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SEGREDOS DE AMOR / Danielle Steel
SEGREDOS DE AMOR / Danielle Steel

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SEGREDOS DE AMOR

 

Sabina Quarles, nascida Mary Elizabeth Ralston, fazia questão de esquecer qualquer coisa que não lhe fosse conveniente: a infância nas minas de carvão, a casa de strip tease em Nova York, os filmes pornôs do Lower East Side. Agora aos 45 anos, dera duro para chegar aonde chegara. Não era uma prima-dona, mas uma pequena estrela com brilho firme. Mantinha o mesmo encanto dos vinte anos. Sabia que seu corpo sempre fora o veículo para o sucesso. Desde o último filme, no entanto, sua carreira emperrara. Tudo o que precisava era do papel certo. E do produtor certo.

Bill Warwick era um jovem ator desempregado, desesperado, preso a um casamento fracassado com uma atriz que se tornara drogada e apática. Já se conformara com um medíocre trabalho de garçom quando o papel certo, feito sob medida para ele, surgiu.

Jane Adams sempre fora a esposa e mãe perfeita, embora acalentasse secretamente o sonho de retomar a carreira artística que o casamento, por imposição do marido, interrompera. Durante onze anos ela conseguira a façanha de atuar incógnita num programa de televisão, mas agora, com a reformulação do programa, ela fora dispensada. Estava farta de tudo, cansada de ser esposa, anfitriã, mãe e amante perfeita. Retomar a carreira às claras significaria assumir o comando de sua própria vida.

Gabby Thornton-Smith escondia, atrás de seus magníficos e profundos olhos verdes, um segredo que não partilhava com ninguém. Mais do que um papel no seriado, ela via a oportunidade de ter uma família.

Manhattan significava mais do que um seriado de televisão que certamente obteria elevados índices de audiência. Para cada um dos envolvidos em sua produção, ele representava a grande oportunidade de suas vidas. A história de lutas pelo poder, as guerras intestinas de uma empresa conduzida por gente forte, ambiciosa e glamourosa escondia também dramas individuais dos quais o público sequer suspeitava.

 

 

O sol reverberava nos prédios com o brilho de um punhado de brilhantes salpicados num iceberg, o faiscar ofuscava, enquanto Sabina permanecia deitada nua numa cadeira preguiçosa sob o calor do sol de Los Angeles. Jazia brilhando e untada, aquecida ao tom de mel pelo sol abrasador. Mais tarde desceria à piscina por algum tempo, só para refrescar, mas havia dezenas de rituais que praticava antes. Primeiro ficava deitada de costas todas as manhãs, o rosto cheio de creme, o corpo untado de óleo, a cabeleira loura, espetacular, abrigada do sol, os olhos cobertos por compressas umedecidas em óleo de amêndoas, uma toalha molhada emoldurando-lhe o rosto de modo a não deixar expostas ao sol as cicatrizes do ano anterior. Os seios ficavam igualmente protegidos por pequenas compressas de gaze, pelos mesmos motivos. As três cirurgias a que se havia submetido tinham dado bons resultados e não apareciam. A primeira, aos 38 anos, mais tarde do que havia previsto, só para alisar uma pequena ruga entre as sobrancelhas e para repor as pálpebras no lugar exato onde estavam dez anos antes. A segunda, aos 41 anos, para realçar os seios e dar-lhes maior volume, levantando-os até onde nunca tinham estado, mesmo aos dezesseis anos. E a última operação, um ano antes, repetia a primeira, apenas com um pouco mais de ênfase e acrescentando alguns toques acima das orelhas. Num bom dia parecia ter 35, num dia maravilhoso, 31, e sob o foco da câmera às vezes parecia ainda mais moça - às vezes... se o operador de câmera fosse bastante bom. Sabina Quarles estava com

45 anos. Seu corpo mostrava-se moldado à perfeição. Todas as manhãs fazia exercícios durante uma hora, massagens três vezes por semana, nadava todas as tardes e andava três quilómetros se o tempo estava bastante fresco. Evitava correr, andava. Não era tola. Não tinha gasto cinco mil dólares com os seios para deixá-los penderem uns bons sete centímetros correndo pelo concreto de Beverly Hills.

 

Gostava de vestidos com decotes generosos revelando o vale dos seios de que tanto se orgulhava, extensão perfeita de pele cor de mel que não mostrava sinais de idade. E também usava saias com fendas que atingiam o topo das coxas. Tinha boas razões para isso. Possuía o tipo de pernas pelas quais a maioria das mulheres morria de inveja. Não devia isso à plástica, mas sim a Deus. Ele a fizera bem-dotada. Na verdade, revelara-se mais do que generoso com Mary Elizabeth Ralston, nascida em Huntington, Pensilvânia, havia quase meio século. O pai fora mineiro, a mãe garçonete num café de beira de estrada iluminado com uma placa de néon que brilhava a noite inteira e conhecido como ”O Café”. Quando o pai morrera, ela estava com nove anos; a mãe casara-se três vezes em sete anos, enviuvara mais duas vezes e morrera quando Mary Elizabeth tinha dezessete anos. Nada havia sobrado que a prendesse ali, nada mesmo. E Mary Elizabeth acomodou as pernas compridas, bem torneadas, num ônibus da Greyhound e partiu para Nova York. Mary Elizabeth Ralston, para todos os fins e objetivos, morreu naquele dia. Em Nova York tornou-se Virgínia Harlowe, nome que naquela época achou glamouroso, enquanto tentava empregos modestos de modelo, caindo finalmente entre as coristas de um espetáculo bem distante da Broadway. Achou que tinha atingido o máximo da vida, até que aos 21 anos alguém lhe ofereceu um papel num filme. Tinha então os cabelos muito pretos. Pintava-os cuidadosamente para esconder as raízes mais claras e assim destacar os grandes e amendoados olhos verdes. Não lhe deram guarda-roupa para aquele filme, mas lhe disseram para ir a um armazém gelado no Lower East Side com mais duas garotas e um homem. Esse papel a marcou muito. Muito mesmo. A vida de Virgínia Harlowe foi ainda mais curta que a de Mary Elizabeth Ralston. Desempenhou mais alguns papéis semelhantes, conseguiu um emprego numa casa de strip no West Side, porém era bastante esperta para perceber quando a situação não lhe convinha. Descobriu o nome Sabina Quarles nas páginas de uma revista que alguém, certa noite, deixara num camarim coletivo. O dinheiro que havia economizado pagou a passagem para Los Angeles. Estava com 24 anos e sabia que logo seria tarde demais. Contudo, restavam-lhe esperanças. Deixou os cabelos pintados de preto em Nova York, chegando loura à Califórnia. Três semanas depois estava num quarto alugado; tinha agora um empresário, ao qual não mencionou o seu trabalho no filme de Nova York. Essa tinha sido uma outra vida, uma vida que ela preferia não lembrar mais. Sabina Quarles, como passou a se chamar desde então, era propensa a esquecer qualquer coisa que não lhe fosse conveniente: a vida nas minas de carvão, a casa de strip em Nova York, os filmes pornô de baixo orçamento que fizera no armazém de Lower East Side. Em Los Angeles, tornou-se modelo e foi escolhida para fazer alguns comerciais, obteve um teste de fotografia na MGM e outro na Fox, e em menos de seis meses ganhou um papel num filme bastante bom. Depois disso houve mais três papéis pouco importantes e finalmente um mais destacado; aos 26 anos, o rosto de Sabina era um dos que inúmeros diretores conheciam e lembravam. Seu desempenho não deixava as plateias maravilhadas, mas era muito razoável, e seu empresário arranjou-lhe um instrutor que a ajudou a superar os pontos difíceis. Também ajudou-a a arranjar mais alguns papéis. Aos 28, as pessoas conheciam-lhe o nome e o rosto, e o relações-públicas providenciava para que seu nome aparecesse com regularidade nos jornais. Estava ligada a alguns astros, e aos 30 teve um caso com um dos monstros sagrados de Hollywood. Começaram a procurá-la mais depois de ter aparecido em um filme com ele. Foi uma carreira conseguida pelo trabalho, atingida pelo esforço e sem poupar a própria pele, e ainda pela boa vontade com que tirava roupas mais do que algumas das suas colegas naquela época, e pelo fato de finalmente ter aprendido a representar. Aos trinta e poucos anos desapareceu durante algum tempo, reaparecendo com brilho num filme entusiasticamente recebido e que fez todos desejarem que ela se tornasse uma estrela. Não conseguiu tanto, mas seu nome ficou gravado na mente das pessoas com mais firmeza, e ela obteve papéis melhores do que aqueles que conseguira até então.

 

Sabina Quarles tinha dado duro para chegar onde estava, contava 45 anos e não alcançara o pináculo do sucesso, mas seu nome era conhecido em Hollywood, e certamente pelos frequentadores de cinema por todo o país... ”Ah, eu sei... ela não trabalhou em...”, um breve olhar vazio e depois um sorriso, um olhar maroto, um olhar de desejo no rosto dos homens. Era o tipo de mulher que os homens sonham levar para a cama, mas com a idade ela se tinha tornado muito exigente. Sabina Quarles tinha força permanente e um corpo que não a abandonaria, não importa quanto envelhecesse. Ela cuidava disso, mantinha todos os seus contatos, falava com o empresário todos os dias, esforçava-se quando tinha uma participação, e era surpreendentemente fácil trabalhar com ela.

 

Sabina Quarles não era prima-dona, era uma estrela de cinema... razoável... uma dessas luzes pequenas mas firmes que às vezes sobrevivem a nomes realmente famosos que aparecem e desaparecem todos os dias nos estúdios de Hollywood, substituídos por rostos menos conhecidos, porém mais jovens. O rosto de Sabina Quarles ainda estava bem e valia a pena olhar. Seu nome não significava dinheiro na bilheteria, mas fazia os homens saírem felizes da sala de espetáculos. Ainda tinha o mesmo encanto dos vinte e um anos. Os homens queriam alcançá-la, tocá-la. E ela gostava, mesmo quando preferia não deixálos fazer isso. Não era essa a questão. Seu corpo era o veículo para o sucesso, sempre tinha sido.

 

Dando uma olhada para o despertador que mantinha no terraço exatamente para esse fim, virou-se com muita graça de barriga para baixo, e com um movimento habitual do pulso apanhou o pote de creme, untando mais uma vez o rosto e os braços, que se mostravam tão jovens e firmes quanto o resto do corpo. Não havia um milímetro sobrando ou pendente em Sabina.

 

O telefone soou quando ela já estava prestes a se levantar. Estava na hora de tomar dois grandes copos de água mineral antes de descer para a piscina. Olhou o relógio, imaginando quem seria. Já se tinha comunicado com o empresário.

 

- Alo. - Tudo em Sabina Quarles era doce como mel. A voz era profunda e macia, uma voz sexy que fazia com que os homens a desejassem muito quando estavam sentados a vê-la num teatro escuro.

 

- Sabina Quarles, por favor - falou uma voz de secretária jovem na outra extremidade do fio. A voz não lhe era desconhecida.

 

- É ela quem fala. - Postou-se esguia, alta e linda na sala de estar, segurando o fone, enquanto sacudia a cabeleira loura dos ombros com a outra mão. Ninguém jamais teria imaginado que a cor não era inteiramente natural. Tudo em Sabina era muito bem-feito, cuidadosamente tratado, adequadamente conservado. Passara a vida inteira tornando-se quem era e o tinha feito bem. Pena que não tivesse progredido mais na carreira. Às vezes ficava a remoer isso, mas acabara desistindo de pensar. Era bastante conhecida, talvez o principal assunto da cidade. Nunca achava que era tarde demais. Em Sabina nada lembrava cansaço, meia-idade ou derrota. Ainda era uma mulher em ascensão, embora estivesse no mesmo patamar há cerca de dois anos.

 

A falta de participações importantes não chegava a perturbá-la, desde que o dinheiro continuasse a entrar. Tinha feito um comercial de casacos de zibelina há apenas um mês. Desejava fazer muitas coisas para manter a renda fluindo constantemente... desde que não fosse TV. Televisão era uma coisa que ela nunca suportara.

 

- Aqui é do escritório de Mel Wechsler - disse a voz muito empolada. Melvin Wechsler era o maior produtor de Hollywood, e quem quer que trabalhasse para ele passava a fazer parte daquela grandeza - ou pelo menos sua secretária parecia acreditar nisso. Sabina sorriu. Tinha saído com ele umas duas ou três vezes alguns anos antes. Mel Wechsler, além de outras virtudes, era um homem atraente. Ficou pensando por que estaria mandando telefonar para ela.

 

- Sim? - Havia agora um sorriso na voz dourada, enquanto lançava um olhar pela sala. O apartamento era moderno, sóbrio; ficava em Linden Drive, numa parte um pouco mais modesta de Beverly Hills. Mas o endereço era bom, e o apartamento quase todo mobiliado em branco, com duas paredes espelhadas. Agora estava vendo sua imagem nua, os seios altos e firmes, exatamente como tinha pago para ficarem, as pernas ainda compridas e bonitas. Gostava de se olhar. Não havia nada no seu porte capaz de preocupá-la, e se aparecesse alguma coisa que não lhe agradasse, saberia como cuidar disso.

 

- O Sr. Wechsler manda perguntar se a senhora pode almoçar com ele hoje. No Bistro Gardens. - Ficou cogitando por que ele mesmo não lhe telefonava, e por que recebia um convite tão conciso. Talvez fosse para a participação num filme, embora agora ele fizesse muito menos cinema. Nos últimos dez anos, os maiores sucessos de Melvin Wechsler tinham sido na TV, mas alguns filmes ele ainda fazia. Mel sabia que ela não gostava de TV. Aliás, todos sabiam que Sabina tinha essa aversão. Televisão era merda, repetia sempre que tinha oportunidade. Era Sabina Quarles, não fazia TV. Dizia isso ao seu empresário toda vez que ele mencionava o assunto, e já não o mencionava com muita frequência. Tinha mais sorte quando falava com ela sobre anúncios como o dos casacos de zibelina. Estes tinham um toque de classe, e até onde ela estava interessada, televisão não tinha. Mas Mel Wechsler tinha classe. E ela não programara nada para a hora do almoço. Eram 10:45. - Treze horas está bem? - Nunca passaria pela cabeça da garota que Sabina pudesse dizer não. Ninguém jamais tinha dito. E se tinha, bem pouca gente, e nunca atores.

 

- Treze e quinze. - Sabina parecia divertir-se. Era uma jogada que todos praticavam em Hollywood, ela era mais dura do que essa moça, e as duas sabiam disso.

 

- Está ótimo. No Bistro Gardens - repetiu a secretária, como se Sabina pudesse esquecer.

 

- Obrigada. Diga a ele que vou estar lá.

 

Pode apostar seu rabo como vai, queridinha, a garota pensou enquanto desligava e tocava a cigarra para o Sr. Wechsler. A secretária do outro lado tomou nota: Sabina Quarles ia encontrá-lo às 13:15, e Wechsler pareceu satisfeito quando ela lhe passou o recado.

 

Por seu lado, Sabina também parecia satisfeita. Mel Wechsler. Agora que pensava nisso, deu-se conta de que não o via há séculos. Há dez anos a levara à noite do Oscar. Sempre achara que Mel se sentia mais fortemente atraído por ela do que demonstrava, mas eles não tinham levado o assunto adiante.

 

Encaminhou-se para o quarto de vestir, um cubículo espelhado que levava a um banheiro minúsculo, e entrou no chuveiro, abrindo as torneiras com mãos hábeis. O formigar da água quente produziulhe uma sensação boa na pele cheia de óleo. Lavou a cabeça ao mesmo tempo, calculando o que devia vestir para almoçar com Melvin Wechsler. Tudo dependia do que ele tinha em mente: emprego ou alguma coisa pessoal. Não tinha muita certeza de que personagem devia representar para ele, se a estrela famosa em ascensão ou a mulher ardente, prática, e depois riu. Podia ser as duas. Chamava-se Sabina Quarles, afinal de contas, era esguia e magra, loura e bonita. Ele podia fazer muito por ela, de inúmeras maneiras; Sabina sabia disso.

 

Deixou escorrer a água gelada sobre a pele antes de sair do banho, e seu corpo inteiro formigava quando se enxugou e depois passou o pente pelos longos cabelos. Se não se olhasse com muita atenção, achou, podia passar por 25... 28?... 29 anos... Sorriu. Não se importava nem um pouco. Quatorze ou 98, tudo caía bem nela. Ia almoçar com Melvin Wechsler.

 

Sabina entrou no elevador com a aparência descontraída. Apertou o botão para a garagem e a pequena gaiola de metal sacudiu enquanto descia. Só agora ela pensou na hipótese de ser abordada ou atacada por alguém, e a única coisa com que tinha de se preocupar era que lhe ferissem o corpo ou o rosto. Podiam levar tudo o mais que tivesse com ela. Raramente trazia muito dinheiro consigo, e não possuía jóias de alto valor. O que quer que tivesse conseguido durante anos, vendera. Para ela o dinheiro tinha utilidades mais importantes.

 

Seu carro era um pequeno Mercedes prateado 280 SL, modelo já fora de fabricação e muito procurado. Era rápido, mas obviamente usado, como muitas das coisas de Sabina. As roupas lhe caíam bem, e comprava-as pelo que a enfeitavam. Não estava interessada na última moda. Vestia saia de seda branca aberta até bem alto na coxa, e uma blusa azul-profundo que valorizava o seu bronzeado e a cor do cabelo. Os quatro primeiros botões deixara-os abertos e a separação entre os seios revelava o suficiente para despertar qualquer homem e deixá-lo próximo da incoerência. Tinha secado os cabelos, escovando-os bem, e jogado para trás numa cascata saudável. As unhas das mãos e dos pés eram muito bem tratadas e pintara-as de vermelho-escuro. Usava sandálias brancas, de salto alto. O carro deu a partida num rugido e saiu da garagem, voando na direção do Bistro Gardens.

 

Em Wilshire, virou violentamente à direita, e depois virou de novo, quase instantaneamente, passando entre os altos portões de ferro da aléia de Beverly Wilshire, e se acomodou entre os dois prédios como se fosse um diamante entre os dois seios, brilhando ao sol. Continuou sentada no carro, esperando que o porteiro viesse atendê-la, o que ele fez com um sorriso caloroso. Ele a conhecia há anos. Gostava de guardar-lhe o carro, porque ela dava boas gorjetas e era uma mulher danadamente bonita. Só olhar para ela fazia com que se sentisse bem. Abriu a porta e Sabina desembaraçou as pernas do carro minúsculo. Como sempre, dirigira com a capota arriada.

 

- Boa tarde, Srta. Quarles. Vai almoçar aqui hoje?

 

Ela mostrou aquele sorriso que exibia para todos os homens e os fazia esquecerem até as palavras que diziam.

 

- Não muito longe daqui. Você pode guardar o carro para mim?

- Era uma pergunta retórica. Ele sempre se sentia satisfeito ao ajudar Sabina Quarles. E apreciava a oportunidade que tinha de desfrutar aquela visão.

 

- Certamente. Vejo a senhorita daqui a pouco. - Entregou-lhe o bilhete e ela se afastou com um sorriso que o fez sentir-se sexy e importante. Ficou com os olhos fixos nas suas costas até que ela dobrou à direita saindo da aléia e não pôde mais vê-la. Tinha a impressão de assistir a um excelente balé quando via aquele traseiro ondular na saia branca. Sabina teria ficado satisfeita se tivesse visto o efeito que causara nele e em outros quatro homens, que simplesmente ficaram admirando-a, o olhar parado, em silêncio. Apenas um deles a reconheceu, mas isso não tinha importância. Os homens sempre observavam Sabina, fosse ela quem fosse, por causa da sua aparência, da maneira como andava e da presença imensa que tinha. Na realidade, era uma grande vergonha que sua carreira tivesse emperrado desde o último filme. Tudo o que precisava era do papel certo. E do produtor certo.

 

Esperou que o sinal abrisse em Wilshire Boulevard, e atravessou para onde ficava o Brown Derby logo que chegara a Hollywood. Passou por ali depressa, com um destino em mente. Faltavam dez para uma, sabia que tinha de se apressar. Mas seu traje precisava de alguma coisa mais, e sabia exatamente o que era. Quase tudo o que Sabina fazia era fruto de um cálculo cuidadoso.

 

Ficava apenas a alguns passos da esquina o toldo listrado de amarelo e branco que todos conheciam em Rodeo Drive: Giorgio’s, o bazar sagrado das mulheres mais glamourosas de Hollywood. Entrou apressada pela porta da esquina e foi direto para o porta-chapéus do outro lado do bar, enquanto o garçom a olhava apreciadoramente.

- Quer beber alguma coisa, madame? - O sotaque era francês, e ele devia ficar arrasado com as belezas que via com frequência. Mas Sabina estava dentre as melhores. Ela sorriu e recusou a bebida, enquanto experimentava dois chapéus, e achou exatamente o que queria assim que a vendedora se aproximou. Olhou para Sabina durante um momento, sabendo que devia conhecer-lhe o nome, mas não estava bem certa de quem era. Sabia que já a tinha visto antes, mas Sabina ficara afastada do Giorgio’s durante muito tempo. O bazar era caro para ela, e comprava vestidos lá quando surgia alguma coisa importante, como no tempo em que tinha ido com Mel à noite do Oscar, mas não a viam mais do que uma vez por ano, se tanto. E então, subitamente, a vendedora soube quem ela era. Achava difícil lembrar todas essas mulheres. Nem sempre eram rostos fáceis de reconhecer, mas lembrou-se de Sabina.

 

- O que deseja, Srta. Quarles?

 

- Vou levar este chapéu - Sabina parecia satisfeita. Caía bem sobre o rosto, baixo o suficiente para lhe dar uma aura de mistério, destacando a sexualidade inata, mas não tão baixo a ponto de obscurecer seus notáveis olhos cor de esmeralda. Na verdade, permitia-lhe brincar com eles. Era grande, de palha natural, com uma aba larga, o formato servia muito bem para ela. Era bem o acessório que tinha em mente, e, junto com a blusa de seda azul-profundo, a saia de fenda generosa e a aura do perfume que usava, servia-lhe muito bem. Agora faltavam cinco minutos para uma hora.

 

- Posso lhe mostrar mais alguma coisa? Umas sedas lindas que acabaram de chegar, alguns vestidos de noite maravilhosos para o outono. - Uma simples venda de 50 dólares parecia pouco para a vendedora, mas era exatamente o que Sabina tinha planejado. Mel ia gastar mais do que isso no almoço. E quem sabia o que ele tinha na cabeça? Cinquenta dólares não era muito para investir na carreira. Podia gastar isso.

 

- É só, obrigada.

 

- Nossos Jacqueline de Ribes estão em... - Sabina sorriu, era-lhe fácil rechaçar a mulher, que não ia conseguir nada com ela.

 

- Acabei de comprar três no Saks na semana passada. - Três Jacqueline de Ribes teriam representado metade de sua renda do ano anterior, mas a vendedora não pareceu ficar abalada com o golpe.

 

- Temos alguns exclusivos, feitos só para nós. Na verdade, Fred escolheu-os diretamente em Paris. - O ilustre Fred Hayman era empresário das melhores lojas de Rodeo Drive, mas mesmo a menção do seu nome sagrado não a impressionou. Sabina olhou o relógio: 13:10.

 

- Tenho de ir. Depois do almoço eu volto. - Ou no próximo ano. Ou talvez na semana que vem, se ele tiver uma grande participação para mim no próximo filme. Seus olhos mostravam uma resolução que não se podia combater. Dizia: me venda este maldito chapéu ou eu me mando. Mas desejava o chapéu para o almoço com Mel, precisava dele. E a moça sabia quando não devia insistir.

 

- Claro, Srta. Quarles. Conviria reservar-lhe algumas peças? Cristo, elas nunca desistem, pensou enquanto a moça finalmente partia com o chapéu para uma caixa registradora escondida. Eram treze e quinze quando ela voltou, e Sabina ajeitou-o cuidadosamente, no ângulo certo, e sacudiu o cabelo para trás. O efeito era espetacular, e mais de uma cabeça se voltou quando ela saiu da loja e se apressou de Rodeo para Beverly e depois mais um quarteirão para North Canon. Eram exatamente 13:21 quando chegou ao Bistro Gardens e entrou às pressas, com aparência forte e linda, sob os olhares fascinados das pessoas que se viravam para vê-la. Era um hábito que os frequentadores tinham, assegurar-se de que não estavam perdendo ninguém... Gregory Peck... Elizabeth Taylor... Meryl Streep... ”Olha ali, Jane...” Os sussurros eram constantes. Mas desta vez o pessoal só olhava para ela, sem comentar, e depois afastava os olhos de novo, enquanto o maitre vinha rápido na sua direção, abrindo caminho entre as mesas do lado de fora. A exuberância das flores coloridas acrescentava elegância à decoração, enquanto guarda-sóis vivamente listrados protegiam as mesas do sol da tarde.

 

- Madame? - era uma pergunta e uma afirmação ao mesmo tempo, que fazia sorrir.

 

- Vim me encontrar com Melvin Wechsler para almoçar - explicou ela, os olhos esquadrinhando o rosto do maitre, como se estivesse testando o efeito do chapéu. Sabia que estava dando bom resultado. Acrescentara-lhe a aura de mistério e ostentação que desejara. Sua aparência era espetacular. E a distância, numa mesa tranquila, Melvin Wechsler a observava. Observava as pernas esguias caminhando graciosamente, o busto firme dentro da blusa azul, os olhos meio ocultos sob o chapéu. Cristo, Sabina tinha presença. Ele sabia que tinha. Lembrava disso. Era exatamente o que queria. Exatamente. E sorriu para si mesmo quando súbito ela parou ali, baixando os olhos para ele, sexy como sempre fora, talvez com uma aparência ainda melhor que antes - ou ele estaria amolecendo? Será que estrelas veteranas estavam a lhe despertar o interesse? Mas esta não era uma ex-rainha de beleza. Sabina Quarles era uma mulher para ser lembrada como mulher, um grau 9,9 na escala Richter; podia sentir seus próprios órgãos estremecerem quando a olhava, e ficou satisfeito. Levantou-se e estendeu a mão. Seu braço era comprido e forte, o aperto de mão firme; tinha olhos azuis-claros, e uma cabeleira branca muito bem cortada. Mel Wechsler estava com 55 anos e exibia o corpo de um homem muito mais jovem, o que é comum em Hollywood. Fazia parte dos que tinham sorte. Jogava ténis todos os dias, ou pelo menos com tanta frequência quanto possível e, como Sabina, submetia-se a massagem várias vezes por semana. Contudo, ainda não tinha feito nenhuma plástica. Parecia muito bem para a idade, e, a não ser pelos cabelos brancos, podia descontar facilmente dez anos se quisesse, o que não queria.

 

- Olá, Sabina, como tem passado?

 

- Peço desculpa por estar atrasada. - Sorriu, e a voz parecia mais profunda, mais sexy do que lembrava. E teve uma visão encantadora na abertura da blusa quando ela se sentou. - O tráfego nesta cidade está ficando ridículo. - Principalmente quando se pára para comprar um chapéu no caminho, ela sorriu para si mesma. Mel a observava, lembrando aquele toque felino de Sabina, um gato comprido, esguio, bonito, espreguiçando-se ao sol. - Espero que você não tenha esperado muito.

 

Os olhos azuis de Mel mergulharam profundamente nos dela. Ele a observava sempre, avaliando, como se tivesse alguma coisa muito importante a expressar. Deu um sorriso que há anos vinha derretendo o coração das mulheres, e se não derretia o coração, pelo menos lhes minava a resistência. Era um meio-sorriso, um sorriso que lhe assomava aos lábios, ainda que os olhos muitas vezes estivessem sérios, como agora.

 

- Na vida algumas coisas valem a espera.

 

Ela riu. Lembrou-se de como sempre gostara de conversar com ele e ficou calculando por que não lhe telefonara durante tanto tempo. Seus caminhos se cruzavam uma vez ou outra, mas não com muita frequência.

 

- Obrigada, Mel. - ofereceu-lhe uma bebida e ela escolheu bloody mary depois de pensar um momento, notando a seguir que ele bebia água mineral. Não combinava com os padrões de Hollywood. Havia muita substância no homem, que alcançara sucesso com esforço e genialidade absolutos para os negócios. Possuía um toque mágico para selecionar elencos para espetáculos de televisão e filmes. Raramente errava. Era uma das muitas coisas que admirava nele. Melvin Wechsler era um profissional. E era também um homem sobremaneira atraente. Sabia que ele tivera um caso firme com uma das grandes estrelas de Hollywood alguns anos antes. Tinham sido inseparáveis, e ele a colocara em três de seus filmes, mas alguma coisa não dera certo na relação e não se viam mais. Como todas as outras pessoas na cidade, Sabina sempre tinha cogitado sobre o porquê do rompimento, porém ele jamais mencionava a questão, e Sabina gostava dessa atitude. Tinha orgulho. Tinha firmeza. E classe. Não era de lamber as feridas em público. Até mesmo a maior tragédia da sua vida era algo para manter em segredo. Especialmente isso. Sabina só sabia do caso pelo que tinha lido, pelo que ouvira dos amigos. Ele fora casado com Elizabeth Floyd, uma das maiores estrelas de Hollywood no seu tempo, há uns 30 anos. Conheceram-se quando ele chegara à cidade e ainda engatinhava para subir na MGM. Era o garoto de cabelos dourados da companhia, ou tornou-se isso alguns anos mais tarde, de qualquer maneira. E ela ”caiu” por Mel, apaixonou-se por ele. Casaram alguns anos depois, e Elizabeth logo se afastou, ostensiva mas apenas temporariamente, para ter o primeiro filho. O fato é que acabou tendo gémeos, duas meninazinhas idênticas, parecidas com a mãe, e Liz ficou em casa para cuidar delas.

 

Dois anos depois tiveram um menino, e vez por outra eram vistos aqui e acolá. Mel mantinha-os afastados da imprensa, embora não fosse fácil para Liz. Era tão bonita que os fotógrafos a seguiam sempre. Sabina lembrava dela na época em que chegou a Hollywood. Naquela ocasião ela já se havia afastado, mas, por Cristo, como era bonita com seus cabelos ruivos naturais, os grandes olhos azuis, a pele branca, o sorriso estonteante - uma figura que fazia os homens chorarem. Envolvera-se então na luta feminista pelos direitos das mulheres e se dedicava a todo tipo de filantropia. Finalmente comprara uma casa em Bel Air e um sítio perto de Santa Bárbara. Mel fazia o pai de família perfeito, e não era difícil acreditar, não importa quantas atrizes jovens tivessem saído com ele nesse meio tempo. Havia alguma coisa de paternal no homem, e todos diziam que trabalhar com ele era como se tornar parte da família. Preocupava-se com as pessoas que participavam dos seus espetáculos. Mel Wechsler cuidava de todos, como cuidava da família. Fora fabuloso, havia adorado Liz e os filhos. Iam juntos à Europa anualmente, e em 1969 levou-os todos a Israel. Fora uma viagem inesquecível, e ele ficou furioso quando teve que voltar para Los Angeles para uma conferência que uma rede de televisão realizava, insistindo que ele participasse. Deixara as crianças e Liz em Tel Aviv, e prometera voltar dentro de quatro dias, mas uma vez tendo chegado, as coisas em Los Angeles ficaram mais complicadas do que esperava. Havia um problema importante a resolver, e ele não se sentia muito seguro. Finalmente desistiu de voltar a Israel, e insistiu com Liz que viesse embora. Ela concordou, porém queria ficar em Paris por alguns dias, como tinham planejado no início da viagem. Não queria decepcionar os filhos. Embarcaram num voo da El Al. Nessa mesma hora, Mel, que estava numa reunião com a rede, tivera uma estranha sensação no íntimo. Olhara para o relógio, constatando que seria muito tarde para telefonar. Queria aconselhá-los a embarcar num avião da Air France, ou de qualquer outra companhia, mas logo reprovou-se por estar preocupado sem razão... até receber o telefonema... O Departamento de Estado ligou antes de ele ouvir o noticiário. Sete terroristas árabes tinham embarcado e explodido a aeronave, arrastando para a morte, com eles, todos os passageiros e a tripulação. Duzentos e nove pessoas mortas... e Liz, Barbie, Deborah e Jason... Ficou como um zumbi durante semanas, incapaz de acreditar que aquilo tivesse realmente acontecido com ele... Se ao menos não os tivesse deixado... Se ao menos não tivesse voltado... Se ao menos tivesse telefonado antes... Os ”se ao menos” daquele dia o assombraram durante anos. Foi um pesadelo do qual achava que nunca ia acordar, e tudo o que queria era ter morrido com eles. Tinha sonhos aflitivos sobre aquele voo, e durante quase dez anos não entrou num avião. Mas já não havia como recompor o passado. Não havia retorno. Barbie e Deb estavam com doze, Jason com dez anos. Parecia o tipo de coisa que só se lê nos jornais. Mas tinha acontecido com ele. A família varrida da face da terra por uma bomba terrorista, e de muitas maneiras acontecera o mesmo com sua vida. Mergulhara no trabalho, e os atores com quem trabalhava tornavam-se seus filhos. Mas não o eram de verdade... e nunca haveria outra Liz. Nunca. Nunca mais existiria alguém como Liz, e ele não queria que existisse. Mesmo agora vivia imerso em recordações. Houve muitas mulheres, claro, embora tivesse levado muito tempo para chegar a elas. Finalmente chegou, e só um caso fora mais sério. Nunca mais voltara a se casar, e sabia que nunca o faria, já não tinha motivo para fazê-lo. Tivera tudo, perdera tudo. Isso o tornou filosófico em relação à vida e crítico quanto à banalidade de Hollywood. Podia dedicar-se, porém não seriamente. Era um negócio de que cuidava, um jogo que jogava bem. Contudo, havia uma porta para o seu coração, e ele jamais voltaria a abri-la. Tinha se fechado quando recebera aquele telefonema de Paris. Não era insensível à beleza que o cercava todos os dias, e apreciava a companhia das mulheres com quem saía, mas havia sempre o momento da verdade, quando voltava para casa à noite, ou quando elas o deixavam no dia seguinte... Aquele momento em que ficava sozinho... aquele momento em que ficava sozinho com as suas recordações. Era por isso que trabalhava com tanto afinco. Era uma fuga fácil, e que com ele dava certo. Mas uma parte do seu coração tinha morrido com a mulher e os filhos.

 

- O que é que você tem feito ultimamente? - Sorriu lentamente para Sabina por sobre as bebidas. Sabina lembrara a tragédia da vida dele. Mas isso tinha acontecido há tanto tempo e ele não externava seu sofrer. Nunca mencionava a mulher ou os filhos, a não ser com amigos muito, muito íntimos. Todos se sentiram arrasados com o desastre. Houve um culto em memória no Templo Stephen Weise em Mulholland, a que compareceram literalmente milhares de pessoas. Não houve sepultamento, não encontraram corpos para a companhia aérea entregar. Não restara nada. Apenas ar. E dor. E recordações interrompidas. E lamentos. - Ouvi dizer que você fez um filme muito bom no ano passado. - Ouvira mais do que isso. Que tinha sido um fracasso de bilheteria, apesar das críticas favoráveis. Mas sabia do que Sabina era capaz. Já a vira em vários filmes. Sabia exatamente quem e o que ela era. E a queria. Muito mais do que ela supunha. Não precisava ter comprado aquele chapéu, mas apreciava o efeito enquanto a observava com um brilho nos olhos. - O trabalho o trouxera de volta à vida, o trabalho que amava e através do qual vivia. Sofrera com a tragédia da perda por tempo demais, agora pusera seus sentimentos de lado, usufruía de uma relativa paz. Não deixara que a dor lhe governasse a vida. Mas o trabalho sim, gostava dele a seu modo, e agora estava pensando em Manhattan, como se chamava o trabalho atual, e Sabina era perfeita para ele.

 

Sabina sorriu ante o otimismo da observação. Só Mel podia dizer uma coisa assim. Era sempre um cavalheiro. Podia dar-se ao luxo de ser. Estava no topo. No auge. Era dono do mundo em que vivia, e a rede de televisão beijava-lhe os pés pelos sucessos que produzia. Fazia uma fortuna para todos - para si mesmo, para as redes, os patrocinadores, os atores na maioria das vezes. E era generoso na maneira de lidar com todos eles. Não precisava forçar ninguém. O que o tornava desejável de todas as maneiras, e Sabina não pensava apenas na carreira dele enquanto o olhava por cima do copo com um sorriso que destacava a generosidade dos seus lábios.

 

- O filme foi uma bomba. Talvez bonita, mas de qualquer forma uma bomba.

 

- Você recebeu críticas favoráveis. - Ele estava ganhando tempo.

 

- Esse é que é o problema. Críticas favoráveis não pagam o aluguel. - Nem as outras despesas.

 

- Às vezes pagam.

 

- Diga isso aos caras que fizeram os filmes. Eles querem boas bilheterias, não importa o conteúdo. E os críticos que se danem. Ambos sabiam que, de certo modo, era verdade.

 

- Isso é que é bom na TV. - Não houve mudança de expressão na sua fisionomia embora soubesse que estava caminhando em campo minado quando uma das sobrancelhas de Sabina se levantou. - Os

índices de audiência significam muito mais do que as críticas para os

filmes. - Na verdade, significam tudo.

 

Ela deu a impressão de estar aborrecida.

 

- Os índices de audiência não refletem nada verdadeiro e você sabe disso tão bem quanto eu, Mel. Refletem um bocado de caixas pretas ligadas a aparelhos em lares de idiotas desmiolados. E todos vocês babam ou estremecem de medo com o que os índices vão causar. Me dê um filme qualquer dia.

 

- Ainda se sente do mesmo jeito sobre a TV? - Parecia gentil e tranquilo quando pediu outra água mineral.

 

- É um mundo de merda. - Sob o chapéu, os olhos faiscaram. Sempre detestara a TV. E repetia isso para ele toda vez que se encontravam. Ele sorriu.

- Mas é merda lucrativa.

 

- Pode ser. Dou graças a Deus por nunca ter me prostituído por causa desse lucro. - Parecia satisfeita consigo mesma, e se sentia um pouco decepcionada. Mas ainda não tinha lido o roteiro de Manhattan. Ele sabia que se conseguisse fazê-la ler, tudo mudaria.

 

- Existem coisas piores, Sabina. Você sabe tão bem quanto eu que uma porção de filmes não valem a película em que são revelados.

 

E não são mais gratificantes do que aparecer como um camafeu num salão comunitário.

 

Sabina dava a impressão de se sentir ultrajada.

 

- Isso é ridículo, Mel. Não se pode comparar filmes com TV.

 

- Eu posso, e provavelmente melhor do que qualquer outro, porque estou envolvido nos dois. Ambos são gratificantes, embora muito diferentes. Há mérito nos dois. Não há nada melhor do que um seriado de TV realmente bom. Dá mais satisfação aos atores do que Gable teve ao fazer...E o vento levou. - Os dois sorriram ante a comparação. - Agora há um filme para você, Sabina. - Ele riu com a ideia. Levara-se a sério quase todo o tempo, mas Mel tornava mais fácil rir de si mesma. Tinha uma queda para descontrair as pessoas, fazendo com que se sentissem à vontade, fazendo-as rir... fazendo-as sentir-se importantes... e bem-sucedidas.

 

Ele tinha pensado seriamente em Sabina antes do almoço. Há anos que estava em Hollywood, pelo menos vinte, talvez 25. E tendo investido tantos anos no negócio, merecia mais reconhecimento do que vinha recebendo. Era uma coisa que Mel Wechsler, ou pelo menos Manhattan, podia lhe dar.

 

- Pergunte a qualquer ator no negócio, Sabina, que tenha feito um espetáculo de longa duração na TV, pergunte a ele como se sente a respeito disso. Você tem oportunidade, semana após semana, de encontrar um tipo de substância, de aprimorar a personagem, o desempenho. Diabos, metade dos atores que participam nesses espetáculos acabam escrevendo ou dirigindo, tão envolvidos ficam nas tramas do vídeo.

 

- Provavelmente fazem isso por autopreservação. - Mirou-o por baixo da aba do chapéu e riu.

 

- Acho que ninguém jamais a acusou de ser teimosa, não é?

 

- Só meu empresário.

 

- Nenhum ex-marido? - Tinha esquecido dessa faceta em Sabina, mas quando sacudiu a cabeça, lembrou. Era uma alma solitária, como muitas mulheres de sua classe e tempo no negócio de representar. Ficavam tão envolvidas consigo mesmas, com o trabalho e com a aparência, que lhes faltava tempo para desperdiçar com um marido. E se o fizessem, raramente era por mais de uma estação. Foi o que o aborrecera nela quando se conheceram, o fato de nunca se ter casado. Tinha a impressão de dar preferência a mulheres capazes de relacionamentos a longo prazo, e também de gerar filhos. Satisfazia-lhe uma necessidade que já não conseguia satisfazer. Não queria outra família, não sobreviveria a outra perda como a primeira, mas adorava estar com os filhos de outras pessoas à sua volta.

 

- Nunca encontrei um homem que me tentasse a ficar com ele.

 

- Estava sendo honesta. Sabina não enganava sobre quem era, para onde ia o que desejava. E de fato sentia-se satisfeita com o seu tipo de vida.

 

- Isso não é lá muito lisonjeiro para os homens que você conheceu. - Os olhos se encontraram e ficaram presos um no outro. Pediram o almoço quando o garçom voltou, e orientaram a conversa para assuntos menos complicados. Ele não tinha planos para as férias de verão. Há muito tempo vendera o sítio perto de Santa Bárbara, e quando sentia necessidade de uns dias de descanso, alugava uma casa de praia em Malibu, e passava o tempo lendo argumentos e relaxando Mas agora não tinha tempo. Vinha participando de reuniões com a rede de televisão há semanas, e tinha um trabalho sério para fazer. Estava escolhendo o elenco para Manhattan, seria o espetáculo mais importante do seu tipo, um seriado como nunca houvera outro antes.

 

- E você, Sabina, não pretende viajar?

 

Sacudiu a cabeça e pareceu alheada enquanto brincava com a salada, e depois reergueu os olhos para ele por baixo do chapéu. Por um instante pareceu vulnerável, de um jeito que ele nunca percebera antes. Era um olhar que lhe dava vontade de gritar - ”Congela, enquadra”, para imobilizar a ação e mantê-la olhando daquele jeito para sempre. Mas desapareceu no momento em que ela sorriu e balançou os belos ombros.

 

- Tenho que ir a San Francisco por alguns dias. Exceto por isso, vou ficar por aqui o verão inteiro. - Mel sabia que ela não estava trabalhando, nem tinha projetos ou objetivos desde o filme do ano passado. Conjeturou se não andaria desesperada por não ter feito o filme melhor do que fizera. Ou talvez estivesse contente consigo mesma. Era difícil acreditar nisso quando se tratava de uma mulher como Sabina. Ele tinha esperanças de que Sabina se sentisse pelo menos um pouco inquieta com a sua carreira.

 

Esperou até que o café viesse, e depois, carinhosamente, tocou de leve no assunto.

 

- Estava esperançoso de que você lesse um argumento para mim. Os olhos dela se iluminaram lentamente, chegando a um brilho caloroso. Tinha esperado alguma coisa assim. Ou isso, ou que ele quisesse sair de novo com ela. Também estaria disposta a aceitar esta possibilidade. Na verdade, havia de gostar, e não tinha muita certeza de qual opção preferia, ou se ainda podia ter as duas: Mel, e uma participação no seu próximo filme. Mel agora fazia filmes raramente, o que tornava mais lisonjeiro que tivesse pensado nela. De qualquer maneira se sentiria feliz, embora precisasse trabalhar, e conjeturava se ele sabia disso. Hollywood era uma cidade pequena, e o que as pessoas não sabiam, suspeitavam, imaginavam ou fuxicavam. Era uma cidade cheia de fofocas, boatos e segredos mal guardados.

 

- Gostaria muito. Imagino que você esteja preparando um novo filme.

 

- Não é bem isso. - Não tinha motivo para mentir-lhe. Trazia o argumento na maleta sob a cadeira, esperando entregá-lo depois do almoço se ela concordasse em ler. - Estou preparando um novo seriado.

 

Os olhos verdes se fecharam num minuto como as portas gémeas da Cidade das Esmeraldas.

 

- Bem, isso me deixa de fora.

 

- Esperava que ao menos você lesse, Sabina. Não vejo mal nisso. - Sua voz era firme, embora suave, e havia algo de muito sedutor nele. Podia sentir a força do homem, apenas sentada perto dele à mesa, com os cafés expressos.

 

- Você é um homem muito persuasivo, mas estaria perdendo seu tempo e eu o meu - Tentou dar a impressão de delicadeza, mas era óbvio que não tinha interesse no seriado.

 

”Posso perder tempo” ele teve vontade de dizer, ”e você também”. Mas ficou calado.

 

- Quanto tempo demora para ler um argumento? E se for bom, como acredito que seja, acho que você não vai lamentar - disse afinal. Ela sorriu e sacudiu a cabeça com um olhar divertido.

 

- Por você, Mel, sou capaz de fazer quase tudo, mas não isso. Eu sei o que você quer. Você quer que eu me apaixone pelo enredo, mas não vou fazer isso.

 

- E se acaso se apaixonasse?

 

- Ainda assim não vou fazer isso.

 

- Por que não?

 

- Talvez possa parecer loucura, mas é uma questão de princípios, suponho. Não quero fazer TV.

- Você não está agindo no seu próprio interesse, Sabina. Não lhe teria pedido para vir aqui se não soubesse que este papel é perfeito para você. A personagem é tão parecida com você que podia ter sido moldada no seu corpo. Vejo-a e estou vendo Eloise Martin. O seriado vai chamar-se Manhattan e não é apenas mais um seriado. Está cheio de glamour, é importante, é valioso. Vai afetar a indústria da televisão americana como nenhum outro espetáculo fez antes, e eu sei que você é a pessoa certa para o papel. Poderia ter telefonado ao seu empresário em vez de convidá-la para vir aqui. Poderia ter acenado para seu empresário com dólares e contratos, mas não quis fazer isso. Quero que você se apaixone por esta mulher, que veja o que eu faço, e o quanto ela tem de você... e depois podemos falar do resto. Compreendo e aprecio a sua integridade, creia... mas vejo alguma coisa mais. Vejo a longo prazo, e o que este papel pode fazer por você. Por sua carreira. Daqui a um ano você pode ser o nome mais importante deste país. É difícil imaginar isso agora, mas sei que o espetáculo tem este tipo de impacto. Não tenho errado muitas vezes nos últimos anos, vou bater na madeira - bateu na mesa e sorriu para ela -, e sei que não estou errado desta vez. Desejo realmente que você leia. O seriado pode levantar sua carreira, e Sabina, você merece isso. - Sentia-se que havia sinceridade em cada palavra dele, mas Sabina ainda não parecia convencida quando ele parou de falar.

 

- E se for um fracasso?

 

- Não vai ser; e se for, não será pior do que o último filme que você fez. E daí? Você supera tudo, você continua. Nós todos sobrevivemos. Mas não vai ser um fracasso, Sabina. Vai ser um sucesso de deixar todo mundo sem fôlego neste país. É dramático, é duro, é brilhante. Não piegas nem engraçado, nada do que se fez chega aos pés deste trabalho. E uma vez por semana, sessenta milhões de pessoas vão estar vendo-a, Sabina. Vendo você, saboreando-a. Sua vida nunca mais será a mesma. Nunca. Tenho certeza absoluta como a de estar sentado aqui. - Parecia tão convincente, tão seguro, que por um minuto ela ficou tentada a ler, só para acabar com aquela insistência, só para ver o que ele estava elucubrando e se supunha ser tão diferente. Diabos, não tinha nada para fazer exceto deitar no terraço, ir à piscina e esperar o telefone chamar. Que mal poderia haver se lesse, afinal de contas? E enquanto pensava nisso, ela sorriu subitamente, e riu alto enquanto olhava para Mel Wechsler.

 

- Não é de admirar que você faça tanto sucesso, Mel, você é um diabo de vendedor.

 

- Não devo mesmo me empenhar tanto, Sabina. Você vai compreender isso depois de ler. Manhattan é você, do princípio ao fim.

 

- Você está fazendo um programa piloto? Desta vez foi ele quem riu.

 

- Você não me lisonjeia muito, minha querida. Nem a rede de TV é tão cruel assim. Não, não estou fazendo um programa piloto.

- Ele era tão seguro de si que ninguém suporia que Mel Wechsler fizesse um programa piloto. - Vamos começar com um especial de três horas na noite da abertura, e prosseguir depois com um programa de uma hora por semana. Queremos começar com banda de música e foguetório, assim é que vai ser.

 

- Posso ler. Mas não quero enganar você, Mel. Nada mudou ainda no que sinto pela TV.

 

- Está bem. - Estendeu a mão para baixo da cadeira, voltando com o argumento para o especial de três horas. - Isso é bastante justo. Só ficaria muito agradecido se você lesse. - Agradecido. Era uma escolha inteligente de palavras, e tão próprio de Mel. Agradecido. Ele estava agradecido, e ela com muita sorte. E os dois sabiam disso. Vou ficar muito interessado em saber o que você acha isso. Deus sabe que já lemos argumentos suficientes para sabermos onde temos o nariz agora. - Sempre a estava incluindo na especialidade dele e não era por acaso. Subitamente ficou muito consciente de como ele era habilidoso. Na verdade, no seu ramo, era um génio com as pessoas. E ela gostou de ter almoçado com Mel. Tanto que esperava que ele a convidasse outra vez. Pelo menos se lesse o argumento, tinha uma desculpa para vê-lo. - Também não devia tentar você, e você provavelmente não dá a menor importância, mas quem vai desenhar o guarda-roupa é François Brac. Em Paris. Seja lá quem for que faça o papel de Eloise, vai passar um mês em Paris para as provas no ateliê dele, e depois vai poder ficar com o guarda-roupa - Contra a sua vontade, Sabina pôde sentir um brilho nos olhos. Era uma oferta danada de boa, para não falar no dinheiro que provavelmente ia receber. Resolveria seus problemas por um bocado de tempo. Talvez até para sempre.

 

- Não torne as coisas tão tentadoras, Mel. - Ela riu o seu riso apaixonado, e ele sentiu um estranho arrepio, tanto pela perspectiva de vitória que esperava alcançar ao cortejá-la para o papel, como por estar com ela. Sabina era uma mulher muito excitante, e por isso ele a queria para o seu programa. Sempre se sentira assim em relação a ela, e sentiu aquilo de novo. Mas por enquanto teve de lembrar a si mesmo que a queria para o programa, e não apenas para se divertir.

 

- Posso tornar a proposta ainda mais tentadora, Sabina. Mas primeiro quero que você leia o argumento. - Estava agora a atiçá-la, e neste jogo ele era bom.

 

- E eu pensando que você tinha me convidado para almoçar porque de repente descobrira que eu era o amor da sua vida. - Ela estava brincando, mas seus olhos mostravam um carinho que quase o engasgava, e durante um longo momento ele não respondeu.

 

- Gostei muito de ver você outra vez, Sabina. - A voz estava calma, e ela sabia que Mel queria dizer isso mesmo. E também tinha gostado muito, quer apreciasse o argumento ou não, e quer algum dia resolvesse abandonar ou não sua posição rígida a respeito de fazer televisão. No momento, isso realmente não importava. - Me telefona quando tiver lido.

 

- Telefono, sim.

 

Rabiscou o número do telefone de sua casa num cartão e chamou o garçom para pedir a conta. Sabina estava triste ao ver que o almoço tinha terminado. Gostara muito de estar com ele.

 

- Por falar nisso, quem mais você convidou até agora?

 

- Mais ninguém. - Olhou-a bem nos olhos. - Estou começando com o papel mais importante. Preciso preencher este antes de cuidar dos outros. Mas tenho algumas pessoas na cabeça. Estou pensando em Zack Taylor para o papel principal masculino, e acho que ele pode gostar. Sei que no momento está livre também. Está passeando na Grécia, mas volta dentro de algumas semanas e vou conversar com ele quando chegar.

 

Sabina não pareceu ficar insatisfeita. Zack Taylor era um dos atores de melhor aparência no país, e suas credenciais eram boas. Tinha feito de tudo, desde filmes teatrais até televisão para legitimar o teatro. Conseguira mesmo um grande sucesso na Broadway alguns anos atrás. Certamente seria um bom comparsa para quem quer que ficasse com o papel, e isso atraía Sabina. - Você prefere sempre o melhor, não é, Mel?

 

- Sempre. - Sorriu, pôs-se de pé e guiou-a gentilmente pelas mesas até saírem para North Canon Drive. Havia uma loja infantil ao lado, porém agora ele evitava olhar para coisas assim. Por isso concentrou o olhar em Sabina. - Adorei ver você de novo... e não só pelo programa... - Ela segurava o argumento na mão, e Mel agora carregava a maleta vazia. O carro esperava-o no meio-fio, um Mercedes 600 dirigido por um chofer que trabalhava para ele há anos. O 600 era dispendioso, imponente e discreto, como o próprio Mel. E tinha elegância. Exatamente como Mel. - Me liga, Sabina.

 

Os olhos verdes se fixaram nos dele por um intervalo demorado e ela sorriu, esquecendo completamente o argumento na mão. Por um instante tinha esquecido Manhattan, e tudo o que conseguia ver era Mel, e como era atraente. Era alguém que gostaria de conhecer melhor. - Eu ligo... - e então a mão envolveu o argumento. Ele lhe ofereceu uma carona, porém ela recusou com um sorriso que o fez desejá-la. Havia em Sabina algo que mexia com ele, uma sensualidade mesclada a uma reserva fria que o fazia ter vontade de rasgar-lhe as roupas para ver a aparência do resto. Suspeitava que seria intoleravelmente linda. E não teria dado a menor importância se não fosse.

 

Ela acenou enquanto se dirigia para Rodeo Drive, e ele a observou enquanto o carro se afastava do meio-fio e dobrava rapidamente na esquina, tirando-a do seu raio de visão. Pensar nela foi a assombração que sofreu a tarde inteira, deixando-o sem qualquer certeza do que queria dela. Se para o programa novo, para si mesmo, ou para ambas as coisas. Só sabia que não conseguia parar de pensar nela.

 

Bill Warwick comparecera a três entrevistas na mesma tarde em que Sabina estava caminhando de volta para Beverly Wilshire a fim de apanhar o carro e ir para casa nadar na piscina antes de ler o argumento de Mel para Manhattan. E ao contrário de Sabina e Mel, não estava com um humor agradável nem se sentia sensual, como se a vida tivesse alguma coisa excitante reservada para ele, fosse um papel ou um caso. Não fora aceito em nenhuma das três entrevistas e a última coisa que tinha em mente era ficar descansando. Tudo o que desejava era arrumar um emprego. Qualquer coisa. Sua fortuna agora eram oitocentos dólares num envelope na gaveta da escrivaninha, um cachorro que infelizmente comia demais e uma mulher que não trabalhava há quase um ano, embora tivesse um bom papel numa novela quando se haviam casado no ano anterior. Porém a novela terminara seis semanas depois, e ela não tinha sequer tentado conseguir um emprego desde então. Nada. Ficava sentada dia e noite, vidrada o tempo todo. Não faziam amor há quase dois meses e ela estava tão magra que parecia sofrer de anorexia. Começara usando pílulas para emagrecer havia anos, passara a estimulantes e metedrina, depois a depressivos e heroína, e finalmente cocaína; e agora estava usando bolinhas excitantes, uma mistura de heroína e cocaína que a mantinha alta mas lhe dava a ilusão de estar lúcida quando na verdade não estava. E mostrava-se tão fortemente dominada que Bill conjeturava se algum dia ela se livraria disso. Afrouxou a gravata, e preparou-se para esperar uma hora pelo ônibus, se tivesse sorte. Tinham vendido o carro, um Volkswagen velho, e se ele não pagasse logo o aluguel, iam ser despejados, o que de certa forma talvez fosse um alívio. Talvez pusesse algum juízo na cabeça de Sandy. Estava com 25 anos e vinha desperdiçando a vida rapidamente. E era tão bonitinha quando se conheceram, os cabelos negros, compridos, e grandes olhos castanhos, como uma boneca. Parecia uma garotinha. Ainda demonstrava um sentimento levemente terno ao lembrar do primeiro encontro numa festa em Hollywood. Dava a impressão de ser uma criança perdida, e seu coração se derreteu no momento em que a viu. Parecera-lhe tão desamparada, tão incapaz de se defender dos lobos que abundam no mundo dos espetáculos. O problema era que continuava incapaz de se defender deles e, a fim de aguentar a pressão, cada vez ficava mais viciada, deixando que Bill resolvesse todos os seus problemas. E agora esperava que ganhasse o bastante para pagar-lhe o vício.

 

- O que espera você que eu faça? Mímica na rua, pelo amor de Deus? - Relembrava a briga deles naquela manhã, e sentiu-se farto de brigar com ela. Vinham assim há muito tempo, e Bill passara a conjeturar se seus pais não estariam certos. Segundo eles, representar era arte para crianças, doidos e pessoas completamente instáveis. Sandy não era uma fortaleza, e Bill estava começando a ponderar se não tinha procurado isso. Seu filme de demonstração, que apresentava cenas de comerciais e espetáculos de televisão em que tomara parte, tinha passado por todos os estúdios, produtores, diretores e agências de publicidade de Hollywood, e não estava conseguindo nada com isso. Tinha até censurado o empresário esta tarde. Propusera colocá-lo no Namoro na TV, e Bill explodira diante da sugestão.

 

- Diabos, eu sou casado!

 

- E daí, quem sabe disso? Vocês dois mantiveram um segredo tão grande, que ninguém sabe. E além do mais, você acha que alguém se importa?

 

- Eu me importo. - Mas a pergunta era: será que Sandy se importava? Se importaria o suficiente para largar os tóxicos? Estava começando a duvidar. Ela parecia não dar a menor importância a coisa nenhuma, exceto seu traficante. Todo o dinheiro que ganhara no programa acabara, e gastava cada centavo do seguro desemprego em cocaína. Era uma vida desperdiçada. E Harry tinha razão, ninguém sabia que eram casados porque o empresário de Sandy achava que isso ia arruinar-lhe a imagem de ingénua. As marcas no braço também iriam, se alguém as visse.

 

Como sempre, o ônibus levou 45 minutos para chegar, e a meio caminho de casa, Bill chegou à conclusão de que não ia conseguir encará-la. Não conseguia enfrentar a cama desfeita, a geladeira vazia, as enchiladas meio comidas da noite anterior ainda na mesa da cozinha. Detestava ir para casa ultimamente. Até o cachorro parecia infeliz. E ele se sentia muito culpado, o que era pior. Ficava achando que podia fazer sucesso, interná-la num hospital elegante a fim de se desintoxicar. Mas no momento isso estava fora de questão. Aos 32 anos, casado com uma viciada em drogas, sentia-se nervoso e cansado de ser um ator sem trabalho. Tinha comparecido a todas as entrevistas de que ouvira falar nos últimos meses, e ninguém o queria. Fizera dois comerciais no princípio do ano, grandes, graças a Deus, mas até mesmo aquele dinheiro tinha finalmente acabado. Breve receberia os direitos residuais, mas não por muito tempo, e depois ia ter que começar a pedir dinheiro emprestado ao empresário. Já o tinha feito antes, e Harry, como sempre, encarava isso com espírito esportivo, pois não passava de um idiota. Era um daqueles que achava que Bill algum dia ia fazer sucesso. Mas quando? Cristo, precisava de emprego agora. Desesperadamente. A palavra realmente começava a se aplicar a ele. Bill Warwick estava desesperado.

 

Olhando o tráfego que passava, enquanto viajava no ônibus, e uns dois quilómetros antes de chegar em casa em Hollywood Hills, resolveu saltar e parar no Mike’s para tomar rapidamente uma cerveja. Era um lugar que vinha frequentando nos últimos quatorze anos, desde que viera, de Nova York para a UCLA, com grandes esperanças. Na época sabia que ia fazer sucesso, agora só desejava ter a mesma certeza. Quem ainda continuava a acreditar nisso era Harry, seu empresário.

 

Piscou durante um minuto ao entrar no Mike’s Bar. Era o mesmo de sempre, sombrio, escuro, cheirando a cerveja e repleto de atores desempregados. Até os garçons do bar eram atores conhecidos dele, inclusive Adam, que estava de serviço. Frequentara a faculdade com ele, e há anos eram amigos fortuitos. Adam também conhecia Sandy, embora apenas ligeiramente. Quatro rapazes de boa aparência, vestindo camiseta e jeans, jogavam sinuca, e havia grupos deles em várias mesas, discutindo papéis que tinham conseguido ou a que se tinham candidatado, ou de que apenas tinham ouvido falar. Havia poucas mulheres e grande quantidade de homens; Bill sentou-se e pediu a Adam uma cerveja, contando a ele a sua falta de sorte ao tentar três papéis

 

Universidade da Califórnia, Los Angeles. (N. da T.)

