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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SEM OLHOS EM GAZA / Aldoux Huxley
SEM OLHOS EM GAZA / Aldoux Huxley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SEM OLHOS EM GAZA

 

6 de novembro de 1902

Um pelo crespo e alaranjado entre os cornos; Um focinho rosado abaixando-se inquiridoramente sobre uma minúscula xícara em um pires; uns olhos que exprimiam um espanto mais do que humano. Era o "O BOI", conforme se proclamava num letreiro de seis polegadas: "BOI NA XÍCARA DE CHÁ". Uma suposta razão ou, simplesmente, uma razão, para comprar extrato de carne.

Boi em xícara. As palavras e a figura grosseiramente cômica borravam os condados do interior durante todo aquele período de verão e de outono como uma moléstia de pele. Uma entre tantas infecções imundas e vergonhosas. O trem que levava Anthony Beavis para Surrey percorria seguramente uma milha desses eczemas de vulgaridade. Pílulas, sabonetes, pastilhas contra a tosse e — mais inflamado e mais gafento do que todos os outros — o extrato de carne, o boi em xícara.

— Trinta e um... trinta e dois, — dizia consigo o menino, sentindo não ter começado sua contagem logo que o trem partiu. Desde Waterloo até ao ramal de Clapham devia haver centenas de bois. Milhões.

Em frente, reclinado em seu canto, estava o pai de Anthony, fazendo da mão esquerda um quebra-luz para os olhos e movendo os lábios sob um bigode castanho e pendente.

— Espera-me lá, — ia dizendo John Beavis à pessoa que, por trás de suas pálpebras cerradas, ora vivia ainda, ora era qualquer coisa de inerte e frio boiando sobre as suas mais recentes lembranças.

 

"Espera lá por mim; que, sem falta, hei de um dia Ir junto a ti dormir sob a lápide fria."

 

A imortalidade era, sem dúvida, uma ilusão. Depois de Darwin, depois das irmãs Fox, depois do próprio pai de John Beavis, o cirurgião, como poderia haver imortalidade? Sob a lápide fria não havia nada. Mas, ainda assim, oh, ainda assim, espera por mim, espera por mim, espera, espera! "Trinta e três."

Voltando-se da contemplação da paisagem fugidia, Anthony deu com o espetáculo dessa mão sobre os olhos, desses lábios que se agitam. Que tivesse tido a idéia de contar os bois que ia vendo, pareceu-lhe, de súbito, uma vergonha, uma traição. Entretanto, ali estava o tio James, na ponta do banco, com o seu Times e os seus tics nervosos e contínuos, lendo e fazendo caretas à medida que lia. Deveria ao menos ter a decência de não ler agora, — agora, quando iam de viagem para... Anthony não ousou dizer o nome; o nome viria lançar uma luz sobre tudo aquilo e ele não tinha nenhuma vontade de ver claro. Ler o Times podia ser vergonhoso; mas aquilo, aquela outra coisa, era terrível, terrível a ponto de não se poder pensar nela e, contudo, de tal maneira terrível, que não se podia deixar de pensar.

Anthony volveu os olhos para fora da janela, já então marejados de lágrimas. A luminosidade auriverde do verão de St. Martin flutuava numa iridescência eclipsante. De repente, as rodas do trem começaram a articular um cantochão: "Dêdê-dêdêdêdê-a-dead-a-dead-a-dead-a-dead..." Morta! morta, para sempre!. As lágrimas saltaram-lhe dos olhos, rolaram-lhe pelo rosto, quentes por um instante e, depois, geladas. Puxou o lenço e enxugou-as, dissipando a névoa com que elas lhe toldaram a vista. Luminoso debaixo do sol, o mundo que então se lhe descortinou pareceu-lhe uma jóia imensa e complicada. Os olmeiros, secos, apresentavam uns tons de ouro pálido. Erguendo-se enormes e imóveis acima dos campos, pareciam estar meditando, na luz cristalina da manhã. Dir-se-ia que estavam recordando. Ali, à beira da morte, nas vésperas da própria ruína, pareciam lançar um olhar retrospectivo, num último êxtase de lembranças ressurretas, concentrar neste instante resplandecente de outono toda a glória de que se cobriam primavera e verão. "Dêdêdè-a-dead-a-dead"... ganiam as rodas rápidas e frenéticas quando o trem atravessou a ponte, "a-dead-a-dead!"

Anthony procurou não ouvir. Em vão. Tentou, depois, fazer com que as rodas dissessem outra coisa. Porque não haviam de dizer o que diziam outrora: Se puxarem a corrente o trem pára de repente?

E procurava, com grande esforço, concentrar-se e obrigá-las a mudar de refrão:

"Se puxarem a corrente o trem pára de repente, se puxarem a corrente dê-dê-dê-dê-dê-dê-dê—a-dead-a-dead-a-dead..." Qual! não adiantava!

Mr. Beavis descobriu por um momento os olhos e espiou pela janela. Tão cheias de vida, essas árvores outoniças! Aparência cruel, contrastando insultuosamente com qualquer coisa de inapelável, de desesperador nessa imobilidade, nessa fragilidade de vidro que convidava ao desastre, que anunciava, profética, a escuridão próxima com os galhos negros a moverem-se torturados entre as estrelas e o granizo a cortar com suas setas o vento ululante.

O tio James virou a página do Times. Leu que os Ritualistas e os Kensititas estavam de novo às turras. E gozou. Que se mordessem, como cães. Leu ainda: "O sr. Chamberlain na University College School." Que ia lá fazer o diabo do velho? Enfim, descobriu uma espécie de epitáfio à rapaziada que morrera na guerra: "Mais de cem jovens partiram para a frente de batalha, doze dos quais deram suas vidas pela pátria na África do Sul (Aplausos). — Pobres idiotas iludidos. — considerou o tio James, que sempre tivera grande simpatia pelos Boers.

Entre as vacas reais dispersas em seus pastos lá estavam, pintados, os chifres enormes, o triângulo de pêlo crespo cor de laranja, as ventas perscrutantes e a xícara de chá. Anthony fechou os olhos para não ver.

— Não, não quero, — disse com a mesma decisão de ânimo com que antes procura não ouvir o barulho das rodas. Recusara-se a cientificar-se do horror que as rodas lhe revelavam. Não queria agora, tão pouco, saber do boi. Mas que adiantava recusar-se? As rodas continuavam a clamar. E como podia ele recusar o fato de ser este boi o trigésimo quarto, à direita, do ramal de Clapham? Um número é sempre um número, mesmo quando se viaja para... Mas era uma vergonha estar contando assim. Era como o tio James lendo o Times. Era uma fuga indecente, uma escamoteação covarde, uma traição. E entretanto, aquilo em que eles tinham o dever de estar pensando era, na verdade, por demais terrível. Estava, de algum modo, fora das coisas naturais.

"Qualquer que tenha sido, ou ainda seja, nossa opinião sobre as causas, a necessidade, a justiça da guerra que felizmente chega agora ao seu. termo, eu penso que nos deve inspirar a todos um profundo sentimento de satisfação o fato de terem todas as forças vivas da nação acorrido como um só homem, quando a pátria chamou às armas os seus filhos"... Com o rosto ainda contraído pela irritação que lhe causara a leitura, o tio James depôs o Times e consultou o relógio.

— Dois minutos e meio de atraso, — observou zangado.

— Se o atraso fosse ao menos de cem anos, — pensou consigo o irmão. "Ou se houvesse, em vez de atraso, um adiantamento de dez anos... não, de doze, treze anos. Se estivéssemos no primeiro ano do nosso casamento..."

James Beavis olhou para fora e continuou: — E ainda estamos a uma milha de Lollingdon.

Como se apalpassem uma ferida ou um dente doído, seus dedos passeavam de novo sobre o cronômetro no bolso do colete. Era o tempo pelo tempo. A obsessão do tempo. Do tempo sempre imperioso, sempre categórico, mesmo que fosse apenas o tempo de olhar para o relógio e ver que horas eram, ou seja, a marcação do tempo...

As rodas passaram a falar cada vez mais devagar e, por fim, emudeceram. Os freios rangeram.

— Lollingdon, Lollingdon, — gritava o carregador.

Mas o tio James já estava na plataforma, a berrar: — Depressa! — E caminhava, a passo largo, ao lado do trem ainda em movimento. Mais uma vez sua mão apalpou aquela úlcera mística a roer-lhe perenemente a consciência. — Depressa!

Uma irritação súbita apossou-se do irmão. "Depressa, para que?" Como se corressem o risco de perder alguma coisa, algum prazer, algum divertimento precário e efêmero.

Anthony desembarcou atrás do pai. Dirigiram-se para a porta, caminhando ao longo de uma parede cheia de anúncios ilustrados, cujas palavras e figuras se sucediam rápidas: ...CADA CAIXA EQUIVALE A UM GUINÉU — ...E UMA GRAÇA CONCEDIDA AOS HOMENS AS PENAS MARCA PICKWICK OWL E... — ...MATA TRAÇAS PERCEVEJOS BARATAS — PÃO É PÃO QUEIJO É QUEIJO E O ESTRATO DE CAFÉ DE BRANSON... — O BOI NA... E apareceram aqui, repentinamente, os chifres, os olhos expressivos, a xícara — a trigésima quinta xícara. "Não quero ver! não quero!" Mas, quisesse ou não, aqui estava a trigésima quinta; a trigésima quinta, a partir do entroncamento de Clapham e à margem direita.

O carro cheirava a palha e a couro. Cheiro de palha, de couro e, também, do ano oitenta e oito... Oitenta e oito? Sim, oitenta e oito, pelo Natal, quando iam, de carro, ao baile dos Champernownes — ele, ela e a mãe dela, por uma noite fria, com um agasalho de pele de carneiro a cobrir-lhes os joelhos. Como que acidentalmente (pois ainda não ousava fazê-lo deliberadamente) sua mão roçou na dela; roçou como por acaso e, ainda casualmente, deixou-se ficar apoiada. A velha discorria sobre a dificuldade de arranjar criadas — e quando se arranjavam, não sabiam fazer nada, eram umas preguiçosas. Ela não recolheu a mão! Seria que consentia? Arriscou: seus dedos fecharam-se sobre os dela. E além de tudo, eram umas malcriadas, continuava a velha; eram... Sentiu uma pressão que era uma resposta e, erguendo os olhos, adivinhou, no escuro, que ela sorria para ele.

— Realmente, — ia falando a velha, — eu não sei onde é que vamos parar, hoje em dia. Viu, à guisa de comentário mudo, os dentes de Maisie brilharem maliciosamente; ao mesmo passo que aquele ligeiro aperto de mão tinha, deliciosamente, o sentido secreto e ilícito de uma conspiração.

Lentamente, uma para aqui, outra ali, o cavalo velho puxava-se; lentamente, vencendo atalhos, penetrou no centro da grande jóia outonal de cristal e ouro e parou, por fim, no coração mesmo dela. Ao sol, a torre da igreja era cinza e âmbar. James Beavis notou com aborrecimento que o relógio da torre estava atrasado. Passaram pela porta do cemitério. Quatro vultos medonhamente escuros subiam a rua defronte deles: Duas mulheres enormes (que a Anthony pareciam gigantas) emergiam do passeio como dois montões de roupa negra. Com elas, aumentados ainda mais pelas cartolas, iam dois homens igualmente colossais.

— Os Champernownes, — disse James Beavis; e as sílabas desse nome familiar foram, para o irmão, como um pontaço, mais um pontaço de espada em carne viva. — Os Champernownes e — deixe ver — como se chamava aquele rapaz que se casou com a filha deles? Ansteir? Annerley? Volveu um olhar interrogativo para John. Mas John olhava fixamente para a frente e não respondia.

— Amersham? Atherton? — James Beavis franzia o sobrolho, irritando-se. Meticuloso, dava uma importância enorme a nomes e datas e algarismos; orgulhava-se da sua capacidade reproduzi-los com exatidão. O menor lapso de memória bastava para enfurecê-lo. — Atherton? Anderson? — E o que mais o desesperava era que o rapaz produzia tão boa impressão, comportava-se tão bem, sem aquele jeitão idiota de rigidez militar do sogro, o general, mas, ao contrário, era gracioso e desenvolto de gestos... — Não sei como é que vou chamá-lo, — disse consigo; e começou a sentir na bochecha direita uma contração, como se um bicho vivo estivesse preso debaixo da pele e fizesse violentos esforços para sair.

Aproximaram-se. Anthony tinha a impressão de ter engolido o coração, de o ter engolido inteiro, sem mastigar. Sentia-se bem mal, como na expectativa de uma surra.

Os gigantes negros fizeram alto, deram meia volta e volveram ao encontro deles. Barretadas. Apertos de mão.

— Olha o Anthonyzinho querido! — disse Lady Champernowne, quando chegou, por fim, a sua vez. Não se conteve e, curvando-se toda, deu-lhe um beijo.

Era gorda. Seus lábios deixaram na face do menino uma umidade enjoada. Anthony abominou-a.

— Acho que eu também devo beijá-lo, — pensou Mary Amberley consultando sua mãe com um olhar. Natural, de esperar, mesmo, que uma mulher casada o fizesse. Seis meses atrás, quando ela era ainda Mary Champernowne e recém-saída do colégio, seria uma idéia absurda. Mas agora... A gente não sabia bem. Contudo, acabou por decidir que não beijaria o pequeno, que seria realmente ridículo. Apertou-lhe a mão sem dizer nada e apenas com um sorriso de vaga segurança.em sua felicidade secreta. Havia quase seis meses que estava grávida e durante aquelas duas outras últimas semanas vivera numa espécie de êxtase beatífico, de torpor inexprimivelmente delicioso. Feliz em um mundo que se tornara irreconhecivelmente belo e rico e benévolo. O campo se lhe afigurara um paraíso essa manhã, quando passavam embalados pelos boléus suaves de um laudo, e esse pequeno espaço de verdura entre as árvores douradas era o próprio éden. Verdade era que Mrs. Beavis, coitada, tinha morrido. Tão bela ainda e tão moça. Como tudo isso era triste! Como quer que fosse, porém, essa tristeza não afetava sua felicidade íntima, continuava sem nenhuma significação, era como a tristeza de alguém que habitasse outro planeta.

Anthony ergueu por um momento os olhos para esse rosto sorridente, fulgurando no engaste negro das vestes, deixando transluzir a paz e a felicidade íntimas. Depois, cheio de timidez, baixou os olhos.

Nesse meio tempo Roger Amberley observava, fascinado, o sogro e se admirava de como era possível viver alguém sempre assim, dentro de uma linha impecável; de como se podia ao mesmo tempo conseguir ser um verdadeiro general e dar a impressão perfeita, visual e auditiva, de um general de opereta. Até numa cerimônia fúnebre, até mesmo por ocasião de dizer ao marido enlutado algumas palavras muito preparadas, ele não passava de um puro Grossmith! E era de ver como contraía irreprimivelmente os lábios sob o belo bigode castanho.

— Parece estar muito abatido, — pensava o general, ao falar com John Beavis; e sentia pena do coitado, embora continuasse não gostando dele. Era, sem dúvida, um precioso, um maçador, um presumido, inteligente, sim, mas ao mesmo tempo um tolo. E o pior era que não se podia considerá-lo um homem. Sempre no meio das saias. Saias de mães, saias de tias, saias de esposas. O que lhe faltava eram alguns anos de exército, que lhe teriam feito, sem dúvida muito bem. Contudo, parecia estar muito abatido. Horrivelmente abatido. Maisie fora uma doce e meiga criatura. Boa demais para ele, naturalmente...

Estiveram um instante parados. Depois, foram todos dirigindo-se lentamente para a igreja. Anthony ia no meio, como um anão rodeado de gigantes. A sombra negra que eles projetavam cobria-o todo, escurecia o céu, eclipsava a torre de âmbar e as árvores. Ele caminhava como no fundo de um poço movediço, cujas paredes negras farfalhavam em volta dele. Começou a chorar.

Não quisera ter consciência do fato, tudo fizera para ter dele apenas uma noção superficial, assim, por exemplo, como se sabe que trinta e cinco vem depois de trinta e quatro. E agora vinha esse poço negro e lhe infundia o horror da morte concentrado na sua escuridão. Não tinha para onde fugir. E rompeu em soluços. Mary Amberley, perdida na contemplação extasiada de folhas de ouro debuxadas na palidez do céu, baixou por um instante os olhos sobre essa criaturinha que chorava neste outro planeta e voltou depois de novo aos páramos edênicos.

— Pobre criança! — disse consigo o pai. Depois, como que dobrando o lanço: — Pobre órfão! — ajuntou com decisão, satisfeito (pois queria sofrer) da dor que lhe causava o proferir tais palavras. Olhou para o filho, viu-lhe o rosto torturado, os lábios cheios e sensíveis marcados pela angústia, as faces desfiguradas pelas lágrimas que escorriam e, acima, a fronte larga, alta, aparentemente indene em sua graciosa pureza. Viu; e sentiu que mais uma dor lhe confrangia p coração.

— Meu filho querido! — disse e, dizendo-o, pensava na união mais íntima em que os poria o sofrimento comum. Verdade que, com uma criança, não era fácil a naturalidade, fácil o contacto. Mas a tristeza e as recordações comuns haveriam naturalmente... E apertou dentro da sua, a mão pequenina do filho.

Estavam à porta da igreja. O poço desmanchou-se.

— É como se estivéssemos no Tibet, — pensou consigo o tio James quando teve que tirar o chapéu. — Por que não tirar também as botinas?

No interior da igreja havia uma escuridão denunciadora de coisas antigas, cheirando a séculos de piedade rústica. Anthony sorveu por duas vezes esse bafio adulçorado e sentiu que o diafragma se lhe contraía num espasmo de náusea. Já o temor e o abatimento lhe haviam dado a sensação de estar engolindo o próprio coração; e agora esse cheiro, esse cheiro nauseabundo a anunciar que o local se achava empestado de germes... — Empestado de germes! — Ouvia de novo a voz dela — essa voz que sempre se alterava quando ela falava em germes, voz que se tornava diferente, como se estivesse falando outra pessoa. Nas ocasiões comuns, quando não estava zangada, a voz lhe soava tão mole e, de certo modo, lânguida — a languidez de um riso, a languidez de um cansaço. Mas o pavor dos germes tornava-lhe a voz quase selvagem. — Que nunca deixasse de cuspir quando sentisse mau cheiro, — ela lhe tinha dito. — Que podia haver germes de tifo no ar. — Recordando essas palavras, esses conselhos maternos, sentiu a boca encher-se de saliva. Mas como podia cuspir ali, na igreja? Não havia remédio, senão engolir o cuspo. E engoliu-o com um arrepio de medo e de náusea. E se adoecesse nesse fétido local? A apreensão fê-lo sentir-se ainda pior. E como devia a gente comportar-se durante o ofício fúnebre? Até então nunca tinha assistido a essas cerimônias.

James Beavis consultou o relógio. Daí a três minutos começariam as mágicas. Por que não tinha John preferido uma cerimônia sem pompa? Como se a pobre da Maisie desse importância a essas coisas. Uma tolinha, sim, mas nunca uma beata; sua tolice não era a tolice da religião, mas a simples tolice leiga da frivolidade feminina. Essa tolice de ler romances no sofá, alternando-se com a tolice dos chás, dos piqueniques e dos bailes. O incrível era que John tivesse suportado toda essa bobagem, que tivesse mesmo, ao que parecia, gostado de tudo isso! Mulheres cacarejando como galinhas em torno de uma mesa de chá. James Beavis fechou-se todo numa carranca de desprezo e irritação. As mulheres aborreciam-no — enjoavam-no. Todas aquelas saliências sinuosas, ondulantes e moles dos seus corpos. Coisa horrível. E a estupidez, a vacuidade mental. Mas, em todo caso, a pobre Maisie nunca fora uma carola, nunca andara atrás de padres. Esses terríveis parentes dela, esses, sim. Havia deãos na família — deãos e deãs. John, naturalmente, não tinha querido ofendê-los. Fraqueza. Em questões de princípios, era preciso ofender. Devia-se ofender.

Ouviu-se o órgão. Pela porta aberta entrou um pequeno cortejo de sobrepelizes. Alguns homens traziam qualquer coisa de parecido com um montão de flores. Ouviu-se um canto. Seguiu-se um silêncio. E depois, com uma voz extraordinária, o padre começou: — Ergue-se Cristo do seio dos mortos; — foi prosseguindo, sempre a falar de Deus e da morte e dos animais de Êfeso e da matéria. Anthony, porém, mal ouvia, pois não podia pensar senão naqueles germes que ainda ali estavam a despeito do cheiro das flores, e na saliva que continuava enchendo-lhe a boca e que ele tinha que engolir apesar do tifo e da gripe e naquele horrível mal-estar no estômago. Quanto tempo duraria tudo aquilo?

— Parece um bode berrando, — disse James Beavis consigo, ao escutar a voz que vinha da estante do coro.

Depois tornou a olhar para o jovem genro dos Champernownes. Anderton, Abdy...? Que belo perfil, clássico!

Sentado, cabisbaixo e cobrindo cem a mão os olhos, seu irmão pensava nas cinzas que estavam dentro da caixinha, ali, debaixo, das flores — as cinzas que tinham sido o corpo dela. Estava afinal terminado o ofício fúnebre. — Graças a Deus! — pensou consigo Anthony, cuspindo sorrateiramente no lenço, que dobrou e guardou no bolso com germes e tudo. — Graças a Deus! — Tinha conseguido não enjoar. Foi acompanhando o pai até à porta e quando, com mais alguns passos, se viu fora daquela penumbra crepuscular, foi com uma espécie de êxtase que respirou o ar puro. Ainda havia sol. Olhou em volta e para o céu pálido em cima. Lá no alto, na torre da igreja, uma gritaria de gralhas lembrava o barulho de uma pedra esgueirando-se sobre uma água congelada e produzindo, ao sulcar o gelo, um tintinar prolongado.

— Não atire pedras no gelo, Anthony, — gritara-lhe um dia sua mãe. — Elas ficam agarradas nele e depois os patinadores...

Recordava-se de a ter visto tanta vez patinando no gelo, de como certa vez ela se aproximara dele, fazendo curvas e ziguezagues e deslizando depois em linha reta, como uma gaivota; toda de branco; bela. E agora... De novo se lhe encheram os olhos de água. Mas por que, por que insistira com ele, aquela vez, para que também patinasse?

— Não quero, não. — ele lhe respondera. E, perguntando-lhe ela por que, não soubera explicar. Tinha medo, de certo, de que se rissem dele. Não queria expor-se ao ridículo. Mas como lhe havia de dizer isso. Acabara chorando — na presença de todos. Não poderia ter sido pior. Tivera-lhe quase ódio, naquela manhã. E agora ela estava morta e ali em cima as gralhas estavam atirando pedras sobre o gelo do último inverno.

Estavam, agora, à beira do túmulo. Mais uma vez Mr. Beavis apertou a mão do filho. Procurava preparar-lhe o espírito para esses últimos e dolorosíssimos momentos.

— Coragem, meu filho, — sussurrou. Exortação que tanto servia ao filho, como a ele próprio.

Debruçando-se, Anthony espiou para dentro da cova. Pareceu-lhe de uma profundidade extraordinária. Teve um estremeção, fechou os olhos; e a viu imediatamente ali, deslizando em direção a ele, branca, como uma gaivota, e branca ainda em sua "toilette" de cetim quando lhe veio dar boa-noite antes de sair para um jantar, com aquele perfume que lhe sentiu quando junto à cama se inclinou sobre ele e aquela frescura de seus braços nus.

— Você parece gato, — costumava ela dizer quando ele esfregava o rosto nos seus braços. — Porque não ronrona também como o gato?

— Em todo caso, — estava pensando com satisfação o tio James, — o John ficou firme, quanto à cremação. — Os cristãos haviam sido derrotados. Ressurreição do corpo, com efeito! No ano de 1902 da nossa Era!

Quando chegasse a sua vez, pensava agora John Beavis, era ali que seria enterrado. Ali, naquela cova mesma. Suas cinzas junto das dela.

De novo se fazia ouvir aquela voz estranha do padre: — Sabeis, Senhor, o segredo dos nossos corações... — Anthony abriu os olhos. Dois homens arreavam para o fundo da cova a pequena urna de terracota, quase do tamanho de uma lata de biscoito. A urna tocou o fundo e as cordas foram içadas.

— À terra, a terra, — soava, como um balido, a voz caprina. — ao pó, o pó.

— As suas cinzas, minhas cinzas, — completava John Beavis. — Misturados.

E repentinamente lembrou-se daquela vez em Roma, um ano depois de casados; daquelas noites de junho, com os pirilampos sob as árvores, nos Jardins Doria, como estrelas que houvessem enlouquecido.

— Que há de transformar o nosso corpo vil, para identificá-lo com o corpo glorioso dele...

— Vil, vil? — saiu-lhe, como um protesto, do fundo d'alma.

Caiu a primeira pá de terra, a segunda; e as outras se foram sucedendo. A urna estava quase coberta. Era tão pequenina, de uma pequenez espantosa e imprevista... A imagem daquele boi enorme, daquela diminuta xícara de chá assomou à imaginação de Anthony. Assomou obscena, recusando-se, opondo-se ao exorcismo. As gralhas gritavam de novo na torre. Qual uma gaivota, ela se precipitara, serena, em direitura dele. Serena e bela. Mas o boi ainda estava ali, ainda em sua xícara de chá, ainda ignóbil e detestável; e ainda mais ignóbil, ainda mais odioso, ele próprio se sentia.

John Beavis largou a mão que estivera segurando e, passando o braço em volta dos ombros do menino, apertou-lhe o corpinho magro contra o seu — mais e mais, até sentir na sua própria carne os soluços que o agitavam.

— Pobre criança! Pobre órfão!

 

6 de novembro de 1902

O guarda apitou e o trem, obedecendo, pôs-se em movimento. Passou Keating devagarinho; seguiu-se Branson; vieram depois Pickwick, Owl e Waverley; logo após e em sucessão acelerada — Beecham, Owbridge, Carter, Pears; passou a fábrica Humphrey's, passou Lollingdon; depois, quase a vinte milhas horárias, a Companhia Eno's; depois Pears, Pears, Pears. Pears, Pears — e de repente a plataforma e as cercas que a guarneciam mergulharam no espaço e sumiram-se, tragadas na voragem verde dos campos. Anthony reclinou-se em seu canto e suspirou, agradecido. Era, afinal, a fuga; conseguira, afinal, sair desse poço, desse abismo negro para dentro do qual o tinham empurrado, e estava livre outra vez. Era uma alegria para os seus ouvidos o barulho das rodas, que diziam assim: — Se puxarem a corrente, o trem pára de repente, quem puxar sem ser preciso, paga multa: cinco libras, CINCO LIBRAS, CINCO LIBRAS, CINCO LIBRAS ... Mas que almoço horrível tinha sido aquele no Granny!

— Trabalhar, — dizia James Beavis. — É a única coisa a fazer numa ocasião como esta.

O irmão anuiu, com a cabeça. — Sim, era a única coisa. Depois, passado um momento de hesitação, acrescentou, consciente de si, nesse bizarro jargão que ele tinha por linguagem popular: — Foi quase um "knock-out" que recebemos. A linguagem popular de John Beavis era, o.mais das vezes colhida nos livros. Aquele "knock-out" era uma metáfora tomada às lutas de boxe, às quais ele jamais assistira. — Felizmente, — continuou, — temos, no momento, muito trabalho pela frente. — Era uma alusão às suas leituras. Aludia ainda às suas colaborações no Dicionário de Oxford. Às montanhas de livros, às fichas, ao seu imenso índice de endereços, às cartas dos confrades filólogos. E o exaustivo ensaio sobre o calão dos Jacobitas. — Não se pense que vai nisso uma intenção de "tapear" com o sofrimento, — ajuntou, pondo o termo de gíria entre os equivalentes auditivos das aspas. James não devia pensar que ele pretendia afogar sua dor, sua mágoa, sua tristeza no trabalho. Pareceu tatear à procura de uma frase. — É... é a uma música sacra, que nos vamos entregar! — ejaculou, por fim.

James continuava concordando, com ligeiros movimentos de cabeça, como se de antemão já soubesse tudo quanto o irmão dissesse ou pudesse dizer. Contraíam-lhe o rosto uns tiques bruscos e involuntários. Uma impaciência nervosa minava-o, devastava-o, como que o entisicava, como que o roia até os ossos. — Exatamente, — disse, — exatamente. — E fez o último sinal de cabeça. Seguiu-se um longo silêncio.

— Amanhã, — ia pensando Anthony, — teremos álgebra com o velho Jimbug. — Desagradável, o quadro que se lhe antolhava. Ele não era forte em matemática e Mr. Jameson, mesmo nos melhores momentos, mesmo quando gracejava e brincava, era um professor formidável. — Se o Jimbug começar a me amolar, como aquela vez na semana passada... — Recordando-se da cena, Anthony franziu a testa; subiu-lhe o sangue ao rosto. Jimbug fizera-lhe umas observações sarcásticas, puxara-lhe os cabelos. Ele rompeu em prantos. (Quem não teria chorado?) Uma lágrima caíra em cima da equação que ele procurava resolver e produzira um enorme borrão redondo - Depois o bruto do Staithes a troçar com ele, a ridicularizá-lo. Felizmente Foxe tinha vindo em seu socorro. Eles riam-se, de Foxe, porque era gago, mas o fato era que Foxe era um rapaz muito decente.

Em Waterloo, Anthony e o pai tomaram um "hansom". O tio James preferiu ir a pé. Posso levar onze minutos daqui até ao Clube, — disse-lhes. Levou a mão ao bolso do colete. Consultou o relógio; depois voltou as costas e, sem dizer mais nada, foi descendo a passos largos a ladeira.

— Euston! — gritou John Beavis para o cocheiro.

Marchando cauteloso sobre a ladeira lisa, o cavalo foi seguindo. O carro arfava, como um navio. Anthony ia murmurando inaudivelmente o "Washington Post." Sentia sempre um prazer extraordinário em viajar num "hansom". No sopé do morro o cocheiro chicoteou o cavalo, pondo-o em trote. A certa altura sentiram um cheiro de cerveja; depois, um cheiro de peixe frito. Leram, mais adiante, sobre uma flâmula, "Goodbye, Dolly Gray" e entraram aos boléus pela Estrada de Waterloo Bridge. O movimento comercial vibrava e estrugia em volta deles. Não estivesse seu pai ali e Anthony teria cantado em voz alta.

O fim da tarde deixava ver ainda certa claridade fumarenta por cima dos telhados das casas. E, quando menos se esperava, surgiu aqui o rio, o luminoso rio com as suas chalupas negras e um rebocador; no céu, como um balão, a catedral de São Paulo; enfim, a misteriosa Shot Tower.

Da ponte, um homem atirava pão às gaivotas. Perdendo-se na bruma, quase invisíveis, elas deslizavam pelo ar; voltavam-se, avançando as asas cinzentas, cedendo ao impulso adquirido e, de súbito, emergiam na claridade, como a neve contra as franjas escuras do céu; deixavam depois, novamente, a zona iluminada do espaço e lá iam voando até se tornarem invisíveis. Anthony ficou olhando e cessou de trautear. É assim que costuma fazer uma patinadora sobre o gelo, quando vem deslizando em nossa direção...

E como se, inquietadoramente, também ele tivesse compreendido o sentido secreto dos vôos em queda abrupta daquelas aves. — Meu filho querido, — começou Mr. Beavis, rompendo um longo silêncio e apertando levemente o braço de Anthony.

— Filho querido!

Com um peso no coração, Anthony aguardava o resto da frase.

— Precisamos viver agora sempre juntos, sempre unidos, — disse Mr. Beavis.

O menino esboçou um sussurro de aquiescência.

— Bem juntos. Porque nós ambos... — hesitou; — nós ambos a amávamos.

Houve outro silêncio. — Ah, se ao menos ele parasse com isso! — Era o desejo de Anthony. Desejo vão. O pai continuou:

— Havemos de ser sempre fiéis a ela, — disse. — Nunca... nunca mais esquecê-la... Não é?

Anthony concordava, em silêncio.

— Nunca! — repetia com ênfase John Beavis. — Nunca! — E mais uma vez recitou para si mesmo os versos que naqueles últimos dias o vinham obsidiando:

 

"Até que a dor, que a doença, ou que a velhice, um dia,

Deva casar meu corpo ao pó que ele ama tanto;

E deva o espaço encher da tumba que vazia

Meu coração mantém na paz do campo-santo,

Espera lá por mim, sob a lápide fria!"

 

Depois, em voz alta e quase em tom de desafio, disse: — Ela nunca estará morta para nós. Havemos de conservá-la viva nos nossos corações... Não é, meu filho?

— Viva, sempre, para nós, — continuava o pai, — de sorte que possamos viver para ela — superiormente, nobremente, tal qual ela queria que vivêssemos. — Fez uma pausa, na iminência de um coloquialismo — essa espécie de coloquialismo que, segundo ele julgava, um colegial compreenderia e apreciaria. — Vivêssemos... bem, como dois "bons rapazes", disse por fim, constrangido - E depois, procurando improvisar um sucedâneo para o termo que usara, continuou: — Bons rapazes que são também companheiros, verdadeiros camaradas. Nós agora vamos ser camaradas, Anthony; está bem?

— Que estava bem, — fez de novo Anthony com a cabeça. Sentia-se cheio de vergonha e de embaraço. "Camaradas." Lembrava-lhe aquela história que aprendera no colégio: A Classe de Retórica na Escola de São Domingos. A gente ria, lendo-a. A gente ria-se a perder. Camaradas! E logo com quem? com seu próprio pai! Sentiu as faces lhe queimarem. Olhando pela janelinha lateral, para esconder o seu mal-estar, viu uma daquelas aves cinzentas descendo do céu, em vôo abrupto, sobre a ponte; a ave aproximou-se mais e mais; depois, inclinou-se, afastou-se para a esquerda, luziu por um momento, transfigurada, e desapareceu.

No colégio, todos se portaram convenientemente, com uma conveniência que chegava a amedrontá-lo, a isolá-lo. Reserva excessiva, na verdade. Os rapazes comportavam-se com tal prudência, tal era o receio de feri-lo, de magoá-lo nos seus sentimentos íntimos, de ofendê-lo com a expansão de sua própria e natural jovialidade, que, depois de algumas demonstrações contrafeitas de cordialidade, o deixaram sozinho. Era quase a mesma coisa, — achou Anthony — que ser mandado para Coventry. A sua situação não teria talvez sido pior, se ele tivesse sido apanhado em flagrante de roubo ou fugindo.

Nunca, desde os primeiros dias do seu primeiro ano de colégio, se sentira tão irremediavelmente só e abandonado, como se sentiu nessa noite.

— É pena que você não tenha assistido ao "match" desta tarde. — disse Thompson quando se sentaram à mesa para cear. E era como se estivesse falando a um tio que o fosse visitar.

— Esteve bom, o jogo? — perguntou Anthony no mesmo tom de polidez constrangida.

— Esteve; bem animado. Mas eles ganharam - Três X dois. A conversa se arrastava, frouxa. Embaraçado, Thompson não via como, nem por onde continuar. Recitar a quadrinha de Butterworth, a respeito da jovem dama de Ealing? Não, não lhe era possível repetir isso; muito menos hoje, quando a mãe de Beavis...O que, então? Uma algazarra na outra extremidade da mesa veio, providencialmente, resolver o problema, dando-lhe um pretexto para pôr termo à conversa. — Que é que há? — gritou ele com exagerado interesse. — O que é? — E daí a pouco estavam todos a falar e a rir ao mesmo tempo. Separado dos demais por um abismo invisível, Anthony era apenas um ouvinte e um espectador.

— Inez! — gritou um deles para a criada. — Inez! — Inez pugnável, Inez cedível, Inescrupulosa, Inez crapulosa, — disse Mark Staithes, mas em voz baixa, de modo que ela não ouvisse: a grosseria com a criadagem era considerada em Bulstrode como crime de injúria e, por isso mesmo, tanto mais apreciada, ainda que fosse sotto voce. As gargalhadas não se fizeram, pois, esperar. O próprio Staithes, contudo, conservou-se sério. Essa impassibilidade em meio às risadas que ele mesmo provocara, proporcionava-lhe um extraordinário sentimento de força e de superioridade. Demais, isso já era urna tradição de família. Nenhum Staithes jamais sorriu, quando dizia um gracejo, lançava um epigrama ou dava uma resposta espirituosa.

Trançando o olhar em volta da mesa, Staithes percebeu que aquele "cara de bebe", que era o mísero Benger Beavis, não estava rindo com os demais, e durante um segundo encheu-se de ressentimento e de irritação contra essa criatura que se atrevia a não achar graça na sua pilhéria. O que tornava o insulto ainda mais intolerável era o fato de Benger não passar de um nulo. Futebol, ele jogava mal; cricket, idem. A única coisa que ele sabia era trabalhar. Trabalhar! E era um garoto desses que ousava ficar de cara fechada, quando ele... Depois, lembrando-se de repente de que o pobre companheiro tinha perdido a mãe, desfez a expressão de dureza do rosto e endereçou-lhe, através do espaço que os separava, um sorriso de reconhecimento e simpatia. Anthony retribuiu o sorriso e desviou em seguida o olhar, corando sob a ação de um vago mal-estar, como se fora surpreendido a cometer alguma falta. A consciência de sua própria magnanimidade e o espetáculo do embaraço em que ficou Benger restituíram a Staithes seu bom humor.

— Inez! — gritou. — Inez!

Enorme, com uma irritação crônica, Inez surgiu afinal.

— Mais conserva, Inez, faz favor.

— Mais conversa, Inez, — trocadilhou Thompson. Todos riram de novo, não pelo valor da pilhéria, que era o que havia de mais infeto, mas simplesmente porque o que todos queriam, naquele momento, era rir.

— E pão também.

— Sim. Mais broa.

— Mais broa, Inez, faz favor.

— Mais broa... Vá a gente entendê-los! — disse Inez indignada, enquanto apanhava o prato vazio de pão com manteiga. — Por que não aprendem a dizer direito o que querem? As risadas redobraram. Eles não sabiam dizer o que queriam — absolutamente não sabiam, porque dizer "broa" em lugar de "pão" já se tornara uma tradição entre os Bulstrodianos e era como que o símbolo de sua união, a marca da superioridade deles sobre todos os não iniciados.

— Mais broa e seja breve, Inez! — gritou Staithes.

— Isso! Broa breve!

— Pepino o Breve!

Os risos tornaram-se quase histéricos. Todos se lembraram daquela vez, no ano passado, quando, nas aulas de história da Europa, tinham chegado ao capítulo de Pepino o Breve. Breve! Pepino o Breve! O primeiro a descomedir-se foi Butterworth; depois, Pembroke-Jones; depois, Thompson — e, finalmente, toda a Turma II, com Staithes e todos os demais, destrambelhados. O velho Jimbug parecia uma fúria. O que tornou, então, ainda mais engraçada a coisa.

— Cambadinha de tolos! — disse Inez; e, encontrando-os ainda a rir quando voltou daí a pouco para trazer mais pão, repetiu, com o firme propósito de feri-los: — Não passam de uma cambadinha de fedelhos muito tolos! — Mas as suas palavras não conseguiram fazer-lhes mossa. Eles estavam fora do seu alcance, muito distantes, transportados no êxtase das alegrias sem causa.

Bem quisera Anthony rir também como eles; todavia, não ousou fazer mais do que sorrir, distante e comedido, como alguém que, em terra estranha e sem perceber o espírito da facécia, quer entretanto mostrar que não se opõe a que os outros se divirtam. E alguns momentos mais tarde, já com fome e tendo diante de si o prato vazio, não via como sair daquele mutismo em que inesperadamente, se fechara. Porque pedir mais "broa" ou mais uma "lasca" de pão seria, para a santidade da condição de pária em que ele então se via, a um tempo uma indecência e uma intrusão — uma indecência, porque uma pessoa que foi santificada pela morte de sua própria mãe não deveria evidentemente servir-se de termos de gíria, e uma intrusão, porque um profano não tem direito de usar a linguagem especial reservada aos eleitos. Estava hesitante, sem saber se devia falar. Murmurou, por fim: — Faz favor de me passar o pão. — E ao sentir que as palavras lhe soavam horrivelmente forçadas e estúpidas, corou até à raiz dos cabelos.

Inclinando-se para o vizinho do outro lado, Thompson prosseguia na narração cochichada de uma anedota. — ... Pelo teto todo, — concluiu. E puseram-se a rir aos guinchos.

Felizmente, pois Thompson não tinha ouvido e Anthony sentiu-se com isso muito aliviado. Apesar de estar com fome, não tornou a pedir mais nada.

Houve um movimento à cabeceira da mesa; o velho Jimbug tinha-se erguido. Um barulho horrível de pés de cadeira a rasparem o assoalho parecia encher completamente a sala. Veio depois um silêncio absoluto. — Por tudo quanto nos foi dado receber... — E o vozerio irrompeu de novo, enquanto a meninada se encaminhava para a porta, batendo com os pés.

No corredor Anthony sentiu que uma mão lhe tocava o braço. — Olá, B-benger.

— Olá, Foxe. — Não disse "Olá, Cara-de-Cavalo", por causa do que ocorrera de manhã. A expressão seria tão inapropriada às circunstâncias do momento, como o termo "broa".

— T-tenho uma c-coisa para m-mostrar a você — disse Brian Foxe. E aquela cara triste, feia, mesmo, parecia iluminar-se de repente, ao sorrir para Anthony. Os outros riam-se de Foxe, porque era gago e tinha uma cara cavalar. Mas quase todos gostavam dele, apesar de ser forte nos estudos e de não ser muito forte nos jogos. Era, além disso, metido a puritano, não gostando de obscenidades; e parecia que nunca se embaraçava, nunca se via em dificuldades com os mestres. Apesar de tudo isso, porém, ele se impunha à amizade de todos, porque era o que se podia chamar um garoto digno. Dignidade, mesmo, mal aplicada, às vezes; porque, realmente, não estava direito tratar os calouros como ele os tratava — como se fossem iguais. Uns pedacinhos de gente, uns mosquitos de nove anos, muito bobos, como se fossem iguais aos rapazes de onze e de doze; imaginem! Não, Foxe não devia tratá-los daquela maneira; sobre isso não podia haver a menor dúvida. Em todo caso, todos gostavam do seu velho amigo, o Cara-de-Cavalo.

— O que é? — perguntou Anthony; e sentia-se tão grato a essas maneiras simples e naturais com que o Cara-de-Cavalo lhe falava, que havia na sua pergunta certa aspereza, com receio que o outro lhe descobrisse os sentimentos.

— Venha ver, — pretendeu dizer Brian, mas não pôde ir além de um simples "V-v-v-v-..." que se repetia e prolongava, na angústia da gagueira. E noutro momento, Anthony talvez tivesse rido, talvez tivesse gritado: — Olha o nosso Cara-de-Cavalo com vontade de vomitar! — Agora porém, não disse nada. Pensou apenas na triste sorte que era, para o seu pobre amigo, esse defeito. Afinal, Brian Foxe acabou renunciando à tentativa de dizer — Venha ver — e passou a esta outra frase: — Está na minha c-c-caixa de brinquedos.

Desceram, a correr, a escada e dirigiram-se para o saguão escuro onde estavam guardadas as caixas de brinquedos.

— V-veja! — disse Brian, levantando a tampa da caixa. Anthony espiou, e quando viu o elegante naviozinho provido de três mastros e de velas quadradas de papel. — Sim, senhor! — exclamou, — Que beleza! Você mesmo é que fez?

Brian sacudiu a cabeça. Tivera à sua disposição, naquela tarde, toda a carpintaria — toda a ferramenta de que precisava. Por isso é que tinha saído assim, tão bem feito, como se fosse obra de um profissional. Era o que ele tinha vontade de explicar a Anthony, afim de dividir com ele o prazer que tivera na execução da obra. Nunca, porém, se esquecia de que era gago e sabia muito bem que tal prazer se evaporaria logo às primeiras dificuldades que encontrasse ao tentar articular as palavras que o haviam de exprimir. E depois, que coisa terrível de dizer, essa palavra "carpinteiro". Teve, pois, que se contentar com dizer: — L-logo mais v-vamos botá-lo n-n'água. Mas o sorriso que lhe acompanhou as palavras, ao mesmo tempo que era uma desculpa à insuficiência delas, tinha todo o valor de uma compensação.

Com cuidado, com ternura quase, Brian desmastreou o naviozinho e meteu os pauzinhos de fósforos que serviam de mastros, as velas e tudo no bolso interno da jaqueta; o casco foi para o bolso das calças. Ouviu-se um toque de campainha. Era a hora de dormir. Obediente, Brian fechou a caixinha de brinquedos. E tornaram a subir a escada.

— G-ganhei hoje mais c-cinco p-partidas com o meu c-competidor.

— Cinco! gritou Anthony. — Como está ficando o meu Cara-de-Cavalo!

Esquecia-se de que era um proscrito, de que era um pária na terra e ria-se a bom rir. Sentia-se num estado de verdadeira euforia. Foi somente quando começou a despir-se, no seu quarto, que tudo lhe voltou de novo à memória. E por que? por causa do pó de dentes.

— Duas vezes por dia, — pareceu-lhe, ouvi-la dizer, quando calcou a escova molhada sobre o pó cor-de-rosa e cheirando a ácido fênico. — E sempre que for possível, também depois do almoço. Por causa dos germes.

— Mas, mamãe, você não pode querer que depois do almoço eu suba ao dormitório para escovar os dentes!

Era a vaidade ferida (pensava ela que os seus dentes estavam assim tão sujos?) era a vaidade que o tornava rude. Achava uma desculpa retrospectiva na reflexão de que era contra o regulamento do colégio subir ao dormitório durante o dia.

Do outro lado do tabique de madeira que separava o seu cubículo do de Anthony, Brian Foxe enfiava o seu pijama. Primeiro, a perna esquerda; depois, a direita. E justamente quando as puxava, para cima, assaltou-o subitamente esta idéia, idéia tão terrível que quase o fez gritar: — Se minha mãe morresse? — Ela, também, podia morrer. Se a mãe de Beavis tinha morrido, sem dúvida que também ela podia. E de repente, viu-a em casa, deitada na cama. Horrivelmente pálida. E a agonia, aquele estertor da morte, que ele já conhecia de ter lido nos livros, ouvia-o ele agora, distintamente; era como o ruído de uma dessas grandes matracas de madeira, com que se espantam os pássaros; forte e incessante, como o ruído produzido por uma máquina. Impossível, a um ser humano, produzir tal ruído. E, contudo, saía-lhe da boca. Era o estertor. Era o ronco da morte. Ela estava morrendo.

Com as calças ainda por suspender, ainda a meia altura das coxas, ali estava Brian de pá, os olhos cheios de lágrimas, o olhar fixo na divisão de madeira castanha envernizada, que lhe estava em frente. Era o que podia haver de mais terrível. O caixão; depois, a casa vazia; depois, quando ele fosse dormir, ninguém que lhe viesse dar boa-noite.

Súbito, saindo, com um arranco, daquela imobilidade, suspendeu as calças e amarrou com certa violência o cordão da cinta.

— Mas quem disse que ela está morta! — disse consigo. — Não está, não!

Dois quartos adiante, Thompson soltou um daqueles traques altos e extraordinariamente prolongados, que o tornavam famoso no Bulstrode. Houve aclamações, um verdadeiro coro de gargalhadas. O próprio Brian riu — Brian, que geralmente se recusava a admitir que houvesse nessa espécie de ruído qualquer coisa de engraçado. Mas era tal o alívio, tal o contentamento que ele experimentava nesse momento, que qualquer coisa serviria para fazê-lo rir. Ela ainda estava viva! E se bem que, por certo, ela não teria gostado de saber que o filho se divertia com coisa tão baixa, ele não podia, contudo, deixar de dar expansão à alegria agradecida de que se sentia cheio. E deu uma gargalhada estrondosa, demorada, como se estivesse rinchando. De repente parou, ex-abrupto. Lembrara-se de Beavis. A mãe dele, esta, estava realmente morta. Que devia ele estar pensando? Brian sentiu vergonha de ter rido; de ter rido por um tal motivo.

Mais tarde, quando apagaram a luz, ele trepou no ferro da cabeceira da cama e, espiando por cima do biombo para dentro do quarto de Anthony, sussurrou: — V-vamos exp-perimentar o novo b-b-b... o novo na-navio?

Anthony saltou fora da cama e, como a noite estivesse fria, vestiu um robe-de-chambre e calçou os chinelos; depois sem fazer barulho, trepou na cadeira; e da cadeira (afastando a longa cortina de sarja) passou para o peitoril da janela. A cortina, solta, voltou a envolvê-lo pelas costas, fechando-o no vão.

Era uma janela alta e estreita, dividida por um lintel em duas partes. A parte inferior e maior constava de um par de guilhotinas; a vidraça menor e superior tinha os gonzos em cima e abria para fora. Quando as guilhotinas estavam cerradas, a mais baixa formava uma beirada estreita, a meia altura da janela. Em pé sobre esta beirada, um menino podia passar a cabeça e os ombros pela pequena abertura quadrangular que ficava acima. Cada janela, ou melhor, cada par de janelas abria-se numa empena, de sorte que quem inclinasse o corpo para fora, descobria de cada lado uma rampa íngreme de telhas e, logo em frente, no mesmo nível do lintel, a comprida calha pela qual se escoava a água do telhado.

A calha! Foi Brian quem descobrira todo o potencial de recursos que ela lhes oferecia. Um torrão de terra entumecendo o bolso e levado às escondidas para o dormitório, um punhado de pedras — e tinha-se um dique. Uma vez construído o dique, fazia-se uma coleta de tudo quanto era jarro d'água no dormitório, os quais jarros eram içados, um por um, para o telhado e a sua água derramada na calha. Evidente, que na manhã seguinte ninguém se lavaria; mas que importava isso? Um comprido braço de mar estendia-se noite a dentro. Um barco flutuaria, a sua quilha pontiaguda singraria as águas e o ilimitado daqueles cinqüenta pés de superfície líquida convidavam ao sonho, eram um incentivo à imaginação. Todo o perigo estava na chuva. Se chovesse forte, alguém teria, fosse como fosse, que se arrastar até lá em cima e romper o dique, fosse qual fosse o risco. Do contrário, a calha transbordaria; e um transbordamento significava, no caso, uma série de investigações embaraçosas e de aborrecidos castigos.

Empoleirados lá em cima, entre o vidro frio e a sarja áspera e felpuda das cortinas, Brian e Anthony debruçavam-se das janelas contíguas para a escuridão, separados apenas por uma simples divisão de tijolos. Podiam, assim, conversar baixinho.

— Vamos, Cara-de-Cavalo, — mandou Anthony, — Pode soprar!

E como o Zéfiro alegórico de um quadro, o Cara-de-Cavalo soprou. Impelido pela vela de papel, o barco lá foi deslizando por sobre o tênue fio d'água.

— Bonito! — disse Anthony, encantado; e abaixando-se até ter a face quase roçando n'água, olhou com um olho semicerrado e propositadamente desfocado, até que, milagrosamente, o barco que se aproximava foi transformado num enorme navio de três mastros, navio-fantasma, que vinha de longe avançando para ele, silenciosamente, através da escuridão. Um navio formidável — um navio de guerra — um cento e dez canhões — sob uma nuvem de velas — um navio de North-East Trades velejando firme — navegando com uma velocidade de dez nós — com oito sinos badalando... Ergueu-se de um salto quando o mastro da mezena lhe bateu no nariz. E foi o bastante para que a realidade ressurgisse.

— Parece mesmo um navio de verdade, — disse ele a Brian, enquanto ajudava o barquinho a fazer a volta na calha. — Quer ver? Abaixa a cabeça e olha vesgo. Eu vou soprar.

Mais uma vez o majestoso navio de três mastros vinha voltando lentamente.

— Parece o T-t-t... Você conhece, aquele quadro.

Anthony fez, com a cabeça, que conhecia; jamais se conformava com a ignorância.

— T-temerário, — desembuchou por fim o outro.

— Já sei, já sei, — disse Anthony com certa impaciência, como se fosse coisa que ele soubesse desde muito. Abaixando outra vez a cabeça, procurou novamente gozar a visão daquele imenso navio de cento e dez toneladas diante do North-East Trades; mas falhou; o barquinho negava-se a ser transfigurado. De qualquer modo, era um bonito navio. — Uma beleza, — exclamou.

— O defeito, é que está um pouquinho tombado, — disse Brian, depreciando modestamente o seu trabalho.

— Pois eu acho que assim mesmo é que deve ser, — tranqüilizou-o Anthony. — Assim, parece que ele está adernando por causa do vento. — Adernando: — sentiu um prazer estranho em pronunciar a palavra. Nunca a tinha proferido antes; somente nos livros é que a tinha visto. Que palavra bonita! E arranjando um pretexto para repeti-la, disse ainda: — Espia só como ele aderna, quando o vento sopra forte.

Soprou; o barquinho quase que virou. Dizia, então, consigo: o furacão bateu em cheio nos vaus de estibordo... arrancou os joanetes da proa e as forquetas... furou o único barco que temos... ele adernou tanto, que a amurada chegou a tocar na água... — Mas era coisa que cansava muito, continuar soprando assim, com tanta força. Levantou os olhos da calha de escoamento e passeou-os pelo céu; ficou todo ouvidos para o silêncio reinante. O ar estava parado como jamais o vira; a noite, quase sem nuvens. E que estrelas! Lá estava Órion, com os pés a emaranharem-se nos ramos do carvalho. E Sírius. E todas as outras, cujos nomes ele não sabia. Milhares, milhões delas.

— Puxa! — sussurrou afinal.

— Para que s-supõe você que elas s-servem? — perguntou Brian, depois de um longo silêncio.

— O que? As estrelas?

Brian confirmou por um gesto.

Recordando-se de coisas que o tio James lhe dissera, Anthony respondeu: — Não servem para coisa alguma.

— T-têm que servir, — objetou Brian.

— Por que?

— Porque t-tudo s-serve para alg-guma coisa.

— Não creio nisso, não.

— B-basta v-você pensar nas ab-belhas, — disse Brian com certa dificuldade.

Anthony ficou abalado. Tinham tido algumas aulas de botânica dadas pelo velho Bumface, com desenhos de pistilos c outras coisas. As abelhas? Sim, era claro que tinham a sua utilidade. Quisera poder lembrar-se exatamente do que lhe tinha dito o tio James. Os mistérios formidáveis da natureza. Mas formidáveis, por que?

— E as mom-montanhas, — continuava Brian, penosamente. — Se não f-fôssem as mom-montanhas, não ch-chovia, quando f-fôsse preciso.

— Pois então, diga lá para que é que elas servem, — disse Anthony, indicando as estréias com o queixo.

— T-talvez sejam hab-bitadas.

— Ah, isso, não! Só Marte é que é. — A certeza de Anthony era dogmática.

Calaram-se. Depois, decidido, como se tivesse tomado a resolução de achar, fosse como fosse, uma explicação para o caso, Brian disse: — Às vezes, eu fico imaginando: quem s-sabe se elas não v-vivem como a gente? — Olhou ansioso para o companheiro: Benger iria rir-se dele? Mas Anthony, com o olhar fixo nas estrelas, nem de longe parecia, quer pela voz, quer pelo gesto, zombar do amigo; apenas sacudiu a cabeça, muito sério, concordando. A ideiazinha secreta, desamparada e tímida de Brian continuava indene, não fora ferida pelo ridículo. Seu sentimento de gratidão foi profundo; e, de repente, sentiu uma coisa esquisita, qualquer coisa como uma onda, que lhe subia pelo corpo todo. Sentia-se quase sufocado por essa violenta invasão de amizade e de dolorosa simpatia pelo pobre Benger (Oh, se em vez de ser a dele, fosse minha mãe!) Sentiu um aperto na garganta e as lágrimas lhe subiram aos olhos. Teve vontade de estender o braço e segurar a mão de Benger; mas isso, naturalmente, não ficava bem.

Anthony continuava, entretanto, contemplando Sírius. — Viva, — repetia para si. — Viva. — Como um coração palpitando no céu, e cintilando a cada palpitação. Veio-lhe então à lembrança aquele filhote de passarinho que tinha achado durante as suas férias na última Páscoa. Estava no chão e ainda não sabia voar. A mãe caçoara dele, porque não queria apanhar o bichinho. Dos animais grandes ele gostava, mas, não sabia por que, tinha horror de tocar em qualquer bichinho vivo. Finalmente, procurando vencer o horror, apanhara-o. Estendido sobre a palma de sua mão, parecera-lhe um coração envolto em penas, um punhado de sangue quente e palpitante, cujas pulsações ele sentia na palma e nos dedos. E era assim, era justamente um coração como esse, que Sírius se lhe afigurava lá no céu, acima das franjas das árvores. Viva. O tio James, porém, de certo que havia de rir.

Sentindo o ridículo dessa fantasia, e envergonhado de ter sido levado a tal infantilidade, deixou de olhar as estrelas e perguntou, irritado: — Como é que elas podem estar vivas?

Brian assustou-se. — Por que é que ele está zangado? — perguntou-se. Depois, em voz alta, começou: — Porque, se D-deus vive...

— Pois o meu pai não vai à igreja, — objetou Anthony.

— Não vai, m-mas... — Por pouco que quisesse falar, não pôde ir adiante. Nem pôde Anthony esperar e atalhou: — Ele não acredita nessas coisas.

— Mas o qu-que importa é Deus; n-não é a i-i-igreja. — Ah, se não fosse essa horrível gagueira! Como poderia explicar tudo tão bem; como poderia dizer todas aquelas coisas que sua mãe lhe dissera! Fosse, porém, como fosse, o importante, no momento, não eram, tão pouco, as coisas que ela tinha dito. A questão não estará em falar; a questão estava em sentir, em interessar-se pelas pessoas, até ao sofrimento.

— E meu tio, sabe? — disse Anthony, — nem mesmo em Deus ele crê. E eu, também, não, — acrescentou, para provocar.

Mas Brian não aceitou o desafio. — O-olha, B-b-b-... — começou, com ardor. E a intensidade mesma desse ardor o tornava cada vez mais gago. — B-benger, — conseguiu, afinal, dizer. Era uma verdadeira tortura sentir toda aquela onda de sentimento barrada assim e desviada de seu curso. Resistindo, porém, ao grotesco e absurdo obstáculo ao seu avanço, a onda subia, parecia encher-se de novas forças e tornou-se por fim tão forte dentro dele, que, esquecendo-se inteiramente de que não o devia fazer, Brian depôs subitamente a mão sobre o braço de Anthony. Seus dedos correram manga abaixo e depois se fecharam em volta do punho nu; e então, toda vez que a sua gagueira se interpunha entre o seu sentimento e o objeto desse sentimento, ele apertava esse punho com um gesto convulso de quase desespero.

— Eu fiquei t-t-tão triste, por causa de s-s-sua mãe, — prosseguiu. — Eu não qu-qu-quis dizer antes. N-na f-frente dos outros. S-sabe? Eu estava p-p-p-... — Apertou mais o punho de Anthony. Era como se procurasse suprir a deficiência de suas palavras estranguladas, pela eloqüência do tato; como se procurasse persuadir o outro de que aquela onda que sentia dentro de si continuava em toda sua força, continuava indômita, apesar da barreira provisória que se lhe opunha. Recomeçou a frase, com ímpeto suficiente para vencer o obstáculo: — Eu estava p-pensando agora m-mesmo, que p-podia ter sido minha mãe. Ah, Beavis, d-deve ser horrível!

Surpreso, Anthony olhara para ele, a princípio, com uma expressão de suspeita, quase de medo. Mas, à medida que o outro continuava tartamudeando, sua resistência foi cedendo, até que, sem se sentir envergonhado do que fazia, começou a chorar. Mas equilibradas no alto vão das janelas, as duas crianças ali ficaram, por muito tempo, em silêncio. Ambas tinham as faces frias das lágrimas; mas, no punho de Anthony, a pressão daquela mão consoladora tinha a violência obstinada da de um náufrago que se procurasse salvar.

Inesperadamente, com um leve farfalhar de folhas secas, uma rajada veio avançando da escuridão e avolumando-se. O barquinho de três mastros estremeceu, como que assustado, como se o tivessem arrancado de um sono; e silenciosamente, com um ar de quem tem pressa de chegar, pôs-se a deslizar, em marcha a ré, ao longo da calha.

 

Os criados já se haviam recolhido. Silêncio absoluto em toda a casa. Devagar, no escuro, John Beavis deixou seu gabinete e foi subindo a escada, degrau a degrau; venceu o primeiro lanço, passou pelo mezanino, passou pela sala de visitas, e continuou subindo para o segundo andar. Fora, na rua deserta, um ruído de cascos de cavalos aproximou-se e depois se afastou. E o silêncio novamente o envolveu — o silêncio de sua solidão, o silêncio (estremeceu) do túmulo dela.

Parou, escutando durante longos segundos, bater o coração; depois, resoluto, venceu os dois últimos degraus, deu alguns passos no escuro e, abrindo a porta, voltou-se para a luz. No espelho da "toilette", viu sua própria imagem, a encará-lo, pálida. Tudo estava no seu lugar de costume: as escovas de prata, os pratinhos, os porta-alfinetes, aquela fileira de frascos de cristal. Olhou para outro ponto. O edredon cor-de-rosa tinha uma de suas pontas voltada; viu os dois travesseiros bem juntinhos e, acima deles, na parede, aquela fotogravura da Madona da Capela Sixtina, a qual tinham comprado juntos numa loja próxima do Museu Britânico. Voltando-se, tornou a ver-se, de corpo inteiro, funebremente negro, no espelho do guarda-roupas. O guarda-roupas ... Atravessou o quarto e deu volta à chave na fechadura. A pesada porta de vidro abriu por si mesma, e ei-lo, de chofre, a respirar o ar mesmo da presença dela, o fraco aroma de raiz de lírio, avivado, por assim dizer, secretamente, por algum perfume mais forte e mais quente. Ficou a olhar-lhe, um por um, os vestidos — um cinzento, um branco, um verde, um rosa-pálido, um preto. Era como se ela tivesse morrido dez vezes e dez vezes a tivessem pendurado ali, mole, atrozmente acéfala e, contudo, aureolada ainda, ironicamente, por aquele hálito de perfume, espécie de símbolo suave de sua vida. Estendeu a mão e tocou os vários tecidos. Assim agitados aqueles folhos pendentes, deles se desprendeu mais fortemente o perfume dela. Fechou os olhos, para ter, através da inalação desse perfume, a impressão de sua presença. O que dela restara fora, porém, queimado e as cinzas achavam-se no fundo daquela cova, no cemitério de Lollingdon.

