Decidindo que o ataque seria a melhor defesa, Bryn deu um passo à frente e preparou-se para dar um golpe por cima da cabeça de Horace, mas o aprendiz desviou dele com facilidade. Horace escapou dos dois golpes seguintes de Bryn da mesma forma e então, ao bloquear o quarto ataque do garoto mais velho, escorregou a sua lâmina de madeira ao longo da bengala do outro rapaz um instante antes de as duas armas se separarem. Não havia nenhuma cruzeta para proteger a mão de Bryn do movimento, e a espada dura atingiu os seus dedos, provocando muita dor. Com um grito agoniado, ele deixou cair a bengala pesada, saltou para trás e escondeu a mão ferida debaixo do braço. Horace ficou parado, pronto para recomeçar.
- Eu não ouvi ninguém pedir para parar - Halt disse com suavidade.
- Mas... ele me desarmou! - Bryn choramingou.
- É mesmo. Mas tenho certeza de que ele vai deixar você pegar sua arma e recomeçar - Halt disse com um sorriso. - Vamos, continue.
Bryn olhou de Halt para Horace e não viu compaixão no olhar dos dois.
- Não quero - ele disse baixinho.
Horace achou difícil reconhecer naquela figura encolhida o valentão arrogante que tinha transformado sua vida num inferno nos últimos meses. Halt pareceu pensar na declaração de Bryn.
- Vamos levar seu protesto em conta - ele disse alegremente. - Agora, continue, por favor.
A mão de Bryn latejava. Mas até mesmo pior do que a dor era o medo do que estava para acontecer, a certeza de que Horace iria castigá-lo sem piedade. Ele se inclinou e, assustado, pegou a bengala com os olhos fixos no outro garoto. Horace esperou pacientemente até que Bryn estivesse pronto e então fez um repentino movimento para a frente.
Bryn gritou de medo e jogou a bengala para o lado. Horace sacudiu a cabeça aborrecido.
- Quem é o bebê agora? - ele perguntou.
Bryn desviou o olhar e se encolheu envergonhado.
- Se ele vai bancar o bebê - Halt sugeriu -, acho que você vai ter que dar umas palmadas nele.
Um sorriso se espalhou no rosto de Horace. Ele deu um pulo para a frente, agarrou Bryn pela nuca e o virou. Em seguida, bateu na traseira do garoto com a espada de exercício repetidas vezes e seguiu-o pela clareira quando tentou escapar do castigo impiedoso. Bryn uivava, saltava e soluçava, mas Horace o segurava com firmeza pelo colarinho, e não havia como escapar. Finalmente, quando sentiu que tinha retribuído as provocações, os insultos e a dor que tinha sofrido, Horace parou.
Bryn cambaleou e caiu com as mãos e os joelhos no chão, soluçando de dor e medo.
Jerome tinha assistido horrorizado ao acontecido, sabendo que logo seria sua vez. Ele começou a se afastar, tentando escapar enquanto o arqueiro estava distraído.
- Dê mais um passo e vou furar você com uma flecha.
Will tentou usar o mesmo tom de voz calmo e ameaçador de Halt. Ele havia tirado várias de suas flechas do alvo mais próximo e agora tinha uma delas preparada, apoiada na corda do arco. Halt declarou com ar de aprovação:
- Boa idéia. Mire na barriga da perna esquerda. O ferimento é muito doloroso.
Ele olhou para onde Bryn estava deitado, soluçando aos pés de Horace.
- Acho que ele já teve o que merecia - comentou, apontando então o dedo para Jerome.
- Sua vez - ele disse apenas.
Horace pegou a bengala que Bryn tinha deixado cair, andou até Jerome e estendeu-a para ele. Jerome recuou.
- Não! - Jerome gritou de olhos arregalados. - Não é justo! Ele...
- Ora, claro que não é justo - Halt concordou num tom tranquilo. - Imagino que você ache que três contra um é justo. Agora, vamos começar.
Muitas vezes, Will tinha ouvido o ditado que dizia que um rato encurralado acaba reagindo. Jerome provou que era verdade. Ele partiu para o ataque e, para sua surpresa, Horace recuou diante da chuva de golpes dirigidos a ele. A confiança do valentão começou a crescer à medida que ele avançava, mas não percebeu que Horace bloqueava todos os golpes com muita facilidade, quase com desprezo. Os melhores golpes de Jerome nem chegavam perto de derrubar a defesa de Horace. Se o aprendiz do 2° ano estivesse batendo numa parede de pedra, o resultado seria o mesmo.
Então, Horace parou de recuar. Ficou firme e bloqueou o último golpe de Jerome com punho de ferro. Os dois ficaram frente a frente por alguns segundos, e Horace começou a empurrar Jerome para trás. Com a mão esquerda, agarrou o punho direito de Jerome, fazendo que suas armas ficassem entrelaçadas. Os pés de Jerome escorregaram na grama macia à medida que Horace o obrigava a andar cada vez mais para trás. Finalmente, ele deu um último empurrão e Jerome caiu estendido no chão.
Jerome viu o que tinha acontecido com Bryn e sabia que se render não era uma opção. Ele se levantou com dificuldade e se defendeu desesperadamente quando Horace começou o ataque. Jerome foi empurrado para trás por uma sucessão de cortadas à direita, à esquerda e para cima. Ele conseguiu bloquear alguns dos golpes, mas a velocidade extraordinária do ataque de Horace o derrotou. Os golpes aterrissavam nas suas pernas, nos seus cotovelos e nos seus ombros. Horace parecia se concentrar nos ossos que iriam doer mais. Ocasionalmente, usava a ponta arredondada da espada para dar estocadas nas costelas de seu oponente - com força apenas suficiente para machucar, sem quebrar os ossos.
Finalmente, Jerome ficou farto. Ele desviou do ataque, soltou a bengala e caiu no chão, protegendo a cabeça com as mãos. As costas estavam levantadas convidativamente no ar. Horace parou e olhou interrogativamente para Halt. O arqueiro fez um leve gesto na direção de Jerome.
- Por que não? - ele perguntou. - Não se tem uma oportunidade dessas todos os dias.
Mas até ele se encolheu diante do chute forte que Horace deu no traseiro de Jerome. Este, com o nariz na terra, escorregou pelo menos 1 metro para a frente.
Halt recolheu a bengala que Jerome tinha deixado cair. Ele a observou por um instante, testando seu peso e equilíbrio.
- Realmente não é uma boa arma - ele disse. - Por que será que eles escolheram essa? - perguntou, jogando-a para Alda. - Mexa-se.
O garoto loiro, ainda agachado na grama cuidando do tornozelo machucado, olhou descrente para a bengala. O rosto estava manchado pelo sangue que escorria do nariz ferido. Ele nunca mais teria a mesma boa aparência.
- Mas... mas... estou ferido! - ele protestou, levantando-se desajeitado.
Ele não acreditava que Halt estava exigindo que enfrentasse o mesmo castigo a que tinha acabado de assistir.
Halt pensou por um instante. Por um momento, um raio de esperança brilhou na mente de Alda.
- É verdade - o arqueiro concordou. - É verdade - ele murmurou, parecendo um pouco desapontado, e Alda começou a acreditar que o senso de justiça de Halt iria poupá-lo do castigo que seus amigos tinham sofrido. Então o rosto do arqueiro se iluminou.
- Mas espere um minuto... Horace também está ferido. Não é mesmo, Will?
- Com certeza, Halt - Will respondeu sorrindo, e a esperança de Alda desapareceu no mesmo instante.
- Você tem certeza de que não está ferido demais para continuar, Horace? - Halt perguntou, fingindo preocupação.
- Ah, acho que dou conta do recado - Horace respondeu com um sorriso frio.
- Bom, então está combinado! - Halt disse alegre. - Vamos continuar!
E Alda soube que ele também não teria escapatória. Enfrentou Horace com determinação, e o duelo final começou.
Alda era o melhor espadachim dos três rapazes e, durante alguns minutos, chegou a dar um pouco de trabalho para Horace. Mas, à medida que se estudavam com golpes e contragolpes, ataques e defesas, percebeu que Horace era superior e sentiu que sua única chance era tentar algo inesperado.
Ele se separou do oponente, mudou a posição da bengala e a segurou com as duas mãos como se fosse um varapau. Em seguida, desferiu uma série de golpes rápidos para a direita e para a esquerda.
Durante um segundo, Horace foi apanhado de surpresa e caiu para trás. Mas ele se recuperou com uma velocidade felina e dirigiu um golpe por cima da cabeça de Alda. O aluno do 2° ano tentou um contragolpe normalmente usado com o varapau, segurando a bengala nas duas pontas para bloquear o golpe da espada com a parte central. Na teoria, a tática estava correta. Na prática, a dura espada de madeira simplesmente atravessou a bengala, e Alda ficou segurando duas varas inúteis. Totalmente desanimado, ele as deixou cair e ficou indefeso na frente de Horace.
Horace olhou para o seu torturador de longa data e depois para a espada em sua mão.
- Não preciso disto - ele murmurou e deixou a espada cair.
O soco de direita que ele desferiu sobre o maxilar de Alda foi impulsionado pelo ombro, pelo peso do corpo e por meses de sofrimento e solidão - a solidão que somente a vítima de maus-tratos conhece.
Will arregalou levemente os olhos quando Alda se levantou, cambaleou para trás e finalmente desabou na terra ao lado dos dois amigos. Ele se lembrou das vezes em que tinha lutado com Horace no passado. Se soubesse que o colega era capaz de dar um soco daqueles, nunca teria se metido com ele.
Alda não se mexeu e provavelmente não se moveria por muito tempo. Horace recuou, sacudindo os dedos machucados e soltando um suspiro satisfeito.
- Você não tem idéia de como isso foi bom - ele disse. - Graças a você, arqueiro.
Halt balançou a cabeça compreensivo.
- Obrigado por ajudar quando atacaram Will. E, por falar nisso, meus amigos me chamam de Halt.
Nas semanas que se seguiram a esse confronto final com os três valentões, Horace percebeu uma mudança definitiva na vida na Escola de Guerra.
O fator mais importante na mudança foi que Alda, Bryn e Jerome foram expulsos da escola, do castelo e da vila vizinha. Sir Rodney estava desconfiado, fazia algum tempo, de que havia um problema entre as turmas de seus alunos mais novos. Uma visita discreta de Halt confirmou o problema, e a investigação resultante logo trouxe à tona toda a história de como Horace tinha sido maltratado. O julgamento de sir Rodney foi rápido e inflexível. Os três alunos do 2° ano tiveram meio dia para fazer as malas. Eles receberam uma pequena quantia em dinheiro, suprimentos para uma semana e foram transportados para a fronteira do feudo, onde receberam ordens claras para não voltar.
Depois que foram embora, o grupo de Horace melhorou consideravelmente. A rotina diária da Escola de Guerra ainda era dura e desafiadora como antes, mas, sem a carga adicional que Alda, Bryn e Jerome colocavam sobre ele, Horace descobriu que podia lidar facilmente com os exercícios, a disciplina e os estudos. Rapidamente, começou a desenvolver o potencial que sir Rodney tinha visto nele. Além disso, seus colegas de quarto, sem medo de ser vítimas da vingança dos valentões, começaram a ser mais agradáveis e amistosos.
Em resumo, Horace sentia que as coisas estavam realmente melhorando.
Ele só lamentava não ter podido agradecer adequadamente a Halt por sua vida ter melhorado. Depois dos acontecimentos na campina, Horace tinha ficado internado na enfermaria durante vários dias para tratamento dos hematomas e das contusões. Quando foi liberado, descobriu que Halt e Will já tinham partido para a Reunião dos Arqueiros.
- Falta muito? - Will perguntou, talvez pela décima vez naquela manhã.
Halt soltou um leve suspiro de desespero, mas não deu nenhuma resposta. Eles estavam na estrada havia três dias, e Will achava que deveriam estar perto do local da Reunião. Por várias vezes na última hora, ele tinha sentido um cheiro desconhecido no ar e mencionado o fato para Halt.
- É sal. Estamos chegando perto do mar - Halt mencionou brevemente, encerrando a explicação por ali.
Will olhou de relance para o seu professor, esperando que talvez ele se dignasse a lhe dar mais informações, mas os olhos vivos do arqueiro estavam examinando o chão na frente deles. Will percebeu que, de tempos em tempos, Halt olhava para as árvores que cercavam a estrada.
- Você está procurando alguma coisa? - Will perguntou, e Halt se virou na sela.
- Finalmente, uma pergunta útil. Sim, na verdade, estou. O chefe dos arqueiros colocou sentinelas ao redor do local da Reunião. Eu sempre tento enganá-los quando estou me aproximando.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt permitiu-se dar um leve sorriso.
- Isso os mantém ocupados - ele explicou. - Eles vão tentar se esconder atrás de nós e nos seguir para poder dizer que me pegaram numa emboscada. É um jogo bobo que gostam de jogar.
- Por que bobo?
O que faziam se parecia exatamente com os exercícios de habilidades que ele e Halt realizavam regularmente. O arqueiro grisalho virou-se na sela e olhou fixamente para Will.
- Por que eles nunca conseguem me pegar - ele respondeu. - E neste ano vão tentar ainda com mais vontade porque sabem que estou trazendo um aprendiz. Querem saber se você é mesmo bom.
- Isso faz parte do teste? - Will quis saber, e Halt assentiu.
- É o começo. Você se lembra do que eu falei ontem à noite? Will fez que sim com a cabeça. Nas duas noites anteriores, quando estavam ao redor da fogueira, Halt tinha dado conselhos e instruções para Will com sua voz macia e o tinha ensinado como agir na Reunião. Na noite passada, eles arquitetaram táticas para serem usadas no caso de uma emboscada. Exatamente o tipo de coisa que Halt tinha acabado de mencionar.
- Quando nós... - Halt começou, mas de repente ficou alerta. Ele levantou um dedo num pedido de silêncio, e Will o obedeceu.
A cabeça do arqueiro estava levemente inclinada para o lado. Os dois cavalos continuaram sem hesitar.
- Escutou? - Halt perguntou.
Will também inclinou a cabeça. Ele teve a ligeira impressão de ouvir um leve barulho de cascos de cavalos atrás deles, mas não tinha certeza. O andar dos cavalos deles mascarava qualquer som real vindo da trilha às suas costas. Se havia alguém ali, seu cavalo estava trotando no mesmo ritmo.
- Mude a marcha - Halt sussurrou. - No três. Um, dois, três. Ao mesmo tempo, os dois cutucaram as laterais dos cavalos com o pé esquerdo. Aquele era só um dos muitos sinais aos quais Puxão e Abelard tinham sido treinados para responder.
No mesmo instante, os dois cavalos hesitaram em sua passada. Pareceram pular um passo e depois continuaram com passadas uniformes.
Mas a hesitação tinha mudado o padrão das batidas dos cascos e, por um instante, Will pôde ouvir outro conjunto de cascos de cavalo atrás deles como um eco levemente atrasado. Então o outro cavalo também mudou o ritmo das passadas para ficar igual aos deles e o som desapareceu.
- Cavalo de arqueiro - Halt disse em voz baixa. - Tenho certeza de que é Gilan.
- Como você sabe? - Will perguntou.
- Só o cavalo de um arqueiro pode mudar a passada tão depressa. E é Gilan, porque é sempre ele. Ele adora tentar me superar.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt olhou para ele sério.
- Porque ele foi o meu último aprendiz - explicou. - E, por algum motivo, antigos aprendizes simplesmente adoram pegar seus antigos mestres desprevenidos.
Ele olhou de um jeito acusador para o seu aprendiz atual. Will ia protestar e dizer que nunca iria se comportar daquela maneira depois de formado e então se deu conta de que talvez fizesse isso na primeira oportunidade. O protesto morreu sem ser manifestado.
Halt pediu silêncio com um sinal e examinou a trilha diante deles.
- É aquele lugar ali - ele apontou. - Pronto?
Havia uma grande árvore ao lado da trilha, com galhos que pendiam na altura da cabeça deles. Will analisou-a por um momento e então as sentiu. Puxão e Abelard continuaram no seu ritmo regular em direção à árvore. Quando se aproximaram, Will tirou os pés dos estribos, levantou-se e ficou agachado nas costas de Puxão. O cavalo não mudou o ritmo das passadas quando seu dono mudou de posição.
Ao passarem debaixo dos galhos, Will segurou o mais baixo com a mão e pendurou-se nele. No mesmo instante em que seu peso saiu das costas de Puxão, o pequeno cavalo começou a trotar mais vigorosamente, batendo os cascos com força no chão a cada passo para que o rastreador que os seguia não percebesse que sua carga tinha ficado mais leve de repente.
Em silêncio, Will subiu mais alto na árvore até encontrar um ponto em que pudesse se apoiar com firmeza e enxergar bem. Ele viu Halt e os dois cavalos andando devagar pela trilha.
Quando chegaram à curva seguinte, Halt fez que Puxão continuasse trotando, parou Abelard e desceu da sela. Ele se ajoelhou e pareceu examinar o chão em busca de pegadas.
Naquele momento, Will conseguiu ouvir o outro cavalo atrás deles. Ele olhou para o caminho que tinham percorrido, mas outra curva escondia quem os seguia.
Então, o suave bater dos cascos parou.
A boca de Will estava seca, e seu coração batia cada vez mais rápido dentro do peito. Ele tinha certeza de que o som podia ser ouvido por qualquer pessoa num raio de cerca de 50 metros. Mas seu treinamento falou mais alto, e ele ficou imóvel no galho da árvore entre as folhas e sombras, observando a trilha atrás deles.
Um movimento!
Will o viu com o canto do olho, e então o movimento parou. Ele espiou o local com atenção durante um ou dois segundos e se lembrou das lições de Halt: "Não concentre sua atenção num lugar. Deixe o foco aberto e continue investigando. Você vai ver o outro como um movimento, não como uma figura. Lembre-se, ele também é um arqueiro e foi treinado na arte de não ser visto."
Will abriu o foco e examinou a floresta atrás deles. Dentro de segundos, foi recompensado com outro sinal de movimento. Um galho voltou ao lugar quando uma figura invisível passou silenciosamente.
Então, 10 metros adiante, um arbusto se agitou de leve. Em seguida, ele viu um feixe de grama alta voltar ao normal depois de ter sido amassado temporariamente por um pé que passou.
Will continuou imóvel como uma estátua. Ele ficou admirado com o fato de que seu perseguidor conseguia andar pela floresta sem ser visto. Obviamente, o outro arqueiro tinha deixado o cavalo para trás e estava seguindo Halt a pé. Os olhos de Will se mexeram rapidamente para dar uma olhada em Halt. Seu professor ainda parecia estar preocupado com algum tipo de sinal no chão.
Outro movimento veio da floresta. O arqueiro invisível tinha passado pelo esconderijo de Will e estava voltando para a trilha com a intenção de surpreender Halt pelas costas.
De repente, uma figura alta de capa cinza-esverdeado pareceu sair do chão no meio da trilha uns 20 metros atrás do vulto ajoelhado de Halt. Will piscou. Num momento, não havia ninguém ali; no outro, a figura pareceu se materializar do nada. A mão de Will começou a se mover na direção da aljava pendurada em suas costas, mas então ele interrompeu o movimento. Halt tinha dito na noite anterior: "Espere até que estejamos conversando. Se ele não estiver falando, vai escutar o menor movimento que você fizer."
Will engoliu em seco e desejou que a figura alta não tivesse escutado o movimento de sua mão na direção da aljava. E ele parecia ter parado a tempo. Ouviu uma voz alegre aos gritos vinda lá de baixo.
- Halt, Halt!
Halt se virou e se levantou devagar, limpando a terra dos joelhos enquanto se erguia. Ele inclinou a cabeça para o lado e analisou o vulto no meio da trilha, apoiado num arco comprido igual ao dele.
- Ora, Gilan. Vejo que você está pregando a mesma peça.
- Parece que a peça está sendo pregada em você este ano, Halt - o alto arqueiro respondeu, dando de ombros.
Enquanto Gilan falava, a mão de Will se moveu rapidamente, mas em silêncio, para a aljava. Ele escolheu uma flecha e a posicionou na corda do arco.
- É mesmo, Gilan? E que peça é essa? - Halt perguntou.
O divertimento era evidente na voz de Gilan quando respondeu ao antigo mestre.
- Ora, Halt, admita. Desta vez consegui superar você. E você sabe há quantos anos venho tentando!
Pensativo, Halt esfregou a barba grisalha com a mão.
- E, para falar a verdade, eu me pergunto por que você continua tentando, Gilan.
- Você devia saber quanto prazer um antigo aprendiz tem ao superar o mestre, Halt. Agora, vamos lá, confesse. Este ano eu venci.
Enquanto o homem alto falava, Will puxou a flecha com cuidado, mirando o tronco de uma árvore uns 2 metros à esquerda de Gilan. As instruções de Halt ecoavam em seus ouvidos: "Escolha um alvo próximo para assustá-lo quando atirar, mas, pelo amor de Deus, não perto demais. Não vá atravessá-lo com a flecha!"
Halt não tinha mudado de posição no meio da trilha. Gilan agora estava inquieto, passando o peso do corpo de uma perna para outra. A atitude tranquila de Halt estava começando a perturbá-lo. Parecia que, de repente, ele não estava totalmente certo de que Halt estava somente tentando blefar para escapar da armadilha.
As próximas palavras de Halt aumentaram suas suspeitas.
- Ah, sim... aprendizes e mestres. É verdade, eles formam uma combinação estranha. Mas, diga, Gilan, meu velho aprendiz, você não está esquecendo nada este ano?
Talvez tenha sido o jeito como Halt deu um pouco mais de ênfase à palavra "aprendiz", mas de repente Gilan percebeu que tinha cometido um erro. Ele começou a virar a cabeça e a procurar o aprendiz de que tinha se esquecido.
Quando começou o movimento, Will soltou a flecha.
A arma sibilou pelo ar, passou pelo alto arqueiro e penetrou, estremecendo, na árvore que Will tinha escolhido. Gilan deu um pulo para trás assustado e então seu olhar saltou para os galhos da árvore onde Will estava escondido. Este se admirou com o fato de que, mesmo tendo sido pego de surpresa, Gilan ainda tenha conseguido reagir tão rapidamente e identificar a direção de onde o atacante tinha atirado.
Gilan balançou a cabeça aborrecido. Seus olhos espertos conseguiram ver o pequeno vulto cinza e verde escondido nas sombras da folhagem da árvore.
- Desça, Will - Halt chamou. - Venha conhecer Gilan. E para este:
- Eu lhe disse quando você era garoto, não foi? Nunca seja apressado. Não corra para fazer as coisas.
Gilan assentiu um tanto desanimado. E pareceu ainda mais abatido quando Will pulou no chão e o alto arqueiro viu como ele era pequeno e jovem.
- Parece que eu estava tão determinado a apanhar uma velha raposa cinzenta que ignorei o pequeno macaco escondido nas árvores - ele disse rindo do próprio erro.
- Macaco? - Halt repetiu com aspereza. - Eu diria que hoje o macaco foi você. Will, este é Gilan, meu antigo aprendiz e agora arqueiro do feudo Meric, embora eu não tenha idéia do que eles tenham feito para merecer ele lá.
O sorriso de Gilan se alargou, e ele estendeu a mão para Will.
- E exatamente quando eu estava pensando que finalmente tinha vencido você, Halt - ele disse contente. - Então você é Will - continuou, apertando a mão do garoto com firmeza. - Estou satisfeito em conhecer você. Esse foi um excelente trabalho, meu jovem.
Will sorriu para Halt, e o arqueiro mais velho fez um leve movimento significativo com a cabeça. Will se lembrou das instruções finais que Halt tinha lhe dado na noite anterior: "Quando você superar um homem, nunca se vanglorie. Seja generoso e encontre alguma coisa nas ações dele para elogiar. Ele não vai gostar de ser vencido, mas vai enfrentar o fato com coragem. Mostre que você gostou do que ele fez. Elogios podem lhe conseguir um amigo. Divertir-se com a desgraça dos outros só cria inimigos."
- Sim, sou Will. Será que você pode me ensinar como consegue se mover desse jeito? Foi ótimo.
- Acho que nem tanto - Gilan retrucou rindo desanimado. - É óbvio que você me viu chegando de longe.
Will balançou a cabeça negativamente, lembrando-se de como tinha sido difícil ver Gilan. Seu elogio e seu pedido eram mais verdadeiros do que tinha percebido.
- Vi quando você chegou - ele disse. - E vi onde você tinha estado, mas nunca vi você depois que fez aquela curva. Gostaria de saber me mover assim.
O rosto de Gilan se iluminou de prazer diante da sinceridade de Will.
- Bom, Halt, vejo que esse jovem rapaz não tem só talento. Ele também é muito educado.
Halt olhou para os dois, o atual aprendiz e o antigo aluno. Ele acenou para Will com a cabeça, aprovando suas palavras diplomáticas.
- Movimentar-se como um ser invisível sempre foi a melhor habilidade de Gilan - Halt disse. - Você se daria bem se ele concordasse em lhe dar umas aulas.
Ele foi até o ex-aprendiz e colocou o braço ao redor de seus ombros.
- É bom ver você de novo.
Eles se abraçaram com afeto, e então Halt se afastou um pouco e o observou com atenção.
- Você fica mais magro a cada ano - ele disse finalmente. - Quando vai pôr alguma carne em cima desses ossos?
Gilan sorriu e ficou evidente que aquela era uma velha piada entre eles.
- Parece que você tem o suficiente para nós dois - o rapaz retrucou, cutucando as costelas de Halt com força. - Esse é o começo de uma barriguinha de cerveja?
Ele riu para Will.
- Acho que ele fica sentado na cabana e deixa você fazer todo o trabalho, não é?
Antes que Halt ou Will pudessem responder, ele se virou e soltou um assobio. Alguns segundos depois, seu cavalo apareceu, trotando pela curva na estrada. Quando o jovem arqueiro foi até o animal e montou na sela, Will notou uma espada que pendia da bainha. Ele se virou para Halt confuso.
- Pensei que não podíamos ter espadas - ele comentou em voz baixa.
Halt franziu a testa por um momento, sem compreender. Então seguiu o olhar de Will e percebeu o que tinha provocado o comentário.
- Não é que não tenhamos permissão - ele explicou enquanto os dois montavam. - É uma questão de prioridades. Leva anos para se tornar um bom espadachim, e não temos esse tempo. Temos outras habilidades para desenvolver.
Ele viu a próxima pergunta se formando nos lábios de Will e continuou.
- O pai de Gilan é um cavaleiro, então ele já vinha treinando com a espada durante alguns anos antes de se juntar aos arqueiros. Foi considerado um caso especial e teve permissão de continuar esse treinamento quando foi meu aprendiz.
- Mas pensei... - Will começou e hesitou.
O cavalo de Gilan se aproximava trotando, e Will não tinha certeza de que seria educado fazer a próxima pergunta na presença de Gilan.
- Nunca diga isso na frente de Halt - Gilan disse, ouvindo suas últimas palavras. - Ele simplesmente vai dizer: "Você é um aprendiz, não está aqui para pensar" ou "Se você tivesse pensado nisso, não iria perguntar."
Will teve que sorrir. Halt tinha usado exatamente as mesmas palavras em mais de uma ocasião, e a imitação de Gilan era excelente. Naquele momento, contudo, os dois homens estavam olhando para Will esperando ouvir a pergunta que estava prestes a fazer, então continuou.
- Se o pai de Gilan era um cavaleiro, ele não era automaticamente candidato à Escola de Guerra? Ou acharam que ele também era muito pequeno?
Halt e Gilan trocaram um olhar. Halt ergueu uma sobrancelha e fez um gesto para que Gilan respondesse.
- Eu poderia ter ido para a Escola de Guerra, mas preferi me juntar aos arqueiros - ele contou.
- Alguns fazem isso - Halt acrescentou com suavidade.
Will pensou nisso. Ele sempre supôs que os arqueiros não tinham ligação com os nobres do reino. Aparentemente, estava enganado.
- Mas pensei... - ele começou e no mesmo instante percebeu seu erro.
Halt e Gilan olharam para ele, depois um para o outro e disseram em coro:
- Você é um aprendiz, não está aqui para pensar. Em seguida eles viraram os cavalos e saíram trotando. Will correu para pegar Puxão e os seguiu. Quando alcançou os dois arqueiros, eles afastaram os cavalos para os lados, deixando espaço para ele. Gilan sorriu, mas Halt estava sombrio como sempre. Porém, enquanto continuavam a cavalgar num silêncio amistoso, Will teve a reconfortante sensação de que agora fazia parte de um grupo exclusivo e fortemente unido.
Era uma sensação agradável, de estar no lugar certo, como se, de alguma forma, ele tivesse chegado à sua casa pela primeira vez na vida.
- Aconteceu alguma coisa - Halt disse em voz baixa, fazendo sinal para os dois companheiros pararem os cavalos.
Os três cavaleiros haviam andado a meio galope no último meio quilômetro. Agora haviam aumentado um pouco a velocidade, e o espaço aberto entre as árvores estava bem à sua frente, a cerca de 100 metros de distância. Pequenas barracas individuais se estendiam em filas ordenadas, e a fumaça das fogueiras usadas para o preparo da comida enchia o ar. Um estande para prática de arco-e-flecha tinha sido instalado num dos lados do espaço aberto, e várias dezenas de cavalos, todos pequenos e desgrenhados cavalos de arqueiros, estavam pastando perto das árvores.
Os três companheiros sentiram um ar de urgência e atividade em todo o acampamento. No centro das fileiras de barracas, havia um pavilhão maior, de 4 x 4 metros e com altura suficiente para permitir que um homem alto ficasse de pé. Os panos laterais estavam enrolados para cima naquele momento, e Will pôde ver um grupo de homens vestidos de verde e cinza parados ao redor de uma mesa, aparentemente mergulhados numa conversa. De repente, um dos membros do grupo se afastou e correu para um cavalo que esperava do lado de fora da entrada. Ele montou, virou o cavalo e disparou pelo acampamento a galope na direção da trilha estreita entre as árvores do outro lado.
Ele tinha acabado de desaparecer nas sombras profundas debaixo das árvores quando outro cavaleiro apareceu da direção oposta, galopando entre as fileiras e parando fora da grande barraca. Seu cavalo mal tinha parado quando ele saltou para o chão e foi se juntar ao grupo do lado de dentro.
- O que aconteceu? - Will perguntou. De testa franzida, ele percebeu que várias das pequenas barracas estavam sendo desfeitas e enroladas por seus donos.
- Não tenho certeza - Halt respondeu, fazendo um gesto na direção das fileiras de barracas. - Veja se consegue encontrar um bom lugar para acamparmos. Vou ver o que está acontecendo.
Ele fez Abelard ir para a frente, virou-se e gritou:
- Não monte as barracas ainda. Pelo que parece, talvez não precisemos delas.
Os cascos de Abelard bateram com força no chão enquanto ele galopava na direção do centro do acampamento.
Will e Gilan encontraram um local para acampar debaixo de uma arvore grande relativamente perto da área central de reunião. Depois disso, sem saber ao certo o que fazer em seguida, eles se sentaram num tronco e esperaram a volta de Halt. Como um arqueiro de posição elevada, Halt tinha acesso ao pavilhão maior que, segundo a explicação de Gilan, era a barraca de comando. O comandante do grupo, um arqueiro chamado Crowley, se encontrava ali com seu pessoal todos os dias para organizar as atividades, bem como para conferir e avaliar os relatórios e as informações que os arqueiros traziam para a Reunião.
Quase todas as barracas perto dos dois arqueiros mais jovens estavam desocupadas, mas havia um arqueiro magro e desengonçado do lado de fora de uma delas, andando impacientemente de um lado para outro, parecendo tão confuso quanto Gilan e Will. Ao vê-los no tronco, ele se aproximou.
- Alguma novidade? - ele perguntou imediatamente, ficando desanimado quando ouviu a resposta de Gilan.
- Íamos fazer a mesma pergunta - Gilan disse, estendendo a mão para cumprimentar o rapaz. - Você é Merron, não é?
Os dois trocaram um aperto de mão.
- Isso mesmo. E, se me lembro bem, você é Gilan.
Gilan apresentou Will, e o recém-chegado, que parecia ter uns 30 anos, olhou para ele curioso.
- Então você é o novo aprendiz de Halt - ele comentou. - Nós estávamos querendo saber como você era. Eu ia ser um dos seus avaliadores.
- Ia ser? - Gilan perguntou depressa.
- Sim - Merron respondeu, olhando para ele. - Duvido que a gente continue com a Reunião agora - ele hesitou e acrescentou: - Quer dizer que vocês não estão sabendo?
Os dois recém-chegados balançaram a cabeça negativamente.
- Morgarath está planejando alguma coisa outra vez - ele disse em voz baixa, e Will sentiu um calafrio na espinha ao ouvir o nome perverso.
- O que aconteceu? - Gilan perguntou atento.
Merron sacudiu a cabeça, remexendo a terra na sua frente com a ponta da bota num gesto de frustração.
- Não há notícias claras ainda, apenas informações incompletas. Mas parece que um exército de Wargals saiu do desfiladeiro de Três Passos há alguns dias. Eles derrotaram as sentinelas e foram para o norte.
- Morgarath estava com eles? - Gilan quis saber.
Will ficou quieto e de olhos arregalados. Ele não conseguia fazer perguntas, nem mesmo pronunciar o nome de Morgarath.
- Não sabemos - Merron respondeu. - Acho que não, nesse estágio, mas Crowley tem mandado patrulheiros para investigar nos últimos dois dias. Talvez seja apenas um ataque surpresa, mas, se for mais do que isso, é possível que signifique o início de outra guerra. Se for isso, foi um péssimo momento para perder lorde Lorriac.
- Lorriac está morto? - Gilan perguntou com preocupação na voz, e Merron assentiu.
- Parece que foi um derrame ou um ataque do coração. Ele foi encontrado morto alguns dias atrás e não havia nenhuma marca em seu corpo. Estava olhando direto para a frente. Morto e frio como pedra.
- Mas ele estava na sua melhor fase! - Gilan exclamou. - Eu vi ele há somente um mês e ele estava saudável como um touro.
Merron deu de ombros. Ele não tinha explicação, somente conhecia os fatos.
- Acho que isso pode acontecer com qualquer um - ele disse. A gente nunca sabe.
- Quem é lorde Lorriac? - Will perguntou para Gilan em voz baixa.
Pensativo, o jovem arqueiro balançou a cabeça enquanto respondia.
- Lorriac de Steden. Ele era o líder da cavalaria pesada do rei. Provavelmente nosso melhor comandante. Como Merron disse, se houver uma guerra, sentiremos muito a falta dele.
A mão fria do medo pousou no coração de Will. Toda a sua vida as pessoas falaram de Morgarath em voz baixa, isso quando falavam dele. O Grande Inimigo tinha quase assumido as proporções de um mito: uma lenda de tempos antigos e sombrios. Agora o mito estava se tornando realidade mais uma vez. Uma realidade desafiadora e apavorante. Ele olhou para Gilan em busca de tranquilidade, mas o rosto bonito do jovem arqueiro não mostrou nada além de dúvida e preocupação em relação ao futuro.
Halt demorou quase uma hora para se juntar a eles outra vez. Como já passava do meio-dia, Will e Gilan tinham preparado uma refeição com pão, carne fria e frutas secas. O arqueiro grisalho escorregou da sela de Abelard, aceitou um prato de Will e comeu rapidamente.
- A Reunião terminou - ele disse entre uma mordida e outra. Ao ver a chegada do arqueiro mais velho, Merron tinha voltado a se reunir ao grupo. Ele e Halt se cumprimentaram rapidamente e então Merron fez a pergunta que estava na mente de todos.
- É a guerra? - ele perguntou ansiosamente, e Halt balançou a cabeça.
- Não temos certeza. As últimas informações mostram que Morgarath ainda está nas montanhas.
- Então por que os Wargals saíram? - Will perguntou. Todos sabiam que os Wargals só faziam a vontade de Morgarath. Eles nunca teriam agido de forma tão radical sem ordens dele. A expressão de Halt estava sombria quando respondeu.
- Eles são apenas um grupo pequeno, talvez 50. A intenção foi usá-los para desviar a atenção. Crowley acha que, enquanto nossos guardas estavam ocupados perseguindo os Wargals, os dois Kalkaras saíram das Montanhas e se esconderam em algum lugar da Planície Solitária.
Gilan assobiou baixinho, e Merron até deu um passo para trás surpreso. O rosto dos dois jovens arqueiros mostrava seu grande horror diante das notícias. Will não tinha idéia do que eram os Kalkaras, mas, a julgar pela expressão de Halt e as reações de Gilan e Merron, as notícias obviamente não eram boas.
- Você quer dizer que eles ainda existem? - Merron perguntou. - Pensei que tinham morrido anos atrás.
- Ah, sim, eles ainda existem - Halt confirmou. - Sobraram apenas dois, mas é o bastante para ficarmos preocupados.
Houve um grande silêncio. Finalmente e com hesitação, Will teve que perguntar:
- Quem são eles?
Halt balançou tristemente a cabeça. Não queria discutir aquele assunto com alguém tão jovem quanto Will, mas, sabendo o que os esperava, não tinha escolha. O garoto tinha que saber.
- Quando Morgarath estava planejando sua rebelião, ele queria mais que um exército comum. Sabia que sua tarefa seria mais fácil se conseguisse aterrorizar seus inimigos. Assim, durante vários anos, ele fez uma série de expedições para as Montanhas da Chuva e da Noite, procurando.
- Procurando o quê? - Will perguntou, embora tivesse a incômoda sensação de que sabia qual seria a resposta.
- Aliados que pudesse usar contra o reino. As montanhas são uma parte antiga e tranquila do mundo. Elas permaneceram inalteradas durante séculos, e havia rumores de que estranhas bestas e monstros antigos ainda viviam ali. Acontece que os rumores se confirmaram. - Wargals - Will comentou, e Halt assentiu. - Sim, Wargals. Morgarath os escravizou rapidamente e os fez cumprir sua vontade - Halt completou com um toque de amargura na voz. - Mas então ele encontrou os Kalkaras. E eles são piores que os Wargals. Muito, muito piores.
Will não disse nada. Pensar em bestas que eram piores que os Wargals o deixava, no mínimo, perturbado.
- Eles eram três, mas um foi morto há cerca de oito anos, por isso sabemos um pouco mais sobre eles. Pense numa criatura em algum ponto entre um macaco e um urso que anda sobre duas patas e você vai ter uma idéia da aparência de um Kalkara.
- Então Morgarath os controla com a mente, como faz com os Wargals? - Will perguntou.
- Não. Eles são mais inteligentes do que os Wargals, mas são totalmente obcecados por prata. Eles adoram e guardam prata e parece que Morgarath dá para os Kalkaras grandes quantidades de prata para que façam o que ele quer. E o fazem bem. Podem ser incrivelmente espertos quando perseguem uma presa.
- Presa? Que tipo de presa? - Will quis saber.
Halt e Gilan trocaram um olhar, e Will pôde ver que seu mentor estava relutante em falar no assunto. Mas o arqueiro grisalho respondeu em voz baixa:
- Os Kalkaras são assassinos. Quando recebem ordens para capturar uma determinada vítima, fazem tudo o que podem para alcançar e matar essa pessoa.
- Podemos impedir os Kalkaras? - Will perguntou, e seu olhar passou rapidamente para o arco pesado de Halt e a aljava repleta de flechas negras.
- É difícil matar eles. São cobertos por pêlos grossos emaranhados e tão fechados que quase parecem escamas. Uma flecha dificilmente penetra neles. Uma acha ou uma espada de folha larga funciona melhor.
Ou talvez um bom golpe com uma lança pesada dê resultado.
Will sentiu um momento de alívio. Esses Kalkaras estavam parecendo quase invencíveis, mas havia muitos cavaleiros no reino que, sem dúvida, eram capazes de dar conta deles.
- Então foi um cavaleiro que matou um deles há oito anos? Halt balançou a cabeça.
- Não foi um cavaleiro. Foram três. Foram necessários três cavaleiros totalmente armados para matar a criatura, e apenas um deles sobreviveu à batalha. E o que é pior: ele ficou aleijado para o resto da vida - Halt terminou carrancudo.
- Três homens? Todos cavaleiros? - Will indagou sem acreditar. - Mas como...
Gilan o interrompeu antes que pudesse terminar.
- O problema é que, se você se aproximar o bastante para usar uma espada ou lança, geralmente os Kalkaras derrotam você antes que tenha alguma chance.
Enquanto ele falava, seus dedos batiam levemente no cabo da espada que usava na cintura.
- E como eles fazem isso? - Will quis saber, sentindo o alívio momentâneo ser instantaneamente afastado pelas palavras de Gilan.
- Seus olhos - explicou Merron, o arqueiro desajeitado. - Se você olhar nos olhos deles, fica paralisado e indefeso, do mesmo jeito que um pássaro fica paralisado pelo olhar de uma cobra antes de ser morto por ela.
Will olhou para os três companheiros sem compreender. O que Merron tinha dito parecia improvável demais para ser verdade, mas Halt não o contradisse.
- Paralisa você... como eles podem fazer isso? Você está falando de magia?
Halt deu de ombros. Merron olhou para o lado, pouco à vontade. Nenhum deles gostava de discutir aquele assunto.
- Algumas pessoas dizem que é magia - Halt disse finalmente.
- Acho mais provável que seja uma forma de hipnotismo. Seja como for, Merron esta certo. Se um Kalkara fizer você olhar nos olhos dele, você fica paralisado de puro terror, incapaz de fazer qualquer coisa para se salvar.
Will olhou ao redor ansioso, como se esperasse ver uma criatura macaco-urso sair de dentro das árvores silenciosas a qualquer momento. Ele sentiu o pânico crescendo no peito. De alguma forma, tinha acreditado que Halt era invencível e, no entanto, ele estava ali, aparentemente admitindo que não havia defesa contra aqueles monstros perversos.
- Não há nada que se possa fazer? - ele perguntou numa voz desanimada.
- Diz a lenda que eles são especialmente vulneráveis ao fogo - Halt contou, dando de ombros. - O problema é, como já sabemos, conseguirmos nos aproximar o bastante para causar qualquer dano. Carregar uma chama acesa dificulta a tarefa de perseguir um Kalkara. Eles costumam caçar à noite e podem ver você se aproximando.
Will achou difícil acreditar no que estava ouvindo. Halt parecia muito realista sobre o assunto, e Gilan e Merron obviamente ficaram perturbados com as notícias que ele trouxe.
Seguiu-se um silêncio estranho, quebrado por Gilan.
- O que faz Crowley pensar que Morgarath está usando Kalkaras? Halt hesitou. Ele tinha ouvido a opinião de Crowley numa reunião particular. Então deu de ombros. Todos precisariam saber de tudo cedo ou tarde e todos eram membros do Grupo dos Arqueiros, até Will.
- Ele já usou duas vezes no ano passado: para matar lorde Northolt e lorde Lorriac.
Os três homens mais jovens trocaram olhares surpresos, e Halt continuou:
- Pensou-se que Northolt havia sido morto por um urso, lembram?
Will acenou com a cabeça de leve. Agora ele lembrava. No primeiro dia como aprendiz de Halt, o arqueiro tinha recebido a notícia da morte do comandante supremo.
- Na época, achei que Northolt era um caçador habilidoso demais para ser morto daquele jeito. É óbvio que Crowley concorda.
- Mas e quanto a Lorriac? Todos dizem que foi um derrame - Merron comentou.
Halt olhou para ele brevemente e então respondeu.
- Você ouviu isso, não foi? Bem, o médico dele ficou muito surpreso. Ele disse que nunca tinha visto homem mais saudável. Por outro lado... - ele fez uma pausa, e Gilan terminou seu pensamento.
- Pode ter sido obra dos Kalkaras.
- Exatamente - Halt concordou. - Não conhecemos todos os efeitos do olhar paralisante. Mantido durante um longo período de tempo, o terror pode muito bem ser suficiente para parar o coração de um homem. E houve algumas informações vagas sobre um animal grande e escuro visto na região.
Novamente, o silêncio se instalou no pequeno grupo debaixo das árvores. Em volta deles, os arqueiros se agitavam de um lado para outro, levantando acampamento e selando os cavalos. Halt finalmente os despertou de seus pensamentos.
- É melhor irmos andando. Merron, você precisa voltar ao seu feudo. Crowley quer o exército alerta e mobilizado. As ordens vão ser distribuídas em poucos minutos.
Merron assentiu e se afastou na direção de sua barraca, mas parou e voltou. Algo na voz de Halt, na forma como tinha dito "você precisa voltar ao seu feudo", o fez pensar.
- E vocês três? - ele perguntou. - Para onde vocês vão? Antes mesmo que Halt respondesse, Will soube o que ele ia dizer.
Mas isso não tornou o fato menos assustador ou apavorante quando as palavras foram ditas.
- Nós vamos atrás dos Kalkaras.
O acampamento fervia. Barracas eram desmontadas e arqueiros guardavam seus equipamentos, amarrando-os nas sacolas das selas. Os primeiros integrantes do grupo já tinham partido e voltavam para os seus feudos.
Will estava ajustando as cordas das mochilas nas selas depois de repor alguns itens que tinha tirado. Halt estava sentado a alguns metros de distância, com a testa franzida, pensativo, estudando o mapa da região que cercava a Planície Solitária. A planície era uma área grande que ainda não tinha sido mapeada e não apresentava estradas. Uma sombra caiu sobre Halt e ele olhou para cima. Gilan estava parado ao seu lado com um ar preocupado no rosto.
- Halt, você tem certeza sobre isso? - ele perguntou em voz baixa e preocupada.
- Toda certeza, Gilan. Isso simplesmente tem que ser feito - Halt respondeu, olhando-o com determinação.
- Mas ele é só um garoto! - Gilan protestou, olhando para Will que estava amarrando um saco de dormir atrás da sela de Puxão.
Halt suspirou e desviou o olhar.
- Sei disso, mas ele é um arqueiro. Aprendiz ou não, ele é um membro da corporação como todos nós.
Ele viu que Gilan ia protestar outra vez, preocupado com Will, e sentiu uma onda de afeição pelo antigo aprendiz.
- Gilan, num mundo ideal eu não colocaria Will em risco desse jeito. Mas não estamos num mundo ideal. Todos vão ter que desempenhar seu papel nessa campanha, até meninos como Will. Morgarath está se preparando para algo grande. Os agentes de Crowley ouviram dizer que, além de tudo, ele tem entrado em contato com os escandinavos. - Os escandinavos? Para quê?
- Não sabemos os detalhes, mas na minha opinião ele está esperando formar uma aliança com eles - Halt respondeu, dando de ombros. - Eles lutam com qualquer um por dinheiro. E, pelo que parece, lutam por qualquer um - ele acrescentou, deixando clara sua antipatia por mercenários. - O caso é que estamos com falta de pessoal. Normalmente, eu iria atrás dos Kalkaras com um grupo de pelo menos cinco arqueiros mais antigos. Mas Crowley simplesmente não pode ceder eles para mim. Assim, tive que me contentar com os dois em quem mais confio: você e Will.
- Ora, obrigado.
Gilan deu um sorriso torto. Ele estava emocionado com a confiança de Halt. Ainda admirava seu antigo mentor. Quase todos na Corporação de Arqueiros o faziam.
- Além disso, acho que essa sua velha espada enferrujada pode ser útil se nos depararmos com um desses horrores - Halt disse.
A Corporação de Arqueiros tinha tomado a decisão acertada quando permitiu que Gilan continuasse o treinamento com a arma. Embora poucas pessoas soubessem, Gilan era um dos melhores espadachins em Araluen.
- Quanto a Will - ele continuou -, não o subestime. Ele é muito habilidoso. É rápido, corajoso e já maneja muito bem o arco e as flechas. E, o que é melhor, pensa rápido. Meu verdadeiro plano é mandar ele buscar reforços se encontrarmos pistas dos Kalkaras. Isso vai nos ajudar e vai manter ele longe do perigo.
Pensativo, Gilan coçou o queixo. Agora que Halt tinha explicado o que pretendia, aquele parecia o único caminho a tomar. Ele encontrou o olhar do homem mais velho e acenou com a cabeça mostrando que entendia a situação. Então se virou para organizar seu material, mas descobriu que Will já tinha arrumado tudo e amarrado à sela de seu cavalo. Ele sorriu para Halt.
- Você tem razão - ele disse. - O garoto sabe usar a cabeça.
Os três partiram um pouco depois, enquanto os outros arqueiros ainda estavam recebendo ordens. Mobilizar o exército de Araluen não seria uma tarefa insignificante, e os arqueiros deveriam coordená-la e depois estar preparados para guiar as forças individuais dos 50 feudos para o ponto de reunião nas planícies de Uthal. Com Gilan e Halt designados para procurar os Kalkaras, os outros arqueiros tinham que assumir a tarefa de coordenar as forças de seus feudos.
Os três companheiros pouco falaram quando Halt os guiou para o sudeste. Até a curiosidade natural de Will foi abrandada pela magnitude da tarefa que os esperava. Enquanto cavalgavam em silêncio, a sua mente ficava formando imagens de criaturas selvagens parecidas com ursos e com feições de macaco. Criaturas que poderiam muito bem se mostrar invencíveis, até para alguém com as habilidades de Halt.
Por fim, contudo, a monotonia se instalou, as imagens terríveis desapareceram e ele começou a se perguntar que plano, se havia algum, Halt tinha em mente.
- Halt - ele chamou um tanto sem fôlego -, onde você espera encontrar os Kalkaras?
Halt observou o rosto sério ao seu lado. Eles estavam viajando no ritmo da marcha forçada dos arqueiros: quarenta minutos na sela, cavalgando num galope regular, e depois vinte minutos a pé, conduzindo os cavalos e permitindo que viajassem sem carga, enquanto os homens corriam num trote uniforme.
A cada quatro horas, eles paravam para uma hora de descanso, quando faziam uma refeição rápida de carne seca, pão duro e frutas, e então se embrulhavam em suas capas para dormir.
Eles já estavam viajando fazia algum tempo e Halt achou que era hora de descansar. Ele levou Abelard para fora da estrada, para o abrigo de um pequeno bosque. Will e Gilan o seguiram, largando as rédeas e deixando os cavalos pastar.
- O melhor - Halt disse em resposta à pergunta de Will - é começar a procurar na toca e ver se eles estão nas vizinhanças.
- E sabemos onde essa toca fica? - Gilan perguntou.
- Nossos espiões acham que fica em algum lugar na Planície Solitária, além das Flautas de Pedra. Vamos investigar essa região e ver o que encontrarmos. Se eles estiverem por ali, certamente vamos descobrir que uma ou outra ovelha ou cabra está faltando nas vilas da vizinhança. Conseguir que os moradores falem vai ser outro problema. Os habitantes das planícies são as pessoas mais fechadas de todos os tempos.
- O que é essa planície de que vocês estão falando? - Will perguntou com a boca cheia de pão seco. - E que raios é uma Flauta de Pedra?
- A Planície Solitária é uma área grande e plana. Tem muito poucas árvores e é coberta principalmente por massas rochosas e capim alto - Halt contou para ele. - Parece que o vento está sempre soprando, não importa a época do ano em que você vá para lá. É um lugar triste e deprimente, e as Flautas de Pedra são a parte mais sombria de lá.
- Mas o que são... - Will começou, mas Halt só tinha feito uma breve pausa.
- As Flautas de Pedra? Ninguém sabe realmente. Elas são um círculo de pedras formado pelos antigos, inserido no meio da parte mais ventosa da planície. Ninguém descobriu qual seu verdadeiro objetivo, mas elas estão arranjadas de modo que o vento é desviado ao redor do círculo e atravessa uma série de buracos nas próprias pedras. Elas criam um som constante e agudo, mas não tenho idéia de por que alguém achou que o som se parece com o de flautas. O barulho é misterioso e desafinado e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Depois de alguns minutos, você começa a ficar arrepiado, e ele continua por horas e horas.
Will ficou em silêncio. A imagem de uma planície triste varrida pelo vento e com pedras que emitiam um uivo agudo e ininterrupto pareceu tirar o último vestígio de calor do sol do final da tarde. Ele estremeceu involuntariamente. Halt viu o movimento e se inclinou para lhe dar um tapinha encorajador no ombro.
- Se alegre - ele disse. - Nada costuma ser tão mau quanto parece. Agora, vamos descansar um pouco.
Eles chegaram aos arredores da Planície Solitária ao meio-dia do segundo dia. Halt tinha razão: era um lugar grande e deprimente. A área se estendia por vários quilômetros e era coberta por um capim alto e cinzento, ressecado pelo vento constante.
O vento parecia quase um ser vivo. Ele era irritante, soprando contínua e invariavelmente do oeste, dobrando o capim alto à sua frente, varrendo o terreno achatado da Planície Solitária.
- Agora vocês entendem por que ela é chamada de Planície Solitária? - Halt perguntou aos dois companheiros, puxando as rédeas de Abelard para que eles pudessem alcançá-lo. - Quando você sai cavalgando nesse maldito vento, tem a sensação de que é a única pessoa viva que resta na face da Terra.
"Isso é verdade", Will pensou. Ele se sentiu pequeno e insignificante diante do vazio da planície. E essa sensação de insignificância foi acompanhada por outra de impotência. O deserto que estavam atravessando a cavalo parecia sugerir a presença de forças ocultas, forças muito maiores que suas habilidades. Até Gilan, normalmente alegre e entusiasmado, parecia afetado pela atmosfera pesada e deprimente do lugar. Apenas Halt parecia não ter mudado, permanecendo sombrio e taciturno como sempre.
Aos poucos, enquanto cavalgavam, Will ficava ciente de uma sensação inquietante. Havia algo oculto bem fora do alcance de sua percepção consciente. Alguma coisa que o deixava perturbado. Ele não a conseguia isolar nem mesmo dizer de onde vinha ou que forma tinha. A coisa simplesmente estava ali, sempre presente. Ele se mexeu na sela e ficou de pé nos estribos para investigar o horizonte monótono, na esperança de poder ver a fonte daquilo tudo.
- Você sentiu - Halt comentou ao perceber o movimento. - São as Pedras.
E, depois que Halt falou, Will se deu conta de que tinha sido um som, tão leve e tão contínuo que não podia ser isolado como tal, que criara a sensação de inquietação em sua mente e o aperto na boca do estômago. Ou talvez eles tivessem chegado a uma distância em que conseguiam ouvir as Flautas de Pedra apenas quando Halt fez o comentário, pois naquele momento Will pôde isolar o som. Era uma série de notas musicais desafinadas tocadas ao mesmo tempo, mas criando um som áspero e desarmonioso que irritava os nervos e perturbava a mente. Sua mão esquerda escorregou discretamente para o punho da faca enquanto cavalgava, e ele sentiu conforto ao tocar a arma sólida e confiável.
Eles continuaram a viagem durante toda a tarde com a impressão de que nunca avançavam. A cada passo, o horizonte atrás e diante deles parecia nunca ficar mais perto ou longe. Era como se estivessem marcando passo num mundo vazio. O som constante e agudo das Flautas de Pedra os acompanhou por todo o dia, ficando cada vez mais forte. Aquele era o único sinal de que estavam avançando. As horas passavam e o som continuava, sem que Will sentisse que ficava mais fácil suportá-lo. O som irritava seus nervos e o deixava ansioso. Quando o sol começou a mergulhar na margem oeste, Halt freou Abelard.
- Vamos passar a noite aqui e descansar - ele anunciou. - É quase impossível manter um ritmo constante no escuro. Sem características marcantes no terreno que nos ajudem a estabelecer uma rota, poderíamos facilmente acabar andando em círculos.
Agradecidos, os outros desmontaram. Mesmo bem preparados como eram, as horas passadas no ritmo de marcha forçada os tinham deixado exaustos. Will começou a procurar lenha para a fogueira ao redor dos poucos arbustos ressecados que cresciam na planície. Halt, percebendo o que ele tinha em mente, sacudiu a cabeça.
- Nada de fogo - recomendou. - Vão nos ver a quilômetros e não temos idéia de quem possa estar vigiando.
Will parou e deixou o pequeno feixe que tinha reunido cair no chão.
- Você está falando dos Kalkaras? - ele perguntou.
- Eles ou o povo da planície - Halt respondeu, dando de ombros.
- Não podemos saber com certeza se alguns deles são aliados dos Kalkaras. Afinal, vivendo tão próximos dessas criaturas, podem acabar cooperando com elas apenas para garantir sua segurança. E não queremos que eles espalhem que há estranhos na Planície.
Gilan estava tirando a sela de Blaze, seu cavalo baio. Ele largou-a no chão e esfregou o pêlo do cavalo com um punhado do sempre presente capim seco.
- Você não acha que já fomos vistos? - ele perguntou.
Halt pensou na pergunta por alguns segundos antes de responder.
- Talvez sim. Há muitos fatos que desconhecemos, como onde fica realmente a toca dos Kalkaras, se o povo das planícies é ou não seu aliado, se um deles nos viu ou não e informou nossa presença. Mas, até sabermos que fomos vistos, vamos fazer de conta que não fomos. Portanto, nada de fogo.
- É claro que você tem toda a razão - Gilan murmurou relutante. - É que eu ficaria feliz em matar alguém por uma xícara de café.
- Acenda o fogo para coar café - Halt recomendou - e isso pode ser a última coisa que vai fazer.
Foi um acampamento frio e desanimado. Cansados do ritmo duro da viagem, os arqueiros comeram uma refeição fria: pão, frutas secas e carne fria mais uma vez, engolida com água fria de seus cantis. Will estava começando a detestar aquelas rações duras e praticamente sem gosto. Halt assumiu o primeiro turno de vigília, e Will e Gilan se enrolaram em suas capas para dormir.
Aquela não era a primeira vez que Will acampava com desconforto desde que o período de treinamento tinha começado. Mas era a primeira vez que não havia nem mesmo um fogo crepitante ou, pelo menos, um canteiro de brasas quentes ao lado do qual descansar. Ele dormiu mal e teve sonhos desagradáveis - sonhos com criaturas assustadoras, coisas estranhas e aterradoras que povoavam seu subconsciente, porém perto o bastante para que ele sentisse sua presença e ficasse perturbado por ela.
O garoto ficou quase satisfeito quando Halt o sacudiu de leve para acordá-lo para seu turno de vigília.
O vento estava empurrando as nuvens sob a Lua. O gemido da canção das Pedras estava mais forte do que nunca. Will sentiu um cansaço de espírito e se perguntou se as Pedras tinham sido criadas para deixar as pessoas exaustas daquela forma. O capim alto em volta deles sibilava uma melodia que se sobrepunha ao som agudo que vinha de longe. Halt apontou para o céu, indicando um ângulo de elevação para ser lembrado por Will.
- Quando a Lua alcançar aquele ângulo, passe a guarda para Gilan - ele disse ao aprendiz.
Will concordou, levantando-se e esticando os músculos rígidos. Ele apanhou o arco e a aljava e andou até o arbusto que Halt tinha escolhido como ponto de observação. Arqueiros em vigília nunca ficavam em terreno aberto no local do acampamento, mas sempre se afastavam 20 metros das barracas e encontravam um esconderijo Dessa forma, estranhos que se aproximassem do acampamento teriam menor probabilidade de vê-los. Essa era uma das muitas habilidades que Will tinha aprendido em seus meses de treinamento.
Ele tirou duas flechas da aljava e as segurou entre os dedos da mão que apoiava o arco. Iria segurá-las desse jeito durante as quatro horas de sua guarda. Se precisasse delas, não teria que fazer movimentos exagerados para tirá-las da aljava - movimento que poderia alertar o atacante. Em seguida ele pôs o capuz na cabeça para se confundir com o formato irregular do arbusto. A sua cabeça e os seus olhos se moviam constantemente de um lado para outro como Halt tinha ensinado, sempre mudando o foco, de perto do acampamento para o horizonte escuro à sua volta. Dessa forma, ele teria chances melhores de perceber algum movimento. De tempos em tempos, ele se virava lentamente num círculo completo, examinando todo o terreno ao seu redor, do jeito mais imperceptível possível.
O som agudo das Pedras e o sibilar do vento eram constantes. Mas Will também começou a ouvir outros sons - o farfalhar de pequenos animais na grama e outros menos explicáveis. Com cada um deles, o coração do garoto acelerava um pouco mais, e ele se perguntava se podiam ser os Kalkaras rastejando sobre os vultos adormecidos dos amigos. Em certo momento, ficou convencido de que estava ouvindo a respiração de um animal grande. O medo tomou conta dele, apertando sua garganta, até ele perceber, com os sentidos sintonizados ao máximo, que o que ouvia realmente era a respiração tranquila dos companheiros.
Will sabia que, a uma distância maior do que 5 metros, ficaria praticamente invisível ao olho humano, graças à capa, às sombras e ao formato do arbusto que o cercava. Mas ele se perguntava se os Kalkaras contavam somente com a visão. Talvez tivessem outros sentidos que lhes dissessem que havia um inimigo escondido no arbusto. Talvez, naquele momento, estivessem se aproximando, ocultos pelo capim alto que balançava ao vento, prontos para atacar...
Seus nervos, já sensíveis além do suportável por causa da deprimente canção das Flautas de Pedra, faziam-no querer se virar e identificar a fonte de cada novo som assim que o ouvia. Mas Will sabia que iria se revelar ao fazer isso e se obrigou a se mover devagar, virando-se com cuidado até ficar de frente para a possível origem do som, avaliando cada novo risco antes de descartá-lo.
Nas longas horas da vigília tensa, ele não viu nada além das nuvens apressadas no céu, a Lua fugitiva e o mar ondulante de grama que os cercava. Quando a Lua chegou à elevação predeterminada, o rapaz estava física e mentalmente esgotado. Acordou Gilan para assumir a guarda e se enrolou em sua capa outra vez.
Desta vez, Will não sonhou. Exausto, dormiu profundamente até a luz cinzenta do amanhecer surgir no céu.
Eles viram as Flautas de Pedra no meio da manhã: um círculo cinzento e surpreendentemente pequeno de monólitos de granito que estavam no alto de uma elevação na planície. O caminho que tinham escolhido levou os três cavaleiros a cerca de 1 quilômetro de distância das Pedras, e Will ficou satisfeito de não se aproximar mais. O canto deprimente estava mais alto do que nunca, flutuando e se movendo ao sabor do vento.
- Vou partir em dois o lábio do próximo flautista que eu encontrar - Gilan ameaçou com um sorriso sombrio.
Eles continuaram seu caminho, deixando os quilômetros para trás, hora após hora, uma igual à outra, sem nada novo para ver e sempre com o leve uivo das Pedras às suas costas, deixando os nervos à flor da pele.
O homem da planície surgiu de repente no meio da grama, a uns 50 metros de distância. Pequeno, vestido com trapos cinza e com cabelos compridos despenteados caídos nos ombros, ele olhou para os três companheiros com olhos enlouquecidos durante vários segundos.
O coração de Will mal tinha se recuperado do susto de seu aparecimento repentino quando ele se foi, correndo pela grama, parecendo mergulhar dentro dela. Em poucos segundos, tinha desaparecido, engolido pelo capim. Halt ia colocar Abelard para persegui-lo, mas desistiu da idéia. A flecha que havia escolhido e pousado na corda do arco não foi usada. Gilan também estava pronto para atirar e tinha tido uma reação tão rápida quanto a de Halt. Ele também não atirou, olhando com curiosidade para seu superior.
- Pode não ser nada - Halt disse, dando de ombros. - Ou talvez ele tenha corrido para contar aos Kalkaras. Mas não podemos matar um homem só por desconfiança.
Gilan soltou um leve riso ruidoso, mais para liberar a tensão causada pelo surgimento inesperado do homem.
- Acho que não faz diferença se acharmos os Kalkaras ou se eles nos acharem - ele disse.
Os olhos de Halt se fixaram nele por um momento, sem nenhum sinal de humor.
- Acredite em mim, Gilan, há uma grande diferença - afirmou. Eles tinham parado a marcha forçada e cavalgavam lentamente pela grama alta. O som das Pedras começou a diminuir um pouco, para grande alívio de Will. Ele percebeu que agora o vento estava levando o som para longe.
Depois do repentino aparecimento do morador da planície, houve um período sem que se manifestasse outro sinal de vida. Uma pergunta vinha incomodando Will durante toda a tarde.
- Halt? - ele começou com cuidado, sem saber se este o mandaria ficar quieto.
O arqueiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas, mostrando que estava preparado para responder perguntas, e então Will continuou.
- Por que você acha que Morgarath buscou a ajuda dos Kalkaras?
O que ele espera ganhar?
Halt percebeu que Gilan também estava esperando pela resposta. Ele colocou os pensamentos em ordem antes de responder. Estava um pouco relutante em transformá-los em palavras, pois parte da resposta dependia de suposições e intuição.
- Quem sabe por que Morgarath faz as coisas? - ele disse devagar. - Não posso dar uma resposta clara. Só posso dizer o que Crowley e eu pensamos.
Ele olhou rapidamente para os companheiros. Era óbvio que os dois estavam preparados para aceitar suas suposições como fatos consumados. "Às vezes", ele pensou aborrecido, "a reputação de estar certo o tempo todo pode ser uma carga muito pesada."
- Há uma guerra se aproximando - ele continuou. - Todos já sabemos disso. Os Wargals estão avançando, e nós ouvimos dizer que Morgarath entrou em contato com Ragnak.
Ele viu a expressão confusa no rosto de Will, mas sabia que Gilan compreendia quem era Ragnak.
- Ragnak é o oberjarl, ou chefe supremo, se preferir, dos escandinavos, os lobos-do-mar - explicou.
Ele viu um clarão de compreensão no rosto do aprendiz e continuou.
- Está claro que essa guerra vai ser pior do que a anterior, e nós vamos precisar de todos os nossos recursos e de nossos melhores comandantes para nos guiar. Acho que é isso que Morgarath tem em mente. Ele quer nos enfraquecer fazendo que os Kalkaras matem nossos líderes. Northolt, o chefe supremo do exército, e Lorriac, nosso melhor comandante de cavalaria, já se foram. Certamente outros homens vão assumir essas posições, mas inevitavelmente vai haver alguma confusão no período de mudança, alguma perda de união. Acho que isso faz parte do plano de Morgarath.
- Há também outro aspecto - Gilan acrescentou pensativo. - Esses dois homens foram fundamentais na sua derrota na última vez. Ele está destruindo nossa estrutura de comando e se vingando ao mesmo tempo.
- Claro, isso é verdade - Halt concordou. - E, para uma mente perturbada como a de Morgarath, vingança é um motivo poderoso.
- Então você acha que vai haver mais mortes? - Will perguntou, e Halt o olhou com firmeza.
- Acho que vai haver mais tentativas. Morgarath agiu duas vezes com alvos definidos e teve sucesso. Não vejo nenhum motivo para que não tente de novo. Ele tem razões para odiar muita gente no reino. Talvez até o próprio rei. Ou talvez o barão Arald, pois ele causou alguns problemas para Morgarath na última guerra.
"E você também", Will pensou com medo. Ele estava para externar o pensamento de que Halt poderia ser um alvo quando se deu conta de que seu mestre provavelmente já estava ciente do fato. Gilan estava fazendo outra pergunta ao arqueiro mais velho.
- Eu não entendo uma coisa. Por que os Kalkaras continuam voltando para seu esconderijo? Por que não procuram simplesmente a vítima seguinte?
- Acho que essa é uma das poucas vantagens que temos - Halt afirmou. - São selvagens, cruéis e mais inteligentes do que os Wargals, mas não são humanos. São totalmente ingênuos. Mostre uma vítima para eles e eles vão caçar e matar ela ou morrer na tentativa. Mas só conseguem perseguir uma de cada vez. Entre uma morte e outra, voltam para sua toca. Então Morgarath, ou um de seus subordinados, os prepara para a próxima vítima e eles saem novamente. Nossa esperança é interceptar os Kalkaras no caminho se tiverem recebido uma nova missão. Ou matar eles em seu esconderijo se não tiverem.
Will olhou pela milésima vez para a planície monótona coberta de grama que se estendia à frente deles. Em algum lugar lá fora, as duas criaturas assustadoras estavam esperando, talvez já com uma nova vítima em mente. A voz de Halt interrompeu seus pensamentos.
- O sol está se pondo - ele disse. - Acho que podemos acampar aqui.
Eles desceram agilmente das selas e soltaram a barrigueira para deixar os cavalos mais confortáveis.
- Pelo menos este maldito lugar tem uma coisa boa - Gilan comentou, olhando à sua volta. - Todos os lugares são igualmente bons para acampar. Ou igualmente ruins.
Will acordou de um sono sem sonhos ao toque da mão de Halt em seu ombro. Ele jogou a capa para trás, olhou para a Lua, que dançava no céu, e franziu a testa. Não podia ter dormido mais de uma hora e ia dizer isso, mas Halt o impediu, colocando um dedo nos lábios, pedindo silêncio. Will olhou ao redor e percebeu que Gilan já estava acordado, parado perto dele com a cabeça voltada para noroeste, para o lugar de onde tinham vindo.
O garoto se levantou, movendo-se com cuidado para não fazer nenhum barulho desnecessário. Suas mãos tinham ido automaticamente para as armas, mas ele relaxou quando se deu conta de que não havia perigo imediato. Os outros dois prestavam atenção em um som, e então Halt levantou a mão e apontou para o norte.
- Lá está de novo - ele disse baixinho.
Então Will também escutou o mesmo som, acima dos gemidos das Flautas de Pedra e do murmúrio do vento ao passar na grama. Seu sangue gelou. Era um uivo agudo e selvagem que ululava e ficava cada vez mais alto. Um som desumano levado até eles pelo vento e saído da garganta de um monstro.
Segundos depois, outro uivo respondeu ao primeiro. Ligeiramente mais agudo, parecia vir de um ponto um pouco mais à esquerda do que o primeiro. Sem que lhe dissessem, Will sabia o que o som significava.
- São os Kalkaras - Halt disse num tom sombrio. - Eles têm um novo alvo e estão caçando.
Os três companheiros passaram a noite sem dormir. Os gritos de caça dos Kalkaras afastavam-se para o norte. Quando ouviram os sons pela primeira vez, Gilan quis selar Blaze, que estava nervoso com os uivos assustadores das duas bestas. Halt, porém, fez um gesto para que parasse.
- Não vou atrás dessas coisas no escuro - ele disse brevemente. Vamos esperar até o dia amanhecer e então vamos procurar suas pegadas.
As pegadas foram encontradas com facilidade, pois era óbvio que os Kalkaras não tentaram esconder sua passagem. A grama alta tinha sido esmagada pelos dois corpos pesados, que deixaram uma trilha visível apontando para o nordeste. Halt encontrou a trilha deixada pelo primeiro dos dois monstros e logo depois Gilan encontrou a segunda, cerca de 300 metros à esquerda, numa linha paralela e próxima o bastante para que pudessem se ajudar no caso de um ataque, mas longe o suficiente para evitar qualquer armadilha preparada para o irmão.
Halt analisou a situação por alguns momentos e então tomou uma decisão.
- Você fica com o segundo - ele disse para Gilan. - Will e eu vamos seguir este aqui. Quero garantir que os dois continuem andando na mesma direção. Não quero que um deles volte e venha atrás de nós.
- Você acha que eles sabem que estamos aqui? - Will perguntou, tentando com dificuldade manter a voz calma e desinteressada.
- É possível. O homem da planície que vimos já teve tempo para avisar eles. Ou talvez seja apenas uma coincidência e eles estejam saindo para a próxima missão.
Ele olhou para a trilha de grama esmagada que ia sempre na mesma direção.
- Parece mesmo que eles têm um objetivo. Então se virou para Gilan outra vez.
- Em todo caso, fique com os olhos abertos e preste muita atenção em Blaze. Os cavalos vão sentir a presença dessas bestas antes de nós. Não queremos cair numa emboscada.
Gilan as sentiu e virei; Blaze na direção da segunda trilha. A um sinal da mão de Halt, os três arqueiros começaram a cavalgar para a frente, seguindo a direção que os Kalkaras tinham tomado.
- Eu vou vigiar a trilha - Halt disse a Will. - Você fica de olho em Gilan, só para garantir.
Will voltou a atenção para o alto arqueiro, que estava a uns 200 metros de distância, e acompanhou seu ritmo. A parte inferior do corpo de Blaze estava escondida pela grama alta. De tempos em tempos, ondulações no chão tiravam tanto o cavalo quanto o cavaleiro da vista do rapaz. Na primeira vez em que isso aconteceu, Will reagiu com um grito de alarme, pois Gilan simplesmente desapareceu. Halt se virou rapidamente com uma flecha já pronta no arco, mas nesse momento Gilan e Blaze reapareceram, aparentemente sem saber do momento de pânico que tinham causado.
- Desculpe - Will murmurou aborrecido por ter permitido que seu estado de nervos o dominasse.
Halt lhe lançou um olhar penetrante.
- Está tudo bem - ele disse com calma. - Prefiro que me avise sempre, mesmo quando só pensar que há um problema.
Halt sabia muito bem que, por ter dado um falso alarme uma vez, Will poderia relutar em reagir da próxima, e isso poderia ser fatal para todos eles.
- Avise para mim sempre que perder Gilan de vista. E diga quando ele reaparecer - ele pediu.
Will assentiu, compreendendo o raciocínio do mestre.
E assim eles continuaram a cavalgar, com o grito agudo das Flautas enchendo seus ouvidos novamente à medida que se aproximavam do círculo de pedra. Will percebeu que desta vez eles passariam muito mais perto, pois os Kalkaras pareciam estar se dirigindo direto para o local. A cavalgada foi marcada por informações intermitentes de Will.
- Ele sumiu... ainda está sumido... Tudo bem. Apareceu de novo.
Will nunca estava seguro de quem estava passando por uma depressão, se Gilan ou ele. Muitas vezes, os dois ao mesmo tempo.
Houve um momento desagradável em que Gilan e Blaze sumiram e não reapareceram dentro dos habituais poucos segundos.
- Não consigo mais vê-lo... - Will informou. E então:
- Ainda não... ainda não... nenhum sinal... - a sua voz começou a ficar aguda por causa da inquietação que crescia dentro dele. - Nenhum sinal... ainda nenhum sinal...
Halt fez Abelard parar e preparou o arco novamente enquanto examinava o chão à sua esquerda e esperava Gilan reaparecer. Ele soltou um assobio agudo, três notas ascendentes. Houve uma pausa e depois um assobio de resposta, as mesmas três notas em ordem descendente, veio claramente até eles. Will soltou um suspiro de alívio, e Gilan em pessoa reapareceu nesse exato momento. Ele os olhou e fez um gesto largo, com os dois braços erguidos numa pergunta óbvia: "Qual é o problema?"
Halt fez um gesto negativo, e eles continuaram.
Quando se aproximaram das Flautas de Pedra, Halt ficou cada vez mais atento. O Kalkara que ele e Will vinham seguindo estava se dirigindo diretamente para o círculo. Ele fez Abelard parar e protegeu os olhos do sol, estudando as pedras cinzentas e sinistras com cuidado, procurando algum movimento ou sinal de que o Kalkara pudesse estar deitado esperando para emboscá-los.
- É o único esconderijo em quilômetros - ele explicou. - Não vamos correr o risco de que a maldita coisa esteja escondida aqui esperando por nós. Acho que precisamos tomar um pouco mais de cuidado.
Ele chamou Gilan com um sinal e explicou a situação. Então eles se dividiram para cobrir uma área maior ao redor das pedras, cavalgando para o interior do círculo lentamente de três diferentes direções, procurando nos cavalos qualquer sinal possível de reação a medida que se aproximavam. Mas o local estava vazio, embora no seu interior o gemido desafinado do vento que atravessava os buracos das flautas fosse quase insuportável. Pensativo, Halt mordeu o lábio olhando para o mar de grama nas duas trilhas deixadas pelos Kalkaras.
- Isso está nos tomando tempo demais - ele disse finalmente. - Enquanto pudermos ver as trilhas por uns 200 metros à frente, vamos andar mais depressa. Vamos diminuir o passo quando chegarmos a uma colina ou em qualquer momento em que a trilha não esteja visível por mais de 5 metros.
Gilan assentiu, mostrando que tinha compreendido, e retomou sua posição mais distante. Eles fizeram os cavalos trotar num passo longo e tranquilo que cobriria os quilômetros à frente deles. Will continuou a vigiar Gilan e, sempre que a trilha visível diminuía, Halt ou Gilan assobiavam e eles reduziam a velocidade até que o terreno se abrisse novamente à sua frente.
Quando a noite caiu, os três acamparam de novo. Halt ainda se recusava a seguir os dois assassinos no escuro, embora a Lua deixasse sua trilha facilmente visível.
- Fácil demais para eles voltarem no escuro - justificou. - Quero estar bem preparado quando finalmente vierem até nós.
- Você acha que eles virão? - Will perguntou, percebendo que Halt tinha dito "quando", e não "se".
O arqueiro olhou para seu jovem aluno.
- Sempre suponha que o inimigo sabe onde você está e que vai atacar você ele - ensinou. - Desse jeito, você pode evitar surpresas desagradáveis.
Ele pousou a mão no ombro de Will para tranquilizar o garoto. - Ainda pode ser desagradável, mas não será mais uma surpresa.
Pela manhã, eles retomaram a trilha, cavalgando no mesmo ritmo rápido,reduzindo o passo somente quando não podiam ver com clareza o terreno à sua frente. No começo da tarde, tinham chegado à beira da planície e entraram mais uma vez em terreno coberto por bosques ao norte das Montanhas da Chuva e da Noite.
Eles descobriram que ali os Kalkaras haviam se reunido, não ficando mais muito separados como tinha acontecido nas terras da planície. Mas o caminho continuava o mesmo, sempre em direção ao noroeste. Os três arqueiros seguiram esse curso por outra hora antes que Halt freasse Abelard e fizesse sinal para os outros desmontarem para uma conversa. Eles se reuniram ao redor de um mapa do reino que ele abriu na grama, usando flechas como pesos para que as bordas não se enrolassem.
- A julgar pelas pegadas, já diminuímos a distância até eles. Mas ainda estão um bom meio dia à nossa frente. Agora, esta é a direção que estão seguindo...
Ele pegou outra flecha e a colocou no mapa de modo que apontasse para o lado que os Kalkaras vinham seguindo nos dois últimos dias.
- Como vocês podem ver, se eles continuarem nessa direção, há somente dois lugares importantes para onde podem estar indo.
Ele apontou para um local no mapa.
- Aqui, as Ruínas de Gorlan. Ou, mais para o norte, o próprio Castelo de Araluen.
- Castelo de Araluen? - Gilan exclamou, respirando fundo. - Você acha que eles vão ousar tentar matar o rei Duncan?
- Eu simplesmente não sei - Halt respondeu, olhando para ele e balançando a cabeça. - Não sabemos muita coisa sobre essas bestas, e metade do que achamos que sabemos provavelmente são mitos ou lendas. Mas você tem que admitir, seria algo ousado, uma tacada de mestre, e Morgarath nunca foi contra esse tipo de coisa.
Ele deixou que os outros digerissem essa idéia por alguns momentos e então traçou uma linha de sua posição atual até o noroeste.
- Mas estive pensando. Olhe. Aqui está o Castelo Redmont. Talvez a um dia de cavalgada de distância e então outro dia até aqui.
De Redmont, ele traçou uma linha para noroeste, até as Ruínas de Gorlan, marcadas no mapa.
- Uma pessoa cavalgando rapidamente e usando dois cavalos pode cobrir o trajeto em menos de um dia até Redmont e depois conduzir o barão e sir Rodney até aqui, nas ruínas. Se os Kalkaras estiverem andando no mesmo ritmo de agora, talvez possamos barrar a passagem deles aqui. Vai ser difícil, mas é possível. E, com dois guerreiros como Arald e Rodney conosco, teremos muito mais chances de parar as malditas coisas de uma vez por todas.
- Um momento, Halt - Gilan interrompeu. - Você disse uma pessoa cavalgando dois cavalos?
Halt encontrou o olhar de Gilan e viu que o jovem arqueiro já tinha adivinhado o que ele tinha em mente.
- Isso mesmo, Gilan. E o mais leve de nós vai viajar mais depressa. Quero que passe Blaze para Will. Se ele se alternar entre Puxão e o seu cavalo, pode fazer isso a tempo.
Ele viu a hesitação no rosto de Gilan e compreendeu o porquê dessa expressão. Nenhum arqueiro gostava da idéia de entregar seu cavalo a outra pessoa, mesmo a outro arqueiro. Mas, ao mesmo tempo, Gilan entendeu a lógica da sugestão. Halt esperou que o jovem quebrasse o silêncio, enquanto Will observava os dois com os olhos arregalados de medo ao pensar na responsabilidade que estava prestes a ser posta em seus ombros.
Finalmente, com relutância, Gilan falou.
- Acho que faz sentido - ele concordou. - Então, o que quer que eu faça?
- Quero que me siga a pé - Halt disse asperamente, enrolando o mapa e guardando-o na sacola da sela. Se você puder conseguir um cavalo em qualquer outro lugar, faça isso e me alcance. Do contrário, vamos nos encontrar em Gorlan. Se não virmos os Kalkaras ali, Will poderá esperar por você com Blaze. Eu vou continuar a seguir os Kalkaras até vocês me alcançarem.
Gilan acenou concordando e Halt sentiu uma onda de afeto por ele. Quando compreendia um objetivo, Gilan não era do tipo que discutia ou fazia objeções.
- Você não disse que minha espada poderia ser útil? - o rapaz perguntou um tanto desanimado.
- É verdade - Halt respondeu -, mas isso me dá a oportunidade de trazer uma força de cavaleiros totalmente armados com machados e lanças. E você sabe que essa é a melhor forma de derrotar os Kalkaras.
- Sim, eu sei - Gilan retrucou, pegando as rédeas de Blaze, amarrando-as num nó e jogando-as sobre o pescoço do cavalo baio.
- Você pode começar com Puxão - ele disse para Will. - Assim Blaze vai poder descansar. Ele vai seguir você sem ser puxado pelas rédeas, e Puxão vai fazer a mesma coisa quando você estiver cavalgando Blaze. Amarre as rédeas desse jeito no pescoço de Puxão quando estiver montando Blaze para que elas não fiquem penduradas e não se prendam em nada.
Ele começou a se virar na direção de Halt e então se lembrou de uma coisa.
- Ah, sim, antes de montar nele pela primeira vez, lembre-se de dizer "olhos castanhos".
- Olhos castanhos - Will repetiu e Gilan não conseguiu evitar um sorriso.
- Não para mim. Para o cavalo.
Essa era uma antiga piada dos arqueiros e todos sorriram. Então Halt retomou o assunto principal.
- Will? Tem certeza de que consegue achar o caminho para Redmont?
Will assentiu. Ele tocou o bolso onde guardara sua copia do mapa e olhou para o sol para se orientar.
- Noroeste - ele disse tenso, indicando a direção que tinha escolhido.
Halt acenou com a cabeça satisfeito.
- Você vai chegar ao Rio Salmon antes do anoitecer e isso vai lhe dar um bom ponto de referência. A estrada principal fica só um pouco a oeste do rio. Mantenha um trote firme todo o tempo. Não tente se apressar, porque os cavalos só vão ficar cansados e, no final, você vai acabar andando mais devagar. Viaje com cuidado.
Halt saltou para a sela de Abelard e Will montou Puxão. Gilan apontou para Will e falou no ouvido de Blaze.
- Siga, Blaze, siga.
O cavalo baio, inteligente como todos os cavalos dos arqueiros, balançou a cabeça como se tivesse compreendido a ordem. Antes de partir, Will tinha mais uma pergunta que o vinha preocupando.
- Halt, as Ruínas de Gorlan... o que elas são exatamente? - ele quis saber.
- Isso não é uma ironia? - Halt respondeu. - Elas são as ruínas do Castelo Gorlan, o antigo feudo de Morgarath.
A cavalgada até o Castelo Redmont logo se transformou numa viagem cansativa. Os dois cavalos mantiveram o passo uniforme para o qual tinham sido treinados. É claro que houve a tentação de fazer que Puxão disparasse num galope violento, seguido por Blaze, mas Will sabia que esse ritmo o levaria ao fracasso. Ele estava avançando de acordo com a velocidade mais adequada aos cavalos. Porque o Velho Bob, o treinador de cavalos, tinha lhe dito que os cavalos dos arqueiros podiam trotar o dia todo sem se cansar.
Para o cavaleiro, a questão era muito diferente. Além do esforço físico de se mover constantemente ao ritmo do cavalo que estava montando - e os dois animais tinham passadas totalmente desiguais devido à diferença de tamanho - havia a tensão mental igualmente debilitante.
E se Halt estivesse enganado? E se, de repente, os Kalkaras tivessem desviado para o oeste e estivessem agora num curso que poderia interceptar o dele? E se ele cometesse algum erro terrível e não conseguisse chegar a Redmont a tempo?
O último receio, o medo causado pela insegurança, era o mais difícil de enfrentar. Apesar do duro treinamento que tinha recebido nos últimos meses, ele ainda era pouco mais que um garoto. E, o que era mais importante, antes sempre tinha podido contar com o julgamento e a experiência de Halt. Agora estava sozinho. E sabia o quanto dependia de sua habilidade para realizar a tarefa que tinha recebido.
Os pensamentos, as dúvidas, os medos enchiam sua mente cansada, tropeçando uns sobre os outros, acotovelando se em busca de posição. O Rio Salmon veio e foi sob o ritmo constante dos cascos de seus cavalos. Will parou rapidamente para dar de beber aos animais na ponte e então, já na Estrada do Rei, fez um tempo excelente, parando apenas rapidamente em intervalos regulares para mudar de montaria.
As sombras do dia ficaram mais compridas, e as árvores que pendiam sobre a estrada ficaram escuras e ameaçadoras. Cada barulho, cada movimento visto vagamente nas sombras, levava seu coração à boca.
Aqui, uma coruja piava e se lançava com as garras prontas para apanhar um rato descuidado. Ali, um texugo espreitava, caçando sua presa como uma sombra cinzenta nos arbustos da floresta. A cada movimento ou barulho, a imaginação de Will trabalhava sem parar. Ele começou a ver enormes vultos negros - parecidos com os Kalkaras de sua imaginação - em cada sombra, em cada grupo escuro de moitas que se mexia com a leve brisa. A razão lhe disse que seria muito improvável que os Kalkaras o estivessem procurando. A imaginação e o medo responderam que eles estavam lá fora em algum lugar. E quem podia garantir que não estavam perto?
A imaginação e o medo venceram.
E assim a noite longa e cheia de pavor passou, até que a luz baixa da madrugada encontrou um vulto curvado na sela de um cavalo forte de peito largo que galopava constantemente na direção do noroeste.
Will cochilou na sela e despertou com um susto, sentindo o calor dos raios do sol em cima dele. Delicadamente, puxou as rédeas de Puxão, e o pequeno cavalo ficou parado de cabeça baixa, respirando fundo. Will se deu conta de que tinha cavalgado durante muito mais tempo do que deveria e que o medo o tinha feito manter Puxão correndo na escuridão quando deveria tê-lo deixado descansar muito tempo atrás. Ele desmontou rígido, com o corpo todo dolorido, e parou para esfregar o focinho do cavalo com afeto.
- Desculpe, garoto - ele disse.
Puxão, reagindo ao toque e à voz que agora conhecia tão bem, moveu a cabeça e sacudiu a crina desgrenhada. Se Will tivesse pedido, ele teria continuado sem se queixar, até cair. Will olhou ao redor. A luz alegre da manhã tinha dispersado todos os temores sombrios da noite anterior. Agora, ele se sentia um pouco tolo ao lembrar os momentos de pânico paralisante. Will soltou as tiras da barrigueira da sela e deu ao seu cavalo uma pausa de dez minutos até que a respiração dele se acalmasse. Em seguida, maravilhado com o poder de recuperação e a resistência da raça de cavalos dos arqueiros, apertou a barrigueira na sela de Blaze e saltou no lombo do baio, gemendo levemente. Os cavalos dos arqueiros podiam se recuperar rapidamente, mas seus aprendizes levavam um pouco mais de tempo.
A manhã já estava no fim quando Will finalmente conseguiu ver o castelo Redmont. Estava montando Puxão outra vez quando atravessaram a última fileira de colinas e o vale verde do baronato Arald. O pequeno cavalo aparentemente não tinha sido afetado pela noite dura que tinha enfrentado.
Exausto, Will parou por alguns segundos e se apoiou no alto da sela. Eles tinham vindo para muito longe e bem depressa. Aliviado, observou os arredores conhecidos do castelo e a pequena vila simpática que se aninhava satisfeita em sua sombra. Fumaça saía das chaminés, fazendeiros caminhavam lentamente dos campos para casa, para a refeição do meio-dia. O castelo era sólido e tranquilizador em sua magnitude no alto da colina.
- Parece tudo tão... normal - Will disse para o cavalo.
Ele percebia que, de alguma forma, tinha esperado encontrar as coisas mudadas. O reino estava para entrar em guerra outra vez depois de quinze anos, mas ali a vida continuava normalmente.
Então, ao se dar conta de que estava perdendo tempo, ele fez Puxão andar mais depressa até atingir um galope, pois tanto o garoto quanto o cavalo estavam ansiosos para terminar esse último trecho da jornada.
Surpresas, as pessoas olhavam a passagem do pequeno vulto verde e cinza agachado sobre o pescoço do cavalo empoeirado, seguido por um cavalo baio maior. Um ou dois habitantes reconheceram Will e o cumprimentaram, mas suas palavras se perderam no barulho dos cascos.
O estrépito se transformou num martelar ressonante quando dispararam sobre a ponte levadiça abaixada e entraram no pátio dianteiro do castelo. Então, o martelar se tornou um estrondo apressado sobre as pedras da entrada. Will puxou as rédeas levemente, e Puxão parou na porta da torre do barão Arald.
Os dois homens armados que estavam de serviço, surpresos com o aparecimento repentino e ritmo vertiginoso do garoto, deram um passo à frente e barraram sua passagem com as lanças cruzadas.
- Pare aí, você! - disse um deles com aspereza. - Aonde pensa que vai com tanta pressa e fazendo tanto barulho?
Will abriu a boca para responder, mas antes de poder dizer alguma coisa uma voz zangada trovejou atrás dele.
- Que raios você pensa que está fazendo, seu idiota? Não reconhece um arqueiro do rei quando o vê?
Era sir Rodney, atravessando o pátio para ver o barão. As duas sentinelas ficaram em posição de sentido quando Will se virou agradecido para o mestre de guerra.
- Sir Rodney - ele disse. - Tenho uma mensagem urgente de Halt para lorde Arald e o senhor.
Como Halt tinha comentado com Will depois da caçada ao porco selvagem, o mestre de guerra era um homem esperto. Ele viu as roupas amarrotadas de Will e os dois cavalos cansados e percebeu que não era hora de fazer perguntas idiotas. Indicou a porta com o polegar.
- Melhor entrar e contar tudo. Mandem cuidar desses cavalos - ele ordenou aos guardas. - Dêem água e comida para eles.
- Só um pouco de cada, sir Rodney, por favor - Will acrescentou depressa. Apenas uma pequena quantidade de grãos e água e talvez uma escovada. Vou precisar deles logo.
Sir Rodney o olhou surpreso. Will e os cavalos davam a impressão de necessitar de um longo descanso.
- Deve ser alguma coisa muito urgente - ele respondeu. - Então, cuidem dos cavalos. E peçam para alguém levar comida e uma jarra de leite frio para o escritório do barão - ele pediu aos guardas.
Os dois cavaleiros assobiaram espantados quando Will lhes contou as novidades. Já se sabia que Morgarath estava reunindo um exército, e o barão tinha enviado mensageiros para formar tropas compostas de cavaleiros e homens armados. Mas as informações sobre os Kalkaras eram algo totalmente diferente, e não havia indícios de que eles tinham se aproximado do Castelo Redmont.
- Halt acha que eles podem estar atrás do rei? - o barão Arald perguntou quando Will terminou de falar.
O garoto assentiu.
- Sim, senhor. Mas acho que há outra possibilidade - Will acrescentou depois de hesitar.
Ele não queria continuar, mas o barão fez um gesto para que prosseguisse, e Will finalmente externou a suspeita que vinha crescendo dentro dele.
- Senhor... eu acho que é possível que eles estejam atrás do próprio Halt.
Depois de dizer o que pensava e de ter exposto seu receio, ele se sentiu melhor. De alguma forma, para sua surpresa, o barão Arald não rejeitou a idéia. Ele afagou a barba pensativo, enquanto digeria as palavras que tinha ouvido.
- Continue - ele disse, querendo ouvir o raciocínio de Will.
- É que Halt acha que Morgarath talvez queira se vingar, punir os que lutaram contra ele da última vez. E eu acho que foi Halt quem mais o prejudicou, não é mesmo?
- Isso é verdade - Rodney concordou.
- E achei que talvez os Kalkaras soubessem que os estávamos seguindo, que o homem da planície teve tempo suficiente para encontrar eles. E que talvez eles estivessem atraindo Halt até encontrarem um lugar para uma emboscada. Assim, enquanto ele pensa que está caçando os Kalkaras, na verdade é ele quem está sendo caçado.
- E as Ruínas de Gorlan seriam o lugar ideal para isso - Arald concordou. - Naquele amontoado de pedras, eles podem chegar até Halt antes que ele tenha a chance de usar seu arco. Bem, Rodney, não há tempo a perder. Você e eu vamos imediatamente. Meia armadura, eu acho. Vamos ser mais rápidos dessa forma. Lanças, machados e espadas. E vamos levar dois cavalos cada; vamos seguir o exemplo de Will. Partiremos dentro de uma hora. Diga para Karel reunir dez cavaleiros e nos seguir assim que puder.
- Sim, meu senhor - o mestre de guerra respondeu. O barão Arald se voltou para Will.
- Você fez um bom trabalho, Will. Vamos cuidar de tudo agora. E parece que você poderia aproveitar algumas horas de um bom sono.
Exausto, com dor em todos os músculos e juntas, Will endireitou o corpo.
- Gostaria de ir com vocês, senhor - ele percebeu que o barão ia discordar e acrescentou rapidamente. - Senhor, nenhum de nós sabe o que vai acontecer, e Gilan está lá fora em algum lugar a pé. Além disso... - ele hesitou.
- Continue, Will - o barão pediu em voz baixa e, quando o garoto olhou para cima, Arald viu frieza em seu olhar.
- Halt é meu mestre, senhor, e ele está em perigo. Meu lugar é ao lado dele - Will acrescentou.