 

de executivo em comerciais. Enquanto conversavam, Bill esticou as pernas compridas. Vestia um terno caqui e se sentia como se tivesse caminhado quilómetros.

 

- Um deles achou que eu era muito moço, o outro me achou sexy e o terceiro queria saber se eu era bicha. Maravilhoso. Estou começando a parecer um bicha com cara de bebé e maníaco sexual.

 

Adam riu. Conseguira recentemente um pequeno papel aparecendo uma vez num seriado, e tinham prometido chamá-lo de volta breve. Contudo, nunca fora tão ambicioso como Bill Warwick. Quase sempre sentia-se perfeitamente feliz atendendo no bar do Mike’s, e estava bem a par dos problemas no mundo dos espetáculos.

 

- Meu empresário queria me colocar no Namoro na TV. Estou começando a achar que o velho está com a razão e eu devia ter seguido a carreira de seguros. - Girou os olhos ante a ideia, e Adam pôs a cerveja diante dele.

 

- Insista, garoto. Pode ser que o maior papel de sua vida apareça a qualquer momento.

 

- Você sabe - Bill tomou um gole de cerveja e pareceu estar preocupado com os próprios pensamentos -, estou realmente começando a logicar. A vida parece um jogo de caça-níqueis em que algumas pessoas jamais ganham. Talvez eu seja uma delas. Não sinto que por aqui haja alguma coisa para mim.

 

- Besteira. - O garçom do bar parecia bem-humorado, mas Bill mostrava-se exausto e deprimido, o calor e as rejeições o tinham afetado, é óbvio. Ainda lembrava dos verões no Cabo Cod quando era menino, e nunca se havia adaptado bem ao calor dos verões da Califórnia. Sandy nascera em Los Angeles e adorava o calor. Não que ainda sentisse calor. Não sentia mais nada.

 

- Como vai Sandy? - Foi como se Adam tivesse lido seus pensamentos. Mas imediatamente pôde ver que o assunto não ia animar Bill. Parecia ainda mais deprimido quando deu de ombros.

 

- Bem... na mesma, eu acho... - Levantou uns olhos tristes para Adam e seus olhares se encontraram. - Acho que chegamos a um ponto de saturação.

 

- E que tal a metadona? - Ele também sabia que Sandy andava tomando heroína há algum tempo. Tinha experiência suficiente para reconhecer os sintomas, e além disso ela lhe oferecera um pouco de cocaína da última vez que estivera no bar com Bill. E Bill ficara tão aborrecido, que se retiraram logo depois. Adam bem sabia como o vício preocupava Bill, e tinha pena dele. Sentia como se fosse com ele mesmo. Já tinha passado por isso com uma garota da Praia de Newport vários anos antes, e finalmente, depois de um ano, desistira dela. Os pais da moça a tinham levado a todos os sanatórios e hospitais do estado, e finalmente ela tomou uma superdose num hotel ordinário de Veneza.

 

- Não sei. Já sugeri tudo. Ela não quer me ouvir. A única coisa que lhe interessa é o vício. Nem vai mais a entrevista. Aliás, não ia adiantar nada. Recusou a última. Embora causasse muita impressão no diretor.

 

- Se não tomar cuidado, ela vai ficar com má reputação. - Até Adam parecia triste. Sabia que ela já tinha adquirido má reputação. E Bill ficou sentado, em silêncio, enquanto Adam servia outra pessoa. Finalmente Bill pediu um hambúrguer, e eram oito da noite quando conseguiu pegar o ônibus outra vez, e alguns minutos mais tarde estava em casa. Entrou, esperando encontrar Sandy a dormir, cabeceando depois de um pico, ou alta como uma pipa após uma dose de cocaína recebida do traficante. Surpreso, encontrou a casa vazia, a desordem usual por toda parte, a cama desfeita, os pratos sujos, as roupas misturadas no chão e o são-bernardo de Bill explodindo de alegria quando o viu entrar pela porta.

 

- Oi, velho camarada... onde está Sandy? - O cachorro agitou a cauda, investindo com a cabeça enorme nas pernas de Bill, faminto de carinho. Não havia nenhum bilhete explicando onde ela estava, mas era fácil imaginar que tinha saído com amigos, ou sozinha, para procurar drogas ou para se encontrar com o traficante. Era o único trabalho de horário integral que fazia ultimamente e consumia mais tempo do que representar. Os olhos de Bill pousaram numa fotografia deles tirada há um ano, pouco antes do casamento, e subitamente assustou-se ao ver a diferença. Sandy perdera pelo menos oito ou dez quilos, e agora tinha um brilho quase permanente nos olhos. O cabelo estava sempre despenteado e dava a impressão de não se importar com o que usava. Ou estava alta, ou saía à procura de drogas, doente demais para cuidar da aparência. Era patético, e só de pensar nisso Bill sentiu despertar sua conhecida onda de raiva. Ele mesmo começou a arrumar a casa, enquanto o cachorro o seguia com a cauda abanando, à espera de algo para comer, mas Bill constatou que na casa não havia ração para cachorro. Abriu duas latas de ensopado de carne e despejou na tigela do animal. O enorme são-bernardo comeu tudo com alívio enquanto Bill empilhava os pratos na pia e jogava no lixo a comida estragada que ela deixara na cozinha.

 

- Merda... - resmungou consigo mesmo, mas a raiva se dissipou rapidamente e na hora em que entrou no banheiro, sentiu mais depressão do que ódio. Era desolador viver assim, e chegou a detestar o bangalô que certa vez tinha amado. Era uma casa de jardineiro numa propriedade que já fora grande e era alugada em partes a cem dólares por mês. O proprietário gostava dele e sabia que era um ator passando fome, enquanto ele sabia que era um aluguel ilegal. O contrato era perfeito para ambos, e já morava ali há três anos. Antes que ela viesse morar também era arrumadíssimo, mas agora tudo estava uma bagunça.

 

Arrumou razoavelmente o quarto e até trocou os lençóis. Depois acomodou-se frente à escrivaninha e remexeu a gaveta procurando o envelope que lá deixara. Era todo o dinheiro que tinham, 800 dólares, e ele não dissera a Sandy que o pusera ali, para que não se sentisse tentada. Mas de alguma maneira ela o descobriu. Encontrou o envelope, mas o dinheiro tinha desaparecido. Quando se levantou e se dirigiu devagar para o banheiro havia lágrimas em seus olhos. Ao entrar, teve uma visão que o fez ficar enjoado. Já a tinha visto antes, mas agora detestou mais ainda ver a cena. Ela havia deixado a seringa, o algodão e a colher na prateleira próxima ao vaso. Nem ao menos procurava esconder aquilo. Ficava exposto para todos verem. A parafernália do seu vício. Sentiu vontade de chorar, olhando a seringa e sabendo que naquilo o seu último dinheiro fora empregado. Não o teria mais de volta. Ela havia estourado o último dinheiro que lhes restava, e não conhecia ninguém que os pudesse socorrer. Aos 32 anos, preferia morrer a recorrer ao pai. Iria trabalhar em posto de gasolina ou aceitar um emprego no Mike’s antes de chegar a isso. Muitos outros atores já o tinham feito antes dele, e era o que ia fazer. Ligaria para Adam e perguntaria se precisavam de mais um homem para atender no balcão ou servir as mesas, mas antes que pudesse telefonar, o telefone tocou, e era Sandy. Parecia fora de si, e ele nem mesmo sentia vontade de falar com ela.

 

- Oi, garoto... - Estava flutuando enquanto falava, e ele lembrou claramente a seringa no banheiro.

 

- Não quero falar com você agora. - Sentia-se satisfeito por ela não ter voltado para casa. Naquele momento, seria capaz de matála. Não perguntou onde estava nem com quem estava. Não ligava mais.

 

Era sempre a mesma coisa. E era um desgosto. Tinha um sentimento de repulsa em relação a ela e aos seus amigos, e a tudo que eles representavam. Já tinha visto drogas antes, tinha até fumado suficientes baseados nos tempos da UCLA para se tornar tolerante com os vícios recreativos das outras pessoas, mas o que ela fazia não era recreação. Era suicídio, e ele não queria se rebaixar com ela. Não havia mais escolha. Estava começando a desconfiar que não poderia mais salvá-la.

 

- O que é que você quer? - A voz era áspera. Nesse momento odiava-a, embora ela não estivesse lúcida o suficiente para compreender isso. - Não me sobrou nenhum centavo, por isso presumo que você não me ligou para pedir dinheiro. Não sei como você acha que vamos comer agora; percebo que comer não é alta prioridade para você ultimamente, mas Bernie e eu temos essas necessidades loucas e...

 

- Eu... ha... preciso que você... me ajude... - Estava tão drogada que ouvi-la falar o deixava enjoado e não queria mais vê-la. Agora não. E talvez nunca.

 

- Chame outra pessoa. Para mim, chega.

 

- Bill... não... espere... - Parecia amedrontada; uma parte ínfima de Bill ainda se interessava por ela, mas o resto não queria ligar.

- Eles me pegaram. - Falava como uma garotinha desvalida, e ele se deixou cair pesadamente na cadeira.

 

- Merda! Onde é que você está?

 

- Estou na cadeia.

 

- Ótimo. E agora? Por acaso ocorre a você que por sua causa eu não tenho dinheiro para pagar sua fiança?

 

- Você não pode conseguir algum, ha... com alguém... - Estava passando por momentos difíceis para manter a cabeça na conversa e Bill suspirou. Sandy já tinha andado por esse caminho duas vezes, e numa delas quase tomara uma superdose. Tivera de chamar socorro médico para a manterem viva até chegarem ao hospital. Quase não tinham conseguido.

 

- Quais são as acusações?

 

Haviam de ser as de sempre, claro. Posse de droga.

 

- Posse de droga com intenção de vender e, ha... não sei... Tem outra coisa... - Começou a chorar. - Você pode me tirar daqui? Estou com medo.

 

- Droga - resmungou entre os dentes, e procurou um cigarro. Deixara de fumar há anos, e graças a ela recentemente tinha voltado. A tensão de viver com ela era insuportável. Havia dias em que ficava conjeturando se ia sobreviver. Isso, e a falta de trabalho e de dinheiro.

 

- Talvez seja bom você ficar algum tempo com o traseiro na prisão.

 

- Mas sabia que, assim que alguém descobrisse quem ela era, e chamasse a imprensa, a manchete seria: ”Ex-estrela de Sunday Supper presa por posse de cocaína”, ou algo parecido, e depois os fotógrafos chegariam para tirar fotos. Não desejava expô-la a isso, nem a si mesmo, se acabassem descobrindo que eram casados. Sandy estava se tornando um empecilho para ele e deixava o empresário nervoso.

 

- Bill... tenho que desligar agora... - Podia ouvir vozes enquanto ela desligava o telefone, vozes ásperas, vozes de policiais, e súbito lhe veio à mente onde ela estava e o que ia acontecer com ela. Não podia suportar isso. Estava tão desamparada, e Bill cansado de resgatála... mas sentiu que não tinha escolha. Deu uma tragada no cigarro e ligou para o empresário.

 

- Como é que está se sentindo depois do último telefonema? O empresário parecia surpreso recebendo um chamado dele em casa. Muitos atores ligavam para a casa dele, e na realidade não se importava com isso.

 

- Como merda. Olha, sinto muito ligar para você agora, mas surgiu um imprevisto... Você pode me emprestar algum dinheiro?

 

Houve um silêncio espantado, mas o empresário se recuperou depressa. Em Bill, depositava a maior confiança, teria feito qualquer coisa por ele. E sabia com certeza que lhe pagaria.

 

- Claro, garoto, quanto?

 

Bill quase gemeu. Tinha esquecido de perguntar a ela de quanto era a fiança, mas não podia ser muito alta.

 

- Digamos, quinhentos dólares para não haver uma surpresa.

 

- Que espécie de surpresa? Sandy não está fodida de novo, está? - Sabia a respeito de Sandy e não gostava dela. Na sua opinião, Bill Warwick não precisava daquela dor de cabeça. Ninguém precisava. Ela atraía confusão e, pelo que ouvia dizer, estava se tornando cada vez pior. Era veneno em Hollywood, e há meses Bill não parecia feliz. Era fácil qualquer um saber por quê. Mas Bill não estava com disposição de fazer confidências a ninguém, muito menos ao seu empresário.

 

- Não, ela está bem, o maldito cachorro é que tem de ser operado, e preciso de algum dinheiro, só isso.

 

- Tudo bem... claro... Não precisa se preocupar. Passe no escritório amanhã.

 

- Posso passar aí esta noite?

 

Pelo tom de voz, Harry ficou sabendo que era Sandy, mas não era hora de discutir com ele. Já tinham passado por isso antes, e Bill herdara todas aquelas ideias cavalheirescas a respeito do que se esperava dele como marido. Além disso, Bill ainda estava meio apaixonado, de fato parecia continuar apaixonado pela mocinha que ela fora quando se conheceram, uma mocinha que não existia mais. Mas há anos Harry tinha aprendido a não discutir com os clientes por causa de suas mulheres.

 

- Tudo bem, tudo bem, cara. Tenho algum dinheiro em casa. Passe por aqui quando quiser.

 

Bill soltou um suspiro de alívio e apagou o cigarro. Olhou para o relógio.

 

- Devo estar aí dentro de uma hora. - Era difícil bancar o cavaleiro de armadura brilhante quando se tem de depender do transporte coletivo para chegar a qualquer lugar, especialmente em Los Angeles. Mas Bill disparou de casa e desceu a ladeira até o ponto de ônibus. Levou menos de uma hora para chegar na casa de Harry, nos arredores de Beverly Hills, e outra meia hora para chegar à delegacia de polícia de Hollywood em North Wilcox, onde descobriu que Sandy fora presa com dois negros e mais uma mulher, por porte de droga ilegal com a intenção de vender, cabendo a ela e à outra garota a acusação adicional de prostituição. Ficou de lábios brancos e aturdido enquanto contava o dinheiro de Harry para pagar a fiança, e ela parecia amedrontada e doente quando cambaleou e ele a escorou.

 

Não disse absolutamente nada a ela, mas saiu e fez sinal para um táxi e, uma vez no táxi, viu que ela tremia e começava a chorar. Estava profundamente drogada e parecia imunda e desleixada. Subitamente viu-a como era: doente e desalentada, degenerada e suja, e a ideia de que sua mulher fora presa por prostituição o magoou mais do que tudo. Ela havia de fazer qualquer coisa para conseguir drogas, inclusive roubar-lhe o dinheiro e vender seu corpo a um estranho. Não disse uma única palavra a ela enquanto entravam no bangalô e Sandy o seguia. O cachorro correu para eles, e Sandy desmaiou no sofá, enquanto ele ia ao banheiro a fim de preparar-lhe um banho. Pegou a agulha e os demais apetrechos e jogou na cesta de lixo. Amassou tudo com os pés, e esperou até a banheira estar cheia.

 

- Vá tomar um banho. - Era como se a mandasse limpar de si toda a sujeira, mas ambos sabiam que ela não conseguiria. Ficou calculando quantas vezes teria feito o mesmo antes, quantas vezes teria dormido com ele depois de dormir com qualquer um para conseguir o dinheiro extra de uma picada. Como tinha acontecido tantas vezes, naquela noite sentiu lágrimas queimando-lhe os olhos ao olhar para ela. Adormecera no sofá, parecendo mais do que nunca uma criança enferma. Magoou-o ficar olhando para ela, e sentiu-se consolado por alguém não ter chamado a imprensa antes que ela deixasse a cadeia. Pelo menos tinham-lhes poupado isso. Mas estava na página 4 do Times de Los Angeles na manhã seguinte: SANDY WATERS PRESA SOB ACUSAÇÃO DE TRAFICAR COM DROGAS era a manchete do texto. As acusações estavam todas relacionadas e Bill sentiu-se humilhado enquanto lia e tomava o resto do café. Tinha ligado para Adam bem cedo e arranjara trabalho no Mike’s Bar naquele dia. Ficou muito satisfeito porque um dos garçons conseguira outro emprego na semana anterior e eles estavam precisando de alguém para substituí-lo. Pelo menos poderia comer e, por enquanto, as entrevistas que fossem para o inferno. De qualquer maneira, não estava disposto. Viu Sandy em pé na porta da cozinha, pálida e frágil, enquanto ele lia o jornal. Tinha o aspecto de uma pessoa agonizante, e Bill sentiria pena dela se não estivesse enojado por tudo o que havia acontecido na noite anterior. Estava disposto a não fazer mais o jogo dela. Considerava tudo acabado.

 

- Saiu alguma coisa no jornal? - Encaminhou-se trémula para a mesa da cozinha e sentou-se, parecendo uma menina de doze anos com uma doença fatal. Estava magra e pálida, mas tinha belos olhos num rosto de camafeu, e longos cabelos negros que caíam desalinhados e hirsutos nos ombros, como um xale de viúva, e havia tristeza eterna nos seus olhos ao fixá-los no homem com quem se tinha casado. - Sinto muito, Bill. - A voz era um sussurro e ele lhe evitou os olhos.

 

- Eu também. E, respondendo à sua pergunta, saiu. O jornal relaciona minuciosamente todas as acusações. - A única coisa que não falava era que estava casada com Bill, porque quase ninguém sabia.

 

- Puxa, Tony vai me matar. - Tony era seu empresário, e Bill levantou os olhos para ela sem acreditar. Estaria brincando? Fora presa por prostituição, entre outras coisas, e Tony ia matá-la? E ele? E as juras do casamento? Preferiu calar-se. Acendeu um cigarro e voltou a ler o jornal. Mal podia esperar para armar um barulho dos diabos, mas queria acertar algumas coisas com ela primeiro, o melhor momento era aquele.

 

- O que é que você vai fazer agora? - Forçou-se a olhá-la nos olhos, não importa o quanto isso o magoasse.

 

- Procurar um advogado, creio - deu de ombros, afastando o

cabelo negro e emaranhado dos ombros.

 

- É mesmo? Qual? Ou sua nova carreira vai pagar também por isso

 

- Ela se encolheu diante dessas ásperas palavras, e pela primeira vez ele não se incomodou. - Acho que você devia se internar num hospital, antes de qualquer outra coisa.

 

- Eu mesma posso fazer isso. - Bill já tinha ouvido isso antes. Estava cansado de ouvir.

 

- Merda. Ninguém pode. Você precisa de ajuda. Pois vá se internar num lugar que possa ajudar - Ele não podia obrigá-la. Ninguém podia. Ela mesma é que tinha de resolver, ou nenhum hospital a aceitaria. Já havia passado por isto antes, centenas de vezes, e não chegara a coisa alguma.

 

- E nós? - Olhou-o agoniada, e ele afastou os olhos por um momento angustiante. - Tenho a impressão de que você já está cheio.

- Cheio... A eterna ingénua... Aos 25 anos e ainda um bebé.

 

- Como é que você ia se sentir depois do que aconteceu ontem à noite?

 

- Você quer dizer... por eu ter sido presa? - Parecia desamparada e frágil, e ele lutou para não sentir pena.

 

- Falo da natureza das acusações, Sandy. Ou você já esqueceu?

 

Viu-a se contorcer na cadeira, mas percebeu que não era só por causa da culpa. Provavelmente estava precisando de um pico. Sabia que ultimamente era a primeira coisa que fazia pela manhã.

 

- Isso não significa nada... você sabe. Só preciso de algum dinheiro... é só...

 

- Ora, eu também preciso, mas não ando por Sunset Strip para me vender ao primeiro que pagar. Eu nem imaginaria isso quando nos casamos. - Subitamente ficou com raiva. Só de pensar nisso sentia a mágoa e a raiva dominarem-no outra vez. Sempre pensara nela como uma criança inocente, uma criança com um vício terrível. Mas o caso dela era muito pior, era uma maneira de viver baseada numa obsessão suicida.

 

- Sinto muito. - As palavras eram praticamente inaudíveis, um sussurro no cómodo silencioso enquanto o cachorro resfolegava no canto da cozinha. - Estou muito triste com tudo isso. - Levantou-se, nervosa como se de súbito encarasse um estranho. E parecia disposta a sair. Já tinha visto essa aparência antes. Aquele olhar que dizia: eu preciso daquilo agora... não importa o que você vá dizer... O olhar que lhes tinha destruído o casamento.

 

- Onde é que você vai?

 

- Tenho que sair. - Ainda vestia as roupas da noite anterior e não tinha penteado o cabelo nem escovado os dentes. Apanhou a bolsa e passou os olhos em volta, e Bill teve a sensação de que ela estava saindo pela última vez. Subitamente ficou com medo. Levantou-se, pousou o jornal e olhou para ela.

 

- Pelo amor de Deus, Sandy, você acabou de ser presa ontem à noite. Quer ficar lá para sempre?

 

- Só tenho que encontrar alguém por um instante. - Ele deu dois passos rápidos pela pequena cozinha, para agarrá-la e tolher-lhe o caminho.

 

- Não me venha mais com essa merda. Vou levá-la para o hospital agora mesmo. Agora mesmo! E não me importo se você nunca mais me vir, mas não vai continuar assim até tomar uma superdose em uma barraca qualquer de tiro ao alvo, até que alguém lhe meta uma faca em algum lugar. Está me ouvindo? - De repente ela começou a chorar, arrependida por causa da sua doença, por causa do seu sentimento por ele, por causa de sua necessidade incontrolável das drogas, e também Bill estava chorando, enquanto a puxava para si aos soluços, perguntando-se onde estava a garota que amara.

 

- Estou tão triste, Billy... Tão triste... - Ninguém jamais o chamara assim antes, e isso lhe cortava o coração. Queria desesperadamente salvá-la.

 

- Por favor, garotinha... Vou ficar com você o dia inteiro... Vou ficar com você no hospital. Vamos fazer tudo o que for preciso. Porém ela sacudia a cabeça enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces.

 

- Não posso...

 

- Por que não pode?

 

- Não tenho a força que preciso. - As palavras eram apenas um murmúrio, e ele a apertou mais. Pouco restava dela além de ossos, porém ele não se importava. Sabia agora que ainda a amava profundamente.

 

- Você tem, sim. Ou sou eu que tenho força o suficiente para nós dois.

 

- Você não pode. - Afastou-se dele lentamente, as lágrimas de ambos misturadas nas suas faces. Esticou os braços e afastou-lhe os cabelos dos olhos com as mãos trémulas. - Eu mesma é que tenho de fazer isso... quando estiver pronta...

 

Quando é que você vai estar pronta?

 

Eu não sei... ainda não...

 

Sentiu um aperto no coração. Era como se a visse morrendo.

 

- Não posso esperar mais, Sandy... - Nunca na vida se arrependera tanto por alguma coisa, mas sabia que não podia ajudá-la.

 

- Eu sei... Eu sei. - Ela sacudiu a cabeça, depois ficou na ponta dos pés e beijou-lhe os lábios. Quando voltou as costas para ele, Bill notou que ela não usava mais a aliança. E de repente ocorreu-lhe que a tivesse vendido. Ficou a olhá-lo por um momento, enquanto o cachorro gania suavemente atrás dele, como um eco do sofrimento de Bill, e depois partiu em silêncio, e desta vez ele não a impediu. Sabia que não ia conseguir. Não havia nada que pudesse fazer. Nada. Enxugou as lágrimas e foi escovar os dentes, lembrando como haviam sido... como ela fora bonita... como eram loucos um pelo outro... Tinham-se conhecido dois anos antes, e agora parecia uma eternidade... Uma eternidade nas profundezas do inferno com uma mulher que certa vez amara, e ainda amava, embora ela tivesse partido. A mulher que fora presa por prostituição na noite de ontem era alguém que não conhecia mais... Não era ninguém...

 

A casa em Pasadena era um comprido L branco de sarrafos, com lareiras de pedra em cada extremidade, roseiras em filas alinhadas na frente, e uma vasta extensão de gramado que levava a uma enorme piscina retangular cheia de crianças esganiçadas. Todas pareciam estar no fim da segunda década de vida, e estavam jogando uma bola de vôlei entre gritos de raiva e prazer, umas gritando os nomes das outras e insultando-se amistosamente, enquanto uma mulher, com um corpo que teria parado o trânsito onde quer que aparecesse, parecia esquecida por eles. Mantinha-se deitada, como se estivesse morta para o mundo, vestindo um biquini preto, a pele clara cheia de óleo e levemente bronzeada ao sol da manhã, com um grande chapéu de palha sobre o rosto e uma pilha de toalhas ao lado. Os seios eram grandes e cheios, saindo pelo sutiã do biquini, e depois as costas se estreitavam agudamente para uma cintura minúscula a fim de se dirigirem para uns quadris redondos, sensuais, que se afunilavam em pernas esguias, finas. Tinha o corpo de uma miss, que foi como começou depois de ter chegado de Buffalo quase vinte anos antes. Jane Adams contava 39 anos e seu corpo não mostrava sinais de ter tido três filhos.

 

Abriu um dos grandes olhos azuis e espiou por baixo do chapéu para se assegurar de que as crianças estavam bem e depois voltou a cochilar ao sol. Não usava jóias a não ser uma aliança estreita, de ouro, e argolas simples de ouro nas orelhas. A casa tinha uma aparência firme de opulência suburbana e havia uma camioneta Mercedes na garagem, que ela dirigia, um Volvo para a empregada e os filhos; quanto ao marido, ia para o trabalho no seu seda Mercedes. E a piscina era grande, até mesmo para os padrões de Pasadena.

 

- Ei... por aqui... garotada!... venham!... - A bola voou da piscina aterrissando perto da cadeira em que estava. Ela levantou-se Com uma graça quase infantil, ajeitando o sutiã do biquini com uma das mãos enquanto corria para pegá-la, e os jovens na piscina puseram-se a olhá-la como sempre faziam, enquanto o filho fechava a cara para eles. Sempre o aborrecia o fato de os amigos a olharem como se fosse um deles. Graças a Deus quase todo o tempo usava roupas suficientes para se cobrir. Não gostava de decotes grandes nem de fendas nas saias. Quase sempre parecia respeitável nas suas blusas tipo Oxford, saias franzidas e alpercatas. Parecia não se dar conta da aparência admirável. E assim que o corpo ficava oculto, o resto da aparência nada tinha de notável. Era uma mulher bonita com um rosto engraçadinho e um sorriso caloroso que dividia com todo mundo. Tinha cabelos ruivos, sardas no peito e nos braços, e grandes olhos azuis que pareciam cheios de inocência. Atirou a bola de volta para a garotada.

 

- Querem almoçar? - gritou-lhes, porém já estavam envolvidos no jogo outra vez quando se sentou. Sempre lhes fazia bandejas de sanduíches, e mantinha a geladeira cheia de sorvetes e refrigerantes que eles gostavam. Depois de dezoito anos de maternidade conhecia as coisas que apreciavam mais. Jason iria para a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara no outono, e as duas meninas frequentariam o ginásio naquele ano. Alyssa ia finalmente ser caloura, depois do que parecera uma espera eterna, e Alexandra ia para o segundo ano, ansiando insistentemente por um carro só para ela. Dizia que o Volvo era grande e velho demais, e queria algo mais veloz como um carro que Jack Adams tinha dado ao filho um mês antes de o garoto fazer dezoito anos. Em setembro, Jason ia estar dirigindo um Triumph para Santa Bárbara. Alexandra achava que podia ser um bom carro para ela também. A mãe sorriu para si mesma e se estirou novamente. Eram adolescentes típicos, e havia uma distância considerável entre eles e a sua própria juventude em Buffalo. Quase morria de frio para ir ao ginásio, até que atingiu os dezesseis anos e então fugiu. Ficou apavorada em Nova York, mas trabalhou lá o bastante até juntar o dinheiro de que precisava para ir a Los Angeles... Los Angeles... Hollywood... terra dos sonhos... Foi lá que ganhou o primeiro prémio como miss... e mil empregos diferentes, como de servir hambúrguer em lanchonetes... e finalmente um papel pequeno num filme de terror. Tinha ensaiado os gritos à perfeição e achava que estava se dando bem, quando conheceu Jack Adams. Tinha apenas dezenove anos e ficou loucamente apaixonada por ele. O americano típico. Frequentara Stanford, estava trabalhando com o pai na firma de corretagem, e tinha 23 anos. Nunca vira um homem tão bonito, pensou, nem tão alinhado. Levara-a para casa a fim de que conhecesse a família no quarto encontro, informando-a do que devia usar, o que falar e como agir. Era melhor do que tomar parte em filmes de terror, e muito mais divertido. Tinham uma bela casa de tijolos em Orange Grove, e Jane ficara encantada com eles e com Jack, tão adulto, maduro e maravilhoso na cama. Era o homem mais delicado que jamais conhecera, até que começou a pressioná-la para abandonar a carreira de atriz. Representar era tudo com que sempre havia sonhado, e sabia que se continuasse por tempo suficiente iria fazer sucesso. Mas Jack não queria dividi-la com a carreira. Detestava o lugar em que ela morava, seus amigos, seus filmes, detestava tudo o que ela fazia, exceto fazer amor com ele. Nunca tinha

conhecido ninguém igual a ela, e quando enterrava a cabeça entre as pernas dela, no ninho de cachos dourados, ela compartilhava generosamente. Por isso sabia que nunca ia desistir, não importa o que os pais dissessem. Acharam que ela era uma vagabunda, a mãe ousara mesmo chamá-la de prostituta, embora apenas uma vez. E ele se recusou a desistir. Forçou-a a abrir mão de seus sonhos. Tornou-a indiferente como nunca fora antes, e ainda nem tinha completado 21 anos quando se deu conta de que estava grávida. E isso foi o fim. Jack não ia deixar que ela se livrasse da gravidez. Tinha conseguido o nome de um aborteiro em Tijuana, e contou-lhe aos soluços a história toda. Jack lhe propôs casamento naquela noite, e duas semanas depois casavam-se numa igrejinha perto da casa dos pais dele - e foi o fim dos filmes de terror e da sua carreira. Tornou-se a Sra. John Walton Adams III, e Jason nasceu seis meses depois, um bebé agitado e sorridente com um emaranhado de cabelos ruivos que permaneceram arrepiados durante todo o primeiro ano. Era tão meigo, e Jack era tão bom para ela, que praticamente não sentia falta do mundo de que tinha desistido. Alexandra nasceu quando Jason completava dois anos, e Alyssa dois anos depois. Alexandra parecia-se com Jack, e Alyssa não se parecia com ninguém absolutamente, a não ser, achava a mãe de Jack, com uma tia dela. Formavam a família perfeita, e Jane era feliz cuidando deles. Mantinham-na ocupada o dia inteiro, e Jack a mantinha ocupada durante a noite. Parecia nunca se cansar. Dia e noite estava faminto dela, e às vezes a levava para o banheiro o tempo suficiente para gozar entre seus seios enquanto as crianças assistiam televisão à noite, ou jantavam. Mal podia esperar até irem para a cama, e faziam amor todas as noites mesmo que ela estivesse cansada demais para pensar, falar ou comer depois de um dia para cima e para baixo com os filhos. Às vezes tinha a impressão de que não lhe sobrava tempo para nada, mas realmente não se importava. Queria ser a esposa perfeita, a mãe perfeita, fazendo todos se sentirem satisfeitos e felizes. Raramente, muito raramente, pensava em si mesma. Sentia-se agradecida de ter progredido tanto vindo de Buffalo, e adorava ser a Sra. Jack Adams. Era o melhor papel que já recebera, e só quando os filhos foram para o colégio começou a sentir saudades dos sonhos de que tinha desistido. Nessa época estava com 27 anos, mas não era muito diferente do que parecia dez anos antes, principalmente quando nadava nua na piscina. Jack ficava observando-a, tarde da noite, apagava as luzes, e mergulhava atrás dela. Ela não precisava se preocupar se as crianças poderiam vê-los. Não precisava se preocupar com coisa nenhuma. Ele cuidava de tudo para ela, as contas, a vida, dizia-lhe a quem iria visitar, o que podia fazer, o que devia vestir. Moldava-a de acordo com sua fantasia, e uma coisa que não fazia parte dessa fantasia era o amor que ela tinha pelo trabalho de atriz. Às vezes falava com saudades em voltar a trabalhar porém ele nunca a ouvira.

 

- Você já não faz parte daquele mundo. Nunca fez. - A voz tornava-se ríspida quando falava assim. - É um mundo de vagabundos e parasitas. - Detestava quando ele dizia isso. Tinha adorado o mundo de Hollywood e ainda sentia falta dos amigos, mas ele nunca deixava que ela os visse. Todas as companheiras de quarto sumiram, e quando a viu escrevendo um cartão de Natal para o ex-empresário, jogou-o fora. - Esquece isso, Jane. Agora acabou tudo. - Queria que fosse assim. Desesperadamente. Queria que ela esquecesse tudo... até os sonhos que tivera... Alyssa estava com apenas três anos quando um homem, num supermercado, lhe entregou um cartão. Era um caçador de talentos de certa agência, e ela sentiu-se como nos velhos dias de Hollywood. Convidou-a para ir ao escritório para um teste, e ela riu. Já tinha ouvido falar muito nisso nos tempos antigos, especialmente logo que chegara a Los Angeles. Ficou surpresa com a insistência do homem, mas nunca lhe telefonou, e finalmente jogou o cartão fora. Contudo, havia despertado nela forças há muito adormecidas. Um dia telefonou ao ex-empresário, apenas para uma conversa ligeira, ”para saber como ele estava”, e ele lhe implorou para voltar. Disse que podia arranjar emprego para ela. E seis meses depois, quando fazia compras em Los Angeles, resolveu visitá-lo, ”para mal de seus pecados”. Ele abraçou-a com efusão e implorou-lhe que o deixasse tirar umas fotografias. Ela até lhe mandou alguns instantâneos depois disso, e então, quatro meses depois, chegou a grande decisão, tinha um papel para ela. Afastou a ideia com uma gargalhada, porém ele não soltava o anzol. Insistiu que concedesse uma entrevista para esse fim, só para treinar, pediu ele, pelos velhos tempos, para mal de seus pecados... Por ele... por ela mesma... por todo o seu esforço de há dez anos... Ficou na cama aquela noite, pensando nisso, desejando poder tentar, preocupando-se com o que Jack iria dizer. Tentou falar no assunto com ele, mas não sabia por onde começar, não tinha palavras para explicar o vazio que sentia, a solidão de agora com as crianças no colégio. Mas tudo o que ele queria estava entre as pernas dela. Não ia ouvi-la. Nunca conversava com ela. Ninguém dialogava. Dez anos depois ainda a desejava tão violentamente quanto desejara quando se conheceram, e ela sabia que devia sentir-se agradecida por isso. As amigas se queixavam de que os maridos não lhes davam atenção, nunca desejavam fazer amor, não se interessavam por elas sexualmente... e eis que ela estava com um homem insaciável, que lhe sussurrava coisas como ”vou foder você todinha hoje à noite...” por cima da cabeça dos filhos, e ela sempre ficava apavorada que o escutassem. Mas não conseguia conversar com ele. Jack não tinha ideia do que se passava na sua cabeça, no coração... na alma... mas o empresário sabia muito bem. Tinha visto tudo em seus olhos no dia em que ela apareceu no escritório em Los Angeles, e não podia perdê-la outra vez. Ela possuía um talento que ele sabia que podia render, sempre o tivera, e não era apenas atração sexual. Havia em Jane humanidade, decência, entusiasmo. Era maternal e ao mesmo tempo a mulher mais sexy que encontrara em anos, uma espécie de Marilyn Monroe com filhos, atraía mulheres e homens, e nunca conhecera ninguém que não a desejasse. Tinha uma espécie de chama interior que deixava as pessoas indóceis como bebés diante de um brinquedo desejado... e que brinquedo! Jane fazia com que a expressão ”peitos e bunda” parecesse sombria. Havia muitíssimo mais nela.

 

Finalmente, num quente dia de junho, foi ao teste, embora na agência estivessem fazendo provas para um papel diferente. Ela insistiu em ir usando uma peruca preta que recentemente tinha comprado. Quando Lou a viu, assobiou longamente e se abriu num largo sorriso, feliz. Parecia uma Gina Lollobrigida ainda mais sexy, mais exuberante, mais jovem. E conseguiu o papel. Nem mesmo questionaram a peruca Queriam-na para o papel. Imediatamente. E Jane sentou-se no escritório de Lou em lágrimas.

 

E agora, o que é que eu vou fazer?

 

Voltar ao trabalho. É isso o que você vai fazer. - Podia sentir o coração batendo, só de olhar para ela, não com desejo, mas com a animação de vê-la aceitar o emprego. Sabia que, se tivesse a oportunidade, podia fazer grandes coisas para ela. Era dona de uma atração que ninguém mais compartilhava em Hollywood - se apenas pudesse livrá-la daquele idiota com quem se havia casado.

 

- O que é que eu vou dizer a Jack?

 

- Diga a ele que você quer voltar a trabalhar. - Mas não era tão fácil assim. Ficara deitada na cama, insone, durante semanas, e finalmente desistiu do papel. Não havia maneira de explicar-lhe. Nenhuma absolutamente. Ele não ia ouvir nada do que dissesse. Só arrulhava e gemia enquanto fazia amor com ela, e toda vez que tentava dizer-lhe alguma coisa, virava-a e fazia amor de novo. Era quase uma piada. Era a maneira que tinha de ignorá-la. Tudo o que queria dela era que dormisse com ele, cuidasse dos filhos, e desse atenção aos clientes quando oferecia jantares.

 

Mas o produtor do programa achava que ela estava sendo modesta. Dobraram o preço, e Lou telefonava-lhe cinco vezes por dia. Tinha pavor de que Jack atendesse o telefone, e uma vez ele atendeu mesmo. Lou era esperto o bastante para alegar um engano e desligar, e finalmente ela assentiu. Tremendo, apavorada, colocou a peruca negra numa maleta e foi ao estúdio em Burbank para conversar. Assinou os contratos naquela tarde, aterrorizada com o que estava fazendo e com o que Jack iria fazer com ela. Dissera-lhe mais de uma vez que, se algum dia voltasse a representar, havia de se livrar dela. E Jane sabia que ele faria isso. Ficaria com os filhos, a casa, tudo. E a única coisa que ela possuía eram os filhos... e o programa... O pior de tudo era Que se apaixonara pelo trabalho. Representava a Mareia de Our Secret Sorrows usando a peruca preta. Trabalhava das 10:00 às 13:30 todos os dias, e voltava para casa a tempo de ouvir apaixonadamente o que as crianças tinham feito durante o dia inteiro na escola. Cozinhava à noite, fazia-lhes a comida, levava-as para o colégio antes do trabalho. E todos, inclusive Jack, sabiam que trabalhava como voluntária num hosPital. Até inventava histórias a respeito. O ”hospital” tornou-se parte de sua vida... mas na realidade era o programa. Adorava o pessoal, a animação, a atmosfera... e todos eram loucos por ela. Trabalhava com o nome de Janet Gole, que usara em Buffalo antes de vir para Hollywood, e miraculosamente ninguém conhecia. Evitava toda publicidade, e embora o programa tivesse atingido os mais elevados índices de audiência, ninguém parecia saber ou se importar com a aparência de Janet Gole, em Secret Sorrows. Ia ao ar diariamente ao meio-dia, e ela nunca se havia sentido mais feliz. Outros papéis surgiram, e algumas oportunidades importantes, porém ela as dispensava. Não podia se dar ao luxo de perder o anonimato, e sabia que em outros programas iria perdê-lo. Nem todos apreciavam suas idiossincrasias contra a imprensa, entrevistas, publicidade. E durante dez anos, em Secret Sorrows, conseguiu manter tanto o anonimato quanto a peruca preta. Até pagava os impostos com o nome de Janet Gole, e tinha um número separado de previdência social, de modo que Jack nunca soube de nada. Ninguém sabia. O segredo ficou perfeitamente guardado.

 

O telefone tocou quando estava deitada ao lado da piscina, apreciando os filhos jogarem vôlei. Acabara de deitar de novo, depois de lhes devolver a bola, quando ouviu o telefone tocar. Tinha férias de dois meses, o que era muito bom para ela. Podia ficar ali com os filhos, e todos passavam quinze dias em La Jolla, todo ano. Encaminhou-se para a casa e atendeu o telefone.

 

- Oi, beleza. - Era Lou. Ele ligava amiúde para Jane, às vezes só para dizer alo. Cuidava muito dela. Estava com sessenta anos e sempre fora bondoso. Respeitava-o bastante, e ele respeitava o que chamava sua ”loucura” - o fato de manter a carreira fora de conhecimento de Jack. Era tão cuidadoso quanto era de esperar. Não queria destruir o que ela conseguira. Mas de algum modo o novo diretor do programa tinha feito isso.

 

- Alo, Lou.

 

- Aproveitando as férias? - A voz pareceu-lhe esquisita, mas imaginou que ele estivesse sob muita pressão. Passava a maior parte do tempo estressado, trabalhando com um punhado de estrelas e um exército de atores desesperados, famintos, à procura de trabalho, atormentando-o noite e dia.

 

- Sempre adoro as férias, porque me dão oportunidade de estar com as crianças. - Jane e a família. Só falava sobre isso. A família, a casa, a cozinha. Puxa, sempre achava muito bom que ela não desse entrevistas. Com aquele corpo, ninguém ia acreditar que fosse verdade. - O que é que há?

 

Ele fez uma pausa, procurando as palavras. Sabia que ia magoá-la bastante. Mas tinha de lhe contar antes que ela mesma descobrisse ao chegar ao local de trabalho.

 

Não tenho notícias muito boas. - Resolveu ir direto ao assunto. Detestava fazer isso com ela. - Eles vão tirar você depois das férias.

 

- O quê?! - Era uma piada. Tinha de ser. O rosto ficou branco

 

sob o bronzeado, e os grandes olhos azuis se encheram de lágrimas.

- Você está falando sério?

 

- Infelizmente estou. O novo diretor quer mudar o esquema do programa. E está tirando você do ar num acidente de carro no primeiro dia. Vão lhe dar uma indenização generosa, claro, providenciei isso, mas parece...

 

Não precisava dizer mais nada. As lágrimas corriam silenciosas pelas faces de Jane. Era a pior notícia que já tinha recebido. Sorrows representava sua vida inteira, o programa, Jack, os filhos. Estava no ar há quase onze anos... onze anos...

 

- Vem sendo a minha vida, e agora ele vai... - Acontecia a toda hora, especialmente nas novelas. Mas para ela era arrasador. Formavam quase uma família. - Você não pode fazê-lo mudar de ideia?

 

- Tentei tudo. - Não lhe disse que estavam contratando uma garota mais jovem para substituí-la, e também três dos amigos bichas do diretor. Não havia motivo para lhe contar. Tudo o que importava era que ela estava despedida. - Querem que você volte assim que terminarem as férias... e depois acabou.

 

- Meu Deus!.,. - Estava chorando copiosamente na mesa da cozinha quando a filha mais velha entrou e olhou-a, surpresa.

 

- Aconteceu alguma coisa ruim, mamãe?

 

Sacudiu a cabeça, calada, sorrindo corajosamente entre as lágrimas. Alexandra deu de ombros e se serviu de um refrigerante antes de sair para se juntar aos amigos, sem sequer voltar os olhos, enquanto Jane recomeçava a chorar.

 

- Não consigo acreditar.

 

- Nem eu. E, pessoalmente, acho que ele é um idiota, mas não há nada que eu possa fazer. É um direito deles, e acho que você devia se sentir feliz por ter atuado durante dez anos. - Sim, mas e agora? Sabia que nunca iria encontrar nada igual outra vez. Nenhuma outra novela ia permitir aquele anonimato, e não podia deixar que Jack descobrisse.

 

- Tenho a impressão de que alguém morreu. - Riu tristemente.

- Eu mesma, suponho.

 

- Mande-os para o diabo, vamos arranjar alguma coisa para você.

 

Ela começou a soluçar, e do outro lado Lou se encolhia.

 

- Não posso fazer nada... - chorou ela. - Você sabe que... o arranjo era perfeito para mim...

 

- Então vamos conseguir outro programa durante o dia que precise de uma bomba sexy de peruca preta. - Nos últimos dez anos comprara doze, tipos e comprimentos diferentes. estava inconsolável, e enquanto as lágrimas rolavam assoou o nariz numa toalha de papel que encontrou perto da pia. - Não sei mais o que dizer, garota. Estou muito triste, triste mesmo. - E estava. Detestava ver alguém magoado. Ela não merecia um fim podre como aquele.

 

- O que é que vou fazer? - Voltou a assoar o nariz, enquanto as lágrimas pingavam do rosto para o peito e eram absorvidas pelo sutiã do biquini.

 

- Dê-se por vencida com classe. Não há nada mais que você possa fazer. Vá trabalhar por um dia e se despeça. - Sabia que ia ser uma cena penosa, e enquanto falava com ela rabiscou uma anotação na agenda. Queria enviar-lhe flores naquele dia, anonimamente, como sempre fizera. - Vou ver o que há mais por aí.

 

- Não posso fazer mais nada, Lou.

 

- Não tenha tanta certeza. Deixe comigo. Vou telefonar para você daqui a um ou dois dias.

 

Desligou, assoou o nariz novamente, com a sensação de que o mundo tinha acabado. De certa forma tinha mesmo. E assim que desligou o telefone os adolescentes entraram fazendo grande barulho - eram onze: Jason, Alexandra, Alyssa e os amigos.

 

- O que tem aí para a gente comer? - Jason sorriu-lhe, não percebendo os sinais das lágrimas que tinha vertido. Ele se parecia muitíssimo com Jack quando se conheceram. E Alexandra também parecia muito com ele, embora ambos tivessem cabelos ruivos como os dela. Mas a não ser por isso, nenhum dos dois nem remotamente se parecia com ela.

 

Virando-lhes as costas, de modo que não lhe pudessem ver os olhos cheios de lágrimas, tirou uma bandeja de sanduíches da geladeira: de presunto, mortadela, peru, várias combinações, e meia dúzia de pão alface-tomate; e levando três embalagens de seis Coca-Colas, todos desapareceram novamente, enquanto ela se sentava à mesa da cozinha com um suspiro. Estava tudo acabado. Tudo acabado para ela. Jack finalmente vencera, e nem sabia disso. E então, como se apenas pensar nele o tornasse materializado, ouviu um carro na alameda e olhou para a janela para ver o conhecido Mercedes prateado parar enquanto ele saltava. Ainda parecia um homem muito jovem, e o cabelo louro escondia o grisalho que ela sabia que estava ali. Era atlético e estava em boa forma, parecendo ter bem menos do que os seus 43 anos, mas os olhos denunciavam um toque de maldade e a boca uma dureza que não estavam lá anos atrás. Tinha boa aparência, mas lhe faltava calor humano, e mesmo agora, quando entrou pela porta da cozinha, não sorriu para ela, não reparou na tristeza tão evidente nos olhos. Na verdade, nem olhou para ela.

 

- Oi, querido, o que é que você está fazendo em casa? - Sorriu quando ele lhe deu as costas para apanhar uma cerveja na geladeira.

 

- Tive uma reunião aqui por perto e achei que podia vir almoçar. - Virou-se e dava a impressão de olhá-la apenas do pescoço para baixo; seus olhos nunca encontravam os dela. Afrouxou a gravata e tomou um gole de cerveja diretamente da lata. Tinha jogado o paletó na cadeira, e ela podia ver-lhe os músculos movendo-se sob a camisa. Jogava ténis quase todos os dias ao chegar em casa. Ele e Jason eram incríveis nas quadras. Jane nunca tinha aprendido a jogar bem, e ambos detestavam jogar com ela. - Não está trabalhando no hospital hoje?

 

- Estou de férias de verão. Lembra? - Sorriu outra vez, e agora ele lhe retribuiu o sorriso.

 

- É. É mesmo. Sempre esqueço. - Olhou o corpo maduro, exuberante, e pareceu ter perdido o interesse em tudo mais. - Estava na piscina? - Ele satisfazia bem as necessidades da família. Proporcionava tudo. Piscina, carros, roupas, para ela e para as crianças, alugava casa em La Jolla todo ano, férias no Havaí na época do Natal; entretanto, ela sempre tinha a impressão de que em muita coisa não compartilhava, muita coisa ele não lhe podia dar. Como ele mesmo, por exemplo. Parecia sempre distante e raras vezes conversavam.

 

- Estava de olho na garotada. - Só falavam banalidades, ou pouco mais do que isso. Nunca lhe contava nada sobre o emprego, e raramente mencionava os colegas do trabalho.

 

- Você providenciou tudo o que eu quero para La Jolla na semana que vem? - Ela lhe tinha dado uma lista detalhada do material de pesca que desejava substituir.

 

- Ainda não tive tempo. Vou fazer isso hoje à tarde. - Mas de repente pareceu-lhe que o mundo tinha acabado. Não tinha, corrigiu ela quando Jack se aproximou e enfiou dois dedos pelo elástico da tanga preta. Achou o que estava procurando e aprofundou-os, machucando-a, porém ela não lhe disse nada.

 

- Você tem tempo para algo mais? - Era uma pergunta retórica. Nunca se tinha negado a ele. Já havia pousado a cerveja, agarrando-lhe os seios com a outra mão. A boca esmagou-lhe os lábios e mordeuos. - Quer dar uma trepada? - Já estava acostumada à maneira como ele dizia isso. Depois de vinte anos, o modo brutal como fazia amor com ela já não a chocava nem surpreendia. Era simplesmente o jeito de Jack. Fora diferente logo que se conheceram. Era mais carinhoso então, mas, tão logo se casaram, as coisas tinham mudado gradativamente, e às vezes era como se estivesse louco para possuí-la e não conseguisse penetrar o suficiente ou com a força desejada. Continuara assim quando estava grávida, e algumas vezes a assustara, mas nunca a tinha prejudicado com isso. Ficara constrangida para falar com o médico sobre o que faziam. E agora puxava-a para si e se esfregava nela, mordendo-lhe o lábio inferior; depois afastou-a e sorriu. - Afinal de contas, estou satisfeito por ter vindo para casa. Isto é melhor do que almoçar na cidade.

 

Ela riu, mas não com os olhos, e Jack a agarrou pelo braço e correu pelo corredor comprido com ela, pelo L que circundava a sala de estar. O quarto deles ficava na extremidade mais distante, tinha planejado assim, e muitas vezes ela conjeturava se não o fizera especialmente para que os filhos não ouvissem os ruídos que fazia. Bateu a porta atrás deles, e a trancou. Nunca se dava ao trabalho de puxar as cortinas, mas de qualquer forma a garotada não podia vê-los da piscina, e ela gostava de olhar as árvores enquanto ele a empurrava violentamente para o chão e lhe arrancava as roupas. Abriu o fecho da braguilha e forçou o caminho para dentro dela sem qualquer prelúdio, sem carinho, as mãos espremendo-lhe os seios com a violência de sempre, curvando-se a seguir para morder os mamilos. Às vezes mordia até sangrar, mas desta vez manipulou-os até que ela ficasse excitada também e começasse a gemer suavemente sob as suas mãos, e depois assustou-a, afastando-se e acariciando-a com os lábios, afastando-lhe bem as pernas com as duas mãos e mergulhando dentro dela de novo, agora para acabar, porque soltou um grito alto e depois um gemido longo e suave. Continuou em cima dela, satisfeito, de bem consigo, sorrindo para si mesmo enquanto lhe tocava os seios pela última vez, nunca observando as lágrimas que corriam lentamente dos olhos de Jane enquanto olhava para ele.

 

Jane entrou no palco conhecido sentindo um imenso nó no estômago. Viu os rostos dos carpinteiros que conhecia tão bem, do sonoplasta, dos capatazes que tinha conhecido durante anos. Gostava de todos eles. Fazia-lhes bolos, trazia biscoitos, tricotava peças para os seus filhos quando estavam para nascer. Cuidava de todo mundo, e precisava de todos eles. Precisava deles para o seu bem-estar. Eram tanto sua família quanto seus próprios filhos. Estas pessoas eram os únicos amigos que tinha. Agora estava perdendo-os.

 

A atmosfera apresentava-se sombria, ninguém lhe disse olá naquele dia. Todos sabiam o que estava para acontecer. Espalhavam-se boatos. As vítimas tinham sido avisadas. E Jane teve de engolir as lágrimas quando o diretor falou com ela. Descreveu a cena, a ”carnificina” para encerrar, e não fez menção do que ia fazer com ela na vida real. E estava lhe tirando um papel que acalentara durante dez anos. De fato, aquele era o primeiro dia do décimo primeiro ano de programa. O primeiro e o último. Nem mesmo queria pensar em quando aquilo tinha começado. Não podia suportar a ideia.

 

Foi para o camarim no andar superior e guardou suas coisas numa maleta que tinha trazido. Mais quatro perucas pretas, uma suéter, um conjunto, um short para usar às vezes nos intervalos das cenas. Não levou um par de chinelos e dezenas de potes de maquilagem, dezenas de vidros de esmalte de unhas. Guardou tudo rezando para fazer a última cena sem ficar histérica. Sabia o choque que a cena ia causar nos espectadores e, como Lou, achava que o diretor estava cometendo um erro enorme. E falava-se abertamente que, pelo Natal, todos os antigos atores já teriam partido.

 

Os dubles estavam em seus lugares e o iluminador trabalhava quando ela desceu. Estavam testando a iluminação adequada para uma boa focalização, e de repente Jane invejou-os. Adoraria estar no lugar de um deles, de qualquer das coisas que ficariam ali... Sentiu como se estivesse abandonando o lar pela primeira vez. Fora mais fácil abandonar Buffalo do que deixar a novela.

 

Havia umas 25 ou 30 pessoas por ali, e as paredes do cenário estavam sendo colocadas no lugar, e parecia que tinha se passado uma eternidade antes que as campainhas de aviso soassem pela última vez, o ar-condicionado fosse desligado para eliminar o barulho, e o sinal piscasse para avisar que estavam no ar.

 

A cena era ainda mais arrasadora do que Jane havia temido, e quando fizeram a tomada do seu rosto no fatal desastre de carro que ia encerrar-lhe a carreira, suas lágrimas e soluços eram verdadeiros, como foi verdadeiro o último grito trágico. Jane desmaiou quando saíram do ar. O diretor tinha desaparecido, mas o resto do elenco a ajudava no camarim. E não fizeram festa de despedida do elenco para eles. Houve muito choro, últimos abraços e promessas finais de se manterem em contato, enquanto Jane dirigia o Mercedes lentamente e saía do estacionamento pela última vez, chorando durante todo o caminho para casa e tentando inventar uma história terrível, mas verossímil, a respeito do ”hospital”, a fim de justificar para a família sua aparência quando chegasse em casa. As flores de Lou a esperavam ali, e misericordiosamente os filhos chegaram tarde do colégio. Jason estava morando na universidade, e as meninas tinham tido treino de hóquei naquele dia. Até Jack lhe deu uma folga. Ligou para dizer que precisava tomar parte numa reunião inesperada e não ia chegar em casa antes das nove.

 

Ficou deitada na cama, chorou durante horas, e nem mesmo atendeu o telefone naquela noite. Não havia ninguém com quem desejasse falar. Sua vida em Our Secret Sorrows era coisa do passado, sua carreira finalmente acabara, exatamente o que Jack desejara há tanto tempo, e uma vida de tristeza se estendia à sua frente. Mais triste ainda do que fora antes. E misericordiosamente ela estava dormindo, ainda vestida, quando Jack chegou em casa naquela noite. E tendo bebido demais, apagou antes que tivesse a oportunidade de começar o ritual do sexo de todas as noites com a mulher. Ele a deixou em paz, vestida, de coração partido, exausta pelo árduo dia que tivera. Ele não tinha ideia do que ela passara, do que havia feito durante os últimos dez anos, ou mesmo de quem ela era.

 

Lá pelas quatro horas da tarde, Bill Warwick sentia-se cansado depois de ter servido mesas o dia inteiro no Mike’s. Houve uma calmaria, com fregueses sentados no bar ou jogando sinuca, e ele estava batendo papo com Adam quando o telefone do bar tocou.

 

- É para você. - Bill pareceu surpreso quando Adam lhe passou o fone, e de repente conjeturou se não seria Sandy. Não conseguia lembrar se tinha ou não dito a ela que ia trabalhar lá. E passara o dia inteiro preocupado com ela. Calculando por onde andaria, até que ponto estaria drogada. Mas não era Sandy. Era Harry, seu empresário.

 

- Oi, garoto.

 

- Como é que você me encontrou aqui?

 

- Seu serviço de recados me deu o número. Onde é que você está? - Bill tinha se esquecido que deixara o número com o serviço de recados.

 

- Estou trabalhando, para variar. Servindo mesas no meu bar preferido.

 

- Diga a eles que vai largar o trabalho.

 

- Alguma razão especial? Vou estrelar algum filme? - Estava brincando quando se sentou numa cadeira do bar.

 

- Você entraria num acordo com Mel Wechsler para o novo seriado? - Houve uma pausa enquanto Harry se regozijava silenciosamente do seu lado e Bill encarava o espaço, calculando se não acabaria tendo outra decepção. - Ele está escolhendo o elenco, e vai ser grande. Um elenco de astros. Ouvi falar nisso ainda na semana passada, e soube que ele está procurando um rapaz da sua idade. Enviei para ele o seu filme, e ele quer ver você.

 

Bill assobiou e olhou para Adam com um sorriso. - Acha que tenho possibilidade? - Não ousava ter esperanças, havia construído tantos castelos no ar, e todos tinham desmoronado a seus pés num punhado de pó. Mas desta vez... Seria o fino no mundo dos espetáculos. Sempre havia esperança, sempre outra oportunidade, sempre um amanhã.

 

- Acho que suas possibilidades são boas. Quer falar com você amanhã às dez horas. Tenho um exemplar do roteiro. Quero que o leia hoje à noite. E, garotão, você vai adorar. - Nesse exato momento adoraria um comercial de ração de cachorro, mas o seriado de Mel Wechsler lhe parecia demais para ter esperança. Você pode passar aqui no escritório para pegar o roteiro?

 

- Vou trabalhar até as dez da noite. Posso apanhar na sua casa?

 

- Não, eu é que vou deixar na sua casa quando sair. E me prometa que vai ler. E não dará a menor importância ao que Sandy aprontar hoje de noite, nem que ela tome uma superdose. Tranque-se no banheiro e leia.

 

- Vou ler. Vou ler. Esteja certo, não precisa implorar.

 

- Ótimo. E me telefone depois que falar com ele.

 

- Telefono, sim. - Desligou com um sorriso infantil, e parecia satisfeito consigo mesmo quando Adam sorriu.

 

- Alguma novidade?

 

- Era meu empresário.

 

- Foi o que achei.

 

Nem mesmo ousava contar ao amigo sobre o seriado de Wechsler para o qual estavam escolhendo o elenco. Não queria fazer nada que ameaçasse aquela oportunidade. Diabos, talvez um dos rapazes do bar tivesse ouvido e quisesse tentar também, e ele não queria perder sua participação. Tinha a impressão de que estava caminhando nas nuvens durante as seis horas que se seguiram. Nem mesmo se sentia cansado quando chegou em casa às 23 horas. Houve um momento de pânico quando abriu a porta, temendo encontrar Sandy na pior e que isso provocasse uma cena. Só queria ficar sozinho para ler o roteiro que Harry deixara na caixa de correio para ele. Encontrou-o lá, exatamente como Harry tinha prometido. E o bangalô estava vazio quando Bill entrou, exceto por Bernie, o são-bernardo, esperando por ele e pelos restos que tinha trazido do Mike’s. Deixou que o animal fosse para o jardim, colocou os restos na tigela, e apanhou uma cerveja na geladeira antes de se sentar com o roteiro. Ainda estava preocupado com Sandy, mas era um alívio que ela não estivesse em casa. Não queria ter de lidar com os problemas dela. Pelo menos não naquela noite. Queria ler o argumento e se preparar para o encontro com Mel Wechsler no dia seguinte. Era uma hora da madrugada quando terminou de ler a sinopse, e seu coração disparara de tão excitado. Era o melhor papel que já tinha lido, e feito sob medida para ele. Sabia que podia realizar um trabalho bom como os diabos, se pudesse convencer Wechsler disso. Não conseguiu dormir quando foi para a cama. Ficou deitado pensando no roteiro e no tipo de seriado que prometia ser. Pensar nisso só o fez desejar aquele papel. Eram quatro horas da manhã quando rolava na cama, semi-adormecido, e teve a impressão de ouvir um barulho lá fora, e calculou que fosse Sandy. Mas não era. Talvez um animal, procurando alguma coisa para comer na lata de lixo. Sandy não veio para casa naquela noite, e ele se sentia meio aliviado e meio preocupado por causa dela quando se barbeou pela manhã. A vida sem ela era bem mais simples, mas também era triste. Relembrou o que um dia, há muito tempo, haviam compartilhado, e pensou como poderia ter sido se tivessem tido a oportunidade de um casamento de verdade. Ficou conjeturando se aquele relacionamento estaria condenado desde o princípio. Não queria acreditar no que viera depois. Ainda lembrava da lua-demel em Mauna Kea, no Havaí, e como Sandy fora meiga com ele. Era sempre meiga com ele, mas isso agora não era o bastante. Não compensava as agonias que lhe causava, fazendo com que se preocupasse com ela dia e noite. Mas não podia se dar ao luxo de ficar pensando nisso, nem nos bons nem nos maus tempos. Devia se concentrar para o encontro com Mel Wechsler. Era nisso que tinha de pensar agora. Esperou pelo ônibus, pensando novamente no roteiro, e a viagem para o escritório de Wechsler em Burbank não pareceu absolutamente demorada. Estava tão animado que praticamente não conseguia respirar quando se identificou para o guarda. Era esperado e disseram-lhe para que edifício devia ir. Passou pelo estacionamento, entrou no prédio, enveredou por um corredor comprido, para uma sala de espera com quatro secretárias e uma parede coberta de livros e pinturas. Deu o nome à secretária mais próxima, e ela mandou-o sentar, e de repente caiu em conjeturas pessimistas. Jamais ia conseguir o papel. Seria uma volta muito grande. E era provável que não estivesse pronto para isso.

