Biblio "SEBO"
EM FRENTE, VALENTES!
- Com certeza, deve ter sido um barco a vapor que trouxe nossos amigos Tremal-Naik e Damna até aqui.
- Será que eles estão nos vigiando?
- Provavelmente - disse lanhez enquanto lançava ao ar uma nuvem de fumaça.
- Faremos o possível para que eles não nos vejam.
- Acho melhor atacarmos agora, pois eles devem estar distraídos. Pelo jeito, não deve haver muita gente naquele barco. Vamos atacá-los, mas nada de usar armas de fogo. Usaremos apenas os parangos e os "kriss".
- Em frente e... silêncio!
Aqueles que mantinham essa conversa eram doze homens que se encontravam em uma pequena embarcação tocada a remos. Eram fortes, altos e musculosos. Iam armados com carabinas indianas e sabres de folha longa.
A chalupa avançava silenciosa e velozmente. Era capitaneada por Iânhez, que se dirigia até a costa da ilha de Bor-néu, no golfo de Sarawak.
- Será que nosso ataque vai ser fácil?
- Não se preocupe, senhor Harward. Tudo sairá bem. Dentro de pouco tempo Tremal-Naik e Damna estarão em nosso barco, isso eu lhe asseguro.
Da embarcação que estava à frente deles saiu uma voz que gritou:
- Quem vem vindo aí?
- Somos amigos e estamos levando víveres para o forte McCrae!
Iânhez fez um sinal para os companheiros e, em voz baixa disse:
- Rapazes, fiquem de olho bem aberto!
Agora já podiam divisar a claridade da chalupa que tinham pela frente. Era uma embarcação de uns dez metros, com ponte e armada com um pequeno canhão.
Com mais algumas remadas, o barco deles bateu com o costado na chalupa. Iânhez e o americano rapidamente passaram a bordo da segunda.
- Onde está o capitão? - perguntou Iânhez.
- Não se encontra a bordo - respondeu um indiano. - Está no forte.
- Por acaso estão com medo de alguma coisa?
- Sim, ataque dos tigres de Mompracem.
Naquele exato momento, quando todos estavam distraídos, o português desembainhou a espada e ordenou:
- Rendam-se! Quem resistir, morre!
À vista daqueles homens que tão decididamente ordenavam que se rendesse, a tripulação ficou apavorada!
- Quantos homens há no forte?
- Uns cinqüenta, senhor.
- Bandeira de quem leva o barco?
- A do rajá de Sarawak.
- Você será nosso prisioneiro até regressarmos.
A intenção de Ianhez era de assaltar o forte. Operação um tanto difícil, embora não existisse resistência que conseguisse conter aqueles homens.
A embarcação, com Iânhez que novamente havia voltado ao barco, dirigiu-se até a praia, que não ficava muito longe dali.
Carregados com cestos grandes e muito pesados, os homens armados com carabinas desembarcaram.
- Adiante, valentes! - ordenou Iânhez.
Em meio ao mais profundo silêncio, eles puseram-se em marcha. Iânhez ia à frente da tropa. Depois de uns vinte minutos, chegaram ao pé de uma pequena colina, porém não muito elevada. No topo via-se uma construção fortificada.
Depois de descansarem durante alguns minutos, Iânhez começou a subir pela encosta com o sabre desembainhado.
- Quem vem lá? - gritaram do fortim.
- O tenente Jackson e alguns "cipayos" de Sarawak trazendo víveres para o fortim por ordem do Capitão Moreland.
Três homens, que pareciam "daiakos", apareceram junto à porta. Estavam armados com carabinas e dirigiram-se até o grupo.
- O capitão Moreland está de pé? - perguntou o português.
- Acaba de cear com os prisioneiros.
- Leve-me à presença dele. Temos importantes notícias para dar-lhe.
- Sigam-me! - disse aquele, parecia dar ordens por ali. O grupo atravessou a ponte levadiça e parou diante de uma feia construção fortificada. No pavimento inferior brilhavam luzes que iluminavam os vidros das janelas.
- O capitão está em seu quarto - disse aquele que os havia acompanhado desde o princípio.
Com a tranqüilidade que lhe era característica, Iânhez entrou no fortim. A emoção que sentiu no momento em que abriu a porta foi enorme. No centro do quarto havia uma mesa onde se viam ricas travessas. Tremal-Naik, Damna e o capitão da marinha conversavam sossegadamente, completamente alheios ao que estava por acontecer.
VAMOS!
Tremal-Naik e Damna ficaram parados de susto quando viram Iânhez entrar por aquela porta. Olhavam fixamente para o português, e a primeira intenção deles havia sido a de atirar-se aos braços do recém-chegado. Entretanto, logo compreenderam que não deveriam agir assim, pois uma rápida olhada do português imediatamente paralisou ambos.
Felizmente, o capitão não viu o gesto instintivo de Damna porque, por sorte, estava de costas.
- Quem é você? - perguntou.
- Vim trazer os víveres enviados pelo governador - respondeu Iânhez.
- Está bem, eu o estava esperando. Por aqui quase não se consegue comprar nada.
- Gostaria de conversar pessoalmente com o senhor.
- O que tem a dizer-me?
- Gostaria de conversar em particular. Dirigindo-se aos prisioneiros, o capitão disse-lhes:
- Com licença; preciso ausentar-me por alguns minutos.
Em seguida, ele conduziu Ianhez a um cômodo decorado em estilo indiano, com belos tapetes e alguns divãs.
- Agora pode dizer-me tudo o que deseja porque aqui ninguém nos escutará.
- O senhor está sabendo que os tigres de Mompracem declararam guerra à Inglaterra e ao rajá de Sarawak?
- Sim, estou. Fui informado ontem.
- Mas o que talvez não saiba é que não vão atacar com veleiros, como faziam antes. Ontem, foi visto um enorme barco a vapor a trinta quilômetros, mar adentro de
Kohong. Ele levava, desfraldada, a bandeira vermelha dos tigres de Mompracem.
- O que está me dizendo? - perguntou, intrigado, o capitão.
- Isso mesmo que o senhor acaba de ouvir. Além do mais, tenho a dizer-lhe que viram o barco dirigir-se diretamente para cá!
- E o que eles desejam de nós?
- Atacar o fortim e levar os prisioneiros que o senhor mantém. Diante desse perigo, trago ordens do governador de Kohong para que o senhor os envie, o quanto antes possível. Estou encarregado de conduzi-los no barco a vapor que está atracado aí no porto.
Sir Moreland ficou pensativo. Depois de alguns momentos, respondeu:
- Não conheço a força dos meus adversários, embora confie em meus homens. Não obstante, compreendo que esta ilha nada poderá fazer contra um barco das características que acaba de mencionar.
- E então? - perguntou Iânhez começando a impacientar-se.
- Confiarei os prisioneiros a você. Mas se compromete a deixá-los a salvo?
- Respondo por eles, capitão!
Em seguida, o capitão convidou o português a sair do quarto onde haviam conversado e voltaram ao salão onde se encontravam Tremal-Naik e a garota.
- Recebi ordens para levá-los a Kohong!
Iânhez falou e deu uma olhada para eles, pondo nesse olhar muito da alegria que lhe ia n'alma.
Saíram juntos ao pátio, onde se encontravam dez piratas apoiados nas suas carabinas.
Ali começaram uma caminhada que os levaria até o barco, lanhez ia calado, mas de vez em quando dava uma olhada para Tremal-Naik, trocando uma mensagem muda. Em certo momento, aproveitando-se da distância que os separava do capitão, Tremal-Naik cochichou a Iânhez:
- E Sandokan?
- Está nos esperando bem longe daqui. Silêncio! Eles pódem nos ouvir!
Pouco depois, chegavam junto ao barco embicado na areia.
- Empurrem o barco até a água - ordenou Iânhez. Quatro dos piratas cumpriram rapidamente a ordem.
Foi nesse exato momento que Tremal-Naik segurou o capitão com toda a força e imobilizou-o.
- Canalhas! - gritou ele.
Em segundos, os piratas ataram-o com corda.
- O que significa essa agressão? - perguntou. Iânhez saudou-o ironicamente enquanto dizia:
- Tenho a honra de transmitir-lhe as mais afetuosas saudações por parte do Tigre da Malásia!
- E o que desejam fazer comigo? - perguntou o capitão totalmente transtornado.
- Deixá-lo em liberdade, meu querido! Boa noite!
Em seguida, Tremal-Naik pegou Damna pela mão e levou-a até o barco. Depois, os demais também embarcaram.
As remadas dirigiram o barco até o navio cuja chaminé continuava soltando fumaça.
A alegria reinava entre todos os componentes da expedição. Eles não demoraram muito a chegar ao navio
- Rapazes, a bordo! - falou Iânhez.
Ele ajudou Damna a subir, atrás dela, todos subiram a bordo.
Iânhez confiou o timão a Sambigliong e foi plantar-se a proa, ao lado de Tremal-Naik.
Um marinheiro gritou a todo pulmão:
- Navio à vista pela frente!
- Deve ser o "Rei do Mar" - comentou Iânhez.
Eles subiram pela escada que o "Rei do Mar" lhes oferecia, e, no fim dela, encontraram-se com Sandokan que os esperava de braços abertos.
- Iânhez! Tremal-Naik! Damna! - exclamou ao vê-los.
- Sandokan! - respondeu Tremal-Naik emocionado.
A emoção e a alegria foram muito grandes. Afinal, eles estavam novamente juntos depois de tantos dias separados.
- Um momento, Sandokan! - pediu Iânhez, depois de terem-se cumprimentado. - Mande dirigir a proa para o norte e vamos dar o fora daqui o quanto antes rumo à foz
do Red jang. Alguém está nos esperando lá e acredita que vamos aprontar um estrago.
- Um barco? - perguntou Sandokan.
- Sim, um barco.
- Ora, nada melhor do que atacarmos um barco para começar um barulho! Pois então... a guerra está declarada!
Em seguida, ordenou a Sambigliong que dispusesse todos os homens em seus postos de combate, avisando-os de que o cru zador estava pronto para atacar um grande barco inimigo.
Os canhões de caça já estavam carregados e aguardavam apenas o momento para entrarem em ação.
O "Rei do Mar" deslocava-se devagar, sulcando as negras águas do golfo de Sarawak. Sandokan havia ordenado que fossem içadas as velas baixas dos traquetes a fim
de economizarem combustível. As estrelas que brilhavam no firmamento iluminavam tudo com sua tênue luz, dando ao quadro um aspecto um tanto tétrico.
- Um barco ao levante!
Iânhez, Tremal-Naik e Sandokan subiram rapidamente as escadas que conduziam à coberta assim que ouviram o grito do vigia.
- Sim, é verdade! - disse Iânhez. - Dá para ver a fumaça no horizonte.
- É sir Moreland que está fazendo carregamento de carvão na segunda foz do Redjang.
- Esse depósito, onde eles armazenam o carvão, está localizado em uma pequena ilha- comentou Tremal-Naik.
- Quem lhe disse?
- O próprio sir Moreland.
- Então, nós também poderemos pegar um pouco. Sandokan deu uma olhada com o binóculo e viu o costado
de uma imponente nave.
- Vem vindo em nossa direção? - perguntou Iânhez.
- Sim. Vem a toda.
- Então, vamos nos preparar!
- Se o capitão desse barco é sir Moreland, podemos ter certeza de que não se renderá facilmente. Ele é um valentão e vai lutar enquanto existir um último homem de sua tripulação em pé.
- Preparem-se para abrir fogo! - gritou Sandokan.
Os artilheiros americanos, juntamente com os melhores atiradores malaios, aguardavam, atrás de suas respectivas peças, preparados para fazerem os canhões funcionar a qualquer momento.
- Fogo! - ordenou Sandokan.
Por todas as bocas de canhões saíram, ao mesmo tempo, obuses que encheram os ares de fogo e fumaça.
Os tiros vinham de um e de outro barco, atingindo com força o costado de ferro, arrancando pedaços da ponte, destroçando coisas e ferindo muitos marinheiros.
O "Rei do Mar", entretanto, estava muito mais preparado para o combate. Além de mais protegido, sua artilharia era superior à do inimigo.
A nave capitaneada por sir Moreland fazia esforços sobre-humanos para manter-se flutuante. As balas ricocheteavam nas pranchas metálicas do "Rei do Mar" e as granadas não conseguiam destruir suas torres blindadas. Estava evidente que não havia inimigo que fosse capaz de destruir o barco de Sandokan.
O barulho, a fumaça e o fogo, que em pouco tempo haviam-se formado, davam a sensação de que eles encontravam-se, não no mar, mas sim na boca acesa de um vulcão.
De repente, ouviu-se um barulho muito mais forte. Sandokan havia mandado disparar uma fortíssima carga. As duas chaminés do barco inglês caíram aos pedaços sobre a coberta. Milhares de pedaços de ferro voaram pelos ares. Aquilo era quase o final de uma batalha que desde o princípio já estava ganha.
Os tiros de canhão voltaram a ser disparados e aumentaram de um modo espantoso. O "Rei do Mar" continuava vomitando chumbo e metralhando contra o inimigo que, ao que parecia e diante da situação, não dava sinais de render-se.
O barco a vapor fazia o que podia, mas podia muito pouco. Seus dois grandes canhões de coberta, arrebentados devido à grande saraivada de projéteis, já não se defendiam.
- Cessar fogo! Ao mar as chalupas! - ordenou Sandokan. Fez-se silêncio total. Os canhões mudaram de rumo. Dirigindo-se aos companheiros, Iânhez disse:
- Eles souberam lutar até o fim. Sir Moreland é um herói!
ELE É VALENTE!
Com toda certeza, o rajá de Sarawak tinha acabado de perder a nave mais poderosa da sua frota. Chamas gigantescas subiam para o céu, lançando aos ares milhares de fagulhas e fumaça escura que quase cobriam a nave a qual, neste momento, mergulhava irremediavelmente nas águas do mar.
Sandokan mandou lançar quatro chalupas para resgatar do naufrágio a maior quantidade possível de tripulantes.
- Salve-os! Salve-os, senhor Ianez! - pediu Damna.
Ao ver as chalupas que se dirigiam a si, a tripulação começou a pular n'água com a intenção de fugir às chamas e ao perigo de voarem pelos ares no momento em que
o incêndio atingisse o porão e as máquinas.
O barco capitaneado por Iânhez aproximou-se ao barco meio afundado e, sem ligar importância ao fogaréu e à fumaça, ele subiu, rapidamente, para a ponte de comando.
Tendo sido perfurado na proa, o barco estava indo a pique Por todos os lados. uma infinidade de feridos foram sendo recolhidos pelos homens de Sambigliong e levados
para o barco de salvamento.
Na superfície do mar flutuavam restos da embarcação: caixotes, barris e pedaços do velame.
Como por milagre, Sambigliong conseguiu salvar sir More land. O jovem comandante do cruzador estava muito pálido e com os olhos fechados jazia no fundo de uma barca.
As quatro chalupas abordaram o "Rei do Mar" perto da escada que pendia no costado.
Lá em cima, na coberta, eles estavam sendo esperados ansiosamente. Damna, que se encontrava perto de Surama, estava muito pálida e assustada com a terrível cena que havia assistido. Adiantando-se, perguntou com voz apagada aos marinheiros.
Sir Moreland morreu?
- Não - respondeu Iânhez. - Mas está muito mal. Durante bastante tempo o médico de bordo teve muito trabalho. ele era um profissional muito competente e havia aceito estar a bordo de o "Rei dos Mares" da mesma forma que os maquinistas. Ele havia aceito as condições oferecidas por Sandokan e que eram muito vantajosas.
Quando chegou a vez de examinar sir Moreland, viu que o inglês estava de olhos fechados, embora não estivesse adormecido.
O projétil que o havia ferido tinha feito um grande estrago no costado do navio, mas, por sorte, o ferimento não era muito fundo e nem havia atingido os órgãos vitais.
- Ele vai se salvar? - perguntou Iânhez.
- A vida dele não corre perigo - respondeu o médico. Sandokan continuou olhando para o rosto do ferido e ardentemente desejou que ele se recuperasse.
"Ele poderá vir a ser-nos útil algum dia" - pensou.
Cuidadosamente, o médico tratou do ferido e, depois de palpar os ferimentos, começou a fazer uma limpeza, envolven-do-os com faixas empapadas em líquidos desinfetantes.
- Onde estão meus homens? - perguntou debilmente o ferido.
- Não se preocupe e fique quieto - aconselhou o médico. Iânhez saiu de perto. Agora estava menos preocupado do que antes.
- Senhor Iânhez! - chamou, procurando manter a voz firme.
- Ele vai se salvar - respondeu o português adivinhando-lhe os pensamentos. - Está muito interessada nesse rapaz, não está?
- Ele é muito valente! - respondeu a jovem, embaraçada. Em seguida, Damna afastou-se com Surama, que estava um pouco distante, e Iânhez foi ao encontro de Sandokan, que estava conversando com Tremal-Naik.
Ele é um homem de muito valor! - acabava de dizer Sandokan referindo-se a sir Moreland.
- Estava integrado à marinha inglesa. Ele mesmo me disse isso certa noite - explicou Tremal-Naik.
E agora, o que vamos fazer? - perguntou Iânhez.
- Primeiro, não permitir que a esquadra de Sarawak nos apanhe de surpresa. Depois, precisamos encontrar um jeito de arranjarmos combustível.
- Teremos de atacar os depósitos de carvão da foz do Sara-wak - disse Tremal-Naik.
- É isso mesmo que faremos. Depois daremos um jeito de destruir os depósitos que os ingleses mantêm na ilha de Man-galum. Dessa maneira, daremos início ao que será o golpe mortal no comércio dos ingleses com o Japão e a China! - falou Sandokan.
- Está certo o que você deseja fazer e até aprovo, Sandokan - observou Iânhez. - Entretanto, acho que não temos muita força, principalmente no que se refere à tripulação.
- Estou imaginando um plano para fazer os "dayakos" de Sarawak se sublevarem - respondeu o pirata. - Entre eles contamos com ótimos amigos e são exatamente esses que nos ajudarão a derrotar James Brooke!
FUMAÇA NO HORIZONTE
- O que você acha do "Rei do Mar"? - perguntou Sando-kan a Iânhez, que estava saindo da coberta, depois de descansar algumas horas em seu camarote.
- Maravilhoso! - respondeu o português.
- Temos o mais veloz e o mais armado barco que navega por estes mares. Por isso, lutaremos contra os nossos inimigos e os destruiremos, embora eu deva confessar que não penso em continuar lutando para sempre. Prefiro que este navio sirva para nos defendermos daqueles que não nos deixam viver em paz.
- Sir Moreland está bem melhor. A febre baixou. Dentro de alguns dias estará recuperado e pronto para ser-nos útil.
- O que você espera dele?
- Primeiro, quero tornar-me amigo dele. Estou certo de que conseguirei porque, pelo menos, salvamos a vida dele, não é?
- Talvez ele nos dê alguma pista sobre o filho de Suyo-dhana.
Naquele momento, o médico apareceu à porta do camarote.
- Quais são as novas? - perguntou Sandokan.
- Dentro de quinze dias o nosso homem estará curado.
A campainha que anunciava a refeição soou com insistência.
- À mesa! Está na hora do rancho!
O "Rei dos Mares" continuava navegando nas águas do oceano como se fosse um peixe. Ao redor do navio voavam albatrozes que saudavam os marinheiros com seus gritos característicos. Velozes, eles atravessavam o velame apesar de alguns tiros que, às vezes, algum marinheiro disparava contra eles. Os albatrozes têm um vôo maravilhoso que vale a pena apreciar.
Depois de almoçar, Iânhez e Sandokan entraram no camarote onde estava acomodado o anglo-indiano e viram que estava em franca recuperação. A febre havia desaparecido e os ferimentos não sangravam. Ao vê-los entrar, sir Moreland estendeu a mão e disse: Muito obrigado, senhores, por me haverem salvo a vida. devo a vocês e procurarei não incomodá-los muito.
- Não se preocupe, sir. Fizemos o que achamos que era nosso dever.
- Admiro-o, mas acho que esses incidentes logo terminarão. O rajá e a Inglaterra vão persegui-los com suas esquadras. Como resistirão aos ataques?
- Daremos um jeito - replicou Iânhez. - E você, como está?
- Conforme disse o médico e a julgar por meu estado de espírito, acho que estou muito bem.
- Embora quiséssemos deixá-lo livre, você ainda não poderia fazê-lo agora porque ainda estamos muito longe das costas - disse Sandokan.
- Estamos navegando para o norte? - perguntou o ferido.
- Para o sul. Quero chegar à foz do Sarawak. Sandokan ficou pensativo. Olhava, cheio de curiosidade, para o inglês. No seu cérebro passavam várias indagações e havia várias perguntas que gostaria de fazer-lhes. Finalmente, sem muito refletir, perguntou-lhe:
- Gostaria que me informasse: quem é o homem que o rajá de Sarawak está protegendo?
Durante alguns instantes, sir Moreland guardou o mais absoluto silêncio.
- Não lhe posso responder quem é esse homem - finalmente respondeu. - O que posso dizer é que é um indivíduo misterioso que, segundo parece, é dono de imensas riquezas, visitou o rajá e pôs à sua disposição homens e barcos para vingar James Brooke.
- Não será um indiano?
- Não lhe posso dizer porque não sei. Para dizer a verdade, eu nunca o vi.
Depois, ficou novamente em silêncio, como se uma lembrança inesperada o houvesse perturbado. Em seguida, acrescentou:
- Aquele indiano e a filha continuam a bordo? São nossos amigos e estarão sempre conosco.
Saindo do camarote, Sandokan dirigiu-se à coberta. Damna estava tomando ar fresco e conversava com Tremal-Naik.
- Tudo está em ordem - falou o indiano Tremal-Naik.
De repente, eles ouviram um grito do vigia instalado na gávea do traquete:
- Fumaça no horizonte!
- Deve ser algum barco de guerra em nossa perseguição! - disse Iânhez.
- Também estou achando que é um barco de guerra - concordou Sandokan.
- Será que nos descobriu?
- Estamos ambos na mesma situação.
- Talvez seja um barco de exploração - sugeriu Iânhez.
- Amanhã, ao amanhecer, teremos essa resposta e poderemos atacá-lo, se for o caso.
Começava a anoitecer. As trevas impediam que eles tivessem maiores detalhes do barco que, de um momento para outro, havia lhes aparecido diante dos olhos.
Aquela noite, Sandokan e Iânhez não quiseram deitar-se, embora tivessem tido uma jornada muito cansativa. É que estavam muito preocupados sobre quem poderia estar
tripulando aquele misterioso barco.
- Acha que é a esquadra de Labuan à nossa procura?
- É bem provável.
Estava uma bela noite. O ar cálido dos trópicos e o suave balanceio da nave convidava-os a sentarem tranqüilamente sobre um enorme rolo de corda enquanto olhavam para a distância. Tudo estava calmo, aquela noite, a não ser pela presença do barco cuja silhueta recortava-se no horizonte. Isso os fazia ficar bastante desassossegados.