"Espera lá por mim", articulou John Beavis, murmurante, no silêncio.

A dor fez contrair-se-lhe a garganta; as lágrimas brotaram-lhe dentre as pálpebras cerradas. Fechando a porta do guarda-roupas, afastou-se e começou a despir-se.

Foi só então que percebeu como estava cansado, como o abatia a fadiga. Foi com imenso esforço que conseguiu lavar-se. E quando se deitou, adormeceu quase imediatamente.

De manhã, quando a luz do novo dia e os ruídos que vinham da rua já haviam começado a penetrar a escuridão interna, John Beavis sonhava ainda; sonhava que ia andando pelo corredor que conduzia à sua sala de preleções no King's College. Andando, não; correndo. Pois o corredor se tornara imensamente comprido e havia uma razão qualquer, terrivelmente urgente, de chegar depressa ao fim dele, de estar lá dentro da hora. Dentro da hora, para que? Não sabia; mas, enquanto corria, sentia-se tomado de uma apreensão aflitiva, que parecia elevar-se, crescer, expandir-se dentro dele, cada vez mais intensa. E quando, afinal, abriu a porta da sala de cursos, não era absolutamente a sala de cursos, mas, sim, o seu quarto de dormir, com Maisie deitada, ofegante, o rosto a arder em febre, passando de vermelho a roxo com a aproximação horrível da asfixia e atravessado por duas riscas azuladas e lívidas, que eram os seus lábios desunidos. O quadro era tão apavorante, que ele despertou sobressaltado. A luz pálida do dia coava-se por entre as cortinas; o edredom parecia mais róseo; no espelho do guarda-vestidos havia uma réstia de luz; lá fora, o leiteiro, no seu giro matutino, passava apregoando: — Leeeite, leeeite! — Havia em tudo um ar de tranqüilizadora familiaridade, todas as coisas estavam ainda nos seus respectivos lugares. Aquilo, pois, não passara de um mau sonho. Depois, voltando a cabeça, viu que estava vazia a outra metade da sua vasta cama.

 

O som da sineta aproximava-se mais e mais, infiltrava-se pelas camadas quentes e profundas do sono, até que por fim lhe martelou sem remorso a consciência nua e tiritante. Anthony abriu os olhos. Que barulho abominável! Mas não precisava pensar em levantar-se senão daí a outros cinco minutos. Era uma bem-aventurança, aquele calor debaixo dos lençóis. Veio-lhe depois o pensamento que estragava tudo — lembrou-se de que a primeira aula que ia ter era de álgebra, com Jimbug. O coração pareceu subir-lhe à garganta. Aquelas terríveis equações do segundo grau! Jimbug viria com certeza aos berros, para cima dele. Não era justo. E começaria a chorar. Mas, em seguida, ocorreu-lhe que, provavelmente, Jimbug, dessa vez não haveria de mostrar-se tão feroz com ele... por causa — lembrou-se de repente — do que lhe acontecera na véspera. O Cara-de-Cavalo — lembrou-se ainda — tinha sido, na noite passada, de uma dignidade exemplar.

Entretanto, já era hora de se levantar. Um, dois, três, e... oh, que frio nojento! Justamente quando ia enfiando a camisa, alguém bateu muito de mansinho à porta do quarto. Mais um movimento e a cabeça surgiu fora da camisa, em plena luz. Levantou-se e foi abrir. Staithes estava parado no corredor. Sim, era Staithes, mostrando os dentes, com evidentes mostras de amabilidade; contudo... Anthony estava perturbado. Cheio de desconfiança, mas com um sorriso fingido de acolhimento, perguntou: — Que é que há? — O outro levou o dedo aos lábios e segredou: — Venha ver. Uma maravilha!

Anthony ficou lisonjeado com esse convite de quem, como "captain" do "eleven" de futebol, tinha o direito de lhe ser perfeitamente desagradável, como geralmente lhe era. Tinha medo de Staithes e não gostava dele. — e por isso mesmo sentiu-se particularmente contente de ver Staithes dar-se ao incômodo de vir procurá-lo assim, espontaneamente...

O quarto de Staithes já estava repleto. Um silêncio de conspiração fervia e borbulhava com um ardor sofreado. Thompson tivera que tapar a boca com o lenço para abafar qualquer rumor de riso e Pembroke-Jones dobrava-se todo em paroxismos de mudo contentamento. Comprimido no apertado espaço entre os pés da cama e o lavatório, Partridge estava de pé com a cara colada ao tabique. Staithes bateu-lhe no ombro. Partridge voltou-se e veio para o centro do quarto. Sua cara cheia de sardas era a expressão mesma da alegria e ele contorcia-se e agitava-se, como se sentisse a bexiga a estourar. Staithes apontou para o lugar que deixara vago e Anthony tomou posição. Eles tinham tirado um nó que havia na madeira do tabique e, pelo buraco que ficara, podia-se ver tudo o que se passava no quarto contíguo. Deitado na cama, tendo apenas sobre o corpo uma camiseta de lã e sua funda, estava Goggler Ledwidge. Tinha os lábios entreabertos e, por trás do vidro espesso dos óculos, os olhos fechados. Uma expressão de tranqüilidade, de felicidade, de serenidade, como se estivesse na igreja.

— Ainda está lá? — segredou Staithes.

Mostrando os dentes num riso silencioso, Anthony sacudiu a cabeça; em seguida, comprimiu mais os olhos contra o furo do tabique. O que lhe parecia tornar a coisa ainda mais engraçada era o fato de se tratar de Goggler — Goggler, o bobo do colégio, a vítima de todos, predestinada, por sua fraqueza e timidez, à inevitável perseguição. Isso tinha, para ele, todo o sabor da novidade.

— Vamos pregar-lhe um susto, — sugeriu Staithes; e trepou sobre a cabeceira da cama.

Partridge, que jogava como "center-forward" do primeiro "eleven", fez menção de acompanhá-lo. Mas foi para Anthony, que Staithes se voltou inesperadamente. — Venha cá, ó Beavis, — sussurrou. — Venha cá para cima, comigo. — Queria mostrar certa atenção com o pobre colega — por lhe ter morrido a mãe. Além disso, sentia prazer em ter uma oportunidade de humilhar aquele pateta do Partridge.

Anthony aceitou com uma alacridade quase objeta o lisonjeiro convite e trepou ao lado dele. Os outros encarapitaram-se, mal equilibrados, sobre o pé da cama. A um sinal de Staithes, todos se empertigaram e, olhando por cima do tabique, romperam numa vaia.

Arrancado assim, brutalmente, do pequeno Éden de enemas e movimentos vibratórios em que porcamente se deliciava (não havia, por enquanto, no Éden habitantes femininos), Goggler não pôde conter um grito de susto; abriu uns olhos cheios de terror; ficou pálido um instante e, em seguida, corou. Puxava, com as duas mãos, a camiseta, mas esta era curta demais para cobrir-lhe a nudez, ou, sequer, a funda. Curta até ao absurdo, como se fosse uma camiseta de bebê. (Que ia ver se ela podia servir para esse ano ainda, que essas roupas de lã custavam tão caro, — tinha-lhe dito a mãe, cujos sacrifícios para conseguir mandá-lo para o Bulstrode haviam sido enormes.)

— Força, força! — Staithes gritava-lhe com sarcasmo, encorajando-o nos seus esforços.

— Por que é que Henrique VIII não queria deixar Ana Bolena entrar no seu galinheiro? — disse Thompson. Todos sabiam a resposta, sem dúvida. E a gargalhada foi geral.

Staithes ergueu um dos pés, tirou o chinelo de sola de couro, fez pontaria e arremessou-o. O chinelo bateu numa das bochechas de Goggler, que, soltando um grito de dor e saltando fora da cama, ficou em pé, com os ombros erguidos e a cabeça guardada por um braço descarnado, enquanto fitava naquelas caras zombeteiras os olhos marejados de lágrimas.

— Atirem também os seus! — gritou Staithes para os outros. Depois, ao ver quem acabava de aparecer na soleira da porta do seu quarto, disse, enquanto tirava o outro chinelo: — Olá, Cara-de-Cavalo! Venha atirar também! — Levantou o braço. Antes, porém, que pudesse arremessar o chinelo, já o Cara-de-Cavalo tinha pulado para cima da cama e lhe segurava o pulso.

— Não, não faça isso!— disse. — Não faça isso. — E agarrou também o braço de Thompson. Por cima do ombro de Staithes, Anthony lançou o seu chinelo com toda a força que pôde. Goggler abaixou-se e o chinelo foi bater no tabique oposto.

— B-beavis! — gritou o Cara-de-Cavalo. E era tal o tom de censura, que Anthony sentiu de repente a vergonha cruciá-lo.

— Não bateu nele, — disse para desculpar-se; e sem saber bem porque, lembrou-se daquela cova horrível e funda do cemitério de Lollingdon.

Mas já Staithes tinha achado o que dizer: — Eu creio que você não sabe bem o que está fazendo, ó Cara-de-Cavalo, — disse, zangado e arrancando o chinelo da mão de Brian. — É melhor que vá cuidar de sua vida.

— Isso não é justo, — replicou Brian.

— Que não é justo, o quê!

— C-cinco contra um.

— Mas você lá sabe o que ele estava fazendo?

— Nem quero s-s-s-... não importa.

— Havia de importar, se você soubesse, — disse Staithes; e passou a contar-lhe, na linguagem mais obscena de que era capaz, o que estivera fazendo Goggler.

Brian baixou os olhos e num instante as faces se lhe tornaram cor de lacre. Ter que ouvir obscenidades — era coisa que o entristecia e ao mesmo tempo o envergonhava.

— Olha o Cara-de-Cavalo ficando vermelho! — exclamou Partridge; e começaram todos a rir e nenhum com mais zombaria do que Anthony. Porque Anthony tivera tempo de se envergonhar da própria vergonha, tempo de não pensar mais na cova do cemitério de Lollingdon, tempo, enfim, de passar, como que por encanto, a odiar o Cara-de-Cavalo — por ser um tipo metido a puritano, — teria dito, se alguém lhe tivesse pedido explicação do seu ódio. Mas o verdadeiro motivo era mais profundo, mais obscuro. Se ele odiava o Cara-de-Cavalo, era porque o Cara-de-Cavalo era de uma dignidade extraordinária; era porque o Cara-de-Cavalo tinha a coragem das convicções que Anthony sentia deverem ser também as convicções dele, Anthony — convicções que seriam realmente suas, se ele pudesse ao menos ter a coragem de as ter. Era justamente porque ele gostava tanto do Cara-de-Cavalo, que ele agora o odiava. Ou, melhor: porque havia tantos motivos para gostar do Cara-de-Cavalo e tão poucos motivos para este retribuir-lhe a amizade. O Cara-de-Cavalo era dotado de todas as espécies de boas qualidades que, ou lhe faltavam completamente a ele, ou, o que era pior, ele possuía, mas, de qualquer modo, era incapaz de manifestar. Aquela risada escarninha era a expressão de uma espécie de invejoso ressentimento contra uma superioridade que ele amava e admirava. Realmente, a amizade e a admiração produziam de algum modo o ressentimento e a inveja — produzia-os, mas conservava-os como que abaixo da superfície, num estado de inação provisória e expectante, estado de que entretanto seriam arrancados subitamente por uma crise como a do presente momento.

— Eu só queria que você o visse, — concluiu Staithes. E já agora, que se sentia mais bem humorado, ele ria — dignava-se de rir.

— Que o visse com aquela funda, — acrescentou Anthony em tom de desprezo e de nojo. A hérnia de Goggler constituía uma agravação da ofensa.

— Isso mesmo. Com aquela funda abjeta, — confirmou e aprovou Staithes. Não havia dúvida nenhuma; combinada, assim, com os óculos e a timidez, a funda tornava a descarga de chinelos não semente inevitável, mas até justa, um dever moral.

— Ele é nojento, — continuou Anthony, deixando-se prazerosamente levar por sua justa indignação.

Pela primeira vez desde que Staithes começara sua descrição das atividades de Goggler, Brian ergueu os olhos. — M-mas p-por que é ele mais noj-jento do que os outros? — perguntou em voz baixa. — Af-final de-de contas, — continuou, ao passo que o sangue lhe subia novamente ao rosto, — ele não é o-o u-único.

Houve um momento de silêncio, em que o mal-estar era visível. Naturalmente que ele não era o único. Mas o único que tinha uma funda e óculos e uma camiseta, assim, tão curtinha, isso ele era — estavam todos pensando; o único que fazia aquilo em plena luz do dia e se deixava apanhar em flagrante, Havia, portanto, uma diferença.

Staithes contra-atacou noutro sector. — Bonito sermão do Reverendo Cara-de-Cavalo! — disse com escárnio e reconquistou logo a iniciativa, a sua posição de superioridade. — Epa! — acrescentou noutro tom, — já é tarde. Temos que nos aprontar.

 

2 de abril de 1903

EM Paddington, Mr. Beavis e Anthony entraram num compartimento vazio de terceira classe e aguardaram a partida do trem. Para Anthony, uma viagem de trem ainda era uma coisa imensamente importante, tinha ainda qualquer coisa de sacramental. A alma masculina, quando ainda imatura, é naturaliter ferrovialis. Esse enorme e divino monstro divino verde, por exemplo, que vinha agora entrando na estação e parou junto à plataforma N.° 1 — se não fossem Watt e Stevenson, jamais ele teria entrado, assim, majestoso, em sua catedral metropolitana e de vidros fuliginosos. Mas a intensidade do gozo que Anthony sentia ao ver aproximar-se a criatura divina, ao respirar-lhe o fedor de fumaça e de óleo quente, ao ouvir e quase inconscientemente imitar o tch-ff, tch-ff, tch-ff ofegante de suas baforadas de vapor, era uma prova suficiente de que o coração infantil devia ter sido misteriosamente preparado para o advento de Puffing Billy e da "Foguete", de que a locomotiva real devia, ao surgir, ter correspondido (e com que exatidão!) à margem vaga e profética de, uma locomotiva, preexistente no espírito das crianças desde o começo da era paleolítica. Tch-ff, tch-ff; em seguida, um silêncio; depois, o rugido terrível e aniquilante, produzido pelo escapamento do vapor. Uma maravilha! Uma beleza!

Enchapeladas, de preto, como um par de Rainhas Vitórias, duas velhinhas gordas iam passando, devagar, procurando um compartimento onde pudessem conversar e não fossem obrigadas a ouvir inconveniências de linguagem. Mr. Beavis tinha, realmente, um ar respeitável. Elas estacaram, consultaram-se entre si; mas Anthony, debruçando-se na janela, fez-lhes tal careta, que elas se puseram de novo em marcha. Ele sorriu triunfante. Conservar o compartimento para si só, como um compartimento reservado, era um dos objetos da sagrada arte de viajar, era o equivalente, mais ou menos, de um casamento real no jogo do bezigue; marcavam-se quarenta pontos, por assim dizer, toda vez que se saía de uma estação sem ter no carro um estranho. Almoçar no carro-restaurante valia uma seqüência — duzentos e cinqüenta pontos. Um bezigue duplo — mas esse, por enquanto, Anthony jamais tinha marcado — correspondia a "slip carriage".

O guarda apitou e o trem começou a mover-se.

— Hurrah! — exclamou Anthony.

O jogo começara bem: um casamento real logo na primeira vaza. Mas alguns minutos mais tarde já ele estava lamentando a falta daquelas duas velhas. Porque, despertando subitamente do silêncio em que, abstrato, mergulhara, John Beavis curvou-se e, tocando no joelho do filho, perguntou-lhe num tom de meia-voz que era, para Anthony, inexplicavelmente significativo: — lembra-se que dia do mês é hoje?

Anthony olhou para ele cheio de dúvida e depois entrou a representar, com visível exagero, o papel de um calculista que franze a testa diante de um problema difícil. Notara no pai qualquer coisa que parecia tornar inevitável esse exagero.

— Deixe ver, — disse sem naturalidade; — entramos em férias no dia trinta e um — ou foi no dia trinta? Era um sábado; e hoje é segunda-feira...

— Hoje é dia dois, — disse o pai com a mesma voz baixa. Anthony ficou apreensivo. Se o pai sabia a data, por que, então, perguntara?

— Faz hoje exatamente cinco meses, — prosseguiu Mr. Beavis.

Cinco meses? E então, como o coração a apertar-lhe, Anthony compreendeu o que seu pai queria dizer. Do dia dois de novembro ao dia dois de abril. Havia cinco meses que ela tinha morrido.

— O dia dois de cada mês — deve ser para nós um dia sagrado.

Anthony moveu a cabeça, concordando; e desviou os olhos como quem se sente culpado.

— Ligados, um a um, por natural piedade, — dizia Mr. Beavis.

De que estava ele falando agora? E por que? por que tinha que dizer tais coisas? Horrível; indigno, aquilo; sim, indigno; a gente não sabia para onde olhar. Tal qual como das vezes em que o estômago da vovó fazia aqueles ruídos borbulhantes e medonhos depois das refeições...

Olhando para o rosto voltado do filho, Mr. Beavis notou indícios de resistência e magoou-se, entristeceu-se e sentiu que sua tristeza se transformava num vago ressentimento pelo fato de Anthony não sofrer tão intensamente como ele. Sem dúvida que o filho era ainda muito novo, ainda incapaz de compreender toda a extensão de sua perda; mas, mesmo assim, mesmo assim ...

Anthony sentiu um alívio inexprimível quando viu que o trem ia diminuindo a marcha para a sua primeira parada. Os subúrbios de Slough foram passando lentamente e, para os seus olhos, mais devagar do que nunca. Contra todas as regras da arte sagrada, fazia ele agora votos para que entrasse alguém no compartimento. E deu graças aos céus, quando viu que, de fato, alguém entrava — um homem corpulento e cor de lacre, o qual, noutra ocasião qualquer, Anthony teria abominado. Nesse momento, porém, achou-o extraordinariamente simpático.

Protegendo com a mão os olhos, Mr. Beavis ensimesmou-se de novo num mundo de silêncio.

Depois de tomarem um carro e quando já se afastavam da estação de Twyford, Anthony sentiu que o pai, depois de mortificá-lo, passava a injuriá-lo.

— Lá, você deve conduzir-se do melhor modo possível, — recomendou.

— Naturalmente, — disse, secamente, Anthony.

— E deve ser sempre pontual, — continuou Mr. Beavis. — E nunca mostrar-se glutão à mesa. Hesitou. Esboçou um sorriso que era uma antecipação do que ia dizer. E atirou, depois, o termo de gíria: — por mais excelente que a "bóia" seja. — Seguiu-se um pequeno silêncio. — E ser muito atencioso com as Abigails, — ajuntou.

Deixaram a estrada e entraram por uma álea que serpeava entre altos rododendros. Apareceu então, no outro extremo de uma vasta relva rodeada de árvores, uma fachada de estuque no estilo georgiano. Não era grande a casa, mas sólida, confortável e, ao mesmo tempo, elegante. Construída, como logo se adivinhava, por alguém capaz de citar Horácio com proficiência e em qualquer ocasião. O pai de Raquel Foxe — refletia Mr. Beavis contemplando a casa — deve ter deixado muito dinheiro. Arquitetura naval... E parece que o velho era inventor de qualquer coisa que foi adotada pelo Almirantado. Foxe, também, já fora rico, já estivera bem na vida certos negócios relacionados com carvão. (Que encanto, aqueles narcisos ali na relva, debaixo das árvores!) Mas era um homem cabeçudo, taciturno, casmurro, que não tinha compreendido — Mr. Beavis lembrou-se — um pequeno gracejo filológico que ele fizera com a palavra "lápis". Gracejo que, aliás, ele certamente não teria ousado fazer, se, na ocasião, tivesse sabido que o pobre homem tinha uma úlcera no duodeno.

A senhora Foxe e Brian vieram ao encontro deles, quando o carro parou. Os dois meninos se afastaram juntos, enquanto Mr. Beavis acompanhava sua hospedeira ao salão. Era uma mulher alta, esbelta e muito tesa, com qualquer coisa de tão majestático no porte, tão nobremente austera nas linhas e expressão do rosto, que Mr. Beavis sempre se sentia, em sua presença, ligeiramente intimidado e constrangido.

— Foi realmente tão gentil o seu convite, — disse ele. — E não lhe posso fazer sentir o que ele representa, todo o bem que disso advirá para... — hesitou um instante; depois, (já que era dia dois do mês) com um ligeiro movimento de cabeça e em tom mais baixo: — ... para esse meu pobre órfãozinho: passar aqui as suas férias.

Um sentimento de comiseração emprestava aos olhos castanho-claros da senhora um tom mais escuro, enquanto ela ouvia falar Mr. Beavis. Sempre ereta, sempre séria, seus lábios cheios, esculpidos num estilo quase florido, exprimiam, ao se unirem, qualquer coisa mais do que a gravidade comum. — Mas eu estou tão contente de tê-lo aqui comigo, — disse ela com uma voz quente e musicalmente vibrante de sentimento. — Contentamento egoísta, esse meu, porque é por amor de Brian também.

 Sorriu. E ele notou que a sua boca, mesmo quando ela sorria, parecia conservar, através de toda sua sensibilidade e de sua profunda capacidade de sofrimento e gozo, aquela seriedade, aquela pureza perfeita, que a caracterizava quando em repouso.

— Egoísta, sim, — repetia ela. — Porque, quando ele está contente, também eu estou.

Mr. Beavis estava de acordo. E em seguida, disse, suspirando: — Não deixa de nos ser grato sentir, ao menos como um reflexo, a felicidade alheia. — Magnânimo, já agora concedi a Anthony o direito de não sofrer — embora que, naturalmente, quando o menino tivesse um pouco mais de idade e pudesse ter maior compreensão...

A senhora Foxe não prosseguiu na conversa. Sentia, nas palavras e maneiras dele, algo de antipático, qualquer coisa que a irritava. Deu-se, porém, pressa em varrer do espírito essa impressão desagradável, Porque, afinal, o importante, o essencial era o fato do pobre homem ter sofrido, o fato de ainda estar sofrendo. A nota dissonante, em falso, se falsidade havia, vinha depois do fato, estava na simples expressão do sofrimento.

Ela propôs um passeio antes do chá. Passearam pelo jardim e foram depois mais além, entrando no deserto domesticado que era toda aquela extensão de relva e de árvores. Numa clareira formada pelo pequeno mato que limitava a propriedade ao norte, três aleijadinhos colhiam primaveras. Com uma agilidade que causava dó, lá iam eles, de ramalhete em ramalhete, balançando-se sobre suas muletas e soltando gritinhos estridentes de entusiasmo.

— Estavam morando, — explicou a senhora Foxe, numa de suas choupanas. Eram três dos "meus aleijados", como lhes chamava ela.

Ao ouvirem-lhe a voz, as crianças ergueram os olhos e imediatamente vieram coxeando através do espaço livre, em direção a ela.

— Olhe, Dona, olhe o que eu achei!

— Olhe aqui, Dona!

— Como é o nome disso, Dona?

Ela respondia-lhes às perguntas, replicava-lhes com outras, prometia-lhes ir vê-los à noitinha.

Sentindo-se no dever de também agradar os aleijadinhos, Mr. Beavis começou a dizer-lhes da etimologia da palavra inglesa "primrose". — Primercle no Inglês Médio, — explicou. Esse "rose" foi metido aí por engano. — Os petizes arregalavam os olhos para ele, sem compreenderem. — Apenas um erro do povo, — prosseguiu ele; depois, piscando o olho, ajuntou: — Uma simples "batata". Tal qual aquela outra, muito nossa conhecida — e sorria para eles com um ar finório — a nossa velha amiga "causeway".

Houve um silêncio. A senhora Foxe mudou de assunto.

— Os pobrezinhos! — disse ela quando, por fim, conseguiu afastar-se deles. — Sentem-se tão felizes, que até se tem vontade de chorar. E o pior é que, daqui a uma semana, temos que recambiá-los de novo. De novo para as suas pocilgas. Sentimos que é demasiado cruel. Mas que havemos de fazer? Eles são tantos. Não é possível conservar uns aqui, em detrimento dos outros.

Foram andando algum tempo silenciosos, quando, de súbito, a senhora Foxe se pôs a considerar que também existiam aleijados do espírito. Pessoas de emoções tão mancas e bambas, que não sabiam sequer sentir com decência. Gente com uma espécie de excrescência ou deformidade em sua faculdade de expressão. John Beavis estava, talvez, neste caso. Mas como estava sendo injusta! E que presunção, também! "Não julgues, para que não te julguem a ti". Em todo caso, e a ser verdade, aí estava mais uma razão para ter pena dele.

— Acho que já estamos na hora do chá, — disse em voz alta. E para proibir-se, a si própria, de continuar formulando outros quaisquer juízos, passou a falar-lhe daquelas Escolas para Estropiados, que ela estivera ajudando a organizar em Notting Dale e St. Pancras. Descreveu a vida que o estropiado levava em casa: os pais ausentes, no trabalho; da manhã à noite, nem sequer a sombra de um rosto humano; o alimento, escasso e inconveniente; sem brinquedos, sem livros, sem nada que fazer, a não ser ficar deitado, imóvel, à espera — à espera de que? Referiu-se depois à ambulância que fazia então o giro pela redondeza, arrebanhando e transportando as crianças para a escola; e disse das carteiras, das lições, das salas de aula, das medidas tomadas no sentido de fornecer às crianças uma alimentação condigna.

— E todo o nosso prêmio, — disse, abrindo a porta para entrarem em casa, — toda a nossa recompensa é essa mesma felicidade que dói e da qual eu lhe estava falando há pouco. Não posso deixar de senti-la como uma espécie de censura, como uma acusação. Toda vez que vejo essa felicidade, pergunto-me que direito tenho de me achar em condições de proporcioná-la tão facilmente, apenas gastando um pouquinho de dinheiro e dando-me a certos incomodozinhos, certos agradáveis incômodos. Sim, que direito? — E a voz clara e quente tremia-lhe um pouco, enquanto ela formulava a pergunta. Ergueu as mãos num gesto interrogativo, deixou-as depois, novamente, cair e entrou depressa no salão.

Mr. Beavis acompanhou-a sem pronunciar palavra. Ao ouvir as últimas frases da senhora Foxe, invadira-o e expandira-se dentro dele uma espécie de calor fremente, que era como a sensação que experimentava quando lia a última cena de "Measure for Measure", ou ouvia Joachim no Concerto de Beethoven.

Mr. Beavis pôde demorar-se somente duas noites. Havia uma reunião importante na Sociedade de Filologia. E além disso, ele tinha, naturalmente, que trabalhar para o Dicionário.

— A velha labuta de todos os dias, — explicou ele à Sra. Foxe num tom de auto-lamentação afetada e com um suspiro que mal visava sequer à convicção. A verdade era que esse seu trabalho constituía para ele um prazer, sem o qual ele se sentiria perdido. — E a senhora está realmente certa, — ajuntou, — de que Anthony não lhe virá a ser um incômodo muito grande?

— Incômodo? Olhe ali! E, pela janela, ela apontou para o lugar onde os dois meninos jogavam pólo de bicicleta no campo.

— E não é somente isso, — continuou. — Nestes dois dias eu acabei de ficar realmente muito afeiçoada a Anthony. Tem qualquer coisa de profundamente comovedor. Parece, de algum modo, tão vulnerável. Apesar de toda essa sua inteligência e bom senso e firmeza de espírito. Dir-se-ia que parte dele está terrivelmente à mercê do mundo. — Sim, à mercê do mundo, repetia ela ainda consigo, lembrando-se daquela fronte larga e cândida, daqueles lábios sensíveis até quase ao tremor, daquele queixo fraco e delicado. Era fácil ofendê-lo, fácil desencaminhá-lo. Cada vez que ele punha os olhos nela, ela sentia-se vagamente culpada e responsável por ele.

— No entanto, — disse Mr. Beavis, — há ocasiões em que ele parece estranhamente indiferente. — A recordação daquele episódio do trem não tinha perdido ainda o seu caráter venenoso. Pois, embora desejando, naturalmente, que o filho fosse feliz, embora tivesse resolvido que a única felicidade que de então em diante ele próprio poderia conhecer resultaria da contemplação da felicidade do filho, contudo persistia, obscuro, o velho ressentimento: sentia-se molestado, porque Anthony tinha sofrido pouco, porque parecia resistir e repelir o sofrimento quando este lhe era imposto. — Estranhamente indiferente, — repetiu.

A Sra. Foxe inclinou-se. — Sim, — disse ela, — é uma espécie de armadura, que ele traz consigo; armadura que lhe cobre a vulnerabilidade no ponto mais exposto, ao mesmo tempo que os outros pontos se descobrem, de sorte que os ferimentos mais leves devam atuar como uma espécie de distração, uma espécie de remédio anti-irritante. É auto-proteção. Contudo — (sua voz encheu-se de gravidade e de emoção), — contudo eu creio que, com o tempo, ele se tornaria melhor e espiritualmente mais sadio, sim, e também mais feliz, se pudesse decidir-se a fazer justamente o contrário — se se pudesse encouraçar contra os ferimentos leves que o distraem, tanto os de prazer como os de dor, e expor sua vulnerabilidade somente aos golpes grandes e profundos.

— Como tudo isso é verdadeiro! — disse Mr. Beavis, sentindo em si próprio a aplicação exata das palavras dela.

Sucedeu-se um silêncio. Depois, voltando à pergunta que inicialmente lhe fizera Mr. Beavis, a Sra. Foxe assegurou com decisão: — Não, não; longe de senti-lo como uma carga, estou, ao contrário, realmente encantada de tê-lo aqui comigo. Não somente pelo que ele é em si, mas também pelo que ele é para Brian — e, incidentalmente, pelo que Brian é para ele. É um prazer vê-los. Quisera que estivessem juntos em cada período de férias. A Sra. Foxe fez uma ligeira pausa e, depois continuou assim: — Seriamente, se o senhor não tem ainda os seus planos formados relativamente ao verão, medite nisto um pouco: tomamos uma casinha em Tenby para agosto. Por que não vão também, o senhor e Anthony, para Tenby?

Mr. Beavis achou excelente a idéia; e os meninos, quando lha comunicaram, ficaram contentíssimos.

— Então, é somente até agosto que lhe digo adeus, — disse a Sra. Foxe por ocasião da despedida. E, com um calor que era tanto maior, quanto resultava de um deliberado esforço de cordialidade, ajuntou: — Se bem que até lá, naturalmente ainda nos encontraremos.

O carro afastou-se, rápido, ao longo da álea; e numa extensão de cem jardas ou mais, Anthony correu atrás dele, gritando "Goodbye" e agitando o lenço com uma veemência que Mr. Beavis tomou como sinal de um pesar correspondentemente intenso de vê-lo partir. Mas era, de fato, apenas a manifestação de um excesso de energia e de alegria. As circunstâncias lhe haviam enchido o corpo e a alma da alegria profunda de viver e ser feliz. Tal estado requeria uma expressão física e a partida do pai foi o pretexto para que ele saísse a correr e a gesticular. Mr. Beavis ficou extremamente sensibilizado. Se ao menos — continuava a pensar com tristeza, — se ao menos houvesse um meio de canalizar esse amor, como também o amor que ele sentia pelo filho, para que essa onda de afetividade irrigasse todos os momentos áridos da convivência diuturna! E como as mulheres compreendiam melhor essas coisas! Sentira-se realmente comovido de ver como a pobre criança havia correspondido à afeição da Sra. Foxe. E talvez — especulava ainda — talvez fosse justamente por não ter havido uma mulher que lhe dirigisse os sentimentos, que Anthony lhe parecera tão indiferente. Talvez justamente pelo fato de ser órfão, jamais poderia um filho sentir, como devia, a morte de sua mãe. Era um círculo vicioso. A influência da Sra. Foxe seria uma boa coisa, não somente a esse respeito, mas ainda a respeito de mil outras coisas. Mr. Beavis suspirou, Se fosse, ao menos, possível associar-se um homem a uma mulher; não em matrimônio, mas para um fim comum, por amor dos filhos órfãos de mãe, órfãos de pai! Podia ser uma boa mulher — admirável, extraordinária, mesmo. Mas a despeito disso (quase por causa disso), só poderia ser uma união para um fim comum. Nunca, um casamento. E como quer que fosse, lá estava Maisie — lá, esperando por ele; por ele, que, sem falta, haveria de... Mas uma união por amor dos filhos — isso não seria, de modo algum, uma traição.

Voltando de sua corrida, Anthony ia assobiando a música de "A Madressilva e a Abelha". Gostava do pai — gostava, é verdade, por força do hábito, como gostamos de nossa terra natal, dos seus pratos tradicionais. — mas, como quer que fosse, gostava sinceramente dele. O que, aliás, em nada concorria para diminuir o desconforto que sempre sentia em presença de Mr. Beavis.

— Brian! — gritou ele, quando se aproximava da casa — gritou um pouco consciente de si; pois achava esquisito chamar-lhe Brian, em lugar de Foxe ou "Cara-de-Cavalo". Um tanto efeminado, algo, mesmo, de desabonador.

O assobio que Brian deu em resposta vinha da sala de aula.

— Estou resolvido a levar as bicicletas, Anthony — gritou.

No colégio, costumavam caçoar com o Cara-de-Cavalo por causa da sua mania dos passarinhos. — Venham cá, companheiros, dizia Staithes, levando o Cara-de-Cavalo pelo braço, — adivinhem o que eu vi hoje! Dois abelharucos cospe-cospe e uma toutinegra mijona. E um coro estrondoso e formidável de gargalhadas estrugia — coro em que Anthony tomava parte. Aqui, porém, onde não havia ninguém para ridicularizar-lhe o interesse pelas aves migratórias da primavera, pelas coleções de ninhos, pelos ninhos de garças, aqui ele se entregava com entusiasmo à sua faina de apanhar passarinhos. Entrando molhado e enlameado do passeio da tarde, costumava ele perguntar, cheio de glória, antes mesmo que o pobre Brian tivesse tempo de tartamudear uma palavra: — A senhora sabe que passarinho ouvimos cantar hoje? Uma toutinegra chilradora! — ou então: — Uma carriça! — E Raquel Foxe respondia: — Que beleza! — de modo tal, que ele se sentia cheio de orgulho e de felicidade. Era como se aquelas toutinegras mijonas nunca tivessem existido.

Depois do chá, descidas as cortinas e trazidas as lâmpadas, a Sra. Foxe lia para eles. Anthony que antes quase morria de tédio com as histórias de Scott, acompanhava agora as aventuras de Nigel com a mais apaixonada atenção.

Aproximava-se a Páscoa e Nigel foi, temporariamente, posto à margem. Em substituição, a Sra. Foxe lia-lhes passagens do Novo Testamento. — E ele disse-lhes: Minha alma está imensamente triste diante da morte. Ficai aqui, de guarda. E deu alguns passos para frente, e prosternou-se, e suplicou que, se fosse possível, passasse aquela hora. E disse: Abba, Pai, todas as coisas te são possíveis; tira-me esta taça; contudo, seja feita, não a minha, mas a tua vontade. — A luz da lâmpada formava uma ilha circular na escuridão da sala; e, avançando para essa ilha, projetava-se um promontório impreciso de luz vermelha, vinda do fogão. Anthony estava deitado no chão e, da alta cadeira italiana ao lado da lâmpada, as palavras desciam-lhe aos ouvidos transfiguradas, por assim dizer, por aquela voz quente e musical, contendo significações que antes jamais lhe haviam revelado. — E era a terceira hora, e eles o crucificaram. — No silêncio que se seguiu, as pulsações do seu coração se lhe afiguravam as pancadas do martelo sobre os pregos. Tac, tac, tac... Passou os dedos de uma das mãos pela palma lisa da outra; enrijou-se-lhe de horror o corpo todo e uma violenta convulsão espasmódica percorreu-lhe os músculos retesos.

— E quando veio a sexta hora, as trevas envolveram toda a terra até à nona hora. A Sra. Foxe depôs o livro. — Esse é um dos acréscimos de que eu estava falando a vocês, — disse, — uma dessas fantasias bordadas à margem da história. Devemos ter em conta a época em que viveram os autores dos evangelhos. Eles acreditavam que essas coisas podiam acontecer; e, o que é mais, pensavam que elas deviam acontecer em ocasiões importantes. Queriam honrar Jesus; queriam que a história de Jesus parecesse mais maravilhosa; e entretanto, não achamos que eles o honrassem com isso. O que é, para nós, maravilhoso, — continuou com aquela sua voz que fremia numa nota profunda de fervor, — é que Jesus era um homem, tão incapaz de fazer milagres ou de mandar que os fizessem por ele, como nós outros, apenas um homem — e, no entanto, ele pôde fazer o que fez, pôde ser o que foi. Isso é que é a maravilha.

Fez-se um longo silencio. Ouviam-se somente o tic-tac do relógio e, no fogão, o crepitar das chamas, que era como um farfalhar de sedas. Deitado, agora, de costas, Anthony tinha os olhos fixos no teto. Tudo se tornara subitamente claro. O tio James tinha razão; mas os outros também tinham razão. Apenas um homem — e, no entanto... Oh, ele também, ele também queria fazer, queria ser!

A Sra. Foxe tomou novamente o livro. Suas finas páginas estalavam, à medida que ela as voltava.

— E então, no primeiro dia da semana, de manhã muito cedo, eles vieram ao sepulcro, trazendo as especiarias que haviam preparado e, com eles, alguns outros. E viram que a pedra estava afastada do sepulcro.

A pedra... Mas em Lollingdon havia terra; e somente cinzas naquela caixinha — naquela caixinha do tamanho de uma lata de biscoitos. Anthony fechou os olhos na esperança de banir a visão odiosa; mas não pôde deixar de distinguir, contra a escuridão carmesim produzida pelas pálpebras cerradas, nitidamente desenhados, aqueles chifres, o triângulo de pêlo crespo cor de laranja. Levou a mão à boca e, para castigar-se, começou a morder o dedo indicador, cada vez com mais força, até a dor tornar-se quase insuportável.

Mais tarde, quando veio dar-lhe boa-noite, a Sra. Foxe sentou-se sobre a beira da cama de Anthony e tomou-lhe a mão.

— Você, Anthony, — disse, depois de um momento de silêncio, — não deve ter receio de pensar nela.

— Receio? — ciciou ele, como se não tivesse compreendido, Mas tinha — tinha, talvez, compreendido mais do que o que ela quisera dizer. Subiu-lhe o sangue às faces, num sentimento de culpa. Ficou amedrontado, como se, de certo modo, ela o tivesse, apanhado no laço, como se o tivesse descoberto — amedrontado e, portanto, ressentido.

— Você não deve ter medo de sofrer, — prosseguiu ela. — Quando você pensa nela, fica triste; é inevitável, isso; mas assim mesmo é que deve ser. A tristeza é, às vezes, necessária — é como uma operação; a gente não pode sentir-se bem sem a tristeza. Eu sei que você sofre, Anthony, quando pensa nela. Mas, se não pensar, você a condena a uma segunda morte. O espírito dos mortos continua vivendo em Deus. Mas vive também no cérebro e no coração dos vivos — ajudando-os, tornando-os melhores e mais fortes. E os mortos só podem ter essa espécie de imortalidade; se os vivos se acham preparados para dotá-los dela. Não quer você dar a ela essa imortalidade, Anthony?

Mudo e banhado em lágrimas, a resposta, ele a deu com baixar a cabeça. O que o tranqüilizara, o que o fizera cobrar ânimo, não eram tanto as palavras em si, quanto o fato de serem dela, de terem sido pronunciadas, naquela voz que se impunha e que obrigava. Seus temores dissipavam-se, seu ressentimento suspeitoso extinguia-se. Sentiu-se amparado, junto dela. Amparado, ao ponto de desafogar-se nos soluços, que, então, lhe subiram, irresistíveis, à garganta.

— Pobre Anthonyzinho! — Ela alisava-lhe os cabelos. — Pobre Anthonyzinho. Para isso não há remédio; doerá sempre — sempre. Você nunca poderá lembrar-se dela sem sofrer. Nem mesmo o tempo pode fazer cessar totalmente o sofrimento, Anthony.

Fez uma pausa. E durante um minuto, que lhe pareceu longo, esteve silenciosa, pensando no pai, pensando no marido. O velho pai, antes tão robusto, tão majestoso, com um ar de profeta — depois, na sua cadeira de rodas, paralítico, todo encolhido e com um ar estranho, a cabeça pendia para o lado, babando sobre a barba branca, mal podendo falar... E o homem que ela desposara, tornada de admiração pelo seu vigor, de respeito por sua retidão; que ela desposara para depois descobrir que o não amava, que o não podia amar. Pois o vigor, descobriu que era frio e sem magnanimidade; a retidão, rude e cruel retidão. E a dor da sua longa e última doença o tornara empedernido e irritado. Morrera implacável, resistindo-lhe à ternura até ao último momento.

— Sim, haverá sempre a dor e a tristeza, — continuou enfim. — E afinal, — surgiu-lhe na voz uma nota quente de orgulho, quase de desafio, — pode a gente esperar que seja de outro modo? Você não gostaria de esquecer sua mãe, gostaria, Anthony? Nem de não ligar mais importância, só para se ver livre de um sofrimentozinho. Você, de certo, não quereria isso?

Ainda soluçando, ele sacudiu a cabeça. E era verdade, o que queria dizer. Nesse momento, ele não queria fugir. De certo modo obscuro, era um consolo estar sofrendo esses extremos de mágoa. E a amava, justamente porque ela soubera fazê-lo sofrer.

A Sra. Foxe abaixou-se e beijou-o. — Coitado do Anthonyzinho! — continuava a repetir. — Coitado do Anthonyzinho! Chovia, na sexta-feira da Paixão; mas, no sábado, o tempo mudou e o domingo de Páscoa apresentou-se simbolicamente cor de ouro, como que de propósito, como se fora uma parábola. A ressurreição do Cristo e o renascimento da Natureza — dois aspectos de um mistério idêntico. A luz do sol, as nuvens, como fragmentos de escultura em mármore no pálido azul do céu, tudo parecia, de algum modo profundo e inexprimível, corroborar o que dissera a Sra. Foxe.

Não foram à igreja; mas, sentados no gramado, ela leu em voz alta, primeiro, um trecho do ofício do domingo da Páscoa, depois, algumas passagens da "Vida de Jesus" de Renan. Ouvindo-os, Anthony tinha os olhos cheios de lágrimas e sentia um desejo indizível de ser bom, de realizar qualquer coisa de belo e de nobre.

Na segunda-feira, um grupo de crianças miseráveis vieram passar o dia no jardim e no bosque. No Bulstrode, esses garotos seriam tidos como uns malcriados e tratados com o mais ofensivo desdém, como se não existissem. Seriam uns verdadeiros selvagens; e quando fossem mais velhos, passariam a ser uns lorpas e uns grosseirões. Aqui, contudo, a coisa era diferente. A Sra. Foxe transformava os malcriados em crianças infelizes, que provavelmente nunca tornariam a ver o campo uma segunda vez durante o ano inteiro.

— Coitados dos garotos! — Anthony disse à Sra. Foxe quando eles chegaram. Mau grado, porém, a compaixão que ele fazia todo o possível por sentir, a despeito de toda a sua decidida boa vontade, não podia deixar de sentir um medo secreto desses enfezados e, todavia, horrivelmente idosos fedelhos com que se oferecera para brincar. Temia-os e, por isso mesmo, os detestava. Pareciam incomensuravelmente exóticos. Suas roupas remendadas e manchadas, suas botinas cambaias eram como se fossem a própria pele deles, pele de um pigmento diferente, estranho; quando falavam, no seu linguajar dialetal, era como se estivessem falando chinês. À simples aparição deles, Anthony sentia a consciência acusá-lo. E além disso, aquele modo de olharem para ele, com um misto de ódio e de escárnio por causa de sua roupa nova e de suas maneiras diferentes; e depois, ainda os cochichos e as risotas a que se atreviam os mais audazes dentre eles. Quando se riam de Brian por causa de sua gagueira, este ria-se também com eles, de sorte que, dai a pouco, não riam mais, ou riam apenas amistosamente e quase com simpatia. Anthony, ao contrário, fingia que não lhes percebia os modos escarninhos. Um cavalheiro, conforme ele aprendera, não só pelo ensino explícito, mas ainda implicitamente pelo exemplo constante dos mais velhos, um cavalheiro não dá atenção alguma a coisas dessa espécie. E ele comportava-se como se aquelas risotas não existissem. O que não impedia que os outros continuassem a rir.

Toda aquela manhã passada a jogar bola e a brincar de esconder, ele a abominou sinceramente. Mas o pior foi ter que acompanhá-los na hora do almoço. Oferecera-se para servir à mesa. Contra o serviço em si, nada havia que dizer. Mas aquele cheiro de pobreza, quando as vinte crianças se reuniram na sala de jantar, era tão insidiosamente repugnante (lembrava-lhe a igreja de Lollingdon, mas era muito pior), que ele teve de se retirar duas ou três vezes no decorrer da refeição, para cuspir no vaso do banheiro. — Empestado de germes! — parecia-lhe ouvir ainda uma vez a voz de sua mãe, entre assustada e zangada. — Empestado de germes! — E quando a Sra. Foxe lhe fazia uma pergunta, o mais que podia fazer era sacudir a cabeça e emitir, de boca fechada, um ruído inarticulado; se falasse, teria que engolir. Engolir o que? A simples lembrança o revoltava.

— Coitados dos garotos! — tornou a dizer quando, em companhia da Sra. Foxe, lhes assistia à partida. — Coitados dos garotos! — E sentiu-se ainda mais envergonhado de sua hipocrisia, quando a Sra. Foxe lhe agradeceu o ter trabalhado tanto para bem receberem e agraciarem os petizes.

Quando Anthony já se tinha retirado para a sala de estudos, a Sra. Foxe voltou-se para o filho: — Também agradeço a você, meu amor. Portou-se magnificamente.

Enrubescendo de prazer, Brian, balançou a cabeça e disse: — Foi t-tudo trabalho s-seu. E sentindo, de súbito, quanto a amava, quanto ela era boa e admirável, encheram-se-lhe os olhos de lágrimas.

Saíram juntos para o jardim. Ela, com a mão no ombro dele. Desprendia-se dela um cheiro suave de Água de Colônia. De repente, como se fosse também um dos elementos que a tornavam admirável, saiu o sol de trás de uma nuvem.

— Olhe aqueles narcisos! Divinais! — exclamou naquela voz que, para Brian, tornava estranhamente mais verdadeiro do que a própria verdade tudo quanto ela dizia. — E o coração, agora, enche-me de prazer... Lembra-se, Brian?

Vermelho e com os olhos a brilharem, ele fez sinal que se lembrava; e ajuntou: — E d-dança...

— Dança com os narcisos. — Ela conchegou-o mais a si. A felicidade que o invadia era exprimível. Continuaram a caminhar, em silêncio. O ruge-ruge de suas saias era, pensava Brian, como o mar; como o mar em Ventnor, aquela vez, no ano passado, em que não pôde dormir de noite por causa das ondas batendo na areia da praia. Deitado lá no escuro, ouvindo o longínquo respiro do mar, tinha sentido medo e, mais do que tudo, ficara triste, terrivelmente triste. Mas agora, junto de sua mãe, as reminiscências desse temor, dessa tristeza profunda e sem causa, tornavam-se lindas; e ao mesmo tempo, e vagamente, a beleza toda nova dessas reminiscências parecia refletir-se nela, fazê-la parecer ainda mais admirável aos seus olhos. Movendo-se, ora num, ora noutro sentido, por sobre o gramado ensoalheirado, havia nela qualquer coisa dos mistérios do vento na treva, do vaivém incessante e incansável das ondas.

— Coitado do Anthonyzinho! — disse a Sra. Foxe, rompendo o longo silêncio. — É penoso, e terrível! — E pensava que igualmente dolorosa havia de ter sido a situação da pobre Maisie. A graciosa criatura, com os seus langores, os seus silêncios, as suas abstrações no reino da quimera e, em seguida, suas voltas bruscas a uma atividade risonha — que tinha que ver com a morte uma criatura assim? Ou com o parto, para falar verdade? Maisie com um filho para criar — não se via nisso mais sentido do que em Maisie morta.

— Deve ser t-t-t-... — mas o "terrível" não quis sair. — Deve ser m-medonho, — disse Brian, laboriosamente tangenciando o obstáculo, enquanto sua emoção o antecedia e se precipitava numa eclosão de palavras impronunciadas e impronunciáveis, — a gente n-não ter m-mãe.

A Sra. Foxe sorriu com ternura e, curvando-se, calou, por um momento, a face contra os cabelos dele. — Medonho também é a gente não ter um filho, — disse e, ao dizê-lo, percebeu que as suas palavras eram ainda mais verdadeiras do que pretendera que fossem — que eram verdadeiras num plano de mais profunda, mais essencial existência do que essa em que então se movia. Pretendera aludir ao presente; mas se era terrível não o ter agora, quão incomparavelmente mais terrível teria sido então, depois que o pai tivera o seu ataque fatal e durante os anos da doença do marido! Nesse período de dor e de extrema carência espiritual, o seu amor por Brian era a única coisa que ainda possuía. Ah, terrível, realmente terrível, então, a gente não ter filho!

 

Junho de 1903 — Janeiro de 1904

A COISA se tinha tornado um rito, um sacramento (era assim que o próprio John Beavis interpretava aquilo): um sacramento de comunhão. Em primeiro lugar, o ato de abrir o guarda-vestidos e de tocar com a mão nos vestidos dela. Fechando os olhos, respirava o perfume que esses vestidos exalavam, a essência suave e branda do corpo dela através do abismo do tempo, que cada vez mais a afastava dele. Depois, o ato de abrir as gavetas. Nestas três, à esquerda, estava sua roupa, branca. Os saquinhos de alfazema estavam amarrados com uma fitinha azul-pálida. Esta renda da sua camisa de dormir, que ele estava desdobrando, tinha tocado... Mesmo em pensamento, John Beavis evitava proferir as palavras "seus seios", limitando-se a imaginar o leve arfar das carnes arredondadas sob o emaranhado dos bordados; vinham depois as recordações daquelas noites em Roma; e, finalmente, a lembrança de Lollingdon, da cova funda, da terra, da escuridão e do silencio terríveis. Tornava a dobrar a camisa de dormir, tornava a guardá-la na gaveta e chegava então a vez das duas gavetinhas da direita — das luvas que lhe haviam protegido as mãos, dos cintos que lhe haviam cingido o talhe e que ele agora enrolava em volta do punho ou apertava contra as têmporas, como um filactério. E o rito terminava com a leitura das cartas dela — aquelas cartas comovedoramente infantis que ela escrevera durante seu noivado. Isso constituía, para ele, a consumação da agonia; o rito estava findo e ele podia ir deitar-se com outra espada ainda fincada no coração.

Ultimamente, porém, ao que parecia a espada se embotara. Era como se a morte dela, até aqui, tão pungente e tão viva, tivesse começado também a morrer. O rito parecia perder suas virtudes mágicas. A consumação tornava-se cada vez mais difícil de ser levada a termo e, quando levada a termo, era menos dolorosa e, por isso mesmo, menos satisfatória. Pois o que tornara a vida nestes últimos meses digna de ser vivida era precisamente a dor de sua perda. O desejo e a ternura tinham sido subitamente privados de seu objeto. Era uma amputação angustiosa. E agora essa dor — e era tudo o que lhe restava dela — essa preciosa angústia lhe estava fugindo, estava morrendo, justamente como Maisie tinha morrido.

Essa noite, ela pareceu ter-se extinguido por completo. Ele mergulhou o rosto nos folhos perfumados dos seus vestidos, esticou a renda e a cambraia que ela usara rente à pele, soprou dentro de uma de suas luvas e ficou espiando, ficou vendo como esta imagem da mão dela se ia gradativamente encolhendo — morrendo, morrendo, até a pelica ficar de novo pendente, mole e vazia até mesmo de um simulacro de vida. Mas os ritos já não produziam efeito nenhum. John Beavis já não se comovia. Sabia que ela estava morta e que a perda que sofrera fora terrível. Mas já agora não sentia nada dessa perda — nada a não ser uma espécie de vácuo no espírito e uma sensação de pó, a que tudo se reduzira.

Foi deitar-se incontentado e, de certo modo, humilhado. Os ritos mágicos justificam-se pelo êxito. Quando deixam de produzir os efeitos emocionais que os caracterizam, o operador sente que foi ludibriado e enche-se de ridículo.

Seco, tal qual uma múmia na solidão poeirenta do sepulcro, John Beavis permaneceu largo tempo deitado na cama, sem poder dormir. Meia-noite, uma hora; duas; e depois de já ter perdido completamente a esperança de conciliar o sono, este veio e ele sonhou que ela estava ali, ao lado dele; e era aquela Maisie mesma que ela fora no primeiro ano do seu casamento, o peito cheio e arfante por debaixo da renda, e a boca, oh, a boca entreaberta num consentimento inocente. Tomou-a nos braços.

Desde sua morte, fora esta a primeira vez que ele sonhara com ela viva e não com ela morta ou moribunda.

John Beavis despertou com uma sensação de vergonha; e quando mais tarde, durante o dia, viu Miss Gannett, que estava evidentemente à sua espera, como de costume, no corredor externo de sua sala de cursos, fez que não a viu e passou apressado, de olhos no chão, de cara franzida, como se estivesse preocupado com algum problema abstruso e insolúvel de alta filologia.

Mas a tarde seguinte foi encontrá-lo no "At Home" que a tia Edith dava todas as semanas. E com certeza — embora ele, ao vê-la, manifestasse uma surpresa talvez excessiva — com certeza Miss Gannett estava lá. Ele sabia que ela devia estar, pois nunca faltou uma só das quintas-feiras da tia Edith.

— O senhor ontem estava com uma pressa horrível, — disse ela, depois que a surpresa dele serenara.

— Eu? Quando? — Fingia não saber o que ela queria dizer.

— No Colégio, depois da sua aula.

— Mas estava lá? Não a vi.

— Está ele agora a pensar que eu fiz gazeta, — queixou-se ela a uma inexistente terceira pessoa. Desde a primeira vez que o encontrara na sala de visitas da tia Edith, Miss Gannett assistira sempre, fielmente, a todas as conferências do seu curso público.

— Para aperfeiçoar o espírito, — costumava ela explicar. — Visto que o meu espírito precisa tanto de aperfeiçoar-se, — acrescentava com um ar jocoso em que havia ao mesmo tempo qualquer coisa de sério.

Mr. Beavis protestava: — Mas eu nunca disse semelhante coisa.

— Pois eu vou lhe mostrar as notas que tomei.

— Não, não, por favor, não faça isso. — Chegava então a sua vez de pilheriar. — Se soubesse como me aborrecem as minhas conferências!

— Pois o fato é que o senhor quase que me ia atropelando no corredor, ao sair da sua conferência.

— Oh, neste caso...

— Nunca vi ninguém andar tão depressa.

Ele concordou com um sinal de cabeça. — De fato, eu estava mesmo com muita pressa; lá isso estava. Tinha que tomar parte numa reunião. De uma comissão toda especial, — ajuntou com ênfase.

Ela olhou-o com uns olhos muito abertos e, abandonando o tom de gracejo com que falara, foi com a maior seriedade que observou: — Deve ser realmente uma coisa bastante incômoda, uma amolação, isso de ser assim uma pessoa tão importante; não é mesmo?

Mr. Beavis sorriu para a criança séria e respeitosa que lhe estava diante — essa criança inocente que era ao mesmo tempo uma mulher gordinha, pequenina, bonitinha de vinte e sete anos — sorriu com prazer e cofiou o bigode. — Oh, não sou assim tão importante como pensa, — protestou. Não sou assim tão... hesitou um instante; contraiu a boca, pestanejou; e afinal atirou o vulgarismo: — Não sou assim tão "troço" como parece imaginar.

Tinha chegado apenas uma carta essa manhã. Era de Anthony, viu Mr. Beavis ao rasgar o envelope.

 

Bulstrode, 26 de Junho

Meu querido Pai.

Muito obrigado pela sua carta. Pensei que fôssemos passar as férias em Tenby. Não foi isso que combinou com a sra. Foxe? Foxe diz que ela conta conosco lá e, se é assim, parece que não devemos ir para a Suíça, conforme leio na sua carta. Jogamos ontem dois matches: o primeiro "eleven" versus Sunny Bank, e o segundo v. Mumbridge. Ganhamos ambos. Foi um jogo muito disputado. Joguei no segundo "eleven" e fiz seis a zero. Começamos agora a ler um livro chamado Lettres de mon Moulin em francês, mas parece-me que é uma droga. Nada mais tenho para lhe contar e, pois, terminando, sou, com muito afeto, O filho que muito lhe quer

Anthony

P. S. Não se esqueça de escrever à sra. Foxe, pois, segundo Foxe me declarou estar informado, ela supõe que vamos para Tenby.

 

Mr. Beavis leu a carta de sobrecenho carregado e, quando acabou de almoçar, foi logo sentar-se à sua mesa para escrever a resposta.

 

Earl's Court Square, 27-VI-03

Meu querido Anthony.

Foi para mim motivo de grande desapontamento o fato de ter você recebido com pouco entusiasmo o que eu esperava ser para você uma notícia verdadeiramente auspiciosa. Na sua idade, eu, certamente, teria acolhido com uma alegria ilimitada a perspectiva de viajar, de "ir ao estrangeiro", e, sobretudo, à Suíça. O entendimento com a sra. Foxe foi coisa muito vaga, nada ficou deliberado nem assentado. Inútil dizer, todavia, que eu escrevi a ela logo que se apresentou a feliz oportunidade de explorar em companhia condigna o Oberland Bernês, o que ocorreu há apenas alguns dias, fazendo com que eu adiasse a realização dos nossos vagos projetos acerca de Tenby. Se você quiser saber com exatidão aonde é que nós vamos, pegue no seu mapa da Suíça, procure nele a região de Entre-lagos e o lago de Brienz, tome a direção leste a partir da extremidade do lago de Meiringen e daí siga para o sul, na direção de Grindelwald. Vamos ficar ao pé do Passo de Scheideck, em Rosenlaui, quase na sombra projetada por esses gigantes chamados Jungfrau, Weisshorn e outros. Não conheço o local, mais concluo, de todas as informações obtidas, que deve ser "da ponta", uma coisa paradisíaca.

Fiquei muito contente de saber que você se portou com honra no seu "match". Continue, meu filho, continue assim, cada vez mais valente. No ano que vem, espero vê-lo disputando as glórias do Primeiro "Eleven".

O que não me parece que esteja bem é você achar que Daudet é "droga". Desconfio que essa opinião resulta das dificuldades que, a um principiante como você, oferece a leitura de Daudet. Depois que você dominar completamente a língua, saberá apreciar o doce encanto do seu estilo e a sagacidade do seu espírito.

Desejo que você esteja trabalhando com vontade no sentido de remediar seu lamentável atraso em matemática. Confesso que também eu nunca brilhei nesse ramo de estudos e estou, portanto, em condições de compreender as dificuldades que você sente. Contudo, o trabalho tenaz produz milagres e tenho, por isso, a certeza de que, atacando de frente a álgebra e a geometria, você facilmente conquistará títulos de proficiência daqui a um ano exatamente.

Aceite todo o afeto de seu pai

J. B.

 

— É muito triste! — disse Anthony ao terminar a leitura da carta do pai. As lágrimas vieram-lhe aos olhos e ele mal podia suportar a mágoa que o dominava.

— Qu-que é que ele d-diz? — perguntou Brian.

— Está tudo resolvido. Ele escreveu à sua mãe comunicando que iremos para um cafundó imundo lá da Suíça, em vez de irmos para Tenby. Não imagina como isso me aborrece! — Amarrotou a carta e atirou-a com raiva no chão; depois afastou-se e tentou descarregar suas iras dando pontapés na sua caixa de brinquedos. — Isso me aborrece muito! Muito! — Continuava a repetir.

Brian também se sentiu magoado. Iam passar uns dias esplêndidos em Tenby; já tinham previsto tudo em imaginação, já tinham construído previamente os mais deliciosos detalhes; e agora, catrapós! desfez-se o sonho, desmoronou-se o castelo e os tais dias esplêndidos ali estavam reduzidos a cacos.

— Em t-todo caso, — disse afinal, depois de um longo silêncio, — espero que você s-se divirta bastante na Suíça. — E, movido por um ímpeto súbito, cuja explicação ele dificilmente poderia encontrar, apanhou do chão a carta de Mr. Beavis, desamarrotou-lhe as páginas e devolveu-a a Anthony. — T-tome sua c-carta, — disse.

Anthony mirou-a um instante, abriu a boca como se fosse falar, tornou depois a fechá-la e, tomando a carta, meteu-a no bolso.

A companhia condigna em que eles deviam explorar o Oberland Bernês resultou, quando eles chegaram a Rosenlaui, não ser outra senão a de Miss Gannett com sua antiga companheira de colégio, Miss Louie Piper. Mr. Beavis falava sempre delas como sendo "as meninas", ou então, com uns tons de jocosidade filológica herói-cômica a que ele se sentia tão inclinado, "as donzelas" — dominkellae, duplo diminutivo de domina. Essas adolescentes sonhadoras! Ele sorria, de cada vez que pronunciava a palavra. Para Anthony, as tais donzelas não passavam de um par de mulheres importunas e já velhuscas. Piper, a magra, parecia uma governanta. Ele preferia Gannett, a gorda, apesar daquele seu riso horrivelmente triste e estridente, a pesar do modo como ela se esbofava e suava ao subir os morros. Gannett, ao menos, era bem intencionada. Felizmente havia no hotel outros dois rapazes ingleses. Eram de Manchester e tinham um modo de falar caricato, mas eram bons camaradas e sabiam uma porção de histórias obscenas. O melhor era que tinham descoberto na mata que ficava por trás do hotel uma toca onde escondiam cigarros. Quanto voltou para o Bulstrode, Anthony tinha orgulho em anunciar que tinha fumado quase todos os dias em que estivera em férias.

