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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SEDUÇÃO SOLITÁRIA / Day Leclaire
SEDUÇÃO SOLITÁRIA / Day Leclaire

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SEDUÇÃO SOLITÁRIA

 

Era inevitável. Rebecca Huntington sabia que seria uma questão de tempo até que o seu caminho cruzasse com o de Alejandro Montoya. E, no caso, literalmente. Deixando atrás de si o sol brilhante do Texas, ela entrou no Clube dos Milionários daquele listado e caiu direto nos braços dele. Alejandro a segurou. Claro que segurou. Graças aos anos que passara jogando futebol, tinha os reflexos de um gato. Por um instante de loucura, o corpo de Rebecca se deixou levar pela lembrança e se colou ao dele automaticamente. Quantos anos haviam se passado desde que tinham feito amor como se o tempo não existisse, mas apenas aquele momento de infinita satisfação? Ela pensara ter encontrado o amor da sua vida. Mas, pelo contrário, ele lhe tirara a inocência e terminara o relacio­namento com incrível crueldade. Ela levara anos para se recuperar do choque, e agora estava ali, de volta aos seus braços, ainda se sentindo assombrada pelo fantasma de um antigo caso de amor.

— Desculpe.

A voz dele a arrepiou. A passagem dos anos acentuara o seu sotaque latino, dei­xando-o ainda mais agradável do que na época em que haviam se conhecido.

— Se você me largar, eu vou embora.

Em parte, Rebecca queria se encolher e fugir, mas se recusava a lhe dar a satisfa­ção de ver o quanto ele ainda a perturbava. Assim, ela o soltou, mas não saiu do lugar. Por que ainda o segurava pela camisa? O sol que entrava pela porta iluminava o seu rosto, deixando o dela na sombra. Ela ficou grata pelo detalhe, assim que viu o brilho de irritação, quase de desprezo, que havia nos seus olhos. Rebecca jamais entendera por que o relacionamento entre os dois dera errado. Também não conseguia compreender por que o seu corpo todo ainda reagia ao dele como se estivessem destinados a se com­pletar. Embora ela estivesse usando saltos muito altos, ele era bem mais alto que ela. As maçãs do rosto altas e pronunciadas enfatizavam os olhos profundos, o nariz reto e a boca sensual. Ela já se perdera naquela boca experiente na arte de dar extremo prazer. Não deixaria que ele soubesse o quanto a perturbava, porque ele usaria a informação em seu próprio proveito.

— Se você se afastar, eu posso passar — ela disse.

Por um instante, ele não se mexeu. E então, ela viu o brilho fugidio da lembrança no seu rosto, o eco abafado da paixão que tinham vivido. Alex sentira algo por ela. E ainda sentia. Dentro dele ainda havia uma pequena centelha do desejo e da ânsia que tinham partilhado, mas ela logo se apagou dos seus olhos e deu lugar à chama de amargura da discórdia. Era tarde demais. Rebecca sabia. Ele dera um jeito de esconder rapidamente a sua reação, mas ela não se enganara. A centelha se mostrara e correspondia à que queimava dentro dela própria.

Como se percebesse o que acabara de demonstrar sem querer, ele se afastou com um gesto de cortesia. Alex e sua irmã, Alicia, eram extremamente educados. Sua mãe, Carmen, que trabalhara na casa dos Huntington, sempre insistira neste ponto.

Rebecca fez força para se mexer e passou por ele sem olhar para trás. Difícil seria re­cuperar o equilíbrio, sentindo que ele a observava e que o seu olhar intenso parecia lhe queimar as costas. Ela foi direto até o café do Clube dos Milionários do Texas e ficou ali­vi­ada ao ver que sua melhor amiga, Kate Thornton, agora Kate Brody, ainda não chegara pa­ra encontrá-la para o almoço. Isto lhe daria tempo para se acalmar. Richie, o garçom que costumava servi-la e que conhecia as preferências de todos os clientes, trouxe-lhe um chá gelado sem açúcar e um pires com rodelas de limão. Ele a cumprimentou com um sorriso.

— O dia está movimentado — ele disse em voz baixa.

Rebecca se agarrou ao comentário como se fosse um salva-vidas. Qualquer coisa ajudaria a afastar Alex Montoya da sua cabeça... E do seu coração.

— Interessante — ela disse, tomando um gole de chá. — Que tipo de movimento?

— É uma espécie de reunião de novos sócios dissidentes. Acho que estão planejan­do dar um golpe na velha guarda — ele brincou, mas recebeu um olhar de censura do maître e voltou ao seu papel de garçom. — Suponho que alguém virá encontrá-la.

— Kate Brody.

— Ah, sim. Chá sem açúcar no verão, café bem quente no inverno. Acho que o ma­rido dela está participando da reunião.

Rebecca sacudiu a cabeça, admirada e se sentindo mais relaxada.

— Como é que você sabe tudo o que está acontecendo, Richie?

O rapaz se inclinou sobre a mesa e falou em voz baixa: — Vale a pena saber, srta. Huntington. As gorjetas são melhores. E às vezes eu recebo alguns conselhos sobre como subir na vida, como por exemplo, do sr. Montoya. — Os olhos de Richie brilharam com fervorosa admiração. — Ele sempre ajuda os empregados.

— Eu... Eu não sabia.

E não sabia mesmo. Certo, ela estivera fora do circuito enquanto morara em Hous­ton e fazia um curso de gerenciamento comercial. Mas onde estivera desde que voltara a Somerset? Trabalhando como louca para montar e manter no mercado a sua loja de lin­geries, a Sweet Nothings. Durante as suas preciosas horas de folga, ela se encontrava com os amigos. Para ser sincera, precisava admitir que evitara qualquer comentário a respeito dos novos sócios do CMT, principalmente porque sabia que alguns deles, como os, irmãos Brody, Darius Franklin e Justin Dupree discordavam de Alex. Talvez estivesse na hora de se interessar pelo assunto. Ainda mais, agora que Justin iria se tornar cunhado de Alex.

Naquele momento, Kate apareceu na porta do café, procurando por Rebecca. Alta e desengonçada, ela vestia uma das calças elegantes que as duas haviam escolhido du­rante uma sessão de compras em Houston. Em apenas um dia, sua melhor amiga havia passado de matuta a sulista sofisticada, e Rebecca não poderia estar mais encantada, ainda mais porque isto fizera com que o ex-patrão e atual marido de Kate mordesse a lín­gua e pulasse em sua cama. Kate avistou Rebecca, sorriu e se aproximou.

— Então, o que a deixou tão perturbada? — Kate perguntou, abraçando-a.

Seria tão óbvio? Isto não era bom. Rebecca fez uma expressão inocente.

— Não sei do que está falando. Eu estou bem.

Kate fez um gesto de desdém.

— Isto não funciona comigo, você sabe. Há algo de errado e... — Ela parou de falar e olhou em volta da sala. — Certo. Isto explica tudo. Eu imaginava quando os dois iriam se esbarrar. Hoje foi o dia.

Rebecca nem precisava olhar para saber a quem Kate se referia. Alex voltara ao clube, carregando uma pasta. Na ocasião em que se esbarraram, ele deveria estar indo até o carro para buscá-la. Para Rebecca, a presença de Alex provocava uma espécie de zumbido carregado de eletricidade no ar.

— Você ficaria surpresa ao saber que não foi agradável?

— Não — Kate respondeu com aspereza. — O homem é terrivelmente difícil. Se fosse por Lance, Montoya jamais seria convidado a entrar no clube.

— O dinheiro fala alto.

— E ele tem muito, não tem? — Kate sorriu, contrafeita. — Considerando que ele costumava trabalhar aqui como jardineiro, é incrível. Só espero que os boatos não sejam verdadeiros.

Rebecca olhou para a amiga, preocupada.

— Que boatos?

— Você sabe que ele tem ligações com El Gato — Kate esclareceu, hesitante.

— Paulo Rodriguez, claro. Eles são amigos de infância. — Rebecca perdeu o fôlego ao entender a insinuação. — As pessoas acham que Alex ficou rico traficando drogas? Que absurdo! Sem essa. Não Alex...

— Não traficando — Kate retrucou. — Digamos que... investindo em algumas das atividades de El Gato.

Rebecca sacudiu a cabeça com veemência.

— Desculpe. Não acredito. Posso falar muita coisa sobre Alex, e a maior parte seria ruim, mas isto não. Nunca.

Richie chegou, trazendo o café de Kate. Aparentemente, ele escolhera a bebida de acordo com o clima fresco de novembro. De acordo com a expressão satisfeita de Kate, acertara.

— As senhoras estão prontas para fazer o pedido? O especial de hoje é ó dourado com molho de pesto ao limão. Está uma delícia.

— Traga um — Kate decidiu.

— Traga dois — concordou Rebecca.

— É para já — Richie anotou o pedido e soltou um assobio. — Esta é uma imagem que nunca pensei ver. Alex Montoya e Lance Brody apertando as mãos. E o mais estranho é que a terra não parou de girar.

Espantada, Rebecca virou a cabeça e viu que o marido de Kate, Lance Brody, seu irmão Mitch e um de seus amigos, Kevin Novak, haviam se juntado a Alex. Todos se cumprimentavam, embora ela notasse que estavam tensos. Ela viu que Justin Dupree e Darius Franklin chegavam, completando o grupo dos seis novos sócios mais importantes do CMT. Ela não conseguiu conter a curiosidade:

— Certo. O que está acontecendo?

Kate franziu a testa e esperou que Richie se afastasse, antes de explicar:

— É uma reunião sigilosa a respeito dos últimos incêndios. Lance está aqui porque o primeiro incêndio aconteceu na Brody Oil and Gas. Como o seguinte foi em El Diablo, Alex precisava estar presente à reunião.

Rebecca ficou tensa. Claro que ouvira falar dos incêndios. Não estava alienada a este ponto. Sabia que havia suspeitas de que os incêndios tivessem sido provocados.

— Foi confirmado? Têm certeza de que os incêndios foram criminosos?

— Foi o que eu entendi. Por quê?

Rebecca se sentiu culpada. Sabia como os acontecimentos recentes haviam afetado o marido de Kate e sua família.

— Papai insiste que os incêndios foram acidentais. Principalmente o de Montoya.

— Sem ofensa, Becca, mas como o seu pai iria saber? — Kate perguntou. — Que eu saiba, ele não trabalha na empresa de segurança de Darius. A não ser que ele partici­pe da investigação, a sua opinião se baseia apenas em informações de segunda mão e em boatos.

— Tem razão — concordou Rebecca, bebendo um gole de chá.

— Além disso, eles acham que já têm um suspeito.

Admirada, Rebecca soltou o copo na mesa.

— Quem?

— Eu receava que você fosse perguntar — disse Kate, fazendo uma careta. — Lance me disse um nome. — Ela franziu a lesta, tentando lembrar. — Cantry?

Rebecca ficou gelada.

— Pode ter sido Gentry?

— É possível. — Kate franziu a testa. — Por quê? — Ela se inclinou sobre a mesa, ansiosa. — Você o conhece, Becca?

— Não conheço ninguém chamado Cantry — ela tentou escapar.

— Mas você conhece um Gentry. — Não era propriamente uma pergunta. Rebecca assentiu.

— Há alguns anos o meu pai contratou um novo capataz chamado Cornelius Gentry. Mas estou certa de que não deve ser o mesmo homem.

Kate ficou extremamente preocupada.

— Talvez devêssemos ter certeza — ela resolveu, arrastando a cadeira. — Vou perguntar a Lance. Se for o mesmo homem, você e seu pai podem estar correndo algum perigo.

Antes que ela se afastasse, Rebecca a segurou pelo braço.

— Espere. — Todo o seu ser se encolhia só de pensar em enfrentar Alex novamen­te.

Ele e seu pai tinham uma história muito explosiva. Se Gentry fosse o homem que estavam procurando, Alex daria um jeito de envolver seu pai no escândalo, e ela faria de tudo para evitar. Rebecca se inclinou por sobre a mesa e falou em voz baixa:

— Kate, e se eles quiserem me fazer perguntas a respeito de Gentry? O que devo dizer a eles? A única coisa que sei é que há dois anos ele trabalha para o meu pai como capataz. — Além, é claro, de ele me causar arrepios. — Vamos esperar e tentar entender os fatos. Depois podemos decidir o que fazer. Se não for Gentry, seria melhor não inter­rompê-los.

Antes que Kate pudesse responder, Richie chegou com os pratos. Rebecca olhou para a comida, mas perdera o apetite. Rezava para que o culpado não fosse o capataz de seu pai. Talvez o nome de fato fosse Cantry e tudo não passasse de sua imaginação. Mas isto não mudava o que sentia pelo homem. Desde que voltara para casa um ano atrás e o conhecera, tentava controlar a aversão que ele lhe causava, recorrendo à razão e ao bom senso para combater a reação instintiva de asco que sentia ao vê-lo. Naquela manhã ela tivera uma discussão com ele. O homem bloqueara a sua saída quando ela estava indo para o clube, barrando-lhe fisicamente o caminho e recusando-se a se mexer. Pensando bem, a situação fora semelhante ao que acontecera quando ela se encontrara com Alex. Interessante como, com um homem, ela gostaria de se derreter em seus bra­ços; ao passo que, com outro, todo o seu instinto mandava que ela se afastasse o máxi­mo possível. E o homem percebera como Rebecca se sentia. Ela o vira apertar os olhos escuros e cínicos e retorcer a boca num sorriso debochado.

— Patroazinha Becca — ele dissera, olhando-a de cima a baixo, enquanto o seu sor­riso se alargava. — Parece uma pintura.

— Obrigada, Cornelius. — Ela levantara a sobrancelha. — Posso passar, por favor?

Ele ficara parado, com um olhar malicioso, antes de recuar um passo.

— Claro, patroa. Os empregados não devem ficar no seu caminho. Não quero per­der meu emprego, como aconteceu com os Montoya. Mas seria um jeito delicioso de ir embora.

Ela não conseguira controlar a revolta com a ofensa, e isto aumentara o descara­mento do sujeito.

— Tenho certeza de que meu pai vai se interessar em saber a sua opinião. Não vou me esquecer de lhe contar.

— Fique à vontade. Não fará a menor diferença. — Ele se aproximara e ela virará a cabeça, demonstrando uma vulnerabilidade que preferiria esconder. — Estou aqui para ficar, garota. O seu pai não teria coragem de me despedir.

— ...e também existem as discrepâncias nas contas do clube. Isto causou furor entre os rapazes... — dizia Kate.

Assustada, Rebecca voltou ao presente.

— O quê? De que discrepâncias está falando?

— Você não ouviu uma palavra do que eu disse, ouviu? — Kate perguntou, impaci­ente.

— A maioria delas. — Rebecca desculpou-se com um sorriso. — Algumas.

— Darius notou a diferença nas contas do CMT quando fez um lançamento na conta do abrigo Helping Hands. Mitch concordou em realizar uma auditoria junto com ele, Justin e Alex. Parece que encontraram algo. Foi isso que Lance me contou.

— Mas, com certeza, o meu pai... — Rebecca se interrompeu, sentindo que o seu nervosismo aumentava, e pigarreou. — Por que meu pai não percebeu o problema? Ele é tesoureiro do clube há anos.

Kate deu de ombros.

— Talvez o problema seja recente e ele não tenha visto. Talvez seja apenas um erro e o dinheiro tenha sido lançado nas contas erradas. Mitch com certeza vai descobrir.

Rebecca deu uma olhada por sobre o ombro. Os seis homens haviam entrado em uma das salas de reunião e fechavam a porta. Ela desejou ser uma mosca para entrar naque­la sala e descobrir o que estava acontecendo, mas só lhe restava rezar para que seu pai não estivesse envolvido sem querer. Não fazia sentido que ele estivesse ligado aos in­cên­dios, mas quanto às irregularidades na contabilidade do CMT... A história era dife­ren­te. Ela esperava que tudo não passasse de um engano, e que seu pai não se indispu­ses­se com seus amigos. Porém, Alex estava envolvido e o desprezava. Se houvera um erro no balanço, Alex não iria poupá-lo. Faria de tudo para arruinar a reputação de seu pai.

 

Alex olhou para os cinco homens. A maioria deles tornara a sua juventude um verdadeiro inferno. Todos haviam se colocado do outro lado da mesa, formando uma frente unida. A despeito da animosidade que havia entre eles, naquele dia ele planejava sabore­ar lentamente o doce sabor da vingança. Possuía meios não apenas para derrubar um antigo inimigo, mas também de socar metaforicamente o nariz do pior dos "moleques mi­mados" que sempre fora sua nêmeses, Lance Brody.

— Vamos ficar olhando para a cara, um do outro? — ele perguntou. — Ou vamos começar a pedir desculpas?

— Claro. Sinta-se à vontade para se desculpar, Montoya — disse Lance com um sorriso que não correspondia ao olhar ameaçador. — Passei a vida esperando que você se desculpasse por existir.

Alex avançou na direção de Lance, mas Darius se interpôs entre eles, levantando a mão.

— Calma, homem. Isto não vai resolver nada.

— Talvez não, mas vai fazer com que eu me sinta muito melhor. — Alex percebeu que o seu sotaque se acentuava e ficava mais grave, como costumava acontecer quando ele se zangava ou se emocionava. Aquilo servia apenas para sublinhar as diferenças que existiam entre eles. Diferenças de cultura, de origem, de vida. Ele era filho de uma em­pregada, e, apesar de alguns deles terem trabalhado duro para ganhar cada centavo que possuíam, Justin Dupree e os irmãos Brody haviam nascido em berço de ouro. Pelo bem de sua irmã, Alicia, Alex deixaria seu noivo, Dupree, em paz. Durante as últimas sema­nas, os dois homens haviam chegado a um acordo, mas, no que lhe dizia respeito, estava aberta a temporada de caça aos Brody. Alex se virou para Lance.

— Você me acusou de ter incendiado a sua refinaria. Darius tem provas do contrário. Você é homem suficiente para admitir que estava errado? Ou preciso lhe arrancar uma desculpa?

Lance fez uma expressão divertida.

— Pode tentar. Garanto que não vai conseguir.

— Vai ser interessante testar esta teoria.

— Chega! — Kevin Novak os interrompeu com impaciência. — Isto nada irá resolver e, francamente, estou cansado de agirmos como se ainda estivéssemos na escola. — Ele se virou para Alex. — Estávamos enganados a seu respeito, e eu gostaria de me descul­par. — Estendeu a mão para Alex, que não hesitou em apertá-la.

— Agradeço, Novak.

— Ah, pelo amor de... — resmungou Lance.

— Cale a boca, mano — Mitch interrompeu-o. — Um poço seco é um poço seco. No nosso negócio é preciso saber quando entregar os pontos, e esta é uma destas ocasiões.

Um a um, cada homem seguiu o exemplo de Kevin. Relutante, Lance foi o último a se aproximar e estender a mão para Alex. Considerando que ele tinha a constituição de um tanque, não precisou muito para que Alex sentisse a força do seu punho.

— Eu ainda não gosto de você — disse Lance.

— O sentimento é mútuo — respondeu Alex, inclinando a cabeça.

— Mas eu o respeito — disse Lance, retorcendo os lábios num sorriso.

A declaração deixou Alex admirado, e ele levou um segundo para responder:

— Acho que podemos recomeçar a partir daqui e ver aonde isto nos leva.

— É justo.

— Agora que acabamos com as reclamações e as gentilezas, que tal começarmos a trabalhar? — Darius sugeriu secamente.

Todos sentaram em volta da mesa e ele distribuiu cópias de seu relatório.

— Quero que todos entendam que a maior parte disso não passa de especulação. Sólida, mas não o suficiente para irmos à polícia. Por enquanto. A única coisa que posso afirmar categoricamente é que Alex não foi responsável pelo incêndio na Brody Oil and Gas. Tenho testemunhas e recibos de cartão de crédito que o colocam longe do local, na noite do incêndio.

— Então, o que você conseguiu? — Lance quis saber. Alex assumiu o comando:

— Se considerarmos a cronologia dos eventos, fica claro que os incidentes ocorre­ram numa ordem interessante. Pelo que Mitch descobriu ao verificar os livros, a quantia desviada chega quase a 300 mil.

Kevin soltou um assobio.

— Como?

— Do jeito que Darius imaginou. Ele está usando uma empresa com o nome seme­lhante a Helping Hands. Quando entra uma fatura do abrigo, são emitidos dois cheques: um para o abrigo, e o segundo para um tal de Helping Hearts. Todos os cheques foram emitidos através do mesmo banco. — Alex olhou para cada um dos seus interlocutores. — O mais interessante é que há um ano, logo antes de o primeiro cheque ser emitido, o presidente desse banco foi aceito como sócio do Clube dos Milionários do Texas.

— Quem o indicou? — Lance quis saber.

— Sebastian Huntington.

— Ah, Kate não vai gostar nada disso. Ela e Rebecca são mais apegadas que duas irmãs — Lance disse, aborrecido.

— Nós acreditamos que Huntington mandou que o seu capataz, Cornelius Gentry, iniciasse os incêndios — Darius explicou. — Com isso, ele nos colocaria uns contra os outros e ficaríamos ocupados por tempo suficiente para que ele repusesse o dinheiro. Uma vez que ele é tesoureiro do CMT, poderia ajeitar as contas e ninguém iria notar.

— Estaríamos distraídos, brigando uns com os outros — Alex acrescentou.

— Como você ligou Gentry aos incêndios? — Justin perguntou.

Alex olhou para o futuro cunhado.

— Gentry se tornou suspeito da mesma maneira que eu fui inocentado. Ele dirige uma picape igual à minha. E o idiota parou para colocar gasolina a um quilômetro da refi­naria, 15 minutos depois de o incêndio começar.

Darius sacudiu a cabeça com desgostosa ironia.

— O caro Gentry não é a mente mais afiada da dupla. — Ele indicou um dos pontos do seu relatório. — A polícia encontrou impressões idênticas de botas perto dos incêndios da refinaria e do estábulo de Alex. Já que elas são dois números menores que as botas de Alex, esta é mais uma evidência que aponta para outra pessoa. Se pudermos ligar o nosso homem ao seu rastro, e acho que podemos, teremos algo. Se ligarmos Gentry aos incêndios e o pressionarmos, creio que pegaremos Huntington.

Lance soltou uma praga.

— Eu não gosto dele, admito. Ele é um cretino pomposo e arrogante, mas ainda é pai de Rebecca, e eu gosto muito dela. — Ele olhou para Alex com frieza. — Mesmo que nem sempre ela seja razoável ao escolher seus namorados.

Alex controlou a raiva que ameaçava dominá-lo. Não queria pensar em Rebecca. Não ali, na presença daqueles homens. Ele achava que podia se encontrar com Rebecca de novo e lidar com emoções que não deveriam estar mais permeadas pelo sofrimento, mas o seu sangue fervia quando o que acontecera se combinava à animosidade que ha­via entre ele e os homens que estavam na sala. As coisas não tinham se limitado ao tra­tamento que recebera dos Brody durante o período da escola, nem à rivalidade que exis­tia entre ele e Lance no campo de futebol. Quando ele começara a sair com Rebecca, eles haviam demonstrado claramente a sua desaprovação. E quando o caso entre os dois terminara, todos haviam se juntado para transformar a sua vida num inferno.

— Deixe para lá, Lance — pediu Mitch.

Mas ele não deixaria, nem poderia, pensou Alex.

— Diga, Brody — ele provocou. — Não se cale.

A revolta sempre contida explodiu:

— Você a usou. Queria dormir com a filha do patrão da sua mãe e fez de tudo para levá-la para a cama, antes de chutá-la como se fosse lixo. Dizem que foi uma aposta. Foi por isso que você fez? Você e o seu velho amigo, El Gato, apostaram para ver quem seria o primeiro?

— Você não sabe do que está falando. — As palavras escaparam sem querer em espanhol, mas Lance compreendeu. — Huntington encheu a cabeça dela de mentiras. Mentiras em que ela escolheu acreditar.

— Não foi esta a história que nós ouvimos.

Alex tentou se acalmar, usando toda a sua força de vontade e a tenacidade que o haviam feito amealhar o primeiro milhão da sua fortuna. E começou a falar em inglês:

— Nós sabemos o quanto Sebastian Huntington é confiável. Claro, a palavra dele é inquestionável.

Por um momento fez-se um silêncio constrangedor que foi interrompido quando Darius bateu com um maço de papéis na mesa.

— Podemos nos concentrar no assunto em pauta? — Ele esperou que todos lhe des­sem atenção. — A única evidência incontroversa que temos se relaciona aos incên­dios. Falta pouco para termos certeza de que Sebastian Huntington está por trás destes crimes.

— Conversei com alguns outros membros do conselho — Mitch falou. — Calma e discretamente. Todos disseram a mesma coisa: querem que Huntington deixe de ser te­soureiro...

— Você acha...? — Justin se interrompeu.

— E que devolva o dinheiro. Alguns sugeriram que ele deveria se retirar do clube.

— Sugeriram?! — Kevin exclamou indignado. — Não existe a menor dúvida a esse respeito.

— Aparentemente há — Mitch retrucou. — Durante algumas décadas ele foi um sócio dedicado e bem visto. Podemos achá-lo um cafajeste pomposo, mas a velha guarda está do seu lado.

— Isto me soa familiar — Alex murmurou, suspirando. Não sabia por que se surpre­endia. — Vou conversar com Huntington a respeito de devolver o dinheiro.

Os irmãos Brody se entreolharam, constrangidos.

— Eu não acho... — Lance começou a dizer, mas Alex o interrompeu impiedosa­mente.

— Não me interessa o que você acha, ou do que você tem ou não tem certeza. Vou falar com Huntington. Lidem com Gentry do jeito que quiserem. Talvez vocês consigam espremer a verdade dele. Se ele apontar o dedo para o pai de Rebecca, vocês poderão resolver o que irão fazer. De minha parte, não tenho o menor escrúpulo em colocar os dois na cadeia pelo resto da vida.

— Sem se importar com o que irá acontecer com Rebecca? — Lance perguntou.

Alex se inclinou sobre a mesa com um olhar implacável.

— Ele não pensou nem um pouco no que aconteceria com minha mãe e com minha irmã, quando nos colocou para fora do rancho. E tudo porque eu tive a temeridade de me apaixonar pela sua filha. No que me diz respeito, a morte da minha mãe foi o resultado direto das ações daquele homem. Portanto, não. Não me preocupo com os sentimentos de Rebecca, quando eu colocar o cretino do pai dela na cadeia. — Para ele já fora o bastante. — Acabamos aqui? Se acabamos, tenho negócios urgentes à minha espera.

Os negócios o levariam de volta a Rebecca. Alex saiu da sala de reuniões e exami­nou o salão do café. Ela ainda estava sentada ali, remexendo a comida no prato e con­versando com Kate. Usava o cabelo preso, domando o fogo e o brilho num elegante co­que, no alto da cabeça. Teria ideia do efeito que seus cabelos ruivos e sua pele cremosa causavam num homem? O penteado expunha a pele do seu pescoço. Quando haviam se esbarrado mais cedo, ele precisara se controlar seriamente para não passar a mão pela sua garganta, agarrá-la pelo pescoço e levantar o seu rosto de modo a poder saborear sua boca voluptuosa e verificar se o seu gosto ainda era doce, e se os seus olhos verdes se anuviavam de desejo. Por mais que ele a desprezasse, por mais que Rebecca Hun­tington tivesse transformado a sua vida em um inferno, ele ainda a desejava. E, de alguma forma, de algum jeito, ele a teria.

 

Rebecca planejara interrogar o pai durante a refeição daquela noite, mas quando entrou na sala de jantar Louise, a empregada, veio lhe dizer que ele iria jantar com seus amigos. Pareceu-lhe ridículo comer sozinha em tamanho esplendor, mas a mesa já estava posta, e tudo que lhe restava era aproveitar a deliciosa refeição que haviam preparado para ela.

Pouco depois das 9h, Louise apareceu na porta da biblioteca, onde Rebecca se acomodara para ler.

— Há uma visita para o sr. Huntington. Quando eu disse que seu pai havia saído, ele insistiu em falar com você.

Alex passou por Louise e entrou na biblioteca.

— Obrigado. A partir daqui eu continuo sozinho.

Rebecca deu um pulo da poltrona e deixou cair o livro. Espantada, Louise olhou de um para o outro. Claro que ela ouvira falar do antigo romance entre os dois, e não sabia o que fazer.

— Eu recebo o sr. Montoya — disse Rebecca à empregada. Alex esperou até que a mulher saísse e fechasse a porta, e só então se abaixou, pegou o livro, deu uma olhada na capa, e devolveu-o a Rebecca.

— Você sempre gostou de ficção científica.

Ela não se importou com gentilezas e foi direto ao assunto:

— Por que está aqui? Louise disse que você queria conversar com papai.

— É um assunto que se refere ao Clube dos Milionários do Texas. Um assunto muito urgente. Ele de fato não está, ou eu simplesmente sou persona non grata?

— Na verdade, os dois.

Ele engoliu o comentário e sorriu.

— A que horas ele volta?

Rebecca ficou receosa. A visita deveria estar ligada à reunião no CMT e ao comen­tário de Kate sobre a diferença nas contas. Ela tentara obter notícias com a amiga depois do jantar, mas não conseguira, e deixara um recado na secretária eletrônica. Agora, ima­ginava se haveria algum motivo para Kate não ter atendido. Tentando aparentar sereni­dade, ela olhou para Alex e percebeu que ele esperava por uma resposta.

