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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SEDUÇÃO SOMBRIA / Brenda Joyce
SEDUÇÃO SOMBRIA / Brenda Joyce

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

Os guerreiros das Terras Altas Escocesas juraram proteger os inocentes através dos séculos… Malcolm de Dunroch foi eleito pela Irmandade secreta, uma sociedade anônima de cavalheiros pagãos que juraram defender à humanidade. É um neófito no que se refere a seus poderes extraordinários. Mas já rompeu seus votos uma vez, pois uma mulher inocente morreu por sua causa. Malcolm está decidido a lutar contra sua sexualidade sinistra, a negar a si mesmo todo prazer... Até que o destino lhe envia outra inocente, a bonita vendedora de livros Claire Camden.

Desde o assassinato de sua mãe, Claire fez todo o possível para levar uma vida segura em uma cidade onde o perigo espreita em cada esquina, sobretudo durante a noite. Mas nada podia prepará-la para o poderoso e sensual guerreiro que a arrasta a outra época... Um espantoso mundo cheio de perigo onde os caçadores e as presas são os mesmos. Claire precisa de Malcolm para sobreviver, embora de algum modo deva manter a este perigosamente poderoso Mestre longe. Pois não deseja morrer em sua cama como as demais... Nas asas de um sombrio e proibido prazer...

 

 

 

 

Quando Claire despertou, no silêncio da noite, por um momento, esteve desorientada e aturdida. Lá fora estava chovendo muito. Encontrava-se em uma cama com dossel em uma habitação que não reconhecia. Quando piscou na escuridão, viu um fogo em uma lareira de pedras e duas janelas pequenas, estreitas. Em vez de vidros, as barras de ferro a dividiam em dois. Através das barras, viu um torrencial céu noturno. E então lhe ouviu.

Claire... Vem a mim.

Claire se incorporou de repente, alarmada. Imediatamente, recordou o enfrentamento recente de Malcolm com a morte. Mas não estava com ela no quarto; não sabia onde estava. Estava Malcolm bem? Quanto tempo tinha estado inconsciente? O céu tinha estado nublado antes, mas não havia nenhum indício de chuva.

Claire... Escada acima... Sobre ti. Necessito-te...

Claire se congelou, respirando com força. Estava completamente a sós, mas ele usava a telepatia para comunicar-se com ela e seus pensamentos eram tão claros como se os houvesse dito. Encontrava-se em algum lugar em cima dela. Poderia senti-lo. Claire vacilou, suas vísceras se contorceram com uma terrível urgência. Estava ferido, perto da morte. Tinham-no encarcerado em algum lugar. Podia salvá-lo.

Claire saltou da cama. Estava quente, mas não pelo pequeno fogo... o sangue corria quente em suas veias por sua poderosa chamada. Tinha que encontrá-lo. Estava se afogando no desespero. Claire arrancou o sutiã de seu corpo e o lançou ao lado, mas não encontrou nenhum alívio para o calor febril. Tinha que estar com Malcolm. Engolindo saliva, ficou muito quieta, escutando-o.

Levou-lhe somente um momento ignorar o som de seu palpitante coração. E depois sentiu sua tortura. Estava debilitado pela batalha, seu corpo grosseiramente cortado, e lhe doía. Nem sequer podia sentar-se. Tinha que encontrá-lo. Necessitava-a. Precisava estar profundamente em seu interior, tomando o poder dela.

Claire se esticou quando o calor flamejou entre eles. Tinha-a ouvido. Sabia que ia a ele e a esperava.

Elevou a vista ao teto. Aidan tinha falado a Royce de levar a Malcolm a uma torre. Havia quatro torres, uma em cada esquina das muralhas do castelo. As duas casas do guarda tinham torres, também, mas estava certa de que estava diretamente em cima dela. Claire retirou de um puxão o decote de sua túnica, o linho se aderia a sua pele molhada. Isto não lhe fazia mais fácil poder respirar.

Rasgou a incomoda túnica de seu corpo ofegando com força, ficou vestida só com sua minissaia e camiseta. Onde está?

Claire. Na andar superior. Em cima de você. É a guarita do leste.

Ela sorriu, seu coração palpitava com urgência renovada. Estou indo. Claire sondou a maçaneta da porta e se deu conta de que estava fechada com chave. Enfureceu-se imediatamente. Tinham-na fechado com chave no aposento!

Claire inalou e capturou seu aroma. Podia cheirar a sexo. A luxúria dele enchia o quarto acima do teto. Frenética, puxou a antiquada maçaneta da porta. Seu medo lhe dava força sobre-humana, porque a porta veio abaixo rompendo a fechadura.

Ofegante, olhou atentamente dentro do corredor e viu que estava vazio. Uma solitária tocha ardia em um candelabro na parede. Com os pés descalços, dirigiu-se sigilosamente a estreita e tortuosa escada de pedra. Sentia como se sua carne pudesse explodir em seu corpo se não se lançasse em seus braços logo.

Dirigiu-se ao seguinte andar, onde encontrou um pequeno hall redondo em vez de um corredor. Frente a ela uma pesada porta de madeira, com uma tranca e um cadeado de ferro nela.

Uma tensão palpitante encheu a sala de espera. A de Malcolm.

Ele estava ao outro lado daquela porta, duro e quente, lhe prometendo um universo de êxtase. Claire agora sabia que gostosamente morreria por seu toque.

Claire gemeu e encontrou a adaga metida no cinturão de sua saia, logo a introduziu no cadeado. Em Nova Iorque, nunca teria sido capaz de forçar tal fechadura. Mas desta vez empurrou brutalmente a adaga na fechadura e esta saltou aberta. A umidade começou a gotejar descendo por suas pernas. Claire arrojou a tranca à parte e lançou com força abrindo a porta.

Seu olhar de prata se centrou nela.

Malcolm jazia nu sobre as costas em um colchão contra a parede mais afastada, uma atadura de pálido linho se destacava em contraste com sua pele morena. Sua cabeça estava voltada para ela e a olhava com cautela. Estava totalmente ereto. Claire o entendeu; converteu-se em um paciente caçador espreitando-a. Estava impaciente por ser sua presa.

Claire queria correr para ele, mas, ante a visão de tanta beleza e a antecipação de tanto prazer, simplesmente não pôde mover-se.

Um sorriso começou quando ele se sentou devagar, grunhindo pela dor. A atadura estava manchada com o sangue vermelho.

—Vem a mim, Claire.

Claire tropeçou ao avançar enquanto ele ficava em pé com cuidado, claramente fraco pela batalha e a perda de sangue. Alcançou-o, envolvendo os braços ao redor dele, e quando seu corpo completamente nu entrou em contato com o seu, as lágrimas de desejo começaram.

—Moça - ofegou, segurando-a em um abraço como um torno mecânico. Jogou a cabeça para trás e seu poder caiu sobre ela como uma capa enorme. Claire estava envolta no calor que se iniciou como uma invasão do exterior para o seu interior. Era agudamente consciente de uma sensação de drenagem suave, doce, e tão consciente de Malcolm, gemendo descontrolado com a cabeça jogada para trás. De repente sentiu que o terrível prazer dele começava.

Ele lançou um grito com voz pouco clara.

—Sim, Claire! —encontrou seu olhar quando a agarrou pelos braços e viu a luxúria triunfante ali. Ele sorriu grosseiramente, abriu suas coxas, sua boca contra a sua. Empurrou profundamente, ofegando. — Seu sabor é tão bom.

Uma onda enorme se rompeu e Claire chorou diante do grande prazer com o qual tinha sonhado, mas Malcolm se moveu então, drenando-a e gozando ao mesmo tempo, e a onda seguiu rompendo. A compreensão de relâmpago a chocou quando o universo se tornou solidamente negro e cheio de estrelas que explodiam, cada uma em outro de seu clímax. Desta vez estaria perdida nesta galáxia de prazer interminável, nunca sairia e não queria. Cada clímax era mais violento, mais brutal e melhor que o anterior. Não importava. Assim era como queria morrer, dando a Malcolm sua vida, enquanto montava sua enorme dureza na eternidade.

A semente dele fluiu e a abrasou. Rugiu seu prazer enquanto tomava, o som de uma besta, não de um homem.

Claire soluçou e rogou por mais, e mais, gozando. De algum jeito sabia que não podia suportar isto, mas o queria de todos os modos. Outra onda terrível se rompeu, esmagando-a com o êxtase.

De repente Malcolm rugiu no momento final... e se afundou profundamente.

Claire quis protestar, mas não pôde. Estava em um vórtice de prazer e dor e girando mais à frente, tão rapidamente neste momento que se deu conta de que realmente morria. Podia sentir a última essência de sua vida girando nela, mais rápido e mais rápido, como um peão dando voltas até desvanecer-se.

Claire começou a sossegar-se, frouxa e vazia, consumindo-se. Baixou o olhar para seu corpo quase nu, deitado no chão de pedra, e viu Malcolm apoiado na janela, contemplando-a com horror. Aidan e Royce se inclinaram sobre ela. E de repente a torre esteve cheia de uma luz cegante. De repente viu os Antigos ligeiramente aparecendo e amontoando-se no quarto...

—Está viva? —gritou Malcolm.

 

Estava escuro... e algo acabava de cair com um ruído surdo escada abaixo.

Estava de pé no mais absoluto silêncio no dormitório que se encontrava em cima de sua livraria. Claire vendia livros velhos e estranhos manuscritos, assim como também ocasionalmente volumes únicos de segunda mão, e graças ao inventário de um quarto de milhão de dólares que conservava, tinha um sistema de segurança de tecnologia avançada, uma Taser[1] e uma arma. Sabia que não tinha deixado uma janela aberta, embora a cidade em julho fosse sufocante, de todos os modos nunca deixaria uma janela aberta. Era muito perigoso. A delinquência na cidade estava descontrolada. O mês passado, sua vizinha, uma aspirante a modelo, tinha sido assassinada, e embora a polícia não o dissesse, suspeitava que tivesse sido um crime por prazer. Esforçou-se por saber os detalhes, duvidando se agarrar sua Beretta da gaveta que ficava ao lado da cama.

Mas já não ouvia nada. Enquanto permanecia ali de pé, vestida com boxer de listras multicoloridas de algodão e uma camiseta de tricô fina, seu dormitório parecia como se um tornado tivesse circulado por ele, o gato de rua que tinha aparecido mais cedo nesse dia vagava fora no corredor. O alívio a encheu. O gato estava atrás de algo! Não deveria ter suspeitado o pior, depois de tudo, os sensores de detecção de movimento não dispararam, mas inclusive depois de todos esses anos, detestava estar sozinha de noite.

Aterrorizada, a menina ficou agachada perto da porta, enquanto uma sombra escura, sepulcral perambulava por aí.

Claire franziu o cenho diante do bonito gato negro, negando-se a permitir que um só pensamento sobre o assassinato de sua mãe, depois de tanto tempo, invadisse agora sua consciência.

—Você! Deveria ter sido alimentado agora, certo?

Ronronando, o gato se deslizou entre seus tornozelos, esfregando-se sensualmente.

Claire lhe recolheu, era a primeira vez que o tinha feito assim, lhe segurando fortemente contra seu peito.

—Patife. — sussurrou. — Necessito um cão, não um gato, mas se não soubesse que alguém ia sentir sua falta, ficaria contigo.

A criatura atrevida realmente lambeu seu rosto.

Claire limpou o queixo, deixando cair o gato ao chão, sabendo que teria que pegar alguns pôsteres de “Procura-se” pela sua vizinhança em Tribeca[2], antes de ir para o aeroporto amanhã. Estava no meio do processo de fazer as malas para umas longas e atrasadas férias. Amanhã, estaria caminho de Edimburgo, e na sexta-feira conduziria através das Highlands [3]. Desta vez, sua primeira parada seria a ilha de Mull, de beleza austera.

O entusiasmo a encheu. O gato havia-se posto cômodo na cama, e Claire se afastou para voltar para sua bagagem. Foi para sua antiga cômoda, comprada em uma viagem anterior ao estrangeiro, em Lisboa. Viajava constantemente por seu negócio. Sorrindo enquanto jogava seu escuro cabelo castanho avermelhado sobre seu ombro, tirou um montão de camisetas de alças e de meia-manga. Tinha vinte e oito anos, logo seriam vinte e nove, e administrava um negócio extraordinariamente próspero, com a metade deste direcionado a Internet. Desde sua graduação em Princeton, com uma pós-graduação em história Medieval Europeia, havia tirado exatamente dois períodos de férias por assuntos pessoais. Primeiro foi a Londres e fez um circuito por Cornwall e o País de Gales. No último momento um amigo lhe havia dito que tinha que passar uns dias na Escócia, e embora não fosse uma criatura impulsiva — Claire gostava do ter tudo controlado. —, tinha mudado seu itinerário um dia antes de partir para poder fazê-lo assim. No momento em que passou Berwick-upon-Tweed[4], um estranho entusiasmo a tinha enchido. Amou a Escócia imediatamente.

Quase parecia que tinha chegado em casa.

Tinha seguido o itinerário habitual para fazer o circuito: Dunbar, Edimburgo, Stirling, Iona e Perth. Mas, sabia que voltaria para explorar as Terras Altas. Sua austera grandeza e escarpas solitárias a chamavam a gritos de uma maneira que nunca tinha experimentado antes. Fazia dois anos que havia voltado, passando dez dias no norte e noroeste. Durante seu último dia, tinha descoberto a pequena ilha, escarpada e bonita de Mull.

Tinha viajado até Duart no estreito de Mull, a sede dos lordes Maclean ao longo de muitos séculos. Uma necessidade intensa de explorar e descobrir a história da área a tinha vencido, mas vagar pelo castelo não a tinha satisfeito absolutamente. Justo antes da saída da ilha, tinha tropeçado com uma encantadora pensão com café da manhã incluído no Cabo de Malcolm, e seus proprietários a tinham mandado para Dunroch. Disseram-lhe que Dunroch era a sede dos Maclean de Mull do Sul e Coll, que o lorde atual permanecia na residência, embora raramente viam-lhe. Era um solitário, disseram, e solteiro, uma terrível vergonha. Como a maior parte dos aristocratas, os motivos financeiros o obrigaram a abrir as terras e alguns aposentos ao público.

Intrigada, Claire tinha se precipitado a Dunroch uma hora antes do fechamento. Tinha ficado tão surpresa pelo castelo cinza que no momento em que se aproximou da ponte levadiça estendida sobre o fosso agora vazio, a frieza tinha começado a correr de cima baixo por sua coluna vertebral. Ficou sem fôlego enquanto passava sob um ancinho levantado e através do baixo e escuro túnel da guarita, dando-se conta de que isto tinha sido uma parte do castelo original, incorporada a princípios do século XIV por Brogan Maclean. Havia feito uma pausa no interior do recinto, não olhando fixamente para o pátio vazio, mas na direção do mar e da torre. Não tiveram que lhe dizer nada para saber que a torre, que dava sobre o Atlântico, era uma parte da fortificação original, também.

Todos os aposentos estavam fechados ao público exceto o grande salão. Uma vez dentro, Claire tinha permanecido ali de pé, estranhamente fascinada. Tinha-lhe parecido familiar, embora nunca tivesse estado ali antes. Tinha contemplado o amplo e escassamente mobiliado cômodo, não vendo os três elegantes assentos arrumados, a não ser uma mesa de cavalete, ocupada pelo senhor e seus nobres. Nenhum fogo ardia na enorme lareira, mas Claire sentiu que seu calor a sufocava. Quando outro turista tinha passado andando na frente dela, tinha pulado, quase esperando ver o Laird[5] de Dunroch. Claire poderia ter jurado que sentiu sua presença.

Ainda podia recordar a vista do imponente castelo desde o caminho debaixo dos altos escarpados como se houvesse estado ali ontem. Havia pensado muito no castelo e até fez um pouco de investigação, mas os Maclean do sul eram misteriosos. Uma busca no Google e sua biblioteca de investigação online não haviam trazido nenhuma referência a qualquer dos Maclean do sul desde Brogan Mor, e este tinha morrido em 1411 em uma sangrenta batalha chamada Red Harlaw[6]. A carência de informação só aumentou seu desejo, mas Claire sempre era insaciável quando isto provinha da história.

Claire ordenou um montão de jeans, agora sem fôlego. Nesta viagem, passaria uma noite em Edimburgo e conduziria diretamente até Dunroch. Ficaria na pensão, Malcolm’s Arms, e havia concedido três dias inteiros na ilha. Mas, havia mais. Como vendedora de livros estranhos, tinha a intenção de perguntar ao lorde atual se podia ter acesso a sua biblioteca. Isto era uma desculpa para encontrá-lo. Não sabia por que estava compelida a atuar assim. Talvez fosse porque não havia nenhuma história neste ramo dos Maclean desde Brogan Mor. Claire tinha decidido que o lorde atual tinha provavelmente sessenta anos, mas, tinha uma imagem dele em sua mente, como uma versão amadurecida de Colin Farrell.

Claire lançou uns quantos pares de jeans em sua mala, decidindo que quase estava preparada. Era alta para ser uma mulher, medindo quase um metro e oitenta, descalça, e estava incrivelmente em forma pelo kickboxing, correr e levantar pesos quase a cada dia. Estar forte lhe dava segurança. Quando Claire tinha dez anos, sua mãe tinha ido à loja de comestíveis da esquina, deixando Claire só no apartamento de um único cômodo, prometendo que estaria de volta em cinco minutos. Nunca retornou a casa.

Claire tratou de não se lembrar daquela noite interminável. Tinha sido uma menina fantasiosa, que acreditava em monstros e fantasmas, importunando a sua mãe sem parar com suas afirmações de que as criaturas viviam no armário e sob a cama. Essa noite tinha visto formas aterradoras em cada sombra, cada cortina em movimento.

Aquilo faz tempo. Apesar de tudo, sentia falta da sua mãe. Até este dia, tinha posto um curioso pingente que sua mãe nunca tirou. Uma pálida pedra semipreciosa muito polida engastada em quatro bases de ouro, cada base detalhada com um desenho intricado obviamente celta. Sempre que Claire se sentia particularmente triste, apertava o pingente na palma de sua mão, e sua aflição se aliviava. Não sabia por que sua mãe tinha estado tão apegada a este colar, mas suspeitava que tivesse algo a ver com o pai de Claire. A pedra era a lembrança mais querida que Claire possuía.

Não é que tivesse um pai. Sua mãe tinha sido dolorosamente honesta, lhe explicando que foi só uma noite de paixão quando tinha sido jovem e selvagem. Seu nome era Alex, e isto era tudo o que Janine sabia, ou disse que sabia.

Depois da morte de sua mãe, Claire tinha ido viver ao norte do estado com sua tia e tio em sua granja. A tia Bet havia dado as boas-vindas com os braços abertos, e Claire cresceu perto de suas primas, Amy e Lorie, ambas quase de sua mesma idade. Quando Claire chegou aos quinze, tia Bet a tinha sentado e lhe havia dito a espantosa verdade.

Sua mãe não tinha sido assassinada pelo dinheiro de sua carteira ou seus cartões de crédito. Tinha sido vítima de um crime por prazer.

Aquele conhecimento tinha mudado a vida de Claire. Sua mãe tinha sido assassinada por um louco pervertido. Isto confirmou seus piores medos, as coisas más estavam aí e passeavam de noite.

E logo, em seu segundo ano como estudante no colégio, sua prima Lorie foi assassinada quando ia embora de um tardio filme noturno não longe do campus. A polícia tinha determinado rapidamente que Lorie tinha sido a vítima de outro crime por prazer. Disto havia cinco anos.

Ela não sabia quando a “oh tão astuta” imprensa nacional havia criado primeiro a frase crime por prazer, mas tinha sido mais ou menos desde que podia recordar. Os comentaristas sociais, os psiquiatras, as liberais e os conservadores, por igual, todos afirmaram que a sociedade estava em um estado de anarquia. Oitenta por cento de todos os assassinatos estavam agora associados ao sexo, e a cada ano estava piorando. Lorie tinha morrido como milhares de outros. Tinha tido relações sexuais. Os fluidos corporais tinham mostrado que tinha estado muito excitada e que o autor tinha chegado ao clímax várias vezes. Não houve nenhuma luta, e até o dia de hoje, a polícia não tinha nenhuma pista quanto a quem tinha estado com Lorie. Uma testemunha tinha visto Lorie abandonar a sala do cinema com um homem jovem, arrumado, com pinta atlética. Ela tinha parecido feliz, inclusive apaixonada. Um retrato falado da polícia foi posto em circulação, mas ninguém o reconheceu e, como de costume, não havia nenhuma correspondência na base de dados de criminosos do FBI.

Mas por isso os crimes por prazer eram tão assustadores e abalavam. Estes pervertidos assassinos sempre pareciam ser completamente estranhos, e apesar disso, de algum jeito seduziam as suas vítimas, e até o dia de hoje, ninguém sabia como. Havia toda classe de teorias. A teoria de culto afirmava que o autor do crime pertencia a uma sociedade secreta e usava o hipnotismo para seduzir às vítimas. Os sociólogos chamaram as mortes uma tendência patológica e atribuíram a culpa de tudo aos vídeos games, ao rap e a cultura da violência, aos lares desestruturados, às drogas e inclusive às famílias compostas por pais divorciados que contribuem com filhos ao novo matrimônio. Claire sabia que eram especulações. Ninguém sabia o como e ninguém sabia o porquê.

Isto apenas tinha importância. Todas as vítimas eram jovens e atrativas e morriam do mesmo jeito. Seus corações simplesmente deixavam de pulsar, como se fossem vencidas pela paixão e a excitação.

Depois do assassinato de sua prima, Claire tinha se assegurado de que era o bastante forte para fazer um pouco de dano se um dos pervertidos criminosos da cidade pensasse atacá-la. Amy tinha decidido tomar aulas de artes marciais, também. De fato, Amy tinha sido a que tinha sugerido o curso de defesa pessoal e tinha animado a Claire a aprender a disparar. Ambas as jovens mulheres guardavam armas em suas casas. Claire se alegrou de que o marido de Amy estivesse no FBI, inclusive se sentava atrás de uma mesa. Sentia-se segura de que este tivesse realmente alguma informação confidencial, porque Amy sempre falava de como eram de perversos os crimes. Nunca disse mais e Claire suspeitava que não o permitisse. Estava de acordo. Os crimes por prazer eram perversos. Talvez houvesse um culto doentio depois de tudo. Claire guardou sua arma carregada em sua mesinha de cabeceira ao lado da cama. Ninguém nunca lhe faria dano, não se pudesse remediá-lo.

Sua bagagem quase estava preparada, decidiu fazer um rápido jantar. Riu do gato, que estava enroscado no travesseiro em que dormia.

—Patife, em meu travesseiro não, por favor! Por favor. Pode conseguir um pouco de erva de gato[7] enquanto como. Uma taça de vinho é definitivamente procedente.

Como se a entendesse perfeitamente, o gato negro saltou da cama e se aproximou.

Claire se flexionou para lhe acariciar.

   —Talvez devesse ficar contigo. É uma coisa tão bonita.

As palavras apenas tinham saído de sua boca quando os detectores de movimento soaram e alguém começou a golpear ruidosamente a porta principal de sua loja.

Claire deu um salto e logo se congelou, imediatamente transbordante de adrenalina. O golpe continuou. Deu uma olhada ao relógio perto de sua cama. Era nove e meia da noite. Isto era uma emergência ou um maluco. E, caramba, não abriria a porta a um louco. Havia muitos lunáticos soltos.

Claire correu à mesinha, agarrando sua Beretta da gaveta. O suor se acumulava entre seus seios. Seus dois vizinhos tinham seu número, no caso de alguma vez houvesse uma emergência. Este tinha que ser um estranho. Começou a descer descalça a escada.

Tratou de não pensar em todos os crimes atrozes cometidos na cidade.

Tratou de não pensar em sua vizinha, Lorie ou sua mãe.

—Claire! Sei que está aí —gritou uma mulher, soando de saco cheio.

Claire vacilou. Que demônio era essa? Não reconhecia a voz. A pessoa estava tão impaciente por entrar que sacudia a porta, como se a desencaixasse de suas dobradiças. Isto, é obvio, era impossível. A porta era de aço armado grosso e as dobradiças eram de ferro fundido.

Havia um pequeno corredor com um aparador ao pé da escada onde sempre mantinha um solitário abajur de escritório aceso. Seu escritório estava ao outro lado do corredor. À esquerda da escada estava à cozinha, com sua área de café da manhã, e à direita, o amplo cômodo que servia como loja. Claire entrou na loja, golpeando o interruptor de luz e inundando a loja com ela quando assim o fez.

A persiana negra estava aberta.

— Quem é? —exigiu Claire, sem ir à porta.

Os golpes e os estalos continuaram se parar.

— Claire, sou eu, Sibylla.

Claire tratou de pensar. Estava quase certa de que não conhecia ninguém chamado Sibylla. Esteve a ponto de lhe dizer que sumisse - de um modo cortês, é obvio—, quando a mulher falou:

   — Sei que tem a página, Claire. Deixe-me entrar.

Claire não sentia curiosidade, não agora, não com uma estranha louca que derrubava a golpes sua porta, não quando lá fora estava negro como o Hades.

— Tenho doze mil livros em estoque - disse ela concisamente. — A quatrocentas páginas em média, aqui há um montão de páginas.

— É a página do livro para curar-se. —Sibylla parecia perigosamente irritada. — É do Cladich e sabe. —Empurrou a porta abrindo-a e deu um passo dentro, rompendo algo quando assim o fez.

Por um segundo, Claire ficou emocionada. Só o Exterminador[8] podia romper a porta ao abrir daquela maneira, e a mulher ruiva que andava resolutamente por sua loja não era o Exterminador, nada disso. Era de estatura e compleição media, não mais de um e setenta, provavelmente não muito mais de cinquenta quilogramas. Claire se deu conta de que ia vestida toda de negro, como uma ladra, e que evidentemente tinha forçado suas fechaduras de tecnologia avançada.

Amanhã ia instalar um novo sistema de segurança.

Claire apontou com a arma diretamente entre os olhos.

—Para aí mesmo. Não te conheço e isto não parece uma brincadeira de mau gosto. Sai daqui!

   Sua mão não tremia e Claire estava assombrada, porque tinha medo. Nunca tinha olhado dentro de uns olhos tão frios e desalmados antes.

Sibylla sorriu sem nenhuma alegria e isto transformou sua beleza em uma máscara de malícia. Seu sorriso falou de ameaças. Por um instante, o coração de Claire pulsou desenfreado quando se deu conta de que esta mulher desconhecida não ia escutá-la. Mas não parecia que a mulher estivesse armada e Claire lhe passava ao menos em nove quilos.

E então Sibylla riu.

—Ah, meus deuses! Não me conhece... Não retornaste ainda, certo?

Claire nunca vacilou, mantendo apontada a arma em meio da testa da mulher.

—Saia.

—Não antes que me dê à página - disse Sibylla, caminhado a passos largos diretamente a ela.

—Não tenho nenhuma página! —gritou Claire com incredulidade. Sua mão começou a tremer. Claire começou a apertar o gatilho, baixando a arma para apontar ao ombro de Sibylla, mas era muito tarde. Sibylla lhe tirou a arma com a impressionante velocidade de uma serpente. Então levantou o punho.

Claire viu o golpe e tratou de bloqueá-lo, mas a outra mulher era extraordinariamente forte e seu veloz antebraço desceu abruptamente. Sentiu o punho como soco inglês quando este golpeou com força na lateral de sua cabeça. A dor explodiu e Claire viu estrelas fugazes. Depois só houve escuridão.

Claire voltou a si devagar, os mantos de escuridão retrocedendo, sendo substituídos por densas sombras cinza. Doía-lhe a cabeça como o inferno. Este foi seu primeiro pensamento coerente. Então se precaveu de que estava sobre o chão de madeira. Imediatamente, recordou tudo...

Uma mulher tinha irrompido à força em sua loja e a tinha assaltado. Durante um momento Claire ficou imóvel, fazendo como se estivesse inconsciente, escutando intensamente à noite. Mas tudo o que ouviu foi o barulho dos carros e as buzina ressoando fora na rua.

Lentamente, Claire abriu os olhos, precavendo-se de que tinha sido transladada. Agora jazia no espaço entre a cozinha e a loja, não longe de seu escritório. O abajur do escritório permanecia aceso. Claire devagar girou sua cabeça para contemplar a loja. Quase gritou. Estava vazia, a porta principal por sorte fechada, mas parecia como se cada livro tivesse sido arrojado ao chão. Sua loja tinha sido saqueada.

      Claire se sentou, rígida com consternação e incredulidade. A mulher tinha estado sem dúvida alguma procurando uma página daquele livro que tinha mencionado. Tocou um lado da cabeça, encontrando um enorme galo detrás da orelha, e esperava contra todas as predições que seus estoques mais valiosos não tivessem sido roubados. Precisava chamar à polícia, mas também precisava saber o que Sibylla levou.

Nunca tinha ouvido falar do Cladich. Mas em tempos medievais, houve referências a livros e manuscritos nos quais os homens de hoje em dia tinham acreditado dispor de vários poderes tônicos e curativos. Apesar de sua cabeça dolorida, entusiasmou-se. Faria uma busca no Google sobre o Cladich, logo que se orientasse. Mas por que pensaria aquela intrusa que uma página daquele livro estava em sua loja?

A intrusa poderia ser uma simples louca, mas Claire seguia preocupada. Dava a impressão de que Sibylla a conhecia e não parecia uma louca, absolutamente. Tinha parecido depravada, desumana e decidida. Claire esticou a mão e agarrou o pingente que tinha posto, tomando um momento para recuperar a serenidade. Que noite para noites para um arrombamento e um assalto! Mas em realidade não estava ferida. Se tivesse sorte, a mulher não tinha encontrado o que procurava. Se realmente tivesse de sorte, aquela página estaria de fato em sua posse!

Claire ficou de pé, começando a acalmar-se, a palpitação retrocedendo a uma dor fraca, enquanto um entusiasmo familiar zumbia em suas veias. Seu instinto era precipitar-se à loja e fazer o inventário, mas sabia que o que devia fazer era refrescar primeiro sua cabeça e depois chamar à polícia. E também tinha que comprovar se um livro chamado O Cladich tinha existido alguma vez.

Mas a segurança era o primeiro. Claire entrou na loja para fechar com chave a porta principal. Quando cruzou a loja, com cuidado passando por cima dos livros e manuscritos, recuperou a Beretta do chão. A porta tinha uma fechadura dupla. Amanhã, quando tivesse colocado fechaduras triplas, também acrescentaria um ferrolho. Quando girou a fechadura, o estalo soou reconfortante, mas quando comprovou a porta, esta se abriu.

Seu coração saltou consternado. Se as fechaduras já não funcionavam, iria a um hotel. Claire vacilou e abriu a porta uma fresta para olhar a fechadura. Seus olhos se abriram de par em par quando olhou fixamente as brechas no marco da porta de madeira. Quase parecia como se Sibylla tivesse empurrado a porta fechada abrindo-a, desmantelando os dentes das fechaduras dentro do umbral de madeira ao fazê-lo assim.

Mas isso era impossível.

Fechou a porta de repente, negando-se a aterrorizar-se. O exterior da rua tinha estado relativamente tranquilo, exceto por alguns carros que passavam, mas agora não tinha nenhuma segurança. Cada noite, dúzias de crimes sexuais ocorriam. Ocupou-se de estar informada disto.

Apressou-se ao seu escritório, saltando sobre as pilhas de livros, agarrou uma cadeira, e a pôs sob a maçaneta da porta. Quando a polícia viesse, pedir-lhes-ia que a ajudassem a mover uma estante para frente da porta. Isto deveria acrescentar no momento bastante segurança.

Mas, como poderia deixar a cidade amanhã, como havia planejado? Claire compreendeu que sua viagem teria que ser adiada. Ia ter que fazer um inventário de seu estoque. A polícia o exigiria. E se alguém tivesse posto uma página valiosa em um dos volumes?

O atrativo de suas férias e de Dunroch, lutavam contra seu entusiasmo sobre a possibilidade de fazer um descobrimento tão grande. Claire entrou correndo em seu escritório, inclusive sem acender as luzes. Deu um toque à barra de espaço para tirá-lo da fase de hibernação, seu pulso martelava. Correu dentro da cozinha, golpeando as luzes e começou a encher uma bolsa Ziploc[9] com gelo. A dor em sua cabeça tinha despertado uma desagradável enxaqueca. Talvez, depois de tudo, fosse ao hospital.

Da loja, ouviu a cadeira arranhar através do chão tal como ouviu um homem amaldiçoando.

Claire não podia acreditar. Não podia ser outro intruso! E logo o medo começou. Moveu-se, agarrando a arma do balcão, comprovando como uma louca se estava carregada e logo apagando de repente as luzes da cozinha. Fundiu-se com a parede detrás da porta aberta da cozinha. Tratando de não entrar em pânico, escutou atentamente o homem outra vez, mas não ouviu nada.

Não obstante, não tinha sido sua imaginação. Tinha ouvido uma maldição, quase inaudível. O coração de Claire palpitou com uma força horrenda. Partiu? Ou estava agora mesmo saqueando sua loja? Ia ser de novo agredida?

Procurava aquela página do Cladich? Porque isto não podia ser uma coincidência. Não tinha sido roubada nos quatro anos que tinha aberto o negócio.

O telefone estava do outro lado da cozinha. Sabia que devia chamar o 911[10], mas tinha medo de que o intruso a ouvisse e voltasse sua atenção para ela. Agarrou a arma tão forte que seus dedos lhe doeram, suas palmas estavam suadas. A cólera começou. Esta era sua loja, maldição! Mas o medo a consumia e nenhuma quantidade de cólera justiceira poderia afugentá-lo.

Assustada de que sua respiração superficial fosse audível e a delatasse, Claire começou a arrastar-se pelo corredor. O maldito abajur do escritório permanecia aceso, fazendo-a sentir-se horrivelmente exposta. Podia ver a porta principal através da loja, mas ali não havia ninguém.

Quando passou as escadas, agarraram-na por trás.

Claire lançou um grito quando um poderoso braço a imobilizou contra o que parecia um muro de pedra. O pânico a impossibilitou pensar. Deu-se conta de que estava presa como por um torno contra um enorme, e claramente, masculino corpo.

Seu coração trovejou, mas de repente, diminuiu o ritmo e Claire teve uma impactante sensação de familiaridade. Naquele momento, o medo desapareceu, substituído só por sua aguda consciência do poder mortal e a força do homem.

Ele falou.

Claire não entendeu uma só palavra do que disse. Seu coração se acelerou e o medo a arranhou de novo. Seu instinto era lutar e começou a retorcer-se, agarrando seus braços para tirar-lhe de cima, desejando ter tido saltos agulha, porque então poderia lhe pisar sua bota. E quando suas pernas descobertas entraram em contato com as coxas dele, congelou-se, porque as pernas dele também estavam absolutamente nuas. Claire inalou dolorosamente.

Ele falou, sacudindo-a dentro de seu enorme braço, e não fez falta que entendesse sua língua para saber que lhe estava dizendo que ficasse quieta. E quando a puxou aproximando-a até ele, sentiu-o endurecer-se contra seu traseiro.

Claire ficou pasma. Seu captor estava excitado, de maneira tão espantosa. A sensação de uma grande, dura longitude pressionada contra ela era amedrontadora... e também emocionante.

— Deixe-me ir - ofegou desesperadamente. E três palavras arderam através de sua mente: Crime por prazer.

Notou que seu agarre se retesava pela surpresa. Então disse:

—Antes baixa a arma, moça.

Falou em inglês, mas não havia dúvida alguma do exagerado acento escocês. Claire umedeceu seus lábios, muito atordoada inclusive para tratar de considerar o que significava aquela coincidência.

— Por favor. Não escaparei. Solte-me. Está me fazendo mal.

Para seu alívio, relaxou o agarre.

— Deixa a arma, seja uma boa garota. —Quando ele falou, sentiu sua barba incipiente contra sua mandíbula e seu ligeiro sopro na orelha.

Sua mente ficou em branco, e só pôde pensar no pulso poderoso que palpitava contra ela. Algo terrível estava acontecendo, e Claire não sabia o que fazer. Seu corpo tinha começado a retesar-se e a vibrar. Era assim como aquelas mulheres morriam em meio da noite? Ficavam aturdidas e confusas, e excitadas? Deixou cair à arma e esta caiu ruidosamente no chão, mas não se disparou.

— Por favor.

— Não grite. — disse suavemente. — Não vou te machucar, moça. Necessito sua ajuda.

Claire de algum jeito assentiu com a cabeça. Quando afastou seu braço, ela correu para o outro lado do corredor, parando de repente ali e girando a suas costas para confrontá-lo. E gritou.

Havia esperado qualquer coisa menos a perfeição masculina que estava na sua frente. Era um homem imponente, ao menos dezesseis centímetros mais alto que ela, extraordinariamente musculoso. Seu cabelo era tão negro como a meia-noite, sua pele bronzeada, mas tinha olhos chocantemente pálidos. Estes estavam enfocados nela com intensidade inquietante.

Parecia tão surpreso ante a visão dela como ela estava pela dele.

Tremeu. Deus, ele era lindo! Um nariz ligeiramente torcido, possivelmente foi quebrado uma vez, maçãs do rosto dolorosamente altas e uma cruamente forte mandíbula, lhe davam o aspecto de herói poderoso. Uma cicatriz partia em duas uma sobrancelha negra, outra formava uma lua crescente em uma bochecha. Simplesmente se acrescentavam para fazer parecer que este homem estava curtido na batalha, experiente, e de longe muito forte para ser bom para alguém.

Mas era um louco. Tinha que sê-lo. Porque estava vestido com roupa que reconheceu imediatamente. Até o meio da coxa, uma túnica de linho cor mostarda, que estava atada com um cinturão, e sobre isto, cobrindo um ombro, uma manta escocesa azul e preta fixada aí com um broche de ouro. Suas coxas estavam nuas, mas calçava até os joelhos umas botas de couro claramente muito gastas. E uma espada enorme embainhada sobre seu lado esquerdo, o punho cintilava com joias de bijuteria. Estava disfarçado como um highlander medieval!

Parecia autêntico. Tinha volumosos braços que poderiam ter empunhado uma enorme espada sem esforço no tipo de batalha sobre a qual tinha lido em um livro de história. E quem quer que tenha feito seu traje tinha investigado. Seu tartan[11] parecia autêntico, como se o tivessem tingido com açafrão, e o manto azul e negro parecia tecido à mão. Teve que olhar suas coxas fortes outra vez, onde seus músculos se avultavam, coxas que pareciam de rocha, fortes por anos de montar a cavalo e correr pelas colinas. Seu olhar avançou lentamente para cima, até a saia curta do leine, onde uma rígida linha permanecia levantada. Claire se deu conta de que o estava comendo com os olhos, um rastro de suor corria entre seus seios e coxas. Estava sem fôlego, mas era porque tinha medo dele.

E logo viu que os olhos dele tinham descido até suas pernas. Ruborizou-se.

Ele elevou seu inequivocamente quente olhar para ela.

— Não pensava ver-te de novo, moça.

Os olhos de Claire se abriram de par em par.

Seu sorriso se tornou sedutor.

— Eu não gosto que minhas mulheres se desvaneçam na noite.

Ela pensou que estava completamente louco.

—Você não me conhece. Não lhe conheço. Não nos apresentaram.

—Sinto-me ofendido, moça, de que não recorde o acontecimento. —Mas seu sorriso satisfeito alguma vez vacilou e seguiu lançando olhadas a suas pernas, e à pequena camiseta que deixava seu estômago descoberto. — Que tipo de traje é este?

O rubor aumentou e ela o sentiu. Rezava para que não fosse um desses assassinos sexuais.

— Poderia lhe perguntar a mesma coisa. —replicou ela, tremendo. — Isto é uma livraria. Você deve estar de caminho a uma festa a fantasia. Não é aqui! —Tinha que apaziguar a este homem a todo o custo e tinha que conseguir que abandonasse sua loja.

—Não fique assustada, moça. Pode ser uma tentação, mas tenho outros assuntos em mente. Necessito sua ajuda. Necessito a página.

Ela exalou agora audivelmente, mas não com alívio. Não queria estar a sós com este homem. Sua mente foi a toda velocidade.

—Volte amanhã. —Forçou um sorriso que pareceu enfermo. — Fechamos. Amanhã poderei lhe ajudar.

Ele enviou-lhe outro sorriso sedutor, claramente utilizado para pôr às mulheres de sua parte, e em sua cama.

—Não posso voltar amanhã, moça. —E murmurou. — Quer me ajudar moça, faça-o. Deixe o medo; isto não se vê bem. Pode confiar em mim.

Seu tom suave enviou uma espiral de desejo através dela. Nenhum homem a tinha cuidado nunca de tal maneira, ou lhe tinha falado de forma tão sedutora, muito menos um homem como este. Claire não podia afastar os olhos de seu penetrante olhar. O selvagem martelar de seu coração se relaxou. Algo de seu medo diminuiu. Claire realmente queria lhe acreditar, confiar nele. Ele sorriu, conhecedor disso.

—Ajudar-me-á moça, e me guiará em meu caminho.

Por um momento, teve intenção de aceitar. Mas sua mente gritava de uma maneira estranha, confundindo-a. Então a sirene de um caminhão de bombeiros soou fora, na rua, ao passar na frente da loja. Ele saltou, afastando-se para a porta e ela recuperou o juízo. Estava coberta de suor. Tinha estado a ponto de fazer tudo o que ele pedia!

—Não.

Ele pôs-se a andar.

— Meu ajudante lhe atenderá amanhã. —Engoliu saliva. Foi tão firme como pôde ser e isto lhe pareceu uma façanha enorme. Afastou a franja dos olhos com a mão tremula. Era como se tivesse estado perto de que a hipnotizasse. Evitou seu olhar. — Se for importante, voltará. Agora por favor, saia. Como pode ver, tenho que fazer um pouco de limpeza, e chega tarde a sua festa. —Desejava que sua voz não se rompesse com a terrível tensão e o medo que a enchia.

Ele não se moveu, e era muito difícil dizer se estava irritado, furioso ou surpreso.

   — Não posso ir sem a página. —disse finalmente, e não havia dúvida de sua obstinação nesse momento.

Claire lançou uma olhada à sua Beretta, a qual estava no chão do corredor aproximadamente à mesma distância de ambos. Perguntou-se se poderia agarrá-la e lhe obrigar a sair.

—Nem pense em tentá-lo. – a aconselhou em tom suave.

Ela ficou rígida, sabendo que não poderia vencer a este homem e que seria perigoso tentar fazê-lo. Não parecia ser violento, mas obviamente, era um louco. Ajudar-lhe-ia se com isso conseguia que se fosse.

—Muito bem. Duvido que tenha o que busca, mas, por favor, continue me diga o que quer. —Lançou uma olhada muito breve ao seu rosto e quando captou sua dura beleza de novo, seu coração deu um duplo baque.

Um olhar de triunfo revoou nos olhos dele.

—A sabedoria antiga foi dada aos Xamãs da Dalriada há muito e posta em três livros. O Cladich é o livro curativo. Foi roubado de seu lugar sagrado. esteve perdido durante séculos. Pensamos que uma página está aqui, neste lugar.

Claire se assustou. Que demônio está acontecendo aqui?

—Sua amiga já esteve aqui, procurando uma página do Cladich, ou isso disse. Mas odeio ter que lhe dizer que isto é uma farsa. Não existiam livros nos tempos da Dalriada.

Ele se sobressaltou, e então a fúria cintilou.

—Sibylla esteve aqui?

—Não só esteve aqui, sacudiu-me na cabeça. Acredito que tinha soco inglês nos dedos - acrescentou Claire com uma careta de dor. Estava compactuando com a primeira ladra? Mas ser for assim, por que estava vestido com tal disfarce?

No momento em que falou, lamentou havê-lo feito. Ele cruzou o estreito corredor antes que ela pudesse tomar um fôlego. Claire lançou um grito, mas era muito tarde, seu braço estava ao redor dela outra vez, seus olhares se encontraram.

— Disse que não te faria mal. Isto poderia te beneficiar em grande medida, moça, agora confia em mim.

—Nem em sonhos! —gritou Claire, seu coração trovejava alarmado. Mas não podia afastar o olhar de seus magnéticos olhos cinza. — Vá.

—Pelo sangue de Cristo! —espetou finalmente, puxando-a. — Deixe-me ver a ferida!

Então, Claire entendeu suas intenções e ficou estupefata. Só queria ver se estava ferida? Mas por que se preocuparia ele?

—Não complique. —disse ele em tom persuasivo com um sorriso.

E quando ela se permitiu relaxar só ligeiramente, ele afrouxou também seu agarre.

—Boa garota. — murmurou as palavras tão sensuais como seda sobre sua pele nua. Então deslizou as pontas de seus longos dedos, através de seu cabelo, separando de seus ombros os longos fios encontrando seu couro cabeludo. Claire deixou de respirar. Seu toque era como a carícia de um amante, a nua ondulação de seus dedos através de sua pele quente, fazendo com que seu corpo se retesasse. Por um momento enlouquecedor, desejou que passasse a mão descendo por seu pescoço, seu braço, e sobre seus seios, que estavam tensos e eretos. Ele lançou-lhe uma breve olhada que foi quase presunçosa, fazendo-a saber, que ele sabia.

— Tha ur falt brèagha [12]. —Seu tom tinha diminuído a um suave sussurro sedutor.

Claire aspirou.

—O que? —tinha que saber o que havia dito.

Mas tinha encontrado o galo. Ela estremeceu quando o tocou e ele disse com mais firmeza:

   —Este é um ovo de petirrojo[13] de bom tamanho. Sibylla necessita uma lição de boas maneiras e tenho a intenção de ser o que a ensine.

 

Ela tinha o mais estranho pressentimento sobre o que queriam dizer suas palavras. Cravou os olhos em seu olhar, tratando de entender quem e o que era ele quando elevou o pingente que ela levava. Surpreendentemente, não lhe importou. Segurou a pálida pedra branca cinzenta em sua mão, as rígidas juntas contra sua pele, ali, sob o oco de sua garganta.

—Leva posto um amuleto de pedra, moça.

Ela sabia que possivelmente não poderia falar, este homem era muito poderoso, muito hipnotizante.

—Assim bem, é descendente? É natural de Alba? É das Terras Baixas?

Sua mão se moveu mais abaixo, de modo que o coração de Claire estrondava abaixo ela. Alba era o nome gaélico para Escócia.

—Não.

Ele deixou cair o pingente contra sua pele, mas quando tirou à mão, seus dedos deliberadamente roçaram um caminho ao longo da ponta de seu seio, arrastando o fogo em seu caminho.

Claire ofegou, olhando fixamente dentro de seus acesos e atrevidos olhos. Podia ver ambos entrelaçados, ali no pequeno corredor de sua casa.

—Não. —Não sabia sequer por que protestou, porque o protesto não estava em sua mente.

Pareceu passar uma eternidade. Sem dúvida estava vendo a mesma imagem que ela. Tinha a sensação de que estava debatendo-se em render-se a enorme tensão que pendia entre eles. Então sua expressão mudou e ele sorriu, mas foi um sorriso auto-reprovador.

—Precisa - disse com voz pouco clara—, de um novo tipo de roupa. Um homem não pode pensar claramente diante tal estilo. —E se distanciou dela.

Foi um alívio. Imediatamente, Claire recuperou o juízo, afastando-se de um salto contra a parede. Seu corpo ardia. Este homem era perigosamente sedutor. Finalmente disse:

   —Quem é você? Quem é realmente? E por que está vestido desta maneira?

Um brilho apareceu nos surpreendentes olhos dele e seu rosto se suavizou. E lhe sorriu um sorriso tão genuíno que lhe converteu na encarnação da beleza, revelando duas profundas covinhas.

—Faz-te falta uma adequada apresentação? Moça, não seja tímida. Só tinha que ter perguntado. —Sua voz soou com orgulho. — Sou Malcolm de Dunroch - disse ele.

Por um momento, Claire ficou estática, e então captou a brincadeira. Amy! Sua prima era também sua melhor amiga. Amy sabia que estava a caminho de Mull, onde ficaria no Malcolm’s Arms, e também sabia que Claire tinha fantasiado sobre encontrar-se com o lorde de Dunroch. Sua prima tinha decidido fazer uma brincadeira lhe mandando a este aspirante a ator para se passar por um highlander medieval. E Claire riu.

Normalmente, não estaria tão divertida, mas estava tão aliviada.

O homem que pretendia ser Malcolm de Dunroch parou de sorrir. Olhou-a, primeiro com suspeita, e logo sua expressão se endureceu, tornando-se sombria.

—Moça está rindo de mim? —perguntou com muita suavidade.

—Amy te enviou! —gritou Claire, soltando ainda uma risada sufocada. — Deus, você é bom! Enganou-me por um momento, pensei que fosse um lunático. A verdade é, que quase acreditei, só por um segundo, que era um autentico guerreiro - sorriu ela.

Ele franziu o cenho.

—Está louca, moça. E me acusa de estar louco?

Sua rápida cólera quase pareceu real.

—Sei que não está louco - disse Claire rapidamente, apaziguando-o instintivamente. — Só é um bom comediante.

—Não te entendo, moça. —Seu olhar foi agudo.

Sua atuação já não era divertida. Era um ator, não um louco, nem um ladrão. Sua prima tinha alugado ao homem mais magnífico que tinha visto como brincadeira. E não só era magnífico, sentia-se claramente atraído por ela, também. Ficou rígida. Não tinha estado com ninguém em três anos, não desde que sua última relação tinha terminado. Claire começou a pensar seriamente no fato de que não era um ladrão louco e que homens como ele não havia aos montes. Mas o que ela estava fazendo, exatamente?

Ele ainda estava imóvel.

—Moça?

Então entrou em razão. Era um estranho. Em uma cidade cheia de assassinos criminosos viciosos, só uma mulher louca ou desesperada se encontraria com um homem sem a apresentação de um amigo. Não estava louca e não estava desesperada. Não deveria estar pensando em sexo.

Mas estava.

Claire molhou os lábios, consciente de que seu corpo estava excitado, sem importar seu instinto.

—Deixa já de fingir. Peguei-te. —girou-se longe dele e enquanto fazia isso, enfrentou-se com a devastação de sua loja.

Imediatamente sua atenção se desviou. Claire observou seus preciosos livros cobrindo o chão. Sua prima nunca consentiria tal destruição.

Aquela mulher não tinha sido uma brincadeira. Ele podia ser um ator, mas Sibylla tinha sido uma ladra. Tinha saqueado a loja de Claire e a tinha assaltado, e Claire ainda não sabia o que levou. De repente, a brincadeira de Amy não era engraçada. Malcolm a tinha assustado, considerando o que tinha passado antes que aparecesse. E isto ainda não tinha sentido. Sibylla também tinha perguntado por uma página do Cladich. O que significava isso?

Enquanto tratava de entender os acontecimentos dessa noite, ele caminhou na frente dela e começou a recuperar os livros.

—O que está fazendo? —perguntou concisamente, vítima da tensão uma vez mais. Isso não estava bem, tudo estava mau.

Ele enfrentou a ela, com uma dúzia de livros nos braços. O tartan de imitação tinha mangas curtas, e seus bíceps se avultaram.

—Te ajudarei moça, mas em troca necessito que me ajude. —Ele dedicou-lhe um sorriso atrativo e encantador.

Claire se protegeu contra seu magnetismo, afastando bruscamente o olhar. Quase muito tarde, por que subiu um calor de seu corpo. Abraçou-se defensivamente.

—Isto é improvisação, certo? Contei-te o de Sibylla e a página do Cladich e segue com isso. Isso é o que os atores fazem. —Essa era a única explicação possível... exceto que estava certa de que não tinha mencionado a Sibylla antes que lhe perguntasse pela página.

Ele sacudiu devagar a cabeça.

—Não te entendo. Mas se pensar que sou um ator, você está equivocada, moça. Sou o Maclean do sul de Mull e Coll.

Claire se zangou. Cruzou os braços sobre o peito, logo o lamentou, quando seu olhar se moveu para seus seios.

—Por favor, pare - disse severamente. — foi uma noite horrível. Sei que Amy te enviou como uma brincadeira, mas Sibylla me assaltou e saqueou minha loja.

—E essa é a razão pela qual desejo te ajudar. Onde quer que coloque os livros?

Claire sacudiu a cabeça.

—Não. Avalio a oferta, mas limparei sozinha. — Queria que se fosse. Precisava pensar e precisava chamar à polícia.

Mas ele a ignorou, colocando os livros em uma pilha ordenada no chão, como se entendesse que não havia razão de colocar tudo de volta nas estantes. Olhou-a quando se endireitou.

Claramente tinha a intenção de ficar e ajudar. Isso o fazia parecer decente, além de muito bonito? Suavemente, ela disse:

—A brincadeira está feita. De verdade. Agora pode ir.

Ele murmurou algo em gaélico e ela se congelou.

—Em realidade é escocês.

—Aye. —Segurou outra braçada cheia de livros.

Claire se negou a entrar em pânico. Podia ser um ator escocês, justo como Sean Connery, e alguns escoceses continuavam falando gaélico.

—Amy te enviou, certo?

Ele não respondeu. Ao invés, empilhou os livros ao lado do primeiro monte.

Ela sacudiu a cabeça, sua inquietação sobre isto se convertia outra vez em completo pânico. Se Amy não o tivesse enviado, então o que ou quem era?

Inclinou-se para recuperar mais livros, e Claire se enfrentou à visão de seu tartan elevando-se sobre o ligamento da poderosa curva ajustada. O fato de que fosse tão masculino não a ajudava a aliviar sua confusão. Seu corpo continuava vibrando com todos os tipos de tensões, mas não estava tão assustada agora como tinha estado ao princípio. Se ele não fosse, o que devia fazer?

Deveria chamar a sua prima e averiguar a verdade, mas maldição, estava com medo da resposta de Amy.

Ele se endireitou e a pegou olhando-o.

— Esta muito faminta para ser uma mulher tão bela —disse suavemente—. Onde está seu homem?

—Não há nenhum —corou.

Ele a olhou inexpressivamente.

— Este mundo é incompreensível para mim —disse finalmente, sacudindo a cabeça. — Mora aqui sozinha?

Claire assentiu.

— Sim, moro. — Estavam tendo uma conversação que era quase normal. Ela debateu como fazer aquela chamada telefônica inocentemente sem que se alarmasse. Não havia forma de evitá-lo.

Ele permanecia incrédulo.

— E quem te protege do perigo?

— Protejo a mim mesma —riu fracamente.

Ele fez um som.

— Com aquela arma? — cabeceou desdenhosamente para a parede, onde sua Beretta jazia no chão.

— Também tenho spray de pimenta e um Taser.

Seus olhos se estreitaram.

— Mais armas?

Certamente sabia que, ao menos, o spray de pimenta o era.

— Não sou a única mulher sozinha na cidade.

— Uma mulher necessita de um homem para mantê-la a salvo, moça. “Essa é a lei do mundo” ou melhor dizendo a “lei dos homens”. —Foi inflexível.

   Claire ficou brevemente muda. Este homem falava como se fosse do século passado.

— Essa não é a lei em meu mundo —disse finalmente. — E está me assustando. Admito-o. Sou uma covarde e precisa sair de seu personagem. —Suas bochechas estavam vermelhas.

—Não desejo te assustar moça — murmurou. — Mas que homem, em seu são julgamento, deixaria que andasse sozinha?

Não pôde evitar sentir-se adulada. E a forma em que estava olhando-a agora, desde debaixo dessas grossas pestanas negras, não lhe deixavam dúvida de que estava excitado. Claire engoliu. Não só podia sentir a tensão sexual vindo dele, em realidade podia tocá-la. Era quase como uma terceira presença ali na loja com eles. Não havia dúvida de que seria um amante fantástico.

— Necessita um homem, moça —disse suavemente. — É uma pena que não possa ser eu.

Ela ficou rígida. Estava lendo sua mente? Era um rechaço? Só podia pensar que era terrivelmente óbvia!

Olhou-lhe e lhe devolveu o olhar.

— Por que não? —seu tom era rouco. Apenas podia crer. Nunca tinha tido uma relação furtiva.

E seu olhar se intensificou.

— Está iniciando uma sedução, moça? Deseja me seduzir?

Claire estava mortificada.

—Não. — Não podia pensar, assim que, como esperava que soubesse o que pretendia?

Ele sorriu, um sorriso suave e dilacerador e então falou com um grande pesar.

— Em outra vida, momhaise, com muito gosto aceitaria um convite tão formoso.

Só este homem era capaz de fazer um rechaço algo tão sexual. Suas palavras deveriam lhe haver ferido. Ao invés, estava ali necessitada.

Ele se girou. Claire vislumbrou o volume muito evidente de sua excitação sob a túnica e quase esperou que a loja se incendiasse.

Agora ele falou bruscamente.

—Necessito a página antes que outro a agarre. Pertence a um santuário, com o Cathach. Espero que você me ajude e logo irei.

Este só foi um momento antes que Claire recuperasse o sentido.

—Tudo isto não é uma brincadeira, certo? Minha prima não te enviou aqui. É da Escócia.

Seu olhar cinza estava sério.

—Aye.

Ela começou a tremer.

—O Cathach está na Real Academia Irlandesa. Cada investigador sabe, porque é o manuscrito iluminado irlandês mais antigo que alguém tenha jamais encontrado.

Quanto mais agitada ela ficava, mais calmo estava ele.

— O Cathach se conserva em Iona[14], moça.

Claire sacudiu a cabeça. Era um louco depois de tudo?

—Não há nenhum santuário em Iona. Não há nada mais que ruínas!

Sua cara se transformou em planos duros e ângulos tensos.

— Talvez em seu tempo.

— Que demônio significa isso? —gritou.

— Significa que estive no santuário muitas vezes. Protegi-o com minhas próprias mãos.

Ela engoliu, apoiando-se longe.

—Acredito que é um verdadeiro escocês. Mas, por que o traje? Por que a história absurda, as mentiras? E quem é a mulher que irrompeu em minha loja?

Seus olhos cintilaram.

— Está me acusando de mentir, moça. Muitos homens morreram por menos. —Sacudiu a cabeça. — Não sei que livro está em sua academia, mas não é um livro de sabedoria, o qual eu vi com meus próprios olhos.

—Isso é impossível! —gritou Claire, terrivelmente agitada agora. — Embora acredite, certo?

—Digo a verdade. —Cruzou os maciços braços sobre seu peito.

Sua mente funcionava agora a uma velocidade alarmante. Não havia forma de racionalizar seu comportamento ou suas crenças. O Cathach genuíno estava em Dublín, exposto. Não era conservado na ilha de Iona. Não havia um santuário em Iona! Tinha estado ali. O monastério e a abadia estavam em ruínas. Se um santuário tivesse existido ali, o teria visto. E o que havia sobre o Cladich e a página que tanto ele como Sibylla reclamaram antes? Ela era uma investigadora, mas nunca tinha ouvido a respeito de tal livro antes.

— Conte-me sobre o Cladich —disse ela.

Seu olhar se estreitou, mostrando-se cauteloso.

— Fergus MacErc comprou o livro em Dunnad. Quando Santa Columba estabeleceu o monastério em Iona, foi conservado ali com o Cathach. Foi roubado pelos beneditinos. — Ele assinalou.

Ela umedeceu os lábios, seu coração corria. Estava definitivamente louco, porque acreditava em cada palavra.

—Se quer dizer que o manuscrito é anterior ao Cathach e ao estabelecimento do monastério de Santa Columba em Iona, está equivocado.

Seus olhos se obscureceram.

— Novamente está me acusando de mentir?

— Não sei que o pensar! Não houve tradição escrita entre os celtas até o tempo da Santa Columba. Nenhuma — gritou. — Os druidas proibiam a escritura. Tudo era oral.

Seu sorriso se mostrou satisfeita.

— Não. Os livros foram escritos, porque os antigos assim o desejaram fazer.

— Os antigos?

Suavemente disse:

—Os antigos deuses.

Mais que louco, pensou. Rezou para poder ter forças para disfarçar. Então o olhou diretamente.

—Bem, reconheço-o. Só sou uma vendedora de livros, assim que, talvez seja a que está equivocada. —Sorriu. — Tenho frio. Vou acima me trocar, mas volto em seguida. Continua procurando a página. Ajudar-te-ei quando descer. —Não se incomodou em lhe dizer que a página, se era original, estaria em pedaços, se é que não estava cuidadosamente conservada.

      Ele sorriu, um sorriso que não alcançou aos seus olhos cinza.

Sabia que ela subia por algo. Não importava, logo que lhe permitiu abandonar a habitação, Claire caminhou lentamente fora da loja, quando o que queria fazer era correr. Seu olhar queimou buracos em suas costas. Entrou correndo em seu escritório, fazendo uma pausa em seu pequeno escritório, desligou e agarrou rapidamente seu notebook. Nenhum som veio da parte dianteira. Segurando seu notebook contra o peito, começou a subir as escadas, tropeçando em sua pressa.

