se, e avançou para nós para nos acolher, deixando o escravo a apanhar o rolo de pergaminho. Tínhamos chegado ao retiro de Cícero.

 

Depois dos incómodos na barcaça onde tínhamos passado a noite anterior, as acomodações simples da villa de Cícero pareceram-me incomensuravelmente luxuosas.

 

Suspeitei de que, se estivessem sozinhos, o nosso anfitrião e a sua família teriam comido nessa noite uma refeição frugal; mas apressaram-se a mandar preparar um jantar formal, para celebrar a nossa chegada. Jantámos recostados em canapés, numa sala espaçosa voltada para o jardim central, e Cícero deu-me o lugar de honra, à sua esquerda. A mulher de Cícero, Terência, não parecia estar muito bem-disposta, e pouco falou, excepto para dar ordens às raparigas que nos serviam. O jovem Marco, que ainda não completara dezasseis anos, tinha andado a caçar o dia todo com o administrador da propriedade e comia vorazmente; os anos do meu crescente distanciamento de Cícero tinham coincidido com o desenvolvimento do rapaz, e eu teria tido dificuldade em reconhecê-lo. O apetite de Túlia era tão voraz como o do seu irmão mais novo, e Cícero brincou com o facto, dizendo que a filha comia por dois; a gravidez começava a notar-se, e Cícero parecia muito satisfeito em chamar a atenção para ela. Um neto é um neto, parecia dizer a sua expressão, ainda que o casamento tivesse tido lugar à sua revelia e que o pai fosse um patife dissoluto, ainda por cima partidário de César. Sempre que eu olhava para a rapariga, para o seu rosto brilhante e o ventre ligeiramente inchado, pensava em Emília.

 

A comida era simples, mas há muito tempo que eu não comia nada de tão boa qualidade em Roma, onde era difícil encontrar carne fresca e especiarias. Nesse dia, o jovem Marco tinha morto dois coelhos, que constituíram o prato principal. Também havia espargos guisados em vinho e uma sopa de ervilhas muito condimentada com pimenta-preta e funcho.

 

A conversa também foi simples, versando principalmente sobre a nossa viagem. Marco mostrou-se especialmente interessado nos pormenores relativos à emboscada à saída da cidade. Tiro descreveu a escaramuça e elogiou Fortex, que estava a comer na cozinha.

 

Não tenho dúvida de que ele salvou a vida a Gordiano.

 

É verdade disse eu. Um dos malandros estava a ponto de me deitar abaixo do cavalo, quando o teu homem lhe atirou com um bocado de excremento seco do telhado do túmulo. Devia estar, o quê?, a uns dez metros de distância. Acertou no bandido em cheio no meio da testa.

 

O jovem Marco riu-se e bateu as palmas. Cícero encolheu os ombros.

 

O escravo não fez mais do que devia. Afinal, é guarda-costas. Quando o comprei, garantiram-me que tinha reflexos rápidos e excelente pontaria. Foi uma aquisição sensata.

 

Depois da longa viagem desde a cidade e da noite sem dormir na barcaça, sentia-me exausto. Logo que a sobremesa de bolos de anis com passas foi servida a toda a gente, pedi licença para me retirar. Um escravo conduziu-me ao meu quarto e ajudou-me a vestir a túnica de noite. Caí na cama e adormeci quase de imediato.

 

Como por vezes acontece em viagem, estava com o sono leve. Acordei de repente, a precisar de verter águas e sem fazer a menor ideia das horas que seriam. O meu quartinho estava escuro como breu, e eu presumi que tinha dormido várias horas. Mas, quando abri a porta, na esperança de que uma réstia de luar me ajudasse a localizar o vaso de noite, vi luz proveniente de uma porta aberta, do outro lado do jardim. Ouvi vozes baixas. Ainda havia quem estivesse acordado.

 

Encontrei o vaso de noite e aliviei-me. Voltei a deitar-me, mas já não tinha sono. Passado algum tempo, levantei-me e voltei a abrir a porta do meu quarto. A luz do compartimento do outro lado da casa continuava acesa. Ouvi risos baixos.

 

Saí do meu quarto, a coberto da sombra da colunata. Espreitei para o jardim iluminado pelo luar. Era óbvio que o compartimento em frente do meu quarto era o escritório de Cícero; à luz vacilante da braseira que ardia no seu interior, distingui uma estante com orifícios para rolos de pergaminho, completamente preenchidos. Uma das vozes era de Cícero, a outra de Tiro. Tinham ficado os dois acordados, a conversar, provavelmente partilhando uma taça de vinho. Toda a vida tinham sido senhor e escravo, depois estadista e secretário, agora eram chefe de espiões e espião. Certamente teriam muito que pôr em dia.

 

A noite estava calma. A voz de orador treinada de Cícero soava como um sino no ar fresco. Ouvi nitidamente o meu nome. Tiro respondeu qualquer coisa, mas a sua voz era menos clara e eu não consegui apanhar o que ele tinha dito. Ambos se riram, depois ficaram algum tempo em silêncio. Imaginei-os a beberricar o vinho.

 

Quando voltou a falar, Cícero fê-lo num tom grave:

 

Achas que ele sabe quem matou Numério?

 

Esforcei-me por ouvir a resposta de Tiro, mas apenas consegui captar um resmungo.

 

Mas tem de saber alguma coisa disse Cícero. De outra maneira, por que se disporia a ir até Brundísio contigo para falar com Pompeu?

 

Ah, mas ele vai até Brundísio? disse Tiro. Algures entre cá e lá...

 

Está César disse Cícero. E com César está Meto, o filho de Gordiano. Percebo o que queres dizer. O que anda Gordiano a fazer?

 

Isso importa muito? A voz de Tiro tinha uma sugestão de indiferença.

 

Não gosto de surpresas, Tiro. Já me chegam as que tive ao longo do último ano. O casamento de Túlia com Dolabela... A travessia do Rubicão por César... Este assunto fétido com Numério Pompeu. Chega de choques desagradáveis! Especialmente por parte de Gordiano. Vê se descobres o que ele sabe, Tiro.

 

É possível que não saiba coisa nenhuma.

 

Gordiano sabe sempre mais do que dá a entender. Tenho a certeza de que te escondeu qualquer coisa.

 

Ouvi passos e recuei para a sombra. Um escravo atravessou o jardim, transportando qualquer coisa nas duas mãos, e entrou no escritório.

 

Óptimo, mais lamparinas! exclamou Cícero. Acende a tua, Tiro, que eu acendo a minha. A cada ano que passa, a minha vista vai ficando mais fraca... Pronto, já temos luz suficiente para ler. Dá uma vista de olhos a esta última carta de Pompeu. Não passa de uma longa tirada de recriminação a Domício Aenobarbo por ter perdido Corfínio...

 

O brilho proveniente da porta aberta era agora suficiente para dissipar as sombras da colunata onde eu me escondia. Recuei para o meu quarto, para não ser visto pelo escravo, que saía do escritório. Deitei-me e fechei os olhos, decidido a descansar por momentos antes de voltar para o mesmo sítio, e ouvir o resto da conversa, mas só acordei no dia seguinte, ao meio-dia.

 

Despertei ao cheiro de porco assado.

 

Uma hora antes, tinha chegado outro convidado à villa de Cícero, acompanhado por uma comitiva de tamanho razoável. Cícero tinha mandado matar um porco para alimentar toda a gente. Depois de ter salpicado a cara com água e me ter vestido, procurei o caminho até ao poço de assar, que ficava por trás da casa, onde um bando de homens fazia circular um odre de vinho enquanto vigiava a carcaça, que ia rodando lentamente num espeto. Pareciam uma guarda andrajosa de libertos e escravos. As suas tendas, armadas à entrada da casa, estavam esfarrapadas e remendadas e as pilhas de espadas e armaduras desirmanadas pareciam de fraca qualidade.

 

Alguns dos homens jogavam trígono numa eira ao lado da vinha. O jovem Marco estava com eles, rindo-se e monopolizando a bola de couro. Atleta e caçador entusiástico, era o oposto do que seria de esperar num filho de Cícero. Perguntei a mim próprio se o pai gostaria de o ver misturado com gente tão inferior.

 

Encontrei Tiro e perguntei-lhe quem era a personagem digna da hospitalidade de Cícero que tinha chegado acompanhada por comitiva tão pouco recomendável. Antes que Tiro pudesse responder-me, vi o visitante emergir da pequena sala de banhos, ligada ao edifício principal por um corredor coberto. Trazia apenas uma grande toalha enrolada à volta da cintura. O seu rosto vistoso e os seus braços carnudos estavam congestionados por causa do calor. A barba cor de ferrugem e os hirsutos pêlos do peito estavam brilhantes de gotas de água. Desapareceu no interior da casa.

 

Mas não pode ser... comecei eu. Tiro acenou com a cabeça.

 

Lúcio Domício Aenobarbo.

 

Mas eu pensei que César tinha capturado o Barba Ruiva em Corfínio.

 

E capturou, mas não conseguiu retê-lo. Pelo menos é o que diz Domício. Tiro baixou a voz. Pessoalmente, estou convencido de que César o deixou partir num gesto de clemência. Mas Domício tem a sua própria versão dos acontecimentos. Várias versões, diga-se. De acordo com Cícero, desde que chegou, há uma hora, já contou de três maneiras diferentes a sua fuga por um triz. Tenho a certeza de que não se importará de contar mais uma, se estiveres disposto a ouvi-lo. Mas não o interrogues sobre o falso suicídio. Corres o risco de que ele se desfaça em lágrimas.

 

Olhei para Tiro de lado, sem perceber bem se estaria a brincar. E, digas o que disseres, não menciones a minha presença prosseguiu.

 

Domício não conhece o segredo do teu regresso a Itália?

 

Não. E, por enquanto, é preferível que não conheça.

 

Nesse caso, por que não nos pomos a andar daqui e voltamos à estrada? Já me sinto repousado e estou ansioso por partir.

 

Tiro sorriu e abanou a cabeça.

 

É possível que Cícero queira dar-me novas instruções, depois de ter falado com Domício. Partimos amanhã. Descansa um pouco mais, Gordiano. Descontrai-te enquanto podes. O caminho que nos separa de Brundísio pode tornar-se difícil.

 

Um pouco mais tarde, Cícero e Domício foram dar uma volta pela propriedade, a fim de discutirem os seus assuntos longe de ouvidos curiosos. O jovem Marco passou a tarde a jogar trígono. Quanto a mim, passei um dia muito agradável no escritório do meu anfitrião. Cícero tinha dado instruções aos seus escravos para que me facilitassem o acesso à sua biblioteca, mas também devia tê-los prevenido de que eu podia pôr-me a bisbilhotar, razão por que havia sempre um escravo no compartimento, a escrever numa tabuinha de cera ou a fazer inscrições num livro de registos, mas essencialmente a vigiar-me. Eu teria preferido passar os olhos pela correspondência de Cícero; mas fiquei-me pela releitura do primeiro livro de A Guerra das Gálias. O exemplar de Cícero tinha uma dedicatória pessoal:

 

Para M. Túlio Cícero

 

Que expressou a sua aprovação relativamente à prosa do autor, que não à sua política.

 

  1. Júlio César

 

Nessa noite, enquanto os guarda-costas de Domício festejavam ao ar livre, cantando canções de soldados, eu fui novamente convidado para a sala de jantar formal, onde vi que tinha sido substituído no lugar de honra por Domício. Tiro não estava presente.

 

Jantámos os melhores pedaços do porco assado servido com um molho de rosmaninho. E mais espargos, marinados em ervas e azeite, e cenouras fritas salteadas com sementes de cominhos e preparadas com um molho de peixe de conserva que Cícero afirmou ter sido desenterrado nesse dia, depois de ter fermentado durante dez anos num pote de barro enterrado na cave de sua casa.

 

A disposição de Domício era tão mutável como um cometa. Mostrava-se ruidosamente alegre num momento e taciturno logo a seguir. Comportava-se como todos os homens que sofreram uma rápida série de choques e reveses. Tivera a ousadia de se afastar de Pompeu, tomando posição em Corfínio, sendo a seguir traído pelos seus homens e entregue nas mãos de César. Reunira coragem suficiente para se matar, em vez de enfrentar uma morte humilhante, vindo a saber tarde demais que César tinha a intenção de ser clemente. Quando chorava uma morte certa, descobrira que o médico não lhe tinha dado veneno, mas um narcótico destinado a acalmar-lhe os nervos. Fora capturado por César, e liberto com a mesma brusquidão pois, por muitas vezes e de muitas maneiras que Domício contasse a história da sua "fuga", a verdade era manifesta.

 

Escapei com vida por muito pouco! disse-me Domício, satisfeito com o facto de dispor de dois novos ouvidos para a sua história.

 

Oh, César declarou-me que eu era livre de partir, mas desde o princípio que tencionava emboscar-me.

 

Mas por quê uma emboscada? perguntei eu.

 

Para poder poupar-se à desagradável tarefa de executar o seu sucessor legal no governo da Gália! Podia afirmar que a guarda do perímetro nos tinha tomado por desertores, e me tinha morto acidentalmente, ou qualquer disparate parecido. Começou por me propor uma alternativa: "Podes juntar-te a mim, Lúcio. Talvez até pudesse colocar-te na Gália. Com as relações familiares que tens nessa província, serias precioso." Como se lhe competisse tomar essa decisão! Como se o Senado não me tivesse já nomeado governador! Como se a Gália fosse o seu domínio privado, e não pertencesse ao Senado e ao povo de Roma, que têm o direito de a administrarem como lhes agradar, de acordo com a lei!

 

Cícero já tinha obviamente ouvido esta arenga. Domício sentiu que estava a perder a sua atenção e dirigiu as suas palavras principalmente a mim e ao jovem Marco, mal lançando um olhar às mulheres.

 

Disse ao miserável que não, absolutamente não, que nunca serviria sob o seu comando, fosse quando fosse e em que cargo fosse. "Muito bem", disse ele, com aquele modo frio, distante, oh-tão-superior, oh-tão-desiludido que ele gosta de empregar. "Corre para junto de Pompeu, se é isso que queres. Até te permitirei que leves uns guarda-costas. Mas não serão soldados regulares; preciso deles. Escolhe uns quantos, entre os libertos e os escravos que estiveram a servir em tua casa, em Corfínio. Terão de se remediar com os restos; preciso das melhores espadas e armaduras para os meus homens." Os meus homens, isto é, as coortes que me roubou, soldados que eu recrutei, treinei e equipei com o dinheiro da minha bolsa!

 

E foi assim que encontrei uns quantos bravos dispostos a virem comigo. Nessa noite, despistámos por pouco um dos grupos de batida de César. Ele deve tê-los mandado atrás de nós. Escondemo-nos nos arbustos ao longo da estrada. Eles passaram tão perto, que se ouvia o ar a sair-lhes pelas narinas.

 

Por que não lutaste com eles? perguntou Marco, ansioso.

 

Para dar a César a satisfação de me ter atraído para uma batalha que nunca poderia vencer? Não, não estava disposto a jogar o jogo dele.

 

Foi sempre assim que ele lidou com os seus inimigos no Senado. Fingia querer fazer um acordo, negociava os mais ínfimos pormenores até eles ficarem com os olhos em bico, e depois... Agarrou na faca de trinchar que estava poisada no prato de servir e espetou-a no porco. Esfaqueava-os pelas costas!

 

Cícero cortou a cabeça de um espargo com os dentes e acenou, num gesto de concordância.

 

Não há maior adepto da chicana política do que César. Domício deixou-se cair num dos seus silêncios melancólicos. Vi-o mover os lábios, envolvido numa discussão interior entretecida de recriminações, e perguntei a mim próprio a que estaria ele a dar uma nova versão: à decisão de permanecer em Corfínio, à traição dos seus homens, ao suicídio falhado?

 

Mas, se deixaste César para te juntares a Pompeu, por que não estás com ele? perguntou inocentemente o jovem Marco. Vieste na direcção oposta. O pai dele franziu o sobrolho.

 

Juntar-me a Pompeu? Para quê? disse Domício. Sem homens sob o meu comando, que utilidade teria para ele? Pompeu sabe defender-se sozinho.

 

Pompeu tenciona permanecer em Brundísio? perguntou Marco. Ou vai partir para o Adriático?

 

Domício conseguiu emitir uma gargalhada amarga.

 

Todos os homens de Itália gostariam de saber a resposta a essa pergunta, meu rapaz. Receio que o Grande não tenha por hábito dar a conhecer as suas estratégias secretas à minha humilde pessoa. Mas todos saberemos em breve. César avança a uma velocidade tal, que estará em Brundísio dentro de poucos dias. Nessa altura, Pompeu verá o que tem diante de si... e sem a minha ajuda! O imbecil devia ter ido juntar-se a mim em Corfínio. Era aí que devíamos ter tomado posição.

 

Cícero remexeu-se, pouco à vontade.

 

Todos ficámos espantados com a aparente falta de solidariedade de Pompeu...

 

É manifesto que ele tenciona partir para o Oriente disse Domício de repente. Deve ser isso que tem estado a planear desde sempre. Bem, que vá. Se conseguir atrair César para uma armadilha na Grécia ou na Ásia, melhor para ele. Por mim, tenciono partir para a Gália e cumprir o dever de que o Senado me incumbiu. Fui nomeado governador da Gália e governador da Gália serei.

 

Se fores por terra, o caminho não estará bloqueado pelas tropas leais a César? perguntou Marco.

 

Tenciono ir de barco, se conseguir encontrar e fretar os navios necessários, e viajar directamente até Massília. Os Massilianos não são como os outros Gauleses. A sua cidade-estado foi fundada por colonos gregos há centenas de anos. São um povo notável, não são bárbaros, como os seus vizinhos.

 

Mas achas que vão acolher-te bem? perguntei eu.

 

Claro que vão. Fizeram tratados com o Senado, e não com César. Os Massilianos conhecem César! Tiveram de lidar com ele estes anos todos, durante o período em que manteve ilegalmente o cargo de governador. Viram em primeira mão o que é César um fingidor aperaltado, pomposo, vaidoso, cobrindo-se de glória de cada vez que conseguia conquistar mais uma tribo obscura de velhas desdentadas.

 

Eu pigarreei.

 

Por acaso, estive hoje a ler as suas memórias d'A Guerra das Gálias. Não se pode negar o...

 

O quê, o "génio militar" dele? Posso negar, sim, e nego! Esse livro é um disparate completo, não passa de uma autoglorificação enjoativa do princípio ao fim, propaganda com pose de história. Ele escreve sobre si próprio na terceira pessoa, que pretensão inacreditável, mas alguma vez viste um livro tão cheio de vaidade? Não faz qualquer referência aos grandes homens que o precederam, que se estabeleceram na costa sul da Gália e construíram as estradas que o levaram até lá, não há uma vénia aos membros do Senado que insensatamente votaram prolongar-lhe a comissão. Até parece que ganhou a província a jogar aos dados com Vercingétorix! Digo-te uma coisa: qualquer comandante romano competente, com os mesmos recursos e as mesmas vantagens que o Senado deu a César, teria realizado a mesma coisa, e provavelmente em menos tempo.

 

Isto foi demais, até para Cícero.

 

Lúcio, penso que devemos dar a César o que lhe é devido. Pelo menos em questões militares...

 

Domício emitiu um ruído de troça.

 

Por favor, Marco Túlio, não podes esperar que eu me submeta à tua opinião em questões militares!

 

Cícero olhou para ele com uma expressão sombria.

 

Apesar disso... Eu voltei a pigarrear.

 

Na verdade, não me compreendeste bem, Domício. Eu não ia dizer que não se pode negar o génio militar de César. Ia dizer que não se pode negar que o homem tem talento literário.

 

Pelo contrário, posso, e nego! disse Domício. Como estilista, é completamente inepto, um amador. A sua prosa é desprovida de ornamentos, de estilo. Tão calva como a sua cabeça! Dizem que ele dita enquanto anda a cavalo. Dados os resmungos que produz, bem posso acreditar!

 

Cícero sorriu.

 

Há quem considere que a prosa esguia de CéSar é elegante e não subalimentada. O nosso amigo Gordiano tem uma desculpa para ter um preconceito na matéria. Sejam quais forem as virtudes que a escrita de César possua, devem ser parcialmente atribuídas ao filho de Gordiano.

 

Domício olhou para mim sem expressão.

 

Não estou a perceber, Cícero.

 

O filho adoptivo de Gordiano, Meto, é famoso pelos serviços literários que presta a César. Há quem diga que é tão importante para César como Tiro tem sido para mim.

 

A compreensão encheu os olhos de Domício, que sorriu levemente.

 

Oh, estou a ver. És esse Gordiano. Sim, estou a ver. O seu sorriso tornou-se lúbrico. Mas com certeza que não pretendes sugerir, Cícero, que Tiro te prestou alguns dos serviços que, segundo se diz, esse Meto presta em privado ao seu amado comandante?

 

Terência arquejou. O jovem Marco riu à socapa. Túlia susteve a respiração e olhou para mim com simpatia. E Cícero corou.

 

Mas seria possível que todos os cidadãos de Roma tivessem ouvido e dado crédito a estes rumores relativos a César e ao meu filho? Enquanto eu rangia os dentes e pensava na melhor maneira de responder a Domício, ele mudou de assunto.

 

Muito bem, apenas como hipótese académica, concedo que César é o génio militar que a sua própria prosa faz dele, com o auxílio dos seus idealistas amanuenses. Nesse caso, o que irá acontecer ao nosso Pompeu? Sabes que eu quase espero que César consiga apanhar Pompeu na armadilha de Brundísio? Deixá-lo privar o Grande das suas legiões e propor-lhe a mesma alternativa de escravo que me propôs a mim. Pompeu teria de se suicidar. Depois de todos os erros estúpidos que cometeu, não teria outra alternativa honrosa. Nessa altura, em que ficaríamos? Domício entrelaçou os dedos por baixo do queixo e afagou a barba ruiva. O Senado vai precisar de outro campeão, de um salvador que venha do Ocidente e não do Oriente. O homem adequado poderia convocar da Hispânia as tropas de Pompeu e reunir os Gauleses contra o seu pretenso rei. Massília seria o lugar ideal para levar à prática semelhante plano, não vos parece? Sim, reunir a Hispânia e a Gália, e marchar sobre Itália: uma segunda travessia do Rubicão, uma segunda invasão de homens armados, não para destruir a constituição e o Senado, mas para os restaurar. Com os recursos adequados, o homem indicado seria capaz de pôr em fuga esse malandro que é César! Domício começou a ruminar e a contemplar a meia distância.

 

Entretanto, como é que eu resolvo o assunto do meu triunfo? disse Cícero. Isso é que é um verdadeiro dilema.

 

O teu triunfo? perguntei eu, espantado com a súbita mudança de assunto.

 

Sim, a procissão triunfal que me é devida pelo êxito das minhas campanhas militares na Cilicia. No curso normal dos acontecimentos, o Senado devia ter votado o meu regresso em procissão triunfal. Eu devia ter entrado pelas portas da cidade num carro, ao som de trombetas! De que vale ser governador provincial, se não for pelo triunfo que nos espera no final? Mas, evidentemente, este não foi um ano normal. Eu decidi deixar passar o meu triunfo, tendo em consideração a crise que se vivia. Mas agora... bem, vou ter de o celebrar, mais cedo ou mais tarde. Não posso adiá-lo para sempre. E se César expulsar Pompeu de Itália e ocupar Roma? Se eu celebrar o meu triunfo enquanto César estiver à frente da cidade, isso pode ser lido como um apoio à sua tirania. Acho mesmo que, nessas circunstâncias, nem sequer devia regressar a Roma, pelo menos enquanto César lá estiver. Devia recusar-me a tomar o meu lugar do Senado, para marcar posição...

 

Cícero fez uma pausa para beber um gole de vinho. Terência interveio.

 

Já é suficientemente mau que tenhas adiado o teu triunfo, que até é possível que nunca mais seja celebrado. Mas não tencionas comemorar o dia da toga do teu filho? Marco faz dezasseis anos este ano. As melhores famílias assinalam a maioridade dos seus filhos na festa das Liberais, logo a seguir aos Idos de Março. Estaremos em Roma nessa altura, a tempo de celebrar a maioridade de Marco, ou não?

 

Pela maneira como os filhos se encolheram, percebi que se tratava de uma discussão familiar que se vinha prolongando. Cícero deu um grande suspiro.

 

Sabes bem que será impossível, Terência. As Liberais são daqui a doze dias. Por que estás sempre a falar nisso? Sabes bem que eu tinha a esperança ardente de que Marco celebrasse a imposição da toga da masculinidade em Roma, com a presença dos melhores, de todos eles. Mas não pode ser. Em primeiro lugar, porque os melhores estão disseminados pelos quatro cantos do mundo. Depois, porque eu não posso voltar a Roma com honra, pelo menos por enquanto. E, onde quer que celebremos o dia da toga de Marco, não temos qualquer possibilidade de organizar as coisas a tempo das Liberais.

 

Mas é nas Liberais que devemos celebrá-lo insistia Terência. Na festa do Pai Liberdade, os sacerdotes transportam o falo de Dioniso dos campos para as ruas da cidade, e os jovens seguem atrás com as togas da masculinidade vestidas, entoando canções obscenas. É um acto religioso, o símbolo da chegada de um rapaz à maturidade, na companhia dos seus pares.

 

Não tem importância, mãe, a sério disse Marco, corando e franzindo o sobrolho a olhar para o prato. Já discutimos este assunto. Não tem de ser nas Liberais. Fazemos noutro dia qualquer. E podemos fazer a cerimónia em Arpino, em vez de ser em Roma. Afinal, é a cidade de origem da nossa família.

 

É a cidade de origem do teu pai, Marco disse Terência, num tom gelado. Não podemos esperar que os teus parentes do lado de Terêncio venham até Arpino, com bandidos e soldados fugidos a espreitar pelos caminhos. Além disso, a villa de Arpino não tem condições para receber visitantes. O telhado deixa entrar água, a cozinha é demasiado pequena, e não há camas suficientes. Pelo menos aqui em Fórmias consegui pôr a casa a funcionar.

 

Não estás certamente a sugerir que celebremos a toga de Marco aqui? protestou Cícero. Não temos nenhum familiar na zona. Eu mal conheço os membros do Senado local. Não, se não for em Roma, será em Arpino.

 

Não percebo por que não podemos, pura e simplesmente, voltar para Roma amanhã. Túlia suspirou e olhou para a mãe, pedindo o seu apoio. Toda a gente está a regressar. O teu primo Caio já voltou e a minha amiga Aufélia e o marido estão a caminho. Ático, o amigo do pai, nem chegou a partir.

 

Ao ver que a conversa degenerava para uma discussão familiar, eu fiquei à espera de uma pausa para pedir licença para me retirar. Reparei que Domício não estava a prestar qualquer atenção. Segurava uma haste de espargo entre o polegar e o indicador, e parecia estar a interrogá-la. Que patético me parecia aquele homem, com as suas ilusões de glória militar e a sua inveja obsessiva de César. Mas não mais patético do que Cícero, o grande orador reduzido à agonia por causa do adiamento do seu triunfo e do dia da toga do seu filho. Que irrelevantes, e mesmo ridículos, me pareciam ambos.

 

Nessa noite, porém, deitado na minha cama e sem conseguir dormir em virtude de um desacordo entre o molho de conserva de peixe e o meu estômago, perguntei a mim próprio com uma certa perturbação se não estaria tão iludido como Cícero e Domício. Qual seria exactamente o tipo de relação existente entre Júlio César e o meu filho? Tinha havido uma altura em que eu julgara compreendê-la, mas parecia-me que podia ter surgido um factor inesperado, passível de complicar as coisas. Em tempos perigosos como os nossos, não podia permitir-me um erro de cálculo com esta dimensão. E, à medida que prosseguíssemos viagem, e nos aproximássemos dos campos de César e de Pompeu, ainda menos poderia permitir-mo.

 

O sono chegou finalmente, e com ele um pesadelo. Não havia narrativa, mas apenas uma série de horrores violentos. Eu tinha compreendido mal qualquer coisa, e cometera um erro terrível. Alguém tinha morrido. Eu estava coberto de sangue. Betesda e Diana estavam amortalhadas e choravam. A terra abanava e do céu chovia fogo.

 

Acordei alagado em suor, e jurei nunca mais tocar em molho de conserva de peixe.

 

Partimos antes de amanhecer. Eu estava cansado por ter dormido mal e tinha o estômago desarranjado, mas Tiro estava muito bem-disposto.

 

Presumo que não tenhas comido o molho de peixe de conserva, ontem à noite? disse-lhe eu.

 

Cícero mandou abrir outro frasco? Devia querer impressionar Domício. Não, comi uma coisa simples. Papas de milho-miúdo e porco acabado de assar no espeto.

 

Comeste lá fora, com os homens de Domício?

 

Claro. Era a melhor maneira de lhes arrancar informações. Fiz o papel de liberto que mantém uma ligação com a villa.

 

Estiveste a espiar Domício? Pensei que ele fosse aliado de Cícero.

 

Não estive a espiá-lo. Limitei-me a conversar com os homens dele. Fizeram-me vários comentários sobre o moral das antigas tropas de Domício, a dimensão das forças de César, o estado das estradas, e por aí fora.