O barão o avaliou com um olhar penetrante e então tomou uma decisão.
- Muito bem. Mas, pelo menos, tente descansar por uma hora. Há uma cama naquele anexo ali - ele ofereceu, indicando uma seção separada por uma cortina ao lado do escritório. - Por que não a usa?
- Sim, senhor - Will concordou agradecido.
Suas pálpebras pesavam como se estivessem cheias de areia. Ele nunca se sentira mais feliz em obedecer a uma ordem em toda a sua vida.
Durante toda aquela longa tarde, Will teve a impressão de que tinha passado a vida toda numa sela, fazendo um intervalo somente nos momentos de trocar de cavalo.
Uma breve pausa para desmontar, soltar a barrigueira do animal que estava montando, colocar a sela no cavalo que o acompanhava, montar novamente e continuar. Repetidas vezes, ele se admirou da fantástica resistência mostrada por Puxão e Blaze, que mantinham o galope constante. Até teve que freá-los um pouco para acompanhar os cavalos de batalha montados pelos dois cavaleiros. Mesmo grandes, fortes e treinados para a guerra, eles não conseguiam seguir o ritmo constante dos cavalos dos arqueiros, apesar de estarem descansados quando o pequeno grupo deixou o Castelo Redmont.
Eles cavalgavam sem falar. Não havia tempo para conversa fiada e, mesmo que houvesse, seria difícil escutar o que estavam falando por causa do barulho forte dos quatro cavalos de batalha, o bater mais leve dos cascos de Puxão e Blaze e o constante chacoalhar do equipamento e das armas.
Os dois homens carregavam compridas lanças de guerra - varas cinzentas e duras de mais de 3 metros de comprimento com uma pesada ponta de ferro. Além disso, cada um levava uma espada presa à sela. Eram armas enormes e pesadas muito maiores que as espadas normalmente usadas no dia-a-dia; e Rodney levava uma pesada acha pendurada na parte traseira da sela. Porém era nas lanças que eles confiavam mais. Elas manteriam os Kalkaras a distância e assim reduziriam a chance de que os cavaleiros fossem paralisados pelo terrível olhar das duas bestas. Aparentemente, o olhar hipnótico só era eficiente quando muito próximo. Se um homem não pudesse ver os olhos dos monstros com clareza, havia pouca possibilidade de que fosse paralisado.
O sol estava se escondendo rapidamente atrás deles e jogava as sombras longas e distorcidas para a frente. Arald olhou a posição do sol por cima do ombro e chamou Will.
- Quanto tempo ainda temos de luz, Will?
Will se virou na sela e olhou com atenção para a bola de luz que caía no horizonte.
Menos de uma hora, senhor.
O barão balançou a cabeça indeciso. Então vai ser difícil chegar lá antes do anoitecer - afirmou.
Ele instigou o cavalo a avançar, aumentando um pouco a velocidade. Puxão e Blaze o acompanharam sem esforço. Ninguém queria caçar os Kalkaras no escuro.
A hora de descanso no castelo tinha operado maravilhas em Will, mas agora parecia que tinha acontecido numa outra vida. Ele pensou nas instruções apressadas que Arald tinha dado quando montaram os animais para deixar Redmont. Se encontrassem os Kalkaras nas Ruínas de Gorlan, Will deveria ficar para trás enquanto o barão e sir Rodney atacavam os dois monstros. Não havia táticas complicadas, apenas um ataque impetuoso que poderia pegar os dois assassinos de surpresa.
- Se Halt estiver lá, tenho certeza de que também vai nos ajudar. Mas quero você longe do nosso caminho, Will. Esse seu arco não vai servir de nada num Kalkara.
- Sim, senhor - Will tinha dito.
Ele não tinha intenção de se aproximar dos monstros. Estava mais do que satisfeito em deixar o assunto para os dois cavaleiros, protegidos por escudos, capacetes e meias armaduras de malha de ferro. Contudo, as palavras seguintes de Arald desfizeram rapidamente qualquer confiança exagerada que ele pudesse ter na capacidade dos homens em lidar com as bestas.
- Se as malditas coisas nos vencerem, quero que corra em busca de mais ajuda. Karel e os outros vão estar em algum lugar atrás de nós. Encontre-os e depois procure os Kalkaras com eles. Siga essas bestas e mate-as.
Will não disse nada. O simples fato de Arald considerar o fracasso, quando ele e Rodney eram os dois melhores cavaleiros num raio de 200 quilômetros, fez aumentar ainda mais sua preocupação com os Kalkaras. Pela primeira vez, o garoto percebeu que as probabilidades estavam contra eles nessa disputa.
O sol tremia na beira do mundo, as sombras haviam atingido seu comprimento máximo e eles ainda tinham que percorrer muitos quilômetros. O barão Arald ergueu a mão e fez o grupo parar. Ele olhou para Rodney e apontou as tochas embebidas em piche que cada homem carregava atrás das selas.
- Tochas, Rodney - ele disse rapidamente.
O mestre de guerra hesitou por um momento.
- Tem certeza, senhor? Elas vão mostrar nossa posição se os Kalkaras estiverem vigiando.
- Eles vão nos ouvir chegar de qualquer forma - Arald disse, dando de ombros. - E entre as árvores vamos nos mover devagar demais sem luz. Vamos correr o risco.
Ele preparou sua pedra-de-fogo, formando uma fagulha que acendeu o pequeno pavio e logo criou uma chama forte. Segurou a tocha perto do fogo, e o piche em que estava impregnada de repente se acendeu e explodiu numa chama amarela. Rodney se inclinou na sua direção com a outra tocha e a acendeu na chama do barão. Então, segurando as tochas para o alto, as lanças presas por tiras de couro enroladas em seus pulsos direitos, eles retomaram o galope, trovejando na escuridão debaixo das árvores quando finalmente deixaram a estrada larga que vinham percorrendo desde o meio-dia.
Passaram-se outros dez minutos quando ouviram os gritos.
Era um som fantasmagórico que fazia o estômago dar voltas e congelava o sangue. Involuntariamente, o barão e sir Rodney puxaram as rédeas dos animais. Os cavalos ficaram extremamente agitados. O barulho vinha de algum ponto adiante deles, aumentando e diminuindo.
- Bom Deus nos céus! - o barão exclamou. - O que foi isso? - ele indagou com a expressão assustada.
O som infernal atravessou a noite e foi respondido por outro uivo idêntico.
Will já tinha ouvido o terrível som antes. Ele sentiu o sangue sumir do rosto quando se deu conta de que seus temores mostravam ter fundamento.
- São os Kalkaras. Eles estão caçando.
E ele sabia que havia apenas uma pessoa atrás da qual podiam estar. Eles tinham voltado e estavam caçando Halt.
- Olhe, meu senhor! - Rodney disse, apontando para o céu que escurecia rapidamente.
Através de um espaço na proteção oferecida pelas árvores, eles viram uma súbita rajada de luz se refletindo no céu, sinal de um incêndio num lugar próximo.
- É Halt! - o barão disse. - Tem que ser. Ele precisa de ajuda! Arald pressionou as esporas nos flancos do cansado cavalo de batalha, impelindo o animal para a frente em um galope ensurdecedor. A tocha em sua mão deixava chamas e faíscas para trás enquanto sir Rodney e Will o seguiam a galope.
Era uma sensação estranha seguir aquelas tochas flamejantes e agitadas com suas línguas alongadas de fogo soprando para trás por entre as árvores, jogando sombras esquisitas e apavorantes entre elas, enquanto à frente deles o brilho do fogo maior, presumivelmente aceso por Halt, ficava mais forte e próximo a cada passo.
Eles saíram do meio das árvores praticamente sem aviso e se depararam com uma cena de pesadelo.
Havia uma pequena clareira coberta por capim. Além dela, o terreno estava tomado por um amontoado de rochas e matacões.
Pedaços gigantescos de paredes, ainda unidas por argamassa, estavam espalhados pelos lados, as vezes meio enterrados no solo macio coberto de grama. As paredes em ruínas do Castelo Gorlan cercavam a cena em tres lados, nunca ultrapassando 5 metros, destruídas e derrubadas por um reino vingativo depois que Morgarath tinha sido obrigado a partir para o sul, para as Montanhas da Chuva e da Noite. O caos resultante era como o playground de uma criança gigante - pedras espalhadas em todas as direções, empilhadas com descuido umas em cima das outras, praticamente sem deixar nenhum pedaço de terreno descoberto.
Toda a cena era iluminada pelas chamas saltitantes e retorcidas de uma fogueira acesa a uns 40 metros de distância. E ao lado dela estava agachada uma figura horrível, gritando com ódio e fúria, batendo inutilmente na ferida mortal no peito que finalmente a tinha derrubado.
Com mais de 2,5 metros de altura e pêlos desgrenhados e emaranhados, parecidos com escamas, cobrindo todo o corpo, o Kalkara tinha braços compridos que terminavam em garras e que chegavam abaixo de seus joelhos. Pernas traseiras fortes e relativamente curtas lhe davam a capacidade de percorrer distâncias a uma velocidade enganosa, com uma série de saltos e pulos. Os três cavaleiros viram tudo isso quando saíram do bosque. Mas o que mais lhes chamou a atenção foi a cara: selvagem e parecida com a de um macaco, dentes caninos amarelados e enormes olhos vermelhos brilhantes cheios de ódio e de desejo cego de matar. A cara se virou para eles, e a besta gritou em desafio, tentando se levantar, mas voltando a cair, meio encolhida.
- O que há de errado com ele? - Rodney perguntou, fazendo seu cavalo parar.
Will apontou para o grupo de flechas que se projetava de seu peito. Devia haver seis delas, todas a cerca de um palmo de distância uma da outra.
- Olhe! - ele gritou. - Veja as flechas!
Halt, com sua incrível pontaria, deve ter mandado uma saraivada de flechas, uma depois da outra, para cortar o pêlo rígido como uma armadura. Cada uma aumentou a brecha nas defesas do monstro, até que a ultima penetrou no fundo de sua carne. Seu sangue negro corria profusamente pelas costas, e o monstro gritou outra vez com ódio. - Rodney! - o barão Arald gritou. - Comigo! Agora!
Soltando a rédea do cavalo reserva, ele segurou de um lado a tocha acesa, inclinou a lança e a jogou. Rodney estava meio segundo atrás dele, os dois cavalos de batalha trovejando pelo espaço aberto. O Kalkara, com o sangue encharcando o chão aos seus pés, levantou-se e foi atingido no peito pelas pontas das duas lanças, uma após a outra.
O monstro estava quase morto, mas mesmo assim seu peso e sua força contiveram a corrida dos cavalos de batalha. Eles empinaram o corpo quando os dois cavaleiros se inclinaram nos estribos para empurrar as lanças no peito da criatura. A ponta de ferro afiada penetrou na carne e atravessou os pêlos emaranhados. A força da investida fez o Kalkara perder o equilíbrio e o jogou para trás, para dentro das chamas.
Durante um instante, nada aconteceu. Então eles viram um clarão ofuscante e um pilar de chamas vermelhas que atingiu 10 metros de altura no céu da noite. E, de uma forma muito simples, o Kalkara desapareceu.
Os dois cavalos de batalha se empinaram apavorados, e Rodney e o barão mal conseguiam se manter nas selas. Eles se afastaram do fogo, e todos sentiram um cheiro forte e desagradável de carne e pêlos queimados. Will se lembrou vagamente de Halt discutir a forma de lidar com um Kalkara. Ele tinha contado que se dizia que eles eram especialmente suscetíveis ao fogo. "Parece que os boatos estavam certos", Will pensou, fazendo Puxão trotar para junto dos dois cavaleiros.
Rodney estava esfregando os olhos, ainda atordoado pelo clarão forte.
- Que diabos causou isso?
O barão tirou a lança do fogo com cuidado. A madeira estava queimada, e a ponta, escurecida.
- Deve ser a substância pegajosa que cobre os pelos deles e forma essa couraça dura - ele respondeu num tom de voz espantado. - Ela deve ser ligeiramente inflamável.
- Bem, o que quer que fosse, nós conseguimos derrotar - Rodney retrucou com um tom satisfeito na voz. O barão balançou a cabeça.
- Halt conseguiu - ele corrigiu o mestre de guerra. - Nós só demos o último golpe.
Rodney concordou com um gesto de cabeça, aceitando a correção. O barão olhou para o fogo, que ainda jogava uma torrente de faíscas no ar, mas cujas chamas vermelhas já estavam se acalmando.
- Halt deve ter acendido esse fogo quando percebeu que eles o estavam cercando. Ele incendiou a área para ter luz e poder atirar.
- E atirou mesmo - sir Rodney afirmou. - Todas as flechas acertaram pontos muito próximos uns dos outros.
Eles olharam ao redor, procurando algum sinal do arqueiro. Então, debaixo das paredes em ruínas do castelo, Will viu um objeto conhecido. Ele desmontou e correu para apanhá-lo. Seu coração se apertou no peito quando pegou o poderoso arco de Halt, esmagado e partido em dois pedaços.
- Ele deve ter atirado daqui - falou, indicando o ponto abaixo das paredes caídas onde tinha achado o arco.
Todos olharam para cima, imaginando a cena, tentando recriá-la. O barão apanhou a arma destruída da mão de Will quando este montou novamente em Puxão.
- E o segundo Kalkara o alcançou enquanto ele matava seu irmão - ele disse. - A pergunta é: onde Halt está agora? E onde está o outro Kalkara?
Foi quando eles ouviram os gritos recomeçarem.
Halt estava agachado entre os tijolos caídos que antes tinham sido a fortaleza de Morgarath, dentro do pátio em ruínas coberto de mato. Sua perna, dormente onde o Kalkara a tinha arranhado, estava começando a latejar dolorosamente, e ele sentia o sangue atravessando a atadura improvisada que tinha amarrado em volta dela.
Ele sabia que o segundo Kalkara o estava procurando em algum lugar ali perto. De tempos em tempos, ouvia o movimento dos pés se arrastando e chegou a escutar sua respiração dura quando o monstro se aproximou de seu esconderijo entre duas paredes caídas. Halt sabia que era só uma questão de tempo até que a criatura o encontrasse. E, quando isso acontecesse, ele estaria acabado.
Halt estava ferido e desarmado. Tinha perdido o arco, despedaçado naquele primeiro e apavorante ataque em que disparou uma flecha depois da outra no primeiro dos dois monstros. Ele conhecia o poder de seu arco e a capacidade de penetração das flechas pesadas e afiadíssimas. Não conseguia acreditar que o monstro tinha recebido aquela chuva de flechas e aparentemente ainda continuava com a mesma coragem. Quando ele cambaleou, já era tarde demais para que Halt voltasse sua atenção para o companheiro. O segundo Kalkara estava quase em cima dele, arrancando o arco de sua mão e esmagando-o com a pata forte cheia de garras, de modo que ele mal teve tempo de arrastar-se para um local seguro perto da parede caída.
Enquanto o monstro o perseguia, atacando tudo à sua volta com as garras, ele tinha empunhado a faca e golpeado a terrível cabeça.
Mas a besta foi rápida demais para ele, e a pesada faca atingiu seu braço coberto pela malha da armadura. Ao mesmo tempo, ele se viu confrontado pelos olhos vermelhos cheios de ódio e sentiu-se perdendo a consciência. Os músculos começaram a ficar paralisados de terror quando se viu atraído para a horrível besta diante dele. Foi necessário um esforço imenso para desviar os olhos da criatura, e ele cambaleou para trás, perdendo a faca quando as garras de urso o atacaram e arranharam a sua coxa.
Então ele correu desarmado e sangrando, contando com o confuso labirinto que eram as ruínas para fugir do monstro que o perseguia.
Ele tinha percebido a mudança nos movimentos dos Kalkaras no final da tarde. Sua rota constante e anteriormente inalterada para o noroeste de repente mudou quando as duas bestas se separaram abruptamente, cada qual fazendo uma curva de 90 graus e andando em direções diferentes para dentro da floresta que os cercava. Suas pegadas, até aquele momento tão fáceis de seguir, também mostravam sinais de que estavam sendo encobertas, de modo que somente alguém habilidoso como um arqueiro teria sido capaz de segui-las. Pela primeira vez em anos, Halt sentiu um calafrio de medo no estômago quando se deu conta de que agora a caça era ele.
As ruínas estavam perto, então ele resolveu ficar ali, e não no bosque. Deixou Abelard em segurança, longe de qualquer perigo, e foi a pé para as ruínas. Ele sabia que os Kalkaras iriam persegui-lo assim que a noite caísse, então se preparou da melhor forma possível, reunindo galhos caídos para fazer uma fogueira. Halt até encontrou uma jarra de óleo nas ruínas da cozinha, rançoso e malcheiroso, mas que ainda iria queimar. Ele o derramou na pilha de lenha e se afastou até um ponto onde poderia ficar de costas para a parede. Tinha arrumado uma série de tochas e as deixou queimando enquanto escurecia, esperando que os matadores implacáveis o procurassem.
O arqueiro sentiu a presença deles antes de vê-los. Então enxergou os dois vultos trôpegos, duas manchas mais escuras contra a escuridão das árvores. Naturalmente, eles o viram de imediato. A tocha trêmula presa na parede garantiu isso. Mas eles não viram a pilha de lenha embebida em óleo, e era com isso que ele contava. Quando soltaram seus gritos de caça, Halt jogou a tocha flamejante na pilha e as chamas subiram no mesmo instante, espalhando um brilho amarelo na noite.
Por um momento, as bestas hesitaram, pois o fogo era seu único inimigo. Mas, quando viram que o arqueiro não estava próximo das chamas, continuaram - direto para a chuva de flechas com que Halt as recebeu.
Se tivessem mais 100 metros para percorrer, talvez Halt tivesse conseguido derrotar as duas. Ainda havia mais de dez flechas na aljava, mas o tempo e a distância corriam contra ele, que mal tinha escapado com vida. Agora, estava agachado entre dois pedaços de muro caído que formavam uma pequena gruta, escondido numa leve reentrância do terreno e oculto pela capa, como acontecia há anos. Sua única esperança era que Will chegasse com Arald e Rodney. Se pudesse escapar da criatura até que a ajuda chegasse, talvez tivesse uma chance.
Ele tentou não pensar na outra possibilidade - a de que Gilan chegasse antes deles, sozinho e armado apenas com o arco e a espada. Agora que tinha visto os Kalkaras de perto, Halt sabia que um homem tinha poucas chances de enfrentá-los. Se Gilan chegasse antes dos cavaleiros, ele e Halt morreriam ali.
Naquele momento, a criatura estava rodeando o velho pátio como um cão à procura da caça, adotando um padrão de busca metódico, para a frente e para trás, examinando cada espaço, cada buraco, cada possível esconderijo. Halt sabia que desta vez ela o encontraria. Sua mão tocou o cabo da pequena faca, a única arma que restava. Seria uma defesa insignificante, quase inútil, mas era tudo o que tinha.
Então ele ouviu: o inconfundível trovejar dos cascos dos cavalos de batalha. Olhou para cima e observou o Kalkara por uma pequena fresta entre as pedras que o escondiam. O monstro também os tinha ouvido e estava de pé, ereto, a cara voltada para o som que vinha de fora das paredes em ruínas.
Os cavalos pararam, e Halt ouviu o grito agudo do Kalkara mortalmente ferido ao desafiar os novos inimigos. As batidas dos cascos se fizeram ouvir de novo e ganharam velocidade e força. Seguiu-se um grito e um clarão vermelho gigantesco que subiu para o céu por um momento. Vagamente, Halt deduziu que o primeiro Kalkara devia ter sido jogado no fogo. Ele começou a recuar devagar para fora do esconderijo. Talvez pudesse escapar do outro Kalkara movendo-se para o lado e escalando a parede antes que ele o visse. As chances pareciam boas. A atenção do monstro estava voltada para o que quer que estivesse acontecendo do lado de fora. Mas, assim que teve a idéia, percebeu que não tinha opção. Embora aparentemente o Kalkara o tivesse esquecido por um momento, a criatura estava se movendo furtivamente em direção às ruínas que formavam uma escada irregular para o alto do muro.
Em mais alguns minutos, a besta estaria em posição de cair sobre os amigos despreocupados do outro lado, tomando-os de surpresa. Halt tinha que impedi-la.
O arqueiro já estava fora do esconderijo, a pequena faca saindo da bainha quase por vontade própria, quando ele correu pelo pátio, desviando-se e fazendo círculos ao redor do entulho espalhado. O Kalkara o escutou antes que ele tivesse dado dez passos e se virou para ele, assustadoramente silencioso quando pulou como um macaco para impedir sua passagem antes que pudesse avisar os amigos sobre o perigo.
Halt parou de repente e ficou imóvel, com o olhar preso na figura trôpega que se aproximava dele.
Alguns metros a mais e o olhar hipnótico iria controlar a sua mente. Ele sentiu uma vontade irresistível de encarar aqueles olhos vermelhos, mas então fechou os olhos, a testa franzida numa concentração intensa. Levantou a mão que segurava a faca e agitou-a para a frente e para trás num ataque suave e instintivo, vendo o alvo se mexer em sua cabeça, mentalmente alinhando o arremesso para o ponto no espaço aonde a faca e o alvo iriam chegar ao mesmo tempo.
Somente um arqueiro, entre muito poucos, poderia ter lançado a arma daquele jeito. A faca atingiu o olho direito do Kalkara, e a besta gritou furiosa quando se encolheu por causa da repentina pontada de agonia que começava em seu olho e se espalhava pelo corpo todo! Então Halt passou correndo por ele na direção do muro e subiu as pedras com dificuldade.
Will viu o vulto envolto em sombras que escalava na direção do topo do muro em ruínas. Mas, escondido pelas sombras ou não, havia algo de inconfundível nele.
- Halt! - ele gritou, apontando para que os dois cavaleiros também o vissem.
Todos os três viram o arqueiro parar, olhar para trás e hesitar. Então um vulto enorme começou a aparecer alguns metros atrás dele quando o Kalkara, cujo ferimento era dolorido, mas nada mortal, o perseguiu.
O barão Arald pensou em montar, mas, percebendo que nenhum cavalo poderia passar pela confusão de pedras e tijolos ao lado da parede, tirou a imensa espada da sela e correu na direção das ruínas.
- Para trás, Will! - ele gritou quando avançou.
Nervoso, Will levou Puxão de volta para a beira das árvores.
No muro, Halt ouviu o grito e viu Arald correndo para a frente. Sir Rodney estava logo atrás dele, girando uma enorme acha em círculos em volta da cabeça.
- Pule, Halt! Pule! - o barão gritou, e Halt não precisou de outro convite.
Ele saltou 3 metros para baixo, rolando para amortecer a queda quando aterrissou. Então, levantou-se e correu desajeitado ao encontro dos dois cavaleiros, enquanto o ferimento da perna tornava a abrir.
Com o coração na boca, Will viu Halt correr na direção dos dois cavaleiros. O Kalkara hesitou um momento e então, com um grito de desafio apavorante, pulou atrás dele. O monstro simplesmente transformou a queda de 3 metros num pulo enorme, suas pernas traseiras incrivelmente poderosas fazendo que fosse impulsionado para cima e para a frente, cobrindo o terreno entre ele e Halt nesse único movimento. O braço forte girou, atingindo Halt com violência e fazendo que ele rolasse para a frente inconsciente. Mas a besta não teve tempo de acabar com ele, pois o barão Arald o enfrentou e dirigiu a espada num arco mortal na direção de sua garganta.
O Kalkara foi cruelmente rápido e se abaixou, desviando do arremesso mortal e atacando as costas expostas de Arald com as garras antes que ele pudesse se recuperar do golpe. Elas rasgaram a malha de metal como se fosse um tecido fino, e Arald grunhiu de dor e surpresa quando a força do ataque o jogou de joelhos, obrigando-o a soltar a espada. Sangue jorrava de vários arranhões nas costas.
Ele teria morrido ali se não fosse por sir Rodney. O mestre de guerra girou a pesada acha como se fosse um brinquedo e golpeou a lateral do corpo do Kalkara.
A armadura de pêlos emaranhados protegeu a besta, mas a força imensa do golpe a fez cambalear e se afastar do cavaleiro com gritos furiosos e frustrados. Sir Rodney avançou protetoramente e se colocou com os pés firmes entre o monstro e as figuras caídas de Halt e do barão, preparando a arma para outro golpe fulminante.
E então, estranhamente, ele deixou a arma cair e ficou parado diante da criatura, totalmente à sua mercê. O poder do olhar do Kalkara roubara-lhe a vontade própria e a capacidade de pensar.
O Kalkara gritou vitorioso para o céu noturno. Um sangue negro escorria de sua cara. Nunca em sua vida ele tinha sentido dor parecida com a que aqueles três homens insignificantes haviam provocado. E agora eles iriam morrer por ousarem enfrentá-lo. Mas a inteligência primitiva que o guiava queria seu momento de triunfo, e ele gritou repetidas vezes diante dos três homens indefesos.
Will assistia a tudo horrorizado. Um pensamento se formava, uma idéia tomava corpo em algum lugar de sua mente. Ele olhou para o lado e viu a tocha bruxuleante que o barão Arald tinha soltado. Fogo. A única arma que poderia derrotar o Kalkara. Mas ele estava a 40 metros de distância...
Ele tirou uma flecha da aljava, escorregou da sela e correu rapidamente até a tocha tremeluzente. Uma grande quantidade de piche grudento e derretido tinha escorrido pelo cabo da tocha e, depressa, ele passou a ponta da flecha no líquido pegajoso e mole, cobrindo-a generosamente. Em seguida, encostou-a na chama até que se acendesse.
A 40 metros dali, a enorme criatura perversa estava satisfazendo sua necessidade de vitória, fazendo que seus gritos se espalhassem e ecoassem pela noite enquanto ficava de pé junto dos dois corpos: Halt, inconsciente, e o barão Arald, atordoado pela dor. Sir Rodney ainda estava parado no mesmo lugar, paralisado, com as mãos indefesas penduradas ao lado do corpo enquanto esperava a morte. Agora, o Kalkara levantava uma pata imensa para jogá-lo no chão, e o cavaleiro só conseguia sentir o terror paralisante de seu olhar.
Will preparou-se para atirar a flecha, estremecendo com a dor quando as chamas lhe queimaram a mão que segurava o arco. Ele mirou um pouco acima do seu alvo por causa do peso adicional do piche e soltou a flecha.
Ela descreveu um arco brilhante e rápido, e o vento provocado por sua passagem transformou a chama numa simples brasa. O Kalkara viu o clarão de luz se aproximando e se virou para olhar, selando seu próprio destino quando a flecha o atingiu diretamente no peito largo.
A flecha quase não penetrou os pêlos duros parecidos com escamas, mas, quando parou, a pequena chama voltou a se incendiar, e o fogo se espalhou nos pêlos emaranhados com incrível rapidez.
Assim que sentiu o toque do fogo, o Kalkara foi tomado pelo terror.
O monstro bateu nas chamas em seu peito com as patas, mas isso apenas serviu para espalhar o fogo para os braços. As chamas vermelhas avançaram depressa, e em segundos o Kalkara foi envolvido por elas, queimando dos pés à cabeça enquanto corria cegamente em círculos, tentando em vão escapar. Os gritos agudos não paravam e ficavam cada vez mais altos, atingindo uma escala de agonia que a mente mal podia compreender. As chamas ficavam mais intensas a cada segundo. Então os gritos pararem e a criatura morreu.
A pousada na vila Wensley estava tomada por música, risos e barulho. Will estava sentado à mesa com Horace, Alyss e Jenny, enquanto o dono lhes servia um suculento jantar de ganso assado e legumes frescos da fazenda, seguido de uma deliciosa torta de mirtilo cuja massa leve ganhou até a aprovação de Jenny.
Tinha sido idéia de Horace comemorar a volta de Will para o Castelo Redmont com um banquete. As duas meninas tinham concordado imediatamente, ansiosas por uma pausa na rotina, que agora parecia um tanto monótona comparada aos acontecimentos de que Will tinha participado.
Naturalmente, a notícia sobre a batalha com os Kalkaras tinha se espalhado na vila como uma fogueira ao vento, uma comparação extremamente apropriada, na opinião de Will. Quando ele entrou na pousada com os amigos naquela noite, um silêncio curioso tomou conta do aposento e todos os olhares se voltaram para ele. Will ficou agradecido pelo fato de o grande capuz esconder o seu rosto, que corava rapidamente. Os três companheiros perceberam seu constrangimento. Jenny, como sempre, foi a primeira a reagir e a quebrar o silêncio que enchia a pousada.
- Vamos, gente séria! - ela gritou para os músicos perto da lareira. - Vamos ouvir um pouco de música! E um pouco de conversa também! - ela acrescentou a segunda sugestão com um olhar significativo para os outros ocupantes da sala.
Os músicos aceitaram a sugestão. Era difícil recusar qualquer coisa sugerida por Jenny. Rapidamente, eles começaram a tocar uma canção folclórica conhecida e o som dominou o salão. Aos poucos, os outros moradores perceberam que sua atenção estava deixando Will pouco a vontade e, lembrando-se das boas maneiras, recomeçaram a conversar, olhando apenas de vez em quando para o rapaz, admirando-se de que alguém tão jovem pudesse ter participado de acontecimentos tão importantes.
Os quatro antigos colegas protegidos do castelo sentaram-se a uma mesa no fundo da sala, onde poderiam conversar sem ser interrompidos.
- George mandou pedir desculpas - Alyss disse quando se sentaram. - Ele está atolado de serviço. Toda a Escola de Escribas está trabalhando dia e noite.
Will acenou compreensivo. A guerra iminente com Morgarath e a necessidade de mobilizar tropas e retomar antigas alianças certamente criara montanhas de papelada.
Muita coisa tinha acontecido nos dez dias desde a batalha com os Kalkaras.
Depois de acampar junto das ruínas, Rodney e Will cuidaram dos ferimentos do barão Arald e de Halt, finalmente conseguindo fazer que os dois homens dormissem tranquilamente. Logo depois do amanhecer, Abelard entrou trotando no acampamento, procurando ansiosamente pelo dono. Will tinha acabado de acalmar o animal quando Gilan chegou exausto, cavalgando um pequeno cavalo de trabalho. Agradecido, o alto arqueiro recuperou Blaze. Então, depois de se convencer de que o antigo mestre não corria perigo, partiu quase imediatamente para o próprio feudo, depois que Will prometeu devolver o cavalo ao lavrador.
Mais tarde naquele dia, Will, Halt, Rodney e Arald tinham voltado ao Castelo Redmont, onde mergulharam numa atividade ininterrupta para preparar os guerreiros do castelo para a guerra. Havia milhares de detalhes a serem acertados, mensagens a serem enviadas e convocações a serem entregues. Como Halt ainda estava se recuperando do ferimento, grande parte desse trabalho tinha recaído sobre Will.
Ele percebeu que em épocas como aquela um arqueiro tinha pouco tempo para relaxar, o que tornava aquela noite uma diversão bem-vinda. O dono da pousada foi afobado até a mesa deles e colocou sobre ela quatro canecas de vidro e uma jarra da cerveja sem álcool, que ele preparava com gengibre.
- Hoje é por conta da casa - ele avisou. - Estamos honrados por ter você em nosso estabelecimento, arqueiro.
Ele se afastou, chamando um de seus ajudantes para atender a mesa de Will.
- E seja bem rápido! - ele ordenou. Alyss olhou para ele surpresa.
- É bom estar com uma celebridade - ela disse. - O velho Skinner geralmente segura as moedas com tanta força que a cabeça do rei fica sufocada.
- As pessoas exageram - Will disse com um gesto de indiferença.
Mas Horace se inclinou para a frente com os cotovelos na mesa.
- Então conte para a gente como foi a luta - ele pediu ansioso por detalhes.
Jenny olhou para Will de olhos arregalados.
- Não acredito que vocês tenham sido tão corajosos! - ela disse com admiração. - Eu teria ficado apavorada.
- Para falar a verdade, eu estava petrificado - Will confessou para eles com um sorriso triste. - O barão e sir Rodney foram os corajosos. Eles atacaram e enfrentaram as criaturas bem de perto. Eu fiquei a 40 ou 50 metros de distância o tempo todo.
Will descreveu os acontecimentos da batalha sem entrar em muitos detalhes sobre a aparência dos Kalkaras. Eles estavam mortos e acabados e seria melhor esquecê-los o mais depressa possível. Não era necessário se preocupar com determinadas coisas. Os três colegas ouviam, Jenny de olhos arregalados e entusiasmada, Horace ansioso por detalhes da luta e Alyss calma e digna como sempre, mas totalmente atenta a história. Quando ele descreveu sua cavalgada solitária para buscar ajuda, Horace balançou a cabeça admirado.
- Esses cavalos dos arqueiros devem ser de uma raça especial.
Will sorriu para ele, incapaz de resistir a fazer o comentário engraçado que tinha vindo à sua mente.
- O truque é se manter em cima deles - ele disse, ficando satisfeito ao ver um sorriso igual surgir no rosto de Horace quando ambos lembraram a cena da Feira do Dia da Colheita.
Ele percebeu, com um leve toque de prazer, que seu relacionamento com Horace tinha se transformado numa amizade profunda em que os dois se viam como iguais. Ansioso para sair de baixo dos holofotes, ele perguntou ao amigo como ia a vida na Escola de Guerra. O sorriso no rosto do garoto maior se alargou.
- Muito melhor, graças ao Halt - ele disse e, quando Will habilmente o cobriu de mais perguntas, ele descreveu a vida na Escola de Guerra, brincando sobre seus erros e fracassos, rindo quando contou quantas vezes tinha sido punido.
Will percebeu que Horace, antes um pouco exibido e arrogante, estava muito mais modesto ultimamente. Ele desconfiava de que Horace estava se saindo melhor como aprendiz de guerreiro do que deixava transparecer.
Foi uma noite agradável, principalmente depois da tensão e do terror da caçada aos Kalkaras. Quando os ajudantes tiraram os pratos, Jenny sorriu esperançosa para os dois garotos.
- Muito bem! Agora, quem vai dançar comigo? - ela perguntou alegremente, e Will foi lento demais para responder.
Horace tomou a mão dela e a levou para a pista de dança. Quando eles se juntaram aos demais dançarinos, Will olhou para Alyss sem saber bem o que fazer. Ele nunca sabia dizer o que a garota estava pensando. Achou que talvez fosse educado também convidá-la para dançar. Então pigarreou nervoso.
- Ahn... você também gostaria de dançar, Alyss? - convidou desajeitado.
Ela lhe ofereceu somente o leve sinal de um sorriso. - Acho que não, Will. Não sou uma boa dançarina. Parece que tenho pernas de pau.
Na verdade, ela era uma excelente dançarina, mas, diplomata nata como era, percebeu que Will só a tinha convidado por educação. Então os dois mergulharam no silêncio, mas um tipo de silêncio amistoso.
Depois de alguns minutos, ela se virou para ele com o queixo apoiado na mão para observá-lo com atenção.
- Vai ser um grande dia para você amanhã - ela disse, e ele corou.
Ele tinha sido convocado para aparecer diante de toda a corte do barão no dia seguinte.
- Não sei por que tudo isso - ele balbuciou.
- Ele possivelmente quer lhe agradecer em público - Alyss disse, sorrindo para ele. - Ouvi dizer que barões gostam de fazer isso com pessoas que salvaram suas vidas.
Will começou a dizer alguma coisa, mas ela pousou a mão macia e fria sobre a dele, e ele parou. Ele olhou aqueles olhos cinzentos, calmos e sorridentes. Alyss nunca tinha lhe parecido bonita, mas agora percebeu que sua elegância, sua graça e seus olhos cinzentos, emoldurados por cabelos loiros delicados, criavam um encanto natural que ultrapassava de longe uma simples beleza. Surpreendentemente, ela se inclinou para perto e sussurrou:
- Estamos todos orgulhosos de você, Will. E acho que eu sou a mais orgulhosa de todos.
Então Alyss o beijou. Os lábios dela eram incrivelmente, indescritivelmente macios.
Horas mais tarde, antes de finalmente adormecer, ele ainda podia senti-los.
Paralisado pelo medo da platéia, Will estava parado do lado de dentro da sala de audiências do barão.
O prédio era imenso. Era a principal sala do castelo, a sala em que o barão conduzia todos os negócios oficiais com os membros da corte. O teto parecia se estender para cima interminavelmente. Fachos de luz inundavam o aposento, vindos de janelas instaladas no alto das paredes grossas. Na extremidade da sala e parecendo estar a uma grande distância, o barão estava sentado numa cadeira parecida com um trono, vestindo suas túnicas mais finas.
Entre ele e Will, estava a maior multidão que o garoto já tinha visto. Halt fez o aprendiz avançar delicadamente com um empurrão nas costas.
- Vá em frente - ele murmurou.
Havia centenas de pessoas no Grande Salão, e todos os olhares estavam voltados para Will. Todos os chefes de ofício estavam ali, vestindo suas túnicas oficiais. Todos os cavaleiros e todas a damas da corte: cada uma usando suas melhores e mais elegantes roupas. Mais adiante, estavam os homens com armas do exército do barão, os outros aprendizes e os comerciantes da vila. Ele viu uma agitação colorida quando Jenny, desinibida como sempre, agitou um lenço para ele. Alyss, parada ao lado dela, foi um pouco mais discreta. Ela jogou um beijo para ele com a ponta dos dedos, delicadamente.
Ele ficou parado, desajeitado, colocando o peso do corpo ora numa perna, ora noutra. Desejou que Halt o tivesse deixado usar a capa de arqueiro para que pudesse se confundir com o ambiente e desaparecer.
Halt o empurrou outra vez.
- Ande, vamos! - sussurrou.
- Você não vem comigo? - ele perguntou, virando-se para o mestre.
Halt negou com a cabeça.
- Não fui convidado. Agora se mexa!
Ele empurrou Will mais uma vez e então, por causa da perna machucada, foi até uma cadeira. Finalmente, compreendendo que não tinha outro caminho a seguir, Will começou a andar pelo corredor que parecia não terminar nunca. Ele ouviu vozes balbuciando enquanto passava, ouviu seu nome sendo sussurrado de boca em boca.
E então as palmas se iniciaram.
Elas foram começadas pela esposa de um cavaleiro e se espalharam rapidamente por todo o salão. Era ensurdecedor, um rugido retumbante de aplausos que continuou até Will chegar aos pés da cadeira do barão.
Como Halt tinha ensinado, ele se apoiou num joelho e inclinou a cabeça para a frente.
O barão se levantou e ergueu a mão pedindo silêncio, e as palmas se transformaram em ecos.
- Levante-se, Will - ele disse em voz baixa, estendendo a mão para ajudar o garoto a se pôr de pé.
Atordoado, Will obedeceu. O barão pousou uma das mãos em seu ombro e o virou para que olhasse para a enorme multidão diante deles. Sua voz grave chegou sem esforço ao ponto mais afastado do salão quando falou.
- Este é Will. Aprendiz do arqueiro Halt, deste feudo. Todos vocês, olhem para ele e o conheçam. Ele provou sua fidelidade, coragem e iniciativa para com este feudo e para com o Reino de Araluen.
Houve um murmúrio vindo do público. Então as palmas recomeçaram, desta vez acompanhadas de vivas. Will percebeu que os vivas tinham começado na seção da multidão em que estavam os aprendizes da Escola de Guerra. Ele conseguiu ver o rosto sorridente de Horace liderando o coro.
O barão pediu silencio com a mão erguida, encolhendo-se como se o movimento causasse dor em suas costelas fraturadas e nos cortes suturados nas costas. Os vivas e as palmas morreram lentamente.
- Will - ele disse numa voz que ecoou para os cantos mais distantes do aposento enorme - eu lhe devo a minha vida. Não há agradecimentos suficientes para isso. Porém tenho o poder de atender a um pedido que uma vez me fez...
Will olhou para ele sério.
- Um pedido, senhor? - ele perguntou bastante atordoado com as palavras do barão.
- Eu cometi um erro, Will. Você me perguntou se poderia aprender a ser um guerreiro. Você desejava se tornar um dos meus cavaleiros e eu recusei o pedido. Agora, posso consertar esse erro. Eu ficaria honrado de ter alguém tão corajoso e habilidoso como um dos meus cavaleiros. Terá minha permissão para se transferir para a Escola de Guerra como um dos aprendizes de sir Rodney.
O coração de Will saltou em seu peito. Ele pensou em como, durante toda a vida, havia desejado ser um cavaleiro. Ele se lembrou do profundo e amargo desapontamento no dia da Escolha, quando sir Rodney e o barão tinham recusado o seu pedido.
Sir Rodney deu um passo à frente, e o barão fez um gesto para que falasse.
- Meu senhor - disse o mestre de guerra -, como sabe, fui eu quem recusou este garoto como aprendiz. Agora, quero que todos aqui saibam que eu estava errado. Eu, meus cavaleiros e meus aprendizes reconhecemos que não poderia haver membro mais valioso para a Escola de Guerra do que Will!
Os cavaleiros e aprendizes ali reunidos soltaram fortes gritos de aprovação. Com estrépito, desembainharam as espadas e as bateram ruidosamente acima de suas cabeças, gritando o nome de Will. Mais uma vez, Horace foi um dos primeiros a puxar o coro e o último a parar.
Aos poucos, o tumulto se aquietou e os cavaleiros guardaram as espadas. A um sinal do barão Arald, dois pajens se adiantaram, carregando uma espada e um escudo lindamente esmaltado que foram colocados aos pés de Will. O escudo tinha sido pintado com o desenho da cabeça de um feroz porco selvagem.
- Esse será o seu brasão quando se formar, Will - disse o barão com delicadeza -, para lembrar ao mundo a primeira vez em que conhecemos a sua coragem e lealdade para com um companheiro.
O garoto apoiou-se em um dos joelhos e tocou a superfície lisa e esmaltada do escudo. Ele tirou a espada lenta e reverentemente da bainha. Era uma arma magnífica, uma obra-prima da arte da fabricação de espadas.
A lâmina era extremamente afiada e ligeiramente azulada. O cabo e a cruzeta eram incrustados em ouro, e o símbolo com a cabeça do porco selvagem repetia-se no punho. A espada parecia ter vida própria. Perfeitamente balanceada, era leve como uma pena. Ele olhou para essa maravilhosa espada adornada com jóias e depois para o cabo de couro de sua faca de arqueiro.
- Essas são armas de cavaleiros, Will - o barão explicou. - Mas você provou repetidas vezes que é digno delas. Se desejar, elas serão suas.
Will deslizou a espada de volta na bainha e se levantou devagar. Ali estava tudo o que sempre desejou. E, mesmo assim...
Ele pensou nos longos dias na floresta com Halt. A enorme satisfação que sentiu quando uma de suas flechas atingiu o alvo, exatamente onde desejara, exatamente como tinha visto em pensamento antes de soltá-la. Ele pensou nas horas gastas aprendendo a seguir animais e homens. Aprendendo a arte de se esconder. Pensou em Puxão, na coragem e devoção do pônei.
E pensou no puro prazer que sentia quando ouvia o simples "bem-feito" de Halt quando completava uma tarefa a contento. E, de repente, tudo ficou claro. Ele olhou para o barão e disse com voz firme: - Sou um arqueiro, senhor. Houve um murmúrio de surpresa entre a multidão. - Você tem certeza, Will? - o barão perguntou em voz baixa, chegando mais perto. - Não recuse essa oferta somente por achar que Halt vai ficar ofendido ou desapontado. Ele insistiu que isso depende de você e já concordou em aceitar sua decisão.
Will balançou a cabeça negativamente. Nunca tinha tido tanta certeza de algo.
- Eu agradeço a honra, senhor.
Ele olhou para o mestre de guerra e viu, para sua surpresa, que sir Rodney estava sorrindo e mostrando sua aprovação com a cabeça.
- E agradeça ao mestre de guerra e aos seus cavaleiros pela oferta generosa, mas sou um arqueiro.
Ele hesitou.
- Não quero ofender ninguém com isso, senhor - ele terminou desajeitado.
Um enorme sorriso encrespou os traços do barão, e ele agarrou a mão de Will com força.
- Não estou ofendido, Will. De jeito nenhum! A sua lealdade para com o seu ofício e seu mestre de ofício são uma honra para você e todos os que o conhecem!
Ele deu um último aperto firme na mão de Will e a soltou.
Will se curvou e se virou para caminhar pelo longo corredor outra vez. Os vivas recomeçaram e, desta vez, ele manteve a cabeça erguida enquanto o barulho o envolvia e ecoava até o teto do Grande Salão. Então, ao se aproximar das grandes portas novamente, viu algo que o fez parar de imediato, perplexo e surpreso.
Pois ali parado, um pouco afastado da multidão, enrolado na capa cinza e verde, com os olhos ensombrecidos pelo capuz, estava Halt.
E ele estava sorrindo.
Mais tarde, após todo o barulho e as comemorações terem diminuído, Will estava sentado sozinho na minúscula varanda da pequena cabana de Halt. Na mão, ele segurava um pequeno amuleto de bronze no formato de uma folha de carvalho com uma corrente de aço passada por um elo no alto.
- É o nosso símbolo - seu professor tinha explicado quando o entregou para ele depois dos acontecimentos no castelo. - O equivalente ao brasão de armas dos cavaleiros.
Então ele procurou no interior da própria gola e tirou uma folha de carvalho de formato idêntico pendurada numa corrente no pescoço. A forma era parecida, mas a cor era diferente. A folha de carvalho que Halt usava era de prata.
- Bronze é a cor dos aprendizes - Halt tinha contado para ele. - Quando você terminar o treinamento, vai receber uma folha de carvalho de prata como esta. Todos da Corporação dos Arqueiros usam prata ou bronze.
Ele tinha desviado o olhar do garoto por alguns minutos.
- Para falar a verdade, você não devia recebê-la até depois de sua primeira avaliação - ele acrescentou com a voz um pouco rouca. - Mas duvido que alguém queira se opor a isso, depois de tudo o que aconteceu.
Agora, o pedaço de metal de formato curioso brilhava fracamente na mão de Will enquanto ele pensava na decisão que tinha tomado. Parecia muito estranho que tivesse desistido voluntariamente da única coisa que tinha esperado quase toda a vida: a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra e assumir uma posição como cavaleiro no exército do Castelo Redmont.
Ele girou a folha de carvalho de bronze na corrente em volta do dedo indicador, deixou-a subir pelo dedo e a soltou com um profundo suspiro. A vida podia ser muito complicada. Bem no fundo, sentiu que tinha tomado a decisão acertada. E, mesmo assim, ainda mais no fundo, havia uma pequena dúvida.
Assustado, percebeu que havia alguém parado ao lado dele. Ao se virar de repente, reconheceu Halt. O arqueiro se inclinou e se sentou ao lado do garoto no banco rústico de pinho na varanda estreita. Diante deles, o sol baixo do fim de tarde passava pelas folhas verde-claras da floresta, e a luz parecia dançar e girar enquanto a brisa leve sacudia as folhas.
- Um grande dia - ele disse em voz baixa, e Will concordou.
- E uma grande decisão que você tomou - Halt acrescentou depois de vários minutos de silêncio.
Desta vez, Will se virou para olhar para seu mestre.
- Halt, tomei a decisão certa? - ele perguntou finalmente com angústia na voz.
Halt apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou um pouco para a frente, semicerrando os olhos diante da luz forte que passava pelas folhas.
- No que me diz respeito, sim. Escolhi você como aprendiz e posso ver todo o potencial que você tem para ser um arqueiro. Até cheguei a quase gostar da sua presença e de ficar tropeçando em você - ele acrescentou com a leve sugestão de um sorriso. - Mas meus sentimentos e meus desejos não são importantes nesse caso. A decisão certa para você se refere ao que você mais quer.
- Sempre quis ser um cavaleiro - Will contou e então percebeu, com certa surpresa, que tinha dito a frase no passado.
Mas, mesmo assim, sabia que parte dele ainda queria isso.
- É claro que é possível querer duas coisas diferentes ao mesmo tempo - Halt disse em voz baixa. - Então, tudo se torna uma questão de escolha e de saber o que se quer mais.
Não era a primeira vez que Will tinha a sensação de que Halt, de alguma forma, havia lido a sua mente.
- Se você não pode resumir tudo num só pensamento, qual é a principal razão pela qual está um pouco desapontado por ter recusado a oferta do barão? - Halt continuou.
- Acho que... - Will disse devagar, pensando na pergunta. - Acho que, ao recusar a Escola de Guerra, estou decepcionando um pouco o meu pai.
- O seu pai? - Halt repetiu surpreso, e Will concordou.
- Ele foi um excelente guerreiro - ele contou para o arqueiro. - Um cavaleiro. Ele morreu em Hackman Heath, lutando contra os Wargals. Um herói.
- E você sabe de tudo isso, certo? - Halt perguntou, e Will as sentiu com um gesto.
Aquele sonho o tinha sustentado durante os longos e solitários anos em que nunca soube quem era ou o que deveria ser. Agora, o sonho tinha se transformado em realidade.
- Ele era um homem de que qualquer filho teria orgulho - ele disse finalmente, e Halt concordou.
- Isso realmente é verdade.
Havia algo em sua voz que fez Will hesitar. Halt não estava somente concordando por educação. Will se virou para ele depressa, percebendo todas as implicações das palavras do arqueiro.
- Você conheceu ele, Halt? Você conheceu meu pai?
Havia uma luz de esperança no olhar do garoto, que pedia a verdade. O arqueiro assentiu sério.
- Sim, conheci. Não convivi com ele por muito tempo, mas acho que poderia dizer que conhecia ele bem. E você está certo. Você pode ter muito orgulho dele.
- Ele foi um excelente guerreiro, não foi? - Will indagou.
- Ele era um soldado - Halt concordou - e um lutador corajoso.
- Eu sabia! - Will disse feliz. - Ele foi um grande cavaleiro!
- Um sargento - Halt acrescentou devagar e com delicadeza. Will ficou boquiaberto e não conseguiu dizer o que pretendia.
- Um sargento? - ele conseguiu finalmente balbuciar. Halt assentiu. Ele pode ver o desapontamento no olhar do garoto e colocou um braço ao redor de seus ombros.
- Não julgue as qualidades de um homem pela posição que ele ocupa na vida, Will. O seu pai, Daniel, foi um soldado leal e corajoso. Não teve a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra porque começou a vida como fazendeiro. Mas, se tivesse frequentado, teria sido um dos melhores cavaleiros.
- Mas ele... - o garoto começou tristemente.
O arqueiro fez que parasse e continuou na mesma voz gentil, suave e irresistível.
- Porque, sem ter feito qualquer juramento ou treinamento especial pelo qual os cavaleiros passam, ele viveu de acordo com os mais altos ideais da nobreza, bravura e valor. Na verdade, ele morreu alguns dias depois da batalha em Hackman Heath, enquanto Morgarath e seus Wargals estavam lutando para voltar ao Desfiladeiro dos Três Passos. Um contra-ataque repentino nos pegou de surpresa, e o seu pai viu um companheiro cercado por uma tropa de Wargals. O homem estava no chão e a poucos segundos de ser feito em pedaços quando seu pai o ajudou.
A luz nos olhos do garoto recomeçou a brilhar.
- Verdade? - Will perguntou baixinho, e Halt concordou com um gesto de cabeça.
- Verdade. Ele deixou a segurança da linha de batalha e pulou para a frente, armado apenas com a lança. Ficou em cima do companheiro ferido e o protegeu dos Wargals. Matou um deles com a lança e então outro despedaçou a ponta da arma, deixando Daniel somente com o cabo. Assim, ele o usou como se fosse um varapau e nocauteou outros dois: esquerda, direita! Foi exatamente assim!
Halt agitou a mão para a esquerda e para a direita para mostrar o que tinha acontecido. Os olhos de Will estavam presos nele agora, vendo a batalha enquanto o arqueiro a descrevia.
- Ele ficou ferido quando a haste da lança quebrou em outro ataque. Teria sido suficiente para matar qualquer homem, mas seu pai simplesmente tirou a espada de um dos Wargals que tinha matado e derrubou outros três, sangrando sem parar de um ferimento profundo que tinha na lateral do corpo.
- Três deles? - Will repetiu.
- Três. Ele era rápido como um leopardo. E, lembre-se, como lanceiro, nunca tinha realmente treinado com a espada.
Ele fez uma pausa, recordando aquele dia ocorrido tanto tempo atrás.
- Acho que você sabe que os Wargals não têm medo de quase nada. Eles são chamados de Os Indiferentes e, quando começam uma batalha, quase sempre são eles que a terminam. Quase sempre. Essa foi uma das poucas vezes que vi os Wargals com medo. Quando seu pai deu golpes para todos os lados, ainda parado em cima do companheiro ferido, eles começaram a recuar. Primeiro devagar. Depois correram. Eles simplesmente se viraram e correram. Nunca vi outro homem, fosse cavaleiro ou poderoso guerreiro, que pudesse fazer os Wargals fugirem assustados. Seu pai conseguiu. Ele pode ter sido um sargento, Will, mas foi o guerreiro mais poderoso que já tive o privilégio de ver lutando. Então, quando os Wargals recuaram, ele se apoiou em um joelho ao lado do homem que tinha ajudado e, mesmo sabendo que também estava morrendo, ainda tentou proteger ele. Seu pai tinha vários ferimentos, mas provavelmente foi o primeiro que matou ele.
- E o amigo dele se salvou? - Will perguntou em voz baixa.
- O amigo? - Halt indagou um tanto surpreso.
- O homem que ele protegeu - Will explicou. - Ele sobreviveu? De alguma forma, ele pensou que teria sido uma tragédia se o corajoso esforço do pai não tivesse tido êxito.
- Eles não eram amigos - Halt contou. - Até aquele momento, ele nunca tinha posto os olhos no outro homem - ele fez uma pausa e acrescentou - e vice-versa.
O significado daquelas últimas palavras penetraram no fundo da mente de Will.
- Você? - ele sussurrou. - Você era o homem que ele salvou? Halt assentiu com um gesto.
- Como eu disse, eu só conheci ele por alguns minutos, mas ele fez mais por mim do que qualquer outro homem, antes ou depois disso. Enquanto morria, ele me falou da mulher e de como ela estava na fazenda sozinha com um bebê para nascer a qualquer momento. Ele me implorou para ver se estavam cuidando dela.
Will olhou para o rosto sério e barbado que tinha passado a conhecer tão bem. Havia uma profunda tristeza nos olhos de Halt ao se lembrar daquele dia.
- Cheguei tarde demais para salvar sua mãe. Foi um parto difícil, e ela morreu logo depois que você nasceu. Mas eu trouxe você para cá, e o barão Arald concordou que você deveria ser criado como protegido do castelo até ter idade suficiente para se tornar meu aprendiz.
- Mas, durante todos esses anos, você nunca... - Will parou sem palavras.
Halt sorriu tristemente para ele.
- Nunca deixei ninguém saber que tinha colocado você no castelo como protegido? Não. Pense nisso, Will. As pessoas são... esquisitas quando se trata dos arqueiros. Como elas teriam tratado você? Ficariam perguntando que tipo de criatura estranha você era? Decidimos que seria melhor que ninguém soubesse do meu interesse em você.
Will concordou. Naturalmente, Halt tinha razão. A vida como protegido já tinha sido bastante difícil. Teria sido pior se as pessoas soubessem que ele tinha alguma ligação com Halt.
- Então você me aceitou como aprendiz por causa do meu pai? - Will quis saber.
Mas desta vez Halt balançou a cabeça negativamente.
- Não. Garanti que tomassem conta de você por causa de seu pai. Escolhi você porque mostrou ter a capacidade e as habilidades necessárias. E você também parece ter herdado a coragem de seu pai.
Houve um longo silencio entre eles enquanto Will assimilava a história da incrível batalha do pai. De alguma forma, a verdade era mais sensacional, mais inspiradora do que qualquer fantasia que ele pudesse ter criado ao longo dos anos. Por fim, Halt se levantou para se afastar, e o garoto sorriu agradecido para a figura grisalha, agora uma silhueta contra o céu, enquanto a última luz do dia desaparecia.
- Acho que meu pai ficaria satisfeito com a minha escolha - ele afirmou, deslizando a corrente com a folha de carvalho de bronze sobre a cabeça.
Halt simplesmente acenou uma vez com a cabeça, virou-se e entrou na cabana, deixando o aprendiz com seus pensamentos.
Will ficou sentado em silêncio por alguns minutos. Quase sem pensar, tocou a folha de carvalho de bronze que pendia do seu pescoço. Os sons do pátio de exercícios da Escola de Guerra e o ininterrupto martelar e estrépito da oficina de armas que vinha funcionando dia e noite durante a última semana chegavam até ele, carregados pela brisa da noite. Eram os sons do Castelo Redmont se preparando para a guerra.
Porém, estranhamente, pela primeira vez na vida, ele se sentiu em paz.Decidindo que o ataque seria a melhor defesa, Bryn deu um passo à frente e preparou-se para dar um golpe por cima da cabeça de Horace, mas o aprendiz desviou dele com facilidade. Horace escapou dos dois golpes seguintes de Bryn da mesma forma e então, ao bloquear o quarto ataque do garoto mais velho, escorregou a sua lâmina de madeira ao longo da bengala do outro rapaz um instante antes de as duas armas se separarem. Não havia nenhuma cruzeta para proteger a mão de Bryn do movimento, e a espada dura atingiu os seus dedos, provocando muita dor. Com um grito agoniado, ele deixou cair a bengala pesada, saltou para trás e escondeu a mão ferida debaixo do braço. Horace ficou parado, pronto para recomeçar.
- Eu não ouvi ninguém pedir para parar - Halt disse com suavidade.
- Mas... ele me desarmou! - Bryn choramingou.
- É mesmo. Mas tenho certeza de que ele vai deixar você pegar sua arma e recomeçar - Halt disse com um sorriso. - Vamos, continue.
Bryn olhou de Halt para Horace e não viu compaixão no olhar dos dois.
- Não quero - ele disse baixinho.
Horace achou difícil reconhecer naquela figura encolhida o valentão arrogante que tinha transformado sua vida num inferno nos últimos meses. Halt pareceu pensar na declaração de Bryn.
- Vamos levar seu protesto em conta - ele disse alegremente. - Agora, continue, por favor.
A mão de Bryn latejava. Mas até mesmo pior do que a dor era o medo do que estava para acontecer, a certeza de que Horace iria castigá-lo sem piedade. Ele se inclinou e, assustado, pegou a bengala com os olhos fixos no outro garoto. Horace esperou pacientemente até que Bryn estivesse pronto e então fez um repentino movimento para a frente.
Bryn gritou de medo e jogou a bengala para o lado. Horace sacudiu a cabeça aborrecido.
- Quem é o bebê agora? - ele perguntou.
Bryn desviou o olhar e se encolheu envergonhado.
- Se ele vai bancar o bebê - Halt sugeriu -, acho que você vai ter que dar umas palmadas nele.
Um sorriso se espalhou no rosto de Horace. Ele deu um pulo para a frente, agarrou Bryn pela nuca e o virou. Em seguida, bateu na traseira do garoto com a espada de exercício repetidas vezes e seguiu-o pela clareira quando tentou escapar do castigo impiedoso. Bryn uivava, saltava e soluçava, mas Horace o segurava com firmeza pelo colarinho, e não havia como escapar. Finalmente, quando sentiu que tinha retribuído as provocações, os insultos e a dor que tinha sofrido, Horace parou.
Bryn cambaleou e caiu com as mãos e os joelhos no chão, soluçando de dor e medo.
Jerome tinha assistido horrorizado ao acontecido, sabendo que logo seria sua vez. Ele começou a se afastar, tentando escapar enquanto o arqueiro estava distraído.
- Dê mais um passo e vou furar você com uma flecha.
Will tentou usar o mesmo tom de voz calmo e ameaçador de Halt. Ele havia tirado várias de suas flechas do alvo mais próximo e agora tinha uma delas preparada, apoiada na corda do arco. Halt declarou com ar de aprovação:
- Boa idéia. Mire na barriga da perna esquerda. O ferimento é muito doloroso.
Ele olhou para onde Bryn estava deitado, soluçando aos pés de Horace.
- Acho que ele já teve o que merecia - comentou, apontando então o dedo para Jerome.
- Sua vez - ele disse apenas.
Horace pegou a bengala que Bryn tinha deixado cair, andou até Jerome e estendeu-a para ele. Jerome recuou.
- Não! - Jerome gritou de olhos arregalados. - Não é justo! Ele...
- Ora, claro que não é justo - Halt concordou num tom tranquilo. - Imagino que você ache que três contra um é justo. Agora, vamos começar.
Muitas vezes, Will tinha ouvido o ditado que dizia que um rato encurralado acaba reagindo. Jerome provou que era verdade. Ele partiu para o ataque e, para sua surpresa, Horace recuou diante da chuva de golpes dirigidos a ele. A confiança do valentão começou a crescer à medida que ele avançava, mas não percebeu que Horace bloqueava todos os golpes com muita facilidade, quase com desprezo. Os melhores golpes de Jerome nem chegavam perto de derrubar a defesa de Horace. Se o aprendiz do 2° ano estivesse batendo numa parede de pedra, o resultado seria o mesmo.
Então, Horace parou de recuar. Ficou firme e bloqueou o último golpe de Jerome com punho de ferro. Os dois ficaram frente a frente por alguns segundos, e Horace começou a empurrar Jerome para trás. Com a mão esquerda, agarrou o punho direito de Jerome, fazendo que suas armas ficassem entrelaçadas. Os pés de Jerome escorregaram na grama macia à medida que Horace o obrigava a andar cada vez mais para trás. Finalmente, ele deu um último empurrão e Jerome caiu estendido no chão.
Jerome viu o que tinha acontecido com Bryn e sabia que se render não era uma opção. Ele se levantou com dificuldade e se defendeu desesperadamente quando Horace começou o ataque. Jerome foi empurrado para trás por uma sucessão de cortadas à direita, à esquerda e para cima. Ele conseguiu bloquear alguns dos golpes, mas a velocidade extraordinária do ataque de Horace o derrotou. Os golpes aterrissavam nas suas pernas, nos seus cotovelos e nos seus ombros. Horace parecia se concentrar nos ossos que iriam doer mais. Ocasionalmente, usava a ponta arredondada da espada para dar estocadas nas costelas de seu oponente - com força apenas suficiente para machucar, sem quebrar os ossos.
Finalmente, Jerome ficou farto. Ele desviou do ataque, soltou a bengala e caiu no chão, protegendo a cabeça com as mãos. As costas estavam levantadas convidativamente no ar. Horace parou e olhou interrogativamente para Halt. O arqueiro fez um leve gesto na direção de Jerome.
- Por que não? - ele perguntou. - Não se tem uma oportunidade dessas todos os dias.
Mas até ele se encolheu diante do chute forte que Horace deu no traseiro de Jerome. Este, com o nariz na terra, escorregou pelo menos 1 metro para a frente.
Halt recolheu a bengala que Jerome tinha deixado cair. Ele a observou por um instante, testando seu peso e equilíbrio.
- Realmente não é uma boa arma - ele disse. - Por que será que eles escolheram essa? - perguntou, jogando-a para Alda. - Mexa-se.
O garoto loiro, ainda agachado na grama cuidando do tornozelo machucado, olhou descrente para a bengala. O rosto estava manchado pelo sangue que escorria do nariz ferido. Ele nunca mais teria a mesma boa aparência.
- Mas... mas... estou ferido! - ele protestou, levantando-se desajeitado.
Ele não acreditava que Halt estava exigindo que enfrentasse o mesmo castigo a que tinha acabado de assistir.
Halt pensou por um instante. Por um momento, um raio de esperança brilhou na mente de Alda.
- É verdade - o arqueiro concordou. - É verdade - ele murmurou, parecendo um pouco desapontado, e Alda começou a acreditar que o senso de justiça de Halt iria poupá-lo do castigo que seus amigos tinham sofrido. Então o rosto do arqueiro se iluminou.
- Mas espere um minuto... Horace também está ferido. Não é mesmo, Will?
- Com certeza, Halt - Will respondeu sorrindo, e a esperança de Alda desapareceu no mesmo instante.
- Você tem certeza de que não está ferido demais para continuar, Horace? - Halt perguntou, fingindo preocupação.
- Ah, acho que dou conta do recado - Horace respondeu com um sorriso frio.
- Bom, então está combinado! - Halt disse alegre. - Vamos continuar!
E Alda soube que ele também não teria escapatória. Enfrentou Horace com determinação, e o duelo final começou.
Alda era o melhor espadachim dos três rapazes e, durante alguns minutos, chegou a dar um pouco de trabalho para Horace. Mas, à medida que se estudavam com golpes e contragolpes, ataques e defesas, percebeu que Horace era superior e sentiu que sua única chance era tentar algo inesperado.
Ele se separou do oponente, mudou a posição da bengala e a segurou com as duas mãos como se fosse um varapau. Em seguida, desferiu uma série de golpes rápidos para a direita e para a esquerda.
Durante um segundo, Horace foi apanhado de surpresa e caiu para trás. Mas ele se recuperou com uma velocidade felina e dirigiu um golpe por cima da cabeça de Alda. O aluno do 2° ano tentou um contragolpe normalmente usado com o varapau, segurando a bengala nas duas pontas para bloquear o golpe da espada com a parte central. Na teoria, a tática estava correta. Na prática, a dura espada de madeira simplesmente atravessou a bengala, e Alda ficou segurando duas varas inúteis. Totalmente desanimado, ele as deixou cair e ficou indefeso na frente de Horace.
Horace olhou para o seu torturador de longa data e depois para a espada em sua mão.
- Não preciso disto - ele murmurou e deixou a espada cair.
O soco de direita que ele desferiu sobre o maxilar de Alda foi impulsionado pelo ombro, pelo peso do corpo e por meses de sofrimento e solidão - a solidão que somente a vítima de maus-tratos conhece.
Will arregalou levemente os olhos quando Alda se levantou, cambaleou para trás e finalmente desabou na terra ao lado dos dois amigos. Ele se lembrou das vezes em que tinha lutado com Horace no passado. Se soubesse que o colega era capaz de dar um soco daqueles, nunca teria se metido com ele.
Alda não se mexeu e provavelmente não se moveria por muito tempo. Horace recuou, sacudindo os dedos machucados e soltando um suspiro satisfeito.
- Você não tem idéia de como isso foi bom - ele disse. - Graças a você, arqueiro.
Halt balançou a cabeça compreensivo.
- Obrigado por ajudar quando atacaram Will. E, por falar nisso, meus amigos me chamam de Halt.
Nas semanas que se seguiram a esse confronto final com os três valentões, Horace percebeu uma mudança definitiva na vida na Escola de Guerra.
O fator mais importante na mudança foi que Alda, Bryn e Jerome foram expulsos da escola, do castelo e da vila vizinha. Sir Rodney estava desconfiado, fazia algum tempo, de que havia um problema entre as turmas de seus alunos mais novos. Uma visita discreta de Halt confirmou o problema, e a investigação resultante logo trouxe à tona toda a história de como Horace tinha sido maltratado. O julgamento de sir Rodney foi rápido e inflexível. Os três alunos do 2° ano tiveram meio dia para fazer as malas. Eles receberam uma pequena quantia em dinheiro, suprimentos para uma semana e foram transportados para a fronteira do feudo, onde receberam ordens claras para não voltar.
Depois que foram embora, o grupo de Horace melhorou consideravelmente. A rotina diária da Escola de Guerra ainda era dura e desafiadora como antes, mas, sem a carga adicional que Alda, Bryn e Jerome colocavam sobre ele, Horace descobriu que podia lidar facilmente com os exercícios, a disciplina e os estudos. Rapidamente, começou a desenvolver o potencial que sir Rodney tinha visto nele. Além disso, seus colegas de quarto, sem medo de ser vítimas da vingança dos valentões, começaram a ser mais agradáveis e amistosos.
Em resumo, Horace sentia que as coisas estavam realmente melhorando.
Ele só lamentava não ter podido agradecer adequadamente a Halt por sua vida ter melhorado. Depois dos acontecimentos na campina, Horace tinha ficado internado na enfermaria durante vários dias para tratamento dos hematomas e das contusões. Quando foi liberado, descobriu que Halt e Will já tinham partido para a Reunião dos Arqueiros.
- Falta muito? - Will perguntou, talvez pela décima vez naquela manhã.
Halt soltou um leve suspiro de desespero, mas não deu nenhuma resposta. Eles estavam na estrada havia três dias, e Will achava que deveriam estar perto do local da Reunião. Por várias vezes na última hora, ele tinha sentido um cheiro desconhecido no ar e mencionado o fato para Halt.
- É sal. Estamos chegando perto do mar - Halt mencionou brevemente, encerrando a explicação por ali.
Will olhou de relance para o seu professor, esperando que talvez ele se dignasse a lhe dar mais informações, mas os olhos vivos do arqueiro estavam examinando o chão na frente deles. Will percebeu que, de tempos em tempos, Halt olhava para as árvores que cercavam a estrada.
- Você está procurando alguma coisa? - Will perguntou, e Halt se virou na sela.
- Finalmente, uma pergunta útil. Sim, na verdade, estou. O chefe dos arqueiros colocou sentinelas ao redor do local da Reunião. Eu sempre tento enganá-los quando estou me aproximando.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt permitiu-se dar um leve sorriso.
- Isso os mantém ocupados - ele explicou. - Eles vão tentar se esconder atrás de nós e nos seguir para poder dizer que me pegaram numa emboscada. É um jogo bobo que gostam de jogar.
- Por que bobo?
O que faziam se parecia exatamente com os exercícios de habilidades que ele e Halt realizavam regularmente. O arqueiro grisalho virou-se na sela e olhou fixamente para Will.
- Por que eles nunca conseguem me pegar - ele respondeu. - E neste ano vão tentar ainda com mais vontade porque sabem que estou trazendo um aprendiz. Querem saber se você é mesmo bom.
- Isso faz parte do teste? - Will quis saber, e Halt assentiu.
- É o começo. Você se lembra do que eu falei ontem à noite? Will fez que sim com a cabeça. Nas duas noites anteriores, quando estavam ao redor da fogueira, Halt tinha dado conselhos e instruções para Will com sua voz macia e o tinha ensinado como agir na Reunião. Na noite passada, eles arquitetaram táticas para serem usadas no caso de uma emboscada. Exatamente o tipo de coisa que Halt tinha acabado de mencionar.
- Quando nós... - Halt começou, mas de repente ficou alerta. Ele levantou um dedo num pedido de silêncio, e Will o obedeceu.
A cabeça do arqueiro estava levemente inclinada para o lado. Os dois cavalos continuaram sem hesitar.
- Escutou? - Halt perguntou.
Will também inclinou a cabeça. Ele teve a ligeira impressão de ouvir um leve barulho de cascos de cavalos atrás deles, mas não tinha certeza. O andar dos cavalos deles mascarava qualquer som real vindo da trilha às suas costas. Se havia alguém ali, seu cavalo estava trotando no mesmo ritmo.
- Mude a marcha - Halt sussurrou. - No três. Um, dois, três. Ao mesmo tempo, os dois cutucaram as laterais dos cavalos com o pé esquerdo. Aquele era só um dos muitos sinais aos quais Puxão e Abelard tinham sido treinados para responder.
No mesmo instante, os dois cavalos hesitaram em sua passada. Pareceram pular um passo e depois continuaram com passadas uniformes.
Mas a hesitação tinha mudado o padrão das batidas dos cascos e, por um instante, Will pôde ouvir outro conjunto de cascos de cavalo atrás deles como um eco levemente atrasado. Então o outro cavalo também mudou o ritmo das passadas para ficar igual aos deles e o som desapareceu.
- Cavalo de arqueiro - Halt disse em voz baixa. - Tenho certeza de que é Gilan.
- Como você sabe? - Will perguntou.
- Só o cavalo de um arqueiro pode mudar a passada tão depressa. E é Gilan, porque é sempre ele. Ele adora tentar me superar.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt olhou para ele sério.
- Porque ele foi o meu último aprendiz - explicou. - E, por algum motivo, antigos aprendizes simplesmente adoram pegar seus antigos mestres desprevenidos.
Ele olhou de um jeito acusador para o seu aprendiz atual. Will ia protestar e dizer que nunca iria se comportar daquela maneira depois de formado e então se deu conta de que talvez fizesse isso na primeira oportunidade. O protesto morreu sem ser manifestado.
Halt pediu silêncio com um sinal e examinou a trilha diante deles.
- É aquele lugar ali - ele apontou. - Pronto?
Havia uma grande árvore ao lado da trilha, com galhos que pendiam na altura da cabeça deles. Will analisou-a por um momento e então as sentiu. Puxão e Abelard continuaram no seu ritmo regular em direção à árvore. Quando se aproximaram, Will tirou os pés dos estribos, levantou-se e ficou agachado nas costas de Puxão. O cavalo não mudou o ritmo das passadas quando seu dono mudou de posição.
Ao passarem debaixo dos galhos, Will segurou o mais baixo com a mão e pendurou-se nele. No mesmo instante em que seu peso saiu das costas de Puxão, o pequeno cavalo começou a trotar mais vigorosamente, batendo os cascos com força no chão a cada passo para que o rastreador que os seguia não percebesse que sua carga tinha ficado mais leve de repente.
Em silêncio, Will subiu mais alto na árvore até encontrar um ponto em que pudesse se apoiar com firmeza e enxergar bem. Ele viu Halt e os dois cavalos andando devagar pela trilha.
Quando chegaram à curva seguinte, Halt fez que Puxão continuasse trotando, parou Abelard e desceu da sela. Ele se ajoelhou e pareceu examinar o chão em busca de pegadas.
Naquele momento, Will conseguiu ouvir o outro cavalo atrás deles. Ele olhou para o caminho que tinham percorrido, mas outra curva escondia quem os seguia.
Então, o suave bater dos cascos parou.
A boca de Will estava seca, e seu coração batia cada vez mais rápido dentro do peito. Ele tinha certeza de que o som podia ser ouvido por qualquer pessoa num raio de cerca de 50 metros. Mas seu treinamento falou mais alto, e ele ficou imóvel no galho da árvore entre as folhas e sombras, observando a trilha atrás deles.
Um movimento!
Will o viu com o canto do olho, e então o movimento parou. Ele espiou o local com atenção durante um ou dois segundos e se lembrou das lições de Halt: "Não concentre sua atenção num lugar. Deixe o foco aberto e continue investigando. Você vai ver o outro como um movimento, não como uma figura. Lembre-se, ele também é um arqueiro e foi treinado na arte de não ser visto."
Will abriu o foco e examinou a floresta atrás deles. Dentro de segundos, foi recompensado com outro sinal de movimento. Um galho voltou ao lugar quando uma figura invisível passou silenciosamente.
Então, 10 metros adiante, um arbusto se agitou de leve. Em seguida, ele viu um feixe de grama alta voltar ao normal depois de ter sido amassado temporariamente por um pé que passou.
Will continuou imóvel como uma estátua. Ele ficou admirado com o fato de que seu perseguidor conseguia andar pela floresta sem ser visto. Obviamente, o outro arqueiro tinha deixado o cavalo para trás e estava seguindo Halt a pé. Os olhos de Will se mexeram rapidamente para dar uma olhada em Halt. Seu professor ainda parecia estar preocupado com algum tipo de sinal no chão.
Outro movimento veio da floresta. O arqueiro invisível tinha passado pelo esconderijo de Will e estava voltando para a trilha com a intenção de surpreender Halt pelas costas.
De repente, uma figura alta de capa cinza-esverdeado pareceu sair do chão no meio da trilha uns 20 metros atrás do vulto ajoelhado de Halt. Will piscou. Num momento, não havia ninguém ali; no outro, a figura pareceu se materializar do nada. A mão de Will começou a se mover na direção da aljava pendurada em suas costas, mas então ele interrompeu o movimento. Halt tinha dito na noite anterior: "Espere até que estejamos conversando. Se ele não estiver falando, vai escutar o menor movimento que você fizer."
Will engoliu em seco e desejou que a figura alta não tivesse escutado o movimento de sua mão na direção da aljava. E ele parecia ter parado a tempo. Ouviu uma voz alegre aos gritos vinda lá de baixo.
- Halt, Halt!
Halt se virou e se levantou devagar, limpando a terra dos joelhos enquanto se erguia. Ele inclinou a cabeça para o lado e analisou o vulto no meio da trilha, apoiado num arco comprido igual ao dele.
- Ora, Gilan. Vejo que você está pregando a mesma peça.
- Parece que a peça está sendo pregada em você este ano, Halt - o alto arqueiro respondeu, dando de ombros.
Enquanto Gilan falava, a mão de Will se moveu rapidamente, mas em silêncio, para a aljava. Ele escolheu uma flecha e a posicionou na corda do arco.
- É mesmo, Gilan? E que peça é essa? - Halt perguntou.
O divertimento era evidente na voz de Gilan quando respondeu ao antigo mestre.
- Ora, Halt, admita. Desta vez consegui superar você. E você sabe há quantos anos venho tentando!
Pensativo, Halt esfregou a barba grisalha com a mão.
- E, para falar a verdade, eu me pergunto por que você continua tentando, Gilan.
- Você devia saber quanto prazer um antigo aprendiz tem ao superar o mestre, Halt. Agora, vamos lá, confesse. Este ano eu venci.
Enquanto o homem alto falava, Will puxou a flecha com cuidado, mirando o tronco de uma árvore uns 2 metros à esquerda de Gilan. As instruções de Halt ecoavam em seus ouvidos: "Escolha um alvo próximo para assustá-lo quando atirar, mas, pelo amor de Deus, não perto demais. Não vá atravessá-lo com a flecha!"
Halt não tinha mudado de posição no meio da trilha. Gilan agora estava inquieto, passando o peso do corpo de uma perna para outra. A atitude tranquila de Halt estava começando a perturbá-lo. Parecia que, de repente, ele não estava totalmente certo de que Halt estava somente tentando blefar para escapar da armadilha.
As próximas palavras de Halt aumentaram suas suspeitas.
- Ah, sim... aprendizes e mestres. É verdade, eles formam uma combinação estranha. Mas, diga, Gilan, meu velho aprendiz, você não está esquecendo nada este ano?
Talvez tenha sido o jeito como Halt deu um pouco mais de ênfase à palavra "aprendiz", mas de repente Gilan percebeu que tinha cometido um erro. Ele começou a virar a cabeça e a procurar o aprendiz de que tinha se esquecido.
Quando começou o movimento, Will soltou a flecha.
A arma sibilou pelo ar, passou pelo alto arqueiro e penetrou, estremecendo, na árvore que Will tinha escolhido. Gilan deu um pulo para trás assustado e então seu olhar saltou para os galhos da árvore onde Will estava escondido. Este se admirou com o fato de que, mesmo tendo sido pego de surpresa, Gilan ainda tenha conseguido reagir tão rapidamente e identificar a direção de onde o atacante tinha atirado.
Gilan balançou a cabeça aborrecido. Seus olhos espertos conseguiram ver o pequeno vulto cinza e verde escondido nas sombras da folhagem da árvore.
- Desça, Will - Halt chamou. - Venha conhecer Gilan. E para este:
- Eu lhe disse quando você era garoto, não foi? Nunca seja apressado. Não corra para fazer as coisas.
Gilan assentiu um tanto desanimado. E pareceu ainda mais abatido quando Will pulou no chão e o alto arqueiro viu como ele era pequeno e jovem.
- Parece que eu estava tão determinado a apanhar uma velha raposa cinzenta que ignorei o pequeno macaco escondido nas árvores - ele disse rindo do próprio erro.
- Macaco? - Halt repetiu com aspereza. - Eu diria que hoje o macaco foi você. Will, este é Gilan, meu antigo aprendiz e agora arqueiro do feudo Meric, embora eu não tenha idéia do que eles tenham feito para merecer ele lá.
O sorriso de Gilan se alargou, e ele estendeu a mão para Will.
- E exatamente quando eu estava pensando que finalmente tinha vencido você, Halt - ele disse contente. - Então você é Will - continuou, apertando a mão do garoto com firmeza. - Estou satisfeito em conhecer você. Esse foi um excelente trabalho, meu jovem.
Will sorriu para Halt, e o arqueiro mais velho fez um leve movimento significativo com a cabeça. Will se lembrou das instruções finais que Halt tinha lhe dado na noite anterior: "Quando você superar um homem, nunca se vanglorie. Seja generoso e encontre alguma coisa nas ações dele para elogiar. Ele não vai gostar de ser vencido, mas vai enfrentar o fato com coragem. Mostre que você gostou do que ele fez. Elogios podem lhe conseguir um amigo. Divertir-se com a desgraça dos outros só cria inimigos."
- Sim, sou Will. Será que você pode me ensinar como consegue se mover desse jeito? Foi ótimo.
- Acho que nem tanto - Gilan retrucou rindo desanimado. - É óbvio que você me viu chegando de longe.
Will balançou a cabeça negativamente, lembrando-se de como tinha sido difícil ver Gilan. Seu elogio e seu pedido eram mais verdadeiros do que tinha percebido.
- Vi quando você chegou - ele disse. - E vi onde você tinha estado, mas nunca vi você depois que fez aquela curva. Gostaria de saber me mover assim.
O rosto de Gilan se iluminou de prazer diante da sinceridade de Will.
- Bom, Halt, vejo que esse jovem rapaz não tem só talento. Ele também é muito educado.
Halt olhou para os dois, o atual aprendiz e o antigo aluno. Ele acenou para Will com a cabeça, aprovando suas palavras diplomáticas.
- Movimentar-se como um ser invisível sempre foi a melhor habilidade de Gilan - Halt disse. - Você se daria bem se ele concordasse em lhe dar umas aulas.
Ele foi até o ex-aprendiz e colocou o braço ao redor de seus ombros.
- É bom ver você de novo.
Eles se abraçaram com afeto, e então Halt se afastou um pouco e o observou com atenção.
- Você fica mais magro a cada ano - ele disse finalmente. - Quando vai pôr alguma carne em cima desses ossos?
Gilan sorriu e ficou evidente que aquela era uma velha piada entre eles.
- Parece que você tem o suficiente para nós dois - o rapaz retrucou, cutucando as costelas de Halt com força. - Esse é o começo de uma barriguinha de cerveja?
Ele riu para Will.
- Acho que ele fica sentado na cabana e deixa você fazer todo o trabalho, não é?
Antes que Halt ou Will pudessem responder, ele se virou e soltou um assobio. Alguns segundos depois, seu cavalo apareceu, trotando pela curva na estrada. Quando o jovem arqueiro foi até o animal e montou na sela, Will notou uma espada que pendia da bainha. Ele se virou para Halt confuso.
- Pensei que não podíamos ter espadas - ele comentou em voz baixa.
Halt franziu a testa por um momento, sem compreender. Então seguiu o olhar de Will e percebeu o que tinha provocado o comentário.
- Não é que não tenhamos permissão - ele explicou enquanto os dois montavam. - É uma questão de prioridades. Leva anos para se tornar um bom espadachim, e não temos esse tempo. Temos outras habilidades para desenvolver.
Ele viu a próxima pergunta se formando nos lábios de Will e continuou.
- O pai de Gilan é um cavaleiro, então ele já vinha treinando com a espada durante alguns anos antes de se juntar aos arqueiros. Foi considerado um caso especial e teve permissão de continuar esse treinamento quando foi meu aprendiz.
- Mas pensei... - Will começou e hesitou.
O cavalo de Gilan se aproximava trotando, e Will não tinha certeza de que seria educado fazer a próxima pergunta na presença de Gilan.
- Nunca diga isso na frente de Halt - Gilan disse, ouvindo suas últimas palavras. - Ele simplesmente vai dizer: "Você é um aprendiz, não está aqui para pensar" ou "Se você tivesse pensado nisso, não iria perguntar."
Will teve que sorrir. Halt tinha usado exatamente as mesmas palavras em mais de uma ocasião, e a imitação de Gilan era excelente. Naquele momento, contudo, os dois homens estavam olhando para Will esperando ouvir a pergunta que estava prestes a fazer, então continuou.
- Se o pai de Gilan era um cavaleiro, ele não era automaticamente candidato à Escola de Guerra? Ou acharam que ele também era muito pequeno?
Halt e Gilan trocaram um olhar. Halt ergueu uma sobrancelha e fez um gesto para que Gilan respondesse.
- Eu poderia ter ido para a Escola de Guerra, mas preferi me juntar aos arqueiros - ele contou.
- Alguns fazem isso - Halt acrescentou com suavidade.
Will pensou nisso. Ele sempre supôs que os arqueiros não tinham ligação com os nobres do reino. Aparentemente, estava enganado.
- Mas pensei... - ele começou e no mesmo instante percebeu seu erro.
Halt e Gilan olharam para ele, depois um para o outro e disseram em coro:
- Você é um aprendiz, não está aqui para pensar. Em seguida eles viraram os cavalos e saíram trotando. Will correu para pegar Puxão e os seguiu. Quando alcançou os dois arqueiros, eles afastaram os cavalos para os lados, deixando espaço para ele. Gilan sorriu, mas Halt estava sombrio como sempre. Porém, enquanto continuavam a cavalgar num silêncio amistoso, Will teve a reconfortante sensação de que agora fazia parte de um grupo exclusivo e fortemente unido.
Era uma sensação agradável, de estar no lugar certo, como se, de alguma forma, ele tivesse chegado à sua casa pela primeira vez na vida.
- Aconteceu alguma coisa - Halt disse em voz baixa, fazendo sinal para os dois companheiros pararem os cavalos.
Os três cavaleiros haviam andado a meio galope no último meio quilômetro. Agora haviam aumentado um pouco a velocidade, e o espaço aberto entre as árvores estava bem à sua frente, a cerca de 100 metros de distância. Pequenas barracas individuais se estendiam em filas ordenadas, e a fumaça das fogueiras usadas para o preparo da comida enchia o ar. Um estande para prática de arco-e-flecha tinha sido instalado num dos lados do espaço aberto, e várias dezenas de cavalos, todos pequenos e desgrenhados cavalos de arqueiros, estavam pastando perto das árvores.
Os três companheiros sentiram um ar de urgência e atividade em todo o acampamento. No centro das fileiras de barracas, havia um pavilhão maior, de 4 x 4 metros e com altura suficiente para permitir que um homem alto ficasse de pé. Os panos laterais estavam enrolados para cima naquele momento, e Will pôde ver um grupo de homens vestidos de verde e cinza parados ao redor de uma mesa, aparentemente mergulhados numa conversa. De repente, um dos membros do grupo se afastou e correu para um cavalo que esperava do lado de fora da entrada. Ele montou, virou o cavalo e disparou pelo acampamento a galope na direção da trilha estreita entre as árvores do outro lado.
Ele tinha acabado de desaparecer nas sombras profundas debaixo das árvores quando outro cavaleiro apareceu da direção oposta, galopando entre as fileiras e parando fora da grande barraca. Seu cavalo mal tinha parado quando ele saltou para o chão e foi se juntar ao grupo do lado de dentro.
- O que aconteceu? - Will perguntou. De testa franzida, ele percebeu que várias das pequenas barracas estavam sendo desfeitas e enroladas por seus donos.
- Não tenho certeza - Halt respondeu, fazendo um gesto na direção das fileiras de barracas. - Veja se consegue encontrar um bom lugar para acamparmos. Vou ver o que está acontecendo.
Ele fez Abelard ir para a frente, virou-se e gritou:
- Não monte as barracas ainda. Pelo que parece, talvez não precisemos delas.
Os cascos de Abelard bateram com força no chão enquanto ele galopava na direção do centro do acampamento.
Will e Gilan encontraram um local para acampar debaixo de uma arvore grande relativamente perto da área central de reunião. Depois disso, sem saber ao certo o que fazer em seguida, eles se sentaram num tronco e esperaram a volta de Halt. Como um arqueiro de posição elevada, Halt tinha acesso ao pavilhão maior que, segundo a explicação de Gilan, era a barraca de comando. O comandante do grupo, um arqueiro chamado Crowley, se encontrava ali com seu pessoal todos os dias para organizar as atividades, bem como para conferir e avaliar os relatórios e as informações que os arqueiros traziam para a Reunião.
Quase todas as barracas perto dos dois arqueiros mais jovens estavam desocupadas, mas havia um arqueiro magro e desengonçado do lado de fora de uma delas, andando impacientemente de um lado para outro, parecendo tão confuso quanto Gilan e Will. Ao vê-los no tronco, ele se aproximou.
- Alguma novidade? - ele perguntou imediatamente, ficando desanimado quando ouviu a resposta de Gilan.
- Íamos fazer a mesma pergunta - Gilan disse, estendendo a mão para cumprimentar o rapaz. - Você é Merron, não é?
Os dois trocaram um aperto de mão.
- Isso mesmo. E, se me lembro bem, você é Gilan.
Gilan apresentou Will, e o recém-chegado, que parecia ter uns 30 anos, olhou para ele curioso.
- Então você é o novo aprendiz de Halt - ele comentou. - Nós estávamos querendo saber como você era. Eu ia ser um dos seus avaliadores.
- Ia ser? - Gilan perguntou depressa.
- Sim - Merron respondeu, olhando para ele. - Duvido que a gente continue com a Reunião agora - ele hesitou e acrescentou: - Quer dizer que vocês não estão sabendo?
Os dois recém-chegados balançaram a cabeça negativamente.
- Morgarath está planejando alguma coisa outra vez - ele disse em voz baixa, e Will sentiu um calafrio na espinha ao ouvir o nome perverso.
- O que aconteceu? - Gilan perguntou atento.
Merron sacudiu a cabeça, remexendo a terra na sua frente com a ponta da bota num gesto de frustração.
- Não há notícias claras ainda, apenas informações incompletas. Mas parece que um exército de Wargals saiu do desfiladeiro de Três Passos há alguns dias. Eles derrotaram as sentinelas e foram para o norte.
- Morgarath estava com eles? - Gilan quis saber.
Will ficou quieto e de olhos arregalados. Ele não conseguia fazer perguntas, nem mesmo pronunciar o nome de Morgarath.
- Não sabemos - Merron respondeu. - Acho que não, nesse estágio, mas Crowley tem mandado patrulheiros para investigar nos últimos dois dias. Talvez seja apenas um ataque surpresa, mas, se for mais do que isso, é possível que signifique o início de outra guerra. Se for isso, foi um péssimo momento para perder lorde Lorriac.
- Lorriac está morto? - Gilan perguntou com preocupação na voz, e Merron assentiu.
- Parece que foi um derrame ou um ataque do coração. Ele foi encontrado morto alguns dias atrás e não havia nenhuma marca em seu corpo. Estava olhando direto para a frente. Morto e frio como pedra.
- Mas ele estava na sua melhor fase! - Gilan exclamou. - Eu vi ele há somente um mês e ele estava saudável como um touro.
Merron deu de ombros. Ele não tinha explicação, somente conhecia os fatos.
- Acho que isso pode acontecer com qualquer um - ele disse. A gente nunca sabe.
- Quem é lorde Lorriac? - Will perguntou para Gilan em voz baixa.
Pensativo, o jovem arqueiro balançou a cabeça enquanto respondia.
- Lorriac de Steden. Ele era o líder da cavalaria pesada do rei. Provavelmente nosso melhor comandante. Como Merron disse, se houver uma guerra, sentiremos muito a falta dele.
A mão fria do medo pousou no coração de Will. Toda a sua vida as pessoas falaram de Morgarath em voz baixa, isso quando falavam dele. O Grande Inimigo tinha quase assumido as proporções de um mito: uma lenda de tempos antigos e sombrios. Agora o mito estava se tornando realidade mais uma vez. Uma realidade desafiadora e apavorante. Ele olhou para Gilan em busca de tranquilidade, mas o rosto bonito do jovem arqueiro não mostrou nada além de dúvida e preocupação em relação ao futuro.
Halt demorou quase uma hora para se juntar a eles outra vez. Como já passava do meio-dia, Will e Gilan tinham preparado uma refeição com pão, carne fria e frutas secas. O arqueiro grisalho escorregou da sela de Abelard, aceitou um prato de Will e comeu rapidamente.
- A Reunião terminou - ele disse entre uma mordida e outra. Ao ver a chegada do arqueiro mais velho, Merron tinha voltado a se reunir ao grupo. Ele e Halt se cumprimentaram rapidamente e então Merron fez a pergunta que estava na mente de todos.
- É a guerra? - ele perguntou ansiosamente, e Halt balançou a cabeça.
- Não temos certeza. As últimas informações mostram que Morgarath ainda está nas montanhas.
- Então por que os Wargals saíram? - Will perguntou. Todos sabiam que os Wargals só faziam a vontade de Morgarath. Eles nunca teriam agido de forma tão radical sem ordens dele. A expressão de Halt estava sombria quando respondeu.
- Eles são apenas um grupo pequeno, talvez 50. A intenção foi usá-los para desviar a atenção. Crowley acha que, enquanto nossos guardas estavam ocupados perseguindo os Wargals, os dois Kalkaras saíram das Montanhas e se esconderam em algum lugar da Planície Solitária.
Gilan assobiou baixinho, e Merron até deu um passo para trás surpreso. O rosto dos dois jovens arqueiros mostrava seu grande horror diante das notícias. Will não tinha idéia do que eram os Kalkaras, mas, a julgar pela expressão de Halt e as reações de Gilan e Merron, as notícias obviamente não eram boas.
- Você quer dizer que eles ainda existem? - Merron perguntou. - Pensei que tinham morrido anos atrás.
- Ah, sim, eles ainda existem - Halt confirmou. - Sobraram apenas dois, mas é o bastante para ficarmos preocupados.
Houve um grande silêncio. Finalmente e com hesitação, Will teve que perguntar:
- Quem são eles?
Halt balançou tristemente a cabeça. Não queria discutir aquele assunto com alguém tão jovem quanto Will, mas, sabendo o que os esperava, não tinha escolha. O garoto tinha que saber.
- Quando Morgarath estava planejando sua rebelião, ele queria mais que um exército comum. Sabia que sua tarefa seria mais fácil se conseguisse aterrorizar seus inimigos. Assim, durante vários anos, ele fez uma série de expedições para as Montanhas da Chuva e da Noite, procurando.
- Procurando o quê? - Will perguntou, embora tivesse a incômoda sensação de que sabia qual seria a resposta.
- Aliados que pudesse usar contra o reino. As montanhas são uma parte antiga e tranquila do mundo. Elas permaneceram inalteradas durante séculos, e havia rumores de que estranhas bestas e monstros antigos ainda viviam ali. Acontece que os rumores se confirmaram. - Wargals - Will comentou, e Halt assentiu. - Sim, Wargals. Morgarath os escravizou rapidamente e os fez cumprir sua vontade - Halt completou com um toque de amargura na voz. - Mas então ele encontrou os Kalkaras. E eles são piores que os Wargals. Muito, muito piores.