- Sr. Warwick - chamaram-no assim que estava se convencendo de que provavelmente jamais deveria ter vindo. Levantou-se, e se sentia como um garotinho esperando para entrar no gabinete do diretor, mas seus temores desapareceram assim que penetrou no santuário mais íntimo de Mel Wechsler. Do outro lado da escrivaninha viu a mão estendida, um sorriso caloroso, e brilhantes olhos azuis medindo Bill Warwick da cabeça aos pés.

 

- Olá, Bill. Obrigado por ter atendido ao meu chamado. - Bill calculou rapidamente que ele estava brincando. Teria ido às profundas do inferno para conseguir este encontro. - Gostei do seu filme.

 

- Obrigado. - Subitamente sentiu-se sem fala e muito amedrontado; não conseguia lembrar nada para dizer, mas Mel cuidou disso

para ele.

 

- Já leu o roteiro?

 

- Já. - Os olhos de Bill se acenderam, e mostrou um sorriso que teria derretido o coração de um milhão de mulheres. Era exatamente essa a aparência que Mel queria para o filho de Sabina no programa. O primeiro papel feminino de Manhattan seria o de uma presidente de empresa assessorada pelo filho, detestada pela filha, adorada pelo amante e colega, um ator mais velho, papel que Mel esperava oferecer a Zack Taylor. E o outro papel forte feminino ia ser o de irmã da atriz principal, mulher que no início não tinha interesse na empresa, e finalmente acaba em luta com a irmã por ela, pelos filhos e pelo amante. Era uma história de lutas pelo poder, as guerras internas de uma empresa, conduzida por gente forte, cobiçosa, cheia de glamour. E Mel podia perfeitamente ver Bill como filho de Sabina. O roteiro pedia um homem com quase trinta anos, e Bill parecia estar bem perto disso.

 

- Adorei. - Ao dizê-lo, os olhos de Bill brilhavam de sinceridade. - Todos os papéis são muito densos, particularmente o que eu gostei. - Sorriu como um menino, e se sentiu tímido diante do olhar de Mel Wechsler. Era como se estivesse vendo o mágico de Oz, conhecendo o poder que tinha nas redes de televisão, e sabendo que todos os seus programas obtinham sucesso.

 

- Fico satisfeito. Nós também adoramos. Acho que vai ser o maior programa de qualquer rede de televisão no próximo outono. Queremos começar as filmagens em dezembro. - Bill mantinha os olhos fixos nele como se estivesse ouvindo Deus, e depois sentiu-se estúpido por não lembrar de mais nada para dizer, porém o fato é que não conseguia pensar em nada. Em sua mente só existia o espetáculo e como desejava desesperadamente tomar parte nele. - Como é que o programa se adapta à sua agenda?

 

- Hã... à minha agenda?... - Deu-lhe um branco. Que agenda? A do Mike’s ou a do Namoro na TV1 Ou a de pagar fianças para tirar Sandy da cadeia? Havia isso também. - Eu... ha... ótimo... Não tenho nenhum compromisso no momento. - Era como se tivesse nove anos e gostaria de chutar a si mesmo por ser tão acanhado. - Na verdade, estou completamente livre no momento.

 

Mel Wechsler sorriu, os olhos azuis brilhantes envolvendo-o inteiramente. Era jovem e estava nervoso, mas gostara dele. No filme tinha visto o que era capaz de fazer, e estava satisfeito. Não queria nenhum ator meio cru no programa. Só queria o melhor para Manhattan. E achava que Bill seria o melhor. Era bonitão, sexy, jovem, e um ator danado de bom.

 

- Você é bom, Bill. Muito bom. - Citou os trechos que mais lhe tinham agradado. Também o havia visto num filme rodado para a TV no ano anterior. Fora feito com orçamento pequeno, e mal dirigido, mas o desempenho de Warwick tinha sido impecável.

 

- Obrigado. Não tenho tido muitas oportunidades de demonstrar tudo o que sou capaz de fazer como gostaria. Ultimamente o que mais tenho feito são comerciais.

 

- Todos passam por isso. - Mel sorriu. - Este mundo dos espetáculos é duro. Há quanto tempo está nisso?

 

- Há dez anos. - Parecia espantoso até mesmo para ele. Dez longos anos de testes e sucessos e fracassos sem importância, teatro de repertório de verão e comerciais, e nenhum papel que pudesse conseguir sem sacrificar a dignidade profissional. Tinha sido uma ascensão demorada e dura, mas agora, sentado no escritório de Mel Wechsler, subitamente não lhe parecia tão demorada. Valia a pena.

 

- É um tempo respeitável.

 

- Ingressei na UCLA e me formei em artes dramáticas antes disso.

 

- E você tem...? - Estava calculando a idade de Bill, a maioria dos atores não dizia a verdade, porém ele era jovem o suficiente e não precisava mentir. De qualquer maneira, parecia ter a idade certa para o papel, e era isso o que realmente importava.

 

- Trinta e dois.

 

- Perfeito. O filho de Eloise Martin, Phillip, tem vinte e oito, possivelmente vinte e sete. Ainda não precisamos a idade, mas anda por aí. Isso é ótimo para você.

 

Também dependia da idade que Sabina estava querendo ter no papel, se aceitasse a participação, mas calculava que ela tivesse de representar uma mulher bem próxima à idade que tinha. - Você também tem o físico adequado. Vai haver uma porção de mulheres apaixonadas por você quando for ao ar: adolescentes, avós, mulheres de sua idade. Será a loucura de sempre, ou talvez mais ainda. Fotografias, cobertura da imprensa, sabe Deus o que mais. Você vai ser um grande astro depois disso, Bill. - Bill ficou pensando se isso significava que o papel era dele, e prendeu o fôlego enquanto esperava. - Enfim você parece estar desimpedido. Publicamente, pelo menos. - Mel havia investigado e estava satisfeito com o que ouvira. O rapaz tinha caráter, era esforçado, e quase todos os diretores para quem trabalhara gostavam muito dele. Mel Wechsler tinha aversão a drogas, faltas, ou dores de cabeça em seus elencos. Não gostava de artistas que chegavam atrasados para trabalhar, cambaleando bêbados pela locação ou reclamando de tudo o que viam, interferindo nos horários das tomadas e gerando atitudes depreciativas dos espectadores, já que estavam na tela. Dirigia uma locação dinâmica, e pretendia manter esse ritmo em Manhattan. - Você é solteiro, não é?

 

Bill sentiu que a oportunidade de toda a sua vida lhe escorregava entre os dedos, como a mulher viciada em drogas ligada a ele.

 

- Sou. Sou, sim. - Rezou para que Mel jamais descobrisse a respeito de Sandy. Mas não havia motivo para descobrir. Quase ninguém sabia que eles eram casados. E se ela afinal se desintoxicasse, sempre poderia encenar um grande casamento. Por enquanto ela não tinha condições para isso, mas de qualquer maneira tinha a impressão de traí-la pela mentira que acabava de dizer.

 

- Divorciado?

 

- Não, senhor. - De qualquer modo, agora era verdade.

 

- Ótimo. Suas fãs vão adorar. - E sabia que não era bicha, pelo menos pelo que lhe tinham dito. Duas das fontes de Mel achavam que Bill tinha uma garota firme, porque não saía muito, ou durante algum tempo não vinha saindo, mas estavam certos de que era sério, e isso também era bom. Mel Wechsler queria que Phillip Martin se tornasse o ídolo da América, e isso incluía Bill Warwick. - Eu diria que você é o número um para o papel, o que é que você acha?

 

O coração de Bill disparou... Estava quase nas suas mãos... quase... - Iria adorar o papel, Sr. Wechsler... Eu sei que iria... e faria um trabalho bom como os diabos.

 

Mel estendeu a mão do outro lado da mesa.

 

- Eu também acho. Vou telefonar para seu empresário com uma resposta definitiva nos próximos dias - Levantou-se e Bill não teve outra escolha senão fazer o mesmo, rezando para ter dado uma impressão razoável. Tinha vontade de implorar pedindo a participação. Sabia quantas vezes as pessoas saem de um encontro como aquele, convencidas de que o papel era deles, para descobrir mais tarde que o tinha perdido para alguém.

 

- Espero conseguir o papel, Sr. Wechsler - foi tudo o que pôde dizer quando os olhos de ambos se encontraram, e Bill saiu tranquilamente do escritório. Quando voltava, não sabia o que pensar e sentia-se um caco, nervoso, no momento em que chegou ao Mike’s e telefonou para o empresário. No bar, Adam disse-lhe para permanecer calmo, preocupar-se não ia mudar nada. Finalmente Bill revelou-lhe que tivera uma entrevista com Mel Wechsler, mas não lhe contou para quê. Ainda sentia medo de que alguém lhe usurpasse o papel. Mas Harry mostrou-se animador quando Bill ligou.

 

- Relaxe, garotão, está no papo. - Mas já havia dito isso antes, e ficara no papo de outra pessoa, não no de Bill.

 

- Fiz um papel de idiota, Harry.

 

- O que é que você fez? Deu um beijo nele?

 

- Não, ora essa. Fiquei tão desgraçadamente amedrontado que mal podia falar. É possível que não tenha parecido sensato.

 

- E daí? Você é um ator, não uma debutante. Você tem um roteiro, você vai ler, vai decorar, vai parecer sensato. Escuta aqui, ele está fazendo perguntas por toda Hollywood a seu respeito. Isso significa contrato.

 

- O que é que está perguntando?

 

- Se você é honesto, se se dedica ao trabalho, essa merda de sempre. E você está em boa forma. Todo mundo gosta de você. - Os dois pensaram a mesma coisa ao mesmo tempo.

 

- Imagine se alguém conta a ele alguma coisa sobre Sandy.

 

- Ninguém sabe a não ser eu e Tony Grossman, certo?

 

- Certo.

 

- Bem, por mim, pode ter certeza de que não vou dizer nada, e quanto a Tony, nunca desejou que alguém soubesse que Sandy era casada. Isso foi quando Sunday Supper estava no ar, claro, talvez ele não se importe mais, mas acho que não vai contar nada. Ele quer conseguir um papel de virgem para ela da próxima vez. - Harry detestava Tony Grossman, e Bill sabia, o caso vinha dos tempos em que ambos tinham começado a carreira de empresários e Bill nunca ouvira a história completa, mas sabia que um não morria de amores pelo outro; e o começo do namoro entre ele e Sandy quase os tinha levado a se transformarem em Romeu e Julieta, fugindo dos Montecchios e Capuletos, no caso os empresários.

 

- Ele me perguntou se eu era casado. Harry engoliu em seco.

 

- E o que é que você disse?

 

- Eu disse que não era.

 

- Fez bem. Ele quer você no elenco como o ídolo da América,

 

e o quer solteiro e livre.

 

- Foi o que imaginei, mas de qualquer maneira me senti um empulhador. E se ele descobrir?

 

- Ele não vai descobrir. Você fez o que devia fazer. Agora cale a boca e faça alguma coisa para relaxar até que ele telefone.

 

- Ainda estou trabalhando no Mike’s.

 

- Não vai ser por muito tempo.

 

Usou uma das expressões favoritas de Harry:

 

- Os anjos digam amém.

 

- Eu telefono para você.

 

- Obrigado. - Desligou o telefone e imediatamente depois ficou ocupado com os grupos que vinham para o almoço. Pareciam ter passado séculos desde que estivera sentado diante de Mel Wechsler, e só às dezessete horas teve a oportunidade de se acomodar para uma xícara de café e um hambúrguer para si mesmo. Sentou-se no bar durante o intervalo, e viu o noticiário da televisão acima da cabeça de Adam. E logo parou de comer. Estavam exibindo uma fotografia de Sandy tal como era quando começou em Sunday Supper três anos antes, lembrando a Bill como estava diferente agora, e continuavam o jornal anunciando que ela se tinha envolvido num grande embalo de drogas nessa mesma manhã. Nessa manhã... enquanto falava com Mel Wechsler... A notícia fê-lo sentir-se novamente enjoado. Ficou pregado ao banquinho, vendo televisão, ansioso por mais notícias, mas só acrescentaram que ela estava presa na cadeia da cidade de Los Angeles com mais cinco suspeitos, e que não era a primeira vez que a prendiam. Disseram ainda que fora despedida do senado por quebra de contrato devido ao abuso de drogas. E depois passaram ao item seguinte.

 

Adam também tinha visto, e nada disse quando Bill foi até o telefone.

Calculou que ia ligar para ela. E estava certo. Na cadeia informaram a Bill que ela já estava com a fiança paga, mas não podia dizer quem tinha pago. As cinco horas seguintes pareceram quinze. Ligou cinco ou seis vezes para o bangalô, mas ninguém atendeu. E quando chegou em casa esperava encontrá-la desmaiada no sofá ou deitada na cama vestida e suja, completamente fora de si, com uma agulha ao lado. Ao contrário, encontrou a leve desordem que ele mesmo deixara naquela manhã, e Bernie esperando ansiosamente pelo jantar. Era óbvio que Sandy não tinha voltado para o bangalô. E teve a sensação súbita de que, dessa vez, Sandy fora longe demais e resolvera manterse afastada dele. De certa forma sentiu-se satisfeito, por outro lado ficou com pena. Estava tão acostumado a resgatá-la que não sabia o que fazer agora. Não conseguia esquecê-la. As roupas ainda estavam penduradas no armário embutido e enfiadas nas mesmas gavetas. Sua escova de dentes junto da dele, na mesma prateleira. Porém ela não a usava mais. Não se cuidava. As roupas estavam largas demais, e quase nunca usava maquilagem nem limpava os dentes. Tudo o que fazia era ficar drogada o dia inteiro.

 

Sentou-se pensativo no sofá, pensando nela, imaginando onde andaria, até que o telefone tocou. Quase meia-noite. Tinha certeza de que era Sandy. Mas não era.

 

- Bill?

 

- Sim. - Sua voz soava tensa. Talvez fossem os tiras. Talvez ela estivesse ferida ou... e então reconheceu a voz de Harry.

 

- Desculpe por ligar tão tarde. Tive de sair, mas queria falar com você. Calculei que você não ia se importar se eu ligasse tão tarde.

 

- O que é que há? - Bill estava franzindo a testa. Só conseguia pensar em Sandy. Imaginava por onde, diabos, andaria, e em que condições. E depois ficava com raiva de si mesmo por se preocupar com ela. Não queria mais pensar em Sandy, e ainda assim pensava... Para sua desgraça pensava demais nela, sabendo que ainda a amava, ressentindo-se da infelicidade que tinha trazido à sua vida.

 

- Você conseguiu, garotão. - Harry parecia tão feliz como sabia que Bill ia ficar.

 

- Consegui o quê? - Sentia a cabeça oca, e então, subitamente, compreendeu. - Ah, meu Deus!.., Você quer dizer... que eu... consegui?

 

- Pode apostar que conseguiu, garotão. A secretária de Wechsler ligou às seis horas. Vão mandar os contratos para o escritório na semana que vem. E você começa a gravar em Nova York, a 6 de dezembro. Você se apresenta para o guarda-roupas a 19 de outubro. É isso aí, meu chapa. Nasce um astro. Como é que o senhor está se sentindo, Sr. Warwick?

 

Havia lágrimas nos olhos de Bill. Tinham sido dez anos de esforço e sonhos frustrados, e quatro anos de esperança na faculdade antes disso, e agora alcançava... o papel da sua vida.

 

- Puta que o pariu... pensei que nunca ia acontecer.

 

- Eu acreditei. Juro que acreditei. Não duvidei um minuto. E depois lembrou-se de uma coisa. - Vi o noticiário desta noite, meu camarada. Acho que você sabe... - Bill sabia que ele se referia a Sandy.

 

- Sei.

 

- Ela está com você?

 

- Não. Não a vejo faz dois dias. Tivemos uma briga, digamos assim, há dois dias. Também fora presa naquela ocasião.

 

- Olha, me faça um grande favor e outro a você mesmo, Bill. Fique de boca fechada e deixe ela pra lá. Tudo o que você não precisa é que o caso rebente na sua mão por causa dela. Aquela garota é chave de cadeia.

 

- Ela está enrolada, é só. - Defendê-la fazia parte da sua natureza.

 

- Chega! Isso pode custar o seu papel. É isso que você quer?

 

- Não. - Contudo, não podia trair Sandy. Se precisasse de sua ajuda, sabia que ia ajudá-la. Mas tentaria ser discreto. Agora teria que ser. Mentira para Wechsler ao dizer que não era casado. - Não se preocupe. Vou me cuidar.

 

- É bom mesmo tomar cuidado, ou ele vai processar você por perturbá-lo e fornecer dados falsos. Wechsler pode fazê-lo. Pode fazer a sua cabeça rolar, e eu não o incriminaria por isso. Se afasta dela,

 

Bill.

 

- No momento não há problema.

 

- Continue assim. E parabéns. Você vai ser grande. - Parecia comovido, - Estou orgulhoso de você.

 

- Obrigado, Harry. - Desligou com um sorriso e uma sensação de descrença, desejando que alguém mais pudesse compartilhar isso. Mas só havia Bernie, agitando a cauda e esperando a próxima refeição. E Bill não tinha ideia do que tinha acontecido com Sandy.

 

Sabina estava em pé no terraço, metida no seu biquini. Acabara de sair da piscina, e estava pensando. Tinha almoçado no dia anterior com Mel, e depois disso lera o roteiro sete vezes. Sete. Se quisesse fazer TV, seria exatamente o papel que queria. E Mel estava certo. A personagem de Eloise Martin parecia ter sido escrita para ela. Podiam ter sido gémeas. Sabina Quarles e Eloise Martin. Na verdade, eram a mesma mulher. E se Mel conseguisse o que queria, e Zack Taylor ficasse com o principal papel masculino, ia ser um programa incrível. Sabia que era com isso que Mel estava contando, mas seria o suficiente? Seria o bastante para fazê-la mudar de ideia? Talvez se tornasse a chacota da cidade se voltasse atrás na sua palavra. O empresário lhe havia informado naquela manhã que eles estavam oferecendo três milhões de dólares pelo primeiro ano do seriado. Três milhões. Tinha preocupações na vida. E três milhões de dólares iam acabar com elas por muito, muito tempo. A verdade era que não podia se dar ao luxo de recusar, e o mais engraçado era que desejava mesmo ficar com o papel. Ainda assim, achava que devia pensar. E subitamente, ali postada a filosofar, perguntou-se a quem estava enganando. Por três milhões de dólares não havia alternativa. Tinha que aceitar

 

Ligou para Mel às dezesseis horas, e ele estava numa reunião na rede de TV. Telefonou-lhe pouco depois das dezoito horas e ela tinha acabado de sair do chuveiro. Agora estava deitada nua no sofá, lendo uma revista, os cabelos embrulhados numa toalha felpuda.

 

- Sabina?

 

- Sim. - A voz dela sempre lhe dava o mesmo arrepio no fundo do estômago, e ele podia imaginar o que os telespectadores do país inteiro iam sentir se ele conseguisse convencê-la a fazer o seriado.

 

- Foi uma pena eu não estar aqui quando você ligou.

 

- Não tem importância. - Esboçou aquele sorriso felino que se adaptava tão bem à voz. Tudo nela combinava, tudo estava certo. Não havia peças fora do lugar, que não se encaixassem ou estivessem erradas. Andei lendo o roteiro desde que almoçamos juntos. - Não havia telefonado para agradecer o almoço. Queria ficar sozinha com o texto e finalmente tinha uma resposta.

 

- Posso perguntar qual foi a sua reação ou devo ser educado e esperar até que você se resolva a dizer?

 

Sabina tinha uma ideia melhor.

 

- Por que você não passa por aqui para tomar uns drinques e conversarmos sobre isso? - Afinal de contas não o estava dispensando friamente. Já era alguma coisa. - O que é que você acha?

 

- Acho maravilhoso. E que tal jantarmos depois?

 

Estava satisfeita. Gostava de Mel Wechsler, e gostava de ser vista com ele. E ia ser vista na sua companhia muitas vezes se aceitasse o papel. Suspeitava que iam ver muito um ao outro.

 

- Parece ótimo. Na verdade, por que não tomamos os drinques aqui, depois?

 

- Perfeito. Pego você às oito horas. Está bem?

 

- Ótimo. A gente se vê, Mel. - Foi um ronronar que fez o coração dele disparar quando desligou o telefone. Foi para casa trocar de roupa e pediu à secretária para fazer a reserva no L’Orangerie. Pegou Sabina exatamente às oito horas. Ele mesmo estava dirigindo o Mercedes 600, como gostava de fazer à noite. Ficava um pouco menos esquisito quando ia passar a noite com uma dama, pois nunca se sabia onde e como as coisas iriam acabar. Preferia usar os serviços do motorista somente de dia.

 

O restaurante estava cheio, e ele o tinha escolhido de propósito. Todo o mundo de Hollywood estava lá, e todas as cabeças iam se voltar quando entrassem no salão. Muita gente conhecia Sabina, e mais ainda conhecia Mel. Era um dos homens importantes de Hollywood, e juntos formavam um par que chamava atenção. A aparência dela era espetacular enquanto esperavam um pouco pela mesa. Esperaram tempo suficiente para que o maitre se assegurasse de que tudo estava da maneira que Monsieur Wechsler gostava, e para que todos admirassem o vestido justo de cetim branco que Sabina estava usando. Mel tinha quase certeza de que ela trajava o vestido em cima da pele, embora não fosse jurar, o fato é que lhe caía como uma segunda pele e ele sentia uma necessidade irrefreável de passar as mãos por ali desde o momento que a apanhara no apartamento. Nas orelhas usava compridos brincos de brilhantes, em feitio de gotas, e sandálias de cetim branco com salto muito alto e muito sexy. A cabeleira loura estava penteada para cima, e o bronzeado profundo se destacava no vestido branco de tal modo que todos os olhos os acompanharam quando passaram a caminho da mesa.

 

- E isso é agora - disse Mel com voz suave assim que se sentaram, comentando os olhares que tinham recebido no caminho. - Você consegue imaginar como vai ser daqui a um ano, com todo mundo vendo você em Manhattan?

 

Ela sorriu despreocupadamente, torturando-o, um gato com a presa; adorava esse jogo. Ele pediu champanha, e rapidamente passou para martínis secos, seguidos por um excelente jantar. Mel era notavelmente habilidoso em dirigir o diálogo, e falaram de tudo menos do programa, até que ele não pôde suportar mais.

 

- Você tem de admitir, eu me comportei muito bem. Nem mesmo perguntei pela sua reação. Mas não consigo aguentar mais o suspense, Sabina. O que é que você achou? - Por um minuto deu a impressão de ser um garotinho e ela se inclinou, ficando mais perto dele, e sorriu olhando-o nos olhos.

 

- Eu adorei.

 

Ele ficou esperando mais, porém ela não disse nada.

 

- É só isso? - Parecia decepcionado.

 

- É perfeito. Tão perfeito quanto você disse.

 

- Mas?... - Quase podia dizer que ela não ia aceitar, e estava amargamente desapontado. O papel era perfeito para ela, e ela era cega e teimosa demais para ver.

 

- Mas o quê?

 

- É perfeito ”mas”...?

 

- Mas nada. - Parecia perfeitamente calma.

 

- Sabina Quarles... - Meigamente agarrou-lhe os dois pulsos e olhou bem dentro dos olhos verdes. - Quer, por favor, me dizer o que é que você está pensando? Você me deixa louco.

 

Jogou a cabeça para trás e riu. Adorava aquilo. Estava a torturálo e sabia disso, mas fazia-o para se divertir. Sabia como deixá-lo excitado.

 

- Você vai ou não vai fazer Manhattan?

 

- Claro que vou. Estaria doida se não aceitasse... Você acha que sou tão idiota? - Olhou-o como se sua decisão estivesse evidente desde o princípio, e ele dava a impressão de querer estrangulá-la, e subitamente enlaçou-a nos braços e a beijou. Olhares interessados registraram o gesto. Mel acenou para o garçom, e estava prestes a pedir champanha quando ela o impediu e lhe falou numa voz baixa que só ele pôde escutar. - Por que não vamos até a minha casa comemorar com um drinque? - Ele a encarou por um momento, a seguir assentiu com a cabeça e pediu a conta ao garçom. Poucos minutos depois, a conduzia pela porta onde esperava o Mercedes 600. Ainda não podia acreditar no que tinha ouvido. Sentia-se como um garotinho que tivesse ganho um grande prémio. Sabina Quarles ia estrelar Manhattan.

 

- Ainda não consigo acreditar, Sabina. Você é maravilhosa! Você é extraordinária!

 

- Obrigada, Sr. Wechsler, o seu roteiro também é. Aliás o primeiro. É melhor que os próximos sejam igualmente bons. - Mas ambos sabiam que iam ser. Mel sempre contratava os melhores roteiristas, e dessa vez estava ainda mais desejoso de lançar um grande programa do que habitualmente. Agora era Manhattan.

 

Parecia tão linda quanto no momento de entrarem no L’Orangerie, e ele dirigiu rapidamente o Mercedes para onde ela morava. Quando chegaram ao apartamento o porteiro os cumprimentou e eles subiram. Mel sentou-se no sofá, ainda sentindo um ar de feriado, e Sabina foi buscar uma das duas garrafas de champanha que sempre conservava no gelo, para o caso de uma ocasião especial. E essa era muito especial. Era o começo de uma vida inteiramente nova e ambos sabiam disso.

 

Trouxe a garrafa e duas taças. Mel abriu, e quando a rolha voou pelo ar, voltou-se para ela sorrindo.

 

- Não consigo dizer como estou contente, Sabina. Vai ser um programa maravilhoso.

 

Sorriu-lhe, olhando-o bem nos olhos.

 

- Sei que vou adorar. - Mas não se referia ao seriado, e ele teve o arrepio que sempre sentia quando a fitava. Já tinha visto muitas mulheres surgirem e desaparecerem da sua vida, desde que a esposa falecera, mas nenhuma como Sabina.

 

Serviu o champanha e fez um brinde.

 

- A você, Sabina... e a Eloise Martin. - Eloise Martin era a personagem que ia representar, e Sabina nunca parecera tão encantadora como naquele momento em que tomou um gole do champanha e ficou silenciosamente a observá-lo. Sentia uma atração violenta pelo homem e percebeu que a atração era mútua. De várias maneiras ia ser um programa muito interessante para Sabina. Não apenas a personagem... mas Mel... Este lembrou-lhe que devia estar partindo para Paris dentro de um mês para as provas com François Brac, e Sabina sorriu maravilhada. De repente tinha uma porção de coisas para desejar. - Você já esteve em Paris?

 

- Uma vez. Há muito tempo. Na realidade, estive em Paris para filmar. Vamos filmar algum episódio lá?

 

- Creio que não. Talvez no segundo ano... Há lugar para quase tudo num seriado assim, e estamos sempre dispostos a ouvir sugestões.

- Adorou tudo o que ele dizia, porém mais ainda adorou o modo como a fitava, como se desse mais importância à sua opinião do que à de qualquer outro há anos. Isso a comoveu, e ela estendeu o braço tocando a mão dele com a sua.

 

- Sinto-me grata pela oportunidade, Mel. Sei que parece piegas, mas é o que sinto... - As palavras contrastavam com a imagem de Sabina como uma estrela autoconfiante, mas ela bem sabia como tinha sorte ao conseguir um trabalho daquele gabarito na sua idade. Afinal, ele estava certo. Um papel tão destacado, num seriado como Manhattan, podia torná-la a maior estrela do país. Era uma oportunidade e tanto para se conseguir aos 45 anos, não importa quanto o cirurgião plástico fosse bom, ou quanto se estivesse em boa forma. Tinha uma sorte danada e estava ciente disso. E sabia que devia tudo a Mel, e queria que ele soubesse disso.

 

- Não me agradeça, Sabina. Eu não estaria aqui se você não fosse alguém muito especial. Sua presença vai ser boa para o programa. Mas ambos sabiam que era mais do que isso, e antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, inclinou-se e beijou-o. A princípio foi um beijo carinhoso, mas rapidamente foi se aquecendo na paixão que sentia, e por ele a ter tomado nos braços com sofreguidão. O aperto era forte, e seus lábios prenderam violentamente os dela, e Sabina estava sem fôlego quando finalmente se afastou. Permaneceu em silêncio, mas seu olhar revelava tudo. Mel beijou-a outra vez e a seguir se pôs em pé com um ar de arrependimento. Ele conhecia seus limites e já os tinha atingido. Outro beijo como esse e teria que estraçalhar o vestido de cetim branco, e achava que não devia fazer isso.

 

- Creio que está na hora de ir embora. - Baixou os olhos sorrindo para ela com um fitar terno que lhe deixava o coração cálido.

 

- Algum motivo especial?

 

Ele riu suavemente sob a luz obscura do apartamento.

 

- Uma razão muito boa. Você está me deixando louco, Srta. Quarles. E devo me comportar, é melhor partir antes que ataque a estrela do meu novo seriado.

 

Ela mostrou o sorriso felino que o levava ao delírio.

 

- Pensei que nós íamos comemorar.

 

- E eu pensei que já tínhamos comemorado.

 

- Pareceu-me que estávamos apenas começando. - Ternamente fê-lo sentar-se de novo e se aninhou bem junto a ele. De repente ele riu.

 

- Não quero ser acusado de usar o sofá para escolher o elenco.

 

Quero que fique bem claro aqui e agora que você já tinha aceitado o papel, Sabina Quarles, e que agora é simplesmente uma comemoração.

 

- Aceito as condições, Sr. Wechsler.

 

- Então, tudo bem. - Beijou-a de novo e desta vez com todo o calor da paixão que sentia. Sabina pareceu derreter-se nos seus braços, e ele pôde sentir o cetim do vestido afastar-se da pele entre seus dedos, e um momento depois ela ficou em pé diante dele, como estátua perfeita, em pleno esplendor da nudez, refletida em todos os ângulos nas espelhadas da sala. aparência era deslumbrante, e tomando-lhe a mão conduziu-o para o quarto. Ele a seguia, e aquela noite foi a última vez que Sabina conduziu a situação. A partir do momento em que atingiram a cama, Mel assumiu o comando, levando-a a êxtases que Sabina há muito esquecera e já não esperava sentir de novo. Foi uma noite de paixão digna das duas pessoas mais importantes de Manhattan. O produtor e a estrela.

 

Depois do Dia do Trabalho, Zack Taylor finalmente voltou da Grécia, bronzeado e cortês, vestindo roupas novas que fizera em Londres. Parecia mais um jogador de pólo em férias do que um astro do cinema. Tinha uma aura peculiar às classes superiores, que sempre fora parte da sua atração, e que o tornava tão perfeito para Manhattan. Estivera fora durante três meses, depois de terminar um filme, e sentia-se satisfeito por estar de volta a Bel Air, onde possuía uma bela casa, e, como todo mundo, possuía outra em Malibu, sendo ainda proprietário de vários cavalos de corrida, que mantinha em Del Mar perto de San Diego. Era um homem de muitas atividades e numerosas paixões. Ficou intrigado enquanto ouvia Mel. Gostava do tipo do programa, e gostava especialmente da ideia de Sabina Quarles. Já havia trabalhado com ela uma vez antes, e embora não fosse uma grande estrela, sabia que se esforçava e representava bem, e tê-la no seriado ainda lhe proporcionava bastante cartaz.

 

Passou a mão pelo cabelo levemente ondulado, ultimamente grisalho nas têmporas, e sorriu para Mel. Tinham almoçado no Hillcrest Country Club.

 

- Estou curioso para ler o roteiro, Mel. Se é tão bom como diz, você vai conseguir mais um sucesso muito grande. Mas você sempre consegue.

 

- Obrigado, Zack. - Sorriu e contou-lhe a respeito de Bill Warwick e dos outros atores que desejava para o programa. Para dois

 

Nos EUA, na primeira segunda-feira de setembro. (N. da T.)

 

papéis em especial desejara fazer uma escolha precisa. Mas até então, Sabina e Bill eram os únicos com quem havia acertado. - E a rede de TV está o tempo todo atrás de nós. - Sempre trabalhava com a mesma, e não tinha problemas com eles. Sabiam que tudo o que Mel fizesse era bem-feito, e Zack também sabia. E não fazia restrições quanto a trabalhar na TV. De fato, gostava de fazer televisão e recebeu bem a ideia de um seriado importante. Sabia como era valioso, em termos de prestígio, o número de telespectadores que iam vê-lo. Era um ponto que Sabina só há pouco tinha reconhecido. Mas há anos Zack gostava de fazer televisão.

 

Mel entregou uma cópia do argumento a Zack, exatamente como fizera com Sabina duas semanas antes, e tinha certeza de que Zack ia ficar tão impressionado como todos os demais. Impressionado, animado, ansioso para tomar parte no programa.

 

- Ligo para você amanhã, Mel. - Zack nunca tapeava, nunca fazia jogos, nunca representava ”Hollywood”, e Mel gostava dessa atitude. - Não tenho nada para fazer esta noite, vou dar uma boa lida e dizer a você o que acho amanhã de manhã.

 

- Vou lhe agradecer muito, Zack. Creio que você vai gostar.

 

- Não vejo como pode ser de outra maneira, depois de tudo o que você disse. - Os dois homens trocaram um sorriso e Mel ficou cogitando a respeito dele, como já tinha feito antes. Zachary Taylor era um homem digno de estima, alguém com quem queria fazer amizade; entretanto, havia sempre entre eles uma distância discreta, uma muralha invisível. Zack parecia nunca deixar que os outros participassem da sua intimidade, e Mel se perguntava por quê. Talvez fosse tímido, ou apenas muito reservado. Era difícil acreditar, tendo em vista o sucesso enorme que fazia. Mas Mel não tinha ideia de quais eram seus amigos.

 

Os dois homens se separaram à saída, e Zack entrou num Corniche conversível azul-escuro que esperava por ele. Era um carro de aparência fabulosa, e ele ainda parecia mais fabuloso em seu blazer com camisa esporte. Após um último aceno para Mel, saiu na direção de Bel Air, enquanto duas mulheres apontavam para ele e davam gritinhos, tendo-o reconhecido na direção. ”E esperem só até o próximo ano,” senhoras, Mel pensou consigo mesmo com um sorriso, quando entrou no 600 e partiu para o escritório.

 

Havia um recado de Sabina esperando por ele, e Mel sorriu ao lê-lo. Tinham passado juntos quase todas as noites durante duas semanas e ela lhe despertara uma paixão como nunca conhicera antes. Iam jantar juntos de novo naquela noite. E ele gostava de exibi-la, embora tivessem resolvido esfriar um pouco. Iriam ficar em casa por algum tempo. Não achava correto permitir publicidade em torno do caso que mantinham. Era comum o produtor sair com a estrela principal, mais do que isso iria criar problemas entre ela e o resto do elenco. Ainda estava em sua escrivaninha naquela tarde, quando Sabina atendeu o interfone do apartamento. O porteiro disse que havia uma encomenda para ela, mas só ela podia passar o recibo, o que fez com um ar intrigado, quando o porteiro lhe entregou a caixa azul-pavão amarrada com uma fita branca de cetim. Assinou o canhoto e fechou a porta, imaginando de quem seria ao observar a gravação TIFFANY quando desatou a fita. Subitamente calculou que fosse de Mel. Abriu a caixa e soltou um grito sufocado ao ver surgir um pesado bracelete de brilhantes. Colocou-o e ficou perfeito, mas era uma peça de artesanato notável e estava tão espantada que mal pôde ler o cartão que dizia apenas: ”Bem-vinda a Manhattan.”

 

Jane Adams teve a sensação de que a vida acabara para ela com o último dia na locação de Our Secret Sorrows. Parecia que não lhe sobrara mais nada na vida, e logo que as crianças voltaram para o colégio ficou tão deprimida que mal podia suportar. Lia romances, ficava na piscina, deixava Jack intimidá-la constantemente com suas muitas exigências irracionais, como vinha fazendo durante vinte anos, e não dava a menor importância. A nada. Recusava-se a ler qualquer roteiro ou comparecer a qualquer teste que o empresário lhe apresentava. Não havia nada disponível nas novelas apresentadas durante o dia. Verificara todas. E ela não podia fazer TV no horário nobre, mesmo se conseguisse um papel. Se fizesse isso, não havia como impedir que Jack soubesse.

 

Ficou furiosa quando o empresário lhe enviou pelo correio o roteiro de Manhattan. Mandou-o diretamente para sua casa, e Jack poderia ter aberto o envelope com tanta facilidade quanto ela abrira.

 

- Você sabe o que ele faria comigo por causa disso, Lou?

 

- O quê? - Realmente não conseguia imaginar que alguém fosse tão difícil quanto Jane dizia. Ninguém era. Pelo menos no mundo de Lou Thurman.

 

- Pediria o divórcio.

 

- De qualquer maneira, leia. É incrível, e você não sabe o que tive de passar para consegui-lo.

 

- Por quê? O que pode ter de tão especial? - Jane parecia sentirse infeliz, aborrecida, irritada com ele, e assim se portara durante semanas. Logo que deixou de chorar por causa do papel perdido, tornou-se implicante. Mas Lou sabia como ela devia sentir-se infeliz e que transtorno tinha sido perder um papel que vinha representando há quase onze anos. Uma perda Difícil para qualquer um.

 

- O que há de muito especial nisso é que é o novo seriado de Mel Wechsler, e ele está escolhendo o elenco. Quero mandar para ele umas fitas de Sorrows, se você concordar.

 

- O programa será exibido durante o dia? - Por um minuto pareceu esperançosa.

 

- No horário nobre. - Parecia orgulhoso ao dizer isso, e ela quase lhe bateu com o telefone.

 

- Para o diabo com isso, Lou. Já disse que não posso fazer.

 

- Leia o roteiro, pelo amor de Deus, e depois a gente pode brigar. - Só não lhe contou que já tinha enviado uma série de fitas para o escritório de Wechsler. Contudo, na manhã do dia seguinte ligou para ela a fim de lhe contar que Wechsler tinha telefonado.

 

- Por quê? - Não entendia. Tinha lido o roteiro na noite anterior, depois de Jack ter ido para a cama, e o programa a deixara entusiasmada, mas sabia que não podia tocar no assunto. Não no horário nobre da TV.

 

- Por quê? Ele ligou para mim porque gostou das fitas de Sorrows em que você aparece, só por isso. Você leu o roteiro?

 

- Li.

 

- E então? - Era como se estivesse arrancando um dente.

 

- Adorei, mas não faz a menor diferença. O fato é que não posso aceitar, e você sabe disso.

 

- Besteira. Se você conseguir um papel neste seriado, vai ser o maior sucesso da sua carreira, e sou capaz de matá-la se você não aceitar.

 

- De qualquer modo, ele ainda não está me oferecendo o papel.

 

- Ele quer conhecer você. Sentiu o coração dar um salto.

 

- Quando?

 

- Amanhã. Às onze horas. - Não lhe perguntou se podia. Tinha que ir.

 

- Posso usar uma peruca? - Talvez devesse ir, só para poder dizer a Lou que tinha ido. Que mal havia nisso? Jack nunca saberia...

 

- Você pode usar todas as perucas e um chapéu, mas vá, Janie. Por mim... e pelo amor de Deus...

 

- Está bem, está bem. Mas não posso participar do programa, fique sabendo. - De qualquer maneira, não acreditava que lhe dessem um papel, mas estava doida para conhecer Mel Wechsler. Quando Jack chegou em casa naquela noite,

querendo fazer amor e um tanto embriagado, nem se importou com o quanto fora desagradável, o quanto se queixara ou quantas vezes lhe fizera amor. Só conseguia pensar no encontro com Mel Wechsler no dia seguinte. E quando finalmente Jack pegou no sono, levantou-se e leu novamente o roteiro. Era a melhor coisa que já tinha visto. Escondeu-o no armário embutido antes de se deitar e ficou acordada, pensando como seria bom entrar outra vez num estúdio, mesmo que apenas para visitar.

 

Na manhã seguinte Jack acordou, como sempre, às cinco horas e saiu para o escritório às seis. Jane fez-lhe o café, sabendo que tinha uma hora para si mesma antes de preparar o desjejum das meninas. E lá pelas oito estava sozinha de novo, com duas horas disponíveis para se aprontar para o encontro com Mel Wechsler. Maquilou-se cuidadosamente e escolheu um lindo vestido bege que tinha comprado na semana anterior. Não era glamouroso, mas parecia caro e Jane não se deu ao trabalho de arrumar o cabelo porque ia colocar a peruca no caminho para Los Angeles. Escolhera uma das curtas e encaracoladas, planejando colocá-la no toalete de uma garagem a caminho da entrevista.

Estava tão nervosa dirigindo que por pouco esqueceu, mas finalmente estacionou numa garagem ao longo da auto-estrada de Pasadena, e quando se olhou, quase desistiu de ir. Parecia cansada, descobriu novas rugazinhas perto dos olhos, e o cabelo preto de repente parecia não dar certo. Até brincou com a ideia de não usar a peruca, mas não ousava ir com seu brilhante cabelo ruivo. Esqueceu completamente o corpo voluptuoso enfiado dentro do vestido de caxemira bege, as pernas sensacionais metidas em escarpins de salto alto, e seu talento inato como atriz. Fora boa em Sorrows durante quase onze anos. Não a tinham mantido esse tempo todo porque estava indo para a cama de alguém. Permanecera no programa por tanto tempo porque seu modo de representar era bom, e às vezes até fabuloso. E a resposta dos telespectadores fora excelente. Recebia dezenas de cartas todas as semanas, dizendo-lhe quanto significava para eles. Mas agora lhe parecia diferente. O programa de Mel Wechsler era de outra esfera, e estava tão apavorada quando atingiu o portão que sentia a boca seca. Mas o guarda de segurança sorriu de admiração quando a olhou. Seria uma mulher muito bonita, não fosse aquele emaranhado de cabelo preto, e Mel também notou isso quando Jane sentou-se diante dele, cruzando e descruzando as pernas, e agarrando-se à bolsa como se fosse um escudo que haveria de protegê-la. Ficou comovido ao ver como ela estava amedrontada. Apesar da idade tinha um ar vulnerável, inocente, que fazia com que se desejasse passar o braço no seu ombro e lhe dizer que tudo ia dar certo. Mas ele bem sabia que era exatamente isso o que os telespectadores iam fazer. Iam querer protegê-la de ”Eloise”, e torceriam por ela. Jane Adams era exatamente o contraponto que desejava para Sabina Quarles. Era bem o que tinha em mente, exceto por aquele cabelo preto... Ficou olhando-a enquanto conversavam e então lhe veio a ideia, e sorriu para si mesmo quando se inclinou para ela com um sorriso meigo.

 

- Posso fazer uma pergunta indiscreta, Jane?

 

- E agora, o que é isso? - ”Ai, meu Deus”, pensou, agora mais apavorada, ”ele vai me pedir para tirar a roupa, vai fazer alguma coisa comigo... ele vai...” Empalideceu quando ele continuou:

 

- Esse cabelo é seu mesmo? Tinha esquecido da peruca.

 

- Este? - Parecia pálida e depois esticou o braço para tocar nos duros cachos negros. - Ah! - Ficou vermelha como um pimentão. Sentia-se como a caipira que fora na infância, só que um pouco mais velha.

 

- Não é, não. Sempre trabalhei com... Quer dizer, em Sorrows, eu... - Como podia explicar-se, se tinha lágrimas nos olhos? Como dizer que o marido a proibira de trabalhar há anos e tivera de viver duas identidades a fim de que ele não descobrisse...?

 

- Você se importa muito de tirar? - Cogitou se havia alguma coisa errada com o cabelo dela, mas ficou espantado quando Jane lentamente tirou a peruca, e ajeitou em frente a ele o próprio cabelo, despenteado mas lindo; achou-o deslumbrante e de um ruivo surpreendentemente natural. - É essa a cor natural?

 

- É, sim - ela sorriu. - Quando criança, sempre detestei. Deu de ombros, parecendo estar com quatorze anos em vez de 39, e ele teve vontade de gritar de alegria. Tinha encontrado sua Jessica. Era perfeita. Sabina, a loura poderosa e sensual, e Jane, a ruiva meiga que todos iam amar. As mulheres iriam identificar-se com ela, porque nela não havia nada de ameaçador, apesar do corpo incrível e dos ruivos cabelos brilhantes, e todos os homens iam querer levá-la para a cama, até mesmo os garotões iriam se apaixonar por ela, era incrivelmente desejável. E ele sabia que Jane era excelente atriz, tinha visto nas fitas.

 

Vira um total de doze programas, e ela era boa... era até mais do que isso... Estava sorrindo para ela, e ela retribuía o sorriso. Mel a tinha surpreendido. Não fora durão, grosseiro ou mesquinho com ela, não o temia mais. Podia imaginar os dois tornando-se amigos. Podia imaginar uma porção de coisas. Podia até imaginar como seria apaixonarse por ele - se não houvesse Jack, é claro... Dava a impressão de que seria maravilhoso com as crianças... Pensou uma porção de coisas enquanto permanecia sentada a olhá-lo, e ele recostou-se na cadeira, admirando-a.

 

- Sabe, você é incrivelmente linda, Jane. - Admirava-a em termos profissionais, avaliando o que poderiam fazer com ela no programa. Não havia nada de pessoal na observação, mas mesmo assim ela corou.

 

- Sempre me achei comum. - E era, de certa forma. Possuía um rosto bonito tipicamente americano, com belos dentes alinhados e grandes olhos azuis, e uma clara via-láctea de sardas que nem mesmo a maquilagem conseguia esconder. E nem pareciam impróprias, pareciam bonitas. Era isso que Jane Adams tinha: parecia bonita e sexy, percebia-se que ansiava por fazer amigos, mas parecia também que podia ser fogosa. Faria despertar essa faceta nela. Pretendia fazer muitas coisas com Jane. Inclusive vesti-la com muita elegância. François Brac saberia exatamente o que fazer com ela, e embora com um guarda-roupa menos volumoso que o planejado para ”Eloise”, François estava encarregado de vestir também outras mulheres do elenco, e Jane ia parecer fabulosa nos seus figurinos... peles...vestidos de noite... Mel apertava os olhos enquanto a observava.

 

- O que você achou da sinopse, Jane? - Sorriu-lhe novamente. Não se preocupava com isso, mas queria a opinião dela. Era profissional no mundo das novelas, e programas diurnos não eram muito diferentes dos noturnos, a não ser por terem um pouco mais de pieguice, talvez.

 

- Me apaixonei por ela.

 

- Zack Taylor vai fazer o principal papel masculino. - Viu aquele brilho nos seus olhos, e sabia que todas as mulheres da América iam ficar exatamente assim, como se fossem cair da cadeira ante a aparição dele. - Acertamos isso ontem à noite. E Sabina Quarles concordou em fazer Eloise. - Um olhar específico revelou-se nele, mas Jane não percebeu. - Temos um jovem ator, Bill Warwick, no papel de filho de Sabina. Também é muito bom. - Seus olhos a questionavam, e desta vez ela empalideceu. - E você, Jane? Como é que vai se sentir no papel de Jessica?

 

Não podia lhe contar... mas tinha que fazê-lo... E então ele ia querer saber por que tinha vindo. Pensaria que ela estava fazendo algum jogo e ia ficar furioso. Aquele tipo de olhar manso ia desaparecer-lhe dos olhos, e só de pensar nisso ficava assustada.

 

- Eu...Eu não sei... não tenho certeza de estar pronta para isso.

 

- Não é muito diferente do que já fez, e eu acho que você está pronta, Jane. Lou também acha. Tivemos uma longa conversa hoje de manhã antes de você vir para cá.

 

Lou a estava empurrando. O vigarista. Mesmo sabendo que ela não podia aceitar o papel. Por que Lou avançara tão longe?

 

- Vou ter de pensar nisso.

 

- Nós queremos muito que você aceite o papel. Muito mesmo.

- Mencionou a soma que tinha combinado com Lou e ela ficou tão pálida que as sardas se destacaram: quinhentos mil dólares... Santo Deus... quantas coisas podia fazer com tanto dinheiro... E Jack chorando a cada vez que gastavam um centavo do que ele ganhava...

 

- Eu... eu estou muito lisonjeada, Mel.

 

- Não esteja. Você vale cada centavo empregado. - Ah, Deus. Seu nome ia ficar desmoralizado quando ela recusasse. - Agora, pense um pouco nisso. Vou esperar notícias suas. - Sorriu-lhe e se levantou, levou-a até a porta do escritório com o braço em volta de seus ombros, sentindo-se fraternalmente cálido. Sempre se admirava com o efeito que as mulheres lhe causavam. Tinha vontade de lhe dizer que fosse para casa, ele iria tomar conta de tudo. - Vou ligar de novo para Lou.

 

E quando o fez, acrescentou mais duzentos mil dólares. Jane nem mesmo deu importância a isso. Estava tão cega pela experiência de conhecer Mel e de ouvir sua voz que bateu num carro estacionado ao sair do estúdio e amassou o pára-choque do seu Mercedes. Com as mãos trémulas deixou um bilhete no pára-brisa do outro carro e foi para casa, sentindo-se agradecida por não encontrar ninguém. Nem mesmo chegou a se preocupar com o carro. Só pensava em Mel e no seriado que não podia fazer. Detestou atender o telefone. Adivinhava quem devia ser e estava certa. Era o empresário.

 

- Ele ficou doido por você. Até aumentou o salário.

 

Ela estava quase chorando quando se sentou, a peruca preta na mão. Quase a tinha esquecido no banco do carro.

 

- Não posso aceitar, Lou. Mas certamente seria uma maravilha.

 

- Ponha maravilha nisso, É a maior oferta que você vai receber e o maior seriado que alguém já projetou. - Não lhe lembrou que ela já estava com 39 anos e que o seriado seria um sucesso e tanto para ela. - Você tem que aceitar, Jane.

 

- Não posso.

 

- Diabos, por que não? - Ele bem que sabia. E estava cansado de ouvir. - Eu sei, eu sei, é por causa de Jack. Puxa, fale a ele sobre o dinheiro, nenhum homem pode resistir a isso, não importa o que sinta a respeito de Hollywood.

 

- Ele não vai se importar - assegurou Jane. Embora pela primeira vez não estivesse completamente segura. Setecentos mil dólares eram um bocado de dinheiro para recusar, e ele não ganhava nada que chegasse perto no escritório de corretagem do pai. Recebia cem mil dólares por ano, e achava que era um dinheirão. Quanto ao salário que ela recebia antes, era mais fácil esconder, explicava-o como investimentos que ia fazendo. Mas desta vez seria impossível. Era muito para ganhar com investimentos.

 

- Não vou permitir que você desista. - Lou mostrava-se firme.

 

- Eu não tenho outra opção - repetiu ela, com lágrimas nos olhos.

 

- Se você recusar, é porque está louca. Quero que você fale com ele. Diga-lhe que quer fazer o seriado... Diga-lhe que ameacei matá-la se você não aceitar... Diga-lhe qualquer coisa, e me telefone amanhã. Prometi a Wechsler que voltaríamos a falar com ele, no fim da semana.

 

Sabia que era inútil discutir com Lou, e que estava morrendo de vontade de fazer o papel, mas não conseguia se imaginar contando tudo a Jack. Ficou ainda mais assustada quando ele voltou para casa naquela noite e gritou com ela por ter batido com o carro. Já havia bebido muito e estava furioso. Chegou a ameaçá-la de tirar-lhe o Mercedes e fazê-la partilhar a camioneta Volvo com os filhos.

 

- Puxa, nem dirigir você sabe direito, não é, Jane? - Desde sempre ele a humilhava, mas ultimamente fazia isso na frente dos filhos, o que tornava as coisas ainda piores. E agora eles se juntavam a Jack para atacá-la, como se fosse um direito gritar com ela, porque o pai fazia, mas nunca conseguiu alertá-lo para isso. Tentara explicar-lhe que estava abalando o respeito das crianças pela mãe quando a tratava assim na frente delas.

 

E Alexandra provava exatamente isso mirando-a com os olhos gelados e perguntando ostensivamente ao pai:

 

- Posso ficar com o carro da mamãe?

 

- A ideia não é má. - Ele as estragava, e Jane passava por tola, como se não fosse pelo menos tão inteligente quanto os filhos. Não tinha observado muito isso quando fazia Sorrows todos os dias. Gratificava-se tanto fazendo TV que o resto da sua vida não tinha muita importância, pelo menos os problemas cotidianos. Mas agora tudo tomara um relevo mais nítido. - Acho que você já dirige melhor do que sua mãe, Alex. - Sorriu para a filha mais moça. - E também Alyssa.

 

Pouco depois reclamou do jantar, e perguntou-lhe por que não cozinhava algo que se pudesse comer, e mais tarde saiu de casa furioso feito um furacão, dizendo que ia jogar ténis com um amigo enquanto ainda havia claridade, porém ela desconfiou que Jack ia fazer qualquer coisa diferente. Quando voltou, seu hálito cheirava ainda mais a álcool e ele não estava usando roupa de ténis. Havia épocas em que Jane conjeturava se ele a estava enganando; parecia difícil de acreditar, considerando seus arroubos com ela. Desta vez ele não a procurou, voltando a censurá-la pelo prejuízo causado com o carro, e chamou-a de ”cadela idiota”. Ao ouvi-lo pronunciar essas palavras ela sentiu uma revolta irromper dentro de si. Jack a tratava como uma posta de carne que comprara há anos e podia usar como quisesse. Agora não queria mais ser usada, nem por ele, nem por ninguém. Nem mesmo pelas meninas, que naquela noite a tratavam como lixo depois de ouvirem Jack fazer o mesmo.

 

- Não me diga nomes! - atalhou ela. Era a primeira vez que se rebelava assim.

 

- Que nomes?

 

- Não me diga palavrões.

 

- O quê, chamando-a de cadela? - Sorriu maldosamente. - E não é isso que você é?

 

Estava mais bêbado do que imaginara e Jane resolveu não discutir. Foi para o banheiro, fechou a porta, pôs-se debaixo do chuveiro, pensando no seriado, e em Mel, em tudo o que Lou lhe dissera, quando subitamente Jack abriu a porta do boxe e ficou encarando-a. Saia daí! - Ela ficou atarantada, imaginando o que estaria acontecendo com o marido. Estava pior do que nunca, como se estivesse tentando provar alguma coisa.

 

- Estou tomando banho. - A voz soou calma, mas Jane estava furiosa. Lembrou-se de que a vinha impedindo de fazer a coisa que mais gostava no mundo, e isso há anos. Tivera de se esconder durante quase onze anos enquanto trabalhava, em vez de se sentir orgulhosa, e agora, se lhe desse ouvidos, ia desistir da grande oportunidade da sua vida. - Já vou sair.

 

- Saia agora. - Agarrou-lhe o braço, sua camisa ficou imediatamente encharcada mas ele pareceu não se importar.

 

- Me solta. - A voz de Jane era perigosamente calma, e Jack a puxava com tanta força que ela quase escorregou, livrando o braço que ele tinha agarrado. - Pára com isso, Jack!

 

- Maldita cadela! - Repetiu as palavras e arrancou-a do chuveiro. Empurrando-a contra a pia, segurou-lhe os braços com toda a força, pondo-se a esfregar o joelho entre as pernas dela. - Você me deve uma por ter amassado o carro hoje.

 

- Não devo nada a você - falou Jane com voz tranquila, monótona, que bem demonstrava como se sentia. - Me deixa em paz.

 

Ele riu e agarrou-a violentamente onde as pernas se juntavam.

 

- Eu aqui sou o dono, nunca se esqueça, sua puta. - E, dizendo isso, voltou-se e saiu, deixando-a a tremer no banheiro. Tinha vontade de gritar com ele, mas não ousava. Ele não era seu dono. Ninguém era. Contudo, Jack achava que a possuía. Achava que a tinha comprado ao lhe dar respeitabilidade e o dom da vida como mulher de um corretor de fundos públicos. Não compreendia nada.

 

Jane enxugou-se e enfiou um robe antes de sair do banheiro. Ele estava sentado na cama, vendo TV, as roupas amontoadas no chão. Sempre deixava suas coisas assim. Ela devia arrumá-las, era o que as esposas perfeitas faziam, pensou, e pela primeira vez em vinte anos admitiu que detestava fazer isso. Estava cansada de ser esposa, anfitriã, amante perfeita. Subitamente sentiu-se farta de tudo.

 

- Preciso falar com você, Jack. - Ele mudou de canal sem lhe dar atenção. Jane sentou-se numa cadeira afastada, longe do seu raio de ação, das suas mãos, assustada pela reação dele às suas palavras, mas certa de que devia dizê-las. - Preciso falar com você.

 

- O que é? Vai me pagar o conserto do carro? - Nunca olhava para ela.

 

- Não. Me ofereceram um papel num programa de televisão.

 

- É mesmo? Grande coisa. - Era quase como se não escutasse.

 

- Eu quero fazer o papel.

 

Durante muito tempo ele não respondeu, e depois olhou-a.

 

- O que foi que você disse? - Na voz não havia nada além de desprezo, e ela notou que o louro de boa aparência com quem se casara tinha desaparecido com os anos. Já não era mais tão bonito quanto antes. E quase sempre, agora, parecia mesquinho.

 

- Me ofereceram um papel num programa de televisão, muito importante - repetiu.

 

- Como é que você sabe? Quem ofereceu a você? - Há anos a tinha proibido até mesmo de ligar para Lou.

 

- Não interessa. - De repente sentiu o coração fraquejar enquanto o encarava. Às vezes ele era assustador. - Quero interpretar o papel, Jack... Significaria muito para mim...

 

- Você está doida? Eu disse a você que tudo isso tinha acabado quando se casou comigo. Ou você quer voltar a dormir com diretores e produtores? - Foi um golpe impiedoso. Ambos sabiam que não era verdade. Pelo menos ela sabia, e sempre cogitara se Jack também acreditava.

 

- Nunca dormi com ninguém.

 

- Bem, mas não vai voltar. Você não pode participar dessa merda e ser casada comigo.

 

- Não vai ser merda. É um grande seriado. Mel Wechsler é quem está produzindo.

 

- Quando é que apareceu tudo isso? O que é que você andou fazendo, Jane? - Falava como se fala com uma criança travessa, mas pelo menos estava falando com ela.

 

- Me ofereceram hoje.

 

- Então como é que você está tão bem informada? Não ousava contar-lhe que fora encontrar-se com Mel.

 

- Meu ex-empresário ligou.

 

- Eu lhe avisei para não falar com ele. - Os olhos de Jack voltaram para a TV. - Esquece. E é só. Diga a eles que vão para o diabo.

- Não havia diálogo com ele, e ela sentou-se pensando no que ia dizer em seguida quando a filha bateu e entrou.

 

Era Alexandra, segurando no braço uma pilha de roupas para passar; exibia um olhar de desdém. Atirou a roupa no colo da mãe e quase cuspiu as palavras:

 

- Você não passou a minha roupa hoje.

 

- Tive outras coisas para fazer. - Jane devolveu-lhe a pilha. De repente as coisas começaram a mudar na mente dela. Resolveu não admitir mais grosserias de qualquer um deles. - Vou passá-las logo que puder.

 

- Não tenho nada pra vestir. - Era ao mesmo tempo uma lamúria e uma queixa. Jane ergueu-se num salto. Agora bastava. Era a primeira vez que sentia isso em anos, em vez de se sentir vencida por

todos eles.

 

- Seu armário está cheio de roupas. Tenho certeza que vai encontrar alguma coisa lá.

 

- Por que não passa a roupa das meninas? Neste momento você não tem mais nada para fazer. - Eram onze da noite e Jane ainda queria conversar com ele, embora já não lhe restasse muita esperança.