— Meu pai não disse quando volta. Talvez seja melhor você ligar para ele amanhã.

Alex achou graça.

— Caia na real, Rebecca. Você sabe que ele não iria atender. Vou esperar por ele. Espero que você não se importe.

Colocando-se à vontade, ele tirou o paletó e o jogou sobre uma cadeira. A camisa imaculadamente branca encobria um físico tão impressionante quanto o da época em que ele jogava futebol. A gravata de seda vinho estava presa com um alfinete de ouro que fa­zia conjunto com as abotoaduras. Ele era um homem bonito, confiante e rico, no auge de sua vida. E ele sabia disso. A não ser que Rebecca resolvesse, ridícula e inutilmente, jogá-lo porta afora, não lhe restava outra escolha a não ser se portar com educação.

— Do que se trata, Alex? Eu sei que tem a ver com o CMT, mas o que é, especifi­camente?

Ele pensou um pouco antes de responder:

Kate já deve ter lhe contado, então não fará diferença.

Ela não se deu ao trabalho de negar, e ele continuou:

— Diz respeito a diferenças numa conta.

Rebecca engoliu em seco.

— Que tipo de diferença?

— Está faltando dinheiro.

— Quanto? — ela quis saber muito tensa.

— Trezentos mil dólares.

Rebecca sentiu o sangue lhe fugir e suas pernas ficaram bambas. Antes que ela percebesse, ele a segurou pelos braços e empurrou-a para o sofá.

— Sente-se.

Quando ela resistiu, ele ficou impaciente.

— Não seja ridícula, Becca. Você vai cair ou sentar. Melhor sentar, não concorda?

— Você acha que ele roubou, não acha? Você pensa que o meu pai é o responsá­vel.

Alex a fez sentar e sentou-se ao seu lado, ainda segurando-a pelos braços, tocando-a, apertando-a.

— Eu não penso: sei que ele roubou o dinheiro — ele disse, dissolvendo imediata­mente as esperanças de Rebecca. — As provas são irrefutáveis.

— Deve haver algum engano, alguma explicação razoável... — ela tentou alegar, olhando para ele, desesperada. — Por favor, Alex.

— Você sempre faz isso. — Os seus olhos cor de chocolate pareciam queimá-la e deixá-la colada no lugar. — Não importa o que ele faça, por mais desprezíveis que sejam suas ações, você sempre o defende e fica do seu lado.

— Eu não quero discutir o passado. — Ela não aguentaria. Mesmo depois de sete anos, a ferida ainda doía como se tivesse sido aberta no dia anterior. — Ele pode ter despedido Carmen por mais que eu tivesse pedido para que não o fizesse, mas a atitude dele não chegou perto de ser tão desprezível como a sua.

Alex adquiriu uma expressão implacável que ela nunca o vira fazer.

— Você está falando sobre a aposta.

Rebecca tentou fugir do sofá, mas ele a segurou no lugar, recusando-se a lhe dar espaço para respirar.

— Claro que estou falando da aposta que você fez com Rodriguez.

— Eu sempre fiquei intrigado... — Ele inclinou a cabeça e olhou-a com curiosidade. — Como foi, exatamente, que o seu pai soube a respeito dessa aposta?

Ela sentiu um arrepio desagradável.

— As coisas se espalham, Alex. As pessoas... se gabam.

— Ou seja: eu devo ter me gabado por estar orgulhoso de ter vencido a aposta. En­tão, primeiro eu tenho a coragem de seduzi-la e levá-la para a cama; depois, eu me gabo do meu sucesso fácil? — Ele ignorou o fato de que ela se encolheu. — Vejo que é nisto que você acredita. Porque este era o tipo de homem que eu era. Um homem que rouba a inocência de uma mulher e que se gaba por isto. Um homem que mente e que trai para conseguir o que quer.

— Não faça isso, Alejandro.

Mas ele não desistiu.

— E, já que eu era mentiroso, traidor, destruidor de tudo que fosse puro e imacula­do, o seu pai resolveu punir, não apenas a mim, mas também à minha família. Como vingança pela audácia que eu tive de tocá-la, ele deixou a minha irmã na rua e levou minha mãe ao túmulo prematuramente. É este o homem que você defende, dulzura.

Rebecca sentiu vontade de tapar os ouvidos, mas ele continuava a segurá-la, for­çando-a a ouvir suas palavras odiosas.

— Não me chame assim. Você não tem este direito. Não mais. — Fora um erro dizer isto.

— Eu nunca tive o direito, tive? — ele perguntou rispidamente. — Ainda que me re­cebesse na sua cama, você se sentia culpada, diminuída.

— Isto é mentira — ela negou imediatamente. — Eu amava você.

— O filho da empregada.

Como ele poderia pensar daquele jeito? Ela nunca sentira algo assim. Jamais.

— Não importava. Eu não ligava.

— Você quer dizer que não importa agora. Agora, que eu tenho dinheiro, status e um rancho que não se compara a nenhum outro de Maverick County. — Ele soltou uma praga, tirou a gravata que o sufocava e enfiou-a no bolso. — Agora eu tenho o poder de determinar o futuro do seu pai... E o seu também.

Nada fazia sentido para Rebecca.

— O meu pai é conhecido pela sagacidade ao fazer investimentos. Ele tem uma incrível habilidade para fazer negócios. Por que precisaria desviar dinheiro do clube? — ela perguntou. — É claro que houve um erro.

— Tem razão. Houve um erro, e foi ele que cometeu. E mais: ele o fez na minha cara, dando-me o prazer de agir como o xerife que prende o ladrão do banco.

Rebecca umedeceu os lábios e tentou encontrar algo para rebater a acusação, mas viu o brilho do desejo nos olhos de Alex. De repente, o tempo pareceu ter parado e ela sentiu que caminhava numa direção perigosa. Era como se todos os seus sentidos se aguçassem e se concentrassem, reagindo a ele: Alejandro Montoya.

O silêncio se estendeu. Tudo que se ouvia era o ruído da respiração dos dois. Ela inspirou profundamente e sentiu o seu perfume seco e apimentado. Exótico. Ele apertou os seus braços, e ela reviveu a sensação de sentir as suas mãos sobre a pele, no passa­do: fortes quando a agarravam e carregavam para a cama; macias quando a despiam e a acariciavam em lugares do corpo que nenhum outro homem vira ou tocara; gentis quando a apertavam e lhe provocavam sensações com as quais ela jamais sonhara.

O espaço ao redor deles pareceu se dissolver. Tudo que Rebecca conseguia perce­ber era Alex. Ele se tornava o seu mundo.

Ele se aproximou de um jeito que não lhe deixava dúvidas: devagar, como se lhe desse tempo para recuar se quisesse, mas ela não queria recuar. Rebecca queria poder dizer que era apenas curiosidade, mas era muito mais que isto. Precisava saber, de uma vez por todas, se a atração entre os dois era real, ou se era apenas uma sombra do que haviam sentido no passado.

— Dulzura... — ele murmurou.

E então, o calor de Alex a consumiu. Como pudera ela esquecer o que havia entre os dois? Talvez não tivesse esquecido. Viver sem ele e sem o que ele lhe dava fora pe­noso demais para suportar. Para se proteger, ela resolvera esconder as lembranças que agora voltavam, dilacerando-a como se fossem cacos de vidro. Ele a beijou com mais se­gurança que nunca. Se no passado ele a provocava para abrir os lábios, agora ele pare­cia exigir. Rebecca não queria resistir: sabia que não iria, conseguir. Ela abriu a boca e estremeceu ao sentir o gosto da sua língua, o seu hálito adocicado, e afundou nas almo­fadas do sofá. Alex a seguiu, pressionando-a com o corpo, que se tornara mais firme e definido com a passagem dos anos, passando a mão pela sua cintura e puxando-lhe a blusa para cima. Rebecca abriu-lhe a camisa e passou as mãos sobre o seu peito mus­culoso. Ele fez o mesmo com ela. Ela estremeceu ao sentir suas mãos ásperas sobre a pele. Embora fosse um dos homens mais ricos da cidade, no fundo ele ainda era e sem­pre seria um trabalhador do campo. El Diablo não era apenas um brinquedo nas mãos de um homem rico, era um rancho trabalhoso, e, pelos calos que havia em suas mãos e pelo seu corpo musculoso, Alex ainda fazia o trabalho pessoalmente. Ele lhe acariciou os seios.

— Eu nunca pude esquecer a suavidade da sua pele. É como veludo, mas quando eu olho para ela... Juro que é mais clara que o luar. — Ele passou os dedos sobre os seus mamilos e ela gemeu fracamente, sem conseguir se conter.

Ela lhe acariciou o rosto, seguindo os seus traços com o dedo: maçãs altas, uma boca que pedia para ser beijada, cercada pelas rugas do sofrimento; um queixo quadrado, onde aparecia uma discreta covinha que ela tantas vezes acariciara. Rebecca enfiou as mãos nos cabelos de Alex e assumiu o controle da situação, mordiscando-lhe o lábio, provocando-o até que ele gemeu e se colocou sobre ela. Ela o envolveu com as pernas e lhe acariciou a coxa com o pé descalço, admirando as pregas que provocava em sua calça impecável. Queria tirar a última camada de sofisticação do homem de negócios civi­lizado, reduzindo-o ao elemento fundamental que o tornava único, e reencontrar a pura essência masculina do homem por quem se apaixonara. Aquele era um momento fora do tempo, um momento de indulgência. Um momento que acabou bruscamente quando a porta da biblioteca se abriu violentamente.

— O que diabos está acontecendo?! — perguntou Sebastian Huntington.

A chegada do pai arrancou Rebecca do seu devaneio sensual, como se despertasse de um transe hipnótico. De nada adiantaria empurrar Alex para longe: ele seria pesado e forte demais, principalmente se não tivesse a intenção de se afastar, como suspeitava ela. Além disso, o estrago estava feito. Alex olhou para o pai dela e deu um sorriso feroz.

— Você está invadindo a nossa privacidade. Da próxima vez, pense em bater antes de entrar.

Sebastian ficou perplexo.

— Eu estou na minha casa — ele protestou. — Não preciso bater antes de entrar em algum lugar da minha própria casa.

— Se quiser evitar cenas como esta, precisa. — Alex se levantou e passou a mão nos cabelos, que ela tivera imenso prazer de despentear. Depois, estendeu a mão para Rebecca e ajudou-a a se levantar das almofadas, abotoou a camisa e enfiou-a na calça. Não se deu ao trabalho de colocar a gravata, deixando-a pendurada. — Vejo que não perdeu a arrogância, Huntington. Vamos ver quanto isto vai durar.

— Alex... — Rebecca tentou interceder, mas ele sacudiu a cabeça.

— Isto não envolve você, Becca.

— Mas...

Bastou que ele olhasse para ela, e Rebecca se calou. Infelizmente, ele tinha razão. Não era da sua conta, a não ser pelo fato de seu pai estar envolvido. Ela não tinha acesso a nenhuma informação sobre o dinheiro desaparecido, ou sobre os erros que poderiam ter ocorrido e que haviam levado Alex a acreditar que seu pai tivesse cometido um crime, mas ficaria ao lado de seu pai, enquanto ele explicasse o engano.

— O que faz aqui? — Sebastian perguntou, olhando para Rebecca com ar de repro­vação. — Além de atacar a minha filha...

— Foi isto que lhe pareceu? — Alex sorriu. — Bem, se isso o faz dormir sossega­do...

Sebastian ficou sem cor.

— Repito: o que está fazendo aqui?

— Pediram-me que eu viesse. O conselho do CMT pediu.

Para horror de Rebecca, ela viu o pai empalidecer ainda mais, e o seu queixo tremeu.

— Não acredito em você — ele disse.

— Foram descobertas algumas diferenças nas contas do clube. Alguns cheques foram emitidos em favor de pelo menos uma empresa fantasma. — Alex retorceu a boca com desprezo. — Cheques que você endossou.

Sebastian cerrou os punhos.

— Os únicos cheques que emiti se referiam a faturamentos legítimos.

Alex cruzou os braços.

— Como os destinados ao Helping Hearts?

Rebecca franziu a testa.

— Você não quis dizer Helping Hands? — ela perguntou. — É o abrigo onde Sum­mer trabalha, mantido por senhoras do clube. Ele não faz parte de um programa mais amplo de assistência do CMT?

— Helping Hands é a obra que nós ajudamos. Não sei lhe dizer o que é Helping Hearts — Embora falasse com Rebecca, Alex não tirava os olhos de Sebastian. — Mas, já que o seu pai emitiu vários cheques generosos em seu favor, espero que ele possa me dizer. Ainda mais considerando que todos eles foram descontados no mesmo banco por ninguém menos que o presidente dessa boa e sólida instituição, que, por coincidência, tornou-se sócio do CMT pouco antes de o primeiro cheque ser pago. — Ele fez uma pausa, esperando o efeito da informação. — Então, explique para a sua filha, Sebastian. O que exatamente é o Helping Hearts?

Rebecca ficou chocada ao perceber que o suor escorria pela testa de seu pai.

— Preciso verificar os registros, examinar as faturas, se é que elas existem.

— Isto é fácil. Eu tenho cópia dos cheques, todos aprovados e assinados pelo seu amigo banqueiro, Rhymes. Mas as faturas desapareceram de modo bastante convenien­te.

Sebastian ergueu o queixo.

— Então, não vejo como poderia ajudá-los.

— Todas as faturas referentes ao Helping Hearts sumiram. — Alex falou calma­mente. — Você não diria que isto é muita coincidência?

— Acontece. Na certa foram arquivadas no lugar errado.

— Ou foram destruídas, se é que um dia existiram.

Sebastian deu de ombros.

— Se isto é tudo...

— Nem de perto. Uma auditoria será feita, Huntington. E, quando for, você também será investigado. Quanto acha que eles irão descobrir que está faltando? Pelo pouco que conseguimos levantar, a quantia está em torno de 300 mil dólares.

— Pai!

Sebastian se encolheu.

— Vocês não tem o direito...

Alex se aproximou e falou em tom seco e baixo:

— Temos todo direito, seu miserável. Você fica sentado confortavelmente na sua casa, como se fosse superior a todos.

— Posso traçar minha linhagem até...

— E o que importa? Você acha que isto faz diferença para o conselho? Deixe isto para os seus companheiros de cela. Talvez eles se interessem pelos seus ancestrais e pelo que eles fizeram. Pessoalmente, quando olho para você, não vejo nenhum pedigree, só vejo um ladrão.

Sebastian puxou a gravata como se estivesse sufocando.

— Você não tem provas!

— Quanto tempo você acha que vou levar para consegui-las? Acha que Rhymes irá acobertá-lo quando conseguirmos ligá-lo aos cheques e acusá-lo de fraude? Para onde você imagina que ele vai apontar o dedo, se lhe oferecermos um acordo?

A respiração de Sebastian se tornou ofegante, e ele enxugou o suor da testa com mão trêmula, mas Alex ainda não terminara.

— Assim como Gentry irá acusá-lo de ser o mandante, quando o apanharmos por incendiar a Brody Oil and Gas e o meu estábulo.

— O quê?!

Sebastian cambaleou, e Rebecca correu para ampará-lo, levando-o até uma cadeira. Ela atravessou a sala, serviu uma generosa dose de uísque e voltou, colocando o copo na mão do pai.

— Calma, pai. Beba isto.

— Eu juro, Rebecca... — ele disse em voz baixa. — Não tenho nada a ver com os incêndios. Não sei do que Montoya está falando.

Ela acreditou.

— Por que meu pai mandaria o capataz provocar aqueles incêndios? — ela pergun­tou a Alex. — Que motivo ele teria?

— Nós também imaginamos a mesma coisa — ele admitiu. — Mas, considerando a maneira como todos se espalharam como um bando de formigas enlouquecidas quando o formigueiro é pisado, o motivo se tornou muito claro. O seu pai precisava manter a mim, aos Brody e a outros membros importantes do CMT ocupados demais para verificar a contabilidade. Nós estaríamos brigando, enquanto ele encobria seus rastros.

— Você é louco — Sebastian sussurrou, arregalando os olhos. — Meu Deus! Você acha que eu não percebo o que está acontecendo? Você está por trás dos incêndios... Presumindo-se que tenham sido criminosos.

Alex deu uma risada divertida.

— Por que eu queimaria o meu próprio estábulo?

— Para me implicar — disse Sebastian, recuperando alguma segurança. — Se acha que alguém vai acreditar que eu seja capaz de fazer isso, você é um tolo, Montoya. Todos irão ver as coisas como são: uma tentativa torpe de vingança por eu ter despedido a sua mãe há muitos anos. Eu não tenho nada a ver com os incêndios. Nada.

Rebecca não pôde deixar de notar que seu pai não negara ter desviado o dinheiro do CMT, e ficou apavorada.

— E o dinheiro? — ela perguntou, hesitante.

Sebastian engoliu o uísque, fechou os olhos e sacudiu a cabeça. Por alguns segun­dos, Rebecca ficou paralisada, sem poder acreditar, mas de repente a verdade caiu sobre ela. Não, por favor, não. Como o seu pai pudera fazer tal coisa? Por quê? Consciente de que Alex olhava para ela, Rebecca se voltou para encará-lo.

— Se, e eu enfatizo a palavra se, o meu pai contribuiu para algum engano na conta­bilidade...

— Que maneira gentil de colocar — disse Alex em tom duro. — A palavra é desfal­que, Becca. Ele roubou o dinheiro.

Ela apertou os lábios para esconder o pânico.

— Se ele roubou o dinheiro, você lhe daria uma oportunidade para devolvê-lo?

— Eu não tenho — disse Sebastian, receoso. — Eu investi, e o investimento não deu resultados.

Rebecca tentou se controlar, mas não conseguiu evitar um gemido de desgosto.

— Por quê? Por que você faria algo assim?

— Porque ele é arrogante — Alex respondeu antes que Sebastian tivesse tempo de dizer algo. — Porque ele acha que tem este direito.

— Porque eu estou à beira da falência e achei que o investimento resolveria tudo. Rodriguez jurou que sim.

Rebecca sentiu literalmente o ambiente mudar, tornando-se pesado e frio.

— Rodriguez?

— Paulo? — Alex ecoou.

— Paulo. El Gato. O seu velho amigo do gueto. Não percebi que ele estava por trás dos investimentos até ser tarde demais para desistir. As duas primeiras tentativas deram certo. Nós dois ganhamos uma quantia modesta. Depois, tudo virou um inferno. Percebi que estava mais comprometido do que planejava.

— Como? — Alex perguntou.

— Ele propôs que eu reinvestisse uma pequena parte do que ganhara, e eu tola­mente aceitei. Quando tudo deu errado, eu precisava pagar o prejuízo rapidamente. Foi aí que descobri a identidade do meu novo sócio. — Ele deu um olhar dolorido para Alex. — Não preciso lhe dizer que Rodriguez joga para ganhar.

— E então, você roubou o dinheiro do CMT.

— Sim. O plano era devolvê-lo assim que eu recebesse o lucro do último investi­mento.

— Mas o resultado não foi o que você esperava. O investimento deu errado.

— Vejo que você sabe como funciona. Eu deveria ter percebido antes e me retirado. Mas, em vez disso, peguei emprestado...

— Roubou — Alex corrigiu.

Sebastian levantou a cabeça e olhou em volta da sala.

— Você quer o seu pedaço de carniça, não quer, garoto?

Alex deu um passo na direção de Sebastian, e este se encolheu na cadeira.

— Primeiro, Huntington: eu não sou mais um menino. Não, desde o dia em que você destruiu a minha família.

— Você a destruiu sozinho! — Sebastian retrucou. — Se tivesse mantido as mãos longe da minha filha, nada disso teria acontecido!

Alex ignorou a interrupção e continuou:

— Segundo: você tem razão. Pretendo ter o meu pedaço de carne. Cada grama. Fico satisfeito por você facilitar tudo para mim.

Sebastian se levantou, tremendo.

— Certo. Eu roubei. Isto o deixa feliz? Roubei dinheiro do CMT e entreguei a Rodri­guez. Ele jurou que este último pagamento vai encerrar o assunto entre nós dois. — Se­bastian deu uma risada amarga. — Ele estava certo. Encerrou. Eu não tenho mais dinhei­ro para lhe dar, e ainda lhe devo uma fortuna. Não tenho dúvidas de que logo vou saber que o resultado do nosso investimento foi trágico.

— Pode ter certeza — disse Alex, cruzando os braços. — Se você está à beira da falência, como pretende repor o dinheiro? — Ele olhou em volta. — Acho que pode ven­der a casa e as terras que pertencem à sua família há várias gerações. Pode se mudar para um lugar mais modesto.

Fez-se um silêncio terrível, que Rebecca interrompeu:

— Eu vou vender a Sweet Nothings — ela disse. — O lugar pertence a mim, como o negócio. Vai render mais que o suficiente para cobrir a dívida que o meu pai tem com o clube, e, possivelmente, também a que ele tem com El Gato.

— Não — Sebastian e Alex falaram ao mesmo tempo.

Se as circunstâncias fossem diferentes, ela teria sorrido ao ver os dois concordarem, mas a situação nada tinha de divertida.

— Nenhum de vocês tem algo a ver com isso.

— É aí que você está enganada — Alex corrigiu. — A dívida é do seu pai, e é ele quem vai pagar, não você.

— Você não pode me impedir, Alex. Se eu resolver vender a Sweet Nothings, o pro­blema é meu.

— E quando o motivo pelo qual você vendeu a loja se espalhar? — ele retrucou. — Sorherset é uma cidade pequena. Você acha realmente que o seu pai vai poder erguer a cabeça quando todos souberem que ele é um ladrão? Que ele deixou que a filha o livras­se da cadeia? Não vai demorar muito para que ele venda tudo porque não vai poder aguentar o falatório e os olhares de reprovação, a simples humilhação de tudo isso. Quem vai receber os Huntington em sua casa de boa vontade? Ninguém. Vocês serão margina­lizados.

— Você tem uma sugestão melhor? — Rebecca quis saber.

— Ele vende a propriedade para mim. O dinheiro será reposto sem escândalo. Eu cuido de Rodriguez. E então, o seu pai sai de Maverick County e eu providencio para que ele possa viver confortavelmente pelo resto da vida, sob a condição de que ele se com­porte e que não se meta mais em negócios arriscados. A partir deste momento, Hunting­ton Manor se tornará propriedade dos Montoya.

 

— Fora! — Sebastian gritou. — Saia da minha casa, seu abutre. Vou dar um jeito nessa confusão. Esta terra jamais levará o seu nome. Nunca, ouviu?

Alex apenas sorriu.

— Você tem três dias para devolver o dinheiro ao CMT, antes que o conselho chame a polícia. Eles também o exoneraram do cargo de tesoureiro e o entregaram a Mitch Brody. Considere-se suspenso como sócio. — Ele pegou o paletó de sobre a cadeira e o vestiu. — Posso sair sozinho.

Rebecca olhou angustiada para o pai e saiu atrás de Alex, encontrando-o no sa­guão.

— Espere.

Ele parou diante da porta e se voltou para encará-la.

— Seria melhor que você ficasse fora disso, Rebecca.

Frio, formal, mas ela não poderia deixá-lo simplesmente sair sem tentar impedir que as coisas tomassem o rumo da destruição. Não importava que tivesse de engolir seu or­gulho, desde que encontrasse uma maneira razoável e discreta de solucionar o problema de seu pai.

— Por favor, Alex. Deve haver outro jeito de resolver as coisas.

— Jamais conheci uma mulher que tivesse um décimo da lealdade que você tem para com seu pai — ele disse, admirado. — Não importa o que ele lhe faça, ou às pesso­as que dependem dele para viver, ou a gente que ele simplesmente conhece. Você ainda o defende.

Ela negou, sacudindo a cabeça.

— Eu não o estou defendendo. Se ele roubou o dinheiro...

— Se? — ele repetiu calmamente.

Ela balançava entre o riso histérico e as lágrimas.

— Eu sei que ele roubou. — A ferida era tão recente e profunda que ela mal sentia doer, mas sabia que isto logo mudaria. — Acho que ainda não digeri a verdade.

— Sugiro que você comece. A partir de amanhã, a sua vida vai mudar radicalmente.

— A minha vida? — Ela olhou para ele sem entender. — Foi o meu pai...

— Você viveu a vida inteira em Somerset e ainda não sabe como as coisas funcio­nam? — ele perguntou, perplexo. — Quantos dos nossos supostos amigos ficarão ao seu lado quando descobrirem que o seu pai é um ladrão?

Ela levou algum tempo para compreender o que ele sugeria.

— Mas eles são meus amigos. Por que iriam...

Alex deu uma risada curta e áspera.

— Cresça, Becca. O seu pai está à beira da falência. Ele ganha... ganhava a vida investindo dinheiro dos outros. Depois disto, quem iria investir dinheiro com ele? Você acha que eles não vão se perguntar se no passado ele não os enganou em algum investi­mento? Que não irão fazer acusações, mesmo que seja apenas entre eles?

Uma negativa subiu aos lábios de Rebecca, mas ela não teve coragem de falar. Até aquela data, podia jurar que seu pai era honesto, que ele se orgulhava do seu nome e da sua reputação, que a honra da família vinha em primeiro lugar. Porém, ela não conhecia o homem sentado na biblioteca, um homem que acabara de confessar um crime que seu pai sempre lhe ensinara ser quase tão vergonhoso quanto um homicídio.

— Vejo que você começa a perceber — disse Alex. — É hora de encarar os fatos, Rebecca. A vida que você conhecia acabou. Quem vai querer se relacionar com você ou seu pai? Talvez a desonestidade seja um traço genético. Talvez você soubesse de tudo. Alguns ficarão encantados pelos majestosos Huntington finalmente receberem... — Ele inclinou a cabeça, pensativo. — Como é que se diz? Ah, sim... o que merecem.

— É assim que você nos vê, Alex? — Ela se aproximou. — É assim que você me vê? Como a filha de um ladrão?

— É o que você é — ele disse as palavras brutais que a teriam ferido além do su­portável se ela não tivesse visto a verdade no seu rosto. Ele não acreditava no que dizia. Nem um pouco. O arrependimento já brilhava nos seus olhos. — Becca...

— Diga o que podemos fazer. Diga o que você quer.

O arrependimento sumiu na mesma hora, como se jamais tivesse existido.

— E você vai me dar?

— Sim. Peça e será seu.

— Só para se livrar de tudo isso?

— Não para me livrar. — Ela ergueu o queixo. — O meu pai tem uma dívida, e o di­nheiro será devolvido, nem que leve o resto das nossas vidas. Se puder ser discreta­mente, ótimo. Se não puder, que seja. — Ela chegou mais perto. — Mas se há algo em que eu jamais vou acreditar é que ele é o responsável pelos incêndios.

— Ontem você não acreditaria se alguém dissesse que o seu pai era um ladrão.

— Ajude-me, Alex. — Ela custava a crer que estivesse pedindo, mas não tinha outra escolha.

Uma vez que Alex tomasse uma decisão, jamais se deixaria dissuadir. Se ela o con­vencesse a procurar o verdadeiro responsável pelos incêndios, provaria a inocência de seu pai.

— Só estou pedindo que me ajude a descobrir a verdade, que me ajude a achar o verdadeiro responsável pelos incêndios na refinaria e no seu rancho.

— Em troca, você me dará o que eu quiser?

— Sim.

Alex enfiou o dedo na gola da blusa de Rebecca e puxou-a para perto.

— E se o que eu quiser for você, dulzura? Até onde você iria, o quanto você me daria, se este fosse o meu preço para ajudá-la?

Rebecca não hesitou:

— Eu só quero o mesmo que você: a verdade. Irei tão longe quanto você quiser e darei tudo que for preciso para descobrir a verdade.

— Eu esperava que você dissesse isso. — Ele a puxou pelo pescoço e lhe deu um beijo que ameaçava acabar com o que restava da sanidade de Rebecca.

Ele não apenas se apossou de sua boca, mas consumiu-a, atando-lhe fogo e levan­do-a ao inferno. De repente, ele a soltou e recuou um passo, deixando-a com a sensação de frio.

— Você é uma tentação, dulzura. — Ele a fitou com um olhar impenetrável. — Infe­lizmente para você, eu não sou um homem fácil de comprar.

Com isto, ele foi embora, deixando-a parada no saguão, sentindo-se devastada.

 

Rebecca levou o dia tentando coordenar seus pensamentos, proteger seu coração e atingir um ponto em que a determinação ultrapassasse o seu desespero, antes de en­frentar Alex outra vez. Gostaria de encontrá-lo no seu território, ou, pelo menos, em campo neutro, mas ele tornara isto impossível. Não aparecera no CMT, nem no trabalho, onde ela poderia pegá-lo desprevenido. Ela se viu forçada a dirigir até o rancho de Alex, El Diablo. Ao atingir a entrada da estrada de cascalho, ela parou, desceu do carro e olhou ao redor. O lugar era impressionante, estendendo-se por mais de 100 acres de terra. A casa do rancho ocupava o canto sudeste da propriedade e, de onde ela estava, podia ver vários padoques e um enorme estábulo sendo construído. O ruído da obra chegava até ela: serras, martelos e gritos ocasionais. A mansão, que dificilmente poderia ser chamada de casa, se elevava, branca, contra o céu azul. A parte central possuía dois andares com pórticos e varandas, enquanto os lados se estendiam em forma de asas, num abraço ao estilo texano. Rebecca suspirou, desanimada. Ver El Diablo em toda a sua glória provava de uma vez por todas que ele não era mais o seu Alex. Ela sabia. E fazia muito tempo. Mas até aquele momento não admitira vê-lo como o homem que se tornara, em compara­ção com a versão jovem e menos poderosa do rapaz por quem ela se apaixonara. Alejan­dro Montoya não era mais o adolescente do bairro pobre. Era um homem no auge da sua força e capacidade. Também era muito rico, bem-sucedido, influente, e estava determina­do a destruir seu pai.