Sandokan continuava olhando para o horizonte. De repente, baixou o binóculo.
- Um relâmpago - disse.
- Onde?
- Na direção daquele barco. Acho que foi um relâmpago de luz elétrica.
- Será que estão se comunicando com outro navio?
- Acho que sim.
Pelo jeito, o barco estava transmitindo a outro sinais que os nossos heróis não conseguiam entender.
SIR, O OCEANO É IMENSO!
Iânhez havia ordenado que dessem marcha-ré ao navio.
O ponto negro que se confundia com a linha do horizonte tornava-se cada vez maior. Agora ele estava muito mais visível. Embora ainda distante, era muito perigoso caso a nave se aproximasse. Principalmente depois das suspeitas provocadas pela série de sinais por eles transmitidos.
- Está vendo-o? - perguntou Sandokan a um velho artilheiro.
- Sim, senhor.
- Conseguirá acertar nele?
- Com um único disparo!
Sandokan, então, mandou que o navio parasse por alguns minutos, a fim de que o artilheiro melhor ajeitasse a pontaria.
Na coberta reinava silêncio absoluto. Todos aguardavam ansiosamente o tiro e mantinham os olhos fixos no outro navio que navegava a todo vapor em meio à fosforecência, procurando aproximar-se do cruzador sem ser visto.
- Fogo! - gritou o velho.
Ouviu-se a detonação, e uma luz fortíssima iluminou tudo.
Foram segundos de grande expectativa. A bala roçava a superfície do mar tocando, de vez em quando, as cristas das ondas o produzindo, ao correr no ar, um sibilar característico.
Um estrondo encheu os ares. Do barco torpedeiro levantou-se uma labareda e, pouco depois, viram pedaços da embarcação indo pelos ares.
- Acertou! - gritou Sandokan.
Os marinheiros começaram a exclamar alegres:
- Hurra! Hurra!
Entretanto, a alegria durou pouco. De repente, o horizonte encheu-se com centenas de pontos luminosos.
- Era exatamente isso que eu estava temendo! - murmurou Iânhez.
- Tenho certeza de que são barcos de guerra perseguindo o "Rei do Mar".
- Devem estar vindo do setentrião. Aposto que a frota inglesa resolveu unir-se à de Sarawak. Alguém deve ter-lhes comunicado que estamos nestes mares, e eles resolveram atacar-nos.
Somos forçados a fugir para o norte. Não somos tão poderosos para enfrentarmos essa esquadra.
- O que você vai fazer? - perguntou Iânhez.
- Voltaremos ao cabo de Taniong-Datu, onde encontraremos o "Mariana" e nos lançaremos rapidamente contra as linhas de tripulação. A esquadra irá nos procurar pelos lados de Labuan e, então, voltaremos para acertar as contas com o rajá e seu filho Suyodhana - respondeu Sandokan.
- Fenomenal! - aprovou Iânhez, entusiasmado. A toda máquina! - ordenou Sandokan.
O "Rei do Mar" começou uma rápida marcha.
Sandokan, Iânhez e Tremal-Naik, de pé junto à ponte de comando, observavam atentamente as manobras desenvolvidas pela esquadra inimiga. Agora eles pareciam estar corrigindo o rumo, pois tomavam outra rota. Os oficiais ingleses haviam percebido que o corsário fugia para o norte e resolveram manobrar de outro modo, na esperança de capturá-lo.
Entretanto, aqueles barcos não conseguiam navegar com a velocidade de o "Rei dos Mares", mesmo que forçassem muito as suas máquinas.
- Os ingleses vão continuar nos perseguindo até o norte. Por isso, é melhor que tomemos rumo ao noroeste.
- Isso, em frente! Agora poderemos dormir sossegados - aprovou Iânhez.
No dia seguinte, não se via barco algum no mar. Apenas os pássaros voavam ao redor do navio em busca de restos de comida que eram atirados da popa. Eram os únicos que davam sinais de vida.
Sandokan subiu à coberta. Havia descansado aquela noite e encontrava-se completamente calmo. Não havia a menor dúvida quanto ao resultado obtido na manobra noturna.
Acompanhado por Damna, Iânhez foi até a coberta. Estavam contentes e riam como se nada de grave houvesse acontecido.
- Conseguimos enganá-los - disse o português. - Agora chegaremos ao cabo de Taniong sem que ninguém nos moleste.
- A propósito, será que sir Moreland ouviu o tiroteio? - perguntou a garota.
- Vamos dar uma olhada nele? - propôs Sandokan.
- Eu também gostaria de vê-lo - disse Damna. - Posso?
- Claro! - respondeu Sandokan.
- Tenho certeza de queele ficará contente de ver você. Sir Moreland estava desperto e no momento em que eles entraram no camarote, estava animadamente conversando com o médico.
Quando viu Damna chegando atrás de Iânhez, animou-se todo e por alguns momentos não tirou os olhos de cima dela.
- Que alegria vê-la! - falou, animadíssimo.
- Como está, sir? - perguntou ela.
- Muito bem. O ferimento está quase cicatrizado.
- Estou muito contente porque conseguiu salvar-se... O jovem capitão olhou sorrindo para Sandokan e disse:
- Obrigado, muito obrigado!
Sandokan, Iânhez e a jovem ficaram por alguns momentos conversando no camarote e trocaram palavras com o doutor. Antes de se irem, sir Moreland confessou a Damna:
- Espero voltar a vê-la logo. Espero que essa minha vontade possa vir a ser atendida.
Depois que a jovem retirou-se, sir Moreland ficou muito triste. Seu pensamento turvou-se com algumas idéias que há muito o rondavam. Pensou em como a guerra é terrível
e no ódio que ela semeia entre pessoas, inclusive entre aquelas que poderiam ser excelentes amigos.
- Nunca poderemos estar juntos! - exclamou.
- Por quê? - perguntou o doutor. - Esses homens gostam de você. Além disso, estão em guerra contra os ingleses, mas não são seus inimigos.
- Para onde vamos? - perguntou o rapaz mudando de tom e de assunto.
- Para o noroeste - respondeu o médico.
- Para Sarawak? E eu poderia desembarcar lá?
- Quer afastar-se de Damna?
- Oh, não! É que existem motivos muito sérios. Acho que este barco não conseguirá ficar inteiro por muito tempo. Penso que, de um momento para o outro, voará pelos
ares. Além disso, não encontrarão sempre combustível, principalmente se não têm um porto amigo para reabastecer - acrescentou sir Moreland.
- Sir, o oceano é imenso!
- Admiro a coragem desses homens, mas não tardarão em ver-se rodeados pelo anel de ferro que os aprisionará, imobi-lizando-os. Eles poderão causar sérios danos
à marinha inglesa, não duvido, e ao rajá. Entretanto, esse estado de coisas não vai durar para sempre.
- Eles já sabem disso sem ser preciso que você lhes diga. Sabem muito bem da sorte que os espera e não ignoram que mais dia, menos dia, seus cadáveres irão
para o fundo do mar para servirem de comida aos peixes.
- E a senhorita Damna?
- Ela também sabe disso.
- Salve-a! Nós precisamos fazer o impossível para salvá-la!
- Não acho que será fácil tirá-la de junto do pai dela e de seus fiéis amigos.
Sir Moreland ficou pensativo. A conversa não o havia tranqüilizado. Ao contrário. Agora sentia-se pior do que antes, mas não era o seu ferimento que doía. Era, sim, o coração que havia começado a doer insuportavelmente forte.
UMA ILHA MARAVILHOSA
Havia passado alguns dias. O "Rei do Mar" tinha navegado sem que seus tripulantes percebessem. Estavam com as máquinas totalmente renovadas, portanto, nada havia com que pudessem preocupar-se. A essa altura, encontrava-se perto do cabo Taniong-Datu.
Escondido em uma enseada estava o "Mariana", completamente invisível aos olhos de todos que por ali passassem. Encontrava-se sob o comando de um velho pirata que vivia ao lado de Sandokan. Era um sujeito forte, corajoso e excelente marinheiro. O navio estava com um grande carregamento de armas e munições destinadas a abastecer o "Rei do Mar".
Os ingleses haviam carregado todo o carvão que havia em Bruni e, por isso, os piratas não conseguiram ali sequer uma tonelada.
Sandokan deu ordens ao comandante do "Mariana": ele deveria ir imediatamente a Sedang e esperá-los na foz do rio.
Depois de sete dias, o "Rei do Mar" navegava lentamente a fim de poupar combustível. Eles economizavam para o caso de terem de sair a toda velocidade, caso encontrassem alguma esquadra inimiga.
O navio mantinha-se distante das costas. Quando estavam passando pelo banco de Vernon, sir Moreland, amparado pelo médico, fez a sua primeira aparição na ponte.
Ele estava muito fraco e, pelo fato de não haver saído durante muitos dias, estava muito pálido. Graças a sua constituição robusta e ao tratamento médico, encontrava-se
muito bem, e seu ferimento estava totalmente curado.
O inglês respirou o ar fresco e puro da manhã. Não estava muito calor, àquelas horas. Do mar soprava uma fresca brisa que enchia sua superfície com ondas.
Ao ver o rapaz apoiado pelo médico, Iânhez aproximou-se para puxar conversa:
- Estou contente por vê-lo completamente curado - disse.
- Já estou bem graças a vocês pelo muito que fizeram por mim.
- Pode considerar-se nosso hóspede. Não gostaria de que se sentisse como um prisioneiro de guerra. Você tem liberdade para ir de um lado para outro do navio como se fosse a sua própria casa, pois encontra-se em total liberdade para fazer o que quiser e ir onde melhor sentir-se.
- Muito obrigado!
Depois dessas breves palavras e de um curto silêncio, o inglês aspirou profundamente o ar marítimo e disse:
- Já deixamos a região cálida para trás. Esta brisa vem do norte. Pode dizer-me onde nos encontramos?
- Bem longe de Sarawak.
- Estão fugindo do barco do rajá?
- Sim. Tivemos de proceder assim porque não conseguimos renovar as nossas provisões.
- Não sei como farão, se não contam com portos amigos.
- Nesse caso, teremos de dar um jeito em portos inimigos - respondeu Iânhez sorrindo.
- Será um pouco difícil - contestou sir Moreland.
- Sim, será. Mas não se esqueça de que para nós, na verdade gostamos exatamente das coisas que nos custam mais. Preferimos o difícil e não o fácil.
Ao ouvir aquelas palavras, sir Moreland ficou pensativo, pois não havia entendido uma única palavra. Na realidade, era-lhe muito difícil saber quando Iânhez estava falando sério ou brincando. Ao fim dessa conversa, inclinou-se para agradecer e resolveu dirigir-se ao camarote. Ele tinha visto Damna debaixo de um toldo estendido na altura das guias. Ela estava lendo um livro que parecia muito interessante, embora não se mostrasse muito absorta porque, de vez em quando, dava uma olhada furtiva em sir Moreland. Foi num momento desses que ele se aproximou dela.
- Posso sentar-me a seu lado? - perguntou.
- Não vejo inconveniente algum - respondeu Damna. - Você deve estar se sentindo melhor ao ar livre, não? A brisa marítima certamente lhe fará bem.
Durante alguns momentos, o inglês manteve-se em silêncio enquanto observava a jovem. Ela pareceu-lhe mais bela do que nunca, talvez pelo vestido em tons claros ou pelo laço amarrado no pescoço, cujas pontas brincavam sopradas pelo vento. Finalmente, atreveu-se a dizer, embora em voz baixa:
- Estou muito feliz por encontrar-me a seu lado. Não poderia imaginar que voltaria a vê-la depois daquela acidentada fuga de Redjang.
- Creio que você não me guarda rancor, não é? Fomos obrigados a agir daquela maneira, contra a nossa vontade, conforme você deve compreender. Às vezes fazemos coisas que aparentemente têm outro significado e que, depois de algum tempo, nem somos capazes de entender direito.
- Muitas demoram muito tempo e mesmo assim, nunca as entenderemos.
- Por exemplo qual? - perguntou Damna.
- O fato de você encontrar-se neste barco.
- Não será difícil de entender, se você pensar que aqui estou em companhia de meu pai e de meus fiéis amigos.
- Eu preferiria tê-la como minha prisioneira.
- Porque?
- Porque me sentiria muito feliz ao seu lado.
- Não se esqueça, senhor, de que entre nós existe uma guerra e que essa guerra nos separará para sempre. Você é um dos oficiais do rajá e foi armado por sua pátria a fim de fazer com que desapareçamos destes mares.
- Acho que para tudo sempre há um jeito.
- É impossível! Esse sonho nunca se transformará em realidade! Há algo que nos separa; portanto, esqueça-se de que neste barco está a mulher da qual você gosta.
Creia, isso será muito melhor para nós dois!
- Compreendo o que você está me dizendo e sei que tem razão. Um capitão nunca pode perdoar os que o derrotaram e puseram seu barco a pique. Oh, teria sido melhor que eu tivesse ido para o fundo do mar com o meu navio!
- Por favor, não diga isso! Não gosto de ouvi-lo falando assim!
Levantando-se, o capitão pôs-se a caminhar com passos curtos. Mal conseguia andar. Estava muito agitado e, embora o ferimento estivesse curado de uma vez, o corpo não lhe respondia conforme ele esperava. Estava mesmo muito agitado e nervoso! Ele sentia dores no local do ferimento, mas a dor maior estava em seu coração.
Ao vê-lo tão agitado, o médico, que se encontrava por perto, aproximou-se e disse:
- Senhor, não deve caminhar sozinho nem deve fazer muito esforço. Isso poderá causar-lhe graves conseqüências!
- Que me importa se o ferimento voltar a abrir-se! Gostaria que tudo se acabasse! A vida poderia fugir pelo ferimento, pelo menos tudo acabaria de uma vez!
- Não creio que deva lamentar-se, senhor. Sabe Deus o que o futuro lhe reserva? A vida é muito bonita, sir!
O inglês deu uma olhada para Damna e, depois de alguns instantes, amparado pelo braço do médico, deixou-se conduzir para o seu camarote.
O "Rei dos Mares" continuava sua rota rumo ao noroeste, mantendo sempre a velocidade de sete nós.
Ao meio-dia, Iânhez e Sandokan examinaram os mares e notaram que estavam a uma distância de trezentos quilômetros de Mangalum, distância que conseguiriam vencer em pouco mais de vinte e quatro horas, sem precisarem forçar as máquinas.
Rumo ao sul começaram a aparecer algumas nuvens mais densas, pressagiando a tempestade que se avizinhava rápido. Iânhez não queria ser surpreendido por um furacão naquelas paragens cheias de bancos de areia e poucos cais, assim mesmo muito perigosos.
O mar de Sonda é um dos piores para os navegantes porque ali se formam ondas gigantescas, capazes de afundar até as maiores embarcações.
O "Rei do Mar" não era exatamente um desses navios fáceis de afundar, mas Iânhez não queria correr o risco de deixar-se levar por aquelas águas do oceano.
O sol desaparecia envolto por negras nuvens que flutuavam no céu, e a brisa havia sido substituída por um vento forte e frio.
A calmaria que até então havia reinado tinha desaparecido do mar. As ondas arrebentavam contra a embarcação, produzindo muito barulho e erguendo-o ao mesmo tempo em que o sacudia violentamente.
- Não gosto nem um pouco de ver o mar assim! - comentou Iânhez ao médico que havia retornado à coberta. - O furacão não poderá com o nosso barco, mas, mesmo assim, não pense que me fio muito nisso! Já viajei muito por estes mares e sei como são terríveis quando os ventos sopram do sul ou do oeste!
- Também já ouvi falar disso que você está dizendo. Dizem que as ondas que se levantam alcançam tamanha altura que são capazes de passar de um lado a outro, por cima do navio!
- Atingem a altura de quinze metros e, às vezes, até mais do que isso!
- Mangalum não deve ficar muito longe daqui - comentou o médico.
- Não vamos à ilha. Ficaremos longe dela o mais que pudermos. Mangalum não passa de uma rocha, e as demais ilhas que a circundam são apenas pontas de outras rochas.
- Não invejo a vida das pessoas que vivem lá, pois encontram-se muito afastadas da civilização. Ali só aportam barcos para apanhar cargas de carvão e, mesmo assim, parece que aportam muito poucos. São tão poucos os bosques que existem nas enseadas de Mangalum que o depósito de carvão só é renovado a cada três anos.
- Além disso, o número de ilhéus é muito pequeno.
- Não passam de cem pessoas.
- E por que eles não vão embora de lá?
- Porque, apesar de serem tão poucos, gozam de grande liberdade e não sei em qual outro lugar da Terra seriam tão livres. Vivem em perfeita harmonia, apesar de ali haver gente de várias nacionalidades, pois são ingleses, americanos, ma-laios, chineses e tantos outros. O chefe dessa gente é o homem mais velho do lugar e seus poderes são muito limitados. Trabalham no que mais gostam e comem do que lhes oferece o mar, além de algumas frutas de ótima qualidade. Às vezes dedicam-se à caça, embora ela não seja muito abundante.
- É uma ilha maravilhosa! - exclamou o médico.
- Sim, é verdade. Eles vivem muito felizes, não conhecem as facilidades da civilização e nem seus inconvenientes. A história da ilha é tão simples quanto a própria ilha. Há alguns anos, acompanhado por um amigo, um desertor inglês chegou a esse lugar. Ali ambos viveram por algum tempo, até que o governador inglês mandou um barco para tomar posse da ilha. Pouco a pouco, nela foram desembarcando malaios,
ingleses e pessoas de outras nacionalidades, alguns trazendo as suas mulheres. Depois, a vida foi-se tornando normal e, como é natural, também os seus habitantes.
- Gostaria tanto de visitar essa ilha! - suspirou o médico.
EM MANGALUM
Pela manhã, o tempo havia mudado bastante. Assim como durante a noite as ondas haviam batido violentamente contra o costado do navio, durante a noite haviam perdido, em parte, a sua violência. Mas, mesmo assim, continuavam perigosas.
O céu estava coberto por nuvens negras e ameaçadoras que faziam desaparecer, quase por completo, do firmamento, a luz do sol.
Dotado de excelentes condições para navegação, o "Rei do Mar" facilmente vencia as ondas que o agrediam pela proa.
Era digno de ser visto o espetáculo que os pássaros marinhos ofereciam, principalmente os albatrozes, mais correndo do que voando por entre as cristas das ondas ou, alto no ar, descrevendo amplos círculos ao redor do barco.
Os viajantes queriam chegar o mais cedo possível a Man-galum e por isso Sandokan havia mandado ativar o fogo nas caldeiras para alcançarem a ilha antes que o furacão desencadeasse, pois, se não chegassem a tempo, seria muito mais difícil atingi-la devido à quantidade de pequenos rochedos que a rodeavam, e os fortíssimos ventos poderiam arrojá-los contra esses perigosos pontos.
- O melhor é esperarmos que a tormenta se acalme, antes de nos aproximar-mos de Mangalum - disse Sandokan.
O "Rei do Mar" havia posto a proa em direção ao poente, pois naquela direção não havia nem barcos nem recifes. Agredindo-o com toda a força, o furacão dava-lhe violentas sacu-didelas.
- Tomara que passe logo, ou do contrário, acabaremos indo a pique para servirmos de alimento aos peixes! - comentou Iânhez.
- Não se preocupe. Este barco tem muita potência, e não é fácil que as ondas, por mais violentas que sejam, consigam arrebentar suas pranchas de ferro.
Todos estavam na coberta, inclusive Damna e sir Moreland. Admiravam o espetáculo que a natureza lhes oferecia, o qual era realmente magnífico! Para uma pessoa que jamais pizou em algum barco e que, portanto, nunca tenha presenciado tal espetáculo é difícil compreender a satisfação que se experimenta em uma oportunidade como aquela em que se encontravam os tripulantes do "Rei do Mar".
A essa experiência de poder-se assistir às ondas passando por cima da coberta, e que tanto pavor causam, pois eles estavam na ponte de comando, deve-se acrescentar o estrondo que elas produzem quando se chocam no costado da nave. A única segurança que tinham era a de continuar pensando que o barco era forte e de verem os marinheiros muito seguros de si enquanto Sandokan dava-lhes ordens que eram cumpridas imediatamente enquanto o pirata ia de um lado para o outro da nave. Todos tinham a certeza de que Deus os haveria de tirar daquele apuro em que estavam.
O estado do mar havia mudado quase de repente. Agora estava mais violento do que de manhã.
- É uma tempestade e tanto! - comentou sir Moreland a Damna que, a essa altura, havia-se abrigado na torre da popa.
- Acha que conseguiremos escapar? - perguntou ela.
- Sim, porque este barco é à prova de furacões.
- Ficando aqui, você está correndo muito perigo - opinou Tânhez. - Este não é lugar próprio para uma jovem, Damna.
Sandokan assistia com indiferença aquele embate das ondas. Agarrado ao corrimão da ponte, impassível e com a expressão inalterada, dava ordens com voz firme e autoridade.
Havia momentos em que, devido às ondas, o "Rei do Mar" subia para, em seguida, abaixar como se fosse um pedaço de madeira jogado sobre as águas do oceano. Ele saltava sobre aquelas montanhas de água dando tais sacudidelas que fazia a todos temer que perdesse a estabilidade a qualquer momento. De outras vezes, caía em abismos, onde parecia mergulhar para sempre.
As investidas do mar sacudiam violentamente a coberta e, quando atingiam algum marinheiro, levavam-o, quase num VÔO, para o outro lado, atirando-o, às vezes, contra os mastros OU à distância.
- É admirável o comportamento desses homens! concluiu Damna. Estão acostumados a este tipo de trabalho - explicou sir Moreland. - Além disso, são muito fortes.
A natureza oferece-nos um belo espetáculo em momento como este.
Belo, porém perigoso. Principalmente para você que é uma jovem e, portanto, não acostumada a situações assim.
Muito atentos, os homens das máquinas faziam o possível para que tudo continuasse funcionando bem. Tanto homens como máquinas trabalhavam por igual, em rendimento total. Os barcos e o material de artilharia foram fortemente amarrados a fim de que as ondas não levassem a preciosa carga. Tudo estava muito firme, portas e escotilhas foram fechadas a fim de que não entrasse uma única gota de água no interior da embarcação.
Durante toda a noite, o "Rei do Mar" enfrentou as fúrias do furacão, sem afastar-se demasiado das proximidades de Mangalum. Só ao meio-dia do dia seguinte que o vento serenou, e o barco voltou a tomar sua primitiva rota.
Embora a tempestade houvesse passado, o céu continuava ameaçador.
- Temos de aproveitar agora que não está mais ventando - disse Sandokan. - As carboneiras estão quase vazias e seria uma grande imprudência deixarmos que outro furacão nos pegue com as caldeiras sem combustível.
Eles não estavam muito distantes da ilha e isso puderam comprovar quando viram uma montanha no horizonte. Estavam muito próximos da terra firme e isso deixou-os bastante satisfeitos.