 

- Passarei amanhã. - Súbito sentiu-se exausta e deprimida. Às vezes parecia-lhe estar vivendo entre inimigos, especialmente quando se uniam para oprimi-la como tantas vezes faziam e estavam fazendo agora. Por que agiam assim com ela?

 

Jack olhou-a, furioso.

 

- Passe agora!

 

- Obrigada, papai. - O olhar que Alexandra lançou ao pai era cheio de adoração. - Posso levar o carro da mamãe para o colégio amanhã?

 

- Tenho que mandar pró conserto. - Tornou a mostrar um ar de aborrecimento de novo, depois olhou de relance para a mulher. Mas assim que sair da oficina você pode - prometeu. Foi mais um tapa no rosto de Jane, e ela já tinha apanhado dele tanto quanto podia. Apanhou a trouxa com as roupas de Alexandra e foi para a cozinha. Armou a tábua de passar e tirou o ferro do armário. Tinham uma faxineira que vinha três vezes por semana, mas não passava a roupa com tanto cuidado quanto Jane. Ela os havia mimado e agora pagava por isso. Subitamente sentiu-se farta de tudo. E de todos eles.

 

Levou uma hora passando, e quando voltou para o quarto, Jack estava dormindo com a televisão ligada. Desligou-a e ficou olhando fixamente para ele durante muito tempo. Depois meteu-se na cama suavemente, pensando em Mel e em como fora atencioso com ela.

 

Na manhã seguinte, Jack saiu antes que ela se levantasse, e Alexandra levou a camioneta Volvo quando foi para o colégio. Jack levara o carro para a oficina, conservando consigo as chaves do seu sedã, e agora ela estava presa em casa como uma criança travessa. De repente sentiu-se cheia com isso também. Estava farta de tudo, e súbito o dinheiro que Wechsler lhe oferecia pareceu ainda mais maravilhoso a seus olhos. E o programa também. Resolveu assumir o comando da própria vida e telefonar para Lou. A oferta significava muito, não podia desistir. E para quê? Para receber mais grosserias da família? Talvez a respeitassem mais assim que se refizessem do choque. Havia sempre essa possibilidade, e Lou tinha razão. Jack ia aguentar tudo isso. Não tinha opção.

 

Com as mãos trémulas pegou o telefone e discou, e num momento ouviu a voz de Lou. Estava tão nervosa que mal podia pronunciar as palavras.

 

- E então? - Lou prendeu o fôlego.

 

- Diga a Wechsler que aceito. Lou deu um grito.

 

- Aleluia, garota! Você me deixou com medo um bocado de tempo.

 

- Eu também tive medo. - Sorriu. Sua mão ainda estava tremendo como gelatina.

 

- Você vai ser o fino, sabe disso, não sabe?

 

- Estou ansiosa para trabalhar

 

- Eu lhe telefono hoje de tarde.

 

Não teve tempo para isso, mas suas flores chegaram, e também as de Mel - dois buqués enormes. Um deixou a sala de estar com aparência festiva, outro engoliu a maior parte do vestíbulo. Eram lindos. Jane estava tremendo a pensar no que iria dizer a Jack, mas pela primeira vez na vida se sentia segura de si, forte, e muito bem.

 

Mel Wechsler olhou para o relógio quando o interfone soou. Esperava alguém, e estava de bom humor. Jane Adams ter aceito o papel de Jessica tornava o seriado ainda melhor, e tinha a impressão de que a moça de agora ia ser boa também. Não possuía muita experiência, mas ele vira as fitas, na maior parte comerciais e alguns papéis pequenos, mas com um pouco mais de treino ia melhorar. Ademais, mostrava a aparência exata que ele queria para Tâmara, a filha de Sabina e sobrinha de Jane. E ficou espantado quando a jovem entrou. Era surpreendentemente bonita, com cabelos longos, sedosos e muito negros e grandes olhos verdes. Também era menor do que esperava, mas tinha uma presença que não se podia perder. De acordo com o biótipo, devia estar com 24 anos, mas não parecia ter isso, o que era perfeito.

 

O papel de Tâmara Martin pedia uma garota de dezenove anos. Fora têmpora na vida de Eloise, detestava a mãe e tinha ido morar com a tia. E, com o tempo, ia criar confusão. Parecia bem capaz disso, percebeu quando Gabrielle se sentou em frente a ele. Parecia capaz de muita coisa, e soltou a sua voz cheia e suave ao se recostar na cadeira com elegância. Sentia-se emocionada por estar ali, e revelava muito mais tranquilidade do que Jane demonstrara. Mel suspeitava que a garota iria longe, e estava ansioso para ajudá-la a atingir o topo dando-lhe o maior papel de sua carreira.

- Srta. Smith, me fale um pouco de si mesma. - Não precisava mostrar-se tão carinhoso como tivera de ser com Jane. A garota podia tomar conta de si mesma, mas também tinha um fulgor nos olhos, e ele gostava disso. Certamente podia ser engraçada e maliciosa, e isso também lhe agradava.

 

- Sou filha única, venho do Leste, e estive fora durante dois anos.

- Não lhe tinha ocorrido isso, que nesse período ela havia feito um bocado de trabalhos.

 

- Que tipo de formação você teve?

 

- Fiz curso de arte dramática em Yale. - Mel ficou mais impressionado do que demonstrou. Sempre se impressionava com pessoas que tivessem frequentado importantes faculdades do Leste, e de repente começou a imaginar quem seria ela realmente, além de Yale, além dos dois anos em Los Angeles. Percebia-se que havia algo mais a respeito de Gabrielle Smith e Mel queria saber tudo, porém ela era cautelosa em relação ao que dizia. Havia muito pouco de pessoal nos dados que forneceu.

 

- Antes disto, em que parte do Leste? Ela hesitou um pouco.

 

- Nova York, foi lá que estudei. - Não lhe disse que também tinha frequentado um colégio na Suíça, que falava francês com perfeição, e que fora aluna de uma das melhores escolas preparatórias da Nova Inglaterra antes de ir para Yale. Muita coisa ela não contaria a Mel, muita coisa não contaria a ninguém em Los Angeles.

 

- Como é a sua família?

 

Sorriu, perguntou-se por que ele lhe perguntava isso.

 

- Muito agradável, me dou bem com todos.

 

- Devem estar muito orgulhosos de você.

 

Sorriu de novo, evasivamente. Não lhe disse que os pais tinham ficado muito tristes com a escolha que fizera. Afinal de contas, o pai esperava que ela fosse para a faculdade de direito e a mãe queria que se casasse. Mas tinha seus próprios sonhos, e fora fiel a eles.

 

- Já leu o roteiro, Gabrielle?

 

- Sim. É a melhor coisa que já li. - Deixou transparecer malícia no sorriso. - E estou muito contente por ter sido chamada em vez de outra pessoa. - Mel disse-lhe quem eram os outros do elenco e ela ficou visivelmente impressionada. - Uma vez fiz um comercial com Bill Warwick; ele é bom, muito profissional.

 

- Você também é. Gostei muito das suas fitas.

 

- Obrigada, senhor. - Havia qualquer coisa na maneira como dissera isso, e ele ficou matutando a respeito dela enquanto a olhava, e resolveu tentar de novo.

 

- Gabrielle, na realidade, quem é você? Tenho a impressão de que está me escondendo alguma coisa. Você não se adapta ao molde clássico daqui. - E gostava desse detalhe a seu respeito. Gostava muito, mas queria saber mais.

 

- Isso é importante?

 

- Talvez seja. Existe algum segredo que você quer compartilhar comigo? - Só se o emprego dependesse disso. Do contrário, ficaria muda. Nunca contara nada a ninguém. E não ia contar-lhe agora.

 

- Não, senhor. - Parecia satisfeita, e ele gostava dela. Era uma boa moça, íntegra e bonita. Perfeita para o programa. Todos eram. Agora tinha o elenco perfeito. Sabina, Zack, Jane, Bill, Gabrielle. Ela ainda estava rezando para conseguir o papel quando Mel lhe sorriu.

 

- Vamos para Nova York em 6 de dezembro, a fim de fazer as externas. Algum problema para você?

 

- Nenhum. - Sabia que os pais iam ficar impressionados. Podia passar o Natal com eles. Se conseguisse o papel. A grande incógnita. - Quanto tempo o senhor vai ficar lá?

 

- Um mês, um mês e meio. - Sorriu e aí resolveu dividir a boa nova com ela. Por que esperar e continuar fazendo jogadas? - E não é ”o senhor”, Gabrielle, é nós. Espero que você esteja lá também. Ela arregalou os olhos e realmente parecia uma menina quando, num átimo, deu um salto e ficou com os olhos fixos nele.

 

- Quer dizer que ganhei o papel? - Dir-se-ia que não acreditava, como se não fosse possível estar acontecendo com ela.

 

- É isso aí. Você é uma atriz excelente, Gabrielle, e conseguiu o papel por causa disso.

 

- Uau! - Deu a volta na mesa e atirou os braços em torno dele, dando um enorme beijo no rosto, e depois recuou, enquanto ele ria.

- Obrigada, Sr. Wechsler. Muito obrigada! - Apertou-lhe a mão, e ele a acompanhou até a porta, assegurando que ia telefonar para o empresário no dia seguinte. Observou-a partir, descendo as escadas. Não podia ouvi-la, mas quando atingiu a calçada ela deu um salto no ar como aprendera no balé, e soltou um grito de alegria. Tinha conseguido! Tinha o maior papel de sua carreira! Gabby Thornton-Smith abria seu caminho.

 

- Quem mandou estas flores? - Jack Adams olhou para a mulher com ar de suspeita quando entrou pela porta da frente e viu o arranjo ali colocado.

 

Houve uma demorada pausa enquanto Jane olhava para ele. Havia ensaiado as palavras a tarde inteira, e agora não conseguia lembrar de nenhuma delas. Sabia o que devia dizer, mas estava sendo ainda mais difícil do que ela temera.

 

- Perguntei quem foi que mandou estas flores. - Nunca recebera flores de ninguém a não ser dele, e nos últimos dez anos ele não lhe tinha mandado flores.

 

- Foi Lou.

 

- Por quê? Não disse a ele para enfiar aquele papel no rabo? Lentamente, ela sacudiu a cabeça. Era a coisa mais difícil que já tinha feito, mas também sabia, bem no íntimo do coração, que estava fazendo o que era certo. Todos iam passar a tratá-la de modo diferente depois disso. Jack e os filhos. Iam respeitá-la agora. Estava certa. E mais importante ainda, ela respeitava a si mesma.

 

- Foi o que você disse a ele, não foi?

 

- Não, não foi. - Parecia linda ao dizer essas palavras, mas Jack não se importava e a própria Jane não tinha consciência disso. - Disse a ele que ia aceitar.

 

- O que é que você diz?? - Parecia na iminência de esbofeteá-la.

 

- Disse a ele que ia fazer o papel. - Sua voz estava mais forte agora. - Sei quais são seus sentimentos sobre isso, Jack... mas é importante para mim. Na verdade, muito importante. - A cada palavra sentia-se mais vitoriosa, e ele a olhava sem acreditar, era incapaz de acreditar no que estava ouvindo.

 

- Você lembra o que eu lhe falei sobre isso? - Ainda estavam em pé no vestíbulo, e o perfume das flores parecia envolvê-los. Jane quase não conseguia respirar ao vê-lo olhar para ela com tanta raiva.

- Lembra-se de que eu disse que era Hollywood ou eu? Lembra disso? - Como sempre, dirigia-se a ela como se estivesse falando com uma criança idiota.

 

Jane sacudiu a cabeça, desgostosa.

 

- Lembro, sim, mas... Jack, o caso agora é diferente. É uma participação especial num programa mais especial ainda.

 

Ele a interrompeu.

 

- Com quem trepou para conseguir isso, Jane?

 

- Com ninguém. - Olhou-o, infeliz. - Me chamaram sem nenhum motivo. - Era quase a verdade, embora ela soubesse que teria de lhe contar também sobre a participação em Sorrows, mas haveria tempo para isso.

 

- Por que a chamaram? Porque ouviram dizer que era uma puta fácil?

 

Jane começou a chorar e se afastou do marido.

 

- Não diga isso, Jack... por favor, deixe-me fazer este papel. Voltou-lhe os olhos que imploravam, e ele a afastou de si a caminho da sala de estar, de onde avistou outro buqué enorme, agora na sala de jantar. Partiu para o quarto, abriu as portas do armário e jogou uma mala na cama, enquanto Jane corria atrás dele. - Jack, por favor... por favor, ouça-me. - Sabia que tinha de lhe dizer que desistia do papel, mas não seria justo da parte dele. Era um preço muito elevado para pagar pelo pouco de felicidade que lhe dava em retribuição.

- Por favor... - Começou a soluçar e ele a gritar com ela. As meninas saíram dos quartos para ver o que estava acontecendo.

 

- A mãe de vocês vai voltar para Hollywood, vai para a cama com os produtores e diretores de lá, e eu a estou abandonando - gritou para elas, quando ambas começaram a chorar. - Vou abandonála porque me recuso a continuar casado com uma prostituta de Hollywood. - Mas esperava que fosse uma prostituta para ele mesmo, a qualquer hora da noite ou do dia, sem a compensar com uma palavra de carinho, submetendo-a a todas as indignidades e brutalidade. Há vinte anos fazia isso, em troca de uma boa casa, três filhos e respeitabilidade. Bem, para o inferno com ele. Bateu a porta do quarto para que as filhas não pudessem ouvir, mas elas continuaram ouvindo. Jane agora estava lívida.

 

- Pare de dizer tolices! Tenho sido fiel a você durante vinte anos, e nunca fui uma mulher fácil, nunca! Ouviu, Jack? Quero retomar minha carreira, quero algum reconhecimento, quero um pouco de respeito... Quero me sentir realizada antes que fique velha demais e você me force pela última vez... Isso é pedir muito? É assim tão errado?

 

Ele não deu resposta, atirou várias gravatas e roupas de baixo na mala, agarrou dois pares de sapatos e as roupas de ténis, e bateu a mala com violência, fechando o zíper. Depois escolheu alguns ternos no armário antes de escancarar a porta do quarto. Olhou-a com absoluto desdém e ela ficou pensando que ele devia ter bebido mais antes de falar com ela.

 

- Vou telefonar para o meu advogado, Jane. E como você tem sua própria carreira, não vai precisar de nada que é meu. - Como é que ele podia pensar nisso? O que importava isso agora? Estava jogando no lixo vinte anos de casamento, ainda que tivessem sido vazios. Pareciam nada significar para ele. Nada. As filhas tentaram tolher seus passos quando se encaminhava para o vestíbulo com os ternos e a mala no braço; elas lhe imploravam que as levasse com ele, e ele se voltou para Jane com um olhar malévolo: - Pode ver agora o que elas pensam de você. Tanto quanto eu, não querem viver com uma prostituta.

 

- Pára de me chamar de prostituta! - Avançou para ele, mas as meninas estavam entre os dois e Alex gritou-lhe:

 

- Mantenha-se longe dele!... Mantenha-se longe de todos nós! Eu odeio você!... Odeio...

 

Ainda estava soluçando quando Jack bateu a porta da frente e partiu. Logo depois as duas meninas se trancaram nos quartos, e Jane ficou sobrando outra vez, imersa em seus próprios pensamentos, em sonhos desfeitos, e num rastro de gravatas e meias que Jack deixara atrás de si ao longo do vestíbulo. Apanhou-as e encaminhou-se devagar para o quarto, pensando em tudo o que acabara de acontecer. Quantas vezes a tinha aniquilado, os maus-tratos a que a submetia constantemente... E agora a abandonava... porque aceitara um papel em Manhattan - ou havia algo mais do que isso? Conjeturou se ele não estaria esperando a oportunidade há muito, muito tempo.

 

As meninas não saíram dos quartos naquela noite, embora Jane lhes implorasse, batendo suavemente nas portas a intervalos regulares.

 

Deixou-lhes o jantar embrulhado em papel de alumínio no forno e voltou para o seu aposento sozinha. Não tinha ninguém para desabafar, a quem pudesse queixar-se. Nem ao menos algum conforto por parte das filhas. Jack havia cuidado para criar essa situação. Como havia cuidado de tudo. Ficou sentada a pensar se o que ia receber valia o preço que estava pagando. Pensou em telefonar para Lou e dizer-lhe que não podia aceitar o papel. Mas tinha direito a ele... não tinha?... Deitou-se na cama vestida, naquela noite, e soluçou até adormecer, imaginando quais seriam as respostas.

 

O convite chegou às mãos de cada um deles no mesmo dia. O texto principal fora gravado no Tiffany em papel branco-marfim, com uma estreita margem dourada e palavras simples. Mel Wechsler conta com o prazer de sua companhia para... no dia... às... e mais o endereço da sua casa em Bel Air. A secretária escrevera cuidadosamente cada nome, indicara as oito horas, e bem embaixo acrescentara o pequeno recado: para conhecer seus companheiros de elenco.

 

Ao mesmo tempo telefonara para o Chasen’s, encomendando o melhor cardápio para eles: carne, chili, pequenas batatas assadas, aspargos com molho holandês, além de entradas e muito caviar. Como sobremesa, um bolo de chocolate com calda quente, sorvete com cobertura de chocolate. Era uma comida simples e boa, agradava a todos. Seriam cinco convidados e Mel. Pensou inicialmente em convidar alguns amigos, e depois resolveu que não. Era melhor deixar que todos se conhecessem na ausência de pessoas estranhas. Aqueles eram os cinco principais astros do programa, e gostaria que fizessem amizade. Seria importante para o seriado, e queria que tudo corresse da melhor maneira possível. Estivera em reuniões com a direção da rede de televisão a semana inteira, e tudo ficara acertado. Todos os contratos assinados, não havia mais problemas com os astros; François Brac esperaria Sabina em Paris dentro de quinze dias e tudo logo estaria pronto para começar. Os coadjuvantes estavam sendo contratados, os testes prosseguiam a todo vapor, e uma notícia fora vazada para a imprensa, divulgando quais seriam os astros de Manhattan. Mel estava satisfeito com tudo. Extremamente satisfeito, reconhecia consigo mesmo ao sair do escritório naquele dia. Resolvera ir para casa a fim de supervisionar ele mesmo os preparativos para o jantar. Queria estar certo de que a casa tinha a aparência correta e a atmosfera mais adequada. A secretária instruíra a todos que viessem em traje a rigor, para criar um ambiente primoroso, afinal, era sempre mais divertido vestir-se com apuro, principalmente para as moças.

 

Quando chegou em casa, ficou satisfeito com tudo. O Chasen’s sempre fornecia um serviço de primeira, e a governanta já havia organizado tudo. Sobrou-lhe até tempo para nadar um pouco na piscina. Sabia que se pegasse no sono Maria havia de acordá-lo na hora adequada para se vestir.

 

Não foi ele o único a dormir naquela tarde. Bill sentira-se tão nervoso o dia inteiro que saíra para ojogging nas montanhas. Voltou para casa, tomou um banho, e caiu no sono, ficando completamente nu na cama do pequeno bangalô, Bernie estendido no chão ali perto, ofegando na tarde cálida de setembro, a montar-lhe guarda. Agitou a cauda quando Sandy entrou; nunca a saudava com o mesmo entusiasmo com que saudava Bill. Mas não sentiu necessidade de latir, sabia quem ela era e que era de casa, embora não tivesse aparecido desde a manhã em que viera apanhar suas roupas, várias semanas atrás. Sandy ficou hesitando um momento, observando-os, sem saber ao certo se acordava Bill ou não, e aí ele se agitou suavemente. Então, como se percebesse que havia alguém no quarto, Bill sentou-se subitamente e fixou o olhar nela, sem saber se ela era real ou apenas um sonho

 

- Oi, você aí.. - Sua aparência era ainda pior do que três semanas atrás, e o coração de Bill doeu. Havia uma equimose feia numa das faces dela, e uma cicatriz recente na direção do couro cabeludo.

- Por onde você andou? - Fosse lá onde fosse, não seria um lugar bom, e por um instante Bill cogitou horrorizado se alguém lhe teria dado uma surra. - Você está bem? - Uma pergunta tola. Era evidente que não estava bem, mas pelo menos não parecia agora completamente drogada; um pouco alta, talvez, mas somente isso. Sorriulhe e sentou-se na beira da cama. Sandy vestia roupas que ele não reconheceu, e perguntou-se onde estaria morando; súbito teve consciência de que estava nu. Pegou uma toalha que deixara na cama e se cobriu enquanto ela lhe retribuía o sorriso.

 

- Ouvi dizer que você conseguiu a grande oportunidade que vinha esperando. - Ele fez que sim com a cabeça, mais preocupado com ela do que consigo. - Me sinto feliz por você, Bill.

 

- Obrigado. - Ela também tivera a grande oportunidade, e jogara tudo fora, mas nenhum dos dois tocou nesse assunto. - Onde é que você está morando agora?

 

- Com amigos em South La Brea. Estou bem. - Era difícil acreditar, pela sua aparência. Dava a impressão de estar suja, cansada e dez anos mais velha.

 

- Gostaria que você se internasse num hospital. - Recusava-se a desistir dela. Tinha a impressão de que lhe devia isso, para retribuir pelos bons tempos e também por um certo sentimento de culpa porque sua vida estava correndo muito melhor.

 

- Qualquer dia desses eu me interno, vou aguardar uma oportunidade.

 

- E que tal agora? - Ele a teria levado a um dos centros de desintoxicação de drogas que ambos conheciam. Só queria saber que ela estava bem antes de se envolver em sua nova vida. Afinal de contas, ela fora sua mulher.

 

- Tenho que ir a um certo lugar durante algum tempo. - Sabia que lhe mentia, e era inútil discutir. Não tinha mais controle sobre ela, na verdade nunca tivera. - Só queria lhe dizer como me sinto contente por você. Você vai se mudar para Nova York?

 

Ele negou com a cabeça.

 

- Só vamos para umas externas durante um mês ou um mês e meio, mas não agora. Vou ficar por aqui. - Queria lembrar-lhe que ainda podia aparecer para vê-lo, se precisasse. Temia por ela. Sandy entrara num mundo que o apavorava, e tinha medo do que podia acontecer a ela.

 

- Acho que você vai querer se divorciar qualquer dia desses. Mas a verdade é que ele não queria isso. Tinha medo de publicidade.

 

- Não há pressa. Não vou a lugar nenhum. Certo?

 

- Certo. - Olhava para ele cheia de tristeza, como se Bill representasse um tesouro perdido. Aquele olhar doeu no coração de Bill. Ela parecia uma criança apavorada, frágil. Mas Bill sabia que não podia endireitar as coisas para ela, nunca fora capaz de fazer isso. - Eu achei que agora... com o senado...

 

- Não se preocupe.

 

Sandy olhou-o e pareceu aflita.

 

- Não queria afundar você comigo. Imaginei que era melhor, foi por isso que apareci. - Queria explicar-lhe isso, e ele compreendeu. Cogitou se era por isso que tinha voltado. Enrolou a toalha em volta da cintura e pôs-se de pé. O contraste entre eles era penoso. Ela estava tão magra, doente, pálida, e ele parecia tão jovem, saudável, forte e vivo.

 

- Quer que eu prepare alguma coisa para você comer? - Ela sacudiu a cabeça. Alimentava-se de chocolates e cigarros, não tinha mais apetite. Bastava-lhe uma dose, não se importava com o resto. Comida não lhe apetecia. E a ironia era que agora a geladeira estava cheia. Estavam lhe pagando 250 mil dólares pelo primeiro ano. Nunca tinha sonhado em ganhar tanto assim. A geladeira ia ficar cheia por muito, muito tempo. Sentiu-se triste por ela não estar ali para usufruir de bons tempos. Estava tudo acabado entre eles, mas tinha de recordar isso para si mesmo enquanto a olhava sentada num canto da cama. - Você precisa de alguma coisa? Eu posso... - Pensou em lhe oferecer dinheiro, e depois ocorreu-lhe que desceria todo pelo braço dela. Consciente do que Bill pensava, e não desejando que ele lhe desse dinheiro, forçou-se a negar com a cabeça, e a seguir, lentamente, levantou-se.

 

- Eu disse a você... que estou bem... - Os olhos dele encheram-se de lágrimas quando a fitou, e depois, carinhosamente, aproximou-se.

 

- Sandy, fique aqui... Vou ajudar você a se curar. Juro. Pode fazer isso, se quiser.

 

- Não, não posso. - Sorriu-lhe tristemente. - Agora não. É tarde demais para mim. É a sua vez, não a minha. - Aos 25 anos agia como se a vida tivesse acabado. Era terrível, e ele teve de virar o rosto para que Sandy não o visse chorar. Não queria sobrecarregá-la com o seu pesar. Era inútil culpá-la. Tinha a própria vida para dirigir. Era assim que ela queria, e talvez estivesse certa.

 

- Pode ser sua vez de novo, a qualquer momento que você queira. Lembre-se disso. Tudo o que tem a fazer é se desintoxicar - Tudo o que tem a fazer... não era uma tarefa fácil... ambos sabiam... Mas não era impossível... sabiam disso também. O problema era que ela parecia não querer se desintoxicar.

 

Sandy aproximou-se e tocou-lhe o braço, tão suavemente que ele mal lhe sentiu a mão; era leve como um passarinho pousando-lhe no braço. - Se cuida. - Esticou-se, beijou-lhe a face, depois correu para a porta. Podia ouvir os sapatos gastos na calçada, e esforçou-se para não sair atrás dela. Ficou sozinho no bangalô, lágrimas a lhe rolarem pelo rosto, apavorado com a ideia de não a ver mais, e murmurou suavemente: ”Adeus, querida.” E depois que ela partiu, não se sentia com vontade para ir a lugar algum.

 

Em Pasadena, Jane passou a tarde no cabeleireiro. Era um grande dia para ela. Ia conhecer o resto do elenco. Contava os minutos desde que o convite lhe chegara. Tinha ido ao Saks para comprar um vestido branco bordado com contas, e depois quase o devolvera, achando que era muito escandaloso. Mas ficara com uma aparência tão fabulosa usando-o, que a vendedora a convenceu a ficar com ele.

 

As filhas ainda não tinham chegado do colégio quando voltou, com o cabelo impecavelmente penteado e as unhas pintadas de vermelho vivo. Tirou o vestido do armário e olhou-o, preocupando-se com ele novamente; mas, para o diabo com as preocupações, pensou, enquanto enchia a banheira. Ainda tinha horas antes de sair, e Mel ia mandar o carro para buscá-la, de modo que não precisaria dirigir toda aquela distância. Esse era só o começo, sabia disso. Era como ser a rainha por um dia, só que se estenderia por um ano, e talvez mais, se os índices de audiência fossem bons. Era tão emocionante que mal podia pensar nisso. A única coisa que lhe diminuía a emoção era o que Jack estava fazendo com ela. Envenenava a mente das filhas, e fora à universidade em Santa Bárbara para ver Jason, contando a ele as mesmas mentiras. Jason lhe telefonara e implorara para não tomar parte no seriado, porque isso estava aborrecendo muito o papai. E o papai telefonara para os advogados e não só entrara com o pedido de divórcio como lhe oferecera para comprar a sua metade da casa. Frisou que agora ela podia fazer essa despesa, e como eram casados com comunhão de bens, ela lhe devia isso depois de todos aqueles anos. E se ela não quisesse comprar-lhe a casa, devia sair. Tinha três meses de ”prazo preferencial”, de acordo com a carta que tinha recebido. Jack se recusava a atender aos telefonemas da esposa quando tentava entrar em contato com ele, e finalmente havia desistido. Procurou um advogado para si mesma; era difícil acreditar que tivessem chegado a esse ponto em poucas semanas. Mas Jack levava o caso a sério. Se ela queria participar do seriado, ele queria o divórcio. Mais de uma vez tinha pensado em desistir do seriado, mas sabia que, se fizesse isso, ia odiálo para sempre, portanto era inútil. O casamento estava irremediavelmente dissolvido. Não desejava mais lutar por ele, estava ansiosa por uma vida nova. Esperava que com o correr do tempo os filhos se aproximassem e compreendessem que ela também era um ser humano, com sentimentos e necessidades. E que as coisas que Jack dizia a seu respeito não eram verdadeiras.

 

Não ouviu a porta da frente abrir e fechar, nem os passos no corredor.

 

Estava com a roupa de baixo, esperando a banheira encher, e deu um salto quando o viu, ao se virar para fechar a torneira.

 

- Jack... o que é que você está fazendo aqui? - Há semanas que não o via, desde que voltara para apanhar o resto das roupas, e de repente lá estava ele, encarando-a, como se tivesse alguma coisa para dizer.

 

- Voltei para apanhar mais uma coisa. - Mas sabia tão bem quanto ele que não havia mais nada dele na casa. Tinha levado tudo há semanas, e tentou presumir por que estaria lá.

 

- Está tudo bem? - Continuou a observá-lo, nervosa. O olhar dele era esquisito.

 

- Acho que está. De qualquer maneira, ia telefonar para conversarmos.

 

- Não tenho conseguido entrar em contato com você.

 

- Ando ocupado. - Sacudiu os ombros, mirando-lhe os seios como se fossem os olhos.

 

- Achei que devia conversar com você a respeito de algumas coisas, mas... - Detestava dizer isso a ele, mas queria tempo para se vestir em paz, antes que as meninas chegassem do colégio. - Mas hoje à noite não é uma boa ocasião.

 

Ele a fitou, cheio de suspeita.

 

- Por que não?

 

Detestava ter que lhe contar, mas agora não havia motivo para mentir.

 

- Hoje temos um jantar para o elenco.

 

- O que é que vocês vão fazer? Experimentar uns aos outros para ver quem faz melhor? - Os olhos de Jack brilhavam maldosamente, e ocorreu-lhe que ele estava um pouco embriagado. Isso era uma novidade, esse negócio de beber a qualquer hora. Bêbado, era impossível lidar com ele.

 

- É apenas um jantar, nada mais. Quer que eu telefone para você no escritório amanhã?

 

- Para quê? Para me contar como foi? Que me importa? Sei como você é... - Avançou para ela, fazendo-a dar um passo para trás e tropeçar nos sapatos que estavam no tapete do banheiro.

 

- Jack.,. pare... Não vamos começar de novo. O que precisamos é sentar e conversar.

 

- Não preciso sentar com você. Não me sento com vagabundas.

- O homem estava doente, e era a primeira vez que ela pensava nisso.

 

A obsessão com prostitutas e vagabundas estava indo longe demais.

 

- Por que você não vai embora? - perguntou ela, com voz calma. Era inútil tentar conversar com ele. Porém ele agora não queria sair.

 

- Por quê? Está esperando alguém?

 

- Só as suas filhas. E tenho que me vestir.

 

- Não se incomode. Já vi isso antes.

 

- Ótimo. Então por que não vai embora?

 

- Quero ficar para ver as meninas. - Postou-se agressivo na frente dela, os olhos duros e com profundas rugas nos lados.

 

- Você pode vê-las uma outra hora.

 

- Você não pode me mandar embora. A casa ainda me pertence. Ainda é minha. - Deu um passo para ela e jogou-a no chão. E você também. Posso possuí-la sempre que eu queira.

 

- Não vamos falar disso agora. - Subitamente ficou com medo e não gostou de estar sozinha com ele. Parecia um louco. Jack percebera o pavor dela. Deu mais um passo e agarrou-lhe os braços.

 

- É verdade, você sabe... Você me pertence... como sempre pertenceu... Minha putinha... - Odiava-o quando ele falava assim. Passara a odiar tudo nele, e avaliava há quanto tempo sentia esse ódio. Mas enquanto pensava nisso, ele a arrastava pelos braços para o outro quarto, para a cama.

 

- Pare, Jack... por favor...

 

- Que favor? O favor de botar em você como sempre fiz, sua vagabundinha? Você sempre foi isso, uma cona que eu mantinha a meu lado por conveniência... Nunca me importei com você, sabia?... Sabia, sua cadela? - Imaginava por que ele a odiava tanto, quando a atirou na cama e jogou todo o seu peso sobre ela, prendendo-a enquanto lhe rasgava o sutiã e depois lhe forçava as calcinhas. Era loucura, estivera casada com ele durante vinte anos e ele a violentava. Não fazia o menor sentido.

 

- Pare, Jack! - Agora estava chorando, e quase não conseguia respirar sob o peso dele, esmagando-lhe os seios enquanto abria a braguilha e se esforçava para penetrar nela. Surpreendia-a que sempre pudesse executar isso. Talvez o excitasse saber o quanto ela não desejava.

- Por favor... - Ela suplicava enquanto Jack lhe mordia o lábio até sangrar e depois baixava a boca para lhe morder os seios, onde ela sentiu que uma gota de sangue aflorava também; ele empurrava com força montado nela, machucando-a e ao mesmo tempo espremendo-lhe os seios. Depois, subitamente, esbofeteou-a com força, uivando de prazer, gozando ao mesmo tempo. Afastou-se da mulher bruscamente e viu que soluçava na cama manchada de sangue. Ficou em pé, puxou o zíper das calças e escarneceu dela. A única palavra que pronunciou antes de sair foi ”prostituta”. Deixou-a chorando na cama. Jane ouviu o carro partir em disparada, mas não se importava mais com coisa nenhuma.

 

Bill Warwick foi o primeiro a chegar, parecendo tão belo quanto Mel lembrava, mas um tanto sombrio, como se estivesse muito preocupado. Estava muito elegante no smoking alugado, e o cabelo louro parecia uma coroa de ouro, mas havia algo nos olhos que perturbava Mel, como se neles visse as mágoas do mundo. Conversou banalidades junto ao bar, pediu um uísque com gelo, e olhou à sua volta com admiração evidente. Era uma casa bonita e Mel sentia-se feliz em estar ali. Ficava no alto de um morro, sobranceira a Los Angeles, com uma vista espetacular. Tinha uma sala de estar imensa com colunas e piso de pedra. Havia quadros de pintores modernos por toda parte, uma vasta piscina ao lado, e uma sala de jantar clássica com um teto que podia ser removido por um motor elétrico nas noites quentes, o que fora feito agora.

 

- É uma casa maravilhosa - disse Bill com admiração, pensando no seu acanhado retiro, e depois, só rapidamente, na visita de Sandy aquela noite. Conjeturou para onde teria ido, onde estaria morando... quem lhe tinha feito a equimose e a cicatriz... tudo tão feio e triste. Quase não conseguiu prender as lágrimas, enquanto conversava com Mel e esperava que os outros chegassem.

 

- Você está com um ar muito sério, hoje. - Mel tinha uma percepção fina, e considerava seus astros sempre importantes. Significavam muito para ele e tudo para o programa.

 

- Estou apenas emocionado, acho - Bill assegurou. - Parece que agora tenho uma porção incrível de coisas em que pensar. - Sorriu, e Mel achou que milhões de mulheres haviam de demonstrar afeição por esse jovem quando sua imagem fosse para o ar.

 

Zack Taylor chegou a seguir, dirigindo ele mesmo o Rolls aberto, parecia desembaraçado, elegante, cortês e muito à vontade. Sua casa era bem maior do que a de Mel, e igualmente bonita. Começaram a discutir sobre jardineiros profissionais, e fornecedores que conheciam, como velhos amigos, enquanto Bill apreciava a vista.

 

Gabrielle foi a terceira, vestindo um traje de chiffon cor de pêssego que fazia seus cabelos parecerem ébano brilhante a lhe descerem pelas costas. Mel beijou-a no rosto quando chegou e a acompanhou pelos degraus, apresentando-a imediatamente a Zack. Conversaram alguns minutos sobre a Grécia, e sobre como se sentiam felizes por trabalharem no seriado; depois Mel levou-a para conhecer Bill, que estava admirando o panorama, e quando ele se voltou, Mel voltou a perceber o ar de profunda angústia nos seus olhos. Gabrielle era muito parecida com a Sandy de uns tempos atrás, quando não estava ainda viciada; contudo, Gabby era ainda mais bonita e infinitamente mais sofisticada e elegante. Mas foi como uma visão para Bill, e aquela semelhança reativou sua mágoa.

 

- Olá, Bill. - Gabrielle sorriu para ele, os olhos amistosos, o rosto perfeito como um camafeu, com nariz arrebitado, grandes olhos verdes, e boca suavemente talhada. Tudo nela era delicado e bonito, e a maneira como fora criada dotara-a de muita elegância. - Suponho que vamos ser irmãos no seriado.

 

Ele pouco falou com ela, respondendo-lhe por monossílabos, e logo entrou para servir-se de outro uísque. Sem se revelar afetada pela escassa consideração, Gabrielle voltou para conversar com Zack. Tiveram um longo diálogo a respeito de um hotel em que os dois tinham estado nos Dolomitas, e finalmente Jane chegou. Ficou, por um momento, no alto da escada enquanto Mel conversava com Bill, e Gabrielle estava com a atenção presa em Zack. Jane parecia uma ave requintada prestes a levantar voo, o exótico cabelo ruivo brilhante em profundo contraste com o vestido branco de contas; a plenitude do seu corpo tirava o fôlego das pessoas. Mas era a expressão dos olhos que a destacava mais, e Mel novamente sentiu o inexplicável desejo de passar o braço por seus ombros e lhe dizer que tudo ia dar certo. Parecia amedrontada, embora sensual e linda, e fitá-la era quase um ato sexual; Mel sentiu-se quase em pecado por olhá-la daquela maneira. Devagar, hesitante, desceu a escada, e os seus olhos demonstravam tanto alívio quando se postou ao lado de Mel. Já quase nada sentia dos tormentos anteriores, a não ser por uma mancha roxa no seio esquerdo, que tratara com gelo antes de cobri-la com o espetacular vestido que tanto a preocupara.

 

Os olhos mostravam-se cálidos quando falou com Gabrielle, quase como se fosse sua mãe, e Mel congratulou-se consigo mesmo pelas escolhas que tinha feito. Jane voltou-se para Zack, que parecia fora de si diante dela, tão estupefato que quase não conseguia falar, mas finalmente riu consigo mesmo.

 

- Seu vestido está maravilhoso.

 

- Obrigada... - Corou. - Estava com medo... Achei... Não tinha certeza...

 

Meigamente Mel pôs o braço em torno dela.

 

- Você está fabulosa, Jane. Só estou sentindo falta da peruca preta, claro. - Riram e ela se sentiu mais descontraída. Quando Mel a apresentou a Bill, seu calor humano o tirou um pouco da concha. O grupo ficou mais à vontade, sentando-se nos grandes sofás brancos, bebendo champanha, e então a porta se abriu outra vez e agora já não havia dúvida nenhuma sobre quem era a estrela. Sabina deslizou pela escada num vestido de cetim cinza, os cabelos louros emoldurando-lhe o rosto, os olhos como os de uma tigresa à espreita, e no braço a nova pulseira de brilhantes que Mel lhe dera.

 

- Boa noite - ronronou, e a seguir passou os olhos pela sala, enquanto Mel sorria. Já estava desempenhando o seu papel com todo o coração, mas não era só isso. O papel fora feito para ela. Dirigiu os olhos para Zack e estendeu a mão enquanto ele lhe sorria.

 

- Srta. Quarles... - Sabia muito bem como lidar com ela, pois já se conheciam.

 

- Olá, Zack. - Virou-se para Bill. - Creio que não nos conhecemos. Sou Sabina Quarles. - Não precisava de Mel para apresentála, tinha tudo sob controle, como sempre: a entrada preparada, o vestido perfeito para o papel, o arranjo dos olhos, dos cabelos, do rosto. Jane sentiu-se uma caipira perto dela e Gabrielle estava fascinada. Sabina agradeceu-lhe com um olhar, e depois voltou-se para Jane. - Então, você é a irmã que adorarei odiar. - Os outros riram, e Jane sorriu nervosamente.

 

- Admiro muito o seu trabalho.

 

- Acho que nunca vi o seu. - Virou-se para Mel, deixando Jane, e aceitou uma taça de champanha. Seus olhos mostravam-se ardentes, mas não deixavam escapar nada. Não era tola para deixar que os outros soubessem que andava dormindo com ele. Era muito importante para ela, e agora estava como num palco, representando para todos eles.

 

Foram jantar exatamente às nove horas; Mel escolhera os lugares cuidadosamente. Sabina à sua direita, Jane à esquerda, perto de Bill, Gabby ao lado dele, e para completar Zack à direita de Sabina. Zack jogava com precisão. Era encantador com sua parceira, mas Mel observou que ele olhava para Jane o tempo todo. Parecia fascinado por ela, e os olhares que lhe lançava eram cálidos. Ela parecia ser a única capaz de animar Bill, e ele ignorava Gabrielle, como aliás faziam quase todos os outros. Só Zack parecia cortês o suficiente para se dirigir a ela sempre que Sabina conversava com Mel. Era um grupo interessante, e estava curioso para saber o que Sabina iria comentar sobre eles. Em resumo, apesar das pequenas tensões que surgiram, a noite correu admiravelmente. Foram tomar mais champanha em torno da piscina, onde Sabina ficou com a cidade cintilando atrás dela como um pano de fundo, conversando com Zack, e, uma vez ou outra, observando Bill. Praticamente não foi atenciosa com Gabrielle nas poucas vezes em que falaram, e Mel percebeu que as tentativas de Gabby para trocar algumas palavras com Bill foram repelidas. Só Jane parecia capaz de conversar facilmente com todos. Apesar do nervosismo, seu jeito maternal inato animava cada um deles, exceto Sabina, que comentou maliciosamente o seu vestido, fazendo com que Jane se desculpasse outra vez. Mas Zack a salvou a tempo, com arte e destreza, enquanto elogiava também a linda pulseira no braço de Sabina. Ela ficou satisfeita que Zack tivesse notado, e Mel divertiu-se. Gostava de observar os relacionamentos entre eles, parecia estar tudo dando certo, a única coisa a lamentar era que Gabrielle, supunha Mel, iria passar por momentos difíceis. Era a ingénua, o membro menos experiente do grupo, e, como crianças maldosas, os demais iam fazer com que pagasse por isso. Também não estava preocupado com os atritos entre Sabina e Jane. Jane ia aprender a lidar com a situação no tempo devido, à medida que ganhasse autoconfiança, e ia ser bom para o programa reforçar um pouco o clima da história com aquela rivalidade. E Zack era bastante cavalheiro para lidar com as duas. Não estava muito seguro a respeito de Bill, mas o rapaz sabia representar e isso era importante. Fosse qual fosse o motivo que o estava aborrecendo, finalmente ia superá-lo. Sabina parecia gostar dele, e isso era importante. Quanto a Jane, gostava de todos.

 

Era mais de meia-noite quando eles se foram, sendo Sabina a primeira a sair. Tinha recebido o recado de Mel depois da sobremesa. Iria para a casa dela logo que todos tivessem partido. Sabina não demonstrou nada quando o beijou no rosto, sussurrou uma frase para Zack e riu, sorriu com interesse para Bill, fez um gesto de cabeça para Jane, e ignorou Gabby. E depois, com um movimento da raposa prateada a lhe cobrir o vestido de cetim, partiu no carro de Mel, tal como tinha chegado. A estrela. Tudo certo. A rainha é sempre a primeira a partir. E a última a chegar. Fizera ambas as coisas com perfeição.

 

- Meu Deus, ela é fabulosa - sussurrou Jane para Mel depois que Sabina partiu. - É exatamente como ver a realeza. - Ele riu. Sabina havia desempenhado o papel muito bem. Pobre Jane, precisava de mais autoconfiança

 

- A ideia é essa mesmo. Não se preocupe. Os telespectadores vão ficar encantados com você também. Há um pouco para todo mundo neste seriado. - Ele sorriu para os outros. Gabrielle parecia um anjo de cabelos negros de pé junto à piscina. Ficou imaginando por que Bill não estava mais interessado nela. Se ele tivesse a idade de Warwick, mas... cada um tem o que merece, pensou.

 

Zack foi o próximo a partir, e ofereceu carona às duas moças, mas Mel tinha providenciado um carro para cada uma, de modo que não precisaram. Elas saíram logo, e Bill as seguiu, depois de apertar a mão de Mel duas vezes e agradecer-lhe pela oportunidade de participar no programa.

 

- Fique à vontade e aproveite, Bill. Está tudo certo? - Sentia-se preocupado com ele, mas Bill insistiu que estava ótimo. Meteu-se no Porsche que comprara com o primeiro pagamento pelo seriado e soltou um suspiro de alívio. Fora uma noite interminável. Nem por um instante fora capaz de tirar a maltratada imagem de Sandy da cabeça. E aquela maldita garota do seriado... tão parecida com ela... Poderia ter sido Sandy em seu lugar, indo para Nova York com ele, se não se tivesse entregue ao vício. Pensar nisso e no mal que fazia a si mesma deixava-o deprimido. Agora poderiam ter tudo.

 

Jane recostou a cabeça no encosto do carro a caminho de casa, pensando em todos eles... Sabina... Zack... Gabby... Bill... Eram tão fortes, interessantes. Conjeturou como iria se adaptar a eles. O seio que Jack tinha machucado estava latejando, e ela se viu pensando em Mel e nos seus olhos. Pareciam ter visto muita coisa na vida, e tinha a impressão de que eles podiam ser amigos. Queria fazer amizade com todos. Gostava um bocado de Gabby, de Bill... e Zack era tão fabuloso mas com certeza estava loucamente apaixonado por Sabina. Deus, esta era uma figura incrível... com aquele olhar... Fechou os olhos recordando todos, e quando chegaram a Pasadena, e o motorista abriu a porta para ela, estava dormindo profundamente

 

- Bem, o que você achou deles? - Mel estava sentado novamente no sofá branco da casa dela, e parecia satisfeito. Era uma hora, tinha pago o bufé e inspecionara tudo antes de partir, e depois ele mesmo dirigira para Linden Drive, onde Sabina morava.

 

- Formam um belo grupo. - Sabina estava recostada no sofá em seu vestido de cetim cinza, ainda com a aparência que exibira na casa dele, só que um pouco mais descontraída. Seus olhos dançavam enquanto reavaliava o elenco, e Mel riu quando ela lhe expôs o que pensava.

 

- Coitada da Jane, parece um ratinho. - Riu. - E é bom que ela se cuide, ou vou devorá-la viva... grrroommff... - Ela rosnou, e foi a vez dele rir.

 

- Seja boazinha com ela. Jane está morrendo de medo de você.

 

- Sacudiu-lhe um dedo paternalmente, e Sabina gargalhou, maldosa.

 

- Eu sei. Meu Deus, ela tem presença. Qual é a idade dela?

 

- Trinta e nove.

 

- Deve ter gasto um bom dinheiro para se arrumar. Tudo aquilo não pode ser natural. O que fez ela até agora, por falar nisso?

 

- Novelas no horário da tarde. Fez Our Secret Sorrows durante dez anos.

 

- Ai, meu Deus. Que horror! - Repudiou-a com um movimento das mãos. - Bill Warwick é interessante. Magoado com alguma coisa. Coração despedaçado, suponho. Um desses tipos cismadores, apaixonados, e provavelmente muito bom na cama. - Mel olhou-a pouco satisfeito, e ela beliscou seu rosto enquanto lhe sorria. - Não se preocupe, escoteirinhos não fazem o meu tipo. É jovem demais para mim, mas aquela ingenuazinha parece que ficou gamada por ele. Ela está escondendo alguma coisa. - Disse isso com um instinto que vinha de longe, mas Mel sacudiu a cabeça. Tinha certeza de que ela estava errada.

 

- Duvido muito.

 

- Pode ter certeza. Ela está. Sou capaz de garantir. Talvez andasse dormindo com alguém que não devia. - Levantou os olhos para Mel e franziu as sobrancelhas. - É melhor que não seja você, meu amigo.

 

Desta vez ele riu.

 

- Eu também não estou interessado em jardim de infância, minha querida.

 

- Ótimo. E Zack Taylor é bicha.

 

Mel quase caiu do sofá ao olhar para ela.

 

- Você quer dizer que ele é homossexual?

 

- Isso mesmo. - Ela parecia presunçosa.

 

- Agora você está completamente errada.

 

- Estou, uma ova.

 

- É o galã mais ardente de Hollywood, e nunca ouvi qualquer boato a respeito dele.

 

Deu a impressão de não se importar.

 

- Bem, ele é discreto. Pode crer no que digo. Ali não existe química. Não existe vibração. Nada. É cortês, encantador e bicha.

 

- Sabina, você está dizendo bobagens. Ela riu e balançou os ombros.

 

- Talvez esteja, mas aposto como não estou. Só que ele tem muito cuidado com quem sabe.

 

- Não existe isso nesta cidade. Se ele fosse, todo mundo já sabia.

 

- Talvez esteja errada, mas acho que não. - Não que ela se importasse. Estava feliz com Mel. Como não se sentia há anos.

 

- Espero que você esteja certa a respeito de Bill. Fiquei preocupado com ele esta noite. Parecia um vulcão prestes a explodir, e não quero problemas com as filmagens.

 

- Gabrielle vai mantê-lo na Unha. Ou o mantém na linha ou o deixa louco. Quem é ela, por falar nisso? Parece ter progredido muito para uma garota. - Ouvira-a falar sobre viagens, Europa, arqueologia, Palm Beach...

 

- Provavelmente apenas se exibia. Ou talvez você esteja certa.

 

Talvez tenha viajado pelo mundo com alguém. - Divertia-se com a análise que Sabina fazia de cada um.

 

- Ela sabe representar?

 

- Você acha que eu a teria contratado se ela não soubesse?

 

- Não, meu querido. - Beijou-o generosamente nos lábios e os dois esqueceram Gabrielle. - Agora, e eu? - Perguntou. - Onde é que você acha que eu fico no meio de tudo isso?

 

- Você é a estrela. Todos foram ofuscados por você hoje. - Adorou ouvir aquilo, e ele não se importava de lhe dizer. Estava acostumado com estrelas e com a segurança constante de que precisavam. Sabina talvez menos do que a maioria, mas ainda assim... - Tive a impressão de que eles iam desabar quando você entrou.

 

Ela jogou a cabeça para trás e riu.

 

- Achei que aquela pobre mulher ia fazer pipi nas calças. Referia-se a Jane, e Mel compreendeu.

 

- Sabina - repreendeu-a suavemente -, seja boazinha com ela... Não vai fazer mal nenhum a você. Você pode se dar ao luxo de ser generosa.

 

- Não tenho paciência com este tipo de gente.

 

- Ela podia ser qualquer um de nós. É insegura, tímida e está desesperada para agradar.

 

Sabina sacudiu a cabeleira de ouro.

 

- Posso até imaginar. Eu bem disse a você, ela é um ratinho. Eu como ratinhos. - Beijou-o de novo. - Além de outras coisas.

 

- Você é uma pestinha, garota. - Mas gostava dela do jeito que era, torturando-o com os lábios, o corpo e os olhos.

 

Ela pousou a taça e desabotoou-lhe a camisa engomada.

 

- Senti falta de você esta noite.

 

- O que é que você quer dizer?

 

- Me senti idiota fazendo aquele jogo, fingindo que quase não o conhecia... - Mas ambos sabiam que assim era o melhor. Agora a língua de Sabina começava a descer-lhe pelo peito e ele fechava os olhos, tomado pelo desejo de possuí-la. Facilmente desabotoou o vestido de cetim cinza. Saía pelos ombros, e com o desabotoar de quatro botões o fez deslizar para as coxas dela, abrindo bem os olhos para fitá-la.

 

- Meu Deus, você é linda... - falou num tom abafado, conjeturando se algum dia ia se acostumar com ela, se algum dia ia perder o interesse. Desejava-a o tempo todo, e quando ela se pôs de pé, viu que não usava nada por baixo do vestido. Só de lembrar como ficara sentada a seu lado a noite inteira fez com que subitamente se sentisse fraco: toda aquela carne requintada, nua, tão perto dele. E agora, quando abriu as pernas para provocá-lo, ele se inclinou para a frente e, como um perito, encantou-a com a língua. Ela lhe comprimia o rosto entre as pernas, e se mexia com ritmo a gemer. Suavemente acariciava-lhe as nádegas enquanto a excitava cada vez mais, titilando com a língua para dentro e para fora, fazendo com que Sabina suplicasse por ele; depois, quando ela gritou, despiu-se apressadamente e deitou-se junto dela no espesso tapete de pele da sala de estar. Ficaram lado a lado, e ele se pôs a excitá-la novamente com os dedos e a língua, e depois a penetrou, levando-a a novos prazeres até ficarem os dois navegando pelo espaço enquanto ela tornava a gritar, agora numa espécie de uivo interminável, até que finalmente ficou exausta nos seus braços, e ele a fitou, satisfeito, passando a mão pelo comprido cabelo louro. Sua voz estava mais profunda do que sempre quando ela falou, olhando-o com um sorriso vacilante:

 

- Ainda vão me expulsar daqui, se não pararmos de fazer isso.

 

- Ele sorriu.

 

- Você pode contar sempre comigo, se fizerem isso. - Estava rouco de prazer, e ficaram deitados juntos no tapete durante muito tempo. Formavam um bom par no plano físico, e também em outros planos. Ele não exigia nada dela, e ela exigia muito pouco dele. Já tinha o que queria, o papel de estrela no programa, e de qualquer maneira o teria conseguido. Mas desfrutavam um do outro, e nenhum deles pedia mais que isso. Nenhuma promessa, nenhum sonho, nada para durar eternamente. Só o momento atual.

 

- Você vai a Paris comigo, Mel? - Virou de lado para olhá-lo, e parecia espantosamente jovem.

 

- Vou tentar. Não posso ficar lá com você as três semanas, mas farei o que puder.

 

- Ótimo. - Sorriu e fechou os olhos. Ultimamente a vida estava sendo tão boa com ela. Ficaram deitados lado a lado até o raiar do dia, quando ele voltou para Bel Air.

 

Mel entregou-lhe as passagens do Concorde e Sabina embarcou em Washington, com todas as honras imagináveis. Fotógrafos, repórteres, um casaco de vison novo no braço, presente especial dele. E foi recebida em Paris por uma limusine Rolls-Royce, que a levou para o Plaza Athenée na Montaigne Avenue, onde havia reservado uma suíte para ela. No dia seguinte deu uma entrevista coletiva para a imprensa internacional, e depois deu início à primeira série de provas com François Brac, um homenzinho agitado, de bigodes e cabelo grisalho, que vinha vestindo duquesas e estrelas de cinema há trinta anos. O guarda-roupa que tinha planejado para Sabina era digno de uma rainha. Ficou maravilhada com quase tudo, e quando não gostava de alguma coisa, ele mudava. Mel chegou na semana seguinte, também de Concorde, e alugou sua própria suíte, mas passava com ela todas as noites. Só as camareiras sabiam, mas não tinham motivo para contar a ninguém; de qualquer forma, estavam acostumadas com essas coisas.

 

Almoçavam no Relais-Plaza ou no Fouquet’s, e jantavam no Maxim’s ou na Tour d’Argent, e duas noites seguidas ficaram na cama fazendo amor e pediram jantar no quarto. Foram as três semanas mais fabulosas da sua vida; Sabina odiou voltar para Los Angeles, mas as provas haviam terminado, e Mel insistiu que devia voltar. Tinha muito trabalho a fazer, e ela também. Os ensaios deviam começar na semana seguinte, e dentro de um mês todos iam partir para Nova York. A vida era muito interessante nesses dias. Pelo menos para Sabina.

 

Para Jane, era um verdadeiro inferno, e sobretudo estafante. Tornava-se difícil acreditar que era uma das estrelas do maior seriado a ser exibido no ano seguinte. À espera do início dos ensaios, não tinha quase nada a fazer. Um auxiliar de François Brac tinha voado para Los Angeles a fim de tirar suas medidas, desenhar esboços, tirar fotografias, e depois voltara a Paris a fim de criar o guarda-roupa para ela. Mas todas as provas estavam programadas para Los Angeles assim que os ensaios começassem e, enquanto isso, ela nada tinha para fazer, exceto tomar conta da casa e tentar restabelecer sua amizade com as filhas. O que não era fácil. Evitavam-na. Não queriam ouvir falar no seriado, e ameaçavam mudar-se para casa de Jack, mas Jane não queria admitir isso. Eram suas filhas, pertenciam-lhe. Queria que houvesse convivência entre elas. E também que Jack se acalmasse. Mas isso era inútil agora. Viera à casa para vê-la, e ela estava preparada para recebê-lo. Encontrara o revólver esquecido por ele na escrivaninha. Jack sempre gostara de ter uma arma em casa, ”para o caso de necessidade”, e acabara esquecendo-a. Mas Jane não a esquecera. Quando Jack voltou de novo, apontou o revólver para ele,

 

- Se você tocar outra vez em mim, eu o mato, ouviu? - Estava chorando, mas calma, a engolir os soluços com cada palavra. Ele ficou furioso, mas não voltou mais.

 

Depois disso, trocou as fechaduras. Os documentos foram preenchidos, e tinha três meses para ficar na casa. Recusara-se a comprar a parte dele. Não queria nada dele. Não precisava mais dele, e estava farta de ser tratada como uma vagabunda, o que jamais fora, como incansavelmente continuava a dizer às meninas. Porém Jack lhes tinha envenenado as mentes, e elas não acreditavam em nada do que Jane dizia, embora fosse inteiramente honesta com elas. Quanto ao filho, agora nem mesmo falava com a mãe. Contara-lhes sobre a novela que tinha feito durante quase onze anos. E ficaram chocados. Como é que nunca tinham descoberto? Como é que podia ter mentido assim para o pai? Tentou explicar que o fizera porque tinha medo dele, Jack não compreendia o que podia ser importante para ela. Tentou explicar-lhes tudo, mas estavam determinados a não aceitar, e a torturá-la. Praticamente não lhe dirigiam a palavra, e todas as noites, após o jantar, iam para seus quartos. Sentia-se pária na própria casa, e foi um alívio enorme quando certo dia Zack Taylor telefonou e a convidou para almoçar. Parecia uma previsão e promessa de vida melhor num mundo diferente. Ofereceu-se para apanhá-la em casa, mas ela preferiu encontrá-lo na cidade. Zack sugeriu o La Serre, no Vale, e Jane ficou encantada quando desligou o telefone. Comprou um vestido novo de malha, com aparência sexy, num tom de verde que a favorecia, e ficou notável quando o trajou com sapatos de salto alto, novinhos. Tinha cortado recentemente os cabelos, e se sentia como uma mulher nova quando entrou no restaurante, e quase riu alto ao ver que as pessoas a olharam fixamente quando Zack a cumprimentou com um beijo. Todos sabiam quem ele era, e de repente todo mundo quis conhecê-la. Zack apresentou-a ao maitre como participante do seu novo seriado, e ambos pediram vinho branco em vez de aperitivos, e depois conversaram sobre o programa. Ela o fez rir com relatos sobre o auxiliar de Brac, seu sotaque, maneirismos e queixas contra os americanos.

 

- Calculo como Sabina se saiu lá com o próprio Brac! - Ele riu e depois sacudiu a cabeça. - Embora eu ache que ela sabe perfeitamente tomar conta de si. - E ele parecia saber também. Era tão sereno que Jane achou maravilhoso que a tivesse convidado para almoçarem juntos. Revelava-se encantador e elegante, parecia conhecer todo mundo, e todo mundo o conhecia. Sentia-se como a Cinderela do conto de fadas. Um dia estava lavando o chão da cozinha e passando roupa para as filhas, e no dia seguinte estava com um dos maiores astros de Hollywood.

 

- Certos dias eu não acredito que coisas tão boas estejam acontecendo comigo.

 

- Você merece tudo o que conseguiu. Sabe, eu costumava assistir àquela novela maluca em que você trabalhava. Jamais imaginaria que era você.

 

Os olhos dela se arregalaram.

 

- Você assistia?

 

- Nunca iria reconhecer você sem aquela peruca.

 

- Aí é que estava o problema. - Contou-lhe a respeito de Jack e que ele se recusava a deixá-la representar.

 

- Como é que ele recebeu o seriado de agora? Bem?

 

Jane hesitou um momento e depois resolveu contar-lhe a verdade.

 

- Ele me deixou quando aceitei o papel.

 

- Está falando sério? - Zack parecia chocado.

 

- Estou. - Mostrava-se triste, mas não tanto como ficava a princípio. Começava a se convencer que podia muito bem livrar-se dele.

- Depois de vinte anos. Talvez seja assim mesmo. Mas parece que ele está me dificultando as coisas com meus filhos. Eles acham que sou culpada, e às vezes me sinto culpada mesmo por fazer isso, mas não poderia continuar vivendo uma mentira permanente. E, bem... existem outras coisas...

 

- Sempre existem. - Parecia entender tudo, e ela ficou sensibilizada com o carinho.

 

- Você é divorciado, Zack? - Em Hollywood todo mundo era, pelo menos uma vez, e em geral mais. Mas ele sacudiu a cabeça.