Numa tarde de sábado do mês de novembro, Mr. Beavis veio ao Bulstrode. Assistiram durante alguns momentos ao jogo de futebol e em seguida deram um passeio fatigante que, todavia, terminou no King's Arras. Mr. Beavis mandou vir bolinhos "de ovos fritos na manteiga para este paladino" (piscou o olho para a criada, com um ar de conspiração, como se ela também soubesse o sentido histórico e etimológico da palavra), "e a seguir, geléia de cereja — não é esse o seu doce predileto"?

Anthony confirmou, meneando a cabeça. Cereja era o de que ele mais gostava. Sentia-se, porém, desconfiado com tanta solicitude. Qual poderia ser o fim daquilo tudo? Iria ele dizer qualquer coisa a respeito dos seus estudos? Sobre a conclusão do seu curso no verão próximo? Ou com relação a...? Enrubesceu. Mas, não, seu pai, afinal de contas, não podia saber coisa alguma a respeito disso. Não era possível. Acabou desistindo de descobrir o que poderia ser; não podia fazer nenhuma idéia. Mas, quando, depois de um longo silêncio que não era habitual, o pai disse, inclinando-se para a frente, — tenho uma notícia interessante para você, meu rapaz, — Anthony percebeu logo, como que por uma intuição súbita, exatamente o que ele queria dizer.

— Ele vai se casar com a tal Gannett, — disse consigo. E ia mesmo. Nos meados de dezembro.

Será uma companhia para você, — dizia Mr. Beavis.

Aquela juvenilidade, aquela vivacidade, aquela alegria de um espírito em flor! — Será sua companheira e ao mesmo tempo uma segunda mãe.

Anthony ia concordando com um sinal de cabeça. Mas "companheira" — que queria dizer essa palavra? E lembrava-se, então, da gorducha subindo penosamente as vertentes de Rosenlaui, vermelhona, cheirando a suor, fumegando... E, de repente, soou-lhe nos ouvidos a voz de sua mãe.

— Paulina quer que você a chame pelo seu nome de batismo, — continuava Mr. Beavis. — Será mais... sim, mais alegre, não acha?

Anthony disse "Acho", pois não lhe restava outra coisa a dizer. E serviu-se mais uma vez de geléia de cereja.

— Terceira pessoa do singular do aoristo de ribnm? — perguntou Anthony.

O Cara-de-Cavalo errou. Foi Staithes quem respondeu certo.

— Segunda do plural do mais-que-perfeito de ëpxonai? Brian hesitou e sua hesitação resultava de qualquer coisa de mais grave do que a sua gagueira.

— Você está burrinho, hoje, Cara-de-Cavalo, — disse Anthony e, em seguida, apontou o dedo para Staithes, que, novamente, respondeu certo — Estou gostando, Staithes. — E voltando-se para o Cara-de-Cavalo e parodiando a voz cavernosa de Jimbug, repetiu o já muito sediço e estafado gracejo do mesmo Jimbug: — A escória fica sempre no fundo, seu Cara-de-Cavalo.

— Coitado do Cara-de-Cavalo! — disse Staithes, batendo-lhe nas costas. Agora, que tivera o prazer de ver que o outro sabia menos grego do que ele, Staithes chegava quase a amá-lo.

Eram quase onze horas, já havia muito tempo que tinham apagado as luzes e os três estavam ainda reunidos na privada. Anthony, na sua qualidade de examinador, estava sentado, com um ar digno, majestoso mesmo, e os outros acocorados mais abaixo, no chão. Era uma noite serena e quente de maio, aquela; daí a seis semanas eles estariam diante das bancas examinadoras, prestando seus exames de fim de curso: Brian e Anthony em Eton, Mark Staithes em Rugby. Tinha sido logo após as férias no Natal transato que Staithes viera ao Bulstrode com a noticia de que ia prestar o seu exame de bacharelado. Notícia surpreendente, e, para os seus cortejadores e sequazes, simplesmente de pasmar. Que era urna coisa idiota e que aqueles que a ela se submetiam eram dignos de todo o desprezo — tal era a opinião que entre eles corria com a força de um axioma. E no entanto, ali estava o Staithes também resolvido a bacharelar-se, seguindo o exemplo dos tais "mocinhos aplicados" — do Benger Beavis, do Cara-de-Cavalo e daquele carrapato horrível que era o Goggler Ledwidge. A coisa assumia as proporções de uma apostasia, de uma traição a tudo o que era mais sagrado.

Em primeiro lugar, com palavras e, depois, mais eficientemente, pelos seus atos, Staithes conseguira tranqüilizá-los, reconciliar-se com eles. A idéia do bacharelado era do seu "velho". Não era por uma questão de dinheiro, deu-se ele pressa em acrescentar. O "velho" não estava ligando a dinheiro. Mas era uma questão de honra, uma questão de glória; era, enfim, porque isso era unia tradição de família. Seu pai, seus tios, todos, todos se tinham bacharelado. De sorte que não ficaria bem romper, desgostar a família. Mas isso não alterava em nada o fato que a tal mania de estudar era uma coisa chata e que aqueles que queimavam as pestanas simplesmente porque sentiam prazer nisso, como parecia ser o caso do Cara-de-Cavalo e do Beavis, ou por amor ao dinheiro, como acontecia com esse miserável Goggler, esses não passavam de vermes desprezíveis. E para prová-lo, passara a zombar da gagueira do Cara-de-Cavalo, organizara uma campanha contra Goggler a propósito do medo com que jogava futebol e espetara penas no traseiro do Beavis durante as provas preliminares e, embora ele também estivesse estudando muito, procurava uma compensação em brincar também muito e em não perder ocasião de dizer a todo mundo que achava o estudo uma coisa estúpida e que absolutamente não via probabilidade de passar nos exames finais.

Depois de ter salvado suficientemente as aparências, mudara de tática com Beavis e o Cara-de-Cavalo e, depois de se mostrar, durante algum tempo, cada vez mais afável com ambos, acabara por propor-lhes a criação de uma sociedade de auxílio mútuo dos que estudavam seriamente para o bacharelado. Foi ele que, no início do período escolar do verão, sugerira as sessões noturna na privada. Brian quisera incluir Goggler nessas sessões de leituras e estudos em conjunto; mas os outros dois protestaram; aliás, como seria fácil de demonstrar, a privada era pequena demais para conter quatro pessoas, Ele tinha que contentar-se com auxiliar Goggler em meias-horas ocasionais durante o dia. A noite e o "gabinete" eram reservados ao triunvirato.

Brian quis explicar o motivo do fracasso dessa noite e começou: — Eu hoje est-tou um t-t-tanto c-c-c-... — Não conseguiu dizer "cansado" e substituiu por "f-fatigado".

A palidez e as olheiras que apresentava atestavam a verdade de suas palavras; mas para Mark Staithes, tudo isso era evidentemente uma desculpa com que o Cara-de-Cavalo esperava diminuir a dor de sua derrota numa competição com alguém que não tinha estado "cavando" durante anos seguidos, como os seus dois rivais, mas apenas alguns meses. Essa desculpa implicava uma confissão de inferioridade. Triunfante, Staithes entendeu que podia e devia ser magnânimo. — Foi caiporismo! — disse, com solicitude. — Vamos descansar um pouco.

Do bolso de sua "robe de chambre" Anthony tirou três caramelos, realmente já um tanto moles com o tempo, mas que nem por isso deixaram de ser muito apreciados.

Pela milésima vez desde que ficara resolvido que ele terminaria seu curso e se submeteria aos exames finais, Staithes disse: — Se ao menos eu tivesse certa probabilidade de passar...

— Mas essa probabilidade é que não lh-lhe f-falta.

— Qual, nada! Isso é uma idéia maluca, simples mania do velho! — repetia ele, sacudindo a cabeça. Na realidade, porém, era com uma viva e ardente sensação de orgulho, de exultação, que ele se lembrava das palavras do pai. — Nós Staitheses... Quando se é um Staithes... Você é tão inteligente como qualquer de nós, da família, com a mesma força de vontade... — Forçou um suspiro e insistiu mais uma vez, em voz alta: — Ah, tivesse eu ao menos probabilidade!

— Sinceramente, é e que não lhe falta.

— Não diga tolice! — Recusava-se a admitir, sequer a possibilidade do fato, preparando o terreno para depois, no caso de um fracasso, poder dizer, rindo: — Eu não lhes dizia? — E no caso de êxito, como intimamente acreditava conseguir, então tanto pior seria a sua glória. Além disso, quanto maior era sua persistência em negar suas probabilidades, tanto mais freqüentes seriam as ocasiões que ele teria de ouvir com delícia, da parte dos colegas, as repetidas afirmações do seu possível, do seu provável êxito. Êxito, ainda por cima, no que constituía a especialidade deles; êxito, apesar de se ter constantemente recusado, até ao começo do último ano, a tomar a sério esse ridículo apego aos livros.

Era, agora, Benger quem trazia a sua homenagem. — Jimbug acha que você tem probabilidade de passar, — disse. "Eu ontem o ouvi falar com o Jacko a respeito disso.”

—Ele entende lá disso, esse idiota do Jimbug? — disse Staithes com uma careta de desdém, que, aliás, não conseguia esconder o prazer que brilhava nos seus olhos pardos. — E quanto a Jacko...

Um ruído repentino na maçaneta da porta fez com que eles bruscamente se voltassem. — Olá, rapaziada, — foi a voz implorante e sussurrante que lhes veio através do buraco da fechadura, — dêem licença! Estou com uma dor de barriga terrível.

Brian ergueu-se do chão, apressado. — Devemos d-deixá-lo entrar, — começou.

Mas Staithes, puxando-o, fê-lo sentar-se de novo. — Deixe de ser tolo! — disse depois, voltando-se para a porta: — Procure uma lá embaixo; estamos ocupados.

— Mas estou muito apertado.

— Pois então, quanto mais depressa for, melhor.

— Seus safados! — protestou a voz sussurrante; — raios os partam! — acrescentou; e eles ouviram o som dos chinelos afastando-se e descendo depressa as escadas.

Staithes fez uma careta e disse: — Isso é bom, para ele aprender. — E depois: — Vamos ver mais um pouquinho de gramática grega?

 

Já antecipadamente ofendido, James Beavis sentia sua indignação crescer cada vez mais a cada minuto que ia passando em casa do irmão. Toda a casa tresandava, positivamente, a matrimônio. Era asfixiante! E John ali, sentado, banhando-se naquelas irradiações invisíveis do calor feminino, sorvendo aqueles vapores pela venta trêmula, imensamente satisfeito, revoltantemente feliz! Tal qual o macho da marmota — foi o que subitamente ocorreu a James Beavis — tal qual o macho da marmota com a sua fêmea, colados, pêlo contra pêlo, em sua toca subterrânea. Sim, a casa era exatamente como uma toca — uma toca com uma marmota magra que era o John numa extremidade da mesa e, na outra extremidade, aquela marmota fêmea mole e arredondada; e, entre eles, um de cada lado da mesa, ele próprio, James, ofendido e nauseado, e o infeliz Anthonyzinho, como um filho trocado, vindo do mundo exterior, do ar puro, caçado, arrastado lá para baixo e aprisionado naquele viveiro de marmotas. A indignação engendrava igualmente uma piedade e afeição violentas por essa infeliz criança e engendrava ao mesmo tempo um sentimento retrospectivo de simpatia pela pobre Maisie. Quando em vida, ela fora considerada por ele como uma tola — irremediavelmente f útil. Agora, o casamento de John e as circunstâncias insuportáveis que o acompanhavam e que envolviam o casal felicíssimo fizeram-no esquecer suas próprias opiniões a respeito de Maisie, quando esta ainda vivia, e passar a considerá-la uma mulher de grande superioridade (tinha tido, pelo menos, a graça de ser frívola), postumamente martirizada pelo marido, por amor dessa marmota fêmea, de carnes e de enxundias repelentes. Era horrível! E era perfeitamente justo que ele se irritasse.

Paulina tinha, entretanto recusado servir-se mais uma vez de chocolate "soufflé".

— Mas, minha querida, você precisa aceitar, — insistiu John Beavis.

Paulina simulou um suspiro indicativo de que já se sentia repleta. — Não posso.

— Nem ao menos o chocolate predileto? — Mr. Beavis empregava sempre a palavra chocolate no original azteca.

Risonha, Paulina olhou de soslaio para o prato. — Eu não deveria, — disse, admitindo implicitamente que a sua repleção não era completa.

— Mas, por que? — disse ele num tom que era um afago.

— Está ele agora a querer que eu engorde! — lamentou ela num tom de censura. — Procurando me tentar!

— E por que não há de ser tentada?

Desta vez o suspiro de Paulina foi um suspiro de mártir. — Está bem, — disse, submissa. A criada, que estivera impassível, aguardando o resultado da controvérsia, apresentou novamente o prato. Paulina serviu-se.

— Isso é que é ser uma boa menina, — observou Mr. Beavis com um ar paternal e bonacheirão e piscando os olhos. — E agora eu espero que você, James, seguirá o bom exemplo.

Tão intensos eram o seu enjôo e a sua cólera, que James não ousou falar, com medo de dizer qualquer coisa de ofensivo. Contentou-se com sacudir levemente a cabeça.

— E você? Não prova o chocolate? — perguntou Mr. Beavis, voltando-se para Anthony. — Tenho certeza de que você há de ter pena do pudim. — E, vendo Anthony servir-se, ajuntou: — Ah, muito bem. Assim é que... hesitou durante uma fração de segundo — ... assim é que se devora um doce!

 

18 de junho de 1912

LIVROS. A mesa do quarto de Anthony estava coberta deles. Os cinco infólios de Bayle, na edição inglesa de 1738. A tradução de Rickaby da Summa contra Gentiles. O Problème du Style, de De Gourmont. O Caminho da Perfeição. As Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoievski. Três volumes das Cartas, de Byron. As obras de S. João da Cruz, em espanhol. As peças de Wycherley. A História do Celibato Sacerdotal, de Lea.

Se ao menos, pensava Anthony ao voltar do seu passeio, se a gente ao menos tivesse dois pares de olhos! Janus poderia ler, simultaneamente, Cândido e a Imitação. A vida era tão curta e os livros tão sem conta. Examinou voluptuosamente os livros em cima da mesa, abrindo ao acaso, ora um, ora outro volume. Leu: — Ele não queria deitar-se; então, como seu pescoço fosse muito grande para o orifício, o padre viu-se obrigado a abafar-lhe as exclamações com exortações em voz mais alta ainda. A cabeça foi tirada antes que a vista pudesse acompanhar o golpe; mas a uma tentativa de recuo, Apesar de segura e exposta pelos cabelos, a primeira cabeça foi decepada rente às orelhas; as outras duas foram arrancadas com mais habilidade. A primeira causou-me calor e sede e fez-me tremer tanto que eu mal podia segurar o binóculo... — Sendo a felicidade um bem peculiar a uma natureza inteligente, deve ligar-se à natureza inteligente por alguma coisa que lhe seja peculiar. Mas o apetite não é peculiar à natureza inteligente, senão que é encontrado em todas as coisas, embora diversamente em diversos seres. A vontade, enquanto apetite, não é da essência de uma natureza inteligente, exceto quando considerada como dependente da inteligência; mas a inteligência em si é peculiar a uma natureza inteligente. A felicidade, portanto, consiste, substancialmente e principalmente, num ato do intelecto, mais do que num ato da vontade ... — Mesmo no mais íntimo da minha alma nunca pude pensar no amor a não ser como uma luta, que começa com o ódio e termina com a sujeição moral... — Cabrão eu não serei, estou dizendo; haverá perigo em tornar-se um cabrão. Mas então, ficaste bem curado da tua última tunda?... "La primera noche o purgacion es amarga y terrible para el sentido, como ahora diremos. La segunda no tiene comparacion porque es horrenda y espantable para el espiritu... — Suponho ter lido algures que o senso da precisão já chegou a tal ponto, que as damas já não diriam — j'ai mangé des confitures, porém des fitures. Nessas condições, mais de metade das palavras do Dicionário da Academia Francesa deviam ser eliminadas...

Afinal, Anthony decidiu-se pelo Caminho da Perfeição, de Santa Teresa e pôs-se a lê-lo seriamente. Quando Brian entrou, uma hora depois, ele tinha lido até à Oração da Quietude.

— Oc-cupado? — perguntou Brian.

Anthony fez sinal que não.

O outro sentou-se. — V-vim v-ver se havia alguma coisa a d-determinar para am-m-manhã.

A Sra. Foxe e Joan Thursley, Mr. Beavis e a senhora deviam vir a Oxford passar o dia. Brian e Anthony haviam combinado recebê-los e regalá-los.

Hock ou Sauterne? "Mayonnaise" de lagosta ou salmão frio? E se chovesse, qual seria o melhor programa para a tarde?

— Você vem hoje à noite aos Fabianos? — perguntou Brian, quando acabaram de discutir os planos para o dia seguinte.

— De certo, — respondeu Anthony. Devia haver nessa noite eleição do novo presidente. — Vai ser uma luta renhida entre você e o Mark Staithes. Você precisa conseguir o maior número de votos possível...

Interrompendo-o, Brian disse: — Desisti.

— Desistiu? Mas, porque?

— Por vários motivos.

Anthony olhou para ele e sacudiu a cabeça. — Não é queeu jamais tivesse pensado em candidatar-me. Não posso imaginar coisa mais aborrecida do que ser presidente de qualquer espécie de organização. — O simples fato de pertencer a uma organização já não era lá coisa muito agradável. Por que se haveria de sofrer a tirania de fazer escolhas quando não se queria escolher, de prender-se a uma série de princípios, quando o essencial e o necessário era ser livre, de assumir o compromisso de associar-se com outras pessoas, quando havia a mesma probabilidade de se querer ficar sozinho, de prometer com antecipação estar em determinados lugares, a certas horas? Foi com a maior dificuldade que Brian o persuadira a juntar-se aos Fabianos; quanto ao resto, ele estava livre. — Nada mais aborrecido — insistiu. — Todavia, uma vez que se apresenta uma oportunidade, por que desistir?

— Mark será melhor presidente do-do que eu.

— Se você quer dizer mais rude, concordo.

— A-além disso, agiu com t-tanta s-sutileza para ser eleito, — ia começando Brian; mas interrompeu-se logo, melindrado. Anthony podia supor que de estava querendo criticar Mark Staithes, estava assumindo ares de superioridade sobre ele. — O que qu-quero dizer é que ele s-sabe desempenhar-se t-tão bem do seu encargo, — passou logo a corrigir-se. — Ao p-passo que eu... De modo que não v-vejo c-como nem p-porque...

— A verdade é que você pensou em ser agradável a ele.

— Não, n-não! protestou Brian em tom angustioso. — N-n-não é isso, não!

— Mark é o galo do terreiro, — Anthony prosseguiu, sem atender ao protesto do outro. — Quer ser; tem que ser o galo do terreiro — mesmo que se trate do minúsculo terreiro dos Fabianos! — Riu-se. — Coitado do Mark! Qual nãodeve ser o seu desespero, ao ver que não pode sequer encarapitar-se no poleiro! É uma ventura a gente preferir os livros. — Afagou o volume de Santa Teresa. — Contudo, eu gostaria que você não tivesse desistido. Eu haveria de me rir um bocado, quando visse o Mark batido por você e procurando fingir que não ligava. — E, em seguida, noutro tom: — Lendo aí qualquer coisa, não?

Aliviado com a mudança de assunto, Brian confirmou: — Sobre o p-p-p...

— Sobre o pecado?

— O p-papel do sindicato.

Riram-se ambos.

— É estranho! — disse Anthony quando cessaram de rir, — A simples idéia de falar aos socialistas sobre o pecado tem qualquer coisa de... como dizer? de extravagante, realmente. Pecado e... socialismo. — Abanou a cabeça. — É como se cruzássemos um pato com uma zebra.

— Mas não se poderia falar sobre o pecado, não haveria mesmo razão para isso, se o ponto de partida fosse outro.

— Qual?

— O social. Se a sociedade fosse tão bem organizada, que o indivíduo não tivesse a mais simples possibilidade de cometer pecados.

— Mas pensa você, honestamente, que poderia existir tal sociedade?

— T-talvez, — disse Brian com certa dúvida, ao mesmo tempo refletindo que uma reforma social dificilmente poderia abolir aqueles seus desejos ignóbeis, não poderia sequer legitimar tais desejos, salvo dentro de certos limites convencionais. E, abanando a cabeça: — N-não, não s-sei, — concluiu.

— Não posso compreender que se pudesse fazer mais do que apenas transferir os nossos pecados de um plano para outro. Mas isso nós já fizemos. Tomemos para exemplo a inveja e a ambição. Elas costumavam manifestar-se no plano da violência física. Pois bem; a sociedade foi de tal modo reorganizada, que elas têm que manifestar-se, na maioria dos casos, em termos de concorrência econômica.

— Que, aliás, vamos abolir.

— E, desse modo, fazer voltar a moda da violência física, pois não?

— I-isso é o que você d-deseja, não é? — disse Brian. E ajuntou, rindo: — Você é terrível.

Seguiu-se um silêncio, durante o qual Brian, distraído, apanhou O Caminho da Perfeição, e, virando as páginas, leu aqui uma linha, um parágrafo ali. Depois, suspirando, fechou o livro, pô-lo de novo no seu lugar e, sacudindo a cabeça, considerou: — Não p-posso compreender porque é que v-você lê essa d-droga. Uma v-vez que n-não acredita n-nisso.

— Mas eu acredito, — insistiu Anthony. — Não, naturalmente, nas explicações ortodoxas. Essas, já se vê que são idiotas. Mas acredito nos fatos. E na teoria metafísica fundamental do misticismo.

— Qu-quer dizer que p-pode chegar à v-verdade p-por uma espécie de união d-direta com ela?

Anthony confirmou. — E à mais preciosa e importante espécie de verdade, somente por esse meio.

Sentado, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos e a cara comprida entre as mãos, Brian ficou, um momento, silencioso, com os olhos fixos no chão. Depois, sem erguer os olhos, disse, afinal: — a mim me parece que v-você está j-jogando com p-pau d-de d-dois b-b-b...

— Bicos, — completou Anthony.

O outro abaixou a cabeça, confirmando. — Utilizando o c-cepticismo contra a r-religião — contra t-toda espécie d-de idealismo, na verdade, — acrescentou, lembrando-se da ironia acerada com que Anthony gostava de ferir todo entusiasmo que lhe parecesse excessivo, — E ao m-mesmo tempo, ut-tilizando essa d-droga — apontou para O Caminho da Perfeição... — c-contra um argumento c-científico, quando isso c-convém ao seu l-l-l... Não pôde dizer "livro" e passou a soletrá-lo.

Anthony reacendeu o cachimbo, antes de responder. — Mas, por que não deve a gente tirar partido de ambas as partes? — perguntou, atirando para o fogão o fósforo apagado. — De todas as partes. Por que não?

— Questão de c-coerência, de s-sinceridade...

— Mas eu não prezo a sinceridade. O que eu prezo é a integralidade. Acho que o nosso dever é desenvolver todas as nossas potencialidades — todas. Não se deixar ficar estupidamente aferrado a uma só. Coerência e sinceridade! — repetiu, — Mas as ostras também são coerentes e sinceras. As formigas também são coerentes e sinceras.

— Bem, isso apenas confirma a minha resolução de não ser santo...

M-mas c-como pode você f-fazer qualquer coisa, sem ser c-coerente e s-sincero? É a primeira condição para qualquer empr-empreendimento.

— Mas quem lhe disse que eu quero realizar qualquer coisa? — perguntou Anthony. — Nada disso. O que eu quero é ser e de um modo completo. E quero ainda saber. E até onde a conquista do saber coincide com a ação, com o empreendimento, aceito essa primeira condição, sinceramente. — E com o bocal do seu cachimbo apontava para os livros em cima da mesa.

— Você n-não aceita as c-condições d-dessa espécie de c-co-nhecimento, — retorquiu Brian, indicando, mais uma vez, O Caminho da Perfeição. — Rezas e j-jejuns e t-tudo o mais.

— Porque isso não é conhecimento, é uma espécie particular de experiência. Há toda a diferença possível entre conhecer e experimentar. Entre aprender álgebra, por exemplo, e deitar-se com uma mulher.

Brian não sorriu. Continuando a olhar fixamente para o chão, disse: — M-mas você p-pensa que as experiências m-místicas nos põem em c-contato com a v-verdade?

— Tanto quanto o deitar-se.

— É? — perguntou Brian contrafeito. Não se comprazia com esse gênero de conversa, tanto menos agora que estava amando Joan — amando-a e, entretanto, (chegava a abominar-se por isso) desejando-a bestialmente, indevidamente...

— Quando a mulher corresponde ao nosso ideal, — respondeu o outro com um ar malicioso de quem conhecia por experiência toda sorte de mulheres. Na realidade, conquanto tivesse vergonha de admiti-lo, era ainda virgem.

— Neste caso, você não tem que atormentar-se com j-j-jejuns, — retrucou Brian, subitamente irônico.

Anthony fez uma careta. — Dou-me por perfeitamente satisfeito com apenas conhecer o caminho da perfeição, — disse.

— Acho que eu d-devia querer exp-perimentá-lo t-também, — opinou Brian, depois de uma pausa.

Anthony meneou a cabeça e objetou: — Não compensa. E é justamente aí que está o mal de toda atividade sincera e coerente. Ela se exerce a troco da liberdade. Ela acua o individuo num canto; faz dele um prisioneiro.

— Mas quem quiser ser livre tem que ser prisioneiro. É a condição da liberdade — da verdadeira liberdade.

— Da verdadeira liberdade! — Anthony repetiu, dando à voz um tom clerical. Gosto muito desse tipo de argumento. O contrário de uma coisa não é o contrário, oh, se me faz favor, não! É a própria coisa, mas como ela é verdadeiramente. Pergunte-se a um conservador o que é o conservantismo e ele responderá que é o verdadeiro socialismo. E os jornais de classe dos cervejeiros? Estão cheios de artigos sobre a beleza da verdadeira temperança. A temperança vulgar consiste justamente na recusa brutal e total da bebida; mas a verdadeira temperança, a verdadeira temperança é algo de muito mais requintado. A verdadeira temperança é uma garrafa de clarete em cada refeição e três "whiskys" duplos depois do jantar. Pessoalmente, eu sou todo pela verdadeira temperança, porque acho a temperança abominável. Mas gosto de ser livre. Por isso, não quero relações com a verdadeira liberdade.

— O que n-não a imp-pede de c-continuar sendo a v-verdadeira liberdade, — insistiu obstinadamente o outro.

— Que é que existe num nome? — prosseguiu Anthony. — Aqui está a resposta: — Praticamente, tudo, se o nome é bom. Liberdade é um nome maravilhoso. Aí está porque você tanto deseja empregá-lo. Afigura-se-lhe que, só com chamar à prisão verdadeira liberdade, você conseguirá que todos se sintam atraídos para a prisão. E o pior é que você tem toda a razão. Para a maioria das pessoas o nome vale mais do que a coisa. Tais pessoas seguem o homem que o repete com mais freqüência e em voz mais alta. E não há dúvida que "a verdadeira liberdade" é um nome melhor do que "a liberdade" tout court. A verdade — eis aí uma das palavras mágicas. Combinemo-la com a magia da palavra "liberdade" e o efeito será terrífico. — Depois de um instante de silêncio, continuou digressivamente e noutro tom: — O curioso é que ninguém fale a respeito da verdadeira verdade. Suponho que isso soa esquisito demais. Verdadeira verdade; verdadeira verdade, — repetia para experimentar. — Não, vê-se logo que não dá certo. É qualquer coisa como beri-beri ou Wagga-Wagga. Língua de negro. Não é coisa que se pudesse tomar a sério. Quem quiser tornar aceitável o contrário da verdade, terá que chamar-lhe verdade espiritual, ou verdade interior, ou verdade superior, ou mesmo...

— Mas há um m-momento, você estava d-dizendo qu-que havia uma espécie de verdade s-superior. Alguma c-coisa que só se podia c-conhecer m-misticamente. V-você está se c-contradizendo.

Anthony riu. — Pois isso é um dos privilégios da liberdade. Além disso, — ajuntou, mais sério, — há que distinguir entre conhecer e experimentar. Verdade conhecida não é a mesma coisa que verdade experimentada. Deveria haver duas palavras distintas.

— Você consegue sempre encontrar uma saída, desvencilhar-se de t-tudo.

— De tudo, não, — insistiu Anthony. — Aquilo ali sempre haverá. — Apontou de novo para os livros. — Haverá sempre o saber. A prisão do saber — porque, sem dúvida, o saber é também uma prisão. Mas estarei sempre pronto a permanecer nessa prisão.

— S-sempre? — interrogou Brian.

— Por que não?

— É um l-luxo exc-cessivo.

— Pelo contrário. É um caso de desdém dos prazeres e de vida laboriosa.

— Que não d-deixa de ser t-também um pr-prazer.

— De certo. Mas não temos o direito de tirar prazer do nosso trabalho?

Brian fez que sim; e disse: — A questão n-não é p-propriamente essa. A questão é que n-não sabemos s-servir-nos dos nossos p-privilégios.

— O que eu tenho não é, assim, tanto, — objetou Anthony. — Cerca de seis libras por semana, — acrescentou, especificando o rendimento que lhe coubera por morte de sua mãe.

— M-mais o r-resto.

— Que resto?

— A s-sorte de acontecer g-gostar de coisas c-como estas; — estendeu a mão e bateu nos infólios de Boyle. — E de todos os s-seus d-dotes intelectuais.

— Mas eu não posso fazer-me estúpido artificialmente, — protestou Anthony. — Nem você.

— N-não, mas p-podemos aplicar n-noutra coisa o que p-possuimos.

— Outra coisa para a qual não temos vocação nenhuma, sugeriu o outro sarcasticamente.

Mas Brian simulou não ouvir o sarcasmo e continuou com uma seriedade ainda mais intensa e apaixonada do que antes:

— Numa esp-pécie de s-s-sacrifício de ação de graças.

— Graças por que?

— Por tudo que n-nos tem sido d-dado. D-dinheiro, para c-começar. E, em seguida, inst-trução, g-gôsto, a c-capacidade de c-c... — Quis dizer "criar", mas teve que se contentar com um "de fazer coisas". — Ser um sábio ou um artista é qualquer c-coisa como p-prover à s-salvação pessoal. Mas há ainda o r-reino de D-deus. Ag-guardando ser realizado.

— Pelos Fabianos? — perguntou Anthony em tom de afetada ingenuidade.

— Entre outros. — Houve um longo meio-minuto de silêncio. — Devo dizê-lo? — Brian perguntava-se. — Devo dizer-lhe? E de repente, como se um dique se rompesse, sua indecisão foi varrida. — Resolvi, — disse em voz alta. E tão forte era o sentimento com que proferiu as palavras, que, quase sem consciência do que fazia, ele se ergueu sobre os pés e se pôs a caminhar agitado pelo quarto. — Resolvi c-c-continuar com f-filosofia, l-literatura e história até aos t-trinta anos. Depois s-será tempo de f-fazer alguma outra coisa. Alguma c-coisa mais d-direta.

— Direta? — repetiu Anthony. — Em que sentido?

— D-dirigindo-me ao pr-próximo. R-realizando o reino de D-deus... — A própria intensidade do desejo de comunicar o que sentia reduziu-o à mudez.

Escutando as palavras de Brian, olhando-lhe para a fisionomia grave e cheia de ardor, Anthony sentiu vibrarem as cordas mais profundas e intensas do seu ser... sentiu-se comovido e, justamente por esse motivo, submeteu-se a uma espécie de coação voluntária, à guisa de autodefesa, para reagir contra a própria emoção do amigo por meio de um motejo: — Lavando os pés dos pobres, por exemplo, — sugeriu, — e enxugando-os depois com os cabelos. O diabo será se você for atacado de calvície precoce.

Depois, quando Brian já se tinha ido, sentiu-se envergonhado de sua ignóbil grosseria — humilhado, ao mesmo tempo, pela irreflexão e o automatismo com que se servira de tal linguagem. Automatismo semelhante ao dessas rãs super-nervosas que se contraem e vibram quando se lhes aplica à pele uma gota de ácido. Puro reflexo.

— Com mil demônios! disse em voz alta, apanhando, depois, o seu livro.

Estava, mais uma vez, engolfado no Caminho da Perfeição, quando ouviu alguém bater à porta e berrar-lhe o nome, numa voz que deliberadamente procurava imitar a voz áspera de um sargento-instrutor passando em revista a tropa.

— Maldita escada, essa sua! — disse Gerry Watchett, ao entrar. — Por que diabo mora você numa toca imunda dessas?

Gerry Watchett era jovem de feições miúdas e inexpressivas, boa pele, cabelos alourados e ondeados. Bonito rapaz, mas, apesar da altura e da compleição vigorosa, era, a sua boniteza quase de menina. Um observador fortuito notaria nele um ar de inocência e de frescura arcádica, as quais seriam, porém, após exame mais detido, desmentidas pela rude insolência dos seus olhos azuis, pelo leve sorriso de mofa e de desprezo que lhe era quase permanente, pela rudeza intimidante de suas mãos de dedos grossos e unhas curtas.

Anthony indicou uma cadeira. Mas o outro abanou a cabeça. — Não. Tenho pressa. Entrei somente para lhe dizer que você tem que vir jantar comigo esta noite.

— Mas eu não posso.

Gerry franziu a testa. — Por que não?

— Tenho uma reunião nos Fabianos.

— E você considera isso um motivo para não vir jantar comigo?

— Uma vez que eu prometi...

— Posso então contar com você às oito horas?

— Mas se estou lhe dizendo que...

— Ora, deixe de tolices! Que importância tem isso? Uma reunião familiar?

— Mas que desculpa vou eu dar?

— Dê uma desculpa qualquer. Diga que acaba de ter dois gêmeos.

— Está bem, eu irei, — concordou Anthony, afinal.

— Fico-lhe muitíssimo agradecido, — disse Gerry com afetada polidez. — Já estava resolvido a torcer-lhe o pescoço, se você não aceitasse. Bem, até logo! — Ao chegar à porta, estacou. — Hão de vir também Bimbo Abinger, o Ted, o Willie Monmouth e o Scroope. Eu queria ver se convidava o Gorchakov também; mas o idiota, à ultima hora foi-se embora e adoeceu. Por isso é que eu tive de convidar você, — concluiu com uma calma e tranqüila positividade, um realismo, que era muito mais ofensivo, do que o poderia ter sido toda e qualquer ênfase; rodou, depois, nos calcanhares e foi-se embora.

— Você gosta d-dele? — perguntara Brian a Anthony certo dia, quando o nome de Gerry veio à baila. E porque a pergunta lhe evocasse um eco de inquietação na consciência, Anthony respondeu, com uma vivacidade perfeitamente dispensável, que, naturalmente, ele gostava do Gerry. — Que outro motivo supõe você que eu tenha para andar com ele? — concluíra, com um misto de suspeita e irritação. Brian não dera resposta; e a pergunta, à semelhança de um "bumerangue", voltara de novo ao seu autor. Sim, por que andava com Gerry? Pois, sem dúvida, não podia gostar do rapaz; Gerry o tinha ofendido e humilhado e estava pronto, bem sabia ele, a humilhá-lo e ofendê-lo de novo sob qualquer pretexto. Ou antes, sem pretexto nenhum — apenas para se divertir, porque sentia prazer em humilhar os outros, porque era naturalmente inclinado a infligir a dor. Por que, então? por que?

Por simples snobismo. Como Anthony foi forçado a admitir, o snobismo explicava, em parte, esse segredo desabonador. Era absurdo e ridículo. Mas o fato, o fato insofismável era, contudo, que ele se comprazia na companhia de Gerry e dos amigos deste. Ser íntimo desses jovens aristocratas e plutocratas e, ao mesmo tempo, saber-se superior a eles em inteligência, gosto, discernimento, em todas as coisas que realmente importavam — eis aí o que lhe satisfazia a vaidade.

Reconhecendo-lhe a superioridade intelectual, os jovens bárbaros entendiam que ele lhes devia, pagar a admiração com diverti-los. Era íntimo deles, sim; mas como Voltaire era íntimo de Frederico o Grande, como Diderot, da Imperatriz Catarina. O filósofo residente não se distingue facilmente do bobo da corte.

Como quem aprecia sinceramente, mas ao mesmo tempo com ares de superioridade, ofensivamente, Gerry costumava dizer, após ouvir um dos seus ditos de espírito: — Viva o Professor! — Ou então: — Bebamos outra vez em honra do velho Professor — como se ele fosse um desses pobres organistas ambulantes italianos, que remoem músicas a troco de tostões.

O que Anthony sentiu à lembrança da humilhação doeu-lhe como uma picada de inseto. Com súbita violência, alçou-se da cadeira e começou a andar, de cara fechada, no quarto, para um e outro lado.

Um "snob" da classe-média, tolerado por causa de seus talentos de jogral. A idéia era odiosa, ofensiva. — Como suporto isso? — perguntava-se. — Por que hei de ser esse miserável idiota que sou? Vou escrever a Gerry um bilhete, dizendo-lhe que não posso ir. — Mas o tempo passava e o bilhete foi ficando por escrever. Porque, afinal de contas — pensava depois — também havia vantagens, existiam também satisfações. Uma noite em companhia de Gerry e de seus amigos era uma coisa divertida e, ao mesmo tempo, educativa. Educativa e divertida, não pelo que eles pudessem dizer ou pensar — pois eram todos estúpidos, todos de uma ignorância incomensurável; mas pelo que eles eram, pelo que os tornavam as condições mesmas deles. Pois, graças ao dinheiro e à posição, podiam realmente viver naquela liberdade que Anthony conhecia apenas de imaginação ou de leitura. Não existiam, sequer, para eles, a maior parte das restrições que sempre o haviam tolhido. Eles permitiam-se, como a coisa mais natural do mundo, certas licenças que ele costumava admitir somente em teoria e, ainda assim, sentindo-se constrangido a justificá-las com todos os recursos de uma metafísica cuidadosamente pervertida, de uma teologia mística engenhosamente adulterada. Meramente por força das circunstâncias sociais e econômicas, esses bárbaros ignorantes encontravam-se muito naturalmente em situação de se comportarem como ele não ousava fazê-lo, mesmo depois de ter lido tudo o que Nietzsche dissera sobre o Super-homem, ou Casanova sobre as mulheres. Nem se tinham visto na necessidade de estudarem Patanjali ou Jacob Boehme, à procura de desculpas para as suas intoxicações de vinho e sensualismo: embriagavam-se e possuíam suas raparigas assim mesmo, sem ambages, como se estivessem no Jardim do Éden. Encaravam a vida, não tímida e apologeticamente, como o fazia Anthony, não ansiosamente, de trás de grades invisíveis, mas com a segurança serenamente insolente de quem sabia ter sido a vontade de Deus que eles gozassem a vida e ter Deus igualmente decretado a infalível aquiescência de seus semelhantes a todos os seus desejos.

Verdade era que também os tolhiam certos preconceitos. Também eles, em certas ocasiões, estavam prontos a se encerrarem, como o pobre Brian, na prisão de um código. Mas era código, eram preconceitos particulares, de casta; não tinham, portanto, no que tocava a Anthony, força coercitiva. O exemplo deles libertava-o das cadeias a que o havia acorrentado sua educação, mas não tinham o poder de atá-lo àquelas outras cadeias que eles arrastavam na vida. Em companhia deles, sentia-se livre do poder compulsório da respeitabilidade, do medo paralisante da opinião pública, das máximas inibitórias ditadas pela prudência da classe-média. Mas quando Bimbo Abinger se negava, indignado, a dar, sequer, ouvidos à sugestão de que ele devia vender sua velha casa, que, como um monstro, devorava três quartas partes do seu rendimento, quando Scroope se lamentava de ter de ingressar no Parlamento, visto que os filhos mais velhos, em sua família, deviam sempre ter assento na Câmara dos Comuns antes de tomarem seu título, então o que Anthony sentia era apenas surpresa e divertimento, o divertimento e a surpresa de um explorador que observasse os gestos e as cabriolas rituais de uma tribo de negros. Um ser racional não consentiria em converter-se ao culto de Mumbo Jumbo; mas não se oporá a tornar-se ocasionalmente um pouquinho nativo. O culto de Mumbo Jumbo significa aceitação de tabus; o tornar-se nativo quer dizer liberdade. A "verdadeira liberdade!" Anthony punha-se a zombar de si próprio. Tinham-lhe voltado o bom humor e a equanimidade. Um "snob" Um "snob" da classe-média. Sem dúvida nenhuma. Mas havia uma razão para o seu snobismo, uma justificação. E se os jovens bárbaros afidalgados tendiam a considerá-lo um bufão de primeira classe — não fazia mal, era o preço que tinha de pagar pela liberdade que lhe davam em troca. Nada tinha que pagar para associar-se aos Fabianos; mas, também, como era pouco o que eles tinham para dar-lhe! As doutrinas socialistas podiam até certo ponto libertar, teoricamente, o intelecto; ao passo que o exemplo dos jovens bárbaros era uma libertação no domínio da prática.

— Sinto imensamente, — garatujava ele em seu bilhete a Brian. — Mas lembrei-me de súbito que eu já estava aprazado para um jantar hoje, à noite. — "Aprazado" pertencia ao vocabulário do pai e era uma palavra que ele habitualmente detestava por sua afetação. Mas então, ao escrever uma mentira, notou que a palavra lhe veio espontaneamente ao bico da pena. "Desolado" (era ainda uma expressão predileta do pai) — de não poder ouvi-lo dissertar sobre o... pecado! Bem quisera sair deste embaraço, mas não vejo jeito. Todo seu, A.

Quando foram servidas as frutas, já todos eles estavam completamente embriagados. Gerry Watchett contava a Scroope o episódio daquela baronesa alemã que ele possuirá no navio, quando em viagem para o Egito. Abinger não tinha auditório, mas recitava quadrinhas: a Jovem Dama de Wick, o Velho de Devizes, o Jovem chamado Maclean — um completo dicionário biográfico nacional. Ted e Willie estavam empenhados em violenta discussão sobre o melhor, modo de caçar galo de campina. Só Anthony, isolado do grupo, estava silencioso. A linguagem viria comprometer a requintada felicidade que estava então gozando. Aquela última taça de champanhe transformara-o no habitante de um novo mundo, extraordinariamente belo, precioso e significativo. As maçãs e laranjas na salva de prata pareciam gemas enormes. Cada copo, sob a luz das velas, continha, não vinho, mas um grande berilo amarelo, sólido e translúcido. As rosas apresentavam a contextura lustrosa do cetim e essa dureza, esse brilho, essa nitidez de forma próprios do metal ou do vidro. Até o som dir-se-ia que se congelara e cristalizara. A jovem Dama de Kew era, aos seus ouvidos, o equivalente de um bloco de jade esculturado e aquela discussão violenta e fútil sobre o galo de campina afigurava-se-lhe uma cascata no inverno. Le transparent glacier des vols qui n'ont pas fui, pensava ele com um prazer cada vez mais intenso. Havia em tudo um ar sobrenatural de brilho e distinção, mas, ao mesmo tempo, como tudo parecia tão vago, tão estranhamente inconseqüente! Luminosas em meio à penumbra crepuscular e periférica que os envolvia, as faces grupadas em volta da mesa podiam imaginar-se como coisas vistas através de uma folha de vidro polido, num aquarium iluminado. E o aquarium não estava somente fora, mas também, misteriosamente, dentro dele. Olhando através do vidro para aquelas flores marinhas e gemas submarinas, ele mesmo se sentia um peixe — mas um peixe de gênio, um peixe que era também um deus. ICHTHUS — Iesos Christos theou huios soter. Sua divina alma-píscea estava ali suspensa, pairava em seu elemento exterior, contemplando, contemplando através de imensos olhos que tudo percebiam, que compreendiam tudo, mas não tomando parte no que ela via. As suas próprias mãos, pousadas ali sobre a mesa defronte dele, tinham deixado, em qualquer sentido real, de ser suas. Do seu retiro aquarial, ele as contemplava com a mesma admiração feliz e cheia de desprendimento que sentia pelas frutas e flores ou por aqueles outros pequenos cromos em que se transfigurava a vida tranqüila e que eram as faces dos seus amigos. Lindas mãos! conseguiam — e de que maneira maravilhosa! — executar suas inúmeras funções — a de apontar espingardas de dois canos para pássaros voando, a de acariciar coxas de baronesas alemãs em transatlânticos, a de tocar escalas imaginárias sobre a toalha da mesa, assim. Encantado, ele observava os movimentos de seus dedos, o fácil deslizar dos tendões sob a pele. Mãos perfeitas! Mas não era mais verdade que elas fossem parte dele próprio, da alma píscea essencial em seu aquarium estranho ao tempo do que serem parte dele as mãos de Abinger descascando aquela banana, as mãos de Scroope levando um fósforo a seu charuto. Não sou meu corpo, não sou minhas sensações, não sou, sequer, meu espírito, eu sou o que soa. Afirmo-me como o OM. E o OM é a palavra sagrada, é o mantra védico que representa o Absoluto, o Relativo e a relação entre um e outro, o OM é Deus. E Deus não e limitado pelo tempo. Pois o Uno não está ausente de coisa alguma e, todavia, está separado de todas as coisas...

— Alô, Professor! — Um pedaço de casca de laranja bateu-lhe em cheio na bochecha. Ele sobressaltou-se e voltou-se.

— Em que diabo está você pensando? — perguntava Gerry Watchett naquela voz propositadamente áspera que ele sentia especial prazer em usar à maneira de uma máscara hedionda.

As águas momentaneamente turvadas do aquarium já haviam voltado ao repouso. Voltando a ser mais uma vez um peixe, um peixe divino e vagamente feliz, Anthony sorriu para Gerry com serena indulgência.

— Estava pensando em Plotino, — disse.

— Por que Plotino?

— Por que Plotino? Mas, meu caro senhor, então não é claro? A ciência é a razão e a razão é múltipla. — O peixe tinha encontrado novamente a língua. A eloqüência escoava-se fluente do aquarium, sem o menor esforço. — Mas, se a alguém acontece sentir-se particularmente não-múltiplo — então, neste caso, em que outra coisa é possível pensar, senão em Plotino? A menos, naturalmente, que se prefira o pseudo-Dionysius ou Eckhart, ou Santa Teresa. O vôo do uno para o Uno. O próprio Santo Tomás é forçado a admitir que nenhum espírito pode ver a substância divina sem se divorciar dos sentidos do corpo, ou pela morte, ou pela atitude contemplativa do êxtase. Do êxtase, note bem! Mas o êxtase é sempre o êxtase, qualquer que seja a causa. Seja esta o champanhe, ou o fato de preferir OM, ou de olhar vesgo para o nariz, ou de fitar os olhos num crucifixo, ou de amar — de preferência, a bordo, Gerry; sou o primeiro a admiti-lo; de preferência, a bordo. Que estão dizendo as ondas bravias? Encantamento! Êxtase! Eis o que elas nitidamente estão gritando. Até que, tome nota, até que, quase suspensa a respiração deste arcabouço corpóreo, quase interrompido o curso do nosso sangue humano, nos tornemos unia alma viva, enquanto o nosso corpo será posto a dormir, de olho parado, imobilizado...

— Era uma vez um jovem de Burma, — Abinger passou, subitamente, a declamar.

— Que foi imobilizado pelo poder da harmonia... — repetiu Anthony mais alto.

— E cuja noiva boas razões de queixa possuía.

— E o grande poder da alegria, — exclamou Anthony, — nós vemos...

— Mas agora, que estão casados. Ele anda tomando cantáridas...

— ...nós penetramos a vida das coisas. A vida das coisas, digo-lhes eu. A vida das coisas. E que vão para o inferno todos os Fabianos! — acrescentou.

 

Anthony regressou aos seus aposentos pouco mais ou menos quinze minutos antes da meia-noite e, ao entrar na sala de estar, teve um desagradável choque ao ver alguém erguer-se de uma poltrona com a violência de um boneco de molas.

— Safa! que susto!

— Ora, até que enfim! — disse Mark Staithes. Sua fisionomia enfática cobrira-se de uma expressão de zangada impaciência. — Há quase uma hora que estou à sua espera. Depois, com desprezo, ajuntou: — Você está bêbado.

— Como se isso nunca tivesse acontecido a você! — retorquiu Anthony. — Lembro-me perfeitamente...

— Eu também me lembro, — interrompeu-o Mark Staithes. — Mas isso foi no meu primeiro ano. — Nesse seu primeiro ano, em que lhe parecera necessário provar que era homem — mais homem do que o mais resistente deles todos, mais barulhento, mais beberrão. — Hoje eu tenho mais o que fazer.

— É o que você imagina, — disse Anthony.

O outro consultou o relógio. Tenho cerca de sete minutos, — disse. — Estará você em estado de me escutar?

Anthony sentou-se, calado e digno.

De pequena estatura, mas espadaúdo, vigoroso, Mark estava de pé diante dele, quase ameaçador.

— É a respeito de Brian, — disse.

— A respeito de Brian? repetiu Anthony e, depois, com um sorriso velhaco, acrescentou: — Por falar em Brian, devo dar a você os meus parabéns, por ser o nosso futuro presidente.

— Não seja bobo! Está pensando que eu aceito esmolas? Quando ele desistiu, eu também desisti.

— E deixou esse soturno Mumby apossar-se do cargo?

— Que diabo tenho eu que ver com o Mumby?

— Que importam os outros a qualquer de nós? — disse

Anthony sentenciosamente. — Nada, graças a Deus. Absolutamente na...

— Por que é que ele me insulta dessa maneira?

— Quem? O Mumby?

— Não; o Brian, está visto.

— Mas ele acha, ao contrário, que está sendo gentil com você.

— Pois que vá para o diabo com a sua gentileza, — disse Mark. — Por que é que ele não aprende a conduzir-se com decência?

— Porque tem prazer em conduzir-se como um cristão.

— Bem; nesse caso, diga-lhe, por amor de Deus, que futuramente procure outro para vítima do seu cristianismo. A mim é que ele não há de pregar mais essas peças cristãs.

— O que falta a você para a luta, é um galo; essa é que é a verdade.

— Que quer dizer?

— Sim, porque, do contrário, não é vantagem, nem tem graça nenhuma encarapitar-se no topo do esterquilínio. Ao passo que Brian quisera fazer de nós todos uns capõezinhos contentes, vivendo em boa paz. Ora, no que toca aos esterquilínios, estou com Brian. Na questão das galinhas é que eu começo a hesitar.

Mark tornou a olhar para o relógio. — Preciso ir. — À porta, voltou-se, — Não se esqueça de transmitir-lhe o que eu disse a você. Gosto do Brian e não quero brigar com ele. Mas se torna a fazer de caridoso e de cristão comigo...

— ...O pobre do rapaz perderá para sempre a sua estima, — concluiu Anthony.

— Palhaço! — disse Staithes e, batendo a porta atrás de si, precipitou-se escada abaixo.

Tendo ficado só, Anthony apanhou o quinto volume do Historical Dictionary e começou a ler o que tinha Bayle a dizer acerca de Spinoza.

 

19 de junho de 1912

A fluência com que Anthony falava, enquanto se encaminhavam para a estação, era sintomática do sentimento íntimo de culpa que o dominava. Aquela linguagem derramada, a atenção pronta que prestava ao que dizia o outro, era tudo uma maneira de reparar o mal que havia feito a Brian a noite anterior. Não, que Brian tivesse proferido palavras de censura. Parecia, ao contrário, esforçar-se no sentido especial de não fazer a mais leve referência à ofensa da véspera. E Anthony valia-se do silêncio do amigo para adiar qualquer menção do caso desagradável de Mark Staithes. Sem dúvida que ele haveria de ter uma ocasião de falar de toda essa questão execrável (como eram aborrecidas as pessoas, com as suas querelas complicadas!); por enquanto, porém, ele se tranqüilizava, achando que seria melhor esperar... esperar até que Brian se referisse ao caso. Entrementes, sua consciência preocupada constrangia-o a mostrar-se de uma amabilidade fora do comum para com Brian, esforçando-se especialmente em ser interessante e em se mostrar interessado. Interessado na poesia de Edward Thomas, ao descerem a rua Beaumont; em Bergson, quando estavam diante de Worcester; na nacionalização das minas de carvão, ao atravessarem Hythe Bridge; e, finalmente em Joan Thursley, quando se viram debaixo do viaduto e ao se aproximarem da estação.

— É extr-traordinário, — disse Brian, rompendo, com visível esforço, um longo silêncio preparatório, — que você n-n-nunca a t-tenha encontrado.

— Dis aliter visum, — respondeu Anthony no melhor estilo clássico de seu pai. Conquanto, se ele tivesse aceitado o convite da sra. Foxe para passar uns tempos em Twyford, os deuses lhes tivessem naturalmente, refletia ele, transformado o espírito.

— Eu qu-quero que v-vocês se estimem, — dizia Brian.

— Tenho certeza que haveremos de nos estimar.

— À primeira v-vista, não parece possuir grandes d-d-d... — Começou de novo, com paciência: — não parece possuir grandes d-dotes. À pr-primeira vista é assim. A gente pensa que ela s-só se interessa pela vida do c-c-c... — Mas "campo" não! pôde ser pronunciado e ele se viu forçado a um circunlóquio aparentemente afetado: — por assuntos rurais. C-cães e p-passarinhos e coisas assim.

Anthony fez sinal de que compreendia e, lembrando-se, de repente, daqueles abelharucos cospe-cospe e toutinegras mijonas dos dias passados no Bulstrode, não pôde deixar de esboçar um sorriso imperceptível.

— Mas quando a gente p-passa a conhecê-la melhor, — continuou Brian com dificuldade, então é que a gente d-d-descobre nela uma p-porção de coisas qu-qu-que antes nem suspeitava. Ela s-sente a p-p... o v-verso de um modo extr-traordinário. W-wordsworth e M-meredith, por exemplo. F-fico sempre admirado d-de ver como s-s-são excelentes os seus j-juízos críticos.

Anthony sorriu consigo, sarcástico. Seria, mesmo, Meredith?

O outro calou-se, pensando em como deveria explicar, ou se deveria mesmo tentar explicar. Tinha contra si tudo — sua incapacidade física, a dificuldade de traduzir em palavras o que tinha a dizer, a possibilidade de Anthony não querer, sequer, compreender o que ele dissesse, apresentar o seu álibi de cinimo fingindo achar-se absolutamente ausente.

Brian pensava no primeiro encontro que tiveram. O embaraço que sentiu ao descobrir duas pessoas estranhas na sala de visitas, quando entrou para tomar chá, vermelho e ainda com os cabelos molhados da chuva. Sua mãe pronunciou um nome: — sra. Thursley. — A esposa do novo vigário, imaginou ele, ao apertar a mão da mulher magra e canhestra. Tinha umas maneiras tão insinuantes que falava ceceando. Seu sorriso era de uma limpidez deliberada.

— E esta é Joan.

A mocinha estendeu-lhe a mão e, ao apertá-la, ele sentiu que o seu corpo esbelto como que procurava furtar-se à presença de um estranho, num movimento de timidez que era todavia adoràvelmente gracioso, tal qual uma árvore tenra cedendo ao sopro do vento. Jamais tinha ele visto um gesto tão belo e, ao mesmo tempo, capaz de sensibilizá-lo tanto.

—Temos ouvido dizer que você é um grande conhecedor de aves;—disse a sra. Thursley com uma polidez incômoda e aumentando ainda o fulgor daquele seu sorriso, já de si tão luminoso e tão profissionalmente cristão. — Pois Joan também. É uma verdadeira ornitologista.

A mocinha enrubesceu e murmurou um protesto.

— Será para ela um prazer ter alguém com quem conversar a respeito dos seus queridos pássaros. Não é mesmo, Joanie?

Joan estava tão embaraçada, que nem sequer podia falar.

Vendo-a assim, de face voltada e enrubescida, Brian encheu-se de compaixão e ternura. Seu coração começou a bater com força. Com um misto de medo e contentamento, percebeu que havia acontecido algo de extraordinário, algo de irrevogável.

Continuando em suas recordações, lembrou-se daquela outra ocasião, uns quatro ou cinco meses mais tarde, em que estiveram juntos em casa do tio dela, em East Sussex. Na ausência dos pais, dir-se-ia transformada, não noutra pessoa, mas em si própria, no seu "eu" fundamental, na menina feliz e expansiva que lhe era impossível ser em casa. Pois em casa vivia debaixo de um constrangimento constante. As rabugens constantes e os ocasionais acessos de mau humor do pai enchiam-na de medo. E embora amasse muito sua mãe, sentia-se prisioneira da afeição que esta lhe tinha, tinha a consciência vaga de estar sendo explorada por essa afeição. E finalmente havia a atmosfera fria e entorpecente da pobreza distinta em que viviam, a luta contínua e sempre tensa no sentido de manter as aparências, de conservar a superioridade social. Em casa, era impossível a Joan ser integralmente ela mesma; ali, porém, naquela casa espaçosa de Iden, na quietude daquela casa, na acessibilidade de seus habitantes sentia-se livre e feliz, de uma felicidade que a transfigurava. Deslumbrado, Brian sentiu recrudescer o amor que já lhe tinha.

Lembrou-se do dia em que tinham ido passear nas terras pantanosas de Winchelsea. Os espinheiros estavam em flor; toda a ampla e plana extensão da relva estava pontilhada de carneiros e cordeiros, formando manchas brancas aqui e ali, como constelações; em cima, o céu vestia-se de nuvens brancas que o vento fazia deslizar. Quadro de indescritível beleza! E pareceu-lhe, de súbito, que era através da imagem de seu amor que estavam caminhando. O mundo era o seu amor e o seu amor o mundo; e o mundo tinha uma significação profunda, cada vez mais profunda e mais misteriosa. A prova da bondade de Deus pairava naquelas nuvens, movia-se com aqueles carneiros que pastavam, cintilava na florescência incandescente dos arbustos — e caminhava com ele e com Joan, de mãos dadas, por sobre a relva, revelando-se na felicidade que sentiam. Seu amor, ao que lhe parecia, naquele momento apocalíptico, era qualquer coisa mais do que simplesmente dele; era, não sabia bem por que mistério, o equivalente daquele vento e daquele sol, o reflexo dos raios brancos sobre o verde e o azul da primavera. O que ele sentia por Joan estava como que implícito no mundo, tinha um sentido divino e universal. Amava-a infinitamente e, por essa razão, sentia-se capaz de amar, tanto quanto a ela, todas as coisas do mundo.

A recordação desses fatos era-lhe preciosa, sobretudo agora, depois que os seus sentimentos tinham sofrido uma modificação qualitativa. Transparente e puro como água de fonte, esse seu amor infinito cristalizara-se, com o correr do tempo, em desejos específicos.

 

Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses reins,

Polis comme de 1'huile, onduleux comme un cygne,

Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins,

Et son ventre et ses seins, ces grappes de ma vigne.

 

Desde quando, pela primeira vez, Anthony lhe fizera ler o poema, esses versos lhe tinham sempre obsidiado a imaginação; a princípio impessoalmente; mais tarde, porém, eles se haviam associado definitivamente à imagem de Joan. Polis comme de l’huile, onduleux comme un cygne. Não havia esquecer. As palavras lhe haviam aderido ao espírito, indelèvelmente, como um remorso, como a memória de um crime.

Quando entraram na estação, verificaram que tinham ainda quase cinco minutos de espera. Os dois jovens puseram-se a passear lentamente, indo e voltando, ao longo da plataforma.

Num esforço tendente a aplacar a vexatória obsessão daqueles seios, daquele ventre de uma polidez de óleo, Brian prosseguiu enfim: — Minha mãe gosta muito dela.

— Isso é motivo de grande satisfação, — disse Anthony; não tinha, porém, terminado de pronunciar essas palavras, quando sentiu que exagerava, que superestimava a aprovação. Se ele se enamorasse de alguma menina, certamente que não iria levá-la e submetê-la à inspeção do pai e da Paulina. Aprovação! Mas, afinal, para falar a verdade, isso de aprovar ou de desaprovar era coisa que não lhes competia. Sem dúvida que a sra. Foxe era diferente; podia-se tomá-la mais a sério do que Paulina ou seu pai. Mas, ainda assim, não se havia de querer a interferência nem mesmo da sra. Foxe — Com efeito, prosseguia ele em seu raciocínio, sua interferência seria provavelmente recebida com desagrado, desagrado ainda maior do que se se tratasse de outra pessoa e isso em virtude de sua superioridade moral. Pois essa superioridade constituía uma espécie de reivindicação, conferia-lhe certos direitos sobre outras pessoas. Não era assim coisa tão fácil deixar de tomar em consideração a sua opinião, como se podia fazer, por exemplo, com a opinião de Paulina. Gostava muito da sra. Foxe, respeitava-a e admirava-a. Mas por isso mesmo era que ele a sentia como uma ameaça virtual à sua liberdade. Pois ela poderia — e, cm verdade, haveria, com certeza, de fazê-lo, se fosse informada — opor-se ao modo dele encarar as coisas. E embora suas críticas se baseassem nos princípios daquele cristianismo liberal dela, e embora não houvesse dúvida nenhuma de que semelhante modernismo era exatamente tão absurdo e, a despeito de pretender ser científico, tão irremediavelmente fora dos limites do racionalismo quanto o mais extravagante fetichismo — contudo, as palavras dela, por serem dela, apresentavam uma ponderabilidade tal que não podiam deixar de ser tomadas em consideração. E aí estava porque ele fazia tudo quanto podia para não se colocar em posição de ter que escutá-las. Já havia mais de um ano que ele tinha aceitado seu convite para passar algum tempo com eles no campo. Dis aliter visum. Mas era com certo nervosismo que ele antevia seu iminente encontro com ela.