 

E acerca da emboscada que César terá preparado a Domício, depois de tê-lo deixado partir?

 

Tiro sorriu.

 

De acordo com a versão dos homens, houve de facto um incidente. Quando iam na estrada, mesmo à saída de Corfínio, passou por eles um correio.

 

Um correio?

 

Sim, um homem sozinho, a cavalo. Domício entrou em pânico. Obrigou os seus homens a esconderem-se nos arbustos. Eles tiveram receio de que ele morresse com um ataque de coração. A emboscada foi um produto exclusivo da imaginação dele!

 

Mais ou menos como o acolhimento que o espera em Massília, suspeito eu.

 

Uma expressão de esfinge atravessou o rosto de Tiro.

 

Eu não ficaria excessivamente surpreendido se os Massilianos o recebessem de braços abertos. Ou, pelo menos, de mãos abertas.

 

O que queres dizer com isso?

 

Tiro fez abrandar o passo da montada, deixando Fortex seguir adiante.

 

Apreciei a tua descrição ontem à noite, Gordiano. Não falaste a Domício de mim, nem sequer quando o meu nome foi mencionado.

 

Limitei-me a fazer o que me pediste.

 

E eu agradeço-te. Gostava que fosses igualmente discreto acerca da visita que Domício fez a Cícero.

 

Cícero quer mantê-la em segredo? Por quê?

 

Tem as suas razões. Eu resfoleguei.

 

Cícero recusa juntar-se a Pompeu, não quer que se saiba que acolheu Domício em sua casa. Tem assim tanto receio de ofender César?

 

Tiro fez uma careta.

 

Não é isso. Muito bem, vou dizer-te por quê. Domício não deixou Corfínio de mãos a abanar.

 

Perdeu as suas legiões.

 

Pois foi, mas não perdeu o seu ouro. Quando chegou a Corfínio, Domício depositou seis milhões de sestércios no tesouro da cidade. A maior parte dessa quantia eram dinheiros públicos que levara de Roma, para despesas militares. César podia ter-se apoderado deles, mas presumo que não queira ser visto na pele de ladrão. Devolveu-o na íntegra a Domício quando o deixou partir em liberdade.

 

Eu inspirei audivelmente.

 

Queres dizer que Domício e aquela comitiva andrajosa andam com seis milhões de sestércios atrás?

 

Em baús, transportados em carroças. Já percebes por que razão ele estava tão desconfiado de César e com tanto medo na estrada?

 

O que vai ele fazer com esse dinheiro todo? Devolvê-lo a Roma, ao tesouro?

 

Tiro riu-se.

 

Vai partir para Massília e tentar conquistar os Massilianos, evidentemente. Mas percebes agora por que motivo Cícero pretende evitar que a sua visita seja conhecida? Se o dinheiro desaparecer, e quem sabe o que pode acontecer nos próximos dias?, e a pista for ter a Fórmias, alguém poderá presumir que Domício o deixou lá, à guarda de Cícero. Vivemos tempos desesperados. Esse género de boatos pode atrair corta-pescoços como abelhas ao mel. Famílias inteiras foram chacinadas por bastante menos do que seis milhões de sestércios, Gordiano. Cícero não se envergonha de ter recebido Domício em sua casa, nem receia por si próprio. Mas tem de pensar na família. Tenho a certeza de que compreendes isso.

 

Nesse dia, percorremos 70 quilómetros, até Cápua. No dia seguinte, cobrimos 50 quilómetros, e parámos em Benevento. Em diversos estábulos ao longo do caminho, Tiro foi trocando os cavalos, sempre mediante a apresentação do seu passaporte de correio, assinado por Pompeu. Alguns estábulos faziam-nos a vontade sem fazer perguntas. Outros tratavam-nos com desprezo mal disfarçado e tentavam dar-nos montadas de qualidade inferior. O proprietário de um estábulo recusou-se a fazer o que lhe pedíamos. Observou longamente o documento, lançou-nos um olhar lírio e disse-nos que seguíssemos. Tiro ficou furioso.

 

Sabes qual é a penalização por desprezares um documento emitido na sequência do Decreto Último promulgado pelo Senado? perguntou ao homem. É a morte! O proprietário do estábulo engoliu em seco, mas nada disse. Partimos em busca de outro estábulo.

 

Depois de uma boa noite de sono em Benevento, Tiro decidiu que devíamos sair da Via Ápia e avançar por um antigo percurso de montanha, que atravessava os Apeninos de ocidente a oriente.

 

É um atalho disse Tiro. Insistiu em que trocássemos os cavalos por uma carroça e um escravo para conduzi-la. O proprietário do estábulo de Benevento franziu o nariz quando viu o selo de Pompeu no documento. Tentou recusar o negócio, mas Tiro não estava com disposição para regatear. Por fim, o homem deu-nos uma carroça com uma cobertura de lona e um escravo desdentado como condutor.

 

A carroça parecia-me desnecessária. Os sacos de sela eram adequados para o transporte das nossas provisões e o progresso por estradas íngremes e cheias de curvas seria mais rápido a cavalo. Quando partimos, nessa manhã, disse-o a Tiro. Ele abanou a cabeça e apontou para as pesadas nuvens cinzentas que coroavam o topo das montanhas. Mais tarde, a sua previsão confirmou-se. Tínhamos avançado alguns quilómetros nas faldas das montanhas, quando o céu se abriu, derramando chuva, depois saraiva, depois granizo sobre os nossos ombros. Enquanto nos acomodávamos no interior da carroça, embrulhados em cobertores secos, o pobre condutor tremia, espirrava e incitava os cavalos a andar.

 

A tempestade piorou, até que finalmente fomos obrigados a parar numa pequena estalagem à beira da estrada. Passámos aí a noite, bem como os três dias que se seguiram, durante os quais a tempestade não parou de se abater sobre o mundo. Era inútil fazer recriminações, mas apesar disso senti-me obrigado a sugerir que teria sido preferível não termos saído da Via Ápia. Tiro respondeu-me que o mais provável era termos sido apanhados pela mesma tempestade, fosse qual fosse a estrada que tomássemos, e que tínhamos tido sorte em encontrar um sítio confortável onde nos abrigar. Para combater o tédio, o estalajadeiro tinha uma pequena biblioteca de rolos já muito usados (novelas gregas de má qualidade e poesia erótica de gosto duvidoso), bem como um fornecimento de jogos de mesa. Três dias depois, decidi que morreria feliz se nunca mais voltasse a ler uma única história de amantes malogrados. Comecei a invejar Fortex e o condutor da carroça, que pareciam ambos muito satisfeitos com o facto de passarem o dia e a noite a dormir no estábulo, como ursos em hibernação.

 

Ocasionalmente, durante um jogo de Circo Máximo ou de Faraós Descendo o Nilo, eu sentia que Tiro estava a tentar interrogar-me, seguindo as instruções que Cícero lhe dera: descobrir quais eram as minhas intenções e os segredos que eu conhecia relativamente à morte de Numério Pompeu. Eu evitava as perguntas com a subtileza de que era capaz, e mudava de assunto logo que podia.

 

Por fim, a tempestade passou. Um dia completo de viagem permitiu-nos chegar à encosta oriental das montanhas. Nessa noite, dormimos numa estalagem aninhada entre falésias rochosas e florestas de pinheiros. Na manhã seguinte, enquanto via o Sol nascer da janela do nosso quarto, no andar de cima, avistei ao longe uma mancha de prata e azul que Tiro me declarou ser o Adriático. Tínhamos saído de Roma há onze dias.

 

O céu estava limpo. Partimos com a carroça descoberta. Passada cerca de uma hora, ao descermos por uma estreita passagem de montanha, encontrámos os soldados.

 

Começámos por ouvi-los. O ruído baixo dos tambores de marcha ecoava pelas faldas das montanhas acima. Tiro mandou parar o condutor da carroça. Eu pus-me à escuta. Juntamente com o rufar dos tambores, ouvi o barulho compassado de marcha e o som metálico das armaduras. Tiro e eu deixámos o condutor e Fortex na carroça. Trepámos ao alto de uma saliência rochosa e espreitámos para baixo.

 

Milhares de homens subiam da planície costeira. Ao brilho do Sol da manhã, os elmos fundiam-se numa tira cintilante, que serpenteava sinuosamente pela montanha acima, por sobre as cristas, pelo meio das depressões, à volta das inclinações, preenchendo a largura da estrada como a água preenche o leito de um rio.

 

Serão os homens de César ou os de Pompeu? perguntei eu. Tiro franziu os olhos.

 

Não tenho a certeza. Conheço as insígnias de todas as coortes e legiões, mas não estão suficientemente perto para conseguir vê-las.

 

Em breve estarão, à velocidade a que marcham. Devem ser milhares! A coluna tem quilómetros. Nem consigo ver-lhe o fim. Olhei para trás, para a carroça. Calculo que vamos ter de sair da estrada como pudermos, e esperar que o exército passe. Vão demorar o dia todo.

 

Tiro abanou a cabeça, rabugento.

 

O que significa isto? Não parecem nada um exército derrotado, disso tenho eu a certeza. Estão demasiado disciplinados. E são tantos! Se forem os homens de Pompeu, não podem ter chegado às montanhas sem se terem encontrado com César. Isso só pode querer dizer que César foi derrotado. Pompeu esmagou-o, e agora Pompeu e os senadores que fugiram estão a voltar para Roma. A crise terminou... se se tratar de Pompeu...

 

Eu acenei com a cabeça, perguntando a mim próprio o que significaria isso para Davo, para Meto. O ruído de marcha e o som metálico das armaduras aumentava a cada instante, ressoando e ecoando pelo ar rarefeito das montanhas, até parecer emanar do céu vazio como um trovão constante.

 

E se forem os homens de César? perguntei eu. Tiro abanou a cabeça.

 

Não sei. Talvez Pompeu tenha fugido de Brundísio antes de César ter conseguido lá chegar, e César voltou para trás, de mãos a abanar. Ou então César encurralou-o em Brundísio, aniquilou as suas forças, e está de regresso a Roma. Mas não houve tempo para um cerco. Não faz sentido. Têm de ser os homens de Pompeu... Susteve a respiração. Bolas de Numa! Era tão raro Tiro praguejar, que eu olhei para ele, espantado. Ele tinha o rosto cor de cinza. Claro! Não são os homens de Pompeu, nem os de César!

 

Tiro, estás a dizer disparates.

 

Ali, estás a ver aqueles batedores que vêm à frente dos outros? Vês a faixa de cobre polido que têm à volta dos elmos? Eu franzi os olhos.

 

Não consigo...

 

Eu tenho a certeza: é uma faixa de cobre. E os oficiais devem ter discos de cobre nas couraças, com o desenho de uma cabeça de leão. Domício possui minas de cobre. São as coortes dele, os homens que o traíram em Corfínio.

 

E vão atrás de Domício, para lhe exigirem que lhes pague o pré. é? - sugeri eu.

 

Tiro não estava com disposição para graças.

 

Talvez se tenham voltado contra César. Mas não, se fosse assim, iriam ter com Pompeu. Olhou freneticamente para a carroça, de onde o condutor e Fortex nos observavam, perplexos. Plutão dos infernos! Não temos maneira de esconder a carroça, a estrada está ladeada por rochas e árvores, e há vários quilómetros que não passamos por uma estrada lateral. Abanou a cabeça. Devia ter trocado o condutor e a carroça por cavalos, esta manhã. A cavalo, talvez conseguíssemos esconder-nos.

 

Mas isso importa? Podemos ser inocentes viajantes solitários que atravessam as montanhas.

 

Gordiano, nesta estrada não há viajantes inocentes. Parecia estar à beira do pânico. Eu tentei acalmá-lo.

 

Escondemo-nos entre as rochas, Tiro. O condutor fica com a carroça, e diz-lhes que está sozinho.

 

O condutor dizia-lhes tudo logo que visse o primeiro brilho de uma espada.

 

Nesse caso, levamos o condutor connosco.

 

E deixamos uma carroça abandonada à beira da estrada? Isso ainda era mais suspeito. Nessa altura é que eles iam mesmo à nossa procura, e descobriam-nos em poucos minutos. Que aspecto é que isso dava... quatro homens ocultos nos bosques, por terem alguma coisa a esconder?

 

Tens razão. Não temos alternativa, a não ser ficar com a carroça. Quando os batedores chegarem, cumprimentamo-los com um aceno de mão, sorrimos e comentamos que o tempo tem estado óptimo.

 

Tiro inspirou profundamente.

 

Tens razão. Só temos de ser descarados. Tu serás o senhor, e eu o teu escravo. O que vais fazer ao campo de César? Tens um filho sob o seu comando.

 

Sim, a história é essa, e é tanto melhor por ser parcialmente verdadeira. Primeiro, sugiro que abandonemos este promontório. Estar a espreitá-los desta maneira... não achas que parecemos mesmo espiões?

 

Ele conseguiu fazer um sorriso forçado.

 

Vai andando sem mim. Preciso de me aliviar.

 

Avança. Não tenhas vergonha.

 

Ele estremeceu.

 

Não, Gordiano, não é a bexiga. Um susto destes... chegou-me aos intestinos.

 

Tiro correu para os bosques. Eu lancei um último olhar à interminável corrente de homens que subiam a montanha, e em seguida desci a encosta da colina e fui juntar-me aos outros.

 

Tiro chegou à carroça imediatamente antes de o primeiro batedor a cavalo nos avistar. O soldado avançou devagar em direcção a nós, observando atentamente as árvores e as rochas que ficavam nas nossas costas. Parou a uns passos de distância.

 

Reparou no anel de ferro que eu tinha no dedo.

 

Quem és tu, cidadão? E o que estás a fazer nesta estrada?

 

Chamo-me Gordiano. Venho de Roma. És um dos homens de César?

 

Sou eu que faço as perguntas, cidadão. Quem são estes?

 

O condutor veio com a carroça. Aluguei os dois ao proprietário, numa estalagem do outro lado das montanhas. Fomos apanhados por uma tempestade horrível, deixa-me dizer-te. Que os deuses te concedam céus mais amáveis do que nos concederam a nós.

 

E os outros dois?

 

Escravos. Aquele é um guarda-costas, como se percebe pelo aspecto. Ainda bem que o trouxe comigo. Ainda não estávamos a um quilómetro de Roma, quando fomos atacados por bandidos; tinham-nos morto, se tivessem tido oportunidade, tenho a certeza disso. Mas, desde essa altura, não voltámos a ter problemas.

 

E o moreno?

 

É outro escravo. Um filósofo. Chama-se Soscarides.

 

O batedor olhou para nós com desdém. Era do género que achava os civis desprovidos de utilidade.

 

Ainda não me disseste o que fazes nesta estrada.

 

Eu olhei para a faixa de cobre que ele tinha à volta do elmo e tossi. Ele e os companheiros já tinham sido leais a Domício. Agora, ele tinha jurado fidelidade a Césarpelo menos era o que nós presumíamos. E se estivéssemos enganados? E se a tropa de Domício se tivesse voltado contra o novo comandante? Tanto quanto sabíamos, César podia estar morto, e estas tropas podiam estar de regresso a Roma, com a cabeça de César espetada numa estaca. Mas eu tinha de responder ao homem. Pensei nos jogadores da Taberna Salaz, em Roma, que lançavam os dados gritando "César!" para lhes dar sorte, e inspirei profundamente.

 

Tenho um filho ao serviço de César, pertence ao seu pessoal mais chegado. Soscarides foi tutor do rapaz quando ele era jovem. Talvez seja uma tolice, mas já não aguentava mais com a preocupação... não conseguia continuar ociosamente em Roma, à espera de notícias. Por isso, aqui estou.

 

Quer dizer que andas à procura de César?

 

Ando.

 

O homem olhou-me severamente, depois tomou uma decisão. Sorriu.

 

Nesse caso, continua pela estrada, cidadão. Hás-de acabar por encontrá-lo. O seu tom de voz tinha-se alterado tão profundamente como a sua expressão, à semelhança de um actor que tira a máscara.

 

Em Brundísio? Era isso que corria na estrada.

 

Ele sorriu, mas não respondeu. Estava disposto a ser amável, mas não tanto.

 

Chegou um segundo batedor. Retiraram-se ambos para o outro lado da estrada para conferenciarem, olhando para nós de vez em quando. O segundo batedor seguiu caminho. O primeiro voltou a aproximar-se.

 

O melhor é sentares-te confortavelmente, se puderes. Vais ficar aqui parado um bom pedaço. Vão passar umas tropas em marcha.

 

São muitos? Ele riu-se.

 

Verás. Eu fico aqui contigo até chegar o chefe da coluna. Não é preciso estares a responder às mesmas perguntas ao meu comandante. Ele decidirá se deve cortar-vos a cabeça ou deixar-vos ir. Riu-se, para me dar a entender que se tratava de uma graça.

 

Olhei de esguelha para Fortex, que resfolegou para provar que não estava impressionado. Tiro mostrava-se calmo, filosófico, mesmo. O condutor parecia nervoso.

 

A coluna aproximou-se da passagem. Vimos primeiro os elmos com penachos de crinas de cavalo, depois os oficiais que os tinham postos, montados em animais magníficos. Atrás deles, vinham os homens dos tambores. O ritmo constante do toque de marcha reverberava por entre as encostas íngremes. O oficial que trazia o elmo com o penacho mais elaborado fez sinal aos restantes para que prosseguissem, enquanto ele se afastava da coluna e se aproximava da carroça a meio galope. Uma cabeça de leão rugia no disco de cobre que ele tinha na couraça.

 

Relatório! disse ao batedor, que o saudou com vivacidade.

 

Um viajante de Roma e três escravos, comandante de coorte. O homem chama-se Gordiano.

 

O oficial olhou atentamente para mim.

 

Gordiano? Por que será que o nome me diz alguma coisa?

 

Afirma ter um filho entre o pessoal mais chegado de César.

 

Claro! Gordiano Meto, o liberto. Conheci-o em Corfínio. Quer dizer que és o pai de Meto? Não te pareces nada com ele. Mas, claro, é natural. Eu chamo-me Marco Otacílio, comandante de coorte. Em nome do Hades, o que estás tu aqui a fazer?

 

Estou ansioso por ver o meu filho. Ele está bem?

 

Da última vez que o vi, estava.

 

Quer dizer que não está convosco? Isto não é o exército de César?

 

Este é o exército de César, sim. Todos os homens que aqui vês juraram lealdade a Caio Júlio César. Enquanto trata de uns assuntos na costa, César enviou estas coortes para a Sicília, para garantir a defesa dos seus interesses na região.

 

Era exactamente o género de decisão estratégica que César tomaria: não pôr imediatamente à prova a lealdade das tropas conquistadas a um general hostil, lançando-as contra Pompeu, mas colocá-las noutro posto.

 

Quer dizer que o meu filho está com César? Onde estão eles? Otacílio hesitou, depois fez um aceno de cabeça ao batedor.

 

Podes seguir. Eu trato disto.

 

O batedor fez uma saudação e avançou a galope para a frente da coluna. Os soldados desfilavam pela passagem em filas intermináveis e prosseguiam montanha acima, com os capotes de Inverno lançados sobre os ombros e as armaduras foliadas brilhando sobre o peito.

 

O oficial sorriu.

 

Calculo que não haja problema em vos dizer o que César está a preparar. Ele já...

 

Subitamente, o condutor saltou da carroça, deu uma volta sobre si próprio e apontou para nós.

 

Eles estão a mentir!

 

Assustado com o movimento súbito, o cavalo de Otacílio teve um arranque nervoso. Mesmo antes de ele fazer sinal com a mão, duas filas de homens separaram-se da coluna que passava. Momentos depois, a carroça estava cercada por um anel de lanças.

 

Otacílio recuperou o controlo da montada. Olhou para mim e depois para o condutor desdentado.

 

O que se passa aqui?

 

Eles estão a mentir! O condutor apontou para Tiro. Aquele ali está a preparar qualquer coisa. Antes de sairmos de Benevento, o meu senhor recomendou-me que o vigiasse. Traz consigo um documento qualquer com o selo de Pompeu, o Grande.

 

O oficial olhou-me friamente.

 

Isto é verdade?

 

Eu senti um arrepio na nuca. Abri a boca, perguntando a mim próprio o que haveria de responder. Tiro interveio.

 

Senhor, permites-me que fale por mim?

 

Por favor, Soscarides. Ele dirigiu-se ao oficial.

 

O mentiroso é aquele inútil do condutor! Ele e eu temos vindo a discutir desde que o meu senhor o alugou no estábulo de Benevento. Ele ficou-me com rancor, acha que eu tenho sorte a mais porque fiquei no seco enquanto ele se encharcava todo a conduzir a carroça pelas montanhas. Acho que a constipação se lhe instalou no cérebro. Dêem-lhe umas chicotadas e vejam se ele mantém a história!

 

A boca do condutor formou um círculo desdentado de indignação.

 

Não, não! São todos homens de Pompeu, estou-te a dizer. Foi o meu senhor que disse. Ele não queria dar-lhe a carroça, mas teve de o fazer, por causa do documento que o mentiroso trazia. Revista-o se não acreditas em mim!

 

O oficial parecia genuinamente incomodado. Ele e eu tínhamos um laço de amizade, que passava por Meto, mas só se eu estivesse a dizer a verdade, e fosse realmente o pai de Meto.

 

O que tens a dizer sobre esse documento... Gordiano? Eu olhei para Tiro.

 

Por Hércules, Soscarides, de que está o escravo a falar? Tiro olhou calmamente para mim.

 

Não faço ideia, Senhor. O oficial que me reviste, se quiser.

 

Receio ter de vos revistar a todos.

 

Otacílio começou por nos confiscar as armas. Tiro e eu trazíamos um punhal cada um, e Fortex trazia dois. Fomos proibidos de sair da carroça enquanto os soldados nos revistavam as sacas de sela. Não encontraram nada de interesse. Depois, mandaram-nos pôr de pé dentro da carroça e despir as roupas, peça a peça.

 

As tangas também? perguntei eu, tentando representar o papel de cidadão ofendido.

 

Receio que sim disse Otacílio, encolhendo-se. Voltou a cabeça e viu alguns soldados rir à socapa ao passarem por nós. Olhar em frente! bramiu.

 

Eu estava nu, com as mãos vazias erguidas ao alto.

 

Como podes ver, comandante de coorte, nada tenho a esconder. Nem eu nem os meus dois escravos.

 

Otacílio mostrou-se adequadamente compungido.

 

Devolvam-lhes as roupas. O que dizes a isto? bradou para o condutor, que vacilou, confuso e mudo.

 

Eu senti-me melhor a coberto da tanga. Passei a túnica por cima da cabeça.

 

Só espero, comandante de coorte, que em compensação pela vergonha por que passei, me emprestes um número suficiente de homens... e utensílios adequados... para que este mentiroso seja adequadamente punido.

 

Não! gemeu o homem. Devolvam-me ao meu senhor, em Benevento! Só ele tem o direito de me castigar.

 

Que disparate! disse eu severamente. Aluguei-te, juntamente com a carroça. Enquanto estiveres ao meu serviço, tenho o direito de te punir.

 

Na verdade, por enganar um oficial do exército romano em tempo de crise militar, este escravo está sujeito a ser executado a coberto da lei militar, e o seu senhor a ser multado, no mínimo disse Otacílio friamente. Eu senti uma estocada de piedade pelo assustado condutor, que era neste momento aquele que estava cercado por soldados armados de lanças. Se ao menos tivesse estado calado!

 

Não, espera! gritou ele, desesperado, dirigindo-se a Otacílio. Um dos soldados espetou-o maldosamente com a ponta da lança. Uma mancha de sangue sujou-lhe o ombro. Ele apertou a ferida e gemeu. Ali naquela saliência! Eles os dois treparam para ali antes de as tropas chegarem, estiveram a espiar-vos!

 

A curiosidade não é crime disse Otacílio.

 

Não estás a perceber? Deve ter sido ali que esconderam o documento, ou então destruíram-no. Viram-vos chegar, e livraram-se dele. Vão procurar ali na colina! Hão-de descobri-lo!

 

Tiro revirou os olhos com ar indignado.

 

Este escravo mentiroso vai-te mandar revistar todos os passos da estrada, daqui até Benevento, se continuares a prestar-lhe atenção. Rústico imbecil! Se parares de mentir e começares a dizer a verdade, talvez o comandante da coorte te proporcione, ao menos, uma morte rápida e clemente.

 

Otacílio mexeu o queixo de um lado para o outro e olhou para mim. Eu desempenhei o papel de cidadão ofendido e correspondi ao seu olhar. Apercebi-me de que não nos tinha devolvido os punhais. O que significava que ainda não tinha tomado uma decisão quanto ao nosso destino.

 

Por fim, chamou outro grupo de homens da coluna.

 

Vocês aí, vão fazer uma busca naquele promontório. Tragam-me tudo o que encontrarem que pareça ter sido lá deixado por um viajante: sacas ou bolsas, ou fragmentos de pergaminho, mesmo que sejam muito pequenos ou que tenham sido queimados.

 

Era óbvio que não iam encontrar nada, pensei eu. Tiro estivera comigo no alto da saliência. Não tinha feito referência ao passaporte de correio e eu não o tinha visto escondê-lo. O único vestígio humano com que os soldados podiam deparar, pensei eu, compassivo, era o depósito deixado por Tiro quando se afastara para se aliviar...

 

Subitamente, apercebi-me de que Tiro não ficara para trás por causa dos intestinos e dos nervos. Tinha-se afastado para dar destino ao documento.

 

O pergaminho arde facilmente. E também pode ser rasgado, esmagado aos pés, mastigado, e mesmo engolido. Mas teria Tiro destruído o documento de maneira a não deixar vestígios dele, ou ter-se-ia limitado a escondê-lo, pensando em recuperá-lo depois da passagem das tropas de César? Evitei olhar para ele, com receio de que a minha expressão me traísse. Em vez disso, fiquei a ver os soldados treparem a encosta da colina. Por fim, não pude aguentar mais e olhei na direcção de Tiro. No instante em que os nossos olhos se encontraram, soube, tão certo como se mo tivesse dito, que ele não tinha obliterado o documento, limitando-se a escondê-lo. O meu coração ficou mais pequeno. Inspirei profundamente.

 

Talvez os soldados se contentassem em explorar a parte descoberta do alto da colina, pensei. Mas sabia que era uma esperança vã; estes homens tinham sido treinados para seguir pistas, estar atentos a sinais de passagem, detectar esconderijos. O comandante tinha-lhes ordenado que procurassem e encontrassem. Eles assim fariam.

 

Tiro, Fortex e eu subimos para a carroça e esperámos. O condutor apertava a ferida do ombro e soluçava. Fila após fila de soldados passavam por nós. Eu senti o suspense que se sente no teatro, quando se espera a reviravolta da fortuna.

 

Finalmente, os soldados desceram a colina. Não tinham encontrado só um artefacto, mas vários. Qual é a estrada romana à beira da qual não se encontra lixo? Traziam uma parte de um sapato, mastigado por um animal de dentes pontiagudos. Um pedaço de mármore que parecia um bocado de um estrígil, um instrumento que as pessoas usam nos banhos, para se esfregarem. E um farrapo rasgado, que podia ter sido uma tanga de criança, suja e abandonada. A descoberta mais valiosa fora um velho dracma grego, com a prata manchada de preto.

 

Também encontrámos isto, comandante de coorte. Estava muito bem enrolado e metido entre duas pedras, na outra extremidade da colina. O soldado entregou um pedaço de pergaminho a Otacílio, que o desenrolou, ficando muito sério.

 

Um passaporte de correio disse ele pausadamente. Emitido com base na autoridade proporcionada pelo Decreto Último. Assinado pelo próprio Pompeu. E com o selo do seu anel. Otacílio ergueu os olhos do pergaminho para olhar para mim. Como explicas isto, Gordiano? Se de facto és Gordiano...

 

Fila após fila de soldados foi passando por nós em passo de marcha. Cara após cara olhava-nos de lado, umas com desprezo, outras com simples curiosidade. Alguns chegavam mesmo a olhar-nos com piedade. Devíamos ter um ar lamentável: quatro homens com os braços apertados atrás das costas, acorrentados uns aos outros pelos tornozelos, conduzidos montanha abaixo em fila indiana pela berma da estrada por um comandante de coorte a cavalo. Atrás de nós, vinha um soldado a pé, que usava a lança como chuço.

 

O condutor da carroça era o último do grupo. O ferimento que tinha no ombro tornara-o fraco e débil. Tinha dificuldade em manter o passo, O caminho de terra paralelo à estrada pavimentada era tosco e irregular. Ocasionalmente, ele tropeçava, dando um puxão na corrente que nos prendia os tornozelos, e fazendo com que Fortex tropeçasse sobre Tiro, que tropeçava sobre mim. O soldado a pé espetava o escravo com a lança; o escravo lançava um guincho. Os soldados que passavam por nós em marcha riam-se, como se estivéssemos a fazer um espectáculo na berma da estrada para seu divertimento.