Will não disse nada. Pensar em bestas que eram piores que os Wargals o deixava, no mínimo, perturbado.
- Eles eram três, mas um foi morto há cerca de oito anos, por isso sabemos um pouco mais sobre eles. Pense numa criatura em algum ponto entre um macaco e um urso que anda sobre duas patas e você vai ter uma idéia da aparência de um Kalkara.
- Então Morgarath os controla com a mente, como faz com os Wargals? - Will perguntou.
- Não. Eles são mais inteligentes do que os Wargals, mas são totalmente obcecados por prata. Eles adoram e guardam prata e parece que Morgarath dá para os Kalkaras grandes quantidades de prata para que façam o que ele quer. E o fazem bem. Podem ser incrivelmente espertos quando perseguem uma presa.
- Presa? Que tipo de presa? - Will quis saber.
Halt e Gilan trocaram um olhar, e Will pôde ver que seu mentor estava relutante em falar no assunto. Mas o arqueiro grisalho respondeu em voz baixa:
- Os Kalkaras são assassinos. Quando recebem ordens para capturar uma determinada vítima, fazem tudo o que podem para alcançar e matar essa pessoa.
- Podemos impedir os Kalkaras? - Will perguntou, e seu olhar passou rapidamente para o arco pesado de Halt e a aljava repleta de flechas negras.
- É difícil matar eles. São cobertos por pêlos grossos emaranhados e tão fechados que quase parecem escamas. Uma flecha dificilmente penetra neles. Uma acha ou uma espada de folha larga funciona melhor.
Ou talvez um bom golpe com uma lança pesada dê resultado.
Will sentiu um momento de alívio. Esses Kalkaras estavam parecendo quase invencíveis, mas havia muitos cavaleiros no reino que, sem dúvida, eram capazes de dar conta deles.
- Então foi um cavaleiro que matou um deles há oito anos? Halt balançou a cabeça.
- Não foi um cavaleiro. Foram três. Foram necessários três cavaleiros totalmente armados para matar a criatura, e apenas um deles sobreviveu à batalha. E o que é pior: ele ficou aleijado para o resto da vida - Halt terminou carrancudo.
- Três homens? Todos cavaleiros? - Will indagou sem acreditar. - Mas como...
Gilan o interrompeu antes que pudesse terminar.
- O problema é que, se você se aproximar o bastante para usar uma espada ou lança, geralmente os Kalkaras derrotam você antes que tenha alguma chance.
Enquanto ele falava, seus dedos batiam levemente no cabo da espada que usava na cintura.
- E como eles fazem isso? - Will quis saber, sentindo o alívio momentâneo ser instantaneamente afastado pelas palavras de Gilan.
- Seus olhos - explicou Merron, o arqueiro desajeitado. - Se você olhar nos olhos deles, fica paralisado e indefeso, do mesmo jeito que um pássaro fica paralisado pelo olhar de uma cobra antes de ser morto por ela.
Will olhou para os três companheiros sem compreender. O que Merron tinha dito parecia improvável demais para ser verdade, mas Halt não o contradisse.
- Paralisa você... como eles podem fazer isso? Você está falando de magia?
Halt deu de ombros. Merron olhou para o lado, pouco à vontade. Nenhum deles gostava de discutir aquele assunto.
- Algumas pessoas dizem que é magia - Halt disse finalmente.
- Acho mais provável que seja uma forma de hipnotismo. Seja como for, Merron esta certo. Se um Kalkara fizer você olhar nos olhos dele, você fica paralisado de puro terror, incapaz de fazer qualquer coisa para se salvar.
Will olhou ao redor ansioso, como se esperasse ver uma criatura macaco-urso sair de dentro das árvores silenciosas a qualquer momento. Ele sentiu o pânico crescendo no peito. De alguma forma, tinha acreditado que Halt era invencível e, no entanto, ele estava ali, aparentemente admitindo que não havia defesa contra aqueles monstros perversos.
- Não há nada que se possa fazer? - ele perguntou numa voz desanimada.
- Diz a lenda que eles são especialmente vulneráveis ao fogo - Halt contou, dando de ombros. - O problema é, como já sabemos, conseguirmos nos aproximar o bastante para causar qualquer dano. Carregar uma chama acesa dificulta a tarefa de perseguir um Kalkara. Eles costumam caçar à noite e podem ver você se aproximando.
Will achou difícil acreditar no que estava ouvindo. Halt parecia muito realista sobre o assunto, e Gilan e Merron obviamente ficaram perturbados com as notícias que ele trouxe.
Seguiu-se um silêncio estranho, quebrado por Gilan.
- O que faz Crowley pensar que Morgarath está usando Kalkaras? Halt hesitou. Ele tinha ouvido a opinião de Crowley numa reunião particular. Então deu de ombros. Todos precisariam saber de tudo cedo ou tarde e todos eram membros do Grupo dos Arqueiros, até Will.
- Ele já usou duas vezes no ano passado: para matar lorde Northolt e lorde Lorriac.
Os três homens mais jovens trocaram olhares surpresos, e Halt continuou:
- Pensou-se que Northolt havia sido morto por um urso, lembram?
Will acenou com a cabeça de leve. Agora ele lembrava. No primeiro dia como aprendiz de Halt, o arqueiro tinha recebido a notícia da morte do comandante supremo.
- Na época, achei que Northolt era um caçador habilidoso demais para ser morto daquele jeito. É óbvio que Crowley concorda.
- Mas e quanto a Lorriac? Todos dizem que foi um derrame - Merron comentou.
Halt olhou para ele brevemente e então respondeu.
- Você ouviu isso, não foi? Bem, o médico dele ficou muito surpreso. Ele disse que nunca tinha visto homem mais saudável. Por outro lado... - ele fez uma pausa, e Gilan terminou seu pensamento.
- Pode ter sido obra dos Kalkaras.
- Exatamente - Halt concordou. - Não conhecemos todos os efeitos do olhar paralisante. Mantido durante um longo período de tempo, o terror pode muito bem ser suficiente para parar o coração de um homem. E houve algumas informações vagas sobre um animal grande e escuro visto na região.
Novamente, o silêncio se instalou no pequeno grupo debaixo das árvores. Em volta deles, os arqueiros se agitavam de um lado para outro, levantando acampamento e selando os cavalos. Halt finalmente os despertou de seus pensamentos.
- É melhor irmos andando. Merron, você precisa voltar ao seu feudo. Crowley quer o exército alerta e mobilizado. As ordens vão ser distribuídas em poucos minutos.
Merron assentiu e se afastou na direção de sua barraca, mas parou e voltou. Algo na voz de Halt, na forma como tinha dito "você precisa voltar ao seu feudo", o fez pensar.
- E vocês três? - ele perguntou. - Para onde vocês vão? Antes mesmo que Halt respondesse, Will soube o que ele ia dizer.
Mas isso não tornou o fato menos assustador ou apavorante quando as palavras foram ditas.
- Nós vamos atrás dos Kalkaras.
O acampamento fervia. Barracas eram desmontadas e arqueiros guardavam seus equipamentos, amarrando-os nas sacolas das selas. Os primeiros integrantes do grupo já tinham partido e voltavam para os seus feudos.
Will estava ajustando as cordas das mochilas nas selas depois de repor alguns itens que tinha tirado. Halt estava sentado a alguns metros de distância, com a testa franzida, pensativo, estudando o mapa da região que cercava a Planície Solitária. A planície era uma área grande que ainda não tinha sido mapeada e não apresentava estradas. Uma sombra caiu sobre Halt e ele olhou para cima. Gilan estava parado ao seu lado com um ar preocupado no rosto.
- Halt, você tem certeza sobre isso? - ele perguntou em voz baixa e preocupada.
- Toda certeza, Gilan. Isso simplesmente tem que ser feito - Halt respondeu, olhando-o com determinação.
- Mas ele é só um garoto! - Gilan protestou, olhando para Will que estava amarrando um saco de dormir atrás da sela de Puxão.
Halt suspirou e desviou o olhar.
- Sei disso, mas ele é um arqueiro. Aprendiz ou não, ele é um membro da corporação como todos nós.
Ele viu que Gilan ia protestar outra vez, preocupado com Will, e sentiu uma onda de afeição pelo antigo aprendiz.
- Gilan, num mundo ideal eu não colocaria Will em risco desse jeito. Mas não estamos num mundo ideal. Todos vão ter que desempenhar seu papel nessa campanha, até meninos como Will. Morgarath está se preparando para algo grande. Os agentes de Crowley ouviram dizer que, além de tudo, ele tem entrado em contato com os escandinavos. - Os escandinavos? Para quê?
- Não sabemos os detalhes, mas na minha opinião ele está esperando formar uma aliança com eles - Halt respondeu, dando de ombros. - Eles lutam com qualquer um por dinheiro. E, pelo que parece, lutam por qualquer um - ele acrescentou, deixando clara sua antipatia por mercenários. - O caso é que estamos com falta de pessoal. Normalmente, eu iria atrás dos Kalkaras com um grupo de pelo menos cinco arqueiros mais antigos. Mas Crowley simplesmente não pode ceder eles para mim. Assim, tive que me contentar com os dois em quem mais confio: você e Will.
- Ora, obrigado.
Gilan deu um sorriso torto. Ele estava emocionado com a confiança de Halt. Ainda admirava seu antigo mentor. Quase todos na Corporação de Arqueiros o faziam.
- Além disso, acho que essa sua velha espada enferrujada pode ser útil se nos depararmos com um desses horrores - Halt disse.
A Corporação de Arqueiros tinha tomado a decisão acertada quando permitiu que Gilan continuasse o treinamento com a arma. Embora poucas pessoas soubessem, Gilan era um dos melhores espadachins em Araluen.
- Quanto a Will - ele continuou -, não o subestime. Ele é muito habilidoso. É rápido, corajoso e já maneja muito bem o arco e as flechas. E, o que é melhor, pensa rápido. Meu verdadeiro plano é mandar ele buscar reforços se encontrarmos pistas dos Kalkaras. Isso vai nos ajudar e vai manter ele longe do perigo.
Pensativo, Gilan coçou o queixo. Agora que Halt tinha explicado o que pretendia, aquele parecia o único caminho a tomar. Ele encontrou o olhar do homem mais velho e acenou com a cabeça mostrando que entendia a situação. Então se virou para organizar seu material, mas descobriu que Will já tinha arrumado tudo e amarrado à sela de seu cavalo. Ele sorriu para Halt.
- Você tem razão - ele disse. - O garoto sabe usar a cabeça.
Os três partiram um pouco depois, enquanto os outros arqueiros ainda estavam recebendo ordens. Mobilizar o exército de Araluen não seria uma tarefa insignificante, e os arqueiros deveriam coordená-la e depois estar preparados para guiar as forças individuais dos 50 feudos para o ponto de reunião nas planícies de Uthal. Com Gilan e Halt designados para procurar os Kalkaras, os outros arqueiros tinham que assumir a tarefa de coordenar as forças de seus feudos.
Os três companheiros pouco falaram quando Halt os guiou para o sudeste. Até a curiosidade natural de Will foi abrandada pela magnitude da tarefa que os esperava. Enquanto cavalgavam em silêncio, a sua mente ficava formando imagens de criaturas selvagens parecidas com ursos e com feições de macaco. Criaturas que poderiam muito bem se mostrar invencíveis, até para alguém com as habilidades de Halt.
Por fim, contudo, a monotonia se instalou, as imagens terríveis desapareceram e ele começou a se perguntar que plano, se havia algum, Halt tinha em mente.
- Halt - ele chamou um tanto sem fôlego -, onde você espera encontrar os Kalkaras?
Halt observou o rosto sério ao seu lado. Eles estavam viajando no ritmo da marcha forçada dos arqueiros: quarenta minutos na sela, cavalgando num galope regular, e depois vinte minutos a pé, conduzindo os cavalos e permitindo que viajassem sem carga, enquanto os homens corriam num trote uniforme.
A cada quatro horas, eles paravam para uma hora de descanso, quando faziam uma refeição rápida de carne seca, pão duro e frutas, e então se embrulhavam em suas capas para dormir.
Eles já estavam viajando fazia algum tempo e Halt achou que era hora de descansar. Ele levou Abelard para fora da estrada, para o abrigo de um pequeno bosque. Will e Gilan o seguiram, largando as rédeas e deixando os cavalos pastar.
- O melhor - Halt disse em resposta à pergunta de Will - é começar a procurar na toca e ver se eles estão nas vizinhanças.
- E sabemos onde essa toca fica? - Gilan perguntou.
- Nossos espiões acham que fica em algum lugar na Planície Solitária, além das Flautas de Pedra. Vamos investigar essa região e ver o que encontrarmos. Se eles estiverem por ali, certamente vamos descobrir que uma ou outra ovelha ou cabra está faltando nas vilas da vizinhança. Conseguir que os moradores falem vai ser outro problema. Os habitantes das planícies são as pessoas mais fechadas de todos os tempos.
- O que é essa planície de que vocês estão falando? - Will perguntou com a boca cheia de pão seco. - E que raios é uma Flauta de Pedra?
- A Planície Solitária é uma área grande e plana. Tem muito poucas árvores e é coberta principalmente por massas rochosas e capim alto - Halt contou para ele. - Parece que o vento está sempre soprando, não importa a época do ano em que você vá para lá. É um lugar triste e deprimente, e as Flautas de Pedra são a parte mais sombria de lá.
- Mas o que são... - Will começou, mas Halt só tinha feito uma breve pausa.
- As Flautas de Pedra? Ninguém sabe realmente. Elas são um círculo de pedras formado pelos antigos, inserido no meio da parte mais ventosa da planície. Ninguém descobriu qual seu verdadeiro objetivo, mas elas estão arranjadas de modo que o vento é desviado ao redor do círculo e atravessa uma série de buracos nas próprias pedras. Elas criam um som constante e agudo, mas não tenho idéia de por que alguém achou que o som se parece com o de flautas. O barulho é misterioso e desafinado e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Depois de alguns minutos, você começa a ficar arrepiado, e ele continua por horas e horas.
Will ficou em silêncio. A imagem de uma planície triste varrida pelo vento e com pedras que emitiam um uivo agudo e ininterrupto pareceu tirar o último vestígio de calor do sol do final da tarde. Ele estremeceu involuntariamente. Halt viu o movimento e se inclinou para lhe dar um tapinha encorajador no ombro.
- Se alegre - ele disse. - Nada costuma ser tão mau quanto parece. Agora, vamos descansar um pouco.
Eles chegaram aos arredores da Planície Solitária ao meio-dia do segundo dia. Halt tinha razão: era um lugar grande e deprimente. A área se estendia por vários quilômetros e era coberta por um capim alto e cinzento, ressecado pelo vento constante.
O vento parecia quase um ser vivo. Ele era irritante, soprando contínua e invariavelmente do oeste, dobrando o capim alto à sua frente, varrendo o terreno achatado da Planície Solitária.
- Agora vocês entendem por que ela é chamada de Planície Solitária? - Halt perguntou aos dois companheiros, puxando as rédeas de Abelard para que eles pudessem alcançá-lo. - Quando você sai cavalgando nesse maldito vento, tem a sensação de que é a única pessoa viva que resta na face da Terra.
"Isso é verdade", Will pensou. Ele se sentiu pequeno e insignificante diante do vazio da planície. E essa sensação de insignificância foi acompanhada por outra de impotência. O deserto que estavam atravessando a cavalo parecia sugerir a presença de forças ocultas, forças muito maiores que suas habilidades. Até Gilan, normalmente alegre e entusiasmado, parecia afetado pela atmosfera pesada e deprimente do lugar. Apenas Halt parecia não ter mudado, permanecendo sombrio e taciturno como sempre.
Aos poucos, enquanto cavalgavam, Will ficava ciente de uma sensação inquietante. Havia algo oculto bem fora do alcance de sua percepção consciente. Alguma coisa que o deixava perturbado. Ele não a conseguia isolar nem mesmo dizer de onde vinha ou que forma tinha. A coisa simplesmente estava ali, sempre presente. Ele se mexeu na sela e ficou de pé nos estribos para investigar o horizonte monótono, na esperança de poder ver a fonte daquilo tudo.
- Você sentiu - Halt comentou ao perceber o movimento. - São as Pedras.
E, depois que Halt falou, Will se deu conta de que tinha sido um som, tão leve e tão contínuo que não podia ser isolado como tal, que criara a sensação de inquietação em sua mente e o aperto na boca do estômago. Ou talvez eles tivessem chegado a uma distância em que conseguiam ouvir as Flautas de Pedra apenas quando Halt fez o comentário, pois naquele momento Will pôde isolar o som. Era uma série de notas musicais desafinadas tocadas ao mesmo tempo, mas criando um som áspero e desarmonioso que irritava os nervos e perturbava a mente. Sua mão esquerda escorregou discretamente para o punho da faca enquanto cavalgava, e ele sentiu conforto ao tocar a arma sólida e confiável.
Eles continuaram a viagem durante toda a tarde com a impressão de que nunca avançavam. A cada passo, o horizonte atrás e diante deles parecia nunca ficar mais perto ou longe. Era como se estivessem marcando passo num mundo vazio. O som constante e agudo das Flautas de Pedra os acompanhou por todo o dia, ficando cada vez mais forte. Aquele era o único sinal de que estavam avançando. As horas passavam e o som continuava, sem que Will sentisse que ficava mais fácil suportá-lo. O som irritava seus nervos e o deixava ansioso. Quando o sol começou a mergulhar na margem oeste, Halt freou Abelard.
- Vamos passar a noite aqui e descansar - ele anunciou. - É quase impossível manter um ritmo constante no escuro. Sem características marcantes no terreno que nos ajudem a estabelecer uma rota, poderíamos facilmente acabar andando em círculos.
Agradecidos, os outros desmontaram. Mesmo bem preparados como eram, as horas passadas no ritmo de marcha forçada os tinham deixado exaustos. Will começou a procurar lenha para a fogueira ao redor dos poucos arbustos ressecados que cresciam na planície. Halt, percebendo o que ele tinha em mente, sacudiu a cabeça.
- Nada de fogo - recomendou. - Vão nos ver a quilômetros e não temos idéia de quem possa estar vigiando.
Will parou e deixou o pequeno feixe que tinha reunido cair no chão.
- Você está falando dos Kalkaras? - ele perguntou.
- Eles ou o povo da planície - Halt respondeu, dando de ombros.
- Não podemos saber com certeza se alguns deles são aliados dos Kalkaras. Afinal, vivendo tão próximos dessas criaturas, podem acabar cooperando com elas apenas para garantir sua segurança. E não queremos que eles espalhem que há estranhos na Planície.
Gilan estava tirando a sela de Blaze, seu cavalo baio. Ele largou-a no chão e esfregou o pêlo do cavalo com um punhado do sempre presente capim seco.
- Você não acha que já fomos vistos? - ele perguntou.
Halt pensou na pergunta por alguns segundos antes de responder.
- Talvez sim. Há muitos fatos que desconhecemos, como onde fica realmente a toca dos Kalkaras, se o povo das planícies é ou não seu aliado, se um deles nos viu ou não e informou nossa presença. Mas, até sabermos que fomos vistos, vamos fazer de conta que não fomos. Portanto, nada de fogo.
- É claro que você tem toda a razão - Gilan murmurou relutante. - É que eu ficaria feliz em matar alguém por uma xícara de café.
- Acenda o fogo para coar café - Halt recomendou - e isso pode ser a última coisa que vai fazer.
Foi um acampamento frio e desanimado. Cansados do ritmo duro da viagem, os arqueiros comeram uma refeição fria: pão, frutas secas e carne fria mais uma vez, engolida com água fria de seus cantis. Will estava começando a detestar aquelas rações duras e praticamente sem gosto. Halt assumiu o primeiro turno de vigília, e Will e Gilan se enrolaram em suas capas para dormir.
Aquela não era a primeira vez que Will acampava com desconforto desde que o período de treinamento tinha começado. Mas era a primeira vez que não havia nem mesmo um fogo crepitante ou, pelo menos, um canteiro de brasas quentes ao lado do qual descansar. Ele dormiu mal e teve sonhos desagradáveis - sonhos com criaturas assustadoras, coisas estranhas e aterradoras que povoavam seu subconsciente, porém perto o bastante para que ele sentisse sua presença e ficasse perturbado por ela.
O garoto ficou quase satisfeito quando Halt o sacudiu de leve para acordá-lo para seu turno de vigília.
O vento estava empurrando as nuvens sob a Lua. O gemido da canção das Pedras estava mais forte do que nunca. Will sentiu um cansaço de espírito e se perguntou se as Pedras tinham sido criadas para deixar as pessoas exaustas daquela forma. O capim alto em volta deles sibilava uma melodia que se sobrepunha ao som agudo que vinha de longe. Halt apontou para o céu, indicando um ângulo de elevação para ser lembrado por Will.
- Quando a Lua alcançar aquele ângulo, passe a guarda para Gilan - ele disse ao aprendiz.
Will concordou, levantando-se e esticando os músculos rígidos. Ele apanhou o arco e a aljava e andou até o arbusto que Halt tinha escolhido como ponto de observação. Arqueiros em vigília nunca ficavam em terreno aberto no local do acampamento, mas sempre se afastavam 20 metros das barracas e encontravam um esconderijo Dessa forma, estranhos que se aproximassem do acampamento teriam menor probabilidade de vê-los. Essa era uma das muitas habilidades que Will tinha aprendido em seus meses de treinamento.
Ele tirou duas flechas da aljava e as segurou entre os dedos da mão que apoiava o arco. Iria segurá-las desse jeito durante as quatro horas de sua guarda. Se precisasse delas, não teria que fazer movimentos exagerados para tirá-las da aljava - movimento que poderia alertar o atacante. Em seguida ele pôs o capuz na cabeça para se confundir com o formato irregular do arbusto. A sua cabeça e os seus olhos se moviam constantemente de um lado para outro como Halt tinha ensinado, sempre mudando o foco, de perto do acampamento para o horizonte escuro à sua volta. Dessa forma, ele teria chances melhores de perceber algum movimento. De tempos em tempos, ele se virava lentamente num círculo completo, examinando todo o terreno ao seu redor, do jeito mais imperceptível possível.
O som agudo das Pedras e o sibilar do vento eram constantes. Mas Will também começou a ouvir outros sons - o farfalhar de pequenos animais na grama e outros menos explicáveis. Com cada um deles, o coração do garoto acelerava um pouco mais, e ele se perguntava se podiam ser os Kalkaras rastejando sobre os vultos adormecidos dos amigos. Em certo momento, ficou convencido de que estava ouvindo a respiração de um animal grande. O medo tomou conta dele, apertando sua garganta, até ele perceber, com os sentidos sintonizados ao máximo, que o que ouvia realmente era a respiração tranquila dos companheiros.
Will sabia que, a uma distância maior do que 5 metros, ficaria praticamente invisível ao olho humano, graças à capa, às sombras e ao formato do arbusto que o cercava. Mas ele se perguntava se os Kalkaras contavam somente com a visão. Talvez tivessem outros sentidos que lhes dissessem que havia um inimigo escondido no arbusto. Talvez, naquele momento, estivessem se aproximando, ocultos pelo capim alto que balançava ao vento, prontos para atacar...
Seus nervos, já sensíveis além do suportável por causa da deprimente canção das Flautas de Pedra, faziam-no querer se virar e identificar a fonte de cada novo som assim que o ouvia. Mas Will sabia que iria se revelar ao fazer isso e se obrigou a se mover devagar, virando-se com cuidado até ficar de frente para a possível origem do som, avaliando cada novo risco antes de descartá-lo.
Nas longas horas da vigília tensa, ele não viu nada além das nuvens apressadas no céu, a Lua fugitiva e o mar ondulante de grama que os cercava. Quando a Lua chegou à elevação predeterminada, o rapaz estava física e mentalmente esgotado. Acordou Gilan para assumir a guarda e se enrolou em sua capa outra vez.
Desta vez, Will não sonhou. Exausto, dormiu profundamente até a luz cinzenta do amanhecer surgir no céu.
Eles viram as Flautas de Pedra no meio da manhã: um círculo cinzento e surpreendentemente pequeno de monólitos de granito que estavam no alto de uma elevação na planície. O caminho que tinham escolhido levou os três cavaleiros a cerca de 1 quilômetro de distância das Pedras, e Will ficou satisfeito de não se aproximar mais. O canto deprimente estava mais alto do que nunca, flutuando e se movendo ao sabor do vento.
- Vou partir em dois o lábio do próximo flautista que eu encontrar - Gilan ameaçou com um sorriso sombrio.
Eles continuaram seu caminho, deixando os quilômetros para trás, hora após hora, uma igual à outra, sem nada novo para ver e sempre com o leve uivo das Pedras às suas costas, deixando os nervos à flor da pele.
O homem da planície surgiu de repente no meio da grama, a uns 50 metros de distância. Pequeno, vestido com trapos cinza e com cabelos compridos despenteados caídos nos ombros, ele olhou para os três companheiros com olhos enlouquecidos durante vários segundos.
O coração de Will mal tinha se recuperado do susto de seu aparecimento repentino quando ele se foi, correndo pela grama, parecendo mergulhar dentro dela. Em poucos segundos, tinha desaparecido, engolido pelo capim. Halt ia colocar Abelard para persegui-lo, mas desistiu da idéia. A flecha que havia escolhido e pousado na corda do arco não foi usada. Gilan também estava pronto para atirar e tinha tido uma reação tão rápida quanto a de Halt. Ele também não atirou, olhando com curiosidade para seu superior.
- Pode não ser nada - Halt disse, dando de ombros. - Ou talvez ele tenha corrido para contar aos Kalkaras. Mas não podemos matar um homem só por desconfiança.
Gilan soltou um leve riso ruidoso, mais para liberar a tensão causada pelo surgimento inesperado do homem.
- Acho que não faz diferença se acharmos os Kalkaras ou se eles nos acharem - ele disse.
Os olhos de Halt se fixaram nele por um momento, sem nenhum sinal de humor.
- Acredite em mim, Gilan, há uma grande diferença - afirmou. Eles tinham parado a marcha forçada e cavalgavam lentamente pela grama alta. O som das Pedras começou a diminuir um pouco, para grande alívio de Will. Ele percebeu que agora o vento estava levando o som para longe.
Depois do repentino aparecimento do morador da planície, houve um período sem que se manifestasse outro sinal de vida. Uma pergunta vinha incomodando Will durante toda a tarde.
- Halt? - ele começou com cuidado, sem saber se este o mandaria ficar quieto.
O arqueiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas, mostrando que estava preparado para responder perguntas, e então Will continuou.
- Por que você acha que Morgarath buscou a ajuda dos Kalkaras?
O que ele espera ganhar?
Halt percebeu que Gilan também estava esperando pela resposta. Ele colocou os pensamentos em ordem antes de responder. Estava um pouco relutante em transformá-los em palavras, pois parte da resposta dependia de suposições e intuição.
- Quem sabe por que Morgarath faz as coisas? - ele disse devagar. - Não posso dar uma resposta clara. Só posso dizer o que Crowley e eu pensamos.
Ele olhou rapidamente para os companheiros. Era óbvio que os dois estavam preparados para aceitar suas suposições como fatos consumados. "Às vezes", ele pensou aborrecido, "a reputação de estar certo o tempo todo pode ser uma carga muito pesada."
- Há uma guerra se aproximando - ele continuou. - Todos já sabemos disso. Os Wargals estão avançando, e nós ouvimos dizer que Morgarath entrou em contato com Ragnak.
Ele viu a expressão confusa no rosto de Will, mas sabia que Gilan compreendia quem era Ragnak.
- Ragnak é o oberjarl, ou chefe supremo, se preferir, dos escandinavos, os lobos-do-mar - explicou.
Ele viu um clarão de compreensão no rosto do aprendiz e continuou.
- Está claro que essa guerra vai ser pior do que a anterior, e nós vamos precisar de todos os nossos recursos e de nossos melhores comandantes para nos guiar. Acho que é isso que Morgarath tem em mente. Ele quer nos enfraquecer fazendo que os Kalkaras matem nossos líderes. Northolt, o chefe supremo do exército, e Lorriac, nosso melhor comandante de cavalaria, já se foram. Certamente outros homens vão assumir essas posições, mas inevitavelmente vai haver alguma confusão no período de mudança, alguma perda de união. Acho que isso faz parte do plano de Morgarath.
- Há também outro aspecto - Gilan acrescentou pensativo. - Esses dois homens foram fundamentais na sua derrota na última vez. Ele está destruindo nossa estrutura de comando e se vingando ao mesmo tempo.
- Claro, isso é verdade - Halt concordou. - E, para uma mente perturbada como a de Morgarath, vingança é um motivo poderoso.
- Então você acha que vai haver mais mortes? - Will perguntou, e Halt o olhou com firmeza.
- Acho que vai haver mais tentativas. Morgarath agiu duas vezes com alvos definidos e teve sucesso. Não vejo nenhum motivo para que não tente de novo. Ele tem razões para odiar muita gente no reino. Talvez até o próprio rei. Ou talvez o barão Arald, pois ele causou alguns problemas para Morgarath na última guerra.
"E você também", Will pensou com medo. Ele estava para externar o pensamento de que Halt poderia ser um alvo quando se deu conta de que seu mestre provavelmente já estava ciente do fato. Gilan estava fazendo outra pergunta ao arqueiro mais velho.
- Eu não entendo uma coisa. Por que os Kalkaras continuam voltando para seu esconderijo? Por que não procuram simplesmente a vítima seguinte?
- Acho que essa é uma das poucas vantagens que temos - Halt afirmou. - São selvagens, cruéis e mais inteligentes do que os Wargals, mas não são humanos. São totalmente ingênuos. Mostre uma vítima para eles e eles vão caçar e matar ela ou morrer na tentativa. Mas só conseguem perseguir uma de cada vez. Entre uma morte e outra, voltam para sua toca. Então Morgarath, ou um de seus subordinados, os prepara para a próxima vítima e eles saem novamente. Nossa esperança é interceptar os Kalkaras no caminho se tiverem recebido uma nova missão. Ou matar eles em seu esconderijo se não tiverem.
Will olhou pela milésima vez para a planície monótona coberta de grama que se estendia à frente deles. Em algum lugar lá fora, as duas criaturas assustadoras estavam esperando, talvez já com uma nova vítima em mente. A voz de Halt interrompeu seus pensamentos.
- O sol está se pondo - ele disse. - Acho que podemos acampar aqui.
Eles desceram agilmente das selas e soltaram a barrigueira para deixar os cavalos mais confortáveis.
- Pelo menos este maldito lugar tem uma coisa boa - Gilan comentou, olhando à sua volta. - Todos os lugares são igualmente bons para acampar. Ou igualmente ruins.
Will acordou de um sono sem sonhos ao toque da mão de Halt em seu ombro. Ele jogou a capa para trás, olhou para a Lua, que dançava no céu, e franziu a testa. Não podia ter dormido mais de uma hora e ia dizer isso, mas Halt o impediu, colocando um dedo nos lábios, pedindo silêncio. Will olhou ao redor e percebeu que Gilan já estava acordado, parado perto dele com a cabeça voltada para noroeste, para o lugar de onde tinham vindo.
O garoto se levantou, movendo-se com cuidado para não fazer nenhum barulho desnecessário. Suas mãos tinham ido automaticamente para as armas, mas ele relaxou quando se deu conta de que não havia perigo imediato. Os outros dois prestavam atenção em um som, e então Halt levantou a mão e apontou para o norte.
- Lá está de novo - ele disse baixinho.
Então Will também escutou o mesmo som, acima dos gemidos das Flautas de Pedra e do murmúrio do vento ao passar na grama. Seu sangue gelou. Era um uivo agudo e selvagem que ululava e ficava cada vez mais alto. Um som desumano levado até eles pelo vento e saído da garganta de um monstro.
Segundos depois, outro uivo respondeu ao primeiro. Ligeiramente mais agudo, parecia vir de um ponto um pouco mais à esquerda do que o primeiro. Sem que lhe dissessem, Will sabia o que o som significava.
- São os Kalkaras - Halt disse num tom sombrio. - Eles têm um novo alvo e estão caçando.
Os três companheiros passaram a noite sem dormir. Os gritos de caça dos Kalkaras afastavam-se para o norte. Quando ouviram os sons pela primeira vez, Gilan quis selar Blaze, que estava nervoso com os uivos assustadores das duas bestas. Halt, porém, fez um gesto para que parasse.
- Não vou atrás dessas coisas no escuro - ele disse brevemente. Vamos esperar até o dia amanhecer e então vamos procurar suas pegadas.
As pegadas foram encontradas com facilidade, pois era óbvio que os Kalkaras não tentaram esconder sua passagem. A grama alta tinha sido esmagada pelos dois corpos pesados, que deixaram uma trilha visível apontando para o nordeste. Halt encontrou a trilha deixada pelo primeiro dos dois monstros e logo depois Gilan encontrou a segunda, cerca de 300 metros à esquerda, numa linha paralela e próxima o bastante para que pudessem se ajudar no caso de um ataque, mas longe o suficiente para evitar qualquer armadilha preparada para o irmão.
Halt analisou a situação por alguns momentos e então tomou uma decisão.
- Você fica com o segundo - ele disse para Gilan. - Will e eu vamos seguir este aqui. Quero garantir que os dois continuem andando na mesma direção. Não quero que um deles volte e venha atrás de nós.
- Você acha que eles sabem que estamos aqui? - Will perguntou, tentando com dificuldade manter a voz calma e desinteressada.
- É possível. O homem da planície que vimos já teve tempo para avisar eles. Ou talvez seja apenas uma coincidência e eles estejam saindo para a próxima missão.
Ele olhou para a trilha de grama esmagada que ia sempre na mesma direção.
- Parece mesmo que eles têm um objetivo. Então se virou para Gilan outra vez.
- Em todo caso, fique com os olhos abertos e preste muita atenção em Blaze. Os cavalos vão sentir a presença dessas bestas antes de nós. Não queremos cair numa emboscada.
Gilan as sentiu e virei; Blaze na direção da segunda trilha. A um sinal da mão de Halt, os três arqueiros começaram a cavalgar para a frente, seguindo a direção que os Kalkaras tinham tomado.
- Eu vou vigiar a trilha - Halt disse a Will. - Você fica de olho em Gilan, só para garantir.
Will voltou a atenção para o alto arqueiro, que estava a uns 200 metros de distância, e acompanhou seu ritmo. A parte inferior do corpo de Blaze estava escondida pela grama alta. De tempos em tempos, ondulações no chão tiravam tanto o cavalo quanto o cavaleiro da vista do rapaz. Na primeira vez em que isso aconteceu, Will reagiu com um grito de alarme, pois Gilan simplesmente desapareceu. Halt se virou rapidamente com uma flecha já pronta no arco, mas nesse momento Gilan e Blaze reapareceram, aparentemente sem saber do momento de pânico que tinham causado.
- Desculpe - Will murmurou aborrecido por ter permitido que seu estado de nervos o dominasse.
Halt lhe lançou um olhar penetrante.
- Está tudo bem - ele disse com calma. - Prefiro que me avise sempre, mesmo quando só pensar que há um problema.
Halt sabia muito bem que, por ter dado um falso alarme uma vez, Will poderia relutar em reagir da próxima, e isso poderia ser fatal para todos eles.
- Avise para mim sempre que perder Gilan de vista. E diga quando ele reaparecer - ele pediu.
Will assentiu, compreendendo o raciocínio do mestre.
E assim eles continuaram a cavalgar, com o grito agudo das Flautas enchendo seus ouvidos novamente à medida que se aproximavam do círculo de pedra. Will percebeu que desta vez eles passariam muito mais perto, pois os Kalkaras pareciam estar se dirigindo direto para o local. A cavalgada foi marcada por informações intermitentes de Will.
- Ele sumiu... ainda está sumido... Tudo bem. Apareceu de novo.
Will nunca estava seguro de quem estava passando por uma depressão, se Gilan ou ele. Muitas vezes, os dois ao mesmo tempo.
Houve um momento desagradável em que Gilan e Blaze sumiram e não reapareceram dentro dos habituais poucos segundos.
- Não consigo mais vê-lo... - Will informou. E então:
- Ainda não... ainda não... nenhum sinal... - a sua voz começou a ficar aguda por causa da inquietação que crescia dentro dele. - Nenhum sinal... ainda nenhum sinal...
Halt fez Abelard parar e preparou o arco novamente enquanto examinava o chão à sua esquerda e esperava Gilan reaparecer. Ele soltou um assobio agudo, três notas ascendentes. Houve uma pausa e depois um assobio de resposta, as mesmas três notas em ordem descendente, veio claramente até eles. Will soltou um suspiro de alívio, e Gilan em pessoa reapareceu nesse exato momento. Ele os olhou e fez um gesto largo, com os dois braços erguidos numa pergunta óbvia: "Qual é o problema?"
Halt fez um gesto negativo, e eles continuaram.
Quando se aproximaram das Flautas de Pedra, Halt ficou cada vez mais atento. O Kalkara que ele e Will vinham seguindo estava se dirigindo diretamente para o círculo. Ele fez Abelard parar e protegeu os olhos do sol, estudando as pedras cinzentas e sinistras com cuidado, procurando algum movimento ou sinal de que o Kalkara pudesse estar deitado esperando para emboscá-los.
- É o único esconderijo em quilômetros - ele explicou. - Não vamos correr o risco de que a maldita coisa esteja escondida aqui esperando por nós. Acho que precisamos tomar um pouco mais de cuidado.
Ele chamou Gilan com um sinal e explicou a situação. Então eles se dividiram para cobrir uma área maior ao redor das pedras, cavalgando para o interior do círculo lentamente de três diferentes direções, procurando nos cavalos qualquer sinal possível de reação a medida que se aproximavam. Mas o local estava vazio, embora no seu interior o gemido desafinado do vento que atravessava os buracos das flautas fosse quase insuportável. Pensativo, Halt mordeu o lábio olhando para o mar de grama nas duas trilhas deixadas pelos Kalkaras.
- Isso está nos tomando tempo demais - ele disse finalmente. - Enquanto pudermos ver as trilhas por uns 200 metros à frente, vamos andar mais depressa. Vamos diminuir o passo quando chegarmos a uma colina ou em qualquer momento em que a trilha não esteja visível por mais de 5 metros.
Gilan assentiu, mostrando que tinha compreendido, e retomou sua posição mais distante. Eles fizeram os cavalos trotar num passo longo e tranquilo que cobriria os quilômetros à frente deles. Will continuou a vigiar Gilan e, sempre que a trilha visível diminuía, Halt ou Gilan assobiavam e eles reduziam a velocidade até que o terreno se abrisse novamente à sua frente.
Quando a noite caiu, os três acamparam de novo. Halt ainda se recusava a seguir os dois assassinos no escuro, embora a Lua deixasse sua trilha facilmente visível.
- Fácil demais para eles voltarem no escuro - justificou. - Quero estar bem preparado quando finalmente vierem até nós.
- Você acha que eles virão? - Will perguntou, percebendo que Halt tinha dito "quando", e não "se".
O arqueiro olhou para seu jovem aluno.
- Sempre suponha que o inimigo sabe onde você está e que vai atacar você ele - ensinou. - Desse jeito, você pode evitar surpresas desagradáveis.
Ele pousou a mão no ombro de Will para tranquilizar o garoto. - Ainda pode ser desagradável, mas não será mais uma surpresa.
Pela manhã, eles retomaram a trilha, cavalgando no mesmo ritmo rápido,reduzindo o passo somente quando não podiam ver com clareza o terreno à sua frente. No começo da tarde, tinham chegado à beira da planície e entraram mais uma vez em terreno coberto por bosques ao norte das Montanhas da Chuva e da Noite.
Eles descobriram que ali os Kalkaras haviam se reunido, não ficando mais muito separados como tinha acontecido nas terras da planície. Mas o caminho continuava o mesmo, sempre em direção ao noroeste. Os três arqueiros seguiram esse curso por outra hora antes que Halt freasse Abelard e fizesse sinal para os outros desmontarem para uma conversa. Eles se reuniram ao redor de um mapa do reino que ele abriu na grama, usando flechas como pesos para que as bordas não se enrolassem.
- A julgar pelas pegadas, já diminuímos a distância até eles. Mas ainda estão um bom meio dia à nossa frente. Agora, esta é a direção que estão seguindo...
Ele pegou outra flecha e a colocou no mapa de modo que apontasse para o lado que os Kalkaras vinham seguindo nos dois últimos dias.
- Como vocês podem ver, se eles continuarem nessa direção, há somente dois lugares importantes para onde podem estar indo.
Ele apontou para um local no mapa.
- Aqui, as Ruínas de Gorlan. Ou, mais para o norte, o próprio Castelo de Araluen.
- Castelo de Araluen? - Gilan exclamou, respirando fundo. - Você acha que eles vão ousar tentar matar o rei Duncan?
- Eu simplesmente não sei - Halt respondeu, olhando para ele e balançando a cabeça. - Não sabemos muita coisa sobre essas bestas, e metade do que achamos que sabemos provavelmente são mitos ou lendas. Mas você tem que admitir, seria algo ousado, uma tacada de mestre, e Morgarath nunca foi contra esse tipo de coisa.
Ele deixou que os outros digerissem essa idéia por alguns momentos e então traçou uma linha de sua posição atual até o noroeste.
- Mas estive pensando. Olhe. Aqui está o Castelo Redmont. Talvez a um dia de cavalgada de distância e então outro dia até aqui.
De Redmont, ele traçou uma linha para noroeste, até as Ruínas de Gorlan, marcadas no mapa.
- Uma pessoa cavalgando rapidamente e usando dois cavalos pode cobrir o trajeto em menos de um dia até Redmont e depois conduzir o barão e sir Rodney até aqui, nas ruínas. Se os Kalkaras estiverem andando no mesmo ritmo de agora, talvez possamos barrar a passagem deles aqui. Vai ser difícil, mas é possível. E, com dois guerreiros como Arald e Rodney conosco, teremos muito mais chances de parar as malditas coisas de uma vez por todas.
- Um momento, Halt - Gilan interrompeu. - Você disse uma pessoa cavalgando dois cavalos?
Halt encontrou o olhar de Gilan e viu que o jovem arqueiro já tinha adivinhado o que ele tinha em mente.
- Isso mesmo, Gilan. E o mais leve de nós vai viajar mais depressa. Quero que passe Blaze para Will. Se ele se alternar entre Puxão e o seu cavalo, pode fazer isso a tempo.
Ele viu a hesitação no rosto de Gilan e compreendeu o porquê dessa expressão. Nenhum arqueiro gostava da idéia de entregar seu cavalo a outra pessoa, mesmo a outro arqueiro. Mas, ao mesmo tempo, Gilan entendeu a lógica da sugestão. Halt esperou que o jovem quebrasse o silêncio, enquanto Will observava os dois com os olhos arregalados de medo ao pensar na responsabilidade que estava prestes a ser posta em seus ombros.
Finalmente, com relutância, Gilan falou.
- Acho que faz sentido - ele concordou. - Então, o que quer que eu faça?
- Quero que me siga a pé - Halt disse asperamente, enrolando o mapa e guardando-o na sacola da sela. Se você puder conseguir um cavalo em qualquer outro lugar, faça isso e me alcance. Do contrário, vamos nos encontrar em Gorlan. Se não virmos os Kalkaras ali, Will poderá esperar por você com Blaze. Eu vou continuar a seguir os Kalkaras até vocês me alcançarem.
Gilan acenou concordando e Halt sentiu uma onda de afeto por ele. Quando compreendia um objetivo, Gilan não era do tipo que discutia ou fazia objeções.
- Você não disse que minha espada poderia ser útil? - o rapaz perguntou um tanto desanimado.
- É verdade - Halt respondeu -, mas isso me dá a oportunidade de trazer uma força de cavaleiros totalmente armados com machados e lanças. E você sabe que essa é a melhor forma de derrotar os Kalkaras.
- Sim, eu sei - Gilan retrucou, pegando as rédeas de Blaze, amarrando-as num nó e jogando-as sobre o pescoço do cavalo baio.
- Você pode começar com Puxão - ele disse para Will. - Assim Blaze vai poder descansar. Ele vai seguir você sem ser puxado pelas rédeas, e Puxão vai fazer a mesma coisa quando você estiver cavalgando Blaze. Amarre as rédeas desse jeito no pescoço de Puxão quando estiver montando Blaze para que elas não fiquem penduradas e não se prendam em nada.
Ele começou a se virar na direção de Halt e então se lembrou de uma coisa.
- Ah, sim, antes de montar nele pela primeira vez, lembre-se de dizer "olhos castanhos".
- Olhos castanhos - Will repetiu e Gilan não conseguiu evitar um sorriso.
- Não para mim. Para o cavalo.
Essa era uma antiga piada dos arqueiros e todos sorriram. Então Halt retomou o assunto principal.
- Will? Tem certeza de que consegue achar o caminho para Redmont?
Will assentiu. Ele tocou o bolso onde guardara sua copia do mapa e olhou para o sol para se orientar.
- Noroeste - ele disse tenso, indicando a direção que tinha escolhido.
Halt acenou com a cabeça satisfeito.
- Você vai chegar ao Rio Salmon antes do anoitecer e isso vai lhe dar um bom ponto de referência. A estrada principal fica só um pouco a oeste do rio. Mantenha um trote firme todo o tempo. Não tente se apressar, porque os cavalos só vão ficar cansados e, no final, você vai acabar andando mais devagar. Viaje com cuidado.
Halt saltou para a sela de Abelard e Will montou Puxão. Gilan apontou para Will e falou no ouvido de Blaze.
- Siga, Blaze, siga.
O cavalo baio, inteligente como todos os cavalos dos arqueiros, balançou a cabeça como se tivesse compreendido a ordem. Antes de partir, Will tinha mais uma pergunta que o vinha preocupando.
- Halt, as Ruínas de Gorlan... o que elas são exatamente? - ele quis saber.
- Isso não é uma ironia? - Halt respondeu. - Elas são as ruínas do Castelo Gorlan, o antigo feudo de Morgarath.
A cavalgada até o Castelo Redmont logo se transformou numa viagem cansativa. Os dois cavalos mantiveram o passo uniforme para o qual tinham sido treinados. É claro que houve a tentação de fazer que Puxão disparasse num galope violento, seguido por Blaze, mas Will sabia que esse ritmo o levaria ao fracasso. Ele estava avançando de acordo com a velocidade mais adequada aos cavalos. Porque o Velho Bob, o treinador de cavalos, tinha lhe dito que os cavalos dos arqueiros podiam trotar o dia todo sem se cansar.
Para o cavaleiro, a questão era muito diferente. Além do esforço físico de se mover constantemente ao ritmo do cavalo que estava montando - e os dois animais tinham passadas totalmente desiguais devido à diferença de tamanho - havia a tensão mental igualmente debilitante.
E se Halt estivesse enganado? E se, de repente, os Kalkaras tivessem desviado para o oeste e estivessem agora num curso que poderia interceptar o dele? E se ele cometesse algum erro terrível e não conseguisse chegar a Redmont a tempo?
O último receio, o medo causado pela insegurança, era o mais difícil de enfrentar. Apesar do duro treinamento que tinha recebido nos últimos meses, ele ainda era pouco mais que um garoto. E, o que era mais importante, antes sempre tinha podido contar com o julgamento e a experiência de Halt. Agora estava sozinho. E sabia o quanto dependia de sua habilidade para realizar a tarefa que tinha recebido.
Os pensamentos, as dúvidas, os medos enchiam sua mente cansada, tropeçando uns sobre os outros, acotovelando se em busca de posição. O Rio Salmon veio e foi sob o ritmo constante dos cascos de seus cavalos. Will parou rapidamente para dar de beber aos animais na ponte e então, já na Estrada do Rei, fez um tempo excelente, parando apenas rapidamente em intervalos regulares para mudar de montaria.
As sombras do dia ficaram mais compridas, e as árvores que pendiam sobre a estrada ficaram escuras e ameaçadoras. Cada barulho, cada movimento visto vagamente nas sombras, levava seu coração à boca.
Aqui, uma coruja piava e se lançava com as garras prontas para apanhar um rato descuidado. Ali, um texugo espreitava, caçando sua presa como uma sombra cinzenta nos arbustos da floresta. A cada movimento ou barulho, a imaginação de Will trabalhava sem parar. Ele começou a ver enormes vultos negros - parecidos com os Kalkaras de sua imaginação - em cada sombra, em cada grupo escuro de moitas que se mexia com a leve brisa. A razão lhe disse que seria muito improvável que os Kalkaras o estivessem procurando. A imaginação e o medo responderam que eles estavam lá fora em algum lugar. E quem podia garantir que não estavam perto?
A imaginação e o medo venceram.
E assim a noite longa e cheia de pavor passou, até que a luz baixa da madrugada encontrou um vulto curvado na sela de um cavalo forte de peito largo que galopava constantemente na direção do noroeste.
Will cochilou na sela e despertou com um susto, sentindo o calor dos raios do sol em cima dele. Delicadamente, puxou as rédeas de Puxão, e o pequeno cavalo ficou parado de cabeça baixa, respirando fundo. Will se deu conta de que tinha cavalgado durante muito mais tempo do que deveria e que o medo o tinha feito manter Puxão correndo na escuridão quando deveria tê-lo deixado descansar muito tempo atrás. Ele desmontou rígido, com o corpo todo dolorido, e parou para esfregar o focinho do cavalo com afeto.
- Desculpe, garoto - ele disse.
Puxão, reagindo ao toque e à voz que agora conhecia tão bem, moveu a cabeça e sacudiu a crina desgrenhada. Se Will tivesse pedido, ele teria continuado sem se queixar, até cair. Will olhou ao redor. A luz alegre da manhã tinha dispersado todos os temores sombrios da noite anterior. Agora, ele se sentia um pouco tolo ao lembrar os momentos de pânico paralisante. Will soltou as tiras da barrigueira da sela e deu ao seu cavalo uma pausa de dez minutos até que a respiração dele se acalmasse. Em seguida, maravilhado com o poder de recuperação e a resistência da raça de cavalos dos arqueiros, apertou a barrigueira na sela de Blaze e saltou no lombo do baio, gemendo levemente. Os cavalos dos arqueiros podiam se recuperar rapidamente, mas seus aprendizes levavam um pouco mais de tempo.
A manhã já estava no fim quando Will finalmente conseguiu ver o castelo Redmont. Estava montando Puxão outra vez quando atravessaram a última fileira de colinas e o vale verde do baronato Arald. O pequeno cavalo aparentemente não tinha sido afetado pela noite dura que tinha enfrentado.
Exausto, Will parou por alguns segundos e se apoiou no alto da sela. Eles tinham vindo para muito longe e bem depressa. Aliviado, observou os arredores conhecidos do castelo e a pequena vila simpática que se aninhava satisfeita em sua sombra. Fumaça saía das chaminés, fazendeiros caminhavam lentamente dos campos para casa, para a refeição do meio-dia. O castelo era sólido e tranquilizador em sua magnitude no alto da colina.
- Parece tudo tão... normal - Will disse para o cavalo.
Ele percebia que, de alguma forma, tinha esperado encontrar as coisas mudadas. O reino estava para entrar em guerra outra vez depois de quinze anos, mas ali a vida continuava normalmente.
Então, ao se dar conta de que estava perdendo tempo, ele fez Puxão andar mais depressa até atingir um galope, pois tanto o garoto quanto o cavalo estavam ansiosos para terminar esse último trecho da jornada.
Surpresas, as pessoas olhavam a passagem do pequeno vulto verde e cinza agachado sobre o pescoço do cavalo empoeirado, seguido por um cavalo baio maior. Um ou dois habitantes reconheceram Will e o cumprimentaram, mas suas palavras se perderam no barulho dos cascos.
O estrépito se transformou num martelar ressonante quando dispararam sobre a ponte levadiça abaixada e entraram no pátio dianteiro do castelo. Então, o martelar se tornou um estrondo apressado sobre as pedras da entrada. Will puxou as rédeas levemente, e Puxão parou na porta da torre do barão Arald.
Os dois homens armados que estavam de serviço, surpresos com o aparecimento repentino e ritmo vertiginoso do garoto, deram um passo à frente e barraram sua passagem com as lanças cruzadas.
- Pare aí, você! - disse um deles com aspereza. - Aonde pensa que vai com tanta pressa e fazendo tanto barulho?
Will abriu a boca para responder, mas antes de poder dizer alguma coisa uma voz zangada trovejou atrás dele.
- Que raios você pensa que está fazendo, seu idiota? Não reconhece um arqueiro do rei quando o vê?
Era sir Rodney, atravessando o pátio para ver o barão. As duas sentinelas ficaram em posição de sentido quando Will se virou agradecido para o mestre de guerra.
- Sir Rodney - ele disse. - Tenho uma mensagem urgente de Halt para lorde Arald e o senhor.
Como Halt tinha comentado com Will depois da caçada ao porco selvagem, o mestre de guerra era um homem esperto. Ele viu as roupas amarrotadas de Will e os dois cavalos cansados e percebeu que não era hora de fazer perguntas idiotas. Indicou a porta com o polegar.
- Melhor entrar e contar tudo. Mandem cuidar desses cavalos - ele ordenou aos guardas. - Dêem água e comida para eles.
- Só um pouco de cada, sir Rodney, por favor - Will acrescentou depressa. Apenas uma pequena quantidade de grãos e água e talvez uma escovada. Vou precisar deles logo.
Sir Rodney o olhou surpreso. Will e os cavalos davam a impressão de necessitar de um longo descanso.
- Deve ser alguma coisa muito urgente - ele respondeu. - Então, cuidem dos cavalos. E peçam para alguém levar comida e uma jarra de leite frio para o escritório do barão - ele pediu aos guardas.
Os dois cavaleiros assobiaram espantados quando Will lhes contou as novidades. Já se sabia que Morgarath estava reunindo um exército, e o barão tinha enviado mensageiros para formar tropas compostas de cavaleiros e homens armados. Mas as informações sobre os Kalkaras eram algo totalmente diferente, e não havia indícios de que eles tinham se aproximado do Castelo Redmont.
- Halt acha que eles podem estar atrás do rei? - o barão Arald perguntou quando Will terminou de falar.
O garoto assentiu.
- Sim, senhor. Mas acho que há outra possibilidade - Will acrescentou depois de hesitar.
Ele não queria continuar, mas o barão fez um gesto para que prosseguisse, e Will finalmente externou a suspeita que vinha crescendo dentro dele.
- Senhor... eu acho que é possível que eles estejam atrás do próprio Halt.
Depois de dizer o que pensava e de ter exposto seu receio, ele se sentiu melhor. De alguma forma, para sua surpresa, o barão Arald não rejeitou a idéia. Ele afagou a barba pensativo, enquanto digeria as palavras que tinha ouvido.
- Continue - ele disse, querendo ouvir o raciocínio de Will.
- É que Halt acha que Morgarath talvez queira se vingar, punir os que lutaram contra ele da última vez. E eu acho que foi Halt quem mais o prejudicou, não é mesmo?
- Isso é verdade - Rodney concordou.
- E achei que talvez os Kalkaras soubessem que os estávamos seguindo, que o homem da planície teve tempo suficiente para encontrar eles. E que talvez eles estivessem atraindo Halt até encontrarem um lugar para uma emboscada. Assim, enquanto ele pensa que está caçando os Kalkaras, na verdade é ele quem está sendo caçado.
- E as Ruínas de Gorlan seriam o lugar ideal para isso - Arald concordou. - Naquele amontoado de pedras, eles podem chegar até Halt antes que ele tenha a chance de usar seu arco. Bem, Rodney, não há tempo a perder. Você e eu vamos imediatamente. Meia armadura, eu acho. Vamos ser mais rápidos dessa forma. Lanças, machados e espadas. E vamos levar dois cavalos cada; vamos seguir o exemplo de Will. Partiremos dentro de uma hora. Diga para Karel reunir dez cavaleiros e nos seguir assim que puder.
- Sim, meu senhor - o mestre de guerra respondeu. O barão Arald se voltou para Will.
- Você fez um bom trabalho, Will. Vamos cuidar de tudo agora. E parece que você poderia aproveitar algumas horas de um bom sono.
Exausto, com dor em todos os músculos e juntas, Will endireitou o corpo.
- Gostaria de ir com vocês, senhor - ele percebeu que o barão ia discordar e acrescentou rapidamente. - Senhor, nenhum de nós sabe o que vai acontecer, e Gilan está lá fora em algum lugar a pé. Além disso... - ele hesitou.
- Continue, Will - o barão pediu em voz baixa e, quando o garoto olhou para cima, Arald viu frieza em seu olhar.
- Halt é meu mestre, senhor, e ele está em perigo. Meu lugar é ao lado dele - Will acrescentou.
O barão o avaliou com um olhar penetrante e então tomou uma decisão.
- Muito bem. Mas, pelo menos, tente descansar por uma hora. Há uma cama naquele anexo ali - ele ofereceu, indicando uma seção separada por uma cortina ao lado do escritório. - Por que não a usa?
- Sim, senhor - Will concordou agradecido.
Suas pálpebras pesavam como se estivessem cheias de areia. Ele nunca se sentira mais feliz em obedecer a uma ordem em toda a sua vida.
Durante toda aquela longa tarde, Will teve a impressão de que tinha passado a vida toda numa sela, fazendo um intervalo somente nos momentos de trocar de cavalo.
Uma breve pausa para desmontar, soltar a barrigueira do animal que estava montando, colocar a sela no cavalo que o acompanhava, montar novamente e continuar. Repetidas vezes, ele se admirou da fantástica resistência mostrada por Puxão e Blaze, que mantinham o galope constante. Até teve que freá-los um pouco para acompanhar os cavalos de batalha montados pelos dois cavaleiros. Mesmo grandes, fortes e treinados para a guerra, eles não conseguiam seguir o ritmo constante dos cavalos dos arqueiros, apesar de estarem descansados quando o pequeno grupo deixou o Castelo Redmont.
Eles cavalgavam sem falar. Não havia tempo para conversa fiada e, mesmo que houvesse, seria difícil escutar o que estavam falando por causa do barulho forte dos quatro cavalos de batalha, o bater mais leve dos cascos de Puxão e Blaze e o constante chacoalhar do equipamento e das armas.
Os dois homens carregavam compridas lanças de guerra - varas cinzentas e duras de mais de 3 metros de comprimento com uma pesada ponta de ferro. Além disso, cada um levava uma espada presa à sela. Eram armas enormes e pesadas muito maiores que as espadas normalmente usadas no dia-a-dia; e Rodney levava uma pesada acha pendurada na parte traseira da sela. Porém era nas lanças que eles confiavam mais. Elas manteriam os Kalkaras a distância e assim reduziriam a chance de que os cavaleiros fossem paralisados pelo terrível olhar das duas bestas. Aparentemente, o olhar hipnótico só era eficiente quando muito próximo. Se um homem não pudesse ver os olhos dos monstros com clareza, havia pouca possibilidade de que fosse paralisado.
O sol estava se escondendo rapidamente atrás deles e jogava as sombras longas e distorcidas para a frente. Arald olhou a posição do sol por cima do ombro e chamou Will.
- Quanto tempo ainda temos de luz, Will?
Will se virou na sela e olhou com atenção para a bola de luz que caía no horizonte.
Menos de uma hora, senhor.
O barão balançou a cabeça indeciso. Então vai ser difícil chegar lá antes do anoitecer - afirmou.
Ele instigou o cavalo a avançar, aumentando um pouco a velocidade. Puxão e Blaze o acompanharam sem esforço. Ninguém queria caçar os Kalkaras no escuro.
A hora de descanso no castelo tinha operado maravilhas em Will, mas agora parecia que tinha acontecido numa outra vida. Ele pensou nas instruções apressadas que Arald tinha dado quando montaram os animais para deixar Redmont. Se encontrassem os Kalkaras nas Ruínas de Gorlan, Will deveria ficar para trás enquanto o barão e sir Rodney atacavam os dois monstros. Não havia táticas complicadas, apenas um ataque impetuoso que poderia pegar os dois assassinos de surpresa.
- Se Halt estiver lá, tenho certeza de que também vai nos ajudar. Mas quero você longe do nosso caminho, Will. Esse seu arco não vai servir de nada num Kalkara.
- Sim, senhor - Will tinha dito.
Ele não tinha intenção de se aproximar dos monstros. Estava mais do que satisfeito em deixar o assunto para os dois cavaleiros, protegidos por escudos, capacetes e meias armaduras de malha de ferro. Contudo, as palavras seguintes de Arald desfizeram rapidamente qualquer confiança exagerada que ele pudesse ter na capacidade dos homens em lidar com as bestas.
- Se as malditas coisas nos vencerem, quero que corra em busca de mais ajuda. Karel e os outros vão estar em algum lugar atrás de nós. Encontre-os e depois procure os Kalkaras com eles. Siga essas bestas e mate-as.
Will não disse nada. O simples fato de Arald considerar o fracasso, quando ele e Rodney eram os dois melhores cavaleiros num raio de 200 quilômetros, fez aumentar ainda mais sua preocupação com os Kalkaras. Pela primeira vez, o garoto percebeu que as probabilidades estavam contra eles nessa disputa.
O sol tremia na beira do mundo, as sombras haviam atingido seu comprimento máximo e eles ainda tinham que percorrer muitos quilômetros. O barão Arald ergueu a mão e fez o grupo parar. Ele olhou para Rodney e apontou as tochas embebidas em piche que cada homem carregava atrás das selas.
- Tochas, Rodney - ele disse rapidamente.
O mestre de guerra hesitou por um momento.
- Tem certeza, senhor? Elas vão mostrar nossa posição se os Kalkaras estiverem vigiando.
- Eles vão nos ouvir chegar de qualquer forma - Arald disse, dando de ombros. - E entre as árvores vamos nos mover devagar demais sem luz. Vamos correr o risco.
Ele preparou sua pedra-de-fogo, formando uma fagulha que acendeu o pequeno pavio e logo criou uma chama forte. Segurou a tocha perto do fogo, e o piche em que estava impregnada de repente se acendeu e explodiu numa chama amarela. Rodney se inclinou na sua direção com a outra tocha e a acendeu na chama do barão. Então, segurando as tochas para o alto, as lanças presas por tiras de couro enroladas em seus pulsos direitos, eles retomaram o galope, trovejando na escuridão debaixo das árvores quando finalmente deixaram a estrada larga que vinham percorrendo desde o meio-dia.
Passaram-se outros dez minutos quando ouviram os gritos.
Era um som fantasmagórico que fazia o estômago dar voltas e congelava o sangue. Involuntariamente, o barão e sir Rodney puxaram as rédeas dos animais. Os cavalos ficaram extremamente agitados. O barulho vinha de algum ponto adiante deles, aumentando e diminuindo.
- Bom Deus nos céus! - o barão exclamou. - O que foi isso? - ele indagou com a expressão assustada.
O som infernal atravessou a noite e foi respondido por outro uivo idêntico.
Will já tinha ouvido o terrível som antes. Ele sentiu o sangue sumir do rosto quando se deu conta de que seus temores mostravam ter fundamento.
- São os Kalkaras. Eles estão caçando.
E ele sabia que havia apenas uma pessoa atrás da qual podiam estar. Eles tinham voltado e estavam caçando Halt.
- Olhe, meu senhor! - Rodney disse, apontando para o céu que escurecia rapidamente.
Através de um espaço na proteção oferecida pelas árvores, eles viram uma súbita rajada de luz se refletindo no céu, sinal de um incêndio num lugar próximo.
- É Halt! - o barão disse. - Tem que ser. Ele precisa de ajuda! Arald pressionou as esporas nos flancos do cansado cavalo de batalha, impelindo o animal para a frente em um galope ensurdecedor. A tocha em sua mão deixava chamas e faíscas para trás enquanto sir Rodney e Will o seguiam a galope.
Era uma sensação estranha seguir aquelas tochas flamejantes e agitadas com suas línguas alongadas de fogo soprando para trás por entre as árvores, jogando sombras esquisitas e apavorantes entre elas, enquanto à frente deles o brilho do fogo maior, presumivelmente aceso por Halt, ficava mais forte e próximo a cada passo.
Eles saíram do meio das árvores praticamente sem aviso e se depararam com uma cena de pesadelo.
Havia uma pequena clareira coberta por capim. Além dela, o terreno estava tomado por um amontoado de rochas e matacões.
Pedaços gigantescos de paredes, ainda unidas por argamassa, estavam espalhados pelos lados, as vezes meio enterrados no solo macio coberto de grama. As paredes em ruínas do Castelo Gorlan cercavam a cena em tres lados, nunca ultrapassando 5 metros, destruídas e derrubadas por um reino vingativo depois que Morgarath tinha sido obrigado a partir para o sul, para as Montanhas da Chuva e da Noite. O caos resultante era como o playground de uma criança gigante - pedras espalhadas em todas as direções, empilhadas com descuido umas em cima das outras, praticamente sem deixar nenhum pedaço de terreno descoberto.
Toda a cena era iluminada pelas chamas saltitantes e retorcidas de uma fogueira acesa a uns 40 metros de distância. E ao lado dela estava agachada uma figura horrível, gritando com ódio e fúria, batendo inutilmente na ferida mortal no peito que finalmente a tinha derrubado.
Com mais de 2,5 metros de altura e pêlos desgrenhados e emaranhados, parecidos com escamas, cobrindo todo o corpo, o Kalkara tinha braços compridos que terminavam em garras e que chegavam abaixo de seus joelhos. Pernas traseiras fortes e relativamente curtas lhe davam a capacidade de percorrer distâncias a uma velocidade enganosa, com uma série de saltos e pulos. Os três cavaleiros viram tudo isso quando saíram do bosque. Mas o que mais lhes chamou a atenção foi a cara: selvagem e parecida com a de um macaco, dentes caninos amarelados e enormes olhos vermelhos brilhantes cheios de ódio e de desejo cego de matar. A cara se virou para eles, e a besta gritou em desafio, tentando se levantar, mas voltando a cair, meio encolhida.
- O que há de errado com ele? - Rodney perguntou, fazendo seu cavalo parar.
Will apontou para o grupo de flechas que se projetava de seu peito. Devia haver seis delas, todas a cerca de um palmo de distância uma da outra.
- Olhe! - ele gritou. - Veja as flechas!
Halt, com sua incrível pontaria, deve ter mandado uma saraivada de flechas, uma depois da outra, para cortar o pêlo rígido como uma armadura. Cada uma aumentou a brecha nas defesas do monstro, até que a ultima penetrou no fundo de sua carne. Seu sangue negro corria profusamente pelas costas, e o monstro gritou outra vez com ódio. - Rodney! - o barão Arald gritou. - Comigo! Agora!
Soltando a rédea do cavalo reserva, ele segurou de um lado a tocha acesa, inclinou a lança e a jogou. Rodney estava meio segundo atrás dele, os dois cavalos de batalha trovejando pelo espaço aberto. O Kalkara, com o sangue encharcando o chão aos seus pés, levantou-se e foi atingido no peito pelas pontas das duas lanças, uma após a outra.
O monstro estava quase morto, mas mesmo assim seu peso e sua força contiveram a corrida dos cavalos de batalha. Eles empinaram o corpo quando os dois cavaleiros se inclinaram nos estribos para empurrar as lanças no peito da criatura. A ponta de ferro afiada penetrou na carne e atravessou os pêlos emaranhados. A força da investida fez o Kalkara perder o equilíbrio e o jogou para trás, para dentro das chamas.
Durante um instante, nada aconteceu. Então eles viram um clarão ofuscante e um pilar de chamas vermelhas que atingiu 10 metros de altura no céu da noite. E, de uma forma muito simples, o Kalkara desapareceu.
Os dois cavalos de batalha se empinaram apavorados, e Rodney e o barão mal conseguiam se manter nas selas. Eles se afastaram do fogo, e todos sentiram um cheiro forte e desagradável de carne e pêlos queimados. Will se lembrou vagamente de Halt discutir a forma de lidar com um Kalkara. Ele tinha contado que se dizia que eles eram especialmente suscetíveis ao fogo. "Parece que os boatos estavam certos", Will pensou, fazendo Puxão trotar para junto dos dois cavaleiros.
Rodney estava esfregando os olhos, ainda atordoado pelo clarão forte.
- Que diabos causou isso?
O barão tirou a lança do fogo com cuidado. A madeira estava queimada, e a ponta, escurecida.
- Deve ser a substância pegajosa que cobre os pelos deles e forma essa couraça dura - ele respondeu num tom de voz espantado. - Ela deve ser ligeiramente inflamável.
- Bem, o que quer que fosse, nós conseguimos derrotar - Rodney retrucou com um tom satisfeito na voz. O barão balançou a cabeça.
- Halt conseguiu - ele corrigiu o mestre de guerra. - Nós só demos o último golpe.
Rodney concordou com um gesto de cabeça, aceitando a correção. O barão olhou para o fogo, que ainda jogava uma torrente de faíscas no ar, mas cujas chamas vermelhas já estavam se acalmando.
- Halt deve ter acendido esse fogo quando percebeu que eles o estavam cercando. Ele incendiou a área para ter luz e poder atirar.
- E atirou mesmo - sir Rodney afirmou. - Todas as flechas acertaram pontos muito próximos uns dos outros.
Eles olharam ao redor, procurando algum sinal do arqueiro. Então, debaixo das paredes em ruínas do castelo, Will viu um objeto conhecido. Ele desmontou e correu para apanhá-lo. Seu coração se apertou no peito quando pegou o poderoso arco de Halt, esmagado e partido em dois pedaços.
- Ele deve ter atirado daqui - falou, indicando o ponto abaixo das paredes caídas onde tinha achado o arco.
Todos olharam para cima, imaginando a cena, tentando recriá-la. O barão apanhou a arma destruída da mão de Will quando este montou novamente em Puxão.
- E o segundo Kalkara o alcançou enquanto ele matava seu irmão - ele disse. - A pergunta é: onde Halt está agora? E onde está o outro Kalkara?
Foi quando eles ouviram os gritos recomeçarem.
Halt estava agachado entre os tijolos caídos que antes tinham sido a fortaleza de Morgarath, dentro do pátio em ruínas coberto de mato. Sua perna, dormente onde o Kalkara a tinha arranhado, estava começando a latejar dolorosamente, e ele sentia o sangue atravessando a atadura improvisada que tinha amarrado em volta dela.
Ele sabia que o segundo Kalkara o estava procurando em algum lugar ali perto. De tempos em tempos, ouvia o movimento dos pés se arrastando e chegou a escutar sua respiração dura quando o monstro se aproximou de seu esconderijo entre duas paredes caídas. Halt sabia que era só uma questão de tempo até que a criatura o encontrasse. E, quando isso acontecesse, ele estaria acabado.
Halt estava ferido e desarmado. Tinha perdido o arco, despedaçado naquele primeiro e apavorante ataque em que disparou uma flecha depois da outra no primeiro dos dois monstros. Ele conhecia o poder de seu arco e a capacidade de penetração das flechas pesadas e afiadíssimas. Não conseguia acreditar que o monstro tinha recebido aquela chuva de flechas e aparentemente ainda continuava com a mesma coragem. Quando ele cambaleou, já era tarde demais para que Halt voltasse sua atenção para o companheiro. O segundo Kalkara estava quase em cima dele, arrancando o arco de sua mão e esmagando-o com a pata forte cheia de garras, de modo que ele mal teve tempo de arrastar-se para um local seguro perto da parede caída.
Enquanto o monstro o perseguia, atacando tudo à sua volta com as garras, ele tinha empunhado a faca e golpeado a terrível cabeça.
Mas a besta foi rápida demais para ele, e a pesada faca atingiu seu braço coberto pela malha da armadura. Ao mesmo tempo, ele se viu confrontado pelos olhos vermelhos cheios de ódio e sentiu-se perdendo a consciência. Os músculos começaram a ficar paralisados de terror quando se viu atraído para a horrível besta diante dele. Foi necessário um esforço imenso para desviar os olhos da criatura, e ele cambaleou para trás, perdendo a faca quando as garras de urso o atacaram e arranharam a sua coxa.
Então ele correu desarmado e sangrando, contando com o confuso labirinto que eram as ruínas para fugir do monstro que o perseguia.
Ele tinha percebido a mudança nos movimentos dos Kalkaras no final da tarde. Sua rota constante e anteriormente inalterada para o noroeste de repente mudou quando as duas bestas se separaram abruptamente, cada qual fazendo uma curva de 90 graus e andando em direções diferentes para dentro da floresta que os cercava. Suas pegadas, até aquele momento tão fáceis de seguir, também mostravam sinais de que estavam sendo encobertas, de modo que somente alguém habilidoso como um arqueiro teria sido capaz de segui-las. Pela primeira vez em anos, Halt sentiu um calafrio de medo no estômago quando se deu conta de que agora a caça era ele.
As ruínas estavam perto, então ele resolveu ficar ali, e não no bosque. Deixou Abelard em segurança, longe de qualquer perigo, e foi a pé para as ruínas. Ele sabia que os Kalkaras iriam persegui-lo assim que a noite caísse, então se preparou da melhor forma possível, reunindo galhos caídos para fazer uma fogueira. Halt até encontrou uma jarra de óleo nas ruínas da cozinha, rançoso e malcheiroso, mas que ainda iria queimar. Ele o derramou na pilha de lenha e se afastou até um ponto onde poderia ficar de costas para a parede. Tinha arrumado uma série de tochas e as deixou queimando enquanto escurecia, esperando que os matadores implacáveis o procurassem.
O arqueiro sentiu a presença deles antes de vê-los. Então enxergou os dois vultos trôpegos, duas manchas mais escuras contra a escuridão das árvores. Naturalmente, eles o viram de imediato. A tocha trêmula presa na parede garantiu isso. Mas eles não viram a pilha de lenha embebida em óleo, e era com isso que ele contava. Quando soltaram seus gritos de caça, Halt jogou a tocha flamejante na pilha e as chamas subiram no mesmo instante, espalhando um brilho amarelo na noite.
Por um momento, as bestas hesitaram, pois o fogo era seu único inimigo. Mas, quando viram que o arqueiro não estava próximo das chamas, continuaram - direto para a chuva de flechas com que Halt as recebeu.
Se tivessem mais 100 metros para percorrer, talvez Halt tivesse conseguido derrotar as duas. Ainda havia mais de dez flechas na aljava, mas o tempo e a distância corriam contra ele, que mal tinha escapado com vida. Agora, estava agachado entre dois pedaços de muro caído que formavam uma pequena gruta, escondido numa leve reentrância do terreno e oculto pela capa, como acontecia há anos. Sua única esperança era que Will chegasse com Arald e Rodney. Se pudesse escapar da criatura até que a ajuda chegasse, talvez tivesse uma chance.
Ele tentou não pensar na outra possibilidade - a de que Gilan chegasse antes deles, sozinho e armado apenas com o arco e a espada. Agora que tinha visto os Kalkaras de perto, Halt sabia que um homem tinha poucas chances de enfrentá-los. Se Gilan chegasse antes dos cavaleiros, ele e Halt morreriam ali.
Naquele momento, a criatura estava rodeando o velho pátio como um cão à procura da caça, adotando um padrão de busca metódico, para a frente e para trás, examinando cada espaço, cada buraco, cada possível esconderijo. Halt sabia que desta vez ela o encontraria. Sua mão tocou o cabo da pequena faca, a única arma que restava. Seria uma defesa insignificante, quase inútil, mas era tudo o que tinha.
Então ele ouviu: o inconfundível trovejar dos cascos dos cavalos de batalha. Olhou para cima e observou o Kalkara por uma pequena fresta entre as pedras que o escondiam. O monstro também os tinha ouvido e estava de pé, ereto, a cara voltada para o som que vinha de fora das paredes em ruínas.
Os cavalos pararam, e Halt ouviu o grito agudo do Kalkara mortalmente ferido ao desafiar os novos inimigos. As batidas dos cascos se fizeram ouvir de novo e ganharam velocidade e força. Seguiu-se um grito e um clarão vermelho gigantesco que subiu para o céu por um momento. Vagamente, Halt deduziu que o primeiro Kalkara devia ter sido jogado no fogo. Ele começou a recuar devagar para fora do esconderijo. Talvez pudesse escapar do outro Kalkara movendo-se para o lado e escalando a parede antes que ele o visse. As chances pareciam boas. A atenção do monstro estava voltada para o que quer que estivesse acontecendo do lado de fora. Mas, assim que teve a idéia, percebeu que não tinha opção. Embora aparentemente o Kalkara o tivesse esquecido por um momento, a criatura estava se movendo furtivamente em direção às ruínas que formavam uma escada irregular para o alto do muro.
Em mais alguns minutos, a besta estaria em posição de cair sobre os amigos despreocupados do outro lado, tomando-os de surpresa. Halt tinha que impedi-la.
O arqueiro já estava fora do esconderijo, a pequena faca saindo da bainha quase por vontade própria, quando ele correu pelo pátio, desviando-se e fazendo círculos ao redor do entulho espalhado. O Kalkara o escutou antes que ele tivesse dado dez passos e se virou para ele, assustadoramente silencioso quando pulou como um macaco para impedir sua passagem antes que pudesse avisar os amigos sobre o perigo.
Halt parou de repente e ficou imóvel, com o olhar preso na figura trôpega que se aproximava dele.
Alguns metros a mais e o olhar hipnótico iria controlar a sua mente. Ele sentiu uma vontade irresistível de encarar aqueles olhos vermelhos, mas então fechou os olhos, a testa franzida numa concentração intensa. Levantou a mão que segurava a faca e agitou-a para a frente e para trás num ataque suave e instintivo, vendo o alvo se mexer em sua cabeça, mentalmente alinhando o arremesso para o ponto no espaço aonde a faca e o alvo iriam chegar ao mesmo tempo.
Somente um arqueiro, entre muito poucos, poderia ter lançado a arma daquele jeito. A faca atingiu o olho direito do Kalkara, e a besta gritou furiosa quando se encolheu por causa da repentina pontada de agonia que começava em seu olho e se espalhava pelo corpo todo! Então Halt passou correndo por ele na direção do muro e subiu as pedras com dificuldade.
Will viu o vulto envolto em sombras que escalava na direção do topo do muro em ruínas. Mas, escondido pelas sombras ou não, havia algo de inconfundível nele.
- Halt! - ele gritou, apontando para que os dois cavaleiros também o vissem.
Todos os três viram o arqueiro parar, olhar para trás e hesitar. Então um vulto enorme começou a aparecer alguns metros atrás dele quando o Kalkara, cujo ferimento era dolorido, mas nada mortal, o perseguiu.
O barão Arald pensou em montar, mas, percebendo que nenhum cavalo poderia passar pela confusão de pedras e tijolos ao lado da parede, tirou a imensa espada da sela e correu na direção das ruínas.
- Para trás, Will! - ele gritou quando avançou.
Nervoso, Will levou Puxão de volta para a beira das árvores.
No muro, Halt ouviu o grito e viu Arald correndo para a frente. Sir Rodney estava logo atrás dele, girando uma enorme acha em círculos em volta da cabeça.
- Pule, Halt! Pule! - o barão gritou, e Halt não precisou de outro convite.
Ele saltou 3 metros para baixo, rolando para amortecer a queda quando aterrissou. Então, levantou-se e correu desajeitado ao encontro dos dois cavaleiros, enquanto o ferimento da perna tornava a abrir.
Com o coração na boca, Will viu Halt correr na direção dos dois cavaleiros. O Kalkara hesitou um momento e então, com um grito de desafio apavorante, pulou atrás dele. O monstro simplesmente transformou a queda de 3 metros num pulo enorme, suas pernas traseiras incrivelmente poderosas fazendo que fosse impulsionado para cima e para a frente, cobrindo o terreno entre ele e Halt nesse único movimento. O braço forte girou, atingindo Halt com violência e fazendo que ele rolasse para a frente inconsciente. Mas a besta não teve tempo de acabar com ele, pois o barão Arald o enfrentou e dirigiu a espada num arco mortal na direção de sua garganta.
O Kalkara foi cruelmente rápido e se abaixou, desviando do arremesso mortal e atacando as costas expostas de Arald com as garras antes que ele pudesse se recuperar do golpe. Elas rasgaram a malha de metal como se fosse um tecido fino, e Arald grunhiu de dor e surpresa quando a força do ataque o jogou de joelhos, obrigando-o a soltar a espada. Sangue jorrava de vários arranhões nas costas.
Ele teria morrido ali se não fosse por sir Rodney. O mestre de guerra girou a pesada acha como se fosse um brinquedo e golpeou a lateral do corpo do Kalkara.
A armadura de pêlos emaranhados protegeu a besta, mas a força imensa do golpe a fez cambalear e se afastar do cavaleiro com gritos furiosos e frustrados. Sir Rodney avançou protetoramente e se colocou com os pés firmes entre o monstro e as figuras caídas de Halt e do barão, preparando a arma para outro golpe fulminante.
E então, estranhamente, ele deixou a arma cair e ficou parado diante da criatura, totalmente à sua mercê. O poder do olhar do Kalkara roubara-lhe a vontade própria e a capacidade de pensar.
O Kalkara gritou vitorioso para o céu noturno. Um sangue negro escorria de sua cara. Nunca em sua vida ele tinha sentido dor parecida com a que aqueles três homens insignificantes haviam provocado. E agora eles iriam morrer por ousarem enfrentá-lo. Mas a inteligência primitiva que o guiava queria seu momento de triunfo, e ele gritou repetidas vezes diante dos três homens indefesos.
Will assistia a tudo horrorizado. Um pensamento se formava, uma idéia tomava corpo em algum lugar de sua mente. Ele olhou para o lado e viu a tocha bruxuleante que o barão Arald tinha soltado. Fogo. A única arma que poderia derrotar o Kalkara. Mas ele estava a 40 metros de distância...
Ele tirou uma flecha da aljava, escorregou da sela e correu rapidamente até a tocha tremeluzente. Uma grande quantidade de piche grudento e derretido tinha escorrido pelo cabo da tocha e, depressa, ele passou a ponta da flecha no líquido pegajoso e mole, cobrindo-a generosamente. Em seguida, encostou-a na chama até que se acendesse.
A 40 metros dali, a enorme criatura perversa estava satisfazendo sua necessidade de vitória, fazendo que seus gritos se espalhassem e ecoassem pela noite enquanto ficava de pé junto dos dois corpos: Halt, inconsciente, e o barão Arald, atordoado pela dor. Sir Rodney ainda estava parado no mesmo lugar, paralisado, com as mãos indefesas penduradas ao lado do corpo enquanto esperava a morte. Agora, o Kalkara levantava uma pata imensa para jogá-lo no chão, e o cavaleiro só conseguia sentir o terror paralisante de seu olhar.
Will preparou-se para atirar a flecha, estremecendo com a dor quando as chamas lhe queimaram a mão que segurava o arco. Ele mirou um pouco acima do seu alvo por causa do peso adicional do piche e soltou a flecha.
Ela descreveu um arco brilhante e rápido, e o vento provocado por sua passagem transformou a chama numa simples brasa. O Kalkara viu o clarão de luz se aproximando e se virou para olhar, selando seu próprio destino quando a flecha o atingiu diretamente no peito largo.
A flecha quase não penetrou os pêlos duros parecidos com escamas, mas, quando parou, a pequena chama voltou a se incendiar, e o fogo se espalhou nos pêlos emaranhados com incrível rapidez.
Assim que sentiu o toque do fogo, o Kalkara foi tomado pelo terror.
O monstro bateu nas chamas em seu peito com as patas, mas isso apenas serviu para espalhar o fogo para os braços. As chamas vermelhas avançaram depressa, e em segundos o Kalkara foi envolvido por elas, queimando dos pés à cabeça enquanto corria cegamente em círculos, tentando em vão escapar. Os gritos agudos não paravam e ficavam cada vez mais altos, atingindo uma escala de agonia que a mente mal podia compreender. As chamas ficavam mais intensas a cada segundo. Então os gritos pararem e a criatura morreu.
A pousada na vila Wensley estava tomada por música, risos e barulho. Will estava sentado à mesa com Horace, Alyss e Jenny, enquanto o dono lhes servia um suculento jantar de ganso assado e legumes frescos da fazenda, seguido de uma deliciosa torta de mirtilo cuja massa leve ganhou até a aprovação de Jenny.
Tinha sido idéia de Horace comemorar a volta de Will para o Castelo Redmont com um banquete. As duas meninas tinham concordado imediatamente, ansiosas por uma pausa na rotina, que agora parecia um tanto monótona comparada aos acontecimentos de que Will tinha participado.
Naturalmente, a notícia sobre a batalha com os Kalkaras tinha se espalhado na vila como uma fogueira ao vento, uma comparação extremamente apropriada, na opinião de Will. Quando ele entrou na pousada com os amigos naquela noite, um silêncio curioso tomou conta do aposento e todos os olhares se voltaram para ele. Will ficou agradecido pelo fato de o grande capuz esconder o seu rosto, que corava rapidamente. Os três companheiros perceberam seu constrangimento. Jenny, como sempre, foi a primeira a reagir e a quebrar o silêncio que enchia a pousada.
- Vamos, gente séria! - ela gritou para os músicos perto da lareira. - Vamos ouvir um pouco de música! E um pouco de conversa também! - ela acrescentou a segunda sugestão com um olhar significativo para os outros ocupantes da sala.
Os músicos aceitaram a sugestão. Era difícil recusar qualquer coisa sugerida por Jenny. Rapidamente, eles começaram a tocar uma canção folclórica conhecida e o som dominou o salão. Aos poucos, os outros moradores perceberam que sua atenção estava deixando Will pouco a vontade e, lembrando-se das boas maneiras, recomeçaram a conversar, olhando apenas de vez em quando para o rapaz, admirando-se de que alguém tão jovem pudesse ter participado de acontecimentos tão importantes.
Os quatro antigos colegas protegidos do castelo sentaram-se a uma mesa no fundo da sala, onde poderiam conversar sem ser interrompidos.
- George mandou pedir desculpas - Alyss disse quando se sentaram. - Ele está atolado de serviço. Toda a Escola de Escribas está trabalhando dia e noite.
Will acenou compreensivo. A guerra iminente com Morgarath e a necessidade de mobilizar tropas e retomar antigas alianças certamente criara montanhas de papelada.
Muita coisa tinha acontecido nos dez dias desde a batalha com os Kalkaras.
Depois de acampar junto das ruínas, Rodney e Will cuidaram dos ferimentos do barão Arald e de Halt, finalmente conseguindo fazer que os dois homens dormissem tranquilamente. Logo depois do amanhecer, Abelard entrou trotando no acampamento, procurando ansiosamente pelo dono. Will tinha acabado de acalmar o animal quando Gilan chegou exausto, cavalgando um pequeno cavalo de trabalho. Agradecido, o alto arqueiro recuperou Blaze. Então, depois de se convencer de que o antigo mestre não corria perigo, partiu quase imediatamente para o próprio feudo, depois que Will prometeu devolver o cavalo ao lavrador.
Mais tarde naquele dia, Will, Halt, Rodney e Arald tinham voltado ao Castelo Redmont, onde mergulharam numa atividade ininterrupta para preparar os guerreiros do castelo para a guerra. Havia milhares de detalhes a serem acertados, mensagens a serem enviadas e convocações a serem entregues. Como Halt ainda estava se recuperando do ferimento, grande parte desse trabalho tinha recaído sobre Will.
Ele percebeu que em épocas como aquela um arqueiro tinha pouco tempo para relaxar, o que tornava aquela noite uma diversão bem-vinda. O dono da pousada foi afobado até a mesa deles e colocou sobre ela quatro canecas de vidro e uma jarra da cerveja sem álcool, que ele preparava com gengibre.
- Hoje é por conta da casa - ele avisou. - Estamos honrados por ter você em nosso estabelecimento, arqueiro.
Ele se afastou, chamando um de seus ajudantes para atender a mesa de Will.
- E seja bem rápido! - ele ordenou. Alyss olhou para ele surpresa.
- É bom estar com uma celebridade - ela disse. - O velho Skinner geralmente segura as moedas com tanta força que a cabeça do rei fica sufocada.
- As pessoas exageram - Will disse com um gesto de indiferença.
Mas Horace se inclinou para a frente com os cotovelos na mesa.
- Então conte para a gente como foi a luta - ele pediu ansioso por detalhes.
Jenny olhou para Will de olhos arregalados.
- Não acredito que vocês tenham sido tão corajosos! - ela disse com admiração. - Eu teria ficado apavorada.
- Para falar a verdade, eu estava petrificado - Will confessou para eles com um sorriso triste. - O barão e sir Rodney foram os corajosos. Eles atacaram e enfrentaram as criaturas bem de perto. Eu fiquei a 40 ou 50 metros de distância o tempo todo.
Will descreveu os acontecimentos da batalha sem entrar em muitos detalhes sobre a aparência dos Kalkaras. Eles estavam mortos e acabados e seria melhor esquecê-los o mais depressa possível. Não era necessário se preocupar com determinadas coisas. Os três colegas ouviam, Jenny de olhos arregalados e entusiasmada, Horace ansioso por detalhes da luta e Alyss calma e digna como sempre, mas totalmente atenta a história. Quando ele descreveu sua cavalgada solitária para buscar ajuda, Horace balançou a cabeça admirado.
- Esses cavalos dos arqueiros devem ser de uma raça especial.
Will sorriu para ele, incapaz de resistir a fazer o comentário engraçado que tinha vindo à sua mente.
- O truque é se manter em cima deles - ele disse, ficando satisfeito ao ver um sorriso igual surgir no rosto de Horace quando ambos lembraram a cena da Feira do Dia da Colheita.
Ele percebeu, com um leve toque de prazer, que seu relacionamento com Horace tinha se transformado numa amizade profunda em que os dois se viam como iguais. Ansioso para sair de baixo dos holofotes, ele perguntou ao amigo como ia a vida na Escola de Guerra. O sorriso no rosto do garoto maior se alargou.
- Muito melhor, graças ao Halt - ele disse e, quando Will habilmente o cobriu de mais perguntas, ele descreveu a vida na Escola de Guerra, brincando sobre seus erros e fracassos, rindo quando contou quantas vezes tinha sido punido.
Will percebeu que Horace, antes um pouco exibido e arrogante, estava muito mais modesto ultimamente. Ele desconfiava de que Horace estava se saindo melhor como aprendiz de guerreiro do que deixava transparecer.
Foi uma noite agradável, principalmente depois da tensão e do terror da caçada aos Kalkaras. Quando os ajudantes tiraram os pratos, Jenny sorriu esperançosa para os dois garotos.
- Muito bem! Agora, quem vai dançar comigo? - ela perguntou alegremente, e Will foi lento demais para responder.
Horace tomou a mão dela e a levou para a pista de dança. Quando eles se juntaram aos demais dançarinos, Will olhou para Alyss sem saber bem o que fazer. Ele nunca sabia dizer o que a garota estava pensando. Achou que talvez fosse educado também convidá-la para dançar. Então pigarreou nervoso.
- Ahn... você também gostaria de dançar, Alyss? - convidou desajeitado.
Ela lhe ofereceu somente o leve sinal de um sorriso. - Acho que não, Will. Não sou uma boa dançarina. Parece que tenho pernas de pau.
Na verdade, ela era uma excelente dançarina, mas, diplomata nata como era, percebeu que Will só a tinha convidado por educação. Então os dois mergulharam no silêncio, mas um tipo de silêncio amistoso.
Depois de alguns minutos, ela se virou para ele com o queixo apoiado na mão para observá-lo com atenção.
- Vai ser um grande dia para você amanhã - ela disse, e ele corou.
Ele tinha sido convocado para aparecer diante de toda a corte do barão no dia seguinte.
- Não sei por que tudo isso - ele balbuciou.
- Ele possivelmente quer lhe agradecer em público - Alyss disse, sorrindo para ele. - Ouvi dizer que barões gostam de fazer isso com pessoas que salvaram suas vidas.
Will começou a dizer alguma coisa, mas ela pousou a mão macia e fria sobre a dele, e ele parou. Ele olhou aqueles olhos cinzentos, calmos e sorridentes. Alyss nunca tinha lhe parecido bonita, mas agora percebeu que sua elegância, sua graça e seus olhos cinzentos, emoldurados por cabelos loiros delicados, criavam um encanto natural que ultrapassava de longe uma simples beleza. Surpreendentemente, ela se inclinou para perto e sussurrou:
- Estamos todos orgulhosos de você, Will. E acho que eu sou a mais orgulhosa de todos.
Então Alyss o beijou. Os lábios dela eram incrivelmente, indescritivelmente macios.
Horas mais tarde, antes de finalmente adormecer, ele ainda podia senti-los.
Paralisado pelo medo da platéia, Will estava parado do lado de dentro da sala de audiências do barão.
O prédio era imenso. Era a principal sala do castelo, a sala em que o barão conduzia todos os negócios oficiais com os membros da corte. O teto parecia se estender para cima interminavelmente. Fachos de luz inundavam o aposento, vindos de janelas instaladas no alto das paredes grossas. Na extremidade da sala e parecendo estar a uma grande distância, o barão estava sentado numa cadeira parecida com um trono, vestindo suas túnicas mais finas.
Entre ele e Will, estava a maior multidão que o garoto já tinha visto. Halt fez o aprendiz avançar delicadamente com um empurrão nas costas.
- Vá em frente - ele murmurou.
Havia centenas de pessoas no Grande Salão, e todos os olhares estavam voltados para Will. Todos os chefes de ofício estavam ali, vestindo suas túnicas oficiais. Todos os cavaleiros e todas a damas da corte: cada uma usando suas melhores e mais elegantes roupas. Mais adiante, estavam os homens com armas do exército do barão, os outros aprendizes e os comerciantes da vila. Ele viu uma agitação colorida quando Jenny, desinibida como sempre, agitou um lenço para ele. Alyss, parada ao lado dela, foi um pouco mais discreta. Ela jogou um beijo para ele com a ponta dos dedos, delicadamente.
Ele ficou parado, desajeitado, colocando o peso do corpo ora numa perna, ora noutra. Desejou que Halt o tivesse deixado usar a capa de arqueiro para que pudesse se confundir com o ambiente e desaparecer.
Halt o empurrou outra vez.
- Ande, vamos! - sussurrou.
- Você não vem comigo? - ele perguntou, virando-se para o mestre.
Halt negou com a cabeça.
- Não fui convidado. Agora se mexa!
Ele empurrou Will mais uma vez e então, por causa da perna machucada, foi até uma cadeira. Finalmente, compreendendo que não tinha outro caminho a seguir, Will começou a andar pelo corredor que parecia não terminar nunca. Ele ouviu vozes balbuciando enquanto passava, ouviu seu nome sendo sussurrado de boca em boca.