O trem entrou bufando na estação. E ali, um minuto mais tarde, estavam todos eles, na outra extremidade da plataforma —. Mr. Beavis no seu terno cinzento, Paulina ao lado dele, imensa no seu vestido cor de malva, com uma vermelhidão apoplética no rosto, produzida pela sombra do seu guarda-sol cor de malva, e, atrás deles, a sra. Foxe, ereta e majestática, e uma menina alta com um chapéu de abas largas e um vestido florido.

Mr. Beavis adotou como saudação uma atitude herói-cômica que Anthony achou particularmente irritante. — Seis almas preciosas, — citou, dando palmadinhas no ombro do filho. — ou antes, somente quatro almas preciosas, mas todas impacientes de vencerem obstáculos, de se atirarem à aventura.

— Então, Anthony, — disse a sra. Foxe com uma voz musical e afetuosa. — Há quanto tempo não o via.

— É verdade. Há muito tempo. — Ele riu, um tanto embaraçado, tentando recordar-se daquelas razões estudadas que dera, para não aceitar o convite que ela lhe havia feito. Custasse o que custasse, era preciso não contradizer-se - Fora na Páscoa ou no Natal que a necessidade de trabalhar no Museu Britânico o tinha retido em Londres? Sentiu que lhe batiam no braço e, grato por esse pretexto para interromper a conversa embaraçante, voltou-se bruscamente.

— J-joan, — dizia Brian à mocinha de vestido florido, — este é o A-anthony.

— Muito prazer, — murmurou ele entre dentes. Já a conhecia através de muitas referências do... — Notou que os seus cabelos eram bonitos, que os seus belos olhos castanhos tinham um brilho e um ardor particular. Mas o perfil acusava linhas demasiadamente acentuadas; e, embora os lábios fossem bem talhados, tinha a boca muito larga. Qualquer coisa de leiteira, foi a sua conclusão. E depois, o vestuário, confecção doméstica, absolutamente não lhe agradava. Preferia qualquer coisa de uma tanto mais urbano.

— Bem siga na frente e conduza-nos, Macduff, — disse Mr. Beavis.

Deixaram a estação e, lentamente, pelo lado sombrio da rua, foram andando para o centro da cidade. Ainda alegremente Gilpinesco como se (e isso irritava particularmente a Anthony) a expedição desse dia fosse a sua primeira excursão de férias num período de vinte anos, Mr. Beavis abundava em gracejos da gíria usada em Oxford no seu tempo de estudante. A sra. Foxe escutava, sorria nos momentos apropriados, fazia perguntas adequadas. Paulina queixava-se, de vez em quando, do calor. Seu rosto luzia: e, caminhando silencioso e triste ao lado dela, Anthony notava, enjoado, que aquele cheiro que lhe era peculiar se tornava cada vez mais intenso e desagradável. De quando em quando ele distinguia pedaços de frases que vinham de trás dele, da conversa entre Brian e Joan. — ... um falcão enorme, — dizia da. Falava com entusiasmo e rapidez. — Deve ter sido um busardo. Ele n-não tinha umas r-riscas na c-c-c...,na cauda? — Isso mesmo. Riscas escuras sobre fundo cinzento claro. — E-então é f-f-fêmea- As f-fêmeas têm ri-riscos nas c-caudas. — Anthony sorria consigo, sarcàsticamente.

Iam atravessando o Ashmolean, quando uma mulher, que saía do museu a passo lento e com ar desconsolado, fez de repente um sinal com a mão para eles e, gritando primeiro o nome de Mr. Beavis e depois, quando todos se voltaram para olhá-la, o da sra. Foxe, desceu correndo a escada na direção do grupo.

— Ué! É Mary Champernowne, — disse a sra. Foxe. — Mary Amberley, deveria eu dizer. Ou, talvez, não deveria dizer, refletia ela, lembrando-se de que os Amberleys estavam divorciados.

O nome e a fisionomia tão conhecida evocaram no espírito de Mr. Beavis apenas uma sensação agradável de reconhecimento e surpresa. Erguendo bem alto, o chapéu, a parodiar consciente e comicamente um floreio dos velhos tempos, disse à recém-chegada: — Seja bem aparecida, prezada dama.

Mary Amberley apertou a mão que lhe estendeu a sra. Foxe. — Que feliz encontro! — exclamou, esbaforida. A sra. Foxe estava surpreendida de tanta cordialidade. A mãe de Mary, era sua amiga; mas Mary mantivera-se sempre à distância. E além disso, desde seu casamento, tinha vivido em um mundo que a sra. Foxe não conhecia e, por princípio, desaprovava. — Que feliz e maravilhoso encontro! — repetiu a outra ao voltar-se para Mr, Beavis.

— A felicidade é toda nossa, — disse ele galantemente. — Já conhece a minha esposa, não? E o jovem paladino? — Seus olhos piscavam; os cantos da boca, debaixo do bigode, contraíram-se, caricatos. E segurando Anthony pelo braço: — O jovem servidor das instituições?

Ela sorriu para Anthony. Um sorriso estranho, segundo ele notou; um sorriso tortuoso, em que os lábios não se desuniam, parecendo conter um sentido secreto. — Há anos que não o vejo. — ela disse. — Desde... — Evidentemente., desde as cerimônias fúnebres da primeira sra. Beavis. Mas isso não era coisa fácil de se dizer. — Desde quando você era deste tamanhinho! — E, erguendo a mão enluvada à altura dos olhos, mediu, entre o polegar e o indicador, um espaço de cerca de uma polegada.

Anthony riu nervoso, intimidado e ao mesmo tempo entusiasmado de tanta graça, tanta naturalidade, tanta vivacidade.

A sra. Amberley apertou a mão de Joan e Brian; depois, voltando-se para a sra. Foxe e como que explicando aquela cordialidade anormal, disse: — Eu estava na situação de um Robinson Crusoe. Insulada. — Demorou-se, com uma insistência cômica na pronúncia da primeira sílaba. — Absolutamente in-sulada. Dominando, qual um monarca, tudo quanto eu examinava. — E enquanto iam, devagar, atravessando St. Giles's, passou a contar uma história complicada a respeito de sua ida aos Cotswolds; de um encontro com algumas pessoas amigas marcado para o dia 18 em Oxford, ao voltar de Cotswolds; de sua partida de Chipping Campden; de sua chegada pontual ao local do encontro, de como tivera que esperar e se impacientara e se enfurecera e, finalmente, acabara por descobrir que tinha chegado um dia antes: no dia 17. — Isso é bem do meu feitio.

Todos riram a bom rir. Pois ela sabia entremear a sua narrativa de fantasias e extravagâncias imprevistas e, além disso, tinha, ao narrar, uma maneira extraordinariamente sutil de modular a voz para adaptá-la às palavras — uma voz que sabia quando devia acelerar-se sem tomar fôlego, quando arrastar-se, lenta, quando atenuar-se, ir-se apagando a ponto de se tornar quase inaudível e enriquecendo-se, então, de idéias subentendidas e implícitas.

Até mesmo a sra. Foxe, que tinha o propósito especial de não se divertir — per causa do tal divórcio — não pôde deixar de achar graça na história.

Para Mary Amberley, o riso deles era como champanhe: aquecia-a, produzia-lhe cócegas em todo o corpo. Não havia dúvida que eles eram de uma chatice única; que eram uns filisteus. Mas o aplauso, ainda mesmo quando dos maçadores e dos filisteus, é sempre o aplauso e é sempre inebriante. Tinha um brilho nos olhos e as faces rubras. — Isso é bem do meu feitio e não tem remédio! — disse mais uma vez, lamurienta, quando os risos haviam cessado; mas o gesto com que procurava depreciar-se, diminuir-se a si mesma era uma caricatura; na realidade ela sentia-se orgulhosa de sua incompetência, considerava-a como parte de seu encanto feminino. — Em todo caso, — concluiu, — o que eu era... era apenas uma náufraga. Inteiramente só numa ilha deserta.

Caminharam, um momento, em silêncio. O pensamento de que ela teria que ser convidada para almoçar com eles era um pensamento que estava em todos os espíritos — pensamento que tia sra. Foxe se mesclava de vexame e em Anthony de desejo e de embaraço. O almoço era servido em seus aposentos; na qualidade de anfitrião, era seu dever convidá-la. O que ele, aliás, desejava — desejava vivamente, ardentemente. Mas, que diriam os outros? Não deveria, ele, em todo caso, consultá-los primeiro? Mr. Beavis veio tirá-lo do embaraço, fazendo a sugestão por sua conta e risco.

— Acho... — hesitou; depois, piscando os olhos, continuou: — Acho que no nosso "festim" vai tomar parte mais um conviva, não, Anthony?

— Mas eu não quero ser demais, — protestou, ela voltando-se do pai para o filho. E notou que ele era um belo rapaz, sensível e inteligente.

— Mas, de modo nenhum... — pôs-se a repetir Anthony, serio e, ao mesmo tempo, incoerente, — de modo nenhum...

— Bem, se é realmente assim... — Agradeceu-lhe com um sorriso de súbita intimidade, quase de cumplicidade — como se um laço os prendesse um ao outro, como se de toda aquela gente eles fossem os único capazes de compreender as coisas como elas realmente eram.

Depois do almoço, deviam mostrar a Joan as vistas de Oxford. Mr. Beavis tinha um encontro marcado com um colega na, Woodstock Road. Paulina achou que não seria mal passar o tempo calmamente e sem fazer nada, até à hora do chá. Deixaram pois, que Anthony fizesse a Mary Amberley as honras da casa. A responsabilidade era, a um tempo, deliciosa e alarmante.

No "hansom" que os conduzia a Magdalen Bridge, a sra. Amberley voltou-se para ele, tendo no rosto uma expressão viva de malícia súbita.

— Livres, enfim! — disse ela.

Anthony concordou sacudindo a cabeça e retribuiu-lhe o sorriso, com um ar de entendido, de quem estivesse conspirando. Eles estavam difíceis de aturar, — disse. — Acho que lhe devo pedir desculpas.

— Uma coisa em que muitas (vezes tenho pensado é em fundar uma liga pró abolição das famílias, — prosseguia ela. — Não deveria ser permitido aos pais aproximarem-se dos filhos.

— É o que pensava Platão, — disse ele com certo pedantismo.

— Sim, mas Platão queria que os filhos fossem tiranizados pelo Estado, em vez de o serem pelos pais e mães. E eu não quero que eles sejam tiranizados por ninguém.

Ele arriscou uma pergunta pessoal: — Também já foi tiranizada?

Mary Amberley fez sinal que sim. — Horrivelmente. Poucos filhos têm sido mais amados do que eu fui. Foram verdadeiras surras de afeição que eu recebi. Fizeram de mim unia estropiada mental. Levei anos a curar-me da deformidade — Seguiu-se um silêncio. Depois, perturbando-o com um olhar de quem examina um artigo à venda, ela disse: — Lembra-se? A última vez que o vi foi por ocasião do enterro de sua mãe.

A associação subterrânea entre essa observação e o que pouco antes se passara fê-lo corar, sentir-se como culpado da inconveniência das más companhias, — Lembro-me, sim, — murmurou, contrariado consigo mesmo por sentir tanto embaraço e, ao mesmo tempo, algo envergonhado de ter consentido, sem o menor protesto, nessa referência, embora implícita e remota, à sua mãe, de ter, mesmo, sentido tão pouco desejo de protestar.

—Você, nessa época, era um garoto horrível, pouco asseado, — continuava ela, olhando ainda para ele como quem examina. — Como são sempre feios os garotos dessa idade! Parece incrível que eles venham a ser um dia criaturas humanas apresentáveis. É verdade, — acrescentou, — que muitos deles não o conseguem ser. É triste pensar, não acha? — quanta gente por aí existe repugnante de corpo e de espírito, de uma estupidez tremenda e uma capacidade sem limites de aborrecer o próximo!

Foi com um violento esforço de vontade que Anthony conseguiu dominar seu embaraço. — Espero que não serei um desses? —disse, pondo os olhos nos olhos dela.

A sra. Amberley sacudiu a cabeça e, num tom grave e decidido, respondeu: — Não. Eu estava justamente pensando como você escapou galhardamente dos horrores da infância.

Ele tornou a enrubescer, mas, desta vez, de prazer.

— Vamos ver: que idade tem agora? — perguntou ela.

— Vinte — quase vinte e um.

— E eu vou completar trinta no inverno próximo. É esquisito, — acrescentou, — como estas coisas mudam de sentido-A última vez que o vi, aqueles nove anos eram como um imenso abismo entre nós dois. Abismo intransponível, parecia-me então. Pertencíamos a espécies diferentes. E no entanto, aqui estamos nós, sentados do mesmo lado do abismo, como se fosse a coisa mais natural do mundo; o que, aliás, e em verdade, não deixa de ser, atualmente. — Voltou-se e atirou para ele aquele sorriso secreto e significativo, de lábios pregados. Um fulgor estranho dançava-lhe nos olhos escuros. Ah, ali está Magdalen, — continuou, sem dar a Anthony tempo de comentar-lhe as palavras; e isso foi para ele um grande alívio, pois, na excitação e embaraço em que se encontrava, não teria sabido o que dizer. — Que coisa desoladora, esse estilo gótico! Que coisa sórdida! Não é de estranhar que Gibbon não tivesse em grande conta a Idade Média! — Calou-se de repente, lembrando-se da ocasião em que seu marido fizera essa mesma observação a respeito de Gibbon. Isso foi logo um mês ou dois depois que se tinham casado. Ela sentira chocada e espantada com essas críticas desabusadas de coisas que ela aprendera a considerar como sagradas e acima de qualquer juízo — chocada, mas, também, emocionada, também deleitada. Pois não era realmente divertido ver as coisas sagradas atacadas assim, de todos os lados? E naqueles dias Roger era ainda adorável. Suspirou; depois, um tanto irritada, procurou banir do espírito o sentimentalismo e continuou a discorrer sobre aquela arquitetura odiosa.

A carruagem parou ria ponte; eles apearam-se e desceram para a garage dos barcos. Reclinada sobre os coxins da querena, Mary Amberley estava silenciosa. De vara em punho, Anthony ia, muito devagar, impelindo o barco contra a corrente. De olhos semicerrados, Mary Amberley via a paisagem verde passar, deslizando. O verde-escuro das árvores arqueava-se por sobre as sombras azeitonadas e os reflexos fulvo-glaucos da água; e entre as manchas crepusculares dessa abóbada verde, os prados áureo-verdes eram como ilhas de ulmeiros. E sempre aquele cheiro suave, aquele cheiro de mato que se sentia no rio; e aquele ar tão brando e tépido junto ao rosto, que já quase não se tinha mais consciência do limite entre o "eu" e o "não-eu", de nenhuma superfície divisória, mas, ao contrário, se sentia o "eu" fundir-se, num torpor, fundir-se no verão circunstante.

De pé na popa, Anthony, podia baixar o olhar para ela, como de uma posição vantajosa. Ela jazia-lhe aos pés, lânguida e em abandono. Manejando sua comprida vara com uma prática de profissional, da qual se orgulhava, sentia, ao contemplá-la, a alegria de ser forte e superior. Já não havia agora nenhum abismo entre eles. Ela era uma mulher e ele um homem. Erguendo no ar a vara, atirou-a para a frente com um movimento fácil e gracioso, sem precipitação, seguro de sua força. Fincou-a na lama, contraiu os músculos contra a resistência que ela opunha; o barco singrou as águas, a extremidade da vara alçou-se do leito do rio, rastejou por um momento e foi de novo, com graça, facilidade e mestria, arrojada para a frente. De repente, ela descerrou as pálpebras e olhou para ele com aquele mesmo olhar que era um exame e que tanto o embaraçara quando estavam no carro. A confiança em sua varonilidade evaporou-se como por encanto.

— Meu pobre Anthony, — disse ela enfim, com um súbito sorriso que dava a impressão de tornar-lhe o rosto mais próximo. — O simples fato de olhar para você enche-me de ardor.

Depois de parar e firmar o barco, ele aproximou-se e sentou-se no lugar que ela, afastando as saias, lhe arranjara sobre a almofada, a seu lado.

— Não creio que seu pai o tiranize muito, — disse ela tornando ao assunto da conversa do carro.

Ele sacudiu a cabeça.

— Nem tão pouco o corrompe com um excesso de afeição, segundo imagino.

Anthony sentiu, sem o esperar, um sentimento de lealdade para com o pai. — Acho que ele sempre gostou muito de mim.

— Oh, isso já se vê, — disse a sra. Amberley com impaciência. — Eu nunca imaginei que ele o maltratasse, que o espancasse.

Anthony não pôde deixar de rir. O espetáculo de seu pai correndo atrás dele de porrete na mão era de um cômico irresistível. Depois, mais sério, disse: — Ele nunca se aproximou de mim suficientemente para poder bater-me. Houve sempre, entre nós dois, um grande abismo.

— Isso, sim; a gente sente logo que ele é hábil nessa coisa de cavar abismo. E entretanto, parece que sua madrasta se arranja com ele às mil maravilhas. Como já acontecia com sua mãe. É, pelo menos, o que eu acho. — Sacudiu a cabeça. — Também, o casamento é uma coisa tão esquisita, tão inexplicável. Estamos sempre vendo os casais da mais evidente incompatibilidade viverem sempre unidos, ao passo que vivem separados os mais evidentemente compatíveis. As pessoas maçadoras, aborrecidas, insuportáveis são adoradas e as pessoas adoráveis são detestadas. Por que? Sabe Deus por que. Mas suponho que se trata geralmente do que Milton chama o Leito Genial. — Demorou-se grotescamente na pronúncia da primeira sílaba da palavra "genial"; mas Anthony estava tão ansioso de não parecer chocado cem a referência ao que ele sempre considerara como indigno de ser mencionado em presença de uma senhora, que nem sequer riu — pois o riso poderia ser interpretado come reação automática à liberdade de linguagem, por parte de ma colegial.

Não riu, nem sequer sorriu; mas, muito sério, como se estivesse admitindo a verdade de um teorema de geometria, sacudiu a cabeça, concordante, e disse em tom grave e judicioso: — Sim, suponho que é geralmente disso que se trata.

— Coitada da sra. Foxe, — continuou Mary Amberley. —. Eu imagino que, no caso dela, havia um mínimo de genialidade.

— Conheceu o marido dela? — perguntou ele.

— Somente quando criança. E, depois de certa idade, uma criança é tão aborrecida quanto outra qualquer. Mas minha mãe freqüentemente me falava dele. Um perfeito animal. E a virtude de em pessoa. Deus me defenda de um animal virtuoso! Os viciosos são bastante maus; mas, ao menos, nunca são bestiais por princípio. São inconseqüentes; às vezes, por engano, conduzem-se bem. Ao passo que os virtuosos — estes nunca se esquecem nem se enganam; são bestiais em todas as ocasiões. Pobre mulher! Teve uma vida de cachorro, ao que me parece. Mas também me parece que ela está tendo uma continuação dessa vida com o filho.

— Ao contrário, ela o adora, — protestou ele. — E Brian adora-a igualmente.

— É exatamente o que eu estou dizendo. Todo o amor que ela nunca recebeu do marido, todo o amor que ela nunca lhe deu — expande-se agora sobre esse miserável rapaz.

— Mas ele não é miserável.

— Talvez que ele não o saiba, pode ser. Por enquanto. Mas espere um pouco! — E depois de breve pausa, a sra. Amberley continuou: — Você tem sorte. Muito mais sorte do que imagina.

 

7 de julho de 1912

A sra. Foxe examinava o caderno em que costumava ir assentando os encargos e compromissos assumidos. Uma série de reuniões da comissão, visitas distritais, tardes na sala de recreio dos aleijadinhos, tudo isso escurecia as páginas do seu canhenho. E nos entretempos ainda havia visitas e chás no curato e almoços em Londres. E todavia, (já o sabia ela de antemão) o resultado total de tudo isso seria o isolamento, a desolação do verão que se aproximava. Por mais que ela se desdobrasse em atividades, o tempo sempre lhe parecia vazio quando Brian estava ausente. Nos anos anteriores ela sempre tinha encontrado um jeito de encher bem o tempo. Mas agora, neste mês de julho, depois de passar uma ou duas semanas em casa, Brian ia partir para a Alemanha. Para aprender a língua. Era essencial. Ela sabia que ele tinha que ir; desejava seriamente que ele fosse. Entretanto, quando o fato se concretizou, quando chegou realmente o momento da partida, sua dor foi imensa. Chegou a ter vontade de ser francamente egoísta e retê-lo junto de si.

— Amanhã por esta hora, — disse, quando Brian entrou na sala, — você estará atravessando Londres a caminho de Liverpool Street.

Ele confirmou em silêncio, e pondo-lhe a mão sobre o ombro, curvou-se e beijou-a.

A sra. Foxe olhou para ele e sorriu. Depois, esquecendo-se Por um momento de que assumira consigo mesma o compromisso se não lhe falar de seus sentimentos, disse:

— Receio ter que passar um verão triste e vazio; — censurou-se logo por ter provocado aquela expressão de angústia no rosto dele; censurou-se, mesmo, apesar da alegria que sentia ao vê-lo corresponder assim aos seus sentimentos, tão carinhoso, tão sensibilizado. — A menos que você o encha com suas cartas, — acrescentou, à guisa de remédio ao mal que fizera. — Você escreverá, não é assim?

— C-c-c... n-naturalmente que escreverei.

A sra. Foxe propôs um passeio a pé; ou então, se dessem um passeio de carro? Que tal? Embaraçado, Brian consultou seu relógio.

— Mas, eu v-vou almoçar com as Th-thursleys, — respondeu constrangido. — Não haveria muito t-t-t... muita f-folga — (que aborrecimento lhe causavam esses circunlóquios ridículos!) — para um passeio.

— Mas que louca que eu sou! — exclamou a sra. Foxe. — Tinha esquecido completamente o seu almoço. — Era verdade que esquecera; e ao imaginar agora, subitamente, as longas horas que iria passar sem ele neste último dia, sentiu como uma ferida no coração. Fez um esforço no sentido de impedir que lhe aparecesse na fisionomia ou na voz qualquer indicie da dor que sentia. — Mas ao menos haverá tempo para um passeiozinho no jardim, não?

Saíram pela porta de vidro e desceram a longa álea verde marginada de gramados. Era um dia sem sol, mas quente, quase abafado. Sob o céu cinzento, as flores assumiam um brilho que tinha qualquer coisa de artificial. Sempre calados, foram até ao extremo da álea e retrocederam.

Afinal, a sra. Foxe disse: — Estou contente de saber que se trata de Joan; e contente também de ver que você se interessa tanto. Embora, de certo modo, seja pena que você a tenha encontrado. Pois acho que muito, muito tempo terá que passar até que você possa casar com ela.

Brian concordou, sem dizer palavra.

— Será um tempo de ensaio, — continuou ela. — Difícil, talvez não muito feliz. Em todo caso, — (sua voz vibrava de emoção), — alegra-me que isso tenha acontecido; isso me alegra, — repetiu. — Porque eu acredito no amor. — Acreditava como os pobres acreditam num céu de glória e conforto póstumos, pois ela jamais conhecera. Respeitara o marido, admirara-lhe os feitos, gostara dele naquilo em que era possível gostar dele, maternalmente, tivera pena dele por suas fraquezas. Mais se sentira transfigurada pela paixão e a sua aproximação carnal sempre fora para ela um ultraje, dificilmente suportável. Nunca o tinha amado. Aí estava por que era tão forte sua crença na realidade do amor. O amor tinha que existir, para que pudesse ser reparado, ao menos por delegação, o mal que lhe fizera sofrer a sua própria experiência pessoal. Além do mais, havia o testemunho dos poetas; não havia, pois, dúvida que o amor existia e era unia coisa sagrada, maravilhosa, uma revelação. — É uma espécie de graça especial, — continuava ela, — enviada par Deus para nos socorrer, para nos tornar mais fortes e melhores, para livrar-nos do mal. É coisa fácil livrarmo-nos do mal quando nos foi dado conhecer o bem.

Fácil, refletia consigo Brian no silêncio de que seguiu, mesmo quando não nos foi dado conhecer o bem. A mulher que viera sentar-se à mesa deles no Café-Concerto, quando Anthony e ele estavam aprendendo francês em Grenoble, dois anos atrás — não lhe fora difícil resistir àquela tentação.

— Tu as l’air bien vicieux, — ela lhe dissera no primeiro entreato; e a Anthony: — Il doit être terrible avec les femmes, hein? — Em seguida convidou-os a ir com ela para casa. — Tous les deux, j'ai une petite amie. Nous nous amuserons bien gentiment. On vous fera voir des choses drôles. Toi qui es si vicieux — ça t’amusera.

Não, certamente não lhe fora difícil resistir a isso, muito embora, por essa época, nunca tivesse posto os olhos em Joan. As verdadeiras tentações não eram as piores, mas as melhores. Em Grenoble, a melhor tentação que ele encontrou foi na literatura. Et son ventre, et ses seins, ces grappes de ma vigne... Elle se coula à mon côté, m’appela des noms les plus tendres et des noms les plus effroyablement grossiers, qui glissaient sur ses levres en suaves murmures. Puis elle se tut et commença à me donner ces baisers qu’elle savait... As criações dos melhores estilistas exerciam um poder de atração muito mais perigoso, muito menos facilmente resistível do que as sórdidas realidades do Café-Concerto. E agora que ele tinha aberto os braços à melhor realidade possível, a atração do mal tornava-se ainda menos eficiente, deixara completamente de ser qualquer coisa que se assemelhasse, mesmo de longe, a uma tentação. Se tentação, havia, era o bem que o tentava. Fora impossível desejar a criatura baixa, vulgar, semi-animal do café-concerto. Quanto a Joan, porém, o caso era outro. Ela era bela, de gostos requintados, comungando com ele em interesses e inclinações — e precisamente por esses motivos, era uma tentação. Justamente porque encarnava o bem (e aí estava o paradoxo que o afligia e perturbava) é que ela era desejada por ele indevidamente, fisicamente...

— Lembra-se daqueles versos de Meredith? — disse a sra. Foxe, quebrando o silêncio. Meredith era um dos seus autores prediletos. — Aqueles versos que estão em Woods, — especificou, abreviando afetuosamente o título do poema quase ao ponto de reduzi-lo a uma alcunha. E citou:

 

"Ó! amor, grande vulcão, transforma em fogo

A terra vil e atira-a para o céu."

 

— O amor é uma espécie de pedra filosofal, — prosseguiu ela. — Não só nos liberta, mas também nos transforma. Transforma a ganga em ouro. A terra em céu.

Brian sacudiu a cabeça, confirmando. E todavia, o que ele estava pensando era que aqueles corpos voluptuosos e acéfalos criados pelos estilistas, tinham acabado por assumir realmente os traços fisionômicos de Joan. A despeito do amor, ou justamente por causa do amor, aquelas visões sucúbicas tinham agora um nome, uma personalidade.

O relógio do estábulo batia doze heras; à primeira pancada houve uma explosão silenciosa de pombas, como flocos de neve redemoinhando em direção da treva densa dos ulmeiros distantes.

— Que beleza! — disse a sra. Foxe destacando as sílabas para exprimir com mais intensidade a sua admiração.

— Mas vamos supor — foi a idéia que de súbito ocorreu a Brian — vamos supor que ela ficasse, de uma hora para outra, completamente sem dinheiro. E se Joan se visse tão pobre como aquela mísera mulher de Grenoble, na mesma pobreza irremediável e sem recurso?

Lentamente, morria a última pancada do relógio e, uma por unia, as pombas, depois de suas evoluções no espaço, iam voltando a seu pombal guarnecido de torrinhas e situado por cima do relógio.

—Acho que você deve ir já, — disse a sra. Foxe, — uma vez que tem hora marcada para chegar.

Brian sabia quanto sua mãe relutava sempre em deixá-lo ir assim, essa ostentação de generosidade produziu nele um sentimento de culpa, e, ao mesmo tempo, (visto que ele não queria sentir-se culpado) certo ressentimento. — M-mas eu não g-gasto n-nem uma hora, — disse quase zangado, — para f-fazer três milhas de b-bicicleta.

Um momento depois, já ele se sentia envergonhado do tom de irritação com que falara, de sorte que, todo o resto do tempo em que esteve em companhia de sua mãe, mostrou-se de uma afetuosidade fora do comum.

Às doze e meia, montou em sua bicicleta e partiu para casa dos Thursley. A criada abriu a porta da frente da casa em estilo gótico do século dezenove. Logo ao entrar, ele sentiu um cheiro fraco de pudim e couve. Era habitual. O curato cheirava sempre a pudim e couve. Era um sintoma, conforme ele descobrira, de pobreza e, como tal, dava-lhe uma sensação de constrangimento moral, como se tivesse feito qualquer coisa de reprovável e não sentisse a consciência tranqüila.

Foi introduzido na sala de visitas. Comportando-se como se estivesse diante de uma veneranda senhora, a sra. Thursley levantou-se de sua escrivaninha e foi ao encontro dele. — Ah, meu caro Brian! — exclamou. Seu sorriso profissionalmente cristão punha-lhe à mostra os dentes postiços brilhantes como pérolas. — Quanto prazer em vê-lo! — Tomou-lhe a mão, retendo-a na sua. — E sua mãe querida, como vai ela? Com certeza, muito triste com a sua próxima partida para a Alemanha. Aliás, todos nós ficaremos tristes, se isso se realizar. Você tem o dom de fazer a gente sentir sua falta, — continuava ela, sempre no mesmo esforço de prodigalizar gentilezas, enquanto Brian ficava vermelho e se debatia na tortura de um constrangimento. Dizer coisas gentis nas bochechas do próximo, especialmente nas bochechas da gente rica, das pessoas poderosas, que lhe pudessem ser úteis, era um hábito da sra. Thursley. Um hálito cristão — teria ela dito, se fosse convidada a explicar. Prova de que amava o próximo; de que via o bem em todo inundo; de que criava uma atmosfera de simpatia e de confiança. Mas abaixo do nível da confissão, abaixo, quase, do nível da consciência, ela sabia que muita gente cobiçava a lisonja, por mais ultrajante que fosse, e, de um modo ou de outro, estava sempre pronta a pagá-la.

— Ah, mas aqui está Joan, — exclamou, interrompendo os elogios que fazia a brian. E acrescentou, num tom cheio de duplo sentido: — Você naturalmente não vai querer ficar conversando com sua velha mãe enfadonha, não é mesmo, Joanie?

Os dois jovens entreolharam-se, presas de um embaraço mudo.

A porta abriu-se de chofre e Mr. Thursley irrompeu sala a dentro. — Olhem para isto! — gritou, com a voz trêmula de raiva, enquanto mostrava na mão um tinteiro. — Como é que vocês querem que eu faça o meu trabalho com um oitavo de polegada de borra no tinteiro. Molhando, molhando, molhando a pena a manhã inteira! Sem poder escrever mais de duas palavras de cada vez...

— Brian está aqui, papai, — disse Joan, na esperança, que, de antemão, reconhecia vã, de que a presença de um estranho o constrangesse e o fizesse calar.

Com o nariz pontudo ainda branco de raiva, Mr. Thursley olhou de frente para Brian, apertou-lhe a mão e voltando-se, continuou imediatamente em suas iradas queixas. É sempre assim nesta casa. Como se pede esperar que um homem consiga fazer um trabalho de responsabilidade?

— Oh, meu Deus, — Joan implorava intimamente, — fazei com que ele sossegue, fazei com que ele cale a boca.

— Como se ele próprio não pudesse encher o tinteiro! — pensava Brian. — Por que é que ela não lhe diz isso?

Mas à sra. Thursley era impossível dizer ou, sequer, pensar semelhante coisa. Ele tinha seus sermões, seus artigos no Guardian, seus estudos sobre Neo-Platonismo. Como se podia esperar que ele mesmo enchesse seu tinteiro? Tanto para ela como para ele era claro, tinha se tornado, depois desses vinte e cinco anos de escravidão abjetamente imposta e irrefletidamente aceita, tinha-se tornado completamente axiomático, que ele não podia fazer uma coisa dessas. Além disso, se ela ousasse sugerir, de qualquer modo, que ele não tinha lá muita razão, sua cólera tornar-se-ia ainda mais violenta. Só Deus sabia o que ele não faria ou diria—mesmo na presença de Brian! Seria uma coisa horrível. Ela começou a desculpar-se por causa do tinteiro vazio. Desculpando-se abjetamente, a si própria, desculpando Joan, desculpando os criados. O tom em que falava era, a um tempo, de súplica e de apaziguamento; como se estivesse tratando com alguém que fosse, ao mesmo tempo, Jeová e um cão feroz que a pudesse morder em qualquer momento.

O gongo — os Thursley tinham um gongo capaz de ser ouvido de um extremo ao outro de um solar ducal — o gongo roncou até atingir um trovejante "fortissimo", que reduziu ao silêncio até mesmo o sacerdote. Logo, porém, que o som decresceu, ele começou de novo.

— Como se eu estivesse pedindo uma coisa do outro mundo: encher um tinteiro, — disse.

— Ele ficará mais calmo quando vir a comida na mesa, — pensou consigo a sra. Thursley e foi a primeira a encaminhar-se para a sala de jantar, seguida de Joan. Brian quis que Mr. Thursley lhe tomasse a frente. Este, porém, apesar da sua justa cólera, não se esquecia de suas boas maneiras. Pondo a mão no ombro de Brian, empurrou-o brandamente para a porta, sem deixar, entretanto, um só momento, de descarregar sobre a esposa sua artilharia pesada.

— Como se eu exigisse mais do que apenas um pouco de sossego e as condições materiais indispensáveis para poder trabalhar. O mínimo dos mínimos. Mas nem isso eu posso conseguir. A casa é tão barulhenta como uma estação de estrada de ferro; e esquecem-se de encher o meu tinteiro a tal ponto, que eu sou obrigado a escrever com um pouquinho de lama preta que lhe fica no fundo.

Sob esse fogo cerrado, a sra. Thursley ia andando toda encolhida e cabisbaixa. Brian notou que Joan, entretanto, se empertigara: tinha o corpo aprumado e desgracioso pelo excesso de tensão.

Na sala de jantar eles encontraram os dois garotos, irmãos mais moços de Joan, já em pé atrás de suas cadeiras. Ao vê-los, Mr. Thursley deixou o caso do tinteiro e voltou à questão do barulho em casa. — É, como eu disse, como se estivéssemos ruma estação, — repetia, e inflamava-se de intensidade renovada a sua justa indignação. — O Jorge e o Artur estiveram a manhã inteira a subir e a descer as escadas e a correr pelo jardim. Por que é que você não arranja um jeito deles ficarem quietos?

Estavam agora todos nos seus respectivos lugares; a sra. Thursley numa das extremidades da mesa, o marido na outra; os dois meninos à esquerda da mãe; Joan e Brian à direita. Estavam todos de pé, à espera de que o vigário dissesse a sua prece.

— Parecem uns desordeiros, — disse Mr. Thursley; corriam-lhe nas veias as chamas da cólera; agitava-o todo um calor horrivelmente delicioso. — Parecem uns selvagens.

Fazendo um esforço, deixou pender sobre o peito o longo queixo vincado e ficou silencioso. Ainda conservava no nariz a palidez de morte, que lhe adviera em conseqüência da raiva; como animais marinhos num aquário, as ventas contraíam-se e dilatavam-se num movimento regular, mas agitado. Na mão direita, segurava ainda o tinteiro.

— Benedictus benedicat, per Jesum Christum Dominum nostrum, — disse por fim na sua voz de quem ora, voz profunda em que um "tremolo" se denunciava, e prenhe de sentidos transcendentes.

Com o ruído de um movimento retido que subitamente se desprende, todos eles se sentaram.

— Sempre a berrarem e a uivarem, — disse Mr. Thursley, voltando do tom de piedade à estridência de sua rudeza primitiva. — Como se pode esperar que eu trabalhe? — Cheio de indignação, pôs, com uma pancada violenta, o tinteiro em cima da mesa, defronte de si e, depois, desdobrou o guardanapo.

Na outra extremidade da mesa a sra. Thursley cortava o pato recheado, com uma extraordinária rapidez.

— Passe isso a seu pai, — disse ela ao filho que estava mais próximo. Era essencial não perder tempo em fazê-lo comer.

Um ou dois segundos mais tarde, a copeira oferecia a Mr. Thursley o legume. Ela trazia um avental e um gorro duros de tanta goma e manobrava com tanta destreza como um soldado do corpo de guarda. Os pratos para legumes eram horríveis, mais tinham custado caro. As colheres eram de pesada prata vitoriana. Com elas, o sacerdote serviu-se primeiro de batatas cozidas e depois de couve socada e disposta em bolinhos verdes e úmidos em forma de tijolos.

Num verdadeiro esbanjamento de cólera, Mr. Thursley continuou: — As mulheres absolutamente não compreendem o que seja um trabalho sério. — Depois, começou a comer.

Depois de haver servido pato aos outros, a sra. Thursley arriscou uma observação. — Brian parte amanhã para a Alemanha, — disse.

Mr. Thursley ergueu os olhos, mastigando a comida rapidamente com os dentes incisivos, como um coelho. — Para que ponto da Alemanha? — perguntou, dardejando um olhar agudo e inquisitorial sobre Brian. Seu nariz voltado à cor normal: avermelhara-se.

— M-marburg.

— Onde há a universidade?

Brian fez sinal que sim.

Sacudindo-se todo, com um barulho semelhante ao produzido pelo carvão coke quando despejado numa calha, Mr. Thursley desatou a rir. — Não se vá meter a beber cerveja com os estudantes, — disse.

Tinha passado a tempestade. Em parte, como um sinal de gratidão que lhe vinha do fundo do coração, em parte, para fazer sentir ao marido que ela achara irresistível a pilhéria, a sra. Thursley também se pôs a rir.

— Ah, não, — exclamou, — não se entregue a isso! Brian sorriu e sacudiu a cabeça.

— Água, ou água de Seltz? — perguntou a copeira confidencialmente, curvando-se e fazendo, com isso, estalar o colete e os engomados.

— Á-a-água, faz favor.

Após o almoço, tendo o vigário voltado para o seu gabinete de trabalho, a sra. Thursley sugeriu, naquele seu estilo vivo, significativo e embaraçador, que os dois jovens fossem dar um passeio. A porta em ogiva, na frente da casa, bateu, mal eles a transpuseram. Como uma prisioneira que fosse enfim reintegrada em sua liberdade, Joan respirou profundamente.

O céu estava ainda carregado e, sob o baixo teto de nuvens cinzentas, havia no ar certa moleza, como que uma languidez resultante de fadiga, como que um cansaço produzido pelo peso de um verão excessivo. Nos bosques, em que se embrenharam afastando-se da estrada real, havia uma quietude que oprimia, como o silêncio intencional de seres sensíveis, prenhe de pensamentos inconfessados e de sentimentos ocultos. Uma ave invisível começou a cantar; dir-se-ia, porém, que aquele som claro e vivo vinha doutro tempo e doutro lugar. Caminharam de mãos dadas; e entre eles havia o silêncio da mata e, ao mesmo tempo, o silêncio mais profundo, mais denso, mais secreto de suas próprias emoções inexpressas. O silêncio das queixas que ela era leal de mais para proferir e do pesar que, a menos que ela se queixasse, ele sentia como um insulto traduzir em palavras; a ânsia em que ela ardia, de sentir o aconchego dos seus braços e aqueles desejos que ele não desejava sentir.

O caminho que seguiam era aberto entre moitas de rododendros. Chegaram de súbito a uma passagem estreita, cercada de um e de outro lado por uma folhagem verde-escuro formando uma muralha impenetrável. Era uma solidão dentro de uma solidão, a imagem do próprio silêncio deles visivelmente impressa no silêncio maior da mata.

— Quase de m-meter medo, — sussurrou ele quando pararam ali a escutar — (pois nada mais havia que eles pudessem ouvir) a escutar as pulsações do próprio coração, a escutar, um, a respiração cio outro.

De repente, ela não pôde mais resistir e a queixa foi proferida contra sua vontade: — Quando penso no que vão ser estes dias futuros em casa. Oh, como eu gostaria que você não fosse, Brian!

Brian olhou-a e, ao ver aqueles lábios trêmulos, aqueles olhos a brilharem de lágrimas, sentiu-se, por assim dizer, desintegrado pela ternura e pelo pesar. Balbuciando o nome dela, passou-lhe o braço em volta. Joan permaneceu um momento completamente imóvel, cabisbaixa, descansando a fronte no ombro dele. Brian sentiu nos lábios o contacto eletrizante dos cabelos dela e aspirou-lhe o perfume.

Subitamente, como despertando de um sono, agitou-se e afastando-se dele um pouco, olhou-o bem no rosto. Seu olhar tinha uma fixidez desesperada, quase inumana.

 — Meu amor, — murmurou ele.

Como única resposta, Joan sacudiu a cabeça. Mas por que? A que se recusava ela, a que prova de seu afeto se estava ela opondo? — Mas J-joan...? — Havia um tom de ansiedade em sua voz.

Entretanto, ela não respondeu. Apenas olhou para ele e, mais uma vez, lentamente, meneou a cabeça. Quantas negativas se exprimiam neste simples movimento! A recusa ao queixume, a negação da possibilidade de sua própria felicidade, a triste insistência em que todo aquele amor de ambos de nada valia contra a dor da ausência, a resolução de não lhe explorar o pesar, de não lhe arrancar outra confissão, mais apaixonada, por mais ardentemente que ela o desejasse...

Num gesto rápido, ele tomou-lhe o rosto entre as mãos e, inclinando-se, beijou-a na boca.

Era entretanto isso o que ela tinha resolvido não conquistar dele, era esse o gesto que de nada podia valer contra a sua inevitável infelicidade! Durante um segundo ou dois ela enrijou o corpo, resistindo, tentou de novo sacudir a cabeça, procurou recuar. Depois, vencida por um desejo mais forte de que ela própria, caiu-lhe lânguida nos braços. Os lábios cerrados, que ofereciam resistência, acabaram por entreabrir-se e ceder aos seus beijos; ela cerrou as pálpebras e, então, nada mais houve no mundo senão aquela boca que a beijava e aquele corpo magro e duro que se premia contra o seu.

Uns dedos resolviam-lhe os cabelos acima da nuca, deslizavam-lhe em volta do pescoço, desciam-lhe até aos seios. Faltaram-lhe as forças, ela sentiu que se abismava cada vez mais nesse outro mundo de mistério, por trás das pálpebras, no trevoso universo do tacto.

Depois, sem nenhum sinal, como que obedecendo precipitadamente a alguma palavra de ordem inaudível, ele desprendeu-se dela, deixou-a. Por um instante, ela sentiu como se fosse cair; mas as forças lhe voltaram ainda a tempo aos joelhos. Oscilou, bamba, restabeleceu depois o equilíbrio e, com isso, a consciência da ofensa que recebera. Tinha-se debruçado sobre ele com todo o seu ser, corpo e alma, e ele consentira que ela fosse caindo, negara-lhe seus lábios e braços e peito e deixara-a subitamente ali, fria e horrivelmente exposta, sem defesa e como que nua. Abriu uns olhos cheios de amargura e de reproche e viu-o ali parado, ali pálido e com um ar estranho e furtivo; ele correspondeu-lhe ao olhar por um momento e, em seguida, desviou o rosto.

O ultraje ressentido transmudou-se em inquietação. — O que é isso, Brian?

Ele contemplou-a um instante e depois afastou, mais uma vez, o olhar. — Talvez seja melhor irmos para casa, — disse em voz baixa.

 

Era por um dos últimos dias de setembro. Sob o céu azul pálido, os sítios distantes se apresentavam tristes, imensamente comovedores sob a bruma tênue. O mundo parecia remoto e estranho, como uma reminiscência ou um ideal.

O trem parou. Brian fez sinal para o carregador solitário, mas, a pesar disso, saiu, ele próprio, com a mala mais pesada. Parecia-lhe que, com dar trabalho aos músculos, podia aliviar a consciência de parte do peso que a possibilidade de comprar os serviços de um pobre homem tendia a impor-lhe, tendência que aumentava com a idade.

O carregador veio logo a correr e quase arrancou a maleta das mãos de Brian. Também ele tinha a sua consciência. — Deixe isso para mim, meu senhor, — disse, quase com indignação.

— Há m-mais duas no c-c-c... lá d-dentro, — emendou Brian, muito depois de ter o carregador entrado no impronunciável compartimento para apanhar as peças restantes. — Qu-quer que eu ajude? — ofereceu. O homem era velho, — quarenta anos mais velho do que ele, calculava Brian; cabelos brancos, cara cheia de rugas, mas chamava-lhe "senhor", carregava-lhe as malas e ficaria muito grato por um chelim. — Qu-quer que eu...?

O velho carregador nem sequer respondeu, mas arrancou vigorosamente as malas do cabide, numa evidente ostentação de força bem dirigida, de que se orgulhava.

Uma pancadinha em seu ombro fez Brian voltar-se prontamente. A pessoa que lhe tocara o ombro era Joan.

—Em nome do rei! — disse ela; mas o riso que lhe acompanhou as palavras era forçado e havia era seus olhos uma expressão de ansiedade — a ansiedade acumulada de semanas de especulação tumultuosa. Todas aquelas cartas estranhas, tristes, que ele lhe escrevera da Alemanha — tinham-na deixado numa incerteza dolorosa sobre o que pensar, como sentir, o que esperar dele quando voltasse. Verdade era que em suas cartas ele apenas a si próprio se censurara — com uma violência para cuja intensidade ela não via uma explicação. Mas, até ao ponto em que ela era responsável pelo que ocorreu no bosque (e sem dúvida que ela era, em parte, responsável; por que não? qual era o grande mal de um simples beijo?) ela sentia-se também alvejada pelas censuras. E se ele a censurava, podia ainda amá-la? Que sentia ele realmente a seu respeito e a respeito de si próprio e a respeito de suas relações mútuas? E era simplesmente por não poder esperar, um minuto sequer, a resposta, que ela tinha vindo sorrateiramente encontrá-lo na estação.

Brian estava ali imóvel e mudo. Não esperava vê-la tão depressa, e estava quase espantado de achar-se assim em sua presença, sem para isso se ter preparado. Automaticamente, estendeu-lhe a mão. Joan tomou-a e apertou-a na sua, forte, fortemente, como desejando impor a realidade do amor que lhe votava; mas, ao mesmo tempo que assim procedia, sentia que a afastava dele a apreensão, a incerteza embaraçosa quanto ao que ele porventura se tornara, sentia-se distanciada dele como de um desconhecido. A graça desse movimento tímido e inquieto sensibilizou-o tanto quanto já o sensibilizara na primeira vez em que se encontraram. Era, a despeito do embaraço que o movimento revelava, a graça de urna árvore tenra oscilando ao sopro do vento. Assim pensara ele da primeira vez. E agora esse movimento gracioso se repetia; e a beleza do gesto era, de novo, uma revelação, mais viva, porém, do que antes tinha sido, em virtude da sugestão implícita de que se tornava novamente um estranho; mas um estranho contra cuja renovada condição de estranho aquele aperto de mão protestava, quase com violência.

O rosto dela parecia agitado por um sentimento de hesitação enquanto ela olhava para Brian; e aquela vivacidade fictícia ia-se extinguindo e transformando em uma profunda apreensão.

— Não está contente de me ver, Brian, — perguntou.

Essas suas palavras vieram desfazer o sortilégio; ele sentiu-se capaz de tornar a sorrir, capaz de falar. — C-contente? — repetiu; e, como resposta, beijou-lhe a mão. — Mas eu não c-contava encontrá-la aqui. Quase m-me assustei.

Suas palavras, sua expressão tranqüilizaram-na. Durante aqueles dois primeiros segundos de silêncio, o rosto dele, parado, petrificado, afigurara-se-lhe a face de um inimigo. Agora, porém, com esse sorriso, ele se transfigurava, era de novo, o antigo Brian que ela amara; tão sensível, tão amável e bom; e tão belo na sua bondade, belo a despeito daquele rosto comprido c esquisito, daquele corpo descarnado, daqueles membros desengonçados, de movimentos desordenados.

O trem foi-se pondo em marcha com um grande barulho, foi adquirindo velocidade, e, daí a pouco desaparecia. O velho carregador saiu a buscar um carrinho de mão. Eles ficaram sós na ponta da longa plataforma.

— Pensei que você não me tivesse amor, — disse ela depois de um longo silêncio.

— M-mas Joan! — ele protestou. Sorriram um para o outro; depois, passado um momento, ele desviou o olhar. Não lhe ter amor? estava pensando. Mas a questão era justamente que ele a amava de mais, que a amava de um modo reprovável, Apesar de serem as altas qualidades morais dele que lhe inspiravam aquele amor.

— Pensei que estivesse zangado comigo?

— Mas p-porque havia de estar? — Conservava ainda o rosto voltado.

— Você sabe por que.

— Não era com v-você que eu estava z-zangado.

— Mas a culpa foi minha.

Brian sacudiu a cabeça. — Não foi.

— Foi, sim, — insistiu ela.

Lembrando-se do que sentira quando a tivera nos braços, ali no caminho escuro entre as moitas de rododendros, tornou, com mais ênfase, a menear a cabeça.

O velho porteiro já estava ali de novo, com o seu carrinho e seus comentários acerca do tempo, suas notícias avulsas e sua tagarelice.

Eles o foram seguindo, representando, em benefício dele, seus papéis de comparsas no drama local.

Quando estavam quase a chegar ao portão, Joan apoiou a mão no braço de Brian. — Então, está tudo bem, não? — Seus olhos se encontram. — Posso estar contente?

Ele fez sinal que sim, sem falar, sorrindo apenas. No carro, a caminho de casa, ele continuava a lembrar-se do brilho súbito que tinha na face, em resposta ao gesto mudo dele. E tudo que ele podia fazer em paga de tanto amor era... De novo lhe acudiram à memória as moitas de rododendros e sentiu-se presa da vergonha.

Quando a senhora Foxe soube, por Brian, que Joan estivera na estação, sentiu-se vivamente ofendida. Com que direito? Antes da mãe... E, além disso, quanta má fé! Pois Joan aceitara seu convite para vir almoçar com eles no dia seguinte ao do regresso de Brian. O que queria dizer que ela tinha admitido tàcitamente o direito exclusivo da sra. Foxe à companhia do filho no dia mesmo da chegada. E entretanto lá estava ela, correndo à estação às escondidas, para apanhá-lo logo que ele pusesse o pé fora do trem. Era quase desonesto.

A indignação ciumenta da sra. Foxe durou apenas alguns segundos; a intensidade mesma desse sentimento apressou o reconhecimento de que era injusto, de que era indigno. Não se lhe estampara no rosto nem o mais leve sinal do que ela sentia e foi cem um sorriso de indulgência satisfeita que ela escutou a descrição do encontro vagamente tartamudeada por Brian. Depois, com grande força de vontade, não somente conseguiu banir a expressão de sua emoção, mas chegou mesmo a excluir de sua consciência a própria emoção. Tudo o que um respeito impessoal peia dignidade de comportamento podia, segundo lhe parecia, justificar que ela ainda sentisse, era certa reprovação pesarosa da — que termo devia ela empregar? — da falta de ingenuidade de Joan. Pois não estava lá muito direito que a menina lhe passasse assim por cima.

Não estava muito direito; era, entretanto, muito compreensível, passava a refletir agora, muito desculpável, Quando se ama... E Joan era um temperamento impulsivo, emotivo. Q que, considerava a sra. Foxe, não deixava de ter o seu lado feliz. Os impulsos tanto eram fortes para o bem como para o mal. Se fosse possível canalizar aquela profunda e poderosa corrente de vida que ela tinha dentro de si, se fosse possível apelar com segurança para o que de melhor havia nela, possível apoiá-la naquelas belas e generosas aspirações suas — oh, como haveria ela de ser uma criatura esplêndida! Esplêndida, insistia consigo mesma a sra. Foxe.

— Então, — disse no dia seguinte, quando Joan veio almoçar. — Já sei que apanhou o nosso arribadiço pela asa, antes mesmo que ele tivesse tempo de pousar. — O tom era de gracejo e um sorriso encantador se estampava no rosto da sra. Foxe. Mas Joan enrubesceu, sentindo-se culpada.

— A senhora não ficou zangada por isso, ficou? — perguntou ela.

— Zangar-me, eu? — repetiu a sra. Foxe. — Mas, zangada por que, minha querida? Apenas me lembrei do que tínhamos combinado. Mas, naturalmente, se você sentiu que de todo não podia esperar...

— Eu lamento isso, — disse Joan. Mas subiu-lhe ao rosto um calor, qualquer coisa que era quase ódio.

A sra. Foxe pôs a mão afetuosamente no ombro da menina. — Vamos dar um passeio lá fora, no jardim, — sugeriu, — a ver se Brian está por lá.

 

27 de maio de 1914

QUANDO Anthony desceu para a refeição da manhã, encontrou o pai explicando às duas filhas a etimologia do que estavam comendo. — ... não é senão outra forma de "potage". Vocês dizem "porridge" do mesmo modo que dizem — ou antes (piscou o olho para elas) que eu espero que não dirão — "shurrup" em lugar de "chut up".

As duas pequerruchas continuavam comendo como duas lorpinhas.

— Oh, Anthony! — continuou Mr. Beavis. — Antes tarde do que nunca. O que! Não quer caldo hoje? Mas espero que ao menos você coma uma costeleta de Aberdeen.

Anthony serviu-se de "haddock" e foi sentar-se em seu lugar.

— Há aqui uma carta para você, — disse Mr. Beavis e entregou-lhe a carta. — Pela letra, creio que é de Brian, não? — Anthony confirmou. — Ele continua no gozo de seu trabalho em Manchester?

— Penso que sim, — respondeu Anthony. — O mal é que ele trabalha de mais. Até à uma ou às duas da manhã, está no jornal. E depois, entre o almoço e o jantar, fica todo o tempo ocupado com a sua tese.

— Está muito bem. Gosto de ver um rapaz assim, com bastante energia para realizar suas ambições, — disse Mr. Beavis. Porque, afinal de contas, ele não precisa trabalhar tanto. Sua mãe não é uma senhora que não disponha de recursos.

Os tais recursos exasperavam tanto a Anthony, que, embora achasse absurdo o modo de vida de Brian, foi com uma severidade ferina que ele respondeu ao pai. — Ele não quer aceitar o dinheiro da mãe, — disse friamente. — É uma questão de princípio.

Enquanto as crianças afastavam de si seus pratos de caldo e o pai lhes servia costeletas de Aberdeen, Anthony valeu-se da oportunidade para começar a ler a carta.

 

"Há muito que não tenho notícias suas. Aqui tudo vai como de costume, ou iria, se eu me estivesse sentindo um pouco mais animado. Mas não tenho dormido muito bem e a vida interior não é o que se poderia esperar. Em conseqüência, vou me atrasando na tese, já que não me posso atrasar no jornal. Tudo isso vai fazendo com que eu viva a desejar ardentemente e a antegozar a nossa projetada quinzena em Langdale. Por todos os deuses, não me desanime! Quantos tormentos nos causa a nossa carcaça, quando incorre no mínimo deslize. E, para falar verdade, mesmo quando anda direito e aprumada. Uma porção de incômodos que já passaram de época. Eu fico às vezes profundamente irritado com esta predestinação física para a escatologia e a obscenidade.

Escreva-me breve, dizendo-me como vai passando, o que tem lido, se tem estado com alguém que nos interesse. E quer fazer-me um obséquio? Joan está agora na cidade, residindo com a tia e trabalhando para a Associação de Caridade. O pai, naturalmente, não queria que ela fosse, preferia tê-la em casa, para poder tiranizá-la. Foi uma luta longa, em que ele acabou perdendo; há já quase um mês que ela está na cidade. Folgo imensamente com isso, mas, ao mesmo tempo, por motivos vários, sinto-me um pouco preocupado. Se eu pudesse ausentar-me aos sábados e domingos, iria pessoalmente; mas não posso. E, talvez, em certo sentido, seja melhor assim. No estado deplorável em que presentemente me encontro, eu daria a impressão de um esqueleto em um festim; e, além disso, existem certas complicações. Não posso explicá-las em carta; procurarei fazê-lo quando você vier ao norte em julho. Eu deveria ter pedido o seu conselho, antes. Você tem a cabeça mais forte do que eu. E eis aqui, afinal, o motivo porque ainda não falei com você a respeito do caso. Tinha receio de que você me tomasse por tolo! que achasse uma imbecilidade. Mas deixemos isso tudo para ser discutido mais tarde. Agora, o que eu quero é que você entre em contacto com ela, a convide para almoçar ou jantar procure fazê-la falar e depois me escreva contando como acha que ela se sente em Londres, o que ela sente quanto à vida em geral, etc., etc. Foi uma mudança violenta — de um lugar remoto, para Londres, de uma pobreza cheia de dificuldades, para uma casa rica, da submissão à tirania do pai mal-humorado, para a independência. Uma transição brusca; e, embora o fato me encha de alegria, sinto-me um pouco nervoso e apreensivo quanto aos seus efeitos. E é o que eu peço a você que procure ver. — Sempre seu,

        B

 

Naquele mesmo dia Anthony foi procurá-la. Notou, quando se apertaram as mãos, no vestíbulo do restaurante, que ela conservava ainda aquela mesma timidez antiga, aquele mesmo sorriso cheio de embaraço, aqueles mesmos movimentos de esquivança e de retraimento. Tinha, no rosto e no corpo, mais de mulher do que quando a vira da última vez, um ano antes, parecendo também mais bonita, principalmente pelo fato, sem dúvida, de estar mais bem vestida.

Entraram no restaurante e tomaram lugar a uma mesa. Depois de mandar vir um prato qualquer e uma garrafa de "Vouvray", Anthony começou a explorar o terreno.

Londres — que lhe parecia Londres?

Adorava Londres.

O trabalho também?

A parte administrativa, de escritório propriamente, talvez não. Mas, três vezes por semana, auxiliava o serviço numa creche. — Sou louca por crianças.

— Até mesmo aqueles fedelhos pequeninos, horríveis, com um cheiro esquisito?

Joan ficou indignada. — São adoráveis. Gosto de cuidar deles. Além disso, é um trabalho que me permite gozar o resto da vida londrina com uma consciência tranqüila. Sinto que pago com ele os meus teatros e os meus bailes.

A timidez cortava-lhe de quando em quando as frases, mergulhava-as, por assim dizer, numa sucessão alternada de luz e sombra. Falava, em certo momento, com dificuldade, quase sem descerrar os lábios, com voz sumida e indistinta, de rosto voltado; daí a pouco, toda aquela timidez era posta de lado por uma viva explosão de sentimento — prazer, ou angústia, ou alegria incontível e ei-la fitando nele uns olhos súbita e surpreendentemente impávidos; de quase inaudível, sua voz se tornara nítida; os dentes fortes e brancos brilhavam entre os lábios descerrados numa franca expressão de sentimento. Depois, e de repente, ficava como que assustada da própria audácia; vinha-lhe à consciência a idéia de ter nele um possível crítico. Que estaria ele pensando? Ter-se-ia tornado ridícula? Tremia-lhe a voz, o sangue subia-lhe às faces e ela baixava os olhos sobre o prato; e nos poucos minutos que se seguiam ele não podia arrancar-lhe nada senão respostas murmuradas, nada que correspondesse aos seus melhores esforços por diverti-la, a não ser um riso nervoso e efêmero. Todavia, a comida e o vinho produziram o efeito esperado e, à medida que a refeição transcorria, ela se ia sentindo mais à vontade com ele. Começaram a falar a respeito de Brian.

— Você não deve deixar que ele trabalhe tanto, — disse ele.

— Você pensa que eu não procuro impedi-lo? — Depois, numa voz em que parecia haver qualquer coisa de zanga, continuou: — Isso já é uma questão de feitio natural. Ele é todo cheio de escrúpulos.

— Pois cabe a você tirar-lhe esses escrúpulos, — observou ele, sorrindo-lhe e esperando que ela lhe retribuísse o sorriso. Mas, em vez disso, ela franziu a testa e estampou-se-lhe no rosto uma expressão de mágoa e de ressentimento. E em seguida resmungou: — Para você, isso é fácil de dizer. E durante o silêncio que se seguiu, ela, de olhos baixos, pôs-se a beber seu vinho a pequenos goles.

Foi então que, pela primeira vez, Anthony considerou que eles já podiam estar casados, se Brian tivesse consentido em viver a expensas da mãe. Porque diabo então, uma vez que ele gostava tanto da menina...

Com o "peach-melba" as coisas se explicaram. — Para mim, é difícil ter que falar nisso, — disse ela. — Creio que nunca falei com ninguém a respeito dessas coisas. Mas com você o caso é diferente. Você conhece Brian há já tanto tempo; é o mais antigo que ele tem. De modo que você compreenderá. Eu sinto que posso contar a você essas coisas.

Curioso, mas, ao mesmo tempo, inquieto, ele murmurou uma expressão qualquer de polidez.

Ela nem sequer percebeu os sinais de seu embaraço; para ela no momento, Anthony não era mais que a oportunidade que a Providência lhe oferecia, de dar vazão, por meio da linguagem, à torrente de angústias por tanto tempo privadas de expressão.

— É justamente desses escrúpulos que se trata. Se você soubesse...! De onde lhe vem essa idéia de que o amor contém qualquer coisa de mau? Refiro-me ao amor comum, ao amor feliz. Ele acha que isso não está direito; acha que ele não deve alimentar esses sentimentos.

Ela afastou o prato e, inclinando-se para a frente, com os cotovelos fincados na mesa, começou a falar num tom mais baixo, mais íntimo, dos beijos que Brian lhe dera e de que se envergonhara e daqueles outros beijos que, como que para expiar a falta cometida, ele se recusara a dar.

Anthony escutava, espantado. "Certas explicações", era o que Brian tinha escrito na carta, era uma atenuante, um eufemismo. A coisa, o que era, era loucura. Trágica, mas, também, grotesca, absurda. Lembrou-se de que Mary acharia o caso de uma comicidade toda especial.