Rebecca firmou os lábios e levantou o queixo desafiadoramente. Prevenida, prepa­rada. Daria um jeito de resolver aquela situação a contento dos dois. Ela voltou ao carro e pegou a estrada, parando perto do estábulo, onde esperava encontrá-lo.

Ele estava junto à entrada principal, examinando o projeto espalhado sobre uma mesa montada sobre cavaletes. As folhas eram mantidas no lugar por um martelo, um pé de cabra e uma lata de pregos.

— Precisamos acabar a parte elétrica e dos encanamentos hoje — dizia Alex. — Certifique-se de que coloquem bebedouros aqui, aqui e aqui. O inspetor de obras virá amanhã, e eu não vou gostar nada se houver algum adiamento. O inverno está próximo, e eu quero tudo pronto antes do Natal.

— Sim, sr. Montoya. Isto não vai ser problema.

— Obrigado, Hank. — Ele levantou a cabeça e não pareceu surpreso ao vê-la. — Estou honrado.

Rebecca corou.

— Por quê?

— Pela primeira vez, desde que tomei posse de El Diablo, um Huntington me faz uma visita.

— E não há nem uma banda tocando e empregados fazendo reverência... — ela brincou.

Ele deu um sorriso, antes de retomar o controle bruscamente:

— Não vou perguntar por que você veio até aqui. Só lhe digo que você está perden­do o seu tempo e o meu. Você pode ter muito tempo para desperdiçar, eu não.

— Mas você vai me ouvir de qualquer jeito.

Ele levantou a sobrancelha ao ouvir a resposta confiante, balançou a cabeça e dis­pensou Hank. O homem se afastou.

— Fale — ele disse. Rebecca nunca o vira mais distante e frio. Uma parede de con­creto seria mais acolhedora.

— Não que vá adiantar. Eu coloquei o seu pai exatamente onde queria, e nada do que você possa dizer ou fazer fará diferença. Portanto, vá em frente, srta. Huntington. Dê a sua melhor tacada.

Rebecca tentou esconder a sua decepção.

— Aqui?

— Eu sou um homem ocupado. E isto já me tomou mais tempo do que eu esperava. — Ele tirou as luvas de couro e jogou-as sobre a mesa. Colocou as mãos no tampo de madeira e se inclinou na direção de Rebecca, parecendo o protótipo do homem que ame­açava perturbar os seus sentidos. — Então, é agora ou nunca.

— Certo, tudo bem. — Ela inspirou profundamente. — Eu vim lhe pedir... implorar... que me ajude a encontrar a pessoa que provocou os incêndios, e quem está por trás de­les. Eu sei que você acha que foi meu pai, mas eu lhe digo que não foi. Ele é culpado de... — Ela se forçou a dizer a palavra, por mais amarga que fosse. — Ele é culpado do roubo, mas não dos incêndios.

Alex sacudiu a cabeça.

— Não cabe a mim encontrar quem começou os incêndios.

Rebecca desfiou seus argumentos.

— Quando você resolve fazer alguma coisa, você faz. Você faz com que as coisas aconteçam. Por favor, faça com que isto aconteça.

— Não há nada que você possa dizer, nada que possa me oferecer, que me tente o bastante para ajudá-la ou ao seu pai neste caso. Fique fora disso, antes que ele a derrube também.

Ela percebeu que ele estava firmemente decidido. Estava na hora de tentar outro tipo de aproximação.

— Também precisamos conversar a respeito da devolução do dinheiro ao CMT.

Alex se mostrou inabalável.

— Isto é entre seu pai e o clube.

Alex podia ter vencido aquele round, mas não venceria o próximo. Quando se trata­va de teimosia, os dois eram parecidos.

— Se nós tivéssemos um pouco de tempo, eu poderia pagar aos poucos...

— Esqueça, Becca — ele interrompeu rudemente. — Você acha que o Clube dos Milionários do Texas vai esperar anos para receber o dinheiro que o seu pai roubou? Eles mal estão dispostos a esperar alguns dias. Se fosse por Brody, enquanto conversamos o seu pai já estaria esfriando os joelhos numa cela.

Se ele a tivesse esbofeteado, Rebecca não teria ficado tão chocada.

— Brody? Lance Brody? O Lance de Kate?

Alex não a poupou.

— Exatamente. Assim que soube dos detalhes, o marido da sua melhor amiga exigiu que o conselho mandasse prender o seu pai. Mas o conselho resolveu lhe dar uma chance de repor o dinheiro. A minha proposta de comprar Huntington Manor foi a chance que ele teve de fazê-lo.

— Eu apreciaria mais se não soubesse que o seu motivo é se apossar da nossa casa — ela respondeu, magoada.

Ele soltou uma palavra que a fez corar.

— Por que diabo eu iria querer Huntington Manor, quando tenho El Diablo? A sua casa é um poço sem fundo. Quem teria dinheiro para comprá-la, e ainda mais para mantê-la?

— Você quer se vingar. Você quer fazer com que meu pai vá embora de Maverick County.

Alex não negou.

— Eu preferia fazer isso sem ter um abutre rondando o meu pescoço. Olhe à sua volta, Becca. El Diablo é um rancho produtivo. O meu negócio de importação/exportação não sustenta este lugar. Pelo contrário. Eu trabalho duro para manter o rancho, mas ga­ranto que ele não dá lucro, e isso há muito tempo.

— Eu não entendo. Então, por quê...?

— Por que eu me ofereceria para comprar Huntington Manor para que seu pai pague a dívida? É simples. Eu o quero a distância. Ele ainda não percebeu, mas não tem op­ções. Ou ele vende para mim, ou vende para Rodriguez. Mas ele terá de vender, e logo.

— Rodriguez... — Ela se lembrou de algo que o pai dissera na noite anterior. — Pa­pai disse que também deve dinheiro a ele.

— Tenho certeza de que é mais do que você e seu pai poderão pagar.

— Mas, se você nos emprestasse o dinheiro, usando a Sweet Nothings como garan­tia, seria suficiente, não seria?

Alex deu de ombros.

— Este problema não é meu, Rebecca. Não me meta nisto.

— Você veio nos procurar como representante do clube — ela retrucou. — Foi você que se meteu.

— Não está em minhas mãos. Mitch Brody é o contador do clube. Fale com ele.

— Já falei. Ele quer o dinheiro, e nós não temos. Mas eu tenho isto. — Ela abriu a bolsa, tirou a escritura da Sweet Nothings e jogou-a sobre a mesa. — Como eu lhe disse ontem à noite, sou proprietária do imóvel e da loja. Os dois juntos valem mais do que a quantia que o meu pai deve ao CMT.

Alex não se mexeu para pegar a escritura.

— Nós já discutimos este assunto.

— Estamos discutindo novamente — ela disse, indiferente. — Uma vez que Rhymes está envolvido na confusão do meu pai, não posso pedir um empréstimo ao banco ofere­cendo o imóvel como garantia. Então, estou pedindo a você. Você faria um contrato usando a Sweet Nothings como garantia?

— Não. Peça aos Brody. Eles são seus amigos, eu não sou.

— É por isso que não posso pedir a eles — Rebecca argumentou. — Eles são meus amigos, e eu me recuso a deixá-los numa situação constrangedora. Mas, se você me em­prestasse o dinheiro, todos saberiam que o empréstimo é legítimo porque você despreza o meu pai.

Alex deu uma risada.

— Jamais entendi a sua lógica, e duvido que um dia eu vá entender. — Ele pensou por algum tempo. — Certo. Digamos que eu concorde: como as pessoas de Maverick County irão saber que é legítimo? Nós dois nos envolvemos numa história romântica.

— Uma história que não acabou bem — ela sublinhou. — Você não tem motivo al­gum para nos ajudar, e menos ainda para concordar.

— Exatamente — ele deixou a palavra no ar até ouvi-la suspirar.

— Eu tenho dois objetivos, Alex. O primeiro é ajudar o meu pai a pagar o dinheiro que ele deve. Garanto que alguém irá me emprestar o dinheiro. O segundo é provar que ele é inocente no caso dos incêndios, e encontrar o verdadeiro culpado.

— Isto não seria inteligente, Becca. Na verdade, seria extremamente perigoso.

— É mesmo? Só existe uma maneira de você me impedir. — Ela indicou a escritura. — Aceitando a minha oferta e indo comigo até Darius, para que ele explique por que acha que o meu pai participou desses incêndios. Ajudando a descobrir a identidade do culpado. Do contrário, vou levar a minha oferta para outra pessoa.

Alex sorriu, cheio de cinismo.

— Pensei que você não iria procurar seus amigos,

— Não vou. Mas, já que El Gato está interessado neste assunto, talvez ele queira me ajudar.

— Nunca! — exclamou Alex.

Rebecca percebeu que ele reagira sem pensar, porque jamais iria lhe dar voluntari­amente aquela vantagem na batalha. Ela sorriu gentilmente e esperou. Não demorou muito. Ele tirou o chapéu e jogou no chão, e soltou uma praga. Ela suspeitou que ficaria extremamente chocada se ele tivesse xingado em inglês.

— Devo encarar isto como uma aceitação? — ela ousou perguntar.

— Deixe que eu seja claro, Rebecca. Você não vai pedir nada a Paulo Rodriguez, muito menos um empréstimo.

Interessante... Ela inclinou a cabeça para o lado.

— Não compreendo. Pensei que ele fosse seu amigo.

— E era. É. Nós crescemos juntos e sempre fomos muito ligados. Até agora eu diria que ainda éramos. Mas, já que ele ajudou a colocar o seu pai nesta situação, acho que seria melhor você ficar longe.

Rebecca não discordava, mas usara o nome de propósito, para provocá-lo. Agora, ele despertara a sua curiosidade.

— Por que não devo me aproximar de El Gato?

Alex contraiu a boca, num sinal de advertência.

— Porque não sei o que ele pretende do seu pai. Até que eu saiba, é mais seguro que você não se meta entre os dois. Tenho certeza de é melhor você não dar a Rodriguez nenhum trunfo sobre você. — Ele a fitou com um olhar que parecia acariciá-la.

Para desgosto de Rebecca, ela se sentiu invadir por uma sensação de calor e de desejo, e precisou se esforçar para que ele não percebesse.

— Assim como também não deveria me dar esta espécie de poder.

— Só por curiosidade: você o usaria para me magoar? — Ela não conseguiu evitar a pergunta, assim como o seu interesse pela resposta.

— É melhor eu não descobrir. — Ele se abaixou e pegou o chapéu com um ar deci­dido. — Vou levá-la até Darius. Talvez ele possa lhe dar um pouco de sensatez. No míni­mo, ele poderá lhe dar uma ideia de por que acha que o seu pai está por trás dos incên­dios criminosos.

— Não se trata de uma vingança sua contra o meu pai, não é? — ela indagou, de­sanimada. — Você realmente acha que ele é culpado?

— Nem por um momento eu duvidei que ele fosse culpado — Alex respondeu sem hesitar.

Depois de dar instruções a Hank e de telefonar para Darius, perguntando se ele es­taria no clube, Alex indicou o carro de Rebecca e perguntou:

— Vamos juntos, ou separados?

— Juntos — Rebecca decidiu.

Desta forma ela teria tempo de discutir a situação, ou melhor, de argumentar. Além do mais, para ser honesta, precisava admitir que seria muito mais fácil suportar os olhares e eventuais comentários dos outros sócios se os dois chegassem juntos. A conclusão de­sagradável provocou outra, ainda mais desconfortável.

— Quando o meu pai pedir demissão do clube, o conselho vai querer que eu saia também, não vai?

Alex hesitou, antes de responder:

— Não vejo por quê.

— Você sabe por quê — ela sussurrou, evitando olhar para ele.

— Vamos nos preocupar com isto quando chegar a hora.

Vamos. Aquela palavra deu esperança a Rebecca. Alex não era totalmente indife­rente a ela ou ao que lhe acontecia. Talvez ela pudesse convencê-lo a ajudá-la a desco­brir a verdade. Se as provas levassem a seu pai, que fosse. Mas Rebecca tinha certeza, com todas as fibras do seu ser, de que, embora seu pai fosse culpado de desfalque, ele nada tinha a ver com os incêndios, e o fato de que o seu destino estava nas mãos de ho­mens que tanto podiam colocá-lo imediatamente na cadeia como procurar a verdade não podia ser desprezado. De alguma maneira, ela encontraria um meio de convencê-los a esquecer sua animosidade e a procurar o verdadeiro responsável.

Ao se aproximarem da entrada do clube, Rebecca foi ficando mais nervosa.

— O que Darius vai me dizer? — ela quis saber, com tanta calma quanto lhe foi pos­sível.

— Que o seu pai é culpado.

— Falo sério, Alex. Darius conseguiu alguma prova incontestável?

— Ele não vai lhe dizer, Becca.

— Por que não? — ela perguntou.

— Porque poderia prejudicar o processo que o promotor pretende abrir contra o seu pai. — Ele se virou no banco para encará-la. — Preciso lhe avisar. Você não vai conse­guir negociar nada deste lado. Quando tivermos todas as provas que precisamos, o cul­pado vai para a cadeia. Ponto final.

Rebecca entendia racionalmente por que Alex se sentia daquele jeito. Mas se trata­va de seu pai, o homem que a amara e protegera, e que a consolara quando sua mãe mor­rera. O homem que a educara e que a ensinara a distinguir o certo do errado. Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas: devia reconhecer que ele tinha falhas e que cruzara o limite entre a honra e a desonestidade, uma linha que ele lhe ensinara ser infle­xível, mas se recusava a acreditar que ele caíra tanto a ponto de arriscar a vida de outros, de homens e de animais, que poderiam ter saído feridos dos incêndios em El Diablo e na refinaria.

Enquanto estacionava à sombra de uma árvore, Rebecca soltou um profundo suspi­ro e tentou encontrar alguma estabilidade dentro do turbilhão por que passara nas últimas 48 horas. Fazia apenas dois dias que ela viera ali para almoçar com Kate? Parecia uma eternidade.

— Está preparada? — Alex perguntou gentilmente.

A gentileza do tom quase fez com que Rebecca desmoronasse. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela se con­trolou, resolvendo que precisava deixar suas emoções de lado e se concentrar nos seus objetivos. Do contrário, iria desabar, e ninguém iria mover um dedo para evitar que seu pai fosse para a cadeia. Ela deu outro suspiro, e foi então que sentiu: o carinho mais sua­ve que já recebera, como um sopro sobre a curva do seu rosto. O gesto fez despertar uma série de lembranças. Quantas vezes Alex a consolara e animara daquele jeito, du­rante alguma dificuldade, com um simples afago? O fato de que ele o fizesse agora, quando estavam em campos contrários, significava mais para Rebecca do que ela pode­ria expressar. Ela se sentiu cheia de energia e obstinação, recuperando a força de que tanto precisava. Endureceu o queixo e voltou-se para Alex.

— Estou pronta — ela disse. — Quero saber exatamente o que estamos enfrentan­do.

Ela notou que ele ficava indeciso: por um lado, deveria querer lhe dar confiança, mas, por outro, deveria desejar que ela entendesse a inutilidade de suas esperanças.

— Creio que você está caminhando na direção da decepção. — Alex suspirou.

— Vamos descobrir — ela disse.

Para desespero de Rebecca, as palavras de Alex haviam sido proféticas. Darius nada tinha a esconder e foi muito direto no que afirmou. Que evidência ele descobrira e a que conclusões ela o levara? Ele respondeu com uma sinceridade simples, uma atitude profissional e racional, mas com um ar de compaixão. Isto levou Rebecca a concluir que Summer Martindale tivera razão ao fugir com ele. A prova que ele conseguira contra Cor­nelius Gentry era inquestionável e evidente, mas não constituía evidência, mesmo que circunstancial, contra Sebastian Huntington, conforme Rebecca apontou rapidamente. Gentry poderia ter agido sozinho.

— É possível — admitiu Darius. — Mas não é provável, tendo em vista o caráter do homem. Até que ele seja encontrado, não saberemos com certeza.

— Ele desapareceu? — Rebecca perguntou, preocupada. Alex não escondeu seu cinismo.

— E provável que ele tenha sido pago para desaparecer.

— Você acha que teria sido o meu pai?

— Seria do interesse dele — disse Alex.

— Isto não faz sentido. — Ela percebeu que conseguira a atenção dos dois homens com esta afirmativa e sentiu uma mistura de esperança e de alívio. Quanto mais ela pen­sa­va, mais tinha certeza. — Falo sério. Pensem um pouco. O meu pai realmente desviou di­nheiro do CMT para investir com Paulo Rodriguez, certo? Se ele tivesse algum dinheiro a mais, teria devolvido ao clube antes que alguém descobrisse ou o acusasse de desfal­que. De onde ele tirou dinheiro para fazer com que Gentry desaparecesse? Eu conheço o homem... — Ela não pôde evitar um arrepio de nojo. — Ele iria exigir uma boa soma para sumir.

— O que você quer dizer com "conheço o homem"? — Alex indagou, seco.

Rebecca hesitou, antes de admitir:

— Eu esbarrei com ele algumas vezes. — Ela viu que os dois homens a olhavam do mesmo jeito e se encolheu. — Ele era muito abusado, confiante, arrogante. Quando lhe dei um basta, Gentry riu de mim e disse que o meu pai jamais iria despedi-lo.

— Isto não ajuda a estabelecer a inocência do seu pai, Rebecca — resmungou Dari­us.

— Na verdade, é o oposto — Alex acrescentou.

— O quê? Por quê? — Rebecca perguntou, alarmada.

— O seu pai destruiu a minha família quando eu ousei tocar em você. Presumo que Gentry soubesse o que seu pai fez conosco — Alex sugeriu num tom de compaixão que a surpreendeu.

Rebecca umedeceu os lábios.

— Ele sabia. Ele disse que o meu pai jamais o despediria como fez com Carmen.

O olhar de piedade nos olhos de Alex só fazia enervá-la.

— Se Gentry estava tão seguro da sua posição, ele deveria ter algo contra o seu pai. Algo sério. Se ele provocou os incêndios por ordem do seu pai, teria motivos para estar tão confiante.

 

Levou um tempo para Rebecca compreender o raciocínio de Alex. Quando compre­endeu, ela perdeu o fôlego.

— Não — ela sacudiu a cabeça com veemência. — Não pode ser. Gentry devia sa­ber sobre o dinheiro e usou isto para se aproveitar.

— Como? — Alex insistiu. — Não é provável que o seu pai tenha comentado com ele.

— Talvez ele tivesse ouvido um telefonema entre meu pai e Rhymes. — Ela perce­beu que soava desesperada. — Gentry pode ter descoberto de várias maneiras. Além disso, que motivos o meu pai teria para colocar fogo na Brody Oil and Gas e no seu está­bulo, Alex?

— Eu expliquei isto a você na noite passada — ele defendeu o seu argumento com tanta convicção quanto ela defendera o seu. — Para que brigássemos entre nós e não percebêssemos a falta do dinheiro, até que ele tivesse tempo de devolvê-lo. Os incêndios foram uma tática de adiamento, de desvio de atenção.

— E eu lhe digo que ele não fez isso. — Mas a certeza lhe trouxe outra preocupa­ção: — O que acontecerá se a polícia encontrar Gentry e ele acusar o meu pai? Seria a palavra de um contra a do outro.

Alex e Darius se entreolharam rapidamente, antes de Alex responder:

— A palavra de um estelionatário contra a palavra de seu empregado — ele falou em termos que a deixaram chocada. — Presumindo-se que Gentry não tenha provas irrefutáveis, iria depender do júri, mas se eu fosse seu advogado ressaltaria o fato de que Huntington é um ladrão e que estava desesperado. Que, na posição de patrão, ele exer­ceu considerável pressão sobre Gentry para que ele causasse os incêndios, e que pro­meteu protegê-lo com o nome e a reputação dos Huntington. Uma vez que os incêndios causaram danos materiais, mas não mataram ninguém, suspeito que, em troca do teste­munho contra o seu pai, Gentry teria a pena reduzida.

Rebecca imaginou se aparentava estar tão chocada quanto se sentia. De certa maneira, esperara entrar ali e descobrir que tudo não passara de um terrível engano, e que uma simples conversa esclarecesse a situação. No mínimo, esperara ter uma pista a respeito de quem poderia ser o culpado. Se todos não estivessem tão determinados a ligar o capataz a seu pai, o fato de que as provas apontavam diretamente para Gentry deveria ser um motivo para celebrar.

— Como posso provar que o meu pai é inocente? — ela perguntou.

Os dois homens se entreolharam novamente, e ela ficou irritada.

— Tentem ver do meu ponto de vista. Suponham que ele seja inocente. Deve haver uma maneira de provar.

— Não saberemos de nada até que Gentry seja encontrado — Darius respondeu com extrema simplicidade.

Rebecca balançou a cabeça. O seu desespero aumentava a cada segundo.

— Então, pode ser tarde demais. Ele já vai ter percebido que, se for apanhado, pode usar o meu pai como bode expiatório. Precisamos preparar nossa defesa com antecipação.

— Neste caso, recomendo que você e seu pai contratem o melhor advogado que possam pagar — disse Darius.

Pagar. A palavra soou como uma bofetada. Rebecca sentiu que Darius dissera tudo o que pretendia dizer, e, embora ele irradiasse paciência e simpatia, nada mais podia fazer por ela. Na verdade, talvez ele tivesse dito mais do que devia, uma vez que era ele que estava montando o caso contra seu pai. Rebecca percebeu que precisava aceitar o inevitável: não adiantaria estender aquele encontro desagradável.

— Obrigada, Darius. Aprecio a sua franqueza.

— Tudo bem.

Ela teria saído, mas Alex a deteve, tocando-lhe de leve o braço e virando-se para Darius.

— Eu planejava entrar em contado com você e Summer. Gostaria de dar uma festa para vocês. Pensei em convidar os irmãos Brody e suas esposas, Justin Dupree e minha irmã, e Kevin e Cara Novak. Já que vocês fugiram, nenhum de nós teve chance de comemorar o seu casamento.

Darius olhou para Alex, entre intrigado e surpreso.

— É muita gentileza sua.

— Mas inesperada?

— Um pouco, considerando a sua lista de convidados.

Alex fez um aceno de compreensão.

— Pensei que havíamos resolvido deixar o passado para trás e seguir em frente. Comemorar o seu casamento com Summer seria a oportunidade perfeita.

Darius abriu um enorme sorriso.

— Obrigado. Eu sei que Summer iria adorar. Mande avisar quando e onde, e estaremos lá.

— Será em El Diablo, e eu ligo avisando a data exata, mas estou pensando em algumas semanas antes do Natal. Isto tornará tudo mais festivo.

Os dois se cumprimentaram, e Rebecca e Alex voltaram ao estacionamento. Sem dizer uma palavra, Alex tirou a chave do carro da mão de Rebecca e lhe indicou o assento do passageiro. Ela não protestou: a sua combatividade se esgotara. Os dois ficaram calados até chegarem ao rancho. Ela se admirou quando ele não parou nem lhe passou a direção, mas seguiu em frente, na direção do limite da propriedade, e estacionou numa pequena colina da qual se descortinava todo o terreno, inclusive a casa e o novo estábulo. Os dois saíram do carro e caminharam na direção da cerca do pasto.

— Não sei como vou consertar isso — ela confessou em voz baixa.

— O problema não é seu.

— Não posso ficar sentada, sem fazer nada. Ele é meu pai.

— Ele é um homem forte e rude, que se meteu sozinho nessa confusão. Pode muito bem sair dela,

— Foi isso que você fez, quando a sua mãe teve problemas? — Rebecca perguntou secamente. — Quando Alicia teve problemas?

— Não há comparação. O meu trabalho era e é proteger minha família.

— Exatamente. Assim como o...

— Você entendeu às avessas, dulzura — ele a interrompeu sem compaixão. — O seu pai tem o dever de protegê-la, não o contrário.

— Ele me protegeu a vida inteira. Agora é minha vez.

— Você ainda não entendeu — ele falou com raiva. — Sebastian se meteu nessa confusão. Ele criou esta situação.

— O desfalque, sim — ela retrucou.

— E, mesmo assim, você está tentando livrá-lo deste peso.

— E o que mais eu poderia fazer?

— Esquecer. Não fazer nada.

— Alex, por favor — ela sussurrou, criando coragem para lhe tocar o braço. — Ajude-nos. Ajude-me.

Ele ficou muito tenso, e ela conteve o fôlego. De repente, ele explodiu e tomou-a nos braços como se nunca mais quisesse soltá-la.

— Eu quero que você me abrace sem algum motivo escuso, pelo menos uma vez — ele falou em voz rouca. — Quero que você me abrace sem que o seu pai se coloque entre nós.

— O meu pai não está aqui.

— É aí que você se engana. Ele está conosco o tempo todo. — Ele sorriu com amargura. — Mas você jamais entendeu, não é? Que seja. Veja se entende isto...

Ele inclinou a cabeça e a beijou. As lembranças do passado se chocaram com o pre­sen­te e formaram uma mistura confusa do que houvera e do que ainda havia entre os dois: a doçura que restara do antigo romance e a amargura do seu final; a violência da pai­xão que os enlouquecia quando se encontravam... E algo mais. Algo de novo e de inde­finido, que fazia com que a gama de cores do outono se tornasse mais vibrante, cheia de alegrias e de promessas. As sensações se tornavam mais agudas. Rebecca ficava aten­ta ao ruído ofegante da respiração de Alex, e ao seu perfume seco, uma combinação de couro, de madeira e de virilidade. Ela abriu os lábios sob os dele e suspirou docemente.

Rebecca já beijara outros homens. Beijos apaixonados. Mas nenhum homem a provocara como Alex, ou tivera a capacidade de despertar seu desejo com um simples roçar de lábios. E suas mãos... Com uma segurança característica, ele desabotoou-lhe a blusa que uma brisa errante fez revoar, expondo o minúsculo pedacinho de renda que lhe cobria os seios. Alex afastou os lábios e soltou um suspiro deliciado.

— Marfim.

Ela olhou para ele, confusa.

— Marfim?

Ele passou os dedos sobre os seus seios cobertos de seda.

— A cor. Eu ficava louco só de imaginar.

Antes que ela pudesse responder, ele baixou a cabeça e beijou toda a extensão do decote do sutiã. Rebecca jogou a cabeça para trás e gemeu.

— Nunca vi pele como a sua. Parece veludo. — Ele subiu a boca pelo pescoço de Rebecca, até encontrar seus lábios e beijá-la novamente, enquanto lhe descia a blusa e as alças do sutiã pelos ombros.

Antes que ela sentisse o ar frio sobre a pele, ele lhe apalpou os seios. Ela gemeu num lamento que implorava. Ele respondeu acariciando-lhe os mamilos, até que tudo que ela desejava passou a ser escorregar até o chão e deixar que ele completasse o que havia começado. Alex deveria estar sentindo o mesmo, porque a abraçou mais forte e se tornou mais exigente, acariciando-a com determinação, beijando-a ternamente, deixando transparecer seu crescente desejo. Por mais que Alex tentasse negar, ele ainda a desejava, assim como Rebecca o desejava também. Assim que ela chegou a esta conclusão, sentiu que ele lhe arrumava a blusa.

— Aqui não há privacidade suficiente — ele disse, respondendo à pergunta que via nos olhos de Rebecca. — Talvez em outra hora e em outro lugar.

Ela queria protestar, mas não teve coragem. Se ele tivesse ido além, ela teria acompa­nhado de boa vontade, com satisfação. Em vez disso, Rebecca fez a primeira pergunta que lhe surgiu à cabeça e que lhe daria tempo para se recuperar do que acabara de acontecer:

— E quanto ao meu pai? Você vai me ajudar?

Foi a pior coisa que ela poderia ter feito, no momento mais inadequado.

— Não — ele disse sem expressão.

Rebecca percebeu que não conseguiria demovê-lo, mas precisava insistir:

— Alex...

— Chega, Rebecca — ele interrompeu sem piedade. — Deixe que eu seja claro: o dinheiro deve ser devolvido amanhã. Se o seu pai não puder pagar, ele irá para a prisão. E eu ficarei feliz ao colocá-lo lá.

 

Indo pessoalmente a Huntington Manor para fazer a cobrança em nome do CMT, ele estaria colocando sal na ferida, tanto na própria quanto na de Rebecca. Mas isso não iria detê-lo. Quando Alex fez a curva para entrar em Huntington Manor, cruzou com uma reluzente McLaren preta que desapareceu tão rapidamente quanto surgira. Mas os poucos segundos bastaram para que ele identificasse o motorista do outro carro: Paulo Rodriguez.

Alex sentiu um arrepio frio de medo. Rebecca o avisara que iria encontrar alguém que a ajudasse a sair daquela situação. Ela procurara Rodriguez, apesar da advertência que ele lhe fizera?

Bem, por que não? Já que ele a decepcionara, Rebecca fora à procura de possibilidades mais promissoras. E, no momento em que todas as portas haviam se fechado para o seu pedido de ajuda, ela percebera que as suas possibilidades eram limitadas. Rodriguez deveria ter surgido como a solução perfeita, apesar do que ele lhe dissera.