- É Mangalum? - perguntou Tremal-Naik a Iânhez, que observava a ilha com a luneta.
- Sim - afirmou o português.
- Então, vamos nos apressar para chegarmos logo a esse porto onde poderemos reabastecer-nos de carvão.
Pouco a pouco, a montanha ia ficando maior. Eles se aproximavam na tão esperada ilha. Ela era, à primeira vista, um monte que emergia do mar coberto por espessa vegetação verde escura. No sopé desse monte havia um pequeno porto, suficiente para o "Rei do Mar" atracar. O navio aumentava a velocidade da marcha, consumindo as últimas toneladas de carvão.
- Não demoraremos muito a chegar - comentou Iânhez.
Ainda não era meio-dia, quando eles lançaram âncoras na pequena baía junto à qual viam-se algumas casinhas e barcos atados aos pilões do porto.
- Lancem as sondas! - ordenou Sandokan.
- É muito importante saber se temos fundo suficiente para podermos atracar no porto - observou o médico.
Obedecendo as ordens de Sambigliong, vários marinheiros começaram a efetuar a sondagem das águas, a fim de medir a profundidade do leito do oceano.
Os navegantes viam o ir e vir dos habitantes da ilha, de um lado para outro, enquanto procuravam identificar o barco que estava se aproximando. Eles nunca tinham visto antes uma embarcação daquelas proporções. Saíam apressadamente de suas cabanas e corriam para chegar, o mais depressa que podiam, nas rochas que rodeavam o porto.
Não eram somente os homens que assim procediam. O maior número de curiosos era de crianças que gritavam uns aos outros enquanto saltavam alegres entre os montes de gigantescas algas que cobriam as praias da pequena baía.
Finalmente, Sandokan ordenou que arriassem a chalupa a vapor e duas baleeiras maiores, porque as ondas continuavam ainda muito fortes. Logo depois, recomendou ao timoneiro que conservasse o "Rei do Mar" sempre próximo à praia.
- Estou contente de ver aquelas montanhas de carvão - disse Iânhez.
- Aqui não vamos encontrar muita resistência.
- Valeram a pena as dificuldades que tivemos de enfrentar pelo caminho. Pelo jeito, esse pessoal está feliz por ver-nos - comentou Iânhez.
Parecia que as ondas iam agora perdendo a força. A água ficava mais tranqüila, pelo menos no trecho compreendido entre a nave e a ilha, e o desembarque pôde ser realizado facilmente.
A chalupa levou as duas baleeiras rebocadas e rapidamente dirigiu-se à praia.
Iânhez, que capitaneava os desembarcados, ao saltar à terra perguntou pelo governador.
- Sou eu - apresentou-se um velho que usava um traje um pouco enfeitado. - O que desejam? - quis saber, curioso.
- É verdade que vocês têm aqui um depósito de carvão?
- Sim, é verdade - concordou o homem.
- Pois então, é disso que precisamos, meu bom amigo - falou Iânhez.
- Quem são vocês?
- Vai demorar para contar; entretanto, tentarei fazer a coisa de um modo rápido. Para começar, não somos ingleses. Digo-lhe isto porque, quando chegamos, a primeira coisa que vocês fizeram foi hastear a bandeira inglesa no ponto mais alto do porto. Portanto, nada temos a ver com o rei da Inglaterra.
- Então, querem conquistar a ilha?
- Você não entendeu uma única palavra do que eu disse! Não é a ilha que queremos. Nosso desejo é de que carreguem nosso barco com certa quantidade de carvão - explicou Iânhez.
- Não podemos ceder-lhes carvão, pois só o fazemos para o governo inglês. Portanto, não podemos dar-lhes o que nos pedem, a menos que nos tragam uma ordem de Sua Majestade.
- As ordens sou eu quem dá, meu querido - respondeu Iânhez. - Além disso, não é só de carvão que preciso, mas também de víveres, alimentos e água potável. Portanto, dentro de uma hora quero tudo isso pronto para o embarque pois, do contrário, porei nossos canhões em ação e nossos homens destruirão todo o povoado, queimando todas as plantações!
- Isso é pirataria!
- Não importa o nome que você dê. O que queremos é que obedeça o mais rápido possível. Do contrário, irá se arrepender!
Ouvindo aquilo, os moradores da ilha começaram a afastar-se daqueles homens que davam ordens tão autoritariamente. Em silêncio, entravam em suas casas, temendo que os invasores atirassem contra eles.
O governador, então, conversou com três ou quatro colonos que, conforme tudo indicava, eram influentes e respeitados na ilha. Depois, conforme se deduziu pelos resultados, os ilhéus resolveram, por unanimidade, concordar com o pedido dos piratas.
Iânhez dirigiu-se ao depósito de carvão que se encontrava situado no extremo da baía, debaixo de um grande barracão. Havia uma grande quantidade do precioso combustível empilhado cuidadosamente.
O carvão pertencia ao governo inglês e ali estava depositado para que os súditos dele se utilizassem no momento oportuno, sempre que dele precisassem. Ali, acumuladas, havia cerca de mil toneladas de carvão, uma provisão bem respeitável.
Entretanto, para transportá-las ao barco, os piratas levariam muito tempo.
Começaram, pois, a transportar o carvão para o barco com a maior velocidade possível. Para isso, Iânhez tinha mandado descer à terra mais de oitenta homens de reforço
e que foram muito úteis.
Ainda não havia transcorrido uma hora, quando apareceram alguns colonos conduzindo, até a baía, uma grande quantidade de ovelhas e de cabras.
Seguido por seus conselheiros, o governador vinha à frente. Ele parecia muito aflito e, por isso, disse a Iânhez:
- Que fique bem claro que sou forçado a agir deste modo! Não me agrada nem um pouco fazer isto que estou fazendo!
O português tirou um pedaço de papel da carteira e entregou-o ao governador.
- O que é isso? - perguntou o homem.
- É um cheque de mil libras esterlinas que poderá cobrar ou mandar descontar em Pontianak, onde temos nossos banqueiros. Estou lhe pagando generosamente por esses gêneros porque sei que pertencem a vocês. Entretanto, com relação ao carvão, não vou pagar sequer um penique porque pertence à Inglaterra e nós temos muitas diferenças
com esse país.
- Mas o que nos interessa são os animais, porque o di nheiro de nada serve nesta ilha - respondeu, entristecido, o governador. - Os animais nos são muito mais úteis porque é deles que tiramos o nosso sustento.
Naturalmente, havia "razões" de sobra para que o governador obedecesse tão depressa, conforme havia feito. Principalmente depois de ver os fuzileiros levantando suas armas. Por isso, seguido por seus conselheiros, retirou-se apressadamente.
A operação do transporte do combustível prosseguiu em ritmo febril. Haviam desembarcado mais homens do "Rei do Mar" que ajudavam no trabalho com grande rapidez.
As águas estavam agora muito tranqüilas e por isso eles conseguiam cobrir facilmente a distância que existia entre a praia e o barco.
Os piratas estavam com sorte porque as águas do resto do oceano continuavam revoltas. O tempo, por sua vez, não tendia a limpar, e o embarque de toda aquela quantidade de combustível ia exigir muitas horas de trabalho.
Durante o dia e durante a noite eles continuaram armazenando grande quantidade de carvão. Pareciam gigantescas formigas transportando alimento para passarem o inverno.
UMA CAÇADA ACIDENTADA
O mar havia se acalmado bastante, principalmente à noite, embora o tempo continuasse feio. Por isso, o português convidou sir Moreland a saírem um pouco daquele ambiente para irem, embora por apenas algumas horas, fazer uma caçada nas ilhas vizinhas a Mangalum. Pensava em caçar algumas daquelas aves que viviam por ali. Também convidaram Su-rama, mas ela não aceitou por sentir-se indisposta. Entretanto, Damna ouviu a proposta e aceitou dizendo que ela era uma excelente caçadora.
Assim, após a refeição, o inglês, Iânhez e Damna, bem armados com escopeta e bastante munição, embarcaram em uma baleeira e começaram a viagem em direção ao local da caçada. Primeiro, dirigiram-se para uma ilha do poente. Na verdade, tratava-se de um grande rochedo cujo ponto mais alto atingia a mais de duzentos metros e que ficava bem distante da ilha principal.
Nesta ilha, principalmente na parte onde havia vegetação e mesmo nas rochas, podiam ver centenas de pássaros. A maior parte deles, albatrozes brancos e negros. Além deles, havia também outras espécies de aves-marinhas, algumas ótimas para servirem de alimento.
Graças à perícia do português, eles não demoraram muito para aproximarem a embarcação de uma enseada próxima à praia, que media alguns metros.
Ali deixaram o barco amarrado a uma das grandes pedras tão abundantes que existem naquelas praias, a fim de que as ondas não o arrastassem para o oceano. Assim que Damna pôs os pés em terra firme, disparou a correr pela praia e, seguida pelos demais, subiram pela encosta de um grande penhasco.
- Que grande quantidade de aves! - exclamou Moreland.
- Vamos comer até arrebentar! - respondeu Iânhez. - Quando voltarmos ao navio, pediremos ao cozinheiro que as prepare.
A caçada continuou até depois de o sol se pôr. Todos se divertiram muito durante as curtas horas que a caçada durou. príncipalmente sir Moreland que se mostrou um excelente atirador. Damna, porém, não fazia outra coisa senão assustar as aves, já que não tinha boa pontaria, assim contrariando tudo o que havia afirmado anteriormente.
- Veja só que caçadora! - comentava Iânhez dobrando de rir ao vê-la atirando tão mal. - Não entende nada deste serviço!
Havia começado a soprar um vento forte, e o mar estava cada vez mais bravo. Por isso, eles resolveram também levantar vôo e abandonar a pequena ilha.
- Estão nos chamando - comentou Iânhez.
Ouvia-se, ao longo, a sirena do barco, pois, ao que tudo indicava, eles já haviam terminado de carregar o "Rei do Mar" que já estava pronto para reiniciar a viagem.
Os caçadores apressaram o passo ao verem que o mar estava cada vez ficando mais bravo. As ondas arrebentavam com grande violência contra os rochedos.
- Acho que o barco vai partir sem nós - comentou Iânhez brincando.
- Não diga uma coisa dessas! - respondeu Damna assustada.
- Vamos dar o fora o quanto antes deste lugar, senhor Iânhez - falou Moreland olhando inquieto para Damna.
- Não vai ser fácil chegarmos a bordo.
A sirena continuava tocando, fazendo apenas curtas pausas para tomar fôlego.
- Vamos sair ao mar aberto, pois acho que do outro lado da ilha ele está ainda muito mais bravo.
Agarrando os remos, o português lançou-se mar a fora, saindo da minúscula enseada. Entretanto, ele não conseguia avançar muito. Mal havia conseguido passar a linha dos recifes, quando uma enorme onda, verdadeira montanha de água, caiu sobre eles e quase levou-os a pique.
O mar já não estava manso como antes. Ao contrário, havia se transformado em uma verdadeira fera.
Ao mesmo tempo em que eles eram cobertos pela onda, puderam ver o "Rei do Mar" também ser batido pelas incríveis ondas que saíam rápidas do meio do oceano rumo à terra.
Viram como os marinheiros tentavam safar-se daquelas terríveis investidas.
O navio, atingido por outra onda maior, vinda do sul e que erguia nuvens de água com borrifos como se fosse uma cascata, fugia rapidamente. Pelo jeito, o terrível embate do mar havia arrebentado a corda da amarra.
- Lá se foi o "Rei do Mar"! - gritou Damna.
A água formava montanhas que batiam fortemente contra as rochas da pequena ilha.
- Vamos voltar, senhor Iânhez! - gritou Moreland. Mal terminou a frase, quando se viram envolvidos por uma fantástica nuvem de água que, precipitando-se sobre a cha-lupa, cobriu-a e atirou todos ao mar.
Rapidamente, Iânhez agarrou-se ao salva-vidas e segurou Damna fortemente com o braço.
Assim que a onda passou, viu que Moreland estava agarrado ao outro salva-vida da proa.
- Sir Moreland! - gritou. - Ajude-me!
É que Damna acabava de escapar, mas seu traje azul logo voltou a aparecer a pouca distância de ambos.
O capitão parecia crescer diante do perigo. Era como se houvesse, de repente, recobrado as forças naquele momento.
Com a mão esquerda, agarrava-se ao salva-vidas e com a direita segurava a garota pela cabeça, tentando erguê-la para que não fosse coberta pelas águas.
- Socorro! - gritou Damna.
- Não se preocupe! Nós estamos aqui, Iânhez e eu e não vamos abandoná-la! - respondeu o inglês.
Ao sentir-se agarrada e suspensa, a jovem abriu os olhos e, apesar da situação em que se encontrava, manteve-se serena o suficiente para agarrar-se aos braços de sir Moreland, sem demonstrar o menor desespero.
As ondas iam e vinham produzindo em seu movimento um barulho infernal. Além disso, ao arrebentarem contra as rochas, viam-se duplamente empurradas para o mar, com isso arrastando tudo o que encontravam pelo caminho.
Ao ver o salva-vida que Moreland estendia-lhe, Damna agarrou-se fortemente.
- Não se solte! - gritava Iânhez. - Cuidado!
- Amarre-se ao salva-vidas!
O inglês rapidamente amarrou a corda às presilhas.
Mal havia acabado de dar o nó, quando viram aproximar-se uma outra onda gigantesca que os cobriu por completo.
Os três sentiram-se arrebatados e, depois, arremessados para cima, entre torvelinhos de espumas que os deixaram cegos. Finalmente, foram atirados a um buraco que parecia não ter fim.
- Senhor Iânhez! - gritou Damna. "Estamos perdidos!" - pensou o português.
- Coragem! - pediu sir Moreland tentando colocar em sua voz toda a herança de seus antepassados, a conhecida frieza britânica.
- Não estamos longe da ilha e, além disso, as ondas estão nos empurrando para lá - dizia Iânhez procurando animar os companheiros enquanto procurava encorajar a si próprio.
Naquela altura, as ondas sucediam-se umas às outras, rápida e violentamente. Uma delas pegou-os por baixo, ergueu-os pelos ares e depois de fazê-los rodopiar, atirou-os novamente ao mar com terrível rapidez.
- Que golpes! - comentou Iânhez irritado.
- Ágarre-se ao salva-vidas! - falou o inglês.
- O pior de tudo é que nem estou mais vendo o "Rei do Mar" - comentou Iânhez.
- Será que desapareceu levado pelo furacão? - perguntou sir Moreland muito preocupado.
- Não se preocupe. Sandokan fará de tudo para encontrar-nos - emendou Iânhez.
De repente, deu um grito de alegria:
- Toquei em terra!
De fato, ele já conseguia colocar os pés em algumas rochas que emergiam naquele pedaço de mar. Estavam próximos a uma pequena ilha e por isso era bem provável que outras rochas aparecessem como se fossem ilhas de brinquedo.
Naquele instante, uma nova onda chegou rugindo e bramando. Tinha quinze metros de altura e a crista branca de espumas. Ela os envolveu rapidamente, como as demais, mas, por sorte, em vez de atirá-los ao mar, levou-os para perto da praia.
- Estamos a salvo! Salvos! - gritava Damna cheia de alegria.
- Um pouco mais de força e estaremos chegando na ilha! - animava o português que já havia recobrado sua natural calma e o bom-humor.
O inglês estava muito pálido. O ferimento havia reaberto, doíam-lhe as costas e as forças fugiam-lhe rapidamente.
- Sir! exclamou Damna que havia percebido o que estava acontecendo. - Você piorou?
As ondas continuavam empurrando com violência. No ânimo de todos, porém, havia renascido a esperança. Agora eles eram suavemente impelidos para a praia. Não muito distante do ponto em que se encontravam podiam ver e quase tocar, o recife cuja ponta erguia-se imponente a pouca distância.
Ainda ferviam na cabeça dos náufragos aqueles momentos intensos que haviam passado enquanto ondas enormes sucediam-se umas a outras com terríveis estrondos. Eles pareciam estar ouvindo de novo o rugir do vento sobre o mar...
Estavam, contudo, praticamente salvos. Tudo, agora, resumia-se em darem mais algumas braçadas. Esses últimos metros, porém, tornavam-se mais difíceis porque as forças lhes faltavam. Eles estavam com os músculos cansados. Como se diz, haviam atingido os limites de suas energias.
- Vamos sair logo daqui! - disse Iânhez fazendo das tripas coração para pôr-se a nadar.
"Sir Moreland não está agüentando mais!" - pensava Damna.
- Vamos deixar que as ondas nos empurrem - sugeriu o Inglês.
Assim, por sorte, as ondas levaram-nos à praia, exatamente ao mesmo lugar onde haviam passado a tarde caçando.
Montes de algas apareciam nas gretas das rochas. Para cima não havia nada, apenas pedras de um tom cinza escuro.
Os três náufragos caíram docemente na terra arenosa, empurrados por uma derradeira onda. Um pouco mais, e tudo teria se acabado para eles. Estavam, a bem da verdade, não se agüentando mais.
Iânhez ajudou Damna a sair da praia. O inglês mal conseguia andar. Seus passos deixavam marcas profundas na areia, sinal de que seus pés mais se arrastavam do que caminhavam.
- Como está se sentindo, sir? - perguntou Damna.
- Um pouco fraco... mas vai passar...
Eles caíram na areia úmida. Estavam com os nervos em frangalhos e tinham um aspecto desolador. Se não fosse o fato de terem passado terríveis apuros, até que poderiam ter começado a rir um do outro.
- Vamos procurar um lugar para abrigar-nos - sugeriu Iânhez. - Com este outro furacão violentíssimo que está começando, o "Rei do Mar" não poderá voltar tão depressa.
- Teremos de passar a noite aqui - disse Damna.
- Sim - concordou Iânhez.
- Ninguém virá nos perturbar. É quase certo que por aqui não há feras selvagens.
- Vamos esperar aqui, neste mesmo lugar, até que amanheça.
Estavam, pois, resolvidos a ficar na pequena ilha, sempre esperançosos de que o "Rei do Mar" viesse brevemente procurá-los.
Os pássaros não descreviam vôos ao redor dos náufragos, haviam se refugiado nas gretas do penhasco que lhes serviam de ninhos. De vez em quando alguns deles fazia o impossível para enfrentar a fúria dos elementos. Ele parava um pouco sobre a saliência de alguma rocha, mas, de repente, como se pensando melhor, alçava um voo curto e pousava junto a qualquer buraco que lhe servisse de refúgio para passar a noite o mais abrigado possível.
- Vamos cair fora daqui - propôs Iânhez.
- Sim, vamos antes que seja tarde demais - concordou Damna.
Então, eles também começaram a procurar uma caverna para pernoitar.
EM PÉ, SIR MORELAND!
O furacão continuou durante toda a noite. A chuva caía torrencialmente, empapando os três náufragos. Além da chuva, a tormenta era acompanhada por ensurdecedores trovões que retumbavam violentamente. Grande quantidade de água caía pelas canaletas naturais da rocha, saltando e precipi-tando-se até chegar na base do rochedo, onde eles haviam se refugiado.
- Que noite! - comentou Iânhez num tom filosófico.
- Horrorosa! - respondeu Damna. - Que será que aconteceu ao navio?
- Não deve estar correndo perigo algum - disse sir More-land. - Provavelmente deve ter sido levado longe, e o Tigre da Malásia certamente se viu forçado a pôr-se
a salvo para fugir do furacão.
- Estamos exatamente no centro da região das tempestades - comentou, pouco depois.
- Quando será que verei meu pai de novo? - suspirou Damna.
- Não se preocupe, pois eles não tardarão a vir ao nosso encontro - disse Iânhez procurando consolar a garota. - Nesta região os furacões são terríveis, muito violentos, mas por sorte duram pouco. Ainda bem que nosso barco é de grande envergadura pois, se não fosse, ficaríamos sem navio por causa de uma tempestade destas! Existem furacões tão fortes que muitos barcos, ainda que de muitas toneladas, são envolvidos por essas tormentas e vão para o fundo do mar em um piscar de olhos!
- Será que os ilhéus nos viram chegar aqui?
- Certamente sim, embora eu não acredite que nos venham socorrer.
- Nem para aprisionar-nos?
- Nem quero ouvir falar disso! - comentou Damna. - Você, como súdito inglês, é quem poderia chamá-los e ordenar-lhes que nos prendessem - observou Iânhez olhando para sir Moreland.
- Não gostei da piada! - declarou o rapaz irritado.
- Qualquer outro faria isso - disse Damna.
- Claro! - concordou o português.
- Acho que no momento a melhor coisa que poderemos fazer é dormir! - respondeu sir Moreland. - Isto é, quero dizer que devemos fazer o possível para dormir e descansar um pouco porque, sem dúvida alguma, merecemos!
- Claro, vamos mudar de assunto e tratar de descansar - concordou Damna. - Você está mais cansado do que nós e, além disso, esta será uma noite muito comprida!
Na verdade, eles precisavam mesmo de um bom repouso e, apesar dos rugidos do mar e dos formidáveis estampidos dos trovões, não tardaram a cair, adormecidos, sobre as algas que, como se fossem um macio colchão, estavam espalhadas pelo chão.
Mais acostumado a semelhantes situações, Iânhez ficou de guarda. De vez em quando levantava-se e, sem ligar ao aguaceiro que despencava, ia até a praia. Ali ficava, por alguns momentos, contemplando o horizonte e pensando que, a qualquer momento, avistaria as lanternas do navio. Entretanto, nenhum ponto luminoso aparecia entre as nuvens negras.
O horizonte estava iluminado apenas com a luz dos relâmpagos. A água que caía parecia tinta negra, graças ao efeito da escuridão que os envolvia.
Só ao amanhecer que a tempestade começou a amainar, fugindo para o leste, na direção tomada pelo "Rei do Mar". O vento não soprava mais tão forte, embora de vez em quando viessem rajadas de ar muito frio que os deixava completamente gelados, principalmente pelo fato de estarem empapados.
As ondas começavam a diminuir e já não batiam furiosamente nos rochedos como haviam feito durante a noite.
Por fim, Iânhez deu uma última saída. Acreditando que Damna e o inglês continuariam dormindo, partiu em busca de algo para se comer.
"Certamente encontrarei muitas aves-marinhas mortas" - pensou.
Iânhez começou a subir pelas gretas e saliências da rocha.
A subida era muito perigosa e, naturalmente, lenta. Portanto, procurou o lado mais fácil para não se arriscar sem necessidade.
Já havia subido alguns metros quando, de repente, chegou a seus ouvidos uma gritaria que parecia vir de muito longe. O português voltou-se rapidamente. O susto quase o fez cair; entretanto, esperto, agarrou-se firme a uma das saliências da rocha e evitou a queda.
Uma grande chalupa ocupada por cinco ilhéus acabava de entrar, naquele exato momento, na baía.
- Poxa! - exclamou ele irritado, enquanto descia da rocha. - Que será que essa gente vai querer? Claro que, quando me encontrarem, vão me agarrar como se eu fosse o pior dos inimigos!