 

De vez em quando, Otacílio olhava para mim por cima do ombro, com uma expressão imperscrutável. Nós dois estávamos ligados por uma segunda corrente, uma extremidade da qual estava enrolada à volta do meu pescoço e a outra à volta do seu antebraço, fechada no pulso. Apesar dos meus esforços para respeitar o passo e manter uma certa folga na corrente, não tardei a ficar com o pescoço torcido e magoado, em carne viva. E muita sorte em ter ainda a cabeça no lugar.

 

Podíamos ter morrido momentos depois de Otacílio ter descoberto as nossas mentiras. Éramos uma anomalia inesperada com que ele deparara no caminho, um obstáculo ao progresso do exército, um problema a resolver. Podia ter-nos mandado executar ali mesmo. Logo que o passaporte de Pompeu foi apresentado, eu preparei-me para essa possibilidade. Para evitar o horror que me causava, permiti que uma onda gigantesca de recriminações me inundasse os pensamentos. Se ao menos Tiro tivesse tido o bom senso de destruir o passaporte, em vez de o esconder. Se ao menos tivéssemos permanecido na Via Ápia, em vez de tomarmos o "atalho" de Tiro. Se ao menos tivéssemos arrastado o condutor para os bosques e lhe tivéssemos cortado a língua antes de chegar o primeiro batedor. Se ao menos tivéssemos largado a carroça na manhã desse dia, e com ela o condutor...

 

A lista de coisas que devíamos ter feito de outra maneira girava interminavelmente dentro da minha cabeça enquanto trotávamos colina abaixo, e a sua monotonia só era interrompida pelo ocasional tropeço do condutor, seguido por novos tropeços na fila e pelo puxão na corrente apertada à volta do meu pescoço, seguido do guincho ao condutor quando era picado, e das gargalhadas dos soldados que passavam.

 

Quem são estes desgraçados? perguntou um soldado.

 

Espiões! disse outro.

 

O que irão fazer-lhes?

 

Pendurá-los de cabeça para baixo e esfolá-los vivos!

 

Aquilo suscitou um guincho de terror no condutor da carroça, que voltou a tropeçar. A sequência humilhante repetiu-se. Os soldados que iam a passar rebolaram-se a rir. Nem a trupe mais trapalhona de mimos alexandrinos seria capaz de apresentar um espectáculo mais divertido.

 

O que tencionaria Otacílio fazer connosco? O facto de ainda não nos ter morto proporcionava-me uma ponta de esperança. Ou talvez não. Ele presumira que éramos espiões. Os espiões guardam segredos. Os segredos podem ser valiosos. Portanto, nós podíamos ser valiosos. Mas eu suspeitava de que o exército romano tinha em relação aos espiões a mesma atitude que o aparelho judicial romano tinha em relação aos escravos, para os quais estabelecia um único meio de obter segredos: a tortura.

 

Tinham-nos poupado a vida, mas com que objectivo? Estávamos a ser levados montanha abaixo, em direcção à retaguarda do exército, mas com que finalidade? Parecia-me mais fácil dedicar-me mentalmente a intermináveis recriminações e enumerar a lista das coisas que não devíamos ter feito, do que pensar nestas perguntas.

 

Gordiano sussurrou Tiro atrás de mim. Quando chegarmos, seja para onde for que estejam a levar-nos...

 

Silêncio! Otacílio olhou para nós por cima do ombro. Se fosse outro, um homem mais cruel, podia ter dado um puxão à corrente que eu tinha à volta do pescoço, mas eu percebi que o seu olhar estava enevoado de dúvidas. Se eu era o homem que afirmava ser, era o pai de um confidente pessoal de César, um homem que Otacílio conhecia. Por outro lado, tinha mentido acerca do passaporte de correio, que nos relacionava directamente com Pompeu, e se o condutor da carroça tivesse dito a verdade, Tiro não era o meu escravo Soscarides, mas o verdadeiro chefe do nosso grupo. Teria eu mentido também quanto ao facto de ser o pai de Meto? Otacílio confrontava-se com um dilema. O seu instinto de soldado dizia-lhe que passasse o dilema para uma pessoa de categoria superior à sua.

 

Ocorreu-me que talvez pudesse escapar intacto e com o pescoço no sítio se proclamasse insistentemente a minha identidade... mas só se traísse Tiro. De que outra maneira poderia explicar o passaporte? Logo que se soubesse que ele era Tiro, convocariam oficiais de categoria superior, que poderiam identificá-lo, apesar do seu disfarce. Na sua qualidade de secretário de Cícero, Tiro era bem conhecido no Fórum. O que lhe fariam, nesse caso? Seria libertado, como Domício, e enviado para casa de Cícero, ileso?

 

Não me parecia. Tiro não era Domício. Era um cidadão e membro da casa de um senador, mas só porque tinha sido alforriado por Cícero. Como tratariam um ex-escravo, viajando incógnito como espião, que mentira descaradamente a um oficial romano? Não me parecia nada que ele fosse simplesmente libertado.

 

A dolorosa série de pensamentos e apreensões servia pelo menos para me manter distraído dos tropeções, que eram cada vez mais frequentes, dos sacões da corrente que tinha à volta do pescoço e das gargalhadas roufenhas dos soldados em marcha. Estava cansado e sedento. A minha cabeça zumbia como se tivesse dentro um enxame de abelhas.

 

Continuámos a trotar colina abaixo, até chegarmos finalmente a um vasto prado que dava para a planície costeira, de onde se avistava, ao longe, o brilho do Adriático. O prado parecia ter sido o local do acampamento da noite anterior. Ainda estava montada uma tenda de grandes dimensões. Passámos pela zona da parada, onde a última coorte estava a formar fileiras, para iniciar a marcha pelas montanhas.

 

No meu estado confuso, perguntei a mim próprio quantos soldados teria visto nas últimas horas. Se o exército era constituído por todas as forças que Domício reunira em Corfínio, seriam ao todo trinta coortes, com seiscentos homens em cada coorte, e eu tinha passado por todos eles. Agora já sabia qual era o aspecto de um corpo de dezoito mil homens armados. De quantos homens disporia César em Itália, para poder enviar tantas tropas para a Sicília?

 

Otacílio conduziu-nos em direcção à tenda, onde uma equipa de homens encarregados de montar e desmontar o acampamento já tinha começado a arrancar as estacas. Um jovem oficial com uma armadura esplêndida saiu da tenda, trazendo debaixo do braço um elmo com uma elegante poupa de crina de cavalo. Não tinha nenhum disco de cobre com uma cabeça de leão na couraça. Não era um dos homens de Domício, mas Otacílio não perdeu tempo a saltar do cavalo e a saudá-lo como seu superior.

 

Bolas de Numa! ouvi Tiro murmurar atrás de mim.

 

Observei melhor o oficial. O medo e a fadiga devem ter-me impedido de reconhecer imediatamente aquele rosto inconfundível, que era um misto de brutalidade e doçura infantil. O perfil era brutal: visto de lado, o nariz amolgado, o queixo saliente e as sobrancelhas escarpadas davam-lhe um ar de lutador irritado. Mas, visto de frente, as faces cheias, a boca suave e. os olhos sonhadores davam-lhe um ar de poeta singelo. Em todos os ângulos entre um e outro, o seu rosto era uma mistura de contradições. Era um rosto que as mulheres achavam fascinante, e em que os homens confiavam ou que temiam instintivamente.

 

Otacílio conferenciou com ele em voz baixa. Eu ouvi pronunciar o meu nome. O homem olhou para mim. As suas sobrancelhas registaram surpresa, seguida de choque. Empurrou Otacílio brutalmente para o lado e avançou para nós, atirando o elmo ao chão e desembainhando a espada curta. Agarrou-me o ombro e encostou-me a lâmina ao pescoço. Eu sustive a respiração e fechei os olhos.

 

Instantes depois, tinha os seus braços peludos à minha volta, esmagando-me contra o seu peito de barrica. A corrente que me prendera o pescoço estava no chão, cortada ao meio.

 

Gordiano! rugiu ele, afastando-se um pouco para me proporcionar uma visão de perto das suas feições rústicas.

 

Marco António sussurrei, e caí desmaiado no chão.

 

Ouvi vozes e, gradualmente, fui-me apercebendo de que me encontrava num espaço fechado. Não era exactamente um quarto, mas uma espécie de abrigo, cheio de uma luz suave.

 

Um cidadão com a idade dele, acorrentado pelo pescoço e obrigado a uma marcha forçada!

 

Os prisioneiros têm de ser acorrentados, tribuno. É o procedimento habitual para suspeitos de insurreição e espiões.

 

Só me espanta que não o tenhas morto! Seria um começo auspicioso para ti no exército de César, comandante de coorte... matar o pai de Gordiano Meto.

 

Limitei-me a cumprir os regulamentos, tribuno. Apercebi-me de que me encontrava numa grande tenda, e lembrei-me da tenda montada no centro do prado, da qual Marco António emergira. Estava deitado sobre uma enxerga dura, coberto por uma fina manta.

 

Ele está a acordar.

 

Ainda bem para ti! Podes sair, Marco Otacílio. Vai outra vez juntar-te à tua coorte.

 

Mas...

 

Se ele te vir, o mais provável é que parta directamente para o Hades! Já fizeste o teu relatório. Sai.

 

Ouvi um roçagar de tecido, senti um movimento de luz proveniente da entrada parcialmente aberta de uma tenda, e depois o rosto de Marco António inclinou-se bruscamente sobre mim.

 

Gordiano, estás bem?

 

Tenho sede. Tenho fome. Doem-me os pés. António riu-se.

 

Pareces um soldado no final de uma dura marcha. Consegui sentar-me. Tinha a cabeça a andar à roda.

 

Desmaiei?

 

Acontece. Uma marcha forçada, sem água nem comida, e, pelas marcas que tens no pescoço, dá-me a impressão que aquele idiota do Otacílio quase te estrangulou.

 

Eu levei as mãos ao pescoço. Senti a carne mole e ferida, mas não estava a sangrar.

 

Por momentos, lá na passagem, pensei que ele ia executar-me.

 

Não é assim tão idiota. Falamos sobre isso mais tarde, depois de teres comido e bebido qualquer coisa. Não te levantes. Deixa-te estar sentado na enxerga. Vou pedir que te tragam qualquer coisa. Mas come depressa. A tenda tem de ser desmontada. Tenciono partir dentro de uma hora.

 

E eu?

 

Tu vens comigo, naturalmente. Eu gemi.

 

Outra vez para a montanha?

 

Não. Para Brundísio. César precisa de mim, para avançar para a matança.

 

A companhia de António era constituída por cem soldados a cavalo. César tinha-o mandado escoltar as tropas destinadas à Sicília até ao sopé dos Apeninos, e depois voltar para trás, para se ir juntar à força principal. O seu contingente era pequeno, para poder movimentar-se rapidamente. Todos os homens eram veteranos da Guerra das Gálias, endurecidos no campo de batalha. António gabava-se de que a sua centúria, escolhida a dedo, estava à altura de qualquer par de coortes.

 

Convidou-me a cavalgar a seu lado, à cabeça da companhia. Os escravos foram autorizados a seguir na carroça de transporte de carga.. Ele presumiu que Fortex fosse o meu guarda-costas pessoal. E não conseguiu reconhecer Tiro, mesmo depois de o ter visto ao pé. Aquilo surpreendeu-me, porque não havia em Roma homem que António odiasse mais profundamente do que Cícero, e eu receava que ele reconhecesse o seu secretário, apesar do disfarce, mas António aceitou a explicação de que Tiro era Soscarides, o antigo tutor de Meto, quase sem olhar para ele. "António não será propriamente um homem simples", observara Meto certa vez, "mas é tão claro e fácil de ler como o latim de César." Aparentemente, esperava que os outros fossem tão transparentes como ele. Quanto ao condutor da carroça, o pobre escravo tinha chegado ao prado exausto e cheio de febre, por causa da ferida do ombro, a delirar de tal maneira, que estava incapaz de responder a perguntas ou sequer de falar coerentemente. Foi metido na carroça de transporte de carga, juntamente com Tiro e Fortex. Pareceu-me conveniente afirmar que este delírio era anterior ao nosso encontro com Otacílio.

 

O infeliz apanhou uma febre quando vínhamos a subir a montanha comentei a António quando partimos. Acho que devia estar desvairado desde manhã. Os disparates que andou a contar ao comandante da coorte... estava a delirar.

 

No entanto, tinha razão quanto ao passaporte de correio, não tinha? António continuava a olhar em frente, dando-me a ver o seu feroz perfil de lutador.

 

Ah! Sim. Isso é um bocado embaraçoso. Eu disse ao meu homem, Soscarides, que o escondesse até as tropas passarem. Talvez tenha sido uma tolice da minha parte, mas pensei que podia poupar-me a alguns aborrecimentos. Mas, afinal, fui apanhado a mentir. Depois disso, não posso censurar o comandante da coorte por ter suspeitado de mim.

 

Mas, Gordiano, em nome do Hades, como foi que deitaste as mãos a semelhante documento? Assinado pelo próprio Pompeu!

 

Eu decidi jogar nas evasivas, em vez de mentir.

 

Não tinha outra maneira de conseguir cavalos frescos em todas as paragens do caminho. Consegui aproveitar-me dele... graças a Cícero. Não era propriamente uma mentira. Fiquei um par de noites alojado na villa dele, em Fórmias.

 

Esse bocado de bosta de vaca! António voltou-se para mim. As suas feições tinham adquirido imediatamente a mesma ferocidade que caracterizava o seu perfil. Sabes o que eu mais gostaria de ver, como resultado de tudo isto? A cabeça de Cícero espetada numa estaca! Desde que o safado assassinou o meu padrasto, quando arrasou a chamada conspiração de Catilina, que tem feito carreira a difamar-me. Não compreendo como é que um homem excelente como tu pode ser amigo de semelhante criatura.

 

Cícero e eu não somos propriamente amigos, tribuno...

 

Não precisas de me dar explicações. César é a mesma coisa. Sempre que se fala de Cícero, começamos a discutir. Ele manda-me parar de arengar. Eu pergunto-lhe por que razão amima semelhante escorpião. "Pela sua utilidade", diz ele, como se isso encerrasse a discussão. "Um dia destes, Cícero há-de ser-me útil."

 

António riu-se. Bem, parece que já te foi útil a ti, dando-te aquele passaporte de correio assinado por Pompeu! Mas acabou por te arranjar uma série de problemas, não foi? Subiste a cavalo um lado da Itália, mas tiveste de descer o outro a pé! Tiveste sorte por Marco Otacílio te ter levado logo à minha presença, pois de outra maneira podias muito bem ter ficado sem cabeça. Mas tu sempre tiveste sorte, tendo em conta que viveste até esta idade. Imagina, o pai de Gordiano Meto suspeito de ser um espião de Pompeu! O mundo tornou-se um lugar estranho.

 

Talvez mais estranho do que tu pensas disse eu baixinho.

 

Bem, havemos de esclarecer tudo isto quando chegarmos a Brundísio. Pareceu aliviado por pôr um ponto final no assunto, mas as suas palavras deixaram-me inquieto. O que faltaria ainda esclarecer, uma vez que António tinha aceite a minha história?

 

Havia o problema do condutor da carroça, evidentemente. O que aconteceria se ele recuperasse do delírio? E se Tiro fosse reconhecido? Como poderia eu explicar a minha cumplicidade com a sua mascarada como Soscarides? Atraiçoar Tiro estava fora de questão. Ele não poderia cair em piores mãos. Eu não tinha qualquer dificuldade em imaginar António vingando-se do ódio que tinha a Cícero no homem que era a mão direita de Cícero.

 

Pareces pensativo, Gordiano. António estendeu a mão e apertou-me a perna. Não te preocupes, em breve estarás com Meto! A partir de amanhã, temos diante de nós três dias de viagem, em veloz cavalgada, até Brundísio. Se continuarmos com sorte, devemos chegar mesmo a tempo de assistir à última tomada de posição de Pompeu!

 

Nessa noite, acampámos a um quilómetro da estrada, num vale pouco profundo, por entre colinas baixas. António salientou a defensabilidade do local.

 

Há realmente perigo de sermos atacados, tribuno? perguntei eu. Temos as montanhas à nossa direita, o mar à nossa esquerda. Atrás de nós fica Corfínio, guardada pelas guarnições de César. Diante de nós, Brundísio, que presumo esteja cercada pelo corpo principal das forças de César. Eu diria que estamos tão seguros como uma aranha num telhado.

 

Claro que estamos. É daqueles anos todos que passei na Gália. Nunca consigo escolher um local para acampar sem pensar que pode haver qualquer coisa invisível escondida bem diante dos nossos olhos.

 

Nesse caso, não te importas de me devolver o meu punhal? Aquele que Otacílio me confiscou? Ele também ficou com os punhais dos meus escravos.

 

Com certeza. Logo que tivermos montado o acampamento.

 

Os homens despiram as armaduras e puseram-se ao trabalho, armando as tendas, cavando um fosso para a latrina, acendendo uma fogueira. Eu fui à procura da carroça de transporte de carga. Estava rodeada por um pequeno bando de homens, que trocavam impressões, olhando para o chão.

 

Deve ter sido a febre que deu cabo dele.

 

Às vezes é muito rápido, com uma ferida daquelas. Já vi homens mais fortes sangrarem menos e morrerem mais depressa.

 

De qualquer maneira, não passava de um velho escravo. E, pelo que ouvi contar, era um desordeiro.

 

Ah, aí vem o amigo do tribuno. Deixem passar!

 

A multidão abriu-se em dois para eu passar. Aproximei-me e vi o corpo do condutor da carroça estendido no chão. Alguém lhe tinha cruzado os braços diante do peito e fechado os olhos.

 

Deve ter morrido durante o dia explicou-me o soldado que se encontrava mais próximo do corpo. Já estava morto quando viemos descarregar a carroça.

 

Eu olhei em volta.

 

Onde estão os outros? Os dois escravos que estavam com ele na carroça?

 

Tiro e Fortex avançaram para mim. Nenhum deles disse palavra.

 

Os soldados foram chamados para outra tarefa e dispersaram. Eu ajoelhei-me ao lado do corpo. Na morte, a cara do escravo era ainda mais desagradável do que fora em vida, com as faces afundadas à volta da boca sem dentes. Nunca tinha chegado a perguntar-lhe como se chamava. Quando queria alguma coisa dele, limitava-me a tratá-lo por "condutor".

 

Fi-lo rolar. Para além da ferida no ombro, tinha várias outras, nos sítios onde fora picado e espetado durante a marcha, mas pareciam feridas superficiais. Os sapatos eram finos e tinha bolhas nos pés, que estavam cobertos de sangue. A corrente tinha-lhe consumido a pele dos tornozelos. Também parecia ter umas vagas nódoas negras à volta do pescoço; à luz que começava a escassear, era difícil dizer. Instintivamente, levei as mãos ao meu próprio pescoço, aos pontos onde a corrente o friccionara. Mas ninguém tinha posto uma corrente à volta do pescoço do escravo.

 

Tiro e Fortex estavam de pé, ao meu lado. Eu falei em voz baixa.

 

Foi estrangulado, não foi? Tiro ergueu uma sobrancelha.

 

Ouviste o que os soldados disseram. Morreu de febre, em consequência do ferimento. Era velho e estava fraco. A marcha pela montanha abaixo foi-lhe fatal. E a culpa foi dele.

 

Estas descolorações no pescoço...

 

Serão manchas de fígado? perguntou Tiro. Eu pus-me de pé e olhei-o de frente.

 

Eu acho que ele foi estrangulado. Foi pelas tuas mãos, Tiro?

 

Claro que não. Fortex foi treinado para fazer esse género de coisas. Eu olhei para Fortex. Ele recusou-se a devolver-me o olhar.

 

Tinha de ser, Gordiano sussurrou Tiro. E se ele recuperasse e recomeçasse a falar?

 

Eu olhei-o fixamente.

 

Não me julgues, Gordiano! Em tempos como estes, um homem tem de fazer certas coisas que vão contra a sua natureza. Tens a certeza de que não terias feito a mesma coisa?

 

Eu voltei-me e afastei-me em direcção à fogueira que iluminava o acampamento.

 

António não questionou a morte extemporânea do condutor da carroça. Estava habituado a assistir a mortes súbitas, de ferimentos que não pareciam fatais. Tinha mais em que pensar.

 

Na manhã seguinte, os soldados lançaram o corpo para o fosso que servia de latrina e taparam-no. A morte de um escravo não merecia uma cerimónia mais elaborada.

 

Ao prosseguirmos, o único comentário de António foi que eu podia contactar o dono do escravo quando tivesse oportunidade, para lhe comunicar o que tinha acontecido à carroça e ao condutor.

 

Se desconfias que ele é do tipo litigioso, podes fazer-lhe uma proposta de acordo; é óbvio que o escravo não tinha grande valor. E, uma vez que o proprietário to tinha emprestado ao abrigo do teu passaporte de correio, tecnicamente, não lhe deves nada. Ele que processe Pompeu! António riu-se, e depois abanou a cabeça. Os civis têm sempre prejuízos em tempo de guerra: propriedades arruinadas, escravos que fogem. Num sítio como a Gália, os locais têm de se remediar sozinhos. Aqui em Itália vai ser diferente. Quando as coisas voltarem ao normal, vai haver uma onda de litígios: processos por danos, pedidos de reparações, petições de abrandamento de impostos. Os tribunais vão ficar a abarrotar. César vai ficar com as mãos cheias.

 

E advogados como Cícero também disse eu.

 

Se ainda tiver mãos respondeu António.

 

A estrada costeira era recta e plana durante a maior parte do percurso, mas não estava nas melhores condições. As tempestades de Inverno tinham danificado algumas secções, deslocando pedras e arrastando as fundações. Normalmente, este género de estragos teria sido prontamente reparado por grupos de escravos ao serviço do magistrado local, mas o caos que imperava na região impedira que isso acontecesse. A recente passagem de tantos homens, veículos e cavalos primeiro do exército de Pompeu, depois do de César tinha agravado a situação. Porém, apesar da lama e dos excrementos de animais, nesse dia percorremos bem mais de sessenta quilómetros, e fizemos o mesmo no dia seguinte e no outro.

 

Eu já tinha feito uma viagem com António, uns anos antes, entre Ravena e Roma, e voltei a achar a sua companhia muito agradável. Ele era um homem enérgico, quer estivesse na Gália, num campo de batalha, numa festa da moda, no Palatino, ou no plinto do orador, no Senado Romano. Tinha imensas histórias para contar, e divertia-se a ouvir as minhas, desde que tivessem a ver com mulheres escandalosas, chicana política, julgamentos por assassínio ou, melhor ainda, as três coisas juntas. Eu mal via Tiro, que viajava na carroça de transporte de carga e se mantinha longe da vista de António.

 

Foi à hora que antecede o crepúsculo do terceiro dia um dia depois dos Idos de Martius, um dia antes da festa das Liberais que chegámos às proximidades de Brundísio. Fomos detectados por sentinelas postadas no cimo de uma colina baixa, a leste da estrada. Um centurião aproximou-se a cavalo para dar as boas-vindas a António. O homem estava corado de excitação.

 

Tribuno, chegaste mesmo a tempo!

 

De quê?

 

Não tenho a certeza, mas os homens postados do outro lado da colina estão a berrar e a aplaudir. Está a passar-se qualquer coisa lá em baixo na enseada.

 

Indica-nos o caminho! rugiu António. Eu hesitei em segui-lo, por não saber bem qual era o meu lugar, agora que tínhamos chegado ao teatro das operações. António olhou para trás, dirigindo-se a mim. Não vens, Gordiano?

 

Cavalgámos até ao alto da colina, onde tinham sido montadas diversas tendas e postado um contingente de soldados, de sentinela. Para norte, na direcção de onde tínhamos vindo, o local proporcionava uma vista abrangente da praia e da estrada costeira, ao longo de muitos quilómetros. Há horas que o centurião detectara a nossa aproximação.

 

Para sul, dava para a cidade, para a enseada e para o mar. O centurião conduziu-nos para um ponto de vantagem com uma visão desimpedida.

 

Dizem que era exactamente aqui que César se encontrava quando planeou o cerco disse ele, orgulhosamente.

 

A cidade muralhada de Brundísio fica situada numa península rodeada por uma enseada semicircular. Um pequeno estreito liga esta enseada protegida ao mar Adriático. A maneira mais fácil de visualizar os contornos da cidade é a pessoa erguer a mão direita e formar um C invertido. O espaço encerrado entre o indicador e o polegar representa a península sobre a qual foi construída a cidade. O indicador e o polegar da pessoa representam os canais norte e sul da enseada. O pulso representa o estreito pelo qual os barcos têm de passar para chegarem ao mar.

 

Do ponto de vantagem onde nos encontrávamos, a cidade situada na península aparecia-nos como uma aglomeração de edifícios, armazéns e templos, amontoados no interior de uns muros altos. Avistávamos claramente os soldados de Pompeu nas torres e parapeitos, com os elmos e as lanças a brilhar ao sol que caminhava para oeste. Ao longo da muralha ocidental, a parte da muralha voltada para terra que se estendia entre os canais norte e sul da enseada, estava acampado o exército sitiante de César. A meus olhos, a força parecia enorme. Tinha sido congregada fila após fila de catapultas e máquinas de balística, juntamente com diversas torres de cerco sobre rodas, ainda mais altas do que as muralhas da cidade.

 

Mas nada vi que provocasse agitação entre os vigilantes da encosta da colina. As torres de cerco e as máquinas de guerra estavam desocupadas. Não se via fumo a sair da cidade, nem vi sinais de combates ao longo da muralha.

 

Ali! António apontou para longe da cidade, em direcção à entrada da baía e para além dela. Aproximava-se uma frota de navios de grande porte, proveniente do alto-mar. Alguns já tinham chegado à entrada da baía e pareciam estar a manobrar por forma a passarem por ela em fila indiana. Achei esta atitude curiosa, dado que eu próprio já tinha entrado e saído de Brundísio por ali, de barco, e sabia que a entrada na baía era suficientemente profunda e larga para permitir a circulação de vários navios em paralelo, mas aparentemente estes estavam a tentar entrar um de cada vez, mantendo-se o mais perto possível do centro. Quando o primeiro barco entrou no estreito, percebi o motivo daquele curso de acção. Era uma visão tão estranha, que tive dificuldade em acreditar nos meus olhos. Na parte mais estreita da entrada na baía, tinham sido construídos, a partir de ambos os promontórios, uma espécie de molhes, que se alongavam bem para dentro de água. Estes dois quebra-mares só por pouco não se encontravam a meio ou pelo menos assim parecia à distância, quase encerrando a entrada na baía. Ao longo de ambos os braços da estrutura, tinham sido construídas, a curta distância umas das outras, pequenas torres equipadas com catapultas e máquinas de balística.

 

Pelo meu antepassado Hércules, o que estamos nós a ver? murmurou António, tão espantado como eu com aquilo a que estava a assistir. Voltou a cabeça e observou os outros soldados que estavam de sentinela ao longo da encosta da colina. Ali próximo, um homenzinho barbudo estava de pé em cima de um grande pedregulho, visionando intensamente a cena, de braços cruzados, a resmungar sozinho. António chamou-o. Engenheiro Vitrúvio!

 

O homem pestanejou e olhou na nossa direcção.

 

Engenheiro Vitrúvio! Relatório!

 

O homem pulou da rocha e correu para nós. Saudou António.

 

Tribuno, vieste juntar-te a nós!

 

Declaras o óbvio, Marco Vitrúvio. O que já não é tão óbvio é aquilo a que estamos a assistir ali em baixo. Em nome do Hades, o que se está a passar?

 

Ah! Vitrúvio olhou na direcção da baía, mas era tão baixo que os cumes de algumas árvores que ficavam ao fundo da encosta da colina lhe obstruíam a visão. Se não te importares de recuar para terrenos mais elevados, tribuno...

 

Seguimo-lo de regresso ao pedregulho. Ele trepou para cima da rocha, cruzou os braços e olhou fixamente na direcção da baía.

 

Muito bem, tribuno; se me permites que te explique a situação... O seu tom era típico da atitude condescendente dos construtores e engenheiros, mesmo quando estão a lidar com superiores hierárquicos, quando estes sabem menos do que eles sobre construção e matemática.

 

Vitrúvio pigarreou.

 

Há sete dias, chegámos à entrada de Brundísio. César procedeu imediatamente ao cerco da cidade e da baía, colocando a parte mais significativa das suas seis legiões diante das muralhas da cidade, mas resguardando também os promontórios norte e sul da entrada da baía. O nosso comandante esperava assim apanhar na sua armadilha, não apenas Pompeu, mas também os dois cônsules e os muitos senadores que se encontram com ele, forçando-os a negociações imediatas e à resolução da crise.

 

Mas... interrompeu António.

 

Um mau sinal: tínhamos informações de que Pompeu reunira uma frota considerável, mas havia apenas uns quantos navios na enseada. Para onde teria ido a frota? Além de que, antes da nossa chegada, já.

 

"Pompeu enviara os cônsules, os senadores e uma parte substancial do seu exército para Dirráquio, do outro lado do Adriático, pondo-os assim fora de perigo. Sempre em busca da paz, o nosso comandante esforçou-se por negociar directamente com Pompeu. O Grande respondeu que, na ausência dos cônsules, não era possível fazer qualquer acordo com valor legal. Ou seja, não haveria negociações.

