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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SEDUZIDA / Christina Dodd
SEDUZIDA / Christina Dodd

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Depois de nove anos, a senhorita Hannah Setterington decidiu vender a Distinta Academia de Instrutoras para investigar em um passado pessoal cheio de segredos. Para poder fazê-lo concordou ser a acompanhante da tia do obscuro Dougald Pippard, lorde Raeburn, um homem do qual se rumoreja assassinou sua esposa.

A nova tarefa de Hannah não é mais que um arrevesado plano esboçado por Dougald para seduzi-la e se vingar dela. Mas sua satisfação não durará muito porque ela tomou as rédeas e revive nele uma paixão que não há sentido há nove anos. O fogo que sempre ardeu entre ambos se aviva com cada roce, com cada olhar, até o ponto que Dougald quase esquece seus planos de vingança.

Um homem nunca deveria seduzir uma mulher por vingança.

 

 

 

 

A senhorita Hannah Setterington, única proprietária da Distinta Academia de Instrutoras que durante três anos formou às melhores governantas, damas de companhia e instrutoras, sente prazer em anunciar que vendeu a Distinta Academia de Instrutora em troca de uma considerável fortuna, e decidiu fazer frente aos problemas de seu passado que seguem atormentando-a.

 

Naquele preciso instante a senhorita Hannah Setterington podia afirmar sem temor de se equivocar que estava sozinha. Completa, absoluta e sinceramente sozinha. Enquanto deixava que sua bolsa de viagem caísse com um golpe seco sobre as tábuas da plataforma da estação ferroviária, olhou a seu redor na penumbra do ocaso que se abatia sobre Lancashire. Não se avistava nenhum edifício entre o espesso arvoredo. Nenhuma luz de boas-vindas reluzia atrás dos vitrilhos de uma janela, nenhuma voz humana resmungava ou ria, e ali, em plena campina, não havia nem rastro do tênue halo resplandecente que rodeava Londres inclusive na mais escura das noites. De fato, já nem sequer alcançava a divisar o perfil das montanhas que se elevavam para o norte. A noite e a névoa se apropriavam da paisagem por momentos, o trem já não era mais que um murmúrio distante, e naquele momento a ideia de declinar a oferta de se converter em dama de companhia da idosa tia do conde de Raeburn lhe parecia muito mais que razoável.

Mas a quem podia comunicar sua decisão? No caminho que serpenteava colina acima, e cujo esboço se perdia de vista além da estação, não se percebia nem o mais remoto sinal do criado que, conforme dera por fato, devia estar ali para recebê-la.

Sua chegada a Lancashire não podia ter sido mais decepcionante. Mas fora até ali seguindo os ditados de seu coração e não pensava partir até ter obtido o objetivo que tinha se proposto.

Embora soubesse que não podia ter se equivocado de data, pinçou no interior de sua bolsa e extraiu uma carta em cujo remete figurava o nome da governanta que a contratara. Entrecerrando os olhos a tênue luz do crepúsculo, Hannah releu as palavras que a senhora Trenchard escrevera com sua esmerada caligrafia: "Tome o trem até Presham Crossing e desça em dita estação no dia cinco de março de 1843".

Hannah sabia sem lugar a dúvidas que era cinco de março. Elevou os olhos para o letreiro pendurado sobre a plataforma recém-construída, que anunciava com orgulho: PRESHAM CROSSING.

"Enviarei uma carruagem para recolhê-la e trazê-la até o castelo de Raeburn, onde meu senhor aguarda sua chegada com grande impaciência."

Hannah se voltou de novo para a estreita estrada. Nem rastro da carruagem, nem de criado algum. Nada de nada. Enquanto voltou a guardar a carta na bolsa, suspirou e se perguntou por que a surpreendia aquela amostra de inépcia.

A experiência a ensinara que, embora a eficiência se contava entre suas qualidades, raramente a encontrava em outros.

De fato, foi seu caráter eficiente o que a permitira dirigir a Distinta Academia de Instrutoras sozinha ao longo dos últimos três anos, e o fizera com tal solvência que, quando fora a lady Bucknell para que a ajudasse a vender a academia, esta decidira comprá-la para si mesma.

—Necessito algo no que ocupar meu tempo desde que Wynter tomou as rédeas do negócio familiar - lhe havia dito esta enquanto estendia um talão com uma soma considerável.

Agora, nos seus vinte e sete anos, Hannah se achava na invejável situação de não ter que voltar a trabalhar no que ficava de vida.

Embora o faria, por descontado. Trabalhara desde que tinha uso de razão, já fosse costurando, fazendo recados, realizando as tarefas próprias de uma criada... inclusive em seus estudos sempre se esforçou por ser a melhor.

E logo houve aquele breve, terrível e maravilhoso período no que não trabalhara.

Atando a capa ao redor do pescoço, voltou a olhar para a estrada, mas esta permanecia obstinadamente deserta e a luz do sol se desvanecia com rapidez.

Nos últimos tempos recordava muito frequentemente os dias nos que se sentira inútil e desnecessária, uma mera posse. Por mais que a claridade daquelas lembranças lhe resultasse desconcertante, não podia dizer que a surpreendessem.

Sempre que se encontrava ante uma encruzilhada e seus afazeres diários não conseguiam ocupar cada segundo de seu tempo, sua mente divagava de volta ao passado e as dúvidas voltavam a assaltá-la. Em momentos como aquele, de espera solitária, enquanto as colunas de névoa se convertiam em um espesso tecido que rabiscava as estrelas e a envolvia, a isolando de todo o resto, se perguntava o que ocorreria se retornava a Liverpool, onde seu destino a aguardava.

Entretanto, sempre acabava desprezando essa ideia. Na hora da verdade, era muito covarde para assumir as consequências de seus pecados de juventude, e muito sábia para perder tempo pensando neles.

Afundando o queixo em seu cachecol de lã e as mãos enluvadas debaixo dos braços, tratou de represar seus pensamentos para um propósito mais útil: o que fazer.

Ninguém se apresentara para recebê-la, não sabia como chegar à aldeia e a noite se anunciava gelada. De algo estava segura: não sucumbiria ao pânico, por mais que a tivessem abandonado a sua sorte.

Quando menos, sabia que não a seguiram até ali de Londres. Uma das muitas razões pelas que aceitara aquele posto era a suspeita recente de se achar sob vigilância.

Ou isso, ou um dos três cavalheiros de aspecto lúgubre e idêntico traje que se instalaram na casa de frente visitava o mercado sempre que ela o fazia, ia a ver as mesmas peças de teatro que ela e inclusive se apresentou em Surrey o mesmo dia em que ela se deslocou até ali para assistir ao batismo do segundo filho de Charlotte e visitar Pamela.

Mas quem podia se interessar por uma dama de berço humilde, proprietária de um honrado negócio londrino, até o ponto de seguir seus passos e observar todos e cada um de seus movimentos?

Só um homem... e sinceramente, como ia poder esquecê-la?

Possivelmente só fosse imaginação dela.

Por isso, quando chegou a suas mãos uma solicitude para o posto de dama de companhia de uma idosa em Lancashire, o interpretou como uma chamada do destino. Vendeu seu negócio e abandonou Londres.

Quem não a conhecia poderia dizer que empreendeu uma fuga para frente, mas ela preferia pensar que se tomava um ano sabático[1].

Assentiu com firmeza. Sim, um ano sabático para refletir sobre seu futuro. O futuro de Hannah Setterington.

Seguia sem avistar nenhuma carruagem, nenhum criado. Pensou em como ensinara a suas aprendizes de instrutoras a enfrentar situações similares: com senso comum e sem rancor. Se ninguém se apresentava no prazo de uma hora, voltaria à estrada com a esperança que seus passos a conduzissem até Presham Crossing. Dali, pagaria a alguém para que a acompanhasse até o castelo de Raeburn. E uma vez ali, se encarregaria de dar uma boa reprimenda à senhora Trenchard, a governanta.

Frequentemente, as mulheres criadas entre algodões que ocupavam postos como o de instrutora ou dama de companhia se viam submetidas a um trato abusivo por parte dos serventes de fila inferior. Hannah tencionava deixar as coisas claras desde o começo, o que incluía exigir o respeito que merecia. Se isso não era possível, preferia sabê-lo quanto antes, e não quando já tivesse pego carinho à idosa tia do conde que, conforme asseguraram nas missivas trocadas, era uma dama encantadora, embora às vezes um pouco desorientada.

Hannah sorriu para seus adentro. Gostava das anciãs. Fora a dama de companhia de lady Temperly durante seis anos, e graças a ela teve ocasião de conhecer o mundo e visitar lugares com os que sempre sonhara. Acompanhar lady Temperly em suas viagens fora muito diferente do que viver de um lado para o outro com sua mãe, submetida à indiferença ou a brincadeira dos pequenos latifundiários ingleses e suas honradas esposas. As maravilhas do continente abriram seus olhos a outro mundo.

Ao longe, pela esquerda, se ouviu um chiado e um gemido lastimoso. Hannah ficou petrificada, e por um momento se permitiu imaginar o tipo de animais que vagariam por aquelas paragens, tão perto das montanhas.

Mas então ouviu um estalo continuado familiar, um novo chiado... e suspirou de alívio. Reconhecia aqueles sons. Algum veículo tinha coroado a colina e avançava lentamente para ela. Desprezando seu inicial alarme como se nunca tivesse existido, avançou até a borda da plataforma e ficou à espera, convencida que, quem quer que fosse, teria ido até ali para recolhê-la. E o que se não se tratava de uma carruagem? Ninguém mais se aventuraria a sair em uma noite de cães como aquela.

Por mais que forçasse a vista, Hannah não alcançava a vislumbrar nada. Então, um resplendor abriu caminho entre a névoa e um carro de madeira se deteve junto a ela. Um farol pendurava a um lado do veículo, puxado por um pangaré descadeirado cujas rédeas sustentava um homem esquálido. Assim que abriu a boca, o desconhecido soltou um arroto que fedia a cerveja e que Hannah percebeu claramente face à considerável distancia que havia entre ambos.

Presham Crossing devia ficar na direção que viera aquele homem, pois era evidente que acabava de passar pelo botequim local.

Observaram-se um ao outro com mútuo receio. Hannah tinha ante si um homem alto, de meia idade, claramente aficionado à bebida e não muito amigo da higiene, a julgar por seu nariz avermelhado e o aspecto imundo de suas roupas.

Só esperava que ao vê-la, embainhada em seu favorecedor traje de viagem negro, investida de infalível retidão e autoridade moral, tomasse exemplo de sua conduta.

—É você a senhorita Setterington? - perguntou finalmente o desconhecido.

—Em efeito.

—Se supõe que devo levá-la ao castelo de Raeburn - repôs o homem com seu estranho acento de Lancashire.

Hannah jogou uma olhada ao carro, com suas duas rodas de madeira, suas laterais estilhaçadas e o feno empilhado na parte traseira, e pensou na escassa consideração que seu novo patrono revelava para ela.

Qualquer outra em seu lugar não teria tido mais remédio que suportar semelhante vexame e teria se sentido profundamente desgostada. Mas ela era a senhorita Setterington, da Distinta Academia de Instrutoras.

Podia conseguir trabalho onde quisesse, e tinha bastante dinheiro em uma conta do banco da Inglaterra para abandonar aquele lugar sem voltar a vista atrás.

Mas não pensava fazê-lo. Não depois de ter procurado expressamente aquele canto afastado de Lancashire, embora seu patrono não tinha por que se inteirar.

Aquela noite quão único queria era uma comida quente e um teto sob o que dormir.

—Quem é você? - perguntou.

Seu tom imperioso fez que o homem levantasse a cabeça. A escrutinou entre as mechas de cabelo marrom e cinza que penduravam sobre sua testa.

—Meu nome é Alfred.

—Chega tarde. - Hannah desceu os degraus. - Deixei a bagagem na plataforma. Há uma cesta e uma bolsa de viagem. Vá recolhê-los e partamos quanto antes.

O homem ficou olhando boquiaberto, até que ela espetou:

—Vamos, a que espera?

Alfred respondeu como o teria feito qualquer cão ante uma ordem cortante, levantando um lábio e mostrando os dentes em um breve gesto de desafio antes de apear do carro, obediente. Enquanto o condutor de ombros encurvados se arrastava até sua bagagem, Hannah arregaçou a saia, subiu ao carro e se acomodou na tábua de madeira do assento dianteiro. Da parte traseira do carro se ouviu um grunhido enquanto Alfred levantava sua bagagem e a deixava sobre a pilha de feno.

Hannah desejou que nenhum inseto se instalasse ali e decidiu examinar sua roupa quando por fim lhe tivessem atribuído um quarto no castelo de Raeburn. O que, a julgar pela lentidão com a que Alfred se movia, podia demorar uma eternidade.

—Vamos, não quererá fazer esperar a seu amo - o ameaçou.

Suas palavras não pareceram surtir efeito algum. Teve tempo de acomodar as saias e se sentar cuidadosamente em um extremo do assento antes que o homem subisse ao carro e se instalasse junto a ela, trazendo consigo uma nova baforada de cerveja e aroma corporal. Ocupava mais da metade do assento, não porque fosse especialmente corpulento, a não ser bastante mais largo de costas do que parecia a primeira vista.

Hannah se fixou em suas grandes mãos enquanto o homem recolhia as rédeas para açoitar ao cavalo, que parecia tão abatido e cansado como ele. O pangaré esticou a brida e começou a puxar o carro para frente com um lento repico dos cascos.

Só então Alfred disse:

—Não é meu amo.

—Perdoe? - Hannah demorou um pouco em se dar conta que se referia a sua observação de antes. - Você não trabalha para o conde de Raeburn?

—Eu trabalho no castelo de Raeburn. O tenho feito toda a vida. Mas o amo que temos agora não é o primeiro nem será o último.

—Suponho que é algo habitual em uma propriedade que passa de pais a filhos - replicou Hannah depois de refletir sobre aquele comentário desanimado.

—É o quarto amo que tivemos em outros tantos anos.

—Céu santo! - Enquanto alcançavam o topo da colina, uma muito leve brisa roçou as faces de Hannah, e por um instante viu como as negras sombras das árvores se abatiam sobre ela.

—Que tipo de infortúnio deu pé a tantas mudanças?

—A maldição.

As árvores desapareceram, engolidas de novo pela névoa.

—Que maldição?

Alfred a olhou de esguelha com profundo desdém.

—Uma maldição pesa sobre a família.

—Ah! - Hannah não pôde evitar esboçar um sorriso. Alfred devia pertencer a esse tipo de homens que desfrutam pulverizando rumores sem fundamento algum. - Esse tipo de histórias me resultam familiares. As jovens damas às que estava acostumada a dar aulas eram muito aficionadas contá-las. Então uma maldição pesa sobre a família. Quem a jogou?, uma cigana, uma bruxa, possivelmente? E por que motivo?, despeito?, vingança?

—Você ri, mas o certo é que faz dez anos morreram dois herdeiros da propriedade em um naufrágio frente às costas escocesas, o idoso lorde passou desta para a melhor faz quatro anos e seu primo despencou o ano passado do topo de um escarpado, logo seu irmão perdeu a vida ao cair rodando pela escada, e agora temos a este canalha, um parente longínquo que nem sequer é de Lancashire.

O sorriso de Hannah desvaneceu. Não era tão ingênua para dar crédito às mentiras saídas da boca de um criado cuja venerabilidade lhe parecia muito mais que duvidosa, mas se fosse certo o que dizia, se encontrava ante uma terrível tragédia.

—Você não pode culpar ao amo atual por ter nascido em outro lugar - observou. - Faria melhor em julgá-lo por suas obras e o modo em que governa a fazenda.

Alfred soprou.

—Leva aqui menos de um ano e já pôs tudo a funcionar como um relógio.

—Aí tem, vê? - repôs Hannah em tom alentador.

—Sim, mas isso do que serve se tem as mãos manchadas com o sangue dos seus?

As rodas de madeira tamborilavam os sulcos do caminho com tanta força que os dentes de Hannah tocavam castanholas e lhe doía o traseiro, apoiado no banco de madeira.

Colunas de névoa umedeciam suas faces e, o pior de tudo, seu senso comum parecia a ponto de fraquejar. Entretanto, falou em um tom firme e reprovador:

—Não acredito que você deva se dedicar a difundir rumores caluniosos sobre o titular da casa nobiliária para a que trabalha.

—Não sou eu o que pulveriza esses rumores, senhorita. O dizem seus criados mais diretos. - Alfred encurvou ainda mais os ombros e olhou para frente com gesto antissocial, como se pudesse distinguir uma estrada que a névoa tivesse tornado invisível.

—Faz anos se casou com uma jovem dama, bela como uma flor, que passava a vida rindo e lhe fazendo brigar, e tanto como se queriam também brigavam a morte. Sempre estavam discutindo. Logo faziam as pazes e voltavam a se zangar outra vez.

O chofer do conde diz que um bom dia, depois de uma discussão especialmente violenta, ela desapareceu sem deixar rastro.

—Isso não significa que sua senhoria matou a sua esposa.

—Semanas mais tarde encontraram nas imediações o cadáver de uma mulher destroçado pelas bestas.

Hannah seguia se agarrando à lógica com todas suas forças.

—Isso não demonstra nada.

—Sua senhoria foi ver o cadáver e disse que não era o de sua esposa, mas a donzela da defunta o acusou à cara de tê-la matado. Ele não negou, mas sim ficou olhando fixamente, sinistro como a própria morte, até que ela saiu correndo.

Não tornou a ser o mesmo depois. Nunca sorri, nunca tem uma palavra amável para ninguém e não consegue conciliar o sono. De noite sai a percorrer as terras no lombo de seu cavalo, e isso não é nenhum rumor, senhorita.

Eu mesmo o vi uma noite, com aquele olhar aceso e febril.

Hannah supôs que o cavalo conhecia o caminho e vencia a levantada costa sem que ninguém o guiasse, pois as rédeas descansavam soltas nas mãos de Alfred.

Agarrou sua bolsa com uma mão e o assento com a outra, lutando contra a tentação de olhar por cima do ombro.

—Se eu estivesse em seu lugar, senhorita - advertiu Alfred em tom premonitório, - partiria daqui quanto antes. Já sabe o que dizem: "Quem matou, matará".

Como Alfred soube que Hannah se deixaria impressionar por aquele tipo de histórias macabras? Certamente ria para seus adentro enquanto ela tentava conter os calafrios que arrepiavam sua pele.

Pois bem, não pensava lhe dar a satisfação de saber que tinha obtido seus propósitos.

—Embora sua senhoria fosse o assassino desumano que você diz, duvido muito que se fixasse em mim - replicou no tom mais áspero que conseguiu improvisar.

—Ninguém escapa ao interesse de um assassino consumado.

—Se decido não ficar no castelo de Raeburn não será porque tenham me dissuadido uns rumores absurdos, mas sim pelo trato injustificável que recebi até agora.

Alfred deu de ombros.

—Você verá o que faz, senhorita.

"Que alegria de homem!"

—Falta muito para que cheguemos?

—Estamos alcançando o topo da colina. - Alfred apontou para diante, como se ela pudesse ver o que lhe indicava.

—Aí está a torre de entrada. O fosso se cegou faz duzentos anos. Agora mesmo entramos no pátio.

As luzes do castelo surgiram entre a névoa com súbita nitidez. As rodas de madeira estralaram sobre a pavimentação e se detiveram na metade do caminho. Inclinando a cabeça para trás, Hannah levantou o olhar, atônita ante a impressionante construção de granito que se elevava abruptamente do chão.

Tinha a impressão de ter viajado no tempo e se achar ante um castelo que em nada mudara desde a época medieval, quando as janelas não eram a não ser frestas e cada elemento arquitetônico cumpria uma função defensiva.

—Algumas partes têm quase setecentos anos. Entre estes muros nasceram muitos meninos, e muitas vidas se apagaram. - Alfred se voltou para olhar para Hannah, e seus olhos remelentos reluziram, úmidos e taciturnos. - Lhe desejo boa sorte, senhorita.

Uma porta se abriu, derramando um grande quadrado de luz sobre o qual se recortavam várias silhuetas, quatro masculinas e uma feminina.

—Trouxe-a, Alfred? - perguntou uma voz de mulher em que Hannah acreditou perceber um leve acento de Lancashire e certo refinamento.

—Sim.

—Já era hora. O amo está muito inquieto.

A mulher e três dos homens, dois dos quais levavam seus faróis, se aproximaram apressadamente ao carro.

—A senhorita Setterington? - perguntou a mulher, que tagarelava sem cessar. - Sou a senhora Judith Trenchard, e lhe peço desculpas por tão precário meio de transporte. Houve um... mal-entendido.

"Um mal-entendido? Que interessante!"

—Espero que este percalço não lhe tenha causado muitos incômodos - acrescentou a senhora Trenchard.

—Absolutamente. - Um lacaio colocou uma escadinha ao pé do carro e ajudou Hannah a descer. - Mas sim rogaria que uma donzela passasse uma escova em minha roupa.

Quando os lacaios elevaram seus faróis, a consternação se fez patente no rosto rechonchudo e enrugado da senhora Trenchard.

Rondaria os sessenta e cinco anos, e desprendia um ar de eficiência e energia que contrastava com suas desculpas e o encargo do engano cometido.

—É obvio, em seguida lhe atribuirei uma donzela. Passe dentro antes que a umidade a impregne até os ossos.

Mas era muito tarde. Quando Hannah cruzou a soleira e entrou no sombrio e cavernoso vestíbulo, estava tremendo da cabeça aos pés e não podia parar.

A senhora Trenchard estalou a língua.

—Billie, traga uma manta para a senhorita Setterington. Grande noitinha. Não sei que se propõem os da ferrovia, mas estas não são horas de deixar a ninguém ao pé da plataforma. Recorde o que lhe digo, nunca conseguirão ficar populares em Lancashire se seguirem obstinados em seu desatino. Obrigado, Billie. - Depois de envolver Hannah na cálida e impoluta manta de lã, a conduziu apressadamente para as escadas de pedra que subiam em espiral. - O amo a está esperando.

A senhora Trenchard superava Hannah em estatura, o que a fazia inusualmente alta para ser uma mulher. Possuía uma constituição robusta e generosas nádegas. Quando caminhava, se ouvia o tinido da argola de ferro repleta de chaves que pendurava de seu cinturão e que era sua particular insígnia. Hannah seguiu os passos da governanta agarrada na mão, se sentindo como uma folha arrastada por uma poderosa rajada de vento.

—Primeiro eu gostaria de me assear um pouco - disse.

—Ah, não! Aqui não fazemos o amo esperar - replicou a senhora Trenchard em tom cortante. - Não é tão mau como dizem, mas sim severo, e gosta que se façam as coisas a sua maneira. Eu procuro não contrariá-lo, e faz tempo que espera sua chegada.

Hannah quis lhe fazer ver que isso não era culpa dela, mas a senhora Trenchard seguiu falando sem cessar enquanto a empurrava escada acima.

—O amo quer reformar esta zona para que os convidados entrem no castelo por um vestíbulo no segundo andar. A cozinha não é lugar para dar as boas-vindas aos visitantes, e esta escada é tão velha e está tão desgastada que é fácil tropeçar.

De fato, o amo anterior... bom, é igual. - A senhora Trenchard se deteve no meio da escada, se apoiou contra a parede e levou uma mão às cadeiras com uma careta de dor.

Hannah se alarmou ao contemplar acima a espiral de degraus de pedra que deixaram atrás.

—Você está doente? - perguntou, agarrando à senhora Trenchard pelo braço.

—Tolices - respondeu esta, afastando Hannah e voltando a empurrá-la escada acima. - Jamais estive doente em minha vida. Tenho uma saúde de ferro. Minha mãe passou desta para a melhor faz tão só cinco anos, à venerável idade de oitenta e nove anos.

O que passa é que vou ficando velha, isso é tudo. - Assinalou o resplendor que provinha de cima. - Uma vez que passemos a cozinha, a casa é uma maravilha.

Hannah assentiu. Certamente a única coisa que ocorria à senhora Trenchard era que teve um mau dia. Certamente parecia forte como um carvalho.

—À morte do velho lorde, os dois amos que o substituíram empreenderam a reforma do castelo, e o último, que em paz descanse, inclusive mandou instalar estufas que esquentam o dobro de uma lareira. O amo atual estava muito ocupado quando herdou o título, mas agora começou a restaurar as tapeçarias, a limpar a carpintaria e a substituir as partes mais antigas. É um castelo magnífico, já o verá.

—Estou segura disso - assentiu Hannah.

Não sabia se a senhora Trenchard sempre era tão loquaz ou se simplesmente estava nervosa, mas quando chegaram ao alto da escada se deu conta que a governanta não lhe mentira. A parte menos nobre do castelo se embelezou com uma combinação de mobiliário moderno e chãos de madeira encerada. O corredor em forma de arco se alongava antes de desembocar em uma sala ampla, muito bela e bem mobiliada onde o antigo e o moderno se mesclavam com harmonia. O teto era tão alto que a vacilante luz das velas não alcançava a iluminá-lo. Painéis de madeira escura revestiam as paredes, sobre as que se alternavam escudos brunidos e tapeçarias tradicionais bordadas em ouro e vermelho escarlate. Não obstante, o mobiliário parecia cômodo e de recente aquisição, e pela primeira vez desde que chegara a Lancashire, Hannah reconheceu um vislumbre do estilo decorativo que imperava em Londres.

—O grande salão - anunciou a senhora Trenchard com evidente orgulho.

—Soberbo! - exclamou Hannah.

Seus dentes ainda tocavam castanholas, coisa que a incomodava sobremaneira. Não queria transmitir uma sensação de fragilidade em seu primeiro encontro com a criada, o amo e a idosa tia do conde.

A senhora Trenchard se enfiou em um corredor sombrio cujas paredes estavam repletas de quadros. As portas passavam a um e outro lado, e em seu extremo Hannah distinguiu uma ampla escada que desaparecia em um poço de trevas.

Entretanto, no corredor propriamente dito, tudo reluzia e parecia cuidado com esmero salvo uma das portas, que fora arrancada de suas dobradiças e apodrecia apoiada contra a parede.

Ao passar pela frente daquela porta, a senhora Trenchard apontou o interior da sala.

—O amo mandou construir estantes novas para a biblioteca, de carvalho pintado de amarelo claro. Diz que darão mais luz à sala, e me parece que tem toda razão.

—Ficará precioso.

—Há quem opina que deveríamos deixar tudo como está, que terá que respeitar a tradição...

A governanta parecia interessada na opinião de Hannah, embora esta não acreditasse estar em condições de emitir um juízo a respeito. Tentou sortear a questão:

—Não há dúvida que é necessário conservar algumas das coisas antigas, mas estou segura que para você tudo será mais fácil em um castelo novo e reluzente.

A senhora Trenchard se voltou para Hannah.

—Por quê?

—Porque é você a governanta e os objetos antigos são frágeis e mais difíceis de limpar... - aventurou Hannah.

A senhora Trenchard a escrutinou com um toque de desconfiança.

Tinha os olhos de cor clara, embora Hannah não alcançava distingui-los claramente na penumbra, e embora não era tão velha como parecera em um primeiro momento, as rugas que sulcavam seu rosto lhe davam um ar envelhecido.

—Talvez você tenha razão, ainda não sei. - E, ainda sem se mover, acrescentou: - Sabe, levo toda a vida trabalhando neste castelo e o tenho um grande apreço à tia do conde, igual a todos os que trabalhamos aqui.

—Me alegra saber disso.

Era um bom sinal que a idosa da qual ia cuidar fosse uma pessoa digna de apreço, e inclusive que os serventes a quisessem o bastante para submeter Hannah a um exaustivo interrogatório.

—Espero não parecer indiscreta, mas o amo diz que você tem experiência no cuidado de senhoras anciãs...

—Passei seis anos em companhia de lady Temperly.

—E estava contente com você?

—A nossa era uma relação apoiada no respeito mútuo, e foi muito generosa comigo. Deixou-me sua casa como herança. Graças a ela pude fundar a Distinta Academia de Instrutoras. Sempre recordarei lady Temperly com profundo afeto.

A senhora Trenchard estudou seu rosto durante um minuto mais e logo assentiu.

—Então o amo escolheu bem. Não haverá volta atrás. - Ato seguido, a guiou até uma porta de madeira escura e ricamente lavrada.

—Já chegamos. O amo está no salão. Talvez à princípio a intimide um pouco, mas sempre me tratou com respeito e consideração.

Não demorará em se acostumar a seus modos bruscos. Levante esse queixo, e pare já de tremer. Dentro não fará frio. - A senhora Trenchard arrebatou a manta das mãos de Hannah e a repassou de cima abaixo com o olhar.

Ao que parecia, não achou grande motivo de aprovação, pois balbuciou: - Não há tempo para mais.

Logo abriu a porta e entrou na sala.

Hannah a seguiu e abrangeu com uma breve olhada a pequena e acolhedora sala. Na lareira crepitavam as chamas. Flores frescas assentiam dos vasos. Alguns livros jaziam dispersos sobre uma mesa junto a uma grande poltrona de brocado verde.

Quadros de estilo atual, com suas paletas de tons suaves e delicados, emprestavam calidez às paredes estucadas, e um cavalheiro permanecia de costas a sala, olhando pela reluzente janela de vitrais além da qual não se vislumbrava a não ser a noite negra e a interminável névoa. Era alto, largo de ombros e comprido de pernas. Vestia um austero traje branco e negro e tinha as mãos entrelaçadas nas costas.

O cabelo negro pendurava sobre sua nuca e, a julgar por sua nula reação ante a chegada da senhora Trenchard e de Hannah, se diria que não as ouvira entrar.

Nem sequer se incomodou em se voltar quando a senhora Trenchard anunciou com uma reverência:

—A senhorita Hannah Setterington, excelência.

Por um momento seguiu de pé e em silêncio, rígido como uma silhueta solitária esperando... esperando algo.

—Nos deixe a sós - ordenou ao cabo de um instante em um tom de voz grave e profundo.

Hannah conteve a respiração.

Aquela voz. Aquele tom.

Seu coração deu um tombo no peito e começou a pulsar com força, marcando a cada segundo, cada emoção, cada temor.

Visto de costas se parecia com ele, e o rosto refletido no vidro lhe resultava familiar.

Mas sabia quão equivocada podia estar. Quando ele se apropriava dos pensamentos de Hannah, todos os homens pareciam com ele.

E entretanto... e entretanto...

Logo que ouviu o ruído da porta se fechando. Lentamente, aquele homem se voltou para ela.

E o presságio que a atormentara durante nove anos se fez realidade.

Aquele homem não podia ter matado sua esposa.

Porque sua esposa era ela.

 

Dougald. Dougald Pippard. Não o conde de Raeburn, a não ser simplesmente Dougald Pippard, um rico cavalheiro e empresário de Liverpool.

Mas agora dava as costas à janela e não havia a menor duvida. Aquele homem era seu marido, pois seus olhos vivos brilhavam com triunfal regozijo. Sempre fora um grande observador das emoções humanas, e Hannah sabia que naquele momento senti a prazer em comprovar como as lembranças e o estupor se apropriavam dela.

—Chega tarde - se limitou a dizer quando por fim Hannah teve recuperado o fôlego.

Tarde. Sim, nove anos tarde para se reunir com o homem com o qual se uniu em casamento apesar de seus muitos receios, e só depois de ter fugido dele a primeira vez. Então ela pegara um trem, lhe dera alcance e...

—Você não é o conde de Raeburn. - Mal reconhecia sua própria voz. Soava muito grave, e muito firme tendo em conta as circunstâncias. - Não pode ser.

Seus lábios, os finos lábios esculpidos a golpe de cinzel que em tempos ela tinha apaixonado contemplar, se moveram para articular com parcimônia e precisão:

—Asseguro que o sou.

—Como? Mas... como?

Um súbito calafrio a sobressaltou.

Ele entrecerrou os olhos.

—Se aproxime do fogo.

Hannah não esperou que ele repetisse. Sua reação instintiva era sair dali quanto antes, mas o senso comum lhe dizia que ele teve muitos incômodos para lhe preparar aquela armadilha, e que agora desfrutaria ante a menor oportunidade de lhe fazer o que quer que fosse que fazia um homem à mulher que o abandonara, assim não pensava provocá-lo.

Além disso, sentia frio.

Mas não podia sossegar seu instintivo temor, e não conseguiu convencer a si mesma para afastar o olhar dele nem tão sequer durante o muito breve lapso de tempo que demorou para se aproximar à lareira, por isso se deslocou sigilosamente para o grupo de cadeiras e mesinhas situadas em torno do fogo sem deixar em nenhum momento de observá-lo.

O passar do tempo provocou muitas mudanças em ambos. Tantas mudanças.

Hannah começara a viver sob seu teto em Liverpool quando ele contratara sua mãe como governanta. Quando maturou, Hannah não era mais que uma menina de doze anos magrinha e inocente. Entretanto, inclusive então se sentira fascinada por seu rosto: as maçãs do rosto marcadas, a poderosa mandíbula, o nariz reto e curto, as grandes orelhas. Era moreno de pele, mas tinha os olhos de um precioso verde jaspeado de ouro que delatava sua ascendência escocesa. As pestanas eram longas, negras e sedosas. O cabelo era fino, negro e reluzente. E além disso era muito alto. Para a jovem Hannah, aquele homem encarnara a quinta essência de um crisol[2] no que se mesclavam vikings, celtas e ingleses de pura cepa. Sua distinta família vivera no norte ha dois mil anos. Presenciara e abraçara cada nova onda de imigração sem renunciar a suas próprias raízes celtas, e Dougald gostava de presumir que estava aparentado com todas as famílias ao norte de Londres.

Agora, o tempo e a experiência poliram seus traços, lhes emprestando um ar austero que quadrava à perfeição com a pedra nua e pálida do castelo que afirmava possuir. A pele tensa sobre os ossos, o olhar acerado e penetrante, e o cabelo...

Deus santo, uma mecha branca prateava suas têmporas.

Os últimos nove anos não passaram em vão para... de que maneira se fizesse chamar agora.

Mas, apesar do temor e da consternação, Hannah sentiu a traiçoeira chama do desejo.

Ele seguiria desejando-a? Quereria tomá-la aquela noite?

E ela? O rechaçaria ou corresponderia a seu desejo?

Tropeçou com as franjas do tapete, e isso a trouxe de volta ao presente, ao difícil transe no que se achava e à atenta observação de... seu marido. Não se aproximara o bastante ao fogo para notar seus efeitos, mas o aroma da lenha encheu seus pulmões com uma promessa de calor. Se ficasse onde estava, havia uma poltrona entre ambos. Podia não ser grande coisa como arma defensiva, mas era melhor que nada.

—Me diga, como pode ser o conde de Raeburn? - perguntou se agarrando ao estofo da poltrona com dedos trêmulos.

—Era o quinto na linha sucessória, mas os outros morreram, então aqui me tem.

Hannah o recordava como um homem sorridente que esbanjava encanto e confiança em si mesmo. A confiança seguia ali, mas o encanto e os sorrisos se dissiparam como se nunca tivessem existido.

Hannah acreditava conhecê-lo, mas o olhava e parecia estar ante um perfeito desconhecido... um desconhecido que tinha direitos sobre ela. Um desconhecido que a vira crescer e que a conhecia como a palma de sua mão.

Mas se ele mudara, tampouco Hannah seguia sendo uma complacente e insegura moça de dezoito anos. A experiência e serenidade adquiridas com os anos outorgavam a ela uma vantagem que ele mal podia entrever.

—Era um comerciante de algodão - espetou adotando o tom e a expressão que estava acostumada a empregar para entrevistar às aspirantes a instrutoras.

—E sigo sendo.

—Investia nas ferrovias.

—Uma aposta que me compensou com acréscimo.

—Não aspirava a nenhum título nobiliário.

—É evidente que o fazia. - Dougald assinalou a seu redor. - E também sou o quarto na linha sucessória de uma baronia. - Deu de ombros, e suas largas costas se moveram acima e abaixo em um gesto de desdém.

—Entretanto, não imagino nada mais ridículo que um homem que baseie seu amor próprio em um longínquo parentesco com a nobreza.

Hannah sabia muito bem a que se referia. Durante o tempo em que dirigira a Distinta Academia de Instrutoras, conhecera a numerosos homens convencidos que seu duvidoso vínculo genealógico com Guillermo o Conquistador os fazia o bastante respeitáveis para fazer o que lhes viesse à cabeça com suas garotas ou com ela. Hannah se encarregara de tirar de seu engano a aqueles cavalheiros presunçosos e egoístas. Lástima que este lorde fosse farinha de outro saco.

Um pouco de vaidade e egoísmo faziam um homem mais fácil de dirigir.

—Chega tarde - insistiu Dougald. - A esperava faz mais de uma hora. E não me diga que o trem se atrasou porque sempre chega pontual.

—Foi seu lacaio o que se apresentou tarde. - Hannah voltou a estremecer, em parte porque não chegara a entrar em calor e em parte pela frieza de Dougald.

—Meu lacaio?

—Alfred.

—Alfred foi te recolher? - Não elevara a voz, mas seu tom não pressagiava nada bom. - No carro?

—A senhora Trenchard me disse que houve um mal-entendido - Hannah se apressou a acrescentar, porque recordava perfeitamente seu mau gênio.

—Disso não me cabe a menor duvida - repôs ele com as faces acesas.

Por um momento, Hannah acreditou ter ante si o jovem Dougald nos instantes prévios a um acesso de ira, e até se sentiu reconfortada ao ver nele ao homem que tão bem conhecia.

"Mais vale mal conhecido que bom por conhecer."

Mas então ele suspirou com resignação.

—É minha culpa. Só levo aqui um ano, e a senhora Trenchard ainda não sabe quando fazer caso omisso de meus comentários.

O homem com o que Hannah se casou raramente admitia ter se equivocado. Agora assumia sua culpa, e entretanto a governanta o temia tanto que ao perceber seu engano repreendera o lacaio.

—O que disse a ela... sobre mim? - perguntou.

—A verdade.

Era incômodo saber que sua pessoa fora objeto de comentários antes de sua chegada.

—Disse que sou sua esposa?

—Não se inteirou? Minha esposa faleceu. Conforme dizem, a matei com minhas próprias mãos. - Dougald elevou as mãos, dobrando os dedos como se os fechasse em torno de seu pescoço.

—Não me ocorreria privar a esta boa gente do prazer de alimentar semelhante lenda.

Resultava macabro ouvir falar de sua própria morte com tanta indiferença.

—Mas por que... como começou semelhante história?

Imóvel, Dougald fez ouvidos surdos a sua pergunta enquanto a observava de cima abaixo.

—Sente.

—Dougald, como pôde consentir que se estendesse um rumor tão horrível? - insistiu Hannah.

—Tire o chapéu, as luvas e o xale. Toma assento e se ponha cômoda. Vai estar aqui muito, muito tempo.

—Não penso ficar - repôs Hannah em um tom gelado que não admitia réplica, depois de endireitar os ombros e levantar o queixo.

Dougald apertou as mandíbulas e seus lábios se esticaram em uma linha fina. Sem prévio aviso, cruzou a sala a grandes passos e foi direto para ela. Um calafrio percorreu sua coluna, mas Hannah se manteve firme.

Dougald se deteve diante da poltrona, se interpondo entre ela e o fulgor das chamas.

—Utiliza esta poltrona a modo de escudo protetor.

Sua grande mão se aproximou para ela. Hannah a viu vir e reprimiu um calafrio quando ele a tocou, a tocou pela primeira vez em tantos anos.

Colocando a mão sobre sua mandíbula, Dougald roçou sua orelha com as pontas ásperas dos dedos ao mesmo tempo em que elevava seu queixo com a palma. Não se mostrou brusco.

A tocou como se ela seguisse sendo a moça alta e impressionável com a que se casou, e esse mero, leve, contato lhe brindou um prazer tão afiado como a dor.

—Se oculta atrás desta poltrona, mas se eu quisesse poderia jogá-lo na outra ponta da sala. Poderia te atirar ao chão e possuir agora mesmo, querida, e todos seus gritos seriam de prazer.

—Deslizou o polegar para cima e acariciou os lábios de Hannah, e pela primeira vez sorriu, sorriu com malévola determinação. - Mas isso seria muito fácil, então sente.

 

Hannah sentiu a carícia dos dedos de Dougald e observou seu rosto sombrio, no que advertiu uma satisfação selvagem.

Todo rastro do juvenil e encantador trapaceiro de outros tempos se desvaneceu por completo, a deixando ante um bruto tão empenhado em se vingar e tão senhor de si mesmo que a ameaçava com a subjugação e a tirania.

Mas se ele já não era o sorridente aventureiro de antigamente, tampouco ela era a inocente rapariga que fora.

Fechando os dedos ao redor de seu pulso, Hannah afastou a mão de Dougald.

—Seja amável e me sentarei. Volta a me ameaçar e irei em busca da senhora Trenchard e de meu jantar.

Dougald pestanejou como se não tivesse ouvido uma resposta tão insolente em anos.

—Atrás - repetiu ela.

Dougald obedeceu, retrocedendo um só passo.

Interessante. Durante todo o tempo que vivera com ele, Dougald jamais fizera nada que ela tivesse sugerido ou exigido, e não desejara nem tão sequer se afastar um pouco para deixá-la respirar. Sempre acreditava ter razão e arrumava para que seus rogos e queixas caíssem em saco furado, às vezes a enrolando com carícias, outras fazendo caso omisso de suas palavras. Agora Hannah se perguntava se teria aprendido a ceder com o passar dos anos.

Dougald se limitava a lhe seguir a corrente ou acaso ela aprendera a se manifestar com tal autoridade que não ficava mais remédio que escutá-la?

Para falar a verdade, Dougald continuava muito perto dela, mas Hannah celebrou seu ridículo afastamento como uma vitória. Elevando os braços por cima da cabeça, extraiu o comprido alfinete que segurava seu chapéu.

—Fiz uma longa viagem e começo a ter apetite. Por favor, ordena que me sirvam o jantar.

Dougald observava seu corpo com olhos ambiciosos, como se aqueles braços elevados o permitissem contemplar a nudez de seus seios em lugar da excelente lã negra de seu casaco de inverno. Hannah se deu conta que já não tremia.

O arrebatamento de ira e aquele embaraçoso renascer de uma paixão antiga a haviam feito entrar em calor, e se alegrou de poder deixar o chapéu na mesinha auxiliar e ficar cômoda.

Desenrolou o suave cachecol de lã e tirou as luvas, que deixou sobre o chapéu. Logo, um a um, desabotoou os botões do casaco.

—Um simples lanche será suficiente - recalcou.

Dougald não parecia escutá-la. De fato, nem sequer se movera.

Observava sem dissimulação algum suas mãos nuas, seu comprido pescoço e especialmente seu rosto, no que demorava o olhar como se quisesse comparar a lembrança da mulher que fora com aquela em que se transformou.

Hannah não se iludia a respeito. Em seus anos jovem, Dougald tinha lhe dito incontáveis vezes o muito que adorava o brilho sedoso de seu cabelo loiro, seus desconcertantes olhos marrons e um pouco rasgados, sua pele lisa ligeiramente dourada.

Lhe dissera que parecia uma deusa egípcia.

Mas transcorreram nove anos desde a última vez que a vira, e os três últimos anos de duro trabalho não passaram em vão. Dois cabelos brancos se escondiam entre a juba loira.

Tinha-os encontrado depois de um mês especialmente difícil no que teve que se ver com uma instrutora seduzida, um lorde indignado e umas apressadas bodas.

Face às insônias de sua abnegada cozinheira, perdera a generosidade de carnes que antigamente emprestava doçura a seu rosto, e em seu incessante ir e vir de sala de aula em sala de aula, do mercado para casa, sua viçosa e exuberante silhueta se tornou magra e enxuta.

De modo que após se despojar do casaco o deslizando sobre os ombros, o sustentou e ficou à espera da reação de Dougald.

Mas este não disse nada. se limitou a olhá-la com gesto inexpressivo.

Para sua própria surpresa, a indiferença de Dougald lhe sentou como um jarro de água fria. Não é que quisesse animá-lo a cumprir sua incendiária ameaça, mas dera por seguro que nunca resistiria a seus encantos.

Ao que parecia, em algum recôndito canto de sua alma, seguia abrigando a esperança que se mantivesse fiel a suas promessas de eterna paixão.

—Podemos falar enquanto como algo - sugeriu, deixando o casaco sobre o respaldo de um banco de madeira.

—De que deseja que falemos, querida esposa?

—Pode começar me explicando como averiguou meu paradeiro. Pode me contar o que fez em todo este tempo. - E mais importante ainda: - Que planos tem para mim.

Dougald levantou o queixo e a olhou com tal suficiência que, se não o conhecesse, Hannah o teria tomado por um homem de alta linhagem.

—Contarei o que me venha em vontade te contar, nem mais nem menos.

Como detestava aquela arrogância! Quantas vezes teve que enfrentar a ela em seu trato com a aristocracia! Decidiu tratá-lo com a mesma frieza que se revelou eficaz frente a outros nobres, mais insolentes inclusive que ele.

—Bobagens! O que conseguirá me ocultando a verdade?

—O que conseguirei? Minha própria satisfação, é obvio, - se inclinou ante ela, logo se dirigiu à porta e a abriu. - Charles - chamou, arrastando as sílabas como estavam acostumados a fazer os ingleses ao pronunciar um nome francês.

—Charles, a senhorita Setterington tem apetite. Diga à senhora Trenchard que lhe traga algo de comer, - se voltou para olhar fugazmente a Hannah. - Algo abundante.

Ao que parecia, se fixou em sua magreza. Dougald fechou a porta, apoiou as costas nela e voltou a observá-la.

—Por favor - disse, apontando a cadeira, - sente-se.

Sempre que isso não o impedisse de sair-se com a sua, Dougald se comportaria como um perfeito anfitrião. Muito bem, Hannah não esqueceria o que a levara a aceitar um posto de trabalho em Lancashire.

Em troca, se comportaria como uma convidada exemplar e cruzaria os dedos para que aquela farsa não acabasse em tragédia.

Enquanto tomava assento, esfregou os dedos gelados ante as chamas.

—Vejo que Charles continua com você.

—É obvio. - Dougald cruzou a sala sem pressa, mas sem se incomodar em dissimular sua vigilância. - Onde ia estar, se não?

—No inferno, se dependesse de mim - replicou Hannah em tom pensativo.

O criado sempre servira a seu senhor com leal devoção, e a tinha tolerado enquanto fizera Dougald feliz. Mas nunca se privou de manifestar que suas exigências de atenção e respeito lhe pareciam chiliques próprios de uma menina mimada.

—Não mudou nem um ápice. Segue alimentando essa irracional aversão para Charles.

Hannah quase mordeu o anzol. Quase. Se contendo, se recostou sobre as amaciadas almofadas e assentiu.

—O que você disser, meu senhor, mas Charles conhece meu rosto. Que explicação deu a ele? Que sua mulher assassinada retornou de entre os mortos?

—Charles sabe. - Dougald desabotoou a jaqueta do traje.

—O que ele sabe?

Dougald tirou a jaqueta e caminhou para ela. Hannah se encolheu em seu assento e ele se deteve. Sorriu com regozijo descobrindo uma fileira de dentes muito brancos e perfeitamente alinhados.

Pendurou a jaqueta sobre o respaldo do banco, em cima do casaco de Hannah.

Como o detestava por tê-la assustado, e como detestava a si mesma por ter lhe dado a satisfação de descobrir seu temor! Devolveu um sorriso tenso e o observou enquanto sentava. A cadeira estava muito perto, deixando uma separação muito escassa entre ambos e provocando uma cansativa sensação de intimidade. Dougald podia observá-la à luz das chamas e das velas. Sem nenhum esforço, podia estender a mão e tocá-la. Se Hannah não o impedisse ele acabaria tocando-a, e então sua pele se acenderia e seu sangue ferveria, e só Deus sabia quanto tempo conseguiria ocultar dele a reação de seu corpo.

—O que é que Charles sabe? - insistiu.

—Tudo.

—É obvio - replicou ela com amargura. - Nunca ocultaria nada a Charles.

—Sim o faria - retrucou ele, desabotoando o colete de seda negra.

Um crescente nervosismo se apropriou de Hannah. A camisa branca de Dougald seguia abotoada até a garganta, o lenço de seda em seu lugar e o pescoço fechado, mas o fato de ver como ficava cômodo a recordou tempos passados.

Tempos nos que ela se sentava em seu colo, desabotoava a roupa dele e se pegava a seu peito recoberto de pelo escuro e cacheado, e ele precisava se levantar fechar a porta com chave para impedir que alguém os surpreendesse... Suspirou, estremecida.

Jamais teria imaginado que se alegraria de ver Charles, mas agora desejava ferventemente que chegasse quanto antes com o jantar.

—Como me encontrou? - Formulou a primeira de suas perguntas em tom prudente.

—Pelo dinheiro.

Hannah mordeu o lábio. Temera isso.

—O dinheiro que te enviei para pagar minha educação?

—Não sabe como lhe agradeço isso, embora só seja por isso. - Não parecia agradecido, mas sim, indignado. - Quanto ao dinheiro, foi parar em várias obras de caridade.

—Me dá igual o que fez com ele. Tinha jurado saldar essa dívida assim que pudesse, e o fiz.

—E eu te havia dito que uma mulher não tem por que pagar nada a seu marido, como se ele estivesse a seu cargo e não ao reverso.

—Lhe devia isso - insistiu ela. - Se supõe que deveria te compensar com descendência e companhia, mas não o fiz.

—Ainda não.

A réplica direta de Dougald ficou flutuando no ar como uma espada de Damocles. Acaso esperava que se mostrasse mais dócil após todos aqueles anos de ausência?

Ou simplesmente estava disposto a fazer recair sobre ela todo o peso da lei para obrigá-la a ocupar o lugar que lhe correspondia como sua legítima esposa?

O que mais desejava no mundo era pegar o seguinte trem e se afastar dali a toda pressa, mas sabia que isso era impossível. E não só porque ele o impediria.

Faria, por descontado, mas Hannah burlara sua vigilância uma vez e podia voltar a fazê-lo, embora agora lhe resultaria mais difícil.

Mas sim porque tinha uma missão a cumprir em Lancashire, e devia ficar ali até encontrar o que fora procurar. Assim decidiu seguir Dougald a corrente com a esperança de poder sair-se com a sua no dia que decidisse voltar a escapar.

—Então esse é seu plano? Que eu volte a ser sua esposa, que te dê filhos e te faça companhia?

—Minha esposa morreu, ou isso dizem. Como íamos justificar algo assim?

Dougald não respondera a sua pergunta. Maldito homem, estava decidido a fazê-la sofrer como a uma minhoca se retorcendo no anzol.

—Muitas coisas teriam que mudar para que eu voltasse a ser sua esposa.

—Estou de acordo, embora me atreveria a acrescentar que temos ideias completamente diferentes sobre as mudanças que deveriam se produzir.

—O que você e eu pensamos a respeito de algo sempre foi diferente, meu senhor. A isso podemos atribuir o fracasso de nosso casamento.

—Dougald Pippard não conhece o significado da palavra fracasso.

—Vê? - replicou Hannah, apontando. - A isso precisamente me referia. Para você, este casamento é seu e só seu. Que mais dá que eu seja a outra metade?

—Tem toda razão. Teria sido mais acertado dizer que Dougald Pippard e sua esposa não conhecem o significado da palavra fracasso - repôs com gesto indolente observando o dedo que o apontava.

O que acabava de dizer não era mais acertado, e ele sabia.

—Não sou uma mera parte de você, indistinguível de sua pessoa - replicou Hannah. - Tenho um nome próprio.

—Em efeito, tem: senhora de Dougald Pippard, ou melhor dizendo, lady Raeburn.

—Hannah - resmungou ela entre dentes. - Me chamo Hannah.

Dougald fez caso omisso de suas palavras.

—Ante a lei, é indistinguível de minha pessoa. Me pertence e posso fazer com você o que me agrade.

Outra ameaça. Não física, nesta ocasião, mas uma ameaça de todos os modos. Até então, Dougald sempre arrumara para conseguir levá-la aonde queria através da manipulação, da chantagem e da intimidação.

Ou chegara à conclusão que não valia a pena andar com sutilezas, ou os anos o endureceram.

—Jamais pertenci a você. Se em algum momento chegou realmente a acreditar que assim era, devo repetir que não é de estranhar que nosso casamento viesse abaixo.

Hannah ficou à espera de sua acesa réplica o que lhe deu uma admirável sensação de tranquilidade.

Mas Dougald tomou por surpresa:

—Lorde Ruskin já me advertiu que você se convertera em uma mulher de caráter firme, toda determinação. Agora comprovo que estava certo.

—Lorde Ruskin? - balbuciou Hannah. - Como... por que... falou com lorde Ruskin?

—A qual de suas perguntas devo responder primeiro?

Dougald falara com lorde Ruskin. Dougald lhe contara... somente Deus sabia o que, e agora a olhava como uma besta cegada pelo desejo de vingança, com um sorriso malévolo dançando nos lábios. Hannah se inclinou para frente e o fulminou com o olhar.

—Me dá vontade de te dar um sopapo.

Dougald abriu os braços como a convidando a tentar, mas Hannah não era tão tola. Finalmente, ele deixou cair os braços aos lados.

—Acredito que foi a sua amiga lady Ruskin, disse a ela que desejava fazer chegar certa quantidade de dinheiro a um tal Dougald Pippard de Liverpool e, sem se incomodar em lhe dar mais explicações, pediu-lhe que o fizesse em seu nome para preservar sua identidade.

Sabia tudo. Apesar de seus esforços, a localizara através de suas amizades e, o conhecendo, seguro que tinha posto Charlotte em um aperto. Mas Charlotte era uma mulher de armas prontas.

—Lady Ruskin é uma de minhas melhores amigas, e estou absolutamente segura que não se deixou intimidar por você.

—Absolutamente. Charlotte... quero dizer, lady Ruskin, é uma dama encantadora. - O fato que Dougald se referisse a sua amiga pelo nome de batismo lhe deu o que pensar.

—De fato, cumpriu com todo rigor seu desejo de confidencialidade e se deu o trabalho de me fazer chegar o dinheiro através de sua sogra, uma tal lady Bucknell.

—Lady Bucknell? - Hannah recordou à formosa e elegante Adorna, que concordara de bom grado a comprar a Distinta Academia de Instrutoras. Acaso atuara movida por algo mais que o interesse pessoal? - Lady Bucknell disse onde me encontrava?

—Não, não. - Dougald zombava dela, como se aquela conversação fosse um exemplo de claridade e não o labirinto pelo que ela avançava às cegas pela sua mão.

—Recebi o dinheiro e, rastreando sua procedência, fui dar com a conta bancária que lorde e lady Bucknell têm em Londres.

A primeira coisa que fiz foi encarar lorde Bucknell, e devo dizer que naquele momento não abrigava os melhores pensamentos a respeito dos dois.

Hannah fez uma careta.

—Tomaria como um grave insulto. - Recordou o marido de Adorna, um cavalheiro onde estivesse, exemplo de correção e recato. - Disso não me cabe dúvida.

—Sim, mas assim que expliquei a ele que era seu marido...

—Meu marido. - Hannah apertou entre seus dedos o tecido sob o qual seu coração pulsava disparado. - Disse a lorde Bucknell que era meu marido?

—É obvio. - Aquele sorriso macabro voltou a aparecer nos lábios de Dougald enquanto contemplava seu sofrimento. - Foi ele quem seguiu o rastro do dinheiro até lady Ruskin, e inclusive me acompanhou para ver seu marido.

—Lorde Ruskin sabe que estamos casados? - Hannah se levantou. Seus piores temores se fizeram realidade. - Então Charlotte também sabe.

Charlotte Dalrumple e Pamela Lockhart fundaram a escola de instrutoras com ela.

—Sim, Charlotte sabe. - Dougald a observava como se levasse muito tempo saboreando de antemão o prazer de lhe revelar que estava completamente apanhada. - Mas confia em você, apesar de tudo.

Insistiu em que teria suas razões para escapar e não voltar mais. A defendeu com grande veemência.

—É obvio. Não é em vão em minha... quanto faz que sabem?

—Uns meses.

—Então já sabiam quando me convidaram ao batismo. Não disseram nada.

Hannah pinçou em sua memória em busca de alguma recriminação velada, possivelmente por parte de lorde Ruskin, que não via sua independência com bons olhos. Acreditava sinceramente que toda mulher de bem deveria se casar, e dentre todos seus amigos era o que mais empenho tinha posto em lhe buscar um pretendente adequado, até o ponto que Charlotte se viu obrigada a intervir para atalhar seus esforços. Charlotte, que o permitia reinar como um monarca em seu lar e seus negócios.

Charlotte, que o controlava com mão firme mas envolta em uma luva de veludo. E entretanto, a última vez que a vira, se comportou com ela como a mesma amiga carinhosa de sempre. E sabia. Soube todo o tempo. Sabe lá o que lhe teria passado pela cabeça.

Hannah se afastou da lareira.

—E entretanto lhe disseram onde estava.

—Lorde Ruskin me informou de seu paradeiro. Nossa situação o consternara muito.

—É obvio. Está convencido que as mulheres sem os homens não seriam nada, e lhes devem eterna gratidão. Se não fosse por Charlotte, não teria quem o suportasse. - Olhou para Dougald, apoltronado em sua cadeira, e lhe deu as costas.

Do contrário não teria podido reprimir o impulso de esbofeteá-lo, e não era tão tola para acreditar que ele receberia semelhante ultraje sem responder. - Charlotte diria a Pamela.

—Se refere a lady Kerrich, suponho.

—Há alguém em toda a Inglaterra a quem não contou? - espetou Hannah se voltando para ele e elevando a voz.

—Acredito que só lorde Bucknell, lorde Ruskin, lorde Kerrich e suas respectivas esposas conhecem a verdade. Não são tantos, se se compararem com toda a população da Inglaterra.

—Dougald assinalou este fato com toda tranquilidade, como se pudesse lhe servir de consolo.

Hannah voltou sobre seus passos e se agarrou com tanta força ao suporte da lareira que o motivo do mármore esculpido ficou impresso nas palmas de suas mãos.

—Está falando de meus amigos.

—Um círculo estreito e leal.

Agora suas amigas, sobretudo Pamela e Charlotte, sabiam que ela não lhes contara os fatos mais importantes de sua vida. Sem dúvida se sentiriam confusas, possivelmente inclusive feridas pela escassa confiança que depositara nelas.

E para cúmulo... para cúmulo, não podia ir a elas em busca de apoio.