Correndo, então, até o lugar onde havia passado a noite, gritou:
- De pé, sir Moreland! De pé, Damna!
- Que aconteceu? O "Rei do Mar" chegou? - perguntaram ambos ainda meio dormindo.
- Não foram os nossos amigos que chegaram. Foram, sim, os nossos inimigos!
- Como? - perguntou Damna. - Eles nos viram?
- Acho que sim. Eu estava no alto de uma das rochas que são visíveis a qualquer ponto. Fiquem aqui enquanto vou ver o que eles estão fazendo - mandou.
- Sir Moreland, será que eles vão se vingar em nós? - perguntou Damna assim que ambos ficaram a sós.
- Certamente! Acho que vão nos fazer pagar caro pelo carvão.
- Você não poderá tentar fazer alguma coisa?
Sir Moreland olhou-a longamente. De repente, seu rosto pareceu anuviar-se, e tomou uma expressão de dureza quase selvagem. Seus olhos brilhavam com um fogo sinistro:
- Não se esqueça de que Iânhez salvou-nos a vida e que devemos ser muito agradecidos - continuou a jovem. - Além disso, o modo com que tratou você é mais próprio de um amigo do que de um inimigo!
O capitão continuou calado. Em seu íntimo estava havendo uma batalha. Por um lado estava o bom procedimento do português, mas, de outro, continuava a cruel verdade de que ele era um inimigo.
Sem dizer uma única palavra e com toda a rapidez que seu antigo ferimento lhe permitia, o inglês saiu do refúgio.
Naquele momento, os homens da chalupa estavam desembarcando. Eram todos brancos e estavam armados até os dentes.
Eles tinham visto o português que estava procurando esconder-se atrás de uma das muitas rochas que existiam naquela região.
- Alto! - gritou um dos moradores da ilha.
Iâhhez parou no topo. Não adiantaria lutar contra tantos homens, principalmente tão bem armados como estavam.
- Bom dia, amigos! - cumprimentou o português.
- Você não é um dos que levou o carvão da ilha?
- Não sei do que você está falando, não entendo uma única palavra!
- Você é um dos ladrões!
Iânhez não o deixou terminar a frase, pois era o momento de tentar qualquer coisa:
- Fique sabendo que está falando com um honrado súdito de sua majestade, o rei da Inglaterra e do rajá de Sara-wak! - disse, autoritário.
O efeito que tais palavras produziu no grupo foi fulminante. Eles não esperavam escutar aquela argumentação.
Enquanto estava Iânhez conversando com os ilhéus, apareceram os demais que haviam deixado a barca amarrada em uma das saliências rochosas da pequena baía.
- O que está acontecendo? - perguntou um dos recém-chegados.
Quando o outro ia responder, apareceram Damna e More-land. Vinham agoniados e estavam quase sem fôlego devido à corrida.
No momento em que Damna tinha visto sir Moreland correr, imediatamente pensou o pior. Ela acreditou que ele estava disposto a entregar Iânhez aos ilhéus. E embora fosse, na verdade, uma idéia terrível, nem por isso deixava de ser possível.
- Quanto somos agradecidos por terem vindo salvar-nos! disse sir Moreland chegando ao lugar onde estava Iânhez
rodeado por seis ou sete homens.
Ao ouvir aquilo, o coração de Damna tranqüilizou-se. Ela havia compreendido perfeitamente o plano do inglês que estava procurando salvá-los.
O vento havia parado por completo. Agora podiam ver no céu uns claros pelos quais passavam tênues raios de sol. Apesar disso, os náufragos sentiam frio porque tinham estado expostos durante muitas horas às inclemências da tormenta, principalmente por haver acontecido em um lugar tão isolado quanto aquele onde se encontravam.
Todos estavam agora ao redor dos náufragos. O primeiro a chegar havia chamado em voz alta os demais:
- Ei, companheiros, venham cá!
Assim, pois, aqueles homens armados com fuzis antigos, primos-irmãos dos antigos trabucos, pois eram de carregar-se pela boca, vieram correndo até o lugar rochoso onde, naquele momento, encontrava-se Iânhez. Ao verem sir Moreland, imediatamente deixaram de lado a atitude hostil e saudaram-o muito amistosamente.
- Quando vocês chegaram aqui? - perguntaram-lhe.
- Ontem à noite. Cheguei com minha irmã e este meu bom amigo. Foi uma noite terrível, mas, graças a Deus, tudo acabou.
- Vamos levá-los a Mangalum e ali poderão ficar por alguns dias. Acho que logo chegará algum barco por aqui.
- Estão esperando algum navio inglês?
- Sim. Não faz tempo, vimos um barco inglês que parecia disposto a aproximar-se destas ilhas. Talvez o furacão de ontem à noite tenha-o feito desistir da idéia, por enquanto.
- Claro, ele deve ter sido empurrado para o alto mar - comentou Iânhez.
- Quando vocês o viram? - perguntou sir Moreland.
- Ontem à tarde tivemos a impressão de vê-lo de novo - assegurou um dos ilhéus. - Por acaso não seria o navio de vocês?
- Não. O nosso foi a pique no mar a algumas milhas daqui. Ainda bem que conseguimos encontrar um barco. Do contrário, não estaríamos aqui conversando, neste momento.
- Acaso estavam perseguindo os piratas?
- Era exatamente isso que estávamos fazendo - declarou o português.
- Que azar! Se tivessem chegado um pouco antes, não nos teria acontecido o que aconteceu...
- E o que aconteceu? - perguntou sir Moreland.
- Eles nos roubaram o carvão e levaram a melhor parte de nosso rebanho.
O ilhéu falou o que pôde, explicando aos náufragos todas as peripécias que haviam acontecido na ilha durante o desembarque de terríveis piratas que, sem a menor mostra de humanidade e à força, haviam assaltado a ilha e os haviam Obrigado a entregar uma boa quantidade de carvão, além de produtos locais.
SEREMOS APRISIONADOS?
Iânhez estava desconfiado. Sabia que aqueles homens não eram bobos e nem coisa parecida. Muito ao contrário, demonstravam estar muito tranqüilos. Eles sabiam o que estavam fazendo e, num caso daqueles, isso ainda era pior.
- Você disse que este homem é seu amigo? - perguntou o mais velho a sir Mereland.
- Claro que sim!
- Pois ele me parece muito um daqueles piratas.
- Não diga tal coisa! Sei muito bem quem é este cavalheiro! É um homem honrado e um bom comerciante de La-buan.
Ouvindo essa afirmação, os ilhéus cortezmente saudaram Damna e ajudaram-a a embarcar. Iânhez, que havia ficado um pouco à margem, torcia para que tudo aquilo acabasse bem. Um ilhéu havia lhe dado um cigarro e, agora, em vão tentava acendê-lo.
A tranqüilidade de Iânhez era só aparente porque estava muito preocupado com a iminência da chegada do tal pequeno barco de guerra avistado pelos habitantes da ilha.
"Isso não está me cheirando bem!" - pensava ele. "De um lado, não sei o que o inglês está pensando. De outro, essa aí, sabe muito mais do que deixa transparecer.
Esse Moreland vai acabar se identificando e, quando puder, dará um jeito de levar-me prisioneiro naquele barco... Depois, os Ilhéus que já estão olhando desconfiados para mim, vão me jogar dentro de alguma prisão escura!"
A chalupa havia se distanciado da praia. Quatro homens empunharam o remo. O quinto colocou-se à proa, ao lado de Iânhez, e o chefe deles ficou no timão.
Iânhez havia reconhecido o timoneiro como um dos velhos conselheiros que auxiliavam o governador daquela ilha abandonada.
O ilhéu não tirava os olhos de cima dele. Podia-se quase dizer que olhava mais para ele do que para o timão. De quando em quando, cravava-lhe os olhos azuis, não desviando a não ser para fazer alguma manobra mais difícil. Entretanto, não havia dado a menor demonstração, salvo nas primeiras perguntas, de desconfiança alguma.
Nem tampouco a respeito de Damria. Muito ao contrário, todos eram muito gentis para com ele, haviam lhe oferecido o lugar de honra na popa e até cobriram-lhe as costas com uma jaqueta de pele de carneiro.
O mar começava a agitar-se um pouco. Grandes ondas levantavam freqüentemente a chalupa, sacudindo-a de um lado para outro, porém não tanto quanto na véspera.
Os remadores faziam o possível para continuar avançando. Notava-se que possuíam grande vigor e força e que dominavam o remo muito bem. Eram homens fortes e, além
disso, acostumados àquelas águas pouco tranqüilas.
A homens não muito acostumados, teria sido muito difícil fazer a barca deslanchar, mesmo por alguns instantes, naquelas paragens onde estavam situadas aquelas ilhas tão castigadas pelos impetuosos ventos do sul.
Assim que abandonaram a região dos recifes, os remadores içaram uma pequena vela triangular e, já mais equilibrada a chalupa, vogaram com uma velocidade razoável em direção a Mangalum, que não ficava muito distante.
A viagem inteira foi feita sem que pronunciassem uma única palavra. O velho não lhes tirava os olhos de cima, sempre olhando com insistência para Iânhez.
Não houve o menor contratempo durante a viagem, a não ser algumas ondas que caíam a prumo no costado, embora
não com muita freqüência, assim quebrando a monotonia da travessia que, não podendo ser considerada um passeio, tinha lá o seu encanto.
Finalmente, por volta do meio-dia, chegaram ao pequeno porto.
- Acompanhem-me - disse o chefe. - Aqui estarão melhor do que lá naquelas rochas nuas.
Notava-se em seu tom de voz uma certa ironia prontamente percebida por Iânhez. Era como se ele quisesse brincar com aqueles indefesos, como se estivesse brincando de gato e rato.
- "Estou desconfiado de que esse sujeito me reconheceu!" - pensou o português. "Não vejo a hora de o "Rei do Mar" aparecer! Eu daria mil libras esterlinas para vê-lo apontar na linha do horizonte!"
Todos estavam muito preocupados. Damna era a menos visada, e sir Moreland parecia arrependido por ter tentado aquele mau golpe.
Os remadores deixaram a chalupa em um lugar seco para que o mar não a levasse embora. Depois dessa operação, recolheram os fuzis e, como se houvessem recebido uma ordem, rodearam os náufragos, dando a entender, com aquela manobra, que estavam atentos a fim de não deixá-los tentar escapar.
- Para onde nos levam? - perguntou sir Moreland que a cada momento ficava mais inquieto.
- Não se preocupe - respondeu o velho do grupo. Começava novamente a chover e não se via ilhéu algum
nas ruas, pois estavam todos dentro de casa. Decerto, não tinham visto a chegada da chalupa.
Eles atravessaram uma espécie de praça e foram conduzidos a uma pequena casa de boa aparência. Era construída em madeira e com grandes pedras.
Tendo o mais velho aberto uma porta, convidou o inglês e os companheiros para entrarem. Em seguida, enquanto seus homens engatilhavam os fuzis, voltou-se para um velho que estava sentado em uma antiga poltrona e que se entretinha em limpar um cachimbo de barro.
- Senhor governador, conhece este homem? - perguntou apontando para Iânhez.
- Foi ele que roubou as nossas provisões de carvão! - gritou o ancião.
- Canalha! - gritou Iânhez, por sua vez, agora perdendo a paciência.
- Desta vez você não escapará! - insistiu o velho. - Será dependurado na forca!
- Eu não sou um pirata! - insistiu Iânhez aos berros. Rapidamente, sir Moreland se interpôs:
- Um capitão de sua majestade, o rei da Inglaterra, não pode consentir que se diga, diante dele, tudo o que você está dizendo a um amigo meu! - disse. - Senhor governador, este homem não é um pirata. Ele é um corsário!
O ancião deu um passo à frente. Ele ainda não tinha visto o inglês e, olhando assombrado para ele, perguntou:
- Quem é você?
- Meu navio foi a pique perto de Mangalum depois de um terrível combate com um corsário! - respondeu.
- Você não estava no barco que vimos ontem à tarde?
- Não. Ontem, fui lançado pelas ondas aos recifes de uma pequena ilha.
- Em companhia desse homem? - quis saber o governador.
- Sim. Eu estava com ele e com a senhorita, a quem salvamos do furacão.
- Ora, você está fazendo uma piada, é um embrulhão muito esperto! Pois fique sabendo que não acredito em uma única palavra do que me diz!
- Asseguro-lhe, por minha honra, que sou James Moreland, capitão da Marinha Inglesa, agora a serviço do rajá de Sarawak! - afirmou o comandante.
- Então prove!
- Não posso provar porque meu barco foi a pique!
- Eu acho que você é o chefe desses piratas, metido na pele de um inglês!
- O senhor não tem o direito de fazer essa acusação!
- O navio inglês não demorará a chegar e, então, veremos o que os seus superiores dirão.
- O senhor está cometendo um erro a meu respeito que poderá custar-lhe muito caro! - gritou o inglês.
- Deixem que ele grite à vontade - falou o governador aos subalternos.
- Muito mais barulho vai encher as orelhas de vocês quando eu bombardear essas ilhazinhas com os meus canhões! - insistiu Moreland.
- Veremos, cavalheiro. Agora, vão pagar o carvão que roubaram, o qual o governo inglês confiou para que tomássemos conta.
- Nós não roubamos nada e por isso nada temos para devolver! E quanto ao que diz sobre o governo inglês, é a ele que temos de prestar contas. Pois então, é exatamente
isso que queremos: prestar conta aos nossos bons amigos ingleses! - insistiu Iânhez.
- Pois então, o melhor que o senhor pode fazer é colocar-se em contato com o capitão do barco de guerra - se é que existe algum à vista - e mande dizer que tem assuntos importantíssimos para tratar com ele! - declarou Moreland.
- Farei o possível para transmitir o seu pedido - respondeu o ancião de mau humor.
Em seguida, dirigindo-se aos homens que o aguardavam com os fuzis engatilhados, ordenou-lhes:
- Quero que tenham muito cuidado com esses cavalheiros! Levem-nos ao armazém e cuidem para que sejam bem vigiados. O governo de sua majestade nos dará um belo prêmio por isso!
Naturalmente, em vista do rumo que os acontecimentos tomavam, os náufragos não tiveram outra saída senão obedecer. Tentar resistir teria sido completamente inútil e muito perigoso. Por isso, mais uma vez atravessaram a praça e foram levados a uma espécie de castelo. Era um edifício construído com muito mau-gosto, porém extremamente sólido. Com certeza, em outros tempos teria servido para outros fins, mas naquela ocasião era utilizado para armazenamento de azeite, peixe seco e gêneros alimentícios.
Viam-se montes de barris vazios e muitas caixas de madeira e também, espalhado por todos os lados, pedaços de velhas embarcações.
O depósito teria uns cinqüenta metros de comprimento por cinqüenta de largura. O teto era sustentado por grossos pilares de pedra e enormes blocos.
- Aviso que, à menor tentativa de fuga, abriremos fogo contra vocês.
Depois de dizer tais palavras, aquele que era o chefe do grupo de homens que tinha a missão de escoltá-los, fechou a porta e trancou-a pelo lado de fora.
O lugar onde os três se encontravam não possuía luz. Por isso, até que se acostumassem à escuridão, permaneceu em silêncio total. Cada um deles pensava em seus problemas e no péssimo rumo que as coisas iam tomando.
Nenhum deles atrevia-se a romper o silêncio, pois cada um estava às voltas com sua própria aflição.
De repente, Iânhez levantou-se como pôde. Levando pancadas nas pernas e andando aos tropeções, bateu com o rosto numa pedra. Ao levantar os braços para levar a mão ao rosto, bateu com o cotovelo em algo que se movia e que havia produzido barulho de cristal ao chocar contra a parede de pedra. Tateando, percebeu que se tratava de um lampião a querosene.
Tirando do bolso os fósforos que um ilhéu havia-lhe dado ao oferecer-lhe um cigarro, acendeu o lampião que, por sorte, estava com bastante combustível.
O local foi iluminado por uma luz forte, porém de pouco alcance.
Sir Moreland, Iânhez e Damna - esta menos assustada do que se esperava - admiraram, quase sorrindo.
- Que tal está lhes parecendo esta aventura? - perguntou a jovem.
- Tudo depende de que o barco ainda esteja à vista - respondeu o inglês.
- O pior será mesmo quando eles souberem que somos piratas - comentou Iânhez, irônico. - Aí, sim, eles farão o favor de dependurar-nos na forca mais alta que tiverem!
- Isso não acontecerá porque farei tudo para impedir - declarou o capitão.
Novamente, eles ficaram em silêncio, agora quebrado apenas pelo ritmo cadenciado de uma goteira pingando em cima de uma tábua.
- Esqueceu-se da aventura em Redjang? - perguntou Damna ao inglês.
- Não me esqueci, mas penso que foi apenas uma manobra de guerra, senhorita. Por isso, não conservo o menor rancor contra vocês, mas sim contra os seus protetores!
- Você é muito bom, sir Moreland!
- Sou igual a todo o mundo.
Mal havia pronunciado tais palavras, de repente todos ouviram um inesperado e terrível estrondo. Era como se um disparo de canhão retumbasse nas paredes do armazém.
- Um navio de guerra! - murmurou Iânhez.
- Talvez seja o barco inglês - observou sir Moreland.
- Pois eu tenho a certeza de que se trata do "Rei do Mar"! - concluiu Damna.
- Logo mais saberemos - falou o inglês.
O "REI DO MAR"
- Abram a porta! - gritaram os presos.
Os guardas, entretanto, ou não tinham ouvido ou tinham se fingido de surdos, o que seria o mais provável.
Depois do primeiro disparo fez-se silêncio total, porém a situação não durou por muito tempo. O que aconteceu depois do canhoneio e do silêncio foram gritos, gritos ensurdecedores e disparos de fuzil. Os prisioneiros logo imaginaram que se tratava não da chegada do "Rei do Mar", mas sim da nave inglesa que havia sido avistada.
Portanto, eles fizeram todo o possível para sair daquela ratoeira, mas estavam tão trancados que não conseguiram. Tentaram, inclusive, subir ao teto, onde havia uma espécie de claraboia. Entretanto, tiveram de desistir da idéia por causa da altura das paredes.
- Será mesmo algum navio inglês? - perguntou Damna.
- Acho que deve ser algum barco da frota da Labuan - comentou Iânhez.
- Se tivermos um pouco de paciência, logo saberemos - comentou sir Moreland. - Vocês verão como a alegria deles há de se transformar em assombro quando tomarem conhecimento de minha verdadeira identidade!
- Dentro de alguns momentos tudo mudará para nós - disse Iânhez. - Seus compatriotas esclarecerão todas as dúvidas que essa pobre gente tenha a nosso respeito.
O barulho das vozes transformou-se em uma gritaria ensurdecedora. Agora os gritos pareciam mais próximos da porta. Não demoraram muito a se aproximarem mais que até pareciam vir de cima. Momentos depois, cederam as trancas que fechavam a porta, e uma torrente de luz inundou o cômodo.
Apareceu o velho governador acompanhado por um jovem de barba ruiva, olhos azuis e que usava uniforme de tenente da marinha inglesa.
Atrás dele, os três puderam ver um pelotão de marinheiros e um grupo de habitantes da ilha que os rodeavam. Os marinheiros estavam armados com fuzis com fortes e afiladas baionetas caladas no cano.
- Aí estão os piratas! - gritou o governador apontando para os náufragos em cujo rosto não transpareciam nem o medo nem a ansiedade que sentiam.
O tenente, que estava a ponto de dar uma ordem rígida, de repente ficou mudo de assombro e, em vez de determinar que os marinheiros avançassem, correu até sir Moreland com os braços abertos e gritando:
- Comandante, não é possível! O senhor está mesmo vivo?
- Sim, meu querido Laylond! - exclamou Moreland. - Sou eu mesmo!
O tenente e o capitão abraçaram-se fortemente. O velho governador nem conseguia articular uma única palavra, de tão estupefato havia ficado.
- Como veio parar aqui? - perguntou o tenente.
- Éa pergunta que até nós nos fazemos - disse Iânhez agarrando-se à esperança de conseguir sua liberdade.
- Mas... o senhor não disse aos ilhéus que era capitão da marinha inglesa? - insistiu o jovem tenente.
- Sim, eu disse, mas eles não acreditaram em nós.
Os habitantes da ilha, inclusive os velhos conselheiros e o próprio governador não conseguiam sair de seu assombro. Então, o governador fez uma última tentativa:
- Mas ele é aliado dos piratas! Está querendo enganar vocês também!
O tenente não deu ouvido aos protestos do velho resmungão. Nem fez caso dos gritos que os ilhéus começaram a lançar, protestando.
- Aconselho-o, tenente, a que faça todo o possível para desaparecer destes mares - falou Moreland. - É muito perigoso, pois podem encontrar, em sua rota, o "Rei do Mar". Tome outro rumo, será bem melhor. Mas, antes que embarquemos, permita-me que lhe apresente estes bons amigos: a senhorita Damna e seu irmão.
- Queremos o nosso carvão! - gritavam alguns homens do povo.
- Queremos as nossas cabras! - gritavam outros.
- Capitão, que história é essa? - perguntou o tenente.
- Contarei mais tarde porque é uma história muito interessante e sei que você vai gostar muito dela - respondeu sir Moreland.
O pessoal continuava aos berros. Eles estavam muito zangados!
- Silêncio! - gritou, por fim, Laylond irritado. - Se estes senhores são piratas, serão julgados pelo conselho de guerra. Marinheiros, escoltem-nos até a bordo!
Os marinheiros, que eram no mínimo uns trinta, todos bem armados com fuzis e baionetas caladas, abriram caminho entre aquela gente e seguiram para a praia, sempre acompanhados pelo governador e pelo povo que continuava irritado. Agora, mais zangados do que no começo, cada qual gritava mais forte do que o outro.
Uma chalupa estava esperando no pequeno porto e, de longe, podia ver-se um barco de belas linhas que aguardava a chegada da chalupa.
Todos embarcaram nos pequenos batéis que, conduzidos por dez marinheiros, começaram a marcha rumo ao navio não muito distante da enseada.
Rapidamente, eles venceram a distância que os separava e subiram a bordo pela escada de estibordo que, dependurada, aguardava-os.
- Capitão, fiquei muito contente ao vê-lo depois de tanto tempo ausente de entre nós! - disse o tenente.
- Também ficamos muito contentes ao ver vocês.
- O meu barco está à sua inteira disposição.
O navio voltou a iniciar a marcha, enquanto o capitão e o tenente desceram ao camarote, onde conversaram demoradamente.
O camarote era semelhante a todos os demais de outros navios de guerra. Apenas mudavam os toques pessoais: talvez os títulos dos livros que enchiam uma grande estante, bem como as fotografias em porta-retratos de prata que, com toda certeza, pertenciam a familiares e amigos do tenente.
Quando eles voltaram à coberta, sir Moreland estava muito contente e sorria:
- Vocês não irão a Labuan - disse a Iânhez. - Não irão até lá porque este navio deve, sem falta, fazer escala em Sa-rawak.
- E vão nos entregar ao rajá? - perguntou Damna.