 

Os nossos informadores no interior de Brundísio, Pompeu tratou os locais com desprezo e eles estão ansiosos por ajudar César, informaram-nos de que Pompeu mantinha consigo vinte coortes. Não que pretendesse aguentar a cidade indefinidamente, não lhe seria possível, apenas com doze mil homens, contra o triplo desse número; queria apenas permitir que a sua frota chegasse a Dirráquio, desembarcasse a primeira ronda de passageiros, e regressasse a Brundísio para vir buscar Pompeu e os seus homens.

 

Mas o nosso comandante, tendo perseguido Pompeu até aqui, não tencionava permitir que ele lhe escapasse. Veio ter comigo. Temos de os deter, engenheiro Vitrúvio! Temos de evitar que os navios de Pompeu voltem a entrar na enseada quando regressarem ou, se o conseguirem, temos de evitar que partam. Mas eu não disponho de navios e os meus homens não podem marchar sobre as águas. Parece-me que isto é um problema de engenharia, Marco Vitrúvio. És capaz de bloquear a enseada?" Eu disse que era. "Então fá-lo, engenheiro Vitrúvio!" O homenzinho acenou com a mão na direcção da enseada.

 

Podem ver o resultado daqui. Começámos por construir grandes quebra-mares de terra e pedra de cada um dos lados da entrada da enseada, onde a água é menos funda. Infelizmente, à medida que a obra ia progredindo e que chegávamos a águas mais profundas, tornou-se impossível aguentar as fortificações. Nessa altura, construímos uma balsa com nove metros quadrados na extremidade de cada um dos quebra-mares e fixámos as balsas com âncoras nos quatro cantos, a fim de as mantermos imóveis sobre as águas. Fixas estas plataformas, juntámos-lhes novas balsas, ligando-as firmemente às primeiras e cobrindo-as com uma passagem de terra, para que adquirissem a solidez de um verdadeiro quebra-mar, embora flutuem sobre as ondas. Se esforçarem os olhos, conseguirão distinguir os tabiques e parapeitos que foram colocados ao longo de ambos os lados das passagens de terra, para proteger os soldados que circulam por ali. De quatro em quatro balsas, construímos uma torre com dois andares, para a defender dos ataques por mar. O objectivo era, evidentemente, encerrar por completo a enseada.

 

António resmungou.

 

E tudo isto foi ideia tua? '' Vitrúvio irradiava satisfação.

 

Na verdade, se os historiadores gregos forem dignos de crédito, Xerxes, o rei da Pérsia, terá feito uma coisa semelhante quando atravessou o Helesponto, conduzindo o seu exército da Ásia para a Europa. Sempre perguntei a mim próprio como teria realizado semelhante feito. Desconfio de que terá usado uma técnica semelhante, ancorando balsas e ligando-as umas às outras.

 

Meto tinha-me falado muitas vezes dos importantes feitos de engenharia suscitados por César nas suas batalhas contra os Gauleses. Sob o comando de César, os homens atravessavam rios e abismos, escavavam largas trincheiras, canais e túneis, e construíam grandes torres e engenhos de cerco. Mas uma tentativa de encerrar uma enseada era uma novidade.

 

António acenou com a cabeça, claramente impressionado.

 

Qual foi a reacção de Pompeu a estas construções? Não me digas que, quando se apercebeu do que estava a acontecer, ficou ociosamente a assistir das muralhas da cidade.

 

Claro que não disse Vitrúvio. Depois de ter fechado a boca que tinha aberto de espanto, o Grande alugou os maiores navios mercantes que restavam na enseada e equipou-os com torres de cerco, com três andares. Os navios têm andado todo o dia a fazer surtidas junto da entrada da baía, para ver se conseguem dar cabo das nossas balsas. Conseguiram fazer abrandar o ritmo de trabalho, mas não destruí-lo. Tem sido um espectáculo o dia todo, observar as nossas torres nas balsas e as torres deles nos navios lançar projécteis e bolas de fogo e setas umas às outras. Sangue na água... rastos de fumo nauseabundo... explosões de vapor!

 

António franziu o sobrolho.

 

Mas o bloqueio não ficou concluído. O canal continua aberto. Vitrúvio cruzou os braços e assumiu a expressão inexpugnável de todos os construtores cujo projecto se atrasou.

 

Infelizmente, não tivemos tempo para acabar a obra, em particular por causa dos ataques dos navios de Pompeu. Mas a ideia era brilhante! Mais uns cinco dias, ou mesmo três... Vitrúvio abanou a cabeça. E agora, a frota regressou. Aqueles barcos que ali vês são de Pompeu, alinhados para entrarem na baía. E lá vão eles! Os navios mercantes alugados, com as respectivas torres, partindo da cidade com o objectivo de atacar os nossos homens que se encontram nas balsas e tentam interceptar os barcos que estão a entrar.

 

Enquanto o Sol se escondia por trás das colinas, a oeste, nós ficámos a assistir ao desenvolvimento da batalha naval. Um por um, os navios de transporte de Pompeu iam passando pelo intervalo entre os quebra-mares e entrando na enseada. Voavam pedregulhos, lançados pelas catapultas construídas nas balsas. A maioria falhava o alvo e caía à água, com embates prodigiosos. Alguns atingiam mastros ou proas, rasgavam velas e atiravam lascas de madeira pelos ares. Uma pedra catapultada acertou em cheio no convés de um barco, parecendo atravessá-lo pelo menos até ao convés inferior, o convés dos remadores, mas o barco não se afundou.

 

Ao mesmo tempo, no alto das torres das balsas, os homens carregavam os engenhos de balística com projécteis gigantescos, que atiravam aos barcos. Os projécteis pareciam-me setas feitas de troncos completos de árvore, e as máquinas capazes de os lançar tinham a aparência de arcos gigantescos, com manivelas de ambos os lados para suscitar a tensão. Alguns dos mísseis eram incendiados antes de serem lançados, e atravessavam os ares a grande velocidade, deixando atrás de si um rasto de chamas e fumo. A pontaria dos homens que accionavam os engenhos de balística parecia ser mais precisa do que a daqueles que faziam funcionar as catapultas. Estes causavam maiores danos aos barcos que vinham a chegar, mas não conseguiram afundar nenhum deles.

 

Entretanto, os navios de combate da cidade respondiam ao ataque lançando projécteis e pedras às balsas, e tentando mesmo abordá-las, como fariam a um navio inimigo no alto-mar. Os homens de César que ocupavam as balsas conseguiam repelir estes ataques mas, para isso, tinham de se distrair dos seus próprios ataques aos barcos de transporte. Havia soldados correndo incessantemente nas passagens criadas sobre as balsas, transportando projécteis para os engenhos de balística e fazendo rolar pedras em direcção às catapultas. Os arqueiros de ambos os lados obstruíam o ar com setas, e as ondas estavam a ficar congestionadas com destroços de projécteis e corpos.

 

À distância, toda esta agitação parecia totalmente caótica, um imenso bulício de terra, mar, fogo e fumo. Porém, ao mesmo tempo, dava a impressão de ser uma operação ordenada, ainda que febril, levada a cabo por homens com uma intenção definida, que usavam todos os dispositivos e métodos engenhosos que podiam conceber com o fito de se destruírem mutuamente. Era excitante assistir àquilo, como é excitante assistir aos relâmpagos de uma tempestade. A batalha prosseguia com inescapável inevitabilidade. Parecia que estávamos a observar uma única máquina, grande e com numerosas peças, que, uma vez posta em movimento, nenhum poder na terra ou nos céus poderia impedir de completar as suas múltiplas operações.

 

À medida que o Sol se punha e que o fedor do fumo e do vapor se ia intensificando, a batalha ia-se tornando cada vez mais obscura. Parecia que todos os barcos de transporte de Pompeu iam conseguir passar pela entrada da baía. Ao mesmo tempo, as balsas de César tinham conseguido resistir ao assalto, e permaneciam no seu lugar.

 

Por fim, só restava um barco de transporte no exterior da baía. Tinha começado a ventar, e a embarcação estava com dificuldades em manobrar. Houve um momento de acalmia na batalha. Senti diminuir a energia de ambos os lados. A operação das catapultas e das máquinas de balística tornou-se mais esporádica. A chuva constante de setas foi suspensa. Talvez se tivessem acabado as munições de ambos os lados, ou então era a escuridão, cada vez mais acentuada, que dificultava a pontaria.

 

Depois, ocorreu um daqueles incidentes que provam a loucura das batalhas, e desmentem qualquer visão de que a guerra é uma operação ordenada. Um dos barcos de assalto de Pompeu lançou um projéctil incendiário da sua catapulta. Transportar material inflamável a bordo de um navio deve ser tremendamente perigoso, e nenhum dos navios tinha ainda lançado uma bola de fogo. Nesse caso, por que alançara o capitão? Como gesto irreverente de despedida? Para gastar a derradeira munição, antes do encerramento da batalha? Ou teria sido uma última tentativa calculada de destruir as balsas?

 

Fosse qual fosse a intenção, o resultado obtido não era certamente aquilo que o capitão visava. A bola de fogo ultrapassou as balsas. Voou como um cometa por sobre as cabeças dos homens de César, desceu num arco alcantilado, e foi esmagar-se no convés do último barco de transporte de Pompeu, que procurava penetrar no estreito.

 

Por que se teria o barco incendiado, tão depressa e tão completamente, quando os seus irmãos tinham resistido, apesar das bolas de fogo equivalentes lançadas pelas catapultas de César? Talvez a bola de resina em chamas tivesse caído sobre um reservatório de material inflamável. Talvez tivesse sido a acção do vento que estava a levantar-se. Fosse qual fosse a causa, o barco foi completamente tomado pelas chamas com espantosa rapidez, desde a linha de água até ao alto da vela. Corpos inflamados saltavam do convés. Os berros dos remadores, fechados no convés inferior, chegaram até ao alto da colina. Mas os seus gritos foram abafados pelos aplausos triunfantes dos homens de César, que corriam excitados de um lado para o outro, ao longo do quebra-mar.

 

Subitamente, os aplausos cessaram. Descontrolado, empurrado pelo vento, o barco em chamas inclinou-se de repente por cima das balsas de César, na direcção da mesma torre que fora o alvo da bola de fogo. Os homens que estavam na torre começaram a fugir como formigas de um outeiro. Momentos depois, o navio chocou violentamente com a linha de balsas. O mastro despedaçou-se em consequência do impacto e caiu sobre o quebra-mar. Os soldados em fuga foram apanhados por baixo da vela, que desceu sobre eles como um lençol flutuante em chamas.

 

Os soldados que anteriormente tinham andado a transportar munições ao longo da passagem carregavam agora baldes de água do mar, tentando desesperadamente apagar o fogo e impedir que ele se espalhasse. Os navios de ataque de Pompeu podiam ter-se aproveitado da confusão, mas já tinham voltado as costas ao inimigo e regressado à cidade, escoltando os barcos de transporte para a segurança do porto.

 

A noite caiu. Tinha terminado a batalha.

 

Nessa noite, acampámos e jantámos na companhia dos homens que estavam de sentinela. Eu estava convencido de que António estaria tão ansioso por ir apresentar o seu relatório a César como eu por encontrar Meto, agora que tínhamos finalmente chegado a Brundísio. Mas António não era homem que se privasse do seu jantar no termo de três longos dias a cavalo, mesmo que ele consistisse apenas numa ração de soldado, papas de aveia com um pouco de vinho.

 

Comemos na encosta da colina, ao ar livre, sentados em pequenas cadeiras de lona dobráveis. O vento estava a passar. O mar e a enseada foram-se tornando imóveis como um espelho preto, reflectindo o manto de estrelas. As chamas do navio naufragado contra o quebra-mar foram morrendo gradualmente. No interior das suas altas muralhas, a compacta cidadezinha de Brundísio parecia brilhar de cima a baixo, como se o próprio solo estivesse iluminado. A certa altura, foram-se acendendo tochas no alto das torres e ao longo dos parapeitos, uma após outra, até o percurso das muralhas ficar completamente delineado, como uma serpente enrolada. No exterior da parte da muralha que dava para terra, o exército de César estava salpicado de centenas de fogueiras tremeluzentes. Para lá do exército sitiante, ficavam os sopés dos Apeninos, aninhados na escuridão, com a linha das cristas ainda ligeiramente iluminada pelos derradeiros vestígios do Sol poente.

 

Hoje assistimos a uma batalha! disse António, que parecia muito animado, apesar de a armada de Pompeu ter conseguido passar.

 

E amanhã, é provável que assistamos a um cerco observou Vitrúvio. António tinha-o convidado para jantar connosco, a fim de prosseguir com a explicação dos feitos de engenharia a que a construção do quebra-mar o obrigara. Vitrúvio lançou-se então, para meu esclarecimento, na enumeração dos diversos engenhos e estratégias que podiam ser utilizados quando César lançasse as suas forças contra os defensores de Brundísio escadas para escalar as muralhas, torres de cerco com rodas, aríetes, sapadores que escavariam por baixo das fundações a fim de enfraquecerem as muralhas, soldados que avançariam em formação de tartaruga, rodeados de escudos e eriçados de lanças.

 

Comecei a perguntar a mim próprio o que iria acontecer a Davo. Onde estaria ele, naquele preciso momento? Tê-lo-ia Pompeu mantido entre os seus guarda-costas pessoais? Essa era a minha esperança, mas quem sabe onde teria ido parar, devido aos caprichos de Pompeu ou à simples necessidade. Talvez Davo estivesse neste preciso momento a guardar as muralhas da cidade, misturado com as minúsculas figuras iluminadas pelas tochas colocadas ao longo do parapeito, que marchavam de um lado para o outro embrulhadas em capas grossas por causa do frio da noite, contando ansiosamente as horas que faltavam para o nascer do dia. Ou talvez tivesse participado na batalha naval que tivera lugar nesse dia, manobrando um dos navios de assalto de Pompeu. Davo não sabia nadar, tinha dito Diana. A bem dizer, eu também não. Que maior terror que o de ser apanhado dentro de um barco que avança deliberadamente ao encontro do perigo? A visão dos homens feridos lutando no meio das ondas fora o que mais me horrorizara nesse dia, mais ainda do que o barco de transporte em chamas. Estaria Davo entre aquelas figuras minúsculas, que se debatiam e gritavam por entre os destroços da batalha?

 

E Meto? Vi de novo a vela em chamas descendo sobre os soldados em fuga. Estaria o meu filho entre eles? Não me parecia provável. César mantinha-o junto de si. Neste momento, devia estar acampado com a maior parte do exército no exterior das muralhas da cidade, a jantar na messe privada do comandante, tirando cuidadosamente as suas notas enquanto César discutia com os seus tenentes a estratégia para o dia seguinte.

 

Quem corria maior perigo, Davo ou Meto? Julgando superficialmente os acontecimentos, penso que qualquer pessoa diria que era Davo. Mas eu não estava assim tão seguro.

 

Muito depois de ter esvaziado a taça de papas, António continuava de copo estendido, a pedir mais vinho. Depois de estar adequadamente embriagado, insistiu em que Vitrúvio e o centurião do turno da noite o acompanhassem numa ronda de canções obscenas. A maioria era simplesmente ordinária, mas havia uma bastante divertida, sobre um oficial pretensioso e efeminado que preferia estar em casa a provar os vestidos da mulher, mas que acaba por ser o mais corajoso de todos os combatentes. Assim era o humor militar, pensei eu. Os homens precisavam de um ou dois disparates que os fizessem rir, e de vinho com que os diluíssem, depois de terem visto uma carnificina como aquela a que tínhamos assistido hoje.

 

António ainda cantava energicamente quando eu pedi licença para me retirar e me dirigi à tenda dos oficiais, onde me tinham reservado um espaço. Deitei-me na minha enxerga, mas não conseguia dormir, preocupado com Meto e com Davo, e perguntando a mim próprio o que trariam os dias seguintes. Ao partir de Roma, pensava que tinha um plano. Agora, esgotado pela viagem e confrontado com a realidade da situação, parecia-me que a vaga noção que tivera em mente se tinha desvanecido como o nevoeiro da manhã. Estava fora do meu elemento. Sentia-me minúsculo e insignificante, esmagado pelas forças que me rodeavam. Agora que o momento crítico se aproximava a grande velocidade, não me sentia tão corajoso como tivera a esperança de me sentir.

 

A dobra da tenda agitou-se. Alguém entrou sorrateiramente, avançando hesitante por entre as camas de campanha. Ouvi um sussurro:

 

Gordiano?

 

Era Tiro. Levantei-me da cama, embrulhei-me no cobertor e empurrei-o para fora da tenda.

 

Também não consegues dormir? Quer dizer que a carroça de carga não é suficientemente confortável?

 

Muito pouco resmungou Tiro. Fortex e eu dormitamos à vez. Ainda não tenho a certeza de que António não me tenha reconhecido.

 

António nem sequer olhou para ti. Ninguém repara nos escravos, a não ser que sejam jovens e belos.

 

Apesar disso, todas as noites espero ser estrangulado enquanto durmo.

 

Pensei no condutor da carroça, estrangulado durante o delírio, mas não disse nada.

 

O que vai acontecer amanhã, Gordiano?

 

Não sei. Se tiver sorte, vou encontrar-me com Meto.

 

E com César?

 

Talvez.

 

Leva-me contigo. Eu franzi o sobrolho.

 

Pensei que tinhas andado isto tudo para falares com Pompeu, e não com César.

 

E foi. Será a minha porta de saída de Itália. Tenciono seguir no barco de Pompeu quando ele partir para Dirráquio.

 

Não me tinhas dito.

 

Não era preciso tu saberes. Mas, antes de partir, e se tiver oportunidade, gostava de espreitar para o interior da tenda de César.

 

Para poderes assassiná-lo?

 

Não brinques, Gordiano. Só quero dar uma vista de olhos. Nunca se sabe que coisas poderão ser úteis mais tarde.

 

Queres que eu te ajude a espiar César?

 

Deves-me um favor, Gordiano. Terias conseguido chegar de Roma aqui com a mesma rapidez, se não fosse eu?

 

E tu terias sobrevivido durante os últimos quatro dias se eu não tivesse mentido por tua causa, Tiro? Acho que estamos pagos.

 

Então faz-me esse favor, que eu faço-te outro favor. Não é tua intenção entrar em Brundísio, para recuperares o teu genro a Pompeu?

 

Se puder.

 

Como tencionas entrar dentro das muralhas da cidade, com o exército de César de um lado e o de Pompeu do outro?

 

Não sei bem admiti.

 

Eu posso meter-te lá dentro, são e salvo. Vens comigo e com Fortex. Mas, em troca desse favor, quero que me leves contigo quando fores encontrar-te com Meto... e com César.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Impossível. Ainda é mais provável que César te reconheça do que António. César jantou em casa de Cícero! Deve ter-te visto muitas vezes, e não só a tirares apontamentos no Senado.

 

Viu-me, é certo, mas nunca olhou verdadeiramente para mim. Como tu próprio disseste, Gordiano, ninguém repara nos escravos.

 

César repara em tudo. Estás a arriscar a cabeça, Tiro.

 

Talvez não. E se ele me reconhecer? César está ansioso por se tornar famoso pela sua clemência.

 

Clemência para senadores e generais, Tiro, não para libertos e espiões.

 

Estou disposto a arriscar. Se alguém te perguntar quem sou eu, dizes que sou Soscarides, o antigo tutor de Meto.

 

E Meto? Achas que ele também vai acreditar nessa mentira?

 

Fá-lo por mim, Gordiano! Se queres entrar em Brundísio antes de o teu genro ser morto nas muralhas ou mandado de barco para Dirráquio, faz-me esse favor.

 

Vou pensar nisso disse eu, sentindo-me de repente muito cansado. Bocejei. Quando abri os olhos, Tiro tinha desaparecido. Voltei para a tenda.

 

Apesar das minhas preocupações, apesar dos horrores a que tinha assistido nesse dia, o sono tomou rapidamente conta de mim, mas não foi um sono sem sonhos. Não sonhei com chamas nem com afogamentos, nem com passagens de montanha e marchas forçadas. Sonhei com Emília, a amante de Numério. Vi-a com um bebé nos braços, sorrindo feliz. Senti um profundo alívio e aproximei-me para ver melhor, mas tropecei em qualquer coisa. Baixei os olhos e vi o corpo de Numério, que era, não sei como, o corpo do condutor da carroça, com um garrote bem apertado à volta do pescoço. O bebé de Emília tinha desaparecido. Ela estremeceu de horror e começou a chorar. Tinha a parte da frente do vestido, entre as pernas, ensopada em sangue.

 

Acordei sobressaltado. António estava inclinado sobre mim, com os olhos injectados de sangue.

 

Está a amanhecer, Gordiano! Chegou o momento de eu me apresentar a César e de tu veres o teu filho. Mija se precisares. Depois chama os teus escravos e vamos embora.

 

Antes de descermos até ao acampamento principal, António quis lançar um derradeiro olhar ao quebra-mar, do alto da colina. Havia algumas nuvens altas, mas o horizonte estava limpo. O Sol nascente incidindo nos nossos olhos e o seu reflexo cintilante sobre as águas dificultavam a visibilidade, mas os destroços do barco incendiado pareciam ter sido removidos durante a noite. Havia homens atarefados a reparar os danos do quebra-mar, e a construção prosseguia.

 

Vitrúvio está lá em baixo disse António. A noite passada, contou-me que tem esperança de, no final do dia, ter conseguido acrescentar mais duas balsas a cada extremidade do quebra-mar, para fechar um pouco mais o intervalo. Os barcos que entraram ontem na enseada vão ter mais dificuldades em sair!

 

Fomos descendo até à planície. António ia acompanhado por um pequeno grupo de oficiais. Eu ia acompanhado por Tiro e Fortex, para quem tinham sido encontrados cavalos. O acampamento parecia uma cidade, provavelmente mais populosa do que a cidade sitiada, e certamente mais ordenada, com fileira após fileira de tendas a distâncias precisas umas das outras. Alguns dos soldados formavam filas, à espera da ração da manhã. Outros, já alimentados e vestidos para a batalha, partiam em ritmo de marcha para o trabalho nas trincheiras e fortificações, e nas máquinas de cerco estacionadas por baixo das muralhas da cidade.

 

Eu estava espantado com a rapidez com que César conseguira movimentar um tão grande número de homens e de equipamento. Dez dias antes, a planície às portas de Brundísio estava deserta; agora, albergava trinta e seis mil homens, cada um dos quais parecia saber exactamente onde devia estar e o que devia fazer em cada momento. Trinta dias antes, nenhum destes homens estava a menos de trezentos quilómetros de Brundísio, e Domício ainda dominava Corfínio. Há sessenta dias, César acabava de atravessar o Rubicão. A escala e a velocidade da operação eram tremendas. Tive piedade dos Gauleses, que se tinham confrontado com semelhante força. E desesperei por Pompeu.

 

Passámos por um posto de controlo guardado, onde António se responsabilizou por mim. Quando nos aproximámos do centro do acampamento, ele ficou para trás, colocando-se ao meu lado. Vi-o lançar um olhar de esguelha a Tiro e a Fortex, como se estivesse a vê-los pela primeira vez.

 

Tens a certeza, Gordiano, de que podes responder pelos teus escravos?

 

Eu hesitei apenas um momento.

 

Claro. Por que perguntas?

 

Por nada, deixa lá. Só que, desde que atravessámos o Rubicão, na verdade, já antes disso, houve uns boatos...

 

Que género de boatos?

 

Sobre uma conspiração. Para matar César. Conversas sem sentido, evidentemente.

 

Eu senti um arrepio pela espinha acima.

 

E César levou-as a sério?

 

César está convencido de que é imortal! Mas há algum homem que não seja feito de carne e sangue? Gemeu por causa da ressaca e massajou as têmporas. É que... estás a ver, quando eu me responsabilizo por ti, estou também a responsabilizar-me pdos teus escravos. Naturalmente, tu estás acima de qualquer suspeita, Gordiano. Isso é óbvio. Mas os escravos que viajam contigo...

 

Eu responsabilizo-me por inteiro pelos meus escravos, tribuno. Continuei a olhar em frente.

 

Claro, Gordiano. Não pretendia ofender-te. Deu-me uma forte palmada nas costas, depois avançou para se ir juntar aos seus homens. Não voltou a olhar para Tiro nem para Fortex.

 

Eu acalmei-me respirando fundo, depois olhei de esguelha para Tiro. Pareceu-me que ele estava a apertar as rédeas com uma certa rigidez, mas o seu rosto não traía qualquer expressão. Tinha ouvido a conversa, evidentemente; António não era o género de pessoa que baixasse a voz na presença de escravos. Pensei em Daniel na caverna do leão, uma história que Betesda costumava contar, e que lhe fora transmitida pelo pai, que era hebreu. Seria assim que Tiro se sentia, ao entrar a cavalo no acampamento de César, atrás de um tribuno que teria todo o gosto em mandá-lo esfolar vivo? Mas aqui estava ele, apesar do seu medo. Perguntei a mim próprio se seria capaz de convocar uma coragem semelhante nas horas que se aproximavam.

 

Chegámos a uma grande tenda, mais elaborada do que as outras, feita de lona vermelha bordada a ouro e decorada com galhardetes. Mensageiros a cavalo esperavam à entrada, em fila. Quando nos aproximámos, um soldado saiu da tenda, transmitiu uma ordem ao primeiro mensageiro, que imediatamente se afastou. Entretanto, chegou outro mensageiro, que desmontou e entrou a correr na tenda.

 

O reconhecimento da manhã explicou-me António. Chegam os relatórios dos informadores, partem as ordens. Lá dentro, parece uma colmeia.

 

Talvez fosse melhor eu esperar cá fora.

 

Que disparate. Mas tem cuidado, para não seres pisado. Desmontou e estendeu-me uma mão. Deixa os escravos cá fora.

 

Eu olhei para Tiro e encolhi os ombros. Tinha feito a minha parte. Afinal, ele não veria o interior da tenda de César. Mas tinha subestimado a sua persistência.

 

Tiro saltou do cavalo.

 

Por favor, Senhor! Deixa-me ir contigo.

 

Ouviste o que disse o tribuno, Soscarides.

 

Mas tu trouxeste-me comigo para fazer uma surpresa a Meto, para ver a expressão dele. Se falares com Meto primeiro e lhe disseres que eu também vim, lá se vai a surpresa. E, quanto mais esperares, mais agitadas estarão as coisas. Nem que seja daqui a uma hora, se houver uma batalha...

 

O tutor tem razão disse António. "Quanto mais depressa, melhor." Quem disse isto, tutor? Olhou para Tiro com atenção.

 

Eurípides.

 

António franziu o sobrolho.

 

Tens a certeza? Uma vez ouvi Cícero dizer esta frase quando discursava no Senado.

 

O rosto de Tiro imobilizou-se.

 

Certamente, tribuno. Mas Eurípides disse-a primeiro. António riu-se.

 

Falaste como um verdadeiro tutor! Presumo que não sejas efectivamente um espião nem um assassino. Trá-lo contigo, Gordiano. Faz uma surpresa a Meto.

 

Sim, Senhor, por favor disse Tiro.

 

Ou isso, ou então manda açoitar o escravo pela sua insolência sugeriu António. E não estava a brincar.

 

Eu olhei ameaçadoramente para Tiro e considerei seriamente a alternativa. Estava a ver rodas dentadas a girar por trás dos seus olhos.

 

A data! disse ele de repente. António olhou para ele espantado.

 

Passaram dois dias dos Idos disse Tiro. Hoje é o dia das Liberais! Lembrei-me de ouvir Cícero e a mulher discutirem sobre as iminentes Liberais e a cerimónia da toga do filho. Não podes mandar açoitar um escravo por falar no dia da festa do Pai Liberdade, Senhor. Deixar os escravos falarem livremente faz parte dos festejos. Tiro parecia muito satisfeito consigo próprio.

 

Já são as Liberais? resmungou António. Perco sempre o controlo das festas durante as campanhas militares. Contamos que os augures prestem atenção ao calendário e façam os sacrifícios respectivos, e não pensamos mais nisso. Bem, eu celebrei o deus das vinhas à minha maneira ontem à noite, e sou completamente a favor de fazermos uma parada pelo acampamento, com um falo gigante e canções obscenas, embora duvide de que tenhamos tempo para isso. Mas o escravo tem razão, Gordiano, faz-lhe a vontade. Devemos atrair os favores de todos os deuses, incluindo Dioniso.

 

Tiro olhou para mim maliciosamente. Eu respondi-lhe com um olhar frio.

 

Muito bem, Soscarides, vem então. Fortex, fica aqui fora com os cavalos.

 

No interior da tenda, os mensageiros corriam de um lado para o outro, e a multidão de oficiais falava sem parar, mas a cena era mais ordenada do que eu estava à espera. A metáfora de António era adequada: não era a agitação frenética de um formigueiro, mas o movimento calmo de uma colmeia.