—Embora encontrasse o modo de abandonar o castelo Raeburn, e asseguro que não seria fácil, procurar auxílio entre suas amigas causaria fricções em seus respectivos casamentos.

Não acredito que deseje fazer isso advertiu Dougald como se tivesse lido seu pensamento.

Estava certo, é obvio.

—Não devia te enviar o dinheiro. Está claro que as boas ações nem sempre se veem devidamente recompensadas.

—O que fez dista muito de ser uma boa ação - repôs ele com gesto deliberadamente inexpressivo. - Pretendia me provocar, me incitar a descobrir seu paradeiro.

—Não é certo!

—Pode seguir enganando a si mesma se assim o desejar, Hannah, mas sabia que esse dinheiro me poria sobre sua pista. Teria te encontrado embora seus amigos não se dispusessem a me ajudar.

—Dougald se acomodou na cadeira e uniu as palmas das mãos diante do rosto em um gesto reflexivo. - Como não ia fazê-lo? Fundou uma academia, uma escola para instrutoras, mestras e damas de companhia que gozava de grande popularidade.

—Confiava em que ainda não tivesse começado para me buscar - balbuciou.

—Outra mentira. Sabia que não ia me render tão facilmente.

De acordo. Sabia que antes ou depois Dougald acabaria dando com ela. E possivelmente em algum recôndito lugar de sua mente acreditasse que tudo seria mais fácil se não precisava ser ela quem desse o primeiro passo: buscá-lo, ir vê-lo, explicar os motivos de sua fuga e tentar justificar sua prolongada ausência. Por mais que soubesse que deviam solucionar de algum modo a questão de seu casamento, lhe punha um arrepio só de pensar no reencontro, e sim, possivelmente dera por certo que se voltasse a vê-lo de improviso, a consternação dos primeiros momentos dissiparia seus temores. Mas... não tinha por que jogar em sua cara de um modo tão aborrecível.

—Agora me dou conta de meu engano - repôs com frieza.

—Muito tarde, temo. Se esfumara tão completamente que durante oito anos não soube nada de você. - Dougald elevou outros tantos dedos no ar. - Oito anos, Hannah, sem saber se estava viva ou morta.

—Escrevi a você!

—Uma só vez! Recebi uma carta de Londres em que me dizia que estava bem e que não me preocupasse.

—Se te tivesse escrito mais frequentemente, teria dado comigo em seguida.

—Era minha esposa, é obvio que teria dado com você! Paguei uma fortuna a um detetive particular para que a buscasse.

Tem ideia da quantidade de vezes que saí correndo para Londres com a esperança que a tivesse encontrado, e das vezes que retornei cruelmente decepcionado?

Hannah negou com a cabeça.

—Nove. - Dougald voltou a elevar os dedos no ar, e Hannah percebeu que não lhe tremiam de jeito nenhum. - Nove vezes tomei o trem com destino à capital. Até bordéis visitei te buscando, temendo que se tivesse visto arrastada a essa vida infame.

Em meus pesadelos a imaginava convertida na querida de algum homem.

"Típico dele."

—Como sempre, meu senhor, não me vê mais do que como uma mecha de cabelo e uma silhueta feminina. Sou algo mais que isso.

—Ah, sim! esquecia das costureiras! Visitei trinta costureiras, Hannah. Dava por certo que teria entrado a trabalhar em uma oficina de costura ou em uma sombrereria, mas não era assim. Não estava em nenhuma parte.

—Não, estava...

—No estrangeiro. - Dougald esboçou um sorriso, uma exibição de dentes brancos como se zombasse de si mesmo e de sua infrutífera busca. - Agora sei.

Se converteu na dama de companhia de lady Temperly, uma viajante empedernida, e quando ficou muito velha e doente para seguir viajando, voltou para Londres e levou uma existência tranquila cuidando dela até sua morte.

—Assim é.

Sabia tudo, até o último detalhe. Aquele era o Dougald que ela recordava: meticuloso, implacável em sua investigação, determinado a averiguar tudo, pois sempre havia dito que a informação era poder.

—Logo fundou a Distinta Academia de Instrutoras com suas duas amigas. Elas não demoraram para casar, mas você seguiu solteira. - Dougald cruzou as pernas e estirou a perfeita raia de sua calça. - Claro, porque já estava casada. Que lástima, não é?

Hannah o detestava quando ficava assim e a julgava friamente com o sarcasmo mais demolidor.

—Não queria me casar - replicou ao mesmo tempo que voltava a se deixar cair na cadeira. - Com uma vez tive mais que suficiente.

Então o viu, obteve a satisfação de ver como um espasmo sacudia involuntariamente as mãos de Dougald.

—Cuidado com o que diz, meu amor. Lembro certos aspectos de nosso casamento com os que desfrutava muito - ele espetou em um tom sibilante, carregado de intenção, depois de apoiar as mãos nos braços da cadeira e se inclinar para frente.

Hannah ruborizou da cabeça aos pés mas, para sua própria surpresa, sustentou o olhar daqueles olhos verdes.

—Ao que parece, o prazer não era bastante para mim, não acredita? - replicou com gesto desafiante.

—Ao que parece não. Mas o seria para mim... agora.

 

Hannah percebeu a ameaça implícita na mesurada cadência de sua voz e, sem querer, pressionou as costas com força contra o respaldo da cadeira.

—Eu não gosto que me ameacem - advertiu com lábios tensos.

—Pois não me provoque, a menos que deseje ver uma demonstração de meu atual estado de frustração carnal.

Aquilo queria dizer que não esteve se aproveitando das mulheres que tinha a seu serviço? Ou se tratava simplesmente de uma ameaça para mantê-la a raia? Porque como ameaça surtira efeito, certamente.

Dougald não separava os olhos dela, e Hannah suspeitava que sob o traje toda sua musculatura estaria tensa, pronta para entrar em ação. A possuiria apesar de seus protestos? E quanto tempo ela acreditava que poderia seguir protestando?

O fato de vê-lo devolvera lembranças que até então reprimira com firmeza. Lembranças de noites nas que havia sentido o peso daquele corpo sobre o seu, os olhos acesos de paixão, os músculos em tensão...

Hannah teve a precaução de permanecer imóvel e mal respirou até que ao fim ele relaxou em seu assento.

Então tragou saliva, estava resolvida a sobreviver a aquela espantosa entrevista com sua virtude intacta.

—Enviei o dinheiro para você faz quase um ano. Como é que...? - disse.

—Recebi seu dinheiro na mesma data em que me informei da morte de meu primo. Não tinha alternativa. Vim ao castelo de Raeburn, tomei posse do título e fiz quanto estava em minhas mãos para aliviar a aflição dos criados ante a morte prematura de seu amo.

Aquele sim era o Dougald que ela recordava, e não desperdiçou a ocasião para zombar dele.

—Como sempre, primeiro o dever.

O olhar de Dougald escureceu.

—Agradeça que não tinha tempo para ir te buscar em pessoa, porque não teria podido evitar fazer uso da força. - O qual, deduziu Hannah, significava que não tencionava fazer uso da força aquela noite.

—O que fiz foi enviar Charles a Londres para te ter vigiada.

Hannah não saía de seu estupor.

—Charles esteve me espiando?

—De forma intermitente há dez meses.

—Dez meses. - Aquilo era pior inclusive do que imaginara.

Alguém bateu na porta.

—Adiante - respondeu Dougald.

Era Charles, é obvio, como um gnomo malvado que se materializasse ao se pronunciar seu nome. Em suas mãos atrofiadas pelo reumatismo levava uma bandeja de prata, pois não permitia que ninguém a não ser ele tocasse a comida de seu amo.

Um lacaio o seguia, sustentando uma garrafa de vinho e duas taças de cristal como se fossem se desintegrar a qualquer momento. Saltava à vista que aprendera a temer Charles e sua língua mordaz.

—Aproxima essa mesa. Deixa-a entre o amo e a... - Charles lançou um olhar fugaz e gelado a Hannah - e a senhora.

Capturando a garrafa debaixo do braço e agarrando ambas as taças com uma mão, o lacaio se apressou a obedecer. Enquanto Charles fechava os olhos, horrorizado ante sua estupidez, o jovem arrastou a mesa redonda e baixa até a lareira, deixou o vinho e as taças na borda da mesma e retrocedeu com uma reverência.

Charles depositou a bandeja sobre a mesa e, enquanto andava pela sala, descobrindo os pratos, Hannah se entreteve observando aquele homem que tantos anos levava a serviço da família Pippard.

Ficara coxo durante a guerra da Independência espanhola, em que combatera junto às tropas napoleônicas.

O avô de Dougald salvara a vida dele em plena batalha, o que lhe valeu a eterna lealdade do Charles, que venerava a todos e cada um dos membros de pleno direito da família.

Mas Hannah nunca fora, pelo menos aos olhos de Charles, membro de pleno direito da família Pippard. Agora voltava a ter ante si a aquele homenzinho curvado que fora seu juiz e carcereiro.

Os anos não o maltrataram muito, mas também era verdade que a natureza nunca se mostrou muito generosa com ele. Não envelhecera de modo perceptível, nem seu nariz parecia maior, nem acumulava novas dobras de pele sob o queixo.

Seus olhos seguiam se movendo inquietos, escrutinando tudo com olhar crítico, identificando cada imperfeição e passando por cima os acertos. Como devia lhe chatear ter que voltar a servir Hannah, sempre tão imperfeita.

Embora, bem olhado, possivelmente desfrutasse do momento vendo-a rebaixada à condição de dama de companhia. Hannah não duvidava que sabia. Jamais o compreendera e não acertava a explicar o que o levara a colaborar em sua captura.

Exceto talvez o desejo de ver seu amo liberado dos votos de casamento que o uniam a ela.

Hannah voltou os olhos para as chamas.

Talvez fosse esse o motivo pelo que Dougald a levara até ali. Para obter o divórcio, embora só depois de tê-la torturado por prazer.

Entretanto, o divórcio era um assunto desagradável e custoso, e Hannah não imaginava Dougald jogando a toalha de um modo tão explícito. Mas então, o que pretendia fazer com ela?

Charles estendeu as tampas ao lacaio e com um gesto indicou ao jovem que partisse, coisa que este fez imediatamente, escapulindo da sala como se acabasse de salvar a pele. Charles se separou da bandeja artisticamente disposta.

—Fiz que o cozinheiro preparasse minha própria receita de coq au vin[3] com fatias de pão frito - anunciou com sua voz nasal e afrancesada, e logo perguntou: - Posso lhes servir?

O estômago de Hannah a traiu com um espasmo de fome que desejou tivesse passado inadvertido. Charles, certamente, não deu mostras de ter ouvido nada enquanto servia o prato favorito de Hannah em uma grande terrina para logo polvilhá-lo com fatias de pão frito e salsinha fresca antes de deixá-lo sobre a mesa, frente a ela. Com um estalo do pulso, estendeu um guardanapo de um branco radiante sobre o colo de Hannah e aproximou a mesa.

Logo deixou uma reluzente colher ao alcance de sua mão direita e a observou imóvel enquanto provava o primeiro bocado.

Que outra coisa podia fazer? A carne estava tenra, o caldo bem temperado com tomilho e o guisado em seu conjunto retinha a saborosa lembrança do vinho tinto e as primeiras verduras da primavera.

—Está delicioso - murmurou Hannah, sem olhá-lo diretamente aos olhos. - Obrigado.

Charles lhe fez uma reverência com os lábios apertados.

—Eu gosto das mulheres com bom apetite - assinalou Dougald. - Faz muito tempo aprendi que uma mulher que desfruta da boa mesa está acostumada a ter um apetite similar para... outros prazeres.

Hannah levantou a cabeça bruscamente e lhe lançou um olhar assassino.

Fazendo girar o saca-rolha, Charles abriu uma garrafa de vinho da Borgonha e o serviu em uma taça reluzente.

Hannah a agarrou pelo caule e acariciou as bordas de cristal esculpido. Eram perfeitas, esculpidas para apanhar a luz e entretanto suaves ao tato.

E eram reais, não uma lembrança fugidia, como o daquela garrafa de vinho que ia e vinha entre as mãos de um homem e uma moça.

Hannah tomou um gole e sorriu a Charles sem separar os lábios.

—Obrigado.

Além de qualquer outra coisa que se pudesse dizer dele, devia reconhecer que sempre dirigira a cozinha com tirânica eficiência e resultado sublime.

De fato, dirigia toda a casa do mesmo modo, sem deixar a ela nada que fazer exceto se dedicar aos trabalhos de agulha. Em boa medida, nisso consistira o problema.

—Você também comerá, senhor? - perguntou Charles. Dougald parecia inclinado a dizer que não, e Charles o adiantou: - Mal provou um bocado em todo o dia, senhor. Deve se alimentar, e já ouviu a senhora dizer que o guisado está delicioso.

Hannah viu como Dougald lhe lançava um olhar tão feroz que qualquer outro homem em seu lugar se encolheria, mas Charles aguentou o toró sem perder a compostura.

—Me sentiria mais cômoda se me acompanhasse, Dougald - Hannah assinalou. Não sabia o que a impulsionara a dizer isso, mas, antes que pudesse pensar nisso, as palavras escaparam de sua boca.

Dougald emitiu um grunhido que Charles interpretou como um sinal de assentimento. se apressou a aproximar a mesa grande de seu amo e serviu uma terrina de guisado e uma taça cheia de vinho.

—Hannah se perguntava por que a seguiu com tanta diligencia em Londres - apontou Dougald enquanto Charles o servia.

Hannah fechou os olhos e amaldiçoou Dougald para si mesmo.

Entretanto, ardia em desejos de escutar a resposta.

—Como não ia fazer isso, meu senhor? - E, em um tom que gotejava indiferença, acrescentou: - Esse era seu desejo.

Charles, refletiu Hannah, sempre soube pô-la em seu lugar.

—Pode ir, Charles - disse Dougald. - O chamarei se necessitar algo mais.

Charles saiu retrocedendo da sala como se Dougald fosse um membro da realeza, se detendo só para recolocar uma flor no arranjo que havia junto à porta. Logo, com uma última reverência, partiu.

—A que veio isso de insinuar que eu pensava que Charles te mentiria sobre meu paradeiro? Agora tem outro motivo para me odiar - explodiu Hannah quando a porta mal se fechou.

Dougald arqueou as sobrancelhas.

—Que mais dá? Charles não é mais que um criado.

Hannah o olhou de cima abaixo. Era certo. Dougald se despedira de seu criado de forma educada, como tinha por costume, mas sem a fraternal cumplicidade que ela presenciara em incontáveis ocasiões.

No passado se comportavam como companheiros de armas, dois homens enfrentando ao mundo, amigos para sempre. Agora Charles parecia não ser mais que... Charles. Um mero ajudante.

—Tiveram alguma diferença?

Dougald se recostou na cadeira sem ter tocado seu prato.

—Seu comportamento nem sempre mereceu minha aprovação.

—Ah! - Hannah tomou outro bocado, pensativa. - Não parece próprio de Charles. Sempre pensei que, se você assim o desejasse, era capaz de construir uma linha de ferrovia com suas próprias mãos.

—Sem dúvida o faria, mas passou dos limites em um assunto de grande importância e não soube reparar seu engano. Não voltará a ter outra oportunidade.

Hannah deixou a colher sobre o prato; perdera o apetite. Se Dougald podia se mostrar tão implacável com Charles, que tipo de castigo teria reservado para ela?

O divórcio parecia quase muito bom para uma mulher que fugiu, convertendo seu marido em suspeito de assassinato durante todos aqueles anos.

Embora fosse certo, recordou a si mesma, que Dougald não tinha por que permitir que esses rumores se propagassem. Podia ter revelado ao mundo que ela o abandonara...

—Por que não come? - perguntou ele. - Está muito magra.

—O mesmo digo - replicou ela.

Na realidade não estava tão magro. Um homem de sua constituição podia permitir uns quilogramas de mais ou de menos sem que mal se notasse, mas Hannah pensava que aquele ar taciturno que escurecia seu rosto podia se suavizar se engordasse.

Além disso, um homem faminto era um homem irritável.

O que ele pensava, em troca, era um mistério para ela. Já não sabia ler em seu rosto, mas sustentou seu olhar quando ele procurou o dela, o desafiando com o queixo inclinado e os lábios selados.

Finalmente, Dougald voltou a pegar a colher e se aproximou da mesa, e Hannah soube que ganhara.

Ganhara um combate. Possivelmente pudesse ganhar outro.

—Vai se divorciar de mim?

Dougald tragou saliva, levantou a vista do prato para olhar sua esposa perdida fazia muito tempo e a observou com a fria e serena ira que o acompanhava todos e cada um de seus dias.

Só o fato que ela ousasse mencionar a palavra divorcio lhe dizia o muito que distava de compreender a situação. Se divorciar era difícil, custoso e uma vergonha com a que teria que conviver até o último fôlego.

Como amo daquela propriedade, não poria em perigo sua recém adquirida posição social se divorciando de sua esposa, por muito que ela o merecesse. Mas essa não era a verdadeira razão.

Não, seus planos eram completamente diferentes. No tom mais indiferente que conseguiu imprimir a sua voz, respondeu:

—De divórcio, nada.

Hannah o olhou com olhos surpreendidos. Escrutinou seu rosto, franzindo o cenho, preocupada, procurando o velho Dougald, o homem que a salvara das garras da miséria, o homem que a protegera durante sua juventude e querido durante seu casamento.

Ele podia ter lhe dito que esse homem estava morto, tão morto como se dizia que o estava sua mulher, que a própria Hannah se encarregou de matá-lo. Mas, por algum motivo que não conseguia explicar, seguia sentindo a necessidade de protegê-la.

Hannah voltou a centrar sua atenção no prato que tinha ante si. Comeu em silêncio, igual a ele fez, o tempo suficiente para que Hannah enchesse o estômago e esvaziasse a terrina.

—Não mudou. Nunca perde o apetite, por muito mal que vão as coisas - sentenciou ele logo que deixou a colher no prato.

—É algo que aprendi quando era pequena e raramente sabia de onde ia sair minha próxima refeição. - Sustentando a taça com uma mão, agitou o líquido de cor rubi e viu como as chamas reluziam através do cristal esculpido.

Evitou o olhar de Dougald, como havia feito desde sua chegada aquela tarde. Agora sabia que a ia torturar com aquelas lembranças que ela tanto se esforçava por manter no esquecimento. Quanto tempo levaria esperando aquele momento, Deus santo!

—Querida, pedi expressamente que servissem este Borgonha[4] porque sei o muito que o aprecia. Me diga, é de seu agrado?

Hannah não o olhou. Sabia por que o perguntava, mas fingiu ignorar como um náufrago que se agarra ao último vestígio de sua embarcação.

—O vinho é magnífico, mas se não me falha a memória sua adega sempre foi excepcional.

Se não fosse porque esquecera como se fazia, Dougald teria sorrido. Hannah evitava o assunto com verdadeira mestria, mas ele sabia que sua réplica não era mais que uma evasiva.

Aquele dia no trem deixara de ser uma menina para se converter em mulher e, por mais que agora se empenhasse em se defender atrás de um falso pudor, ele o recordaria na menor oportunidade.

Porque ele jamais o esqueceria.

Agarrou ao jovem ladrão pelo cangote e o sacudiu como fosse um cão com sua presa.

—Onde está?

O moço cravou as unhas nas mãos de Dougald até que este afrouxou a pressão sobre seu pescoço.

—Por ali - resmungou com voz rouca. - Se foi por ali.

O moço assinalou o concorrido acostamento da estação ferroviária de Liverpool, confirmando assim os piores temores de Dougald. A jovem Hannah o deixava da maneira mais direta possível - e também da mais perigosa, —em um trem de mercadorias com destino a Birmingham. Sua prometida era uma insensata. O trombadinha tentou escapar, e Dougald voltou a fechar os dedos com força em torno de seu pescoço.

—Fez mal a ela?

—Não, senhor, eu juro! Ia vestida como um menino e levava uma bolsa de mulher. Só ri dela, e me lançou isso à cara! - O uva sem semente tragou em seco. - Não havia dinheiro dentro, senhor, mas não o tive em conta. Nunca faria mal a uma dama, senhor.

Nunca faria mal a ela embora tivesse perdido o juízo - acrescentou, ao mesmo tempo que assinalava sua própria testa com um dedo imundo.

Sim, o menino pensava que Hannah estava louca. Possivelmente todos pensassem o mesmo e se separassem de seu caminho. Possivelmente sua própria impetuosidade fosse sua salvação.

Dougald soltou ao moço e abriu caminho correndo entre a multidão de homens que trabalhavam carregando algodão americano nas vagonetas motorizadas inglesas.

Alguns se fixavam nele e, com gesto malicioso, apontavam a direção em que passara a moça que se acreditava disfarçada.

Cada novo gesto confirmava a esperança de Dougald - e também seu temor - que Hannah não passasse inadvertida. Pois embora aqueles homens fossem em sua maioria honrados pais de família e esforçados trabalhadores, não faltariam os velhacos dispostos a escapulir do grupo para se aproveitar de uma jovem indefesa. Dougald seguiu as indicações de uns e outros, correndo sem fôlego, imaginando o pior e temendo chegar muito tarde.

Os homens o guiaram até um trem que lançava baforadas de fumaça e arrancava entre pigarros. Da plataforma em penumbra, a buscou com avidez enquanto o trem se afastava com parcimônia.

E então a viu. Ia sentada na porta aberta de um vagão, embainhada em um de seus trajes de adolescente, com os pés balançando no ar e os olhos deslumbrados.

Moça formosa e insensata. Durante cinco anos a tinha coberto sob seu teto sabendo que um dia a faria dele, agradado com sua inteligência, obediência e feminilidade. Não prestara muita atenção a ela, mas agora sim a observava.

A menina desaparecera, substituída por uma mulher cujas curvas nenhum disfarce de colegial poderia dissimular. Uns poucos cabelos dourados penduravam, rebeldes, em torno de seu rosto.

Em seus lábios se desenhava um sorriso luminoso, como se a ideia de escapar dele e de suas próprias obrigações lhe produzisse euforia.

Prova suficiente de que não compreendia os perigos aos que se exporia uma jovem fugitiva como ela.

Dougald se pôs a correr atrás do trem. Com grande esforço, conseguiu se agarrar ao último vagão e se levantou até a plataforma. Tratando de não perder o equilíbrio sobre as estreitas e trêmulas tábuas, estudou a situação. O vagão de Hannah era o terceiro da cauda. O trem ia ganhando velocidade. Havia uma série de degraus metálicos a um dos lados do vagão. Podia subir por eles até o telhado, se arrastar ao longo deste, saltar até o seguinte vagão...

Não pôde reprimir uma gargalhada. Não havia feito nada tão perigoso ou impetuoso em todos os anos que transcorreram desde a morte de seu pai. Aquela era o tipo de façanha que deveria ter protagonizado um Dougald muito mais jovem. Voltou a rir.

Possivelmente ao final Hannah resultasse ser sua salvação.

O trem estralava e exalava baforadas de fumaça enquanto Dougald subia pela escadinha lateral que conduzia ao telhado.

Os degraus de metal tremiam entre suas mãos e sob seus pés, mas mesmo assim se sentia mais seguro que acima, onde não teria cabos de nenhum tipo.

Com um último impulso, se encarapitou ao teto metálico e reaquecido do vagão. O vento açoitava seus cabelos.

Do alto do vagão tinha boas vistas de Liverpool, da paisagem campestre no que entravam... e também da distância que agora o separava do chão.

Voltou a rir. Uma loucura. Aquilo era uma verdadeira loucura.

E entretanto não podia deixar Hannah escapar. Não depois de tê-la sustentado entre seus braços enquanto chorava a morte de sua mãe.

Se arrastou pelo telhado, avançando em linha reta pelo centro do vagão. Ao chegar ao gancho entre o último vagão e o seguinte, se levantou e tratou de medir com o olhar a distância que os separava.

Abaixo, a junção estralava entre sacudidas e os trilhos deslizavam a toda velocidade ante seus olhos.

Dougald fora um jovem temerário e em seus anos moços teria se jogado divertido naquela aventura sem pensar duas vezes, mas agora era um respeitável homem de negócios, consciente das consequências de seus atos.

Se falhasse o salto... Respirou fundo e saltou para frente. Aterrissou sobre as quatro extremidades, fazendo tremer o telhado metálico sob seu peso. Mas o conseguira.

Sem se erguer, correu como o faria uma besta selvagem até o outro extremo do vagão.

Sim, agora compreendia as consequências, embora Hannah não fosse consciente disso. Incontáveis perigos a espreitavam, e como faria para esquivá-los? Sua vida passada não fora fácil, mas desde que ele a acolhera sob seu amparo só provara o melhor: comida, roupa, educação, colégios para senhoritas...

O trem avançava mais depressa. A distância entre os vagões parecia ter aumentado. Mas desta vez Dougald mal se permitiu respirar fundo antes de saltar.

Então olhou a seu redor. Conseguira. Aquele era o vagão de Hannah. Só que ele estava em cima e ela dentro. A porta estava aberta, e a única forma de entrar era fazendo uma simples pirueta... que não praticara há anos.

Desta vez não rompeu a rir, mas sim resmungou uma maldição. Se aproximou pouco a pouco da borda do vagão e olhou para baixo. Os pés de Hannah já não penduravam para fora da porta. Ao que parece entrara quando o trem ganhara velocidade.

Muito sensata. Bom, sensata não. Não tão sensata, certamente. Do contrário, não lhe teria ocorrido desafiar Dougald Pippard.

Possivelmente Hannah não fosse consciente disso, mas ele unira os destinos de ambos com a mais honrosa das intenções. Agora seu dever - melhor dizendo, seu carinho - o obrigava a protegê-la, inclusive de si mesmo. Dougald sorriu por dentro.

Sim, Hannah lhe pertencia. O problema era que ainda não sabia.

Agarrou a soleira da porta, se segurou com força e, dando uma cambalhota, desceu do teto e se meteu no vagão.

Inclinando a cabeça, Dougald elevou a taça e brindou a lembrança daquele dia inesquecível no que a juventude, o amor e a aventura confluíram em suas vidas.

Hannah permaneceu indiferente ao brinde.

—Então foi Charles quem contratou, por tua ordem, aos homens que me seguiram em Londres...

Dougald deixou a colher sobre o prato, inapetente.

—É obvio.

—Me montou uma armadilha.

—Logo que as águas voltaram para seu leito no castelo, ordenei a Charles que retornasse e contratei aos detetives particulares para... te pôr nervosa. Logo fiz chegar uma oferta de trabalho que sabia te resultaria tentadora.

Era uma armadilha para ver se mordia o anzol.

Dougald apoiou o pé sobre a perna da mesa e a afastou com gesto brusco. Os pratos se agitaram, as cobertas tilintaram, mas conseguira limpar o espaço entre ambos, por isso agora podia observá-la sem estorvos.

Observá-la embora estivesse embelezada com aquele modesto traje negro de trabalho. Sempre gostara de se disfarçar ... de moço aquele dia no trem, de austera dama de companhia agora. Mas sua beleza sempre saía a reluzir.

Nada podia ocultar sua pele radiante, lisa como a de uma menina, nem a exuberante juba dourada, nem os lábios que pediam a gritos ser beijados.

E, mais à frente do semblante, a escultural silhueta... não tão arredondada como no passado, mas cada vez mais sedutora em sua esbelta elegância.

Hannah caminhava, se movia, como sempre fizera. Como se o Todo-Poderoso a tivesse criado para distração de Dougald e a utilizasse para afastá-lo do pecado e atraí-lo para o sagrado vínculo do casamento.

E o plano do Todo-Poderoso funcionara quase muito bem, pois quando Hannah o abandonara levou consigo todos os prazeres e não deixara a não ser escuridão atrás de si.

Por sorte, Dougald se acostumara a viver entre trevas. Se propôs superar o passado e riscou planos para o futuro. E tudo fora segundo o previsto, pois ali estava ela agora, sentada ante ele.

—Meu único temor era que, se deixando levar pelo medo, renunciasse a sua preciosa Academia de Instrutoras. Ao fim e ao cabo, a academia te dera o que nosso casamento não pôde: trabalho, trabalho e mais trabalho.

—Nem te ocorra, - Hannah o via agora como um ser monstruoso, o que não era de estranhar, pois os anos de solidão e desonra haviam feito o monstro que Dougald levava dentro crescer.

—Nem te ocorra me acusar de seus próprios pecados. Você também trabalhava, querido. Trabalhava dia e noite, mas esperava que eu o permitisse me manter.

—Como corresponde a uma esposa! - replicou Dougald, e a veemência de sua própria resposta o pegou de surpresa. Fazia anos que não se permitia desperdiçar suas energias em inúteis mostras de indignação.

—Como uma incompetente e uma fraco mental - pigarreou ela.

—Sua mãe estragou sua capacidade para desfrutar da vida.

Hannah elevou a voz.

—Minha mãe trabalhava de sol a sol, e eu queria ajudá-la!

Dougald se remexeu na cadeira, queria exigir que visse a questão desde seu ponto de vista, até sabendo de que nunca conseguiria fazê-la entrar em razão.

—Sei, e seus desejos eram admiráveis. Não como sua capacidade para me agradar.

—Minha mãe me ensinou que o trabalho é virtude. Que minhas circunstâncias pessoais mudassem não alterava essa verdade.

—E passa a vida perseguindo a virtude como o gato que tenta em vão apanhar uma mariposa. - Dougald inclinou a cabeça para trás e entrecerrou o olhar. - Entretanto, abandonou a seu marido e traiu os sagrados votos do casamento. Que virtude há nisso?

Hannah entrelaçou seus dedos trêmulos.

—A mesma que possa haver em seduzir uma moça de dezoito anos.

—Tinha dezoito anos e decidira me abandonar. A sedução era o modo mais rápido de te reter.

—Entendo. A sedução economizou o tempo que você deveria ter passado me cortejando. - E acrescentou, mastigando as palavras: - Um atalho digno de admiração, meu senhor.

Dougald soltou uma gargalhada breve, seca, e usou seu conhecimento para feri-la.

—Não tinha nenhuma necessidade de te seduzir. Não tinha por que me mostrar tão amável. Já a tinha comprado... nem mais nem menos que a senhora sua mãe. Ou acaso esqueceu?

 

Nunca antes fora cruel com ela. Dougald fora um manipulador, desconsiderado e sem escrúpulos, mas nunca criticara Hannah trazendo à tona os desgraçados acontecimentos que a conduziram até ele.

—Minha mãe não me vendeu. Me pôs a trabalhar em sua casa, o que é muito diferente. - Hannah respirou fundo para aliviar o peso que sentia no peito. - Eu me considero uma de suas obras filantrópicas, que eram tantas...

Dougald deu de ombros. Nunca falava das pessoas a que ajudara: os órfãos para os quais procurara um lar, as mulheres para as que encontrara trabalho, os homens aos que dera uma educação.

—Além disso, minha mãe fez o que pôde. - A voz de Hannah tremeu ao recordar aquele tempo tão funesto. - Estava morrendo.

—Exato. Fez o melhor para você, dadas as circunstâncias. - Ficou muito quieto para observá-la e sopesar suas reações, vendo a pena que a lembrança de sua mãe ainda despertava nela. - E se equivoca. Sua mãe sabia com exatidão o que eu queria de você.

Foi algo que arrumaram entre ela e minha avó.

Não pôde evitar zombar dele.

—Mas você, pobre cordeirinho inocente, não estava à par de seu plano.

—Na realidade sim estava à par. Me disseram que entraram em acordo que me casasse com você. Você tinha então treze anos, era uma menina agradável e bonita. Como boa lancasteriana de pura cepa, sua mãe gozava de uma saúde de ferro e uma grande fortaleza mental, e nos assegurou que seu pai também era assim. Embora seu nascimento não fosse trigo limpo, a ilegitimidade não era motivo suficiente para frustrar nossos planos.

Nunca ouvira a história de seu compromisso matrimonial. Nunca narrada desse modo. Nunca relatada de uma forma tão crua, com tanta indiferença, sem um ápice de consideração que a fizesse mais fácil de assimilar.

—Sigo sem compreender por que um homem adulto ia deixar que sua avó lhe arrumasse um casamento.

—Os casamentos acertados são uma tradição na família Pippard. Sempre têm êxito. - Sua boca esboçou uma careta zombadora. - Por que eu ia ser diferente?

—Porque as pessoas já não fazem essas coisas.

Soube que era uma estupidez no mesmo momento em que o disse, mas não pôde evitá-lo.

—Tolices, querida, claro que o fazem. Conviveu com a boa sociedade o bastante para saber quão ridículas são suas palavras e quão inocentes, - gargalhou com uma risada oxidada pelo desuso. - Ao menos em alguns aspectos não mudou nada.

"Sim mudei." Teria gostado de insistir em que ele mesmo reconhecia o muito que mudara mas, ao que parecia, Dougald acreditava que nesse aspecto não.

—Que um homem de vinte e um anos aceite ensinar e educar a uma mocinha de treze pelo único motivo de ter uma esposa à mão quando decidisse se casar ... resulta obsceno.

Dougald seguia sorrindo, se é que a aquele trabalhoso gesto de seus lábios podia chamar sorriso.

—Tem que admitir que a maioria dos casamentos se forjam com ingredientes que não são o carinho mútuo. A avareza, normalmente, mas em ocasiões a conveniência.

—A conveniência teria sido sua motivação - o acusou.

—E a sua também. Duvido que teria gostado que a puséssemos à pontapés na rua quando sua mãe morreu. - Dougald lhe devolveu a acusação.

—Você e sua avó não eram o tipo de gente que teriam me posto à pontapés na rua. - Fossem o que fossem Dougald e a senhora Pippard, tinha certeza que não teriam se comportado desse modo.

—Mas, embora me tivessem jogado, teria encontrado trabalho em qualquer outro lugar.

—Sempre estava tão convencida de sua própria infalibilidade.

—De minha infalibilidade? - Aquilo a surpreendeu. - Não, não acredito. De minha competência, sim.

—Pense. Pense agora, com a experiência do mundo que adquiriu em todos estes anos. O melhor que podia ter feito era te colocar como faxineira, com toda probabilidade na cozinha. Era bonita e refinada. Não teria sido como as demais donzelas, então teriam zombado de você. Os homens a teriam acossado. Todos os homens, dos lacaios até o amo e seus filhos. - Aquele tom tão duro e aquela voz rouca só podiam provir de um homem a quem repelia semelhante concupiscência.

Dougald a pressionou para que o admitisse. - Agradeça que te economizei tudo isso.

—Sem dúvida tem razão - reconheceu voluntariamente.

—E o agradeço, mas você nunca compreendeu que minha gratidão para você pela educação e a escola de senhoritas que me custeou podia ter correspondido com o suor de minha testa e não com o de meu corpo.

Naquele momento Dougald contemplou o corpo de Hannah e logo lhe proporcionou um olhar fugaz ao rosto que irradiava uma firme determinação.

—Nunca me perdoou que arrebatasse sua virtude.

Ela odiava que lhe falasse do dia que tanto se esforçou em esquecer.

—Eu era tão jovem, e você me arrastou com suas palavras lisonjeadoras e seus cuidados. - "Seus beijos", pensou.

—Tinha te informado do acerto e se dispunha a me abandonar. - Sua voz era apenas um sussurro. - No trem... se lembre do trem...

Avançavam com grande estrondo para o viaduto de Sankey, e ela inclinou a garrafa de vinho uma vez mais para provar os aromas de uva e carvalho, pensando que Dougald não bebera muito e ela esteve muito ocupada enchendo a pança.

Mas agora ao contemplá-lo de cima abaixo e vê-lo mordiscar a maçã, não dava a impressão de estar sedento. Em realidade, parecia não sentir falta de nada; era um homem apresentável, alto, bronzeado e atraente, o homem dos sonhos de qualquer mocinha.

Mas era muito velho para ela... o que teria? vinte e seis anos? E estava tão satisfeito e seguro de si mesmo...

Resultava frustrante que um homem de tão boa presença, um homem capaz de fazer cair rendida a seus pés a qualquer mulher, escolhesse uma pirralha com a que não precisava se esforçar.

Tal falta de vergonha era sem dúvida sinal de alguma marca espiritual.

—Que tipo de marca espiritual? - perguntou a cálida e profunda voz de Dougald.

Hannah pestanejou. Acaso falara em voz alta? Céus, bebera muito vinho!

—Certamente muito vinho - ele concordou. - Que tipo de marca espiritual padeço?

—Querer... se casar com uma mulher sem se incomodar de cortejá-la. - O constante e hipnótico olhar verde de Dougald a enfeitiçava. - Por que abandonou a emoção do cortejo?

—Acaso não a cortejei? - inquiriu Dougald muito sério.

—Isso não é o mesmo e você sabe - respondeu Hannah franzindo o cenho. - Vi como dirige seus negócios, é um competidor agressivo e arrogante, dos que crescem quando o contrariam.

Dougald respirou fundo, dilatando o peito por completo.

—Está me contrariando. Tem satisfeito minha fantasia.

—Vá! - Hannah tomou um gole da garrafa e a passou a Dougald. - De um modo totalmente involuntário, asseguro isso.

Dougald guardou os restos do almoço na bolsa, resolvendo o tema no momento. Se espreguiçou sem recato, desabotoou a camisa e esfregou o peito com o dorso da mão.

Hannah tampou os olhos com as mãos.

—Senhor Pippard, por favor, isto é indecoroso!

—Isto não poderia resultar indecoroso entre um homem e sua prometida - discordou ele com um sussurro indolente.

Hannah deixou cair as mãos e lhe lançou um olhar furioso.

—Sim o é e não pode pretender o contrário só por decreto próprio.

—A surpreenderia o que posso decretar. Trouxe uma manta?

—Não, mas teria gostado. Ao menos poderia se tampar decentemente.

—Se quisesse me tampar abotoaria a camisa.

E ficando de pé, tirou a camisa da cintura.

Hannah quis voltar a tampar os olhos, mas se o fizesse sabe Deus o que se atreveria a tirar desta vez.

—Estou procurando um travesseiro. Entre a comida, o vinho e o estalo continuado do trem me deu vontade de dormir uma sesta.

Desabotoou os últimos botões, e desabou sobre uma montanha de fardos de algodão. Apoiando a cabeça sobre sua camisa de flanela que previamente enrolara, cavou um pouco o algodão a seu redor até ficar a vontade e fechou os olhos.

—Como acaba de me recordar, eu não sou tão jovem como você.

—Vai derramar o vinho se não tomar cuidado.

Hannah piscou. A taça se inclinava perigosamente em sua mão, mas a endireitou em um alarde de reflexos. Agora desejava não ter apurado esse vinho, desejava não ter provado nenhuma gota.

E, além disso, teria desejado mil libras esterlinas, um cavalo próprio e, sobretudo, que essa expressão de suficiência se apagasse da cara de Dougald.

Enquanto separava de sua mente lembranças de outros tempos, punha uma cara de não pensar em nada salvo na discussão, que abandonara fazia tempo para se internar e vagar pelos becos de sua memória.

Procurou rapidamente um tema de conversação, algo que afastasse a atenção de si mesma e de sua tez avermelhada, e deu com a Academia de Instrutoras.

—Estes últimos três anos demonstraram que podia ter êxito. Então seu interesse por minhas possibilidades juvenis é de tudo desnecessário.

—Ter êxito sendo uma impostora não é nenhum triunfo.

Sua acusação a deprimiu.

—A que se refere com "impostora"? Não sou nenhuma impostora. Vivi no estrangeiro e em Londres como dama de companhia de lady Temperly durante seis anos. Fui uma boa administradora e uma boa assistente, e como tal me anunciei na academia.

—Não usou seu próprio sobrenome.

A indignação crescia nela.

—Os filhos ilegítimos não têm sobrenomes. Eu não tenho sobrenome, como bem sabe.

Em um momento, se levantou o véu do comedimento e Hannah pôde vislumbrar a besta feroz que se ocultava atrás da aparente calma de Dougald.

—Sim, tinha sobrenome. Te dei o meu quando nos casamos.

—E o agradeci muito - repôs laconicamente.

Estava agradecida a ele. Sua mãe sempre dizia que era viúva, mas a verdade as perseguia em qualquer lugar que fossem e logo Hannah ouvia as brincadeiras e as risadas.

O fato de que Dougald lhe desse de presente seu sobrenome foi um dos prazeres de seu casamento, e a primeira corrente da que teve que se liberar quando fugiu dele.

—Não era gratidão o que eu queria, eu queria... - elevou a voz, mas se conteve.

E ela retomou a frase onde ele a deixara.

—Já sei o que queria: amor eterno e entrega absoluta.

—Te dei muito em troca.

—Sim, quando se incomodava em pensar em mim, sim, me deu muito. Sempre e quando fizesse o que me ordenava, sim. Sempre e quando eu não exigisse muito nem esperasse que cumprisse as promessas que me fizera no dia em que me convenceu que me amava... então sim, me deu muito.

No tom cada vez mais elevado de sua voz, Hannah ouvia os ecos do passado e, pelo modo em que Dougald a olhava, pareceu que ele também os ouvia.

Devia se controlar, se não o fizesse, ele teria todas as armas para ganhar, como sempre ocorrera. Devia demonstrar maturidade, o fazer ver que já não poderia manipula-la por muito que brincasse com suas emoções.

Aprendera a dominar seus impulsos; a defunta lady Temperly a ensinara, e ela refinou seus métodos enquanto deu aulas a jovens raparigas na Academia de Instrutoras.

Hannah respirou fundo e devagar várias vezes, e percebeu o ligeiro aroma de madeira queimada e o aroma de couro da cadeira. Deixou que seu olhar vagasse pela sala e viu as amplas janelas obscurecidas, emolduradas por pesados cortinados de brocado e a malha de seda esmeralda e ouro que, mais acima, cobria as paredes e que evidentemente era nova. Aquela sala fora remodelada para a comodidade de seu amo.

Se aventurou a dirigir um olhar a ele.

Um amo que sabia muito bem o que queria e como conseguir. Enquanto ela esteve olhando a seu redor para afastar a ira de sua mente, ele a esteve observando.

Em algum momento tinha tirado o olho de cima dela desde que entrou naquela sala? Tinha a impressão que não. De modo que devia se comportar com grande sensibilidade e muita calma, pois do contrário entregaria a vitória de bandeja a Dougald.

—Se tivesse usado seu sobrenome ou o de minha mãe, partir teria sido uma tolice. Teria me encontrado em seguida - esclareceu, em um tom correto e ponderado.

—E teria economizado aos dois um montão de problemas.

—Teria economizado a você - repôs. - Não fui até... até que nosso casamento se converteu em um completo fracasso, até que me convenci que não tínhamos nenhuma possibilidade.

—Sempre tivemos uma possibilidade - replicou Dougald mal movendo os lábios.

—Tolice. - Empregou um tom razoável, como se explicasse uma situação com exemplos a um estudante particularmente obtuso. - Você nunca se incomodou em me escutar. Me dava um tapinha na cabeça e me dizia que você sabia melhor que eu.

Também podia ter saído a apregoar meu descontentamento aos quatro ventos.

—Eu a adorava.

—Eu não queria adoração, queria que minha vida tivesse sentido.

—A maioria das mulheres...

"A maioria das mulheres se sentiriam felizes ao estar ociosas." Quantas vezes ouvira isso antes? Levantou a mão para sossegá-lo.

—Por favor, não me venha com o mesmo argumento de sempre.

As feições de Dougald revelavam que começava a perder a paciência.

—Ia dizer... que a maioria das mulheres se sentiriam felizes ao estar ociosas, mas que eu deveria ter sabido que você era diferente.

O que queria dizer com isso? Estava admitindo seu equívoco depois de todos aqueles anos? Hannah o olhou, mas Dougald permaneceu ali sentado, com rosto severo e inexpressivo. Se realmente tivesse mudado tanto a ponto de admitir seu engano...

Voltou a olhá-lo.

Agora Dougald cravava o olhar em seus seios como se estivessem nus e não cobertos por múltiplas capa de roupagem.

Não, não mudara. E embora realmente tivesse mudado tanto para admitir seu engano, o fizera para ocultar uma segunda intenção. Não podia esquecer quem era ele. Não podia esquecer as duras lições que aprendera.

As pessoas não mudam.

E os homens eram como as pessoas, só que pior.

E Dougald..., ela riu baixo, era o homem por antonomásia[5]. Seguro de si mesmo até a medula. Dominante, porque se acreditava em posse da verdade. Criado por sua avó e seu pai na convicção de que a longa linha de seus antepassados triunfara porque eram superiores por natureza, e Dougald era o resultado final de todas aquelas gerações de alta linhagem. Nenhuma mulher tinha a mínima oportunidade contra aquele tipo de doutrinação.

E muito menos uma mulher que desconhecia a verdade que rodeava seu nascimento, que nem sequer sabia o sobrenome de seu pai. Fazia bem em recordar isso e em tentar não se fixar nas amplas costas de Dougald.

Assim iniciou de novo a conversação que começava a decair.

—Faz muito tempo vivi na cidade de Setterington com minha mãe. Era um formoso lugar, então tomei emprestado o nome.

—Com sua mãe você viveu uma temporada em todas as partes. - Dougald falava com seus seios como se esses pudessem lhe ouvir. - Por que não se fez chamar York ou Bristol ou East Little Teignmouth? Por que Setterington?

—Escolhi Setterington porque acreditei que você não sabia que vivera uma temporada ali.

—Não - reconheceu, apertando os punhos. - Não sabia.

Hannah se perguntou se aquela nova franqueza que nascia entre os dois os levaria a se compreenderem melhor ou, pelo contrário, os levaria a violência. Não conhecia este Dougald.

Procurou em seu rosto algo parecido ao Dougald de antigamente, mas aquela confrontação parecia um interrogatório entre carcereiro e preso, e sabia perfeitamente o papel que Dougald gostava de representar.

—Se tiver acabado de se queixar, eu gostaria de conhecer sua tia agora, caso exista tal tia - exclamou em um tom tão crispado como pôde articular.

—Minha querida Hannah, não mentiria para você em algo tão importante. - Dougald lhe permitiu mudar de tema sem pôr objeções. É obvio, considerou sua ação como uma recriminação. - Tia avó, em segundo grau.

—Não recordo que jamais mencionasse a semelhante tia.

—Claro que não. Somos parentes tão longínquos que eu mal ouvira falar dela. Mas tia Spring viveu no castelo Raeburn toda sua vida. - Dougald suspirou como se estivesse afligido. - Tia Spring e companhia.

—Companhia? - perguntou Hannah. - Que companhia? Não me informaram que teria companhia.

—Se trata de umas damas anciãs de natureza intrometida que herdei junto com o castelo.

—Ah! - compreendeu ao fim.

Se Dougald queria ganhar a simpatia das pessoas da herdade, não poderia jogar uma idosa do único lar que conhecera, nem a afastar de suas amigas.

Hannah o olhou com atenção e observou as rugas de amargura profundamente cinzeladas ao redor de sua boca e a severidade que emanava dele.

—Se supõe que tenho que cuidar de todas? - perguntou.

—Tia Spring é minha tia avó. Às vezes tem momentos em que faz o que lhe vem na cabeça, e gosta das rochas.

—Das rochas?

Dougald não se espraiou mais.

—As outras damas estão bem. Mais que bem. Gozam de boa saúde, salvo uma que sofre ligeira surdez, essa é a senhorita Isabel, que tem um telescópio para ver as estrelas.

—Estrelas.

—A senhorita Ethel cultiva flores.

—Cultivar flores parece uma atividade mais própria de uma dama idosa.

—Própria. - Dougald parecia estar dando voltas à palavra, até que sacudiu a cabeça. - Eu não diria "própria". A senhorita Minnie sofre às vezes um leve enjoo, e desenha. Todas bordam. - Juntou as pontas dos dedos.

—Não se importará de se ocupar destas damas, não é?

A estava testando, queria ouvir o que ela ia dizer!

—Não, absolutamente.

—Ao fim e ao cabo, quanto mais trabalho tem, mais feliz é.

—Tem toda razão. Obrigado por pensar em mim - ela espetou, esquecendo toda precaução com aquele novo Dougald.

Ele elevou uma comissura da severa boca; Hannah engolira a isca. Tinha-a cravado e ela reagira. Se aquilo tivesse sido um jogo, ele teria ganho. Se tivessem estado em guerra, teria entregue a arma com a que ele poderia disparar nela.

Devia ter mais cuidado. Devia recordar que, naquele momento, estava sob seu controle. Controlaria suas idas e vindas, seu trabalho e seu ócio. Ele era o amo e ela estava a seu serviço, ao menos até que lhe ocorresse a maneira de escapar dele.

Escapar de Dougald... parecia que em cada encontro Hannah tentava fugir dele. Ao olhá-lo naquele instante, fugir não lhe pareceu uma má ideia.

—É bom que tenha contratado alguém para que cuide delas - disse, fazendo ornamento de uma fria serenidade como se se tratasse de uma armadura.

Pensou que o tinha vexado perceber sua serenidade mas, antes que lhe desse tempo de verificar, o breve indício de irritação desaparecera do semblante de Dougald.

—Para mim não é nada bom - repôs. - São quatro mulheres excêntricas que estiveram me causando problemas desde que cheguei. O que quero é aplacá-las.

—Problemas? - Hannah rebuscou em sua mente. - Não mencionava nenhum problema em sua carta... mas não os teria então verdade?

—O último conde, que conseguiu sobreviver durante trinta e poucos anos, foi o irmão de tia Spring, e consentia a ela o menor desejo. Quando os desejos alcançaram proporções espantosas, as damas se voltaram ingovernáveis.

Hannah mal pôde conter um sorriso ao vê-lo tão desarmado.

—Pensei que só eram quatro.

—Me acredita digno de risada? - Dougald se levantou com uma parcimônia atroz.

Desapareceu toda diversão e Hannah ficou em pé para olhá-lo à cara.

—Digno de risada não, mas fala destas damas como se fossem um aríete de carga e você um portal assediado durante longo tempo.

Pela primeira vez desde que Dougald afastou o rosto da janela para olhá-la, Hannah já não lhe temia, se interrogava sobre ele, o observava fixamente; na realidade, temia que lhe proporcionasse um olhar cheio de ternura, pois não estava zombando dela nem lhe lançava olhadas desafiantes.

OH, não! Era muito pior que isso!

A olhava como se ela fosse um cervo despreparado e ele um lobo à espreita. Teria seguido o fio de suas reflexões e teria entrado em suas lembranças?

Ou talvez recordava outros tempos, tempos de paixão, tempos nos que se uniram, apesar das brigas e da infelicidade, porque não tinham mais remédio que obedecer a exigência de seus corpos?

Se tinha se informado sobre a Distinta Academia de Instrutoras, ao menos saberia as tribulações os desafios aos que teve que enfrentar. Sabia que era forte e dura, que não era a inocente rapariga que quase chegara a destruir.

Só... só que o modo em que ele a olhava não tinha nada a ver com os assuntos de negócios, nem com os anos que permaneceram separados, nem sequer com as mudanças que experimentaram seus corpos e suas mentes.

A olhava e parecia banhá-la no mais puro zelo animal. Dougald projetava uma enxurrada de lembranças... os fracos gemidos de Hannah, a paixão desesperada para ele, seus corpos nus na cama, em cima da mesa... no trem.

Qualquer problema que pudesse se interpor entre eles carecia de importância quando estavam um nos braços do outro.

Então Dougald fechou as pálpebras, como se quisesse ocultar seus pensamentos, e escorregou graciosamente para trás na cadeira.

—Claro que terá que cuidar das tias. Não acreditará que a trouxe até aqui para que me faça de esposa... em nenhum dos encargos de uma esposa? - declarou com uma voz cheia de aborrecimento.

Canalha. Trapaceiro, vagabundo, demônio.

Como se atrevia a desprezar suas conjeturas quando a conduzira a pensar exatamente isso? Lhe fizera engolir a isca, tentando-a com lembranças, a levando até onde ele queria vê-la, para demonstrar que Hannah ainda o desejava.

—Não se divorciará de mim - replicou, de um modo agressivo, talvez desacertado, mas necessário.

—Não. Não serei eu o primeiro em atrair semelhante desgraça à família Pippard.

—Então que outro recurso fica?

—Acredito que já sabe a resposta - respondeu, acariciando a suave madeira esculpida do encosto da cadeira. - Podemos seguir como até agora. Nunca revelarei a ninguém quem é e não poderei voltar a me casar.

Serei o último dos Pippard, e o título de conde de Raeburn passará a outro ramo da família. - Fez uma pausa, a espera de algum comentário.

Hannah sabia perfeitamente que ele não sofreria voluntariamente tais consequências.

—Que outras opções há?

—Podemos nos reconciliar - propôs com uma voz profunda e doce como a calda de açúcar que a acalorou.

Hannah respirou fundo e rápido olhando a todas as partes menos a ele.

—Ou temos uma terceira opção.

—Uma terceira opção? - A ela não ocorria nenhuma terceira opção. - Que opção?

—Todo mundo sabe que minha esposa está morta, então... poderia te matar.

 

Hannah ficou sem respiração. Olhava fixamente para Dougald, o zangado e hostil amo que acariciava o queixo com gesto absorto. O antigo Dougald nunca teria sido tão cruel, mas aquele homem falava de matá-la com uma calma que gelava o sangue.

—Te matar certamente resolveria todos meus problemas. Sempre e quando não me descobrissem, não me conduziria pior fama que a que já tenho agora. - Então se pôs a rir com uma gargalhada áspera e malévola.

—Claro que o menciono somente como uma de nossas opções. Na realidade eu nunca te faria mal... meu amor.

Porco! Brincar sobre sua morte essa noite, na primeira vez que se viam depois de nove anos! Memorar a fria tumba enquanto a névoa formava redemoinhos fora e a única pessoa que conhecia sua verdadeira identidade e sua procedência era o próprio homem que a ameaçava. Se necessitava alguma prova que ele não a queria, de que nunca a desejara, aí tinha suas palavras e sua risada.

Bom. Não pensava ficar ali sentada e permitir que a torturasse. Depois da tortuosa viagem, o mero fato de vê-lo resultara um golpe terrível para ela.

Já tinha o bastante. Bastante de suas ameaças, seus escárnios, suas provocações, suas reminiscências. Queria correr para ele, lhe soltar uma boa reprimenda e lhe demonstrar quão equivocado estava se pensava que podia humilhá-la.

A ela, a diretora da Distinta Academia de Instrutoras e a empresária que conduzira à escola ao êxito!

Já basta de estar assustada. Não temia ninguém. E muito menos de um homem, um covarde que a espreitava, que a ameaçava fazer cumprir suas obrigações maritais sem desejar, que se divertia a intimidando!

—Nem sequer sonhei com você.

Hannah avançou com passo decidido até sua cadeira e o olhou de cima. Dougald levantou a cabeça e lhe devolveu o olhar.

Bonito? Já não o era, mas possuía uma rara intensidade, algo que o inflamava com... uma emoção. Talvez fosse ardor. Talvez o odiasse. O mais seguro é que nunca chegasse a saber.

As paixões que viviam nele estavam agora submetidas, amarradas com uma corda muito curta.

Masculino? Sim, as sombras e as luzes que as velas projetavam esculpiam suas feições, arrebatando toda sua amabilidade, toda ternura, todo traço suave... salvo sua boca.

Essa boca... os lábios possuíam uma brandura de manteiga, aveludados e sedosos, sobretudo quando lhe beijavam no pescoço, nos seios, nas coxas.

Alto? Sim, mas ela também era. Quando se casaram, receberam juntos as felicitações dos convidados que não deixavam de lhes dizer que faziam muito bom casal.

Alguns cavalheiros algo achispados e indiscretos lhes diziam entre gargalhadas que iam ter uns filhos muito bonitos.

Não tiveram filhos. Ela o abandonou antes de os ter, muito consciente que um filho a ataria ao homem que a manipulara, que a decepcionara. Não, durante os longos anos que passou sozinha não pensou nenhuma só vez nele.

E com muito bom tino, pois sabia que isso só a conduziria as lágrimas.

Sim, esse era Dougald e não ia ter medo dele.

—Se não quer que seja sua esposa por que me trouxe até aqui? - perguntou a ele apoiando o joelho no assento entre a coxa de Dougald e o braço da cadeira.

Ele a observou como observaria um gato ao que irritara, com precaução embora sem remorso. Pois que dano podia um gatinho causar a ele?

Se equivocava; ela era forte, também podia o provocar, ameaçar e intimidar. Melhor ainda, podia fazer que a desejasse e assumir o comando.

—Quero a você - respondeu, - para que cuide de minha tia.

—Podia contratar uma mulher dos arredores. - Pôs a mão no ombro dele, se inclinou, se aproximando muito, e teve o grande prazer de sentir como ele se retirava um pouco para trás. Seu repentino ataque conseguira o desconcertar um pouco.

—Se incomodou muito para conseguir que viesse até aqui.

—Talvez tenha me tornado mesquinho com os anos. Ao fim e ao cabo, a minha esposa não tenho que pagar.

O fôlego de Dougald acariciava sua cara e notava o calor ardente que emanava seu corpo através do colete, enquanto as mãos descansavam nos braços da cadeira, aparentemente em repouso, aparentemente desinteressado em se levantar para o corpo que tão perto estava do dele.

—Isso é um trabalho de escrava - o acusou.

—Quase tão bom como qualquer um - repôs. - O amoroso trabalho de uma esposa.

Criatura sarcástica! Mas não temia enfrenta-lo.

—Ou talvez tem algum outro plano...?

—Algo é possível - repôs em um tom vagamente aborrecido. - Mas o que é seguro é que terá que ficar, terá que trabalhar e não saberá quais são meus planos até que eu queira contar.

—Talvez sim, - se inclinou, o bastante perto para o olhar diretamente aos olhos, o bastante perto para que seus lábios quase se beijassem.

—Talvez não. Então ela percorreu a pouca distância que os separava e o beijou.

Hannah saboreou a surpresa em seus lábios. Bom! Bom. Conseguira apagar de seu rosto aquela maldita suficiência com seu movimento inesperado. Que inclusive o pegara despreparado.

E seus olhos piscaram até fechar.

Os lábios de Dougald não mudaram; eram suaves, generosos e sensuais. Desde mocinha passava horas explorando-os, tentando descobrir por que a fascinavam tanto seus beijos. Nunca averiguou e agora, enquanto posava os lábios nos dele, se perguntava se na realidade os provara. Abriu os lábios sobre os dele, o convidando a entrar. Se resistia, Hannah pensava tomar a iniciativa, se internaria naquela caverna perfumada de vinho e lhe demonstraria o que valia sua esposa...