E então as palmas se iniciaram.
Elas foram começadas pela esposa de um cavaleiro e se espalharam rapidamente por todo o salão. Era ensurdecedor, um rugido retumbante de aplausos que continuou até Will chegar aos pés da cadeira do barão.
Como Halt tinha ensinado, ele se apoiou num joelho e inclinou a cabeça para a frente.
O barão se levantou e ergueu a mão pedindo silêncio, e as palmas se transformaram em ecos.
- Levante-se, Will - ele disse em voz baixa, estendendo a mão para ajudar o garoto a se pôr de pé.
Atordoado, Will obedeceu. O barão pousou uma das mãos em seu ombro e o virou para que olhasse para a enorme multidão diante deles. Sua voz grave chegou sem esforço ao ponto mais afastado do salão quando falou.
- Este é Will. Aprendiz do arqueiro Halt, deste feudo. Todos vocês, olhem para ele e o conheçam. Ele provou sua fidelidade, coragem e iniciativa para com este feudo e para com o Reino de Araluen.
Houve um murmúrio vindo do público. Então as palmas recomeçaram, desta vez acompanhadas de vivas. Will percebeu que os vivas tinham começado na seção da multidão em que estavam os aprendizes da Escola de Guerra. Ele conseguiu ver o rosto sorridente de Horace liderando o coro.
O barão pediu silencio com a mão erguida, encolhendo-se como se o movimento causasse dor em suas costelas fraturadas e nos cortes suturados nas costas. Os vivas e as palmas morreram lentamente.
- Will - ele disse numa voz que ecoou para os cantos mais distantes do aposento enorme - eu lhe devo a minha vida. Não há agradecimentos suficientes para isso. Porém tenho o poder de atender a um pedido que uma vez me fez...
Will olhou para ele sério.
- Um pedido, senhor? - ele perguntou bastante atordoado com as palavras do barão.
- Eu cometi um erro, Will. Você me perguntou se poderia aprender a ser um guerreiro. Você desejava se tornar um dos meus cavaleiros e eu recusei o pedido. Agora, posso consertar esse erro. Eu ficaria honrado de ter alguém tão corajoso e habilidoso como um dos meus cavaleiros. Terá minha permissão para se transferir para a Escola de Guerra como um dos aprendizes de sir Rodney.
O coração de Will saltou em seu peito. Ele pensou em como, durante toda a vida, havia desejado ser um cavaleiro. Ele se lembrou do profundo e amargo desapontamento no dia da Escolha, quando sir Rodney e o barão tinham recusado o seu pedido.
Sir Rodney deu um passo à frente, e o barão fez um gesto para que falasse.
- Meu senhor - disse o mestre de guerra -, como sabe, fui eu quem recusou este garoto como aprendiz. Agora, quero que todos aqui saibam que eu estava errado. Eu, meus cavaleiros e meus aprendizes reconhecemos que não poderia haver membro mais valioso para a Escola de Guerra do que Will!
Os cavaleiros e aprendizes ali reunidos soltaram fortes gritos de aprovação. Com estrépito, desembainharam as espadas e as bateram ruidosamente acima de suas cabeças, gritando o nome de Will. Mais uma vez, Horace foi um dos primeiros a puxar o coro e o último a parar.
Aos poucos, o tumulto se aquietou e os cavaleiros guardaram as espadas. A um sinal do barão Arald, dois pajens se adiantaram, carregando uma espada e um escudo lindamente esmaltado que foram colocados aos pés de Will. O escudo tinha sido pintado com o desenho da cabeça de um feroz porco selvagem.
- Esse será o seu brasão quando se formar, Will - disse o barão com delicadeza -, para lembrar ao mundo a primeira vez em que conhecemos a sua coragem e lealdade para com um companheiro.
O garoto apoiou-se em um dos joelhos e tocou a superfície lisa e esmaltada do escudo. Ele tirou a espada lenta e reverentemente da bainha. Era uma arma magnífica, uma obra-prima da arte da fabricação de espadas.
A lâmina era extremamente afiada e ligeiramente azulada. O cabo e a cruzeta eram incrustados em ouro, e o símbolo com a cabeça do porco selvagem repetia-se no punho. A espada parecia ter vida própria. Perfeitamente balanceada, era leve como uma pena. Ele olhou para essa maravilhosa espada adornada com jóias e depois para o cabo de couro de sua faca de arqueiro.
- Essas são armas de cavaleiros, Will - o barão explicou. - Mas você provou repetidas vezes que é digno delas. Se desejar, elas serão suas.
Will deslizou a espada de volta na bainha e se levantou devagar. Ali estava tudo o que sempre desejou. E, mesmo assim...
Ele pensou nos longos dias na floresta com Halt. A enorme satisfação que sentiu quando uma de suas flechas atingiu o alvo, exatamente onde desejara, exatamente como tinha visto em pensamento antes de soltá-la. Ele pensou nas horas gastas aprendendo a seguir animais e homens. Aprendendo a arte de se esconder. Pensou em Puxão, na coragem e devoção do pônei.
E pensou no puro prazer que sentia quando ouvia o simples "bem-feito" de Halt quando completava uma tarefa a contento. E, de repente, tudo ficou claro. Ele olhou para o barão e disse com voz firme: - Sou um arqueiro, senhor. Houve um murmúrio de surpresa entre a multidão. - Você tem certeza, Will? - o barão perguntou em voz baixa, chegando mais perto. - Não recuse essa oferta somente por achar que Halt vai ficar ofendido ou desapontado. Ele insistiu que isso depende de você e já concordou em aceitar sua decisão.
Will balançou a cabeça negativamente. Nunca tinha tido tanta certeza de algo.
- Eu agradeço a honra, senhor.
Ele olhou para o mestre de guerra e viu, para sua surpresa, que sir Rodney estava sorrindo e mostrando sua aprovação com a cabeça.
- E agradeça ao mestre de guerra e aos seus cavaleiros pela oferta generosa, mas sou um arqueiro.
Ele hesitou.
- Não quero ofender ninguém com isso, senhor - ele terminou desajeitado.
Um enorme sorriso encrespou os traços do barão, e ele agarrou a mão de Will com força.
- Não estou ofendido, Will. De jeito nenhum! A sua lealdade para com o seu ofício e seu mestre de ofício são uma honra para você e todos os que o conhecem!
Ele deu um último aperto firme na mão de Will e a soltou.
Will se curvou e se virou para caminhar pelo longo corredor outra vez. Os vivas recomeçaram e, desta vez, ele manteve a cabeça erguida enquanto o barulho o envolvia e ecoava até o teto do Grande Salão. Então, ao se aproximar das grandes portas novamente, viu algo que o fez parar de imediato, perplexo e surpreso.
Pois ali parado, um pouco afastado da multidão, enrolado na capa cinza e verde, com os olhos ensombrecidos pelo capuz, estava Halt.
E ele estava sorrindo.
Mais tarde, após todo o barulho e as comemorações terem diminuído, Will estava sentado sozinho na minúscula varanda da pequena cabana de Halt. Na mão, ele segurava um pequeno amuleto de bronze no formato de uma folha de carvalho com uma corrente de aço passada por um elo no alto.
- É o nosso símbolo - seu professor tinha explicado quando o entregou para ele depois dos acontecimentos no castelo. - O equivalente ao brasão de armas dos cavaleiros.
Então ele procurou no interior da própria gola e tirou uma folha de carvalho de formato idêntico pendurada numa corrente no pescoço. A forma era parecida, mas a cor era diferente. A folha de carvalho que Halt usava era de prata.
- Bronze é a cor dos aprendizes - Halt tinha contado para ele. - Quando você terminar o treinamento, vai receber uma folha de carvalho de prata como esta. Todos da Corporação dos Arqueiros usam prata ou bronze.
Ele tinha desviado o olhar do garoto por alguns minutos.
- Para falar a verdade, você não devia recebê-la até depois de sua primeira avaliação - ele acrescentou com a voz um pouco rouca. - Mas duvido que alguém queira se opor a isso, depois de tudo o que aconteceu.
Agora, o pedaço de metal de formato curioso brilhava fracamente na mão de Will enquanto ele pensava na decisão que tinha tomado. Parecia muito estranho que tivesse desistido voluntariamente da única coisa que tinha esperado quase toda a vida: a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra e assumir uma posição como cavaleiro no exército do Castelo Redmont.
Ele girou a folha de carvalho de bronze na corrente em volta do dedo indicador, deixou-a subir pelo dedo e a soltou com um profundo suspiro. A vida podia ser muito complicada. Bem no fundo, sentiu que tinha tomado a decisão acertada. E, mesmo assim, ainda mais no fundo, havia uma pequena dúvida.
Assustado, percebeu que havia alguém parado ao lado dele. Ao se virar de repente, reconheceu Halt. O arqueiro se inclinou e se sentou ao lado do garoto no banco rústico de pinho na varanda estreita. Diante deles, o sol baixo do fim de tarde passava pelas folhas verde-claras da floresta, e a luz parecia dançar e girar enquanto a brisa leve sacudia as folhas.
- Um grande dia - ele disse em voz baixa, e Will concordou.
- E uma grande decisão que você tomou - Halt acrescentou depois de vários minutos de silêncio.
Desta vez, Will se virou para olhar para seu mestre.
- Halt, tomei a decisão certa? - ele perguntou finalmente com angústia na voz.
Halt apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou um pouco para a frente, semicerrando os olhos diante da luz forte que passava pelas folhas.
- No que me diz respeito, sim. Escolhi você como aprendiz e posso ver todo o potencial que você tem para ser um arqueiro. Até cheguei a quase gostar da sua presença e de ficar tropeçando em você - ele acrescentou com a leve sugestão de um sorriso. - Mas meus sentimentos e meus desejos não são importantes nesse caso. A decisão certa para você se refere ao que você mais quer.
- Sempre quis ser um cavaleiro - Will contou e então percebeu, com certa surpresa, que tinha dito a frase no passado.
Mas, mesmo assim, sabia que parte dele ainda queria isso.
- É claro que é possível querer duas coisas diferentes ao mesmo tempo - Halt disse em voz baixa. - Então, tudo se torna uma questão de escolha e de saber o que se quer mais.
Não era a primeira vez que Will tinha a sensação de que Halt, de alguma forma, havia lido a sua mente.
- Se você não pode resumir tudo num só pensamento, qual é a principal razão pela qual está um pouco desapontado por ter recusado a oferta do barão? - Halt continuou.
- Acho que... - Will disse devagar, pensando na pergunta. - Acho que, ao recusar a Escola de Guerra, estou decepcionando um pouco o meu pai.
- O seu pai? - Halt repetiu surpreso, e Will concordou.
- Ele foi um excelente guerreiro - ele contou para o arqueiro. - Um cavaleiro. Ele morreu em Hackman Heath, lutando contra os Wargals. Um herói.
- E você sabe de tudo isso, certo? - Halt perguntou, e Will as sentiu com um gesto.
Aquele sonho o tinha sustentado durante os longos e solitários anos em que nunca soube quem era ou o que deveria ser. Agora, o sonho tinha se transformado em realidade.
- Ele era um homem de que qualquer filho teria orgulho - ele disse finalmente, e Halt concordou.
- Isso realmente é verdade.
Havia algo em sua voz que fez Will hesitar. Halt não estava somente concordando por educação. Will se virou para ele depressa, percebendo todas as implicações das palavras do arqueiro.
- Você conheceu ele, Halt? Você conheceu meu pai?
Havia uma luz de esperança no olhar do garoto, que pedia a verdade. O arqueiro assentiu sério.
- Sim, conheci. Não convivi com ele por muito tempo, mas acho que poderia dizer que conhecia ele bem. E você está certo. Você pode ter muito orgulho dele.
- Ele foi um excelente guerreiro, não foi? - Will indagou.
- Ele era um soldado - Halt concordou - e um lutador corajoso.
- Eu sabia! - Will disse feliz. - Ele foi um grande cavaleiro!
- Um sargento - Halt acrescentou devagar e com delicadeza. Will ficou boquiaberto e não conseguiu dizer o que pretendia.
- Um sargento? - ele conseguiu finalmente balbuciar. Halt assentiu. Ele pode ver o desapontamento no olhar do garoto e colocou um braço ao redor de seus ombros.
- Não julgue as qualidades de um homem pela posição que ele ocupa na vida, Will. O seu pai, Daniel, foi um soldado leal e corajoso. Não teve a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra porque começou a vida como fazendeiro. Mas, se tivesse frequentado, teria sido um dos melhores cavaleiros.
- Mas ele... - o garoto começou tristemente.
O arqueiro fez que parasse e continuou na mesma voz gentil, suave e irresistível.
- Porque, sem ter feito qualquer juramento ou treinamento especial pelo qual os cavaleiros passam, ele viveu de acordo com os mais altos ideais da nobreza, bravura e valor. Na verdade, ele morreu alguns dias depois da batalha em Hackman Heath, enquanto Morgarath e seus Wargals estavam lutando para voltar ao Desfiladeiro dos Três Passos. Um contra-ataque repentino nos pegou de surpresa, e o seu pai viu um companheiro cercado por uma tropa de Wargals. O homem estava no chão e a poucos segundos de ser feito em pedaços quando seu pai o ajudou.
A luz nos olhos do garoto recomeçou a brilhar.
- Verdade? - Will perguntou baixinho, e Halt concordou com um gesto de cabeça.
- Verdade. Ele deixou a segurança da linha de batalha e pulou para a frente, armado apenas com a lança. Ficou em cima do companheiro ferido e o protegeu dos Wargals. Matou um deles com a lança e então outro despedaçou a ponta da arma, deixando Daniel somente com o cabo. Assim, ele o usou como se fosse um varapau e nocauteou outros dois: esquerda, direita! Foi exatamente assim!
Halt agitou a mão para a esquerda e para a direita para mostrar o que tinha acontecido. Os olhos de Will estavam presos nele agora, vendo a batalha enquanto o arqueiro a descrevia.
- Ele ficou ferido quando a haste da lança quebrou em outro ataque. Teria sido suficiente para matar qualquer homem, mas seu pai simplesmente tirou a espada de um dos Wargals que tinha matado e derrubou outros três, sangrando sem parar de um ferimento profundo que tinha na lateral do corpo.
- Três deles? - Will repetiu.
- Três. Ele era rápido como um leopardo. E, lembre-se, como lanceiro, nunca tinha realmente treinado com a espada.
Ele fez uma pausa, recordando aquele dia ocorrido tanto tempo atrás.
- Acho que você sabe que os Wargals não têm medo de quase nada. Eles são chamados de Os Indiferentes e, quando começam uma batalha, quase sempre são eles que a terminam. Quase sempre. Essa foi uma das poucas vezes que vi os Wargals com medo. Quando seu pai deu golpes para todos os lados, ainda parado em cima do companheiro ferido, eles começaram a recuar. Primeiro devagar. Depois correram. Eles simplesmente se viraram e correram. Nunca vi outro homem, fosse cavaleiro ou poderoso guerreiro, que pudesse fazer os Wargals fugirem assustados. Seu pai conseguiu. Ele pode ter sido um sargento, Will, mas foi o guerreiro mais poderoso que já tive o privilégio de ver lutando. Então, quando os Wargals recuaram, ele se apoiou em um joelho ao lado do homem que tinha ajudado e, mesmo sabendo que também estava morrendo, ainda tentou proteger ele. Seu pai tinha vários ferimentos, mas provavelmente foi o primeiro que matou ele.
- E o amigo dele se salvou? - Will perguntou em voz baixa.
- O amigo? - Halt indagou um tanto surpreso.
- O homem que ele protegeu - Will explicou. - Ele sobreviveu? De alguma forma, ele pensou que teria sido uma tragédia se o corajoso esforço do pai não tivesse tido êxito.
- Eles não eram amigos - Halt contou. - Até aquele momento, ele nunca tinha posto os olhos no outro homem - ele fez uma pausa e acrescentou - e vice-versa.
O significado daquelas últimas palavras penetraram no fundo da mente de Will.
- Você? - ele sussurrou. - Você era o homem que ele salvou? Halt assentiu com um gesto.
- Como eu disse, eu só conheci ele por alguns minutos, mas ele fez mais por mim do que qualquer outro homem, antes ou depois disso. Enquanto morria, ele me falou da mulher e de como ela estava na fazenda sozinha com um bebê para nascer a qualquer momento. Ele me implorou para ver se estavam cuidando dela.
Will olhou para o rosto sério e barbado que tinha passado a conhecer tão bem. Havia uma profunda tristeza nos olhos de Halt ao se lembrar daquele dia.
- Cheguei tarde demais para salvar sua mãe. Foi um parto difícil, e ela morreu logo depois que você nasceu. Mas eu trouxe você para cá, e o barão Arald concordou que você deveria ser criado como protegido do castelo até ter idade suficiente para se tornar meu aprendiz.
- Mas, durante todos esses anos, você nunca... - Will parou sem palavras.
Halt sorriu tristemente para ele.
- Nunca deixei ninguém saber que tinha colocado você no castelo como protegido? Não. Pense nisso, Will. As pessoas são... esquisitas quando se trata dos arqueiros. Como elas teriam tratado você? Ficariam perguntando que tipo de criatura estranha você era? Decidimos que seria melhor que ninguém soubesse do meu interesse em você.
Will concordou. Naturalmente, Halt tinha razão. A vida como protegido já tinha sido bastante difícil. Teria sido pior se as pessoas soubessem que ele tinha alguma ligação com Halt.
- Então você me aceitou como aprendiz por causa do meu pai? - Will quis saber.
Mas desta vez Halt balançou a cabeça negativamente.
- Não. Garanti que tomassem conta de você por causa de seu pai. Escolhi você porque mostrou ter a capacidade e as habilidades necessárias. E você também parece ter herdado a coragem de seu pai.
Houve um longo silencio entre eles enquanto Will assimilava a história da incrível batalha do pai. De alguma forma, a verdade era mais sensacional, mais inspiradora do que qualquer fantasia que ele pudesse ter criado ao longo dos anos. Por fim, Halt se levantou para se afastar, e o garoto sorriu agradecido para a figura grisalha, agora uma silhueta contra o céu, enquanto a última luz do dia desaparecia.
- Acho que meu pai ficaria satisfeito com a minha escolha - ele afirmou, deslizando a corrente com a folha de carvalho de bronze sobre a cabeça.
Halt simplesmente acenou uma vez com a cabeça, virou-se e entrou na cabana, deixando o aprendiz com seus pensamentos.
Will ficou sentado em silêncio por alguns minutos. Quase sem pensar, tocou a folha de carvalho de bronze que pendia do seu pescoço. Os sons do pátio de exercícios da Escola de Guerra e o ininterrupto martelar e estrépito da oficina de armas que vinha funcionando dia e noite durante a última semana chegavam até ele, carregados pela brisa da noite. Eram os sons do Castelo Redmont se preparando para a guerra.
Porém, estranhamente, pela primeira vez na vida, ele se sentiu em paz.Decidindo que o ataque seria a melhor defesa, Bryn deu um passo à frente e preparou-se para dar um golpe por cima da cabeça de Horace, mas o aprendiz desviou dele com facilidade. Horace escapou dos dois golpes seguintes de Bryn da mesma forma e então, ao bloquear o quarto ataque do garoto mais velho, escorregou a sua lâmina de madeira ao longo da bengala do outro rapaz um instante antes de as duas armas se separarem. Não havia nenhuma cruzeta para proteger a mão de Bryn do movimento, e a espada dura atingiu os seus dedos, provocando muita dor. Com um grito agoniado, ele deixou cair a bengala pesada, saltou para trás e escondeu a mão ferida debaixo do braço. Horace ficou parado, pronto para recomeçar.
- Eu não ouvi ninguém pedir para parar - Halt disse com suavidade.
- Mas... ele me desarmou! - Bryn choramingou.
- É mesmo. Mas tenho certeza de que ele vai deixar você pegar sua arma e recomeçar - Halt disse com um sorriso. - Vamos, continue.
Bryn olhou de Halt para Horace e não viu compaixão no olhar dos dois.
- Não quero - ele disse baixinho.
Horace achou difícil reconhecer naquela figura encolhida o valentão arrogante que tinha transformado sua vida num inferno nos últimos meses. Halt pareceu pensar na declaração de Bryn.
- Vamos levar seu protesto em conta - ele disse alegremente. - Agora, continue, por favor.
A mão de Bryn latejava. Mas até mesmo pior do que a dor era o medo do que estava para acontecer, a certeza de que Horace iria castigá-lo sem piedade. Ele se inclinou e, assustado, pegou a bengala com os olhos fixos no outro garoto. Horace esperou pacientemente até que Bryn estivesse pronto e então fez um repentino movimento para a frente.
Bryn gritou de medo e jogou a bengala para o lado. Horace sacudiu a cabeça aborrecido.
- Quem é o bebê agora? - ele perguntou.
Bryn desviou o olhar e se encolheu envergonhado.
- Se ele vai bancar o bebê - Halt sugeriu -, acho que você vai ter que dar umas palmadas nele.
Um sorriso se espalhou no rosto de Horace. Ele deu um pulo para a frente, agarrou Bryn pela nuca e o virou. Em seguida, bateu na traseira do garoto com a espada de exercício repetidas vezes e seguiu-o pela clareira quando tentou escapar do castigo impiedoso. Bryn uivava, saltava e soluçava, mas Horace o segurava com firmeza pelo colarinho, e não havia como escapar. Finalmente, quando sentiu que tinha retribuído as provocações, os insultos e a dor que tinha sofrido, Horace parou.
Bryn cambaleou e caiu com as mãos e os joelhos no chão, soluçando de dor e medo.
Jerome tinha assistido horrorizado ao acontecido, sabendo que logo seria sua vez. Ele começou a se afastar, tentando escapar enquanto o arqueiro estava distraído.
- Dê mais um passo e vou furar você com uma flecha.
Will tentou usar o mesmo tom de voz calmo e ameaçador de Halt. Ele havia tirado várias de suas flechas do alvo mais próximo e agora tinha uma delas preparada, apoiada na corda do arco. Halt declarou com ar de aprovação:
- Boa idéia. Mire na barriga da perna esquerda. O ferimento é muito doloroso.
Ele olhou para onde Bryn estava deitado, soluçando aos pés de Horace.
- Acho que ele já teve o que merecia - comentou, apontando então o dedo para Jerome.
- Sua vez - ele disse apenas.
Horace pegou a bengala que Bryn tinha deixado cair, andou até Jerome e estendeu-a para ele. Jerome recuou.
- Não! - Jerome gritou de olhos arregalados. - Não é justo! Ele...
- Ora, claro que não é justo - Halt concordou num tom tranquilo. - Imagino que você ache que três contra um é justo. Agora, vamos começar.
Muitas vezes, Will tinha ouvido o ditado que dizia que um rato encurralado acaba reagindo. Jerome provou que era verdade. Ele partiu para o ataque e, para sua surpresa, Horace recuou diante da chuva de golpes dirigidos a ele. A confiança do valentão começou a crescer à medida que ele avançava, mas não percebeu que Horace bloqueava todos os golpes com muita facilidade, quase com desprezo. Os melhores golpes de Jerome nem chegavam perto de derrubar a defesa de Horace. Se o aprendiz do 2° ano estivesse batendo numa parede de pedra, o resultado seria o mesmo.
Então, Horace parou de recuar. Ficou firme e bloqueou o último golpe de Jerome com punho de ferro. Os dois ficaram frente a frente por alguns segundos, e Horace começou a empurrar Jerome para trás. Com a mão esquerda, agarrou o punho direito de Jerome, fazendo que suas armas ficassem entrelaçadas. Os pés de Jerome escorregaram na grama macia à medida que Horace o obrigava a andar cada vez mais para trás. Finalmente, ele deu um último empurrão e Jerome caiu estendido no chão.
Jerome viu o que tinha acontecido com Bryn e sabia que se render não era uma opção. Ele se levantou com dificuldade e se defendeu desesperadamente quando Horace começou o ataque. Jerome foi empurrado para trás por uma sucessão de cortadas à direita, à esquerda e para cima. Ele conseguiu bloquear alguns dos golpes, mas a velocidade extraordinária do ataque de Horace o derrotou. Os golpes aterrissavam nas suas pernas, nos seus cotovelos e nos seus ombros. Horace parecia se concentrar nos ossos que iriam doer mais. Ocasionalmente, usava a ponta arredondada da espada para dar estocadas nas costelas de seu oponente - com força apenas suficiente para machucar, sem quebrar os ossos.
Finalmente, Jerome ficou farto. Ele desviou do ataque, soltou a bengala e caiu no chão, protegendo a cabeça com as mãos. As costas estavam levantadas convidativamente no ar. Horace parou e olhou interrogativamente para Halt. O arqueiro fez um leve gesto na direção de Jerome.
- Por que não? - ele perguntou. - Não se tem uma oportunidade dessas todos os dias.
Mas até ele se encolheu diante do chute forte que Horace deu no traseiro de Jerome. Este, com o nariz na terra, escorregou pelo menos 1 metro para a frente.
Halt recolheu a bengala que Jerome tinha deixado cair. Ele a observou por um instante, testando seu peso e equilíbrio.
- Realmente não é uma boa arma - ele disse. - Por que será que eles escolheram essa? - perguntou, jogando-a para Alda. - Mexa-se.
O garoto loiro, ainda agachado na grama cuidando do tornozelo machucado, olhou descrente para a bengala. O rosto estava manchado pelo sangue que escorria do nariz ferido. Ele nunca mais teria a mesma boa aparência.
- Mas... mas... estou ferido! - ele protestou, levantando-se desajeitado.
Ele não acreditava que Halt estava exigindo que enfrentasse o mesmo castigo a que tinha acabado de assistir.
Halt pensou por um instante. Por um momento, um raio de esperança brilhou na mente de Alda.
- É verdade - o arqueiro concordou. - É verdade - ele murmurou, parecendo um pouco desapontado, e Alda começou a acreditar que o senso de justiça de Halt iria poupá-lo do castigo que seus amigos tinham sofrido. Então o rosto do arqueiro se iluminou.
- Mas espere um minuto... Horace também está ferido. Não é mesmo, Will?
- Com certeza, Halt - Will respondeu sorrindo, e a esperança de Alda desapareceu no mesmo instante.
- Você tem certeza de que não está ferido demais para continuar, Horace? - Halt perguntou, fingindo preocupação.
- Ah, acho que dou conta do recado - Horace respondeu com um sorriso frio.
- Bom, então está combinado! - Halt disse alegre. - Vamos continuar!
E Alda soube que ele também não teria escapatória. Enfrentou Horace com determinação, e o duelo final começou.
Alda era o melhor espadachim dos três rapazes e, durante alguns minutos, chegou a dar um pouco de trabalho para Horace. Mas, à medida que se estudavam com golpes e contragolpes, ataques e defesas, percebeu que Horace era superior e sentiu que sua única chance era tentar algo inesperado.
Ele se separou do oponente, mudou a posição da bengala e a segurou com as duas mãos como se fosse um varapau. Em seguida, desferiu uma série de golpes rápidos para a direita e para a esquerda.
Durante um segundo, Horace foi apanhado de surpresa e caiu para trás. Mas ele se recuperou com uma velocidade felina e dirigiu um golpe por cima da cabeça de Alda. O aluno do 2° ano tentou um contragolpe normalmente usado com o varapau, segurando a bengala nas duas pontas para bloquear o golpe da espada com a parte central. Na teoria, a tática estava correta. Na prática, a dura espada de madeira simplesmente atravessou a bengala, e Alda ficou segurando duas varas inúteis. Totalmente desanimado, ele as deixou cair e ficou indefeso na frente de Horace.
Horace olhou para o seu torturador de longa data e depois para a espada em sua mão.
- Não preciso disto - ele murmurou e deixou a espada cair.
O soco de direita que ele desferiu sobre o maxilar de Alda foi impulsionado pelo ombro, pelo peso do corpo e por meses de sofrimento e solidão - a solidão que somente a vítima de maus-tratos conhece.
Will arregalou levemente os olhos quando Alda se levantou, cambaleou para trás e finalmente desabou na terra ao lado dos dois amigos. Ele se lembrou das vezes em que tinha lutado com Horace no passado. Se soubesse que o colega era capaz de dar um soco daqueles, nunca teria se metido com ele.
Alda não se mexeu e provavelmente não se moveria por muito tempo. Horace recuou, sacudindo os dedos machucados e soltando um suspiro satisfeito.
- Você não tem idéia de como isso foi bom - ele disse. - Graças a você, arqueiro.
Halt balançou a cabeça compreensivo.
- Obrigado por ajudar quando atacaram Will. E, por falar nisso, meus amigos me chamam de Halt.
Nas semanas que se seguiram a esse confronto final com os três valentões, Horace percebeu uma mudança definitiva na vida na Escola de Guerra.
O fator mais importante na mudança foi que Alda, Bryn e Jerome foram expulsos da escola, do castelo e da vila vizinha. Sir Rodney estava desconfiado, fazia algum tempo, de que havia um problema entre as turmas de seus alunos mais novos. Uma visita discreta de Halt confirmou o problema, e a investigação resultante logo trouxe à tona toda a história de como Horace tinha sido maltratado. O julgamento de sir Rodney foi rápido e inflexível. Os três alunos do 2° ano tiveram meio dia para fazer as malas. Eles receberam uma pequena quantia em dinheiro, suprimentos para uma semana e foram transportados para a fronteira do feudo, onde receberam ordens claras para não voltar.
Depois que foram embora, o grupo de Horace melhorou consideravelmente. A rotina diária da Escola de Guerra ainda era dura e desafiadora como antes, mas, sem a carga adicional que Alda, Bryn e Jerome colocavam sobre ele, Horace descobriu que podia lidar facilmente com os exercícios, a disciplina e os estudos. Rapidamente, começou a desenvolver o potencial que sir Rodney tinha visto nele. Além disso, seus colegas de quarto, sem medo de ser vítimas da vingança dos valentões, começaram a ser mais agradáveis e amistosos.
Em resumo, Horace sentia que as coisas estavam realmente melhorando.
Ele só lamentava não ter podido agradecer adequadamente a Halt por sua vida ter melhorado. Depois dos acontecimentos na campina, Horace tinha ficado internado na enfermaria durante vários dias para tratamento dos hematomas e das contusões. Quando foi liberado, descobriu que Halt e Will já tinham partido para a Reunião dos Arqueiros.
- Falta muito? - Will perguntou, talvez pela décima vez naquela manhã.
Halt soltou um leve suspiro de desespero, mas não deu nenhuma resposta. Eles estavam na estrada havia três dias, e Will achava que deveriam estar perto do local da Reunião. Por várias vezes na última hora, ele tinha sentido um cheiro desconhecido no ar e mencionado o fato para Halt.
- É sal. Estamos chegando perto do mar - Halt mencionou brevemente, encerrando a explicação por ali.
Will olhou de relance para o seu professor, esperando que talvez ele se dignasse a lhe dar mais informações, mas os olhos vivos do arqueiro estavam examinando o chão na frente deles. Will percebeu que, de tempos em tempos, Halt olhava para as árvores que cercavam a estrada.
- Você está procurando alguma coisa? - Will perguntou, e Halt se virou na sela.
- Finalmente, uma pergunta útil. Sim, na verdade, estou. O chefe dos arqueiros colocou sentinelas ao redor do local da Reunião. Eu sempre tento enganá-los quando estou me aproximando.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt permitiu-se dar um leve sorriso.
- Isso os mantém ocupados - ele explicou. - Eles vão tentar se esconder atrás de nós e nos seguir para poder dizer que me pegaram numa emboscada. É um jogo bobo que gostam de jogar.
- Por que bobo?
O que faziam se parecia exatamente com os exercícios de habilidades que ele e Halt realizavam regularmente. O arqueiro grisalho virou-se na sela e olhou fixamente para Will.
- Por que eles nunca conseguem me pegar - ele respondeu. - E neste ano vão tentar ainda com mais vontade porque sabem que estou trazendo um aprendiz. Querem saber se você é mesmo bom.
- Isso faz parte do teste? - Will quis saber, e Halt assentiu.
- É o começo. Você se lembra do que eu falei ontem à noite? Will fez que sim com a cabeça. Nas duas noites anteriores, quando estavam ao redor da fogueira, Halt tinha dado conselhos e instruções para Will com sua voz macia e o tinha ensinado como agir na Reunião. Na noite passada, eles arquitetaram táticas para serem usadas no caso de uma emboscada. Exatamente o tipo de coisa que Halt tinha acabado de mencionar.
- Quando nós... - Halt começou, mas de repente ficou alerta. Ele levantou um dedo num pedido de silêncio, e Will o obedeceu.
A cabeça do arqueiro estava levemente inclinada para o lado. Os dois cavalos continuaram sem hesitar.
- Escutou? - Halt perguntou.
Will também inclinou a cabeça. Ele teve a ligeira impressão de ouvir um leve barulho de cascos de cavalos atrás deles, mas não tinha certeza. O andar dos cavalos deles mascarava qualquer som real vindo da trilha às suas costas. Se havia alguém ali, seu cavalo estava trotando no mesmo ritmo.
- Mude a marcha - Halt sussurrou. - No três. Um, dois, três. Ao mesmo tempo, os dois cutucaram as laterais dos cavalos com o pé esquerdo. Aquele era só um dos muitos sinais aos quais Puxão e Abelard tinham sido treinados para responder.
No mesmo instante, os dois cavalos hesitaram em sua passada. Pareceram pular um passo e depois continuaram com passadas uniformes.
Mas a hesitação tinha mudado o padrão das batidas dos cascos e, por um instante, Will pôde ouvir outro conjunto de cascos de cavalo atrás deles como um eco levemente atrasado. Então o outro cavalo também mudou o ritmo das passadas para ficar igual aos deles e o som desapareceu.
- Cavalo de arqueiro - Halt disse em voz baixa. - Tenho certeza de que é Gilan.
- Como você sabe? - Will perguntou.
- Só o cavalo de um arqueiro pode mudar a passada tão depressa. E é Gilan, porque é sempre ele. Ele adora tentar me superar.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt olhou para ele sério.
- Porque ele foi o meu último aprendiz - explicou. - E, por algum motivo, antigos aprendizes simplesmente adoram pegar seus antigos mestres desprevenidos.
Ele olhou de um jeito acusador para o seu aprendiz atual. Will ia protestar e dizer que nunca iria se comportar daquela maneira depois de formado e então se deu conta de que talvez fizesse isso na primeira oportunidade. O protesto morreu sem ser manifestado.
Halt pediu silêncio com um sinal e examinou a trilha diante deles.
- É aquele lugar ali - ele apontou. - Pronto?
Havia uma grande árvore ao lado da trilha, com galhos que pendiam na altura da cabeça deles. Will analisou-a por um momento e então as sentiu. Puxão e Abelard continuaram no seu ritmo regular em direção à árvore. Quando se aproximaram, Will tirou os pés dos estribos, levantou-se e ficou agachado nas costas de Puxão. O cavalo não mudou o ritmo das passadas quando seu dono mudou de posição.
Ao passarem debaixo dos galhos, Will segurou o mais baixo com a mão e pendurou-se nele. No mesmo instante em que seu peso saiu das costas de Puxão, o pequeno cavalo começou a trotar mais vigorosamente, batendo os cascos com força no chão a cada passo para que o rastreador que os seguia não percebesse que sua carga tinha ficado mais leve de repente.
Em silêncio, Will subiu mais alto na árvore até encontrar um ponto em que pudesse se apoiar com firmeza e enxergar bem. Ele viu Halt e os dois cavalos andando devagar pela trilha.
Quando chegaram à curva seguinte, Halt fez que Puxão continuasse trotando, parou Abelard e desceu da sela. Ele se ajoelhou e pareceu examinar o chão em busca de pegadas.
Naquele momento, Will conseguiu ouvir o outro cavalo atrás deles. Ele olhou para o caminho que tinham percorrido, mas outra curva escondia quem os seguia.
Então, o suave bater dos cascos parou.
A boca de Will estava seca, e seu coração batia cada vez mais rápido dentro do peito. Ele tinha certeza de que o som podia ser ouvido por qualquer pessoa num raio de cerca de 50 metros. Mas seu treinamento falou mais alto, e ele ficou imóvel no galho da árvore entre as folhas e sombras, observando a trilha atrás deles.
Um movimento!
Will o viu com o canto do olho, e então o movimento parou. Ele espiou o local com atenção durante um ou dois segundos e se lembrou das lições de Halt: "Não concentre sua atenção num lugar. Deixe o foco aberto e continue investigando. Você vai ver o outro como um movimento, não como uma figura. Lembre-se, ele também é um arqueiro e foi treinado na arte de não ser visto."
Will abriu o foco e examinou a floresta atrás deles. Dentro de segundos, foi recompensado com outro sinal de movimento. Um galho voltou ao lugar quando uma figura invisível passou silenciosamente.
Então, 10 metros adiante, um arbusto se agitou de leve. Em seguida, ele viu um feixe de grama alta voltar ao normal depois de ter sido amassado temporariamente por um pé que passou.
Will continuou imóvel como uma estátua. Ele ficou admirado com o fato de que seu perseguidor conseguia andar pela floresta sem ser visto. Obviamente, o outro arqueiro tinha deixado o cavalo para trás e estava seguindo Halt a pé. Os olhos de Will se mexeram rapidamente para dar uma olhada em Halt. Seu professor ainda parecia estar preocupado com algum tipo de sinal no chão.
Outro movimento veio da floresta. O arqueiro invisível tinha passado pelo esconderijo de Will e estava voltando para a trilha com a intenção de surpreender Halt pelas costas.
De repente, uma figura alta de capa cinza-esverdeado pareceu sair do chão no meio da trilha uns 20 metros atrás do vulto ajoelhado de Halt. Will piscou. Num momento, não havia ninguém ali; no outro, a figura pareceu se materializar do nada. A mão de Will começou a se mover na direção da aljava pendurada em suas costas, mas então ele interrompeu o movimento. Halt tinha dito na noite anterior: "Espere até que estejamos conversando. Se ele não estiver falando, vai escutar o menor movimento que você fizer."
Will engoliu em seco e desejou que a figura alta não tivesse escutado o movimento de sua mão na direção da aljava. E ele parecia ter parado a tempo. Ouviu uma voz alegre aos gritos vinda lá de baixo.
- Halt, Halt!
Halt se virou e se levantou devagar, limpando a terra dos joelhos enquanto se erguia. Ele inclinou a cabeça para o lado e analisou o vulto no meio da trilha, apoiado num arco comprido igual ao dele.
- Ora, Gilan. Vejo que você está pregando a mesma peça.
- Parece que a peça está sendo pregada em você este ano, Halt - o alto arqueiro respondeu, dando de ombros.
Enquanto Gilan falava, a mão de Will se moveu rapidamente, mas em silêncio, para a aljava. Ele escolheu uma flecha e a posicionou na corda do arco.
- É mesmo, Gilan? E que peça é essa? - Halt perguntou.
O divertimento era evidente na voz de Gilan quando respondeu ao antigo mestre.
- Ora, Halt, admita. Desta vez consegui superar você. E você sabe há quantos anos venho tentando!
Pensativo, Halt esfregou a barba grisalha com a mão.
- E, para falar a verdade, eu me pergunto por que você continua tentando, Gilan.
- Você devia saber quanto prazer um antigo aprendiz tem ao superar o mestre, Halt. Agora, vamos lá, confesse. Este ano eu venci.
Enquanto o homem alto falava, Will puxou a flecha com cuidado, mirando o tronco de uma árvore uns 2 metros à esquerda de Gilan. As instruções de Halt ecoavam em seus ouvidos: "Escolha um alvo próximo para assustá-lo quando atirar, mas, pelo amor de Deus, não perto demais. Não vá atravessá-lo com a flecha!"
Halt não tinha mudado de posição no meio da trilha. Gilan agora estava inquieto, passando o peso do corpo de uma perna para outra. A atitude tranquila de Halt estava começando a perturbá-lo. Parecia que, de repente, ele não estava totalmente certo de que Halt estava somente tentando blefar para escapar da armadilha.
As próximas palavras de Halt aumentaram suas suspeitas.
- Ah, sim... aprendizes e mestres. É verdade, eles formam uma combinação estranha. Mas, diga, Gilan, meu velho aprendiz, você não está esquecendo nada este ano?
Talvez tenha sido o jeito como Halt deu um pouco mais de ênfase à palavra "aprendiz", mas de repente Gilan percebeu que tinha cometido um erro. Ele começou a virar a cabeça e a procurar o aprendiz de que tinha se esquecido.
Quando começou o movimento, Will soltou a flecha.
A arma sibilou pelo ar, passou pelo alto arqueiro e penetrou, estremecendo, na árvore que Will tinha escolhido. Gilan deu um pulo para trás assustado e então seu olhar saltou para os galhos da árvore onde Will estava escondido. Este se admirou com o fato de que, mesmo tendo sido pego de surpresa, Gilan ainda tenha conseguido reagir tão rapidamente e identificar a direção de onde o atacante tinha atirado.
Gilan balançou a cabeça aborrecido. Seus olhos espertos conseguiram ver o pequeno vulto cinza e verde escondido nas sombras da folhagem da árvore.
- Desça, Will - Halt chamou. - Venha conhecer Gilan. E para este:
- Eu lhe disse quando você era garoto, não foi? Nunca seja apressado. Não corra para fazer as coisas.
Gilan assentiu um tanto desanimado. E pareceu ainda mais abatido quando Will pulou no chão e o alto arqueiro viu como ele era pequeno e jovem.
- Parece que eu estava tão determinado a apanhar uma velha raposa cinzenta que ignorei o pequeno macaco escondido nas árvores - ele disse rindo do próprio erro.
- Macaco? - Halt repetiu com aspereza. - Eu diria que hoje o macaco foi você. Will, este é Gilan, meu antigo aprendiz e agora arqueiro do feudo Meric, embora eu não tenha idéia do que eles tenham feito para merecer ele lá.
O sorriso de Gilan se alargou, e ele estendeu a mão para Will.
- E exatamente quando eu estava pensando que finalmente tinha vencido você, Halt - ele disse contente. - Então você é Will - continuou, apertando a mão do garoto com firmeza. - Estou satisfeito em conhecer você. Esse foi um excelente trabalho, meu jovem.
Will sorriu para Halt, e o arqueiro mais velho fez um leve movimento significativo com a cabeça. Will se lembrou das instruções finais que Halt tinha lhe dado na noite anterior: "Quando você superar um homem, nunca se vanglorie. Seja generoso e encontre alguma coisa nas ações dele para elogiar. Ele não vai gostar de ser vencido, mas vai enfrentar o fato com coragem. Mostre que você gostou do que ele fez. Elogios podem lhe conseguir um amigo. Divertir-se com a desgraça dos outros só cria inimigos."
- Sim, sou Will. Será que você pode me ensinar como consegue se mover desse jeito? Foi ótimo.
- Acho que nem tanto - Gilan retrucou rindo desanimado. - É óbvio que você me viu chegando de longe.
Will balançou a cabeça negativamente, lembrando-se de como tinha sido difícil ver Gilan. Seu elogio e seu pedido eram mais verdadeiros do que tinha percebido.
- Vi quando você chegou - ele disse. - E vi onde você tinha estado, mas nunca vi você depois que fez aquela curva. Gostaria de saber me mover assim.
O rosto de Gilan se iluminou de prazer diante da sinceridade de Will.
- Bom, Halt, vejo que esse jovem rapaz não tem só talento. Ele também é muito educado.
Halt olhou para os dois, o atual aprendiz e o antigo aluno. Ele acenou para Will com a cabeça, aprovando suas palavras diplomáticas.
- Movimentar-se como um ser invisível sempre foi a melhor habilidade de Gilan - Halt disse. - Você se daria bem se ele concordasse em lhe dar umas aulas.
Ele foi até o ex-aprendiz e colocou o braço ao redor de seus ombros.
- É bom ver você de novo.
Eles se abraçaram com afeto, e então Halt se afastou um pouco e o observou com atenção.
- Você fica mais magro a cada ano - ele disse finalmente. - Quando vai pôr alguma carne em cima desses ossos?
Gilan sorriu e ficou evidente que aquela era uma velha piada entre eles.
- Parece que você tem o suficiente para nós dois - o rapaz retrucou, cutucando as costelas de Halt com força. - Esse é o começo de uma barriguinha de cerveja?
Ele riu para Will.
- Acho que ele fica sentado na cabana e deixa você fazer todo o trabalho, não é?
Antes que Halt ou Will pudessem responder, ele se virou e soltou um assobio. Alguns segundos depois, seu cavalo apareceu, trotando pela curva na estrada. Quando o jovem arqueiro foi até o animal e montou na sela, Will notou uma espada que pendia da bainha. Ele se virou para Halt confuso.
- Pensei que não podíamos ter espadas - ele comentou em voz baixa.
Halt franziu a testa por um momento, sem compreender. Então seguiu o olhar de Will e percebeu o que tinha provocado o comentário.
- Não é que não tenhamos permissão - ele explicou enquanto os dois montavam. - É uma questão de prioridades. Leva anos para se tornar um bom espadachim, e não temos esse tempo. Temos outras habilidades para desenvolver.
Ele viu a próxima pergunta se formando nos lábios de Will e continuou.
- O pai de Gilan é um cavaleiro, então ele já vinha treinando com a espada durante alguns anos antes de se juntar aos arqueiros. Foi considerado um caso especial e teve permissão de continuar esse treinamento quando foi meu aprendiz.
- Mas pensei... - Will começou e hesitou.
O cavalo de Gilan se aproximava trotando, e Will não tinha certeza de que seria educado fazer a próxima pergunta na presença de Gilan.
- Nunca diga isso na frente de Halt - Gilan disse, ouvindo suas últimas palavras. - Ele simplesmente vai dizer: "Você é um aprendiz, não está aqui para pensar" ou "Se você tivesse pensado nisso, não iria perguntar."
Will teve que sorrir. Halt tinha usado exatamente as mesmas palavras em mais de uma ocasião, e a imitação de Gilan era excelente. Naquele momento, contudo, os dois homens estavam olhando para Will esperando ouvir a pergunta que estava prestes a fazer, então continuou.
- Se o pai de Gilan era um cavaleiro, ele não era automaticamente candidato à Escola de Guerra? Ou acharam que ele também era muito pequeno?
Halt e Gilan trocaram um olhar. Halt ergueu uma sobrancelha e fez um gesto para que Gilan respondesse.
- Eu poderia ter ido para a Escola de Guerra, mas preferi me juntar aos arqueiros - ele contou.
- Alguns fazem isso - Halt acrescentou com suavidade.
Will pensou nisso. Ele sempre supôs que os arqueiros não tinham ligação com os nobres do reino. Aparentemente, estava enganado.
- Mas pensei... - ele começou e no mesmo instante percebeu seu erro.
Halt e Gilan olharam para ele, depois um para o outro e disseram em coro:
- Você é um aprendiz, não está aqui para pensar. Em seguida eles viraram os cavalos e saíram trotando. Will correu para pegar Puxão e os seguiu. Quando alcançou os dois arqueiros, eles afastaram os cavalos para os lados, deixando espaço para ele. Gilan sorriu, mas Halt estava sombrio como sempre. Porém, enquanto continuavam a cavalgar num silêncio amistoso, Will teve a reconfortante sensação de que agora fazia parte de um grupo exclusivo e fortemente unido.
Era uma sensação agradável, de estar no lugar certo, como se, de alguma forma, ele tivesse chegado à sua casa pela primeira vez na vida.
- Aconteceu alguma coisa - Halt disse em voz baixa, fazendo sinal para os dois companheiros pararem os cavalos.
Os três cavaleiros haviam andado a meio galope no último meio quilômetro. Agora haviam aumentado um pouco a velocidade, e o espaço aberto entre as árvores estava bem à sua frente, a cerca de 100 metros de distância. Pequenas barracas individuais se estendiam em filas ordenadas, e a fumaça das fogueiras usadas para o preparo da comida enchia o ar. Um estande para prática de arco-e-flecha tinha sido instalado num dos lados do espaço aberto, e várias dezenas de cavalos, todos pequenos e desgrenhados cavalos de arqueiros, estavam pastando perto das árvores.
Os três companheiros sentiram um ar de urgência e atividade em todo o acampamento. No centro das fileiras de barracas, havia um pavilhão maior, de 4 x 4 metros e com altura suficiente para permitir que um homem alto ficasse de pé. Os panos laterais estavam enrolados para cima naquele momento, e Will pôde ver um grupo de homens vestidos de verde e cinza parados ao redor de uma mesa, aparentemente mergulhados numa conversa. De repente, um dos membros do grupo se afastou e correu para um cavalo que esperava do lado de fora da entrada. Ele montou, virou o cavalo e disparou pelo acampamento a galope na direção da trilha estreita entre as árvores do outro lado.
Ele tinha acabado de desaparecer nas sombras profundas debaixo das árvores quando outro cavaleiro apareceu da direção oposta, galopando entre as fileiras e parando fora da grande barraca. Seu cavalo mal tinha parado quando ele saltou para o chão e foi se juntar ao grupo do lado de dentro.
- O que aconteceu? - Will perguntou. De testa franzida, ele percebeu que várias das pequenas barracas estavam sendo desfeitas e enroladas por seus donos.
- Não tenho certeza - Halt respondeu, fazendo um gesto na direção das fileiras de barracas. - Veja se consegue encontrar um bom lugar para acamparmos. Vou ver o que está acontecendo.
Ele fez Abelard ir para a frente, virou-se e gritou:
- Não monte as barracas ainda. Pelo que parece, talvez não precisemos delas.
Os cascos de Abelard bateram com força no chão enquanto ele galopava na direção do centro do acampamento.
Will e Gilan encontraram um local para acampar debaixo de uma arvore grande relativamente perto da área central de reunião. Depois disso, sem saber ao certo o que fazer em seguida, eles se sentaram num tronco e esperaram a volta de Halt. Como um arqueiro de posição elevada, Halt tinha acesso ao pavilhão maior que, segundo a explicação de Gilan, era a barraca de comando. O comandante do grupo, um arqueiro chamado Crowley, se encontrava ali com seu pessoal todos os dias para organizar as atividades, bem como para conferir e avaliar os relatórios e as informações que os arqueiros traziam para a Reunião.
Quase todas as barracas perto dos dois arqueiros mais jovens estavam desocupadas, mas havia um arqueiro magro e desengonçado do lado de fora de uma delas, andando impacientemente de um lado para outro, parecendo tão confuso quanto Gilan e Will. Ao vê-los no tronco, ele se aproximou.
- Alguma novidade? - ele perguntou imediatamente, ficando desanimado quando ouviu a resposta de Gilan.
- Íamos fazer a mesma pergunta - Gilan disse, estendendo a mão para cumprimentar o rapaz. - Você é Merron, não é?
Os dois trocaram um aperto de mão.
- Isso mesmo. E, se me lembro bem, você é Gilan.
Gilan apresentou Will, e o recém-chegado, que parecia ter uns 30 anos, olhou para ele curioso.
- Então você é o novo aprendiz de Halt - ele comentou. - Nós estávamos querendo saber como você era. Eu ia ser um dos seus avaliadores.
- Ia ser? - Gilan perguntou depressa.
- Sim - Merron respondeu, olhando para ele. - Duvido que a gente continue com a Reunião agora - ele hesitou e acrescentou: - Quer dizer que vocês não estão sabendo?
Os dois recém-chegados balançaram a cabeça negativamente.
- Morgarath está planejando alguma coisa outra vez - ele disse em voz baixa, e Will sentiu um calafrio na espinha ao ouvir o nome perverso.
- O que aconteceu? - Gilan perguntou atento.
Merron sacudiu a cabeça, remexendo a terra na sua frente com a ponta da bota num gesto de frustração.
- Não há notícias claras ainda, apenas informações incompletas. Mas parece que um exército de Wargals saiu do desfiladeiro de Três Passos há alguns dias. Eles derrotaram as sentinelas e foram para o norte.
- Morgarath estava com eles? - Gilan quis saber.
Will ficou quieto e de olhos arregalados. Ele não conseguia fazer perguntas, nem mesmo pronunciar o nome de Morgarath.
- Não sabemos - Merron respondeu. - Acho que não, nesse estágio, mas Crowley tem mandado patrulheiros para investigar nos últimos dois dias. Talvez seja apenas um ataque surpresa, mas, se for mais do que isso, é possível que signifique o início de outra guerra. Se for isso, foi um péssimo momento para perder lorde Lorriac.
- Lorriac está morto? - Gilan perguntou com preocupação na voz, e Merron assentiu.
- Parece que foi um derrame ou um ataque do coração. Ele foi encontrado morto alguns dias atrás e não havia nenhuma marca em seu corpo. Estava olhando direto para a frente. Morto e frio como pedra.
- Mas ele estava na sua melhor fase! - Gilan exclamou. - Eu vi ele há somente um mês e ele estava saudável como um touro.
Merron deu de ombros. Ele não tinha explicação, somente conhecia os fatos.
- Acho que isso pode acontecer com qualquer um - ele disse. A gente nunca sabe.
- Quem é lorde Lorriac? - Will perguntou para Gilan em voz baixa.
Pensativo, o jovem arqueiro balançou a cabeça enquanto respondia.
- Lorriac de Steden. Ele era o líder da cavalaria pesada do rei. Provavelmente nosso melhor comandante. Como Merron disse, se houver uma guerra, sentiremos muito a falta dele.
A mão fria do medo pousou no coração de Will. Toda a sua vida as pessoas falaram de Morgarath em voz baixa, isso quando falavam dele. O Grande Inimigo tinha quase assumido as proporções de um mito: uma lenda de tempos antigos e sombrios. Agora o mito estava se tornando realidade mais uma vez. Uma realidade desafiadora e apavorante. Ele olhou para Gilan em busca de tranquilidade, mas o rosto bonito do jovem arqueiro não mostrou nada além de dúvida e preocupação em relação ao futuro.
Halt demorou quase uma hora para se juntar a eles outra vez. Como já passava do meio-dia, Will e Gilan tinham preparado uma refeição com pão, carne fria e frutas secas. O arqueiro grisalho escorregou da sela de Abelard, aceitou um prato de Will e comeu rapidamente.
- A Reunião terminou - ele disse entre uma mordida e outra. Ao ver a chegada do arqueiro mais velho, Merron tinha voltado a se reunir ao grupo. Ele e Halt se cumprimentaram rapidamente e então Merron fez a pergunta que estava na mente de todos.
- É a guerra? - ele perguntou ansiosamente, e Halt balançou a cabeça.
- Não temos certeza. As últimas informações mostram que Morgarath ainda está nas montanhas.
- Então por que os Wargals saíram? - Will perguntou. Todos sabiam que os Wargals só faziam a vontade de Morgarath. Eles nunca teriam agido de forma tão radical sem ordens dele. A expressão de Halt estava sombria quando respondeu.
- Eles são apenas um grupo pequeno, talvez 50. A intenção foi usá-los para desviar a atenção. Crowley acha que, enquanto nossos guardas estavam ocupados perseguindo os Wargals, os dois Kalkaras saíram das Montanhas e se esconderam em algum lugar da Planície Solitária.
Gilan assobiou baixinho, e Merron até deu um passo para trás surpreso. O rosto dos dois jovens arqueiros mostrava seu grande horror diante das notícias. Will não tinha idéia do que eram os Kalkaras, mas, a julgar pela expressão de Halt e as reações de Gilan e Merron, as notícias obviamente não eram boas.
- Você quer dizer que eles ainda existem? - Merron perguntou. - Pensei que tinham morrido anos atrás.
- Ah, sim, eles ainda existem - Halt confirmou. - Sobraram apenas dois, mas é o bastante para ficarmos preocupados.
Houve um grande silêncio. Finalmente e com hesitação, Will teve que perguntar:
- Quem são eles?
Halt balançou tristemente a cabeça. Não queria discutir aquele assunto com alguém tão jovem quanto Will, mas, sabendo o que os esperava, não tinha escolha. O garoto tinha que saber.
- Quando Morgarath estava planejando sua rebelião, ele queria mais que um exército comum. Sabia que sua tarefa seria mais fácil se conseguisse aterrorizar seus inimigos. Assim, durante vários anos, ele fez uma série de expedições para as Montanhas da Chuva e da Noite, procurando.
- Procurando o quê? - Will perguntou, embora tivesse a incômoda sensação de que sabia qual seria a resposta.
- Aliados que pudesse usar contra o reino. As montanhas são uma parte antiga e tranquila do mundo. Elas permaneceram inalteradas durante séculos, e havia rumores de que estranhas bestas e monstros antigos ainda viviam ali. Acontece que os rumores se confirmaram. - Wargals - Will comentou, e Halt assentiu. - Sim, Wargals. Morgarath os escravizou rapidamente e os fez cumprir sua vontade - Halt completou com um toque de amargura na voz. - Mas então ele encontrou os Kalkaras. E eles são piores que os Wargals. Muito, muito piores.
Will não disse nada. Pensar em bestas que eram piores que os Wargals o deixava, no mínimo, perturbado.
- Eles eram três, mas um foi morto há cerca de oito anos, por isso sabemos um pouco mais sobre eles. Pense numa criatura em algum ponto entre um macaco e um urso que anda sobre duas patas e você vai ter uma idéia da aparência de um Kalkara.
- Então Morgarath os controla com a mente, como faz com os Wargals? - Will perguntou.
- Não. Eles são mais inteligentes do que os Wargals, mas são totalmente obcecados por prata. Eles adoram e guardam prata e parece que Morgarath dá para os Kalkaras grandes quantidades de prata para que façam o que ele quer. E o fazem bem. Podem ser incrivelmente espertos quando perseguem uma presa.
- Presa? Que tipo de presa? - Will quis saber.
Halt e Gilan trocaram um olhar, e Will pôde ver que seu mentor estava relutante em falar no assunto. Mas o arqueiro grisalho respondeu em voz baixa:
- Os Kalkaras são assassinos. Quando recebem ordens para capturar uma determinada vítima, fazem tudo o que podem para alcançar e matar essa pessoa.
- Podemos impedir os Kalkaras? - Will perguntou, e seu olhar passou rapidamente para o arco pesado de Halt e a aljava repleta de flechas negras.
- É difícil matar eles. São cobertos por pêlos grossos emaranhados e tão fechados que quase parecem escamas. Uma flecha dificilmente penetra neles. Uma acha ou uma espada de folha larga funciona melhor.
Ou talvez um bom golpe com uma lança pesada dê resultado.
Will sentiu um momento de alívio. Esses Kalkaras estavam parecendo quase invencíveis, mas havia muitos cavaleiros no reino que, sem dúvida, eram capazes de dar conta deles.
- Então foi um cavaleiro que matou um deles há oito anos? Halt balançou a cabeça.
- Não foi um cavaleiro. Foram três. Foram necessários três cavaleiros totalmente armados para matar a criatura, e apenas um deles sobreviveu à batalha. E o que é pior: ele ficou aleijado para o resto da vida - Halt terminou carrancudo.
- Três homens? Todos cavaleiros? - Will indagou sem acreditar. - Mas como...
Gilan o interrompeu antes que pudesse terminar.
- O problema é que, se você se aproximar o bastante para usar uma espada ou lança, geralmente os Kalkaras derrotam você antes que tenha alguma chance.
Enquanto ele falava, seus dedos batiam levemente no cabo da espada que usava na cintura.
- E como eles fazem isso? - Will quis saber, sentindo o alívio momentâneo ser instantaneamente afastado pelas palavras de Gilan.
- Seus olhos - explicou Merron, o arqueiro desajeitado. - Se você olhar nos olhos deles, fica paralisado e indefeso, do mesmo jeito que um pássaro fica paralisado pelo olhar de uma cobra antes de ser morto por ela.
Will olhou para os três companheiros sem compreender. O que Merron tinha dito parecia improvável demais para ser verdade, mas Halt não o contradisse.
- Paralisa você... como eles podem fazer isso? Você está falando de magia?
Halt deu de ombros. Merron olhou para o lado, pouco à vontade. Nenhum deles gostava de discutir aquele assunto.
- Algumas pessoas dizem que é magia - Halt disse finalmente.
- Acho mais provável que seja uma forma de hipnotismo. Seja como for, Merron esta certo. Se um Kalkara fizer você olhar nos olhos dele, você fica paralisado de puro terror, incapaz de fazer qualquer coisa para se salvar.
Will olhou ao redor ansioso, como se esperasse ver uma criatura macaco-urso sair de dentro das árvores silenciosas a qualquer momento. Ele sentiu o pânico crescendo no peito. De alguma forma, tinha acreditado que Halt era invencível e, no entanto, ele estava ali, aparentemente admitindo que não havia defesa contra aqueles monstros perversos.
- Não há nada que se possa fazer? - ele perguntou numa voz desanimada.
- Diz a lenda que eles são especialmente vulneráveis ao fogo - Halt contou, dando de ombros. - O problema é, como já sabemos, conseguirmos nos aproximar o bastante para causar qualquer dano. Carregar uma chama acesa dificulta a tarefa de perseguir um Kalkara. Eles costumam caçar à noite e podem ver você se aproximando.
Will achou difícil acreditar no que estava ouvindo. Halt parecia muito realista sobre o assunto, e Gilan e Merron obviamente ficaram perturbados com as notícias que ele trouxe.
Seguiu-se um silêncio estranho, quebrado por Gilan.
- O que faz Crowley pensar que Morgarath está usando Kalkaras? Halt hesitou. Ele tinha ouvido a opinião de Crowley numa reunião particular. Então deu de ombros. Todos precisariam saber de tudo cedo ou tarde e todos eram membros do Grupo dos Arqueiros, até Will.
- Ele já usou duas vezes no ano passado: para matar lorde Northolt e lorde Lorriac.
Os três homens mais jovens trocaram olhares surpresos, e Halt continuou:
- Pensou-se que Northolt havia sido morto por um urso, lembram?
Will acenou com a cabeça de leve. Agora ele lembrava. No primeiro dia como aprendiz de Halt, o arqueiro tinha recebido a notícia da morte do comandante supremo.
- Na época, achei que Northolt era um caçador habilidoso demais para ser morto daquele jeito. É óbvio que Crowley concorda.
- Mas e quanto a Lorriac? Todos dizem que foi um derrame - Merron comentou.
Halt olhou para ele brevemente e então respondeu.
- Você ouviu isso, não foi? Bem, o médico dele ficou muito surpreso. Ele disse que nunca tinha visto homem mais saudável. Por outro lado... - ele fez uma pausa, e Gilan terminou seu pensamento.
- Pode ter sido obra dos Kalkaras.
- Exatamente - Halt concordou. - Não conhecemos todos os efeitos do olhar paralisante. Mantido durante um longo período de tempo, o terror pode muito bem ser suficiente para parar o coração de um homem. E houve algumas informações vagas sobre um animal grande e escuro visto na região.
Novamente, o silêncio se instalou no pequeno grupo debaixo das árvores. Em volta deles, os arqueiros se agitavam de um lado para outro, levantando acampamento e selando os cavalos. Halt finalmente os despertou de seus pensamentos.
- É melhor irmos andando. Merron, você precisa voltar ao seu feudo. Crowley quer o exército alerta e mobilizado. As ordens vão ser distribuídas em poucos minutos.
Merron assentiu e se afastou na direção de sua barraca, mas parou e voltou. Algo na voz de Halt, na forma como tinha dito "você precisa voltar ao seu feudo", o fez pensar.
- E vocês três? - ele perguntou. - Para onde vocês vão? Antes mesmo que Halt respondesse, Will soube o que ele ia dizer.
Mas isso não tornou o fato menos assustador ou apavorante quando as palavras foram ditas.
- Nós vamos atrás dos Kalkaras.
O acampamento fervia. Barracas eram desmontadas e arqueiros guardavam seus equipamentos, amarrando-os nas sacolas das selas. Os primeiros integrantes do grupo já tinham partido e voltavam para os seus feudos.
Will estava ajustando as cordas das mochilas nas selas depois de repor alguns itens que tinha tirado. Halt estava sentado a alguns metros de distância, com a testa franzida, pensativo, estudando o mapa da região que cercava a Planície Solitária. A planície era uma área grande que ainda não tinha sido mapeada e não apresentava estradas. Uma sombra caiu sobre Halt e ele olhou para cima. Gilan estava parado ao seu lado com um ar preocupado no rosto.
- Halt, você tem certeza sobre isso? - ele perguntou em voz baixa e preocupada.
- Toda certeza, Gilan. Isso simplesmente tem que ser feito - Halt respondeu, olhando-o com determinação.
- Mas ele é só um garoto! - Gilan protestou, olhando para Will que estava amarrando um saco de dormir atrás da sela de Puxão.
Halt suspirou e desviou o olhar.
- Sei disso, mas ele é um arqueiro. Aprendiz ou não, ele é um membro da corporação como todos nós.
Ele viu que Gilan ia protestar outra vez, preocupado com Will, e sentiu uma onda de afeição pelo antigo aprendiz.
- Gilan, num mundo ideal eu não colocaria Will em risco desse jeito. Mas não estamos num mundo ideal. Todos vão ter que desempenhar seu papel nessa campanha, até meninos como Will. Morgarath está se preparando para algo grande. Os agentes de Crowley ouviram dizer que, além de tudo, ele tem entrado em contato com os escandinavos. - Os escandinavos? Para quê?
- Não sabemos os detalhes, mas na minha opinião ele está esperando formar uma aliança com eles - Halt respondeu, dando de ombros. - Eles lutam com qualquer um por dinheiro. E, pelo que parece, lutam por qualquer um - ele acrescentou, deixando clara sua antipatia por mercenários. - O caso é que estamos com falta de pessoal. Normalmente, eu iria atrás dos Kalkaras com um grupo de pelo menos cinco arqueiros mais antigos. Mas Crowley simplesmente não pode ceder eles para mim. Assim, tive que me contentar com os dois em quem mais confio: você e Will.
- Ora, obrigado.
Gilan deu um sorriso torto. Ele estava emocionado com a confiança de Halt. Ainda admirava seu antigo mentor. Quase todos na Corporação de Arqueiros o faziam.
- Além disso, acho que essa sua velha espada enferrujada pode ser útil se nos depararmos com um desses horrores - Halt disse.
A Corporação de Arqueiros tinha tomado a decisão acertada quando permitiu que Gilan continuasse o treinamento com a arma. Embora poucas pessoas soubessem, Gilan era um dos melhores espadachins em Araluen.
- Quanto a Will - ele continuou -, não o subestime. Ele é muito habilidoso. É rápido, corajoso e já maneja muito bem o arco e as flechas. E, o que é melhor, pensa rápido. Meu verdadeiro plano é mandar ele buscar reforços se encontrarmos pistas dos Kalkaras. Isso vai nos ajudar e vai manter ele longe do perigo.
Pensativo, Gilan coçou o queixo. Agora que Halt tinha explicado o que pretendia, aquele parecia o único caminho a tomar. Ele encontrou o olhar do homem mais velho e acenou com a cabeça mostrando que entendia a situação. Então se virou para organizar seu material, mas descobriu que Will já tinha arrumado tudo e amarrado à sela de seu cavalo. Ele sorriu para Halt.
- Você tem razão - ele disse. - O garoto sabe usar a cabeça.
Os três partiram um pouco depois, enquanto os outros arqueiros ainda estavam recebendo ordens. Mobilizar o exército de Araluen não seria uma tarefa insignificante, e os arqueiros deveriam coordená-la e depois estar preparados para guiar as forças individuais dos 50 feudos para o ponto de reunião nas planícies de Uthal. Com Gilan e Halt designados para procurar os Kalkaras, os outros arqueiros tinham que assumir a tarefa de coordenar as forças de seus feudos.
Os três companheiros pouco falaram quando Halt os guiou para o sudeste. Até a curiosidade natural de Will foi abrandada pela magnitude da tarefa que os esperava. Enquanto cavalgavam em silêncio, a sua mente ficava formando imagens de criaturas selvagens parecidas com ursos e com feições de macaco. Criaturas que poderiam muito bem se mostrar invencíveis, até para alguém com as habilidades de Halt.
Por fim, contudo, a monotonia se instalou, as imagens terríveis desapareceram e ele começou a se perguntar que plano, se havia algum, Halt tinha em mente.
- Halt - ele chamou um tanto sem fôlego -, onde você espera encontrar os Kalkaras?
Halt observou o rosto sério ao seu lado. Eles estavam viajando no ritmo da marcha forçada dos arqueiros: quarenta minutos na sela, cavalgando num galope regular, e depois vinte minutos a pé, conduzindo os cavalos e permitindo que viajassem sem carga, enquanto os homens corriam num trote uniforme.
A cada quatro horas, eles paravam para uma hora de descanso, quando faziam uma refeição rápida de carne seca, pão duro e frutas, e então se embrulhavam em suas capas para dormir.
Eles já estavam viajando fazia algum tempo e Halt achou que era hora de descansar. Ele levou Abelard para fora da estrada, para o abrigo de um pequeno bosque. Will e Gilan o seguiram, largando as rédeas e deixando os cavalos pastar.
- O melhor - Halt disse em resposta à pergunta de Will - é começar a procurar na toca e ver se eles estão nas vizinhanças.
- E sabemos onde essa toca fica? - Gilan perguntou.
- Nossos espiões acham que fica em algum lugar na Planície Solitária, além das Flautas de Pedra. Vamos investigar essa região e ver o que encontrarmos. Se eles estiverem por ali, certamente vamos descobrir que uma ou outra ovelha ou cabra está faltando nas vilas da vizinhança. Conseguir que os moradores falem vai ser outro problema. Os habitantes das planícies são as pessoas mais fechadas de todos os tempos.
- O que é essa planície de que vocês estão falando? - Will perguntou com a boca cheia de pão seco. - E que raios é uma Flauta de Pedra?
- A Planície Solitária é uma área grande e plana. Tem muito poucas árvores e é coberta principalmente por massas rochosas e capim alto - Halt contou para ele. - Parece que o vento está sempre soprando, não importa a época do ano em que você vá para lá. É um lugar triste e deprimente, e as Flautas de Pedra são a parte mais sombria de lá.
- Mas o que são... - Will começou, mas Halt só tinha feito uma breve pausa.
- As Flautas de Pedra? Ninguém sabe realmente. Elas são um círculo de pedras formado pelos antigos, inserido no meio da parte mais ventosa da planície. Ninguém descobriu qual seu verdadeiro objetivo, mas elas estão arranjadas de modo que o vento é desviado ao redor do círculo e atravessa uma série de buracos nas próprias pedras. Elas criam um som constante e agudo, mas não tenho idéia de por que alguém achou que o som se parece com o de flautas. O barulho é misterioso e desafinado e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Depois de alguns minutos, você começa a ficar arrepiado, e ele continua por horas e horas.
Will ficou em silêncio. A imagem de uma planície triste varrida pelo vento e com pedras que emitiam um uivo agudo e ininterrupto pareceu tirar o último vestígio de calor do sol do final da tarde. Ele estremeceu involuntariamente. Halt viu o movimento e se inclinou para lhe dar um tapinha encorajador no ombro.
- Se alegre - ele disse. - Nada costuma ser tão mau quanto parece. Agora, vamos descansar um pouco.
Eles chegaram aos arredores da Planície Solitária ao meio-dia do segundo dia. Halt tinha razão: era um lugar grande e deprimente. A área se estendia por vários quilômetros e era coberta por um capim alto e cinzento, ressecado pelo vento constante.
O vento parecia quase um ser vivo. Ele era irritante, soprando contínua e invariavelmente do oeste, dobrando o capim alto à sua frente, varrendo o terreno achatado da Planície Solitária.
- Agora vocês entendem por que ela é chamada de Planície Solitária? - Halt perguntou aos dois companheiros, puxando as rédeas de Abelard para que eles pudessem alcançá-lo. - Quando você sai cavalgando nesse maldito vento, tem a sensação de que é a única pessoa viva que resta na face da Terra.
"Isso é verdade", Will pensou. Ele se sentiu pequeno e insignificante diante do vazio da planície. E essa sensação de insignificância foi acompanhada por outra de impotência. O deserto que estavam atravessando a cavalo parecia sugerir a presença de forças ocultas, forças muito maiores que suas habilidades. Até Gilan, normalmente alegre e entusiasmado, parecia afetado pela atmosfera pesada e deprimente do lugar. Apenas Halt parecia não ter mudado, permanecendo sombrio e taciturno como sempre.
Aos poucos, enquanto cavalgavam, Will ficava ciente de uma sensação inquietante. Havia algo oculto bem fora do alcance de sua percepção consciente. Alguma coisa que o deixava perturbado. Ele não a conseguia isolar nem mesmo dizer de onde vinha ou que forma tinha. A coisa simplesmente estava ali, sempre presente. Ele se mexeu na sela e ficou de pé nos estribos para investigar o horizonte monótono, na esperança de poder ver a fonte daquilo tudo.
- Você sentiu - Halt comentou ao perceber o movimento. - São as Pedras.
E, depois que Halt falou, Will se deu conta de que tinha sido um som, tão leve e tão contínuo que não podia ser isolado como tal, que criara a sensação de inquietação em sua mente e o aperto na boca do estômago. Ou talvez eles tivessem chegado a uma distância em que conseguiam ouvir as Flautas de Pedra apenas quando Halt fez o comentário, pois naquele momento Will pôde isolar o som. Era uma série de notas musicais desafinadas tocadas ao mesmo tempo, mas criando um som áspero e desarmonioso que irritava os nervos e perturbava a mente. Sua mão esquerda escorregou discretamente para o punho da faca enquanto cavalgava, e ele sentiu conforto ao tocar a arma sólida e confiável.
Eles continuaram a viagem durante toda a tarde com a impressão de que nunca avançavam. A cada passo, o horizonte atrás e diante deles parecia nunca ficar mais perto ou longe. Era como se estivessem marcando passo num mundo vazio. O som constante e agudo das Flautas de Pedra os acompanhou por todo o dia, ficando cada vez mais forte. Aquele era o único sinal de que estavam avançando. As horas passavam e o som continuava, sem que Will sentisse que ficava mais fácil suportá-lo. O som irritava seus nervos e o deixava ansioso. Quando o sol começou a mergulhar na margem oeste, Halt freou Abelard.
- Vamos passar a noite aqui e descansar - ele anunciou. - É quase impossível manter um ritmo constante no escuro. Sem características marcantes no terreno que nos ajudem a estabelecer uma rota, poderíamos facilmente acabar andando em círculos.
Agradecidos, os outros desmontaram. Mesmo bem preparados como eram, as horas passadas no ritmo de marcha forçada os tinham deixado exaustos. Will começou a procurar lenha para a fogueira ao redor dos poucos arbustos ressecados que cresciam na planície. Halt, percebendo o que ele tinha em mente, sacudiu a cabeça.
- Nada de fogo - recomendou. - Vão nos ver a quilômetros e não temos idéia de quem possa estar vigiando.
Will parou e deixou o pequeno feixe que tinha reunido cair no chão.
- Você está falando dos Kalkaras? - ele perguntou.
- Eles ou o povo da planície - Halt respondeu, dando de ombros.
- Não podemos saber com certeza se alguns deles são aliados dos Kalkaras. Afinal, vivendo tão próximos dessas criaturas, podem acabar cooperando com elas apenas para garantir sua segurança. E não queremos que eles espalhem que há estranhos na Planície.
Gilan estava tirando a sela de Blaze, seu cavalo baio. Ele largou-a no chão e esfregou o pêlo do cavalo com um punhado do sempre presente capim seco.
- Você não acha que já fomos vistos? - ele perguntou.
Halt pensou na pergunta por alguns segundos antes de responder.
- Talvez sim. Há muitos fatos que desconhecemos, como onde fica realmente a toca dos Kalkaras, se o povo das planícies é ou não seu aliado, se um deles nos viu ou não e informou nossa presença. Mas, até sabermos que fomos vistos, vamos fazer de conta que não fomos. Portanto, nada de fogo.
- É claro que você tem toda a razão - Gilan murmurou relutante. - É que eu ficaria feliz em matar alguém por uma xícara de café.
- Acenda o fogo para coar café - Halt recomendou - e isso pode ser a última coisa que vai fazer.
Foi um acampamento frio e desanimado. Cansados do ritmo duro da viagem, os arqueiros comeram uma refeição fria: pão, frutas secas e carne fria mais uma vez, engolida com água fria de seus cantis. Will estava começando a detestar aquelas rações duras e praticamente sem gosto. Halt assumiu o primeiro turno de vigília, e Will e Gilan se enrolaram em suas capas para dormir.
Aquela não era a primeira vez que Will acampava com desconforto desde que o período de treinamento tinha começado. Mas era a primeira vez que não havia nem mesmo um fogo crepitante ou, pelo menos, um canteiro de brasas quentes ao lado do qual descansar. Ele dormiu mal e teve sonhos desagradáveis - sonhos com criaturas assustadoras, coisas estranhas e aterradoras que povoavam seu subconsciente, porém perto o bastante para que ele sentisse sua presença e ficasse perturbado por ela.
O garoto ficou quase satisfeito quando Halt o sacudiu de leve para acordá-lo para seu turno de vigília.
O vento estava empurrando as nuvens sob a Lua. O gemido da canção das Pedras estava mais forte do que nunca. Will sentiu um cansaço de espírito e se perguntou se as Pedras tinham sido criadas para deixar as pessoas exaustas daquela forma. O capim alto em volta deles sibilava uma melodia que se sobrepunha ao som agudo que vinha de longe. Halt apontou para o céu, indicando um ângulo de elevação para ser lembrado por Will.
- Quando a Lua alcançar aquele ângulo, passe a guarda para Gilan - ele disse ao aprendiz.
Will concordou, levantando-se e esticando os músculos rígidos. Ele apanhou o arco e a aljava e andou até o arbusto que Halt tinha escolhido como ponto de observação. Arqueiros em vigília nunca ficavam em terreno aberto no local do acampamento, mas sempre se afastavam 20 metros das barracas e encontravam um esconderijo Dessa forma, estranhos que se aproximassem do acampamento teriam menor probabilidade de vê-los. Essa era uma das muitas habilidades que Will tinha aprendido em seus meses de treinamento.
Ele tirou duas flechas da aljava e as segurou entre os dedos da mão que apoiava o arco. Iria segurá-las desse jeito durante as quatro horas de sua guarda. Se precisasse delas, não teria que fazer movimentos exagerados para tirá-las da aljava - movimento que poderia alertar o atacante. Em seguida ele pôs o capuz na cabeça para se confundir com o formato irregular do arbusto. A sua cabeça e os seus olhos se moviam constantemente de um lado para outro como Halt tinha ensinado, sempre mudando o foco, de perto do acampamento para o horizonte escuro à sua volta. Dessa forma, ele teria chances melhores de perceber algum movimento. De tempos em tempos, ele se virava lentamente num círculo completo, examinando todo o terreno ao seu redor, do jeito mais imperceptível possível.
O som agudo das Pedras e o sibilar do vento eram constantes. Mas Will também começou a ouvir outros sons - o farfalhar de pequenos animais na grama e outros menos explicáveis. Com cada um deles, o coração do garoto acelerava um pouco mais, e ele se perguntava se podiam ser os Kalkaras rastejando sobre os vultos adormecidos dos amigos. Em certo momento, ficou convencido de que estava ouvindo a respiração de um animal grande. O medo tomou conta dele, apertando sua garganta, até ele perceber, com os sentidos sintonizados ao máximo, que o que ouvia realmente era a respiração tranquila dos companheiros.
Will sabia que, a uma distância maior do que 5 metros, ficaria praticamente invisível ao olho humano, graças à capa, às sombras e ao formato do arbusto que o cercava. Mas ele se perguntava se os Kalkaras contavam somente com a visão. Talvez tivessem outros sentidos que lhes dissessem que havia um inimigo escondido no arbusto. Talvez, naquele momento, estivessem se aproximando, ocultos pelo capim alto que balançava ao vento, prontos para atacar...
Seus nervos, já sensíveis além do suportável por causa da deprimente canção das Flautas de Pedra, faziam-no querer se virar e identificar a fonte de cada novo som assim que o ouvia. Mas Will sabia que iria se revelar ao fazer isso e se obrigou a se mover devagar, virando-se com cuidado até ficar de frente para a possível origem do som, avaliando cada novo risco antes de descartá-lo.
Nas longas horas da vigília tensa, ele não viu nada além das nuvens apressadas no céu, a Lua fugitiva e o mar ondulante de grama que os cercava. Quando a Lua chegou à elevação predeterminada, o rapaz estava física e mentalmente esgotado. Acordou Gilan para assumir a guarda e se enrolou em sua capa outra vez.
Desta vez, Will não sonhou. Exausto, dormiu profundamente até a luz cinzenta do amanhecer surgir no céu.
Eles viram as Flautas de Pedra no meio da manhã: um círculo cinzento e surpreendentemente pequeno de monólitos de granito que estavam no alto de uma elevação na planície. O caminho que tinham escolhido levou os três cavaleiros a cerca de 1 quilômetro de distância das Pedras, e Will ficou satisfeito de não se aproximar mais. O canto deprimente estava mais alto do que nunca, flutuando e se movendo ao sabor do vento.
- Vou partir em dois o lábio do próximo flautista que eu encontrar - Gilan ameaçou com um sorriso sombrio.
Eles continuaram seu caminho, deixando os quilômetros para trás, hora após hora, uma igual à outra, sem nada novo para ver e sempre com o leve uivo das Pedras às suas costas, deixando os nervos à flor da pele.
O homem da planície surgiu de repente no meio da grama, a uns 50 metros de distância. Pequeno, vestido com trapos cinza e com cabelos compridos despenteados caídos nos ombros, ele olhou para os três companheiros com olhos enlouquecidos durante vários segundos.
O coração de Will mal tinha se recuperado do susto de seu aparecimento repentino quando ele se foi, correndo pela grama, parecendo mergulhar dentro dela. Em poucos segundos, tinha desaparecido, engolido pelo capim. Halt ia colocar Abelard para persegui-lo, mas desistiu da idéia. A flecha que havia escolhido e pousado na corda do arco não foi usada. Gilan também estava pronto para atirar e tinha tido uma reação tão rápida quanto a de Halt. Ele também não atirou, olhando com curiosidade para seu superior.
- Pode não ser nada - Halt disse, dando de ombros. - Ou talvez ele tenha corrido para contar aos Kalkaras. Mas não podemos matar um homem só por desconfiança.
Gilan soltou um leve riso ruidoso, mais para liberar a tensão causada pelo surgimento inesperado do homem.
- Acho que não faz diferença se acharmos os Kalkaras ou se eles nos acharem - ele disse.
Os olhos de Halt se fixaram nele por um momento, sem nenhum sinal de humor.
- Acredite em mim, Gilan, há uma grande diferença - afirmou. Eles tinham parado a marcha forçada e cavalgavam lentamente pela grama alta. O som das Pedras começou a diminuir um pouco, para grande alívio de Will. Ele percebeu que agora o vento estava levando o som para longe.
Depois do repentino aparecimento do morador da planície, houve um período sem que se manifestasse outro sinal de vida. Uma pergunta vinha incomodando Will durante toda a tarde.
- Halt? - ele começou com cuidado, sem saber se este o mandaria ficar quieto.
O arqueiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas, mostrando que estava preparado para responder perguntas, e então Will continuou.
- Por que você acha que Morgarath buscou a ajuda dos Kalkaras?
O que ele espera ganhar?
Halt percebeu que Gilan também estava esperando pela resposta. Ele colocou os pensamentos em ordem antes de responder. Estava um pouco relutante em transformá-los em palavras, pois parte da resposta dependia de suposições e intuição.
- Quem sabe por que Morgarath faz as coisas? - ele disse devagar. - Não posso dar uma resposta clara. Só posso dizer o que Crowley e eu pensamos.
Ele olhou rapidamente para os companheiros. Era óbvio que os dois estavam preparados para aceitar suas suposições como fatos consumados. "Às vezes", ele pensou aborrecido, "a reputação de estar certo o tempo todo pode ser uma carga muito pesada."
- Há uma guerra se aproximando - ele continuou. - Todos já sabemos disso. Os Wargals estão avançando, e nós ouvimos dizer que Morgarath entrou em contato com Ragnak.
Ele viu a expressão confusa no rosto de Will, mas sabia que Gilan compreendia quem era Ragnak.
- Ragnak é o oberjarl, ou chefe supremo, se preferir, dos escandinavos, os lobos-do-mar - explicou.
Ele viu um clarão de compreensão no rosto do aprendiz e continuou.
- Está claro que essa guerra vai ser pior do que a anterior, e nós vamos precisar de todos os nossos recursos e de nossos melhores comandantes para nos guiar. Acho que é isso que Morgarath tem em mente. Ele quer nos enfraquecer fazendo que os Kalkaras matem nossos líderes. Northolt, o chefe supremo do exército, e Lorriac, nosso melhor comandante de cavalaria, já se foram. Certamente outros homens vão assumir essas posições, mas inevitavelmente vai haver alguma confusão no período de mudança, alguma perda de união. Acho que isso faz parte do plano de Morgarath.
- Há também outro aspecto - Gilan acrescentou pensativo. - Esses dois homens foram fundamentais na sua derrota na última vez. Ele está destruindo nossa estrutura de comando e se vingando ao mesmo tempo.
- Claro, isso é verdade - Halt concordou. - E, para uma mente perturbada como a de Morgarath, vingança é um motivo poderoso.
- Então você acha que vai haver mais mortes? - Will perguntou, e Halt o olhou com firmeza.
- Acho que vai haver mais tentativas. Morgarath agiu duas vezes com alvos definidos e teve sucesso. Não vejo nenhum motivo para que não tente de novo. Ele tem razões para odiar muita gente no reino. Talvez até o próprio rei. Ou talvez o barão Arald, pois ele causou alguns problemas para Morgarath na última guerra.
"E você também", Will pensou com medo. Ele estava para externar o pensamento de que Halt poderia ser um alvo quando se deu conta de que seu mestre provavelmente já estava ciente do fato. Gilan estava fazendo outra pergunta ao arqueiro mais velho.
- Eu não entendo uma coisa. Por que os Kalkaras continuam voltando para seu esconderijo? Por que não procuram simplesmente a vítima seguinte?
- Acho que essa é uma das poucas vantagens que temos - Halt afirmou. - São selvagens, cruéis e mais inteligentes do que os Wargals, mas não são humanos. São totalmente ingênuos. Mostre uma vítima para eles e eles vão caçar e matar ela ou morrer na tentativa. Mas só conseguem perseguir uma de cada vez. Entre uma morte e outra, voltam para sua toca. Então Morgarath, ou um de seus subordinados, os prepara para a próxima vítima e eles saem novamente. Nossa esperança é interceptar os Kalkaras no caminho se tiverem recebido uma nova missão. Ou matar eles em seu esconderijo se não tiverem.
Will olhou pela milésima vez para a planície monótona coberta de grama que se estendia à frente deles. Em algum lugar lá fora, as duas criaturas assustadoras estavam esperando, talvez já com uma nova vítima em mente. A voz de Halt interrompeu seus pensamentos.
- O sol está se pondo - ele disse. - Acho que podemos acampar aqui.
Eles desceram agilmente das selas e soltaram a barrigueira para deixar os cavalos mais confortáveis.
- Pelo menos este maldito lugar tem uma coisa boa - Gilan comentou, olhando à sua volta. - Todos os lugares são igualmente bons para acampar. Ou igualmente ruins.
Will acordou de um sono sem sonhos ao toque da mão de Halt em seu ombro. Ele jogou a capa para trás, olhou para a Lua, que dançava no céu, e franziu a testa. Não podia ter dormido mais de uma hora e ia dizer isso, mas Halt o impediu, colocando um dedo nos lábios, pedindo silêncio. Will olhou ao redor e percebeu que Gilan já estava acordado, parado perto dele com a cabeça voltada para noroeste, para o lugar de onde tinham vindo.
O garoto se levantou, movendo-se com cuidado para não fazer nenhum barulho desnecessário. Suas mãos tinham ido automaticamente para as armas, mas ele relaxou quando se deu conta de que não havia perigo imediato. Os outros dois prestavam atenção em um som, e então Halt levantou a mão e apontou para o norte.
- Lá está de novo - ele disse baixinho.
Então Will também escutou o mesmo som, acima dos gemidos das Flautas de Pedra e do murmúrio do vento ao passar na grama. Seu sangue gelou. Era um uivo agudo e selvagem que ululava e ficava cada vez mais alto. Um som desumano levado até eles pelo vento e saído da garganta de um monstro.
Segundos depois, outro uivo respondeu ao primeiro. Ligeiramente mais agudo, parecia vir de um ponto um pouco mais à esquerda do que o primeiro. Sem que lhe dissessem, Will sabia o que o som significava.
- São os Kalkaras - Halt disse num tom sombrio. - Eles têm um novo alvo e estão caçando.
Os três companheiros passaram a noite sem dormir. Os gritos de caça dos Kalkaras afastavam-se para o norte. Quando ouviram os sons pela primeira vez, Gilan quis selar Blaze, que estava nervoso com os uivos assustadores das duas bestas. Halt, porém, fez um gesto para que parasse.
- Não vou atrás dessas coisas no escuro - ele disse brevemente. Vamos esperar até o dia amanhecer e então vamos procurar suas pegadas.
As pegadas foram encontradas com facilidade, pois era óbvio que os Kalkaras não tentaram esconder sua passagem. A grama alta tinha sido esmagada pelos dois corpos pesados, que deixaram uma trilha visível apontando para o nordeste. Halt encontrou a trilha deixada pelo primeiro dos dois monstros e logo depois Gilan encontrou a segunda, cerca de 300 metros à esquerda, numa linha paralela e próxima o bastante para que pudessem se ajudar no caso de um ataque, mas longe o suficiente para evitar qualquer armadilha preparada para o irmão.
Halt analisou a situação por alguns momentos e então tomou uma decisão.
- Você fica com o segundo - ele disse para Gilan. - Will e eu vamos seguir este aqui. Quero garantir que os dois continuem andando na mesma direção. Não quero que um deles volte e venha atrás de nós.
- Você acha que eles sabem que estamos aqui? - Will perguntou, tentando com dificuldade manter a voz calma e desinteressada.
- É possível. O homem da planície que vimos já teve tempo para avisar eles. Ou talvez seja apenas uma coincidência e eles estejam saindo para a próxima missão.
Ele olhou para a trilha de grama esmagada que ia sempre na mesma direção.
- Parece mesmo que eles têm um objetivo. Então se virou para Gilan outra vez.
- Em todo caso, fique com os olhos abertos e preste muita atenção em Blaze. Os cavalos vão sentir a presença dessas bestas antes de nós. Não queremos cair numa emboscada.
Gilan as sentiu e virei; Blaze na direção da segunda trilha. A um sinal da mão de Halt, os três arqueiros começaram a cavalgar para a frente, seguindo a direção que os Kalkaras tinham tomado.
- Eu vou vigiar a trilha - Halt disse a Will. - Você fica de olho em Gilan, só para garantir.
Will voltou a atenção para o alto arqueiro, que estava a uns 200 metros de distância, e acompanhou seu ritmo. A parte inferior do corpo de Blaze estava escondida pela grama alta. De tempos em tempos, ondulações no chão tiravam tanto o cavalo quanto o cavaleiro da vista do rapaz. Na primeira vez em que isso aconteceu, Will reagiu com um grito de alarme, pois Gilan simplesmente desapareceu. Halt se virou rapidamente com uma flecha já pronta no arco, mas nesse momento Gilan e Blaze reapareceram, aparentemente sem saber do momento de pânico que tinham causado.
- Desculpe - Will murmurou aborrecido por ter permitido que seu estado de nervos o dominasse.
Halt lhe lançou um olhar penetrante.
- Está tudo bem - ele disse com calma. - Prefiro que me avise sempre, mesmo quando só pensar que há um problema.
Halt sabia muito bem que, por ter dado um falso alarme uma vez, Will poderia relutar em reagir da próxima, e isso poderia ser fatal para todos eles.
- Avise para mim sempre que perder Gilan de vista. E diga quando ele reaparecer - ele pediu.
Will assentiu, compreendendo o raciocínio do mestre.
E assim eles continuaram a cavalgar, com o grito agudo das Flautas enchendo seus ouvidos novamente à medida que se aproximavam do círculo de pedra. Will percebeu que desta vez eles passariam muito mais perto, pois os Kalkaras pareciam estar se dirigindo direto para o local. A cavalgada foi marcada por informações intermitentes de Will.
- Ele sumiu... ainda está sumido... Tudo bem. Apareceu de novo.
Will nunca estava seguro de quem estava passando por uma depressão, se Gilan ou ele. Muitas vezes, os dois ao mesmo tempo.
Houve um momento desagradável em que Gilan e Blaze sumiram e não reapareceram dentro dos habituais poucos segundos.
- Não consigo mais vê-lo... - Will informou. E então:
- Ainda não... ainda não... nenhum sinal... - a sua voz começou a ficar aguda por causa da inquietação que crescia dentro dele. - Nenhum sinal... ainda nenhum sinal...
Halt fez Abelard parar e preparou o arco novamente enquanto examinava o chão à sua esquerda e esperava Gilan reaparecer. Ele soltou um assobio agudo, três notas ascendentes. Houve uma pausa e depois um assobio de resposta, as mesmas três notas em ordem descendente, veio claramente até eles. Will soltou um suspiro de alívio, e Gilan em pessoa reapareceu nesse exato momento. Ele os olhou e fez um gesto largo, com os dois braços erguidos numa pergunta óbvia: "Qual é o problema?"
Halt fez um gesto negativo, e eles continuaram.
Quando se aproximaram das Flautas de Pedra, Halt ficou cada vez mais atento. O Kalkara que ele e Will vinham seguindo estava se dirigindo diretamente para o círculo. Ele fez Abelard parar e protegeu os olhos do sol, estudando as pedras cinzentas e sinistras com cuidado, procurando algum movimento ou sinal de que o Kalkara pudesse estar deitado esperando para emboscá-los.
- É o único esconderijo em quilômetros - ele explicou. - Não vamos correr o risco de que a maldita coisa esteja escondida aqui esperando por nós. Acho que precisamos tomar um pouco mais de cuidado.
Ele chamou Gilan com um sinal e explicou a situação. Então eles se dividiram para cobrir uma área maior ao redor das pedras, cavalgando para o interior do círculo lentamente de três diferentes direções, procurando nos cavalos qualquer sinal possível de reação a medida que se aproximavam. Mas o local estava vazio, embora no seu interior o gemido desafinado do vento que atravessava os buracos das flautas fosse quase insuportável. Pensativo, Halt mordeu o lábio olhando para o mar de grama nas duas trilhas deixadas pelos Kalkaras.