— Ele disse que queria ser digno de mim, — prosseguiu ela. — Digno do amor. Mas tudo o que conseguiu foi fazer que eu me sentisse indigna. Indigna de tudo, em todos os sentidos. Culpada — sentindo que tinha praticado qualquer mal. E imunda também, se compreende o que eu quero dizer, como se tivesse caído na lama. Mas não há mal nenhum, Anthony, não é mesmo? — perguntou. — Quero dizer, nunca fizemos nada que não fosse... você sabe: que não fosse perfeitamente inocente. Por que é, então, que ele se diz indigno e faz que eu me sinta indigna também? Por que é que ele diz isso? — insistia, enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas.

— Ele foi sempre mais ou menos assim, — disse Anthony. — Talvez uma questão de educação... A mãe dele é uma criatura maravilhosa, — ajuntou e, ao pronunciar essas palavras, logo percebeu que se servia da mesma linguagem da sra. Foxe. — Mas talvez, justamente por isso, um pouco tirânica.

Joan fez um gesto veemente de assentimento, mas não disse nada.

— É possível que ela o tenha habituado a uma visão demasiado elevada das coisas, — continuou ele. — A uma visão por cima da linha de mira, se me estou fazendo entender. Se bem que ele nem sempre lhe siga o exemplo! Aí está, para exemplificar, o fato dele não querer aceitar o dinheiro dela...

Joan inflamou-se diante dessa referência. — Sim, por que há de ele querer ser diferente de todo mundo? Afinal, existe muita gente boa que não acha necessário fazer isso. Considere bem você, acrescentou, fixando o olhar no rosto de Anthony, como procurando surpreender-lhe e desfazer qualquer sinal de desaprovação ou — pior ainda — de satisfação e de apoio, — considere bem, eu acho que é admirável esse procedimento dele. Admirável! repetiu, como que desafiando. Depois reassumindo o tom de crítica, que não permitiria em Anthony, mas ao qual os seus próprios sentimentos para com Brian lhe pareciam dar direito, prosseguiu: Não vejo em que poderia ofendê-lo o fato dele aceitar o dinheiro. Para mim, isso é coisa mais da própria mãe dele.

Surpreso, Anthony observou: Mas ele me disse que a sra. Foxe insistira em que ele aceitasse o dinheiro.

— Oh, ela se portou, é verdade, como se quisesse que ele o aceitasse. Estivemos lá num fim de semana, em maio, para tratar disso. Ela não cessava de dizer-lhe que não havia mal nenhum em que ele aceitasse o dinheiro e que o que ele devia era pensar em mim e tratar de se casar. Mas depois, quando Brian e eu lhe dissemos que eu concordara em que ele não aceitasse, ela...

Anthony interrompeu-a. Mas, então, você tinha cordado?

— Joan baixou os olhos. De certo modo, sim, — disse, meio aborrecida. Depois erguendo os olhos, com uma cólera súbita: — Como poderia eu deixar de concordar com ele? Já que era isso o que ele queria fazer, e o que teria feito, afinal de contas, mesmo que eu não tivesse concordado. E, além disso, como eu já lhe disse, havia qualquer coisa de grande e de admirável na atitude dele. Eu tinha concordado, sim. Mas o fato de concordar não queria dizer que eu realmente queria que ele recusasse o dinheiro. E aqui é que se percebe a falsidade dela — fingindo pensar que eu queria que ele o recusasse e felicitando-me a mim, a ele, pelo que tínhamos feito. Por isso é que eu digo que isso é coisa mais dela do que dele. Muito mais do que você possa imaginar. Calou-se, e Anthony achou melhor mudar de assunto. Quem poderia imaginar o que diria ela, se ele a deixasse continuar falando a respeito da sra. Foxe. — Pobre Brian, — disse ele em voz alta; e acrescentou, apelando para um lugar comum: — O melhor é o inimigo do bom.

— Sim, é isso mesmo! — exclamou ela. — O inimigo do bom. Ele quer ser perfeito — e o resultado é esse que você está vendo. Tortura-se a si próprio e ofende-me. Por que deveria eu ser induzida a sentir-me impura e criminosa? Por que é isso o que ele está fazendo. Sem que eu tenha cometido mal nenhum. Nem ele, para dizer a verdade. E entretanto, ele quer que eu sinta a mesma coisa a seu respeito. Impuro e criminoso. Por que é que ele me cria todas essas dificuldades? As maiores que lhe é possível criar. — Falava com voz trêmula, enquanto as lágrimas lhe escorriam dos olhos. Puxou do lenço e enxugou-os logo. — Desculpe-me, — disse. — Estou fazendo um papel triste. Mas se você soubesse como isso me tem sido insuportável! Eu o amo tanto e quero continuar a amá-lo. Mas ele parece não consentir nisso. Deve ser tão belo; e, entretanto, ele faz o que pode para que o amor pareça uma coisa feia, horrível. — Depois de uma pausa e com uma voz que, de tão baixa, se tornara quase um sussurro: — Chego, às vezes a ter dúvidas se poderei continuar assim por muito tempo.

Seria que — perguntava Anthony de si para si — seria que ela já estava decidida a romper, que já tinha encontrado alguém em condições de amá-la e de ser amado menos tragicamente, mais normalmente do que Brian? Não; provavelmente não, concluiu. Mas tudo levava a crer que era isso o que ela acabaria, brevemente, por fazer. No seu tipo (que, aliás, não era exatamente o tipo de que ele gostava) ela era sedutora. Não haveria de faltar candidatos; e, se um candidato em condições se apresentasse, seria ela capaz — qualquer que fosse o seu desejo consciente — de recusar?

Joan rompeu o silêncio. — Quantas vezes já tenho sonhado com a casa em que iremos morar, — disse. — Vejo-me saindo de um aposento, entrando noutro e achando tudo tão bonito. As lindas cortinas, as capas das cadeiras, tão chiques! E os vasos cheios de flores. — Suspirou. Depois, passando um momento: — Você compreende isso, dele não querer aceitar o dinheiro da mãe?

Anthony hesitou um instante; depois respondeu, sem querer comprometer-se; — Compreendo; mas acho que eu não faria isso.

Ela suspirou mais uma vez. — Isso é também o que eu acho. — Consultou seu relógio e, em seguida, apanhou as luvas.

— Tenho que ir-me embora. — Com esse retorno da intimidade para o mundo prosaico do tempo e das pessoas e dos compromissos, ela como que despertou de súbito, voltando à dolorosa consciência de si mesma. Olhou para ele bem de frente, procurando adivinhar-lhe os pensamentos. Depois baixou os olhos. — Parece que estive falando demais a meu respeito, — murmurou. — Não sei que direito eu tenho de estar amolando você...

Ele protestou. — Tudo que eu desejo é poder ser útil.

Joan tornou a levantar o rosto e atirou-lhe um ligeiro sorriso de gratidão.

— Você já fez muito em me escutar.

Deixaram o restaurante e, depois que ela tomou o ônibus, ele foi andando a pé em direção ao Museu Britânico; e, enquanto andava, ia pensando que carta deveria escrever a Brian, o que lhe haveria de dizer. Deveria lavar as suas mãos em toda aquela história, escrever-lhe um simples bilhete contando que Joan parecia estar bem e ser feliz? Ou deveria informá-lo de que Joan lhe contara tudo e passar depois a censurá-lo, a adverti-lo, a aconselhá-lo? Passou entre as imensas colunas do pórtico e entrou na frescura sombria do interior. Um sermão em regra, pensou com enfado. Se ao menos a gente pudesse abordar o problema como devia ser abordado — como uma pilhéria rabelaisiana. Mas quem podia esperar que o pobre do Brian apreciasse a coisa por esse prisma? Muito embora isso lhe fizesse um bem infinito: pensar, para variar, em termos rabelaisianos. Anthony mostrou seu cartão ao servente e seguiu pelo corredor, em direção à Sala de Leitura. Esta era a eterna dificuldade. Nunca se podia induzir quem quer que fosse a ser outra coisa senão ele mesmo, nem influenciá-lo por quaisquer meios cuja validade ele ainda não tivesse aceitado. Empurrou a porta e viu-se sob a abóbada, sentindo, ao respirar, o cheiro fraco, mas acre dos livros. Milhões de livros. E todas aquelas centenas de milhares de autores, século após século — todos eles convenciam de que ele tinha razão, convenciam de que ele conhecia o segredo essencial, convenciam de que ele podia convencer o resto do mundo servindo-se do preto no branco como meio de expressão. Quando a verdade era, sem dúvida, que, as únicas pessoas que alguém já conseguiu convencer eram aquelas que já tinham sido realmente ou virtualmente convencidas pela natureza ou pelas circunstâncias. E, até mesmo com essas, não se podia contar completamente. As circunstâncias mudavam. O que convencia em janeiro não convencia necessariamente em agosto. O servente entregou-lhe os livros que lhe haviam sido reservados e ele encaminhou-se para a sua cadeira. Montanhas de produtos espirituais em intermináveis dores de parto; e o resultado era — o que? Bem, si ridiculum murem requiris, circumspice. Satisfeito com a frase que acabava de inventar, olhou em volta de si para os companheiros de leitura — os homens que pareciam focas, as mulheres macilentas, os hindus, magros ou robustos, os patriarcas de suíças, os adolescentes de óculos. Herdeiros de todas as épocas. Espetáculo deprimente, para quem o tomasse a sério; mas, por outro lado, de um cômico irresistível. Sentou-se e abriu o livro — Tableau de 1'Inconstance des Mauvais Anges, de De Lancre — na página em que, na véspera, tinha interrompido a leitura. Le Diable estoit en forme de bouc, ayant une queue et au dessoubs un visage d'homme noir, ou elle fut cantrainte le baiser... Riu em silêncio, intimamente. Outra boa história para Mary, pensou.

Às cinco horas ele levantou-se, deixou seus livros na carteira e tomou, em Holborn, o trem subterrâneo para Gloucester Road. Alguns minutos mais tarde estava à porta da casa de Mary Amberley. A criada abriu a porta; ele sorriu para ela com uni ar de familiaridade e, valendo-se do privilégio de ser um íntimo da casa, correu escada acima para a sala de visitas, sem se fazer anunciar.

— Tenho unia história para lhe contar, — foi logo proclamando, enquanto atravessava a sala.

— Uma história grosseira, já espero, — disse Mary Amberley, sentada no sofá.

Anthony beijou-lhe a mão naquele estilo afetado que passara a adotar recentemente, e sentou-se. — Para os grosseiros, — disse, — todas as coisas são grosseiras.

— Sim, e é bem que seja assim! — E com aquele seu sorriso em que contorcia a boca, com aquele brilho dos seus olhos escuros entre as pálpebras apertadas, acrescentou: — Uma alma suja é um festim perpétuo. — A pilhéria era velha e não era de sua lavra; mas o riso de Anthony não a satisfazia menos por isso. Era um riso cordial, alto e prolongado — mais alto e mais prolongado do que o próprio gracejo fazia esperar. Aliás, não era realmente do gracejo que ele estava rindo. O gracejo pouco mais era que um pretexto; aquele riso era feito, não de um excitante único, mas de um complexo de excitantes criados por aquela situação extraordinária. Poder falar livremente de qualquer coisa (qualquer coisa, note-se bem) com uma mulher, uma dama, uma genuína "loaf-kneader", como era sabido que Mr. Beavis lhe chamava nos seus momentos de recreio etimológico, uma perfeita "loaf-kneader" inglesa, que era além disso amante da gente, tinha lido Mallarmé também, também era amiga de Guillaume Apollinaire; e ouvir a "loaf-kneader" pregando aquilo que praticava e fazendo casualmente referências a camas, latrinas e à fisiologia daquilo que (pois as palavras saxônias ainda permaneciam impronunciáveis) eles eram constrangidos a chamar l’amour. Para Anthony, a coisa era ainda, depois de dois anos e a despeito das infidelidades ocasionais de Mary, um misto intoxicante de libertação e fruto proibido, de alívio e de excitação. No universo paterno, no mundo de Paulina e das tias, tais coisas eram simplesmente impossíveis — mas impossíveis de uma impossibilidade dolorosamente manifesta. Como o paciente hipnotizado que recebeu ordem de ver no cinco de paus apenas um pedaço de papelão virgem de qualquer desenho, assim aquela gente deixava, deliberadamente, de perceber as coisas indesejáveis, mantinha-se num silêncio de conspiração acerca de tudo que os seus olhos não tinham visto. Até as funções naturais dos animais inferiores tinham que ser tidas como se eles as ignorassem; silenciavam até mesmo com relação aos quadrúpedes. Aquele incidente do cabrito, por exemplo, que constituía agora o tema de uma das anedotas seletas de Anthony. De uma comicidade perfeita. Mas, agora, muito mais cômicas do que na ocasião em que o fato realmente se deu, quase dois anos antes do seu primeiro encontro com Mary. Realizando um piquenique naquele horrível Scheideck Pass, cem o Weisshorn inclinando-se sobre eles como uma obsessão e, sobre a grama, a seus pés, um ramalhete de gencianas que com tanto cuidado Mr. Beavis conseguira encontrar, a família fora surpreendida por um cabrito ainda novo, cobiçoso do sal contido nos ovos cozidos que eles comiam. Retraindo-se e um pouco repugnadas, ao mesmo tempo que deleitadas, suas duas irmãs paternas tinham estendido as mãos para que o bicho as lambesse, enquanto Paulina tirava uma fotografia e Mr. Beavis, cujo interesse por cabras e cabritos era sobretudo filológico, citava Teócrito. Cena pastoral! Subitamente, porém, o animalzinho tinha escanchado as pernas e, tendo ainda fixas sobre a família Beavis as pupilas oblongas de seus olhos grandes, pardos e inexpressivos, pusera-se a urinar sobre as gencianas.

— Essa gente aqui não gosta muito de gastar manteiga, — e "Como está hoje jovial o nosso velho Weisshorn," tais foram as frases que ambos, Paulina e Mr. Beavis, quase simultaneamente proferiram — ela, de olhos fitos no sanduíche, num tom de lástima, ele, olhando para longe, tendo na voz uma nota de enlevo que, por ser expressa em termos de facécia fina e perfeitamente inglesa, nem por isso deixava de ser genuinamente wordsworthiana.

Às pressas e com um sentimento de culpa, as duas meninas sopitaram o grito esboçado de alegria assustada, deixando de olhar uma para a outra e de espreitar o cabrito indecente. Momentaneamente comprometido, o mundo de Mr. Beavis, de Paulina e das tias tinha voltado de novo à respeitabilidade.

— Mas, afinal, qual é essa história que você tem para me contar? — inquiriu a sra. Amberley, quando ele cessou de rir.

—Você vai ouvir, — disse Anthony. E ficou algum tempo calado, acendendo um cigarro e meditando sobre o que ia dizer e sobre o modo como pretendia dizê-lo. Tinha a ambição de contar uma história excelente, divertida e, ao mesmo tempo, psicologicamente profunda; uma história para fumoir, que fosse também uma história para biblioteca e uma história para laboratório. Haveria de fazer Mary pagar um duplo tributo: de riso e de admiração.

— Conhece Brian Foxe, não? — começou ele.

— Certamente.

— Coitado do nosso Brian! — Pelo tom, pelo emprego do adjetivo confortador, Anthony firmava sua posição de superioridade, afirmava o seu direito, o direito de praticar, hábil e cientificamente, a vivissecção, o direito de anatomizar e examinar. Sim, coitado do nosso Brian! Aquela preocupação, aquela sua mania de castidade! a castidade — a mais antinatural de todas as perversões sexuais, acrescentou entre parêntesis, inspirando-se em Rémy de Gourmont. O sorriso deleitado de Mary agiu sobre ele como um acicate, um incentivo a novos esforços. Novos esforços, naturalmente, à custa de Brian. Mas nisso ele não pensava no momento.

— Mas que é que se podia esperar, — atalhou Mary, — com a mãe que ele tem. Uma espécie de vampiro espiritual. Uma perfeita Santa Mônica.

— Santa Mônica por Ary Scheffer, — entendeu ele de reforçar. Não que houvesse na sra. Foxe um traço indicativo daquela insinceridade doentia da santa de Scheffer. Mas a finalidade de sua história, que era provocar em Mary o riso e a admiração, justificava suficientemente todos e quaisquer meios. A alusão a Scheffer era uma boa piada, boa demais para que ele não a aproveitasse, mesmo que não ficasse muito a calhar. E quando Mary proferiu o que era no momento a sua frase predileta e falou das reações uterinas da sra. Foxe, ele se apossou, pressuroso, de suas palavras e começou a aplicá-las, não simplesmente à sra. Foxe, mas também a Joan e até (aproveitando o absurdo físico da coisa) a Brian.

As reações uterinas de Brian à castidade em conflito com o seu próprio desejo e as reações uterinas de Joan aos desejos de ambos — eis o drama. Um drama, explicava ele, cuja existência ele até então apenas suspeitara e inferira. Já agora as conjeturas se haviam tornado desnecessárias; ele sabia. Diretamente da boca do cavalo. Ou antes, diretamente da boca da égua. Pobre Joan! O vivissecionista estendia sobre a mesa de operação um outro espécime.

— À maneira dos primeiros cristãos, — foi o comentário da sra. Amberley, quando ele terminou.

O desprezo ferino que havia na voz dela fez que ele de súbito se lembrasse, pela primeira vez desde que começara a contar essa história, de que Brian era seu amigo, de que Joan fora verdadeiramente infeliz. Já tarde demais, ele ainda quis explicar que, a despeito de todas as aparências em contrário, não havia ninguém de quem ele mais gostasse e a quem mais admirasse e respeitasse do que a Brian. — Você não deve interpretar mal as minhas palavras, — disse ele a Mary retrospectivamente e em imaginação. — Eu sou absolutamente devotado a ele. — Dentro de seu cérebro era uma verdadeira eloqüência que se desenvolvia em torno do assunto. Mas por maior que fosse, essa eloqüência interior não podia alterar o fato dele ter traído a confiança do amigo, de ter revelado assuntos confidenciais, de ter sido malicioso sem desculpa nem explicação atenuante. Sem dúvida que, no momento, essa malícia lhe parecera a manifestação de sua própria agudeza psicológica; essas confidencias traídas, os fatos indispensáveis sem os quais a agudeza não poderia exercer-se. Mas agora...

Um sentimento de auto-reprovação dominou-o de repente, confundiu-o, entravando-lhe a língua.

— Senti uma grande pena de Joan, — tartamudeou, procurando reparar o mal. — Prometi fazer tudo o que pudesse em prol da pobre menina. Mas o que? Eis a questão. Fazer o que? Exagerava a nota de perplexidade. Achando-se perplexo, como que justificava o fato de ter traído as confidencias de Joan; tinha contado a história (começava agora a afirmar a si próprio) exclusivamente no interesse de pedir o conselho de Mary — o conselho de uma mulher com experiência do mundo.

Mas a mulher com experiência do mundo estava olhando para ele da maneira a mais inquietadora. As pálpebras da sra. Amberley se haviam afilado e havia um brilho zombeteiro nos seus olhos; a comissura esquerda da boca arregaçava-se ironicamente. — O que há de mais encantador em você, — disse ela judiciosamente, — é a sua inocência.

Essas palavras o magoaram tanto, que ele chegou a esquecer por um instante Joan, Brian, sua própria conduta desabonadora e não pôde pensar em mais nada, a não ser a sua vaidade ferida.

— Obrigado, — disse, procurando dedicar-lhe um sorriso de sincera satisfação. Inocente — ela o julgava inocente? Depois de todo aquele tempo que passaram juntos em Paris? Depois daquelas piadas em torno das reações uterinas?

— Tão cheio desse frescor delicioso de juventude. Simplesmente de comover!

— Agrada-me ser julgado assim por você. — O sorriso tornara-se um esgar; sentiu o sangue subir-lhe às faces.

— Uma menina o procura, — prosseguiu a sra. Amberley, para queixar-se de não ter sido suficientemente beijada. E aqui está agora você a perguntar, com ar solene, o que deve fazer por ela! E ainda por cima, fica vermelho como uma beterraba. Amorzinho meu, eu tenho por você uma adoração absoluta! — Pondo a mão no braço dele: — Ajoelhe-se aqui no chão, — ordenou. Com um ar tímido e palerma, ele obedeceu. Mary Amberley encarou-o um momento em silêncio, com a mesma expressão, com o mesmo brilho zombeteiro nos olhos. Depois, em voz baixa, perguntou: Quer que lhe mostre o que você pode fazer por ela? Quer?

Que sim, respondeu ele com um movimento de cabeça, sem falar. Entretanto, já mais junto dele, ela ainda o olhava com um sorriso interrogativo.

— Ou serei tola de lhe mostrar? Não irá você aprender demais a lição? Será que vou ter ciúmes? — perguntava ela ainda, sacudindo a cabeça e sorrindo — um sorriso alegre e "civilizado". — Não, não acredito em ciúmes. — Tomou-lhe a cabeça nas mãos e murmurando: — Aqui está o que você pode fazer por ela, — puxou-o contra o peito.

Anthony sentira-se humilhado pelo fato dela se atribuir, cora um ar quase de desprezo, esse papel de dominadora; mas não havia vergonha, nem ressentimento que pudesse anular a. consciência física dos prazeres e desejos familiares. E entregou-se, abandonou-se aos seus beijos.

Um relógio bateu horas e, imediatamente, veio do andar Superior um ruído estridente de vozes infantis. A sra. Amberley fez um movimento de recuo e, pondo a mão sobre a boca de Anthony, afastou-o de si. — Agora, temos que estar em família. — disse, rindo. — São seis horas. Às seis horas eu banco a mãe amantíssima.

 Anthony ergueu-se sobre os pés e, com a idéia de salvar as aparências, atravessou a sala em direção ao calorífero, sobre o qual apoiou os cotovelos e ficou a contemplar uma aquarela de Conder.

A porta escancarou-se de repente e, com um guincho tal qual o apito de um trem expresso, uma criança gordinha, dos seus cinco anos de idade, entrou impetuosa na sala e atirou-se de corpo e alma para a mãe. Outra pequenina, três ou quatro anos mais velha que a primeira, precipitou-se logo atrás.

Helena! — chamava ela repetidamente a irmã; e o seu rostinho, em que se notava a expressão de uma censura ansiosa, era a paródia absurda do rosto de uma governante. — Helena! Você não deve fazer isso, Helena. Diga a ela que não grite assim, mamãe! apelava para a sra. Amberley.

Mas a sra. Amberley não fez mais que rir e passar os dedos pelos cabelos bastos e louros da pequerrucha. — Joyce acredita nos Dez Mandamentos, — disse voltando-se para Anthony. — Já nasceu acreditando nisso. Não é verdade, meu amor? — Passou o braço em volta dos ombros de Joyce e beijou-a. — Ao passo que Helena e eu... — Sacudiu a cabeça. — somos obstinadas, de pescoço duro, sem termos sofrido a circuncisão do coração e dos ouvidos.

— A ama diz que é a corrente de ar que faz ela ficar de pescoço duro, — interveio Joyce, e ficou indignada quando a mãe e Anthony e ate a pequenina Helena, por simples contágio e sem compreender, soltaram uma risada. — É verdade, sim, — gritava ela; e as lágrimas da virtude ofendida bailavam em seus olhos. A ama disse!

 

2 de julho de 1914

PARA Mary Amberley, aquela primavera e aquele começo de verão tinham sido de uma monotonia extrema. Anthony era um rapaz encantador, não havia dúvida. Mas dois anos eram muito tempo; o rapaz tinha deixado de ser uma novidade. E depois, estava realmente apaixonado; apaixonado de mais. Era, certamente, uma coisa agradável sentir-se amada por alguém; mas não assim, com essa violência, não assim, por um tempo tão longo. Neste caso, esse alguém acabava tornando-se uma coisa insuportável; acabava passando a imaginar que só tinha direitos e a pessoa amada só tinha deveres. E isso era intolerável. Toda aquela cena que Anthony fizera no inverno passado por causa daquele crítico de arte em Paris! Isso era certo sentido, não deixava de lisonjeá-la. Mary raramente tinha visto alguém tão desesperado, tão fora de si. E visto que o crítico de arte acabara por se revelar, num contacto mais íntimo, um cacete de marca, tornara-se para ela um verdadeiro gozo o submeter-se às ameaças, às misérias mudas e às lágrimas de Anthony. Mas, em princípio, a coisa estava errada. Ela não queria ser amada assim, com esses direitos ameaçadores de exclusividade. Especialmente quando esse processo era contínuo, prolongado. Gostava das coisas breves, agudas e excitantes. Noutra ocasião e com qualquer outro que não fosse o crítico de arte, não teria permitido a Anthony que a tratasse assim. Mas a dificuldade era que não havia nenhum outro em vista, a não ser Sidney Gattick, e ela não estava bem certa de poder suportar a voz e as maneiras de Sidney. O mundo era um lugar em que todas as coisas divertidas e excitantes pareciam ter, como que por encanto, deixado de acontecer. Eis aí porque ela passara a insistir junto de Anthony nesse caso a que chamava "o tratamento de Joan", passara a insistir de um modo contínuo, com uma persistência completamente fora de proporção com qualquer interesse que tivesse por Joan, ou por Brian Foxe, ou mesmo por Anthony — passara a insistir simplesmente com a esperança de conseguir um divertimento qualquer na monotonia vã e insuportável daqueles dias.

— Como vai indo o tratamento? Progresso? perguntou ela ainda uma vez, nessa tarde de julho.

Anthony respondeu com uma história longa, ensaiada com todo o esmero, sobre o seu papel de tio camarada; contou como foi aos poucos conquistando maior intimidade, até passar ao papel de irmão mais velho; como, de irmão mais velho, pretendia passar, quase imperceptivelmente, ao papel de primo sentimental; e, de primo sentimental, a...

— O que é verdade, — disse a sra. Amberley, interrompendo-o, — é que você não está fazendo mas é nada.

Anthony protestou. — Eu estou indo devagar. Estou usando de estratégia.

— Estratégia! — repetiu ela, como um eco, e desdenhosa. — Medo é que você tem.

Ele contestou, mas não pôde deixar de ficar vermelho. Pois, certamente, ela, em parte, tinha razão. Medo era o que ele tinha. Apesar de ter dois anos de prática na qualidade de amante de Mary, ainda sofria de timidez, ainda lhe faltava a confiança em si quando em presença das mulheres. Sua timidez não era, porém, apenas a força inibitória em ação. Havia também compunção, também afeição e lealdade. A essas seria, entretanto, quase impossível fazer qualquer referência diante de Mary. Ela lhe responderia que o que ele queria era dissimular o seu medo, disfarçando-o com uma variedade de fantasias honrosas, e recusar-se-ia peremptoriamente a crer na veracidade desses outros sentimentos seus. E o pior é que ela haveria de encontrar unia justificação para a sua recusa. Pois, a falar verdade, não havia grande indício de tal compunção, de semelhante afeição e lealdade no modo como ele, de começo, contou a história. Quantas vezes, desde então, em inúteis expressões de cólera retrospectiva, ele se maldissera por ter feito aquilo! E, procurando convencer-se de que a responsabilidade não era exclusivamente sua, também maldissera Mary, censurando-a por lhe não ter dito que estava traindo confiança por mera depravação e vaidade; censurando-a por não se ter negado a escutá-lo.

— A verdade verdadeira, — prosseguia agora Mary, implacavelmente, — é que você não tem coragem de beijar uma mulher. A única coisa que você sabe é fazer uma dessas suas caras irresistivelmente ternas e melancólicas e ficar a implorar, tàcitamente, que o seduzem.

— Que disparate! — Mas tinha, mais do que nunca, as faces em fogo.

Fingindo não dar pelo aparte, Mary continuou: — Pode ter a certeza de que ela não o seduzirá. É muito jovem. Não muito jovem para se sentir tentada, talvez. Porque o alvo atacado é o instinto materno; e este se observa até numa criança de três anos. Até mesmo uma criança de três anos sentiria por você um aperto em seu coraçãozinho. Um verdadeiro aperto. — Rolou o r da palavra, como zombando. — Mas sedução propriamente... — A sra. Amberley sacudiu a cabeça. — Não se pode esperar isso senão muito mais tarde. Não é certamente de uma menina de vinte anos.

— Não é preciso dizer, — disse Anthony, procurando desviá-la da dissecação dolorosa de seu caráter, — que eu nunca achei nada em Joan de particularmente atraente. Um tanto rústica demais. Pronunciou a palavra com ênfase, como Mary costumava fazer. — Além disso, ela é, de fato, ainda muito infantil, — acrescentou, para logo se arrepender do que dissera, pois Mary caiu-lhe novamente em cima, como um falcão.

— Infantil! — repetiu ela. — Gosto de ouvir isso. E que me diz de você? Está ai a falar à-toa! O roto a rir-se do esfarrapado. Ainda que seja muito natural, — prosseguiu, voltando ao ataque no ponto em que o tinha interrompido antes, — muito natural que você se queixe dela. Ela é infantil demais para você. Demasiado infantil para tomar a ofensiva. Bastante infantil para sofrer essa ofensiva. Pobre menina! Enganou-se na porta. De você ela não há de ganhar mais beijos, do que ganha desse seu cristão antigo mergulhado nas trevas. Muito embora você se proclame civilizado...

Interrompeu-se, ao ver que abriam a porta,

— Mr. Gattick, — a criada anunciou.

Grande, empavesado, com a chama interior de sua satisfação e confiança em si quase a torná-lo fisicamente luminoso, Sidney Gattick veio entrando a passos largos: Sua voz ribombava enquanto ele se desmanchava em saudações e se informava sobre a saúde tida. Uma voz profunda, viril como só o pode ser a voz de um ator-diretor desempenhando o papel de um homem forte. E o seu perfil, conforme logo percebeu Anthony, também o seu perfil era o de um ator: nobre demais para ser verdadeiro. E afinal de contas (era Anthony ainda que continuava refletindo com um desprezo nascido do ciúme e certa inveja do sucesso mundano do outro) que outra coisa eram esses advogados, senão atores? Hábeis atores, mas hábeis de uma habilidade de examinandos; capazes de estudarem uma causa e esquecê-la de novo, desde o momento em que a tivessem terminado, como certos alunos estudavam lógica formal ou os atos dos Apóstolos, para as provas parciais. Nada da verdadeira inteligência, do pensamento coerente. Nada mais do que o espírito do examinando instalado no corpo do ator e exprimindo-se na voz tonitruante do ator. E, para isso, a sociedade pagava à criatura cinco ou seis mil libras por ano. E a criatura tinha-se na conta de homem importante, sábio, notável; a criatura sentia-se capaz de assumir ares de protetor. Não que tivesse alguma importância (Anthony se certificava) estar sob a proteção desse charlatão oco e espalhafatoso. A gente podia rir; a coisa era realmente absurda! Mas, apesar do absurdo e a despeito do riso que provocava, o ar de protetor parecia dolorosamente humilhante. Por exemplo: o modo como ele agora representava o papel de militar distinto, ou de altivo fidalgo da província e, dando-lhe uma pancadinha no ombro, dizia: — Então, meu jovem Anthony! — Era simplesmente intolerável. Nessa ocasião, contudo, pareceu a Anthony que essa situação intolerável valia a pena de ser suportada. O homem podia ser um idiota maçante e pretensioso; mas sua chegada ali nesse momento tinha a vantagem de o ter livrado dos assaltos, das investidas de Mary. Em presença de Gattick ela não poderia continuar conversando sobre o caso de Joan.

Mas ele não contara com as reservas de Mary, com a sua capacidade de atormentar, com a sua urgente necessidade de fazer que acontecesse qualquer coisa de divertido e estimulante. E poucas coisas são mais estimulantes do que o mau-gosto deliberado, mais divertidas do que o embaraço alheio. Antes que Gattick tivesse tempo de terminar as suas rumorosas expansões preliminares, ei-la que retomava, mais uma vez, ao velho e doloroso assunto.

— Quando você tinha a idade de Anthony, — começou ela, — ficava sempre à espera que uma mulher o seduzisse?

— Eu?

Ela confirmou com um gesto.

Voltado a si da surpresa, Gattick respondeu com o sorriso matreiro de um Don Juan experimentado e, com a mais viril das vozes de um jeune premier, disse: — Naturalmente que não. — Riu com um ar complacente e ajuntou: — Pelo contrário, parece-me ter invadido até aqueles recintos onde os próprios anjos temiam penetrar. E saí mais de uma vez com a marca dos cinco dedos na cara. Mas, o mais das vezes não foi assim. — Piscou um olho denunciador de cenas escabrosas.

— Pois Anthony prefere a atitude passiva, — disse a sra. Amberley. — Prefere esperar que a mulher tome a dianteira.

— Oh, isso é mau, Anthony, isso não adianta, — disse Gattick; e a sua voz era, uma vez mais, a tradução sonora dos bigodes militares, dos "Harris tweeds" de um fidalgo de província.

— Temos aqui o caso de uma pobre menina que quer ser beijada, — continuou a sra. Amberley, — e ele não tem sequer a coragem de passar-lhe o braço em volta da cintura e fazer o que ela quer.

— Não diz nada, Anthony? Não se defende? — Gattick perguntou.

Procurando, sem o conseguir, fingir que não ligava importância, Anthony deu de ombros. — Só tenho a dizer que isso não é verdade.

— O que é que não é verdade? — perguntou Mary.

— Que eu não tenha coragem.

— Mas é ou não é verdade que você não a beijou? É, ou não é? — insistiu ela. E quando ele teve de admitir que era verdade, ajuntou: — Eu estou apenas tirando a conclusão necessária dos fatos. Você, que é advogado, Sidney, diga-me se a conclusão não se justifica.

— Justifica-se perfeitamente, — disse Gattick, e o próprio Lord Chanceler não poderia ter falado com mais gravidade. Circundou-o uma auréola de togas, perucas, borlas e capelos. Era a encarnação da própria Justiça.

Anthony abriu a boca para falar, mas, depois, tornou a fechá-la. Diante de Gattick e com a obstinação, em que estava Mary, de se mostrar apenas "civilizada", como poderia ele dizer o que realmente sentia? E se tal era o que ele realmente sentia, por que (a questão se formulava mais uma vez), por que lhe tinha então contado a história? E o que era pior — por que lha tinha contado naquele estilo particular, como se fosse um comediante vivissecionista? Vaidade, corrupção e, além disso, o fato de estar apaixonado por ela e ansioso de agradar, a todo custo, mesmo à custa do que ele realmente sentia. E era forçado a admitir que, no momento de contar a história, não sentira realmente outra coisa senão o desejo de agradar e de divertir. Mas, ainda uma vez: essas coisas não podiam ser ditas. Gattick nada sabia das relações de ambos e nem devia saber. E ainda mesmo que Gattick não estivesse presente, teria sido difícil, quase impossível, explicar a coisa a Mary. Ela rir-se-ia dele, achando-o romântico — romântico com relação a Brian, com relação a Joan, com relação a ela mesma; Julgá-lo-ia absurdo e ridículo por estar a fazer de um argueiro, de um simples argueiro amoroso, um cavaleiro tragicamente amoroso.

— Há pessoas que insistem, — costumava ela dizer, — em tratar o mons Veneris como se fosse o Monte Everest. O cúmulo da tolice!

Quando ele, afinal, conseguiu falar, limitou-se a dizer: — Se eu não faço isso, é simplesmente porque não quero fazê-lo.

— É simplesmente porque não ousa, — gritou Mary.

— Quem foi que disse!

— Sou eu que estou dizendo, — replicou ela. Seus olhos escuros brilhavam. Seu gozo era completo.

Imponente, mas com um prenuncio de riso em sua gravidade, o Lord Chanceler tornou a manifestar-se. — É um processo terrível contra você, — disse.

— Estou pronta a fazer uma aposta, — disse Mary. — Cinco por um. Se você fizer isso dentro de um mês, eu lhe darei cinco libras.

— Mas eu já lhe disse que não quero, — sustentou ele.

— Não tem disso, não. Isso é desculpa sua, para tirar o corpo fora. Aposta é aposta. Cinco libras para você, se conseguir fazer isso dentro de um mês, a partir de hoje. E se não o conseguir, terá que pagar-me uma libra.

— É muito generosa, — disse Gattick.

— Uma libra, somente, — repetiu ela. — Mas nunca mais tornarei a falar com você.

— Durante alguns segundos eles se estiveram olhando em silêncio. Era grande a palidez de Anthony. Cerrando os lábios e torcendo a boca, Mary sorria, por entre as pálpebras semi-fechadas distinguia-se em seus olhos o brilho de um riso malicioso.

Por que havia ela de ser tão terrível com ele, tão brutal e mesquinha? Era o que ele se perguntava. E detestava-a; detestava-a ainda mais porque a desejava, por causa da lembrança e do antegozo daqueles prazeres, por causa de sua inteligência livre e de seu saber, por causa, numa palavra, de tudo o que lhe tornava inevitável fazer exatamente o que ela queria. Ainda mesmo que soubesse tratar-se de uma coisa estúpida e injusta.

Sempre a espreitá-lo, Mary via-lhe nos olhos o ódio da revolta; e viu o sinal de sua própria vitória, dela, quando ele baixou finalmente os olhos para o chão.

— Nunca mais, — repetiu ela. — É o que eu estou-lhe dizendo.

 

Em casa, Anthony pendurava seu chapéu no cabide do vestíbulo, quando a pai lhe gritou:

— Venha cá ver uma coisa, meu caro.

— Raios! — disse consigo Anthony, irritado; e foi com uma expressão de angústia que entrou no gabinete do pai, expressão que Mr. Beavis estava muito ocupado para poder notar.

— Estou aqui me divertindo um pouco com este mapa, — disse Mr. Beavis, sentado à sua secretária e tendo diante de si um mapa oficial da Suíça. Ele tinha a paixão dos mapas, paixão devida, em parte, ao gosto das excursões, em parte também ao interesse profissional pelos nomes geográficos. "Comballas", murmurava consigo, sem tirar os olhos do mapa. — Chamossaire. É um encanto, um encanto! — Depois, voltando-se para Anthony, disse: — É pena, é verdadeiramente uma pena que a sua consciência não lhe permita aproveitar um feriado para vir conosco.

Anthony, que fizera do seu trabalho para a prova final do curso de pesquisas um pretexto para ficar na Inglaterra em companhia de Mary, sacudiu a cabeça, gravemente, concordando. E disse: — Realmente, um trabalho sério de leitura acurada não é possível nas grandes altitudes.

— Pelo que estou vendo aqui, — disse Mr. Beavis, que voltara a consultar o seu mapa, — vamos ter que fazer as mais interessantes excursões e as mais acidentadas subidas contornando os Diablerets. E que nome delicioso, este aqui! — acrescentou, entre parênteses. — Subindo, por exemplo, o Col du Pillon. Correu o dedo ao longo das sinuosidades da estrada. — Está vendo você? — Anthony inclinou-se sobre o papel, negligentemente. — Não, você não pode ver, — continuou Mr. Beavis. — Eu estou tapando tudo com a mão. — Aprumou o busto e meteu a mão, primeiro, num bolso, depois, noutro. — Onde diabo, — disse, franzindo a testa; depois, e de repente, vindo-lhe ao espírito uma das suas mais ousadas pilhérias filológicas, a cara fechada transmudou-se num sorriso velhaco. — Onde diabo está o meu penis?

Tal foi o espanto de Anthony, que a única resposta àquele ladino piscar de olho com que o pai se voltava, alegre, para ele, foi um olhar cheio de embaraço e desconcerto.

— Quero dizer "meu lápis", — viu-se Mr. Beavis na obrigação de explicar. — O inglês pencil vem de penecillus: diminutivo de peniculus e duplo diminutivo de penis, que, como você sabe, — continuou ele, tirando, afinal, o lápis do bolso interno do casaco, — primitivamente significava cauda. Mas voltemos a atacar o nosso Pillon. — Baixando a ponta do lápis sobre o mapa, foi com ela seguindo os ziguezagues. — E quando estivermos no alto do Col, contornaremos o flanco nornordeste do Monte Fornettaz, até...

Era a primeira vez, — estava pensando Anthony — que Seu pai fazia, em sua presença, alusão à fisiologia do sexo,

 

18 de Julho de 1914

LEVANTOU-SE o pano e, diante deles, apareceu Veneza, toda verde sob o luar, com lago e Rodrigo conversando na rua deserta.

— Luz! Luz! — gritava Brabâncio de sua janela. E num instante a rua se encheu, ouviu-se um tilintar de armas, archotes e lanternas ardiam com uma luz amarela na escuridão verde...

— Cenário de uma vulgaridade horrível, é o que me parece, — disse Anthony quando o pano caiu, após a primeira cena.

Joan olhou para ele com surpresa. — Achou? — Depois: — Sim, eu também achei, — ajuntou, pagando hipocritamente ao gosto o tributo do filistinismo. Em verdade, ela o achara lindo. — Sabe, — confessou, — que é esta a quinta vez que eu venho ao teatro?

— Só veio cinco vezes? — repetiu ele incrédulo.

Mas aqui estava outra rua, com mais homens armados, e lago de novo, altivo e zeloso, e o próprio Otelo, digno como um rei, imperativo em cada palavra e em cada gesto. E quando Brabâncio entrou com todos os seus homens e a luz dos archotes a flamejar sobre os chuços e alabardas, como estava sereno em seu heroísmo! "Embainhai vossas brilhantes espadas, pois o orvalho as enferrujará". Uma espécie de angústia percorreu a espinha de Joan, quando viu a escura mão erguida, quando as pontas das espadas, sob sua imposição irresistível, baixaram ao chão.

— Ele diz bem os versos, — admitiu Anthony.

A Sala do Conselho era rica de tapeçarias. Os senadores, vestindo togas vermelhas, iam e vinham. E aqui estava, novamente, Otelo. Sempre majestático, mas com uma majestade que se exprimia, desta vez, não em ordens, não em levantar a mão, mas sobre um plano mais alto que o do mundo real — na música majestosa, calma, da narrativa de seus amores.

 

Na qual, de antros sombrios e ermos áridos,

De escarpados rochedos, de montanhas,

Cujos cumes são altos como o céu,

Me animei a falar...

 

Os lábios de Joan moviam-se, repetindo, após ele, as conhecidas palavras — conhecidas, mas transfiguradas pela voz, pela atitude do locutor, pelo ambiente, de sorte que, embora ela as soubesse de cor, pareciam completamente novas. E aqui estava Desdémona, tão jovem, tão bela com o colo e os ombros destacando-se, frágeis e esbeltos, da grave magnificência de suas vestes. Brocado suntuoso e, sob ele, a linda desproporção de um corpo de menina; sob as palavras esplêndidas, uma voz de menina:

 

Senhor do meu dever vós sois,

Pois vossa filha sou; mas este é meu esposo.

 

De novo, ela sentiu aquela angústia correndo-lhe ao longo da espinha. E agora, todos eles tinham desaparecido, todos: Otelo, Desdémona, senadores, soldados, toda aquela beleza, toda aquela nobreza, deixando somente Iago e Rodrigo a cochicharem na sala vazia. "Quando ela estiver saciada do seu corpo, descobrirá o erro de sua escolha". E, depois, aquele terrível solilóquio. O mal, deliberado e consciente de si...

O aplauso, as luzes do intervalo, eis o que destoou como um sacrilégio; e quando Anthony se propôs a comprar para ela Uma caixa de bombons, ela recusou quase com indignação.

— Você acredita que realmente exista gente como Iago? — perguntou ela.

Ele meneou a cabeça, — Os homens não confessam que seja mal o mal que fazem. Ou o praticam sem pensar, ou então inventam razões para acreditarem que praticam o bem. Iago é um homem mau que se julga a si próprio como os outros o julgam.

Apagaram-se novamente as luzes. Estavam em Chipre. Sob um sol abrasador, chegada de Desdémona; depois, chegada de Otelo e — oh, — a ternura protetora de seu amor!

O sol já descambara. No crepúsculo cavernoso, entre muros de pedra, as libações, as altercações, o roçar de espadas contra espadas, e ainda Otelo, magnífico e imperativo, impondo silêncio, chamando-os todos à obediência. Magnífico e imperativo pela última vez. Pois, as cenas que se seguiram, como foi temível ver o grande soldado, o alto dignitário, o Veneziano civilizado transformar-se, sob a ação desintegradora de Iago, transformar-se no Africano, no selvagem, na fera descontrolada e primitiva! "Lenço — confissões — lenço!... Narizes, ouvidos e lábios! Será possível? E, depois, a determinação de matar. "Não o faças com veneno, estrangula-a na cama, na própria cama que ela contaminou". E, em seguida, a horrível explosão de sua cólera contra Desdémona, o golpe desferido em público; e, na intimidade humilhante do quarto trancado, aquele colóquio entre a moça de joelhos e um Otelo, momentaneamente razoável, mas razoável à maneira baixa ignóbil de Iago, conhecendo cinicamente o péssimo apenas, acreditando na possibilidade somente do que era mais vil.

 

Peço-te, pois, perdão;

 Tomei-te por aquela ardilosa rameira

Que desposou Otelo em Veneza.

 

Havia na voz dele uma horrenda nota de escárnio, um tom de riso horrível e obsceno. Sem poder dominar-se, Joan começou a tremer.

— Não posso suportar isso, — segredou a Anthony entre as cenas. — Já estou prevendo o que vai acontecer. É horrível. Não posso, de todo, resistir a isso.

Estava pálida e falava sob uma emoção intensa.

— Bem, se é assim, vamos embora, — sugeriu ele. — Agora mesmo.

Ela meneou a cabeça. — Não, não. Preciso ver ate o fim. Preciso.

— Mas, se você não pode suportar...?

—Você não deve querer que eu explique. Pelo menos agora.

Subiu o pano outra vez.

 

A ala de minha mãe, Bárbara, deu,

Um dia, o coração a alguém, que enlouqueceu

E a abandonou. E Bárbara cantava

Uma canção antiga, a canção do "Salgueiro".

 

O coração de Joan batia forte. Já se sentia mal, prevendo o fim. Numa voz quase infantil, doce, fina, mas natural, Desdémona começou a cantar.

 

Sentada ao pé dum sicômoro,

A pobre alma suspirosa

Do verde salgueiro o canto

Cantava...

 

A visão passou e repassou diante dos olhos de Joan, tornou-se indistinta; as lágrimas rolaram-lhe pelas faces.

Terminara, enfim, o espetáculo e ei-los, de novo, na rua.

Joan respirou profundamente. — A vontade que eu sinto agora é de andar, andar muito, — disse. — Milhas e milhas, sem parar.

— É. Mas não pode, — disse ele, lacônico. — Com esse vestido, assim, não.

Joan olhou-o com uma expressão de espanto e mágoa. — Está zangado comigo, — disse.

Enrubescendo, ele procurou desfazer com um sorriso essa impressão de zanga. — Zangado? Por que motivo possível haveria eu de estar zangado? — Ela, porém, tinha razão, sem dúvida. Zangado era o que ele estava — zangado com todos e com tudo que participasse da insuportável situação presente: Com Mary, por tê-lo lançado em tal situação; consigo mesmo, por ter consentido nisso; com Joan, por ser o objeto daquela aposta monstruosa; com Brian, porque era, em última análise, responsável por toda aquela história; e, até, com Shakespeare e com os atores e com aquela multidão que ali se acotovelava...

— Não fique zangado, — instava ela. — Foi uma noite tão linda! Se soubesse o bem que essa noite me fez! Uma noite maravilhosa! Tenho entretanto que ter cuidado com esse encanto. É como se eu tivesse na mão uma taça cheia até à borda. À mais leve trepidação, tudo se entornará. Deixe-me levar para casa a taça sem entorná-la.

Tais palavras produziram nele um grande embaraço, a ponto de quase se sentir culpado. Riu, com um riso nervoso. — Pensa você que, dentro de um carro, pode levá-la sem entornar? — perguntou.

O rosto dela iluminou-se de prazer com tal proposta. Ele fez um sinal com a mão e o carro veio parar diante deles. Entraram, cerrando atrás de si as portinholas. O cocheiro sacudiu as rédeas. A pileca deu alguns passos e depois, ao estalar do chicote, entrou com relutância num trote vagaroso. O carro foi seguindo ao longo de Coventry Street, atravessando o clarão do Circus, entrando no Piccadilly. Acima do zimbório da Catedral de São Jaime o negrume difuso do céu iluminava-se de uns tons acobreados. Refletidas na escuridão polida da estrada, as lâmpadas que se iam afastando tinham um aspecto inexprimivelmente lutuoso, como uma evocação da morte. Aqui surgiam, porém, as árvores do Green Park — cintilantes da luz que subia das lâmpadas e se projetava em suas folhas com um frescor extraterrena, ultra-primaveril. Era a vida e era, ao mesmo tempo, a morte.

Joan estava silenciosa, segurando com firmeza dentro de si a taça frágil da estranha felicidade que era também e ao mesmo tempo a mais intensa das tristezas. Desdémona estava morta, Otelo estava morto e as lâmpadas, distanciando-se em perspectivas que se iam estreitando, eram símbolos do mesmo destino. E todavia, a melancolia dessas paralelas convergentes e a dor da tragédia eram elementos tão essenciais de sua alegria presente como o gozo que lhe proporcionava o esplendor da poesia, como o prazer que sentia na beleza significativa e quase alegórica daquelas folhas iluminadas. Pois essa alegria sua não era uma alegria particular, exclusiva de todas as outras; era formada de todas as emoções, era, por assim dizer, um estado de vibração geral e indiferenciada. O horror, o gozo, a piedade, o riso em todos os seus matizes, em todos os seus aspectos — tudo isso se harmonizava em seu espírito. Sentada no carro, atrás do cavalo que trotava morosamente, serena, mas de uma serenidade que continha o potencial de todas as paixões — assim ia Joan. A tristeza, o prazer, o temor, a alegria — tudo isso lhe povoava, a um tempo, o espírito, numa combinação impossível e era esse milagre de acomodação que ela carinhosamente entretinha.

Um carro de praça — ia pensando Anthony — eis a oportunidade clássica. Já estavam na esquina do Hyde Park; por essa hora ele já deveria pelo menos ter segurado a mão dela. Entretanto, ela permanecia como uma estátua, com o olhar fixo em coisa alguma, num outro mundo. Sentir-se-ia ofendida, se ele se resolvesse a fazê-la voltar bruscamente à realidade.

— Estou vendo que terei que inventar uma história para contar a Mary, — pensou ele. Mas não seria fácil; Mary era dotada de uma capacidade extraordinária de descobrir mentiras.

Sofreado pela rédea, o cavalo velho foi diminuindo o passo e, por fim, parou. Tinham chegado. Oh, que viagemzinha tão curta — pensava Joan — tão curta! Por seu gosto, viajaria assim eternamente, acalentando em silêncio sua incomunicável alegria. Foi com um suspiro que pôs o pé na calçada.

— Tia Fanny disse que, se ela ainda estivesse de pé quando voltássemos, queria que você entrasse para dar-lhe boa-noite.

Isso queria dizer — ia ele refletindo enquanto subia a escada atrás dela até chegarem ao "hall" fracamente iluminado — isso queria dizer que tinha perdido a última oportunidade de fazer a coisa.

— Tia Fanny! — Joan chamou em voz baixa, ao abrir a Porta da sala de visitas. Mas não teve resposta; a sala estava escura.

— Já está deitada?

Ela voltou-se para ele e fez sinal que sim. Estiveram, por um momento, imóveis e calados.

— Agora tenho que ir embora, — disse ele afinal.

— Foi uma noite maravilhosa, Anthony. Simplesmente maravilhosa.

— Tenho muito prazer em saber que você gostou. — Por trás do seu sorriso, o que ele, com apreensão, estava pensando era que ainda não tinha desaparecido aquela última oportunidade.

— Foi mais do que gostar, — disse ela. — Foi... Nem Sei bem dizer o que foi. — Sorriu para ele e, dizendo "Boa-noite", estendeu-lhe a mão.

Apertou-a Anthony, dizendo, por sua vez, boa-noite; depois, resolvendo, rápido, que seria então ou nunca, aproximou-se mais, passou-lhe o braço em volta dos ombros e beijou-a.

A subtaneidade de sua decisão e o embaraço que sentia tornaram-lhe os movimentos tão bruscos e canhestros como se se tratasse do resultado de um impulso violento vencendo irreprimivelmente recalcamentos e inibições. Seus lábios tocaram primeiro a face dela e buscaram-lhe, depois, a boca. Ela procurou esquivar-se, desviar o rosto; esse gesto foi, porém, sustado, antes, quase, de ser iniciado. Sua boca voltou-se para a dele, sem poder resistir à atração. Toda a emoção difusa e indefinida que se acumulara dentro dela durante aquela noite cristalizou-se subitamente, por assim dizer, em torno da surpresa que a empolgava, da evidência do desejo dele e desse prazer quase doloroso que, começando nos lábios, lhe invadia o corpo todo e lhe dominava o espírito. O espanto e a cólera do primeiro segundo foram tragados num apocalipse de novas sensações. Foi como se uma luz violenta sucedesse a uma escuridão tranqüila, como se as cordas frouxas e mudas de um instrumento tivessem sido esticadas e passassem a vibrar com agudeza e percuciência cada vez maiores, até ao ponto em que a vibração e a tensão se aniquilassem em virtude do próprio excesso. Ela passou a ter uma sensação de vácuo; enormes espaços abriram-se dentro dela, abismos de treva.

Anthony sentiu-lhe o corpo pender, mole e pesado, em seus braços. Tão pesado, realmente, e de um peso tão imprevisto, que ele quase perdeu o equilíbrio. Oscilou, retesou-se em seguida e susteve-a com mais força em seus braços.

— Que é isso, Joan?

Sem responder, ela inclinou a fronte sobre o ombro dele. Ele pôde, então, perceber que, se a soltasse, ela cairia. Sentia-se mal, talvez. E ele teria que pedir socorro, acordar a tia, explicar o que tinha acontecido... Desesperado, sem saber o que fazer, olhou em torno. A lâmpada do "hall" projetava na sala de visitas, através da porta aberta, uma réstia de luz que deixava ver a extremidade de um sofá coberto de chita amarela da Pérsia. Sustendo-a ainda pelos ombros cora um dos braços, inclinou-se e, com o outro braço, segurou-a pelas pernas, na altura dos joelhos; depois, com certo esforço (pois ela era mais pesada do que ele imaginara), ergueu-a do chão, carregou-a ao longo da réstia de luz que se abria nas trevas e, com o cuidado que lhe permitia o peso dela, deitou-a no sofá.

Ajoelhando-se no chão, ao lado dela, perguntou: — Sente-se melhor agora?

Depois de uma respiração profunda, Joan passou a mão, pela testa, abriu os olhos e olhou para ele, mas por um momento apenas; vencida por um acesso de timidez e de vergonha, cobriu o rosto com as mãos. — Desculpe, — disse baixinho. — Não sei o que foi isso. Senti, de repente, como que uma vertigem. — Ficou, algum tempo, calada; as lâmpadas se acendiam de novo, as cordas retesas vibravam — mas de um modo tolerável, sem excesso. Ela retirou as mãos do rosto e virou-se para ele, sorrindo com timidez.

Com uns olhos que se haviam habituado à semi-luz do ambiente, ele contemplou-lhe, ansioso, o rosto. Graças a Deus, que ela parecia já não ter mais nada. Não precisaria chamar a tia. E o alívio que isso lhe causava era tão grande, que ele tomou a mão dela e apertou-a com ternura.

— Não ficou zangado comigo; ficou, Anthony?

— Por que havia de ficar?

— Era natural que ficasse. Desmaiar assim... Novamente sentiu vergonha de se ver assim exposta ao olhar dele; e, retirando a mão que ele apertava, mais uma vez cobriu o rosto. Desmaiar assim... A recordação do fato a humilhava. Pensando naquele gesto dele, súbito, silencioso, violento, disse consigo: — Ele ama-me. — E Brian? Mas a ausência de Brian parecia ter assumido um poder mais alto. Ausência cuja intensidade era sem precedentes, ao ponto de parecer que Brian jamais lhe estivera presente. Tudo o que realmente existia era essa presença viva ao lado dela — a presença de um desejo, de umas mãos, de uma boca, a presença, virtual, sim, mas na expectativa de novamente realizar-se, daqueles beijos. Sentiu o seio arfar, sem que tivesse, no entanto, consciência de ter respirado longamente; foi como se alguém lhe tivesse extraído o ar que respirara. — Ele ama-me, — repetiu; e era uma justificação. Tornou a descobrir o rosto, olhou para ele um instante, estendeu, depois, as mãos e, sussurrando-lhe o nome, tomou-lhe a cabeça e puxou-a contra a sua.

 

— Então, qual foi o resultado? — exclamou Mary do sofá, assim que ele entrou. Pela fisionomia sombria de Anthony, calculou que era ela que tinha ganho a aposta; e isso aborreceu-a. Sentiu-se, de súbito, muito irritada com ele — duplamente, triplicemente irritada; por ser ele tão sem energia; por não ter ele ligado muita importância ao fato dela ganhar a aposta a despeito da falta de energia; porque a estava forçando a um gesto, a uma medida que ela absolutamente não queria pôr em prática. Depois de um dia de passeio de automóvel no campo em companhia de Sidney Gattick, ela tinha chegado à conclusão de que este era simplesmente insuportável. E, confrontando-os, Anthony parecia-lhe o mais encantador dos homens. Não queria bani-lo, nem mesmo temporariamente. Sua ameaça, porém, fora solene e explícita; se não a executasse, pelo menos em parte, perderia toda sua autoridade. E agora o desgraçado a estava forçando a cumprir a palavra. Num tom de censura e de raiva, ela disse: — Já estou vendo que foi um covarde e que perdeu a aposta.

Ele meneou a cabeça. — Não; ganhei.

Mary fitou nele um olhar cheio de dúvida. — Você, com certeza, está mentindo.

— Não estou, não. — Sentou-se ao lado dela no sofá.

— Por que, então, essa cara triste? Isso para mim não é lá muito lisonjeiro.

— Que idéia foi essa sua, de me obrigar a fazer isso? — disse ele, num ímpeto. — Uma coisa idiota. — A coisa fora também injusta, mas isso, se ele o dissesse, faria Mary rir. — Eu sempre achei que era uma coisa idiota. Mas você insistiu. — Havia em sua voz a estridência de um ressentimento queixoso. — E agora, sabe Deus em que inferno eu fui cair. — Em que inferno ele lançara Joan e Brian, para falar verdade. — Sabe Deus.

— Mas explique-se, homem, — exclamava Mary Amberley, — explique-se! Não esteja aí a falar como um profeta de segunda ordem. — Cintilava em seus olhos uma curiosidade risonha, de quem estava adivinhando alguma situação deliciosamente complicada e fantástica. — Explique-se, — repetia.

— Pois bem, eu fiz o que você me disse, — respondeu ele, com displicência.

— Herói!

— A coisa não é para rir.

— O que! Terá sido esbofeteado?

Anthony carregou o sobrolho, com irritação, e sacudiu a cabeça.

— Como foi, então, que ela se portou?

— É justamente aí que está o desastre: ela tomou a coisa a sério.

— A sério? — perguntou Mary. — Quer dizer que ela ameaçou contar a papai?

— Quero dizer que ela pensou que eu estava apaixonado por ela. E quer romper com Brian.

A sra. Amberley atirou a cabeça para trás e soltou uma daquelas suas claras, vibrantes, estrondosas gargalhadas.

Anthony sentiu-se ofendido. — Não é nenhuma pilhéria.

— Aí está, justamente, onde você se engana. É uma das melhores pilhérias que eu já ouvi. Mas que é que você pretende fazer?

— Terei que dizer a ela que há um engano em tudo isso.

— Essa cena é que há de ser admirável!

Ele fez-lhe ver, com um gesto, que não haveria cena. — Vou escrever-lhe uma carta.

— Corajoso, como sempre! — E ela deu-lhe uma pancadinha no joelho. — Mas agora eu quero saber os pormenores. Como foi que a deixou ir tão longe? Até ao ponto de pensar que você estava apaixonado por ela. Até ao ponto de querer desmanchar o noivado com Brian. Não podia você impedir a coisa logo de início, cortar, como se diz, o mal pela raiz.

— Era difícil, — murmurou ele, evitando-lhe o olhar perscrutador. — A situação... É verdade que houve certa perda de domínio.

— Quer dizer que você perdeu a cabeça?

— Se quiser chamar assim à coisa, talvez, — admitiu ele com relutância, pensando em como tinha sido tolo, enormemente tolo. Deveria, sem dúvida, ter recuado, quando ela se voltou para ele no escuro; devia ter-lhe recusado os beijos, ter-lhe explicado claramente que o seu tinha sido sem amor, sem significação. Ao invés disso, porém, ele os aceitara: por preguiça moral e covardia, porque teria sido um esforço muito grande dar essa explicação necessária e necessariamente difícil; por certa bondade de coração que não vinha ao caso e se confundia com a fraqueza; porque tê-la-ia magoado e humilhado, se lhe tivesse dito "não"; e, finalmente, porque o infligir, a ela, um sofrimento a que ele teria que assistir ser-lhe-ia imensamente desagradável. E tendo aceitado, gozara-lhe os beijos, retribuíra-os com um fervor que ele, só ele, sabia ser o resultado de um sensualismo avulso, momentâneo, mas que Joan, como era agora evidente (e fora-o para ele no momento mesmo) consideraria inevitavelmente como despertado especialmente por ela, um fervor de que ela se consideraria o objeto insubstituível. Um observador imparcial diria que ele tinha feito todo o possível, que não tinha poupado esforços para criar a maior soma possível de complicações num mínimo de tempo.

— Como pretende livrar-se dessa embrulhada? — Mary perguntou.

Ele sentiu raiva de ouvi-la formular a pergunta, que o atormentava. — Escreverei uma carta a ela, — disse. Como se isso fosse uma resposta!

— E que dirá Brian disso tudo?

— Vou estar com ele amanhã, — respondeu ele inconseqüentemente. "Nos Lakes".