- Isso eu não sei. Se acontecer, será um assunto que vocês terão de resolver pessoalmente com o rajá de Sarawak.
- Gostaríamos de saber se tem notícias de nossos amigos OU se lhe disseram alguma coisa a respeito do paradeiro do "Rei do Mar" - falou Iânhez.
- Eles disseram alguma coisa, sir Moreland? - perguntou Damna aflita.
- Não se preocupem - respondeu o inglês. - vai dar tudo certo.
Depois de fazer essa afirmativa, Moreland moveu a cabeça e nada mais acrescentou. Em seguida, oferecendo o braço à jovem, conduziu-a à popa.
Quando se encontravam a sós, ele segurou-lhe as mãos e olhando-a fundo nos olhos disse:
- Gostaria que você não voltasse ao "Rei do Mar"! Prometa que não voltará!
- Mas... e o rajá?
- Não se preocupe. Ele a libertará imediatamente. Damna pensou um pouco. Depois, respondeu:
- Não posso prometer-lhe não voltar ao "Rei do Mar". Lembre-se de que neste navio viajam meu pai e nossos amigos.
- Acontece que qualquer dia voltarei a encontrar o "Rei do Mar" - disse Moreland, com uma expressão grave. - E então, esteja certa, serei obrigado a combatê-lo.
Com isso, provavelmente, terei de botá-lo a pique matando todos... talvez inclusive você mesma!
Ouvindo aquilo, a jovem soltou-se das mãos do inglês e dirigiu a vista para as águas azuis do mar que nesse momento apresentavam-se límpidas, sem ondas, pois a superfície estava lisa como um espelho.
Sir Moreland continuava olhando para Damna. No momento em que ela parecia mais absorta em seus pensamentos, ele disse com voz vacilante:
- Eu sei que você me ama!
- Sim... - concordou ela dando um tom íntimo às palavras escapadas num suspiro.
- Jure que jamais se esquecerá de mim!
- Sim, juro!
- Eu tenho a certeza de que tudo sairá bem, Damna!
- Não posso concordar com você, pois somente vejo um futuro muito difícil para nós. Esta guerra será terrível para o nosso amor!
- Então, abandone o "Rei do Mar" à sua própria sorte!
- Você está me pedindo o impossível! - Logo mais, os melhores navios da marinha inglesa estarão nestes mares e farão aos pedaços o barco de Sandokan. Mais cedo ou mais tarde eles serão destruídos por nossa artilharia" - Eles saberão morrer como heróis!
- Você é tão valente quanto bela! - exclamou sir More-land.
Naquele momento, Iânhez aproximou-se quase correndo:
- Sir Moreland, um barco a vapor está vindo em nossa direção! - disse. - Já foi avistado pelo comandante!
- Será o "Rei do Mar"? - perguntou Damna.
- Parece que é um navio de guerra. Os marinheiros estão prontos para o ataque.
Por alguns momentos, sir Moreland ficou indeciso e sem saber o que dizer.
- O "Rei do Mar"! - finalmente exclamou. Nisso, chegou o tenente esbaforido a dizer:
- Sir James, um navio de guerra está vindo em nossa direção!
- Será um dos nossos? - perguntou o inglês.
- Não, porque está vindo do noroeste, e a nossa esquadra foi para Sarawak.
Toda a tripulação estava na coberta. Alguns haviam até subido nos mastros das velas para observar aquele ponto que se desenhava à distância e que pouco a pouco ia-se tornando maior. Os que tinham binóculos iam se convencendo de que o ponto que se aproximava rapidamente era mesmo um navio de guerra.
Os artilheiros receberam ordens taxativas para ficarem preparados e para que, no momento exato, lançassem bombas avisando àqueles desconhecidos que não se atrevessem a cruzar-lhes o caminho.
Sir Moreland, que observava atentamente o horizonte, de repente sentiu o coração pular no peito:
- É o "Rei do Mar"! - disse com voz sumida.
- VÃO SE RENDER?
- Será preciso que algo mais do que um navio de terceira classe se ponha na frente daquele barco para afundá-lo! - comentou Moreland.
- Por que está dizendo isso? - perguntou o tenente.
- Porque aquele barco é o mais moderno e rápido que jamais se viu nestes mares! - explicou Iânhez.
- Nós o atacaremos e o afundaremos! - insistiu o tenente.
- Acho que você está equivocado - respondeu Iânhez. - Será melhor evitarmos qualquer espécie de combate com esse monstro.
- E como poderemos evitar? - perguntou sir Moreland.
- Eu também gostaria de saber como! - declarou Iânhez.
- Mandem arriar uma chalupa ao mar que eu vou conversar com o Tigre da Malásia - decicliu-se, de repente, o inglês.
Assim, os marinheiros arriaram uma baleeira e fizeram o que puderam para se aproximar do "Rei do Mar".
O navio, que deslanchava a uma velocidade de doze nós, já se encontrava ameaçadoramente perto do barco inglês.
Reinava grande agitação no posto de comando. Os poderosos canhões da popa já estavam preparados para cobrir de balas e metralhar seu pequeno inimigo a fim de colocá-lo a pique na primeira descarga.
A bandeira de combate já havia sido içada e ondeava no mastro da proa.
O cruzador inglês foi parando pouco a pouco até que se imobilizou no meio do mar. Em seguida, içaram a bandeira branca, e a chalupa foi arriada ao mar. Vendo isso, Sandokan ordenou que dessem marcha-ré e que o navio ficasse a uma distância de mil metros do inimigo.
- Pelo jeito, essa gente não tem coragem de enfrentar-nos - comentou ele.
- Será que vão se render? - perguntou Tremal-Naik.
- Não seria mal. Nós ficaremos com a artilharia e a munição deles, além do carvão. Talvez eles nos pudessem ser úteis, os entregássemos a nossos amigos, os dayakos de Sarawak. - Precisamos continuar procurando Iânhez. Este incidente só servirá para perdermos mais tempo! - murmurou o amigo.
- Será que vamos encontrá-lo? - perguntou um marinheiro.
- Claro! Nós o vimos chegar à ilha e eu tenho certeza de que ele conseguirá resistir lá por alguns dias! - respondeu Sandokan confiante.
- Ei, o que é aquilo que vem vindo lá? - perguntou Tremal-Naik.
- Um capitão em uma baleeira. Será que vem entregar-se? - comentou Sandokan.
- Vejam! Vejam! - começou a gritar Tremal-Naik.
- O que você está vendo?
- É ele! É ele mesmo!
- Ele quem?
- Sir Moreland!
- Ele nos viu e está acenando!
A baleeira sulcava rapidamente o mar, levada pelos vigorosos braços de dez robustos marinheiros.
Sir Moreland continuava acenando. Sandokan e Tremal-Naik respondiam as saudações gritando e chamando-o.
- Sir Moreland! Sir Moreland!
A tripulação do "Rei do Mar" atirou a escada pela qual o inglês subiu. Ao encontrar-se na coberta, um pouco frio e distante, ele cumprimentou Sandokan.
- Tenho muito prazer em cumprimentá-los, senhores, e gostaria de dar-lhes uma notícia muito importante! - disse.
- Iânhez e Damna! - exclamaram Sandokan e Tremal-Naik a uma só voz.
- Sim. Eles estão a bordo do navio inglês.
- Então, por que não os trouxe nessa chalupa? Em tom grave, Moreland respondeu oficialmente:
- Eu vim estabelecer negociações.
- Não estou entendendo! - murmurou Sandokan.
- O comandante daquele navio somente entregará o senhor Iânhez e Damna mediante uma condição.
- Qual? - perguntou Sandokan irritado.
- A de que não molestem aquele navio.
- Certo, estou de acordo - concordou o corsário.
- Se é verdade, mande arriar a bandeira de combate, pois esse foi o sinal que combinei com o comandante.
Momentos depois, a bandeira descia à coberta.
Pouco depois, uma embarcação saía de junto ao costado do pequeno cruzador. Nela iam Iânhez e Damna.
- Onde você encontrou aquele navio? - perguntou San-dokan.
- Em Mangalum - respondeu o inglês olhando atentamente para a chalupa na qual vinham Iânhez e Damna e que se aproximava rapidamente.
- Agora eu entendo como vocês conseguiram salvar-se da tempestade.
- Sim, graças a Deus conseguimos - concordou Moreland secamente.
Não demorou que a chalupa chegasse. Iânhez e Damna subiram pela escada de corda que os marinheiros de o "Rei do Mar" haviam jogado e foram recebidos com efusivas demonstrações de alegria.
Sir Moreland olhava ternamente para aquela cena, mas ele estava muito triste.
- Cavalheiros, - disse dirigindo-se a Sandokan e a seus companheiros - espero que voltemos a ver-nos em breve, mas aí será como inimigos.
- Esperaremos por você - respondeu Sandokan. - Saiba que sempre será bem recebido entre nós.
Aproximando-se de Damna, o inglês estendeu-lhe a mão e olhando-a fundo nos olhos, disse:
- Que Deus a proteja, senhorita!
Damna estava muito comovida e também um pouco triste. Por isso, nem soube o que responder. Finalmente, apertou-lhe a mão, mas não disse palavra alguma. Ela sentia um nó na garganta.
O inglês, então, saudou militarmente e, sem olhar para trás, desceu rápido a escada que o conduzia à chalupa.
Depois de acomodar-se na pequena embarcação, deu ordem para que se afastassem do casco do "Rei do Mar" e, ao passar diante da ponte de comando onde os amigos estavam junto a Damna, levantou-se e acenou em sinal de adeus.
AQUELE É UM NAVIO INGLÊS!
- Navio a vista! - gritou o vigia que estava no cesto do traquete.
Sandokan, que naquele momento estava saboreando um bom pedaço de carne assada, apressou-se à ponte de comando. Uma vez lá chegando, gritou com todas as forças uma ordem:
- Todos a postos! A toda máquina!
As duas ordens foram obedecidas com a maior rapidez e precisão. Naquele navio, ordens desse tipo eram obedecidas sem que os marinheiros nela pensassem sequer por um décimo de segundo. Todos os homens deixavam o que estivessem fazendo e, como se fossem um só, obedeciam sem questionar.
A tripulação pôs-se em movimento. Uns subiram à coberta para atender as baterias dos canhões; outros preparam-se para colocarem a artilharia em ação, em caso de necessidade. Afinal, ninguém podia prever qual tipo de perigo os estaria ameaçando.
Com um binóculo de grande alcance diante dos olhos, Sandokan observava tudo o que a vista podia abranger. Por enquanto, via apenas uma pequena coluna de fumaça que emergia de um ponto muito distante. Mas eles não demorariam muito para saber do que se tratava. O "Rei do Mar" aproximava-se do horizonte, de onde se destacava o
ponto que se tornava cada vez maior.
- Que será? - perguntava Iânhez.
- Ainda não posso dizer porque não estou vendo bem - respondeu Sandokan.
- Será algum navio inglês? - perguntou Damna.
- Logo mais saberemos. Por enquanto não se vê senão um ponto soltando fumaça.
Na verdade, o ponto deslocava-se cada vez mais e, pouco a pouco, podia ir sendo visto com mais detalhes.
- lá, estou vendo mais claro! - afinal, disse Sandokan. é um navio mercante!
- Vamos abordá-lo? - perguntou Tremal-Naik. Se for inglês, sim - respondeu Sandokan sempre olhando pelo binóculo.
O "Rei do Mar" aumentava a velocidade e, por esse motivo, tinha todas as caldeiras num vermelho infernal.
- A distância que nos separa dele torna-se cada vez menor - comentou Iânhez.
- Devemos fazer todo o possível para impedir que esse navio a vapor consiga fugir - disse Sandokan.
- É um navio inglês! - gritou, de repente, Tremal-Naik. Os homens da vigia na plataforma imediatamente reconheceram a bandeira desfraldada na popa, e a notícia
foi recebida por todos os tripulantes com gritos de alegria.
Sandokan, então, deu ordem para que sessenta homens fossem ocupar as chalupas que já haviam sido arriadas da coberta ao mar.
Aquele navio certamente procedia dos portos da índia. Era um belo vapor de mais de mil toneladas, com duas máquinas e duas chaminés.
Atraída pela presença daquele navio de guerra que se dirigia velozmente a eles, toda a tripulação havia se agrupado na coberta.
Sandokan mandou desfraldar a sua bandeira no mastro da mezena e disparar um canhão.
Ouvindo aquilo, todos os marinheiros e passageiros do navio mercante foram tomados de pânico.
Havia sido uma ordem taxativa para que eles parassem.
O pessoal do navio mercante, entretanto, não esperava que o navio de guerra tivesse canhões de grande potência. Os marinheiros corriam para a proa, e seus gritos chegavam até o navio corsário. O que mais os apavorava era verem aquela bandeira por todos conhecida e temida. Haviam se sentido, de repente, tão assustados, que nem sabiam qual partido deveriam tomar.
Foi uma bala disparada por Sandokan e que passou roçando por cima da envergadura que fez o barco inglês parar completamente.
Enquanto percorria, com passadas largas, toda a coberta, Sandokan ia dando ordens taxativas. Finalmente, dirigiu-se à ponte de comando.
- À água as chalupas e a seus postos os homens que tomarão parte na abordagem! - ordenou.
- Máquinas em marcha a ré! - gritava Iânhez.
O vapor havia parado a oitocentos metros de distância, acreditando ser útil tentar opor qualquer resistência contra aquele formidável cruzador que, com uma única descarga, o poria a pique.
Agrupados no tombadilho, os passageiros gritavam apavorados, acreditando que havia chegado sua hora.
Ocupadas por sessenta homens, as chalupas avançaram pelo mar a fora em marcha forçada. Essa tripulação estava muito bem armada com carabinas, armas modernas e kampilangs, seus famosos facões. Eles se dirigiam para o vapor enquanto os artilheiros do "Rei do Mar" apontavam as duas peças das torres de bombordo na mesma direção, dispostos a abrir fogo ao menor indício de resistência por parte dos ingleses.
Iânhez, então, ordenou aos marinheiros ingleses, que estavam no navio, para lançarem uma escada, ameaçando afundar-lhes o barco, caso resistissem.
Foram instantes de grande confusão porque alguns desejavam resistir enquanto outros, mais prudentes, compreendiam que qualquer resistência seria completamente inútil.
Na verdade, eram os passageiros os que mais se inclinavam a não oferecer a menor resistência porque, como era de se supor, não queriam expor-se aos perigos da potente artilharia do corsário que, sem a menor hesitação, botaria aquele navio a pique. Assim que a escada foi lançada, os piratas subiram rapidamente a bordo, a julgar-se pelo pouco tempo que o primeiro deles custou para aparecer lá em cima.
Seguido por Tremal-Naik e dez de seus homens, Iânhez também subiu rápido pela escada à vista e em poucos segundos estava na coberta.
- Quem é o capitão? - gritou ao mesmo tempo em que desembainhava a espada.
- Sou eu! - respondeu um jovem que o estava esperando rodeado por seus oficiais, enquanto os passageiros, mudos e aterrados, resguardavam-se atrás deles.
Era um rapaz de elevada estatura e muito magro. Tinha o rosto queimado pelo sol dos trópicos e uma barba cheia. Percebia-se uma certa hesitação enquanto ele falava, pois havia ficado pálido ao ver Iânhez e seus homens.
- Quem são vocês? - perguntou com ira na voz.
- Isso é fácil de adivinhar - respondeu o português. - Não viu a bandeira dos tigres da Malásia ondeando ao vento? Não sabíamos que, agora, vocês tinham resolvido ser corsários.
- Isso, meu bom amigo, é a guerra! - replicou Iânhez ironicamente.
- E o que desejam de nós?
- Simplesmente mandar este vapor pelos ares.
- Isto é um ato de pirataria!
- Não importa o nome que vocês dêem aos nossos atos. Então, esvaziem o navio, ou o faremos voar com gente dentro!
Iânhez olhou carrancudo para o jovem e, depois, para a tripulação. Aquele olhar bastou para que o inglês compreendesse que não haveria outro remédio senão entregar-se à força, já que, na verdade, não havia outra saída.
- Cederei à força porque vejo que não tenho outra alternativa - disse, por fim, a Iânhez. - Mas não acredite que tudo será fácil para vocês, Quando chegarmos a Natuna, telegrafarei ao governador de Cingapuri, dando parte do ocorrido!
Depois de receberem ordens, os marinheiros apressaram-se a atirar à água todas as lanchas abastecidas com a maior quantidade possível de alimentos e viveres a fim
de que os passageiros pudessem passar, pelo menos, alguns dias. Os últimos a embarcar foram os oficiais.
- A Inglaterra vingará este ato de pirataria! - ameaçou o capitão do navio enquanto acomodava-se em um dos barcos.
Em seguida, os malaios subiram a bordo e passaram a procurar por toda a parte para ver o que poderiam pegar para si.
Não havia muito carvão nos depósitos, mesmo porque o navio deveria fazer escala em Saigon para renovar as provisões.
Só depois de quase duas horas de revista os malaios foram embora, deixando o navio completamente limpo.
Em poucos dias, o "Rei do Mar" estava com os depósitos cheios de carvão e de viveres que serviriam muito bem para suas futuras jornadas. Depois, tomou o rumo do sudoeste porque, antes, Sandokan queria certificar-se de que os ingleses ainda continuavam na ilha.
Ele deu ordem para navegar com a maior velocidade possível e foi assim que o cruzador começou a vencer a distância deixando para trás montanhas de espumas brancas.
Ao pôr do sol do segundo dia, o "Rei do Mar" avistava Mom-pracem, o antigo refúgio dos tigres da Malásia.
Sandokan ficou muito emocionado à vista daquelas costas que lhes eram tão caras. Milhares de recordações vieram-lhe à mente. Era a sua ilha onde, somente com seus paraos, haviam enfrentado os ingleses durante muitos anos. A luz da lua permitiu ver a grande rocha onde, durante muito tempo, ondeava a bandeira dos tigres da Malásia.
Quando os primeiros albores do novo dia começaram a difundir-se no céu, Sandokan mandou aumentar a velocidade da marcha. Ele havia passado a noite contemplando a sua querida ilha e, ao amanhecer, resolveu deixá-la porque ainda não havia chegado o momento de reconquistá-la.
- Não demoraremos muito a voltar - ele disse a Iânhez.
- E então, no dia em que voltarmos, a ilha será novamente nossa - concluiu Iânhez olhando, saudoso, para aquele pedaço de terra que durante tantos anos havia sido o refúgio deles.
ESTÁ COM MEDO?
O potente cruzador que continuava avistava, dias depois, o cabo Taniong - da mesma baía onde o "Mariana" se encontrava, porém o fato, de não haver encontrado naquele ponto, Sandokan voltou para o sudoeste, desejoso de chegar, o quanto antes, à boca do Sedoi.
O que ele desejava saber era se o "Mariana" havia conseguido realizar a missão de sublevar os dayakos do interior, levando-os às armas.
Esses dayakos haviam sido os que, durante o entusiasmo tinham- o ajudado a lutar contra o exterminador de piratas.
Quarenta e oito horas depois, aparecia o monte Matang, pico alto quê se elevava da costa do poente na grande baía de Sarawak.
Os navios ingleses e os do rajá poderiam aparecer de um momento para outro. Portanto, era necessário que abrisse
bem os olhos para não ser apanhado de surpresa.
Com toda a certeza, a inesperada aparição do corsário já deveria ter sido avisada às autoridades de Sarawak e, como Conseqüência, eles teriam lançado ao mar seus melhores navios com o objetivo de proteger de qualquer ataque os barcos que deixavam o rio em direção a Labuan ou a qualquer outro ponto geográfico, pois nessa região era muito comum piratas assaltarem navios mercantes.
No "Rei do Mar" eles tomavam as maiores precauções e por isso redobraram a vigilância de um modo mais intenso. Os vigias permaneciam em seus postos tanto durante o dia quanto à noite, nas plataformas superiores e com binóculos de grande alcance, dispostos a dar o alarme ao menor sinal suspeito que aparecesse no horizonte.
Por maior precaução ainda, Iânhez e Sandokan haviam ordenado que depois do cair da noite ninguém acendesse luz alguma a bordo, nem mesmo nos camarotes cujas janelas davam para o costado exterior. Por isso, como é natural, ficaram apagados todos os lampiões que havia no navio. Na realidade, o que eles desejavam era passar desapercebidos diante da foz do Sarawak para que ninguém os seguisse na viagem rumo às costas orientais, onde pretendiam realizar operações que não poderiam ser interceptadas.
Naturalmente, eles sabiam que as frotas inglesas e a do rajá os estariam procurando. Com toda a certeza, eles teriam adivinhado os seus planos e, a essas horas, já estariam bem informados a respeito do que eles pretendiam fazer.
Iânhez e Sandokan estavam - coisa não muito freqüente entre eles - muito preocupados, pois sabiam que seria muito difícil lutar contra inimigos tão sagazes e fortes.
Eles passeavam pela coberta do barco e pela ponte de comando dando voltas e voltas. Às vezes chegavam até as balaustradas e observavam ansiosamente o horizonte, esperando que os inimigos surgissem de um momento para outro.
Eles só descansavam poucas horas por dia. À noite sequer se deitavam, de tão preocupados que estavam. Além disso, sabiam que havia uma grande possibilidade de que seria precisamente à noite que os inimigos os atacariam. Assim, portanto, limitavam-se a dormir um pouco apenas quando o sol voltava a brilhar.
- Você está muito inquieto! - comentou Tremal-Naik com Sandokan.
- Sim, estou muito preocupado - concordou o pirata. - Não dá para esconder.
- Está pensando no pior? Está com medo de algum encontro?
- Não é que eu esteja com medo; o que eu tenho certeza é de que o encontro vai acontecer. Estou seguro de que eles estão nos seguindo e que já estão a par de todos os nossos planos. Até sinto o cheiro da fumaça que sai do chaminé dos navios deles!
- Acho que não devemos nos preocupar muito com a esquadra do rajá - observou Iânhez.
- Eu me preocupo mais com os navios ingleses. Eles são mais organizados e mais potentes.
- Teme sir Moreland?
- Sim, Tremal-Naik. Os cruzadores do rajá são velhos, de segunda mão, não valem nada e nem são capazes de oferecer-nos um combate decente. A esquadra de Labuan é a que mais me preocupa.
- Ela é mais forte?
- Claro que sim. É composta de barcos mais bem construídos e manejados por homens muito organizados. Embora não seja muito forte, é mais numerosa e, como eu disse antes, são bem mais adestrados.
- Os ingleses possuem os melhores navios da Europa - comentou Iânhez.
- Certo. Os melhores navios singram os mares que rodeiam a Inglaterra e os países do Mediterrâneo.
- Na índia também há muitos navios ingleses - disse Tremal-Naik.
- Quando souberem dos estragos que causamos às companhias de navegação, não hesitarão em lançar aos mares o melhor da esquadra indiana para nos perseguir.
- Ora! - resmungou Iânhez.
- Nós faremos o que pudermos - continuou Sandokan. - Pelo menos haveremos de atormentá-los enquanto nosso navio agüentar!