 

- Não, não sou. Nunca me casei. Estou virgem aos 46 anos. Sorriu, e ela soltou uma gargalhada. Estava claro que ele não era virgem. Era o homem mais desejável da cidade. E supunha que isso facilitava muito as coisas, de modo que ele evitava prender-se. Não podia culpá-lo. - Que idade têm seus filhos?

 

- Jason está com dezoito e estuda na Universidade de Santa Bárbara, as meninas estão com quatorze e dezesseis. - Suspirou. - E ultimamente muito difíceis. Jack as envenena contra mim.

 

- Pois vão superar isso. Espere até que a mãe delas seja o maior sucesso da TV. As amigas vão ficar adulando-as, e você começará a parecer muito boa para elas. As crianças são muito vulneráveis a essas coisas. - Ficou cogitando como é que ele sabia, e desejou que estivesse certo. Era insuportável viver com elas tal como as coisas andavam. Mas pior seria viver longe delas.

 

Zack perguntou-lhe se tinha visto o resto do elenco após o jantar na casa de Mel, e ela disse que não. Quando Zack contou que tinha almoçado com Gabby na semana anterior, Jane ficou decepcionada. Ocorreu-lhe que ele estivesse querendo fazer amizade com todos, e provavelmente não se sentia atraído especialmente por ela. Afinal de contas, seria bobagem esperar algo mais de um homem como aquele. Mas ele a convidou para almoçar novamente na semana seguinte, e perguntou-lhe onde ia se hospedar em Nova York. Haviam-lhe proposto escolher entre o Carlyle e o Pierre; supunha que seria melhor ficar fora do centro, e queria saber o que ela achava.

 

Jane riu.

 

- Ambos me parecem bons. - Disse-lhe que as filhas iam encontrar-se com ela nos feriados, mas o filho se recusava a ir. Preferia esquiar com o pai.

 

- Então fique no Carlyle.

 

- Você também vai passar lá o Natal? - iam ter quatro dias de folga, e não havia motivo para voltar, mas ele foi vago e disse que provavelmente viria para casa. Observou-o com atenção enquanto almoçavam. A aparência de Zack era incrivelmente boa e ela não conhecia o motivo por que a convidava para sair, se era para fazer amizade ou se havia qualquer outra coisa mais. Zack não a chamava para sair à noite, e Jane se sentia agradecida por almoçar com ele. Enquanto aguardava os ensaios, a vida continuava triste. Mas de repente tudo começou a acontecer ao mesmo tempo: estava fazendo as malas para ir a Nova York; o guarda-roupa de Brac chegara; Mel e Sabina voltaram, embora separados. E as filhas foram ficar com Jack enquanto durou a sua estada em Nova York.

 

Quando se deu conta, estava no avião com o resto do elenco voando para Nova York, as filmagens prestes a começar. Eram sessenta a caminho do leste, num voo fretado: assistentes de produção, técnicos, atores, operadores de câmera. Ia haver mais gente na equipe, contratada em Nova York, aqueles sessenta eram apenas a metade. Beberam litros de vinho, e todos cantavam e conversavam, começando a fazer amizades. Enquanto Sabina dialogava com Mel e Zack, ignorando os outros, Jane conversava com Bill. Gabby ficou sentada sozinha, apesar das tentativas de Jane para incluí-la na conversa. Bill revelava-se quase grosseiro com Gabrielle nesse voo para o leste.

 

Após algum tempo de viagem, Sabina pediu um violão emprestado e começou a cantar canções maliciosas que faziam todo mundo rir. Era uma faceta dela que nunca tinham visto antes. Quando aterrissaram, estavam um pouco altos. Havia dois ônibus para a equipe e três limusines para os demais. Jane ficou satisfeita ao descobrir que ela, Zack, Gabby e Bill iam se hospedar no Carlyle, enquanto Sabina e Mel iam para o Pierre.

 

Zack jantou com Gabby e Jane no restaurante do hotel, mas Bill preferiu pedir a refeição no quarto. Disse que se sentia cansado e todos esqueceram dele. Depois do jantar foram ao Bemelmans Bar e conversaram até quase uma hora, após o que Zack insistiu que todos fossem dormir. Tinham de estar na locação às 6:15 da manhã.

 

Gabby disse que precisava de um pouco de ar, e teimou em caminhar uma quadra sozinha. Disse que conhecia Nova York, e finalmente Zack concordou que fosse, e se enfiou no elevador com Jane.

 

- Cansada? - Mostrava-se solícito, e ela sorriu. Estava louca por ele. Como amigo. Não esperava nada além disso. Era evidente que tinha outras mulheres na vida, e ela se satisfazia em ser apenas sua amiga. Era alguém que se interessava pelo que ela pensava e sentia. Pela primeira vez em vinte anos encontrara um homem que se interessava por ela, ainda que fosse apenas como amigo. De qualquer maneira, fazia com que se sentisse bem.

 

Ela lhe sorriu

 

- Estou emocionada demais para me sentir cansada. Nem sei mesmo se vou conseguir dormir. - Para ambos era apenas dez da noite, mas sabia que se não fosse logo para cama, ia lamentar quando tivesse de acordar pela manhã.

 

As folhas de chamada tinham sido distribuídas no avião, informando quais cenas seriam filmadas no dia seguinte, que atores iam representar, e em que ordem. Tudo era novo e emocionante para Jane, nunca estivera numa locação antes.

 

- Acho que estamos na primeira - lembrou-lhe. Mas tinham ensaiado a cena várias vezes em Los Angeles, e se sentiam à vontade em relação ao trabalho.

 

- É, depois você e Bill, Sabina, eu e Gabby.. - Tinha tudo decorado, e Zack sorriu para ela e tocou-lhe meigamente o rosto.

 

- Você pode se descontrair... Vai ser um sucesso... Conhecendo Mel, provavelmente será um sucesso por muito tempo. Ele sempre sabe como se faz isso.

 

- Espero que esteja certo

 

- Você sabe que estou. - O elevador parou no andar dela e ele saltou, levando-a até a porta do quarto. - Para você, é apenas o começo, Jane. De uma vida inteiramente nova, que merece mais do que qualquer outra pessoa que conheço. Ficou parada diante da porta e levantou os olhos, sérios, para ele.

 

- Você é o homem mais encantador que conheço, Zachary

 

- Não, não sou. - Parecia triste, e ela ficou perturbada, com o olhar nos olhos dele, conjeturando qual seria a causa daquela tristeza. Era a primeira vez que o via daquele jeito.

 

- É, você é, sim. Você me apoiou quando eu precisava desesperadamente de um amigo.

 

- Fico satisfeito. - Olhou-a com carinho, depois abriu a porta com a chave dela. - Agora durma um pouco, beleza, ou o bicho-papão vai devorar você amanhã. - Riu, e Jane gemeu. Sabina ainda a amedrontava como o diabo.

 

- Não fale assim. Ela vai ouvir o que você está dizendo ainda que o Pierre esteja longe.

 

- Não tenha medo de Sabina. Ela tem um peixe maior para pescar. - Há bastante tempo percebera que Sabina vinha tendo um caso com Mel, mas não seria ele o primeiro a comentar. Tinha seus próprios problemas. Afinal, o que estava errado? Se era isso o que ela queria, por que não, que diabo?! - Boa noite, meiga menina – Zack beijou o rosto de Jane e um momento depois voltou ao elevador, pensando em gente distante e num tempo distante em que opções tinham sido feitas. Mas Jane insistia em voltar-lhe ao pensamento. Quando chegou ao quarto, ligou para a copa e pediu um drinque.

 

O primeiro dia de filmagem foi cheio de atividade e os nervos de todos se apresentavam tensos. Foram lidos horóscopos. Cumpriram-se superstições. Sabina recusou-se a fazer amor com Mel na noite da véspera, com medo de ficar com aparência cansada. Todos tinham feito coisinhas peculiares que os atores fazem quando começam a filmar. Com o tempo, todos descontraem, mas ainda não chegaram a isso. As folhas de chamada tinham sido distribuídas na véspera, mostrando que só iam fazer tomadas de quatro cenas, embora houvesse dias em que fariam seis, ou mesmo sete, ou oito. Mas tinham de começar. Estavam filmando na sede da IBM, no vestíbulo do 27 andar, e a vista de Nova York que descortinavam lá de cima era incrível. A primeira cena ia ser rodada no térreo, entre Zack e Jane, e ela ficara apavorada enquanto ensaiava as falas com ele mais uma vez. Já as tinha repassado à exaustão na noite da véspera, e ela e Zack haviam ensaiado muitas vezes em Los Angeles, mas estava com medo de que lhe desse um branco e esquecesse tudo.

 

- Permaneça fria - sussurrara ele a caminho de um dos trailers para ser maquilado. Cerca de seis e meia todos já tinham chegado em três limusines. Até Sabina ali estava com ar muito profissional, usando suéter preto çjeans. Todas as roupas para as cenas estavam penduradas num reboque reservado para isso. Sabina tinha seu próprio guarda-roupas, ao contrário de Jane, cujas roupas ficavam penduradas num cabide que se estendia entre duas janelas do seu trailercamarim. Jane usava um traje branco na primeira cena, seu cabelo já fora penteado, e vestia um enorme guarda-pó de plástico para proteger o vestido enquanto a maquiladora terminava o trabalho no seu rosto.

Zack parou a seu lado para lhe dar uma palavra de incentivo, e com sua presença sentiu-se animada. Estava sempre perto quando precisava dele. Parecia estar cuidando de todos, o que era raro num astro. Sempre amistoso, sempre educado, nunca se queixava e, de certo modo, mantendo certa reserva. Mesmo depois dos almoços em Los Angeles, Jane tinha a impressão de que praticamente não o conhecia. Ainda assim gostava muito dele. Zack era sempre carinhoso com ela.

 

- Mais café, Srta. Adams? - Um assistente de produção viera assegurar-se de que tudo corria bem, e Jane quase sentiu um zumbido no ar. Tinha vislumbrado Gabby e Bill. Gabrielle parecia séria, e Bill, como sempre, mostrava-se bonitão mas carrancudo. Ficou a imaginar qual seria o seu problema. Era evidente que Bill tinha um. Estava ficando conhecido entre eles como o solitário.

 

Os atores eram listados pelos nomes e números nas folhas de chamada, e Jane conferiu a sua vez depois de reler as falas. Era o número três, e aparecia em duas das quatro cenas - uma com Zack, outra com Sabina e Gabby. Essa ia ser a cena mais difícil, exigia uma confrontação a fim de estabelecer os caracteres das três mulheres. Tudo o que filmavam naquele dia era para o especial de três horas da estreia, mas à medida que as semanas fossem passando iam fazer tomadas de cenas de capítulos diversos e sempre fora de sequência. Era muito diferente de Sorrows, que ia ao ar ao vivo. Lá, tudo fazia sentido, obedecia sempre a uma ordem, e depois de tantos anos no programa, se esquecesse alguma fala, sabia improvisar, e de algum modo as improvisações davam certo, às vezes saíam até melhores que no script. Aqui tudo tinha que ser preciso e cada tomada era repetida até sair perfeita.

 

Ali perto, num caminhão enorme, fazia-se mais café, e o bufé de desjejum foi servido para todos. Mas Jane não conseguiu comer nada. Estava nervosa demais, embora tivesse visto Gabby e Mel entrarem no trailer junto com outros da equipe. A comida estava sendo feita pelo melhor bufé de Nova York. Mel não poupava nada para satisfazer a equipe e o elenco. Isso ficava óbvio ao se considerar a suíte no Carlyle e o guarda-roupa requintado de François Brac. Jane enfiou-se no casaco branco que combinava com o vestido e acendeu um cigarro, mas quase imediatamente o amassou e jogou fora.

 

- Pronta, beleza? - Zack voltou trajando um terno de executivo e capa de chuva, com uma maleta na mão. Formavam um belo par quando o seguiu, saindo do trailer.

 

Havia pelo menos oitenta pessoas andando lá fora, desde paramédicos até eletricistas, capatazes e carpinteiros. Tinham espalhado cadeiras de diretor, inclusive cinco novas com os nomes dos astros marcados a tinta. Ao vê-las, Jane ficou arrepiada e sorriu para Zack como uma garotinha. Já estava realmente acontecendo, e súbito ela ficou tão emocionada que quase não conseguia ficar quieta.

 

- Estou me sentindo como uma criança no primeiro dia de colégio. - Deu uma risadinha nervosa, convencida de que ia esquecer as falas, e ficou um tanto nauseada. Passaram pela porta giratória, e ficaram no vestíbulo observando os substitutos tomando-lhes os lugares para que o iluminador preparasse a cena. Parecia levar uma eternidade para acertar com a iluminação, e já eram sete e meia quando o diretor lhes disse que estavam prontos para começar. Era um inglês com quem Mel já havia trabalhado antes, e mostrou-se extremamente gentil, pondo-se a conversar calmamente com Zack e Jane.

 

- Vocês ensaiaram a cena antes... Ambos decoraram bem as falas? - Agora ainda se podia fazer alguma mudança, mas nunca depois de cinco tomadas. Jane ouvira que, com ele, às vezes chegavam a fazer até vinte. Os dois assentiram com a cabeça, e Zack sorriu. Prontos para começar?

 

- Sim - falou Jane com certa indecisão, e Zack concordou.

 

- Ótimo. - O diretor parecia satisfeito. - Vamos tentar. Nós ensaiamos uma vez e colocamos as fitas-crepe nas suas marcas. - Já havia tiras de fita-crepe no chão marcando onde os substitutos tinham ficado, mas sabia que quando começassem a rodar a cena, haveria variações sutis. A cena determinava que Zack encontrasse Jane fora dos elevadores. Devia fazê-la parar, agarrar-lhe o braço, e perguntar o que estava fazendo ali. ”Devo falar com minha irmã”, diria Jane, a respeito da filha dela.” Zack tentaria convencê-la a não subir, e ela se desvencilharia dele, em direção ao elevador. As portas do elevador se fechariam, e era o fim da cena. Iam filmar a seguinte lá em cima, onde Jane contracenaria com Bill, mas essa tomada não estava na folha daquele dia.

 

Para satisfação do diretor, só duas fitas foram mudadas, e as ordens eram que todos abrissem espaço e ficassem quietos. O vestíbulo estava cheio. Lá fora fazia frio, e muitos membros de equipe tinham entrado. Ademais, havia uma natural curiosidade. Vestiam calças jeans e botas de caubói, ténis e casacos pesados, e alguns usavam bonés de vigia ou de beisebol. Zack e Jane se destacavam por suas roupas caras. Era fácil descobri-los no meio dos astros.

 

Uma voz vinda de algum lugar perto da câmera gritou:

 

- Silêncio... Tomem suas posições!... E depois, repentinamente: - Ação! - Jane caminhou graciosamente pelo vestíbulo, parou diante dos elevadores e viu Zack; voltou-lhe as costas enquanto ele se encaminhava para ela e lhe agarrava o braço.

 

- Jessica? - perguntou no momento exato. - O que é que você está fazendo aqui?

 

Jane o olhava, como se não soubesse o que dizer, mas logo, em tom de desafio, disse:

 

- Estou aqui para falar com minha irmã, Adrian.

 

A cena prosseguiu, as portas do elevador se fecharam, e aquela mesma voz gritou:

 

- Corta... bom!... muito bom... - O diretor mostrava-se satisfeito, as portas do elevador tornaram a se abrir; Jane saiu com um sorriso animado, agora estava se divertindo. O diretor repetiu suas instruções, e eles fizeram a tomada da cena outra vez. Mais quatro vezes, e afinal, como por misericórdia: - Grava.

 

Tiveram um intervalo enquanto os substitutos tomavam os seus lugares de novo para uma cena diferente, e Jane ficou surpresa ao notar que passava de oito horas. Já estavam no local há mais de uma hora. O tempo parecia voar. Não participava da cena seguinte, mas queria apreciar Bill e Zack. Nunca vira Bill trabalhar, e estava curiosa para conhecer seu estilo. Ficou fora das linhas laterais conversando com Zack enquanto iluminavam a cena, o que demorou outra meia hora. Sabia que no estúdio as filmagens levavam às vezes o dobro do tempo, mas, com sorte, nas externas as coisas andavam mais depressa.

 

- Café, Srta. Adams? - alguém ofereceu, e ela sacudiu a cabeça. E depois voltou-se para Zack.

 

- O que é que você acha? - Estava ansiosa para conhecer a opinião dele.

 

- Acho bom. - Mas era impossível garantir. Ambos sabiam que nas semanas seguintes iam achar as coisas extraordinárias e horríveis, e nada para lhes assegurar os índices de audiência. Seu único trunfo eram os registros da cascata de sucessos de Mel. Todos contavam com isso, mas também tinham de fazer a sua parte e estavam prontos para se firmar.

 

Bill entrou no vestíbulo com uma aparência espantosamente bonita, vestindo terno cinza, os cabelos louros brilhando como ouro sob as luzes fortes. Era belo, jovem e muito veemente. Jane o observava. Nunca o tinha visto tão elegante. Era encantador.

 

Os olhos de Bill encontraram os de Zack, e Jane se afastou enquanto os dois conversavam; mais meia hora se passou antes que os iluminadores ficassem satisfeitos. As fitas foram recolocadas, os trabalhos recomeçaram, e a voz gritou:

 

- Façam silêncio, por favor... muito silêncio... a próxima será para valer... Calados agora... muito calados, por favor... Câmera... Luzes... Ação! - Jane sentiu o mesmo arrepio de antes. Era espantoso como, só por estar ali, tudo mexia com ela. Tinha a impressão de estar com dezoito anos e ser incrivelmente feliz. Na verdade, valia o preço que pagara. Nunca lhe ocorrera o quanto fora infeliz. O que a fizera continuar tinha sido o papel em Sorrows, mas só agora sua vida ganhava um significado. Sentia falta dos filhos, mas nem um pouco de Jack, e finalmente percebeu como sofrera com ele. Não se tinha permitido jamais pensar nisso, mas agora encantava-se com a mudança em sua vida. Aqui era tratada como gente. Tinha um papel importante em Manhattan, e a confiança de Mel no sucesso do seriado era contagiosa. Estavam todos certos disso. Ou quase. Queriam que fosse, como ele havia dito, o maior seriado do país no outono do próximo ano. A cena de Bill e Zack era mais complicada do que a de Jane, e o diretor os fez repetir oito vezes antes de dizer finalmente a palavra mágica: - ”Grava” -, ao que todos deixaram escapar um suspiro. Fora interessante observar Bill. Era bonito, vivo, ardente, encenando ficava diferente do que era na vida real, em que se mostrava abatido e ausente, mantendo distância de todos. Podia ver agora por que Mel o contratara, e por que todas as mulheres iam ficar se babando por ele. Era incrível. Mas Zack também era, num estilo mais calmo, mais maduro. Havia um pouco de tudo e para todos. Jane dirigiu-se ao camarim com um sorriso, a fim de se vestir para a cena seguinte, a primeira com Sabina. Ia ser tomada lá em cima no escritório cujo aluguel era de mil dólares por dia. Era um lugar fabuloso, suspenso como uma caixa de vidro na esquina, com uma vista que quase abrangia Nova York inteira. Mas Jane não estava pensando na vista enquanto se vestia. Pensava em Sabina e Gabby, e em sua interpretação ao lado delas. Era assustador contracenar com uma moça linda, jovem, e uma grande estrela sexy como Sabina. Sentia-se um zero à esquerda no meio delas, chegava a achar que também os outros pensavam assim. Zack apareceu assim que a camareira acabou de abotoar o vestido. Era azul-marinho e discreto, destacando os cabelos ruivos. Também mostrava o busto farto, a cintura fina, a suavidade dos quadris que desciam para as pernas espetaculares. François Brac realmente tinha feito muito por ela.

 

- Você está fabulosa, Jane. - Enfiou a cabeça pela porta e assobiou, o que a fez rir. Naquela roupa elegante, Zack não parecia ser do tipo assobiador.

 

- Estou com medo. - E os olhos dela confirmavam o que dizia.

 

- Você vai se sair muito bem. Nota dez. - Levantou o polegar e Jane sorriu agradecida. Precisava desesperadamente de incentivo, e ele sabia disso.

 

- Em momentos assim fico me perguntando por que Mel me deu o trabalho.

 

- Nem pense nisso. O homem sabe o que está fazendo. As mulheres vão amar você, os homens vão ficar de joelhos bambos só de olhá-la. Sabina é outro assunto. Sabina é figura de proa, mas você...

- os olhos mostravam-se desejosos e a voz era suave quando continuou -, você é mulher da cabeça aos pés, Jane.

 

- Obrigado, Zack. Vai subir para acompanhar a tomada?

 

- Acho que vou deixá-la sozinha. É gente demais. E de qualquer maneira eu tenho que mudar de roupa para a próxima cena com Sabina. - Passava-se em outro dia, precisava vestir outro terno. Os guarda-roupas que Mel comprara eram enormes. Mas ele os considerava um bom investimento. Nenhum outro seriado tivera antes um guarda-roupas como aquele. Por isso tinha uma aparência de qualidade e classe que nenhum jamais teve, era um espetáculo dispendioso, de gente importante. Em Mel não havia nada barato, nem nos seus programas.

 

Zack estava certo. Quando Jane chegou ao escritório da cena, encontrou-o apinhado de gente, de câmeras, de equipamentos. A maquiladora e o cabeleireiro estavam esperando por ela, e fizeram os retoques enquanto os substitutos ocupavam suas marcas, e os ângulos das câmeras foram mudados várias vezes. Jane viu Gabby muito calma, de pé num canto, com um lindo vestido de lã cinza que François Brac desenhara para ela. O traje era juvenil e ao mesmo tempo elegante e caro. Sabina não estava em lugar nenhum que se pudesse ver, e decorreu quase uma hora até que aparecesse. Um homem falava por walkie-talkie ao térreo, informando que estavam prontos, e só então ela subiu, parecendo incrível num vestido de lã vermelho protegido por um casaco. Não havia dúvidas de quem era a estrela. Saiu do elevador com tal classe, ímpeto e ostentação que se teria a ideia de ter sido atirada por um canhão. E desde que chegou, tudo adquiriu ação por toda parte.

 

- Silêncio!... - A voz gritou ainda mais alto desta vez. - Silêncio!... Muito quietos, por favor... marcadores... - Jane abriu caminho no meio da multidão para tomar seu lugar. Não houvera ensaio desta vez. Sabina achava desnecessário. E o diretor respeitou-lhe a opinião. Gabby encaminhou-se para o seu lugar e ficou calmamente esperando, o rosto jovem a demonstrar confiança. Jane sorriu-lhe rapidamente. Parecia um cavalo na baia antes da corrida, calculando se ia ganhar, ou se todos iam. Sabina nunca se apresentara mais encantadora. A esmerada maquilagem retirara-lhe anos do rosto, e o cabelo estava um esplendor. Usava grandes brincos de ouro e um longo fio de pérolas, e na mão direita via-se um brilhante imenso. Tudo fora emprestado por Harry Winston para a filmagem. Nem mesmo jóias falsas Mel queria usar.

 

- Silêncio, por favor... Luzes!... Ação! - Como se tivesse nascido para o papel, Sabina colocou-se atrás da escrivaninha, e a seguir ficou de pé, altaneira, e fixou os olhos em Jane, depois em Gabby que entrava vagarosamente atrás dela.

 

- O que é que vocês estão fazendo aqui? E estou me referindo às duas... - Os olhos eram como verdes diamantes, a voz ríspida, sua fala parecia fazer parte dela. Jane viu-se respondendo com o apaixonado discurso que ensaiara inúmeras vezes, e Gabby disse o seu texto como se fosse verdadeiramente Tâmara Martin e não Gabby Smith. Era incrível o que acontecera com elas: subitamente estavam impregnadas pela vida de Manhattan, e os olhos de Sabina soltavam chispas ao lhes dizer para saírem dali, enquanto comprimia um botão e dava a volta em torno da mesa. Era um botão para chamar Zack, mas essa seria a próxima cena. Jane sentiu-se aturdida quando ouviu a voz do diretor.

 

- Extraordinário!... Extraordinárias, vocês todas, vocês todas... Mais uma vez, por favor... - Fizeram três tomadas da cena, e na última ele sorriu. - Meu Deus, vocês são excelentes. Esta foi definitiva.

- Houve cumprimentos gerais e era impossível dizer a quem estavam saudando. Jane tinha vontade de saltar e gritar de excitação, observou Zack de longe, e sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Ficou conjeturando se algum dia ia se acostumar à excitação do programa. Até Sabina estava satisfeita, e Gabby sorria. Tinham sido perfeitas. Tudo saíra melhor do que esperavam. Fora maravilhoso. E as três sabiam disso instintivamente.

 

Demorou mais uma hora para iluminarem a cena seguinte, e o pessoal do escritório que tinham alugado se aglomerava em torno para ver as estrelas e talvez também um pouco da ação. Mas nada havia para ver além dos iluminadores, capatazes e carpinteiros, e anunciaram o almoço exatamente às 12:30. Tinham que atender regulamentos dos sindicatos e não convinha desrespeitar os horários tão cedo. Todos voltaram aos trailers a fim de almoçar. Tinham apenas uma hora. A tarde passou voando enquanto faziam as tomadas da próxima cena. Mel apareceu no local, demonstrando abertamente a sua satisfação. Retirou-se antes de terminarem as tomadas. Sabina voltou para o Pierre sozinha no carro, enquanto Zack partia em outro. Alegou que precisava ver um amigo antes de voltar para o hotel. Jane meteu-se no terceiro, com Bill e Gabby.

 

- Uau, estou exausta. - Admirou-se de estar tão cansada, mas ao mesmo tempo se sentia eufórica. - O que é que vocês acham, crianças?

 

- Acho que preciso me esforçar ainda mais - disse Gabrielle humildemente, e Bill olhou-a pela primeira vez com calor humano.

 

- Você estava boa. Muito boa. Aquela cena de vocês três foi fabulosa. - Jane achava a mesma coisa, e sorriu para ele.

 

- Obrigada. E você esteve fantástico naquela cena com Zack. Papearam a respeito das tomadas do dia, e juntos passaram os olhos pela lista de chamada. Iam filmar seis cenas no dia seguinte, três grandes, e tinham que levar o roteiro para seus quartos no hotel.

 

- Vamos trabalhar nisso juntos hoje à noite? - Gabby olhou para Bill cheia de esperança, porém ele sacudiu a cabeça.

 

- Eu trabalho melhor sozinho. - Pareceu lacónico, e Gabby provavelmente se decepcionava de novo.

 

- Eu trabalho com você, se quiser - ofereceu-se Jane para preencher a lacuna, mas só tinham uma cena juntas e era pequena.

 

- Obrigada. Sempre preciso de ajuda. - Gabby parecia muito ansiosa para se sair bem em tudo, e Jane ansiava para ajudá-la. Gabrielle dava a impressão de ser apenas ligeiramente mais velha do que as filhas de Jane, embora esta soubesse que Gabby tinha dez anos mais do que Alyssa, sua filha mais moça. Mas era difícil acreditar. Mais parecia uma garota quando vestia jeans e calçava ténis, prendendo o brilhante cabelo negro à maria-chiquinha. Bill não parecia impressionado com ela, e evitava-lhe o olhar na viagem para o hotel, falando quase sempre com Jane. Assim que chegou ao Carlyle, demonstrou estar com pressa e deixou-as para subir. Jane convidou Gabby para ir ao seu quarto mais tarde, a fim de pedirem o jantar e ensaiarem.

 

- Primeiro quero me enfiar numa banheira de água quente, e nada mais.

 

- Eu também. - Sorriu Gabby. Bill tinha desaparecido com um punhado de papeletas de recados, e as duas mulheres subiram juntas no elevador. Quando caminhavam pelo corredor, Gabby virou-se para Jane com um suspiro desencorajado. - Bill é tão ostensivamente hostil... Fica difícil até trabalhar com ele.

 

- Eu sei. Provavelmente está nervoso.

 

- E quem não está? - Gabby deu de ombros. - Afeta a todos nós. É um grande seriado, uma oportunidade enorme para todos, exceto, talvez, Zachary e Sabina, que já devem estar acostumados. Mas, Cristo, não é preciso ficar rosnando o tempo todo. Ele age como se estivesse carregando pedras. - Jane riu e lembrou-se novamente das filhas.

 

- Dá um tempo a ele. Ainda não nos acostumamos uns aos outros. No decorrer do seriado vamos acabar sendo uma grande família. Foi assim na minha novela antiga.

 

Gabrielle parecia intrigada.

 

- Em que novela você apareceu antes?

 

- Our Secret Sorrows.

 

- Minha avó era doida por esta novela - disse Gabrielle, rindo.

 

- Aí é que estava o problema. Queriam caras novas... e telespectadores mais jovens. Por isso me mandaram embora. - Jane olhou-a, triste.

 

- Você está triste agora? - Gabrielle sorria-lhe. Gostava dela.

 

- Não, com os diabos. - Jane levantou as mãos filosoficamente. - Afinal, só perdi um papel numa novela e meu casamento.

 

Os olhos de Gabby se arregalaram.

 

- Está falando sério? Por causa disso?

 

- É uma história comprida. Algum dia conto a você. Quando tivermos condições de perder dez horas e uma garrafa de conhaque à mão. - As duas mulheres riram e Gabrielle entrou no quarto prometendo juntar-se a Jane dentro de uma hora. Era como se voltassem a frequentar o colégio interno e tivessem que ficar acordadas até tarde preparando juntas um trabalho.

As duas mulheres se encontraram e ficaram papeando até meianoite, embora soubessem que tinham de acordar às quatro e meia. Esqueceram completamente o resto do elenco e se concentraram nas suas falas. E enquanto elas se dedicavam ao trabalho, Bill ia ficando histérico a ligar para o empresário. Tentara comunicar-se com ele durante horas, e quanto melhor se saía no programa, mais culpado se sentia em relação a Sandy. Finalmente, segurando um cigarro nos dedos trémulos, encontrou Harry.

 

- Como é que vão as coisas?

 

- Bem.

 

- É só isso? Bem? Você está no maior seriado da sua vida, fazendo tomadas em Nova York com Sabina Quarles e Zachary Taylor, trabalhando para Mel Wechsler, e tudo o que você diz é bem?

 

- Se prefere, maravilhoso. Olha, Harry, você pode me fazer um favor? - Estava deitado na cama, o olhar preocupado, ainda usando a jaqueta de couro. Pensar nela o enlouquecia. E se Sandy morresse e Wechsler descobrisse que eram casados? Percebera, ao chegar em Nova York, que tinha de conseguir que ela se desintoxicasse. Tinha de conseguir isso. Havia até telefonado para os pais dela, mas não sabiam onde andava. A mesma resposta obtivera de seus amigos quando tinha ligado para eles. - Quer verificar por aí e descobrir o que está havendo a respeito de Sandy?

 

Harry começava a achar que Bill estava obcecado por ela, mas não compreendia se o caso dele era medo ou senso de responsabilidade.

 

- Escuta, por que é que você não esquece dela?

 

- Não posso. É preciso que ela se desintoxique. - Talvez nem mais a amasse, o fato, porém, é que não conseguia esquecê-la.

 

- Por que você não liga para a polícia? É bem provável que eles saibam melhor do que ninguém, - Estava sendo sarcástico, e Bill sentiu que ia ficar zangado, sua boa aparência substituída por uma expressão de medo.

 

- Não acho que seja engraçado.

 

- Eu não pretendia que fosse. Você será um idiota se a trouxer de volta para a sua vida agora. E Mel não vai ser bonzinho se descobrir que você está casado com uma viciada. - Aquela era a questão. Se ao menos ela se desintoxicasse, podia calmamente propor-lhe o divórcio.

 

- Eu não pedi a você para chamar a imprensa, só pedi para ver se descobre onde ela está.

 

- Como? Sair por aí com uma mala de dinheiro e oferecer a ela?

 

- Vá para o diabo com esse papo! - explodiu Bill, pondo-se de pé com o fone na mão. - Não me aborreça, Harry.

 

- Está bem... está bem... Vou tentar. Mas pelo amor de Cristo, Bill, acalme-se. Você está aí para trabalhar. E muito. Como foi o dia hoje? Pergunto seriamente.

 

- Foi bem, mas para dizer a verdade, Harry... - Tinha que se abrir com alguém, quase não podia suportar. - Estou estupidamente preocupado com Sandy. - A situação o afetava muito. O medo do escândalo e a preocupação com alguém que um dia amara tanto.

 

- Vou fazer o que puder. Mas me faça um favor. Concentre a cabeça no seu trabalho. - Tivera a esperança de que ele se interessasse pela jovem atriz que fora contratada para contracenar com ele, mas não havia vestígio disso, e Harry lamentava de coração. - Telefono para você se souber de alguma coisa.

 

Mas Bill soube primeiro. A mãe dela ligou, e estava nos jornais do dia. Tinha tomado uma superdose num hotel pulguento de Sunset.

 

Os paramédicos chegaram a tempo, e surgiram algumas dúvidas sobre se houvera lesão cerebral desta vez. Mas quando Bill ligou para o hospital, não o deixaram falar com Sandy. E dois dias depois, tendo ligado centenas de vezes, disseram-lhe que ela deixara o hospital. A mãe contou-lhe que ela desaparecera, e novamente ninguém sabia onde estava. Tudo o que puderam apurar é que Sandy vivia com um traficante de drogas, em algum lugar em Inglewood, mas ninguém tinha certeza, e os pais continuavam preocupados com o destino dela. Sandy não havia comparecido ao tribunal para responder às acusações feitas a ela em agosto passado, e existiam ordens de prisão contra ela. Era uma situação assustadora, e Bill não sabia o que fazer. Bem pouco podia ajudar em Nova York, e lutava para manter a cabeça no trabalho. No dia seguinte à superdose, tiveram que fazer dezoito tomadas da única cena em que aparecia, e ele teve a impressão de que ia enlouquecer no esforço de não pensar nela.

 

- Há alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? - Indagou Jane carinhosamente enquanto voltavam do trabalho, porém ele apenas sacudiu a cabeça e evitou fitá-la, para que ela não pudesse ver como se sentia. Mas estava claro que alguma coisa não ia bem, e quando finalmente olhou para ela, foi com os olhos de um velho cansado.

 

- Não, muito obrigado. - Considerava-a uma excelente mulher, embora não tivesse muita coisa em comum com ela. Falava nos filhos o dia todo. Quanto a Gabrielle, ela realmente o punha maluco. Era amiga e animada o tempo inteiro, parecia um cachorrinho de estimação. Queria ensaiar com ele durante todos os minutos de folga, e ele não queria vê-la. Lembrava demais Sandy e isso tornava as coisas ainda mais difíceis.

 

Até Mel observou que estava mais sombrio do que à chegada em Nova York, mas à noite, quando analisavam as tomadas, não havia dúvida de que o trabalho dele era impecável.

 

- Ele é um bom ator - admitiu o diretor. - E vai ser melhor ainda quando se acalmar. Tem filmado quase sempre tão tenso que parece a ponto de explodir. Mas conhece sua força. O garoto é um profissional. - Foi o que o salvou e fez com que os outros lhe suportassem o mau humor. A única com quem implicava era com Gabby. Porém ela também tinha seus problemas, embora não os revelasse a ninguém. A mãe telefonava cinco vezes por dia, implorando-lhe para passar o Natal com eles.

 

- Querida, me dê apenas uma boa razão. - A voz, que era toda Paris, Palm Beach e Newport, ficava mais insistente a cada dia, e Gabrielle lutava para se manter calma. Estava cansada de explicar.

 

- Estou trabalhando dezoito horas por dia, mamãe, e tenho de acordar todos os dias às quatro e meia.

 

- Você precisa comer. Por que não vem comer conosco? - Em traje de gala, com duas centenas de amigos mais íntimos dos pais. Fazia muito sentido para Charlotte, mas não para Gabrielle.

 

- Estou comendo no quarto, e em geral ensaio com o elenco.

- Na realidade só com Jane, mas ainda tinha esperanças de ensaiar com Bill. Estava convencida de que isso iria melhorar seus desempenhos.

 

- Não é saudável, querida. Você precisa sair.

 

- Eu já lhe disse. Vou ao jantar de Natal.

 

- Você está aqui há mais de quinze dias e nós ainda não a vimos. Vou esperar você amanhã de noite. Só virão velhos amigos, e estão doidos para vê-la. - Tudo bobagem, ninguém lhe dava a menor importância, e ela sabia disso. Eram amigos dos seus pais, e gente que detestava. Os nomes mais conhecidos em Nova York, os nomes publicados em WWD e Town & Country, onde os fotógrafos mostravam lindas porcelanas, cristais encantadores e mesas postas para jantares com pratos de forno para vinte pessoas de black tie e vestidos de noite. Era uma vida que detestava desde criança, e não mudara de sentimentos. Talvez agora a detestasse mais ainda, e aquela gente nunca fora sua amiga. Para eles nunca passara da ”filha de Charlotte e Everett”.

 

- Mamãe, realmente não dá para ir. E não tenho nada para vestir.

 

Deixei tudo na Califórnia. - Não era verdade, havia os vestidos de noite feitos por François Brac que ela podia pedir emprestados. Ninguém os negaria. Sabina já tinha usado dois ou três trajes de noite saindo com Mel, e ninguém se importava desde que estivessem em boa forma para as filmagens.

 

- Posso pedir na Bendel’s que mandem alguns.

 

- Não quero nada da Bendels. - Falou como se estivesse com os dentes cerrados. - E não quero ir.

 

- Esperamos por você às sete e meia da noite. - A mãe desligou, e Gabrielle ficou sentada olhando para o fone na mão.

 

- Merda. - Ela nunca mudava. E agora esperava que Gabby fosse àquela maldita festa de Natal. Que triste sina, ter que fazer externas em Nova York. Era como se fosse criança outra vez e lhe estivessem dando ordens, exatamente como na época em que fora para Saint PauFs e depois Yale. Nunca aceitavam a ideia de que se tornara adulta. Nem mesmo agora. Agora que morava na costa oeste e tinha uma carreira. Não significava nada para eles. Fingiam que a carreira não existia e que ela não era atriz.

 

Estava com péssima disposição no dia seguinte ao levantar, o que era perfeito para a cena que tinha de filmar com Bill. O roteiro pedia uma briga violenta entre eles, e parecia realmente verdadeira quando ela gritou com ele e alvejou-o com alguma coisa. Não seria, talvez, melhor se tivessem ensaiado durante semanas, e ambos ficaram satisfeitos quando deixaram o cenário, embora ele não dissesse nada. Gabby voltou ao camarim, e, hesitante, escolheu um vestido. Era um recatado traje de veludo preto. Assinou um vale e colocou o vestido num invólucro de plástico, levando-o para o hotel naquela noite quando voltou com Jane na limusine.

 

- Vai a algum lugar? - Jane parecia satisfeita com ela. Era muito encantadora com todos, às vezes Gabby tinha pena dela. Devia sentirse solitária de certa forma, e parecia ter certa queda por Zack. E era óbvio que ele gostava dela, mas não com uma paixão abrasadora.

 

- Vou sair com alguns amigos. Eu já morei em Nova York. Quase se desculpou, e Jane ficou feliz por ela.

 

- Minhas filhas chegam amanhã de Los Angeles. Pensei em leválas ao cenário para darem uma olhada antes da folga de Natal.

 

- Vai ser divertido para elas. - Gabrielle não parecia muito entusiasmada. Enquanto voltavam, passaram por lojas sortidas e muito bem decoradas na Madison Avenue, mas Gabby nunca se havia sentido com tão pouco espírito de Natal quanto naquela ocasião. Sabia que o apartamento dos pais ia estar tão exagerado como sempre, com árvores artesanais que custavam milhares de dólares. Detestava-as mesmo quando era criança. Tudo tão artificial e tão perfeito. Não havia calor e aconchego como devia ser no Natal de outras crianças. Parecia apenas outra página dupla de Town & Country, que já tinha visto muitas vezes.

 

As duas mulheres se separaram na porta de seus quartos, e Gabrielle foi se vestir, pensando em como se vira forçada a ir à casa dos pais, afinal de contas. Tinha ligado pedindo uma limusine às sete e quinze, e, com o cabelo penteado para o alto e o lindo vestido de François Brac, parecia uma pequena princesa quando desceu e passou no vestíbulo por Bill, que carregava uma pilha de revistas. Ele aparentou ficar ligeiramente intrigado quando a viu, como se na realidade agora se interessasse pelo que ela estava fazendo. Ele lhe sorriu e comentou a cena que tinham feito naquela tarde.

 

- Achei o máximo.

 

- Foi o que todos disseram. - A resposta era evasiva.

 

- Você não achou?

 

- Sempre se pode melhorar. - Ele não se cansava de criticar tudo e todos. Jane disse que provavelmente se sentia infeliz, mas para Gabby não era desculpa convincente para aquele comportamento constantemente sombrio. Era difícil compreender um génio pessimista como o dele.

 

- Não exija tanto de si mesmo.

 

- Não estou exigindo. Apenas sei que posso fazer melhor. Vai a uma festa hoje? - Ficou surpresa pelo interesse demonstrado, praticamente não lhe dizia nada além de olá, e era sempre lacónico quando lhe falava.

 

- Só vou visitar uns amigos.

 

- Que vestido lindo. É da coleção do seriado? - Havia algo de escarninho na maneira dele falar; Gabby sentiu o rosto queimar e teve raiva de si mesma por isso.

 

- É. Mas assinei um vale, se acaso isso o preocupa.

 

- Absolutamente. Ouvi dizer que Sabina usa sempre peças do guarda-roupa. Até faz parte do contrato que ela depois pode ficar com tudo, talvez você consiga fazer o mesmo acordo. - As palavras dele tinham sempre uma farpa, e ela sentiu vontade de lhe dar uma bofetada.

 

- Vou guardar na memória. - Virou-se, jogando sobre os ombros a capa de veludo que combinava com o vestido, e ele a observou por um momento, dando-lhe um boa-noite antes de correr para pegar o elevador que estava prestes a subir. Tentou não dar importância às observações dele, mas ficou de mau humor numa noite que de qualquer maneira temia. E sabia que estava certa quando entrou no elevador na esquina da Quinta Avenida com a rua 74 e encontrou o mordomo dos pais esperando no patamar. Explicava às pessoas onde deixar os agasalhos, e cumprimentava todos; deu um abraço amistoso em Gabrielle, enquanto um fotógrafo do Women’s Wear Daily tirou-lhe o retrato. E de repente lhe ocorreu o que fora feito. Desastradamente, expusera-se à imprensa, e o anonimato como Gabrielle Smith súbito estava em perigo. Evitou as máquinas fotográficas a noite inteira, mas sem muito resultado: havia quatro repórteres sociais em ação, cada um deles com um fotógrafo, além dos fotógrafos tanto do Women’s Wear Daily e Town & Country.

 

- Querida... Você está ótima... Bem-vinda ao lar!... - A mãe lhe deu um beijo, com cuidado para não estragar a própria maquilagem, e as suas belezas morenas perfeitamente semelhantes foram gravadas para a posteridade e para os leitores dos jornais de domingo. A mãe estava bonita como sempre, num vestido de cetim azul-marinho de Galanos e uma estola combinando. Tinha no pescoço um colar de safiras caríssimo, e usava brincos iguais. - Seu pai espera você na biblioteca. Apontou na direção da sala preferida do pai, e hordas de recém-chegados a empurravam de qualquer maneira naquela direção. enquanto bandejas de prata com caviar e champanha circulavam por toda parte entre os convidados. Reconheceu por alto metade dos garçons e dois terços dos convidados, quase não encontrando o pai no aglomerado que o cercava perto do bar. Estava bebendo a costumeira Stolichnaya com gelo, e seus olhos se iluminaram quando viu Gabby.

 

- Aí está ela... a minha garotinha... Ah, meu Deus, e como está bonita! Sua mãe vai ficar com ciúme. - Os olhos do pai sempre dançavam diante dela. Everett Thornton-Smith adorava a filha única na opinião da mulher, adorava-a além da conta. Charlotte demonstrava sentimentos mais racionais em relação a Gabrielle; embora gostasse muito dela, fora uma decepção enorme Gabby ter insistido na ridícula carreira de Hollywood. E não estava muito ansiosa em ouvir falar do seriado. Mas Everett, porém, anunciou que Gabby estava ”estrelando” um seriado de Mel Wechsler. Citou os nomes de todos os astros, e ia ficando mais efusivo a cada dose de vodca.


- Ela vai deixar Sabina Quarles no chinelo, garanto! - Sorriu benignamente para a filha, com um braço em volta dos seus ombros. O traje a rigor fora muito bem cortado pelo alfaiate de Londres, e os fotógrafos imortalizaram o seu orgulho paternal, enquanto os repórteres anotavam cada palavra que ele dizia.

 

- Quem está produzindo o programa, Srta. Thornton-Smith... qual é mesmo o nome do seriado?... - Em Hollywood todos sabiam, mas nas colunas sociais de Nova York não liam muito sobre Melvin Wechsler. - Um papel principal, você disse... - Ela insistiu que tinha um papel pequeno, e se odiou por ter vindo. Sabia que ia haver um desastre. Dois anos em Hollywood sem que absolutamente ninguém soubesse quem ela era, e agora estava tudo acabado.

 

Foi tudo pior do que imaginara. As fotografias que iam ser estampadas em H7 e Town & Country do mês seguinte apareceram nos jornais nova-iorquinos da manhã seguinte. Grandes, nítidas e claras, uma mostrando-a com o braço do pai em torno do ombro, a brindá-la com uma taça de champanha, outra com o mordomo. ”Everett Thornton-Smith, pai orgulhoso de Gabrielle, que está estrelando um novo seriado de Mel.” Tiveram até a ousadia de escrever-lhe o nome errado, mas a foto de Gabby estava incomumente nítida, e as qualificações que tinha odiado a vida inteira foram repetidas com todos os detalhes: Benton Thornton-Smith, avô paterno, fundador de seis bancos, da maior companhia farmacêutica do Leste, e de várias ferrovias. Sem esquecer Harrington Hawkes IV, avô materno, que fazia ThorntonSmith parecer um pobretão. Naquela manhã odiou todos eles quando viu o jornal, particularmente a mãe que tanto insistira que ela fosse. Nenhum deles entendia sua paixão por ser pura e simplesmente Gabby Smith, nem a importância que dava à carreira. Suprimira o Thornton em Yale, incapaz de suportar o horror que lhe causava um prédio e uma biblioteca com o nome do avô.

 

Ouviu batidas antes das seis e, com uma sensação, abriu a porta. Era Jane. Sorria como se tivesse acabado de receber um presente, e Gabby se preparou para a artilharia que esperava enfrentar naquele dia, talvez até de Jane. Já havia passado por isso antes, não achava nada agradável. Ninguém mais a levaria a sério tão logo soubesse quem ela era, nem admitiria que pudesse ser também uma boa atriz.

 

- Oi - fez Gabby, e esperou, mas Jane embarafustou pelo quarto dejeans, ténis e um abrigo quente. O tempo esfriava a cada dia, e tinham de fazer três cenas externas no parque e quatro no escritório da IBM. Jane parecia estar animada. - O que é que há?

 

- Estou feliz porque vou rever minhas filhas. Parece que não as vejo há séculos. - Na noite da véspera comprara uma pequena árvore e a enfeitara especialmente para elas com brinquedos de lojas populares.

 

- Ah! - Gabby ficou com medo de dizer qualquer outra coisa, apavorada com a ideia de que Jane e o resto do mundo tivessem visto o jornal, ou especificamente o elenco e a equipe, que era o pior de tudo.

 

- Você está bem? - Jane passou os olhos pelos ombros de Gabby enquanto ela vestia um pesado casaco.

 

- Estou. Tudo bem. - Mas não era comum ela estar tão taciturna, e ambas sabiam disso.

 

- Você se divertiu ontem à noite?

 

- Não. - A resposta foi curta e grossa, e Jane não prosseguiu. Gabby levava o vestido no invólucro de plástico. Descendo, tomaram a limusine que já esperava por elas. Zack e Bill geralmente iam na outra, e Sabina se hospedava no Pierre, por isso não tiveram que esperar por ninguém.

 

- Gabby, alguma coisa não deu certo? - Jane estava preocupada a caminho do parque para a externa, mas Gabby insistiu que estava tudo bem. Fazia um frio terrível quando saíram do carro, e um vento gelado provocava lágrimas nos olhos. Ia ser um trabalho de cão, com aquele tempo. Os trailers estavam esperando por eles no escuro, e os quentes galões de café, chocolate e chá que os auxiliares lhes serviam quase não as aqueciam.

 

Como sempre, apenas Zack e Jane pareciam estar animados, enquanto os outros resmungavam e reclamavam. O vento assobiava entre os trailers, e foi Bill quem atirou a primeira pedra, sorrindo sardonicamente sobre a xícara de café.

 

- Se misturando com a ralé, Gabrielle? Lançou-lhe um olhar de medo e ódio.

 

- O que quer dizer com isso? - Mas ela sabia. Sabia bem demais. Diabos... ele deve ter lido...

 

- Gostei dos matutinos hoje. Não sabia que tínhamos uma celebridade entre nós.

 

- Hem? - Zack levantou uma das sobrancelhas, inocente, e Gabrielle sentiu vontade de morrer. Na hora do almoço a notícia se espalharia, e iam transformar-lhe a vida num inferno. Era a história de sua vida, e estava cansada disso.

 

- É muito triste que o senhor se deixe impressionar por aquele lixo, Sr. Warwick. - Disparou as palavras diretamente para Bill, voltou para o trailer e bateu a porta.

 

- O que foi que houve? Uma brincadeira particular? - perguntou Zack, e Bill não conseguiu resistir ao impulso de contar-lhe tudo. Sem dúvida uma fofoca interessante sobre a ”Srta. Thornton-Smith.”

 

- Você sabe quem é ela?

 

- Creio que sabia. É o Estrangulador de Boston travestido, ou

 

alguém que eu deva conhecer?

 

- Já ouviu falar de Thornton-Smith? - Bill parecia presunçoso.

 

- A empresa farmacêutica?

 

- Entre outras coisas.

 

- Acho que tenho ações dessa companhia.

 

- Nesse caso você é dono de um pedaço da Srta. Gabby. Zack assobiou no ar gelado.

 

- Ela é uma Thornton-Smith? Você tem certeza?

 

- Dê uma olhada na última página do seu jornal de hoje. Antes dos óbitos.

 

- Era de esperar alguma coisa assim. - Zack não conseguiu resistir e pediu um jornal emprestado, passando-o para Jane quando ela saiu para a primeira cena. Leu o artigo com olhos arregalados e um ar de espanto.

 

- E é um amor de garota, e quem diria...

 

- Imagine só - acrescentou Bill com um riso curto -, na pele da nossa simples e pequena Srta. Gabby Smith encontra-se uma Cadela Milionária.

 

- Eu não diria isso dela - protestou Zack.

 

- Não devia dizer isso! - Jane foi agressiva e ficou aborrecida com a atitude de Bill, mas súbito compreendeu por que Gabby estivera tão tensa naquela manhã. Devia ter visto o jornal. E obviamente a notícia não a deixara orgulhosa, o que era admirável da parte dela. Naquele momento, Gabby subiu mais no conceito de Jane, e ela lhe disse isso depois, naquela manhã. - Querida, acho você extraordinária.

 

Gabby sorriu sombriamente.

 

- Mas os outros não vão achar. A equipe vai me odiar assim que souber. Fui tão cuidadosa em Hollywood, e agora, por causa daquela festa idiota, todo mundo vai saber. Tentei explicar isso à minha mãe.

 

- Seus olhos estavam cheios de lágrimas quando lembrou daqueles diálogos fúteis. - Ela não consegue compreender. Acha que minha origem é uma coisa de que devo me orgulhar. Mas eu não me orgulho. Tem sido um sofrimento de toda a vida, e agora vai arruinar minha carreira depois de anos lutando para abrir meu caminho sozinha.

 

- E você conseguiu, então qual é o problema? - Jane se mostrava tão maternal quanto filosófica quando passou o braço em torno dela.

 

- Você ouviu o que Warwick disse hoje cedo? Ele me perguntou se eu estava aderindo à ralé. E isso é só o começo.

 

- Ele está apenas bancando o garoto, Gabby. Impressionado e provavelmente com ciúme. Não sabe como reagir. E ninguém saberá a não ser que você lhes mostre. Mostre-lhes que este trabalho é que

é importante, e esqueça o resto. Mas eu ainda acho que é bom ter essa segurança por trás de você. - Pensou em como fora dependente de Jack Adams durante vinte anos, e como se sentia insegura e intimidada por aquele vigarista. Isso nunca ia acontecer com Gabby. - Agradeça por isso, e não se esconda. Não é vergonha ter nascido numa família rica. - Riu. - Todo mundo fica desconcertado com alguma coisa, a maioria das pessoas porque a família não é bastante fina. Quanto a você, você acha que a sua é fina demais. Você não pode suportar, não é? - Gabrielle riu e Jane lhe deu um apertão, mas isso não a protegeu das farpas que começaram a chover sobre ela na hora do almoço. Após o descanso, quando se dirigiam para os escritórios do prédio da IBM, todos já tinham visto a fotografia de Gabrielle com o pai, e lido o artigo. Algumas observações pareceram divertidas, mas a maioria era maldosa e a de Sabina foi a mais ferina, quando se reuniram para a cena no vestíbulo.

 

- Não é de admirar que você tenha conseguido o emprego, Gabby.

 

- Sorriu maldosamente. - Conte como foi que você entrou no elenco... Mel conhece seu pai? - A seguir afastou-se para retocar a maquilagem e Gabby teve de virar o rosto para esconder as lágrimas. Gostaria de matar Bill Warwick por começar tudo contando a Zack mas, provavelmente, todos iriam acabar sabendo de qualquer maneira. E Sabina se encarregaria de espalhar. De fato, naquela tarde ela contou a Mel, arrematando com uma risadinha viciosa, e ele sentiu pena da garota. Ligou para ela ao anoitecer, quando voltou para o hotel. Levou muito tempo para atender o telefone e, quando o fez, sua voz estava rouca.

 

- Alo.

 

- Oi, Gabby, aqui é Mel. Sinto muito pelo que aconteceu hoje, foi horrível.

 

Ela suspirou e seus lábios tremeram.

 

- Bem... não foi muito difícil... - Porém mal conseguia falar entre as lágrimas. Já tinha passado por isso muitas vezes, mas sempre a magoava. Tirava-lhe toda a alegria. E sabia que agora ia ficar conhecida no grupo como a Srta. Cadela Milionária.

 

- Estou acostumada a isso.

 

- Sim, mas sei que magoa. E sinto muito pelo que Sabina disse. O problema, querida, é que todos ficam com ciúme. Adorariam ter nascido numa família assim e ter o seu dinheiro e a sua criação. Não conseguem imaginar que alguém não ligue para isso, parece-lhes um contra-senso.

 

- Eu sei. E trabalho tão arduamente quanto eles. - Ela fungou e Mel desejou passar o braço em torno dela. Seria só um pouco mais jovem do que suas filhas, se estivessem vivas, e uma boa moça. Não lhe parecia justo que a atormentassem. No fim do dia, cento e trinta pessoas comentavam aquele caso, e provavelmente um terço delas, talvez a metade, fizera comentários impróprios. Parecia um pesadelo. E tudo porque fora a uma festa na casa dos pais.

 

- Talvez você dê mais duro que eles, Gabby. E isso os irrita ainda mais. Você não precisa, mas faz. Eles imaginam que, se tivessem pais como os seus, iam passar a vida sentados e a comer chocolate e, diabos, talvez se ressintam porque não fazem isso. Ou talvez os aborreça você não assumir bem a imagem da princesa dos contos de fada. Ao contrário, quer trabalhar com eles nas minas de carvão. E querem você lá em cima, num trono, usando um tutu cor-de-rosa. - A imagem despertou-lhe o riso, apesar dos desgostos, e sentiu-se melhor. De qualquer maneira, são como crianças. Daqui a quinze dias vão esquecer tudo e vão ficar comentando o contrato de um novo colega, ou os negócios de um velho colega, e não vão dar a mínima importância ao seu sobrenome. Pode crer, eles têm uma memória de inseto. Como a barata, por exemplo. - Ela riu novamente e lhe ficou agradecida. Tinha se sentido muito deprimida, Jane fora ao aeroporto para receber as filhas, por isso não ficara ninguém para animá-la. E aquele filho da puta do Bill... teria gostado de matá-lo... - E já que estamos conversando, posso fazer você se interessar por um jantar? Podíamos ir a ao Gino’s comer massa.

 

- Tudo bem. - Tinha pensado em ir para a cama cedo. Foi um dia muito duro.

 

- Você já jantou?

 

- Não, mas não estou com muita fome.

 

- Bobagem. Você tem que se alimentar, senão fica doente, com este tempo miserável. Pego você dentro de meia hora.

 

- Não, Mel, realmente...

 

- É uma ordem do seu produtor. Esteja lá embaixo. Vou chegar aí às oito e quinze. - Desligou o aparelho e voltou-se quando Sabina entrava na sala vestindo um robe de veludo verde como os seus olhos e calçando chinelos dourados de salto alto com enfeites de plumas.

 

- Quem era? - Observou o relógio de brilhantes que ele lhe dera na semana anterior, e começou a calcular o que iriam fazer no jantar.

 

- Era Gabby. - Mel suspirou, e sentou-se de novo no sofá, admirando a requintada mulher que se encaminhava para ele. Dava gosto olhá-la noite e dia. Até mesmo às quatro da madrugada, ela sabia ser bonita e sexy. - Pobre garota. Teve um dia difícil hoje. - Não acusou Sabina, mas ambos sabiam que ela fora a mais perversa.

 

Sabina sacudiu os ombros.

 

- Ela merecia.

 

- Por que você diz uma coisa assim? - Mel olhou-a, triste. É uma menina meiga, na realidade trabalha muitíssimo bem, e jamais implica com quem quer que seja.

 

- Está tirando o trabalho de gente que precisa. - Mel ficou surpreso com o jeito amargo que Sabina assumira.

 

- Talvez ela precise do trabalho também. Para sua alma, para sua auto-estima. Não é apenas uma questão de dinheiro. Você sabe disso. Ela adora o que faz, e o faz muito bem.

 

- Então que trabalhe com amadores. Ela não faz parte do mundo dos espetáculos.

 

- É isso o que você acha? - Estava pasmo, e cogitou quantos do grupo pensavam como ela. Provavelmente muitos.

 

Assentiu com a cabeça, sem constrangimento.

 

- É isso mesmo o que acho. Existem atores que vêm lutando muito e há muito tempo. Para conseguir chegar onde estamos, foi preciso lutar com unhas e dentes; passamos fome e sobrevivemos, fazendo tudo o que devíamos fazer. E merecemos a vitória. Ela vem brincando de fazer arte há dois anos e daqui a dois anos vai casar com algum playboy com o sobrenome Courtney ou Funston, e vai se mudar para Park Avenue ou Palm Beach e ter filhos. Nesse meio tempo está tirando uma fatia do nosso bolo, e não vejo por que aceitar isso. - Sabina dirigiu-se para o bar e com perícia preparou um martíni para si, olhando-o por cima da bebida, enquanto ele a fitava decepcionado e aborrecido.

 

- Não é uma atitude muito caridosa, Sabina.

 

- Nem sempre sou uma pessoa caridosa. - Não receava confessar isso diante dele ou de qualquer outra pessoa. - Não gosto de fraudes, e ela é uma fraude. É sonsa como um rato de igreja, e na verdade é uma debutante deslumbrada que foi para Hollywood. Eu bem disse a você que estava escondendo alguma coisa. Ela é uma fraude.

 

- Eu não diria a mesma coisa sobre ela. - Levantou-se, enquanto Sabina o observava. - Para mim é uma atriz incrivelmente boa.

 

- Onde é que você vai? - Avaliou se realmente o tinha ofendido, mas se tinha, que se danasse. Assim ela era, e nunca pedia desculpas por isso.

 

- Vou levar a debutante deslumbrada a um jantar, porque quando liguei para ela, estava chorando no quarto do hotel.

 

- Mande-lhe uma caixa de lenços de papel, ela vai dar conta deles.

 

- Pare de bancar a desalmada. Ela não é uma ameaça para você. É uma menina. Você é uma estrela. E das grandes. - Sabia como lidar com as duas, e Sabina sorriu-lhe.

 

- Obrigada. E o que devo fazer enquanto você vai bancar a Irmã Paula para a pobrezinha da Srta. Chorona?

 

- O que lhe der na cabeça, meu amor - Beijou-lhe o pescoço e olhou dentro daqueles olhos verdes que o arrebatavam. - De qualquer jeito você disse que não queria sair, que estava muito cansada. Foi por isso que convidei Gabby. - Sabina sacudiu os ombros. Mel estava certo. Mas ela não estava muito feliz com aquele jantar. Gabby era vinte anos mais moça, afinal de contas, e tinha uma aparência bastante boa. Além disso, tinha uma bela fortuna. Mel também, embora a dele fosse feita por ele mesmo, o que nunca era a mesma coisa.