- Isso está nos tomando tempo demais - ele disse finalmente. - Enquanto pudermos ver as trilhas por uns 200 metros à frente, vamos andar mais depressa. Vamos diminuir o passo quando chegarmos a uma colina ou em qualquer momento em que a trilha não esteja visível por mais de 5 metros.
Gilan assentiu, mostrando que tinha compreendido, e retomou sua posição mais distante. Eles fizeram os cavalos trotar num passo longo e tranquilo que cobriria os quilômetros à frente deles. Will continuou a vigiar Gilan e, sempre que a trilha visível diminuía, Halt ou Gilan assobiavam e eles reduziam a velocidade até que o terreno se abrisse novamente à sua frente.
Quando a noite caiu, os três acamparam de novo. Halt ainda se recusava a seguir os dois assassinos no escuro, embora a Lua deixasse sua trilha facilmente visível.
- Fácil demais para eles voltarem no escuro - justificou. - Quero estar bem preparado quando finalmente vierem até nós.
- Você acha que eles virão? - Will perguntou, percebendo que Halt tinha dito "quando", e não "se".
O arqueiro olhou para seu jovem aluno.
- Sempre suponha que o inimigo sabe onde você está e que vai atacar você ele - ensinou. - Desse jeito, você pode evitar surpresas desagradáveis.
Ele pousou a mão no ombro de Will para tranquilizar o garoto. - Ainda pode ser desagradável, mas não será mais uma surpresa.
Pela manhã, eles retomaram a trilha, cavalgando no mesmo ritmo rápido,reduzindo o passo somente quando não podiam ver com clareza o terreno à sua frente. No começo da tarde, tinham chegado à beira da planície e entraram mais uma vez em terreno coberto por bosques ao norte das Montanhas da Chuva e da Noite.
Eles descobriram que ali os Kalkaras haviam se reunido, não ficando mais muito separados como tinha acontecido nas terras da planície. Mas o caminho continuava o mesmo, sempre em direção ao noroeste. Os três arqueiros seguiram esse curso por outra hora antes que Halt freasse Abelard e fizesse sinal para os outros desmontarem para uma conversa. Eles se reuniram ao redor de um mapa do reino que ele abriu na grama, usando flechas como pesos para que as bordas não se enrolassem.
- A julgar pelas pegadas, já diminuímos a distância até eles. Mas ainda estão um bom meio dia à nossa frente. Agora, esta é a direção que estão seguindo...
Ele pegou outra flecha e a colocou no mapa de modo que apontasse para o lado que os Kalkaras vinham seguindo nos dois últimos dias.
- Como vocês podem ver, se eles continuarem nessa direção, há somente dois lugares importantes para onde podem estar indo.
Ele apontou para um local no mapa.
- Aqui, as Ruínas de Gorlan. Ou, mais para o norte, o próprio Castelo de Araluen.
- Castelo de Araluen? - Gilan exclamou, respirando fundo. - Você acha que eles vão ousar tentar matar o rei Duncan?
- Eu simplesmente não sei - Halt respondeu, olhando para ele e balançando a cabeça. - Não sabemos muita coisa sobre essas bestas, e metade do que achamos que sabemos provavelmente são mitos ou lendas. Mas você tem que admitir, seria algo ousado, uma tacada de mestre, e Morgarath nunca foi contra esse tipo de coisa.
Ele deixou que os outros digerissem essa idéia por alguns momentos e então traçou uma linha de sua posição atual até o noroeste.
- Mas estive pensando. Olhe. Aqui está o Castelo Redmont. Talvez a um dia de cavalgada de distância e então outro dia até aqui.
De Redmont, ele traçou uma linha para noroeste, até as Ruínas de Gorlan, marcadas no mapa.
- Uma pessoa cavalgando rapidamente e usando dois cavalos pode cobrir o trajeto em menos de um dia até Redmont e depois conduzir o barão e sir Rodney até aqui, nas ruínas. Se os Kalkaras estiverem andando no mesmo ritmo de agora, talvez possamos barrar a passagem deles aqui. Vai ser difícil, mas é possível. E, com dois guerreiros como Arald e Rodney conosco, teremos muito mais chances de parar as malditas coisas de uma vez por todas.
- Um momento, Halt - Gilan interrompeu. - Você disse uma pessoa cavalgando dois cavalos?
Halt encontrou o olhar de Gilan e viu que o jovem arqueiro já tinha adivinhado o que ele tinha em mente.
- Isso mesmo, Gilan. E o mais leve de nós vai viajar mais depressa. Quero que passe Blaze para Will. Se ele se alternar entre Puxão e o seu cavalo, pode fazer isso a tempo.
Ele viu a hesitação no rosto de Gilan e compreendeu o porquê dessa expressão. Nenhum arqueiro gostava da idéia de entregar seu cavalo a outra pessoa, mesmo a outro arqueiro. Mas, ao mesmo tempo, Gilan entendeu a lógica da sugestão. Halt esperou que o jovem quebrasse o silêncio, enquanto Will observava os dois com os olhos arregalados de medo ao pensar na responsabilidade que estava prestes a ser posta em seus ombros.
Finalmente, com relutância, Gilan falou.
- Acho que faz sentido - ele concordou. - Então, o que quer que eu faça?
- Quero que me siga a pé - Halt disse asperamente, enrolando o mapa e guardando-o na sacola da sela. Se você puder conseguir um cavalo em qualquer outro lugar, faça isso e me alcance. Do contrário, vamos nos encontrar em Gorlan. Se não virmos os Kalkaras ali, Will poderá esperar por você com Blaze. Eu vou continuar a seguir os Kalkaras até vocês me alcançarem.
Gilan acenou concordando e Halt sentiu uma onda de afeto por ele. Quando compreendia um objetivo, Gilan não era do tipo que discutia ou fazia objeções.
- Você não disse que minha espada poderia ser útil? - o rapaz perguntou um tanto desanimado.
- É verdade - Halt respondeu -, mas isso me dá a oportunidade de trazer uma força de cavaleiros totalmente armados com machados e lanças. E você sabe que essa é a melhor forma de derrotar os Kalkaras.
- Sim, eu sei - Gilan retrucou, pegando as rédeas de Blaze, amarrando-as num nó e jogando-as sobre o pescoço do cavalo baio.
- Você pode começar com Puxão - ele disse para Will. - Assim Blaze vai poder descansar. Ele vai seguir você sem ser puxado pelas rédeas, e Puxão vai fazer a mesma coisa quando você estiver cavalgando Blaze. Amarre as rédeas desse jeito no pescoço de Puxão quando estiver montando Blaze para que elas não fiquem penduradas e não se prendam em nada.
Ele começou a se virar na direção de Halt e então se lembrou de uma coisa.
- Ah, sim, antes de montar nele pela primeira vez, lembre-se de dizer "olhos castanhos".
- Olhos castanhos - Will repetiu e Gilan não conseguiu evitar um sorriso.
- Não para mim. Para o cavalo.
Essa era uma antiga piada dos arqueiros e todos sorriram. Então Halt retomou o assunto principal.
- Will? Tem certeza de que consegue achar o caminho para Redmont?
Will assentiu. Ele tocou o bolso onde guardara sua copia do mapa e olhou para o sol para se orientar.
- Noroeste - ele disse tenso, indicando a direção que tinha escolhido.
Halt acenou com a cabeça satisfeito.
- Você vai chegar ao Rio Salmon antes do anoitecer e isso vai lhe dar um bom ponto de referência. A estrada principal fica só um pouco a oeste do rio. Mantenha um trote firme todo o tempo. Não tente se apressar, porque os cavalos só vão ficar cansados e, no final, você vai acabar andando mais devagar. Viaje com cuidado.
Halt saltou para a sela de Abelard e Will montou Puxão. Gilan apontou para Will e falou no ouvido de Blaze.
- Siga, Blaze, siga.
O cavalo baio, inteligente como todos os cavalos dos arqueiros, balançou a cabeça como se tivesse compreendido a ordem. Antes de partir, Will tinha mais uma pergunta que o vinha preocupando.
- Halt, as Ruínas de Gorlan... o que elas são exatamente? - ele quis saber.
- Isso não é uma ironia? - Halt respondeu. - Elas são as ruínas do Castelo Gorlan, o antigo feudo de Morgarath.
A cavalgada até o Castelo Redmont logo se transformou numa viagem cansativa. Os dois cavalos mantiveram o passo uniforme para o qual tinham sido treinados. É claro que houve a tentação de fazer que Puxão disparasse num galope violento, seguido por Blaze, mas Will sabia que esse ritmo o levaria ao fracasso. Ele estava avançando de acordo com a velocidade mais adequada aos cavalos. Porque o Velho Bob, o treinador de cavalos, tinha lhe dito que os cavalos dos arqueiros podiam trotar o dia todo sem se cansar.
Para o cavaleiro, a questão era muito diferente. Além do esforço físico de se mover constantemente ao ritmo do cavalo que estava montando - e os dois animais tinham passadas totalmente desiguais devido à diferença de tamanho - havia a tensão mental igualmente debilitante.
E se Halt estivesse enganado? E se, de repente, os Kalkaras tivessem desviado para o oeste e estivessem agora num curso que poderia interceptar o dele? E se ele cometesse algum erro terrível e não conseguisse chegar a Redmont a tempo?
O último receio, o medo causado pela insegurança, era o mais difícil de enfrentar. Apesar do duro treinamento que tinha recebido nos últimos meses, ele ainda era pouco mais que um garoto. E, o que era mais importante, antes sempre tinha podido contar com o julgamento e a experiência de Halt. Agora estava sozinho. E sabia o quanto dependia de sua habilidade para realizar a tarefa que tinha recebido.
Os pensamentos, as dúvidas, os medos enchiam sua mente cansada, tropeçando uns sobre os outros, acotovelando se em busca de posição. O Rio Salmon veio e foi sob o ritmo constante dos cascos de seus cavalos. Will parou rapidamente para dar de beber aos animais na ponte e então, já na Estrada do Rei, fez um tempo excelente, parando apenas rapidamente em intervalos regulares para mudar de montaria.
As sombras do dia ficaram mais compridas, e as árvores que pendiam sobre a estrada ficaram escuras e ameaçadoras. Cada barulho, cada movimento visto vagamente nas sombras, levava seu coração à boca.
Aqui, uma coruja piava e se lançava com as garras prontas para apanhar um rato descuidado. Ali, um texugo espreitava, caçando sua presa como uma sombra cinzenta nos arbustos da floresta. A cada movimento ou barulho, a imaginação de Will trabalhava sem parar. Ele começou a ver enormes vultos negros - parecidos com os Kalkaras de sua imaginação - em cada sombra, em cada grupo escuro de moitas que se mexia com a leve brisa. A razão lhe disse que seria muito improvável que os Kalkaras o estivessem procurando. A imaginação e o medo responderam que eles estavam lá fora em algum lugar. E quem podia garantir que não estavam perto?
A imaginação e o medo venceram.
E assim a noite longa e cheia de pavor passou, até que a luz baixa da madrugada encontrou um vulto curvado na sela de um cavalo forte de peito largo que galopava constantemente na direção do noroeste.
Will cochilou na sela e despertou com um susto, sentindo o calor dos raios do sol em cima dele. Delicadamente, puxou as rédeas de Puxão, e o pequeno cavalo ficou parado de cabeça baixa, respirando fundo. Will se deu conta de que tinha cavalgado durante muito mais tempo do que deveria e que o medo o tinha feito manter Puxão correndo na escuridão quando deveria tê-lo deixado descansar muito tempo atrás. Ele desmontou rígido, com o corpo todo dolorido, e parou para esfregar o focinho do cavalo com afeto.
- Desculpe, garoto - ele disse.
Puxão, reagindo ao toque e à voz que agora conhecia tão bem, moveu a cabeça e sacudiu a crina desgrenhada. Se Will tivesse pedido, ele teria continuado sem se queixar, até cair. Will olhou ao redor. A luz alegre da manhã tinha dispersado todos os temores sombrios da noite anterior. Agora, ele se sentia um pouco tolo ao lembrar os momentos de pânico paralisante. Will soltou as tiras da barrigueira da sela e deu ao seu cavalo uma pausa de dez minutos até que a respiração dele se acalmasse. Em seguida, maravilhado com o poder de recuperação e a resistência da raça de cavalos dos arqueiros, apertou a barrigueira na sela de Blaze e saltou no lombo do baio, gemendo levemente. Os cavalos dos arqueiros podiam se recuperar rapidamente, mas seus aprendizes levavam um pouco mais de tempo.
A manhã já estava no fim quando Will finalmente conseguiu ver o castelo Redmont. Estava montando Puxão outra vez quando atravessaram a última fileira de colinas e o vale verde do baronato Arald. O pequeno cavalo aparentemente não tinha sido afetado pela noite dura que tinha enfrentado.
Exausto, Will parou por alguns segundos e se apoiou no alto da sela. Eles tinham vindo para muito longe e bem depressa. Aliviado, observou os arredores conhecidos do castelo e a pequena vila simpática que se aninhava satisfeita em sua sombra. Fumaça saía das chaminés, fazendeiros caminhavam lentamente dos campos para casa, para a refeição do meio-dia. O castelo era sólido e tranquilizador em sua magnitude no alto da colina.
- Parece tudo tão... normal - Will disse para o cavalo.
Ele percebia que, de alguma forma, tinha esperado encontrar as coisas mudadas. O reino estava para entrar em guerra outra vez depois de quinze anos, mas ali a vida continuava normalmente.
Então, ao se dar conta de que estava perdendo tempo, ele fez Puxão andar mais depressa até atingir um galope, pois tanto o garoto quanto o cavalo estavam ansiosos para terminar esse último trecho da jornada.
Surpresas, as pessoas olhavam a passagem do pequeno vulto verde e cinza agachado sobre o pescoço do cavalo empoeirado, seguido por um cavalo baio maior. Um ou dois habitantes reconheceram Will e o cumprimentaram, mas suas palavras se perderam no barulho dos cascos.
O estrépito se transformou num martelar ressonante quando dispararam sobre a ponte levadiça abaixada e entraram no pátio dianteiro do castelo. Então, o martelar se tornou um estrondo apressado sobre as pedras da entrada. Will puxou as rédeas levemente, e Puxão parou na porta da torre do barão Arald.
Os dois homens armados que estavam de serviço, surpresos com o aparecimento repentino e ritmo vertiginoso do garoto, deram um passo à frente e barraram sua passagem com as lanças cruzadas.
- Pare aí, você! - disse um deles com aspereza. - Aonde pensa que vai com tanta pressa e fazendo tanto barulho?
Will abriu a boca para responder, mas antes de poder dizer alguma coisa uma voz zangada trovejou atrás dele.
- Que raios você pensa que está fazendo, seu idiota? Não reconhece um arqueiro do rei quando o vê?
Era sir Rodney, atravessando o pátio para ver o barão. As duas sentinelas ficaram em posição de sentido quando Will se virou agradecido para o mestre de guerra.
- Sir Rodney - ele disse. - Tenho uma mensagem urgente de Halt para lorde Arald e o senhor.
Como Halt tinha comentado com Will depois da caçada ao porco selvagem, o mestre de guerra era um homem esperto. Ele viu as roupas amarrotadas de Will e os dois cavalos cansados e percebeu que não era hora de fazer perguntas idiotas. Indicou a porta com o polegar.
- Melhor entrar e contar tudo. Mandem cuidar desses cavalos - ele ordenou aos guardas. - Dêem água e comida para eles.
- Só um pouco de cada, sir Rodney, por favor - Will acrescentou depressa. Apenas uma pequena quantidade de grãos e água e talvez uma escovada. Vou precisar deles logo.
Sir Rodney o olhou surpreso. Will e os cavalos davam a impressão de necessitar de um longo descanso.
- Deve ser alguma coisa muito urgente - ele respondeu. - Então, cuidem dos cavalos. E peçam para alguém levar comida e uma jarra de leite frio para o escritório do barão - ele pediu aos guardas.
Os dois cavaleiros assobiaram espantados quando Will lhes contou as novidades. Já se sabia que Morgarath estava reunindo um exército, e o barão tinha enviado mensageiros para formar tropas compostas de cavaleiros e homens armados. Mas as informações sobre os Kalkaras eram algo totalmente diferente, e não havia indícios de que eles tinham se aproximado do Castelo Redmont.
- Halt acha que eles podem estar atrás do rei? - o barão Arald perguntou quando Will terminou de falar.
O garoto assentiu.
- Sim, senhor. Mas acho que há outra possibilidade - Will acrescentou depois de hesitar.
Ele não queria continuar, mas o barão fez um gesto para que prosseguisse, e Will finalmente externou a suspeita que vinha crescendo dentro dele.
- Senhor... eu acho que é possível que eles estejam atrás do próprio Halt.
Depois de dizer o que pensava e de ter exposto seu receio, ele se sentiu melhor. De alguma forma, para sua surpresa, o barão Arald não rejeitou a idéia. Ele afagou a barba pensativo, enquanto digeria as palavras que tinha ouvido.
- Continue - ele disse, querendo ouvir o raciocínio de Will.
- É que Halt acha que Morgarath talvez queira se vingar, punir os que lutaram contra ele da última vez. E eu acho que foi Halt quem mais o prejudicou, não é mesmo?
- Isso é verdade - Rodney concordou.
- E achei que talvez os Kalkaras soubessem que os estávamos seguindo, que o homem da planície teve tempo suficiente para encontrar eles. E que talvez eles estivessem atraindo Halt até encontrarem um lugar para uma emboscada. Assim, enquanto ele pensa que está caçando os Kalkaras, na verdade é ele quem está sendo caçado.
- E as Ruínas de Gorlan seriam o lugar ideal para isso - Arald concordou. - Naquele amontoado de pedras, eles podem chegar até Halt antes que ele tenha a chance de usar seu arco. Bem, Rodney, não há tempo a perder. Você e eu vamos imediatamente. Meia armadura, eu acho. Vamos ser mais rápidos dessa forma. Lanças, machados e espadas. E vamos levar dois cavalos cada; vamos seguir o exemplo de Will. Partiremos dentro de uma hora. Diga para Karel reunir dez cavaleiros e nos seguir assim que puder.
- Sim, meu senhor - o mestre de guerra respondeu. O barão Arald se voltou para Will.
- Você fez um bom trabalho, Will. Vamos cuidar de tudo agora. E parece que você poderia aproveitar algumas horas de um bom sono.
Exausto, com dor em todos os músculos e juntas, Will endireitou o corpo.
- Gostaria de ir com vocês, senhor - ele percebeu que o barão ia discordar e acrescentou rapidamente. - Senhor, nenhum de nós sabe o que vai acontecer, e Gilan está lá fora em algum lugar a pé. Além disso... - ele hesitou.
- Continue, Will - o barão pediu em voz baixa e, quando o garoto olhou para cima, Arald viu frieza em seu olhar.
- Halt é meu mestre, senhor, e ele está em perigo. Meu lugar é ao lado dele - Will acrescentou.
O barão o avaliou com um olhar penetrante e então tomou uma decisão.
- Muito bem. Mas, pelo menos, tente descansar por uma hora. Há uma cama naquele anexo ali - ele ofereceu, indicando uma seção separada por uma cortina ao lado do escritório. - Por que não a usa?
- Sim, senhor - Will concordou agradecido.
Suas pálpebras pesavam como se estivessem cheias de areia. Ele nunca se sentira mais feliz em obedecer a uma ordem em toda a sua vida.
Durante toda aquela longa tarde, Will teve a impressão de que tinha passado a vida toda numa sela, fazendo um intervalo somente nos momentos de trocar de cavalo.
Uma breve pausa para desmontar, soltar a barrigueira do animal que estava montando, colocar a sela no cavalo que o acompanhava, montar novamente e continuar. Repetidas vezes, ele se admirou da fantástica resistência mostrada por Puxão e Blaze, que mantinham o galope constante. Até teve que freá-los um pouco para acompanhar os cavalos de batalha montados pelos dois cavaleiros. Mesmo grandes, fortes e treinados para a guerra, eles não conseguiam seguir o ritmo constante dos cavalos dos arqueiros, apesar de estarem descansados quando o pequeno grupo deixou o Castelo Redmont.
Eles cavalgavam sem falar. Não havia tempo para conversa fiada e, mesmo que houvesse, seria difícil escutar o que estavam falando por causa do barulho forte dos quatro cavalos de batalha, o bater mais leve dos cascos de Puxão e Blaze e o constante chacoalhar do equipamento e das armas.
Os dois homens carregavam compridas lanças de guerra - varas cinzentas e duras de mais de 3 metros de comprimento com uma pesada ponta de ferro. Além disso, cada um levava uma espada presa à sela. Eram armas enormes e pesadas muito maiores que as espadas normalmente usadas no dia-a-dia; e Rodney levava uma pesada acha pendurada na parte traseira da sela. Porém era nas lanças que eles confiavam mais. Elas manteriam os Kalkaras a distância e assim reduziriam a chance de que os cavaleiros fossem paralisados pelo terrível olhar das duas bestas. Aparentemente, o olhar hipnótico só era eficiente quando muito próximo. Se um homem não pudesse ver os olhos dos monstros com clareza, havia pouca possibilidade de que fosse paralisado.
O sol estava se escondendo rapidamente atrás deles e jogava as sombras longas e distorcidas para a frente. Arald olhou a posição do sol por cima do ombro e chamou Will.
- Quanto tempo ainda temos de luz, Will?
Will se virou na sela e olhou com atenção para a bola de luz que caía no horizonte.
Menos de uma hora, senhor.
O barão balançou a cabeça indeciso. Então vai ser difícil chegar lá antes do anoitecer - afirmou.
Ele instigou o cavalo a avançar, aumentando um pouco a velocidade. Puxão e Blaze o acompanharam sem esforço. Ninguém queria caçar os Kalkaras no escuro.
A hora de descanso no castelo tinha operado maravilhas em Will, mas agora parecia que tinha acontecido numa outra vida. Ele pensou nas instruções apressadas que Arald tinha dado quando montaram os animais para deixar Redmont. Se encontrassem os Kalkaras nas Ruínas de Gorlan, Will deveria ficar para trás enquanto o barão e sir Rodney atacavam os dois monstros. Não havia táticas complicadas, apenas um ataque impetuoso que poderia pegar os dois assassinos de surpresa.
- Se Halt estiver lá, tenho certeza de que também vai nos ajudar. Mas quero você longe do nosso caminho, Will. Esse seu arco não vai servir de nada num Kalkara.
- Sim, senhor - Will tinha dito.
Ele não tinha intenção de se aproximar dos monstros. Estava mais do que satisfeito em deixar o assunto para os dois cavaleiros, protegidos por escudos, capacetes e meias armaduras de malha de ferro. Contudo, as palavras seguintes de Arald desfizeram rapidamente qualquer confiança exagerada que ele pudesse ter na capacidade dos homens em lidar com as bestas.
- Se as malditas coisas nos vencerem, quero que corra em busca de mais ajuda. Karel e os outros vão estar em algum lugar atrás de nós. Encontre-os e depois procure os Kalkaras com eles. Siga essas bestas e mate-as.
Will não disse nada. O simples fato de Arald considerar o fracasso, quando ele e Rodney eram os dois melhores cavaleiros num raio de 200 quilômetros, fez aumentar ainda mais sua preocupação com os Kalkaras. Pela primeira vez, o garoto percebeu que as probabilidades estavam contra eles nessa disputa.
O sol tremia na beira do mundo, as sombras haviam atingido seu comprimento máximo e eles ainda tinham que percorrer muitos quilômetros. O barão Arald ergueu a mão e fez o grupo parar. Ele olhou para Rodney e apontou as tochas embebidas em piche que cada homem carregava atrás das selas.
- Tochas, Rodney - ele disse rapidamente.
O mestre de guerra hesitou por um momento.
- Tem certeza, senhor? Elas vão mostrar nossa posição se os Kalkaras estiverem vigiando.
- Eles vão nos ouvir chegar de qualquer forma - Arald disse, dando de ombros. - E entre as árvores vamos nos mover devagar demais sem luz. Vamos correr o risco.
Ele preparou sua pedra-de-fogo, formando uma fagulha que acendeu o pequeno pavio e logo criou uma chama forte. Segurou a tocha perto do fogo, e o piche em que estava impregnada de repente se acendeu e explodiu numa chama amarela. Rodney se inclinou na sua direção com a outra tocha e a acendeu na chama do barão. Então, segurando as tochas para o alto, as lanças presas por tiras de couro enroladas em seus pulsos direitos, eles retomaram o galope, trovejando na escuridão debaixo das árvores quando finalmente deixaram a estrada larga que vinham percorrendo desde o meio-dia.
Passaram-se outros dez minutos quando ouviram os gritos.
Era um som fantasmagórico que fazia o estômago dar voltas e congelava o sangue. Involuntariamente, o barão e sir Rodney puxaram as rédeas dos animais. Os cavalos ficaram extremamente agitados. O barulho vinha de algum ponto adiante deles, aumentando e diminuindo.
- Bom Deus nos céus! - o barão exclamou. - O que foi isso? - ele indagou com a expressão assustada.
O som infernal atravessou a noite e foi respondido por outro uivo idêntico.
Will já tinha ouvido o terrível som antes. Ele sentiu o sangue sumir do rosto quando se deu conta de que seus temores mostravam ter fundamento.
- São os Kalkaras. Eles estão caçando.
E ele sabia que havia apenas uma pessoa atrás da qual podiam estar. Eles tinham voltado e estavam caçando Halt.
- Olhe, meu senhor! - Rodney disse, apontando para o céu que escurecia rapidamente.
Através de um espaço na proteção oferecida pelas árvores, eles viram uma súbita rajada de luz se refletindo no céu, sinal de um incêndio num lugar próximo.
- É Halt! - o barão disse. - Tem que ser. Ele precisa de ajuda! Arald pressionou as esporas nos flancos do cansado cavalo de batalha, impelindo o animal para a frente em um galope ensurdecedor. A tocha em sua mão deixava chamas e faíscas para trás enquanto sir Rodney e Will o seguiam a galope.
Era uma sensação estranha seguir aquelas tochas flamejantes e agitadas com suas línguas alongadas de fogo soprando para trás por entre as árvores, jogando sombras esquisitas e apavorantes entre elas, enquanto à frente deles o brilho do fogo maior, presumivelmente aceso por Halt, ficava mais forte e próximo a cada passo.
Eles saíram do meio das árvores praticamente sem aviso e se depararam com uma cena de pesadelo.
Havia uma pequena clareira coberta por capim. Além dela, o terreno estava tomado por um amontoado de rochas e matacões.
Pedaços gigantescos de paredes, ainda unidas por argamassa, estavam espalhados pelos lados, as vezes meio enterrados no solo macio coberto de grama. As paredes em ruínas do Castelo Gorlan cercavam a cena em tres lados, nunca ultrapassando 5 metros, destruídas e derrubadas por um reino vingativo depois que Morgarath tinha sido obrigado a partir para o sul, para as Montanhas da Chuva e da Noite. O caos resultante era como o playground de uma criança gigante - pedras espalhadas em todas as direções, empilhadas com descuido umas em cima das outras, praticamente sem deixar nenhum pedaço de terreno descoberto.
Toda a cena era iluminada pelas chamas saltitantes e retorcidas de uma fogueira acesa a uns 40 metros de distância. E ao lado dela estava agachada uma figura horrível, gritando com ódio e fúria, batendo inutilmente na ferida mortal no peito que finalmente a tinha derrubado.
Com mais de 2,5 metros de altura e pêlos desgrenhados e emaranhados, parecidos com escamas, cobrindo todo o corpo, o Kalkara tinha braços compridos que terminavam em garras e que chegavam abaixo de seus joelhos. Pernas traseiras fortes e relativamente curtas lhe davam a capacidade de percorrer distâncias a uma velocidade enganosa, com uma série de saltos e pulos. Os três cavaleiros viram tudo isso quando saíram do bosque. Mas o que mais lhes chamou a atenção foi a cara: selvagem e parecida com a de um macaco, dentes caninos amarelados e enormes olhos vermelhos brilhantes cheios de ódio e de desejo cego de matar. A cara se virou para eles, e a besta gritou em desafio, tentando se levantar, mas voltando a cair, meio encolhida.
- O que há de errado com ele? - Rodney perguntou, fazendo seu cavalo parar.
Will apontou para o grupo de flechas que se projetava de seu peito. Devia haver seis delas, todas a cerca de um palmo de distância uma da outra.
- Olhe! - ele gritou. - Veja as flechas!
Halt, com sua incrível pontaria, deve ter mandado uma saraivada de flechas, uma depois da outra, para cortar o pêlo rígido como uma armadura. Cada uma aumentou a brecha nas defesas do monstro, até que a ultima penetrou no fundo de sua carne. Seu sangue negro corria profusamente pelas costas, e o monstro gritou outra vez com ódio. - Rodney! - o barão Arald gritou. - Comigo! Agora!
Soltando a rédea do cavalo reserva, ele segurou de um lado a tocha acesa, inclinou a lança e a jogou. Rodney estava meio segundo atrás dele, os dois cavalos de batalha trovejando pelo espaço aberto. O Kalkara, com o sangue encharcando o chão aos seus pés, levantou-se e foi atingido no peito pelas pontas das duas lanças, uma após a outra.
O monstro estava quase morto, mas mesmo assim seu peso e sua força contiveram a corrida dos cavalos de batalha. Eles empinaram o corpo quando os dois cavaleiros se inclinaram nos estribos para empurrar as lanças no peito da criatura. A ponta de ferro afiada penetrou na carne e atravessou os pêlos emaranhados. A força da investida fez o Kalkara perder o equilíbrio e o jogou para trás, para dentro das chamas.
Durante um instante, nada aconteceu. Então eles viram um clarão ofuscante e um pilar de chamas vermelhas que atingiu 10 metros de altura no céu da noite. E, de uma forma muito simples, o Kalkara desapareceu.
Os dois cavalos de batalha se empinaram apavorados, e Rodney e o barão mal conseguiam se manter nas selas. Eles se afastaram do fogo, e todos sentiram um cheiro forte e desagradável de carne e pêlos queimados. Will se lembrou vagamente de Halt discutir a forma de lidar com um Kalkara. Ele tinha contado que se dizia que eles eram especialmente suscetíveis ao fogo. "Parece que os boatos estavam certos", Will pensou, fazendo Puxão trotar para junto dos dois cavaleiros.
Rodney estava esfregando os olhos, ainda atordoado pelo clarão forte.
- Que diabos causou isso?
O barão tirou a lança do fogo com cuidado. A madeira estava queimada, e a ponta, escurecida.
- Deve ser a substância pegajosa que cobre os pelos deles e forma essa couraça dura - ele respondeu num tom de voz espantado. - Ela deve ser ligeiramente inflamável.
- Bem, o que quer que fosse, nós conseguimos derrotar - Rodney retrucou com um tom satisfeito na voz. O barão balançou a cabeça.
- Halt conseguiu - ele corrigiu o mestre de guerra. - Nós só demos o último golpe.
Rodney concordou com um gesto de cabeça, aceitando a correção. O barão olhou para o fogo, que ainda jogava uma torrente de faíscas no ar, mas cujas chamas vermelhas já estavam se acalmando.
- Halt deve ter acendido esse fogo quando percebeu que eles o estavam cercando. Ele incendiou a área para ter luz e poder atirar.
- E atirou mesmo - sir Rodney afirmou. - Todas as flechas acertaram pontos muito próximos uns dos outros.
Eles olharam ao redor, procurando algum sinal do arqueiro. Então, debaixo das paredes em ruínas do castelo, Will viu um objeto conhecido. Ele desmontou e correu para apanhá-lo. Seu coração se apertou no peito quando pegou o poderoso arco de Halt, esmagado e partido em dois pedaços.
- Ele deve ter atirado daqui - falou, indicando o ponto abaixo das paredes caídas onde tinha achado o arco.
Todos olharam para cima, imaginando a cena, tentando recriá-la. O barão apanhou a arma destruída da mão de Will quando este montou novamente em Puxão.
- E o segundo Kalkara o alcançou enquanto ele matava seu irmão - ele disse. - A pergunta é: onde Halt está agora? E onde está o outro Kalkara?
Foi quando eles ouviram os gritos recomeçarem.
Halt estava agachado entre os tijolos caídos que antes tinham sido a fortaleza de Morgarath, dentro do pátio em ruínas coberto de mato. Sua perna, dormente onde o Kalkara a tinha arranhado, estava começando a latejar dolorosamente, e ele sentia o sangue atravessando a atadura improvisada que tinha amarrado em volta dela.
Ele sabia que o segundo Kalkara o estava procurando em algum lugar ali perto. De tempos em tempos, ouvia o movimento dos pés se arrastando e chegou a escutar sua respiração dura quando o monstro se aproximou de seu esconderijo entre duas paredes caídas. Halt sabia que era só uma questão de tempo até que a criatura o encontrasse. E, quando isso acontecesse, ele estaria acabado.
Halt estava ferido e desarmado. Tinha perdido o arco, despedaçado naquele primeiro e apavorante ataque em que disparou uma flecha depois da outra no primeiro dos dois monstros. Ele conhecia o poder de seu arco e a capacidade de penetração das flechas pesadas e afiadíssimas. Não conseguia acreditar que o monstro tinha recebido aquela chuva de flechas e aparentemente ainda continuava com a mesma coragem. Quando ele cambaleou, já era tarde demais para que Halt voltasse sua atenção para o companheiro. O segundo Kalkara estava quase em cima dele, arrancando o arco de sua mão e esmagando-o com a pata forte cheia de garras, de modo que ele mal teve tempo de arrastar-se para um local seguro perto da parede caída.
Enquanto o monstro o perseguia, atacando tudo à sua volta com as garras, ele tinha empunhado a faca e golpeado a terrível cabeça.
Mas a besta foi rápida demais para ele, e a pesada faca atingiu seu braço coberto pela malha da armadura. Ao mesmo tempo, ele se viu confrontado pelos olhos vermelhos cheios de ódio e sentiu-se perdendo a consciência. Os músculos começaram a ficar paralisados de terror quando se viu atraído para a horrível besta diante dele. Foi necessário um esforço imenso para desviar os olhos da criatura, e ele cambaleou para trás, perdendo a faca quando as garras de urso o atacaram e arranharam a sua coxa.
Então ele correu desarmado e sangrando, contando com o confuso labirinto que eram as ruínas para fugir do monstro que o perseguia.
Ele tinha percebido a mudança nos movimentos dos Kalkaras no final da tarde. Sua rota constante e anteriormente inalterada para o noroeste de repente mudou quando as duas bestas se separaram abruptamente, cada qual fazendo uma curva de 90 graus e andando em direções diferentes para dentro da floresta que os cercava. Suas pegadas, até aquele momento tão fáceis de seguir, também mostravam sinais de que estavam sendo encobertas, de modo que somente alguém habilidoso como um arqueiro teria sido capaz de segui-las. Pela primeira vez em anos, Halt sentiu um calafrio de medo no estômago quando se deu conta de que agora a caça era ele.
As ruínas estavam perto, então ele resolveu ficar ali, e não no bosque. Deixou Abelard em segurança, longe de qualquer perigo, e foi a pé para as ruínas. Ele sabia que os Kalkaras iriam persegui-lo assim que a noite caísse, então se preparou da melhor forma possível, reunindo galhos caídos para fazer uma fogueira. Halt até encontrou uma jarra de óleo nas ruínas da cozinha, rançoso e malcheiroso, mas que ainda iria queimar. Ele o derramou na pilha de lenha e se afastou até um ponto onde poderia ficar de costas para a parede. Tinha arrumado uma série de tochas e as deixou queimando enquanto escurecia, esperando que os matadores implacáveis o procurassem.
O arqueiro sentiu a presença deles antes de vê-los. Então enxergou os dois vultos trôpegos, duas manchas mais escuras contra a escuridão das árvores. Naturalmente, eles o viram de imediato. A tocha trêmula presa na parede garantiu isso. Mas eles não viram a pilha de lenha embebida em óleo, e era com isso que ele contava. Quando soltaram seus gritos de caça, Halt jogou a tocha flamejante na pilha e as chamas subiram no mesmo instante, espalhando um brilho amarelo na noite.
Por um momento, as bestas hesitaram, pois o fogo era seu único inimigo. Mas, quando viram que o arqueiro não estava próximo das chamas, continuaram - direto para a chuva de flechas com que Halt as recebeu.
Se tivessem mais 100 metros para percorrer, talvez Halt tivesse conseguido derrotar as duas. Ainda havia mais de dez flechas na aljava, mas o tempo e a distância corriam contra ele, que mal tinha escapado com vida. Agora, estava agachado entre dois pedaços de muro caído que formavam uma pequena gruta, escondido numa leve reentrância do terreno e oculto pela capa, como acontecia há anos. Sua única esperança era que Will chegasse com Arald e Rodney. Se pudesse escapar da criatura até que a ajuda chegasse, talvez tivesse uma chance.
Ele tentou não pensar na outra possibilidade - a de que Gilan chegasse antes deles, sozinho e armado apenas com o arco e a espada. Agora que tinha visto os Kalkaras de perto, Halt sabia que um homem tinha poucas chances de enfrentá-los. Se Gilan chegasse antes dos cavaleiros, ele e Halt morreriam ali.
Naquele momento, a criatura estava rodeando o velho pátio como um cão à procura da caça, adotando um padrão de busca metódico, para a frente e para trás, examinando cada espaço, cada buraco, cada possível esconderijo. Halt sabia que desta vez ela o encontraria. Sua mão tocou o cabo da pequena faca, a única arma que restava. Seria uma defesa insignificante, quase inútil, mas era tudo o que tinha.
Então ele ouviu: o inconfundível trovejar dos cascos dos cavalos de batalha. Olhou para cima e observou o Kalkara por uma pequena fresta entre as pedras que o escondiam. O monstro também os tinha ouvido e estava de pé, ereto, a cara voltada para o som que vinha de fora das paredes em ruínas.
Os cavalos pararam, e Halt ouviu o grito agudo do Kalkara mortalmente ferido ao desafiar os novos inimigos. As batidas dos cascos se fizeram ouvir de novo e ganharam velocidade e força. Seguiu-se um grito e um clarão vermelho gigantesco que subiu para o céu por um momento. Vagamente, Halt deduziu que o primeiro Kalkara devia ter sido jogado no fogo. Ele começou a recuar devagar para fora do esconderijo. Talvez pudesse escapar do outro Kalkara movendo-se para o lado e escalando a parede antes que ele o visse. As chances pareciam boas. A atenção do monstro estava voltada para o que quer que estivesse acontecendo do lado de fora. Mas, assim que teve a idéia, percebeu que não tinha opção. Embora aparentemente o Kalkara o tivesse esquecido por um momento, a criatura estava se movendo furtivamente em direção às ruínas que formavam uma escada irregular para o alto do muro.
Em mais alguns minutos, a besta estaria em posição de cair sobre os amigos despreocupados do outro lado, tomando-os de surpresa. Halt tinha que impedi-la.
O arqueiro já estava fora do esconderijo, a pequena faca saindo da bainha quase por vontade própria, quando ele correu pelo pátio, desviando-se e fazendo círculos ao redor do entulho espalhado. O Kalkara o escutou antes que ele tivesse dado dez passos e se virou para ele, assustadoramente silencioso quando pulou como um macaco para impedir sua passagem antes que pudesse avisar os amigos sobre o perigo.
Halt parou de repente e ficou imóvel, com o olhar preso na figura trôpega que se aproximava dele.
Alguns metros a mais e o olhar hipnótico iria controlar a sua mente. Ele sentiu uma vontade irresistível de encarar aqueles olhos vermelhos, mas então fechou os olhos, a testa franzida numa concentração intensa. Levantou a mão que segurava a faca e agitou-a para a frente e para trás num ataque suave e instintivo, vendo o alvo se mexer em sua cabeça, mentalmente alinhando o arremesso para o ponto no espaço aonde a faca e o alvo iriam chegar ao mesmo tempo.
Somente um arqueiro, entre muito poucos, poderia ter lançado a arma daquele jeito. A faca atingiu o olho direito do Kalkara, e a besta gritou furiosa quando se encolheu por causa da repentina pontada de agonia que começava em seu olho e se espalhava pelo corpo todo! Então Halt passou correndo por ele na direção do muro e subiu as pedras com dificuldade.
Will viu o vulto envolto em sombras que escalava na direção do topo do muro em ruínas. Mas, escondido pelas sombras ou não, havia algo de inconfundível nele.
- Halt! - ele gritou, apontando para que os dois cavaleiros também o vissem.
Todos os três viram o arqueiro parar, olhar para trás e hesitar. Então um vulto enorme começou a aparecer alguns metros atrás dele quando o Kalkara, cujo ferimento era dolorido, mas nada mortal, o perseguiu.
O barão Arald pensou em montar, mas, percebendo que nenhum cavalo poderia passar pela confusão de pedras e tijolos ao lado da parede, tirou a imensa espada da sela e correu na direção das ruínas.
- Para trás, Will! - ele gritou quando avançou.
Nervoso, Will levou Puxão de volta para a beira das árvores.
No muro, Halt ouviu o grito e viu Arald correndo para a frente. Sir Rodney estava logo atrás dele, girando uma enorme acha em círculos em volta da cabeça.
- Pule, Halt! Pule! - o barão gritou, e Halt não precisou de outro convite.
Ele saltou 3 metros para baixo, rolando para amortecer a queda quando aterrissou. Então, levantou-se e correu desajeitado ao encontro dos dois cavaleiros, enquanto o ferimento da perna tornava a abrir.
Com o coração na boca, Will viu Halt correr na direção dos dois cavaleiros. O Kalkara hesitou um momento e então, com um grito de desafio apavorante, pulou atrás dele. O monstro simplesmente transformou a queda de 3 metros num pulo enorme, suas pernas traseiras incrivelmente poderosas fazendo que fosse impulsionado para cima e para a frente, cobrindo o terreno entre ele e Halt nesse único movimento. O braço forte girou, atingindo Halt com violência e fazendo que ele rolasse para a frente inconsciente. Mas a besta não teve tempo de acabar com ele, pois o barão Arald o enfrentou e dirigiu a espada num arco mortal na direção de sua garganta.
O Kalkara foi cruelmente rápido e se abaixou, desviando do arremesso mortal e atacando as costas expostas de Arald com as garras antes que ele pudesse se recuperar do golpe. Elas rasgaram a malha de metal como se fosse um tecido fino, e Arald grunhiu de dor e surpresa quando a força do ataque o jogou de joelhos, obrigando-o a soltar a espada. Sangue jorrava de vários arranhões nas costas.
Ele teria morrido ali se não fosse por sir Rodney. O mestre de guerra girou a pesada acha como se fosse um brinquedo e golpeou a lateral do corpo do Kalkara.
A armadura de pêlos emaranhados protegeu a besta, mas a força imensa do golpe a fez cambalear e se afastar do cavaleiro com gritos furiosos e frustrados. Sir Rodney avançou protetoramente e se colocou com os pés firmes entre o monstro e as figuras caídas de Halt e do barão, preparando a arma para outro golpe fulminante.
E então, estranhamente, ele deixou a arma cair e ficou parado diante da criatura, totalmente à sua mercê. O poder do olhar do Kalkara roubara-lhe a vontade própria e a capacidade de pensar.
O Kalkara gritou vitorioso para o céu noturno. Um sangue negro escorria de sua cara. Nunca em sua vida ele tinha sentido dor parecida com a que aqueles três homens insignificantes haviam provocado. E agora eles iriam morrer por ousarem enfrentá-lo. Mas a inteligência primitiva que o guiava queria seu momento de triunfo, e ele gritou repetidas vezes diante dos três homens indefesos.
Will assistia a tudo horrorizado. Um pensamento se formava, uma idéia tomava corpo em algum lugar de sua mente. Ele olhou para o lado e viu a tocha bruxuleante que o barão Arald tinha soltado. Fogo. A única arma que poderia derrotar o Kalkara. Mas ele estava a 40 metros de distância...
Ele tirou uma flecha da aljava, escorregou da sela e correu rapidamente até a tocha tremeluzente. Uma grande quantidade de piche grudento e derretido tinha escorrido pelo cabo da tocha e, depressa, ele passou a ponta da flecha no líquido pegajoso e mole, cobrindo-a generosamente. Em seguida, encostou-a na chama até que se acendesse.
A 40 metros dali, a enorme criatura perversa estava satisfazendo sua necessidade de vitória, fazendo que seus gritos se espalhassem e ecoassem pela noite enquanto ficava de pé junto dos dois corpos: Halt, inconsciente, e o barão Arald, atordoado pela dor. Sir Rodney ainda estava parado no mesmo lugar, paralisado, com as mãos indefesas penduradas ao lado do corpo enquanto esperava a morte. Agora, o Kalkara levantava uma pata imensa para jogá-lo no chão, e o cavaleiro só conseguia sentir o terror paralisante de seu olhar.
Will preparou-se para atirar a flecha, estremecendo com a dor quando as chamas lhe queimaram a mão que segurava o arco. Ele mirou um pouco acima do seu alvo por causa do peso adicional do piche e soltou a flecha.
Ela descreveu um arco brilhante e rápido, e o vento provocado por sua passagem transformou a chama numa simples brasa. O Kalkara viu o clarão de luz se aproximando e se virou para olhar, selando seu próprio destino quando a flecha o atingiu diretamente no peito largo.
A flecha quase não penetrou os pêlos duros parecidos com escamas, mas, quando parou, a pequena chama voltou a se incendiar, e o fogo se espalhou nos pêlos emaranhados com incrível rapidez.
Assim que sentiu o toque do fogo, o Kalkara foi tomado pelo terror.
O monstro bateu nas chamas em seu peito com as patas, mas isso apenas serviu para espalhar o fogo para os braços. As chamas vermelhas avançaram depressa, e em segundos o Kalkara foi envolvido por elas, queimando dos pés à cabeça enquanto corria cegamente em círculos, tentando em vão escapar. Os gritos agudos não paravam e ficavam cada vez mais altos, atingindo uma escala de agonia que a mente mal podia compreender. As chamas ficavam mais intensas a cada segundo. Então os gritos pararem e a criatura morreu.
A pousada na vila Wensley estava tomada por música, risos e barulho. Will estava sentado à mesa com Horace, Alyss e Jenny, enquanto o dono lhes servia um suculento jantar de ganso assado e legumes frescos da fazenda, seguido de uma deliciosa torta de mirtilo cuja massa leve ganhou até a aprovação de Jenny.
Tinha sido idéia de Horace comemorar a volta de Will para o Castelo Redmont com um banquete. As duas meninas tinham concordado imediatamente, ansiosas por uma pausa na rotina, que agora parecia um tanto monótona comparada aos acontecimentos de que Will tinha participado.
Naturalmente, a notícia sobre a batalha com os Kalkaras tinha se espalhado na vila como uma fogueira ao vento, uma comparação extremamente apropriada, na opinião de Will. Quando ele entrou na pousada com os amigos naquela noite, um silêncio curioso tomou conta do aposento e todos os olhares se voltaram para ele. Will ficou agradecido pelo fato de o grande capuz esconder o seu rosto, que corava rapidamente. Os três companheiros perceberam seu constrangimento. Jenny, como sempre, foi a primeira a reagir e a quebrar o silêncio que enchia a pousada.
- Vamos, gente séria! - ela gritou para os músicos perto da lareira. - Vamos ouvir um pouco de música! E um pouco de conversa também! - ela acrescentou a segunda sugestão com um olhar significativo para os outros ocupantes da sala.
Os músicos aceitaram a sugestão. Era difícil recusar qualquer coisa sugerida por Jenny. Rapidamente, eles começaram a tocar uma canção folclórica conhecida e o som dominou o salão. Aos poucos, os outros moradores perceberam que sua atenção estava deixando Will pouco a vontade e, lembrando-se das boas maneiras, recomeçaram a conversar, olhando apenas de vez em quando para o rapaz, admirando-se de que alguém tão jovem pudesse ter participado de acontecimentos tão importantes.
Os quatro antigos colegas protegidos do castelo sentaram-se a uma mesa no fundo da sala, onde poderiam conversar sem ser interrompidos.
- George mandou pedir desculpas - Alyss disse quando se sentaram. - Ele está atolado de serviço. Toda a Escola de Escribas está trabalhando dia e noite.
Will acenou compreensivo. A guerra iminente com Morgarath e a necessidade de mobilizar tropas e retomar antigas alianças certamente criara montanhas de papelada.
Muita coisa tinha acontecido nos dez dias desde a batalha com os Kalkaras.
Depois de acampar junto das ruínas, Rodney e Will cuidaram dos ferimentos do barão Arald e de Halt, finalmente conseguindo fazer que os dois homens dormissem tranquilamente. Logo depois do amanhecer, Abelard entrou trotando no acampamento, procurando ansiosamente pelo dono. Will tinha acabado de acalmar o animal quando Gilan chegou exausto, cavalgando um pequeno cavalo de trabalho. Agradecido, o alto arqueiro recuperou Blaze. Então, depois de se convencer de que o antigo mestre não corria perigo, partiu quase imediatamente para o próprio feudo, depois que Will prometeu devolver o cavalo ao lavrador.
Mais tarde naquele dia, Will, Halt, Rodney e Arald tinham voltado ao Castelo Redmont, onde mergulharam numa atividade ininterrupta para preparar os guerreiros do castelo para a guerra. Havia milhares de detalhes a serem acertados, mensagens a serem enviadas e convocações a serem entregues. Como Halt ainda estava se recuperando do ferimento, grande parte desse trabalho tinha recaído sobre Will.
Ele percebeu que em épocas como aquela um arqueiro tinha pouco tempo para relaxar, o que tornava aquela noite uma diversão bem-vinda. O dono da pousada foi afobado até a mesa deles e colocou sobre ela quatro canecas de vidro e uma jarra da cerveja sem álcool, que ele preparava com gengibre.
- Hoje é por conta da casa - ele avisou. - Estamos honrados por ter você em nosso estabelecimento, arqueiro.
Ele se afastou, chamando um de seus ajudantes para atender a mesa de Will.
- E seja bem rápido! - ele ordenou. Alyss olhou para ele surpresa.
- É bom estar com uma celebridade - ela disse. - O velho Skinner geralmente segura as moedas com tanta força que a cabeça do rei fica sufocada.
- As pessoas exageram - Will disse com um gesto de indiferença.
Mas Horace se inclinou para a frente com os cotovelos na mesa.
- Então conte para a gente como foi a luta - ele pediu ansioso por detalhes.
Jenny olhou para Will de olhos arregalados.
- Não acredito que vocês tenham sido tão corajosos! - ela disse com admiração. - Eu teria ficado apavorada.
- Para falar a verdade, eu estava petrificado - Will confessou para eles com um sorriso triste. - O barão e sir Rodney foram os corajosos. Eles atacaram e enfrentaram as criaturas bem de perto. Eu fiquei a 40 ou 50 metros de distância o tempo todo.
Will descreveu os acontecimentos da batalha sem entrar em muitos detalhes sobre a aparência dos Kalkaras. Eles estavam mortos e acabados e seria melhor esquecê-los o mais depressa possível. Não era necessário se preocupar com determinadas coisas. Os três colegas ouviam, Jenny de olhos arregalados e entusiasmada, Horace ansioso por detalhes da luta e Alyss calma e digna como sempre, mas totalmente atenta a história. Quando ele descreveu sua cavalgada solitária para buscar ajuda, Horace balançou a cabeça admirado.
- Esses cavalos dos arqueiros devem ser de uma raça especial.
Will sorriu para ele, incapaz de resistir a fazer o comentário engraçado que tinha vindo à sua mente.
- O truque é se manter em cima deles - ele disse, ficando satisfeito ao ver um sorriso igual surgir no rosto de Horace quando ambos lembraram a cena da Feira do Dia da Colheita.
Ele percebeu, com um leve toque de prazer, que seu relacionamento com Horace tinha se transformado numa amizade profunda em que os dois se viam como iguais. Ansioso para sair de baixo dos holofotes, ele perguntou ao amigo como ia a vida na Escola de Guerra. O sorriso no rosto do garoto maior se alargou.
- Muito melhor, graças ao Halt - ele disse e, quando Will habilmente o cobriu de mais perguntas, ele descreveu a vida na Escola de Guerra, brincando sobre seus erros e fracassos, rindo quando contou quantas vezes tinha sido punido.
Will percebeu que Horace, antes um pouco exibido e arrogante, estava muito mais modesto ultimamente. Ele desconfiava de que Horace estava se saindo melhor como aprendiz de guerreiro do que deixava transparecer.
Foi uma noite agradável, principalmente depois da tensão e do terror da caçada aos Kalkaras. Quando os ajudantes tiraram os pratos, Jenny sorriu esperançosa para os dois garotos.
- Muito bem! Agora, quem vai dançar comigo? - ela perguntou alegremente, e Will foi lento demais para responder.
Horace tomou a mão dela e a levou para a pista de dança. Quando eles se juntaram aos demais dançarinos, Will olhou para Alyss sem saber bem o que fazer. Ele nunca sabia dizer o que a garota estava pensando. Achou que talvez fosse educado também convidá-la para dançar. Então pigarreou nervoso.
- Ahn... você também gostaria de dançar, Alyss? - convidou desajeitado.
Ela lhe ofereceu somente o leve sinal de um sorriso. - Acho que não, Will. Não sou uma boa dançarina. Parece que tenho pernas de pau.
Na verdade, ela era uma excelente dançarina, mas, diplomata nata como era, percebeu que Will só a tinha convidado por educação. Então os dois mergulharam no silêncio, mas um tipo de silêncio amistoso.
Depois de alguns minutos, ela se virou para ele com o queixo apoiado na mão para observá-lo com atenção.
- Vai ser um grande dia para você amanhã - ela disse, e ele corou.
Ele tinha sido convocado para aparecer diante de toda a corte do barão no dia seguinte.
- Não sei por que tudo isso - ele balbuciou.
- Ele possivelmente quer lhe agradecer em público - Alyss disse, sorrindo para ele. - Ouvi dizer que barões gostam de fazer isso com pessoas que salvaram suas vidas.
Will começou a dizer alguma coisa, mas ela pousou a mão macia e fria sobre a dele, e ele parou. Ele olhou aqueles olhos cinzentos, calmos e sorridentes. Alyss nunca tinha lhe parecido bonita, mas agora percebeu que sua elegância, sua graça e seus olhos cinzentos, emoldurados por cabelos loiros delicados, criavam um encanto natural que ultrapassava de longe uma simples beleza. Surpreendentemente, ela se inclinou para perto e sussurrou:
- Estamos todos orgulhosos de você, Will. E acho que eu sou a mais orgulhosa de todos.
Então Alyss o beijou. Os lábios dela eram incrivelmente, indescritivelmente macios.
Horas mais tarde, antes de finalmente adormecer, ele ainda podia senti-los.
Paralisado pelo medo da platéia, Will estava parado do lado de dentro da sala de audiências do barão.
O prédio era imenso. Era a principal sala do castelo, a sala em que o barão conduzia todos os negócios oficiais com os membros da corte. O teto parecia se estender para cima interminavelmente. Fachos de luz inundavam o aposento, vindos de janelas instaladas no alto das paredes grossas. Na extremidade da sala e parecendo estar a uma grande distância, o barão estava sentado numa cadeira parecida com um trono, vestindo suas túnicas mais finas.
Entre ele e Will, estava a maior multidão que o garoto já tinha visto. Halt fez o aprendiz avançar delicadamente com um empurrão nas costas.
- Vá em frente - ele murmurou.
Havia centenas de pessoas no Grande Salão, e todos os olhares estavam voltados para Will. Todos os chefes de ofício estavam ali, vestindo suas túnicas oficiais. Todos os cavaleiros e todas a damas da corte: cada uma usando suas melhores e mais elegantes roupas. Mais adiante, estavam os homens com armas do exército do barão, os outros aprendizes e os comerciantes da vila. Ele viu uma agitação colorida quando Jenny, desinibida como sempre, agitou um lenço para ele. Alyss, parada ao lado dela, foi um pouco mais discreta. Ela jogou um beijo para ele com a ponta dos dedos, delicadamente.
Ele ficou parado, desajeitado, colocando o peso do corpo ora numa perna, ora noutra. Desejou que Halt o tivesse deixado usar a capa de arqueiro para que pudesse se confundir com o ambiente e desaparecer.
Halt o empurrou outra vez.
- Ande, vamos! - sussurrou.
- Você não vem comigo? - ele perguntou, virando-se para o mestre.
Halt negou com a cabeça.
- Não fui convidado. Agora se mexa!
Ele empurrou Will mais uma vez e então, por causa da perna machucada, foi até uma cadeira. Finalmente, compreendendo que não tinha outro caminho a seguir, Will começou a andar pelo corredor que parecia não terminar nunca. Ele ouviu vozes balbuciando enquanto passava, ouviu seu nome sendo sussurrado de boca em boca.
E então as palmas se iniciaram.
Elas foram começadas pela esposa de um cavaleiro e se espalharam rapidamente por todo o salão. Era ensurdecedor, um rugido retumbante de aplausos que continuou até Will chegar aos pés da cadeira do barão.
Como Halt tinha ensinado, ele se apoiou num joelho e inclinou a cabeça para a frente.
O barão se levantou e ergueu a mão pedindo silêncio, e as palmas se transformaram em ecos.
- Levante-se, Will - ele disse em voz baixa, estendendo a mão para ajudar o garoto a se pôr de pé.
Atordoado, Will obedeceu. O barão pousou uma das mãos em seu ombro e o virou para que olhasse para a enorme multidão diante deles. Sua voz grave chegou sem esforço ao ponto mais afastado do salão quando falou.
- Este é Will. Aprendiz do arqueiro Halt, deste feudo. Todos vocês, olhem para ele e o conheçam. Ele provou sua fidelidade, coragem e iniciativa para com este feudo e para com o Reino de Araluen.
Houve um murmúrio vindo do público. Então as palmas recomeçaram, desta vez acompanhadas de vivas. Will percebeu que os vivas tinham começado na seção da multidão em que estavam os aprendizes da Escola de Guerra. Ele conseguiu ver o rosto sorridente de Horace liderando o coro.
O barão pediu silencio com a mão erguida, encolhendo-se como se o movimento causasse dor em suas costelas fraturadas e nos cortes suturados nas costas. Os vivas e as palmas morreram lentamente.
- Will - ele disse numa voz que ecoou para os cantos mais distantes do aposento enorme - eu lhe devo a minha vida. Não há agradecimentos suficientes para isso. Porém tenho o poder de atender a um pedido que uma vez me fez...
Will olhou para ele sério.
- Um pedido, senhor? - ele perguntou bastante atordoado com as palavras do barão.
- Eu cometi um erro, Will. Você me perguntou se poderia aprender a ser um guerreiro. Você desejava se tornar um dos meus cavaleiros e eu recusei o pedido. Agora, posso consertar esse erro. Eu ficaria honrado de ter alguém tão corajoso e habilidoso como um dos meus cavaleiros. Terá minha permissão para se transferir para a Escola de Guerra como um dos aprendizes de sir Rodney.
O coração de Will saltou em seu peito. Ele pensou em como, durante toda a vida, havia desejado ser um cavaleiro. Ele se lembrou do profundo e amargo desapontamento no dia da Escolha, quando sir Rodney e o barão tinham recusado o seu pedido.
Sir Rodney deu um passo à frente, e o barão fez um gesto para que falasse.
- Meu senhor - disse o mestre de guerra -, como sabe, fui eu quem recusou este garoto como aprendiz. Agora, quero que todos aqui saibam que eu estava errado. Eu, meus cavaleiros e meus aprendizes reconhecemos que não poderia haver membro mais valioso para a Escola de Guerra do que Will!
Os cavaleiros e aprendizes ali reunidos soltaram fortes gritos de aprovação. Com estrépito, desembainharam as espadas e as bateram ruidosamente acima de suas cabeças, gritando o nome de Will. Mais uma vez, Horace foi um dos primeiros a puxar o coro e o último a parar.
Aos poucos, o tumulto se aquietou e os cavaleiros guardaram as espadas. A um sinal do barão Arald, dois pajens se adiantaram, carregando uma espada e um escudo lindamente esmaltado que foram colocados aos pés de Will. O escudo tinha sido pintado com o desenho da cabeça de um feroz porco selvagem.
- Esse será o seu brasão quando se formar, Will - disse o barão com delicadeza -, para lembrar ao mundo a primeira vez em que conhecemos a sua coragem e lealdade para com um companheiro.
O garoto apoiou-se em um dos joelhos e tocou a superfície lisa e esmaltada do escudo. Ele tirou a espada lenta e reverentemente da bainha. Era uma arma magnífica, uma obra-prima da arte da fabricação de espadas.
A lâmina era extremamente afiada e ligeiramente azulada. O cabo e a cruzeta eram incrustados em ouro, e o símbolo com a cabeça do porco selvagem repetia-se no punho. A espada parecia ter vida própria. Perfeitamente balanceada, era leve como uma pena. Ele olhou para essa maravilhosa espada adornada com jóias e depois para o cabo de couro de sua faca de arqueiro.
- Essas são armas de cavaleiros, Will - o barão explicou. - Mas você provou repetidas vezes que é digno delas. Se desejar, elas serão suas.
Will deslizou a espada de volta na bainha e se levantou devagar. Ali estava tudo o que sempre desejou. E, mesmo assim...
Ele pensou nos longos dias na floresta com Halt. A enorme satisfação que sentiu quando uma de suas flechas atingiu o alvo, exatamente onde desejara, exatamente como tinha visto em pensamento antes de soltá-la. Ele pensou nas horas gastas aprendendo a seguir animais e homens. Aprendendo a arte de se esconder. Pensou em Puxão, na coragem e devoção do pônei.
E pensou no puro prazer que sentia quando ouvia o simples "bem-feito" de Halt quando completava uma tarefa a contento. E, de repente, tudo ficou claro. Ele olhou para o barão e disse com voz firme: - Sou um arqueiro, senhor. Houve um murmúrio de surpresa entre a multidão. - Você tem certeza, Will? - o barão perguntou em voz baixa, chegando mais perto. - Não recuse essa oferta somente por achar que Halt vai ficar ofendido ou desapontado. Ele insistiu que isso depende de você e já concordou em aceitar sua decisão.
Will balançou a cabeça negativamente. Nunca tinha tido tanta certeza de algo.
- Eu agradeço a honra, senhor.
Ele olhou para o mestre de guerra e viu, para sua surpresa, que sir Rodney estava sorrindo e mostrando sua aprovação com a cabeça.
- E agradeça ao mestre de guerra e aos seus cavaleiros pela oferta generosa, mas sou um arqueiro.
Ele hesitou.
- Não quero ofender ninguém com isso, senhor - ele terminou desajeitado.
Um enorme sorriso encrespou os traços do barão, e ele agarrou a mão de Will com força.
- Não estou ofendido, Will. De jeito nenhum! A sua lealdade para com o seu ofício e seu mestre de ofício são uma honra para você e todos os que o conhecem!
Ele deu um último aperto firme na mão de Will e a soltou.
Will se curvou e se virou para caminhar pelo longo corredor outra vez. Os vivas recomeçaram e, desta vez, ele manteve a cabeça erguida enquanto o barulho o envolvia e ecoava até o teto do Grande Salão. Então, ao se aproximar das grandes portas novamente, viu algo que o fez parar de imediato, perplexo e surpreso.
Pois ali parado, um pouco afastado da multidão, enrolado na capa cinza e verde, com os olhos ensombrecidos pelo capuz, estava Halt.
E ele estava sorrindo.
Mais tarde, após todo o barulho e as comemorações terem diminuído, Will estava sentado sozinho na minúscula varanda da pequena cabana de Halt. Na mão, ele segurava um pequeno amuleto de bronze no formato de uma folha de carvalho com uma corrente de aço passada por um elo no alto.
- É o nosso símbolo - seu professor tinha explicado quando o entregou para ele depois dos acontecimentos no castelo. - O equivalente ao brasão de armas dos cavaleiros.
Então ele procurou no interior da própria gola e tirou uma folha de carvalho de formato idêntico pendurada numa corrente no pescoço. A forma era parecida, mas a cor era diferente. A folha de carvalho que Halt usava era de prata.
- Bronze é a cor dos aprendizes - Halt tinha contado para ele. - Quando você terminar o treinamento, vai receber uma folha de carvalho de prata como esta. Todos da Corporação dos Arqueiros usam prata ou bronze.
Ele tinha desviado o olhar do garoto por alguns minutos.
- Para falar a verdade, você não devia recebê-la até depois de sua primeira avaliação - ele acrescentou com a voz um pouco rouca. - Mas duvido que alguém queira se opor a isso, depois de tudo o que aconteceu.
Agora, o pedaço de metal de formato curioso brilhava fracamente na mão de Will enquanto ele pensava na decisão que tinha tomado. Parecia muito estranho que tivesse desistido voluntariamente da única coisa que tinha esperado quase toda a vida: a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra e assumir uma posição como cavaleiro no exército do Castelo Redmont.
Ele girou a folha de carvalho de bronze na corrente em volta do dedo indicador, deixou-a subir pelo dedo e a soltou com um profundo suspiro. A vida podia ser muito complicada. Bem no fundo, sentiu que tinha tomado a decisão acertada. E, mesmo assim, ainda mais no fundo, havia uma pequena dúvida.
Assustado, percebeu que havia alguém parado ao lado dele. Ao se virar de repente, reconheceu Halt. O arqueiro se inclinou e se sentou ao lado do garoto no banco rústico de pinho na varanda estreita. Diante deles, o sol baixo do fim de tarde passava pelas folhas verde-claras da floresta, e a luz parecia dançar e girar enquanto a brisa leve sacudia as folhas.
- Um grande dia - ele disse em voz baixa, e Will concordou.
- E uma grande decisão que você tomou - Halt acrescentou depois de vários minutos de silêncio.
Desta vez, Will se virou para olhar para seu mestre.
- Halt, tomei a decisão certa? - ele perguntou finalmente com angústia na voz.
Halt apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou um pouco para a frente, semicerrando os olhos diante da luz forte que passava pelas folhas.
- No que me diz respeito, sim. Escolhi você como aprendiz e posso ver todo o potencial que você tem para ser um arqueiro. Até cheguei a quase gostar da sua presença e de ficar tropeçando em você - ele acrescentou com a leve sugestão de um sorriso. - Mas meus sentimentos e meus desejos não são importantes nesse caso. A decisão certa para você se refere ao que você mais quer.
- Sempre quis ser um cavaleiro - Will contou e então percebeu, com certa surpresa, que tinha dito a frase no passado.
Mas, mesmo assim, sabia que parte dele ainda queria isso.
- É claro que é possível querer duas coisas diferentes ao mesmo tempo - Halt disse em voz baixa. - Então, tudo se torna uma questão de escolha e de saber o que se quer mais.
Não era a primeira vez que Will tinha a sensação de que Halt, de alguma forma, havia lido a sua mente.
- Se você não pode resumir tudo num só pensamento, qual é a principal razão pela qual está um pouco desapontado por ter recusado a oferta do barão? - Halt continuou.
- Acho que... - Will disse devagar, pensando na pergunta. - Acho que, ao recusar a Escola de Guerra, estou decepcionando um pouco o meu pai.
- O seu pai? - Halt repetiu surpreso, e Will concordou.
- Ele foi um excelente guerreiro - ele contou para o arqueiro. - Um cavaleiro. Ele morreu em Hackman Heath, lutando contra os Wargals. Um herói.
- E você sabe de tudo isso, certo? - Halt perguntou, e Will as sentiu com um gesto.
Aquele sonho o tinha sustentado durante os longos e solitários anos em que nunca soube quem era ou o que deveria ser. Agora, o sonho tinha se transformado em realidade.
- Ele era um homem de que qualquer filho teria orgulho - ele disse finalmente, e Halt concordou.
- Isso realmente é verdade.
Havia algo em sua voz que fez Will hesitar. Halt não estava somente concordando por educação. Will se virou para ele depressa, percebendo todas as implicações das palavras do arqueiro.
- Você conheceu ele, Halt? Você conheceu meu pai?
Havia uma luz de esperança no olhar do garoto, que pedia a verdade. O arqueiro assentiu sério.
- Sim, conheci. Não convivi com ele por muito tempo, mas acho que poderia dizer que conhecia ele bem. E você está certo. Você pode ter muito orgulho dele.
- Ele foi um excelente guerreiro, não foi? - Will indagou.
- Ele era um soldado - Halt concordou - e um lutador corajoso.
- Eu sabia! - Will disse feliz. - Ele foi um grande cavaleiro!
- Um sargento - Halt acrescentou devagar e com delicadeza. Will ficou boquiaberto e não conseguiu dizer o que pretendia.
- Um sargento? - ele conseguiu finalmente balbuciar. Halt assentiu. Ele pode ver o desapontamento no olhar do garoto e colocou um braço ao redor de seus ombros.
- Não julgue as qualidades de um homem pela posição que ele ocupa na vida, Will. O seu pai, Daniel, foi um soldado leal e corajoso. Não teve a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra porque começou a vida como fazendeiro. Mas, se tivesse frequentado, teria sido um dos melhores cavaleiros.
- Mas ele... - o garoto começou tristemente.
O arqueiro fez que parasse e continuou na mesma voz gentil, suave e irresistível.
- Porque, sem ter feito qualquer juramento ou treinamento especial pelo qual os cavaleiros passam, ele viveu de acordo com os mais altos ideais da nobreza, bravura e valor. Na verdade, ele morreu alguns dias depois da batalha em Hackman Heath, enquanto Morgarath e seus Wargals estavam lutando para voltar ao Desfiladeiro dos Três Passos. Um contra-ataque repentino nos pegou de surpresa, e o seu pai viu um companheiro cercado por uma tropa de Wargals. O homem estava no chão e a poucos segundos de ser feito em pedaços quando seu pai o ajudou.
A luz nos olhos do garoto recomeçou a brilhar.
- Verdade? - Will perguntou baixinho, e Halt concordou com um gesto de cabeça.
- Verdade. Ele deixou a segurança da linha de batalha e pulou para a frente, armado apenas com a lança. Ficou em cima do companheiro ferido e o protegeu dos Wargals. Matou um deles com a lança e então outro despedaçou a ponta da arma, deixando Daniel somente com o cabo. Assim, ele o usou como se fosse um varapau e nocauteou outros dois: esquerda, direita! Foi exatamente assim!
Halt agitou a mão para a esquerda e para a direita para mostrar o que tinha acontecido. Os olhos de Will estavam presos nele agora, vendo a batalha enquanto o arqueiro a descrevia.
- Ele ficou ferido quando a haste da lança quebrou em outro ataque. Teria sido suficiente para matar qualquer homem, mas seu pai simplesmente tirou a espada de um dos Wargals que tinha matado e derrubou outros três, sangrando sem parar de um ferimento profundo que tinha na lateral do corpo.
- Três deles? - Will repetiu.
- Três. Ele era rápido como um leopardo. E, lembre-se, como lanceiro, nunca tinha realmente treinado com a espada.
Ele fez uma pausa, recordando aquele dia ocorrido tanto tempo atrás.
- Acho que você sabe que os Wargals não têm medo de quase nada. Eles são chamados de Os Indiferentes e, quando começam uma batalha, quase sempre são eles que a terminam. Quase sempre. Essa foi uma das poucas vezes que vi os Wargals com medo. Quando seu pai deu golpes para todos os lados, ainda parado em cima do companheiro ferido, eles começaram a recuar. Primeiro devagar. Depois correram. Eles simplesmente se viraram e correram. Nunca vi outro homem, fosse cavaleiro ou poderoso guerreiro, que pudesse fazer os Wargals fugirem assustados. Seu pai conseguiu. Ele pode ter sido um sargento, Will, mas foi o guerreiro mais poderoso que já tive o privilégio de ver lutando. Então, quando os Wargals recuaram, ele se apoiou em um joelho ao lado do homem que tinha ajudado e, mesmo sabendo que também estava morrendo, ainda tentou proteger ele. Seu pai tinha vários ferimentos, mas provavelmente foi o primeiro que matou ele.
- E o amigo dele se salvou? - Will perguntou em voz baixa.
- O amigo? - Halt indagou um tanto surpreso.
- O homem que ele protegeu - Will explicou. - Ele sobreviveu? De alguma forma, ele pensou que teria sido uma tragédia se o corajoso esforço do pai não tivesse tido êxito.
- Eles não eram amigos - Halt contou. - Até aquele momento, ele nunca tinha posto os olhos no outro homem - ele fez uma pausa e acrescentou - e vice-versa.
O significado daquelas últimas palavras penetraram no fundo da mente de Will.
- Você? - ele sussurrou. - Você era o homem que ele salvou? Halt assentiu com um gesto.
- Como eu disse, eu só conheci ele por alguns minutos, mas ele fez mais por mim do que qualquer outro homem, antes ou depois disso. Enquanto morria, ele me falou da mulher e de como ela estava na fazenda sozinha com um bebê para nascer a qualquer momento. Ele me implorou para ver se estavam cuidando dela.
Will olhou para o rosto sério e barbado que tinha passado a conhecer tão bem. Havia uma profunda tristeza nos olhos de Halt ao se lembrar daquele dia.
- Cheguei tarde demais para salvar sua mãe. Foi um parto difícil, e ela morreu logo depois que você nasceu. Mas eu trouxe você para cá, e o barão Arald concordou que você deveria ser criado como protegido do castelo até ter idade suficiente para se tornar meu aprendiz.
- Mas, durante todos esses anos, você nunca... - Will parou sem palavras.
Halt sorriu tristemente para ele.
- Nunca deixei ninguém saber que tinha colocado você no castelo como protegido? Não. Pense nisso, Will. As pessoas são... esquisitas quando se trata dos arqueiros. Como elas teriam tratado você? Ficariam perguntando que tipo de criatura estranha você era? Decidimos que seria melhor que ninguém soubesse do meu interesse em você.
Will concordou. Naturalmente, Halt tinha razão. A vida como protegido já tinha sido bastante difícil. Teria sido pior se as pessoas soubessem que ele tinha alguma ligação com Halt.
- Então você me aceitou como aprendiz por causa do meu pai? - Will quis saber.
Mas desta vez Halt balançou a cabeça negativamente.
- Não. Garanti que tomassem conta de você por causa de seu pai. Escolhi você porque mostrou ter a capacidade e as habilidades necessárias. E você também parece ter herdado a coragem de seu pai.
Houve um longo silencio entre eles enquanto Will assimilava a história da incrível batalha do pai. De alguma forma, a verdade era mais sensacional, mais inspiradora do que qualquer fantasia que ele pudesse ter criado ao longo dos anos. Por fim, Halt se levantou para se afastar, e o garoto sorriu agradecido para a figura grisalha, agora uma silhueta contra o céu, enquanto a última luz do dia desaparecia.
- Acho que meu pai ficaria satisfeito com a minha escolha - ele afirmou, deslizando a corrente com a folha de carvalho de bronze sobre a cabeça.
Halt simplesmente acenou uma vez com a cabeça, virou-se e entrou na cabana, deixando o aprendiz com seus pensamentos.
Will ficou sentado em silêncio por alguns minutos. Quase sem pensar, tocou a folha de carvalho de bronze que pendia do seu pescoço. Os sons do pátio de exercícios da Escola de Guerra e o ininterrupto martelar e estrépito da oficina de armas que vinha funcionando dia e noite durante a última semana chegavam até ele, carregados pela brisa da noite. Eram os sons do Castelo Redmont se preparando para a guerra.
Porém, estranhamente, pela primeira vez na vida, ele se sentiu em paz.Decidindo que o ataque seria a melhor defesa, Bryn deu um passo à frente e preparou-se para dar um golpe por cima da cabeça de Horace, mas o aprendiz desviou dele com facilidade. Horace escapou dos dois golpes seguintes de Bryn da mesma forma e então, ao bloquear o quarto ataque do garoto mais velho, escorregou a sua lâmina de madeira ao longo da bengala do outro rapaz um instante antes de as duas armas se separarem. Não havia nenhuma cruzeta para proteger a mão de Bryn do movimento, e a espada dura atingiu os seus dedos, provocando muita dor. Com um grito agoniado, ele deixou cair a bengala pesada, saltou para trás e escondeu a mão ferida debaixo do braço. Horace ficou parado, pronto para recomeçar.
- Eu não ouvi ninguém pedir para parar - Halt disse com suavidade.
- Mas... ele me desarmou! - Bryn choramingou.
- É mesmo. Mas tenho certeza de que ele vai deixar você pegar sua arma e recomeçar - Halt disse com um sorriso. - Vamos, continue.
Bryn olhou de Halt para Horace e não viu compaixão no olhar dos dois.
- Não quero - ele disse baixinho.
Horace achou difícil reconhecer naquela figura encolhida o valentão arrogante que tinha transformado sua vida num inferno nos últimos meses. Halt pareceu pensar na declaração de Bryn.
- Vamos levar seu protesto em conta - ele disse alegremente. - Agora, continue, por favor.
A mão de Bryn latejava. Mas até mesmo pior do que a dor era o medo do que estava para acontecer, a certeza de que Horace iria castigá-lo sem piedade. Ele se inclinou e, assustado, pegou a bengala com os olhos fixos no outro garoto. Horace esperou pacientemente até que Bryn estivesse pronto e então fez um repentino movimento para a frente.
Bryn gritou de medo e jogou a bengala para o lado. Horace sacudiu a cabeça aborrecido.
- Quem é o bebê agora? - ele perguntou.
Bryn desviou o olhar e se encolheu envergonhado.
- Se ele vai bancar o bebê - Halt sugeriu -, acho que você vai ter que dar umas palmadas nele.
Um sorriso se espalhou no rosto de Horace. Ele deu um pulo para a frente, agarrou Bryn pela nuca e o virou. Em seguida, bateu na traseira do garoto com a espada de exercício repetidas vezes e seguiu-o pela clareira quando tentou escapar do castigo impiedoso. Bryn uivava, saltava e soluçava, mas Horace o segurava com firmeza pelo colarinho, e não havia como escapar. Finalmente, quando sentiu que tinha retribuído as provocações, os insultos e a dor que tinha sofrido, Horace parou.
Bryn cambaleou e caiu com as mãos e os joelhos no chão, soluçando de dor e medo.
Jerome tinha assistido horrorizado ao acontecido, sabendo que logo seria sua vez. Ele começou a se afastar, tentando escapar enquanto o arqueiro estava distraído.
- Dê mais um passo e vou furar você com uma flecha.
Will tentou usar o mesmo tom de voz calmo e ameaçador de Halt. Ele havia tirado várias de suas flechas do alvo mais próximo e agora tinha uma delas preparada, apoiada na corda do arco. Halt declarou com ar de aprovação:
- Boa idéia. Mire na barriga da perna esquerda. O ferimento é muito doloroso.
Ele olhou para onde Bryn estava deitado, soluçando aos pés de Horace.
- Acho que ele já teve o que merecia - comentou, apontando então o dedo para Jerome.
- Sua vez - ele disse apenas.
Horace pegou a bengala que Bryn tinha deixado cair, andou até Jerome e estendeu-a para ele. Jerome recuou.
- Não! - Jerome gritou de olhos arregalados. - Não é justo! Ele...
- Ora, claro que não é justo - Halt concordou num tom tranquilo. - Imagino que você ache que três contra um é justo. Agora, vamos começar.
Muitas vezes, Will tinha ouvido o ditado que dizia que um rato encurralado acaba reagindo. Jerome provou que era verdade. Ele partiu para o ataque e, para sua surpresa, Horace recuou diante da chuva de golpes dirigidos a ele. A confiança do valentão começou a crescer à medida que ele avançava, mas não percebeu que Horace bloqueava todos os golpes com muita facilidade, quase com desprezo. Os melhores golpes de Jerome nem chegavam perto de derrubar a defesa de Horace. Se o aprendiz do 2° ano estivesse batendo numa parede de pedra, o resultado seria o mesmo.
Então, Horace parou de recuar. Ficou firme e bloqueou o último golpe de Jerome com punho de ferro. Os dois ficaram frente a frente por alguns segundos, e Horace começou a empurrar Jerome para trás. Com a mão esquerda, agarrou o punho direito de Jerome, fazendo que suas armas ficassem entrelaçadas. Os pés de Jerome escorregaram na grama macia à medida que Horace o obrigava a andar cada vez mais para trás. Finalmente, ele deu um último empurrão e Jerome caiu estendido no chão.
Jerome viu o que tinha acontecido com Bryn e sabia que se render não era uma opção. Ele se levantou com dificuldade e se defendeu desesperadamente quando Horace começou o ataque. Jerome foi empurrado para trás por uma sucessão de cortadas à direita, à esquerda e para cima. Ele conseguiu bloquear alguns dos golpes, mas a velocidade extraordinária do ataque de Horace o derrotou. Os golpes aterrissavam nas suas pernas, nos seus cotovelos e nos seus ombros. Horace parecia se concentrar nos ossos que iriam doer mais. Ocasionalmente, usava a ponta arredondada da espada para dar estocadas nas costelas de seu oponente - com força apenas suficiente para machucar, sem quebrar os ossos.
Finalmente, Jerome ficou farto. Ele desviou do ataque, soltou a bengala e caiu no chão, protegendo a cabeça com as mãos. As costas estavam levantadas convidativamente no ar. Horace parou e olhou interrogativamente para Halt. O arqueiro fez um leve gesto na direção de Jerome.
- Por que não? - ele perguntou. - Não se tem uma oportunidade dessas todos os dias.
Mas até ele se encolheu diante do chute forte que Horace deu no traseiro de Jerome. Este, com o nariz na terra, escorregou pelo menos 1 metro para a frente.
Halt recolheu a bengala que Jerome tinha deixado cair. Ele a observou por um instante, testando seu peso e equilíbrio.
- Realmente não é uma boa arma - ele disse. - Por que será que eles escolheram essa? - perguntou, jogando-a para Alda. - Mexa-se.
O garoto loiro, ainda agachado na grama cuidando do tornozelo machucado, olhou descrente para a bengala. O rosto estava manchado pelo sangue que escorria do nariz ferido. Ele nunca mais teria a mesma boa aparência.
- Mas... mas... estou ferido! - ele protestou, levantando-se desajeitado.
Ele não acreditava que Halt estava exigindo que enfrentasse o mesmo castigo a que tinha acabado de assistir.
Halt pensou por um instante. Por um momento, um raio de esperança brilhou na mente de Alda.
- É verdade - o arqueiro concordou. - É verdade - ele murmurou, parecendo um pouco desapontado, e Alda começou a acreditar que o senso de justiça de Halt iria poupá-lo do castigo que seus amigos tinham sofrido. Então o rosto do arqueiro se iluminou.
- Mas espere um minuto... Horace também está ferido. Não é mesmo, Will?
- Com certeza, Halt - Will respondeu sorrindo, e a esperança de Alda desapareceu no mesmo instante.
- Você tem certeza de que não está ferido demais para continuar, Horace? - Halt perguntou, fingindo preocupação.
- Ah, acho que dou conta do recado - Horace respondeu com um sorriso frio.
- Bom, então está combinado! - Halt disse alegre. - Vamos continuar!
E Alda soube que ele também não teria escapatória. Enfrentou Horace com determinação, e o duelo final começou.
Alda era o melhor espadachim dos três rapazes e, durante alguns minutos, chegou a dar um pouco de trabalho para Horace. Mas, à medida que se estudavam com golpes e contragolpes, ataques e defesas, percebeu que Horace era superior e sentiu que sua única chance era tentar algo inesperado.
Ele se separou do oponente, mudou a posição da bengala e a segurou com as duas mãos como se fosse um varapau. Em seguida, desferiu uma série de golpes rápidos para a direita e para a esquerda.
Durante um segundo, Horace foi apanhado de surpresa e caiu para trás. Mas ele se recuperou com uma velocidade felina e dirigiu um golpe por cima da cabeça de Alda. O aluno do 2° ano tentou um contragolpe normalmente usado com o varapau, segurando a bengala nas duas pontas para bloquear o golpe da espada com a parte central. Na teoria, a tática estava correta. Na prática, a dura espada de madeira simplesmente atravessou a bengala, e Alda ficou segurando duas varas inúteis. Totalmente desanimado, ele as deixou cair e ficou indefeso na frente de Horace.
Horace olhou para o seu torturador de longa data e depois para a espada em sua mão.
- Não preciso disto - ele murmurou e deixou a espada cair.
O soco de direita que ele desferiu sobre o maxilar de Alda foi impulsionado pelo ombro, pelo peso do corpo e por meses de sofrimento e solidão - a solidão que somente a vítima de maus-tratos conhece.
Will arregalou levemente os olhos quando Alda se levantou, cambaleou para trás e finalmente desabou na terra ao lado dos dois amigos. Ele se lembrou das vezes em que tinha lutado com Horace no passado. Se soubesse que o colega era capaz de dar um soco daqueles, nunca teria se metido com ele.
Alda não se mexeu e provavelmente não se moveria por muito tempo. Horace recuou, sacudindo os dedos machucados e soltando um suspiro satisfeito.
- Você não tem idéia de como isso foi bom - ele disse. - Graças a você, arqueiro.
Halt balançou a cabeça compreensivo.
- Obrigado por ajudar quando atacaram Will. E, por falar nisso, meus amigos me chamam de Halt.
Nas semanas que se seguiram a esse confronto final com os três valentões, Horace percebeu uma mudança definitiva na vida na Escola de Guerra.
O fator mais importante na mudança foi que Alda, Bryn e Jerome foram expulsos da escola, do castelo e da vila vizinha. Sir Rodney estava desconfiado, fazia algum tempo, de que havia um problema entre as turmas de seus alunos mais novos. Uma visita discreta de Halt confirmou o problema, e a investigação resultante logo trouxe à tona toda a história de como Horace tinha sido maltratado. O julgamento de sir Rodney foi rápido e inflexível. Os três alunos do 2° ano tiveram meio dia para fazer as malas. Eles receberam uma pequena quantia em dinheiro, suprimentos para uma semana e foram transportados para a fronteira do feudo, onde receberam ordens claras para não voltar.
Depois que foram embora, o grupo de Horace melhorou consideravelmente. A rotina diária da Escola de Guerra ainda era dura e desafiadora como antes, mas, sem a carga adicional que Alda, Bryn e Jerome colocavam sobre ele, Horace descobriu que podia lidar facilmente com os exercícios, a disciplina e os estudos. Rapidamente, começou a desenvolver o potencial que sir Rodney tinha visto nele. Além disso, seus colegas de quarto, sem medo de ser vítimas da vingança dos valentões, começaram a ser mais agradáveis e amistosos.
Em resumo, Horace sentia que as coisas estavam realmente melhorando.
Ele só lamentava não ter podido agradecer adequadamente a Halt por sua vida ter melhorado. Depois dos acontecimentos na campina, Horace tinha ficado internado na enfermaria durante vários dias para tratamento dos hematomas e das contusões. Quando foi liberado, descobriu que Halt e Will já tinham partido para a Reunião dos Arqueiros.
- Falta muito? - Will perguntou, talvez pela décima vez naquela manhã.
Halt soltou um leve suspiro de desespero, mas não deu nenhuma resposta. Eles estavam na estrada havia três dias, e Will achava que deveriam estar perto do local da Reunião. Por várias vezes na última hora, ele tinha sentido um cheiro desconhecido no ar e mencionado o fato para Halt.
- É sal. Estamos chegando perto do mar - Halt mencionou brevemente, encerrando a explicação por ali.
Will olhou de relance para o seu professor, esperando que talvez ele se dignasse a lhe dar mais informações, mas os olhos vivos do arqueiro estavam examinando o chão na frente deles. Will percebeu que, de tempos em tempos, Halt olhava para as árvores que cercavam a estrada.
- Você está procurando alguma coisa? - Will perguntou, e Halt se virou na sela.
- Finalmente, uma pergunta útil. Sim, na verdade, estou. O chefe dos arqueiros colocou sentinelas ao redor do local da Reunião. Eu sempre tento enganá-los quando estou me aproximando.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt permitiu-se dar um leve sorriso.
- Isso os mantém ocupados - ele explicou. - Eles vão tentar se esconder atrás de nós e nos seguir para poder dizer que me pegaram numa emboscada. É um jogo bobo que gostam de jogar.
- Por que bobo?
O que faziam se parecia exatamente com os exercícios de habilidades que ele e Halt realizavam regularmente. O arqueiro grisalho virou-se na sela e olhou fixamente para Will.
- Por que eles nunca conseguem me pegar - ele respondeu. - E neste ano vão tentar ainda com mais vontade porque sabem que estou trazendo um aprendiz. Querem saber se você é mesmo bom.
- Isso faz parte do teste? - Will quis saber, e Halt assentiu.
- É o começo. Você se lembra do que eu falei ontem à noite? Will fez que sim com a cabeça. Nas duas noites anteriores, quando estavam ao redor da fogueira, Halt tinha dado conselhos e instruções para Will com sua voz macia e o tinha ensinado como agir na Reunião. Na noite passada, eles arquitetaram táticas para serem usadas no caso de uma emboscada. Exatamente o tipo de coisa que Halt tinha acabado de mencionar.
- Quando nós... - Halt começou, mas de repente ficou alerta. Ele levantou um dedo num pedido de silêncio, e Will o obedeceu.
A cabeça do arqueiro estava levemente inclinada para o lado. Os dois cavalos continuaram sem hesitar.
- Escutou? - Halt perguntou.
Will também inclinou a cabeça. Ele teve a ligeira impressão de ouvir um leve barulho de cascos de cavalos atrás deles, mas não tinha certeza. O andar dos cavalos deles mascarava qualquer som real vindo da trilha às suas costas. Se havia alguém ali, seu cavalo estava trotando no mesmo ritmo.
- Mude a marcha - Halt sussurrou. - No três. Um, dois, três. Ao mesmo tempo, os dois cutucaram as laterais dos cavalos com o pé esquerdo. Aquele era só um dos muitos sinais aos quais Puxão e Abelard tinham sido treinados para responder.
No mesmo instante, os dois cavalos hesitaram em sua passada. Pareceram pular um passo e depois continuaram com passadas uniformes.
Mas a hesitação tinha mudado o padrão das batidas dos cascos e, por um instante, Will pôde ouvir outro conjunto de cascos de cavalo atrás deles como um eco levemente atrasado. Então o outro cavalo também mudou o ritmo das passadas para ficar igual aos deles e o som desapareceu.
- Cavalo de arqueiro - Halt disse em voz baixa. - Tenho certeza de que é Gilan.
- Como você sabe? - Will perguntou.
- Só o cavalo de um arqueiro pode mudar a passada tão depressa. E é Gilan, porque é sempre ele. Ele adora tentar me superar.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt olhou para ele sério.
- Porque ele foi o meu último aprendiz - explicou. - E, por algum motivo, antigos aprendizes simplesmente adoram pegar seus antigos mestres desprevenidos.
Ele olhou de um jeito acusador para o seu aprendiz atual. Will ia protestar e dizer que nunca iria se comportar daquela maneira depois de formado e então se deu conta de que talvez fizesse isso na primeira oportunidade. O protesto morreu sem ser manifestado.
Halt pediu silêncio com um sinal e examinou a trilha diante deles.
- É aquele lugar ali - ele apontou. - Pronto?
Havia uma grande árvore ao lado da trilha, com galhos que pendiam na altura da cabeça deles. Will analisou-a por um momento e então as sentiu. Puxão e Abelard continuaram no seu ritmo regular em direção à árvore. Quando se aproximaram, Will tirou os pés dos estribos, levantou-se e ficou agachado nas costas de Puxão. O cavalo não mudou o ritmo das passadas quando seu dono mudou de posição.
Ao passarem debaixo dos galhos, Will segurou o mais baixo com a mão e pendurou-se nele. No mesmo instante em que seu peso saiu das costas de Puxão, o pequeno cavalo começou a trotar mais vigorosamente, batendo os cascos com força no chão a cada passo para que o rastreador que os seguia não percebesse que sua carga tinha ficado mais leve de repente.
Em silêncio, Will subiu mais alto na árvore até encontrar um ponto em que pudesse se apoiar com firmeza e enxergar bem. Ele viu Halt e os dois cavalos andando devagar pela trilha.
Quando chegaram à curva seguinte, Halt fez que Puxão continuasse trotando, parou Abelard e desceu da sela. Ele se ajoelhou e pareceu examinar o chão em busca de pegadas.
Naquele momento, Will conseguiu ouvir o outro cavalo atrás deles. Ele olhou para o caminho que tinham percorrido, mas outra curva escondia quem os seguia.
Então, o suave bater dos cascos parou.
A boca de Will estava seca, e seu coração batia cada vez mais rápido dentro do peito. Ele tinha certeza de que o som podia ser ouvido por qualquer pessoa num raio de cerca de 50 metros. Mas seu treinamento falou mais alto, e ele ficou imóvel no galho da árvore entre as folhas e sombras, observando a trilha atrás deles.
Um movimento!
Will o viu com o canto do olho, e então o movimento parou. Ele espiou o local com atenção durante um ou dois segundos e se lembrou das lições de Halt: "Não concentre sua atenção num lugar. Deixe o foco aberto e continue investigando. Você vai ver o outro como um movimento, não como uma figura. Lembre-se, ele também é um arqueiro e foi treinado na arte de não ser visto."
Will abriu o foco e examinou a floresta atrás deles. Dentro de segundos, foi recompensado com outro sinal de movimento. Um galho voltou ao lugar quando uma figura invisível passou silenciosamente.
Então, 10 metros adiante, um arbusto se agitou de leve. Em seguida, ele viu um feixe de grama alta voltar ao normal depois de ter sido amassado temporariamente por um pé que passou.
Will continuou imóvel como uma estátua. Ele ficou admirado com o fato de que seu perseguidor conseguia andar pela floresta sem ser visto. Obviamente, o outro arqueiro tinha deixado o cavalo para trás e estava seguindo Halt a pé. Os olhos de Will se mexeram rapidamente para dar uma olhada em Halt. Seu professor ainda parecia estar preocupado com algum tipo de sinal no chão.
Outro movimento veio da floresta. O arqueiro invisível tinha passado pelo esconderijo de Will e estava voltando para a trilha com a intenção de surpreender Halt pelas costas.
De repente, uma figura alta de capa cinza-esverdeado pareceu sair do chão no meio da trilha uns 20 metros atrás do vulto ajoelhado de Halt. Will piscou. Num momento, não havia ninguém ali; no outro, a figura pareceu se materializar do nada. A mão de Will começou a se mover na direção da aljava pendurada em suas costas, mas então ele interrompeu o movimento. Halt tinha dito na noite anterior: "Espere até que estejamos conversando. Se ele não estiver falando, vai escutar o menor movimento que você fizer."