Não, não devia fazê-lo. Isso os conduziria até lugares que ela não queria pisar. Em troca se manteria alerta, recordaria o impulso que a levara até ali e compreenderia que estava fazendo um esforço para levar a voz cantante.

Ignorou inclusive sua própria respiração agitada, as leves pérolas de suor que aquele contato originara nela e simplesmente acariciou a cara dele com a mão. Ao lhe acariciar com suavidade notou que raspara o queixo.

Se barbeou pouco antes que ela chegasse, porque a habitual barba negra não era mais que uma pelúcia aveludada sob o roce de seus dedos. Uma pelúcia na ampla mandíbula. Estendeu os dedos, procurando ampliar a carícia e chegou até a maçã do rosto.

Deslizou o polegar por cima, uma, duas vezes. Sempre teve uma pele suave, que dava gosto acariciar. Esfregou-lhe uma orelha com a ponta dos dedos, seguindo cada curva, segurando o lóbulo e lhe dando uma leve massagem.

Notou que o ombro de Dougald se contraía debaixo de sua outra mão. Sim, sempre o perturbava que acariciassem a orelha. Sempre atraía seu corpo para o de Hannah.

Hannah interrompeu o beijo e ficou em pé. Devia ser prudente. Precisava aproveitar a oportunidade com bom critério.

Dougald não se levantou atraído para ela. Não se moveu nem um ápice. As mãos ainda descansavam nos encostos da cadeira e a coxa ainda pressionava contra o joelho de Hannah, ainda a olhava, não deixava de olhá-la.

—Quer que pare? - perguntou notando os lábios cheios.

—Não.

—Isto é uma loucura.

—Ao inferno a prudência! - exclamou em um arranque de sinceridade.

Sim, talvez tivesse perdido o juízo, mas eram dois loucos arrastados para o mesmo desvario.

Nasciam neles incontroláveis emoções que os arrastavam para mares de paixão e, por muito que quisesse fazer o contrário, Dougald reagia ante os estímulos de Hannah. Ao menos, nesta ocasião, sua disciplina não bastou para evitá-lo.

Hannah deslizou a mão pelo cabelo dele, das têmporas até as sedosas mechas. As levantou com os dedos; eram mechas brancas. Santo céu!, mechas brancas se mesclavam com o reluzente cabelo negro, e só tinha trinta e seis anos!

Imaginou que podia notar com os dedos a diferença de cores. Na realidade o que podia notar era dor, solidão, naufrágio.

Sofrera Dougald? Isso ela esperava!

Apartando o cabelo do seu rosto, se inclinou outra vez para ele. Seus lábios eram... tão doces. Excepcionalmente doces para um homem tão amargo. Com os olhos e os lábios fechados, quase podia saboreá-lo através do ligeiro roce de seu fôlego.

Quase saboreá-lo...

Mas não se conformava com isso, assim brandamente abriu os lábios em cima dos de Dougald, lhe mostrando o caminho, tentando sua boca aberta.

Era um estudante muito avançado, disposto a seguir seu exemplo, como se nunca tivesse feito aquilo antes, nunca a tivesse seduzido, nunca a tivesse feito gemer de prazer para poder dobrá-la a vontade...

Maldito Dougald! Seus dedos se crisparam no cabelo, com a outra mão apertou forte o ombro, e lhe colocou a língua na boca, dando a satisfação de dominá-lo.

E ele... Dougald não ia resistir aquele embate. Claro que não. Respondeu da mesma maneira, afundando a língua na boca dela, disputando com ela o domínio da situação. Agarrou-lhe a cintura com as mãos e a segurou forte.

Como se ela fosse tentar fugir naquele momento! Quando o tinha precisamente onde o queria ter, debaixo dela, beijando-a a instâncias delas. Hannah tomara a iniciativa. Que tentasse tirar-lhe.

Uma voz firme, fria e desaprovadora os interrompeu, para o estupor de Hannah.

—Vamos ter que vigiar a esses dois.

 

Perplexa, Hannah interrompeu o beijo. Olhou Dougald aos olhos. Em um momento de descuido viu paixão e fúria. Logo Dougald piscou e... Nada. Não pôde ler nada neles; se experimentara alguma emoção, a que fosse, ocultou bem.

Deliberadamente Hannah apagou a expressão de seu rosto, clareou a mente e dirigiu o olhar para a procedência da voz.

Na soleira estavam detidas quatro anciãs de diversos tamanhos e formas, observando Dougald e a Hannah com expressões que oscilavam entre a desaprovação e o mais vivo interesse.

—Que alívio! - exclamou em voz alta uma cara redonda de tez morena. - Fazia quase um ano que o querido Dougald não mostrava o menor interesse pelas mulheres. Tinha começado a me perguntar se gostava mais do pescado que a carne.

—Isabel, olhe os modos! - comentou uma dama de cabelos brancos sacudindo a cabeça a modo de reprovação.

—Você também tinha suas dúvidas, Ethel!

Em comparação, o cabelo de tia Isabel era completa e suspeitosamente negro.

—Sim, mas eu não o teria dito abertamente.

—O mais seguro é que não tenha me ouvido.

—Teria que estar surda para não te ouvir.

—Ora!

Enquanto brigavam como crianças, Hannah se separou de Dougald - agora que o pensava com maior frieza, seu plano de vingança lhe pareceu uma má ideia, destinada ao fracasso, - e baixou o joelho para pôr os dois pés no chão.

Dougald se levantou sem se ajeitar, embora tivesse o cabelo completamente revolto.

—Boa noite, senhoras - saudou, avançando para elas, sério, alto e aparentemente imperturbável depois de ser surpreendido beijando uma estranha.

—Como está, querido moço? - A diminuta dama de cabelos cinza ficou nas pontas dos pés. Dougald se inclinou, a beijou na face e deu uns leves golpes na cabeça. - Lhes contei o feliz que me faz ter aqui a meu sobrinho por fim?

—Muitas vezes, tia Spring.

Hannah reconheceu a voz profunda e repressora. Pertencia à dama que os admoestara. Tinha o cabelo branco recolhido em um precioso penteado e sobressaía sobre a diminuta tia Spring, tanto em altura como em largura.

Não é que fosse gorda, mas tinha ossos grandes e costas amplas, o tipo de mulher que teria sido uma perfeita enfermeira.

—Mas, senhorita Minnie, tia Spring pode me repetir isso tantas vezes como queira. - Dougald fez uma reverência a ambas. - É um prazer ser tão queridíssimo para minha tia avó.

A senhorita Minnie resmungou.

Tia Spring a beliscou frouxo no braço.

—Vê, querida? É meu querido moço.

—Sim, é. - A senhorita Minnie não é que falasse, mas sim decretava, e entrou na sala como uma fragata a todo vapor. - Boa noite, Dougald!

Dougald inclinou a cabeça ante ela, logo à dama de olhos pestanejantes e com uma boca feita para sorrir que duvidara em voz alta de sua masculinidade.

—Boa noite, senhorita Isabel.

A pele escura e os traços angulosos fizeram Hannah suspeitar que era espanhola ou italiana e, de fato, detectou um leve acento latino em sua voz grave e apagada.

—Dougald querido, já te disse que me chame tia Isabel. Todo mundo me chama assim. - Admoestou tia Isabel e, enquanto retorcia a orelha de Dougald, fez uma piscada a Hannah. - Você também, querida.

Hannah conteve o estalo de hilaridade que lhe subia pelo peito. Ou lhe estavam dando tempo para que recuperasse a compostura ou sempre eram tão esmagadoramente impetuosas.

A dama de cabelos brancos entrou na sala como uma exalação. Se deteve ante o vaso que Charles mudara de lugar e devolveu as flores a sua posição original, tudo isso sem deixar de falar nem um segundo.

—Dougald, viu meu ramalhete de rosas? Você disse que se as colocávamos neste canto onde o sol bate nelas floresceriam e hoje, inclusive com este mau tempo, teríamos as mais belas rosas amarelas.

—Boa tarde, senhorita Ethel - disse Dougald inclinando a cabeça.

—Tia Ethel, por favor. As pétalas mal estão despontando, sabe?

Parecia requerer uma resposta a aquela conversação botânica, mas a senhorita Minnie já se voltara para Hannah.

—É esta a moça que se supõe que tem que cuidar de Spring?

—Sim, é - confirmou Dougald. - Tia Spring, a senhorita Hannah Setterington será sua nova dama de companhia.

Hannah lhe fez uma reverência.

—É uma honra conhecê-la, senhora. E a todas suas amigas também.

Tia Spring se aproximou com passos saltitantes, e os saltos repicaram no chão de madeira.

—Caramba! Você é muito bonita.

—Obrigado, senhora - murmurou Hannah.

—Me chame tia Spring. - Colocou as mãos a ambos os lados da cara de Hannah e a voltou para ela. - Que alta é!

—Sim, senhora.

Era quase trinta centímetros mais alta que tia Spring, quase cinco centímetros mais alta que a senhorita Minnie e uns treze centímetros mais alta que as demais damas, e isso que elas eram de uma estatura normal.

—Quando eu era jovem, o que mais queria era ser tão esbelta como você. - Tia Spring deu uns tapinhas nas faces de Hannah. - Mas Lawrence me amava tal e como eu era, e ele sim que era um homem arrumado.

—Lawrence?

Hannah pensava que tia Spring era solteira, uma a mais da legião de garotas que cresceram sem ter a sorte de possuir um bom dote e atrair um pretendente.

—Meu amor querido. O mataram na guerra da Independência espanhola antes que pudéssemos nos casar. - O rosto alegre de tia Spring escureceu. - Foi ha muito tempo, mas sabe?, ainda sinto falta dele.

Ainda me parece o ouvir pronunciar meu nome e quando me volto, não está.

—Bobagens e fofocas - comentou tia Minnie.

—Não, não o são. - Tia Spring não hesitou em contradizer a sua formidável amiga. - Ele sempre está comigo, estou segura, só que não posso vê-lo. Não é incrível e maravilhoso pensar que um amor pode durar eternamente?

Hannah levantou o olhar para Dougald. Uma grande satisfação enquadrava sua boca quando a olhava junto a tia Spring.

—Alguns amores duram eternamente - corrigiu Hannah. - Outros se machucam, se descuidam e ressecam como uma maçã.

—Você é muito jovem para ser tão cínica. - Tia Isabel se aproximou. - Como chegou a desenvolver semelhante atitude?

—O mais seguro é que tenha estado casada - opinou tia Ethel. - As mulheres se voltam cínicas quando estiveram casadas.

—Os homens também se voltam cínicos quando estiveram casados - repôs Dougald.

—E por que você teria que ser cínico? - perguntou tia Isabel. - Você assassinou sua esposa.

Aquilo causou uma verdadeira comoção em Hannah. Pela primeira vez ouvia os cargos verbalizados, e nunca teria esperado os ouvir de tão inofensiva fonte. Olhou para Dougald, mas parecia impassível.

O teriam acusado tantas vezes que já não se importava? Ocultava aquele estoicismo uma necessidade de se defender?

A teria amedrontado porque o amedrontaram outras tantas vezes?

—Desconcertou à senhorita Setterington - disse a senhorita Minnie.

—Além disso, Isabel, querida, sabe que decidimos que era um conto maravilhoso, mas que ele não o fez. - Tia Spring deu uns tapinhas no braço de Hannah. - Não deve temer que a assassinem em seu leito. Isto é muito seguro com Dougald ao leme.

Todos os assassinatos ocorreram antes que ele chegasse.

—Os assassinatos? - replicou Hannah com temor.

—Se refere às mortes dos anteriores senhores - informou Dougald.

Com esse gosto latino pelo drama, tia Isabel não fez conta.

—Senhoras, vocês são quem tem decidido que Dougald era inocente, não eu. Acredito que é maravilhosamente misterioso que tenha matado sua esposa. Lhe dá um ar ameaçador. As coisas seriam muito aborrecidas aqui sem um pingo de perigo. - Mudou o tom de ameaçador a evidente. - Além disso, provavelmente tivesse razão. Deus sabe que eu mesma muitas vezes quis liquidar ao velho ogro com o que me casei. - E se dirigindo a Hannah prosseguiu.

—Nunca se case com um homem que a distancie de sua família por que fará com você o que deseja e ninguém poderá impedir.

—Prometo que não o farei - repôs Hannah.

—Meu velho ogro se divorciou de mim. - Os olhos de Ethel se alagaram de lágrimas. - Sabe os desgostos e o dinheiro que custa um divórcio? Deve ser aprovado por lei pelo Parlamento, sabia?

—Isso tinha ouvido - murmurou Hannah.

—Mas pôs tanto empenho em se desembaraçar de mim que o pagou com muito prazer. - Suas lágrimas secaram e piscou com energia. - Agora está vivendo com essa senhoritazinha que antes era minha garçonete.

Provavelmente morrerá na cama e a morte não conseguirá apagar o sorriso do seu rosto.

—Não há maior louco que um velho louco, eu sempre digo - proclamou a senhorita Minnie ao mesmo tempo que assentia com a cabeça.

—Senhoras, podem estar seguras que nunca sucumbi às tendências assassinas - Dougald dirigiu um olhar intenso a Hannah, - por muito que a pessoa com a que esteja tratando o mereça.

—Veem, queridas - tia Spring disse com gosto. - Ele não o fez.

—Vamos, não ia admitir tê-la matado, não é? - exigiu tia Isabel.

Tia Ethel o olhou pensativa.

—Nunca antes o negara e realmente parece um assassino.

As demais damas o negaram a gritos.

Hannah recordou a hilaridade que modelava os traços de Dougald quando sugeriu que podia matá-la e resolver assim seus problemas.

—Sim, parece - insistiu tia Ethel com teimosia. - E se não, olhem seu gesto meditabundo. Esteve encerrado em si mesmo desde o dia em que chegou aqui. Não é que me queixe, que fique claro, Dougald querido.

Dougald assentiu como se já tivesse ouvido aquilo antes.

As damas falavam diante de Dougald e Hannah como se não estivessem presentes. Parecia que por levar tanto tempo nele, as tias formavam parte do mobiliário do castelo, e os usos e maneiras comuns já não se aplicavam a elas. Ou talvez consideravam a outros só fugazes interrupções no longo trajeto de suas vidas. Certamente Dougald atuava como se tudo funcionasse à perfeição; dava a impressão de estar acostumado ao bate-papo, as contradições e a esmagante franqueza que gastavam as velhas damas.

—Morro por um homem que passe a vida meditando realmente bem - exclamou tia Ethel. - Podia vir e meditar em meu dormitório todo o dia.

—Ethel! - A senhorita Minnie parecia sinceramente horrorizada.

A senhorita Minnie era a mais velha. Apesar de seu tamanho impressionante e sua postura erguida, provavelmente fosse dez anos mais velha que as demais, e Hannah estimou que tia Spring, tia Ethel e tia Isabel andariam pelos sessenta bem cumpridos.

A diferença de idade afastava tia Minnie do resto, talvez não fosse só pelos anos mas sim pelo ponto de vista.

—Que tenha neve no telhado não significa que não ponho o fogo no forno! - replicou tia Ethel.

Hannah não sabia se ria ou desmaiava, assim não fez nenhuma das duas coisas e se comportou como se estivesse acostumada a participar daquelas conversações.

—Sim, mas já sabe que estes jovenzinhos não querem ouvir conversa mole.

As damas anciãs ficaram em silêncio e olharam para Dougald e Hannah.

Ao que parece Dougald decidiu que Hannah já fizera uma ideia suficientemente clara das provocações as quais deveria enfrentar, pois aproveitou a pausa.

—A senhorita Setterington me contou que estava acostumada a desenhar roupa - disse em um tom absolutamente neutro.

Hannah fulminou Dougald com o olhar. Não gostava de pensar nisso, recordar como utilizou seu inocente sonho de possuir uma loja de modas para apanhá-la no casamento.

O trem estralava debaixo dela e Hannah se sentava muito rígida em seu assento, sem prestar atenção à forma descamisada e recostada de Dougald.

De repente lhe vieram à memória as sérias advertências da senhorita Blackmoor sobre o que ocorria às garotas que relaxavam na presença de um homem, e sobretudo às que tivessem a ousadia de se deitar.

O qual era muito tentador depois da comida, o vinho e o estalo continuado do trem... Quando Hannah tinha doze anos e sua menstruação chegou pela primeira vez, sua mãe lhe explicou com calma e de modo muito explícito os fatos nus da reprodução humana.

Mas Hannah não recordava ter ouvido nada a respeito daquele rubor nervoso que Dougald lhe provocara com seus olhos verdes como o mar, sua voz profunda e sua etiqueta relaxada. Sempre menosprezara o tolo palavrório das meninas, mas não tinha nem ideia de por que sentia aqueles calafrios na pele, por que acelerava sua respiração nem por que de repente sentia a deliberada urgência de danificar a perfeita manicure de suas unhas mordendo-lhe até a raiz.

Não tinha nem a menor ideia.

Não é que Dougald o fizesse de propósito, é que não se dava conta de quão sedutora sua atenção podia resultar a uma moça que não tinha nenhuma experiência com os homens. Não podia ser tão porco para seduzi-la deliberadamente.

Dougald queria se casar com Hannah e a mãe lhe dissera que todos os homens queriam se casar com mulheres que se mantiveram incólumes ante os instintos mais vis.

Assim não podia estar interessado em atrair Hannah, utilizando sua própria curiosidade e ignorância contra ela.

Por que não lhe ocorrera comprar uma manta? Dougald a poderia estar usando de travesseiro e ela não teria tido que estudar a paisagem com tanta fruição para despistar seus traidores olhos e evitar que estudassem aquele peito, esculpido e modelado pelo trabalho e o exercício, e aquelas costas maravilhosamente largas. Aquele torso nu e moreno era muito tentador para uma moça que tinha passado a infância e a adolescência privada dos afetos mais básicos.

Uma moça que, até ha trinta minutos, ria da tentação irresistível.

Por sua própria paz de espírito era melhor não ver aqueles olhos arteiros que se abriam somente um pouco para comprovar que ela se sentia incômoda e logo se fechavam com satisfação.

—Que trabalho é esse que quer fazer?

Hannah deu um salto e esfregou as mãos suarentas contra as calças.

—Quero abrir uma boutique - murmurou como resposta.

—O que? Não a ouço. - Dougald estirou o pescoço, tentando captar as palavras de Hannah.

—Eu disse que quero abrir uma loja de roupas sob medida - gritou, repentinamente furiosa.

—Ah! - Deixou cair a cabeça para trás e resmungou: - Não precisa gritar. Não é uma ambição tão espetacular. Como o dizia tão encolhida, pensei que queria desenhar saias para damas escocesas com o traseiro nu.

—Não há suficiente demanda - soltou, embora um segundo mais tarde se horrorizou de sua própria resposta.

Dougald sorriu com um atraente e perverso sorriso.

—Teria se você as fizesse.

O que imaginou era quase um elogio.

—Também pensava que sua maior ambição na vida era formar parte de uma família.

Ficou gelada.

—E você o que sabe?

—Era uma moça discreta, mas quando olhava às famílias que se sentavam juntas na igreja, o desejo aparecia em seus olhos.

O odiava por ter se dado conta disso. Odiava a qualquer que notasse o muito que desejava ter pais, avós, irmãos, a qualquer que a recordasse que estava sozinha. Em sua experiência, as pessoas riam dos bastardos que perseguiam o inalcançável.

Mas Dougald não estava rindo. Tinha os letais olhos verdes e ouro fechados e os músculos relaxados. Não atuava como se lhe parecesse raro que sonhasse ter uma família. Deu uns leves golpes às bolas de algodão que tinha a seu lado.

—Mas suponho que quer realmente ter uma boutique. Por que não me conta isso?

Sua coragem começava a fraquejar outra vez.

Se arrastando pelas tábuas estilhaçadas, se sentou a seu lado com as pernas cruzadas, embora não muito perto, e lhe contou seus planos.

A princípio com voz entrecortada, logo com maior integridade, contou quão boa era em todo tipo de trabalhos de costura.

Podia levar a lã da ovelha até o tear. Sabia como fazer ou adaptar um padrão, como marcar e cortar, como costurar a costura mais delicada.

Adorava os trabalhos de agulha e o bordado, a agulha de crochê e a renda. Os vestidos que criara e sua costura eram obras de arte e adorava.

O olhou relaxado e viu seu sorriso. Aquilo não podia ser bom.

—Retornaria comigo se a ajudar a conseguir sua loja? - perguntou Dougald.

Com as mãos no colo se preparou para rechaçar ao diabo.

—Posso trabalhar, posso economizar. Posso ter minha própria loja... com o tempo. Não o necessito para isso.

—Sou um bom empresário e você tem o entusiasmo e o conhecimento para que suas empresas sejam um êxito. E se eu puser o dinheiro?

O rosto de Hannah se iluminou e se sentou erguida.

—Me faria isso? O devolveria com acréscimo, eu asseguro.

—Minha esposa não teria que me devolver isso embora a loja fosse um fracasso.

Deveria ter se dado conta que era uma armadilha. Sabia que era uma armadilha mas tinha a esperança de estar equivocada.

—Minha loja não será um fracasso. Tenho contatos entre minhas companheiras de curso e seus pais, e sou uma dama muito decente, se gabarão de ir para mim. Tenho habilidade para o desenho e boa cabeça para os negócios - e concluiu com energia,

—mas não me prostituirei por uma boutique. Já estou em dívida com você.

—Não estou pedindo que se prostitua. Estou pedindo que se case comigo. - O desespero raspava sua voz como uma lima.

—Não temo o trabalho duro. Sei como viver quase sem nada e abrirei minha própria loja. Não vejo nenhum motivo para mudar meus princípios por dinheiro.

Um leve e sinistro sorriso apareceu em um canto de sua expressiva boca.

—Seguro?

Dougald punha Hannah nervosa enquanto examinava seu rosto, seu queixo tremia com um ataque de precaução tardia, e seus dedos também tremiam insistentemente.

Dougald olhou seu pescoço, o rubor que desfigurava a pálida pele de seu seio ali onde a blusa de fio de lã ficava inesperadamente baixa. A observou muito bem.

—Não quero me casar com você - soltou a queima-roupa.

—Não quer? - voltou a lhe perguntar.

E, paralisando-a com seu olhar sustentado e sem pressa, se sentou. Estendeu a mão, muito devagar e a agarrou pelos braços. Com cuidado e lentamente a atraiu para que pudesse se deitar no vão quente que ele acabava de deixar no algodão, de modo que a cabeça dela descansasse em cima de sua camisa. Logo muito, muito lentamente deitou com o peito sobre o dela e os quadris junto aos dela, uma coxa entre as pernas dela e o rosto quase pego a ela.

—Nunca a beijaram - disse, com a cara tão perto da sua que sentia seu fôlego enquanto respirava.

Como ocorrera aquilo? Foram aqueles maravilhosos olhos de jade que a hipnotizavam, a atraíam e a tranquilizavam. Foi seu modo de se mover, seguro e precavido, sem um movimento súbito que a sobressaltasse.

Nenhum outro homem podia tê-la feito passar de uma posição sentada a outra deitada, de um furioso desafio a uma furiosa excitação, de uma fúria entrecortada a uma entrecortada curiosidade.

Tia Spring sacudiu com cuidado o braço de Hannah para captar sua atenção.

—Querida, você é boa com a agulha? Porque nós, minhas amigas e eu, temos uma oficina preciosa. A melhor habitação da ala oeste, onde lhe prometo que não teve lugar nenhuma tragédia.

Hannah não tinha nem ideia a que se referia.

—Isso está muito bem.

—Eu também acredito! E tem muito boa luz.

—O qual é muito importante - disse Hannah.

—Sim, eu não vejo nada na metade das vezes - repôs tia Spring.

A senhorita Minnie suspirou.

—Isso é porque tem que pôr os óculos.

Os olhos de tia Spring se abriram como pratos.

—Eu não uso óculos.

Ninguém disse nada, então Dougald se inclinou para frente e levantou os óculos que penduravam de uma corda ao redor do pescoço de tia Spring.

—Aqui estão, tia.

Com uma vaga expressão de surpresa, tia Spring agarrou as alças com dois dedos.

—OH, obrigado, Dougald! Estive procurando eles por toda parte. - Sorriu a seu sobrinho. - Já disse quão feliz estou de ter a meu sobrinho aqui por fim?

Hannah caiu na conta de que aquele era o tipo de desorientações que levara Dougald a procurar uma dama de companhia para sua tia. Tia Spring não estava louca nem senil, mas era esquecida e talvez caprichosa.

—A verdade, tia, é que me alegro de estar aqui com você. - Se voltando com graça para Hannah, Dougald a utilizou para distrair a atenção de tia Spring. - Eu disse às tias que era você uma perita costureira.

Hannah sentiu ressentimento contra ele por utilizar aquela informação para manipulá-la.

—Sou boa com a agulha, senhora, mas já não desenho roupa - contou a tia Spring e logo, olhando Dougald com muita intenção, prosseguiu: - Meu principal critério para a moda é que não uso nada chamativo.

Se a ideia de Hannah vestindo uma roupa simples o desagradou, dissimulou muito bem com uma deliciosa reverência.

Realmente necessitava que lhe dessem uma lição. Várias lições. Lições sobre as mulheres, sobre as esposas, sobre o respeito e a filantropia pela filantropia.

Mas Hannah não se dignaria a ilustrá-lo. Por muito que se orgulhasse de ensinar o impensável, por muito que a atraísse a imagem de Dougald se dobrando ante sua sabedoria, sabia que ele era muito obstinado, e não cairia na tentação de instruí-lo.

—Muito inteligente por sua parte. - Tia Spring cravou seus grandes olhos castanhos em Hannah. - Agora mesmo uso umas ligas com rendas e me ardem de um modo atroz. E para que?, se perguntará. Nenhum homem me olhou as meias em trinta anos.

Uma risada escapou de Hannah.

—Mas não deveria lhe dizer isto, não é? Sou uma solteirona e é meu dever servir de bom exemplo para vocês as jovens.

—Mas se tiver mentido a respeito de suas ligas, isso tampouco seria um bom exemplo, querida. - As mãos de tia Ethel revoaram para sua boca. - Mentir é um pecado.

—Spring não mentiu sobre suas ligas - se apressou a afirmar a senhorita Minnie. - Não deveria ter falado delas.

—Sim, mas querida, só estava mantendo uma conversação com a senhorita Setterington. Tenho que dizer algo a nossa querida menina para que se sinta como em sua casa.

—A senhorita Setterington não deveria ter mencionado roupas que provoquem incômodos. - A senhorita Minnie levantou o impertinente queixo e deu um repasse a Hannah. - É evidente que não é do melhor berço.

Hannah deu um salto quando colocaram o dedo na velha chaga.

—Asseguro, senhorita Minnie, que só permitiria que uma mulher de bom berço cuidasse de minha tia - repôs Dougald, com uma pronunciada frieza na voz.

—É obvio - ratificou tia Spring.

Hannah se perguntou se ele acreditava que ia estar agradecida a ele por ter saído em sua defesa, quando na realidade ela nunca teria sido tão escandalosamente franca se ele não a tivesse provocado.

Mas não, mantinha uma atitude distante com respeito ao enlouquecido rumo que tomava a conversação. A Dougald importava um cominho seu agradecimento, simplesmente não gostava que pusessem em posição de julgamento sua escolha de uma dama de companhia.

—Minnie, você sempre está pendente do decoro das frases e não pensa na bendita mensagem. - Os olhos azuis de tia Ethel pestanejaram com força. - A senhorita Setterington parece uma mulher adorável, e costura, o qual é da maior importância para nós.

O que ocorre é que está ciumenta porque sofre esses desmaios e não pode seguir dando ordens sozinha.

A tez da senhorita Minnie se voltou branca e se afundou na cadeira.

—Olhem isso. - Tia Ethel era todo interesse e atividade. - Lhe deu um desses desmaios agora mesmo.

Enquanto tia Ethel movia os sais sob o nariz da senhorita Minnie, tia Isabel sorriu a Hannah e assentiu.

—Odeio quando me caem as ligas até os tornozelos, você não?

Tia Spring tirou uma manta e a colocou sobre os ombros da senhorita Minnie.

—Se atasse isso como a ensinei, Isabel, não fariam esse ruído tão horroroso nem lhe cairiam!

—Senhoras! - A senhorita Minnie protestou fracamente. - Recordem que há um cavalheiro presente!

Hannah esqueceu seu ressentimento para Dougald e o olhou com uma irrefreável hilaridade. Ele ainda estava ali plantado com as pernas separadas, observando às anciãs damas com cautelosa fascinação.

Não era de estranhar que desejasse ajuda com sua desorientada parente longínqua e sua corte de amigas.

Hannah o olhou aos olhos e por um momento foi tal como era no princípio de seu casamento. Compartilhavam um calado júbilo e logo... logo não sabia o que ocorrera.

A confusão das vozes das damas se extinguiu, a luz se apagou. Para ela não existia nada mais que o firme olhar de seus olhos, a alma solitária que podia ver em seu interior, a irmandade de seus seres...

O som e o calor da realidade retornaram de súbito. Pestanejou e voltou para a biblioteca para ouvir tia Spring dizer:

—Acredito que tem razão, Minnie. Vamos ter que vigiar a esses dois.

 

—Ah! Você está aqui, senhorita Setterington. A câmara está arejada, tiraram o pó esta manhã e puseram lençóis limpos na cama.

A senhora Trenchard colocou uma grande chave de ferro na fechadura e abriu a porta cravada no extremo de um amplo e sombrio corredor da ala leste do castelo de Raeburn. Indicou a Hannah que passasse à frente e entrou na minúscula câmara atrás dela.

—Sally desfez suas malas, escovou suas roupas e as pendurou no armário. Há água no jarro e se necessitar mais pela manhã, chame uma das donzelas de cima e elas a ajudarão com prazer - prosseguiu a senhora Trenchard.

—Obrigado, com esta bastará.

A única vela que a senhora Trenchard segurava mal iluminava a câmara, mas Hannah pôde ver que aquilo não era ao que estava acostumada. Em Londres era a senhora de sua própria casa. Seu quarto era grande e luminoso, tinha uma estufa que esquentava a sala, três grandes janelas sobre as quais penduravam cortinados de veludo, e uma larga e alta cama com três travesseiros recobertos em capas de renda para ela sozinha. Ao outro lado da porta, a saleta continha uma mesa pequena onde podia escrever cartas e quadrar contas, se desejava intimidade, e uma cômoda poltrona onde podia se acomodar para ler um livro se tivesse vontade. Tinha pouco tempo para tais escarcéus, mas valorizava muito o fato de poder se permitir tais luxos.

Aquele era o quarto de uma criada, nada mais, uma escura, fria e antiquada câmara mobiliada com os móveis que já ninguém queria e uma única janela emoldurada por cortinados fora de moda.

A cama era estreita, a colcha descolorida pelos anos e o único travesseiro quase plano. Se supunha que devia estar agradecida por não ter que dormir no desvão com o resto dos criados.

—Você está na parte traseira do castelo, na parte velha - explicou a senhora Trenchard enquanto acendia os candelabros que havia sobre a mesinha do exíguo leito.

Hannah estremeceu quando o vento golpeou a janela do exterior e as cortinas se inflaram um pouco.

—Este lugar está cheio de correntes de ar. - Talvez o desagrado de Hannah ficasse em evidência, talvez a senhora Trenchard desejasse ainda se desculpar pela viagem que teve que percorrer entre a névoa, em qualquer caso, acrescentou:

—Eu asseguro, senhorita Setterington, que a tenho feito desobstruir, mas a lareira segue jogando fumaça.

Hannah olhou a pequena pilha de brasas na lareira em miniatura. Conforme comprovara, não despediam nenhum calor e o fino rolo de fumaça se esfumava a menor rajada de ar.

—Estou segura que fez o que pôde.

—Mas, com toda franqueza, a maioria das lareiras do castelo também fumegam com este vento, incluída a do senhor.

Dougald dormia perto. O olhar de Hannah se dirigiu para a porta, para a grande chave metida na fechadura que sem dúvida usaria.

—Ainda não têm feito reforma aqui. O senhor já acabou as das salas velhas e das queridas damas na ala oeste, por isso são tão cômodas. - A senhora Trenchard sacudiu a cabeça.

—Não posso imaginar por que insistiu em que você se alojasse aqui em lugar de ficar nelas.

Hannah podia ter explicado à senhora Trenchard por que o amo a atribuía aquela sala. Queria que estivesse perto dele para poder atormentá-la. Queria que fosse desgraçada em todos os aspectos possíveis.

Queria que ela visse que ele tinha a sala do amo com as grandes portas de folha dupla enquanto ela habitava aquele pequeno e escuro chiqueiro.

—Claro que, para lhe fazer justiça, disse que você merecia estar longe da senhorita Spring e das outras senhoras, ao menos durante a noite.

—O dedo da senhora Trenchard percorreu a parte superior do travesseiro, entortou os olhos e logo os entrecerrou após olhar o dedo. - Amanhã enviarei Sally para que acabe a limpeza.

Hannah sentiu lástima pela desconhecida Sally e mais lástima ainda por ela mesma.

—Quem mais dorme nesta ala? - perguntou ao pensar na longa fila de portas fechadas que enchiam o corredor.

—Ninguém mais. Só você e sua senhoria.

—E Charles.

A senhora Trenchard arqueou as sobrancelhas, perplexa. Hannah acabava de revelar um grande conhecimento dos costumes de Dougald ou muito interesse em seu ajudante de câmara?

—Não, Charles não dorme aqui - explicou a senhora Trenchard. - Ele também dorme na ala oeste.

Agora foi Hannah a que se surpreendeu. Charles estava acostumado a dormir em uma câmara contigua ao dormitório de Dougald, para estar sempre perto se por acaso necessitasse algo.

Hannah odiava aquela dependência, temia fazer ruído ou levantar a voz, sempre consciente que Charles andava rondando.

—Ah...! - exclamou então a senhora Trenchard com voz de cumplicidade. - Bom, senhorita Setterington, não se preocupe. O senhor não é dos que perseguem os serviçais.

Está aqui a um ano e não houve nem um só escândalo entre o senhor e nenhuma de minhas garotas.

—Que alívio! - repôs Hannah secamente.

Era um alívio saber que não incomodara a nenhuma das donzelas. E ainda maior alívio saber que a senhora Trenchard não percebeu da verdadeira fonte de mal-estar de Hannah.

Outra rajada de ar sacudiu o marco da janela e Hannah se aproximou para afastar as cortinas. Se levantou um vento do oeste que dissipava a névoa. As estrelas brilhavam friamente no céu negro, a lua pálida cavalgava sobre os restos de uma nuvem e ela olhava pela janela as colinas e os vales em sombra da herdade de Dougald.

As escassas árvores levantavam os ramos nus para cima para arranhar o céu, a terra se estendia até um horizonte vazio, e uma estrada - a estrada que a trouxera da estação de ferrovia - se afastava pelo mar invisível.

Uma rajada de vento sacudiu o velho marco da janela e Hannah ficou a tremer abraçada por uma corrente de ar frio.

A senhora Trenchard se aproximou.

—Há um precipício desde esta janela, assim não a aconselho que a abra e apareça.

Se baixava a vista, Hannah podia ver a muralha do castelo que descendia até sumir nas sombras. O chão parecia escuro e muito longínquo. Muito, muito longínquo.

Enjoada por uma sensação de vertigem cambaleou para frente, fechou os olhos e logo se inclinou para trás.

—Está muito alto. Está a planta da cozinha, a planta principal, justo debaixo de onde nos encontramos, e eu estou no terceiro andar...

—Sem esquecer as masmorras que estão debaixo da cozinha - recordou a senhora Trenchard. - Não têm janelas e estão sem usar a centenas de anos, mas confie em mim: ainda estão ali, tenebrosas e úmidas.

Sei por que cada primavera envio uma equipe para limpa-las. Claro que guardamos o vinho ali abaixo.

—Claro - disse Hannah pensando em quão agradecida estava de não ter que descer a limpar as masmorras. - Se usavam muito antigamente?

—Os condes de Raeburn tiveram seus momentos de crueldade - admitiu a senhora Trenchard. - Não gostavam que os traíssem, a nenhum deles.

O primeiro senhor de Raeburn era um barão, chegou com Guillermo o Conquistador e contam que mandou construir as masmorras para jogar nelas ao senhor saxão e deixá-lo morrer.

—Encantador - murmurou Hannah.

—Nos tempos da guerra das Duas Rosas os senhores ganharam o título de visconde e quarto visconde, nenhum deles era um homem agradável.

—Parece ser um traço da personalidade destes senhores - repôs Hannah embora sem mencionar Dougald por seu nome.

A senhora Trenchard deu de ombros.

—Houve tanto homens bons como homens maus, mas aquele senhor jogou um lancasteriano à masmorra e ficou com sua mulher para usá-la como amante.

Teria perdido o castelo, mas quando o rei conquistou todas as terras, sua senhoria declarou que sempre fora fiel, e o rei Enrique decidiu acreditar nela. Era mais fácil que tentar jogá-lo.

—Os reis ganhadores sempre tomam decisões guiadas pela conveniência - observou Hannah.

—Suponho que sim. Não sei muito de reis. Só sei a respeito dos senhores de Raeburn. Minha família leva os servindo desde que existe o castelo Raeburn e suspeito que inclusive antes.

—A senhora Trenchard abriu mais as cortinas e apontou para o exterior. - Durante o protetorado de Cromwell, o senhor de Raeburn foi um realista obstinado. Vê esses restos de muralha?

Hannah olhou para ali. A larga e reta fileira de pedras e musgo se elevava e descendia em linha reta atrás do castelo, negras sombras do passado se estendiam sobre o páramo.

—Cromwell e seus homens chegaram com seus canhões e derrubaram o muro de cerramento. O senhor conseguiu escapar com vida com muita dificuldade. Fugiu para o continente e retornou com a Restauração, e sua lealdade lhe valeu o título de conde.

—Parece um bom homem - comentou Hannah, - incondicional e resolvido.

—Sim, um bom homem - repôs a senhora Trenchard coçando o queixo, - mas um marido terrível. Trouxe a mulher mais formosa da França e era tão ciumento que, quando ela flertou com um dos criados, enforcou o criado e a encerrou na torre nesta ala.

—Não a encerrou nas masmorras?

—Não queria matá-la. - A senhora Trenchard parecia desculpar ao asqueroso desumano. - Só queria estar seguro dela.

—Não acredito que depois disso ela tivesse vontade de recebê-lo com os braços abertos em seu dormitório.

—Se jogou pela janela.

Hannah olhou impressionada para baixo, para o chão, e voltou a sentir uma onda de vertigem que a obrigou a fechar os olhos.

—Que horror!

—A maioria dos homens não querem que suas mulheres os enganem. O atual senhor não é diferente nesse aspecto, ao menos.

A senhora Trenchard fez uma pausa tão relevante que Hannah abriu os olhos. A senhora Trenchard contemplava com pesar a figura de um homem a cavalo que se afastava galopando do castelo. De amplas costas e transbordante de energia, se inclinou para frente na cadeira de montar e esporeou seu alto cavalo negro em direção do mar. A jaqueta desabotoada se movia ao vento e a intensa e branca luz da lua brilhava sobre seu cabelo negro descoberto fazendo reluzir as características mechas prateadas.

Dougald saía para cavalgar de noite, tal como Alfred havia dito. Mas do que estava fugindo aquela noite em concreto?

A senhora Trenchard correu a cortina, com o que o tirou da vista de Hannah, e se afastou da janela.

—Suponho que já teria ouvido os rumores sobre o atual senhor.

Hannah suspeitou que aquele era o verdadeiro motivo do bate-papo da senhora Trenchard.

—Que matou a sua esposa?

—Sim, senhora, isso é o que se comentava. Espero que não a ponha nervosa.

—Não.

Não quando sabia que não era certo ou, como Dougald comentara, ao menos não ainda.

A senhora Trenchard sorriu obviamente agradada.

—Quando o vi pela primeira vez me disse: eis aqui uma pessoa sensata. Esse homem nunca matou ninguém.

—E você como sabe?

—Quando um homem matou a alguém, conserva uma frieza em seu interior que se nota... se souber o que anda procurando. Os que cometeram um assassinato estão malditos sabe?, e voltarão a assassinar se se veem obrigados a isso, porque que mais lhes dá?

Sabem que estão condenados ao fogo do inferno quando morrerem.

A funesta e plaina declaração da senhora Trenchard soou como a sentença ditada pelo mais desumano dos juízes. Logo deu uma palmada e esfregou vigorosamente as mãos.

—Bom, basta de conversa. Estará cansada depois da viagem e quererá se levantar cedo para ver as encantadoras damas. Estão muito emocionadas de ter a você aqui.

E eu me alegro que vá se encarregar delas. São umas damas adoráveis, mas de difícil trato.

—Estou segura que desfrutarei embora cuidar delas resulte um desafio.

—Sim, senhorita. Claro que sim. Depois desta noite, não vá dormir mais tarde que as dez. Estas são as velas que lhe dou para toda a semana. - A senhora Trenchard franziu o cenho ante o modesto montão de livros que havia na mesa de Hannah.

—Não lhe darei mais porque ficou acordada lendo. Recorde, os criados não estão aqui para gastar o carvão e o sebo do amo. Também temos um toque de silêncio; às nove em ponto deverá estar em seu dormitório.

—Por quê? - Hannah vislumbrou as noites frias, escuras e solitárias que teria que passar recolhida em seu quarto.

—Os criados se sentem melhor se impusermos um toque de silêncio. As mortes dos antigos senhores colocaram medo em seus corpos.

—Não acreditarão que lorde Raeburn...?

—São muito supersticiosos, seriamente que são. - A senhora Trenchard desfilou para a porta e se deteve com a mão na ombreira. - Como amanhã é seu primeiro dia direi a Sally que avive o fogo para você quando deva limpar o dormitório.

A senhora Trenchard fechou a porta ao sair, deixando a Hannah só na desolada câmara que lhe atribuíram no lar de seu marido. Correu as cortinas, voltou a olhar para o caminho, mas Dougald se foi. Fugia dela? Das lembranças que suscitava nele?

Da paixão que ainda existia entre eles? Ou estava fugindo para evitar o desejo de jogar as mãos em seu pescoço e estrangulá-la?

Deixou cair a cortina.

Deus sabe que Hannah compreendia muito bem a fuga. A fuga dele, a fuga deles. Tinha dezoito anos a primeira vez que fugiu dele e de seus planos. Fora uma moça séria que zombava de suas companheiras que acreditavam nas histórias de amor, que cochichavam sobre os homens e do que faziam na escuridão. Tudo o que Dougald fez naquele trem a pegou de surpresa. Em especial aqueles beijos, não a pressão seca de um lábio contra a face, a não ser aquela aberta e úmida calidez...

Dougald fora, e ainda era, um homem que beijava maravilhosamente.

Isso não explicava suas próprias ações daquela noite. Não se arrependia de tê-lo deixado plantado.

Nada podia acalmar o profundo desassossego que sentia ao ver as mudanças que se produziram nele, mas devia ser precavida antes que seu espírito independente voltasse a se reafirmar.

Mas o desafiar de tal modo... nem sequer ela mesma o compreendia...

"O que a levara a beijá-lo?"

 

"O que a levara a beijá-lo?"

Dougald sabia que não devia cavalgar à noite, mas não podia se retirar a seu leito. Não quando por fim sua esposa dormia sob seu próprio teto. A moça com a que se casou se foi, arrastada pelos anos e por experiências muito diferentes das suas.

Em seu lugar estava a mulher que tinha conhecido aquela noite: contrariada, reservada, digna. Uma mulher que guardou a compostura até que a pressionou muito. Então se vingou com beijos.

Uns beijos condenadamente deliciosos.

Escrutinou com o olhar o escuro caminho que tinha ante ele e as serpenteantes colinas a seu redor e se sentiu, como sempre, orgulhoso. Aquela era sua propriedade, suas terras, seu título.

O tipo de honras que durante gerações sua família lhe negara, apesar de todos seus esforços.

E agora, devido a uma série de acidentes - acidentes dos quais ele não era responsável, apesar do que suspeitassem os criados - o destino o tinha brindado com todas aquelas deferências.

E a única coisa em que Dougald pensava era em Hannah, acima em uma câmara não muito longe da sua.

A alojou ali de propósito. Queria-a perto para poder ameaçá-la, surpreendê-la despreparada, obrigá-la a compartilhar suas noites insones. Agora, por ironias do destino, era ele quem não podia dormir.

Se apoiando na sela de montar, pôs o corcel a galope, com a intenção de fugir da tentação - supôs ele, - com a intenção de evitar a lembrança do corpo de Hannah, nu debaixo do dele, e se perguntar que mudanças teriam causado os anos.

Com a intenção de escapar a urgente ideia de que ela teria ido a sua cama... essa noite.

Lhe devia um herdeiro ao que legar a fazenda, e o daria, mas ainda não. Não vivera todos aqueles solitários e frios anos desatendendo os murmúrios que o acusavam de "assassino", tentando ignorar às mulheres que estremeciam a sua passagem, ouvindo as balbuciantes desculpa de seus sócios por não poder lhe convidar a suas casas, sem tramar um plano para acertar as contas com sua errante esposa. Todo aquele palavrório sobre as alternativas não fora mais que isso: palavrório.

Divórcio; se atreveu a lhe falar de divórcio. Não teria divórcio nem tampouco crime. Não, isso teria sido muito fácil.

Mas uma reconciliação? Talvez pudesse se chamar assim. Não havia lugar a dúvidas que ele tentou conservá-la. Mas na verdade a usaria, tal como seu pai lhe havia dito que teria que usar a uma mulher, sem amor, sem paixão, para procriar.

E Hannah, a ardente, impulsiva, entusiasta Hannah, a garota que sonhara pertencer a uma família... essa Hannah se sentiria muito desgraçada.

Tão desgraçada como ele fora durante os últimos nove anos.

Não podia esperar.

Se enfureceu tão quando, aos seis meses de se casar, Hannah fugiu dele. Fugiu dele como se fosse uma espécie de monstro. Conhecia homens que eram piores maridos do que ele jamais chegaria a ser.

Homens que negligenciavam suas esposas, que gritavam com elas, que lhes batiam. E ele, que fora bom com aquela mocinha, se converteu no bobo de seus colegas empresários. Logo... logo o acusaram de tê-la assassinado.

Que ressentimento lhe produziu! Essa estúpida donzela dela apregoou que brigaram antes que Hannah desaparecesse.

Claro que brigaram, e o que? Ele nunca a teria matado. Nunca lhe teria feito dano, nem teria posto a mão em cima dela em um arrebatamento de ira, por muito que ela tivesse posto a prova sua paciência.

E depois, sempre a punha a prova o chamando mentiroso, exigindo que cumprisse suas promessas. Como se ele fosse permitir que sua esposa trabalhasse! Lançou-lhe uma diatribe[6] quando pensou nas falações que isso levantaria.

Agora sabia que havia coisas piores que as falações.

O caminho serpenteava para o Presham Crossing e mais à frente, para o mar, e ele o seguia como sempre fazia nas noites em que as lembranças e a frustração o tiravam da cama.

Nunca pensou que viveria sob a sombra da suspeita durante tanto tempo. Pensou que encontrariam facilmente à menina com a que se casou e só temeu que lhe fizessem algum dano ou que, em sua inocência, se aproveitassem dela.

Mas em lugar disso, se desvaneceu. Qualquer rastro dela se desvaneceu, salvo uma única carta.

Esteve muito preocupado. Procurou por toda parte. Contratou detetives e foi às nuvens contra Charles. Nem o menor rastro dela até... até que chegou aquele cheque.

Naquela época estava tão acostumado a que seus criados e seus colegas tivessem medo dele que já não se importava. Se converteu em um solitário contumaz, frio e disciplinado, em um homem como seu pai.

Sobretudo se deu conta da necessidade de montar uma armadilha com muita sutileza. Temia que Hannah saísse correndo, que descobrisse suas verdadeiras intenções, pois se a moça sem um tostão nem um amigo fugira dele, que não faria a mulher já adulta?

Tinha contatos. Dougald sabia tudo a respeito deles. Sabia que a rainha Vitória concedeu seu favor à Distinta Academia de Instrutoras.

Sabia tudo a respeito de seus amigos, tudo a respeito de sua situação financeira, o nome de sua costureira e o número de seus sapatos. Porque queria vingança.

Não porque a quisesse. Já não lhe tinha carinho. Não como marido, nem como amante, não; o tempo e a distância tinham obtido seu objetivo. Compreendeu isso quando recebeu seu dinheiro. Olhou o cheque e se deu conta que chegara o momento.

O momento que esperara tantos anos. O momento em que ela se pôs em suas mãos. E manteve a calma sem que nada o fizesse explodir, sem que a paixão corresse por suas veias. Manteve a calma, a calma mais absoluta.

Salvo a noite. Salvo em sonhos. Salvo quando seus pensamentos o tiravam da cama e o obrigavam a cavalgar sem descanso, como estava fazendo essa noite.

Maldita mulher! Não se dava conta que agora tocava a ele se vingar dela? A ele, não a ela.

Não tinha direito de beijá-lo, de atormentá-lo com a fragrância de seu sinuoso corpo, o brilho de seu cabelo claro e dourado, a exigência de seus acetinados lábios. Era ele quem tinha direito a atormentá-la.

Mas o conseguira?

Tinha-a em um punho, isso sabia. Não podia ir embora. Fizesse o que fizesse, não podia ir. Não até que descobrisse a verdade sobre si mesma, sobre sua procedência e sobre sua gente.

Esteve procurando aquela informação toda sua vida e ele tinha o poder de dar-lhe.

Mas não o faria, ainda não. Não até que ele tivesse obtido o que queria dela.

E o que queria era vingança.

Sem dúvida ela a devia.

Ao notar Dougald abstraído, o corcel mordeu o arreio. Dougald puxou as rédeas, controlando-o com os joelhos e as mãos enluvadas. As pessoas da propriedade esperavam que o senhor de Raeburn cavalgasse como um centauro enlouquecido e não ia decepcioná-los. Na realidade, suspeitava que já superara suas expectativas, graças a Deus. Já tiveram muitos sustos quando o último senhor caiu pela escada e o penúltimo foi achado no fundo de um escarpado marinho.

Pobres tipos! Nenhum dos dois pôde deixar o álcool.

Em qualquer caso, um mero cavalo não podia desafiar a autoridade de Dougald; durante nove longos anos ninguém desafiara sua autoridade. Dougald levantou sombriamente o olhar para o aveludado céu negro.

Todo mundo o conhecia como o homem que assassinara sua esposa, assim nunca lhe diriam que não, por medo que lhes proporcionasse o mesmo trato.

Hannah era a única que não se enrugava ante ele. E motivos não lhe teriam faltado se tivesse se precavido da escrupulosidade com a que tramara as represálias, do esmero com o que planejara a vingança, e do modo em que os anos gelaram sua raiva.

Em lugar disso, o beijara.

Sentiu uma tensão na entreperna só de pensar. Depois do inferno pelo que o fizera passar, se atrevia a lhe beijar.

Dougald tinha vontade de gritar a voz em pescoço, mas esse já não era seu estilo. Em lugar disso, deu rédea solta ao cavalo e galoparam pelo tortuoso caminho que conduzia ao mar.

O ar clareou sua cabeça, o exercício fez que o sangue fluísse com brio por suas veias, mas os demônios que o guiaram durante tantos anos viajavam com ele. Sempre estavam com ele.

Quando coroou a colina que sobressaía sobre o Atlântico pôs o cavalo a passo, cavalgou pelo atalho que serpenteava entre as rochas da praia e logo voltou a subir até se internar entre prados e árvores balançadas pelo vento.

Em sua juventude, os demônios o dominaram. Em todos aqueles anos aprendera a combatê-los. Bebera, frequentara rameiras, quase morrera.

Mas não foi ele quem morreu, a não ser seu pai.

Dougald nunca voltara a se permitir liberar a seus demônios.

Entretanto, aquela noite Hannah, com seus seios turgentes, sua figura erguida e atitude provocadora, ameaçava deixá-los soltos. Maldita mulher!, se supunha que não devia acontecer daquele modo.

Sua avó a escolhera, disse a Dougald que seria uma boa esposa e ele acreditou. Hannah não era mais que uma menina então.

Que mais dava a ele, se ao mesmo tempo estava tentando aprender o negócio de seu pai e o proteger de seus rivais que o teriam arrebatado?

Quando Hannah teve idade de merecer, já se acostumara à ideia. Não via nada mau no acerto e, na realidade, gostava da ideia de ter uma esposa que não requeresse mais resposta dele que a indiferença.

Pensou, louco dele, que Hannah entenderia as vantagens da união e a aceitaria com submissão.

Em lugar disso lhe expôs um desafio.

Meu deus!, algum dia poderia esquecer a primeira vez que fugiu dele? Ainda melhor foi o que ocorreu depois...

 

—Nunca a beijaram - disse Dougald. Não o perguntava, sabia. Deduzia pelo assombro de Hannah, pelo modo em que seus grandes olhos castanhos percorriam o vagão como se pudesse achar as respostas nele.

—Não acredito que isso tenha importância. - Ela umedeceu os lábios. - Agora deveria me levantar.

Com grande cuidado e carinho, reteve os braços dela. Era tão inocente ao propor educadamente que a permitisse se levantar quando devia estar gemendo como uma alma penada.

Não compreendia que ao fugir atraíra sua atenção e desafiado seu instinto de posse. Quando caiu na conta, já era muito tarde para ela.

—Mas quero te beijar. Quero ser o primeiro. - Deslizou os lábios sobre os olhos de Hannah para fechá-los. - Me deixe te beijar, ao menos.

Ela negou com a cabeça. Mas Dougald alcançou sua face com os lábios e os pressionou contra a comissura da boca de Hannah, os lábios e ao redor deles, tentando-a, seduzindo-a.

Tinha uma pele de veludo, nunca havia tocado uma pele tão suave e se deleitou na sensação. Inclinando o rosto, apertou os lábios contra os dela, de uma maneira tenra e amorosa, e o recompensou quando relaxou com um suspiro.

Que doçura! Tenra, delicada, complacente! Era perfeita para ele. Tocou a boca dela com a língua. Aquilo a surpreendeu e Hannah deu um salto, ele a acariciou outra vez com os lábios fechados para infundir confiança. Tomando a dianteira, deslizou a língua sobre seu lábio superior e ela abriu mais os olhos como se não soubesse o que pensar, enquanto punha as mãos nos seus ombros e o rechaçava de um tranco.

Ela acariciou a pele nua com dedos complacentes, de repente ela deixou cair rapidamente as mãos e voltou a cabeça a um lado.

—Quer fazer o favor de voltar a vestir a camisa? - disse severamente.

—Sim, vestirei isso. - A agarrou pelo queixo e voltou a cara dela para ele. - Quando tivermos acabado, - voltou a lhe beijar os lábios.

E ela mostrou seu caráter desafiante levantando a boca para a sua e mordendo um lábio.

Dougald retrocedeu de um salto e deu uns leves toques na ferida.

—Bruxa!

Ela se apoiou sobre um cotovelo e examinou ansiosamente seu rosto.

—Tenho-te feito dano?

—Sim. - se aproximou tanto que suas bocas quase se roçaram. - Terá que aprender a beijar melhor.

Hannah baixou o olhar, as covinhas da cara tremeram e se pôs a rir.

Ele recapturou sua boca e a deitou de costas, e desta vez o deixou beijá-la sem inibição. Dougald se movia devagar, tocava seus dentes, tocava sua língua com suaves toques da sua, deixando que ela o provasse...

Se pudesse distraí-la, leva-la de um extremo do prazer a outro, poderia mantê-la afastada de sua moral e de suas dúvidas. Seu beijo a cativou tanto que não se deu conta de que ele desabotoava a blusa.

Era tão fácil como roubar os caramelos de um menino. E tão difícil de uma vez, pois não podia afastar a mente do urgente impulso de penetrá-la. Maldita mulher!, não sabia o que lhe estava fazendo com sua encantadora inépcia?

Não, claro que não sabia.

Ela notou o que suas mãos impacientes conseguiram. Tentou voltá-lo para rechaçar de um empurrão. E de novo rompeu o contato de repente, se comportando como se o mero fato de tocar sua pele nua a queimasse.

Ele esperava que ardessem juntos.

Olhando aos olhos castanhos e delicados fez o que pôde para hipnotizá-la com voz amável.

—Eu gostaria que me tocasse. Sua carícia é um prazer. Me acaricie e me porei a ronronar... me toque como eu toco a você.

Abriu-lhe a camisa mostrando-a ao ar e à luz do sol, e viu pela primeira vez seus seios perfeitos.

Ela tentou sair correndo, mas ele não podia permitir. Naquele instante já não. Passando uma perna por cima dela, imobilizou-a enquanto a olhava. Não podia deixar de olhá-la. Deus santo, que seios!

Nasciam em seu torso como suaves e cremosos montículos, pálidos, deliciosos... dele. Acariciou levemente a ponta do mamilo com a ponta de um dedo.

Com um esforço feroz e desesperado, Hannah levantou as mãos para contê-lo.

—Alguém pode nos ver!

—Não. - Ele deixou que o segurasse. - Olhe. Estamos atravessando Chat Moss. Não há ninguém.

Era certo. Estavam passando pelo vasto pântano de turfa que tantos problemas causara aos engenheiros da ferrovia, e tudo o que alcançava a vista eram arbustos, moitas e uma árvore de vez em quando que se deleitava na umidade.

—Estamos a salvo. - A agarrou pelos pulsos. - Agora observa, observa.

Se colocou em cima dela e começou a descer. Primeiro entrou em contato com os mamilos de Hannah, que aninharam no crespo pelo que lhe cobria os peitorais. Seu coração dava tombos de excitação. Desejava enrolá-la, sem lhe dar nenhuma oportunidade... queria se fundir com ela, tomá-la naquele mesmo instante. Sua mente o animava a fazê-lo.

Então se sacudiu quando os estômagos se juntaram apertadamente e lutou contra todo aquele instinto feroz e masculino enquanto lentamente aplanava os seios dela com seu peito.

Enrolá-la, sim. Não lhe dar nenhuma oportunidade, começar aquela relação tal como queria que prosseguisse, sim. Mas não podia assustá-la nem lhe fazer mal e, pela expressão de seu rosto, Hannah estava assustada.

Soltou as mãos dela e elas começaram a empurrar sem conseguir seu propósito. Empurrou e empurrou até que ele a abraçou e acariciou seu cabelo que nascia na base do crânio.