 

- Vê como se comporta - implicou ela, mas não estava preocupada. Havia uma coisa fantástica acontecendo entre eles.

 

- Por falar nisso... - Olhou-a por cima do ombro, enquanto ia apanhar o sobretudo. - Esqueci de contar a você que fretei um barco para nós. Vamos passar o Natal nas Bermudas. - Admirou-se com o que viu nos olhos dela. Não parecia satisfeita, e Mel não podia compreender. - Alguma coisa errada?

 

Ela hesitou, pousando cuidadosamente o martíni sobre a mesa.

 

- Tenho de voltar para a Califórnia.

 

- Por quatro dias?

 

- Eu já tinha feito planos.

 

- Compreendo. - Não conseguiu deixar de se voltar para ela quando alcançou a porta. - Eu acreditava que as últimas semanas tinham superado isso, Sabina. Parece que me enganei.

 

- Sinto muito, Mel - Havia tristeza em seus olhos, mas não deu explicações.

 

- Eu também. - Ficou calado enquanto dirigia a limusine, indo apanhar Gabby para jantar.

 

Na manhã do dia seguinte as filhas de Jane foram para o centro da cidade com ela e Gabrielle na limusine, queixando-se da hora. Para elas era ainda mais cedo, porque ainda não se haviam adaptado ao fuso horário de Nova York. Gabby ficou chocada ao ver como eram desagradáveis com a mãe. Depois da recepção prazerosa de Jane ao vê-las outra vez, admirou-se ao vê-las tão pouco atenciosas com ela. E falavam constantemente no pai, como se fosse uma espécie de deus.

 

Ambas davam a impressão de ser grosseiras e mimadas, e por certo tinham sido habilmente programadas pelo pai. O fato começou a aborrecer Gabrielle seriamente quando chegaram ao centro da cidade. Nunca tinha visto duas garotas tão desagradáveis com a mãe, mas bem pouco contato tivera com adolescentes na sua vida. Ela mesma era filha única, a maioria dos seus amigos não tinha filhos, apenas um casal tinha um garoto de dois anos.

 

Porém Alexandra e Alyssa eram um caso à parte. A única coisa que as fez finalmente calar foi quando Zack Taylor lhes deu autógrafos, e depois passaram o resto da manhã olhando apaixonadamente para Bill, a cochichar entre si, e a rir. Mas isso não melhorou o conceito delas na opinião de Gabrielle. Considerou-as imaturas, e quase se sentiu tentada a dizê-lo em voz alta, mas não o fez para não ferir a suscetibilidade de Jane.

 

E Bill aborreceu Gabby mais do que as meninas quando soltou outra piada para ela no intervalo do almoço. Perguntou-lhe se ia ao La Grenouille, ao La Cote Basque, ou talvez ao Colony Club ou ao Quo Vadis. Aí ela chegou à conclusão de que já tinha suportado demais. Virou-se para ele com os olhos lançando centelhas de ódio e agarrou-lhe o braço com tanta força que o surpreendeu, fazendo-o dar um passo atrás.

 

- Olha, seu pixote filho da puta, estou surpresa de que tenha parado de sentir pena de si mesmo o tempo suficiente para reparar em mais alguém, e até para se preocupar com o lugar onde vou almoçar. Quando precisar dos seus conselhos sobre meu modo de agir ou minha vida social, vou lhe pedir. Nesse meio tempo, rapazinho, veja se me esquece, ou você vai passar maus pedaços comigo. - Praticamente não chegava a medir um metro e sessenta, mas Bill ficou tão admirado que forçou um sorriso, e o mesmo fizeram Zack e Mel, que estavam ali perto. Mel sentiu-se satisfeito. Seus incentivos da noite anterior estavam dando certo. Gabby saiu pisando forte para o seu trailler, e Mel observou, pelo seu modo de andar, que ela se sentia melhor. Levara-a para o espetáculo de Bobby Short depois do jantar, e ficara com ela até quase meianoite. Quando voltou para o hotel, Sabina dormia profundamente. Não tinham mencionado os respectivos planos para o Natal naquela manhã. Mel resolveu manter o barco fretado, ela que fosse para o inferno. Se desejava ver outra pessoa, que ficasse à vontade. Não tinham promessas a cumprir entre si, mas de algum modo esperara dela mais lealdade. Aquela atitude sugeria que Sabina queria provar alguma coisa, talvez que ele não era seu dono. Continuava desejando passar o Natal com ela, mas não pretendia implorar, e ela não falara em mudar os planos.

 

O resto das filmagens correu em paz, e dois dias depois eles debandaram para o Natal. Mel tomou um avião para Nassau, onde estava o barco que tinha fretado por uma semana, e Zack e Sabina tomaram carros separados para o aeroporto. Encontraram-se no portão para o voo de Los Angeles, e conversaram um pouco, mas seus lugares eram separados na primeira classe, e nenhum dos dois parecia ansioso pela companhia do outro. Ambos tinham muito em que pensar, mas Sabina observou com interesse que ele foi recebido em Los Angeles por um homem que devia ter aproximadamente a mesma idade, e depois partiram no Rolls-Royce de Zack, que aquele homem devia ter trazido. Sabina ficou pensando em qual seria o relacionamento deles. Ainda tinha suas suspeitas a respeito de Zack Taylor.

 

Ela foi para sua casa, onde pernoitou. Na manhã do dia seguinte pegou um avião para San Francisco.

 

A equipe passou o Natal em Nova York, Sairia muito caro e complicado embarcá-la para casa, e todos eles já tinham feito seus planos. Antes de partir, Mel organizara uma festa para eles no Maxwells Plum, e lá Gabby encontrou Bill, apesar de seus esforços para evitá-lo.

 

- Com a ralé de novo? - Estava ligeiramente bêbado, e parecia pálido. Gabrielle não tinha ideia do que o vinha aborrecendo e sentia muita raiva dele. Seus olhos se encontraram e os dela fuzilavam.

 

- Por que é que você não larga o meu pé? - murmurou, e logo desapareceu na multidão. Ele tentara rastrear Sandy pelo telefone, sem resultado. Ninguém sabia onde andava, e Bill acabara desistindo.

 

- Feliz Natal para você também, princesa. - Agora começava a ficar apavorada em ter que trabalhar com ele. E se o seriado fosse um sucesso, ia ser ainda pior. Teria que conviver com ele por mais uma estação. Contudo, a noite em que Mel a levara para se divertir lhe fizera bem. Resolvera não dar o braço a torcer, fosse com Bill ou qualquer outro. Tinha uma aparência agitada quando abriu caminho para o bar no meio daquele aglomerado, para ficar com Jane, que lá estava com as filhas. Alexandra parecia visivelmente encantada com a decoração, embora não o confessasse a Jane, e Alyssa começava finalmente a se interessar mais pela mãe. Gabby ficou cogitando como seria a convivência delas com Jane. Falavam constantemente no pai, como se ele fosse um ser perfeito. Estava esquiando em Sun Valley, disseram, e Alex teve mesmo a ousadia de dizer que sentia não ter ido com ele.

 

- É mesmo? - Gabby arregalou os olhos. - Fico surpresa que você pense assim. Sun Valley é muito sem graça. E também um pouco cafona. - Sorriu. Que fossem para o inferno, pensou. Jane era tão boa para elas. - Vocês vêm muito a Nova York? - Espetava a faca um pouco mais fundo, e Alex demonstrou mal-estar, admitindo, constrangida, que era a primeira vez. - Acho que sua mãe vai vir aqui um bocado, agora que é uma estrela importante. Creio que vamos filmar externas na Europa no ano que vem. - Conversaram um pouco sobre isso, e ante essa possibilidade os olhos de Alyssa se arregalaram de excitação.

 

- É verdade, mamãe? E nós poderemos ir? - Parecia uma garotinha e Jane sorriu-lhe. Era óbvio que adorava as filhas.

 

- Veremos, meu coração. Depende de vocês estarem frequentando as aulas ou não. Repentinamente, Gabby teve uma ideia. Olhou para Jane, depois para as meninas.

 

- Vocês gostariam de passar a véspera de Natal com a minha família? - Prometera isso à mãe naquela tarde. Agora era inútil lutar contra eles, sabia que sua presença ia agradar ao pai, e não tinha mais nada para fazer. Há três anos não passava o Natal em casa, e sua mãe ficaria encantada. Iam receber uns poucos amigos, como sempre faziam. Dessa vez Gabby sabia que os ”poucos” seriam apenas uns dez. Haveria espaço suficiente para mais três. Se queriam tanto que fosse, tinham de aceitar seus amigos. Convidaria Bill também, se ele não fosse um chato. Mas era, e por isso não convidou.

 

Jane pareceu ter ficado comovida por ela tê-las convidado.

 

- Tem certeza de que não vamos estragar uma festa de família?

 

- Absoluta. E eu poderia usar algumas pessoas na minha equipe.

- Baixou a voz. - Detesto ir lá em casa. É sempre cansativo. - Jane invejou-a quando pensou nisso. Seus próprios pais haviam falecido anos atrás e nesse ano já não tinha Jack... nem o filho... Pelo menos tinha as meninas.

 

- Havíamos de adorar, se você tem certeza de que seus pais não vão se importar.

 

- Vão ficar encantados. - Estava torcendo um pouco a verdade, mas Gabby achava melhor ir para casa na véspera de Natal com Jane e as meninas. Quando saíram para o apartamento da Fifth Avenue numa limusine, começou a nevar um pouco. Jane entoou White Chrístmas pelo caminho, e o espírito do Natal foi contagiante, de modo que Gabby e as meninas juntaram suas vozes à dela.

 

Uma das empregadas estava diante da porta, recolhendo os agasalhos, e Gabby encolheu-se um pouco quando viu os olhos de Jane se arregalarem ante a decoração opulenta. Uma coisa era ler sobre os Thornton-Smiths, e outra visitá-los. Havia a costumeira árvore de Natal, perfeitamente ornamentada em verde e prata, com antigos anjos alemães e pequenos cachos de frutas, elevando-se até o segundo andar, e a imensa sala de estar cheia de móveis Luís XV parecia suntuosa e elegante quando a mãe de Gabrielle se dirigiu rápida para ela e a beijou, apertou a mão de Jane e a apresentou a todos como ”uma das atrizes do programa de Gabby”. Gabby corou, mas ficou satisfeita quando o pai se desmanchou em gentilezas com elas, e até lhes trouxe presentinhos. Foram para a sala de jantar. A mesa estava posta para quatorze, e os amigos mais íntimos estavam presentes: os Armstrongs, os Marshalls, a velha Sra. Hampton, os Proctors, e William Squire Hunt. Jane lera sobre todos eles, e tinha a ligeira impressão de estar sonhando, vendo-os ali. Charlotte usava um rico e pesado traje de contas, de cetim vermelho. Gabby estava usando um vestido verde-escuro que a mãe mandara o Bendels entregar, e não um dos trajes de noite do seriado. Jane vestia um requintado modelo de chiffon de Brac, e parecia deslumbrante, e as meninas pareciam inocentes e meigas. Era uma noite de conto de fadas. Todos entoaram canções de Natal após o jantar, sentados em torno da lareira, e Gabby finalmente estava satisfeita por ter vindo. O pai leu os contos natalinos de A Chrístmas Carol, como fazia todos os anos, e havia fartura de conhaque, rum amanteigado e gemada. A noite foi uma festa ininterrupta, e Jane ficou triste quando tiveram que partir. Ela e Charlotte tinham se dado muito bem. Papearam a respeito de Hollywood, e Charlotte ficou fascinada, e também os outros convidados.

 

- A senhora precisa visitar-nos na locação enquanto estamos aqui

- insistiu Jane, e pela primeira vez Gabrielle não se encolheu.

 

- Eu ia adorar. - Charlotte estava encantada, e prometeu ir na outra semana. As duas mulheres se beijaram, e Gabrielle deu um beijo de despedida nos pais, bocejando quando entraram no carro que as esperava lá embaixo. Recostou-se no assento ao lado de Jane, e parecia uma das meninas.

 

- Olhe, pela primeira vez não me pareceu tão ruim. - Sorriu travessamente e Jane riu.

 

- Que vergonha. Eles são encantadores. Você é uma garota de sorte.

 

Gabby resmungou e sorriu para as meninas. Elas também achavam que Gabby tinha sorte. Na verdade, ficaram imensamente impressionadas com ela, e também com Jane. Finalmente foram percebendo que a mãe não era tão ruim, afinal de contas. Se conhecia gente como aquela... - Espere até eu contar ao papai... - disse Alyssa, e Jane riu. Eram crianças engraçadas, mas havia outros, e quando Jane foi para a cama, naquela noite, e beijou as filhas para lhes desejar boa noite, surpreendeu-se pensando em Zack e imaginando onde estaria passando o Natal, e com quem. Desde que havia viajado não lhe telefonara; e ela não conseguia tirá-lo da cabeça, enquanto ia pegando no sono, a pensar nele e na festa dos pais de Gabby.

 

Houve um esfriamento entre Mel e Sabina quando ele voltou. Regressou dois dias depois de todos terem retornado ao trabalho, e pela primeira vez em alguns dias, desde que tinha deixado a Califórnia, dormiu na sua própria suíte. Mas Sabina não disse nada. Não deu nenhuma explicação quanto ao por quê que tinha voltado para casa, e foi Mel quem finalmente aliviou o relacionamento, quando uma noite a levou para o hotel depois das filmagens.

 

- Sinto muito ter me aborrecido. - Seus olhos mostravam-se carinhosos, mas ainda magoados.

 

- Você tinha o direito de ficar. - A voz era amável, enquanto o fitava. - Mas não podia mudar meus planos, Mel. Não importa o quanto eu desejasse.

 

Ele não lhe perguntou por quê, ou quem significava tanto para ela. Não conseguia imaginar que houvesse alguém nessa posição. Sabina era egoísta e mimada, e quase sempre só pensava em si mesma; ainda assim, era boa com ele. Davam-se bem juntos. Querer mais do que isso talvez fosse pedir demais. Mas já haviam concordado em aceitar o que tinham enquanto tivessem. Que direito tinha de esperar mais?

 

- Você tem algum relacionamento sério com alguém? - Era tudo o que queria saber. Não desejava fazer papel de bobo, nem mesmo com ela. Estava muito velho para isso.

 

- Da maneira como você pensa, não. É uma obrigação que tenho todos os anos. - Estava evidente que não queria explicar-lhe. - Uma coisa assim, digamos, de família. - Não tinha muita certeza de acreditar no que ela disse, mas seria uma mentira conveniente para os dois.

 

- Não sabia que você tinha família. - Ela não respondeu. Ele a levou para jantar fora, e retomaram a trilha de antes. Voltou novamente para o quarto dela, e ela queixou-se enquanto estava nos seus braços, tomando uma taça de champanha, depois de fazerem amor.

 

- Tive medo de que você não falasse mais comigo. - Voltou para Mel os extraordinários olhos verdes, e ele sentiu seu coração derretendo novamente. Ficou surpreso ao perceber até que ponto estava envolvido com ela. Mais do que gostaria, pois tinha a imagem dela na cabeça mesmo quando não estava com ela.

 

- Por que iria eu ser tão tolo a ponto de fazer isso?

 

- Porque às vezes sou muito independente. - O olhar felino brilhou-lhe nos olhos, e ele riu. Sabina estava certa.

 

- Você é, sim... Alguma vez já desejou ser diferente? Se prender a alguém?

 

Foi honesta ao sacudir a cabeça e oferecer-lhe um gole de champanha. Estavam despidos na cama.

 

- Não... talvez um certo dia... quando era muito jovem... mas não por muito tempo. E creio que nunca mais desde então. Acho que não ia me dar bem amarrada a alguém. - Estava amarrada de outras maneiras, mas não a um homem. - Há muitos anos estive loucamente apaixonada, mas nunca pensamos em casar. Aliás, ele era casado com outra pessoa. E isso era muito conveniente para mim. - Pareceu horrível para Mel, porque ainda lembrava de como fora maravilhoso estar casado com Liz.

 

Parecia triste quando olhou para a amiga.

 

- Eu gostava muito quando era casado... Houve compaixão nos olhos dela.

 

- Eu sei... deve ter sido terrível para você... quando... - Detestava dizer as palavras, com medo de magoá-lo.

 

- Foi. Achei que não ia sobreviver. Mas sobrevivi. E nunca quis repetir... Me interessar muito... e perder tudo... - Era insuportável pensar nisso... Os filhos... a mulher... tudo... - Estou satisfeito. Me acostumei a ficar sozinho. - Gostava de ficar com Sabina. Queria darlhe bastante liberdade, ela apreciava isso. Ficou grata por não lhe fazer mais perguntas sobre onde passara o Natal. Outro homem talvez não tolerasse isso. Ela bem que sabia.

 

- Você casaria de novo? - Estava curiosa, supunha que sim, que ele casaria.

 

- Não tenho certeza. Acho que não. E não ia mais querer filhos. Estou muito velho.

 

- Absurdo. Ele sorriu.

 

- Não me refiro ao físico. Falo de outras maneiras. Não ia querer repetir tudo. É preciso um bocado de energia e amor para criar filhos, e depositei tudo no meu trabalho agora. - Rolou para cima dela e beijou-a na parte interna do braço. Era forte, um homem cheio de vigor, jovem sob vários aspectos, e sentia-se satisfeito com a vida. E tenho energia de sobra para você, espero... e bastante amor... A voz era suave. - Eu a amo muito, você sabe.

 

- Obrigada, Mel. - E beijou-o em retribuição, sem responder diretamente. Depois de algum tempo, ela sussurrou as palavras que a amedrontavam tanto. Sempre que possível, evitava dizê-las. Mas dessa vez falou:

 

- Eu também amo você... - Havia lágrimas nos olhos dele quando a beijou; e cheio de carinho tomou-a nos braços e fizeram amor.

 

Mel ofereceu uma alegre festa para o elenco e equipe na véspera do Ano-Novo. Alugou a discoteca Lê Club, e todos passaram horas maravilhosas bebendo champanha, dançando a noite toda e cantando ”Auld Lang Syne”, a Valsa da Despedida à meia-noite. Abraçou Sabina e beijou-a, enquanto um pequeno grupo em volta deles dava vivas. Ela riu e depois passou os braços em torno de Zack, que estivera dançando com Jane e acabava de beijá-la carinhosamente no rosto antes de Sabina interromper.

 

- Feliz Ano-Novo, doce amiga... Espero que seja um ano maravilhoso para você... para todos nós... - Olhou para Jane com um olhar agridoce que ela não compreendeu, enquanto Sabina o arrastava. Jane súbito viu-se beijando um dos operadores de câmera, e depois abraçando Gabrielle, e logo o diretor aproximou-se e beijou as duas. O único ausente era Bill, e a maioria deles não tinha compromissos. Estavam juntos como Mel desejara há muito tempo, como uma grande família feliz. Gabby sentia-se aliviada por não ter de lidar com Bill. Jane trouxera as duas filhas, que estavam maravilhadas com tudo. Para elas, tinham sido férias inesquecíveis e iam partir no dia seguinte para Los Angeles. Quanto ao elenco, voltaria para a costa oeste dentro de quinze dias.

 

Depois Zack dançou outra vez com Jane, e a estreitou nos braços como nunca fizera antes, o que deixou o coração dela agitado. Não ficaram muito tempo juntos desde que ele voltara; Jane tinha estado ocupada com as meninas, e houvera várias mudanças de última hora nos roteiros. Para a maioria, a noite terminou às quatro horas da madrugada e Mel tinha alugado ônibus de dois andares para levá-los aos hotéis. Zack sentou-se ao lado de Jane e segurou-lhe a mão, e Sabina e Mel também sentaram juntos no banco traseiro. Membros do elenco tinham começado a notar recentemente os flertes deles, mas ninguém comentou. De certa forma pareciam certos um para o outro, e quando Zack deixou Jane e as filhas na porta do quarto, Alyssa virou-se para a mãe com um olhar curioso.

 

- Você está apaixonada por ele, mamãe?

 

- Por quem? - Por um momento fora apanhada de guarda aberta, e corou. - Por Zack? Claro que não, somos apenas amigos. Mas Alexandra não ficou muito convencida. Vira a maneira como ele a olhava, e ficou cheia de suspeitas em relação. Mas ao mesmo tempo gostava dele. Ambas gostavam, mas ainda achavam Bill o mais bonito.

 

Nessa altura, Bill estava desmaiado no quarto, depois de beber sozinho uma garrafa de uisque. A solidão e sua preocupação com Sandy finalmente o derrubaram. As meninas ficaram decepcionadas por não o terem visto mais, Alex havia criado algumas fantasias de que à meianoite ele apareceria e a beijaria também. Mel estava certo: todas as jovens em breve iam se babar diante dele.

 

Jane levou-as ao aeroporto no dia seguinte, e ficou triste assim que partiram. Ia vê-las novamente dentro de quinze dias, mas quando chegasse a hora, Jack já teria alterado a cabeça delas novamente. Contudo, esperava que ainda restasse algum efeito duradouro da viagem. Sabia que tinham ficado imensamente interessadas em Zack e Bill, na família de Gabby, nas filmagens, nas festas de Natal e Ano-Novo. Mas sentia alguma saudade da vida estável que tinha compartilhado com elas, mesmo que cheia de mentiras. Tudo parecia tão normal e seguro... Não era assim, claro, mas durante tantos anos ela mentira para si mesma... Estava pensando nisso quando Zack lhe ligou.

 

- Quer dar uma volta? - Estava nevando de novo, e ela adorou a ideia. Embrulhou-se num casaco pesado, saiu, e foram para a Madison Avenue espiar as lojas e conversar sobre as meninas.

 

- Acho que a viagem fez bem para elas.

 

- São ótimas meninas.

 

- Obrigada. Você não tem filhos, Zack? Ele sorriu e sacudiu a cabeça.

 

- Não. - Ela não lhe tinha perguntado isso antes, mas ele podia ter, de alguém em algum lugar. - Sempre me senti um pouco triste por isso. Acho que nunca encontrei a garota certa.

 

- Está em tempo. - Sorriu, e ele a olhou pensativamente.

 

- Talvez esteja. - E depois caminharam em silêncio por algum tempo, perdidos nos próprios pensamentos. A virada de mais um ano novo é época de meditação, quando se avalia o passado e o que se tem pela frente. E ambos tinham ótimas perspectivas aguardando por eles no ano que começava. O seriado parecia bom para todos, e falaram a respeito como faziam tantas vezes, enquanto se dirigiam para a Quinta Avenida esquina com a Rua 59. - Quer ir ao Plaza tomar um drinque?

 

- Claro. - Pediram grogues quentes e depois saíram e alugaram um fiacre para levá-los pelo parque enquanto ela se aconchegava a Zack, espantada ao ver como era bom estar ao lado dele. Repentinamente Zack baixou os olhos para ela e Jane achou que estavam úmidos - do frio, pensou, mas não estava muito segura.

 

- Gostaria de ter conhecido você há vinte anos... talvez vinte e cinco... - E depois Zack riu, segurou firmemente a mão enluvada na sua, e o fiacre os levou até a porta do Carlyle. Naquela noite jantaram juntos nos aposentos dela, e ensaiaram as cenas do dia seguinte. Jane ficou pensando no que ele dissera, e também desejou tê-lo conhecido mais cedo. - No que é que você está pensando agora, Jane? - Estavam descontraídos no sofá, como velhos amigos. Tinha a impressão de conhecê-lo há anos, e gostava disso. Apreciava uma porção de coisas em Zack. Aparência, elegância, encanto, dedicação, inteligência, bondade...

 

- Estava pensando como você é maravilhoso... Que é bom ator, e bom homem, e que eu gosto um bocado de você.

 

Os olhos se encontraram.

 

- Eu gosto de você também... você se tornou muito especial para mim. - Tinha a impressão de que ele queria dizer mais, mas nunca dizia. Mudaram de assunto e começaram a conversar sobre os outros. Gabby, Sabina, Mel, e Bill, que ainda era tão difícil.

 

- Gostaria que ele melhorasse o relacionamento com Gabby. Bill é muito duro com ela.

 

- Às vezes acho que está meio apaixonado por ela. - Zack tinha muita percepção, mas Jane pareceu ficar chocada.

 

- Por Gabby? Ele é horrível com ela.

 

- Exatamente como um garotinho. Já observou um garoto de nove anos interessado por uma menina? Ele vai direto e lhe dá um soco na barriga, e depois vai embora satisfeito consigo mesmo, como se tivesse dito uma coisa muito importante para ela. E disse. Jane riu da imagem.

 

- Você está certo, isso descreve Bill. Você acha que ele vai se tornar adulto?

 

- Ele devia.

 

- Gabby é uma moça encantadora.

 

- E você também. - Levantou-se com um bocejo, deu-lhe um abraço caloroso, e poucos minutos depois foi embora, deixando Jane a matutar se algum dia iria iniciar um romance com ela. Alyssa estava certa. Gostava muito dele... talvez até mais do que isso... Não só da aparência muito bonita... mas do que tinha dentro de si. A verdadeira beleza de Zack era o homem que trazia no íntimo. Um homem muito, muito especial. E subitamente Jane se deu conta de que estava se apaixonando por ele

 

Os últimos quinze dias de filmagem pareceram voar. Todos se deram bem, e os roteiros também fluíram com facilidade. Cada cena parecia melhor do que a anterior, as palavras ”cortar e gravar” permaneciam no ar. No último dia de filmagem na locação, todos deram um viva, e Mel convidou Sabina, Zack, Jane, Gabby e Bill para naquela noite Irem ao 21 comemorar. Tinham uma semana de folga pela frente quando chegassem a Los Angeles antes de começarem as tomadas de novo, agora no estúdio. Jane disse que devia procurar uma casa nova, havia terminado o prazo para ficar naquela em que vivera com Jack e ia procurar em Beverly Hills. Bill projetava esquiar com amigos, Gabby disse que só desejava se aquecer novamente e Sabina anunciou que devia passar uns dias em San Francisco. Gozaram momentos maravilhosos, e no dia seguinte todos estavam calados no voo para casa, como se ponderassem sobre o que os esperava. Zack sentou-se ao lado de Jane, Sabina e Mel, e Gabby e Bill escolheram com cuidado lugares nas extremidades opostas do avião. Não se falavam mais, exceto durante as cenas; o resto do tempo um evitava o outro como se fosse uma praga. A volta a Los Angeles era a vida habitual. Havia um bocado de fitas para editar, Mel tinha dezenas de reuniões, uma depois da outra, Sabina desapareceu sem dizer palavra, Bill foi esquiar, prometendo não deixar o rosto ficar bronzeado para não prejudicar a continuidade quando voltasse ao trabalho. E Jane encontrou uma casa nova em Bel Air, com a qual se encantou. Era pequena, mas suficiente para ela e os filhos. Tinha uma piscina pequena mas bonita e um alto muro para garantir privacidade. Praticamente não a magoou sair da casa antiga, e dessa vez ficou livre de Jack. Gabby lhe fez companhia enquanto encaixotava a mudança. De qualquer maneira, Jack nunca apareceu. As meninas disseram que tinha uma namorada que trabalhava com ele; não gostavam muito dela: era muito jovem, 21 ou 22 anos, e achavam que tinha muito busto e pouca inteligência. Jane pensou consigo mesma que era o par ideal para ele, e por um minuto teve pena da moça, chegando finalmente à conclusão de que não devia se importar.

 

Mudou-se para a casa nova assim que o contrato foi assinado, nessa ocasião já haviam recomeçado o trabalho. Todos pareciam felizes e descontraídos; até Bill, embora estivesse inseguro a respeito de Sandy quando voltou: ninguém tinha a menor ideia do paradeiro dela Mas agora estava ansioso para encontrá-la. Queria levá-la a um lugar seguro e depois, de algum jeito, calmamente, divorciar-se dela. Rezava para se livrar daquele problema sem que ninguém descobrisse. Mas de qualquer maneira não surgira nenhum vestígio dela, embora tivesse deixado recados por toda parte. E tinha ido ao Mike’s Bar assim que voltou. Era estranho reencontrar os rostos antigos, principalmente agora que estava numa boa.

 

Recomeçaram o trabalho em 4 de fevereiro, e no dia 1 de março chegaram os documentos do divórcio de Jane. Ela estava no palco, lendo calmamente algumas falas que tinham acabado de ser mudadas, quando alguém lhe deixou cair no colo um envelope que tinha chegado naquela tarde. Abriu. E foi assim. Tudo acabado. Estava divorciada. Vinte anos entrando pelo cano. Contra a vontade, começou a chorar, e todos se afastaram em silêncio, exceto Zack, que se aproximou para ver o que acontecia. Ela assoou o nariz e lhe passou os documentos.

 

- Eu sei... sou uma idiota em chorar... Ele sempre foi um bruto... Só que... não sei... é como constatar que metade de minha vida foi desperdiçada. - Estava com quase quarenta anos e subitamente teve consciência disso.

 

- Vamos. - Estendeu a mão. - Você tem mais alguma cena para hoje? - Ela sacudiu a cabeça e assoou o nariz outra vez. - Vamos comer alguma coisa. Conheço um bar incrível onde fazem um hambúrguer maravilhoso. - Ela hesitou e depois ficou de pé.

 

- Vou tirar a maquilagem e volto logo. - Ele a esperava vestindo jeans e uma camisa branca engomada, ténis sem meias, quando ela apareceu usando training rosa e o cabelo puxado para trás com uma tira de borracha. Pareciam simples burgueses, quando entraram no carro dele e saíram do estacionamento. Tinha deixado aqueles papéis no camarim. Eram muito desagradáveis e lhe lembravam Jack. Sentia-se satisfeita por estar com Zachary. Não queria ficar sozinha. Riu ao ver o Mike’s Bar. Era incrível, escuro e tinha cheiro de cerveja, mas as pessoas lá dentro pareciam jovens, saudáveis e limpas, e ocorreu-lhe que a maioria delas era de ateres. Zack estava certo, o hambúrguer era tão bom quanto ele dissera.

Tinham acabado de comer, e Zack estava tomando cerveja quando notou Bill Warwick sentado num canto distante com uma moça.?Não tomara parte nas cenas daquele dia e não aparecera no estúdio. Jane de repente olhou para ele também, e ambos notaram a expressão de dor nos olhos de Bill. Acompanhava uma moça que aparentava estar gravemente enferma. Magra, o corpo um feixe de ossos, cabelos escuros e emaranhados. Vestia o que pareciam ser quase farrapos, e viram Bill sacudir a cabeça, quase em lágrimas, e depois entregar-lhe algum dinheiro. Jane afastou os olhos, com a impressão de ter visto alguma coisa que não devia. Bill se mostrava abalado e atormentado, e se apressou em sair assim que ela partiu, sem perceber que Zack e Jane estavam ali.

 

- Meu Deus, quem acha você que ela era? - Jane parecia triste por Bill. Era óbvio que ele se interessava por aquela garota.

 

- Não sei, mas não é de admirar que ele esteja quase sempre deprimido. - Ficaram sentados em silêncio algum tempo e partiram para a casa nova de Jane em Bel Air. Porém ela continuou pensando em Bill e na moça. Havia algo de fantasmagórico nela. E se parecia um pouco com Gabrielle. Mas Gabby era saudável, radiante e forte. Essa garota faz suspeitar que anda metida com drogas - disse Zack calmamente, e Jane achou que ele estava certo, e sentiu pena dos dois.

 

- Quer nadar um pouco? - perguntou-lhe ela.

 

- Não trouxe a sunga e vou ficar muito engraçado num dos seus biquinis - Sorriu.

 

- Se você quiser nadar pelado eu não olho. - Sentia-se tão à vontade com ele que não se importava.

 

- Eu não prometo a mesma coisa. - Mas sempre se revelava um cavalheiro perfeito com ela. Ultimamente, Jane ficava quase triste com isso. - Mas vou fazer o que posso. - Serviu um copo de vinho para cada um, e entregou-lhe um robe felpudo; os dois foram tirar as roupas, e Jane sentiu-se ao mesmo tempo animada e deprimida. Deprimida pelo que surpreendera da vida particular de Bill - e desejou que não houvesse nada sério entre ele e a garota - e por causa da chegada dos documentos do divórcio... e animada por estar com Zack. Sempre se sentia feliz quando ao lado dele. Havia algo especial naquele relacionamento.

 

Voltaram para a piscina dentro de alguns minutos, vestindo robes iguais; ela virou as costas discretamente quando ele mergulhou e se afastou nadando enquanto ela descia os degraus, o corpo resplandescente, mais bonito ainda na luz da tarde, e um momento depois estava no meio da piscina, nadando ao lado dele. A água provocava uma sensação maravilhosa na pele, e Zack mergulhou e se afastou nadando. Logo ficaram brincando de pegar, rindo como crianças, esquecendo que estavam nus, até que saíram da piscina e Jane repentinamente resolveu não se importar mais. Inconscientemente procurou pegar o seu robe e vesti-lo, e viu que ele a olhava sobriamente.

 

- Você é linda, Jane.

 

- Obrigada. - Afastou-se e ele também vestiu o robe. Foram para dentro e acabaram de tomar o vinho, sentados na sala de estar parcialmente mobiliada, que tinha uma vista linda. Era uma noite de magia, e Jane bebeu mais do que costumava. Sentia-se muito à vontade com ele; fora um dia difícil, e parecia perfeitamente natural quando ele se inclinou e beijou-a suavemente nos lábios, mas nada fez além disso. Depois beijou-a novamente e Jane sentiu que seu corpo ansiava pelas carícias de Zack. Aproximou-se mais dele e suavemente tocoulhe o peito, sem ter certeza se devia dizer alguma coisa,. Sentia-se completamente livre, e as meninas estavam passando a semana com Jack, de modo que não devia se preocupar com um possível flagrante. Há sete meses não fazia amor, e súbito sentiu um desejo violento por Zack, que se sentara a seu lado.

 

- Você é tão bonita. - Suavemente abriu-lhe o roupão, como se desejasse apreciá-la, e ela fechou os olhos com um ar de desejo, e depois abriu-os outra vez.

 

- Eu quero tanto você... - Sentiu que lhe era fácil dizer essas palavras. E então, subitamente, ele se afastou. Pousou o copo, pôs-se em pé e foi observar o panorama; permaneceu lá muito tempo, enquanto ela ficou admirada, sabendo que alguma coisa estava errada mas sem saber o que era. - O que foi, Zack? Cogitou se seria alguma coisa que tinha dito, ou feito, ou se havia se atirado com muito ardor para ele. - Eu não tinha a intenção...

 

Voltou-se rápido diante da tristeza na voz dela. Mas a tristeza dos seus olhos era muito maior.

 

- Não foi nada que você tenha feito... Nunca pense nisso... Ao contrário... você quase mudou a minha vida... Quase... mas não de todo.

 

- Por que você havia de querer mudar alguma coisa? - Sentia-se confusa, embora sabendo que ele estava sendo honesto com ela.

 

- Porque não durmo com mulher há mais de vinte anos... Vinte e cinco para ser exato... É muito tempo, Jane...

 

- É, é mesmo. - Olhou-o suavemente, e ele voltou a sentar-se a seu lado com um suspiro. Seu corpo pareceu afrouxar, com arrependimento e alívio, e a necessidade de compartilhar com ela o peso que sentia. - Fui para o colégio interno quando era muito jovem... quatorze anos para ser exato... Um dos melhores colégios... e era uma espécie de piada na época... Muitos garotos namoravam uns com os outros, ”todos faziam aquilo”. Nunca fiz. Nunca senti vontade... até chegar o novo professor de inglês. Era alto, bonito e louro... um tipo assim como Bill, e mais ou menos da mesma idade. E queria que eu fosse ”seu amigo especial”. Me levou para pescar com ele, me emprestava livros, ia comigo a passeios no campo. Eu o admirava... muito mesmo... e no segundo acampamento, ele se meteu no meu saco de dormir, e disse quanto gostava de mim e como eu era especial para ele, e fez amor comigo... Eu estava com quatorze anos. E não sabia o que fazer. Não tinha com quem falar. De qualquer maneira achava que ninguém ia acreditar em mim. Todos o adoravam. E ele era aparentado do diretor da escola. Quando meus pais vieram, eu não disse nada. Não disse nada. Durante dois anos, até ele partir, mantive silêncio, e jurei a mim mesmo nunca mais repetir a experiência. Sabia que era errado, não importa quanto eu o admirasse.

 

Jane ouvia de olhos arregalados, mas não havia reprovação neles, só tristeza pelo garoto que Zack fora trinta anos atrás.

 

- Quando fui para a faculdade, apaixonei-me por uma garota linda, cheguei até a ficar noivo aos vinte e dois anos. Era maravilhosa, e também pretendia ser atriz. íamos ter uma vida perfeita, e quatro filhos... até que ela conheceu outra pessoa. Acabei arrasado. Ambos éramos muito jovens. Não houve mais ninguém depois disso... até o primeiro maldito filme. Queria fazê-lo desesperadamente, e o diretor era um verdadeiro filho da puta. Estava com vinte e três anos, e ele um dia conseguiu me embriagar. Na manhã do dia seguinte acordei na cama dele. Fez até com que um de seus amiguinhos tirasse fotografias, eu desmaiado, frio, e ele... você pode imaginar o resto. Ameaçou me chantagear se eu não passasse a dormir com ele. Eu fui... e acho que tive a impressão de que a sorte fora lançada. Agarrou-se a mim por quase um ano, e aí já era tarde demais. Fiquei apavorado de alguém descobrir. Depois disso, durante dois anos não dormi com mais ninguém. Então encontrei um homem encantador com o dobro da minha idade. Me envolvi com ele, e ele era extremamente discreto. Ninguém jamais soube. E só houve mais um homem depois disso... Terminou há alguns anos, e ainda somos amigos. Sempre vivi apavorado, temendo que alguém descobrisse. Ia prejudicar muito a minha imagem, não é? - Viam-se lágrimas correndo pelo seu rosto quando a fitou outra vez, e ela suavemente enxugou-as. - A loucura é que nunca mais quis outra mulher depois de Kimberly... até conhecer você... Então achei que tudo podia mudar... mas não pôde... Não posso voltar atrás... e também não quero mais participar de outra cena de bicha. Nem quero arrastar você para os meus problemas. E se eu me apaixonar por outro homem... no ano que vem? Daqui a dez anos? E aí? Vai ficar arrasada outra vez? Você já passou por maus pedaços na vida sem mim. Ela também chorava.

 

- Eu amo você, Zack. - Amava-o, amava sua dor e sua honestidade. - Não me importo com o que houve. Fico triste que tenha acontecido com você... Estou triste mesmo... - A voz cedeu a um soluço, e ele a abraçou com força e a beijou de novo.

 

- Eu me importo. Me importo por nós dois.

 

- Shhh... - beijou-o e ficou bem junto a ele por longo tempo, e quando o fitou novamente, estava escuro lá fora. - Fique comigo esta noite. - Era apenas um murmúrio na sala de estar escura.

 

- Não posso.

 

- Por que não pode?

 

- Não seria justo. Não quero fazer amor com você.

 

- Então só me abrace... Não me deixe sozinha... preciso muito de você...

 

O curioso é que ele também precisava dela, mais do que sabia como dizer, mais do que desejava admitir. Ficaram deitados lado a lado no sofá, até que, exausta pelas emoções do dia, Jane pegou no sono. E ele ficou na penumbra olhando-a, segurando-a bem junto de si, e sentiu uma agitação que não sentia há mais de vinte anos surgir do fundo da sua alma. Mesmo assim, não fez nada. Ficou deitado junto dela, chorando pelo passado, pelo garoto que um dia fora, desejando-a desesperadamente.

 

- Muito silêncio agora... e... luz!... Câmera... Ação!... Tomada cinco... - Sabina ficou no centro de uma sala de estar muito bem decorada, com um lustre vistoso, fixando o olhar raivoso em Zack; deu-lhe uma bofetada no rosto com olhos que chispavam, e ele lhe agarrou a mão.

 

- Eu disse a você... Nunca mais faça isso!

 

- Afaste-se da minha irmã! Você trabalha para mim, Adrian!

 

- Não sou um objeto seu, Eloise.

 

- Sou a dona de todos vocês... todos vocês... ouviu? - Os olhos soltavam centelhas e a câmera se aproximou muito deles, enquanto o diretor agitava um braço.

 

- Corta... Foi o melhor até agora... mas de qualquer modo vamos tentar outra vez.

 

Todos se descontraíram, e Sabina sorriu, enquanto o maquilador corria a fim de empoar o rosto de Zack. Havia murmúrios abafados pela multidão, e Sabina ensaiou as palavras mentalmente.

 

- Prontos para recomeçar? - O diretor estava em pé quase ao lado deles e virou-se para alguém à direita. - Vamos para o zoom desta vez. - Dirigiu-se a Sabina e Zack: - Estava muito bom. Vamos repetir só mais uma vez. - E depois de novo para o assistente: - Mande tocar a campainha, por favor. - A campainha soou um momento depois, avisando que estavam prestes a rodar.

 

- Cena 25, tomada seis - gritou uma voz. - Luz, câmera, ação, por favor!

 

Sabina avançou com olhos faiscantes e esbofeteou Zack de novo. Ele lhe segurou a mão e repetiu a fala. Desta vez foi melhor do que antes, e um momento depois soaram as palavras:

 

- Corta!... Muito bom... Foi pra valer! - Todos saíram do palco com um sorriso, inclusive Zack, que levara seis bofetadas. Isso não o aborrecia, contudo estava satisfeito de já estar livre naquele dia. Olhou o relógio, disse algo a Gabrielle num tom baixo, e correu para o camarim, enquanto Gabby ia procurar Jane.

 

Ela estava tirando a maquilagem. Participara de cinco cenas naquele dia, e uma delas exigira dezesseis tomadas. Fora uma longa jornada para todos. Trabalhavam dois turnos de seis horas por dia, com uma hora de intervalo para almoçar. Paravam exatamente ao meiodia, para não haver multas por excesso de trabalho. Tudo funcionava de acordo com o relógio. E eram sete horas quando foram dispensados naquela noite.

 

- Quer ir a algum lugar para um hambúrguer? - Gabrielle parecia informal. Tinha crescido bastante nos últimos seis meses, trabalhando com eles, e seu desempenho havia melhorado. Ainda tinha um ensaiador, mas a experiência que vinha ganhando era inestimável. Todos estavam novamente sendo mais bondosos com ela. Durante algum tempo houvera muito falatório, mas finalmente, como Mel tinha previsto, perderam o interesse pela condição dela. No estúdio surgiram outros escândalos e muitas fofocas para comentar.

 

O caso dela tornou-se menos estimulante, e além disso ela se revelou uma invejável profissional. A equipe a respeitava por isso, e Jane se tornou muito afeiçoada a ela.

 

- Ia jantar com as meninas hoje. - Sorriu-lhe, mas parecia triste. Sentia-se como se tivesse mil anos. Não contou a nenhum dos colegas que estava completando quarenta anos, e já tinha comemorado aniversários mais felizes. - Quer vir com a gente? Acho que vamos sair para comer hambúrguer.

 

- Claro. Preciso trocar de roupa? - Usava jeans esfarrapados, com buracos nos joelhos, e sua aparência estava anormalmente ruim, mas Jane não se importou. Enfiou-se no velho training cor-de-rosa e calçou os ténis. Não havia motivo para se vestir. Não iam a nenhum lugar especial, e Alex estava difícil outra vez. Ainda considerava a mãe culpada pelo divórcio, embora estivesse impressionada com o papel dela no seriado. Ao menos Alyssa afinal se aproximara. Tinham feito quinze e dezessete anos no mês anterior e Jack dera um carro para Alex, um Rabbit conversível, e ela gostava de levar todo mundo para toda parte.

 

Gabrielle e Jane saíram do local de filmagens enquanto mudavam as extravagantes paredes da casa dos Martin. A sala de estar superdecorada já tinha desaparecido.

 

- Como foi a última cena? - Jane sorriu. - Você viu? - Fizeram seis tomadas. Pareceu muito boa.

 

- Zack está com hematomas?

 

Gabby riu. Na intimidade, Jane se referia a Sabina como a Madame Dragão.

 

- Ele vai viver. Tinha um compromisso, foi o que disse; saiu logo depois, mas parecia bem. - Todos haviam saído depressa naquela noite, e Gabby acompanhou Jane para a nova casa em Bel Air, onde as meninas estavam esperando. Eram quase oito da noite, e as duas mulheres tomaram um copo de vinho. Depois Alex se ofereceu para levá-las de carro ao Hard Rock Café, onde serviam hambúrgueres. As meninas estavam bem vestidas pela primeira vez, usando calças compridas limpas e lindos tops. Jane sentiu-se culpada por ir com aquele training cor-de-rosa, mas estava cansada demais para trocar de roupa, e Gabby ainda tinha aparência pior. Ficaram ambas conversando no banco de trás. Jane pediu a Alex para não dirigir tão depressa, e repentinamente Gabby deu a impressão de estar aborrecida.

 

- Diabos... Zack ficou com meu roteiro para amanhã, e vou precisar dele hoje à noite.

 

- Posso lhe dar o meu quando voltarmos para casa. Só vou tomar parte nas últimas cenas. - Todos queriam ajudar, mas Gabby sacudiu a cabeça.

 

- Fiz anotações no meu roteiro. Vocês se importam se a gente der uma parada na casa dele? - Virou-se para Alex e lhe explicou onde era. - Dou uma corrida rápida, e apanho... Você não se incomoda, não é, Jane? - Incomodava-se, sim, mas não queria dizer. Estava exausta e deprimida, queria comer logo e ir para a cama. As meninas não tinham dito uma palavra sobre o aniversário, e ela estava certa de que tinham esquecido.

 

Levaram mais quinze minutos para chegar à casa de Zachary, e então Gabby perguntou a Jane se queria subir também.

 

- Acho que ele disse que ia sair às nove.

 

- Tudo bem... Eu espero aqui. - Ficou no carro com as meninas, enquanto Gabby entrava. Alexandra virou-se para ela:

 

- A gente não pode entrar para ver a casa, mãe?

 

- Ele está ocupado, meu amor. E não é justo todas nós entrarmos.

 

- Ora, vamos... Todo mundo diz que é fabulosa...

 

- Alex, por favor... - Mas a fogosa adolescente já havia saltado do carro, e Alyssa a seguiu. - Alex... Vocês aí!... por favor!...

- Já estavam adiantadas a caminho da porta quando Jane saiu com a intenção de trazê-las de volta. Tocaram a campainha assim que ela

as alcançou, nos degraus da entrada, e estava prestes a lhes gritar para voltarem quando a porta se abriu e ela foi subitamente empurrada para os degraus pelas duas garotas. Ao mesmo tempo um rugido de vozes soou em seus ouvidos, e só então ela viu a sala iluminada, cheia de rostos e balões.

 

- Surpresa! - gritaram duzentas vozes.

 

- Parabéns, mãe. - Praticamente não conseguiu ver as filhas através das lágrimas, mas percebeu Gabby em pé ao lado de Zack. Este organizara tudo, e convidara todos os seus conhecidos mais o elenco e a equipe de Manhattan; viu alguns velhos amigos que as filhas tinham chamado, todo o elenco de Sorrows, que não via há mais de um ano, o empresário... todo mundo!

- Oh, meu Deus! - Não conseguia fazer outra coisa exceto chorar e rir enquanto passava de um braço para outro, sendo beijada e abraçada, até de repente surpreender-se olhando para Zack, que lhe sorria. - O que foi que você fez!... Oh, meu Deus!... Olhou para o training cor-de-rosa e riu através das lágrimas. Não tinha sequer penteado o cabelo. - Veja só como eu estou.

 

- Você está linda, e não parece ter mais do que quatorze anos!

 

- Ah, Zack... - Os olhos de ambos se encontraram e se fixaram, e ela beijou-o na face que levara seis tapas naquela tarde. Até Sabina estava lá, sorrindo benevolente, numa fabulosa veste de jérsei branco, exibindo as pérolas que Mel lhe dera.

 

- Parabéns, garota. - Sabina sorriu e beijou-a levemente no rosto. As duas mulheres não eram muito íntimas, mas não eram inimigas. E todos tinham guardado bem a surpresa. Mel deu-lhe um forte abraço, e até Bill estava lá, sorrindo diante do ar atónito e alegre dela. Ninguém merecia aquilo mais do que Jane. Era amiga de todo o elenco, dava-se até com os atores que quase ninguém conhecia, e a equipe inteira era doida por ela. Um bolo enorme enfeitava a sala de jantar, e uma orquestra tocava lá fora. Era a festa mais linda que jamais tinha visto.

 

- Felicidades pelos quarenta, Jane. - Zack estava com o braço em volta dela enquanto caminhava pela sala de estar imensa, de modo que ela pudesse encontrar todo mundo. Havia até um tablado para dançar no jardim, e um bufé sotiflo com duas dúzias de tipos de comida mexicana, que as

filhas

tinham assegurado ser a preferida da mãe.

- Como é que você fez tudo isto! E eu que não desconfiei de nada!

Parecia estarrecida, e suas lágrimas voltaram a correr de comução ante aquela festa que lhe estavam a oferecer. Ninguém jamais fora tão amável com ela.

Estirou o corpo em silêncio, depois pôs os braços em torno do pescoço dele, e a multidão deu vivas quando ela o beijou ligeiramente nos lábios, enquanto

Sabrina se aproximava com uma repreensão.

- Eu disse a você para se manter longe da minha irmã, Adrian. - A turma caiu na gargalhada e ele fingiu se acovardar. - Não me bata de novo, por favor... - Brincou de esfregara face, e todos gargalharam quando Sabina riu e voltou para o lado de Mel. Os convidados se divertiram,

e ninguém reparou Bill escapulir calmamente antes que o bolo fosse servido. Jane mandou as filhas voltarem à meia-noite. Tinham de estar na casa do pai.

Na verdade, era dia de ficarem com ele, mas Jack permitira que saíssem por ser a data do aniversário de Jane. Voltariam a encontrar a mãe no dia seguinte.

E o resto dos convidados ali ficou até quase três horas.

Estava exausta quando finalmente se foram, e Jane ficou por último para conversar com Zack e agradecer-lhe outra vez. Alguém levara Gabby para casa por volta das duas, e Zack prometeu que se encarregaria de levar a aniversariante para casa. Mas não tinham pressa agora, enquanto estavam sentados, bebendo champanha junto à piscina.

- Eu não sei o que dizer. - Nunca ficara tão comovida. - Foi muito bonito... a mais bela noite da minha vida... - Sabia que ia guardar a lembrança com carinho para o resto dos seus dias.

- Você é uma garota especial. - Deu-lhe um abraço caloroso, e olhou dentro dos olhos dela. Há dois meses vinha planejando tudo, desde que ela lhe dissera que beirava os quarenta anos. Gabby e as filhas tinham ajudado. Todos se haviam dedicado ao trabalho com boa vontade, porque era para Jane. Ninguém era mais benquisto, naquele seriado, a não ser, talvez, ele. Jane e Zack eram gente especial e se interessavam muito pelos companheiros da equipe: atenciosos, decentes, respeitados por todos. - Queria fazer uma coisa única dedicada a você.

- Bem, pode crer que fez. - Tomou um gole do champanha e sorriu-lhe. As confissões de Zack nada mudaram entre eles, e ainda se haviam tornado mais íntimos no último mês.

Levara-a para jantar algumas vezes, e não falaram sobre os fatos. Porém ele sentiu-se imensamente aliviado quando não percebeu qualquer mudança nela.

- Você também fez muito por mim, e sabe disso...

- Está brincando. Não fiz nada...

 

- Fez, sim. - Mas não sabia como expressar seus sentimentos com palavras. - Me fez pensar numa porção de coisas.

 

- E você me ajudou durante o pior tempo da minha vida. O divórcio seria muito pior sem você, Zack.

 

- Não vejo como o possa ter feito, mas fico feliz se ajudei. O pesadelo se havia dissipado graças a ele, e agora Jane se sentia uma pessoa inteira. Ambos haviam crescido ao se proporcionarem mútuo apoio.

 

Levantou para ele os olhos marejados.

 

- Ninguém jamais foi tão bom para mim como você... Ele se inclinou e beijou-a nos lábios.

 

- Então eram idiotas. - Mas também tinha sido idiota nos últimos vinte anos, permitira que o medo e o arrependimento lhe guiassem a vida. Por sua própria culpa, havia se forçado uma vida que nada tinha a ver com ele. Mas subitamente deixou de ligar para isso como sempre fizera. Se ela não se importava, por que deveria ele se importar? Tinha explicado tudo ao amigo, algumas semanas antes. E Bob sequer se mostrara surpreso. Sempre tivera a sensação de que Zack havia de tomar o caminho anterior, e agora estava quase certo de que ia acontecer.

 

- Não posso fazer isso a ela - dissera Zack.

 

- Fazer o quê? Ser honesto? Você já foi, e ela pouco ligou, certo? - Bob ficara até satisfeito. Interessava-se bastante por Zack, e há muitos anos só a ele tivera por amante. Contudo, achava sinceramente que o amigo era bem mais do que isso. Zack tinha tanto amor para dar! Só desejava que Jane o merecesse.

 

- Parabéns, Jane - sussurrou Zack e ela sorriu, feliz.

 

- Quer nadar um pouco? - A noite era quente, e nenhum dos dois se sentia cansado. Há muito tinham recuperado sua disposição, e estavam felizes e à vontade deitados perto da piscina, bebendo champanha sob o céu estrelado.

 

- Não trouxe meu biquini. Ele riu baixinho.

 

- Já não terei ouvido isso antes? Me parece que nos demos bem sem biquini em outro lugar... - Na casa dela, logo que se mudara.

- Podíamos tentar de novo.

 

Desta vez ele despiu facilmente a roupa na frente dela, o corpo vigoroso pulsando quase com a energia de um garoto, ela tirou depressa o training cor-de-rosa, dobrando com cuidado a roupa de baixo. Sentiu-se apenas vagamente constrangida ao notar como ele a admirava ao entrar na água. Nadaram calmamente lado a lado, depois, ao atingirem a extremidade rasa, sem uma palavra, Zack a tomou nos braços, e Jane ficou enlaçada no seu calor, sentindo o desejo dele crescer enquanto a puxava mais para perto e se beijavam. Retomando o fôlego, ele a beijou de novo suavemente, sentindo-lhe os seios mais rígidos desta vez, e depois explorando-a mais com as mãos delicadas e lábios acariciantes. Levou-a para os degraus, e, como se tivessem esperado a vida inteira por aquele momento, fez amor intensamente com ela, a água morna os envolvendo, os murmúrios suaves no ar da noite. Quando alcançaram o êxtase, ficaram unidos nos degraus da piscina como uma pessoa só, a sorrir.

 

Bill saiu da festa exatamente às 22:15. Gostava de Jane, e considerou uma delicadeza de Zack organizar a festa para ela, mas não estava com disposição. Dias antes tinha encontrado Sandy pela primeira vez, em meses, no Mike’s. Ela havia telefonado marcando aquele encontro, e afinal a única coisa que ela queria dele eram 500 dólares. Imploroulhe, dizendo que precisava de um lugar para morar, e não tinha um centavo. Temeu que o dinheiro fosse díretamente para o braço. Parecia horrível, e vê-la naquele estado lhe deixara o coração doendo, mas sabia que nada poderia fazer por ela; Sandy estava em condições tão precárias que nem tivera coragem de mencionar o divórcio.

 

Finalmente entregou-lhe todo o dinheiro que trazia consigo, pouco mais de 300 dólares, e ela quase disparou pela porta. No dia da festa para Jane ligara outra vez, e agora parecia estar amedrontada. Queria vê-lo às 11 da noite, e para ter certeza de encontrá-la, deixara a casa de Zack 45 minutos antes. Entretanto, ela não apareceu. À meia-noite, tomou uma cerveja no Mike’s, depois fora para Malibu e ficara rondando de carro por ali. Precisava tirá-la da cabeça, ela estava afundando depressa, e sabia que qualquer dia desses ia tomar outra superdose. Talvez pela última vez.

 

Era mais de duas horas quando chegou em casa, e ao chegar a polícia estava lá. Quatro carros, com luzes piscando e uma ambulância; com uma terrível sensação de desgraça, disparou pela vereda estreita. Esperavam por ele, a porta do quarto fechada. Os policiais mostravam-se arrogantes. Havia outros homens à paisana, um deles com máquina fotográfica; dois tiras sacaram as armas quando ele entrou. Pálido, estacou onde estava e pôs mãos ao alto; todos o olharam fixamente.

 

- O que aconteceu?... Onde está... - Sabia que ela estava lá. Tinha de estar.

 

- Ainda está no quarto. - Não gostou da maneira como lhe disseram ”ainda”. Como se alguém a tivesse deixado lá. - E você, por onde andava?

 

Ainda tinha as mãos no alto e não ousava mexer-se. Ficou conjeturando se os enfermeiros estariam lidando com ela.

 

- Estive dando umas voltas de carro... em Malibu.

 

- A que horas saiu?

 

- Por volta da meia-noite. Marquei um encontro com alguém... que não apareceu, então saí para tomar uma cerveja.

 

- Por quem estava esperando?

 

- Minha... uma amiga - Quase tinha dito ”minha mulher.” Um dos policiais dirigiu-se até a porta do quarto, e fez-lhe sinal para se aproximar.

 

- Sua amiga é essa que está aqui? - Acenou a fim de que Bill o seguisse, e havia mais policiais no quarto. O cachorro fora levado para o banheiro, e Bill podia ouvi-lo ganindo. Mas não estava preparado para o que viu ao entrar no quarto. Sandy estava atirada na cama, roupas rotas como sempre nos últimos tempos, o corpo minúsculo, frágil, menor do que o de uma criança, e fora alvejada no peito e na cabeça. Tinha os olhos abertos e havia sangue por toda parte. Estava morta, e ele exalou um gemido enquanto dava um passo na direção dela e depois baqueou, sentindo-se fraco e doente. Dois braços o agarraram antes que caísse, e ele voltou cambaleando para a sala de estar.

 

- Meu Deus... ah, meu Deus... - Chorava como uma criança. Ela estava morta... morta. Encarou-os com olhos vidrados. - Quem fez isso... O que... - Não conseguia encontrar as palavras, e eles o atiraram rudemente numa cadeira.

 

- Você é que vai nos contar. Os vizinhos ouviram os tiros. Você tem uma arma?

 

- Não. - Sacudiu a cabeça.

 

- Quem é ela?

 

- É minha mulher... estávamos separados nos últimos seis meses.

 

- Mostre os braços, cara. - Tinham visto as marcas nos dela, porém os de Bill estavam limpos.

 

- Alguém viu você depois da meia-noite?

 

- O garçom do Mike’s Bar. - Teve ânsias de vomitar e fechou os olhos.

 

- Quanto tempo você ficou lá?

 

- Perto de meia hora.

 

- E depois de uma hora?

 

- Fiquei andando de carro por aí.

 

- Ela foi assassinada nesta última hora. Tem alguma ideia de quem a matou?

 

Sacudiu a cabeça, infeliz, as lágrimas correndo dos olhos. Sandy fora alvejada. Como um animal. Depois olhou para os tiras.

 

- Ela me telefonou esta noite. E parecia estar com medo.

 

- Com medo de quê? - Não se solidarizavam com ele. Já tinham visto tudo isso antes. E ouvido histórias insustentáveis como aquela.

 

- Não sei. Do seu traficante, talvez... talvez algum gigolô... Ela foi presa no verão passado por prostituição, tinha que conseguir dinheiro para as drogas... mas era uma garota decente. - Virou-se para eles como se pudesse interessá-los pelo que pensava. - Vivia confusa por causa das drogas.

 

- Parece que sim. - O tira principal fez sinal para um de seus homens, e os enfermeiros da ambulância entraram com a maca e uma lona.

 

- Para onde vocês vão levá-la? - Bill levantou-se como se fosse protegê-la, e eles o empurraram de volta para a cadeira.

 

- Para o necrotério. E vamos levar você para a cidade.

 

- Por quê?

 

- Pode pensar numa razão para não ir?

 

- Eu não a assassinei.

 

- Pode dizer isso aos chefes. O caso agora é com a Delegacia de Homicídios.

 

- Mas vocês não podem fazer isso... Eu... - Antes de dizer mais uma palavra, um dos tiras colocou-lhe as algemas, outro leu-lhe os direitos, e os homens da ambulância surgiram com a maca já coberta pela lona, uma forma miúda delineando-se debaixo dela. Não tinha sobrado quase nada de Sandy. Ele viu a ambulância partir, lembrando-se do sangue no outro quarto, e rezou para que não tivesse sofrido, que tudo tivesse sido rápido... O filho da puta a matara na cama deles, onde durante algum tempo haviam sido tão felizes... Teve a impressão de estar sonhando ao cambalear para o carro, cercado pelos homens; e minutos depois encontrava-se a caminho do centro da cidade, no banco traseiro, algemado e em choque. Não podia estar acontecendo com ele. Mas estava...