Will engoliu em seco e desejou que a figura alta não tivesse escutado o movimento de sua mão na direção da aljava. E ele parecia ter parado a tempo. Ouviu uma voz alegre aos gritos vinda lá de baixo.
- Halt, Halt!
Halt se virou e se levantou devagar, limpando a terra dos joelhos enquanto se erguia. Ele inclinou a cabeça para o lado e analisou o vulto no meio da trilha, apoiado num arco comprido igual ao dele.
- Ora, Gilan. Vejo que você está pregando a mesma peça.
- Parece que a peça está sendo pregada em você este ano, Halt - o alto arqueiro respondeu, dando de ombros.
Enquanto Gilan falava, a mão de Will se moveu rapidamente, mas em silêncio, para a aljava. Ele escolheu uma flecha e a posicionou na corda do arco.
- É mesmo, Gilan? E que peça é essa? - Halt perguntou.
O divertimento era evidente na voz de Gilan quando respondeu ao antigo mestre.
- Ora, Halt, admita. Desta vez consegui superar você. E você sabe há quantos anos venho tentando!
Pensativo, Halt esfregou a barba grisalha com a mão.
- E, para falar a verdade, eu me pergunto por que você continua tentando, Gilan.
- Você devia saber quanto prazer um antigo aprendiz tem ao superar o mestre, Halt. Agora, vamos lá, confesse. Este ano eu venci.
Enquanto o homem alto falava, Will puxou a flecha com cuidado, mirando o tronco de uma árvore uns 2 metros à esquerda de Gilan. As instruções de Halt ecoavam em seus ouvidos: "Escolha um alvo próximo para assustá-lo quando atirar, mas, pelo amor de Deus, não perto demais. Não vá atravessá-lo com a flecha!"
Halt não tinha mudado de posição no meio da trilha. Gilan agora estava inquieto, passando o peso do corpo de uma perna para outra. A atitude tranquila de Halt estava começando a perturbá-lo. Parecia que, de repente, ele não estava totalmente certo de que Halt estava somente tentando blefar para escapar da armadilha.
As próximas palavras de Halt aumentaram suas suspeitas.
- Ah, sim... aprendizes e mestres. É verdade, eles formam uma combinação estranha. Mas, diga, Gilan, meu velho aprendiz, você não está esquecendo nada este ano?
Talvez tenha sido o jeito como Halt deu um pouco mais de ênfase à palavra "aprendiz", mas de repente Gilan percebeu que tinha cometido um erro. Ele começou a virar a cabeça e a procurar o aprendiz de que tinha se esquecido.
Quando começou o movimento, Will soltou a flecha.
A arma sibilou pelo ar, passou pelo alto arqueiro e penetrou, estremecendo, na árvore que Will tinha escolhido. Gilan deu um pulo para trás assustado e então seu olhar saltou para os galhos da árvore onde Will estava escondido. Este se admirou com o fato de que, mesmo tendo sido pego de surpresa, Gilan ainda tenha conseguido reagir tão rapidamente e identificar a direção de onde o atacante tinha atirado.
Gilan balançou a cabeça aborrecido. Seus olhos espertos conseguiram ver o pequeno vulto cinza e verde escondido nas sombras da folhagem da árvore.
- Desça, Will - Halt chamou. - Venha conhecer Gilan. E para este:
- Eu lhe disse quando você era garoto, não foi? Nunca seja apressado. Não corra para fazer as coisas.
Gilan assentiu um tanto desanimado. E pareceu ainda mais abatido quando Will pulou no chão e o alto arqueiro viu como ele era pequeno e jovem.
- Parece que eu estava tão determinado a apanhar uma velha raposa cinzenta que ignorei o pequeno macaco escondido nas árvores - ele disse rindo do próprio erro.
- Macaco? - Halt repetiu com aspereza. - Eu diria que hoje o macaco foi você. Will, este é Gilan, meu antigo aprendiz e agora arqueiro do feudo Meric, embora eu não tenha idéia do que eles tenham feito para merecer ele lá.
O sorriso de Gilan se alargou, e ele estendeu a mão para Will.
- E exatamente quando eu estava pensando que finalmente tinha vencido você, Halt - ele disse contente. - Então você é Will - continuou, apertando a mão do garoto com firmeza. - Estou satisfeito em conhecer você. Esse foi um excelente trabalho, meu jovem.
Will sorriu para Halt, e o arqueiro mais velho fez um leve movimento significativo com a cabeça. Will se lembrou das instruções finais que Halt tinha lhe dado na noite anterior: "Quando você superar um homem, nunca se vanglorie. Seja generoso e encontre alguma coisa nas ações dele para elogiar. Ele não vai gostar de ser vencido, mas vai enfrentar o fato com coragem. Mostre que você gostou do que ele fez. Elogios podem lhe conseguir um amigo. Divertir-se com a desgraça dos outros só cria inimigos."
- Sim, sou Will. Será que você pode me ensinar como consegue se mover desse jeito? Foi ótimo.
- Acho que nem tanto - Gilan retrucou rindo desanimado. - É óbvio que você me viu chegando de longe.
Will balançou a cabeça negativamente, lembrando-se de como tinha sido difícil ver Gilan. Seu elogio e seu pedido eram mais verdadeiros do que tinha percebido.
- Vi quando você chegou - ele disse. - E vi onde você tinha estado, mas nunca vi você depois que fez aquela curva. Gostaria de saber me mover assim.
O rosto de Gilan se iluminou de prazer diante da sinceridade de Will.
- Bom, Halt, vejo que esse jovem rapaz não tem só talento. Ele também é muito educado.
Halt olhou para os dois, o atual aprendiz e o antigo aluno. Ele acenou para Will com a cabeça, aprovando suas palavras diplomáticas.
- Movimentar-se como um ser invisível sempre foi a melhor habilidade de Gilan - Halt disse. - Você se daria bem se ele concordasse em lhe dar umas aulas.
Ele foi até o ex-aprendiz e colocou o braço ao redor de seus ombros.
- É bom ver você de novo.
Eles se abraçaram com afeto, e então Halt se afastou um pouco e o observou com atenção.
- Você fica mais magro a cada ano - ele disse finalmente. - Quando vai pôr alguma carne em cima desses ossos?
Gilan sorriu e ficou evidente que aquela era uma velha piada entre eles.
- Parece que você tem o suficiente para nós dois - o rapaz retrucou, cutucando as costelas de Halt com força. - Esse é o começo de uma barriguinha de cerveja?
Ele riu para Will.
- Acho que ele fica sentado na cabana e deixa você fazer todo o trabalho, não é?
Antes que Halt ou Will pudessem responder, ele se virou e soltou um assobio. Alguns segundos depois, seu cavalo apareceu, trotando pela curva na estrada. Quando o jovem arqueiro foi até o animal e montou na sela, Will notou uma espada que pendia da bainha. Ele se virou para Halt confuso.
- Pensei que não podíamos ter espadas - ele comentou em voz baixa.
Halt franziu a testa por um momento, sem compreender. Então seguiu o olhar de Will e percebeu o que tinha provocado o comentário.
- Não é que não tenhamos permissão - ele explicou enquanto os dois montavam. - É uma questão de prioridades. Leva anos para se tornar um bom espadachim, e não temos esse tempo. Temos outras habilidades para desenvolver.
Ele viu a próxima pergunta se formando nos lábios de Will e continuou.
- O pai de Gilan é um cavaleiro, então ele já vinha treinando com a espada durante alguns anos antes de se juntar aos arqueiros. Foi considerado um caso especial e teve permissão de continuar esse treinamento quando foi meu aprendiz.
- Mas pensei... - Will começou e hesitou.
O cavalo de Gilan se aproximava trotando, e Will não tinha certeza de que seria educado fazer a próxima pergunta na presença de Gilan.
- Nunca diga isso na frente de Halt - Gilan disse, ouvindo suas últimas palavras. - Ele simplesmente vai dizer: "Você é um aprendiz, não está aqui para pensar" ou "Se você tivesse pensado nisso, não iria perguntar."
Will teve que sorrir. Halt tinha usado exatamente as mesmas palavras em mais de uma ocasião, e a imitação de Gilan era excelente. Naquele momento, contudo, os dois homens estavam olhando para Will esperando ouvir a pergunta que estava prestes a fazer, então continuou.
- Se o pai de Gilan era um cavaleiro, ele não era automaticamente candidato à Escola de Guerra? Ou acharam que ele também era muito pequeno?
Halt e Gilan trocaram um olhar. Halt ergueu uma sobrancelha e fez um gesto para que Gilan respondesse.
- Eu poderia ter ido para a Escola de Guerra, mas preferi me juntar aos arqueiros - ele contou.
- Alguns fazem isso - Halt acrescentou com suavidade.
Will pensou nisso. Ele sempre supôs que os arqueiros não tinham ligação com os nobres do reino. Aparentemente, estava enganado.
- Mas pensei... - ele começou e no mesmo instante percebeu seu erro.
Halt e Gilan olharam para ele, depois um para o outro e disseram em coro:
- Você é um aprendiz, não está aqui para pensar. Em seguida eles viraram os cavalos e saíram trotando. Will correu para pegar Puxão e os seguiu. Quando alcançou os dois arqueiros, eles afastaram os cavalos para os lados, deixando espaço para ele. Gilan sorriu, mas Halt estava sombrio como sempre. Porém, enquanto continuavam a cavalgar num silêncio amistoso, Will teve a reconfortante sensação de que agora fazia parte de um grupo exclusivo e fortemente unido.
Era uma sensação agradável, de estar no lugar certo, como se, de alguma forma, ele tivesse chegado à sua casa pela primeira vez na vida.
- Aconteceu alguma coisa - Halt disse em voz baixa, fazendo sinal para os dois companheiros pararem os cavalos.
Os três cavaleiros haviam andado a meio galope no último meio quilômetro. Agora haviam aumentado um pouco a velocidade, e o espaço aberto entre as árvores estava bem à sua frente, a cerca de 100 metros de distância. Pequenas barracas individuais se estendiam em filas ordenadas, e a fumaça das fogueiras usadas para o preparo da comida enchia o ar. Um estande para prática de arco-e-flecha tinha sido instalado num dos lados do espaço aberto, e várias dezenas de cavalos, todos pequenos e desgrenhados cavalos de arqueiros, estavam pastando perto das árvores.
Os três companheiros sentiram um ar de urgência e atividade em todo o acampamento. No centro das fileiras de barracas, havia um pavilhão maior, de 4 x 4 metros e com altura suficiente para permitir que um homem alto ficasse de pé. Os panos laterais estavam enrolados para cima naquele momento, e Will pôde ver um grupo de homens vestidos de verde e cinza parados ao redor de uma mesa, aparentemente mergulhados numa conversa. De repente, um dos membros do grupo se afastou e correu para um cavalo que esperava do lado de fora da entrada. Ele montou, virou o cavalo e disparou pelo acampamento a galope na direção da trilha estreita entre as árvores do outro lado.
Ele tinha acabado de desaparecer nas sombras profundas debaixo das árvores quando outro cavaleiro apareceu da direção oposta, galopando entre as fileiras e parando fora da grande barraca. Seu cavalo mal tinha parado quando ele saltou para o chão e foi se juntar ao grupo do lado de dentro.
- O que aconteceu? - Will perguntou. De testa franzida, ele percebeu que várias das pequenas barracas estavam sendo desfeitas e enroladas por seus donos.
- Não tenho certeza - Halt respondeu, fazendo um gesto na direção das fileiras de barracas. - Veja se consegue encontrar um bom lugar para acamparmos. Vou ver o que está acontecendo.
Ele fez Abelard ir para a frente, virou-se e gritou:
- Não monte as barracas ainda. Pelo que parece, talvez não precisemos delas.
Os cascos de Abelard bateram com força no chão enquanto ele galopava na direção do centro do acampamento.
Will e Gilan encontraram um local para acampar debaixo de uma arvore grande relativamente perto da área central de reunião. Depois disso, sem saber ao certo o que fazer em seguida, eles se sentaram num tronco e esperaram a volta de Halt. Como um arqueiro de posição elevada, Halt tinha acesso ao pavilhão maior que, segundo a explicação de Gilan, era a barraca de comando. O comandante do grupo, um arqueiro chamado Crowley, se encontrava ali com seu pessoal todos os dias para organizar as atividades, bem como para conferir e avaliar os relatórios e as informações que os arqueiros traziam para a Reunião.
Quase todas as barracas perto dos dois arqueiros mais jovens estavam desocupadas, mas havia um arqueiro magro e desengonçado do lado de fora de uma delas, andando impacientemente de um lado para outro, parecendo tão confuso quanto Gilan e Will. Ao vê-los no tronco, ele se aproximou.
- Alguma novidade? - ele perguntou imediatamente, ficando desanimado quando ouviu a resposta de Gilan.
- Íamos fazer a mesma pergunta - Gilan disse, estendendo a mão para cumprimentar o rapaz. - Você é Merron, não é?
Os dois trocaram um aperto de mão.
- Isso mesmo. E, se me lembro bem, você é Gilan.
Gilan apresentou Will, e o recém-chegado, que parecia ter uns 30 anos, olhou para ele curioso.
- Então você é o novo aprendiz de Halt - ele comentou. - Nós estávamos querendo saber como você era. Eu ia ser um dos seus avaliadores.
- Ia ser? - Gilan perguntou depressa.
- Sim - Merron respondeu, olhando para ele. - Duvido que a gente continue com a Reunião agora - ele hesitou e acrescentou: - Quer dizer que vocês não estão sabendo?
Os dois recém-chegados balançaram a cabeça negativamente.
- Morgarath está planejando alguma coisa outra vez - ele disse em voz baixa, e Will sentiu um calafrio na espinha ao ouvir o nome perverso.
- O que aconteceu? - Gilan perguntou atento.
Merron sacudiu a cabeça, remexendo a terra na sua frente com a ponta da bota num gesto de frustração.
- Não há notícias claras ainda, apenas informações incompletas. Mas parece que um exército de Wargals saiu do desfiladeiro de Três Passos há alguns dias. Eles derrotaram as sentinelas e foram para o norte.
- Morgarath estava com eles? - Gilan quis saber.
Will ficou quieto e de olhos arregalados. Ele não conseguia fazer perguntas, nem mesmo pronunciar o nome de Morgarath.
- Não sabemos - Merron respondeu. - Acho que não, nesse estágio, mas Crowley tem mandado patrulheiros para investigar nos últimos dois dias. Talvez seja apenas um ataque surpresa, mas, se for mais do que isso, é possível que signifique o início de outra guerra. Se for isso, foi um péssimo momento para perder lorde Lorriac.
- Lorriac está morto? - Gilan perguntou com preocupação na voz, e Merron assentiu.
- Parece que foi um derrame ou um ataque do coração. Ele foi encontrado morto alguns dias atrás e não havia nenhuma marca em seu corpo. Estava olhando direto para a frente. Morto e frio como pedra.
- Mas ele estava na sua melhor fase! - Gilan exclamou. - Eu vi ele há somente um mês e ele estava saudável como um touro.
Merron deu de ombros. Ele não tinha explicação, somente conhecia os fatos.
- Acho que isso pode acontecer com qualquer um - ele disse. A gente nunca sabe.
- Quem é lorde Lorriac? - Will perguntou para Gilan em voz baixa.
Pensativo, o jovem arqueiro balançou a cabeça enquanto respondia.
- Lorriac de Steden. Ele era o líder da cavalaria pesada do rei. Provavelmente nosso melhor comandante. Como Merron disse, se houver uma guerra, sentiremos muito a falta dele.
A mão fria do medo pousou no coração de Will. Toda a sua vida as pessoas falaram de Morgarath em voz baixa, isso quando falavam dele. O Grande Inimigo tinha quase assumido as proporções de um mito: uma lenda de tempos antigos e sombrios. Agora o mito estava se tornando realidade mais uma vez. Uma realidade desafiadora e apavorante. Ele olhou para Gilan em busca de tranquilidade, mas o rosto bonito do jovem arqueiro não mostrou nada além de dúvida e preocupação em relação ao futuro.
Halt demorou quase uma hora para se juntar a eles outra vez. Como já passava do meio-dia, Will e Gilan tinham preparado uma refeição com pão, carne fria e frutas secas. O arqueiro grisalho escorregou da sela de Abelard, aceitou um prato de Will e comeu rapidamente.
- A Reunião terminou - ele disse entre uma mordida e outra. Ao ver a chegada do arqueiro mais velho, Merron tinha voltado a se reunir ao grupo. Ele e Halt se cumprimentaram rapidamente e então Merron fez a pergunta que estava na mente de todos.
- É a guerra? - ele perguntou ansiosamente, e Halt balançou a cabeça.
- Não temos certeza. As últimas informações mostram que Morgarath ainda está nas montanhas.
- Então por que os Wargals saíram? - Will perguntou. Todos sabiam que os Wargals só faziam a vontade de Morgarath. Eles nunca teriam agido de forma tão radical sem ordens dele. A expressão de Halt estava sombria quando respondeu.
- Eles são apenas um grupo pequeno, talvez 50. A intenção foi usá-los para desviar a atenção. Crowley acha que, enquanto nossos guardas estavam ocupados perseguindo os Wargals, os dois Kalkaras saíram das Montanhas e se esconderam em algum lugar da Planície Solitária.
Gilan assobiou baixinho, e Merron até deu um passo para trás surpreso. O rosto dos dois jovens arqueiros mostrava seu grande horror diante das notícias. Will não tinha idéia do que eram os Kalkaras, mas, a julgar pela expressão de Halt e as reações de Gilan e Merron, as notícias obviamente não eram boas.
- Você quer dizer que eles ainda existem? - Merron perguntou. - Pensei que tinham morrido anos atrás.
- Ah, sim, eles ainda existem - Halt confirmou. - Sobraram apenas dois, mas é o bastante para ficarmos preocupados.
Houve um grande silêncio. Finalmente e com hesitação, Will teve que perguntar:
- Quem são eles?
Halt balançou tristemente a cabeça. Não queria discutir aquele assunto com alguém tão jovem quanto Will, mas, sabendo o que os esperava, não tinha escolha. O garoto tinha que saber.
- Quando Morgarath estava planejando sua rebelião, ele queria mais que um exército comum. Sabia que sua tarefa seria mais fácil se conseguisse aterrorizar seus inimigos. Assim, durante vários anos, ele fez uma série de expedições para as Montanhas da Chuva e da Noite, procurando.
- Procurando o quê? - Will perguntou, embora tivesse a incômoda sensação de que sabia qual seria a resposta.
- Aliados que pudesse usar contra o reino. As montanhas são uma parte antiga e tranquila do mundo. Elas permaneceram inalteradas durante séculos, e havia rumores de que estranhas bestas e monstros antigos ainda viviam ali. Acontece que os rumores se confirmaram. - Wargals - Will comentou, e Halt assentiu. - Sim, Wargals. Morgarath os escravizou rapidamente e os fez cumprir sua vontade - Halt completou com um toque de amargura na voz. - Mas então ele encontrou os Kalkaras. E eles são piores que os Wargals. Muito, muito piores.
Will não disse nada. Pensar em bestas que eram piores que os Wargals o deixava, no mínimo, perturbado.
- Eles eram três, mas um foi morto há cerca de oito anos, por isso sabemos um pouco mais sobre eles. Pense numa criatura em algum ponto entre um macaco e um urso que anda sobre duas patas e você vai ter uma idéia da aparência de um Kalkara.
- Então Morgarath os controla com a mente, como faz com os Wargals? - Will perguntou.
- Não. Eles são mais inteligentes do que os Wargals, mas são totalmente obcecados por prata. Eles adoram e guardam prata e parece que Morgarath dá para os Kalkaras grandes quantidades de prata para que façam o que ele quer. E o fazem bem. Podem ser incrivelmente espertos quando perseguem uma presa.
- Presa? Que tipo de presa? - Will quis saber.
Halt e Gilan trocaram um olhar, e Will pôde ver que seu mentor estava relutante em falar no assunto. Mas o arqueiro grisalho respondeu em voz baixa:
- Os Kalkaras são assassinos. Quando recebem ordens para capturar uma determinada vítima, fazem tudo o que podem para alcançar e matar essa pessoa.
- Podemos impedir os Kalkaras? - Will perguntou, e seu olhar passou rapidamente para o arco pesado de Halt e a aljava repleta de flechas negras.
- É difícil matar eles. São cobertos por pêlos grossos emaranhados e tão fechados que quase parecem escamas. Uma flecha dificilmente penetra neles. Uma acha ou uma espada de folha larga funciona melhor.
Ou talvez um bom golpe com uma lança pesada dê resultado.
Will sentiu um momento de alívio. Esses Kalkaras estavam parecendo quase invencíveis, mas havia muitos cavaleiros no reino que, sem dúvida, eram capazes de dar conta deles.
- Então foi um cavaleiro que matou um deles há oito anos? Halt balançou a cabeça.
- Não foi um cavaleiro. Foram três. Foram necessários três cavaleiros totalmente armados para matar a criatura, e apenas um deles sobreviveu à batalha. E o que é pior: ele ficou aleijado para o resto da vida - Halt terminou carrancudo.
- Três homens? Todos cavaleiros? - Will indagou sem acreditar. - Mas como...
Gilan o interrompeu antes que pudesse terminar.
- O problema é que, se você se aproximar o bastante para usar uma espada ou lança, geralmente os Kalkaras derrotam você antes que tenha alguma chance.
Enquanto ele falava, seus dedos batiam levemente no cabo da espada que usava na cintura.
- E como eles fazem isso? - Will quis saber, sentindo o alívio momentâneo ser instantaneamente afastado pelas palavras de Gilan.
- Seus olhos - explicou Merron, o arqueiro desajeitado. - Se você olhar nos olhos deles, fica paralisado e indefeso, do mesmo jeito que um pássaro fica paralisado pelo olhar de uma cobra antes de ser morto por ela.
Will olhou para os três companheiros sem compreender. O que Merron tinha dito parecia improvável demais para ser verdade, mas Halt não o contradisse.
- Paralisa você... como eles podem fazer isso? Você está falando de magia?
Halt deu de ombros. Merron olhou para o lado, pouco à vontade. Nenhum deles gostava de discutir aquele assunto.
- Algumas pessoas dizem que é magia - Halt disse finalmente.
- Acho mais provável que seja uma forma de hipnotismo. Seja como for, Merron esta certo. Se um Kalkara fizer você olhar nos olhos dele, você fica paralisado de puro terror, incapaz de fazer qualquer coisa para se salvar.
Will olhou ao redor ansioso, como se esperasse ver uma criatura macaco-urso sair de dentro das árvores silenciosas a qualquer momento. Ele sentiu o pânico crescendo no peito. De alguma forma, tinha acreditado que Halt era invencível e, no entanto, ele estava ali, aparentemente admitindo que não havia defesa contra aqueles monstros perversos.
- Não há nada que se possa fazer? - ele perguntou numa voz desanimada.
- Diz a lenda que eles são especialmente vulneráveis ao fogo - Halt contou, dando de ombros. - O problema é, como já sabemos, conseguirmos nos aproximar o bastante para causar qualquer dano. Carregar uma chama acesa dificulta a tarefa de perseguir um Kalkara. Eles costumam caçar à noite e podem ver você se aproximando.
Will achou difícil acreditar no que estava ouvindo. Halt parecia muito realista sobre o assunto, e Gilan e Merron obviamente ficaram perturbados com as notícias que ele trouxe.
Seguiu-se um silêncio estranho, quebrado por Gilan.
- O que faz Crowley pensar que Morgarath está usando Kalkaras? Halt hesitou. Ele tinha ouvido a opinião de Crowley numa reunião particular. Então deu de ombros. Todos precisariam saber de tudo cedo ou tarde e todos eram membros do Grupo dos Arqueiros, até Will.
- Ele já usou duas vezes no ano passado: para matar lorde Northolt e lorde Lorriac.
Os três homens mais jovens trocaram olhares surpresos, e Halt continuou:
- Pensou-se que Northolt havia sido morto por um urso, lembram?
Will acenou com a cabeça de leve. Agora ele lembrava. No primeiro dia como aprendiz de Halt, o arqueiro tinha recebido a notícia da morte do comandante supremo.
- Na época, achei que Northolt era um caçador habilidoso demais para ser morto daquele jeito. É óbvio que Crowley concorda.
- Mas e quanto a Lorriac? Todos dizem que foi um derrame - Merron comentou.
Halt olhou para ele brevemente e então respondeu.
- Você ouviu isso, não foi? Bem, o médico dele ficou muito surpreso. Ele disse que nunca tinha visto homem mais saudável. Por outro lado... - ele fez uma pausa, e Gilan terminou seu pensamento.
- Pode ter sido obra dos Kalkaras.
- Exatamente - Halt concordou. - Não conhecemos todos os efeitos do olhar paralisante. Mantido durante um longo período de tempo, o terror pode muito bem ser suficiente para parar o coração de um homem. E houve algumas informações vagas sobre um animal grande e escuro visto na região.
Novamente, o silêncio se instalou no pequeno grupo debaixo das árvores. Em volta deles, os arqueiros se agitavam de um lado para outro, levantando acampamento e selando os cavalos. Halt finalmente os despertou de seus pensamentos.
- É melhor irmos andando. Merron, você precisa voltar ao seu feudo. Crowley quer o exército alerta e mobilizado. As ordens vão ser distribuídas em poucos minutos.
Merron assentiu e se afastou na direção de sua barraca, mas parou e voltou. Algo na voz de Halt, na forma como tinha dito "você precisa voltar ao seu feudo", o fez pensar.
- E vocês três? - ele perguntou. - Para onde vocês vão? Antes mesmo que Halt respondesse, Will soube o que ele ia dizer.
Mas isso não tornou o fato menos assustador ou apavorante quando as palavras foram ditas.
- Nós vamos atrás dos Kalkaras.
O acampamento fervia. Barracas eram desmontadas e arqueiros guardavam seus equipamentos, amarrando-os nas sacolas das selas. Os primeiros integrantes do grupo já tinham partido e voltavam para os seus feudos.
Will estava ajustando as cordas das mochilas nas selas depois de repor alguns itens que tinha tirado. Halt estava sentado a alguns metros de distância, com a testa franzida, pensativo, estudando o mapa da região que cercava a Planície Solitária. A planície era uma área grande que ainda não tinha sido mapeada e não apresentava estradas. Uma sombra caiu sobre Halt e ele olhou para cima. Gilan estava parado ao seu lado com um ar preocupado no rosto.
- Halt, você tem certeza sobre isso? - ele perguntou em voz baixa e preocupada.
- Toda certeza, Gilan. Isso simplesmente tem que ser feito - Halt respondeu, olhando-o com determinação.
- Mas ele é só um garoto! - Gilan protestou, olhando para Will que estava amarrando um saco de dormir atrás da sela de Puxão.
Halt suspirou e desviou o olhar.
- Sei disso, mas ele é um arqueiro. Aprendiz ou não, ele é um membro da corporação como todos nós.
Ele viu que Gilan ia protestar outra vez, preocupado com Will, e sentiu uma onda de afeição pelo antigo aprendiz.
- Gilan, num mundo ideal eu não colocaria Will em risco desse jeito. Mas não estamos num mundo ideal. Todos vão ter que desempenhar seu papel nessa campanha, até meninos como Will. Morgarath está se preparando para algo grande. Os agentes de Crowley ouviram dizer que, além de tudo, ele tem entrado em contato com os escandinavos. - Os escandinavos? Para quê?
- Não sabemos os detalhes, mas na minha opinião ele está esperando formar uma aliança com eles - Halt respondeu, dando de ombros. - Eles lutam com qualquer um por dinheiro. E, pelo que parece, lutam por qualquer um - ele acrescentou, deixando clara sua antipatia por mercenários. - O caso é que estamos com falta de pessoal. Normalmente, eu iria atrás dos Kalkaras com um grupo de pelo menos cinco arqueiros mais antigos. Mas Crowley simplesmente não pode ceder eles para mim. Assim, tive que me contentar com os dois em quem mais confio: você e Will.
- Ora, obrigado.
Gilan deu um sorriso torto. Ele estava emocionado com a confiança de Halt. Ainda admirava seu antigo mentor. Quase todos na Corporação de Arqueiros o faziam.
- Além disso, acho que essa sua velha espada enferrujada pode ser útil se nos depararmos com um desses horrores - Halt disse.
A Corporação de Arqueiros tinha tomado a decisão acertada quando permitiu que Gilan continuasse o treinamento com a arma. Embora poucas pessoas soubessem, Gilan era um dos melhores espadachins em Araluen.
- Quanto a Will - ele continuou -, não o subestime. Ele é muito habilidoso. É rápido, corajoso e já maneja muito bem o arco e as flechas. E, o que é melhor, pensa rápido. Meu verdadeiro plano é mandar ele buscar reforços se encontrarmos pistas dos Kalkaras. Isso vai nos ajudar e vai manter ele longe do perigo.
Pensativo, Gilan coçou o queixo. Agora que Halt tinha explicado o que pretendia, aquele parecia o único caminho a tomar. Ele encontrou o olhar do homem mais velho e acenou com a cabeça mostrando que entendia a situação. Então se virou para organizar seu material, mas descobriu que Will já tinha arrumado tudo e amarrado à sela de seu cavalo. Ele sorriu para Halt.
- Você tem razão - ele disse. - O garoto sabe usar a cabeça.
Os três partiram um pouco depois, enquanto os outros arqueiros ainda estavam recebendo ordens. Mobilizar o exército de Araluen não seria uma tarefa insignificante, e os arqueiros deveriam coordená-la e depois estar preparados para guiar as forças individuais dos 50 feudos para o ponto de reunião nas planícies de Uthal. Com Gilan e Halt designados para procurar os Kalkaras, os outros arqueiros tinham que assumir a tarefa de coordenar as forças de seus feudos.
Os três companheiros pouco falaram quando Halt os guiou para o sudeste. Até a curiosidade natural de Will foi abrandada pela magnitude da tarefa que os esperava. Enquanto cavalgavam em silêncio, a sua mente ficava formando imagens de criaturas selvagens parecidas com ursos e com feições de macaco. Criaturas que poderiam muito bem se mostrar invencíveis, até para alguém com as habilidades de Halt.
Por fim, contudo, a monotonia se instalou, as imagens terríveis desapareceram e ele começou a se perguntar que plano, se havia algum, Halt tinha em mente.
- Halt - ele chamou um tanto sem fôlego -, onde você espera encontrar os Kalkaras?
Halt observou o rosto sério ao seu lado. Eles estavam viajando no ritmo da marcha forçada dos arqueiros: quarenta minutos na sela, cavalgando num galope regular, e depois vinte minutos a pé, conduzindo os cavalos e permitindo que viajassem sem carga, enquanto os homens corriam num trote uniforme.
A cada quatro horas, eles paravam para uma hora de descanso, quando faziam uma refeição rápida de carne seca, pão duro e frutas, e então se embrulhavam em suas capas para dormir.
Eles já estavam viajando fazia algum tempo e Halt achou que era hora de descansar. Ele levou Abelard para fora da estrada, para o abrigo de um pequeno bosque. Will e Gilan o seguiram, largando as rédeas e deixando os cavalos pastar.
- O melhor - Halt disse em resposta à pergunta de Will - é começar a procurar na toca e ver se eles estão nas vizinhanças.
- E sabemos onde essa toca fica? - Gilan perguntou.
- Nossos espiões acham que fica em algum lugar na Planície Solitária, além das Flautas de Pedra. Vamos investigar essa região e ver o que encontrarmos. Se eles estiverem por ali, certamente vamos descobrir que uma ou outra ovelha ou cabra está faltando nas vilas da vizinhança. Conseguir que os moradores falem vai ser outro problema. Os habitantes das planícies são as pessoas mais fechadas de todos os tempos.
- O que é essa planície de que vocês estão falando? - Will perguntou com a boca cheia de pão seco. - E que raios é uma Flauta de Pedra?
- A Planície Solitária é uma área grande e plana. Tem muito poucas árvores e é coberta principalmente por massas rochosas e capim alto - Halt contou para ele. - Parece que o vento está sempre soprando, não importa a época do ano em que você vá para lá. É um lugar triste e deprimente, e as Flautas de Pedra são a parte mais sombria de lá.
- Mas o que são... - Will começou, mas Halt só tinha feito uma breve pausa.
- As Flautas de Pedra? Ninguém sabe realmente. Elas são um círculo de pedras formado pelos antigos, inserido no meio da parte mais ventosa da planície. Ninguém descobriu qual seu verdadeiro objetivo, mas elas estão arranjadas de modo que o vento é desviado ao redor do círculo e atravessa uma série de buracos nas próprias pedras. Elas criam um som constante e agudo, mas não tenho idéia de por que alguém achou que o som se parece com o de flautas. O barulho é misterioso e desafinado e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Depois de alguns minutos, você começa a ficar arrepiado, e ele continua por horas e horas.
Will ficou em silêncio. A imagem de uma planície triste varrida pelo vento e com pedras que emitiam um uivo agudo e ininterrupto pareceu tirar o último vestígio de calor do sol do final da tarde. Ele estremeceu involuntariamente. Halt viu o movimento e se inclinou para lhe dar um tapinha encorajador no ombro.
- Se alegre - ele disse. - Nada costuma ser tão mau quanto parece. Agora, vamos descansar um pouco.
Eles chegaram aos arredores da Planície Solitária ao meio-dia do segundo dia. Halt tinha razão: era um lugar grande e deprimente. A área se estendia por vários quilômetros e era coberta por um capim alto e cinzento, ressecado pelo vento constante.
O vento parecia quase um ser vivo. Ele era irritante, soprando contínua e invariavelmente do oeste, dobrando o capim alto à sua frente, varrendo o terreno achatado da Planície Solitária.
- Agora vocês entendem por que ela é chamada de Planície Solitária? - Halt perguntou aos dois companheiros, puxando as rédeas de Abelard para que eles pudessem alcançá-lo. - Quando você sai cavalgando nesse maldito vento, tem a sensação de que é a única pessoa viva que resta na face da Terra.
"Isso é verdade", Will pensou. Ele se sentiu pequeno e insignificante diante do vazio da planície. E essa sensação de insignificância foi acompanhada por outra de impotência. O deserto que estavam atravessando a cavalo parecia sugerir a presença de forças ocultas, forças muito maiores que suas habilidades. Até Gilan, normalmente alegre e entusiasmado, parecia afetado pela atmosfera pesada e deprimente do lugar. Apenas Halt parecia não ter mudado, permanecendo sombrio e taciturno como sempre.
Aos poucos, enquanto cavalgavam, Will ficava ciente de uma sensação inquietante. Havia algo oculto bem fora do alcance de sua percepção consciente. Alguma coisa que o deixava perturbado. Ele não a conseguia isolar nem mesmo dizer de onde vinha ou que forma tinha. A coisa simplesmente estava ali, sempre presente. Ele se mexeu na sela e ficou de pé nos estribos para investigar o horizonte monótono, na esperança de poder ver a fonte daquilo tudo.
- Você sentiu - Halt comentou ao perceber o movimento. - São as Pedras.
E, depois que Halt falou, Will se deu conta de que tinha sido um som, tão leve e tão contínuo que não podia ser isolado como tal, que criara a sensação de inquietação em sua mente e o aperto na boca do estômago. Ou talvez eles tivessem chegado a uma distância em que conseguiam ouvir as Flautas de Pedra apenas quando Halt fez o comentário, pois naquele momento Will pôde isolar o som. Era uma série de notas musicais desafinadas tocadas ao mesmo tempo, mas criando um som áspero e desarmonioso que irritava os nervos e perturbava a mente. Sua mão esquerda escorregou discretamente para o punho da faca enquanto cavalgava, e ele sentiu conforto ao tocar a arma sólida e confiável.
Eles continuaram a viagem durante toda a tarde com a impressão de que nunca avançavam. A cada passo, o horizonte atrás e diante deles parecia nunca ficar mais perto ou longe. Era como se estivessem marcando passo num mundo vazio. O som constante e agudo das Flautas de Pedra os acompanhou por todo o dia, ficando cada vez mais forte. Aquele era o único sinal de que estavam avançando. As horas passavam e o som continuava, sem que Will sentisse que ficava mais fácil suportá-lo. O som irritava seus nervos e o deixava ansioso. Quando o sol começou a mergulhar na margem oeste, Halt freou Abelard.
- Vamos passar a noite aqui e descansar - ele anunciou. - É quase impossível manter um ritmo constante no escuro. Sem características marcantes no terreno que nos ajudem a estabelecer uma rota, poderíamos facilmente acabar andando em círculos.
Agradecidos, os outros desmontaram. Mesmo bem preparados como eram, as horas passadas no ritmo de marcha forçada os tinham deixado exaustos. Will começou a procurar lenha para a fogueira ao redor dos poucos arbustos ressecados que cresciam na planície. Halt, percebendo o que ele tinha em mente, sacudiu a cabeça.
- Nada de fogo - recomendou. - Vão nos ver a quilômetros e não temos idéia de quem possa estar vigiando.
Will parou e deixou o pequeno feixe que tinha reunido cair no chão.
- Você está falando dos Kalkaras? - ele perguntou.
- Eles ou o povo da planície - Halt respondeu, dando de ombros.
- Não podemos saber com certeza se alguns deles são aliados dos Kalkaras. Afinal, vivendo tão próximos dessas criaturas, podem acabar cooperando com elas apenas para garantir sua segurança. E não queremos que eles espalhem que há estranhos na Planície.
Gilan estava tirando a sela de Blaze, seu cavalo baio. Ele largou-a no chão e esfregou o pêlo do cavalo com um punhado do sempre presente capim seco.
- Você não acha que já fomos vistos? - ele perguntou.
Halt pensou na pergunta por alguns segundos antes de responder.
- Talvez sim. Há muitos fatos que desconhecemos, como onde fica realmente a toca dos Kalkaras, se o povo das planícies é ou não seu aliado, se um deles nos viu ou não e informou nossa presença. Mas, até sabermos que fomos vistos, vamos fazer de conta que não fomos. Portanto, nada de fogo.
- É claro que você tem toda a razão - Gilan murmurou relutante. - É que eu ficaria feliz em matar alguém por uma xícara de café.
- Acenda o fogo para coar café - Halt recomendou - e isso pode ser a última coisa que vai fazer.
Foi um acampamento frio e desanimado. Cansados do ritmo duro da viagem, os arqueiros comeram uma refeição fria: pão, frutas secas e carne fria mais uma vez, engolida com água fria de seus cantis. Will estava começando a detestar aquelas rações duras e praticamente sem gosto. Halt assumiu o primeiro turno de vigília, e Will e Gilan se enrolaram em suas capas para dormir.
Aquela não era a primeira vez que Will acampava com desconforto desde que o período de treinamento tinha começado. Mas era a primeira vez que não havia nem mesmo um fogo crepitante ou, pelo menos, um canteiro de brasas quentes ao lado do qual descansar. Ele dormiu mal e teve sonhos desagradáveis - sonhos com criaturas assustadoras, coisas estranhas e aterradoras que povoavam seu subconsciente, porém perto o bastante para que ele sentisse sua presença e ficasse perturbado por ela.
O garoto ficou quase satisfeito quando Halt o sacudiu de leve para acordá-lo para seu turno de vigília.
O vento estava empurrando as nuvens sob a Lua. O gemido da canção das Pedras estava mais forte do que nunca. Will sentiu um cansaço de espírito e se perguntou se as Pedras tinham sido criadas para deixar as pessoas exaustas daquela forma. O capim alto em volta deles sibilava uma melodia que se sobrepunha ao som agudo que vinha de longe. Halt apontou para o céu, indicando um ângulo de elevação para ser lembrado por Will.
- Quando a Lua alcançar aquele ângulo, passe a guarda para Gilan - ele disse ao aprendiz.
Will concordou, levantando-se e esticando os músculos rígidos. Ele apanhou o arco e a aljava e andou até o arbusto que Halt tinha escolhido como ponto de observação. Arqueiros em vigília nunca ficavam em terreno aberto no local do acampamento, mas sempre se afastavam 20 metros das barracas e encontravam um esconderijo Dessa forma, estranhos que se aproximassem do acampamento teriam menor probabilidade de vê-los. Essa era uma das muitas habilidades que Will tinha aprendido em seus meses de treinamento.
Ele tirou duas flechas da aljava e as segurou entre os dedos da mão que apoiava o arco. Iria segurá-las desse jeito durante as quatro horas de sua guarda. Se precisasse delas, não teria que fazer movimentos exagerados para tirá-las da aljava - movimento que poderia alertar o atacante. Em seguida ele pôs o capuz na cabeça para se confundir com o formato irregular do arbusto. A sua cabeça e os seus olhos se moviam constantemente de um lado para outro como Halt tinha ensinado, sempre mudando o foco, de perto do acampamento para o horizonte escuro à sua volta. Dessa forma, ele teria chances melhores de perceber algum movimento. De tempos em tempos, ele se virava lentamente num círculo completo, examinando todo o terreno ao seu redor, do jeito mais imperceptível possível.
O som agudo das Pedras e o sibilar do vento eram constantes. Mas Will também começou a ouvir outros sons - o farfalhar de pequenos animais na grama e outros menos explicáveis. Com cada um deles, o coração do garoto acelerava um pouco mais, e ele se perguntava se podiam ser os Kalkaras rastejando sobre os vultos adormecidos dos amigos. Em certo momento, ficou convencido de que estava ouvindo a respiração de um animal grande. O medo tomou conta dele, apertando sua garganta, até ele perceber, com os sentidos sintonizados ao máximo, que o que ouvia realmente era a respiração tranquila dos companheiros.
Will sabia que, a uma distância maior do que 5 metros, ficaria praticamente invisível ao olho humano, graças à capa, às sombras e ao formato do arbusto que o cercava. Mas ele se perguntava se os Kalkaras contavam somente com a visão. Talvez tivessem outros sentidos que lhes dissessem que havia um inimigo escondido no arbusto. Talvez, naquele momento, estivessem se aproximando, ocultos pelo capim alto que balançava ao vento, prontos para atacar...
Seus nervos, já sensíveis além do suportável por causa da deprimente canção das Flautas de Pedra, faziam-no querer se virar e identificar a fonte de cada novo som assim que o ouvia. Mas Will sabia que iria se revelar ao fazer isso e se obrigou a se mover devagar, virando-se com cuidado até ficar de frente para a possível origem do som, avaliando cada novo risco antes de descartá-lo.
Nas longas horas da vigília tensa, ele não viu nada além das nuvens apressadas no céu, a Lua fugitiva e o mar ondulante de grama que os cercava. Quando a Lua chegou à elevação predeterminada, o rapaz estava física e mentalmente esgotado. Acordou Gilan para assumir a guarda e se enrolou em sua capa outra vez.
Desta vez, Will não sonhou. Exausto, dormiu profundamente até a luz cinzenta do amanhecer surgir no céu.
Eles viram as Flautas de Pedra no meio da manhã: um círculo cinzento e surpreendentemente pequeno de monólitos de granito que estavam no alto de uma elevação na planície. O caminho que tinham escolhido levou os três cavaleiros a cerca de 1 quilômetro de distância das Pedras, e Will ficou satisfeito de não se aproximar mais. O canto deprimente estava mais alto do que nunca, flutuando e se movendo ao sabor do vento.
- Vou partir em dois o lábio do próximo flautista que eu encontrar - Gilan ameaçou com um sorriso sombrio.
Eles continuaram seu caminho, deixando os quilômetros para trás, hora após hora, uma igual à outra, sem nada novo para ver e sempre com o leve uivo das Pedras às suas costas, deixando os nervos à flor da pele.
O homem da planície surgiu de repente no meio da grama, a uns 50 metros de distância. Pequeno, vestido com trapos cinza e com cabelos compridos despenteados caídos nos ombros, ele olhou para os três companheiros com olhos enlouquecidos durante vários segundos.
O coração de Will mal tinha se recuperado do susto de seu aparecimento repentino quando ele se foi, correndo pela grama, parecendo mergulhar dentro dela. Em poucos segundos, tinha desaparecido, engolido pelo capim. Halt ia colocar Abelard para persegui-lo, mas desistiu da idéia. A flecha que havia escolhido e pousado na corda do arco não foi usada. Gilan também estava pronto para atirar e tinha tido uma reação tão rápida quanto a de Halt. Ele também não atirou, olhando com curiosidade para seu superior.
- Pode não ser nada - Halt disse, dando de ombros. - Ou talvez ele tenha corrido para contar aos Kalkaras. Mas não podemos matar um homem só por desconfiança.
Gilan soltou um leve riso ruidoso, mais para liberar a tensão causada pelo surgimento inesperado do homem.
- Acho que não faz diferença se acharmos os Kalkaras ou se eles nos acharem - ele disse.
Os olhos de Halt se fixaram nele por um momento, sem nenhum sinal de humor.
- Acredite em mim, Gilan, há uma grande diferença - afirmou. Eles tinham parado a marcha forçada e cavalgavam lentamente pela grama alta. O som das Pedras começou a diminuir um pouco, para grande alívio de Will. Ele percebeu que agora o vento estava levando o som para longe.
Depois do repentino aparecimento do morador da planície, houve um período sem que se manifestasse outro sinal de vida. Uma pergunta vinha incomodando Will durante toda a tarde.
- Halt? - ele começou com cuidado, sem saber se este o mandaria ficar quieto.
O arqueiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas, mostrando que estava preparado para responder perguntas, e então Will continuou.
- Por que você acha que Morgarath buscou a ajuda dos Kalkaras?
O que ele espera ganhar?
Halt percebeu que Gilan também estava esperando pela resposta. Ele colocou os pensamentos em ordem antes de responder. Estava um pouco relutante em transformá-los em palavras, pois parte da resposta dependia de suposições e intuição.
- Quem sabe por que Morgarath faz as coisas? - ele disse devagar. - Não posso dar uma resposta clara. Só posso dizer o que Crowley e eu pensamos.
Ele olhou rapidamente para os companheiros. Era óbvio que os dois estavam preparados para aceitar suas suposições como fatos consumados. "Às vezes", ele pensou aborrecido, "a reputação de estar certo o tempo todo pode ser uma carga muito pesada."
- Há uma guerra se aproximando - ele continuou. - Todos já sabemos disso. Os Wargals estão avançando, e nós ouvimos dizer que Morgarath entrou em contato com Ragnak.
Ele viu a expressão confusa no rosto de Will, mas sabia que Gilan compreendia quem era Ragnak.
- Ragnak é o oberjarl, ou chefe supremo, se preferir, dos escandinavos, os lobos-do-mar - explicou.
Ele viu um clarão de compreensão no rosto do aprendiz e continuou.
- Está claro que essa guerra vai ser pior do que a anterior, e nós vamos precisar de todos os nossos recursos e de nossos melhores comandantes para nos guiar. Acho que é isso que Morgarath tem em mente. Ele quer nos enfraquecer fazendo que os Kalkaras matem nossos líderes. Northolt, o chefe supremo do exército, e Lorriac, nosso melhor comandante de cavalaria, já se foram. Certamente outros homens vão assumir essas posições, mas inevitavelmente vai haver alguma confusão no período de mudança, alguma perda de união. Acho que isso faz parte do plano de Morgarath.
- Há também outro aspecto - Gilan acrescentou pensativo. - Esses dois homens foram fundamentais na sua derrota na última vez. Ele está destruindo nossa estrutura de comando e se vingando ao mesmo tempo.
- Claro, isso é verdade - Halt concordou. - E, para uma mente perturbada como a de Morgarath, vingança é um motivo poderoso.
- Então você acha que vai haver mais mortes? - Will perguntou, e Halt o olhou com firmeza.
- Acho que vai haver mais tentativas. Morgarath agiu duas vezes com alvos definidos e teve sucesso. Não vejo nenhum motivo para que não tente de novo. Ele tem razões para odiar muita gente no reino. Talvez até o próprio rei. Ou talvez o barão Arald, pois ele causou alguns problemas para Morgarath na última guerra.
"E você também", Will pensou com medo. Ele estava para externar o pensamento de que Halt poderia ser um alvo quando se deu conta de que seu mestre provavelmente já estava ciente do fato. Gilan estava fazendo outra pergunta ao arqueiro mais velho.
- Eu não entendo uma coisa. Por que os Kalkaras continuam voltando para seu esconderijo? Por que não procuram simplesmente a vítima seguinte?
- Acho que essa é uma das poucas vantagens que temos - Halt afirmou. - São selvagens, cruéis e mais inteligentes do que os Wargals, mas não são humanos. São totalmente ingênuos. Mostre uma vítima para eles e eles vão caçar e matar ela ou morrer na tentativa. Mas só conseguem perseguir uma de cada vez. Entre uma morte e outra, voltam para sua toca. Então Morgarath, ou um de seus subordinados, os prepara para a próxima vítima e eles saem novamente. Nossa esperança é interceptar os Kalkaras no caminho se tiverem recebido uma nova missão. Ou matar eles em seu esconderijo se não tiverem.
Will olhou pela milésima vez para a planície monótona coberta de grama que se estendia à frente deles. Em algum lugar lá fora, as duas criaturas assustadoras estavam esperando, talvez já com uma nova vítima em mente. A voz de Halt interrompeu seus pensamentos.
- O sol está se pondo - ele disse. - Acho que podemos acampar aqui.
Eles desceram agilmente das selas e soltaram a barrigueira para deixar os cavalos mais confortáveis.
- Pelo menos este maldito lugar tem uma coisa boa - Gilan comentou, olhando à sua volta. - Todos os lugares são igualmente bons para acampar. Ou igualmente ruins.
Will acordou de um sono sem sonhos ao toque da mão de Halt em seu ombro. Ele jogou a capa para trás, olhou para a Lua, que dançava no céu, e franziu a testa. Não podia ter dormido mais de uma hora e ia dizer isso, mas Halt o impediu, colocando um dedo nos lábios, pedindo silêncio. Will olhou ao redor e percebeu que Gilan já estava acordado, parado perto dele com a cabeça voltada para noroeste, para o lugar de onde tinham vindo.
O garoto se levantou, movendo-se com cuidado para não fazer nenhum barulho desnecessário. Suas mãos tinham ido automaticamente para as armas, mas ele relaxou quando se deu conta de que não havia perigo imediato. Os outros dois prestavam atenção em um som, e então Halt levantou a mão e apontou para o norte.
- Lá está de novo - ele disse baixinho.
Então Will também escutou o mesmo som, acima dos gemidos das Flautas de Pedra e do murmúrio do vento ao passar na grama. Seu sangue gelou. Era um uivo agudo e selvagem que ululava e ficava cada vez mais alto. Um som desumano levado até eles pelo vento e saído da garganta de um monstro.
Segundos depois, outro uivo respondeu ao primeiro. Ligeiramente mais agudo, parecia vir de um ponto um pouco mais à esquerda do que o primeiro. Sem que lhe dissessem, Will sabia o que o som significava.
- São os Kalkaras - Halt disse num tom sombrio. - Eles têm um novo alvo e estão caçando.
Os três companheiros passaram a noite sem dormir. Os gritos de caça dos Kalkaras afastavam-se para o norte. Quando ouviram os sons pela primeira vez, Gilan quis selar Blaze, que estava nervoso com os uivos assustadores das duas bestas. Halt, porém, fez um gesto para que parasse.
- Não vou atrás dessas coisas no escuro - ele disse brevemente. Vamos esperar até o dia amanhecer e então vamos procurar suas pegadas.
As pegadas foram encontradas com facilidade, pois era óbvio que os Kalkaras não tentaram esconder sua passagem. A grama alta tinha sido esmagada pelos dois corpos pesados, que deixaram uma trilha visível apontando para o nordeste. Halt encontrou a trilha deixada pelo primeiro dos dois monstros e logo depois Gilan encontrou a segunda, cerca de 300 metros à esquerda, numa linha paralela e próxima o bastante para que pudessem se ajudar no caso de um ataque, mas longe o suficiente para evitar qualquer armadilha preparada para o irmão.
Halt analisou a situação por alguns momentos e então tomou uma decisão.
- Você fica com o segundo - ele disse para Gilan. - Will e eu vamos seguir este aqui. Quero garantir que os dois continuem andando na mesma direção. Não quero que um deles volte e venha atrás de nós.
- Você acha que eles sabem que estamos aqui? - Will perguntou, tentando com dificuldade manter a voz calma e desinteressada.
- É possível. O homem da planície que vimos já teve tempo para avisar eles. Ou talvez seja apenas uma coincidência e eles estejam saindo para a próxima missão.
Ele olhou para a trilha de grama esmagada que ia sempre na mesma direção.
- Parece mesmo que eles têm um objetivo. Então se virou para Gilan outra vez.
- Em todo caso, fique com os olhos abertos e preste muita atenção em Blaze. Os cavalos vão sentir a presença dessas bestas antes de nós. Não queremos cair numa emboscada.
Gilan as sentiu e virei; Blaze na direção da segunda trilha. A um sinal da mão de Halt, os três arqueiros começaram a cavalgar para a frente, seguindo a direção que os Kalkaras tinham tomado.
- Eu vou vigiar a trilha - Halt disse a Will. - Você fica de olho em Gilan, só para garantir.
Will voltou a atenção para o alto arqueiro, que estava a uns 200 metros de distância, e acompanhou seu ritmo. A parte inferior do corpo de Blaze estava escondida pela grama alta. De tempos em tempos, ondulações no chão tiravam tanto o cavalo quanto o cavaleiro da vista do rapaz. Na primeira vez em que isso aconteceu, Will reagiu com um grito de alarme, pois Gilan simplesmente desapareceu. Halt se virou rapidamente com uma flecha já pronta no arco, mas nesse momento Gilan e Blaze reapareceram, aparentemente sem saber do momento de pânico que tinham causado.
- Desculpe - Will murmurou aborrecido por ter permitido que seu estado de nervos o dominasse.
Halt lhe lançou um olhar penetrante.
- Está tudo bem - ele disse com calma. - Prefiro que me avise sempre, mesmo quando só pensar que há um problema.
Halt sabia muito bem que, por ter dado um falso alarme uma vez, Will poderia relutar em reagir da próxima, e isso poderia ser fatal para todos eles.
- Avise para mim sempre que perder Gilan de vista. E diga quando ele reaparecer - ele pediu.
Will assentiu, compreendendo o raciocínio do mestre.
E assim eles continuaram a cavalgar, com o grito agudo das Flautas enchendo seus ouvidos novamente à medida que se aproximavam do círculo de pedra. Will percebeu que desta vez eles passariam muito mais perto, pois os Kalkaras pareciam estar se dirigindo direto para o local. A cavalgada foi marcada por informações intermitentes de Will.
- Ele sumiu... ainda está sumido... Tudo bem. Apareceu de novo.
Will nunca estava seguro de quem estava passando por uma depressão, se Gilan ou ele. Muitas vezes, os dois ao mesmo tempo.
Houve um momento desagradável em que Gilan e Blaze sumiram e não reapareceram dentro dos habituais poucos segundos.
- Não consigo mais vê-lo... - Will informou. E então:
- Ainda não... ainda não... nenhum sinal... - a sua voz começou a ficar aguda por causa da inquietação que crescia dentro dele. - Nenhum sinal... ainda nenhum sinal...
Halt fez Abelard parar e preparou o arco novamente enquanto examinava o chão à sua esquerda e esperava Gilan reaparecer. Ele soltou um assobio agudo, três notas ascendentes. Houve uma pausa e depois um assobio de resposta, as mesmas três notas em ordem descendente, veio claramente até eles. Will soltou um suspiro de alívio, e Gilan em pessoa reapareceu nesse exato momento. Ele os olhou e fez um gesto largo, com os dois braços erguidos numa pergunta óbvia: "Qual é o problema?"
Halt fez um gesto negativo, e eles continuaram.
Quando se aproximaram das Flautas de Pedra, Halt ficou cada vez mais atento. O Kalkara que ele e Will vinham seguindo estava se dirigindo diretamente para o círculo. Ele fez Abelard parar e protegeu os olhos do sol, estudando as pedras cinzentas e sinistras com cuidado, procurando algum movimento ou sinal de que o Kalkara pudesse estar deitado esperando para emboscá-los.
- É o único esconderijo em quilômetros - ele explicou. - Não vamos correr o risco de que a maldita coisa esteja escondida aqui esperando por nós. Acho que precisamos tomar um pouco mais de cuidado.
Ele chamou Gilan com um sinal e explicou a situação. Então eles se dividiram para cobrir uma área maior ao redor das pedras, cavalgando para o interior do círculo lentamente de três diferentes direções, procurando nos cavalos qualquer sinal possível de reação a medida que se aproximavam. Mas o local estava vazio, embora no seu interior o gemido desafinado do vento que atravessava os buracos das flautas fosse quase insuportável. Pensativo, Halt mordeu o lábio olhando para o mar de grama nas duas trilhas deixadas pelos Kalkaras.
- Isso está nos tomando tempo demais - ele disse finalmente. - Enquanto pudermos ver as trilhas por uns 200 metros à frente, vamos andar mais depressa. Vamos diminuir o passo quando chegarmos a uma colina ou em qualquer momento em que a trilha não esteja visível por mais de 5 metros.
Gilan assentiu, mostrando que tinha compreendido, e retomou sua posição mais distante. Eles fizeram os cavalos trotar num passo longo e tranquilo que cobriria os quilômetros à frente deles. Will continuou a vigiar Gilan e, sempre que a trilha visível diminuía, Halt ou Gilan assobiavam e eles reduziam a velocidade até que o terreno se abrisse novamente à sua frente.
Quando a noite caiu, os três acamparam de novo. Halt ainda se recusava a seguir os dois assassinos no escuro, embora a Lua deixasse sua trilha facilmente visível.
- Fácil demais para eles voltarem no escuro - justificou. - Quero estar bem preparado quando finalmente vierem até nós.
- Você acha que eles virão? - Will perguntou, percebendo que Halt tinha dito "quando", e não "se".
O arqueiro olhou para seu jovem aluno.
- Sempre suponha que o inimigo sabe onde você está e que vai atacar você ele - ensinou. - Desse jeito, você pode evitar surpresas desagradáveis.
Ele pousou a mão no ombro de Will para tranquilizar o garoto. - Ainda pode ser desagradável, mas não será mais uma surpresa.
Pela manhã, eles retomaram a trilha, cavalgando no mesmo ritmo rápido,reduzindo o passo somente quando não podiam ver com clareza o terreno à sua frente. No começo da tarde, tinham chegado à beira da planície e entraram mais uma vez em terreno coberto por bosques ao norte das Montanhas da Chuva e da Noite.
Eles descobriram que ali os Kalkaras haviam se reunido, não ficando mais muito separados como tinha acontecido nas terras da planície. Mas o caminho continuava o mesmo, sempre em direção ao noroeste. Os três arqueiros seguiram esse curso por outra hora antes que Halt freasse Abelard e fizesse sinal para os outros desmontarem para uma conversa. Eles se reuniram ao redor de um mapa do reino que ele abriu na grama, usando flechas como pesos para que as bordas não se enrolassem.
- A julgar pelas pegadas, já diminuímos a distância até eles. Mas ainda estão um bom meio dia à nossa frente. Agora, esta é a direção que estão seguindo...
Ele pegou outra flecha e a colocou no mapa de modo que apontasse para o lado que os Kalkaras vinham seguindo nos dois últimos dias.
- Como vocês podem ver, se eles continuarem nessa direção, há somente dois lugares importantes para onde podem estar indo.
Ele apontou para um local no mapa.
- Aqui, as Ruínas de Gorlan. Ou, mais para o norte, o próprio Castelo de Araluen.
- Castelo de Araluen? - Gilan exclamou, respirando fundo. - Você acha que eles vão ousar tentar matar o rei Duncan?
- Eu simplesmente não sei - Halt respondeu, olhando para ele e balançando a cabeça. - Não sabemos muita coisa sobre essas bestas, e metade do que achamos que sabemos provavelmente são mitos ou lendas. Mas você tem que admitir, seria algo ousado, uma tacada de mestre, e Morgarath nunca foi contra esse tipo de coisa.
Ele deixou que os outros digerissem essa idéia por alguns momentos e então traçou uma linha de sua posição atual até o noroeste.
- Mas estive pensando. Olhe. Aqui está o Castelo Redmont. Talvez a um dia de cavalgada de distância e então outro dia até aqui.
De Redmont, ele traçou uma linha para noroeste, até as Ruínas de Gorlan, marcadas no mapa.
- Uma pessoa cavalgando rapidamente e usando dois cavalos pode cobrir o trajeto em menos de um dia até Redmont e depois conduzir o barão e sir Rodney até aqui, nas ruínas. Se os Kalkaras estiverem andando no mesmo ritmo de agora, talvez possamos barrar a passagem deles aqui. Vai ser difícil, mas é possível. E, com dois guerreiros como Arald e Rodney conosco, teremos muito mais chances de parar as malditas coisas de uma vez por todas.
- Um momento, Halt - Gilan interrompeu. - Você disse uma pessoa cavalgando dois cavalos?
Halt encontrou o olhar de Gilan e viu que o jovem arqueiro já tinha adivinhado o que ele tinha em mente.
- Isso mesmo, Gilan. E o mais leve de nós vai viajar mais depressa. Quero que passe Blaze para Will. Se ele se alternar entre Puxão e o seu cavalo, pode fazer isso a tempo.
Ele viu a hesitação no rosto de Gilan e compreendeu o porquê dessa expressão. Nenhum arqueiro gostava da idéia de entregar seu cavalo a outra pessoa, mesmo a outro arqueiro. Mas, ao mesmo tempo, Gilan entendeu a lógica da sugestão. Halt esperou que o jovem quebrasse o silêncio, enquanto Will observava os dois com os olhos arregalados de medo ao pensar na responsabilidade que estava prestes a ser posta em seus ombros.
Finalmente, com relutância, Gilan falou.
- Acho que faz sentido - ele concordou. - Então, o que quer que eu faça?
- Quero que me siga a pé - Halt disse asperamente, enrolando o mapa e guardando-o na sacola da sela. Se você puder conseguir um cavalo em qualquer outro lugar, faça isso e me alcance. Do contrário, vamos nos encontrar em Gorlan. Se não virmos os Kalkaras ali, Will poderá esperar por você com Blaze. Eu vou continuar a seguir os Kalkaras até vocês me alcançarem.
Gilan acenou concordando e Halt sentiu uma onda de afeto por ele. Quando compreendia um objetivo, Gilan não era do tipo que discutia ou fazia objeções.
- Você não disse que minha espada poderia ser útil? - o rapaz perguntou um tanto desanimado.
- É verdade - Halt respondeu -, mas isso me dá a oportunidade de trazer uma força de cavaleiros totalmente armados com machados e lanças. E você sabe que essa é a melhor forma de derrotar os Kalkaras.
- Sim, eu sei - Gilan retrucou, pegando as rédeas de Blaze, amarrando-as num nó e jogando-as sobre o pescoço do cavalo baio.
- Você pode começar com Puxão - ele disse para Will. - Assim Blaze vai poder descansar. Ele vai seguir você sem ser puxado pelas rédeas, e Puxão vai fazer a mesma coisa quando você estiver cavalgando Blaze. Amarre as rédeas desse jeito no pescoço de Puxão quando estiver montando Blaze para que elas não fiquem penduradas e não se prendam em nada.
Ele começou a se virar na direção de Halt e então se lembrou de uma coisa.
- Ah, sim, antes de montar nele pela primeira vez, lembre-se de dizer "olhos castanhos".
- Olhos castanhos - Will repetiu e Gilan não conseguiu evitar um sorriso.
- Não para mim. Para o cavalo.
Essa era uma antiga piada dos arqueiros e todos sorriram. Então Halt retomou o assunto principal.
- Will? Tem certeza de que consegue achar o caminho para Redmont?
Will assentiu. Ele tocou o bolso onde guardara sua copia do mapa e olhou para o sol para se orientar.
- Noroeste - ele disse tenso, indicando a direção que tinha escolhido.
Halt acenou com a cabeça satisfeito.
- Você vai chegar ao Rio Salmon antes do anoitecer e isso vai lhe dar um bom ponto de referência. A estrada principal fica só um pouco a oeste do rio. Mantenha um trote firme todo o tempo. Não tente se apressar, porque os cavalos só vão ficar cansados e, no final, você vai acabar andando mais devagar. Viaje com cuidado.
Halt saltou para a sela de Abelard e Will montou Puxão. Gilan apontou para Will e falou no ouvido de Blaze.
- Siga, Blaze, siga.
O cavalo baio, inteligente como todos os cavalos dos arqueiros, balançou a cabeça como se tivesse compreendido a ordem. Antes de partir, Will tinha mais uma pergunta que o vinha preocupando.
- Halt, as Ruínas de Gorlan... o que elas são exatamente? - ele quis saber.
- Isso não é uma ironia? - Halt respondeu. - Elas são as ruínas do Castelo Gorlan, o antigo feudo de Morgarath.
A cavalgada até o Castelo Redmont logo se transformou numa viagem cansativa. Os dois cavalos mantiveram o passo uniforme para o qual tinham sido treinados. É claro que houve a tentação de fazer que Puxão disparasse num galope violento, seguido por Blaze, mas Will sabia que esse ritmo o levaria ao fracasso. Ele estava avançando de acordo com a velocidade mais adequada aos cavalos. Porque o Velho Bob, o treinador de cavalos, tinha lhe dito que os cavalos dos arqueiros podiam trotar o dia todo sem se cansar.
Para o cavaleiro, a questão era muito diferente. Além do esforço físico de se mover constantemente ao ritmo do cavalo que estava montando - e os dois animais tinham passadas totalmente desiguais devido à diferença de tamanho - havia a tensão mental igualmente debilitante.
E se Halt estivesse enganado? E se, de repente, os Kalkaras tivessem desviado para o oeste e estivessem agora num curso que poderia interceptar o dele? E se ele cometesse algum erro terrível e não conseguisse chegar a Redmont a tempo?
O último receio, o medo causado pela insegurança, era o mais difícil de enfrentar. Apesar do duro treinamento que tinha recebido nos últimos meses, ele ainda era pouco mais que um garoto. E, o que era mais importante, antes sempre tinha podido contar com o julgamento e a experiência de Halt. Agora estava sozinho. E sabia o quanto dependia de sua habilidade para realizar a tarefa que tinha recebido.
Os pensamentos, as dúvidas, os medos enchiam sua mente cansada, tropeçando uns sobre os outros, acotovelando se em busca de posição. O Rio Salmon veio e foi sob o ritmo constante dos cascos de seus cavalos. Will parou rapidamente para dar de beber aos animais na ponte e então, já na Estrada do Rei, fez um tempo excelente, parando apenas rapidamente em intervalos regulares para mudar de montaria.
As sombras do dia ficaram mais compridas, e as árvores que pendiam sobre a estrada ficaram escuras e ameaçadoras. Cada barulho, cada movimento visto vagamente nas sombras, levava seu coração à boca.
Aqui, uma coruja piava e se lançava com as garras prontas para apanhar um rato descuidado. Ali, um texugo espreitava, caçando sua presa como uma sombra cinzenta nos arbustos da floresta. A cada movimento ou barulho, a imaginação de Will trabalhava sem parar. Ele começou a ver enormes vultos negros - parecidos com os Kalkaras de sua imaginação - em cada sombra, em cada grupo escuro de moitas que se mexia com a leve brisa. A razão lhe disse que seria muito improvável que os Kalkaras o estivessem procurando. A imaginação e o medo responderam que eles estavam lá fora em algum lugar. E quem podia garantir que não estavam perto?
A imaginação e o medo venceram.
E assim a noite longa e cheia de pavor passou, até que a luz baixa da madrugada encontrou um vulto curvado na sela de um cavalo forte de peito largo que galopava constantemente na direção do noroeste.
Will cochilou na sela e despertou com um susto, sentindo o calor dos raios do sol em cima dele. Delicadamente, puxou as rédeas de Puxão, e o pequeno cavalo ficou parado de cabeça baixa, respirando fundo. Will se deu conta de que tinha cavalgado durante muito mais tempo do que deveria e que o medo o tinha feito manter Puxão correndo na escuridão quando deveria tê-lo deixado descansar muito tempo atrás. Ele desmontou rígido, com o corpo todo dolorido, e parou para esfregar o focinho do cavalo com afeto.
- Desculpe, garoto - ele disse.
Puxão, reagindo ao toque e à voz que agora conhecia tão bem, moveu a cabeça e sacudiu a crina desgrenhada. Se Will tivesse pedido, ele teria continuado sem se queixar, até cair. Will olhou ao redor. A luz alegre da manhã tinha dispersado todos os temores sombrios da noite anterior. Agora, ele se sentia um pouco tolo ao lembrar os momentos de pânico paralisante. Will soltou as tiras da barrigueira da sela e deu ao seu cavalo uma pausa de dez minutos até que a respiração dele se acalmasse. Em seguida, maravilhado com o poder de recuperação e a resistência da raça de cavalos dos arqueiros, apertou a barrigueira na sela de Blaze e saltou no lombo do baio, gemendo levemente. Os cavalos dos arqueiros podiam se recuperar rapidamente, mas seus aprendizes levavam um pouco mais de tempo.
A manhã já estava no fim quando Will finalmente conseguiu ver o castelo Redmont. Estava montando Puxão outra vez quando atravessaram a última fileira de colinas e o vale verde do baronato Arald. O pequeno cavalo aparentemente não tinha sido afetado pela noite dura que tinha enfrentado.
Exausto, Will parou por alguns segundos e se apoiou no alto da sela. Eles tinham vindo para muito longe e bem depressa. Aliviado, observou os arredores conhecidos do castelo e a pequena vila simpática que se aninhava satisfeita em sua sombra. Fumaça saía das chaminés, fazendeiros caminhavam lentamente dos campos para casa, para a refeição do meio-dia. O castelo era sólido e tranquilizador em sua magnitude no alto da colina.
- Parece tudo tão... normal - Will disse para o cavalo.
Ele percebia que, de alguma forma, tinha esperado encontrar as coisas mudadas. O reino estava para entrar em guerra outra vez depois de quinze anos, mas ali a vida continuava normalmente.
Então, ao se dar conta de que estava perdendo tempo, ele fez Puxão andar mais depressa até atingir um galope, pois tanto o garoto quanto o cavalo estavam ansiosos para terminar esse último trecho da jornada.
Surpresas, as pessoas olhavam a passagem do pequeno vulto verde e cinza agachado sobre o pescoço do cavalo empoeirado, seguido por um cavalo baio maior. Um ou dois habitantes reconheceram Will e o cumprimentaram, mas suas palavras se perderam no barulho dos cascos.
O estrépito se transformou num martelar ressonante quando dispararam sobre a ponte levadiça abaixada e entraram no pátio dianteiro do castelo. Então, o martelar se tornou um estrondo apressado sobre as pedras da entrada. Will puxou as rédeas levemente, e Puxão parou na porta da torre do barão Arald.
Os dois homens armados que estavam de serviço, surpresos com o aparecimento repentino e ritmo vertiginoso do garoto, deram um passo à frente e barraram sua passagem com as lanças cruzadas.
- Pare aí, você! - disse um deles com aspereza. - Aonde pensa que vai com tanta pressa e fazendo tanto barulho?
Will abriu a boca para responder, mas antes de poder dizer alguma coisa uma voz zangada trovejou atrás dele.
- Que raios você pensa que está fazendo, seu idiota? Não reconhece um arqueiro do rei quando o vê?
Era sir Rodney, atravessando o pátio para ver o barão. As duas sentinelas ficaram em posição de sentido quando Will se virou agradecido para o mestre de guerra.
- Sir Rodney - ele disse. - Tenho uma mensagem urgente de Halt para lorde Arald e o senhor.
Como Halt tinha comentado com Will depois da caçada ao porco selvagem, o mestre de guerra era um homem esperto. Ele viu as roupas amarrotadas de Will e os dois cavalos cansados e percebeu que não era hora de fazer perguntas idiotas. Indicou a porta com o polegar.
- Melhor entrar e contar tudo. Mandem cuidar desses cavalos - ele ordenou aos guardas. - Dêem água e comida para eles.
- Só um pouco de cada, sir Rodney, por favor - Will acrescentou depressa. Apenas uma pequena quantidade de grãos e água e talvez uma escovada. Vou precisar deles logo.
Sir Rodney o olhou surpreso. Will e os cavalos davam a impressão de necessitar de um longo descanso.
- Deve ser alguma coisa muito urgente - ele respondeu. - Então, cuidem dos cavalos. E peçam para alguém levar comida e uma jarra de leite frio para o escritório do barão - ele pediu aos guardas.
Os dois cavaleiros assobiaram espantados quando Will lhes contou as novidades. Já se sabia que Morgarath estava reunindo um exército, e o barão tinha enviado mensageiros para formar tropas compostas de cavaleiros e homens armados. Mas as informações sobre os Kalkaras eram algo totalmente diferente, e não havia indícios de que eles tinham se aproximado do Castelo Redmont.
- Halt acha que eles podem estar atrás do rei? - o barão Arald perguntou quando Will terminou de falar.
O garoto assentiu.
- Sim, senhor. Mas acho que há outra possibilidade - Will acrescentou depois de hesitar.
Ele não queria continuar, mas o barão fez um gesto para que prosseguisse, e Will finalmente externou a suspeita que vinha crescendo dentro dele.
- Senhor... eu acho que é possível que eles estejam atrás do próprio Halt.
Depois de dizer o que pensava e de ter exposto seu receio, ele se sentiu melhor. De alguma forma, para sua surpresa, o barão Arald não rejeitou a idéia. Ele afagou a barba pensativo, enquanto digeria as palavras que tinha ouvido.
- Continue - ele disse, querendo ouvir o raciocínio de Will.
- É que Halt acha que Morgarath talvez queira se vingar, punir os que lutaram contra ele da última vez. E eu acho que foi Halt quem mais o prejudicou, não é mesmo?
- Isso é verdade - Rodney concordou.
- E achei que talvez os Kalkaras soubessem que os estávamos seguindo, que o homem da planície teve tempo suficiente para encontrar eles. E que talvez eles estivessem atraindo Halt até encontrarem um lugar para uma emboscada. Assim, enquanto ele pensa que está caçando os Kalkaras, na verdade é ele quem está sendo caçado.
- E as Ruínas de Gorlan seriam o lugar ideal para isso - Arald concordou. - Naquele amontoado de pedras, eles podem chegar até Halt antes que ele tenha a chance de usar seu arco. Bem, Rodney, não há tempo a perder. Você e eu vamos imediatamente. Meia armadura, eu acho. Vamos ser mais rápidos dessa forma. Lanças, machados e espadas. E vamos levar dois cavalos cada; vamos seguir o exemplo de Will. Partiremos dentro de uma hora. Diga para Karel reunir dez cavaleiros e nos seguir assim que puder.
- Sim, meu senhor - o mestre de guerra respondeu. O barão Arald se voltou para Will.
- Você fez um bom trabalho, Will. Vamos cuidar de tudo agora. E parece que você poderia aproveitar algumas horas de um bom sono.
Exausto, com dor em todos os músculos e juntas, Will endireitou o corpo.
- Gostaria de ir com vocês, senhor - ele percebeu que o barão ia discordar e acrescentou rapidamente. - Senhor, nenhum de nós sabe o que vai acontecer, e Gilan está lá fora em algum lugar a pé. Além disso... - ele hesitou.
- Continue, Will - o barão pediu em voz baixa e, quando o garoto olhou para cima, Arald viu frieza em seu olhar.
- Halt é meu mestre, senhor, e ele está em perigo. Meu lugar é ao lado dele - Will acrescentou.
O barão o avaliou com um olhar penetrante e então tomou uma decisão.
- Muito bem. Mas, pelo menos, tente descansar por uma hora. Há uma cama naquele anexo ali - ele ofereceu, indicando uma seção separada por uma cortina ao lado do escritório. - Por que não a usa?
- Sim, senhor - Will concordou agradecido.
Suas pálpebras pesavam como se estivessem cheias de areia. Ele nunca se sentira mais feliz em obedecer a uma ordem em toda a sua vida.
Durante toda aquela longa tarde, Will teve a impressão de que tinha passado a vida toda numa sela, fazendo um intervalo somente nos momentos de trocar de cavalo.
Uma breve pausa para desmontar, soltar a barrigueira do animal que estava montando, colocar a sela no cavalo que o acompanhava, montar novamente e continuar. Repetidas vezes, ele se admirou da fantástica resistência mostrada por Puxão e Blaze, que mantinham o galope constante. Até teve que freá-los um pouco para acompanhar os cavalos de batalha montados pelos dois cavaleiros. Mesmo grandes, fortes e treinados para a guerra, eles não conseguiam seguir o ritmo constante dos cavalos dos arqueiros, apesar de estarem descansados quando o pequeno grupo deixou o Castelo Redmont.
Eles cavalgavam sem falar. Não havia tempo para conversa fiada e, mesmo que houvesse, seria difícil escutar o que estavam falando por causa do barulho forte dos quatro cavalos de batalha, o bater mais leve dos cascos de Puxão e Blaze e o constante chacoalhar do equipamento e das armas.
Os dois homens carregavam compridas lanças de guerra - varas cinzentas e duras de mais de 3 metros de comprimento com uma pesada ponta de ferro. Além disso, cada um levava uma espada presa à sela. Eram armas enormes e pesadas muito maiores que as espadas normalmente usadas no dia-a-dia; e Rodney levava uma pesada acha pendurada na parte traseira da sela. Porém era nas lanças que eles confiavam mais. Elas manteriam os Kalkaras a distância e assim reduziriam a chance de que os cavaleiros fossem paralisados pelo terrível olhar das duas bestas. Aparentemente, o olhar hipnótico só era eficiente quando muito próximo. Se um homem não pudesse ver os olhos dos monstros com clareza, havia pouca possibilidade de que fosse paralisado.
O sol estava se escondendo rapidamente atrás deles e jogava as sombras longas e distorcidas para a frente. Arald olhou a posição do sol por cima do ombro e chamou Will.
- Quanto tempo ainda temos de luz, Will?
Will se virou na sela e olhou com atenção para a bola de luz que caía no horizonte.
Menos de uma hora, senhor.
O barão balançou a cabeça indeciso. Então vai ser difícil chegar lá antes do anoitecer - afirmou.
Ele instigou o cavalo a avançar, aumentando um pouco a velocidade. Puxão e Blaze o acompanharam sem esforço. Ninguém queria caçar os Kalkaras no escuro.
A hora de descanso no castelo tinha operado maravilhas em Will, mas agora parecia que tinha acontecido numa outra vida. Ele pensou nas instruções apressadas que Arald tinha dado quando montaram os animais para deixar Redmont. Se encontrassem os Kalkaras nas Ruínas de Gorlan, Will deveria ficar para trás enquanto o barão e sir Rodney atacavam os dois monstros. Não havia táticas complicadas, apenas um ataque impetuoso que poderia pegar os dois assassinos de surpresa.
- Se Halt estiver lá, tenho certeza de que também vai nos ajudar. Mas quero você longe do nosso caminho, Will. Esse seu arco não vai servir de nada num Kalkara.
- Sim, senhor - Will tinha dito.
Ele não tinha intenção de se aproximar dos monstros. Estava mais do que satisfeito em deixar o assunto para os dois cavaleiros, protegidos por escudos, capacetes e meias armaduras de malha de ferro. Contudo, as palavras seguintes de Arald desfizeram rapidamente qualquer confiança exagerada que ele pudesse ter na capacidade dos homens em lidar com as bestas.
- Se as malditas coisas nos vencerem, quero que corra em busca de mais ajuda. Karel e os outros vão estar em algum lugar atrás de nós. Encontre-os e depois procure os Kalkaras com eles. Siga essas bestas e mate-as.
Will não disse nada. O simples fato de Arald considerar o fracasso, quando ele e Rodney eram os dois melhores cavaleiros num raio de 200 quilômetros, fez aumentar ainda mais sua preocupação com os Kalkaras. Pela primeira vez, o garoto percebeu que as probabilidades estavam contra eles nessa disputa.
O sol tremia na beira do mundo, as sombras haviam atingido seu comprimento máximo e eles ainda tinham que percorrer muitos quilômetros. O barão Arald ergueu a mão e fez o grupo parar. Ele olhou para Rodney e apontou as tochas embebidas em piche que cada homem carregava atrás das selas.
- Tochas, Rodney - ele disse rapidamente.
O mestre de guerra hesitou por um momento.
- Tem certeza, senhor? Elas vão mostrar nossa posição se os Kalkaras estiverem vigiando.
- Eles vão nos ouvir chegar de qualquer forma - Arald disse, dando de ombros. - E entre as árvores vamos nos mover devagar demais sem luz. Vamos correr o risco.
Ele preparou sua pedra-de-fogo, formando uma fagulha que acendeu o pequeno pavio e logo criou uma chama forte. Segurou a tocha perto do fogo, e o piche em que estava impregnada de repente se acendeu e explodiu numa chama amarela. Rodney se inclinou na sua direção com a outra tocha e a acendeu na chama do barão. Então, segurando as tochas para o alto, as lanças presas por tiras de couro enroladas em seus pulsos direitos, eles retomaram o galope, trovejando na escuridão debaixo das árvores quando finalmente deixaram a estrada larga que vinham percorrendo desde o meio-dia.
Passaram-se outros dez minutos quando ouviram os gritos.
Era um som fantasmagórico que fazia o estômago dar voltas e congelava o sangue. Involuntariamente, o barão e sir Rodney puxaram as rédeas dos animais. Os cavalos ficaram extremamente agitados. O barulho vinha de algum ponto adiante deles, aumentando e diminuindo.
- Bom Deus nos céus! - o barão exclamou. - O que foi isso? - ele indagou com a expressão assustada.
O som infernal atravessou a noite e foi respondido por outro uivo idêntico.
Will já tinha ouvido o terrível som antes. Ele sentiu o sangue sumir do rosto quando se deu conta de que seus temores mostravam ter fundamento.
- São os Kalkaras. Eles estão caçando.
E ele sabia que havia apenas uma pessoa atrás da qual podiam estar. Eles tinham voltado e estavam caçando Halt.
- Olhe, meu senhor! - Rodney disse, apontando para o céu que escurecia rapidamente.
Através de um espaço na proteção oferecida pelas árvores, eles viram uma súbita rajada de luz se refletindo no céu, sinal de um incêndio num lugar próximo.
- É Halt! - o barão disse. - Tem que ser. Ele precisa de ajuda! Arald pressionou as esporas nos flancos do cansado cavalo de batalha, impelindo o animal para a frente em um galope ensurdecedor. A tocha em sua mão deixava chamas e faíscas para trás enquanto sir Rodney e Will o seguiam a galope.
Era uma sensação estranha seguir aquelas tochas flamejantes e agitadas com suas línguas alongadas de fogo soprando para trás por entre as árvores, jogando sombras esquisitas e apavorantes entre elas, enquanto à frente deles o brilho do fogo maior, presumivelmente aceso por Halt, ficava mais forte e próximo a cada passo.
Eles saíram do meio das árvores praticamente sem aviso e se depararam com uma cena de pesadelo.
Havia uma pequena clareira coberta por capim. Além dela, o terreno estava tomado por um amontoado de rochas e matacões.
Pedaços gigantescos de paredes, ainda unidas por argamassa, estavam espalhados pelos lados, as vezes meio enterrados no solo macio coberto de grama. As paredes em ruínas do Castelo Gorlan cercavam a cena em tres lados, nunca ultrapassando 5 metros, destruídas e derrubadas por um reino vingativo depois que Morgarath tinha sido obrigado a partir para o sul, para as Montanhas da Chuva e da Noite. O caos resultante era como o playground de uma criança gigante - pedras espalhadas em todas as direções, empilhadas com descuido umas em cima das outras, praticamente sem deixar nenhum pedaço de terreno descoberto.
Toda a cena era iluminada pelas chamas saltitantes e retorcidas de uma fogueira acesa a uns 40 metros de distância. E ao lado dela estava agachada uma figura horrível, gritando com ódio e fúria, batendo inutilmente na ferida mortal no peito que finalmente a tinha derrubado.
Com mais de 2,5 metros de altura e pêlos desgrenhados e emaranhados, parecidos com escamas, cobrindo todo o corpo, o Kalkara tinha braços compridos que terminavam em garras e que chegavam abaixo de seus joelhos. Pernas traseiras fortes e relativamente curtas lhe davam a capacidade de percorrer distâncias a uma velocidade enganosa, com uma série de saltos e pulos. Os três cavaleiros viram tudo isso quando saíram do bosque. Mas o que mais lhes chamou a atenção foi a cara: selvagem e parecida com a de um macaco, dentes caninos amarelados e enormes olhos vermelhos brilhantes cheios de ódio e de desejo cego de matar. A cara se virou para eles, e a besta gritou em desafio, tentando se levantar, mas voltando a cair, meio encolhida.
- O que há de errado com ele? - Rodney perguntou, fazendo seu cavalo parar.
Will apontou para o grupo de flechas que se projetava de seu peito. Devia haver seis delas, todas a cerca de um palmo de distância uma da outra.
- Olhe! - ele gritou. - Veja as flechas!
Halt, com sua incrível pontaria, deve ter mandado uma saraivada de flechas, uma depois da outra, para cortar o pêlo rígido como uma armadura. Cada uma aumentou a brecha nas defesas do monstro, até que a ultima penetrou no fundo de sua carne. Seu sangue negro corria profusamente pelas costas, e o monstro gritou outra vez com ódio. - Rodney! - o barão Arald gritou. - Comigo! Agora!
Soltando a rédea do cavalo reserva, ele segurou de um lado a tocha acesa, inclinou a lança e a jogou. Rodney estava meio segundo atrás dele, os dois cavalos de batalha trovejando pelo espaço aberto. O Kalkara, com o sangue encharcando o chão aos seus pés, levantou-se e foi atingido no peito pelas pontas das duas lanças, uma após a outra.
O monstro estava quase morto, mas mesmo assim seu peso e sua força contiveram a corrida dos cavalos de batalha. Eles empinaram o corpo quando os dois cavaleiros se inclinaram nos estribos para empurrar as lanças no peito da criatura. A ponta de ferro afiada penetrou na carne e atravessou os pêlos emaranhados. A força da investida fez o Kalkara perder o equilíbrio e o jogou para trás, para dentro das chamas.
Durante um instante, nada aconteceu. Então eles viram um clarão ofuscante e um pilar de chamas vermelhas que atingiu 10 metros de altura no céu da noite. E, de uma forma muito simples, o Kalkara desapareceu.
Os dois cavalos de batalha se empinaram apavorados, e Rodney e o barão mal conseguiam se manter nas selas. Eles se afastaram do fogo, e todos sentiram um cheiro forte e desagradável de carne e pêlos queimados. Will se lembrou vagamente de Halt discutir a forma de lidar com um Kalkara. Ele tinha contado que se dizia que eles eram especialmente suscetíveis ao fogo. "Parece que os boatos estavam certos", Will pensou, fazendo Puxão trotar para junto dos dois cavaleiros.
Rodney estava esfregando os olhos, ainda atordoado pelo clarão forte.
- Que diabos causou isso?
O barão tirou a lança do fogo com cuidado. A madeira estava queimada, e a ponta, escurecida.
- Deve ser a substância pegajosa que cobre os pelos deles e forma essa couraça dura - ele respondeu num tom de voz espantado. - Ela deve ser ligeiramente inflamável.
- Bem, o que quer que fosse, nós conseguimos derrotar - Rodney retrucou com um tom satisfeito na voz. O barão balançou a cabeça.
- Halt conseguiu - ele corrigiu o mestre de guerra. - Nós só demos o último golpe.
Rodney concordou com um gesto de cabeça, aceitando a correção. O barão olhou para o fogo, que ainda jogava uma torrente de faíscas no ar, mas cujas chamas vermelhas já estavam se acalmando.
- Halt deve ter acendido esse fogo quando percebeu que eles o estavam cercando. Ele incendiou a área para ter luz e poder atirar.
- E atirou mesmo - sir Rodney afirmou. - Todas as flechas acertaram pontos muito próximos uns dos outros.
Eles olharam ao redor, procurando algum sinal do arqueiro. Então, debaixo das paredes em ruínas do castelo, Will viu um objeto conhecido. Ele desmontou e correu para apanhá-lo. Seu coração se apertou no peito quando pegou o poderoso arco de Halt, esmagado e partido em dois pedaços.
- Ele deve ter atirado daqui - falou, indicando o ponto abaixo das paredes caídas onde tinha achado o arco.
Todos olharam para cima, imaginando a cena, tentando recriá-la. O barão apanhou a arma destruída da mão de Will quando este montou novamente em Puxão.
- E o segundo Kalkara o alcançou enquanto ele matava seu irmão - ele disse. - A pergunta é: onde Halt está agora? E onde está o outro Kalkara?
Foi quando eles ouviram os gritos recomeçarem.
Halt estava agachado entre os tijolos caídos que antes tinham sido a fortaleza de Morgarath, dentro do pátio em ruínas coberto de mato. Sua perna, dormente onde o Kalkara a tinha arranhado, estava começando a latejar dolorosamente, e ele sentia o sangue atravessando a atadura improvisada que tinha amarrado em volta dela.
Ele sabia que o segundo Kalkara o estava procurando em algum lugar ali perto. De tempos em tempos, ouvia o movimento dos pés se arrastando e chegou a escutar sua respiração dura quando o monstro se aproximou de seu esconderijo entre duas paredes caídas. Halt sabia que era só uma questão de tempo até que a criatura o encontrasse. E, quando isso acontecesse, ele estaria acabado.
Halt estava ferido e desarmado. Tinha perdido o arco, despedaçado naquele primeiro e apavorante ataque em que disparou uma flecha depois da outra no primeiro dos dois monstros. Ele conhecia o poder de seu arco e a capacidade de penetração das flechas pesadas e afiadíssimas. Não conseguia acreditar que o monstro tinha recebido aquela chuva de flechas e aparentemente ainda continuava com a mesma coragem. Quando ele cambaleou, já era tarde demais para que Halt voltasse sua atenção para o companheiro. O segundo Kalkara estava quase em cima dele, arrancando o arco de sua mão e esmagando-o com a pata forte cheia de garras, de modo que ele mal teve tempo de arrastar-se para um local seguro perto da parede caída.
Enquanto o monstro o perseguia, atacando tudo à sua volta com as garras, ele tinha empunhado a faca e golpeado a terrível cabeça.
Mas a besta foi rápida demais para ele, e a pesada faca atingiu seu braço coberto pela malha da armadura. Ao mesmo tempo, ele se viu confrontado pelos olhos vermelhos cheios de ódio e sentiu-se perdendo a consciência. Os músculos começaram a ficar paralisados de terror quando se viu atraído para a horrível besta diante dele. Foi necessário um esforço imenso para desviar os olhos da criatura, e ele cambaleou para trás, perdendo a faca quando as garras de urso o atacaram e arranharam a sua coxa.
Então ele correu desarmado e sangrando, contando com o confuso labirinto que eram as ruínas para fugir do monstro que o perseguia.
Ele tinha percebido a mudança nos movimentos dos Kalkaras no final da tarde. Sua rota constante e anteriormente inalterada para o noroeste de repente mudou quando as duas bestas se separaram abruptamente, cada qual fazendo uma curva de 90 graus e andando em direções diferentes para dentro da floresta que os cercava. Suas pegadas, até aquele momento tão fáceis de seguir, também mostravam sinais de que estavam sendo encobertas, de modo que somente alguém habilidoso como um arqueiro teria sido capaz de segui-las. Pela primeira vez em anos, Halt sentiu um calafrio de medo no estômago quando se deu conta de que agora a caça era ele.
As ruínas estavam perto, então ele resolveu ficar ali, e não no bosque. Deixou Abelard em segurança, longe de qualquer perigo, e foi a pé para as ruínas. Ele sabia que os Kalkaras iriam persegui-lo assim que a noite caísse, então se preparou da melhor forma possível, reunindo galhos caídos para fazer uma fogueira. Halt até encontrou uma jarra de óleo nas ruínas da cozinha, rançoso e malcheiroso, mas que ainda iria queimar. Ele o derramou na pilha de lenha e se afastou até um ponto onde poderia ficar de costas para a parede. Tinha arrumado uma série de tochas e as deixou queimando enquanto escurecia, esperando que os matadores implacáveis o procurassem.
O arqueiro sentiu a presença deles antes de vê-los. Então enxergou os dois vultos trôpegos, duas manchas mais escuras contra a escuridão das árvores. Naturalmente, eles o viram de imediato. A tocha trêmula presa na parede garantiu isso. Mas eles não viram a pilha de lenha embebida em óleo, e era com isso que ele contava. Quando soltaram seus gritos de caça, Halt jogou a tocha flamejante na pilha e as chamas subiram no mesmo instante, espalhando um brilho amarelo na noite.
Por um momento, as bestas hesitaram, pois o fogo era seu único inimigo. Mas, quando viram que o arqueiro não estava próximo das chamas, continuaram - direto para a chuva de flechas com que Halt as recebeu.
Se tivessem mais 100 metros para percorrer, talvez Halt tivesse conseguido derrotar as duas. Ainda havia mais de dez flechas na aljava, mas o tempo e a distância corriam contra ele, que mal tinha escapado com vida. Agora, estava agachado entre dois pedaços de muro caído que formavam uma pequena gruta, escondido numa leve reentrância do terreno e oculto pela capa, como acontecia há anos. Sua única esperança era que Will chegasse com Arald e Rodney. Se pudesse escapar da criatura até que a ajuda chegasse, talvez tivesse uma chance.
Ele tentou não pensar na outra possibilidade - a de que Gilan chegasse antes deles, sozinho e armado apenas com o arco e a espada. Agora que tinha visto os Kalkaras de perto, Halt sabia que um homem tinha poucas chances de enfrentá-los. Se Gilan chegasse antes dos cavaleiros, ele e Halt morreriam ali.
Naquele momento, a criatura estava rodeando o velho pátio como um cão à procura da caça, adotando um padrão de busca metódico, para a frente e para trás, examinando cada espaço, cada buraco, cada possível esconderijo. Halt sabia que desta vez ela o encontraria. Sua mão tocou o cabo da pequena faca, a única arma que restava. Seria uma defesa insignificante, quase inútil, mas era tudo o que tinha.
Então ele ouviu: o inconfundível trovejar dos cascos dos cavalos de batalha. Olhou para cima e observou o Kalkara por uma pequena fresta entre as pedras que o escondiam. O monstro também os tinha ouvido e estava de pé, ereto, a cara voltada para o som que vinha de fora das paredes em ruínas.