Mais uma vez, Alex bateu à porta e foi recebido por Louise. Desta vez ela o levou diretamente para a biblioteca, onde ele surpreendeu fragmentos de uma discussão acalorada entre Rebecca e seu pai. Sebastian se calou, assim que Louise bateu na porta.

— O sr. Montoya deseja falar com o senhor.

Sebastian soltou uma praga.

— Claro que deseja. Entre, Montoya. Por que você não iria coroar um dia perfeito?

Alex sorriu amavelmente para Louise, antes de entrar na sala. Esperou que ela fechasse a porta, para começar a falar:

— Foi tão ruim? — ele perguntou, mas não esperou pela resposta. — Vou tirá-lo dessa agonia, sendo direto e nada delicado. Você tem o dinheiro para devolver ao Clube dos Milionários do Texas ou não?

— Isso depende — Rebecca respondeu, antes que o pai tivesse chance de falar.

Para surpresa de Alex, ele e Sebastian praguejaram ao mesmo tempo.

— Quantas vezes vamos ter esta discussão, dulzura? — ele perguntou. — Esta conversa é entre mim e o seu pai.

Não foi surpresa para os dois homens que Rebecca não tivesse escutado. Embora ela parecesse exausta e estressada, olhou os dois com uma firmeza e uma determinação admiráveis. Alex pensou que tudo nela o admirava. Ele imaginou se seria apenas por coincidência que ela usava um vestido no mesmo tom de marfim do sutiã do dia anterior. Um vestido elegante e simples, lembrando a castidade de uma noiva, mas que lhe acentuava as curvas. Ele sentiu uma comichão nas mãos. Pior: a imagem lhe despertou o instinto de proteção ao perceber que Rodriguez também a vira daquele jeito.

— Você vai nos emprestar o dinheiro, usando a Sweet Nothings como garantia, Alex? — ela indagou.

Alex estivera tão interessado na aparência de Rebecca que levou um tempo para entender a questão.

— Eu proíbo — disse Sebastian, ao mesmo tempo que Alex soltava um sólido "não".

Rebecca franziu a testa e esperou um pouco antes de falar:

— Eu só soube que El Gato esteve aqui depois que ele foi embora. Lamento não tê-lo encontrado. Vou entrar em contato com ele e ver se ele me empresta o dinheiro que precisamos — ela afirmou, com toda a calma.

Desta vez, Alex praguejou em espanhol, olhou para Sebastian e voltou-se para Rebecca.

— Você se importaria de arranjar um café enquanto discutimos a situação? — ele perguntou, com polidez.

— Vou pedir a Louise que prepare.

— Eu espero — disse Alex. — Gostaria de conversar a sós com o seu pai. — Ele percebeu que ela queria argumentar, mas o cansaço a venceu.

O conflito a consumira, deixando-a pálida e exaurida. As únicas cores que lhe restavam no rosto eram o verde-escuro dos olhos e o vermelho dos cabelos. Ela assentiu bruscamente e saiu da sala. Alex não perdeu tempo e se voltou para Sebastian.

— Quando eu cheguei, vi Rodriguez saindo daqui. O que ele queria?

— Não é da sua conta — disse Sebastian. Alex não tinha tempo para aquilo.

— Faça com que seja, ou vou deixar que você se vire sozinho com essa confusão. — Ele já aguentara tudo o que podia dos Huntington. — Ou você me diz o que quero saber ou vou deixar que vocês dois descubram o quanto Paulo Rodriguez pode ser impiedoso. — Ele olhou friamente para Sebastian. — E então?

A animosidade de Sebastian se esvaziou como um balão furado.

— Ele quer tudo — sussurrou Sebastian. — A casa e a Sweet Nothings. Em troca, ele pagará tudo o que devo ao CMT e esquecerá o que lhe devo.

— Não é surpresa.

— Porque você está envolvido, não está? — Huntington acusou, furioso. — Porque foi o que você planejou.

Alex olhou para ele, admirado.

— Você enlouqueceu? Por que eu faria isso?

— Você queria se vingar por eu ter despedido a sua mãe — Sebastian respondeu sem hesitar.

— É uma teoria interessante, mas, embora eu não negue que fosse capaz, não foi o que aconteceu. Rodriguez não tem o menor interesse em me entregar Huntington Manor. Não mais do que tem em se apossar da Sweet Nothings. Você sabe o que ele está pretendendo, não sabe?

Sebastian se tornou esverdeado.

— Isto não vai acontecer.

Alex olhou-o com ceticismo.

— Não vai? Quanto você deve a ele, Huntington? Imagino que seja muito mais que 300 mil dólares.

— Quase um milhão — Sebastian confessou.

— Um milhão. — Alex tentou controlar a raiva pela estupidez do homem. — Onde vo­cê irá arranjar esta quantia? Como vai impedi-lo de lhe tomar a casa? — Ele foi direto ao assunto, fazendo a pergunta mais cruel de todas: — E se ele resolver ir atrás de Rebecca?

— Ele não faria isso.

Alex ficou perplexo.

— Você não pode ser tão ignorante. Paulo Rodriguez é implacável. Nada o impedirá de conseguir o que quer. Ele quer Huntington Manor e a Sweet Nothings. Qual é o próximo item da lista? Ou talvez eu devesse dizer "quem"? E se ele acrescentá-la às suas exigências? Pelo que vejo, a única questão que resta é saber se você vai lhe dar o que ele quer.

— Nunca — Sebastian disse com convicção. — Não a ele. E nem a você. A casa é minha e continuará sendo. Está fora do alcance de vocês dois. Assim como minha filha.

— Presumo que você tenha dinheiro para pagar suas dívidas. — Ele viu a resposta escrita em cada ruga de Sebastian.

— Eu vou conseguir — Sebastian blefou, empertigando as costas. — Vou fazer uma hipoteca. As pessoas da cidade me devem, e irão me ajudar.

Alex soltou uma risada. Não adiantava desperdiçar saliva. Sebastian Huntington vivia num paraíso ilusório. Somente o tempo e as pessoas que "lhe deviam" iriam mudar a sua perspectiva.

— Boa sorte. É claro que você não precisa da minha ajuda. Avise-me quando tiver o dinheiro. Esperamos por você bem cedo, no CMT. — Ele se dirigiu à porta, mas Huntington o deteve um segundo antes de sair.

— Espere.

E então, Alex ouviu algo que jamais pensara ouvir da boca de Sebastian Huntington:

— Por favor, Alejandro. Por favor, espere.

Era o nome pelo qual sua mãe o chamava toda vez que falava com ele. Ouvi-lo na boca de Huntington encheu Alex de tristeza, e depois de raiva. Se não fosse por aquele homem, sua mãe ainda estaria viva.

— É sua última chance, Sebastian.

— Você pode manter Rodriguez longe de Rebecca?

— Posso tentar.

— Você vai lhe tirar a Sweet Nothings?

— Não tenho interesse na loja de sua filha.

— E... E na casa?

— Você teria de passá-la para mim. Em troca, eu pagaria a Rodriguez.

Huntington combateu o orgulho antes de fazer uma última pergunta:

— Você cogitaria me deixar ficar aqui? Você disse que não queria morar nesta casa. Mas esta é a casa em que Rebecca sempre morou.

— Ela irá se recuperar.

Sebastian ficou desesperado.

— Eu... Eu poderia alugá-la de você.

— Você não conseguiria alugar nada de mim. Quero que você vá embora, Huntington.

— Pelo menos, você podia me dar algum tempo.

— Para quê?

— Permita que eu fique aqui. Dê-me um ano para levantar o dinheiro necessário para lhe pagar.

A expressão de Alex pareceu ter bastado para que ele tentasse contemporizar.

— Certo. Seis meses. Enquanto isso, aceite a proposta de Rebecca. Deixe que ela acredite que o convenceu a nos emprestar o dinheiro, usando a Sweet Nothings como garantia. Se eu não conseguir o dinheiro para pagar a dívida com o CMT e com Rodriguez, mais juros, em seis meses, legalizaremos a venda. Você devolve a escritura da Sweet Nothings a Rebecca, eu assino a escritura que lhe dará posse de Huntington Manor e vou embora de Maverick County para sempre. Porém, se eu conseguir levantar o dinheiro, você devolve a casa e a loja e desaparece da nossa vida.

Alex olhou para ele, desconfiado.

— Por que envolver Rebecca e sua loja?

— Não quero que ela saiba do nosso acordo. Ela não vai acreditar se eu lhe disser que você me deu dinheiro por simples bondade.

Alex não conseguiu deixar de sorrir.

— É verdade. Ela me conhece bem demais para acreditar neste tipo de conto de fadas.

— O que significa que eu preciso dizer algo plausível para que ela acredite. O seu orgulho exige que você receba algum tipo de garantia em troca do dinheiro. E ela não vai desistir desta cruzada ensandecida, enquanto Huntington Manor estiver em jogo. Ela vai continuar a tentar encontrar uma saída para impedir que eu precise me desfazer da casa. Não posso correr o risco de que ela procure Rodriguez, mas se ela acreditar que você está disposto a aceitar a Sweet Nothings como garantia, e que isto basta para cobrir os dois empréstimos, irá desistir.

Alex compreendeu.

— Ela não sabe o quanto você deve a Rodriguez, não é?

— Não. Ela acha que qualquer dinheiro que se consiga com a venda ou com um empréstimo sobre a Sweet Nothings será suficiente para pagar as duas dívidas. E eu não pretendo desiludi-la.

Alex considerou as suas opções.

— Você percebe que se Gentry o envolver nos incêndios eu não vou levantar um dedo para ajudá-lo? Na verdade, esta será uma das condições do empréstimo. Se você tiver algo a ver com os incêndios, a casa é minha. E nada que Rebecca possa dizer ou fazer me fará mudar de ideia.

— Uma vez que sou inocente, isto não será problema — Huntington respondeu com impressionante dignidade. — Neste momento, a minha maior preocupação é pagar minhas dívidas. Se não há mais nada, estamos de acordo?

Antes que os dois acabassem a negociação, Rebecca voltou com a bandeja de café. Os dois homens se mantiveram impassíveis sob o seu olhar. Enquanto ela servia o café, Alex fez um aceno de concordância para Sebastian.

— E então? — ela perguntou, oferecendo-lhe uma xícara. Alex percebeu a tensão sob o seu tom casual. Ele pegou a xícara e sentou no sofá onde haviam se abraçado apaixonadamente há apenas algumas noites.

— Resolvi ouvir a sua oferta — ele disse.

— E considerá-la — Huntington acrescentou.

— Não abuse da sorte — disse Alex, querendo evitar que tudo parecesse fácil demais e que Rebecca não acreditasse. — Eu afirmei que iria ouvir, e é isto que vou fazer.

— É uma proposta simples — afirmou Rebecca, antes que o pai respondesse. — E que será vantajosa para você em longo prazo. Ofereço a Sweet Nothings como garantia do empréstimo para pagar o CMT. — Ela olhou para o pai com um ar de receio. — Espero que o valor seja suficiente para cobrir também a dívida do meu pai com Paulo Rodriguez.

— Você está pedindo muito.

— Eu sei. — Ela hesitou. — Pai, você se importaria de me deixar falar a sós com Alex?

Alex quase soltou uma gargalhada ao ver a expressão de Huntington, mas precisava reconhecer que o homem se mantinha controlado e evitava falar o que queria, limitando-se a olhá-lo com um ar de advertência, antes de sair.

— Muito bem, Alex. O que está acontecendo? — ela quis saber assim que o pai deixou a sala. — Eu sei que existe algo. Posso ver no jeito de vocês dois. O que estão me escondendo?

 

Alex sorriu calmamente.

— Não tenho a menor ideia do que você está falando.

Rebecca sentou-se ao lado dele no sofá.

— Você está aqui, não está? Por quê? Ontem você estava decidido a ver o meu pai na cadeia. O que mudou?

Ele poderia dizer sem que ela desconfiasse do resto.

— Rodriguez.

— Ele é tão perigoso assim?

Paulo podia ser seu amigo, mas Alex conhecia seus defeitos.

— É — ele disse simplesmente. — Ele é perigoso demais.

— Esta sua súbita boa vontade, o fato de você hoje ouvir a minha proposta... Não tem a ver com o meu pai, tem? — ela perguntou com a sua costumeira sagacidade.

— Não. Apesar das minhas advertências, você continuou a ameaçar procurar Rodriguez, sem pensar no risco que estaria correndo. Se você for procurá-lo, estará em suas mãos. O seu pai não pode protegê-la contra Paulo. Eu posso.

— Por quê? — ela sussurrou.

— Porque... estou disposto a ajudá-la?

— Isto e... Por que Rodriguez está nos perseguindo? O que fizemos a ele?

Alex escolheu as palavras com cautela:

— Paulo faria tudo para enfiar as mãos no bolso do seu pai. Graças à arrogância de Sebastian, ele não pode pagar as duas dívidas com o pouco que lhe restara. Paulo sabia disso. Aliás, ele deve estar contando com isso. Ele não vai gostar que alguém atravesse o seu caminho e pague tudo, depois de ter planejado com tanto cuidado para tirar Huntington Manor do seu pai.

— Você ainda não respondeu a minha pergunta.

Certo, ele seria direto:

— Paulo quer ter o status que Huntington Manor lhe dará, ou que ele acha que vai dar. Ele também quer a Sweet Nothings para mantê-la de mãos atadas e impedir que você faça o que quer com ela: usá-la como garantia para o empréstimo.

— Ele também exigiu a Sweet Nothings do meu pai? — Rebecca perguntou, assustada.

— Provavelmente ele teria exigido a casa direto, se você não tivesse se metido no meio. Tenho certeza de que ele sabia que você estava tentando ajudar seu pai, e este foi o meio que ele encontrou para impedi-la de fazer alguma coisa.

— Eu não podia ficar sem fazer nada.

— Na verdade, podia — ele disse, pousando a xícara na mesa diante do sofá. — Não adianta discutir este assunto. O problema é que tanto Paulo quanto o CMT precisam ser pagos, ou haverá sérias consequências para vocês dois. Se fosse apenas o seu pai, eu não levantaria um dedo para ajudar. Mas por você...

Rebecca baixou a cabeça.

— Pensei que você me odiasse.

— Estou disposto a aceitar a sua proposta. Esta é a única coisa que deve lhe importar. — Alex a viu olhar para ele com um ar de preocupação.

— Rodriguez não irá se vingar de você por nos ajudar?

— Paulo e eu nos entendemos.

Rebecca mordeu os lábios.

— Você não me respondeu de novo. Ele irá se vingar de você?

— Agora você vai se colocar entre nós dois?

— Parece que sim. — Ela riu.

— Não faça isso. Vou pedir ao meu advogado que coloque uma cláusula no acordo, dizendo que você deve ficar longe de Rodriguez, ou do contrário terei direito de rescindir o contrato.

— Isto seria legal? — Ela arregalou os olhos.

— É para isso que eu pago a melhor equipe de advogados. O trabalho deles é fazer com que meus desejos se tornem legais.

Desta, vez, Rebecca deu uma gargalhada que a deixou mais relaxada.

— Então, nós temos um acordo? Você vai nos emprestar o dinheiro e aceitar a Sweet Nothings como garantia?

— Vou. Claro que haverá os "e", os "se" e os "mas" de praxe, mas podemos tratar deles mais tarde.

— Certo. — Ela deu um lento suspiro. — Obrigada, Alex. Eu sei que não era o que você planejava, nem queria.

— Não. Não era.

— Mas prometo que vou dar um jeito de compensá-lo.

— Para começar, você podia ficar longe de Rodriguez.

Ela deu o sorriso calmo que costumava enlouquecê-lo. Incapaz de resistir, Alex segurou-a pelo pescoço e puxou-a. Quando a beijou, percebeu que ela cedia, gemendo e entreabrindo os lábios. Os dois caíram sobre o sofá, e ele percebeu que não poderiam continuar: não depois de terem feito um acordo. Mas por um breve instante ele resolveu aceitar o que ela lhe oferecia. Como se temesse que ele parasse de abraçá-la, Rebecca o segurou pelos cabelos. Alex lhe acariciou os seios por sobre o vestido e ela gemeu. Ele colheu o seu gemido como se fosse o mais precioso dos néctares. Ele não se fartava, queria descobrir se ela mudara desde a última vez em que haviam feito amor: acariciou-lhe a cintura, os quadris, e sentiu que o seu vestido subira até as coxas. Por baixo, ele encontrou a pele sedosa de suas pernas e subiu a mão até atingir o pedacinho de renda que protegia o centro do seu corpo. Quando Alex ultrapassou a barreira de tecido, Rebecca gemeu e parou de beijá-lo. Ele também parou ao ver o brilho desesperado do desejo nos seus olhos e sentiu o peso do que fazia. Ela o desejava porque sentia algo por ele ou porque ele concordara em emprestar dinheiro para seu pai? Ele se afastou devagar.

— Por que está fazendo isto? — ele perguntou, desconfiado. Ela ficou perplexa.

— Você não pode estar pensando que eu estou me oferecendo como uma espécie de pagamento pelo empréstimo — ela disse.

— Você acha que o nosso caso foi resultado de uma aposta. Por que não iria acreditar que eu esperava mais de você, além da garantia da loja? Afinal, estou impedindo que o seu pai vá para a cadeia. Por que eu não iria incluí-la neste maldito acordo?

Rebecca o fitou por longo tempo e sacudiu a cabeça.

— Eu iria esperar que você tivesse integridade demais para fazer algo deste tipo.

— Ao contrário do passado? Diga-me o que mudou, Rebecca.

— Você mudou. Eu mudei. As pessoas mudam, Alex.

— Além disso, é claro que agora eu tenho dinheiro. — Ele se desvencilhou dos seus braços e se levantou, olhando-a com frieza. — Os outros iriam suspeitar de que você está me pagando com seu corpo. Você sabe disso, não sabe?

Ela sentou direito e arrumou o vestido.

— Eu nunca me preocupei com o que os outros pensam.

Ele deu uma risada amarga.

— Mas vai. Quando o nosso acordo se espalhar, e por mais que tentemos mantê-lo em segredo, vai se espalhar, vamos ver por quanto tempo você continuará a pensar assim. — Ele parou a meio caminho da porta. — Os meus advogados vão entrar em contato, mas eu aviso, Rebecca, se você chegar perto de Rodriguez, o trato estará cancelado.

E com isto ele saiu, pensando em como Rebecca conseguira eliminar a sua sede de vingança com um simples beijo. Ele entrou no carro e saiu em alta velocidade. Os carvalhos que ladeavam a estrada passavam voando como sombras avermelhadas. Ele perdera totalmente a cabeça. Era a oportunidade perfeita para se vingar, e ele deixara que a mulher que ajudara a destruir sua vida e a de sua família o convencesse a desistir. De novo. Claro, Sebastian Huntington desempenhara um papel importante em tudo aquilo. Fora através dele que Rodriguez conseguira se aproximar de Rebecca, forçando-o a agir. Mas nada disso afetava o seu plano, pensou Alex. Claro que tivera de reestruturá-lo, mas o resultado seria o mesmo. Quando Sebastian Huntington descobrisse que seus amigos haviam desertado e que não teria como resolver seu problema, só lhe restaria uma opção: assinar a escritura de Huntington Manor e sair da cidade. Enquanto isso, Alex devolveria com juros o dinheiro que fora roubado do CMT e saldaria qualquer dívida que Huntington tivesse, incluindo a que ele contraíra com Paulo Rodriguez.

Alex fez uma careta ao lembrar. Paulo. Precisaria falar com o antigo amigo e verificar o que estava acontecendo. Ele não se lembrava da última vez em que haviam se falado. Talvez no ano anterior, quando ele pedira a Paulo para ficar de olho em Alicia, depois dos incêndios criminosos. Mesmo assim, havia sido por telefone. Mas o fato de Paulo ir atrás de Sebastian Huntington acionara um sinal de alerta. Estava na hora de se encontrarem cara a cara.

 

Alex ficou surpreso ao ver que Paulo o esperava em El Diablo, encostado na McLaren que deveria ter lhe custado quase um milhão. Ele sorriu ao ver Alex parar, e lhe estendeu a mão. Alex saiu do carro e o abraçou.

— Que bom ver você, cara...

— O meu endereço não mudou. — Paulo levantou a sobrancelha. — Talvez seja você que tenha mudado. Talvez o gueto tenha deixado de ser bom o bastante para você.

— Você sabe que isto não é verdade.

Eles apenas haviam seguido caminhos diferentes. O caminho de Paulo não lhe interessava. Ele sempre presumira que os dois compreendiam este fato e que o aceitavam. Agora não estava tão certo.

Paulo ignorou o comentário e indicou o estábulo que estava sendo reconstruído.

— Problemas?

— Nada que eu não possa resolver — disse Alex.

E não era. Assim que a cumplicidade de Huntington nos incêndios ficasse provada, e, apesar dos protestos de Sebastian, ele achava que seria, ele seria indenizado. E seria doce. Alex mudou de assunto, indicando a McLaren.

— Vejo que você comprou um novo brinquedo.

— Acabou de chegar. Acho que é a única que circula no Estado. — Paulo olhou avidamente para o carro, examinando-o com mais ardor do que se olhasse uma mulher. — Faça com que eu ganhe o dia, Alejandro: reconheça que está com uma certa inveja.

— Talvez um pouco. — Alex sorriu. — Embora eu achasse que você iria escolher algo mais discreto, algo que os tiras não identificassem imediatamente como pertencendo a você.

Paulo bateu no peito de Alex.

— Você me ofende, amigo. Os tiras não têm motivo para me deter. Agora eu sou um legítimo homem de negócios.

— Suponho que isto inclua negócios com Sebastian Huntington.

Uma expressão deliciada apareceu no rosto de Paulo, e ele deu um enorme sorriso.

— Eu imaginava quando você iria descobrir. Encare como um presente de um velho amigo.

— Conte-me o que você fez — Alex pediu, muito tenso.

— Considere como uma retribuição pelo que Huntington fez com você, com a pequena Alicia e com tia Carmen.

— Você o enganou.

Paulo deu um estalo com a língua.

— Ele foi mais fácil de treinar que um cão. Eu dizia "role", e ele perguntava quantas vezes. Mesmo depois que o primeiro jogo deu errado, ele voltou e pediu mais. Ele facilitou. Facilitou demais.

Maldição, maldição, maldição! Alex se esforçou para dar um sorriso.

— Entre e tome um drinque, enquanto discutimos este assunto.

— Não há nada para discutir — disse Paulo, esfregando as mãos. — Logo nós dois seremos donos de muitas terras no Texas. Você fica em El Diablo, enquanto eu me torno senhor de Huntington Manor. — Os olhos dele brilharam. — E quando eu pedir para entrar como sócio no CMT, você aprovará o meu pedido. Você e a minha linda esposa.

Alex não estava gostando nem um pouco do rumo da conversa.

— Parabéns. Eu não sabia que você estava noivo.

— Ah, eu não estou. Ainda. Mas tenho o pressentimento que Rebecca Huntington fará qualquer coisa pelo seu querido papai. Principalmente, para mantê-lo fora da cadeia, certo?

— Becca? — disse Alex, confirmando a pior das suas suspeitas.

— Faz tempo que eu estou de olho nela. Você não iria me negar isso, não é, amigo? Não, considerando que eu fui honrado o bastante para me manter longe dela quando você aproveitou a sua chance, há alguns anos.

— Muito honrado. — A palavra soava como ácido na boca de Alex, e a cólera lhe queimava o estômago.

A simples ideia de Rodriguez pondo as mãos em Rebecca fazia com que seus instintos mais básicos e brutais ameaçassem explodir e se manifestar. A ironia ameaçava dilacerá-lo por dentro. Seu amigo estava certo. Rebecca faria tudo para salvar o pai. Ela não acabara de se oferecer a ele em troca de ajuda? E ele não se aproveitara disso há poucos minutos? Como isto o tornava melhor que o homem parado na sua frente? Pelo menos, Paulo era honesto quanto às suas intenções, enquanto ele escondia o seu desejo de vingança e de justiça.

— Só existe um problema, Paulo — Alex se viu falando, enquanto rezava para não despertar o ódio de seu velho amigo. — Eu concordei em pagar as dívidas de Huntington. Se você me disser quanto ele lhe deve...

— Você perdeu a cabeça?! Este é o homem que tornou a sua vida um inferno. O homem que destruiu a sua família. O pai da mulher que... — Paulo parou de repente e soltou uma praga. — Claro! A mulher.

— Está feito. Deixe para lá e desista.

— Não! — Paulo cortou com um gesto brusco. — Isto não vai acontecer. Trabalhei duro por muito tempo, para deixar o covarde escapar da vingança.

— Ele não fez nada contra você. A vingança não lhe diz respeito.

— Você não entende? — a pergunta de Paulo feriu o ar. — Estou fazendo isso por você. Estou fazendo isso por sua irmã, por sua mãe.

Alex se recusou a sustentar aquela mentira.

— Você está fazendo isso porque é a única maneira de levar Rebecca para a cama.

Paulo fez uma cara muito feia.

— Não interfira, hombre. Somos amigos há muito tempo, mas ninguém toma o que é meu. Nem alguém que eu considero um irmão.

— Rebecca Huntington não é sua. Nunca foi e nunca será. — Alex se aproximou, ignorando que Paulo levava a mão às costas. Só havia uma maneira de lidar com um homem como Rodriguez. — A dama me pertence. O seu pai e Huntington Manor também me pertencem. Vou proteger o que é meu.

Paulo ficou furioso e abandonou qualquer sinal de civilidade.

— Você está cometendo um erro, Montoya. — Ele abriu a porta da McLaren, entrou e ligou o motor. — Um enorme erro.

Paulo acelerou, forçando Alex a dar um salto para o lado, e partiu em alta velocidade, levantando o cascalho. Consertar os arranhões e as mossas provocados pelas pedras iria lhe custar uma pequena fortuna, o que não melhorava o seu mau humor. Alex ficou surpreso ao ver o seu capataz, Bright, parado na entrada da casa, armado com um rifle.

— Ele tinha uma arma — Bright gritou. — Enfiada na parte de trás do cinto.

Paulo sempre carregava uma arma na parte de trás do cinto, mas Alex não se deu ao trabalho de explicar.

— Obrigado, Bright. Está tudo bem.

Por enquanto. Mas por quanto tempo? Agora ele não precisava apenas lidar com o amigo, mas também se comprometera a pagar ao CMT e tudo que Huntington devia a Paulo Rodriguez. Mais importante: precisava tomar uma decisão a respeito de Rebecca. Iria provar que era tão rude quanto Rodriguez, sacrificando a sua honra e se aproveitando do que ela lhe oferecera? Ou faria o que sua mãe costumava classificar como "nobre" e ajudaria a mulher que amara no passado? Racionalmente, ele tendia para o nobre. Infelizmente, outra parte dele não queria ouvir.

 

Rebecca abriu a porta da Sweet Nothings e virou a placa de "Volte mais tarde" para o outro lado, que dizia "Seja bem-vindo". Ela já estava coando o café no balcão antigo que separava a loja da área onde instalara uma sala de estar aconchegante e os provadores, e contava os minutos até que a bebida estivesse pronta. Dormira apenas duas horas durante a noite, e isto transparecia em seu rosto. Graças à maquiagem, conseguira esconder relativamente os efeitos da insônia. Enquanto a manhã passava lentamente, ela não sabia se ficava aliviada ou desanimada. Teve tempo de fazer o inventário de um novo carregamento e de conferir suas contas. Tomava a terceira xícara de café, quando o sininho atrás da porta tilintou com suavidade, anunciando o primeiro freguês do dia. Para alegria de Rebecca, era Kate.

— Graças a Deus é você. — Rebecca soltou sua xícara e serviu outra para a amiga. — Toda vez que eu telefono, cai na sua caixa postal.

Kate aceitou o café com um sorriso.

— Eu sei, eu sei. — Ela tomou um gole e gemeu. — Juro que você faz o melhor café da cidade. Talvez do Estado.

Rebecca também bebeu um gole reconfortante de café e, como sempre, foi direto ao assunto:

— Certo. O que está acontecendo? Sei muito bem quando você está escondendo alguma coisa, e está escrito no seu rosto. — Ela se conteve. — O que houve? Deixei dezenas de mensagens. Por que você não me respondeu?

— Desculpe. Depois do almoço do outro dia, as coisas ficaram muito confusas.

— E você evitou os meus telefonemas.

Kate levantou a mão.

— Somente até que Lance juntasse os fatos. Além disso, eu queria conversar com você pessoalmente.

— É tão ruim assim? — Rebecca perguntou, desanimada. Kate demonstrou simpatia.

— Sim, é muito ruim.

— É a respeito das contas do CMT... — Rebecca precisou de todas as forças para encarar a amiga. — Eu já sei, e é verdade.

— Ah, querida!

— O dinheiro será devolvido — Rebecca declarou, dando ênfase às palavras. — Até o último centavo. Alex concordou em nos emprestar o dinheiro.

— Alex? — Kate parecia admirada.

— Viu o que você perde quando não retorna os meus telefonemas? — A onda de bom humor passou, e ela encarou a amiga. — Quero que ele seja pago o mais rápido possível, mesmo que eu tenha de arrumar um segundo emprego.

Kate mordeu o lábio.

— Existe outra coisa que você precisa saber. Eu não deveria contar a ninguém, mas acho que você deve estar preparada.

— É a respeito dos incêndios, não é?