Em seu quarto, saltou na cama, levantando a tampa do computador. Tremendo, sentindo-se doente pelo temor, foi a Internet e fez uma busca do Cladich, então levantou o telefone.

Mas antes que pudesse marcar o 911, a informação apareceu na tela. Claire esqueceu tudo sobre chamar à polícia.

O Cladich era um mito. Não havia quase nenhuma prova de que tivesse existido, exceto pela referência de um manuscrito santo que tinha sido encontrado na esfinge de uma tumba no pequeno povoado de Cladich, Escócia. Três investigadores deram créditos à declaração. Todos mantinham que tinha sido um livro de cura, pertencente a uma sociedade de guerreiros pagãos. Entretanto, dividiam-se depois disto. Um defendia que a Irmandade e a escritura datavam da Idade Média, outro, no nascimento de Cristo. A terceira opinião era que a Irmandade secreta tinha sobrevivido até a Idade Média, embora fosse duvidosa a existência do livro.

Claire começou a tremer pela excitação. Tinha que se recordar que o livro era uma lenda. Mas tanto Malcolm como Sibylla acreditavam que uma página estava em sua loja. E se não fosse um mito?

Enquanto explorava de novo o artigo, sentiu-lhe.

Lentamente levantou o olhar, através de sua cama. Malcolm estava quieto como uma estátua na entrada de seu dormitório. Seu olhar cinza se fixou no dela.

Ela não podia se mover. Olhava-lhe fixamente, esquecendo tudo do Cladich e sua página perdida. Seu olhar se moveu através de seu rosto, de seus peitos, de suas pernas. Sua pele se acendeu e ardeu. Lentamente, vagamente consciente de que não era ela mesma, Claire se afastou para trás contra os travesseiros. Necessitava-lhe.

Sua voz cortou o transe como uma chicotada.

— Levante-te.

Claire saltou da cama. Seu rosto estava tão tenso que parecia como se pudesse romper-se. De um salto se dirigiu para a cama.

—Quem é? —seu coração trovejava loucamente.

Sua mão varreu sobre seu travesseiro favorito e se girou para olhá-la com olhos furiosos e assombrados.

—Maldição! —exclamou—. Aidan dormiu aqui? Em sua cama?

Ela não sabia do que estava falando.

—Havia um gato... um vira-lata... mas não o vejo há horas. —Estava balbuciando. Seu coração se negava a deter-se. Pior, seu corpo continuava dolorido pela necessidade.

Era ensurdecedor.

—Não há tempo a perder. —Olhou-a de cima abaixo, duramente. — Mude de roupa e desça imediatamente. Vem comigo, moça. —Era uma declaração, não uma petição. Deu meia volta e se foi.

Claire permaneceu ali chocada. Todo seu medo retornou, e com ele, uma grande confusão. Não houve confusão em sua urgência. Tinha percebido alguma ameaça, real ou imaginária, mas era ele a ameaça, certo? E que demônio era Aidan?

      Claire se sentia como se estivesse no caminho de um furacão que se aproximava e sua vida estivesse a ponto de ir-se ao demônio. Correu à parte de cima das escadas.

—Não vou a nenhuma parte contigo! —inclusive enquanto insistia, tinha o terrível pressentimento de que ia fazê-lo a sua maneira. Mas onde pensava levá-la? E por que quereria levá-la a alguma parte?

Ele não respondeu. Tinha caminhado para a cozinha, mas não tinha acendido as luzes.

      Claire correu de volta ao quarto. Fechou de repente a porta e correu freneticamente para o telefone. Marcou o 911. O operador estava tranquilo e sem nenhuma pressa, o que enfureceu ao Claire.

—Há um roubo em progresso! —gritou-lhe ao homem, e pendurou de repente o receptor. Ao menos a polícia deveria estar ali em cinco ou dez minutos.

Correu até a mala, tirando o boxer e a camiseta enquanto o fazia. Saltou em tanga e colocou um sutiã. Suas mãos estavam tremendo e lhe levou três intentos enganchá-lo para fechá-lo. Estaria subindo agora? Quase temia averiguá-lo. Mas não ia a nenhuma parte com ele. Tinha que entretê-lo até que a polícia viesse e o levassem e logo começaria a investigar. Agarrou os objetos localizados na parte superior da mala aberta e rapidamente colocou uma minissaia e uma camiseta de manga curta. Tropeçando com um par de verdadeiras botas de cowboy, colocou-as, agarrou uma jaqueta de algodão e correu para a cabeceira. Agarrou o mortal Taser, deslizando-o em seu bolso e voou escada abaixo.

A cozinha permanecia às escuras mas a geladeira estava aberta, arrojando luz, e ele estava olhando seu interior. Claire acendeu as luzes e ele se girou para confrontá-la, sua espada chiava enquanto a desembainhava.

Claire saltou para trás tão rápido que se chocou contra a cozinha. Nunca antes tinha escutado o som uma verdadeira espada, mas soube imediatamente que sua arma era real.

Ele segurou em alto a arma, seus olhos negros brilhavam com fúria, como se ela fosse seu inimigo mortal e ele considerasse por um instante se ia cortá-la em dois.

Baixou a arma.

—Pelos deuses, moça —disse com voz rouca. — Não se aproxime de mim dessa maneira!

Ela molhou os lábios ressecados, incapaz de afastar o olhar, seu coração martelava tão forte que se sentiu débil. Por um instante, tinha temido que fosse matá-la no ato.

Um louco com uma espada. Estava em um grande e absoluto problema.

—Nunca te faria mal —disse ele, uma expressão estranha distorceu sua cara. Seu olhar escorregou por suas pernas de novo.

—Assustou-me —conseguiu dizer Claire, começando a tremer. Era uma descrição insuficiente. Se essa espada era genuína, que faria o homem?

— É pobre? Não tem roupa, só farrapos? —seu olhar se elevou até a dela.

Claire não tentou responder. Permaneceu ali, aflita com o que sua mente queria lhe dizer.

— Não tenha medo, moça, verei muito em breve que se vista adequadamente. —Começou a lhe sorrir de forma tranquilizadora, quando possivelmente não podia ser tranquilizada, mas seu olhar que a percorria vacilou e se ampliou. antes que Claire pudesse registrar de verdade que algo ou alguém estava no vestíbulo, empurrou-a detrás dele. — Fique atrás —ordenou ele.

Claire tropeçou pela força com que a empurrou enquanto sua espada soava, ao ser desembainhada uma vez mais. O som era a resposta ao terrível eco de outra espada detrás deles. Com temor e incredulidade, girou-se e gritou.

Outro homem muito alto, vestido quase exatamente como Malcolm, enfrentava-lhe. Uma espada enorme se levantava ameaçadoramente entre ambas as mãos. Tinha o cabelo negro, mas a pele clara, impossivelmente bonito, e seus olhos estavam cheios de prazer malicioso.

Hallo, a Chaluim [15] — ele falou suavemente em gaélico, suas palavras claramente irreverentes. — De tha doi?[16]

Malcolm grunhiu:

— A Bhrogain![17] — o grito de guerra era antigo, bárbaro e ensurdecedor. Era também amedrontador. Claire se agachou enquanto Malcolm lançava um golpe que teria separado limpamente à cabeça de qualquer homem de seu pescoço se seu adversário não tivesse demonstrado a mesma força e habilidade. As duas espadas se chocaram e soaram outra vez.

E nesse momento, soube que tudo era real. Estes homens queriam matar um ao outro e não era uma atuação. O adversário de Malcolm, já não sorria, sua expressão era primitiva e feroz. Quando Malcolm continuou atacando, seu inimigo detinha cada golpe, percebeu que tinham o tipo de habilidade que só vem de anos de prática e anos de autênticas batalhas. Não levavam disfarces. Eram guerreiros medievais concentrados em causar a morte um do outro.

Com tanta testosterona enchendo a loja, sentiu-se débil e doente.

Escutou golpe detrás golpe.

Alguém ia morrer logo. Malcolm podia morrer.

E Claire pensou na Beretta.

Tinha-a deixado no vestíbulo. Ambos os homens estavam em meio de sua batalha no centro da cozinha. Claire se dirigiu furtivamente à porta, rodeando a pia enquanto o fazia, assegurando-se de que permanecia longe dos homens que lutavam.

E então correu ao corredor enquanto suas espadas soavam uma e outra vez, a violenta batalha alcançava claramente um ápice selvagem. Viu a Beretta e a agarrou. Quis dar a volta e escapar, mas voltou correndo à cozinha e apontou com a arma ao inimigo de Malcolm.

—Alto —tentou dizer, mas seus dentes tremiam.

Malcolm a tinha visto. Seus olhos rapidamente se aumentaram.

—Nay, moça!

— Disparar-lhe-ei! —gritou. — Malcolm, lhe diga que o matarei se não se detém!

Malcolm e o outro homem se prepararam um contra o outro, espada contra espada. Malcolm sorriu com frieza.

—Já escutaste a minha moça, Aidan. Renda-se, antes que lhe mate com sua arma.

Claire rezou para que se rendesse. Não sabia quem era, e não sabia por que estava defendendo a Malcolm, mas poria uma bala no intruso se tinha que fazê-lo. Era muito boa disparando, mas nunca tinha disparado uma arma em tais circunstâncias, ou com tal medo. Suas mãos estavam tremendo, e enquanto tratava de ferir somente ao homem, não estava certa de que não o matasse por engano.

O homem de cabelo negro se relaxou visivelmente, embora por um momento ele e Malcolm permanecessem enfrentados como dois veados com chifres. Então, como um, ambos os homens se desarmaram, afastando-se.

Claire se moveu sigilosamente afastando-se de Aidan, que se girou para lhe sorrir. Seu coração deu um tombo à vista de tanta beleza e força masculina.

Aidan murmurou:

— Ah, formosura, me deixe viver outro dia. —Sorriu despreocupadamente, claramente divertido e nem o mínimo afetado pela violenta luta. —

Rascal[18] como eu sou, esperarei com impaciência nosso próximo encontro —acrescentou.

Claire se precipitou junto a Malcolm, apenas entendendo. Malcolm caminhou frente a ela protetoramente, e ao fazê-lo, bloqueou por um momento sua visão de Aidan.

— Não haverá outra vez —grunhiu a Aidan.

Então se voltou para Claire, seu olhar era perspicaz.

—Fez-te algum dano?

Claire tremia como uma folha. Estava a ponto de lhe dizer que estava bem, uma mentira monstruosa, quando se deu conta de que Aidan se foi.

— Aonde foi? —ofegou ela.

— Moça, me entregue à arma —disse Malcolm suavemente, lhe tirando a arma. Deixou-a no balcão e pôs seus braços ao redor dela, empurrando-a até seu abraço.

E Deus querido, sentiu-se a salvo. Claire se aferrou, surpresa pela sensação entristecedora de segurança que seu grande corpo lhe outorgava.

— Quem era esse tipo? Aonde foi?

Seu olhar fixo pareceu derreter-se quando a olhou. Sua grande mão acariciou seu cabelo até a parte mas estreita de suas costas, e tudo mudou. Seu corpo era tão forte e masculino. Seu aroma era tão embriagador e sensual que suas pernas se afrouxaram. Suas coxas nuas se encontravam amoldadas aos seus igualmente nus, mas suas botas de couro resistente eram um contraste alarmante e desagradável contra sua canela. Com suas botas de cowboy, era ainda mais baixa do que ele, e seus seios estavam esmagados contra o sólido muro de seu peito.

E estava muito excitado, sua ereção se levantava dura e alta contra seu quadril.

O interior de Claire se contorceu. Desejava a este homem e não tinha nada a ver com nenhum transe.

— Não tenha medo, moça. O bastardo se foi. —Sua mão se moveu mais abaixo, sobre a parte traseira da minissaia, seus dedos se estenderam firmemente ali. — Te desejo, moça.

Ela umedeceu os lábios.

— Sei. —apenas, atreveu-se a dizer— Eu também te desejo.

Sorriu-lhe e sentiu suas mãos acariciando seu traseiro, perto da dobra de sua saia.

— Pode esperar uma hora ou algo assim? —murmurou.

Claire estava aflita pelo desejo latente. Geralmente era difícil de satisfazer, mas sentia que se a tocasse, realmente a tocava, justo agora, entre as pernas, chegaria ao clímax. Talvez fosse a batalha que tinha presenciado.

— Leve-me para cima —se ouviu sussurrar, estava muito quente para horrorizar-se por seu descarado comportamento. Nunca antes havia se sentido dessa forma.

Preocupar-se-ia com quem ou o que era em outro momento, mais tarde, depois de se usarem e dado prazer um ao outro, uma e outra vez.

A mandíbula dele se retesou.

— Não escutou bem, certo? Não é seguro e não posso te proteger aqui. Mas te protegerei, moça. É minha Inocente agora.

— Não entendo —sussurrou Claire, aproximando-se mais. A única coisa que entendia era que estava rechaçando seu oferecimento. Apoiou a cabeça contra seu peito, seu desejo aumentou fora de controle. Em seus braços, tremeu com intensa e apaixonada fome. Dirigiu suas mãos para sua cintura, apenas capaz de reprimir um gemido. Sua ereção pareceu elevar-se mais alta e mais dura em resposta.

Seu apertão se retesou.

—Sinto muito moça —disse ele.

Uma vez mais, Claire não pôde entendê-lo. Era como se fossem de dois mundos diferentes, falando idiomas distintos, exceto pelo idioma que falavam seus corpos inflamados.

E logo foram catapultados através do quarto, através das paredes, passando estrelas.

Claire gritou.  

Este era seu quarto salto, mas ainda não estava preparado para a dor.

Segurando à mulher, seus gritos rasgando a noite, lutou por suportar a insuportável tormento. Era como se sua pele estivesse sendo arrancada de seu corpo, como se seu couro cabeludo estivesse sendo arrancado de seu crânio, como se seus membros estivessem sendo deslocados de suas articulações. Sabia que aterrissaria inteiro. Isso não importava. Nunca havia sabido que tal agonia e tormento pudessem existir. Sufocava-se com seus próprios soluços, também.

E então aterrissaram. Como se houvessem sido lançados do escarpado mais alto e tivessem aterrissado sobre uma vertente rochosa dentada. Malcolm grunhiu, a dor explodindo em suas costas e cabeça, luzes brilhantes explodindo. Mas não soltou à mulher. Agradeceu aos antigos que de algum modo a tinha mantido com ele e então rezou para seguir vivos.

A mulher chorou agora, suavemente, contra seu peito.

Um Mestre não deveria usar seus poderes em seu próprio benefício.

Ele se retesou. Embora o tormento houvesse diminuído, permanecia. Haviam lhe dito que o estranho limbo de estar débil e sem defesas durava uns simples minutos, e se houvesse estado sozinho, teria tido paciência. Mas não estava sozinho. A mulher estava em seus braços, e enquanto a dor diminuía, seu corpo se endureceu. Queria sexo.

Mas não a havia trazido de volta porque a desejasse. Tinha seguido Sibylla ao futuro, ambos procurando a ela e à página. A mulher era uma Inocente, apanhada entre o bem e o mal. Não podia abandoná-la em seu tempo, só e sem defesas, não quando tanto Sibylla como Aidan estivessem perto. Tinha tomado os votos de proteger ao Inocente através do tempo. Sua vida já não lhe pertencia.

Fazia três anos que havia sido escolhido. Tinha sido convocado ao monastério de Iona, só para compreender que o monastério não existia. Ao invés, uma Irmandade Secreta vivia atrás daquelas paredes de pedra. Haviam lhe dito que descendia de uma antiga linha de príncipes, descendentes dos deuses celtas antigos, e que devia seguir os passos de seu pai, defendendo à humanidade. Tinha tomado os votos sagrados, votos que irrevocavelmente tinham mudado sua vida. Defender a Deus. Manter a Fé. Proteger o Inocente. Sua guerra não era com reis, rainhas ou clãs, sua guerra era com o demônio. Tinha sido surpreendente, mas de algum modo, houve um alívio e uma compreensão completa, como se soubesse que um dia, a chamada viria.

Nesse momento, sua vida inteira teve sentido. Sua força insólita, sua aguda inteligência, sua compaixão e resistência sempre tinham intimidado aos outros, e sempre havia se sentido diferente, inclusive entre sua própria gente. Era diferente. Tinha estado destinado desde o momento de seu nascimento.

Com a bênção do abade, tinha lido as páginas rituais, e conseguiu a maior parte de seus poderes. Eram poderes que nenhum mero mortal podia possuir. Outros poderes amadureciam mais lentamente. Ele não viveria além de uma vida humana. E enquanto os votos eram simples e singelos, o Código era longo e sujeito a interpretação. Entretanto, o princípio mais básico do Código mantinha que um Mestre não podia usar seus poderes exceto para manter seus votos.

E isto não excluía os poderes sexuais, que estavam enormemente exacerbados agora.

Não tinha que olhar para a mulher em seus braços para saber que era bonita, e de algum modo diferente das outras que havia tido em sua cama. O impulso de mover-se sobre ela era urgente. Podia tão facilmente montá-la, deslizando-se longo e profundo, dando prazer a ambos. Ele era enormemente viril e poucas vezes se saciava, era quase uma maldição. Aparentemente, cada Mestre sofria tão extrema virilidade. O prazer carnal não estava proibido, e nenhum Mestre o toleraria se o estivesse. Finalmente a olhou. Seus soluços agora eram suaves e elevou seu olhar até a dele.

Seus olhos eram sombras surpresas de verde.

Olhou-a cuidadosamente. Sua tortura diminuía e não viu razão para negar-se. Ainda que tivesse paciência na política e diplomacia na batalha, com as mulheres não tinha nenhuma. E por que deveria? Era um Maclean e um Mestre e nunca havia encontrado a uma mulher que não desejasse com impaciência compartilhar sua cama.

Aquelas que vacilaram foram facilmente encantadas.

Sentiu o momento em que ela pensou em seu abraço, seu corpo, sua virilidade e o que podia lhe oferecer. Sentiu-a acelerar-se, e sua surpresa genuína por sua própria resposta. Não estava acostumada a desejar, mas desejava a ele. Isso lhe agradou.

Seus olhos se ampliaram.

Sorriu, acariciando seu braço nu para tranquilizá-la, prometendo grandes prazeres. Não tinha que centrar-se na noite escura das Terras Altas para saber que estavam sozinhos e a salvo. O mal trazia consigo um frio intenso, um muito diferente do de uma tarde de verão do norte. O perigo não estava perto, não ainda.

—Fizeste bem, moça. —inclinou-se sobre ela, consciente do tremor que passou através dele. A antecipação lhe fez sentir-se quase débil. — Não há mais perigo e estamos sozinhos.

Seus olhos se tornaram brilhantes pela fome.

Embora já estivesse grosso com sangue, mais calor se precipitou a sua virilha. Nunca tinha visto uma mulher tão alta, com pernas intermináveis, e a maneira em que estava esculpida com tais músculos tensos, enlouqueceu-o. Queria aquelas pernas rodeando sua cintura, agora.

—Moça —murmurou em seu tom mais encantador.

Havia estado rondando por sua mente e sabia que se manteve celibatária por três anos. Sabia a paixão que receberia. Sexualmente a mulher estava desesperada e não a culpava.

Percorreu com sua mão seu braço, lançando um bom olhar ao seu colo com pouca roupa, e logo à dobra do farrapo que vestia, que estava só a um palmo do tesouro molhado que logo saquearia e possuiria. Olhou-lhe com olhos brilhantes. Ele deslizou a mão para sua dobra e vacilou. Mantiveram os olhares, e seu coração deu um baque estranho.

— Alegra-me —sussurrou—, que sobreviveste à queda.

Ela inalou, tremendo. Sua mão subiu entre eles até seu peito. Outra lágrima manchou sua bochecha e choramingou suavemente, movendo-se incansavelmente. Reconheceu os matizes no som e se inchou mais, satisfeito.

Mudou de posição deliberadamente, a camisa se levantou mais acima, seu pênis apareceu ultrapassando-a, e deslizou a mão por sua coxa, e ainda mais acima, levantado o trapo. Pressionou-a mais perto de modo que pudesse vibrar contra seu sexo. Ela ofegou com prazer, seu olhar voou ao seu.

— Desejo te dar prazer, moça, e está se negando. Deixa-me entrar em ti.

Acariciou com sua boca a sua orelha, respirando ali. Ela ofegou, elevou-se contra sua dureza, dilatando-se para ele, a resposta que queria. Levantou sua perna sobre sua cintura e enquanto o fazia, sentiu um desejo que o consumia. Suas veias corriam com sangue tão quente e palpitante, que não podia suportá-lo.

Enquanto se movia sobre ela, levantando o trapo curto que vestia, ela arranhou seus ombros, elevando o traseiro para lhe beijar. Mas os beijos não eram de nenhum interesse agora, não quando estava palpitando tão ferozmente e tão duro. Impulsionou-se para frente e gritou. Sua carne estava insuportavelmente molhada, ardia quente e o agarrava ajustada, um torno perfeito. Ofegou pela força de tal prazer cegador.

Ela gritou com euforia, também.

Era tão bom. Ele apenas podia pensar racionalmente agora. Desejava vê-la chegar; impulsionou-se mais profundamente, sem parar, logo fez uma pausa para acariciar seu sexo dilatado. Ela gritou. Sorriu triunfante e se afundou dentro de sua carne palpitante outra vez. Ela foi ao seu encontro de forma selvagem, desesperadamente, e ele sentiu que sua fome acumulada por anos de negação se convertia em um casulo de energia e paixão que formava redemoinhos. Ele sabia que seria assim. Segurou-a mais amplamente. Olhe-me, moça.

Ela o fez, gritando em um clímax estremece dor e infinito.

‘Sua mente ficou em branco, negra. Precisava liberar-se, também. Gozou, derramando tudo o que tinha dentro dela, retorcendo-se em êxtase enquanto o fazia, e gritava com prazer e triunfo, o impulso o venceu.

O desejo era sombrio. Demoníaco. Era o impulso de tomar muito mais do que seu corpo.

Porque seu prazer poderia ser realçado tão facilmente, com uma prova de seu poder.

Sua mente se congelou inclusive enquanto seu corpo seguia ondeando.

Nada é comparado ao êxtase de tal poder.

Ele a olhou enquanto ela gritava em êxtase, horrorizado com seu desejo.

Mas estava proibido, era um Mestre não um deamhan. Havia jurado proteger ao Inocente, não destruí-lo.

Malcolm se afastou dali, cambaleando-se. Inclinou-se contra uma árvore, enjoado pelo clímax prolongado e a compreensão de que lhe tentava de uma forma inexplicável e demoníaca.

—Não! —ofegou ela, estendendo a mão para ele desesperadamente. E então caiu para trás com os olhos fechados.

Ela jazia quieta agora, como se estivesse morta.

      Mas ele não tinha feito nada exceto dar prazer a ambos. Rapidamente se ajoelhou, levantando-a em seus braços. Todavia no fundo, ainda estava excitado, mas não importava. Apenas podia acreditar o que tinha desejado tirar dela. Ainda o queria.

—Moça!

Seus olhos se agitaram. Desmaiou pela excitação de um clímax tão intenso. Pôs o rosto contra seu peito, onde seu coração pulsava, segurando-a ali, aliviado. A moça estava bem. Mas ele não estava bem, não de tudo. O horror permanecia.

E apenas o tinha feito com a mulher. Ainda a desejava, em sua cama, de cada maneira sexual. Mas como poderia estar ali outra vez quando não se atrevia a confiar em si mesmo?

E então sentiu o frio.

Como uma brisa ártica saída da montanha mais alta, o frio se arrastou mais perto, fazendo baixar imediatamente a temperatura da agradável tarde de verão. As fibras de erva, os cardos e as flores selvagens ao seu redor se congelaram. Malcolm ficou rígido, esforçando-se não em ver e sim em sentir.

O frio se colocou sobre o cânion.

Estavam caçando-o de novo.

Claire se deu conta de que estava nos braços de um homem, sendo levada rapidamente e logo depositada no chão. Estava duro e frio. Ela estava débil e aturdida, desorientada. O que tinha passado? Onde estava?

—Não fale e não se mova —disse o homem. — Permanece com as costas contra a rocha, entendeu?

Claire lhe escutou. Compreendeu que suas costas estavam pressionadas de forma desagradável contra a vertente rochosa de alguma classe enquanto suas unhas cavavam na sujeira fria e molhada. Olhou para o chão, não vendo o piso de ladrilhos da cozinha a não ser folhas, ramos, sujeira e erva. As imagens e sensações se mesclaram em sua mente, estrelas e agonia, uma força terrível, Malcolm e êxtase, seu enorme poder. E então escutou aquele grito de guerra horripilante.

   — Ao Bhrogain!

   Ela gritou quando escutou várias espadas, sendo tiradas de suas bainhas. Tropeçou em seus pés, tão fraca que cambaleou. Com pânico, procurou sua arma e uma imagem a assaltou, de Malcolm em sua cozinha deixando a um lado sua arma. Não estavam na cozinha agora. Maldição! Estava no bosque, em algum lugar!

Inclinando-se contra uma árvore, agarrou o pingente em sua garganta, seu coração palpitava selvagem de medo. Fazia frio fora e a pedra estava quente. E então viu a Malcolm, a uns passos dela, dava-lhe as costas, segurando um ramo no alto, sua postura era defensiva e beligerante ao mesmo tempo. Seu olhar passou por ela e sufocou um grito.

Uma dúzia de cavalheiros o enfrentavam. Os homens eram gigantes, vestidos com camisa de cota de malha[19], perneiras de aço, armaduras e capacetes. As placas dos olhos estavam fechadas, fazendo-os parecerem demoníacos. Estavam armados com lanças, espadas e tochas. Seus enormes cavalos de guerra resfolegavam e se levantavam sobre as patas traseiras, olhares em branco. Freneticamente, Claire se deu conta de que estavam em uma clareira, rodeados de árvores sombrias. Além das árvores viu as sombras escuras de numerosas montanhas. O céu noturno era o mais brilhante que tinha contemplado alguma vez.

Malcolm sem girar-se, disse:

—Volte para as rochas.

Claire não se moveu. Pensava enfrentar a uma dúzia de enormes homens armados sozinho? E não tinha escudo! Antes que inclusive pudesse começar a pensar que estava passando, os primeiros cavalheiros atacaram, uivando gritos terríveis de guerra em gaélico.

Claire se agachou e agarrou a primeira pedra à mão e correu para colocar-se ao lado de Malcolm. Ele amaldiçoou em sua língua, mas não a olhou. Claire não pensou duas vezes. Quando o primeiro cavaleiro se encontrou com eles a galope, sua lança presa sob o braço, lançou-lhe a pedra ao homem.

Malcolm empurrou sua haste improvisada enquanto ela lançava a pedra. O cavaleiro se desviou e a rocha se perdeu, mas Malcolm o puxou do cavalo, depois usou sua grande espada para separar a cabeça do homem de seu corpo como se o homem fosse um boneco de pano. Claire voltou contra a árvore, procurando o Taser. Malcolm usou seu bastão para defender-se de outra lança, lançando um guerreiro com cota de malha ao chão. Em um movimento violento, empurrando sua espada no homem de bruços, decapitando-o imediatamente. Claire se engasgou.

Ele se girou para enfrentar a outro guerreiro, desta vez deixando o pau a um lado. Bloqueou as espadas, gritando.

Mas já havia visto o terceiro cavaleiro guerreiro direto para ela, como se simplesmente a fosse atropelar. Seu capacete negro tinha umas sinistras fendas para os olhos. Certa que estava a ponto de morrer, Claire pulou para frente, debaixo da lança que segurava, lançando o Taser contra o ombro do cavalo. O cavalo empinou-se, relinchando, enquanto o cavaleiro balançava a lança para ela. Claire se desviou, havia arruinado seu objetivo. E sentiu sua fúria selvagem.

Não havia tempo para correr. O cavalo se empinou de novo e Claire o seguiu. Estava no ar quando lhe deu uma descarga no peito. O homem amaldiçoou enquanto o cavalo caía de costas, esmagando ao seu cavaleiro, e então o animal saltou e galopou.

      O gigante da cota de malha jazia quieto, seu pescoço em um ângulo grotesco, claramente quebrado.

Claire sabia que não estava sozinha. Girou e sustentou o Taser de modo ameaçador, dois guerreiros a cavalo tinham subido atrás dela. Vacilaram, claramente inseguros de atacá-la ou não. Mais adiante deles, Claire viu Malcolm matando com ferocidade homem atrás de homem. Apesar das circunstâncias, definitivamente tinha o controle da situação.

—Moça —grunhiu—, volta para mim.

Essa era uma grande ideia, pensou Claire, exceto que um dos dois guerreiros estava entre ela e Malcolm. Ele a estava sorrindo agora, com ar de suficiência, antecipando claramente sua morte. Abandonou sua lança e puxou uma barra de aço com uma bola com pontas agudas que se pendurava de uma corrente[20].

Claire estava aterrorizada. Poderia lhe cortar a cabeça facilmente com isso. Essa bola, girando rudemente, poderia destroçar seu corpo em pedaços. Tinha que atacar ou morreria.

Claire se zangou e deu um passo para frente. O demônio tinha matado a sua prima e a sua mãe e se a matassem levaria com ela a tantos bastardos como pudesse. Conseguiria seu cavalo, também, ou morreria tentando-o.

— Maldição, moça! —estava gritando Malcolm.

Muito tarde, deu-se conta de que estava pondo uma distância ainda maior entre eles, mas não se atrevia a desviar o olhar do guerreiro. Estava certa que sorria, afastando para trás sua montaria fora de seu alcance.

—Covarde —sussurrou Claire.

Ele lhe disse algo em gaélico, e Claire soube que era um gracejo escarninho.

Seu parceiro tinha montado seu cavalo ao lado, pensando claramente em ver seu assassinato ou ficar detrás dela, somente por acaso. Claire sabia que não podia se defender contra os dois. Deixar-lhe aproximar-se furtivamente por trás não era uma boa ideia.

—Que se fodam! —disse Claire.

Correu para o cavaleiro com a bola e a corrente e golpeou o cavalo na cara.

Este relinchou, empinando-se, o cavaleiro o esporeou com crueldade para que baixasse ao chão. Claire agarrou sua perna, empurrando-o. Estava preso a sua sela. Claire tinha lido como as selas dos cavaleiros tinham sido desenhadas de forma que estivessem tão seguros como se estivessem amarrados. Ela se rendeu. O cavalo tinha baixado e o cavaleiro balançava a bola brutalmente. Claire se agachou inteiramente debaixo do cavalo, consciente de que poderia ser pisoteada, e quando saiu pelo outro lado, à bola estava voando ali, para ela. Lançou-se ao chão e a bola rasgou a coxa de seu cavalo. O cavalo relinchou, empinando-se. Claire vislumbrou seu joelho nu em cima das placas de sua armadura. Levantou-se e pressionou o Taser ali. Ele ficou rígido.

Claire não esperou. Cravou-o de novo no único lugar ao que podia, os joelhos. Caiu do cavalo, estatelando-se no chão aos seus pés.

Mas antes que pudesse sentir qualquer triunfo, levantou-se de um salto quando deveria ter estado sem sentido, à bola e a corrente em sua mão. Claire não pensou duas vezes. Deu-lhe um chute tão forte como pôde na cabeça, fazendo retroceder sua cabeça e então colocou à força o Taser em seu pescoço.

Desta vez, ele caiu.

E ela sentiu à besta chegar. Claire girou para enfrentar as patas brancas do cavalo de guerra do outro guerreiro que galopava para ela. Claire se deixou cair e rodou enquanto o cavalo passava estrondosamente. Malcolm lhe gritou outra vez.

E quando se levantou, estava golpeando ao seu atacante. Claire viu Malcolm lhe arrancar o braço do ombro. Seu estômago protestou violentamente e então a cabeça do homem saiu voando pelo ar. Seu estômago se revolveu uma vez mais.

Galopes ensurdecedores soaram a distância.

Mais guerreiros, pensou Claire desesperadamente.

— Moça! —grunhiu Malcolm, saltando a um corcel sem cavaleiro. Galopou até ela e lhe ofereceu sua mão. Claire não vacilou. Mais cavaleiros estavam se aproximando e não tinha nenhum desejo de ficar e averiguar se eram amigos ou inimigos. Deu-lhe sua mão e ele a puxou até que esteve detrás dele, parando de repente a carreira. Surpreendida, Claire viu o resto de seus atacantes escapando a galope, enquanto de uma direção diferente, um pequeno grupo de cavaleiros vinham a meio galope para eles.

Ela sentiu que a tensão abandonava o enorme corpo de Malcolm.

Estava agarrada a sua cintura, ainda segurando o precioso Taser.

— Amigos? —ofegou, começando a tremer. Estava a ponto de vomitar.

— Aye. Ruari Dubh, meu tio.

Claire se derrubou contra suas costas, tremendo incontrolavelmente. Pior, as lágrimas vieram. Estava em tal estado de choque que não podia pensar. Mas nada se sentiria melhor que sua capa de lã sob sua bochecha e nada podia ser mais tranquilizador do que seu almiscarado aroma masculino.

Ele se deslizou do cavalo, girando, desceu-a, diretamente aos seus poderosos braços.

   —É valente, moça. Mas pelos deuses, quando dou uma ordem, espero ser obedecido!

Seus olhos eram de prata, e ardiam.

Ela não podia falar. Agora entendia as cicatrizes em seu rosto. Só sacudiu a cabeça e inclinou o rosto de novo contra seu peito, tremendo como uma folha.

Mas sua túnica estava molhada e pegajosa contra sua bochecha. Claire se afastou, repentinamente assustada de que estivesse ferido e sangrando. Seus olhos se encontraram.

—Não é meu —disse suavemente, a mesma suavidade chegou aos seus olhos.

O alívio fez com que seus joelhos se dobrassem. Ele pôs o braço ao redor dela, lhe permitindo permanecer direita contra seu poderoso flanco.

E então viu os corpos, e as partes dos corpos, jazendo dispersos ao seu redor. Realmente os viu. E cada momento daquela batalha horrível passou por sua mente. Claire se afastou, correndo uma curta distância, deixando-se cair ao chão e vomitou violentamente. Em nome de Deus, o que estava acontecendo?

Um homem medieval, cavalheiros com espadas e achas soldadas, um céu noturno como nunca havia visto antes.

Claire não podia respirar.

Não havia luz elétrica em nenhuma parte, nem antenas telefônicas, nem carros, nenhum som absolutamente, exceto o das árvores que sussurram na brisa e os relinchos dos cavalos, os sinos badalando.

—Moça — a enorme mão dele estava em suas costas. — Está superado. Tem uma arma ali e entendo que pode usá-la. Ruari e seus homens querem nos ver a salvo.

Claire fechou os olhos, querendo vomitar de novo, mas não tinha nada em seu corpo para expelir. Não estavam em sua loja. Recordou ter sido lançada por uma enorme força através de paredes, passando estrelas, quase como ser lançando de um avião sem paraquedas. Houve tanta dor.

Lutou por ar, ofegando com força agora.

Ele era real. Havia uma dúzia de corpos na clareira para prová-lo. Oh, Deus!

Seu braço a rodeou.

—Entendo que nunca estiveste em uma batalha antes. Passará. Precisa respirar profundamente.

Passará.

Ele havia dito isto antes. O havia dito da mesma forma, como se a tranquilizasse, mas não a tinha tranquilizado. Ao invés, houve tanto desejo, e a seguinte coisa que soube, estava de costas e estava dentro dela, impossivelmente duro, impossivelmente profundo e estava gozando.

Claire estava incrédula.

Algo terrível estava passando.

Ele estava falando em francês agora, sobre seu ombro ao seu amigo. Claire o dominava, mas não escutou o que dizia. Não queria estar ali e não queria acreditar que havia feito sexo. Deu a volta e o golpeou tão forte como pôde.

O golpe aterrissou em sua bochecha e ressoou. Ele não se moveu, mas seus olhos se ampliaram.

Claire se afastou para trás tão longe dele como pôde. Golpeou uma rocha.

— Não se aproxime —lhe advertiu. — Não quero fazer nada, nada contigo!

Ela não tinha pedido nada disto, maldição!

Seu rosto estava inexpressivo, mas viu seu peito se elevar e cair mais rapidamente agora, sinal de alguma agitação. Bem, lhe deixe estar zangado, pensou grosseiramente. Estava zangada!

— Moça, me diga seu nome.

— Vá para o inferno! —gritou. — Onde estou?

As asas de seu nariz chamejaram, sua mandíbula se retesou. Um momento terrível passou antes que respondesse, fazendo com que Claire desejasse não havê-lo amaldiçoado.

— Alba, Escócia —se corrigiu. — Morvern.

Tratou de sorrir, mas foi frio. Estava zangado com ela.

   — Não longe de minha casa.

A ironia a fez rir estridentemente. Teria estado em Dunroch no domingo, e agora só estava a uns poucos quilômetros!

— Iremos ao castelo de Carrick de noite. Vamos, moça, está cansada, entendo-o. —seu tom era cauteloso agora.

Ela sacudiu a cabeça, tremendo, ainda quando a noite fosse agradável uma vez mais. Seus dentes tremiam enquanto falava.

   — Estamos em seu tempo.

Não tinha dúvida.

Seu rosto permaneceu inexpressivo.

— Aye.

Ela engoliu.

— Que tempo é este?

Quando não respondeu imediatamente, gritou:

— Que ano é este, maldição?

Ele ficou rígido.

— 1427.

Claire assentiu.

— Já vi tudo.

      Deu-lhe as costas, abraçando a si mesma, consciente de que seu corpo inteiro estava se sacudindo como com convulsões. Sempre tinha querido acreditar em viagens no tempo. Havia cientistas que diziam que era possível, e tinham proposto as teorias de física quântica e buracos negros para explicá-lo. Claire nunca tinha tratado de entender, já que a ciência não era um tema fácil para ela. Mas entendia o básico; se um viajava mais depressa que a velocidade da luz, poderia ir ao passado.

Nenhuma das teorias ou o que ela havia pensado ou inclusive o que acreditava atualmente importava. Sabia com cada fibra de seu ser que Malcolm era um lorde medieval de Dunroch. Nem Hollywood seria capaz alguma vez de replicar a batalha que havia visto, e da que tinha sido parte. Seus joelhos se debilitaram outra vez. Estava doente e exausta. Queria estar tão longe deste homem como pudesse. E também estava assustada.

O último lugar no qual desejava estar era na Escócia Medieval. Queria estar em casa, em seu apartamento seguro, com seu sistema de segurança último modelo. De fato, justo agora, teria dado algo por estar em sua cozinha, bebendo a goles uma taça de vinho e vendo a reprise de I Love Lucy ou That ’70s Show. Lentamente se voltou e seus olhares se enfrentaram.

— Precisamos ir. — disse sinceramente, sem compaixão nos olhos. — O mal está ali, na noite, moça. Precisamos estar atrás de paredes sólidas.

Claire se pôs em marcha. Infelizmente, não podia estar mais de acordo. Disse a si mesma que não pensasse em sua mãe agora, mas era impossível. Por outro lado, não queria ir a nenhuma parte com ele. O que queria era ir para casa.

—Não te dou opção. Vem comigo.

Seus olhos eram duros agora.

— Mande-me para casa —disse duramente.

— Não posso.

Olharam-se fixamente.

— Não pode ou não quer? —disse finalmente.

— Não é seguro —disse rotundamente.

Claire começou a rir histericamente.

— Como, a luta de um grupo de guerreiros medievais armados com espadas e achas é seguro?

Sua expressão se voltou nebulosa.

— Eu tratei de entender, moça —disse com tom grave. — Não tenho mais paciência. —Claire pensou na forma em que a tinha cuidadoso e usado suas poderosas pernas para estender as suas, sem sequer dizer por favor. Pum pam, obrigado minha dama. Não importava se estava no século XV, era uma mulher moderna. Queria lhe amaldiçoar outra vez. O pensou melhor antes de atrever-se.

Um homem montado a cavalo se adiantou.

— Talvez possa ser de ajuda. Royce o Negro, de Carrick, a seu serviço, senhora.

Claire lhe olhou e um calafrio de surpresa a percorreu. Royce o Negro era em realidade loiro escuro, com as feições duras, mas perto da perfeição de um viking. Estava no princípio dos trinta, e era tão alto como Malcolm, com ombros largos e braços avultados. Ia vestido como os cavalheiros que os tinham atacado. Vestia uma cota de malha que lhe chegava até as altas coxas, com luvas, codal[21], grevas[22], joelheiras e um capacete, a viseira para cima. Levava uma lança de aspecto letal em um braço, levava duas espadas, uma larga e uma curta e sobre a cota de malha, vestia uma capa. Era impossível não perguntar-se, se, como Malcolm, ia nu sob a túnica que certamente levava debaixo da cota de malha.

Sorriu-lhe lentamente, como se fosse consciente de sua admiração e suas suspeitas. Seus olhos brilharam quando falou.

— Seu nome, senhora?

Sabia que Malcolm a estava olhando. Olhou-o. Estava furioso, o que era bom para ela, porque o tinha condenadamente merecido. Não sabia que o tinha feito se zangar.

— Claire, Claire Camden —disse.

Ela forçou a sua mente obtusa a funcionar.

— Preciso voltar para meu tempo —disse. — Pode me ajudar?

Não pareceu desconcertado por sua pergunta.

— Com muito gosto lhe levaria para casa, mas esse dever não é meu.

— Sequestrou-me —gritou Claire.

Mas corou enquanto falava, porque começou a recordar uns quantos feitos pertinentes, como ser golpeada na cabeça por Sibylla e a intromissão daquele guerreiro Aidan, também.

Malcolm caminhou até seu lado, sua expressão puramente sombria.

— Ken, quando quiser —disse sombriamente.

Então olhou friamente a Royce. Falou em francês. Claire não estava surpresa, enquanto recordava que a maioria dos nobres na Inglaterra e da Escócia falava o idioma da corte europeia.

— É minha Inocente. Está sob meu amparo e permanecerá dessa forma até que diga o contrário.

Claire fingiu não entender.

— Entendo —respondeu Royce suavemente no mesmo idioma. — Passou por um trauma. Está muito zangada. Se o desejar, escoltá-la-ei de volta a Carrick. Estou certo que até lá se acalmará.

Seu sorriso foi seco.

— Já a tomei, Royce, e não a compartilharei —disse Malcolm.

Claire corou, girando-se para que nenhum homem pudesse adivinhar que podia entendê-los. Estava furiosa. Como se atrevia a dizer a outro homem o que tinha feito! Mas não tinha estado gabando-se como um menino em um vestuário. Estavam brigando por ela como dois cães por um osso? Estava pasma, mas o que esperava de dois machos medievais?

Royce encolheu os ombros e se voltou para Claire.

— Malcolm deseja lhe proteger, lady Claire. É forte, poderoso e o chefe do clã Gillean. Está em boas mãos.

Uma piada sarcástica se formou. Permaneceu de costas. Estava surpresa, zangada e assustada, mas não estava o suficientemente louca para pensar que poderia sobreviver muito tempo na Escócia do século XV sem ninguém cuidando dela. Lentamente se enfrentou a Malcolm enquanto Royce se adiantava e seus homens formavam duas linhas detrás dele.

— Quando poderei ir para casa?

— Não sei.

— Fantástico —replicou, tremendo.

Ele fez um gesto. Claire lhe precedeu até onde um homem estava segurando dois dos corcéis tirados dos mortos. Fez uma pausa, tomando as rédeas de um cavalo cinza.

— Pode montar a cavalo?

— Cresci em uma granja —disse Claire laconicamente. Não tinha estado sobre um cavalo há muitos anos e os cavalos que tinha montado então eram cavalos de arar, não cavalos de guerra. Mas, depois dos acontecimentos daquela tarde, subir naquele animal enorme e musculoso parecia simples.

Como tinha chegado sua vida a isto? E o que ia fazer? O desespero a consumiu. E se não pudesse voltar?

Uma mão grande e calosa posou em seu ombro.

Claire lentamente se virou, uma tensão familiar vibrando dentro dela. Era poderoso, sexual e não queria ser consciente dele como homem. Mas, o era, especialmente depois do breve interlúdio que infelizmente tinham compartilhado.

Como podia ter feito tal coisa?

Sua mão a abandonou e se desabotoou a capa, envolvendo-a habilmente ao redor dela. Seu toque acidental lhe fez difícil respirar. Fixou-lhe a manta fechada justo debaixo de sua garganta, onde seu pulso pulsava como louco, ocultando suas intenções de ser indiferente a ele e fingir que não lhe desejava. Suas mãos permaneceram ali e elevou seu olhar para a dela.

O coração de Claire deu um baque diante da visão de tanto calor. Muito, muito vividamente, recordou sua largura, sua longitude, sua força e poder. O desejo a fez sentir débil.

Suas mãos caíram e seu sorriso apareceu, presunçoso e satisfeito. Ele assentiu para o cavalo.

Claire montou, sua capa escondendo suas coxas da vista.

Quando se sentiu satisfeito de que pudesse controlar o cavalo, Malcolm deixou Claire com dois dos homens de Royce e montou até o lado da coluna onde poderia estar a sós. O bosque era espesso e escuro ao redor deles, mas podia cheirar o mar enquanto se aproximavam do lago Linnhe. Não há aroma no mundo comparável ao do bosque misturado com o mar das Terras Altas, pensou, exceto, é obvio, o aroma dela.

Mas agora não podia tocá-la. Não devia tocá-la. Com ela, não tinha controle.

Royce se aproximou.

— O que te preocupa, Calum? —perguntou-lhe suavemente, falando em gaélico.

Malcolm vacilou, consciente de suas bochechas coradas. Felizmente, os Mestres respeitavam um ao outro e não se espreitavam um ao outro. Falou em sua língua materna, sombrio:

— Sibylla tem o poder de saltar no tempo, Ruari. Moray o deu quando não era mais que um deamhan modesto.

Os olhos de Royce se alargaram; estava claramente consternado.

E devia está-lo, pensou Malcolm. O Poderoso e demoníaco conde de Moray era o chefe supremo do mal em Alba. Dizia-se, que há muito, ao princípio, Moray tinha sido um Mestre, até que o demônio lhe tinha corrompido, lhe roubando a alma. Não havia dúvida de que sua linha vinha dos Antigos, já que seu poder era tão grande que nenhum Mestre tinha sido capaz de vencê-lo, não em mil anos. Sua busca era o poder e o controle, seus meios, destruição, anarquia e morte. Tinha um grande título, grandes terras, exércitos enormes tanto de Deamhanain como de humanos e os enviava facilmente às mandíbulas da morte. Ele era tão encantador, tão charmoso, tão inteligente que era favorecido pela realeza, especialmente pela atual rainha, Joana.

Muitos dos Deamhanain eram simples humanos possuídos, como os cavalheiros que os acabavam de atacar, gigantes entre homens, seus poderes realçados pela posse demoníaca. Sibylla era humana, mas Moray a tinha feito sua amante, tomando sua alma, e tendo filhos com ela. E agora, tinha-lhe dado um dos poderes mais cobiçados, o poder de saltar através do tempo.

Royce lhe olhou.

— Não acredito que esteja ruminando sobre um deamhan, inclusive se fosse Sibylla, cujo tempo chegou.

— Aye, deve morrer. Se puder saltar como um Mestre, tem muito mais poder agora.

O mais poderoso Deamhanain devia ser caçado e vencido sempre. Era muito perigoso lhes permitir viver.

— Mas pode ter a página. Segui-a até a cidade de Nova Iorque— disse sobriamente. — A segui até a livraria de lady Claire. Foi primeiro ali. A loja foi registrada. Lady Claire não sabia o que tinha sido roubado ou não.

— Se ali havia uma página do Cladich, deve ser devolvida à Irmandade —disse firmemente Royce. — Moray tem suficientes poderes já, e não pode ter o poder de curar para sua prole.

Malcolm não podia imaginar um mundo onde os Deamhanain pudessem curar um ao outro. O primeiro Deamhanain, aquele que tinha sido seduzido pelo demônio e roubado da Irmandade, era o suficientemente duro de derrotar sem tais poderes.

— Se Sibylla deixou lady Claire viva, tinha um uso para ela. — acrescentou Royce. — Se Sibylla não tiver a página, deve pensar que sua dama a tem.

Infelizmente, Malcolm tinha o mesmo pensamento. Seu coração se acelerou com temor.

Como a esposa de John Frasier, um conde, das Terras Baixas, traiçoeiro e poderoso, Sibylla era inclusive mais perigosa que seu marido, já que ele era simplesmente um nobre ambicioso, enquanto que ela estava possuída e aliada com Moray. Era quase tão má e tinha tanto sangue-frio como seu chefe. Sua reputação era enorme. Adorava torturar lentamente a suas vítimas, tanto mulheres como homens, e depois desfrutava com suas mortes. Quase esperava que tivesse a página. De outra maneira, Sibylla devia acreditar que Claire sabia onde estava a página, e caçaria a Claire. Ficou doente, porque sabia o que faria a Claire se alguma vez a agarrasse.

— Acredito que precisa se assegurar de que Sibylla compreende que lady Claire é ignorante sobre nossos assuntos.

— É ignorante. Mas não era tão ignorante como tinha sido, pensou Malcolm sombriamente. Havia trazido de volta a Claire para protegê-la de Sibylla e Aidan. Agora não estava certo que o que tinha feito fosse ao melhor benefício dela.

— Não é seguro envia-la de volta, sozinha. —disse Royce de repente. — Não ainda.

Malcolm lhe olhou.

— Estas à espreita?

— Não tenho que rondar em sua cabeça para entender seus medos por ela.

Vacilou, perguntando-se o que tinha deixado Royce sem dizer. Esperava que sua luxúria não fosse evidente.

— Aidan estava ali também.

Seu sangue ferveu com esse pensamento.

As grossas sobrancelhas de Royce se elevaram.

— Assim também vai atrás da página.

—Vai atrás de algo que dê prazer —exclamou Malcolm, cheio de fúria. — Não segue ordens! O bastardo esteve em sua cama. Senti-lhe ali.

— Aidan é uma uva sem semente —disse Royce com calma—, mas não é mau. Certamente a Irmandade lhe enviou ao futuro, como fizeram contigo. E lady Claire é formosa. Se a tivesse tido primeiro, poderia lhe odiar, mas não pode mudar o passado. Não está permitido —lhe advertiu.

O Código não era simples. Havia muitas regras, algumas sujeitas a debate, assim como a interpretação, mas nunca voltar no tempo para mudar o passado era uma das mais importantes. A nenhum Mestre tinha sido permitido mudar a história. Mas se Aidan a houvesse tocado, teria estado tentado a voltar no tempo e fazer o proibido.

— Não se deitou com ela. Senti-lhe em sua cama. Mas se a houvesse tocado, aye, um só toque, matar-lhe-ia.

Royce lhe olhou.

— É muito possessivo, moço.

   Malcolm olhou para frente entre as orelhas do garanhão.

— Não comece.

— Não entende à moça.

— Aye, eu não entendo. Logo, quando for seguro, quando crer que Sibylla não vai atrás dela, então poderá voltar.

E dessa forma estaria a salvo dele, pensou sombriamente. Tratou de imaginá-la em Dunroch, embora não em sua cama. Foi impossível.

Podia mandá-la a Carrick com seu tio. Imediatamente, desfez o pensamento. Seu tio era o homem menos romântico que conhecia, mas como todos os Mestres, podia pôr em transe a uma mulher para seu desejo e sempre tinha uma mulher formosa em sua cama.

Havia sido a forma em que Royce tinha olhado-a, a forma em que se arrumou antes de apresentar-se.

E pelos deuses, começava a ser consciente de uns ciúmes ardentes, porque Claire tinha dado ao seu tio uma boa olhada, em troca. Não, ela ia a Dunroch, e trataria com seu dilema com uma vontade de ferro quando chegasse o momento.

Quanto a Aidan, melhor manter as distâncias, também. Aidan era um guerreiro canalha, fazendo o que desejava, quando o desejava. O mundo sabia que era um hedonista. Já tinha legiões de amantes. A beleza era sua debilidade. Aidan ardia de luxúria por ela, também? Malcolm não confiava nele. Pensava em dar prazer a ela e lhe tirar a vida enquanto o fazia? Malcolm sentiu a certeza de que Aidan tinha cometido crimes por prazer porque Aidan só tinha meia alma, e a outra metade era sombria.

— Aidan te convidou a Awe uma vez —disse finalmente Royce, como se sentisse seus pensamentos.

Malcolm se sacudiu.

—Aye, faz três anos. —Aidan lhe tinha enviado um convite por mensageiro um pouco depois da iniciação de Malcolm na Irmandade. Rompeu a missiva em pedaços.

Royce ignorava isso.

— Deveria ir até Awe e falar com ele. Faz uma trégua, Calum.

Malcolm lhe olhou, e disse suavemente:

—Se for a Awe, vou por uma causa e por uma só causa. Vou matar o bastardo.

A expressão de Royce se tornou dura.

— Melhor cessar tal conversação. Um Mestre não pode matar outro Mestre e sabe.

Malcolm sorriu friamente.

—Tem certeza? Essa é uma regra que não me preocupa.

—Quero ver paz entre você e Aidan antes de morrer —disse Royce bruscamente.

Malcolm ficou tenso.

—Que tipo de conversa é esta?

Na verdade, não sabia como seu tio era velho.

— Não somos imortais —disse Royce, seu sorriso de repente cansado. — estive caçando ao diabo por centenas de anos, Calum. Minha hora chegará.

Malcolm estava aterrorizado.

— Tem desejo de morrer? É um grande Mestre. A Irmandade te necessita, Ruari. O Inocente te necessita.

Necessito-te, acrescentou silenciosamente, mas seu tio tinha que sabê-lo. Brogan tinha morrido quando Malcolm tinha nove anos, e Royce tinha sido mais um pai que um tio após, assim como um amigo leal.

Royce lhe sorriu então.

—É tão jovem, Malcolm. Invejo sua inocência, e rezo para que nunca esteja sem esperança.

Malcolm se preocupou.

— Nunca fala desta forma. Há algo que não esteja me contando? Algo está errado?

— Depois de duzentos anos, temos provas de que uma das páginas do Cladich está perto. O Deamhanain o quer, e uma vez mais devemos guardar tal poder para nós e Alba. Lembro a primeira vez que o livro foi roubado, e a caça para encontrá-lo e trazê-lo de volta ao santuário. Lembro quando o Cladich foi roubado pela segunda vez e não o vimos desde então. Lembro quando Moray roubou o Duaisean. O ciclo da vida nunca muda, como o sol sai e se põe, dia após dia, ano após ano. É o ciclo do bem e do mal, e nunca acabará. Nada muda, é tudo o mesmo. Se um Mestre finalmente vencer a Moray, haverá outro, o maior deamhan, para tomar seu lugar.

Malcolm estava muito alarmado.

— Um dia, Moray será vencido. Ninguém tomará seu lugar.

— Permanece longe de Moray! Tratei de matá-lo centenas de vezes. Você também o tentou uma vez, e olhe o que conseguiu.

Malcolm se retesou. Havia-lhe tido em Urquhart, onde tinha estado perto de perder sua alma.

E então Royce sorriu, revelando duas covinhas. Era o sorriso pelo qual Malcolm havia visto mulheres brigarem entre elas por recebê-lo.

— Não escute as incoerências de um velho Mestre como eu. Protege à mulher. É sua Inocente agora. Estarão a salvo em Carrick de noite. Amanhã conterei aos homens de Moray se atacarem outra vez quando for a Dunroch. MacNeil quererá um relatório. — acrescentou.

— E terá um —respondeu Malcolm, aliviado de que o humor estranho e sombrio de Royce houvesse retornado—. Irei a Iona imediatamente.

Royce ficou severo.

—Calum, Sibylla obedece a Moray. Se ela deixou lady Claire viva, há outra possibilidade. Não se preocupe por isso.

Malcolm se retesou.

— Possivelmente o senhor sombrio deseje lady Claire viva.

Malcolm virou em seus arreios.

— Não comece a pensar que Moray tem alguma ideia de que a moça existe!

— Se Sibylla tem a página, porque a deixaria viva?

Inclusive em uma cavalgada com homens armados, Claire estava assustada. Não gostava do bosque escuro que estavam atravessando. Não necessitava imaginação para saber que todo tipo de perigos espreitava nessas profundidades impenetráveis. E não estava pensando em lobos e leões da montanha. E se houvesse uma emboscada? E se os homens dos quais haviam escapado retornassem para terminar com eles? Haviam querido matar a Malcolm e haviam querido matá-la. E pensar que tinha estado assustada do crime na cidade!

Apenas podia acreditar em tudo o que tinha passado. Tinha retornado no tempo, o que era suficientemente surpreendente, e ali tinha estado em uma batalha enorme. Esperava nunca presenciar ou participar de semelhante batalha de novo. Entretanto, se permanecia no século XV por muito tempo, as probabilidades eram que se encontrasse em graves apuros outra vez. Sua matéria era a história medieval europeia, não a história das Terras Altas, mas estava certamente interessada nesta. Estava cheia de intriga, conspiração, derramamento de sangue, assassinato e guerra. A leitura sobre ela, em classe, tinha-lhe encantado. A vida nela era um assunto diferente.

Claire sabia que tinha que deixar o medo a um lado e encontrar a calma para ordenar seus pensamentos. Mas, sua compostura estava em pedaços. Dois escoceses grandes e silenciosos, ao parecer designados para escoltá-la, cavalgavam a cada lado. Claire se concentrou em respirar profundamente tratando de ter pensamentos felizes. Pensou em Ação de Graças na granja e então se deu por vencida. Começou a rir, sentindo-se histérica, imagens da sangrenta batalha e cabeças cortadas com imagens do rosto devastado pela luxúria de Malcolm em sua mente. Não estava tranquila, não podia pensar que alguma vez estivesse calma de novo.

Recordou seu louco comportamento durante a batalha, quando, em vez de esconder-se como Malcolm lhe tinha ordenado que fizesse, tratou de lutar. Nunca ia entender o que a tinha motivado. Claire Camden não era valente. Estava assustada de sua própria sombra e de todo o mundo, que era pelo qual havia criado uma pequena fortaleza em sua loja. Exceto que a fortaleza tinha sido violada essa noite. E ela não era um Schwarzenegger feminino unida a um Taser, inclusive havia atuado como um. Não queria ser uma versão de Malcolm!

E se não pudesse voltar?

Sua tensão aumentou. Esse era seu grande temor. O coração de Claire se agitou. Se começar a pensar em estar presa no passado para sempre, não seria capaz de pensar, e sua mente era sua única defesa. Inclusive neste mundo violento e machista, a sabedoria certamente devia prevalecer, inclusive se vinha de uma mulher.

      Seus olhos se dilataram acostumando-se à escuridão. A noite estava iluminada por tantas estrelas assombrosas e uma meia lua brilhante, que realmente não era tão duro de ver. Por um momento, enquanto explorava os arredores, permitiu-se uma aceitação a contra gosto da beleza do céu noturno. Só no século XV podia se ter tão magnífica vista.

Uns poucos guerreiros também seguravam tochas, que ajudavam a iluminar a noite. Seu olhar se moveu por um par de homens muito altos que conduziam aos cavaleiros, então se pousou em Malcolm. Ele e Royce o Negro estavam em silêncio agora, mas conversaram por algum tempo, claramente sobre assuntos graves. Claire fez uma careta. Sabia que tinham discutido sobre ela.

Olhou as costas de Malcolm. Parecia ser um guerreiro superior. De fato, se pensava nisso, sua destreza tinha sido extraordinária. Estava provavelmente tão a salvo como uma mulher neste tempo e lugar podia estar, considerando que parecia sentir-se obrigado a defendê-la. Mas Por Deus, sentir-se-ia muito melhor uma vez que estivessem em Carrick detrás de paredes sólidas.

E então o que?

Tinha cem perguntas e necessitava cento e uma respostas. Tinha que saber que poderia voltar e quando seria. Tinha que saber por que tinham sido atacados. Tinha sido um simples caso de dois clãs feudais? Não acreditava nisso. E não gostou da referência de Malcolm ao demônio.

Aqueles guerreiros haviam sido estranhos e diferentes.

Claire se estremeceu. Não queria pensar mais, mas não podia parar.

Algumas vezes, enquanto descia pelas ruas da cidade, mais frequentemente de noite que durante o dia, Claire passava ao lado de alguém e se sentia completamente gelada. A primeira vez que tinha passado, tinha estado tão surpresa que se virou e olhou ao transeunte. Tinha examinado seus olhos vazios.

De algum modo tinha sido aterrador, horrível. Havia quinze anos então, mas tinha sido antes da assombrosa revelação de tia Bet sobre a morte de sua mãe. Nunca havia voltado a olhar a outra pessoa assim outra vez. Ao invés, tinha agachado à cabeça, evitando todo contato visual e contínuo.