 

Disseram-lhe que ia ficar preso por 48 horas enquanto prosseguiam as investigações, e o interrogaram durante duas horas. Mas não tinha mais nada a declarar. Sentia-se exausto e enjoado quando tiraram as algemas, fizeram com que se despisse, examinaram-no da cabeça aos pés; devolveram-lhe as roupas, e o atiraram numa cela com mais três homens. Dois estavam bêbados, fora de si - um deles dormindo; o terceiro ameaçou matá-lo se se aproximasse, e ele sentou-se no estreito catre cujo colchão cheirava a urina, conjeturando no que iria acontecer com ele.

 

- Posso telefonar? - pediu ao guarda.

 

- Amanhã de manhã, às nove horas. - Mas eram 10:45 quando o tiraram da cela para ser interrogado novamente, e só então deixaram que telefonasse. Estava quatro horas atrasado para o trabalho, e devia figurar em todas as cenas. Não sabia a quem chamar, por isso ligou para o empresário, e a secretária deixou-o esperando enquanto os inspetores rilhavam os dentes, ansiosos para interrogá-lo outra vez.

 

- Diz a ele para andar depressa.

 

- Não posso. Estou esperando. - Ficou em pânico, com medo que não o deixassem completar a ligação. Era sério. Era a sua vida que estava em jogo agora. Finalmente Harry atendeu.

 

- O que foi que houve? Como é que as coisas vão indo, garotão? - A voz mostrava-se animada. Ele estava de bom humor. Mas não ficou por muito tempo. Bill contou-lhe onde estava e por quê, e Harry ficou sentado na escrivaninha, atarantado. - Você está o quê? Eles estão doidos?... Que grande merda...

 

- Você pode me arranjar um advogado, Harry? E pelo amor de Deus, não conte nada a ninguém.

 

- Você está brincando? Hoje à noite o mundo inteiro vai saber, Jesus Cristo!

 

- Pelo amor de Deus! - A voz de Bill rugiu pela sala pequena e os inspetores encararam-no, interessados. - Me arranja um advogado, só isso. E liga para o lugar das filmagens e diga a eles que não vou Comparecer por alguns dias. - Os dois pensaram a mesma coisa no mesmo minuto, mas foi Harry quem pronunciou as palavras.

 

- Espere só até Wechsler ficar sabendo disso

 

- Vou contar a ele quando sair. Vou explicar tudo

 

- Esta é a declaração mais sem sentido do ano. - Era violação do contrato até o enésimo grau. A cláusula sobre moral ia cuidar disso, se não houvesse mais pressão ainda. Sem mencionar o quanto Mel ia ficar puto da vida porque Bill mentira. - Vou ligar para o meu advogado. E não fale com mais ninguém.

 

- Ótimo. - Olhou de relance para os homens que o esperavam.

- E Harry... obrigado.

 

- Vou fazer o que puder. E garotão... saiba que compreendo... sei como você se sentia a respeito dela.

 

- É. - Os olhos de Bill encheram-se de lágrimas outra vez. Eu gostava dela. - Desligou o telefone e encarou os inspetores que queriam falar-lhe, mas recusou-se a fazê-lo até que seu advogado chegasse.

 

Quando resolveu não falar, os detetives o mandaram de volta para a cela. Os dois bêbados tinham sido liberados, e o homem que ameaçara a matá-lo ficou sentado, encarando-o o dia inteiro. Pareciam ter passado horas até que o advogado apareceu, e não foi muito animador. Consideravam-no culpado de homicídio em primeiro grau.

 

- Mas por quê, pelo amor de Deus?

 

- Porque ela foi assassinada na sua casa, era sua mulher, estavam separados e você não tem álibi. Pelo que eles sabem, você estava furioso com ela, você a odiava, e se sentia puto da vida por causa das drogas. Existe uma centena de motivos para ter desejado acabar com ela. - O advogado foi brutalmente honesto com ele.

 

- Eles não têm de provar que eu matei?

 

- Não necessariamente. Se você não conseguir provar que não matou. Podem prendê-lo para uma audiência preliminar, se o promotor entrar com uma queixa contra você.

 

- Você acha que ele vai fazer isso?

 

- Alguém viu você naquela noite, depois da meia-noite? Bill sacudiu a cabeça, sentindo-se infeliz.

 

- Não depois que saí do Mike’s. Fiquei andando de carro por aí, mais nada.

 

- Alguma vez falou da garota com alguém? Contou a alguém que estava zangado por causa das drogas?

 

Ele sacudiu a cabeça, e depois olhou atento para o homem que Harry havia mandado. Tinha cerca de 45 anos, e parecia destituído de personalidade. Bill desejava que ele entendesse do ofício.

 

- De fato, nunca contamos a ninguém que éramos casados.

 

- Por que não contaram?

 

- O empresário dela não queria que a gente contasse. Na época ela estava com um importante papel num seriado, e ele achava que ia prejudicar a imagem dela como ingénua.

 

- E você? Alguém sabia?

 

Bill sacudiu a cabeça de novo, e lhe falou da mentira que havia contado a Mel para conseguir o emprego.

 

- É bem provável que eles se livrem de mim depois disso.

 

- Talvez não. - Foi a primeira coisa animadora que o advogado disse. Chamava-se Ed Fried. E Harry tinha jurado que ele era bom.

- Podem ficar-com pena de você. É uma experiência infernal para qualquer um. Quem você acha que fez isso?

 

Bill pensou um pouco e acabou dando de ombros.

 

- Não sei. É provável que tenha sido o traficante. Alguém pode tê-la seguido até a casa... talvez um gigolô.

 

- Ela esteve metida nisso também? - indagou Ed.

 

- Esteve... pelo menos uma vez... - Era chocante ver a vida de alguém esmiuçada daquela maneira. Depois olhou para Ed novamente. - Você pode me tirar daqui mediante fiança?

 

O advogado sacudiu a cabeça.

 

- Você está preso sob suspeita. Ainda não estabeleceram a fiança. - Resolveu contar-lhe o resto. - E se eles o acusarem de assassinato em primeiro grau, não vão estabelecer fiança. - Esperava que lhe imputassem uma acusação menos grave, se não o dispensassem. Pelo menos então poderia soltá-lo.

 

- Ótimo. - Bill mostrava-se deprimido. Mas ficou pior ainda quando viu os vespertinos. Não era manchete. Mas estava na primeira página. ”Ator acusado de assassinar a mulher.” Citava o nome dos dois, relacionava as antigas acusações contra Sandy, o vício da droga, informava que ela fora despedida da novela, e dizia que Bill estava filmando o novo seriado de Mel Wechsler, provável sucesso retumbante da televisão no próximo ano. ”Não para mim”, disse baixinho, deitando-se no catre fedorento e fechando os olhos. Não o interrogaram mais naquela noite. Ficou ensimesmado pensando nela... com um buraco de bala no coração e três na cabeça... e com a vida que um dia tinham compartilhado e que se desfizera como um sonho distante.

 

- Ah, meu Deus... ah, Jesus... - foi Jane quem viu primeiro, enquanto estava sentada esperando que acertassem a iluminação para a próxima cena. Um dos operadores de câmera lera o jornal na hora do almoço e o deixara num banco. Passou o jornal para Zack sem dizer uma palavra, e ele a olhou fixamente.

 

- É Bill? - Parecia atordoado.

 

- Sem dúvida. - Ele não tinha vindo trabalhar naquele dia. O empresário havia ligado às onze horas, e filmaram o dia inteiro sem ele, o que provocou certa confusão geral, porque todos estavam fazendo cenas que não tinham ensaiado antes,.e não se fizera nada com menos de quatorze tomadas naquele dia. Todos estavam um tanto agitados por causa disso, mas de qualquer modo mostravam-se felizes. Zack e Jane nem tinham dormido na noite anterior, mas de qualquer maneira pareciam felizes. Pelo menos até que Zack leu a notícia e viu que Jane olhava fixamente para ele. Agora se explicava por que Bill dava a impressão de estar desgostoso quase sempre.

 

- Aqui diz que ele era casado com ela. Ele nunca disse nada... você sabia? - Olhou para Zack com surpresa enquanto Gabby se encaminhava para eles. O dia estava muito mais quente do que era comum naquela época do ano, e todos sofriam a ressaca causada pela festa para Jane na noite anterior.

 

- Se houver precisão de mais dezesseis tomadas para filmar a próxima cena eu vou me matar. - Sentou-se no banco e olhou para ambos. - O que é que houve? Vocês parecem tão enjoados quanto eu. Foi muita comida mexicana ontem, ou vinho demais, ou ambos? Sorriu. Tinha sido uma linda noite, e fora realmente uma surpresa, e uma surpresa agradável, mas Jane passou-lhe o jornal sem dizer uma palavra. Gabby leu a notícia e levantou os olhos. - Que grande merda. Mas não pode ser... - Não podia ser. Teria coragem para matá-la?...

 

As novas se espalharam como fogo em palheiro, aos sussurros, entre as tomadas. E a polícia chegou antes que deixassem o local no fim do dia. Queriam fazer um inquérito, e pediram que todos ficassem mais um pouco. Já eram sete da noite, mas ninguém reclamou, enquanto se serviam de café em xícaras de plástico e os inspetores falavam primeiro com o diretor. Em seguida pediram a Zack que fosse para o camarim e só voltaram depois de meia hora. Parecia-lhes que iam ficar ali a noite inteira. Jane pôs-se a cochichar com Zack quando ele voltou.

 

- O que é que eles queriam?

 

- Não disseram muita coisa. Queriam saber se ele alguma vez mencionou a mulher... e se algum dia já a tínhamos visto... e se Bill se queixava dela... Ah, e se parecia perturbado ontem. Eu lhes disse que ninguém sabia que era casado. E que só uma vez eu os encontrara juntos há algumas semanas, no Mike’s. - Os dois se lembraram da garota em farrapos que tinham visto com Bill, e Jane cogitou se seria mesmo aquela a garota assassinada. Então Zack olhou-a, infeliz. Me perguntaram a que horas ele deixara a festa ontem à noite, e respondi que por volta das dez. Talvez não devesse dizer isso a eles. Zack parecia sentir-se mal ao contar isso. Nenhum deles se aproximara mais de Bill desde que as filmagens tinham começado; mesmo assim fazia parte do grupo, era membro da família, e Zack não queria causarlhe problemas, Jane olhou-o com ar de solidariedade.

 

- Estava muito emocionada, não reparei quando ele foi embora.

 

- Nem eu - disse Gabby.

 

Falaram com Sabina, depois com Jane, e a seguir com alguns dos membros do elenco. Eram 22:15 quando os policiais dispensaram a equipe. Jane ficou à espera de Gabby, que ainda estava sendo interrogada; Zack tinha prometido levar as duas para casa. Todo mundo agora comentava abertamente como Bill parecia deprimido, como se revelara rabugento em Nova York, como se mostrava soturno quase sempre. Jane sentiu-se enojada ouvindo-os, seu coração se condoeu muito por ele. Falou algo para Zack, e ele deu a impressão de ficar em dúvidas.

 

- Acho que não devemos.

 

- Como é que você ia se sentir?

 

Ele olhou o relógio. Ainda usava as roupas da última cena, e a maquilagem tinha começado a se desmanchar.

 

- Provavelmente não vão permitir, de qualquer maneira.

 

A gente pode tentar. Não há mal nisso.

 

Sorriu para ela, e murmurou-lhe algumas palavras. Ainda sentia a emoção da noite anterior. Curvou-se bem, de modo que só ela escutasse.

 

- Eu amo você, Jane.

 

- Eu também amo você. - Trocaram um olhar que só tinha significado para eles, e pareceu-lhes que esperavam por Gabrielle há muito tempo.

 

Ela estava na sala de maquilagem, com a polícia. Tinham começado agora a interrogar as pessoas dali.

 

- A senhorita o conhecia antes do seriado, Srta. Smith? Ela sacudiu a cabeça.

 

- Não, não o conhecia.

 

- Alguma vez ele mencionou a mulher?

 

- Não. - Sacudiu novamente a cabeça parecendo extremamente calma, e observando-os. Vinha pensando no caso desde que soubera dele e tinha a certeza de que Bill não era o assassino da mulher. Acaso ele ainda amaria a esposa? Se assim fosse, isso explicaria a maneira como se comportara nestes últimos meses. As coisas estavam começando a ficar mais claras.

 

- Alguma vez viu esta moça no local das filmagens? Entregaram-lhe uma fotografia de Sandy nos seus melhores dias.

 

Gabby olhou e sacudiu a cabeça.

 

- Não.

 

- A senhorita diria que o Sr. Warwick estava aborrecido ontem?... digamos, ontem à noite?

 

Sorriu para eles.

 

- Absolutamente. Nós todos fomos a uma festa de surpresa para Jane... Jane Adams.. e Bill estava lá.

 

- A que horas a senhorita diria que ele saiu?

 

- Um pouco depois de dez. - Sabia que Zack havia dito a mesma coisa.

 

- A senhorita sabe para onde ele foi? Ele disse alguma coisa? Sorriu de novo, e depois afastou os olhos.

 

- Encontrei-me com ele no meu apartamento mais tarde. Olhou-os fixamente outra vez, recatada, com ar de estar um tanto constrangida, mas ansiosa para ser honesta; era a impressão que dava.

 

- A senhorita saiu da festa com ele, Srta. Smith?

 

- Saí mais tarde. Lá pela meia-noite. - Saíra às duas, mas todo mundo estava bêbado demais para saber disso.

 

- E a senhorita se encontrou com ele... onde?

 

- Na minha casa. Ele não contou isso? - Parecia jovem e inocente, outra vez, surpresa e constrangida, e o inspetor que a interrogava mudou de posição na cadeira. Era muito bonita e o robe que usava, meio aberto, revelava um pequeno seio quando se inclinava para ele. Até parecia um pouco com a garota da foto. E então ele pensou em alguma coisa mais.

 

- Tiveram uma briga? - Talvez Bill tivesse confundido as duas, já que eram tão parecidas. Tinha que pensar em tudo.

 

Ela riu como uma criança e brincou com os longos cabelos negros.

 

- Absolutamente. Pelo contrário... - E até mesmo conseguiu corar.

 

- A que horas ele chegou? - O tira apertou os olhos e ela fitouo como se pensasse. - Talvez um pouco depois de meia-noite.

 

Certamente isso mudava tudo. Mas por que ele não dissera a mesma coisa?, perguntou a Gabby, que deu de ombros.

 

- Não sei. Suponho que acreditasse que ia me constranger. Baixou a voz como se as paredes pudessem ouvir. - Ninguém sabe nada a nosso respeito. Eu... isso ia complicar tudo e, o senhor sabe, temos uma cláusula de moral... - Se a cláusula de moral fosse acionada cada vez que dois atores fossem juntos para a cama em Hollywood, não sobraria ninguém para trabalhar; mas nem todos sabiam disso e o inspetor-chefe assentiu com a cabeça, solenemente.

 

- Compreendo. - Ficou em pé. - Talvez a gente tenha que falar de novo, Srta... hum... Smith. Muito obrigado. - Dispensou-a e ela foi se juntar a Zack e Jane, e finalmente todos foram dispensados naquela noite. Formavam um grupo sombrio quando deixaram o local das filmagens. Ninguém falava e todos pareciam estar perdidos em seus pensamentos quando Jane compartilhou sua ideia com eles.

 

- Pensei que a gente podia passar por lá e ver Bill.

 

- Você acha que eles deixariam a gente entrar? - Gabby parecia ter dúvidas, mas bem gostaria de vê-lo. Havia arriscado o pescoço por ele, mas segura de ter agido certo. Sabia, embora apenas por instinto, que ele não era culpado do crime, não importa o que os tiras dissessem. Bill não seria capaz disso. Se quisesse matar a mulher, já o teria feito há muito tempo. E quando falaram sobre isso, Zack concordou.

 

- Naquele dia, no Mike’s, quando a seguiu com o olhar, era óbvio que ainda se interessava por ela - Gabby pareceu retrair-se enquanto Jane a observava, mas falou com voz normal.

 

- Também acho que sim. Creio que era isso o que o vinha deixando angustiado. Ser casado com ela secretamente não parecia ajudar.

 

- A polícia afirma que estavam separados há meses - Jane disse ao entrarem no carro de Zack -, mas me palpita que Zack tem razão. Quando o vi naquele dia, percebi a mesma coisa. Parecia arrasado com a aparência dela. Estava tão horrível, a pobrezinha... - Jane expressava sua piedade ao relembrar.

 

- O que você acha que realmente aconteceu? - perguntou Gabby.

 

- É provável que o assassinato tenha alguma coisa a ver com drogas. - Zack olhou-as de relance e deu partida no carro. - Aparentemente, Bill afirma que ela lhe telefonou para o local das filmagens. Não sei ao certo, mas podia ter ligado, pedindo um encontro na casa dele. Como não apareceu, ele saiu para dar uma volta de carro, e quando voltou lá estava ela... morta. - Tudo parecia horrível para os três, enquanto Zack dirigia para a cadeia onde sabiam que Bill estava. Já eram quase onze horas da noite e Zack estava certo de que não iam deixá-los entrar. Mas ao chegarem, ficaram surpresos. Os investigadores já tinham voltado e concordaram em abrir uma exceção, ”por serem eles quem eram”. O tom dos policiais aborreceu Jane, que já estava desesperadamente triste por causa de Bill, mas todos ficaram agradecidos por lhes permitirem vê-lo. Trancaram-nos sozinhos numa sala com o ator; apenas um guarda ficou do lado de fora, ante uma janela que lhe permitia ver tudo o que se passava. Jane e Gabrielle receberam ordem para deixar as bolsas do lado de fora, e Zack fora revistado. Passaram um trinco extra na porta. Na realidade, era uma sala de interrogatório, porém muito mais civilizada e menos desagradável do que o parlatório da prisão. O próprio Bill foi introduzido por outra porta, e antes de entrar tiraram-lhe as algemas que o manietavam. Ele ficou de pé olhando fixamente os companheiros com lágrimas nos olhos, sem saber o que dizer. Então Jane o envolveu num forte abraço, chorando também.

 

- Tudo vai dar certo... Eu sei que vai.

 

Por muito tempo ele não conseguiu falar. Apertou a mão de Zack e encarou Gabrielle. Parecia imundo e tinha uma barba de dois dias. Dir-se-ia um homem acabado pelo que vira, sentira, achando que a vida nunca mais voltaria a ser o que fora. E, de certa forma, estava certo. Ainda lhe pairavam dúvidas sobre se Mel ia mantê-lo no seriado, mas, ainda mais importante, talvez fosse acusado pela morte da esposa.

 

- Não conseguimos acreditar em nada disso, Bill. Parece um roteiro muito ruim. - Zack acomodou-se numa cadeira e Bill o acompanhou, olhando-os com gratidão.

 

- Nem eu. Tem sido um pesadelo. Vão me manter preso por mais vinte e quatro horas se não surgir nenhuma outra prova. E depois disso, podem ainda prorrogar por novas vinte e quatro horas. - Seriam mais dois dias de terror e desolação, e eles o olharam sem acreditar.

 

- Mas por quê? - Zack não compreendia como isso era possível sem provas conclusivas.

 

- Porque não tenho álibi. Estava fora, sozinho, rodando no carro por aí. Ninguém me viu depois da meia-noite e a desgraça ocorreu entre uma e duas. Ela foi encontrada na minha casa, e aparentemente é quanto basta. Acham que eu estava contrariado com a vida que ela vinha levando, e estava. Me sentia mal por causa disso. Ela estava se matando. Mas eu nunca pensaria em... - Sentia dificuldade para falar, e Gabby suavemente tocou-lhe a mão, esperando até que levantasse os olhos para ela. E quando o fez, Gabby estava calma e lhe disse tranquilamente:

 

- Contei a eles que ficamos juntos naquela noite.

 

Por um momento ele a encarou boquiaberto, como se não compreendesse o que ouvia, depois sacudiu a cabeça, enquanto ela continuava a olhá-lo. Ambos sabiam que devia haver aparelhos de escuta na sala, e ela tinha o maior cuidado com o que dizia.

 

- O que foi que você contou?

 

- Contei a eles que foi ao meu apartamento depois da festa na casa de Zack.

 

Continuou a encará-la.

 

- Por quê? - Por que fizera isso por ele, depois de toda a sua grosseria com ela durante meses? Por que haveria de fazer tal coisa por ele? Estava atarantado.

 

Porém ela continuou a manter os olhos fixos nos dele enquanto Zack e Jane ouviam, admirados.

 

- Eu contei a verdade. Você não precisa mais mentir para me proteger, Bill. Está tudo certo.

 

Ele teve vontade de gritar:

 

- Mas eu não estive lá, e ainda assim não matei minha mulher!

 

- Mas não ousava dizer nada porque certamente havia microfones escondidos na sala. Zack e Jane os encaravam, confusos. Ambos estavam certos de que não havia qualquer relacionamento entre eles.

 

Bill olhava Gabby tão intensamente como se a visse pela primeira vez.

 

- Eu não a matei, Gab. Juro que não matei... Ela me ligou naquele dia, e parecia estar com medo. Disse que alguém a perseguia, e eu não sei quem é. Três semanas antes, ela me confessara que devia dinheiro a todo mundo, inclusive ao seu traficante, e que estava preocupada com isso. Disse que não tinha onde morar. Eu só dei a ela trezentos dólares porque receava que, se desse mais, ela ia ficar doida e tomar outra superdose. - Surgiram novamente lágrimas nos olhos dele, e Bill deixou a cabeça pender, sentindo algum alívio e uma espécie de calor humano em torno dele pela primeira vez desde que fora preso.

 

- Nós estivemos tão apaixonados... Eu queria tanto que ela se livrasse do vício, tanto... porém ela não pôde. Acho que já se considerava perdida e não se importava mais. - Não era o primeiro caso que conheciam, e os três companheiros sentiram pena. Não havia dúvida na mente de nenhum deles. Exceto na dos tiras, infelizmente.

 

Jane acariciou-lhe as faces enquanto chorava e escondia o próprio rosto com a outra mão, e Zack, triste, sacudiu a cabeça.

 

- Seu advogado não pode fazer nada, Bill?

 

- Ele está tentando. Mas parece terrível, Sandy estava morta deitada na nossa cama. - Engoliu um soluço, lembrando a esposa com os ferimentos de bala da cabeça.

 

- Encontraram a arma?

 

- Não. E eu nunca tive arma na minha vida. Nunca empunhei uma, a não ser para um comercial para crianças, como o caubói montado num cavalo de balanço no centro de uma enorme tigela cheia de falso cereal. - Todos sorriram, mas sem espontaneidade.

 

Gabby encarava-o intensamente de novo.

 

- Confirme que você estava comigo. Agora pouco me importa. Eu mesma já disse a eles que estávamos na Galey Avenue - Ocorreu-lhe que Bill talvez nem soubesse onde ela morava. Não tinha motivo para saber, e continuou a encará-la, descrente, quando o guarda destrancou a porta e fez um gesto para todos.

 

- Por esta noite chega, gente. Podem voltar amanhã durante as horas de visita. Das quatorze às dezesseis, sétimo andar. - Ótimo. Talvez resolvessem suspender as filmagens, de modo que todos pudessem visitá-lo. Ele os olhou como uma criança que é abandonada num lugar horrível, e seus corações se encheram de tristeza. Jane o abraçou com força, e depois Gabby fez o mesmo. Bill apertou-lhe a mão por um momento, quando ela saiu, agradecendo em silêncio pelo que tinha feito. Podia até estar lhe salvando a vida. Depois Zack o abraçou também, com lágrimas nos olhos. Colocaram-lhe as algemas de novo e os três o deixaram ali.

 

Permaneceram calados enquanto desciam a escada e voltavam para o carro de Zack; finalmente Jane virou-se para olhar Gabby no banco de trás do Rolls que ficara estacionado na porta da cadeia.

 

- Eu não sabia que... você e Bill... - Não tinha certeza do que devia dizer, e Gabby deu de ombros, obviamente sem se sentir ansiosa para comentar qualquer coisa. Mas Zack, que a olhou de relance no espelho retrovisor, soube exatamente o que ela fizera, e por quê. Talvez melhor do que ela mesma. Estava apaixonada por ele.

 

Não o interrogaram mais naquela noite, mas na manhã do dia seguinte a primeira coisa que perguntaram foi sobre Gabby, na presença do advogado. Tinham conversado com muitos participantes no local das filmagens, desvendando a animosidade que havia entre Gabby e Bill. Sabiam que ela estava mentindo ao dizer que tinham passado a noite juntos.

 

- Ela fez uma coisa idiota - falou o detetive. - Você combinou isso com ela?

 

Bill abanou a cabeça, sentindo-se infeliz, desejando que ela não se metesse mais em confusão. De repente, era um pesadelo para todo mundo.

 

- Ela não queria me prejudicar. Ela só pretendeu...

 

- É, eu sei. - Mulheres fazem isso o tempo todo, embora geralmente por homens de quem gostem mais do que se dizia que Gabby gostava de Bill. Não era crime, mas era idiotice, e nunca dava certo.

- E você ainda não tem um álibi, meu chapa. - Os olhos do policial mostravam-se frios.

 

- Eu não matei minha mulher. - A aparência de Bill era soturna ao repetir as palavras que já tinha dito inúmeras vezes.

 

- Você acha que ela ainda estava apaixonada por você? - Agora estavam apenas especulando.

 

- Não sei... Nós nos amamos muito... há muito tempo. - Sua voz era suave e estavam gravando tudo que dizia. - Ela não tinha condições de se interessar por ninguém há muito tempo.

 

- Você sabia quem eram os amantes dela?

 

- Não.

 

- Você tinha ciúmes de alguém na vida dela? Observavam cuidadosamente suas reações.

 

- Não. Já disse que nem mesmo sabia com quem ela andava.

 

- Fomos informados que ela andava fazendo trapaças. Bill não disse nada.

 

- Como é que você se sente em relação a isso? Olhou para o investigador diretamente nos olhos.

 

- Triste por ela.

 

- E com raiva?... Isso deixava você puto da vida, Bill?

 

- Não me deixava mais assim. Tudo fazia parte da doença dela.

- Não estavam chegando a lugar nenhum com ele, e finalmente fizeram-no voltar para a cela.

 

Depois daquele dia foram visitar Mel. Ele se mostrava carrancudo e desgostoso. Disse que nada sabia da vida privada de Bill. Disse também que não sabia ainda se Bill ia continuar no programa. Vinham filmando as cenas em que ele não aparecia naquela semana, mas nos próximos dias teriam que suspender as filmagens, a menos que o soltassem. Eles informaram isso a Bill, quando lhe disseram que iam mantê-lo na prisão.

 

- O que é que você acha? - perguntou, em desespero, ao advogado naquela noite.

 

- Nada satisfatório, suponho. Não surgiu nenhum fato novo. Não conseguem descobrir nada, e nenhum dos vizinhos viu alguém entrar na casa naquela noite.

 

- Santo Deus, Ed, é incrível. Como é que podem fazer uma coisa dessas comigo? Por falta de outra prova, vão me acusar de tê-la matado? Só porque não descobrem quem realmente matou? - Conjeturou também sobre como se sentia porque Gabby mentira por ele.

 

- É possível. - Conhecia bem as injustiças do código penal. Lidava com elas todos os dias. Mas sentia uma vaga pena de Bill. Acreditava que ele não tinha matado a moça, mas ia passar por momentos muito difíceis para provar. - Você vai ter uma oportunidade incrível no julgamento. - Era o único incentivo que podia dar. - Porque eles terão de condenar você passando sobre uma dúvida razoável, e isso lhes será difícil.

 

- Você acha que irão tão longe? - Parecia abalado. Além disso, na noite anterior o homem com quem dividia a cela ameaçara matálo. Estava começando a avaliar se ia sobreviver a essa provação. Talvez nunca fosse a julgamento. Talvez fosse assassinado ali mesmo na prisão. Já havia acontecido antes, com outras almas insuspeitas.

 

- Podem ir tão longe, Bill - disse o advogado. - Nós vamos saber amanhã, a qualquer hora - E souberam. O promotor público fez acusações contra ele, e a única concessão, por falta absoluta de provas ou de um motivo definido, foi reduzirem o libelo para homicídio culposo, presumindo que, após iniciarem uma discussão, eles tivessem lutado e a matara talvez sem pretender. Teriam preferido acusá-lo de homicídio em primeiro grau, mas recearam que tal acusação não fosse aceita. Era muito mais fácil acreditarem na suposição de homicídio culposo, que seria bem mais difícil refutar.

 

Parecia um idiota quando leram as acusações contra ele e estabeleceram uma fiança de cinquenta mil dólares. Bill ligou para Harry assim que lhe foi possível, e Harry prometeu tirá-lo de lá. Precisava de 5 mil dólares em dinheiro, e assinaria um termo de responsabilidade pelo resto. Chegara a se sentir agradecido por poder fazer isso. Uma audiência preliminar fora marcada daí a quinze dias e soltaram-no às

23 horas. Bill chorava enquanto caminhavam na rua, e Harry passou o braço em torno dele, ainda incapaz de acreditar que aquilo tinha acontecido.

 

Bill lembrava-se do primeiro dia em que fora ver Mel enquanto aguardava na sala de espera, um tempo que lhe parecia a eternidade. Desta vez, porém, não havia expectativa alegre. Ao contrário, sentia o estômago pesado como chumbo. O escritório de Wechsler instruíra o empresário de Bill que este não fosse trabalhar na sexta-feira; em vez disso devia apresentar-se a Mel. Às nove horas da manhã.

 

Às 9:15 finalmente a secretária o chamou. O rosto dela era inexpressivo, embora Bill tivesse aparecido nos jornais todos os dias daquela semana. Ela agiu como se nunca o tivesse visto antes. Estava certo de que Mel ia despedi-lo naquela entrevista. Tinha todos os motivos para isso, e, pior ainda, tinha motivos para mover-lhe um processo. Bill mentira a respeito de seu estado civil ao assinar o contrato.

 

- Olá, Bill. - Os olhos de Mel mostravam-se corteses, mas desta vez não havia calor humano. E Bill desconfiava que devia estar lívido.

 

- Olá, Mel. - Bill sentou-se calmamente em frente à escrivaninha. Parecia agora bem composto e bem barbeado, mas certamente pálido. Fora uma semana horrível, há dias não dormia. Parecia incrível terem acontecido tantas coisas. E havia fotógrafos esperando à porta da sua casa naquela manhã.

 

Mel olhou firmemente nos olhos do rapaz por muito tempo, e foi objetivo desde o princípio.

 

- Gostaria de saber por que você mentiu ao dizer que não era casado.

 

- Me senti muito mal ao fazer isso. Senti mesmo. Fiquei com medo, eu acho. Sandy andava muito ruim. E nosso casamento sempre fora secreto, desde o princípio.

 

- Por quê? Ela já estava viciada quando você se casou com ela?

- Estivera palpitando se Bill também tomava drogas naquela época, ou se tomava ainda. Um enxame de perguntas enchia-lhe a cabeça nos últimos três dias, desde que Bill fora preso.

 

- Não, ela não estava. Trabalhava então em Sunday Supper. Mel lera isso nos jornais da véspera, e parecia lembrar-se dela. Uma jovem bonita, parecia um pouco com Gabby. Conjeturou se isso teria relação com a animosidade constante de Bill contra ela. Podia ter sido uma transferência da raiva que sentia de Sandy. - O empresário dela achava que ser casada ia estragar-lhe a imagem. No seriado ela teria uns quinze anos. E parecia ter isso mesmo. Não gostei muito da ideia, mas topei. Ela também concordava com isso, e... - Sacudiu os ombros. - Não sei... Depois começou a tomar drogas e foi chutada da novela. Uma coisa leva a outra e mantivemos o casamento em segredo. E então ela passou a se meter em confusões por causa das drogas, sobretudo quando saiu de casa. Foi horrível. - Tinha vontade de chorar, mas controlou-se. Não esperava que Mel tivesse pena dele.

 

- E você? Você também se envolveu com drogas? - Achou que tinha o direito de saber, estava furioso com Bill.

 

- Não, senhor. - Parecia absolutamente honesto quando encarou os olhos de Mel. - Eu juro que não estava... Tentei fazer com que Sandy se desintoxicasse, mas foi inútil. Na véspera do dia em que o senhor me convocou no verão passado, ela foi presa por porte de drogas e prostituição, e tinha gasto o meu último centavo. Fiquei desesperado. Então, quando me perguntou se eu era casado, menti. Não queria que descobrisse a que ponto ela estava mal, e estávamos prestes a romper.

 

- Você se divorciou?

 

- Não. Naquela época tinha medo da publicidade se eu me divorciasse. Não queria que você descobrisse que eu era casado, por isso não me divorciei. E perdi o rastro dela. Sandy parecia que tinha desaparecido enquanto estávamos em Nova York, nunca mais a vi, até alguns dias atrás. Queria propor o divórcio a ela então, mas estava tão mal que nunca toquei no assunto. Ela me pediu dinheiro, depois telefonou no dia seguinte... Acho que você sabe o resto. Cheguei em casa e encontrei os tiras, e... Os olhos encheram-se de lágrimas e por um momento não conseguiu continuar.

 

A voz de Mel soou muito calma na sala:

 

- Meus advogados me aconselharam a processar você, Bill. E nada no seu comportamento sugeria o contrário.

 

Bill encarou-o com olhos angustiados.

 

- Eu compreendo. - Não podia discutir com o homem. Era culpado por fraude. Mas não por assassinato.

 

- Mas não vou. Por enquanto. - Bill olhou fixamente para ele, sem acreditar. Mel não lhe contou que Sabina o fizera mudar de opinião, pedindo-lhe mesmo que se compadecesse de Bill. - Acho que você já tem problemas demais para enfrentar mais esse. - Repetia as palavras de Sabina para ele. - Mas você pode prejudicar o seriado. Muito seriamente. Muito seriamente. Se for condenado como assassino vai prejudicar os índices de audiência, pode até nos destruir. Ouvindo-o, Bill sentia-se agoniado.

 

- Eu não matei, Mel... Juro por Deus... - As lágrimas lhe desciam pelas faces enquanto olhava para o chefe. - Eu não a matei.

 

- Espero que não tenha matado. - Mel era sincero. Na verdade, gostava dele.

 

- Propus submeter-me a um teste com o detector de mentiras na polícia, e ficaria feliz de fazer um para você. - Tinham lhe recusado isso, mas Ed ia requerer que o submetessem ao teste de qualquer maneira, para fazer prova perante o promotor público com ou sem anuência dele. Não tinha nada a esconder da justiça.

 

- Bem, isso é com os advogados, Bill. Em que pé está você em termos legais? - Mel parecia cansado. Tinha sido um esforço violento para ele também. Mas mais violento para Bill, que parecia exausto.

 

- Dentro de quinze dias vou à audiência preliminar, e ainda esperamos que eles retirem as acusações.

 

- E se não retirarem? - Era realista, tinha um programa para produzir. E dos grandes.

 

- Noventa dias depois irei a julgamento.

 

- Quando será isso? - Mel franziu as sobrancelhas, pegou os óculos e olhou para o calendário na mesa. - Algum dia de junho?

 

- Acho que sim.

 

Mel fez um movimento de cabeça. Estava pensando no seriado. E em todos os outros. Ficara avaliando isso a semana inteira, a noite inteira, e toda aquela manhã.

 

- Acho que o que vamos fazer é continuar a filmagem. Você pode ter tempo livre para a audiência, claro. E o intervalo começa em primeiro de junho. - Fez uma pausa, mordiscando a haste dos óculos. - Vamos filmar duas cenas, uma de acordo com o plano que temos agora. E outra em que você vai ser assassinado. Se precisarmos, esta última vai explicar o seu desaparecimento. - Bem, seria uma segunda opção infeliz para ele. Assassinar a mulher não ia torná-lo o ídolo da América. - Se você for absolvido, talvez a gente o chame de volta depois do intervalo, como havíamos planejado, no fim de agosto. Se não for, vamos ter o final que o programa requer. Preciso de algum tempo para pensar nisso. Se você for absolvido, teremos que conversar. Sobre honestidade, sobre seus objetivos. Você não pode esperar que o recebamos de braços abertos depois de nos lançar uma bomba como essa. - Mel ainda queria despedi-lo, mas Sabina dissera que seria ruim para o programa, e ela sentiu pena de Bill. Para ela era apenas um menino, para ele era uma calamidade.

 

- Eu compreendo. - Compreendia, mas de qualquer modo sentia-se pesaroso, e tinha certeza que depois do intervalo não iam querê-lo de volta. Por que haviam de querer?

 

- Isto foi difícil para todos. E mais ainda para você. Quem é o seu advogado?

 

- Ed Fried. Amigo do meu empresário.

 

- Quero que você converse com Harrison e Goode. Amanhã. E esperamos sua volta às filmagens na segunda-feira.

 

- Eu... hum... Irei aos advogados de tarde, se eles quiserem me receber num sábado. - Mel levantou uma das sobrancelhas, e Bill lutou de novo para conter as lágrimas. - O enterro de Sandy é de manhã.

 

Mel afastou os olhos. A dor na fisionomia daquele homem era quase que insuportável. Talvez Sabina estivesse certa... pobre garoto...

 

- Sinto muito, Bill.

 

Bill fez um movimento de cabeça, enxugou os olhos. Sua vida se reduzira a cacos em questão de dias. Era um verdadeiro pesadelo.

 

- Quero também que fique claro que se nós não chamarmos você depois do intervalo, não vai ter nada a reclamar. Queremos que você assine já um termo de liberação para esse fim.

 

- Sim, senhor. - Poderia rastejar, fazer qualquer coisa para abrandar Mel. Faria das tripas coração se quisesse. Mas não fez nada disso.

 

- Mas também quero falar com nossos advogados para ver se podem ajudar você. Direito penal não é a especialidade deles, mas tenho certeza de que vão lhe indicar a pessoa certa. - Mel pigarreou e acavalou os óculos outra vez. Eram pequenas meias-luas que o faziam parecer mais velho, de certa forma o diretor de um colégio de meninos. Pareciam estranhamente apropriados para este encontro, Mel sempre franzia as sobrancelhas quando os usava. - Vamos também pagar os honorários dos seus advogados. - Sabina também o pressionara a fazer isso.

 

Bill deu a impressão de estar atarantado.

 

- Eu não devia... Mel...

 

- Nós queremos fazer isso. Por duas razões. Para o bem do seriado, é importante a sua absolvição, mas também - a voz suavizou um pouco quando olhou para o homem débil sentado diante dele porque nos interessamos por você. Todo mundo está chateado com o que aconteceu.

 

Desta vez novas lágrimas correram dos seus olhos e ele ficou de pé para apertar a mão de Mel.

 

- Não sei como agradecer a você.

 

- Esteja de volta às locações na segunda-feira, e trate de ser absolvido no julgamento.

 

- Sim, senhor. - Pareceu indeciso, mas o encontro chegara ao fim. Apertou a mão de Mel novamente, e fechou a porta devagar quando saiu do escritório. Enquanto descia, teve a impressão de que lhe tinham tirado um peso dos ombros, mas acrescentado outro. Não fora despedido imediatamente, mas percebia que talvez o fosse depois do intervalo. Aquela cena final que tinham planejado para ele, onde ia ser morto, era uma arma segura e era provável que a usassem. Mas estava também profundamente comovido porque Mel se oferecera para financiar os advogados. Sabia que seriam os melhores, e rezava para poderem ajudá-lo.

 

Apanhou o carro e partiu para o local das filmagens. Sentiu-se importuno, e um tanto amedrontado por vê-los outra vez. Mas afinal precisava fazê-lo e sabia que tinha de conversar com Gabby. Não a vira desde a noite em que estivera a visitá-lo na cadeia com Zack e Jane, e precisava perguntar-lhe por que havia mentido tentando salválo. No mínimo tinha a obrigação de lhe agradecer pelo esforço feito, embora muito ingénuo.

 

Quando chegou, estavam fazendo tomadas de uma cena entre Sabina e Jane, e ouviu-se a campainha assim que entrou no local. Ficou petrificado e fora da linha de visão de Sabina durante a cena. Era uma das principais exigências da atriz, e todos faziam o possível para respeitá-la. Era um dos motivos por que raramente tinham visitantes no palco - eles a enervavam.

 

Quando o diretor gritou: ”Corta”, Bill se afastou de onde estava, e alguns membros da equipe o viram. Vários disseram um ”olá” tranquilo, outros o ignoraram. Era constrangedor também para ele. Não sabiam o que dizer, pela primeira vez lhe ocorria que alguns talvez suspeitassem que tinha mesmo matado a mulher. Era assustador pensar nisso, e ele quis gritar no palco silencioso: ”Eu sou inocente”, mas em vez disso encaminhou-se direto para o camarim de Gabby e rezou para que ela estivesse lá. Encontrou-a lendo um roteiro e tomando café. Levantou os olhos, surpresa, quando ele entrou, e depois sorriu, hesitante. Sabia que ele tinha saído, mas não lhe telefonara.

 

- Cheguei numa hora ruim? Ela sacudiu a cabeça, e sorriu.

 

- Não, tudo certo. Como é que você está?

 

- Bem, eu acho. Acabei de me encontrar com Mel. Franziu as sobrancelhas.

 

- O que é que ele falou? - Todos eles haviam pensado a esse respeito.

 

- É um homem decente. Me deixa ficar até o intervalo.

 

- E depois?

 

- Acho que é só isso. Vão filmar uma cena em que serei morto, para ficar gravada se precisarem usar. Vou a julgamento em junho, e não há jeito de saber qual será o resultado.

 

- Um ponto de vista bem otimista - reprovou ela, e serviu-lhe um café. Segurou a xícara com mãos trémulas e sentou-se diante dela.

 

- Não estou com disposição muito otimista. - Tinha bons motivos para isso, mas os olhos se suavizaram quando a fitou. - Devo-lhe um pedido de desculpas e um agradecimento. Fui cruel com você o ano inteiro. E não compreendo por que você fez o que fez, tentando ajeitar um álibi para mim. Não fiz nada para merecer isso.

 

Gabby foi honesta:

 

- Eu acho que você não matou.

 

- Mas você não podia estar certa. Ninguém podia. - Sentira as vibrações ao entrar no local. Ninguém mais tinha certeza sobre ele. Tornara-se um estranho em poucos dias. E ainda assim alguns ficaram do seu lado, mas ninguém tão fielmente quanto Gabby. - Sem dúvida, os tiras sabiam que você estava mentindo, mas foi uma tentativa nobre. E você podia ter se metido em confusão mentindo para a polícia.

 

- Achei que valeria a pena arriscar. - Seus olhos se encontraram e ficaram presos uns aos outros.

 

Bill cerrou os seus e depois observou Gabby de novo.

 

- Não sei nem por que você fala comigo, depois do modo como a tratei.

 

- Sou meio bronca, eu acho. - Sorriu e pousou a xícara de café. - Não nego que às vezes você era um saco total, e gostaria de tê-lo matado em Nova York quando contou a todo mundo quem eu era e lhes mostrou o jornal, mas não me importo como foi chato. Senti que algo de podre estava acontecendo com você. - Hesitou. - Era por isso que andava quase sempre tão tenso?

 

- Bem... Eu estava tão preocupado com ela, principalmente enquanto estávamos em Nova York. Ficava pensando sempre que ela ia tomar uma superdose, e me parecia injusto que minha vida estivesse indo tão bem, e a dela entrando pelo cano. Além disso, morria de medo por ter mentido a Mel dizendo que era solteiro quando ele me contratou. Eu não tinha certeza se devia forçá-la a aceitar o divórcio, porque receava que se houvesse publicidade, Mel descobriria tudo. Levantou os olhos para Gabrielle de modo estranho. - Você se parece um pouco com ela, sabe? Acho que isso também me aborreceu. Você era tão nova e vibrante, normal e saudável. Talvez me ressentisse por isso. - Gabrielle observou-lhe os olhos. Pareciam desesperadamente tristes. - Fico pensando que ela poderia ter sido como você... se quisesse... Tinha uma carreira extraordinária pela frente quando nos casamos.

 

- Por que você fez segredo disso?

 

- É uma longa história: o empresário dela achava que devia ser assim, e o espetáculo tinha que continuar... Então menti para Mel... uma verdadeira confusão. - Suspirou. - Mas nada está muito melhor agora. Vou a julgamento quando chegar o intervalo. - Contou que Mel lhe havia oferecido os seus advogados, e ela ficou impressionada.

 

- É um homem incrivelmente encantador. Ele me levou para jantar em Nova York quando eu estava numa depressão enorme. - Graças a você, pensou, mas não falou nada.

 

- Ele é verdadeiramente legal. - Bill usou o termo preferido pela turma. E era isso mesmo. Um homem de verdade. Uma figura paternal. Um herói.

 

Gabby lançou-lhe um sorriso malicioso.

 

- Você acha que Sabina está dormindo com ele?

 

Bill achou graça. Era a primeira frivolidade que ouvia em vários dias. Agora pareciam duas crianças, fofocando a respeito dos pais.

 

- Provavelmente. Ela sabe onde distinguir o que é bom. Aquelas jóias que usa não são presente de Papai Noel.

 

- Acho que Mel está apaixonado por ela.

 

- Considero-o um homem excepcionalmente decente, e ainda que me despeça, como tenho certeza que vai fazer, ele merece muitas coisas boas na vida. - Bill suspirou, pensando novamente no programa.

- Eu perdi muito esta semana?

 

- Nada muito interessante. Ficamos filmando cenas em que você não aparece. Vai voltar na segunda-feira? - Era engraçado, de repente pareciam velhos amigos, embora até então se tivessem odiado; mas o que Gabby fizera por ele havia-lhe conquistado a amizade para sempre. Era uma garota incrível, e Bill sentia-se mortalmente constrangido pela maneira como a tinha tratado até então.

 

- Volto. - E aí, como se precisasse desabafar, falou numa voz triste, calma. - O enterro de Sandy é amanhã.

 

Ela estremeceu.

 

- Sinto muito. Há alguma coisa que eu possa fazer? - Ele sacudiu a cabeça. Não havia nada que alguém pudesse fazer agora. Por ele ou por Sandy... O apartamento fora limpo por uma agência que Harry contratara. Não conseguira rever o sangue dela nas paredes do quarto. O cão fora levado para um veterinário, e lá ficaria até Bill voltar para casa e retomar o fôlego. Já tinha resolvido mudar-se, queria sair daquele inferno. Além do mais, fosse lá quem fosse o assassino dela, podia voltar atrás dele, embora duvidasse. Estava levando a culpa por aquele cara, e ele não seria louco de matar Bill, provando assim que Bill não era o assassino de Sandy.

 

Olhou para Gabrielle, como se a estivesse vendo pela primeira vez. Era uma garota bonita. Ainda mais bonita do que Sandy.

 

- Muito obrigado por tudo. - Levantou-se, sem saber mais o que dizer. Lembrou do cálido abraço que ela lhe dera na prisão, mas agora aquilo parecia constrangedor, e alguém batera na porta naquele exato momento.

 

- Você é a próxima a se apresentar, Gabby. - Era um dos assistentes, e ela gritou em resposta:

 

- Obrigada. Já estou indo. - Olhou profundamente os olhos de Bill. - Tudo vai dar certo, Bill. Pode ser duro, mas no fim tudo vai dar certo. Tem de dar. Você é inocente. Você vai ser absolvido. Agarre-se a essa ideia.

 

- Obrigado. - Resolveu abraçá-la, afinal de contas, e deixou o local das filmagens calmamente, alguns minutos depois.

 

O enterro de Sandy foi o momento mais triste de sua vida. Os pais dela estavam lá, soluçando dolorosamente, e o irmão mais moço, e a irmã mais velha. A irmã ficou apertando a mão do marido. O irmãozinho soluçava, e todos olhavam tristemente para Bill. Pelo menos eles não acreditavam que tivesse matado Sandy. Alguns antigos amigos do Sunday Supper também compareceram, e foi um daqueles acontecimentos terríveis que se acabam revelando ainda mais difíceis do que as previsões. Por causa dos ferimentos das balas, o caixão permanecera fechado, o que constituíra um alívio para ele. Não queria vê-la novamente, porque, além do rosto desfigurado, estava tão pequenina, frágil e encolhida, o corpo devastado pelo excesso de drogas, o semblante apenas uma sombra do que fora, o sorriso inteiramente esquecido.

 

- Ela era tão meiga quando menina... - A mãe soluçava abraçada a Bill, que procurava suster as lágrimas. - Só tinha olhos... e sempre me ajudava a fazer bolos... - Não conseguiu continuar, e também o pai abraçou Bill. O pastor apertou a mão de todos, e seguiram para o cemitério em limusines cinzentas, alugadas. Bill foi com a irmã mais velha de Sandy e o marido desta. Mantinham-se em silêncio, arrasados, e Bill sentiu que não tinham tanta certeza de sua inocência quanto os pais de Sandy.

 

- Ela me disse que devia dinheiro a um bocado de gente por causa das drogas - comentou a irmã, ainda incapaz de acreditar na grande perda que sofrera. Havia apenas dois anos de diferença entre elas, e a mais velha estava longe de ser tão bonita quanto Sandy. - Eu acho...

 

Olhou para Bill com ar de suspeita, como se esperasse sua confissão a caminho do cemitério. Muito antes de chegar, já não tinham assunto e ficaram todos mudos, olhando o caixão, enquanto a mãe soluçava, cada vez mais histérica, ao ouvir o pastor lendo o Salmo 23. Bill tinha a impressão de estar vivendo um pesadelo. Voltaram-lhe à memória cenas do seu casamento. Agora estava tudo acabado. Parecia-lhe esquisita a condição de viúvo. Sandy ainda era sua mulher até que alguém a matara.

 

A volta para a cidade pareceu-lhe interminável, e ele se surpreendeu divagando alheado. Não conseguia lembrar onde tinha deixado o carro, e quando finalmente o encontrou, já não se lembrava de onde queria ir. Súbito, lembrou: Harrison e Goode. Advogados de Mel. Havia tempo de parar para um café no caminho e Bill ficou sentado a olhar o espaço, o café esfriando, enquanto pensava em Sandy outra vez; e então obrigou-se a não pensar. Quando pagou a conta, viu que a garçonete o encarava, não como antes, relacionando-o a um astro de seriado, mas sim a um noticiário de jornal ou de TV. Apanhou seu carro às pressas e dirigiu para o Santa Monica Boulevard a fim de se encontrar com os advogados.

 

O escritório ficava no 34 andar do Centro de Diversões ABC, e Stan Harrison já havia convocado dois criminalistas para consultar. Foi uma tarde extensa e árdua, e como Ed Fried, que lhes tinha entregue o seu prontuário, concluíram que Bill tinha uma boa possibilidade de ser absolvido no julgamento, se não surgissem outras provas, mas não achavam possível que o caso pudesse ser encerrado mais cedo.

 

E o tempo demonstrou que eles estavam certos. Quinze dias depois, ao comparecer ao tribunal superior para uma audiência preliminar, Bill foi intimado a comparecer a julgamento. O juiz resolveu que as autoridades tinham muitos motivos para pleitear o julgamento, e assim ficou decidido. A data foi marcada para 9 de junho. E Bill teve a sensação de estar assistindo a um mau filme.

 

Apressou-se em voltar à locação naquela tarde, porque tinha três cenas. Trabalhava com mais afinco do que nunca e dava o máximo de seu talento ao papel. Tinha a impressão de que devia isso a Mel e aos outros. E queria infundir algo mais no personagem antes de abandoná-lo. Naquela noite terminaram a filmagem às oito horas, fazendo uma hora extraordinária, o que era raro, pois Sabina teve problemas numa cena importante com Zack. Atrapalhou-se com as falas e finalmente saíra do palco com raiva. Tudo acabou a contento, mas chegaram a 22 tomadas e todos estavam exaustos; até Zack, que nunca se queixava. Bill percebeu isso quando Zack saiu com Jane. Observava-os sempre juntos ultimamente e imaginava se os sutis boatos que vinham ouvindo eram verdadeiros ou mero falatório, comum em Hollywood. Alguém que encontrara no Mike’s lhe dissera que Zack era bicha, mas a verdade é que não parecia. Aliás, mais cedo ou mais tarde diziam isso de todo mundo. Entretanto, talvez ele e Jane fossem apenas bons amigos. Seria difícil saber, pois ambos eram muito discretos, ainda mais discretos do que Mel e Sabina.

 

- Você parece abatido - disse-lhe Gabby quando saíram juntos. Fora um dia muito comprido para todos, e ainda mais para ele, por causa do comparecimento ao tribunal.

 

- Está tudo bem, obrigado.

 

- Como é que foi? - Gabby se oferecera para acompanhá-lo, porém ele recusara. Queria cuidar sozinho das suas tristezas. Não havia motivo para fazê-la ir, e Bill se sentia constrangido por ela ser tão atenciosa depois da grosseria com que a tinha tratado durante todo o inverno.

 

- Eles não me liberaram. - Agora estava a par da terminologia, e gostaria de não a conhecer.

 

- Você vai a julgamento?

 

Fez que sim com a cabeça. Já se tinha resignado com isso. Só esperava que os advogados estivessem certos e ele fosse absolvido.

 

- Vou. Em 9 de junho. - Tinha a impressão de que era uma data distante, e ainda assim sabia que ia chegar muito depressa. - Assim que começar o nosso intervalo. O meu talvez acabe sendo permanente por essa época.

 

- Não fale assim. Ultimamente você vem realizando grandes desempenhos no seriado. Tenho observado você.

 

- Acho que se devo largar, que seja em grande estilo. Pelo menos talvez alguém sinta falta de mim - Sorriu-lhe pesarosamente, e ela sacudiu a cabeça. Seu cabelo escuro estava preso numa trança longa e sedosa que descia pelo pescoço, e ela a atirou facilmente sobre o ombro,

 

- Deixe de pessimismo. Nenhuma decisão ainda foi tomada.

 

- O que é que você acha? Não importa o que aconteça no julgamento, você acha que vão me manter no elenco, Gab? Nenhum seriado pode se dar ao luxo de enfrentar este tipo de escândalo, sobretudo um novinho em folha, ansioso por índices de audiência. Eles terão que se livrar de mim, nem que seja só para satisfazer a opinião pública.

 

- Que diferença isso faz? Mesmo que se livrem de você na vida real, você vai aparecer no seriado o ano inteiro. Nessa altura todo mundo já esqueceu. Eles podem muito bem manter você.

 

- Diga isso ao Mel. - Bill estava apenas brincando. Acataria a decisão de Mel, fosse qual fosse.

 

- Eu poderia tentar - brincou ela, mas ambos sabiam que ela não faria isso.

 

- Está com fome? - Começava a tratá-la como a uma irmãzinha, quando baixou os olhos para ela.

 

- Mais ou menos.

 

- Quer ir comer um hambúrguer por aí?

 

- Não sei... Hoje ouvi muito barulho e falatório o dia inteiro. Quer vir lá em casa comer um pouco de massa?

 

- Você sabe cozinhar? - Mostrou-se divertido. Gabrielle Thornton-Smith cozinhando? Mas nada disse sobre isso, nem sussurrou a expressão meter-se com a ralé.

 

- Para falar a verdade, não. - Sorriu para ele. - Mas sei falsificar.

 

- Como é que você falsifica massa? Não deve ser fácil.

 

- Faço de conta que o molho não é de lata, e você finge que adora.

 

- Parece bastante justo. Preciso chamar o empresário por causa do papel?

 

Ela riu, satisfeita porque ele estava bem-humorado. Desde a primeira semana que vinha se mostrando deprimido, e pela primeira vez ela não o culpou por isso. A equipe fez com que passasse tempos difíceis, e até mesmo o elenco ficou cauteloso com ele. No local das filmagens suspeitava-se que Bill podia ser o criminoso, e seu coração se condoía por ele. Já sabia como era a sensação de ficar segregado, e isso fez com que desejasse protegê-lo.

 

- Quer deixar seu carro aqui? Posso pegar você de manhã. Sua casa fica no meu caminho.

 

Ficou surpreso ao ver como o apartamento dela era simples. Apesar da renda que devia ter, e do salário, que ele conhecia, morava modestamente num apartamento ajardinado, de um só pequeno quarto e sem qualquer panorama especial. Por toda parte viam-se pendurados posters dos lugares que havia visitado e pretendia visitar. E havia uma infinidade de panelas na cozinha, que pareciam ser raramente usadas. Tornou-se evidente que ela não estava familiarizada com o fogão, e a massa nem de longe era a melhor que já tinham comido. Mas nenhum dos dois pareceu notar isso enquanto batiam papo a respeito do seriado, e pela primeira vez se afastaram totalmente de mencionar os problemas dele.

 

- Como é que é a sua família, Gab?

 

- Rica. - Sorriu. - Era isso que você queria ouvir?

 

- Não exatamente - riu ele - Você gosta deles?

 

- Às vezes. Minha mãe só pensa em belos trajes, e meu pai acha que ela é extraordinária. - Foi um resumo simples, mas sincero.

 

- Você tem irmãos, irmãs?

 

- Não. - Bill também era filho único e muitas vezes achara isso um fardo. Desejara ter filhos com Sandy, mas a situação deles logo depois que se casaram tornou difícil essa possibilidade. - Quando eu era garotinha eles me mimavam demais. E ficaram possessos quando resolvi ser atriz.

 

- Meus pais também não ficaram muito encantados. Meu pai queria que eu fosse corretor de seguros, como ele. Aliás, eles nunca me compreenderam, como se costuma dizer. Moram no leste e não os vejo há três anos. Mandei-lhes um cartão de Natal dizendo que tinha casado, e minha mãe me respondeu queixando-se porque eu não tinha avisado nem apresentado Sandy a eles. Mandaram-nos uma saladeira, e desde então praticamente não tenho tido notícias deles. Não sou muito ligado a correspondência. Não tenho nada para contar a eles.

 

- Meu pai queria que eu fosse advogada. Acho que ambos fomos uma decepção para nossos pais. - Não parecia preocupada e ele sorriu.

 

- Eles não vão pensar assim no ano que vem. - Você vai ser a revelação mais importante de Hollywood. - Ambos ponderaram se ele ainda iria estar no programa, mas não falaram nisso.

 

- Talvez não. O seriado pode acabar sendo uma bomba e cancelado. - Bill riu.

 

- Não é provável que isso aconteça com um seriado de Mel Wechsler. Ele tem o toque de Midas. - Sabia reconhecer um sucesso como as palmas das suas mãos, e Gabby sorriu.

 

- Espantoso, não é? Ainda ando pensando como foi que ele me descobriu.

 

- Porque você é boa - disse Bill com um sorriso cálido, e era isso mesmo que queria dizer.

 

- Você também é. - A honestidade dos elogios era recíproca, eles eram bons. Ambos se esforçavam e tinham grande habilidade. Mel escolhera o elenco a dedo, e sabiam disso, pelo menos no que lhes dizia respeito. - Às vezes Sabina ainda me assusta como o diabo. Jane torna as coisas muito fáceis, mas Sabina só transmite tensão. - Gabby parecia muito jovem ao dizer isso; estavam sentados entre os pratos na mesa da cozinha, e ela apoiava a cabeça na mão

 

- Sabina adora bancar a estrela.

 

- Às vezes fico pensando o que deve ter dentro dela.

 

- Não é lá muita coisa. Brilhantes, vison e a conta do Mel. O de sempre.

 

Gabby riu e depois, por um momento, mostrou-se séria.

 

- Acho que tem mais coisas do que nós sabemos. Só que ela é muito fechada.

 

- Como você? - Estava intrigado com ela, sentia-se assim desde que lhe descobrira a origem. E tinha ciúme também. Às vezes lhe parecia injusto que uns tivessem tanto e outros tão pouco. Mas ela, pelo menos, não ostentava grandeza. Imaginara que era servida por um mordomo, uma criada, e tinha tapetes de vison, e se enganara absolutamente. Gabby era simples, direta e honesta... e amiga... Sentia uma porção de coisas por ela que antes não havia percebido, e não tinha ideia sobre se eram compatíveis. Era uma garota estranha, inteligente e orgulhosa, muito leal e com um sólido senso de amizade. Seria capaz de matar por Jane e Zack, e para os estranhos até defendia Sabina. Manhattan lhe significava uma família, talvez mais do que a própria. E Bill fazia parte dela, não importava o quanto fora intratável, e ambos sabiam disso.

 

- Sou exatamente aquilo que pareço ser. Gabby Smith, atriz. Me esforço, cozinho pessimamente, e não tenho culpa de meu avô ter sido quem foi. Quase deixei de me sentir culpada. - O seriado fizera bem a ela. Até a implicância de Bill a fizera crescer, embora não tivesse sido fácil. - De certa forma, minha origem não é importante.

 

- Acho que você tem razão.