- É o carvão que vai complicar a coisa - observou Iânhez. - de agora em diante, nenhum porto nos receberá.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, até que, de repente, ouviram um grito:
- Nevoeiro se aproximando!
Era o vigia mais próximo quem os advertia daquele perigo natural.
- Que sorte! - comentou Sandokan.
- A que distância estamos do Sedong?
- Mais ou menos trezentos quilômetros. Estamos exatamente no ponto de maior perigo. Aqui as águas são como um vulcão e nós estamos dando voltas ao seu redor.
- Se nenhum inimigo nos atacar esta noite, amanhã estaremos junto ao "Mariana".
O nevoeiro ia se tornando mais espesso a cada momento que se passava. Sem dúvida, os tigres da Malásia estavam com muita sorte. Ao pôr do sol caiu sobre o golfo uma cerração intensa.
Agora, eles contavam com maiores possibilidades de escaparem à caçada dos navios ingleses. Com a cerração poderiam passar desapercebidos, principalmente na rota
tão perigosa como aquela que estavam realizando naquela oportunidade.
Não obstante, apesar da boa sorte que a presença do nevoeiro significava, eles continuavam de sobreaviso, montando guarda e em estado de alerta porque o inimigo poderia aparecer a qualquer momento.
O cruzador, que havia aumentado a velocidade até alcançar treze milhas, navegava através do nevoeiro cuja densidade aumenta a olhos vistos.
Sandokan e Iânhez estavam na ponte de comando e tentavam enxergar através da névoa, na tentativa de descobrir a presença de algo que lhes pudesse perturbar a paz.
Às vezes, a espessa cortina de água condensada abria-se devido a alguma rajada mais forte de vento.
Eles continuavam em silêncio e atentos. A não ser pelo ruído dos motores e o choque das hélices contra as águas, seriam capazes de ouvir o bater das asas de uma borboleta.
Haviam se distanciado mais de oitenta quilômetros da segunda foz do Sarawak quando, de repente, ouviram o inconfundível ruído de uma sirena. Era um som rouco, prolongado que rapidamente se silenciava para depois ser novamente ouvido.
- Um navio dando sinal a outro! - gritou Iânhez.
- Rumo ao levante! - ordenou Sandokan.
O "Rei do Mar" continuava sua marcha na direção ordenada, cada vez em velocidade maior. O nevoeiro não parecia ser grande obstáculo para os piratas que, ao que tudo indicava, estavam acostumados a esse fenômeno natural.
A velocidade aumentava. Agora haviam alcançado a velocidade de catorze nós e ainda não era o bastante, conforme dizia Sandokan. Ele queria atingir os quinze nós.
Por isso, o operador americano, o chefe da sala das máquinas, tentava aumentar a tensão até o máximo para conseguir a maior velocidade.
O carvão ia sendo rapidamente consumido, mas eles ainda tinham uma reserva suficiente para navegarem durante algumas semanas sem se verem obrigados a procurar mais.
Passaram-se mais duas horas. De repente, o nevoeiro foi iluminado como se uma potente luz o atravessasse.
- Um refletor elétrico! - exclamou Iânhez.
Assim, sem mais explicações e sem ouvir novo grito da sirena, os tripulantes do "Rei do Mar" viram iluminar-se tudo o que a vista podia alcançar. Era uma luz potentíssima que, como se fosse um jorro de prata, enchia com sua brilhante claridade tudo o que até então havia sido trevas. Não poderia ser a luz porque os reflexos dela não são tão fortes. Vinha do leste e corria de norte ao sul.
- Eles estão nos procurando! - murmurou Tremal-Naik. Sandokan ficou mudo. Não havia aberto a boca, mas o rosto estampava a sua preocupação interior.
- Máquinas a ré! - gritou, finalmente.
Arrastado pela velocidade ganha, o "Rei do Mar" ainda navegou alguns metros, cercade meio quilômetro. Mas, de repente, parou e ficou ao embalo das ondas do golfo.
- ADIANTE, A TODO VAPOR!
- Adiante, a todo vapor! - ordenou Sandokan. - Vamos passar de qualquer jeito!
- Esses focos de luz elétrica executam um estranho bailado! - comentou Iânhez, bem-humorado.
Na verdade, os focos de luz continuavam cruzando o céu em todos os sentidos e, pouco a pouco, iam se tornando mais brilhantes.
- Certamente são sinais que estão transmitindo de barco a barco com a intenção de agarrar-nos no momento certo! - comentou Tremal-Naik.
Embora não estivessem isentos de trabalho, entre os tripulantes reinava a maior tranqüilidade. O momento que todos aguardavam iria ser terrível. Os dayakos e os malaios, acostumados a viver debaixo de constantes perigos, obedeciam cegamente as ordens que Sandokan ia lhes dando da ponte de comando.
- Todos a seus postos! Baterias preparadas para disparar! - gritava Sandokan.
O "Rei do Mar" aumentava a velocidade e a fumaça que saía de sua chaminé era cada vez mais densa, cada vez mais escura.
As pás das hélices dobravam as evoluções, e o navio avançava produzindo um sonoro estremecimento que era sentido em toda a nave.
Como se fosse um gigantesco projétil, o cruzador atravessou a zona luminosa, mas assim que novamente mergulhou na escuridão, novas torrentes de luz o alcançaram.
Era o momento indicado para que toda a frota inimiga se pusesse a persegui-lo a fim de dominá-lo. Eles faziam todas as manobras possíveis para irem estreitando o cerco, rodeando-o em um círculo mortal.
Sandokan continuava dando ordens cada vez mais precisas a fim de saírem, enquanto podiam, daquela armadilha que o inimigo havia lhes preparado. Ele se mostrava corajoso, sempre ordenando que o barco continuasse navegando para o Leste.
De repente, eles ouviram alguns disparos de canhão. Era o Começo da luta. Vários projéteis passaram por cima do navio rasgando o ar com seu barulho sinistro.
- Preparem-se para descarga geral dos canhões! - ordenou Iânhez.
Todos os artilheiros, já em seus postos, dispuseram os canhões a fim de que, após o primeiro sinal, pudessem abrir fogo.
Os refletores iluminavam as escuras águas do mar. De vez em quando, o refletor iluminava alguns dos cruzadores inimigos que passavam como sombras, bem próximos a eles.
A esquadra planejava cair em cima dos tigres da Malásia de um momento para outro, a fim de cortar-lhes a retirada.
Mas, de repente, uma sinistra massa negra apareceu à proa do "Rei do Mar", a menos de trezentos metros. Era impossível interromper a marcha do cruzador.
- Com o esporão! - ordenou Sandokan trovejante.
O "Rei do Mar" atirou-se como um aríete contra o navio inimigo. Um terrível impacto seguido de gritos de angústia retumbou no nevoeiro, repetindo-se até perder-se na distância do oceano.
O esporão do cruzador havia se enterrado por completo na embarcação inimiga, abrindo nela um rombo enorme.
Por um momento o "Rei do Mar" parou, inclinando-se de proa, enquanto no outro navio, atacado e ferido mortalmente, soaram várias explosões. Eram as caldeiras que acabavam de estourar.
- Máquinas a ré! - gritou o chefe americano.
Foi uma cena fantástica que durou apenas uns breves instantes. No "Rei do Mar", submetido por tão pouco tempo a tão grande tensão, ouviram-se gritos de alegria.
- Conseguimos! Conseguimos! - cantarolava Iânhez junto aos demais companheiros que ensaiavam passos de dança com as mãos levantadas e dando a maior demonstração de alegria.
Novamente, o "Rei do Mar" seguiu adiante, reiniciando a carreira. Ele passou pela popa do navio que lentamente submergia e, depois, entrou no nevoeiro.
Mas nem tudo havia terminado. Novas sombras apareceram tanto à popa como à proa. Os barcos inimigos focalizavam seus projetores elétricos iluminando todo o navio com suas luzes. Agora estavam muito mais próximos do que antes.
- Fogo! - gritou Iânhez.
Os canhões começaram a vomitar projéteis que encheram o céu com uma terrível tormenta de fogo e fumaça. As grandes peças da torre começaram a aparecer com suas enormes bocas de canhões e uma contínua erupção de balas irrompeu como se fossem um vulcão em plena atividade. Os canhões de menor calibre metralhavam o inimigo, imitando o trabalho dos canhões maiores.
O combate prosseguia violento. Nenhum dos dois lados dava demonstração de estar sendo derrotado.
Os perseguidores não pareciam estar assustados com nada do que ali estava acontecendo. Apesar de a artilharia do "Rei do Mar" estar corajosamente respondendo ao ataque do inimigo, ele não demonstrava o menor medo. A tremenda descarga de artilharia grossa certamente havia produzido muitos danos no barco pirata, mas, mesmo assim, não cessavam de combater.
Incessante era o fogaréu que brotava de todos os lados. Os projetores elétricos iluminavam a cena dando-lhe uma imagem fantasmagórica. Era como se do fundo do mar subissem dedos misteriosos que desenhavam estranhas figuras na superfície.
Os projéteis e as granadas arrebentavam longe ou atingiam a sólida blindagem do barco corsário. Alguns explodiam entre as pontes, lançando por toda a parte pedaços de metal que voavam como se fossem fuligem de papel queimado.
Mesmo assim, o "Rei do Mar" não interrompia a sua marcha. Continuava adiante sem deter-se sequer para tomar fôlego, e respondia com espantosa fúria, enviando profusamente projéteis de um lado e de outro.
De repente, apareceu no nevoeiro um navio não muito grande que lhes cortou o caminho, intencionado em detê-los. Ele navegava com uma velocidade espantosa.
Era uma chalupa a vapor que levava uma carga de explosivos em seu interior. A tripulação a havia solto para que, ao chocar-se com o "Rei do Mar", explodisse com todo impacto, fazendo-o saltar aos ares.
- Cuidado! Estão tentando nos atingir com um torpedo!
Todos os tripulantes correram até o ponto de onde se podia ver com mais precisão a estranha nave que, a grande velocidade, aproximava-se.
- Alto! Marcha a ré! - ordenou Sandokan.
O navio que tão admiravelmente era comandado pelo Tigre da Malásia freou bruscamente embora, devido à inércia, ainda navegasse uns tantos metros. Depois, desviou da trajetória do barco-torpedo. Essa manobra perfeita livrou-os de chocar-se contra a chalupa, o que teria sido realmente perigosíssimo. Poucos minutos depois, a embarcação chocou-se não com o "Rei do Mar", mas contra um dos navios de sua própria esquadra, levantando uma imensa montanha d'água e espuma misturada com pedaços das duas embarcações. O firmamento encheu-se com um terrível estrondo que se prolongou durante alguns minutos.
QUE PÔR-DO-SOL!
O "Rei do Mar" não havia sofrido dano algum. Ele havia resistido de uma forma admirável ao terrível combate. A fama de invencível era mesmo a que mais lhe correspondia.
Uma vez mais, a poderosa nave tripulada por Sandokan e seus homens saía invicta de um combate. Era um navio construído de tal maneira que se pode dizer perfeita, pelo menos naquele tempo em que estas aventuras aconteceram.
O navio havia maravilhosamente resistido tanto quanto as máquinas como a proa e a blindagem, sobre cujas pranchas havia caído a terrível granizada de uma fortíssima
artilharia.
O "Rei do Mar" não diminuiu a marcha. Sabendo que, sem a menor dúvida, estava sendo seguido e imaginando que seus aliados deveriam estar adivinhando a intenção deles,
Sandokan e Iânhez queriam chegar à foz do Sedang com uma vantagem de vinte e quatro horas, pelo menos, para protegerem o "Mariana" e, se possível, estabelecer contato
com os chefes dos dayakos. Eles precisavam encontrar seu barco que supunham estar escondido entre os recifes, à sua espera.
- Gostaria de chegar antes da esquadra inimiga - disse Iânhez.
- Esperamos conseguir, embora me pareça um tanto difícil...
- Acha que eles vão continuar nos perseguindo! - perguntou Tremal-Naik.
- É bem possível! - concordou Sandokan.
- O pior será se nos encontrarmos com o filho de Suyo-dhana - opinou Iânhez.
- Pode ser. Mas não creio que ele tenha uma esquadra sob suas ordens.
- E se ele estiver bem armado? - arriscou Tremal-Naik.
- Isso também é possível. Os thugs certamente possuem grandes tesouros e devem ter acolhido o filho de Suyodhana depois da dispersão da seita.
- Sim, eles possuem muitos tesouros! - confirmou Kam-mamuri, que acabava de aproximar-se. - Durante o tempo que fui prisioneiro nos subterrâneos de Raymangal, pude ver uma caverna cheia de barris carregados de ouro. Além disso, disseram-me que nas principais casas bancárias da Índia, eles têm verdadeiras fortunas depositadas.
- Querido Kammamuri, você está me deixando assustado só de ouvi-lo contar essa história! - falou Iânhez.
- Nosso navio é bastante forte para enfrentar toda a frota que essa gente conseguir reunir - declarou Sandokan.
- O de que eu menos gosto é que sir Moreland não nos deu a menor pista para conseguirmos reconhecer o filho de Suyodhana - disse Tremal-Naik.
- Parece que o inglês está mais do lado do filho de Suyodhana do que do governo do rei da Inglaterra - comentou Kammamuri.
- Eu diria que não - arriscou Iânhez.
- Deveríamos ter feito esse sujeito desaparecer! - comentou Sambigliong que havia deixado o timão, onde havia passado horas intermináveis.
- Quando Damna e eu estivemos prisioneiros deles durante algum tempo, ele sempre se portou de um modo impecável e fez de tudo para que tivéssemos tudo do melhor - falou Tremal-Naik.
- Ora, não estranhe, querido! - respondeu Iânhez sorrindo. - Aquele homem ama a sua filha, e o amor não tem fronteiras!
Voltando a acender o cigarro que estava apagado, dirigiu-se até o tombadilho de seu camarote onde, naquele momento, chegavam Damna e Surama.
- O que acharam da festa? - perguntou ao vê-las.
As duas moças deram risada, embora parecessem um pouco preocupadas com o que havia acontecido.
- Obrigada, senhor Iânhez - falou Damna, de repente.
- Ora essa, do que?
- Obrigada por ter sabido fazer as coisas do jeito correto - explicou ela.
- Ah, agora entendi! - exclamou Iânhez. - Depois de terminar a guerra, iremos procurar aquele rapaz que você tanto ama. Tudo acabará bem, não se preocupe. Vocês serão um casal muito feliz porque, pelo jeito, sir Moreland também gosta muito de você.
O nevoeiro havia passado e via-se agora um pouco de luz, embora ainda meio difusa. Amanhecia, e o sol, meio tímido, rompia os últimos vapores do nevoeiro e a escuridão que até há pouco os havia rodeado. Ao produzir-se esse fenômeno natural, eles puderam ver que o oceano estava totalmente deserto.
Ao verificar que estava lutando contra um inimigo muito forte, embora não superior em número, a esquadra aliada havia ficado para trás e empreendido o regresso para a baía de Sarawak.
Também ao norte o horizonte aparecia limpo, e o corsário havia se aproximado muito das costas de Bornéu a fim de que nenhum barco costeiro se aproximasse.
O "Rei do Mar" continuou em sua veloz carreira. Sandokan queria chegar, quanto antes, para encontrar o "Mariana". Eles já estavam nas águas que banhavam o Sedang.
- Estamos fora de perigo - comentou Iânhez.
- Acho que este estado de coisas não vai durar muito - comentou o americano.
- Não podemos esperar nada de bom dos nossos inimigos. Naquele momento, estavam todos na coberta e admiravam como o sol ia rompendo o nevoeiro e como seus primeiros raios apareciam no horizonte.
- Que belo pôr-de-sol! - exclamou Damna, maravilhada.
- Somente nestes mares é que se pode ter uma visão tão linda como esta que estamos contemplando agora - comentou Sandokan.
O astro-rei ia mergulhando pouco a pouco nas profundezas do mar. Seus raios refletiam-se nas profundezas do mar e nas águas traçando um belíssimo raio de luz muito semelhante a um caminho que cambiava de cores, indo do alaranjado ao vermelho vivo.
- O sino está nos chamando para irmos ao refeitório para ceiar - disse Iânhez oferecendo o braço à jovem indiana.
Duas horas depois do pôr-do-sol, o "Rei do Mar", que não havia diminuído a velocidade, encontrava-se diante da foz do Sedang, a uma distância de oito quilômetros.
- Não vai ser difícil localizarmos o "Mariana" - comentou Iânhez.
- Eles devem estar escondidos nas enseadas do leste porque ali existem uma porção delas - respondeu Sandokan. - Avançaremos lentamente naquela direção.
Por esse motivo, o navio dirigiu-se para a boca do rio, aproximando-se bastante dela. Em seguida, tomou rumo ao leste, onde se enfileirava uma porção de enseadas.
Foi naquele exato momento, quando tudo parecia mergulhado na maior tranqüilidade e ninguém sequer imaginava que algum perigo pudesse acontecer para perturbar-lhes o sossego, quando ouviram algumas detonações partindo daquela direção.
FUMAÇA PELA FRENTE!
Mal haviam terminado a refeição, quando Iânhez, que tinha sido o primeiro a ouvir as detonações, deu um salto e, com grandes passos, subiu apressadamente a escada.
- Todos à coberta!
Uma vez consultados os vigias, só puderam responder que estavam vendo fumaça pela frente e que ouviam algumas detonações.
- Foram explosões muito fracas - comentou Sandokan.
- Esses tiros de canhão devem ter sido dados muito longe daqui - opinou Iânhez.
- Pelo jeito, foi um canhoneio disparado a grande distância - aprovou Howard.
- Sim. Devemos levar em conta que o vento vem do leste - disse Iânhez.
- A primeira coisa que precisamos fazer é procurar o "Ma-riana" - falou Sandokan. Depois de alguns momentos em silêncio, acrescentou:
- Por enquanto, vamos verificar se ele está em alguma dessas enseadas. Que um marinheiro suba ao cesto da gávea e examine com binóculos tudo o que a vista alcança.
Seguindo pela costa a uma distância prudente, o "Rei do Mar" navegava para o leste, procurando, por todos os meios, não se chocar contra os recifes que abundavam naquelas paragens.
Sandokan, Iânhez e toda a tripulação não viam a hora de entrar no "Mariana". Eles estavam muito preocupados porque sabiam que o lugar era muito perigoso e que, quanto mais o tempo passasse, mais dificuldades surgiriam. Sentiam-se inquietos porque o parao tinha de estar por ali! Temiam que ele houvesse sido descoberto e posto a pique por algum barco inimigo.
Sambigliong era o mais nervoso e passeava com grandes passos pela coberta. De repente, parava e examinava, cuidadosamente, todo o horizonte observando de todas as aberturas do porão e na certeza de que, em uma daquelas olhadas, avistaria o "Mariana". Não se via, porém, o veleiro em parte alguma e, como é natural, a inquietação do pobre homem ia ficando cada vez maior.
Diante dos fatos, Sandokan deu uma ordem de que o navio virasse de bordo, cuidadosamente, diante da barreira de altíssimos recifes que formavam um braço no mar, entre o oceano e a costa.
Todos pressentiam que algo de grave havia acontecido ao "Mariana".
- Será que a esquadra inimiga virá atacar-nos? - perguntou Iânhez.
- Eles chegarão tarde demais - respondeu Sandokan.
- Estamos levando boa vantagem sobre eles - comentou Tremal-Naik.
O barco voava como se fosse uma gaivota. Nas caldeiras eram atiradas toneladas de carvão, produzindo um calor tão intenso que até os maquinistas e foguistas quase não agüentavam. Rios de suor corriam pelo corpo deles e suas roupas estavam tão empapadas que eles pareciam haver tomado uma ducha quente mesmo vestidos e calçados.
Os homens da gávea contestavam sempre com negativas as perguntas que lhes faziam. A noite estava muito clara devido à lua que, com seu resplendor, iluminava toda
a superfície do golfo.
- Não se vê sequer um único ponto no horizonte - disse um dos vigias a Iânhez.
- Continue de olho e não se distraia - respondeu o português.
O que alguns pensavam, - e cada vez se generalizava mais este pensamento entre os membros da tripulação - era que o "Mariana" havia sido afundado não havia muito tempo pelas forças inimigas que eram muito superiores em número.
- Será que aqueles tiros de canhão não estavam marcando o fim do "Mariana"? - perguntou Tremal-Naik.
- É bem possível... - murmurou Iânhez, bastante preocupado.
Por volta da meia-noite, começaram a delinear-se as costas orientais do Sedang. Pareciam mais escuras devido às imponentes massas de seus bosques milenários.
De repente e quando o "Rei do Mar" havia entrado no canal que se abria após um dique, ouviu-se uma voz que veio da plataforma do traquete:
- Fumaça pela frente!
Todos olharam para a direção apontada pelo vigia. Iânhez examinava ansiosamente, com seu binóculo, naquela direção.
- Um barco a vapor! - gritou ele.
- Alto! - ordenou Sandokan.
Como era lógico, o "Rei do Mar" não podia obedecer aquela ordem pela simples razão de que um navio não consegue parar sua marcha de repente.
Assim, ele perdeu um pouco da velocidade graças à tentativa do maquinista que, se não conseguiu detê-lo de todo, ao menos diminuiu-lhe a marcha.
A distância que os separava do navio era bem considerável.
- Vamos forçá-lo a parar! - ordenou Iânhez.
Um velho artilheiro aproximou-se de um dos potentes canhões, aguardou que o navio passasse pela proa do cruzador e rapidamente abriu fogo.
Ninguém pôde dizer se o tiro acertou ou não porque, quase no mesmo instante, o vapor desapareceu atrás de um obstáculo que a distância havia impedido o artilheiro de distinguir, não sabemos se se tratava de um dique.
Ante o temor de encontrar-se repentinamente com um dos muitos bancos de areia que existiam ao largo, nas proximidades do Sedang, o "Rei do Mar" deslanchava com marcha muito lenta, porém sem deixar de avançar, sempre com o objetivo de seguir o navio que, ao que tudo indicava, havia sido atingido pelo projétil.
Sandokan mandou que fossem feitas algumas sondagens porque não se fiava muito naquelas costas. Ele não conhecia bem aquela região e era por isso, por medo de encalhar, que não avançava com maior velocidade.
O navio havia desaparecido. Certamente havia se refugiado em alguma enseada. Pouco depois, Sandokan desistiu de procurar o fugitivo. Assim, viraram a popa para o poente, visando continuar procurando o "Mariana".
O navio deslanchava a pouca velocidade. Aquele lugar estava cheio de enseadas e recifes. De repente, viram um vulto comprido que emergia a poucos metros do ponto onde eles se encontravam.
- É o "Mariana"! - gritou Iânhez.
Imediatamente, focaram-no com um potente refletor, mas não viram ninguém na coberta do veleiro.
- Estranho que não se veja uma alma! - comentou Tre-mal-Naik.