Fingiu que era uma coisa que se fazia em Nova Iorque. Todo mundo sabia que os nova-iorquinos eram frios e estranhos, não eram amigáveis e não faziam contato visual. Assim era como um controlava na grande cidade entre milhões de pessoas.

A noite que sua mãe havia sido assassinada, fazia muito frio na casa embora tivesse sido uma tarde de verão em San Martín. Era um dos fatos que recordava com claridade vivida e palpável.

Claire ficou rígida e seu cavalo se agitou em resposta. Um dos highlander se esticou para alcançar suas rédeas e Malcolm se virou para ver o que estava se passando. Claire não queria pensar no passado. Tratar com o presente era suficientemente ruim.

Mas Claire respirou profundamente, o cavalo resfolegava agora. Maldição! Um terrível frio tinha esfriado a clareira justamente antes que os guerreiros a tivessem invadido, o mesmo tipo de frio que tinha enchido o apartamento.

Claire tinha passado sua vida inteira evitando pensar muito no lado sombrio da cidade. Tinha trabalhado muito para fazer um pequeno mundo seguro e bem-sucedido para si mesma. Quando coisas más passaram aos seus amigos, vizinhos e colegas. Começou a apoiar a candidatos políticos exigentes. O crime estava fora de controle e a sociedade se decompunha, por isso trabalhou mais duro. O trabalho era um refúgio. Desejava estar trabalhando agora.

Mas esse mundo parecia como se tivesse desaparecido. E maldição, a vida parecia igualmente sombria e caótica na Escócia medieval. Não sabia o que pensar, e certamente não sabia o que fazer.

É minha Inocente, agora

Ela tremeu. O que significava isso?

O tom de Malcolm tinha estado cheio de posse em seu apartamento quando pela primeira vez fez aquela declaração, e tinha sido igual de possessivo quando havia dito a Royce que não a compartilhava. Sentiu suas bochechas quentes. De forma significativa havia dito a Royce que a tinha “possuído”. Esse era o ponto. Tinha possuído e usado seu corpo, justamente assim, em um instante assombroso, quando estava recuperando-se da tortura da viagem no tempo. Não houve palavras quentes, promessas, declarações de afeto. O amor não estava envolvido. Era puro sexo, carnal e cru.

Nunca ia acreditar que tinha dado as boas-vindas aos seus cuidados da forma em que o fez. Inclusive não podia acreditar que realmente desejasse desesperadamente sua invasão. Viajar através do tempo devia ter alterado seus sentidos ou sensibilidades, ou ambos. Talvez tivesse mudado sua psicologia, também. Sempre tinha sido difícil de agradar e encontrar o orgasmo, normalmente tinha sido uma tarefa árdua, mas tinha sido surpreendentemente fácil com Malcolm.

Estava passada de moda e orgulhosa disso. Não ia negar que era atraente, mas e o que? Conhecia homens atraentes em Nova Iorque o tempo todo, e inclusive se não eram tão masculinos como Malcolm, havia alguns jogadores verdadeiramente poderosos ali fora. O poder sempre a havia atraído mais que os tolos com bom aspecto, mas tinha descartado aos homens que tinham tratado de persegui-la brevemente. Muitos dos homens que conheceu eram altamente sem funções. Ela havia sido celibatária por três anos porque insistia no afeto, se não amor, antes da intimidade. Os jogadores poderosos não iam pelo afeto ou o amor, e sim pelas conquistas.

Soava terrivelmente familiar.

Claire não quis seguir pensando nesse ato de penetração e clímax breves e combustíveis. Se o fizesse, sua boca seca se tornaria mais seca e seu coração acelerado pulsaria inclusive mais selvagem. Entretanto, melhor pensar nisso e se preparar para seus avanços. Ainda o desejava. Era mais do que óbvio. Sentiu-o cada vez que a olhou. Sua sexualidade e desejo emanavam dele em ondas quentes e tangíveis. E era possessivo. Tinha advertido a Royce. Ela não ia comprometer sua moral ou suas normas, ou seus sonhos, só porque estivesse perdida na época medieval com o melhor macho de todos os tempos. Nunca tinha sexo casual ou sem significado. Nunca. Havia tido duas relações. Havia estado apaixonada por um estudante do segundo ano em Barnard, mas seu outro assunto tinha sido mais morno. Tinha desejado estar apaixonada, mas tinha sido difícil fingir, e ao final se rendeu.

E talvez esta fosse a metade do problema. Ele tinha notado que vinha privando ao seu corpo sexualmente. Cru e grosseiro como ele era, tinha-o comentado abertamente. O que havia dito? Havia chamado-a “faminta”. Aparentemente, tinha ido ao ponto.

A próxima vez que falassem, tinha que pôr alguns limites e pôr algumas regras. Estava muito só e este era o mundo dele. Sendo o chefe do seu clã, estava acostumado a fazer o que queria, quando queria, todo o tempo. Claire sabia o suficiente sobre a estrutura e a cultura dos clãs das Terras Altas para saber que o lorde era Deus e o Rei, Juiz e Jurado, Polícia e Líder Militar. Sua espada era lei e esse era o final.

Seu coração aumentou um batimento alarmado. Não tinha que ser racional para recordar havê-lo golpeado e amaldiçoado. Não se reconhecia, mas ela não conhecia isto. Poderia havê-lo merecido, mas não importava. Não lhe conhecia, não importava que quisesse protegê-la. Era o senhor aqui, absolutamente, e tinha que aplacá-lo se podia. A parte disso, ou talvez por tudo isso, estava afundada na merda.

De repente, Malcolm apareceu ao seu lado. Claire estava tão imersa em seus pensamentos que sua aparição foi tão assombrosa como a de um fantasma. Ela se estremeceu, seu cavalo se empinou. Mas ele sorriu, estirando-se por suas rédeas, endireitando ao cavalo.

— Não queria te assustar. Tudo bem, moça?

Claire tratou de ignorar sua poderosa presença, sua masculinidade e o que poderia passar mais tarde se não encontrava a forma de mantê-lo longe.

— Precisamos conversar.

Essa era uma descrição insuficiente de sua vida, pensou.

—Aye.

   Ele gesticulou para diante.

—Carrick.

Claire seguiu seu olhar e seus olhos se ampliaram. O claro castelo estava localizado sobre uns pálidos escarpados. Seu coração bateu selvagem, mas não de medo.

A última vez que tinha estado na Escócia, quase havia tomado o caminho no sinal que assinalava o castelo de Carrick. Seu guia dizia que a paisagem era impressionante, e que uma viagem pelos terrenos e o castelo não devia ser omitido. Mas ao final tinha seguido em um intento por chegar a Iona antes do cair da noite.

Talvez ser empurrada atrás no passado não estivesse de todo mal, pensou Claire, a excitação varrendo sobre ela enquanto olhava os impressionantes muros de pedra pálidos, as torres e o guarda. Se Malcolm mantivesse distância e ela evitasse mais batalhas, se mantinha sua cabeça direita e sua valentia, esta poderia ser uma experiência educativa que acontecia uma vez na vida. Poderia inclusive escrever sobre isso, embora ninguém fosse acreditar. Estava a ponto de entrar em uma fortaleza do século XV. Estava a ponto de ver coisas que nenhum historiador tinha relatado alguma vez. E embora seguisse com medo, queria entrar dentro do castelo.

Se pudesse voltar para casa em um instante, mais rápido que tarde, poderia ser capaz de manejar este assombroso giro do destino. Virou-se para olhá-lo.

— Quanto tempo levará chegar ali?

— Menos de uma hora —disse—, e discutiremos seus assuntos quando chegarmos.

      Cavalgaram pela empinada colina em fila dupla, mas tiveram que ir um de cada vez através da estreita entrada da ponte de entrada murada. Carrick estava localizado no topo de uma colina, tendo vistas a escarpada por todos seus lados, e o lugar tinha sido escolhido claramente porque a colina estava separada do caminho por uma ravina íngreme e impenetrável. Sem a ponte levadiça, escadas ou máquinas de sitiar, ninguém entra ou sai.

Claire tremeu enquanto cavalgava através da ponte levadiça, Malcolm ainda ao seu lado. Um pátio exterior cheio de cabanas e gado estavam detrás deles, e olhou à ponte levadiça. Centena de metros abaixo estava cheio de rochas escarpadas e afiadas. Os atacantes que fossem frustrados na ponte ou tratando de escalar as paredes em cortina cairiam para a morte no chão abaixo.

Como se lesse sua mente, Malcolm disse:

— Ninguém sitiou Carrick.

Claire lhe dirigiu um sorriso débil. Um castelo construído unicamente para resistir um cerco e um ataque era, de algum jeito, tão desconcertante como a batalha a que acabavam de sobreviver. O sol ultrapassava as torres e os aterros, e o céu era cinza tingido de carmesim e rosa. A vista havia sido impressionante, justamente como seu folheto tinha prometido, se não soubesse que todas e cada uma das rochas tinham sido colocadas naquela ravina por mãos humanas, para infligir à dor e a morte.

      Agora cavalgavam em fila única através do corredor escuro e estreito da guarita e suas quatro torres. Claire olhou para cima. Havia frestas sobre ela das quais os atacantes seriam empapados com azeite quente e flechas se chegassem tão longe. Olhou para baixo. Seu cavalo estava cruzando uma prancha de madeira sobre o chão de pedra. Sabia que era uma armadilha.

Claire olhou sobriamente a Malcolm.

— O que há debaixo de nós?

Independentemente do que houvesse ali, sabia que algum desafortunado que cavalgasse ou caminhasse quando estivesse aberta não sobreviveria.

— Não sei —disse— Talvez estacas afiadas ou camas de facas. —Seu olhar estava interessado. — Entende a forma de nossa guerra.

Claire tinha a boca seca.

   —Estudei-o um pouco.

Cavalgaram na frente de várias portas abertas, grossas e tachonadas e um pátio interior.

Ela respirou. Embora fosse cedo, os homens e mulheres se apressavam no pátio, dedicados claramente as suas tarefas da manhã. A fumaça se elevava de dois edifícios que estavam em frente, construídos contra a parede norte. Cheirou o pão recém-feito e viu várias faxineiras que iam de um lado a outro de onde estava certa que era o pequeno edifício que continha às cozinhas.

Ao seu lado estava o grande salão impressionante de quatro andares. Royce o Negro estava desmontando ali, um menino pequeno se materializou para agarrar seu cavalo. Acariciou a cabeça do menino e se dirigiu para a escada de madeira, que desaparecia além de uma pesada porta de madeira.

Olhou ao redor outra vez, tratando de absorver tudo. Um homem com hábito sacerdotal estava em frente do que parecia ser a capela, uma casa de dois andares construída contra este muro. O resto dos homens de Royce o Negro estavam desmontando no edifício que assumiu que era sua sala, a que estava em cima dos estábulos. As mulheres e os meninos tinham aparecido para saudá-los, as mulheres vestiam largas camisas, os meninos shorts. Algumas das mulheres dos soldados levavam capas. A risada e a conversação corriam desenfreadas, assim como os abraços e os beijos.

Claire respirou profundamente, angustiada pela visão e os sons, o barulho e a agitação, e a emoção, daquela gente do século XV. Até agora, tudo era como havia imaginado, mas não estava imaginando nada agora. Estava no castelo de Carrick, e era 1427. Os calafrios a percorreram. Esta era realmente uma oportunidade admirável. Então se deu conta de que Malcolm a olhava fixamente.

Sem pensar, sorriu-lhe.

Ele começou e lentamente falou.

— Está contente.

Ela inalou, porque estava muito emocionada.

— Estou em uma fortaleza do século XV. Sou muito aficionada à história. —Não ia explicar-lhe seu grau— Tenho lido sobre como era a vida neste tempo, mas estou vendo em primeira mão.

Ele foi irônico.

— Não é nada especial.

Deslizou-se do cavalo, segurando as rédeas, esperando o menino para estender as mãos para ela.

Claire voltou aos seus sentidos. Estava tomando o melhor de uma má situação, mas agarrar sua mão não era uma boa ideia. Fingiu não notá-la e deslizou do cavalo.

Malcolm agradeceu ao menino, tocou suas costas e lhe indicou que lhe precederia em subir as escadas. Claire não entendeu. Estava certa de que os homens neste tempo não permitiam às mulheres ir primeiro, não importava que aquele cavalheirismo fosse uma enorme parte da cultura medieval.

Ele gesticulou impacientemente. Ela assentiu à contra gosto e se apressou em subir as escadas. Transpassou uma enorme porta de painéis de madeira, entrou em uma grande sala e piscou, surpresa.

Havia esperando o escasso mobiliário do período. Havia se equivocado. As paredes e os chãos eram de madeira, é obvio, e vigas de madeira suportavam o alto teto. Mas havia vários tapetes finos no chão, obviamente da França, Itália ou Bélgica, em vez de juncos. Embora houvesse uma mesa de cavalete ordinária com dois bancos diante da enorme lareira que crepitava um fogo, também havia várias distribuições de cadeiras estofadas, cada uma fina e intrincadamente esculpida pelos melhores artesãos medievais. Uma magnífica coleção de espadas estava exposta sobre a lareira. Vários troncos belamente esculpidos serviam como mesas. Óleos sobre as paredes, os retratos extremamente estilizados como era a pauta do período, e uma tapeçaria assombrosa em uma parede. Claire tinha esperado condições mais primitivas. Tinha esperado cães, ratos, insetos e juncos nos chãos. A casa de Royce o Negro estava muito bem mobiliada para o século XV das Terras Altas e tão habitável como uma casa de campo moderna. De todas as formas, algo faltava, um toque pessoal. Claire apostaria que não estava casado.

Royce havia tirado a armadura e estava sentado na cadeira maior do aposento, o estofado em veludo Borgonha. Uma moça lhe estendia uma jarra da qual Claire assumiu que fosse cerveja. Agora se deu conta de que outra moça tinha pegado sua capa e sua cota e os estava levando. Ambas as mulheres pareciam não ter mais de vinte anos, se acaso tivessem, e eram loiras e bonitas. Quando Claire chegou à conclusão de que não era a única moça atraente nas Terras Altas, uma terceira mulher apareceu. Ofereceu a Malcolm uma jarra, sorrindo e ruborizando-se enquanto o fazia.

— Tapadh leat.[23] —disse sorrindo-lhe.

      Era muito bonita, com o cabelo loiro avermelhado, a metade do tamanho de Claire e sem aproximar-se dos vinte e um. Claire sempre havia gostado de ser alta, mas de repente, sentiu-se desajeitada e mais como um gigante do que como uma mulher.

— De tha sibh ag larraidh?[24] —murmurou à loira.

O coração de Claire se sacudiu com temor. Era esta mulher seu amor? E por que se preocupava ela?

Malcolm sacudiu a cabeça, respondendo suavemente. Seu sorriso era terrivelmente sedutor.

A cor da garota se incrementou. Olhou a Claire e se apressou pelo salão.

Claire compreendeu que abraçava a si mesma. Se ele queria deitar-se com alguém tão jovem, não era da sua conta. E é obvio que queria. Era um macho, obcecado com o sexo. Era um senhor medieval. Pensava que era seu direito e a tola loira pensava que era uma honra saltar a sua cama.

Claire estava com ciúmes. E isso era inclusive pior.

Ele agarrou seu braço, mas falou com Royce.

— Mostrarei a Claire suas acomodações.

Royce havia estirado suas longas pernas calçadas com botas e parecia completamente indiferente. Enviou-lhes um sorriso preguiçoso e conhecedor.

Claire corou. Se pensasse que era a amante de Malcolm, estava equivocado. Claire cuidadosamente se encolheu longe do agarre de Malcolm. Seguiu-lhe por uma estreita escada tratando de manter a distância enquanto também tratava de não olhar a parte detrás de suas pernas nuas.

Ele abriu uma porta de madeira e permaneceu a um lado.

— Pode dormir aqui. Amanhã iremos a Dunroch.

Claire se perguntou sombriamente se isto lhe permitiria uma brincadeira mais relaxada no feno com a loira. Caminhou passando-o rumo ao quarto.

O aposento era muito pequeno, mas havia uma lareira de bom tamanho em uma das paredes e a cama tinha quatro postes esculpidos e uma colcha de pele. Havia uma só janela, uma fenda sem cristal, as janelas abertas. Como não havia acendido o fogo, fazia frio na habitação.

Sabia que nunca dormiria. Sua mente correria em círculos.

A loira apareceu, enviando um sorriso a Malcolm antes de se ajoelhar para acender o fogo.

Claire se zangou.

— Arrumem um quarto.

Sorriu suavemente para ele, desfazendo seu tom cáustico.

Ele sorriu amplamente.

— Está com ciúmes da criada?

Claire não podia acreditar que tivesse sido tão transparente.

— Apenas. Oh! A propósito, obrigada pelo empréstimo.

Mexeu no broche para devolver sua capa. Não a queria. Exalava a sua masculinidade.

Ele estendeu a mão e lhe agarrou a mão, detendo-a.

Claire ficou rígida, certa de que se dispunha a passar dos limites. Aquela segurança se incrementou quando a loira lhes olhou e silenciosamente abandonou o cômodo, fechando a porta atrás dela.

Claire sabia que deveria afastar-se. Ao invés, o sexo do homem e o calor a atraíam, animando-a a aproximar-se.

— Faz frio e não tem roupas.

Liberou sua mão, movendo-se até a única mesa do ambiente. Somente havia uma cadeira toscamente esculpida ali, com uma jarra, um frasco e dois copos. Verteu o líquido do frasco na jarra e o aproximou dela. Claire cheirou o vinho vermelho e imediatamente desviou sua atenção. Estava, compreendeu, sedenta e faminta.

— É um clarete fino, da França —disse suavemente.

Claire viu o brilho em seu olhar, e sentiu aumentar seu próprio pulso. Bebeu um gole, perguntando-se se esperava que se soltasse, e logo o outro.

— É bom. Obrigada.

Ele sorriu, claramente não tinha nenhuma intenção de abandonar o quarto.

— Por que se preocupa se me deito com a moça?

Seu tom era casual, mas Claire quase saiu de sua pele.

— Não o faço!

— Não quero à moça, moça —murmurou.

Seu significado estava bastante claro. Tinha a habilidade de falar em tal tom sugestivo que tudo o que podia pensar era em sexo. Tinha que fazer algo antes que pusesse suas mãos sobre ela.

Ele se girou longe, assombrando-a. Viu-lhe verter vinho em outro copo, sua mão estava muito estável. Quando enfrentou a ela, apoiou um quadril contra a mesa.

— Temos assuntos que discutir —disse sem rodeios, claramente consciente de sua confusão.

Claire inalou. Esse era um território mais seguro, efetivamente. Mas antes que pudesse perguntar uma só questão, sua expressão se endureceu.

— Não sei as maneiras de seu mundo, Claire, mas em meu mundo, ninguém, homem ou mulher, menino, besta selvagem ou cão, ninguém, me desobedece.

Ela concordou.

— Sinto muito

— Não sente. Conspira suas próprias causas! —exclamou.

Tinha sido pega.

— Algumas vezes, sinto que pode ler minha mente! —disse furiosa.

— Posso sentir seus fortes pensamentos como se os dissesse em voz alta —lhe soltou, endireitando-se.

Deixou o copo com força, com tamanha força que a mesa balançou.

— Na batalha, proteger-te-ei. Mas isso significa que se esconde se disser que se esconda e corra se te digo que corra; e não pense, nunca.

Seus olhos relampejaram.

      Claire sabia que não deveria se permitir discutir com ele. Lutou contra seu temperamento e perdeu.

— Meu senhor, —disse, querendo falar com recato e falhando. Ao invés, seu tom foi inegavelmente sarcástico. — em meu mundo, as mulheres são líderes, guerreiras, rainha sem reis!

— Agora discute? —perguntou incrédulo.

Ela corou. Apazigua-o, pensou freneticamente.

— Sinto muito. Não sei por que não me ocultei. Sou uma completa covarde. E não tentava te desobedecer. Somente ocorreu.

Sua expressão se aliviou ligeiramente.

— Não é uma covarde, moça. É forte e valente.

Seu olhar se deslizou sobre a capa como se pudesse ver através dela.

— Nunca vi um corpo assim em toda minha vida.

      Olhou-a fixamente, seus olhos cinza brilhando ferozmente com intenção.

Este era o momento para pôr algumas normas, pensou Claire, se pudesse. Seu corpo rugia igual no bosque, respirou longa e profundamente.

—Em meu mundo —disse cuidadosamente—, um homem não toca a uma mulher sem sua permissão.

Sua expressão não mudou.

—Não finja que não entende! —gritou desesperadamente.

Seu tom foi perigoso.

— Oh, entendo, moça. Entendo.

— O que significa isso?

— Tomei o que me ofereceu e te dava o que desejava —disse muito suavemente.

Ofegou, ultrajada. Mas também recordou haver lhe desejado desesperadamente e ter o melhor maldito orgasmo de sua vida. Sentiu suas bochechas arderem.

—Não sou uma... uma... fulana! Nunca... nunca... pulei na cama com um estranho! Hipnotizou-me?

—Não te entendo.

Suas pestanas baixaram, abanaram suas altas e belas maçãs do rosto.

Ela engoliu, sua boca insuportavelmente seca, enquanto uma dor bramava entre suas coxas. Por que não podia controlar sua atração? Isto não ajudava a resolver os problemas, os complicava!

— Não me lanço sobre homens desconhecidos. Precisa manter a distância.

Seu olhar se deslizou sobre ela de forma sugestiva.

— Acredito —disse suavemente —, que não se lança sobre nenhum homem, exceto sobre mim.

Tinha razão. Estava boquiaberta.

Parecia satisfeito.

— Hipnotizou-me no bosque? —gritou com voz rouca. — Porque a única explicação para meu comportamento é que me deixou louca, ou estava alterada pelo que havia passado!

— Explica a palavra hipnotizar —disse.

Tratou de falar mais calmamente.

— Quer dizer subjugar, pôr em transe, encantar! Quando me olha algumas vezes, é muito difícil pensar!

— Esse é um pequeno presente —disse com ar de suficiência. — Um muito útil.

— De quem, de Merlin o mago?

— Está tão angustiada e zangada, moça, e por quê? Desejava-o e foi satisfeita. Isso não é importante agora. Ou está enlouquecendo porque decidi não te oferecer tal tentação de novo?

Levou-lhe um longo momento comprido decifrar suas palavras.

— O que?

— Desejo-te, Claire. Não o duvide. Mas jurei te proteger.

—Está me dizendo que não vai a... —deteve-se. Havia estado a ponto de dizer fazer amor, mas se o fizesse, riria dela, estava certa.

Suas pestanas abaixaram de novo.

   — Transar?

Ela respirou. Se um homem atual tivesse falado dessa forma, provavelmente seria ofensivo. Vindo de Malcolm, só conjurou imagens gráficas e ardentes conduzindo sua extraordinária longitude dentro dela repetidamente, com surpreendente poder e assombroso efeito. Se fizesse isso agora, justamente agora, gozaria.

Ela engoliu. Tinha estado certa que ia ter que resistir. Agora estava lhe dizendo que não estava interessado, exceto que o estava, porque inclusive agora o sentia vibrando no quarto. Sua luxúria era tão tangível como o vinho que podia cheirar na jarra. Era o suficientemente inteligente para estar manipulando-a? Estava confusa, e maldição, inclusive estava angustiada.

— O que te faria decidir ser um cavalheiro? —conseguiu dizer.

Ele levantou a vista com um breve sorriso de zombaria a si mesmo.

— Não sou gentil, moça, e ambos sabemos.

Sua voz diminuiu. Seus olhos cinza se tornaram negros.

— Não desejo ver-te jazer morta embaixo de mim.

Claire teria fugido se tivesse algum lugar para ir.

— Não entendo.

Mas o medo que diminuiu durante sua conversação voltou.

Seu olhar lentamente se moveu sobre ela, deliberadamente, e então se levantou até seu rosto.

— Desejo-te muito, mas não confio em mim mesmo.

— O que significa isso? —ofegou.

Ele foi brusco.

— Matei a uma criada. Não o farei de novo.

— Matou a uma mulher? —gritou Claire, apoiando-se na cama.

A palavra demônio passou por sua mente.

—Está aterrorizada —disse suavemente.

Não! Seu coração gritou. Malcolm não era um demônio. Apostaria sua vida nisso. Não acabava de dizer o que ela pensava que havia feito.

— Disse que queria me proteger —disse sussurrando.

— Aye.

Claire se deu conta de que estava ofegando.

—Por favor, não me diga ... !

Seu rosto estava rígido.

—Morreu em meus braços, Claire. Morreu tomando seu prazer de mim.

Claire realmente precisava sentar-se. O olhar de Malcolm era duro, inclusive zangado, e completamente firme. Mas não era um demônio, não havia nada demoníaco nele. Não podia ter cometido um crime por prazer.

— O que aconteceu? —disse de alguma forma, lhe vendo não como se estivesse de pé ali, a não ser com uma mulher debaixo dele, na agonia da paixão.

— Disse-lhe isso! —disse asperamente.

Claire finalmente se sentou na beira da cama.

— As pessoas realmente morrem durante o sexo, quero dizer, o sexo normal. Inclusive se não for um crime por prazer, algumas vezes o coração de um homem para. Ou de uma mulher. É pela excitação. Se o coração da mulher estava débil, se tiver estado doente, se for mais velha, débil...

Ele a cortou.

—Não era mais velha. Era uma moça como você. Seu coração era forte.

Isto não podia estar passando. Não queria que Malcolm fosse um louco demoníaco, mas as semelhanças eram evidentes. Estranhos seduzindo ao jovem e ao Inocente. Malcolm era um estranho e sabia hipnotizar.

Tinha sido hipnotizada no bosque?

— Conhecia-a bem? —perguntou cuidadosamente, o medo se retorcendo em seu interior.

— Não conhecia a moça.

Seu olhar cinza brilhou.

— Eram estranhos.

— Aye

Não podia respirar.

Um desafio parecia estar em seus olhos, mas não estava certa de que pudesse encontrá-lo. O suor correu por seu corpo a jorros e não podia estar menos do que assustada e doente. Mas em algum lugar profundamente dentro dela, negava-se a acreditar no que lhe estava dizendo.

— Matou-a por diversão?

Seus olhos se ampliaram.

— Não me divirto com a morte, Claire. Não me deu poder. Necessitava à criada, muitíssimo. Não desejava lhe fazer dano ou vê-la morta —disse com grande cuidado.

Naquele instante, viu a dor ardendo em seus olhos. Estava consumido pela culpa. Sentiu-se aliviada, e cresceu a compaixão.

—Malcolm, provavelmente fosse o coração.

Ele se girou e levantou sua jarra de vinho, esvaziando-a.

— Não parei quando era o momento de parar. Não podia pensar. —Girou seus olhos de prata quente para ela. — Como no bosque. Por um momento, não pude pensar em nada, exceto no prazer que estava obtendo de ti.

Ela tremeu, voltando bruscamente para a lembrança vivida do assombroso orgasmo. Havia parado de pensar no bosque, também. Tinha sido impossível ser racional enquanto se convulsionava com tal desejo. Mas, agora estava insegura. Como ele, claramente atormentado pela culpa, mas falava como se tivesse matado à mulher de forma brutal. E soava como uma violação.

Seu olhar foi direto.

— Não a violei, nem a nenhuma outra mulher. Desejava-me.

Claire acreditou. Que mulher não desejaria ao homem frente a ela? E isso só lhe fez mais difícil entender o que tinha passado. Tinha que haver sido o coração da mulher, pensou. Não podia ter sido nada mais. Um louco não sentia culpa.

— Agora entende por que não irei à cama contigo - disse firmemente.

Ela tremeu. Estavam tendo uma conversação terrível sobre um espantoso crime sexual e tinha grandes reservas sobre este homem, mas mesmo assim não podia escapar a sua sexualidade. Esta se agitava no quarto e suas palavras conjuravam a imagem dela em seus braços, apaixonadamente entrelaçados.

— Tudo bem - disse através dos lábios secos.

— Não quero compartilhar sua cama. Nem agora, nem nunca.

Enviou-lhe um olhar de incredulidade.

Claire corou. Seu corpo não tinha obedecido muito sua vontade, mas tinha vontade.

— Quando me deito com um homem, é porque tem meu coração - disse lentamente, e sentiu sua cor intensificar-se.

Seus olhos se ampliaram.

— Certamente, está de brincadeira.

Claire estava muda. Lamentava ter se revelado dessa forma.

Ele se engasgou, mas ela se deu conta de que queria rir. Sua cara imperturbável, disse:

— E teve amantes, moça, aye?

Ela se sentiu afrontada e procurou refúgio ali.

— Se quer saber com quantos homens tenho feito amor, não lhe vou dizer!

— Começo a te entender, aye, faço-o. —Sorriu de maneira encantadora. — Esta bem, moça, realmente. Acredito que é uma vergonha, ter somente uma dúzia ou assim de homens em sua vida.

— Foram dois! —gritou.

Ele sorriu.

Claire não podia acreditar que aquele garanhão medieval teve a astúcia para apanhá-la em uma mentira. Olhou-o fixamente, indignada e inclusive insultada. Ao menos nunca conheceria os detalhes de sua vida amorosa. Seu amante da Faculdade tinha sido lindo e inteligente, mesmo que a tenha enganado. Seu segundo amante, James, tinha sido genial com o debate, mas faltava no departamento de desempenho. Este homem é claro, nem sabia a definição da palavra fidelidade, mas não tinha nenhum problema de desempenho, tampouco. E ela nunca, jamais revelaria que fazia três anos desde que ela havia tido relações sexuais.

Ele estava sorrindo quando se virou para encher sua caneca. Claire não gostava do sorriso conhecedor tampouco, exceto que lhe tornava terrivelmente atraente. Talvez a verdadeira batalha não fosse com ele, mas com ela mesma.

Claire pensou na terrível batalha na floresta.

—Nós precisamos conversar, mas não compartilhar a cama.

Ele colocou abaixou a caneca, de frente para ela. Sua expressão era incrivelmente séria.

—Aye. Defendeu-me de um terrível crime e me defendeu no bosque. Somos estranhos, Claire, nem sequer somos parentes. Por quê?

Ela se mordeu o lábio.

—Não sei.

Fez-se silêncio. Seu olhar escorregou até sua garganta e ela percebeu de que estava olhando o pingente que levava.

—Meu pai tinha uma pedra como essa, moça. Levou-a até o dia em que morreu.

Claire esteve imediatamente interessada. É obvio, seu pai estava morto, de outra forma Malcolm não seria o lorde. Queria toda a informação que pudesse obter agora. Desejava conhecer tudo sobre o homem de pé diante dela. Disse a si mesma que a ajudaria a sobreviver a esta traumática experiência.

— Como morreu?

— Morreu em Red Harlaw, moça, uma enorme e sangrenta batalha.

Claire permaneceu quieta.

— Seu pai foi Brogan Mor.

Seu olhar se estreitou.

—Não te hei dito seu nome.

Seu coração troava em seu peito. Que tipo de coincidência era esta?

—Quer escutar algo irônico? — molhou os lábios, sem esperar resposta. Não teve que fazê-lo, porque seu olhar era tão intenso, fascinada por ela agora. — Estava de caminho a Escócia quando veio a minha loja. Ia sair no dia seguinte. E ao chegar a Edimburgo, meu plano era ir diretamente a Mull e ficar no cabo de Malcolm, assim poderia visitar Dunroch.

Suas têmporas pulsaram. Ele não disse uma palavra, mas por sua expressão, não parecia muito surpreso.

—Seu pai está nos livros de história. Li que morreu em 1411 em Red Harlaw, mas é obvio, não tinha nem ideia, de que ia conhecer seu filho tão logo. —sentou-se, tremendo. Talvez, considerando as datas, deveria ter compreendido que Malcolm era o filho do Brogan Mor. — Não há nada em sua linha, Malcolm, depois da morte de seu pai.

Ele avançou.

—Era um grande homem, moça, um grande guerreiro, um grande lorde. Dizem seus isso livros?

— Sinto muito. Só mencionam a data de sua morte e que conduziu os Maclean na batalha.

—Não a todos eles —disse Malcolm—. Os Maclean do norte de Mull, Tiree e Morvern se situaram em Duart.

—Royce o Negro não é o lorde de seu clã?

—Não. Suas terras foram concedidas por uma carta real faz muito. É conde de Morvern, mas é meu vassalo. É um Maclean do sul, moça.

Claire não podia imaginar Royce sendo um subordinado do Malcolm. Não tinham atuado assim, pensou.

— Quem se converteu em lorde de seu clã quando Brogan morreu, Malcolm? Você era muito jovem para fazê-lo.

—Tinha nove anos quando Brogan morreu e me converti em lorde. Royce me ajudou, passando muito tempo em Dunroch até que completei 15 anos. A partir desse dia não necessitei ninguém a meu lado para governar.

Antes que Claire pudesse assimilar que se converteu no chefe de seu clã aos nove anos, e no líder atual aos quinze, seu olhar se moveu de volta à pedra que levava.

— Conte-te a respeito da pedra.

Seguia voltando para pingente.

— Era de minha mãe. por quê?

— Brogan perdeu sua pedra no Harlaw —disse Malcolm, olhando seu pendente. — Era negra, não branca como a tua, mas era a mesma. Estava encantada com poderes de cura. Há outros lordes e inclusive clérigos que levam uma pedra enfeitiçada. Mas já sabe.

—É uma parte de meteorito banhado em ouro —gritou Claire nervosamente—. Não é mágica!

—Como sua mãe a conseguiu? Pertencia a um highlander, moça.

Claire permaneceu quieta.

—Não sei. Nunca pensei em perguntar. Era criança quando morreu. Mas nunca o tirava. A verdade é que sempre pensei, não; sempre senti, que tinha algo que ver com meu pai.

Seus olhos se ampliaram.

— Se seu pai o deu a sua mãe... —começou.

— Poderia havê-lo comprado em uma loja de empenhos! Ou meu pai poderia havê-lo comprado ali, se tivesse sido dele.

De uma forma estranha sentiu pânico. Era seu pai escocês?

— Estás alterada. Por quê? Não parece uma moça das Terras Altas, mas acredito que está conectada a mim de algum jeito.

Ela balbuciou:

—Estou conectada a ti porque me arrancou de meu mundo e me trouxe atrás no tempo contigo!

Ele sorriu a contra gosto.

—Aye

— Como? Como viaja através do tempo?

— Essa é a pergunta singela mais importante de todas, se retornar alguma vez ao século XXI.

—Fá-lo-ei. —Claire o olhou fixamente e ele devolveu o olhar. — Algum mago ou monge, algum xamã, deve ter encontrado um buraco negro e imaginou acidentalmente como se usava —disse finalmente. E o conhecimento foi cuidadosamente passado. Passou-lhe pela mente que se um homem medieval podia viajar através do tempo, certamente um par dos seus estavam, secretamente, fazendo a mesma coisa.

— Não. É um presente dos Antigos.

Não podia olhar longe.

— Os antigos xamãs? Está-me dizendo que a viagem no tempo datava dos tempos pré-cristãos?

— Os antigos deuses, Claire —disse brandamente—. Os deuses que a maior parte de Alvorada abandonou.

Ela sentiu calafrios. Sua teoria estava correta. Alguém, possivelmente nos tempos medievais, possivelmente muito antes, tinha tropeçado com a viagem no tempo. Tal conhecimento seria cuidadosamente guardado e cuidadosamente transpassado. É obvio, acreditava que essa habilidade era dada pelos deuses. Sua cultura era primitiva. Com o passar do tempo, a humanidade procurou explicação para os acontecimentos e os fenômenos que não entendiam na religião.

Mas pisava em águas perigosas com tais crenças.

— Que antigos deuses? —perguntou, o medo surgindo.

Ele somente a olhou.

—Se crê que tem os poderes de um deus, qualquer deus, inclusive Jesus, é uma heresia.

Sua boca se endureceu.

— Sou católico, Claire.

Ela se estremeceu. Nenhum católico acreditava como ele o fazia. Sua mente correu. A heresia era um crime sério na Idade Média. Na Europa, a Igreja tinha processado ativamente e agressivamente os movimentos heréticos, usando o conhecido tribunal da Inquisição para fazê-lo. Os hereges eram excomungados e proscritos, não executados. Por outro lado, um membro do movimento de Lollard[25] tinha sido queimado por heresia pela Igreja, justo ali na Escócia. A data era inesquecível, porque a grande onda de perseguições tinha vindo um século mas tarde.

— Ouviste a respeito do John Resby?

Seus olhos se alargaram.

—Aye.

Claire se esticou.

— Foi queimado na fogueira por suas crenças em 1409.

— Eu era pequeno.

Claire tomou ar.

— Então sabe que não deveria falar tão abertamente a respeito de antigos deuses e ter poderes que um homem não deveria ter.

— Isto é uma discussão privada —disse obscuramente—. Estou confiando em ti, moça. Não tem crenças fanáticas.

— Como sabe isso? Mas tem razão. Nem sequer sou católica, Malcolm. Sou episcopal. —E isso a fazia uma herege em seu tempo, também. — Seu segredo está seguro comigo.

Ele assentiu.

— Se não tivesse fé em ti, nunca te haveria dito a verdade.

Não podia imaginar-se porque confiaria nela, uma estranha absoluta. Ele acrescentou:

— Mas virá a missa comigo, Claire.

— É obvio, fá-lo-ei. Não sou idiota, não tenho problemas em cooperar com a ortodoxia até que volte para casa.

Seu olhar brilhou de uma forma estranha e se afastou dela.

— Quanto de vós existes? —perguntou sombriamente. As ramificações de suas crenças seguiam crescendo. Um homem que tivesse seus extraordinários poderes poderia ser acusado de feitiçaria, bruxaria, associação com o demônio. Graças a Deus, a grande caça de bruxas se daria no próximo século, não neste. — Pode viajar no tempo Royce o Negro? É um dos seus? Crê também que seus poderes vem dos Antigos? E como lhes mantivestes em segredo?

Um frio sorriso se mostrou.

— Por que se preocupa dos poderes do Royce?

— Ele é diferente, como você —disse Claire firmemente.

— Não. —girou-se longe dela, sua postura rígida e apontou. — Royce é o conde de Morvern, nada mais.

Claire vacilou, muito consciente de que Malcolm estava perto de discutir agora. Mas, pisavam em terreno perigoso e provavelmente proibido. Suas crenças, e sua habilidade de viajar no tempo, indubitavelmente era um assunto muito secreto. Mas estava segura que Royce tinha as habilidades de Malcolm, e provavelmente suas crenças, também. Lentamente se aproximou dele. Quando se girou, foi consciente de que apenas uns centímetros os separavam, e que não deveria usar nenhum truque feminino para conseguir as respostas que queria. Lentamente, pôs a mão em seu peito.

Uma enorme sacudida de desejo a apunhalou enquanto sua mão alisava a plaina camisa de linho contra seus duros músculos.

— Diga-me. Acabe com isso. Já me contaste um segredo terrível, um que ameaça sua vida; conte-me o resto.

Seu sorriso se modificou.

— Não jogue comigo, Claire. —Mas seus olhos arderam e não somente com cólera. Claire reconheceu a luxúria.

— Por que não? — tocá-lo fazia sentir débil e enjoada. — Você esteve jogando comigo desde o começo.

— Então joga com sua vida.

      Apesar de que seu pulso palpitava agora contra sua tanga, sentiu mais calafrios.

—Não. Confio em ti também. —De uma forma estranha, deu-se conta de que o fazia—. Quantos de vós podeis viajar no tempo? E por que o faz? Pertence a algum tipo de ordem religiosa, uma sociedade secreta?

Ela sabia a resposta.

Seu olhar se endureceu e sua mão cobriu as dela, pressionando sua palma mais firmemente contra seu peito.

—Faz muitas perguntas. Não necessita tantas respostas.

— Não é justo! Trouxe-me aqui. Preciso saber —gritou. E fez algo que seria impensável em Nova Iorque, deslizou a mão através do pescoço de sua camisa, seus dedos acariciaram a pesada cruz e a cadeia e logo a colocou contra sua quente pele.

Seu sorriso foi tenso.

— Fogo, moça —advertiu.

Algo golpeou seu quadril. Claire tratou de respirar.

—Disse que confiava em mim. Trouxe-me aqui. Sou historiadora, Malcolm, uma estudante. Por isso sei tanto sobre seu tempo. Por favor. Tenho que saber. —Olhou-o implorante.

Ele respirou com força.

— Os Mestres juraram defender a Deus e aos Antigos, manter a fé e guardar os livros.

Ela ofegou, tremendo com a excitação do descobrimento.

— Juramos lhes proteger, Claire, e a outros como você. Proteger ao Inocente. Esse é o mais sagrado dos votos, depois dos votos que fazemos a Deus.

Não podia retirar o olhar.

—Sei. Não é o primeiro cavalheiro a pertencer a uma ordem secreta com crenças heréticas. Dir-me-á o nome da ordem?

   Sua risada se pareceu a um grunhido.

—Não há um nome —se afastou dela, sua camisa inchando-se sobre sua rígida virilidade.

Ela não podia retirar-se agora.

— Do que está defendendo a Deus? Do que defende os Antigos? Do que está defendendo os livros e às pessoas como eu?

O se girou.

— Do demônio.

Os calafrios romperam através do corpo do Claire.

— O que está errado, Claire? Parece assustada. Ou tem feito muitas perguntas para sua pequena e linda cabecinha? —foi frio, zombador e furioso.

Ela tragou.

— Não me preocupa quão condescendente seja. Sim, assustaste-me. Ambos sabemos que há mal no mundo. Só que o faz parecer... Organizado.

Seu olhar se intensificou, fazendo-a querer retorcer-se.

— Não crê no demônio, moça?

E Claire pensou em sua mãe. Olhava atrás do puído sofá de pano enquanto se escondia, tremendo de medo, desejando que sua mãe voltasse para casa. Uma sombra foi à deriva na casa...

—Não, não o faço —ofegou, suando profusamente agora. — Quer me assustar?

Sua expressão perdeu ferocidade.

—Empurrou-me, moça. E me seduziu com um só toque. Quero te proteger, mas talvez isto seja o melhor. Talvez precise conhecer o modo de vida aqui.

Ela aproveitou a ocasião.

— Quantos Mestres há aqui?

Ele fez um som áspero, aproximando-se da mesa para servir mais vinho. Claire se deu conta de que não ia entregar a seus companheiros cavalheiros.

Trocou de tática.

— Por que nos atacaram? Quais eram esses homens e que queriam?

— Eram os homens de Moray. Moray quer a página, Claire. Também me quer morto.

Ela se esticou, de repente doente na alma.

— Moray é seu inimigo.

— O conde de Moray é o inimigo de Deus, Claire. Mandou Sibylla a sua loja para encontrar a página. Não deve encontrar nem a página nem o livro —acrescentou com intensidade. — Também é seu inimigo.

Não podia sacudir o sentimento doentio.

— Sei. Os livros são relíquias sagradas, realmente. Seus tipos lutam por eles e matará por descobri-los e para evitar que seus inimigos os consigam.

— O Cathach está a salvo em seu santuário —disse Malcolm—. Jurei guardar os livros sagrados, Claire. Se o Cladich estiver perto, devo usar todos meus poderes para encontrá-lo e devolvê-lo a Iona.

— Segue dizendo livros. Quantos há?

— Três.

— Conheço o Cathach, é o livro da sabedoria; o Cladich é o livro da cura. O que oferece o terceiro livro?

— Contém todo o poder conhecido pelos Antigos.

O interior de Claire deu uma sacudida. De alguma forma, sabia que não era bom.

— Não entendo.

— O Duaisean contém o poder para saltar o tempo, o poder de tirar a vida, o poder de dá-la. Nele está o poder das mentes, da escravidão, dos sonhos. Há muitos mais poderes, também. —Estava sombrio—. Esse livro, dá a qualquer um, tais poderes.

Isso soou terrível. É óbvio, nenhum livro podia dar a ninguém tais poderes. E enquanto ela não acreditava nesses poderes, ele o fazia, e também qualquer que fora parte de sua ordem. Conhecia o poder da mente. A estes Mestres provavelmente tinham outorgado os poderes de suas crenças. Não tinha visto Malcolm em ação durante a batalha? Tinha poderes sobre-humanos, ou isso era o que tinha parecido.

Claire procurou calma e falhou.

— Onde está o terceiro livro?

Ele simplesmente a olhou.

OH, meu Deus, pensou Claire. Tratou de recordar-se que esse livro não tinha poder, mas sussurrou:

— Tem-no seus inimigos.

— Aye. Esta com Moray e esteve com ele por muito tempo. — acrescentou em advertência. — Tem grandes poderes, Claire, e nenhum Mestre foi capaz de derrotá-lo.

E Moray queria Malcolm morto. Não queria preocupar-se, esse não era seu assunto, absolutamente, mas se Malcolm acreditava que Moray era invencível, nunca o derrotaria. Repentinamente, não estava excitada, absolutamente.

Em troca, estava assustada, não por ela, mas sim por Malcolm.

Quando Malcolm partiu, Claire fez caso omisso de suas palavras antes de partir para descansar. Sua cabeça dava voltas, dormir seria impossível.

Girou-se e lentamente passeou pela pequena acomodação, tratando de revisar tudo o que tinha aprendido. Malcolm era um cavalheiro motivado religiosamente. Não havia dúvida de que levava os votos muito a sério e provavelmente daria sua vida para levá-los a cabo. Os Mestres tinham formado uma sociedade secreta, de outra forma seriam processados por suas crenças heréticas. De todos os modos, não importava a fé, pareciam servir à humanidade. Isso era admirável e agora o admirava, inclusive se não estava segura se deveria.

E estava começando a compreender totalmente. Não havia nenhuma dúvida de que os três livros eram artefatos históricos incríveis. Mas estes homens acreditavam que os livros tinham grandes poderes, jogo de dados pelos antigos deuses. Eram poderosos e outorgavam poderes às relíquias sagradas. Era óbvio, as facções se formariam para lutar por essas relíquias e matariam por adquiri-los, ou para acautelar que caíssem em mãos equivocadas.

Este jogo de poder não tinha nada a ver com ela, exceto que possuía sua própria loja cheia de livros antigos e estranhos e Malcolm havia a trazido atrás no tempo com ele. E os homens do Moray tinham tratado de matá-la, também. Trocou de opinião. Esta guerra, agora tinha tudo que ver com ela. De algum modo, estava justo no meio de tudo.

De que está defendendo a Deus? De que está defendendo aos Antigos? De que está defendendo aos livros e às pessoas como eu?

Do demônio.

      Claire não queria teorizar sobre o demônio na Idade Média. Seu prato estava cheio. Moray era provavelmente um nobre ambicioso, desumano e inteligente, e nada mais.

Tinha o Duaisean, mas não tinha poderes extraordinários, não importava que Malcolm o declarasse. E não era seu inimigo, ou o era?

Ficou séria. Estava sob o teto de Malcolm e sob seu amparo, então provavelmente era a inimizade de Moray. Não gostou desse pensamento.

Incômoda, Claire caminhou até a estreita janela e imediatamente, desviou sua atenção.

As Terras Altas se desdobravam até a eternidade, uma mescla de águas azuis brilhava abaixo e colinas verde esmeralda acima. O sol se elevou, alto e brilhante, em um céu vividamente azul, sem nuvens.

      Agarrou-se ao batente. Noite passada tinha estado em Nova Iorque, fazendo as malas para sua viagem à Escócia. Seu destino era Dunroch e tinha desejado encontrar-se com o lorde de Dunroch. E ele tinha aparecido em sua loja, levando-a atrás no tempo. Como podia ser uma coincidência?

Claire tocou o pendente de pedra. Malcolm sentia que ela tinha alguma conexão em seu mundo, além da óbvia. Estava começando a perguntar-se se tinha razão. E cada vez que estava perto dele, havia um puxão psíquico intenso, esmagadoramente desejo, mas era mais que isso.

Não queria mais debates internos. Faltavam-lhe centenas de respostas, mas não ia averiguar tudo agora. Esta cena era exatamente o que necessitava, uma breve pausa, um momento de beleza lhe vivifique[26] e paz. Abandonou o quarto, determinada a desfrutar da vista de um ponto mais vantajoso. Realmente precisava relaxar, um longo tempo.

As muralhas estavam um piso por cima de seu cômodo. Não vacilou, encontrando uma escada pequena e tortuosa ao final de um curto corredor. Apressou-se. No momento que caminhou sobre a passarela, não longe de uma atalaia, inalou profundamente, sorrindo finalmente.

Caminhou até o silvestre parapeito das muralhas, sobressaltada pela beleza da terra. Em que lugar do Morvern estava, exatamente?

— Olá, Claire.

A voz era terrivelmente familiar. Claire se deu a volta para encontrar Sibylla. Seu coração palpitou quando encontrou os olhos negros e insondáveis da outra mulher.

Sibylla estava sorrindo. Não estava vestida como um ladrão moderno, e Claire reconheceu o estilo de seu vestido. O estilo era popular na França entre a nobreza mais alta e muito mais indecente que seus homólogos ingleses, o corte baixo, o sutiã e as mangas entalhados. Mas agora, Claire via o brilho dos olhos da Sibylla. Sua expressão era de luxúria afiada.

Sibylla tinha viajado no tempo, também.

— Como entraste aqui? —Tinha sido alguém o suficientemente estúpido para ter baixado a ponte levadiça para ela? Ou tinha saltado do futuro ao passado, justo ali no castelo do Carrick? — Malcolm está dentro.

O sorriso da Sibylla se esticou.

— Não quero Malcolm, quero a ti. Não tem que estar tão assustada, Claire. Não quero te ferir. Deixei-te viva, verdade?

— O que quer? —gritou Claire, nada tranquila.

— Quero a página —disse Sibylla duramente, de repente enfurecida. — A tem, estou segura. Voltei e olhei em cada maldito livro. Não estava ali!

Claire ofegou.

— Nunca tinha ouvido falar dessa maldita página até ontem à noite! Por que pensa que está em minha loja, ou que a tenho? Não a tenho! —olhou sobre seu ombro para a torre. Onde estava o guarda?

Sibylla riu.

— Estão mortos. E tenho que trocar de ideia. Não me diz o que desejo saber, assim terei que te ferir, verdade? —sorriu. — O prazer é meu, Claire.

     Deu a volta para escapar quando foi atacada por trás. Sibylla golpeou suas costas com uma força assombrosa. Antes que Claire pudesse reagir, tinha-a pressionada contra a pilastra da parede, com tanta força que pensou que suas costas poderiam romper-se pela metade. E então pôs uma de suas poderosas mãos em sua cara, incrementando a terrível pressão nas costas do Claire.

Seus olhos brilharam com sede de sangue.

— Esperei muito tempo por isso, Claire. —E se inclinou mais perto e lentamente, lambeu a pulsante jugular do Claire.

Não podia respirar agora. Estava assustada de romper-se em dois se lutava. Tratou de permanecer quieta, enquanto Sibylla passava a língua acima e abaixo por sua garganta, mas não pôde suportá-lo e gritou.

— Por favor, pare!

— Diga-me onde está a página ou te matarei. —murmurou, sua boca perto da de Claire. — Depois que te faça chorar de prazer.

Claire sentiu as lágrimas derramarem, porque a dor em suas costas era insuportável. Justo quando um vasto mundo cinza começou a tomar, Sibylla a liberou.

     Endireitou-se, ofegando de medo, e então caiu sobre os joelhos, alcançando a pedra de sua garganta. As sombras cinza retrocederam, substituídas pelos céus vividamente azuis e os olhos terrivelmente escuros e vazios da Sibylla.

— Dir-te-ei tudo —mentiu, as costas contra a parede de pedra. Lentamente se empurrou para levantar-se.

Sibylla sorriu.

—Tome seu tempo. Ninguém nos achará aqui e não me importa se resiste. —Seus olhos brilharam.

Claire fechou os olhos, suando pelo medo, suas costas palpitavam. Tinha que enganar Sibylla e necessitava ajuda. A mulher tinha uma força sobre-humana e se não precisava de Claire, provavelmente a mataria da forma mais inimaginável.

A pedra escaldava sua mão. Repentinamente, soube que podia fazer. Podia dizer a Sibylla que a página estava escondida em sua loja, e a mulher teria que levá-la dali para encontrá-la.

Estaria em casa, em seu mundo relativamente seguro, mas nunca voltaria a ver Malcolm de novo.

Deu-se conta de que não havia nenhuma decisão que tomar.

— Esta em meu quarto, exatamente debaixo de nós.

—Se está mentindo, vou torturá-la antes de te matar. Haverá muita dor, Claire. Suplicará que tome sua vida, mas não o farei rapidamente.

Apesar da ameaça da Sibylla, seu pânico tinha retrocedido completamente. Agora podia pensar claramente, sem esforço.

— Não havia ninguém no corredor quando subi aqui. Malcolm acredita que estou dormindo. Duvido que alguém nos veja se formos até lá.

— Irá à minha frente —ordenou Sibylla agarrando o ombro de Claire, suas unhas rasgando a pele através de sua roupa. — Se nos virem, morre.

—Bem. —Caminhou lentamente diante, ainda sujeitando a pedra, que estava mais fria agora. Quando se deu conta de que tinha a agarrado como a manta de segurança de um menino, deixou-a cair. Começou a descer pela estreita escada circular cuidadosamente. A adrenalina fluiu.

Sibylla estava só um degrau detrás dela.

Claire girou e agarrou seu tornozelo, atirando-a para trás tão forte como pôde. Enquanto Sibylla caía, precipitando-se pelos degraus por cima dela, gritou tão alto como foi possível pedindo ajuda. Sibylla começou a levantar-se, com expressão assassina. Mas quando se endireitou, Claire a estava esperando. Deu-lhe uma tapa na cara, um tapa frontal da que seu treinador pessoal teria ficado orgulhoso.

Mas Sibylla só vacilou ligeiramente para trás e então seguiu aproximando-se.

Claire se girou e correu, procurando seu Taser, pensando, merda! A mulher era um Exterminador feminino e estava dois passos atrás dela. Enfurecer aquela mulher não era boa ideia. E então escutou passos que corriam e subiam pelo corredor, justo debaixo delas e Malcolm gritando.

É obvio, salvaria o dia! Claire apareceu sobre as muralhas, então se deu conta que Sibylla se foi.

Girou-se, em estado de choque, respirando dificultosamente, enquanto Malcolm, Royce e seis homens saíram através da porta aberta, as espadas soando enquanto eram desembainhadas.

— Partiu! —Claire estava incrédula. Sibylla não a tinha passado e não podia ter dado a volta para escapar sem correr diretamente para os homens. Desvaneceu-se no ar.

Malcolm embainhou a espada, estendendo os braços para ela. Claire não o pensou duas vezes.

— Era Sibylla.

Levantou-lhe o queixo, seus olhos ardiam, enquanto Royce ladrava ordens a seus homens.

— Fez-te mal.

— Estou bem. —Começou a tremer. — Essa mulher tem a força de uma dúzia de homens.

As janelas de seu nariz se alargaram.

— Esta sangrando no ombro. — Mas estava olhando sua garganta, como se soubesse o que Sibylla fazia.

— Estou bem —gritou quando Royce deu uma pernada, parecendo inclusive mais zangado que Malcolm.

—Sibylla pagará — disse. — Ninguém entra em Carrick sem meu consentimento. —girou para Malcolm. — Dois homens estão mortos.

Aquela mulher tinha assassinado com indiferença a dois homens, pensou Claire, tremendo. Mas Sibylla era o mal puro. Tinha visto a escuridão em seus olhos desalmados e rezou para nunca vê-los de novo.

Mas era pior que isso. Como Malcolm, podia viajar no tempo.

Royce se girou para Claire.

— Se lhe tivesse querido morta, estaria morta, também.

Claire se molhou os lábios.

— Pensa que tenho a página.

Ambos os homens a olharam fixamente, os olhos dilatados. Malcolm se girou para Royce.

— Sibylla não a tem, mas eu sei quem a tem.

Royce pareceu infeliz então.

— Malcolm.

— Não, não trate de me deter agora.

Claire não tinha nem ideia do que aquela mudança significava. Mas agora que a adrenalina se foi, deu-se conta de que estava tremendo e exausta. Sentia-se violada pelo que tinha feito Sibylla e pelo que queria fazer.

De repente, como se soubesse, Malcolm se girou, pôs suas mãos ao redor dela e a manteve ereta.

—Venha, moça. Falaremos dentro.

Claire assentiu e voltaram pelas escadas. As imagens cintilaram e viu sua breve luta com Sibylla, a cara pálida e furiosa da mulher, seus olhos negros e espantosos.

— Como fiz tal inimigo?

Malcolm a guiou ao quarto e diretamente à cama. O interior de Claire se esticou imediatamente e lhe olhou. Seu olhar encontrou o dele.

—Esta vez, Claire, me obedeça. —Apartou o cobertor de pele e tomou seu braço, guiando-a ao colchão.

Claire tirou suas botas de cowboy e se deslizou sob as mantas. Ele arrumou o travesseiro detrás de sua cabeça, sua expressão mortalmente séria, sua mente claramente alheia a suas ações. Mas a estava mimando excessivamente e algo se derreteu em seu coração. Como podia aquele homem poderoso, arrogante e presunçoso rebaixar-se a colocar seus travesseiros? Talvez não deveria ter sido tão rápida em lhe estereotipar, pensou.

Ela tocou sua mão. As faíscas saltaram, nunca se tinham extinguido realmente, não quando estava perto.

— O que é?

Ele encontrou seu olhar, vacilou, então se sentou à altura de seu quadril.

— Tinha jurado te proteger e quase morre hoje. Não uma, mas duas vezes.

Ela não queria pensar em tudo o que tinha passado nas muralhas com a Sibylla.

— Por que pensa que tenho a página? Porque sou proprietária de uma livraria especializada?

— Porque não a encontrou em sua loja. —De repente, levantou-lhe. – Isto na manga é um arranhão.

Claire não se preocupava sobre os arranhões.

— E o que? Por que todo mundo pensa que está ali, de todas as formas?

— Não sei, Claire. Se Moray mandou Sibylla a sua loja, acredito que a página está ali ou o esteve alguma vez.

Absorveu isso.

—Como entrou em Carrick? Saltou no tempo, verdade? Para escapar.

—Moray distribui os poderes do Duaisean com grande cuidado. A fez forte para que pudesse matar a seus inimigos e pode saltar no tempo para lhe servir melhor. Aye, provavelmente desapareceu no futuro próximo.

Claire se esticou. Não gostava do fato de que os meninos maus pudessem viajar através do tempo, também. Começou a compreender que a mulher nunca poderia ser capturada se simplesmente podia saltar a outro tempo.  Entretanto, esse era o menor de seus problemas. Impulsivamente, tocou o braço do Malcolm.

— Pode repartir poderes?

— Aye. Por que crê que seus exércitos são tão poderosos? Não são homens normais, moça.

Ela começou a respirar rápida e levianamente.

— Sei que crê nos livros, mas eu não. Seus exércitos são de humanos normais. Ela é normal, mesmo se seu poder é surpreendente.— deu-se conta de que estava perto das lágrimas, mas que estivesse perto da histeria era pela sobrecarga e o esgotamento.

Ele permaneceu sombrio.

—Entendo que não deseja escutar a verdade, mas é perigoso para ti agora, Claire. Precisa entender a verdade do mundo.

Entendeu que podia perdê-lo se dizia outra palavra.

—Não se atreva —gritou.

Seu olhar esteve procurando, então se suavizou.

— Moça, amanhã iremos a casa e discutiremos estes assuntos. Estará a salvo ali. —Sorriu de forma tranquilizadora—. As paredes de Dunroch são grossas e seguras. Tenho assuntos que resolver, mas não irei por muito.

A Claire levou um momento para entendê-lo. Incorporou-se.

—Tenta me abandonar em Dunroch? Absolutamente não! Vou contigo! —gritou. E se deu conta que não desejava estar separada de Malcolm. Era uma questão de segurança.

— Não pode vir comigo, moça. Não irei por muito. Uns poucos dias, uma semana, não mais.

—Uma semana —ofegou, horrorizada. — Aonde vai? Jurou me proteger! Sibylla pode decidir fazer um hambúrguer de mim enquanto está fora! E que tem que o Aidan e de Moray? Pensa Moray que tenho a página, também?

— Tenho que falar com MacNeil. Vou a Iona, e logo, ao Awe.

Ela apenas se preocupou. Agarrou-lhe ambas as mãos.

— Leve-me contigo. Não me deixe para trás.

Seu olhar se centrou na dela. Sua boca baixou e seus olhos se encheram de uma tortura que ela não entendeu. De repente, tocou sua garganta.

— Serei o que a mate —disse rotundamente.

E as pontas de seus dedos acariciaram o lugar exato no que Sibylla a tinha apertado. Seus dedos grossos e calosos fizeram com que um estremecimento delicioso surgisse.

— Não me fez mal. Sou uma covarde. Estou cansada. E o admitirei, um pouco fora de mim.