Os cavalos pararam, e Halt ouviu o grito agudo do Kalkara mortalmente ferido ao desafiar os novos inimigos. As batidas dos cascos se fizeram ouvir de novo e ganharam velocidade e força. Seguiu-se um grito e um clarão vermelho gigantesco que subiu para o céu por um momento. Vagamente, Halt deduziu que o primeiro Kalkara devia ter sido jogado no fogo. Ele começou a recuar devagar para fora do esconderijo. Talvez pudesse escapar do outro Kalkara movendo-se para o lado e escalando a parede antes que ele o visse. As chances pareciam boas. A atenção do monstro estava voltada para o que quer que estivesse acontecendo do lado de fora. Mas, assim que teve a idéia, percebeu que não tinha opção. Embora aparentemente o Kalkara o tivesse esquecido por um momento, a criatura estava se movendo furtivamente em direção às ruínas que formavam uma escada irregular para o alto do muro.
Em mais alguns minutos, a besta estaria em posição de cair sobre os amigos despreocupados do outro lado, tomando-os de surpresa. Halt tinha que impedi-la.
O arqueiro já estava fora do esconderijo, a pequena faca saindo da bainha quase por vontade própria, quando ele correu pelo pátio, desviando-se e fazendo círculos ao redor do entulho espalhado. O Kalkara o escutou antes que ele tivesse dado dez passos e se virou para ele, assustadoramente silencioso quando pulou como um macaco para impedir sua passagem antes que pudesse avisar os amigos sobre o perigo.
Halt parou de repente e ficou imóvel, com o olhar preso na figura trôpega que se aproximava dele.
Alguns metros a mais e o olhar hipnótico iria controlar a sua mente. Ele sentiu uma vontade irresistível de encarar aqueles olhos vermelhos, mas então fechou os olhos, a testa franzida numa concentração intensa. Levantou a mão que segurava a faca e agitou-a para a frente e para trás num ataque suave e instintivo, vendo o alvo se mexer em sua cabeça, mentalmente alinhando o arremesso para o ponto no espaço aonde a faca e o alvo iriam chegar ao mesmo tempo.
Somente um arqueiro, entre muito poucos, poderia ter lançado a arma daquele jeito. A faca atingiu o olho direito do Kalkara, e a besta gritou furiosa quando se encolheu por causa da repentina pontada de agonia que começava em seu olho e se espalhava pelo corpo todo! Então Halt passou correndo por ele na direção do muro e subiu as pedras com dificuldade.
Will viu o vulto envolto em sombras que escalava na direção do topo do muro em ruínas. Mas, escondido pelas sombras ou não, havia algo de inconfundível nele.
- Halt! - ele gritou, apontando para que os dois cavaleiros também o vissem.
Todos os três viram o arqueiro parar, olhar para trás e hesitar. Então um vulto enorme começou a aparecer alguns metros atrás dele quando o Kalkara, cujo ferimento era dolorido, mas nada mortal, o perseguiu.
O barão Arald pensou em montar, mas, percebendo que nenhum cavalo poderia passar pela confusão de pedras e tijolos ao lado da parede, tirou a imensa espada da sela e correu na direção das ruínas.
- Para trás, Will! - ele gritou quando avançou.
Nervoso, Will levou Puxão de volta para a beira das árvores.
No muro, Halt ouviu o grito e viu Arald correndo para a frente. Sir Rodney estava logo atrás dele, girando uma enorme acha em círculos em volta da cabeça.
- Pule, Halt! Pule! - o barão gritou, e Halt não precisou de outro convite.
Ele saltou 3 metros para baixo, rolando para amortecer a queda quando aterrissou. Então, levantou-se e correu desajeitado ao encontro dos dois cavaleiros, enquanto o ferimento da perna tornava a abrir.
Com o coração na boca, Will viu Halt correr na direção dos dois cavaleiros. O Kalkara hesitou um momento e então, com um grito de desafio apavorante, pulou atrás dele. O monstro simplesmente transformou a queda de 3 metros num pulo enorme, suas pernas traseiras incrivelmente poderosas fazendo que fosse impulsionado para cima e para a frente, cobrindo o terreno entre ele e Halt nesse único movimento. O braço forte girou, atingindo Halt com violência e fazendo que ele rolasse para a frente inconsciente. Mas a besta não teve tempo de acabar com ele, pois o barão Arald o enfrentou e dirigiu a espada num arco mortal na direção de sua garganta.
O Kalkara foi cruelmente rápido e se abaixou, desviando do arremesso mortal e atacando as costas expostas de Arald com as garras antes que ele pudesse se recuperar do golpe. Elas rasgaram a malha de metal como se fosse um tecido fino, e Arald grunhiu de dor e surpresa quando a força do ataque o jogou de joelhos, obrigando-o a soltar a espada. Sangue jorrava de vários arranhões nas costas.
Ele teria morrido ali se não fosse por sir Rodney. O mestre de guerra girou a pesada acha como se fosse um brinquedo e golpeou a lateral do corpo do Kalkara.
A armadura de pêlos emaranhados protegeu a besta, mas a força imensa do golpe a fez cambalear e se afastar do cavaleiro com gritos furiosos e frustrados. Sir Rodney avançou protetoramente e se colocou com os pés firmes entre o monstro e as figuras caídas de Halt e do barão, preparando a arma para outro golpe fulminante.
E então, estranhamente, ele deixou a arma cair e ficou parado diante da criatura, totalmente à sua mercê. O poder do olhar do Kalkara roubara-lhe a vontade própria e a capacidade de pensar.
O Kalkara gritou vitorioso para o céu noturno. Um sangue negro escorria de sua cara. Nunca em sua vida ele tinha sentido dor parecida com a que aqueles três homens insignificantes haviam provocado. E agora eles iriam morrer por ousarem enfrentá-lo. Mas a inteligência primitiva que o guiava queria seu momento de triunfo, e ele gritou repetidas vezes diante dos três homens indefesos.
Will assistia a tudo horrorizado. Um pensamento se formava, uma idéia tomava corpo em algum lugar de sua mente. Ele olhou para o lado e viu a tocha bruxuleante que o barão Arald tinha soltado. Fogo. A única arma que poderia derrotar o Kalkara. Mas ele estava a 40 metros de distância...
Ele tirou uma flecha da aljava, escorregou da sela e correu rapidamente até a tocha tremeluzente. Uma grande quantidade de piche grudento e derretido tinha escorrido pelo cabo da tocha e, depressa, ele passou a ponta da flecha no líquido pegajoso e mole, cobrindo-a generosamente. Em seguida, encostou-a na chama até que se acendesse.
A 40 metros dali, a enorme criatura perversa estava satisfazendo sua necessidade de vitória, fazendo que seus gritos se espalhassem e ecoassem pela noite enquanto ficava de pé junto dos dois corpos: Halt, inconsciente, e o barão Arald, atordoado pela dor. Sir Rodney ainda estava parado no mesmo lugar, paralisado, com as mãos indefesas penduradas ao lado do corpo enquanto esperava a morte. Agora, o Kalkara levantava uma pata imensa para jogá-lo no chão, e o cavaleiro só conseguia sentir o terror paralisante de seu olhar.
Will preparou-se para atirar a flecha, estremecendo com a dor quando as chamas lhe queimaram a mão que segurava o arco. Ele mirou um pouco acima do seu alvo por causa do peso adicional do piche e soltou a flecha.
Ela descreveu um arco brilhante e rápido, e o vento provocado por sua passagem transformou a chama numa simples brasa. O Kalkara viu o clarão de luz se aproximando e se virou para olhar, selando seu próprio destino quando a flecha o atingiu diretamente no peito largo.
A flecha quase não penetrou os pêlos duros parecidos com escamas, mas, quando parou, a pequena chama voltou a se incendiar, e o fogo se espalhou nos pêlos emaranhados com incrível rapidez.
Assim que sentiu o toque do fogo, o Kalkara foi tomado pelo terror.
O monstro bateu nas chamas em seu peito com as patas, mas isso apenas serviu para espalhar o fogo para os braços. As chamas vermelhas avançaram depressa, e em segundos o Kalkara foi envolvido por elas, queimando dos pés à cabeça enquanto corria cegamente em círculos, tentando em vão escapar. Os gritos agudos não paravam e ficavam cada vez mais altos, atingindo uma escala de agonia que a mente mal podia compreender. As chamas ficavam mais intensas a cada segundo. Então os gritos pararem e a criatura morreu.
A pousada na vila Wensley estava tomada por música, risos e barulho. Will estava sentado à mesa com Horace, Alyss e Jenny, enquanto o dono lhes servia um suculento jantar de ganso assado e legumes frescos da fazenda, seguido de uma deliciosa torta de mirtilo cuja massa leve ganhou até a aprovação de Jenny.
Tinha sido idéia de Horace comemorar a volta de Will para o Castelo Redmont com um banquete. As duas meninas tinham concordado imediatamente, ansiosas por uma pausa na rotina, que agora parecia um tanto monótona comparada aos acontecimentos de que Will tinha participado.
Naturalmente, a notícia sobre a batalha com os Kalkaras tinha se espalhado na vila como uma fogueira ao vento, uma comparação extremamente apropriada, na opinião de Will. Quando ele entrou na pousada com os amigos naquela noite, um silêncio curioso tomou conta do aposento e todos os olhares se voltaram para ele. Will ficou agradecido pelo fato de o grande capuz esconder o seu rosto, que corava rapidamente. Os três companheiros perceberam seu constrangimento. Jenny, como sempre, foi a primeira a reagir e a quebrar o silêncio que enchia a pousada.
- Vamos, gente séria! - ela gritou para os músicos perto da lareira. - Vamos ouvir um pouco de música! E um pouco de conversa também! - ela acrescentou a segunda sugestão com um olhar significativo para os outros ocupantes da sala.
Os músicos aceitaram a sugestão. Era difícil recusar qualquer coisa sugerida por Jenny. Rapidamente, eles começaram a tocar uma canção folclórica conhecida e o som dominou o salão. Aos poucos, os outros moradores perceberam que sua atenção estava deixando Will pouco a vontade e, lembrando-se das boas maneiras, recomeçaram a conversar, olhando apenas de vez em quando para o rapaz, admirando-se de que alguém tão jovem pudesse ter participado de acontecimentos tão importantes.
Os quatro antigos colegas protegidos do castelo sentaram-se a uma mesa no fundo da sala, onde poderiam conversar sem ser interrompidos.
- George mandou pedir desculpas - Alyss disse quando se sentaram. - Ele está atolado de serviço. Toda a Escola de Escribas está trabalhando dia e noite.
Will acenou compreensivo. A guerra iminente com Morgarath e a necessidade de mobilizar tropas e retomar antigas alianças certamente criara montanhas de papelada.
Muita coisa tinha acontecido nos dez dias desde a batalha com os Kalkaras.
Depois de acampar junto das ruínas, Rodney e Will cuidaram dos ferimentos do barão Arald e de Halt, finalmente conseguindo fazer que os dois homens dormissem tranquilamente. Logo depois do amanhecer, Abelard entrou trotando no acampamento, procurando ansiosamente pelo dono. Will tinha acabado de acalmar o animal quando Gilan chegou exausto, cavalgando um pequeno cavalo de trabalho. Agradecido, o alto arqueiro recuperou Blaze. Então, depois de se convencer de que o antigo mestre não corria perigo, partiu quase imediatamente para o próprio feudo, depois que Will prometeu devolver o cavalo ao lavrador.
Mais tarde naquele dia, Will, Halt, Rodney e Arald tinham voltado ao Castelo Redmont, onde mergulharam numa atividade ininterrupta para preparar os guerreiros do castelo para a guerra. Havia milhares de detalhes a serem acertados, mensagens a serem enviadas e convocações a serem entregues. Como Halt ainda estava se recuperando do ferimento, grande parte desse trabalho tinha recaído sobre Will.
Ele percebeu que em épocas como aquela um arqueiro tinha pouco tempo para relaxar, o que tornava aquela noite uma diversão bem-vinda. O dono da pousada foi afobado até a mesa deles e colocou sobre ela quatro canecas de vidro e uma jarra da cerveja sem álcool, que ele preparava com gengibre.
- Hoje é por conta da casa - ele avisou. - Estamos honrados por ter você em nosso estabelecimento, arqueiro.
Ele se afastou, chamando um de seus ajudantes para atender a mesa de Will.
- E seja bem rápido! - ele ordenou. Alyss olhou para ele surpresa.
- É bom estar com uma celebridade - ela disse. - O velho Skinner geralmente segura as moedas com tanta força que a cabeça do rei fica sufocada.
- As pessoas exageram - Will disse com um gesto de indiferença.
Mas Horace se inclinou para a frente com os cotovelos na mesa.
- Então conte para a gente como foi a luta - ele pediu ansioso por detalhes.
Jenny olhou para Will de olhos arregalados.
- Não acredito que vocês tenham sido tão corajosos! - ela disse com admiração. - Eu teria ficado apavorada.
- Para falar a verdade, eu estava petrificado - Will confessou para eles com um sorriso triste. - O barão e sir Rodney foram os corajosos. Eles atacaram e enfrentaram as criaturas bem de perto. Eu fiquei a 40 ou 50 metros de distância o tempo todo.
Will descreveu os acontecimentos da batalha sem entrar em muitos detalhes sobre a aparência dos Kalkaras. Eles estavam mortos e acabados e seria melhor esquecê-los o mais depressa possível. Não era necessário se preocupar com determinadas coisas. Os três colegas ouviam, Jenny de olhos arregalados e entusiasmada, Horace ansioso por detalhes da luta e Alyss calma e digna como sempre, mas totalmente atenta a história. Quando ele descreveu sua cavalgada solitária para buscar ajuda, Horace balançou a cabeça admirado.
- Esses cavalos dos arqueiros devem ser de uma raça especial.
Will sorriu para ele, incapaz de resistir a fazer o comentário engraçado que tinha vindo à sua mente.
- O truque é se manter em cima deles - ele disse, ficando satisfeito ao ver um sorriso igual surgir no rosto de Horace quando ambos lembraram a cena da Feira do Dia da Colheita.
Ele percebeu, com um leve toque de prazer, que seu relacionamento com Horace tinha se transformado numa amizade profunda em que os dois se viam como iguais. Ansioso para sair de baixo dos holofotes, ele perguntou ao amigo como ia a vida na Escola de Guerra. O sorriso no rosto do garoto maior se alargou.
- Muito melhor, graças ao Halt - ele disse e, quando Will habilmente o cobriu de mais perguntas, ele descreveu a vida na Escola de Guerra, brincando sobre seus erros e fracassos, rindo quando contou quantas vezes tinha sido punido.
Will percebeu que Horace, antes um pouco exibido e arrogante, estava muito mais modesto ultimamente. Ele desconfiava de que Horace estava se saindo melhor como aprendiz de guerreiro do que deixava transparecer.
Foi uma noite agradável, principalmente depois da tensão e do terror da caçada aos Kalkaras. Quando os ajudantes tiraram os pratos, Jenny sorriu esperançosa para os dois garotos.
- Muito bem! Agora, quem vai dançar comigo? - ela perguntou alegremente, e Will foi lento demais para responder.
Horace tomou a mão dela e a levou para a pista de dança. Quando eles se juntaram aos demais dançarinos, Will olhou para Alyss sem saber bem o que fazer. Ele nunca sabia dizer o que a garota estava pensando. Achou que talvez fosse educado também convidá-la para dançar. Então pigarreou nervoso.
- Ahn... você também gostaria de dançar, Alyss? - convidou desajeitado.
Ela lhe ofereceu somente o leve sinal de um sorriso. - Acho que não, Will. Não sou uma boa dançarina. Parece que tenho pernas de pau.
Na verdade, ela era uma excelente dançarina, mas, diplomata nata como era, percebeu que Will só a tinha convidado por educação. Então os dois mergulharam no silêncio, mas um tipo de silêncio amistoso.
Depois de alguns minutos, ela se virou para ele com o queixo apoiado na mão para observá-lo com atenção.
- Vai ser um grande dia para você amanhã - ela disse, e ele corou.
Ele tinha sido convocado para aparecer diante de toda a corte do barão no dia seguinte.
- Não sei por que tudo isso - ele balbuciou.
- Ele possivelmente quer lhe agradecer em público - Alyss disse, sorrindo para ele. - Ouvi dizer que barões gostam de fazer isso com pessoas que salvaram suas vidas.
Will começou a dizer alguma coisa, mas ela pousou a mão macia e fria sobre a dele, e ele parou. Ele olhou aqueles olhos cinzentos, calmos e sorridentes. Alyss nunca tinha lhe parecido bonita, mas agora percebeu que sua elegância, sua graça e seus olhos cinzentos, emoldurados por cabelos loiros delicados, criavam um encanto natural que ultrapassava de longe uma simples beleza. Surpreendentemente, ela se inclinou para perto e sussurrou:
- Estamos todos orgulhosos de você, Will. E acho que eu sou a mais orgulhosa de todos.
Então Alyss o beijou. Os lábios dela eram incrivelmente, indescritivelmente macios.
Horas mais tarde, antes de finalmente adormecer, ele ainda podia senti-los.
Paralisado pelo medo da platéia, Will estava parado do lado de dentro da sala de audiências do barão.
O prédio era imenso. Era a principal sala do castelo, a sala em que o barão conduzia todos os negócios oficiais com os membros da corte. O teto parecia se estender para cima interminavelmente. Fachos de luz inundavam o aposento, vindos de janelas instaladas no alto das paredes grossas. Na extremidade da sala e parecendo estar a uma grande distância, o barão estava sentado numa cadeira parecida com um trono, vestindo suas túnicas mais finas.
Entre ele e Will, estava a maior multidão que o garoto já tinha visto. Halt fez o aprendiz avançar delicadamente com um empurrão nas costas.
- Vá em frente - ele murmurou.
Havia centenas de pessoas no Grande Salão, e todos os olhares estavam voltados para Will. Todos os chefes de ofício estavam ali, vestindo suas túnicas oficiais. Todos os cavaleiros e todas a damas da corte: cada uma usando suas melhores e mais elegantes roupas. Mais adiante, estavam os homens com armas do exército do barão, os outros aprendizes e os comerciantes da vila. Ele viu uma agitação colorida quando Jenny, desinibida como sempre, agitou um lenço para ele. Alyss, parada ao lado dela, foi um pouco mais discreta. Ela jogou um beijo para ele com a ponta dos dedos, delicadamente.
Ele ficou parado, desajeitado, colocando o peso do corpo ora numa perna, ora noutra. Desejou que Halt o tivesse deixado usar a capa de arqueiro para que pudesse se confundir com o ambiente e desaparecer.
Halt o empurrou outra vez.
- Ande, vamos! - sussurrou.
- Você não vem comigo? - ele perguntou, virando-se para o mestre.
Halt negou com a cabeça.
- Não fui convidado. Agora se mexa!
Ele empurrou Will mais uma vez e então, por causa da perna machucada, foi até uma cadeira. Finalmente, compreendendo que não tinha outro caminho a seguir, Will começou a andar pelo corredor que parecia não terminar nunca. Ele ouviu vozes balbuciando enquanto passava, ouviu seu nome sendo sussurrado de boca em boca.
E então as palmas se iniciaram.
Elas foram começadas pela esposa de um cavaleiro e se espalharam rapidamente por todo o salão. Era ensurdecedor, um rugido retumbante de aplausos que continuou até Will chegar aos pés da cadeira do barão.
Como Halt tinha ensinado, ele se apoiou num joelho e inclinou a cabeça para a frente.
O barão se levantou e ergueu a mão pedindo silêncio, e as palmas se transformaram em ecos.
- Levante-se, Will - ele disse em voz baixa, estendendo a mão para ajudar o garoto a se pôr de pé.
Atordoado, Will obedeceu. O barão pousou uma das mãos em seu ombro e o virou para que olhasse para a enorme multidão diante deles. Sua voz grave chegou sem esforço ao ponto mais afastado do salão quando falou.
- Este é Will. Aprendiz do arqueiro Halt, deste feudo. Todos vocês, olhem para ele e o conheçam. Ele provou sua fidelidade, coragem e iniciativa para com este feudo e para com o Reino de Araluen.
Houve um murmúrio vindo do público. Então as palmas recomeçaram, desta vez acompanhadas de vivas. Will percebeu que os vivas tinham começado na seção da multidão em que estavam os aprendizes da Escola de Guerra. Ele conseguiu ver o rosto sorridente de Horace liderando o coro.
O barão pediu silencio com a mão erguida, encolhendo-se como se o movimento causasse dor em suas costelas fraturadas e nos cortes suturados nas costas. Os vivas e as palmas morreram lentamente.
- Will - ele disse numa voz que ecoou para os cantos mais distantes do aposento enorme - eu lhe devo a minha vida. Não há agradecimentos suficientes para isso. Porém tenho o poder de atender a um pedido que uma vez me fez...
Will olhou para ele sério.
- Um pedido, senhor? - ele perguntou bastante atordoado com as palavras do barão.
- Eu cometi um erro, Will. Você me perguntou se poderia aprender a ser um guerreiro. Você desejava se tornar um dos meus cavaleiros e eu recusei o pedido. Agora, posso consertar esse erro. Eu ficaria honrado de ter alguém tão corajoso e habilidoso como um dos meus cavaleiros. Terá minha permissão para se transferir para a Escola de Guerra como um dos aprendizes de sir Rodney.
O coração de Will saltou em seu peito. Ele pensou em como, durante toda a vida, havia desejado ser um cavaleiro. Ele se lembrou do profundo e amargo desapontamento no dia da Escolha, quando sir Rodney e o barão tinham recusado o seu pedido.
Sir Rodney deu um passo à frente, e o barão fez um gesto para que falasse.
- Meu senhor - disse o mestre de guerra -, como sabe, fui eu quem recusou este garoto como aprendiz. Agora, quero que todos aqui saibam que eu estava errado. Eu, meus cavaleiros e meus aprendizes reconhecemos que não poderia haver membro mais valioso para a Escola de Guerra do que Will!
Os cavaleiros e aprendizes ali reunidos soltaram fortes gritos de aprovação. Com estrépito, desembainharam as espadas e as bateram ruidosamente acima de suas cabeças, gritando o nome de Will. Mais uma vez, Horace foi um dos primeiros a puxar o coro e o último a parar.
Aos poucos, o tumulto se aquietou e os cavaleiros guardaram as espadas. A um sinal do barão Arald, dois pajens se adiantaram, carregando uma espada e um escudo lindamente esmaltado que foram colocados aos pés de Will. O escudo tinha sido pintado com o desenho da cabeça de um feroz porco selvagem.
- Esse será o seu brasão quando se formar, Will - disse o barão com delicadeza -, para lembrar ao mundo a primeira vez em que conhecemos a sua coragem e lealdade para com um companheiro.
O garoto apoiou-se em um dos joelhos e tocou a superfície lisa e esmaltada do escudo. Ele tirou a espada lenta e reverentemente da bainha. Era uma arma magnífica, uma obra-prima da arte da fabricação de espadas.
A lâmina era extremamente afiada e ligeiramente azulada. O cabo e a cruzeta eram incrustados em ouro, e o símbolo com a cabeça do porco selvagem repetia-se no punho. A espada parecia ter vida própria. Perfeitamente balanceada, era leve como uma pena. Ele olhou para essa maravilhosa espada adornada com jóias e depois para o cabo de couro de sua faca de arqueiro.
- Essas são armas de cavaleiros, Will - o barão explicou. - Mas você provou repetidas vezes que é digno delas. Se desejar, elas serão suas.
Will deslizou a espada de volta na bainha e se levantou devagar. Ali estava tudo o que sempre desejou. E, mesmo assim...
Ele pensou nos longos dias na floresta com Halt. A enorme satisfação que sentiu quando uma de suas flechas atingiu o alvo, exatamente onde desejara, exatamente como tinha visto em pensamento antes de soltá-la. Ele pensou nas horas gastas aprendendo a seguir animais e homens. Aprendendo a arte de se esconder. Pensou em Puxão, na coragem e devoção do pônei.
E pensou no puro prazer que sentia quando ouvia o simples "bem-feito" de Halt quando completava uma tarefa a contento. E, de repente, tudo ficou claro. Ele olhou para o barão e disse com voz firme: - Sou um arqueiro, senhor. Houve um murmúrio de surpresa entre a multidão. - Você tem certeza, Will? - o barão perguntou em voz baixa, chegando mais perto. - Não recuse essa oferta somente por achar que Halt vai ficar ofendido ou desapontado. Ele insistiu que isso depende de você e já concordou em aceitar sua decisão.
Will balançou a cabeça negativamente. Nunca tinha tido tanta certeza de algo.
- Eu agradeço a honra, senhor.
Ele olhou para o mestre de guerra e viu, para sua surpresa, que sir Rodney estava sorrindo e mostrando sua aprovação com a cabeça.
- E agradeça ao mestre de guerra e aos seus cavaleiros pela oferta generosa, mas sou um arqueiro.
Ele hesitou.
- Não quero ofender ninguém com isso, senhor - ele terminou desajeitado.
Um enorme sorriso encrespou os traços do barão, e ele agarrou a mão de Will com força.
- Não estou ofendido, Will. De jeito nenhum! A sua lealdade para com o seu ofício e seu mestre de ofício são uma honra para você e todos os que o conhecem!
Ele deu um último aperto firme na mão de Will e a soltou.
Will se curvou e se virou para caminhar pelo longo corredor outra vez. Os vivas recomeçaram e, desta vez, ele manteve a cabeça erguida enquanto o barulho o envolvia e ecoava até o teto do Grande Salão. Então, ao se aproximar das grandes portas novamente, viu algo que o fez parar de imediato, perplexo e surpreso.
Pois ali parado, um pouco afastado da multidão, enrolado na capa cinza e verde, com os olhos ensombrecidos pelo capuz, estava Halt.
E ele estava sorrindo.
Mais tarde, após todo o barulho e as comemorações terem diminuído, Will estava sentado sozinho na minúscula varanda da pequena cabana de Halt. Na mão, ele segurava um pequeno amuleto de bronze no formato de uma folha de carvalho com uma corrente de aço passada por um elo no alto.
- É o nosso símbolo - seu professor tinha explicado quando o entregou para ele depois dos acontecimentos no castelo. - O equivalente ao brasão de armas dos cavaleiros.
Então ele procurou no interior da própria gola e tirou uma folha de carvalho de formato idêntico pendurada numa corrente no pescoço. A forma era parecida, mas a cor era diferente. A folha de carvalho que Halt usava era de prata.
- Bronze é a cor dos aprendizes - Halt tinha contado para ele. - Quando você terminar o treinamento, vai receber uma folha de carvalho de prata como esta. Todos da Corporação dos Arqueiros usam prata ou bronze.
Ele tinha desviado o olhar do garoto por alguns minutos.
- Para falar a verdade, você não devia recebê-la até depois de sua primeira avaliação - ele acrescentou com a voz um pouco rouca. - Mas duvido que alguém queira se opor a isso, depois de tudo o que aconteceu.
Agora, o pedaço de metal de formato curioso brilhava fracamente na mão de Will enquanto ele pensava na decisão que tinha tomado. Parecia muito estranho que tivesse desistido voluntariamente da única coisa que tinha esperado quase toda a vida: a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra e assumir uma posição como cavaleiro no exército do Castelo Redmont.
Ele girou a folha de carvalho de bronze na corrente em volta do dedo indicador, deixou-a subir pelo dedo e a soltou com um profundo suspiro. A vida podia ser muito complicada. Bem no fundo, sentiu que tinha tomado a decisão acertada. E, mesmo assim, ainda mais no fundo, havia uma pequena dúvida.
Assustado, percebeu que havia alguém parado ao lado dele. Ao se virar de repente, reconheceu Halt. O arqueiro se inclinou e se sentou ao lado do garoto no banco rústico de pinho na varanda estreita. Diante deles, o sol baixo do fim de tarde passava pelas folhas verde-claras da floresta, e a luz parecia dançar e girar enquanto a brisa leve sacudia as folhas.
- Um grande dia - ele disse em voz baixa, e Will concordou.
- E uma grande decisão que você tomou - Halt acrescentou depois de vários minutos de silêncio.
Desta vez, Will se virou para olhar para seu mestre.
- Halt, tomei a decisão certa? - ele perguntou finalmente com angústia na voz.
Halt apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou um pouco para a frente, semicerrando os olhos diante da luz forte que passava pelas folhas.
- No que me diz respeito, sim. Escolhi você como aprendiz e posso ver todo o potencial que você tem para ser um arqueiro. Até cheguei a quase gostar da sua presença e de ficar tropeçando em você - ele acrescentou com a leve sugestão de um sorriso. - Mas meus sentimentos e meus desejos não são importantes nesse caso. A decisão certa para você se refere ao que você mais quer.
- Sempre quis ser um cavaleiro - Will contou e então percebeu, com certa surpresa, que tinha dito a frase no passado.
Mas, mesmo assim, sabia que parte dele ainda queria isso.
- É claro que é possível querer duas coisas diferentes ao mesmo tempo - Halt disse em voz baixa. - Então, tudo se torna uma questão de escolha e de saber o que se quer mais.
Não era a primeira vez que Will tinha a sensação de que Halt, de alguma forma, havia lido a sua mente.
- Se você não pode resumir tudo num só pensamento, qual é a principal razão pela qual está um pouco desapontado por ter recusado a oferta do barão? - Halt continuou.
- Acho que... - Will disse devagar, pensando na pergunta. - Acho que, ao recusar a Escola de Guerra, estou decepcionando um pouco o meu pai.
- O seu pai? - Halt repetiu surpreso, e Will concordou.
- Ele foi um excelente guerreiro - ele contou para o arqueiro. - Um cavaleiro. Ele morreu em Hackman Heath, lutando contra os Wargals. Um herói.
- E você sabe de tudo isso, certo? - Halt perguntou, e Will as sentiu com um gesto.
Aquele sonho o tinha sustentado durante os longos e solitários anos em que nunca soube quem era ou o que deveria ser. Agora, o sonho tinha se transformado em realidade.
- Ele era um homem de que qualquer filho teria orgulho - ele disse finalmente, e Halt concordou.
- Isso realmente é verdade.
Havia algo em sua voz que fez Will hesitar. Halt não estava somente concordando por educação. Will se virou para ele depressa, percebendo todas as implicações das palavras do arqueiro.
- Você conheceu ele, Halt? Você conheceu meu pai?
Havia uma luz de esperança no olhar do garoto, que pedia a verdade. O arqueiro assentiu sério.
- Sim, conheci. Não convivi com ele por muito tempo, mas acho que poderia dizer que conhecia ele bem. E você está certo. Você pode ter muito orgulho dele.
- Ele foi um excelente guerreiro, não foi? - Will indagou.
- Ele era um soldado - Halt concordou - e um lutador corajoso.
- Eu sabia! - Will disse feliz. - Ele foi um grande cavaleiro!
- Um sargento - Halt acrescentou devagar e com delicadeza. Will ficou boquiaberto e não conseguiu dizer o que pretendia.
- Um sargento? - ele conseguiu finalmente balbuciar. Halt assentiu. Ele pode ver o desapontamento no olhar do garoto e colocou um braço ao redor de seus ombros.
- Não julgue as qualidades de um homem pela posição que ele ocupa na vida, Will. O seu pai, Daniel, foi um soldado leal e corajoso. Não teve a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra porque começou a vida como fazendeiro. Mas, se tivesse frequentado, teria sido um dos melhores cavaleiros.
- Mas ele... - o garoto começou tristemente.
O arqueiro fez que parasse e continuou na mesma voz gentil, suave e irresistível.
- Porque, sem ter feito qualquer juramento ou treinamento especial pelo qual os cavaleiros passam, ele viveu de acordo com os mais altos ideais da nobreza, bravura e valor. Na verdade, ele morreu alguns dias depois da batalha em Hackman Heath, enquanto Morgarath e seus Wargals estavam lutando para voltar ao Desfiladeiro dos Três Passos. Um contra-ataque repentino nos pegou de surpresa, e o seu pai viu um companheiro cercado por uma tropa de Wargals. O homem estava no chão e a poucos segundos de ser feito em pedaços quando seu pai o ajudou.
A luz nos olhos do garoto recomeçou a brilhar.
- Verdade? - Will perguntou baixinho, e Halt concordou com um gesto de cabeça.
- Verdade. Ele deixou a segurança da linha de batalha e pulou para a frente, armado apenas com a lança. Ficou em cima do companheiro ferido e o protegeu dos Wargals. Matou um deles com a lança e então outro despedaçou a ponta da arma, deixando Daniel somente com o cabo. Assim, ele o usou como se fosse um varapau e nocauteou outros dois: esquerda, direita! Foi exatamente assim!
Halt agitou a mão para a esquerda e para a direita para mostrar o que tinha acontecido. Os olhos de Will estavam presos nele agora, vendo a batalha enquanto o arqueiro a descrevia.
- Ele ficou ferido quando a haste da lança quebrou em outro ataque. Teria sido suficiente para matar qualquer homem, mas seu pai simplesmente tirou a espada de um dos Wargals que tinha matado e derrubou outros três, sangrando sem parar de um ferimento profundo que tinha na lateral do corpo.
- Três deles? - Will repetiu.
- Três. Ele era rápido como um leopardo. E, lembre-se, como lanceiro, nunca tinha realmente treinado com a espada.
Ele fez uma pausa, recordando aquele dia ocorrido tanto tempo atrás.
- Acho que você sabe que os Wargals não têm medo de quase nada. Eles são chamados de Os Indiferentes e, quando começam uma batalha, quase sempre são eles que a terminam. Quase sempre. Essa foi uma das poucas vezes que vi os Wargals com medo. Quando seu pai deu golpes para todos os lados, ainda parado em cima do companheiro ferido, eles começaram a recuar. Primeiro devagar. Depois correram. Eles simplesmente se viraram e correram. Nunca vi outro homem, fosse cavaleiro ou poderoso guerreiro, que pudesse fazer os Wargals fugirem assustados. Seu pai conseguiu. Ele pode ter sido um sargento, Will, mas foi o guerreiro mais poderoso que já tive o privilégio de ver lutando. Então, quando os Wargals recuaram, ele se apoiou em um joelho ao lado do homem que tinha ajudado e, mesmo sabendo que também estava morrendo, ainda tentou proteger ele. Seu pai tinha vários ferimentos, mas provavelmente foi o primeiro que matou ele.
- E o amigo dele se salvou? - Will perguntou em voz baixa.
- O amigo? - Halt indagou um tanto surpreso.
- O homem que ele protegeu - Will explicou. - Ele sobreviveu? De alguma forma, ele pensou que teria sido uma tragédia se o corajoso esforço do pai não tivesse tido êxito.
- Eles não eram amigos - Halt contou. - Até aquele momento, ele nunca tinha posto os olhos no outro homem - ele fez uma pausa e acrescentou - e vice-versa.
O significado daquelas últimas palavras penetraram no fundo da mente de Will.
- Você? - ele sussurrou. - Você era o homem que ele salvou? Halt assentiu com um gesto.
- Como eu disse, eu só conheci ele por alguns minutos, mas ele fez mais por mim do que qualquer outro homem, antes ou depois disso. Enquanto morria, ele me falou da mulher e de como ela estava na fazenda sozinha com um bebê para nascer a qualquer momento. Ele me implorou para ver se estavam cuidando dela.
Will olhou para o rosto sério e barbado que tinha passado a conhecer tão bem. Havia uma profunda tristeza nos olhos de Halt ao se lembrar daquele dia.
- Cheguei tarde demais para salvar sua mãe. Foi um parto difícil, e ela morreu logo depois que você nasceu. Mas eu trouxe você para cá, e o barão Arald concordou que você deveria ser criado como protegido do castelo até ter idade suficiente para se tornar meu aprendiz.
- Mas, durante todos esses anos, você nunca... - Will parou sem palavras.
Halt sorriu tristemente para ele.
- Nunca deixei ninguém saber que tinha colocado você no castelo como protegido? Não. Pense nisso, Will. As pessoas são... esquisitas quando se trata dos arqueiros. Como elas teriam tratado você? Ficariam perguntando que tipo de criatura estranha você era? Decidimos que seria melhor que ninguém soubesse do meu interesse em você.
Will concordou. Naturalmente, Halt tinha razão. A vida como protegido já tinha sido bastante difícil. Teria sido pior se as pessoas soubessem que ele tinha alguma ligação com Halt.
- Então você me aceitou como aprendiz por causa do meu pai? - Will quis saber.
Mas desta vez Halt balançou a cabeça negativamente.
- Não. Garanti que tomassem conta de você por causa de seu pai. Escolhi você porque mostrou ter a capacidade e as habilidades necessárias. E você também parece ter herdado a coragem de seu pai.
Houve um longo silencio entre eles enquanto Will assimilava a história da incrível batalha do pai. De alguma forma, a verdade era mais sensacional, mais inspiradora do que qualquer fantasia que ele pudesse ter criado ao longo dos anos. Por fim, Halt se levantou para se afastar, e o garoto sorriu agradecido para a figura grisalha, agora uma silhueta contra o céu, enquanto a última luz do dia desaparecia.
- Acho que meu pai ficaria satisfeito com a minha escolha - ele afirmou, deslizando a corrente com a folha de carvalho de bronze sobre a cabeça.
Halt simplesmente acenou uma vez com a cabeça, virou-se e entrou na cabana, deixando o aprendiz com seus pensamentos.
Will ficou sentado em silêncio por alguns minutos. Quase sem pensar, tocou a folha de carvalho de bronze que pendia do seu pescoço. Os sons do pátio de exercícios da Escola de Guerra e o ininterrupto martelar e estrépito da oficina de armas que vinha funcionando dia e noite durante a última semana chegavam até ele, carregados pela brisa da noite. Eram os sons do Castelo Redmont se preparando para a guerra.
Porém, estranhamente, pela primeira vez na vida, ele se sentiu em paz.Decidindo que o ataque seria a melhor defesa, Bryn deu um passo à frente e preparou-se para dar um golpe por cima da cabeça de Horace, mas o aprendiz desviou dele com facilidade. Horace escapou dos dois golpes seguintes de Bryn da mesma forma e então, ao bloquear o quarto ataque do garoto mais velho, escorregou a sua lâmina de madeira ao longo da bengala do outro rapaz um instante antes de as duas armas se separarem. Não havia nenhuma cruzeta para proteger a mão de Bryn do movimento, e a espada dura atingiu os seus dedos, provocando muita dor. Com um grito agoniado, ele deixou cair a bengala pesada, saltou para trás e escondeu a mão ferida debaixo do braço. Horace ficou parado, pronto para recomeçar.
- Eu não ouvi ninguém pedir para parar - Halt disse com suavidade.
- Mas... ele me desarmou! - Bryn choramingou.
- É mesmo. Mas tenho certeza de que ele vai deixar você pegar sua arma e recomeçar - Halt disse com um sorriso. - Vamos, continue.
Bryn olhou de Halt para Horace e não viu compaixão no olhar dos dois.
- Não quero - ele disse baixinho.
Horace achou difícil reconhecer naquela figura encolhida o valentão arrogante que tinha transformado sua vida num inferno nos últimos meses. Halt pareceu pensar na declaração de Bryn.
- Vamos levar seu protesto em conta - ele disse alegremente. - Agora, continue, por favor.
A mão de Bryn latejava. Mas até mesmo pior do que a dor era o medo do que estava para acontecer, a certeza de que Horace iria castigá-lo sem piedade. Ele se inclinou e, assustado, pegou a bengala com os olhos fixos no outro garoto. Horace esperou pacientemente até que Bryn estivesse pronto e então fez um repentino movimento para a frente.
Bryn gritou de medo e jogou a bengala para o lado. Horace sacudiu a cabeça aborrecido.
- Quem é o bebê agora? - ele perguntou.
Bryn desviou o olhar e se encolheu envergonhado.
- Se ele vai bancar o bebê - Halt sugeriu -, acho que você vai ter que dar umas palmadas nele.
Um sorriso se espalhou no rosto de Horace. Ele deu um pulo para a frente, agarrou Bryn pela nuca e o virou. Em seguida, bateu na traseira do garoto com a espada de exercício repetidas vezes e seguiu-o pela clareira quando tentou escapar do castigo impiedoso. Bryn uivava, saltava e soluçava, mas Horace o segurava com firmeza pelo colarinho, e não havia como escapar. Finalmente, quando sentiu que tinha retribuído as provocações, os insultos e a dor que tinha sofrido, Horace parou.
Bryn cambaleou e caiu com as mãos e os joelhos no chão, soluçando de dor e medo.
Jerome tinha assistido horrorizado ao acontecido, sabendo que logo seria sua vez. Ele começou a se afastar, tentando escapar enquanto o arqueiro estava distraído.
- Dê mais um passo e vou furar você com uma flecha.
Will tentou usar o mesmo tom de voz calmo e ameaçador de Halt. Ele havia tirado várias de suas flechas do alvo mais próximo e agora tinha uma delas preparada, apoiada na corda do arco. Halt declarou com ar de aprovação:
- Boa idéia. Mire na barriga da perna esquerda. O ferimento é muito doloroso.
Ele olhou para onde Bryn estava deitado, soluçando aos pés de Horace.
- Acho que ele já teve o que merecia - comentou, apontando então o dedo para Jerome.
- Sua vez - ele disse apenas.
Horace pegou a bengala que Bryn tinha deixado cair, andou até Jerome e estendeu-a para ele. Jerome recuou.
- Não! - Jerome gritou de olhos arregalados. - Não é justo! Ele...
- Ora, claro que não é justo - Halt concordou num tom tranquilo. - Imagino que você ache que três contra um é justo. Agora, vamos começar.
Muitas vezes, Will tinha ouvido o ditado que dizia que um rato encurralado acaba reagindo. Jerome provou que era verdade. Ele partiu para o ataque e, para sua surpresa, Horace recuou diante da chuva de golpes dirigidos a ele. A confiança do valentão começou a crescer à medida que ele avançava, mas não percebeu que Horace bloqueava todos os golpes com muita facilidade, quase com desprezo. Os melhores golpes de Jerome nem chegavam perto de derrubar a defesa de Horace. Se o aprendiz do 2° ano estivesse batendo numa parede de pedra, o resultado seria o mesmo.
Então, Horace parou de recuar. Ficou firme e bloqueou o último golpe de Jerome com punho de ferro. Os dois ficaram frente a frente por alguns segundos, e Horace começou a empurrar Jerome para trás. Com a mão esquerda, agarrou o punho direito de Jerome, fazendo que suas armas ficassem entrelaçadas. Os pés de Jerome escorregaram na grama macia à medida que Horace o obrigava a andar cada vez mais para trás. Finalmente, ele deu um último empurrão e Jerome caiu estendido no chão.
Jerome viu o que tinha acontecido com Bryn e sabia que se render não era uma opção. Ele se levantou com dificuldade e se defendeu desesperadamente quando Horace começou o ataque. Jerome foi empurrado para trás por uma sucessão de cortadas à direita, à esquerda e para cima. Ele conseguiu bloquear alguns dos golpes, mas a velocidade extraordinária do ataque de Horace o derrotou. Os golpes aterrissavam nas suas pernas, nos seus cotovelos e nos seus ombros. Horace parecia se concentrar nos ossos que iriam doer mais. Ocasionalmente, usava a ponta arredondada da espada para dar estocadas nas costelas de seu oponente - com força apenas suficiente para machucar, sem quebrar os ossos.
Finalmente, Jerome ficou farto. Ele desviou do ataque, soltou a bengala e caiu no chão, protegendo a cabeça com as mãos. As costas estavam levantadas convidativamente no ar. Horace parou e olhou interrogativamente para Halt. O arqueiro fez um leve gesto na direção de Jerome.
- Por que não? - ele perguntou. - Não se tem uma oportunidade dessas todos os dias.
Mas até ele se encolheu diante do chute forte que Horace deu no traseiro de Jerome. Este, com o nariz na terra, escorregou pelo menos 1 metro para a frente.
Halt recolheu a bengala que Jerome tinha deixado cair. Ele a observou por um instante, testando seu peso e equilíbrio.
- Realmente não é uma boa arma - ele disse. - Por que será que eles escolheram essa? - perguntou, jogando-a para Alda. - Mexa-se.
O garoto loiro, ainda agachado na grama cuidando do tornozelo machucado, olhou descrente para a bengala. O rosto estava manchado pelo sangue que escorria do nariz ferido. Ele nunca mais teria a mesma boa aparência.
- Mas... mas... estou ferido! - ele protestou, levantando-se desajeitado.
Ele não acreditava que Halt estava exigindo que enfrentasse o mesmo castigo a que tinha acabado de assistir.
Halt pensou por um instante. Por um momento, um raio de esperança brilhou na mente de Alda.
- É verdade - o arqueiro concordou. - É verdade - ele murmurou, parecendo um pouco desapontado, e Alda começou a acreditar que o senso de justiça de Halt iria poupá-lo do castigo que seus amigos tinham sofrido. Então o rosto do arqueiro se iluminou.
- Mas espere um minuto... Horace também está ferido. Não é mesmo, Will?
- Com certeza, Halt - Will respondeu sorrindo, e a esperança de Alda desapareceu no mesmo instante.
- Você tem certeza de que não está ferido demais para continuar, Horace? - Halt perguntou, fingindo preocupação.
- Ah, acho que dou conta do recado - Horace respondeu com um sorriso frio.
- Bom, então está combinado! - Halt disse alegre. - Vamos continuar!
E Alda soube que ele também não teria escapatória. Enfrentou Horace com determinação, e o duelo final começou.
Alda era o melhor espadachim dos três rapazes e, durante alguns minutos, chegou a dar um pouco de trabalho para Horace. Mas, à medida que se estudavam com golpes e contragolpes, ataques e defesas, percebeu que Horace era superior e sentiu que sua única chance era tentar algo inesperado.
Ele se separou do oponente, mudou a posição da bengala e a segurou com as duas mãos como se fosse um varapau. Em seguida, desferiu uma série de golpes rápidos para a direita e para a esquerda.
Durante um segundo, Horace foi apanhado de surpresa e caiu para trás. Mas ele se recuperou com uma velocidade felina e dirigiu um golpe por cima da cabeça de Alda. O aluno do 2° ano tentou um contragolpe normalmente usado com o varapau, segurando a bengala nas duas pontas para bloquear o golpe da espada com a parte central. Na teoria, a tática estava correta. Na prática, a dura espada de madeira simplesmente atravessou a bengala, e Alda ficou segurando duas varas inúteis. Totalmente desanimado, ele as deixou cair e ficou indefeso na frente de Horace.
Horace olhou para o seu torturador de longa data e depois para a espada em sua mão.
- Não preciso disto - ele murmurou e deixou a espada cair.
O soco de direita que ele desferiu sobre o maxilar de Alda foi impulsionado pelo ombro, pelo peso do corpo e por meses de sofrimento e solidão - a solidão que somente a vítima de maus-tratos conhece.
Will arregalou levemente os olhos quando Alda se levantou, cambaleou para trás e finalmente desabou na terra ao lado dos dois amigos. Ele se lembrou das vezes em que tinha lutado com Horace no passado. Se soubesse que o colega era capaz de dar um soco daqueles, nunca teria se metido com ele.
Alda não se mexeu e provavelmente não se moveria por muito tempo. Horace recuou, sacudindo os dedos machucados e soltando um suspiro satisfeito.
- Você não tem idéia de como isso foi bom - ele disse. - Graças a você, arqueiro.
Halt balançou a cabeça compreensivo.
- Obrigado por ajudar quando atacaram Will. E, por falar nisso, meus amigos me chamam de Halt.
Nas semanas que se seguiram a esse confronto final com os três valentões, Horace percebeu uma mudança definitiva na vida na Escola de Guerra.
O fator mais importante na mudança foi que Alda, Bryn e Jerome foram expulsos da escola, do castelo e da vila vizinha. Sir Rodney estava desconfiado, fazia algum tempo, de que havia um problema entre as turmas de seus alunos mais novos. Uma visita discreta de Halt confirmou o problema, e a investigação resultante logo trouxe à tona toda a história de como Horace tinha sido maltratado. O julgamento de sir Rodney foi rápido e inflexível. Os três alunos do 2° ano tiveram meio dia para fazer as malas. Eles receberam uma pequena quantia em dinheiro, suprimentos para uma semana e foram transportados para a fronteira do feudo, onde receberam ordens claras para não voltar.
Depois que foram embora, o grupo de Horace melhorou consideravelmente. A rotina diária da Escola de Guerra ainda era dura e desafiadora como antes, mas, sem a carga adicional que Alda, Bryn e Jerome colocavam sobre ele, Horace descobriu que podia lidar facilmente com os exercícios, a disciplina e os estudos. Rapidamente, começou a desenvolver o potencial que sir Rodney tinha visto nele. Além disso, seus colegas de quarto, sem medo de ser vítimas da vingança dos valentões, começaram a ser mais agradáveis e amistosos.
Em resumo, Horace sentia que as coisas estavam realmente melhorando.
Ele só lamentava não ter podido agradecer adequadamente a Halt por sua vida ter melhorado. Depois dos acontecimentos na campina, Horace tinha ficado internado na enfermaria durante vários dias para tratamento dos hematomas e das contusões. Quando foi liberado, descobriu que Halt e Will já tinham partido para a Reunião dos Arqueiros.
- Falta muito? - Will perguntou, talvez pela décima vez naquela manhã.
Halt soltou um leve suspiro de desespero, mas não deu nenhuma resposta. Eles estavam na estrada havia três dias, e Will achava que deveriam estar perto do local da Reunião. Por várias vezes na última hora, ele tinha sentido um cheiro desconhecido no ar e mencionado o fato para Halt.
- É sal. Estamos chegando perto do mar - Halt mencionou brevemente, encerrando a explicação por ali.
Will olhou de relance para o seu professor, esperando que talvez ele se dignasse a lhe dar mais informações, mas os olhos vivos do arqueiro estavam examinando o chão na frente deles. Will percebeu que, de tempos em tempos, Halt olhava para as árvores que cercavam a estrada.
- Você está procurando alguma coisa? - Will perguntou, e Halt se virou na sela.
- Finalmente, uma pergunta útil. Sim, na verdade, estou. O chefe dos arqueiros colocou sentinelas ao redor do local da Reunião. Eu sempre tento enganá-los quando estou me aproximando.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt permitiu-se dar um leve sorriso.
- Isso os mantém ocupados - ele explicou. - Eles vão tentar se esconder atrás de nós e nos seguir para poder dizer que me pegaram numa emboscada. É um jogo bobo que gostam de jogar.
- Por que bobo?
O que faziam se parecia exatamente com os exercícios de habilidades que ele e Halt realizavam regularmente. O arqueiro grisalho virou-se na sela e olhou fixamente para Will.
- Por que eles nunca conseguem me pegar - ele respondeu. - E neste ano vão tentar ainda com mais vontade porque sabem que estou trazendo um aprendiz. Querem saber se você é mesmo bom.
- Isso faz parte do teste? - Will quis saber, e Halt assentiu.
- É o começo. Você se lembra do que eu falei ontem à noite? Will fez que sim com a cabeça. Nas duas noites anteriores, quando estavam ao redor da fogueira, Halt tinha dado conselhos e instruções para Will com sua voz macia e o tinha ensinado como agir na Reunião. Na noite passada, eles arquitetaram táticas para serem usadas no caso de uma emboscada. Exatamente o tipo de coisa que Halt tinha acabado de mencionar.
- Quando nós... - Halt começou, mas de repente ficou alerta. Ele levantou um dedo num pedido de silêncio, e Will o obedeceu.
A cabeça do arqueiro estava levemente inclinada para o lado. Os dois cavalos continuaram sem hesitar.
- Escutou? - Halt perguntou.
Will também inclinou a cabeça. Ele teve a ligeira impressão de ouvir um leve barulho de cascos de cavalos atrás deles, mas não tinha certeza. O andar dos cavalos deles mascarava qualquer som real vindo da trilha às suas costas. Se havia alguém ali, seu cavalo estava trotando no mesmo ritmo.
- Mude a marcha - Halt sussurrou. - No três. Um, dois, três. Ao mesmo tempo, os dois cutucaram as laterais dos cavalos com o pé esquerdo. Aquele era só um dos muitos sinais aos quais Puxão e Abelard tinham sido treinados para responder.
No mesmo instante, os dois cavalos hesitaram em sua passada. Pareceram pular um passo e depois continuaram com passadas uniformes.
Mas a hesitação tinha mudado o padrão das batidas dos cascos e, por um instante, Will pôde ouvir outro conjunto de cascos de cavalo atrás deles como um eco levemente atrasado. Então o outro cavalo também mudou o ritmo das passadas para ficar igual aos deles e o som desapareceu.
- Cavalo de arqueiro - Halt disse em voz baixa. - Tenho certeza de que é Gilan.
- Como você sabe? - Will perguntou.
- Só o cavalo de um arqueiro pode mudar a passada tão depressa. E é Gilan, porque é sempre ele. Ele adora tentar me superar.
- Por quê? - Will perguntou, e Halt olhou para ele sério.
- Porque ele foi o meu último aprendiz - explicou. - E, por algum motivo, antigos aprendizes simplesmente adoram pegar seus antigos mestres desprevenidos.
Ele olhou de um jeito acusador para o seu aprendiz atual. Will ia protestar e dizer que nunca iria se comportar daquela maneira depois de formado e então se deu conta de que talvez fizesse isso na primeira oportunidade. O protesto morreu sem ser manifestado.
Halt pediu silêncio com um sinal e examinou a trilha diante deles.
- É aquele lugar ali - ele apontou. - Pronto?
Havia uma grande árvore ao lado da trilha, com galhos que pendiam na altura da cabeça deles. Will analisou-a por um momento e então as sentiu. Puxão e Abelard continuaram no seu ritmo regular em direção à árvore. Quando se aproximaram, Will tirou os pés dos estribos, levantou-se e ficou agachado nas costas de Puxão. O cavalo não mudou o ritmo das passadas quando seu dono mudou de posição.
Ao passarem debaixo dos galhos, Will segurou o mais baixo com a mão e pendurou-se nele. No mesmo instante em que seu peso saiu das costas de Puxão, o pequeno cavalo começou a trotar mais vigorosamente, batendo os cascos com força no chão a cada passo para que o rastreador que os seguia não percebesse que sua carga tinha ficado mais leve de repente.
Em silêncio, Will subiu mais alto na árvore até encontrar um ponto em que pudesse se apoiar com firmeza e enxergar bem. Ele viu Halt e os dois cavalos andando devagar pela trilha.
Quando chegaram à curva seguinte, Halt fez que Puxão continuasse trotando, parou Abelard e desceu da sela. Ele se ajoelhou e pareceu examinar o chão em busca de pegadas.
Naquele momento, Will conseguiu ouvir o outro cavalo atrás deles. Ele olhou para o caminho que tinham percorrido, mas outra curva escondia quem os seguia.
Então, o suave bater dos cascos parou.
A boca de Will estava seca, e seu coração batia cada vez mais rápido dentro do peito. Ele tinha certeza de que o som podia ser ouvido por qualquer pessoa num raio de cerca de 50 metros. Mas seu treinamento falou mais alto, e ele ficou imóvel no galho da árvore entre as folhas e sombras, observando a trilha atrás deles.
Um movimento!
Will o viu com o canto do olho, e então o movimento parou. Ele espiou o local com atenção durante um ou dois segundos e se lembrou das lições de Halt: "Não concentre sua atenção num lugar. Deixe o foco aberto e continue investigando. Você vai ver o outro como um movimento, não como uma figura. Lembre-se, ele também é um arqueiro e foi treinado na arte de não ser visto."
Will abriu o foco e examinou a floresta atrás deles. Dentro de segundos, foi recompensado com outro sinal de movimento. Um galho voltou ao lugar quando uma figura invisível passou silenciosamente.
Então, 10 metros adiante, um arbusto se agitou de leve. Em seguida, ele viu um feixe de grama alta voltar ao normal depois de ter sido amassado temporariamente por um pé que passou.
Will continuou imóvel como uma estátua. Ele ficou admirado com o fato de que seu perseguidor conseguia andar pela floresta sem ser visto. Obviamente, o outro arqueiro tinha deixado o cavalo para trás e estava seguindo Halt a pé. Os olhos de Will se mexeram rapidamente para dar uma olhada em Halt. Seu professor ainda parecia estar preocupado com algum tipo de sinal no chão.
Outro movimento veio da floresta. O arqueiro invisível tinha passado pelo esconderijo de Will e estava voltando para a trilha com a intenção de surpreender Halt pelas costas.
De repente, uma figura alta de capa cinza-esverdeado pareceu sair do chão no meio da trilha uns 20 metros atrás do vulto ajoelhado de Halt. Will piscou. Num momento, não havia ninguém ali; no outro, a figura pareceu se materializar do nada. A mão de Will começou a se mover na direção da aljava pendurada em suas costas, mas então ele interrompeu o movimento. Halt tinha dito na noite anterior: "Espere até que estejamos conversando. Se ele não estiver falando, vai escutar o menor movimento que você fizer."
Will engoliu em seco e desejou que a figura alta não tivesse escutado o movimento de sua mão na direção da aljava. E ele parecia ter parado a tempo. Ouviu uma voz alegre aos gritos vinda lá de baixo.
- Halt, Halt!
Halt se virou e se levantou devagar, limpando a terra dos joelhos enquanto se erguia. Ele inclinou a cabeça para o lado e analisou o vulto no meio da trilha, apoiado num arco comprido igual ao dele.
- Ora, Gilan. Vejo que você está pregando a mesma peça.
- Parece que a peça está sendo pregada em você este ano, Halt - o alto arqueiro respondeu, dando de ombros.
Enquanto Gilan falava, a mão de Will se moveu rapidamente, mas em silêncio, para a aljava. Ele escolheu uma flecha e a posicionou na corda do arco.
- É mesmo, Gilan? E que peça é essa? - Halt perguntou.
O divertimento era evidente na voz de Gilan quando respondeu ao antigo mestre.
- Ora, Halt, admita. Desta vez consegui superar você. E você sabe há quantos anos venho tentando!
Pensativo, Halt esfregou a barba grisalha com a mão.
- E, para falar a verdade, eu me pergunto por que você continua tentando, Gilan.
- Você devia saber quanto prazer um antigo aprendiz tem ao superar o mestre, Halt. Agora, vamos lá, confesse. Este ano eu venci.
Enquanto o homem alto falava, Will puxou a flecha com cuidado, mirando o tronco de uma árvore uns 2 metros à esquerda de Gilan. As instruções de Halt ecoavam em seus ouvidos: "Escolha um alvo próximo para assustá-lo quando atirar, mas, pelo amor de Deus, não perto demais. Não vá atravessá-lo com a flecha!"
Halt não tinha mudado de posição no meio da trilha. Gilan agora estava inquieto, passando o peso do corpo de uma perna para outra. A atitude tranquila de Halt estava começando a perturbá-lo. Parecia que, de repente, ele não estava totalmente certo de que Halt estava somente tentando blefar para escapar da armadilha.
As próximas palavras de Halt aumentaram suas suspeitas.
- Ah, sim... aprendizes e mestres. É verdade, eles formam uma combinação estranha. Mas, diga, Gilan, meu velho aprendiz, você não está esquecendo nada este ano?
Talvez tenha sido o jeito como Halt deu um pouco mais de ênfase à palavra "aprendiz", mas de repente Gilan percebeu que tinha cometido um erro. Ele começou a virar a cabeça e a procurar o aprendiz de que tinha se esquecido.
Quando começou o movimento, Will soltou a flecha.
A arma sibilou pelo ar, passou pelo alto arqueiro e penetrou, estremecendo, na árvore que Will tinha escolhido. Gilan deu um pulo para trás assustado e então seu olhar saltou para os galhos da árvore onde Will estava escondido. Este se admirou com o fato de que, mesmo tendo sido pego de surpresa, Gilan ainda tenha conseguido reagir tão rapidamente e identificar a direção de onde o atacante tinha atirado.
Gilan balançou a cabeça aborrecido. Seus olhos espertos conseguiram ver o pequeno vulto cinza e verde escondido nas sombras da folhagem da árvore.
- Desça, Will - Halt chamou. - Venha conhecer Gilan. E para este:
- Eu lhe disse quando você era garoto, não foi? Nunca seja apressado. Não corra para fazer as coisas.
Gilan assentiu um tanto desanimado. E pareceu ainda mais abatido quando Will pulou no chão e o alto arqueiro viu como ele era pequeno e jovem.
- Parece que eu estava tão determinado a apanhar uma velha raposa cinzenta que ignorei o pequeno macaco escondido nas árvores - ele disse rindo do próprio erro.
- Macaco? - Halt repetiu com aspereza. - Eu diria que hoje o macaco foi você. Will, este é Gilan, meu antigo aprendiz e agora arqueiro do feudo Meric, embora eu não tenha idéia do que eles tenham feito para merecer ele lá.
O sorriso de Gilan se alargou, e ele estendeu a mão para Will.
- E exatamente quando eu estava pensando que finalmente tinha vencido você, Halt - ele disse contente. - Então você é Will - continuou, apertando a mão do garoto com firmeza. - Estou satisfeito em conhecer você. Esse foi um excelente trabalho, meu jovem.
Will sorriu para Halt, e o arqueiro mais velho fez um leve movimento significativo com a cabeça. Will se lembrou das instruções finais que Halt tinha lhe dado na noite anterior: "Quando você superar um homem, nunca se vanglorie. Seja generoso e encontre alguma coisa nas ações dele para elogiar. Ele não vai gostar de ser vencido, mas vai enfrentar o fato com coragem. Mostre que você gostou do que ele fez. Elogios podem lhe conseguir um amigo. Divertir-se com a desgraça dos outros só cria inimigos."
- Sim, sou Will. Será que você pode me ensinar como consegue se mover desse jeito? Foi ótimo.
- Acho que nem tanto - Gilan retrucou rindo desanimado. - É óbvio que você me viu chegando de longe.
Will balançou a cabeça negativamente, lembrando-se de como tinha sido difícil ver Gilan. Seu elogio e seu pedido eram mais verdadeiros do que tinha percebido.
- Vi quando você chegou - ele disse. - E vi onde você tinha estado, mas nunca vi você depois que fez aquela curva. Gostaria de saber me mover assim.
O rosto de Gilan se iluminou de prazer diante da sinceridade de Will.
- Bom, Halt, vejo que esse jovem rapaz não tem só talento. Ele também é muito educado.
Halt olhou para os dois, o atual aprendiz e o antigo aluno. Ele acenou para Will com a cabeça, aprovando suas palavras diplomáticas.
- Movimentar-se como um ser invisível sempre foi a melhor habilidade de Gilan - Halt disse. - Você se daria bem se ele concordasse em lhe dar umas aulas.
Ele foi até o ex-aprendiz e colocou o braço ao redor de seus ombros.
- É bom ver você de novo.
Eles se abraçaram com afeto, e então Halt se afastou um pouco e o observou com atenção.
- Você fica mais magro a cada ano - ele disse finalmente. - Quando vai pôr alguma carne em cima desses ossos?
Gilan sorriu e ficou evidente que aquela era uma velha piada entre eles.
- Parece que você tem o suficiente para nós dois - o rapaz retrucou, cutucando as costelas de Halt com força. - Esse é o começo de uma barriguinha de cerveja?
Ele riu para Will.
- Acho que ele fica sentado na cabana e deixa você fazer todo o trabalho, não é?
Antes que Halt ou Will pudessem responder, ele se virou e soltou um assobio. Alguns segundos depois, seu cavalo apareceu, trotando pela curva na estrada. Quando o jovem arqueiro foi até o animal e montou na sela, Will notou uma espada que pendia da bainha. Ele se virou para Halt confuso.
- Pensei que não podíamos ter espadas - ele comentou em voz baixa.
Halt franziu a testa por um momento, sem compreender. Então seguiu o olhar de Will e percebeu o que tinha provocado o comentário.
- Não é que não tenhamos permissão - ele explicou enquanto os dois montavam. - É uma questão de prioridades. Leva anos para se tornar um bom espadachim, e não temos esse tempo. Temos outras habilidades para desenvolver.
Ele viu a próxima pergunta se formando nos lábios de Will e continuou.
- O pai de Gilan é um cavaleiro, então ele já vinha treinando com a espada durante alguns anos antes de se juntar aos arqueiros. Foi considerado um caso especial e teve permissão de continuar esse treinamento quando foi meu aprendiz.
- Mas pensei... - Will começou e hesitou.
O cavalo de Gilan se aproximava trotando, e Will não tinha certeza de que seria educado fazer a próxima pergunta na presença de Gilan.
- Nunca diga isso na frente de Halt - Gilan disse, ouvindo suas últimas palavras. - Ele simplesmente vai dizer: "Você é um aprendiz, não está aqui para pensar" ou "Se você tivesse pensado nisso, não iria perguntar."
Will teve que sorrir. Halt tinha usado exatamente as mesmas palavras em mais de uma ocasião, e a imitação de Gilan era excelente. Naquele momento, contudo, os dois homens estavam olhando para Will esperando ouvir a pergunta que estava prestes a fazer, então continuou.
- Se o pai de Gilan era um cavaleiro, ele não era automaticamente candidato à Escola de Guerra? Ou acharam que ele também era muito pequeno?
Halt e Gilan trocaram um olhar. Halt ergueu uma sobrancelha e fez um gesto para que Gilan respondesse.
- Eu poderia ter ido para a Escola de Guerra, mas preferi me juntar aos arqueiros - ele contou.
- Alguns fazem isso - Halt acrescentou com suavidade.
Will pensou nisso. Ele sempre supôs que os arqueiros não tinham ligação com os nobres do reino. Aparentemente, estava enganado.
- Mas pensei... - ele começou e no mesmo instante percebeu seu erro.
Halt e Gilan olharam para ele, depois um para o outro e disseram em coro:
- Você é um aprendiz, não está aqui para pensar. Em seguida eles viraram os cavalos e saíram trotando. Will correu para pegar Puxão e os seguiu. Quando alcançou os dois arqueiros, eles afastaram os cavalos para os lados, deixando espaço para ele. Gilan sorriu, mas Halt estava sombrio como sempre. Porém, enquanto continuavam a cavalgar num silêncio amistoso, Will teve a reconfortante sensação de que agora fazia parte de um grupo exclusivo e fortemente unido.
Era uma sensação agradável, de estar no lugar certo, como se, de alguma forma, ele tivesse chegado à sua casa pela primeira vez na vida.
- Aconteceu alguma coisa - Halt disse em voz baixa, fazendo sinal para os dois companheiros pararem os cavalos.
Os três cavaleiros haviam andado a meio galope no último meio quilômetro. Agora haviam aumentado um pouco a velocidade, e o espaço aberto entre as árvores estava bem à sua frente, a cerca de 100 metros de distância. Pequenas barracas individuais se estendiam em filas ordenadas, e a fumaça das fogueiras usadas para o preparo da comida enchia o ar. Um estande para prática de arco-e-flecha tinha sido instalado num dos lados do espaço aberto, e várias dezenas de cavalos, todos pequenos e desgrenhados cavalos de arqueiros, estavam pastando perto das árvores.
Os três companheiros sentiram um ar de urgência e atividade em todo o acampamento. No centro das fileiras de barracas, havia um pavilhão maior, de 4 x 4 metros e com altura suficiente para permitir que um homem alto ficasse de pé. Os panos laterais estavam enrolados para cima naquele momento, e Will pôde ver um grupo de homens vestidos de verde e cinza parados ao redor de uma mesa, aparentemente mergulhados numa conversa. De repente, um dos membros do grupo se afastou e correu para um cavalo que esperava do lado de fora da entrada. Ele montou, virou o cavalo e disparou pelo acampamento a galope na direção da trilha estreita entre as árvores do outro lado.
Ele tinha acabado de desaparecer nas sombras profundas debaixo das árvores quando outro cavaleiro apareceu da direção oposta, galopando entre as fileiras e parando fora da grande barraca. Seu cavalo mal tinha parado quando ele saltou para o chão e foi se juntar ao grupo do lado de dentro.
- O que aconteceu? - Will perguntou. De testa franzida, ele percebeu que várias das pequenas barracas estavam sendo desfeitas e enroladas por seus donos.
- Não tenho certeza - Halt respondeu, fazendo um gesto na direção das fileiras de barracas. - Veja se consegue encontrar um bom lugar para acamparmos. Vou ver o que está acontecendo.
Ele fez Abelard ir para a frente, virou-se e gritou:
- Não monte as barracas ainda. Pelo que parece, talvez não precisemos delas.
Os cascos de Abelard bateram com força no chão enquanto ele galopava na direção do centro do acampamento.
Will e Gilan encontraram um local para acampar debaixo de uma arvore grande relativamente perto da área central de reunião. Depois disso, sem saber ao certo o que fazer em seguida, eles se sentaram num tronco e esperaram a volta de Halt. Como um arqueiro de posição elevada, Halt tinha acesso ao pavilhão maior que, segundo a explicação de Gilan, era a barraca de comando. O comandante do grupo, um arqueiro chamado Crowley, se encontrava ali com seu pessoal todos os dias para organizar as atividades, bem como para conferir e avaliar os relatórios e as informações que os arqueiros traziam para a Reunião.
Quase todas as barracas perto dos dois arqueiros mais jovens estavam desocupadas, mas havia um arqueiro magro e desengonçado do lado de fora de uma delas, andando impacientemente de um lado para outro, parecendo tão confuso quanto Gilan e Will. Ao vê-los no tronco, ele se aproximou.
- Alguma novidade? - ele perguntou imediatamente, ficando desanimado quando ouviu a resposta de Gilan.
- Íamos fazer a mesma pergunta - Gilan disse, estendendo a mão para cumprimentar o rapaz. - Você é Merron, não é?
Os dois trocaram um aperto de mão.
- Isso mesmo. E, se me lembro bem, você é Gilan.
Gilan apresentou Will, e o recém-chegado, que parecia ter uns 30 anos, olhou para ele curioso.
- Então você é o novo aprendiz de Halt - ele comentou. - Nós estávamos querendo saber como você era. Eu ia ser um dos seus avaliadores.
- Ia ser? - Gilan perguntou depressa.
- Sim - Merron respondeu, olhando para ele. - Duvido que a gente continue com a Reunião agora - ele hesitou e acrescentou: - Quer dizer que vocês não estão sabendo?
Os dois recém-chegados balançaram a cabeça negativamente.
- Morgarath está planejando alguma coisa outra vez - ele disse em voz baixa, e Will sentiu um calafrio na espinha ao ouvir o nome perverso.
- O que aconteceu? - Gilan perguntou atento.
Merron sacudiu a cabeça, remexendo a terra na sua frente com a ponta da bota num gesto de frustração.
- Não há notícias claras ainda, apenas informações incompletas. Mas parece que um exército de Wargals saiu do desfiladeiro de Três Passos há alguns dias. Eles derrotaram as sentinelas e foram para o norte.
- Morgarath estava com eles? - Gilan quis saber.
Will ficou quieto e de olhos arregalados. Ele não conseguia fazer perguntas, nem mesmo pronunciar o nome de Morgarath.
- Não sabemos - Merron respondeu. - Acho que não, nesse estágio, mas Crowley tem mandado patrulheiros para investigar nos últimos dois dias. Talvez seja apenas um ataque surpresa, mas, se for mais do que isso, é possível que signifique o início de outra guerra. Se for isso, foi um péssimo momento para perder lorde Lorriac.
- Lorriac está morto? - Gilan perguntou com preocupação na voz, e Merron assentiu.
- Parece que foi um derrame ou um ataque do coração. Ele foi encontrado morto alguns dias atrás e não havia nenhuma marca em seu corpo. Estava olhando direto para a frente. Morto e frio como pedra.
- Mas ele estava na sua melhor fase! - Gilan exclamou. - Eu vi ele há somente um mês e ele estava saudável como um touro.
Merron deu de ombros. Ele não tinha explicação, somente conhecia os fatos.
- Acho que isso pode acontecer com qualquer um - ele disse. A gente nunca sabe.
- Quem é lorde Lorriac? - Will perguntou para Gilan em voz baixa.
Pensativo, o jovem arqueiro balançou a cabeça enquanto respondia.
- Lorriac de Steden. Ele era o líder da cavalaria pesada do rei. Provavelmente nosso melhor comandante. Como Merron disse, se houver uma guerra, sentiremos muito a falta dele.
A mão fria do medo pousou no coração de Will. Toda a sua vida as pessoas falaram de Morgarath em voz baixa, isso quando falavam dele. O Grande Inimigo tinha quase assumido as proporções de um mito: uma lenda de tempos antigos e sombrios. Agora o mito estava se tornando realidade mais uma vez. Uma realidade desafiadora e apavorante. Ele olhou para Gilan em busca de tranquilidade, mas o rosto bonito do jovem arqueiro não mostrou nada além de dúvida e preocupação em relação ao futuro.
Halt demorou quase uma hora para se juntar a eles outra vez. Como já passava do meio-dia, Will e Gilan tinham preparado uma refeição com pão, carne fria e frutas secas. O arqueiro grisalho escorregou da sela de Abelard, aceitou um prato de Will e comeu rapidamente.
- A Reunião terminou - ele disse entre uma mordida e outra. Ao ver a chegada do arqueiro mais velho, Merron tinha voltado a se reunir ao grupo. Ele e Halt se cumprimentaram rapidamente e então Merron fez a pergunta que estava na mente de todos.
- É a guerra? - ele perguntou ansiosamente, e Halt balançou a cabeça.
- Não temos certeza. As últimas informações mostram que Morgarath ainda está nas montanhas.
- Então por que os Wargals saíram? - Will perguntou. Todos sabiam que os Wargals só faziam a vontade de Morgarath. Eles nunca teriam agido de forma tão radical sem ordens dele. A expressão de Halt estava sombria quando respondeu.
- Eles são apenas um grupo pequeno, talvez 50. A intenção foi usá-los para desviar a atenção. Crowley acha que, enquanto nossos guardas estavam ocupados perseguindo os Wargals, os dois Kalkaras saíram das Montanhas e se esconderam em algum lugar da Planície Solitária.
Gilan assobiou baixinho, e Merron até deu um passo para trás surpreso. O rosto dos dois jovens arqueiros mostrava seu grande horror diante das notícias. Will não tinha idéia do que eram os Kalkaras, mas, a julgar pela expressão de Halt e as reações de Gilan e Merron, as notícias obviamente não eram boas.
- Você quer dizer que eles ainda existem? - Merron perguntou. - Pensei que tinham morrido anos atrás.
- Ah, sim, eles ainda existem - Halt confirmou. - Sobraram apenas dois, mas é o bastante para ficarmos preocupados.
Houve um grande silêncio. Finalmente e com hesitação, Will teve que perguntar:
- Quem são eles?
Halt balançou tristemente a cabeça. Não queria discutir aquele assunto com alguém tão jovem quanto Will, mas, sabendo o que os esperava, não tinha escolha. O garoto tinha que saber.
- Quando Morgarath estava planejando sua rebelião, ele queria mais que um exército comum. Sabia que sua tarefa seria mais fácil se conseguisse aterrorizar seus inimigos. Assim, durante vários anos, ele fez uma série de expedições para as Montanhas da Chuva e da Noite, procurando.
- Procurando o quê? - Will perguntou, embora tivesse a incômoda sensação de que sabia qual seria a resposta.
- Aliados que pudesse usar contra o reino. As montanhas são uma parte antiga e tranquila do mundo. Elas permaneceram inalteradas durante séculos, e havia rumores de que estranhas bestas e monstros antigos ainda viviam ali. Acontece que os rumores se confirmaram. - Wargals - Will comentou, e Halt assentiu. - Sim, Wargals. Morgarath os escravizou rapidamente e os fez cumprir sua vontade - Halt completou com um toque de amargura na voz. - Mas então ele encontrou os Kalkaras. E eles são piores que os Wargals. Muito, muito piores.
Will não disse nada. Pensar em bestas que eram piores que os Wargals o deixava, no mínimo, perturbado.
- Eles eram três, mas um foi morto há cerca de oito anos, por isso sabemos um pouco mais sobre eles. Pense numa criatura em algum ponto entre um macaco e um urso que anda sobre duas patas e você vai ter uma idéia da aparência de um Kalkara.
- Então Morgarath os controla com a mente, como faz com os Wargals? - Will perguntou.
- Não. Eles são mais inteligentes do que os Wargals, mas são totalmente obcecados por prata. Eles adoram e guardam prata e parece que Morgarath dá para os Kalkaras grandes quantidades de prata para que façam o que ele quer. E o fazem bem. Podem ser incrivelmente espertos quando perseguem uma presa.
- Presa? Que tipo de presa? - Will quis saber.
Halt e Gilan trocaram um olhar, e Will pôde ver que seu mentor estava relutante em falar no assunto. Mas o arqueiro grisalho respondeu em voz baixa:
- Os Kalkaras são assassinos. Quando recebem ordens para capturar uma determinada vítima, fazem tudo o que podem para alcançar e matar essa pessoa.
- Podemos impedir os Kalkaras? - Will perguntou, e seu olhar passou rapidamente para o arco pesado de Halt e a aljava repleta de flechas negras.
- É difícil matar eles. São cobertos por pêlos grossos emaranhados e tão fechados que quase parecem escamas. Uma flecha dificilmente penetra neles. Uma acha ou uma espada de folha larga funciona melhor.
Ou talvez um bom golpe com uma lança pesada dê resultado.
Will sentiu um momento de alívio. Esses Kalkaras estavam parecendo quase invencíveis, mas havia muitos cavaleiros no reino que, sem dúvida, eram capazes de dar conta deles.
- Então foi um cavaleiro que matou um deles há oito anos? Halt balançou a cabeça.
- Não foi um cavaleiro. Foram três. Foram necessários três cavaleiros totalmente armados para matar a criatura, e apenas um deles sobreviveu à batalha. E o que é pior: ele ficou aleijado para o resto da vida - Halt terminou carrancudo.
- Três homens? Todos cavaleiros? - Will indagou sem acreditar. - Mas como...
Gilan o interrompeu antes que pudesse terminar.
- O problema é que, se você se aproximar o bastante para usar uma espada ou lança, geralmente os Kalkaras derrotam você antes que tenha alguma chance.
Enquanto ele falava, seus dedos batiam levemente no cabo da espada que usava na cintura.
- E como eles fazem isso? - Will quis saber, sentindo o alívio momentâneo ser instantaneamente afastado pelas palavras de Gilan.
- Seus olhos - explicou Merron, o arqueiro desajeitado. - Se você olhar nos olhos deles, fica paralisado e indefeso, do mesmo jeito que um pássaro fica paralisado pelo olhar de uma cobra antes de ser morto por ela.
Will olhou para os três companheiros sem compreender. O que Merron tinha dito parecia improvável demais para ser verdade, mas Halt não o contradisse.
- Paralisa você... como eles podem fazer isso? Você está falando de magia?
Halt deu de ombros. Merron olhou para o lado, pouco à vontade. Nenhum deles gostava de discutir aquele assunto.
- Algumas pessoas dizem que é magia - Halt disse finalmente.
- Acho mais provável que seja uma forma de hipnotismo. Seja como for, Merron esta certo. Se um Kalkara fizer você olhar nos olhos dele, você fica paralisado de puro terror, incapaz de fazer qualquer coisa para se salvar.
Will olhou ao redor ansioso, como se esperasse ver uma criatura macaco-urso sair de dentro das árvores silenciosas a qualquer momento. Ele sentiu o pânico crescendo no peito. De alguma forma, tinha acreditado que Halt era invencível e, no entanto, ele estava ali, aparentemente admitindo que não havia defesa contra aqueles monstros perversos.
- Não há nada que se possa fazer? - ele perguntou numa voz desanimada.
- Diz a lenda que eles são especialmente vulneráveis ao fogo - Halt contou, dando de ombros. - O problema é, como já sabemos, conseguirmos nos aproximar o bastante para causar qualquer dano. Carregar uma chama acesa dificulta a tarefa de perseguir um Kalkara. Eles costumam caçar à noite e podem ver você se aproximando.
Will achou difícil acreditar no que estava ouvindo. Halt parecia muito realista sobre o assunto, e Gilan e Merron obviamente ficaram perturbados com as notícias que ele trouxe.
Seguiu-se um silêncio estranho, quebrado por Gilan.
- O que faz Crowley pensar que Morgarath está usando Kalkaras? Halt hesitou. Ele tinha ouvido a opinião de Crowley numa reunião particular. Então deu de ombros. Todos precisariam saber de tudo cedo ou tarde e todos eram membros do Grupo dos Arqueiros, até Will.
- Ele já usou duas vezes no ano passado: para matar lorde Northolt e lorde Lorriac.
Os três homens mais jovens trocaram olhares surpresos, e Halt continuou:
- Pensou-se que Northolt havia sido morto por um urso, lembram?
Will acenou com a cabeça de leve. Agora ele lembrava. No primeiro dia como aprendiz de Halt, o arqueiro tinha recebido a notícia da morte do comandante supremo.
- Na época, achei que Northolt era um caçador habilidoso demais para ser morto daquele jeito. É óbvio que Crowley concorda.
- Mas e quanto a Lorriac? Todos dizem que foi um derrame - Merron comentou.
Halt olhou para ele brevemente e então respondeu.
- Você ouviu isso, não foi? Bem, o médico dele ficou muito surpreso. Ele disse que nunca tinha visto homem mais saudável. Por outro lado... - ele fez uma pausa, e Gilan terminou seu pensamento.
- Pode ter sido obra dos Kalkaras.
- Exatamente - Halt concordou. - Não conhecemos todos os efeitos do olhar paralisante. Mantido durante um longo período de tempo, o terror pode muito bem ser suficiente para parar o coração de um homem. E houve algumas informações vagas sobre um animal grande e escuro visto na região.
Novamente, o silêncio se instalou no pequeno grupo debaixo das árvores. Em volta deles, os arqueiros se agitavam de um lado para outro, levantando acampamento e selando os cavalos. Halt finalmente os despertou de seus pensamentos.
- É melhor irmos andando. Merron, você precisa voltar ao seu feudo. Crowley quer o exército alerta e mobilizado. As ordens vão ser distribuídas em poucos minutos.
Merron assentiu e se afastou na direção de sua barraca, mas parou e voltou. Algo na voz de Halt, na forma como tinha dito "você precisa voltar ao seu feudo", o fez pensar.
- E vocês três? - ele perguntou. - Para onde vocês vão? Antes mesmo que Halt respondesse, Will soube o que ele ia dizer.
Mas isso não tornou o fato menos assustador ou apavorante quando as palavras foram ditas.
- Nós vamos atrás dos Kalkaras.
O acampamento fervia. Barracas eram desmontadas e arqueiros guardavam seus equipamentos, amarrando-os nas sacolas das selas. Os primeiros integrantes do grupo já tinham partido e voltavam para os seus feudos.
Will estava ajustando as cordas das mochilas nas selas depois de repor alguns itens que tinha tirado. Halt estava sentado a alguns metros de distância, com a testa franzida, pensativo, estudando o mapa da região que cercava a Planície Solitária. A planície era uma área grande que ainda não tinha sido mapeada e não apresentava estradas. Uma sombra caiu sobre Halt e ele olhou para cima. Gilan estava parado ao seu lado com um ar preocupado no rosto.
- Halt, você tem certeza sobre isso? - ele perguntou em voz baixa e preocupada.
- Toda certeza, Gilan. Isso simplesmente tem que ser feito - Halt respondeu, olhando-o com determinação.
- Mas ele é só um garoto! - Gilan protestou, olhando para Will que estava amarrando um saco de dormir atrás da sela de Puxão.
Halt suspirou e desviou o olhar.
- Sei disso, mas ele é um arqueiro. Aprendiz ou não, ele é um membro da corporação como todos nós.
Ele viu que Gilan ia protestar outra vez, preocupado com Will, e sentiu uma onda de afeição pelo antigo aprendiz.
- Gilan, num mundo ideal eu não colocaria Will em risco desse jeito. Mas não estamos num mundo ideal. Todos vão ter que desempenhar seu papel nessa campanha, até meninos como Will. Morgarath está se preparando para algo grande. Os agentes de Crowley ouviram dizer que, além de tudo, ele tem entrado em contato com os escandinavos. - Os escandinavos? Para quê?
- Não sabemos os detalhes, mas na minha opinião ele está esperando formar uma aliança com eles - Halt respondeu, dando de ombros. - Eles lutam com qualquer um por dinheiro. E, pelo que parece, lutam por qualquer um - ele acrescentou, deixando clara sua antipatia por mercenários. - O caso é que estamos com falta de pessoal. Normalmente, eu iria atrás dos Kalkaras com um grupo de pelo menos cinco arqueiros mais antigos. Mas Crowley simplesmente não pode ceder eles para mim. Assim, tive que me contentar com os dois em quem mais confio: você e Will.
- Ora, obrigado.
Gilan deu um sorriso torto. Ele estava emocionado com a confiança de Halt. Ainda admirava seu antigo mentor. Quase todos na Corporação de Arqueiros o faziam.
- Além disso, acho que essa sua velha espada enferrujada pode ser útil se nos depararmos com um desses horrores - Halt disse.
A Corporação de Arqueiros tinha tomado a decisão acertada quando permitiu que Gilan continuasse o treinamento com a arma. Embora poucas pessoas soubessem, Gilan era um dos melhores espadachins em Araluen.
- Quanto a Will - ele continuou -, não o subestime. Ele é muito habilidoso. É rápido, corajoso e já maneja muito bem o arco e as flechas. E, o que é melhor, pensa rápido. Meu verdadeiro plano é mandar ele buscar reforços se encontrarmos pistas dos Kalkaras. Isso vai nos ajudar e vai manter ele longe do perigo.
Pensativo, Gilan coçou o queixo. Agora que Halt tinha explicado o que pretendia, aquele parecia o único caminho a tomar. Ele encontrou o olhar do homem mais velho e acenou com a cabeça mostrando que entendia a situação. Então se virou para organizar seu material, mas descobriu que Will já tinha arrumado tudo e amarrado à sela de seu cavalo. Ele sorriu para Halt.
- Você tem razão - ele disse. - O garoto sabe usar a cabeça.
Os três partiram um pouco depois, enquanto os outros arqueiros ainda estavam recebendo ordens. Mobilizar o exército de Araluen não seria uma tarefa insignificante, e os arqueiros deveriam coordená-la e depois estar preparados para guiar as forças individuais dos 50 feudos para o ponto de reunião nas planícies de Uthal. Com Gilan e Halt designados para procurar os Kalkaras, os outros arqueiros tinham que assumir a tarefa de coordenar as forças de seus feudos.
Os três companheiros pouco falaram quando Halt os guiou para o sudeste. Até a curiosidade natural de Will foi abrandada pela magnitude da tarefa que os esperava. Enquanto cavalgavam em silêncio, a sua mente ficava formando imagens de criaturas selvagens parecidas com ursos e com feições de macaco. Criaturas que poderiam muito bem se mostrar invencíveis, até para alguém com as habilidades de Halt.
Por fim, contudo, a monotonia se instalou, as imagens terríveis desapareceram e ele começou a se perguntar que plano, se havia algum, Halt tinha em mente.
- Halt - ele chamou um tanto sem fôlego -, onde você espera encontrar os Kalkaras?
Halt observou o rosto sério ao seu lado. Eles estavam viajando no ritmo da marcha forçada dos arqueiros: quarenta minutos na sela, cavalgando num galope regular, e depois vinte minutos a pé, conduzindo os cavalos e permitindo que viajassem sem carga, enquanto os homens corriam num trote uniforme.
A cada quatro horas, eles paravam para uma hora de descanso, quando faziam uma refeição rápida de carne seca, pão duro e frutas, e então se embrulhavam em suas capas para dormir.
Eles já estavam viajando fazia algum tempo e Halt achou que era hora de descansar. Ele levou Abelard para fora da estrada, para o abrigo de um pequeno bosque. Will e Gilan o seguiram, largando as rédeas e deixando os cavalos pastar.
- O melhor - Halt disse em resposta à pergunta de Will - é começar a procurar na toca e ver se eles estão nas vizinhanças.
- E sabemos onde essa toca fica? - Gilan perguntou.
- Nossos espiões acham que fica em algum lugar na Planície Solitária, além das Flautas de Pedra. Vamos investigar essa região e ver o que encontrarmos. Se eles estiverem por ali, certamente vamos descobrir que uma ou outra ovelha ou cabra está faltando nas vilas da vizinhança. Conseguir que os moradores falem vai ser outro problema. Os habitantes das planícies são as pessoas mais fechadas de todos os tempos.
- O que é essa planície de que vocês estão falando? - Will perguntou com a boca cheia de pão seco. - E que raios é uma Flauta de Pedra?
- A Planície Solitária é uma área grande e plana. Tem muito poucas árvores e é coberta principalmente por massas rochosas e capim alto - Halt contou para ele. - Parece que o vento está sempre soprando, não importa a época do ano em que você vá para lá. É um lugar triste e deprimente, e as Flautas de Pedra são a parte mais sombria de lá.
- Mas o que são... - Will começou, mas Halt só tinha feito uma breve pausa.
- As Flautas de Pedra? Ninguém sabe realmente. Elas são um círculo de pedras formado pelos antigos, inserido no meio da parte mais ventosa da planície. Ninguém descobriu qual seu verdadeiro objetivo, mas elas estão arranjadas de modo que o vento é desviado ao redor do círculo e atravessa uma série de buracos nas próprias pedras. Elas criam um som constante e agudo, mas não tenho idéia de por que alguém achou que o som se parece com o de flautas. O barulho é misterioso e desafinado e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Depois de alguns minutos, você começa a ficar arrepiado, e ele continua por horas e horas.
Will ficou em silêncio. A imagem de uma planície triste varrida pelo vento e com pedras que emitiam um uivo agudo e ininterrupto pareceu tirar o último vestígio de calor do sol do final da tarde. Ele estremeceu involuntariamente. Halt viu o movimento e se inclinou para lhe dar um tapinha encorajador no ombro.
- Se alegre - ele disse. - Nada costuma ser tão mau quanto parece. Agora, vamos descansar um pouco.
Eles chegaram aos arredores da Planície Solitária ao meio-dia do segundo dia. Halt tinha razão: era um lugar grande e deprimente. A área se estendia por vários quilômetros e era coberta por um capim alto e cinzento, ressecado pelo vento constante.
O vento parecia quase um ser vivo. Ele era irritante, soprando contínua e invariavelmente do oeste, dobrando o capim alto à sua frente, varrendo o terreno achatado da Planície Solitária.
- Agora vocês entendem por que ela é chamada de Planície Solitária? - Halt perguntou aos dois companheiros, puxando as rédeas de Abelard para que eles pudessem alcançá-lo. - Quando você sai cavalgando nesse maldito vento, tem a sensação de que é a única pessoa viva que resta na face da Terra.
"Isso é verdade", Will pensou. Ele se sentiu pequeno e insignificante diante do vazio da planície. E essa sensação de insignificância foi acompanhada por outra de impotência. O deserto que estavam atravessando a cavalo parecia sugerir a presença de forças ocultas, forças muito maiores que suas habilidades. Até Gilan, normalmente alegre e entusiasmado, parecia afetado pela atmosfera pesada e deprimente do lugar. Apenas Halt parecia não ter mudado, permanecendo sombrio e taciturno como sempre.
Aos poucos, enquanto cavalgavam, Will ficava ciente de uma sensação inquietante. Havia algo oculto bem fora do alcance de sua percepção consciente. Alguma coisa que o deixava perturbado. Ele não a conseguia isolar nem mesmo dizer de onde vinha ou que forma tinha. A coisa simplesmente estava ali, sempre presente. Ele se mexeu na sela e ficou de pé nos estribos para investigar o horizonte monótono, na esperança de poder ver a fonte daquilo tudo.
- Você sentiu - Halt comentou ao perceber o movimento. - São as Pedras.
E, depois que Halt falou, Will se deu conta de que tinha sido um som, tão leve e tão contínuo que não podia ser isolado como tal, que criara a sensação de inquietação em sua mente e o aperto na boca do estômago. Ou talvez eles tivessem chegado a uma distância em que conseguiam ouvir as Flautas de Pedra apenas quando Halt fez o comentário, pois naquele momento Will pôde isolar o som. Era uma série de notas musicais desafinadas tocadas ao mesmo tempo, mas criando um som áspero e desarmonioso que irritava os nervos e perturbava a mente. Sua mão esquerda escorregou discretamente para o punho da faca enquanto cavalgava, e ele sentiu conforto ao tocar a arma sólida e confiável.
Eles continuaram a viagem durante toda a tarde com a impressão de que nunca avançavam. A cada passo, o horizonte atrás e diante deles parecia nunca ficar mais perto ou longe. Era como se estivessem marcando passo num mundo vazio. O som constante e agudo das Flautas de Pedra os acompanhou por todo o dia, ficando cada vez mais forte. Aquele era o único sinal de que estavam avançando. As horas passavam e o som continuava, sem que Will sentisse que ficava mais fácil suportá-lo. O som irritava seus nervos e o deixava ansioso. Quando o sol começou a mergulhar na margem oeste, Halt freou Abelard.
- Vamos passar a noite aqui e descansar - ele anunciou. - É quase impossível manter um ritmo constante no escuro. Sem características marcantes no terreno que nos ajudem a estabelecer uma rota, poderíamos facilmente acabar andando em círculos.
Agradecidos, os outros desmontaram. Mesmo bem preparados como eram, as horas passadas no ritmo de marcha forçada os tinham deixado exaustos. Will começou a procurar lenha para a fogueira ao redor dos poucos arbustos ressecados que cresciam na planície. Halt, percebendo o que ele tinha em mente, sacudiu a cabeça.
- Nada de fogo - recomendou. - Vão nos ver a quilômetros e não temos idéia de quem possa estar vigiando.
Will parou e deixou o pequeno feixe que tinha reunido cair no chão.
- Você está falando dos Kalkaras? - ele perguntou.
- Eles ou o povo da planície - Halt respondeu, dando de ombros.
- Não podemos saber com certeza se alguns deles são aliados dos Kalkaras. Afinal, vivendo tão próximos dessas criaturas, podem acabar cooperando com elas apenas para garantir sua segurança. E não queremos que eles espalhem que há estranhos na Planície.
Gilan estava tirando a sela de Blaze, seu cavalo baio. Ele largou-a no chão e esfregou o pêlo do cavalo com um punhado do sempre presente capim seco.
- Você não acha que já fomos vistos? - ele perguntou.
Halt pensou na pergunta por alguns segundos antes de responder.