- Esse navio está encalhado - assegurou Iânhez. - Com toda a certeza, estava fugindo de um perseguidor muito forte!
- E a tripulação? - perguntou alguém a Sandokan.
- Nenhum sinal de vida - contestou Iânhez.
- Vai ver que os ingleses aprisionaram todos eles - disse Sandokan.
- Vamos libertá-los nem que tenhamos de ir ao fundo do abismo! - prometeu Iânhez.
O "Rei do Mar" havia moderado a marcha. A sondagem não marcava mais do que doze metros de profundidade, e o fundo tendia a ficar mais raso com grande rapidez.
O cais não distava mais do que uns quinhentos metros. Não passava de uma grossa fila de rochas escuras cortadas, em forma de dentes de serra e com o costado muito desgastado pela ação da água do mar que continuamente arrebentava e voltava a arrebentar contra aquelas pedras milenarias.
Sandokan destacou doze homens para irem, de barco, até o navio encalhado. Eles foram armados com fuzis e, como é natural, preparados para qualquer surpresa.
Na verdade, o navio que se encontrava naquela situação não era outro senão o "Mariana". Ele havia encalhado junto à ponta setentrional e, devido ao choque, estava quase coberto por areia e pedras. O casco mostrava-se quase totalmente espatifado e podiam-se ver grandes buracos por onde entrava e saía água livremente.
- Pobre navio! - exclamou Iânhez pesaroso.
- E a tripulação? - perguntou Sandokan.
- O melhor que podemos fazer agora é tentar entrarmos nele para ver se encontramos alguém - propôs Tremal-Naik que também tinha ido com eles.
- Sim, primeiro vamos dar uma olhada. Afinal, existe a possibilidade de encontrarmos ao menos alguma pista que nos leve a imaginar o que pode ter acontecido, não?
Iânhez começou a marcha, sendo imediatamente seguido por Sandokan e por outros homens armados. Eles temiam uma emboscada e, por isso, deslocavam-se muito cautelosamente.
Foi bastante deprimente o quadro que viram quando puseram os pés dentro do navio encalhado. Ali reinava um silêncio sepulcral. No tombadilho estava tudo em reviravolta: caixas e barris espatifados a golpes e muitos indícios mostravam claramente que na coberta havia acontecido uma batalha campal. Eles puderam ver os fuzis e as bombardas inutilizados atirados pelo chão. A escotilha maior estava aberta e, lá embaixo, na despensa, ouvia-se
o incessante ruído das ondas que se moviam livremente, uma vez que não encontravam obstáculos que as impedissem.
- Aqui não sobrou nem rato! - comentou Iânhez.
Eles continuaram observando atentamente, espiando, intrigados, por todos os cantos que ainda estavam inteiros, porém não encontraram nenhum ser vivo.
- Que teria acontecido aos tripulantes? - perguntou Sandokan, ansioso. - E a carga que o navio trazia?
- Dá a impressão de que eles carregaram tudo o que era útil - sugeriu Iânhez.
De repente, lá do fundo da despensa, eles ouviram uma voz dolorida:
- Aqui, meu capitão!
Sandokan e Iânhez levantaram a cabeça enquanto seus homens engatilhavam a arma, á espera do pior.
Um homem de pele escura e meio despido apareceu diante de todos os presentes. Levava à mão, fortemente agarrado, um parang cuja folha longa rebrilhava ao reflexo
dos raios da lua.
- Capitão, eu estava esperando você!
- Sakkama! - exclamaram todos os presentes ao mesmo tempo.
Iânhez e Tremal-Naik haviam reconhecido o piloto do "Mariana".
- O que aconteceu? - perguntou Sandokan aflito.
- Ontem à tarde, quando estávamos distraídos, um navio a vapor surpreendeu-nos e obrigou-nos a colidir contra este dique, com isso abrindo muitos buracos no costado, sssssssssabaixo da linha de flutuação. Ficamos todos sem saber o que dizer nem o que pensar, porque tudo aconteceu muito depressa e quase nem tivemos tempo para raciocinar.
- E eles saquearam o navio?
- Sim. Levaram tudo o que tinha algum valor e, como é natural, todas as nossas armas e munições.
- E o restante da tripulação, onde está? - quis saber Sandokan.
- Foram embora do jeito que puderam.
- Para onde? - perguntou Iânhez.
- Atravessaram o Sedang.
- E por que você ficou?
- Não havia mais lugar no barco, porque o outro foi destroçado por um tiro de canhão.
- E os dayakos?
- Faz oito dias que estivemos em contato com eles, mas nada pudemos fazer. Suspeitando desses nossos aliados, o rajá prendeu alguns deles e mandou matar o resto.
- Canalha! - gritou Iânhez.
- Não temos outra saída senão a de fugirmos para o mar - comentou Sandokan. - No oceano lutaremos com todas as nossas forças e será ali que daremos a ele uma batalha definitiva.
- O melhor que podemos fazer é voltarmos para o norte, uma vez que o grosso da frota aliada encontra-se nas águas do Sarawak. Recomeçaremos a guerra contra os navios mercantes - concluiu Iânhez que, naquele momento, não estava para brincadeiras.
- Todo o mundo a bordo! - ordenou Sandokan. - Não vamos perder mais tempo!
HOMENS DE MAR E GUERRA
- Olhem! - gritou Tremal-Naik.
- O que é aquilo? - indagou Iânhez.
Naquele exato momento todos os ali presentes puderam ver um resplendor fortíssimo que encheu de luz o horizonte a oeste e que, momentos atrás, estava completamente mergulhado nas trevas.
Todos tinham visto a luz fortíssima e tinham ouvido o espantoso estrondo produzido por um disparo de canhão que o "Rei do Mar" havia deflagrado.
- Mas o que realmente os encheu de assombro foi a esquadra aliada, composta, em média, de doze barcos que se dirigiam velozmente para o cruzador, a fim de impedir que eles fugissem para o mar.
- A bordo! Rápido! - ordenou Sandokan.
Em um piscar de olhos, eles subiram na chalupa que se dirigiu para o "Rei do Mar" que, em perfeita sincronia, dirigia-se para eles também.
Graças a Deus que a esquadra encontrava-se ainda a uma boa distância! Por esse motivo, os piratas não haviam aberto fogo, porque sabiam que seria muito difícil fazer pontaria. Os tiros de canhão do inimigo se emendavam, um atrás do outro. Alguns projéteis caíam ameaçadoramente perto do cruzador, com isso fazendo erguer, repentinamente, enormes montanhas de água e espuma.
- Se continuar desse jeito, eles não custarão em nos acertar em cheio! - falou Iânhez.
O "Rei do Mar" fez uma bela manobra com a qual conseguiu proteger a chalupa onde estavam Sandokan e seus homens. Rapidamente, do navio, eles atiraram a escada de corda para que os fugitivos pudessem subir da pequena embarcação para o cruzador.
- Rápido, para cima! - gritavam os do tombadilho. Depois de terem firmado os ganchos, Iânhez, Sandokan e os companheiros lançaram-se à escada e subiram.
- Estávamos achando que vocês não iam chegar a tempo! exclamou o americano.
- Artilheiros, a postos! - gritou Sandokan. - Dois giros no timão!
- Somos muito fortes, mas nosso inimigo é superior - opinou Tremal-Naik.
- Aqui não existe ninguém mais forte do que os tigres da Malásia! - contestou, energicamente, Iânhez.
A chalupa foi içada depressa, e o "Rei do Mar" virou de bordo a toda pressa, pondo-se caminho do norte, a fim de meter-se entre o rendilhado de enseadas que se prolongavam em direção ao poente.
Os inimigos aproximavam-se a todo vapor. Eles tinham certeza de que poderiam alcançar os inimigos piratas. A esquadra estava quase caindo-lhes em cima e podia-se quase jurar que as máquinas de seus navios deveriam estar quase incandescentes.
Entretanto, os tigres da Malásia tinham muita sorte porque aqueles barcos que tentavam alcançá-los eram, na verdade, peças dignas de estar em um museu de antigüidade.
Nenhum daqueles navios, de tipo muito antigo, conseguiria competir com o veloz "Rei do Mar". E, quanto à artilharia, não eram nem por sombra, semelhante à que o cruzador de Sandokan levava à coberta.
Na verdade foram trocados muitos disparos de canhões entre perseguidores e perseguido, mas, por sorte dos piratas, nenhum tiro causou o menor dano nas pranchas do cruzador.
O navio dos tigres de Mompracem respondia com seus canhões e, quando acertava, provocava grandes estragos porque o adversário era muito fraco para querer medir forças com eles.
Um espectador imparcial teria a oportunidade de assistir a um grandioso espetáculo: de um lado a velocidade que, por momentos, o "Rei do Mar" adquiria e, por outro, a implacável perseguição, embora sem resultados práticos, de seus adversários. Tudo isso misturava-se com o estrondo dos disparos que saíam de ambos os lados e com o esplendor do mar que, naqueles terríveis momentos ganhava uma beleza extraordinária.
Torrentes de fogo emergiam das seteiras das torres menores e das miras das baterias. Nuvens de fumo envolviam o costado do potente barco.
"O Rei do Mar" fugia numa corrida vertiginosa, afastando-se cada vez mais de seus adversários e fazendo o impossível para evitar o cerco, a única arma que seus inimigos podiam tentar utilizar.
Houve um momento de grande perigo. Sandokan, que estava no comando, resolveu, repentinamente, passar por entre os navios de guerra que pretendiam cercá-lo. Disparando seus canhões ligeiros, conseguiu passar com a velocidade de uma bala, protegendo-se com os canhões da popa.
Vendo-se incapaz de apanhá-los, já que não contava com a velocidade desenvolvida pelo navio de Sandokan, a esquadra inimiga ia ficando à retaguarda, mesmo navegando a todo vapor. Seus projéteis não mais atingiam a ponte do cruzador.
Depois do primeiro susto e graças à boa sorte bem como à incrível velocidade, o "Rei do Mar" finalmente conseguiu livrar-se de seus inimigos.
Entretanto, havia ainda um último obstáculo para enfrentar: atrás da pequena ilha, eles toparam com quatro cruzadores que, como se fossem tigres, lançaram-se contra eles.
- Mas o que é isso? - exclamou Iânhez indignado.
- De onde sai tanto navio? - perguntou, por sua vez, Sandokan que já se acreditava livre de seus inimigos.
- Quanto às armas, talvez eles possam medir forças conosco, mas em potência de suas máquinas, ganharemos num piscar de olhos e, dentro de uma hora, com toda a certeza, já os teremos perdido de vista - comentou, em voz alta, o operador americano que, naquele instante, subia à coberta para conversar com Sandokan.
- De que nação serão esses navios? - perguntou Iânhez achando tudo muito estranho.
- Não se vê identificação alguma - respondeu o Tigre da Malásia.
- Tudo isto é realmente assombroso! - observou Iânhez.
- Sim, verdade! Mal saímos de uma encrenca, já estamos metidos em outra - declarou Sandokan.
- Imagino que sejam inglesas - sugeriu Iânhez. - Pode ser que pertençam à armada anglo-indiana. Nunca se viram Antes, em Labuan, navios tão modernos!
Pelo visto, estão dispostos a seguir-nos como se não tivessem outra coisa a fazer. Menos mal, que estamos fora do alcance da artilharia deles. Vamos esperar que caia a noite para fazermos uma falsa manobra e seguir para o ocidente. Temos de fazer todo o possível para sairmos das costas da Labuan!
- Acho que eles estão pensando que vamos tentar aplicar algum golpe nesta ilha - sugeriu Iânhez.
- Ou em Mompracem - ajuntou Sandokan apontando.
- O pior é que seremos obrigados a consumir uma boa quantidade de carvão - observou Iânhez.
Enquanto conversavam, a velocidade do "Rei do Mar" ia aumentando. Agora, ele atingia exatamente um de seus recordes, continuando sua veloz carreira em marcha forçada.
Já não se avistava mais a esquadra que há pouco havia tentado cercá-los. Agora só eram perseguidos por quatro cruzadores que, apesar de estarem perdendo caminho, continuavam a perseguição.
As máquinas e as caldeiras daqueles navios não eram fracas. Também eram tocadas a carvão e, pelo jeito, deveriam estar com os porões cheios do precioso elemento
negro.
O "Rei do Mar" continuava sua veloz marcha. Ao meio-dia já estavam bem mais distantes, do que a princípio, mas nem por isso os cruzadores haviam deixado de persegui-los.
- Está vendo? - perguntou Iânhez tirando os binóculos de diante dos olhos.
- Não sei o que você está querendo dizer - respondeu Sandokan.
- Eu lhe disse que você confiou em quem agora está capitaneando aquele navio que nos persegue! - declarou Iânhez.
Naquele momento, Damna apareceu na coberta e, naturalmente, ouviu o que o português tinha acabado de falar.
- Por que você disse isso? - perguntou.
- Por nada - respondeu Iânhez.
- Você acha que, por acaso, sir Moreland possa estar em algum daqueles navios?
- Não, Damna. Eu não o vi em nenhuma ponte de comando da esquadra aliada.
- Será que ele morreu? - perguntou a jovem.
- E por que haveria de ter morrido? Ele não lutou contra nós e, quando o vimos pela última vez, estava otimamente vivo - declarou Iânhez.
Os cruzadores iam perdendo a velocidade. À tarde já nem eram avistados senão a uma distância de uns vinte quilômetros, pelo menos.
Ao cair da noite, o "Rei do Mar", que não havia aceso suas luzes, virou bruscamente de bordo e dirigiu-se para o poente, rumo ao cabo Taniong-Datu, a fim de entrar no mar de Sonda.
Eles precisavam encontrar mais provisão de carvão e, sem contarem com portos amigos e nem com a ajuda do "Mariana", não tinham outra saída e nem outra esperança senão a de tomar carvão dos navios mercantes ingleses que por ali passavam.
Dois dias depois, avistaram o cabo Taniong-Datu, e o "Rei do Mar" prosseguia seu caminho para o noroeste.
Embora estivessem muito preocupados, pois não ignoravam que da abundância do carvão dependeria a possibilidade de continuarem a salvo, Sandokan e Iânhez não eram homens que se desesperassem com facilidade.
Durante quarenta e oito horas, o "Rei do Mar" continuou navegando rumo ao noroeste, mantendo-se distante das costas do Bornéu.
Até então eles nada haviam visto. O navio continuava naquela rota sem que ninguém os molestasse.
- Até parece uma viagem de recreio - comentou Iânhez que, como sempre, estava acocorado junto a um canhão, onde fumava o seu cachimbo.
- Mas uma hora tudo isso vai acabar - sentenciou Sandokan em voz alta.
Ele mal havia acabado de dizer essas palavras, quando, no límpido horizonte, apareceu um grande navio. Era um stea-mer, um navio a vapor que se dirigia a Bruni,
certamente com o objetivo de ali fazer escala antes de voltar a partir para os mares da China.
O navio logo notou a presença do cruzador e das cores de sua bandeira. De começo, ele continuou seu rumo para o noroeste, mas, de repente, virou rápido de bordo, tomando a direção do levante, esperando encontrar refúgio em alguma baía de Bornéu.
Muito mais veloz, o "Rei do Mar" logo começou a persegui-lo, e a primeira coisa que fez foi dispersar um sonoro tiro de canhão, ordenando-lhes que parassem as máquinas, caso não quisessem ir a pique.
O navio a vapor não obedeceu. Muito ao contrário, continuou a fugir, agora com maior velocidade. Sandokan, entretanto, ordenou que se disparasse um outro projétil que atingiu o tombadilho do navio, fazendo-o saltar aos pedaços.
Momentos depois, era içada a bandeira branca no mastro do traquete, e o barco de passageiros diminuía a velocidade.
O navio havia parado a pouca distância do "Rei do Mar". É um belo barco! - comentou Iânhez.
Seguido por Iânhez e alguns homens, Sandokan desceu a uma chalupa e, depois de dar algumas ordens, dirigiu-se ao navio que havia se mostrado tão corajoso.
Não demoraram muito a chegar até ele, e a primeira coisa que fizeram foi perguntar pelo capitão.
- Sou eu - respondeu um simpático jovem.
- Muito prazer em conhecê-lo - disse Sandokan.
- Lamento muito não poder dizer o mesmo - respondeu o jovem capitão.
Naquele momento, quando a conversa ia ficando animada, surgiu entre os passageiros um homem de pequena estatura, manco, com uma espessa barba e que usava óculos de lentes escuras.
- Comandante, - disse, aproximando-se de Sandokan - por acaso você é um desses famosos piratas que povoam estes oceanos?
- Sim - afirmou o Tigre da Malásia.
- Então, vou me unir a vocês, pois quero lutar contra os ingleses.
- Por enquanto eu nada tenho contra você e, se realmente quer fazer isso, não serei eu quem tentará fazê-lo mudar de idéia - respondeu Sandokan.
O capitão, a tripulação e os passageiros observavam, curiosos e muito temerosos aquela cena.
- Senhor, - disse o capitão do navio - neste barco estão viajando muitos adultos e crianças. Eles devem desembarcar, o quanto antes, no próximo porto. Somos pessoas de paz e não de guerra. Por isso, rogamos que nos permita continuar nosso caminho e saiba que o agradeceremos de todo o coração.
Sandokan deu uma olhada para Iânhez que, naquela altura, estava conversando com o estranho personagem de óculos de lentes escuras.
- O que você acha? - perguntou.
- Acho que aqui nada temos a fazer pois já não somos piratas, somos mais guerreiros fazendo o impossível para lutar contra os ingleses e derrotá-los em todas as batalhas que pudermos.
- Sendo assim, eu vou com vocês - declarou, resolvido, o estranho homem baixinho.
- Está bem. Então, pegue as suas malas e vamos cair fora deste navio o mais depressa possível.
Rodeado por seus homens, o capitão saudou Sandokan e os seus. Pouco depois, eles voltaram à chalupa e abandonaram a luxuosa embarcação.
A bordo da chalupa ia o curioso sujeito cheio de bagagens e pacotes, o baixinho que olhava através de uma feissima armação que segurava lentes muito escuras.
AINDA NÃO FOMOS DERROTADOS!
Iânhez olhava com muita curiosidade para o recém-chegado. Ele era um tipo realmente diferente.
- Você ainda não nos disse o seu nome - afinal disse o português.
- Se quiser, pode me chamar de doutor Paddy O'Brien.
- Está bem, doutor. Agora devo dizer-lhe que gostaria de saber quais foram as suas descobertas e quais são as suas habilidades.
- Com toda a certeza, o doutor não deve andar muito bem da cabeça - comentou Sandokan. - A não ser que esteja apenas querendo divertir-se às nossas custas.
- Eu acredito que ele seja um sábio - declarou Tremal-Naik.
- Não, comandante, não. Mas consegui fazer uma fantástica descoberta que produzirá incríveis resultados!
- Muito interessante! - exclamou Iânhez com certo bom-humor porque começava a achar o homenzinho divertido.
- Minha descoberta consiste em conseguir acender uma lâmpada elétrica sem necessidade de fio. Realizei, em Chicago, experiências extraordinárias à distância de três a quatro mil metros!
- Pois nós temos um sistema muito mais prático para fazer desaparecer nossos adversários: basta que usemos os nossos canhões!
- Muito bem, amigo, mas eu também consegui descobrir um modo de fazer explodir barris de pólvora... mesmo à distância!
- Estupendo! - murmurou Iânhez mais do que interessado no assunto.
- Os senhores não acreditam em mim, não é verdade? - perguntou o homem da ciência.
- Meu senhor, entenda que se trata de algo tão revolucionário que até parece impossível!
- Pois podem crer no que digo. Algum dia farei uma demonstração, e vocês haverão de tirar a prova de que tenho razão no que estou afirmando.
- Bem, bem, é o que veremos - disse o português.
- Gostaria de estar com vocês porque desse modo poderei lutar contra os ingleses, dos quais não tenho muito boas referências - continuou o doutor.
- Já que se mostra tão interessado em fazer uma travessia nos mares da Malásia, a bordo do "Rei do Mar", não me oponho - disse Sandokan. - Entretanto, asseguro-lhe que estranhará muito porque não temos costumes delicados e, além disso, nosso navio não passa um único dia sem que estejamos metidos numa aventura, quando não são muitas. Portanto, faça o que achar melhor.
- Será de minha exclusiva responsabilidade tudo o que vier a me acontecer - respondeu o doutor.
Durante essa conversa tão estranha, na qual o doutor havia exposto a Iânhez de um modo tão simples tudo o que havia descoberto, o "Rei do Mar" continuava navegando a grande velocidade...
Sandokan não quis perder muito tempo naquelas paragens próximas a Labuan, pois temia cair entre a esquadra da colônia e os quatro cruzadores, os quais, certamente, deveriam continuar procurando-o com todo o afinco. Assim, pois, preferiu dirigir-se para as costas setentrionais de Bornéu para atacar os barcos procedentes da Austrália.
Era impossível - ou, pelo menos, muito difícil - que os ingleses conseguissem descobrir que eles haviam se afastado tanto do golfo de Sarawak.
Sandokan desejava que ninguém soubesse por onde ele andava e por isso não parava em linha alguma, nem em portos coisa que, mais cedo ou mais tarde seria obrigado a fazer.
- Estamos com os dias contados! - comentou Tremal-Naik. - Por enquanto ainda podemos nos defender porque temos víveres e carvão, mas tudo isso não vai demorar muito para acabar e... então, terá chegado o nosso fim.
- Na verdade, não demoraremos a enfrentar algumas das poderosas esquadras que o Almirante certamente terá lançado nestas águas para nos apanhar e, então, tudo terá se acabado! - concluiu o português.
- Pois o meu assombroso invento destruirá quantos navios tentarem enfrentar vocês!
Quem acabava de afirmar isso era o doutor Paddy O'Brien, da Filadélfia, de quem, até então, ninguém havia se lembrado.
- Homem, aqui está um grande amigo! - exclamou Iânhez olhando para o americano.
- Meu invento não falhará - garantiu Paddy. - Vocês poderão ter a prova de que ele fará voar todos os barcos que tentarem se aproximar do nosso navio!
- Meu compatriota explicou-lhe detalhadamente em que consiste o seu invento e eu posso afirmar que tem fundamento científico e que, com toda a certeza, poderá ser para nós de grande utilidade em nossa guerra - falou, naquela altura, o operador Howard que tinha vindo reunir-se a eles no tombadilho da ponte de comando.
- É o que veremos - respondeu Sandokan com um tom de dúvida.
- Se continuarmos navegando rumo ao sul, qualquer dia nos encontraremos com nossos adversários - falou Iânhez. - Pois então, senhor Paddy, pode aprontar a sua maravilhosa máquina! - e arrematou com certa ironia.
O "Rei do Mar" prosseguiu a sua viagem até por volta de meio-dia, rumando sua proa mar adentro e sem encontrar um único vapor que viesse em sua direção.
Os armadores certamente deveriam ter dado ordem a seus barcos para que fizessem escala nos portos das ilhas de Sonda, a fim de não se exporem ao risco de que o audaz pirata os pusesse todos a pique pois, até então, com suas rápidas fugas e desaparições inesperadas, Sandokan havia conseguido escapar da caçada que contra ele faziam as esquadras.