— Tal qual Wordsworth, — disse Mary. — Como vai ser engraçado! E o que é, exatamente, que você tenciona dizer a ele a respeito de Joan? — prosseguia ela inexorável.

— Ora, explicarei a situação.

— Mas vamos supor que Joan explique primeiro — e de um modo diferente?

Ele sacudiu a cabeça. — Eu já disse a ela que não queria que ela escrevesse a Brian antes de eu falar com ele.

— E pensa que ela fará o que você pediu?

— Por que não?

Mary sacudiu os ombros e ficou a olhar para ele, a sorrir para ele com aquele seu sorriso em que a boca se entortava e os olhos brilhavam entre as pálpebras semicerradas. — E por que sim? se a questão é esta.

 

19 de julho de 1914

No trem que ia para o norte, Anthony pensava no que lhe estava reservado. Daí a dois dias, ou, no máximo, três, Brian teria que ser informado do que acontecera e teria que ser escrita uma carta a Joan. Em que termos? E que desculpas teria ele que arranjar para si próprio? Deveria dizer toda a verdade acerca de sua aposta com Mary? Para si, a verdade tinha certas vantagens; se a dissesse, poderia lançar sobre Mary a maior parte da culpa do que tinha acontecido, mas — pensava ele — arriscando-se a parecer miseravelmente fraco. E não era essa a única desvantagem; para Joan, a verdade seria uma humilhação intolerável. Por mais culpas que ele lançasse sobre Mary, nem por isso seria menor o insulto a Joan. Se ao menos ele pudesse dizer a verdade a Brian e, a Joan, outra coisa qualquer!

Isso, porém, não era possível. A ambos tinha que ser contada a mesma história e, para bem de Joan, uma história que não tosse verdadeira. Mas, que história? Que explicação dos fatos o desmoralizaria menos e infligiria menos humilhação a Joan? De um modo geral — resolveu — a melhor coisa a dizer seria que ele tinha perdido a cabeça, que se tinha deixado levar por um impulso súbito, um impulso de que só posteriormente é que vira toda a loucura e de que se arrependia. Era outra pessoa que a tinha beijado: era isso o que escreveria a Joan. Outra pessoa — mas não muito outra. Ela não haveria de gostar, se fosse levada a crer que era um simples mono momentâneo que se comportara daquele modo na sala escura. A pessoa que a tinha beijado teria que ser, em parte, ele mesmo. Parte suficiente dele mesmo para se ter mostrado interessado por ela durante todo o tempo, pesaroso da sua situação; mas outra pessoa, até ao ponto de permitir que as circunstâncias da noite transformassem a afeição e simpatia em — em que? Em amor? Em desejo? Não; teria que evitar dizer qualquer coisa de tão específico; teria que falar de confusões, de loucuras momentâneas a estragarem uma amizade que tinha sido tão pura, e assim por diante. Entrementes, só o que ele podia dizer era que estava desolado e envergonhado; que sentia, agora mais fortemente do que nunca, ser Brian o único homem que era digno dela, que as dificuldades que haviam surgido entre ela e Brian eram apenas temporárias e haveriam dentro em breve ... E assim tudo o mais.

Sim, a carta devia ser relativamente fácil. A dificuldade estava em que, como seria de esperar, à carta deveriam seguir-se entrevistas e explicações pessoais; em que ele deveria ter que suportar censuras, escutar confidencias, defender-se, talvez, contra declarações de amor. E no meio tempo teria que conversar com Brian — e com Brian a coisa começaria pelas entrevistas; e quanto mais ele pensava nessas entrevistas, tanto mais difícil lhe parecia prever o papel que Brian desempenharia nelas. Anthony imaginava-se procurando esclarecer que não estava apaixonado, que Joan apenas por um momento perdera a cabeça, como ele também perdera, que a situação continuava a mesma e que tudo quanto Brian tinha a fazer era ir beijá-la ele mesmo. Mas conseguiria fazer com que Brian acreditasse nele? Sendo o rapaz como era, parecia-lhe provável — parecia-lhe tanto mais provável quanto mais nisso pensava — que o fracasso seria certo. Brian pertencia àquela espécie de homens que imaginavam não ser possível beijar-se uma mulher a não ser sob a influência urgente do mais profundo, do mais cordial amor e lhe retrucaria que Joan fora beijada e lhe retribuíra os beijos; e não haveria argumentos, nem alegações de que se tinha perdido a cabeça, capazes de convencê-lo de que não se tratava de nenhum caso grave de amor em seu mais intenso grau. E nesse caso? continuava Anthony em suas especulações. Que faria o rapaz nesse caso? Sentir-se-ia, sem dúvida, ofendido, traído: contudo, as probabilidades eram de que não haveria recriminações. Não; mas poderia acontecer alguma coisa muito pior. Brian provavelmente, lançaria a culpa sobre si mesmo; renunciaria a todos os seus direitos, recusar-se-ia a acreditar em semelhante história, quando Anthony jurasse que não estava apaixonado, que não se tratava de amor e que tudo aquilo não tinha passado de uma brincadeira de que estava arrependido; faria questão — precisamente por se tratar de tão angustioso sacrifício — faria questão de que Joan pertencesse ao homem que ela realmente amava e que a amava realmente. E se Joan, por sua vez, concordasse com isso?! E era provável — pensava Anthony com pavor, recordando-se do modo como ela lhe retribuirá os beijos — era mesmo quase certo que ela estaria de acordo. Perspectiva tremenda! Não poderia enfrentar semelhante situação. E por que, afinal, teria que enfrentá-la. Poderia empenhar os seus bens — o suficiente para deixar o país e residir no estrangeiro; uns seis meses, um ano se fosse necessário. E enquanto as terras provincianas iam deslizando diante da janela do vagão, ele reclinava-se, de olhos fechados, imaginando-se na Itália, ou, se a Itália não lhe parecesse assaz distante da Inglaterra, na Grécia, no Egito, ou mesmo na índia, Malaia, Java. Em companhia de Mary; pois, certamente Mary teria de ir também, pelo menos por parte do tempo. Podia deixar as filhas com um parente qualquer. E o Egito — refletia ele, ao mesmo tempo prático e sonhador — o Egito, no fim da estação, não exigia grandes despesas; e quanto a esse espantalho da guerra, sem dúvida que não tinha conseqüência nenhuma. Luxor seria mesmo tão interessante como parecia pelas fotografias? E o Partenon? E o Paestum? E que pensar dos trópicos? Em imaginação, navegava de ilha em ilha no mar Egeu; fumava haxixe nos bairros sórdidos do Cairo, comia bangue em Benares; era um superficial Joseph Conrad nas Índias Orientais, chegava a ser, mesmo, um Loti de segunda ordem, apesar estilo cromolitográfico, entre as raparigas de pele acobreada e as gardênias, e, se bem que ele ainda achasse impossível gostar tanto do homem quanto Mary gostava, um pálido Gauguin nos Mares do Sul. Essas futuras e hipotéticas fugas eram igualmente fugas ali onde estava e naquele mesmo momento, de tal sorte que, por muito tempo, naquele canto do compartimento, ele esqueceu por completo sua projetada evasão para as regiões exóticas. A lembrança do que acontecera, a antecipação apreensiva do que ia acontecer só voltaram quando ele percebeu que o trem atravessava Shap Fell e se deu conta de que em menos de uma hora estaria conversando com Brian na plataforma de Ambleside. Então, todas as primeiras perguntas se formularam com uma urgência ainda mais desesperada. Que deveria dizer? Como? Em que ocasião? E qual seria a atitude de Brian? Qual a de Joan, quando recebesse sua carta? Horríveis perguntas! Mas por que se colocara na posição de ter que dar ou receber as respectivas respostas? Que tolo que fora em não ter fugido imediatamente. Nesse momento já estaria em Veneza, na Calábria, a bordo de um navio no Mediterrâneo. Fora do alcance das cartas. Seguro e feliz na completa ignorância do resultado de seus atos. E livre. Ao invés disso, deixara-se ficar estupidamente onde estava e consentira em se tornar escravo das circunstâncias que a sua loucura criara. Mas, ainda mesmo então, à última hora, não era tarde demais. Podia descer na próxima estação, voltar para Londres, levantar algum dinheiro e zarpar dentro de vinte e quatro horas. Quando, porém, o trem parou em Kendal, ele não se mexeu. Tomar uma resolução tão súbita e momentânea era qualquer coisa que o fazia recuar. Detestava o sofrimento e antevia com horror o que lhe estava reservado nos poucos dias e semanas próximas. Mas seu medo de sofrer era menor que o seu medo de agir. Achava mais fácil aceitar passivamente o que viesse do que tomar uma deliberação decisiva e proceder em conformidade com ela.

Enquanto o trem de novo corria, ele pensava nas razões pelas quais fizera bem em não tomar tal decisão. Brian estava contando com ele, ficaria tão incomodado com o fato dele não chegar, que talvez se desse pressa em vir a Londres saber o que acontecera, procurar Joan e descobrir tudo de uma vez. E que explicação daria ele ao pai? Além disso, não havia nenhum motivo para pensar que Mary o acompanharia; ela já tinha dado os passos necessários para o seu veraneio e não iria, provavelmente não poderia, voltar atrás. E ele ausente de Mary, quem podia imaginar os rivais que se apresentariam? Alem do quê, a fuga seria uma covardia — continuava ele, procurando convencer-se e passando, logo após, a considerar que poderia provavelmente e com a mesma eficiência livrar-se das suas dificuldades sem precisar sair da Inglaterra. Seria questão de u pouco de tato, de resistência passiva...

Brian estava na plataforma, à espera, quando o trem entrou na estação. Ao vê-lo, Anthony sentiu uma dor viva e súbita, misto de pena e de angústia. Pois havia entre o rapaz e suas roupas, uma espantosa, uma dolorosa dissonância. As grosseiras e rústicas jaqueta e calças, as meias, as botinas feitas a prego, a sacola bojuda eram emblemas da energia e da boa saúde camponesa. Mas o Brian que usava esses emblemas era a negação viva do que eles significavam. O rosto comprido estava emaciado e cor de cera. O nariz parecia maior do que outrora, as órbitas mais fundas, as maçãs do rosto mais proeminentes. E quando falava, tinha maior dificuldade do que antes em dominar a gagueira.

— Mas o que é que você tem, meu caro! — exclamou Anthony, pondo a mão no ombro do amigo. - Esta com um aspecto lamentável.

Em parte comovido por essa exibição genuína solicitude (estava achando extraordinário que Anthony pudesse ser assim, imprevistamente, tão encantador), em parte aborrecido por se sentir descoberto, Brian sacudiu a cabeça e explicou com meias palavras achar-se fatigado e precisar de repouso.

Sua idéia de repouso não era, porém, outra senão caminhar vinte milhas por dia, a subir e a descer os mais íngremes morros que pudesse encontrar.

Anthony olhava para ele com desaprovação. — Do que você precisa é de ficar deitado ao ar livre numa cadeira de tombadilho — disse. Mas pôde notar, enquanto falava, que o seu conselho não era bem acolhido. Para Brian era uma espécie de dogma a idéia de que era bom e essencial para a saúde o exercício violento numa paisagem montanhosa. Bom por causa de Wordsworth; porque, na versão materna do Cristianismo, a paisagem ocupava o lugar da revelação.

— Eu g-gosto de andar, — Brian insistiu — vi ontem um m-m-melro" aquático. O lugar esta ch-cheio de bonitas aves

A tristeza que sentia de encontrar o amigo assim tão doente, fez Anthony esquecer tudo o que se relacionava com Joan e com os acontecimentos dos últimos dias; mas aquelas (aquelas "aaaves", aquelas toutinegras mijonas) trouxeram-lhe à memória, violentamente, o que tinha acontecido. Sentindo-se de súbito envergonhado, como se tivesse sido surpreendido nalguma indigna manifestação de hipocrisia, Anthony retirou a mão do ombro de Brian. Foram caminhando silenciosos ao longo da plataforma até chegarem à rua. Aí, pararam e entraram a discutir. Brian queria mandar a bagagem pelo carregador e que fossem caminhando até à sua residência em Langdale. Anthony propunha que tomassem um automóvel.

— Você não deve dar nem mais um passo hoje, — disse; depois, quando o outro protestou que ainda não tinha feito bastante exercício, mudou de tática e alegou que ele mesmo estava cansado da viagem e que, ademais, as roupas que vestia, os sapatos que trazia não eram próprios para aquela caminhada. Depois de chegar a querer voltar a pé sozinho para Langdale, Brian foi afinal derrotado em suas razões e consentiu em tomar o automóvel. Partiram.

Rompendo um longo silêncio, Brian perguntou: — V-viu Joan nestes últimos dias?

O outro fez, sem falar, um sinal afirmativo.

— Como estava ela?

— Muito bem, — respondeu Anthony no tom decidido e vago com que em geral se responde a pergunta sobre a saúde de pessoas pelas quais não se tem nenhum interesse particular. A mentira — pois era uma mentira por omissão — viera-lhe espontânea. Por meio dela, seu espírito se defendera tão automática e prontamente contra a pergunta de Brian, quanto seu corpo, negaceando, levantando um braço, saltando para trás, se teria defendido contra um punho que avançasse ameaçador. Mal tinha, porém, proferido tais palavras e já lamentava a sua brevidade e o tom de casualidade com que as pronunciara e já sentia a necessidade imediata de corrigi-las com mais informações, num tom diferente e mais sério. Devia entrar diretamente na questão e, sem mais delongas, pôr tudo em pratos limpos. Entretanto, o tempo passava e ele não se sentia capaz de falar; e dentro de alguns segundos já tinha começado a dignificar sua covardia com o nome de consideração, já se estava convencendo de que não ficaria bem, não seria justo, dado o estado de saúde de Brian, contar tudo de uma vez, que, como verdadeiro amigo, deveria esperar e escolher uma ocasião — no dia seguinte, talvez, ou no outro — em que Brian se achasse em melhores condições de receber a notícia.

— Você não notou que ela estivesse preocupada? — prosseguiu Brian. — Quero dizer, preocupada com toda esta demora em nos casarmos?

— Ah, sem dúvida, — Anthony admitiu. — De certo que ela não pode sentir-se muito feliz em tal situação.

Brian sacudiu a cabeça. — N-nem eu. M-mas acho qu-que é justo; e acho que, c-com o tempo, ela há de ver q-que é justo. Depois, passado um silêncio, ajuntou: — Se ao menos a gente tivesse certeza absoluta. Às v-vezes eu m-m-me pergunto s-se não é uma espécie de egoísmo.

— O que?

— Esse apego aos p-princípios, com d-descaso das p-pessoas. Quero dizer: c-com descaso dos outros. Eles s-s-são t-talvez mais imp-portantes mesmo do que o que achamos ser um p-princípio justo. Mas, se não nos ap-pegamos aos nossos p-princípios ... — hesitou, olhou para Anthony com uma expressão de embaraço e tristeza e, depois, desviou de novo os olhos: — então, em que ficamos, como agir? — concluiu, desanimado.

— O sabat é feito para o homem, — disse Anthony; e pensou, ressentido, na tolice que Brian fizera, de não aceitar qualquer dinheiro que pudesse obter e casar-se logo, sem vacilação. Se Joan se tivesse casado, sem embaraço nem acidente, não se teriam verificado aquelas confidencias, não teria havido nenhuma aposta, nenhum beijo, nem nenhuma das terríveis conseqüências de se terem beijado. E, além de tudo, a Joan, coitado, naturalmente não estaria agora sofrendo. E passou a sentir qualquer coisa que era quase uma justa indignação contra Brian, por não ter adotado É praticado o princípio cristão fundamental de que o sabat é que é feito para o homem e não o homem para o sabat. Mas seria o sabat feito para o homem — uma voz intrusa começou, subitamente, a perguntar — até ao ponto do homem ter o direito de, por uma simples aposta, perturbar o equilíbrio dos sentimentos alheios, romper uma aliança estabelecida de longa data, trair um amigo?

Brian, entrementes, ia lembrando-se da ocasião em que, havia uns dois meses, ele e Joan tinham conversado com a mãe sobre o assunto.

— Você ainda é de opinião, — perguntara ela, — que não deve aceitar o dinheiro? — E, quando ele lhe disse que suas opiniões não tinham mudado, ela passou a expor todas as razões em virtude das quais não haveria nenhum mal em que o aceitasse. O sistema talvez fosse injusto e talvez fosse dever de cada um modificar o sistema; mas, até que isso se desse, podia a gente servir-se das próprias vantagens financeiras para socorrer as vítimas individuais do sistema, para trabalhar pela causa da desejável reforma.

— Este foi sempre o meu modo de ver e sentir sobre o assunto, — concluiu sua mãe.

E era justo, insistia ele; nem lhe passava sequer pela idéia criticar o que ela fizera, ou supor, sequer, que fosse criticável. Mas o fato era que as condições dela tinham sido diferentes das dele. Como homem, ele tinha oportunidades de prover à sua própria subsistência, as quais ela nunca tivera. Além disso, ela ficara com responsabilidades; ao passo que ele...

— Mas que me diz de Joan? — interrompeu ela, pondo a mão no braço desta, afetuosamente, enquanto falava. — Não representa ela uma responsabilidade?

Ele baixou os olhos e, sentindo que não lhe cabia, a ele, responder à pergunta, não disse nada.

Escoaram-se longos segundos de uma expectativa silenciosa e incômoda, em que ele se perguntava se Joan falaria, e o que deveria ele fazer no caso que ela não falasse.

E foi então que, para alívio seu, Joan rompeu por fim o silêncio numa voz que era estranha, de tão grave e abafada: — A final, Brian era então uma criança. Mas eu sou adulta, responsável por mim mesma. E estou em condições de compreender suas razões.

Ele ergueu a cabeça e olhou para ela com um sorriso de gratidão. Mas havia no rosto dela uma expressão de frieza e como de alheamento; seus olhos encontraram por um momento os dele e depois se desviaram.

— Compreende suas razões? — perguntou a mãe dele. Joan confirmou com um gesto.

— E aprova-as?

Joan hesitou por um instante e fez, depois, outro gesto afirmativo. — Se Brian acha que é justo, — ia começando a dizer mas interrompeu-se.

A mãe volvia os olhos de um para o outro. — Parece-me que vocês são dois jovens cheios de heroísmo, — disse, num tom de voz tão belo, tão vibrante de emoção, que lhe emprestava às palavras uma significação superior. Ele se sentiu confirmado no juízo que fizera.

Mais tarde, porém — lembrava-se com dolorosa perplexidade — mais tarde, quando ficou só com Joan e procurou agradecer-lhe o que ela fizera, virou-se ela para ele, com uma cólera ressentida.

— Você tem mais amor às suas idéias do que a mim. Muito mais.

Brian suspirou e, arrancando-se daquela longa distração, olhou para as árvores ao lado da estrada, para as montanhas tão suntuosamente ensombradas e iluminadas pelo sol da tarde que morria, para as nuvens no céu, que eram como ilhas de mármore — olhou para todas aquelas coisas, reconheceu que eram belas, e achou-lhes a beleza desesperadoramente inexpressiva.

— P-prouvera a Deus, — disse, — que eu soubesse o que devo fazer.

O mesmo pensava Anthony, embora não p dissesse.

 

20 e 21 de julho de 1914

O momento justo, propício, de dizer a Brian a verdade — ou, em todo caso, tanto da verdade quanto lhe era útil conhecer — nunca parecia apresentar-se. Aquela primeira noite tinha sido eliminada de antemão — pois Anthony achou que devia valer-se da uma folga, uma vez que o pobre Brian aparentava estar tão doente e cansado. Durante a ceia e depois, Anthony deu sempre à conversa, o mais que pôde, um tom recreativo e impessoal. Falou das Réflexions sur la Violence, de Sorel — leitura desagradável para os Fabianos! E tinha visto Brian com que eficiência o seu querido Bergson fora escalpelado por Julien Benda? E que pensava ele dos versos brancos de Lascelles Abercrombie? E do moderno Gilbert Cannan. Na manhã seguinte partiram era excursão aos Langdale Pikes. Ambos estavam destreinados; mas, não obstante sentir a respiração ofegante e o coração aos pulos, Brian continuava avançando sempre, com uma determinação espartana que Anthony começou por achar absurda e acabou por considerar exasperante. Quando chegaram à casa, já quase ao anoitecer, estavam ambos exaustos; mas Anthony, além de exausto, irritado. O descanso e uma refeição contribuíram para mudar-lhe a disposição de espírito, mas, ainda assim, ele continuava a achar impossível outra atitude perante Brian que não fosse a de um homem, perdoando, sim, mas conservando sua dignidade; e a dignidade era claro que não se coadunava como o fato de dizer essa verdade particular. Passara o resto da noite em silêncio — Anthony lendo, o outro andando sem rumo e sem trégua pela sala, como à espera de uma ocasião para falar — ocasião que o ar de intensa preocupação em que Anthony se mantinha abrigava o propósito de não lhe fornecer.

Na manhã seguinte, logo ao acordar, ainda na cama, Anthony viu-se assaltado pelo pensamento de que o tempo estava correndo, não só para ele, mas também para Joan e Brian. A impaciência de Joan podia tornar-se mais forte do que a promessa que fizera, de não escrever a Brian; além disso, quanto mais ele adiasse a inevitável explicação a Brian, tanto pior seria o juízo de Brian a seu respeito.

Pretextando uma bolha no calcanhar que o impediria de acompanhá-lo, deixou que Brian saísse sozinho e, depois de se ter certificado, com a vista, de que ele galgava indômito e a largos passos a íngreme ladeira nos fundos do "cottage", sentou-se para escrever sua carta a Joan. Ou melhor: para tentar escrevê-la; pois cada um dos seus esboços que ele rascunhava continha sempre um ou outro de dois erros, e cada um dos dois erros o expunha, conforme ele imaginava, a um perigo particular: o perigo de que, se ele insistisse muito na estima e afeição que o haviam levado a perder a cabeça naquela maldita noite, ela replicaria que tanta afeição e estima, somadas ao fato de perder a cabeça, significavam amor e, portanto, justificavam (já que o amor, ao que se supunha, justificava tudo) sua traição a Brian; e o perigo de que, se acentuasse com muito exclusivismo o fato de ter perdido a cabeça e a sua loucura momentânea, ela se sentiria insultada e se queixaria a Brian, à sra. Foxe, a seus parentes, gritaria, poria a boca no mundo contra ele como sendo um sujeito indigno, um sedutor e sabia Deus quê mais. Depois de ter consumido três horas e uma dúzia de folhas de papel, pareceram-lhe baldados todos os seus esforços. Desistiu da empresa com ira e, no estado de exasperação em que estava, passou a escrever, de uma assentada, violenta e injuriosa carta a Mary. Mulher maldita! Era ela a responsável de tudo. "Maldade premeditada..." "Cínica exploração do meu amor por você..." "Tratando-me como se eu fosse um animal qualquer que você pudesse torturar para seu divertimento privado..." As frases escorriam-lhe da pena. "Este é o meu adeus", concluía, e uma parte do seu espírito acreditava no que ele estava dramaticamente escrevendo. "Nunca mais quero vê-la, nunca". Mas a outra parte refletia que era sempre possível a reconciliação; que ele lhe daria essa lição: que depois, talvez se ela se portasse bem, se ele sentisse que afinal não poderia passar sem ela... Fechou a carta e logo depois seguiu às pressas para a aldeia, afim de pô-la no correio. Esse ato de decisão contribuiu para restituir-lhe o amor próprio. De volta para casa, tomou a resolução, definitiva desta vez, de liquidar o caso cora Brian nessa noite, e depois, orientado pela atitude que Brian então assumisse, tentaria novamente escrever a carta a Joan na manhã seguinte.

Brian voltou às seis horas, triunfante de ter caminhado mais e ter atingido mais cimos de montanhas do que jamais o fizera em sua vida, mas apresentando, Apesar de todo o seu júbilo, um aspecto de completa exaustão. À vista daquele rosto que ele conhecia havia tanto tempo, daquele rosto agora tão tragicamente consumido e macilento sob a transfiguração do sorriso, Anthony sentiu repetirem-se com mais intensidade as emoções da primeira noite, a solicitude ansiosa para com o velho amigo, a angustiosa compaixão pelo sofrimento de um ser humano — e juntamente com tais emoções, e sentimento de culpa perante o amigo, de responsabilidade pelo seu semelhante. Uma confissão imediata talvez fosse um lenitivo à sua dor, poderia ter-lhe permitido, ao mesmo tempo, exprimir seus sentimentos; mas hesitava; calava-se; e dentro de alguns segundos, por um processo quase instantâneo de química psicológica, a simpatia e a solicitude se tinham combinado com o sentimento de culpa para formarem uma espécie de cólera. Sim, estava positivamente indignado com Brian por se mostrar tão cansado, por achar-se já em situação tão miseranda, por ir ficar num estado muito mais miserando ainda no momento em que lhe fosse revelada a verdade.

— Isso é loucura: cansar-se dessa maneira, — disse, de um modo brusco, e conduziu-o para o interior da casa, afim de que descansasse antes de comer.

Depois de comerem, foram para um nesga de grama em meio ao terraço em frente do "cottage" e, estendendo um tapete, deitaram-se e ficaram a contemplar um céu a que um resto de crepúsculo dera, quando eles chegaram, uma coloração verde que se foi tornando depois, e aos poucos, cada vez mais profundamente azul.

Tinha chegado o momento irrevogável, pensou Anthony com um certo aperto no coração; e durante um longo silêncio ia-se preparando para começar, ensaiando mentalmente o primeiro lance, a réplica e a tréplica; hesitando entre um pôr-as-cartas-na-mesa abrupto e precipitado e uma estratégia mais cautelosa, com rodeios e negaças, que preparasse a vítima gradativamente para o choque final.

Antes, porém, que ele tivesse tomado alguma decisão sobre o melhor meio de confessar, já o outro entrava em campo diretamente, com a sua voz tartamuda. Também ele, evidentemente, estivera aguardando uma oportunidade de tranqüilizar sua consciência, e Anthony, em vez de fazer de penitente, como fora sua intenção, viu-se (para sossego de uma parte do seu espírito, para horror e constrangimento do habitante de uma camada mais profunda da consciência) Anthony viu-se subitamente solicitado a desempenhar o papel de confessor e diretor de consciência; solicitado a escutar desde o começo toda a história que Joan já lhe tinha contado — aquela história que, ilustrada com Santas Mônicas e reações uterinas, ele transmitira com tanta satisfação a Mary Amberley. Teve que ouvir como o amigo achava humilhante, dolorosa a incapacidade em que se via, de dominar, o próprio corpo, de banir todos os baixos desejos, indignos do amor que sentia por Joan. Ou talvez — Brian atenuara, citando o grande vulcão que atira a terra em fogo para o céu, de Meredith — talvez não indignos quando as circunstâncias lhes houvessem permitido ocupar o lugar que lhes cabia no todo complexo de um casamento perfeito; mas indignos no momento em que ainda não lhes era possível encontrar sua expressão legítima; indignos enquanto podiam desafiar a autoridade do espírito consciente.

— T-tive que f-fugir, — explicava ele, — t-tive que dar ao c-c-corpo o refúgio seguro d-d-da distância. P-porque o me sentia em c-condições de c-c-c...; — a palavra controlar não queria sair; teve que contentar-se com outra menos expressiva; — de dirigir minha vontade. A gente sente vergonha de tanta fraqueza, — continuava.

E Anthony, aí, fez um gesto concordando. A fraqueza de tomar a resolução de beijar, e fraqueza não menor quando chega a ocasião de interromper uma experiência momentaneamente agradável — se bem que aí tivesse havido qualquer coisa mais do que fraqueza, algo de positivo, perversão orgíaca num ato sabidamente estúpido, perigoso e incorreto.

— Mas, quando a gente s-sabe que não p-pode dominá-la, ia dizendo Brian, — s-suponho que a melhor coisa a f-fazer é f-fugir. Melhor do que d-deixar que ela nos c-crie dificuldades ev-evitáveis.

— Sim, estou de acordo, — disse Anthony, ao mesmo tempo que se perguntava porque não tinha cedido àquele ímpeto que tivera, de voltar para Londres quando o trem parasse em Kendal.

— E não s-só a nós, m-mas aos outros. D-d-dificuldades aos outros t-também. — Seguiu-se um silêncio tango. Depois, devagar e com esforço, ele passou a explicar que, em Joan, o que havia de belo, de esplêndido, era a sua naturalidade. Tinha a força das coisas naturais e espontâneas; era ardente como a natureza, e generosa e profundamente inocente. Tinha as qualidades de uma paisagem estival, de uma árvore em flor, de uma ave aquática luzidia, de olhos vivos, voando rápida entre os juncos. Era essa naturalidade que ele especialmente tinha amado nela, porque era como um reverso de medalha que vinha completar a escrupulosidade e o intelectualismo de seu espírito. Era, entretanto, essa mesma naturalidade que havia tornado quase impossível a Joan o compreender porque ele achara tão perigosa sua presença e sentira a necessidade de se afastar dela. Ela se tinha sentido magoada com esse recuo, tinha pensado que ele não a amava; quando a verdade era...

A verdade era — dizia consigo Anthony, encontrando no sarcasmo cínico de seus pensamentos uma espécie de consolo, uma renovação do seu sentimento de superioridade — a verdade era que ela estava sedenta de beijos, que à primeira carícia e todo seu corpo se tornara um vibrante, um palpitante protesto contra a continência que lha fora imposta.

A v-verdade, — dizia penosamente Brian, — é que eu a amo m-mais do que nunca. N-não há p-palavras que digam qu-quanto a amo. — Calou-se, de novo, um instante. Depois voltando os olhos para Anthony, perguntou: — Que devo eu f-fazer?

Ainda em seu cínico estado de espírito, Anthony registrou com a brutalidade de sua resposta muda, mais um particular triunfo — tão efêmero, contudo, quanto era fácil; pois ao seu primeiro pensamento sucedeu quase instantaneamente a percepção inquietante de que se achava diante de um dilema: ou dizer a Brian o que acontecera entre ele e Joan; ou dar à pergunta do amigo uma resposta anódina que não o comprometesse e deixar para mais tarde, a revelação da verdade. Por omissão, a resposta anódina seria uma mentira monstruosa; e quando afinal ele viesse a dizer a verdade, essa e todas as outras mentiras implícitas em mais de dois dias de silêncio ou de verbiagem vazia seriam inevitavelmente lembradas contra ele. Mas dizer a verdade imediatamente, nesta particular conjuntura, seria especialmente doloroso; e doloroso — prosseguia ele em seu raciocínio — não somente para ele próprio, mas também, e acima de tudo, para Brian. Depois do que Brian estivera dizendo nessa noite, fazer de chofre e estouvadamente uma exposição clara e sem ambages do que tinha acontecido seria uma verdadeira crueldade e premeditada afronta.

— Qu-que devo f-fazer? — insistia Brian.

— Eu acho, — respondeu Anthony mansamente, — eu acho que você deve procurar conformar-se com a realidade.

Tinha chegado a uma decisão — ou antes, como achou melhor considerar a coisa quando, mais tarde, sozinho em seu quarto, se pôs a pensar nas ocorrências da noite, a decisão se impusera por si mesma. Numa retrospecção de quanto acontecera, sentia que nada tivera que ver com o caso.

 

23 de julho de 1914

ANTHONY tornara a adormecer depois de ser chamado, atrasando-se, assim, para a primeira refeição da manhã. Quando ele entrou na pequena sala, Brian ergueu os olhos com surpresa e, como se sentindo culpado, dobrou a carta que estivera lendo e meteu-a no bolso. Entretanto, Anthony teve ainda tempo de reconhecer, de longe, as características da letra de Joan, um tanto grossa, cheia de curvas e voltas desenhadas. Dando ao seu bom dia um tom de despreocupação jovial, sentou-se e passou a ocupar-se, com esmero, de verter o café na xícara, como se se tratasse de um processo científico complicado que lhe exigisse toda a atenção.

— Devo contar agora? — refletia. — Sim, vou contar-lhe. A coisa deve partir de mim, muito embora ele já saiba tudo. Pequena maldita! Por que não cumpriu o que prometeu? — Enchia-se de justa indignação contra Joan. Faltar com a palavra dada! E que diabo teria ela contado a Brian? E que iria acontecer, se a sua história fosse diferente da dela? E em qualquer hipótese, com que cara de tolo haveria de ficar, ao confessar agora, já tarde demais. Ela roubara-lhe a oportunidade, a possibilidade mesma de dizer a Brian o que tinha acontecido. A pequena tinha-lhe enchido as medidas; e quando a sua cólera se foi transformando em pena de si mesmo, como se fosse uma vítima, passou então a considerar-se um homem cheio de boas intenções, intenções que maldosamente o haviam privado, à última hora, de Por em prática. Ela lhe tapara a boca no momento justo em que ele ia pronunciar aquelas palavras que haveriam de explicar tudo e absolvê-lo de tudo; e assim procedendo, ela tornara-lhe a situação absolutamente intolerável. Que diabo de atitude esperava ela que ele assumisse perante Brian, agora que Brian já sabia? A resposta que deu a tal pergunta, satisfatória, ao menos, para os poucos minutos que se seguiram, consistiu em defender-se por trás do Manchester Guardian. Assim escondido, fingia, enquanto comia os seus ovos mexidos, interessar-se vivamente por todo aquele mistifório sobre a Rússia e a Áustria e a Alemanha. Mas, à medida que se prolongava, o silêncio ia-se tornando insuportável.

— Esta questão da guerra está ficando feia, — disse ele por fim, sem abaixar o jornal que lhe servia de barricada.

Do outro extremo da mesa, Brian fez um leve murmúrio, concordando. Decorreram segundos. Seguiu-se o barulho de uma cadeira ao ser recuada. Anthony, ali sentado, era um homem tão preocupado com a mobilização da Rússia, que não se dava conta do que se estava passando ali em volta. Só depois de Brian ter realmente aberto a porta, é que afetou ostensivamente consciência do meio ambiente.

— Já vai sair? — perguntou, voltando-se um pouco, mas não tanto que pudesse ver o rosto do outro.

— Acho que esta m-manhã não s-s-sairei.

Anthony fez um sinal de aprovação, como um médico da família. — Está muito bem, — disse, e acrescentou que, quanto a si, tinha a intenção de alugar uma bicicleta na aldeia e ir até Ambleside. Tinha algumas compras a fazer. — Tornarei a vê-lo à hora do almoço, — concluiu.

Brian não disse nada. A porta fechou-se atrás dele.

Faltava mais ou menos um quarto para a uma, quando Anthony, tendo devolvido a bicicleta que alugara, subia a ladeira do "cottage”. Desta vez, a resolução estava tomada, definitivamente, uma vez por todas. Iria contar tudo a Brian — quase tudo, no momento mesmo em que entrasse.

— Brian! — chamou, da soleira da porta. Não veio resposta.

— Brian!

A porta da cozinha abriu-se e a velha Mrs. Benson, que lhes fazia o serviço de cozinha e de limpeza, deu alguns passos até ao estreito "hall". Mr. Foxe — explicou — tinha saído a passeio, havia meia hora; tinha dito que não voltaria para o almoço, e não quisera entretanto (já se viu coisa assim?) levar um alimento qualquer; ela é que insistira e o fizera lavar alguns sanduíches e um ovo cozido.

Foi com uma sensação de desconforto íntimo que Anthony se sentou à mesa para o seu solitário almoço. Brian o tinha evitado de propósito; devia, pois, estar zangado — ou, como de súbito lhe ocorreu, estava ofendido, o que era pior; demasiado ofendido, para poder suportar-lhe a presença. Semelhante pensamento fê-lo estremecer; ofender os outros era horrível, chegava a ser ofensivo ao próprio ofensor. E se Brian voltasse de seu passeio cheio da vontade magnânima de perdoar — e Anthony, conhecendo-o, estava convencido de que ele perdoaria — sim, se isso se desse? Era também doloroso ser perdoado; particularmente doloroso no caso do próprio ofensor não ter confessado a ofensa. — Se ao menos eu tivesse podido contar-lhe, — repetia consigo a cada momento, — se ao menos eu tivesse podido contar-lhe; — e quase conseguia persuadir-se de que tinha sido impedido de o fazer.

Depois do almoço, dirigiu-se para a região campestre e deserta, na esperança (pois sentia a necessidade urgente de falar) e ao mesmo tempo (já que o ato de falar seria uma verdadeira tortura) com um grande receio, de encontrar Brian. Mas não encontrou ninguém. Descansando sobre a crista de um morro, conseguiu por algum tempo esquecer suas inquietações com sarcasmos acerca da paisagem. Tão típica e desonrosamente inglesa — refletia, desejando que Mary estivesse ali a ouvir-lhe os comentários. Montanhas, (vales, lagos, mas tudo tão mesquinho. Tão miseravelmente pequeno, e clandestino, tão estilo arquitetônico de "cottage" inglês — consistente em agradáveis coins du feu e em formas encantadoras, mas sem nada de belo ou grandioso. Nada que indicasse a megalomania do século treze ou a gesticulação barroca. Uma sublimidadezinha de doce aconchego, bonitinha e pimpona. Sentia-se quase bem disposto quando se pos a descer o morro.

Não, disse Mrs. Benson, Mr. Foxe ainda não tinha voltado.

Ele tomou seu chá sozinho e depois foi sentar-se numa espreguiçadeira, no gramado, e pôs-se a ler algumas páginas de Da Gourmont sobre o estilo. Às seis Mrs. Benson saiu e, depois de explicar longa e minuciosamente que tinha deixado a mesa posta e que o prato de carneiro frio estava na dispensa, desejou-lhe boa noite e foi descendo a estrada, em demanda do seu "cottage".

Logo depois, os mosquitos começaram a picá-lo e ele foi para dentro. O passarinho do relógio suíço abriu a portinhola, piou sete vezes e recolheu-se de novo ao silêncio. Anthony continuou sua leitura sobre o estilo. Meia hora depois o cuco emergiu de novo para um grito único. Era a hora da ceia. Anthony levantou-se e dirigiu-se para a porta dos fundos. Atrás do "cottage", o morro apresentava um brilho quase sobrenatural. De Brian, nenhum sinal. Tornou à sala de jantar e, para variar, começou a ler um pouco de Santayana. O cuco emitiu oito soluços estridentes. Acima da faixa alaranjada do pôr-do-sol, já se ia tornando visível o planeta noturno. Acendeu a lâmpada e puxou as cortinas. Depois, sentando-se de novo, tentou continuar a leitura de Santayana. Mas aqueles seixos polidos de sabedoria rolavam-lhe sobre a superfície do espírito sem fazerem a menor mossa. Fechou o livro. O cuco anunciou que eram oito e meia.

Um acidente — pensava consigo — teria o rapaz sofrido um acidente? Mas, afinal, não há acidente nenhum, quando a gente está passeando tranqüilamente. Acudiu-lhe de súbito nova idéia e logo desapareceu a possibilidade mesma de tornozelos luxados ou de pernas fraturadas. O passeio — tinha agora certeza absoluta — tinha sido à estação. Brian estava no trem, em viagem para Londres, ao encontro de Joan. Era uma coisa que saltaria aos olhos de quem se pusesse a pensar no caso; não podia ser senão isso.

— Céus! — disse Anthony em voz alta, na solidão da pequena sala. Depois, tornando-se cínico e indiferente ante o irremediável da situação, deu de ombros e, acendendo uma vela, foi a dispensa buscar o carneiro frio.

Desta vez — resolveu enquanto comia — desta vez o que realmente lhe cabia fazer era fugir. Desaparecer e esconder-se até que as coisas melhorassem. Não sentia remorso. A viagem de Brian a Londres desobrigara-o, segundo seu próprio parecer de qualquer ulterior responsabilidade no caso; sentia-se agora livre de fazer o que mais lhe conviesse.

No propósito de se preparar para a fuga, subiu a escada, depois da ceia, e começou a arrumar a mala. Lembrando-se de que tinha emprestado a Brian The Wife of Sir Isaac Harman para ler na cama, atravessou, de vela na mão, o vão da escada e entrou no quarto do amigo. Sobre a cômoda e bem à vista, estavam três envelopes apoiados contra a parede. Dois, como ele pôde ver logo que entrou, estavam selados; o outro não tinha selo. Atravessou o quarto para examiná-los mais de perto. O envelope sem selo era endereçado a ele, os outros à sra. Foxe e a Joan, respectivamente. Depôs a vela, apanhou o envelope que lhe era endereçado e abriu-o. Uma vaga mas intensa apreensão apossara-se de seu espírito, um medo de algo desconhecido, de qualquer coisa que ele não se atrevia a conjeturar. Ficou ali, em pé, muito tempo, segurando na mão o envelope aberto e escutando o pulsar pesado de seu próprio sangue. Depois, tornando, afinal, uma resolução, retirou do envelope as folhas dobradas. Havia duas delas, uma com a letra de Brian, a outra com a de Joan. No alto da carta de Joan, Brian tinha escrito: "Leia isto, que lhe interessa". Leu.

"MEU QUERIDO BRIAN. — Por essa hora, Anthony já lhe deve ter contado o que aconteceu. Foi, realmente, como você por certo há de compreender, coisa que aconteceu, vinda, se assim me faço entender, de fora, como um acidente, como alguém que é apanhado por um trem. Sem dúvida que eu não pensara em tal coisa antes, nem creio que Anthony tivesse realmente pensado; a descoberta de que nos amávamos colheu-nos justamente de surpresa, atropelou-nos, por assim dizer. Não foi absolutamente uma coisa premeditada, calculada. Eis porque não me sinto culpada. Pesarosa, sim — mais do que o podem dizer as palavras — da dor que sei que lhe vou causar. E estou pronta a fazer todo o Possível para minorá-la. Perdão, por fazê-lo sofrer. Mas nenhum sentimento de culpa, nenhum sentimento de ter procedido com você desonrosamente. Isso eu só sentiria, se tivesse tido o propósito deliberado de fazer o que fiz; mas não foi assim. Asseguro-lhe que foi uma coisa que aconteceu — que aconteceu a nós ambos. Brian querido, é inexprimível o pesar que sinto de o estar magoando. Logo a você; sobretudo a você. Intencionalmente, já se vê que eu não seria capaz de tal. Tudo isso se deu imprevistamente, aconteceu, do mesmo modo que aconteceu você magoar-me em conseqüência do receio, que sempre teve, do amor. Você não queria magoar-me, não era essa sua intenção, mas o fato é que não pôde deixar de o fazer. O impulso que o levou a magoar-me colheu-o de surpresa, atropelou-o, tal qual este impulso de amor que nos surpreendeu, a mim e a Anthony. Não vejo em ninguém a culpa disso, Brian. O que houve foi má sorte nossa. Tudo devia correr tão bem e ser tão belo. E eis que nos acontecem essas coisas — primeiro a você, compelido a magoar-me; depois a mim. Talvez que, mais tarde, possamos ainda ser amigos. É o que eu espero. E é por isso que não me despeço de você, meu querido Brian. Aconteça o que acontecer, sou sempre a amiga que muito lhe quer, — JOAN".

Esforçando-se por manter seu amor próprio e diminuir sua intensa inquietação, Anthony procurou cingir-se à crítica do estilo realmente enfadonho em que, de um modo geral, a carta estava escrita. Espécie de oratória de púlpito, concluiu: e ensaiou um sorriso. Mas foi inútil. Seu rosto negou-se a fazer o que ele lhe pedia. Largou a carta de Joan e, com relutância, apanhou a outra, cuja letra era de Brian.

 

"MEU CARO A. — Incluo a carta que recebi de Joan esta manhã. Faça o favor de lê-la; isso me poupará explicações. Como pôde ele fazer isso? Eis a pergunta que me estive fazendo durante a manhã toda e que faço a você agora. Como pôde você? É possível que as circunstâncias a tenham colhido de surpresa — à maneira de um trem, como diz ela. E disso, confesso que a culpa é minha. Mas a você as circunstâncias não podiam tê-lo colhido de surpresa. O que você me contou a seu respeito e de suas relações com Mary Amberley era bastante para tornar bem claro que não se podia tratar, no seu caso, do trem da pobre Joan. Por que fez você isso? E por que veio aqui e se portou como se nada tivesse acontecido? Como pôde sentar-se defronte de mim e ouvir-me falar da minha desarmonia com Joan e afetar simpatia, quando duas noites antes estivera dando-lhe os beijos que não me foi possível dar? Deus sabe quantas coisas más e tolas tenho eu feito no decorrer de minha vida, quantas vezes e, de quantos modos tenho mentido; mas, honestamente, não creio que eu fosse capaz de fazer o que você fez. Não pensava que houvesse alguém capaz de o fazer. Parece-me ter estado a viver durante todos estes anos nos limbos da ingenuidade, suponho o mundo um lugar em que fosse simplesmente impossível ocorrerem coisas dessa espécie. Um ano atrás, talvez eu tivesse sabido descobrir que isso pode acontecer. Agora, não. Bem sei que, se o tentasse descambaria para uma espécie de loucura. O ano que findou deixou-me mais exausto do que eu supunha. Percebo, agora, que estou, internamente, reduzido a um montão de ruínas e que é por um esforço incessante da vontade que me venho agüentando. Sou como uma estátua partida que, de certo modo, conseguisse recompor-se por simples e instável justaposição de seus fragmentos. E agora, para cúmulo, isto. Não posso mais agüentar-me. Sei que, se tivesse de vê-lo agora — e não é por que sinto que você fez o que não deveria ter feito; o mesmo seria, se fosse outra pessoa, mesmo minha mãe — sim, se eu tivesse de ver alguém que significasse qualquer coisa para mim, sinto que me desfaria em pedaços. Uma estátua em dado momento e, no momento seguinte, um monte de pó e de fragmentos informes. Não me sinto com forças para enfrentar tal situação. Pode ser que o deva; mas, positivamente, não posso. Estava indignado com você quando comecei a escrever esta carta, sentia-lhe ódio; mas agora noto que já não o odeio. Deus o abençoe. — B."

 

Anthony meteu no bolso as duas cartas e o envelope rasgado, e, apanhando os dois envelopes selados e a vela, desceu a escada para a sala de jantar. Meia hora mais tarde, foi à cozinha e, na grelha, que ainda ardia, ateou fogo a todos os papéis que Brian deixara. Os dois envelopes por abrir e mais os respectivos conteúdos bem dobrados arderam lentamente, tiveram que ser, a todo instante, remexidos, para atiçar-se o fogo; mas, por fim, tudo se queimou. Com o atiçador, ele reduziu a pó o papel carbonizado, deu ainda ao fogo um último lampejo de chama e pôs de novo o testo no lugar. Saiu depois para o jardim c daí, descendo a escada, para a rua. Em caminho para a aldeia, foi subitamente surpreendido pelo pensamento de que nunca mais poderia ver Mary. Ela, por certo, não cessaria de lhe fazer perguntas, apertá-lo-ia num torniquete até conseguir dele toda a verdade e, uma vez de posse desta, proclamá-la-ia a todo mundo. Além disso, poderia ele mesmo querer tornar a vê-la, agora que Brian tinha... Não ousou dizer as palavras nem mesmo a si próprio. — Céus! — disse em voz alta. À entrada da aldeia, esteve alguns instantes parado, para pensar no que deveria dizer quando despertasse o policial. — O meu amigo está perdido... O meu amigo esteve fora de casa o dia inteiro e... Estou inquieto com o desaparecimento de um amigo meu... — Qualquer coisa serviria; continuou a andar, agora mais depressa, ansioso, unicamente de acabar com aquilo.

 

24 de julho de 1914

O Grupo que ia partir em diligência compunha-se de quatro pessoas: Anthony, o policial, um velho pastor de suíças grisalhas e com o perfil majestoso de um estadista do período vitoriano, e um rapaz bonito e corado, de dezessete anos, filho do padeiro. Ao rapaz incumbiram de levar a lona da padiola, enquanto o pastor e o policial aproveitariam os longos paus para servirem de cajados.

Foi dos fundos do "cottage" que eles partiram - Caminhavam em fila — como batedores, refletia Anthony — e em fila foram galgando a vertente da colina. Era um dia luminoso, sem a mais leve brisa, sem uma nuvem no céu. Os morros distantes pareciam envoltos num véu de bruma, quase sem cor, de tão intensa que era a luz do sol. Sob os pés dos caminhantes a erva e o tojo estavam secos e cobertos de pó. Anthony tirou o casaco, e, depois de refletir um pouco, o chapéu. Um ataque de insolação poderia simplificar as coisas; seria uma vez a necessidade de dar explicações ou de responder a perguntas. Mesmo sem insolação, ele, em verdade, não se sentia bem; qualquer coisa como uma cólica lhe apertava os intestinos. Mas isso não bastava. Quantas dificuldades seriam removidas, se ele pudesse sentir-se realmente doente! De quando em quando, à medida que iam subindo lentamente o morro, levava a mão à cabeça e, de cada vez que o fazia, sentia o cabelo quente como o pêlo de um gato que se tivesse sentado em frente ao fogão. Era pena — pensava — que o seu cabelo fosse tão denso.

Três horas mais tarde, tinham encontrado o que procuravam. O corpo de Brian jazia, de borco, numa aberta de rocha ao pé de um penedo e acima do lago. O feto crescia entre as pedras e, no ar quente, seu cheiro adocicado e incômodo quase sufocava, de tão forte. Enchia o ar um zumbido de moscas. Quando o policial virou o corpo de face para cima, quase não se reconhecia o rosto mutilado. Anthony olhou por um momento e depois, desviou a vista. Seu corpo todo fora tomado de um tremor incontível. Teve que se amparar a uma rocha para não cair.

— Vamos, moço — O velho pastor segurou-o pelo braço e, levando-o dali, fê-lo sentar-se na erva, onde ele não pudesse ver o corpo. Anthony esperou. Um búteo fazia lentas evoluções no céu, marcando a passagem do tempo sobre um quadrante invisível. Afinal eles saíram de detrás do contraforte de pedra e chegaram até onde ele estava. O pastor e o rapaz caminhavam na frente, cada qual segurando uma vara da padiola, enquanto o policial, atrás, tinha que agüentar o peso nas duas varas. O casaco roto de Brian fora tirado para cobrir-lhe o rosto. Um braço duro estava estendido para o lado de fora e, a cada passo que os homens davam, balançava e tremia no ar. A camisa apresentava manchas de sangue. Anthony levantou-se e, apesar dos protestos dos outros, insistiu em dividir consigo a carga do policial. Muito devagar, foram descendo para o vale. Passava das três horas quando, afinal, chegaram ao "cottage".

Mais tarde, o policial revistou os bolsos do casaco e das calças. Uma tabaqueira, um cachimbo, o embrulho de sanduíches de Mrs. Benson, seis ou sete chelins em dinheiro e um caderno cheio até ao meio de notas sobre a história econômica do Império Romano. Nem o menor indício de que o ocorrido tivesse sido outra coisa que não um acidente.

A sra. Foxe chegou na noite seguinte. A princípio manteve uma atitude rígida, efeito do esforço com que se dominava; escutou silenciosa, petrificada, o relato que lhe fazia Anthony; depôs, de repente, não resistiu mais, caiu despedaçada, por assim dizer, presa de um choro convulso. Anthony conservou-se um instante junto dela, indeciso; depois, retirou-se furtivamente da sala.

Na manhã seguinte, quando tornou a vê-la, notou que ela tinha recobrado a calma; mas era uma calma diferente. A calma de um ser que vive, que sente, e não a tranqüilidade mecânica e gélida de uma estátua. Tinha sob os olhos linhas escuras e o seu rosto era o de uma mulher envelhecida e sofredora, havia porém, uma doçura e serenidade naquele sofrimento, uma expressão de dignidade, quase de majestade. Olhando-a, Anthony enchia-se de vergonha, como se estivesse em presença de alguma coisa que ele não fosse digno, não tivesse o direito de, sequer, olhar. Envergonhado e culpado, mais culpado, mesmo, do que se sentira na véspera, quando ela não pudera mais dominar a própria dor. Bem quisera ele fugir mais uma vez. Ela, porém, o reteve junto a si a manhã toda; às vezes, sentada ao pé dele em silêncio, às vezes, falando com aquela sua voz lenta e de modulações tão belas. Para Anthony, quer o silêncio, quer a fala, eram igualmente uma tortura. Era uma agonia estar ali sentado, sem dizer nada, escutando o relógio a bater e pensando, inquietando-se com os dias que se iam seguir, imaginando como descartar-se de Joan, o que dizer-lhe acerca daquela maldita carta que ela escrevera; e, de quando em quando, lançando um olhar furtivo para a sra. Foxe e perguntando consigo o que se estava passando em seu espírito e se ela tinha qualquer conhecimento, ou mesmo qualquer suspeita do que tinha realmente acontecido. Sim, aqueles seus silêncios eram dolorosos, mas não era menos dolorosa a situação quando ela falava.

— Compreendo, — começava ela, lentamente e pensativa, — compreendo agora que não o amei como devia, que o amei de um modo egoísta, dominador.

Que devia ele dizer? Que era verdade? De certo, que era verdade. Ela tinha sido um vampiro agarrado ao espírito do pobre Brian. Sugando-lhe o sangue da vida. (Lembrou-se de Santa Mônica, por Ary Schelfer). Sim, um vampiro. Se alguém era responsável pela morte de Brian, era ela. Mas a indignação contra ela, com que procurava justificar-se, evaporou-se quando ela tornou a falar.

— Talvez estivesse aí uma das razões de ter acontecido isso, eu aprender que o amor não deve ser assim. — Depois, passada uma pausa, prosseguiu: — Suponho que Brian aprendeu bastante. Realmente, ele não tinha muito que aprender. Sabia já o necessário para começar. Como Mozart — com esta diferença: que não era a música a sua vocação; mas o amor. Isso explica, talvez, porque ele se fez tão cedo. Ao passo que eu ...— Balançou a cabeça. — Tive que aprender esta lição. Depois de todos estes longos anos de aprendizagem, ainda permanecia, contudo, numa obstinada obtusidade e ignorância! — Suspirou e ficou outra vez calada.

Um vampiro — mas sabia que o era, admitia sua parte de responsabilidade, se bem que não a confessasse.

— Eu devo contar-lhe, — disse ele consigo; e lembrava-se de tudo quanto resultará do fato dele não ter dito a verdade a Brian. Alias, enquanto ele hesitava, a sra. Foxe recomeçava.

— Devemos amar a todos como a um filho único. E ao nosso filho único como a um entre esses todos. Um filho a quem não podemos deixar de amar mais do que aos outros, porque temos mais oportunidade para amá-lo. Mas somente em quantidade, e não em qualidade, é que esse amor seria diferente. Devemos amá-lo tal qual amamos a todos os outros filhos únicos — pelo amor que temos a Deus, não pelo amor que temos a nós.

Aquela voz continuava, em toda a riqueza de sua vibração, e, a cada palavra proferida, Anthony sentia-se mais culpado, — mais culpado e, ao mesmo tempo mais completa e inapelavelmente preso à sua culpa. Quanto mais ele tardava e quanto mais coisas ela dizia naquele tom de resignação, tanto maior dificuldade ele ia ter em tirá-la daquele engano, contando-lhe a verdade.

— Escuta, Anthony, — retomou ela a palavra, depois de outra longa pausa. — Você sabe como eu sempre gostei de você. Desde aquela vez, logo depois da morte de sua mãe — lembra-se? — a primeira vez que veio passar uns tempos conosco. Você era então um meninozinho tão — digamos — indefeso. E foi assim que sempre o vi, desde então. Indefeso sob sua armadura. Pois, sem dúvida que você tinha, e ainda tem, uma armadura. Para proteger-se contra mim, entre outros perigos. Sorriu para ele. Anthony baixou os olhos, enrubesceu e murmurou umas coisas incoerentes. — Não importa o motivo por que tem querido proteger-se, — continuou. — Não quero saber, a não ser que me queira dizer. E talvez você sinta que precisa proteger-se ainda mais, agora. Pois eu vou lhe dizer que queria que você tomasse o lugar de Brian, O lugar, — atenuou, — que devia ter cabido a Brian se eu o tivesse amado como devia. Entre todos os outros filhos únicos, aquele a quem há mais oportunidade de amar, do que aos outros. É isso que eu queria que você fosse, Anthony. Mas naturalmente, eu não vou lhe impor minha vontade. Deixo que você resolva.

Sentado e silencioso, ele conservava-se de rosto voltado, cabisbaixo. — Desembuche, — gritava uma voz dentro dele, — de qualquer maneira, custe o que custar! — Mas, se antes tinha sido difícil, agora então era impossível. Justamente quando ela lhe propunha que tomasse o lugar de Brian. Foi ela que tinha tornado a coisa impossível. Sacudiu-o um acesso de cólera fútil. Se ao menos, ela o deixasse em paz, o deixasse ir-se embora, ficar sozinho! De repente, contraiu-se-lhe a garganta, as lágrimas lhe encheram os olhos, os músculos do peito contorciam-se em espasmos violentos e sucessivos; soluçava. A sra. Foxe aproximou-se e, curvando-se sobre ele, pôs-lhe a mão no ombro. — Pobre Anthony! — murmurou.

Estava ele irrevogàvelmente preso à sua mentira.

Nessa noite, escreveu a Joan. Esse horrível acidente. Tão desnecessário. Tão trágico quanto estúpido. O fato, em verdade, se dera antes que ele tivesse tido oportunidade de contar a Brian aquelas ocorrências de Londres. E, a propósito, tinha ela escrito a Brian? Um envelope sobrescritado com a sua letra tinha sido entregue ao meio-dia, quando o pobre rapaz já havia saído. Guardara-o consigo, para lho devolver pessoalmente, logo que a visse. Entrementes, a sra. Foxe estava-se portando com uma resignação heróica; e era preciso que todos tivessem coragem; e ele continuava sempre afetuosamente seu, etc.

 

8 de dezembro de 1926

VOCÊ não tinha coragem... — disse Joyce.

— Se tinha!

— Tinha nada!

— Estou-lhe dizendo que tinha, — insistiu Helena Amberley com mais força.

Excessivamente impressionável, a irmã mais velha continuou: — Você iria para a cadeia, se fosse apanhada. — E emendando-se: — Para a cadeia, digo mal. Você ainda é muito criança. Mas para uma escola correcional.

Helena sentiu subir-lhe o sangue ao rosto. — Já vem você com isso de escola correcional! — disse, num tom que pretendia ser desdenhoso, mas que traía uma cólera incontida. A escola correcional era uma afronta pessoal. A cadeia era, por certo, uma coisa terrível; tão terrível, mesmo, que continha qualquer coisa de belo. (Ela já tinha visitado a prisão de Chillon, já tinha atravessado a Ponte dos Suspiros.) Mas uma escola correcional — ah, isso não! isso era o que havia de mais ignóbil. A escola correcional estava no mesmo nível de um lavadouro público ou de uma estação de District Railway. — Escola correcional! — repetiu. Era uma coisa que ia muito bem com o feitio moral de Joyce, isso de pensar em escolas correcionais. Ela tinha sempre o gostinho de arrastar para a lama as coisas divertidas e aventurosas da vida. E o que ainda tornava a coisa pior era que, ao fazê-lo, era geralmente ela quem tinha razão: a lama era a vida real, eram fatos, era o senso comum. — É porque você mesma não teria coragem de fazer tal coisa, que acha que eu também não teria, — continuou Helena. — Pois eu vou fazer. Só para mostrar a você. Vou roubar uma coisa qualquer de cada loja em que entrarmos. Sem exceção de nenhuma. Você vai ver.

Joyce começou a ficar seriamente alarmada. Lançou um olhar interrogativo para a irmã. Mas tudo o que Helena lhe deixou ver, foi apenas um perfil pálido e ríspido e um queixo provocadoramente arrebitado.

— Mas olhe cá — começou com ar severo.

— Não quero saber de nada, — disse Helena, como que se dirigindo ao espaço impessoal que lhe estava em frente.

— Deixe de criancice, Helena! — Não teve resposta. O perfil continuava sendo o de uma rainha sobre uma moeda. Entraram na Gloucester Road e encaminharam-se para as lojas.

E se aquela maluca tivesse mesmo a idéia de fazer o que dizia? E Joyce resolveu mudar de tática. — Naturalmente, que você tem coragem, — disse ela com um ar de conciliação. Outra vez sem resposta. — Não tenho a menor dúvida disso. — Tornou a voltar-se para Helena; o perfil continuava, porém, olhando firme para a frente, sem desviar uma linha. A mercearia ficava ali na próxima esquina, a menos de vinte j ar das de distância. Não havia tempo a perder. Joyce sopitou o que ainda lhe restava de orgulho. — Escute aqui, Helena, — disse, como quem pede, como que apelando para a generosidade da irmã. — Eu é que desejaria que você não tivesse coragem. — Pôs-se a imaginar toda a cena deplorável: — Helena apanhada em flagrante; o dono da casa indignado e a falar cada vez mais alto; ela procurando explicar o caso, tentando exculpar a irmã e esta estragando tudo com o seu intolerável procedimento. Porque, com certeza, Helena ficaria imóvel e silenciosa, sem procurar absolutamente defender-se, sem proferir a menor palavra de arrependimento, calma, sorridente e desdenhosa, como se fosse um ser superior e todos os outros uma simples escória. O que tornaria ainda mais furioso o negociante, que, afinal, acabaria por mandar chamar um policial. E depois... Mas o que haveria de pensar Colin, quando soubesse disso? Sua futura cunhada detida sob a acusação de furto! Era bem possível que desmanchasse o casamento. — Oh, por favor, não faça isso, — implorava; — por favor, Helena! — Mas era o mesmo que implorar à efígie do Rei Jorge numa moeda de meia-libra que se voltasse e lhe picasse o olho. Pálida, decidida, qual uma jovem rainha cunhada em prata, Helena continuava inexorável. — Por favor! — Joyce repetia, quase em pranto, torturada pela idéia de que poderia perder Colin. — Por favor! — Já lhe chegava, porém às narinas o cheiro das especiarias; achavam-se já na soleira! Ela agarrou a irmã pela manga, mas Helena desvencilhou-se num repelão e embarafustou loja a dentro. Com o coração aos pulos, Joyce acompanhou-a, como se fosse assistir à sua execução. O rapaz do balcão de queijo e toucinho sorriu acolhedoramente ao vê-las entrar. No afã de evitar suspeitas, de abrandar-lhe antecipadamente a indignação inevitável, Joyce retribuiu o sorriso com efusiva amabilidade. Viu, logo, porém, que assim, também, não; e tratou de recompor o semblante. Fez-se calma, natural, uma dama perfeita, mas, ao mesmo tempo, afável; afável e... (qual era a palavra?) ah, sim, magnânima — como a rainha Alexandra. E era com verdadeira magnanimidade que acompanhava Helena para aqui, para ali, dentro do estabelecimento. Mas por que — estava pensando agora — por que tivera a idéia de abordar aquele assunto do crime? Para que foi que ela, sabendo Helena como era, tivera a loucura de sustentar que a criminalidade era uma questão de educação, que, educada convenientemente, uma pessoa jamais poderia ser um criminoso? Estava bem claro qual haveria de ser a réplica de Helena. Era isso mesmo que ela queria.