—Esta assustada. Morrerei antes de permitir que seja ferida, Claire.

Claire permaneceu quieta, e maldita fosse, sentiu um estremecimento.

—Por seus votos —sussurrou de alguma forma.

—Não. Por ti, moça. Por ti.

O coração explodiu em seu peito.

Cuidadosamente, ele olhou de seus olhos a sua boca.

Tanto desejo a fazia sentir débil. Claire sentiu a enorme tensão que palpitava entre eles.

Seu olhar lentamente subiu. E então se inclinou para ela e beijou sua garganta.

Ela ofegava enquanto sua boca acariciava a pele onde tinha sido violada. E quando o pulso em seu sexo explodiu com urgência, sujeitou sua mandíbula forte e barbuda. A promessa de tanto sexo cru percorreu o quarto. Importava algo que ele não a amasse e não lhe amasse? Nada tinha importado menos.

Ele se endireitou e a olhou.

— Está bem. —Claire respirou, desejando animá-lo.

Ele estava em silêncio.

— Jogamos com fogo, moça. —disse silenciosamente.

— Não me importa!

Seu olhar foi outra vez à deriva até sua boca e soube que finalmente ia beijá-la. E não podia pensar nenhuma só razão pela que não devesse.

— Fogo. —disse severamente. — E o mal.

 

Malcolm acariciou com sua boca a dela.

      Claire não se moveu. Tinha desejado beijar a este homem por muito tempo, e a carícia, ligeira como uma pluma, de seus lábios enviou muito desejo através dela. Nunca tinha sido beijada por um homem tão poderoso e não tinha conhecido um beijo tão gentil, tampouco. Gemeu brandamente, elevando-se até seus largos ombros. Deus bendito, desejava que aprofundasse o beijo.

Tinha uma mão a cada lado dela, pressionado contra a cama, enquanto jogava com seus lábios, lenta mas insistentemente, beijando-a uma e outra vez. A pressão aumentou constante, sua língua começou a mover-se rapidamente na comissura dos lábios. Claire não podia suportá-lo. Gritou.

Permaneceu quieto. Não se preocupou. Agarrou seus ombros, gemendo descaradamente, empurrando sua língua contra os lábios, exigindo enquanto abria mais as coxas. Por um instante, não se moveu, nem sequer para lhe devolver o beijo, enquanto ela, desesperadamente, empurrava sua língua através de sua forte boca fechada. Por que estava fazendo-o?

E então lhe agarrou a cabeça com suas poderosas mãos. Ficou quieta e ele a beijou duro, invertendo os papéis imediatamente. Seu beijo era tão exigente que sentiu a parede contra sua cabeça através dos travesseiros.

E Claire lhe devolveu o beijo, surpreendida de que tanto prazer se pudesse obter de um beijo. E maldita fosse, um beijo não era suficiente!

Enquanto ele saqueava sua boca, sua língua se fechou ferozmente sobre a dela. Claire percorreu com suas mãos seu peito duro, desejando que a maldita túnica desaparecesse. Desejava sentir cada polegada de sua pele, explorar seus músculos, provar cada polegada. Encontrou o pescoço e deslizou a mão através dele, apartando a cruz que levava, ofegando quando sentiu sua pele nua e quente sob a palma. Era tão bom...

Ele grunhiu. Tratou de mover a mão mais abaixo, mas era impossível, o pescoço não era tão profundo. Tirou a mão e desesperadamente, acariciou seu tórax e o duro e tenso abdômen sobre a túnica, fazia seu umbigo. Gritou grosseiramente quando sentiu sua enorme ereção quente e rígida empurrando contra ela.

Ia morrer se não tomava com aquela dureza...

Ele apartou a mão de seu pênis, seu apertão inflexível, rompendo o beijo enquanto o fazia.

— Não, moça. —Respirou firmemente, seus olhos brilhando selvagens.

— Maldito seja —chorou ela, retorcendo-se com uma urgência que não podia suportar. Conseguiu olhá-lo através das lágrimas, ofegando com força. Surpreendida, Claire se deu conta de que permanecia firme a alguma ideia tola que tinha sobre não deitar-se com ela. Furiosa, desesperada, desejava golpeá-lo, mas lhe sujeitava ambas as mãos e não havia forma possível de fazê-lo.

— Preciso te deixar. —disse severamente, e a liberou.

Claire se levantou, os punhos voando, esmurrando seu peito.

— Claro que não!

Ele usou o antebraço para apartar os golpes da forma que faria com uma mosca. Então, colocou sua mão bruscamente sobre seu joelho nu, pressionando sua perna contra a cama.

Ela permaneceu quieta, seu coração quase explodiu com a compreensão, antecipação, um fogo insano lambendo entre suas coxas.

—Sim —sussurrou.

Seu rosto, duro e tenso, seus olhos brilhantes. Deslizou a mão para cima por sua perna e sob sua saia, todo o caminho para a úmida fenda.

Ofegou, afundando-se contra os travesseiros, arqueando-se descaradamente para ele.

— Depressa —disse com voz rouca.

Seus olhos flamejaram, mais brilhantes e Claire tragou as quentes lágrimas quando seus nódulos acariciaram seu palpitante sexo coberto de seda. Moveu seus largos dedos calosos sob o tanga, e os manteve suspensos sobre sua carne. Seus nódulos se instalaram profundamente, onde estava mais sensível e dilatada.

— Oh Deus! —ofegou Claire.

— Aye —disse de forma densa, e subiu a saia até sua cintura, o olhar fascinado sobre ela.

— Veste um fio. Um fio com encaixe e contas.

— Por favor —sussurrou Claire.

Caminhou com o polegar lentamente sobre um dos lábios dilatados, depois desceu pelo outro. Claire se contorceu enquanto o polegar riscava a torcida linha de seu clitóris. Ela sucumbiu e se correu, estalando em centenas de pedaços, gritando sua angústia, prazer e êxtase.

E então sentiu sua língua, provando-a ali.

A pressão, deliciosa e atormentadora, renovou-se com força impressionante, enquanto sua forte língua a provava, acariciava-a, dava-lhe voltas. Tinha sido tão longo e nunca como este! Cresceu outra vez, chorando, gemendo, esfolada por sua boca, gritando em parte de prazer, em parte de dor. Não parou, provando seu limite, pressionando contra ela de novo, lhe provocando um orgasmo até maior e mais violento. Soluçou e sua língua finalmente se deteve. Ofegou, respirou e finalmente flutuou de volta à cama.

Claire se tombou, incapaz de mover-se. Não estava segura de quanto tempo lhe tinha feito sexo oral, mas tinha tido tantos orgasmos que tinha perdido a conta. Seu corpo, em realidade doía agora. E Malcolm não gozou.

O que acabava de passar? Como tinha deixado que acontecesse? E quanto a seu prazer? De novo estava sã. Não se reconhecia. Era esta sua ideia de jogos preliminares?

Ia tratar de montá-la agora, quando finalmente estava saciada, ela, que não tinha conseguido saciar-se, nenhuma só vez em sua vida, por ninguém?

Mordeu o lábio, surpreendida quando uma quebra de onda de desejo se formou com o pensamento dele movendo-se sobre ela, dentro dela. Mas ele estava imóvel. Sua bochecha descansava intimamente sobre sua coxa e era extremamente consciente da enorme tensão do corpo duro e rígido.

—Malcolm. —Não reconheceu sua própria voz.

Finalmente, deu-se conta de que estava em meio de algum tipo de batalha interna.

Respirou dura e severamente. Sua mão se moveu sobre seu sexo, só uma vez, uma carícia varredora.

Abandonou a cama, lançando o cobertor sobre ela, e seus olhares se encontraram.

Instantaneamente se sentou, alarmada. Seus olhos brilharam com luxúria. A fome que viu era francamente terrível. Sua cara era dura e uma enorme ereção se levantava contra o linho, fazendo que sua boca se secasse e seu coração correu de novo. Claire levantou o olhar para seus olhos brilhantes, começando a tremer.

Morreu tomando seu prazer de mim.

      Talvez essa mulher tivesse morrido porque ele era tão sexual e tão forte.

     Era um pensamento horroroso.

Ele se girou e se foi.

Claire ofegou, com os olhos muito abertos. Cada instinto era de correr atrás dele, mas, por quê? Não necessitava consolo, verdade? Necessitava sexo, mas tinha dado, não pedido, nada em troca. Inclinou-se contra os travesseiros, assombrada. Talvez fora tempo de reconsiderar sua opinião sobre ele.

Permaneceu completamente quieto sobre as muralhas, entre duas torres, o sussurro de uma brisa prematura da manhã aplanava a camisa contra seus ombros nus, sua mão agarrava o punho da espada. A tensão vibrava dentro dele. Um frio glacial havia talhado Urquhart no momento em que tinha passado através da guarita. Moray estava lhe esperando.

Seu estômago se atou. Houve muitas advertências e as tinha ignorado, todas. Olhou para cima do lar e para baixo, mas ninguém mais estava presente. Olhou para baixo, primeiro no terreno fora das muralhas aos camponeses ali, e depois ao ventre azul prateado do cabo Ness.

Uma brisa passou, sussurrando seu nome:

—Calum

E a voz não era o vento, a não ser Moray. O senhor da escuridão, seu inimigo mortal.

Tremeu com raiva e ódio, e abriu a porta de madeira da torre de pedra.

A escuridão fluiu sobre as muralhas como uma tormenta que se aproximasse, embotando a luz do sol nascente, e por um momento, não pôde ver.

Moray lhe sorriu.

Seus dentes eram surpreendentemente brancos. Sua pele estava bronzeada por séculos de sol, mas parecia ter trinta e cinco, se acaso. Ia vestido à maneira da corte inglesa, uns calções escarlate, um boné dobro de lã negra, uma capa vermelha e negra sujeita sobre o ombro por um broche de ouro e rubis. Moray era o Defensor do Reino e o conselheiro favorito do rei James.

— Estive te esperando, Malcolm —ronronou Moray, sorrindo.

— Tha mi air mo sharachadh. Estou cansado disto.

Moray parecia desfrutar, seu sorriso se ampliou.

—Então, o que te tomou tanto tempo? —elevou a espada e esta soou enquanto se deslizava da capa.

O pensamento desapareceu. A prudência se foi. Tirou sua espada e se lançou.

— Ao Bhrogain!

Moray encontrou o golpe facilmente, e quando as duas enormes espadas se encontraram, soube que estava enfrentando ao tipo de força e poder que nunca se imaginou. Nunca tinha perdido uma batalha, mas nesse momento, duvidou de sua habilidade para vencê-lo.

Desviou cada golpe como se fora um menino em fraldas.

A batalha se voltou absurda. Moray jogou com ele enquanto não fazia nenhum esforço para dirigir sua espada. Deveria ter escutado, deveria ter esperado. Seus poderes eram muito novos, muito imaturos. E repentinamente Moray empurrou, passando suas defesas e sua espada se afundou profundamente no músculo e a carne, até o osso.

Ofegou quando uma terrível compressão começou, acompanhada de uma dor ardente e calor.

Moray sorriu, empurrando a lâmina mais completamente em seu corpo, através de tendões e músculos, e esteve totalmente trespassado contra a parede. Retirou-se, a lâmina gotejava seu sangue.

Tratou de lutar com a repentina e terrível onda de debilidade, mas foi impossível e se afundou no chão. A torre tinha permanecido surpreendentemente quieta. Afogou-se pela dor, a fúria, o sangue, dando-se conta que Moray tinha desaparecido.

Fechou os olhos fortemente, mas não contra a dor ardente em seu peito. Tudo no que podia pensar eram os sagrados votos que recentemente tinha feito. Fazia voto sobre os livros antigos e sagrados no lugar santo, para defender a Deus e à humanidade. Mas o demônio só tinha deixado a torre, caçaria ao Inocente de um lado ao outro do reino, em todos os tempos.

E nesse surpreendente momento de claridade e compreensão, sabia que devia viver para proteger ao Inocente, como Brogan e seus antecessores fizeram.

Uma terrível luxúria começou. Era a luxúria de viver, e rugia.

De algum modo, moveu-se sobre seus pés, agarrando o peito que sangrava. Seu corpo gritava por vida. Os impulsos começaram de repente, imediatamente compreendeu o impulso de tomar o poder para poder se restabelecer. Mas estava sozinho e sua vida era drenada rapidamente. Enquanto a morte se arrastava sobre ele, rezou a quão antigos haviam trazido os primeiros Mestres à Terra.

Uma mulher se apressou na torre, gritando seu nome com alarme.

Estava perto de morrer. Estava desfocada no contorno, dançando diante de seus olhos, a torre nadava em sombras cinza. E estava surpreso, porque sabia que tinha sido enviada para ele.

Correu para ele. Antes que inclusive lhe houvesse meio doido, deu-se conta que era jovem, sã, saudável e cheia com tanta força de vida que lhe afogou. Estirou-se para ela. Ajudou-lhe a levantar-se e sentiu o poder, fluindo por suas veias.

Gritou, aliviado.

Ela se cambaleou e ele a sustentou. Com cada momento de união, sua força voltou, incrementando-se e intensificando-se. Era bom... e voltou triunfante.

Jogou a cabeça para trás contra a parede, gritando enquanto o poder crescia dentro de suas veias. E com o aumento da força, voltou a sensação de invencibilidade, a compreensão de que não morreria. A euforia rugiu nele, nunca tinha conhecido tanto poder. Nunca tinha conhecido tal êxtase. Surpreso, deu-se conta de que suas veias se dilataram, também. Inclusive mais êxtase lhe chamava.

Empurrou-a mas perto dele para que pudesse sentir sua luxúria, e seus olhos se alargaram.

—Aye —disse bruscamente. — Deixe-me te dar agradar, moça.

—Senhor —sussurrou, lhe rodeando com os braços.

Voltou-se de costas para a parede, apartando sua camisa e suas saias. E não pôde esperar. Apartou suas coxas e se empurrou duro, direto e profundamente. E enquanto chegava, teve que tomar inclusive mais dela, sentia-se muito bem.

Estava cego pela luxúria, o poder, o êxtase dela, o seu. Sua vida se movia desde ela em ondas enormes, raivosas e o poder aumentou cem vezes mais. Ela chorava e suplicava. Ele não se inteirou. Tinha estado de farra desde que tinha quatorze e nunca tinha experimentado tanto êxtase, nem soube que existia. Correu-se de novo, suas vísceras nunca se afrouxaram. Tinha mais virilidade da que um homem normal deveria reclamar.

Este era um poder com o que não tinha sonhado.

E o poder o cegou, lhe mantendo grosso, lhe permitindo uma resistência terrível. Uivou seu prazer à saída do sol. Esta vez seria capaz de matar ao Moray.

E então se deu conta de que a mulher estava finalmente quieta.

Olhou seu peito. Sua camisa estava empapada de sangue, mas a ferida estava fechada. Havia só uma crista cicatrizada sobre o mamilo esquerdo.

Devia sua vida a esta mulher. Embalando-a, cheio de gratidão, com cuidado a deixou-a no chão. tirou-se a capa e a estendeu sobre ela, então se levantou. E se deu conta de que Moray estava presente.

O demônio saiu das sombras, seus olhos acesos e vermelhos.

E estava rindo dele, Malcolm sabia.

O temor começou. A criada jazia, imóvel.

Não. Ajoelhou-se a seu lado. Girou-lhe a cabeça para ele e encontrou seus olhos azuis abertos e sem expressão.

— Bem-vindo, irmão. Bem-vindo aos prazeres da morte.

Malcolm ficou de pé abruptamente, lançando sua taça de vinho grosseiramente ao chão. Era meia-noite, e estava sozinho no grande salão, exceto por um par de cães de estimação. Os cães lhe olharam, impassíveis.

Não se tinha permitido pensar no Urquhart em meses. Tinha empregado três anos expiando seus pecados, lutando com a culpa. Tinha pensado que tinha o controle firmemente. Tinha tido centenas de mulheres desde o Urquhart, mas não houve tentação. Mas isso era uma mentira.

Não tinha o controle. Pensou no Urquhart agora. E logo pensou na mulher que dormia no piso de cima, outra criada inocente, uma mulher que era tão sedutora, que desejava provar sua vida.

Três anos atrás, tinha pensado em si mesmo como o caçador, mas tinha estado equivocado. Moray lhe tinha caçado; tinha caçado sua alma.

E agora, a mulher lhe tentava de uma forma inimaginável. Pensou que sua alma estava a salvo, mas estava equivocado.

Claire foi convocada à alvorada seguinte. Seus olhos apenas abertos, encontraram o olhar de um menino pequeno que a empurrou, sorriu-lhe e a convidou a vestir-se e comer. Gesticulou rapidamente para a porta e partiu. Ela se sentou, aproximando uma pele a seu corpo, sentindo como se tivesse uma ressaca enorme.

Mas não tinha ressaca, não no sentido convencional da palavra. E seu pulso se acelerou quando recordou que estava na Escócia medieval, e a noite passada, Malcolm lhe tinha feito amor.

Sentiu o punho do desejo golpeando seu peito e ventre. Olhou seu quarto, ao pequeno fogo no lar, a mesa raquítica onde estava um jarro de água, e a estreita janela. A portinhola tinha sido aberta e o céu fora estava avermelhado.

Embora não tinha acreditado ser capaz de pregar o olho ontem, o esgotamento rapidamente a tinha reclamado depois de que Malcolm partiu. Tinha dormido como um tronco até o golpe na porta do quarto.

O menino claramente desejava que se apressasse, e sabia por que. Estava muito acordada agora. Iam a Dunroch. Uma excitação genuína começou.

Mas também havia apreensão. Era a luz de um novo dia. Estava a ponto de ver Malcolm, e ontem, bom, comportou-se como uma mulher que não conhecia. E maldita fosse, não ia esquecer nunca como lhe tinha dado prazer, sem lhe pedir nada em troca.

Claire se lavou, usando a água gelada, esperando que fora o suficientemente cavalheiro para não comentar o que tinha passado entre eles. E sobre Sibylla? Como seria sua viagem? Jogou a capa de Malcolm sobre seus ombros, sua confusão aumentando, e desceu as escadas. Só as criadas de serviço estavam no grande salão e se sentiu decepcionada, mesmo não querendo estar. Tinha fome, não estava segura de quando tinha comido pela última vez. Sentou-se ante uma enorme bandeja de pão, queijo e vários tipos de pescado defumado, assim como uma tigela de papa de aveia. Comeu rapidamente, usando um garfo de duas pontas, uma faca ordinária e uma colher, impaciente por deixar o salão. Enquanto comia, manteve o olhar para a grande porta, mas não se abriu.

Apartou a bandeja. Teria que enfrentar Malcolm cedo ou tarde, e não sabia o que dizer, como agir ou que fazer. Mas tinha que fazer frente ao feito de que não tinha desculpas. Seria hipócrita fingir as ter. Tinha necessitado uma noite como essa.

Sentiu as bochechas arder. Malcolm era um amante generoso. Ia romper todos os estereótipos. Nunca voltaria a pensar nele como em um macho medieval idiota de novo. Era definitivamente complicado, intrigante e muito, muito sexy. Não lhe importaria compartilhar sua cama.

O mero pensamento a fez sentir-se débil e enjoada.

Não vá por aí, advertiu-se, dirigindo-se para a porta. Conhecia-se. Se alguma vez realmente dormisse com ele, apaixonar-se-ia. E essa era uma má ideia. Não devia ser carinhosa com ele. Só uma parva ou uma louca se preocuparia com Malcolm, considerando as circunstâncias, advertiu-se de manter seu interesse por ele puramente acadêmico.

Abriu as portas e encontrou com uma rajada de vento gelado das Terras Altas; não importava que fosse verão. Deteve-se no alto das escadas. Uma dúzia de homens estava montando seus cavalos no outro pátio. Justo debaixo dela, Malcolm estava de pé ao lado de dois cavalos selados, falando com Royce. Como um, ambos os homens se giraram para olhá-la.

Seu olhar encontrou ao de Malcolm e ela se ruborizou. Isso era, pensou, do mais incômodo. Eram virtualmente estranhos. Começou a descer as escadas, evitando seus olhos.

Provavelmente pensava que era realmente rápida e de moral duvidosa, embora isso não podia estar mais longe da verdade.

Malcolm caminhou rapidamente a frente.

— Dormiu bem? —perguntou. Seu olhar era direto e observador.

Referia-se a que fisicamente tinha sido tão saciada que se deprimiu, não podia dizer-lhe. —Sim. E você?

Quis ser educada, mas no momento em que falou, desejou não havê-lo feito. Provavelmente tinha se sacudido e dado voltas toda a noite.

Seu olhar se intensificou. Então se encolheu de ombros, seu olhar descendo para sua garganta. Começou a desprender o broche com o que tinha fechado torpemente sua capa.

— Precisa de roupas —disse. — Ocupar-me-ei disso em Dunroch.

Sacudiu a capa larga e de forma curiosa em seus ombros, sacudiu-a, dobrou-a, não o suficientemente uniforme e a cobriu com ela, sujeitando-a a um ombro. Agora caía até seus joelhos, cobrindo firmemente as coxas e a saia.

Ela tragou.

— Obrigada.

A mera carícia de suas mãos causou um estremecimento de prazer. Como ia manter-se centrada nos livros, o lugar sagrado, a sociedade secreta, tudo menos no homem mesmo?

Seu olhar se centrou na dela.

— Não sou o único homem com olhos —disse com um sorriso ligeiro. Cabeceou fazia Royce, cuja expressão era irônica.

Ao Claire não importava se seu tio tinha estado lhe olhando abertamente as pernas ou algo mais. Era difícil pensar claramente com Malcolm abatendo-se sobre ela, sendo possessivo. Desejava poder lhe dizer o que pensava da noite anterior. Provavelmente, tinha uma mulher diferente em seus braços cada noite, o que significava que seu pequeno interlúdio não era um grande trato para ele. E isso era o melhor. Porque estava longe de ser um trato para ela, e precisava manter uma boa perspectiva, não importava quão forte pudesse ser.

      Ajudou Claire a montar e se deu a volta para subir em seus própria arreios. Ela se deu conta de que lhe tinham dado o cavalo mais velho e tranquilo, por isso estava agradecida. Moveu-o para Royce.

— Obrigado pela habitação, a cama e o café da manhã —disse.

— Foi um prazer, lady Claire. Boa viagem.

Seu sorriso foi completamente masculino e só um pouco sabedora. Claire esperava não ter sido tão ruidosa que ontem à noite a tivesse ouvido gritar.

— Adieu.[27] — Corou e moveu seu cavalo, lhe passando.

Malcolm assinalou o rodeio e as tropas formaram uma linha detrás dele e Claire. Ele se girou fazia Royce.

— Falarei contigo antes de voltar do lago Awe.

Royce assentiu mas agarrou a brida do Malcolm.

— Não faça nada precipitado.

Malcolm riu tensamente. Então levantou a mão, jogou uma olhada a Claire, e se moveram para a passagem sob a porta do guarda. Depois de passar pelo escuro túnel de pedra, montado lado a lado sobre o alçapão através das sombras escuras, a luz do sol fora quase cegando.

Uma nova tensão se apoderou dela enquanto abandonavam a úmida e fria passagem.

Era outra manhã medieval, seu segundo dia no passado. Tinha passado tanto do salto que se sentia como se tivesse estado semanas no século XV. Embora não sabia se a viagem de Carrick a Dunroch era seguro, tinha estado muito excitada para preocupar-se. Dunroch tinha sido sua meta desde o começo e nessa tarde, estariam ali. Logo estaria no santuário de Iona, porque ia com o Malcolm, não importava o dissesse e o que quisesse. Não ia ser deixada atrás.

Porque era um santuário sagrado, estava guardado pelos Mestres. Malcolm lhe havia dito indiretamente isso. Estava descobrindo uma sociedade secreta que nenhum historiador tinha revelado.

Estava vivendo a história das Terras Altas. Esta era uma oportunidade incrível. Seu medo tinha diminuído muito. Tinha sobrevivido à viagem no tempo, uma batalha brutal, um assalto violento e à luxúria do Malcolm, e tudo no lapso de algo mais de vinte e quatro horas.

      Não sabia quando voltaria para casa, embora estivesse determinada a fazê-lo. Até que esse momento chegasse, ia aproveitar este giro do destino. Ia centrar todo seu interesse na sociedade secreta, os livros secretos e as guerras políticas engendradas por eles, e em evitar Sibylla, também. E ia esquecer o que tinha passado a noite anterior. Malcolm parecia indiferente. Seria indiferente, também. Era melhor estar separada de cada forma possível. Sua atenção sobre Malcolm seria como se fosse um artefato de tipo histórico, porque era um lorde e um Mestre do século XV.

Ele a estava olhando. Esperava que não sentisse seus pensamentos.

— É uma manhã magnífica —disse sorrindo.

Enquanto falava, uma águia se levantou sobre suas cabeças.

—Aye —disse sinceramente, seu tom evasivo, seu olhar afiado. — Aye.

Dunroch era tão escuro como as altas rochas sobre as que se assentava. Debaixo havia praias com rochas pulverizadas e a vasta enormidade do oceano Atlântico, cinza metal. Mas lá, envolta pela névoa, estava o pico de Ben More. Inalou enquanto conduzia seu cavalo pelo Barbacã[28].

Só tinha passado uma hora em Dunroch, dois anos atrás, e não tinha vindo a cavalo e depois em um galeão, remando através do estreito e do oceano com seis homens das Terras Altas. Tinha chegado lá em um carro alugado, através de estradas descuidadas, dirigindo-se para o sul e ao oeste ao longo da orla para chegar a Dunroch antes que fechasse. Tinha sido uma tarde cinza então, também. A ilha frequentemente era golpeada pelas inclemências do clima oceânico, mas tinha encontrado carros estacionados junto das paredes do castelo. Não tinha estado no Barbacã, só alguns grupos de pedras que indicavam que alguma vez ali existia um.

Agora, o fosso que rodeava por três lados ao castelo, estava cheio. O lado oeste se assentava sobre rochas escarpadas que caíam sobre o oceano. Ela e Malcolm esperaram sobre seus cavalos, enquanto a ponte levadiça era lentamente baixada sobre o fosso pelo que Claire suspeitava que era um sistema de roldanas.

Ela tremeu, a boca seca. Era tão diferente; mas surpreendentemente o mesmo.

— Moça, as salas públicas fecham em uma hora. Pode voltar na quinta-feira e não perderá seu dinheiro —lhe disse um desdentado escocês com o cabelo branco, tentando ser útil.

Claire estava enjoada e débil, provavelmente por ter dirigido a uma velocidade suicida através da ilha pelo lado equivocado da estrada.

— Não estarei aqui na quinta-feira, vou para casa amanhã. —Tinha comprado os ingressos, apenas incapaz de concentrar-se no homem que os vendeu, desejando que não se movesse com tamanha lentidão. Tinha tremido com excitação e tensão. E enquanto se apressou sobre a ponte levadiça, tinha pensado: Então é isso.

Claire se deu conta de que a ponte estava baixada e Malcolm estava esperando-a para que lhe unisse. A ponte levadiça era muito menos elaborada que a de Carrick, e esta compreendia uma torre ampla e circular. Só levou um momento passar por baixo.

Tinha esquecido os sentimentos intensos que tinha tido então, mas estava tendo os mesmos sentimentos agora. Dirigiu sua égua para o alto, olhando à parte frontal do castelo. E as mesmas palavras sussurraram através de sua mente.

— Então é isso.

Ficou rígida, olhando ao redor do pátio interior e ao pátio exterior que ficava ao norte, dentro das paredes das muralhas. Sabia que Malcolm estava olhando mas não podia lhe olhar, porque sua mente estava girando.

Suas férias completas tinham sido planejadas ao redor deste lugar, com a esperança de encontrar ao lorde de Dunroch. Se pudesse aceitar que este era seu destino, então havia uma pergunta monumental: Por quê?

Seguro, seguro que não podia ser sobre Malcolm.

— Estás encantada, moça —disse Malcolm. — Você gosta de minha casa?

Apartou o olhar das cabras e as ovelhas do pátio mas abaixo, molhando os lábios. Seu coração revoou.

— Estive aqui antes, faz dois anos. Por que, Malcolm? Por que crê que estou aqui agora, em seu tempo, não no meu?

— Entendo que quer dizer por que te trouxe de volta.— Estimulou seu cavalo para adiante e Claire lhe seguiu. Vários homens se materializaram do vestíbulo no pátio. Um escocês alto e com o cabelo branco se apressou ante eles.

Ele desmontou em frente da entrada principal do castelo, um portão de painéis de madeira tachonada formando uma murada de encontro à torre. Deu o cavalo a outro homem.

— Faço-me as mesmas perguntas, moça. Os Antigos têm caminhos estranhos e inexplicáveis.

Significava isto que também acreditava no destino? Quanto a Sibylla? Acreditava que podia tentar me encontrar aqui? Tinham se esforçado para não perder o controle sobre o fato de que outra mulher estava seguindo-a ao redor das Terras Altas, aparentemente com algo pendente contra ela.

Sua cara se obscureceu.

— Seria um idiota para fazer isto. Estou preparado para ela e os de sua classe agora. —Ofereceu-lhe outro sorriso, antes de estirar-se para ajudá-la a desmontar.

Antes que Claire pudesse perguntar como estavam preparados para ela e o que, exatamente, queria dizer “sua classe”, um chiado estridente soou. Girou-se e viu um pequeno menino voar aos braços do Malcolm. Levou um segundo até se dar conta de que era seu filho, e seu interior deu um solavanco com uma força doentia.

Malcolm girou ao pequeno menino moreno. Então falou rapidamente, em francês.

— Obedece ao Seamus, moço?

— Sim pai, obedeço. Inclusive montei um garanhão. —disse orgulhosamente—. Vai haver um grande jantar esta noite.

Malcolm acariciou o cabelo do menino, sorrindo com aprovação.

O homem com o cabelo cinza caminhou para adiante.

— Há uma excelente prateleira na parede, Malcolm. Uma dúzia de pontos.

Ele sorriu e golpeou seu ombro.

— Seamus, Brogan, eu gostaria de lhes apresentar a nossa convidada, lady Camden. Vem do sul —acrescentou. Seus olhos cintilaram quando seu olhar encontrou Claire.

Ela não podia sorrir. Malcolm estava casado.

Sentiu-se débil e incapaz de mover-se. Permaneceu sentada sobre seu cavalo. É obvio que estava casado. O matrimônio era uma ferramenta importante no equilíbrio de poder sempre cambiante entre os grandes nobres e o rei. Provavelmente tinha se casado por um benefício político, geográfico ou financeiro.

Mas não disse uma palavra. Nenhuma maldita palavra.

E ela era uma idiota, porque deveria ter sabido.

Tratou de dizer-se que isto era o melhor, mas estava afligida pela consternação. De todos os modos, se estava apaixonando-se por este homem, então era um afortunado giro dos acontecimentos. Seu matrimônio seria uma barreira entre eles que não se romperia.

Malcolm olhou para Brogan.

—Vá ao salão central e ordene que a câmara maior esteja pronta para nossa convidada.

O menino assentiu com impaciência e saiu correndo. Malcolm lhe chamou.

— Com vinho e refrescos, meu jovem, e fogo. Lady Camden se esfriou um pouco. Seamus, falarei contigo em um momento.

—Aye —Seamus se deu a volta e se foi a passos largos.

Malcolm tomou sua mão.

— Brogan é meu bastardo, Claire. Não estou casado. Mas te vê como se alguém tivesse morrido.

Houve tanto alívio.

— Desce. —disse brandamente.

Ela escorregou do cavalo, começando a pensar mais claramente. Tinha estado tão devastada porque não estava disponível, e agora estava fraca de alívio. Oh, Deus, se estava genuinamente interessada neste homem, tinha um grande problema.

Conseguiu encontrar algo de seu engenho.

— Como sabe o que estava pensando?

Ele vacilou.

— Disse-lhe isso antes, seus pensamentos são tão altos, que são fáceis de ouvir.

Claire cruzou os braços sobre o peito.

— Começo a pensar que tem poderes telepáticos, também.

— Não entendo todas as palavras que diz, moça.

— Pode ler minha mente?

Olhou-a.

— Oh, meu Deus! —disse Claire, sacudida—. Pode ler minha mente, verdade?

— Esse é outro dos meus pequenos dons — disse, mas corou.

Analisaria as ramificações deste pequeno dom em particular em outro momento. Justo agora, estava furiosa.

— Precisa respeitar a privacidade de meus pensamentos —disse duramente—. Isto não é nenhuma feira em que escute às escondidas o que estou pensando.

Sorriu, levantando o queixo, girando seu olhar potente sobre ela.

— Mas se eu não tivesse escutado, em claro e bom som, o que acabou de pensar, ainda estaria com lágrimas nos olhos, pensando em como negar o que se passa conosco.

Seus olhos se arregalaram. Ele esteve atuando como se nada tivesse acontecido durante todo o dia.

— O que há entre nós? Nem sequer sabia que recordasse ontem pela manhã —disse tensamente—. E não me importa se está casado!

— Mentirosa

Sentiu que suas bochechas ardiam.

— Bem, talvez me importe um pouco. Mas só porque, em meu tempo, é errado deitar-se com um homem casado. —Logo acrescentou. — É errado em seu tempo, também, e sabe.

— Alegro-me de não ter feito tais votos, Claire —murmurou sedutoramente. Suas pestanas grossas e escuras baixaram—. Crê que não escutei seus gritos toda a noite? Não dormi, Claire, por ti.

Seu coração deu um tombo, forte.

—Bem —conseguiu dizer densamente. O desejo surgiu—. Bem.

Seu sorriso era tão belo como o sol elevando-se mais cedo esta manhã.

—Não entendo porque desejava ir a Dunroch em seu tempo. Não entendo porque te desejo tanto. Mas acredito que há respostas que encontrar, talvez na Iona.

— Iona —repetiu, instantaneamente divertida.

— MacNeil é quase tão velho como os Antigos, moça —disse—. Encontrarei as respostas ali. E não pense em Sibylla agora. Estás a salvo comigo. Venha. —Caminhou sob o arco, desaparecendo pela guarita.

A mente de Claire cambaleou. Estavam as respostas de sua presença no passado em Iona? Deus, esperava-o! E isso significava que Malcolm retomaria agora de onde tinham parado ontem?

Apressou-se atrás dele. Um pequeno pátio estava ao outro lado da porta da guarita e Malcolm estava subindo as escadas do grande vestíbulo. Ela acelerou o passo, entrando na grande câmara.

A disposição dos elegantes assentos tinha desaparecido, como a coleção de espadas. Em troca, havia uma larga mesa de cavalete, bancos e cadeiras de vários períodos. Tapeçarias cobriam a maior parte das paredes; suas cores eram brilhantes e novas.

Estava servindo cerveja de uma jarra na mesa. Claire se endureceu enquanto se aproximava.

— Encontraremos as respostas em Iona juntos —disse firmemente.

Jogou-lhe um olhar divertido.

— Não hei dito que viria à ilha comigo, moça.

— Irei, contra vento e maré —espetou. — Estivemos de acordo ontem!

Apurou a taça e suspirou.

— Já falamos com muita audácia de assuntos que são privados.

—Você sabe que pode confiar em mim. —A Claire ocorreu que confiava nela porque podia ler sua mente é pelo que confia em mim, verdade? Fareja em meus pensamentos!

Ele corou.

— Interessa-me.

Estava impressionada, mas agora não era o momento.

— Malcolm, isto é muito importante para mim!

— Não é permitida na ilha —espetou.

Claire ficou rígida.

— Não acredito. Um monastério sempre abre suas portas aos viajantes.

Cruzou os braços sobre o peito e seus bíceps se avultaram. Parecia muito aborrecido, mas não havia forma de que ganhasse.

—Se você voltar de Iona e eu estiver morta, assassinada por Sibylla de forma inexplicável, nunca será capaz de se perdoar. Primeiro a criada, em suas mãos, e depois eu, sua Inocente, pela Sibylla.

Seus olhos se arregalaram.

Nesse momento, Claire soube que tinha ganhado esta guerra em particular, e o lamentou. Não tinha intenção de ser cruel ou desumana. Não tinha quisto utilizar sua culpa contra ele e lhe infligir mais dor.

Inclinou sua cabeça, sua boca se girou dessa forma que agora conhecia, um sinal de sua tortura interna.

—Vamos ao amanhecer —disse sem inflexão.

Ela mordeu o lábio, querendo dizer que o sentia. Mas o grito alegre de uma mulher soou. A Claire não gostou do giro dos acontecimentos.

Com temor, girou-se.

A mulher se precipitou para Malcolm, radiante.

— Estas de volta! E a salvo, graças a Deus!

A mulher tinha o cabelo loiro escuro, era de média estatura e bastante bonita. Ainda pior, sua figura era luxuriosa e destacava-se. Falava francês como se tivesse sido criada na França, mas estava vestida ao estilo inglês, com um vestido e uma capa de cor vermelha escuro. Usava pendentes de ouro, um colar de ouro e anéis com pedras que a Claire pareceram semipreciosas. Em definitiva, era uma mulher nobre de bom ver e claramente envolta com Malcolm.

A expressão escura de Malcolm não se suavizou.

—Glenna, dê boas-vindas a senhora Camden à Dunroch. Claire, está é minha prima, senhora Glenna NicPharlain do castelo de Cean.

Claire ficou rígida. Não estava casado mas tinha uma amante. Não lhe cabia a menor duvida. Seu sorriso se voltou irritada. Odiou à mulher.

— Fale inglês em honra a nossa convidada —disse Malcolm a sua amante, que olhava surpreendida a Claire. — Glenna mostrará seus aposentos. Espero que sejam de seu agrado.

Não tinha ideia se seguia zangado com ela por suas táticas. De algum jeito as engenhou para lhe dedicar uma breve e tenso sorriso.

— Obrigada.

— Por favor me acompanhe, lady Camden.

Claire a olhou enquanto Malcolm ia embora. Quase desejava não ter vindo a Dunroch, mas isso era infantil.

—Malcolm deseja que suba. —Glenna fez gestos para o corredor que se abria mais à frente do vestíbulo.

Enquanto subiam as escadas, Claire voltou sua atenção para a mulher loira. Odiava ser má e mesquinha, mas não entendia o que via Malcolm na Glenna. Para os padrões medievais, a mulher já não era um franguinho. Provavelmente tinha a mesma idade de Claire, mas com sua pele fina e sem os benefícios modernos dos hidratantes, exfoliantes e nutrientes, tinha pés de galinha nos olhos e suaves rugas na frente. Sendo bonita de maneira comum[29], via-se opaca e fatigada. Claire imaginava a Malcolm com uma beleza espantosa... Estilo do Catherine Z-Jones ou Angelina Jolie. Mas é obvio, isso também a deixava fora.

—Assim —disse Claire quando estiveram no último piso—, quanto faz que conhece o Malcolm?

Glenna a olhou enquanto abria uma porta de um empurrão.

—A maior parte de minha vida.

Genial, pensou Claire. Glenna e Malcolm se conheciam um ao outro sempre; ela o conhecia há três dias. Provavelmente, além de amantes fossem melhores amigos, possivelmente ele a amasse profundamente. Era ridiculamente clássico. Mas era preferível inteirar-se agora, melhor antes que depois.

— E você é das Terras Baixas[30]? —perguntou a Glenna. Soava curiosa, e não muito brilhante.

— Vivi fora do país a maior parte de minha vida —disse Claire concisamente, evitando a pergunta.

Glenna fez uma pausa, com a mão na porta.

— Como conheceu Malcolm?

Claire vacilou.

— Também somos primos longínquos. Muito longínquos —acrescentou.

Glenna abriu muito os olhos.

— Mas nunca ouvi falar de sua família.

Claire se rendeu. Viu-se forçada a admitir que estava realmente chateada, o que só servia para provar que este giro dos acontecimentos era uma bênção disfarçada. Agora o que desejava era estar sozinha para poder superar sua breve implicação com um machista medieval. Entrou passando ao lado da Glenna... E se apaixonou.

Da janela do primeiro piso, o brilhante cinza do oceano Atlântico se estendia até a eternidade. Mas se olhava um pouco para o oeste, podia ver as densamente mastreadas costas do Argyll[31] e as montanhas escuras além dos farrapos de névoa. Tratou de imaginá-la vista em um dia ensolarado e instantaneamente soube que a água seria da cor das safiras, e os bosques da cor das esmeraldas.

—Camden é um nome estranho. Nunca o tinha ouvido. É um nome inglês? —perguntou Glenna—. É aparentada com a mãe do Malcolm?

A mente de Claire se disparou. Era inglesa a mãe do Malcolm? Muitas das famílias importantes das Terras Baixas o eram. Que parentesco poderia reivindicar?

— Meu marido, que em paz descanse, era seu primo.

Glenna ficou pálida.

— Mas certamente tornastes a te casar.

Claire lhe seguiu a corrente.

— Em realidade não, não o fiz. Estou sozinha. —Sabia que era verdadeiramente mesquinho sentir-se triunfante nesse momento, mas também sabia que não seria a última a rir.

—Malcolm te trouxe aqui para me substituir, não é?— Glenna tremia e tinha os olhos alagados em lágrimas—. Tem pensado casar-se com você?

Claire ficou tensa. Demônios, sentia pena de Glenna.

—Não vamos casar. Nem sequer nos conhecemos —disse brandamente. Logo se deu conta de quão ridícula era semelhante afirmação no século XV, quando os matrimônios se faziam por conveniência e não por amor.

Glenna se engasgou.

— Vou-me casar com ele. Sou sua prometida.

Claire ficou rígida.

—Oh. Não sabia.

— Não deixarei que me roubem —advertiu Glenna—. Estou aqui há seis meses. Todo mundo sabe que nos vamos casar.

— É oficial?

— O que?

— Em que data será?

— Logo —gritou. — Logo marcaremos a data!

Era estranho que não se fixou a data e se sentiu aliviada, embora sabia que não deveria. Provavelmente Malcolm se casaria com sua prima. E se não se casava com Glenna, haveria alguém mais. Era a forma em que se faziam as coisas em seu mundo.

E Glenna pertencia a esse lugar. Ela sim, Claire não. Devia superar esse fato... e a ele. Não tinha sentido odiar Glenna; não eram rivais. A natureza gentil de Claire ganhou a batalha.

—Escuta. Não tem que preocupar-se por mim. Não ficarei muito tempo neste lugar.

Glenna piscou para reter as lágrimas.

— Quem lhe enforcará[32]? O que você fez?

— Não me vou casar com Malcolm —disse seriamente. Duvidou. E embora provavelmente Malcolm discrepasse, o que tinham feito não era correto. — Logo irei para casa. Não tem nada do que preocupar-se. Ao menos, não deve preocupar-se por mim.

— E onde é sua casa? —demandou Glenna, enxugando-os olhos. — E quando retornará?

—Sou inglesa —disse Claire—. Retornarei a Inglaterra. Quando, não sei, não exatamente.

Ambas as mulheres ficaram olhando-se fixamente. Finalmente Glenna disse:

— E quando vier a você esta noite? Não o negue... sei que o fará. Conheço-lhe muito bem.

O coração do Claire começou a lhe esmurrar o peito.

—Fecharei a porta com ferrolho —disse. E o dizia a sério.

Claire tinha dado a si mesma uma excursão pelo torreão[33], tomando cuidado de evitar os baluartes e as muralhas. Logo, tinha tomado um banho e se vestiu, e para quando Brogan apareceu em sua porta, com um sorriso a que faltava um dente de leite, para lhe dizer em um altissonante inglês que Malcolm a estava esperando na planta baixa, tinha voltado para seus cabais. Agora estava vestida como uma mulher das Terras Altas, com um adorno comprido até os pés e toda a roupa íntima, e enquanto descia para o vestíbulo, recordou a si mesma que tinha superado Malcolm. De fato, na verdade se alegrava por ele e Glenna. Sentia-se aliviada. Era um machista medieval e não tinha sentido ter nenhum tipo de relação com ele. Isto era o melhor. Agora podia concentrar-se em aprender tudo o que pudesse sobre o santuário, os livros e a sociedade secreta dos Mestres. Podia enfocar-se em evitar a Sibylla e a sua “raça”. Estava ansiosa para que chegasse o dia seguinte e sua excursão a Iona... Mais, mal podia esperar.

Sorriu convencida, acariciou o incrivelmente suave vestido de linho, assegurando-se que o tecido não se amontoasse sobre o cinto —em definitivo tinha uma cintura muito pequena—, ajustou as tiras de sustentação e seus peitos, e começou a descer a estreita escada de pedra. No momento em que se aproximava do vestíbulo, ouviu a voz da Glenna, afogada pelos soluços.

Claire vacilou e titubeou. Logo, em vez de ir ao vestíbulo, precipitou-se contra a parede, perto da entrada. E olhou para dentro.

— Como pode me fazer isto? —chorava Glenna—. E tudo porque tem uma amante nova?

— Já tomei uma decisão —disse Malcolm com calma.

— Odeio-te! —gritou Glenna.

—Se te acalmar, é mais que bem-vinda para jantar conosco. Mas não tolerarei essas lágrimas em minha mesa. —Seu tom tinha uma nota perigosa.

Claire não podia acreditar. O que tinha feito Malcolm? Quase soava como se tivesse terminado com a Glenna... E estava segura de que sabia o motivo. Sentindo-se instantaneamente ultrajada, aproximou-se mais à porta mas não entrou. Agora podia ver Glenna chorando pateticamente, quase teatralmente, e Malcolm aparentemente impassível, embora se via bastante vexado.

— Por todos os deuses! —disse bruscamente Malcolm ao final—. Atua como uma esposa que foi enviada a um convento francês! O matrimônio está arrumado, Glenna. Deixa de chorar. É hora de que vá a sua casa e case-se com Rob Macleod.

Glenna sacudiu a cabeça, chorando muito veementemente para poder falar. Logo levantou as saias e saiu correndo do vestíbulo.

Isto era incrível! Assim trataria a ela se tivessem uma aventura? Deixaria-a de lado como um tirano medieval? Usaria-a e a atiraria, entregando-lhe a outro homem? Pobre Glenna! Que maldito machista!

Malcolm começou a esboçar um sorriso, logo sua expressão se voltou cautelosa.

— Por que me olha dessa forma acusadora?

— Vai obriga-la a casar-se com outro homem? —disse Claire, engasgando-se.

Ele ficou rígido.

— Sim, e será uma boa união para Glenna.

Claire avançou caminhando a passos largos.

— Mas é sua prometida. Simplesmente se desfaz dela e a manda a outro homem?

Ele abriu desmesuradamente os olhos com surpresa e logo se voltou duro e obscuro.

Claire se esticou. Por que estava atacando-o? Esta era a forma medieval de fazer as coisas e não era assunto dela. Nem sequer gostava de Glenna.

— Não é que tenha que te dar explicações, mas passei três meses negociando a união de Glenna. Dei muita importância ao futuro da mulher —disse tenso—. E não pude conseguir nada melhor.

— Ela disse que ia se casar contigo —disse Claire. Mas se Malcolm vinha negociando a união da Glenna por três meses, Glenna devia lhe haver mentido.

— Nunca tive intenção de me casar com Glenna. —Agora estava zangado com ela. — Eu não gosto de ser julgado, Claire.

Acabava de cometer um terrível engano.

— Sinto muito.

— Deveria. Pensou que passar um par de noites em sua cama me faria trocar de opinião. Nunca me casarei. O disse. Isso não mudará nunca, por ninguém. —Seu rosto era todo frieza.

Claire ficou espantada.

— O que significa isso exatamente?

Deu-lhe as costas, lhe fazendo gestos para que se aproximasse da mesa, que estava tendida com fumegantes fontes de comida.

Claire não se moveu. Malcolm não tinha intenção de casar-se? Por que seria isso? Todos os nobres se casavam.

Lentamente Malcolm se girou para enfrentá-la.

— Você tampouco tente me fazer trocar de opinião, moça.

— Perdão?

— Nem sequer você me atrairá ao altar —disse—. Não importa o quanto me agrada estar contigo na cama.

Ela ficou boquiaberta.

— É tão arrogante! —esteve a ponto de chamá-lo imbecil.

Entrecerrou os olhos e voltou a parar-se diretamente frente a ela.

— Não deseja te casar comigo? —perguntou quedamente.

Claire sabia que devia mentir para apaziguá-lo. Nas Terras Altas do século XV era toda uma partida. Tinha os olhos brilhantes.

—Não, não o desejo. Decido me casar com alguém de minha época, alguém brilhante e bem-sucedido... Alguém com uma mente aberta e intelectual!

Ficou olhando fixo, e sobreveio um comprido intervalo no qual Claire soube que estava considerando sua resposta.

— Está-me chamando débil e tolo, Claire?

Ante seu tom de voz Claire inalou profundamente. Como tinha perdido a cabeça?

— Não, é obvio que não. — gritou, decidida a desfazer qualquer dano que tivesse feito a seu orgulho—. É forte, inteligente e rico, todo mundo pode ver isso.

— Está mentindo —respondeu.

— Não te atreva a ler meu pensamento —gritou.

— Crê que sou um imbecil arrogante —acrescentou muito quedamente.

Estava quase segura que não sabia o que era um imbecil.

— Não realmente —começou a dizer nervosa.

— Eu não sou o arrogante neste vestíbulo —disse—. Permanece aí, me julgando todo o tempo. Crê que não sei? Pensa que não posso te escutar me chamando machista e medieval? Não sei o que é machista e não preciso sabê-lo. Você é a arrogante, Claire, pensando que é mais inteligente que eu, nos olhando por cima do ombro.

Logo que podia respirar.

— Não penso que seja mais inteligente —Tentou consertar—. Sério. Em minha época, as mulheres são educadas e são independentes dos homens. Em minha época, algumas mulheres são até mais inteligentes e ricas que os homens. Pensamos por nós mesmas, cuidamos de nós mesmas. Não respondemos ante ninguém.

—Aye, já o disse suficientes vezes. Em sua época, as mulheres são rainhas sem reis. Você necessita um rei! —abruptamente, saiu a passos largos para o vestíbulo, fora de noite, golpeando a pesada porta detrás dele com um forte estrondo.

Claire começou a tremer. Como tinha acontecido essa terrível batalha? E tinha razão. Tinha-o subestimado desde o primeiro momento que se conheceram. Talvez, só talvez, pensava que era mais inteligente que ele. Mas também o respeitava e o admirava, porque seu valor e sua honra eram assombrosos. Odiava a briga que acabavam de ter.

      Vá e diga-lhe.

Claire vacilou. Certamente teria que ir atrás dele e desculpar-se. Devia admitir que estava parcialmente equivocada. Possivelmente completamente equivocada. Glenna era uma mulher velha para os padrões medievais, e Claire estava segura que tinha terras, dado a riqueza que indicava sua vestimenta. No século XV, uma mulher necessitava um marido para que a dominasse e simplesmente não havia forma de evitá-lo.

Maldito fora Malcolm por usar seu oculto dom todo o tempo. Mas obviamente tinha ferido seus sentimentos e seria melhor que cuidasse seus pensamentos.

Claire saiu. Era a hora do crepúsculo e duvidou, recordando o assalto da Sibylla em toda sua grotesca totalidade. Não desejava estar sozinha, não no exterior, depois do anoitecer. Permaneceu a uns poucos pés da porta que dava ao vestíbulo e olhou a seu redor. Malcolm estava acima dela nas na torre sobre a guarita. Por sua postura adivinhou que tinha as costas tensas.

Claire se apressou a subir os degraus de pedra e se deteve seu lado. A olhou-a brevemente.

—Estou orgulhoso de ser Maclean —disse devagar—, e se isso me faz arrogante, que assim seja.

— Deve se sentir orgulhoso —disse Claire brandamente, sentindo o que dizia. Seu coração deu um tombo a uma velocidade perigosa, como se realmente sentisse carinho por esse homem. Tocou-lhe o antebraço nu e sentiu que seus músculos se esticavam. — É o homem mais valente que conheci em minha vida, e é um Mestre. Não sei muito desse mundo, mas os votos que tomaste são mais que admiráveis. Homens como você não existem em minha época —acrescentou. — E às vezes me sinto confusa... Não sei que devo fazer. – olharam-se aos olhos.

— Deve confiar em mim —disse finalmente, categoricamente.

Claire se estremeceu.

— Quando se trata de minha vida, confio em ti.

Sorriu-lhe.

— Então isso é um começo para nós.

O que queria dizer com isso?

— É uma mulher arrogante, moça, mas não me importa muito— acrescentou ainda mais brandamente.

Claire mordeu o lábio, seu pulso deu um salto. Não era arrogante, e não ia haver um começo nem um “nós”. Mas nesse momento não estava disposta a iniciar outra discussão.

— Glenna enviuvou duas vezes —disse, e Claire ficou aniquilada ante o fato de que fora lhe dar explicações—. Tem terras, Claire, e necessita um marido para que as proteja. Macleod é um viúvo com dois filhos. Necessita sua riqueza e uma mãe para seus filhos.

Claire se sentiu cheia de remorsos.

— Sinto muito. Apressei-me a tirar uma conclusão equivocada.

Ele assentiu, mantendo a expressão solene.

—Apressa-te a julgar antes de considerá-lo, Claire, e um dia destes pode resultar seriamente ferida.

Tinha tendência a agir apressadamente, sem pensar atentamente as coisas.

— Também lamento te haver insultado. Não tinha intenção de fazê-lo, é só que às vezes me enfurece.

— Sim o sentia. E não é que estivesse furiosa. Assusto-te —disse francamente.

Sentindo-se aturdida, encontrou seu olhar. Tinha razão. Sim o sentia quando lhe chamou imbecil, mas obviamente estava o suficientemente seguro de si mesmo para que não lhe importasse. E sim a assustava, muito. Assustava-a porque era tão sexy e tão poderoso e não sabia o que devia fazer consigo mesma —e com seu coração— enquanto estava com ele.

Então sorriu. O sorriso era cálido, mas não continha cumplicidade nem promessas. Não era sedutora. Mas não importava; já era muito tarde. De alguma forma tinham começado a compartilhar uma classe distinta de intimidade... E não a desejava. Tinham compartilhado uma batalha e a cama, mas não necessitavam nenhum tipo de conexão emocional. Isso era perigoso. Impossível, inclusive. Admirá-lo estava bem. Que gostasse não estava bem.

—Pensa muito. —Tomou sua mão, a tirando dela para que o enfrentasse.

Claire não podia respirar.

—É o q-que faço —gaguejou, porque o desejo estava alagando-a como o mel. Este era o problema, a atração que sentia, e não ia complicar o com nenhum sentimento, nem sequer com amizade. — É melhor que vá —começou a dizer nervosa. Salvo que apartar-se dele era quão último queria fazer.

— Nunca tinha conhecido a uma mulher como você, Claire —disse brandamente.

Passou um momento muito intenso, antes que pudesse falar.

— Não! —as arrumou para esboçar um rápido e tenso sorriso—. Não complique as coisas. Odeio as palavras! —ruborizou-se quando o disse, porque as palavras eram sua vida. — E se quer me seduzir, não tem que fazê-lo com declarações de sentimentos. Ambos sabemos que um simples olhar encantador funcionaria. —Vacilou. — Fazer am... Quero dizer, compartilhar a cama é uma coisa, a amizade é outra. Não acredito que devamos as combinar, jamais.

— Mas foi amiga dos homens que amava —disse Malcolm, parecendo cético.

— Maldição —gritou. — Deve me deixar ter meus segredos!

— Quero te entender, moça. E ambos sabemos que é só questão de tempo antes que nos convertamos em amantes.

Inspirou profundamente.

— Não é justo. Recorda, vou para casa, com sorte logo. Jurou-o.

Ele sorriu.

— O que tem que ver que retorne a sua época com que sejamos amantes? Deseja-me, e não o negue. Desejo-te. Neste momento existem complicações, mas tenho esperanças de que logo não as haja. E talvez já não esteja tão ansiosa por ir quando tiver passado uma noite inteira em minha cama. —Seu sorriso se fez arrogante.

—Disse-lhe —respondeu isso, absolutamente excitada—. Não posso te entregar meu corpo sem te entregar meu amor.

Baixou as pestanas, logo levantou lentamente a vista.

— Não faria o esforço?

— Não! —disse bruscamente, tremendo.

— E se te dissesse que não me importa que me ame?

Abriu os olhos desmesuradamente. Como poderia haver-se esquecido, por um minuto, que era um imbecil e arrogante homem medieval?

— Não serei atirada a um lado como Glenna por um capricho teu!

— Por acaso te disse que te largaria?

Ela congelou.

Seus olhos eram grandes e atentos.

— Dei-te minha palavra de que te levaria a sua casa quando fosse seguro, e a manterei.

Claire nem sequer podia respirar.

—Mas?

Seus olhos bateram as asas, mas não os apartou.

— Mas não é necessário que vá se não o deseja —murmurou.

— O que quer dizer isso? É um convite? Ou está sugerindo que estarei tão impressionada com atuação na cama —ou tão profundamente apaixonada por um homem que nunca poderei compreender— que decidirei permanecer no século XV? De maneira nenhuma, Malcolm, de nenhuma maldita maneira!

Seu rosto era duro, seu olhar terrivelmente intencionado.

—Você gosta de estar aqui —disse brandamente—. Você gosta de mim. Não me incomoda... Também eu gosto de você. Quer brigar comigo, mas eu não brigarei contigo, moça.

Claire sacudiu a cabeça, desanimada.

—Só vim aqui para me desculpar. Foi uma péssima ideia. Por que está fazendo isto?

—Porque quando chegar o momento, pode acontecer que não queira deixar Dunroch... Ou a mim.

Ambos jantaram em silêncio. Malcolm comeu com apetite voraz, aparentemente imperturbável pela conversação mantida, enquanto que Claire estava decidida a alimentar-se sem olhá-lo nos olhos. Estava chocada, mas estava contente de que essa conversação tivesse tido lugar. Tinha estado equivocada ao pensar, sequer por um momento, que poderiam chegar a ter qualquer tipo de entendimento ou uma relação física, e muito menos uma conexão emocional. Sua arrogância era incrível. É obvio que iria para casa! Deixaria sua época no instante que fosse seguro fazê-lo. E enquanto isso, não haveria mais sexo, nem sequer beijos, maldito fosse, nada! E tampouco manteria mais conversações íntimas com esse homem. A amizade era tão má ideia como qualquer outra coisa e de todas as formas tampouco acreditava que fora possível. Não quando ele estava tão seguro que a foderia até que perdesse a consciência e que ela ainda assim imploraria por mais. Não quando estava tão seguro de que quereria ficar com ele em sua malfadada época.

Finalmente, Malcolm apartou seu prato, mas voltou a encher seu copo e o próprio. Passou a noite o fazendo. Não lhe importava —podia tolerar o vinho— e se negava a elevar a vista para agradecer-lhe Não confiava em si mesma para olhá-lo nos olhos... Provavelmente a enfeitiçaria no momento em que o fizesse.

Subitamente, depois de vinte minutos de silêncio, falou:

— Compreendo que deve estar cansada e que já é tarde. Mas há assuntos que devemos discutir.

Não tendo outra opção, Claire o olhou cautelosamente. Sabia o que ele queria, Oh, sim.

— A outra noite foi um engano. —E inclusive enquanto falava, sentiu que suas bochechas ardiam e que lhe agitava a pele. Então, isto era tudo. O momento que lhe tinha preocupado... E esperando. O momento em que ele a olhasse, hipnotizasse-a e a levasse a sua cama.

Mas não reagiu como ela esperava. Pareceu divertido.

— Não desejo falar da outra noite.

Sentiu-se confundida.

— Não?

Cruzou os braços sobre o peito de forma autoritária.

— Depois dessa noite confio em mim menos que nunca —disse com firmeza.

      Claire se deu conta de que seu cérebro trabalhava um tanto lento. Depois de tudo estava um pouco embriagada.

Seus olhos cinza se voltaram chapeados.

— Não me olhe com tanta fome, moça. Agradar-te-ia —acrescentou brandamente—, se fosse de dia. Mas a lua brilha e desejo entrar em ti. Quero algo mais que seu corpo.

Claire estava prestes a desmaiar com o desejo minando tudo debaixo de suas roupas. Desmaiar ou gozar.

— Maldição —disse em voz baixa, tendo perdido toda a força de vontade.

— É fácil te agradar, moça. —Seus olhos brilharam e sorriu. — E jogarei contigo outra vez quando chegar o momento oportuno.

Era tão difícil pensar. Levou as mãos às bochechas ardentes. Sabia que tinha decidido evitá-lo em um sentido sexual —e em todo sentido—, mas nada disso parecia importar. O que importava era o desejo abrasador que sentia no corpo, a umidade que gotejava por suas coxas, o urgente inchaço de sua carne distendida. O que importava era Malcolm.

—Adivinhe? —disse roucamente—, troquei de opinião... É uma prerrogativa feminina.

Estava-lhe lendo os pensamentos, porque se escureceu.