 

A maioria dos oficiais parecia ter aproximadamente a idade de António, trinta e poucos anos ou menos. Reconheci alguns deles, embora estivesse mais habituado a vê-los dentro das suas togas senatoriais. Equipados com as armaduras, pareciam-me uns rapazinhos. Tinham os rostos radiantes de excitação. Pensei no velho e aleijado senador Sexto Tédio, que se arrastara para junto de Pompeu a fim de marcar posição. O contraste era devastador nunca o negara. Agora, eram soldados maduros, e no ano anterior tinham sido ambos eleitos tribunos. Quando a crise se instalou, fugiram juntos de Roma para se juntarem a César antes de ele atravessar o Rubicão.

 

A tenda parecia cheia deste género de homens, todos eles plenos de energia e de paixão, todos eles projectando a brilhante invencibilidade da juventude. Faziam-me sentir velho e inseguro.

 

Voltei-me, à procura da cara que estava ansioso por ver. Tive um sobressalto. Meto surgiu à minha frente, com um olhar de profunda consternação estampado no rosto.

 

O meu filho não pareceu nada satisfeito por me ver.

 

Papá, o que estás aqui a fazer?

 

Tal como os oficiais que nos rodeavam, Meto parecia-me um rapazinho, embora tivesse quase trinta anos e madeixas prematuramente grisalhas nas têmporas. Tinha olhos de estudioso, mas também as mãos calejadas e a testa enrugada de um soldado que fizera muitas campanhas. A cicatriz que lhe atravessava a cara, e que recebera aos dezasseis anos a lutar por Catilina, quase fora apagada pelos ventos, as chuvas e o sol abrasador da Gália. Como sempre que o via depois de uma ausência de meses, olhei-o rapidamente de alto a baixo e sussurrei uma oração de agradecimento a Marte pelo facto de o seu corpo me parecer completo e os membros intactos.

 

Senti uma vaga de emoção tão intensa, que não consegui falar. Estendi a mão para ele. Meto ficou rígido por momentos, depois correspondeu ao meu abraço. Recordando-me do rapazinho que ele fora, fiquei espantado com a sua força. Quando se desprendeu de mim, sorria com ar pesaroso.

 

O que estás tu aqui a fazer, papá? Deves ter viajado durante dias. O perigo...

 

Vim por causa de Davo.

 

De Davo?

 

Está com Pompeu. Pelo menos espero que ainda esteja, e que não tenha sido enviado para Dirráquio... ou que...

 

Com Pompeu? Não me digas que Davo fugiu para ir combater ao lado do seu antigo senhor! Nós, os ex-escravos, somos realmente uns sentimentais. Detectei na sua voz uma amargura que não estava habituado a ouvir.

 

Não. Pompeu levou Davo consigo à força.

 

À força?

 

Afirmando que tinha o direito legal de o fazer... qualquer coisa relacionada com a transmissão da propriedade e os termos da alforria de Davo. Legal ou não, eu não tive possibilidade de o impedir.

 

Mas o que levou Pompeu a roubar-te Davo?

 

Em parte, o despeito. Em parte, a necessidade de exercer pressão sobre mim.

 

O rosto de Meto tornou-se rígido.

 

O resto da família está bem? Eco, Betesda, Diana? Os miúdos?

 

Deixei-os a todos de boa saúde.

 

Graças aos deuses. O que quer Pompeu de ti?

 

Eu olhei para a multidão que se aglomerava à nossa volta. Estava agudamente consciente da presença silenciosa de Tiro atrás de mim, esforçando-se por ouvir tudo. Baixei a voz.

 

Na véspera de Pompeu partir de Roma, um parente seu foi... morto... em minha casa.

 

E Pompeu acusou-te do crime? Eu abanei a cabeça.

 

Não, não! Mas considerou-me responsável pelo sucedido. Encarregou-me de encontrar o assassino. Eu disse-lhe que não podia. Tentei recusar-me a fazê-lo. Mas Pompeu não se deixou convencer. Num gesto de capricho, levou Davo para me convencer.

 

Pobre Diana! sussurrou Meto.

 

Foi por isso que vim a Brundísio. Para levar Davo para casa, enquanto posso.

 

Como?

 

Hei-de arranjar maneira. E tu, Meto? Tenho andado doente de preocupação por tua causa...

 

Subitamente, Meto recuou. Tiro aproximara-se e Meto pareceu reparar nele pela primeira vez.

 

Este homem está contigo, papá?

 

Está.

 

É um dos teus escravos? Não o conheço.

 

Deixa-me explicar...

 

Espera aí... Meto olhou fixamente para Tiro. Por Hércules, é... Nesse momento, senti uma palmada no ombro, e apanhei um susto

 

tal, que pensei que o coração me tinha saltado do peito. Era António.

 

Cá estão eles, pai e filho, sussurrando e conspirando um com o outro disse ele.

 

Eu pestanejei. Ao lado de António, vi uma mancha de ouro e carmesim, encimada pelo semblante sereno de Júlio César.

 

Gordiano! Quando foi a última vez que nos encontrámos? Foi em Ravena, julgo eu. Tu andavas a investigar o assassínio do nosso amigo Públio Clódio. Nessa altura, tanto quanto me lembro, estavas ao serviço de Pompeu.

 

Ele lembrava-se sempre de mim, o que nunca deixava de me surpreender, uma vez que me conhecia sobretudo como pai de Meto, apesar de nunca termos tido nenhuma conversa relevante. Meto dissera-me que a memória de César para nomes e caras era um dos seus encantos. Era capaz conhecer um soldado de infantaria no calor de uma batalha, trocar com ele não mais do que duas ou três palavras, e anos mais tarde cumprimentar o homem tratando-o pelo nome, e pedindo-lhe notícias da sua terra natal.

 

Imperador disse eu, com uma inclinação de cabeça de deferência.

 

O escravo que está com ele é um antigo tutor de Meto explicou António.

 

Meto ergueu as sobrancelhas, mas nada disse.

 

César olhou para Tiro por cima do meu ombro. Eu sustive a respiração. A sua expressão não registou qualquer alteração. Os seus olhos voltaram a entrar em contacto com os meus. Ele ergueu uma sobrancelha.

 

Espero que não continues ao serviço de Pompeu, Gordiano. António disse-me que tens viajado com um passaporte diplomático assinado pelo próprio Grande.

 

Eu inspirei profundamente.

 

Esse documento foi-me facultado por intermédio de Cícero, não me chegou directamente de Pompeu. Ao contrário do que possam fazer supor as aparências, imperador, asseguro-te que o Grande e eu praticamente não nos falamos.

 

César fez um sorriso retorcido.

 

Isso é uma descrição bastante adequada das minhas próprias relações com Pompeu, neste momento. És um homem intrépido, Gordiano, por teres feito uma viagem tão longa, e um bom pai, se a fizeste para saber como estava Meto. Mas eu garanto-te que tomo bem conta dele. É-me tão caro como a ti. Agora sugiro que regresses à zona de vigilância onde estiveste acampado ontem à noite, para ficares fora de perigo. Observa os desenvolvimentos a uma distância segura. Este pode vir a ser um dia muito interessante. Observa, em particular, os telhados da cidade.

 

Os telhados, imperador?

 

Os cidadãos de Brundísio estão irritados pela maneira como foram tratados pelas tropas de Pompeu, que nunca soube disciplinar os seus homens como devia. Consequentemente, alguns habitantes da cidade estão dispostos, e mesmo desejosos de nos informar do momento em que Pompeu iniciar a sua retirada náutica. Vão fazer-nos sinal dos telhados. Nesse momento, nós atacamos. Não há coisa mais difícil de gerir do que uma retirada táctica de uma cidade sitiada, mesmo que seja por via marítima. Quando voltar as costas para fugir, esse será o momento de maior vulnerabilidade de Pompeu. Se os deuses quiserem, não me escapará.

 

Eu acenei com a cabeça e senti um fio de suor escorrer-me pelas costas abaixo, sentindo a presença de Tiro atrás de mim, a ouvir cada palavra. No seu entusiasmo, César estava a contar-me segredos, tratando-me com toda a confiança, enquanto um espião que eu trouxera para o interior da sua tenda se encontrava suficientemente perto dele para poder tocar-lhe. Senti-me tonto, como me sentira no final da marcha forçada pela montanha abaixo, quando tinha desmaiado aos pés de António.

 

Sentes-te bem, Gordiano? perguntou César. Descansa um dia. Mas eu não posso descansar! O sinal para o ataque pode chegar a qualquer momento. Vamos, António. Meto, traz o estilete e as tabuinhas de cera.

 

Eu tossi.

 

Imperador, talvez o meu filho pudesse ficar comigo só um momento. Percorri um longo caminho para estar com ele. Mal tivemos tempo para conversar...

 

Hoje não, Gordiano. César sorriu a Meto e pôs-lhe o braço à volta do ombro, depois estendeu a mão e deu-lhe um beliscão afectuoso no lóbulo da orelha. Pareceu-me que Meto se tinha tornado rígido ao contacto do homem. Aparentemente, César não reparou em nada. Hoje, o teu filho pertence-me, cada hora, cada minuto. Ele é os meus olhos e os meus ouvidos, a minha testemunha, a minha memória. Tem de ver tudo, ouvir tudo, registar tudo o que acontecer. Mais tarde, terão tempo para conversar. Anda, Meto. Soltou o braço do ombro de Meto.

 

A tenda começou rapidamente a esvaziar-se, como um enxame a sair da colmeia. Meto deu uns passos atrás de César, depois parou. Olhou por cima do ombro para Tiro, depois para mim.

 

Papá, o que se passa?

 

Eu queria fazer-te a mesma pergunta disse eu.

 

Meto, anda embora! bradou António.

 

O meu filho lançou-me um último e críptico olhar, e em seguida partiu com os outros. Quem me dera ter-lhe dado outro abraço.

 

Calculo que estejas muito satisfeito contigo disse a Tiro. Estávamos a fazer o segundo circuito a cavalo pelo campo, na companhia de Fortex. Tiro era todo olhos e ouvidos, assimilando cada pormenor.

 

Quando íamos a sair da tenda de César, um dos seus ajudantes-de-campo entregou-me um disco de cobre com uma imagem de Vénus. O homem disse-me que era um passaporte que eu podia apresentar se alguém nos interceptasse. O disco significava que eu era convidado pessoal do imperador, e estava autorizado a circular pelo acampamento, desde que não estorvasse ninguém. E permitir-me-ia obter rações na tenda da messe.

 

Por mim, não teríamos ficado no acampamento mais do que o tempo necessário para partirmos. Estava ansioso por chegar a Brundísio. Quando Pompeu iniciasse a sua retirada náutica e começasse o ataque, seguir-se-ia o caos. Qualquer esperança de encontrar Davo desvanecer-se-ia num instante. Eu queria conhecer o plano de Tiro. Mas Tiro insistiu em que primeiro aproveitássemos todas as vantagens da hospitalidade de César.

 

- Tu viajaste com um passaporte de Pompeu disse ele com um sorriso. Agora é a minha vez de viajar um bocadinho com o de César.

 

Tiro, temos de passar rapidamente para o interior das muralhas.

 

Faz-me a vontade, Gordiano. Hoje são as Liberais, sabias?

 

Gostava de te fazer a vontade sentando-te num daqueles falos gigantes que os sacerdotes de Dioniso transportam aos ombros.

 

Fortex ganiu perante a ideia. Tiro assobiou. Estava muito bem-disposto, quase frívolo. Era natural. Tinha encenado a sua charada com êxito espectacular. Passara incólume pelas mãos de António, entrara e saíra da tenda de César sem ser detectado, e até tinha recolhido informações valiosas dos lábios do próprio imperador. Agora, estava a examinar os últimos elementos informativos, observando o número e a disposição das tropas e das máquinas de cerco de César.

 

Depois de um pouco de neblina matinal, o céu tinha clareado. Estava a erguer-se um vento de terra. Era o tempo ideal para andar de barco. Pompeu poderia começar a retirar a qualquer momento.

 

Qual será a utilidade de todas estas informações que estás a recolher, Tiro, se partirmos para Brundísio tarde demais? Pompeu ainda parte sem ti, ou então, poderá ser apanhado numa armadilha, por não dispor dos dados que tu poderias ter-lhe comunicado.

 

Tens razão, Gordiano, temos de ir andando. Mas primeiro, qualquer coisa com que acalmar os roncos do meu estômago. Quem sabe a que género de rações terão ficado reduzidas as tropas de Pompeu no interior da cidade? Sugiro que comamos à custa de César, e avancemos para Brundísio com o estômago cheio.

 

Então diz lá, onde é a tenda da messe? resmunguei eu.

 

Três para cima e duas para trás. Tiro tinha memorizado a disposição do acampamento.

 

Deram-nos papa de milho-miúdo acabada de fazer, adoçada com mel. Até encontrei umas quantas passas na minha parte. Fortex resmungou por não haver carne.

 

Meto disse-me que os soldados combatem melhor com cereais no estômago disse eu. O excesso de carne entumece um homem, torna-o indolente, transforma-lhe as tripas em lama. Certa vez, na Gália, as tropas de César ficaram sem trigo. Durante dias a fio, ficaram sem nada que comer, à excepção do gado requisitado aos nativos. Detestaram a dieta, a ponto de se amotinarem. Exigiam a papa a que estavam habituados!

 

O teu filho deve ser uma pessoa notável disse Tiro.

 

Por que dizes isso?

 

Meto nasceu escravo, não foi?

 

Tal como tu, Tiro.

 

Sim, mas eu fui educado e formado, desde muito cedo, para companheiro de Cícero. Tive uma vida de escriba. Um escravo pode mostrar o que vale nesse género de posição, dar provas dos seus talentos naturais e ascender no mundo. Mas Meto nasceu escravo de Marco Crasso, não foi? Crasso podia ser o homem mais rico do mundo, mas nunca soube reconhecer o valor fosse do que fosse.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

A bem dizer, Meto nem sequer pertencia à casa de Crasso. Era um miúdo de recados que vivia numa das villas que Crasso tinha na costa, em Baias. Foi aí que eu o conheci, durante a revolta de escravos de Espártaco. Tinha havido um assassínio, presumivelmente cometido por dois escravos fugitivos. Crasso tencionava matar todos os escravos da casa como forma de punição, incluindo Meto. Imagina, chacinar uma criança inocente na arena!

 

Por vezes, a justiça romana é violenta concordou Tiro.

 

Crasso não ficou totalmente satisfeito com a resolução do caso. Quando tudo terminou, mandou Meto para uma propriedade que tinha na Sicília. Sabes o que Meto fazia, quando eu consegui finalmente descobri-lo? Era espantalho. Sofria horrores. Dias inteiros ao calor do Sol, a ouvir os insectos zumbir sobre as espigas, com os corvos famintos constantemente a rondar, apanhando do capataz quando alguma parte da colheita era comida. Teve pesadelos sobre aquilo durante anos. Se calhar, ainda tem.

 

Tenho a impressão de que, por esta altura, ele já deve ter visto suficientes horrores enquanto soldado, para substituir esse pesadelo por outros observou Tiro. O que foi que o levou a enveredar pela vida militar?

 

Catilina. Vi Tiro franzir o nariz à menção do nome do insurrecto radical que fora inimigo de Cícero. Quando tinha dezasseis anos, apaixonou-se por Catilina, ou pela ideia deste, e fugiu de casa para se juntar ao seu exército. Eu também lá estive, na batalha de Pistória, onde terminaram os sonhos de Catilina. Meto e eu sobrevivemos, pelo favor dos deuses. Aquele gosto de batalha foi mais do que suficiente para satisfazer qualquer curiosidade que eu pudesse ter acerca da guerra e da morte, mas Meto queria mais. Precisava de outro chefe a quem seguir, de mais batalhas que travar. Acho que tem qualquer coisa a ver com o facto de ter nascido escravo. Eu libertei-o. Fiz dele meu filho, e sempre o tratei como se fosse da minha carne e do meu sangue. Mas ele nunca teve o sentimento do direito de nascença, a segurança da pertença. Na véspera do dia da sua toga, quando ele tinha dezasseis anos...

 

Dei pelo que estava a dizer. Por que motivo estaria a falar tão inocentemente? O estado de espírito de um acampamento do exército à beira de uma batalha soltava a língua de um homem.

 

Na véspera do dia da sua toga, Meto teve o pesadelo... o pesadelo do espantalho. Eu disse-lhe que tudo aquilo pertencia ao passado. Ele sabia que assim era, mas não conseguia senti-lo. Ter-se tornado meu filho, ter-se tornado um cidadão, tudo isso lhe parecia irreal. No fundo, continuava a ser um rapazinho escravo, assustado e impotente. Foi só quando partiu para a Gália e caiu nas boas graças de César que pareceu finalmente esquecer a sua infância. Encontrou o lugar onde pertencia, e o chefe de que andava à procura. E, contudo... Impedi-me de prosseguir. Não pretendo afirmar que o compreendo, Tiro, pelo menos por completo. Mas sou pai dele, tão certo como se ele tivesse origem no meu sémen.

 

Tu ama-lo muito disse Tiro, suavemente.

 

Mais do que tudo. Talvez até demasiado.

 

Eu não sei nadar disse eu.

 

Depois de comermos, tínhamos regressado à zona de vigilância, na colina a norte da cidade. Tiro, Fortex e eu, montados nos respectivos cavalos, observávamos a paisagem. Estava mais ou menos como no dia anterior, exceptuando o facto de a baía se encontrar cheia de barcos de transporte ancorados, e de a entrada ter sido um pouco mais fechada, graças às novas balsas apressadamente acrescentadas à extremidade de cada um dos quebra-mares. Tiro tinha dito que queria lançar um último olhar à configuração do espaço e à disposição das forças de César, mas eu começava a suspeitar de que ele não tinha a menor ideia do que iria fazer a seguir, e que andava à procura de uma maneira de penetrar nas muralhas da cidade.

 

Faltando-nos as asas de Dédalo, só tínhamos duas maneiras de o conseguir: por terra ou por água. A entrada por terra obrigar-nos-ia a passar pela linha da frente das trincheiras de César, fortemente povoadas, atravessar a terra-de-ninguém que ficava diante das muralhas da cidade, e penetrar na muralha propriamente dita, por exemplo escalando-a. Não era coisa que pudéssemos fazer em segredo. Muito antes de termos atravessado a linha da frente, já os sitiantes nos teriam ordenado que parássemos, se não tivéssemos sido mortos como desertores. Mesmo que atravessássemos vivos a terra-de-ninguém, os defensores poderiam atirar sobre nós muito antes de termos conseguido explicar ao que vínhamos, e não era de esperar que nos abrissem as portas ou nos lançassem escadas, mesmo que estivessem dispostos a ajudar-nos.

 

Restava-nos, pois, a possibilidade de chegarmos a Brundísio por água. A muralha da cidade que dava para a enseada era mais baixa e estava menos resguardada do que a muralha do lado de terra, mas não era propriamente de acesso fácil para três homens desprovidos de asas. Do lado de fora desta muralha, havia um caminho estreito que corria ao longo da linha de água e dava acesso ao porto situado na extremidade da península, mas este caminho tinha sido coberto, a todo o comprimento, por um verdadeiro matagal de estacas e espigões, que tornavam impossível a passagem e desencorajavam a atracagem, mesmo de barcos de pequeno porte. Havia um único ponto possível de ingresso: o cais propriamente dito, onde os portões das muralhas davam para uma larga prancha de acesso e vários desembarcadouros de grandes dimensões se projectavam sobre as águas. As portas que davam para o cais estavam abertas e parecia haver grande actividade nos desembarcadouros, mas até agora não havia sinais de que os barcos ancorados estivessem a ser preparados para a parada.

 

O que disseste, Gordiano? murmurou Tiro, olhando intensamente para a paisagem.

 

Disse que não sei nadar. Sempre fui um rapaz da cidade, como sabes. Nascido e criado em Roma.

 

Tiro pestanejou.

 

As pessoas costumam nadar no Tibre. Pelo menos acima da Cloaca Máxima.

 

Não, Tiro. As pessoas chapinham no Tibre, flutuam sobre ele em pranchas e, nos anos de seca, atravessam-no a vau. Não é a mesma coisa que atravessar a nado um porto, com setas a caírem-nos em cima.

 

Quem falou em atravessar a nado? perguntou Tiro. Estás a ver aqueles botezinhos de pescadores ali em baixo, do nosso lado do canal? À distância de um lançamento de pedra, em frente da cidade, do outro lado do porto?

 

Eu acenei com a cabeça. Os botes eram poucos e estavam afastados uns dos outros. Nem sequer tinha reparado neles, ao lusco-fusco do dia anterior, distraído pela batalha na entrada da baía.

 

Os botes parecem abandonados prosseguiu Tiro. Não há qualquer sinal de vida. Os pescadores retiraram todos para o interior das muralhas da cidade. Mas deixaram as embarcações no cais. Não passam de barquitos a remos, são pequenos demais para terem qualquer utilidade para César, por isso ficaram para ali, puxados para a areia seca. Consigo ver daqui uns cinco ou seis. Até podemos escolher. Tenho andado a cobiçar o da vela branca. É menos visível do que, digamos, o da vela cor de laranja.

 

Sabes operar uma embarcação daquelas?

 

Ficarias surpreendido com as coisas que eu sei, Gordiano.

 

E uma vez na enseada, o que fazemos?

 

Avançamos directamente para o embarcadouro. O canal não pode ter mais de quinhentos metros de largura.

 

E se a corrente estiver contra nós? E se os homens de César vierem atrás de nós?

 

Nesse caso, Fortex terá de remar com mais força disse Tiro. Fortex esfregou o queixo.

 

E é possível que tu tenhas de nadar acrescentou Tiro. Não gostei de ouvir aquilo.

 

Iamos a meio da encosta, deixando os cavalos escolher o caminho por entre os espinheiros, quando ouvimos uma voz proveniente da cumeeira atrás de nós.

 

Não podem descer para aí! Fica fora dos limites de segurança! Era o centurião encarregado do posto de sentinela. Tiro voltou-se e acenou. Levou uma mão à orelha, fez um sorriso estúpido e encolheu os ombros, como quem diz que não conseguia ouvir aquilo que o homem estava a dizer.

 

Continuem sussurrou. Olhem sempre em frente. Ignorem-no. Direitos ao bote. Mais depressa!

 

Apressámos as montadas pela encosta abaixo e chegámos à praia estreita. Ouvi um galope atrás de nós.

 

Quantos são? perguntou Tiro, continuando a olhar em frente. Fortex olhou rapidamente por cima do ombro.

 

É só aquele.

 

Óptimo. Quer dizer que acha que somos inofensivos. Vamos deixá-lo continuar a pensar isso enquanto pudermos. Sabes o que deves fazer, Fortex.

 

Na tira de areia que ficava entre a cabana e o bote, desmontámos. O centurião estava cada vez mais perto. Eu aproximei-me de Tiro.

 

O que tencionas fazer-lhe?

 

O que te parece?

 

Tem de ser assim?

 

Fizemos um contrato, Gordiano. Tu levavas-me à tenda de César e eu estou a levar-te até Brundísio. Queres vir ou não? Estamos em guerra. Estavas convencido de que não ia haver sangue? Se fosse a ti, ficava contente pelo facto de o sangue derramado não ser o teu.

 

É um assassínio, Tiro. Tão certo como a morte do condutor da carroça foi um assassínio.

 

Assassínio é um termo legal, Gordiano. Não se aplica a escravos, nem tem qualquer sentido num campo de batalha.

 

Talvez possamos limitar-nos a deixá-lo inconsciente... arrastamo-lo para a cabana...

 

Tiro fez uma careta.

 

Ficaste desnorteado com a leitura daquelas novelas gregas, enquanto estávamos à espera que passasse a tempestade. Eram só fugas por um triz e finais felizes! Isto é o mundo real, Gordiano. Só há uma maneira de nos livrarmos deste sujeito com segurança. Fortex trata dele. Foi treinado para isso. Agora, sorri; temos visitas.

 

O centurião chegou. Desmontou e dirigiu-se a nós. Tinha um passo enérgico; a curta e tonificante cavalgada animara-o. O seu sorriso era um tanto desdenhoso, mas não hostil. Afinal, eu não passava de um civil ignorante, uma ovelha que precisava de ser reconduzida ao rebanho, e não um lobo. Dirigiu-se a mim, ignorando os outros.

 

Os civis não estão autorizados a aproximar-se da linha da costa. Eu ergui o disco de cobre.

 

Mas foi o próprio César que me deu...

 

O imperador emitiu ordens explícitas relativas à linha da costa. Sem excepções. Ergueu a voz; aparentemente, pensava que eu era um pouco surdo.

 

Eu... só queria dar uma vista de olhos a esta bizarra cabana de pescadores.

 

O centurião abanou a cabeça e sorriu ligeiramente. Eu era uma espécie de avô cheio de tremuras, a quem era necessário fazer as vontades, mas só até certo ponto. Ignorou Fortex, que foi pôr-se atrás dele.

 

Senti o sangue martelar-me nos ouvidos. Dentro de segundos, seria o fim. O jovem centurião, cheio de energia e com o seu sorriso de esguelha, seria agarrado por trás. Fortex cortar-lhe-ia o pescoço um clarão de aço, um esguicho de sangue. Os seus olhos abrir-se-iam de espanto, para depois cegarem. Um homem vivo transformar-se-ia num cadáver diante dos meus olhos.

 

Fortex estava parcialmente oculto por trás do ombro do centurião mas, pelos seus movimentos, percebi que estava a desembainhar silenciosamente o punhal. Tiro estava um pouco afastado, a fazer o papel de escravo obediente e discreto, sustendo a respiração.

 

Eu estendi a mão para o ombro do centurião e puxei-o para mim. Fortex, hesitante, recuou.

 

Tens um avô? perguntei-lhe.

 

Tenho dois respondeu o centurião.

 

Bem me pareceu. Afastei-me do bote e de Fortex, dirigindo-me para a cabana. E um deles é um pouco surdo? Um pouco trémulo?

 

Na verdade, são ambos. Ele riu-se, com um ar ligeiramente trocista. Estava a recordar-se de sua casa.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Pois bem, meu jovem. Eu não sou trémulo nem surdo. Oiço-te perfeitamente. E também vejo bastante bem. Se vim até aqui, foi porque vi alguém entrar nesta cabana.

 

Ele franziu o sobrolho. A cabana era uma construção tosca, com o telhado de colmo. A porta era pouco sólida, e as dobradiças estavam enferrujadas.

 

Tens a certeza?

 

Absoluta. Vi um homem andrajoso esconder-se aqui na praia, comportando-se de forma suspeita. Vi-o entrar nesta cabana. Pensei que era melhor vir investigar.

 

Devias ter-me chamado imediatamente. O centurião revirou os olhos, exasperado.

 

Mas eu sei que tu deves estar muito ocupado. Achei que não valia" a pena incomodar-te. Provavelmente, era o proprietário da cabana, que veio cá buscar qualquer coisa.

 

O mais provável era ser um ladrão. O centurião desembainhou a espada. Avançou até à porta e empurrou-a para trás, com força tal que a dobradiça de cima se partiu. Tu aí, sai cá para fora! Deu mais um passo em frente, espreitando para a escuridão. Eu ia atrás dele, com o punhal na mão. Com uma mão, empurrei-lhe o elmo para a frente, para diante dos olhos. Com a outra, ergui o punhal voltado ao contrário e dei-lhe uma pancada com toda a força na base do crânio, com o copo. Ele caiu a meus pés, sem sentidos.

 

Embainhei novamente o punhal.

 

Faz-te útil, Fortex. Puxa-o para dentro da cabana. E não lhe faças mal! Recuei e observei a cumeeira. Não me parece que, lá de cima, alguém tenha visto o que se passou, Tiro, e a ti? Eu estava atrás da cabana, eles estão ocupados a vigiar a cidade e a entrada na baía. Consegui ganhar algum tempo, mas eles não vão tardar a dar pela falta dele e a perguntar o que farão quatro cavalos na praia. Estás à espera de quê? Mete o bote na água e vamos pôr-nos a andar!

 

Tiro mostrou-se compungido.

 

Gordiano, eu...

 

Devias ler mais novelas gregas, Tiro, e menos daqueles poemas insípidos que Cícero produz.

 

Momentos depois, estávamos dentro do bote e distanciávamo-nos da praia. Tiro desenrolou a vela branca. Fortex accionava os remos com energia. Eu sentei-me à proa, a tiritar. Tinha molhado os pés ao entrar para o barco. A água estava mais fria do que eu esperava.

 

Olhei para a linha de costa. O centurião apareceu de repente à porta da cabana, com uma expressão confusa e a massajar o crânio. Eu acenei-lhe, devolvendo-lhe o sorriso de superioridade que ele me lançara ao princípio. Ele saiu da cabana a cambalear, sacudiu no ar o punho cerrado, e gritou qualquer coisa que eu não consegui perceber.

 

Fortex riu-se.

 

Gostava de lhe ter cortado o pescoço. Nunca matei um centurião. Bem, fica para a próxima.

 

O vento estava a nosso favor. E a corrente também. Fomos deslizando sobre a água lisa. A linha de costa foi ficando para trás, com as muralhas da cidade agigantando-se diante de nós. Não seguíamos bem a direito Tiro não era propriamente um marinheiro tão competente como julgava mas, apesar dos ziguezagues, continuávamos a orientar-nos na direcção do porto. Parecia quase absurdamente fácil, considerando quão arrojada me parecera na noite anterior a tarefa de chegar a Brundísio.