Foi a Helena, à irmã mais moça, que a mãe tinha dado a lista de compras. — Porque é quase tão estouvada como eu, — explicara Mrs. Amberley, com aquele tom de complacência que era sempre motivo de tantas contrariedades para Joyce. Ninguém tinha o direito de estar-se gabando dos próprios defeitos. — E isso vai-lhe ensinando a ser uma boa dona de casa — Deus a proteja! — ajuntara com uma risadinha.

Em pé junto ao balcão, Helena desdobrou o papel, leu, e depois, com toda a altivez e de cara fechada, como se estivesse dando ordens a um escravo, disse à empregada: — antes de tudo, café. Duas libras. Misturado; de dois pence com de quatro pence.

Era evidente que a moça se sentia ofendida com aquele tom, aquela maneira feudal de Helena. Joyce sentiu-se no dever de envolvê-la num olhar de dupla, de compensadora magnanimidade. ...

— Procure ter modos um pouco mais civis, — sussurrou, enquanto a moça foi buscar o café.

Helena conservou seu silêncio, mas com esforço. Modos ais civis... Com efeito! Modos mais civis com essa zarolha e se esquecia de lavar os sovacos. Ah, como a enojava a fealdade, a deformidade, a falta de asseio! Sentia nojo e abominava ...

— Por amor de Deus, — continuava Joyce, — não cometa nenhuma insensatez. Eu proíbo absolutamente...

Mas, no momento mesmo em que essas palavras eram proferidas, Helena estendeu a mão e, sem se incomodar com ser vista, apanhou uma "tablete" de chocolate, a mais alta de uma pilha arrumada com esmero e em forma de espiral sobre o balcão — apanhou-a e depois, com o mesmo gesto lento e decidido, meteu-a cuidadosamente no cesto.

Antes, porém, que o crime estivesse plenamente consumado, Joyce tivera o cuidado de virar as costas e ir-se afastando.

— Eu poderia alegar que era a primeira vez que a via, — refletia. Mas quem daria crédito? Todo mundo sabia que eram irmãs. — Oh, Colin, — era o seu grito íntimo e abafado, — Colin!

Uma pirâmide de latas de lagostas surgiu, alta, diante dela, fazendo-a parar. — Calma, — disse consigo. — É de calma que eu preciso. Seu coração batia de medo, e as lagostas de cor "magenta" escuro, pintadas nos rótulos das latas, dançavam-lhe diante dos olhos vertiginosamente. Tinha receio de olhar cm volta; mas, ao mesmo tempo que ouvia as pancadas fortes do coração, estava de ouvido atento e ansioso, à espera do inevitável alarma.

— Interessam-lhe, talvez, estas lagostas, senhorita? — foi-lhe dito, em tom confidencial, quase sussurrado ao ouvido esquerdo.

Joyce sobressaltou-se. Depois, com um esforço, conseguiu sorrir e responder, com a cabeça, que não.

— É uma qualidade que temos satisfação em recomendar senhorita. Tenho certeza de que, se levasse uma latinha para experiência...

— E agora, — dizia, do outro lado, Helena, com toda a calma e no mesmo tom exasperadoramente feudal, — quero dez libras de açúcar. Mas isso eu não posso levar; terão que mandar.

Foram saindo. O rapaz da secção de queijo e toucinho sorriu, à guisa de adeus; eram umas moças simpáticas e, além disso, boas freguesas. Com grande esforço, Joyce conseguiu, ainda unia vez, ser magnânima. Mal haviam, porém, transposto a porta, quando o rosto se lhe desintegrou, por assim dizer, num caos de violenta emoção.

— Helena! — exclamou furiosa. — Helena!

Mas Helena continuava sendo ainda a jovem rainha de um florim de prata, ostentando o seu perfil impassível e mudo.

— Helena! Entre a luva e a manga Joyce distinguiu no braço da irmã uma polegada de pele nua e deu-lhe um forte beliscão.

Helena puxou vivamente o braço e, sem voltar-se, com o mesmo perfil imóvel e impassível, disse em voz baixa: — Se continua a me atormentar, fique certa que eu jogo você na sarjeta.

Joyce chegou a abrir a boca para falar, mas depois desistiu e tornou a fechá-la. Sabia que, se dissesse mais alguma coisa, Helena, sem dúvida nenhuma, a empurraria para dentro da sarjeta. Teve de contentar-se com dar de ombros e assumir um ar de distinção.

A casa de frutas estava repleta. Enquanto esperava sua vez de ser servida, Helena não teve dificuldade em escamotear duas laranjas.

— Quer uma? — perguntou a Joyce ao saírem da casa de frutas. Era uma provocação e Joyce compreendeu que era chegada, então, a sua vez de também se tornar um perfil de moeda.

Na papelaria não havia, infelizmente, outros fregueses para distraírem a atenção do pessoal que se achava por trás do balcão. Contudo, Helena manteve-se à altura da situação. Aconteceu rolar pelo chão, de repente, um punhado de troco miúdo; e, enquanto os empregados estavam apanhando as moedas espalhadas no chão, ela servia-se, sem cerimônia, de uma borracha e de três ótimos lápis.

Foi no açougue que começou a dificuldade. Helena comumente se recusava a entrar em um açougue, qualquer que fosse. O aspecto e o cheiro nauseabundo daqueles cadáveres pálidos causavam-lhe a maior das repugnâncias. Nessa manhã, porém, ela entrou resoluta. Apesar da repugnância. Era um ponto de honra. Tinha dito — de cada loja, e não ia agora dar a Joyce um pretexto para alegar, depois, que ela tinha trapaceado. No primeiro meio-minuto, enquanto tinha ainda os pulmões cheios de ar incorrupto inalado antes de entrar, sentiu-se muito bem. Mas, Deus do céu, quando, por fim, teve de respirar... que horror! Levou o lenço ao nariz. O cheiro áspero e penetrante das carcaças rompeu a barreira de perfume, superpondo-se à suavidade deste, de sorte que uma respiração que começava com o Quelques Fleurs iria terminar horrivelmente em cheiro de carneiro morto, ou, partindo do fedor de sangue estragado, iria, através de modulações sucessivas, até à clave do jasmim ou do âmbar-cinzento.

Saiu um freguês; o açougueiro voltou-se para ela. Era um homem avelhentado, de cara quadrada e maciça, que a olhava com uma expressão de paternal benevolência.

— Parece com Mr. Baldwin, — ela disse consigo e, depois, em voz alta, mas indistintamente, através do lenço: — Libra e meia de carne de alcatra, faz favor.

Daí a um momento voltava o açougueiro com um pedaço de carne sangrenta. — Aqui está um belo pedaço, senhorita! — E apalpava aquela massa úmida e vermelha com o entusiasmo apaixonado de um artista. — Um belo pedaço, realmente! — Tal qual Mr. Baldwin compulsando o seu Virgílio, manuseando o seu Webb cheio de dobras nas pontas das páginas. — Nunca mais hei de comer carne, — pensava ela consigo enquanto Mr. Baldwin se afastava e começava a retalhar a dita. — Mas, que é que eu vou furtar? — Olhou em volta. — Que poderá haver por aí que eu...? Ah! — Uma prateleira de mármore, da altura de uma mesa, estendia-se ao longo de uma das paredes do açougue. Sobre ela, bandejas com miúdos sortidos, de uma cor entre rosa e pardo escuro. E no meio dessas vísceras nojentas um gancho — um grande gancho de aço em forma de S, com uma de suas pontas encurvadas ainda manchada do sangue de qualquer cadáver estripado e decapitado que a ele estivera suspenso. Tornou a olhar em volta. Pareceu-lhe oportuno o momento — o açougueiro estava pesando a carne que ela pedira o empregado estava conversando com aquela velha repelente dê cara de cachorro "bull-dog", e a moça que trabalhava na caixa, mergulhada em suas contas. À porta da casa, distante e como que alheada, Joyce esmerava-se, até ao exagero, no papel de quem interroga o céu e quer saber se a garoa que está caindo vai transformar-se em algo de mais sério. Helena deu três passos rápidos, apanhou o gancho e já o ia metendo no cesto, quando ouviu a voz solícita do açougueiro: — Cuidado, senhorita- Não toque nesses ganchos, que se suja toda.

Tal qual numa descida abrupta de montanha russa, a sensação foi de vertigem. A consciência da culpa fez-lhe subir o sangue às faces, aos olhos, à testa, que escaldavam. Ela tentou rir.

— Eu estava apenas examinando. E largou o gancho, que caiu, tilintando, sobre o mármore.

— É. Mas a senhorita podia estragar o vestido, — observou o açougueiro com o seu sorriso paternal. Mr. Baldwin sem tirar nem pôr.

Nervosa, não encontrando nada de melhor para fazer ou dizer, Helena pôs-se a rir novamente e, enquanto ria, fez inadvertidamente mais uma inalação de ar fétido. Puf! Defendeu outra vez o nariz com Quelques Fleurs.

— Uma libra e onze onças, senhorita.

Ela concordou, por um sinal de cabeça. Mas que havia ali para furtar? E como achar a oportunidade?

— Que há de ser mais, hoje?

Que havia de ser mais? Sim, era o único recurso — comprar mais alguma coisa. Isso lhe daria tempo para pensar e oportunidade para agir. — O senhor tem aí... — Hesitava... — Chouriço?

Sim, Mr. Baldwin tinha chouriço e estava na prateleira, junto com os outros miúdos. Ali mesmo, juntinho do gancho.

E quando ele perguntou quanto queria, ela respondeu: — Ah, não sei, a quantidade comum; o senhor já sabe.

Olhou em volta de si, desesperada, enquanto ele cuidava do chouriço. Não havia, nesse imundo açougue, nada que ela pudesse tirar, a não ser o gancho. Mas o gancho estava agora fora de cogitação, depois que o açougueiro a surpreendera com ele nas mãos. Não havia, pois, absolutamente nada. A menos que... Sim! só podia ser isso! Correu-lhe o corpo todo um arrepio. Ela, porém, franziu a testa, cerrou os dentes. Estava resolvida a não recuar.

— E agora, — disse, depois que ele embrulhara o chouriço, "agora eu quero aquilo ali." E indicou os pacotes de salsichas claras, empilhadas sobre uma prateleira no outro extremo do talho.

— Vou aproveitar enquanto ele está de costas, — pensou. Mas a moça da caixa interrompera as suas contas, levantara a cabeça e passeava o olhar por todo o estabelecimento. — Oh, maldita, desgraçada! — foi o esconjuro que acudiu nitidamente à imaginação de Helena, logo substituído por um "ora graças!" quando viu que a moça já não olhava. Esboçou um gesto; a moça espiando, de novo, — Diabos a levem! — E deixou cair a mão. Agora era tarde de mais. Mr. Baldwin já apanhara as salsichas, já se tinha voltado e aproximava-se dela.

— É só, senhorita?

— Na verdade, não me lembro... — E Helena enrugava a testa, como que em dúvida e procurando ganhar tempo. — Está-me parecendo que falta qualquer coisa... que havia qualquer coisa ainda... — Os segundos passavam; era terrível; ela estava fazendo um papel ridículo, de perfeita idiota- Contudo, não queria desistir. Recusava-se a dar-se por vencida.

— Temos esta manhã excelente carneiro do País de Gales, — disse o carniceiro naquela sua voz de artista, como se estivesse falando das Geórgicas.

Helena meneou a cabeça; realmente não podia comprar carneiro no momento.

Nesse instante a moça da caixa começou outra vez a escrever — Tinha chegado o momento.

— Não, — disse ela com decisão; — o que eu quero é uma libra dessas salsichas.

— Outra? — Mr. Baldwin mostrava-se surpreso.

Não há que admirar, pensou ela. Lá em casa também ficar surpresos.

— Sim, mais umazinha, — disse e sorriu, insinuante, como se pedisse um favor. Ele voltou à prateleira. A moça da caixa continuava escrevendo, a velha de cara de "bull-dog" não parará de conversar com o empregado. Rápida — não havia um segundo a perder — Helena virou-se para a prateleira de mármore a seu lado. Era por um daqueles rins que ela se decidira. A coisa escorregou, obscena, entre seus dedos enluvados — unia espécie de lesma, de siba, que ela teve, por fim, que espalmar com a mão toda. Graças a Deus que estava de luvas, pensava consigo. E quando deixou cair o rim no cesto, ocorreu-lhe a idéia de ter na boca aquela coisa horrível, assim mesmo cru, viscoso, peganhento, de uma imundície inexprimível, levar à boca, morder, saborear, engolir aquilo. Outro arrepio de nojo assaltou-a, desta vez tão violento, que lhe deu a impressão de lhe estar rasgando as entranhas.

Cansada das suas observações meteorológicas, Joyce, abrigada sob o guarda-chuva, passara a contemplar os crisântemos da vitrina de uma casa de flores ao lado. Preparara algo de particularmente ofensivo para dizer a Helena, quando esta saísse. Quando viu, porém, a angústia estampada na face branca da irmã, chegou a esquecer, até, os seus legítimos agravos.

— O que é que aconteceu, Helena?

Como única resposta, Helena desatou a chorar.

— Mas o que foi?

Ela sacudiu a cabeça e, voltando-se, levou a mão ao rosto para enxugar as lágrimas.

— Diga o que foi...

— Oh! — Helena agitava-se e gritava, como se tivesse sido picada por urna vespa. Via-se-lhe nas contrações do rosto uma expressão de uma angustiosa repugnância. — Oh, que porcaria, que porcaria, — repetia ela, olhando para os dedos. E, deporia o cesto sobre a calçada, desabotoou a luva, arrancou-a e, com um gesto violento, jogou-a na sarjeta.

 

8 de dezembro de 1926

CONDRA intra MEUM latus! É o único refúgio que nos resta. — Anthony tirou a folha da máquina de escrever, juntou-a às outras folhos que estavam diante sobre a mesa, grampeou-as e começou a ler rapidamente o que escrevera. O capítulo XI dos seus Elementos de Sociologia devia tratar do indivíduo e das suas concepções de personalidade. Passara o dia tomando nota, a esmo, de algumas reflexões preliminares.

— Cogito ergo sum, — leu. — Mas, porque não caco, ergo sum! Eructo ergo sum? Ou, fugindo ao solipsismo, por que não futuo ergo sumus? Questões obscenas. Mas o que é a "personalidade"?

— Mac Taggart conhece sua personalidade por observação direta; outros por descrição. Hume e Bradley não conhecem absolutamente a sua, nem acreditam que ela realmente exista. Puro bizantinismo, tudo isso; discussões de lana caprina e, o que é mais, lã imaginária de cabras peladas. O importante é dar-se que a "personalidade" é uma palavra corrente com um sentido geralmente aceito.

— Quando discutem a minha "personalidade", de que é que estão falando? Não é do homo cacans, nem do homo eructans, mesmo, exceto muito superficialmente, de homo futuens..., estão falando sobre o homo sentiens (latim impossível), e sobre o homo cogitans. E quando, em público, falo acerca de “mim mesmo”, estou falando sobre os mesmos dois homines.

Minha "personalidade", no atual sentido convencional da palavra, é o que eu penso e sinto — ou, antes, o que eu reconheço no pensamento e no sentimento. Caco, eructo, futuo — jamais admito que a primeira pessoa do singular de tais verbos seja realmente eu. Somente quando, por qualquer razão, afetam de modo palpável meu sentimento e meu pensamento, é que os procede que eles representam entram nos limites da minha "personalidade". (Tal crítica mostra o absurdo a que, em última análise se reduz toda a literatura. Os dramas, as comédias, os romances nada têm de verdadeiro.)

— Assim, o "pessoal" é o que é louvável, ou, antes, potencialmente louvável. Nunca o que é moralmente indiferenciado.

— É também o que é durável. As experiências brevíssimas são, até, menos pessoais do que as experiências desabonadoras ou vegetativas. Só se tornam pessoais quando acompanhadas pelo sentimento e pelo pensamento, ou quando reverberadas pela memória.

— A matéria, quando analisada consta de espaço vazio e de cargas elétricas. Tomemos uma mulher e um lavatório. Diferentes em espécie. Mas suas cargas elétricas componentes são semelhantes em espécie. Coisa mais estranha ainda: cada uma dessas cargas elétricas componentes é diferente em espécie da mulher total ou do lavatório total. As modificações de quantidade, quando suficientemente grandes, produzem modificações de qualidade, Ora, a experiência humana é análoga à matéria. Analisai-a e achar-vos-eis em presença de átomos psicológicos. Uma porção desses átomos constitui a experiência normal e uma seleção de experiências normais constitui a "personalidade." Cada átomo individual difere da experiência normal e, ainda mais, da personalidade. Reciprocamente, cada átomo em uma experiência assemelha-se ao átomo correspondente em outra. Visto através de um microscópio, um corpo de mulher é tal qual um lavatório e a experiência de Napoleão é tal qual a de Wellington. Por que imaginamos que a matéria sólida existe? Por causa da imperfeição dos nossos órgãos sensoriais. E por que imaginamos ter experiências coerentes e personalidades? Porque a nossa atividade mental é lenta e fraquíssima a nossa capacidade de análise, nosso mundo e nós, que nele vivemos, somos criações da estupidez e da insuficiência visual.

— Recentemente, contudo, têm-se aperfeiçoado as nossas faculdades de pensar e ver. Possuímos instrumentos que resolverão a matéria em minúsculas partículas e uma técnica matemática que nos faculta conceber partes ainda menores.

— Os psicólogos não possuem nenhum instrumento novo; tem somente novas técnicas de pensamento. Todas as suas invenções são puramente mentais — técnicas de análise e de observação, hipóteses de trabalho. Graças aos novelistas e aos psicólogos profissionais, podemos pensar nossa experiência em termos de átomos e instantes, tanto como em termos de blocos e horas. Ser um sofrível psicólogo só era possível, no passado, aos homens de gênio. Que se compare a psicologia de Chaucer com a de Gower ou, sequer, a de Boccaccio. Compare-se a de Shakespeare com a de Ben Jonson. A diferença é, não somente, de qualidade, mas de quantidade também. Os homens de gênio sabiam mais do que os seus contemporâneos meramente inteligentes.

— Hoje, há um corpus de conhecimento, uma técnica, uma hipótese, de trabalho. A soma de conhecimentos que pode adquirir um homem meramente inteligente é enorme — mais do que pode adquirir um homem de gênio sem aprendizado e contando unicamente com a intuição.

— Achavam-se os Gowers e os Jonsons peados por sua ignorância? A ignorância deles era o conhecimento padrão das épocas em que viveram. Alguns monstros de intuição podiam saber mais do que eles; mas a maioria sabia ainda menos.

E aqui, uma digressão — sociologicamente falando, mais importante do que o tema do qual ela parte. Existem modas para a personalidade. Modas que variam com o tempo — como as crinolinas e as saias entravadas — e modas que variam no espaço, como as tangas da Costa do Ouro e as casacas de Lombard Street. Nas sociedades primitivas todos usam, e anseiam por usar, a mesma personalidade. Mas cada sociedade tem um traje Psicológico diferente. Entre os Peles-Vermelhas da Costa Noroeste do Pacífico a personalidade ideal era a de um egotista meio louco concorrendo com os seus rivais no plano da riqueza e do consumo ostensivo. Entre os índios dos Plainos, era a de um egotista concorrendo com outros na esfera das façanhas guerreiras, já entre os índios de Pueblo, a personalidade ideal não era nem egotista, nem a de um dissipador exibicionista, nem a de um guerreiro, mas a de um homem perfeitamente gregário que envida todos os esforços no sentido de não se distinguir, conhece todos os ritos e gestos tradicionais e procura ser exatamente como todos os outros.

— As sociedades européias são vastas e racialmente, economicamente, profissionalmente heterogêneas; nelas é, pois, difícil impor a ortodoxia e existem vários ideais contemporâneos de personalidade. (Note-se que os fascistas e comunistas estão tentando criar um único ideal "junto" — por outras palavras, estão tentando fazer que os europeus industrializados se comportem como se fossem Dyaks ou esquimós. A tentativa está com o correr do tempo, condenada ao fracasso; mas, até lá e entremente, como eles se divertem com intimidar os hereges)

— Em nosso mundo, quais são as modas que imperam? Existem, sem dúvida, as vulgares modas clericais e comerciais — repudiadas pelas pequenas costureiras da primeira esquina. E, em seguida, la haute couture. Ravissante personnalité d' tèrieur de chez Proust. Maison Nietzsche et Kipling: personnalité de sport. Personnalité de nuit, création de Lawrence. Personnalité de bain, par Joyce. Note-se o fato interessante que, destas, a personnalité de sport é a única que realmente merece ser considerada como personalidade no sentido aceito do termo. As outras são, em maior ou menor grau, impessoais, por serem, em maior ou menor grau, atômicas. E isso nos reconduz a Shakespeare e a Ben Jonson. Um pragmatista teria que dizer que a psicologia de Jonson era "mais verdadeira" do que a de Shakespeare. A maioria dos seus contemporâneos efetivamente se consideravam e eram considerados como humoristas. Coube a Shakespeare ver tudo quanto havia além dos limites do “humour”, por trás da máscara convencional. Mas Shakespeare achava-se em minoria, de um, ou se ao lado dele pusermos Montaigne, de dois. O humorismo "pegou"; já a mesma sorte não tiveram as personalidades complexas, parcialmente atomizadas de Shakespeare.

— Na história das roupas novas do imperador, a criança percebe que o grande homem está nu. Shakespeare inverteu o processo. Seus contemporâneos tinham-se justamente por humoristas nus. Shakespeare viu que os cobria todo um guarda-roupa de fantasias psicológicas.

Tomemos, por exemplo, Hamlet. Hamlet habitava no mundo cujo melhor psicólogo era Polonius. Se ele soubesse apenas o que sabia Polonius, teria sido feliz. Mas ele sabia muito, sabia demais; e nisto consiste a sua tragédia. Leia-se a sua parábola dos instrumentos de música. Polonius e os demais tinham por axiomático que o homem era um apito de um ceitil, tendo apenas meia dúzia de chavetas. Hamlet sabia que, pelo menos potencialmente, ele era toda uma orquestra sinfônica.

— Louca, Ofélia descobre o segredo. — Sabemos o que somos, mas não sabemos o que podemos ser. Polonius sabe perfeitamente o que ele e quaisquer outros são, dentro das convenções dominantes. Hamlet sabe isso e também o que eles podem ser — fora do sistema local de máscaras e "humours".

— Ser o único homem de sua época que sabe o que os homens podem ser, tanto como o que eles são convencionalmente! Shakespeare deve ter passado alguns quartos de hora bem angustiosos.

— Estava reservado a Blake racionalizar o atomismo psicológico por meio de um sistema filosófico. O homem, segundo Blake (e, depois dele, segundo Proust, segundo Lawrence) é simplesmente uma sucessão de estados, e não de indivíduos, que, de fato, não existem, a não ser como os lugares em que os estados ocorrem. É o fim da personalidade no antigo sentido da palavra. (Entre parênteses — pois isso está completamente fora do domínio da sociologia — será o começo de uma nova espécie de personalidade? A do homem total, em edição não expurgada, nem selecionada, nem canalizada — para variar a metáfora — em qualquer dreno particular de Weltanschauung — do homem que é, numa palavra, o que ele realmente pode ser. Um homem tal é a antítese de qualquer das variantes do homem cristão fundamental de nossa história. E todavia é também, em certo sentido, a realização dessa personalidade ideal concebida pelo Jesus do Evangelho. Como a personalidade ideal de Jesus, o homem total, não expurgado, não canalizado é (1) anti-farisaico, quer dizer, desinteressado das convenções e posições sociais e não impando do orgulho de ser melhor que os outros; (2) humilde, aceitando-se tal qual é, recusando-se a elevar-se acima de sua condição humana; (3) pobre de espírito, com referência particular ao fato que "ele" — o seu ego — não costuma reclamar cousa alguma, está contente com o que, para uma personalidade do antigo tipo, pareceria carência psicológica e filosófica; (4) como uma criança, aceitando o dado imediato da experiência pelo que ele é em si, recusando-se a inquietar-se com o dia de amanhã, pronto a deixar que os mortos enterrem os seus mortos; (5) nem hipócrita nem mentiroso, uma vez que não existe nenhum modelo determinado, ao qual os indivíduos tenham de fingir que são iguais).

— Uma pergunta: existiu realmente alguma vez a antiga personalidade? No ano m os homens sentem x em contexto z. No ano n sentem o mesmo, mas contexto p completamente diferente. Mas x é uma emoção maior — de uma importância vital para a personalidade. E, contudo, x é sentido em contextos que mudam com as convenções variáveis da moda. "Antes a morte, que a desonra." Mas a honra é como a saia das mulheres. Usa-se curta, usa-se comprida, usa-se ampla, usa-se estreita, com anáguas, sem calças. Até 1750, era de esperar que nos sentíamos, de fato nos sentíamos, mortalmente desonrados, se víssemos um homem beliscando o traseiro de nossa irmã. Tão intensa era nossa indignação, que havíamos de procurar matá-lo. Hoje, a nossa honra emigrou das partes carnudas da anatomia de nossas parentas e tem alhures sua sede. E assim por diante, indefinidamente.

— Nestas condições, o que é a personalidade? E que é que ela não é?

— Não é a nossa experiência total. Não é o átomo ou o instante psicológico. Não são as impressões sensoriais como tais, nem é a vida vegetativa como tal.

— É experiência em massa e à hora. É sentimento e pensamento.

— E quem procede a essa respiga da experiência total, e baseado em que princípio? Somos nós, às vezes — quem quer que nós sejamos. Mas, outras tantas vezes, a seleção é feita para nós — pela insensatez coletiva de uma classe, de toda uma sociedade. Numa grande parte, a "personalidade" não é sequer a nossa propriedade pessoal.

— Vagamente, mas cada vez mais amplamente, este fato está agora começando a ser compreendido. Ao mesmo tempo, um número sempre crescente de pessoas estão se utilizando das técnicas modernas para se verem, e verem os outros, microscòpicamente e instantaneamente, tanto como globalmente e à hora. Além disso, possuindo uma hipótese de trabalho do inconsciente, cresce o número dos que se vão dando conta dos seus motivos secretos e vão destarte percebendo o grande papel representado em suas vidas pelos elementos desabonadores e vegetativos da experiência. Com que resultado? Que a velha concepção de personalidade já começou a decair. E não somente a concepção, mas também o fato. As "personalidades fortes", e até as "personalidades definidas", já se estão tornando menos comuns. Os fascistas têm que se desviar da linha que se traçaram, afim de manifestá-las, deliberadamente, por um processo adequado de educação. Educação que é simplificação, Esquimização; que impõe a supressão do conhecimento psicológico e a inculcação do respeito à ignorância psicológica. Política odiosa — mas desconfio que inevitável e, sociologicamente falando, acertada. Pois a nossa percuciência psicológica é provavelmente nociva à sociedade. A sociedade precisa de simples humorismo jonsoniano e não de coleções informes de estados requintados. Mais um exemplo do que há de nefasto no excesso de conhecimento e no excesso de técnica científica.

— Mais uma vez, Hamlet lança luz sobre o caso. Polonius é muito mais manifestamente e definidamente uma pessoa de que o príncipe. Efetivamente, a personalidade de Hamlet é tão indefinida, que os críticos têm dedicado milhares de páginas à discussão do que ela realmente era. Consciente de sua experiência total, átomo por átomo e instante por instante, Hamlet hão aceitava nenhum princípio diretor que o fizesse escolher e tomar por modelo, em lugar de outra, uma série de átomos para representar sua personalidade. Para si próprio e para os dedais, ele não passava de uma sucessão de estados mais ou menos congruentes. Daí, e desde então, essa perplexidade em Elsinore e entre os críticos de Shakespeare. A Honra, a Religião, o Preconceito, o Amor — todos os pontaletes convencionais que escoram a personalidade comum — foram, neste caso, roídas até ao cerne. Hamlet é a sua própria térmite, a roer de alto a baixo todo o torreão que sustentava sua personalidade até reduzi-lo a um montão de pó. Apenas uma coisa impede Polonius e os outros de perceberem imediatamente o fato: qualquer que seja o estado de seu espírito, Hamlet conserva o corpo intacto, inatomizado, macroscopicamente presente aos sentidos. E talvez, afinal de contas, seja esta a verdadeira razão de nossa crença na personalidade: — a existência e persistência dos corpos. E talvez, por mais realidade que haja na noção do indivíduo coerente, a continuidade não passa de uma função dessa persistência física. — Com uns cabelos assim, com tão maravilhosa figura, acho que Mrs. Jones tem uma bonita poyssonality. Quando ouvi isso, num ônibus que subia a Quinta Avenida, tive vontade de rir. Entretanto, tal coisa merecia de mim provavelmente a mesma atenção que eu teria dado a Spinoza. Pois qual é a coisa mais pessoal no ser humano? o meu espírito — mas o seu corpo. Um Hearst, um Rothermere, podem amoldar meus sentimentos, coagir minha atividade pensante, modificar meus pensamentos. Mas não há propaganda que possa tornar idêntico ao deles o meu metabolismo, a minha digestão. Cogito, ergo Rothermere est. Mas caco, ergo sum.

— E aqui está, parece-me, a razão dessa insistência, durante os últimos anos, sobre os direitos do corpo. Dos "Boy Scouts" aos sodomitas elegantes, e de Elizabeth Arden a D. H. Lawrence (um dos mais poderosos demolidores de personalidade, convindo, incidentalmente observar que não existem "personalidades" nos seus livros). Sempre, e em toda parte, o corpo. Ora, há um dos méritos do corpo que é enorme. É o de estar indubitavelmente ali. Ao passo que é personalidade, como estrutura mental, pode estar toda em fragmentos — roída e reduzida ao monte de pó de Hamlet. Somente os bastantes estúpidos e incapazes de sentir é que têm, hoje em dia, fortes e bem definidas personalidades. Somente os bárbaros, entre nós, "sabem o que eles são." Os civilizados têm consciência do que "eles podem ser" e são por isso incapazes de saber o que, para fins práticos e sociais, eles realmente são — esqueceram como deviam tirar de sua experiência atômica total a sua personalidade. No terreno paludoso em que chafurda e se revolve essa incerteza, o corpo eleva-se firme como um Marco do Tempo.

 

Jesu, por me perforatus,

Condor intra tuum latus.

 

A própria fé anseia pelas quentes cavernas da carne perfurada. Quanto devem ser mais furiosamente prementes as solicitações de um ceptismo que chegou a deixar de crer na sua própria personalidade! Condor intra MEUM latus! É o único refúgio que nos resta.

 

Anthony depôs sobre a mesa as páginas datilografadas e, recostando-se, começou a balançar-se em equilíbrio instável sobre os pés traseiros da cadeira. Não estava mau, pensava. Mas era óbvio que havia omissões, que havia generalizações injustificáveis. Escrevera sobre o mundo em geral, como se o mundo em geral fosse tal qual ele próprio — levado, sem dúvida, pelo desejo de que as coisas se passassem assim. Pois, como tudo seria simples, se assim fosse! Como seria agradável! Cada homem — uma sucessão de estados enfeixados na carne de seus próprios flancos. E se fosse preciso qualquer outro principio de coerência, havia sempre algum interesse intelectual absorvente e deleitoso, como a sociologia, por exemplo, à guisa de suplemento ao corpo persistente. Condor intra meum laborem. Em vez disso... E suspirou. A despeito de Hamlet, a despeito d'Os Livros Proféticos, a desfeito de Du côté de ches Swann e do Quando as Mulheres amam, o mundo estava ainda cheio do humorismo jonsoniano. Cheio dos vilãos de melodrama, dos Igualmente deploráveis heróis de filmes, cheio de Poincarés, de Mussolinis, de Northcliffes, cheio de ambiciosos e avaros semeadores de discórdia de todos os tamanhos e de todos os feitios.

Ocorreu-lhe uma idéia. Deixou a cadeira inclinada voltar a posição normal e tomou de sua caneta-tinteiro.

— Última enfermidade de um espírito nobre, a primária, talvez a única fonte de pecado, — garatujou. — Espírito nobre — espírito maligno. Conhece-se a árvore pelos frutos. Quais são os frutos da ânsia de glória, da ambição, do desejo de se distinguir? Entre outros, a guerra, o nacionalismo, a concorrência econômica, o snobismo, o ódio de classe, o preconceito de cor. Teve razão Comus em pregar o sensualismo; e como foi tolo Satan ao querer tentar um Messias, por definição praticante do ahimsa, com a fama, o domínio, a ambição — coisas cujos frutos inevitáveis são a violência e a coerção! Comparada com a sede de glória, o puro sensualismo é quase inofensivo. Se Freud tivesse razão e o sexo imperasse, nossa vida seria quase edênica. Ai! só meia razão tinha Freud. Adler, também, só meia razão. Hinc illae lac.

Olhou para o relógio. Sete horas e vinte — e tinha que estar em Kensington às oito! No banho, pensava no que iria ser aquela noite. Fazia doze anos que tinha brigado com Mary Amberley. Doze anos, durante os quais a vira somente de longe, em galerias de pintura, uma ou duas vezes; e ao atravessar a sala de um amigo comum. — Nunca mais quero falar com você, — tinha ele escrito na última carta que lhe enviara. E todavia, alguns dias depois, quando inesperadamente lhe aparecera sobre a mesa de almoço, com as outras cartas, o seu convite de reconciliação, ele aceitara imediatamente; aceitara naquele mesmo tom em que era feito o convite — indiferentemente, positivamente, sem outra alusão explícita ao passado, a não ser um — Sim, já vai muito tempo desde a última vez que jantei no Número 17. — E, afinal, por que não? Que interesse havia em fazer coisas definitivas e irrevocáveis? Que direito tinha o homem de 1914 de tutelar o homem de 1926? o homem de 1914 fora a corporificação de um estado de cólera, vergonha, angústia e perplexidade. Seu estado hoje era o de serenidade jovial, mesclada, no que se referia a Mary Amberley, de uma soma considerável de curiosidade. Como seria ela agora — aos quarenta e três anos, pois não? E era ela realmente tão interessante como lhe parecia ao recordá-la? Ou fora a sua admiração apenas um dos frutos — absurdos, deliciosos frutos — da inexperiência juvenil? Iria o seu cisne revelar-se um ganso? Ou seria ainda um cisne — mas na muda, mas (pobre Mary!) na idade madura? Ainda cheio de curiosidade e de dúvidas, desceu, correndo, as escadas e precipitou-se na rua.

 

8 de dezembro de 1926

À hora do jantar, ele já tinha diante de si toda uma nova história — o último, o mais recente suplemento do repertório de Mary Amberley. O mais recente e, conforme se afigurava ao ouvido atento e crítico de Anthony, tão bom quanto os melhores clássicos da coleção. Desde o momento em que recebera o convite, sua curiosidade estivera, como só agora ele compreendia, mesclada de certa esperança vingativa, a esperança de que ela tivesse mudado para pior, quer relativamente, isto é, para a larga experiência dos seus olhos, quer absolutamente, em razão de terem decorrido esses longos doze anos; a esperança, enfim, de que ela tivesse degenerado do que era, ou do que ele imaginara que ela fosse, quando ainda a amava. Foi, assim, com certa vergonha, como ele mesmo agora reconhecia, foi com certo desapontamento que a encontrou quase sem mudança nenhuma, quase a mesma Mary Amberley de suas reminiscências. Ela estava com quarenta e três anos. Mas seu corpo quase nada perdera da esbelteza antiga e ela movia-se ainda com toda a agilidade e rapidez de outrora. Em verdade, com algo mais do que a antiga agilidade, pois ele notara que a sua agilidade atual era propositada, que ela desempenhava o papel de alguém que, sob a ação de um impulso juvenil, entrasse em movimento rápido e violento; e que o desempenhava além disso em circunstâncias em que o impulso não poderia de modo algum ter sido sentido, se fosse natural. Antes do jantar, ela levou-o ao seu quarto no pavimento superior, para que ele visse os nus de Pascin que ela acabava de comprar. A primeira metade do primeiro lanço da escada, ela a venceu a passo normal, conversando enquanto subia; depois, como se de súbito lhe tivesse acudido que a lentidão ao subir uma escada é sinal de idade madura, passou inesperadamente a correr — não, a precipitar-se, corrigiu-se logo Anthony ao lembrar-se do incidente. Precipitar-se era o termo justo. E quando voltaram para a sala de visitas, nenhuma garota de dezesseis anos, por mais desenvolta e estabanada que fosse, poderia atirar-se ao sofá com maior estouvamento do que ela o fez, nem encolher as pernas com um movimento mais felino. A Mary de 1914 jamais se comportara com tanta juventude assim. Ainda mesmo que o quisesse, refletiu ele, não teria podido fazê-lo, com todas aquelas saias e anáguas. Ao passo que neste momento, com estas saiazinhas curtas e plissadas... Não deixava de ser absurdo, sem dúvida; mas, pensando bem, não era ainda dolorosamente absurdo. Pois Mary ainda podia pretender encarnar o papel de jovem. Apenas um pouco gasto, seu rosto parecia ter ainda a iluminá-lo, através das leves marcas de fadiga, a vitalidade risonha de outrora. E quanto aos seus dotes intelectuais — sim, quanto a isso, bastava pensar nessa improvisação (pois devia ser uma improvisação, visto que o fato ocorrera naquela manhã mesma) improvisação que era uma pequena obra prima e que tinha por tema o rim que Helena tinha roubado.

— Vou mandar embalsamá-lo, — concluiu ela com um tom entre sério e jocoso, em que se percebia um riso mal contido. — Embalsamá-lo e...

 Mas já Beppo Bowles, como uma garrafa de gengibirra subitamente aberta e borbulhante, atalhava: — Vou fazer-lhe algumas sugestões sobre o embalsamento. — Sorriu, pestanejou, torceu-se todo. Toda a sua pessoa, gorducha e viçosa, parecia participar do que ele dizia; era como se falasse com todos os órgãos do corpo. — Sugestões colhidas no Mortician's Journal. — Fez com a mão um gesto ondulante e declamou: — Embalsamadores! Têm os vossos trabalhos esse aspecto desagradável do mastique, das resinas? Se têm...

A sra. Amberley rira — um pouco artificialmente, talvez; pois não gostava de ser interrompida no meio de uma história. Beppo era, sem dúvida, muito querido dela e de todos. Tão infantil, a despeito de sua pança e de sua careca luzidia bem no alto da cabeça. (Um ar mesmo de garota, às vezes.) Mas contudo... E interrompeu-o de chofre com um "Perfeitamente!" Depois, virando-se para os outros em torno da mesa, — Bem, como eu ia dizendo, — continuou, — vou mandá-lo embalsamar e pôr numa dessas redomas de vidro...

—Como a vida, — Beppo não pôde deixar de intervir eruptivamente. Mas ninguém percebeu a referência a Adonais, e ele ficou rindo sozinho.

—Numa dessas redomas, — repetiu a sra. Amberley, sem olhar para quem a interrompia, — que se encontram nas casas de habitação coletiva. Com pássaros dentro. Pássaros empacados. — E deu à pronúncia das últimas palavras uma tonalidade alemã que as tornava, sem que se soubesse bem por que, extraordinariamente engraçadas.

Sua voz, julgava Anthony, nunca estivera tão boa. Havia agora uma rouquidão vaga, qualquer coisa como o aveludado da epiderme de um fruto, qualquer coisa como a bruma através da qual vemos, da Ponte de Waterloo, a Catedral de São Paulo. A interposição dessa cortina de gaze, que era o tom grave de sua voz, parecia aprofundar-se, por assim dizer, e tornar mais ricas as belezas da paisagem vocal que lhe ficava por trás. Com um ouvido mais atento do que nunca, ele procurava fixar na memória as cadências de sua fala, analisá-las, decompô-las em seus diferentes sons. Em seus projetados "Elementos de Sociologia" devia haver um capitulo sobre "Sugestão coletiva e Propaganda". Uma das seções seria consagrada ao assunto dos Ruídos Fascinantes. O ruído fascinantemente irritante, por exemplo, de Savonarola ou de Lloyd George. O ruído fascinantemente sedativo dos cantos sacerdotais. O ruído fascinantemente de Robey e Little Tich. O ruído fascinantemente afrodisíaco de certos atores e atrizes, de certos cantores, de certas sereias e Don Juans da vida privada. Mary, sentenciou ele, tinha o dom especial de produzir um ruído simultaneamente afrodisíaco e cômico. Ela podia emitir sons que feriam as cordas sensíveis do riso e do desejo, nunca, porém, as da mágoa, da piedade, da indignação. Em momentos de ênfase emocional (lembrava-se agora daquelas horríveis cenas que ela costumava fazer) sua voz perdia todo o controle e entrava num caos , sons roucos e agudos. O som de suas palavras de queixa, de censura ou de angústia provocava no ouvinte apenas um certo desconforto físico. Ao passo que com a sra. Foxe, de quem ele passava agora a lembrar-se, já era outra coisa: o simples ruído de suas palavras bastava para compelir-nos, para impor nossa aquiescência e simpatia. Ela possuía a mesma particularidade misteriosa que elevou Robespierre ao poder, que deu a Whitefield, pela mera repetição, duas ou três vezes, de uma exclamação piedosa, a possibilidade de arrancar lágrimas aos cépticos mais empedernidos. Há ruídos fascinantes capazes de convencer os ouvintes da existência de Deus.

Quanta graça havia no tom de voz com que Mary se referira aos pássaros empalhados! Todos riram; todos tinham forçosamente que rir. O próprio Colin Egerton, o próprio Hugh Ledwidge. E contudo, quando vira entrar na sala esse tal Beavis, Hugh se enchera de inquietação. O Beavis, a quem ele sempre e de todos os modos possíveis procurava evitar... Por que é que Mary não o avisara? Chegou a pensar, um momento, que se tratava de um plano previamente concertado. Mary teria convidado Beavis de propósito, com o intuito de envergonhá-lo, porque sabia que o tipo tinha sido testemunha de suas humilhações no Bulstrode. Deveria haver dois deles presentes: Staithes (pois ele sabia que se esperava Staithes depois do jantar) e Beavis. Hugh acabara por se habituar a encontrar Staithes nessa casa, já não o inquietava esse encontro. Staithes, não podia haver dúvida, já tinha esquecido. Mas Beavis — toda vez que Hugh o encontrava, parecia-lhe que o gajo olhava para ele de um modo estranho. E se Mary o tinha agora convidado, fora de propósito, para que ele pudesse reavivar em Staithes coisas esquecidas; e os dois, com certeza, iriam atormentá-lo com reminiscências — as reminiscências que tinham do medo que certa vez o assaltara, quando jogava futebol; de como ele tinha chorado, no exercício de adestramento para casos de incêndio, quando chegou a sua vez de descer escorregando pela corda; de como se achegara covardemente a Jimbug e fora depois obrigado ao castigo de passar entre duas fileiras deles, armados de toalhas enroladas em porretes, de como eles o surpreenderam-no seu quarto, quando espiaram por cima do tabique... Hugh sentiu um tremor correr-lhe o corpo. Mas certamente, pensando melhor, refletindo bem, não era possível que se tratasse de um plano. Não era concebível. Fosse como fosse, ele, quando todos desceram para jantar, ficou satisfeito de achar-se separado de Beavis. Com Helena entre os dois, a conversa seria difícil. E depois do jantar ele haveria de fazer todo o possível para se manter à distância...

Quanto a Colin, este estivera durante toda a refeição num estado de perplexidade que, à medida que crescia, à medida que ele se sentia cada vez mais desesperadamente alheio a tudo aquilo, se mesclava de um desespero e de uma desaprovação crescentes. Chegou por fim a dizer consigo mesmo (o que pretendia dizer em voz alta a Joyce na primeira oportunidade): — Pode ser que eu seja um tolo e mais isso e mais aquilo — (e tal confissão ele a fazia intimamente num tom de firme desdém, como se fosse uma confissão de força, não de fraqueza) — Posso ser um tolo e tudo mais, mas ao menos sim, ao menos, eu sei muito bem o que se passa interna e externamente. — Tudo isso e muito mais era o que ele queria dizer a Joyce; e Joyce (lançou um olhar para ela em meio às histórias desbragadas de Beppo e surpreendeu-lhe um olhar humilde, ansioso, ao mesmo tempo súplice e apologético), Joyce concordaria com todas as palavras que ele dissesse. Pois a pobre menina era uma espécie de filha trocada no berço, era como uma pseudo-filha, deixada, por inexplicável engano, nos braços de uma louca, de uma mãe impossível que a obrigava, contra sua natureza, a associar-se a esses... esses... (Não pôde achar o termo aplicável a Beppo.) E ele, Colin Egerton, era o São Jorge que a viria salvar. O fato dela — como uma virgem caída no meio de cáftens e rufiões — precisar de salvação era um dos motivos pelos quais ele sentia por e a essa atração tão intensa. Amava-a, entre outras razões, porque abominava em extremo esse hediondo degenerado (era esse termo) que se chamava Beppo Bowles; e sua aprovação a tudo que Joyce era e fazia, era proporcional à sua desaprovação (de toda ovação intensificada por certo terror) à mãe de Joyce. E todavia, nesse momento, apesar de toda a desaprovação, apesar do temor daquela língua ferina que ela tinha, daqueles olhares penetrantes e cheios de ironia, não pôde deixar de rir com os demais. Aquela referência aos pássaros na redoma, numa pronúncia prolongada, à alemã, era irresistível.

Para a sra. Amberley, o riso era como o champanhe: aquecia, estimulava. — E vou mandar esculpir na base uma inscrição, — prosseguiu ela, alteando a voz para se fazer ouvir em meio ao vozerio. — Este rim foi roubado por Helena Amberley com risco da própria vida e...

— Oh, mamãe, cale a boca! — atalhou Helena enrubescida por um misto de prazer e de enfado. — Por favor! — Era certamente agradável ser a heroína de uma história que todos estavam ouvindo com atenção — mas ao mesmo tempo esse heroísmo era um heroísmo idiota. E ela sentia-se irritada de ver a mãe explorando essa idiotice.

— ... e a despeito de uma eterna e consciente repugnância ao ambiente dos açougues, — continuou a sra. Amberley. E acrescentou depois, já noutro tom: — Coitada da minha Helena. Nunca pôde suportar certos cheiros. A náusea que lhe causavam os açougueiros, peixeiros, etc. E nunca esquecerei aquela única vez em que a levei a uma igreja!

— Aquela única vez, — pensou Colin. — Já não admira que ela pratique coisas destas!

— Sim! Eu não posso negar, — exclamou a sra. Amberley, — ninguém pode negar que uma congregação de aldeia por uma manhã úmida de domingo... seja, francamente, uma coisa fedorenta. É de atordoar! Mas, em todo caso...

— É o cheiro da santidade, — interveio Anthony Beavis, e, voltando-se para Helena: — Eu também já passei por isso. Sua mãe mandava você cuspir, quando havia esses maus cheiros cm volta? A minha queria sempre que eu cuspisse. E na igreja a coisa não era fácil.

— Qual cuspir! Nem houve tempo para isso, — respondeu, pela filha, a sra. Amberley. — Ela ficou logo enjoada, com ânsias. O casaco de astracã da velha Lady Worplesdon é que ficou num estado lamentável. Nunca mais pude apresentar-i numa sociedade respeitável. Graças a Deus! — ajuntou Beppo esganiçou um protesto contra as imputações que ela insinuava. A conversa desviou-se, depois, dos rins e seguiu outro rumo.

Helena continuou sentada, despercebida, silenciosa. Seu rosto perdera, de súbito, toda a animação que assumira. — Nunca mais tornarei a tocar em carne, — tinha dito. E entretanto, ali estava ela com um rubro e repulsivo naco de carne de vaca espetado no garfo. — Sou impossível, — pensou. Pas sérieuse, conforme pronunciara a velha Mine. Delécluze. E embora dificilmente se pudesse esperar outra coisa dessa velha asinina como preceptora profissional de moças, contudo era verdade; no fundo, a verdade era isso mesmo. — Não sou séria. Não sou... — Mas percebeu, de repente, que era a ela mesma que se dirigia aquela voz que lhe estivera soando ao ouvido direito, inarticulada e como que vinda de uma distância imensa.

— ... Proust, — ouviu a voz dizer e percebeu que já antes a mesma sílaba havia sido pronunciada pelo menos duas vezes. Olhou em volta, com um sentimento de culpa, e viu, rubro de embaraço, o rosto de Hugh Ledwidge voltado para ela, cheio de hesitação e de incerteza. Ele sorriu apalermado, com os óculos a lampejarem, e depois desviou novamente o rosto. Ela sentia-se duplamente confusa e envergonhada.

— Receio não ter percebido bem... — conseguiu por fim murmurar.

— Oh, não tem importância, — respondeu ele no mesmo tom. — Não tem realmente importância nenhuma. — Não tinha importância nenhuma, mas ele estivera quase cinco minutos a pensar naquele modo de encetar a conversa armado de Proust. — É preciso que eu lhe diga alguma coisa, — tinha resolvido quando viu Beavis empenhado em palestra íntima com Mary Amberley e Beppo. — Devo dizer-lhe alguma coisa. — Mas o que? Que se dizia a mocinhas de dezoito anos? Gostaria de dizer-lhe qualquer coisa de pessoal, qualquer coisa um tanto galante, mesmo. Sobre seu vestido, por exemplo, — Como é bonito! — Não, isso era um pouco vago e sem caráter específico. — Como os seus olhos combinam tão bem com a sua cor (mas, a propósito, de que cor eram os olhos dela?) Também podia fazer-lhe perguntas sobre bailes. Tinha ela ido a muitos? Com amiguinhos (muito ladinos?) Mas isso, ele tinha como coisa muito difícil para si. E demais, não gostava muito de imaginá-la em companhia de amiguinhos — preferia imaginá-la virginal: du bist wie eine Blume... Ou então, a sério, mas com um sorriso, poderia dizer-lhe: — Diga cá, Helena, conte como é na realidade a mocidade de hoje? — E Helena, firmando os cotovelos sobre a mesa, voltar-se-ia para o lado e lhe diria exatamente o que ele quisera saber acerca desse mundo misterioso, desse mundo em que as pessoas dançavam e iam a festas e estavam sempre tendo relações pessoais umas com as outras; contar-lhe-ia tudo, tudo — ou então, mais provavelmente, nada, e apenas lhe faria sentir quanto era impertinente e tolo. Não, não; evidentemente, isso não serviria. De modo nenhum. Estava apenas imaginando, apenas exprimindo um desejo. Foi quando lhe ocorreu a pergunta acerca de Proust. Que pensava ela de Proust? Era uma pergunta consoladoramente impessoal, que ele poderia fazer sem acanhamento nem afetação. Mas a impessoalidade de tal pergunta poderia conduzir a uma longa discussão — sempre no domínio do abstrato, sempre, por assim dizer, num trabalho de sondagem — sobre as questões mais intimamente emocionais e, até mesmo, (não, não; todavia, nunca se podia saber; era revoltante; e contudo...) até mesmo fisiológicas. Falando sobre Proust, seria possível dizer tudo — tudo, mas sempre em termos de crítica estritamente literária. Sim! Isso, sim, evidentemente serviria. Tinha-se voltado para Helena.

— Suponho que deve ser interessante, sutil, invulgar a sua opinião sobre Proust. — Sem resposta. Da extremidade da mesa vinham vestígios da conversa da sra. Amberley com Anthony e Beppo; estavam discutindo os hábitos de seus amigos. Quanto a Colin Egerton, parecia estar em meio a uma caçada de tigres nas Províncias Centrais. Hugh Ledwidge tossiu e, depois, continuou: — Você deve ser proustiana, como todos nos, não é assim? — Mas o perfil cabisbaixo e melancólico não deu sinal de vida. Já constrangido por se sentir ridículo, ele experimentou ainda uma vez.

— Eu desejava que você me dissesse o que pensa sobre Proust, — disse em voz mais alta, que aos seus próprios ouvidos soava estranha e afetada.

Helena continuava de olhos fitos em certo objeto invisível em cima da mesa, exatamente em frente do seu prato. Pas sérieuse. Estava pensando em todas as coisas que não eram sérias e que ela já tinha feito em sua vida, em todas aquelas coisas bobas, vis, horríveis. Uma espécie de embaraço pânico, sem causa, dominou Hugh Ledwidge. Sentia-se perdido; o mesmo que sentiria se, estando no Piccadilly, as calças lhe começassem a descer pelas pernas abaixo. Qualquer outro, naturalmente, tocaria apenas no braço de Helena e diria: — Dê cá um tostão de idéias, Helena! — Como seria simples, isso, e sensato! Todo o incidente se transformaria logo num gracejo, numa brincadeira e, além disso, à custa dela. Ele conquistaria assim definitivamente uma posição de superioridade tiranizante. "Sonhando de dia e em meio a um jantar! Sonhando com que? Com quem?" Seria hábil e fino. E ela enrubesceria, daria uma risadinha, como que por efeito de uma ordem dele, como que atendendo ao comando dele. Como um provecto "matador", ele acenaria com a sua bandeirinha vermelha e ela sairia a precipitar-se para cá, a investir para lá, numa exibição absurda e deliciosa de si própria, até que, afinal, ele, erguendo a espada... Mas por mais simples e sensato e estrategicamente vantajoso que isso fosse, Hugh Ledwidge sentia que era completamente impossível dar o primeiro passo. Ali estava o braço dela, nu, fino como um braço de criança; mas qualquer coisa o prendia, qualquer coisa o impedia de estender a mão e tocá-lo. E a oferta pilhérica do tostão — isso era coisa que ele absolutamente não podia fazer; suas cordas vocais não lho permitiriam. Decorreram trinta segundos — trinta segundos de embaraço e incerteza crescentes. Depois, subitamente, como que despertando de um sono, ela virou-se e olhou-o. Que dissera ele? Mas era impossível, a ele, repetir o que dissera.

— Coisa sem importância. Sem importância. — Retraiu-se. Mas por que, oh, por que era ele assim tão bobo, de uma incapacidade tão ridícula? Aos trinta e cinco anos. Nel mezzo del cammin. Imagine-se Dante em tais circunstâncias! Dante, com seu perfil de aço singrando, como a proa de uma belonave espiritual, as ondas invisíveis do espírito. E, entrementes, que coisa poderia ele dizer-lhe em lugar dessa impossível observação acerca de Proust? Que coisa lhe inspiraria os céus...?

Foi finalmente ela quem tocou no braço dele. — Você me desculpe, — disse, com uma verdadeira contrição. Procurava uma compensação, uma derivação que a aliviasse do fato de ter comido tão frivolamente aquela carne sobre a qual os dedos de Mr. Baldwin haviam passado e repassado. Além disso ela gostava do bom Hugh. Era uma rapaz direito. Tinha-se dado ao incômodo de lhe mostrar as curiosidades mexicanas no Museu. — Tenho uma entrevista com o sr. Ledwidge, — dissera ela ali. E todos os funcionários subalternos desmancharam-se em atenções, trataram-na cem a maior deferência, mostraram-se deleitados. Ela foi conduzida ao seu gabinete particular — o gabinete particular do diretor-assistente do Departamento — como se se tratasse de uma alta personalidade. Um eminente arqueólogo visitando um colega. Tinha sido, em verdade, tudo aquilo, extraordinariamente interessante. O único mal era que, naturalmente, — e este era outro sintoma de sua terrível falta de seriedade — era que ela tinha esquecido a maior parte das coisas que ele lhe dissera. — Sinto imensamente não ter ouvido, — repetiu ela. E era a pura verdade. Ela sabia o que ele devia estar sentindo. — Você compreende, — explicava ela, — a vovó é surda. De maneira que eu sei, por experiência, como é desagradável a gente ter que repetir alguma coisa. Tem qualquer coisa de idiota. Qualquer coisa, mais ou menos, como Mr. Shandy e o relógio, se é que você percebe o que eu quero dizer. Você me perdoe. — Apertou-lhe, suplicante, o braço. Depois, firmando os cotovelos sobre a mesa e voltando-se para ele numa atitude confidenciai premeditada, disse: — Escute, Hugh; você é um rapaz sério, não? Compreende o que digo, sérieux.

— Sim, eu acho que sim, — gaguejou ele. Acabava de ver, um tanto tarde, o que significava aquela referência a Mr. Shandy. E quando a compreendeu, foi qualquer coisa como um choque o que então sentiu.

— O que eu quero dizer, — continuou ela, — é que você dificilmente poderia estar no Museu, se não fosse um rapaz sério.

— Ah, não poderia, não, — admitiu ele, — provavelmente não poderia. — Mas em verdade, pensava ele, ainda preocupado com aquela história de Mr. Shandy, uma coisa existe, chamada conhecimento teórico. (E não sabia ele disso? Sabia-o muito bem) Conhecimento teórico que não corresponde a nenhuma Ciência verdadeira, que não é realizado nem vivido. — Meu Deus! — gemeu intimamente.

— Pois bem, — dizia Helena, — essa seriedade é o que me falta — Sentia uma grande necessidade de desabafar, de encontrar quem a socorresse. Havia momentos — e eles se repetiam toda vez que, por uma razão ou por outra, ela duvidava de si própria — momentos em que tudo em torno dela parecia terrivelmente vago e incerto. Tudo. Mas, na prática, tudo isso se reduzia, naturalmente, à falta de confiança que sua mãe lhe inspirava. Helena gostava muito de sua mãe, mas ao mesmo tempo era forçada a admitir que ela não lhe servia para nada. — A mamãe é como essas brincadeiras de mau gosto, — dissera ela uma vez a Joyce. — A gente pensa que vai sentar-se na cadeira; mas a cadeira é rapidamente retirada e a gente cai, sentindo uma horrível pancada no traseiro. — Mas Joyce se limitara a dizer: — Só o que você precisa, Helena, é deixar de usar semelhantes termos. — Paspalhona! Paspalhona, sim, mas, fosse como fosse, o que não se podia negar era que Joyce era uma cadeira em que a gente podia sentar-se. Mas uma cadeira inadequada, uma cadeira somente para ocasiões importantes — e que é que adiantava isso? Joyce era ainda muito jovem; e, ainda mesmo que fosse muito mais velha, não haveria de compreender as coisas, como convinha, isto é, como elas eram realmente. E agora então, que estava noiva do Colin, parecia compreender as coisas cada vez menos. Colin! Que idiota que era esse homem! Mas em todo caso, ali estava, se quisessem, uma cadeira. Uma cadeira firme como um marco miliário. Mas, infelizmente, de tal formato que forçava a gente a sentar-se na mais grotesca e incômoda das posições. Todavia, como Joyce parecia não se incomodar com a falta de conforto, estava tudo muito bem. E Helena, sem ter uma cadeira neste mundo exaustivo, chegava quase a ter inveja da irmã. Entretanto, ali estava o bom do Hugh, que era, sem dúvida, uma cadeira. Ela sentou-se, pois, pesadamente.

— O meu mal, — continuou Helena, — é que eu sou de uma frivolidade irremediável.

— Na verdade, eu não posso acreditar nisso, — disse, embora sem poder atinar com a razão por que o dizia, pois que ele, evidentemente devia fazer era animá-la a confessar-se e não afirmar-lhe que ela não tinha pecados a confessar. Era como se estivesse intimamente receoso de descobrir exatamente aquilo que desejava descobrir.

— Não acho que você seja...

 Mas, felizmente, nada que ele dissesse poderia demovê-la. Ela insistia em servir-se dele como de uma cadeira.

— Não, não, é a pura verdade, — dizia ela. — Você não pode imaginar quanto eu sou frívola. Vou lhe contar...

Meia hora depois, no salão dos fundos do edifício, ele elaborava para ela uma lista dos livros que ela devia ler. Os Primeiros Filósofos gregos, de Burnet; Phaedrus Timaeus, A Apologia, e O Symposium, na tradução de Jowett; a Ética a Nicomaco; a pequena antologia dos moralistas gregos, de Conford; Marco Aurélio; Lucrécio em qualquer boa tradução; o Plotinus, de Inge. Ele falava com naturalidade, com confiança, num tom positivamente magistral. Era como um ser subitamente reintegrado no seu elemento natural.

— Esses lhe darão uma idéia de como os antigos concebiam as coisas.

Ela ia meneando a cabeça, concordante, Ao olhar para a lista escrita a lápis, tinha no rosto uma expressão de quem havia tomado uma decisão muito séria. Tinha mesmo resolvido usar óculos e mandar pôr uma mesa no seu quarto de dormir, afim de não ser incomodada quando estivesse trabalhando em meio de rumas de livro, de papéis, de documentos. Munir-se-ia de cadernos de notas, ou melhor, organizaria um fichário. Seria uma vida nova, uma vida que teria uma significação, uma finalidade. No salão, alguém pôs o gramofone a funcionar. Seu pé, dir-se-ia que por iniciativa própria, começou a marcar o passo. Um, dois, três, um dois, três, — era uma valsa. Mas em que estava ela pensando? Franziu a testa e parou o movimento do pé.