Então se tranquilizou e descansou, aconchegada em seus braços, o olhando à cara como se algo nela a tivesse fascinado.

Bem. Isso estava bom. Não pôde evitar sorrir e deve ter demonstrado certa sensação de triunfo, pois ela baixou o olhar e se retorceu como se quisesse escapulir. Ele a estava domando, tranquilizando-a com a mão, mas via que ela sabia e se incomodava.

—Chist - sussurrou, embora ela não fizesse nenhum ruído.

—Como fez isto? - ela exigiu com beligerância.

Tinha-a acreditado uma menina, mas obviamente era uma mulher, pois fazia uma pergunta e esperava uma resposta, embora não tinha nem ideia do que estava falando.

—Como faz que perca os sentidos? - insistiu. - Não posso ouvir nem ver nem cheirar quando me acaricia. Só posso acariciar...

Sua voz se extinguiu.

—E sentir? - perguntou ele então.

—Sim. - Ela voltava a sussurrar. - E sentir.

Centrando os olhos em seu rosto, riscou com um dedo vacilante a linha que acentuava sua face, a cicatriz debaixo do olho, o veludo de sua boca.

—Já o averiguou, carinho? - perguntou Dougald.

—Sim. Sou uma desavergonhada - repôs com voz trágica.

—Não esperava menos de você - brincou.

Foi um engano porque imediatamente as pestanas dela se encheram de lágrimas. Ele se acreditava tão preparado, mas esquecera que sua mãe fora desgraçada por culpa de uma paixão, que Hannah vivera com aquela desgraça cada dia de sua vida.

Ao lhe alisar o cabelo da testa, se maravilhou da suave textura de cada mecha.

—É sensível - disse mantendo uma voz grave e persuasiva, - mas não deve se envergonhar por isso. O alívio que encontramos na paixão é o mais perto que podemos estar do voo do falcão peregrino. É tão formosa, acaricia meu coração e minha mente.

Vi o dano que faz um marido desconsiderado em um casamento. Confiaria em mim? Eu cuidarei de você e te oferecerei meu compromisso incondicional. Não a enganarei, nem física nem mentalmente. O casamento é para sempre, um voto que terá que manter.

Seremos felizes. Tem muitas coisas para compartilhar comigo: seu encanto, sua diplomacia, sua amabilidade... tudo isso complementará minha vida.

—O que você compartilhará comigo?

Meu Deus, seu tom era queixoso! Acaso estava pensando? Estava raciocinando? Ela era consciente da meticulosidade com a que planejara cada movimento, cada palavra?

Assim tentou chegar à alma dela com um beijo. Seus lábios se fundiram. Ele a conduziu através de uma nova dança, uma dança que ela nunca dançara antes, e ele se deleitou em sua sensualidade.

Hannah gemia em sua boca e tinha gosto de maçã de outono e do centeio do estio, e de Hannah. Cada roce de sua língua o levava mais perto do prazer.

Em um momento de prudência pensou que estava fazendo mau. Se ergueu um pouco se afastando dela e a contemplou de cima. Contemplou aqueles olhos ternos de pomba, os lábios sensuais e úmidos, as faces arredondadas. Não podia atraí-lo; ele era um adulto, ele era o homem. Mas se não tomasse cuidado, ela o apanharia com a mesma certeza que ele queria apanhar a ela. Isso seria horrível. Isso seria... impossível. Os homens não amam, não como as mulheres amam.

Uma vez que tivesse capturado o coração de Hannah, a teria na palma da mão. Assim era como se supunha que devia ser. Assim era como planejara.

Ela deve ter visto a consternação em seu rosto porque lhe perguntou:

—O que ocorre?

—Nada.

Não, estava fazendo tudo bem. Não podia falhar.

 

No céu brilhavam as estrelas. Os jaezes[7] tilintaram e o cavalo soprou. O atalho serpenteava e subia rodeando um pequeno arvoredo.

Dougald fizera tudo bem. Como qualquer moça, jovem, doce e inocente, Hannah confundira a paixão com amor. Ele se aproveitara totalmente de sua ilusão e alimentado diligentemente sua fantasia.

Só depois de se casar começou a suspeitar que ele não a queria. Ou possivelmente pior, também tinha a suspeita que ela não queria a ele.

Mas agora Dougald voltaria fazer amor com ela e quando o fizesse... Crac!

Muito perto dele uma casca de árvore explodiu em milhões de lascas. O que estava ocorrendo? Por quê? O que podia ser aquilo?

Dougald retornou bruscamente ao presente. O cavalo se encabritou. Diabos! Alguém estava disparando nele. Demorou uns breves instantes em se liberar do feitiço do passado.

Crac!

Outra bala rasgou o ar roçando uma orelha sua. Aproveitando o impulso do animal, se jogou da sela e rodou pelo chão tentando se afastar dos cascos que batiam.

Se ergueu um pouco e correu agachado, olhando para o chão, com a camisa branca fora da vista de seus atacantes.

—Acertei! - ouviu um homem gritar.

Enquanto o corcel resfolegava e dava coices contra demônios invisíveis e logo corria a galope para o castelo de Raeburn, Dougald escapuliu até o pequeno arvoredo que estava junto ao atalho.

As raquíticas árvores eram finas e estavam modeladas pelo vento, ao redor deles se estendia um prado ondulante e coberto de erva.

Não muito longe, o mar golpeava contra a costa amortecendo qualquer outro som, mas à fraca luz das estrelas viu duas figuras que se separavam entre as rochas e corriam para o lugar onde ele caíra.

Uma alta e outra baixa, nenhuma sustentava uma pistola, mas ambas levavam capotes com amplos bolsos.

O Dougald briguento sabia que podia vencê-los, mas o Dougald realista reconheceu a horrível verdade. Alguém estava disparando, nele, no senhor de Raeburn.

Zombara quando Charles lhe contou que os criados cochichavam histórias de sabotagem e assassinato, mas agora não acreditava que aquele ataque fosse uma coincidência.

Alguém tentava matar ao senhor de Raeburn e o senhor de Raeburn era ele.

Os homens inspecionaram o chão e, cada vez mais indignados, se aproximavam das árvores.

Ao final, um deles se levantou.

—Não está aqui! - exclamou.

Dougald sorriu enquanto aparecia de improviso atrás deles.

—Sim, sim está.

Enquanto se voltavam com dificuldade, os agarrou pelos cabelos e fez chocar suas cabeças. Quando seus crânios se golpearam começaram a uivar. Um caiu. Agarrou o outro pelo tosco casaco e o levantou até pô-lo nas pontas dos pés.

—Que demônios estavam fazendo? Por que me disparavam?

Então outro homem, oculto a seu lado na paisagem sombria e revolta, bateu nele, Dougald caiu ao chão amaldiçoando quando um após o outro saltaram sobre ele.

Deveria ter recordado: se assegure sempre de suas possibilidades antes de empreender uma briga.

 

Quando Hannah descia a escada para a sala do café da manhã, seus músculos doíam e seus olhos ardiam; era o resultado do dia anterior, longo e cheio de acontecimentos inesperados. Ao menos essa foi a explicação que deu a si mesma. Por não falar da noite insone passada sonhando com demônios que se convertiam em Dougald e a sua vez a caçavam enquanto as chamas do inferno lambiam seus calcanhares.

"Fora tão estúpida"; ontem ao se deixar apanhar, e anos atrás quando a mocinha Hannah se convenceu que amava Dougald porque a seduzira, e porque ela desejara que a seduzisse.

Agarrada à curva do corrimão franzia raivosamente o cenho.

Toda a sabedoria que tanto custara adquirir no mundo não servira para nada. De nada valera o que lhe aconselhava sua mente nem que ao refletir sobre a jovem Hannah de outros tempos se compadecesse de sua crença de que paixão equivalia a amor e de que os homens sempre cumpriam suas promessas, porque quando estava com Dougald?

—OH, formosa donzela que iluminou a manhã!

Hannah lançou uma exclamação e quase tropeçou no último degrau enquanto um presunçoso saltava com delicadeza de seu esconderijo atrás da escada. Um cavalheiro de uma idade incerta, embelezado à última moda de Londres, sustentava uma rosa amarela que lhe oferecia com um floreio.

—Senhor, me parece que não nos conhecemos - disse em seu tom mais glacial, apertando a mão contra o coração, que pulsava apressadamente.

—Não, claro que não! Me atrevi porque queria comprovar que a informação era certa.

Quem era aquele almofadinha, quase três centímetros mais baixo que ela, com lustrosas botas de salto alto, que tomava semelhantes liberdades com a cortesia? De que informação falava?

—Que a mais bela das damas se alojava sob o nobre teto do castelo Raeburn.

Hannah ficou olhando para ele. Acreditava que semelhante adulação ia fazer ela perder a cabeça? Sabia muito bem o aspecto que tinha aquela manhã. Usava um vestido de algodão azul apagado, com as mangas adornadas com um discreto babado de renda. Tinha posto seu colar branco mais simples muito curto ao redor do pescoço e, depois de certo debate interno, atara um avental à cintura.

Era uma estupidez acreditar que com semelhante vestimenta dissuadiria Dougald, mas Hannah gostava de acreditar que tinha o bom senso de se vestir com discrição.

—Ah! Estará se perguntando quem sou eu. É possível que meu novo primo nem sequer lhe tenha mencionado minha existência? - O estranho levou o dorso da mão a testa, a mim que sou seu herdeiro.

Aquele era o herdeiro de Dougald? O inspecionou com mais atenção. Vestia calças de lã com xadrez marrons e azuis com um fino fio amarelo, um colete xadrez combinando, uma larga gravata de laço segura com um alfinete de ouro com um diamante. Os punhos e o colarinho do casaco marrom eram de veludo cobalto intenso combinando com seu melhor traço: uns formosos olhos azuis emoldurados por longas pestanas que conseguia lhe imprimir uma melancolia que teria sido o orgulho de Byron. Por desgraça não tinha a cabeleira de Byron. Pelo contrário, o cabelo castanho crescia comprido sobre um lado e alguém, provavelmente seu avantajado ajudante de quarto, o penteara por cima da cabeça para tampar uma clareira na qual apareciam partes de pálida pele entre as mechas condensadas.

Hannah fingiu não se dar conta.

—Você? vive aqui?

—Sim. - Hannah inspecionou a rosa que ainda segurava nas mãos e percebeu que não a escolhera por sua beleza, mas sim porque combinava com o fio amarelo de seu colete xadrez.

—Quando não estou em Londres, faço do castelo Raeburn meu lar.

—Peço desculpas por minha ignorância, senhor - sorriu Hannah.

Cada vez era mais consciente das vicissitudes que afligiam Dougald em sua nova situação. Embora temia que seus sentimentos a condenassem, se deleitava na calamidade de Dougald. Sempre fora tão ambicioso, ele e sua família; ao herdar aquele patrimônio deve ter acreditado que conseguira todas as suas metas, mas entre as anciãs damas, o herdeiro e sua própria esposa, sem dúvida a herança o engasgara.

Dougald não podia nem imaginar, mas ela sim. E de fato assim o imaginara mais de uma vez em seus melhores sonhos.

—Temo que ninguém me explicou que você residia aqui.

—Se me permitir a ousadia de me apresentar a mim mesmo: sou Seaton Brackner, barão Onslow, filho do irmão mais novo do décimo segundo conde e primo em quinto grau do atual lorde Raeburn.

Ela fez uma reverência.

—Senhorita Hannah Setterington, senhor. Vim ser dama de companhia da tia de sua senhoria, que deve ser também a sua, presumo.

—Então a informação é certa. - Voltou a se inclinar ante ela e lhe estendeu a rosa. - A mais bela das damas veio morar aqui.

Hannah aceitou solenemente a flor.

—Você me adula, senhor, mas sou muito prudente para deixar que me faça perder a cabeça. Considerarei que seu interesse se deve só ao aborrecimento de um londrino em suas atuais circunstâncias rurais.

—Suas palavras são desencorajadoras, - ofereceu-lhe o braço e ela posou a mão em sua manga.

—Em troca você me resultou cativante, mas acredito que nunca se olhe ao espelho ou se convenceria que minha adulação é sincera.

Hannah retificou seu primeiro julgamento. O senhor Onslow não era um completo almofadinha, a não ser um resplandecente urbanita que sofria o aborrecimento do campo, provavelmente devido a motivos econômicos.

Também era, decidiu ela, sua maior fonte de distração naquela situação insustentável.

—Aonde me leva, senhor?

—Meu primeiro pensamento foi ir para a sala do café da manhã, mas se o prefere, bela dama, mandarei trazer meu corcel, a levantarei sobre a sela de montar e a levarei longe do tédio da vida comum.

Hannah lhe olhou a calvície e ao vê-la claramente, pensou que a possibilidade que ele a levantasse a algum lugar parecia bastante improvável.

—A sala do café da manhã parece tentadora - embora Dougald sem dúvida rondaria por ali.

Sir Onslow respirou pesadamente.

—Como tantas outras jovens damas, você carece de imaginação.

—Não é que careça de imaginação, é que possuo uma forte praticidade.

E seguro que se se inteirava de que tentava fugir do castelo Raeburn, Dougald a caçaria rapidamente. Não queria implicar nenhum homem em uma disputa entre ela e seu marido; alguém poderia sair maltratado e esse alguém nunca seria Dougald.

Ela e sir Onslow cruzaram a longa e ampla galeria que discorria da escada para o grande salão.

—Então conheceu às tias. Ou deveria dizer? a tia Spring e suas companheiras. Pelo modo em que me repreendem, também poderiam ser minhas tias.

Seu abatimento a fez sorrir.

—As conheci ontem à noite.

—E o que opina?

—São umas damas encantadoras e estou segura que será um prazer cuidar de tia Spring.

—Que discreta é você! - Parecia desconsoladamente contrariado, mas se alegrou. - Sempre acredito que as tias são como uma pequena matilha de terriers, dando voltas e mordiscando, saltando e reclamando atenção.

Hannah reprimiu um sorriso.

—Não são uma matilha, senhor. Têm personalidades muito diferentes.

—Sim, claro! Personalidades muito diferentes, mas consideradas em conjunto são umas intrometidas, sentenciosas, benévolas sabichonas.

—Parece amargurado.

—Absolutamente. Eu também as adoro. E quem não? - Soltou um suspiro teatralmente longo. - Eu só gostaria que tivessem um pingo de maturidade entre todas elas!

Pelo que pudera observar a noite anterior, não tinha mais remédio que estar de acordo com ele, as tias diziam o que pensavam e o que pensavam com frequência não se podia repetir em voz alta.

Seus comentários sobre ela e Dougald foram críticos, e sua intuição ainda mais. Na noite anterior se alegrou de deixar Dougald e se sentar com as tias em sua salinha, onde ria e assentia enquanto conversavam, e ao final teve que alegar que estava exausta para que a senhora Trenchard pudesse acompanhá-la até sua apertada, fria e pobre habitação.

Dormiu muito mal e sonhou com Dougald.

O corredor parecia muito diferente durante o dia com a luz do sol que entrava por uma fileira de janelas que se abriam a um dos lados. Hannah não vira as janelas na noite anterior, nem tampouco compreendia por que o castelo se rendia para dentro para permitir janelas em semelhante lugar, mas todos os edifícios antigos que visitara tinham alguma excentricidade.

—O castelo Raeburn é um lugar interessante - observou.

—Um maldito e velho montão de pedras - repôs sir Onslow. - Mas é nosso montão de pedras e o amamos.

—Vejo que lorde Raeburn está fazendo reformas - comentou apontando a porta apoiada contra a parede e o rumor das vozes dos trabalhadores.

—Lorde Raeburn é um bárbaro sem nenhum sentido da história - disse sir Onslow com desdém . - E o que é pior, não arrumará meus aposentos até que não tenha acabado com os seus.

Mas que se pode esperar de um bruto que matou sua esposa? - A observou com atenção esperando ver sua reação.

Hannah era consciente do forte desejo que sentia de esbofeteá-lo. Em lugar disso, se deteve e se armou de seu mais firme e desaprovador olhar de instrutora.

—Você sabe ou está difundindo rumores sem fundamento?

—São rumores, é obvio! - Era óbvio que sir Onslow não sentia o mínimo arrependimento. Minha querida senhorita Setterington, sou desses homens aos que alguém convida para jantar para comentar os rumores.

Um homem de minha posição ou sabe contar anedotas e intrigas ou não o quer ninguém.

—Ah! - A desaprovação de Hannah cedeu um pouco.

Tinha toda a razão. Quando assistia a um jantar, ela preferia se sentar ao lado de um homem assim e não ao lado de um daqueles cavalheiros eternamente aborrecidos e imensamente circunspetos que lorde Ruskin considerara aceitáveis para uma dama solteira.

Bom. Já não teria que se preocupar nunca mais por isso.

—Não obstante, senhor, me parece muito descortês por sua parte o fato que se beneficie da hospitalidade de lorde Raeburn e o difame de uma maneira tão maliciosa.

Sir Onslow sorriu e se poliu.

—Fiz a Dougald um grande favor. Antes que chegasse aqui só uma pequena porção da Inglaterra conhecia sua história: que era um rufião em sua juventude, que escapou de sua casa porque seu pai o odiava, que vagava sem rumo pelas ruas para pegar e roubar.

Hannah também ouvira aquilo antes, embora fosse um rumor que se sussurrava as costas de uma jovem esposa. E cada vez que perguntava a Dougald a respeito de semelhantes contos, ele a distraía ou não fazia nenhum caso.

Essa era outra parte de sua vida que não a permitira compartilhar.

Sir Onslow prosseguiu.

—Contei que Dougald se reformou porque amava a sua jovem esposa, que brigaram e o ameaçou abandonar, e que em um ataque de ira ele declarou que se não ficasse para viver com ele, morreria.

Um calafrio percorreu a coluna vertebral de Hannah. O dramatismo de sir Onslow estava muito perto da realidade.

—De modo que a assassinou e jogou seu cadáver aos lobos, e após chora sua morte. - Sir Onslow piscou com prazer.

—Difundi o conto por toda parte e Dougald é agora um homem cheio de mistério, fortuna e paixão desde a Escócia até a Cornualia. Deveria me estar agradecido. Dei-lhe fama.

O aroma de pão recém assado chegou até Hannah.

—E o está agradecido?

—Provavelmente não, mas já disse que é um bárbaro.

Hannah se pôs a rir. Não pôde evitar. Tinha uma voz graciosa e um engenho que resultava refrescante depois do opressivo desejo de vingança de Dougald.

—Viveu sempre aqui? - perguntou enquanto caminhavam.

—Minha mãe insistiu. Disse que era minha herança e, claro, aos nobres de pouca estirpe os impressiona quando me refiro a mim mesmo como Sir Onslow do castelo Raeburn.

—Sorriu ao quadro de seu antepassado que pendurava da parede.

—De modo que o repito frequentemente.

Hannah fez girar a rosa na mão enquanto ria do tom de reprovação que empregava consigo mesmo.

Sobressaltada por um ruído de passos que retumbavam atrás deles, Hannah se voltou para ver Charles, sem barbear, despenteado, com os olhos injetados em sangue e fixos nela, correndo como um homem que tivesse uma missão.

—Madame, suplico que me permita falar com você uns minutos?

—Que pressa mais pouco elegante, bom homem! - Sir Onslow tirou um lenço da manga e o ondeou em direção a Charles. - Trouxe com você uma baforada francesa de alho.

Charles se deteve ao ver pela primeira vez o braço de Hannah sobre a manga de sir Onslow. Seus lábios já enrugados se franziram ainda mais e baixou a cabeça.

—Madame?

—Ela é a senhorita Setterington para você - disse sir Onslow.

A boca de Charles trabalhava enquanto ficava olhando fixamente. Sabia muito bem seu nome, odiava que o corrigissem e odiava especialmente que o corrigissem quando sabia perfeitamente que tinha razão.

Hannah desfrutou ao vê-lo perturbado.

—Senhorita Setterington, esperava que você me acompanhasse até onde se encontra lorde Raeburn; o senhor precisa de você - disse Charles se rendendo, mas resmungando.

Ah, de modo que Dougald não estava ainda na sala do café da manhã! Não precisava se preparar para vê-lo. Ainda não.

Charles sempre era o criado que ia em busca dela quando Dougald queria que lhe fizesse o nó da gravata, costurasse um botão qualquer outra tarefa tola e inútil que ele considerava aceitável para que a realizasse uma esposa. A lembrança a fez ficar muito erguida.

—Lorde Raeburn mandou me chamar? - perguntou muito estirada.

—Claro que não a mandou chamar! - Sir Onslow ficou nas pontas dos pés de indignação. - Nenhum cavalheiro requereria a presença de uma dama antes do café da manhã!

Hannah não fez conta.

—Mandou me chamar, Charles?

Charles lhe lançou um olhar fulminante.

—Não exatamente, mas eu não posso? em troca ele precisa? espero que você?

Hannah não sabia o que Charles esperava, mas o escutava gaguejar, em espera de uma explicação e sabendo que não podia dizer o que queria, que era: "Não é próprio de uma mulher questionar as demandas de seu homem."

Ah, ver Charles mordendo a língua podia converter seu horrível apuro na maior das delícias!

—Obrigado - respondeu com um sorriso, um sorriso tão gelado como o olhar fulminante de Charles. - Mas temo que devo concordar com sir Onslow.

Se lorde Raeburn "exatamente" não mandou me chamar, então esperarei até depois do café da manhã para falar com ele.

Charles ficou plantado, rígido, incrédulo, enquanto sir Onslow fazia um gesto para a porta.

—Por aqui. - Enquanto passavam na frente de Charles, sir Onslow disse em voz o bastante alta para que este o ouvisse: - Malditos afrancesados, se dão ares e não têm nem ideia do que são as maneiras!

Hannah não olhou para Charles, mas pôde imaginar como um homem que acreditava em si mesmo o arauto da civilização francesa no baldio da sociedade inglesa reagiria ao ouvir que o chamavam afrancesado, e ao imaginar isso sentiu um imenso prazer.

Ela e sir Onslow passaram por uma pequena sala vazia que só continha uma delicada mesa de jantar redonda, perto da janela.

—Esta é a sala de jantar menor - explicou ele. - Aqui se serve a refeição quando assistem quatro ou menos convidados. Quer dizer: nunca. A hospitalidade de lorde Raeburn é de tudo hospitalar.

Aqui estamos, senhorita Setterington, a sala do café da manhã.

Hannah se guiou pelo olfato até a seguinte sala. O rico e salgado aroma de panqueca, salsichas e arenques defumados circulava pelo ar, e atrás dele estava o aroma torrado de pãezinhos e madalenas.

Ao entrar na sala de jantar de painéis escuros viu uma grande mesa que bem teria acomodado a duas dúzias de convidados com os pratos fumegantes sobre um aparador e a sala cheia de criados atarefados e anciãs que ingeriam uma surpreendente quantidade de comida.

—Aqui estão - disse tia Spring. - Eu disse que viriam juntos. - E depois de olhar a sir Onslow entrecerrando os olhos acrescentou: - Bom, você não, claro!

—Obrigado, tia. - Sir Onslow indicou dois assentos vazios entre a senhorita Minnie e tia Ethel. Separou a cadeira para Hannah enquanto perguntava: - A quem esperavam?

—Acredito que pensava que o querido Dougald traria a senhorita Setterington até aqui. - Tia Ethel sustentava o garfo sobre um montículo de ovos mexidos e arenques defumados.

—Ontem à noite pareciam estar muito enfrascados.

—Será que seu interesse já mudou? - perguntou tia Isabel a Hannah. - Porque não deveria; Seaton é um moço encantador, mas é mais pobre que um rato de igreja e seu título mal tem uma geração de antiguidade.

—Obrigado, senhora.

O rosto de sir Onslow mostrava a mesma expressão afligida que Dougald quando precisava fazer frente às tias. Sentado ao lado de Hannah, levantou um dedo.

A senhora Trenchard abandonou sua posição junto à mesa auxiliar e se apressou a ir para eles.

—O que posso fazer por você, sir Onslow?

Este moveu uma mão negligente para Hannah.

—O que gostaria de tomar no café da manhã, senhorita Setterington?

—Chocolate quente, por favor, senhora Trenchard.

Talvez o chocolate lhe curasse a dor de cabeça que a menção do nome de Dougald provocara.

—É muito cedo para o álcool, tomarei chá - disse sir Onslow.

A senhora Trenchard lhe sorriu carinhosamente e se afastou pressurosa para transmitir seu pedido a uma garçonete.

Sir Onslow se inclinou se aproximando de Hannah.

—Hei aqui um personagem interessante.

Hannah seguiu seu olhar.

—A senhora Trenchard?

—Sim, vem de uma antiga família de criados devotos. A mãe de tia Spring morreu de parto, assim contrataram à mãe da senhora Trenchard como ama de leite e nunca mais se foi. Até o dia de sua morte esteve ao lado de tia Spring, a protegendo de algo desagradável que pudesse aparecer em sua vida, e educou à senhora Trenchard para que fizesse o mesmo. É muito raro ver as duas, a tia Spring tão feliz todo o tempo e à séria senhora Trenchard correndo atrás dela para comprovar que se encontra bem a menor oportunidade.

Aquilo explicava o interrogatório da noite anterior.

—Então me trouxeram para substituir à senhora Trenchard?

—Em certo modo podíamos dizer assim. Ela é também a governanta, mas não abandonará facilmente suas responsabilidades.

A senhorita Minnie ao que parece decidiu que já conversaram bastante em voz baixa, pois dirigiu a ambos um olhar implacável.

—A comida está aqui. Você sirva a si mesma, senhorita Setterington. Deixemos de cerimônias pela manhã - disse com voz ensurdecedora.

—Obrigado, senhora. Acabo de me dar conta que a viagem me tem aberto o apetite.

Hannah foi ao aparador e observou tal variedade de comida que se alegrou muito. Em nenhum lugar se comia melhor que em uma casa da campina inglesa, e sem dúvida ia dar boa conta daquele banquete, sobretudo quando Dougald não estava presente.

Sir Onslow a seguiu e esfregou as mãos ante a expectativa. Aquilo e o brilho de seus olhos ao contemplar o montão de bolinhos recém feitos explicavam a curva de seu estômago, que desafinava com a lisa silhueta de sua sobrecasaca.

Com um garfo de servir, Hannah começou a se servir salsichas no prato.

—Se esta jovenzinha se propõe flertar com todos os cavalheiros do castelo, muito em breve lhe encontraremos marido - declarou tia Ethel em uma voz doce e insinuante.

Hannah esqueceu a salsicha e o garfo golpeou contra a porcelana com um estalo.

—Querida, esteve flertando com Seaton? - opinou tia Spring.

Hannah não podia olhar para sir Onslow.

—Mas se estava beijando Dougald.

—Já? - sir Onslow parecia encantado, o fofoqueiro tinha uma nova intriga.

Hannah simulou não ouvi-lo. Ele era o menor de seus problemas.

A senhora Trenchard lhe dirigiu um olhar escandalizado e fez um gesto aos criados, que começaram a tossir, para que abandonassem a sala de jantar.

Casamenteiras. As tias eram umas casamenteiras. Na experiência de Hannah os casamenteiros eram um problema, pois manipulavam suas vítimas até que conseguiam seu objetivo: o casamento entre dois inocentes.

Invariavelmente teve que evadir as armadilhas que a ela e a diversos cavalheiros montaram casamenteiros de boa vontade. Teve que fazê-lo; os casamenteiros não teriam hesitado em apanhá-la em uma situação comprometedora e mais de um cavalheiro indicara sua disposição de cair naquela intriga concreta com ela, mas ela não se sentira tentada.

Claro que não. Já estava casada.

O que ia fazer agora que as casamenteiras planejavam, de maneira pouco sutil, enredá-la com seu próprio marido?

—Talvez não queira se casar. Talvez simplesmente queira ter umas quantas aventuras. Depois de estar casada com o Irving, ter aventuras me pareceu uma boa ideia - disse tia Isabel em tom reflexivo.

—Me pergunto se poderia despertar o interesse de algum homem por uma aventura.

—Devem ser vários homens, se teve umas quantas aventuras - observou tia Ethel.

—A senhorita Setterington é perfeitamente apta para se casar com Dougald - declarou a senhorita Minnie.

—Bom dia - disse Dougald o bastante alto para se fazer ouvir entre o bulício, mas imediatamente se fez um incômodo silêncio. Hannah pensou que era sua presença sombria que empanava a frivolidade.

Hannah não queria olhá-lo, não queria recordar a loucura da noite anterior, como se seus beijos fossem mais censuráveis que as ameaças e o engano de Dougald. Mas estremeceu somente um momento antes de ficar muito rígida e dirigir o olhar para ele. Então reprimiu uma exclamação.

 

Não foi a presença sombria de Dougald a que provocou que se fizesse o silêncio, a não ser seu aspecto; tinha um olho arroxeado e completamente fechado pelo inchaço, o lábio partido e volumoso, um machucado na face e um galo na testa.

—Caí do cavalo - disse antes que a ninguém desse tempo de fazer um comentário.

Mentira. Hannah já o vira com tal aspecto depois de uma farra que acabou em murros uma noite, a véspera de São João[8]; muita cerveja e a companhia de alguns velhos camaradas da época em que andava vadiando.

—Venha aqui, jovem - se dirigiu a senhorita Minnie em seu tom mais severo.

Dougald caminhou capengante para ela crispando o semblante de dor a cada passo.

Hannah afastou o olhar de seu rosto. Não podia fazer nada por ele. Aquele não era seu papel. Ao olhar a seu redor viu as tias sacudir a cabeça ao uníssono. A senhora Trenchard ficou em pé esfregando as mãos.

Da soleira, Charles olhava para Hannah como se o estado de seu amo fosse culpa dela, e então compreendeu por que a procurara. Talvez pensava que Dougald lhe faria caso e deixaria que curasse suas feridas.

Dougald nunca a teria feito caso. Charles sabia.

Dougald não merecia toda aquela comiseração. O muito estúpido se encetou em uma briga!

Ela teria gostado de se levantar, apontar com o dedo e o repreender, emplastar uma vendagem no olho e dizer que sua conduta era infantil e desacertada.

E por que sir Onslow se reclinava sobre o aparador e sorria como um bufão ante a figura capengante de Dougald? Não gostava desse barão. Não entendia como pudera encontrá-lo divertido.

Agarrando suas mãos, a senhorita Minnie o examinou de cima abaixo.

—Se tiver caído do cavalo, Dougald, parece que aterrissou sobre os nódulos.

Sir Onslow gargalhou com vontade.

A senhorita Minnie moveu rapidamente a cabeça para ele.

—De que ri você, jovem?

Influenciado por aquela justa indignação se serenou em seguida.

—De nada, senhora.

—Não me pareceu isso, - depois de o repreender, a senhorita Minnie se dirigiu à senhora Trenchard. - Necessitaremos pomada e ataduras do armário dos remédios.

A senhora Trenchard procurou entre as chaves de seu cinturão.

—Agora mesmo o trago, senhora - disse quando encontrou a chave correta depois de fazer uma reverência.

Saiu a toda pressa deixando atrás de si um silêncio que tia Spring se apressou a encher.

—Como é que o querido Dougald arranhou os nódulos ao cair do cavalo?

—Esteve brigando, Spring, querida. - Tia Ethel sacudiu a cabeça e seus brancos cachos se balançaram. - Acreditei que nosso querido moço seria mais hábil com os punhos.

Hannah endireitou as costas. Dougald era bom com os punhos. Ele mesmo contou e ela o vira se pavonear transbordante de orgulho depois daquela briga. Como fizera para sair tão maltratado?

O olhou com um pouco menos de aquecimento e um pouco mais de senso comum.

Mas deliberadamente não ele prestou a menor atenção a ela. Coxeando até a cadeira com braços, alta e lavrada, que estava na cabeceira da mesa, se sentou com extremado cuidado como se lhe doesse muito.

—Não poderia estar melhor. - Desafiou com o olhar a qualquer um que o refutasse.

Mas tia Spring pareceu não perceber.

—Por que brigou, Dougald? Nunca antes tinha brigado - insistiu tia Spring.

—Caí do cavalo - repetiu Dougald depois de sacudir o guardanapo.

—Brigou com seu cavalo? - brincou tia Isabel.

Dougald não lhe devolveu o sorriso. Certamente não podia fazê-lo com aquele lábio partido. Hannah se serviu outro tenro pãozinho (como pensava comer tanto?), e se dirigia a seu assento quando a senhora Trenchard retornou, com as mãos cheias, quase correndo.

Charles fez gesto de se adiantar, mas a senhorita Minnie bramou:

—Dê as ataduras à senhorita Setterington. Veremos se sabe o bastante de enfermaria para cuidar de nossa querida tia Spring.

—Eu não brigo a murros - objetou tia Spring.

—Mademoiselle Minnie, eu já me ofereci para curar as feridas do amo, e se negou rotundamente. De modo que se ele - começou Charles.

Hannah não esperou para ouvir como acabava aquela discussão mas sim avançou para Dougald com confiança arduamente ganha e com um prato de comida.

Era uma enfermeira competente e seus dedos ansiavam curar Dougald em mais de um sentido. O agarrou pelo braço.

—Vamos ao refeitório pequeno.

Dougald ficou olhando a mão com a que ela o pegava pelo braço.

—Senhorita Setterington, você é uma presunçosa.

Hannah o soltou.

—Muito bem.

Deu-lhe as costas e cruzou os braços, sabendo à perfeição o que estava a ponto de ocorrer.

—Dougald, querido, parece um bárbaro. - Tia Spring parecia afligida.

—Não é algo agradável de ver na mesa do café da manhã - disse tia Isabel em tom de recriminação.

Tia Ethel tampou os olhos com a mão.

—Enjoo se vir sangue.

Hannah ouviu a respiração pesada de Dougald e sorriu. Como gostava de ver Dougald derrotado por aquelas quatro frágeis anciãs.

—Maldição! - murmurou Dougald ao se levantar. - Foi somente uma pequena briga.

Quando Hannah voltou a vista atrás, tia Ethel lhe piscou um olho.

Dougald começou a mancar, mas algo captou sua atenção. Se deteve e ficou olhando a seu herdeiro.

—Tenho um alfinete de gravata com um diamante igual a este - observou em tom contrariado.

Seaton o tocou com o dedo.

—Devo elogiar seu bom gosto.

Dougald sacudiu a cabeça e passou de lado enquanto Hannah o ouvia murmurar:

—Vadio!

A senhora Trenchard seguiu Hannah e Dougald. Um lacaio se apressou a retirar a cadeira da mesinha redonda.

Dougald se sentou com pouca graça.

—Me lembrarei disto - disse a Hannah.

A senhora Trenchard pôs as ataduras e a pomada ao lado de Dougald e uma taça fumegante perto de Hannah.

—Seu chocolate quente, senhorita Setterington.

—Obrigado, senhora Trenchard. Lorde Raeburn, você recorda tudo.

—Hannah deixou o prato perto de sua mão direita, aprendera algumas coisinhas nos anos que levava cuidando de doentes, e uma delas era que precisavam estar no leito de morte antes de tomar ascos à comida.

—E eu também.

Por agora poderia se dizer que estavam em um empate técnico, ao menos enquanto houvesse um lacaio na porta e a senhora Trenchard rondasse ao redor de Hannah disposta a lhe prestar ajuda.

Dougald lhe mostrou os dentes em um grunhido de irritação.

—Deveria comer. Já está muito fraca.

—Obrigado, senhor, por esse comentário lisonjeiro. Seu semblante também poderia melhorar.

Explodiu em uma gargalhada que freou de repente quando seu lábio puxou.

—Harpia - disse em agradecimento.

—Coma. Isso o obrigará a ter a boca fechada.

E lhe alisou o cabelo para trás. Ele afastou a cabeça como se sua carícia o queimasse.

—Quando aprendeu enfermagem?

—Aprendi muito quando cuidava de lady Temperly e mais ainda enquanto estive à frente da Distinta Academia de Instrutoras. - Com um movimento lento acariciou a face dele. Quando ele o permitiu, levantou o queixo e o examinou.

—As garotas de dezoito anos sempre estão fazendo travessuras, e depois das travessuras, alguém deve lhes enfaixar as feridas.

—Devia te encantar dirigir essa sua academia. Todas aquelas garotas fazendo o que você lhes dizia. Podia imaginar que eram suas filhas. - Fez pausa. Isso deve ser quase tão bom como ter sua própria família.

Sentiu vontade de esbofeteá-lo, mas estava pior que o que apreciara em um primeiro momento.

Quando deslizou as mãos pelo couro cabeludo de Dougald encontrou outros dois galos do tamanho aproximado de um ovo de galinha. Lhe deram uma boa surra.

Naquele instante se alegrou disso.

—É um autêntico porco - disse com naturalidade, como quem não quer a coisa.

—Senhorita Setterington! - exclamou a senhora Trenchard.

Hannah fez caso omisso da desaprovação. A senhora Trenchard não tinha nem voz nem voto naquela guerra entre Dougald e ela.

—Senhor, dói-lhe a cabeça? - perguntou Hannah.

—Claro - ele espetou.

—Vê bem com o olho bom?

Dougald lhe dirigiu um olhar lascivo aos seios.

—E vejo um formoso panorama!

A senhora Trenchard pigarreou. Ao que parece não estava acostumada a ouvir seu amo fazer elogios a uma mulher sobre seus seios.

Hannah se consolou como pôde com aquele comentário.

—Necessito ataduras frias para lhe enfaixar a cabeça e um bife frio para o olho - comunicou à governanta.

A senhora Trenchard deu instruções ao criado.

—Como está nosso querido moço, senhorita Setterington? - Tia Ethel apareceu pela porta para dar uma olhada ao maltratado Dougald, que se ergueu um pouco.

—Estou bem, tia Ethel. Por que todo mundo fala de mim como se eu não pudesse ouvir? E por que todo mundo arma tanto revoo por uns pequenos cortes de nada? Estou bem!

—Já imagino que esteja. Quando um homem se instiga tanto, é que sobreviverá. - Tia Ethel se retirou, mas Hannah a ouviu murmurar entre dentes: - E mais é a vergonha!

Charles apareceu pelo ombro esquerdo de Dougald com seu nariz francês levantado para Hannah em sinal de desafio.

A importava um cominho, enquanto não se intrometesse no que estava fazendo. Ao fim e ao cabo, ele ajudara Dougald a se vestir. Teve a oportunidade de fazer uma ideia clara sobre o estado de saúde de Dougald.

—Primeiro lhe curarei os arranhões.

A senhora Trenchard destampou um pote de argila e o ofereceu a Hannah.

—Consolda[9] mesclada com manteiga de porco - explicou.

Hannah lubrificou com cuidado um pouco daquele unguento no lábio e descobriu que as palavras lhe escapavam da boca sem que o decoro nem o fato de que outras pessoas pudessem as ouvir as refreassem.

—O que esteve fazendo, Dougald? Pretendia obter que o matassem? Nunca antes foi tão estúpido para se colocar em uma briga que não pudesse ganhar.

Dougald tentou afastar a cabeça de seu alcance.

—Esta coisa fede.

—É uma penitência por seus pecados. - Hannah respondeu o bastante forte para que a senhora Trenchard a ouvisse, dirigiu um rápido sorriso em direção a ela, logo estendeu o unguento sobre as feridas do queixo e sobre a inflamação de sua orelha e murmurou: - Onde esteve ontem à noite? Na tasca com Alfred?

—Está me aporrinhando.

—Alguém tem que fazê-lo - repôs Hannah. - Esteve muito perto de conseguir que o matassem.

A senhora Trenchard estremeceu.

Os dois, Dougald e Hannah, a olharam.

—Como os outros senhores - disse em uma voz abafada.

Dougald soltou um bufido.

—Sim, senhora Trenchard, mas já ouviu os rumores. Eu matei a minha esposa e a outros senhores para obter o título. Não vou matar a mim mesmo.

—Sim senhor. - O pote que a senhora Trenchard sustentava nas mãos estava tremendo. - Esquecera isso, senhor.

Hannah levantou a mão direita.

—Por que coxeava?

—Caí em um buraco e torci o tornozelo. - A mão livre se arrastou até o prato de Hannah e agarrou o pãozinho.

Sempre gostara dos pãezinhos tenros.

Hannah lhe lubrificou os nódulos de unguento.

—Diz sir Onslow que agora é um personagem romântico conhecido em toda a Inglaterra.

—Sir Onslow. - Dougald fixou seu perturbador olhar, ou melhor dizendo, a metade de seu perturbador olhar, no rosto de Hannah.

—Esteve flertando com ele.

—Eu não flerto com ninguém - repôs deixando de sorrir e agarrando as vendagens com os que enfaixou os dedos.

—Esteve falando com ele.

Chegou um lacaio com toalhas flutuando em uma bacia de água. Outro trazia um bife em um prato.

Hannah agarrou uma toalha da bacia e a retorceu para escorrer a água fria.

—Falei com ele.

—Não quero que fale com ele.

Estavam elevando cada vez mais a voz, mas Hannah não podia se conter.

—Não seja ridículo.

—É perigoso.

Sacudiu-lhe com a toalha na cabeça.

—Se eu ouvi os rumores você também.

A agarrou pelo pulso e ela baixou o olhar para ele.

Sob os machucados e os arranhões voltava a mostrar seu rosto frio e sério, e sua eficaz cara de poucos amigos transmitia uma advertência: "Não ouça os rumores. Acredite neles. Sou um homem perigoso."

Voltava a ameaçá-la, a plena luz do dia e depois que ela teve a amabilidade de lhe enfaixar as feridas. Se não tivesse estado ferido, Hannah lhe teria dado uma sova. Se liberou de um puxão e olhou aos lacaios.

A cara de pau da senhora Trenchard demonstrava que ouvira ao menos a última parte de sua rixa. Os criados pareciam aguçar o ouvido.

Dava o mesmo, embora, realmente dava o mesmo? Toda aquela situação era insustentável, e a senhorita Hannah Setterington não estava disposta a permitir que nenhum homem a intimidasse e menos seu marido.

—Fofocas! Não tenho por que suportar estas tolices.

—E o que pensa fazer?

Levantou o bife, o colocou com cuidado sobre seu olho machucado e deu um passo atrás para examinar os resultados.

—Tem um aspecto completamente ridículo. - E avançou para ele, se inclinou, agarrou a xícara de chocolate, agora morno, e disse em voz baixa mas implacável:

—vou pegar o primeiro trem de volta a Londres.

Enquanto dava meia volta para partir, Dougald a segurou pela saia.

—Senhora Trenchard, pergunte a tia Spring se pode vir me ajudar.

A senhora Trenchard lhe fez uma reverência e partiu correndo até o salão do café da manhã.

—Que acredita que está fazendo? - perguntou Hannah. - Não pode me obrigar a ficar aqui pela força.

Observou a intensidade de seu único olho e pensou que ia se equilibrar sobre ela. Deixou a xícara sobre a mesa para poder se defender.

Se defender ou se alegrar que se equilibrasse sobre ela? que dilema!

Já não sabia qual das duas coisas desejava mais. Todos os anos que passara sozinha foram de castidade e estava orgulhosa de sua contenção. Se fixou nos homens, homens bonitos, homens queixumeiros, homens que tentavam seduzi-la com as frases mais doces e os mais enérgicos abraços, e ela rechaçara a todos. Com seu engenho às vezes, e outras com um sopapo, os pusera em seu lugar, os reduzira ao que eram na realidade: meninos zangados ou bestas necessitadas. Imaginava a si mesma como um bastião da retidão, uma fortaleza tão resistente que o mero encanto e a limpa virilidade não podiam assaltá-la.

Agora se dava conta que não fora forte, simplesmente não encontrara a nenhum homem que tivesse feito perigar seus princípios. Aqueles homens não eram Dougald. Nada em seus corpos nem em suas almas despertara nela paixão ou alterado sua solidão, pois nenhum daqueles homens era o companheiro que a natureza dispusera para ela.

À natureza só importava que dois corpos sentissem uma paixão mútua que os levasse a se reproduzir. A natureza não compreendia que uma mulher precisava ser mais que uma fêmea procriadora destinada a aumentar a tribo.

Agora Hannah enfrentava a seu casal, ouvia suas ameaças, sabia o que ele desejava. Ora! Tramara sua captura como se fosse um mascote que lhe escapara; entretanto, experimentou uma breve e aguda dor quando os mamilos se arrepiaram, e um quente e lento desejo que ia se alojando em seu ventre.

Precisava pôr fim a aquilo. Se ele se inteirava - e Dougald sempre fora muito agudo no que se referia a paixões animais, - se comportaria de um modo que provavelmente a faria se sentir desgraçada e a ele satisfeito. Não lhe cabia a menor duvida de qual seria essa ação, que tinha a ver com emoções longo tempo reprimidas e dois corpos nus.

Afastou aquele pensamento com uma consternação virginal que a jovem Hannah nunca experimentara. Precisava pôr fim a aquela cena. Precisava sair de algum modo daquela sala antes que ele tentasse se aproveitar dela ou lhe revelasse com muita franqueza o que pensava dele quando era mais jovem e de sua atual alma desprezível e tão manchada.

Cruzando os braços olhou a Dougald.

—Sou a senhorita Hannah Setterington da Distinta Academia de Instrutoras e não tolerarei ameaças.

—Não estou ameaçando a ninguém - repôs Dougald em um tom tão frio e firme como o dela.

Ficaram se olhando fixamente, liberando uma batalha de vontades, sem que nenhum dos dois desse seu braço a torcer.

Tia Spring apareceu pela porta.

—Temo que não sou muito boa enfaixando feridas, meu querido moço. Está melhor aos cuidados da senhorita Setterington.

Hannah e Dougald deixaram de se olhar aos olhos.

—Não é por isso pelo que te pedi que me ajudasse, tia Spring - manifestou Dougald.

Tia Spring correu para ele.

—Então, o que posso fazer por você?

—Não me disse que conhecia a família Burroughs? - perguntou ele em uma voz tão exagerada como a de um ator ambulante.

O nome não significava nada para Hannah, que deu um puxão na saia com a intenção de se liberar.

Tia Spring piscou ante aquele jogo de tira e afrouxa.

—Claro que sim, querido. Ao que resta deles: só o velho casal e é uma lástima. - Se voltou para a senhorita Minnie, para tia Isabel e tia Ethel, quem, guiadas pela curiosidade, a seguiram.

—Dougald está perguntando pelos Burroughs.

—Os conhecemos - troou a tia Isabel. - São um casal agradável, mas muito estirados.

—Estirados? - perguntou a senhorita Minnie com desdém. - Estão muito cheio de si mesmos.

Como não era homem que perdesse uma conversação assim, sir Onslow apareceu atrás delas.

—Sim, senhora, mas a família leva na região desde a época dos Tudor. Se diria que têm todo o direito do mundo a estar cheios de si mesmos.

—Bom, agora se extinguirão - declarou tia Isabel. - Não têm a ninguém.

Dougald retorceu a saia de Hannah em seu punho enfaixado.

—Disse que perderam seu filho quando estava na flor da idade, pouco depois que lhe negasse a permissão para se casar com uma tal senhorita Carola Thomlinson?

Hannah deixou de puxar tão de repente que se precipitou para Dougald, mas recuperou o equilíbrio justo antes de cair sobre seu colo e deu meia volta para o encarar.

Sentado em uma cadeira como se se tratasse de um trono, sombrio e severo, estava o homem que conhecia seus segredos. O homem que sabia que teclas devia pulsar nela. O homem que conhecia o nome de sua mãe e sabia o desesperadamente que Hannah desejava descobrir que família deixara. O homem que estava seguro que iria a Lancashire e ficaria, apesar do que ele fizesse ou dissesse, para ter a oportunidade de conhecer seus avós. Certamente ele era quem dirigira sutilmente suas indagações para o lugar correto.

Não era de estranhar que estivesse tão crédulo.

—Burroughs. - Provou como soava o nome. Burroughs. O sobrenome de seu pai. Não sabia. Sua mãe nunca disse. Ela perguntara, mas as pesquisas causavam tal dor em sua mãe que preferira esperar, e esperou até que foi muito tarde e sua mãe já não pôde dizer.

Agora Dougald sabia o nome de seus avós, dos pais de seus pais. Se voltou para tia Spring, incapaz de reprimir esse tipo de desespero que só um órfão compreenderia.

—Poderia? me diria onde vivem?

Tia Spring lhe sorriu.

—Os conhece, querida?

—Não. Não, mas?

—Amigos da família, sem dúvida - comentou tia Ethel.

—Sim.

Hannah olhou a seu redor para descobrir que era o alvo de todos os olhares. Não tinha reparado nisso, em que teria que se explicar ante todos. Por que teria que fazê-lo?

Imaginara que poderia fazer discretas averiguações ao longo de um dilatado período de tempo. Não pensara que Dougald estaria no castelo Raeburn, fazendo impossível sua estadia ali, fazendo impossível sua fuga.

—Suponho que poderia se dizer assim, embora tenham passado muitos anos? certamente não me conhecerão.

—Tenho uma ideia, tia Spring. Por que não os convida a nos fazer uma visita dentro de, digamos, um mês?

Até então a senhorita Setterington já estará assentada em seu posto e saberemos mais a respeito dela e sua relação com os Burroughs - disse Dougald em um tom que transmitia uma falsa e cordial surpresa.

Tia Spring aplaudiu.

—Uma ideia genial, Dougald! Escreverei-lhes imediatamente.

—Mantém a presença da senhorita Setterington em segredo, será uma surpresa - a instruiu. - Não queremos apresentá-la tão cedo.

—Seria maravilhoso ver suas caras - esteve de acordo tia Spring. Isso seria aceitável para você, senhorita Setterington?

Hannah olhou o rosto de tia Spring, ardente ante a expectativa. Olhou às tias, alegres e em espera de sua decisão. Observou sir Onslow que a sua vez a observava. Contemplou Charles e à senhora Trenchard, que olhavam a cena tal como fazem todos os criados entregues, tentando predizer o curso de seu futuro pelas palavras de seus amos.

E olhou fixamente para Dougald, petulante, satisfeito, espancado mas irredutível e como sempre, vitorioso.

—Eu gostaria muito, tia Spring. Isso eu gostaria muito - repôs, se dobrando ante o inevitável.

 

"Seriamente acreditava que a ia deixar escapar?" Dougald observava Hannah sair da sala de jantar rodeada das damas anciãs que acolhera sob sua asa e se pôs a rir baixinho, com amargura.

Pouco depois que Hannah o abandonasse, começou a investigar sobre a identidade de seus avós. Imaginara que lhe oferecia esta averiguação como um presente, um presente que demonstraria que fizera o correto ao retornar com ele. Mas ela nunca retornou e agora ele tinha aquela informação em um punho, como um miserável. Teria que lhe pagar por aqueles dados. Lhe pagar do modo que ele escolhesse.

Era vagamente consciente que Seaton tomava posições para se sentar a sua direita, mas não prestava atenção a ele. Que Seaton falasse primeiro. Dougald escutaria o que tinha a dizer.

Ao fim e ao cabo, raciocinou Dougald, Seaton matara ao menos a dois duques de Raeburn e estava tentando matar a outro.

 

Dougald a apanhara. Outra vez. Por completo. De todas as maneiras possíveis.

De pé junto à janela da grande e ensolarada oficina das tias, convocado na torre da ala oeste, Hannah olhava a torre que se elevava ao outro lado, nesta ala. Ali fora apanhada outra esposa

Raeburn e se liberou com um salto suicida.

Não é que Dougald a tivesse encerrado fisicamente nem que ela fosse saltar para morrer, mas a apanhara com a mesma segurança com que teria dado volta a uma chave. Seu estômago ardia.

Nunca se sentira assim, nem sequer quando a ameaçou de assassinato. Fora uma vaga ameaça, palavras pronunciadas com a intenção de impressioná-la. E se recuperara porque não o acreditava capaz do assassinato.

Ao fim e ao cabo, fora seu amante. Seus corpos se fundiram, compartilharam uma mesma paixão, estiveram tão próximos em corpo e alma como duas pessoas poderiam estar.

Ao menos isso ela acreditava. Talvez aquela proximidade não fora mais que uma quimera, induzida por uma imaginação juvenil e por sua necessidade de ter a alguém, a uma só pessoa, a quem amar.

Porque Dougald era agora o que movia os fios de seus desejos, e os usava para obrigá-la a fazer coisas e para atá-la.

A voz de tia Ethel interrompeu a melancolia de Hannah.

—Venha, tia Spring, pergunte.

Hannah morria de vergonha ao se interrogar sobre que circunstâncias pretenderiam que as clarificasse.

Como estava mais alta que o resto do castelo, batia o sol pela manhã na sala da torre e pela tarde, e recebia toda a luz. As tias se apinhavam em torno de uma grande mesa sobre a que se esparramavam amostras de todos seus interesses. Uma das apreciadas rosas de tia Ethel se encontrava em um jarro junto ao caderno de desenho da senhorita Minnie. Uma variedade de pedras polidas, engastes de prata e ferramentas de joalheria estavam dispostos ordenadamente ante a cadeira de tia Spring. O telescópio de tia Isabel apontava pela janela para o céu. Pedaços de trabalhos e partes de tapeçarias estavam dispersas por toda a superfície. A sala parecia cheia de fios de brilhantes cores, azul real e púrpura, granada e pêssego pálido.

Um frente a outro, junto à janela maior, se elevavam quatro formidáveis teares.

Teares. O que fariam as anciãs damas com os teares?

—Pergunte, tia Spring. Sabe que devemos estar seguras que seja a pessoa apropriada.

Hannah tinha o olhar perdido nas verdes e onduladas colinas do imóvel, mas podia perceber claramente os tons agudos de tia Isabel. De fato, ouvia todas, pois elevavam as vozes para compensar a perda de audição de tia Isabel. Era evidente que naquela estadia não havia segredos.

Hannah se preparou para confrontar suas inquisições enquanto tia Isabel se aproximava trotando até ela.

—Querida senhorita Setterington, isso é certo? - perguntou a ela.

—Bom, depende do que esteja me perguntando - disse Hannah com precaução.

—Só uma coisa poderia nos interessar. - Os olhos de tia Spring piscaram com uma expressão míope ante Hannah. - É certo que conhece nossa querida rainha Vitória?

Hannah ficou olhando os olhos cândidos de tia Spring. Aquela não era a pergunta que esperava.

Depois da cena do café da manhã, sem dúvida o castelo inteiro fervia de curiosidade a respeito da conexão de Hannah com Dougald, do passado de sua família, de sua condição de filha ilegítima.

—Me pergunta se conheci à rainha Vitória? - repetiu Hannah assombrada.

—Sim! Sim, exatamente isso.

Por que queria tia Spring saber? Como Hannah devia lhe responder?

Hannah conhecera à rainha Vitória. Não lhe surpreendia que tia Spring tivesse obtido aquela informação. Era óbvio que Dougald indagara sobre a vida de Hannah. Nenhum âmbito de sua vida ficara ignoto, nenhum canto inexplorado, e escolhera compartilhar aquele fragmento concreto de informação com suas tias.

—Conheci sua majestade - admitiu Hannah. - Apoiou minha academia.

Tia Spring lançou um olhar emocionado para as demais damas.

—É certo, garotas! - gritou em tom jubiloso.

Fazendo voar seus cachos e sua saia, tia Ethel arrancou emocionada à carreira para elas, enquanto tia Isabel seguia perguntando:

—Disse que era certo?

—Sim, Isabel, é certo.

A senhorita Minnie respondeu a tia Isabel a olhando diretamente e vocalizando notoriamente, logo se apressou dando amostras de emoção com brilhos nos olhos esvaídos.

—Vamos, nos conte tudo. - Tia Ethel usava luvas de jardinagem e sustentava as tesouras de podar; antes daquela congregação das tias esteve cuidando das diversas plantas que se encontravam na habitação.

—Sua majestade é tão jovem e bonita como em seu retrato?

—É muito bonita e muito jovem para levar sobre os ombros tão tremenda responsabilidade.

Na realidade, Hannah agradecera às estrelas em infinidade de ocasiões não ter nascido com a tarefa de reinar sobre a Inglaterra. Sua majestade estava rodeada de pompa e cerimônia em todo momento; o único tempo que parecia dispor para si eram aquelas ocasiões em que ela, seu consorte e os meninos escapavam para a Escócia para tomar uma pausa.

—Temos este retrato dela. - Tia Isabel mostrou a Hannah um pequeno óleo, uma réplica do retrato oficial da coroação. - Parece com ela?

—É a cópia dela - repôs Hannah.

As tias intercambiaram olhadas.

—Por que se importava tanto?

—Viu a seu querido consorte? - perguntou tia Spring.

—Ao príncipe Alberto? - A maioria da gente se mostrava interessada quando se inteiravam que Hannah conhecera ao casal real, mas naquele momento parecia estar cumprindo os sonhos daquelas damas.

—Sim, me apresentaram aos dois.

—Temos este retrato dele. - A senhorita Minnie tirou um amarelado recorte de imprensa do amplo bolso de seu avental.

—Não é uma dessas vulgares caricaturas a não ser um retrato real. Parece com ele?

—Sim, muito. - Hannah olhou a seu redor para descobrir suas expressões ansiosas.

—Agora me digam o que querem saber.

Tia Ethel tirou as luvas e as deixou junto às tesouras de podar.

Tia Spring agarrou Hannah pela mão.

—Venha e sente.

Hannah a seguiu até o lugar que tinham disposto para ela sentar, uma congregação de cadeiras e sofás colocados em torno de uma estufa de ferro e, embora as janelas estavam um pouco abertas para deixar passar a fresca brisa daquele dia de março, a estufa irradiava calor. As tias se apinharam a seu redor; Hannah notara que quando as damas chegam a uma avançada idade, a pele delas emagrece, os ossos parecem os de um pássaro e procuram o calor como uma droga. Na realidade, as cortinas das janelas eram grossas, para frear as rajadas de vento que assolavam o dormitório de Hannah, e toda a parede estava recoberta de magnífico veludo púrpura para impedir as correntes de ar.

De modo que Hannah pegou a cadeira mais afastada da estufa, se arregaçou e perguntou:

—Por que estão tão interessadas na rainha Vitória?

Tia Spring olhou a seu redor procurando a suas companheiras.

—Adiante, tia Spring - assentiu a senhorita Minnie. - Conte à senhorita Setterington o que temos feito.

—Sim. - Tia Spring se sentou e começou a dar saltos na cadeira como uma menina presa pela emoção. - Durante anos meu irmão foi o duque deste lugar.

—Sim, já sabia. - Mas Hannah não sabia o que isso precisava ver com a rainha Vitória.