- O que vai acontecer no dia em que não tivermos mais carvão? - perguntou Iânhez, muito preocupado.
- Daremos um jeito. Por enquanto ainda temos uma quantidade suficiente, pelo menos por algum tempo.
Eles haviam percorrido uns tantos quilômetros e aproximavam-se das costas de Málaga, sem que nenhum navio inglês aparecesse no horizonte. Os dias passavam com certa monotonia, e eles aproveitavam para limpar as armas, ao mesmo tempo em que faziam limpeza geral de todo o material bélico que tinham a bordo.
O círculo de ferro ia-se fechando cada vez mais. Os tigres de Mompracem começavam a ficar desanimados. Viam surgir, de um momento para outro, o fantasma do Almirantado inglês para tentar sua última investida.
É O FIM DE TUDO!
Na verdade, Sandokan e Iânhez sentiam-se preocupados porque sabiam que o fim se aproximava. Percebia-se no rosto deles a angústia que lhes dominava o espírito.
- Logo mais soará a nossa última hora! - pensou Iânhez em voz alta.
- Não gosto de ouvi-lo dizendo bobagens! - respondeu Sandokan.
Em meio a toda a tripulação, o único que se mantinha feliz e confiante era o sábio doutor. De vez em quando, ele subia à coberta e com seus olhos míopes observava o horizonte à espera - ao que tudo indicava - de que, de repente, apontasse um navio de guerra ou ao menos algum mercante. Às vezes era visto passeando pela coberta com as mãos na cintura e a dar largos passos. De outras, ele parava e, com os cotovelos apoiados na amurada, ficava olhando para as águas azuis quase sempre tranqüilas.
Depois de algum tempo, voltava a andar e desaparecia por uma das escadas que levavam aos camarotes. No dele tinha montado um laboratório cheio de aparelhos de precisão, de tubos e muito material que havia retirado de sua enorme bagagem e caixas trazidas do vapor para o "Rei do Mar".
Damna e Surama também passavam horas e horas na coberta. Entretanto somente se falavam através de diálogos muito curtos.
- Eu não gostaria de me separar de meu pai e nem de meus amigos! - comentou a garota.
- Temos de aceitar o fato de que, de um momento para outro, tudo vai se acabar para nós - respondeu Surama.
- Não devemos ser tão pessimistas! - declarou Iânhez mudando o rumo da conversa:
O barco continuava o seu rumo. O mar, naquela altura, representava-se mais azul-esverdeado do que nunca. Ninguém diria, ao ver aquele navio navegando por aquelas águas, que em seu interior algo muito cruel estava acontecendo e não era precisamente no camarote do doutor Paddy.
- Ficarei muito feliz morrendo ao lado do meu sahib branco! - comentou a indiana.
- Seja como for, não seremos derrotados! - insistiu Iânhez.
Na verdade, os tigres de Mompracem ainda não haviam sido derrotados, mas estavam ameaçados de morte. O combustível escasseava e dentro de pouco tempo, não saberiam o que jogar às caldeiras para manterem as máquinas funcionando.
O carvão diminuía, e as carboneiras estavam quase vazias.
Era preciso tomar uma decisão que, ao menos em parte, solucionasse o problema deles e, por isso, Sandokan e Iânhez acharam oportuno discutir o assunto com Tremal-Naik e o operador americano.
Acabaram resolvendo dirigir-se à ilha de Gaia, na qual haviam deixado os paraos esperando até que a guerra terminasse. Além disso, tinham ali um depósito que lhes serviria de ponto de apoio e do qual poderiam, no momento oportuno, lançar mão.
Eles estavam seguros de que ninguém perceberia que seriam eles que passavam por ali porque usariam os paraos, as pequenas embarcações, que não levantariam a menor suspeita. Portanto, ninguém oporia obstáculos, caso tentassem embarcar o carvão ou outros tipos de provisões.
O diabo é que havia muitas dificuldades a enfrentar até chegarem à ilha que ficava a mais de seiscentos quilômetros de distância, antes que a esquadra aliada - que
certamente já deveria estar bem longe de Sarawak - caísse em cima do "Rei do Mar" e os surpreendesse quase sem combustível, obrigando-os a topar um combate contra forças muito superiores.
Entretanto, por enquanto não se via barco algum no horizonte.
Diante dessa boa perspectiva, o "Rei do Mar" tomou o rumo ao noroeste, devendo passar bem longe de Mompracem e navegando a oeste dos grandes bancos de areia de Samarang e Vernon.
Procuravam, quanto mais possível, economizar o carvão e por isso mesmo o barco havia perdido muita velocidade.
Sandokan andava mal-humorado e nem digamos como estava Iânhez! Ambos não faziam outra coisa a não ser dar voltas de um lado para outro. Horas e horas perscrutavam o horizonte acreditando que, logo mais, a esquadra inglesa iria aparecer, e o nervosismo aumentava a cada hora que passava. Não demoraram a avistar um pequeno veleiro e, quando passaram a seu lado, perguntaram ao capitão:
- Por acaso não viram algum cruzador inglês?
- Sim, claro! Vimos não apenas um, porém um punhado deles.
- Cruzadores ingleses ao sudoeste?
- Sim.
- Quantos?
- Dois.
- Quando se encontraram com eles?
- Ontem à tarde.
Não havia outra saída senão fugir. Aqueles cruzadores deveriam ser a vanguarda de alguma armada. Eles poderiam chegar a qualquer momento e localizar o "Rei do Mar".
- O que poderemos fazer? - perguntava Iânhez mais com os olhos do que com a boca.
- Teremos de lutar! - gritou o Tigre da Malásia.
Foi ordenado que se apressasse a marcha, assim queimando as últimas pasadas de carvão. Nessa altura, estavam fazendo mais de doze nós por hora e preocupavam-se com apenas uma coisa: encontrarem algum navio mercante que lhes entregasse o carvão que certamente teriam no depósito de seus porões.
Sandokan havia ordenado para que todos se preparassem para a batalha. Os vigias haviam sido duplicados e do alto de suas gáveas examinavam atentamente todo o mar até onde seus olhos podiam alcançar.
Às oito da noite, o "Rei do Mar" interrompeu a marcha, pois se encontrava perto da grande bacia no rio Vernon. Tudo o que poderiam fazer agora era esperar pacientemente.
A escuridão era completa e tudo estava tingido por tons negros. Não se viam estrelas no firmamento. A brisa do sul rasgava, de vez em quando, alguma nuvem e só então se via o brilho de alguma pálida estrela.
Tudo estava mergulhado em silêncio. As máquinas haviam deixado de funcionar e, apesar disso, ninguém dava demonstração de que o medo havia tomado conta deles. A tripulação estava reunida na coberta, uma tripulação cansada e esgotada, mas que ainda mantinha um pouco de esperança.
Tremal-Naik, que também estava na coberta, aproximou-se de Sandokan e perguntou-lhe:
- O que estamos esperando? Por enquanto, que o tempo passe. De repente, um dos vigias lançou um grito de advertência:
- Navios à vista!
- Sim, são navios inimigos - comentou Sandokan depois de examinar.
No horizonte viam-se vários pontos luminosos que iam aumentando rapidamente.
Os navios inimigos navegavam a toda a máquina e formavam um amplo semi-círculo que, mais tarde, deveria fechar-se para conter, no centro, o "Rei do Mar". Depois, com a força de seus canhões, certamente o mandariam para o fundo do mar.
Sandokan começou a dar as ordens necessárias, porém mostrando, durante o tempo todo, a calma que conseguia comunicar para toda a tripulação.
Iânhez havia acendido um cigarro e esperava tranqüilamente, que os navios inimigos passassem à sua frente.
No mastro da popa, fizeram içar uma bandeira que tinha uma cabeça de tigre ao centro.
Quatro grandes barcos a vapor apareceram diante dos olhos deles. Seus refletores iluminavam com sua potente luz e, sem dúvida, eles eram os barcos mais potentes da armada anglo-indiana. Eles continuavam dispostos em círculo e, por enquanto, ainda não faziam uso de seus canhões.
Os atacantes apenas aguardavam que amanhecesse para, então, intimar os piratas a que se rendessem. O Tigre da Malásia, porém, não conhecia a palavra rendição. Portanto
esse não seria o melhor caminho.
Os navios aliados, que agora haviam apagado os refletores elétricos, giravam lentamente ao redor do cruzador, estreitando o cerco cada vez mais.
- Acha que esses cruzadores poderão com o "Rei do Mar"? - perguntou Tremal-Naik.
- Por enquanto nada se pode dizer meu caro - respondeu Iânhez.
De repente, o português deu um grito: Ora, nós nos esquecemos!
- Esquecemos do que? - perguntou Sandokan.
- Do nosso sábio doutor!
É que o português acabava de ter uma idéia luminosa, lem-brando-se do cientista americano, Paddy O'Brien.
Descendo de dois em dois degraus a escada que conduzia ao camarote ocupado pelo doutor, correu até lá.
Iânhez entrou esbaforido. Paddy estava sentado junto a uma mesa cheia de livros e papéis. Naquele momento, o sábio encontrava-se absorto ao resolver, ao que tudo indicava, um problema difícil e delicado.
- Doutor, os navios inimigos já estão nos rodeando e estamos a ponto de sermos afundados! - disse o português até se esquecendo de cumprimentar.
- Sim, sim.... - respondeu o sábio.
- Você me contou que tinha um certo instrumento, que conhecia um terrível segredo, não contou?
- Certo...
- Então, amigo, chegou a hora de colocá-lo à prova!
- Mande que levem minhas caixas para cima.
Uma vez no tombadilho, o sábio tratou de examinar cuidadosamente cada um dos navios inimigos. Parecia um pouco preocupado enquanto tratava de resolver em qual deles aplicaria o seu invento.
- Atenção... agora! - ordenou, de repente.
Mal acabava de pronunciar aquelas palavras, de repente um formidável estrondo quebrou a tranqüilidade da noite. Uma enorme coluna de fogo levantou-se ao redor do pequeno cruzador, enquanto uma nuvem de chispas e fragmentos caía por todos os lados. O navio inimigo havia explodido e ia a pique com a rapidez de um raio.
- Todos a seus postos! - ordenou Sandokan.
Naquele momento, outra explosão encheu o ar com um estrondo. Uma bala atingiu em cheio o pobre doutor que caiu ao chão. Iânhez correu para ampará-lo, mas já era tarde demais.
- É o fim de tudo! - gritou o português.
- Estamos nas mãos de Deus! - foram as últimas palavras do doutor Paddy O'Brien.
AO MAR COM A CHALUPA!
- A seus postos de combate! - comandou Sandokan. - Mostraremos a eles como os piratas da Malásia sabem morrer!
Essa ordem que repetiu, não apenas uma, porém várias vezes foi também repetida por todos os piratas, cujo entusiasmo ia calorosamente se comunicando de um para o outro. Curtidos em muitas lutas e em todos os mares, aqueles homens sentiam cada vez mais que estavam com ótima disposição para lutar.
Do cruzador mais próximo partiu um disparo, ordenando que os piratas se rendessem!
A aurora começava a clarear o céu. A luz, a princípio tênue, foi se tornando cada vez mais clara, iluminando o dia que prometia ser magnífico. As trevas foram se dispersando em torno do cenário da batalha que logo mais deveria acontecer.
Em sinal de combate, Sandokan mandou hastear a bandeira vermelha. Todos estavam preparados para a luta.
Pouco depois, começaram a observar uns sinais em um dos navios inimigos e, depois de prestarem bastante atenção, foram capazes de decifrar.
- Eles estão nos dando umas instruções - disse Iânhez com a maior ironia.
Os sinais diziam: "Antes que comece o tiroteio, mandem as duas jovens para este navio. Sir Moreland garante a vida de ambas."
- Aí, bem diante de nós, temos o nosso querido anglo-in-diano! - exclamou Iânhez.
- Damna! Surama! - e Sandokan chamou as jovens. Muito preocupadas, elas subiram à coberta.
- Eles estão propondo que vocês abandonem o nosso navio e se transfiram para aquele, ali à frente - disse-lhes.
- Nunca! - responderam as duas decididas.
Pensem bem! - insistiu Sandokan. Não queremos nos separar de nossos amigos e, além disso, é impossível abandonar o meu pai - explicou Damna.
Por ordem de Sandokan, um contramestre serviu-se de outros sinais e transmitiu a resposta que as duas garotas haviam dado.
Depois disso, eles viram serem içadas, no mastro dos quatro cruzadores de guerra, bandeiras negras. Uma rajada de vento abriu-as, e os piratas puderam distinguir, ao centro delas e recortada em amarelo, uma monstruosa figura de quatro braços que segurava estranhos símbolos.
Era a inconfundível marca dos tlrags, a seita dos estranguladores da índia.
Ao ver aquilo, a tripulação sentiu um impacto como se lhes houvessem arrancado os corações. Sandokan e seus companheiros emitiram gritos de assombro e fúria. Aquele emblema indicava que naqueles navios estavam seus costumeiros inimigos. Pelo jeito, então a seita não havia sido destruída.
- O filho de Suyodhana é o capitão desses navios! - disse Iânhez, muito preocupado.
- Tenho certeza disso! - respondeu Sandokan.
Então, de um momento para outro, fez-se um grande silêncio no "Rei do Mar". Por alguns momentos, o assombro havia deixado todos mudos e calados. Mas, de repente, gritando com toda a força de seus pulmões, a voz trovejante de Sandokan irrompeu numa ordem:
- Fogo! Fogo!!!
O quadro que repentinamente se havia apresentado diante dos olhos de todos os tripulantes era de uma espantosa beleza. Fortes detonações, que saíam de uma só vez de todas as embarcações, encheram os céus com um barulho ensurdecedor. Por toda a parte as granadas choviam em cima do "Rei do Mar".
Um furacão de ferro e aço saía de cada uma das grandes peças da coberta e dos canhões médios das baterias. Entretanto, elas não se dirigiam para a ponte do "Rei do Mar" onde, dentro de uma torre blindada, estavam Damna e Surama.
Pelo jeito, os artilheiros inimigos haviam recebido ordens expressas para somente fazerem alvo no costado do cruzador e, por isso, as granadas só atingiam esses pontos. Via-se claramente que os inimigos não desejavam provocar o menor dano às jovens que estavam refugiadas na torre.
O objetivo deles era acabar com os grandes canhões de caça situados atrás das torres metálicas, procurando destroçá-los e romper as espessas pranchas de ferro dos parapeitos.
A luta ia ficando cada vez mais encarniçada. O "Rei do Mar" fazia todo o possível para defender-se de seus inimigos. Seus canhões vomitavam fogo e bombas numa chuva contínua e constante.
Ele parecia um vulcão soltando chamas por todos os lados. Os tigres de Mompfacem estavam de todo resolvidos a fazer seus poderosos inimigos pagarem aquela vitória com um preço muito caro.
Eles continuavam lançando grandes projéteis contra o barco à frente, fazendo-o sofrer grandes estragos e provocando-lhe terríveis danos nas pontes que saltavam pelos ares, desmoronando as chaminés e abrindo muitos buracos nas pranchas da couraça. Era digno de ouvir-se, em meio àquele assombroso combate, os gritos que Sandokan
lançava com sua potente voz:
- Fogo! Adiante, meus tigres!
O que ninguém poderia prever era quanto tempo duraria aquele combate desigual. Ninguém conseguiria assegurar se o "Rei do Mar" conseguiria manter-se combatendo por muito tempo contra aquele inimigo que, muito superior em número, continuava ao pé do canhão com uma tenacidade inexplicável. Além disso, eles ganhavam cada vez mais coragem ao verem o "Rei do Mar" defendendo-se sozinho.
Embora fossem de uma solidez extraordinária, os costados do cruzador começaram a ceder depois de meia hora recebendo centenas de balas e granadas. Seus canhões haviam sido despedaçados, um a um, e agora encontravam-se reduzidos ao silêncio. Suas torres, com exceção da de comando, onde se encontravam Damna e Surama, começavam a desmoronar devido à ação do tiroteio que sobre elas chovia de um modo impressionante. Em cima do "Rei do Mar" caía uma verdadeira chuva de granadas e por toda a parte viam-se feridos e mortos.
Da ponte de comando, Sandokan e Iânhez contemplavam o resultado da cruel batalha que tinha todos os requisitos para transformar-se em um desastre. O espetáculo era terrível! Por toda a parte ouviam-se os gritos que os feridos lançavam e entre toda a gritaria destacava-se, mais audível do que nunca, o infernal som produzido pelas granadas explodindo e principalmente quando atingiam as pranchas de aço do cruzador.
Iânhez estava mais tranqüilo do que Sandokan ou, pelo menos, aparentava. Ele continuava fumando seus cigarros e dava a impressão de que o combate mais lhe significava uma festa apenas um pouco mais barulhenta do que uma verdadeira luta bélica.
Sentado em um canto, sobre um rolo de corda e ao lado de Tremal-Naik, Damna tampava os ouvidos com as mãos a fim de atenuar um pouco o barulho do tiroteio e olhava para o vazio.
De repente, o "Rei do Mar" foi levantado de popa e proa como se por uma força desconhecida, e uma enorme coluna d'água caiu sobre a coberta, levando tudo o que ali se encontrava. Ao mesmo tempo, todo o casco estremeceu como se tivesse sido feito aos pedaços, e as munições do depósito explodiram.
- Vamos afundar! - gritou o americano.
- Fomos atingidos por um torpedo! - disse Sandokan elevando a voz.
Os últimos disparos dos canhões confundiam-se com os desesperados gritos dos piratas.
De repente, fez-se silêncio absoluto. Os canhões dos três navios inimigos emudeceram. Haviam cessado fogo, e a batalha havia chegado ao fim.
Sandokan deu uma olhada triste para tudo aquilo que o rodeava. Naquele momento havia terminado o poderio do "Rei do Mar" e, com ele o dos tigres da Malásia.
O FILHO DO TERRÍVEL THUG
O "Rei do Mar" estava irremediavelmente afundando. O inimigo tinha sido mais forte do que ele. Agora só lhes restava fazer uma única coisa: tratar de salvar a vida.
Então, Sandokan agarrou Damna e saiu da torre de comando acompanhado por Iânhez, Tremal-Naik e Surama.
A garbosa nave que havia resistido a tantos combates, enfrentando tantas provas e que parecia indestrutível, agora não passava de um monte de sucata inútil que estava indo para o fundo do mar.
Suas torres haviam sido destruídas pelo efeito das granadas e dos tiros de canhões que haviam ininterruptamente disparado sobre ele. Seus canhões estavam todos destruídos, a ponte encontrava-se aos pedaços e o costado cheio de buracos permitia a entrada da água.
Por toda a parte subiam colunas de fumaça e chamas que, como línguas de fogo, saíam pelos buracos abertos pelas balas.
- Ao mar a chalupa! - ordenou Sandokan.
Rapidamente, alguns malaios arriaram o único barco que restava na coberta. Outros baixaram uma escada de corda grossa. Por ela desceram Sandokan e seus amigos que se acomodaram na barca que os estava esperando no vai-vém das águas do oceano.
- Você, Tremal-Naik, com as mulheres! - ordenou San-dokan.
- Não se preocupe. A tripulação dos cruzadores inimigos virão aqui nos recolher.
Verdade. Dos costados dos barcos saíram várias embarcações tripuladas por marinheiros armados. Os barcos aproximavam-se velozmente, levados pela força máxima que seus remos conseguiam dar. No primeiro estava sir Moreland que, segurando um grande lenço branco, agitava-o no ar.
O "Rei do Mar" continuava afundando e, por isso, era urgente que se afastassem dali o quanto antes a fim de evitar a sucção que acontece quando um volume daquele tamanho mergulha para o fundo do oceano, arrastando tudo o que se encontre nas proximidades. O navio afundava devagar, vibrando ligeiramente. No fundo da estiva ouvia-se a água mugindo de um modo surdo, profundo, impressionante.
As chalupas esforçavam-se para chegarem a tempo a fim de recolher os náufragos que tentavam por-se a salvo, evitando afundar com o cruzador.
De repente, quando parecia que o casco ia submergir de uma vez, de repente o afundamento parou. A inundação, que havia empurrado o navio para o leste, levou-o até sobre o banco de Vernon, assim percorrendo maior distância do que se havia imaginado, e, então, a quilha tocou no fundo.
Nessa altura, a chalupa na qual estava Sandokan, chegou ao barco ocupado por sir Moreland.
O anglo-indiano, que se mostrava muito comovido, tirou o barrete para saudar os dois piratas e, em seguida, disse nobremente enquanto tomava Damna pela mão:
- Eu não posso viver sem a sua filha, senhor Tremal-Naik! Ao ouvir aquelas palavras, todos ficaram sem saber o que dizer. A jovem estava muito nervosa e olhava fixamente para o rapaz.
- Terminou a guerra entre nós - acrescentou sir Moreland.
- Mas quem é você, afinal? - gritaram, ao mesmo tempo, Sandokan e Iânhez.
- Eu sou o filho de Suyodhana e, agora, vocês são meus hóspedes!
Pouco tempo depois, os três cruzadores abandonavam o banco de Vernon, no fundo do qual, pouco a pouco, ia se enterrando o casco do "Rei do Mar".
Todos os sobreviventes haviam embarcado em um dos navios principais. Naquele momento, estavam todos reunidos no salão principal onde sir Moreland encontrava-se sentado ao lado de Damna.
- Senhores, eu lhes devo uma explicação - começou o filho do terrível thug. - Só quando eu fiz vinte e cinco anos que o meu preceptor me revelou que eu não era filho de um anglo-indiano, mas sim do chefe de uma seita dos thugs. Portanto, eu fui educado como filho de um inglês e daí podem imaginar o grande choque que levei quando fiquei sabendo o que era essa terrível seita com a qual não compartilho nem idéias nem ideais. Sabendo que o governo inglês vivia em contínuo sobressalto por causa de vocês e que o rajá de Sa-rawak, sobrinho de James Brooke, esperava uma oportunidade para vingar-se de seu próprio tio, eu me ofereci para ajudá-lo.
Gostaria que me perdoassem, porque minha vida sempre esteve norteada por essas circunstâncias. Mas eu, homem civilizado, não posso ser o vingador dos thugs da índia.
Sandokan e seus amigos não conseguiam recobrar-se do assombro que os havia dominado ao ouvirem a confissão do anglo-indiano.
- Senhor Iânhez, Senhor Sandokan, agora digam onde querem que eu os leve - concluiu sir Moreland.
- Em Gaia contamos com nossos paraos e nossos homens - respondeu Sandokan. - Ali também contamos com excelentes amigos.
A frota seguiu adiante. O mar estava mais azul-esverdeado do que nunca. Havia acabado tudo para o "Rei do Mar".
No tombadilho da ponte de comando podia-se ver Damna e o filho do terrível chefe dos thugs apaixonadamente de mãos dadas.
Emílio Salgari
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