- Talvez sim. Há muitos fatos que desconhecemos, como onde fica realmente a toca dos Kalkaras, se o povo das planícies é ou não seu aliado, se um deles nos viu ou não e informou nossa presença. Mas, até sabermos que fomos vistos, vamos fazer de conta que não fomos. Portanto, nada de fogo.
- É claro que você tem toda a razão - Gilan murmurou relutante. - É que eu ficaria feliz em matar alguém por uma xícara de café.
- Acenda o fogo para coar café - Halt recomendou - e isso pode ser a última coisa que vai fazer.
Foi um acampamento frio e desanimado. Cansados do ritmo duro da viagem, os arqueiros comeram uma refeição fria: pão, frutas secas e carne fria mais uma vez, engolida com água fria de seus cantis. Will estava começando a detestar aquelas rações duras e praticamente sem gosto. Halt assumiu o primeiro turno de vigília, e Will e Gilan se enrolaram em suas capas para dormir.
Aquela não era a primeira vez que Will acampava com desconforto desde que o período de treinamento tinha começado. Mas era a primeira vez que não havia nem mesmo um fogo crepitante ou, pelo menos, um canteiro de brasas quentes ao lado do qual descansar. Ele dormiu mal e teve sonhos desagradáveis - sonhos com criaturas assustadoras, coisas estranhas e aterradoras que povoavam seu subconsciente, porém perto o bastante para que ele sentisse sua presença e ficasse perturbado por ela.
O garoto ficou quase satisfeito quando Halt o sacudiu de leve para acordá-lo para seu turno de vigília.
O vento estava empurrando as nuvens sob a Lua. O gemido da canção das Pedras estava mais forte do que nunca. Will sentiu um cansaço de espírito e se perguntou se as Pedras tinham sido criadas para deixar as pessoas exaustas daquela forma. O capim alto em volta deles sibilava uma melodia que se sobrepunha ao som agudo que vinha de longe. Halt apontou para o céu, indicando um ângulo de elevação para ser lembrado por Will.
- Quando a Lua alcançar aquele ângulo, passe a guarda para Gilan - ele disse ao aprendiz.
Will concordou, levantando-se e esticando os músculos rígidos. Ele apanhou o arco e a aljava e andou até o arbusto que Halt tinha escolhido como ponto de observação. Arqueiros em vigília nunca ficavam em terreno aberto no local do acampamento, mas sempre se afastavam 20 metros das barracas e encontravam um esconderijo Dessa forma, estranhos que se aproximassem do acampamento teriam menor probabilidade de vê-los. Essa era uma das muitas habilidades que Will tinha aprendido em seus meses de treinamento.
Ele tirou duas flechas da aljava e as segurou entre os dedos da mão que apoiava o arco. Iria segurá-las desse jeito durante as quatro horas de sua guarda. Se precisasse delas, não teria que fazer movimentos exagerados para tirá-las da aljava - movimento que poderia alertar o atacante. Em seguida ele pôs o capuz na cabeça para se confundir com o formato irregular do arbusto. A sua cabeça e os seus olhos se moviam constantemente de um lado para outro como Halt tinha ensinado, sempre mudando o foco, de perto do acampamento para o horizonte escuro à sua volta. Dessa forma, ele teria chances melhores de perceber algum movimento. De tempos em tempos, ele se virava lentamente num círculo completo, examinando todo o terreno ao seu redor, do jeito mais imperceptível possível.
O som agudo das Pedras e o sibilar do vento eram constantes. Mas Will também começou a ouvir outros sons - o farfalhar de pequenos animais na grama e outros menos explicáveis. Com cada um deles, o coração do garoto acelerava um pouco mais, e ele se perguntava se podiam ser os Kalkaras rastejando sobre os vultos adormecidos dos amigos. Em certo momento, ficou convencido de que estava ouvindo a respiração de um animal grande. O medo tomou conta dele, apertando sua garganta, até ele perceber, com os sentidos sintonizados ao máximo, que o que ouvia realmente era a respiração tranquila dos companheiros.
Will sabia que, a uma distância maior do que 5 metros, ficaria praticamente invisível ao olho humano, graças à capa, às sombras e ao formato do arbusto que o cercava. Mas ele se perguntava se os Kalkaras contavam somente com a visão. Talvez tivessem outros sentidos que lhes dissessem que havia um inimigo escondido no arbusto. Talvez, naquele momento, estivessem se aproximando, ocultos pelo capim alto que balançava ao vento, prontos para atacar...
Seus nervos, já sensíveis além do suportável por causa da deprimente canção das Flautas de Pedra, faziam-no querer se virar e identificar a fonte de cada novo som assim que o ouvia. Mas Will sabia que iria se revelar ao fazer isso e se obrigou a se mover devagar, virando-se com cuidado até ficar de frente para a possível origem do som, avaliando cada novo risco antes de descartá-lo.
Nas longas horas da vigília tensa, ele não viu nada além das nuvens apressadas no céu, a Lua fugitiva e o mar ondulante de grama que os cercava. Quando a Lua chegou à elevação predeterminada, o rapaz estava física e mentalmente esgotado. Acordou Gilan para assumir a guarda e se enrolou em sua capa outra vez.
Desta vez, Will não sonhou. Exausto, dormiu profundamente até a luz cinzenta do amanhecer surgir no céu.
Eles viram as Flautas de Pedra no meio da manhã: um círculo cinzento e surpreendentemente pequeno de monólitos de granito que estavam no alto de uma elevação na planície. O caminho que tinham escolhido levou os três cavaleiros a cerca de 1 quilômetro de distância das Pedras, e Will ficou satisfeito de não se aproximar mais. O canto deprimente estava mais alto do que nunca, flutuando e se movendo ao sabor do vento.
- Vou partir em dois o lábio do próximo flautista que eu encontrar - Gilan ameaçou com um sorriso sombrio.
Eles continuaram seu caminho, deixando os quilômetros para trás, hora após hora, uma igual à outra, sem nada novo para ver e sempre com o leve uivo das Pedras às suas costas, deixando os nervos à flor da pele.
O homem da planície surgiu de repente no meio da grama, a uns 50 metros de distância. Pequeno, vestido com trapos cinza e com cabelos compridos despenteados caídos nos ombros, ele olhou para os três companheiros com olhos enlouquecidos durante vários segundos.
O coração de Will mal tinha se recuperado do susto de seu aparecimento repentino quando ele se foi, correndo pela grama, parecendo mergulhar dentro dela. Em poucos segundos, tinha desaparecido, engolido pelo capim. Halt ia colocar Abelard para persegui-lo, mas desistiu da idéia. A flecha que havia escolhido e pousado na corda do arco não foi usada. Gilan também estava pronto para atirar e tinha tido uma reação tão rápida quanto a de Halt. Ele também não atirou, olhando com curiosidade para seu superior.
- Pode não ser nada - Halt disse, dando de ombros. - Ou talvez ele tenha corrido para contar aos Kalkaras. Mas não podemos matar um homem só por desconfiança.
Gilan soltou um leve riso ruidoso, mais para liberar a tensão causada pelo surgimento inesperado do homem.
- Acho que não faz diferença se acharmos os Kalkaras ou se eles nos acharem - ele disse.
Os olhos de Halt se fixaram nele por um momento, sem nenhum sinal de humor.
- Acredite em mim, Gilan, há uma grande diferença - afirmou. Eles tinham parado a marcha forçada e cavalgavam lentamente pela grama alta. O som das Pedras começou a diminuir um pouco, para grande alívio de Will. Ele percebeu que agora o vento estava levando o som para longe.
Depois do repentino aparecimento do morador da planície, houve um período sem que se manifestasse outro sinal de vida. Uma pergunta vinha incomodando Will durante toda a tarde.
- Halt? - ele começou com cuidado, sem saber se este o mandaria ficar quieto.
O arqueiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas, mostrando que estava preparado para responder perguntas, e então Will continuou.
- Por que você acha que Morgarath buscou a ajuda dos Kalkaras?
O que ele espera ganhar?
Halt percebeu que Gilan também estava esperando pela resposta. Ele colocou os pensamentos em ordem antes de responder. Estava um pouco relutante em transformá-los em palavras, pois parte da resposta dependia de suposições e intuição.
- Quem sabe por que Morgarath faz as coisas? - ele disse devagar. - Não posso dar uma resposta clara. Só posso dizer o que Crowley e eu pensamos.
Ele olhou rapidamente para os companheiros. Era óbvio que os dois estavam preparados para aceitar suas suposições como fatos consumados. "Às vezes", ele pensou aborrecido, "a reputação de estar certo o tempo todo pode ser uma carga muito pesada."
- Há uma guerra se aproximando - ele continuou. - Todos já sabemos disso. Os Wargals estão avançando, e nós ouvimos dizer que Morgarath entrou em contato com Ragnak.
Ele viu a expressão confusa no rosto de Will, mas sabia que Gilan compreendia quem era Ragnak.
- Ragnak é o oberjarl, ou chefe supremo, se preferir, dos escandinavos, os lobos-do-mar - explicou.
Ele viu um clarão de compreensão no rosto do aprendiz e continuou.
- Está claro que essa guerra vai ser pior do que a anterior, e nós vamos precisar de todos os nossos recursos e de nossos melhores comandantes para nos guiar. Acho que é isso que Morgarath tem em mente. Ele quer nos enfraquecer fazendo que os Kalkaras matem nossos líderes. Northolt, o chefe supremo do exército, e Lorriac, nosso melhor comandante de cavalaria, já se foram. Certamente outros homens vão assumir essas posições, mas inevitavelmente vai haver alguma confusão no período de mudança, alguma perda de união. Acho que isso faz parte do plano de Morgarath.
- Há também outro aspecto - Gilan acrescentou pensativo. - Esses dois homens foram fundamentais na sua derrota na última vez. Ele está destruindo nossa estrutura de comando e se vingando ao mesmo tempo.
- Claro, isso é verdade - Halt concordou. - E, para uma mente perturbada como a de Morgarath, vingança é um motivo poderoso.
- Então você acha que vai haver mais mortes? - Will perguntou, e Halt o olhou com firmeza.
- Acho que vai haver mais tentativas. Morgarath agiu duas vezes com alvos definidos e teve sucesso. Não vejo nenhum motivo para que não tente de novo. Ele tem razões para odiar muita gente no reino. Talvez até o próprio rei. Ou talvez o barão Arald, pois ele causou alguns problemas para Morgarath na última guerra.
"E você também", Will pensou com medo. Ele estava para externar o pensamento de que Halt poderia ser um alvo quando se deu conta de que seu mestre provavelmente já estava ciente do fato. Gilan estava fazendo outra pergunta ao arqueiro mais velho.
- Eu não entendo uma coisa. Por que os Kalkaras continuam voltando para seu esconderijo? Por que não procuram simplesmente a vítima seguinte?
- Acho que essa é uma das poucas vantagens que temos - Halt afirmou. - São selvagens, cruéis e mais inteligentes do que os Wargals, mas não são humanos. São totalmente ingênuos. Mostre uma vítima para eles e eles vão caçar e matar ela ou morrer na tentativa. Mas só conseguem perseguir uma de cada vez. Entre uma morte e outra, voltam para sua toca. Então Morgarath, ou um de seus subordinados, os prepara para a próxima vítima e eles saem novamente. Nossa esperança é interceptar os Kalkaras no caminho se tiverem recebido uma nova missão. Ou matar eles em seu esconderijo se não tiverem.
Will olhou pela milésima vez para a planície monótona coberta de grama que se estendia à frente deles. Em algum lugar lá fora, as duas criaturas assustadoras estavam esperando, talvez já com uma nova vítima em mente. A voz de Halt interrompeu seus pensamentos.
- O sol está se pondo - ele disse. - Acho que podemos acampar aqui.
Eles desceram agilmente das selas e soltaram a barrigueira para deixar os cavalos mais confortáveis.
- Pelo menos este maldito lugar tem uma coisa boa - Gilan comentou, olhando à sua volta. - Todos os lugares são igualmente bons para acampar. Ou igualmente ruins.
Will acordou de um sono sem sonhos ao toque da mão de Halt em seu ombro. Ele jogou a capa para trás, olhou para a Lua, que dançava no céu, e franziu a testa. Não podia ter dormido mais de uma hora e ia dizer isso, mas Halt o impediu, colocando um dedo nos lábios, pedindo silêncio. Will olhou ao redor e percebeu que Gilan já estava acordado, parado perto dele com a cabeça voltada para noroeste, para o lugar de onde tinham vindo.
O garoto se levantou, movendo-se com cuidado para não fazer nenhum barulho desnecessário. Suas mãos tinham ido automaticamente para as armas, mas ele relaxou quando se deu conta de que não havia perigo imediato. Os outros dois prestavam atenção em um som, e então Halt levantou a mão e apontou para o norte.
- Lá está de novo - ele disse baixinho.
Então Will também escutou o mesmo som, acima dos gemidos das Flautas de Pedra e do murmúrio do vento ao passar na grama. Seu sangue gelou. Era um uivo agudo e selvagem que ululava e ficava cada vez mais alto. Um som desumano levado até eles pelo vento e saído da garganta de um monstro.
Segundos depois, outro uivo respondeu ao primeiro. Ligeiramente mais agudo, parecia vir de um ponto um pouco mais à esquerda do que o primeiro. Sem que lhe dissessem, Will sabia o que o som significava.
- São os Kalkaras - Halt disse num tom sombrio. - Eles têm um novo alvo e estão caçando.
Os três companheiros passaram a noite sem dormir. Os gritos de caça dos Kalkaras afastavam-se para o norte. Quando ouviram os sons pela primeira vez, Gilan quis selar Blaze, que estava nervoso com os uivos assustadores das duas bestas. Halt, porém, fez um gesto para que parasse.
- Não vou atrás dessas coisas no escuro - ele disse brevemente. Vamos esperar até o dia amanhecer e então vamos procurar suas pegadas.
As pegadas foram encontradas com facilidade, pois era óbvio que os Kalkaras não tentaram esconder sua passagem. A grama alta tinha sido esmagada pelos dois corpos pesados, que deixaram uma trilha visível apontando para o nordeste. Halt encontrou a trilha deixada pelo primeiro dos dois monstros e logo depois Gilan encontrou a segunda, cerca de 300 metros à esquerda, numa linha paralela e próxima o bastante para que pudessem se ajudar no caso de um ataque, mas longe o suficiente para evitar qualquer armadilha preparada para o irmão.
Halt analisou a situação por alguns momentos e então tomou uma decisão.
- Você fica com o segundo - ele disse para Gilan. - Will e eu vamos seguir este aqui. Quero garantir que os dois continuem andando na mesma direção. Não quero que um deles volte e venha atrás de nós.
- Você acha que eles sabem que estamos aqui? - Will perguntou, tentando com dificuldade manter a voz calma e desinteressada.
- É possível. O homem da planície que vimos já teve tempo para avisar eles. Ou talvez seja apenas uma coincidência e eles estejam saindo para a próxima missão.
Ele olhou para a trilha de grama esmagada que ia sempre na mesma direção.
- Parece mesmo que eles têm um objetivo. Então se virou para Gilan outra vez.
- Em todo caso, fique com os olhos abertos e preste muita atenção em Blaze. Os cavalos vão sentir a presença dessas bestas antes de nós. Não queremos cair numa emboscada.
Gilan as sentiu e virei; Blaze na direção da segunda trilha. A um sinal da mão de Halt, os três arqueiros começaram a cavalgar para a frente, seguindo a direção que os Kalkaras tinham tomado.
- Eu vou vigiar a trilha - Halt disse a Will. - Você fica de olho em Gilan, só para garantir.
Will voltou a atenção para o alto arqueiro, que estava a uns 200 metros de distância, e acompanhou seu ritmo. A parte inferior do corpo de Blaze estava escondida pela grama alta. De tempos em tempos, ondulações no chão tiravam tanto o cavalo quanto o cavaleiro da vista do rapaz. Na primeira vez em que isso aconteceu, Will reagiu com um grito de alarme, pois Gilan simplesmente desapareceu. Halt se virou rapidamente com uma flecha já pronta no arco, mas nesse momento Gilan e Blaze reapareceram, aparentemente sem saber do momento de pânico que tinham causado.
- Desculpe - Will murmurou aborrecido por ter permitido que seu estado de nervos o dominasse.
Halt lhe lançou um olhar penetrante.
- Está tudo bem - ele disse com calma. - Prefiro que me avise sempre, mesmo quando só pensar que há um problema.
Halt sabia muito bem que, por ter dado um falso alarme uma vez, Will poderia relutar em reagir da próxima, e isso poderia ser fatal para todos eles.
- Avise para mim sempre que perder Gilan de vista. E diga quando ele reaparecer - ele pediu.
Will assentiu, compreendendo o raciocínio do mestre.
E assim eles continuaram a cavalgar, com o grito agudo das Flautas enchendo seus ouvidos novamente à medida que se aproximavam do círculo de pedra. Will percebeu que desta vez eles passariam muito mais perto, pois os Kalkaras pareciam estar se dirigindo direto para o local. A cavalgada foi marcada por informações intermitentes de Will.
- Ele sumiu... ainda está sumido... Tudo bem. Apareceu de novo.
Will nunca estava seguro de quem estava passando por uma depressão, se Gilan ou ele. Muitas vezes, os dois ao mesmo tempo.
Houve um momento desagradável em que Gilan e Blaze sumiram e não reapareceram dentro dos habituais poucos segundos.
- Não consigo mais vê-lo... - Will informou. E então:
- Ainda não... ainda não... nenhum sinal... - a sua voz começou a ficar aguda por causa da inquietação que crescia dentro dele. - Nenhum sinal... ainda nenhum sinal...
Halt fez Abelard parar e preparou o arco novamente enquanto examinava o chão à sua esquerda e esperava Gilan reaparecer. Ele soltou um assobio agudo, três notas ascendentes. Houve uma pausa e depois um assobio de resposta, as mesmas três notas em ordem descendente, veio claramente até eles. Will soltou um suspiro de alívio, e Gilan em pessoa reapareceu nesse exato momento. Ele os olhou e fez um gesto largo, com os dois braços erguidos numa pergunta óbvia: "Qual é o problema?"
Halt fez um gesto negativo, e eles continuaram.
Quando se aproximaram das Flautas de Pedra, Halt ficou cada vez mais atento. O Kalkara que ele e Will vinham seguindo estava se dirigindo diretamente para o círculo. Ele fez Abelard parar e protegeu os olhos do sol, estudando as pedras cinzentas e sinistras com cuidado, procurando algum movimento ou sinal de que o Kalkara pudesse estar deitado esperando para emboscá-los.
- É o único esconderijo em quilômetros - ele explicou. - Não vamos correr o risco de que a maldita coisa esteja escondida aqui esperando por nós. Acho que precisamos tomar um pouco mais de cuidado.
Ele chamou Gilan com um sinal e explicou a situação. Então eles se dividiram para cobrir uma área maior ao redor das pedras, cavalgando para o interior do círculo lentamente de três diferentes direções, procurando nos cavalos qualquer sinal possível de reação a medida que se aproximavam. Mas o local estava vazio, embora no seu interior o gemido desafinado do vento que atravessava os buracos das flautas fosse quase insuportável. Pensativo, Halt mordeu o lábio olhando para o mar de grama nas duas trilhas deixadas pelos Kalkaras.
- Isso está nos tomando tempo demais - ele disse finalmente. - Enquanto pudermos ver as trilhas por uns 200 metros à frente, vamos andar mais depressa. Vamos diminuir o passo quando chegarmos a uma colina ou em qualquer momento em que a trilha não esteja visível por mais de 5 metros.
Gilan assentiu, mostrando que tinha compreendido, e retomou sua posição mais distante. Eles fizeram os cavalos trotar num passo longo e tranquilo que cobriria os quilômetros à frente deles. Will continuou a vigiar Gilan e, sempre que a trilha visível diminuía, Halt ou Gilan assobiavam e eles reduziam a velocidade até que o terreno se abrisse novamente à sua frente.
Quando a noite caiu, os três acamparam de novo. Halt ainda se recusava a seguir os dois assassinos no escuro, embora a Lua deixasse sua trilha facilmente visível.
- Fácil demais para eles voltarem no escuro - justificou. - Quero estar bem preparado quando finalmente vierem até nós.
- Você acha que eles virão? - Will perguntou, percebendo que Halt tinha dito "quando", e não "se".
O arqueiro olhou para seu jovem aluno.
- Sempre suponha que o inimigo sabe onde você está e que vai atacar você ele - ensinou. - Desse jeito, você pode evitar surpresas desagradáveis.
Ele pousou a mão no ombro de Will para tranquilizar o garoto. - Ainda pode ser desagradável, mas não será mais uma surpresa.
Pela manhã, eles retomaram a trilha, cavalgando no mesmo ritmo rápido,reduzindo o passo somente quando não podiam ver com clareza o terreno à sua frente. No começo da tarde, tinham chegado à beira da planície e entraram mais uma vez em terreno coberto por bosques ao norte das Montanhas da Chuva e da Noite.
Eles descobriram que ali os Kalkaras haviam se reunido, não ficando mais muito separados como tinha acontecido nas terras da planície. Mas o caminho continuava o mesmo, sempre em direção ao noroeste. Os três arqueiros seguiram esse curso por outra hora antes que Halt freasse Abelard e fizesse sinal para os outros desmontarem para uma conversa. Eles se reuniram ao redor de um mapa do reino que ele abriu na grama, usando flechas como pesos para que as bordas não se enrolassem.
- A julgar pelas pegadas, já diminuímos a distância até eles. Mas ainda estão um bom meio dia à nossa frente. Agora, esta é a direção que estão seguindo...
Ele pegou outra flecha e a colocou no mapa de modo que apontasse para o lado que os Kalkaras vinham seguindo nos dois últimos dias.
- Como vocês podem ver, se eles continuarem nessa direção, há somente dois lugares importantes para onde podem estar indo.
Ele apontou para um local no mapa.
- Aqui, as Ruínas de Gorlan. Ou, mais para o norte, o próprio Castelo de Araluen.
- Castelo de Araluen? - Gilan exclamou, respirando fundo. - Você acha que eles vão ousar tentar matar o rei Duncan?
- Eu simplesmente não sei - Halt respondeu, olhando para ele e balançando a cabeça. - Não sabemos muita coisa sobre essas bestas, e metade do que achamos que sabemos provavelmente são mitos ou lendas. Mas você tem que admitir, seria algo ousado, uma tacada de mestre, e Morgarath nunca foi contra esse tipo de coisa.
Ele deixou que os outros digerissem essa idéia por alguns momentos e então traçou uma linha de sua posição atual até o noroeste.
- Mas estive pensando. Olhe. Aqui está o Castelo Redmont. Talvez a um dia de cavalgada de distância e então outro dia até aqui.
De Redmont, ele traçou uma linha para noroeste, até as Ruínas de Gorlan, marcadas no mapa.
- Uma pessoa cavalgando rapidamente e usando dois cavalos pode cobrir o trajeto em menos de um dia até Redmont e depois conduzir o barão e sir Rodney até aqui, nas ruínas. Se os Kalkaras estiverem andando no mesmo ritmo de agora, talvez possamos barrar a passagem deles aqui. Vai ser difícil, mas é possível. E, com dois guerreiros como Arald e Rodney conosco, teremos muito mais chances de parar as malditas coisas de uma vez por todas.
- Um momento, Halt - Gilan interrompeu. - Você disse uma pessoa cavalgando dois cavalos?
Halt encontrou o olhar de Gilan e viu que o jovem arqueiro já tinha adivinhado o que ele tinha em mente.
- Isso mesmo, Gilan. E o mais leve de nós vai viajar mais depressa. Quero que passe Blaze para Will. Se ele se alternar entre Puxão e o seu cavalo, pode fazer isso a tempo.
Ele viu a hesitação no rosto de Gilan e compreendeu o porquê dessa expressão. Nenhum arqueiro gostava da idéia de entregar seu cavalo a outra pessoa, mesmo a outro arqueiro. Mas, ao mesmo tempo, Gilan entendeu a lógica da sugestão. Halt esperou que o jovem quebrasse o silêncio, enquanto Will observava os dois com os olhos arregalados de medo ao pensar na responsabilidade que estava prestes a ser posta em seus ombros.
Finalmente, com relutância, Gilan falou.
- Acho que faz sentido - ele concordou. - Então, o que quer que eu faça?
- Quero que me siga a pé - Halt disse asperamente, enrolando o mapa e guardando-o na sacola da sela. Se você puder conseguir um cavalo em qualquer outro lugar, faça isso e me alcance. Do contrário, vamos nos encontrar em Gorlan. Se não virmos os Kalkaras ali, Will poderá esperar por você com Blaze. Eu vou continuar a seguir os Kalkaras até vocês me alcançarem.
Gilan acenou concordando e Halt sentiu uma onda de afeto por ele. Quando compreendia um objetivo, Gilan não era do tipo que discutia ou fazia objeções.
- Você não disse que minha espada poderia ser útil? - o rapaz perguntou um tanto desanimado.
- É verdade - Halt respondeu -, mas isso me dá a oportunidade de trazer uma força de cavaleiros totalmente armados com machados e lanças. E você sabe que essa é a melhor forma de derrotar os Kalkaras.
- Sim, eu sei - Gilan retrucou, pegando as rédeas de Blaze, amarrando-as num nó e jogando-as sobre o pescoço do cavalo baio.
- Você pode começar com Puxão - ele disse para Will. - Assim Blaze vai poder descansar. Ele vai seguir você sem ser puxado pelas rédeas, e Puxão vai fazer a mesma coisa quando você estiver cavalgando Blaze. Amarre as rédeas desse jeito no pescoço de Puxão quando estiver montando Blaze para que elas não fiquem penduradas e não se prendam em nada.
Ele começou a se virar na direção de Halt e então se lembrou de uma coisa.
- Ah, sim, antes de montar nele pela primeira vez, lembre-se de dizer "olhos castanhos".
- Olhos castanhos - Will repetiu e Gilan não conseguiu evitar um sorriso.
- Não para mim. Para o cavalo.
Essa era uma antiga piada dos arqueiros e todos sorriram. Então Halt retomou o assunto principal.
- Will? Tem certeza de que consegue achar o caminho para Redmont?
Will assentiu. Ele tocou o bolso onde guardara sua copia do mapa e olhou para o sol para se orientar.
- Noroeste - ele disse tenso, indicando a direção que tinha escolhido.
Halt acenou com a cabeça satisfeito.
- Você vai chegar ao Rio Salmon antes do anoitecer e isso vai lhe dar um bom ponto de referência. A estrada principal fica só um pouco a oeste do rio. Mantenha um trote firme todo o tempo. Não tente se apressar, porque os cavalos só vão ficar cansados e, no final, você vai acabar andando mais devagar. Viaje com cuidado.
Halt saltou para a sela de Abelard e Will montou Puxão. Gilan apontou para Will e falou no ouvido de Blaze.
- Siga, Blaze, siga.
O cavalo baio, inteligente como todos os cavalos dos arqueiros, balançou a cabeça como se tivesse compreendido a ordem. Antes de partir, Will tinha mais uma pergunta que o vinha preocupando.
- Halt, as Ruínas de Gorlan... o que elas são exatamente? - ele quis saber.
- Isso não é uma ironia? - Halt respondeu. - Elas são as ruínas do Castelo Gorlan, o antigo feudo de Morgarath.
A cavalgada até o Castelo Redmont logo se transformou numa viagem cansativa. Os dois cavalos mantiveram o passo uniforme para o qual tinham sido treinados. É claro que houve a tentação de fazer que Puxão disparasse num galope violento, seguido por Blaze, mas Will sabia que esse ritmo o levaria ao fracasso. Ele estava avançando de acordo com a velocidade mais adequada aos cavalos. Porque o Velho Bob, o treinador de cavalos, tinha lhe dito que os cavalos dos arqueiros podiam trotar o dia todo sem se cansar.
Para o cavaleiro, a questão era muito diferente. Além do esforço físico de se mover constantemente ao ritmo do cavalo que estava montando - e os dois animais tinham passadas totalmente desiguais devido à diferença de tamanho - havia a tensão mental igualmente debilitante.
E se Halt estivesse enganado? E se, de repente, os Kalkaras tivessem desviado para o oeste e estivessem agora num curso que poderia interceptar o dele? E se ele cometesse algum erro terrível e não conseguisse chegar a Redmont a tempo?
O último receio, o medo causado pela insegurança, era o mais difícil de enfrentar. Apesar do duro treinamento que tinha recebido nos últimos meses, ele ainda era pouco mais que um garoto. E, o que era mais importante, antes sempre tinha podido contar com o julgamento e a experiência de Halt. Agora estava sozinho. E sabia o quanto dependia de sua habilidade para realizar a tarefa que tinha recebido.
Os pensamentos, as dúvidas, os medos enchiam sua mente cansada, tropeçando uns sobre os outros, acotovelando se em busca de posição. O Rio Salmon veio e foi sob o ritmo constante dos cascos de seus cavalos. Will parou rapidamente para dar de beber aos animais na ponte e então, já na Estrada do Rei, fez um tempo excelente, parando apenas rapidamente em intervalos regulares para mudar de montaria.
As sombras do dia ficaram mais compridas, e as árvores que pendiam sobre a estrada ficaram escuras e ameaçadoras. Cada barulho, cada movimento visto vagamente nas sombras, levava seu coração à boca.
Aqui, uma coruja piava e se lançava com as garras prontas para apanhar um rato descuidado. Ali, um texugo espreitava, caçando sua presa como uma sombra cinzenta nos arbustos da floresta. A cada movimento ou barulho, a imaginação de Will trabalhava sem parar. Ele começou a ver enormes vultos negros - parecidos com os Kalkaras de sua imaginação - em cada sombra, em cada grupo escuro de moitas que se mexia com a leve brisa. A razão lhe disse que seria muito improvável que os Kalkaras o estivessem procurando. A imaginação e o medo responderam que eles estavam lá fora em algum lugar. E quem podia garantir que não estavam perto?
A imaginação e o medo venceram.
E assim a noite longa e cheia de pavor passou, até que a luz baixa da madrugada encontrou um vulto curvado na sela de um cavalo forte de peito largo que galopava constantemente na direção do noroeste.
Will cochilou na sela e despertou com um susto, sentindo o calor dos raios do sol em cima dele. Delicadamente, puxou as rédeas de Puxão, e o pequeno cavalo ficou parado de cabeça baixa, respirando fundo. Will se deu conta de que tinha cavalgado durante muito mais tempo do que deveria e que o medo o tinha feito manter Puxão correndo na escuridão quando deveria tê-lo deixado descansar muito tempo atrás. Ele desmontou rígido, com o corpo todo dolorido, e parou para esfregar o focinho do cavalo com afeto.
- Desculpe, garoto - ele disse.
Puxão, reagindo ao toque e à voz que agora conhecia tão bem, moveu a cabeça e sacudiu a crina desgrenhada. Se Will tivesse pedido, ele teria continuado sem se queixar, até cair. Will olhou ao redor. A luz alegre da manhã tinha dispersado todos os temores sombrios da noite anterior. Agora, ele se sentia um pouco tolo ao lembrar os momentos de pânico paralisante. Will soltou as tiras da barrigueira da sela e deu ao seu cavalo uma pausa de dez minutos até que a respiração dele se acalmasse. Em seguida, maravilhado com o poder de recuperação e a resistência da raça de cavalos dos arqueiros, apertou a barrigueira na sela de Blaze e saltou no lombo do baio, gemendo levemente. Os cavalos dos arqueiros podiam se recuperar rapidamente, mas seus aprendizes levavam um pouco mais de tempo.
A manhã já estava no fim quando Will finalmente conseguiu ver o castelo Redmont. Estava montando Puxão outra vez quando atravessaram a última fileira de colinas e o vale verde do baronato Arald. O pequeno cavalo aparentemente não tinha sido afetado pela noite dura que tinha enfrentado.
Exausto, Will parou por alguns segundos e se apoiou no alto da sela. Eles tinham vindo para muito longe e bem depressa. Aliviado, observou os arredores conhecidos do castelo e a pequena vila simpática que se aninhava satisfeita em sua sombra. Fumaça saía das chaminés, fazendeiros caminhavam lentamente dos campos para casa, para a refeição do meio-dia. O castelo era sólido e tranquilizador em sua magnitude no alto da colina.
- Parece tudo tão... normal - Will disse para o cavalo.
Ele percebia que, de alguma forma, tinha esperado encontrar as coisas mudadas. O reino estava para entrar em guerra outra vez depois de quinze anos, mas ali a vida continuava normalmente.
Então, ao se dar conta de que estava perdendo tempo, ele fez Puxão andar mais depressa até atingir um galope, pois tanto o garoto quanto o cavalo estavam ansiosos para terminar esse último trecho da jornada.
Surpresas, as pessoas olhavam a passagem do pequeno vulto verde e cinza agachado sobre o pescoço do cavalo empoeirado, seguido por um cavalo baio maior. Um ou dois habitantes reconheceram Will e o cumprimentaram, mas suas palavras se perderam no barulho dos cascos.
O estrépito se transformou num martelar ressonante quando dispararam sobre a ponte levadiça abaixada e entraram no pátio dianteiro do castelo. Então, o martelar se tornou um estrondo apressado sobre as pedras da entrada. Will puxou as rédeas levemente, e Puxão parou na porta da torre do barão Arald.
Os dois homens armados que estavam de serviço, surpresos com o aparecimento repentino e ritmo vertiginoso do garoto, deram um passo à frente e barraram sua passagem com as lanças cruzadas.
- Pare aí, você! - disse um deles com aspereza. - Aonde pensa que vai com tanta pressa e fazendo tanto barulho?
Will abriu a boca para responder, mas antes de poder dizer alguma coisa uma voz zangada trovejou atrás dele.
- Que raios você pensa que está fazendo, seu idiota? Não reconhece um arqueiro do rei quando o vê?
Era sir Rodney, atravessando o pátio para ver o barão. As duas sentinelas ficaram em posição de sentido quando Will se virou agradecido para o mestre de guerra.
- Sir Rodney - ele disse. - Tenho uma mensagem urgente de Halt para lorde Arald e o senhor.
Como Halt tinha comentado com Will depois da caçada ao porco selvagem, o mestre de guerra era um homem esperto. Ele viu as roupas amarrotadas de Will e os dois cavalos cansados e percebeu que não era hora de fazer perguntas idiotas. Indicou a porta com o polegar.
- Melhor entrar e contar tudo. Mandem cuidar desses cavalos - ele ordenou aos guardas. - Dêem água e comida para eles.
- Só um pouco de cada, sir Rodney, por favor - Will acrescentou depressa. Apenas uma pequena quantidade de grãos e água e talvez uma escovada. Vou precisar deles logo.
Sir Rodney o olhou surpreso. Will e os cavalos davam a impressão de necessitar de um longo descanso.
- Deve ser alguma coisa muito urgente - ele respondeu. - Então, cuidem dos cavalos. E peçam para alguém levar comida e uma jarra de leite frio para o escritório do barão - ele pediu aos guardas.
Os dois cavaleiros assobiaram espantados quando Will lhes contou as novidades. Já se sabia que Morgarath estava reunindo um exército, e o barão tinha enviado mensageiros para formar tropas compostas de cavaleiros e homens armados. Mas as informações sobre os Kalkaras eram algo totalmente diferente, e não havia indícios de que eles tinham se aproximado do Castelo Redmont.
- Halt acha que eles podem estar atrás do rei? - o barão Arald perguntou quando Will terminou de falar.
O garoto assentiu.
- Sim, senhor. Mas acho que há outra possibilidade - Will acrescentou depois de hesitar.
Ele não queria continuar, mas o barão fez um gesto para que prosseguisse, e Will finalmente externou a suspeita que vinha crescendo dentro dele.
- Senhor... eu acho que é possível que eles estejam atrás do próprio Halt.
Depois de dizer o que pensava e de ter exposto seu receio, ele se sentiu melhor. De alguma forma, para sua surpresa, o barão Arald não rejeitou a idéia. Ele afagou a barba pensativo, enquanto digeria as palavras que tinha ouvido.
- Continue - ele disse, querendo ouvir o raciocínio de Will.
- É que Halt acha que Morgarath talvez queira se vingar, punir os que lutaram contra ele da última vez. E eu acho que foi Halt quem mais o prejudicou, não é mesmo?
- Isso é verdade - Rodney concordou.
- E achei que talvez os Kalkaras soubessem que os estávamos seguindo, que o homem da planície teve tempo suficiente para encontrar eles. E que talvez eles estivessem atraindo Halt até encontrarem um lugar para uma emboscada. Assim, enquanto ele pensa que está caçando os Kalkaras, na verdade é ele quem está sendo caçado.
- E as Ruínas de Gorlan seriam o lugar ideal para isso - Arald concordou. - Naquele amontoado de pedras, eles podem chegar até Halt antes que ele tenha a chance de usar seu arco. Bem, Rodney, não há tempo a perder. Você e eu vamos imediatamente. Meia armadura, eu acho. Vamos ser mais rápidos dessa forma. Lanças, machados e espadas. E vamos levar dois cavalos cada; vamos seguir o exemplo de Will. Partiremos dentro de uma hora. Diga para Karel reunir dez cavaleiros e nos seguir assim que puder.
- Sim, meu senhor - o mestre de guerra respondeu. O barão Arald se voltou para Will.
- Você fez um bom trabalho, Will. Vamos cuidar de tudo agora. E parece que você poderia aproveitar algumas horas de um bom sono.
Exausto, com dor em todos os músculos e juntas, Will endireitou o corpo.
- Gostaria de ir com vocês, senhor - ele percebeu que o barão ia discordar e acrescentou rapidamente. - Senhor, nenhum de nós sabe o que vai acontecer, e Gilan está lá fora em algum lugar a pé. Além disso... - ele hesitou.
- Continue, Will - o barão pediu em voz baixa e, quando o garoto olhou para cima, Arald viu frieza em seu olhar.
- Halt é meu mestre, senhor, e ele está em perigo. Meu lugar é ao lado dele - Will acrescentou.
O barão o avaliou com um olhar penetrante e então tomou uma decisão.
- Muito bem. Mas, pelo menos, tente descansar por uma hora. Há uma cama naquele anexo ali - ele ofereceu, indicando uma seção separada por uma cortina ao lado do escritório. - Por que não a usa?
- Sim, senhor - Will concordou agradecido.
Suas pálpebras pesavam como se estivessem cheias de areia. Ele nunca se sentira mais feliz em obedecer a uma ordem em toda a sua vida.
Durante toda aquela longa tarde, Will teve a impressão de que tinha passado a vida toda numa sela, fazendo um intervalo somente nos momentos de trocar de cavalo.
Uma breve pausa para desmontar, soltar a barrigueira do animal que estava montando, colocar a sela no cavalo que o acompanhava, montar novamente e continuar. Repetidas vezes, ele se admirou da fantástica resistência mostrada por Puxão e Blaze, que mantinham o galope constante. Até teve que freá-los um pouco para acompanhar os cavalos de batalha montados pelos dois cavaleiros. Mesmo grandes, fortes e treinados para a guerra, eles não conseguiam seguir o ritmo constante dos cavalos dos arqueiros, apesar de estarem descansados quando o pequeno grupo deixou o Castelo Redmont.
Eles cavalgavam sem falar. Não havia tempo para conversa fiada e, mesmo que houvesse, seria difícil escutar o que estavam falando por causa do barulho forte dos quatro cavalos de batalha, o bater mais leve dos cascos de Puxão e Blaze e o constante chacoalhar do equipamento e das armas.
Os dois homens carregavam compridas lanças de guerra - varas cinzentas e duras de mais de 3 metros de comprimento com uma pesada ponta de ferro. Além disso, cada um levava uma espada presa à sela. Eram armas enormes e pesadas muito maiores que as espadas normalmente usadas no dia-a-dia; e Rodney levava uma pesada acha pendurada na parte traseira da sela. Porém era nas lanças que eles confiavam mais. Elas manteriam os Kalkaras a distância e assim reduziriam a chance de que os cavaleiros fossem paralisados pelo terrível olhar das duas bestas. Aparentemente, o olhar hipnótico só era eficiente quando muito próximo. Se um homem não pudesse ver os olhos dos monstros com clareza, havia pouca possibilidade de que fosse paralisado.
O sol estava se escondendo rapidamente atrás deles e jogava as sombras longas e distorcidas para a frente. Arald olhou a posição do sol por cima do ombro e chamou Will.
- Quanto tempo ainda temos de luz, Will?
Will se virou na sela e olhou com atenção para a bola de luz que caía no horizonte.
Menos de uma hora, senhor.
O barão balançou a cabeça indeciso. Então vai ser difícil chegar lá antes do anoitecer - afirmou.
Ele instigou o cavalo a avançar, aumentando um pouco a velocidade. Puxão e Blaze o acompanharam sem esforço. Ninguém queria caçar os Kalkaras no escuro.
A hora de descanso no castelo tinha operado maravilhas em Will, mas agora parecia que tinha acontecido numa outra vida. Ele pensou nas instruções apressadas que Arald tinha dado quando montaram os animais para deixar Redmont. Se encontrassem os Kalkaras nas Ruínas de Gorlan, Will deveria ficar para trás enquanto o barão e sir Rodney atacavam os dois monstros. Não havia táticas complicadas, apenas um ataque impetuoso que poderia pegar os dois assassinos de surpresa.
- Se Halt estiver lá, tenho certeza de que também vai nos ajudar. Mas quero você longe do nosso caminho, Will. Esse seu arco não vai servir de nada num Kalkara.
- Sim, senhor - Will tinha dito.
Ele não tinha intenção de se aproximar dos monstros. Estava mais do que satisfeito em deixar o assunto para os dois cavaleiros, protegidos por escudos, capacetes e meias armaduras de malha de ferro. Contudo, as palavras seguintes de Arald desfizeram rapidamente qualquer confiança exagerada que ele pudesse ter na capacidade dos homens em lidar com as bestas.
- Se as malditas coisas nos vencerem, quero que corra em busca de mais ajuda. Karel e os outros vão estar em algum lugar atrás de nós. Encontre-os e depois procure os Kalkaras com eles. Siga essas bestas e mate-as.
Will não disse nada. O simples fato de Arald considerar o fracasso, quando ele e Rodney eram os dois melhores cavaleiros num raio de 200 quilômetros, fez aumentar ainda mais sua preocupação com os Kalkaras. Pela primeira vez, o garoto percebeu que as probabilidades estavam contra eles nessa disputa.
O sol tremia na beira do mundo, as sombras haviam atingido seu comprimento máximo e eles ainda tinham que percorrer muitos quilômetros. O barão Arald ergueu a mão e fez o grupo parar. Ele olhou para Rodney e apontou as tochas embebidas em piche que cada homem carregava atrás das selas.
- Tochas, Rodney - ele disse rapidamente.
O mestre de guerra hesitou por um momento.
- Tem certeza, senhor? Elas vão mostrar nossa posição se os Kalkaras estiverem vigiando.
- Eles vão nos ouvir chegar de qualquer forma - Arald disse, dando de ombros. - E entre as árvores vamos nos mover devagar demais sem luz. Vamos correr o risco.
Ele preparou sua pedra-de-fogo, formando uma fagulha que acendeu o pequeno pavio e logo criou uma chama forte. Segurou a tocha perto do fogo, e o piche em que estava impregnada de repente se acendeu e explodiu numa chama amarela. Rodney se inclinou na sua direção com a outra tocha e a acendeu na chama do barão. Então, segurando as tochas para o alto, as lanças presas por tiras de couro enroladas em seus pulsos direitos, eles retomaram o galope, trovejando na escuridão debaixo das árvores quando finalmente deixaram a estrada larga que vinham percorrendo desde o meio-dia.
Passaram-se outros dez minutos quando ouviram os gritos.
Era um som fantasmagórico que fazia o estômago dar voltas e congelava o sangue. Involuntariamente, o barão e sir Rodney puxaram as rédeas dos animais. Os cavalos ficaram extremamente agitados. O barulho vinha de algum ponto adiante deles, aumentando e diminuindo.
- Bom Deus nos céus! - o barão exclamou. - O que foi isso? - ele indagou com a expressão assustada.
O som infernal atravessou a noite e foi respondido por outro uivo idêntico.
Will já tinha ouvido o terrível som antes. Ele sentiu o sangue sumir do rosto quando se deu conta de que seus temores mostravam ter fundamento.
- São os Kalkaras. Eles estão caçando.
E ele sabia que havia apenas uma pessoa atrás da qual podiam estar. Eles tinham voltado e estavam caçando Halt.
- Olhe, meu senhor! - Rodney disse, apontando para o céu que escurecia rapidamente.
Através de um espaço na proteção oferecida pelas árvores, eles viram uma súbita rajada de luz se refletindo no céu, sinal de um incêndio num lugar próximo.
- É Halt! - o barão disse. - Tem que ser. Ele precisa de ajuda! Arald pressionou as esporas nos flancos do cansado cavalo de batalha, impelindo o animal para a frente em um galope ensurdecedor. A tocha em sua mão deixava chamas e faíscas para trás enquanto sir Rodney e Will o seguiam a galope.
Era uma sensação estranha seguir aquelas tochas flamejantes e agitadas com suas línguas alongadas de fogo soprando para trás por entre as árvores, jogando sombras esquisitas e apavorantes entre elas, enquanto à frente deles o brilho do fogo maior, presumivelmente aceso por Halt, ficava mais forte e próximo a cada passo.
Eles saíram do meio das árvores praticamente sem aviso e se depararam com uma cena de pesadelo.
Havia uma pequena clareira coberta por capim. Além dela, o terreno estava tomado por um amontoado de rochas e matacões.
Pedaços gigantescos de paredes, ainda unidas por argamassa, estavam espalhados pelos lados, as vezes meio enterrados no solo macio coberto de grama. As paredes em ruínas do Castelo Gorlan cercavam a cena em tres lados, nunca ultrapassando 5 metros, destruídas e derrubadas por um reino vingativo depois que Morgarath tinha sido obrigado a partir para o sul, para as Montanhas da Chuva e da Noite. O caos resultante era como o playground de uma criança gigante - pedras espalhadas em todas as direções, empilhadas com descuido umas em cima das outras, praticamente sem deixar nenhum pedaço de terreno descoberto.
Toda a cena era iluminada pelas chamas saltitantes e retorcidas de uma fogueira acesa a uns 40 metros de distância. E ao lado dela estava agachada uma figura horrível, gritando com ódio e fúria, batendo inutilmente na ferida mortal no peito que finalmente a tinha derrubado.
Com mais de 2,5 metros de altura e pêlos desgrenhados e emaranhados, parecidos com escamas, cobrindo todo o corpo, o Kalkara tinha braços compridos que terminavam em garras e que chegavam abaixo de seus joelhos. Pernas traseiras fortes e relativamente curtas lhe davam a capacidade de percorrer distâncias a uma velocidade enganosa, com uma série de saltos e pulos. Os três cavaleiros viram tudo isso quando saíram do bosque. Mas o que mais lhes chamou a atenção foi a cara: selvagem e parecida com a de um macaco, dentes caninos amarelados e enormes olhos vermelhos brilhantes cheios de ódio e de desejo cego de matar. A cara se virou para eles, e a besta gritou em desafio, tentando se levantar, mas voltando a cair, meio encolhida.
- O que há de errado com ele? - Rodney perguntou, fazendo seu cavalo parar.
Will apontou para o grupo de flechas que se projetava de seu peito. Devia haver seis delas, todas a cerca de um palmo de distância uma da outra.
- Olhe! - ele gritou. - Veja as flechas!
Halt, com sua incrível pontaria, deve ter mandado uma saraivada de flechas, uma depois da outra, para cortar o pêlo rígido como uma armadura. Cada uma aumentou a brecha nas defesas do monstro, até que a ultima penetrou no fundo de sua carne. Seu sangue negro corria profusamente pelas costas, e o monstro gritou outra vez com ódio. - Rodney! - o barão Arald gritou. - Comigo! Agora!
Soltando a rédea do cavalo reserva, ele segurou de um lado a tocha acesa, inclinou a lança e a jogou. Rodney estava meio segundo atrás dele, os dois cavalos de batalha trovejando pelo espaço aberto. O Kalkara, com o sangue encharcando o chão aos seus pés, levantou-se e foi atingido no peito pelas pontas das duas lanças, uma após a outra.
O monstro estava quase morto, mas mesmo assim seu peso e sua força contiveram a corrida dos cavalos de batalha. Eles empinaram o corpo quando os dois cavaleiros se inclinaram nos estribos para empurrar as lanças no peito da criatura. A ponta de ferro afiada penetrou na carne e atravessou os pêlos emaranhados. A força da investida fez o Kalkara perder o equilíbrio e o jogou para trás, para dentro das chamas.
Durante um instante, nada aconteceu. Então eles viram um clarão ofuscante e um pilar de chamas vermelhas que atingiu 10 metros de altura no céu da noite. E, de uma forma muito simples, o Kalkara desapareceu.
Os dois cavalos de batalha se empinaram apavorados, e Rodney e o barão mal conseguiam se manter nas selas. Eles se afastaram do fogo, e todos sentiram um cheiro forte e desagradável de carne e pêlos queimados. Will se lembrou vagamente de Halt discutir a forma de lidar com um Kalkara. Ele tinha contado que se dizia que eles eram especialmente suscetíveis ao fogo. "Parece que os boatos estavam certos", Will pensou, fazendo Puxão trotar para junto dos dois cavaleiros.
Rodney estava esfregando os olhos, ainda atordoado pelo clarão forte.
- Que diabos causou isso?
O barão tirou a lança do fogo com cuidado. A madeira estava queimada, e a ponta, escurecida.
- Deve ser a substância pegajosa que cobre os pelos deles e forma essa couraça dura - ele respondeu num tom de voz espantado. - Ela deve ser ligeiramente inflamável.
- Bem, o que quer que fosse, nós conseguimos derrotar - Rodney retrucou com um tom satisfeito na voz. O barão balançou a cabeça.
- Halt conseguiu - ele corrigiu o mestre de guerra. - Nós só demos o último golpe.
Rodney concordou com um gesto de cabeça, aceitando a correção. O barão olhou para o fogo, que ainda jogava uma torrente de faíscas no ar, mas cujas chamas vermelhas já estavam se acalmando.
- Halt deve ter acendido esse fogo quando percebeu que eles o estavam cercando. Ele incendiou a área para ter luz e poder atirar.
- E atirou mesmo - sir Rodney afirmou. - Todas as flechas acertaram pontos muito próximos uns dos outros.
Eles olharam ao redor, procurando algum sinal do arqueiro. Então, debaixo das paredes em ruínas do castelo, Will viu um objeto conhecido. Ele desmontou e correu para apanhá-lo. Seu coração se apertou no peito quando pegou o poderoso arco de Halt, esmagado e partido em dois pedaços.
- Ele deve ter atirado daqui - falou, indicando o ponto abaixo das paredes caídas onde tinha achado o arco.
Todos olharam para cima, imaginando a cena, tentando recriá-la. O barão apanhou a arma destruída da mão de Will quando este montou novamente em Puxão.
- E o segundo Kalkara o alcançou enquanto ele matava seu irmão - ele disse. - A pergunta é: onde Halt está agora? E onde está o outro Kalkara?
Foi quando eles ouviram os gritos recomeçarem.
Halt estava agachado entre os tijolos caídos que antes tinham sido a fortaleza de Morgarath, dentro do pátio em ruínas coberto de mato. Sua perna, dormente onde o Kalkara a tinha arranhado, estava começando a latejar dolorosamente, e ele sentia o sangue atravessando a atadura improvisada que tinha amarrado em volta dela.
Ele sabia que o segundo Kalkara o estava procurando em algum lugar ali perto. De tempos em tempos, ouvia o movimento dos pés se arrastando e chegou a escutar sua respiração dura quando o monstro se aproximou de seu esconderijo entre duas paredes caídas. Halt sabia que era só uma questão de tempo até que a criatura o encontrasse. E, quando isso acontecesse, ele estaria acabado.
Halt estava ferido e desarmado. Tinha perdido o arco, despedaçado naquele primeiro e apavorante ataque em que disparou uma flecha depois da outra no primeiro dos dois monstros. Ele conhecia o poder de seu arco e a capacidade de penetração das flechas pesadas e afiadíssimas. Não conseguia acreditar que o monstro tinha recebido aquela chuva de flechas e aparentemente ainda continuava com a mesma coragem. Quando ele cambaleou, já era tarde demais para que Halt voltasse sua atenção para o companheiro. O segundo Kalkara estava quase em cima dele, arrancando o arco de sua mão e esmagando-o com a pata forte cheia de garras, de modo que ele mal teve tempo de arrastar-se para um local seguro perto da parede caída.
Enquanto o monstro o perseguia, atacando tudo à sua volta com as garras, ele tinha empunhado a faca e golpeado a terrível cabeça.
Mas a besta foi rápida demais para ele, e a pesada faca atingiu seu braço coberto pela malha da armadura. Ao mesmo tempo, ele se viu confrontado pelos olhos vermelhos cheios de ódio e sentiu-se perdendo a consciência. Os músculos começaram a ficar paralisados de terror quando se viu atraído para a horrível besta diante dele. Foi necessário um esforço imenso para desviar os olhos da criatura, e ele cambaleou para trás, perdendo a faca quando as garras de urso o atacaram e arranharam a sua coxa.
Então ele correu desarmado e sangrando, contando com o confuso labirinto que eram as ruínas para fugir do monstro que o perseguia.
Ele tinha percebido a mudança nos movimentos dos Kalkaras no final da tarde. Sua rota constante e anteriormente inalterada para o noroeste de repente mudou quando as duas bestas se separaram abruptamente, cada qual fazendo uma curva de 90 graus e andando em direções diferentes para dentro da floresta que os cercava. Suas pegadas, até aquele momento tão fáceis de seguir, também mostravam sinais de que estavam sendo encobertas, de modo que somente alguém habilidoso como um arqueiro teria sido capaz de segui-las. Pela primeira vez em anos, Halt sentiu um calafrio de medo no estômago quando se deu conta de que agora a caça era ele.
As ruínas estavam perto, então ele resolveu ficar ali, e não no bosque. Deixou Abelard em segurança, longe de qualquer perigo, e foi a pé para as ruínas. Ele sabia que os Kalkaras iriam persegui-lo assim que a noite caísse, então se preparou da melhor forma possível, reunindo galhos caídos para fazer uma fogueira. Halt até encontrou uma jarra de óleo nas ruínas da cozinha, rançoso e malcheiroso, mas que ainda iria queimar. Ele o derramou na pilha de lenha e se afastou até um ponto onde poderia ficar de costas para a parede. Tinha arrumado uma série de tochas e as deixou queimando enquanto escurecia, esperando que os matadores implacáveis o procurassem.
O arqueiro sentiu a presença deles antes de vê-los. Então enxergou os dois vultos trôpegos, duas manchas mais escuras contra a escuridão das árvores. Naturalmente, eles o viram de imediato. A tocha trêmula presa na parede garantiu isso. Mas eles não viram a pilha de lenha embebida em óleo, e era com isso que ele contava. Quando soltaram seus gritos de caça, Halt jogou a tocha flamejante na pilha e as chamas subiram no mesmo instante, espalhando um brilho amarelo na noite.
Por um momento, as bestas hesitaram, pois o fogo era seu único inimigo. Mas, quando viram que o arqueiro não estava próximo das chamas, continuaram - direto para a chuva de flechas com que Halt as recebeu.
Se tivessem mais 100 metros para percorrer, talvez Halt tivesse conseguido derrotar as duas. Ainda havia mais de dez flechas na aljava, mas o tempo e a distância corriam contra ele, que mal tinha escapado com vida. Agora, estava agachado entre dois pedaços de muro caído que formavam uma pequena gruta, escondido numa leve reentrância do terreno e oculto pela capa, como acontecia há anos. Sua única esperança era que Will chegasse com Arald e Rodney. Se pudesse escapar da criatura até que a ajuda chegasse, talvez tivesse uma chance.
Ele tentou não pensar na outra possibilidade - a de que Gilan chegasse antes deles, sozinho e armado apenas com o arco e a espada. Agora que tinha visto os Kalkaras de perto, Halt sabia que um homem tinha poucas chances de enfrentá-los. Se Gilan chegasse antes dos cavaleiros, ele e Halt morreriam ali.
Naquele momento, a criatura estava rodeando o velho pátio como um cão à procura da caça, adotando um padrão de busca metódico, para a frente e para trás, examinando cada espaço, cada buraco, cada possível esconderijo. Halt sabia que desta vez ela o encontraria. Sua mão tocou o cabo da pequena faca, a única arma que restava. Seria uma defesa insignificante, quase inútil, mas era tudo o que tinha.
Então ele ouviu: o inconfundível trovejar dos cascos dos cavalos de batalha. Olhou para cima e observou o Kalkara por uma pequena fresta entre as pedras que o escondiam. O monstro também os tinha ouvido e estava de pé, ereto, a cara voltada para o som que vinha de fora das paredes em ruínas.
Os cavalos pararam, e Halt ouviu o grito agudo do Kalkara mortalmente ferido ao desafiar os novos inimigos. As batidas dos cascos se fizeram ouvir de novo e ganharam velocidade e força. Seguiu-se um grito e um clarão vermelho gigantesco que subiu para o céu por um momento. Vagamente, Halt deduziu que o primeiro Kalkara devia ter sido jogado no fogo. Ele começou a recuar devagar para fora do esconderijo. Talvez pudesse escapar do outro Kalkara movendo-se para o lado e escalando a parede antes que ele o visse. As chances pareciam boas. A atenção do monstro estava voltada para o que quer que estivesse acontecendo do lado de fora. Mas, assim que teve a idéia, percebeu que não tinha opção. Embora aparentemente o Kalkara o tivesse esquecido por um momento, a criatura estava se movendo furtivamente em direção às ruínas que formavam uma escada irregular para o alto do muro.
Em mais alguns minutos, a besta estaria em posição de cair sobre os amigos despreocupados do outro lado, tomando-os de surpresa. Halt tinha que impedi-la.
O arqueiro já estava fora do esconderijo, a pequena faca saindo da bainha quase por vontade própria, quando ele correu pelo pátio, desviando-se e fazendo círculos ao redor do entulho espalhado. O Kalkara o escutou antes que ele tivesse dado dez passos e se virou para ele, assustadoramente silencioso quando pulou como um macaco para impedir sua passagem antes que pudesse avisar os amigos sobre o perigo.
Halt parou de repente e ficou imóvel, com o olhar preso na figura trôpega que se aproximava dele.
Alguns metros a mais e o olhar hipnótico iria controlar a sua mente. Ele sentiu uma vontade irresistível de encarar aqueles olhos vermelhos, mas então fechou os olhos, a testa franzida numa concentração intensa. Levantou a mão que segurava a faca e agitou-a para a frente e para trás num ataque suave e instintivo, vendo o alvo se mexer em sua cabeça, mentalmente alinhando o arremesso para o ponto no espaço aonde a faca e o alvo iriam chegar ao mesmo tempo.
Somente um arqueiro, entre muito poucos, poderia ter lançado a arma daquele jeito. A faca atingiu o olho direito do Kalkara, e a besta gritou furiosa quando se encolheu por causa da repentina pontada de agonia que começava em seu olho e se espalhava pelo corpo todo! Então Halt passou correndo por ele na direção do muro e subiu as pedras com dificuldade.
Will viu o vulto envolto em sombras que escalava na direção do topo do muro em ruínas. Mas, escondido pelas sombras ou não, havia algo de inconfundível nele.
- Halt! - ele gritou, apontando para que os dois cavaleiros também o vissem.
Todos os três viram o arqueiro parar, olhar para trás e hesitar. Então um vulto enorme começou a aparecer alguns metros atrás dele quando o Kalkara, cujo ferimento era dolorido, mas nada mortal, o perseguiu.
O barão Arald pensou em montar, mas, percebendo que nenhum cavalo poderia passar pela confusão de pedras e tijolos ao lado da parede, tirou a imensa espada da sela e correu na direção das ruínas.
- Para trás, Will! - ele gritou quando avançou.
Nervoso, Will levou Puxão de volta para a beira das árvores.
No muro, Halt ouviu o grito e viu Arald correndo para a frente. Sir Rodney estava logo atrás dele, girando uma enorme acha em círculos em volta da cabeça.
- Pule, Halt! Pule! - o barão gritou, e Halt não precisou de outro convite.
Ele saltou 3 metros para baixo, rolando para amortecer a queda quando aterrissou. Então, levantou-se e correu desajeitado ao encontro dos dois cavaleiros, enquanto o ferimento da perna tornava a abrir.
Com o coração na boca, Will viu Halt correr na direção dos dois cavaleiros. O Kalkara hesitou um momento e então, com um grito de desafio apavorante, pulou atrás dele. O monstro simplesmente transformou a queda de 3 metros num pulo enorme, suas pernas traseiras incrivelmente poderosas fazendo que fosse impulsionado para cima e para a frente, cobrindo o terreno entre ele e Halt nesse único movimento. O braço forte girou, atingindo Halt com violência e fazendo que ele rolasse para a frente inconsciente. Mas a besta não teve tempo de acabar com ele, pois o barão Arald o enfrentou e dirigiu a espada num arco mortal na direção de sua garganta.
O Kalkara foi cruelmente rápido e se abaixou, desviando do arremesso mortal e atacando as costas expostas de Arald com as garras antes que ele pudesse se recuperar do golpe. Elas rasgaram a malha de metal como se fosse um tecido fino, e Arald grunhiu de dor e surpresa quando a força do ataque o jogou de joelhos, obrigando-o a soltar a espada. Sangue jorrava de vários arranhões nas costas.
Ele teria morrido ali se não fosse por sir Rodney. O mestre de guerra girou a pesada acha como se fosse um brinquedo e golpeou a lateral do corpo do Kalkara.
A armadura de pêlos emaranhados protegeu a besta, mas a força imensa do golpe a fez cambalear e se afastar do cavaleiro com gritos furiosos e frustrados. Sir Rodney avançou protetoramente e se colocou com os pés firmes entre o monstro e as figuras caídas de Halt e do barão, preparando a arma para outro golpe fulminante.
E então, estranhamente, ele deixou a arma cair e ficou parado diante da criatura, totalmente à sua mercê. O poder do olhar do Kalkara roubara-lhe a vontade própria e a capacidade de pensar.
O Kalkara gritou vitorioso para o céu noturno. Um sangue negro escorria de sua cara. Nunca em sua vida ele tinha sentido dor parecida com a que aqueles três homens insignificantes haviam provocado. E agora eles iriam morrer por ousarem enfrentá-lo. Mas a inteligência primitiva que o guiava queria seu momento de triunfo, e ele gritou repetidas vezes diante dos três homens indefesos.
Will assistia a tudo horrorizado. Um pensamento se formava, uma idéia tomava corpo em algum lugar de sua mente. Ele olhou para o lado e viu a tocha bruxuleante que o barão Arald tinha soltado. Fogo. A única arma que poderia derrotar o Kalkara. Mas ele estava a 40 metros de distância...
Ele tirou uma flecha da aljava, escorregou da sela e correu rapidamente até a tocha tremeluzente. Uma grande quantidade de piche grudento e derretido tinha escorrido pelo cabo da tocha e, depressa, ele passou a ponta da flecha no líquido pegajoso e mole, cobrindo-a generosamente. Em seguida, encostou-a na chama até que se acendesse.
A 40 metros dali, a enorme criatura perversa estava satisfazendo sua necessidade de vitória, fazendo que seus gritos se espalhassem e ecoassem pela noite enquanto ficava de pé junto dos dois corpos: Halt, inconsciente, e o barão Arald, atordoado pela dor. Sir Rodney ainda estava parado no mesmo lugar, paralisado, com as mãos indefesas penduradas ao lado do corpo enquanto esperava a morte. Agora, o Kalkara levantava uma pata imensa para jogá-lo no chão, e o cavaleiro só conseguia sentir o terror paralisante de seu olhar.
Will preparou-se para atirar a flecha, estremecendo com a dor quando as chamas lhe queimaram a mão que segurava o arco. Ele mirou um pouco acima do seu alvo por causa do peso adicional do piche e soltou a flecha.
Ela descreveu um arco brilhante e rápido, e o vento provocado por sua passagem transformou a chama numa simples brasa. O Kalkara viu o clarão de luz se aproximando e se virou para olhar, selando seu próprio destino quando a flecha o atingiu diretamente no peito largo.
A flecha quase não penetrou os pêlos duros parecidos com escamas, mas, quando parou, a pequena chama voltou a se incendiar, e o fogo se espalhou nos pêlos emaranhados com incrível rapidez.
Assim que sentiu o toque do fogo, o Kalkara foi tomado pelo terror.
O monstro bateu nas chamas em seu peito com as patas, mas isso apenas serviu para espalhar o fogo para os braços. As chamas vermelhas avançaram depressa, e em segundos o Kalkara foi envolvido por elas, queimando dos pés à cabeça enquanto corria cegamente em círculos, tentando em vão escapar. Os gritos agudos não paravam e ficavam cada vez mais altos, atingindo uma escala de agonia que a mente mal podia compreender. As chamas ficavam mais intensas a cada segundo. Então os gritos pararem e a criatura morreu.
A pousada na vila Wensley estava tomada por música, risos e barulho. Will estava sentado à mesa com Horace, Alyss e Jenny, enquanto o dono lhes servia um suculento jantar de ganso assado e legumes frescos da fazenda, seguido de uma deliciosa torta de mirtilo cuja massa leve ganhou até a aprovação de Jenny.
Tinha sido idéia de Horace comemorar a volta de Will para o Castelo Redmont com um banquete. As duas meninas tinham concordado imediatamente, ansiosas por uma pausa na rotina, que agora parecia um tanto monótona comparada aos acontecimentos de que Will tinha participado.
Naturalmente, a notícia sobre a batalha com os Kalkaras tinha se espalhado na vila como uma fogueira ao vento, uma comparação extremamente apropriada, na opinião de Will. Quando ele entrou na pousada com os amigos naquela noite, um silêncio curioso tomou conta do aposento e todos os olhares se voltaram para ele. Will ficou agradecido pelo fato de o grande capuz esconder o seu rosto, que corava rapidamente. Os três companheiros perceberam seu constrangimento. Jenny, como sempre, foi a primeira a reagir e a quebrar o silêncio que enchia a pousada.
- Vamos, gente séria! - ela gritou para os músicos perto da lareira. - Vamos ouvir um pouco de música! E um pouco de conversa também! - ela acrescentou a segunda sugestão com um olhar significativo para os outros ocupantes da sala.
Os músicos aceitaram a sugestão. Era difícil recusar qualquer coisa sugerida por Jenny. Rapidamente, eles começaram a tocar uma canção folclórica conhecida e o som dominou o salão. Aos poucos, os outros moradores perceberam que sua atenção estava deixando Will pouco a vontade e, lembrando-se das boas maneiras, recomeçaram a conversar, olhando apenas de vez em quando para o rapaz, admirando-se de que alguém tão jovem pudesse ter participado de acontecimentos tão importantes.
Os quatro antigos colegas protegidos do castelo sentaram-se a uma mesa no fundo da sala, onde poderiam conversar sem ser interrompidos.
- George mandou pedir desculpas - Alyss disse quando se sentaram. - Ele está atolado de serviço. Toda a Escola de Escribas está trabalhando dia e noite.
Will acenou compreensivo. A guerra iminente com Morgarath e a necessidade de mobilizar tropas e retomar antigas alianças certamente criara montanhas de papelada.
Muita coisa tinha acontecido nos dez dias desde a batalha com os Kalkaras.
Depois de acampar junto das ruínas, Rodney e Will cuidaram dos ferimentos do barão Arald e de Halt, finalmente conseguindo fazer que os dois homens dormissem tranquilamente. Logo depois do amanhecer, Abelard entrou trotando no acampamento, procurando ansiosamente pelo dono. Will tinha acabado de acalmar o animal quando Gilan chegou exausto, cavalgando um pequeno cavalo de trabalho. Agradecido, o alto arqueiro recuperou Blaze. Então, depois de se convencer de que o antigo mestre não corria perigo, partiu quase imediatamente para o próprio feudo, depois que Will prometeu devolver o cavalo ao lavrador.
Mais tarde naquele dia, Will, Halt, Rodney e Arald tinham voltado ao Castelo Redmont, onde mergulharam numa atividade ininterrupta para preparar os guerreiros do castelo para a guerra. Havia milhares de detalhes a serem acertados, mensagens a serem enviadas e convocações a serem entregues. Como Halt ainda estava se recuperando do ferimento, grande parte desse trabalho tinha recaído sobre Will.
Ele percebeu que em épocas como aquela um arqueiro tinha pouco tempo para relaxar, o que tornava aquela noite uma diversão bem-vinda. O dono da pousada foi afobado até a mesa deles e colocou sobre ela quatro canecas de vidro e uma jarra da cerveja sem álcool, que ele preparava com gengibre.
- Hoje é por conta da casa - ele avisou. - Estamos honrados por ter você em nosso estabelecimento, arqueiro.
Ele se afastou, chamando um de seus ajudantes para atender a mesa de Will.
- E seja bem rápido! - ele ordenou. Alyss olhou para ele surpresa.
- É bom estar com uma celebridade - ela disse. - O velho Skinner geralmente segura as moedas com tanta força que a cabeça do rei fica sufocada.
- As pessoas exageram - Will disse com um gesto de indiferença.
Mas Horace se inclinou para a frente com os cotovelos na mesa.
- Então conte para a gente como foi a luta - ele pediu ansioso por detalhes.
Jenny olhou para Will de olhos arregalados.
- Não acredito que vocês tenham sido tão corajosos! - ela disse com admiração. - Eu teria ficado apavorada.
- Para falar a verdade, eu estava petrificado - Will confessou para eles com um sorriso triste. - O barão e sir Rodney foram os corajosos. Eles atacaram e enfrentaram as criaturas bem de perto. Eu fiquei a 40 ou 50 metros de distância o tempo todo.
Will descreveu os acontecimentos da batalha sem entrar em muitos detalhes sobre a aparência dos Kalkaras. Eles estavam mortos e acabados e seria melhor esquecê-los o mais depressa possível. Não era necessário se preocupar com determinadas coisas. Os três colegas ouviam, Jenny de olhos arregalados e entusiasmada, Horace ansioso por detalhes da luta e Alyss calma e digna como sempre, mas totalmente atenta a história. Quando ele descreveu sua cavalgada solitária para buscar ajuda, Horace balançou a cabeça admirado.
- Esses cavalos dos arqueiros devem ser de uma raça especial.
Will sorriu para ele, incapaz de resistir a fazer o comentário engraçado que tinha vindo à sua mente.
- O truque é se manter em cima deles - ele disse, ficando satisfeito ao ver um sorriso igual surgir no rosto de Horace quando ambos lembraram a cena da Feira do Dia da Colheita.
Ele percebeu, com um leve toque de prazer, que seu relacionamento com Horace tinha se transformado numa amizade profunda em que os dois se viam como iguais. Ansioso para sair de baixo dos holofotes, ele perguntou ao amigo como ia a vida na Escola de Guerra. O sorriso no rosto do garoto maior se alargou.
- Muito melhor, graças ao Halt - ele disse e, quando Will habilmente o cobriu de mais perguntas, ele descreveu a vida na Escola de Guerra, brincando sobre seus erros e fracassos, rindo quando contou quantas vezes tinha sido punido.
Will percebeu que Horace, antes um pouco exibido e arrogante, estava muito mais modesto ultimamente. Ele desconfiava de que Horace estava se saindo melhor como aprendiz de guerreiro do que deixava transparecer.
Foi uma noite agradável, principalmente depois da tensão e do terror da caçada aos Kalkaras. Quando os ajudantes tiraram os pratos, Jenny sorriu esperançosa para os dois garotos.
- Muito bem! Agora, quem vai dançar comigo? - ela perguntou alegremente, e Will foi lento demais para responder.
Horace tomou a mão dela e a levou para a pista de dança. Quando eles se juntaram aos demais dançarinos, Will olhou para Alyss sem saber bem o que fazer. Ele nunca sabia dizer o que a garota estava pensando. Achou que talvez fosse educado também convidá-la para dançar. Então pigarreou nervoso.
- Ahn... você também gostaria de dançar, Alyss? - convidou desajeitado.
Ela lhe ofereceu somente o leve sinal de um sorriso. - Acho que não, Will. Não sou uma boa dançarina. Parece que tenho pernas de pau.
Na verdade, ela era uma excelente dançarina, mas, diplomata nata como era, percebeu que Will só a tinha convidado por educação. Então os dois mergulharam no silêncio, mas um tipo de silêncio amistoso.
Depois de alguns minutos, ela se virou para ele com o queixo apoiado na mão para observá-lo com atenção.
- Vai ser um grande dia para você amanhã - ela disse, e ele corou.
Ele tinha sido convocado para aparecer diante de toda a corte do barão no dia seguinte.
- Não sei por que tudo isso - ele balbuciou.
- Ele possivelmente quer lhe agradecer em público - Alyss disse, sorrindo para ele. - Ouvi dizer que barões gostam de fazer isso com pessoas que salvaram suas vidas.
Will começou a dizer alguma coisa, mas ela pousou a mão macia e fria sobre a dele, e ele parou. Ele olhou aqueles olhos cinzentos, calmos e sorridentes. Alyss nunca tinha lhe parecido bonita, mas agora percebeu que sua elegância, sua graça e seus olhos cinzentos, emoldurados por cabelos loiros delicados, criavam um encanto natural que ultrapassava de longe uma simples beleza. Surpreendentemente, ela se inclinou para perto e sussurrou:
- Estamos todos orgulhosos de você, Will. E acho que eu sou a mais orgulhosa de todos.
Então Alyss o beijou. Os lábios dela eram incrivelmente, indescritivelmente macios.
Horas mais tarde, antes de finalmente adormecer, ele ainda podia senti-los.
Paralisado pelo medo da platéia, Will estava parado do lado de dentro da sala de audiências do barão.
O prédio era imenso. Era a principal sala do castelo, a sala em que o barão conduzia todos os negócios oficiais com os membros da corte. O teto parecia se estender para cima interminavelmente. Fachos de luz inundavam o aposento, vindos de janelas instaladas no alto das paredes grossas. Na extremidade da sala e parecendo estar a uma grande distância, o barão estava sentado numa cadeira parecida com um trono, vestindo suas túnicas mais finas.
Entre ele e Will, estava a maior multidão que o garoto já tinha visto. Halt fez o aprendiz avançar delicadamente com um empurrão nas costas.
- Vá em frente - ele murmurou.
Havia centenas de pessoas no Grande Salão, e todos os olhares estavam voltados para Will. Todos os chefes de ofício estavam ali, vestindo suas túnicas oficiais. Todos os cavaleiros e todas a damas da corte: cada uma usando suas melhores e mais elegantes roupas. Mais adiante, estavam os homens com armas do exército do barão, os outros aprendizes e os comerciantes da vila. Ele viu uma agitação colorida quando Jenny, desinibida como sempre, agitou um lenço para ele. Alyss, parada ao lado dela, foi um pouco mais discreta. Ela jogou um beijo para ele com a ponta dos dedos, delicadamente.
Ele ficou parado, desajeitado, colocando o peso do corpo ora numa perna, ora noutra. Desejou que Halt o tivesse deixado usar a capa de arqueiro para que pudesse se confundir com o ambiente e desaparecer.
Halt o empurrou outra vez.
- Ande, vamos! - sussurrou.
- Você não vem comigo? - ele perguntou, virando-se para o mestre.
Halt negou com a cabeça.
- Não fui convidado. Agora se mexa!
Ele empurrou Will mais uma vez e então, por causa da perna machucada, foi até uma cadeira. Finalmente, compreendendo que não tinha outro caminho a seguir, Will começou a andar pelo corredor que parecia não terminar nunca. Ele ouviu vozes balbuciando enquanto passava, ouviu seu nome sendo sussurrado de boca em boca.
E então as palmas se iniciaram.
Elas foram começadas pela esposa de um cavaleiro e se espalharam rapidamente por todo o salão. Era ensurdecedor, um rugido retumbante de aplausos que continuou até Will chegar aos pés da cadeira do barão.
Como Halt tinha ensinado, ele se apoiou num joelho e inclinou a cabeça para a frente.
O barão se levantou e ergueu a mão pedindo silêncio, e as palmas se transformaram em ecos.
- Levante-se, Will - ele disse em voz baixa, estendendo a mão para ajudar o garoto a se pôr de pé.
Atordoado, Will obedeceu. O barão pousou uma das mãos em seu ombro e o virou para que olhasse para a enorme multidão diante deles. Sua voz grave chegou sem esforço ao ponto mais afastado do salão quando falou.
- Este é Will. Aprendiz do arqueiro Halt, deste feudo. Todos vocês, olhem para ele e o conheçam. Ele provou sua fidelidade, coragem e iniciativa para com este feudo e para com o Reino de Araluen.
Houve um murmúrio vindo do público. Então as palmas recomeçaram, desta vez acompanhadas de vivas. Will percebeu que os vivas tinham começado na seção da multidão em que estavam os aprendizes da Escola de Guerra. Ele conseguiu ver o rosto sorridente de Horace liderando o coro.
O barão pediu silencio com a mão erguida, encolhendo-se como se o movimento causasse dor em suas costelas fraturadas e nos cortes suturados nas costas. Os vivas e as palmas morreram lentamente.
- Will - ele disse numa voz que ecoou para os cantos mais distantes do aposento enorme - eu lhe devo a minha vida. Não há agradecimentos suficientes para isso. Porém tenho o poder de atender a um pedido que uma vez me fez...
Will olhou para ele sério.
- Um pedido, senhor? - ele perguntou bastante atordoado com as palavras do barão.
- Eu cometi um erro, Will. Você me perguntou se poderia aprender a ser um guerreiro. Você desejava se tornar um dos meus cavaleiros e eu recusei o pedido. Agora, posso consertar esse erro. Eu ficaria honrado de ter alguém tão corajoso e habilidoso como um dos meus cavaleiros. Terá minha permissão para se transferir para a Escola de Guerra como um dos aprendizes de sir Rodney.
O coração de Will saltou em seu peito. Ele pensou em como, durante toda a vida, havia desejado ser um cavaleiro. Ele se lembrou do profundo e amargo desapontamento no dia da Escolha, quando sir Rodney e o barão tinham recusado o seu pedido.
Sir Rodney deu um passo à frente, e o barão fez um gesto para que falasse.
- Meu senhor - disse o mestre de guerra -, como sabe, fui eu quem recusou este garoto como aprendiz. Agora, quero que todos aqui saibam que eu estava errado. Eu, meus cavaleiros e meus aprendizes reconhecemos que não poderia haver membro mais valioso para a Escola de Guerra do que Will!
Os cavaleiros e aprendizes ali reunidos soltaram fortes gritos de aprovação. Com estrépito, desembainharam as espadas e as bateram ruidosamente acima de suas cabeças, gritando o nome de Will. Mais uma vez, Horace foi um dos primeiros a puxar o coro e o último a parar.
Aos poucos, o tumulto se aquietou e os cavaleiros guardaram as espadas. A um sinal do barão Arald, dois pajens se adiantaram, carregando uma espada e um escudo lindamente esmaltado que foram colocados aos pés de Will. O escudo tinha sido pintado com o desenho da cabeça de um feroz porco selvagem.
- Esse será o seu brasão quando se formar, Will - disse o barão com delicadeza -, para lembrar ao mundo a primeira vez em que conhecemos a sua coragem e lealdade para com um companheiro.
O garoto apoiou-se em um dos joelhos e tocou a superfície lisa e esmaltada do escudo. Ele tirou a espada lenta e reverentemente da bainha. Era uma arma magnífica, uma obra-prima da arte da fabricação de espadas.
A lâmina era extremamente afiada e ligeiramente azulada. O cabo e a cruzeta eram incrustados em ouro, e o símbolo com a cabeça do porco selvagem repetia-se no punho. A espada parecia ter vida própria. Perfeitamente balanceada, era leve como uma pena. Ele olhou para essa maravilhosa espada adornada com jóias e depois para o cabo de couro de sua faca de arqueiro.
- Essas são armas de cavaleiros, Will - o barão explicou. - Mas você provou repetidas vezes que é digno delas. Se desejar, elas serão suas.
Will deslizou a espada de volta na bainha e se levantou devagar. Ali estava tudo o que sempre desejou. E, mesmo assim...
Ele pensou nos longos dias na floresta com Halt. A enorme satisfação que sentiu quando uma de suas flechas atingiu o alvo, exatamente onde desejara, exatamente como tinha visto em pensamento antes de soltá-la. Ele pensou nas horas gastas aprendendo a seguir animais e homens. Aprendendo a arte de se esconder. Pensou em Puxão, na coragem e devoção do pônei.
E pensou no puro prazer que sentia quando ouvia o simples "bem-feito" de Halt quando completava uma tarefa a contento. E, de repente, tudo ficou claro. Ele olhou para o barão e disse com voz firme: - Sou um arqueiro, senhor. Houve um murmúrio de surpresa entre a multidão. - Você tem certeza, Will? - o barão perguntou em voz baixa, chegando mais perto. - Não recuse essa oferta somente por achar que Halt vai ficar ofendido ou desapontado. Ele insistiu que isso depende de você e já concordou em aceitar sua decisão.
Will balançou a cabeça negativamente. Nunca tinha tido tanta certeza de algo.
- Eu agradeço a honra, senhor.
Ele olhou para o mestre de guerra e viu, para sua surpresa, que sir Rodney estava sorrindo e mostrando sua aprovação com a cabeça.
- E agradeça ao mestre de guerra e aos seus cavaleiros pela oferta generosa, mas sou um arqueiro.
Ele hesitou.
- Não quero ofender ninguém com isso, senhor - ele terminou desajeitado.
Um enorme sorriso encrespou os traços do barão, e ele agarrou a mão de Will com força.
- Não estou ofendido, Will. De jeito nenhum! A sua lealdade para com o seu ofício e seu mestre de ofício são uma honra para você e todos os que o conhecem!
Ele deu um último aperto firme na mão de Will e a soltou.
Will se curvou e se virou para caminhar pelo longo corredor outra vez. Os vivas recomeçaram e, desta vez, ele manteve a cabeça erguida enquanto o barulho o envolvia e ecoava até o teto do Grande Salão. Então, ao se aproximar das grandes portas novamente, viu algo que o fez parar de imediato, perplexo e surpreso.
Pois ali parado, um pouco afastado da multidão, enrolado na capa cinza e verde, com os olhos ensombrecidos pelo capuz, estava Halt.
E ele estava sorrindo.
Mais tarde, após todo o barulho e as comemorações terem diminuído, Will estava sentado sozinho na minúscula varanda da pequena cabana de Halt. Na mão, ele segurava um pequeno amuleto de bronze no formato de uma folha de carvalho com uma corrente de aço passada por um elo no alto.
- É o nosso símbolo - seu professor tinha explicado quando o entregou para ele depois dos acontecimentos no castelo. - O equivalente ao brasão de armas dos cavaleiros.
Então ele procurou no interior da própria gola e tirou uma folha de carvalho de formato idêntico pendurada numa corrente no pescoço. A forma era parecida, mas a cor era diferente. A folha de carvalho que Halt usava era de prata.
- Bronze é a cor dos aprendizes - Halt tinha contado para ele. - Quando você terminar o treinamento, vai receber uma folha de carvalho de prata como esta. Todos da Corporação dos Arqueiros usam prata ou bronze.
Ele tinha desviado o olhar do garoto por alguns minutos.
- Para falar a verdade, você não devia recebê-la até depois de sua primeira avaliação - ele acrescentou com a voz um pouco rouca. - Mas duvido que alguém queira se opor a isso, depois de tudo o que aconteceu.
Agora, o pedaço de metal de formato curioso brilhava fracamente na mão de Will enquanto ele pensava na decisão que tinha tomado. Parecia muito estranho que tivesse desistido voluntariamente da única coisa que tinha esperado quase toda a vida: a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra e assumir uma posição como cavaleiro no exército do Castelo Redmont.
Ele girou a folha de carvalho de bronze na corrente em volta do dedo indicador, deixou-a subir pelo dedo e a soltou com um profundo suspiro. A vida podia ser muito complicada. Bem no fundo, sentiu que tinha tomado a decisão acertada. E, mesmo assim, ainda mais no fundo, havia uma pequena dúvida.
Assustado, percebeu que havia alguém parado ao lado dele. Ao se virar de repente, reconheceu Halt. O arqueiro se inclinou e se sentou ao lado do garoto no banco rústico de pinho na varanda estreita. Diante deles, o sol baixo do fim de tarde passava pelas folhas verde-claras da floresta, e a luz parecia dançar e girar enquanto a brisa leve sacudia as folhas.
- Um grande dia - ele disse em voz baixa, e Will concordou.
- E uma grande decisão que você tomou - Halt acrescentou depois de vários minutos de silêncio.
Desta vez, Will se virou para olhar para seu mestre.
- Halt, tomei a decisão certa? - ele perguntou finalmente com angústia na voz.
Halt apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou um pouco para a frente, semicerrando os olhos diante da luz forte que passava pelas folhas.
- No que me diz respeito, sim. Escolhi você como aprendiz e posso ver todo o potencial que você tem para ser um arqueiro. Até cheguei a quase gostar da sua presença e de ficar tropeçando em você - ele acrescentou com a leve sugestão de um sorriso. - Mas meus sentimentos e meus desejos não são importantes nesse caso. A decisão certa para você se refere ao que você mais quer.
- Sempre quis ser um cavaleiro - Will contou e então percebeu, com certa surpresa, que tinha dito a frase no passado.
Mas, mesmo assim, sabia que parte dele ainda queria isso.
- É claro que é possível querer duas coisas diferentes ao mesmo tempo - Halt disse em voz baixa. - Então, tudo se torna uma questão de escolha e de saber o que se quer mais.
Não era a primeira vez que Will tinha a sensação de que Halt, de alguma forma, havia lido a sua mente.
- Se você não pode resumir tudo num só pensamento, qual é a principal razão pela qual está um pouco desapontado por ter recusado a oferta do barão? - Halt continuou.
- Acho que... - Will disse devagar, pensando na pergunta. - Acho que, ao recusar a Escola de Guerra, estou decepcionando um pouco o meu pai.
- O seu pai? - Halt repetiu surpreso, e Will concordou.
- Ele foi um excelente guerreiro - ele contou para o arqueiro. - Um cavaleiro. Ele morreu em Hackman Heath, lutando contra os Wargals. Um herói.
- E você sabe de tudo isso, certo? - Halt perguntou, e Will as sentiu com um gesto.
Aquele sonho o tinha sustentado durante os longos e solitários anos em que nunca soube quem era ou o que deveria ser. Agora, o sonho tinha se transformado em realidade.
- Ele era um homem de que qualquer filho teria orgulho - ele disse finalmente, e Halt concordou.
- Isso realmente é verdade.
Havia algo em sua voz que fez Will hesitar. Halt não estava somente concordando por educação. Will se virou para ele depressa, percebendo todas as implicações das palavras do arqueiro.
- Você conheceu ele, Halt? Você conheceu meu pai?
Havia uma luz de esperança no olhar do garoto, que pedia a verdade. O arqueiro assentiu sério.
- Sim, conheci. Não convivi com ele por muito tempo, mas acho que poderia dizer que conhecia ele bem. E você está certo. Você pode ter muito orgulho dele.
- Ele foi um excelente guerreiro, não foi? - Will indagou.
- Ele era um soldado - Halt concordou - e um lutador corajoso.
- Eu sabia! - Will disse feliz. - Ele foi um grande cavaleiro!
- Um sargento - Halt acrescentou devagar e com delicadeza. Will ficou boquiaberto e não conseguiu dizer o que pretendia.
- Um sargento? - ele conseguiu finalmente balbuciar. Halt assentiu. Ele pode ver o desapontamento no olhar do garoto e colocou um braço ao redor de seus ombros.
- Não julgue as qualidades de um homem pela posição que ele ocupa na vida, Will. O seu pai, Daniel, foi um soldado leal e corajoso. Não teve a oportunidade de frequentar a Escola de Guerra porque começou a vida como fazendeiro. Mas, se tivesse frequentado, teria sido um dos melhores cavaleiros.
- Mas ele... - o garoto começou tristemente.
O arqueiro fez que parasse e continuou na mesma voz gentil, suave e irresistível.
- Porque, sem ter feito qualquer juramento ou treinamento especial pelo qual os cavaleiros passam, ele viveu de acordo com os mais altos ideais da nobreza, bravura e valor. Na verdade, ele morreu alguns dias depois da batalha em Hackman Heath, enquanto Morgarath e seus Wargals estavam lutando para voltar ao Desfiladeiro dos Três Passos. Um contra-ataque repentino nos pegou de surpresa, e o seu pai viu um companheiro cercado por uma tropa de Wargals. O homem estava no chão e a poucos segundos de ser feito em pedaços quando seu pai o ajudou.
A luz nos olhos do garoto recomeçou a brilhar.
- Verdade? - Will perguntou baixinho, e Halt concordou com um gesto de cabeça.
- Verdade. Ele deixou a segurança da linha de batalha e pulou para a frente, armado apenas com a lança. Ficou em cima do companheiro ferido e o protegeu dos Wargals. Matou um deles com a lança e então outro despedaçou a ponta da arma, deixando Daniel somente com o cabo. Assim, ele o usou como se fosse um varapau e nocauteou outros dois: esquerda, direita! Foi exatamente assim!
Halt agitou a mão para a esquerda e para a direita para mostrar o que tinha acontecido. Os olhos de Will estavam presos nele agora, vendo a batalha enquanto o arqueiro a descrevia.
- Ele ficou ferido quando a haste da lança quebrou em outro ataque. Teria sido suficiente para matar qualquer homem, mas seu pai simplesmente tirou a espada de um dos Wargals que tinha matado e derrubou outros três, sangrando sem parar de um ferimento profundo que tinha na lateral do corpo.
- Três deles? - Will repetiu.
- Três. Ele era rápido como um leopardo. E, lembre-se, como lanceiro, nunca tinha realmente treinado com a espada.
Ele fez uma pausa, recordando aquele dia ocorrido tanto tempo atrás.
- Acho que você sabe que os Wargals não têm medo de quase nada. Eles são chamados de Os Indiferentes e, quando começam uma batalha, quase sempre são eles que a terminam. Quase sempre. Essa foi uma das poucas vezes que vi os Wargals com medo. Quando seu pai deu golpes para todos os lados, ainda parado em cima do companheiro ferido, eles começaram a recuar. Primeiro devagar. Depois correram. Eles simplesmente se viraram e correram. Nunca vi outro homem, fosse cavaleiro ou poderoso guerreiro, que pudesse fazer os Wargals fugirem assustados. Seu pai conseguiu. Ele pode ter sido um sargento, Will, mas foi o guerreiro mais poderoso que já tive o privilégio de ver lutando. Então, quando os Wargals recuaram, ele se apoiou em um joelho ao lado do homem que tinha ajudado e, mesmo sabendo que também estava morrendo, ainda tentou proteger ele. Seu pai tinha vários ferimentos, mas provavelmente foi o primeiro que matou ele.
- E o amigo dele se salvou? - Will perguntou em voz baixa.
- O amigo? - Halt indagou um tanto surpreso.
- O homem que ele protegeu - Will explicou. - Ele sobreviveu? De alguma forma, ele pensou que teria sido uma tragédia se o corajoso esforço do pai não tivesse tido êxito.
- Eles não eram amigos - Halt contou. - Até aquele momento, ele nunca tinha posto os olhos no outro homem - ele fez uma pausa e acrescentou - e vice-versa.
O significado daquelas últimas palavras penetraram no fundo da mente de Will.
- Você? - ele sussurrou. - Você era o homem que ele salvou? Halt assentiu com um gesto.
- Como eu disse, eu só conheci ele por alguns minutos, mas ele fez mais por mim do que qualquer outro homem, antes ou depois disso. Enquanto morria, ele me falou da mulher e de como ela estava na fazenda sozinha com um bebê para nascer a qualquer momento. Ele me implorou para ver se estavam cuidando dela.
Will olhou para o rosto sério e barbado que tinha passado a conhecer tão bem. Havia uma profunda tristeza nos olhos de Halt ao se lembrar daquele dia.
- Cheguei tarde demais para salvar sua mãe. Foi um parto difícil, e ela morreu logo depois que você nasceu. Mas eu trouxe você para cá, e o barão Arald concordou que você deveria ser criado como protegido do castelo até ter idade suficiente para se tornar meu aprendiz.
- Mas, durante todos esses anos, você nunca... - Will parou sem palavras.
Halt sorriu tristemente para ele.
- Nunca deixei ninguém saber que tinha colocado você no castelo como protegido? Não. Pense nisso, Will. As pessoas são... esquisitas quando se trata dos arqueiros. Como elas teriam tratado você? Ficariam perguntando que tipo de criatura estranha você era? Decidimos que seria melhor que ninguém soubesse do meu interesse em você.
Will concordou. Naturalmente, Halt tinha razão. A vida como protegido já tinha sido bastante difícil. Teria sido pior se as pessoas soubessem que ele tinha alguma ligação com Halt.
- Então você me aceitou como aprendiz por causa do meu pai? - Will quis saber.
Mas desta vez Halt balançou a cabeça negativamente.
- Não. Garanti que tomassem conta de você por causa de seu pai. Escolhi você porque mostrou ter a capacidade e as habilidades necessárias. E você também parece ter herdado a coragem de seu pai.
Houve um longo silencio entre eles enquanto Will assimilava a história da incrível batalha do pai. De alguma forma, a verdade era mais sensacional, mais inspiradora do que qualquer fantasia que ele pudesse ter criado ao longo dos anos. Por fim, Halt se levantou para se afastar, e o garoto sorriu agradecido para a figura grisalha, agora uma silhueta contra o céu, enquanto a última luz do dia desaparecia.
- Acho que meu pai ficaria satisfeito com a minha escolha - ele afirmou, deslizando a corrente com a folha de carvalho de bronze sobre a cabeça.
Halt simplesmente acenou uma vez com a cabeça, virou-se e entrou na cabana, deixando o aprendiz com seus pensamentos.
Will ficou sentado em silêncio por alguns minutos. Quase sem pensar, tocou a folha de carvalho de bronze que pendia do seu pescoço. Os sons do pátio de exercícios da Escola de Guerra e o ininterrupto martelar e estrépito da oficina de armas que vinha funcionando dia e noite durante a última semana chegavam até ele, carregados pela brisa da noite. Eram os sons do Castelo Redmont se preparando para a guerra.
Porém, estranhamente, pela primeira vez na vida, ele se sentiu em paz.
John Flanagan
O melhor da literatura para todos os gostos e idades