— É. — Kate deu o braço a Rebecca e levou-a para o sofá. — Sente, antes que você caia.

— Não foi ele que fez isso. — Os olhos de Rebecca se encheram de lágrimas, e ela se esforçou para não chorar. Era algo que ela não costumava fazer, mas em meio às confissões do pai, aos interlúdios com Alex e às noites sem dormir, o seu autocontrole se reduzira a frangalhos. — Eu juro, Kate. Papai admitiu ter desviado o dinheiro, mas ele me deu sua palavra de que não tem nada a ver com os incêndios da refinaria e do estábulo de Alex. E eu acredito nele.

— Claro que acredita — disse a amiga, tentando acalmá-la.

— Sei que não é fácil gostar dele — Rebecca admitiu com dificuldade. — Ele é rude... E arrogante. E cometeu erros. Mas ele não colocaria vidas em risco. Darius Franklin está investigando. Confio nele. Ele é um bom homem. Ele... Ele nos aconselhou a arranjar um advogado.

De repente, sem aviso, Rebecca desmoronou. Sua xícara começou a sacudir no pires e Kate a segurou, impedindo que a porcelana frágil se espatifasse no chão. Sem dizer uma palavra, as duas se abraçaram e esperaram a tempestade passar. Depois de muito tempo, Rebecca se afastou e enxugou as lágrimas.

— Eu...

— Nem ouse se desculpar — Kate disse com firmeza. — Depois de todas as vezes que você me consolou quando eu chorava por causa de Lance, nem tente, ouviu?

Rebeca deu um sorriso apagado.

— Ouvi.

Atrás delas, o sininho da porta soou novamente. Ela se encolheu.

— Você atende, enquanto eu dou um jeito na maquiagem? — ela perguntou baixinho.

— Claro. — Kate olhou por cima do ombro de Rebecca. — Ah, é Alicia Montoya. Ela e Justin pretendem se casar em breve. Provavelmente veio escolher algo para a noite de núpcias.

— Esperemos que seja só por isso — Rebecca murmurou.

Sem esperar por uma resposta, ela entrou no banheiro e gemeu ao se olhar no espelho. A maquiagem dos olhos escorrera pelo rosto, deixando-a com olheiras pretas. Ela parecia uma zebra, com a pele muito pálida cheia de listras negras, o nariz e os olhos inchados e vermelhos. Era a desvantagem de ser ruiva: tudo se destacava no seu rosto.

Rebecca lavou o rosto e renovou a maquiagem. Depois, soltou os cabelos, deixando que eles lhe caíssem sobre os ombros. Muito melhor. Se Alicia olhasse de perto, não deixaria de ver os seus olhos avermelhados, mas, com um pouco de sorte, ela não notaria de imediato. Rebecca respirou fundo e voltou à loja, onde encontrou Alicia e Kate debruçadas sobre duas camisolas. Kate pegou a primeira, uma sexy camisola preta que revelava mais do que escondia. Alicia pegou a segunda, uma peça em tom de rubi, que acentuava a sua linda pele morena.

— É para a sua noite de núpcias? — Rebecca perguntou, aproximando-se.

— É. — Alicia deu um sorriso envergonhado. — Há muito tempo eu queria ter um motivo para comprar aqui.

Rebecca retribuiu o sorriso de Alicia com extrema facilidade, talvez porque a moça tivesse a capacidade de deixar as pessoas à vontade.

— Sim. Eu me lembro de que você me disse isso quando esteve aqui com Cara. Mas você não tinha alguém especial para quem usá-la. — Ela abriu um sorriso largo. —Até agora. Parabéns.

— Obrigada. — A moça se voltou para escolher entre as duas camisolas. — Não consigo decidir entre ficar totalmente sexy com a preta ou mais recatada com a vermelha.

— Se está pedindo o meu conselho...

— Sim, por favor!

— Escolha a vermelha. A preta pode ser sexy, mas é óbvia demais para a noite de núpcias. Basta uma olhada, e todos os seus segredos são revelados. Você deseja mais romance, mais mistério. E veja... — Ela colocou a camisola sobre o braço de Alicia. O tecido leve se colou à sua pele, e a luz parecia atravessá-lo, tornando-o transparente. — Justin vai enxergar o suficiente para enlouquecer.

A hora seguinte passou rapidamente. Foi uma boa distração ajudar Alicia a escolher lingeries para a noite de núpcias e para a lua de mel. Mais tarde, enquanto Rebecca embrulhava as compras e Alicia arregalava os olhos, espantada com o quanto comprara, Kate comentava os detalhes do casamento.

— Você já decidiu se vai ou não se casar em El Diablo?

— Este foi o plano inicial, mas, depois do acidente com o estábulo, Alejandro mudou de ideia. Resolvemos nos casar na igreja do condado.

— Só por causa do incêndio? — Kate perguntou, preocupada. — Ele teme que haja outro?

— Não depois que Darius instalou um sistema de segurança, mas depois do incêndio a empregada de Alejandro foi embora, e ele está tendo dificuldade em substituí-la. — Alicia deu de ombros. — Fazia mais sentido transferir o casamento para a igreja. Além disso, é um lugar antigo e lindo, todo de madeira e de pedra. Decidimos fazer a cerimônia na noite de Natal, depois de Eucaristia.

— Não posso imaginar nada mais perfeito — Rebecca falou com sinceridade.

Ela acabou de embrulhar as compras de Alicia e as colocou em lindas caixas ou em sa­colas de tecido, enquanto uma frase que fora dita teimava em aparecer na sua cabeça re­petidamente: a empregada de Alejandro fora embora e ele não conseguira substituí-la. Uma ideia começou a tomar forma em sua cabeça. Uma ideia louca, impulsiva e extravagante.

Assim que Alicia saiu da loja, Rebecca se virou para Kate.

— Conheço a pessoa perfeita para ser empregada de Alex. E o melhor de tudo é que isto resolverá dois problemas de uma só vez.

Kate olhou para ela, confusa.

— Do que está falando?

— Não "do que", mas de "quem".

— Certo. Você me pegou. — Kate sorriu com indulgência. — Quem seria a pessoa perfeita para ser contratada como empregada de Alex?

— Eu.

 

Alex colocou o martelo no seu cinto de ferramentas. Saindo do estábulo, ele enfiou o chapéu mais firmemente na cabeça para proteger os olhos do sol do fim de tarde e olhou para a nova construção. Estava quase pronta. Em breve, ninguém notaria que ali ocorrera um incêndio. Ele sempre achava satisfatório o trabalho árduo, e ainda lhe dava o benefício adicional de aliviá-lo da raiva e da frustração sentidas durante os encontros com Huntington e com Rodriguez. A tentação de deixar que os dois homens se destruíssem mutuamente era grande, e ele chegaria a pensar nisto, não fosse por um detalhe: Rebecca.

Depois do último encontro que tivera com ela, o desejo continuava a atormentá-lo. Ele esperava que o trabalho o aliviasse, mas a ânsia o consumia, mostrando que aquela não era uma emoção que ele conseguiria purgar através do suor e da força de vontade. Seria preciso muito mais. No entanto, mesmo assim, o trabalho deixara algo claro: Sebastian Huntington pagaria pelo que havia feito. E Rebecca acabaria na sua cama, mas não para pagar a dívida de seu pai.

— Você tem uma visita — disse um dos seus empregados, indicando a estrada de cascalho.

Com certeza, uma nuvem de poeira se levantava a distância.

Minutos depois, um sedã conversível parava diante da casa do rancho. Não precisou muito para que Alex percebesse quem estava atrás do volante. Ele se aproximou lentamente. Rebecca saiu do carro e o esperou encostada no seu Cabriolet. Usava um vestido curto muito sexy que em tudo a favorecia, mostrando as pernas mais lindas que ele já vira. O sol refletia em seus cabelos, formando um halo avermelhado em volta do seu rosto. Não usava óculos escuros, e o verde vivido dos seus olhos atingiu-o como um raio, enquanto ele se aproximava. Ela olhou para ele com um ar de orgulho, de rebeldia e de segurança. Bem, isto fazia com que fossem dois teimosos demais para o próprio bem. Alex empurrou o chapéu para trás.

— Quase tenho medo de perguntar, mas o que faz aqui, Becca?

Ela endireitou o corpo e o encarou com uma segurança que o deixou preocupado.

— Eu vim resolver dois dos nossos maiores problemas.

— Se é a respeito do seu pai...

— Para ser exata, é a respeito da dívida do meu pai.

— Então, sejamos exatos. — Alex podia ter dispensado o sarcasmo.

Ela o ignorou totalmente.

— Alicia foi hoje à minha loja e disse que você está sem empregada desde o incêndio.

Alex percebeu o tom estranho da conversa e cruzou os braços.

— E daí?

— Daí que você ficará aliviado ao saber que isto não será mais um problema.

A declaração o pegou de surpresa. Para ganhar tempo, ele tirou as luvas e as prendeu no cinto. Depois, ele equilibrou o jogo, aproximando-se e levantando a cabeça de Rebecca com o dedo.

— O que você pretende, dulzura? — Se ele não estivesse perto o suficiente para ver o brilho alarmado nos olhos dela e para perceber que ela continha a respiração, acharia que ela se mantivera indiferente.

— Conheça a sua nova empregada — Rebecca declarou. — Aceito o mesmo salário que você estava pagando à antiga, e fico até que a dívida do meu pai esteja paga.

Ele não conseguiu se impedir de rir.

— Você está brincando.

Ela se desvencilhou da sua mão e se abaixou dentro do carro para abrir o capo.

— Eu também lhe dou o meu carro. Isto deve abater um pouco da dívida. Comprei uma picape velha, já que ainda vou precisar ir até a butique. — Ela deu a volta no carro, pegou uma mala e jogou no chão. — Receio que eu precise passar parte do dia na Sweet Nothings, mas a minha ajudante é bem treinada, e posso adaptar o meu horário de acordo com o que você precisa. Acordo cedo para cuidar das tarefas da casa, e posso terminá-las depois que voltar da loja, e sempre que ela estiver fechada.

— Chega, Rebecca! — ele exclamou com impaciência. — Não sei que jogo você está armando, mas eu não acho nada divertido.

Ela deu a volta no carro com uma agressividade que o assustou.

— Isto não é um jogo. Nem é divertido. De fato, não há nada de divertido nos acontecimentos dos dois últimos dias.

— Eu não vou contratá-la.

Ela deveria ter antecipado aquele pequeno obstáculo, porque já tinha preparado um argumento.

— Você não vai poder resistir, Alex. Pense só que delícia vai ser dizer a todo o mundo que Rebecca Huntington é a sua nova empregada. — Ela lhe deu as costas e tirou o resto da bagagem do carro. — Agora, se você me mostrar os meus aposentos e me der uma ideia do que espera que eu faça, eu preparo o seu jantar. — Ela se abaixou para pegar as malas, mas ele as tirou de suas mãos.

Maldição! Elas pesavam uma tonelada. Ela as teria enchido, de pedras?

— Você não vai ficar aqui, nem fazer papel de minha empregada.

Rebecca parou diante de Alex, impedindo que ele voltasse a colocar a sua bagagem na mala do carro.

— De um jeito ou de outro, pretendo pagar a dívida do meu pai. Vou lhe entregar cada centavo que sobrar da loja e ganhar o resto trabalhando aqui, Montoya. Dia a dia, até que o débito seja quitado.

— Senhor Montoya — ele retrucou. — Os meus empregados me chamam de senhor, de señor ou de Alex. E todos se dirigem a mim com respeito, ou podem procurar emprego em outro lugar.

Rebecca inclinou a cabeça com a dignidade e a graça que lhe eram inerentes. Alex perdeu a fala ao ser invadido por um misto de orgulho e de desejo.

— Tem razão. Desculpe-me, sr. Montoya.

Alex soltou uma praga em espanhol.

— Isto é ridículo.

Ela saberia o quanto era ridículo se soubesse o tamanho da dívida.

— Não posso tê-la trabalhando para mim, Becca. Você sabe o que vai parecer. O que os outros vão dizer?

— Deixe que falem — ela respondeu, convicta. — Eles vão falar de qualquer jeito. Como você disse ontem, a minha reputação está em farrapos, e não vejo como a minha presença possa prejudicar a sua.

Ela não compreendia? Ele precisava explicar.

— As pessoas vão dizer que você é minha amante, não minha empregada.

Os olhos dela brilharam como duas esmeraldas.

— Mas eu vou saber a verdade. Os meus amigos vão saber. Você sabe a verdade. No que me concerne, isto é tudo o que importa.

Alex hesitou. Quando Rodriguez partira na noite anterior, estava furioso e decidido a fazer com que Rebecca fosse sua. Em Huntington Manor ela estaria vulnerável. Ali, onde ele poderia vigiá-la, ela estaria razoavelmente em segurança. Claro que ela teria de ir até a cidade todo dia, para trabalhar na loja. Mas ele sabia que nem mesmo Paulo ousaria fazer algo com ela em plena luz do dia, no meio de uma loja movimentada. A segurança de Rebecca não era mais importante? Como razão, não passava de aceitável, mas Alex não conseguia esquecer a expressão do amigo quando ele falara de Rebecca. Não havia dúvidas quanto às suas intenções, assim como não havia dúvidas sobre o simples fato de que Alex faria tudo o que pudesse para mantê-la longe do alcance de Paulo.

— Está bem. Você está empregada.

Rebecca não escondeu a sensação de triunfo, embora durasse pouco. No momento em que ele explicasse quais seriam suas obrigações, Alex esperava que ela fosse recolher as malas, enfiá-las no carro e fugir correndo dali.

Ao chegarem diante da porta, Rebecca parou e se voltou para Alex. Foi quando ele viu o primeiro sinal de fragilidade.

— Talvez seja melhor começar do jeito que tem de ser — ela disse.

— Do que você está falando? — ele perguntou, impaciente. — Podemos prosseguir? As malas não estão ficando mais leves...

— Sou sua empregada, Alex. Quer dizer, sr. Montoya.

— Alex — ele falou secamente.

— Os empregados em geral não entram pela porta da frente — ela declarou. — Desde o dia em que vocês chegaram, a sua mãe nunca entrou...

— Ah, pelo amor de... — Ele subiu os degraus, equilibrando as malas, e uma caiu sobre o seu pé. Ele abriu a porta com um chute e ordenou. — Entre.

Rebecca abriu a boca para protestar:

— Mas...

— Madre de Dios! Você não tem a mínima ideia do que é ser um empregado obediente e respeitoso, não é? Você pretende discutir cada coisa que eu lhe peça para fazer?

Ela ficou muito séria, mas os seus lábios tremeram, e Rebecca explodiu numa risada.

— Desde que você peça, não.

Alex soltou as malas no saguão, evitando que alguma lhe atingisse o pé novamente. Bateu a porta e os dois ficaram trancados na obscuridade. Sem dizer uma palavra, ele atraiu Rebecca para os seus braços, pretendendo lhe mostrar, da maneira mais direta, o absurdo da situação.

— Você sabe do que irão chamá-la, não sabe? — ele advertiu.

Ela não protestou, mas não se mexeu.

— Acho que você disse que iriam me chamar de "filha de ladrão".

— Agora irão chamá-la de amante do diablo.

Ela olhou para ele com toda a calma.

— Nós sabemos a verdade.

— E que verdade é esta?

Ela estava dentro dos seus braços, os seus hálitos se misturando e os seus corações batendo em uníssono.

— Que eu sou apenas sua empregada, nada mais.

Alex encarou aquelas palavras como um desafio e a beijou para provar que ela estava enganada, mas imediatamente reconheceu que havia sido um erro. Rebecca estava em sua casa fazia trinta segundos, e ele já colocara as mãos nela. Droga, nela inteira! Ele parecia querer devorá-la, e ela não resistia. Rebecca deveria esbofeteá-lo, mas em vez disso enfiava as mãos nos seus cabelos e derrubava o seu chapéu, segurando-o no lugar enquanto os dois se beijavam. Ele não conseguia se fartar do seu sabor, da deliciosa atração que ela exercia. Alex acariciou-a em lugares com que passara horas amargas sonhando. O corpo dela mudara. Sofrera mudanças sutis que haviam transformado a menina que ele conhecera na mulher que ele abraçava agora. Os seus seios ainda lhe enchiam as mãos, mas o seu corpo se tornara mais flexível, mais macio e mais bem definido. Seus quadris se arredondavam abaixo da cintura fina, e suas nádegas eram perfeitas. Alex sentiu vontade de enfiar a mão debaixo de sua saia e verificar se ela usava uma das peças que fizeram a fama da Sweet Nothings. Pedaços minúsculos de nada preto ou vermelho. Talvez ela tivesse escolhido o mesmo tipo de tecido marfim macio que ele vira no outro dia. Seda e renda que se misturavam à sua pele cremosa e que escondiam os cachos avermelhados entre suas coxas. A imagem que se formou na cabeça de Alex quase o fez perder as forças. Ele não queria possuí-la no meio do saguão, mas, se não encontrassem um ambiente mais adequado, seria exatamente o que iria acontecer. Mais que tudo, ele desejava levar Rebecca para o seu quarto e jogá-la sobre a cama, onde iria despi-la até descobrir a cor que ela escolhera para usar naquele dia.

Alex se afastou o suficiente para levantá-la do chão e carregá-la no colo, mas, com isto, ele deu espaço para que Rebecca voltasse à realidade e se soltasse dos seus braços.

— Isto precisa parar — ela disse. — Vou ser sua empregada e fazer o melhor trabalho que puder, e também vou enfrentar todas as fofocas que possam surgir. Mas estarei perdida se me tornar sua amante de outra forma que não seja na sua imaginação.

— É tarde demais, dulzura. Nós dois estamos perdidos. E você será minha amante. É só uma questão de tempo.

Deus o ajudasse, ela ficava mais linda quando estava zangada, olhando-o com os seus magníficos olhos verdes, o rosto emoldurado pelos cabelos vermelhos, e toda corada.

— Pode me mostrar o meu quarto? — ela disse num tom humilde. — Gostaria de desfazer as malas antes de preparar o jantar.

— Sim, senhora — ele falou secamente. — Por aqui.

Alex a encaminhou para os fundos da casa. Perto da cozinha, ele abriu a porta que dava para um conjunto de suítes ocupado pela antiga empregada e levou as malas até um quarto, colocando-as ao lado da cama. Quando ele se virou teve tempo de ver Rebecca fazer uma expressão estranha.

— O que foi? — ele quis saber.

— Estes não podem ser os aposentos da empregada — ela disse.

— São exatamente estes.

O rosto de Rebecca se tornou impenetrável, enquanto examinava os dois quartos, cada um com seu banheiro, e uma ampla sala de estar. Quando ela terminou a inspeção, virou-se para Alex com um olhar entristecido.

— Estes quartos não existiam quando você se mudou para El Diablo, não é?

— Não.

— Você os construiu pensando numa empregada e na família que ela poderia ter. — Ela não esperou que ele confirmasse. — Foi por causa de Huntington Manor.

Alex se recordou do quarto que o pai dela mandara dividir para que ele, sua mãe e sua irmã não tivessem de ocupar o mesmo espaço. Também havia uma sala, mas era tão pequena que mal dava lugar para um, quanto mais para dois adolescentes e uma mãe exausta. Ele não demorara muito para descobrir que Huntington se dera ao trabalho de acomodá-los daquele jeito para evitar comentários. Para Sebastian Huntington, a imagem era tudo. Imagem, reputação, aparências. Não ficaria bem que o acusassem de tratar mal seus empregados, especialmente porque a mãe de Alex já trabalhara na maioria das casas de Somerset e era muito estimada. Mas isso não impedia que a amplidão de Huntington Manor acabasse no limite dos aposentos dos empregados. Alex viu que Rebecca ficava muito vermelha.

— Sinto muito, Alex. Desculpe pelo que o meu pai fez com você e com a sua irmã por causa do nosso caso. Mas eu fico mais entristecida pelo que ele fez com Carmen. Foi injusto.

Alex cruzou os braços.

— Fico surpreso por você não defendê-lo ou desfiar uma série de justificativas. Isto não faz parte do seu papel de filha?

Rebecca suspirou de cansaço.

— Não neste caso.

Agora que olhava mais de perto, Alex notou os sinais de exaustão na pele pálida de Rebecca. Ela estava com profundas olheiras, que intensificavam o verde dos seus olhos e lhe davam um ar de fragilidade que fazia com que ele quisesse abraçá-la novamente. Mas ele não tinha coragem. Não ali. Não quando as atitudes do pai de Rebecca ainda se colocavam entre os dois.

— Tire a noite para se ambientar. Você pode começar a trabalhar amanhã.

Rebecca se empertigou toda, esticando as costas.

— Isto não é necessário. Diga apenas o que você quer.

— Você sabe o que eu quero — ele disse, aproximando-se. Ela ficou alarmada por um instante, mas logo revelou um traço de bom humor.

— Ficarei feliz em procurar na geladeira, mas tenho quase certeza de que este item não está no cardápio de hoje.

— Coloque-o no cardápio. E logo — ele avisou.

Alex saiu do quarto antes que ele mesmo cumprisse a ordem, e se forçou a sair de casa e voltar para o estábulo, onde trabalhou arduamente por mais de uma hora. Talvez ele ficasse exausto demais para pensar no que o esperava em El Diablo e no que gostaria de fazer quando voltasse.

A quem ele enganava? Jamais ficaria cansado a este ponto.

 

A noite rapidamente se tornou um pesadelo, num espaço de duas horas. Rebecca ficou parada na enorme cozinha de El Diablo e encarou a realidade: por absoluta falta de prática, esquecera totalmente o pouco que Carmen lhe ensinara a cozinhar durante a sua adolescência. Pretendia fazer para Alex um jantar simples, mas completo, oferecendo-lhe um típico filé do Texas, crocante por fora e malpassado por dentro, uma salada, batatas assadas e purê de ervilhas com raspas de amêndoas. A única coisa que chegou à mesa, e que se parecia remotamente com o que ela imaginara, foi a salada.

O filé não estava crocante, mas torrado. As batatas, frias e duras por dentro. E as ervilhas haviam atingido o auge, tornando-se uma grossa papa verde com lascas de amêndoas grudadas sobre picos ressecados. Alex deu uma olhada, fechou os olhos e rezou silenciosamente antes de comer. Cinco minutos depois, Rebecca notou que ele acrescentara uma generosa dose de uísque ao cardápio, para ajudar a engolir aquele horror. Ela observou a interminável pilha de pratos e panelas que teria de lavar e tentou controlar a vontade de chorar.

Chega! Ela se propusera a fazer aquilo e conseguiria, por mais que lhe custasse. Recusava-se a desistir ou recuar. E recusava-se completamente, absolutamente, a cair em outra cama que não a sua.

Ela vasculhou as gavetas e os armários da cozinha, encontrou um avental e luvas de borracha e começou a trabalhar. Quando acabasse, conversaria com Alex e teria a lista de tarefas que a antiga empregada costumava fazer. Para preparar tudo e abrir a loja às 9h, precisaria acordar muito cedo.

Quando Rebecca guardava a louça no armário, Alex apareceu na porta.

— Obrigado pelo jantar — ele disse. Rebecca suspirou.

— Considerando tudo, é muita bondade sua. — Ela se virou para encará-lo e tirou as luvas. — Você teria um minuto para me dar uma lista de tarefas?

— Não vai levar um minuto. Limpe a casa, lave a roupa, faça o café da manhã e o jantar. Não se preocupe com o almoço. Em geral, eu como fora.

— Presumo que eu tenha de fazer o supermercado. — Quando o viu hesitar, ela colocou as mãos nos quadris. — A minha antecessora fazia?

— Fazia.

— Então, certo.

— Becca...

— Por favor, Alex — ela sussurrou. — Eu preciso tentar. Dê-me uma chance.

Ele apertou os lábios que ela se deleitara em beijar.

— Você sabe tanto quanto eu que não vai conseguir trabalhar direito aqui e ainda gerenciar a Sweet Nothings. É muito para uma pessoa.

— Posso dar um jeito até quitar a dívida.

— Você tem ideia de quanto tempo vai demorar? — ele perguntou. — Não estamos falando de semanas ou de meses. Estamos falando em anos.

— Não necessariamente. A loja dá um bom lucro. Você deve conseguir um bom preço pelo meu carro. Ele pode ser usado, mas foi bem cuidado.

— Você está vivendo no mundo da lua, Rebecca. Não vai conseguir manter este passo por um mês, quanto mais por anos. Encare a realidade.

Rebecca tentou se manter firme. Talvez ela se saísse melhor se não estivesse tão cansada que mal conseguia enxergar.

— E você acha que eu não encarei? Você acha que eu não sei o quanto lhe devemos? — Ela puxou uma cadeira da mesa da cozinha e sentou com cuidado, como se ao menor movimento brusco pudesse se desmanchar. — Eu não sou a idiota que você pensa, Alex.

— O que está querendo dizer? — ele perguntou, preocupado.

— Percebi que se você não tivesse aceitado a Sweet Nothings como garantia agora seria dono de Huntington Manor. Você ou outra pessoa que não o meu pai. Alguém como Rodriguez. Papai seria forçado a vender para cobrir suas dívidas e pagar o advogado.

— É provável.

— Ainda pode acontecer — ela sussurrou. — Não pode?

Alex pensou em responder, mas sacudiu os ombros.

— Não se preocupe com isso.

— Alex? — ela insistiu.

— Digamos que esta confusão está longe de terminar. — Ele estava mais sério que nunca. — Até que termine, fique longe de Rodriguez, Becca. Se ele entrar em contato com você, mande-o falar comigo e me avise imediatamente.

— O meu pai está em perigo?

— Madre de Dios! — Ele passou a mão na cabeça. — Paulo é perigoso para você, Becca. Isto é tudo que importa. O seu pai fez a própria cama. Deixe que ele deite.

— Você teria a mesma atitude se a situação fosse inversa, e Carmen estivesse em risco? — ela desafiou.

Ele fez extremo esforço para se controlar, e ela ficou impressionada.

— Como eu já disse, esta comparação não é justa, e você sabe. Minha mãe jamais teria se colocado na situação em que o seu pai se colocou. Havia dias em que não tínhamos dinheiro suficiente para colocar comida na mesa, mas ela nunca roubou um tostão de alguma das luxuosas mansões onde fazia a faxina, mesmo que não fizesse falta aos patrões, que eles não fossem notar, e que isso fizesse a diferença entre comermos ou não.

— Ah, Alex... — Ela suspirou, comovida.

— Eu não estou pedindo a sua compaixão. — Ele ergueu a cabeça e falou secamente: — Eu simplesmente relatei um fato.

— Digamos que a sua mãe emprestasse dinheiro de Rodriguez para resolver alguma dificuldade de vocês, e que não conseguisse pagar. Você daria um jeito de ajudá-la, antes que ele a atingisse. — Ela não tinha dúvida. — O que estou fazendo de diferente?

Alex cruzou a sala e puxou-a da cadeira.

— A diferença é que o seu pai é capaz de se defender, ainda que ele tenha escolhido se esconder atrás da sua saia. A diferença é que a minha mãe era uma mulher boa, car­inhosa, humilde, enquanto o seu pai é um miserável arrogante que acha que pode fa­zer o que quer, sem assumir a responsabilidade por seus atos ou sofrer as consequências.

Rebecca desejou poder negar, mas não podia. Por mais que amasse seu pai, não ignorava os seus defeitos; mas não deixaria de ficar ao lado dele e ajudá-lo a sair daquela situação. Ela sentiu o peso da sua missão. Pagar o CMT, ou melhor, Alex, já lhe parecera muito. Mas agora que Alex lhe contara sobre Paulo Rodriguez...

— Chega — disse Alex. — É evidente que você está no fim da corda, e eu não quero que ninguém diga que sou responsável por você desmaiar.

Ela tentou protestar, mas soltou um gemido surpreso quando ele a levantou do chão e levou-a para o seu quarto. Alex jogou-a sobre a cama e tirou-lhe os sapatos.

— Posso me despir sozinha — disse Rebecca com um sorriso seco. Era isto ou chorar. — Eu já faço isto há mais de duas décadas.

— E eu achando que você tinha empregados para cuidar de você e para satisfazer todos os seus caprichos.

— Engraçado. — Ela apontou para a porta. — Acho que deixei bem claro onde as minhas obrigações acabam. Do outro lado daquela porta.

Alex continuava a segurá-la pelo tornozelo, passando o dedo pela sua pele e sobre seus ossos, até que ela estremeceu. Rebecca ficou aliviada ao ver que ele não percebera o quanto ela estava perto de puxá-lo sobre o corpo e de deixar que o desejo ultrapassasse o bom-senso.

— É uma pena. — Alex soltou-a e se afastou. A caminho da porta, ele se voltou para ela. — Lembre-se de me avisar se Rodriguez tentar se aproximar de você.

Rebecca pensou que não valia a pena discutir, mesmo porque todos os seus instintos lhe diziam para fazer exatamente isto.

— Prometo.

— Durma bem. — Ele retorceu a boca. — Deus sabe que eu não vou conseguir dormir.