 

O outro bote aproximou-se com uma rapidez tal, que pareceu ter-se materializado a partir do nada. Tiro estava ocupado com a vela. Fortex remava com gestos fortes e seguros. Eu fui o primeiro a ver o bote, mas só o avistei quando ele já estava a pouco mais de um tiro de seta de nós. Era uma embarcação estreita e comprida, maior do que a nossa, com dois remadores e dois arqueiros, já com os arcos na mão e as setas encaixadas e apontadas para nós.

 

Olhei para ver de onde tinha vindo o bote, e reparei numa faixa de linha de costa que ficava mesmo em frente do porto. Estava ali reunido um considerável contingente de soldados, juntamente com alguns barcos pequenos. Outro bote tinha-se juntado ao primeiro em nossa perseguição.

 

Dei uma cotovelada a Tiro e apontei. No preciso momento em que ele se voltou para ver, um dos arqueiros lançou uma seta. Encolhemo-nos ambos, mas a seta ficou aquém, caindo à água. Foi um teste para avaliar o vento e medir a distância. O segundo arqueiro lançou um tiro que chegou bastante mais perto. Entretanto, com dois remadores por oposição ao nosso, o bote ia-se aproximando cada vez mais.

 

Por Hércules, Tiro, não és capaz de manter um percurso a direito? gritei eu. Se continuas a andar em ziguezague de um lado para o outro, eles apanham-nos antes de chegarmos ao embarcadouro!

 

Tiro não respondeu. Perversamente, pareceu-me, deu uma guinada, virando na direcção da muralha da cidade, em vez de prosseguir num ângulo mais oblíquo, em direcção ao porto. O bote aproximava-se rapidamente de nós. Ouvi um barulho parecido com um zumbido de moscardo e agachei-me. Uma seta passou por cima da minha cabeça e foi de encontro à vela, que a deteve, tendo a haste embatido contra a lona esticada. Estávamos à mercê deles, não tínhamos maneira de nos defendermos. Olhei fixamente para a água fria, preparando-me para o momento em que teríamos de abandonar o barco, pensando se seria preferível afogar-me ou morrer espetado por setas.

 

Subitamente, ouvi gritar por cima das nossas cabeças, ergui os olhos e avistei os soldados que guarneciam a muralha do porto. Nessa altura, compreendi a estratégia de navegação de Tiro, que consistia em nos aproximar da muralha o suficiente para colocar os nossos perseguidores ao alcance das setas dos defensores da cidade. O facto de sermos perseguidos pelos homens de César era o suficiente para levar os soldados de Pompeu a tomar a nossa defesa.

 

Com um ruído semelhante ao de um bando de abutres levantando voo, desceu da muralha uma saraivada de setas. Algumas delas caíram mais perto de nós do que do bote que nos perseguia. A água ficou cheia de pequenos borrifos na vertical. Nenhuma das setas acertou no alvo, mas o objectivo foi atingido. Os homens de César pararam de se aproximar de nós.

 

Tiro avançou paralelamente à muralha, na direcção de um dos embarcadouros. Os perseguidores também se voltaram, prosseguindo numa fbta paralela à nossa, à distância, tentando aproximar-se o suficiente para nos atingirem com as setas sem serem, por sua vez, atingidos pelos arqueiros que se encontravam no alto da muralha. Eu inclinei-me e agachei-me o mais que pude, não só para evitar as setas, mas para dar espaço a Tiro para se movimentar, enquanto se debatia com a vela.

 

Ouvi um berro proveniente do outro barco e vi que um dos arqueiros tinha sido ferido no ombro por uma seta. Desequilibrou-se e caiu à água. Eu tive esperança de que os nossos perseguidores virassem a embarcação, mas eles deixaram a recuperação do homem a cargo da que vinha atrás.

 

Aproximávamo-nos cada vez mais do porto. No embarcadouro, tinha-se reunido uma multidão que assistia a tudo, aplaudindo como os espectadores de uma corrida. Olhando do fundo do barco, avistei os arqueiros, que trotavam ao longo do parapeito, acompanhando-nos. Assobiavam e riam-se sempre que faziam uma pausa para encaixar uma seta, apontar e atirar. Estavam fora de perigo, fora do alcance das setas dos nossos perseguidores. Para eles, tratava-se de uma brincadeira, de uma diversão. Para mim, acocorado no fundo do barco, a ver as setas voarem por cima da minha cabeça, era uma coisa muito diferente.

 

A um zumbido de moscardo seguiu-se um baque de estilhaçamento, e eu senti qualquer coisa fazer-me cócegas nas narinas. Uma seta tinha atingido o lado do nosso barco, e só por muito pouco não me acertara no nariz.

 

De repente, o bote deu um solavanco, que nos fez abrandar e dar uma guinada abrupta. O primeiro pensamento que me ocorreu foi que Tiro tinha sido ferido e perdido o controlo da vela, mas ele permanecia bem direito, quase em cima de mim. Depois vi Fortex. Continuava agarrado aos remos, com os nós dos dedos muito brancos, mas parara de remar. Tinha os olhos muito abertos. Os lábios tremiam-lhe, como se quisesse falar, mas da sua boca apenas emergiu uma tosse ensanguentada. Uma seta atravessara-lhe o pescoço de um lado ao outro. A ponta de metal aparecia de um lado, e a haste de penas do outro.

 

Tiro accionava freneticamente a vela e não conseguia ver o que se tinha passado.

 

Rema, Fortex! berrava ele. Rema, maldito sejas! Os remos, mergulhados na água e mantidos rigidamente na mesma posição pelas mãos apertadas de Fortex, estavam a funcionar como lemes, obrigando-nos a girar. Tiro praguejou. Momentos depois, o barco chocou com qualquer coisa, com uma força tal, que me fez chocalhar os dentes. Tiro caiu borda fora. A pancada cegou-me e fez-me inalar água fria.

 

Ouvi aplausos, e apercebi-me de que tínhamos chocado contra o embarcadouro. Pestanejei e espreitei por cima da proa. Os nossos perseguidores tinham mantido a caça até ao derradeiro momento. Agora, estavam a dar a volta para regressar. Foram seguidos por uma última salva de setas, esta dupla, porque aos arqueiros que estavam na muralha se juntaram outros arqueiros, disparando do embarcadouro.

 

Eu tinha chegado incólume ao porto de Brundísio.

 

Entre a multidão que nos rodeava, toda a gente parecia ter uma opinião.

 

O mais provável é ele morrer se lhe arrancarem a seta.

 

Se lha deixarem, morre de certeza!

 

Acham mesmo que ainda não morreu?

 

Fortex estava deitado de costas sobre a plataforma do embarcadouro, de olhos abertos e imóveis, com a barba coberta por uma grossa camada do sangue que cuspira. A seta que lhe saía de ambos os lados do pescoço também estava coberta de sangue. Tinha o corpo absolutamente rígido, com todos os músculos a estremecer de tensão. Tinha os dedos fechados e os nós dos dedos embranquecidos. Fora uma luta para lhe tirar os remos. E uma luta ainda maior para o retirar do barco e deitar no cais. A parte da frente da sua túnica estava manchada de sangue.

 

Eu estava aos pés dele, olhando fixamente para baixo, incapaz de desviar o olhar. Tiro estava ao meu lado, encharcado e a tremer.

 

O que te parece, Gordiano?

 

Ele pertence-te, Tiro. Estávamos agora nos domínios de Pompeu. Não havia motivos para manter a charada de que Tiro era meu escravo.

 

Tiro replicou num sussurro, a bater os dentes.

 

A atitude mais compassiva talvez seja libertá-lo do sofrimento em que se encontra.

 

Fortex não deu sinais de ter ouvido. Os seus olhos muito abertos fixavam os céus. A tensão do seu corpo era um martírio para quem assistia, como se todos os seus músculos estivessem cerrados num gesto de desafio. Seria o medo, ou a coragem, ou o simples instinto animal que o fazia agarrar-se tão desesperadamente à vida?

 

Pedimos que chamassem um médico, mas ainda não tinha chegado ninguém. Eu olhava para a seta, perguntando a mim próprio o que havíamos de fazer com ela. Se cortássemos uma das extremidades, poderíamos retirá-la. Mas isso não provocaria nova hemorragia? Talvez a seta fosse a única coisa que estava a impedir as jugulares de cuspirem rios de sangue para a plataforma do cais.

 

Era impossível vê-lo palpitar daquela maneira, em silenciosa agonia, sem fazer nada. Decidi retirar a seta. Levei a mão ao punhal. Cerrei os dentes, tentando não pensar no desastre que poderia provocar.

 

Antes que eu pudesse avançar, a crise terminou. A tensão do corpo de Fortex cedeu abruptamente. Os seus dedos abriram-se. Os seus olhos reviraram-se para cima. Um suspiro escapou-se-lhe dos lábios, mais parecendo a suave nota de uma flauta. Ele atravessou o seu próprio Rubicão e partiu em direcção ao rio Estige.

 

A multidão soltou um murmúrio colectivo de alívio. Cada um foi à sua vida. Um homem vivo com uma seta a atravessar-lhe o pescoço era um espectáculo interessante. Um morto, nem por isso.

 

É curioso observou Tiro como por vezes um homem vive exactamente o tempo que é preciso, e acaba.

 

O que queres dizer com isso?

 

Fortex. Competia-lhe trazer-me são e salvo à presença de Pompeu. Se tivesse sido atingido um minuto antes, nunca teríamos chegado ao cais. Tu e eu teríamos morrido no barco, juntamente com ele. Mas as coisas passaram-se da melhor maneira, e aqui estamos nós. Como se os deuses o tivessem decretado.

 

Estás convencido de que todos os homens têm um destino? Incluindo os escravos?

 

Tiro encolheu os ombros.

 

Não sei. Os grandes homens têm um destino. Talvez nós, os outros, o tenhamos na medida em que nos atravessamos no seu caminho e desempenhamos um certo papel no destino deles.

 

É isso que te torna tão corajoso, Tiro? A confiança no destino?

 

Corajoso?

 

Na montanha, quando te confrontaste com Otacílio. No acampamento de António. Na tenda de César. No barco, erguendo-te para operar a vela, com as setas a zumbirem-te diante do nariz.

 

Tiro encolheu os ombros. Eu olhei para além dele, para as portas que davam da plataforma do cais para o interior da cidade. Um centurião com ar decidido e uma companhia de soldados marchavam em direcção a nós.

 

Esta viagem que fizemos juntos, Tiro, fui eu que te facilitei o teu destino ou foste tu que me facilitaste o meu?

 

Eu diria que foi mútuo.

 

E o papel de Fortex foi apenas trazer-nos até aqui?

 

Consegues pensar em mais algum?

 

Pergunto a mim próprio se Fortex teria visto a coisa da mesma maneira. E o condutor da carroça, que nem sequer tinha nome?

 

Levou-nos de um lado ao outro da montanha, não foi? Resultou tudo da melhor maneira.

 

Para ele, não. Apesar disso, se tu tiveres razão, os deuses trouxeram-nos sãos e salvos até aqui. Se eles querem que eu realize aquilo que vim fazer, viverei mais algum tempo, pelo menos. Tentarei ser tão corajoso como tu foste.

 

Tiro franziu o sobrolho com uma expressão de surpresa, depois avançou ao encontro dos soldados. O centurião perguntou-lhe como se chamava.

 

Soscarides. Calculo que te tenham dito que estivesses à espera da minha chegada.

 

Foi um espectáculo e tanto, segundo me contaram os arqueiros. O centurião era um veterano grisalho, com uma cara grande e rústica e um sorrisinho tenso.

 

Tenho instruções para falar directamente com o Grande e com mais ninguém disse Tiro.

 

O centurião acenou com a cabeça.

 

Quem é o morto?

 

Um escravo. Era o meu guarda-costas.

 

E este? É outro escravo?

 

Tiro riu-se.

 

Levanta a mão e mostra o teu anel de cidadão, Gordiano. Centurião, o Grande também conhece este homem. Ele vem comigo.

 

O centurião resmungou.

 

Bem, não podem ir à presença do imperador no estado em que estão: tu ensopado e este com a túnica coberta de sangue. Vou ver se consigo arranjar-vos uma muda de roupa.

 

Não há tempo para isso disse Tiro. Tens de nos levar imediatamente até Pompeu.

 

Castor e Pólux, tem calma! O centurião observou os curiosos que se tinham demorado na plataforma e apontou para um cidadão bem-vestido. Tu aí! Sim, tu, e o teu amigo. Venham cá os dois! Ao ver recuar os dois homens, o centurião estalou os dedos. Alguns dos soldados deram uma corrida e trouxeram-nos à força.

 

O centurião analisou os dois homens de alto a baixo.

 

Sim, parece-me que vocês têm o tamanho ideal. E as vossas roupas não estão em mau estado. Dispam-se!

 

Os homens ficaram de boca aberta. O centurião estalou os dedos. Os soldados ajudaram os homens a tirar a roupa.

 

Cuidado! berrou o centurião. Não rasguem as túnicas. Qual delas preferes, Soscarides?

 

Tiro pestanejou.

 

A amarela, acho eu.

 

Óptimo. Tu, que tinhas vestida a túnica amarela, despe também a tanga. Anda lá! Aqui o meu amigo Soscarides está encharcado até às bolas e está a precisar de uma tanga seca. Voltou-se para Tiro e para mim. Vamos, amigos, dispam essas coisas que trazem vestidas e vistam a vossa roupa nova.

 

Eu despi a minha túnica ensanguentada pela cabeça.

 

Muito gostam os militares de obrigar os outros homens a despir-se! disse a Tiro num sussurro, pensando na humilhação a que Otacílio nos tinha sujeito na encosta da montanha. César comentara que os homens de Pompeu não tinham conseguido conquistar os habitantes de Brundísio. Era fácil perceber porquê.

 

O centurião olhou para os nossos pés.

 

Os sapatos também! gritou para os dois desafortunados civis. Ambos tiveram um sobressalto, depois ajoelharam-se obedientemente e começaram a desapertar as tiras de couro à volta dos tornozelos.

 

Não me faz diferença deixar secar os sapatos nos pés disse Tiro, que estivera nu por momentos, enquanto trocava a tanga molhada pela seca.

 

O centurião abanou a cabeça.

 

Acredita em mim. Já levei homens em marcha até às Colunas de Hércules e volta. Sou um especialista em pés. Quando as coisas começarem a andar, vais ficar satisfeito por ter calçado um par de sapatos secos.

 

A andar? perguntou Tiro, vestindo a túnica amarela pela cabeça. Ficava-lhe lindamente.

 

O centurião franziu os olhos na direcção do Sol, que virava para oeste, por sobre a linha do horizonte.

 

O Sol está a pôr-se. Para onde vão as horas? Quando anoitecer, as coisas vão começar a andar, rápida e furiosamente.

 

Acredita em mim, vais gostar de estar metido dentro de roupas limpas e de sapatos secos! Nessa altura, lembra-te de mim, amigo Soscarides, e diz uma oração pelo centurião que cuidou de ti com o mesmo carinho com que o teria feito a tua querida mãezinha!

 

Para atrasar o progresso dos homens de César, depois de entrarem na cidade, Pompeu tinha mandado barricar as ruas principais em diversos pontos, além de ter colocado armadilhas. Eram elas trincheiras escavadas à largura da rua, no fundo das quais mandara colocar estacas afiadas, na vertical, cobertas com tabiques de vime e disfarçadas com uma fina camada de terra. O nosso avanço em direcção ao centro da cidade foi necessariamente restringido a um percurso que passava por ruas e vielas secundárias. O centurião seguia à frente e os soldados formavam um cordão à volta de Tiro e de mim.

 

Oficialmente, os habitantes da cidade tinham sido confinados a suas casas, mas na verdade andavam por toda a parte, gritando, correndo freneticamente de um lado para o outro, com expressões de pânico mal contido.

 

Se o acampamento de César me tinha parecido uma colmeia onde reinava um movimento ordenado, Brundísio era um formigueiro virado ao contrário pelo arado de um agricultor. Acabei por apreciar a calma determinação do nosso centurião, que não parecia deixar-se afectar por nada daquilo.

 

Finalmente, emergimos do labirinto de ruas estreitas e secundárias para o Fórum da cidade, onde os edifícios públicos e os templos davam para uma praça ao ar livre. Aqui, havia simultaneamente uma maior sensação de ordem e de caos. Os centuriões gritavam indicações e as tropas que estavam na praça escutavam com rígida atenção. As escadarias do templo estavam cheias de mulheres a chorar e homens de faces cor de cinza. Pelas portas abertas, saía o cheiro do incenso e da mirra a arder, e o eco de orações pronunciadas, não em latim, mas na estranha língua ululante dos Messapianos, a raça que se estabelecera no calcanhar de Itália no princípio dos tempos, e ali tinha erigido a cidade de Brundísio. Nos tempos antigos, os Messapianos lutaram contra Esparta, depois, lutaram contra Pirro, que os conquistara para Roma. O povo cosmopolita e navegador de Brundísio venerava todas as divindades que eram veneradas em Roma, mas também prestava homenagem aos seus próprios deuses, antigas divindades messápicas com nomes impronunciáveis e desconhecidas em Roma. Era a esses deuses que faziam apelo nos momentos de desespero, quando estava em causa o destino da cidade.

 

Chegámos ao edifício do Senado Municipal, do lado leste do Fórum, onde Pompeu tinha instalado o seu quartel-general. O centurião disse-nos que esperássemos na escada, enquanto ele ia lá dentro. Os seus soldados mantiveram o cordão que tinham feito à nossa volta. Não era óbvio se estavam a proteger-nos ou a manter-nos prisioneiros. Exausto, sentei-me nos degraus frios e duros. Tiro sentou-se ao meu lado. A atmosfera da cidade sitiada tinha-me desencorajado, mas parecia ter estimulado Tiro.

 

Se Pompeu conseguir comentou, será verdadeiramente o maior génio militar do seu tempo.

 

Eu franzi o sobrolho.

 

Se conseguir o quê?

 

Uma retirada bem sucedida de Brundísio. Já transferiu uma parte do seu exército para Dirráquio, juntamente com os cônsules e a maior parte do Senado. Agora, é a parte mais complicada. Com César pronto para escalar as muralhas e lançar toda a força do seu poder contra a cidade, conseguirá Pompeu retirar de forma ordenada e organizada pelas ruas, em direcção aos barcos, e depois passar pela entrada da baía? O desafio táctico é de abalar qualquer um. O risco é enorme.

 

Percebo o que queres dizer. Como e quando descerá o último defensor do parapeito, cedendo o seu terreno ao invasor e embarcando no último navio a partir? O processo pode transformar-se numa debandada.

 

Que pode transformar-se num tumulto.

 

Tiro olhou à volta do Fórum, onde reinava uma combinação dissonante de ordem militar e pânico religioso mal contido.

 

E ainda tem de contar com o elemento desconhecido e incontrolável que é a população civil. Nós sabemos que eles estão fartos de Pompeu. Mas poderão estar seguros de que César não vai chaciná-los por terem albergado o seu inimigo? O mais provável é os locais cindirem-se em facções, separados por rancores antigos. Quem sabe como se aproveitarão do caos? É possível que uns abram as portas e apontem aos homens de César a localização das barricadas e das Armadilhas, enquanto outros lhes lançam pedras do alto dos telhados. Alguns deles poderão entrar em pânico e tentar embarcar nos navios de Pompeu. Mas também podem simplesmente obstruir as ruas, tornando a fuga impossível. Um comandante é avaliado pela maneira como opera em situações extremas. Se Pompeu conseguir retirar todos os seus homens de Itália em segurança, e em condições de prosseguirem o combate, terá reconquistado o seu direito de ser tratado por Grande.

 

Achas? A mim parece-me que ele podia ter dado uma demonstração mais eficaz do seu génio evitando esta armadilha.

 

Pompeu fez o melhor que um homem poderia fazer, tendo em conta a situação. Ninguém previu que César se atrevesse a atravessar o Rubicão. Isso apanhou de surpresa os lugar-tenentes do próprio César. Acho que ele até se surpreendeu a si próprio ao cometer semelhante hubris.

 

E o desastre de Corfínio?

 

Pompeu não teve qualquer controlo sobre isso. Disse a Domício que recuasse e fosse juntar-se a ele, mas Domício permitiu que a vaidade dominasse o seu bom senso, que também nunca foi grande coisa.

 

Compara Domício com Pompeu; desde que a crise começou que Pompeu tomou, em todos os momentos, decisões estritamente racionais. Nunca mostrou um resquício de vaidade ou de orgulho tolo.

 

Há quem diga que ele também não deu provas de grande coragem.

 

É preciso coragem para olhar o inimigo de frente e recuar passo a passo. Se conseguir levar a bom termo esta retirada ordenada, Pompeu terá demonstrado que tem uma espinha de aço.

 

E depois?

 

Esse é o aspecto brilhante da coisa! Pompeu tem aliados em todo o Oriente. É essa a sua grande força, e a fraqueza de César. Enquanto reúne esses reforços, a partir da sua praça-forte na Grécia, Pompeu pode bloquear a Itália e cortar por completo as remessas do Oriente, incluindo a colheita de trigo do Egipto. César pode ficar com a Itália, por agora. Mas, se lhe for vedado o acesso ao Egipto e o Oriente se erguer contra ele, quando a fome grassar em Itália e as tropas de Pompeu o ameaçarem da Hispânia, veremos quanto tempo dura o reinado de César em Roma.

 

Era bem possível, pensei eu, que tudo aquilo que Tiro dizia fizesse sentido. César teria algum indício de que semelhante cenário poderia ocorrer? Pensei no homem infinitamente confiante que tinha visto naquela manhã, mas talvez isso fosse apenas um elemento do seu talento de comandante, nunca mostrar dúvidas nem revelar os pesadelos que o assombravam no escuro.

 

Talvez tudo acabasse por se realizar de acordo com os desígnios de Pompeu. Mas isso só poderia acontecer se ele conseguisse escapar de Brundísio. Tínhamos chegado a um momento-chave da grande controvérsia. Nas próximas horas, Pompeu apostaria um lance que lhe permitiria jogar outra rodada, ou o faria perder o jogo.

 

O centurião regressou.

 

O Grande vai receber-te. Eu comecei a levantar-me, mas ele pousou-me uma mão no ombro. Não é a ti. É a Soscarides.

 

Eu estendi a mão e toquei no braço de Tiro.

 

Quando falares com Pompeu, pede-lhe para me conceder uma audiência.

 

Vou fazer os possíveis, Gordiano. Mas, no meio de uma acção militar, não podes propriamente estar à espera...

 

Recorda-lhe a tarefa de que me incumbiu em Roma. Diz-lhe... diz-lhe que eu sei a resposta.

 

Tiro ergueu uma sobrancelha.

 

Talvez devesses dizer-ma, Gordiano. Eu posso comunicar a informação a Pompeu, e pedir-lhe que liberte Davo. É isso que tu queres, não é?

 

Eu abanei a cabeça.

 

Não. Só revelarei a verdade sobre a morte de Numério ao próprio Pompeu, e só se ele libertar Davo primeiro. Se ele quiser saber o que aconteceu a Numério, tem de concordar com estas condições. De outra maneira, talvez nunca saiba.

 

Tiro franziu o sobrolho.

 

Se eu lhe disser tudo isto, e for apenas uma artimanha para conseguir uma audiência...

 

Por favor, Tiro.

 

Ele lançou-me um último olhar de dúvida, e em seguida foi atrás do centurião.

 

O Sol mergulhou por trás das colinas, a ocidente. Um crepúsculo gelado desceu sobre o Fórum, trazendo consigo um curioso sentimento de calma. Até os arrepiantes uivos provenientes dos templos pareciam estranhamente reconfortantes.

 

Acenderam-se tochas, que foram passadas entre as tropas. Compreendia agora por que motivo Pompeu tinha esperado pelo cair da noite para fazer a sua saída. Na escuridão, as barricadas e os poços nas ruas seriam duplamente perigosos. Enquanto os sitiantes recuavam e tropeçavam uns nos outros, os homens de Pompeu, treinados na rota de fuga, poderiam ultrapassar os obstáculos e chegar rapidamente aos barcos.

 

O centurião regressou.

 

Soscarides...? - perguntei eu.

 

Ainda está com Pompeu.

 

Não há nenhuma mensagem para mim?

 

Ainda não.

 

Ouvi um ressoar de portas de bronze e uma agitação no alto das escadas. Levantei-me. Um grande grupo de oficiais saiu do edifício para o alpendre. O centurião e os seus soldados puseram-se em sentido.

 

Pompeu vinha à cabeça do grupo, e trazia posta a sua armadura revestida a ouro. O metal precioso cintilava, reflectindo a luz das tochas que iluminavam a praça, em baixo. Levava debaixo do braço o elmo revestido a ouro, com uma pluma amarela de crina de cavalo. Abaixo do pescoço, graças ao musculoso torso modelado pela couraça, parecia ter a constituição física de um jovem gladiador. A ilusão era desmentida por um par de pernas finas, que as caneleiras revestidas a ouro não conseguiam disfarçar.

 

Procurei Tiro entre a comitiva, mas não o vi. Nem vi Davo.

 

Grande! gritei, na esperança de atrair a sua atenção. Reagi como teria reagido qualquer cidadão no Fórum que quisesse fazer uma petição a um magistrado. Mas não estávamos em Roma e o homem que se encontrava diante de mim não era o político Pompeu, obrigado a atender cada Marco com direito de voto; era Pompeu, o Grande, Imperador das Legiões Hispânicas, o homem que acreditava que as espadas valiam mais do que as leis.

 

Calado! interrompeu-me o centurião. Continuava em sentido. Os seus olhos brilhantes exigiam-me que fizesse o mesmo.

 

Pompeu deteve-se no alto das escadas. Os oficiais arrumaram-se atrás dele. Uma trombeta tocou uma fanfarra, convocando as atenções. Eu estava apenas a alguns metros de distância. Pompeu parecia cansado e alterado. Tinha os olhos inchados e raiados de sangue. Mas é natural que os soldados que se encontravam na praça vissem um Pompeu muito diferente, uma figura com uma constituição forte, revestida a ouro, quase divina, uma estátua de Marte que ganhara vida.

 

Soldados de Roma! Defensores do Senado e do povo! Esta noite, levareis a cabo o exercício para que fostes treinados nos últimos dias. Cada um de vós tem um papel a desempenhar. Todos sabeis o que tendes de fazer. Agi rápida e eficazmente, obedecei às ordens dos vossos centuriões e não haverá problemas.

 

O inimigo foi frustrado em todas as suas voltas. Uma mão-cheia de veteranos, arqueiros e fundibulários, conseguiu mantê-lo à distância das muralhas da cidade. Não tem navios. Os seus esforços para bloquear a enseada mostraram-se fúteis. Como seria de esperar, a sua ambição é superior às suas capacidades. No longo prazo, há-de lamentar esse facto.

 

Houve um murmúrio de risos entre as tropas que enchiam a praça. Eu sempre fora cego ao encanto que se dizia que Pompeu possuía, mas estes homens pareciam apreciá-lo. Talvez por serem militares.

 

Estamos prestes a deixar Itália para atravessar o mar prosseguiu Pompeu. É natural que o facto suscite apreensões em alguns de vós. Não permitais que isso aconteça. Estamos a avançar, e não a recuar. Neste momento, Roma está do outro lado das águas. Nós vamos juntar-nos a ela. As cidades são feitas de homens e não de edifícios. Vamos para onde reside o verdadeiro coração de Roma, vamos juntar-nos aos cônsules legalmente eleitos. Deixemos que o inimigo se apodere de edifícios vazios, se quiser, e se invista com os títulos vazios que a sua imaginação puder conceber. Parece-me que viveu tempo demais a norte do Rubicão, entre bárbaros primitivos, que veneram os seus reis. Tendo conquistado aqueles monarcas insignificantes, pensa que deve ascender à mesma categoria. Pois devia recordar-se do destino que sofreram todos os déspotas que pegaram em armas contra o Senado e o povo de Roma.

 

O murmúrio que corria entre as tropas cresceu até se transformar num grito de aplauso. Pompeu interrompeu-o, erguendo as mãos.

 

Soldados! Recordai a primeira ordem do dia: Silêncio! Os ouvidos do inimigo estão encostados às portas da cidade. Temos de levar esta operação a cabo com o mínimo de ruído possível. E ela começa agora. Comandantes de coorte, dar início à evacuação!

 

Fez um gesto aos oficiais que tinha atrás de si, como um mestre de circo assinalando o começo de uma corrida. Quando eles avançaram, Pompeu recuou, retirando-se da vista das tropas que se encontravam na praça como um deus ex machina dourado desaparecendo de cena num teatro.

 

As fileiras da comitiva diminuíram com o afastamento dos comandantes de coorte, e eu consegui detectar Tiro, que caminhava ao lado de Pompeu. Os guarda-costas pessoais do Grande formaram um círculo à sua volta. Entre eles, distingui um brutamontes pesado com um porte que bem conhecia. Ainda antes de ele se voltar, e de o perfil do seu rosto gaiato se tornar visível, eu soube que se tratava de Davo.