— Não trate de me seduzir, moça, não o tolerarei.

— Realmente não quer subir? —estava agitada.

— Tomaste muito vinho —disse olhando-a fixamente.

Finalmente o entendeu. Tinha medo de que caísse morta em seus braços.

—Tão poderoso como acredita ser —disse com secura—. Não vou morrer em sua cama.

Ele abriu muito os olhos.

— Pensa que acredito que matei a criada com meu pau?

Ruborizou-se.

— Acredito que morreu porque lhe falhou o coração, mas penso que certamente crê que és excepcionalmente dotado!

Repentinamente ele se pôs a rir, e o som foi quente, rico e formoso.

— Moça, disso eu estou completamente seguro, mas a criada morreu de outra forma. —Seu sorriso se desvaneceu.

A Claire não gostou da expressão séria que lhe cruzou o rosto.

— Daria uma fortuna por um café expresso —disse carrancuda.

— Não entendo.

— Não, não poderia. Por que me olha como se houvesse um pelotão de fuzilamento atrás de mim?

Estendeu a mão. Claire se surpreendeu quando tomou a sua na dele.

— Não deseja compreender a verdade.

Claire tratou de recuperar a mão.

— Sabe... Tomei muito vinho e estou terrivelmente cansada. Vou para a cama. Sozinha... Suponho. —Tratou de levantar-se, mas ele não a soltou, e terminou sentada no banco outra vez.

— Em seu coração —disse calmamente—, já compreendeu a verdade.

— O inferno que o fiz. —Então puxou com mais força, e ele a soltou—. O que seja que queira me dizer, pode esperar. —Sentia pânico, e isso a estava pondo muito sóbria.

— Não existe um lugar seguro onde esconder-se, moça, nem sequer na ignorância.

Percorreu-a um calafrio de temor.

— Maldição.

— Deseja-me o inferno? —perguntou incrédulo.

Ela tomou fôlego.

— Não.

— Não quer compreender a forma em que funciona o mundo —disse brandamente, voltando a pôr sua mão grande sobre a dela—. Sei, porque te ouço pensar todo o tempo, e escolhe pensamentos que lhe agradam. Deve enfrentar a verdade, Claire, a respeito de Sibylla e sua gente.

Claire não podia respirar bem. Sabia que não desejava escutar suas seguintes palavras.

— Sibylla é anormalmente forte, isso é tudo.

Apertou os lábios.

— Ela lambeu sua pele. Sua garganta.

Claire gritou, ficando de pé de um salto.

— É uma doente!

— Os crimes por prazer são história antiga, Claire —disse Malcolm cautelosamente, ficando de pé. Sem soltá-la em nenhum momento. — Deamhanain são a fonte.

Claire estava tremendo. Não! Malcolm não sabia nada a respeito dos crimes por prazer... Devia ter lido sua a mente! A morte por prazer era o resultado da ruptura da sociedade moderna. De nenhuma forma era parte da Idade Média.

— Deamhanain esteve matando a Inocentes buscando prazer durante centenas de anos, muito antes de Cristo —disse.

Sabia o que a palavra gaélica Deamhanain significava sem que ninguém o dissesse.

— Não acredito no diabo e não acredito nos demônios —gritou desesperada.

— Mas sua mãe e sua prima foram assassinadas pelo Deamhanain... Para seu prazer.

— Pare! Por favor! Foram mortas por loucos, loucos humanos!

— O verdadeiro Deamhanain pode tirar a vida a qualquer. Podem sugar a vida de um humano até que não tem mais força vital. Mas a fornicação incrementa o prazer. —As asas de seu nariz se inflamaram—. O êxtase se chama Le Puissance[34].

— Pare!

Finalmente liberou sua mão.

— Tem medo da noite, e deveria temer, porque o mal caminha livremente na noite enquanto que de dia se esconde. Deve enfrentar a verdade, Claire. Nunca haverá um lugar suficientemente seguro para esconder-se.

Esbofeteou-o, forte, lhe cruzando o rosto.

Ele se sacudiu mas permaneceu rígido.

— Seu mundo não é diferente deste. Os Deamhanain estão em todas as partes, em todas as épocas, em cada lugar e querem sua morte... E a minha.

Claire não podia falar. Sentia-se doente. O chão se sentia fora do lugar e girava. Isto não pode estar acontecendo. O mundo não podia ser da forma que Malcolm o estava descrevendo.

Seu tom se fez amável e isso a tranquilizou.

—Sibylla pode ser humana, como você. Mas seus poderes não o são. Moray a possuiu. É por isso que é tão forte, tão malvada.

Claire sacudiu a cabeça. Caíam-lhe as lágrimas.

—Então Sibylla é uma humana possuída? O seguinte que me dirá que Moray é o diabo?

— Faz muito tempo —disse brandamente—, uma deusa guerreira que era uma chegou a Alba e se deitou com os reis. Moray é um de seus filhos. Converteu-se em um grande Mestre até que Satã lhe roubou a alma.

Ela encontrou seu olhar. Via suas facções como um borrão.

— Você o crê —ofegou—, mas eu não... E não o farei.

— Em Alba[35], Moray seria o senhor da escuridão, Claire. Seus fetos seriam os Deamhanain.

Claire retrocedeu e bateu contra a mesa. O diabo. Demônios descendentes de antigas deidades. Humanos possuídos. Crimes por prazer e poder dos inícios dos tempos... Em algum nível visceral, tinha absoluto sentido.

Moray, um demônio que uma vez tinha sido um Mestre...

E Malcolm, um Mestre que tinha matado uma criada...

Claire sentiu que o cômodo girava. Estava dentro de um pesadelo. E soube; pela primeira vez em sua vida, estava a ponto de desmaiar.

Cambaleou-se. Malcolm a apanhou. Ela sussurrou:

—Então, o que isso te torna?

Justo quando seu mundo se voltava todo negro, Malcolm a pegou em seu braços.

Claire recuperou a consciência, sufocando-se com um cheiro repugnante. Estava na cama da câmara que lhe tinham atribuído. Malcolm estava sentado junto a ela, com o rosto sério.

Palpitava-lhe a cabeça, doía-lhe como o inferno. Malcolm estava equivocado. Tinha que estar, embora Sibylla tivesse a força de dez homens.

Ele hesitou.

— Moça, eu sinto muito.

— Vá —disse entrecortadamente. Podia aceitar que alguns homens estavam geneticamente programados para o mal e que o mal era tão antigo como a Bíblia. E podia e aceitaria que os crimes de prazer existiam na Idade Média, igual aos crimes passionais. O que não aceitaria, nem por um instante, era que esses crimes estavam sendo cometidos por seres com poderes sobrenaturais, seres que não eram realmente humanos.

Malcolm se foi.

Claire se recostou contra os travesseiros, sentindo-se doente em sua alma. A maldade era humana. Isto era um mito medieval. O diabo não existia, e ia repetir essa ladainha até que voltasse para casa. Moray provavelmente fora um homem extraordinariamente cruel, ambicioso e inteligente, que propagava o mito de que era o mestre do mal. Esta era uma época primitiva e os homens como Malcolm apelavam à superstição e à religião para explicar coisas que não podiam entender!

Claire sentiu que as lágrimas lhe caíam pelo rosto.

Mas os perpetradores dos crimes de prazer nunca eram capturados. Sua habilidade para seduzir as suas vítimas nunca tinha sido explicada. As vítimas morriam porque lhes parava o coração. E era uma epidemia...

A portinhola da janela se abriu de repente.

Claire saltou da cama, tremendo de medo, mas Sibylla não apareceu, nem tampouco nenhum suposto demônio. Recordou-se que a abertura da janela era muito pequena para permitir que entrasse sequer um menino... E Sibylla não necessitava uma janela para entrar.

Claire amaldiçoou, aterrorizada. Correu para a janela e fechou as portinhas de um golpe. Enquanto o fazia, sombras negras dançaram nos aterros que tinha sobre a cabeça.

Claire se recordou que era o guarda noturno. Um pedaço de lenha caiu no fogo, chiando. O coração de Claire explodiu e ela saiu correndo da câmara, indo instintivamente ao final do corredor. A porta estava totalmente aberta e relanceou Malcolm lá dentro. Dirigiu-se à porta, respirando asperamente.

Ele se voltou. Tirou a roupa, tudo e cada um dos objetos, e seu corpo inteiro inchou com músculos ondulantes. Estava enormemente dotado. Seus olhos se alargaram, mas ela simplesmente permaneceu ali.

Agora seus intentos por respirar falharam por completo, mas não era pelo desejo. As lágrimas emanavam de seus olhos. Claire as enxugou, pensando no sangue e os demônios e os Mestres e Malcolm, tudo de uma vez. A donzela morreu enquanto obtinha seu prazer de mim.

Claire tragou o impulso de vomitar. Não. Malcolm era humano e bom e não tinha cometido um crime por prazer. Essa mulher tinha morrido porque tinha tido muito sexo ardente. De acordo com Malcolm, eram os demônios inumanos com superpoderes os que sugavam a vida de suas vítimas.

— Moça.

Lentamente levantou a vista, consciente que tinha alcançado seu limite emocional.

— As portinholas se abriram —sussurrou.

— Foi o vento. Não há mal aqui. As paredes foram consagradas com água benta antes que tomássemos nosso jantar.— envolveu um grosso tecido ao redor da cintura como se fosse uma toalha, mas ainda se avultava.

Claire se estremeceu.

— Os Deamhanain não entram em lugares sagrados, moça— acrescentou brandamente, mas não deslizou as mãos a seu redor. Ela desejava estar em seu grande, forte e muito seguro abraço.

Abraçou a si mesma.

— Como pode estar excitado em um momento como este? —sussurrou.

— Você sempre me excita —murmurou. — Vem aqui. —E a puxou para envolvê-la com seus braços.

Claire se encontrou com o rosto pressionado contra o forte oco que se formava entre seu quente pescoço e seu ombro, as mãos apoiadas sobre o amplo peito, sobre seu forte e retumbante coração. Ignorou o poderoso órgão que palpitava entre eles.

—Não acredito —insistiu desesperadamente—. Nada disso. Mas o que sei é que é bom.

Seu abraço se fez mais forte e lhe acariciou o cabelo que fluía por suas costas.

—Sua cama é segura, Claire. Mas entendo que não queira dormir sozinha. Pode ficar em minha cama. Cuidar-te-ei durante esta noite.

Claire riu histericamente. Isso vinha de um machista medieval?

— Obrigada.

— Por que não dorme agora? —sorriu. — Sentarei junto ao fogo.

— Não posso dormir! —gritou, olhando-o. E odiou o olhar de preocupação cheio de lástima que viu em seus olhos. Golpeou-lhe com o punho a dureza de seus músculos peitorais—. Moray não é o filho de Satã. Não pode ser.

Seus braços a apertaram e a aproximou mais. Claire acreditou sentir a boca dele contra seu cabelo.

— Discutiremos esses assuntos amanhã.

—Não podem existir demônios, Malcolm —sussurrou contra seu peito, sentindo-o profundamente—. Existe maldade... Mas é algo humano.

Voltou-lhe a acariciar o cabelo, permanecendo calado.

Então Claire começou a chorar realmente. Tinha se esforçado tanto para racionalizar a aterradora epidemia de crimes por prazer... Como o tinha feito cada pessoa inteligente que conhecia. Todo mundo sabia que a vida na cidade era perigosa, mas era explicável. O crime era o resultado da pobreza, dos lares destroçados, das drogas e de uma cultura de violência, e enquanto que alguns lunáticos estavam livres por aí, cometendo assassinatos e semeando o caos, saboreando cada ato sexual violento, acontecia em uma base casual. Embora a sociedade fosse má, decadente e caótica, os loucos eram uma pequena minoria, e eram humanos. Por isso sempre havia esperanças.

Agora Claire não sabia que pensar.

À manhã seguinte, Claire esperava para montar sua égua, tremendo.

Uma dúzia de homens também estava se preparando para montar, os portões tinham sido abertos e a ponte levadiça baixada. Através delas, podia ver a sombra da ponte levadiça quando foi baixada. Voltou o olhar e instantaneamente encontrou ao de Malcolm.

Ainda tinha que montar e estava falando com Seamus pela entrada do castelo interior, o coração de Claire deu um tombo, forte.

Tinha tido uma das piores noites de sua vida. Logo que dormiu, voltando-se e revolvendo-se, a mente voando, mas cada vez que abria os olhos, tinha visto Malcolm sentado junto ao fogo, acordado e vigilante. Tinha-a vigiado toda a noite.

      Antes da terrível declaração de Malcolm na noite anterior, tinha estado empenhada em ir a Iona onde poderia ver o santuário e com sorte o Cathach, também. Mas como podia estar entusiasmada agora, quando seu mundo estava se desarmando à velocidade da luz?

Moray é o senhor da escuridão

Sua criação é o Deamhanain.

      Claire tinha passado toda a noite convencendo-se de que o mau era humano. De que os demônios e o diabo não existiam. Mas tinha sido impossível convencer-se de que estava correta e Malcolm equivocado.

E se tudo no que Malcolm acreditava era verdade?

Claire não queria seguir esse caminho, nem hoje, nem nunca. Mas isso era o que os sábios se perguntavam, e se? Olhou fixamente para Malcolm. Luzia exatamente como um homem dedicado a vencer o mal devia ser. Tinha o carisma de um líder, o poder de um guerreiro, e era tão malditamente deslumbrante. Via-se como se descendesse dos deuses.

Malcolm se voltou. O olhar era preocupado como tinha sido ontem à noite, mas não queria sua amabilidade ou sua preocupação. Estava muito envergonhada pelo histérico e covarde comportamento. Não ia acontecer novamente, não importa o que acontecesse. O pânico e o medo não iam resolver nada. E já sabia que coisas más saíam na noite.

Claire pensou em Amy, que estaria doente de preocupação por ela. Quantas vezes Amy insistiu, em como era os perversos criminosos hoje em dia? Deus. Saberia algo? Como poderia não fazê-lo, quando seu marido estava no governo, ainda se era em antiterrorismo? Devia ter informação interna; todos os policiais falavam, incluindo os federais.

Se o mundo era como Malcolm declarava, então o mal estava deliberadamente e decididamente assaltando a vítimas inocentes, procurando destruição e morte.

Se Malcolm estava correto, o mal tinha uma terrível nova cara.

Malcolm se aproximou, os homens agora montados. Sorriu-lhe, mas o seu olhar cinzento estava vasculhando.

— Não dormiu bem.

Não foi uma pergunta.

— Tampouco você. —Claire notou que não parecia cansado. Não se surpreenderia se ele pudesse ficar dias sem dormir e permanecer sem que lhe afetasse.

— É uma curta viagem a Iona —disse. — Pode descansar lá.

Descansar não estava em sua mente.

—Sinto por ontem à noite —disse Claire de modo cortante —. Não voltará a ser.

Encolheu-se de ombros.

—É mulher, moça. Necessita um homem que te proteja.

Claire sorriu turvamente. Não queria brigar com ele. A briga a tinha deixado fora de combate ontem à noite.

Um momento depois, estava montado do seu lado e cavalgavam através do portão, o pórtico gradeado caindo atrás deles. Cruzaram a ponte levadiça. Ao momento em que o último cavaleiro passou a ponte, Claire escutou como era levantado. O caminho para descer à praia era tão sinuoso como recordava, bosques se elevavam à direita, o escarpado a sua esquerda. E então a temperatura baixou.

Imediatamente, debaixo dos cascos dos cavalos, em um único pulsar do coração, a terra ficou branca com geada.

As folhas e o cardo aos lados do caminho se tornaram brancos também, e sua respiração se convertia em vapor no ar.

E Claire soube.

Também Malcolm. Gritou uma ordem em gaélico. Olhou fixamente ao Claire.

— Mantenha-se atrás!

Antes que Claire pudesse dizer algo ou protestar, ia à carga, galopando pelo caminho com seus homens, e um guerreiro agarrando as rédeas do cavalo dela. Tratou de retomar as rédeas, porque tudo o que compreendia era que o mal os estava caçando e Malcolm não ia enfrentá-lo sozinho.

—Vamos. —gritou.

O homem era jovem, enorme e irritado. Tentou agarrá-la e Claire lhe colocou o Taser no braço. Ele paralisou.

Aferrou as rédeas e chutou ao cavalo tão forte como pôde, galopando apressada pelo caminho, sujeitando a sela, determinada a não cair. O grito de guerra do Malcolm se ouviu com horripilante intensidade. O coração lhe desbocou. Rodeou uma curva e viu os homens de Malcolm batendo furiosamente a seus atacantes. Imediatamente, sangrentos corpos sujavam o caminho. Viu-o voltar para a carga, encontrando a um cruel assaltante com o escudo. Um momento depois o atacante jazia no chão, a primeira cabeça. E logo que tinha começado, a batalha terminou.

Atirou das rédeas. Cinco homens com armadura jaziam no chão. Um enorme alívio a dominou.

A égua se deteve, levantando a cabeça em protesto. Claire não queria aproximar-se, não ainda. Queria ver o que ia fazer Malcolm agora, porque tinham tomado três prisioneiros.

Malcolm desmontou e se tirou o escudo. As espadas embainhadas, aproximou-se dos três prisioneiros, que era sustentados por seus homens. Claire se esticou, insegura. Tinha um terrível pressentimento. A expressão de Malcolm nunca tinha sido tão cruel.

Malcolm se deteve ante o trio. Viu-o olhar a um dos homens, desprezando-o mentalmente, logo olhou a outro e finalmente encarou ao terceiro. Uma terrível luz titilava nos olhos.

O terceiro homem, um alto, um gigante de pele branca com cabelo loiro, pálido como se estivesse sofrendo.

Malcolm disse algo em gaélico. Claire soube que estava demandando respostas.

O outro homem lhe deu o mais maléfico sorriso que Claire jamais tinha visto e lhe revolveu o estômago com horror.

Malcolm falou de novo.     O gigante lhe devolvia friamente o olhar. Malcolm não moveu nem um músculo. Ancorou ao gigante com o olhar e o homem caiu de joelhos, como se fora empurrado. Mas Malcolm não o havia tocado, e seus homens estavam de pé atrás do prisioneiro para acautelar que escapasse.

A pele de Claire se arrepiou. O que estava passando? Ele parecia sofrer alguma dor. O olhar de Malcolm queimava e o prisioneiro caiu abruptamente de costas, como se algo o tivesse acertado com grande força.

Malcolm pressionou a bota na garganta do homem.

Claire tragou um grito.

E agora, apesar de que Malcolm falou em gaélico, Claire entendeu.

— Moray neo Sibylla?

Moray ou Sibylla? Queria saber quem os enviou.

O gigante riu zombeteiramente.

Malcolm sorriu com tal ameaça que Claire se paralisou e então, silenciosamente, começou a rogar que parasse, mas não o fez. Um horrível rangido soou quando pisou mais forte a garganta do homem. Claire gritou.

Mas o gigante, com o pescoço agora voltado em um ângulo impossível, falou. Em francês, disse:

— Seu senhor me enviou e mandará a outros. Não há lugar onde escondê-la —grunhiu, muito parecido a um animal, salivando pela boca.

Claire não podia respirar. O coração lhe pulsava com dolorosa velocidade.

Malcolm apartou a bota da nuca do homem. Uma horrível expressão lhe formou na cara e o olhar nunca vacilou.

—Pare, Malcolm —gritou Claire instintivamente, mas foi muito tarde. O grunhido do gigante se deteve. A cara era uma rígida mascara, os olhos abertos e sem vida agora.

Absolutamente estupefata, Claire se deslizou da égua, caminhou para as árvores e se ajoelhou. Quando tratou de vomitar, ouviu Malcolm dando ordens e aos homens montando. O que tinha passado? O que tinha feito? Então o ouviu parar atrás dela.

—Deveria ter ficado atrás.

Não podia vomitar, deu-se conta. Voltou-se. Oferecia-lhe a mão, a expressão já não era absolutamente cruel, só áspera e sombria. Rechaçou-a, cambaleando-se.

— O que fez?

Olhou-a fixamente, os olhos resplandeciam.

— Jurei combater o mal. Era um deamhan. Não podemos permitir que um único Deamhanain viva. Ele teria a matado no instante em que eu me virasse.

Ela ofegou.

— Não morreu pelo pescoço quebrado.

— Não.

OH, Deus, pensou.

— O que fez? Sugou-lhe a vida?

Malcolm se girou, logo voltou.

— Precisamos cavalgar. —Agora estava zangado.

Claire o tinha visto com seus próprios olhos.

— Matou-o usando algum tipo de poder psíquico, verdade?

Não lhe respondeu e isso foi resposta suficiente.

—O que é? —gritou.

Iona estava a alguns quilômetros, com suaves, luxuriosas colinas verdes salpicadas de ovelhas e praias brilhantes. Enquanto o galeão[36] que estavam se aproximava da orla, Claire se aconchegou em sua capa, gelada até os ossos.

Malcolm tinha matado aquela criatura com o olhar.

Tinha poderes sobre-humanos, também.

O que isso o tornava?

Lançou um olhar onde estava Malcolm de pé na proa da embarcação. Ontem à noite tinha passado todo o tempo assegurando-se de que estivesse a salvo. Fazia muito mais confortá-la do que protegê-la dos seres malignos.

Mas o mal estava aí fora. Essa criatura não havia sido humano.       Claire fechou os olhos. Não estava pronta para usar a palavra demônio, nem sequer em seus próprios pensamentos.

E então o sentiu de pé ante ela. Levantou o olhar. Observava-a com esse olhar de preocupação que se estava tornando tão familiar.

— Sinto muito que tenha presenciado aquilo —disse turvamente.

— Conte-me. —sussurrou.

— É proibido.

— Já me disse todo o resto!

Vacilou e se deu conta de que estava realmente inseguro.

— A quem vou contar? Ao Papa?

— Não é divertido que brinque dessa maneira. —Foi rude.

Claire recordou a si mesma que neste tempo, a heresia era a mais séria ofensa na cristandade, mais que a bruxaria. Qualquer sacerdote católico que tivesse sido testemunha do que tinha visto poderia acreditar que Malcolm era ambos. Herege e bruxo. Seria condenado sem compaixão. Se fosse afortunado, o castigo poderia ser a excomunhão e o exílio.

— Estou tentando —disse, devagar— ampliar meus horizontes. E possivelmente me manter sã, só se me diga o que preciso saber.

Sentou-se junto a ela no banco. Com voz baixa, disse asperamente:

— O Deamhanain não é o único descendente da deusa Faola. Todo Mestre pode reclamar seu sangue.

      Saiu-lhe um som, quase uma risada. Ele também era descendente de antigos deuses. Claro que o era. Como pôde ter pensado o contrário? Tocou-se as bochechas, as quais estavam quentes. Uma crise nervosa não ia ajudar a agora!

Olhando fixamente a proa, disse asperamente:

—O mal nasceu com Adão e Eva, como sabe. Faz tempo, os Antigos viram a necessidade de uma raça de guerreiros que combatessem o mal, Claire. Faola foi enviada a muitos reis.

Claire se sufocou de comoção e medo. A determinação de descartar as crenças estava deixando-a terrivelmente frágil.

Olhou-o, tratando de pensar claramente. Malcolm tinha poderes que se estavam se tornando cada vez mais difíceis de racionalizar. E era bom.

— Então é metade deus e metade humano.

— Não. Há três gerações entre a Faola e eu, pelo menos. Seria seu bisneto.

Parecia acreditar que era o bisneto de uma deusa, disse-se Claire, mas isso não o faria verdade. Possivelmente havia uma explicação racional por aí, em algum lugar.

— Sugou a vida dessa coisa da maneira que o Deamhanain o fez?

Ficou de pé.

— Não pode um deus tirar vida e dá-la? Um Mestre pode tomar uma vida, moça. E alguns, uns poucos, podem dá-la, também.

— Genial. Pode dar vida, também? —gritou, tiritando completamente de novo.

— Não. Não posso curar. Mas todos os Mestres têm o poder de tirar a vida. De outro modo, não somos escolhidos.

Infelizmente, finalmente tinha sentido. O poder da vida e a morte era o maior poder de todos, um poder pertencente a Deus ou os deuses. Esta raça de guerreiros se era uma escolha dos deuses para brigar contra o mal, obviamente deveriam ter também tal poder.

Uma estranha calma chegou. Não era melhor que os Mestres tivessem o mesmo sangue imortal em suas veias que os demônios?

   Respirou forte e mordeu o lábio.

— Essa... Coisa era um demônio. Rompeu-lhe o pescoço.

— Sim. O Deamhanain não sente dor da maneira que nós o fazemos.

Claire lhe buscou o olhar.

— Você não sente dor da mesma maneira que eu, tampouco, verdade?

— Sou forte. — Ele sustentou o olhar, interrogando-a.

Claire sabia o que estava perguntando. Queria saber como ela se sentia a respeito dele agora. Não tinha essa resposta.

— Por que deixou aos outros dois demônios com vida? Por que estão neste galeão? —estavam de pé frente à proa, atados.

— São humanos, Claire, estão possuídos. Os monges tem feitiços e possivelmente podem liberá-los.

— Refere-te a que os monges tratarão de exorcizá-los?

Assentiu. Logo, hesitantemente, sorriu-lhe.

— Preciso ajudar os homens.

Claire viu que eram empurrados para um par de pranchas do cais. Não pôde lhe sorrir de volta.

Quando Malcolm saltou da embarcação para a primeira prancha, outros dois escoceses saltaram, também. Cordas eram lançadas aos troncos, os outros quatro homens permaneceram nos remos. Claire finalmente prestou atenção a Iona. Tinha vindo de barco a última vez, por isso sua posição de vantagem era a mesma. Por outro lado, nada era o mesmo absolutamente.

Dois cercos murados eram visíveis, e sabia que eram antigos, um monastério fortificado e a abadia medieval. Ambas eram ruínas no presente, e uma renovada catedral existia em seu lugar. A famosa cruz celta que estava de pé na atual catedral não estava. A abadia não estava longe do píer, claramente recém-construída. O monastério estava avançando pelo caminho e construído em pedra e paliçada.

A proa se inundou quando Malcolm saltou de novo dentro. Voltou-se a Claire e lhe estendeu as mãos.

— Moça.

Claire encontrou seu penetrante olhar, desejando poder manter seu mundo em seu lugar.

— Penso que acredito em ti. —disse ela secamente—. Não quero, mas acredito que o faço.

— É melhor se o fizer.

Claire o olhou fixamente, ele a contemplava serenamente. E se perguntou onde os deixava isso...

Claire se interessou no que a rodeava quando esperavam que os portões de madeira do monastério se abrissem. Estava por entrar em um intacto e operante monastério do século XV. Aqui, poderia haver respostas de um abade chamado MacNeil. Os roteiros haviam dito que o monastério tinha sido construído séculos antes que a abadia, também que os edifícios originais, feitos de madeira, poderiam ter sido construídos pela Santa Columba no século VI. Nenhum edifício de madeira restava agora, viu, olhando sobre o muro do monastério. Os muros eram muito baixos para serem reconfortantes. Podiam ser facilmente escalados.

 

Muitas casas religiosas tinham sido fortificadas neste período, mas não esta. Não havia muros altos e parapeitos, nem torre defensivas, nem guaritas, nem fosso ou barbacã frente aos muros.

— Malcolm, esta é uma porta muito frágil.

— Nenhum Deamhanain entra em um recinto sagrado, Claire —disse.

— Por que não?

— Perdem seus poderes e podemos destruí-los facilmente.

Graças a Deus por seus pequenos favores, pensou. Claire ouviu um ferrolho ser liberado e a pesada porta se abriu.

Claire precedeu Malcolm ao entrar, olhando com curiosidade ao redor. O monastério era uma pequena vila, realmente, com um dormitório e um refeitório onde os monges dormiam e comiam, cozinhas, cervejarias, uma igreja e muitos outros edifícios, assim como jardins e hortas.

Então olhou o homem que os tinha admitido e o coração quase lhe deteve.

Era como estar olhando para Matthew McConaughey[37] interpretando o papel de um guerreiro highlander medieval. Estava vestido quase identicamente a Malcolm, exceto que a capa era verde e negra, apenas listrada com branco e dourado. Era alto e poderosamente dotado de cabelo dourado escuro, voluptuosos bíceps e quadríceps, e levava braceletes de ouro em ambos os braços. Rapidamente corrigiu sua opinião... Via-se como uma versão maior, mais forte e mais sexy de Matthew McConaughey.

O muito verde, muito intenso olhar a percorreu da cabeça até os pés e então sorriu ligeiramente a Malcolm. Foi tudo o que necessitaram suas covinhas para mostrar-se.

— Tem quebrado muitas regras, Calum.

Malcolm não lhe sorriu de volta.

— Esta é lady Claire —disse—. Sei que nos viu em nossa viagem.

Este não podia ser o abade, pensou Claire, tratando de não lhe jogar um olho às coxas e braços. Os abades eram baixos, gordos e velhos. Os abades eram calvos.

— Estava-lhes esperando —disse Matthew diretamente. Seu olhar se deslizou sensualmente por Claire novamente. Um ligeiro sorriso começou—. Bem-vinda, lady Camden.

Claire se esticou. Malcolm não havia dito seu sobrenome.

—Niall MacNeil, moça —disse Malcolm com secura—. Niall? Não me importa quão grandes sejam seus poderes, mantém os olhos onde devem, na cabeça sobre os ombros.

Niall MacNeil sorriu, divertido.

— Não persigo o seu Inocente, Malcolm. Pode ficar sossegado. Soube que vinham, e os Antigos o permitiram. —Jogou-lhe outro muito sedutor, muito indolente sorriso a Claire, e imediatamente decidiu que ele desfrutava muito de sua evidente sensualidade masculina.

— Espera-me, ou ao Malcolm? —perguntou, tremendo.

— A ambos —disse, fazendo um gesto para que começassem a caminhar pela vereda.

Claire não gostava de jogos, especialmente não agora.

— Quer dizer que aos Antigos não importa que esteja aqui? —O que quereriam os antigos deuses com ela? Eram deuses antigos!

— Sim, moça. Por mais estranho que possa parecer, aos Antigos não importa sua presença na Irmandade.

Antes que pudesse responder, avançou, olhando por trás de ambos os homens. Dois pedaços de mau-caminho, enormes e armados estavam saindo da construção ao lado.

O homem ruivo estava vestido como escocês com capa e túnica, o outro, um homem moreno de cabelo escuro, como inglês com camisa negra, botas até os joelhos, esporas ornamentadas, um gibão e uma jaqueta curta cor Borgonha, que apenas lhe cobria a parte superior dos quadris. Claire tinha lido tudo a respeito das braguilhas[38] mas nunca tinha visto uma — e nunca esperou ver uma envolvendo um metro e noventa de virilidade.

Olhou fixamente a avultada bolsa de tecido presa à parte dianteira de suas calças, e soube que se ruborizou. Voltou-se, mas não antes que o inglês lhe enviasse um incitante sorriso. Essa vestimenta era chocante e indecente em um homem desses. As mulheres de seu tempo se veriam loucas por isso e por ele, por todos eles!

— Agora você gosta do inglês? —perguntou Malcolm perigosamente.

Estava ciumento? Lançou-lhe um rápido olhar e viu que estava irritado. Ainda estava muito perturbada pelo acontecido essa manhã para estar inclusive ligeiramente satisfeita.

— Isto é um monastério? —estava completamente incrédula.

Exceto agora, os sinos da capela estavam soando e viu monges reais deixando o refeitório — homens normais com túnicas, alguns magros, alguns gordos — todos em completo silêncio enquanto cruzavam para a igreja. E logo outro precioso gigante, também vestido como um inglês, apareceu de um pequeno edifício e cruzou para os jardins detrás da igreja. E logo viu vários outros guerreiros escoceses vindo a eles deste outro edifício, todos enormes, poderosos e malditamente esplendorosos. Havia tanta testosterona no ar que estava enjoada. Olhou fixamente longe do trio, com o coração a toda velocidade. Malcolm lhe lançou um obscuro olhar.

Encontrou seu olhar, pensando que estava indubitavelmente rodeada pelos mais fantásticos, sexy, viris homens na história do mundo, mas nenhum deles se comparava com Malcolm de Dunroch.

— Permanece uma pequena capela para os monges —disse MacNeil, baixando as incrivelmente espessas pestanas — para manter o solo santo. O monastério se converteu em nosso santuário faz muito tempo. A maioria dos monges voltaram a seus claustros. Este é um refúgio seguro para nós, quando decidimos vir. —Repentinamente sorriu formando profundas covinhas, olhou-a diretamente—. E às vezes estão submetidos às ordens que lhes dou.

Tragou e olhou Malcolm, que estava realmente zangado com seu amigo. MacNeil estava luzindo-se, deixando que soubesse quem era o chefe realmente aí.

— Necessito a verdade —disse, consciente do desespero em sua voz.

O olhar se voltou lentamente para sua boca.

— Tem muitas perguntas —exclamou brandamente—. Malcolm haverá te dito a verdade. Isso dá voltas em sua cabeça, como um fastígio.

— Realmente é o tataraneto de uma deusa? —gritou.

— Sim.

Claire olhou fixamente ao moreno escocês. Sorria-lhe. Logo disse brandamente, nunca apartando a vista dela,

— Calum, moço, queria uns minutos a sós com a moça.

Malcolm se voltou para Claire. Ela não vacilou.

— Por favor.

Assentiu austeramente e se foi.

      Ficou a sós com o pseudo monge. — Então tudo isto é real. Este é um mundo do bem e o mal, demônios e Mestres. Os demônios têm superpoderes, e também vós. Ambos são descendentes de antigos deuses. Malcolm é descendente dessa deusa, Faola. E esta é uma Irmandade secreta.

— Sim.

Claire o olhou fixamente, finalmente aceitando a realidade —ou o pior dos pesadelos. Ele olhou para outro lado, paciente mas atento. Era tão difícil predispor a mente ao feito de que Malcolm era o tataraneto de uma deidade. Finalmente disse, com temor:

— É imortal?

MacNeil sorriu.

— Nenhum de nós é imortal, moça. Brogan Mor morreu em batalha por feridas mortais. Tinha duzentos e cinquenta e dois anos.

Claire quase o tinha esquecido.

—Malcolm pode morrer em batalha? Da mesma forma que seu pai? —esse pensamento a perturbou inclusive mais.

Claire tinha que saber.

— E se não for ferido, quanto tempo viverá? Duzentos anos? Quinhentos anos?

— Não sei.

— Dê um palpite! —gritou, tremendo.

MacNeil ficou firme.

— Acredito que podem ser centenas de anos. —A expressão era indagadora agora, como se quisesse entender a confusão em seu coração.

Claire voltou o olhar para Malcolm. Queria que tivesse uma vida longa, mas isto era muito para suportar. Quando ela morresse aos noventa ou perto, ele não ia inteirar-se —ou inclusive lhe importar.

Importar-me-á

A voz do Malcolm soou forte e clara em sua mente, embora estava parado tão longe que não poderia lhe ouvir se falasse.

— Isto é realmente difícil —se escutou dizer. Forçou um sorriso que pareceu fantasmagórico a MacNeil—. Pergunto se despertarei amanhã em minha cama em Nova Iorque, em um mundo cordato cheio de criminosos que são sociopatas e pervertidos, nada mais.

Compaixão passou pelos olhos verde-esmeralda de MacNeil. — Ambos sabemos que não pode retornar a seu tempo ainda.

Claire pensou em Sibylla e o demônio no caminho a Dunroch. Tremeu.

— Tenho uma pergunta importante. Por que não trouxeram toda classe de invenções modernas a este tempo? Por que brigam com espadas e não pistolas? Em todo caso por que não só se sugam a vida um do outro?

Brilhou-lhe um sorriso.

— Posso tomar sua vida, mas não a de um poderoso deamhan; usaria seu grande poder para combater o meu. Mas se o firo o bastante, posso lhe tirar a vida facilmente, por que estaria muito fraco para me deter.

Infelizmente, isso teve sentido.

— Requer um grande esforço tomar uma vida, moça. Frequentemente é mais fácil cortar a cabeça de um homem com a espada. Além disso —adicionou— somos highlanders. Ainda quando podemos viajar a seu tempo, vivemos aqui.

— O quanto ao resto?

Voltou-se sério.

— Há muitas regras, Claire. Quando fazemos nossos votos, juramos obedecer ao Código. Existe debate a respeito de algumas coisas, mas certas regras estão claras. Um Mestre não deve mudar a história. Um Mestre não deve corromper as pessoas do presente. Um Mestre não deve desafiar ao destino. Trazendo suas armas aqui faríamos tudo isso.

—E os demônios? Certamente esses idiotas viajantes do tempo trouxeram arma e gás.

— Destruímo-los quando chegam, tanto se trouxerem o futuro com eles, como se não. Quando o fazem, destruímos suas armas —adicionou brandamente—. Os Deamhanain não obtêm prazer usando veneno, gás ou armas. Tomam prazer da tortura e a dor infringido com suas próprias mãos, com estupros ou assassinatos de vida inocente.

—Entendido. —suspirou Claire. Voltou-se, sentindo-se mal do estômago. Isso era o que Sibylla queria para ela? Tortura, violação e logo a morte?

Tocou-se a garganta e caminhou para um par de abetos, detendo-se na sombra. Tragou ar. Sua mente estava preste a apagar.

— Que outros poderes tem os demônios? O que é quão pior podem fazer?

O quão pior Sibylla pode fazer?

O olhar de MacNeil se obscureceu.

— Se houver um poder, há um demônio, que de algum jeito o tem —a boca voltou a endurecer-se. – mas, há um Mestre, que de algum jeito, também, tem-no.

Foi varrida por desagradáveis calafrios.

— Genial. Outra coisa, pela que preocupar-se. Demônios invencíveis. —Claire se sentou em uma pequena banqueta elegantemente esculpida.

— Só lhes digo, que há um Mestre para vencê-lo —continuou, revelando que lhe tinha lido a mente—. Sibylla entregou grandes poderes ao mal. Realmente se satisfaz com a tortura, tomando vida.

Olhou-o desagradavelmente.

— Sorte a minha.

— Tem Malcolm para lhe proteger. Não falhará, moça.

Ela começou a tremer.

— Por quê? Por que estou aqui, MacNeil? Pequena velha humana, estudiosa, covarde Claire!

— Desejaste estar aqui durante anos. —respondeu. — Desejaste conhecer Malcolm. Do que lhes queixam?

— Essa não é uma resposta! —gritou—. E como sabe isso? Por que o estava esperando? Demônios, o que querem os Antigos por mim? —e se deu conta de que considerava a viagem no tempo seu destino.

— Tenho o dom de ver através do tempo, mas não sei o que querem os Antigos de você. Não me permitem vê-lo. —Olhou-a fixamente—. Minha sugestão é esta. Não brigue com o destino.

Olhou-o fixamente.

— É Malcolm meu destino?

— Não posso lhe responder isso.

— Sim claro! —gritou, com os punhos apertados—. Não pode ou não quer?

Endureceu-lhe a cara, e nesse instante, não havia nada agradável ou reconfortante nele.

— Não o farei.

Claire retrocedeu. Ele podia ser amável, inclusive coquete, mas agora, não havia dúvida de que era um capitalista, autoritário homem. Como Malcolm, era um lorde das Terras Altas e de Iona, era virtualmente um rei.

— Entendo —disse.

Relaxou a cara ligeiramente.

Claire mordeu o lábio. Queria saber se poderia retornar a casa e se Amy, John e seus filhos viveriam vidas longas, saudáveis.

—Voltará, moça —disse brandamente—. Permite-me lhe dizer isso só.

Claire esperava estar emocionada. Mas em lugar disso, estava desanimada. A vista lhe vagou através do jardim para Malcolm, cujo olhar estava fixo sobre eles. O coração martelou. Algum dia, deixá-lo-ia.

Ela tragou.

— Por favor pode me dizer a respeito de minha família?

— Se lhe disser que sua prima não lhe necessita, acreditará?

Claire vacilou. Podia realmente confiar na interpretação deste homem sobre o futuro quando se tratava da Amy e os meninos? Teve a sensação então de que Amy deveria saber de tudo. Devia saber que o mal não era tão ao azar como parecia, mas ela não podia saber a respeito de demônios desumanos, verdade?

Ou podia?

Se a guerra entre o bem e o mal existiu desde o começo dos tempos, se cultos existiam; como esta Irmandade para combatê-la; se ela, Claire Camden, tinha descoberto a verdade; então demônios, outros tinha que sabê-lo, também.

— Quando me perguntará o que realmente quer? —disse MacNeil brandamente.

Claire ficou rígida e o olhar voou para o dele. Logo olhou Malcolm. De repente, sentiu como se Malcolm estivesse escutando cada palavra, mas isso era impossível. Entretanto, estava segura de que lhe escutava cada pensamento.

Mas não podia evitar o tema que mais medo lhe dava. Era difícil dizer as palavras porque temia a resposta do MacNeil. Sua voz foi rouca quando falou:

— Supostamente é um protetor do Inocente, mas matou a uma mulher inocente durante o sexo. Foi um acidente?

— Sim.

— Então me explique —gritou brandamente—. Porque soa como um crime por prazer!

— Foi seduzido para o crime por Moray.

Claire sentiu como se todo o sangue se fora da face.

— O mal sempre caça aos jovens Mestres, esses que não conhecem seus poderes muito bem. Moray queria que Malcolm sentisse prazer com a morte e logo quis que sentisse esse prazer de novo. Desejava que Malcolm se tornasse um demônio, Claire.

— Oh, Por Deus —sussurrou Claire—. Queria a alma de Malcolm.

— Sim. Moray levou por enganos Malcolm a Urquhart, brigou com ele e o deixou morrendo. Logo lhe enviou uma bela donzela para tentá-lo para o mal.

A mente de Claire estava confusa.

— Não entendo.

Estava sério de novo.

— Os Antigos nos deram o poder de tomar a vida de outros, não só para destruir o mal, mas também para aumentar nossos poderes e nos salvar da mortalidade. Supõe-se que devemos viver, Claire, por que somos a salvação da humanidade. Malcolm estava morrendo. Tomou a vida da mulher para recuperar-se, como devia. Mas não se deu conta que tomava tudo o que tinha até que foi muito tarde, e ela jazia morta.

Claire se levantou, em parte horrorizada e em parte fascinada.

— Posso entender isso, exceto que estavam tendo sexo, MacNeil.

— Ah, pequena, bom, o poder é o prazer máximo. O poder põe aos homens excitados —disse brandamente— e não há maior êxtase que ter mais poder bombeando nas veias.

Claire teve imediatamente uma muito gráfica imagem dentro da mente. Tomar poder inspirava sexualmente? Tomar poder e a força da vida para a um homem querer sexo? Era orgástico?

—Sim —murmurou, e sorriu.

O tom havia lhe tornado tão sedutor que instantaneamente soube que tinha tomado poder durante o sexo. Olhou dos olhos verdes esfumados dele para Malcolm. Estava agora caminhando com largos passos, aparentemente furioso.

MacNeil disse, com o olhar cintilando:

— Quando une sexo ao Le Puissance, há ainda maior êxtase.

Quando sorriu, parecendo muito a um menino travesso, Claire soube que tinha querido deixa-la excitada. E tinha funcionado. A consequência da horrenda conversação que tinha tido, cada polegada dela estava inflamada.

Caminhou longe dele, muito aturdida para estar zangada com semelhante brincadeira. De algum jeito, isto também tinha sentido, porque desde o começo dos tempos, o poder era tão afrodisíaco como belo, se não mais.

Deu-se a volta com uma repentina certeza.

—As mulheres, as vítimas, também o sentem verdade?

MacNeil assentiu.

— Como sua telepatia, pequena. O que sente o homem, a mulher o também sente, e vice-versa.

Malcolm lhe aferrou o braço.

— Teve suficientes palavras contigo —disse a MacNeil furiosamente—. Mas terei algumas palavras contigo eu mesmo.

MacNeil se encolheu de ombros.

— É muito afortunado Calum. E sou um homem tanto como um Mestre. Não posso ajudar mas posso admirar tanta beleza e querê-la para mim.

Malcolm estava preparado para explorar e Claire sabia. Mas antes que pudesse acalmá-lo, MacNeil disse:

— Nunca te trairia, moço. —encolheu-se de ombros como se não tivesse feito nada mau e se afastou.

Malcolm puxou Claire, arrastando-a a um lado. Claire em troca se jogou em seus braços. Os olhos dele estavam dilatados, e então a agarrou pelos ombros. Claire se aproximou, sabendo o que encontraria. Uma enorme ereção lhe golpeando o quadril.

— Isso foi o que aconteceu? —sussurrou.

— Sim —lhe sustentou o olhar inquisidor.

— Mas estava ferido... morrendo. Comigo, está bem. Por que pensa que perderá o controle? —gritou, lhe tocando as bochechas.

— Porque conheço Le Puissance. Qualquer homem que o tenha feito quererá esse êxtase de novo. Quando estiver contigo, moça, terei a necessidade de tomar um bocado, um bocado, de seu poder.

Claire olhou fixamente dentro de seus olhos febris, consciente de seu desejo, de que deveria ter medo, estava tendo o efeito contrário. O coração lhe pulsava muito rápido agora.

— Confio em ti —disse, e por Deus, o fazia.

Em resposta ao que ele estava dizendo, apertou-se mais em seu abraço, descansando a bochecha em seu peito, escutando seu retumbante coração. O corpo lhe palpitava contra o dele. As mãos de Malcolm se moveram sobre suas costas.

— Maldito MacNeil por te pôr tão excitada.

— Você me faz estar assim —as arrumou para dizer. Olhou para cima—. Confio em ti. Estou segura de que podemos fazer amor sem recorrer ao... —duvidou. — Le Puissance.

E no momento que ela falou, sentiu que o corpo dele se sacudiu e se inchou impossivelmente.

— Não.

— Malcolm!

— Não pode entender? Moray quer que tome prazer da morte. Quer-me luxurioso pelo Puissance.

Claire olhou mais à frente. O temor surgiu, e com ele, alarme.

— Quer de novo —disse com voz pouco clara—. O quer de mim.

— Sim —disse austeramente. — É minha prova, Claire.

—Meu Senhor —disse seu mordomo com cautela, mas seus olhos estavam cheios de medo—, o conde de Moray está no térreo e requer sua presença

Aidan já sabia que o senhor da escuridão estava em seu castelo. Havia sentido a obscura e arrepiante presença enquanto estava profundamente enterrado dentro da mulher que tinha sido sua mais recente amante. Olhou-a com pesar. Jazia sob uma colcha, compridos e loiros cachos derramando-se até seus nus ombros, além de qualquer dúvida a mulher mais bela de toda Escócia. Sua beleza era impressionante, e agora era dele. Quando se tratava de beleza, ele nunca se negava nada... Tinha se preparado para brigar com o pai dela em seu nome, sitiando seu torreão se tivesse sido necessário até que o homem tivesse cedido, mas não tinha sido necessário. O pai de Isabel tinha entendido as vantagens que ele cederia por tê-la. Não houve sangrentas batalhas, tão somente uma rápida negociação. Aidan veria Isabel apropriadamente desposada quando acabasse com ela, lhe proporcionando um muito generoso dote. Enquanto MacIver vivia nas terras adjacentes ao Awe[39], Aidan a casaria com um dos senhores menores que lhe serviam. Ao final, o pai de Isabel seria um novo tenente ao serviço de Aidan, e sua filha seria a senhora de seu próprio e pequeno forte.

Aidan se inclinou sobre ela. Não estava terminado mas ela estava esgotada.

— Dorme bem, minha dama, merece-o. —Passou o polegar sobre sua torcida boca.

Seus olhos brilharam com adoração.

— Meu senhor.

Sua reputação como amante com infinita resistência e grande generosidade estava bem estabelecida e merecida. Apartou-se muito satisfeito. Possivelmente esta vez seria diferente. Possivelmente esta vez o aborrecimento demoraria mais em aparecer. Graças a seu maldito pai, seu sangue sempre estava quente mas seu interesse sempre decaía, e rapidamente. Isabel tinha estado no Awe cinco dias. Desejou poder desfrutá-la durante muitos meses, ou inclusive mais tempo, mas sabia que seria só questão de semanas antes de mudar.

É obvio, essa não era realmente a questão. Haveria uma nova mulher para substituí-la em sua cama. Sempre o havia.

Evidentemente, não tinha herdado nem um simples traço de sua mãe, uma aristocrata de grande caráter. Era uma mulher capaz de um imperecível amor e lealdade. Ele não podia imaginar sujeitando-se a uma esposa defunta como ela fez. Mas ela tinha amado a seu marido, e preferia o claustro agora que ele se foi. Até para pouco, nunca tinha amado a ninguém, nem a sua mãe, a quem não conhecia, nem a seus pais adotivos, que o tinham criado só porque não tinham tido nenhuma opção. Aquilo tinha mudado, entretanto, com o nascimento de seu filho, ao qual apreciava e adorava.

— Digo a vossa senhoria que descerá logo? —perguntou Rob com a cara corada.

Aidan estava imóvel. Fugazmente se imaginou rechaçando ao mais poderoso e perigoso homem do reino. Gostaria de frustrar Moray, mas logo que estava o bastante louco para agir desta maneira sobre tão insignificante assunto. Sorriu com frieza.

— Nay[40]. Falarei com ele eu mesmo.

Suas tripas se retorceram enquanto ia escada abaixo. Ninguém podia infundir tanta tensão nele como o conde de Moray. Odiava o jogo que jogavam, a guerra que faziam. Não havia outra opção. Não obstante, havia um pequeno consolo. Moray ainda tinha que matá-lo, e Aidan tinha começado a pensar que nunca o faria. Moray tinha a intenção de triunfar sobre ele, a toda custo. Era questão da soberba do diabo.

Aidan se aproximou da grande câmara, chegava a ser a mais glacial do castelo. Estava acostumado a isso, mas tremia de todas as formas. O calafrio estava cheio de aversão e pavor.

Moray estava sozinho no grande salão, admirando uma pintura a óleo de John Constable[41]. Ninguém conhecia a verdadeira idade do conde, mas aparentava estar em metade dos trinta. Era tão garboso, loiro e olhos azuis, que as mulheres brigavam por compartilhar sua cama, inclusive embora elas raramente sobrevivessem à noite. Os homens brigavam por gozar de seus “favores” também.

Estava vestido em um comum estilo cortesão, com longa túnica vermelha e meias carmesins, e uma curta e acinturada jaqueta negra. E é obvio, vestia o tartan vermelho, negro e ouro dos Moray e muitas joias. Moray tinha mobiliado o salão durante centúrias antes de ceder o castelo do Awe a Aidan, com a esperança de comprar sua lealdade, consciente de sua preferência pela verdadeira beleza. Aidan tinha continuado o esforço, e a vasta câmara estava cheia com tesouros de todo o mundo e muito diferentes séculos, incluindo algumas do futuro*.

— Acredito que tem algo para mim —disse o senhor da escuridão

Recusando manifestar sua tensão, Aidan protegeu sua mente para que Moray não pudesse ler seus pensamentos. Mas, é obvio, o conde saberia de algum jeito que tinha encontrado a página desaparecida na livraria de Nova Iorque. Moray tinha espiões por toda parte. E provavelmente espiava os pensamentos de Aidan quando não estavam protegidos, tão fácil como em seus sonhos.

— Aye, encontrei a página do Cladich. Mas, o que ganho se a cedo?

— Permanecerá em meu favor. —disse Moray em voz baixa, os pálidos olhos brilhando—, não obtém nada salvo desaprovação com sua conduta imprudente, ingrata e independente.

— Vocês sempre podem me cortar a cabeça e lhes libertar de tal chateação —disse Aidan. Moray era imbatível na batalha. Provavelmente podia fazer alguma coisa antes que Aidan pudesse sequer desembainhar a espada. Aidan caminhou à mesa de cavalete e serviu clarete em um formoso copo de vinho de cristal feito por alguém chamado Baccarat[42]. Ofereceu-o a Moray, que o aceitou, logo serviu outro copo para si mesmo.

— Ambos sabemos que nunca fui derrotado. Ao final, ganharei. Dar-te-á conta de que desperdiçaste os primeiros anos de sua vida na Irmandade. Estás destinado a ser um dos mais poderosos demônios de todos os tempos. Está destinado a me servir.

Aidan o saudou e bebeu. Não era um bom homem, mas não era tampouco um mau. Tinha protegido ao Inocente apesar de sua ambivalência sobre seus votos, e continuaria fazendo-o, embora gostaria muito mais de seduzi-la. O que não queria era fazê-lo desfrutando de sua morte, inclusive às vezes suas vísceras, gritavam por tal cumprimento. Matar-se-ia primeiro. Odiava tanto Moray.

—Ambos sabemos que desfrutará de sua nova amante, inclusive mais se saborear sua pura vida, se toma seu poder enquanto estás fodendo-a. —murmurou Moray.

Ele ficou rígido.

— Aye, um momento.

Girou-se, excitado e odiando-o, indo fechar o cofre na parte mais afastada da câmara. Era de um lugar chamado Índia, e era feito de ouro sólido e prata. Tirou a chave do cadeado de seu pescoço, abriu-o e entregou a Moray o que ele queria... Uma página do sagrado Cladich. Possivelmente então o senhor da escuridão o deixasse em paz.

Esta página em particular tinha grandes poderes, as ordens de Aidan tinham sido traduzi-la. O terceiro verso devolveria a vida aos moribundos, se as feridas eram infringidas por espadas, ou uma arma similar que ferissem um homem dessa forma, por exemplo, uma adaga ou uma faca. Considerando a natureza de muitas batalhas, poderia não haver página mais importante em todo o livro de cura.

Moray agarrou a página imediatamente, os olhos se voltaram vermelhos de fúria.

— Isto é inútil! Seu poder se foi.

Aidan sorriu, satisfeito.

— Aye, é inútil. Tentei-o em um de meus escudeiros que tropeçou com sua espada, atravessando-se no ato. Mas morreu pela ferida.

Moray deixou cair o pergaminho no chão.

— Pensa me enganar?

O coração de Aidan se acelerou.

— Encontrei isto na livraria. Não é culpa minha que seja inútil. Acredito que é uma falsificação.

Moray sorriu, os olhos ainda brilhando.

— Jogou comigo e desfrutou.

Aidan se esticou, consciente do aumento de seu medo. Estava assustado com Moray, mas não de morrer, embora preferisse muito viver.

— Você não perguntou se era eficaz.

Encolheu-se de ombros.

Moray esticou a mão e embalou a bochecha de Aidan, quem se estirou. Inclinou-se o bastante perto para que seus lábios lhe roçassem a pele.

—Então tomarei à mulher —acrescentou, sua boca uma carícia—. Esta vez.

Aidan se sacudiu horrorizado, posto que compreendeu a ameaça. Moray tomaria Isabel, desfrutá-la-ia, a foderia e a mataria, gritando de prazer enquanto o fazia. E Isabel morreria com prazer, também.

Esta vez.

A próxima vez seria o menino de Aidan.

Aidan viu vermelho. Apertou o punho de sua espada, preparando-se para a batalha, seu coração trovejava agora. Era sua obrigação proteger a sua amante, mas morreria por seu filho. Moray era mais poderoso que ele e sua vitória era segura, mas se os Antigos lhe perdoassem seus muitos pecados, possivelmente descobriria um novo poder. Moray não devia sair ileso.

Certamente Malcolm de Dunroch, um homem nobre, protegeria a seu filho da escuridão.

Uma criada que algumas vezes levou a cama, uma preciosa moça de quinze anos, entrou correndo na habitação. Seus olhos estavam frágeis e Aidan soube imediatamente que estava enfeitiçada.

— Meu senhor —se ajoelhou ante Moray.

Aidan tirou sua espada.

— Nay!

Moray baixou o olhar para ela e se desmoronou lentamente ao chão. Aidan não teve que ajoelhar-se a seu lado para saber que estava morta. Seu poder era tão grande que podia tomar uma vida humana inteira no espaço de um simples batimento de coração.

Moray se virou, mas não parecia satisfeito. A luxúria queimava seus vermelhos olhos.

— Um pequeno aviso. Perco a paciência com cada lua crescente.

Aidan tomou fôlego com força.

— Um dia, alguém te enviará ao inferno.

Moray riu, e Aidan foi lançado contra a longínqua parede por sua invisível força. Não tinha esperado o golpe de energia e não tinha tido tempo para usar seu próprio poder para reduzi-la. Sua cabeça golpeou a pedra e viu estrelas.

Quando as estrelas se desvaneceram, Moray permanecia sobre ele.

— Na próxima vez, Isabel.

Aidan lutou por ficar em pé.

— Terminei com ela —mentiu, pondo seus pensamentos em branco cuidadosamente—. Há alguém novo. Você pode tomá-la agora.

Moray o olhou fixamente, e Aidan soube que estava tentando espreitá-lo. Aidan trocou seus pensamentos. Moray tinha poderes fortes agora, fazendo-o mais forte que quando tinha entrado pela porta. Mas aquela era sua forma. Ele tirava a vida da mesma forma que um homem tomava fôlego. E até que um grande Mestre se elevasse, continuaria seu reino do mal, queimando a terra com sangue fresco por onde passava e convertendo a outros Inocentes em demônios para suas hordas.

— Segue sendo o mesmo louco teimoso —murmurou Moray—. Seu ódio não te serve bem. Sabe a verdade. Posso te dar o poder com que sonha.

Aidan se esticou. Sua única ambição era o poder, mas não para a razão de todos os pensamentos. O poder era um baluarte necessário contra Moray. O poder era amparo para ele mesmo e seu filho.

— Logo, Aidan, inclinar-te-á ante mim.

O vermelho estava desvanecendo-se de seus olhos. Sorriu e se esfumou no ar.

Aidan estremeceu de fúria e ódio. Então girou e correu escada acima para assegurar-se de que Isabel estava onde a tinha deixado... E que estava viva. Estava deitada tão imóvel como uma perfeita estátua. Foi ao seu lado e tocou seu peito, só para encontrá-lo subindo e baixando com o ritmo da vida. Seu alívio não conheceu limites.

Ergueu-se.

Aidan nunca tinha odiado a ninguém da forma em que odiava a seu pai.

 

Claire não queria ser uma prova, de nenhuma classe. Não quando a consequência era a posse da alma de Malcolm. Malcolm tinha que estar equivocado. Se fizesse amor, ele não ia perder o controle. Separou-se de Malcolm, olhando fixamente ao oceano, sobre os ruídos muros do monastério.

Era quase incrível quão rápido se introduziu neste terrível e novo mundo. Estava desalentada. Perguntava-se se nunca se sentiria alegre outra vez.

Ele veio situar-se detrás dela.

— Não fique cismada—pediu com tom ligeiro, mas com um esforço. Ela sabia que queria lhe oferecer algum consolo—. Estamos em Iona, moça, e farei o que quer. Perguntarei a MacNeil se pode ver o Cathach.

Ela se girou.

— Eu gostaria disso —titubeou—. Malcolm, é assustador. É quase como se Moray estivesse te caçando agora.

Os olhos dele relampejaram, mas sua expressão não mudou. Era impossível lê-la.

— Isso foi há três anos, Claire. Não está me procurando agora. Está perseguindo outro jogo.

Claire desejava poder acreditá-lo

— O que são três anos na longa vida de um demônio como Moray?

Malcolm ficou rígido.

— Quantos anos têm, quinhentos anos, mil?

— Não sei. Ninguém sabe.

A ira dela finalmente estalou.

— Os odeio! Odeio a todos eles! Assassinaram a minha mãe, a Lorie e a centenas de outras! E lhe querem, também! Exceto que querem que se transforme. É esta a palavra? Transformar? É isto o que significa quando um Mestre é seduzido pelo diabo?

Sua raiva não conhecia limites.

— Não serei seduzido pelo lado negro, Claire —disse Malcolm, seus olhos cinza brilhando—. Morrerei por minha própria mão antes.

— Isto não é tranquilizador —ela se envolveu com seus braços—. Tenho lembranças da vida antes em casa. Sobre as indiretas que Amy sempre estava deixando cair cada vez que as notícias apresentavam outro crime por prazer. Sabia algo? Ou o adivinhou?

— Não conheci sua prima, Claire

— MacNeil disse que voltaria para casa. Não disse quando.

Malcolm apartou o olhar dela, sua cara endurecida com severas linhas.

Ela o agarrou por braço

—Quando o fizer, tenho que proteger a minha prima e a seus meninos de algum jeito. Preciso lhe dizer a verdade sobre o diabo.

Malcolm a agarrou pelo cotovelo, seus olhos ardiam.

— Devo te perguntar, como os protegerá, Claire?

Claire vacilou. Aquela era uma maldita boa pergunta.

— Pode me ensinar como combater... não, matar... aos bastardos?

Ele permaneceu em pé ali, parecendo muito infeliz com o pedido.

— Pensá-lo-ei.