—Rupert sempre foi muito maníaco. Era muito consciente de sua posição. Sempre estava falando das obrigações que precisava confrontar. E era mais estirado que o pau de uma vassoura. - Tia Spring sacudiu a cabeça.

—Eu nasci aqui e vivi sempre aqui, mas pelo modo em que ele se comportava qualquer um diria que roubei o pão da boca dele.

Triste historia a que contava tia Spring, tantas vezes repetida entre as damas solteiras da Inglaterra.

—Imagino que ele a fazia se sentir incômoda - disse Hannah amavelmente.

Tia Spring levantou o nariz.

—Não? era um homem com muito caráter. Me fazia sentir mais como um obstáculo que outra coisa, e era do tipo de homens que se teria queixado embora se enforcasse com uma corda de seda.

Inclusive quando o querido Lawrence pediu minha mão, Rupert se lamentou da pobreza de Lawrence. Como se eu não tivesse sido mais feliz sendo a mulher de um soldado que dependendo de Rupert!

—Assentiu até que seus cachos começaram a se mover.

—Se não fosse porque Rupert nos negou sua permissão, eu teria tido a sorte de viver com Lawrence. O mataram na Espanha, já sabe, foi um herói até o final, e ao menos eu teria tido muito mais lembranças.

Tia Spring ficou olhando à frente, com a boca apertada e os olhos perdidos e afligidos. O silêncio encheu a sala. Hannah viu como as amigas de tia Spring intercambiavam olhadas e logo se sorriam tristemente umas a outras.

Tia Isabel deu uns leves golpes na mão de Hannah, se inclinando para frente, e sua voz grave contrastava estranhamente com a delicadeza do momento.

—É triste saber que uma de nós podia ter se casado e ser feliz, embora só fosse durante um breve período de tempo, e que uma coisa tão insignificante como o dinheiro impediu essa união, e que um acontecimento tão horrível como a morte pôs fim a esse amor para sempre.

—OH, não! Eu ainda o amo e ele ainda me ama. Algum dia estaremos todos juntos, ele e a querida pequena - tia Spring tocou a testa como se lhe doesse. Logo em um arrebatamento de entusiasmo começou a aplaudir.

—Enquanto isso, tenho a minhas amigas para me fazer feliz. Lawrence foi meu verdadeiro amor e um verdadeiro amante quer a felicidade para o amado, não importa quanto tempo tenha que esperar.

—Que pensamento mais bonito - repôs Hannah, enquanto pensava: "Outra prova que Dougald nunca me quis."

Como se necessitasse uma prova assim. Ele queria que fosse desgraçada e o estava fazendo muito bem. Às vezes sentia que levava o nome "bastarda" escrito na testa. Por esse motivo fora a Lancashire.

Para descobrir sua procedência.

Dougald tinha se precavido disso. Claro que percebeu. Fazia já uns anos explicou a ele o muito que desejava conhecer suas origens e, naquele momento, ele considerou que seu desejo era uma tolice.

O maior cabeça-dura do mundo disse que na realidade devia viver para ele. Qualquer pessoa sensata saberia que ela se rebelaria ante tal pretensão, mas Dougald não. Não prestara nenhuma atenção a ela, até agora.

Até que aquela informação foi útil para lhe montar uma emboscada.

Posou o olhar sobre tia Spring. Ela era a chave da liberação de Hannah. Tia Spring conhecia a família de Hannah, provavelmente sabia onde viviam. O que a impedia de acudir sozinha a casa de seus avós, se apresentar ali como sua neta e desfrutar de uma agradável visita?

Levou a mão ao pescoço e sentiu como seu coração acelerava.

Que outra coisa, além do temor a um brutal rechaço?

—Spring, querida - disse tia Ethel. - Vai contar à senhorita Setterington por que queremos que a rainha Vitória venha nos visitar?

Sem saber muito bem como, Hannah se encontrou de pé.

—Querem que a rainha Vitória venha visita-las? Aqui?

—Querida senhorita Setterington, uma dama nunca grita. - Enquanto repreendia a Hannah, a senhorita Minnie elevou uma sobrancelha para tia Ethel.

—Sinto muito. - Tia Ethel parecia sobressaltada ao desculpar, queria dizer que deixássemos tia Spring seguir com seu relato.

—A senhorita Setterington não gritava. Simplesmente falou claramente, para variar. - Tia Isabel puxou a saia de Hannah. - Queridas, vocês têm tendência a bisbilhotar.

—Me esforçarei em recordar - Hannah disse humildemente.

—Agora, querida, sente e deixe que tia Spring explique tudo.

Aterrada, Hannah se deixou cair na cadeira. Dava no mesmo o que tia Spring dissesse, isso não explicaria o que Dougald tinha em mente quando contou às tias que Hannah conhecia sua majestade.

Se supunha que precisava escrever à rainha e convidá-la ao castelo Raeburn? Por quê? Acreditava que ia ganhar poder com a visita da rainha? Se fosse assim, ele tinha subestimado a força de Hannah.

—Quando a esposa de Rupert morreu, eu o ajudei com seus filhos, e quando seus filhos já estavam quase crescidos, me perguntava o que ia fazer eu com minha vida - sorriu à senhorita Minnie,

—quando minha querida amiga de tantos anos perdeu seu irmão e seu lar, e me precavi de que seríamos boas companheiras.

A senhorita Minnie olhava fixamente para tia Spring, e Hannah pensou que a sombria expressão da idosa estava cheia de afeto e também de impaciência ante os meandros da narração.

—Então meu marido jogou o olho nessa desavergonhada criadinha e, quando me encontrava em minhas horas mais baixas, a querida Minnie falou de mim à querida Spring e ela me ofereceu refúgio - saltou Tia Ethel.

Todas olharam para tia Isabel, esperando sua história.

—Meu marido morreu, que o velho verde descanse em paz, ou ao menos que descanse. Não me deixou nada, mas Spring disse que as amigas de Ethel e Minnie eram suas amigas e eu realmente não tinha escolha.

—Tia Isabel se apressou a acrescentar: - Não ache que não me alegro e agradeço muito por estar aqui, só quero lhe contar que realmente me encontrava muito necessitada.

Não vim aqui só pela alegre vida da que desfrutam as damas.

—Sua senhoria, o conde, deve se sentir...

—OH sim, muito perturbado que compartilhasse sua generosidade com minhas queridas amigas. Grunhia e perdia os estribos como se tivesse um verme nas tripas! - Tia Spring levou os dedos à boca e olhou pela janela.

—Hummm! Nunca tinha pensado nisso. Possivelmente tinha um parasita.

—É bastante discutível - apontou a senhorita Minnie.

Tia Spring a olhou vagamente.

—Mas teve sua recompensa - explicou a senhorita Minnie, - ou seu castigo.

—Certamente - assentiu tia Spring. - E como cristã chorei sua morte, mas depois que os meninos morreram (eram meus sobrinhos, já sabem, e seus filhos), se tornou desagradável e taciturno.

Tia Ethel se levantou, apertou as mãos, relaxou-as e voltou a apertar.

—Eram seus filhos, querida. Não há nada mais horrível que seus filhos morram antes que você.

Outra triste história, observou Hannah, tão triste que tia Isabel atraiu a sua amiga até seu lado no sofá e lhe deu uns tapinhas na mão venosa.

A voz de tia Spring se quebrou e seus olhos encheram de lágrimas.

—Sei, Ethel. Sei.

—Talvez não deveríamos nos estender em um tema tão triste. - A senhorita Minnie assentiu de modo eloquente para tia Ethel. - Em troca, deveria contar à senhorita Setterington por que queremos ver a rainha Vitória.

—Sim, querida - repôs tia Spring. - Contarei.

—Talvez possa me esclarecer o motivo - sugeriu Hannah.

Tia Spring fez um gesto para a mesa de trabalho.

—Temos algo para ela.

—Para a rainha?

—Sim, e queremos que escreva a ela e lhe diga que venha.

—Mas, com o devido respeito, a rainha não virá porque eu o peça.

—Pois deveria fazê-lo. - Tia Spring elevou a voz, afligida, e tocou a face com a ponta dos dedos. - Tem que escrever a ela e lhe dizer que venha para que possamos lhe dar, possamos lhe dar, a coisa.

A má memória de tia Spring causava muita tensão a suas companheiras.

—A coisa? - a animou Hannah.

—Isso que fizemos - insistiu tia Spring. - Ai, não me lembro da palavra!

—A palavra não importa, senhorita Spring. Pode mostrar à senhorita Setterington o que fizeram depois que tenham tomado o chá - disse a senhora Trenchard da soleira da porta.

—OH, sim! - Tia Spring aplaudiu. - Querida Judy, trouxe bolos de creme?

—É obvio, senhorita Spring. Sei o muito que gosta. - A senhora Trenchard empurrava um carrinho coberto com uma toalha branca cheia de bolos de todo tipo, sanduíches planos de pão sem casca e dois bules de porcelana fumegantes. Ao colocar as taças e os pratinhos, perguntou: - Gostam de sua nova companheira, senhoras?

Tia Isabel se voltou para tia Ethel.

—O que disse?

—Quer saber se nós gostamos da senhorita Setterington - tia Ethel disse em voz alta.

—Claro que nós gostamos. - Tia Isabel sorriu para Hannah com uma faísca de humor perverso. - Conhece a rainha.

Hannah lhe devolveu o sorriso.

—É uma garota adorável - disse tia Ethel.

—É tão amável.

O elogio de tia Spring era previsível - Hannah suspeitou que tia Spring raramente falava mal de alguém, - mas isso reconfortou o coração de Hannah.

—Está fazendo muito bem - se pronunciou a senhorita Minnie.

A aprovação da senhorita Minnie encheu Hannah de orgulho.

A senhora Trenchard pôs os pratos de sobremesa.

—Senhorita Setterington, parece que as conquistou, e muito rápido!

O reconhecimento da senhora Trenchard parecia menos sincero; provavelmente desejasse que a relevassem da árdua tarefa de cuidar de tia Spring, mas ao mesmo tempo não quisesse que a substituíssem tão rápido.

Hannah compreendia. Depois de vender a Distinta Academia de Instrutoras, algumas vezes desejara, embora lhe desse vergonha admitir, que o transpasse de poderes às mãos de Adorna não resultasse tão fácil.

De modo que Hannah repôs:

—Esperava ter a oportunidade de falar com você, senhora Trenchard, para perguntar como podia servir melhor à senhorita Spring e a suas damas.

—Estarei encantada de ajudar. - A senhora Trenchard sorriu, obviamente satisfeita pela deferência de Hannah. - Quer que fique e sirva o chá?

—Você está muito ocupada, querida Judy. - Tia Spring empurrou à governanta pelos ombros. - Nos serviremos nós mesmas e assim poderá voltar para suas obrigações. Já sei quão ocupada está o dia que se faz a panelada!

—Sim, obrigado, senhorita Spring.

 

A senhora Trenchard permaneceu muito rígida durante o abraço de tia Spring, mas adulada, observando com evidente prazer como as tias recomendavam a Hannah um bolo atrás de outro.

A senhorita Minnie serviu o chá e estava perfeito: quente, ricamente ambarino e fragrante. A comida estava deliciosa, certamente digna de se servir à rainha, Hannah admoestou a si mesma.

Mas era uma loucura imaginar que a rainha Vitória acudiria especialmente ao ruinoso castelo Raeburn por uma ninharia que fizeram quatro excêntricas e anciãs damas. O que Dougald tramava?

Hannah apurou seu chá.

—Quando poderei ver o que fizeram para a rainha?

As tias intercambiaram olhadas, logo deixaram as xícara de chá.

—Agora mesmo, se quer - disse tia Spring.

Esqueceram da senhora Trenchard enquanto elas empurravam Hannah para a longa parede estofada de púrpura. A governanta recolheu o chá, olhando para Hannah e as tias com uma mescla de saudade e alívio, e um total sentimento de culpabilidade. Logo empurrou o carrinho pela porta.

Tia Ethel e tia Isabel agarraram cada uma um extremo da cortina e ficaram de pé, ofegantes, esperando instruções.

—Está preparada, senhorita Setterington? - perguntou tia Spring.

"Preparada para que?" Hannah assentiu.

—Puxem, - ordenou a senhorita Minnie.

Tia Ethel e tia Isabel puxaram as cortinas, arrastando o pesado tecido pela barra e deixando a descoberto uma tapeçaria.

E não uma mera tapeçaria. Uma enorme e magnificamente concebida tapeçaria que representava a sua majestade a rainha Vitória vestida com suas roupas da coroação, com o príncipe Alberto a seu lado.

Hannah o contemplou maravilhada e quando se recuperou o bastante para fechar a boca, voltou a olhá-lo. A obra media três metros de altura e cinco de comprimento, e ocupando toda a parede, enchia os olhos de arte.

Não era a tapeçaria do Bayeux, com sua descrição da guerra e da conquista. Era um tributo, um presente moderno feito com a esquecida destreza de outros tempos. Aquelas damas, aquelas frágeis, surdas, e infravalorizadas anciãs, realizaram sua façanha com quatro teares e considerável talento.

Hannah ficou em pé como mostra de veneração de sua habilidade e seu virtuosismo.

As frágeis, surdas e infravalorizadas anciãs quase dançavam de impaciência.

—Nos diga o que lhe parece - exigiu tia Isabel.

—O detalhe? a precisão criativa? - Parecia a rainha Vitória em carne e osso, e embora o príncipe Alberto tinha uma maçã do rosto mais alta que a outra, ninguém o jogaria na cara às artífices daquele empenho.

—É extraordinário.

Hannah falou com tia Isabel, se assegurando que não murmurava.

—Eu disse que era bom! - tia Isabel anunciou triunfante.

—Quanto tempo trabalharam nele? - perguntou Hannah.

—Desde o nascimento da rainha em 1819 - explicou tia Ethel.

—Vinte e quatro anos? - A Hannah pareceu assombroso que o tivessem terminado em tão pouco tempo. - Sua majestade realmente deveria? - Mordeu a língua.

A rainha Vitória realmente deveria vê-lo, mas sem a permissão de Dougald não se atrevia a mencionar tal convite.

—É simplesmente imponente.

—Olhe o fundo. Utilizamos diferentes símbolos para indicar sua soberania. - Tia Spring estendeu a mão para indicar o magnífico fundo.

—Isabel fez a lua e o sol e sugeriu o polvilhar de estrelas para indicar a majestade da rainha.

—O azul marinho serve de estupendo marco. - Hannah deu um passo atrás, admirada pela quantidade de trabalho e esforço que as mulheres tinham posto na tapeçaria.

Tia Ethel mostrou um estojo de joalheria aberto.

—Tia Spring sugeriu as gemas para representar a riqueza da nação.

—As cores são extraordinárias. - Hannah se aproximou para apreciá-los melhor.

—Ethel sugeriu as rosas, vermelha e branca para representar o impulso da história britânica, o rosa para a juventude eterna de sua majestade, e os espinhos? vê os espinhos? - a senhorita Minnie indicou as sarças que se retorciam na base da montagem, - para demonstrar que a Inglaterra se defende e nunca poderá ser conquistada.

—Que inteligente! E que premeditado! - Hannah não podia afastar o olhar da harmoniosa tapeçaria, resplandecente de simbolismo e grandeza.

—Quem o desenhou?

—Minnie o desenhou, querida. Fez os rabiscos e quando foi do agrado de todas, o dividimos em painéis. Cada uma de nós teve que tecer dois painéis. Logo os encaixamos e os costuramos - Tia Spring aplaudiu de emoção.

—Fizemos tudo sozinhas. Não deixamos que as donzelas que trabalham na costura do castelo o tocassem. Queríamos render nosso próprio tributo à rainha Vitória. - Então gosta?

—Maravilhoso. - Hannah ficava sem adjetivos, e a tapeçaria merecia todos.

—É digno de sua majestade? - perguntou a senhorita Minnie.

Hannah conteve o fôlego, mas não podia falar de forma equívoca.

—Será uma grande honra para ela receber semelhante presente.

—Então a convidará ao castelo Raeburn? - Os olhos azuis de tia Ethel resplandeceram.

O que podia dizer? Como devia lhe responder? Como se pretendesse ganhar tempo, esperava que lhe chegasse a inspiração.

—Como podem imaginar, a agenda de sua majestade está estabelecida com vários meses de adiantamento. Depois que escrevamos a ela, podem passar meses, inclusive - repôs Hannah.

—Tenta nos dizer que não virá? - a senhorita Minnie a interrompeu.

A senhorita Minnie reconheceu a vacilação de Hannah e expressou abertamente o que pensava. Escrutinando a tapeçaria outra vez, Hannah ficou paralisada ante o direto olhar da rainha Vitória que dava a impressão que via tudo. Hannah não podia mentir às tias, nem fazer outra coisa mais que tentar com todas suas forças. Elas o desejavam tanto. Mereciam mostrar à rainha a comemoração que lhe fizeram, tal como a rainha merecia ver os resultados de sua devoção.

—Compreendam que não posso lhes prometer nada. Talvez não venha nunca.

—Sabemos. É a rainha da Inglaterra, mas se não o perguntamos, nem sequer saberá - explicou tia Spring.

—O que é de pior poderia fazer sua majestade? Enviar uma missiva se desculpando? - As mãos da senhorita Minnie tremeram e se afundou na cadeira. - Devemos tentar ou nosso esforço será em vão.

Ao fim e ao cabo, a expectativa de sua visita é o que nos manteve vivas.

Ao ver a tez pálida da senhorita Minnie e o modo em que as demais se apressavam a lhe dar uns leves golpes na mão e a pôr os sais sob o nariz dela, Hannah acreditou.

De fato, a menos que a rainha viesse logo, a senhorita Minnie poderia não estar aqui para ver seu triunfo.

—As normas de urbanidade requerem que fale com lorde Raeburn antes de enviar um convite.

E ao falar o faria com todo seu poder de convicção.

—Isso é satisfatório. - A senhorita Minnie afastou os sais. - De modo que acredita que nos dará tempo de arrumar a cara de Alberto?

Sou bastante destra com o caderno de desenho, mas nem tanto com o tear, e não estou satisfeita de seus traços irregulares.

—Estou de acordo, seus traços poderiam ser mais simétricos. - Ao recordar a devoção que a rainha sentia por seu consorte, Hannah acrescentou: - Lhes asseguro que dará tempo de voltar a tecê-lo.

—Bom. - A senhorita Minnie mostrou a tapeçaria. - Chamem os lacaios para que o baixem. O desmontaremos e nos poremos a trabalhar em seguida.

 

Charles fechou a porta do espartano escritório de Dougald com sua habitual preocupação por não ferir a suscetibilidade de seu amo, mas este notou imediatamente que seu fiel criado estava preocupado e sabia por que.

Hannah aguardava do outro lado da porta.

Dougald ficou imóvel, com a pluma levantada sobre o livro de contas da fazenda.

—Sim, Charles?

Senhor, madame deseja falar com você outra vez.

—Ah, sim?

Em Dougald cresceu um raro e repentino impulso: o impulso de sorrir. Levava quase duas semanas frustrando os desejos de Hannah de falar com ele em particular. Adorava aquilo, certamente muito, mas se permitiu ceder a irreprimível emoção. Ignorar a Hannah parecia uma vingança mínima frente a tantos anos de preocupação e desonra.

—Suplica falar com você, senhor - lhe comunicou Charles pondo muita comicidade naquele pedido.

A comicidade não serviria de nada.

—Suplica? - bufou Dougald. - Duvido.

—Talvez não seja o termo que empregou, mas deseja sinceramente que lhe empreste um momento de seu tempo para fazer uma pergunta.

Dougald não precisava falar com Hannah para saber o que queria. Queria saber mais sobre sua família, ou possivelmente queria se inteirar do que pretendia fazer a respeito de seu casamento.

E ele não tinha a menor intenção de responder a nenhuma das duas coisas. Saberia a resposta a ambas as questões quando ele decidisse que devia saber, não antes.

—Diga a ela que se vá. Não tenho tempo para conversar com uma simples dama de companhia de minha tia.

De novo voltou a baixar a cabeça para a longa coluna de números. Calcular as rendas e o rendimento da fazenda Raeburn demonstrara ser um desafio, em especial quando tantos senhores diferentes usaram os livros em tão poucos anos.

Charles suspirou. Não aprovava o trato torturante que estava proporcionando a sua esposa separada, embora Dougald não compreendia por que. Ao fim e ao cabo, Charles considerava Hannah um incômodo horroroso e uma esposa indigna, e se sentia orgulhoso da influência que ele teve para que se separasse da vida de Dougald. Interferira em seu casamento. Logo se gabara ante Dougald de tê-lo resgatado de uma união desventurada. Gabado!, quando não havia pior desdita que a solidão e a ansiedade que seguiram a sua separação.

Dougald ainda sentia um pingo de vergonha por ter se deixado enganar daquela maneira. Permitira que seu orgulho, sua ignorância e as opiniões de Charles destruíssem seu casamento.

A vergonha, descobrira Dougald, só o fazia ser mais cruel no trato com Hannah.

—Charles!

Charles se alegrou, se o muito ligeiro ápice de alegria em sua expressão melancólica podia se chamar assim.

—Senhor?

—Descobriu algo sobre as mortes dos últimos dois senhores?

O rosto de Charles recuperou sua habitual expressão decaída.

—Oui, senhor, tenho descoberto algo, mas pensava falar disso com você quando pudesse desfrutar de toda sua atenção. Agora mesmo, madame?

—Que espere! - Dougald escorreu a pluma e a deixou sobre o mata-borrão. - Venha, sente-se. Me conte se minhas suspeitas estão corretas.

Charles olhou com tristeza para a porta.

—Mas madame está esperando. Poderia lhe dizer?

—Quererá dizer a senhorita Setterington - Dougald enfatizou o título; - não é mais que uma empregada. Terá que esperar para me ver até que me dê vontade. Sente-se e me conte os resultados de sua investigação.

—Como deseja, senhor.

Dez anos atrás Charles teria se ofendido pelo tom de voz de Dougald e o teria feito saber. Agora obedecia com presteza, sabendo que ele mesmo se encontrava em um eterno período de prova.

Se sentou na cadeira de respaldo reto e olhou para Dougald do outro lado da escrivaninha, não era mais que um idoso francês dedicado ao bem-estar da família.

—Cheguei ao castelo Raeburn faz cinco anos, seguindo suas ordens, procurava à família de madame, quero dizer, da senhorita Setterington. Então no lugar se falava das mortes dos jovens filhos do nobre; definitivamente foi um acidente, senhor, a menos que o assassino conseguisse provocar uma tormenta no mar.

Dougald assentiu. Ouvira o bastante para que a explicação o convencesse.

—Ouvi que o velho senhor estava morrendo, devido a sua avançada idade mais que a nenhuma outra causa humana, e naturalmente eu conhecia a relação que você tinha com o título.

Dougald olhava fixamente para Charles.

—Eu mal estava informado naquela época. Como soube?

—Seu pai.

—Claro, meu pai.

Charles não teve que dizer uma palavra mais. Dougald recordava muito bem o ambicioso empenho de seu pai por conseguir nobreza, respeitabilidade e riqueza. Tudo isso em nome da família Pippard.

Tudo para que continuasse a glória da estirpe. E ele se tornou como seu pai.

Dougald fechou os olhos por um momento e pensou em Hannah, atrás da porta, sentada, passeando ou o amaldiçoando. Seria a mãe de seu filho, a portadora da ininterrupta glória dos Pippard.

Esperava que apreciasse a honra que fazia a ela, pois se asseguraria de que obtivesse uma pequena e chata gratificação por sua posição como esposa do senhor.

—Retornei periodicamente - disse Charles.

—Por quê?

—Eu gostava destas paragens e aqueles dias em que você amavelmente me deu umas férias, retornei a este lugar.

Dougald o olhou. Não era certo, claro está. Charles nunca ia de férias sem mais propósito. Voltara para Lancashire para velar por seu título, esperando, contra todo prognóstico, que o destino favorecesse a seu senhor. Como de fato ocorrera.

—Se o que tiver descoberto é certo, senhor, então devo aceitar que os dois senhores anteriores foram assassinados com um propósito deliberado - Charles disse rapidamente, afastando o olhar do de Dougald.

—O empurraram pela escada. O jogaram do escarpado?

Se Dougald não tivesse conhecido Charles tão bem, teria dito que ele era o assassino. Ao fim e ao cabo, Charles não via nada mau em servir à família Pippard em tudo o que pudesse, e talvez imaginasse que herdar o título atenuaria o aborrecimento que sentia por sua causa. Mas Charles nunca teria matado Dougald, embora só fosse pelo fato que sua própria sorte se veria arrastada pela de seu amo.

Dougald olhou os dedos. Ainda tinha a articulação do polegar ligeiramente torcida e lhe doía ao dobrá-lo. "Será uma fratura - pensou - ou um entorse." Mostrava um arroxeado, embora cada dia mais esvaído, da maçã do rosto até a testa, e gostava de ter o tornozelo elevado. Nunca o sacudiram tanto e, se não fosse por sua experiência nas brigas de ruas, não teria conseguido escapar.

Mesmo assim, deixou a dois homens inconscientes e a outro com um braço quebrado. Retornou correndo ao castelo Raeburn com toda a urgência que foi possível, e com a esperança de enviar a alguém atrás deles, mas só o louco do Alfred estava acordado e se negou a deixar Dougald entrar. O estúpido bêbado esteve propagando a voz em grito a maldição da família e a volta do fantasma, e a gritaria despertara até à senhora Trenchard. Claro que ela arrumara tudo com precisão, lhe prestara os primeiros socorros, mandara chamar Charles e enviado alguns homens em busca dos assaltantes de Dougald.

Os atacantes se foram e não ficava nenhum rastro deles pelos arredores.

Maldição! Maldição! Se Dougald tivesse conseguido capturar somente a um deles, teria descoberto quem estava atrás daquela infame intriga e estaria pendurado de uma corda antes que acabasse o ano.

—Quem você acredita que está fazendo isto?

Charles agachou a cabeça.

—Sou um miserável fracasso, senhor, não sou digno de limpar seus sapatos.

—Sim, sim, mas é o agente mais inteligente que trabalha para mim.

—Não fui capaz de descobrir a seu assaltante nem ao dos anteriores senhores.

—Seaton - pronunciou Dougald. - Esse almofadinha escorregadio é o único que tem um motivo.

Charles torceu a boca para um lado, logo para o outro; estava procurando a maneira de não ofendê-lo.

—Com o devido respeito, senhor, para seu intelecto superior e sua vasta experiência em julgar a seus compatriotas: não acredito que sir Onslow tenha estômago para isso, senhor.

Dougald ofendia Charles a três por quatro, mas naquele caso foi quase delicado.

—Por isso contratou valentões para fazerem o trabalho sujo. É um trabalho feio.

—A fofoca não faz ao assassino.

Dougald observou seu criado.

—Aonde quer ir parar?

—Já sabe quão falsas resultam as acusações sobre supostos assassinatos. Você mesmo se viu preso em semelhante injustiça. - Charles se ergueu para frente com as mãos crispadas.

—Pense, senhor, como sir Onslow desfruta com os relatos que rodeiam a seu supostos crimes. Pense no abertamente que corteja a madame, mesmo você deixando imediatamente claro qual era seu interesse.

Sim, aquela primeira manhã, Dougald fora muito flagrante na exposição de seu interesse por Hannah. Não deveria ter sido, mas a dor o impediu de se reprimir.

—Depois, mantive a distância.

—Provocando ainda mais comentários, senhor. - Apertando os lábios, Charles levantou a mão para frear qualquer protesto por parte de Dougald.

—Mas não, essa não é a questão. A questão é que se o tivessem assassinado, sir Onslow teria sido o principal, de fato, o único suspeito.

—Porque ele é o herdeiro do título e da fortuna.

—Porque ele difunde falatórios caluniosos sobre você. Qualquer homem que tivesse assassinado aos dois senhores anteriores teria tratado com mais sigilo.

Dougald se reclinou para trás em sua cadeira. Charles expôs seu parecer. Se tivesse açoitado esse objetivo com uma determinação tão inquebrável, Seaton teria tramado seu plano e seu complô durante anos? e para que?

Para permitir que sua avareza e sua antipatia se voltassem contra ele quando estava tão perto de sua meta? Claro que era possível, mas...

—Por que te importa tanto que suspeite de Seaton?

—Porque, senhor, se estiver enganado, a pessoa que o quer morto ainda não foi descoberta.

—Sim? - Dougald acariciou o corte ainda tenro da testa.

—Ao menos deixe aberta a possibilidade da dúvida. Já tem sir Onslow em observação. - Charles conhecia seu amo, assim não era uma pergunta.

—Sim.

Dougald não pensara em voltar a contratar tão cedo aos três detetives que espionaram Hannah, mas mandara chama-los. Chegaram. Seguiram Seaton, Seguiram seus rastros, passaram despercebidos com seus casacos escuros e seu porte cavalheiresco. Eram condenadamente caros, mas Dougald não podia confiar em ninguém do castelo Raeburn. Já não.

—Não sei quem é o culpado, mas continuarei buscando-o e guardarei suas costas. - Como era seu costume, Charles fez um gesto com o punho no peito. - Enquanto Charles esteja com você, estará a salvo, senhoria.

Nas atuais circunstâncias, era plausível um pouco de afetação.

—Obrigado, Charles.

—Agora, senhor, posso convidar à senhorita Setterington a entrar?

Afetação sim, mas manipulação não.

—Não.

Dougald agarrou a pluma e a molhou no tinteiro.

—Mas a senhorita Setterington esteve esperando.

Dougald apontou para Charles com a pluma.

—Não quero te ouvir dizer nenhuma palavra mais sobre a senhorita Setterington.

—Mas, senhor?

—Nenhuma palavra.

Dougald retornou ao trabalho.

 

Fora do estúdio de Dougald, Hannah se sentava com os joelhos juntos, as mãos pregadas e a boca apertada, enquanto sua exasperação adquiria proporções incontroláveis. O que acontecia com Dougald?

Precisava falar com ele de uma coisa. Necessitava sua permissão para convidar à rainha Vitória ao castelo Raeburn. Só demoraria um minuto, mas não lhe concedia nem um minuto. Não era apropriado pedi-lo no jantar. Cada dia há fazia duas semanas, transitara da oficina das tias, atravessando o corredor, o grande vestíbulo e a capela até a sombria sala de espera sem janelas do escritório de Dougald.

E cada dia encontrava Charles rodeado de velas, sentado a sua mesa, com aspecto de ser o próprio diabo feito carne com seu espaçado cabelo branco rígido e seus grandes olhos negros atormentados.

Expressava a ele seu desejo de falar com Dougald. Ele entrava no escritório de Dougald e fechava a porta. E retornava quase imediatamente para lhe informar que Dougald estava muito ocupado para recebê-la.

Aquele dia estava demorando mais.

Devia ceder e enviar a mensagem através de Charles, mas era obstinada. Já vivera aquela cena uma e outra vez durante seu casamento, e agora gostava ainda menos.

Ficou em pé, e passou da sala de espera até a capela. Aquela pequena capela fora parte original do castelo, construída durante as lutas entre saxões e normandos. No lado esquerdo, em um alto muro, vidraças de cores descreviam a vida da Santa Marta e projetavam faixes de luz matizada por todo o templo. A pátina do tempo cobria as vigas lavradas do teto arredondado.

As paredes estucadas se elevavam por cima da madeira polida intricadamente esculpida. Os bancos resplandeciam, alisados pelas mãos e os corpos de tantos fiéis. Uma pequena porta perto do altar conduzia à sacristia.

As velas ardiam perpetuamente em seus candelabros em cima do altar e uma sensação de paz impregnava até as paredes de pedra, gesso e madeira.

Se Hannah pudesse encontrar semelhante paz?

 

—Charles, preciso falar com Dougald agora mesmo!

Charles olhou para Hannah.

—Monsieur Pippard está muito ocupado para que o incomodem com problemas domésticos durante sua jornada de trabalho. Comente sua questão urgente com ele esta noite.

—Sou sua esposa. Tenho direito a falar com ele quando desejar!

—Pois então não o incomode com suas insignificâncias. Uma verdadeira esposa faz que seu marido se sinta cômodo quando retorna de um dia de trabalho. Se assegura que a casa esteja ordenada e limpa, arrumada e nunca se queixa.

—Não necessito que você me diga como devo cuidar de meu marido.

—É óbvio que sim ou não estaria agora aqui.

 

O eco daquele tempo desgraçado ressoava em seus ouvidos. Como se atrevia Charles a julgar, então ou agora, que suas necessidades careciam de importância? E como se atrevia Dougald a ignora-la daquele modo?

Ela era a ex-proprietária da Distinta Academia de Instrutoras. Jovens damas tinham tremido ante seu penetrante olhar. E nem sequer podia entrar no escritório de Dougald para lhe dirigir aquele penetrante olhar dela!

Dando a volta, olhou a porta fechada do escritório da capela. Charles estava ali há muito tempo. Talvez significasse que Dougald satisfizera sua infantil necessidade de fazê-la esperar e por fim queria falar com ela.

 

—Pelo amor de Deus, Hannah, tem que seguir falando dessa loja de modas? Estou cansado de ouvir suas queixas.

—Não estou me queixando. Estou recordando sua promessa.

—Se esqueça da promessa! Acaso não te dou tudo o que necessita? Não tem criados para satisfazer seus mínimos desejos? Não se veste com as melhores roupas?

Hannah quase degustava seu desespero.

—Sim, sim, mas não é isso o que quero. Ao menos diga a Charles que me deixe governar meu próprio lar. Não tenho nada a fazer!

—Não seja tola. A maioria das mulheres estariam felizes de viver como você vive. - Dougald lhe franziu o cenho. - Deveria deixar de se queixar de Charles e aprender a se dar bem com ele.

É meu criado de confiança e não vou despedi-lo pelos caprichos de uma moça.

—Não confia em mim tanto como nele.

—Querida, não seja tola. - Dougald a atraiu para ele e a beijou na testa. - Você é minha esposa.

 

O qual não era uma resposta. Soube inclusive então.

Seu maior temor era que Dougald acreditasse que realmente agora ansiava estar com ele e que ansiara estar perto dele durante a breve época de seu casamento.

Não era assim. Vira Dougald cada dia durante o café da manhã e durante o jantar, e se via seu semblante remoto, sardônico e demoníaco com mais frequência, lhe daria náusea e inclusive urticária.

Não só o via durante as refeições, mas sim precisava ser educada com ele. Precisava simular respeitar sua posição de senhor de Raeburn e não se mofar quando pedia um relatório diário de suas atividades.

Precisava lhe falar de maneira cortês, e se aproveitava a oportunidade para insinuar que deveria lhe ajudar a estabelecer corretamente suas obrigações, também ele aproveitava a oportunidade para insinuar que falaria com ela quando estivesse preparado e se encontrasse bem.

Precisava suportar o modo em que a olhava. A observava todo o tempo com seus infatigáveis olhos verdes. A escutava quando falava. Se convertia em um incômodo geral com seus cuidados inarticuladas que, ela sabia, tinham como objetivo pôr sua crítica em evidência. Se pudesse falar livremente, sem que nem as tias nem Seaton andassem por aí aguçando alegremente o ouvido, então diria a ele que a importavam um cominho seus cuidados e que podia abandonar a tentativa de torná-la apreensiva porque não ia dar certo.

Dougald e Hannah estavam pondo em cena uma dança, uma em que ela o perseguia e ele a evitava e, maldito seja!, ela não queria persegui-lo.

Afetada uma vez mais pela injustiça da situação, se afundou no banco da primeira fila e olhou para frente. Acaso o Dougald com o que se casou deixara de existir? Existira alguma vez ou fora um produto de sua imaginação? Pois ela não reconhecia a aquele difícil e perturbador senhor que poucas vezes se incomodava em ocultar as escuras curvas de sua alma.

Se acabassem de apresenta-los, se não soubesse a verdade, seria fácil acreditar que matara sua esposa.

Talvez fosse melhor ser prudente quando falasse com ele.

Devia existir uma solução para aquela situação. Talvez a poderia achar na capela. Pois durante seiscentos anos o altar fora o coração do castelo. Os degraus estavam gastos pelas pegadas de centenas de pés que se aproximavam para receber a comunhão. O próprio altar era feito de carvalho e se limpava e encerava diligentemente para que a nervura de ouro puro seguisse brilhando e uma toalha branca imaculada, engomada e bordada pendurasse de seus extremos.

Aquela capela vira nascimentos e mortes, ouvido preces e maldições, e dentro de seus muros se celebraram incontáveis batismos e oficiado incontáveis funerais. Ao lado daqueles acontecimentos vitais, a atual adversidade de Hannah não tinha comparação, mas ainda assim baixou a cabeça e pediu que a guiassem.

Quando voltou a levanta-la, olhou ansiosa a seu redor esperando ver ante ela uma solução celestial. Em troca observou, no feixe de luz azul procedente da janela, um tosco lugar no muro, ao lado esquerdo do altar.

Estava perto do chão, parecia como se um dos painéis lavrados tivesse se desprendido da parede.

Olhou para o escritório de Dougald. A porta permanecia obstinadamente fechada, então foi investigar a tábua deteriorada. Ao se ajoelhar viu que o painel fora prejudicado pelo mofo ou

—o esfregou com a ponta dos dedos - algum objeto afiado até que o tinha separado do gesso.

O que ocorrera naquele mofado canto da história? Algum menino o teria feito com um brinquedo? Desejara um criado ressentido destruir uma peça da capela do senhor?

Hannah agarrou o extremo da tábua com as unhas. Sim, estava solta, e enquanto a puxava não viu o gesso, como esperava, a não ser uma cavidade sombria entre a tábua e o muro de pedra do castelo.

Talvez tivesse algo oculto ali?

Necessitava uma vela para olhar o interior, mas ao se erguer golpeou a cabeça. Forte. Tão forte que caiu de joelhos e por um momento, só por um momento, não viu nada mais que uma espiral negra e vermelha.

Quando se recuperou, sua testa descansava no chão e ouvia Charles chamá-la.

—Madame! Madame! Está se sentindo mal?

Se inclinava sobre ela e a única coisa que podia pensar é que lhe doía a cabeça e se sentia estúpida.

—Golpeei a cabeça - repôs.

Charles a agarrou pelo braço e a ajudou a ficar de pé.

—Com o que? - Parecia surpreendentemente cético.

Levantou a vista, mas piscou contra o feixe de luz que atravessava o vitral de cores.

—Não sei. Não me dei conta que estava debaixo de algo, mas quando tentei me levantar...

Charles a ajudou a chegar até o banco.

—Sente-se, s'il vous plait, madame, está muito pálida.

—Já disse que me golpeei com algo!

—Acredito - disse em um tom tranquilizador que a irritou ainda mais.

Não parecia preocupado por seu estado, estava muito ocupado olhando a seu redor, e justo quando se dispunha a lhe dizer que a deixasse em paz, mostrou o chão.

—Olhe, foi isso.

—O que foi? Se inclinou e recolheu uma parte de arabesco de madeira lavrada.

—Deve ter caído de uma das vigas. Olhou para cima, desta vez com cuidado, e examinou as vigas.

—Não vejo que em nenhuma madeira falte uma parte.

—Está muito escuro ali acima e as esculturas são velhas. Direi a lorde Raeburn que deveria renovar a capela antes que alguém saia ferido.

Hannah olhou fixamente para Charles.

—Alguém mais - retificou. - Posso lhe sugerir que suba a seu quarto de dormir? Eu explicarei às tias que está indisposta e farei que lhe subam o jantar em uma bandeja. Deve descansar depois de um golpe assim na cabeça.

Mas sua amabilidade causava o efeito contrário e a voltava mais teimosa, sabia muito bem o que significava.

—Sua senhoria falará comigo?

Charles conseguiu parecer contrito e inclusive retorceu as mãos.

—Sinto muito, madame, não tem tempo.

—Na realidade não quero nem vê-lo. Você sabe, não sabe?

—Entendo, madame.

—Tenho que lhe fazer uma única pergunta que só ele pode responder.

—Possivelmente se você me comunica a dúvida, poderia transmitir a ele.

Hannah soprou.

—Ou possivelmente não - reconheceu.

—Sua senhoria está jogando e tem tudo para perder - disse Hannah.

—Temo que tem razão.

Charles estava brincando com ela e aquilo a irritava ainda mais. Dougald estava jogando, mas ela não tinha a mínima oportunidade de ganhar e tanto ela como Charles sabiam.

—Ele não vai gostar do que vai acontecer a seguir.

Charles inclinou a cabeça.

—Faça o que queira, madame.

Zangada por sua cortesia ficou em pé, sua cabeça doía muito para tratar com o amigável Charles. Rasgões negros turvaram sua visão e por uns humilhantes momentos a náusea A ameaçou.

—Acredito que deveria acompanhar a madame até o quarto - disse Charles.

—Isso não será necessário. - Respirou fundo e se estabilizou. - Se necessita mais de um golpe na cabeça para me deter.

—Já o vejo.

Suspeitou que se tratava de um comentário sarcástico, mas lhe custava muito esforço responder. Lenta e vagarosamente saiu da capela, percorreu o corredor, subiu a escada e depois de um momento de dúvida no que se debateu se deveria retornar com as tias, se dirigiu para seu quarto. Ali tirou sua máquina portátil, se sentou à mesa que havia junto à estreita cama e começou uma carta que começava assim:

"Minha querida e graciosa soberana, rainha Vitória..."

 

—Ethel querida, acredito que este fio branco servirá melhor para a gravata de nosso querido príncipe. - A voz da tia Isabel ressoou alta e clara na oficina das tias.

—Não querida, quero tecer uma parte neste fio mais escuro porque estou começando a sombra. - Era o turno de tia Ethel no tear e defendia ferozmente sua opinião.

—Acredito que um pouco mais de branco?

—Não, querida, esse foi o engano que cometemos na primeira vez!

Tia Ethel e tia Isabel estavam no canto melhor iluminado e ventilado: o lugar onde foi montado a tapeçaria. A senhorita Minnie, tia Spring e Hannah se sentavam junto a um dos janelões, enquanto a luz do sol poente iluminava o trabalho de costura. Hannah baixou a cabeça para ver seu bordado e sorriu ao ouvir as duas damas discutir sobre a gravata do príncipe Alberto. As quatro tias eram como meninas, com vontade de brigar, cabeças-duras e empenhadas em fazer tudo a sua maneira. Mas um objetivo comum as unia; queriam que a tapeçaria da rainha fosse perfeita e trabalhavam um retalho após outro.

Tia Spring estalou a língua enquanto polia uma das bonitas pedras que recolhera do leito do rio.

—Eu disse a Isabel que não se aproximasse até que Ethel tivesse terminado.

A senhorita Minnie deixou seu caderno de desenho e tirou os óculos.

—Eu gostaria que não passassem por cima de minhas decisões. Eu desenhei a cor de cada fio que devia se usar. - Esfregando a ponte do nariz acrescentou: - Suponho que terei que ir me encarregar disto.

Hannah tampou a mão da senhorita Minnie com a dela.

—Deixe que eu faça isso .

A senhorita Minnie relaxou em sua cadeira.

—Seria tão amável, senhorita Setterington! Você tem o tato e a diplomacia da que, ao que parece, eu careço.

Raramente elogiava a alguém, por isso Hannah se ruborizou ante o brusco elogio. Se levantou e caminhou para onde as duas damas debatiam sobre a virtude do branco frio e o branco quente.

As interrompeu sem reparos, pois se as tivesse deixado prosseguir nunca teria podido interferir.

—A luz está morrendo, mas pelo que posso observar, o trabalho está avançando muito bem.

—Esperava acabar esta fileira antes de deixá-lo - se lamentou tia Ethel.

Dando um passo atrás, Hannah contemplou toda a peça da tapeçaria. Nas três semanas que estava no castelo Raeburn, tiraram da tapeçaria a peça que continha o príncipe Alberto, descosturara a parte superior de seus ombros e começado o árduo processo de voltar a criar seu rosto e o fundo. Cada retalho de cor precisava ser tecido por separado e costurado ao seguinte retalho; cada engano supunha um agravante ao meticuloso e consciencioso trabalho das tias. Hannah era a supervisora. A senhorita Minnie era a artista. As outras três tias se alternavam no tear.

Hannah esperava mantê-las ocupadas até ao menos o próximo Natal mas, com seu entusiasmo, a tapeçaria voltaria a estar acabada no outono ou inclusive nos finais do verão.

—Claro, tia Ethel, que deve fazer o que desejar, mas com esta luz? - Hannah sacudiu a cabeça. - Temo que esta pressa é o que provocou um problema com o príncipe Alberto na primeira vez.

Tia Ethel deixou a bobina.

—Estava forçando a vista.

—Vamos, querida. - Tia Isabel se pendurou no braço de tia Ethel e a ajudou a ficar em pé. - vamos ver se a senhora Trenchard nos sobe o jantar ou temos que nos trocar para baixar a sala de jantar.

Saíram, amigas como sempre, e Hannah contemplou a carta que enviara a Londres fazia uma semana. Tão só com que sua majestade se dignasse a responder, que felizes ficariam as tias!

Não seria o mesmo, claro está, que conseguir que a rainha Vitória visse a tapeçaria em todo seu majestático esplendor, e às vezes Hannah sonhava com a cena em que a rainha se emocionava pela comemoração que lhe renderam e agradecia às tias daquela maneira sua tão elegante, enquanto Hannah permanecia junto à rainha e lhe dirigia um sorriso de suficiência ao incrédulo Dougald.

O senso comum sempre a tirava daqueles pensamentos e a devolvia de novo à crua realidade. Uma realidade em que a rainha Vitória nunca teria tempo para fazer um gesto semelhante. Uma realidade povoada por anciãs amáveis, um herdeiro petimetre[10], Charles, diversos criados que não sabiam exatamente como tratá-la e um marido que a tinha apanhado, ameaçado e agora a ignorava conscientemente.

Uma realidade da que não podia fugir porque se o fazia antes de conhecer seus pais, lamentaria toda a vida. Inclusive embora ao final seus avós a rechaçassem.

—Está ficando muito bem, não é? - Tia Spring se encontrava junto à Hannah e tocava ligeiramente a tapeçaria.

—Ficará perfeito.

Hannah olhou a amável dama pequenina e de cabelos cinzas que estava a seu lado. A senhorita Minnie se sentava com os olhos fechados, juntando forças para enfrentar o resto do dia, e aquela era a oportunidade de Hannah para formular, sem que ninguém as interrompesse, as perguntas que a atormentavam desde a primeira manhã que chegou. Se desejava se encarregar do assunto que a preocupava, aquele era o momento.

—Tia Spring, você convidou aos Burroughs para vir nos visitar?

—OH, querida! Se supunha que precisava convidá-los?

Hannah baixou a cabeça por um breve instante no que a pena invadiu seu coração. Era por isso que tia Spring necessitava uma dama de companhia. Às vezes esquecia coisas. Coisas sem importância, como falar com Hannah dos Burroughs. Coisas importantes, como onde se encontrava seu dormitório. Todo mundo a ajudava.

As demais tias, Hannah, a senhorita Trenchard, sir Onslow, os lacaios, mas já não podiam deixá-la só ou talvez se perderia nas curvas do castelo Raeburn.

—Posso convidá-los se quer - repôs tia Spring. - Os conhece?

—Pessoalmente não, mas ouvi falar deles.

—Talvez seus pais os conheciam?

—Sim. OH sim! Meus pais os conheciam.

—Os Burroughs são um casal encantador, um pouco mais velhos que eu. - Tia Spring se aproximou um pouco a Hannah e sussurrou: - Não quero ser fofoqueira!

A todas as tias adoravam a fofoca.

—Mas estavam acostumados a ser muito empertigados.

Hannah sabia. Sabia melhor que ninguém.

—Por quê?

Tia Spring deu de ombros, mostrando um indício de altivez próprio da irmã de um conde.

—Pelo de sempre. Tinham dinheiro e suas famílias estiveram aqui desde o começo dos tempos. Mas ambos eram os últimos de suas linhagens e tinham um único filho que morreu sem herdeiros.

Agora estão completamente sozinhos. - Sorveu pelo nariz. - Eu disse a eles que não deveriam jogar a essa jovem, mas não me escutaram.

Hannah ansiava ouvir a história de um ponto de vista alheio à mesma, descobrir o que realmente acontecera naquele verão há vinte e oito anos. Então perguntou.

—Que jovem?

—A senhorita Carola Thomlinson.

O nome ressoou dentro de Hannah.

—Amava tanto ao Henry.

—Henry. - Hannah pronunciou o nome. Seu pai se chamava Henry.

—Ele também a amava tanto, mas era um desses jovens que amaram, sem personalidade. - Tia Spring tocou levemente o marco do tear. - Era tão bonita.

Hannah recordava ter olhado a sua mãe e pensado que era a mulher mais bela que vira em sua vida. Só quando Hannah ficou mais velha observou as rugas de preocupação e as olheiras que o excessivo trabalho puseram sob seus olhos.

—Sim.

—Mas não tinha família. Era somente a governanta de uma família da vizinhança.

Hannah estremeceu.

—Então a mandaram embora e ele o permitiu. - Os olhos de tia Spring se encheram de lágrimas. - Ele começou a frequentar más companhias e morreu em uma briga no botequim ao cabo de menos de três meses.

—Então ele nunca pôde ir procurar por ela.

Hannah sabia que estava morto; sua mãe contara, embora nunca soube como ela descobrira. Mas de algum modo a ajudava acreditar que fora infeliz depois de tomar aquela decisão, e imaginar que talvez, se tivesse vivido, teria tido a coragem para desafiar a seus pais e se casar com a senhorita Carola Thomlinson. E quanto a se estava informado do iminente nascimento de Hannah, temia, seria um mistério, ao menos até que falasse com seus avós.

Seus avós. Possivelmente fossem cruéis, possivelmente fossem amáveis, possivelmente não merecessem perdão algum pelo funesto destino que propiciaram a seu filho, e possivelmente Hannah não se sentisse capaz de perdoá-los. Mas precisava saber. Precisava vê-los. Se ocuparia disso pessoalmente.

Na semana seguinte tinha meio-dia livre.

—Onde vivem os Burroughs? - perguntou tomando uma drástica resolução.

 

Hannah tinha a informação. A informação pela que acudira a Lancashire. Tia Spring a dera voluntariamente, sem imaginar o muito que significava para ela ou o que lamentaria Dougald que Hannah a tivesse conseguido.

Além disso, Hannah estava segura que tia Spring lhe teria dado a direção dos Burroughs embora a tivesse posto à par da situação.

Então, por que Hannah se sentia tão culpada?

Provavelmente porque escondera os fatos de tia Spring e das demais tias. Eram umas damas tão adoráveis, a tomaram sob seu amparo, lhe contaram todos seus segredos, fazendo de seu trabalho um prazer.

A restauração da tapeçaria seguia de vento em popa e as anciãs que estavam a seu cargo eram um encanto, a única mosca aporrinhante era Dougald e sua desprezível superioridade.

Se não fosse por ele, seria perfeitamente feliz. Perfeitamente feliz.

A prova era que cantarolava enquanto sustentava no alto a vela e cruzava o corredor para seu dormitório. A escuridão não a incomodava, nem tampouco o horroroso e deslustrado papel da parede, nem as sombras que afinavam e oscilavam à luz da vela, nem as portas profundas, fechadas e misteriosas, e certamente tampouco a absoluta e perversa solidão de sua situação.

A senhorita Trenchard havia dito a verdade quando lhe contou que só Dougald e Hannah viviam naquela ala. A animação, a camaradagem, a alegria que caracterizava a ala das tias estava ausente na sua.

Os criados iam durante o dia limpar o pó e a encerar, preencher a água do copo e levar a roupa para lavar, mas a noite os passos ressoavam no liso chão de madeira e Hannah fantasiava sobre Dougald e sobre o que ela queria dizer a ele, se chegasse a vê-lo alguma vez.

Detida do outro lado da porta de folha dupla, olhava para o quarto de seu amo. Acaso ele estava dentro e podia apanhá-lo e contar-lhe tudo. Que suas táticas evasivas não quebrantaram sua fortaleza.

Que era feliz sendo a dama de companhia de sua tia e nada mais. Que não se importava se não voltavam a viver como marido e mulher e, de fato, mal pensava no que poderia passar se os dois se encontrassem sós em uma cama. Ah!, e, que convidara à rainha Vitória para visitar o castelo Raeburn.

Hannah riu entre dentes. Dougald fazia tudo o que estava em sua mão para demonstrar que não a queria mais, mas apostava que sim lhe interessaria o convite.

Deu um passo para as portas. Na realidade, uma mulher valente teria chamado a aquelas portas e falado com seu patrão. Era estúpido se refrear. Mais que isso, era uma covardia, um sinal que, apesar da segurança que tinha em si mesma, as táticas de Dougald para lhe fazer perder os nervos estavam funcionando.

Alongou o braço e golpeou com o punho na porta. A grossa madeira amorteceu o ruído, mas soou forte no corredor vazio. Compulsivamente, olhou a seu redor. O corredor seguia vazio e escuro. Assim voltou a chamar.

Nada. Dougald não respondeu. Não saía luz por debaixo da porta. Provavelmente não estivesse dentro.

Então, por que segurou o trinco da porta? O metal estava frio na palma de sua mão; se deteve e calculou a loucura que estava a ponto de cometer. Logo girou o trinco. A fechadura fez um ruído e a porta se abriu.

Ficou vacilando na soleira e escrutinou a infernal penumbra. Se dava um passo mais, estaria invadindo conscientemente a intimidade de Dougald.

Não é que ele não merecesse. Em Londres ele ordenara que a espiassem, Por Deus bendito!

Mas entrar furtivamente no dormitório de seu ex-marido parecia ilógico e não era nada próprio dela.

Bem é certo que quando era uma menina sentia uma saudável dose de curiosidade. Estava ansiosa de novas experiências. Aquela curiosidade a conduzira até os braços de Dougald e dera lugar a um casamento insuportável.

O qual constituía uma boa razão para não entrar.

Mas queria saber como era seu quarto. Então transpassou a soleira e, levantando a vela, entrou com cautela até o centro da antessala de Dougald.

Na lareira brilhavam tenuamente alguns carvões que projetavam sua débil luz sobre móveis e tapetes. Naquele lugar, sua vida como amo do castelo Raeburn não era muito diferente da sua como dama de companhia das tias.

Sua antessala era maior, seu dormitório era maior, mas os tapetes estavam igualmente descoloridos e apagados, o bordado dos assentos das cadeiras estava desfiados, o papel pintado talvez estivesse na moda em outro tempo, mas certamente não durante os últimos quarenta anos e, como assegurara a senhora Trenchard, os carvões criavam uma cortina de fumaça no ambiente.

O homem que trabalhara tão duro para conseguir os prazeres da vida agora seguia trabalhando, mas ignorava os prazeres.

—Isto é penoso. - Alisou o horrível e puído tecido de uma das cadeiras. - Realmente horrível. Quem escolheu o tecido?, o ferreiro do povoado?

A porta se fechou contra a parede e Dougald disse:

—Na realidade, acredito que a avó de tia Spring escolheu a malha.

Hannah deu um salto e se voltou. Na mão derramou cera quente e segurou a vela por puro instinto.

Dougald a observava com seus resplandecentes olhos verdes. Atravessou a soleira bloqueando a porta com suas amplas costas, e com os braços cruzados parecia ainda maior.

Sua postura transmitia uma clara mensagem: não pensava lhe franquear o passo.

—O que está fazendo aqui? - inquiriu Hannah.

Dougald arqueou uma sobrancelha.

Claro, aquele era seu quarto.

—Se perguntará o que eu estou fazendo aqui. Só estava olhando. - Sua voz denotava culpabilidade e isso não era bom. - Queria falar com você.

Já estava dito. Por fim pode falar com firmeza. Muito melhor.

—O dormitório estava vazio.

—Pensei que podia entrar e te esperar.

—Que?, audácia de sua parte? - exclamou arrastando as palavras.

Sua brincadeira a recordou quão indignada estava e sacudiu a culpabilidade de cima como um pato sacode a água.

—Se tivesse concordado em falar comigo quando lhe pedi isso, não teria sido obrigada a me comportar deste modo.

—Não queria que me importunasse - repôs com frio desapego.

—Te importunar? - Pelo fato de convidar à rainha ao castelo Raeburn? Hannah entrecerrou os olhos. - Te Importunar com o que?

—Com o assunto de nosso casamento. Com o assunto de sua família. - Gesticulou para ela, com a mão aberta e os dedos separados. - Com o que quer que seja que deseje agora me importunar.

Dougald era insuportável, acreditava que lhe lia o pensamento.

—Não preciso te importunar com o assunto de minha família. Falei com tia Spring - lhe disse em um maiúsculo gesto desafiante.

Pensou que rugiria de fúria, mas em troca sorriu com um sorriso glacial.

—Já suspeitava que o faria.

Possivelmente ele não entendera.

—Agora não só sei os nomes de meus avós mas sim também sei onde vivem.

—Compreendo.

Mas como podia reagir daquela maneira? Sem lhe pôr má cara nem travas.

—Estou planejando ir vê-los, Dougald, e você não pode me impedir isso.

—Certamente não posso. Vá. - se reclinou despreocupadamente em uma cadeira. - Já me contará o que dizem os Burroughs quando aparecer de um nada dizendo que é sua herdeira.

—Sua herdeira - disse como uma desorientada. - Herdeira do que?

—Têm uma considerável fortuna. Uma casa agradável. Nenhum descendente que possa herdá-los. Assim quando chegar e diga que é sua neta perdida há tanto tempo, eu adorarei ouvir como reagem.

Dougald entendia a situação. A entendia melhor que ela.

—Não me interessa seu dinheiro, estou segura que a herança da propriedade tem um limite.

Imediatamente se deu conta do pouco convincente que era seu protesto. Ninguém acreditaria que a ela, uma órfã, uma mulher que trabalhava para viver, não importava a fortuna de seus avós.

—Falei com o senhor Burroughs. É um velho inflexível partidário da linha dura, um antigo militar com poucas ilusões e menos paciência com quem aspira a algo. Me fez passar por boas, isso devido a meu passado e a minha procedência. Imagina o que fará quando conhecer a você, senhorita Hannah Setterington? Uma mulher que nem sequer usa o sobrenome de sua mãe?

Ter chegado até ali! Ter averiguado tanto! E ter topado com semelhante obstáculo na busca de sua família!

—Não tenho nenhuma prova de meu parentesco - disse com frieza. - Se o que diz é certo, então nunca poderei os convencer de quem sou.

—Talvez vejam algo parecido entre você e seu filho. Ou talvez? - Dougald esfregou o queixo como se estivesse pensando. - Talvez existam provas.