 

A semana seguinte foi uma das mais estressantes que Rebecca já passara. O cansaço a seguia a cada passo. Não era apenas levantar às 4h da manhã para fazer o serviço da casa, antes de correr para abrir a Sweet Nothings na cidade. Ela não avaliara o trabalho que dava manter limpa uma casa do tamanho de El Diablo. Vendo as coisas pelo lado positivo, podia cancelar a sua inscrição na academia, onde os exercícios nada eram se comparados a varrer e limpar o pó dos vários quartos da casa de Alex. Precisaria de tempo para se acostumar e aprender a maneira mais eficiente de desempenhar seu trabalho. Até aquela semana, ela nunca pensara na loja como um local de descanso e relaxamento, mas agora valorizava cada momento que passava ali, sabendo o que a esperava quando voltasse a El Diablo. Ela não se importava com o trabalho físico, por mais exaustivo que fosse, e sim com a indulgência com que Alex presenciava o seu esforço. Ele comia com estoicismo a sua comida super ou pouco cozida e malfeita. Não reclamava por ela ter desbotado ou manchado suas camisas. Tudo o que ele fazia era dar um suspiro quando suas botas grudavam no piso que ela besuntara de cera. Mas, a cada incidente, Rebecca se sentia mais incapaz e concluía estar se aproveitando dele. Alex não deveria estar lhe pagando. Ela é que deveria pagar pelos danos que causava a ele e à sua casa.

Ela se levantou com um suspiro e começou a desembalar a última entrega de sutilezas de renda e de seda. Apesar de o início da semana ter sido movimentado, os negócios tinham diminuído nos últimos dias. Ela achava que o frio era parte do problema. Quem iria querer comprar lingeries, quando o clima exigia flanela?

O sininho da porta soou alegremente e uma cliente entrou. Rebecca a reconheceu vagamente como uma antiga colega da escola.

— Você é Mary Beth, não é? — Ela deu um sorriso amistoso e indicou a seção que acabara de arrumar. — Os itens na prateleira ao seu lado acabaram de chegar. Você será a primeira a vê-los.

— E provavelmente a última — disse a outra, com frieza. Rebecca ficou confusa. Se não estivesse tão cansada, talvez tivesse entendido.

— Como assim? — ela perguntou, intrigada.

— Os negócios estão devagar? — Mary Beth passou a mão displicentemente nas roupas, derrubando várias dos cabides. — E vão ficar ainda mais devagar, agora que Somerset inteira sabe a verdade a respeito dos poderosos Huntington. Quem vai querer comprar roupa de baixo de alguém como você?

Rebecca ficou gelada.

— Não sei o que...

Mary Beth interrompeu-a com um gesto de desprezo.

— Ah, por favor... Toda a cidade já sabe. Seu pai. Você trabalhando para Montoya. — Ela deu um tom malicioso à palavra "trabalhando". — Todos deram gargalhadas ao vê-la despencar do seu pedestal. — Ela olhou ao redor da loja. — Aproveite a sua Sweet Nothings. Sem clientes, isto é precisamente o que este lugar vai ser: nada.

Ela se dirigiu à porta no momento exato em que esta se abria. Um homem parou diante dela e olhou-a de cima a baixo com um ar de avaliação.

— Señora — ele murmurou, sorrindo.

Mary Beth olhou-o com interesse e saiu para o frio de novembro. Rebecca rezou para não parecer tão abalada quanto se sentia, e ofereceu um sorriso profissional ao recém-chegado. Ele também lhe pareceu conhecido, e ela ficou com receio, mas com sorte ele seria um verdadeiro cliente, e não um fofoqueiro em busca de novidades a respeito dela e de seu pai.

— Posso ajudá-lo? — ela perguntou.

— Muito mais do que você imagina — ele disse, falando com um discreto sotaque. Percebendo que o comentário a perturbara, ele fez um gesto indicando a loja. — Estou procurando algo especial para a minha futura esposa.

— Posso ajudá-lo.

— Claro que pode, e deve.

A resposta causou uma reação instintiva em Rebecca que ela não conseguia explicar, mas que a deixou alerta. Ela fez o possível para disfarçar e preferiu levá-lo para a parte da frente do estabelecimento!

— Pode me dar uma ideia do que está procurando?

Ele pensou um pouco.

— Uma camisola. Para a nossa noite de núpcias.

— Qual é o tom de pele da sua noiva?

Ele deu um sorriso que não condizia com o que ela via em seus olhos.

— Bem, ela é ruiva como você.

Certo. Rebecca sabia quando alguém estava brincando com ela. E definitivamente era o que ele fazia. De repente, ela se lembrou de onde o vira rapidamente há alguns meses. Ele conversava com seu pai, ou melhor, os dois discutiam acaloradamente. Quando ela perguntara ao pai do que se tratara, ele simplesmente a ignorara. Agora tudo adquiria sentido. Se ela costumasse jogar, apostaria que ele era o infame Paulo Rodriguez, e isto só podia significar uma coisa: problemas.

Rebecca pegou distraidamente o celular que estava junto à caixa registradora e começou a brincar com ele, como se fosse um hábito inconsciente.

— Humm... Preto sempre fica... — Ela fez uma expressão de surpresa. — Espere. O meu celular está vibrando. Sinto muito. É Alex. Se eu não atender... — Ela fez um gesto de irritação.

Antes que o homem pudesse responder, ela abriu o celular e apertou o número 1, registrado na memória para ligar para o celular de Kate. Assim que pudesse, iria registrar o número de Alex no celular. Rebecca ficou aliviada quando a amiga atendeu imediatamente.

— Oi, Bec. Tudo bem?

— Sim, Alex. Tudo bem. — Ela revirou os olhos com exagero. — Você se preocupa demais.

— Algo está errado, não está? — Kate perguntou depois de alguns segundos de silêncio.

Rebecca agradeceu por ter amigos inteligentes. Kate rapidamente somaria dois mais dois e viria socorrê-la.

— Você falou Alex. Ele está aí? Ele a está incomodando?

Rebecca rezou para que o seu tom irritado escondesse o seu medo.

— Não, não. Vou chegar em casa na hora de sempre.

— Claro que não. Não faria sentido você dizer o nome dele, se ele estivesse com você — Kate murmurou. — Isto quer dizer que você quer que eu o chame.

— É isto mesmo. Ouça. Eu estou com um cliente e não quero demorar a atendê-lo. Pare de me ligar — disse Rebecca.

— Eu estou na Brody Oil and Gas. Vou telefonar para Alex. Eu e Lance estamos indo até aí.

— Como quiser. Até logo, Alex. — Por algum motivo, Rebecca se sentia mais segura só de dizer o nome de Alex.

Infelizmente, isto causou o efeito oposto no homem que perambulava entre as fileiras de camisolas. Rebecca respirou fundo e suspirou.

— Desculpe. Onde estávamos?

— Ah, sim. Esta. — Ele pegou um baby-doll vermelho. — Isto ficaria lindo na sua pele.

— Na pele da sua noiva — ela corrigiu, sorrindo. — Se ela tiver o cabelo parecido com o meu, este tom de vermelho não combina.

Ele voltou a pendurar o pedacinho de seda e de renda no lugar.

— É uma pena. Gosto muito deste tom. Talvez algo verde... — Ele escolheu uma peça verde ao acaso e se aproximou. — Para combinar com os olhos da minha futura noiva.

Rebecca recuou, assustada, mas ele foi mais rápido e se colocou entre ela e a porta da loja e a trancou, virando o cartaz de boas-vindas ao contrário. Ele se virou para ela e deu um sorriso que a deixou apavorada.

— Paulo Rodriguez, eu suponho — ela conseguiu dizer.

— É um prazer enfim conhecê-la, señorita Huntington. — O sorriso dele brilhava. — Mas, considerando que vamos nos tornar muito próximos, por que não a chamo de Becca?

— Porque só os meus amigos me chamam desse jeito. E você não é um deles.

— Poderia ser. — Ele a encurralou contra o balcão. — Serei.

— O que você quer?

— O seu pai me deve muito dinheiro. Acho que está na hora de receber uma parte. — Ele chegou mais perto. — Vamos dizer que sejam... os juros.

 

Alex saiu correndo pela calçada da frente do escritório. Seria mais fácil ir até a Sweet Nothings a pé, ou correndo, do que de carro. Além disso, não queria que Paulo percebesse a sua chegada até que ele entrasse na loja. Não sabia como Lance Brody se envolvera no que estava acontecendo, mas passara a lhe dever um favor por tê-lo avisado. Seria um débito difícil de pagar. A placa na porta da Sweet Nothings dizia "Volte mais tarde", e Alex sentiu um arrepio de medo. Pelo que podia ver através da vitrine fume, lá dentro estava tudo silencioso e escuro. Esforçando-se para se controlar, Alex tentou abrir a porta, mas ela estava trancada. Ele recorreu a uma das suas habilidades menos recomendáveis, esquecida durante muitos anos, arrombou a fechadura e abriu a porta com cuidado para evitar que o sininho tocasse, revelando sua presença. Por um instante, nada enxergou. Mas, de repente, ouviu um grito abafado que vinha do sofá, nos fundos da loja. Ele não se lembrava de ter se movimentado: num minuto estava na parte da frente da butique; no outro, estava nos fundos, e Rodriguez, caído no chão, sangrando.

Rodriguez olhou para Alex e passou a língua no lábio partido. Um de seus olhos inchava rapidamente.

— Você não deveria ter vindo — ele falou em espanhol, sem dúvida para evitar que Rebecca compreendesse.

Alex seguiu o seu exemplo:

— Eu lhe avisei para não tocar no que me pertence. Você deveria ter ouvido.

Paulo se virou, e Alex chegou mais perto, sacudindo a cabeça. Soltando um gemido, o outro sentou no chão.

— E você deveria ter me ouvido, Montoya. Vou fazer o que puder para ter esta mulher, sua casa e o status que ela já teve. — Embora parecesse sentir dor, ele sorriu. — Para tê-la na minha cama, grávida do meu filho.

A imagem queimou como fogo na cabeça de Alex, mas ele fez força para ignorar a provocação e se manter alerta. Assim como fazia força para ignorar Rebecca. Se olhasse para ela, perderia o controle. Totalmente.

— Ela agora está na minha casa, na minha cama. E é lá que ela vai ficar. Se você quer receber o dinheiro que Huntington lhe deve, é a mim que deve procurar.

— Você realmente pagaria as contas dele, depois de tudo que ele fez com a sua família?

— Sim. — Alex sorriu com frieza. — Como eu disse, Paulo, você não pode vencer. Agora, dê o fora, antes que a moça preste queixa na polícia.

— Ela não faria isso. — Paulo olhou para Rebecca com um ar malicioso. — Já houve muita fofoca. Se alguém souber disto... Podem achar que a adorável Becca está ajudando o pai a pagar todas as suas dívidas de uma maneira tão velha quanto o mundo. Hein, Alejandro?

— Basta! — Alex acabou com a conversa, levantando Paulo do chão e desarmando-o rapidamente. — Onde estão os seus capangas?

— Estou sozinho.

— Você não anda sem guarda-costas desde os 12 anos. Repito: onde estão seus homens?

— Nos fundos da loja. — Paulo passou a mão nos lábios e piscou. — Da próxima vez vou deixá-los na porta da frente também.

— Não haverá próxima vez, Paulo. Agora, suma daqui e leve os seus capangas com você, ou eu vou chamar a polícia.

Antes de sair da loja, Paulo olhou para Rebecca com um olhar cobiçoso. Assim que Alex viu que estavam em segurança, agachou-se ao lado de Rebecca e começou a lhe esfregar as mãos, que estavam geladas.

— Você está bem?

Ela levou um tempo interminável para responder:

— Sacudida, tremendo e revirada, mas vou sobreviver. — A frase bem-humorada poderia tê-lo acalmado, se ela não estivesse tão pálida e seus olhos não estivessem tão assustados, tornando-se verde-escuros como a folhagem de uma selva impenetrável e sombria. De fato, olhando de perto, era como se ela tivesse se fechado.

Alex continuou esfregando-lhe as mãos e tentando acalmá-la em voz baixa. Enquanto isso, ele a examinava. A luta fora breve, mas terrível. Os dois primeiros botões de sua blusa haviam sido arrancados, revelando o seu sutiã de renda. Sua saia subira até o alto das coxas, mas ele sabia que isto tinha acontecido quando ela dera um chute em Paulo, no momento em que ele o arrancara do sofá. Ele notou alguns hematomas na sua pele clara: um no pescoço e outro no joelho. O resto do dano fora emocional.

Alex não sabia há quanto tempo estava agachado ali, quando o sininho da porta tocou. Rebecca deu um pulo, apavorada. Lance e Kate entraram na loja.

— Ela está bem? — Kate quis saber. — Bec? — Ela correu até a amiga e abraçou-a com força.

Alex se levantou, sentindo-se impotente e furioso. Surpreso, ele viu Lance olhar para ele com uma expressão compreensiva.

— Ela foi atacada? — Brody perguntou em voz baixa. Alex assentiu.

— Rodriguez.

Deixando Rebecca aos cuidados de Kate, ele puxou Lance para perto da entrada da loja, onde poderiam conversar sem serem ouvidos.

— Você chegou a tempo? — Lance indagou.

— Sim, mas ele causou muito estrago em seu caminho.

— Este é um problema que não vai se resolver tão cedo. — Brody fez uma careta. — O que você vai fazer?

— Ainda não decidi — Alex admitiu. — Mas não vou deixar que Rebecca corra perigo.

— Os rumores são verdadeiros? — Lance perguntou diretamente. — Sobre você e Rebecca? Ela está morando com você?

— Ela é minha empregada, nada mais.

Lance praguejou.

— Isso é muito baixo, Montoya. Até mesmo para você.

— E você acha que eu tive escolha? — Alex retrucou. — Ela apareceu na minha porta, trazendo as malas.

— Você podia... deveria tê-la mandado de volta.

— Acontece que El Diablo pode ser o lugar mais seguro para ela.

— Eu não acho. Ela está se tornando motivo de risos, e a sua reputação se tornou um trapo. As "senhoras" caridosas e importantes da nossa linda cidade estão falando em boicotar a Sweet Nothings.

Foi a vez de Alex soltar um impropério.

— Ela está apenas tentando pagar as dívidas do pai.

— As pessoas estão falando sobre a maneira como Rebecca está pagando.

— Há muito tempo você está me provocando, Brody — disse Alex, revoltado. — Continue me cutucando e você vai ter o que quer.

— Acalme-se. Eu não estou dizendo nada que não esteja sendo dito por toda a cidade. Becca não merece isso. E eu estou lhe dizendo... pedindo para resolver a situação, antes que aconteça algo muito sério.

— Vou resolver, Brody. — Mas naquele momento Alex tinha algo mais importante a resolver. Ele se aproximou de Kate e Rebecca, que ainda estavam abraçadas. — Vou levá-la para casa, dulzura. Podemos fechar a loja ou chamar sua assistente. O que você prefere?

— Aquele miserável não vai vencer. Recuso-me a fechar minha loja — ela disse.

A sua revolta deixou Alex mais aliviado que qualquer outra coisa.

— Vou ligar para Emma e pedir que ela me substitua.

— Por que você não fica com Lance e comigo? — Kate ofereceu. — Só por um ou dois dias.

Foi preciso toda a força de Alex para se manter calado, pois tudo o que ele queria era se aproximar, tomar Rebecca em seus braços e carregá-la para El Diablo. Mas a escolha não era sua. Se ficar com os amigos a fizesse se sentir melhor, ele mesmo faria a sua mala.

— Obrigada — disse Rebeca. — Ficarei bem na casa de Alex.

— Ela vai ficar mais do que bem — Alex declarou. — Vou cuidar disto pessoalmente.

— Além do mais — Rebecca continuou —, estou com o serviço atrasado. Isto me dará a chance de colocar tudo em dia.

Dois pares de olhos indignados fitaram Alex, mas ele apenas balançou a cabeça.

— Isto não vai acontecer. Você precisa de tempo para se recuperar do choque.

— Não — ela protestou. — Preciso de algo para manter a cabeça ocupada. Não vou ficar sentada, pensando no que aconteceu.

— Vamos discutir sobre isso mais tarde. — Ele a ajudou a se levantar. — O meu carro está no escritório. Acha que pode andar até lá?

— Quero que vocês parem de me tratar como uma inválida. Claro que posso andar até lá.

Quando chegaram ao rancho, ela recuperara a cor e a combatividade.

— Eu realmente preciso fazer alguma coisa, Alex.

— Como seu patrão, eu a proíbo.

— Proíbe. — Ela pestanejou e pensou na palavra. — Você realmente acabou de usar a palavra "proibir" comigo?

Ele olhou para ela e sorriu.

— Apenas como patrão.

— Sério, Alex. O que espera que eu faça?

Ele parou diante de casa. Se pudesse entrar em casa com o carro, ele o teria feito.

— Espero que você relaxe. Você trabalhou demais na semana passada. Merece um dia de folga. — Alex deu a volta para abrir a porta do carro para ela.

Quando ela saiu, ele ficou preocupado ao vê-la novamente pálida, e com olheiras azuladas. À luz do sol, ele percebeu o quanto ela estava abatida. Já deveria ter previsto que Rebecca não conseguiria desempenhar o papel de empregada e cuidar da loja ao mesmo tempo. Era muito para uma pessoa só.

— Entre — ele disse, sem se importar que parecesse mais uma ordem que um convi­te, ou que ela não gostasse. — Eu não sei quanto a você, mas eu estou louco por um café.

Os olhos dela brilharam com a sugestão.

— Seria perfeito. Vou fazer.

— Você faz um excelente café, mas eu pretendo adicionar algo que você não usa.

— O quê?

— Espere e verá.

Os dois foram para a cozinha. Alex apontou para uma cadeira, e Rebecca sentou com relutância. Depois que ela obedeceu, ele tirou o paletó, enrolou as mangas da camisa e começou a fazer o café. Enquanto o café coava, ele colocou uma generosa dose de uísque numa panela e aqueceu até quase ferver. Em seguida, ele pegou duas canecas, açúcar mascavo, o uísque aquecido e o café, e colocou sobre a mesa.

— Certo. Estou curiosa.

— Esqueça a curiosidade. Prepare-se para ficar impressionada. — Ele serviu o café nas canecas, adicionou o açúcar e mexeu. Depois, virou as colheres ao contrário e fez o uísque escorrer lentamente por elas para dentro das xícaras. Quando acabou, ele pegou um pouco de creme batido na geladeira e colocou uma porção generosa na superfície de cada bebida. — Café irlandês — esclareceu, empurrando uma das xícaras na direção de Rebecca. — Sláinte.

— O que isto quer dizer?

— Saúde, em gaélico.

Os olhos de Rebecca brilharam de satisfação, espantando as sombras.

— Certo. Estou totalmente impressionada.

— E vai ficar mais ainda quando provar. Espere esfriar um pouco e veja o que acha.

— É tão bom assim?

— Melhor ainda.

Ela riu e enfiou o nariz na caneca, provando com cuidado.

— Ah — ela murmurou e levantou a cabeça com os olhos arregalados. — Ah, minha nossa!

Alex riu e limpou um pouco de creme que ficara na ponta do nariz de Rebecca. Como podia estar tão linda? Os traços de pânico a haviam deixado pálida e exaurida. O resto de creme adicionara um elemento estranhamente ingênuo ao seu rosto. E ela ainda lhe tirava o fôlego. Tinha uma aparência etérea, com os cabelos avermelhados espalhados sobre os ombros e os olhos verdes brilhando de satisfação. Se Rebecca não fosse tão voluntariosa e impulsiva, ele poderia achar que ela era uma espécie de duende que viera roubar um gole do uísque que ele colocara no café.

— Onde você aprendeu a fazer isso? — ela perguntou.

— A minha antiga empregada era irlandesa. Ela me ensinou.

Rebecca sorriu.

— Você deve sentir falta dela. Ainda mais considerando que a substituta não chega aos pés dos seus padrões.

— Eu sobrevivo — ele disse com segurança, bebendo o café. — Mas você tem razão. Eu sinto falta dela. A sra. O'Hurlihy era uma joia.

Rebecca soltou um suspiro satisfeito e bebeu quase todo o café, antes de responder:

— Eu sei que ainda preciso melhorar muito, mas estou tentando.

— Sei disso, E, para ser sincero, não há ninguém melhor que você para organizar a festa em comemoração ao casamento de Darius e Summer. Pelo que me recordo, você costumava organizar festas sensacionais para o seu pai.

Por algum motivo, ela se encolheu e o seu sorriso se tornou tenso.

— Eu ficarei feliz por cuidar disso, mas sugiro que você contrate um bufê. Duvido que a minha comida corresponda ao que você espera.

— Eu iria contratar um bufê mesmo que a sra. O'Hurlihy ainda estivesse aqui. Quero que você se encarregue da decoração e da organização.

— Claro. — Ela enfiou o nariz dentro da caneca mais uma vez. — Quem... Quem você planeja convidar?

— O grupo de sempre. Mitch e Lexi, Kevin e Cara Novak. Talvez alguns outros.

— Vai ser um jantar formal?

— Não. Vai ser informal. Vou providenciar para que alguém a ajude com a decoração e com a árvore de Natal. Acho que o jantar deve ser servido no estilo de bufê. — Alex pegou a xícara de Rebecca e serviu mais uma dose de café para os dois. Na esperança de que ela relaxasse, ele caprichou na quantidade de uísque e ficou satisfeito ao vê-la pegar a xícara e beber. — Este lugar tem um enorme salão de festas. Acho que entrei nele uma vez, mas veja se ele serve para a comemoração.

— Vou fazer isto amanhã de manhã.

Rebecca falara num tom estranho, e Alex olhou para ela preocupado.

— O que foi? Algo de errado?

— Nada. Estou só cansada.

Ele se sentiu culpado e egoísta. Ela acabara de ser atacada, e ele lhe jogava nos ombros o peso de organizar uma enorme festa. O que estava pensando? Alex tirou a xícara das mãos de Rebecca e se surpreendeu ao ver que ela estava vazia.

— Para a cama — ele disse.

Sem dar tempo para que ela discutisse, ele a pegou nos braços e carregou-a até o seu quarto. Rebecca encostou a cabeça no seu ombro, e pela primeira vez ele notou o quanto ela parecia frágil e delicada. Ele a colocou na cama, mas ela se agarrou ao seu pescoço, levantou o rosto e o beijou de leve.

— Fique — ela sussurrou. — Por favor, Alex. Eu não quero ficar sozinha.

 

Rebecca se pendurou em Alex, puxando-o pelo pescoço quando ele tentou se afastar.

— Por favor, Alex — ela repetiu. — Não se vá.

— Você não sabe o que está pedindo — ele falou com a voz rouca.

— Sei muito bem o que estou pedindo.

— É o uísque falando. E a reação ao que aconteceu com Rodriguez.

Ela balançou a cabeça e aliviou a tensão que percebia no pescoço de Alex, massageando-o gentilmente.

— Não fale nele. Não aqui. Não agora. Este é um momento só nosso.

— Não existe "nós".

— A quem você quer convencer? A mim ou a você mesmo? — Ela deu uma risada e mordiscou os lábios de Alex. — Sempre existiu um "nós". Desde a primeira vez em que você apareceu em Huntington Manor. — Ela se deixou invadir por doces recordações. — Você chegou todo fanfarrão, um adolescente revoltado e rude do gueto, e eu soube que a minha vida nunca mais seria a mesma.

Alex se deixou cair sobre ela, entregando-se.

— Você era apenas uma menina.

— Eu sou apenas dois anos mais jovem que você. Eu era... — Ela procurou uma palavra apropriada. — Desengonçada.

— Desengonçada? — Os dentes dele brilharam na obscuridade do quarto. — Você já era toda feminina naquela época. Esguia, graciosa, com os seus cabelos incríveis caindo como uma cascata avermelhada. Você ficou no alto da escada, olhando para nós no saguão. Uma princesa examinando seus súditos.

— Nunca — ela negou imediatamente. — Eu nunca me senti deste jeito e nunca vou me sentir. Lembro-me de que olhei para você e pensei: "Aqui está ele. Era por ele que eu esperava".

— E eu me lembro de ter olhado para você sem saber se a sua pele era realmente tão branca, ou se era apenas uma ilusão de óptica, e de ter pensado no quanto eu queria... — O sorriso dele se apagou. — Foi naquela hora que o seu pai declarou que os empregados não entravam pela porta da frente, e que nós deveríamos entrar pelos fundos.

— Ah, Alex... — ela sussurrou, percebendo como ele se sentia. — Eu sei que não há nada que eu possa dizer para consertar a atitude do meu pai.

— Nem tente.

— Na verdade, eu não pretendo falar muita coisa. Prefiro agir. — Ela ergueu a cabeça e o beijou, puxando-o até que ele caiu sobre ela com todo o seu delicioso peso.

Por um instante, Rebecca lhe explorou a boca. Os beijos que ele lhe dava sempre tinham sido inebriantes, mas agora eram mais embriagantes que o uísque. Ele mudara muito desde a última vez em que haviam estado juntos. Os seus ombros estavam mais largos; os músculos das suas costas e dos seus braços, mais firmes e definidos. O seu peito se tornara mais sólido. Mesmo o seu rosto estava diferente. Havia marcas distintas nos cantos de sua boca, e rugas em volta de seus olhos. Embora nunca tivesse tido traços particularmente joviais, não quando o conhecera, ele adquirira um ar de poder.

Ela aproveitou para se familiarizar com este novo Alex e lhe acariciou a testa, o rosto e a covinha no queixo. Enquanto isso, ele a observava atentamente com os seus olhos cor de chocolate amargo, onde ela viu o brilho das lembranças, algumas ternas, outras que ameaçavam afastá-los. Rebecca compreendia. Afinal, ela se sentia do mesmo jeito. Ela levantou a cabeça e beijou o rastro que seus dedos haviam deixado. Tinha uma escolha a fazer: poderia lhe dar um último beijo e mandá-lo embora, e não duvidava que ele se fosse; ou podia seguir o seu coração e acabar o que havia começado. Ela não sabia quando e se teria outra oportunidade. Provavelmente o arrependimento no dia seguinte impediria que tornasse a acontecer, mas no momento ela não conseguiria rejeitá-lo. Sabia que o seu momento de idílio não levaria a nada. Existia muita coisa entre os dois, mas teriam aquele momento. Se ele pedisse, ela até iria embora, mas teria as recordações para levar consigo.

Assim que resolveu, Rebecca começou a desabotoar a camisa de Alex, sentindo a sua pele morna e firme, as batidas do seu coração sob as mãos. Ela começou a puxar a camisa dos seus ombros, mas ele a deteve antes que prosseguisse.

— Tem certeza? — ele perguntou. — Não vai se arrepender depois?

Ela deu um sorriso provocante.

— Claro que vou me arrepender. E você também. Mas nós dois vamos lidar com isto.

— Você bebeu demais. Foi um dia traumático para você. Eu deveria...

— Você deveria me dizer se ainda mantém um preservativo na carteira, para emergências. — Ela viu a resposta nos olhos dele e sorriu de um jeito que o levou a praguejar baixinho.

Alex tirou a carteira do bolso traseiro. Rebecca tirou o preservativo da carteira e jogou-a no chão, fazendo o mesmo com a camisa que o fez despir. Em seguida, ela se dedicou a memorizar cada pedacinho do seu corpo, passando as mãos pelo seu peito, por suas costas. Quando ela segurou a fivela do seu cinto, Alex tirou os sapatos e os deixou cair no chão, sinalizando que se entregava.

— Você está vestida demais para uma ocasião como esta — ele disse.

— Talvez você deva fazer algo a este respeito.

— Foi exatamente o que eu pensei. — Ele se dedicou a remediar a situação, tirando-lhe o vestido com habilidade e jogando-o no chão.

Rebecca ficou deitada sob ele, usando apenas as roupas de seda e renda da sua própria loja, como se fizesse uma deliciosa propaganda exclusivamente para ele.

— Não pensei que você pudesse usar este tom de ameixa. Não com o seu tom de cabelo. Mas deu certo. Certo demais.

— Já notei. — Ela rapidamente desafivelou o cinto de Alex e abriu o zíper de sua calça, relutando em deixar que ele se afastasse para acabar de se despir.

Ele voltou para a cama e passou o dedo pelo decote do seu sutiã.

— Ainda vestida demais — ele observou.

— Ainda estou esperando que você tome uma atitude a este respeito. Ou será que eu devo tomar?

Ela não esperou que ele resolvesse. Saiu de baixo dele e se levantou. Quando ele tentou agarrá-la, Rebecca recuou e apoiou um dos pés sobre uma cadeira. Com deliberada lentidão, ela soltou a meia da liga e desceu-a pela perna, ouvindo um gemido que vinha da cama. Fez o mesmo com a outra meia, antes de tirar a cinta-liga e jogar todos os símbolos de feminilidade sobre as costas da cadeira.

— Venha para a cama e deixe que eu acabe este serviço — Alex pediu.

— Não se mexa — ela insistiu com uma falsa gentileza. — Eu cuido disto.

Ela desceu as alças do sutiã pelos braços, uma de cada vez, e abriu o fecho, deixando-o cair lentamente. Alex soltou uma exclamação rouca e deu um pulo. Com um movimento rápido, ele a levantou do chão e jogou-a sobre a cama. A claridade do sol dançava sobre a renda que protegia o centro do corpo de Rebecca. Alex resmungou algo em espanhol e enrolou os dedos nos seu pelos, provocando-a até o limite. Ela se agarrou ao que lhe restava de sanidade e abriu a embalagem de preservativo, jogando-o para ele. No minuto seguinte, ele entrava no seu corpo, com um único movimento firme.

— Alex!

— Estou aqui, dulzura — ele falou num gemido. — Estou o tempo todo com você.