Mas Claire mal escutou. Agora que conhecia o mundo em que vivia, tinha que ser muito mais capaz de proteger-se melhor. Este era um mundo em guerra, e Malcolm tinha razão. Não havia um lugar seguro para esconder-se. Estava assustada, mas brigar sujo era melhor que esconder-se. Certamente, com alguma habilidade e um pouco de empenho, um humano podia derrubar demônios.

Ele estava à espreita.

— Nay! É uma mulher, e uma mortal, além disso! Não tem poderes!

Ela se deu conta de que não havia outra eleição. Era fazê-lo ou morrer, literalmente.

— Eles mataram a Lorie e a minha mãe. Sou forte. Ensina-me como matar demônios. Disse que Moray repartiu poderes aos Duaisean. Por que não posso ter poderes, também?

— Nós somos Mestres, não mágicos. Nascemos com nossos poderes, Claire. Estão em nosso sangue! E não fazemos Duaisean, Moray os faz. Inclusive se o fizéssemos, seus poderes seriam para os Mestres, e só os Mestres! —exclamou, ruborizando-se—. Você poderia ser capaz de matar o mais fraco Deamhanain como fez o outro dia. Seria capaz inclusive de encontrar uma forma de matar a Sibylla. Mas um deamhan real como Moray lerá seus pensamentos! Se de algum jeito consegue atacá-lo, teria que deter sua mente, de outra maneira te sugará a vida, rindo enquanto o faz.

Claire tremeu, captando a mensagem subentendida, seria sexualmente seduzida, também.

— Como posso deter a mente de um poderoso demônio?

— Bem, me deixe ver —se burlou ele furiosamente—.Pode empunhar uma espada e decapitá-lo, ou apunhalá-lo no coração.

Um demônio tem que ser assassinado instantaneamente, ela pensou.

— O que acontece se eu conseguir torná-lo inconsciente? Então não poderia me enfeitiçar ou tomar minha vida.

— Nay! Não te ensinarei como caçar demônios. Caçarei por ti.

Nem o sonhe!, pensou ela.

— Ensina-me a usar uma espada

— Leva anos de prática. E mesmo assim, não tem a força para cortar a cabeça de um homem de seu corpo.

— Merda —disse Claire—. E um inferno, também.

Mas podia fazê-lo. As artérias carótidas podiam ser cortadas. O coração podia ser perfurado. Igual aos pulmões. As mãos podiam ser cortadas. Não havia escolha.

— Vou fazê-lo, Malcolm, com ou sem sua ajuda.

— Não deveria ter te dito a verdade.

Era muito tarde, pensou Claire. As imagens estavam cintilando agora em sua mente. O mundo medieval, o mundo moderno. Um mundo em guerra... demônios e Mestres...

Uma ideia terrível apareceu. Com os olhos abertos, olhou Malcolm.

— Malcolm.

Ele a olhou com consternação.

— Quero encontrar o demônio que assassinou a minha mãe.

Claire seguiu MacNeil sob a muito pequena nave[43] da capela, que estava situada detrás da igreja e apartada. Não tinha se fixado na capela ao entrar pela primeira vez no monastério. A pedra da construção tinha vários séculos, o teto baixo e redondo. Claire viu imediatamente o sepulcro.

Um nicho estava construído na parede de pedra atrás de onde o altar tinha estado uma vez e um antigo relicário de ferro estava ali, adornado com ouro, ao estilo celta. O pulso de Claire se acelerou.

Enquanto eles se aproximavam do sepulcro, seus passos ressonando, Claire se viu consciente do poder e beleza que cobriam a capela, pesado e tangível, saturando o ar.

Claire vacilou enquanto MacNeil ia ao relicário. Havia algo tão silencioso e tão profundo nesta capela, tão vasto, tão impressionante. E se não era a presença de Deus, o que era?

Encontrou o olhar de MacNeil e ele sorriu, claramente consciente do que estava sentindo. Como o teto era tão baixo, permaneceu parado.

— O Mestre faz seus votos aqui, Claire. Você está sentindo mais de oitocentos anos de poder e graça.

Claire nunca tinha sido religiosa, mas ele estava certo.

— A Irmandade era parte disto quando Santa Columba fundou o monastério aqui no século VI? —perguntou.

Ele sorriu, formando-se covinhas.

—Nay, Houve Mestres desde o começo dos tempos. Mas o santuário se mudou a Iona com a grande Santa.

Ela estava frente ao sepulcro enquanto MacNeil tomava uma chave do anel encadeado a seu cinturão e abria o relicário, levantando as tampas para expor o Cathach. Claire caminhou mais perto e ofegou.

O Cathach em exposição no Dublín era um manuscrito. Ela estava olhando a um livro encadernado, suas capas incrustadas com centenas de gemas brilhantes... rubis, safiras, esmeraldas e citrinos. Um ferrolho de ouro mantinha as páginas ocultas.

— É magnífico! —disse em um sussurro.

— Aye.

Claire lhe dirigiu um olhar, sua mente correndo.

— O Cathach do Dublín... É uma cópia que Santa Columba tinha escrito. Este é o verdadeiro, verdade?

MacNeil sorriu

— As páginas foram escritas por nós na Dalriada, moça, antes que Columba tivesse nascido ainda.

OH, meu deus, pensou com pavor Claire.

— E foi encadernado recentemente.

Ela não estava perguntando. Os livros encadernados eram uma invenção da Idade Média.

— Um século atrás.

MacNeil abriu o cadeado e com isso o livro.

O coração do Claire pulsava furioso. Imediatamente viu que as páginas eram de pergaminho, um couro que estava intrincadamente tratado para ser afinado, suavizado e preservado.

MacNeil como se fora um segredo disse:

— Este é o couro dos touros sagrados. Os Antigos disseram aos xamãs como curti-lo quando nos deram sua sabedoria e poder.

Claire apertou os lábios.

— O livro não durará para sempre. Precisa ser posto em um ambiente estéril com o grau preciso de umidade

MacNeil lhe sorriu abertamente.

— O livro foi bento pelos deuses, moça. É eterno.

Claire esperou ardentemente que tivesse razão. Aproximou-se. Como a cópia em exposição no século XXI, estava escrito em gaélico irlandês antigo, não havia espaço entre as palavras e estava decorado com trompetes, espirais em padrão guilloche[44], distorcendo as letras. Não podia apartar o olhar. Estava olhando fixamente a sagrada relíquia celta... Uma que seus iguais nunca souberam que existia

Claire queria ler o livro com desespero, mas como não sabia gaélico, não podia. Um tradutor seria o melhor.

— Leia-me isso MacNeil, só uma página.

Seus olhos se abriram.

—É proibido... Mas você já sabia disso.

Lentamente encontrou o intenso olhar verde de MacNeil.

— Os historiadores acreditam que o Cathach era utilizado antes das batalhas para dar poder às armas. Se me lembro corretamente, um escocês o levou em uma batalha e depois os clãs lutaram por ele.

— Estão equivocados. Um Mestre o levou na batalha faz centenas de anos. Um demônio brigou com ele por isso.

— É obvio —murmurou Claire. A história tinha sido interpretada erradamente.

— Você é sábia, Claire. Não necessita a sabedoria do Cathach.

Ela o olhou fixamente de novo.

— Preciso de poder. Necessito a classe de poder que seus amigos têm, assim poderei caçar ao demônio que matou a minha mãe.

— Sinto muito, moça, mas não posso lhe dar esses poderes. Só o diabo pode.

Claire se estremeceu.

Dirigindo-lhe um olhar de soslaio, fechou a incrustada janela e a travou. Depois deslizou o livro dentro do cofre do relicário, o qual também fechou com chave.

A sabedoria era sempre mais forte que o poder, pensou Claire. Desejava desfazer-se de MacNeil e de algum jeito abrir o cofre e o livro. Embora não poderia lê-lo, tocaria as páginas e rogaria. Possivelmente lhe daria a sabedoria para encontrar a seu inimigo. Possivelmente também lhe daria a sabedoria para derrotá-lo

Mas não ia tentar romper a fechadura de tão sagrada relíquia. Necessitava a chave. Olhou MacNeil perguntando-se se poderia seduzi-lo e agarrar a chave enquanto o fazia.

Ele sorriu amplamente.

— Ah, moça, amaria ser seduzido, mas mesmo assim fracassaria em roubar a chave. Esta enfeitiçada. Sentir-se-á melhor quando deixar o santuário —estendeu sua grande palma no ombro dela—. Preciso falar com Malcolm. Fique aqui se o desejar. Confiamos em você, moça.

Ela assentiu com a cabeça. Os verdes olhos dele eram cálidos e divertidos enquanto deixava cair a mão e a deixava.

Ela tremeu. Realmente tinha pensado em violar um sepulcro sagrado. Não queria ser enfeitiçada pelo Cathach, mas era difícil pensar com claridade. O poder e a graça da capela era sentido mais forte que nunca antes.

Claire não vacilou. Aproximou-se e passou suas mãos sobre o cofre de ferro e filigrana de ouro. Ia encontrar e matar ao demônio que tinha assassinado a sua mãe ou morreria tentando-o... Com ou sem poder e sabedoria realçados.

Mas um pouco de ajuda seria bem recebida.

Claire não tinha rezado em anos. Tempo atrás, tinha decidido que Deus em realidade não se preocupava com ela e seus problemas. Mas talvez Ele passasse a preocupar-se agora.

Suas têmporas pulsavam. Enquanto tinha a caixa de ferro sob sua mão, e o pendente de sua mãe queimava seu peito, Claire sussurrou:

— Isto é pelo que estou aqui? Estou aqui para ajudar aos Mestres de algum jeito? Se for assim, suponho que devo utilizar minha mente... Minha educação? Ou suponho que devo agarrar as armas e combater ao inimigo, o caminho que Malcolm segue? —inalou—. Necessito ajuda. Ajude-me com isto. Ajude-me a encontrar a fortaleza e a coragem para lutar com o diabo. Por favor, guarda a Amy, John e seus meninos seguros. — Mordeu o lábio, pensando em Malcolm com o coração acelerando-se. — Por favor, ajuda Malcolm. Ajuda-o a lutar contra o diabo... Ajuda-o a permanecer em Sua luz.

A capela se sentia como se estivesse girando, como um carrossel.

— Faola, se está escutando, obrigada por me enviar ao Malcolm. —Titubeou. Acreditava na deusa? — Ajude-nos a Malcolm e a mim. Ajude-nos a lutar contra o diabo, nos ajude a lutar contra Moray. —estremeceu-se. Moray era filho da Faola, se era como acreditava. — E se não for muito pedir, me ajude a escolher bem. Quero ajudar Malcolm, não feri-lo. —Tinha uma requisição mais—. Um pequeno superpoder seria apreciado. — Fez uma careta. —.Amém.

Claire olhou fixamente ao relicário, o qual estava tão impreciso como o resto da capela. Lutou por respirar lenta e profundamente, enquanto lutava por acalmar-se. O peso na capela era sufocante.

E então o ar se aliviou.

Claire se deu conta de que o relicário não queimava apenas sua mão e se sentiu ligeira. Sentiu que Ele tinha escutado. Possivelmente a deusa também tinha ouvido.

— Alto!

Claire se congelou pelo som da brusca ordem, dita em francês.

— Tira a mão do cofre.

Claire se girou lentamente.

Um muito alto highlander estava frente a ela. Moreno e de aparência agradável, seus olhos resplandeciam com a cólera dos deuses, exsudava autoridade e perigo. Sua mão estava no punho de uma espada de dois fios. Claire sabia que não duvidaria em utilizá-la.

— Retrocede.

Claire obedeceu.

— MacNeil disse que podia passar uns minutos a sós. Precisava rezar.

Os olhos dele se abriram de par em par. Eram verde-primavera, mais claro que os de MacNeil.

— É americana.

Claire estava surpresa. Tinha viajado a seu país nesta época?

Mas ele não tinha relaxado. A suspeita enchia seu rosto fortemente.

— Identifique-se.

Claire o fez.

— Estou com Malcolm de Dunroch —disse secamente.

Este homem aparentava estar na casa dos quarenta, o que queria dizer que era mais velho até que MacNeil, verdade?. Seus olhos eram duros, terrivelmente duros. Parecia como se nunca tivesse sorrido, nenhuma só vez em toda sua longa vida. Para que Malcolm, Royce e MacNeil parecessem encantadores playboys.

Seus olhos se entrecerraram, deslizando-se sobre ela em uma inspeção superficial, e depois oscilaram bruscamente a seu pescoço. Buscou-lhe o olhar.

— Se for amiga de Malcolm, e se MacNeil realmente lhe deixou a sós aqui, então só lhes advertirei que nunca toque o relicário.

— Não o farei.

— Você chega de uma terra estranha, mas levam um amuleto das Terras Altas.

Claire franziu o cenho. Tocou o pendente, que estava terrivelmente quente outra vez. Primeiro Malcolm tinha estado fascinado com a pedra, agora este estranho.

— Sim. Era de minha mãe. Quem é você?

— Ironheart de Lachlan.

Quando não deu mais detalhes, Claire disse com inquietação:

— Deveria ir. Apostaria que Malcolm me está procurando.

— Como conseguiu sua mãe a pedra?

— Não sei.

— Posso vê-la?

Claire se enrijeceu. Raramente tirava o pendente, e só para limpá-lo e poli-lo. Não queria a este estranho tocando-o.

—Senhora. —Ele sorria agora. Seus olhos se tornaram quentes e amistosos—. Possivelmente uma adequada apresentação seja adequada. Sou o conde de Lachlan, e um velho amigo de Malcolm.

Seu tom se suavizou e Claire não duvidava de que ele o usava com frequência com as mulheres para atraí-las a sua cama.

— Sou Claire... Lady Claire Camden —corrigiu, relaxando-se.

Ele assentiu com a cabeça, seu olhar sustentando o dela.

— Meu irmão teve uma pedra parecida uma vez. Foi roubada. Não posso evitar me perguntar se você leva sua pedra.

Seu olhar se voltou penetrante.

Claire estava aturdida. Era impossível apartar o olhar.

— Eu gostaria de ver a pedra mais de perto —murmurou ele, seu fixo olhar voltando-se fumaça, seguindo ainda direta e penetrante—. Sei que não lhe importará me entregar isso Claire Camden.

Por que ia incomodar-lhe?, perguntou-se ela. Agarrou o fechamento e o abriu, entregando o colar.

Enquanto ele levantava o colar para a luz, a confusão desapareceu. Claire se deu conta de que tinha sido enfeitiçada e sacudiu a cabeça para esclarecê-la. Simplesmente tinha entregado o colar de sua mãe a um estranho medieval! O poder de Ironheart para hipnotizar era mais potente que o de Malcolm. Não tinha sido capaz de pensar sequer sobre o que lhe tinha pedido que fizesse até que se apartou.

Mordeu-se o lábio agitada.

Ele o devolveu, sorrindo tristemente, os olhos suaves.

— Este não é o de meu irmão, mas além disso, seria um milagre se o fosse.

Seu tom era displicente, mas seu olhar estava procurando.

Claire se colocou o colar, esquivando seus olhos.

— Malcolm está me procurando —disse firmemente. Querendo afastar-se deste homem.

Tinha muito poder. Não tinha também os demônios esta classe de poder? Ela nunca devia baixar a guarda de novo, não pelos tempos dos tempos.

—Levar-lhe-ei a ele —disse Ironheart. — Será um prazer.

— Se Aidan tiver a página do Cladich, estou seguro de que a trará aqui. —disse MacNeil.

Os dois homens estavam passeando pela horta, onde ninguém, nem sequer outro Mestre, poderia ouvi-los.

— E eu não estou seguro —disse Malcolm rotundamente. — Vou ao Awe imediatamente.

— Dê a Aidan uma oportunidade de ceder a página —disse MacNeil em voz baixa, mas era uma ordem e ambos sabiam.

— Quantas oportunidades lhe dará antes que reconheça que é tão perverso e retorcido como Moray?

— É isso o que realmente crê?

Malcolm se enrijeceu. A verdade era que não sabia que acreditar sobre o Lobo do Awe. Aidan tinha jurado defender o Código, mas a metade das vezes tinha ignorado as ordens, perseguindo sua própria ambição. Embora seu pai, Moray, tinha lhe dado o castelo de Awe, forjando claramente uma aliança com seu rebelde filho, Aidan a tinha rechaçado e casado com uma grande herdeira, expandindo enormemente suas terras e seu poder. Era incerto se apoiava Moray ou não. Sua esposa tinha morrido poucos meses depois, no parto, sobrevivendo seu filho. Malcolm sabia que Aidan encontraria outra herdeira e logo. Além disso, de algum jeito Aidan tinha convencido ao rei de que lhe cedesse o título de sua esposa, quando o título deveria ter corrido diretamente a seu filho. Ele era agora o conde do Lismore

O que Malcolm sabia era que Aidan não era de confiança.

— Aidan pode te trazer a página, sob meu amparo com minha escolta, ou lhe pode dar isso a mim. De uma forma ou outra, tê-la-á —disse Malcolm. Saboreava a próxima confrontação.

— Vejo que esconde ressentimento. Quando falará do que realmente deseja falar... a bela mulher? —Malcolm sorriu com sagaz diversão.

O sangue do Malcolm se inchou em suas veias. Não podia controlar sua mente, seu desejo ou sua crescente ereção. Em umas poucas horas, estaria escuro...

— Sei o que desejas perguntar, Malcolm —disse MacNeil com uma risada.

Enfrentou ao MacNeil com ira.

— Seria divertido quando eu levar a mulher à minha cama e ao amanhecer estiver estirada ali, morta?

O sorriso de MacNeil perdeu intensidade.

—Não te extraviaste nenhuma só vez desde o Urquhart. Por que pensa te perder na escuridão agora? Saboreaste o tremendo prazer uma vez. Pode dominar a urgência de fazê-lo outra vez.

Malcolm sabia que estava vermelho.

— Temo que minha luxúria seja ímpia —soltou rapidamente. — Porque a quero mais do que nunca quis a qualquer mulher ou coisa. Penso quando estou entrando nela que quero mais que seu corpo.

— Então deverá lutar contra a tentação —disse MacNeil, com tom seco. — Não o fará?

— Está desfrutando de meu desconforto!

— Aye, faço-o. Vá foder uma arrumadeira então! Isso te ajudará.

— Não quero a outra! E sei que tem o poder de me ajudar, MacNeil —estava zangado e o bastante para lhe lançar um primitivo golpe, mas pôde refrear-se—. Possivelmente estás pensando em me rechaçar, como eu te rechacei!

Os olhos de MacNeil se abriram com zombadora inocência.

— Alguma vez lutamos por uma mulher?

Malcolm o olhou fixamente. Finalmente disse, em advertência:

—Nunca lutarei contigo. Mas ela é minha.

MacNeil suspirou, mas seus olhos brilhavam.

— É jovem e impetuoso, e eu mal recordo aqueles dias. Que classe de poder pensa que tenho?

— O poder de tomar meus poderes, só por uma noite e um dia. Encontra um feitiço.

MacNeil sorriu abertamente.

— Não é muito guloso, moço? —riu. — Não pode me pedir isso, está bem? E não pode te arrumar com uma hora?

Malcolm estava incrédulo. MacNeil só suspenderia seus poderes de tirar a vida durante uma simples hora? Estava louco? Isto era pior que não devolvê-los de todo. Estaria melhor evitando-a por completo que passando uma única hora com ela.

— Desejas que me arraste?

MacNeil ficou sério.

— Malcolm, posso ver-te tão frustrado como um menino. Posso suspender o poder. Mas, por um dia ou uma noite? Está louco? Roubou-te ela a sensatez? Estaria indefeso contra os iguais a Sibylla, muito mais contra Moray, durante muito tempo. Sentirá sua debilidade se ficar muito tempo sem poderes.

— Uma hora não é suficiente. E minha paciência se esgota.

Nunca tinha querido dizer mais nada. Tinha que tê-la debaixo dele. Queria saborear seus lábios, sua pele, seu sexo, empurrar profundo dentro de sua quente, apertada e rodeada carne, e embainhar-se ali toda a noite. Queria-a gozando um centena de vezes. Podia vê-los juntos em sua mente. Ela o igualaria em luxúria, aye, carícia por carícia, clímax por clímax. De alguma forma sabia.

— Necessito o feitiço agora —disse Malcolm, ruborizando-se.

Depois que estivessem saciados, ia sujeitá-la em seus braços até que a alvorada rompesse. Possivelmente lhe diria mais a respeito de seu mundo. Possivelmente falassem com ligeireza sobre coisas sem importância. Como se o mundo real e todas as cargas que ele arrastava não existissem. Possivelmente poderia lhe explicar por que a moda de seu tempo eram farrapos e fios. Sorriu.

— Se estas começando a preocupar-se pela moça, faria melhor em pensar cuidadosamente o que isso quer dizer —disse MacNeil em voz baixa, cortando seus pensamentos.

Estava-lhe espreitando. Malcolm não era um cavalheiro. Seu interesse na mulher era básico. Vigiava por aquele sob seu amparo, e aquelas que cobiçava e seduzia. Quentes abraços e conversações casuais não eram parte de relação alguma que tivesse tido nunca.

— Não te apaixones pela mulher. Será utilizada contra ti. Far-te-á débil.

— Não estou apaixonado por ela. —Malcolm estava incômodo—. Disse a Claire que voltará para seu tempo? —tinha a mente fechada agora, assim MacNeil não poderia espreitá-lo. Não deveria preocupar-se, mas o fazia.

— Aye —disse MacNeil, olhando-o fixamente de perto—. Possivelmente deveria evitar esse caminho.

— E que caminho é esse? —disse Malcolm, os punhos fechados. MacNeil tinha o poder de ver. Às vezes recusava vir a ele, mas quando vinha, nunca se equivocava. Não importava como a protegesse Malcolm, e não importava quanto desfrutasse com ela na cama, ela ia deixá-lo no final.

Logo que podia acreditá-lo.

— Esquece o que tem entre as pernas. —Mas MacNeil se afogou de risada, como se algum Mestre fosse esquecer suas necessidades.

Malcolm debateu a utilizar seu punho para apagar toda a diversão de MacNeil.

— Pode tentá-lo! —exclamou MacNeil. — Como posso não estar divertido? É só uma mulher, Calum... Bastante bonita, mas há milhares mais.

— Dar-me-á o feitiço?

—Aye, fá-lo-ei, porque sinto o quanto está sofrendo.

Ele sorriu outra vez.

Então ficou completamente sério. Pôs as mãos sobre Malcolm e murmurou em alguma antiga língua que Malcolm não entendia. Quando acabou, liberou-o, sorrindo.

— Pode começar seu galanteio quando sair a lua, mas o feitiço não acabará uma vez que possa ver o sol.

Malcolm assentiu com a cabeça, uma selvagem excitação começando.

— Estarei em dívida contigo.

— E a cobrarei.

O olhar do MacNeil se moveu detrás dele. Seguiu o olhar e viu Claire enquanto entrava no pátio desde mais à frente da horta. Seu pulso saltou. Em umas poucas horas, permitir-se-ia lhe fazer amor tão apaixonadamente como desejava.

Viu que estava acompanhada por Ironheart. Embora Malcolm não conhecesse bem ao enigmático homem, sua reputação lhe precedia e Malcolm o respeitava muito. Muito satisfeito, deixou a horta com MacNeil, procurando os pensamentos dela enquanto o faça. Malcolm imediatamente reconheceu a inquietação do Claire.

— É um amigo, moça —disse quando se aproximaram.

Claire lhe dirigiu um pequeno sorriso baixo. Quero falar contigo, a sós.

Depois, vi o Cathach!

Ler seus pensamentos era bom, não mau, e não entendia por que isso sempre incomodava a ela quando o fazia. A excitação dela o fazia suavizar-se de algum jeito em seu peito. Confrontou Ironheart.

— Hallo ao Alasdair[45].

— Hallo ao Chaluim. —respondeu Ironheart.

Ele voltou para inglês.

— Iremos ao Awe logo que meus assuntos aqui estejam terminados.

Ironheart estava claramente interessado.

— Desde quando visita o lobo? Não sabia eram amigos.

— Não somos amigos —replicou Malcolm em voz baixa, pensando na página que Aidan certamente tinha. Se Ironheart podia ser convencido de ir com eles, seria um útil aliado se Aidan estivesse pouco disposto a partir com a página sagrada.

— Possivelmente volte para o Lachlan de uma maneira mais relaxada.

Malcolm sorriu.

— Tinha esperado que dissesse algo.

Ironheart assinalou com a cabeça a Claire, e ele e MacNeil entraram na sala capitular, deixando-os permanecer sozinhos fora.

Claire olhou afligida para a dupla.

— Espero que isso não signifique o que penso que é.

— Aye, moça, virá conosco ao Awe. —Vendo sua expressão séria, acariciou-lhe o ombro, bem consciente de que o que ele realmente queria era tirar ela de perto. — Posso utilizar sua ajuda se devo lutar com Aidan.

A expressão do Claire empalideceu.

— Aidan está no Awe?

Instantaneamente leu seus pensamentos.

— Não é um deamhan, moça. É um Mestre.

Os olhos dela se abriram de repente.

— Mas tentaram se matar um ao outro!

— É um delinquente. Não obedeceu o Código. Não tem nenhuma consciência, nenhum coração. Não confio nele com a página. Pode dar-lhe tão provavelmente a Moray como a nós.

— Estupendo! Um Mestre que está se desviando! —gritou ela.

Ela esfregou suas as têmporas. Malcolm podia as sentir pulsando. Estava assustada e preocupada com ele, e não só porque deveria enfrentar-se com o Aidan. Estava assustada por Moray... O que era como devia ser.

Mas a preocupação dela o agradava enormemente. Possivelmente MacNeil estava equivocado sobre o futuro, desta vez.

— Moça, estarei feliz quando se preocupar por mim, inclusive um pouco —disse em voz baixa, cedendo e arrastando-a perto. Chocou-se contra seu quadril e quis gemer. Não o fez.

Mas ela havia sentido sua excitação. Ofegou, seu olhar procurando o dele.

Estava orgulhoso de sua viril ereção.

—Aye, necessito-te, moça —murmurou, deslizando as mãos com força por suas costas.

Chegou mais perto, palpitando com crescente urgência contra seu ventre, desejando que estivessem de volta a Dunroch e que as horas tivessem passado. Sabia que estava pronta para ele... Podia sentir seu desejo expandindo-se com uma incontrolável velocidade.

E também sentia sua mente girando em círculos, duvidando se renderia a ele e se uniriam na cama ou não e enquanto seu controle era tão frágil ainda, liberou-a.

— Não vou ferir-te, Claire.

Ela estava respirando com força.

— Não é isso.

Estava vacilando, e a sentia pensando, não sobre o fato de que tinha passado muitas noites na cama de uma amante sem perder o controle, a não ser a respeito de sua própria falta de habilidade para preservar seu coração dele se compartilhava sua cama. Estava assustada de amá-lo. Mas o havia dito, não lhe importava. O agradaria se ela o amasse. Nunca ia entender de verdade seu medo de amá-lo, porque era um poderoso senhor e outras mulheres se apaixonaram felizmente dele. A outras mulheres não tinha importado ter seus favores só por um curto tempo.

E nunca entenderia sua absurda necessidade de amar a um homem para ter sexo com ele.

— Não deve preocupar-se —tentou, sorrindo-lhe aos olhos. Refletiram o conflito dela. — Tento te agradar. Não obstante, você escolhe, moça.

Ela abriu os olhos surpresa e ele sentiu seu corpo inflamar-se. Havia tanto desejo nela que não podia aguentá-lo.

Inclinou-se mais perto, lhe tocando o rosto.

— Você gosta quando falo sobre isto, não é verdade? Não me rechace, moça. MacNeil suspendeu meus poderes durante esta noite. Poderíamos não ter outras noites tão logo. Preciso estar dentro de ti e você precisa me ter ali. Preciso ver-te tomando seu prazer, Claire, e também preciso escutar como se sente gozando.

Ela assentiu e ele sentiu seu enorme vazio, suficiente para que pudesse encher o espaço, bem então, bem ali.

— Sairemos para Dunroch logo que o galeão retorne —murmurou.

Estendeu a mão, envolvendo a dela. Como um adolescente, não podia pensar com claridade mais.

Ela ofegou e alcançou seus ombros.

— Malcolm, de acordo.

Triunfante a beijou profundamente

 

O sol já estava se pondo quando chegaram na pequena e íngreme entrada para Dunroch, do portal que se encontrava abaixo. O galeão tinha sido ancorado a meio caminho da estrada e logo a tinham assegurado com blocos de madeira. Claire escolheu caminhar atrás de Malcolm, com a esperança de ter alguma privacidade para seus pensamentos, embora desejava entrar nas muralhas de Dunroch antes de escurecer. Nenhum dia poderia ter sido mais longo. Com uma impressionante revelação depois de outra, sem pausas. Estava mental e emotivamente exausta.

Claire olhou para a ponte levadiça e a guarita. Em mais ou menos uma hora escureceria. O desejo de Claire se acendeu. E Malcolm soube, porque se retesou e voltou para olhá-la.

Já não havia nenhuma decisão a tomar a respeito de sua relação. Desejava-lhe intensamente, tanto que quase lhe podia sentir dentro dela, quente e duro, uma fricção enlouquecida. Sentia uma atração assustadora por ele, uma que já não acreditava poder resistir, mesmo se quisesse. Mas não queria resistir. Essa não era a questão.

Seu mundo tinha mudado. Não sabia se ia viver muito tempo mais, e os valores aos que se obstinado durante toda sua vida pareciam frívolos agora. Esperar amor quando estava com um homem como Malcolm era absurdo, dada a probabilidade de que seu tempo de vida ia ser realmente curto, apesar do que havia dito MacNeil.

Ela tinha tido tempo para pensar nisso. Se ele tivesse visto sua morte iminente, não o diria. Isso só poderia levar à realidade a profecia. E Claire estava bastante segura de que, a menos que recebesse superpoderes, não ia sobreviver muito tempo a um caçador Deamhan. O Deamhanain era absurdamente forte.

Quanto a se apaixonar por Malcolm, lutaria contra a ridícula necessidade que seu coração tinha por amor antes de ter sexo. E se ela falhasse, o que importava? Um coração partido não parecia um mau negócio. Parecia bastante mundano, de fato.

Os homens desapareceram após a guarita. Malcolm a esperou junto à ponte levadiça. Quando ela chegou junto a ele, seus olhos cinza brilharam com antecipação. Claire passou por ele. Completamente consciente dele detrás dela, cruzou a guarita e o pátio. Os homens se dirigiram ao salão e era possível ouvir gritos de alegria de alguns meninos quando o fizeram. Claire estava aliviada por estar dentro da muralha, mais ainda quando observou que levantavam a ponte levadiça, e os pórticos fechados. Malcolm sorriu com tanto fervor que seu coração deu um pulo como resposta, como se dissesse “dura sorte”. Seu mundo tinha mudado mas seu coração não parecia se importar.

Ela seguiu Ironheart para o salão. Malcolm se deteve para fechar a porta principal travejada detrás dela, e seu olhar já não a seguia. Claire ficou muito surpreendida ao ver Royce sentado de frente ao fogo. Quando todos entraram na sala, ele se levantou, ondeando os quadríceps e inchando os bíceps.

Malcolm acelerou, reunindo-se com Royce a meio caminho do salão, claramente surpreso de o ver.

— O que te trás de volta?

Royce disse, com tom evasivo:

—Decidi que estava na hora de fazer uma visita a Aidan. Me junto a você amanhã.

Claire viu a expressão de Malcolm voltar-se tão vazia como a de Royce. Perguntou-se que diabo ia acontecer.

Ela vacilou. Ambos, Seamus e Ironheart, sentaram-se nos bancos da larga mesa, com jarras de vinho. Ela podia cheirar a peça de caça assada e soube que a comida estava a ponto de ser servida, e que apesar de suas preocupações, morria de fome.

Mas Ironheart seguia fazendo-a sentir-se inquieta. Havia sentido seus olhos nela repetidamente durante a viagem de volta ao Mull e sabia que não gostava nem confiava nela. Agora, lhe sorriu, servindo-se também uma jarra grande de clarete.

— Posso? —perguntou Claire.

— Lady Claire, é obvio que pode. É a convidada de Malcolm.

Claire se sentou frente a ele, consciente de que Malcolm a olhava.

— Obrigada.

Ironheart a olhou.

— Por que deseja ir ao Awe com Malcolm?

Claire enfrentou seu olhar diretamente.

— Por que não?

— Pode haver batalhas mais a frente.

— Posso me proteger. —Claire fez uma careta. Necessitava uma arma. Mas Malcolm não parecia muito preocupado por enfrentar Aidan, e isso era reconfortante. Por outra parte, nada era reconfortante com o conde de Moray. Claire tinha se informado que era o Defensor do Reino, o equivalente escocês a comandante-chefe. — Refresque-me a memória, quem é o rei?

Ironheart lhe dirigiu um estranho olhar.

— James é o rei e antes que perguntem, sua rainha é Juana Beaufort.

— Estão em nosso bando ou no deles?

— O rei passou a maior parte de sua vida como refém do rei Henrique V na Inglaterra. Ele tem um só bando, o seu.

Claire deduziu que as palavras de Ironheart queriam dizer que o rei James era humano. Tinha passado a maior parte de sua vida na corte inglesa, estava provavelmente interessado em seu próprio poder e seu próprio trono. A maior parte dos reis da Escócia tinham tido enormes problemas para manter sob controle as terras altas. Isso explicaria o chamado.

Por outra parte, existia uma nova fonte de poder, e era maléfica. Não gostava do rumo de suas ideias, mas tudo o que James tinha que fazer era vender sua alma e o reino seria dele, com Moray à frente de suas tropas.

Moray estava já ali.

Suas têmporas pulsaram. Talvez James já tenha vendido sua alma.

— Necessito uma arma —disse muito séria, levantando o olhar. Ir ao Awe desarmada era uma loucura—. Necessito uma adaga, e Malcolm deve me ensinar como usá-la.

— E isso no que te ajudará, moça?

Outro machista medieval, ela pensou. Optou por não incomodar-se em pô-lo a par da condição das mulheres modernas.

— Bem, estava pensando em permanecer viva, e me defender quando meu protetor não esteja perto. Aí está o pequeno problema dos Deamhanain. Parecem surgir do nada, ops, fora do tempo, e não queria voltar a enfrentar Sibylla outra vez. —Isso era algo bem claro. Mas se não podia vencer a Sibylla, uma humana possuída pelo mal, como poderia chegar alguma vez ao demônio que tinha assassinado a sua mãe?

— Moça, nunca encontrará ao deamhan que matou a sua mãe. Deixem para um Mestre.

— Antes queimarei no inferno —disse Claire brandamente—. Só necessito ferramentas, armas, conhecimento. E é uma grosseria ler a minha mente!

Ironheart ficou olhando-a. Então falou severamente.

— Se Malcolm não te ensinar, eu o farei.

— Você? Por que faria tal coisa? —disse com incredulidade.

— Pronunciei os mesmos votos que Malcolm, Claire. É meu dever te proteger. Se te ocorre caçar um deamhan, então necessita alguma habilidade. Mas —acrescentou misteriosamente—, não terá êxito sozinha. Deveria convencer Malcolm de sua causa.

Ela já tinha chegado a essa mesma conclusão.

—Obrigada.

Sua atenção se desviou quando duas mulheres começaram a colocar fumegantes bandejas de carne e pescado em cima da mesa. Ambos os homens começaram a encher seus pratos de caça e pescado. 

A de Claire também foi desviada, pois Malcolm e Royce vinham a sentar-se. Royce sorriu.

— Hallo a Chlaire.

— Hallo a Rhuari. —respondeu velozmente em gaélico.

Seu sorriso se ampliou.

— Ciamar a tha sibh?[46]

Claire tinha ouvido esta frase por várias vezes no passado. Também tinha ouvido a resposta.

—Tha Gu math.[47] —disse ela.

      Sorridentes, Royce e Malcolm começaram a olhá-la fixamente. Royce murmurou:

— E também poderia dizer, Tapadh Leibh.[48]

Ele estava flertando. Claire não deu atenção, e por que ia fazê-lo? Seu peito ondeou sob a túnica e seus bíceps se incharam. Hoje vestia um enorme e largo bracelete de ouro em seu braço esquerdo, um com uma cruz de citrino no centro. Além disso, talvez, tinha metade do machismo de Malcolm. Ela poderia necessitar a um aliado sobre o terreno.

— Tapadh leibh. —disse ela.

Ele sorriu, revelando o fato de que tinha covinhas, também.

— Tem bom ouvido, moça —murmurou ele.

— Perguntou-me como estou?

— Sim, e respondeu, “Bem, obrigado pela gentileza”. —Seus olhos cinza eram intensos, muito intensos.

Malcolm se sentou ao lado de Ironheart, frente a eles, seus olhos se estreitaram. Não estava satisfeito.

— É obvio, se fôssemos chegados —disse brandamente — perguntaria de forma diferente. Ciamar a tha thu?

Definitivamente, flertava. E Malcolm estava com ciúme. Claire estava encantada. Ela também entendeu. Tinha ouvido bastante gaélico nos últimos dias.

— Tha Gu math, tapadh... leat?[49]

Os olhos de Royce brilharam.

— Aprende rapidamente, moça.

Malcolm golpeou com seu punho sobre a mesa.

— Eu serei o único a te ensinar a partir de agora.

Claire sorriu abertamente, desfrutando de seus ciúmes primitivos. Havia um lado bom no machismo medieval.

— Mas Ironheart já se ofereceu a me ensinar como usar uma adaga e uma espada —disse inocentemente, agitando suas pestanas para ele.

Ironheart se sufocou.

Malcolm corou.

— Infernos. Já discutimos isto. Acabará morta. Já sei que deseja enfrentar o Deamhanain, Claire, mas não pode. É uma mulher, e uma mortal além disso.

Claire ficou totalmente séria.

— Pensa que acredito que terei êxito? Mas tenho que tentá-lo! Meus dias estão contados, sei. Mas farei o que tenho que fazer. Por isso deve me ajudar me ensinando o que preciso saber!

Malcolm recuperou a compostura.

— Moça. É muito valente para seu próprio bem.

Ele queria dizer isso, e embora estava equivocado, seu louvor não a comoveu.

— Malcolm, eu não sou valente. Tenho medo. Mas precisa tentar vê-lo do meu ponto de vista.

— Um guerreiro sem medo é um homem muito parvo —disse Malcolm—. Os homens brigam porque são fortes. As mulheres permanecem a salvo detrás das muralhas para ter meninos. Assim é como funciona o mundo. Se puder, quando terminarmos aqui, encontrarei ao deamhan que assassinou a sua mãe.

Nem seguisse ia tentar escutar o que lhe dizia, pensou ela. Claire se tomou um momento para responder.

— Está isso em seus votos? Pensa me proteger quando sair, porque jurou fazê-lo? Porque quando retornar, minha vida é meu assunto.

Sua mandíbula se endureceu.

   — Hei-te dito uma e outra vez que não desejo ver-te morrer.

Ela alcançou sua mão através da mesa.

—Não me entenda mal. Agradeço o amparo que me brindaste, Malcolm, de verdade. Mas poderia demorar anos em encontrar ao demônio que matou a minha mãe e estás muito ocupado aqui mesmo em 1427. —Ela vacilou—. Sei que nunca entenderá, o que quero. O que necessito, o que tenho que fazer, ou ao meu mundo. —A compreensão doeu.

A cólera alagou seus olhos cinza.

— Ah, moça, é arrogante outra vez! É muito irritante!

— Ouve-me, mas te nega a escutar uma palavra do que digo! —gritou ela, contrariada ao dar-se conta da extensão do abismo cultural entre eles—. Nem sequer é o costume neste mundo, Malcolm, porque em poucos anos na França, Joana d’Arc guiará ao seu exército em combate contra seus inimigos. E no tempo de seus antepassados, as mulheres foram grandes guerreiras, brigando junto a seus homens. Em meu tempo, as mulheres são soldados. Vão à guerra e brigam e morrem ao lado dos homens.

Malcolm disse brandamente, perigosamente:

— Enquanto fique um fôlego de vida, manter-te-ei a salvo. Fiz o voto de proteger ao Inocente e você é meu Inocente, Claire. Inclusive quando me deixar, isso não mudará.

Esticou-se, porque se tinha referido a ela retornando a seu tempo de uma forma muito pessoal. E soube que tinha topado contra uma parede de tijolo.

— Há uma última coisa. Se quiser me proteger até a morte, suponho que não te posso deter. Mas minha vida me pertence. Se eu quero vingar a minha mãe, ninguém pode me deter. Agora que sei a verdade, como posso ficar quieta e não fazer nada? Se esse demônio estiver vivo, tenho que tentar vingar a minha mãe. Faria a mesma maldita coisa pela tua.

Malcolm empalideceu.

E Claire soube que havia passado um pouco dos limites, porque os outros três homens na mesa emudeceram. Abruptamente todos dirigiram sua atenção a seus pratos, exceto Malcolm. Ela o olhou e viu que estava aflito.

— Malcolm —disse cuidadosamente. — Desculpe-me. Seja o que seja que disse, foi um engano. —Mas não tinha nenhuma pista do que tinha feito para lhe contrariar assim.

Malcolm apartou a um lado seu prato vazio. Por um momento cravou os olhos nela, lutando claramente com suas emoções, e logo se levantou. Saiu andando para a noite.

Claire olhou aos homens.

   — O que ocorreu?

Royce disse brandamente:

— Sua mãe é um ponto sensível, moça.

Claire ficou completamente desconcertada. Logo deu um salto e correu atrás dele.

Fora, era noite fechada, a escuridão das Terras Altas repleta de um trilhão de estrelas brilhantes. Viu Malcolm subindo pelas escadas das muralhas. Queria estar sozinho, estava segura. Claire foi atrás dele de qualquer jeito.

—Agora não, moça —disse, sem olhá-la, enquanto olhava fixamente para o oceano, uma brilhante extensão de ébano.

Claire se deteve atrás dele.

— Pode me contar o que disse para te afligir assim?

— Tem razão. A vingança é o mais adequado. É um guerreiro de coração, e arde em desejos de vingar a sua mãe.

Claire se umedeceu os lábios.

— Glenna me disse que sua mãe era inglesa, mas isso foi tudo. É por sua mãe, ou por seu pai?

Um manto de silêncio.

— É por ambos.

E Claire soube que algo terrível tinha ocorrido. Tomou sua mão e a apertou.

Ele se encolheu de ombros.

— Moray violou a minha mãe —disse repentinamente, em voz baixa—. Quando estava prometida.

Claire se assegurou de não ficar sem fôlego, mas estava horrorizada. E logo se assustou.

— Moray não é seu pai biológico, verdade?

Sua mandíbula se esticou.

   —Nasci três anos mais tarde, Claire. Não. Sou o filho do Brogan Mor.

Claire se mordeu o lábio, mais aliviada.

— Foi um crime por prazer?

Ele negou com a cabeça.

— Foi uma violação. Uma violação brutal, sádica, daninha. Foi tortura, Claire. Moray violou lady Mairead quando meu pai foi à guerra, muitas vezes. Poderia tê-la assassinado, mas quis conservá-la, piorar a tortura. Minha mãe tentou enforcar-se, mas sua criada a encontrou a tempo —acrescentou ele, as asas de seu nariz se alargaram. — Agora está em um convento.

Claire sentiu cair as lágrimas.

— Sinto muito! É uma história terrível!

Ele a enfrentou, com os olhos brilhantes.

— Eu não conhecia a verdade até que fiz meus votos. —Sua risada foi dura, feroz. — Na noite seguinte, meu tio me disse exatamente por que Moray era meu inimigo mortal. E me rogou que deixasse tranquilo o homem que violou a minha mãe —disse sarcasticamente.

Claire começou a dar-se conta do que aconteceu.

—Oh, Deus. Então foi quando foi atrás de Moray. E ele jogou contigo? Foi quando lutou, quando quase morreu, quando te estendeu uma armadilha com a mulher.

Voltou-se para ela, sua expressão era áspera, cruel.

— Meu pai passou a vida procurando vingança e falhou. Procurei vingança. Falhei. Não quero ver-te violada, Claire, ou algo pior! Não quero ver como morre.

Claire enxugou uma lágrima errante, seu coração se rompia por ele, por sua mãe e seu pai, mas o temor floresceu. Moray não matou Mairead, quis que passasse toda uma vida sofrendo. E a tinha usado como isca para a armadilha que tinha colocado para o Malcolm.

Ele disse roucamente,

— Compreende-o? Devo te proteger. Não posso falhar.

Claire tragou saliva.

— Sim. Entendo. —Moray tinha terminado com os Maclean, ou não? Tinha terminado com Malcolm?

Seu olhar manteve o dela.

— Seu mundo pode ser diferente. Eu não o compreendo. Mas em meu mundo, protejo às mulheres. Em meu mundo, protejo a ti. Ou morro no intento. —suavizou-se. — Permitir-me-á te proteger, moça?

Claire inclinou a cabeça, afligida. Mas não podia mudar de ideia a respeito do que tinha que fazer. Ela não era Mairead, ou qualquer outra. Não importava quão forte fosse Malcolm, não podia confiar nele como se fora uma mulher de século XV. Não tinha mais opções, não mais. Talvez Malcolm tivesse razão em uma coisa. Talvez em seu coração, era uma guerreira, porque tinha que conseguir a vingança.

Mas não ia discutir. Ele nunca mudaria de ideia, isso agora estava claro. Estava cheio de culpabilidade, e seu fracasso em vingar a sua mãe era algo com o que viveria para sempre. Salvo que o homem de pé na escuridão frente a ela ardia com determinação.

— Foi jovem e impulsivo —disse ela apertando os lábios—. Mas agora é diferente, não é?

Seus olhos titilaram; ele afastou o olhar.

— Oh, Deus! Não terminou. Espera sua oportunidade. Nunca descansará, não até que tenha vencido Moray ou de alguma forma tenha pagado a dívida, na mesma moeda.

Ele a enfrentou, seus olhos cinza ardiam.

— Um dia, nos encontraremos de novo. Posso morrer. Não me importará. Porque o levarei comigo, desta vez.

Claire se aterrorizou, não por si mesma mas sim por Malcolm.

— Seu poder é igual ao dele? —Já sabia a resposta—. Os Mestres não conseguiram vencê-lo durante séculos. Dois enganos não fazem um acerto!

— O dia chegará —disse ele, tão brandamente que sentiu calafrios—. Não tema por mim. O dia em que eu morra, se Moray morrer, estarei satisfeito Claire, muito satisfeito.

Claire não podia falar. Machista sem remédio, herói sem remédio. Maldito seja, ele era o que ia morrer.

Ele estendeu a mão.

— Pode ter um pouco de fé em seu homem, moça?

Seu homem. Ela olhou para cima e encontrou seus olhos, seu olhar intenso a percorria.

— Tenho fé. Só estou um pouco preocupada.

Seu sorriso começou, tão suave e tão belo que a deixou ofegante.

— Ah, moça, se preocupa por mim. —Seu abraço se apertou—. Mas ainda assim te oporá.

Ela mordeu os lábios. Não era uma pergunta e ambos sabiam.

— Algumas vezes —disse cuidadosamente, seu coração pulsava tão forte que pensou que ia estalar—, uma diferença de opinião entre um homem e uma mulher é algo bom.

Ele a abraçou com outro comovedor sorriso.

— Sim —sussurrou—. Algo muito bom. Preocupa-se por mim, Claire. Deixa que me preocupe, deixa que lute, deixa que te agrade... agora.

Estava seus braços, seus seios esmagados por seu peito de ferro. A noite era veludo em sua pele nua, sua bochecha. E Malcolm estava tão duro como uma pedra contra seu ventre, sua cintura. Isso era, pensou apesar de tudo. E agora, só havia uma conclusão possível para suas opostas visões do mundo.

—Malcolm —respirou.

Seu olhar se moveu sobre seu rosto, suas grandes mãos se deslizavam sobre suas costas. Ele sorriu, tocando seus lábios com sua boca, uma só vez.

— Sim, moça, entendo o que necessita de mim. E sei o que necessito de ti.

Claire inspirou quando suas mãos se deslizaram mais abaixo, apanhando firmemente seu traseiro por cima da saia vaqueira e a túnica de linho, atraindo-a contra uma ereção muito impressionante.

— Oh! —Sua excitação a fazia arder, inclusive através de suas roupas.

Percorreu com a língua seu lábio inferior. Claire ficou sem fôlego, enquanto suas mãos exploradoras se moviam para baixo, sob o tartán e a túnica, sobre sua minissaia, as pontas de seus dedos perigosamente perto de onde ela desejava que estivessem, na parte posterior de suas coxas nuas. Ele lambeu seus lábios, a ponta de sua língua descendo em intensidade, murmurando,

— Ainda tem posto o farrapo.

— É... uma... saia.

— Não —respirou ele. E tomou sua boca com a sua.

Claire se esqueceu de tudo exceto do homem que queria. Gemeu de prazer, agarrando-se a seus enormes ombros quando lhe deu a volta, pressionando-a contra a parede, sua boca firme e dominante, obrigando-a a separar os lábios para ele. Sua língua se introduziu profundamente. Se ele podia fazê-la pulsar quase até o clímax com a língua descendo por sua garganta, ela sabia que morreria e iria ao céu quando fizessem amor.

O calor que a percorreu, inflamando seu sexo até o impossível, era tão forte que logo que podia suportá-lo. Mas antes que pudesse lhe rogar que a levasse a cama ou tomasse ali, contra a parede, ele estendeu as mãos entre eles, sob sua saia. Ao momento seus dedos encontraram sua carne rígida, acariciando-a ali. Jogou a cabeça para trás e soluçou quando o prazer estalou sobre ela. E logo sentiu seu maciço membro, nu, quente e escorregadio, pressionando contra seus lábios inflamados. Ele se esfregou para diante e atrás, respirando dificultando, e ela cravou os dedos em seus ombros, retorcendo-se enlouquecida, enervada por tanto prazer. Ele agarrou sua coxa, ajudando-a a envolvê-lo ao redor de sua cintura.

Pressionando o rosto contra sua orelha, murmurou:

— Agarre-te forte. —E empurrou dura e profundamente.

Úmido, quente, enorme. Claire ficou sem fôlego, cegada por ter ao Malcolm finalmente dentro de si, dilatando-a. Seu tamanho era impressionante, e sentiu o poder ardente em sua ereção. Claire sentiu começar um clímax violento, lhe causando uma dor aguda ao princípio, rodando sobre ela em ondas mais e maiores. O prazer se elevou até o impossível, até que só houve um êxtase louco, espasmo atrás de espasmo, enquanto ele lento e deliberadamente movia seu largo e comprido membro dentro dela. Ele ficou sem fôlego e ela soluçou e se excitou mais.

Malcolm começou a empurrar com verdadeira urgência. As ondas seguiram crescendo. Claire pensou que poderia morrer. Isto devia ser ao que se referia, agradar na morte. Ela se desfaria uma e outra vez em um universo negro de êxtase e nunca sairia. Não queria retornar de novo à realidade.

Malcolm ficou sem fôlego. Sentiu-lhe expandir-se, alargar-se, explorar. A semente quente saiu a fervuras, indo até o fundo. E não se deteve...

Claire não soube quanto tempo esteve sentindo as contrações de múltiplos orgasmos ou de um solo interminável, mas em algum ponto longínquo no tempo, seu corpo finalmente se suavizou, cedendo seu ávido agarre por prazer, e começou a flutuar de volta aos braços de Malcolm. Ele beijou sua bochecha. Ainda aturdida, precaveu-se de que permanecia duro e ereto, seu corpo inteiro tremia, como se não tivesse gozado. Mas isso era impossível, salvo que ela imaginasse coisas. De fato, a menos que o tempo se movesse diferente aqui, começava a pensar que seu orgasmo também tinha sido extraordinário por sua duração.

Ele beijou sua bochecha outra vez e Claire deu conta de que estava montada em sua cintura, seu traseiro parecido na áspera parede da muralha. E o que era ainda mais importante, seu corpo se excitava de novo enquanto a mantinha empalada.

— Deixe-me que te leve a minha cama, Claire —murmurou com o tom de voz mais erótico que nunca tinha ouvido.

O desejo ressurgiu.

—Não necessitamos uma cama —disse ela densamente. Não poderia suportar nem a mais breve separação.

E ele começou a mover-se dentro dela outra vez, comprido e lento.

— Não posso possuir-te adequadamente contra uma parede.

Ela sorriu contra sua cara. Não podia imaginar o que queria dizer.

— Então se apresse.

     Apartou-se, sujeitando-a enquanto ela ficava de pé.

—Moça luxuriosa —murmurou, com os olhos em chamas.

Nenhum homem a tinha olhado com ardor. Claire empalideceu, o desejo se afogou em seu ventre, seus joelhos se dobraram. E então congelou.

Não tinham usado proteção.

— Claire?

— Posso supor que você pode me ter deixado grávida? —conseguiu dizer.

Instantaneamente, ele a atraiu em seus braços, sorrindo.

— Não está nessa época do mês, Claire. Se o estivesse, não te encheria com minha semente.

— O que? —exclamou ela.

— Posso sentir quando é fértil. Pode imaginar quantos bastardos teria um Mestre se fosse de outra maneira?

— Está seguro?

— Estou muito seguro —disse ele com um sorriso matreiro enquanto a descia pelas estreitas escadas.

Ela se rebelou.

— Pode me pôr no chão? Não sou uma pluma. Meço um metro oitenta, por amor de Deus!

— Sim, e a maior parte são pernas. Sou um homem afortunado, especialmente quando as tem ao redor de minha cintura.

Ele abriu com um chute a porta de sua câmara, sobressaltando a Claire. Fechando a porta com uma cotovelada, cruzou velozmente o quarto e a colocou sobre a cama. Seu sorriso se transformou enquanto jogava a um lado seu kilt. Claire se sentou apoiada contra os travesseiros, muito interessada agora. Ele sorriu abertamente, tirando as botas uma atrás de outra.

— Eu gosto de seus olhos quando me olha desse modo.

Claire não respondeu; não podia. Estava interessada em uma coisa: o objeto que lhe tinha dado um prazer tão extraordinário. Enquanto ele apartava a túnica, ela inspirou.

Ele se sentou ao seu lado, rindo.

— Não tem vergonha.

Ela umedeceu os lábios e percorreu com as pontas de seus dedos sua incrivelmente grossa longitude. Seu sorriso desapareceu. Olhou-o diretamente aos olhos, logo se levantou abruptamente.

Claire brincou com o broche.

Malcolm ficou quieto, olhando-a. Seus olhos eram prata derretida agora.

— Eu gosto de seus olhos quando me olha desse modo —sussurrou Claire. Ele não sorria e ela sabia que ele não podia.

Tirou-se o kilt e o cinturão, e depois tirou a túnica sobre sua cabeça. ficou ante ele em minissaia e camiseta. Seus olhos eram tão ardentes que esperava que se desatasse um incêndio na câmara.

Ele assentiu.

— Adiante, moça.

      Ela tremeu, uma destilação ardente descia por suas coxas. Isso tinha sido uma ordem e nesse momento lhe agradaram suas maneiras machistas. Tirou as botas, sua saia se levantou por cima de seu traseiro quando se inclinou. Malcolm não emitiu nenhum som mas ela sentiu incrementar-se sua luxúria.

Voltou-se para ele, tirando-se lentamente a camiseta e fazendo uma pausa com as mãos no botão de pressão de sua saia de brim.

Malcolm ofegava com força. Seu pênis parecia mais cheio, maior, mas isso era impossível.

— Como chamas a esse objeto?

— Um botão —disse ela brandamente. Era transparente e de encaixe e Malcolm parecia fascinado. Desabotoou a saia e a deixou cair ao chão.

O olhar do Malcolm voou para a tanga.

— Dê uma volta —pediu— Mostre-me todo o objeto.

Claire não riu. Estava a ponto de ter um orgasmo simplesmente estando ali em pé. Deu uma volta lentamente, e antes que tivesse terminado, ele se colocou detrás dela, com a enorme ereção pressionando entre suas nádegas, a boca a um lado de seu pescoço, as mãos contra a tanga totalmente úmida, cobrindo seu sexo. Claire gritou, palpitando contra sua palma.

—É tão bela, Claire —sussurrou muito sério. E então a levantou abruptamente e Claire caiu para trás contra os travesseiros.

Separou suas coxas. Claire sentia como seu coração palpitava e se acelerava por causa da selvagem antecipação. De quatro, Malcolm enfrentou seus olhos com seu ardente olhar chapeado.

— Necessito-te agora. Usarei minha língua em ti mais tarde, moça. —Apartou a tanga a um lado.

Claire gemeu, olhando para baixo enquanto se dispunha a possuí-la, pulsando nervosamente sobre ela.

— Não posso esperar —se sufocou ela.

— Sim pode. —Desceu lentamente e quando ela sentiu seu calor escorregadio acariciando-a, gritou, arranhando suas costas.

— É melhor devagar —respirou ele, começando a pressionar contra ela.

Claire cravou suas unhas profundamente.

— Odeio-te —gemeu.

— Sim, no momento. —Beijou-a brevemente e logo começou a entrar lentamente, centímetro por centímetro.

O prazer paralisou sua mente. Não podia respirar. Ele sorriu, empurrando 10 centímetros mais, depois mais 5. Claire sentiu como começava a estremecer-se. Escutou-se a si mesma ofegando e se deu conta de que suplicava, mas ele não acelerou seu ritmo. E antes que ele chegasse ao final, sentiu como se rompia.

Ela encontrou seu olhar e enquanto ele a observava, gozou. O êxtase a atravessou, arrastando-a a esse escuro universo cintilante onde as ondas de prazer se faziam cada vez maiores e Claire gritou, abraçando ansiosamente o vórtice.

— Malcolm!

Ele sorriu uma vez, triunfante, e se moveu mais depressa, unindo-se a ela nesse louco frenesi.

 —Claire, quase amanheceu.

Claire logo que sentiu como Malcolm a deixava, voltando-se de costas a seu lado. Imersa em um estupor de êxtase e agonia, a tarde transcorreu em uma pura paixão hedonista enlouquecedora. Fazia muito tempo que tinha perdido a capacidade de pensar. Fechou os olhos, completamente sem fôlego, à espera de cessassem os pequenos tremores de seu excitado corpo, à espera de que seu coração se desacelerasse ao fim.

E quando recuperou a coerência, chegou a incredulidade. Malcolm era um insaciável embora soberbo amante, e sua realização na cama claramente não era humana. Ninguém podia excitar e manter o prazer de uma mulher como ele tinha feito durante horas e horas, sem cansar-se ou fraquejar sequer. Finalmente se deu conta de que estava exausta. Também foi consciente de um nível de saciedade que era impossível definir. E havia algo mais que isso. Seu coração começou um pequeno baile dentro de seu peito. Não, pensou rapidamente, não te atreva a ir por aí!

Eram amantes, isso era tudo, e claramente isso a convertia em uma mulher muito afortunada.

Lentamente, girou a cabeça para olhá-lo à luz cinzenta do incipiente amanhecer. E inspirou ante o tenro olhar de seus olhos.

Ele tinha um braço sob sua cabeça e a olhava fixamente.

— Está satisfeita, moça?

Ela teve que sorrir.

— Brinca? —E antes que pudesse lhe dizer que não entendia, ela disse brandamente—: Estou muito satisfeita, Malcolm. Nunca estive tão satisfeita.

      Para sua surpresa, ele estendeu a mão abruptamente e a atraiu para seu flanco, sorrindo de satisfação.

Claire estava assombrada. Queria aconchegar-se? Pressionou a bochecha contra seu peito e foi recompensada com o lento e forte batimento do coração de seu coração. Seria tão fácil apaixonar-se por este homem, pensou.

A mão dele percorreu seu braço em uma carícia, logo brincou com as mechas de seu cabelo.

—Tha ur falt brèagha. —disse brandamente.

Claire levantou o olhar.

—Disse isso em minha loja. O que significa?

— Seu cabelo é belo —murmurou ele, lhe mantendo o olhar—. Quase tão bonito como você.

Claire sentiu uma rajada de prazer. Baixou a mão por seu magnífico torso.

— Você é belo.

Ele riu.

— Um de nós precisa estar vestido. —levantou-se, tratando de alcançar seu kilt, que estava no chão.

Claire se endireitou de forma que pôde observá-lo abertamente. Sorriu-lhe enquanto envolvia habilmente o kilt ao redor de seus quadris nus. Assombrada, Claire sentiu que se o fazia a boca água.

— Isso é muito sexy.

Ele sorriu e retornou à cama, tomando-a instantaneamente de novo entre seus braços.

—Agrada-me que você goste de minha virilidade. —Abraçou-a.

O coração de Claire dançou novamente e lhe recordou que se detivera.

— A todas as mulheres gosta de sua virilidade —disse com um sorriso.

— Sim.

      Claire optou por não ir por aí. Acabava de fazer amor como se não houvesse amanhã, de formas que não eram realmente possíveis, e estava flutuando de saciedade e felicidade. Se ele fazia amor com outras mulheres dessa forma, não queria sabê-lo.