Dougald abandonou a representação.

—Um maço de cartas que seu pai escreveu a sua mãe. Sua mãe me deixou isso. Essa seria a prova que procuram.

—Cartas? De meu pai? - Mal podia conter sua alegria. Tinha provas da existência de seu pai. Palavras que ele escrevera. Palavras que podia ler. Então se deu conta, as cartas não significavam nada para Dougald.

Não eram mais que um instrumento para influir nela.

—Me dê isso. Disse com impetuosa exigência.

—Não.

—É um bobo.

—Semelhante adulação não contribuirá para que ganhe meu favor.

O cabelo negro penteado para trás conferia uma austera elegância aos traços de Dougald. A pálida piscada da única chama cruzou seu rosto, revelando a proeminência de umas maçãs do rosto e o ângulo de uma mandíbula regiamente esculpida e angulosa. Nem um vislumbre de sorriso abrandou seus lábios. Seus grandes olhos não a olhavam; a submetiam a vigilância. Nada do que fazia, nenhum matiz de seu pensamento ou seu discurso passava despercebido. O traje escuro se mesclava com a noite que os envolvia, mas mesmo assim Hannah via e sentia cada músculo de seu corpo. A fortaleza dos ombros, a grossura do peito, os quadris estreitos e as pernas poderosas. Sim, perdera peso desde o dia de suas bodas, mas nunca duvidou que corresse mais que ela ou de que fosse mais forte. Sob aquela luz, naquele lugar, parecia mais o vingador que alimentava seus pesadelos que o amante de suas fantasias.

—O que tenho que fazer para conseguir essas cartas? - perguntou.

—Já sabe.

Se referia a? Claro que sim. Se o que queria era que se sentisse incômoda, estava fazendo muito bem. Lhe dizia umas coisas tão terríveis! Coisas que feriam, sem nenhum indício de amabilidade ou afeto.

Entretanto, agora, seu coração pulsava ao ritmo de um inquietante desejo comum. Ali, naquele escuro quarto cheio de fumaça, enquanto a estava olhando, Hannah voltou a experimentar aquele antigo arrebatamento de excitação, de novidade, de fascinação. Sua respiração acelerou, Dougald teria notado? Com prudência apertou os joelhos por debaixo das anáguas, mas não sabia se o fazia para eliminar a pressão e a umidade ou para conservar a sensação da imaginária carne de Dougald. E desejou - meu Deus, quanto o desejou!

—poder seguir acreditando no futuro, tal como acreditara aquele primeiro dia no trem quando acreditou que o amava, e acreditou que ele amava a ela.

A escuridão se pegou a ele como um amante e ela quis se retirar dessa escuridão.

—Por que razão não tem uma vela? - perguntou Hannah.

—Eu gosto de te ver passar.

Assombrada, ficou olhando-o fixamente aos olhos. Ele estava ali de pé quando ela entrou? Estava tão escuro e ela estava tão absorta em seus pensamentos que o tinha passado por cima?

E, a teria estado observando outras noites, em outras ocasiões? Quando ela cantava ou...

—Fala sozinha - lhe disse Dougald.

Não podia negar. Falava quando estava nervosa ou se sentia sozinha e enquanto cruzava o corredor confluíam as duas coisas. Tentou recordar freneticamente quanto falara e o que havia dito.

Os dentes de Dougald brilhavam na tênue luz.

—É um feio costume, um costume que conduz à loucura? ou significa que já está louca? Não me lembro.

O que vira dela? Sonhava fazendo o que ameaçava? Planejava assassiná-la? Ou saltar sobre ela e possuí-la?

—É você quem deveria dizer, respondeu.

Conhecia Dougald. Não era capaz de matá-la e, se tivesse intenção de fazê-lo, bom, a teria advertido antes de cometer a traição.

—Então me encerrará? - O estava avaliando e lhe oferecendo uma alternativa. - Acredito que a loucura o liberaria de uns indesejados votos matrimoniais.

Ele esfregou o queixo simulando estar meditando sobre isso.

—Não tinha pensado nisso, muito obrigado pela sugestão.

—Se fizer que me encerrem, terá que admitir que não me assassinou, mas permitiu que circulassem rumores sobre minha morte, em seu detrimento. - Hannah adotou uma postura desafiante. - Então, a quem considerariam louco?

—A mim, sem dúvida, por não castigar a minha esposa.

—Esse é meu Dougald. Sempre um bruto. - Deu-lhe as costas, com uma atitude muito parecida com a do domador de leões que com audácia volta as costas à fera selvagem, e se aproximou das cortinas.

Levantou uma borla e voltou a ficar frente a ele. Dougald não se moveu. - Bruto ou não, não tem por que viver assim, rodeado disto tão velho e puído. A quem escolheu este desenho deveriam tê-lo matado.

Dougald estremeceu. Hannah ficou olhando-o fixamente.

—Não acredita?

—Não me dei conta.

—Desde quando? Estava acostumado a querer o melhor.

—Estava acostumado a me importar sobre o que pensassem os outros.

—Falamos das comodidades básicas.

—As cadeiras são velhas, o colchão está cheio de calombos. - Dougald deu de ombros. - De qualquer modo, não consigo dormir.

—Talvez por isso está tão taciturno.

Hannah aproximou o candelabro da mesa e acendeu as velas. A habitação não melhorava embora a iluminassem uma dúzia de velas. A fumaça manchara os cortinados e o papel pintado da parede em nervuras irregulares, e um aroma acre impregnava tudo. Ao olhar a seu redor, pensou que necessitava... bom, necessitava algo. Uma influência que o adoçasse ou um discurso firme e razoável.

Nunca pôde inculcar um pouco de senso comum, mas seu Charles sim.

—O que Charles opina disto?

Seus olhos se converteram em duas finas lascas de gelo verde.

—Não perguntei.

A hostilidade de Dougald não a impressionava.

—Sempre gostou das comodidades, inclusive mais que você.

—Ele está cômodo em outra parte. - Dougald deu um passo entrando no quarto. - Eu já não sou o mesmo, nada em mim é igual, Hannah. Se tentar me julgar por minhas ações passadas está fadada ao fracasso.

—Então temos que falar de certos temas.

—Esta noite não. Aqui não. Agora não.

—Você disse que já não é o mesmo, mas deveria ser eu quem dissesse isso. Segue sendo o de sempre. Claro, é um homem - se sentou em uma das cadeiras estofadas com muito recheio e cruzou os braços.

—Esta noite. Aqui. Agora.

Ainda meio oculto pela sombra, reclinou o ombro na parede. Durante um momento, vislumbrou ao antigo Dougald com seu meio sorriso.

—É muito descarada para ser uma mulher separada.

—Não fui eu a que se equivocou, Dougald.

Seu sorriso desapareceu e retornou a sombria cara do estranho.

—Sei. Já castiguei ao outro culpado.

O que queria dizer? De quem estava falando? De Charles ou dele mesmo?

—Ninguém me desafia, Hannah. Recorde isso.

Não, não castigara a si mesmo. Era muito presunçoso para isso.

—Eu o desafiei.

—Nem tampouco ninguém consegue que dê meu braço a torcer - continuou. - Não estou disposto a suportar uma cena esta noite. Falaremos quando eu o diga, e não antes.

Imediatamente Hannah se agarrou a suas palavras.

—Admite que temos que falar?

—Sim, quando considerar que é o momento oportuno, eu falarei e você escutará.

Maldito homem e sua eterna impassibilidade! A tirava do sério até enfurecê-la como ninguém na vida a enfurecera. Ficou em pé e se aproximou de Dougald. Ele nem sequer se afastou, por que teria que fazê-lo? Ela não podia lhe fazer nenhum dano. Deixou que o agarrasse pelas lapelas.

—Não mudou nem um ápice. É o mesmo Dougald de sempre, que dita ordens e decide por outros. Não aprendeu nada. Mas - Hannah o sacudiu, - não parece se dar conta. Eu sou diferente.

—Está mais velha, mais magra.

—Sou mais rica. - Levantou a vista para ele com um gesto altivo do queixo. - Não tenho por que suportar suas tolices, Dougald. Tenho suficientes recursos para me manter sozinha.

—Dinheiro? - Dougald acariciava seu queixo com carícias lentas, leves e amplas. - Tem dinheiro?

Hannah não fez caso de suas carícias. Ao fim e ao cabo, estava muito séria. Queria que a escutasse, que soubesse que conseguira triunfar sem sua ajuda.

—Estive economizando dinheiro desde a primeira vez que lady Temperly me pagou. No princípio não tinha muito, mas economizei até o último tostão.

Ele assentiu.

—Em uma conta no Banco da Inglaterra.

—Sim. E finalmente, quando vendi a Distinta Academia de Instrutoras, depositei todos os lucros. Não necessito seu emprego. Posso comprar um bilhete de trem ou alugar uma carruagem.

Posso ir a qualquer parte e viver como uma dama, e você não pode me deter.

—Embora nunca explique à polícia que é minha esposa?

A pergunta de Dougald deteve a inundação de palavras de Hannah como a água extingue a chama. Mas o modo de dizê-lo, o modo de olhá-la e a mestria dos dedos que acariciavam o perfil da mandíbula e desciam pelo pescoço... ah!, ela não era de gelo. Naquele momento certamente que não. Baixou a vista para ela como se fosse dele e tivesse reconhecido sua posse. Reconhecido sua titularidade. Ela suspirou.

—E por que faria isso?

—Realmente imagina que a deixaria ir à estação de trem? Que te permitiria voltar a me abandonar? - Soltou uma risada breve e rouca. - Quando na realidade é minha esposa e um homem tem o direito de controlar tudo o de sua esposa brigona, inconstante e irresponsável?

O amor, ou a ilusão do amor, não era suficiente. Nunca fora suficiente. As horas felizes passaram há muito tempo, a esperança morrera e a paixão, bom, se a paixão não estava completamente extinta, isso simplesmente significava que devia ficar rígida, levantar o queixo e levantar a guarda para se defender.

—Encontrarei o modo de escapar de você, Dougald. Sabe que já o fiz antes.

—Mas se o faz, querida, estará como antes. Sem recursos, sem amigos que possam te ajudar, e realmente agora é uma personagem muito conhecida em toda a Inglaterra. - Pôs a mão plana sob seu queixo e a segurou.

—A encontrarei.

Suas palavras, com aquela dose de brilhante engenho, produziram um calafrio que percorreu sua coluna vertebral.

—O que quer dizer com "sem recursos"?

—Sua conta no Banco da Inglaterra. Onde tem depositadas suas economias. A fechei. Tudo o que uma mulher possui está sob o controle de seu marido, - sorrindo ante seu olhar de espanto ele pôs as mãos na cintura dela.

—O que é seu, é meu.

Como uma torpe bailarina, se movendo muito rígida, com os joelhos travados e os pés vacilantes, saiu pela porta e se internou no corredor.

—Que durma bem, querida.

A beijou nos lábios, se meteu em seu quarto e lhe fechou a porta na cara dela, sem que ainda tivesse saído de seu assombro.

 

Oculta nas sombras do corredor, uma figura observava Hannah se afastar da porta.

Aquele acontecimento fora vigiado.

 

Hannah guiava o cavalo da carreta em um refrescante entardecer de abril pelo caminho que conduzia para Burroughs Hall. vestia seus melhores ornamentos diurnos: um vestido de cetim castanho com uma saia de babados bordada, uma jaqueta negra de veludo e um chapéu castanho combinando, com a aba de fita franzida. As luvas de pele negras seguravam firmes as rédeas e quem a visse diria que aparentava estar tranquila. Uma tranquilidade que contradiziam as numerosas vezes que trocara de roupa aquela manhã, e também seu coração, que insistia em palpitar fortemente com um batimento desassossegado e entrecortado.

Mas, enquanto o cavalinho avançava com passo decidido para a negra grade metálica que rodeava o imóvel de seus avós, Hannah praticava o modo de narrar o inenarrável.

"Senhor e senhora, não sei se são conscientes de minha existência, mas sou a filha da senhorita Carola Thomlinson e seu filho, Henry."

Ou: "Senhor e Senhora Burroughs, faz vinte e oito anos, seu filho Henry amava minha mãe, a senhorita Carola Thomlinson, e eu sou o resultado."

Ou: "Sem dúvida vocês devem ter temido que chegasse este dia?"

Na realidade se tratava disso. Se seus avós estavam à par de seu iminente nascimento e mesmo assim tinham mandado sua mãe embora sem um pingo de compaixão, então não a quereriam em suas vidas.

E inclusive embora a quisessem, ela quereria a eles? Poderia lhes perdoar a dor de sua vida anterior e a pena da morte precoce de sua mãe? Mamãe só tinha trinta e um anos quando morreu. Agora Hannah quase tinha sua idade, e pensar na morte quando se encontrava mal alcançando o topo do poder, a sabedoria e a força, lhe provocava uma amargura desesperançadora.

A porta principal da grade estava aberta e através das árvores se divisava a casa. Em alguma parte, muito perto de seu coração, sentiu uma pressão. Lhe custava respirar e lhe doía do terror que sentia.

E justo antes de entrar e dar o passo definitivo e irrevogável para cumprir seu sonho, Hannah puxou as rédeas para a esquerda e se deteve a um lado do caminho. Deteve o cavalo e desceu da carreta à erva umedecida pela chuva que caíra antes. Com as rédeas nas mãos, avançou até apertar a cara contra os barrotes de metal.

Contemplava a casa de tijolo, construída ao estilo palaciano inglês do século passado, suavizada pela hera e animada pela moldura branca. Não era muito grande, teria uns vinte cômodos, era o lar de uma família rica e assentada no campo. A grama bem aparada e as árvores velhas emolduravam o edifício, e, como o adorno de um pacote, as rosas em flor subiam pelas pérgolas levantadas nos campos.

Burroughs Hall era formosa, a fantasia infantil de todo órfão.

Hannah não conseguia se animar a entrar pelo atalho, subir os degraus e chamar com a aldrava. Apertava os dedos contra os barrotes frios. Ali seus pais se conheceram. Ali se apaixonaram.

Provavelmente a conceberam em um desses cômodos do andar superior. Mas aquele não era seu lugar. Ou sim? Seus avós a expulsaram dali antes que ela tivesse visto o primeiro raio de luz.

A porta principal se abriu e Hannah se esticou. Quem seria? Um homem em um antiquado libré de cetim azul e uma peruca empoeirada entrou no pórtico.

Hannah relaxou. Um criado. Levantou a mão e do fundo chegaram um tinido de arnês e o repico de uns cascos de cavalo. Uma carruagem aberta chegou até os degraus conduzido por um jovem chofer.

O criado e o chofer começaram a falar. Hannah estava muito longe para ouvir sequer um sussurro de sua conversação, mas pensou, certamente aquilo significava, sim, ali estava: um rígido e idoso cavalheiro de bigode e sobrancelhas hirsutas, vestido com um traje marrom. Saiu da casa, umedeceu o dedo com saliva e o levantou para o vento.

Assentiu como se estivesse agradado, logo tirou um relógio de prata de seu bolso, o abriu e se dirigiu com impaciência para a porta.

—Alice, será que sempre tem que conseguir que cheguemos tarde? - gritou com uma voz profunda e impaciente.

Uma dama um pouco encurvada vestida com seda granada e um chapéu de plumas se aproximou dele. As plumas se moviam com um constante tremor.

Hannah podia ver que seus lábios se moviam, mas falava como deve falar uma dama, baixinho, e não conseguiu ouvir nenhuma só palavra.

Sua garganta secava enquanto contemplava, pela primeira vez, a seus únicos parentes neste mundo.

Não pensou em se mover, nem para frente nem atrás. Só pôde ficar ali plantada e contemplar aos criados colocar a escadinha debaixo da carruagem e ajudar a entrar no veículo primeiro à dama idosa e logo ao idoso cavalheiro. O criado fechou a porta e só então Hannah se deu conta que precisava se esconder, melhor dizendo, devia se esconder.

Rapidamente conduziu o cavalo e a carreta até os arbustos e os ramos ainda sussurravam atrás dela quando a carruagem passou.

Então, como a covarde néscia que era, saiu correndo e ficou de pé no caminho olhando como se afastavam.

Eram sua avó e seu avô, e não encontrou a coragem para se apresentar ante eles.

 

Aquela noite, enquanto Hannah caminhava penosamente para seu dormitório, as pranchas do chão rangeram cansativamente sob seus pés, e o corredor cheirava a antigas afrontas. A vela que sustentava ardia timidamente, temerosa de iluminar os cantos ou chegar até o alto teto, e a solidão lhe pesava como nunca antes.

—Porque esta solidão tem muito de covardia - disse em voz alta.

Podia amaldiçoar Dougald por assustá-la muito para seguir adiante, mas isso não era de todo verdade. Com o passar dos anos, sempre que imaginava se reunir com sua família, o terror se mesclava com a espera.

Talvez ele tivesse elevado o terror com seus bem dirigidos sarcasmos, mas se tivesse sido valente teria seguido adiante de qualquer modo. Abriu a porta de seu quarto.

—Não quero te ouvir se lamentar de sua desolação nunca mais, Hannah Alice. - Em sua imaginação viu seus avós entrando na carruagem. - Não quando teve uma oportunidade de ouro e a deixou escapar.

A visão desapareceu quando a única e desvencilhada cadeira rangeu e dela se levantou uma figura sombria.

Hannah gritou do susto.

—Que demônios acreditava que estava fazendo ao convidar sua majestade ao castelo Raeburn? - perguntou Dougald em um tom grave e furioso.

—É necessário que apareça assim de repente me assustando desta maneira?

Colocou a mão no coração, que pulsava apressadamente. Logo levantou a vela para iluminá-lo, com sua perene cara de irritação e seu conservador traje negro e apertado que lhe conferiam toda aquela formalidade.

Era um homem atraente, mas não tinha paciência para suportar sua interminável amargura e sua atitude ameaçadora; agora seu aspecto não lhe proporcionava nenhum prazer.

—Me responda. Por que não me disse que tinha convidado à rainha?

—Deveria me pedir que o recebesse abaixo. Além disso - Hannah o imitou, - não queria que me importunasse.

—Se limite a responder à pergunta. Que demônios acreditava que estava fazendo ao convidar sua majestade ao castelo Raeburn?

A pergunta saía chiando entre seus dentes apertados; um interessante fenômeno que a Hannah teria gostado de seguir observando. Mas pela primeira vez desde que chegou, se encontrava diante do antigo Dougald, que perdia os estribos. O antigo Dougald só fazia lhe gritar, mas naquele tempo tampouco o tinham etiquetado de assassino. Então respondeu com uma fria educação.

—Disse às tias que eu conhecia sua majestade, mas não quis falar comigo para me dizer o que pensava fazer com seu desejo de conhecê-la.

—Não esperava que você enviasse um convite para visitar meu lar. - Vocalizou cada palavra.

—Bom, não sabia, precisava saber! - Acendeu as velas e uma débil luz caiu sobre a estreita e limpa cama, a pia lascada com o copo e os antiquados cortinados. - Assim em lugar de fazer o que você queria, o qual teria feito se tivesse aceitado falar comigo, fiz feliz às tias escrevendo a sua majestade. Incluí um convite escrito para que viesse contemplar o humilde tributo que as tias fizeram a ela e a seu reinado.

Dougald tirou do colete um luxuoso papel de cor marfim e o olhou como se ameaçasse explodir.

De onde estava, Hannah podia ver o selo real. O educado declínio do oferecimento de sua majestade.

A reação de Dougald ao ser o receptor de correspondência imperial a surpreendeu.

Algumas pessoas sentem tal temor reverencial ante a rainha que são incapazes de imaginar que possam ter um intercâmbio epistolar com um personagem tão elevado, mas não esperava isso de Dougald.

—Sim, Dougald, admito que foi uma ousadia por minha parte, mas sua majestade não se sentirá insultada, se for isso o que se preocupa, e o convite das tias era encantador. Realmente deram com o tom adequado, que continha uma mescla de entusiasmo, emoção e rogo - disse Hannah bastante encantada pelo assombro de Dougald.

O papel vibrava ante o tremor de seus dedos.

—Esta foi sua vingança por não te escutar.

Ah! De modo que talvez não sentia temor reverencial pela carta, mas sim estava irritado com a instigadora. Hannah compreendeu a necessidade de escolher cuidadosamente as palavras pois, embora era certo que sua falta de resposta lhe proporcionara a desculpa para escrever a carta, não era menos certo que escrevera à rainha em um momento de arrebatamento.

—Vingança é uma palavra muito forte; entretanto, admito que não me importou que constituísse uma perturbação para você. Eu não gostei que me tratasse de uma maneira tão desdenhosa.

—Desdenhosa? - rugiu tão forte que Hannah se sobressaltou.

Quando se recuperou, sacudiu a saia em um gesto distante de segurança em si mesma, mas sem tirar os olhos de cima dele.

—Deus santo, Dougald, não há motivo para pensar assim! Recebeu a resposta e isso é bom. Agora temos algo que mostrar às tias. Se sentirão desiludidas, claro, mas uma carta da rainha deveria aliviar a ferida do rechaço.

Dougald levantou a cabeça e ficou olhando-a fixamente.

—Dougald, não sei por que se comporta deste modo. Ao menos a rainha não aceitou! - exclamou com impaciência.

—Sim aceitou.

"Impossível!" Hannah abriu a boca para dizer isso, mas não emitiu nenhum som.

—Sim, exatamente! - disse ele como se ela o tivesse dito. Abriu a carta e leu: "Sua Graciosa Majestade, Vitória, Rainha da Inglaterra, aceita seu amável convite."

Ainda muda e aturdida, Hannah sacudiu a cabeça.

—Aceitou, Hannah, aceitou. Estará aqui dentro de duas semanas! - Dougald agitava a carta para ela. - Se dá conta do trabalho que este castelo necessita somente para fazê-lo habitável?

E não digamos para fazê-lo apto para uma visita real!

Assentiu.

—Terei que contratar a todos os homens capacitados de muitos quilômetros ao redor só para acabar os projetos que já começamos. - Elevou a voz.

—Para levantar os painéis de madeira, acabar a pintura do corredor e do salão grande, fazer as estantes da biblioteca. Acabar o novo vestíbulo e construir uma escada para que a rainha Vitória não tenha que entrar pela cozinha.

—Não me parece que seja para tanto - murmurou.

—A comitiva real ficará para passar a noite. A rainha, seu real consorte e os infantes. Necessitarão acomodações, salões, um quarto para crianças que não esteja coberto de pó e com as tábuas do chão podres pelos fungos!

—Ah!

—Ah! - zombou ele descaradamente. - Quer que falemos dos criados que viajarão com eles, e de onde vamos pô-los?

—Não.

—Como vamos trazê-los da estação de ferrovia até o castelo se temos um número limitado de veículos e nenhum deles tem menos de meio século de antiguidade?

—A carreta de Alfred? - Disse em voz baixa e se encolheu assim que viu que sua piada provocara que o seu olhar fulminante e cara de irritação se convertesse em um grunhido.

—No que estava pensando? - Dougald passeava de um lado a outro de seu minúsculo dormitório. - No que estava pensando?

—Em que sua majestade não viria.

O nariz de Dougald se inflou como o de um corcel cheirando um desafio.

—Hannah, espero que esse projeto de costura seja condenadamente maravilhoso.

Ficou horrorizada.

—Nem sequer o viu?

—Não! Por que teria que me preocupar do modo em que quatro anciãs empregam seu tempo?

—Seriamente é odioso, Dougald! Pensei que o vira e suspeitei que estivesse usando a tapeçaria das tias para atrair sua majestade ao castelo atrás de sua maior glorificação pessoal.

—Usar às tias para minha glória pessoal? Isso é estúpido!

—Talvez, mas não pude perguntar isso porque nem sequer me permitiu falar com você em particular - replicou experimentando uma satisfação imensa ao fazê-lo.

Dougald deixou de passear e a olhou fixamente.

—Me diga que me preocupo por nada. Me diga que a tapeçaria é magnífica.

Pensou na tapeçaria. A formosa e grande tapeçaria de vivas cores na qual as quatro damas trabalharam durante vinte e quatro anos. Tomou ar e logo o soltou em um longo e vacilante suspiro.

—Era.

—O que quer dizer com "era"? - perguntou em uma voz perfeitamente serena.

—É uma... hum... tapeçaria esplêndida, muito grande, muito elogiável.

—Mas?

—Mas as tias não tinham acabado bem os traços do príncipe Alberto, Então lhes sugeri que desmontassem essa parte. - Seu grunhido grave fez que se calasse de repente. - Quer que as ajude a terminá-lo?

—Tem duas semanas. - A encurralara entre o armário roupeiro e a parede e se aproximou tanto a ela que seu quente fôlego acariciou sua face. - Duas semanas antes que sua graciosa majestade, Vitória, rainha da Inglaterra, visite nosso pequeno castelo. Se assegure que a tapeçaria está acabada.

Queria lhe dizer que era impossível, mas seus olhos eram apenas duas raias furiosas e... bom, certamente fosse só fúria. Usava sua proximidade para intimidá-la, e estava conseguindo à perfeição.

Certamente sua ameaçadora postura fez que seu coração pulsasse, seus joelhos tremessem e suas vísceras encolhessem. Não deveria escolher aquele momento para notar seu aroma, a couro, sabão e a Dougald.

E retrocedeu, não porque temesse que empregasse a violência contra ela e pusesse a mão em cima dela, mas sim porque se a tocava, teria estremecido e suspirado e desejado mais do que devia desejar de uma besta tão desalmada.

—A tapeçaria - disse Dougald.

—Estará acabada - ela prometeu.

Girando sobre seus calcanhares, se afastou a grandes passos e fechou a porta de uma portada.

Hannah desabou no canto e tampou os olhos com as mãos. Onde se meteu? Quinze dias para voltar a tecer e costurar uma tapeçaria que havia levado vinte e quatro anos para acabar, e fazer melhor que antes?

Parecia impossível.

E, por desgraça, a tapeçaria era o menor de seus problemas. Por alguma cruel burla da natureza, agora descobrira que por muito que Dougald a ignorasse, por muito que a tivesse ofendido, quando ele se aproximava ainda a fazia tremer e o desejava.

Era óbvio que a presença dela não afetava a ele do mesmo modo ou...

A porta se abriu com estrondo e Dougald voltou a entrar no quarto.

—E onde esteve?

—Onde estive? Quando? - repetiu perplexa.

—Hoje. Esta noite. Por que não estava no castelo?

Recordou os acontecimentos do dia. Seus avós. Seu desejo de falar com eles mas sem encontrar a coragem para fazê-lo. Ela, olhando com o nariz apertado contra a cerca como uma mendiga sem lar.

Nenhuma força da terra ia conseguir que contasse a ele onde esteve nem o que fizera. Ele o consideraria um grande êxito. Se poria a rir.

—Era meu meio-dia livre e, portanto, não é seu assunto.

Estava orgulhosa de sua inescrutável resposta até que viu o rubor de sua ira.

A olhava de cima abaixo.

—Se vestiu. Não a vira assim vestida desde que está aqui. - Apertou os punhos. - Se tiver saído com esse mequetrefe sopragaitas do Seaton?

—Tampouco seria seu assunto. - Estava ciumento?, que adorável!

Voltou a se inclinar sobre ela, só que desta vez ele não estava furioso pelo da rainha. Desta vez sua fúria era pessoal.

—Maldita seja! Claro que é assunto meu aonde vai e o que faz.

Hannah levantou o queixo.

—Por quê?

—Porque é minha esposa.

Hannah fervia de indignação, uma indignação que nascia da frustração de seu ser.

—Quando? Faz nove anos? Hoje não, isso asseguro. Agora não. Não quando nem sequer fala comigo se não for para me dar instruções ou ordens.

Retrocedeu um passo e a examinou como se a estivesse inspecionando, aconchegada no canto.

Ela avançou e ficou olhando fixamente a aquele canalha egoísta e presunçoso que pensava que podia controlar seu dinheiro e seu destino.

Ele a abraçou. A segurou pelo cabelo e aproximou os lábios aos seus.

Se beijaram em um torvelinho de paixão, frustração e fúria, com os corpos apertados, e a língua de Dougald em sua boca. Maldito! Voltar a trata-la de um modo tão insolente, como se ela fosse a mocinha de dezoito e ele, o superior homem amadurecido. Mas agora ele não era superior; a desejava, pois seus braços a apertavam fortemente para ele, suas mãos procuravam através das capas de saias e anáguas até lhe encontrar as coxas e levantá-los ao redor dele. E ela, o abraçou pela cintura com as coxas, apertou o torso contra seu colete, o beijou com os lábios abertos pressionando com força a língua contra a sua e desejando que as roupas que os separavam desaparecessem de um mágico sopro.

Dougald afastou a boca da dela.

—É terrivelmente excitante.

A fez girar sobre os calcanhares e se dirigiu para a estreita cama.

—Eu não. - Mal lhe ocorria uma resposta, mas o instinto a fez se estirar para lhe morder o lábio superior.

—Eu não sou excitante. Isto não é excitante.

—Não. - A deitou sobre o colchão enquanto lhe rodeava o corpo com as pernas e apertava os seios contra ele. - Não digo agora, mas sim desde que chegou, cada dia. - A olhou aos olhos.

—Caminhando como se fizesse cambalhotas pelo castelo. Subindo a escada. Atravessando os corredores.

—Eu não faço cambalhotas. - Acariciou-lhe o cabelo com os dedos e decidiu que deveria deixar-lhe assim comprido sempre. - Não sou um cavalo!

—Falando daquela maneira, enquanto eu trabalhava em meu escritório, e me esforçava por te ouvir conversar com Charles.

—Ordena que não fale com ninguém, - rindo com esse trapaceiro do Seaton.

—Você vem de uma família de trapaceiros, e é o pior de todos.

—Vestindo de um modo provocador.

—De um modo provocador! - Entrecerrou os olhos para olhar o vestido castanho.

Ficando de joelhos, Dougald lhe levantou a saia e as anáguas até a cintura e, como um magistrado demonstrando a culpabilidade do acusado, mostrou seus tornozelos.

—Olhe isto. Renda nas meias!

—Nunca mostrei isso. - tirou as pantufas de pele.

—Sabia o da renda. Notava que estava aí. - Desabotoou-lhe o laço da cinta.

—E o que posso fazer se desenvolveu dotes de clarividência!

—Só no que diz respeito a você. - Baixou-lhe as meias. - Só no que se refere a você.

A estava despindo de um modo em que não a despiram em nove anos. Nove longos anos. No mais fundo de seu ventre experimentou esse lento, quente e profundo deslizar do desejo. Nove anos. Muito tempo.

Esteve ignorando seu corpo, dizendo a si mesma que não tinha desejos nem necessidades nem querências. Agora, à primeira carícia de Dougald, já estava disposta. Embaraçosamente disposta, completamente disposta e não desejava ir mais devagar nem se refrear e certamente não pensar nisso.

—Sonhei com você - disse com a boca curvada em um lento e pícaro sorriso, enquanto a abria com os dedos.

Hannah fechou os olhos em um excesso de desejo doce e quente.

—Sonhei que a tocava aqui - a mais leve das carícias a fazia saltar da cama - e aqui - a acariciava com enfado - e queria te encher com todos meus dedos.

Enquanto Dougald deslizava um dedo dentro dela, Hannah apertou o dorso da mão contra a boca, para tentar afogar um gemido de paixão.

—Você nunca queria que a ouvisse. - Estava lhe dando uma doce massagem com o polegar enquanto colocava e tirava um dedo uma e outra vez. - Sempre tentava se negar o prazer.

—Só? - disse fazendo uma pausa para recuperar o fôlego - só depois que você deixou muito claro que aquilo não era amor. Era somente um dever e...

A pressão da mão de Dougald contra seu púbis silenciou aquele discurso cheio de ressentimento. Quando ele a tinha assim, com um dedo dentro dela enquanto a acariciava sem cessar com a mão, Hannah já não recordava velhos rancores. A única coisa que pensava era nele. O agarrou pelas lapelas, o atraiu para ela e o olhou aos olhos.

—Me faça isso agora.

Dougald riu. Riu como o esnobe tolo e presunçoso que era. Até que ela soltou uma das lapelas e deslizou a mão pelo peito dele, por cima do ventre e baixou até o satisfatório e evidente vulto da entreperna.

Logo, quando tomou medidas e acariciou seus testículos, sua risada cessou. Dougald entrecerrou os olhos e jogou para trás a cabeça, então Hannah viu a tensão dos tendões do pescoço e o brilhante rubor do desejo que iluminava suas faces.

—Me faça isso agora - repetiu.

Desta vez não riu. Se retirou um pouco, tirou as meias de tudo, desabotoou as calças e as baixou até mais abaixo dos joelhos.

Aquela pressa agradou a Hannah e reconfortou primeiro seu orgulho e logo o desejo. Santo Deus!, era grande e audaz, a desejava de um modo muito explícito, e se não a penetrasse logo...

—Dougald, por favor. - Estendeu os braços para ele.

Dougald caiu sobre ela como um animal desenfreado, sem se preocupar por sutilezas, respondendo à exigência de Hannah de se unir com um satisfatório instinto que fazia que a investisse impetuosamente.

Hannah ofegou. Levava tanto tempo sem ser satisfeita, estava muito tensa. O temor que lhe fizesse mal a assaltou e logo a dor se fez realidade.

—Não - disse lhe cravando as unhas nos braços.

Dougald a olhou, a olhou como um homem que está se afogando ao que privam do resgate. Logo reparou na expressão dela: feroz, torturada, insatisfeita. Tragou saliva e se conteve.

—Deixa que a encha, carinho. Relaxe e me deixe entrar - ele ordenou na voz sussurrante e cálida de um amante.

Quando lhe falava assim, ela respondia como toda criatura feminina ante a petição de seu casal. Relaxou, acomodou o corpo ao redor do de Dougald e ele se internou por completo nela.

Hannah gemeu. A sensação era tão boa, mas aquilo era tão mau; ele voltava a tê-la. De novo, mas...

Dougald tampouco queria fazer aquilo. Mas aquela noite, quando sua frustração e sua fúria desatadas se transbordaram, foi vencida toda contenção.

De modo que estava bem. Não era manipulação, era de verdade.

Hannah levantou os quadris e contraiu os músculos internos. E em uma voz tão cálida e acariciadora como a sua lhe disse:

—Por favor, amor. Te desejo.

 

Dougald sabia que não devia fazê-lo. Aquilo não era o que planejara. Planejara fazer Hannah enlouquecer de desejo enquanto ele mantinha bem presas as rédeas de suas próprias paixões.

Então ele ditaria as condições de sua reconciliação e ela reconheceria a seu amo.

Mas seu ardor... seu aroma... sua voz dizendo: "Por favor, amor. Te desejo." Era fraco e precisava tomá-la. Seus instintos primitivos lhe exigiram que a enchesse de sua semente. Ela era sua posse, seu feudo, sua esposa.

Sem elegância, sem se refrear, cedeu a sua própria paixão. Cada gota de seu sangue, cada parte de seu corpo, lutava por penetrá-la. Entrou nela e se retirou, entrou e se retirou várias vezes.

Debaixo dele, Hannah emitia uns ruídos parecidos com suaves miados, enquanto elevava e baixava os quadris ao ritmo que ele impunha, e o agarrava muito forte com as mãos como se temesse que fosse desaparecer.

Também ele o temia. Temia que recuperassem o juízo depois que a tivesse repleto. Estava indo muito depressa, e ele sabia. Ela não ia poder ter prazer assim, com ele arremetendo daquela maneira, mas não podia parar, não podia esperar.

—Depressa - insistiu ela lhe batendo no ombro com o punho fechado. - Depressa!

Dougald redobrou seus esforços. Hannah arranhou suas costas em um frenesi felino, se esforçando por alcançar o clímax, lhe arrancando a frustração de seu interior do modo mais primário possível.

Mais tarde, Dougald se alegraria de ter ainda a roupa posta, mas naquele instante não era mais que um maldito e chato estorvo. Diabos!, ainda usava a gravata atada como uma corda ao pescoço.

Hannah estava tão formosa com o cabelo solto, esparramado sobre a escura colcha como um fragrante rio dourado. Aqueles espantosos olhos marrons se abriam e fechavam, ora lânguidos, ora desesperados, como se o desejo e a necessidade liberassem uma batalha por sua alma. O vestido, aquele estúpido vestido de cetim, lhe rodeava o pescoço por um sem-fim de botões.

—Dougald, Dougald, Dougald.

Ouviu aquela nota em sua voz. A nota que levava nove longos anos sem ouvir, mas ainda assim reconhecia.

No mais fundo de seu ventre, cresceu a pressão. O instinto exigia que se internasse nela com tanta força como pudesse. Queria acabar dentro dela. Precisava regá-la com sua semente. Mas primeiro... queria olhá-la. Precisava vê-la.

Hannah tinha os olhos fechados e um rubor que lhe nascia na base do pescoço e subia por ele e pelas faces, até a testa. Tinha o nariz esmagado e abria os lábios em uma longa série de ofegos.

Os quadris arremetiam contra ele, em um gesto que exigia satisfação. As pernas se agarravam a ele para atraí-lo contra ela.

No mais profundo de seu ser, era presa de espasmos, que a balançavam e lhe proporcionavam a mais primária das gratificações.

Dougald se regozijava naquele primitivo furor, naquela irrefreável paixão. Ela fora incapaz de resistir. Seu corpo estava tão ávido como o dele. Hannah era dele.

Então Dougald não pôde esperar mais.

A esmagou contra a cama com os quadris, a segurou com as mãos e a obrigou a aceitá-lo. Hannah se retorceu contra ele, balançada por ondas de êxtase, exalando gemidos de prazer. Ele a invadiu, se internando tão dentro como pôde. Seus testículos se esticaram. Logo, irrevogavelmente, gozou, a enchendo com sua essência. Se afundou nela, selvagem e cegamente, se estampando nela, exigindo que reconhecesse que era dele, a coagindo fisicamente para derrotá-la mentalmente.

E conseguiu. Cada som que Hannah emitia soava a capitulação, cada movimento que realizava era um sinal de aceitação.

Vencera. Ela se rendeu. No momento.

 

Hannah relaxou sob o peso de Dougald, encantada do esgotamento, da saciedade, a falta de consciência. Sabia que essa sensação não duraria. Em um momento teria que abrir os olhos.

Recuperaria a consciência e lhe daria vergonha, e teria que lutar para proteger seu orgulho e negar que se rendeu. Mas naquele instante.

Ele se ergueu um pouco para sair dela e separar com cuidado os dois corpos.

A vergonha sobreveio a Hannah imediatamente. Juntou as pernas, clareou as ideias, se preparou para a batalha, mas ele a estendeu de bruços sobre a cama. Tentou se erguer para sentar, mas ele a segurou de barriga para baixo com uma mão. Ouviu o rumor das roupas de Dougald ao se despir; girou o pescoço para tentar ver algo e contemplou como ele tirava a gravata, o colete e a jaqueta e os lançava pelo quarto.

—Dougald, o que...?

—Quer falar agora? - perguntou bruscamente.

Não gostou do som de sua voz.

—Não.

—Então, silêncio.

Hannah sorriu para a colcha.

O colchão se sacudiu quando ele se sentou. As botas golpearam ao cair ao chão com um ruído surdo, primeiro uma e depois outra.

Não precisou olhar para saber que objeto tirou a seguir. Já tinha as calças meio baixadas. Caíram ao chão com pouco esforço, voltou a subir à cama de um salto. Com um joelho de cada lado dos quadris de Hannah, desabotoou torpemente os botões do sutiã do vestido, o abrindo rudemente. Ela quis protestar, temendo que lhe danificasse o vestido, mas lhe faltava o ar e não tinha forças nem lhe ocorreu um modo elegante de fazê-lo.

Dougald se aproximou da nuca de Hannah roçando a orelha com seu fôlego.

—Você e sua estúpida e maldita roupa. Usa tanta só para me manter afastado de você, mas isso já não vai te servir de nada, Hannah. Quero que a tire - lhe disse.

Ela recuperou o fôlego o suficiente para desafiá-lo.

—Não uso nada nem para o manter longe nem para o atrair. Nunca penso em você quando me visto.

—Esse é seu engano.

Baixou os ombros do vestido, a levantou e o baixou até a cintura, logo tirou as mangas pelos pulsos de um brusco puxão. Ele a deixou voltar a se acomodar no colchão e com rápida determinação lhe tirou o vestido inteiro. Logo seguiram as anáguas, de maneira que a deixou em combinação, espartilho e suas melhores meias de seda.

Dougald proferiu uma gargalhada áspera e dura e, com um dedo, tirou a floreada liga.

—Deliciosa - comentou. - Uma indicação do que habita abaixo.

Passou uma mão pelas nádegas de Hannah e a esfregou como um colecionador descobrindo um bom diamante e logo, levemente, deslizou um dedo da base da coluna vertebral para baixo, até o lugar de máxima e completa sensibilidade.

Ela se levantou um pouco da cama, preparada para se voltar e recebê-lo.

Mas ele a empurrou outra vez contra a cama pressionando com a mão em suas costas. Voltou a ficar em cima dela, passou as mãos por debaixo das axilas e agarrou carinhosa e meigamente seus seios.

Hannah fechou os olhos e apertou a face contra a colcha. Não precisava pensar. Ainda não.

Suas mãos faziam maravilhas, a colhiam com a pressão justa, riscavam círculos nos mamilos com os polegares e logo os apertavam com ternura entre os dedos. A mente de Hannah começou a fabular; a poria de quatro e a montaria por trás, e ela ficaria a miar e a arranhar como uma gata. Estremeceu, preparada para aceitá-lo em seu interior, queria lhe exigir que fizesse o que ela desejava.

Mas ali ela não tinha nenhum poder; ele era muito forte, muito experiente. Uma mulher nunca podia competir com um homem naquelas circunstâncias.

 

Quando Hannah despertou com a primeira luz da alvorada, Dougald se encontrava a seu lado de pé, com as calças postas, segurando as botas, olhando com o cenho franzido. Olhando o quarto, a estreita cama... a ela.

—Este quarto é muito miserável.

A beijou na testa.

Se erguendo sobre um cotovelo, afastou o cabelo dos olhos.

—Bom dia a você também.

—Farei que a senhora Trenchard mude para um quarto melhor.

Hannah quase saiu da cama de um salto como protesto. Quase, mas como não usava nada em cima, isso a teria deixado em clara desvantagem em qualquer enfrentamento com Dougald.

—Não o fará! Teremos sorte se nos passar inadvertidos. - Então percebeu do que ele havia dito. No modo em que ela respondera. Na mente dos dois, copularam. Não se reconciliaram.

—Dá no mesmo - disse, escolhendo as palavras, sabendo que titubearia, - não importa se aprova ou não meu quarto. Você não voltará a entrar nele.

Parecia mais alto, mais largo, mais sombrio.

—Será, se quiser!

—Não. Sabe que não podemos voltar a fazê-lo. Se alguém nos vir seríamos o centro de todas as falações e começariam a especular, e eu... você... nós não queremos isso agora mesmo, não é?

Durante seu hesitante discurso, ele voltou a ser o severo e impassível cavalheiro que conhecera em sua estadia no castelo Raeburn.

—Não.

Não podia interpretar nada a partir de sua postura ou de sua expressão. Como se aquela noite nunca tivesse tido lugar. A intimidade podia ter sido um produto de sua imaginação e a paixão... moveu as pernas e experimentou umas agulhadas nos músculos internos.

A paixão entre eles fora real. Isso não podia negar. Mas a paixão entre eles sempre fora real, e não servira de nada, à vista de seus problemas matrimoniais. Assim...

—Não devemos voltar a fazê-lo - disse Hannah com firmeza.

—Estou de acordo.

 

—Dentro de duas semanas? - A senhorita Minnie procurou uma cadeira e se deixou cair pesadamente nela. - A rainha virá dentro de duas semanas?

Um alegre murmúrio se propagou entre os criados.

—Não é maravilhoso? - Tia Spring ficou em pé, com as mãos apertadas e os olhos brilhantes. - A rainha Vitória em pessoa virá nos ver!

—Não posso acreditar - exclamou Seaton pela quarta vez. - Pardiez, é impossível!

Dougald estava de pé na grande sala, dando as costas a enorme lareira, diante de uma coleção de incrédulos formada pelas tias, seu traiçoeiro herdeiro, Charles, a senhora Trenchard, os criados do castelo e Hannah.

Hannah, sua esposa. Tinha planos tão avessos para ela! E no princípio foram um completo êxito. A apanhara. Tinha-a posto no lugar que lhe correspondia, a obrigara a fazer o que ele desejava e acreditava que logo a forçaria a entrar em vereda.

Mas depois, ela se dedicara a dar a volta a tudo.

Precisava ter previsto. Precisava ter recordado sua predileção por fazer coisas inesperadas.

Tia Isabel e tia Ethel se agarraram pelas mãos e dançaram uma valsa enquanto os serventes mais jovens as observavam e riam.

A senhora Trenchard aplaudiu e os lacaios e as donzelas permaneceram em silêncio, mas nada podia ocultar sua alegria ao saber que sua soberana chegaria logo.

Muito bem. Aquilo constituía uma advertência para Dougald do perigo que Hannah representava, e trabalharia em consequência. Já não lhe permitiria enviar cartas caprichosamente a nenhum lugar do país.

Nunca lhe permitiria sair a parte alguma sem acompanhamento. E ele já não cederia a suas tentações sexuais. Era um homem com gelo nas veias. Graças à solidão, o trabalho duro e a desolação, fizera a si mesmo a imagem de seu pai, dedicado ao sobrenome familiar e livre da influência de nenhum tipo de afeto. Não permitiria que Hannah fizesse renascer nele nenhuma debilidade.

Dougald elevou a voz para chegar a todos os que o escutavam.

—São notícias maravilhosas. Teremos o privilégio de abrigar sua majestade como convidada, mas não preciso lhes dizer que devemos nos preparar para a visita real.

Charles olhou para Dougald de cima abaixo, como se tomasse medidas para um traje.

—Necessitam roupa nova. Ele disse que necessitavam roupa nova.

—Daremos uma grande recepção. - Tia Spring entrecerrou os olhos. - Convidarão a toda a região a honrar sua majestade.

—A toda a região? - Hannah voltou a cara para tia Spring. - Aqui? No castelo Raeburn?

Os Burroughs viriam e ela por fim os conheceria. Dougald ponderou as repercussões. Se estabeleceu ali no castelo Raeburn, se afeiçoou com as tias, teve relações com ele. Muito bem.

Lhe permitiria conhecer seus avós.

—Os painéis. A entrada. - A senhora Trenchard levou a mão sulcada por inumeráveis veias ao peito e olhou a seu redor com surpresa e desgosto. - O grande salão. Devemos limpar tudo.

—Devemos restaurar tudo - lhe corrigiu Dougald.

—Os trabalhadores devem prestar especial atenção, senhor - disse Charles, - para evitar um desastre.

Tia Isabel levou a mão à cabeça.

—Vou tingir meu cabelo.

Então sua suspeita era certa. Dougald comprovou.

—Tenta não salpicar de betume toda a pia. - Tia Ethel mediu a cintura com as mãos. - Me pergunto se entrarei em meu melhor vestido de seda.

—Você se vê bem com qualquer coisa - a animou tia Spring.

Seaton mudou de cantinela.

—Isto é um maldito desastre. Um maldito desastre.

—Deixa de amaldiçoar, Seaton - lhe repreendeu a senhorita Minnie e, alongando a mão para Hannah, prosseguiu: - Seriamente é certo, senhorita Setterington? Nunca pensei que realmente fosse vir.

—Sabia que Hannah não falharia. - Tia Isabel aparou o cabelo escuro. - É eficiente. É uma mulher moderna.

Hannah agarrou a mão da senhorita Minnie.

—É difícil de acreditar, mas é certo.

Tia Spring agarrou a outra mão de Hannah.

—Querida, queridíssima moça, é nosso sonho feito realidade. E tudo graças a você.

O sorriso de Hannah brotou como uma alegre flor.

—Não é graças a mim, tia Spring, a não ser a seu maravilhoso trabalho. Vocês - fez um gesto que abrangia a todas as tias, - todas vocês são as artífices e agora seus sonhos vão se tornar realidade.

Dougald precisava admitir que Hannah era boa com as pessoas. Sua avó a amava e sua avó não era uma mulher fácil de agradar. Sua enfermidade terminal precipitou suas bodas, pois desejava ver Dougald felizmente casado.

Nos meses que seguiram só estava contente quando Hannah se encontrava com ela. Era divertido. Teve que ver sua esposa tratando a todas aquelas anciãs para se recordar do muito que apreciou que Hannah cuidasse de sua avó. O fez recordar e pensar que talvez... que talvez seu casamento não esteve tão mal.

Houve momentos, quando Hannah e ele estavam sozinhos, nos que ele esqueceu suas obrigações e ela seu ressentimento, e falaram. Simplesmente falaram.

Se surpreendera com sua maturidade, as experiências que modelaram seu caráter. Hannah nunca fora a típica mocinha despreocupada, igual a ele não era o menino de papai rico normal.

Dougald perdera sua mãe, esteve isolado por um pai que não sabia nada de carinho. O amor só trazia dor.

Hannah esteve amparada pelo amor maternal, mas nem todo o amor de sua mãe a podia proteger das brincadeiras das pessoas cruéis, respeitáveis e preconceituosas.

A idade os separou. O tempo pôs distância entre eles. Mas possivelmente pudessem recuperar sua afinidade.

—Não sabia que conhecia sua majestade, senhorita Setterington. - Seaton se aproximou de Hannah e sua voz se voltou obsequiosa. - Deve me contar tudo o relativo a como a conheceu.

Dougald quase ouvia a voz de seu pai lhe dizer: "Isso é o que acontece sonhar acordado, moço. Perde autoridade. Não pôde conservar a sua mulher. Alguém acredita que pode te matar. Deixa de ser tão brando. Dê mais atenção aos negócios."

Seu pai teria tido razão. Não era o lugar para pensar em Hannah e nos prazeres do casamento. Ali, agora, com uma ameaça de morte pendendo sobre sua cabeça e a rainha a caminho, precisava ser o homem no que se converteu.

—Começaremos imediatamente. - Dirigiu um olhar severo a Seaton. - Ninguém está isento do trabalho. Ninguém.

Tal como Dougald esperava, Seaton escapuliu. Ao cabo de uma hora lhe chegaram notícias que Seaton tinha abandonado o castelo.

Parecia que seu herdeiro descobrira que precisava devolver numerosas visitas que requereriam sua presença diária em outro lugar antes da visita real.

Agora Dougald só precisava tratar Hannah com a indiferença que ela merecia.

Nunca mais se deixaria vencer pelo prazer.

 

Por que Hannah chegara a acreditar que ela não tinha poder? O poder que esgrimia ante Dougald alcançava magnitudes assombrosas. Era certo que foi necessário que ficassem a sós, foi necessário que ele estivesse nu e ela de joelhos entre suas pernas, mas naquele momento ele se segurava à cabeceira de Hannah com as duas mãos e se retorcia em uma agonia silenciosa porque lhe havia dito que não a tocasse ou pararia. E ele teria vendido a alma ao diabo para que ela deixasse de fazer o que estava fazendo.

Hannah sorriu e foi lhe beijando pelo flanco esquerdo, lambendo a fina pele que lhe cobria o quadril, logo lhe roçou o umbigo e depositou ali um beijo.

Tinha gosto de limpo - fora a ela depois de se banhar - e o aroma de sua excitação se mesclava com o de seu especial sabão.

Dougald aguardava, vibrando de incerteza, se perguntando se ela faria o que pensava que ia fazer. E ela planejava fazê-lo, depois de tê-lo feito sofrer um pouco. Ao fim e ao cabo, lhe devia um pouco de sofrimento, e que melhor maneira de reparar sua dívida? Assim prolongou a espera, acariciando seus músculos, deslizando as mãos por debaixo das coxas para agarrar suas nádegas, se deleitando na firme musculatura.

Acariciou os testículos, investigou a rugosa textura, o exuberante pelo. Não fazia só duas noites que ele a pôs de barriga para baixo na cama e a forçou a celebrar seu próprio desmaio?

Bom, agora ela celebraria o dele.

—Você gosta? - Lhe depositou um beijo baixo, com a boca apertada na virilha, justo por cima do triângulo de pelo.

Não respondeu, mas sim se retorceu na cama.

—Dougald? - Hannah levantou a cabeça. - Quer que pare?

—Não! Eu adoro. - Respirou fundo e seu peito se moveu com o esforço. - Faz o que queira. O que queira.

Não queria pedir-lhe. Provavelmente pensava que ela ficaria traumatizada. E assim teria ficado, duas noites atrás.

Mas naquelas duas noites Dougald a transportara a tais viagens sensuais que só podia qualificar de puro hedonismo. A beijara por toda parte, a reduzira a uma ruína choramingante, a fizera suplicar.

Ela sabia muito bem o que ele queria, e logo o daria. Voltou a beijá-lo, desta vez justo na base do membro, mas seguia tendo os lábios fechados.

—É isto o que quer?

—Sim. Sim, isso está bem. Mas talvez...

Exalou um lento e quente fôlego em cima dele enquanto o ouvia se esforçar por encontrar as palavras.

—Mas talvez se usasse a língua?

—Assim? - Com lenta antecipação lhe lambeu todo o membro rígido e ereto.

Dougald ofegou. Os músculos do braço se alongaram como se lutasse contra o instinto de agarrar sua cabeça e lhe mostrar o que era que desejava.

—Que mais? - perguntou ela em voz baixa.

—Poderia imaginar o que eu gostaria - repôs ele também em voz baixa.

—Poderia. - Levantou a cabeça e lhe sorriu. - Mas quero ouvi-lo.

Dougald ficou olhando-a fixamente e de repente compreendeu. Franziu o cenho, mas reconhecia a derrota quando a tinha ante o nariz. Não ia lutar com ela naquele instante.

—Por favor, Hannah. Por favor, coloque isso na boca e... por favor? - disse em tom lento, profundo e desesperado.

Hannah o perdoou pela falta de eloquência e lhe deu o que desejava.

Ao fim e ao cabo, aquela era absolutamente a última vez.

 

De pé na pequena sala de jantar Hannah ouvia o bate-papo de animadas vozes que procedia da sala do café da manhã. Ouvia os martelos dos carpinteiros no salão. E no corredor observava às costureiras subir a escada com cilindros de tecido para tapizar. A emoção ante a visita da rainha impregnava o castelo em todos os níveis. No dia anterior,

Hannah trabalhara até bem entrada a noite para que as tias pudessem acabar a tapeçaria rapidamente. Logo de noite ficou acordada por... por outros motivos.

Ao se olhar em um espelho com marco de ouro que pendurava da parede, se dirigiu um olhar pícaro.

Outros motivos que não se repetiriam.

Seu sorriso se desvaneceu.

Porque ao final, não sabia se a paixão de Dougald era falsa e sua sedução parte de algum pernicioso plano encoberto para debilitar sua resistência e obrigá-la a ser a esposa que ele exigia.

O trabalho e a noite sem dormir estavam cobrando seu preço e agora a preocupação aumentava a carga. O espelho lhe devolveu um reflexo cansado, então ela beliscou as faces para dar um pouco de cor a elas.

De todos os modos, todo mundo era presa da excitação ante a visita da rainha. Ninguém repararia nela.

A menos que Dougald se fixasse nela, e não sabia se, depois da última noite, poderia aguentar o olhar dele.

Não experimentara aquela mescla de júbilo, confusão e sofrimento desde... desde que viveram juntos como marido e mulher. Não devia se esquecer que ele não era o homem que fora.

Mas ela tampouco era a mesma mulher. Não sabia o que ia acontecer, mas tinha certeza que, se chegavam a se reconciliar, não o fariam nos termos de Dougald.

Nem toda a sedução nem toda a coerção do mundo a liberariam da dor que aquilo conduziria.

O murmúrio de vozes na sala do café da manhã ia aumentando. Precisava entrar e confrontá-los, ao fim e ao cabo ninguém sabia o que ocorrera na noite anterior no quarto de Dougald, salvo ela e Dougald.

E ele não diria nada que pudesse comprometê-la. Apertou os dentes. Em todo caso, ele odiava aquela paixão obsessiva mais que ela.

Beliscou pela última vez as faces e cruzou a soleira. Passou à frente da senhora Trenchard, que sustentava um bule fumegante, pela frente de Dougald, que se sentava à cabeceira da mesa, e pela frente das tias e de Seaton.

Tia Spring lia em voz alta uma folha de papel que sustentava na mão, e falava forte para se fazer ouvir em meio do burburinho do salão.

—Tenho escrito convites para os Henderson, os Gilmore, o duque de Nasker, são tão queridos, sempre tão gentis, o senhor MacAllister e sua nova esposa que é muito jovem para ele, o muito ridículo velho verde!,

Sir Preston e lady Susan, os Howell, espero que ainda não esteja encerrada, sir Day e lady, bom dia, Hannah, querida. Parece horrivelmente cansada esta manhã.

As esperanças de Hannah de passar despercebida ao entrar foram a raia.

—Estou bem, tia Spring.

Tia Spring ignorou seus protestos.

—Não acredita que parece cansada, Dougald?

Dougald não levantou a vista de seu prato cheio.

—Tem bom aspecto.

—A senhorita Setterington está adorável como sempre, tia. - Seaton parecia impressionado pela franqueza de tia Spring.

—Claro que está, querido. - Sem se alterar pela reprimenda de Seaton, tia Spring deixou a lista de convidados sobre a mesa e examinou Hannah com interesse. - As olheiras não desmerecem o atrativo de uma jovem dama.

Não acredita, Dougald?

Dougald grunhiu, aparentemente inabalável pelas incessantes manobra casamenteiras das tias.

Hannah se afundou na cadeira, com uma confusão descomunal.

Tia Isabel rompeu o silêncio.

—Sim, querida, as olheiras acrescentam um ar de mistério.

—Hoje tem um ar muito misterioso - disse tia Ethel.

A senhorita Minnie abriu a boca para falar, e por um momento Hannah abrigou a esperança que aquela mulher prudente mudasse a conversação.

Mas Hannah estava destinada à decepção.

—Dougald parece cansado também - observou a senhorita Minnie. - Ontem à noite trabalhamos até tarde preparando os menus para a recepção da rainha.

Talvez a senhorita Setterington tenha trabalhado até bem entrada a noite ajudando Dougald a preparar a boas-vindas da rainha.

—Sim! - exclamou tia Spring se endireitando em seu assento.

—Tem razão! - Tia Isabel sorriu alegremente.