Ela o envolveu com os braços e as pernas e se moldou a seu corpo. A luz do sol pareceu se intensificar, cegando-a para tudo que não fosse o homem que estava em seus braços. Ele se tornou o seu mundo, e Rebecca se rendeu a tudo que sentia em seu corpo, em seu coração, até que nada mais restasse para dar. No momento final do clímax, os dois se tornaram um. O passado não mais os separava, mas os unia.

Até aquele momento, ela acreditara que a relação entre os dois acabara havia muito tempo. Mas, enquanto mergulhava na direção do êxtase, Rebecca percebeu que o amor que sentira por Alex não morrera. Simplesmente ficara adormecido, para ser despertado novamente por ele naquele momento, naquele lugar, como a Fênix que renasce das cinzas. O amor que sentira por ele não acabara, e jamais acabaria.

 

Rebecca não sabia quanto tempo dormira. Estava escuro quando ela acordou desorientada. Não estava mais nos braços de Alex, mas ainda sentia o calor do seu corpo, o que mostrava que ele a deixara fazia pouco. Ela ouviu um ruído no fundo do quarto. Ele recolhia suas roupas.

— Alex? — ela murmurou.

— Volte a dormir, Rebecca.

A formalidade a deixou assustada. Ele a chamara de Rebecca. Não de dulzura, nem mesmo de Becca. Ele achara que ela iria se arrepender na manhã seguinte. Aparentemente, ele resolvera transformar isto em realidade, mas ainda não amanhecera. Ela levantou o corpo e se apoiou no cotovelo.

— Você está bem? — ela perguntou amavelmente.

Ele ficou parado e emitiu um som que era um misto de suspiro e de riso.

— Acho que era eu que deveria fazer esta pergunta.

— Provavelmente — ela admitiu. — Mas não sou eu quem está fugindo.

— Eu não estava fugindo. Estava tentando não acordá-la. Existe uma diferença.

— Humm... Só um homem faria este tipo de distinção. — Ela jogou as pernas para fora da cama. — Você se arrepende pelo que aconteceu, não é?

— Você não?

Ela pensou por um instante.

— Desculpe se eu me tornar um clichê, mas não me arrependo por termos feito amor.

— Só uma mulher poderia fazer esta distinção.

— Possivelmente. — Ela soltou um suspiro. — Você prefere fingir que isto não aconteceu? — Rebecca percebeu que ele ficara tenso.

— Você está brincando, não está?

— Não, não estou. — Ela se enrolou no lençol, acendeu a lâmpada do abajur e levantou-se da cama para encará-lo.

Ele olhou para ela com um olhar distante e preocupado. Onde estava o homem que fizera amor com ela com tamanha paixão? Aparentemente, sumira.

— Olhe... — Alex passou a mão na cabeça. — Aconteceu. Nós somos dois adultos. Isto já aconteceu antes.

— E vai acontecer de novo? — ela teve coragem de perguntar. Ele sacudiu a cabeça imediatamente.

— Existem muitas coisas entre nós, Becca. Não seria nada sábio.

Bem, pelo menos ele agora a chamara de Becca, o que já era melhor sinal.

— Caso você não tenha notado, a sabedoria não é o meu forte.

— Não podemos reviver o passado — ele falou com tanta ternura que os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Eu sei disso. Estava pensando em ir em frente. Você sabe. — Ela levantou o ombro e apertou o lençol em volta do corpo, impedindo-o de cair. — Estamos numa encruzilhada. Não podemos voltar para trás, mas podemos seguir em frente. A questão é como vamos caminhar.

— Não vou fazer de você a piada da cidade. Se nós tivermos um caso, as pessoas vão notar. Eles irão ver pelo jeito como nos olhamos, ou nos falamos, ou nos tocamos. — Ele pegou a carteira que ela jogara no chão. — Alicia não precisou dizer uma palavra para que eu soubesse, pelo jeito como eles se tratavam, que ela e Justin estavam namorando.

— Eu não me importo com as fofocas.

— Eu me importo, e você vai se importar. — Ele falara com tanta certeza que ela sabia que nenhum argumento iria abalá-lo.

— Está certo. Nós não vamos fazer amor de novo.

— Você vai ver, é a decisão mais sábia — ele disse. — A única decisão possível.

Alex apanhou os sapatos e se dirigiu à porta do quarto. Antes de sair, ele se voltou para Rebecca.

— Você está bem?

Ela sorriu, confiante.

— Estou ótima.

Ele acreditou e saiu. Assim que a porta se fechou, o sorriso de Rebecca se apagou. Bem, o que esperava? Que ele caísse a seus pés e declarasse o seu eterno amor? Que lhe pedisse para se casar com ele, para ser a mãe de seus filhos? Ela sentou na beirada do colchão e fechou os olhos. Maldição. Os filhos de Alex. Uma vez o sonho lhe parecera não apenas possível, mas provável. Agora, tornara-se tão improvável como roubar a lua do céu. Rebecca se enrascou na cama, resolvendo que não iria sentir arrependimento. Se tudo que Alex podia lhe dar era uma noite, ela agradeceria aos céus pelas lembranças e pelo que havia recebido. Infelizmente, ela não planejara se apaixonar por ele de novo. Fora um azar que ela não tivesse considerado esta possibilidade antes, não que tivesse feito alguma diferença. Se ela vivesse cem anos, as imagens daquela noite especial a fariam sorrir, toda vez que lhe ocorressem. E planejava se lembrar delas muitas vezes.

Ela acabou por adormecer com este pensamento, um sorriso nos lábios e uma lágrima no canto do olho.

 

Na semana seguinte, tudo mudou. Alex se transformou num verdadeiro patrão, e Rebecca mantinha um sorriso no rosto com extrema dificuldade. Quando ele marcou uma reunião com ela no escritório, para discutir a festa que iria dar, Rebecca estava determinada a provar que podia lidar com as consequências do seu... ela hesitava em chamar o que tinha acontecido de "caso". Uma aventura de uma noite? Qualquer que fosse o termo, uma coisa era certa: Alex resolvera mantê-la a uma distância razoável.

— Quero conversar com você sobre a festa para os Franklin — ele falou quando ela entrou no escritório. Ele lhe indicou uma cadeira diante da sua mesa, olhando-a com um ar de indiferença que escondia qualquer tipo de emoção. —Você já organizou este tipo de festa para o seu pai, não foi?

— Sim, organizei... — ela confirmou com cautela.

— Certo, eu sei quando vou ouvir um "mas".

Rebecca hesitou.

— Eu sempre contratei um bufê.

— E eu já lhe dei permissão para contratar um — ele disse com impaciência.

Rebecca sacrificou o tato em nome da honestidade:

— Não estou certa de poder trabalhar para manter a casa e, ao mesmo tempo, providenciar tudo que é necessário para a festa. Além disso, você quer a casa toda decorada para o Natal.

— Entendo. — Pela primeira vez, ele demonstrara alguma emoção.

Ela achou engraçado que aquilo lhe parecesse um bom sinal, já que os levava de volta a uma convivência mais amigável.

— Você tem minha autorização para contratar mais empregados, se for preciso. Presumo que você consiga supervisioná-los.

— Nisto eu sou ótima. — Ela sorriu.

Ele também sorriu, e ela viu um brilho de desejo nos seus olhos, mas passou tão rápido que ela achou que se enganara. Até que ela viu como as suas mãos estavam contraídas. Pela primeira vez, desde a noite que haviam passado juntos, Rebecca sentiu a esperança renascer.

— Ótimo. Agora a sua tarefa é organizar a festa. — Ele empurrou a cadeira e se levantou. — Se você me der licença, preciso voltar ao trabalho.

Ela também se levantou. Quando ele passou por ela, Rebecca tocou-lhe o braço. Alex parou e olhou para ela com um ar pesaroso.

— Não podemos, Becca — ele falou gentilmente. — Isto não iria resultar em nada de bom.

— Engraçado. Pensei que a noite que havíamos passado juntos tinha sido ótima. Em minha opinião, mais que ótima.

Ele não achou nada engraçado. Ela percebeu que ele estava arrependido, e isto só fez aumentar a sua mágoa. Sem dizer uma palavra, ela o soltou.

— Está certo — ela murmurou depois que ele se fora. — Compreendi.

Mas foi no meio de uma conversa com a dona do bufê que Rebecca viu, sob uma luz di­ferente, o que Alex tentara lhe mostrar. No passado, ela trabalhara muitas vezes com Angie, mas a sua situação como empregada de Alex parecia ter mudado a atitude da moça para com ela. Havia um clima de constrangimento que Rebecca se viu forçada a discutir.

— Muito bem, Angie, o que está acontecendo? Nós trabalhamos juntas várias vezes. Qual é o problema?

Angie suspirou.

— Sinto muito, Rebecca. A culpa não é sua, é minha.

— É porque sou empregada de Alex? — ela perguntou. — Ou é por causa do meu pai? Qual é o problema?

— Não posso negar que ouvi os boatos, mas eu conheço você. Se o seu pai fez algo de errado, o problema é dele — Angie respondeu sinceramente. — Não se pode usar isto contra você.

Rebeca ficou surpresa.

— Obrigada. Mas, se não é este o problema, qual é?

— É Montoya. Em Somerset estão dizendo que ele forçou você a ser sua... empregada. — Ela falou a palavra com um tom duvidoso. — Em troca de ajudar o seu pai. Não sei se estou disposta a trabalhar para alguém capaz de tomar este tipo de atitude.

— Isto é tudo? — Rebecca disse, rindo com alívio. — Eu lhe garanto que Alex não me forçou a trabalhar para ele. Foi exatamente o contrário.

— Como assim? — perguntou Angie, espantada.

— Eu apareci na porta de Alex e disse a ele que seria sua empregada até que conseguisse quitar a dívida do meu pai. Ele fez de tudo para me dissuadir. — Ela riu. — Se o que você diz a respeito das fofocas é verdadeiro, estou entendendo por que ele estava tão relutante em me contratar. Eu não fazia ideia de que as pessoas iriam pensar que ele me obrigara.

— Devo lhe dizer que isto esclarece muita coisa.

— Ótimo. Fico contente. — Rebecca sorriu. — Alex é realmente um bom homem. Maverick County tem sorte por ele morar aqui.

— Tem razão — disse Angie, embora parecesse duvidar. — Mas não é esquisito para você?

— Não entendo. Por que seria esquisito?

Angie corou.

— Os seus amigos não estarão na festa?

— A maioria sim. E daí?

— Não vai ser estranho você aparecer como empregada, em vez de como convidada? Acho que vai ser constrangedor. Para você e para eles.

Rebecca mal podia acreditar que não pensara neste aspecto da situação. Seria estranho realmente.

Ela passou o resto do dia pensando no assunto e tentando encontrar uma solução para o impasse. Talvez ela pudesse ser substituída pelos empregados que contratara. Não. A festa era o seu bebê, somente seu. Atribuir o trabalho a outra pessoa não seria justo com Alex, nem com os convidados, e muito menos com Darius e Summer Franklin. Além disso, todos ficariam constrangidos se ela os deixasse assim. Se ela os tratasse normalmente, eles fariam o mesmo. Era o que esperava.

Rebecca pensou em ligar para Kate e explicar a situação, mas imaginou que a amiga poderia acabar liderando um protesto que estragaria a festa. Ela ficaria arrasada, se uma recepção dada para celebrar o casamento dos Franklin acabasse se transformando em algo desagradável. Tudo isso significava que ela deveria manter a pose e o bom humor durante a noite.

As semanas seguintes passaram rapidamente, enquanto a casa adquiria, a cada dia, uma aparência mais festiva. Tudo estava enfeitado com fitas, flores e folhagens, e o salão de baile parecia um ambiente de contos de fadas invernal, que deixava todos encantados.

No dia da festa, ela se esforçou para ver que tudo estivesse perfeito. Angie chegou com o bufê e começou a preparar a comida para o jantar. No fim do dia, Alex passou por ela no corredor, a caminho do seu quarto, e parou o suficiente para cumprimentá-la pela beleza da decoração. Ele a surpreendeu, e a si mesmo, quando lhe plantou um beijo sobre os lábios.

— Obrigado pelo trabalho. A casa está linda.

— Obrigada.

Ele se afastou, e Rebecca viu que ele se esforçava para reassumir o papel que desempenhara nas últimas semanas.

— Acho que é melhor eu tomar um banho. Os convidados estão para chegar — ele se desculpou.

— Acho que esta é a deixa para eu me trocar — ela disse alegremente. — Encontro com você dentro de 45 minutos.

Ela correu para o quarto e se debateu para escolher o que iria vestir. Não queria algo que lembrasse muito um uniforme. Não adiantava esfregar a sua posição no nariz dos outros. Ao mesmo tempo, ela não tinha coragem de usar nada que aparentasse mais que uma roupa adequada para um coquetel. Precisava se manter na linha tênue que separava os empregados dos convidados, sem causar mal-estar. Por fim, ela optou por um conjunto de saia e blusa de seda preta.

Quinze minutos antes do previsto para o primeiro convidado chegar, ela se postou no saguão onde receberia os convidados de Alex e depois os levaria até o salão. Rebecca trouxera uma bandeja de champanhe para oferecer aos casais que chegassem e procurava um lugar para colocá-la, quando ouviu os passos de Alex, que descia. Ele parou no meio da escada. Ela se voltou para ele com um sorriso, mas ficou assustada ao ver que ele a olhava, indignado.

Ele acabou de descer e a pegou pelo braço. A bandeja balançou perigosamente.

— O que acha que está fazendo?

 

Rebecca lutou para manter a dignidade, mas sentia que ela se esfacelava gradualmente.

— Estou me preparando para servir os seus convidados — ela respondeu, surpreendendo-se pela calma que aparentava.

Alex tirou a bandeja de suas mãos e colocou-a sobre uma mesa. Os cristais tilintaram, protestando por ser tratados com grosseria, e a champanhe derramou das taças.

— Não sei que jogo você está fazendo...

— Jogo? — Ela sentiu uma fúria que não sabia poder sentir até aquele momento. — Eu não estou armando nenhum jogo. Sou sua empregada. Você me deu uma tarefa. Estou simplesmente fazendo o que sou paga para fazer.

Ele olhou para ela, sentindo-se afrontado.

— Não estou pagando você para ofender nossos amigos e vizinhos, fazendo papel de empregada. Vá se vestir de maneira adequada e venha se juntar à festa.

— Por quê? — ela insistiu. — Para não humilhá-lo? Eu não tenho vergonha do meu trabalho. Por que você tem?

— É esta a sua forma de se vingar? — ele perguntou com um olhar perigoso. — É porque eu não quis manter uma relação com você, depois que fizemos amor? Você tem necessidade de vestir este saco porque se tornou, de fato, o que as pessoas costumam chamá-la?

Rebecca sentiu o sangue lhe fugir do rosto.

— Como ousa?!

— Como ouso? Como ousa você, colocando-me numa situação embaraçosa com pessoas que são mais suas amigas do que minhas? Pessoas que passaram a última década apenas tolerando a minha presença na comunidade!

Rebecca começou a entender e concluiu que cometera um tremendo erro. Depois do que Angie lhe dissera, ela interpretara mal as intenções de Alex. E acabava de insultá-lo re­almente, profundamente. Nunca lhe ocorrera que ele não se sentia à vontade com pessoas que haviam sido suas amigas durante toda a vida. Ela deveria ter percebido. Não per­cebera que os Brody haviam tornado a vida de Alex um inferno, ao longo dos anos? Co­mo ele era tratado por algum esnobe com quem estudavam, e que o considerava infe­ri­or por ser o filho de uma empregada? Naquele instante, Rebecca se viu através dos olhos de Alex e se sentiu muito pequena e ingênua, apesar de jamais ter pretendido embaraçá-lo.

— Desculpe, Alex. Juro que nunca pretendi colocá-lo em posição duvidosa.

— Mas aí está você — ele interrompeu —, a ponto de liquidar com a minha reputação.

Rebecca ficou confusa.

— Como assim? Como isto iria afetar a sua reputação?

O rosto de Alex se tornou uma máscara fria e impenetrável.

— Como acha que os convidados irão reagir quando você os receber vestida deste jeito? Se você se fizer de empregada do senhor feudal? Eles irão olhar para você e sair da minha casa. — Ele passou a mão pela cabeça. — Você não entende? Tudo o que eu tenho é a minha reputação. Tudo o que consegui foi através dela e do trabalho árduo. Dias e noites intermináveis de trabalho. Não vou deixar que você, nem ninguém, destrua, em uma única noite, tudo o que eu levei anos para construir.

— Esta não era a minha intenção — ela disse.

— Neste caso, você tem uma escolha, Rebecca. Pode se retirar, ou pode se vestir adequadamente, fazer uma cara agradável e se juntar aos seus amigos para celebrar o casamento de Darius e Summer. Ou será que você resolveu mostrar a todo o mundo o canalha que eu sou, e fará de tudo para prová-lo?

Alguém bateu na porta e entrou antes que eles a abrissem. Bastou ver a expressão dos Brody para ficar claro que eles haviam escutado o final da discussão. Eles olharam de Alex para Rebecca, e Kate fez uma expressão horrorizada ao ver a aparência da amiga.

— Ah, não! — ela murmurou, apertando o braço do marido. Lance também entendera imediatamente a situação.

— Problemas? — ele perguntou friamente.

— Nenhum problema — Alex respondeu, olhando para Rebecca. — Um pequeno mal-entendido que já vai ser solucionado. Por favor, entrem e se sirvam de champanhe. — Ele chamou um garçom que aparecera na porta e indicou a bandeja. — Por favor, receba os convidados que chegarem e os leve até o salão. Encontramos todos em um minuto.

Ele não esperou uma resposta. Pegou Rebecca pelo braço e levou-a na direção do seu quarto. Ali, ele foi até o closet, pegou a primeira roupa colorida e brilhante que encontrou e jogou-a sobre a cama. O vestido caiu sobre a colcha como se fosse um lago de seda em cor de esmeralda.

— Dispa-se — ele ordenou, e não ficou surpreso ao vê-la abrir a boca, admirada.

— Você enlouqueceu? — ela gaguejou. Por pouco, ele não perdeu a calma.

— Tire o que está usando. Eu lhe dou 30 segundos para colocar este vestido, ou juro que vou vesti-lo em você.

Algo no tom de Alex fez com que Rebecca acreditasse. Ela se despiu, e em menos de 30 segundos usava o vestido que ele escolhera.

— Satisfeito? — ela perguntou, num desafio.

— Nem um pouco. — Ele a examinou com um olhar crítico.

— Joias? — Ela abriu uma gaveta, tirou um rolo de seda amarrado com um elástico e escolheu algumas joias: um colar e um par de brincos de pérolas, montados sobre ouro. — Agora está satisfeito?

— Um último detalhe. — Ele se aproximou e tentou não se ofender quando ela recuou. — Relaxe, Rebecca.

Ele lhe soltou os cabelos e ajeitou-os sobre os ombros. O vestido cor de esmeralda combinava com os seus olhos e era complementado pelo tom avermelhado dos cabelos. A raiva a fizera ficar toda corada, e ela estava ainda mais linda.

— Agora sim. Vamos receber nossos convidados.

— Seus convidados — ela corrigiu.

— Nossos amigos — ele insistiu. Ela suspirou.

— Desculpe. — Ela passou a mão na testa. — Acho que estou cansada. Eu não queria estragar a noite. É que... — Ela balançou a cabeça. — Não importa. Esqueça.

Alex ficou parado. Deveria ter lhe ocorrido que acontecera alguma coisa para justificar a atitude de Rebecca. Mas ele ficara zangado demais para perceber.

— O quê?

— Alguém me disse algo sobre o meu papel durante a festa. Pensei que você esperasse que eu me apresentasse como sua empregada, não como convidada. — Ela sacudiu os ombros. — Acho que me enganei.

— Sim, você estava errada, assim como a pessoa tola que enfiou isto na sua cabeça. Você deveria ter me perguntado. — Ele sorriu. — Ou o seu orgulho a impediu?

— Eu diria que este é um defeito inerente aos Huntington. — Ela sorriu para ele. — Um entre muitos, caso você não tenha notado.

— Não posso afirmar que sim — ele falou gentilmente, oferecendo-lhe o braço. — Vamos?

— Será um prazer.

Quando entraram no salão, o resto dos convidados havia chegado e todos se voltaram para eles. Pela primeira vez em muitos anos, Alex se sentiu constrangido como costumava ficar quando se sentia um estranho na escola, onde estudava com a nata da sociedade local. Rebecca olhou para os amigos e deu um sorriso embaraçado.

— Desculpe, pessoal. A culpa foi minha. Perdi a hora de me vestir para a festa. — Ela apoiava a mão firmemente no braço de Alex ao se aproximar de Darius e sua esposa, Summer, que irradiavam a felicidade dos casais apaixonados. Rebecca abraçou os dois. — Parabéns. Eu estou muito feliz por vocês.

E foi assim que atmosfera mudou de carregada para festiva. A festa continuou até de­pois que as velas se apagaram e que os garçons já tinham ido embora. Por fim, casais so­nolentos agradeceram e se despediram, enquanto um dia se retirava e o outro chegava.

— Deu tudo certo, não acha? — Depois que ela assentiu, Alex apontou para uma garrafa de champanhe que não fora aberta. — Gostaria de um último drinque, antes de irmos dormir?

Rebecca soltou um longo bocejo.

— Aceito. Por que não vamos beber na sala de visitas? Quero lhe mostrar a árvore que enfeitamos.

Alex serviu duas taças e os dois entraram na enorme sala, cujo chão fora coberto por um tapete macio, e o teto por centenas de galhos de pinheiro. As janelas do chão ao teto refletiam a imensa árvore de Natal. Alex soltou um assobio.

— Esta é árvore mais bonita que eu já vi.

O elogio deixou Rebecca toda corada, e ela sorriu.

— Obrigada.

— Não. Eu é que agradeço. Você fez com que esta noite fosse uma das mais agradáveis de que eu me lembro.

— Foi um prazer.

Alex bebeu o champanhe sem deixar de observá-la.

— O que eu vou fazer com você?

Rebecca não se mexeu, e ele viu que ela ficava pensativa. Ela soltou a taça e se voltou para ele. Parecia estar toda iluminada e vibrante, mas foram os seus olhos que revelaram a resposta, antes que ela falasse.

— Me amar. Faça amor comigo, aqui, neste instante.

— Eu andei pensando nisso — ele admitiu.

— E...?

— E, por mais que eu tente, não posso me impedir de desejá-la, de tocá-la. — Ele soltou a taça sobre a mesa e a abraçou, falando junto aos lábios dela: — Não posso me impedir de fazer isto... — Alex a beijou, dando vazão a tudo que mantivera sob estreito controle durante as semanas anteriores.

Rebecca o abraçou pelo pescoço, cedendo graciosamente ao jogo de sedução, juntando o seu corpo ao dele num movimento todo seu. Alex sempre ficava impressionado pela maneira como Rebecca se entregava a ele aberta e totalmente, mostrando a sua fragilidade, presenteando-o com o seu corpo, seu coração e sua alma, sem relutância ou reservas. Desde o início fora assim.

Sem dizer uma palavra, ele se despiu totalmente e, depois, a ela. Abraçados, eles caíram sobre o tapete, diante da árvore de Natal, e a claridade suave de suas luzes refletia na pele de alabastro de Rebecca, derramando-se sobre os seus adoráveis seios e acentuando os pelos avermelhados entre suas pernas. Alex abraçou-a com carinho. O contraste entre a pele pálida e a sua pele cor de bronze sublinhava a diferença entre o feminino e o masculino. Ela era toda luz e cor, um apoio macio onde descansar. Ele era feito de sombras, tinha a força e a resistência de uma pedra. Jamais seria um apoio macio. Os dois eram totalmente opostos, e o destino os unia em doces e breves interlúdios, para depois voltar a afastá-los.

— Não faça isso — Rebecca sussurrou.

— Você quer que eu pare? — ele perguntou, admirado com o desespero que a frase dela lhe provocara.

Ela sorriu.

— Não é isto. Pare de pensar. Pare de analisar. — Ela o acariciou com ternura. — Pare de tentar me proteger e simplesmente me ame.

Ele não esperou que ela pedisse novamente. Abaixando a cabeça, ele se devotou a provocá-la com a boca, com a língua e com os dentes. Sentindo que o calor do desejo incendiava a sua pele como uma onda de sol, ele tocou-lhe os seios, sob os quais o coração de Rebecca batia para ele, e só por ele. Ela arqueou os quadris, grudando-se a ele, e ele a possuiu com um movimento lento e firme. Mas a noite não estava destinada a ser suave. O desejo ardia entre os dois: uma necessidade premente que os impelia na direção de algo mais primitivo e selvagem, consumindo-os. Rebecca deixou escapar um apelo frenético, enquanto o seu corpo acompanhava o ritmo do corpo de Alex, e os dois alcançavam um pico nunca antes alcançado. Eles se mantiveram nas alturas por um instante, lutando para manter aquele momento, antes de alçarem voo juntos. Alex se rendeu à mulher que tinha nos braços e esqueceu tudo que tivera tanto trabalho para proteger. Entregou-se de corpo e alma. Abandonou tudo o que era em favor da mulher que amava.

Na manhã seguinte, Rebecca acordou sozinha. Espreguiçou-se, sentindo-se mais feliz e apaixonada que nunca. Tudo e qualquer coisa lhe pareciam possíveis. A vida lhe parecia perfeita, até que ela chegou ao Clube dos Milionários do Texas para almoçar com Kate. Ela percebeu os murmúrios assim que chegou à porta, e eles aumentaram à medida que ela entrava no salão. Por algum motivo, ela se tornara o centro das atenções, e isto a deixava extremamente nervosa. A situação piorou quando ela viu o sorriso largo e animado da amiga. Kate correu para abraçá-la.

— Parabéns! Tudo que posso dizer é que já estava mais que na hora.

— O quê? O que aconteceu?

— Não se faça de ingênua. Não comigo. — Ela estendeu a mão com impaciência. — Deixe-me ver.

Rebecca sacudiu a cabeça sem entender.

— Eu não tenho a menor ideia do que você está falando. Ver o quê?

— O anel que Alex colocou no seu dedo ontem à noite.

Rebecca ficou boquiaberta.

— O quê?!

Kate congelou, arregalou os olhos e empurrou a amiga para dentro da biblioteca do clube, levando-a para uma sala de leitura separada.

— É preciso que você me diga, Becca. Você está, ou não, noiva de Alex?

— Não! — disse ela, sentindo a garganta se fechar.

— O seu pai está almoçando aqui com alguns amigos. Alguém fez uma piada a respeito de você servir os convidados de Alex na festa de ontem à noite, e o seu pai disse para todo o mundo que vocês estavam noivos.

— Não! — Rebecca abanou a cabeça, e a sua voz adquiriu um tom desesperado. — Isto não é verdade.

— Bom, é melhor que você esclareça tudo bem depressa. Sério, bem rápido.

— Por quê? Ah, não. Não me diga que Alex está aqui.

— Ainda não. Mas os rapazes vão se encontrar com Darius, que vai fazer um relatório sobre a investigação. Se ele ainda não ouviu a notícia, vai ouvir assim que passar pela porta.

— Onde está meu pai?

— Está no café, acabando de almoçar.

Rebecca saiu da biblioteca sem nada dizer e encontrou o pai, que saía do restaurante. Ela o puxou pelo braço, levando-o para longe dos amigos que os observavam com curiosidade.

— Kate me disse que você acaba de anunciar o meu noivado com Alex. De onde você tirou esta ideia, pai? Não é verdade, e você precisa dizer isto a todo o mundo.

— Mas será — disse o velho calmamente. — Montoya não vai poder se livrar, agora que todos sabem. Não sem parecer um rematado canalha.

— Foi isso que você planejou? Deliberadamente? — Rebecca perguntou, agastada. — Como pôde fazer tal coisa?

Sebastian fez uma careta teimosa.

— Eu só disse o que achei necessário para que possamos andar de cabeça erguida na cidade.

— Você enlouqueceu? Depois de tudo que Alex fez por nós...

— O que ele fez por nós? — o pai retorquiu em um tom irado. — O que ele fez foi torná-la motivo de piada. Ele a forçou a se tornar não apenas sua empregada, mas também sua amante.

— Caso você não tenha notado, fui eu que escolhi este caminho, pai, assim como você escolheu o seu. Alex não me forçou a nada. Eu fui até lá e lhe disse que seria sua empregada até quitar a nossa dívida. Ele recusou, e com razão. Eu sou péssima. E se eu acabei indo para a cama com ele, foi porque eu quis.

Sebastian ignorou os argumentos da filha, como se eles não importassem.

— Você é uma tola, Rebecca. Você pode trabalhar para este homem pelo resto da vida, e nem vai chegar perto de pagar uma parte do que eu devo.

— Do que você está falando? Admito que 300 mil dólares é muito dinheiro, mas eu já paguei uma parte deste total.

— Não são 300 mil dólares. E 1,3 milhão. A minha dívida com Rodriguez? Um milhão, Rebecca.

Rebecca ficou gelada de pavor. Para seu desespero, Alex escolheu aquele momento para aparecer, com uma expressão furiosa. Ele mal podia olhar para ela, e dirigiu-se a seu pai:

— Vou lidar com você amanhã, quando não estarei tão tentado a pôr um fim à sua vida miserável. E, caso tenha esquecido, você foi suspenso do clube. Sugiro que saia, antes que eu mande que o coloquem para fora. — Ele se recusou a olhar para Rebecca, mesmo que se dirigisse a ela. — Rebecca, estamos de saída. Vamos.