— Nunca desejei a nenhuma mulher como desejo a ti —disse ele em voz baixa, claramente tinha escutado seus pensamentos.

— Não?

— Não. — Levantou-lhe o queixo—. E você, moça?

Levou-lhe um momento. Claire se sobressaltou. Supunha-se que devia reconhecer que alguma vez tinha desejado a um homem como desejava a ele? E que alguma vez o faria? Depois de ontem à noite, duvidava que alguma vez quisesse deitar-se com alguém mais. Deus, quando se fosse para casa, passaria o resto de sua vida em celibato. Claire não tinha nenhuma dúvida.

Ele a atraiu mais e a acariciou e ela notou que sorria.

Tinha escutado seus pensamentos! Claire se afastou.

— Espero que esteja contente —disse tensamente.

— Não poderia estar mais contente. Mas temos que brigar outra vez? Estava tão contente faz um instante.

Claire procurou as mantas e as levantou até seu queixo.

— Não temos que fazê-lo. —Isto era realmente injusto, pensou com temor. Ao final ele estaria com outras mulheres, tendo um sexo incrível, e seu destino era viver como uma solteirona quando voltasse para casa. Mas assim era o destino. Ele era Mestre enorme, super poderoso. E se fosse preparada, desfrutá-lo-ia enquanto pudesse.

Claire se perguntou quanto tempo seria isso.

— Permaneceu fiel a Glenna?

Ele parecia um menino apanhado com a mão no cofre de seu irmão.

— Não acreditei —disse Claire lentamente. Tinha que ser adulta nisto. Eram literalmente de mundos diferentes. Não podia ter as expectativas que teria se ele fosse o tipo do lado e fossem amantes em seu tempo.

Ele falou lentamente.

— Deseja-me em exclusivo?

Seu coração palpitava com força.

—Er ugh... eu... o que?

Atraiu-a mais perto, acomodando-se a seu lado.

— Não me importaria.

— O que? —repetiu Claire. Se lhe tivesse golpeado na cabeça, não poderia estar mais aturdida.

— Não me importaria te ser fiel —disse muito sério.

— Por quê? —conseguiu dizer ela.

Ele sorriu.

— Não desejo a outra mulher, moça, e se for importante para ti, não me importaria. —esclareceu— Entretanto isso não será fácil ao princípio. Terei que ir a Iona cada tarde pelo feitiço do MacNeil, até que esteja seguro de que não uso meus poderes em ti. —obscureceu-se. — Ele gosta de me ver humilhado.

Claire ficou absolutamente horrorizada.

— Está-me oferecendo uma relação estável?

Sorriu-lhe, esse formoso e reconfortante sorriso que lhe derretia o corpo.

— Sim. É obvio, você deveria me ser fiel também. E deixar de olhar aos Mestres e pensar no que está entre suas pernas.

— Vale. —Claire não teve que pensar nisso. Saltou da cama, tratando de alcançar suas roupas esparramadas, sossegando seus pensamentos porque sabia que ele os escutaria se não o fazia.

— Tem pressa em deixar meu leito? —riu arrogantemente.

Confrontou-lhe, sujeitando suas roupas, sem nenhuma vergonha por sua nudez. Seus olhos vagaram, quentes.

— Vamos ao Awe —recordou.

Seu rosto se contraiu.

—Irei ao Awe com Royce e com Ironheart. Você estará a salvo em Dunroch com Seamus.

— Demônios! —gritou ela, com os punhos em seus quadris, suas roupas caíram.

Olhou-a de cima abaixo enquanto permanecia ali de pé, com uma negativa nos olhos.

Claire bloqueou seu caminho à porta.

— Se quer voltar a desfrutar de meus favores de novo, levar-me-á contigo.

Seu olhar se estreitou.

— Ameaça-me? Não acredito que precise me preocupar com te seduzir.

— Então viajarei com Royce o Negro —disse ela, cortante—. Ou com o Ironheart. Um deles me levará.

Seus olhos se ampliaram e se voltaram duros.

— Não pensará seduzi-los quando acaba de acordar nosso compromisso!

— Não tenho intenção de seduzir a ninguém; exceto a ti. Não é meu estilo —lhe apaziguou—. Malcolm, como pode sequer pensar em me deixar aqui? O que ocorre se Sibylla retornar por mim? —Sujeitou-o pelos ombros—. E o que tem desta noite? Acabamos de começar algo maravilhoso.

— Não estarei sob o feitiço de MacNeil esta noite e, sem um feitiço, não arriscarei sua vida. —Fui categórico.

— Estou mais segura contigo que sozinha. —Não era o tipo de mulher melancólica que usava artimanhas femininas com um homem, mas bateu suas pestanas e suplicou—: Por favor —disse, usando um tom de voz que não sabia que possuía.

E ela viu como se desmoronava sua determinação a negar-se.

— Está-me enfeitiçando, moça? —perguntou com incredulidade.

— Oxalá. —Ela sorriu.

Atraiu-a a seus braços.

—Não quero discutir outra vez, Claire. Digo-o a sério. É teimosa e teimosa. Atormenta-me em vão. Maldito seja tudo! Tem uns olhos que me atravessam a alma. Quero te agradar, moça, e não só no leito.

— Então me agrade —disse ela, emocionada. Fechou seu rosto com as mãos—. Não compreendo por que não quer que vá ao Awe.

Sua expressão se endureceu.

—Passamos a noite nos agradando um ao outro, mas isso não te dá direito a controlar minha vida.

Claire se sobressaltou. Profundamente ferida.

— Bem, me alegro de que deixemos isso claro —inspirou—. Em meu tempo, os amantes são também amigos. Claramente, não me quer como amiga. Mas tem razão. É o melhor. Desse modo, quando for ninguém ficará ferido. —Mas era muito tarde e sabia. Tinha cruzado essa linha emocional no dia anterior, em Iona.

Sua mandíbula se esticou e estendeu as mãos para ela. Claire tinha a intenção de esquivá-lo mas falhou, e ele a apanhou entre seus braços.

—Sinto-o —disse ele—. Tem razão. É pelo Awe. Jurei sobre a tumba do Brogan que nunca iria ali. Jurei que nunca lhe daria nem a hora a esse bastardo, nem uma inclinação de cabeça de passagem, jurei que, por muito tempo que vivesse, ele não existiria.

Os olhos do Claire se aumentaram.

— Quem? Aidan? Por quê?

Uma onda de tensão percorreu ao Malcolm e a soltou.

— Porque não é só meu inimigo. É meu irmão.

Claire tinha passado a manhã em choque. Os fortes ventos do sudoeste tinham significado uma rápida viagem por mar pelo estuário de Lorn, mas Claire logo que tinha prestado atenção a incrível paisagem —o mar cor safira e os bosques cor rubi, as brancas praias, as austeras montanhas contra as céus cor turquesa. Tinham desembarcado perto do Oban atual, tinham transportado seus cavalos com eles, e os montaram ali. O sol estava no alto, indicando que era meio-dia, momento em que Claire se enfrentou com o fato de que o meio irmão de Malcolm era filho de um dos homens mais perversos da Escócia. Recordou a assombrosa beleza de Aidan e o pícaro brilho em seus olhos quando lhe tinha sorrido. Se fosse tão distorcido como seu pai, ela não o tinha notado. Rezou porque tivesse escapado de alguma forma a seu genético destino.

Claire cutucou seu cavalo para adiante, trotando para Malcolm enquanto a seção continuava, deixando a baía atrás, um cintilante lago debaixo a sua direita. Em cada direção exceto detrás dela, havia montanhas cobertas de árvores. Chegou até o Malcolm.

— Onde estamos?

Ele sorriu.

— Diante está o passo que nos ajudará a cruzar as montanhas e nos levará até o Awe. Já não está longe. Outro meio-dia.

Levava posta a cota de malha, igual a todos seus homens.

Claire conseguiu lhe responder com um sorriso, mas seu olhar era inquisitivo.

A sua expressão mudou.

— Não precisa preocupar-se por mim como se fosse um menino.

— Pois claro que me preocupo. Malcolm, o que está planejando? Em meus tempos temos um dito: atraem-se mais moscas com mel, que com fel.

O olhou isso fixamente enquanto subia pelo estreito atalho.

— Não vou suplicar pela página.

— Não te sugeri que suplicasse. Acredito que poderia pedi-la amavelmente.

A cara dele se endureceu tanto que Claire pensou que poderia rachar-se.

— Se quisesse sua opinião, pedir-lhe-ia isso.

Malcolm esporeou a seu cavalo para diante, estabelecendo um passo mais rápido e deixando-a para trás.

Claire entendia sua suscetibilidade, mas seu rude rechaço doía. Sua preocupação aumentou. Ia irromper no castelo de Aidan com a espada desembainhada, exigindo a página? Era por isso que todo mundo levava posta a malha e armaduras? Aquilo ia levantar outra terrível briga de espadas. E não importava a destreza e poder que tivesse Malcolm, se Aidan era filho de Moray, então seu poder era muitíssimo maior que o de Malcolm. Claire fez seus arreios a um lado para poder ficar à altura de Royce.

— Posso montar contigo? Meu defensor está de muito mau humor.

Royce sorriu, um brilho em seus olhos.

— Não posso imaginar por que. Espero que perdoe a meu sobrinho por ser tão insensato.

Claire sabia exatamente o que queria dizer. Tinha recebido suficientes olhares ardilosos aquele dia para pressupor que todos se deram conta de que agora compartilhava o leito de Malcolm.

— É minha culpa, não sua. Sei de Aidan, Royce.

— Falou-lhe de seus assuntos privados? —pareceu aniquilado.

Claire assentiu.

Royce a olhou, sem sorrir.

— E que mais lhe disse enquanto compartilhava sua cama?

Claire ficou tensa. Tornou-se Royce hostil?

— Percebi que estava muito aborrecido, e supus que era pelo Awe. Ao final, tinha razão. Quero ajudar, Royce.

Royce assentiu finalmente.

— É obvio. É um destino horrível para ambos os irmãos.

Claire seguia de algum jeito surpresa pela hostilidade inicial de Royce. Até aquela manhã, não tinha sido outra coisa que amável, e às vezes coquete.

— Por que é terrível para Aidan? Parece odiar Malcolm tanto como Malcolm odeia a ele. Quis matar Malcolm em minha loja.

— Aidan não tem desejos de ver morto o Malcolm. Não pense outra coisa, estará equivocada. Não acredito que Aidan fosse tão odioso se Malcolm o aceitasse. —disse Royce francamente—. Aidan não escolheu essa vida. Não tem outra família que não seja Moray. Nunca fez mais que divisar fugazmente a sua mãe. Ela não quis ter nada que ver com ele uma vez que nasceu. Entretanto, escolhe o bem, não o mal. Aidan necessita a seu irmão e Malcolm necessita a ele.

Claire estava surpreendida de que Royce defendesse Aidan. Considerando que não estavam aparentados, significava muito. Ela não estava segura de que devesse sentir nenhuma simpatia por Aidan, mas assim era.

— Há dito tudo isso ao Malcolm?

— Milhares de vezes.

Claire o considerou.

— É o homem mais obstinado e cabeçudo que já conheci— disse em voz baixa, mas teve que sorrir.

— Sua vontade o faz um homem poderoso —disse Royce firmemente—. E um dia o converterá em um grande senhor.

Claire o olhou e seus olhares se encontraram. A vontade de ferro de Malcolm podia ser exasperante, mas estava terrivelmente orgulhosa dele. Era um herói em todo o sentido da palavra.

Vou apaixonar-me por ele se não puser freio a isto, pensou. E possivelmente já era muito tarde. Então se deu conta de que Royce a estava olhando fixamente.

— Também pode ler mentes?

Sua agradável expressão se desvaneceu.

—Sim, mas não lerei a sua. Não tenho que fazê-lo. Esta se apaixonando por meu sobrinho.

Claire empalideceu. De repente Royce a desaprovava?

— Malcolm e eu somos incrivelmente diferentes. Ele não me entende e estou totalmente segura de que nunca o fará. Obviamente sabe que passamos a última noite juntos. Isso não significa que esteja me apaixonando por ele. —Bem, se lhe estava lendo a mente nesse momento, saberia que sim que o estava. Acrescentou—: Não tenho intenções de me apaixonar por um cavaleiro do século XV.

— Todas as mulheres se apaixonam por ele depois de compartilhar sua cama.

Claire se esticou.

— Não desejo ser rude. Mas ele é um Maclean, é agradável à vista, e pode agradar a uma mulher bastante bem. Nunca devolverá o amor e nunca se casará.

Se Claire alguma vez tinha ouvido uma advertência, aquilo o era, e estava zangada.

— Assim que você é seu guardião?

— É meu sobrinho —disse Royce rotundamente—. Assegurar-me-ei de que não repita os enganos de meu irmão.

E Claire pensou em Mairead, que tinha sido violada pelo inimigo de seu marido quando ainda era uma noiva e logo tinha tido o filho de Moray. Pensou em Brogan, que tinha açoitado o seu inimigo mas tinha falhado em destruí-lo. Em lugar disso, tinha morrido em uma batalha muito humana. E Mairead que se retirou do mundo para viver como uma ermitã quando seu legítimo filho tinha só nove anos. Também tinha rechaçado Aidan, o filho de seu estupro. Logo que podia começar a imaginar o sofrimento do marido e a esposa.

— Claire, não interprete mal o que quero lhe dizer. É uma boa mulher e é forte. E se Malcolm fosse só um lorde, inclusive embora você não tivesse um dote, daria minha bênção à união.

— Está te adiantando! —gritou Claire, mas estava bastante segura de que estava captando a mensagem.

Ele alargou a mão para o outro lado da cadeira de montar e lhe agarrou a mão.

— Os Professores que se casam, ou amam, sempre se arrependem. —disse Royce. Seu cinzento olhar se tornou tão escuro como as nuvens. — Olhe o destino de meu irmão e sua esposa. Há uma razão pela que um Mestre viva sozinho, lute sozinho, e morra sozinho.

Claire tirou energicamente sua mão.

— Que triste. —sussurrou, ainda zangada, mas menos. Porque Royce tinha razão. Um Professor, por sua própria natureza, tinha os inimigos mais malvados e capitalistas da terra. Uma esposa e uma família eram um convite à tragédia. Pensou no filho bastardo do Malcolm—. O que passa com os meninos?

Sua dura expressão continuou.

— Necessitamos filhos. São a próxima geração de Mestres, se são escolhidos.

— Um menino faz a um homem muito vulnerável, mais vulnerável, que uma mulher.

— Sim, mas não temos escolha. Malcolm tem ao Brogan protegido dia e noite. Se o tivesse desejado, teria enviado Brogan a Iona. Os meninos são criados lá.

Ela assimilou aquilo.

— É por isso que está tão sozinho? Porque sua fria cabeça rege sobre seu coração?

Ele se voltou perigosamente frio.

— Estive casado uma vez, faz tempo, antes de ser eleito. Minha esposa está morta.

Claire viu que tinha metido o dedo na chaga.

— Sinto muito, Royce. Olhe, o que eu sinto não importa, porque vou a casa depois que encontremos a página e assim será mais seguro para mim. Nunca me ocorreria ficar aqui.

— Possivelmente nunca seja seguro para você voltar.

Claire ficou olhando fixamente, desconcertada.

— Espero que esteja equivocado!

Por que pensaria ele algo assim?

— A maioria das mulheres não tem a força para lhe deixar —disse cético.

— Eu não sou como a maioria das mulheres. Nós viemos de mundos diferentes, em caso de que não o tenha notado. E devo voltar para vingar a minha mãe. Também tenho uma família lá. Preocupo-me com eles.

— Deveria. —O cinzento olhar do Royce baixou até sua garganta—. A pedra me preocupa.

— Parece preocupar, ou fascinar, a todos.

— Leva um amuleto daqui. Posso sentir seu poder, senti-o a primeira vez que nos encontramos. Por que deu a você, uma moça da cidade dos York no futuro, uma pedra assim? Estava destinada a ser enviada aqui? Desejava os Antigos saber se Malcolm cometerá os mesmos enganos que seu pai? Porque deve haver alguma razão para que você esteja aqui, Claire. Posso senti-lo. Tornaste-lhe muito íntima do Malcolm, muito logo e muito facilmente.

Claire estava desconcertada. Fazia dias que a ideia de que seu destino era Dunroch e Malcolm, vinha rondando pela cabeça. Maldição, perguntou-se secretamente se seria o amor de sua vida. Mas aquilo tinha sido a romântica nela, a que tinha visto cada versão de Orgulho e Preconceito, e que, de vez em quando, encerrava-se em seu quarto para ler um ardente romance de amor. Mas Royce tinha razão. Houve uma conexão do momento em que a tinha sequestrado na loja. E desde aquele momento, tudo tinha passado condenadamente rápido.

MacNeil havia dito que os Antigos não tinham notado sua presença em Iona. Possivelmente os Antigos nem sequer tinham notícias dela!

Malcolm a considerava uma prova para sua alma. Royce a via como uma prova para sua lealdade à Irmandade e sua determinação de manter os votos. Mas não era tudo o mesmo? Fosse como fosse, não queria ser nenhum tipo de prova.

Royce interrompeu seus pensamentos.

— Mas a verdadeira pergunta seria, como a página foi parar na sua loja?

Claire se retesou. Se a página não estivesse em sua loja, ela não teria sido importunada por Sibylla, não teria conhecido Malcolm, e não estaria agora nas Terras Altas em pleno século XV.

E a verdade era que nem sequer sabia se a página tinha estado alguma vez em sua loja, exceto Malcolm que estava seguro de que Aidan a tinha, e que a tinha encontrado lá.

—Tem alguma ideia de quem começou o rumor de que a página estava em minha loja?— perguntou Claire com inquietação. Embora tivesse um mau pressentimento.

— Esperemos que não fosse o senhor da escuridão —disse Royce—. Usou Mairead para torturar ao Brogan... e para apanhar Malcolm.

Claire se sentiu enojada.

— A mim não pode usar dessa maneira. Malcolm e eu acabamos de nos conhecer.

— Você o ama. Ele declarou lhe proteger. Se chegar a lhe amar, poderá ser usada, igual a Mairead. —Claire começou a tremer—. Ao final, não pode ajudar Malcolm, só pode debilitá-lo. Se começar a preocupar-se com você, não deve permiti-lo. Ele é um Mestre, Claire, e deve viver e lutar sozinho.

Claire estava consternada. Queria que Malcolm se preocupasse com ela. Depois da última noite, queria-o com desespero.

— Como você —sussurrou.

— Se de verdade o ama —disse secamente ele, ignorando aquilo— irá quando chegar o momento.

Royce esporeou seu cavalo, deixando-a só entre as tropas.

Horas mais tarde, com o sol descendo no céu e ameaçando desvanecer-se depois das cúpulas ao oeste, Malcolm conduziu seu cavalo de batalha até Claire.

— O castelo do Awe está mais abaixo —disse enquanto detinha a enorme besta cinza. — Deve estar cansada. Se Aidan o permitir, passaremos a noite fora de suas muralhas.

Ele tinha superado os momentos em que ela lhe encheu de conselhos, pensou Claire, aliviada.

— Estou dolorida —admitiu, descendo de seus arreios. Tinham passado horas cavalgando através do passo. Para Claire, tinham sido como dias. E não só estava dolorida de sujeitar-se ao cavalo com as pernas; sua vigorosa forma de fazer amor também lhe estava passando fatura. Estava esgotada. Depois de tudo, não tinham dormido nada a última noite. Mas sabia que sua fadiga era mais que física. Cada dia parecia lhe trazer um montão de novas provocações. O conselho de Royce tinha parecido uma advertência. Não queria que se inimizasse com ela naqueles momentos. Precisavam manter-se unidos.

—Não te agarre dessa forma com as pernas, moça —disse Malcolm brandamente.

Claire teve a evidente sensação de que ele estava pensando em quão largas era suas pernas.

— É um reflexo. Felizmente, este velho amigo parece não preocupar-se com o que eu faça. —Não podia deixar de pensar no que lhe havia dito Royce a uns minutos.

Malcolm sorriu.

— Brogan aprendeu a montar com San.

— É assim como o chama?— Claire acariciou o pescoço castanho do cavalo.

— Sim, San Will, posto que sempre cuida de seu cavaleiro.

Claire olhou o pescoço do cavalo, pensando em cada momento em que Malcolm se preocupou por ela desde que se conheceram. Seu destino estava claro. Era um Mestre, destinado a proteger às pessoas como ela e batalhar contra os perversos como Moray.

É obvio que uma relação real lhe faria mais débil e vulnerável a seus inimigos. Royce tinha razão naquilo.

Claire elevou lentamente o olhar.

— Não quero voltar a brigar contigo. —mordeu o lábio quando os olhos dele se arregalaram —. Especialmente depois da última noite. Sei que me tem lido a mente. Sabe que não encaro o que fizemos levianamente. Não importa o que diga, o que faça, pode confiar em mim. Sou sua aliada e sua amiga, Malcolm. Quero o que seja melhor para ti.

— Uma amiga —repetiu—. Uma aliada? Que tolices te sussurrou Royce, Claire?

Ruborizou-se.

— Não quero te debilitar.

Os olhos dele se abriram mais.

—Você me faz forte, Claire. É minha mulher.

Ela não ia brigar por seu uso das palavras e certamente não ia mudar sua possessividade. Não estava segura de querer fazê-lo, não importava o que dissesse Royce.

— Se for sua mulher, não espera de mim que te seja fiel?

— Pode apostar que sim. E é fiel. Sim, espreito-te em todo momento.

Ela não pôde zangar-se.

— Desculpe-me por dito o que devia fazer com respeito à Aidan— disse—. Não quero que lhe firam. E em meu tempo, as mulheres dão ordens aos homens todo o momento. De fato, normalmente são as mulheres as que levam as rédeas.

Ele sorriu a contra gosto.

— Tem razão —disse de maneira inexpressiva. O último dos homens os passou.

— As mulheres das Terras Altas dominam a seus homens?

— Não. Eu queria entrar em Awe com minha espada em punho. Mas pedirei amavelmente a página a Aidan.

Claire sorriu abertamente, cheia de alívio e felicidade. Ele tinha mudado de opinião por ela.

— Possivelmente te surpreenda e lhe entregue isso sem vacilar.

A cara do Malcolm se endureceu.

— Ele quer a página para si mesmo. E possivelmente para Moray.

Todo o prazer se desintegrou.

— Royce não estaria de acordo. Diz que Aidan é bom.

Malcolm elevou uma sobrancelha.

— Bom? Faz o bem quando lhe interessa. Não de forma desinteressada. Digo-lhe isso, Claire, e desta vez me obedecerá. Não confie nele, nunca.

Claire não ia discutir com ele nesse momento. Além disso, essa era uma promessa que podia fazer com facilidade.

— Se for tão importante para ti, então, dou-te minha palavra. Nunca confiarei nele. Não obstante— acrescentou quando ele começou a mover seu cavalo para descer pelo caminho— espero que te equivoque sobre seu meio irmão.

Sua cara se escureceu.

— Não me recorde esta miserável realidade de minha vida. Pode ser que compartilhemos o mesmo sangue, mas não é meu irmão, nem meio, nem de nenhuma outra forma!

Claire o seguiu atalho abaixo, perguntando-se como podia ter abandonado Mairead a Malcolm a tão tenra idade, e como tinha podido dar as costas a Aidan, justo depois de nascer. Não queria julgar a mulher, posto que tinha sofrido um crime atroz. Mas tanto Aidan como Malcolm eram as vítimas mais inocentes da tragédia organizada por Moray. Era uma maldita pena que não pudessem ser amigos.

O passo serpenteava entre as altas cúpulas, a maioria se elevava justo sobre o nível do mar. De repente, os bosques se abriram a brilhante extensão verde de um pântano, erva e arbustos salpicados com espessos pinheiros e florescente com o amarelo e o rosa das flores silvestres. Mastreados prados finalizavam nas cintilantes águas celestes do lago Awe.

E elevando-se do lago estava o castelo de Awe, um enorme castelo amuralhado feito de pedras marrons avermelhadas com numerosas torres, altas muralhas e uma edificação central de quatro ou cinco pisos de altura. Duas vezes o tamanho de Dunroch, Awe estava rodeado por água. Brancos cisnes flutuavam perto das muralhas. Havia outra ilha, também rodeada de muralhas, conectada por uma ponte a terra, onde pôde ver construções de pedra e choças de camponeses, e onde pastava um esquálido gado. A cena era perfeita para uma postal.

A ponte levadiça estava baixa.

— Espera-nos —disse Malcolm em tom grave.

— Como podia saber que estamos aqui?

— Aidan tem fortes poderes mentais. Mantenha-se atrás em meio dos homens —Disse-lhe. Galopou para diante, acompanhado pelo Royce e Ironheart.

E foi então quando começou o ruído de cascos de cavalos.

Foi um déjà vu. Aquele terrível e detestável som, um convite à morte, era algo que Claire nunca ia esquecer. Tinha esperado não voltar a ouvi-lo nunca. O som de um exército de guerreiros highlanders aproximando-se com a intenção de lutar e a morte, um pesadelo que era real. Girou-se, sobressaltada pelo medo, e viu centenas de homens a cavalo galopando na direção deles.

Malcolm, Royce e Ironheart fizeram um alto à cabeça dos homens de Malcolm. Instantaneamente, foram rodeados por guerreiros. Claire se deu conta de que não havia nenhuma só espada desembainhada, nem sequer a de Malcolm.

Um dos inimigos se aproximou cavalgando e se colocou frente a Malcolm. Levava armadura completa, mas a viseira estava elevada. Claire se esforçou para ouvir, mas o intercâmbio foi em gaélico. Instantaneamente, o gigante fez um gesto a todos para que fossem sob ponte levadiça.

Claire sentiu que seu medo aumentava. Estava-os Aidan tomando como prisioneiros?

Claire aguilhoou a San para pô-lo a trote e seguir aos homens enquanto eram conduzidos pela ponte e pelo pórtico levantado. Aquela ponte parecia formar uma muralha exterior, posto que pôde ver edifícios para a guarnição ali. Nesse momento só via as costas de Malcolm e, embora era consciente de sua tensão, não pôde discernir nada mais. Foram urgidos a atravessar outra torre de entrada, um pavilhão médio, e logo um enorme torreão de entrada com quatro altas torres defensivas. No momento em que o último homem de Malcolm entrou na última muralha, o pórtico se fechou de repente atrás deles.

Claire estremeceu. Sem dúvida alguma, agora eram prisioneiros. Olhou cautelosamente ao que os rodeavam. O castelo no interior da muralha era enorme, com quase meia dúzia de edifícios construídos em seu interior. Seu olhar voou ao torreão frente a eles.

A escura porta de madeira de entrada se abriu e saiu um homem, de pé a dois níveis sobre eles.

Era Aidan.

— Hallo ao Chaluim.

Malcolm passou cavalgando com seu cavalo cinza junto ao gigante e para as escadas de pedra que conduziam até onde estava Aidan. Claire esperava que se detivesse mas não o fez. Dirigiu-se a escada acima até que o corcel se deteve junto a Aidan, fazendo com que Malcolm, que ainda estava ao cavalo, parecesse enorme perante ele.

— Viemos em sinal de paz. Eu gostaria de ter umas palavras contigo —disse Malcolm secamente em francês.

Aidan gargalhou, absolutamente perturbado pelas ações de Malcolm.

— Posso adivinhar por que vieste, Malcolm. Por favor, minha casa é sua casa... irmão. —Seu olhar se moveu além de Malcolm, que estava avermelhado com um crescente acesso de fúria, e se pousou diretamente em Claire, sem importar que meia dúzia de homens das Terras Altas a rodeassem, todos mais altos que ela.

Sorriu.

— Eu não deixaria à mulher a sós com meus homens, Malcolm— disse Aidan brandamente em inglês—. É muito bela. —Com isso, enviou-lhe uma cortês reverência e se girou para entrar no vestíbulo—. Deixem os cavalos nos estábulos. —dirigiu-se ao interior com passos largos.

Malcolm fez rodou com o cavalo, aparentando estar perigosamente furioso, e desceu rapidamente as escadas. Claire não o culpou. Aidan era um provocador, por não dizer outra coisa. Malcolm se moveu entre os homens de Aidan. Detendo seu ofegante corcel ante ela, ofereceu-lhe a mão. Claire o entendeu e saltou de seu cavalo até seu cavalo de guerra. Quis lhe sussurrar que respirasse fundo um par de vezes, mas decidiu que aquele não era o melhor momento para tentar lhe dizer como proceder. Em troca, colocou a mão em seu ombro, esperando que recuperasse um pouco de calma antes de entrar no vestíbulo de Aidan.

Ele a olhou.

Claire desejou que aquela vez lhe estivesse lendo a mente. Tudo está bem, pensou. Em realidade não tinha feito nada exceto ser tão irritante como uma criança mimada.

Malcolm proferiu um som e deu a volta, cavalgando entre os homens de Aidan. Urgiu-a a desmontar ao pé das escadas, e logo ele também saltou ao chão. Um de seus homens se apressou a agarrar seu cavalo e começaram a subir as escadas.

Claire baixou o olhar ao pátio, para as tropas reunidas e se estremeceu. Então jogou uma olhada à porta principal, que tinha sido deixada aberta por Aidan. O sol estava se pondo depois do vestíbulo, assim não pôde ver o interior, o qual se abria ante ela como um negro vazio.

Malcolm tinha razão. Não podiam confiar em Aidan. Claire não sabia o que queria ou o que faria se Malcolm decidisse ficar beligerante. Estava assustada sobre o que tinha significado aquele comentário sobre sua aparência. O homem era tão perigoso como um tigre encurralado.

Nesse momento, embora muito tarde, desejou não ter vindo.

Claire seguiu Malcolm ao interior de um enorme vestíbulo e piscou surpreendida. Frente a ela tinha um monte de caprichosos móveis que não procediam do século XV ou de nenhum século próximo. Então viu um Picasso pendurado na parede. Arregalou os olhos quando reconheceu um Renoir, um Constable, e um Pollock. Voltou a observar a câmara. O lar de Aidan poderia ter estado mobiliado como qualquer casa do século XX com as antiguidades e os mobiliários europeus mais elegantes, exceto pelo fato de que não havia lâmpadas.

Aidan estava junto a um imponente aparador de escura nogueira com pés em forma de garras e douradas folhas subindo por seus flancos. Estava vertendo vinho de uma licoreira de cristal em uma taça de cristal. Claire viu um saca-rolha moderno.

Sentiu que se enjoava. Estava vestido com botas, as pernas nuas, com um leine e um brat[50] verde esmeralda, azul e branco, e seu traje oferecia um potente contraste com a câmara. Tendo enchido várias taças, colocou-se frente a ela com aquele sedutor e francamente divertido olhar que ela recordava muito bem. Ele sabia que era irresistível para o sexo oposto, pensou.

— Uma taça de vinho, lady Claire? —murmurou, aproximando-se dela justo no momento em que Royce e Ironheart entraram.

— Não, obrigada —disse Claire, nervosa. Os olhos dele eram cinza como os de Malcolm, e cheios do mesmo ardor apreciativo. Pior ainda, deslizou seu olhar sobre ela da cabeça até os pés. Claire esteve segura de que lhe estava tirando cada objeto que levava e desfrutando mentalmente de sua visão privada.

Seu sorriso se fez mais largo.

— É Burdeaux[51] —disse brandamente.

Ela se encontrou com seu olhar, consciente do calor em suas bochechas. O tom dele foi suave e esteve segura que o usava com as mulheres para levá-las a sua cama. De algum jeito soube que ele estava pensando em como seria tê-la em sua cama, e também que seus pensamentos eram terrivelmente gráficos.

— Estou segura de que é maravilhoso. —disse com voz rouca, afastando-se, incomodamente perturbada. A beleza e a masculinidade dele não ajudavam.

Malcolm deu um passo para colocar-se entre ambos.

— Volta a olhar a minha mulher dessa forma e te arrancarei a cabeça e a farei cair ao chão para logo colocá-la em uma lança. —Seus olhos brilhavam de raiva. Levava o elmo na mão nesse momento, embora sua mão direita descansasse sobre o punho de sua espada.

Claire nem sequer pensou em acalmar Malcolm nesse instante. Aidan a tinha deixado claramente desconcertada, e sabia o que estava fazendo. Tinha desfrutado fazendo-a sentir incômoda e envergonhando-a.

— Como posso não olhar uma mulher bela? —disse Aidan brandamente e Claire soube que seu olhar havia tornado a vagar até ela—. Tenho olhos na cara, Malcolm.

Uma taça se rompeu.

Claire se girou com rapidez e se deu conta de que Malcolm tinha golpeado a taça que sustentava Aidan.

— Mostre respeito —disse secamente.

O sorriso do Aidan permaneceu, mas seus olhos se tornaram frios.

— Convidei a minha casa. Escolhi não te jogar na torre. Eu não gosto que se derrame vinho tinto sobre meu fino tapete.

— Eu o limparei —gritou Claire, mas não saltou para colocar-se entre os homens. Malcolm tinha a mão sobre o punho de sua espada e temeu que fosse a desembainhá-la. Se o fazia, sabia que Aidan iria de bom grado à luta.

Ironheart se sentou em uma cadeira para observar o drama, aparentemente perplexo. Royce se aproximou rapidamente e colocou uma mão sobre o ombro de Aidan, dando um passo entre os homens.

— Basta! —estava zangado—. Provocaste Malcolm. Merece uma bofetada na cabeça como se fosse um menino de dez anos, não um homem de sua idade.

Aidan olhou Royce sem hostilidade e se afastou de ambos. Fez uma pausa para deter-se diante da lareira, olhando fixamente as chamas. Terrivelmente aliviada, Claire se aproximou de Malcolm e lhe agarrou a mão.

— Deveria tratar de ignorá-lo —começou.

Dirigiu um incrédulo olhar.

Claire se afastou de um salto, dando-se conta de seu engano. No mundo daquele homem, uma mulher devia manter a boca fechada até que fosse o momento adequado. Mais tarde, quando estivessem a sós na câmara que compartilhariam, poderia tentar conseguir que visse as coisas a sua maneira. Era tão difícil controlar o impulso de lhe dizer algo quando sabia exatamente o que devia fazer. Não podia ver Malcolm que estava sendo manipulado por Aidan? Sempre tinha que agarrar o caminho mais difícil.

Aidan tinha voltado para aparador, serviu-se mais vinho, suas mãos se balançaram sem tremer. Estendeu uma taça a Royce, que a aceitou, e logo olhou a Ironheart. O conde de Lachlan negou com a cabeça, pelo mais, não moveu nenhum outro músculo.

— Conhecem-no, Lachlan? —disse Royce.

— Não formalmente —disse Aidan, sem pegar vinho para si mesmo—. Sua reputação é grande.

— Então agora é o momento. Ele será um bom aliado, quando decidir que é muito velho para fazer travessuras e decidir obedecer à Irmandade mais frequentemente do que a desobedece.

Aidan observou Royce sem hostilidade e Royce lhe devolveu o olhar. Claire se deu conta de que se conheciam um ao outro além do superficial, e que Aidan aceitaria a crítica proveniente do tio de Malcolm, embora não tivessem nenhum tipo de relação familiar. Sentiu-se segura de que Royce tinha cultivado a relação pelo amor que sentia por seu sobrinho. A tensão no cômodo se aliviou e ela respirou.

— De fato, eu adoraria uma taça de vinho —mentiu. Sorriu a Aidan e Royce e se aproximou do aparador para servir-se, esperando que um ato de normalidade ajudasse a relaxar ainda mais o ambiente. Uma vez servida, girou-se para olhar a câmara—. Tem uma casa preciosa —disse a Aidan. Não estava segura de como dirigir-se a ele.

O sorriso de Aidan começou a aparecer. Estava satisfeito, e de alguma forma divertido.

— É mais preciosa graças a sua presença —devolveu.

Claire lançou uma olhada a Malcolm, que simplesmente sacudiu a cabeça com desgosto. Claire sentiu vontade de dizer a Aidan que em seu tempo, as mulheres teriam rido ante tais linhas. Mas possivelmente não; era realmente sedutor, nenhuma mulher haveria querer desperdiçar uma oportunidade com ele.

Malcolm lhe dirigiu um obscuro olhar e disse a seu meio irmão.

— Sabe por que estamos aqui.

Aidan se enfrentou a ele.

—Sim. —Deixou sua taça e colocou a mão no brat, tirando uma página de pergaminho enrolada e atada.

Claire ofegou.

— É o que acredito que é?

Aidan estendeu a página a Malcolm.

— Sim, lady Claire, e vejo que está encantada. Mas a página não tem valor.

Malcolm desatou a o laço e desenrolou a página. Claire deixou sua taça e se apressou a seu lado. Tinha em frente uma página com uma escritura preciosa embora muito estilizada e densamente decorada. As letras estavam mais distorcidas que as do Cathach.

—Não sei ler em latim. Moça?

Estava escrita em latim, não em gaélico?

— Sim. —disse Claire em voz baixa, lhe tirando a página. O coração lhe pulsava com estrondo e se sentiu débil—. Obrigada! —beijou-lhe a bochecha e correu até o fogo, sentando-se ali em um banco de veludo. Olhou as palavras, caindo na conta de que só um parágrafo estava escrito em latim. O resto estava escrito em gaélico irlandês. Era difícil de ler devido à estilizada escritura e a falta de espaço entre palavras. E então o entendeu. Era uma prece, mas não como nenhum que ela tivesse ouvido. Uma deusa gaélica da cura cujo nome nunca tinha ouvido —Ceanna —parecia ser o tema.

— Pergunto-me por que há uma intercalação em latim em um velho manuscrito celta —disse, sem elevar a vista. A pergunta era retórica, e ninguém lhe respondeu—. Há inserções latinas no Cathach?

— Há duas —disse Malcolm—. Quando os escribas puseram nas páginas a sabedoria dos Antigos, um escriba preferiu o latim. Diz-se que era romano.

Os romanos tinham conquistado a Inglaterra, mas não a Irlanda. Por outra parte, um romano poderia ter cruzado facilmente o mar irlandês.

— Este é um descobrimento extraordinário, com toda classe de implicações —disse Claire em voz baixa.

Elevou a vista para Malcolm.

— Pode me traduzir o gaélico?

Ele duvidou.

— Não sou tão erudito como os monges ou os sacerdotes. Posso tentá-lo. Não será fácil.

— Faremos juntos. —Claire lhe sorriu alegremente—. Não há pressa. Esta página tem que ser traduzida. Temos toda a noite, não? Vamos ficar esta noite, não vamos?

O olhar dele sustentou o seu. Passou um momento antes que falasse.

—Sim. —girou-se para Aidan—. Lady Claire deseja traduzir a página. Necessitará luz, pergaminho, uma pluma e tinta. —Falou no tom de alguém dando ordens.

Aidan só o olhou, claramente sem estar disposto a obedecer.

Claire tinha traduzido por fim a primeira linha em latim. Levantou a vista, consciente de que lhe tremiam as mãos pela excitação.

— Como pode dizer que não tem valor? —exclamou—. É algum tipo de prece para curar. Por que crê que não tem valor? Onde encontrou isto, Aidan? É inestimável.

Ele se aproximou tranquilamente.

— Encontrei-a em sua loja, Claire —murmurou.

Claire desejou que deixasse de tentar lhe recordar que era atraente.

— Em que lugar de minha loja? —exigiu ela.

Aidan começou a rir.

— Em uma Bíblia do Rei James.

Claire ficou em pé, pasmada. Havia uma Bíblia do Rei James em seu inventário, e tinha sido publicada em 1728. Tinha adquirido a Bíblia só um mês antes em uma fazenda em Londres.

— Havia um esconderijo no lombo —disse Aidan—. Não posso adivinhar como o encontrei. Sibylla tinha chegado primeiro na Bíblia. Senti seus rastros nela. Estava seguindo seu rastro.

Claire olhou ao meio irmão de Malcolm. Podia sentir os rastros digitais? Concentrou-se.

— Este é um descobrimento astronômico —acentuou. Girou-se para Malcolm—. Quanto antes traduzirmos esta página, melhor. Mas como chegou esta página a minha loja? Esteve oculta na Bíblia todo o tempo? —nessa ocasião não olhou ao Royce.

— Podia estar nessa Bíblia séculos, Claire —disse brandamente Malcolm.

— E o destino trouxe a Bíblia, e a página a minha loja? —por fim olhou para Royce.

O olhar dele se deslizou com rapidez a um lado.

— Posso te levar de volta se desejas levar a cabo uma busca —disse Aidan, sorrindo zombador.

      Antes que Claire pudesse rechaçá-lo cortesmente, Malcolm vociferou:

— Não levará Claire a nenhum lugar, Aidan. A nenhum lugar.

Aidan se encolheu de ombros, os olhos lhe reluziam.

— Era só uma sugestão. —Então ficou sério—. A página não tem poder, lady Claire. Posso ler bastante bem. É uma prece e uma bênção para evitar morrer devido a feridas mortais, se as feridas são infringidas por uma espada ou uma arma de corte similar. Meu escudeiro se trespassou a si mesmo. Tentei protegê-lo de morrer, e falhei. Não há poder nessa página.

A Claire levou um momento entender o que lhe estava dizendo.

Mas Malcolm olhou a Aidan e disse:

—Você é meio deamhan. Os deamhan são destruidores. Não podem curar. Ainda assim tentou? — estava-o atacando duramente.

Aidan não desejava falar, mas disse com frieza:

— Mesmo que seja meio deamhan, também sou neto de Faola. E curei, Malcolm, com estas duas mãos e uma grande luz branca. —Elevou as mãos, as quais tremiam de fúria.

Royce se aproximou para colocar-se entre ambos.

— Sinto-me feliz porque possa curar um pouco, Aidan. —Fulminou Malcolm com o olhar—. Precisam por de lado suas batalhas pessoais neste momento. Há assuntos mais importantes que tratar.

Claire se voltou a sentar no banco. Aidan tinha um pouco de habilidade para curar e Malcolm não. Aquilo era bastante interessante. Significava isso que distintos Mestres herdavam os traços da mesma forma que o faziam as pessoas?

A boca de Aidan se endureceu.

 

— O poder foi novo para mim. Curei a uma moça verdadeiramente doente uma vez. Não sabia fazê-lo bem e me debilitou. —ruborizou-se, olhando a Royce—. Não posso voltar a usar tal poder debilitador outra vez.

Claire estava fascinada. Tinha curado a uma mulher, e ao fazê-lo tinha perdido algo de sua força?

— Possivelmente com o tempo, o poder crescerá e será mais fácil de usar. —Royce lhe apertou o ombro—. Alegro-me de que tenha salvado uma vida.

Claire ficou em pé.

— Malcolm. —Caminhou para ele e sorriu com ardor—. Não importa que esta página tenha ou não o poder de cura. O que importa é que pode ser do Cladich. Esta página é incrivelmente valiosa se for verdadeira. Precisa ser consagrada ou devolvida a meu tempo com o resto do recuperado manuscrito, para que possa ser preservada.

Malcolm negou com a cabeça.

— Importa que tenha poderes, Claire. Importa muito. Se for genuína, curará.

Ele não a entendia, pensou Claire. Os estudiosos do século XXI suplicariam por ter a oportunidade de estudar aquela página.

E ela tampouco entendia o valor que tinha para ele.

— Pode usar vida para curar. Por que é o Cladich tão importante?

Malcolm emitiu um som.

— Porque não precisaríamos usar vida para ter os poderes do Cladich, Claire. O livro pode curar por si só.

Claire respirou com dificuldade.

— Então o livro pode curar aos moribundos?

Um Mestre nunca teria que usar vida se estivesse morrendo para sobreviver. Bem, agora o entendia. O valor do livro era inestimável.

E era de se imaginar que Moray o quisesse. Poderia curar a suas hordas demoníacas com ele. Merda.

—Sim. E tem lido as páginas adequadas. Cada uma tem sua própria causa.

E Claire estremeceu de repente, devido a um abate gelado que se instalou no lugar. Alguém devia ter deixado aberta a porta principal.

Mas quando a temperatura desceu, igual a tinha acontecido na clareira quando tinha chegado pela primeira vez ao século XV, Claire começou a dar-se conta do que ocorria.

Malcolm ficou a seu lado, cheio de um alarme e urgência que Claire pôde sentir. Seguiu seu intenso olhar com pavor até a porta aberta. Uma sombra negra a enchia.

A morte, pensou Claire, incapaz de respirar.

Mas a escura sombra se separou para revelar a um homem loiro com traje carmesim. E o conde de Moray lhe sorriu.

— Olá, Claire.

 

Claire sentiu como tremiam os joelhos. Não tinha que ser apresentada para saber que estava olhando para Moray.

— Como sabe meu nome? —era vagamente consciente de que todos na câmara tinham se enfileirado, colocando-se detrás de Malcolm e dela.

— Eu sei tudo —disse ele, seus brancos dentes brilhando intermitentemente. Nenhum ser humano poderia ser mais formoso. Tinha a face de um deus grego, não, de um deus celta, mas então, o que é o que era ou quase era. Claire sabia que ele era a perfeição física, a beleza na forma mais reverente, mas também sabia que não tinha alma e que a morte seguiria seu caminho enquanto ele o desfrutasse.

E enquanto estava ali de pé, paralisada pelo medo, as últimas nuvens em sua mente se levantaram.

A porta da rua estava aberta. Mas não era mamãe. Uma sombra escura ia à deriva.

Com terror, Claire entrou correndo no armário, fechando de repente a porta, mas não antes de olhar sobre o ombro. Um homem estava de pé no centro da sala de estar, olhando-a fixamente.

Claire soluçou de medo.

A porta da rua estava aberta.

Claire ocultou os olhos detrás das mãos, acovardando-se sob os suéteres e jaquetas que penduravam ali. E ele estendeu a mão, tomando a sua. Claire foi tirada para a luz. Elevou a vista, para seus negros olhos sem fundo.

Virei por ti logo.

Claire se afogou com a horrorosa lembrança.

— Não tem nenhum assunto com Claire. —O tom áspero de Malcolm cortou seus pensamentos. Estava diretamente de pé diante dela agora—. Seu assunto é comigo. Só comigo.

— Em realidade, equivoca-te —disse Moray brandamente com um garboso sorriso—. O destino de Claire está em minhas mãos. Tal pai, tal filho— acrescentou ele.

Claire congelou.

Malcolm desembainhou a espada e Royce o agarrou pelo braço.

Moray riu de todos eles.

— Há tanto medo nesta casa que meu poder cresce.— molhou os lábios, olhando a Claire, e ela sentiu sua excitação e se horrorizou.

—Desfrutarei de ti muito mais do que o fiz com Mairead.

Malcolm se moveu a frente, enfurecido.

Aidan deu um passo frente a ele, quase se atravessando ele mesmo com a espada de Malcolm no processo. Royce e Ironheart o agarraram, mas Malcolm tentou afastá-los rapidamente. Claire teria gritado a Malcolm mas suas cordas vocais estavam congeladas. Ela só podia pensar no fato de que Moray o tinha ferido mortalmente uma vez e que poderia voltar a fazê-lo outra vez.

— Nunca a tocará —rugiu Malcolm.

— E quem me parará? —ronronou Moray—. Um débil Mestre como você? Seu próprio pai passou onze anos me caçando, ou ao menos era o que ele pensava. Conduzi-o para uma alegre perseguição e todo esse tempo Mairead esteve afligida por sua traição, deslealdade e infidelidade.

Malcolm se liberou de Royce e Ironheart.

— Ao Bhrogain!

Claire gritou.

Aidan se moveu e lhe sujeitou o braço da espada.

— Esta não é a forma! —gritou.   

Malcolm o apartou, tão somente para ter a Royce e a Ironheart sobre ele, arrastando-o para trás, ao outro lado da câmara. De algum modo os tirou de cima também. Moray riu.

Claire gritou com horror enquanto Malcolm se cambaleava como se o golpeassem. Mas estava sozinho, de pé e não tinha havido nenhum golpe físico.

—Tenta-o —disse Royce com ferocidade e ela viu Moray pálido e grunhindo como se justo o tivessem golpeado também—. Aqui estamos nós quatro— acrescentou com serenidade.

Claire olhou a seu redor. Muitíssimo poder se formava redemoinhos na câmara, masculino e quente. Compreendeu que estava de pé em meio de uma espécie de beco cinético. O suor gotejava pelas têmporas de Royce e lhe ardiam os olhos. E cada homem no lugar tinha uma expressão idêntica, inclusive Moray.

Aidan enfrentou a Moray, as pernas apoiadas com firmeza, largas e duras.

— Estou cansado de suas visitas —grunhiu ele—. Está em minha casa agora. Sou o senhor aqui e não lhes dou permissão para entrar em minha sala. Saia.

Moray riu sem alegria.

— Faz três anos decidi deixar Malcolm com vida quando poderia ter terminado com ele. Provou o maravilhoso prazer que encontramos na morte, como era meu desejo e logo, provará tal prazer outra vez. Ele será meu. —Moray tomou o rosto de Aidan com uma mão e lhe acariciou a bochecha com suas largas unhas. Murmurou—: E você, meu jovem, será meu também. Isto tão somente é questão de tempo.— Liberou-o e riu de Claire. Então, desapareceu.

Claire quis correr para Malcolm, mas não podia mover-se. Que Moray os quisesse a todos era pior que a morte. Ele era Satã, depois de tudo.

Estava pronta para vomitar e caiu de joelhos.

E então Malcolm ajoelhou-se ao lado dela.

— Acabou-se —disse ele severamente, lhe tomando de um braço. Sustentou-a com dureza.

— Acabar? —Claire ofegou, apenas capaz de falar—. Isto não se acabou, nada está terminado. Isto só começou!

— Proteger-te-ei —prometeu, os braços fechando-se, o olhar duro.

Ela se separou dele e o medo se converteu em afronta.

—Como? Como o vais fazer? Não o ouviu? Violar-me-á e conseguirá ao menino. A ti, converter-te-á em amo do mal! E Aidan? Aidan está marcado, também! A não ser que haja um modo de destruí-lo, todos sofreremos destinos muito piores que a morte!

Malcolm respirava com dificuldade.

— É normal que tenha medo, Claire. Viu ao senhor do mal pela primeira vez. Compreendo o quanto afligida que está.

— Afligida? —isso, pensou Claire, era a frase do século. Olhou Malcolm—. Está bem? O que é o que passou?

Malcolm vacilou.

— Golpeou-me com seu poder. Estava preparado para isso, golpeou-me para me derrubar. Com todos nós juntos, usando nossos poderes em seu contrário, não pode fazer muito dano.

Claire se estremeceu.

— Então, por que os quatro não combinam seus poderes e o liquidam matando-o?

Os olhos do Malcolm se endureceram.

— Se pudéssemos lhe vencer desse modo, já o teríamos feito.

— Bem! Tem o poder de resistir a vós quatro! —Claire tentou respirar profunda e uniformemente. Falhou. Não tinha compreendido até esse momento quão mau realmente era. Era onipotente, horrível, horrendo e tinha a intenção de destroçá-los, aniquilando totalmente a todos. Mais especificamente, o maligno queria usá-la e queria usá-la contra Malcolm. Queria a alma de Malcolm.

As suspeitas de Royce eram corretas.

— Morrerei antes de me voltar maligno. E te farei o mesmo favor antes de lhe permitir te tocar —disse Malcolm. Ficou de pé e lhe ofereceu a mão.

Malcolm estava lhe prometendo terminar com sua vida antes de permitir que Moray a usasse. Ela tentava pensar racionalmente agora. Suas palavras não eram amáveis porque as pensasse. Mas a morte era melhor que sofrer o toque do homem. Seguiu tremendo de modo incontrolável embora estivesse de pé.

— Disse o mesmo de ti mesmo. Nenhum Mestre foi capaz de vencê-lo durante séculos.

— Sim, mas haverá uma primeira vez. Perguntei-te se tinha fé. —Sua cara forte e decidida, não mostrava nenhum sinal de medo, Malcolm girou e saiu airadamente para a noite.

Claire o olhou fixamente por trás, extremamente frio. Queria ter fé nele, mas lhe parecia um suicídio. Valia mais pecar para o lado da precaução. Esta era uma nova realidade e desafiava a imaginação.

Moray estava caçando Malcolm.

Seu coração dava inclinações bruscas com nauseante força.

Aidan caminhou para ela.

— Vendeu sua alma a Satã faz milhares de anos, e ainda, seu poder está protegido pelo diabo. Muitos Mestres combinados não podem tomá-lo. Tentamo-lo. Alguns Mestres tem mais poder que outros. Moray tomou a vida dos menores. Debilita ao Mestre com toques mortais e então faz o mal. Estou seguro de que um toque mortal pode debilitar Moray. —Os olhos de Aidan se acenderam—. Estou seguro. Vive em um corpo meio mortal. Sangra.

Claire o olhou fixamente, compreendendo que se Aidan tivesse razão, isto não era completamente desesperado. Por outra parte, Moray era tão poderoso, como poderia ser exercido um toque tão mortífero?

Alguém lhe pôs na mão um copo. Era Ironheart.

— Tome um pouco de vinho, Claire —disse firmemente—. Limpará seu medo. E seu mal, moça.

Claire se encontrou com seu olhar e não viu nada mais que resolução. Sua expressão era idêntica a de Malcolm. Não havia nenhum medo, só coragem.

— Malcolm tem um grande poder mesmo sendo um Mestre tão jovem. Protegerá todos. Não o julgue tão insuficientemente. Proteger-lhe-á também. Mas sobretudo, se houver um caminho, Malcolm o encontrará. Funciona com sua ambição.

Claire tomou fôlego.

— Não quero que aja por ambição e termine morto —disse severamente. Olhou as caras dos homens. Para eles, isto era só outro momento na linha do dever da Irmandade—. Como disseram, é jovem, muito jovem para morrer. Ou pior! —tragou—. Moray tem que ser detido. Estão seguros de que não está, o conhecimento que necessitamos para fazê-lo, no Cathach?

Malcolm estava de pé sobre as muralhas, já não furioso, só doente na alma.

Havia trazido Claire a seu tempo para protegê-la, mas agora, em retrospectiva, sabia que tinha cometido um terrível engano. Teria estado mais a salvo em sua loja, frente a pessoas como Sibylla e Aidan, que onde estava agora. Aidan não teria feito nada pior que seduzi-la e estar armado com armas modernas. Claire era bastante forte para ter lutado contra Sibylla, possivelmente inclusive teria triunfado sobre ela. Moray era um assunto completamente diferente.

Era completamente culpa dele que agora ela era objeto de desejo de Moray. Atrevia-se a inspecionar estreitamente seus motivos para trazê-la junto dele, teria que admitir que a poderosa atração que sentia por ela tinha sido um grande fator tanto como seu desejo de protegê-la.

As ameaças de Moray tinham sido claras. Planejava usar Claire contra Malcolm, igual a Mairead tinha sido usada contra Brogan. Royce e MacNeil, ambos lhe tinham advertido de que não se apaixonasse por ela, mas era muito tarde. De repente, viu Claire nua debaixo de Moray, nas convulsões de prazer enquanto o outro homem a usava e lhe tirava a vida.

O que tinha feito?

O que poderia fazer agora?

Necessitava mais poder e mais sabedoria. Três anos atrás tinha açoitado Moray, encurralando-o na torre do Urquhart, e facilmente tinha sido derrotado. Não teve o suficiente poder para vencer Moray, nenhum Mestre o tinha ou o deamhan teria sido enviado ao inferno para muito. Moray tinha posto uma armadilha, mas talvez agora ele poderia ser o trapaceiro.

Moray riu, detrás dele.

Malcolm reforçou seu poder contra o deamhan e se girou, tocando a espada enquanto a desembainhava. Sentiu-o terrivelmente familiar, como se aquele baile fatal no Urquhart fosse interpretado uma vez mais.

— Pensa mais atentamente, Malcolm, e a verá me pedir cada vez mais e mais prazer, o qual com muito gosto lhe darei. Pedirá meu gozo com um frenesi de estúpida necessidade. Lançar-me-ei dentro dela cem vezes cada noite. E quando lhe enviar de volta, com seu ventre aumentado com meu menino, não quererá me abandonar. Odiar-te-á por tomá-la de volta.

Toda razão despareceu. Malcolm rugiu.

— Por Claire.

Moray desembainhou sua espada e foi ao encontro do cruel ataque, sorrindo com prazer.

Malcolm se balançou uma e outra vez, era um déjà vu. No fundo de sua mente, sabia que Moray tinha querido esta batalha e sabia exatamente por que. Para três anos Moray tinha elegido deixá-lo vivo.

Sabia que era uma armadilha.

Não lhe preocupava.

A sede de sangue o consumia.

Golpeou e o fio da espada de Moray se encontrou com a sua. As espadas chiaram.

O vinho tinha o efeito calmante que Ironheart tinha querido, pensou Claire. Tinha deixado de tremer e respirava com normalidade. O medo permanecia, mas estava controlado. Moray era metade humano. Moray podia sangrar.

Tomou outro gole e exalou, fechando os olhos. Era uma mulher de intelecto. Tinha que haver um modo de reduzir os poderes de Moray ou de feri-lo mortalmente. Malcolm havia dito que os demônios nunca entravam nos lugares sagrados, porque ali perdiam seus poderes. Havia uma conclusão óbvia para ser extraída, mas Moray provavelmente saberia que era melhor não vagar por uma igreja ou capela. Se pudesse ser atraído a tal lugar, teria sido destruído para sempre.

Sua mente retornou às espantosas palavras de Aidan. Tinha estado preparada para acreditar que Moray era o próprio Satã, mas Aidan havia dito que tinha o amparo de Satã, que era pelo que seu poder não podia ser tomado pelos Mestres. Bem, ela acreditava em todo o resto e estava pronta para abraçar a visão global de Aidan agora também.

Maldito seja. Se Moray não podia ser ferido mortalmente e assim debilitado, então os deuses eram sua única esperança.

Isto não era particularmente reconfortante. Perguntou-se se qualquer Mestre recentemente tinha visto um dos Antigos. Provavelmente se mantinham na versão Dalriada do Monte Olimpo, do modo em que os deuses gregos fizeram na mitologia grega.

E onde estava Malcolm? Estava fora, sozinho, na escuridão?

Claire tremeu. Tinha medo por Malcolm, estava realmente assustada. Claire abriu os olhos, tomando compridas e profundas respirações. Malcolm era um grande herói, um campeão para tudo o que estava bem neste mundo e Moray tentava lhe dar a volta. Tinha que ajudá-lo de algum modo. Não podia imaginar o mundo sem Malcolm, um Mestre protegendo ao Inocente através dos tempos.

Tinha que haver uma maneira.

Olhou fixamente através do quarto. Uma formosa mesa oval para doze pessoas, com as cadeiras estofadas em veludo de cor safira, com pregos incrustados, tinham sido colocadas para jantar com a porcelana dourada e o faqueiro. Ironheart e Royce comiam tão rapidamente e de maneira tão eficiente como lhes era possível. Como o abastecimento de combustível era provavelmente crucial para seu bem e seu poder, não lhes invejava sua concentração e sua conduta antissocial. Aidan estava sentado na cabeceira da mesa, afastado dos outros homens, bebendo vinho, seu prato vazio.

Obviamente estava pensando.

De repente, Claire sentiu uma terrível dor abrasadora no flanco. Ofegou, a ponto de curvar-se, a mão sobre sua cintura. Durante um momento, pensou que uma espada lhe tinha atravessado o flanco.

Aidan ficou de pé.

—Claire?    Claire se olhou a mão, esperando vê-la coberta de sangue. Não havia nada. Malcolm.

Ela se cambaleou sobre seus pés.

—Malcolm está ferido!

Claire se moveu primeiro, correndo através do corredor e arrojando-se para a porta aberta. A noite era de um negro azulado, mas o céu estava cheio de estrelas das Terras Altas e uma lua crescente, que era dourada e brilhante. Seus olhos foram diretamente para as muralhas, justo à esquerda e ainda por cima de onde estava ela e viu ali duas figuras.

Uma figura se derrubou enquanto a outra permanecia erguida sobre ela. Inclusive à luz das estrelas, Claire viu sua perfeita face bronzeada, o brilho dos brancos dentes e o cabelo dourado pelo sol. Ele ria dela, seus olhos encontrando-se. E Moray desapareceu.

Claire gritou e correu escada acima, Aidan sobre seus calcanhares. Claire tropeçou, e caiu de joelhos onde Malcolm estava estendido. Durante um segundo, pareceu em paz, como se dormisse. Olhou seu flanco esquerdo e só viu o brat que levava sobre a correspondente cota de malha. Então viu que a lã era excepcionalmente escura, empapada com sangue.

Os olhos de Malcolm se abriram, encontrando os de Claire. Ela retrocedeu. Seu olhar era chapeado, loucamente brilhante e sua mão a agarrou pelo pulso. Durante um terrível instante, Claire pensou que ia quebrá-la.