—Um ar muito misterioso - repetiu tia Ethel.

Dougald mastigou, engoliu e limpou os lábios com uns toques de guardanapo.

—Posso afirmar categoricamente que a senhorita Setterington e eu não estivemos trabalhando juntos ontem à noite para preparar as boas-vindas da rainha. A senhorita Setterington tem suas tarefas e eu tenho as minhas, e eu não tenho nenhum interesse em trabalhar com ela - anunciou Dougald olhando, desde sua posição central, aos comensais que se sentavam a sua mesa.

—Dougald, isto foi muito mal educado - repreendeu tia Spring.

—Está ferindo os sentimentos de nossa querida moça - disse tia Ethel.

—Não, não me fere - Hannah se apressou em tranquiliza-las.

Dougald lhe lançou um rápido olhar. Um olhar cálido, zangado e apaixonado que a confundiu, fez que se ruborizasse e que desejasse ter pulado o café da manhã.

Dougald voltou a se centrar na comida que tinha à frente.

Seaton o olhou, tinha a cabeça baixa.

—Lorde Raeburn é um mal educado. A senhorita Setterington não se merece tomar o café da manhã com um bárbaro.

Dougald levantou a vista e sorriu a seu herdeiro.

—Nem com um assassino.

Uma exclamação escapou da senhora Trenchard.

—Ele admitiu ter matado sua esposa? - perguntou tia Isabel.

Hannah contemplou seu marido. Quando lhe sorria assim, com toda aquela feroz burla, recordava as razões que tinha para suspeitar de suas malvadas intenções. Ali sentado, rodeado da evidência de sua riqueza e sua ascendência, com os olhos verdes brilhantes como o gelo e os dentes brancos resplandecentes, tinha o aspecto de um vingativo senhor medieval.

—Não, tia Isabel, eu não assassinei minha esposa. - Não olhou para Hannah ao dizê-lo. - Ainda.

—Ainda? - A voz de tia Isabel soou mais forte que nunca. - O que significa ainda?

—Ainda, hummm? - A senhorita Minnie acariciou o queixo pensativa.

Dougald deixou o garfo sobre a mesa e dirigiu um olhar malicioso a tia Isabel.

—Já sabe, se pensarem que assassinei minha esposa, seria uma crueldade máxima por sua parte que tentassem me casar com a senhorita Setterington.

Uma coisa era conhecer suas intenções casamenteiras e outra coisa muito diferente era falar disso. Hannah o teria amaldiçoado.

—Vamos, lorde Raeburn, elas não fizeram tal coisa - disse Hannah em vez de o amaldiçoar.

Ninguém prestou a menor atenção a ela.

A boca de tia Isabel se abriu e se fechou. Logo vacilou.

—Eu? eu nunca tinha pensado nisso. - Enrugou o cenho enquanto meditava sobre isso.

Dougald aguardou e logo olhou ao redor da mesa com um sorriso maléfico nos lábios.

—Odeio ter que dizer, mas, tem razão. Muito bem. vamos supor que você não assassinou sua esposa - suspirou tia Isabel. - Mas a ideia era tão misteriosa e romântica.

O sorriso de Dougald desapareceu.

—O assassinato não é romântico. O assassinato é o instrumento de uma mente fraca.

Seaton se levantou e golpeou na mesa com os nódulos.

—Eu por minha parte não vou mudar de opinião. Sua senhoria assassinou sua esposa.

—Seaton, você sabe que é o único que diz isso porque é uma história muito boa - comentou tia Ethel.

—O que tem de mau nisso? Um enganador sem uma história que contar não é um enganador. - Seaton jogou um pouco para trás a cadeira e um criado se apressou a retira-la. Vou sair para visitar os Sheraton.

Voltarei à noite. Adeus, até amanhã. - Saiu da sala muito indignado.

Dougald o vigiou de perto.

—Uma mente fraca - repetiu.

Tia Spring mordeu a unha do polegar.

—Mas Dougald, querido, você tinha uma esposa. O que aconteceu a ela?

—Esse é o mistério. - Com um breve gesto de cabeça, começou a comer outra vez.

Hannah esteve a ponto de dar golpes na cabeça contra a mesa. Por que Dougald fazia aqueles comentários tão incendiários? Por que desvelava tanto e entretanto tão pouco? Estava zombando dela e de seu ardor?

—Acaso a estava ameaçando outra vez?

Não sabia. Não sabia nada e a verdade era que, embora não havia nada no mundo que desejasse mais que fazer amor com ele, não confiava nele. Como podia ser assim?

Nos seis meses que viveram como marido e mulher, lhe fizera tanto dano?

 

Hannah se achava de pé ante a escrivaninha, enfrentando ao que era seu marido há cinco meses.

—Desde que sua avó morreu, não tenho nada que fazer.

Dougald sorriu. Sentia um afeto puro por sua avó.

—Fez um maravilhoso trabalho durante sua enfermidade terminal. Me contou o muito que apreciava seus cuidados. Me disse que tínhamos escolhido à esposa correta.

As palavras cravaram muito dentro como uma espada no ventre de Hannah. cada vez mais a realidade de seu casamento ficava a descoberto. Tudo aquilo do que o acusara no trem resultara ser certo.

Sua avó a escolhera para ser a esposa de Dougald. Porque ele fizera o que sua avó o aconselhara em matéria de casamento para economizar tempo e preocupações.

Assim tinha podido se dedicar plenamente aos negócios e colher os êxitos e as riquezas que ansiava.

—Ainda sinto falta da avó. - Dougald baixou a vista para o montão de papéis, mas a Hannah deu tempo de surpreender um vislumbre de lágrimas cheias de nostalgia. - Sempre podia falar com ela. Era uma mulher muito sábia.

"Agora pode falar comigo", desejara dizer Hannah, mas não o fez. Aprendera que era inútil fazer aquele tipo de declaração. Não tinha podido demonstrar nada a Dougald, sobretudo porque ele não dera a oportunidade.

—Eu disse o quanto estou agradecido por você ter passado tanto tempo na enfermaria? - perguntou Dougald.

—Sim. - Tinham adiantado a cerimônia nupcial devido à má saúde de sua avó. Hannah não lamentava isso. Enquanto a idosa senhora jazia em seu leito de morte, agradecia saber que seu neto estava estabelecido.

—Sim, me disse isso.

—Ainda está pálida do esforço. - Abriu a gaveta de sua escrivaninha e tirou um envelope com dinheiro. - Toma isto e vá às compras. Assim se aliviará do aborrecimento.

Levou as mãos à costas e cruzou os dedos decidida a não aceitar aquele envelope. Precisava fazer ele entender que com dinheiro não resolveria todos seus problemas.

—Não padeço de aborrecimento. Padeço de inatividade. Quando sua avó estava doente, tinha a ela para cuidar, mas agora que se foi, preciso fazer algo. Você me prometeu que me ajudaria a pôr uma boutique.

—É a esposa de um dos homens de negócios mais importantes de Liverpool. Eu ficaria como um louco se abrisse uma boutique - disse com severidade.

—Me prometeu isso!

—Não lhe prometi isso. Disse que não queria se prostituir por uma boutique. - Deixou o envelope em cima da escrivaninha e o empurrou para ela.

—Disse que não via nenhum motivo para comprometer seus princípios em troca de dinheiro.

Era certo. No trem, havia dito aquelas coisas. Então ele a seduzira e em seu arrebatamento e sua pressa por casar, dera por obvio algumas coisas. Tinha suposto que ele quereria fazê-la feliz.

Tinha suposto que confiaria em que ela sabia muito bem o que a fazia feliz. Nunca pensou que deliberadamente ele tergiversaria suas palavras para fazê-la dançar ao som de sua música.

—Não entendo por que te importa o que pensem os outros.

—Sou um homem jovem. A lembrança de meus anos amalucados ainda me persegue. Se quero ter êxito, devo conseguir o respeito de meus colegas. - Fez um gesto depreciativo.

—Não sei por que me incomodo em lhe explicar isso. Confia em mim, querida. Eu sei o que é melhor.

—Já tem êxito.

—Não todo o que desejo. Ainda não. - Declarou seu objetivo com uma indiferença que ocultava sua determinação. - Será feliz quando tiver meninos que criar.

Necessito um herdeiro, sabe, e você... você quer uma família. Terá um bebê e ele a quererá.

Odiava que dissesse aquilo. Usava o desejo que tinha de ter uma família como uma arma contra ela.

Dougald lhe sorriu, pensando que se derretia com a ideia de um menino.

—Ainda não deixou de vir a menstruação?

—Não.

Não, graças a Deus. A ideia de criar um menino em uma casa em que não tinha nenhuma autoridade e com um marido que não fazia o menor caso dela a horrorizava.

—Se conseguir acabar logo esta noite, podíamos tentar fazer um menino.

Hannah sacudiu a cabeça.

—Tem uma reunião.

—É certo. - Franziu o cenho ante o calendário. - Amanhã a noite, então.

A frustração a assolou. Não podia continuar assim, com um marido que a tratava e a adestrava como um cachorro mulherengo.

—Se não puder ter minha boutique, ao menos me deixe me encarregar da direção dos criados. Charles dirigiu a casa enquanto eu cuidava de sua avó, e agora ele não quer me ceder essa responsabilidade!

Dougald ordenou uns papéis. Perdera interesse na petição de Hannah.

—A maioria das mulheres se alegrariam que as relevassem de qualquer responsabilidade em seus lares.

"Pareço eu à maioria de mulheres? Deveria se casar com outra."

Dissera tudo aquilo antes, em inumeráveis ocasiões. Mas ele não a escutava. Nem sequer parecia ouvi-la. Só a consentia com uma paciência infinita e lhe dava uns tapinhas na cabeça como se fosse sua bonequinha.

—Não tenho nada a fazer. Não posso viver assim. Eu te advirto, Dougald, se não mudar algo breve, nosso casamento está destinado ao fracasso - disse cansativamente.

Conseguira voltar a captar sua atenção. Voltou bruscamente a cabeça, com o rosto aceso e os olhos entrecerrados.

—Está me ameaçando?

—Estou tentando falar com você.

Dougald elevou a voz até o grito.

—Falar comigo? Já está outra vez me dando impaciência! - se controlou visivelmente. - Não há nada a fazer. Estamos casados até que a morte nos separe. Então tenta tirar o melhor proveito.

 

De modo que tirou o melhor proveito, mas não da maneira que ele imaginara. Antes que pudesse ficar grávida e estivesse presa para sempre, Hannah o abandonou.

Pegou o dinheiro que lhe prodigalizava como amostra de afeto ou confiança e o abandonou.

Agora enfrentava à mesma armadilha. Olhou para a cabeceira da mesa. Dougald se sentava ali, tranquilo, distante, inconquistável. Não falavam. Já não lhe oferecia a compreensão nem o carinho de antes, e uma e outra vez demonstrara que, para ele, o coito não era igual a amor. Entretanto, compreendia o que tantas mulheres descobriram para sua consternação: o amor não era necessário.

Quando duas pessoas tinham relações o resultado era um menino.

Então devia ser prudente. Se ele ia a seu quarto, ela precisava rechaçá-lo. E se não fosse? bom, então tudo estaria bem.

Pelo que estava segura era que não seria ela quem iria para ele.

 

—Este colchão está cheio de calombos.

Enquanto Dougald mudava de postura, tentando desfazer a massa de plumas que tinha debaixo de suas costas, se perguntou por que demônios não mudaram sua cama. Se Hannah ia seguir visitando sua câmara, teria que melhorar as condições.

—Disse que não importava. - Hannah aconchegou a cabeça no peito nu de Dougald. - Disse que de todos os modos não pregava o olho.

—E não prego o olho, mas agora estou na cama e estou incômodo.

—Suponho que podemos fazê-lo em qualquer outro lugar.

—Sua cama também tem calombos e é horrorosamente estreita.

—Não me referia a meu quarto. Queria dizer aqui. - Levantou a cabeça e olhou a seu redor aos móveis ruinosos, logo baixou a cabeça e suspirou. - Dá no mesmo. Tudo é horrível.

Dougald olhou a seu redor. Tinha razão. Tudo era horroroso, mas embora quisesse não podia fazer nada. Contratara homens para devolver ao castelo seu antigo esplendor. Tinha-os trabalhando da alvorada até o ocaso, e até mais, com o fim de prepará-lo para a visita da rainha. Não podia perder tempo na frivolidade de arrumar seu próprio dormitório, apesar dos prazeres que compartilhavam ele e sua esposa, embora de maneira clandestina, nos momentos mais escuros da noite.

Pôs cara de poucos amigos. Ainda não conseguira se impor a autodisciplina que desejava. Quando ela foi a ele aquela noite, deveria tê-la jogado.

Em lugar de dizer a si mesmo que, como fora ela a que tinha acudido, aquilo representava uma vitória para ele. Sim, assim era como ele preferia considerá-lo. Como uma vitória.

Se levantou - e a tombou de costas em sua cama.

—Posso te fazer esquecer os desconfortos - disse se inclinando sobre ela.

Ela cruzou as mãos atrás da nuca.

—Sim, faça-o. Mas esta noite definitivamente é a última vez.

 

Hannah abriu caminho através das escadas apoiadas na parede e as malhas da Holanda que penduravam no corredor do andar de cima, de caminho à oficina das tias. Costumava chegar à oficina muito cedo pela manhã.

Então Hannah tinha um momento de tranquilidade para organizar o trabalho de malha do dia, antes que chegassem os trabalhadores para cumprir sua jornada trabalhista. Um momento que não estava segura de querer. Ao fim e ao cabo, quando estava ocupada não lhe dava tempo de pensar em Dougald e na odiosa debilidade que ele engendrava nela. Quando o sol estava alto e seus apetites saciados, decidia se afastar dele, rechaçar seus cuidados e se refugiar em seus princípios.

Mas cada noite da semana passada dera voltas e mais voltas na cama sabendo que ele a aguardava justo do outro lado do corredor, que ele a esperava com impaciência, que a desejava.

A maioria das noites se abraçava ao travesseiro e olhava a escuridão. Mas algumas noites se levantava da estreita e fria cama e se arrastava até a porta de Dougald. O escuro corredor seguia estando igual de solitário, as intermináveis salas vazias eram igualmente aterradoras, mas sua presença a atraía como a uma mariposa noturna a chama, e como uma mariposa noturna se abrasava em seu fogo.

Era uma loucura, mas uma loucura tão doce!

E nas noites que ela não ia a ele, ele ia a ela.

Ainda abrigava dúvidas sobre suas intenções, mas o prazer e a afinidade se sobrepunham as velhas más lembranças. Lentamente crescia nela a esperança que a fazia oscilar entre o júbilo e a incredulidade.

Estava se comportando como uma louca ao acreditar que podiam se reconciliar ou estava sendo ainda mais louca ao pensar que Dougald planejava algo mais que seu domínio?

Mas a paixão era uma coisa e o amor outra bem diferente.

Era amor aquela emoção que começava a bulir em seu interior? Não era aquele sentimento infantil e imaturo que imaginara fazia nove anos, a não ser um sentimento mais profundo, um sentimento que via os temores e a coragem de Dougald, suas imperfeições e suas fortalezas, e o amava apesar de, e devido a ele.

Mal se atrevia a pensar no que podia ocorrer se a amava.

Ao passar pela porta que conduzia até a torre, Hannah olhou para a torre redonda. A exígua escada subia em espiral para o patamar exterior da oficina das tias. Os simples degraus de madeira eram altos e tinham colocado um tosco corrimão para comodidade e segurança das anciãs.

Hannah temia que a rainha Vitória desejasse ver onde se cobriu a tapeçaria. Então se aplicara uma rápida capa de pintura às paredes engessadas, e os carpinteiros começaram a tarefa de substituir os degraus por outros de carvalho amaciado e fabricar um corrimão curvo de cerejeira. Ficaria formosa quando estivesse acabada, mas por agora Hannah pisava com cautela, provando cada tábua antes de pôr seu peso nela. Ao fim e ao cabo, o trabalho estava se fazendo com indevida urgência e um engano podia acabar em um acidente desnecessário.

No patamar por fim deu um suspiro de alívio. Quando as tias chegassem para sua jornada trabalhista, na escada estariam a salvo.

A chave estava na bolsa que pendurava do cinturão de Hannah. Estava procurando-a enquanto avançava para a porta quando lançou um grito; a tábua se quebrara e seu pé caía no vazio.

 

Dougald estava de pé em seu dormitório com as meias postas enquanto contemplava seu lento criado.

—Se quiser que leve uma gravata corretamente atada, então sugiro que chegue mais pontual para me ajudar a me vestir.

Alguns dos escassos cabelos de Charles flutuavam de um modo desordenado ao redor de sua cabeça, vestia o casaco desabotoado e sua gravata se movia ao tragar saliva.

—Senhor, houve um acidente.

O olhar de Dougald se centrou por completo naquele homem. Nunca vira Charles tão nervoso antes. Nada o fazia perder sua tediosa compostura francesa. E é obvio nenhum acidente que ocorresse a nenhum dos trabalhadores.

Agarrou o casaco e o pôs.

—Que tipo de acidente? - Então caiu na conta. - Uma das tias? - O alarme se estendia veloz por suas veias, sem prévio aviso, lhe produzindo uma sensação desagradável. - Não, nenhuma das tias!

—E por que se preocupava tanto? Não eram realmente suas tias. Não eram mais que um incômodo e uma responsabilidade.

—Não, senhor. Madame, a senhorita Setterington, caiu através do chão.

Atônito, Dougald falou sem pensar.

—Isso é impossível. Saiu daqui faz somente, - se mordeu a língua. Não deveria ter dito isso, mas era certo. Acabava de deixa-lo fazia menos de uma hora, não teve tempo suficiente para se vestir e se meter em problemas tão cedo.

Mas Charles assentia e inclusive secava o nariz com um lenço.

Dougald deu um passo e o agarrou pelos ombros.

—Está viva?

—Oui, senhor, mas temo que sua perna...

—O que?

—Poderia estar quebrada.

—Bem. - Não, não estava bem, mas Hannah se recuperaria de uma perna quebrada. Maldita seja, se recuperaria.

—Onde está?

—Estão levando-a a seu dormitório.

Dougald saiu ao corredor como uma exalação.

—Por favor, senhor, seus sapatos!

—Ao diabo com meus sapatos! - Mas poderia necessitá-los para chutar algum traseiro. - Não, melhor me traz isso.

Topou com a procissão quase imediatamente. A senhora Trenchard ia à cabeça. Uma donzela de serviço caminhava a seu lado, conduzindo uma maleta negra. Hannah apoiava os braços sobre os ombros de dois fornidos criados.

Avançava a saltos, com a saia rasgada, os lábios apertados e uma luz combativa nos olhos. Quando viu Dougald lhe soltou um sermão.

—Lorde Raeburn, deve deixar claro aos trabalhadores que, antes que se vão de noite, tudo o relacionado com as tias tem que estar perfeitamente seguro.

Se não tivesse subido à oficina antes que chegassem as tias, uma delas poderia ter se machucado.

O coração de Dougald voltou a pulsar. Estava ferida; mas se já o estava admoestando, não devia ser tão grave.

O senso comum o refreou para não agarrá-la nos braços.

—Onde se machucou?

—No pé - espetou Hannah.

Sim, ficaria bem.

—Estava no patamar que conduz à oficina das tias - prosseguiu. - Uma tábua se rompeu sob meus pés.

Dougald voltou a cabeça para Charles. Charles lhe deu os sapatos, abriu caminho através do grupinho e se dirigiu para a cena do acidente.

—Subi a escada com muito cuidado, mas os carpinteiros não estavam trabalhando no patamar então uma vez ali deixei de prestar atenção.

Dougald percebeu com surpresa que a voz dela tremia.

—Me afundou o pé por completo. Logo toda a tábua cedeu e eu caí - piscou muito rápido, - e se não me tivesse pego ao corrimão teria caído de tudo e não teria podido me levantar porque a tábua inteira caiu também irremediavelmente feito em pedacinhos!

Ao inferno com o senso comum. Sua indômita esposa estava chorando.

Dougald deixou cair os sapatos, afastou os criados a um lado e a segurou nos braços com ternura. Os criados se tornaram um pouco atrás, mas nenhum se atreveu a olhá-los com surpresa. Hannah empurrou

Dougald só um momento, logo se abraçou a ele como se fosse um porto na tormenta. Em outras circunstâncias, ele teria desfrutado de sua necessidade. Estava acostumado a fazê-lo, mas naquele instante, pareceu-lhe oportuna.

—Se a senhora Trenchard não tivesse me encontrado, não sei o que teria feito - sussurrou Hannah.

Dougald soube que devia gratidão eterna a sua governanta.

—Senhor, traga-a aqui, por favor. - A senhora Trenchard estava de pé na soleira do dormitório de Hannah.

Levou-a até a cama, com cara de aborrecimento todo o tempo. No que estava pensando quando decidiu alojá-la naquele lugar? Com a entrada dos tempranos raios do sol, a habitação parecia ainda mais ruinosa que de noite.

Se Hannah precisava passar algum tempo se recuperando, aquele era um péssimo lugar. E por que ia ter que se recuperar? Quando falasse com os carpinteiros, desejariam ter escolhido a profissão de jardineiro.

—Chame o médico - disse à senhora Trenchard.

—O doutor é um bêbado. - A senhora Trenchard fez um gesto à donzela e agarrou a maleta. - Eu mesma curarei à senhorita Setterington. - Olhou fixamente a expressão de dúvida de Dougald.

—Lhe asseguro, senhor, que minha mãe era a parteira de meia região e também a enfermeira da senhorita Spring, e me ensinou bem. A senhorita Setterington está em boas mãos.

Dougald vacilou, mas a senhora Trenchard parecia muito segura de si mesma quando abriu a maleta e tirou uma série de potes de argila. Com um direto movimento de cabeça lhe concedeu permissão.

—Muito bem.

A senhora Trenchard pôs os potes em cima da mesa, logo se deteve e olhou a seu redor.

—Senhorita Setterington - exclamou escandalizada, - já gastou sua provisão semanal de velas!

—E a quem importa sua provisão semanal de velas? - Dougald não sabia do que sua governanta estava falando.

A senhora Trenchard tirou um cilindro de tecido de algodão branco.

—Dou aos criados de menor fila oito velas por semana. Isso é uma por noite e duas para o domingo, mas dormem quatro em um quarto, de modo que é muito. Se tomarem cuidado com a luz, podem levar a vela a casa para suas mães. Aos criados de fila superior lhes proporciono quinze velas por semana. Isso é duas velas por noite e três no domingo. A senhorita Setterington excedeu o limite.

—Sim - disse Hannah. - Eu fiquei lendo até tarde.

Era mentira; ela e Dougald queimaram as velas durante as noites que passaram juntos.

—Temia isso - disse a senhora Trenchard. Isso é o que acontece se lhes deixar ter livros. Bom, sinto muito, senhorita Setterington, mas não terá mais vela até o domingo.

—Claro que as terá - interveio Dougald.

—Por favor, não importa. - Discretamente, Hannah lhe deu um golpe na coxa. - O farei melhor na semana que vem.

Como era o correto, a senhora Trenchard fez caso omisso e em troca respondeu a seu amo.

—Como desejar, meu senhor, mas é seu sebo o que tento economizar e isso constituirá um mau exemplo para os outros criados.

—Não se preocupe, posso pagar o sebo. - Olhou para Hannah e lhe devolveu o olhar.

Os olhos empanados danificaram o efeito. Mulheres! Suas lágrimas abrandavam a qualquer homem. Se tivesse sido um homem de verdade como seu pai, não lhe teria importado que sua mulher chorasse.

Teria permanecido impassível ante qualquer emoção descontrolada dela e ante qualquer recriminação que lhe pudesse fazer.

Se Hannah tivesse mantido distância um pouco mais, ele teria podido manter esse grau de indiferença. Por dizê-lo de algum jeito:

—A senhorita Setterington é mais que uma mera criada de fila superior.

—Por favor, senhor, deixe correr. - Estava claro que Hannah não queria que intercedesse em seu nome.

Ofereceu seu lenço e Hannah o usou livremente.

A senhora Trenchard passou o cilindro de tecido à donzela.

—Começa a cortar ataduras daqui - disse. Logo levantou a cara de Hannah e examinou o arranhão sanguinolento do queixo. - Me desculpe senhor, não o entendi bem.

Antes que a senhorita Setterington chegasse, você deixou muito claro que não teria privilégios especiais.

De fato, recordava que, depois de beber muito, falara bastante mal de sua esposa.

Não é que tivesse falado de seu casamento à senhora Trenchard, o que certamente não fizera, mas certamente a senhora Trenchard se teria perguntado o motivo de sua virulência.

—A senhorita Setterington talvez passe a noite em claro porque as feridas vão incomodar. - Recordando a dedicação da senhora Trenchard a tia Spring, Dougald acrescentou:

—Ao fim e ao cabo, evitou que as tias se fizessem muito dano.

A senhora Trenchard assentiu.

—É possível, mas não posso aprovar que se infrinjam as normas. Só lhe falta abolir o toque de silêncio.

Às vezes Dougald se perguntava se sabia o que ocorria dentro de sua casa.

—Que toque de silêncio?

—O das nove em ponto. Os criados devem permanecer em suas habitações para que ninguém se faça mal, na escuridão.

Não entendia nada de tudo aquilo, mas a donzela que ajudava à senhora Trenchard o olhava do mesmo modo em que o olhavam muitas donzelas do serviço, com um temor que roçava a histeria.

Com um brusco gesto de cabeça mostrou à garota.

—Acredita que vou mata-la?

A estúpida mocinha assentiu. Realmente assentiu.

—Pelo amor de Deus, moça, nem sequer reparei em você.

Sua impaciente resposta não pareceu apaziguá-la. De fato, abriu mais os olhos e se separou dele.

—Grande maneira de tranquiliza-la! - espetou Hannah.

A senhora Trenchard deu uns tapinhas no ombro da garota.

—Vá. Já não a necessito.

—Espera! - Dougald tentou afofar o fino travesseiro debaixo da cabeça de Hannah. - Vá a meu dormitório e traz um de meus travesseiros para a senhorita Setterington.

A garota engoliu saliva e ficou olhando-o fixamente.

—Não, não precisa. - Hannah se ergueu se apoiando sobre o cotovelo. - Senhor, não necessito nenhum privilégio especial. O que preciso é que a senhora Trenchard me examine para poder voltar com as tias.

Necessitam minha ajuda para acabar a tapeçaria.

Dougald a empurrou para a cama.

—Nos ocuparemos disso mais tarde.

Necessitava uma dose de láudano, e Dougald trocou um intencionado olhar com a senhora Trenchard. A senhora Trenchard assentiu, logo falou com a desconcertada donzela que corria a fazer seu mandado.

—Agora, senhor, se se retirar um pouco?

—Não. - se plantou no lado mais longínquo da cama. - Fico.

—Que disparate! - exclamou Hannah. - Não pode ficar.

Dougald indicou à senhora Trenchard que procedesse.

 

—Tendo em conta o que podia ter lhe passado no acidente, a senhorita Setterington teve muita sorte. - A senhora Trenchard jogou sutilmente Dougald do dormitório de Hannah, deixando-a apoiada no travesseiro que tão gentilmente lhe cedera enquanto bebia uma infusão sedativa sob o olhar atento da donzela.

—Como vê, sofreu arranhões na perna e cortes nas mãos. Doerá muito a entorse do tornozelo e as unhas que se arrancou, e se golpeou tão forte no queixo que sofrerá fortes dores de cabeça.

O trabalho da senhora Trenchard no quarto de Hannah convencera Dougald que a governanta sabia curar doentes. Podia confiar nela e agora se perguntava o que Charles teria descoberto em sua busca do culpado.

—Venha comigo - ordenou, e caminharam pelo corredor com passos longos. - Quanto tempo deverá permanecer na cama?

—No mínimo hoje, talvez amanhã também. Deverá permanecer sentada durante alguns dias e manter o pé em alto tanto tempo como lhe for possível.

—Se assegure que o faça. - Dougald olhou à senhora Trenchard, que corria a seu lado. Certamente aquela mulher demonstrara sua valia.

—Você está aqui tantos anos?

—Toda a vida.

Se deteve, pegou os sapatos esquecidos e a olhou aos olhos.

—Você conhece bem sir Onslow. - Observou um brilho de cautela. Era a reação lógica de uma criada ao ser interrogada ou possivelmente sabia algo?

—O conheço desde que era um menino.

—O qualificaria de pessoa admirável?

—É um bom homem.

O que para Dougald não queria dizer absolutamente nada. Seguiu caminhando e ela se esforçou por lhe seguir o passo.

—É bom com os criados, gosta de meus menus e tem um bonito sorriso.

—É um sedutor - objetou Dougald.

—Isso não é nenhum crime.

Salvo quando tentava seduzir Hannah.

—Absolutamente - repôs Dougald. À senhora Trenchard gostava de Seaton, estava claro, e talvez isso devesse constituir um ponto a favor da pequena pústula.

—Perguntava somente porque é meu herdeiro e se algo me acontecesse , me pergunto que tipo de senhor seria ele.

—Seria um bom senhor - se apressou a dizer.

A senhora Trenchard não negou que algo pudesse acontecer a Dougald. Acaso dava por certo que podia seguir o mesmo caminho de seus predecessores?

—Mas Londres o encanta. Temo que seria um senhor ausente.

—Sim, ausente talvez, mas não indolente. - se conteve.

—Ele?

—Ele o que?

A senhora Trenchard não respondeu e Dougald se voltou para vê-la agarrando um lado.

—O que ocorre?

A senhora Trenchard se apoiou na parede com o semblante branco como o papel.

—Indigestão, senhor. Às vezes é como se o demônio me espremesse as vísceras. - Procurou no bolso do avental e tirou um frasquinho.

O abriu, engoliu o conteúdo e ficou ali quieta com os olhos fechados até que a cor lhe voltasse. Ficou rígida, fez uma reverência e disse: - Peço desculpas, senhor. Acontece quando trabalho muito.

—Então deixe de fazê-lo.

Embora sabia bem que estava procurando problemas, não podia consentir que a mulher caísse de cansaço.

A senhora Trenchard suspirou.

—Senhor, posso lhe ser franca?

Dougald olhou à governanta. Era alta, de ossos grandes, e competente, o tipo de servente que apreciava. Não se intrometia em seu caminho, fazia seu trabalho e nunca se aventurava a dar uma opinião.

Agora ia dá-la, e se perguntava que raros acontecimentos dos últimos dias a levaram a dar esse passo.

—De que se trata?

—Embora outros criados se queixaram, não disse uma palavra das mudanças que se produziram aqui porque você é o amo e se deve fazer o que você peça.

—Exatamente.

Fraquejou um pouco.

—Mas quando a gente corre perigo, não posso fazer outra coisa mais que falar. Há homens por toda parte todo o tempo, arrancando as coisas e as construindo de novo, e não se tem nenhum pingo de respeito pelo passado.

Me parece que, apesar da visita da rainha Vitória, seria melhor fazer menos e pensar antes no que se deve fazer.

—O que quer dizer?

—Por exemplo, no grande salão. Precisamente ontem surpreendi a um dos carpinteiros pendurado nas vigas enquanto outros ficavam debaixo com uma escada e zombavam dele.

Dougald ouvira a gritaria e saíra para ver o que ocorria. Considerara o incidente uma mera brincadeira para aliviar a tensão de um trabalho incessante. Mas obviamente, a senhora Trenchard levou o assunto mais a sério.

—Espero que tenha chamado a atenção deles - disse, sem revelar que aquilo o divertia. - Detestaria que um dos homens caísse e quebrasse uma perna.

—Mais que isso, senhor, podia ter quebrado uma das molduras. - Sacudiu a cabeça, compungida.

—A maioria foram esculpidas no século XIV, e constituem um dos melhores trabalhos de marcenaria desta região.

—Eu mesmo falarei com eles.

—Ao menos me consola que esses rudes homens não estejam desmantelando também a capela.

Cada manhã depois da oração, vira a senhora Trenchard sozinha na capela, limpando o pó e lustrando os bancos e o altar. Tinha uma grande sensibilidade religiosa e Dougald a tranquilizou.

—Quando os homens começarem a trabalhar ali, eu pessoalmente fiscalizarei seus trabalhos.

Se sobressaltou surpreendida.

—Mas, senhor, pensei que você não fosse trocar a capela.

—Trocá-la? Não. A venerável atmosfera que ali reina deve ser preservada. Mas limpá-la e restaurá-la, sim.

—Claro. - Se balançando para trás sobre seus calcanhares acrescentou: - Então pretende restaurar a capela.

—Sua devoção diz muito de você. - Deu uns torpes tapinhas no braço dela. - Não descuidarei o que foi há muito tempo a alma do castelo.

—Quando?

Pensou no calendário que tinha previsto.

—Logo que tenha tempo de fiscalizar as reparações antes da visita da rainha, mas prometo me dedicar a isso assim que me seja possível. Não se trata de transformar tudo por completo sem ordem nem concerto.

Sei faz tempo o que quero fazer no castelo Raeburn. É que simplesmente estava concentrado em outros assuntos. - Em capturar e submeter Hannah. - Agora tudo isso deve se fazer e rápido.

Asseguro que não haverá mais incidentes com os trabalhadores nem acidentes como o que sofreu a senhorita Setterington.

A senhora Trenchard retorceu as mãos.

—Não quero que ninguém se faça mal.

—Ninguém se fará mal. Não se preocupe.

Vacilou um instante, como se quisesse dizer algo mais.

Dougald arqueou as sobrancelhas. Ouvira sua opinião, aquilo era mais que suficiente. Deve ter lido em sua cara, porque a senhora Trenchard inclinou a cabeça.

—Então irei me sentar junto à senhorita Setterington.

—Faça-o. Se necessitar algo, dê a ela. Queremos que esteja reposta quando a rainha Vitória chegar, pois sua majestade nos honra com sua visita em consideração à amizade que as une.

—Sim. - A senhora Trenchard deu meia volta em direção ao dormitório de Hannah. - Você tem razão, como sempre, senhor.

Procurou um assento, calçou os sapatos e os abotoou. Em outro tempo não muito longínquo Dougald teria acreditado nas últimas palavras da senhora Trenchard. Durante mais anos dos que podia recordar, ele pensava que sempre tinha razão, mas Hannah, a confiança que tinha em si mesmo, sua risada e sua - se atreveria a dizê-lo? - inteligência começavam a fazê-lo duvidar de si mesmo.

Era horrível para um homem de sua idade e com suas responsabilidades duvidar de si mesmo do modo que fosse. Não gostava. Se não fosse por Hannah, agora não vacilaria. Se não fosse por Hannah, seria feliz.

Mas teve que admitir que aquilo era uma mentira. Não fora feliz há mais anos dos que podia contar. Desde que ela o deixou e as pessoas começaram a lhe chamar assassino.

Embora tampouco podia recordar ter sido feliz antes. Decidido, obstinado, pertinazmente seguro de si mesmo, sim, mas não feliz.

O que era que queria?

Sabia a resposta; queria que Hannah o adorasse com todo seu coração, tal como o adorava os dias antes de suas bodas.

Entretanto, nada conseguiria a afastar dele, antes que ele tivesse decidido seu destino. Sim, quando encontrasse ao responsável por seu acidente, o castigaria, e ninguém se atreveria a cometer outro engano.

Desceu a escada, passou pelo grande salão e a capela, e chegou a seu escritório. Charles reunira aos carpinteiros responsáveis pelo acidente e, conhecendo Charles, os homens estariam o aguardando em seu escritório tremendo.

Mas Charles não estava na sala de espera e o escritório estava vazio. Dougald franziu o cenho, logo ouviu o som de vozes que se aproximavam.

—Digo-lhe que não quero falar com sua senhoria. Me dá um pânico que morro.

—Oui, sei, mas o senhor deseja ouvir o que tem a lhe dizer - repôs Charles em seu tom mais tranquilizador.

—Não quero dizer.

—Prometo-lhe que não se zangará com você, Fred.

—Seu olhar basta para matar um homem, e ninguém assegura que não tenha feito isso também.

Pela primeira vez em muitos anos, Dougald estava a ponto de estalar de raiva. Tinha descoberto que estava farto que o acusassem injustamente de assassinato. O assassinato de Hannah, o assassinato dos outros senhores de Raeburn, ele nunca matara a ninguém. Nunca pôs a mão em cima de ninguém, salvo durante uma briga justa. Entretanto, recebera seu castigo e, maldita seja!, estava cansado que o estigmatizassem.

A voz do operário se converteu em um gemido.

—Não vê, homem? Provavelmente foi sua senhoria quem o fez.

Estigmatizado, e por um homem ao que Dougald resgatara da mais absoluta pobreza, o levara ao castelo Raeburn e lhe dera um trabalho honrado. Não esperava gratidão, mas um pouco de lealdade não iria mau.

Deu um passo para a porta e empregou um tom que soou como uma chicotada.

—Provavelmente fiz o que?

Charles e o chefe dos carpinteiros se encontravam de pé dentro da capela e Fred empalideceu.

—Senhor. - tirou a boina. - Não queria... o senhor Charles pensava que você ainda não tinha chegado... por isso?

—Fiz o que? - repetiu Dougald.

Charles deu um empurrão em Fred.

—Entre! Não podemos falar disto aqui.

Dougald se separou da porta para deixar Fred entrar, mas não teve piedade o bastante para se sentar ao outro lado da escrivaninha, mas sim ficou a passear de um lado a outro do estúdio até que Fred entrou e Charles fechou a porta. Então, Dougald se voltou contra Fred.

—O que acredita que eu fiz?

Fred estava de pé retorcendo sua boina, claramente incapaz de falar.

—Os carpinteiros não estiveram trabalhando no patamar, senhor - Charles informou a Dougald.

Dougald entrecerrou os olhos.

—Estiveram trabalhando na escada.

—Só na escada. Ainda não fizeram nada no patamar.

Dougald compreendeu imediatamente e sua raiva esfriou.

—Entretanto, ali é onde Hannah caiu. - Perambulava de um lado a outro. - É possível que as pranchas estivessem podres?

O carpinteiro controlou seu nervosismo.

—Poderia ser, mas não foi isso.

—Então o que foi? - perguntou Dougald com voz suave e veemente.

—Alguém serrou um par de pranchas daqui e dali. As enfraqueceu. Senhor, juro que não estavam assim ontem à noite, íamos começar a trabalhar nelas esta manhã, e Rubin e eu as estudamos bem antes de ir.

Alguém tinha ferido deliberadamente à esposa de Dougald. Alguém que sabia que a primeira coisa que sempre fazia pela manhã era subir à oficina das tias.

Mas nem sequer sabiam que era sua esposa.

—Por que demônios alguém ia fazer uma coisa assim? - perguntou Dougald.

Realmente não esperava uma resposta, de modo que Charles abriu a porta e deixou que Fred saísse, logo a fechou.

—Senhor, você e madame foram indiscretos em suas visitas conjugais.

Dougald se voltou bruscamente para Charles.

—Como sabe que nós?

—Me dirigi a seu quarto para o ajudar a se vestir e ela estava saindo às escondidas dali. No dia seguinte voltei outra vez para o ajudar a se vestir e era você quem saía às escondidas do quarto de madame.

Me escondi no final do corredor para que nenhum criado se atrevesse a olhar, mas senhor, esses são segredos que não se podem ocultar. Correm rumores. Os ouvi. Os criados especulam sobre a razão pela qual você se mostra menos intimidatorio. Veem a tensão que existe entre você e madame. As olhada. Seus rubores. E especulam corretamente.

—Maldição!

Dougald não queria ouvir que ele fora a razão pela que atentaram contra a vida de Hannah.

—Sim, senhor - disse Charles muito sério. - Não acredito que ninguém possa imaginar que madame é sua esposa, mas sim certamente devem acreditar que se aproxima um casamento.

Se, como você sugere, foi sir Onslow quem tentou assassiná-lo para herdar seu título?

—Disse que não acreditava que fosse Seaton. Os detetives não encontraram prova alguma que seja culpado.

—Isso significa que ainda não o caçaram. Eu não acredito que tenha nem o engenho nem a malícia. - As faces de Charles pareciam ainda mais flácidas. - Mas tem um móvel, e o vi, senhor. Escapuliu pelos corredores.

Esconde coisas sob seu grande casaco. Inclusive o surpreendi saindo desta ala.

—Poderia averiguar onde esteve?

—Não tocou nada de seu quarto, senhor, e naquele momento acreditei inofensivo.

—Não estou convencido que não seja ele. A maior parte do tempo nem sequer está no castelo Raeburn. Anda por aí afora de farra enquanto nós trabalhamos.

—Então poderia ter sido um agente que trabalhasse para sir Onslow. Isso absolveria sir Onslow de toda culpa se o declarassem assassino e se apresentasse uma acusação.

—As faces de Charles lhe caíram até quase o decote. - Há outro incidente que me parece curioso, mas do que não o informei.

Dougald se voltou para ele.

—Sim?

—Um dia, enquanto madame aguardava fora de seu escritório, esteve rondando pela capela. Quando entrei, a encontrei no chão. Disse que se golpeou na cabeça. - Charles parecia envergonhado. - No princípio não acreditei.

—O que quer dizer com que não acreditou?

—Não havia nada com o que pudesse ter golpeado a cabeça. - Charles encolheu um pouco os ombros. - E é uma jeune fille[11]. As jeune filles são um pouco exageradas, um pouco dramáticas.

—Charles, há algo que você goste das mulheres? - perguntou Dougald, absolutamente exasperado.

—Oui, há uma coisa que eu gosto muito. Mas não têm nenhum mérito por isso.

Talvez, admitiu Dougald para si, Hannah tinha seus motivos para detestar Charles.

—Mas golpeou a cabeça?

—Encontrei um pesado pedaço de moldura perto dela, se desprendeu de algum lugar. Fizemos conjeturas sobre se teria caído das vigas, mas se tivesse caído, o teria feito há muito tempo, pois a madeira gasta não estava limpa, e sim negra de pó e fumaça.

Dougald observava persistentemente para Charles e a sua vez este olhava a ele.

—O que Hannah disse disso?

—O golpe aturdiu a madame e ela não notou nada estranho. Perguntei a um dos trabalhadores de onde saíra aquela madeira. Disse que encaixava com a moldura das vigas.

—Charles apontou para cima com o indicador. - Das vigas do grande salão.

—Então o arrojaram.

Charles deu de ombros.

—Oui, isso suspeito.

A raiva se apoderou de Dougald como um calafrio.

—Por que não me contou isso em seguida?

—Você não queria que dissesse nenhuma palavra mais sobre madame. Nenhuma palavra.

Charles respondeu com um indício de triunfo, atitude que Dougald tinha castigado bem, pois recordava muito bem aquele dia em seu escritório e a ordem que dera a Charles.

—Muito bem, Charles, mereço isso.

—Sim, senhor. - Charles respirou fundo. - Mas esse é o motivo pelo que o aconselho que tenhamos muito cuidado com as restaurações. Temo que possa acontecer outro acidente.

—Obrigado. - Mas Dougald nunca esqueceria que Charles contribuíra para afastar Hannah na primeira vez. - Ainda me pergunto por que o fez.

—Você pergunta? Acaso não vê? - O acento de Charles se fazia mais forte quando ficava nervoso. - Meu desejo mais fervente é que você e madame voltem a estar juntos. Fiz tudo o que estava em meu poder para que isso ocorresse.

—Por quê? - perguntou Dougald.

—Ela deve voltar e se comportar como uma autêntica esposa. Você não foi feliz desde que se inteirou que ela estava viva e em outro lugar, mas nem lhe ocorre pensar no divórcio. - Charles olhou para Dougald.

—Se ela não voltar com você, ao menos deveria morrer para que você fosse livre.

Ah! Agora chegaram à raiz do assunto.

—Preferiria não ter que confrontar outra acusação de assassinato.

—Não! Senhor, não me referia a que você deveria matá-la. O fato que seja suspeito de assassinato já o isolou da boa sociedade.

Não conseguiria se casar com outra moça mais jovem e melhor porque seu pai acreditaria que poderia matá-la. - Charles sorriu com falsa alegria. - Assim deve haver uma reconciliação.

—Viver comigo como minha esposa ou a matarei? Essa é uma proposição que toda mulher quer ouvir.

—Mas não tem que matá-la, senhor. Alguém está disposto a fazê-lo por você.

O brusco aviso de Charles fez que Dougald se sentasse. Afundou na poltrona e, uma vez mais, tentou confrontar a magnitude do desastre.

—Então Hannah está em perigo por minha culpa?

—Um filho nascido de você e de madame eliminaria as probabilidades que sir Onslow herdasse. De algum jeito tem que ser sir Onslow.

Dougald podia enfrentar ao perigo. Não sentia nada mais que desprezo pelo covarde que o assaltara e quase o mata. Mas tentar matar Hannah? Não. Não.

—Seaton está em casa?

—Não, senhor, saiu para passar o dia em Conniff Manor.

—Quando voltar, quero falar com ele.

—Eu poderia estar presente, senhor?

Dougald intercambiou um sombrio sorriso com seu criado.

—Claro, conto com sua presença. Seaton não tem nenhum medo de mim.

—Esta indiferença por sua parte pode mudar.

—Sim. Acredito que terá que mudar. Mas até que fale com ele, faça-o confessar, temos que velar por Hannah.

—Senhor, estive vigiando-a quando pude. Mas nem sempre é possível. Ela revoava daqui para lá, escada acima e escada abaixo. Fala com todo mundo, é amiga de todo mundo. - O tom depreciativo de

Charles deixava bem claro que não aprovava aquela atitude. - Aqui há trabalhadores, estranhos. Qualquer um deles poderia ter sido contratado para lhe fazer mal.

Ou poderia se tratar de alguém conhecido, um dos lacaios, a senhora Trenchard, Albert?

—Você.

—Eu? - O impressionante nariz de Charles se inchou e, com o sarcástico tom no que Charles era todo um campeão, acrescentou: - Claro, poderia ser eu. Mas se desejasse matá-la, teria desperdiçado muitas oportunidades.

Talvez não desejasse matá-la, pensou Dougald. Talvez só desejasse voltar a tirá-la dali. Olhou para Charles, com seu rosto caído, o nariz bulboso e os escassos cabelos na cabeça.

Depois da última vez em que Charles se esforçou tanto para se livrar de Hannah, como Dougald podia voltar a confiar plenamente nele?

—Tem que a afastar daqui, senhor - disse, como se Charles tivesse lido sua mente.

—Não irá.

E Dougald não confiava o suficiente nela para lhe explicar por que devia ir. Ela não iria - seu carinho pelas tias, sua obrigação para com a rainha, inclusive, possivelmente, sua paixão por ele a manteriam aqui, —além disso a Hannah que entrara naquela casa era diferente da jovem Hannah. Ela decidia uma linha de ação e a levava adiante com senso comum e determinação. Se decidia que podia ajudar Dougald a encontrar o culpado, insistiria em fazê-lo. E quando Dougald pensava em Hannah enfrentando corajosamente a esse bruto do Seaton com sua oculta perversão, bom, ela não iria porque Dougald tampouco o pediria.

—Não posso cuidar dela e de você, e você sabe a quem preferiria se me encontrasse na iminência de escolher - disse Charles com desespero.

Sim, Dougald sabia e nada do que pudesse dizer mudaria a lealdade de Charles para com ele.

—Você pode fazer que se vá. - Com as mãos sobre a escrivaninha, Charles se inclinou para frente e olhou fixamente para Dougald com grave sinceridade. - Você sabe como.

—Sim. - Até que Dougald tivesse identificado o culpado e se encarregasse dele, teria que afastar Hannah dali.

Com triste resolução, abriu a última gaveta de sua escrivaninha e tirou um maço de cartas atadas com uma fita rosa esvaída. - Mas isto será o fim de nossa reconciliação.

 

As tias se agrupavam em torno do leito de Hannah e a olhavam com uma curiosidade que rondava a desconfiança.

—Querida, volte a nos explicar como tropeçou na escada quando subia à oficina - disse tia Isabel. - Não a ouvi bem da primeira vez. Falava horrorosamente baixo, como se murmurasse.

Hannah não tinha murmurado; de fato, dominava a arte de falar devagar e em voz alta para que tia Isabel pudesse ouvi-la. Mas não podia ferir a sensibilidade da dama mais idosa, de modo que disse:

—Estava subindo uma caixa de fios novos e tropecei com a saia.

—Isso - assentiu tia Ethel.

—Que caixa velha! - comentou tia Spring.

—Por que não pediu a um criado que a subisse? - perguntou tia Isabel.

—Os criados estão muito ocupados com a construção e a limpeza, e eu não gosto de afastar a nenhum deles de suas obrigações. Agora teria pensado melhor nisso.

—Hannah ajeitou a descolorida camisola de flanela listrada e apontou para a cadeira. - Não esperava convidados, mas por favor, querem sentar?

—Não, querida, estamos mais cômodas de pé - disse a senhorita Minnie.

A senhorita Minnie queria dizer que na realidade podiam intimidá-la melhor se permanecessem de pé a olhando escrutinadoramente. O inchaço do tornozelo de Hannah era menos doloroso que aquele interrogatório.

Hannah se sentou erguida apoiando as costas no travesseiro e tentou mudar de conversação.

—Obrigado pelas flores, tia Ethel. - O vaso de cristal esculpido descansava na mesinha de noite e Hannah acariciou as delicadas pétalas de uma rosa de cor rosada. - São preciosas.

Tia Ethel sorriu encantada; resultara fácil conquistá-la com o elogio que acabava de fazer de suas flores.

—Trarei mais amanhã. - Tia Spring lhe deu uma dissimulada cotovelada e lhe recordou seu dever. - Ah, sim! - Tia Ethel olhou para Hannah com o cenho franzido.

—Estava nos contando o da queda.

—Não há nada mais a contar. - Hannah tentou dar de ombros. - Como seguem os planos da recepção?

Tia Isabel deu uns toques no cabelo muito negro, recém tingido.

—Lorde e lady McCarn nos confirmaram sua presença, como os Dempster. Sir Stokes e lady Gwen não o perderão e...

A senhorita Minnie a interrompeu.

—Seria mais fácil dizer que todo mundo aceitou.

—Todo mundo?

Hannah pensou em seus avós e apertou as mãos. Por fim ia conhecê-los. O inchaço do pé ia diminuindo. Pensou que já poderia calçar sapatos na recepção da rainha e se sentiu agradecida; queria estar perfeita quando conhecesse os Burroughs.

Tia Isabel captou bruscamente sua atenção.

—Sim, seria mais fácil dizer isso, e claro, prepararemos comida e bebida próprias de uma rainha. Oxalá fique bem, senhorita Setterington!

—Obrigado, estou bem. Quando a senhora Trenchard me curou esta manhã disse que amanhã poderia me levantar usando uma bengala. - A Hannah chateava ficar na cama. - Como vai a tapeçaria?

—Ficam menos de cinco dias para a visita de sua majestade. Não sei se poderemos acabá-la a tempo. - Tia Spring sacudiu a cabeça com abatimento. - Não sem a caixa de fios que necessitamos.

Ah, mas você disse que chegou! - levou um dedo ao queixo. - Onde disse que a pôs?

Hannah alisou as dobras da saia e se perguntou por que pensava que podia mentir a aquelas mulheres. Pela primeira vez desde que sua mãe morreu, enfrentava a uns olhos censores e sentia o aguilhão da culpa.

—Soltei quando caí. Talvez outra pessoa a tenha recolhido.

Os fios teriam que ter chegado ontem. A caixa teria que estar em alguma parte do castelo, não? Que o céu a ajudasse se não chegaram ainda.

—Perguntaremos à senhora Trenchard. - A senhorita Minnie conseguiu que uma simples frase soasse ameaçadora.

Mas Hannah aprovou a ideia. A senhora Trenchard mentiria por ela se fosse necessário. A senhora Trenchard tampouco queria que as tias se preocupassem.

—Sim, falarei com Judy - disse tia Spring. - Ela e eu somos como gêmeas.

Surpreendida, Hannah piscou.

—Como gêmeas? o que quer dizer?

—Minha mãe morreu, já sabe, Então sua mãe foi minha ama de leite. - Tia Spring destacou a si mesma. - Temos a mesma idade.

—Ah, sim?

Por algum motivo, Hannah pensou que tia Spring era mais velha que a senhora Trenchard. A senhora Trenchard era tão robusta e competente, capaz de dirigir uma equipe de cinquenta criados, enquanto tia Spring era... tia Spring. Vaga, excêntrica, eternamente uma menina.

Tia Spring esqueceu a busca da verdade e se aproximou da borda da cama de Hannah para murmurar.

—Nos criaram como irmãs. Em minha juventude, a querida Judy era minha eterna companheira. Sempre velava por mim, inclusive quando fiquei mais velha. Inclusive depois que se casou.

Porque, se não fosse por ela, jamais teria podido ver Lawrence em segredo.

—Senhorita Spring! - A senhora Trenchard estava de pé na soleira. - Não diga estas coisas. Não queremos que sua reputação se macule.

—Ora! Que importância tem minha reputação? Lawrence foi meu único e verdadeiro amor. - Logo, em uma súbita mudança ao pragmatismo, tia Spring acrescentou: - Além disso, já sou muito velha para me casar.

A senhora Trenchard abriu caminho no pequeno e abarrotado quarto.

—Vamos, senhorita Spring, isso não é verdade. Você tem aos homens fazendo fila para que lhes dê seu consentimento.

—Eu não vi a nenhum dos velhos caducos - disse a senhorita Minnie de maneira cortante. - Spring assumiu que suas perspectivas de casamento acabaram, Trenchard. Por que você não o assume também?

A senhora Trenchard claramente mordeu a língua fosse por respeito a tia Spring ou por medo à senhorita Minnie.

—Senhorita Setterington, vim examinar seu pé. Lorde Raeburn quer saber se poderá se levantar hoje - repôs depois de um momento de silêncio incômodo.

—Já me lembro! - Ao recordar subitamente o objeto de seu interesse, tia Spring cruzou os braços . Judy, como a senhorita Setterington se machucou?

—Já contei como - disse Hannah, - tropecei ao subir a escada.

—Eu perguntei a Judy - tia Spring a cortou, visivelmente irritada.

—Eu não estava por perto quando a senhorita Setterington caiu.

A senhora Trenchard enrolou as mãos no avental e se negou a devolver o olhar de tia Spring.

—Você a encontrou ao pé da escada? - perguntou a senhorita Minnie.

A senhora Trenchard olhou a seu redor como se a tivessem apanhado, e seu acento de Lancashire se fez mais agudo.

—Não exatamente ao pé.

—Já é suficiente, tias. Eu gostaria de falar com a senhorita Setterington - Dougald disse rudemente da soleira.

Quatro pares de brilhantes olhos se fixaram nele.

—Adiante, querido - convidou tia Ethel.

—A sós - esclareceu.

—Não posso acreditar que espere que a deixemos fazer tal coisa - disse a senhorita Minnie em seu tom mais severo.

—É de tudo indecoroso - acrescentou tia Isabel.

—Mas o permitiremos! - Tia Spring ficou em pé . - Vamos, garotas. Deixemos a estes meninos sozinhos.

Com uma pressa indecente, as tias se encaminharam para a porta. Uma atrás da outra passaram junto a Dougald.

Tia Isabel foi a última a sair.

—Por certo, querido, deveria ir pensando em transladar à querida Hannah a outro quarto. Este está horrorosamente desmantelado - sussurrou tia Isabel a Dougald. E após dirigir um rápido olhar para Hannah, acrescentou:

—Talvez a seu quarto.

Quando tia Isabel saiu do quarto, Hannah pensou em bater com a cabeça contra a cabeceira. Já era bastante mau que Dougald pedisse para vê-la a sós, mas que as tias consentissem?

E que tia Isabel fizesse um comentário tão mordaz! E tudo isso diante da governanta! Hannah não se atrevia a olhar à cara da mulher.

Antes que Dougald pudesse dar um passo, tia Ethel retornou.

—Venha conosco, senhora Trenchard.

—Ela fica - disse Dougald.

Enquanto tia Ethel pigarreava, Dougald voltou a cabeça e a olhou.

Tia Ethel retrocedeu como se tivesse descoberto no rosto de Dougald o veneno de uma serpente.

—Como quiser, senhor - disse em um sussurro assustado. E com os olhos muito abertos lançou um olhar de compaixão para Hannah e desapareceu.

Quando Dougald deu a volta, Hannah compreendeu por que. Dougald estava de pé na soleira como uma sólida entidade embelezada de negro com cara sombria e uns apagados olhos verdes.

—Lorde Raeburn, algo vai mau?

—Poderá se levantar hoje, senhora Trenchard? - perguntou Dougald, fazendo caso omisso a Hannah.

A senhora Trenchard agarrou o pé ferido de Hannah na mão.

—Sim, senhor. Poderá.

Um notável diagnóstico, pensou Hannah, considerando que nem sequer a olhou.

—Muito bem - disse Dougald. - Senhora Trenchard, pode ir.

—Espere. - Hannah agarrou a mão da governanta. - Chegaram os fios da tapeçaria?

A senhora Trenchard olhou com nervosismo para Dougald, mas respondeu.

—Esta tarde. Agora estão acima na oficina.

—Se as tias perguntarem, eu os estava subindo ontem quando caí.

A senhora Trenchard assentiu, logo saiu correndo do quarto como se os cães de Hades a perseguissem.

Algo estava acontecendo, algo que Hannah não compreendia. Se esforçou por se voltar e pôr o pé no chão.

—Dougald, o que ocorre?

—Não se levante ainda. - Dougald não se moveu, entretanto destilava um ar ameaçador. - Mantém o pé no travesseiro tudo o que possa. O trajeto de trem até Londres é longo.

—O trajeto a Londres?

Hannah não voltou a se recostar outra vez, não notou o frio chão contra as plantas dos pés. Não notou nada salvo Dougald, enchendo o vão da porta.

—Estou te enviando de volta a casa.

Hannah piscou.

—Está brincando.

—Não estou brincando.

—Então por que diz tal coisa?

—Porque terminei com você.

Hannah conteve a respiração ante uma frase tão direta, brutal e efetiva.

Estava tão equivocada.

—Terminou comigo? Terminou comigo por quê?

—Vamos, Hannah, normalmente não é tão lerda. Eu tinha meus planos e meus planos já se cumpriram. - Sorriu, com o sorriso de um pirata que desfruta infligindo dor. - Terminei com você.

Sensações... impressões... a confusão formava redemoinhos como um torvelinho em seu cérebro.

—Admito que tentava te usar durante mais tempo, mas se olhe!