Ele não se deu ao trabalho de verificar se ela o seguia. Antes de partir, Rebecca falou com o pai em voz baixa:

— Preciso lhe avisar, pai: quando Alex tiver acabado com você, pretendo terminar com o que restou.

— Foi para o seu próprio bem.

Rebecca se recusou a deixar que ele se saísse com aquela.

— Não, pai. Foi pelo seu. — Ela se juntou a Alex, quando ele saía do clube, e tentou explicar: — Sinto muito. Prometo consertar essa história. Eu não sabia o que ele planejava fazer.

— Vamos discutir este assunto quando chegarmos ao rancho.

Os dois voltaram para casa em meio a um silêncio penoso.

Alex estava com tanta raiva que parecia vibrar. Rebecca esperava que, durante o trajeto até El Diablo, ele tivesse tempo para se acalmar.

A esperança foi inútil. Ela correu atrás dele e o alcançou quando ele subia os degraus da entrada e abria a porta. Alex entrou direto no escritório, serviu uma generosa dose de uísque e bebeu tudo de um gole.

— Madre de Dios! — ele explodiu. — Já engoli tudo que podia suportar.

— Sinto muito — ela repetiu. — Prometo que vou endireitar as coisas.

Ele serviu dois copos desta vez, e ofereceu um a Rebecca.

— Como pretende fazer isto? "Ei, pessoal, foi um engano. Alex não me pediu em casamento. O meu pai só disse isso porque não podia aceitar a ideia de eu ter me tornado sua empregada e sua amante." É isto que você planeja dizer?

— Algo de semelhante. — Ela tomou um gole de uísque e pestanejou.

O líquido lhe queimou a garganta e os seus olhos se encheram de lágrimas. Preferia o uísque disfarçado no café irlandês...

— Posso omitir a parte que se refere à posição de empregada e de amante.

— Não tente me fazer rir. Não acho nenhuma parte disto engraçada.

Ela soltou um suspiro.

— Eu também não acho, Alex. Mas, considerando tudo que aconteceu nas últimas semanas, o senso de humor é a única coisa que me resta.

Ele tentou falar, mas ela o impediu.

— Que importa o que eu vou dizer, ou o que as pessoas vão pensar de mim? Elas não podem pensar muito pior do que já pensam.

— Mas podem pensar pior a meu respeito.

Ela levou um tempo para entender e, quando compreendeu, ficou chocada.

— E elas pensariam o pior a seu respeito se você se casasse com a filha de um ladrão e incendiário, não é, Alex?

Ela deveria ter chegado perto da verdade, porque ele praguejou, violentamente em espanhol. Enquanto isso, Rebecca tentava recuperar o fôlego, fingir que a atitude dele em relação a ela e a seu pai não a magoava profundamente. A raiva foi a sua salvação.

— Vamos ver se eu entendi direito — ela disse com uma calma impressionante. — Você não está aborrecido com o que o meu pai fez, mas porque você está... — Ela tentou procurar a expressão mais adequada. — Porque está apavorado com a ideia de se ver romanticamente envolvido com uma Huntington? Os seus negócios seriam prejudicados? A sua preciosa reputação? A sua honra?

Alex levantou a cabeça, pressentindo o perigo. Ela pensou que já não era sem tempo...

— Rebecca...

— Responda a pergunta, Alex. — Ela engoliu o resto do uísque, desta vez, ignorando o ardor, e bateu o copo sobre a mesa com tanta força que se espantou quando ele não quebrou.

— Pensando bem, deixe para lá. Você já revelou os seus sentimentos claramente.

— Não é você. Você compreende, não é? É seu pai.

— Não. Eu entendi. Sou boa o bastante para ir para a cama, desde que ninguém descubra. Mas você não sonharia em se casar comigo.

— Era isso que você esperava que acontecesse? Que eu a levasse para a cama e que me apaixonasse novamente por você? Nós nos casaríamos, e as dívidas do seu pai miraculosamente iriam ser perdoadas?

— Ou seja: numa espécie de armadilha infame, eu o seduzi para que você pagasse as nossas dívidas e salvasse o meu pai da cadeia? Claro, Alex. Como você quiser. — Ela se aproximou. — Agora, deixe que eu lhe faça uma pergunta. Por que, quando eu lhe propus assumir o papel de empregada para pagar a nossa dívida, você não me disse que seria impossível? Ou isto teria estragado a graça de se vingar um pouco dos Huntington?

— O seu pai lhe contou?

Ela concordou, e ele suspirou.

— Interessante, considerando que ele me fez prometer que não lhe diria. Eu avisei a você que a dívida não seria paga tão cedo...

— Havia outras maneiras de me dizer, Alex. Você poderia ter simplesmente recusado me contratar. Eu não poderia fazer nada para forçá-lo a concordar.

Ele deu de ombros.

— Achei que, se eu a deixasse ficar em El Diablo, você estaria protegida contra Rodriguez.

Aquilo fazia um terrível sentido.

— Então, não teve nada a ver com querer dormir comigo?

Alex não respondeu, mas Rebecca viu a verdade em seus olhos. Ele a desejava. Ele sempre a desejara, da mesma forma que ela o desejava. Que triste par os dois faziam! Ela se sentiu esgotada.

— Vou embalar as minhas coisas e estarei fora da sua vida amanhã, bem cedo. — Era um tanto melodramático, mas talvez ele levasse em conta o uísque que ela bebera. Rebecca parou na porta, mas receava olhar para ele e se derramar em lágrimas. — Você sabe... É interessante que você tenha tamanho desprezo pelo meu pai, já que passou a vida se tornando a cópia exata do que ele é. Caso esteja interessado, esta noite você completou a transformação. Você é tão esnobe quanto ele sempre foi.

E com isto, ela saiu da sala.

 

O toque do celular acordou Rebecca de um sono agitado. Ela sentou na cama e olhou em volta, estonteada ao se lembrar do que acontecera na noite anterior. Deveria ter caído no sono em algum momento do frenesi em que se encontrava, deixando tudo espalhado. Suas roupas estavam empilhadas, metade dentro, metade fora das malas. As gavetas estavam abertas. A porta do closet parecia uma boca aberta, mostrando os cabides vazios. O celular continuava a tocar a sua campainha irritante, e ela atendeu, rezando para que fosse Alex, que mudara de ideia. Mas, por que ele iria telefonar, em vez de se juntar a ela na cama...?

— Alô?

— Bom dia, señorita. Espero que tenha dormido bem.

Ela hesitou por alguns segundos, umedeceu os lábios e respondeu:

— Paulo?

— Muito bem — ele falou em tom de aprovação. — Você reconheceu a minha voz. É uma excelente evolução na nossa relação. Logo você irá aprender a escutar cada palavra que eu digo e, claro, a fazer exatamente o que eu mandar.

Ele estaria brincando?

— Não é provável.

— É mesmo? — Ele deu uma risada que a deixou gelada de medo. — Acho que não é apenas provável, mas inevitável. Por que não testamos a minha teoria e verificamos? Está ouvindo, muñequita?

Rebecca recordou vagamente que a palavra significava "bonequinha", mas, da maneira que ele falara, parecia ter lhe dado uma conotação diferente.

— Estou.

— Viu só? Parte da minha previsão já se confirmou. — Ele baixou o tom, e sua voz se tornou mais sinistra. — Vemos ver se confirmamos o resto também. Vamos tentar?

Rebecca começou a suar frio e quase não conseguia segurar o celular.

— O que você quer?

— Quero que você venha para Huntington Manor. Sozinha. Quando chegar aqui, eu, você e o seu pai iremos ter uma conversinha.

O coração de Rebecca deu um salto.

— O meu pai?

— Ele está aqui comigo. Quer falar com ele?

— Sim, quero.

— Muito bem. Desta vez, vou permitir.

Ela ouviu que os dois conversavam do outro lado da linha. E então, seu pai começou a falar:

— Gentry está aqui. Avise Alex. Diga a ele que...

Ela ouviu um gemido e Rodriguez voltou a falar:

— Se você é esperta, não escute o que o seu pai disse. Ele é um velho e não aguenta a pressão. A pressão pode acabar lhe fazendo mal. Estamos entendidos?

Rebecca ficou horrorizada. O que ele já fizera com seu pai, para que ele gemesse daquele jeito? O que mais seria capaz de fazer se ela não seguisse as suas instruções? Ela tentou falar num tom doce, que era apenas parcialmente fingido.

— Não o machuque. Por favor, Paulo. — Para seu alívio, pareceu funcionar.

— Melhor. Muito melhor. Gosto da sua maneira de pedir gentilmente. Está na hora de você vir para casa. Entre no seu carro e dirija até aqui. Então, nós três...

— Você não quer dizer quatro?

Rodriguez riu.

— Muito bem. Nós quatro vamos ter uma conversa breve para determinar a direção do nosso relacionamento. — A voz dele perdeu o tom divertido. — Em nenhuma circunstância, chame Alex. Além disso, providenciei para que ele ficasse ocupado no escritório, e ele deve ter dado ordens para não ser interrompido. Ele não poderia ajudá-la, mesmo que desejasse. Entendeu?

— Sim.

— Excelente. Viu? Eu disse que você iria ouvir e obedecer. Estou satisfeito por você aprender tão depressa. Você não vai manter o seu futuro marido esperando, não é, Rebecca?

Ela trincou os dentes.

— Não, Paulo — ela respondeu, obediente.

— Certifique-se de que não.

Assim que Rebecca desligou, começou a digitar o número de Alex, mas de repente hesitou. Nunca fora boa mentirosa e, se Paulo perguntasse, duvidava poder enganá-lo. Mas ela não prometera que não ligaria para outra pessoa. Infelizmente, duvidava que desta vez alguém pudesse salvá-la do que Paulo planejara. Ela seguiu seus instintos e ligou para Kate do telefone fixo de Alex. Um tempo precioso se passou, enquanto ela conversava com a amiga. Quando ela desligou, entrou em pânico ao ver o quanto havia se passado. Ela correu até a picape que comprara para substituir o seu Cabriolet e ligou a ignição, rezando para que o carro pegasse. Ele pegou na primeira vez, e ela saiu em alta velocidade.

O trajeto de El Diablo a Huntington Manor parecia interminável. Quando ela finalmente chegou, tudo parecia perfeitamente normal, com exceção de um potente carro preto parado sobre a grama, diante da casa, como se fosse uma enorme barata. Sem dúvida, parar no caminho teria sido a maneira de Rodriguez marcar o território que pretendia ocupar. Rebecca tentou juntar todas as suas forças e entrou na casa. Suspeitava que encontraria o pai "recebendo" os convidados na biblioteca. Estava certa. Quando ela abriu a porta, encontrou o pai sentado à escrivaninha, ladeado por Paulo Rodriguez e pelo capataz, assinando uma pilha de documentos.

Ao vê-la entrar, Rodriguez lhe deu um olhar de aprovação.

— Junte-se ao grupo, muñequita. Estávamos à sua espera.

— O que está acontecendo? — ela perguntou, observando a pilha de papéis na frente de seu pai. — O que meu pai está assinando?

— São alguns documentos sem importância.

Certo, claro que sim...

— Deixe que eu adivinhe. Documentos sem importância que transferem a posse de Huntington Manor para você?

Paulo riu e apontou o dedo na direção de Rebecca.

— Eu não consigo enganá-la, consigo? — O sorriso dele desapareceu, e ele se aproximou com a mão estendida. — Se não se importa, o seu celular...?

Rebecca apertou a bolsa.

— Eu me importo.

— Não tente brincar comigo, señorita. Agora não estou nada satisfeito com você.

Rebecca tentou engolir o medo, mas sua garganta se tornara seca. Ela tirou o celular da bolsa e o entregou a Rodriguez.

— Por que você quer o meu celular?

Ele abriu o celular e apertou uma série de botões.

— Quero ver se você telefonou para alguém, depois que nos falamos. — Ele sacudiu a cabeça, aprovando. — Ótimo. Nenhuma ligação depois da minha.

— Satisfeito?

— Ainda não. Mas logo vou ficar. Venha. — Ele indicou o sofá, como se fosse o dono da casa, e ela, a visitante. — Fique à vontade. Você não irá a lugar algum durante muito tempo. Você e eu... Digamos que temos planos a discutir.

O medo de Rebecca aumentou e ela tentou escondê-lo sob uma máscara de displicente curiosidade.

— Que tipo de planos?

Ele esperou um pouco, sem dúvida para aumentar o medo que ela falhara em esconder.

— Ora, planos para o casamento, é claro.

 

— Eu vou entrar, e nada que você possa fazer ou dizer irá me impedir — Alex declarou implacavelmente.

— Não seja mais idiota do que parece, Montoya — Lance Brody argumentou. — É isto precisamente que Rodriguez quer que você faça. Então, ele terá todos vocês sob o seu controle.

Alex olhou para Huntington Manor, que se erguia orgulhosamente a distância enquanto ele ficava preso ali, como um camundongo acuado diante do gato faminto.

— Não vou deixar que Rebecca fique lá sem proteção.

— Você acha que ele está armado? — Darius perguntou.

— Sem dúvida.

— E então? — disse Darius. — Você invade e manda que ele solte a sua mulher? Assim que ele estiver com você dois, irá usar um contra o outro.

Lance reforçou o argumento:

— Eu conheço Becca muito bem. Você iria se arriscar para protegê-la, e ela faria o mesmo por você. E você sabe muito bem, Alex. Pense. Você não pode dar a Rodriguez este tipo de vantagem.

— Mas preciso.

— Você não está sozinho — Lance insistiu, indicando o resto dos homens que os cercavam: seu irmão, Mitch; o futuro cunhado de Alex, Justin Dupree; e Kevin Novak. — Estamos aqui para ajudá-lo. Até o fim.

Alex teve dificuldade para responder. Estivera sozinho por tanto tempo que era difícil aceitar que não estivesse mais.

— Obrigado — ele falou simplesmente.

— Eis o plano — disse Darius, esboçando uma tática. — Se invadirmos o lugar, alguém pode sair ferido. Ou Rodriguez pode alegar que foi convidado por Huntington. Não temos nada que prove o contrário. Não temos nenhuma evidência que ele seja culpado de algum crime. Não existem provas de que ele enganou Huntington, nem de que ele deseje prejudicar alguém. Ele vai ficar livre.

— Então, o que se supõe que eu... Que nós possamos fazer? — Alex perguntou, frustrado.

Darius sorriu.

— Pensei que você não iria perguntar.

 

Rebecca fitou Rodriguez.

— Você não acredita honestamente que eu vou concordar em casar com você.

— Vai, a não ser que queira ver o seu pai preso como incendiário.

Ela olhou para Gentry.

— Ele não pode testemunhar contra o meu pai sem se implicar.

— Cornelius vai fazer uma longa viagem, mas antes de partir vai deixar provas para condenar seu pai pelos crimes. — Ele se aproximou e passou a mão no rosto de Rebecca.

Ela se encolheu, e ele não gostou.

— Logo você não apenas irá gostar dos meus carinhos, mas irá implorar por eles.

— Tire suas mãos de cima dela! — Sebastian vociferou de onde estava, tentando se levantar, mas Gentry o empurrou de volta sobre a cadeira.

Rodriguez olhou para ele com desgosto.

— Cale-se, velho. Você já tem problemas demais para se preocupar. — Ele sentou ao lado de Rebecca e lhe pegou as mãos. — Não seja tão dramática, muñequita. A nossa vida vai ser perfeita. Seremos um casal muito feliz e iremos morar aqui. Vou incluir o meu nome na história dos Huntington, melhorar o que o seu pai começou. Você vai se apaixonar loucamente por mim e será a noiva mais linda que alguém já viu.

Rebecca sacudiu a cabeça, e seus olhos se encheram de lágrimas.

— Não. Nunca.

Rodriguez a ignorou, falando com surpreendente gentileza:

— Pode imaginar, doçura? Vamos dar início à nossa própria dinastia. Uma dinastia que irá suplantar todas as outras de Maverick County. As pessoas irão nos ver e sentir inveja. Inveja de tudo que eu consegui conquistar. Eu, um pobre joão-ninguém do gueto, me tornei o homem mais poderoso da cidade. — Ele tocou o ventre de Rebecca, num gesto de posse. — No devido tempo você vai carregar o primeiro dos nossos filhos. Filhos que irão para a melhor escola, onde terão como amigos a mais fina elite de Somerset.

Antes que Rebecca pudesse lhe dizer o que achava do seu sonho insensato, alguém pigarreou alto. Soltando-se de Rodriguez, ela viu Alex parado na soleira da porta, encostado no portal. Ela sentiu o coração saltar no peito, enquanto o seu estômago se contraía. Ao ligar para Kate, sabia que corria o risco de ver Alex invadir Huntington Manor, mas esperava que ele tivesse o bom-senso de não se colocar nas mãos de Rodriguez, simplesmente entrando daquele jeito.

— Estou interrompendo algo? — Alex perguntou com indiferença.

Rodriguez se levantou e levou a mão às costas, onde ela viu o punho de uma arma.

— O que está fazendo aqui, Montoya? — ele perguntou, olhando furioso de Alex para Rebecca. — Eu mandei que você não o chamasse. Eu avisei!

Ela o encarou diretamente e disse a verdade, rezando para que ele acreditasse:

— Eu não chamei. Juro que não chamei.

— Pode acreditar nela — Alex falou em voz calma, atraindo a atenção de Rodriguez. — Eu vim aqui trazer o resto da bagagem de Rebecca. Nós tivemos... acho que você pode chamar de uma "discussão", ontem à noite. O resultado é que ela foi embora. Já que Sua Alteza está tirando o doce traseiro da minha casa, pensei que seria melhor ajudá-la a se mudar.

— Ela está deixando você? — Rodriguez perguntou em tom de dúvida. — Por que ela faria isso?

— Vamos dizer que ela se recusou a cumprir suas obrigações de empregada, e eu cansei de esperar que ela mudasse de ideia.

Rebecca ficou surpresa ao ver que Rodriguez acreditara e que estava deliciado.

— Ela não quis dormir com você?

Alex fez um gesto de desprezo e pareceu irritado.

— Acontece.

— Mas na cidade estão dizendo que...

— Eu tenho o meu orgulho, Paulo. As pessoas pensam o que eu quero que elas pensem.

— Miserável! — Sebastian exclamou. — Como ousa arruinar a reputação da minha filha?

— E como você ousou dizer a todo o mundo que estávamos noivos? — Alex retrucou.

— Chega — Rodriguez interrompeu. Ele olhou desconfiado para cada pessoa que estava na sala, antes de se voltar para Alex. — Você já entregou os pertences de Rebecca. Pode ir embora, Montoya.

— Não há problema — disse Alex. — A não ser...

— A não ser o quê?

Alex franziu a testa.

— Estive pensando no que você disse quando foi me visitar.

Rodriguez ficou todo ouriçado.

— No dia em que você tentou me afastar de tudo isso?

— Foi bobagem, eu sei. Nunca fui capaz de vencê-lo. Não sei por que me dei ao trabalho de tentar.

— Estava na hora de você reconhecer que seria inútil. — Rodriguez amoleceu com o elogio.

— Tem razão. Então, acho justo que... — Alex falou como se as palavras lhe causassem amargura. — Eu lhe dou os parabéns por ter jogado tão bem.

— Você não percebeu, não é, amigo? — disse Rodriguez, sorrindo.

Alex olhou para ele com um ar de admiração.

— Você deve ter planejado por muito tempo para conseguir que tudo se encaixasse tão bem.

Para horror de Rebecca, El Gato endureceu.

— Não tenho ideia do que você está falando. Eu não planejei nada.

Alex fez um olhar espantado.

— O quê? Ah, eu não quis dizer... — Ele indicou Sebastian e os documentos espalhados sobre a mesa. — Seja lá o que você estiver fazendo, não é da minha conta. Se eu tivesse imaginado um jeito eficaz de depenar Huntington sem ninguém saber, eu mesmo o teria feito. Não. Estou falando sobre Rebecca.

— A mulher? — Rodriguez olhou para ela e umedeceu os lábios, antes de se virar para Alex. — Há muito tempo que eu a desejo.

— Eu não sabia o quanto, ou não teria interferido. — Alex deu um passo para dentro da sala, com os braços soltos ao longo do corpo e os ombros ligeiramente curvados, numa postura de derrota. — Mas você não podia tê-la no tempo em que começamos a nos encontrar, não é?

— Não enquanto ela estivesse com você. — Rodriguez deu de ombros e levantou o queixo com orgulho. — Eu segui as regras. Você não pode dizer o contrário.

— É verdade — disse Alex. — Você não poderia tirá-la de mim. Mas se conseguisse fazer com que nos separássemos...

— Aí seria diferente, não é?

— Então, você disse a todos que eu a seduzira como parte de uma aposta.

— Você percebeu? — Rodriguez deu um sorriso satisfeito. — Devo admitir que foi uma das melhores ideias que eu já tive.

— Mas você também sabia que ela precisaria de um incentivo para cair nos seus braços. Foi então que você colocou em ação o esquema de investimentos. Por mais que eu odeie admitir, foi brilhante. Quem dera eu tivesse tido esta ideia...

Para alívio de Rebecca, Sebastian soltou um resmungo, mas ficou calado. Ela lhe lançou um olhar de advertência.

— Como eu lhe disse, o porco guloso não conseguia se satisfazer. Mesmo quando o investimento deu errado, ele voltou e pediu mais. Foi fácil segurá-lo.

— Bem feito — Alex murmurou.

— Exatamente! Ele merece o que vai ter. — Rodriguez abriu os braços. — Logo, todos os seus bens irão me pertencer, inclusive sua filha.

— Você tem razão — Alex admitiu. — Se eu não estivesse tão ocupado em recuperar Rebecca, teria subido a bordo mais cedo. Pense só, Paulo. Um par de hermanos do gueto, donos das duas propriedades mais ricas de Maverick County. Seremos sócios do mesmo clube, vamos conviver com pessoas que há alguns anos não olhariam para nós.

— E quanto à mulher? — Rodriguez perguntou. — O que faremos com ela?

Alex sorriu.

— Ela é sua. Ela será o prêmio que você merece.

— Mereço, não mereço? — Os olhos de Rodriguez brilharam de triunfo.

— Só há uma coisa que eu não entendo. Acho que a minha cabeça não funciona como a sua — disse Alex com humildade.

— Nunca funcionou.

— E jamais vai funcionar — Alex admitiu.

— Diga o que você não entende, e eu explico — Rodriguez ofereceu todo animado.

— Não entendi os incêndios. Por que Huntington mandaria Gentry provocar os incêndios? Eles seriam um artifício para que os sócios do clube se atacassem mutuamente?

A fúria explodiu no rosto de Rodriguez. Rebecca ficou paralisada de medo.

— Você acha que o covarde teria inteligência para planejar algo semelhante? Você me ofende!

Alex levantou as sobrancelhas, admirado.

— Você planejou os incêndios? Mandou que Gentry os provocasse? — Ele ficou tão furioso quanto Rodriguez. — Você queimou o meu estábulo? Por que diabos?

— Para incriminar Huntington. Para me dar uma vantagem adicional, quando eu fechasse o cerco em torno dele. — Paulo tentou acalmar Alex: — Desculpe, amigo. Eu não teria feito isso a você se não fosse absolutamente necessário.

Alex ferveu por alguns minutos, antes de ceder:

— Suponho que, se você pode esquecer o passado, eu também posso — ele resmungou.

— Concordo. — Rodriguez sacudiu o dedo na direção de Alex. — Não gostei de ficar contra você. Não deixe que aconteça de novo.

— Tem razão. O erro foi meu. — Alex se aproximou e estendeu a mão. — Vamos recomeçar do zero.

Paulo sorriu e estendeu a mão para Alex.

— Combinado.

Assim que as mãos dos dois se encontraram, Alex acertou um soco de esquerda no queixo de Rodriguez, num movimento tão rápido que quase passou despercebido. Os olhos de El Gato rolaram dentro das órbitas e ele caiu como uma pedra, desmaiado. Antes que Gentry pudesse reagir, Sebastian agarrou o abajur em cima da mesa e o acertou na cabeça. Ele se voltou para Alex.

— Espero que você esteja usando uma escuta, Montoya.

— Senhor Montoya para você. Sim, estou usando uma escuta.

O queixo de Sebastian tremeu, e Rebecca ficou admirada quando ele concordou.

— Senhor Montoya. Eu sou homem o bastante para admitir que cometi um erro. Eu estava enganado ao seu respeito e quanto à maneira de tratá-lo e à sua família. — Sebastian se aproximou e estendeu a mão para Alex. — Sei que não mereço, mas espero que você aceite as minhas desculpas.

Alex hesitou por um segundo antes de apertar a mão de Sebastian. Depois, ele se voltou para Rebecca e observou-a longamente; antes de abrir os braços. Com um grito inarticulado, ela deu um pulo do sofá e se jogou em seus braços. Ele a abraçou de um jeito que refletia o sofrimento, o amor e o alívio de uma só vez.

— Eu também sou homem o bastante para admitir que cometi um erro — ele disse, junto aos cabelos de Rebecca. — Desculpe, dulzura. Eu estava errado na noite passada. A respeito de tudo.

— E a aposta? Você nunca fez uma aposta com Rodriguez?

— Nunca — ele disse com ternura. — Eu jamais faria isso com você.

Os olhos de Rebecca se encheram de lágrimas.

— Eu deveria saber. Teria percebido se não fosse tão jovem e tola.

De repente, a sala se encheu de gente.

— Vocês sabem que ainda estão sendo gravados, não sabem? — Darius Franklin perguntou secamente.

Alex não tirava os olhos de Rebecca.

— Desde que você tenha gravado o pedido de desculpas de Sebastian Huntington e que me faça uma dúzia de cópias, eu não me importo. — Ele inclinou a cabeça e beijou Rebecca, num beijo que colocava tudo no lugar e selava a sua volta para casa. Um beijo que transmitia toda a paixão de um homem que compreendia onde e com quem estava o seu coração.

Quando os dois se afastaram, a sala estava deserta. Alex enxugou as lágrimas do rosto de Rebecca.

— Eu amo você, Becca. Desde o momento em que a conheci.

— E eu amo você. — Ela hesitou. Uma última nuvem obscurecia a sua felicidade. — Você percebe que o seu nome sempre estará ligado ao meu e ao de meu pai?

— Eu fui um tolo — ele declarou. — E sinto mais do que posso expressar. Ficaria honrado por ter o meu nome ligado ao seu, e por fazer parte da sua família.

Era tudo o que ela precisava ouvir. Com um suspiro de satisfação, ela se rendeu ao inevitável... Uma vida com Alex, cheia de alegria e de paixão inimaginável, e de um amor que iria durar para sempre.

— Leve-me para casa, Alex.

Ele a abraçou, deixando que o amor apagasse toda a amargura do passado e abrisse um novo caminho na direção do futuro.

— Pensei que você nunca iria pedir.

 

A igrejinha do condado estava lotada. Suas paredes de pedra estavam decoradas com motivos de Natal. O casamento seria em meio ao verde e ao vermelho dos enfeites, e o perfume delicado de rosas brancas se misturava ao aroma sutil das velas. Um prelúdio suave ecoou dentro da capela, enquanto Alicia, Justin e o cortejo de casamento percorriam o trajeto até o altar.

Cara, a dama de honra, chegou ao altar no momento em que soavam as trompas. Logo em seguida, Alicia chegou, gloriosa num vestido marfim com uma longa cauda, de braços dados com o irmão. Seus olhos cheios de lágrimas estavam escondidos sob a linda mantilha que lhe servia de véu. Ao seu lado, Alex estava mais bonito que nunca. Enquanto todos olhavam para sua irmã, ele não tirava os olhos de Rebecca.

Assim que ele entregou a noiva, de acordo com a tradição, sentou-se ao lado de Rebecca. Enquanto o relógio marcava a passagem da véspera para o dia de Natal, a cerimônia prosseguia lentamente. O tempo todo, Alex segurava a mão de Rebecca. Não poderia haver nada mais perfeito. Enquanto Alicia e Justin faziam os votos, os outros casais apaixonados trocavam olhares de alegria e de amor. Quando a cerimônia acabou, o novo casal se beijou e todos estavam comovidos.

Ao som da Aleluia, o cortejo saiu da igreja. Alex abraçou Rebecca.

— Percorremos um longo è difícil caminho, não foi, dulzura?

— Às vezes sim — ela admitiu.

— Talvez, por ter sido tão difícil, este momento tenha ainda mais significado.

— Este momento? Por que este momento? — ela perguntou sorrindo.

— Ouça. — Os sinos começaram a bater a meia-noite. — É o primeiro minuto do Natal, e a minha obrigação final para com a minha família foi cumprida. — Ele pegou a mão de Rebecca e colocou-lhe um anel no dedo. — Não existe momento melhor para dizer que a amo mais que tudo na vida, e para lhe pedir que se case comigo.

O brilho de um solitário refletiu a luz das velas e formou um arco-íris de esperança.

— Ah, Alex. — Ela levou um minuto para se recuperar da surpresa e responder. — Eu amo você desde a primeira vez que o vi.

— Isto é um sim? — ele perguntou com ternura. Rebecca respondeu com um beijo que traduzia toda a paixão que uma vida juntos lhes traria e que ecoava o amor que enchera a igreja naquela noite. Quando ela se afastou, ele percebeu que o brilho dos seus olhos expressava algo que ia muito além de tudo que ele esperava.

— Sim, Alex. Definitivamente, é um sim.

 

 

                                                                                Day Leclaire  

 

                      

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