 

Tentei captar a atenção de Tiro, mas ele estava ocupado a conferenciar com Pompeu. Subitamente, vi-o apontar na minha direcção. Pompeu acenou com a cabeça e voltou-se. Olhou-me de frente, depois quebrou o círculo dos guarda-costas e avançou para mim. O centurião que estava ao meu lado pôs-se em sentido.

 

Ouvi-te gritar o meu nome há bocado, Descobridor.

 

Pompeu pareceu-me cansado e irritável.

 

Ouviste, Grande? Não mostraste.

 

Um orador treinado não permite que nada o distraia. Tiro diz que tens novidades para me contar.

 

Tenho, Grande.

 

Óptimo. Centurião, não tens ordens de evacuação?

 

Tenho, imperador.

 

Então, desaparece!

 

Imperador, devo dizer-te que este homem está armado. Traz consigo um punhal. Queres que o desarme?

 

Pompeu conseguiu fazer um sorriso fatigado.

 

Estás preocupado com a possibilidade de um assassínio, centurião? Matar pessoas não é o estilo de Gordiano. Pois não, Descobridor?

 

Não esperou pela minha resposta, mas mandou embora o centurião e os seus homens com um seco aceno de mão.

 

Vem comigo, Descobridor. Calculo que queiras cumprimentar o teu genro, tendo em conta que te arrastaste por meia Itália para vires buscá-lo. Não consigo perceber porquê. Nunca encontrei sujeito mais obtuso. É difícil imaginar que me tenha disposto a pagar boa prata por ele.

 

Eu inspirei profundamente.

 

E o meu relatório, Grande? Ele fez uma careta.

 

Não aqui. Nem agora. Não vês que tenho um incêndio à porta de casa? Guarda o teu relatório para quando nos encontrarmos a salvo sobre as águas!

 

Não acredito! Não acredito mesmo!

 

Davo, cuidado, estás a esmagar-me, vais-me matar...

 

Desculpa. Davo soltou-me e recuou. Eu levei a mão à cara, para esfregar o local onde os elos da sua cota de malha me tinham impresso uma tatuagem na carne macia. Todo coberto de couro e aço, tinha uma aparência tão esmagadora como o abraço que acabava de me dar. Contudo, o sorriso que se lhe abrira de um lado ao outro da face fazia-o parecer inofensivo como uma criança.

 

Não acredito mesmo disse ele de novo, a rir-se. Andaste este caminho todo, pelas montanhas e tudo. Como é que conseguiste entrar na cidade?

 

É uma história comprida, Davo. Conto-ta noutra altura.

 

Um dos oficiais de Pompeu deu um grito. Ergueu um braço e apontou para um edifício alto, do outro lado da praça. Em cima dum telhado, alguém corria dum lado para o outro, acenando com uma tocha.

 

Pompeu semicerrou os olhos.

 

Em nome do Hades, tinhas razão, Tiro. Malditos sejam os habitantes desta cidade! E obviamente um sinal para César dar início ao ataque. Escribónio, ordena a um arqueiro que abata aquele homem.

 

O oficial que tinha apontado deu um passo em frente.

 

Ele está fora do alcance de tiro, imperador.

 

Então manda lá alguém.

 

O caminho para o telhado está quase de certeza bloqueado, imperador. Achas mesmo que vale a pena...

 

Então manda alguns arqueiros a um telhado próximo, para atirarem sobre ele!

 

Imperador, a evacuação já começou. Quando os nossos arqueiros...

 

Não me interessa! Olha para aquele macaco, a acenar com a tocha, a rir-se de nós. Os homens que estão na praça conseguem vê-lo. Os corajosos soldados que povoam a muralha conseguem vê-lo! É terrível para o moral. Quero a cabeça daquele homem. E traz-me também a mão dele, com a tocha!

 

Escribónio convocou arqueiros, mas logo a seguir a ordem de Pompeu tornou-se obsoleta. A toda a volta da cidade, apareceram civis nos telhados. Alguns acenavam com tochas. Outros dançavam à luz vacilante das tochas, como celebrantes de uma festa religiosa. Pompeu estava furioso.

 

Maldita seja esta gente! Quando reconquistar Brundísio, hei-de incendiar e destruir a cidade. E hei-de vender os homens, as mulheres e as crianças, todos eles, como escravos! Começou a andar de um lado para o outro, olhando fixamente para ocidente. Por cima dos telhados, viam-se as torres que flanqueavam a porta da cidade. Engenheiro Mágio, a porta foi suficientemente bloqueada?

 

Outro oficial avançou.

 

Sabes bem que foi, imperador. Com pilhas de cascalho. Nenhum aríete poderá abalá-la. A única maneira de os homens de César penetrarem na cidade é trepando por cima das muralhas.

 

Escribónio, a coluna de arqueiros e fundibulários alinhados no parapeito vai aguentar-se?

 

São todos veteranos experientes, imperador. Hão-de aguentar-se. Nesse momento, chegaram até nós os primeiros sons de batalha, transportados através do ar frio. Primeiro, foram apenas gritos, depois o eco arrepiante do aço contra o aço, e o estampido de um aríete.

 

A praça esvaziou-se rapidamente. Os últimos soldados formaram em silêncio, dirigindo-se para os barcos. O Fórum escureceu, à excepção das manchas brilhantes de luz provenientes das portas abertas dos templos. Dei por mim a desejar saber messápico. Parecia-me que os uivos que vinham dos templos tinham mudado gradualmente de teor, de canções de terror e lamentos, para canções de libertação. Os cânticos misturavam-se com os sons longínquos da batalha.

 

Houve um sinal para a comitiva de Pompeu começar a evacuar. Subitamente, todos aqueles que me rodeavam começaram a dirigir-se para as escadas. O oficial chamado Escribónio entregou a Davo uma tocha e disse-lhe que nos seguisse, guardando a retaguarda.

 

Dirigimo-nos ao porto por um caminho diferente daquele que o centurião tinha tomado anteriormente: uma rua mais larga e um percurso mais directo. Perguntei a mim próprio por que não teria sido bloqueada e comentei isso mesmo com Davo, que me disse que já ia perceber. No primeiro cruzamento a que chegámos, o engenheiro Mágio mandou-nos parar por momentos. Ele e alguns homens agarraram numas cordas que estavam penduradas dos edifícios de ambos os lados da rua. Num instante, enormes pilhas de cascalho foram vertidas sobre a rua, atrás de nós. Tinha sido instalado um engenhoso sistema de roldanas, ligado a comportas de madeira e esconderijos cheios de detritos, armazenados nos andares superiores de edifícios voltados para a rua.

 

A operação foi repetida no cruzamento seguinte, e no seguinte. Mágio estava a bloquear a rua à medida que nós íamos passando.

 

Noutros pontos, Mágio pediu cautela e dirigiu a companhia em fila indiana ao longo de um dos lados da rua, encostada aos muros. Tinham sido abertas trincheiras com estacas à largura da rua, que depois foram tapadas. Mágio era o único que sabia exactamente onde elas estavam e de que lado se podia passar. Era impossível detectar as armadilhas. Na escuridão, o lixo espalhado por cima dos tapumes de verga nisturava-se imperceptivelmente com o resto da rua.

 

Uma vez e outra, ouvi ecos de sons indistintos de batalha, vindos de trás de nós, gritos e berros misturados com os cantos provenientes dos templos. A escuridão das ruas estreitas, a luz vacilante das tochas, as artificiais avalanchas de cascalho, as armadilhas invisíveis por baixo dos nossos pés, parecia tudo elementos de um sonho louco. Imagens do dia passaram pela minha mente esgotada: setas entrecruzando o céu azul por cima da minha cabeça a água fria e tranquila da enseada, numa promessa de morte, Fortex no cais, palpitando em consequência da tensão, agarrando remos invisíveis e olhando boquiaberto para o barqueiro Caronte, que subia o rio Estige para vir buscá-lo.

 

Parecia-me que estava a viver um pesadelo acordado. Depois, olhei para Davo, que seguia ao meu lado e sorria de orelha a orelha. Para ele, tratava-se de uma grande aventura. Agarrei-lhe no braço.

 

Davo, quando chegarmos ao barco de Pompeu, tu ficas em terra. Ele franziu a testa.

 

Davo, eu tenho a informação que Pompeu queria. Sobre Numério. Mas só lha fornecerei se ele concordar em te deixar em terra.

 

Deixar-me em terra?

 

Ouve, Davo, e tenta compreender! Eu parto com Pompeu, mas tu não. É a única maneira de eu conseguir que isto funcione. Vamos deixar-te no cais. Logo que o barco começar a afastar-se, tu tiras a armadura. Compreendes? Guarda a espada, para te protegeres, mas despe-te até ficares só com a túnica, e deita tudo à água. Não podes ter nada que te identifique como homem de Pompeu. As pessoas da cidade podiam matar-te, por rancor, se os homens de César te não matassem primeiro.

 

Fico em terra? Davo continuava a não compreender.

 

Não queres regressar a Roma? Não queres voltar a ver Diana e o pequeno Aulo?

 

Claro que quero.

 

Então faz como eu te digo! A cidade vai ficar mergulhada no caos durante algum tempo; ninguém se importará contigo, a não ser que tenham alguma razão para isso. Não te metas em brigas. Tenta passar por um habitante da cidade, pelo menos até conseguires entregar-te aos homens de César.

 

Entregar-me? Eles matam-me.

 

Não matam, não. César está a fazer todo o possível por provar que é um imperador clemente. Não serás ferido, desde que largues a espada e não resistas. Pede para falar com Meto. E se Meto estiver... se, por qualquer razão, não conseguires encontrar Meto, pede para falar com Marco António, o tribuno. Diz-lhe quem és. Pede-lhe que te proteja.

 

E tu, sogro?

 

Eu tomo conta de mim.

 

Não compreendo. Vais acabar com Pompeu, na Grécia. Como é que voltas para casa?

 

Não te preocupes comigo.

 

Mas Diana, e Betesda...

 

Diz-lhes que não se preocupem. Diz-lhes... que as amo.

 

Isto não está bem. Eu devia ir contigo, para te proteger.

 

Não! A ideia é justamente arrancar-te a Pompeu e mandar-te de volta para Roma. Não desperdices os meus esforços, Davo. Faz o que eu te digo!

 

Subitamente, ouviu-se uma pancada tremenda à nossa frente. A rua encheu-se de cascalho. Por momentos, pensei que Pompeu tinha sido atingido, mas ele emergiu do pó, a tossir e a blasfemar. Alguém tinha accionado um dos dispositivos de Mágio, numa tentativa de nos emboscar.

 

Os homens de Pompeu rodearam imediatamente o cascalho, à procura dos culpados. Aos guinchos de riso seguiram-se berros agudos. Os soldados regressaram com os seus prisioneiros, que se contorciam nas suas mãos: quatro rapazes. Os soldados tinham-nos prendido torcendo-lhes os braços atrás das costas e agarrando-os pelos cabelos. O mais velho devia ter a mesma idade que Mopso. Os outros pareciam ainda mais novos. Eu estava espantado com o facto de eles terem tido força suficiente para soltar o cascalho. O seu êxito era um tributo ao engenho de Mágio.

 

Para Pompeu, isto foi a última palha. Aproximou-se do rapaz mais velho e deu-lhe uma bofetada. O ar de desafio do rapaz desvaneceu-se. Parecia aterrorizado. Começou a sangrar do nariz, e depois a chorar. Tal como os companheiros.

 

Pompeu estalou os dedos.

 

Guarda-costas! Avancem! Executar guerrilheiros não é tarefa para soldados.

 

Davo reagiu imediatamente. Eu agarrei-lhe no braço, mas ele soltou-se. Eu sussurrei o nome dele. Ele olhou para trás, para mim, e encolheu os ombros, como se dissesse que não tinha alternativa.

 

Amarrem-lhes os braços atrás das costas e deitem-nos no cascalho ordenou Pompeu. Davo ergueu a tocha enquanto os outros guarda-costas rasgavam as túnicas dos rapazes, usando as tiras de tecido para os amarrar.

 

Amordacem-nos. Não quero ouvir gritos a pedir misericórdia. Depois cortem-lhes a cabeça ordenou Pompeu.

 

O choro dos rapazes transformou-se abruptamente em guinchos. Os guarda-costas rasgaram mais tiras de tecido e os guinchos foram abruptamente abafados.

 

Executamo-los aqui mesmo, e deixamo-los ficar como exemplo. Que as gentes de Brundísio vejam o preço que pagam os traidores a Pompeu, o Grande. Que pensem nisso, enquanto esperam pelo meu regresso.

 

Aconteceu tudo tão depressa, que parecia irreal. Em segundos, os rapazes foram despidos até ficarem só com as tangas, amarrados, amordaçados e prontos para serem decapitados. Tiro retirou-se para as sombras, mantendo os olhos baixos. Davo recuou. Pompeu reparou nisso.

 

Davo! Tu vais cortar a cabeça do chefe.

 

Davo engoliu em seco. Olhou na minha direcção, mas baixou rapidamente os olhos. Entregou a tocha que tinha na mão a um soldado e desembainhou lentamente a espada. Saltitava nervosamente de um pé para o outro.

 

Grande, não!

 

Pompeu voltou-se para ver quem tinha gritado.

 

Descobridor! Eu já devia calcular.

 

Grande, solta os rapazes.

 

Soltá-los? Quase me mataram!

 

Foi uma partida. São miúdos, não são soldados. Duvido que soubessem, sequer, que tu ias à frente da comitiva.

 

Pior ainda. O que pensariam as pessoas em Roma? Pompeu, o Grande, morto por acidente, por um bando de miúdos de rua que decidiram pregar uma partida! Vão pagar com a cabeça.

 

Mas o que pensarão as pessoas em Roma? Rapazes, simples crianças, decapitados e abandonados, e mais tarde encontrados pelos pais. Se fossem bárbaros do interior, está bem, mas estamos em Itália. Até podíamos estar em Corfínio. Ou em Roma.

 

Pompeu mordeu o lábio inferior. Olhou fixamente para mim, pareceu-me que durante muito tempo.

 

Embainhem as espadas disse por fim. Deixem os rapazes como estão, amarrados e amordaçados. Para as pessoas verem que foram capturados e poupados. Se César pode mostrar clemência, eu também posso. Pelo Hades, vamo-nos embora deste lugar esquecido pelos deuses!

 

Os ombros de Davo descaíram para a frente, com o alívio. Pompeu atirou-me um último olhar de fúria, depois estendeu as mãos para os guarda-costas, que o ajudaram a passar por cima da pilha de cascalho. Davo ficou para trás, retomando o seu posto na retaguarda. Ajudou-me a passar pelos detritos, passo a passo. Deixámos para trás a última barricada e a última armadilha. Seguimos a grande velocidade em direcção ao porto, sem dizer palavra uns aos outros.

 

Logo que atravessámos os portões da cidade e pisámos a plataforma do embarcadouro, um dos soldados reuniu todas as tochas, correu para a beira do cais e atirou-as à água. O porto era claramente visível para as forças de César que cercavam a enseada. A escuridão era tão vital como o silêncio para o sucesso da operação de Pompeu.

 

No cais, alinhavam-se os homens que esperavam uma ordem para embarcar nos respectivos navios. Passámos rapidamente por eles, dirigindo-nos para a extremidade do cais.

 

O inquietante silêncio foi subitamente quebrado por aplausos que começaram à nossa frente e prosseguiram a todo o comprimento do cais. Primeiro, pensei que se tivessem apercebido da chegada de Pompeu e que o aplauso fosse para ele. Depois ouvi um grito: "Passaram! Conseguiram passar!" O primeiro dos barcos de transporte tinha passado em segurança para o outro lado do quebra-mar e chegado ao mar alto.

 

Rangeram mastros, ondearam velas e novos barcos fizeram-se ao mar. Quando nos aproximámos da extremidade do cais, eu fiquei com uma perspectiva clara da entrada na baía. Os quebra-mares eram tão escuros como o cais, manchas horizontais que mal pareciam erguer-se acima da linha de água. Um capitão sem uma penetrante visão nocturna podia perfeitamente encalhar ao tentar passar entre eles. Senti-me mais do que nunca fora do meu elemento, mergulhado num mundo de sombras governado pelas regras de Pompeu e de César, onde os homens produziam avalanchas, moviam montanhas de terra, faziam construções sobre as águas e até usavam a escuridão como arma.

 

O barco de Pompeu estava à espera na extremidade do cais. Era uma embarcação mais pequena, mais elegante e mais rápida que os enormes barcos de transporte. Uma prancha de embarque foi rapidamente descida. Pompeu avançou para ela. Eu convoquei toda a minha coragem e estuguei o passo, para me aproximar dele.

 

Grande!

 

Ele parou abruptamente e voltou-se. Extinta a luz da tocha, era difícil ler a sua expressão. Apenas conseguia ver uma sombra profunda onde deviam encontrar-se os seus olhos. A dura linha da sua boca estava rispidamente voltada para baixo nos cantos.

 

O Hades te engula, Descobridor! O que é agora?

 

Grande, o meu genro... quero que o libertes do teu serviço. Que o deixes em terra.

 

Por quê?

 

É o preço por aquilo que eu tenho para te dizer.

 

"Não aqui. Nem agora", disseste tu. Nesse caso, será a bordo do teu navio, quando o tempo no-lo permitir. Eu vou contigo. Mas tens de deixar Davo em terra.

 

Pompeu ficou silencioso. Parecia estar a olhar fixamente para mim, mas eu não conseguia ver-lhe os olhos. Por fim, fez um gesto, indicando ao resto do grupo que começasse a embarcar, e voltou-se outra vez para mim.

 

Descobridor, por que será que eu tenho um pressentimento de que isto é um truque qualquer, uma artimanha para trocares de lugar com o obtuso do teu genro? Perdoei àquelas ratazanas das ruas a partida que me pregaram. Não farei o mesmo contigo.

 

Não se trata de um truque, Grande. Eu sei quem matou o teu parente, e porquê.

 

Nesse caso, diz-me.

 

Eu olhei para Davo, que estava ali ao pé com uma expressão de desconforto, enquanto os outros embarcavam. Tiro também se deixara ficar para trás, para ver o que ia acontecer.

 

Não. Digo-te depois de partirmos.

 

Quando Davo estiver fora do meu alcance, queres tu dizer? Não confias em mim, Descobridor?

 

Temos de confiar um no outro, Grande.

 

Ele inclinou a cabeça.

 

És um sujeito muito peculiar, Descobridor, para te atreveres a falar comigo nesse tom. Muito bem, embarca. Deu meia volta. Tu também, Tiro. Fecha a boca! Quanto a ti, Davo, estou farto de ti. Embora! Desaparece! Para o Hades contigo!

 

Davo olhou para mim. Eu avancei, meti a mão dentro da túnica e entreguei-lhe o meu saco de moedas. Ele baixou os olhos para a bolsa e franziu o sobrolho. Estava cheia de prata. Graças à generosidade de Tiro, eu não tinha gasto quase nada durante a viagem. Ele tinha ali mais do que o suficiente para regressar a casa em segurança.

 

Mas, sogro sussurrou ele, não podes dar-me isto tudo! Vais precisar de dinheiro!

 

Leva-o, Davo, e vai-te embora!

 

Ele olhou-me nos olhos, depois olhou para a bolsa que tinha nas mãos, e novamente para os meus olhos. Os seus ombros subiram e voltaram a descer quando ele inspirou profundamente. Por fim, voltou-se, ainda hesitante.

 

Vai-te embora, Davo. Já!

 

Sem olhar para trás, ele começou a descer o cais, em direcção à cidade.

 

Tiro embarcou. Eu esperei por Pompeu, mas ele indicou-me que avançasse primeiro. Depois seguiu-me. A prancha de embarque foi retirada.

 

Foram dadas ordens em vozes sussurradas. As velas estalaram e ondearam. O convés moveu-se debaixo dos meus pés e o cais foi-se afastando.

 

Espreitei para trás, para o caminho por onde tínhamos vindo, e vi na extremidade do cais, enquadrada pela porta da cidade, uma figura solitária que pensei que devia ser Davo. Depois, o barco deu uma volta e perdi-o de vista.

 

Não tardei a perder Tiro e Pompeu de vista, porque o convés estava cheio de gente e mergulhado na escuridão. Ninguém questionou a minha presença. Ninguém parecia, sequer, reparar em mim.

 

Os soldados seguiam em formação de batalha, mas havia uma considerável confusão, com movimentos frenéticos para um lado e para o outro, e muitas pragas e discussões. Depois dos cuidadosos planos de Pompeu, e do que me parecera uma evacuação perfeita, pensei que seria realmente irónico se todos os barcos escapassem à excepção do dele, por falta do adequado treino naval dos membros da sua elite escolhida a dedo.

 

Mas a confusão foi apenas temporária. As catapultas e as máquinas de balística foram colocadas e fixadas nas suas posições e, depois de carregadas, elevadas por meio de grandes rodas dentadas. Os homens de infantaria embainharam as espadas, pegaram em lanças, e formaram um cordão apertado ao longo da amurada, criando uma barricada intransponível com os escudos. Por trás deles, os arqueiros tomaram os seus lugares em posições mais elevadas. Havia outros soldados colocados ao lado dos arqueiros, que os protegiam e lhes forneciam as setas.

 

Eu subi para cima de uma plataforma elevada, a meio do barco. À nossa volta, os grandes barcos de transporte recortavam-se na escuridão. Uns dirigiam-se para a entrada da baía, enquanto os outros esperavam a sua vez. Uma operação tão coordenada, levada a cabo sem o benefício de luzes ou outros sinais, pressupunha que estavam a seguir uma ordem de evacuação precisa e previamente determinada.

 

A acústica da enseada era desconcertante. Eu ouvia gritos indistintos e sons longínquos de batalha, mas não saberia dizer quais eram os ruídos que provinham da cidade e aqueles que ecoavam da entrada na baía.

 

Os barcos iam passando sucessivamente pelos quebra-mares e entrando em mar aberto. Pareceu-me entrever trocas de setas e projécteis entre os barcos e os homens que se encontravam nos quebra-mares, mas a escuridão e a distância impediam-me de discernir os pormenores.

 

Quando o barco de Pompeu se aproximou da entrada na baía, metido na fila para passar o estreito, começou o ataque incendiário. De ambos os quebra-mares, as catapultas lançavam projécteis em chamas para o navio que passava no meio. À luz criada por esses projécteis, eu tive uma visão bizarra: os homens de César estavam a desmantelar freneticamente as suas próprias defesas nos quebra-mares, deitando abaixo as torres e os parapeitos e lançando os detritos à água.

 

Os projécteis ficavam aquém dos alvos. Foram disparados novos projécteis incendiários. Também estes ficaram aquém dos alvos, mas as tremendas pancadas na água criavam grandes explosões de vapor. Ao mesmo tempo, alguns dos detritos lançados às ondas incendiavam-se, salpicando a entrada na baía com pontos de fogo.

 

A linha de fumo e fogo constituía um perigo para o barco que seguia à nossa frente, já que obscurecia a visibilidade do capitão. Ele desviou-se do seu curso, inclinando-se fortemente em direcção ao quebra-mar do lado norte. Ouvi uma grande praga atrás de mim e olhei por cima do ombro. Pompeu estava a pouca distância. Pareceu não ter reparado em mim. Toda a sua atenção estava concentrada na batalha.

 

O barco que ia à nossa frente desviou-se ainda mais do seu curso, agora atormentado por uma súbita alteração do vento. Avançou na direcção da extremidade do quebra-mar do lado norte, a tal ponto que, da nossa perspectiva, parecia iminente uma colisão. Ouvi Pompeu suster a respiração.

 

Mas não houve colisão. O barco passou a rasar. Por momentos, por causa da confusão criada pelo fumo, pareceu-me que o barco tinha passado em segurança pelo quebra-mar e se encontrava do lado de fora. Depois, ouvi um resmungo de Pompeu, e percebi o que se tinha passado. O barco ainda estava dentro da enseada, velejando ao longo do quebra-mar e junto a ele, mal conseguindo evitar uma colisão, e aparentemente incapaz de recuar para o centro da enseada. Ficou parado de encontro ao quebra-mar, imobilizado pela mudança do vento e ao alcance das setas e dos projécteis dos homens de César, que lançaram um aplauso que ecoou pela enseada.

 

O barco estava inteiramente vulnerável e bem podia ter sido inundado de projécteis incendiários, mas aparentemente o inimigo preferiu apoderar-se dele intacto. Como descobrimos no momento seguinte, dispunha de meios para o fazer.

 

O oficial Escribónio veio a correr ter com Pompeu. Imperador, olha para trás de nós, olha para a cidade!

 

O último barco de transporte tinha largado, o que significava que a última guarda que cobria Pompeu se tinha retirado em segurança das muralhas da cidade, conseguindo fugir. Mas isso significava igualmente que o domínio da cidade passara por inteiro para as mãos dos homens de César. Dadas as barricadas e as armadilhas nas ruas, era razoável supor que eles ainda estivessem a tentar avançar pela cidade, mas os cais estavam brilhantes de luz de tochas. Os homens de César não só tinham já tomado o porto, como alguns deles se tinham apoderado de barcos de pesca, e se dirigiam ousadamente para os quebra-mares, planeando evidentemente abordar o barco de transporte que ficara preso.

 

Escribónio apertou o braço de Pompeu.

 

Imperador, voltamos atrás e enfrentamo-los? Podemos conseguir mantê-los à distância, e ganhar algum tempo para o barco preso contra o quebra-mar.

 

Não! Não podemos correr o risco de perder a direcção dos quebra-mares. Aquele barco está perdido. Não tem salvação. Se pudesse, era eu próprio quem o incendiava, para impedir que César ficasse com ele. Segue em frente!

 

Escribónio retirou-se.

 

Como é que ele consegue? Pompeu deu um murro no mastro. Como é que ele consegue avançar tão depressa? Que pacto terá César feito com os deuses? Não é humanamente possível! Mesmo que os malditos habitantes da cidade tivessem mostrado aos soldados dele onde estavam as barricadas e as armadilhas, como é possível que já haja tantos no porto? E que loucura os impele avir atrás de nós naqueles barquitos? Deve ser o próprio César que está no porto, incentivando-os a avançar.

 

Eu olhei para trás, para o porto, e imaginei César de pé na extremidade do cais, no mesmo sítio onde Pompeu se encontrara poucos momentos antes, com a capa vermelha a flutuar ao vento, contemplando o barco de Pompeu, que se desvanecia por entre nuvens de fumo e vapor na entrada na baía. Fechei os olhos e rezei para que Meto estivesse com César, são e salvo, e para que Davo se encontrasse também com eles, não lamentando excessivamente ter feito o que eu lhe mandara. Imaginei o meu filho e o meu genro juntos e a salvo no cais, e agarrei-me a essa imagem.

 

Maldito sejas, Descobridor!

 

Abri os olhos e vi Pompeu olhar para mim. As chamas dos destroços incendiados que flutuavam na água à nossa volta atravessavam o fumo e enchiam-lhe os olhos de luz.

 

Tu és de César, não és?

 

Eu abanei a cabeça, sem compreender. Pompeu franziu o sobrolho.

 

Aquele escravo que tu adoptaste, o teu filhinho querido, Meto, há anos que ele dorme enroscado na tenda de César. E tu és um espião de César. Sempre lhe foste leal. Admite! Nem César poderia ter feito entrar tantos homens na cidade tão depressa, se não tivesse espiões a ajudá-lo. Há quanto tempo estás em contacto com os habitantes da cidade? Há quanto tempo conhecias aquelas ratazanas da rua que quase me mataram? Foste tu que os incentivaste a fazer aquilo? Não me admira que me tivesses pedido que lhes poupasse a vida!

 

Grande, estás enganado. Aquilo que sugeres é impossível. Pergunta a Tiro. Ele veio comigo desde Roma...

 

Sim, conseguiste atrelar-te a Tiro, e até o enganaste a ele. Davo! Devia ser ele o teu homem, que andou a espiar-me este tempo todo! E eu que pensava que ele era um idiota!

 

Grande, isso é loucura.

 

A luz das chamas dançava no rosto de Pompeu. Eu não teria conseguido reconhecê-lo. Parecia estar possuído por qualquer coisa inumana, um deus ou um demónio, não sei qual dos dois. Comecei a ficar com os pêlos da nuca eriçados.

 

Para além de nós, as chamas e o fumo continuavam a aumentar. Ouvi gritos de ambos os lados, insultos e pragas lançados pelos homens que estavam no quebra-mar. Ouvi os guinchos e estalidos das catapultas e dos engenhos de balística. Bolas de fogo eram violentamente lançadas contra nós, guinchando como harpias. Escribónio gritava ordens:

 

Catapultas, devolver fogo! Arqueiros, devolver fogo! Pompeu olhava fixamente para mim, esquecido da batalha que começava à nossa volta.

 

Grande, eu não te enganei. Não há conspiração nenhuma. Eu não sou de César.

 

Ele apertou-me o pescoço. Naquele aperto, eu senti toda a fúria que devia ter crescido dentro dele, dia após dia, desde que fugira de Roma. A minha visão obscureceu-se. O seu rosto começou a dançar diante dos meus olhos. Para além do sangue que martelava nos meus ouvidos, os berros e gritos que nos rodeavam pareciam pouco mais do que sussurros.