Hannah baixou a vista a seu desalinhado saldo de cama.

—Está decaída. Se feriu. Já não me serve na cama, não é por outra razão. Em seu estado não pode se ocupar das tias e, quanto a nossos pequenos arranques de paixão, bom, certamente não sinto nenhum desejo por você com seu aspecto.

Hannah agarrou as próprias lapelas, as elevou e as aproximou da garganta. Ainda não compreendia e tentou dar um tom humorístico ao assunto.

—Não estou em minha melhor forma, mas...

Dougald a interrompeu sem piedade.

—E estou seguro que suspeitava de minhas intenções.

—Suas intenções?

—Deve ter se perguntado se minha paixão por você estava à altura da sua por mim.

Dougald esticou o peito. Estava falando dos mais recônditos temores de Hannah.

Dougald entrou no quarto e fechou a porta com força.

—Sua paixão era muito enternecedora. Muito comovedora. - Como um depredador de passagem sigilosa, avançou até os pés da cama. - Muito patética.

—Patética! - "O muito porco!"

—Te ocorre um adjetivo melhor para uma mulher que sente desejos por um homem que a usa somente para se vingar?

—Isso não é certo. - Sabia que não era certo. - Está mentindo.

—Você suspeitava que a estava enrolando.

Dougald esperou até que ela admitiu.

—Sim.

—Teria que ser uma estúpida para não se dar conta e, Hannah, eu sei que não é nenhuma estúpida. - Suas mãos se agarraram tanto aos chorões que adornavam os pés da cama que os nódulos ficaram brancos.

—Ou ao menos, não é estúpida em nada, salvo no que diz respeito a mim.

—Outra vez. - Hannah começava a acreditar no que ele estava dizendo com evidente desfrute.

—Sim, outra vez. Mas a primeira vez que a seduzi foi para nos casar. Desta vez é para o divórcio.

Sentiu vontade de esbofetear seu rosto petulante. Ficar muito erguida e adotar uma atitude desafiante. Mas ele a fez pedacinhos com sua malevolência.

—Desta vez não me fez falsas promessas.

—Claro que não! Recorda o cuidado que pus em não te falar mais do que o necessário durante nossos encontros noturnos.

—Por quê? porque estávamos ocupados em outras coisas.

—Porque sei o muito que detesta que faça promessas que não posso cumprir. - Sacudiu o marco da cama e esta estralou. - É quase tão mau como fazer votos matrimoniais e não cumpri-los.

Ela seguia sem compreender. Se negava a entender.

—Eu não deixei de cumpri-los. Você me forçou a te abandonar.

—Poderia ter sido mais forte. Poderia ter tido mais integridade. Poderia ter obrigado Charles a ceder. - Sua voz se fez mais grave, mais profunda, mais intensa com cada acusação.

—Poderia ter me obrigado que a escutasse.

Hannah se sentia como se lhe tivesse dado uma bofetada.

—Mas?

—Se rendeu. Em seis meses se rendeu.

—Eu não queria. - Hannah não desejara desistir. - Não esteve bem, sabia, mas não tinha nenhuma possibilidade de vencer a você e a Charles.

—Vencer! Não era nenhuma maldita guerra, era um casamento, e você tinha um poder que nunca tentou usar.

Muito doída, se revolveu.

—Que poder? Não tinha nenhum poder. Tentei tudo.

—Provou com suas argúcias femininas?

Hannah as desdenhou.

—Não era honesto as utilizar.

—Honesto, diabos! - Apontou para ela com o dedo. - Seis meses, Hannah, demorou para abandonar os mais sagrados votos que podem fazer um homem e uma mulher. Compartilhou o leito comigo. Eu era escravo de seu corpo.

Se tivesse me falado na escuridão da noite depois de ter me feito o homem mais feliz do mundo, faria qualquer coisa por você.

—E logo teria se queixado de manipulação.

—Provavelmente. Eu era jovem, estúpido e obstinado. - zombava dele mesmo quando era jovem. - Mas a teria escutado e você teria tido o direito de governar seu próprio lar, possuir sua boutique, se converter na mulher que queria ser e a esposa com a que eu sonhava. Mas você... você foi muito orgulhosa para utilizar as armas que tão bem esgrimia.

Só choramingava. Como se choramingar fosse muito mais honorável que utilizar as argúcias femininas.

—Eu não choramingava! Tentava conseguir que me escutasse!

—Que escutasse suas palavras. E quando as palavras não funcionaram, o que fez?

Engoliu saliva para evitar um estalo de pranto.

—Está tergiversando tudo. Não foi minha culpa!

—Me abandonou. Me deixou sozinho. Me deixou para que enfrentasse à desgraça, à injustiça e às acusações de assassinato.

Dizia com muito sentimento. Via a dor que havia nele, uma dor que nunca teria imaginado que aquele homem frio e cínico pudesse sentir. Dougald a odiava. A culpava de suas desgraças.

—Esperei este momento durante anos, querida. - Sua voz se fez mais suave, mais profunda e mais ameaçadora. - Anos pelo momento de me encontrar frente a você e olhar como se quebrava em pedaços.

Não conseguia compreender Dougald, que gotejava cumplicidade e crueldade de uma vez. Sim, duvidara dele na noite em que chegou ao castelo Raeburn. Sim, às vezes se perguntara se suas ameaças de mutilação e maus entendimentos as proferia a sério. Mas em alguma parte de sua alma ainda sentia carinho pela imagem de Dougald, nu no trem, brincando sobre seu intenso desejo e se esforçando em satisfazê-la.

Sempre pensou que esse era o verdadeiro Dougald. Não o homem ao qual abandonara. Não o homem que naquele momento era seu senhor.

—Planejou isso?

—Até o mínimo detalhe - respondeu sem fraquejar.

—Salvo minha queda no patamar.

Dougald afastou o olhar.

—Está segura disso?

Hannah lançou uma exclamação súbita e emocionada.

—Dougald - sussurrou. - Não queria me machucar, não é?

Quando lhe devolveu o olhar, só viu um fino fio verde em seus olhos. O resto era negro, um buraco negro insondável e cruel que se abria não só em sua alma, a não ser na dor, a amargura, um nada.

—Já disse antes. Já suportei que me acusassem de te assassinar. Já passei minha temporada no inferno. Por que não teria que te matar? Enquanto não me peguem, não vou ter pior fama que antes.

Hannah se levantou. A dor do tornozelo a agarrou despreparada. Desabou na cama de dor e de comoção.

Dougald se aproximou dos pés de sua cama tão rápido que parecia que ia se equilibrar sobre ela.

Hannah se encolheu, retrocedendo para a cabeceira.

Dougald sorriu, um rápido e falso movimento dos lábios para cima.

—Dito assim, o divórcio parece uma brincadeira, não é?

Não se despediria dele, tal como não se despediu daquela primeira vez, fazia tantos anos, quando se foi a Londres.

 

Uma Hannah muito mais jovem aguardava no pátio da Knight Arms Inn de Liverpool e observava como os palafreneros e os moços de estábulo subiam e rodeavam o carro e trocavam os cavalos para o próximo lance do caminho.

Tinha passado muito tempo desde a última vez que subira em um transporte público; desde antes que sua mãe morresse. Desde antes que fossem a casa de Dougald.

A casa de Dougald? O lugar onde a Hannah menina acreditara que poderia viver sempre e se sentir a salvo. O lugar onde a Hannah moça havia chegado como uma noiva avermelhada, com a esperança de se converter por fim em parte de uma família. Agora, aquela fria mansão de pedra cinza só lhe recordava seus sonhos frustrados.

Já no trem com Dougald teve suas dúvidas. Inclusive antes de se casar se perguntara se não estaria cometendo um engano.

Ao fim e ao cabo, sua mãe não se casou porque seu pai fora muito fraco para desafiar sua família. De certo modo, Dougald se casara pela mesma razão.

No mais fundo de seu coração, ela sempre acreditara que Dougald não a amava. Teria gostado e desejava que fosse assim. Mas não lutara por isso.

Em sua juventude a feriram muitas vezes, amigos que voltaram as costas à bastarda sem lar que foi.

Então aquela manhã metera na mala sua roupa mais prática, as lembranças de sua mãe e o dinheiro que Dougald lhe dera. O dinheiro que pôs diante dela como uma chupeta e o que conseguira reunir aquelas últimas semanas para aquela causa precisamente: o deixar. Fugia a Londres do modo mais rápido possível. Londres, onde podia desaparecer e não ser encontrada jamais.

Londres, um lugar de exílio.

Então os moços de estábulos concluíram seu trabalho, Hannah se aproximou do chofer.

—Tenho o bilhete. Esta é minha mala - apontou. - Por favor, a coloque no carro. Quanto falta para que partamos?

O chofer a olhou de cima abaixo e ela imediatamente soube o que viu. Viu uma jovem dama vestida com as mais elegantes roupas de luto, com um véu no chapéu e o cabelo loiro mordiscando através do brocado.

Não tinha donzela e aquilo era uma mancha contra ela, mas, na aparência, seu aspecto lhe infundia um selo de qualidade, pois o chofer a saudou com o chapéu.

—Estamos preparados para partir, senhorita - disse com voz respeitosa.

—Graças a Deus - sussurrou Hannah.

Não queria que a apanhassem. Provavelmente não a apanhariam, pois Dougald estava de viagem para Manchester. Charles ia com ele, mas estava segura com Charles.

O ardiloso francês tinha um modo de saber tudo o que ocorria na casa e Hannah teve que pôr todo seu engenho em jogo para que não descobrissem que fugia.

—Sim, senhora, chegaremos a Londres a tempo para o funeral - disse o chofer.

—Obrigado. - Depositou uma moeda na mão dele. - Você é muito amável.

O chofer abriu a porta da carruagem e gritou aos passageiros.

—Senhores, façam lugar. Tem que subir uma dama.

Um cavalheiro com aspecto de janota colocou a cabeça pela porta.

—Uma dama? O que me importa que uma dama venha conosco? Eu estava aqui primeiro.

O chofer o derrubou com um simples movimento.

—Fará o que lhe digo ou terá que viajar no teto.

O cavalheiro se endireitou para rugir um insulto, quando lançou um olhar a Hannah.

Ela o olhou sem expressão alguma no rosto.

Deu um passo para ela e lhe ofereceu a mão.

—Posso ajudá-la a entrar, senhorita?

Senhora, quase o corrigiu. Senhora Pippard, mas se conteve.

—Senhorita Setterington - disse depois de pensar um instante. - Obrigado, senhor.

Entrou no carro. No assento que olhava à frente se sentavam uma velha mulher gordinha e uma moça de aspecto desarrumado que se agarrava à mala que sustentava no colo. Bastou um olhar para fazer uma ideia a respeito delas: a dama era honrada e a moça era uma senhorita de campo que se dirigia à cidade para fazer fortuna.

—Me permitem? - perguntou, fazendo um vão e se apertando entre elas.

O janota se sentou justo diante dela.

—Então vai você a Londres, não é? Que coincidência! Eu também - disse com um sorriso.

Hannah soube que teria que esquivá-lo. Também sabia que podia fazê-lo. Ela não era a rica e inocente jovem dama que ele acreditava. Era uma bastarda sem trabalho, acostumada a viajar pelos caminhos, a julgar às pessoas em um momento e a viver de seu engenho.

Teria que fazer uso de todo seu engenho para se esconder de Dougald e se esconder tão bem que ele nunca pudesse encontrá-la. Mas o conseguiria como fosse. Agora era a senhorita Hannah Setterington, uma mulher solteira e independente.

A porta do carro se fechou, o látego estalou e o carro arrancou com uma sacudida. Hannah colocou a cabeça para fora para lançar um último olhar a Liverpool, logo se recostou para trás e fechou os olhos.

Depois de só seis meses de casamento, tudo o que ansiara se esfumava. Deixava atrás seus sonhos de ter um casamento, uma família e um amor, e nunca mais voltaria a pensar neles.

 

Um ruído na porta a obrigou a retornar bruscamente das obscuras lembranças ao doloroso presente.

Ali estava a senhora Trenchard com uma bengala na mão.

—Lorde Raeburn me envia para ajudá-la a fazer as malas.

—Malas? - Hannah mal podia acreditar que Dougald fosse tão brutal.

—Fazer as malas para retornar a Londres.

A última vez que Hannah deixara Dougald, tinha lhe doído, sim, mas desejara ir preservar sua autoestima, sua vontade, sua independência. Se desta vez se ia, o que ficaria salvo o orgulho quebrado, um espírito abatido e os sonhos de uma família que jamais se fariam realidade?

Os sonhos de fundar uma família com Dougald. Dougald, que demonstrara ser cruel e malvado com cada palavra que pronunciou. Dougald, que lera seu pensamento e todos seus temores e os utilizara para zombar dela.

Hannah franziu o cenho.

Ele a acusava de o abandonar. De fugir de seu casamento sem realmente tentar que funcionasse.

Mas ela tentara. Tentara! E só para lhe demonstrar que estava equivocado?

—Eu não vou a nenhuma parte - repôs.

A consternação invadiu o rosto da senhora Trenchard.

—Senhorita Setterington?

Hannah pôs o pé no chão com cuidado.

Dougald não era cruel nem malvado. Era frio, difícil e o açulavam uns demônios que ela não compreendia. Mas nunca montaria uma armadilha para que ela caísse! A ideia era ridícula.

—Não vou. Ele não pode me obrigar.

A senhora Trenchard umedeceu os lábios.

—Senhorita Setterington, embora lamente contrariá-la, sim, sim pode.

Fazendo caso omisso da senhora Trenchard, Hannah ficou em pé pondo a prova a força de seu tornozelo, pondo a prova sua determinação.

A senhora Trenchard lhe mostrou uma carta.

—Escrevi isto para você, é uma carta de recomendação em que elogio todas suas qualidades.

Hannah pegou a carta, deu uma olhada e a lançou sobre a cama. Estava ocorrendo algo, algo que não compreendia, mas não pensava deixar às tias antes da visita da rainha. Não pensava ir sem conhecer seus avós.

—Obrigado, senhora Trenchard, mas não vou.

—O amo sempre se sai com a sua - repôs a senhora Trenchard com um toque de desespero na voz.

Hannah deu um passo curto e capengante. Satisfeita que seu tornozelo aguentasse, estendeu a mão para pegar a bengala.

Dougald a estava jogando por algum motivo. Talvez fosse porque tinha terminado com ela ou talvez ocorresse algo mais. Algo concernente a seus avós, às tias ou à própria Hannah.

Talvez Dougald tivesse encontrado uma amante mais desejável que Hannah, mas fosse qual fosse a razão, Hannah não deixaria Dougald até que ele sofresse o que ela sofrera.

Quando a senhora Trenchard a deu, Hannah a olhou fixamente aos olhos.

—Nada nem ninguém vai me jogar do castelo Raeburn até que esteja preparada para ir.

 

Dougald estava de pé atrás de sua escrivaninha e contemplava boquiaberto a impassível senhora Trenchard.

—A senhorita Setterington se atreve a me desafiar?

—Deseja que faça que os criados a levem até o carro e dali até o trem, senhor? - A senhora Trenchard empregava o mesmo tom que poderia ter utilizado para lhe oferecer um conhaque quente.

Dougald fez uma careta de preocupação, consciente que não levara bem a empreitada de despachar Hannah.

Havia dito mais do que planejava fazer e o havia dito com muito sentimento.

Tinha reprovado que ela desertasse de seu casamento. Não se propusera dizer isso, nem sequer se precavera do muito que lhe doía sua deserção.

Mas uma vez que começou a falar, sua sentença fora condenatória, sincera e reveladora para ambos, para ela e para ele.

—A senhorita Setterington não é tão forte para que dois criados robustos não possam jogá-la se ordenar isso - disse a senhora Trenchard.

—Sem dúvida, mas não desejo ver como a levam a rastros enquanto as tias choram e retorcem as mãos. - Remexeu os cabelos. - Onde está ela agora?

—Colocou suas roupas de trabalho e se dirigiu para a despensa. Disse que a perna doía e que não podia andar mais, assim se deteve ali para contar o faqueiro. - A senhora Trenchard sacudiu a cabeça.

—Necessita que o contem, mas eu não queria permitir-lhe senhor. É um assunto arriscado, pôr a prata de Raeburn nas mãos de uma empregada descontente.

Entretanto, pensei que você quereria que o notificasse seu desafio imediatamente.

—Duvido que a senhorita Setterington desenvolva nenhuma querência especial pela prata de Raeburn, por muito descontente que esteja. Obrigado, senhora Trenchard, - alisou a jaqueta até ficar bem lisa.

—Eu me encarregarei deste assunto.

Quando deixou Hannah em seu quarto, teria jurado que ela ia partir, que o conseguira, como sempre.

Mas raramente ganhava com Hannah. Hannah o frustrava uma e outra vez, mas nesta ocasião não. Sua vida estava em jogo. Tinha-a jogado por seu próprio bem.

Algum dia ela apreciaria sua consideração e compreenderia que a ferira para ajudá-la.

Ela teria que compreendê-lo, porque, para que sua linhagem familiar se perpetuasse, necessitava uma esposa.

Entretanto, enquanto caminhava pelo corredor, sentiu uma grande preocupação. Sim, necessitava uma esposa. Necessitava um herdeiro. Já tinha Hannah; nos últimos dias ficara demonstrado repetidas vezes e de maneira assombrosa que funcionavam bem na cama. Engendrariam um herdeiro, o esperado herdeiro, dentro de muito pouco tempo.

Se deteve ante a porta aberta da despensa. A pequena peça se usava para guardar a baixela, os uniformes dos criados, os guardanapos, cadeira de reposição e algo que os criados pudessem necessitar.

Uma parede estava cheia de prateleiras, contra a outra se achava uma mesa. Se ofendia muito a Hannah, ela nunca voltaria a aceitá-lo em seu leito, pensou depois de se expor várias opções, nenhuma delas atraente.

Podia se divorciar dela e se casar com outra.

Podia fazer que todo o peso da lei recaísse sobre ela e obrigá-la a retornar com ele.

Ou podia cortejá-la.

Cortejar Hannah teria sido perder tempo. Já era dele. Mas as outras duas opções o repugnavam, e sabia, sem nenhum pingo de dúvidas, que nunca encontraria outra mulher que fizesse honra a seu leito da mesma maneira que Hannah. Quando ele e Hannah faziam amor se consumiam de paixão e de prazer. Precisava possuir Hannah, precisava possuir sua vontade.

Para possuí-la e a sua vontade, podia, claro está, utilizar o método lógico. Quando tivesse despachado ao velhaco que tentara matá-la, a buscaria em Londres ou Surrey ou.

—Céus, oxalá não tivesse que persegui-la além da Inglaterra! - e lhe explicaria que a rechaçara por seu próprio bem.

Sem dúvida Hannah lhe fecharia a porta na cara, ou preferivelmente nos dedos.

Hannah se sentava em um tamborete, de costas para ele, olhando o aparador. Dougald se apoiou em um canto. A prataria cobria a exígua superfície do aparador em uma fila resplandecente, e enquanto ele a observava, ela ia ordenando as colheres, as empilhava e as colocava junto ao outro montão de garfos que já tinha disposto cuidadosamente em um extremo. Umas poucas mechas de cabelo, que lhe tinham soltado do coque, roçavam sua nuca no preciso lugar onde ele ansiava acariciar. Dougald a penetrava com um olhar de ardente intensidade.

Mas agora, para se desembaraçar dela, sabia muito bem o que dizer. Ao fim e ao cabo, na diatribe que lhe arrojara em seu quarto se esqueceu de dizer uma coisa muito importante e insultante.

Com uma mão abriu a porta de um empurrão tão forte que golpeou contra a parede.

Hannah não se sobressaltou, simplesmente ficou quieta.

—Suponho que faz isto por suas míseras economias - disse Dougald em um tom depreciativo e exasperante.

Hannah endireitou os ombros. Se voltou devagar para ele. Usava um simples vestido de lã marrom e, como todo acessório, sustentava uma deliciosa faca de carne de prata na mão.

—Lorde Raeburn - repôs ela, - do que está falando?

—De você. - Entrou no quarto. - Ainda está aqui. Disso é do que estou falando.

—E isso o surpreende? - Hannah se voltou no tamborete até que ficou completamente de frente a ele e, fazendo girar a faca, apoiou despreocupadamente os cotovelos outra vez no aparador.

—Mas por que, meu senhor? Quando fiz o que você me disse?

Entrara ali com a firme determinação de representar o papel que tão bem começara em seu dormitório e evitar assim que a vida de Hannah estivesse ameaçada de morte.

Mas ela estava ali sentada com tanta insolência como um baderneiro de ruas, indiferente a sua presença, a sua autoridade, a seu sacrifício.

—Desta vez vai fazer o que te digo. - Entrou e fechou a porta.

Hannah sorriu, se é que a aquilo podia chamar um sorriso.

—Mas, Dougald, sou sua esposa. Voltei com você depois de te abandonar durante tantos anos. Certamente se alegrará que meu coração tenha processado sua mensagem e se negue a ir.

Maldição! Havia dito as palavras equivocadas. Aquilo era o que acontecia ter se permitido experimentar uma emoção desordenada.

E o que era ainda pior, sentiu de novo como lhe remontava essa emoção no ventre e no coração.

—Quero que vá daqui.

—Me deixe provar minhas argúcias femininas com você. - Pestanejou com paquera e repôs em uma voz melodiosa: - Querido, deixe ficar aqui com você para sempre.

O exagero e o contínuo revoo da faca em sua mão danificaram a cena.

Dougald deu um passo para ela.

—Hannah, se tiver que enviar à senhora Trenchard e a alguns criados a seu quarto para que lhe façam as malas, vai ser muito humilhante para você.

—E você vai passar muito mal para explicar sua atitude às tias, - se levantou do tamborete. - Terá que admitir que suas lágrimas o farão sentir muito incômodo. Tudo bem? Te parece suficiente manipulação?

—Já se acabou a época em que podia me manipular.

Não era certo, mas era muito melhor que ela não soubesse.

—As tias me necessitam.

—Têm à senhora Trenchard.

—Com o devido respeito à senhora Trenchard, ela já tem suficientes obrigações. - Avançou capengante para Dougald. - Sem mim, as tias não têm nenhuma possibilidade de acabar a tapeçaria a tempo.

E sua majestade espera me encontrar aqui. Ao fim e ao cabo, fui eu quem lhe enviou o convite.

Dougald sentiu vontade de agarrar Hannah pelos ombros e sacudi-la até tirar essa insolência do seu corpo.

—Sua majestade mal notará sua ausência. A obsequiaremos com uma formidável recepção a que assistirá toda a região.

—Aí está! - Apoiou a mão livre na estante e o olhou fixamente. - Deixa de fingir, Dougald. Sei o que trata de fazer. Quer me jogar para monopolizar a atenção da rainha.

A acusação o surpreendeu tanto que nem sequer teve que pensar em algo insultante.

—Não seja ridícula, não necessito o patronato da rainha para acrescentar meu prestígio.

—Então, de que se trata? Está me jogando daqui por algum motivo.

Mal pôde conter uma exclamação. Como sabia? O que era que ela sabia?

—Já expliquei o motivo. Terminei com você.

—Porque encontrou a minha substituta?

O que balbuciava?

—Sua substituta?

—A mulher com quem quer se casar.

—Eu já estou casado.

E confundido.

—Isso não representa nenhum obstáculo para um estrategista como você. Charles procurou para você? Uma bonita jovem que saiba qual é seu lugar, não? - Hannah moveu o braço em um gesto exageradamente desdenhoso.

—Esse é o plano, não é? Se libera de mim, consegue o divórcio e se casa com sua pequena velhaca.

—Ao contrário do que você parece acreditar, não é fácil obter o divórcio, e não é barato.

Dougald percebeu que aquele não era o tema que precisava debater com sua esposa, a que estava tentando salvar e a que planejava, à larga, conservar.

—Charles o aconselhou que se liberasse de mim? Te disse o que precisava dizer?

—Por que ia necessitar do Charles para fazer isso? - se concentrou em feri-la outra vez, em afastá-la do castelo Raeburn. - Você não é mais que uma simples mulher.

Seu desprezo não pareceu afetar a Hannah.

—Então está trocando a simples mulher que tem por uma panaca a quem possa dominar.

—Esta conversação é uma estupidez - soltou. - Não vou voltar a casar.

—Então é o outro. - Hannah afastou o olhar, seus lábios tremiam. - A vingança final, a maior de todas, a oportunidade de esmagar a Hannah como um verme, para que nunca mais volte a levantar a cabeça.

Estavam a poucos centímetros e o ar que mediava entre eles se podia cortar do ardor e da hostilidade.

—Perdeu o juízo.

—Meus avós assistirão à recepção e você não vai impedir que conheça minha família.

Se esqueceu de seus avós. Sabia que ansiava e temia de uma vez que chegasse o momento de se encontrar com sua família. Eles eram a pedra angular de seu plano para manter Hannah atada a esse lugar e, em um breve momento de clarividência, se perguntou se teria se esquecido dos Burroughs de propósito.

Ao fim e ao cabo, odiava tanto pensar que ela podia pertencer a alguém mais que a ele!

—É mais cruel do que nunca imaginei - disse Hannah.

—Então vá embora.

—Não penso ir.

Dougald deu outro passo. A distância entre eles era cada vez menor.

—Está pondo a prova minha paciência.

Hannah riu de maneira cáustica.

—Bobagem! Você não tem sentimentos; portanto, não tem paciência.

—Sim tenho sentimentos - repôs de maneira rotineira.

—Não. Um homem que seduz uma mulher para utilizá-la e humilhá-la não tem sentimentos.

Hannah baixou a mão que tinha a faca e logo a segurou como arma de ataque.

Dougald olhou a lâmina.

—Onde aprendeu a segurar assim uma faca?

—Algumas das garotas às que ensinei na Distinta Academia de Instrutoras tinham habilidades que pensei que era melhor não questionar.

—Se aproximou dele coxeando, tanto que seus seios quase roçavam seu peito e se apertou contra suas costelas. - Espero que isto não o faça se sentir incômodo.

—Não. - O deixava furioso e a pegou pelo pulso com os dedos antes que ela pudesse lhe atacar. - Suas estudantes não a ensinaram muito bem, se não a ensinariam a não ameaçar com uma faca a menos que esteja disposta a usá-la.

—Já me conhece. - Voltou o pulso e no tom mais sarcástico que jamais a ouvira empregar, acrescentou: - Sou pouco perseverante.

—Não só é pouco perseverante - disse zombador. - Também é uma queixosa. Se queixa até que um homem não ouça nem seus próprios pensamentos.

Hannah tentou lhe atacar com a faca, uma tentativa vã, mas enquanto estava distraído com sua tentativa, conseguiu lhe dar um bom murro no estômago que o deixou sem fôlego.

Parecia ter aprendido outras técnicas de defesa das garotas da academia. Com prática, poderia resultar letal. Por sorte, não tinha prática e Dougald queria submetê-la do modo mais rápido possível.

Tirou a faca da mão dela e a lançou contra o aparador. Ficou pregada, tremendo, na madeira.

—Vamos. Agora poderemos falar como pessoas razoáveis.

E a abraçou e a beijou.

Hannah não queria que a beijasse. Tentou afastar a cabeça, mas Dougald a aproximou, a reclinou contra seu braço e a beijou forçadamente enquanto saboreava a sensação do corpo a corpo.

Se assombrou um pouco de si mesmo. Pensava que, depois de anos de solidão e isolamento, aprendera disciplina. Considerava a si mesmo um homem implacável, intrigante, carente de paixão, carinho e humanidade.

Conforme parecia estava equivocado. Era apaixonado, o bastante ardoroso para fundir o aço e muito humano.

Então o mordeu, justo no lábio superior.

Dougald se tornou um pouco atrás e contemplou à mulher que ainda abraçava.

Lhe devolveu o olhar, com o peito agitado do esforço por recuperar o fôlego. Seus lábios, avermelhados e acariciados pelos de Dougald, permaneciam firmes, e tinha o queixo levantado. Os olhos eram uma mescla de cor castanha e paixões turbulentas. Teria jurado que Hannah o olhava, o julgava e tomava uma decisão.

—Dougald, me solte neste mesmo instante ou não vou poder te despir - ordenou ela no tom mais inflexível da instrutora mais severa do mundo.

Em um abrasador e súbito vislumbre da verdade, Dougald compreendeu que a amava. Todo esse tempo, todos aqueles anos, disse a si mesmo que urdia os planos e as intrigas para dar a Hannah seu castigo por ter lhe deixado em ridículo, quando na realidade esteve apaixonado por ela todo o tempo. Não queria submetê-la. Queria fazê-la sua.

Mas, por que se comportava daquela maneira? Por que não tirava os olhos dele?

Que mais lhe dava! Se ia lhe despir e seduzir, embora só fosse para distraí-lo e poder cravar uma faca no seu coração, bom, havia piores maneiras de morrer.

Tirou a jaqueta, logo pegou uma das cadeiras da mesa que estavam ali guardadas e a trancou sob o trinco da porta. Voltou com ela e ficou quieto para permitir que desabotoasse seu colete.

Dougald a ajudou e se dispunha a tirar a gravata quando o deteve com o simples e diligente gesto de pôr as mãos em cima das suas.

—Eu quero te despir - disse Hannah.

Sua esposa acabava de pronunciar as mais belas palavras de seu idioma: "Eu quero te despir." Estava lhe dando outra oportunidade? Estava ela apaixonada por ele como ele estava por ela?

Não sabia, mas de algum modo lhe parecia impossível amá-la tanto que cada fôlego, cada pulsar de seu coração, cada pensamento estivesse dedicado a Hannah e não lhe devolvesse o olhar. Ele a amava. Ela o desejava.

Portanto, ela também o amava.

Desatou o complicado laço e lhe desabotoou o colarinho engomado.

—Há algo tão tentador quando vislumbra pela primeira vez uma indecorosa pele masculina. É tão suave aqui - acariciou a curva que se formava em cima de seu esterno - e dentro de pouco vai estar deliciosamente tensa.

Hannah colocou a mão pela camisa e a enterrou entre o pelo de seu peito.

No que Dougald andaria pensando para acreditar que podia jogar uma mulher como aquela? Embora fosse por seu próprio bem.

Ela o acariciou com a palma da mão, com as pontas dos dedos, procurando os lugares sensíveis que ele conhecia e alguns outros que ele ainda não conhecia.

Dougald desabotoou os botões da calça.

Hannah tirou sua camisa pela cabeça e logo o beijou ao longo da clavícula e mordiscou um mamilo.

Ele a agarrou pela cintura.

—Mulher, eu deveria?

Lhe deu as costas.

—Me desabotoar.

Assim o fez e com completa eficiência, fazendo ornamento do refrão que diz que se terá que fazer algo, é melhor fazê-lo bem.

—Este é o vestido mais feio que tem - disse ele tratando de cercar uma conversação.

—Me alegro que o odeie. - O vestido caiu a seus pés. - O escolhi precisamente por isso.

Ainda estavam liberando uma encarniçada batalha e aquele aviso reavivou seu desassossego. Ele era quem começara; ele a beijara, mas o seguira prontamente e exigira suas roupas.

De modo que ela não ia mudar de opinião, ou sim? Não ia desaparecer e deixá-lo só com seu desejo, e justificar suas ações dizendo que ele merecia... ou sim? Precisava desatar seu espartilho e desabotoar suas anáguas, e isso levaria algum tempo. Tempo que ela aproveitaria para pensar. Para recordar o que fizera a ela desde sua chegada. Para recordar o que disse em seu quarto.

E Dougald não queria que aquilo ocorresse.

De repente viu um montão de guardanapos de linho branco pregados e empilhados em uma estante, antigos e ordenados, e então lhe ocorreu uma ideia. Sem parar para pensar no acertado daquele ato, agarrou um guardanapo por uma das pontas.

Hannah tentou dar meia volta.

—O que está fazendo?

A agarrou pelos ombros e a voltou a pôr olhando para frente, logo com um giro de pulso converteu o guardanapo em uma longa fita e lhe tampou os olhos com ela.

—Dougald! - exclamou subindo as mãos para tirar a faixa dos olhos.

Mas ele já estava preparado para isso. Com uma mão a afastou e com a outra segurou os extremos do guardanapo.

—Você gostará.

Na realidade não tinha nem ideia de se gostaria ou não. Só sabia que se não podia ver não poderia ir, e precisava tê-la nua em seus braços.

—Deve estar louco. - Mas ficou quieta enquanto ele atava o guardanapo.

—Sim, eu também começo a acreditar nisso - reconheceu. Que outra explicação achava a suas ações?

Com mãos cuidadosas Hannah explorou a atadura que lhe tampava os olhos.

—Não vejo nada.

Dougald se deu conta que ela cooperava com o estranho e prazenteiro plano.

—Mas todos os outros sentidos funcionam bem, não? - Deslizou um dedo pelo pescoço dela e desceu pelas costas.

Hannah estremeceu.

—Sim!

Em uma corrida contra o senso comum - o senso comum de Hannah, - desabotoou o espartilho e as anáguas. Enquanto o fazia, uma alça da camiseta escorregou por seu ombro, e ele percebeu que ela tinha colaborado; desabotoou a camiseta, e ele aproveitou para se inclinar para frente e olhar. Desde aquele ângulo um seio parecia diferente de um seio olhado de frente, e o contraste fez que lhe desse vontades de fazer experimentos, de olhar de um lado, tocá-la de cima, lambê-la!

Inclusive tendo em conta o cuidado que teve em não a machucar no pé ferido, tirou toda a roupa dela em um tempo recorde.

Mas onde ia pô-la? A mesa era dura e estava abarrotada de coisas, o aparador era alto e estava cheio de prataria, o chão? não. No canto. Em uma das cadeiras da mesa com sua madeira brilhante, o respaldo reto e os braços ligeiramente curvados.

Hannah se segurou nele enquanto a conduzia até a cadeira, velando para que pisasse com cuidado com o pé ferido.

—Sente-se aqui.

Hannah mediu a seu redor e logo lentamente se sentou na cadeira enquanto ele a olhava. Viu o tremor que lhe produziu o fato de posar as nádegas contra o frio assento de madeira. Com crescente celeridade, se livrou da roupa que ainda tinha em cima e observou como Hannah explorava sensualmente com as pontas dos dedos a superfície polida. Adorava tudo nela, o fascinava.

Queria-a tanto que felizmente teria passado o resto de seus dias naquela despensa, lhe dando prazer. A amava tanto que queria gritar seus louvores de um lado a outro dos corredores do castelo Raeburn.

E não podia deixar que ficasse, nem lhe dizer nada, porque alguém queria matá-la.

 

Privada do sentido da vista, o mundo de Hannah se reduziu, se converteu em um lugar limitado ao tato, ao som e ao aroma. A cadeira onde Dougald a sentara era o orgulho de qualquer artesão, com arabescos e balaústres lisos ao tato e perfumados com cera de abelha. Sua nudez adorava a madeira, lustrosa, brilhante e sedosa que sustentava seus membros. O chão frio sob seus pés aliviava a dor de seu tornozelo. Descobriu que a cadeira descansava em um canto; Hannah investigou com as mãos, apalpando as paredes que se estendiam em cada direção. Dougald estava ali perto de pé; ouvia o leve ofego de sua respiração e o roce de sua roupa. A olhava; podia notar o calor de seu olhar e sentia o prazer que lhe produzia vê-la tão indefesa.

E não é que fosse indefesa. Igual a seu casamento, sua submissão era somente uma ilusão. Podia tirar a faixa quando quisesse. Podia se levantar, se vestir e deixá-lo, se quisesse.

Mas não queria. Isso era uma despedida. Todas aquelas vezes disseram: "Nunca mais", mas voltavam a se encontrar no desejo furtivo. Desta vez Hannah dizia a sério. Adorava compartilhar o prazer com Dougald.

Seu sabor, seu aroma, a urgência de seu corpo se movendo em cima e dentro dela. Se gravou nela e nunca desejaria a outro homem.

Mas sua crueldade não tinha limite, e sua avidez de vingança corroia sua alma. E embora agora ela estivesse desejosa de se entregar de todo coração a seu marido, Dougald, depois do último adeus, poria fim implacavelmente à história de amor com o homem que senhoreava Raeburn. Durante o resto de sua vida tentaria recordar a paixão e esquecer a dor.

Consciente que Dougald devia estar quase nu, se ajeitou no assento. Cabeça alta, costas reta, mãos nos braços da cadeira, joelhos e pés juntos.

Se a desejava, teria que seduzi-la.

—Querida, deixa que a sirva.

Dougald se ajoelhou ante ela, como um suplicante mortal ante sua deusa. Apertava o ventre contra os joelhos de Hannah, e lhe acariciava as coxas com as mãos. Queria abrir as pernas dela. Insistia sutilmente, utilizando o corpo para guiá-la.

Mas ela não queria que ele a guiasse e se reclinou para trás na cadeira, deixando que os balaústres lhe esfriassem as costas. Levantou um braço, voltou a cabeça para a parede e colocou a mão sob o queixo.

—Me agrade - ordenou.

Dougald riu com uma risada profunda e silenciosa.

—Como você mandar, querida.

Pegou sua mão livre, a levou aos lábios e lhe beijou cada dedo até chegar ao mindinho. O meteu na boca até o nódulo, o chupou de um modo que sugeria... bom, sugeria um movimento que a enchia de prazer.

Logo mordiscou a ponta. Hannah deu um salto e tentou se retirar.

—Não. Sente-se, Fique quieta. Se quiser que a agrade deve ficar quieta - insistiu Dougald.

Assim se sentou enquanto ele beijava a palma da mão e guiava o beijo para cima pela face interna do pulso, subia pelo cotovelo e passava por cada sarda e curvas sensíveis. Dougald a agarrou pelos ombros.

Na escuridão, a carícia e a textura de suas pontas calosas a encantavam. Quando se deu conta que ao voltar a cabeça tinha posto a descoberto o pescoço para que ele o explorasse, começou a se maravilhar da sabedoria de seu decreto.

Dougald adorava beijar sua nuca. Normalmente, quando ele deslizava os lábios sobre a tenra pele da nuca, os dedos dos pés dela se encolhiam, a respiração se acelerava e tentava afastá-lo.

Agora, graças às ordens explícitas de Hannah, ele tinha carta branca. Mas deve ter notado sua apreensão porque lhe sussurrou ao ouvido:

—Confia em mim, meu coração.

Com uma mão sobre o ombro e outra na cabeça, beijou-lhe tão levemente que mal sabia se estava ali. Mal o notou, salvo por seu aroma, essa combinação de especiarias e couro que lhe resultava tão íntima, pelo modo em que todo o pelo de seu corpo se arrepiava para ele, pela tensão que sentia no ventre, pela exaltação dos mamilos.

Ela queria se voltar para ele, segurar sua cabeça com as mãos e abrir a boca junto à dele. Queria fazer com ele o que ele fazia a ela, e muito mais.

Companheiros. Eram companheiros por toda a vida e aquela era sua última vez.

A tristeza a invadiu, mas ele não podia ver seus olhos. Não sabia. Assim era melhor. Não queria que percebesse do muito que ia sentir falta dele. Hoje ocultaria sua pena. Algum dia talvez a dor da perda desaparecesse.

Dougald jogou com uma mecha caída de seu cabelo.

—Quando vejo um só cacho de cabelo solto, me dá vontade de te soltar o cabelo, espalhar pelo travesseiro, enterrar o rosto em seu cabelo e respirar seu aroma. - Os dedos de Dougald vagavam por cima das maçãs do rosto de Hannah. Acariciaram seus lábios. Seguiram a curva do queixo, desceram para o peito e logo se separaram para segurar os seios. - Eu adoro. Quando vejo esta curva oculta sob seu vestido, tenho vontade de ir para você, te abrir o sutiã e contemplar de novo o mistério de seu corpo.

Aquele elogio a fez sorrir apesar de sua pena. Suas carícias a faziam esquecer tudo salvo o desejo.

—Não há mistério algum. É o corpo de uma mulher - disse ela com voz rouca carregada de emoção.

—Se equivoca. É seu corpo. É o mistério que eu tento desentranhar. E quando o obtenho, sempre penso, agora a entendo. Será minha para sempre. Logo você se levanta e se veste e já não a conheço absolutamente.

Ardente, vibrante, ansiosa, sua voz tecia um feitiço que a segurava com tanta certeza como a escuridão. Ao lhe escutar qualquer um teria dito que a adorava, e talvez fosse assim.

Talvez aquela involuntária adoração aguilhoasse seu orgulho e fizesse da vingança uma necessidade para aquele homem imperioso.

—Nunca me conhecerá - sussurrou Hannah.

—Não. - Algo roçou seu mamilo: uma respiração e uns lábios suaves. - Nunca a conhecerei de todo. Retornarei uma e outra vez até que o consiga.

—Não. - Sacudiu a cabeça e tentou se colocar frente a ele.

—Ainda não.

Lhe voltou a cara de novo e pôs uma mão sob o queixo e outra sobre o encosto da cadeira.

Logo... nada. Ainda estava ali, mas sem se mover, mal respirando.

Estava olhando-a. Ela sabia e sem afetação soube que a visão o comovia.

—Deveria ordenar que a pintassem assim - disse Dougald.

—Não.

—Tensa, régia, gloriosa.

Hannah levantou as mãos para a atadura.

—Não.

Ele as agarrou.

—Espera. - Beijou os nódulos, logo cada palma. - Não fiz mais que começar.

Com renovado ardor beijou um mamilo, logo com lenta fruição o meteu na boca. O saboreou como se quisesse degustá-lo. As mãos se hospedaram nos quadris de Hannah e acariciou o ventre com os polegares.

De novo a assaltou o prazer, um pouco mais intenso agora, a enchendo de calor na entreperna. Desejou que as mãos de Dougald se movessem com uma intenção explícita por sua pele, que a boca lhe beijasse com mais desejo que o de prová-la, que seu corpo se equilibrasse contra o dela. Queria que se movesse sem descanso. Logo o faria. Logo tudo aquilo seria muito... um leve gemido lhe escapou.

Por agora, deixaria crescer sua ânsia.

Dougald a beijou no ventre e em um momento de loucura permitiu que lhe separasse as pernas. Os lábios se deslizaram para baixo. Hannah sabia o que pretendia. Ela permitiria.

Então acariciou com os dedos o pelo mais encaracolado, a abriu e posou a boca justo no lugar preciso. Isso apagou toda melancolia, dispersou seus pensamentos e a coerência dos mesmos.

Conquistou o êxtase entre calafrios, experimentando um prazer tão irresistível que quase era agonia.

A língua de Dougald se retorcia contra ela, se afundava dentro dela. Hannah gemeu em meio do êxtase. Os lábios de Dougald a bebiam. Ela jogou para trás a cabeça, levantou um pé, se apoiou no assento da cadeira.

Incapaz de se deter, arqueou as costas.

—Dougald. - Procurou apoio em sua cabeça. Agarrou punhados de seus cabelos, deslizou os dedos por sua cabeleira. O aroma de sua excitação atuava como um afrodisíaco.

—Dougald.

Ele deslizou as mãos por debaixo dela e a levantou ainda mais. Sem trégua, seguiu o movimento de seus quadris, sem lhe dar descanso, sem mais exigência que a rendição.

Por fim, com um grito, lhe deu o que pedia. Triunfou o instinto. Hannah mal era consciente que suas mãos se crispavam nos braços da cadeira, apoiava as costas nos balaústres e separava as coxas.

Só era consciente do prazer puro do êxtase, de um clímax sensual dedicado a ela e só a ela.

Acabou, por fim acabou, e quando começava a desabar, Dougald a invadiu. Enquanto suas nádegas descansavam na borda do assento, ele a penetrou com urgência, a encheu com sua necessidade e voltou a conduzi-la até o êxtase. Imediatamente o corpo de Hannah se sacudiu detento de espasmos em seus braços e os músculos de seu interior o agarraram, exigindo que ele desse tudo.

—Me abrace - ameaçou com voz rasgada.

Hannah levantou os braços e rodeou suas costas com eles. As pernas se agarraram ao redor de suas coxas. Dougald se agarrou à cadeira, e seus embates eram tão enérgicos que a cadeira se balançava e golpeava contra a parede. Não lhe importava; escutar o ritmo de sua dissipação incrementava seu vigor. A atadura de Hannah caiu, o nó se desatou devido ao ímpeto.

Seus olhares se cruzaram. Hannah viu o rosto de seu amado, os formosos olhos verdes salpicados de ouro, o nariz, afilado e curto, as maçãs do rosto salientes, a mandíbula obstinada e o longo e lustroso cabelo negro com mechas brancas. E percebeu que ela estava chorando. Não sabia por que. Muito prazer, muita paz. Muito e nunca mais.

—Querida - disse ele com convicção, sem afastar o olhar. Ele estava reclamando tudo. - Querida.

Ela era dele, sua para sempre.

Ele era dela, seu para sempre.

Naquele momento chegaram ao clímax juntos, fortemente abraçados, dando tudo um ao outro. Hannah recebeu com agrado o manancial de sua semente, a calidez, a umidade em seu interior. Por fim o tinha.

Por fim lhe dera a possibilidade de ter um filho dele.

—Querida - repetiu. Pouco a pouco foi desabando em cima dela. A acariciou na nuca, enxaguou as lágrimas de suas faces. - Querida - voltou a repetir em voz mais baixa, mas não menos vibrante.

Se fundiram em um, sem desejos de se separar, mas por fim, ele saiu de seu corpo e se ajoelhou ante ela.

—Hannah, tinha esquecido.

Colheu com delicadeza o pé ferido e lhe deu um tenro beijo na curva do mindinho.

—Pobre pé. - Dougald lhe acariciou a parte torcida com dedos cuidadosos. - Tão arroxeado! - E a surpreendeu ao posar a palma da mão plana contra seu peito. - Pobre Hannah. Tão valente!

Apertou os dentes para conter o repentino e urgente desejo de soluçar forte. Tanto significava para ela sua admiração?

Não, mas a debilidade que a dor produzia lhe dava vontade de soluçar.

Tragou saliva com força.

—Tinha me esquecido de minha entorse, assim suponho que não deve ser tão grave.

Dougald baixou a vista para o pé que segurava com carinho.

Estava pensando. OH, Deus, ela quase podia ouvir seus pensamentos! Ela quase sabia o que ia dizer e nada podia evitar que se preparasse para a profunda pena que se aproximava.

Ficando direito, Dougald a examinou, nua, exausta, depois de ter amado até não poder mais.

—Depositarei o dinheiro em sua conta se for.

As lágrimas de Hannah secaram. Estava em condições de falar e o fez em um tom firme.

—Não tem por que se preocupar. Quando a rainha Vitória se for, o abandonarei outra vez. E nesta ocasião, quando for, será para não retornar jamais.

 

Dougald se sentou ante seu escritório, com as mãos pregadas, e prestou atenção às vozes de quem se aproximavam através da capela.

—Não pode me obrigar a fazer isto! Como se atreve a me pôr as mãos em cima, francês asqueroso? Vou fazer que lhe deem umas chicotadas!

Dougald reconheceu uma nota aguda de pânico na voz de Seaton. Charles fazia bem seu trabalho, que consistia em colocar o medo no corpo de Seaton.

Agora Charles faria seu papel.

—Sir Onslow, sinto muito. Não tenho escolha. Meu senhor me ordenou que o trouxesse até aqui e quando falho, ele... - Charles deixou que sua voz se convertesse em um fio até se extinguir.

—Meu senhor é um amo duro. Sir Onslow. Não me atrevo a lhe desobedecer.

—Já quase amanheceu!

—Me ordenou que o levasse ante sua presença no mesmo instante em que retornasse de Conniff Manor. - Charles abriu com o pé a porta do escritório e com um gesto liberou Seaton e de uma vez o empurrou dentro da sala.

—Senhor, aqui está sir Onslow.

Dougald não se levantou, nem sequer se moveu. Sabia muito bem o aspecto que tinha. A última escuridão da noite se apropriou do escritório e tudo estava sumido nela, exceto ao redor das velas que colocara cenograficamente em torno dele. As chamas iluminavam seu cabelo escuro e prateado, a jaqueta negra, a gravata negra, a expressão severa e os olhos brilhantes.

Se Seaton recordasse a reputação de assassino que tinha Dougald, isso estaria bem. Se Seaton acreditasse que estava enfrentando ao próprio diabo, melhor que melhor.

Seaton tentara matar Hannah ele teria que confessar. Pagaria muito caro.

—Sente-se.

Com um gesto lento que arrancou brilhos de luz nas pedras preciosas dos anéis que adornavam seus dedos, Dougald lhe indicou uma cadeira de respaldo reto situada no meio da sala.

Seaton vestia uma jaqueta escura de bom corte, um colete xadrez e umas calças xadrezes combinando, botas lustradas e o alfinete de gravata de diamantes que tanto se parecia com o de Dougald.

Só o cabelo desalinhado revelava os rigores da viagem de carruagem; suas mechas, normalmente cuidadosamente penteadas, estavam desordenadas pelo vento.

Aquela besta medíocre; não era de estranhar que tivesse passado despercebido durante tanto tempo e tantos assassinatos.

Agora contemplava a impressionante cena posta por Dougald.

—Toda esta exibição de força é para me impressionar? - perguntou com lábios trêmulos e o nariz bem alto.

Dougald não sabia se admirava sua audácia ou o condenava por sua estupidez. Ao final daquela reunião ele teria certeza.

—Charles, ajuda sir Onslow a sentar.

—Já me sento eu sozinho! - Seaton aprendera a respeitar as chaves de luta de Charles.

Muito tarde. Charles lhe retorceu o braço as costas e o empurrou para a cadeira.

Seaton caminhou nas pontas dos pés para aliviar a pressão.

—Ai, ai, ai - gemia enquanto caminhava. Logo, assim que Charles o liberou, alisou os punhos e acrescentou: - Não era necessário.

—Peço desculpas, senhor. - Charles se inclinou e esfregou as mãos, uma e outra vez. - Como o rumor do assassinato se difundiu em qualquer parte, faço o que me ordena meu amo.

Seaton ficou direito de repente.

—De modo que esse é o motivo de toda esta cena? Que eu tenha ido apregoando o conto de suas tendências maritais assassinas por aí?

Porque o asseguro que posso ter acrescentado uns quantos detalhes, mas a maioria das pessoas já tinha ouvido a história.

—Claro que não, Seaton. - Uma vez mais, Dougald ficou sentado, absolutamente quieto. - Não é o bastante importante para mim para que me afete o que vai dizendo por aí.

—Bom, espero que não! - Ao perceber o insulto muito tarde, Seaton ruborizou. - Então, o que estou fazendo aqui?

—São suas outras atividades as que me chamaram a atenção.

—Ou... outras atividades?

Dougald percebeu do perto que estava de lançar mão da violência quando teve que se esforçar por permanecer na cadeira.

Queria sacudir Seaton até que perdesse aquela insolente atitude, e uns quantos dentes, e confessasse tudo. Quando confessasse deixaria de lhe saltar os dentes a...

Respirou devagar para se acalmar. Não se tratava de uma vingança. Era somente prevenção e tratava de manter Hannah a salvo e afastar qualquer perigo que ameaçasse sua vida. Porque a amava.

Embora não pudesse tê-la, a amava.

—Seaton, não pode continuar alegremente com suas atividades e passar sempre despercebido.

Seaton se remexeu intranquilo na cadeira, logo levantou outra vez seu nariz arrebitado.

—Não... não sei do que me fala.

Dougald intercambiou um olhar com Charles. O gesto de Seaton fora tão eloquente como uma confissão de culpabilidade, mas Dougald queria uma verdadeira confissão, queria os detalhes, queria capturar aos conspiradores e ouvir o que Seaton planejara. Como Hannah insistira em ficar até depois da visita da rainha, Dougald precisava saber tudo.

—É muito tarde. Estou cansado. Charles diz que me ponho muito desagradável quando estou cansado. Espero que não me entretenha aqui muito tempo ou me esgotará a paciência - disse Dougald, depois de uma prolongada e silenciosa pausa durante a qual Dougald observou Seaton se mover intranquilo um par de vezes mais.

—É melhor que confesse ante o amo antes que se enfureça - disse Charles se inclinando para Seaton em tom obsequioso.

O olhar de Seaton voava de um a outro interrogador, um olhar que tinha um pouco de incerteza.

—É isso o que o fez matar a sua esposa? Um arrebatamento de ciúmes?

—Não, senhor. Não estava ciumento absolutamente - repôs Charles esfregando outra vez as mãos.

Dougald mal conservava a circunspeção. Charles estava desfrutando muito com tudo aquilo. Dougald também teria desfrutado se a situação não fosse tão séria.

—Charles, ultrapassou seus limites.

Charles retrocedeu para a parede mais afastada.

Depois de lhe dirigir um olhar longo e severo, Dougald voltou a centrar sua atenção em Seaton.

—Bom, quero sua confissão e a quero já. Que estupidez esteve tramando?

Seaton olhou para Charles e logo para Dougald.

—Nada. Eu não estive...?

Dougald começou a ficar em pé.

Charles soltou uma exclamação.

Seaton mudou de tom e de intenções.

—Quer dizer... eu não acreditei que você soubesse?

Dougald voltou a se sentar.

—Confessa.

—Devolverei tudo - disse Seaton endireitando as costas aumentada pelas ombreiras.

Não foi necessário que Dougald fingisse confusão.

—Devolver tudo?

Seaton segurou a própria testa.

—Foi esse colar que me deu de presente, não? Que peguei da senhora Grizzle?

Sem compreender ainda, Dougald olhou fixamente para Seaton, seu distante primo, o homem que estava confessando o crime equivocado.

Charles se encarregou do interrogatório.

—Você pegou um colar da senhora Grizzle?

Seaton olhou a seu redor e caiu na conta que fizera hipóteses incorretas. Voltou a tentar.

—Não se trata do colar? Então foram os vasos. Os apreciados vasos Ming de lady McCarn? Eram muito grandes, mas ante semelhante desafio não sei como podiam esperar que não me sentisse tentado.

Dougald se recuperou o suficiente para articular as palavras e alinhavar ideias.

—Pegou os valiosos vasos Ming de lady McCarn. Os roubou ?

—Não os roubei. Roubar é uma palavra muito feia. Eu colecionei os vasos. Ficam preciosos em meu dormitório. - Era evidente que Seaton não sabia o que fazer com a expressão atônita de Dougald e, em uma manobra de diversão muito própria dele, jogou a culpa a ele.

—É sua culpa, lorde Raeburn, que eu precisasse decorar meu próprio quarto. Não pode esperar que um homem delicioso resida nesse quarto tão espantoso e não se incomodou em me fazer um quarto digno de mim.

—Me pareceu que primeiro devia arrumar as habitações comuns. - Dougald percebeu que se estava desculpando ante um ladrão e deu um golpe na mesa. - Redecorar seu quarto não explica o fato que roubou um colar.

Suponho que vendeu a jóia para conseguir dinheiro.

Seaton levou a mão ao peito.

—Sou um cavalheiro. Não vendo as coisas que coleciono!

Desconcertado, Dougald tentou esclarecer.

—Você fica com elas?

—Claro.

—O que faz com elas?

—As olho. - Quando Seaton comprovou que Dougald lhe permitiria seguir vivendo, relaxou. Se reclinou para trás na cadeira e em tom de bate-papo relatou:

—Tenho uma coleção muito extensa. Pode vir vê-la quando quiser.

Se Seaton queria distrair Dougald, estava fazendo um trabalho desconcertante.

—Ainda tem tudo.

—Claro.

—Então aceito sua oferta. Devolverá tudo.

Seaton abriu uns olhos como pratos e se sentou muito rígido, com as mãos crispadas.

—Não diz a sério? A quem?

—A seus proprietários.

O pânico se apoderou de Seaton e transpareceu em sua voz.

—As pessoas não compreenderão. Pensarão mal de mim.

Charles usou seu tom mais tranquilizador.

—Um mestre como você será capaz de restituir os objetos para que seus proprietários acreditem que simplesmente os tinham extraviado.

—Mas eu não os tenho.

—Pode fazê-lo você mesmo ou o farei eu por você.

Ante a ameaça nada sutil de Dougald, Seaton soluçou.

—As joias? As cerâmicas? Os quadros?

—Quadros?

Dougald imaginou Seaton desprendendo um enorme quadro da parede, o ocultando sob seu casaco e saindo às escondidas.

—Eu disse quadros? - Seaton enxugou os olhos com um lenço de renda. - Me referia a...

—Os quadros também. - Dougald não sabia se ria ou arremedava as lágrimas de Seaton.

—Isto é um ultraje!

—Não poderia estar mais de acordo. - Obviamente os criados precisavam conhecer aquela "inocente" peculiaridade de Seaton.

—Não tenho por que me submeter a tal indignidade.

—Terá que fazê-lo se quer continuar vivendo aqui. - Ao menos um dos vizinhos de Dougald devia ter notado que as "perdas" guardavam relação com as visitas de Seaton.

Seaton tirou as luvas do bolso e as golpeou contra sua mão.

—Semelhante crueldade e falta de refinamento provocaria outra mancha em sua reputação.

—Se tenho sobrevivido aos rumores de assassinato, que você se esmerou em difundir, acredito que poderei sobreviver à ignomínia de jogar de casa a meu patife herdeiro.

—Dougald não podia imaginar que tipo de rumores se produziriam depois da marcha de Seaton.

Seaton ficou em pé.

—Patife: que palavra mais espantosa! Muito bem. Farei o que deseja, mas o que acontecer será sua responsabilidade!

Charles abriu a porta e Seaton saiu a grandes passos.

Enquanto Charles fechava a porta, Dougald apoiou a cabeça nas mãos. Estava cansado e preocupado. Pela primeira vez em muitos anos não sabia o que fazer.

—Charles, acredita que Seaton nos pôs uma atadura nos olhos?

—Voltarei a falar com os detetives - repôs Charles de modo enigmático.

Dougald levantou a cabeça e olhou a seu ajudante de câmara, exigindo em silêncio uma resposta melhor.

Charles consentiu em dar-lhe.

—Não, senhor. Suspeito que sir Onslow é somente isso do que você acaba de acusá-lo: um trombadinha de pouca monta.

—Não temos nenhum outro suspeito.

—Deverá seguir velando por madame.

—Como sempre - proclamou Charles.

Outra suspeita menor assaltou Dougald.

—Suponho que o alfinete de gravata de diamante que Seaton usa e se parece tanto ao meu, é o meu.

—Pensei que o tinha extraviado.

Dougald captou o olhar cínico e divertido de seu criado.

—De todos os modos, eu nunca gostei.