—Mande-a embora! —gritou Malcolm severamente, a cara devastada pela dor.

Aidan se ajoelhou ao lado dela, movendo a cota de malha e apartando-a. Desatou o colete de couro para revelar linhas excessivamente largas empapadas de sangue.

— Vá agora, Claire! —disse Aidan firmemente.

— Não vou a nenhuma parte! —gritou Claire enquanto Aidan abria o linho rasgando-o. Ela ofegou quando viu a horrível ferida. Havia tanto sangue. Tanto se Malcolm tinha uma hemorragia ou se tinha algum órgão prejudicado ou se infectasse, morreria.

— Mande-a... Embora - repetiu Malcolm, agarrando sua mão de maneira chocantemente brutal, os olhos em chamas.

— Morrerá se segue te movendo —disse Aidan concisamente—. Fica quieto guardando as forças.

Enquanto Malcolm lhe sujeitava a mão, Claire examinou seus ardentes olhos e reconheceu a incontrolável luxúria. Já tinha matado a uma mulher para salvar sua própria vida e esse momento, entendeu-o. Ele tinha que viver. Necessitava vida para viver.

O medo retornou, mas ela não se moveu.

— Não vou —sussurrou. Seu coração trovejou com força—. Quero que vivas. Toma minha vida. Toma... O que necessite.

—Eu... Não... Tomarei —ofegou ele. Seus olhos se fecharam, a cabeça se girou para um lado enquanto perdia o sentido.

Aidan amaldiçoou, olhando airadamente a Claire.

— Está morrendo! É uma interferência agora, uma tentação!

— Então o cure! —gritou—. Disse que tinha o poder, cure!— pressionou sobre a ferida para parar a hemorragia com as mãos nuas.

Passos de botas soaram enquanto Claire se dava a volta.

— Depressa! —gritou a Royce— Consiga-me ataduras!

Royce se ajoelhou, lhe dando uma pequena parte de tecido para tapá-lo. Imediatamente Claire cobriu a ferida, pondo as mãos de Royce ali e tratou de encontrar o pulso do Malcolm. Não podia encontrá-lo. Estava a beira do pânico, mas de algum modo o manteve a raia.

— Não posso lhe encontrar o pulso, Aidan —ela avisou—. Se não o curar, morrerá!

Aidan tinha as mãos sobre os ombros do Malcolm, tinha uma expressão feroz na cara. Claire começou a rezar, a cabeça de Malcolm sobre seu colo, sua cara entre suas mãos. Ironheart se ajoelhou ao lado deles.

Royce disse espessamente:

—Ele está esvaindo, Aidan.

Claire viu o medo em seus olhos. Olhou fixamente o rosto do Malcolm, que agora estava terrivelmente pálido. A pedra que levava posta lhe queimava a garganta e de uma estranha maneira recitava a oração que acabava de ler, aquele breve parágrafo a alguma deusa celta. Era como se o tivesse memorizado. O latim tomando forma perfeitamente em sua língua, lhe dando absoluto sentido e nada nunca tinha sido tão reconfortante. Cantou calmamente para si mesma. Era como se não estivesse em si mesma. Fechou os olhos, suando profundamente, cantando calmamente em voz alta agora. A ladainha em latim era o único som na noite.

Claire fez uma pausa e olhou Aidan, que tinha soltado Malcolm.

— O que está fazendo? —gritou sufocadamente.

Seu olhar se encontrou com a seu.

—Não posso sentir nada de vida. Moray pôs um bloqueio sobre ele. Royce, pode parar a hemorragia?

Royce não respondeu, quase tão pálido como Malcolm agora.

Claire lutou contra o pânico. Malcolm não podia morrer! Despojou-se da pedra de seu pescoço e a sustentou entre as mãos, separando-se de um empurrão Royce e afastando-o dela. A lã sob suas mãos estava empapada. Cantou mais rápido, terminando a oração a Ceanna uma quarta ou quinta vez enquanto Royce rapidamente trocava a lã de debaixo de suas mãos. Sua mente lhe gritava que Malcolm não estava morto. Ela o sentiria se o estivesse.

Royce virou-se para Malcolm.

— Não respira, Aidan.

Aidan pôs as mãos sobre ele outra vez, o suor gotejando por sua cara.

— Não posso lhe dar nada— disse—. Se tivesse o poder, este bloqueio teria o desaparecido.

Claire soluçou. Agarrou a mão de Royce, fez-lhe estancar a ferida e se inclinou para o rosto do Malcolm. Manteve-lhe o nariz fechado, abriu-lhe a boca e começou a lhe fazer a reanimação cardiopulmonar. Ele não respirava.

Tinha o Taser no bolso de sua saia, a que levava debaixo de seu tartan.

Claire abriu o decote de seu leine rasgando-o, arrancando-o até suas costelas, sua força impulsionada pela adrenalina. Estava a ponto de pôr o Taser ali e sacudir seu coração quando viu o movimento do peito.

Subiu... Baixou.

Claire sustentou sua cabeça e se inclinou sobre ele. Sentiu o fôlego contra sua pele e começou a derrubar-se, chorando.

— Claire —disse Royce bruscamente—. O sangue parou. Respira. É superficial e débil, mas respira.

      Ela sentiu suas pestanas movendo-se.

— Não te mova. Está ferido —conseguiu dizer, olhando-o.

Malcolm a olhou fixamente, parecendo um pouco aturdido. Claire não estava segura de que a reconhecesse.

— Aidan, a ferida está profundamente aberta —disse Royce—. Tem que curá-lo completamente. Penso que não poderá sobreviver se não.

— Disse-lhe isso, não posso curá-lo de tudo —disse Aidan de maneira densa—.Claire o fará.

Royce olhou para Aidan, que olhava de atrás. Então ambos olharam fixamente para ela.

Claire não podia concentrar sua atenção nos dois homens. Malcolm estava terrivelmente pálido pela perda de sangue. Tinha medo de que morresse de todos os modos. Claire lhe enviou um sorriso que estava segura de que era lamentável.

— Royce. Isto tem que ser cauterizado. —A hemorragia podia ter parado mas, como poderia sobreviver a esta classe de ferida sem assistência médica moderna?

— Vou a MacNeil —disse Ironheart e desapareceu.

Claire começou a tremer. Ao parecer, tinham parado o sangramento e o tinham reanimado, mas a crise não tinha terminado. Tinha muito medo, ele poderia morrer a qualquer momento.

— Pode MacNeil salvá-lo? Pode curá-lo?

—Tem o poder, se chegar aqui a tempo. —Royce saltou e se apressou para as muralhas.

Claire não podia compreender aonde ia, quando Malcolm disse:

— Vem aqui, moça.

Ela se moveu bruscamente ante seu tom sedutor. Atravessou-lhe o corpo, lhe causando imediatamente cordialidade e calor. Atordoada, encontrou seus olhos brilhantes. Sua voz era rouca, afogada pela dor.

—Necessito-te, Claire... Estou morrendo... —E seu intenso olhar sustentou o dela.

Ela não podia ver mais à frente. Claire estava ainda sobressaltada, o desejo chocando e explodindo em seu interior. Não havia nenhuma confusão em seu significado. Queria tomar a vida dela, enquanto estivesse enterrado dentro de sua matriz, a fonte de vida.

Naquele momento, tinha completa compreensão e isto lhe dava absoluto sentido. Necessitava-a desesperadamente, como desesperadamente, ela o necessitava. Seu olhar passou por diante da profunda ferida que sangrava e viu sua virilidade mover-se e encher-se. Seu olhar voou de retorno a seus olhos.

Ela deveria haver-se sobressaltado, mas não o fez. Sabia que poderia curá-lo. Dar-lhe-ia seu corpo e todo seu ser enquanto lhe dava um êxtase impossível. Seu coração pulsava mais desesperadamente agora. De algum modo sabia que estava na loja. Le Puissance. O Poder... Molhou os lábios, baixando seu rosto ao dele. Ela ofegou quando suas bocas se encontraram. Estava muito perto do prazer orgástico com um simples beijo. E Claire o sentiu agarrar-se a sua vida.

Ele ofegou e ela se cambaleou ante uma onda de prazer brilhante, intenso, o êxtase chamando...

De repente, umas mãos fortes a arrancaram de Malcolm. Claire lutou contra Aidan, todo seu corpo palpitava desesperadamente agora.

— Não! Idiota! Ele morrerá!

— E você morrerá porque ele necessita sua vida e não compreende o que está fazendo. Dá-lhe sua vida e Malcolm pertencerá a Moray —grunhiu Aidan.

Claire não podia entendê-lo. Havia muito desespero e muita luxúria, como se fosse um animal acalorado. Olhou fixamente para Malcolm, que estava jogado sobre a pedra, respirando com dificuldade, necessitando-a desesperadamente, querendo-a urgentemente. Tinha que ir para ele. Furiosa, tentou atirar-se se afastando de Aidan.

— Posso ajudá-lo! —estava enfurecida— Deixe-nos sozinhos!

Ignorando-a, com facilidade Aidan a levou para as escadas.

— O que está fazendo? —gritou Claire, incrédula, mas com um pouco de alívio da espantosa luxúria. No fundo de sua mente, deu-se conta de que saía de um transe—. Malcolm morrerá se não lhe ajudo! Necessita-me... Deixe ir!

— Sai de sua cabeça... E então ele estará bem. Moray apanhou a meu irmão outra vez. Converteu-o em um deamhan. —Pôs seu braço ao redor dela, capturando-a como o aço.

Claire lutou e olhou para trás. Malcolm permanecia de barriga para baixo, como um caçador no bosque, seu olhar brilhante, rastreando-a enquanto Aidan a obrigava a partir.

Necessito-te, Claire... Não vá. Não os escute... Retorna para mim...

Sua boca nunca se moveu mas, lhe ouviu como se tivesse falado em voz alta.

A terrível urgência começou uma vez mais.

Virei, prometeu-lhe. Sempre virei quando me chamar...

Royce se dirigia escada acima, passando a Claire e Aidan, sustentando um ferro ao vermelho vivo que brilhava como os fogos do inferno na noite.

E Claire combatia contra Aidan grosseiramente.

— Ele não necessita isto —gritou— Necessita-me!

Claire viu Royce dar a Malcolm uma adaga, deixou de lutar, ofegando pelo medo. Malcolm fincou o punho na boca, mordendo o punho de osso, seu olhar chapeado estável sobre ela, firme.

Claire se agarrou com força a Aidan. Malcolm se afogava. O horroroso aroma de carne queimada rasgava a noite.

Claire arqueou, os joelhos dobrando-se, Aidan a agarrou, sustentando-a com força contra seu peito.

— Oh, Deus —ofegou, chorando. Tinha que ir com ele agora—. Por favor, Aidan! —gritou—. Por favor!

— Está inconsciente. Não pode lhe ajudar agora.

— Posso —soluçou—. Posso.

Aidan voltou o olhar para Royce. Royce assentiu com a cabeça.

— A torre de cima —disse Aidan—. Há só um caminho de entrada e um caminho de saída. Terei as fechaduras postas na porta.

Foram encerrá-lo como a um animal, pensou Claire, horrorizada.

— Juro que ficarei longe dele —mentiu—. Por favor, não o encerrem.

— Sinto muito, Claire. É o melhor para o Malcolm —disse Aidan—. E é o melhor para ti, também.

O golpe na zona posterior da cabeça a surpreendeu. Estava atordoada pela dor e a espantosa compreensão. E logo só houve escuridão.

   Malcolm despertou. Estava queimando-se nos fogos do inferno. Afogava-se pela abrasadora dor, mas não podia mover-se, a tortura era terrível, não podia abrir os olhos. Levou um momento lutando contra a dor do fogo que lhe consumia a maior parte do corpo e só então pôde encontrar algum pensamento. Estava enjoado, preparado para vomitar.

Estava perto da morte. Finalmente ofegou, incapaz de conter o som, afogando-se na dor. As lágrimas lhe queimavam os olhos e nadou em seu mundo de tortura.

A luxúria começou, a luxúria para viver.

Havia votos. Era um Mestre. Isto não poderia terminar assim.

Tinha que conter a dor, tinha que pensar. Tentou orientar-se. Onde estava? Necessitava vida agora.

Seu corpo sabia o que fazer.

Malcolm ficou quieto, tentando cheirar a vida.

Estava no chão, uma plataforma suave de palha debaixo de suas costas, o frio da pedra sob sua mão. Ouviu-se gemer outra vez e logo ouviu a chuva golpeando.

Girou a cabeça. Viu a fenda de uma flecha sobre o lado mais afastado da pequena câmara redonda e a porta de madeira. Tinham-no encerrado? Olhou fixamente a porta e de repente, de maneira chocante, pôde ver através dela. Havia um cadeado pendurado ao outro lado. Não importava. Inclusive se tivessem deixado a porta aberta, não pensava que pudesse estar de pé ou inclusive avançar lentamente para a porta, muito menos abatê-la.

Só havia sentido tanta debilidade uma vez em sua vida, no Urquhart, quando foi trespassado na parede pela espada de Moray, deixado ali para morrer assim. Mas não tinha morrido, em troca tinha tomado à criada. Sua vida o tinha salvado...

Ardia por vida. Era em tudo no que podia pensar. Tentou cheirar a vida outra vez. E esta vez, imediatamente, o detectou. Claire estava debaixo dele.

Agora, não teve nenhum outro pensamento coerente. Estava adormecida, mas a necessitava com ele.

Acorda, Claire. Necessito-te. Acorda...

Sentiu-a remover-se, sentiu sua comoção. Malcolm inalou com força. A necessidade de atraí-la e tomar o controle sobre ela o consumia. Rastreou-a com a mente enquanto ela tropeçava contra a cama. Mas algo o chocava em algum lugar, em seu peito, seu coração. Uma lembrança...

Tudo o que era, ignorou-o.

Estou ferido. Encerraram-me. Quando entrar em seu corpo, salvar-me-á. Claire.

Ele sentiu que o escutava agora. Ela o ouvia e isto era bom. Estirou seus sentidos, sentiu seu desespero e depois sentiu seu calor. Sorriu. Estava se preparando para ele. Seu membro ficou rígido pela antecipação e seu coração começou de novo a pulsar mais forte.

A lembrança fazia cócegas em sua mente agora.

Não queria lembranças; só queria seu corpo, sua vida.

      Encontre-me, moça. Estou esperando...

Ela não respondeu mas sabia que se inteirou. Alargou a mão para baixo e se tocou de maneira que estivesse preparado quando chegasse.

Onde está?

Malcolm sorriu, ferozmente satisfeito.

Claire. Sobe as escadas. Em cima de ti.

E agora podia vê-la, dois andares abaixo, a porta fechada de sua câmara. Só levava aquela camiseta diminuta, o trapo e as botas. A luxúria o consumia, como o fazia a impaciência. Pulsava com gula agora. Literalmente poderia provar seu poder, como tinha querido desde muito tempo. E seu coração pulsava rapidamente, muito rapidamente.

Não me importa se me ama, moça.

É tão arrogante!

Malcolm gemeu. Se permitisse esse luxo, lutaria contra sua necessidade e morreria. Fechou os olhos, suando, saboreando o que seria, salivando, até que seu coração cessasse todo protesto. Seu membro vibrava.

Le Puissance. Haveria tanta vida, poder e êxtase, incrível êxtase.

Depressa, moça.

Subia as escadas. Estava perto agora, justo detrás da porta fechada e seu coração gritou para ele. Preocupava-se com ela.

As imagens dançavam em sua mente. Claire discutindo com ele, uma mulher que não necessitava a seu rei. Claire vestida só com um cordão pequeno perolado. Claire preparada para lhe lançar uma pedra a um deamhan.

Gemeu outra vez. As lembranças deveriam aliviar sua luxúria, mas em troca, o impulso de provar seu poder o consumia. Não era a mulher de nenhum outro. A distância entre eles era uma barreira, mas de algum modo ele apenas se agarrava a sua vida e arrancava poder dela.

Suas veias aumentaram com quente força e uma onda de terrível prazer começou a crescer. Respirando com força, tão inchado que o feria, girou a cabeça e se concentrou em como trabalhava para romper a fechadura.

Estava frenética por sua união. Ele sentia sua luxúria gotejando por suas coxas. Ela queria. Atirou de sua vida outra vez. Poder. Força. Virilidade. Iniciar o triunfo. Tinha que ir dentro dela e tomar inclusive mais...

A porta se abriu de repente.

Ele puxou de seu poder, alagando-se inclusive mais completamente enquanto a corrente de vida entrava em suas veias, crescendo. A onda de prazer ameaçou formar uma crista e romper. Olhou-a fixamente, lentamente ficando direito. Sempre, preocupado por ela, mas agora era muito tarde.

Já que estava de pé ali, agitada e ofegando, cheia e molhada.

— Vem, Claire.

Claire se cambaleou para diante. Ele conseguiu ficar de pé. Ela o agarrou, colocando seus braços a seu redor e imediatamente ele empurrou entre suas coxas, sua boca rasgando a sua, sentindo a queda de lágrimas cheias de gratidão.

— Moça —ofegou, sustentando-a como um parafuso apertado. Ele jogou a cabeça para trás e começou a tomar urgentemente sua vida, com tanta força e rapidez como podia.

Chegou-lhe muito poder. Aumentou com isso. E a onda se rompeu. Uivou de prazer, derrubando-a, empurrando profundamente na carne quente e molhada. Ela soluçou de prazer assim como ele, o êxtase intensificado cem vezes mais. Isto o cegava.

— Saborosa.

Ela montou sua longitude e gozou uma e outra vez, chorando, mas ele também. Tinha querido provar sua vida desde fazia muito tempo e tinha tido razão. Nada podia ser tão potente, tão bom. Queria que montasse sua virilidade dessa maneira para sempre essa noite e esgotá-la, e gozar muitíssimas vezes, enquanto ela girava afastando-se, perdida em seu próprio prazer e no dele. Consciente de que ela seguia querendo inclusive mais, tão desesperadamente como para ele, deu-lhe orgasmo detrás orgasmo, não lhe permitindo nenhuma pausa.

Mais.

Sempre.

O êxtase os esmagou a ambos.

E Malcolm se sentiu invencível. A total compreensão chegou. Tinha mais poder agora que alguma vez antes e não havia mais para tomar. Esta mulher lhe tinha dado tudo, esta bela mulher estrangeira que gostava. Correu-se, rugindo ferozmente no momento final.

Empurrou-se se distanciando dela.

Tremendo por tanta paixão e poder, Malcolm se ajoelhou sobre seu corpo de barriga para baixo e instantaneamente a sentiu escapulir-se. A saúde voltava e começou o horror. Claire não tinha nada para dar.

Ele tinha tomado tudo.

Eles se precipitaram para a câmara. Royce o agarrou, jogando-o longe de Claire. Era muito mais forte que Royce agora mas deixou que o afastasse. Endireitou-se ante a janela, respirando com dificuldade, doente de medo. Aidan arrojou uma manta sobre Claire enquanto MacNeil se inclinava sobre ela.

O que tinha feito? E a Claire? Não podia perdê-la agora!

— Está viva? —exigiu densamente.

— Que diabos lhe fez? —rugiu Royce para ele.

— Está viva? — gritou Malcolm.

MacNeil não o olhou.

— Sim, está, mas por pouco. —Tinha as mãos sobre ela, lhe enviando vida.

E Malcolm sentiu sua volta a este mundo. Seus olhos revoaram e ela murmurou seu nome.

— Malcolm?

Afligiu-o o alívio. Estava viva. Mantiveram seus olhares e lhe sorriu antes que suas pestanas revoassem e se fechassem.

Quase a tinha matado.

A besta tinha rugido livremente, sua intenção cruel e malvada. A desalmada besta...

Royce golpeou com a mão o ombro do Malcolm, obrigando-o a enfrentar-lhe.

— Que irmão está enveredando a Moray? —disse cruelmente.

Malcolm estremeceu, mas Royce tinha todo o direito a perguntar agora.

Ela tinha aberto os olhos outra vez. Via-se débil, desorientada e confusa, mas lhe enviou outro bonito sorriso. Não sabia o que lhe tinha feito ele? Como podia lhe haver feito isto?

Deveria ter medo!

Ele tinha medo de si mesmo.

— Não se mova —lhe disse MacNeil—. Tem vida, mas débil.

Seu horror e ódio a si mesmo deveram ver-se porque Claire disse brandamente:

— Malcolm, está tudo bem. Não estou morta.

Não podia responder. Malcolm se girou e cruzou com compridos passos a câmara.

Malcolm jogou uma manta por sobre os ombros enquanto descia. A imagem de Claire sobre o chão nua, como estava ainda, e tão branca como um cadáver, estava gravada em sua mente. Tinha estado perto de matá-la. Tinha tomado sua vida.

Sentiu-se violentamente doente no mais profundo de seu ser, em seu coração e em sua alma. Cruzou a grandes passos o corredor, consciente de que Royce lhe pisava nos calcanhares. Foi para o aparador e bebeu de uma das garrafas, mas nenhuma quantidade de vinho poderia mudar o passado ou apagar o sabor da vida de Claire em seu corpo e o êxtase incrível que tinha experimentado com isso.

Malcolm sentiu Royce olhá-lo fixamente lhe queimando as costas. Girou-se devagar, fazendo chiar a mandíbula. Não havia ninguém que odiasse mais naquele momento como odiava a si mesmo.

— Até está lambendo os beiços.

Malcolm se esticou.

— Não negue. Amou saboreá-la até perto da morte.

Quis negá-lo, mas nenhuma palavra saiu.

— Agora o combaterá —lhe advertiu Royce, seus olhos chapeados ardendo—. Fez voto de proteger ao Inocente, não de destruí-lo.

Malcolm virou-se se afastando. Tinha abandonado seus votos, tinha violado o Código. Tinha tomado o prazer proibido e tinha desfrutado de cada momento fazendo-o.

Royce o agarrou pelo ombro e o moveu rapidamente, girando-o.

— Se te desvia para o mal, matar-te-ei.

Malcolm olhou fixamente e Royce o Negro lhe devolveu o olhar. Seu tio pensava cada palavra.

— Se me volto para o mal, estarei esperando para que me destrua.

Também o pensava.

— Combatê-lo-á e lutará contra Moray —grunhiu Royce. Liberou Malcolm e saiu airadamente por diante dele, vendo-se como se estivesse preparado para começar a lançar objetos pelos arredores do corredor.

— Não sou perverso —disse Malcolm devagar, mas se sentia inseguro—. Estou doente de vergonha.

— Bem. Deveria estar envergonhado. —Royce se afastou e começou a verter o vinho em uma taça de cristal. A mão lhe tremia. Malcolm nunca tinha visto Royce tremer, nem uma vez em toda a vida desde que o conhecia.

— Não pode compreendê-lo —disse Malcolm—. Era uma besta, mais que um homem.

Royce se girou devagar.

— Por que pensava que desejava ver-te encerrado como um animal enlouquecido?

Malcolm o olhou fixamente. Nunca ia esquecer o que acabava de passar.

— Quase assassinei à mulher que tinha jurado proteger, Ruari.

— A mulher que tinha jurado proteger ou a mulher que tinha começado a amar? — Royce estava sério e sombrio, e a pergunta era uma acusação.

Malcolm estremeceu. Royce estava equivocado.

— Não amo a ninguém —disse finalmente. Rechaçava recordar os sentimentos que tinha tido no calor do êxtase.

— Ama à mulher americana. Está escrito em sua cara, posso ouvi-lo em seu coração.

— Maldição —rugiu Malcolm. Royce sabia muito bem invadir sua mente—. Tenho carinho, isso é tudo. Carinho, Royce, carinho, como tenho carinho a ti.

— Não pensa em foder-me noite e dia. —Royce se afastou.

Malcolm teve vontade de quebrar algo.

— Não é o suficientemente belo.

Royce lhe enfrentou.

— Malcolm, recupera a sensatez. Puseste-a em perigo mortal agora. Controlou tomando-a esta vez. O que passará a próxima?

— Não haverá nenhuma próxima vez —gritou, começando a suar. Até agora confiava em si mesmo, mas seu dever era proteger a Claire. Morreria fazendo-o de bom grado.

—Eu também estou nisto. Mas sua juventude e seu sangue são muito malditamente inquietos. Moray não cessará. Ouviu-o, igual a mim. Tomará, usá-la-á e a enviará de volta com um menino. E te apanhará uma e outra vez, te atraindo para o mal, usando à mulher que amas até que realmente tome a vida.

Malcolm fechou os olhos, tremendo. Já sabia isto.

Royce se suavizou. Foi para ele e lhe apertou o ombro.

— Penso que Claire não deveria estar perto de nós. Inclusive se a casasse com algum outro homem sob engano, tem-na lido como a um livro e a ti também. Não importa o que pense fazer, Moray a marcou como uma arma contra ti. A moça tem que ir.

Sabia isto também, instintivamente, mesmo que não queria sabê-lo.

— Não. Deve haver algum modo de mantê-la segura.

— Não há nenhuma maneira de mantê-la a salvo de ti! —gritou Royce.

— Encontrarei a maneira —disse Malcolm, com os dentes apertados.

— Não há nenhuma maneira —disse Royce com ferocidade—. E agora verá como tenho razão! É um idiota apaixonado. Seu amor só a matará. E seu amor te matará.

Era quase como se não pudesse respirar. Tinha chegado a depender de Claire. Tinha chegado a esperar que estivesse a seu lado, em sua casa e depois cada noite em sua cama. Tinha chegado a ter vontades de suas conversações e esperar seus sorrisos, que o agradavam tanto que tentava ser a causa delas. Sua arrogância podia ser irritante, mas era muito inteligente para ser mulher. Podia descartar seus insultos, mas sabia que estava apaixonada por ele. Ela não o pensava quando lhe chamou macho idiota. A única coisa que realmente lhe incomodava era sua desobediência, porque sabia que era o mais simpático e o mais forte. Mas suportaria cada ordem se pudesse desfazer o que estava passando agora.

Necessitava-a. Era assombroso. Doía-lhe pensar em enviá-la longe. Provavelmente sentiria sua falta quando se fosse.

— Pensarei nisso —disse concisamente—. Não me force agora.

— Não há nada que pensar! —Royce estava furioso—. Desejas encontrá-la morta um dia ou deseja que viva. Faz sua escolha.

Malcolm o olhou fixamente, irritado. Não havia nenhuma outra opção. Porque a besta escura estava à espreita em seu interior e porque Moray sabia como desencadear aquela besta, Claire não poderia ficar com ele. Feito Mairead. E como Mairead, só havia um lugar seguro ao que pudesse ir, o claustro.

— Nenhum deamhan, nunca entra em um lugar sagrado a propósito. Levá-la-ei a Iona —disse Malcolm e então cedeu a seu estado de cólera, e lançou o braço, golpeando uma requintada cadeira do seu lado e quebrando os braços. Seu coração não queria que se fosse.

— Estará a salvo ali —concordou Royce—. Mas a acompanharei. É tarde agora, levá-la-ei amanhã. Partiremos ao amanhecer.

Malcolm se girou, seu coração retumbando.

— Você não dá as ordens aqui, Royce —advertiu—. Sou seu suserano.

— Sim, quando não está cego pela luxúria e o amor. —Royce saiu majestosamente do vestíbulo.

Mais cólera explodiu. Inclinou-se sobre outra cadeira, respirando com dificuldade. O claustro seria seguro para Claire. Sua mãe estava a salvo ali e de bom grado desejava permanecer ali até sua morte. Nem sequer Moray desafiaria entrar em um lugar sagrado. Mas Claire não iria querer ficar na abadia muito tempo. De fato, certamente sentia que não ia desejar ir ali por nada.

Estaria furiosa, pensou. Mas ele era seu senhor e não ia lhe dar opção. Endireitou-se e chutou uma cadeira de damasco vermelha e de marfim através do quarto.

Aidan cruzou a grandes passos o vestíbulo.

— Se desejas romper algo, entra nos bosques, mas deixa minha excelente casa em paz!

Malcolm o olhou. Infelizmente, este homem era seu meio-irmão. Ontem à noite tinha tentado curá-lo.

— Como está Claire?

— Está profundamente adormecida. Pergunto-me por que.

Malcolm se esticou.

A expressão de Aidan era fechada, não mostrava nenhuma emoção absolutamente.

— Não te curei. Moray pôs algum feitiço sobre ti e estive bloqueado. —Seus olhos se endureceram—. Claire parou o sangramento com as mãos. Respirou dentro de ti e te devolveu o fôlego. Rezou aos Antigos por sua vida.

Malcolm sabia o que vinha depois.

— E logo tentou tomar sua vida —disse Aidan, as têmporas lhe palpitavam—. E você me odeia por ser o mesmo diabo?

Malcolm se estremeceu.

— Odeio-me mais.

— Deveria. —Aidan fez uma pausa—. Claire pode ficar aqui.

A fúria começou.

— Não compartilharei, Aidan. Vai a Iona.

—Não tenho nenhum desejo de ir a sua cama —disse Aidan firmemente—. Ela merece a possibilidade de viver.

— Levá-la-ei a Iona ao amanhecer —disse Malcolm brandamente, enfurecido. Sabia que seu irmão nunca seria capaz de resistir ao encanto de Claire—. Se a toca, morrerá.

— É um imbecil —disse Aidan, passando-o a grandes passos. Recolheu a cadeira rota—. Deve-me uma fina cadeira da França. Chamam-na Luis XIV.

Malcolm se virou, distanciando-se. Não podia encontrar tranquilidade e tinha que enfrentar-se ao por que. Em realidade, doía-lhe o coração, doía-lhe dentro do peito. Amanhã levaria Claire a Iona. E logo o que? Moray não podia ser destruído. Claire teria que passar anos ali, até que fosse esquecida. Estaria furiosa a princípio e depois se sentiria miserável. Ele já se sentia miserável.

Aidan disse calmamente.

— Ela não é nenhuma Mairead.

Malcolm deu a volta.

— Espia meus pensamentos?

— Não tenho que espiá-los. Seu coração partido grita alto e claro.

— Meu coração não está partido. —Sorriu com ênfase.

Mas Aidan estava mortalmente sério.

— Malcolm, deixa de me odiar por um momento. MacNeil não está curando Claire na torre.

Malcolm o olhou fixamente.

— O que significa isso?

— Disse-me que quando começou a curá-la, ela já se estava curando.

Malcolm permaneceu tranquilo.

— A pedra?

— Não o compreendo. Talvez a pedra é mágica, talvez não. Senti o poder da pedra nas muralhas. Deve havê-lo sentido também.

— Sim, senti o encanto da pedra ontem à noite e o senti na noite que fomos atacados no Morvern. Mas não é o que está pensando. —Malcolm lhe olhou e Aidan também lhe olhou fixamente.

— De acordo —disse finalmente—. Penso que pode ser uma de nós.

 

Claire despertou com uma palpitante enxaqueca, nunca antes tinha tido alguma igual. A dor a consumia, cambaleou-se da cama até o urinol, onde vomitou sem poder conter-se.

Sentou-se no chão, tentando orientar-se e rogando por encontrar-se melhor. A terrível dor estava partindo, substituído por uma enxaqueca menos severa, mas agora sentia náuseas. De fato, sentia-se como se tivesse bebido uma enorme quantidade de vinho a noite passada.

Mas não houve ali nenhum vinho a noite passada.

A noite anterior tinha estado Malcolm.

Horrorizada, Claire olhou por as duas janelas da câmara. Fora, para uma manhã nublada, o sol era apenas visível. Começou a tremer, sentindo-se doente, não em seu corpo a não ser em seu coração e em sua alma.

Estava no Awe e a última noite, Moray tinha golpeado Malcolm quase mortalmente... Pela segunda vez. Mas não estava morto. Estava muito vivo.

Oh, Deus. O que tinha feito ela? O que tinha feito ele?

Malcolm tinha estado quase morto. Tinha sido encarcerado como uma besta selvagem, e ela perdera o julgamento, pensou, levantando-se lentamente. Agora recordou o terrível desespero, a espantosa necessidade de encontrá-lo, de estar com ele. A noite anterior, tinha estado segura de que a estava chamando, levando-a para ele. Parecia como se suas mentes se estivessem se comunicando. Não tinha vacilado em obedecer. De fato, justamente o contrário, nada nem ninguém poderiam lhe haver impedido de ir com ele.

Não tinha tido controle sobre seu corpo ou sua mente. Malcolm a tinha controlado. Mas ele tampouco tinha discordado.

Seus selvagens rugidos enchiam sua mente. Tinha tomado sua vida na noite anterior. Claire tropeçou com uma cadeira e se sentou, horrorizada. Agradar na morte. O que era a moderação da eternidade. A noite anterior tinha querido morrer por ele. A última noite tinha desejado morrer na agonia de um êxtase desumano.

Quão perto tinha estado da morte? Vagamente, recordava MacNeil e a Aidan abatendo-se sobre ela. Os dentes de Claire começaram a tiritar. Malcolm tinha parado... ou tinha drenado-a como um animal raivoso? Não podia recordar os detalhes.

Claire não podia acreditar que não tivesse tido vontade própria. Aquilo era aterrador. Mas Malcolm não tinha tido vontade tampouco. Estando quase morto, converteu-se em algo insaciável, determinado a viver sem importar o preço.

Moray estava na própria alma de Malcolm. Ou era muito tarde?

Uma lágrima se deslizou por sua bochecha, seguida por outra e outra. E Claire se lembrou de suas cálidas olhadas e afetuosos sorrisos enquanto jazia em seus braços depois de fazer amor, aquela única e singela noite, quando a tinha assombrado ao lhe dizer que desejava lhe fazer um juramento de fidelidade.

Seu coração gritou em protesto, lhe exigindo que escutasse. Malcolm podia não haver-se voltado diabólico na noite anterior. Malcolm não a tinha ferido em realidade, porque ela estava muito viva hoje. Era bom, e sabia em seu coração e sua alma. Era Moray que era diabólico, Moray e todos os de sua classe. Era Moray que tinha deixado morrer Malcolm, esperando que Malcolm matasse Claire para salvar-se, esperando agarrar Malcolm em uma armadilha que lhe levasse a ser um deamhan completamente transformado como tinha tentado antes. Mas Malcolm tinha recuperado a prudência antes que fosse muito tarde.

Claire não estava tranquila. Moray quase tinha conseguido organizar sua morte e a queda de Malcolm. Sua mente ia a toda velocidade, assinalando que Malcolm agora tinha infringido seus votos duas vezes, inclusive se ela estava viva. Estaria prestes a voltar-se diabólico?

O que faria ela se ia a Malcolm e encontrava algo mais em seu lugar?

Claire estava pronta para admitir finalmente a verdade. Estava muito apaixonada por um homem medieval descendente de uma deusa. E a última noite, ele quase tinha enlouquecido com uma luxúria esmagadora.

Foi à janela e dando-se conta, empurrou para fora para abri-la, arrumando-lhe para fazê-lo. Enquanto o fresco e úmido ar chegava do lago, respirou profundamente, o coração lhe correndo violentamente. E escutou espadas chocando.

Claire se esticou. No pátio debaixo, Malcolm e Royce estavam atirando uma série de golpes um contra o outro. Por um momento, olhou fixamente enquanto os homens travavam as espadas furiosamente. Estavam tão concentrados que teria jurado que queriam ferir um ao outro. Malcolm foi por trás de Royce com um avanço tão agressivo que, por um instante, pensou que Royce estava condenado. Mas ele bloqueou o golpe e se agarraram ali, grosseiramente.

Claire voltou para dentro, tremendo de novo.

Seu coração estava pulsando forte e rápido. Nunca poderia esquecer o que tinha ocorrido na noite anterior, mas não estava assustada de Malcolm. Estava assustada por ele.

Enquanto Claire cruzava a câmara para abandoná-la, vislumbrou seu reflexo no pequeno espelho que estava sobre a única cômoda do quarto. Vestida com suas roupas de cidade, vacilou. Sua cara estava muito pálida, manchada com dois enormes e escuros círculos sob os olhos. Parecia doente, tão gravemente. E era porque quase tinha morrido na noite anterior.

Claire se separou do espelho. Calçou suas botas de cowboy e desceu as escadas. O vestíbulo estava vazio e afora a manhã das Terras Altas era fresca e úmida pela chuva da noite prévia. O aroma de chuva do verão, floresta fresca e erva molhada era forte e intenso, mas não o suficiente para debilitar a profunda sensação de enfermidade dentro dela.

Claire se deteve. Malcolm e Royce estavam tão furiosamente ocupados que ela tinha graves dúvidas sobre a natureza de sua prática. Então, teve uma boa vista do Malcolm e depois de Royce, deu-se conta que ambos os homens estavam muito zangados. Se isto era uma prática, não sabia que seria uma batalha de verdade. Cada um estava claramente tentando derrotar ao outro. Podia supor por que Royce estava tão zangado, mas Malcolm parecia louco. Seu coração se sacudiu e ela começou a adiantar-se.

Golpe desviado por golpe. O manto de Malcolm estava molhado e se pegava a seu poderoso corpo, revelando cada ondulante músculo. Seu cabelo até os ombros estava gotejando umidade e o suor cruzava seu rosto. Royce o igualava com precisão.

Claire estava segura de que os fatos da noite anterior eram a razão de tão terrível animosidade. Malcolm precisava retroceder. Royce tinha sido um pai para ele desde que Malcolm tinha nove anos. Entendia a ira de Royce. Vinha do medo por seu sobrinho.

Malcolm olhou par ela e Royce golpeou a espada desde seu agarre e então colocou seu fio contra a jugular de Malcolm. Malcolm jogou a cabeça para trás, reconhecendo sua derrota mas vendo-se furioso e zangado por isso.

— Royce! —gritou Claire. Tinha escutado Malcolm seus pensamentos? Com segurança Royce não ia feri-lo!

Royce grunhiu e depois lançou sua espada golpeando primeiro o chão, onde ficou vibrando. Deu umas pernadas passando por Claire, afastando o dourado e molhado cabelo da cara, orvalhando-a com seu suor.

Ela respirou com força enquanto Malcolm se inclinava para recuperar sua espada. Estava prestes a cair em seus braços. Em lugar disso, foi lentamente para ele.

— Está bem? —Royce tinha deixado uma fina linha vermelha em sua garganta.

Ele se ergueu, embainhando sua espada. Depois empurrou seu molhado cabelo liso atrás sobre sua frente e depois das orelhas. Claire tremeu, notando que não a estava olhando.

— Malcolm?

Finalmente ele encontrou seu olhar, os olhos ardendo brilhantes.

— O que exatamente está perguntando? Eu deveria ser o único em perguntar se está bem.

Ela se retesou.

— Estou bem... Fraca... Um pouco assustada... Mas bem. —rodeou-se com os braços—. Royce está zangado por ontem à noite, não é verdade? Não entende o que ocorreu em realidade.

Ele se estremeceu, apartando o olhar, com uma terrível expressão de repugnância na cara.

— Não desejo discutir nada sobre ontem à noite. E não tentarei me defender agora.

— É obvio, sempre te defenderei, porque é o homem mais honrável que jamais conheci! A honra ganhou ontem à noite.

Enfrentou-a furioso, mas parecia aflito quando finalmente a olhou no rosto.

— É hora de jantar —disse com aspereza. Começou a passá-la.

— Temos que falar sobre ontem à noite! —agarrou seu molhado antebraço, mas ele deu a volta e saltou longe—. Malcolm, não podemos ignorar o que ocorreu! Quase te perdi ontem à noite... E quase morri!

— Não pode deixá-lo? —gritou—. Estou aqui, não? Você está viva, não?

— Como posso deixá-lo? Moray quase te voltou demônio. Ontem à noite estava disposta a morrer em seus braços, de prazer... Com gosto! —gritou como louca, tremendo.

Ele tomou ar, e por um momento Claire pensou que ia empurrá-la. Em lugar disso, muito brandamente, afastou a mão de seu braço.

— Aye, ontem à noite quase morre. Tirei de ti tudo o que pude. —Seus olhos cintilaram.

Quando não disse outra palavra, ela suspirou.

— Ia morrer. Está programado para viver, não importa o preço. E não tomou tudo de mim. —Logo, porque queria estar segura, disse—Deteve-te, não é verdade?. De algum jeito, deteve-te.

Sua cara parecia estar a ponto de romper-se. Ela não estava segura de que pudesse falar, enquanto estava respirando tão forte. Finalmente disse:

— Aye, senti-te deixando este mundo. Freei à besta que vive em mim. Esta única vez.

— Escolheu o bem, não ao diabo —escolheu as palavras—. Há tanta esperança!

— Não deixei nada que não quisesse.

Ela se encolheu.

— Não o faça.

— Não diz a verdade, você gosta?

A compaixão a dominou.

— Entendo sua ira —sussurrou—. E entendo ontem à noite. Sabe que o faço. Senti cada candente momento que estava acontecendo e me fez querer mais e mais também. Fez-me querer morrer por ti. Sério, quem não quereria mais dessa classe de sexo louco, essa classe de prazer incrível, e depois tentá-lo uma vez mais? Quero-o. Inclusive sabendo os riscos, tentar-me-ia tentá-lo outra vez! Mas não é um homem medíocre. Estava destinado ao bem, não ao mal. Derrotou a Moray no último momento possível. Malcolm, ganhou.

Ele ficou violento.

— Deveria estar assustada. Não derrotei a ninguém! Desejas reafirmar minhas lembranças? Quando lhe olho, vejo-te como estava ontem à noite... Quase morta, sua cara cheia de prazer... E te sinto fluindo por minhas veias. Agora te sinto todo o tempo!

Ela retrocedeu, dando-se conta de que a noite anterior tinha mudado as coisas. O controle dele era muito frágil. E ela tinha falado com muita liberdade e muito detalhe. Vacilou, insegura do que dizer.

— Aye, ainda te gosto, Claire. Mas você quer “falar” sobre isto. Bem. Falaremos. Estou perto de ser um deamhan. Possivelmente estou começando a ser um. Ainda quer falar?

Ele se afastou a grandes pernadas, para a entrada.

Tinha esperado, bobamente, que a luz do dia, o velho Malcolm voltasse. Sua ira lhe dizia que ele se preocupava com seu destino. Enquanto o fizesse, poderiam superar este terrível feito. Mas estava assustado agora. Nunca teria acreditado que pudesse assustar-se de algo, mas estava assustado de si mesmo.

Escutando-a, ele voltou, os olhos muito abertos.

— Estou muito zangado, Claire. Aye, e estou assustado. Precisa estar longe de mim. E não haverá nós. Lutarei com Moray, sozinho.

Claire sabia que não podia abandoná-lo neste momento de crise. Não se esconderia mais em nenhum armário.

— Então está louca! —gritou, lendo seus pensamentos—. Pensa acreditar em mim agora, depois do que fiz?

— Sempre acreditarei em ti. É o filho de Brogan Mor —sussurrou.

— Por quanto tempo mais? —exigiu ele, a olhando chocando.

— Para sempre —declarou ela.

— É a mulher mais tola e teimosa que alguma vez conheci —disse, incrédulo—. Crê confiar em mim? Royce tem razão. É uma tentação que não necessito, e não está segura comigo. Ele te levará a Iona, amanhã.

Os olhos de Claire se abriram largamente. Tinham planejado ir a Iona juntos, levar a página à Irmandade. Entretanto, aqueles planos tinham sido feitos antes da noite anterior.

— O que está dizendo?

— Jamais, nenhum deamhan conhecido entrou na casa de Deus. Estará a salvo de Moray e seus Deamhanain ali. —Seu tom era frio e cruel—. Se me tornar um deamhan, estará a salvo de mim.

Claire seguiu Malcolm adentro. Girou, aproximou-se das poltronas e se sentou com força. Era difícil pensar, muito mais ser racional agora.

Malcolm estava lutando contra os desejos terríveis, sombrios. Queria lutar com ele. Mas se o mal lhe tentava agora, se lhe tentava, talvez fosse melhor que pusessem alguma distância entre eles por um tempo. Aparentemente, a abadia seria um lugar seguro para ela. Mas esta era uma solução temporária no melhor dos casos. Não poderia ficar na abadia para sempre.

Jogou um olhar para o castelo. Como podia deixar Malcolm opor-se ao mal sozinho?

Ontem à noite, Moray tinha ganhado terreno, mas Malcolm tinha sido o vencedor nessa singular batalha. Teve que triunfar sobre os desejos sombrios que agora lhe consumiam. Como podia esconder-se e lhe deixar fazer isso sozinho? Seu futuro estava em jogo, e também sua alma.

Pensou na vívida lembrança dessa noite no Brooklyn. A lembrança tinha sido tão real, podia ter estado ocorrendo nesse momento. Mas enquanto que ela sabia que tinha visto a cara de um demônio, não tinha podido imaginar.

Havia dito que retornaria por ela.

O medo abateu sobre ela. Vinte anos tinham passado, mas para um demônio que tinha vivido centenas ou milhares de anos, isso era só um segundo.

O que queria o demônio dela? E era o mesmo demônio o que tinha assassinado a sua mãe?

Alguém saiu da porta principal do castelo e parou acima das escadas.

— Claire?

Claire se girou sobre seus pés, de cara a Ironheart.

– Perdera o banquete. Precisa comer —disse, sem inflexão.

Estava certo. Cruzou o muro exterior do castelo, entrando no vestíbulo detrás dele. Logo vacilou. Todo mundo estava a mesa, na grande câmara. Uma mulher se sentou ao lado de Aidan, surpreendendo a Claire.

Ironheart gesticulou para uma cadeira vazia enquanto se sentava. Ela sorriu agradecidamente ao cavalheiro maior, consciente de que os outros três homens a ignoravam. Claire tomou a cadeira vazia ao lado de Royce, frente à mulher loira. Um olhar rápido mostrou a seguinte supermodelo sueca, se a mulher alguma vez tivesse o desejo de fazer a viagem. Era bela e muito jovem. Claire duvidou que tivesse sequer vinte anos. Como a esposa de Aidan havia falecido, assumiu que esta mulher era sua amante. Claire não pôde evitar jogar um olhar furtivo a Malcolm para ver se revisava à mulher, mas não o fez. Ela foi relevada.

Aidan levantou a vista.

— Isabel, esta é lady Claire —disse Aidan em francês—. É minha convidada. Cherie, lady Claire é do estrangeiro.

A loira lhe sorriu calorosamente.

— Estou muito feliz de conhecê-la, lady Claire. Estive aqui só sem a presença de outras damas.

Claire desenhou um sorriso leve, pensou que pelas noites não devia estar sozinha. A jovem pareceu atordoada. Seu francês era afetado e tinha cometido um engano gramatical. Embora tinha posto um colar de ouro entristecedor, parecia como feito com safiras, seu leine era de qualidade comum e um broche simples fechava seu colar. Claire decidiu que devia ser da nobreza inferior.

— Enchantée[52]—respondeu Claire. Percorreu com o olhar a Malcolm. Continuou ignorando-a mas seu prato estava quase vazio.

Precisamos terminar nossa conversação, disse-lhe silenciosamente.

Seus ombros ficaram rígidos mas continuou comendo.

Claire soube que a tinha ouvido. Decidiu que a coisa de poder adivinhar o pensamento não era um trato tão mau depois de tudo. Digo-o a sério, adicionou com ênfase. Logo ela cedeu a seu coração. Quero ajudar! Sei que posso. Não vou a Iona.

Malcolm atirou seus talheres no prato, lhe jogando um olhar zangado mas incrédulo. Claire pensou que ia desatar a tormenta na mesa mas não o fez.

— Ficarão em Awe muito tempo? —perguntou Isabel agradavelmente, através da mesa, advertindo a Claire de dar uma resposta.

Claire de certa forma enfocou a atenção nela.

— Acredito que não —respondeu Claire. Percorreu com o olhar Malcolm, que apartou com força seu prato. Sua cara era dura, seu olhar perigosamente sombrio.

— Retornara a Dunroch? —sorriu Isabel, fazendo sua beleza ainda mais deslumbrante.

— Esse é o plano —disse Claire agradavelmente, consciente de que Royce agora a olhava fixamente. Talvez um ataque frontal não era a melhor ideia. Ela aproximou seu prato e começou rapidamente a comer.

— Realmente —disse Royce misteriosamente—, lady Claire entende mal. A escoltarei para Iona pela manhã.

Como o demônio, pensou Claire furiosamente. Era este o novo plano do Malcolm?

— Iona é uma bela ilha — disse Isabel—. Unem-se a mim no solar depois de que comamos? Quase acabei com meu encaixe. Tenho uma tapeçaria que desejo começar, mas você pode começar isso se desejar.

Claire a olhou, inexpressivamente. Não ia a Iona com Royce; ia a Dunroch com Malcolm.

— Realmente, não costuro.

Isabel a olhou como se tivesse a praga.

— Você não pode costurar?

— Não, sinto muito —disse Claire. Retornou a sua comida, comendo tão rápido como podia. As cadeiras foram empurradas para trás. Royce se servia vinho, mas Malcolm estava saindo do vestíbulo. Ela tomou uma dentada mais, dispondo-se a correr atrás dele.

Royce agarrou seu braço.

— Será sua morte —a avisou em inglês.

— Pensei que fossemos amigos —choramingou Claire.

— Eu gosto o bastante. Mas tem o poder para lhe voltar par o mal, Claire, e não o permitirei.

Seus olhos cinza resplandeceram.

Nesse momento, Claire sentiu sua autoridade. Este homem era um Mestre que podia saltar no tempo, tomando vistas se assim o escolhia, e tinha outros poderes que ela ainda tinha que compreender. Tinha cruzado a linha e ele não era seu aliado agora. Mas ao menos tinha a intenção de proteger Malcolm da escuridão.

Mesmo assim, a Claire não gostou de sua atitude.

— Tire a mão de mim— advertiu ela—. Falo sério.

Seus olhos se ampliaram.

Claire pensou em tomar seu Taser e lhe dar uma maldita boa sacudida.

A expressão de Royce retesou e a soltou.

— Esteja pronta para sair ao amanhecer. Irá a Iona, deseje-o ou não.

Claire reconhecia uma ameaça quando a ouvia.

— Suspeito que terá que me golpear como Aidan fez ontem à noite. Também sugiro que me ate. Não sigo suas ordens.

Ela ficou em pé, furiosa agora, enquanto Royce parecia até mais zangado e surpreso. Se estava esperando uma jovem medieval mansa e dócil, teria que voltar a pensá-lo.

Claire caminhou a grandes passos através do vestíbulo na direção que Malcolm tinha tomado. Sua cólera realmente se sentia bem. Zangada, precaveu-se, estava encorajada; não havia medo nem dúvida. Ia aproveitá-lo.

Malcolm se dirigia aos estábulos. Por um momento observou suas costas, toda cólera desaparecendo. Teve medo de que estivesse partindo, em seguida. Ele desapareceu nos estábulos. Claire levantou seu vestido e pôs-se a correr.

Selava seu cavalo cinza enquanto ela entrava dentro do celeiro de pedra e madeira.

— Não pode partir.

Ele vacilou, suas mãos firmes na sela de couro do animal. Suas costas rígidas com tensão, não a olhou.

— Não te quero aqui. Não há mais que dizer.

— Há muito mais que dizer —chorou Claire, e quase gritou, amo-te.

Inspirou, esperando que não a tivesse ouvido.

Ele lentamente a confrontou, tão desconcertado como ela.

Roucamente, disse:

— Por que não quer ir? Estará a salvo na abadia.

Tinha-a ouvido.

— Entendo que queira me proteger. Mas, quem protegerá a ti? —perguntou.

Ele estava consternado.

— Você não pode me proteger!

Claire estendeu a mão e tocou sua face. Ele se afastou, tropeçando.

— Iona é uma solução temporária mas não é a solução de tudo. É importante para mim. Não te posso deixar confrontar Moray sozinho, Malcolm. Tenho que ajudar. Sua alma está em perigo.

Ele negou com a cabeça.

— Você será minha queda, a Eva de meu Adão. Não pode ajudar, só fazer mal. Se eu não te fizer mal, Moray o fará.

Esse era um ponto irrefutável, pensou, mas estava disposta a tomar a oportunidade.

— Não mentirei —conseguiu dizer roucamente—, não é que isso seja nem ainda remotamente possível, contigo ouvindo às escondidas meus pensamentos. Tenho medo, mas não de ti. Embora esse animal sexual de ontem à noite assustasse como o inferno, é uma parte de ti e eu confio em ti, Malcolm.

Tratou de lhe sorrir. Sorriu-lhe cruelmente em resposta.

— E confiará em mim quando o sol se ponha? Acreditar-me-á se te digo que não estou pensando em suas palavras a não ser em seu corpo quente e úmido, em sua poderosa vida? Quis dizer o que antes disse, Claire. Ainda posso te sentir em minhas veias, e o poder que me deu e a luxúria.

Ela se sobressaltou, mas seu coração adquiriu uma pulsação diferente. Sua pele começou a zumbir. Uma dor começou, puramente física, puramente sexual.

— Você está tentando me assustar. Tenta me pôr em transe?

— Quero te assustar! Não quero te encantar, mas a besta sairá.

Cravou atrevidamente os olhos nela, seus olhos chapeados e quentes.       Nesse segundo, Claire soube que estava saboreando cada parte sua outra vez enquanto pensava em estar dentro dela, duro, forte e suave. Nesse momento, sentiu sua tensão palpitante e soube que se oferecesse, então ele aceitaria. Ela estava ofegando agora. Era o lado escuro dele fascinando-a?

— Ainda confia em mim? —perguntou brandamente, inclinando-se para ela, com ameaça inconfundível.

Ela vacilou. Queria estar em seus braços e apoiar-se contra sua dureza. Mas não estava sem discernimento ou em transe. Não queria morrer por ele. Queria fazer amor.

— Sim, confio.

— Então, está em perigo moça —disse brandamente.

Oh, conhecia esse tom. Arrepiou suas costas e lambeu sua carne. Vigiava-a com a mesma intensidade predatória que tinha ontem à noite. Ela encontrou sua voz.

— Ontem à noite estava morrendo. Não está morrendo agora. O animal se foi. Confio em ti. E você deveria confiar em ti mesmo.

— O animal —disse—, está rugindo por ser liberado.

Ela não queria lhe tentar ou lhe provar, mas em certa forma estava fazendo justamente isso.

— Não. Estou olhando para Malcolm de Dunroch, um Mestre do Tempo, e o que queira, não tenho medo de lhe dar isso. —Quer sexo, não morte — tentou-o.

— Não conhece minhas necessidades, Claire.

Ela respirou forte, a tensão aumentando mais quente, bulindo entre eles.

— Quer sexo, não morte —tentou ela.

— Quero sentir exatamente o que senti ontem à noite —disse furiosamente—. Mas não desejo te machucar, não! Assim me obedecerá esta única vez.

Ele estava em uma terrível batalha, pensou. Estava pior do que pensava.

— Bem. Assim sairá para Dunroch enquanto Moray te caça? —perguntou amargurada, mordaz —. E logo, o que? Adoecer na abadia como Mairead? Esconder-se em um armário novo? Por quanto tempo?

— Sim —disse ele perigosamente—. Esconder-te-á ali durante anos, tanto quanto me leve esquecer seu sabor, como se sente e como é!

Ela avançou aos tropeços, estupefata.  

Ele ficou rubro.

— Ficará até que Moray esqueça que tem algum uso para ele— emendou severamente—. E esse será o dia em que irá para casa com sua prima e seus livros.

— Isso não foi o que disse —disse, seu coração palpitando grosseiramente—. E não é o que quer dizer.

Ele estava sombrio, inclusive selvagem.

—Você vê o que penso! Quer que o admita? Necessita que admita a verdade?

Claire vacilou. Sabia que não ia agradar lhe.

— Vais fazer-me mal.

— Sim, melhor te machucar agora que ver-te morrer! —assinalou, sua mão estremecendo-se—. É uma obsessão, Claire. Não uma paixão, uma obsessão. Não te amo agora nem nunca o farei. Não quero seu amor! Quero seu corpo e sua vida. —Ele aproximou seu rosto ao dela —. Quero empurrar dentro ti agora mesmo, provar o sabor de sua vida até que não tenha nada para dar. Até sua morte. Agora, vá.

Ela começou a negar com a cabeça, recusando-se a partir, e as lágrimas começaram. Ele não podia querer dizer isso. Não esperava seu amor, mas esperava, procurava e necessitava seu afeto.

— Não acredito. Não o farei. Posso acreditar que sou uma obsessão, mas não quer minha morte. Quer-me viva e em sua cama. Penso que também me quer em sua vida, porque te importo mais do que nunca poderá admitir.

Ele empalideceu.

— Assim quer me aterrorizar e me horrorizar, pois bem, estou aterrada e horrorizada e não estou a ponto de esquecer ontem à noite. Nunca esquecerei o que aconteceu nessa noite. Estou assustada, Malcolm, mas não estou morta! Porque te deteve antes de me tirar a vida. E por quê? —estava gritando, chorando—. Porque há bem dentro de ti. Não estou olhando e falando com um homem perverso! Moray te fez cair em uma armadilha. Não tenho a maldita fisiologia de me curar com a vida de outra pessoa, nunca entenderei por que Deus fez um plano tão estúpido, isso mata a pessoas inocentes para salvar a grandes heróis. Mas a vida é feita de decisões morais, Malcolm. Ao longo de toda a história, os homens fazem escolhas, os homens brigam pelo bem contra o mal, e inclusive brigam contra o mal que há neles mesmos! Fez sua escolha ontem à noite. Você golpeia Moray —acrescentou mais tranquilamente, enxugando as lágrimas—. E eu tentarei que lhe derrotemos uma e outra vez e outra vez, não importa quanto tempo nos leve, juntos.

—Não viverá para vê-lo —disse rotundamente, trocando de direção e montando o cavalo pardo.

Claire estava totalmente desalentada. Tinha falado com seu coração, e tinha posto paixão em cada palavra. Mas Malcolm não ia mudar de ideia. Sua decisão estava gravada em pedra. Não ia considerar que podiam opor-se a Moray juntos. Claire tomou as rédeas.

— Sei que há risco! —chorou furiosamente—. Mas estou disposta a me arriscar, porque é quanto sua alma significa para mim. Esta é minha escolha, Malcolm.

— Não. Não é. Jurei te proteger, Claire, e é o que farei. É a mulher mais teimosa que alguma vez encontrei. —Seus olhos resplandeceram—. Irá a Iona como ordenei. Solta minhas rédeas.

Ela inspirou, soltando as rédeas.

— Sei que é o rei aqui, mas em meu mundo, uma mulher é livre e não obedece a ninguém, nem a seu marido. Só obedece a si mesma!

Sua risada foi rude.

— Estamos em meu mundo, Claire, e neste mundo, sou seu senhor e me obedecerá.

Claire mal podia pensar. Este não era o melhor momento para discutir, não com suas paixões correndo soltas, mas se não lhe convencia para que confiasse em si mesmo, partiria sem ela. Talvez ele estivesse certo e lutar por ele fora um engano enorme e fatal. Mas, talvez, estivesse errado.

Claire resolveu apostar sua vida.

E ele deve ter sentido suas intenções, porque ficou pálido. O mesmo horror que ela tinha visto ontem à noite cobriu sua cara.

Ela se colocou ante a porta, bloqueando a visão do caminho do estábulo.

— Malcolm, temos que confiar um no outro. E tem que acreditar em ti mesmo. Por favor —adicionou desesperadamente.

—Como, no nome de Deus, pode fazer isso agora? —rugiu ele, acendendo-se pela raiva.

O coração de Claire golpeava tão forte que se sentiu enjoada.

— Faça amor comigo.

 

Em seu coração, Claire acreditava que se podiam ter uma noite como a que tinham tido em Dunroch, sem nenhuma palavra, Malcolm se daria conta de podia triunfar sobre a escuridão. Mas o momento das palavras tinha passado, Claire desejava não as haver dito. Porque o que realmente queria saber era se ele podia ama-la.

A expressão de Malcolm passou do horror ao medo.

— Está louca —disse densamente—. Pensa jogar com sua vida. Não jogarei, Claire.

— Você não tocará em minha vida —sussurrou. Estava aliviada. Não tinha feito a conexão. Ele pensava que lhe estava pedindo apenas sexo.

— Por quê? Por que me estás fazendo essa oferta? Pertence agora a Moray? É este seu plano para me atrair à escuridão? —A suspeita cheia em seus olhos—. Está em sua mente agora? —perguntou Malcolm brandamente, perigosamente—. Escravizou-te e não sabe?

Claire gritou, surpreendida.

— O que está dizendo?

— Aye —disse Malcolm. – Esse é seu poder maior, escravizar mentes débeis. Assim é como converte a homens bons em soldados maus. Pode arrastar-se dentro da mente humana e fazer sua vontade.

   — Não —disse Claire com horror.

Ele sacudiu a cabeça, incapaz de continuar falando, fincou esporou no cavalo cinza e galopou passando-a. Claire se afastou de seu caminho. Pó e palha voaram em seu rastro.