 

Uma bola de fogo veio cair tão perto de nós, que ficámos mergulhados em água fria, e depois numa névoa de vapor. Os soldados gritavam, quebrando as fileiras e voltando a formá-las no instante seguinte. O aperto de Pompeu não abrandava. Eu procurei soltar os seus dedos do meu pescoço.

 

Se não és um espião de César, diz-me o que vieste dizer-me! Quem matou Numério?

 

Eu sempre soubera que este momento havia de chegar.

 

No meu espírito, especialmente nas noites de insónia, tinha ensaiado este momento muitas vezes. Quase tinha chegado a desejá-lo. Era um segredo pesado. Queria livrar-me dele. A vergonha era amarga, como o travo do absinto. Queria ser limpo dela. Porém, na minha imaginação, o momento e o local da minha confissão sempre tinham sido calmos e dignos, um compartimento privado com todos os ouvidos atentos ao que eu tinha para dizer, como Édipo no palco, nunca assim, no calor da batalha, com a morte e a escuridão à minha volta, e Pompeu já furioso e preparado para me estrangular.

 

Tive dificuldade em fazer com que as palavras passassem pelas mãos que me apertavam a garganta.

 

Fui eu... que... o matei.

 

O que aconteceu foi o oposto do que eu esperava. Abruptamente, Pompeu soltou-me e recuou.

 

Por que dizes semelhante coisa, Descobridor? Por que mentes? Sabes quem matou Numério ou não?

 

Fui eu que o matei sussurrei eu.

 

Engoli com dificuldade e massajei as feridas que tinha no pescoço. Que estranho, pensei: para quê preocupar-me em aliviar as pequenas irritações de um corpo que não tem futuro para além dos próximos momentos?

 

Ao embarcar no navio de Pompeu, eu sabia que morreria nele, embora não tivesse esperado que o fim fosse tão rápido. Ao partir de Roma, sabia que não voltaria. Desde o princípio que esperara conseguir trocar com Davo, obtendo assim alguma coisa com a minha morte, para além do fim da minha própria vergonha.

 

Escribónio corria a todo o comprimento do barco, agitando uma espada por cima da cabeça.

 

Catapultas de estibordo, fogo à vontade! Todos os arqueiros, fogo para estibordo! Tínhamo-nos aproximado perigosamente do quebramar do sul, de tal maneira, que uma bola de fogo lançada com demasiada força passou a estralejar por cima das nossas cabeças, deixando atrás de si correntes de fumo e um chuvisco de fagulhas.

 

Por quê? disse Pompeu, cuja loucura se tinha transformado em confusão. Se fizeste semelhante coisa, por que vieste confessá-la?

 

Por entre os véus de fumo que nos rodeavam, vi os olhos protuberantes de Numério e a sua cara inchada e sem vida. Por cima do rugido da batalha, ouvi a voz trémula de sua mãe e os soluços de Emília, chorando por uma criança que nunca chegaria a nascer.

 

Para me livrar da vergonha disse. Do remorso. Da culpa. Pompeu abanou cepticamente a cabeça, como se já tivesse ouvido falar dessas emoções, mas não tivesse um conhecimento directo delas.

 

Mas por que havias tu de matar Numério? A pergunta continha outra interrogação, que ficara por dizer: teria ele deixado passar alguma coisa que era óbvia? Alguém o fizera passar por parvo?

 

Nessa manhã, Numério veio a minha casa para fazer chantagem comigo.

 

Nunca! Numério era meu. Só trabalhava para mim.

 

Numério trabalhava para si próprio! Era um intrigante, um chantagista. Tinha um documento: a prova de uma conspiração para matar César, um pacto assinado pelos conspiradores. A assinatura do meu filho era a primeira. O documento estava escrito pelo punho de Meto. Até a gramática era dele. Baixei os olhos.

 

O teu filho? O favorito de César?

 

Não sei quando nem por que motivo Meto se voltou contra César. Numério afirmou possuir outros documentos incriminatórios, escondidos algures. Pediu-me dinheiro, bastante mais do que eu poderia pagar-lhe. Recusou-se a baixar o seu preço. Disse-me que estava para sair de Roma. Se eu não lhe pagasse, enviaria imediatamente os documentos a César. César conhece a letra de Meto tão bem como eu! Teria sido o fim dele. Tive de decidir num momento.

 

Pompeu enrolou o lábio superior.

 

O garrote à volta do pescoço...

 

Era uma recordação de uma investigação anterior. Numério ficou à espera no jardim. Eu fui ao meu escritório buscar dinheiro. Mas, em vez disso, voltei com o garrote. Ele estava de pé, diante de Minerva, de costas para mim, assobiando para os céus. Com uma arrogância! Era jovem e forte. Eu duvidei da minha força, mas não foi tão difícil como pensei que seria.

 

Outra bola de fogo silvou por cima das nossas cabeças, tão perto que eu me encolhi. Ao seu brilho lúrido, detectei a raiva que aumentava no rosto de Pompeu.

 

O que aconteceu ao documento que ele te mostrou?

 

Levei-o para o meu escritório. Queimei-o na braseira. Foi nessa altura que Davo veio ao jardim e descobriu o corpo.

 

Quer dizer que Davo sabia a verdade? Sempre soube?

 

Não! Eu não lhe falei da chantagem, nem do assassínio. Não disse a ninguém, nem sequer à minha mulher e à minha filha. Queria protegê-las. Se elas soubessem, e tu suspeitasses... mas a verdadeira razão não foi essa. Foi a vergonha... a culpa...

 

Tinha completado o círculo. Não podia esperar que um homem como Pompeu compreendesse. Chacinar centenas ou milhares no campo de batalha era um feito glorioso, agradável aos deuses. Matar um homem isolado era um assassínio, um crime contra os céus.

 

Eu já tinha morto outros homens, mas só em situações de desespero ou em autodefesa, quando a alternativa não o era verdadeiramente, quando era a minha vida ou a do outro. Nunca por trás. Nunca a sangue-frio. Quando matei Numério, qualquer coisa morreu dentro de mim.

 

Secretamente, sempre me considerara superior aos outros homens. Homens como Pompeu, ou César, ou Cícero teriam certamente olhado de alto para mim, rindo-se de semelhante pretensão, mas eu sempre retirara orgulho e conforto da noção de que outros poderiam ser mais ricos, mais fortes, melhor nascidos, mas eu era superior. Gordiano libertara escravos e adoptara-os. Gordiano mantinha-se à distância da ganância e das sujas paixões que conduziam os romanos "respeitáveis" aos tribunais, onde se atiravam uns aos outros como animais selvagens. Gordiano não enganava nem roubava, e raramente mentia. Gordiano sabia distinguir o bem do mal por meio de um sentimento moral interior e infalível, mas tinha compaixão por aqueles que se debatiam nos diversos matizes de cinzento. Gordiano nunca cometeria um assassínio. Como Pompeu tinha dito, matar pessoas não era o seu estilo.

 

No entanto, era precisamente isso que Gordiano fizera: estrangular outro homem, deixando-o sem vida no seu jardim.

 

Ao fazê-lo, tinha perdido o direito àquilo que me distinguia de outros homens. Tinha perdido o favor dos deuses. Senti-o no instante em que Numério Pompeu caiu sem vida aos meus pés. O Sol foi escondido por uma nuvem. O mundo tornou-se mais frio e mais escuro.

 

Esse momento trouxera-me, directa e inevitavelmente, até este momento. Eu estava preparado para o que quer que acontecesse a seguir. Resignara-me às Parcas.

 

Davo tinha sido resgatado. Tinha visto Meto, vivo e de boa saúde. Betesda, Diana, Eco e os filhos de ambos estavam todos a salvo, ou tão a salvo como qualquer pessoa podia estar num mundo fendido como o nosso. Se era verdade que Numério tinha outros documentos comprometedores para Meto escondidos algures, a única coisa que eu lamentava era não ter conseguido encontrá-los e destruí-los, para bem de Meto.

 

No meu espírito, a par da minha confissão, tinha também imaginado o que se seguiria. Tinha imaginado Pompeu convocando os seus homens de mão para me darem destino, levando-me para longe da sua vista. Nunca imaginei que ele saltasse sobre mim como um animal selvagem, as suas mãos dilacerando o meu rosto. Protegi os olhos. Ele agarrou-me no cabelo e bateu com a minha cabeça contra o mastro. Os meus ouvidos tilintaram. Senti o gosto do sangue na boca. Ele atirou-me para o convés. Urrou e pontapeou-me sem dó.

 

Não sei como, consegui voltar a pôr-me de pé. Corri às cegas, tropeçando e saltando por cima de rolos de corda, colidindo com armaduras frias, cortando a face, os braços e os ombros em setas e lanças. Por entre o fumo e o vapor de água do mar, as caras olhavam para mim, aterrorizadas. Estavam assustadas, não comigo, mas com o louco que vinha atrás de mim. Todos os homens que se encontravam neste barco oscilavam sobre o gume da espada de Marte, pairando entre a vida e a morte. A visão do seu comandante reduzido a uma raiva insana enervava-os.

 

Uma bola de fogo sobrevoou o barco. Roçou pela vela principal, deixando um rasto de chamas ao longo da extremidade superior. Os soldados entraram em pânico. Escribónio gritou:

 

Soltem-na! Soltem-na!

 

Os homens correram para o mastro, com os punhais a faiscar entre os dentes.

 

Duas mãos abateram-se sobre os meus ombros. Eu tive um sobressalto, depois vi que era Tiro.

 

Gordiano, o que foi que tu fizeste? O que foi que lhe disseste? À luz das chamas saltitantes que se erguiam por cima das nossas cabeças, vi Pompeu a não mais de cinco passos de distância. A expressão do seu rosto liquefez-me o sangue nas veias. No instante seguinte, ele estaria suficientemente perto para eu conseguir ver a minha imagem nos seus olhos; e veria neles um homem morto.

 

Soltei-me de Tiro, voltei-me e corri. Não sei como, nasceram-me asas. Não há outra explicação para o salto que dei por cima das cabeças dos homens alinhados em formação cerrada ao longo da amurada do barco. Por momentos, pensei que o salto tinha sido demasiado curto, e que seria empalado pelas suas lanças. A ponta de uma lança chegou mesmo a espetar-me a canela, atingindo-me a carne e raspando-me o osso. Dei um grito de dor. Instantes depois, mergulhei de cabeça numa água tão fria, que me parou o coração e congelou o grito que eu tinha nos lábios.

 

Uma corrente poderosa sugou-me para baixo. Era o fim. Seria Neptuno, e não Marte, a reclamar-me. O meu crime seria purificado pela água e não pelo fogo.

 

O frio era lancinante. A escuridão, infinita. A corrente arrastava-me de um lado para o outro. Fez-me girar, quase como se brincasse comigo, como que se quisesse provar-me que eu não tinha capacidade para lhe resistir. Perdi por completo o sentido de orientação. De repente, fiquei espantado ao ver diante de mim pontos luminosos vacilantes, que pareciam lâminas de chamas amarelas. Ter-me-ia a corrente sugado para o fundo do mar, para a fissura que dava acesso ao Hades? Parecia impossível, porque os meus sentidos diziam-me que eu estava a avançar para cima, e não para baixo. A corrente fria arrastava-me para cada vez mais perto das chamas, até que senti na cara o calor dos destroços flutuantes.

 

Farta de mim, a mão de Neptuno expulsava-me da água. Emergi num vazio de chamas, abrasador e abafado. Desesperado, inspirei uma golfada de ar ardente.

 

O meu destino era ser purificado pela água e pelo fogo.

 

                                                     DIONISIO

 

Há quanto tempo...?

 

Davo inclinou a cabeça, atentamente.

 

... é que eu acordei pela última vez? consegui dizer. A dor que sentia ao falar encheu-me os olhos de lágrimas. Ainda assim, parecia-me que era ligeiramente menos doloroso do que antes.

 

Ontem disse Davo. Ontem, estiveste algum tempo acordado. Disseste "Fala". Foi a primeira coisa que disseste desde que te tiraram da água.

 

E quando foi isso? Davo contou pelos dedos.

 

Há, um... dois... três dias. Tinham passado três dias e eu não me lembrava de nada, nem sequer

 

de sonhos. De nada! Excepto...

 

Água sem fim, preta e fria. Chamas. Fumo. Uma prancha flutuante. Bolas de fogo passando por cima da minha cabeça. Um fedor a cabelo chamuscado e a carne queimada. Homens a gritar. Em solavanco repentino. Rochas afiadas por baixo de água. O repouso, metade dentro, metade fora de água. O céu lá no alto, frio e interminável, mas coberto de estrelas, sempre mais luminoso de cada vez que eu acordava de um sono leve e irregular: cinzento cor de ferro, depois azul muito pálido, depois cor-de-rosa de ostra. Vozes. Braços erguendo-me no ar.

 

Inútil, disse alguém. Não vale a pena o trabalho. Não é dos nossos.

 

Aquele sujeito grande conhece-o. E o sujeito grande tem uma bolsa cheia deprata.

 

Enrolado em linho. Depositado numa carroça. Mais corpos na carroça... vivos ou mortos? Davo inclinado sobre mim, olhando para baixo, o seu rosto quase irreconhecível; eu nunca o tinha visto chorar. Uma viagem interminável, choques e solavancos, e por fim o descanso numa cama incrivelmente suave, num quarto fresco, silencioso, mergulhado na obscuridade. Uma voz de mulher: Se precisares de mais alguma coisa. Outra voz: Comia qualquer coisa. Era Davo. Eu também tinha fome mas estava demasiado fraco para conseguir falar e, quando chegou a comida, o cheiro a carne queimada enjoou-me.

 

De que mais me recordava? Da cara de Pompeu, contorcida de raiva. Da cara de Tiro, assustada e confusa. Tentei afastar essas imagens e concentrar-me noutras caras. Betesda... Diana...

 

Meto disse.

 

Não, sou eu. Davo inclinou-se sobre mim, a sorrir. Eu abanei a cabeça.

 

Mas onde...?

 

Ah! Davo compreendeu. Está com César. Voltaram para Roma.

 

Quando?

 

Partiram no dia seguinte à fuga de Pompeu. César fez um discurso no Fórum da cidade, agradecendo aos cidadãos a sua ajuda, deixou uma guarnição encarregada de guardar a cidade, e partiu para norte, pela Via Ápia. Meto foi com ele. Foi há três dias.

 

Estiveste com Meto?

 

Estive, pois. Queres que te conte? Estás capaz de ouvir? Eu acenei com a cabeça.

 

Muito bem. Depois de te deixar, não tinha passado meia hora já eu tinha encontrado Meto. Foi fácil, uma vez que ele estava com César. Era difícil não reparar na capa vermelha! Encontrei-os vinham eles do Fórum, pela mesma rua que nós tomámos com Pompeu. Os guarda-costas de César podiam ter-me morto, mas eu fiz como tu disseste e lancei a minha espada ao chão. Meto ficou satisfeito por me ver. Eu contei-lhe o que tu tinhas feito, que tinhas ido com Pompeu. César estava ansioso por chegar ao porto. Eu indiquei-lhes o caminho, para não caírem nas armadilhas. Chegámos ao cais no momento em que os últimos homens de Pompeu partiam.

 

Da ponta do cais, reconheci o barco de Pompeu, que estava mesmo à entrada da baía. Apontei-o a Meto. Ele apontou-o a César. Ficámos a ver o barco manobrar. Durante algum tempo, pareceu-nos que Pompeu estava com grandes problemas, que se inclinava sobre o quebra-mar do sul. Rezei uma oração a Neptuno por ti. Não se via grande coisa, por causa da escuridão e do fumo... mas eu iria jurar que vi alguém saltar borda fora! Meto não viu. E os outros também não. Disseram-me que tinha sido imaginação minha, que não era possível ter visto semelhante coisa àquela distância. Mas eu tinha a certeza. Queres um pouco de água?

 

Eu acenei com a cabeça. Davo foi buscar um cântaro e deitou água num copo de barro. Eu peguei nele. Tinha as mãos cheias de cortes e queimaduras, mas nada que me impedisse de as utilizar. Não me custou tanto engolir como esperava. O meu estômago roncou.

 

Tenho fome disse. Davo acenou com a cabeça.

 

Vou pedir ao cozinheiro que te faça qualquer coisa fácil de comer, talvez umas papas de aveia frias. A comida aqui é bastante boa. Tem obrigação de ser, tendo em conta o que estamos a pagar. Dizem que é a melhor estalagem de Brundísio. Mas servem peixe demais para o meu gosto.

 

Fiz-lhe um gesto de mão, mandando-o prosseguir com a história.

 

Onde ia eu? Ah, pois: no barco de Pompeu. Acabou por conseguir passar, mas foi por um triz. Devias ter visto a cara de César, a pensar que afinal sempre tinha conseguido apanhar o Grande, parecia um gato a olhar para um pássaro. Mas o barco de Pompeu acabou por sair da enseada, limpinho como uma caganita do traseiro de uma ovelha. E os outros também, à excepção de um ou dois barcos que chocaram com os quebra-mares. César mandou uns botes ter com eles, abordaram-nos e prenderam os homens. Que noite aquela, toda a gente a correr de um lado para o outro como louca, e Meto no meio daquilo tudo. Davo franziu o sobrolho. Não estava tão perturbado como eu pensei que ficasse, com o facto de tu teres partido com Pompeu. Ficou com aquela expressão, sabes como é, quando não se consegue imaginar aquilo em que ele está a pensar, ou pelo menos eu não consigo, e disse que se calhar era melhor assim, que tu tivesses fugido com Pompeu e Tiro.

 

Perguntou-me se eu tencionava regressar a Roma com ele, porque se tencionava tinha de ficar calado. Ele não queria que César ou António soubessem que tu tinhas partido com Pompeu, pelo menos por enquanto. Calculo que achasse que isso não cairia muito bem, que o próprio pai tivesse partido com o inimigo. Eu mostrei-lhe o dinheiro que tu me tinhas dado, e disse-lhe que não precisava que ele me ajudasse a voltar para casa. Acho que ele ficou satisfeito por se livrar de mim. E foi tudo. No dia seguinte, depois de fazer o tal discurso no Fórum, César foi-se embora. Ainda bem. De qualquer maneira, eu queria ficar por cá mais algum tempo.

 

Eu bebi mais um gole de água.

 

Por quê?

 

Porque tinha a certeza de ter visto alguém a saltar do barco de Pompeu... ou a ser empurrado borda fora.

 

E achavas que era eu. Por quê?

 

Tinha um pressentimento. Não sei explicar. Sabia que havia qualquer coisa que não estava bem. A maneira como me entregaste aquele dinheiro todo. A maneira como falaste, como se não estivesses à espera de voltar. Abanou a cabeça. Tinha de ter a certeza. Na tarde do dia em que César e Meto se foram embora, decidi dar a volta à enseada, a começar pelo quebra-mar do sul, uma vez que tinha sido dessa ponta que o barco de Pompeu mais se tinha aproximado. Alguns dos homens da guarnição de César estavam de guarda aos corpos que vinham dar à praia, para que não houvesse pilhagem. Quase todos os homens estavam mortos. Alguns tinham setas espetadas. Outros estavam horrivelmente queimados. Para te dizer a verdade... nunca esperei encontrar-te vivo. Quando vi a tua cara e tu abriste os olhos... A sua voz tornou-se rouca. Baixou os olhos.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Quer dizer que Meto não sabe.

 

Não. Ele acha que tu estás com Pompeu. Vai ter uma grande surpresa quando voltarmos a Roma e te vir! É possível que, por essa altura, já te tenham voltado a crescer as sobrancelhas.

 

Na verdade, as papas frias eram bastante fáceis de engolir. Eu estava faminto, mas Davo teve o cuidado de impedir que eu comesse demasiado, ou com demasiada rapidez.

 

Por fim, lá ganhei coragem para lhe pedir que me trouxesse o espelho.

 

Verifiquei que afinal não estava assim tão horrivelmente desfigurado. As minhas sobrancelhas tinham desaparecido, e o efeito não era lisonjeiro, mas não tinha queimaduras nem cicatrizes profundas na cara. Tinha inalado mais água do mar e fumo e vapores inflamados do que seria saudável para qualquer pessoa, estava coberto de feridas, queimaduras, bolhas e nódoas negras (especialmente à volta do pescoço, onde Pompeu me tinha deitado as mãos para me estrangular) e tinha um ferimento cheio de pus no tornozelo, infligido pela ponta da lança contra a qual raspara quando saltei do barco de Pompeu. Quando Davo me encontrou, estava cheio de febre e a delirar; mas, quando a febre cedeu, recuperei rapidamente.

 

No meu lugar, alguns homens teriam pensado que deviam a sua salvação à intervenção divina, a fuga ao esquecimento a um destino especial. Mas eu via-me como um vairão, pequeno demais para ter sido agarrado pelas redes de Neptuno, ou um galho encharcado lançado para a braseira do Hades, que tinha crepitado mas não chegara a pegar fogo.

 

Estava ansioso por voltar para Roma. E ainda mais ansioso por rever Meto. No acampamento de César, tinha-me sido impossível falar com ele à vontade. Tinha tantas coisas para lhe dizer e para lhe perguntar.

 

Evitámos o "atalho" de Tiro por entre as montanhas e tomámos a Via Ápia, seguindo no rasto de César. Ele viajava a um ritmo que parecia quase impossível, considerando a dimensão do seu exército. Por muito que me esforçasse, em breve me apercebi de que não conseguiríamos igualar a sua velocidade, e muito menos apanhá-lo. Não voltaria a estar com Meto antes de chegar a Roma.

 

Em todas as cidades ao longo da Via Ápia, onde nós chegávamos poucos dias depois da passagem de César, as pessoas não falavam de outra coisa nas tabernas, nos mercados e nos estábulos. Onde quer que fosse, César era recebido com gratidão. Os magistrados locais declaravam-se leais à sua causa. Se havia quem tivesse preferido assistir ao triunfo de Pompeu, essas pessoas mantinham o silêncio.

 

A temperatura estava suave. Em Benevento, voltei a ter febre e perdemos um dia de viagem, mas à parte isso fizemos um tempo excelente. Entrámos em Roma pela Porta Capena, quando o Sol se punha sobre as Nonas, no quinto dia de Aprilis.

 

Diana chorou ao ver Davo. Betesda chorou ao ver-me a mim. Mopso e Androcles não choraram, riram-se de alegria. Meto só tinha ido visitar a família uma vez, no dia seguinte à sua chegada a Roma. Tinham-lhe dito que Davo vinha a caminho, mas que eu tinha partido para Dirráquio com Pompeu. O meu regresso era inesperado para todos, e não menos para mim próprio, e tanto mais agradável por isso.

 

Havia uma cara que tinha desaparecido lá de casa, mas cuja falta ninguém sentia, à excepção talvez de Androcles e Mopso. Meto tinha ordenado ao guarda-costas Cicatrix, postado por Pompeu de guarda a minha casa, que se fosse embora e nunca mais voltasse. Com o seu senhor do outro lado do mar e César ao comando de Roma, o escravo obedecera mansamente, satisfeito por não lhe cortarem a cabeça. Ninguém sabia para onde ele tinha ido.

 

Nessa noite, Eco e a família foram lá a casa. Depois de um jantar animado, retirámo-nos os dois para o meu escritório e bebemos vinho misturado com água pela noite dentro. Eu receava que ele insistisse em que eu lhe explicasse como tinha conseguido a libertação de Davo, e depois fugido a Pompeu, mas, tal como o resto da família, ele parecia pensar que eu tinha simplesmente recorrido à minha astúcia. Por enquanto, eu queria manter segredo relativamente ao assassínio de Numério e à traição de Meto.

 

Eco pôs-me a par dos mais recentes rumores que corriam no Fórum. A notícia da fuga de Pompeu, quase imediatamente seguida da chegada de César, tinha lançado frémitos alternados de temor e júbilo por toda a cidade. O Senado, ou o que restava dele, fora convocado por César para as Calendas de Aprílis. O conteúdo exacto das exigências de César e a reacção dos senadores, era tema de muitas especulações, mas era óbvio que não permanecera em Roma nenhum senador com estatuto suficiente para se opor a César ou vontade de o fazer.

 

Havia rumores persistentes de que César iria ao Fórum falar aos cidadãos, mas até agora isso não acontecera. É possível que ele receasse uma recepção hostil, ou mesmo um motim. Os resmungos de descontentamento tinham começado quando César se apoderara do tesouro sagrado do Templo de Saturno, que constituía a reserva de segurança do povo de Roma contra uma invasão estrangeira. As imensas reservas de ouro e prata em lingotes tinham sido guardadas com o compromisso de serem usadas exclusivamente em caso de invasão dos bárbaros, e permanecido intactas desde sempre. Os cônsules em fuga tinham discutido se deviam abrir o tesouro, e decidido não lhe tocar. E César furtara-o como um ladrão vulgar, com a desculpa de que: "O tesouro sagrado foi originalmente criado pelos nossos antepassados para ser usado em caso de ataque dos Gauleses. Tendo eliminado pessoalmente essa ameaça, através da conquista da Gália, tenho o direito de me apoderar do ouro." O tribuno Metelo tentou evitar o saque ilegal. Obstruiu a porta selada com o seu próprio corpo. César disse-lhe: "Metelo, se for preciso, mando-te matar. E acredita que ameaçar fazer tal coisa me custa muito mais do que passar ao acto." Metelo retirou-se.

 

César roubara o tesouro sagrado. Ameaçara matar um tribuno no cumprimento dos seus deveres. Apesar da sua incessante retórica relativa a negociações com Pompeu e ao restabelecimento da constituição, a mensagem era clara. César estava disposto a violar qualquer lei que o limitasse e a matar quem quer que se lhe opusesse.

 

E Cícero? No seu caminho de regresso a Roma, César passara por Fórmias e fizera-lhe uma visita. Pedira a Cícero qyf voltasse a Roma e ao Senado. Cícero recusara delicadamente e, em vez disso, fora expressamente a Arpino, a sua cidade natal, celebrar, ainda que com um certo atraso, o dia da toga do seu filho. Por enquanto, César tolerava a neutralidade de Cícero. Seria Pompeu igualmente compreensivo se voltasse a Itália e a varresse a ferro e fogo? Pobre Cícero, apanhado, como o coelho de Esopo, entre o leão e a raposa.

 

E o teu irmão Meto? perguntei eu. Soube que ele veio fazer uma visita à família no dia seguinte à chegada de César.

 

E foi a única vez que qualquer de nós o viu disse Eco. Calculo que ande demasiado ocupado para poder abandonar César. A crer nos boatos que correm, partem dentro em breve. César deixa António encarregado do comando militar de Itália e parte para Hispânia, para lidar com as legiões de Pompeu estacionadas na região.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Tenho de falar com Meto antes de ele se ir embora.

 

Claro, papá. César e o seu pessoal estão alojados na Régia, no meio do Fórum. Na qualidade de Pontifex Maximus, é a sua residência oficial. Tu e eu vamos até lá amanhã. Também quero ver a cara de Meto. Vai ficar tão admirado por te ver como nós ficámos!

 

Não. Quero falar com Meto a sós, num sítio onde possamos fazê-lo em privado. Ponderei o problema e tive uma ideia. Vou mandar-lhe uma mensagem esta noite. Vou pedir-lhe que se encontre comigo amanhã.

 

Com certeza. Eco estendeu a mão para um estilete e uma tabuinha de cera. Dita que eu escrevo.

 

Não, eu escrevo.

 

Eco olhou-me com curiosidade, mas estendeu-me o estilete e a tabuinha. Eu escrevi:

 

Para Gordiano Meto, de seu pai: Meu amado filho:

 

Voltei a Roma. Estou bem. Certamente terás curiosidade em conhecer as minhas peregrinações, como eu tenho curiosidade em conhecer as tuas. Vai ter comigo amanhã ao meio-dia à Taberna Salaz.

 

Fechei a tampa de madeira, atei a fita e selei-a com cera. Estendi-a a Eco.

 

Queres pedir a um dos escravos que vá entregá-la? Estou tão exausto, que não consigo manter os olhos abertos nem mais um minuto.

 

Claro, papá. Eco olhou para a carta selada e franziu o sobrolho, mas não fez qualquer comentário.

 

Em contraste com a luz brilhante do Sol da rua, a obscuridade da Taberna Salaz era quase impenetrável. A escuridão forçada, iluminada aqui e ali pela chama lúrida das lamparinas, encheu-me de um vago desconforto que se transformou, rápida e inexplicavelmente, numa espécie de pânico. Estive quase para fugir a correr para a rua, até me aperceber de que estava a recordar-me das águas frias e lúgubres sobre as quais flutuavam destroços em chamas, ao largo de Brundísio. Inspirei profundamente, consegui corresponder com um sorriso ao sorriso servil do proprietário e atravessei a sala, embatendo com os joelhos contra as arestas duras dos bancos de madeira. A taberna estava vazia, à excepção de um ou dois clientes silenciosos, curvados sobre os respectivos copos, a beber sozinhos.

 

Encontrei o banco embutido no canto que ficava na outra extremidade da sala. Era aí que me tinha sentado da última vez que viera à taberna, para