 

- Eu a odiava quando era pequena. Sempre havia alguém para me torturar lembrando dela.

 

Ele se sentiu imediatamente culpado.

 

- Não diga isso. Você faz com que me sinta novamente um merda.

 

- Você era. - não dava a impressão de guardar rancor contra ele. - Mas eu aguentei. Você vai aguentar tudo o que terá de passar agora, e depois disso vai se tornar melhor - Era uma moça forte, Bill gostava dessa qualidade. Enquanto a escutava, ocorreu-lhe que nada tivera de especial com Sandy. Sandy sempre fora fraca e acomodada. Gabby era exatamente o inverso.

 

Consultou o relógio e viu que passava da meia-noite.

 

- Devo ir embora. - Ambos tinham de se levantar ao romper da manhã seguinte. - Você quer ensaiar neste fim de semana?

 

Moveu a cabeça, pensativa. Há muito desistira de ensaiar com ele, mas levantou os olhos e sorriu.

 

- Tudo bem... Acho que vai ser bom.

 

- Obrigado pelo jantar.

 

- Quando quiser. Faço córnea beefde forno também. E... ravióli instantâneo. - Ele sorriu e ela o acompanhou até a porta.

 

- Quer que ajude a lavar a louça?

 

- Claro que não. A empregada virá amanhã cedo.

 

- Virá mesmo? - Pelo menos uma das suas fantasias estava certa, ele pensou, porém ela se pôs a rir e o empurrou pela porta.

 

- Claro que não, seu idiota. Sou a cozinheira, a empregada... e o motorista. Ei! - gritou-lhe enquanto ele entrava no carro -, não esqueça de me pegar amanhã. Às 6:45?

 

- Estarei aqui. Boa noite.

 

Ela acenou enquanto ele partia, depois voltou lentamente e fechou a porta do apartamento.

 

Ele a apanhou cinco minutos atrasado na manhã seguinte, dando a impressão de estar com sono, e Gabby entrou no carro bocejando e sorrindo. Ficara acordada até tarde lavando a louça do jantar e lendo as falas do dia seguinte. Estava sempre bem preparada, o que às vezes Bill admirava nela. Em dez anos de profissão tinha trabalhado com poucas atrizes que decoravam os papéis em casa. Comentou isso enquanto seguiam para o estúdio, e ela sorriu ante o elogio. Era incrível como se tornara diferente desde que fora preso e como estava triste desde o assassinato de Sandy. De maneira estranha, parecia livre agora, embora muito arrasado e a sofrer uma experiência tão terrível por causa dela.

 

Os dois tinham que trocar de roupa e fazer maquilagem, e Gabby devia arrumar o cabelo. Ia usar na cena um coque, e tinha de se apresentar ao cabeleireiro por volta das 7:30.

 

Parecia outra pessoa quando se encontrou com ele no palco, trajando um conjunto vermelho e saltos altos, e usando brincos de brilhantes.

 

- Srta. Thornton-Smith? - Dobrou-se numa reverência e ela lhe fez uma careta.

 

- Vá para o inferno. O nome é Tâmara Martin.

 

- Desculpe, mas você se parece muito...

 

A implicância agora era amistosa, e repassaram as falas duas vezes enquanto os substitutos tomavam seus lugares nas marcas. A cena ficou iluminada uma hora mais tarde, e a atividade começou para eles quando a campainha soou e o assistente pediu:

 

- Silêncio, por favor... silêncio agora... rodar. Luz... câmera... ação! - Era uma cantilena conhecida, e naquela manhã as tomadas ocorreram tranquilas tanto para eles quanto para os outros atores com quem contracenavam.

 

Tinha um encontro com os advogados no camarim na hora do almoço, e Gabby almoçou com Zack e Jane. Estavam amáveis e cheios de afeto um pelo outro, e ela os fitava com um sorriso melancólico.

 

- Vocês me fazem sentir solitária.

 

- Ora, vamos - Zack deu-lhe um abraço e serviu-se de outra Coca-Cola. - Quando você tiver a nossa idade, vai estar casada e com dez filhos.

 

- Não é provável.

 

- O que é que não é... Se importam se eu me juntar a vocês?

- Bill parecia cansado e um pouco deprimido. Andara procurando Gabby e alguém lhe dissera que devia estar no camarim de Jane, onde realmente a encontrou.

 

- Como é que foi a entrevista? - Os olhos de Gabby mostravam-se preocupados quando os levantou para ele, ainda segurando o sanduíche.

 

- Tudo bem, eu acho. Me fizeram sentir como se eu fosse Jesse James. - Mas não tinha graça para ele nem para os outros. Bill corria sérios riscos, e era trágico relembrar o que havia acontecido. - Espero que eles saibam o que estão fazendo.

 

- Todos esperamos - falou Gabby num sussurro, enquanto Jane a olhava. Também havia notado a mudança em Bill e comentado com Zack. Este observara que o medo o fizera aproximar-se de todos eles. Só esperava que coisas boas acontecessem no final - basta de desgraça.

 

- Quem é que vai filmar agora? - perguntou Bill.

 

- Sabina, Zack e sete extras - respondeu Jane. - Por hoje estou livre, mas penso em ficar por aqui - Estaria esperando por Zack, Gabby pensou, porém não vai confessar isso.

 

- E nós?

 

- Você e Gabby entram depois, com os ”advogados” de Sabina.

 

- Será uma cena familiar. - Todos riram. Os últimos momentos de liberdade passavam muito depressa. Zack teve que ir ao guarda-roupa para pegar o terno da próxima cena, e Gabby ficou alguns minutos com Jane e Bill, que comia mais um sanduíche. Estava faminto após a tensão do encontro com os advogados. Em seguida levou Gabby de volta ao camarim, enquanto Jane conjeturava sobre o que estaria havendo entre eles.

 

- Quer comer uma pizza hoje à noite, Gabby? - Parecia abatido diante da porta, e ela lhe sorriu.

 

- Você não vai ficar horrivelmente cansado de mim, me vendo o dia inteiro nas filmagens, e depois saindo para jantar?

 

- Não seja desmancha-prazer. Vou levar você ao meu bar preferido.

 

- Devo me arrumar? Ele riu.

 

- Não exatamente. Você joga sinuca? Ela fez uma careta.

 

- Bilhar. Sinto muito. Mas não conte a ninguém.

 

- Não se preocupe. Vou ensinar a você.

 

Levou-a ao Mike’s quando terminaram o trabalho, e comeram hambúrguer, jogaram sinuca e Bill a apresentou a Adam. - Minha colega de trabalho, Gabby Smith. - Não falou em ”Thornton” e não houve implicância desta vez, Adam olhou-a francamente admirado. Vários homens agiram da mesma maneira, o que fez Bill concluir o quanto devia ser bonita. Mirou-a de relance quando a levava para casa e fez a pergunta que o vinha inquietando o dia inteiro.

 

- Estou tomando o lugar de alguém?

 

- Hum? - Revelou-se meio confusa. - O quê?

 

- Quero dizer: você tem alguém?

 

- Ah! - Sacudiu a cabeça. - No momento, não. - A verdade é que não tinha namorado firme desde que começara a trabalhar em Manhattan. Nunca tinha tempo, e ninguém que a interessasse cruzava seu caminho há muito tempo.

 

- Andei pensando nisso. O que é que uma garota bonita como você fica fazendo sozinha? - A fala era um tanto cafona, mas estava curioso.

 

- Não sei... talvez eu trabalhe demais. Talvez esteja desligada de gente que sabe quem eu sou. Não pensei muito nisso. O certo é que não tenho tempo.

 

- Aí está uma desculpa esfarrapada. Quantos anos você tem, Gabby?

 

- Vinte e cinco. - Seu aniversário ocorrera quando estavam em Nova York, e ela comemorara modestamente com os pais. - E você?

 

- Trinta e três, a caminho dos noventa.

 

- Pensei que fosse mais moço.

 

- É um elogio ou um insulto? - Ele riu.

 

- Os dois, talvez. - Ela riu também e se descontraiu, enquanto ele a levou para casa. - Para dizer a verdade, na tela você parece mais jovem.

 

- Depois do julgamento não vai ser assim.

 

- Pare de se preocupar com isso! - Mas não podia culpá-lo.

 

- Você não ficaria preocupada?

 

- Não ficaria, não. - Estava sendo honesta com ele. - E sei que tudo vai sair bem.

 

- Mesmo que tudo saia bem - parecia triste outra vez, pensando nisso -, não vou voltar para Manhattan.

 

- Você não sabe ainda, Bill.

 

- Acho que Wechsler não vai comprar essa briga. Já dei a ele dor de cabeça suficiente para a vida inteira, e posso compreender sua reação.

 

- Mel é um homem decente, não vai despedir você a menos que seja absolutamente necessário.

 

- Se fosse ele, eu despedia. Ela sorriu carinhosamente.

 

- Então é bom que você não seja. - Bill sorriu-lhe também, lembrando como fora idiota e pensando como pudera ser cego por tanto tempo - mas estivera obcecado por Sandy. Tentou explicar-lhe isso ao tomarem um cálice de vinho, quando chegaram ao apartamento dela. Estava limpíssimo, e não havia sinal do jantar da noite anterior. Ele conjeturou se ela tinha realmente uma empregada, e não queria admitir isso. Mas Gabby parecia uma perfeita dona de casa quando serviu o vinho, trouxe alguns salgadinhos, e depois levou tudo embora. Era organizada, arrumada e inteligente.

 

- Você é um espanto, Gabrielle. - Gostava até do nome.

 

- Não seja bobo. Por quê?

 

- Porque você tem tudo o que faz sob controle: a vida, carreira, até o apartamento. Eu mal consigo combinar as meias de manhã e alimentar meu cachorro a tempo.

 

- Qual é a raça do seu cachorro? - Agora sentia-se curiosa a respeito dele. Queria conhecê-lo mais.

 

- Um são-bernardo, chama-se Bernie. É um pateta, mas gosto dele. Venho passando o diabo a procurar um lugar que nos aceite. Estava ansioso para se mudar logo, o que era compreensível depois de tudo o que havia acontecido.

 

- Quer procurar comigo neste fim de semana? Depois a gente pode ensaiar, ou jantar, ou fazer ambas as coisas, ou... - Sua voz foi sumindo e ela riu. Parecia uma criança que tinha encontrado um amigo íntimo, e era ela. Sentia-se comovida e também lisonjeada.

 

- Eu ia adorar. - Não tinha nada para fazer e gostava da companhia dele. Naquela noite, antes de ir embora ele a beijou, hesitante, inseguro sobre a reação de Gabby. Mas ela permaneceu estática na porta, apreciando aquelas sensações que Bill a fizera sentir. - Boa noite

- sussurrou.

 

- Vejo você amanhã de manhã. Posso vir buscá-la de novo? Tocou carinhosamente o rosto dela com os dedos.

 

- Claro. Mas você vai ficar cansado de mim.

 

- Deixe de dizer tolices. - Subitamente teve a sensação de que não ia acontecer mais nada, não por muito, muito tempo, e talvez nunca.

 

Naquela noite Gabby enroscou-se na cama, pensando, e sentiu que seu corpo ficava febril quando pensava nele. Bill tinha tanta coisa de que ela gostava, e agora parecia tão diferente, tão mais cordial e mais aberto. Na manhã seguinte, quando a apanhou, havia uma rosa vermelha de cabo longo no seu banco, circundada por uma fita branca.

 

- Para você, mademoiselle. - Gabby a recolheu, agradecida. Era uma maneira adorável de começar o dia.

 

- Você está me mimando, Bill. - Quase tinha receio de se deixar embalar naquela sensação. E se ele mudasse de novo, se voltasse a ser como antes... e se...

 

- Você merece. Você merece muito mais do que isso. Mas as floriculturas ainda não estão abertas. É do jardim do meu vizinho.

 

- Obrigada. - Trocaram um sorriso cordial e ele a beijou antes de saltarem do carro. - Obrigada por me trazer para o trabalho.

 

- Obrigado por tentar me salvar, ainda que estivesse louca quando tentou.

 

Ela fez uma careta.

 

- Ora, não se fala mais nisso.

 

Ainda estava atónito pelo que ela fizera. Fora um gesto muito importante. A suspeita geral era que ele tinha matado Sandy.

 

O local das filmagens estava alvoroçado naquele dia. Havia visitantes, o que sempre deixava todo mundo nervoso; mas eram amigos de Mel, e tinham de conviver com eles. Os iluminadores foram especialmente lerdos, e durante uma das principais cenas um avião passou roncando, e tiveram de refazer a tomada, porque o sonoplasta registrara o barulho com o equipamento. Gabby estava cansada no fim do dia, e bocejou quando Bill a levou para casa.

 

- Pretendia oferecer-me para fazer o jantar, mas acho que não vou ficar acordada tanto tempo.

 

- Tudo bem. De qualquer maneira, tenho que voltar para casa por causa do Bernie. Não deixei ração hoje de manhã e o pobre animal deve estar morrendo de fome.

 

- Você precisa nos apresentar qualquer dia destes. Bill sorriu quando ela saltou.

 

- Está combinado. Ei... você esqueceu de uma coisa.

 

- O que foi? - Ela se inclinou novamente para o carro e ele tomou-lhe o rosto nas mãos e a beijou.

 

- Vou sentir sua falta hoje à noite.

 

- Eu também. - Era engraçado, vivera 25 anos sozinha, e já uma noite sem ele parecia vazia. Havia uma premência súbita em suas vidas, e Bill lhe telefonou quando chegou em casa, logo depois de alimentar o cachorro. detestava o bangalô, malassombrado. E esperava achar alguma outra coisa no próximo fim-de-semana.

 

- Eu pego você amanhã - prometeu Bill antes de desligar, porém teve a impressão de que ela hesitava.

 

- Você não acha que o pessoal vai começar a falar?

 

- Você acha que alguém se importa? Cada um tem a própria vida para cuidar.

 

- Acho que você tem razão. - Ela ficou atónita ao perceber como estava ansiosa para vê-lo na manhã seguinte. Dava a impressão de ter quatorze anos de novo, esperando a noite inteira para ver o garoto preferido no colégio... a última paquera... Mas Bill representava mais do que isso. Era interessante e divertido, sério às vezes, e ambos tinham os mesmos interesses. Adoravam ir para as montanhas, praticar wind surf, velejar, esquiar. Ela não tinha esquiado naquele ano porque estivera ocupada demais com o seriado.

 

Ensaiavam no camarim dela quando chegavam ao trabalho, e ambos ficaram surpresos ante a perfeição de todas as suas cenas naquele dia. Fizeram tudo em três tomadas, e até o diretor estava satisfeito. Elogiou os dois quando foram almoçar, e Sabina olhou-os com seu olhar mais felino.

 

- E o que é que vocês dois estiveram fazendo depois das horas de trabalho, crianças? Ensaiando? - Gabby corou e Bill retribuiu o olhar dela. Às vezes sentia-se extremamente aborrecido com Sabina, principalmente quando implicava com Gabby, o que fazia muitas vezes. Gabby ainda era ingénua, jovem o bastante para ser sua filha e Bill achava a zombaria irritante.

 

- Para falar a verdade, foi exatamente o que fizemos.

 

- Ora, vejam só... Às vezes os grandes casos de amor começam por um leve toque de ódio. E vocês dois certamente já tiveram a sua cota este ano. Beijos e maquilagem, crianças?

 

- Ora, vá plantar batatas, Sabina - Ele passou o braço nos ombros de Gabby e a levou para o camarim. - Às vezes é uma chata resmungou enquanto Gabby tirava o casaco que estivera usando na filmagem.

 

- De vez em quando ela só precisa afiar as garras.

 

- Desde que não as afie em mim ou em você... - resmungou e se serviu de um refrigerante, depois voltou-se para Gabby de novo. Sua aparência era maravilhosa. As roupas dispendiosas de François Brac caíam perfeitamente, mas ela se limitou a um dar de ombros quando ouviu isso:

 

- Me lembram demais da mamãe.

 

- Não pode ser tão ruim, se ela se parece um pouco com você quando as veste, princesa. - Mas ”princesa” agora foi dito com carinho, não com veneno.

 

Gabby sentou-se numa cadeira confortável, suspirando. Estava cansada. Tinha dado duro naquela semana, e sentia-se feliz por ser sexta-feira.

 

Na manhã do dia seguinte ele foi buscá-la no carro e saíram para ver quatro apartamentos e uma casa na cidade. Não ficou encantado com nenhum deles, mas afinal permitiriam mudar de vizinhança. A casa seria alugada à base de um contrato mensal, e aceitaram o cachorro com boa vontade, por isso ficou com ela.

 

- Está tudo certo, creio. - Sacudiu os ombros quando se sentaram para comer hambúrguer no Mike’s, antes de voltarem para ensaiar na casa dela. - Só não sei se ainda vou estar aqui dentro de três meses. É um pouco difícil fazer planos agora. - Estava encarando o fato de ir a julgamento; sempre havia a possibilidade de acabar na prisão. Toda vez que pensava nisso, sentia-se abatido. Na verdade a situação o apavorava, e o fazia questionar se era sensato envolver-se com Gabby. Não tinha o direito de magoá-la, e ele lhe disse algo nesse sentido quando acabaram de jantar.

 

- Sou uma menina crescida, Bill. Posso tomar conta de mim. Sei o que você está enfrentando. Mas também sei que não cometeu nenhum crime. Sempre acreditei em você, desde o primeiro minuto em que soube. - Era um voto de confiança muito valioso, partindo de uma garota que fora tão maltratada por ele durante seis meses.

 

- Sua confiança em mim significa muito. Ela sorriu carinhosamente.

 

- Eu já disse a você... você merece. - Conversaram durante algum tempo, e depois seguiram para a casa dela a fim de ensaiar. Gabby apanhou os roteiros, e repassaram duas cenas, mas pela primeira vez a cabeça falhava e ficava cometendo erros. - Me desculpe, Bill... devo estar cansada.

 

- Venha cá. - Puxou-a para o sofá, fazendo-a sentar-se junto dele. - Você é uma garota corajosa...

 

- O que é que o faz dizer isso?

 

- Não sei, você tem esse jeito de envolver o mundo com os braços... Eu admiro você um bocado, Gabrielle - E admirava mesmo. Beijou-a, e acabaram esquecendo os roteiros. Tornou a beijá-la, demorada e violentamente, e Gabby retomou o fôlego quando Bill finalmente se afastou.

 

- Isso está na próxima cena? - brincou ela.

 

- Vamos ter de acrescentar - murmurou. - Acho que realmente dá certo.

 

- Eu também...

 

Beijou-a novamente, e ela se viu nos braços dele, enquanto as mãos lhe vagavam pela camisa e as dele percorriam seusjeans muito apertados. Eram velhos e macios, e ele podia sentir-lhe o corpo firme por baixo, seu desejo cresceu por ela.

 

- Eu quero você... quero tanto você... mas não vou estragar a sua vida.

 

- Não se preocupe com isso. - Nunca encontrara um homem de quem gostasse tanto, embora o relacionamento de ambos pudesse parecer curto. Não queria se preocupar com o futuro. O futuro cuidaria de si mesmo. - Eu amo você... - Não tinha a intenção de pronunciar aquelas palavras, mas escaparam e Bill parecia assustado quando levantou os olhos para ela, agora deitada por cima dele, o corpo pequeno pouco pressionando o seu.

 

- Eu também amo você, Gabrielle... mas é loucura... Amo-a o bastante para ficar fora da sua vida e lhe poupar um bocado de sofrimento mas parece que não encontro forças para fazer isso. - Ela o beijou, desta vez com uma paixão tão ardente que ele esqueceu suas apreensões e levou-a para o quarto e a deitou na cama. Tirou-lhe os jeans e carinhosamente desabotoou-lhe a blusa, como se despe uma criança e ela ficou observando quando ele também se desnudou, revelando um corpo magnífico. E aí, um nos braços do outro, ambos esqueceram tudo, tudo exceto o amor que compartilhavam, que nascera entre cinzas de dor, mágoa e decepção. Tinham muito a dar um ao outro, e Bill nunca se tinha sentido mais feliz do que quando finalmente ficaram se recuperando deitados na cama dela. - Por onde andou você durante toda a minha vida, gatinha? - sussurrou, enquanto ela se aninhava nos seus braços, e caía no sono. Sorriu ao baixar os olhos para ela e acariciar os cabelos negros, longos, sedosos, que tempos atrás lhe lembrariam os de alguém, mas já não lembravam mais. Ela era a única mulher que amava agora.

 

- Você acha que eles estão tendo um caso? - perguntou Zack a Jane quando tomavam o café da manhã.

 

- Bill e Gabrielle? - Jane sorriu-lhe. - Acho que é possível. Não creio que ele queira se envolver com alguém neste momento. Ele anda muito nervoso por causa do julgamento, é compreensível. Mas pode ter sido mais forte do que os dois. Você sabe, é engraçado que, mesmo quando ele a fazia passar maus pedaços, sempre achei que seriam perfeitos um para o outro.

 

Zack inclinou-se e beijou-a.

 

- É por isso que eu a amo, Jane. Você é uma pessoa sensível.

 

- Estavam tomando o desjejum despidos ao lado da piscina. As meninas passavam o fim de semana com o pai, e eles iam relaxar e comprar antiguidades para a casa nova, mas ela achava que isso agora já não era muito importante. Passava a maior parte do tempo na casa dele, principalmente quando as meninas ficavam com o pai. Agora era até esquisito pensar nele. Era como se fosse um estranho. Só o vira uma vez desde que se haviam divorciado e súbito ele exibia um ar de amargura, dureza, e uma pitada de loucura.

 

- Você sabe, eu estive pensando outro dia. O que é que você vai fazer durante o intervalo? - perguntou Zack.

 

- Ainda não tinha pensado nisso. Alyssa vai para uma colónia de férias, e Jason e Alex arranjaram empregos para o verão. Jason vai trabalhar numa fazenda em Montana, e Alex resolveu ajudar na mesma colónia de férias para onde Alyssa vai.

 

- Que tal, este ano, vir para uma colónia de férias comigo? Ele lhe sorriu, feliz. A vida nunca lhe correra melhor, e o passado parecia um sonho distante. - O que acha você de irmos para a Europa durante dois meses?

 

Jane olhou-o como se estivesse encantada. Não conhecia nada da Europa.

 

- Uau!

 

- Sul da França... algumas semanas na Itália, Áustria... Talvez até o festival de música de Salzburgo. O que é que você acha, meu amor?

- inclinou-se e beijou-lhe o pescoço enquanto ela sorria. Não tocaram nas viagens anteriores que ele fizera com os ”amigos” à Grécia. Eram parte de um passado distante que estava acabado.

 

- Parece fabuloso.

 

- Vou começar a fazer as reservas. Que tal a Irlanda? Podíamos alugar um carro e sair dirigindo... E a Suíça!... - Sentia-se tão animado quanto ela. - E a Espanha! - Riu, maravilhada, e conversando animadamente arquitetaram um roteiro. Ia acabar sendo o melhor ano de sua vida - e da dele.

 

- Você sabe, eu gosto de ter 40 anos - devaneou ela com um sorriso satisfeito. - Me parece muito glamouroso.

 

- É isso mesmo. - Parecia satisfeito. Tinha acabado de encomendar um casaco de vison para ela, no François Brac, e ia presenteála assim que voltassem. Mas a viagem à Europa parecia deslumbrante para ambos. - Espere só chegar à minha idade!

 

- Por falar nisso... Sabina tem andado com um humor infernal ultimamente.

 

- Deve ser cansaço. Todo mundo está doido por uma pausa.

 

Faltava um mês e meio, e ele estava certo. Naquela manhã, Sabina permanecia deitada ao lado de Mel na piscina, e pensava que nunca se havia sentido tão cansada na vida. E, por coincidência, também abordava o assunto do intervalo. Ela precisava viajar a Paris durante três semanas para trabalhar com François Brac o guarda-roupa do ano vindouro, mas depois estaria livre, e Mel acabava de sugerir que se encontrassem na Europa.

 

- Você não pode vir a Paris comigo desta vez? - Falava como uma criança decepcionada e ele beijou-lhe as pontas dos dedos, depois a ponta do nariz e os lábios.

 

- Bem que eu gostaria, querida. Você sabe como é frenética a véspera de uma estreia. Tenho uma quantidade infernal de coisas a fazer aqui. Mas estarei lá assim que puder. Que tal uma semana em Cannes? - Sempre gostava de ficar no Carlton.

 

- Como é que eu vou ficar sozinha em Paris? - Estava fazendo beicinho.

 

- Esperançosa. E sentindo desesperadamente a minha falta. O caso deles vinha durando todo o seriado, e eles se davam muito bem. Quase sempre Sabina fazia o que bem entendia, ele lhe dava plena liberdade. Viajara sozinha vários fins de semana, e ele nunca lhe tinha perguntado aonde ia. Ficava um tanto aborrecido, mas sabia que ela era assim. E não exigia que se tornasse diferente por causa dele. Não esperava tanto. Aceitava-a como era, sempre parecendo satisfeito, exceto pelos maus humores fortuitos, como agora. Zack estava certo, era o cansaço. Todos se sentiam cansados, e Mel também. Gerava uma quantidade imensa de trabalho organizar um seriado como aquele. E agora vinha se dedicando à divulgação para o outono. Planejava uma grande festa de gala para a primeira apresentação, com muita gente da imprensa, e isso causava alvoroço. Ademais, continuava preocupado com a possibilidade de Bill ir para a prisão.

 

- Acho que ele está trepando com Gabrielle - dissera Sabina bruscamente.

 

- Talvez faça bem a ele. - Sorriu-lhe. - Talvez estejam apaixonados.

 

Sabina sorriu. Gostava da veia romântica de Mel. Ele desperdiçara um bocado com ela, e sentia-se feliz ultimamente. Todos se sentiam.

 

- Então me fale de nossa viagem.

 

- Que tal Cannes? E Veneza por uma semana?

 

- Parece divino. - Inclinou o chapéu sobre o rosto, e só um dos olhos verdes sobressaía, sorrindo para ele. - O senhor é muito bom comigo, Sr. Wechsler.

 

- Você acha? - Estendeu a mão por baixo do jornal e tirou uma caixinha. No embrulho estava escrito que era do Bulgari.

 

- O que é isso? - O único olho verde pareceu intrigado, e ele lhe passou o embrulho.

 

- Creio que o rapaz do jornal deixou isso para lhe entregar, Srta. Quarles. Acho bom verificar. Com um único gesto ela jogou o chapéu para o lado e começou a desembrulhar. Ele ainda a surpreendia constantemente com seus presentes. Era um lindo anel de esmeralda. Sabina sorriu feliz quando o enfiou num dedo elegantemente cuidado. Mantinha-se linda. Era uma estrela, e disso não se esquecia nunca, principalmente naqueles dias. E nem ele.

 

- É lindo, Mel.

 

- Me lembra seus olhos.

 

Sabina agradeceu com um beijo demorado, e, lentamente foram para dentro, ela só de biquini branco e o esplêndido anel de esmeralda, ele só de roupão. Passou muito tempo até voltarem. Na volta, os dois sorriam.

 

No último dia de filmagem, todos estavam tensos, observando a cena final. Essa cena realmente ninguém queria ver, embora soubessem que era inevitável. Tratava-se da cena adicional que Mel tivera de escrever e na qual Bill seria assassinado... se não voltasse ao trabalho. Havia uma discussão entre ele e Gabrielle, após a qual o namorado dela lhe dava um tiro. E só na fase final Sabina recebia a notícia de que o filho estava morto. Era uma cena vigorosa, e todos permaneceram calados enquanto assistiam. Bill parecia taciturno quando gritaram ”OK”, e ele se levantou.

 

Todos continuaram em silêncio, aterrados pelas implicações. Bill olhou à sua volta, pesaroso, como se estivesse se despedindo deles. As lágrimas no rosto de Gabby eram reais, e até Sabina, pela primeira vez, ficou muda. Zack tocou o braço de Bill quando ele se afastou.

 

- Eles nunca vão usar esta cena, Bill. Não se preocupe. - Seus olhos mostravam bondade, e Bill queria agradecer-lhe, mas estava muito emocionado para falar. O elenco reuniu-se em torno dele e Gabby inconscientemente enlaçou-o nos braços e chorou. Foi um dia difícil para todos. O último da primeira série do programa. Iam ter um intervalo de dois meses. Mel mandara servir um esplêndido almoço para todos, o elenco e a equipe se juntaram e começaram a se descontrair e a conversar sobre os planos para o verão.

 

Gabrielle assoou o nariz, e Jane passou-lhe os braços pelos ombros.

 

- Relaxe, já acabou. - A cena estava acabada, mas ocorria a todos que os problemas de Bill não tinham terminado. Teria que enfrentar o julgamento dentro de nove dias, e estava apavorado com isso, como Gabby também. Ela adiara os planos de verão e resolvera ficar com ele. Iam para o lago Tahoe no dia seguinte, e depois voltariam para alguns dias de conferência com os advogados.

 

Jane e Zack estavam de partida para Roma na próxima semana, depois iriam para Veneza, e para a Riviera francesa por um mês, em seguida Paris durante alguns dias, e uma semana em Londres antes de voltar para casa. Mal podiam esperar. E Sabina ia para Paris, conforme seu compromisso com François Brac. A equipe toda comentava animadamente a respeito dos planos: Europa, Graftd Canyon, vários iam para casa, alguns para o leste, outros ficariam por ali mesmo, a se descontrair antes de recomeçarem a filmar em agosto.

 

- Parece um último dia de aula - disse Gabby, enquanto Bill lhe sorria. Achava-a tão jovem, tão meiga, e fora muito boa com ele. Sentia-se profundamente grato a ela e aos demais colegas. No momento em que deixaram o local das filmagens, naquele dia, todos lhe disseram uma palavra de incentivo, acariciaram-lhe o braço, apertaram-lhe a mão, desejando-lhe boa sorte. Agora formavam realmente uma família. E Mel lavrou um tento ao falar com ele:

 

- Vou permanecer na cidade, para o caso dos advogados precisarem tomar meu depoimento a seu favor. - Já havia dito isso aos advogados, mas queria que Bill também soubesse. - Estamos todos torcendo por você, Bill. - Contudo, ainda não sabia se o manteria no programa. Todos tinham renovado seus contratos antes de partir. Todos, exceto Bill. Mas não era hora de se preocupar com isso. Bill estava mais preocupado com a sua vida, com o julgamento. Era difícil acreditar que estava tão próxima a hora de enfrentar o problema. Uma ou duas vezes pensara em telefonar aos pais. Supunha que já sabiam da notícia, mas não o tinham procurado, e Bill também não queria conversar com eles.

 

- Vocês vão para algum lugar? - indagou Zack a Gabrielle, enquanto se serviam da comida chinesa no local das filmagens. Fora fornecida pelo Chinois, e havia também pizzas do Spago.

 

- Por enquanto, não. - Ele entendeu o motivo e fez um movimento sombrio com a cabeça, e depois olhou de relance para Jane. Ambos estavam animados com a viagem. Iam passar aquele fim de semana com as meninas, e partir assim que elas fossem para a colónia de férias, na segunda-feira.

 

- Vou-lhes dar o nosso itinerário e vocês podem nos telefonar quando... quando tudo acabar. - Bill encaminhou-se para eles e passou o braço pelos ombros de Gabby, respondendo pelos dois:

 

- Telefonaremos, Zack... - E depois: - Espero vê-los no próximo ano... todos vocês. - Fora um dia difícil para ele, mas deixou o camarim arrumado quando partiu. Afinal de contas não havia qualquer certeza de que ia voltar. Gabby ajudou-o a carregar seus pertences para o carro, mais a sacola de compras, uma maleta, e duas plantas que ela lhe dera. Era deprimente essa limpeza, mas Bill insistira em que não deviam deixar o trabalho para outros.

 

- Você vai ter que trazer tudo de volta em agosto - incentivouo, e ele sorriu.

 

- Pode crer que é o que mais desejo. - Mas não parecia estar convencido, e ficaram calados quando finalmente saíram do estacionamento, depois de distribuir beijos e abraços a todos, chorando mais um pouco. A sensação era mais de um abandono do lar do que uma partida para férias de verão. O seriado acabara significando muito para todos e todos estavam curiosos para conhecer os roteiros da próxima estação. Mel fizera um breve discurso, insinuando que grandes surpresas os aguardavam na volta.

 

- Só espero que não pensem em me matar de novo - sussurrou Jane. Tinha passado por isso em Sorrows e se apavorava ante a ideia de que poderia repetir-se. Adorando o seriado e as pessoas com quem trabalhava.

 

- Não há possibilidade de acontecer isso. - Zack considerava-a melhor atriz do que Sabina.

 

- Pronto para as montanhas? - Indagou Gabby, enquanto Bill a levava para casa. - Tudo o que é meu já está pronto.

 

- Quase. - Sorriu para ela, a tristeza de deixar o espetáculo diminuindo um pouquinho. Estava ansioso por alguns dias calmos com ela, nas montanhas. Tinham discutido para onde ir: Yosemite, ou lago Tahoe, ou outro lugar. Finalmente ele resolvera alugar uma casa de condomínio no lago. Só queria pescar e ficar deitado ao sol ao lado dela. Os dois precisavam de descanso, adquirir forças para o que os esperava. Não havia previsão sobre como ia acabar, e embora os advogados estivessem otimistas, não garantiam nada. - Quer ficar na minha casa esta noite, Gab?

 

- Seria ótimo. - Agarrou a bagagem e o equipamento que já estavam prontos no vestíbulo da entrada. Gabby tinha seu próprio caniço e botas de montanhismo e um saco de dormir para o caso de resolverem acampar. Era uma sombra do conjunto luxuoso de malas Vuitton que Sabina levava para Paris. Bill sorriu enquanto ajudava a carregar tudo para o carro.

 

- Vejo que tem o equipamento adequado, Srta. Smith. Todas as debutantes usam botas de escalar?

 

- Sempre. Sobretudo nos bailes. - Arreganhou os dentes num sorriso. Sempre adorara a vida ao ar livre, e ficou encantada ao saber que ele também adorava. Quando ainda frequentava Yale, fora a Wyoming numa excursão de três semanas, e esse tinha sido o ponto alto dos seus anos de faculdade, principalmente quando vira o guia atirar num urso. Contou isso a Bill enquanto se dirigiam para a casa e ele riu.

- Não espere que eu faça isso, gatinha. Vou correr como o diabo, com você agarrada de um lado e meu traseiro do outro.

 

Ela riu. - Foi divertido... - Também tinha descido as corredeiras do Colorado dois anos atrás, e desejava visitar o Brasil, o Amazonas, algum dia.

 

- Esperava que você não tivesse feito nada mais excitante do que almoçar no Polo Lounge e fazer compras no Giorgio - implicou ele, mas sentia-se feliz por ela não ser assim. Era muito gente, e parecia pouco se importar com os ins e ouís da grã-finagem. Ficava muito mais entusiasmada em ir ao lago Tahoe com ele do que ficaria por ir a uma festa de Hollywood.

 

Ajudou Bill a arrumar as coisas naquela noite, e no dia seguinte, às cinco da manhã, partiram de carro para o lago Tahoe numa viagem de doze horas. Pararam para um almoço rápido no caminho, e chegaram ao límpido ar de montanha do lago Tahoe às 16:30. Gabby parecia uma menina entusiasmada quando abriu os braços num sorriso amplo. O condomínio era lindo, e tinham bastante privacidade, com banheira de água quente e um jardinzinho particular.

 

Foram nadar no lago, comer um bife num restaurante em Truckee, que Bill conhecia e gostava, e deram um longo passeio ao ar da montanha antes de caírem na cama. Para ambos, era uma vida idílica e um alívio da tensão no local das filmagens de Manhattan.

 

- Nunca me senti tão feliz - murmurou-lhe ela quando voltavam para casa, sentindo-se em paz e serenos. Mas Bill permaneceu em silêncio, profundamente preocupado com o julgamento. Nada mais parecia real para ele, tudo o que via trazia o estigma do julgamento e o que podia acontecer com sua vida dentro em pouco... Em quinze dias podia ir para a cadeia, possivelmente por anos... Pensando nisso, segurou a mão de Gabby e voltaram para o condomínio. Ela queria fazê-lo esquecer tudo, mas agora lhe parecia difícil. Sentaram ambos na banheira de água morna antes de dormir, e fizeram amor em frente à lareira, mas nos olhos dele Gabby podia ver sempre a preocupação e o medo. Não havia como afastá-lo disso, e sentiu um arrepio desconfortável enquanto o olhava dormindo naquela noite. Levantou-se antes do amanhecer para fazer pãezinhos de canela com a massa que tinham comprado na loja, e um bule cheio de café fresco e quente.

- Acorda, que é dia. - Beijou-lhe a orelha e ele a empurrou, depois abriu um olho:

 

- O que é que você está fazendo em pé a esta hora? - Estava escuro lá fora, e a voz dele era profunda e sexy.

 

- Pensei que a gente ia pescar no lago. - Tinham alugado um barquinho no dia anterior, e ela pusera todo o equipamento necessário ao lado da porta.

 

- Que horas são?

 

- Cinco e quinze. - Sorriu-lhe. - Achei que você ia querer começar cedo.

 

Ele riu e sentou-se na cama.

 

- Ah, claro... claro... Por que não me acordou às três? Talvez pudéssemos apanhar algum pobre peixe ainda a dormir profundamente a essa hora. Você leva mesmo a sério tudo isto, não é, Gab?

 

- Levo mesmo. No Wyoming, a gente levantava às quatro todo dia para pegar peixe pró café da manhã.

 

Fez um gesto de satisfação quando ela lhe entregou um pãozinho de canela, ainda quente, e uma caneca de café fumegante. Ainda estava usando as calças jeans sob a camisola. Pusera-as ao levantar porque sentia frio nas pernas.

 

- Gostei dessa roupa... um bocado. François Brac?

 

- Não. - Sorriu. - Gabby Smith. Que tal o café?

 

- Fantástico. Eu podia contratar você para fazer café todo dia ao voltarmos. Acontece que o lugar está vago. - Tencionara pedirlhe que fosse morar com ele quando se mudou, mas se conteve. Não era justo começar algo que poderia tornar-se doloroso para ambos se ele fosse preso. Há meses o julgamento afetava tudo o que fazia, não importava o quanto fingissem que era um evento remoto. Mesmo agora, estavam tentando condensar três semanas de férias em dois dias. Mas era um esporte muito bom. Bill ficou surpreso com a descontração que sentiu naquela noite. Ela apanhara três peixes, e ele nenhum, fizeram piquenique perto do lago, depois foram nadar novamente. Gabby preparou um jantar caseiro naquela noite, e evitaram qualquer encontro. Nenhum dos dois tinha o menor interesse em jogar ou em participar da vida noturna no lado de Nevada. Na manhã do dia seguinte foram pescar de novo e depois voltaram para casa a fim de almoçar e fazer amor, antes de partirem para Los Angeles.

 

- Detesto ter que ir embora. - Olhou nostalgicamente à sua volta, como se quisesse lembrar de tudo pelo resto da vida.

 

- Eu também. Talvez a gente possa voltar dentro de algumas semanas.

 

Ela pensava em outra coisa, enquanto guardavam seus pertences.

 

- Em vez de voltar para cá, não gostaria de ir para o leste comigo? - Nunca lhe falara a respeito, ele tinha tantos problemas, mas aquela parecia uma boa ocasião para perguntar. Ia abrir-lhe perspectivas e demonstrar a ele que estava confiante no futuro.

 

- Para visitar seu pessoal? - Ficou comovido quando ela assentiu com a cabeça.

 

- Acho melhor a gente esperar antes de pensar nisso.

 

- Eles me convidaram a visitá-los, e eu disse que ia tentar. Mas eu queria era ir para o Maine. Tenho uns amigos que todo ano me oferecem sua casa para o verão durante algumas semanas, se eu quiser. É muito primitiva, fica numa pequena ilha. E realmente eu adoro aquilo.

 

- Minha garota selvagem. - Percebia como Gabby gostava da vida ao ar livre. Tão diferente de Sandy e do seu deprimente vício. Como é que você acabou sendo assim?

 

- Uma aberração, suponho. Meus pais me acham maluca.

 

- Eu não acho. - Estendeu o braço, puxou-a para a cama; abriulhe o fecho das calças e fizeram amor antes de partirem para a longa jornada. Os cabelos de Gabby voavam livres ao vento e ele parecia mais descontraído que nos últimos meses. Ela estava certa. A viagem a Tahoe fora exatamente aquilo de que precisavam.

 

Entraram na alameda da casa logo depois da meia-noite, e parecia-lhes terem passado semanas fora. Ele carregou para dentro a bagagem de ambos, e Gabby resolveu passar a noite com ele.

 

- Deixo você em casa quando for ver os advogados amanhã. Subitamente seu rosto teve uma expressão de tristeza e ela olhou curiosa.

 

- Posso ir com você?

 

- Aos advogados? - Pareceu surpreso.

 

- Eu gostaria muito... quero ficar com você...

 

- Não vai ser divertido. - Foi a mais tola declaração da sua vida, mas Gabby encaminhou-se para ele e passou-lhe os braços em torno do pescoço.

 

- Acontece que estou apaixonada pelo senhor, Sr. Warwick... na alegria ou na tristeza... no lago Tahoe ou nos advogados.

 

Ele não lhe disse uma única palavra, mas quando a beijou afloraram-lhe lágrimas aos olhos. Odiava-se por arrastá-la consigo, mas precisava dela... mais do que ela imaginava... Mais do que algum dia precisara de Sandy.

 

O escritório de advocacia de Harrison e Goode tinha uma aparência solene e bem decorada, combinando um ambiente moderno com antiguidades inglesas, e algumas pinturas de excelente qualidade. As mulheres dos sócios majoritários haviam contratado os melhores decoradores da cidade, e o escritório estava mais para Nova York do que para Los Angeles. Gabby sentiu-se aliviada ao saber que eram os melhores da região, enquanto aguardava na sala de espera com Bill. Tinha descido em casa para trocar de roupa e trajava um vestido de linho azul-escuro que há anos a mãe lhe havia comprado no BergdorPs.

 

- Você tem certeza de que quer ir? - indagou-lhe Bill enquanto se vestia e ela lhe disse para calar a boca e tratar de fazer um pouco de café. Encontrou tudo que precisava na minúscula cozinha, e meia hora mais tarde Gabby estava pronta, perfeita até no cabelo comprido que arrematara num coque soberbo. Só lhe faltava um par de luvas brancas para dar a impressão de estar prestes a almoçar no Colony Club de Nova York, onde, ele sabia, a mãe a levara muitas vezes.

 

Enquanto esperavam que os advogados os mandassem entrar, Bill estava satisfeito por ela ter vindo. Estar ao lado dela dava-lhe uma sensação de força tranquila. Apresentou-a aos advogados, e tornou-se evidente que eles a aprovaram. Distraído, ele a identificou como Gabrielle Thornton-Smith, e ela não fez objeção. Estava claro que o nome os impressionara. Stan Harrison até lembrou que conhecia o pai dela. Depois apresentou os criminalistas que a firma contratara para cuidar do caso de Bill. Eram sóbrios e bem preparados, e passaram três horas adestrando-o, explicando-lhe as armadilhas do processo, os perigos e a linha do interrogatório. Bill estava exausto quando finalmente, na companhia de Gabby, saiu do escritório na hora do almoço, combinando voltar no dia seguinte.

 

- Ótimo, tinha a impressão de que minha cabeça estava flutuando depois de todo aquele lixo jurídico. - Subitamente mostrava-se cansado e pálido, apesar do bronzeado que adquirira no fim de semana. Foi uma tensão tremenda para os dois, mas Gabby parecia controlada, e sugeriu que parassem para fazer compras no supermercado a caminho de casa.

 

Baixou os olhos enternecidos para ela:

 

- O que foi que eu fiz para merecer alguém como você, Gab?

- Sobretudo depois de momentos difíceis por que a fizera passar durante tanto tempo. Entretanto, tudo ficara esquecido.

 

- Má sorte, eu acho. Você sabe que pé no saco são as debutantes.

 

- Se metendo com ralé de novo, hein? - Beliscou-lhe de leve o traseiro enquanto saíam do carro no supermercado, e ela apenas sorriu.

 

- Costumava ter vontade de estrangulá-lo quando você usava essa expressão.

 

- Bem, naquela ocasião se explicava perfeitamente. - Mas não de maneira tão certa como na semana seguinte, quando saltaram do carro no tribunal e viram a multidão malvestida e dois acusados presos por correntes, enquanto os advogados se embarafustavam pelos corredores. Bill encontrou os seus defensores na hora combinada, fora da sala de julgamento.

 

Gabby ficou bem próxima desta vez, não porque estivesse assustada, mas sentia necessidade de permanecer perto dele, como se quisesse provar a si mesma que Bill ainda estava ali.

 

Designaram o juiz para o caso, e seus advogados disseram que era muito inflexível, mas que, para ele, isso tanto podia favorecer como prejudicar. Poderia dar-lhe a liberdade ante as histórias sórdidas do vício de Sandy... ou culpá-lo exatamente pelo mesmo motivo. Não havia como prever. Ia ficar nas mãos do júri.

 

Gabrielle sentou-se na segunda fila, e Bill passou por um portãozinho, com seus três advogados, para sentar-se no banco dos réus.

 

Esperaram dez minutos enquanto a sala ia enchendo: novos réus, mais curiosos, advogados que precisavam da assinatura de funcionários em ducumentos, repórteres que tinham entrado para assistir ao” julgamentos. E então o meirinho gritou.

 

- Todos de pé. O Juiz MacNamara está presidindo. O tribunal está em sessão. - Todos sentaram-se de novo, e Gabby encarou por trás a cabeça de Bill, rezando para que tudo desse certo.

 

Os advogados aproximaram-se da mesa, entregaram vários documentos, e os prováveis membros do júri foram introduzidos. Bill ficou espantado com o número. Eram quase cem. Seus advogados tinham calculado que a escolha do júri poderia demorar uns dois dias. Grupos de doze subiam no estrado de cada vez, e cada advogado tinha o direito de dispensar vinte ao todo sem qualquer explicação.

 

Primeiro foram escolhidos dois homens, um mexicano idoso que falava um inglês sem sotaque, assegurando que não teria qualquer problema para acompanhar o julgamento. Ninguém da sua família estava envolvido com drogas e nunca fora preso. O segundo homem era um estafeta do correio, disse ele, e parecia nervoso e pálido. A defesa dispensou-o por justa causa. A filha morrera de uma superdose de drogas há três anos.

 

A seguir vieram duas mulheres. Uma com pesada maquilagem, que afirmou ter sido atriz anos antes, a outra, uma velha com tipo de avó, que avisou nunca ter se casado. Depois trouxeram uma jovem, um gay, uma mulher que disse ser casada com um policial. A seleção prosseguiu pelo resto do dia, com recesso para almoço. As pessoas chegavam e saíam; e eram recusadas às vezes por motivos óbvios, outras vezes não. A mulher do policial fora dispensada imediatamente pela defesa. E a acusação despediu a atriz e o gay. Parecia que a escolha nunca mais ia acabar, e por que os mantinham ou não, às vezes chegava a não fazer o menor sentido. Gabby e Bill estavam exaustos quando se retiraram naquela noite. Julgavam ter examinado amostras aleatórias de toda a raça humana o dia inteiro, e era cansativo imaginar quantas seriam as variedades.

 

- Fico olhando para eles e imaginando se vão acreditar em mim. Não consigo calcular nada, exceto alguns que me parecem óbvios. A mulher do policial me deixou morto de medo. - Mas fora dispensada.

 

- Eu sei. Às vezes não compreendo por que os recusam.

 

- Nem eu. Só espero que saibam o que estão fazendo.

 

Naquela noite estavam cansados demais para fazer amor, e até cansados demais para conversar ou comer. Foram para a piscina: um último mergulho antes de irem para a cama.

 

O pesadelo recomeçou. O júri ainda não estava completo na tarde do terceiro dia. Sete mulheres e cinco homens, e um tipo de aparência inofensiva como suplente. Todos eles eram sóbrios, inexpressivos, gente comum como o farmacêutico, o mecânico ou a mulher que vende um par de meias na loja de departamentos. Ninguém ali se destacava. E sua vida estava nas mãos deles. Naquele dia o juiz anunciou cedo o recesso da tarde, Gabby e Bill sentiram-se aliviados por poderem ir para casa. Ela o olhou, calada, durante o sumário jantar que preparara para ambos. Nenhum dos dois sentia fome e estavam ficando irritados por causa da tensão.

 

- Quer ir ao cinema esta noite? - tentou ela. Ele precisava desesperadamente de algum tipo de distração.

 

- Estou sendo julgado pelo assassinato de minha mulher. Não preciso de nada mais dramático que isso.

 

- Podíamos ver uma comédia.

 

- Não tenho disposição. - Era compreensível, mas queria ajudá-lo.

 

- Vamos ao Mike’s jogar um pouco de sinuca?

 

- Talvez amanhã de noite, Gab... Me sinto cansado demais para me mexer. - Ambos se admiravam de como podia ser absolutamente exaustivo ficar ali sentado, sentindo a tensão o dia inteiro, impedidos de se distrair com alguma coisa.

 

- Quer que eu vá para casa, para lhe dar mais espaço aqui? Infeliz, Bill sacudiu a cabeça e estendeu a mão para pegar a dela.

 

- Não... exceto se você precise se afastar de mim, e se fizer isso eu compreendo. Sei que estou sendo um verdadeiro porre, mas estou nervoso demais.

 

- Tudo bem. - Inclinou-se e beijou-o. - Você não é um porre. Só não quero contribuir para deixar você mais tenso.

 

- Você não me faz ficar mais tenso. Você é a única coisa que me ajuda a suportar isso.

 

Ficou com ele uma ou duas vezes, mas na maioria das noites ia para casa por sugestão dos advogados. No dia seguinte a acusação começou, descrevendo o assassinato sem motivo de uma bela jovem, o marido ator preso a ela por cadeias de ódio e revolta, ressentindo-se por ela gastar todo o seu dinheiro em drogas, desesperado para se afastar, desejando fazer qualquer coisa para se livrar dela. Era difícil reconhecer Bill no retrato que pintavam, e ele ia ficando apavorado à medida que ouvia, certo de que o júri ia acreditar naquilo. Em suma, transformaram-no num monstro homicida. E para culminar descreveram o crime como passional: finalmente Bill ficara desesperado para se libertar dela, ao se conscientizar do que ela representava para sua nova carreira, para seu papel em Manhattan.

 

Estava morrendo de medo no fim do segundo dia do libelo da acusação, e a convicção de seus advogados quase não conseguia acalmálo, embora lhe dissessem inúmeras vezes que iam ter a oportunidade de expor a sua versão da história. Havia poucas testemunhas de acusação: um ou dois atores da antiga novela de Sandy, testemunhando que fora uma jovem maravilhosa. Bill ficou chocado ao ver o empresário dela no banco das testemunhas, afirmando que se havia oposto ao casamento com Bill. Disse da sua convicção de que o casamento ia aumentar as pressões que ela já não conseguia suportar, que daí em diante ela começara a se viciar de fato.

 

- Filho da puta... - resmungou Bill entre os dentes, e o advogado que estava mais próximo tocou-lhe o braço suavemente, lembrando que os membros do júri o observavam.

 

A acusação usara todos os argumentos que tinha na sexta-feira à tarde, e um punhado de fotógrafos rondava as imediações da sala de julgamento. Tiraram fotos de Gabrielle e Bill quando saíam, interrogaram-no, lhe enfiaram suas câmeras no rosto, e não conseguiram respostas.

 

No sábado de manhã Bill teve uma audiência de muitas horas com os advogados, enquanto Gabby fazia algumas compras para ambos, chegando a tempo de preparar o almoço, alimentar o cachorro e receber um telefonema de Mel Wechsler. Ele queria saber como as coisas estavam correndo, e não pareceu ficar surpreso com a presença dela ali. Sabia de tudo o que acontecia no seriado, e eles não tinham feito muito segredo do romance antes do intervalo.

 

- Não sei, Mel - respondeu ela com honestidade. - Está tudo complicado e tendencioso. É horrível. Os advogados dizem que Bill vai ter a sua oportunidade na próxima semana e ele mesmo vai sentar-se no banco para testemunhar, mas está horrivelmente amedrontado.

 

- Tenho certeza de que está. - Sentia-se condoído e pediu-lhe para dizer a Bill que estava ansioso para comparecer ao tribunal a fim de depor a favor dele. Bill já havia dito isso aos advogados, eles tinham intenção de chamar Mel como testemunha. - Vou ficar aqui toda a semana. É só dizer a eles que me telefonem.

 

- Eu vou dizer a Bill que você ligou. Vai ficar muito contente, Mel. - Estava sempre disponível para todos que precisavam dele, não mais como o Mágico de Oz, mas como um pai. Bill realmente ficou comovido quando chegou em casa, outra vez exausto. Naquela semana perdera mais de três quilos, e Gabby mais de dois. Era um modo de perder peso para o seriado, mas não aquele que qualquer um dos dois teria escolhido.

 

- O que é que eles disseram?

 

- A mesma velha história. Querem que Mel deponha na segunda-feira. - Bill telefonou depois do almoço e lhe informou qual era a sala do julgamento. Mel prometeu estar lá.

 

O resto do fim de semana ora se arrastou, ora passou depressa demais. Também Bill, ora queria que durasse para sempre, de modo que não precisasse voltar ao tribunal, ora que passasse logo, para que acabasse tudo. Retornaram todos ao vestíbulo da sala de julgamento muito cedo, e lá estava Mel conferenciando com os advogados de Bill. Chamaram-no primeiro para depor, e Gabby ficou assistindo. Foi um alívio vê-lo ali, como se isso certamente os ajudasse.

 

- O senhor diria que o Sr. Warwick parecia zangado por algum motivo?

 

- Não. Diria que ele era um jovem calmo e esforçado.

 

- Ele se queixou alguma vez da mulher?

 

- Não.

 

- Alguma vez falou nela?

 

- Não.

 

- O senhor sabia que ele era casado?

 

- Não, não sabia. - Os olhos de Mel não hesitavam enquanto Bill observava, lembrando a mentira que lhe contara e calculando o que Mel ia dizer sobre isso. Mas Mel não o desamparou. Estava ali para ajudá-lo.

 

- O senhor não diria que isso era um tanto estranho?

 

- Não, não diria. Não no meu ramo. Muitos dos atores com quem lidamos mantêm seus casamentos como assunto particular, especialmente se isso pode afetar a imagem deles, se é importante passarem por solteiros.

 

- O senhor diria ser esse o caso do Sr. Warwick, ou acha que ele se envergonhava dela, ou receava que ela lhe arruinasse a carreira com as constantes prisões por...

 

- Protesto, meritíssimo! A acusação está conduzindo a testemunha!

 

- Os advogados de Bill interromperam o promotor, e o protesto foi mantido.

 

- Vou formular a pergunta de modo diferente. Era importante para a carreira do Sr. Warwick apresentar-se como solteiro?

 

- Basicamente, sim.

 

- Por quê?

 

- Por que ele será um astro famoso no próximo ano, quando o seriado estiver no ar.

 

- O senhor diria que podia ser um obstáculo para ele ter uma mulher nas condições em que ela se achava?

 

- Protesto!

 

- Rejeitado. Por favor responda à pergunta, Sr. Wechsler.

 

- Talvez, mas creio que não...

 

- Obrigado. - Interromperam-no, e Bill fechou os olhos. Não havia esperanças. Iam mandá-lo para a prisão. Estavam pintando o retrato de um homem que queria se ver livre da mulher, que a odiava, que detestava seu vício e queria afastá-la do seu caminho a todo custo, de modo que pudesse prosseguir com a carreira. Novamente se assemelhava mais a assassinato do que a homicídio culposo, embora estivessem apoiando o caso na teoria de crime passional, de que ele não pudera mais suportar, e então a matara.

 

O empresário de Bill foi a testemunha seguinte. Mel sentou-se ao lado de Gabby e apertou-lhe a mão. Ela levantou para ele dois olhos repletos de confusão, e inclinou-se para ficar mais perto dele.

 

- O senhor diria que o Sr. Warwick amava a mulher? - Os advogados de defesa perguntaram e os de acusação imediatamente opuseram objeção.

 

- Isso é conjetura, meritíssimo.

 

- Mantido. Reformule a pergunta. - MacNamara demonstrava estar aborrecido. Havia ali um bando mimado e mal comportado de astros de cinema e não tinha paciência com eles. Mas o importante era saber como o júri se sentia, e não havia meio de ler os seus rostos.

 

- Alguma vez o Sr. Warwick lhe disse que estava apaixonado pela mulher?

 

- Muitas vezes. Era louco por ela, e dizia isso.

 

A acusação pareceu decepcionada. Mel olhou de relance para Gabby, porém, ela fitava diretamente para frente, querendo transmitir toda sua força para Bill, excluindo pensamentos maldosos ou ciumentos em relação a Sandy.

 

- Ele se aborrecia com o vício dela?

 

- Claro, estava preocupado com ela o tempo todo. Queria que ela fosse procurar centros de tratamento, mas Sandy se negava.

 

- O senhor diria que ele ficava zangado com ela?

 

- Não. Nunca.

 

- O senhor diria que ele considerava sua carreira ameaçada por ela?

 

- Não. Eu sempre lhe dizia para se livrar dela, que ela acabaria por destruí-lo, porém ele não me dava ouvidos. Sempre ficava a favor dela. Esperava que um dia se desintoxicasse. Mesmo quando estava gravando externas em Nova York, ele me telefonava seguidamente, querendo saber por onde andava, e como passava.

 

- Sim, e como passava?

 

- Não sei. Nunca consegui encontrar quem soubesse onde ela estava. Tinha desaparecido completamente no mundo das drogas antes mesmo de ele partir. Já estavam separados então.

 

- Ele a viu quando voltou?

 

- Não sei. Ele não me disse.

 

- O senhor diria que ele queria livrar-se dela?

 

- Não. Ele não era desse tipo. Acho que pode ter desejado divorciar-se dela, mas nunca chegaria ao que ocorreu. Considerava-a confusa demais para lhe propor qualquer coisa nesse sentido.

 

- O senhor alguma vez viu o Sr. Warwick perder a cabeça?

 

- Não, senhor.

 

- O senhor o viu alguma vez ameaçar alguém?

 

- Não, senhor.

 

- Muito obrigado.

 

A acusação assumiu, mas não pôde abalar o testemunho de Harry. Ele fora extraordinário, e Bill sorriu-lhe quando deixou o banco das testemunhas. Teve vontade de se levantar e beijá-lo.

 

Foram precisos mais três dias para chamar todas as testemunhas, inclusive os pais de Sandy, que apareceram pela defesa, porém não foram muito coerentes por causa do choque de que ainda não se tinham recuperado. E ficou evidente que eles não aprovavam a filha e tinham desistido dela muito antes de Bill. Falaram da sua infância difícil, de uma menina incontrolável; fugira de casa várias vezes, muito antes de conhecer Bill ou de começar a representar. E acharam que as pressões do trabalho tinham sido a gota d’água. Acreditavam que estava condenada desde muito jovem.

 

Até mesmo os pais de Bill lhe telefonaram durante o julgamento, mas um telefonema típico. O pai revelou-se decepcionado e acusador, a mãe chorou na extensão. Não se ofereceram para vir ao oeste; Bill finalmente não estava certo de que eles acreditavam na sua inocência, de que não tinha assassinado Sandy.

 

Mas o pior dia foi aquele em que Bill sentou-se no banco das testemunhas. Fizeram-lhe todo tipo de perguntas que tanto temera e tentaram fazer com que o relacionamento entre eles parecesse vil e sórdido. Tentaram enfurecê-lo, pintando-a como promíscua, e fizeram com que parecesse ter se casado com ela apenas para usá-la como ponte a fim de conseguir emprego, pondo-a de lado quando conseguiu seu grande papel em Manhattan. Pintaram um cenário oposto ao real e o pressionaram até que não pôde mais suportar: desabou no banco em soluços, cobrindo o rosto com as mãos, incapaz de controlar as lágrimas, lembrando a garota que um dia amara e tudo o que tinha acontecido desde então. Não era nada absolutamente do que eles diziam, e Bill olhou decepcionado para o promotor, as lágrimas rolando lentamente pelas faces. Quando finalmente voltou a falar, tinha a voz rouca de dor.

 

- Vocês não compreendem? - Os repórteres o caricaturavam furiosamente, e o que ninguém via era o coração sangrando, a alma nua do homem que tinha amado Sandy. - Eu a amava.

 

- Gente mata gente que amou antes, Sr. Warwick. - O promotor continuava inflexível, mas a defesa fez objeção e pediu um recesso para que Bill pudesse recuperar o controle. Mas sucumbiu novamente naquela tarde, e quando Gabby olhou de relance para o júri, rezou que estivessem sentindo pena dele. Era quase imp