— Quanto ao pensamento moderno, — continuou Hugh, — aqui, os dois livros indispensáveis, de que deve partir toda cultura moderna, são (seu lápis deslizava ligeiro sobre o papel) Essais, de Montaigne e as Pensées, de Pascal. Esses são indispensáveis — Sublinhou os nomes. Depois, o melhor seria passar uma vista d'olhos no Discurso sobre o Método.

— Que método? — perguntou Helena.

Hugh, porém, não ouviu a pergunta. — E leia um pouco Hobbes também, se tiver tempo, — prosseguia ele com um vigor e uma confiança crescentes. — E depois Newton. Esse é absolutamente essencial. Porque, se você não conhecer a filosofia de Newton, não saberá por que é que a ciência se desenvolveu neste e não noutro sentido. Encontrará tudo de que necessita nas Metaphysical Foundations of Modern Science, de Burt.

Houve um pequeno silêncio enquanto ele escrevia. Tom tinha chegado, e mais Eileen e Sybil. Helena pôde ouvir o que diziam, na outra sala. Mas continuava firme, com os olhos presos no papel. — Depois, há ainda Hume, — prosseguia ele. — o melhor seria você começar com os Essais. São uma coisa soberba. De um senso, de uma sagacidade imensa!

— Sagacidade, — repetiu Helena e sorriu prazerosamente consigo mesma, Sim, era essa exatamente a palavra que ela estivera procurando — exatamente isso o que ela queria ser: sagaz, sagaz como um elefante, como um cão policial, como Hume, como tudo o que quisessem. Mas ao mesmo tempo queria, naturalmente, ser ela mesma. Sagaz, porém jovem; sagaz, porém, alegre e atraente; sagaz, porém impetuosa e...

— Não quero torturá-la com Kant, — disse Hugh indulgente. — Mas acho — (Fez o lápis trabalhar de novo)", — acho que você deverá ler um ou dois dos kantianos modernos. A Filosofia do Como Se, de Vaihinger, por exemplo, e a Biologia Teórica, de von Uexküll. Você compreende, Kant é a base de toda a nossa ciência do século vinte. Justamente como Newton é a base de toda a ciência dos séculos dezoito e dezenove...

— E então, Helena!

Ambos estremeceram e ergueram os olhos. Ergueram olhos e viram a cara sorridente e insolentemente bonita de Gerry Watchett. Seus olhos, de um azul brilhante que contrastava com a pele trigueira do rosto, miravam ora um, ora outro, com um ar zombeteiro. Dando um passo à frente, pôs familiarmente a mão no ombro de Helena. — De que é que estão brincando? De palavras cruzadas? — perguntou dando-lhe duas ou três pancadinhas no ombro.

— Como se se tratasse de seu cavalo, — disse Hugh consigo, indignado. E era com efeito o que o homem parecia ser: um criado de cavalariça. Aqueles cabelos crespos, ondulados cor de ouro fosco, aquela cara fechada, a um tempo infantil é rude, tudo aquilo parecia vir da. estrebaria, das planícies de Epsom.

Helena respondeu com um sorriso que pretendia ser desdenhosamente superior — um sorriso de intelectual. — Para você, pode ser que sejam palavras cruzadas, — disse. Depois acrescentou, já noutro tom: — A propósito, vocês já se conhecem, não? — E volveu os olhos inquiridores de Gerry para Hugh.

— Já, sim, — respondeu Gerry; e conservando ainda sua mão direita no ombro de Helena, ergueu a esquerda num gesto caricato e depreciativo de saudação militar. — Boa-noite, Coronel.

Tímido, Hugh retribuiu a saudação. Todo seu domínio e confiança tinham desaparecido com essa volta forçada do mundo dos livros para o da vida pessoal; sentiu-se como um albatroz no chão — irremediavelmente desajeitado, inábil, fútil, hediondo. E, no entanto, como fora fácil esboçar um sorriso irônico e dizer em tom significativo: "Sim, eu conheço muito bem o sr. Watchett" — e a significação seria esta: sei muito bem o que ele é: o cavalheiro que especula com títulos, o jogador profissional e o amante profissional. No momento, ao que se supunha, amante de Mary Amberley. "Conheço-o, de fato, muito bem!" Eis aí o que teria sido tão fácil dizer. Mas ele não disse; a única coisa que soube fazer foi sorrir e levantar a mão em continência até a altura da testa.

Nesse entretempo Gerry se tinha sentado sobre o braço do sofá e, através da fumaça de seu cigarro, contemplava Helena com uma insolência calma e desenvolta, parecendo examiná-la, ou melhor, avaliá-la ponto por ponto — jarretes, cruz, ancas, ventre. — Sabe, Helena? Você está ficando cada vez mais bonita.

 Enrubescendo, Helena deixou pender a cabeça para trás e riu-se Depois deu subitamente ao rosto uma expressão rígida e sem naturalidade. Estava irritada — irritada com Gerry por causa de sua maldita impertinência, mas, antes de tudo, irritada consigo mesma por ter gostado da maldita impertinência, por ter correspondido a essa lisonja ofensiva com uma pontualidade tão humilhantemente automática. Sentir assim o rosto todo afogueado e dar essas risadinhas, como uma menina de colégio! E aquela Filosofia do Como Se, aqueles óculos com aros de tartaruga e a vida nova e o fichário...? Bastou que um homem dissesse: "Você é bonita", para que todas aquelas coisas se evolassem, como se nunca lhe tivessem passado pelo pensamento. Voltou-se para Hugh; voltou-se em busca de proteção, em busca de amparo. Mal, porém, ela o tinha olhado, já ele desviava os olhos, tendo no rosto uma expressão de alheamento meditativo; parecia estar pensando noutra coisa. Estaria ele zangado? — perguntava ela consigo. Ter-se-ia ofendido porque ela se mostrara contente com o elogio de Gerry? Mas fora como o pestanejar com o barulho de um tiro — uma coisa que não se podia evitar. Ele devia compreender, devia perceber que ela queria viver essa vida nova, que todo o seu desejo, toda sua aspiração era a de se tornar sagaz. E entretanto, em lugar disso, ele se eclipsava e se negava a entender-se com ela. Oh, isso não era justo!

Por trás daquela máscara fria e postiça, Hugh sentia-se, mais do que nunca, na situação do albatroz de Baudelaire.

 

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!

Lui naguère si beau, qu'il est comique et laid!

 

Ah, aqueles vôos, aquelas incursões impetuosas, majestosas, nos espaços cerúleos do néo-kantismo!

Do salão contíguo, o gramofone trombeteava: "Sim sim senhor, essa pequena é minha". Gerry assobiou alguns compassos e depois sugeriu a Helena: — E se dançássemos um fox-trotezinho, hein? Se é que você já acabou de conversar aqui com o coronel. — Olhou, zombeteiro, para o rosto voltado de Hugh. — Eu não quero absolutamente interromper...

Por sua vez, Helena olhou para Hugh. — Não sei... — começou, cheia de dúvida.

Mas Hugh, sem sequer erguer os olhos, deu-se pressa em concordar: — Oh, pois não, pois não! — E tendo-o feito, perguntava-se, surpreso, que diabo o havia induzido a proclamar assim sua própria derrota, antes mesmo de entrar em luta. Entregá-la a esse criado de estrebaria! Que idiota que fora, que covarde! Todavia, disse cinicamente consigo que provavelmente ela preferia o "criado". Levantou-se, murmurou qualquer coisa como um encontro com alguém a respeito de um assunto qualquer e dirigiu-se para a porta que dava para o vão da escada.

— Está bem, se ele não faz questão da minha companhia, — pensou Helena ressentida, — se acha que não vale a pena ter-me a seu lado... — Estava visivelmente ofendida.

— Exit o coronel, — disse Gerry. E depois: — Então? Não se dança um pouquinho? — Ergueu-se, aproximou-se dela e estendeu a mão. Helena segurou-a e, com ímpeto, pôs-se de pé. — Não, senhor, não, senhor, não diga talvez, — pôs-se Gerry a cantar, enquanto lhe passava o braço em volta da cintura. Levados pelas ondas sonoras do fox-trote, foram ziguezagueando por entre cadeiras e mesas e dirigindo-se para a porta que dava para a outra sala.

 

8 de dezembro de 1926

ESTAVAM chegando mais convidados — na maior parte, gente moça, amigos de Joyce e Helena. Atravessavam, protocolarmente, o salão até o canto extremo em que a sra. Amberley estava sentada entre Beppo Bowles e Anthony, davam boa-noite e depois, afastando-se, entravam a dançar.

— Eles nos relegam, com a maior sem-cerimônia, ao nosso lugar de gente madura, — disse Anthony; mas a sra. Amberley, ou preferiu não ouvir a observação, ou então é que estava verdadeiramente absorta, no que lhe dizia Beppo, gritando e sibilando de entusiasmo, acerca de Berlim, o lugar mais divertido da Europa hoje em dia! Em que outro lugar se poderiam encontrar, por exemplo, aquelas tortas especiais para os masoquistas? Nas botas de canhão; sim, genuínas botas de canhão! E o Museu de sexologia: aquelas fotografias e modelos ceroplásticos — verdadeiros trompe-l’oeil — aqueles estupefacientes objetos de chifre vindos do Japão, e aquelas estranhas e engenhosas roupas para exibicionistas! E todos aqueles deliciosos barzinhos lesbianos, todos aqueles cabarés onde os rapazes se vestem de mulher... — Aí vem Mark Staithes, — disse a sra. Amberley, interrompendo-o, e fazendo um gesto para um homem um tanto baixo, de ombros largos, que acabava de entrar no salão. — Não me lembro agora, — disse ela, voltando-se para Anthony, — se você o conhece.

— Conheço-o apenas desde estes últimos trinta anos, — respondeu ele, sentindo mais uma vez certo prazer delicioso em exagerar fato de sua mocidade morta. Dado que ele já não fosse mais jovem, então Mary já havia nove anos que tinha deixado ser jovem.

— E, assim mesmo, com longos intervalos, — explicou. — Durante a guerra e depois durante todo o tempo em que ele esteve no México. E, desde que ele está de volta, são raríssimas às vezes em que o tenho visto e, sempre, muito ligeiramente. É um prazer para mim esta oportunidade...

— É um tipo excêntrico, — disse Mary Amberley, lembrando-se de quando ele viera pela primeira vez a sua casa, logo que regressara do México, havia uns dezoito meses. Seu aspecto, suas maneiras de eremita selvagem e fanático, tinham exercido sobre ela uma atração violenta. Ela se servira de todos os meio possíveis para seduzi-lo, mas sem o mínimo efeito. Ele não se dera por achado; e isso, de um modo tão completo e absoluto, que ela não sentiu má vontade alguma para com ele em conseqüência da repulsa, convencida, que estava, de que, de fato, não houvera repulsa, mas apenas uma manifestação de sintomas, ou, segundo judiciosamente diagnosticou, de impotência, ou, menos provavelmente (se bem que, certamente, não se pudesse ter jamais a certeza.) de homossexualismo. — Um tipo excêntrico, — repetiu, resolvendo aproveitar a primeira oportunidade para consultar Beppo sobre o homossexualismo. Ele, com certeza, havia de saber. Eles sempre se conheciam uns aos outros. Depois, com um aceno, gritou para Mark através do barulho do gramofone: — Venha sentar-se aqui conosco, Mark.

Staithes atravessou a sala, puxou uma cadeira e sentou-se. O cabelo já lhe rareava na fronte, e por cima das orelhas, já estava ficando grisalho. O rosto moreno — aquele rosto de eremita fanático que Mary Amberley descobrira exercer uma atração tão estranha — apresentava rugas profundas. Nem uma lisa camada de gordura que lhe obliterasse, que lhe disfarçasse a estrutura interna. Debaixo da pele, cada um dos músculos da face e do queixo parecia projetar-se distinto e separado, como os músculos que se vêem nessas estátuas de seres humanos escorchados, feitas para as salas de anatomia do Renascimento. Quando ele sorria — e de cada vez que isso acontecia, era como se a estatua escorchada tivesse recebido o sopro da vida e estivesse exprimindo sua agonia — podia-se acompanhar todo o mecanismo das contrações dolorosas: a tração, para cima e para fora, do zigomático maior, o movimento do risório para os lados, a contração dos esfíncteres em torno das pálpebras.

— Interrompo? — perguntou, pondo os olhos percucientes e inquisitoriais ora num, ora noutro.

— Beppo estava nos falando do que viu em Berlim, — disse a sra. Amberley.

— Vim-me embora para livrar-me da greve geral, — explicava Beppo.

— Naturalmente, — disse Staithes contraindo o rosto numa angústia desdenhosa.

—Um verdadeiro paraíso! — exclamou Beppo numa explosão incontida.

—Vê-se que tem a mesma impressão de Lord Haldane. É a sua pátria espiritual, não?

— Carnal, — Anthony corrigiu.

A felicidade de Beppo era demasiado intensa para ele se confessar culpado e, por isso, limitou-se a casquinar. — Sim, aqueles travestis! — alegou, com verdadeiro enlevo.

— Eu estive lá no inverno passado, — disse Staithes. — A negócio. Mas, mesmo assim, a gente não pode deixar de pagar também o seu tributo ao prazer. Aquela vida noturna...

— Não achou divertido?

— Oh, de entusiasmar!

— Isso mesmo! — Beppo estava triunfante.

— Num dado momento, uma daquelas criaturas veio sentar-se à minha mesa, — continuou Staithes. — Dancei com ela. Parecia mulher.

— É simplesmente impossível reconhecê-los, — exclamou Beppo, entusiasmado, como se o fato o honrasse pessoalmente.

— Quando acabamos de dançar, ela pintou um pouco o rosto e bebemos um pouco de cerveja. Depois, ela mostrou-me algumas fotografias indecentes. Essas fotografias de tipo anatômico, anti-afrodisíaco... Vocês conhecem. Amolecedoras. Talvez por isso é que a conversa também foi amolecendo. Fosse porque fosse, seguiram-se longos silêncios de mal-estar. Nenhum de nos parecia saber o que devia dizer. Dir-se-ia que nos detivera uma calmaria. Estendeu as mãos magras e nodosas em sentido horizontal, como se as fizesse deslizar por sobre uma superfície perfeitamente plana. Inapelàvelmente detidos. Até que, de repente, a criatura fez uma coisa notável. Uma das suas manhas sem dúvida; mas como era a primeira vez que eu via aquilo, a coisa não deixou de produzir impressão. — Você quer ver uma coisa? — perguntou ela. Eu disse que sim e, imediatamente, ela começou a apalpar qualquer coisa por baixo da blusa. — Olhe agora! — disse, finalmente. Olhei. Ela sorria com um ar vitorioso, como alguém que tivesse jogado o ás de trunfo — ou melhor, dois ases de trunfo; pois o que ela deixara cair sobre a mesa era um par. Era um par de soberbos seios artificiais feitos de borracha rósea.

— Oh, mas que coisa revoltante! — exclamou a sra. Amberley, enquanto Anthony ria e Beppo tinha no rosto uma expressão de angústia. — Que coisa revoltante, — repetiu ela.

— Revoltante, sim, mas sem deixar de satisfazer, — insistia Staithes com um daqueles esgares torturados que passavam, para ele, como sendo um sorriso. — É tão bom, quando as coisas se passam como é de esperar que elas se passem — artisticamente, simbolicamente. Dois seios de borracha entre copázios de cerveja — eis aí o que o vício deve ser. E sendo aquilo o que realmente era — ela se sentia como se algo a transformasse. Era inevitável e era lindo. Sim, lindo, — repetia. — Lindo e revoltante.

— Contudo, — Beppo insistia, — você não pode negar que muito há que dizer-se de uma cidade em que essas coisas podem dar-se Em público, — acrescentou num tom sério, — em público, note bem. É o governo mais tolerante do mundo, o governo alemão. Isso, você não pode negar.

— Nem nego, — disse Staithes. — Ele tolera todo mundo. Não somente raparigas de saias hipotéticas e rapazes de seios de borracha, mas também monarquistas, fascistas, Junkers Krupps. Comunistas também, é-me grato dizer. Todos os seus inimigos, de todas as cores.

— E eu acho que isso lhe fica muito bem, — disse a sra. Amberley.

— Muito bem, realmente, enquanto os seus inimigos não se levantam contra ele e não o destroem. O que eu só espero é que os comunistas hão de chegar em primeiro lugar.

— Mas uma vez que são tolerados, por que devem os seus inimigos querer destruí-los?

— Por que não? Eles não acreditam na tolerância. E está certo, — acrescentou.

—Você é um bárbaro, — protestou Beppo.

— Tal qual se deve ser quando se vive na época do obscurantismo, na Idade das Trevas. Vocês, que aí estão... são sobreviventes da época dos Antoninos. — Pôs os olhos, ora num, ora noutro, sorrindo aquele seu sorriso de cara magra - Depois, sacudiu a cabeça. — Estou aqui pensando que vocês ainda estão no primeiro volume de Gibbon, ao passo que nós já estamos no terceiro.

—Você quer dizer que...? Céus! — exclamou, interrompendo-se, a sra. Amberley. — Olhem só quem está ali, o Gerry!

Ao ouvir tais palavras e ao ver Gerry Watchett em pessoa, que vinha do salão de trás, dançando um fox-trote com Helena, Anthony tirou do bolso a carteira e, depressa, examinou-lhe o conteúdo. — Graças a Deus! — disse. — Somente duas libras. — Gerry apanhara-o no mês anterior com dez libras na carteira e, depois de lhe contar uma história de improváveis aperturas, conseguiu arrancá-las todas, de empréstimo. Ele não deveria, de certo, ter dado crédito à história, deveria ter resistido ao pedido. Dez libras não era uma quantia de que ele pudesse dispor. Alegara isso, mas faltara-lhe a firmeza para persistir na recusa. Tivera de passar mais de uma quinzena de rigorosa economia para cobrir o déficit que a perda desse dinheiro lhe produzira nas finanças. Economizar era um processo que não lhe agradava; mas negar e continuar negando e receber em troca as importunidades e censura de Gerry, isso teria sido ainda mais desagradável. Estava sempre pronto a sacrificar seus direitos às suas conveniências. Julgavam-no desinteressado e fora com prazer que ele se esforçara por aceitar-lhes o diagnóstico do seu caráter - Mas a consciência de sua verdadeira situação financeira estava sempre alerta. E era rindo que ele recebia essa consciência. Era rindo que ele estava agora. — Somente duas, — repetiu. — Felizmente, posso dispor...

Interrompeu-se. Por trás de Mary, Beppo batera-lhe no ombro e estava fazendo caretas significativas. Anthony voltou-se e viu que ela continuava olhando atentamente e de sobrolho carregado para os recém-vindos.

— Ele me disse que não viria hoje, — disse ela, quase como se falasse para si própria. Depois, procurando fazer-se ouvir em meio da música, gritou: — Gerry! — com uma voz estridente que perdera de súbito todo seu encanto — uma voz que trouxe a Anthony a recordação dolorosa daquelas cenas desagradáveis em que, havia muito tempo, ele tomara parte. Não havia, pois, dúvida, disse ele consigo, e teve pena da pobre Mary.

Gerry Watchett voltou-se e, com a expressão de quem alude a um prazer compartilhado, atirou-lhe um ligeiro sorriso, ensaiou mesmo um piscar de olho e voltou depois a conversar com a sua dama.

Uma cólera súbita fez enrubescer a sra. Amberley. Fazer-lhe uma careta daquelas! Era intolerável. Igualmente intolerável — mas muito próprio dele! — era aparecer assim, sem se anunciar, de surpresa — dançando casualmente com outra mulher, como se fosse a coisa mais natural deste mundo. Era verdade que, desta vez, a outra mulher não era senão Helena; mas isso se explicava simplesmente pelo fato de não ter encontrado nenhuma outra com quem dançar, nenhuma outra pior. — O vilão! — ia pensando enquanto o seguia com os olhos em volta da sala. Depois, com um esforço, desviou o olhar, procurando prestar atenção ao que se estava passando em torno dela.

— ... um país destes, — dizia Mark Staithes, — um país em que uma quarta parte da população é composta de burgueses genuínos e outra quarta parte deseja ardentemente tornar-se tal.

— Você está exagerando, — protestou Anthony.

— Absolutamente. Quanto é que apura o escrutínio do Labour Party numa eleição? Um terço dos votos. E estou sendo generoso em presumir que algum dia esse partido alcance a metade dos votos. Os outros são da burguesia. Ou naturalmente, por interesse e medo, ou então artificialmente, por snobismo e imaginação. É infantil pensar que se pode obter o que se quer por métodos constitucionais.

— E por métodos inconstitucionais?

— Há probabilidade.

— Não é tanta assim, — disse Anthony. — Pelo menos contra as novas armas.

— Bem sei, — disse Mark Staithes, — bem sei. Se fizerem uso de sua força, está claro que as classes médias poderão vencer. Seria muito provável que vencessem mesmo sem tanques e aviões — pelo simples fato de serem potencialmente melhores soldados do que o proletariado.

— Melhores soldados? — protestou Beppo, lembrando-se daqueles amigos seus que eram sentinelas.

—Em virtude da educação que recebem. Um burguês recebe um treino que oscila entre dez e dezesseis anos, sendo — o que é mais importante — a maior parte desse treino recebida num internato, o que equivale a dizer — na caserna. Ao passo que o filho de um operário vive em casa e seu exercício não vai além de seis ou sete anos em seu externato. Dezesseis anos de obediência e de esprit de corps. Não admira que Waterloo tenha sido ganho nos campos de jogos de Eton. Se eles utilizarem apenas metade de seus recursos — se os utilizarem impiedosamente — a partida é deles.

— Você acredita que eles não se servirão de seus recursos? Mark encolheu os ombros. — Certamente os republicanos alemães não parecem prontos a empregar os seus. E é preciso não esquecer o que aconteceu aqui, durante a greve. Até a maioria dos industriais estavam prontos a entrar num acordo.

— Por esta simples razão, — atalhou Anthony, — que não é possível ser um industrial próspero sem ter o hábito de entrar em acordo, de proceder a reajustamentos. Um negócio não é regido por um ato de fé, mas pela capacidade de regatear, de transigir.

— Seja como for, — continuou Mark, — o fato é que os recursos utilizáveis não foram utilizados. E é isso o que faz confiar o sucesso de uma revolução. Contanto que fosse levada a termo sem perda de tempo, rapidamente. Pois não resta dúvida que, uma vez que eles compreendessem que estavam correndo sério perigo, esqueceriam seus escrúpulos. Mas poderiam, creio eu, perder em hesitações um tempo suficiente para tornar possível a revolução. Bastaria que se mostrassem compungidos apenas por algumas horas. Sim, senhores, apesar dos tanques existe ainda uma probabilidade de êxito. Não, como os imbecis do T. U. C, nem como a populaça das "Unions", para falar a verdade. Tão cheios de escrúpulos como a burguesia. E a influência apavorante do cristianismo evangélico. Ninguém pode fazer idéia da soma de sermões, pregações e hinos místicos ouvi dos durante a Greve Geral. Fiquei aturdido. Mas o pior ainda não foi visto e é bom que se conheça. Talvez que a geração mais nova... — Sacudiu a cabeça. — Mas não tenho confiança nem mesmo nela. O Metodismo talvez esteja decaindo. Mas vejam só aquelas capelas espiritualistas que pululam como cogumelos por todas as áreas industriais!

Quando passou pela segunda vez por Mary Amberley, Gerry chamou-a pelo nome. Ela, porém, recusou-se a atender. Voltando-se com uma grande frieza, fingiu estar somente interessada no que Anthony estava dizendo.

— Mulher idiota! — pensou Gerry, olhando-lhe para o rosto voltado. Depois, em voz alta, perguntou à sua dama: — Se puséssemos esse disco mais uma vez? Que é que acha?

Helena meneou, a cabeça, encantada.

A música das esferas, a visão beatífica... Mas porque deve ser o céu um monopólio do ouvido e da vista. Também os músculos, quando se movem, têm o seu paraíso. O céu não é apenas uma iluminação e uma harmonia; é também uma dança.

— Um momentinho, — disse Gerry quando se acharam em frente do gramofone.

Helena ficou parada, de braços pendentes e moles, enquanto ele dava corda à máquina. Fechara os olhos; procurava banir de si o mundo ambiente, furtar-se à existência. Nessa pausa serena entre dois céus de movimento, a existência perdia toda importância.

A música parou por um momento; depois, começou de novo no meio de um bar. Por trás das pálpebras fechadas, ela percebeu que Gerry se movera, estava de pé inclinando-se sobre e a, muito perto; depois, o braço dele cingiu-lhe novamente o corpo.

— Avante, soldados cristãos! — disse ele; mais uma vez saíram a dançar, penetrando no céu harmonioso dos músculos que se moviam.

 

Tinha reinado um silêncio. Resolvida a não prestar a menor atenção àquele bruto, a sra. Amberley voltou-se para Staithes. — E aqueles seus perfumes? — perguntou, afetando um vivo interesse e atenção.

—Em franca prosperidade, — respondeu ele. — Tive que encomendar três novos alambiques e aumentar o pessoal.

A sra. Amberley sorriu para ele e sacudiu a cabeça. Logo você; — disse. — Parece estranhamente ridículo que você seja fabricante de perfumes.

— Por que?

— O menos frívolo dos homens, — continuou ela, — o menos galante, o mais implacável misógino (ou impotente ou homossexual — não poderia haver dúvida; e, depois daquela sua história acerca de Berlim, quase na certa, impotente, imaginava).

Com um sorriso que era uma contorsão dolorosa, Staithes perguntou: — Mas será que não lhe ocorreu que tudo isso podiam ser bons motivos para eu vir a ser um perfumista?

— Motivos?

— Uma maneira de manifestar a minha falta de galantaria. — Na realidade, fora simplesmente o acaso que o lavara a esse negócio de perfumes. Seus olhos haviam dado com um anúncio no Times, de uma pequena fábrica que se vendia por preço baratíssimo... Sorte e nada mais. Agora, porém, depois do fato, seu amor próprio se sentia lisonjeado com a idéia de ter ele escolhido a profissão deliberadamente, com o fim especial de exprimir o seu desprezo pelas mulheres a quem fornecia. A mentira, que ele desejava que fosse e, desta vez, quase acreditava que era a verdade, colocava-o numa posição de superioridade perante todas as mulheres em geral e, neste momento, perante Mary Amberley em particular. Inclinando-se, tomou a mão de Mary, ergueu-a como se fosse beijá-la, mas, ao invés disso, apenas fungou junto a pele, para depois deixá-la de novo cair. — A propósito, — disse ele, há almíscar na essência com que você se perfumou.

— Sim; e que tem isso?

— Nada, não tem nada absolutamente, — disse Staithes nada, a não ser o fato de você gostar do excremento de doninha.

A sra. Amberley fez uma careta de nojo.

— Na Abissínia, — prosseguiu ele, existem fazendas em se criam gatos-de-algália. Duas vezes por semana, vai-se armado de um pau, espicaçar os gatos até eles ficarem zangados e assustados. É nesse momento que eles segregam sua droga, como as crianças que molham as calças quando estão com medo. Então, eles são agarrados com auxílio de tenazes, para que não possam morder, e raspa-se o conteúdo do saquinho ligado ao seus órgãos genitais. Isso se faz com uma colher. A substância é uma espécie de gordura amarela, ou antes, é como cera de ouvido. Fede que tresanda quando é dissolvida. Recebêmo-la em Londres acondicionada em chifre de búfalo. Enormes cornucópias cheias de cera de ouvido pardo-escura e fedorenta. E o que é de notar é que custam cento e dezessete chelins a onça. Eis aí uma das razões por que os seus perfumes lhe ficam tão caros. Os pobres não podem dar-se ao luxo de lambuzar-se com secreções de felinos. Têm que contentar-se simplesmente com iso-eugenol e aldeído fenil-acético.

 

Colin e Joyce tinham parado de dança e estavam sentados no patamar, do lado de fora da porta do salão. Sozinhos. O momento era oportuno para Colin dar vazão à justa indignação que se acumulara dentro dele desde a hora do jantar.

— Devo dizer-lhe, Joyce, que alguns dos convidados de sua mãe...

Joyce olhou para ele com uns olhos em que a ansiedade se confundia com a adoração. — Sim, eu sei, — desculpou-se. — Eu sei, — e deu-se pressa em concordar submissamente com ele quanto ao fato de ser Beppo um degenerado e Anthony Beavis um cínico. Depois, vendo que ele gozava a própria indignação e que ela mesma antes tirava proveito disso, do que motivo de sofrimento, foi ao ponto de informá-lo espontaneamente de que aquele indivíduo que entrara por último e que estava sentado junto de sua mãe era bolchevista - Sim, Mark Staithes era bolchevista.

A frase que Colin estivera meditando durante toda a noite pode enfim ser proferida. — Pode ser que eu seja um tolo e mais isso e mais aquilo, — disse ele com uma afetação de humildade que mascarava um presunçoso contentamento de si mesmo com aquilo que ele considerava como sendo a qualidade perfeitamente invulgar de sua vulgaridade; — posso ser ignorante e mal educado. Mas ao menos — (mudou de tom, sentindo orgulho em declarar-se consciente de ser único na sua mediocridade), — ao menos eu sei... sim, eu sei o que está bem. Quero dizer que sei distinguir um gentleman. — Frisou bem as palavras para dar-lhes leve tom, de comicidade e provar, assim, que ele tinha o senso do "humour". Falar a sério do que se tomava a sério — eis aí uma das coisas que não ficavam bem. Esse traço de humorismo provava de um modo mais forte do que o poderia fazer qualquer expressão enfática, qualquer temor emotivo da voz, que ele de fato tomava essas coisas a sério, como as deve tomar um "gentleman" único na sua mediocridade. E certamente Joyce compreendia isso. Ela lançou-lhe um olhar cheio de respeito e premeu sua mão contra a dele.

 

Dança, dança... Oh, se, ao menos, pensou Helena, a gente pudesse continuar dançando eternamente! Se a gente não tivesse que empregar o tempo em fazer outras coisas! Coisas indevidas, coisas, na maioria dos casos, idiotas, coisas que a gente, depois de as fazer, se arrependia de as ter feito. Dançado, ela perdia a vida a fim de salvá-la; perdia sua identidade e tornava-se algo maior do que ela própria; perdia suas perplexidades e ódios de si mesma, para entrar no gozo de uma certeza brilhante e harmoniosa; perdia seus defeitos morais e fazia-se perfeita; perdia os pesares do passado, as apreensões sobre o futuro e entrava num presente perene de felicidade completa. Ela que não sabia pintar, que não sabia escrever, que não sabia, sequer, cantar uma ária, tornava-se, enquanto dançava, uma artista; não, mais do que uma artista; tornava-se um deus, o criador de um novo céu e de uma nova terra, um criador que se rejubilava de sua criação e a achava boa.

— Sim, senhor, esta pequena é minha. Não, senhor...! — Gerry cessou de repente de cantarolar. — Ganhei ontem de noite sessenta libras no poker, — disse. — Não é mau, hein?

Ela sorriu para ele, concordando com um sinal de cabeça, silenciosa e enlevada. Mau, mau — que haveria no mundo que pudesse ser mau nesse momento maravilhoso?

 

— E não lhe posso exprimir, — dizia Staithes, — o prazer intenso que sinto em escrever esses anúncios. — Os músculos do seu rosto funcionavam como que para uma demonstração anatômica. — Os anúncios que se referem ao mau hálito e aos mau cheiros do corpo.

— Hediondo! — exclamou a sra. Amberley com um arrepio

— Hediondo! Entre as convenções da época vitoriana, existe uma só, que eu aprecio; e é justamente a que nos veda de falar em tais coisas.

— Pois é precisamente nisso que está o prazer de falar nelas — disse Staithes, contraindo os músculos num sorriso radioso. — Em forçar os seres humanos a ter consciência plena das náuseas próprias e das náuseas alheias. Aí é que está a beleza dessa espécie de anúncio. Como que lhes abre os olhos da consciência.

— Fazendo-os comprar, — atalhou Anthony. — Está esquecendo o lucro.

Staithes encolheu os ombros. — O lucro é um simples incidente, — disse. E era evidente, conforme refletiu Anthony ao observá-lo, era evidente que o homem estava dizendo a verdade. Para ele, o lucro era um simples incidente. — Abolir a convenção que os protege, — continuou ele, voltando-se para Mary, — nisto é que está o gozo real da coisa. Deixá-los sem defesa contra a plena consciência do fato de não poderem passar sem seus semelhantes e, quando em companhia deles, sentirem-se nauseados.

 

8 de dezembro de 1926

SAINDO do salão nas pontas dos pés, Hugh Ledwidge esperava poder gozar o refrigério de um pouco de solidão; logo, porém, que chegou ao vão da escada foi surpreendido por Joyce e Colin. E evidenciou-lhe então que Colin tinha uma grande curiosidade a respeito dos aborígines, havia muito tempo que estava ansioso de conversar com um etnologista profissional acerca de suas experiências sobre o "shikar". Durante quase meia hora, ele teve que ficar escutando, enquanto o rapaz abria a torneira do disparate e da ignorância sobre a Índia e a Uganda. Um cansaço imenso o abatia. Seu único desejo era fugir, ver-se livre dessa casa de papagaios e de parolagem estúpida, para voltar ao aconchego de um delicioso silêncio e de um livro.

Afinal, eles, graças a Deus, o deixaram e ele, tomando fôlego, retemperou-se para o ordálio final da despedida. Essa cerimônia do adeus no fim de uma recepção era uma das coisas que Hugh mais intensamente detestava. Ter que se expor mais uma vez ao contacto pessoal, ser obrigado, cansado e sôfrego de solidão como se estava, a fazer gatimanhos e falar sem dizer nada e ensaiar mais uma vez a hipocrisia — que coisa odiosa era tudo isso! Especialmente com relação à Mary Amberley. Noites havia em que a mulher não queria, nem por nada, que as visitas a deixassem, mas agarrava-se a elas, como se estivesse se afogando. Perguntas, confidências, discussões escabrosas em torno dos amores de fulano ou beltrano — tudo, pretexto para retê-las por mais alguns minutos. Dava a impressão de que via na partida sucessiva de cada convidado a morte de um fragmento de seu próprio ser. Ele sentiu um aperto no coração, quando atravessou a sala em direção a ela. — Mulher danada! — pensava e, positivamente, a detestava. Detestava-a, além de por outras razões, porque Helena ainda estava dançado com aquele criado de cavalariça; e agora ainda mais, com um novo acesso de malquerença, pelo fato de subitamente descobrir, através da névoa da sua vista fraca, que Staithes e o tal Beavis estavam sentados junto dela. Todos os seus loucos pensamentos sobre o possível conluio voltaram-lhe precipites ao espírito. Tinham estado a falar a respeito dele, dele no exercício para casos de incêndio, dele no campo de futebol, dele quando lhe atiraram os chinelos por cima do tabique do seu quarto. Chegou a pensar, um instante, em recuar e sair da casa sem se despedir. Mas já o tinham visto e haveriam de perceber o motivo da fuga e, com certeza, haveriam de rir-se às escancaras. Recuperou o bom senso, tudo aquilo não passava de absurdo, não havia plano nenhum previamente arquitetado. Como poderia haver um plano? E, ainda mesmo que Beavis se recordasse, que motivo tinha ele para falar de semelhante coisa? Mas, em todo caso, ainda assim... Assentando os punhos sobre os flancos, Hugh Ledwidge avançou resolutamente ao encontro da pressentida emboscada.

Para imenso alívio seu, Mary Amberley deixou-o ir quase sem protesto. — Já se vai embora, Hugh? Tão cedo? E foi só. Ela parecia abstrata, parecia estar pensando noutra coisa.

Beppo sibilou qualquer coisa amável; Staithes apenas moveu a cabeça; e chegou então a vez de Beavis. Seria aquele sorriso seu o que parecia ser — um sorriso vagamente e convencionalmente amistoso? Ou continha sentidos ocultos, escondia reminiscências escarninhas das vergonhas passadas? Hugh rodou nos calcanhares e retirou-se às pressas. Por que cargas d'água — surpreendia-se ele agora — ia um homem a reuniões idiotas como essas? E, o que era pior, continuava a ir repetidamente, sabendo que eram extremamente desinteressantes e maçadoras.

Mark Staithes voltou-se para Anthony. — Você está bem lembrado de quem é esse? — perguntou.

— Quem? Ledwidge? Que tem ele de particular?

Staithes explicou.

— Goggler! — lembrou-se Anthony, rindo. — Naturalmente que me lembro! Coitado do Goggler! Quanta perversidade que fizemos com ele!

— É por isso que eu sempre tenho fingido não saber quem é ele —disse Staithes; e sorriu com aquele seu sorriso anatômico de pena e de desprezo. — Acho que seria um ato de caridade de sua parte, — acrescentou, — se você fizesse o mesmo. — Proteger Hugh Ledwidge proporcionava-lhe um verdadeiro prazer.

Extremamente desinteressantes e maçadoras — sim, e humilhantes, pensava Hugh, humilhantes também. Pois havia sempre certa humilhação. Um Beavis a sorrir; um Gerry Watchett, como um criado insolente...

Fez-se ouvir atrás dele na escada um barulho de pés apressados. — Hugh! Hugh! — Estremeceu, como se algo o acusasse, e voltou-se. — Por que é que ia fugindo assim, sem me dizer adeus?

Tentando gracejar, disse, ao mesmo tempo que piscava o olho para Helena, através dos óculos. — Você parecia tão ocupada. — Em seguida emudeceu, num espanto súbito, que era quase pavor.

Ela estava em pé na escada, três degraus acima dele, com uma das mãos no corrimão, os dedos da outra escancarados contra a parede oposta, inclinada para a frente como uma ave pronta para desferir o vôo. Mas que acontecera com ela, que milagre? Aquele rosto ruborizado que pendia sobre ele parecia refletir um brilho interior. Não era Helena, aquela, mas qualquer criatura sobrenatural. Em presença daquela beleza extraterrena, corou da ignóbil inconseqüência de ter gracejado, de a ter tomado assim, maliciosamente.

— Ocupada? — ela repetiu. — Mas eu estava apenas dançando. — E era como se um Moisés ingênuo e inconsciente tivesse dito a seus Israelitas deslumbrados: — Eu estava apenas conversando com Jeová. — Você não tinha motivo. — prosseguiu ela. Depois, rápida, como se uma idéia nova e curiosa subitamente lhe ocorresse, acrescentou, já noutro tom: — ou será que ficou aborrecido comigo por um motivo qualquer?

Ele começou sacudindo negativamente a cabeça; mas depois refletindo, sentiu-se impelido a tentar explicar um pouco. Aborrecido, propriamente, não, — distinguiu, — apenas... apenas um pouquinho insociável.

O brilho que iluminava o rosto dela pareceu transformar-se numa intensa e cintilante chama. Insociável! Isso era realmente de uma graça requintada. A dança tornara-a perfeita, transformara para ela a terra em céu. À idéia de que alguém pudesse ser (palavra absurda!) insociável, que alguém pudesse sentir qualquer coisa que não fosse um amor transbordante a todos e a tudo, à semelhante idéia ela não podia deixar de rir.

— Você é engraçado, Hugh!

— Muito prazer em saber que você pensa assim. — O tom era de quem estava ofendido. Voltara a cabeça.

A seda do vestido dela farfalhou. Ele sentiu nas bochechas o frescor de uma leve brisa perfumada. Já agora era apenas um degrau que a separava dele; melhor: que a aproximava dele. — Ofendeu-se, porque eu disse que você era engraçado? — perguntou ela.

Ele ergueu novamente os olhos e deu com o rosto dela no mesmo nível do seu. Acalmado por aquela expressão de verdadeira solicitude, ele respondeu, com a cabeça, que não.

— Eu não queria dizer "engraçado" no mau sentido, — ela explicou. — Eu queria dizer... Ora, você sabe; agradàvelmente, gentilmente, encantadoramente engraçado. Engraçado, mas um amor.

Em circunstâncias ameaçadoramente pessoais, uma gaiatice constitui uma defesa segura. Sorrindo, Hugh levou a mão direita ao coração. — Je suis pénétré de reconessance, — era o que ele ia dizer como gratidão por aquele "um amor". O tom galante, o gesto herói-cômico acompanharam imediata e automaticamente suas palavras. — Je suis pénétré...

Mas Helena não lhe deu tempo para que se defendesse por trás do gracejo dix-huitième. Pois mal ela tinha dito aquelas palavras e já punha as mãos nos ombros dele e o beijava boca.

Ele se sentiu, por um momento, quase aniquilado de surpresa, confusão e uma espécie de alegria sufocante, caótica.

Helena recuou um pouco e contemplou-o. Sua palidez era extrema, como se tivesse visto um fantasma. Ela sorriu — pois agora é que ele estava mais engraçado do que nunca — depois inclinou-se e tornou a beijá-lo.

Da primeira vez, ela o beijara em conseqüência da plenitude de vida que sentia em si, por sentir-se perfeita num mundo perfeito. Mas a cara espantada que ele fez era de uma comicidade tão grande que, ao vê-la, Helena sentiu essa plenitude de vida perfeita como que transformada numa espécie de capricho, de malícia e de libertinagem. A segunda vez que o beijou foi, pois, para se divertir; para se divertir e, ao mesmo tempo, por curiosidade. Foi uma experiência, feita num espírito de pesquisa científica alegre. Ela era uma vivisseccionista, diplomada pela perfeição, justificada pela felicidade, Além disso, Hugh tinha uma boca extraordinariamente bonita. Jamais ela tinha beijado, antes, lábios assim, tão cheios e macios. A experiência fizera-a vibrar de prazer. Não se tratava apenas de querer ver, cientificamente, o que a criatura absurda faria em seguida; mas queria também sentir, mais uma vez, contra a boca, aquela pressão fria, experimentar aquele estranho prurido de prazer, aquela vibração, aquela cócega que, partindo dos lábios, se estendia ligeira e quase insuportável, como picadas de insetos, por toda a superfície de seu corpo.

— Foi tão gentil de sua parte, dar-se a todo esse incômodo, — disse, à guisa de justificativa para um segundo beijo. As picadas voltavam mais uma vez, deliciosamente e como que um tremor elétrico de asas vibráteis lhe agitava os seios. — Dar-se a todo esse incômodo pela minha educação...

 — Helena! — foi tudo quanto ele pôde sussurrar; e, antes de ter tempo de refletir, enlaçou-a nos braços e beijou-a.

Pela terceira vez, a sua boca e aquelas picadas de insetos correndo-lhe ao longo da pele... Mas, oh, como ele beijava depressa!

— Helena! — repetia ele.

Olharam-se; e agora que tivera tempo para pensar, Hugh se viu imediatamente tomado de um embaraço horrível. As mãos, que seguravam o corpo de Helena, ele as deixou cair furtivamente. Não sabia o que dizer-lhe, ou antes, sabia, mas não encontrava meio de o fazer. Seu coração batia com uma violência dolorosa. — Amo-a, quero-a, — estava ele gritando, positivamente berrando, por trás daquele seu silêncio cheio de embaraço Mas não proferia uma palavra. Sorria para ela com um ar um tanto idiota, e baixava os olhos — os olhos; e, de súbito, refletiu que deviam estar hediondos como olhos de peixe, através das grossas lentes dos seus óculos.

— Como ele é engraçado! — pensava Helena. Mas já não ria; extinguira-se-lhe o riso científico. A timidez era contagiosa. Para pôr fim à situação constrangedora, ela disse: — Vou ler todos aqueles livros. E agora me lembra; você precisa me dar a lista.

Grato a ela por lhe haver fornecido um assunto sobre o qual era possível falar, ele olhou-a de novo — mas apenas por um momento, pois que não lhe permitia mais a lembrança do próprio aspecto, daqueles olhos de peixe podre, daqueles óculos. E disse: — Eu vou completá-la, preencher as lacunas e, em seguida, lhe mando. — Depois, daí a um ou dois segundos, notou que, na sua imprevidência, havia esgotado com uma simples frase esse assunto preciosamente impessoal dos livros. E voltava o silêncio, persistente, angustioso. Por fim, desesperado, pois já não havia mais nada que dizer, resolveu dar boa-noite. Tentando dar à voz uma infinidade de nuanças afetivas, disse: — Boa-noite, Helena. — Pretendeu pôr, nestas palavras a eloqüência de todo um discurso. Ouviria ela, porém, essa eloqüência, alcançaria e compreenderia as profundezas do seu sentido implícito? Curvou-se e, mais uma vez, beijou-a, depressa, muito de leve — um beijo de terna e respeitosa devoção.

Não contara, porém, com Helena. O embaraço que lhe anuviara momentaneamente a perfeição de doidivanas tinha-se evaporado ao contacto dos lábios dele; ali estava outra vez a risonha vivisseccionista.

— Beije-me outra vez, Hugh, — disse ela. E quando ele obedeceu, ela não o quis largar: prendia-lhe a boca à sua, segundo após segundo...

O ruído das vozes e a música tornaram-se, de súbito, mais fortes. Alguém tinha aberto a porta da sala.

— Boa noite, Hugh, — sussurrou ela contra os seus lábios; depois soltou-o e foi galgando, a correr, os degraus, de dois em dois.

Tendo-a acompanhado com os olhos quando ela deixou às pressas a sala para dar boa-noite ao Ledwidge, Gerry tinha sorrido consigo complacentemente. Cara cor-de-rosa; olhos cintilantes. Como se tivesse bebido uma garrafa de champanha. Absolutamente transfigurada com a dança. Era um prazer, quando perdiam assim a cabeça; quando a perdiam assim, entusiàsticamente, prazerosamente, completamente. Nada de meias medidas. Atirando tudo pela janela, por assim dizer. A maior parte das pequenas eram umas malditas avarentas e calculistas. Só perdiam a cabeça pela metade e reservavam cuidadosamente a outra metade para bancarem a virgem ultrajada. Umas vaquinhas desprezíveis. Mas, com Helena, a gente sentia que o carro tomava logo embalagem. E uma vez desenfreada, ela não queria saber o que estava no caminho. E ele gostava do brinquedo, não somente porque esperasse tirar partido da cabeça perdida, mas também desinteressadamente, porque não podia deixar de admirar essa espécie de gente que deixava o barco correr e não estava ligando às conseqüências. Havia qualquer coisa de belo, de generoso, de resoluto em tais pessoas. Ele também era assim, quando podia dar-se a esse luxo. Pequena de fibra: eis aí o que ela era. E as vantagens de um temperamento — estava ele pensando, com uma satisfação íntima, quando por trás lhe bateram subitamente no braço, fazendo-o estremecer. Sua surpresa transformou-se, quase instantaneamente, em cólera. Não havia nada que ele detestasse mais do que tocarem-no assim, sem que ele estivesse prevenido, sem poder defender-se. Voltou-se vivamente e, vendo que a pessoa que o tinha tocado era Mary Amberley, procurou recompor a expressão do rosto. Em vão; aqueles olhos ressentidos e cheios de dureza traíam-lhe o sorriso.

Mary, por sua vez, também ficou muito zangada de notar sinais de aborrecimento. — Quero falar com você, Gerry — disse numa voz que, além de baixa, ela procurava manter sempre igual e despida de toda emoção, mas que, entretanto tremia, a despeito de todos os seus esforços.

— Nossa senhora! — pensou ele consigo; — aí vem uma cena! — e sentiu uma raiva imensa daquela mulher maçadora.

— Vá falando, — disse em voz alta; e, com um ar ofensivo de desinteresse, tirou do bolso sua cigarreira, abriu-a e estendeu-lha.

— Aqui não, — disse ela.

Gerry fingiu não compreendê-la. — É pena; pensei que você não se opusesse a que a gente fumasse aqui.

— Bobo! — Disse ela numa violenta explosão de cólera. Depois, agarrando-o pela manga, ordenou: — Venha cá! — e levou-o, quase arrastado, para a porta.

Subindo a escada a correr, Helena chegou a tempo de ver sua mãe e Gerry dirigindo-se para os andares superiores da casa.

— Tenho que procurar outro com quem dança, — foi tudo quanto ela pensou; e daí a um momento encontrava o pequeno Peter Quinn, com quem partia, mais uma vez para o paraíso.

 

— Conversa de vadios! — disse Anthony, enquanto a dona da casa deixava a sala em companhia de Gerry Watchett. — Eu estava longe de imaginar que fosse Gerry o atual detentor...

 Beppo confirmou. — Pobre Mary! — suspirou.

— Ao contrário, — disse Staithes, — rica Mary! — Pobre, ela será mais tarde.

— E nada se pode fazer para remediar isso? — perguntou Anthony.

— Ela ficaria com raiva de quem o tentasse.

Anthony balançou a cabeça. — Essas inclinações, essas paixões hediondas! São como o canto do cuco em agosto. Com as choradeiras dos devedores em outubro.

— Também comigo ela já manifestou sintoma de paixão, — disse Staithes. Foi logo depois da primeira vez que a encontrei. Mas eu a curei logo. Foi então que apareceu esse rufião do Watchett.

— É de fascinar, o modo como esses aristocratas se portam! — Disse Anthony num tom de entusiasmo científico.

A cara escorchada de Staithes contraiu-se numa careta de desprezo. — Não passa de um "gangster" vulgar e grosseiro. — disse — Não posso conceber como é que você o suportou em Oxford. — Mas o que, sem dúvida, ele estava realmente imaginando era que Anthony o tinha suportado simplesmente por servilismo e bajulação.

— Por snobismo apenas, — confessou Anthony tranqüilamente, reduzindo, assim, à metade o prazer do outro. — E depois, uma coisa em que eu insisto é que gente da marca de Gerry constitui parte essencial de toda e qualquer educação liberal. Havia nele realmente qualquer coisa de magnífico, quando ele era rico. Certa afoiteza desprendida e desinteressada. Agora... —Levantou a mão e deixou-a cair de novo. — Não passa de um "gangster" — você tem toda a razão. Mas aí é que está o lado fascinante da coisa — a facilidade com que os aristocratas se transformam em "gangsters". Muito compreensível, quando se pensa bem no caso. Aí está um homem que foi educado para acreditar que tem um direito divino ao que há de melhor no mundo. E enquanto ele vai satisfazendo os seus direitos, tudo não passa de noblesse oblige e, honra, e o que mais possa ser. Inextricàvelmente mesclado de insolência, já se vê, mas, verdadeiramente no seu lugar. Ora, suprimamos-lhe a renda, e as coisas mais estranhas deste mundo é provável que aconteçam. A Providência determinou que ele tivesse o que de melhor houvesse no mundo; logo, determinou que-ele tivesse os meios de obter o que de melhor houvesse no mundo; logo, quando esses meios já não lhe cabem legitimamente, a Providência justifica que ele os obtenha ilegitimamente. Noutra época, o nosso Gerry poderia ter-se entregado ao banditismo ou à simonia. Teria dado um admirável "condottiere", um cardeal quase perfeito. Hoje, porem, a igreja e o exército são demasiado respeitáveis, demasiado profissionais. Não têm lugar para amadores. O fidalgo empobrecido vê-se, assim, compelido a viver de transações. A vender automóveis. A fazer corretagem de fundos públicos e de ações. A promover companhias duvidosas. Tudo isso acompanhado, naturalmente, de uma judiciosa prostituição de seu corpo. Se ele tem a sorte de ter nascido com o dom da verbosidade, pode ganhar a vida praticando as formas mais polidas da extorsão e do sicofantismo — como um escrevinhador de alcovitices. Noblesse oblige; mas a pobreza também. E quando ambas obrigam simultaneamente — então, nós, da classe média, o que temos de melhor a fazer é começar a contar as pratas e abotoar paletó. Ao invés disso... — Encolheu os ombros. — pobre Mary.

 

No quarto de dormir, do andar superior, rolava incessante a torrente de recriminações e invectivas de Mary. Gerry nem sequer olhava para ela. De rosto voltado, parecia absorto na contemplação do Pascino pendurado por cima do calorífero. O quadro apresentava duas mulheres deitadas, em esforço, numa cama, nuas.

— Gosto deste quadro, — disse ele com deliberada despreocupação, quando a sra. Amberley fez uma pausa para tomar fôlego. Pode-se ver que o homem que o pintou tinha justamente acabado de ter relações amorosas com estas pequenas. Com todas duas. Ao mesmo tempo, — acrescentou.

Mary Amberley ficou pálida como cera; seus lábios tremiam, suas narinas agitavam-se como se estivessem vivendo de uma vida à parte e incontrolável.

— Você nem sequer me estava escutando, — gritou. Oh, você é abominável, você é horrível! — E recomeçou a torrente, mais veemente do que nunca.

Ainda de costas para ela, Gerry continuava a olhar para os nus de Pascino; finalmente, lançando para o ar uma última baforada de fumo, atirou a ponta de seu cigarro no fogão e voltou-se.

— Quando você tiver terminado, podemos também ir para a cama, — disse numa voz cansada. E, depois de uma pequena pausa, acrescentou, enquanto ela, incapaz de falar, o encarava furiosamente: — Pois isso é o que você realmente quer. — E, sorrindo, ironicamente, atravessou o quarto em direção a ela. Ao chegar perto, parou e estendeu-lhe as mãos, num gesto convidativo. Eram umas mãos grandes, que ele conservava imaculadas, mas grosseiras, insensíveis, brutais. — Mãos horrendas, pensou Mary ao contemplá-las, — mãos odiosas!

Tanto mais odiosas agora, pois era justamente pela maldade e brutalidade dessas mãos que ela se sentira atraída da primeira vez, ainda o estando sendo, mesmo nesse momento, vergonhosamente, a despeito de todas as razões que tinha para odiá-las. — Então? não vem? — perguntou ele, na mesma voz entre enfadada e escarninha.

A resposta foi a menção de uma bofetada. Ele, porem, ligeiro agarrou-lhe a mão ainda em movimento no ar e, quando ela procurou servir-se da outra para o mesmo fim, ele agarrou também esta. E ela se viu inerme em suas garras.

Sempre a sorrir-lhe e sem dizer palavra, ele a foi impelindo para trás, passo a passo, na direção do leito.

— Bruto! — continuava ela a repetir, — bruto! — e lutava, em vão, ao mesmo tempo que sentia um prazer obscuro em se sentir assim indefesa. Ele a empurrou contra a extremidade do divã baixo, mais e mais, inexoravelmente, até que, afinal, perdendo o equilíbrio, ela caiu para trás, sobre o goderim — (caiu para trás, enquanto ele, com um joelho na beira do leito, se debruçava sobre ela, sorrindo ainda o mesmo sorriso escárnio). Bruto, bruto! — Mas em verdade, conforme ela secretamente e consigo mesma admitia — e a vergonhosa consciência disso era inebriante — em verdade, ela realmente queria ser tratada como ele a estava tratando — como uma prostituta, como um animal: e, o que era mais, em sua própria casa, com todos os seus convidados à espera dela, e a porta destrancada, e as suas filhas a se perguntarem onde ela estava, talvez a subirem a escada naquele momento mesmo para procurá-la. Sim, ela realmente queria aquilo. Lutando ainda, rendia-se à evidência, à intuição física direta de que essa degradação intolerável era uma realização de um velho desejo, era a revelação maravilhosa, ao mesmo tempo que horrível, era o Apocalipse, todo o Apocalipse de uma vez, anjo e besta-fera, a peste, o cordeiro e a meretriz numa única experiência divina, revoltante, esmagadora...

 

Existe, — dizia Anthony, — uma correlação definida entre civilização e sexualismo. Quanto mais adiantada for aquela, tanto mais intenso será este.

— Confesso que, — disse Beppo, sibilando de prazer, — devemos ser civilizados!

— Civilização significa alimento e literatura, na mais ampla extensão do sentido. Bifes e revistas de ficção para todos. Proteínas de primeira classe para o corpo, histórias de amor de quarta classe para o espírito. E isso num ambiente urbano seguro, onde não existem riscos nem fadigas físicas. Numa cidade como esta, por exemplo, pode a gente viver anos seguidos sem ser, sequer, informado da existência dessa coisa que se chama natureza. Tudo é feito pelo e para o homem, pontualmente, convenientemente, confortàvelmente. Mas as pessoas acabam por fartar-se de conveniência e conforto; querem a vibração, querem os riscos, querem as surpresas. Onde é que vão encontrar isso em nossa organização? Na caça ao dinheiro na política, na guerra ocasional, no esporte e, finalmente, no sexo Mas em sua maioria as pessoas não podem ser especuladoras nem políticos militantes; e a guerra é uma coisa que, por boa demais, já se vai tornando ruim; e os esportes mais requintados e arriscados são somente para os ricos. De maneira que só resta o sexo. À medida que cresce a civilização material, assim também crescem a intensidade e a importância do sexualismo. Têm que crescer, inevitavelmente. E uma vez que, ao mesmo tempo, o alimento e a literatura têm aumentado a soma dos apetites utilizáveis... — Encolheu os ombros e acrescentou: — É o que se vê!

Beppo estava encantado. — Você tem uma explicação para tudo, — exclamou. — Tout comprendre, cest tout pardonner. — Era com prazer que via no argumento de Anthony, não somente absolvição, mas também indulgência plenária para todos (pois Beppo levava o seu altruísmo ao ponto de querer que todos fossem tão felizes quanto ele) para todos e também para tudo, para todas as coisas, desde aqueles extasiantes taverneiros de Toulon até àquelas prostitutas de botas (para ele, portanto, decididamente, não) do Kurfürstendamm.

Staithes não dizia nada. Pensava em que, se o progresso social se reduzia a um maior emporcalhamento para o maior numero, então, então...

— Lembram-se daquela observação do Dr. Johnson? — começou, de novo, Anthony com certa exaltação na voz. Essa observação lhe acudira subitamente, como um presente inesperado que a memória lhe fazia à razão discursiva; acudira-lhe enriquecer o pensamento em sua forma, para completar o argumento e estender-lhe o âmbito. Sua voz era o reflexo do prazer súbito que o seu triunfo lhe proporcionava. — Como é mesmo? Ah, assim: "Raramente a atividade de um homem é tão inocente como quando ele se ocupa em ganhar dinheiro." Mais ou menos isso. Admirável! — E soltou uma risada.— A inocência daqueles que espezinham a face dos pobres mas se abstêm de beliscar o traseiro da esposa do próximo! A inocência de Ford, a inocência de Rockefeller! O século dezenove foi o Século da Inocência — dessa espécie de inocência. E o resultado é estarmos nós agora quase em condições de dizer que raramente, a atividade de um homem é tão inocente, como quando ele se entretém em relações amorosas.

Houve um silêncio. Staithes consultou seu relógio. — Já é hora de debandar, — disse. — Mas a questão, — a juntou, voltando-se em sua cadeira para sondar a sala, a questão está em despedirmo-nos da dona da casa.

Levantaram-se e, enquanto Beppo se apressurava em ir cumprimentar duas jovens pessoas de suas relações, que se achavam do outro lado da sala, Staithes e Anthony encaminharam-se para a porta.

— Eis a questão, — Staithes repetia ainda, — essa é que é a questão... Ao chegarem entretanto ao vão da escada, encontraram a sra. Amberley e Gerry, que desciam.

— Estávamos à sua procura, — disse Anthony. — Para nos despedirmos.

— Tão cedo? — exclamou Mary, presa, subitamente, de ansiedade.

Mas eles se mantiveram firmes. Dois minutos mais tarde, todos três, Staithes, Gerry Watchett e Anthony, subiam a rua juntos.

Foi Gerry quem rompeu o silêncio. — Oh, essas velhas terríveis, — disse, sacudindo a cabeça, entre pensativo e rancoroso. Depois, mais alegre: — Que tal, uma partidinha de "poker"? sugeriu. Anthony, porém, não sabia jogar "poker" e Mark Staithes não estava disposto. Ele teve, portanto, que se ir sozinho a procura de companhia mais condigna.

— Ora, até que enfim, — disse Mark. — E se fôssemos agora passar uma horinha nos meus aposentos?

 

Tinha sido a coisa mais importante — ia pensando e sentindo Hugh Ledwidge enquanto se dirigia para casa — a mais importante e, também, a mais extraordinária, a mais incrível coisa que jamais lhe acontecera. Tão linda, tão jovem. — Tão elegante na sua esbelteza. (Se ao menos ela se tivesse atirado ao Tâmisa e tivesse sido salva por ele! — Helena! Minha pobre menina! — E ela, murmurando, agradecida: — Hugh! Hugh...) Mas, mesmo sem suicídio, a coisa fora bastante espantosa. As duas bocas coladas, os lábios dela contra os lábios dele. Oh, por que não tinha mostrado mais coragem, mais presença de espírito? Tudo quanto lhe poderia ter dito, os gestos que deveria ter feito! Contudo, em certo sentido, foi melhor ter-se comportado como se comportou — estupidamente, timidamente, ineptamente. Melhor, porque era mais uma prova de que ela se interessava por ele; porque emprestava mais valor à atitude dela, tão jovem, tão pura — e, ainda assim, espontaneamente, sem que ele a tal a compelisse, e a despeito, até, de uma quase resistência da parte dele, ela descera alguns degraus, pusera as mãos nos ombros dele, beijara-o. Beijara-o apesar de tudo — repetia ele para si, com uma espécie de triunfo e ao mesmo tempo de espanto, sentimentos a que estranhamente se vinham juntar a vergonha e uma convicção de fraqueza e de futilidade. Apesar de tudo. Non piú andrai, ia trauteando consigo, baixinho, enquanto caminhava, depois, como se a úmida noite londrina fosse uma manhã de primavera sobre as dunas, rompeu num canto inequívoco.

 

Delle belle turbando il riposo,

Narcissetto, Adoncino d'amor...

 

Ao chegar a casa, foi logo sentando-se à sua secretária e começou a escrever-lhe.

"Helena, Helena... Se repito demais as sílabas, elas perdem seu sentido, reduzem-se a um simples ruído no meu quarto silencioso e esse não-sentido tornar-se-á apavorante. Mas, quando profiro o nome somente duas ou três vezes, muito baixinho ele se torna rico e cheio de sentido! Acompanhado de ecos, ressonâncias e evocações. Evocações, não tanto, para mim, da Helena grega original. Esta, eu não posso senti-la, imaginá-la, de outro modo, senão como uma mulher madura — jamais de outro modo, senão como casada com Menelau e fugindo com Paris. Jamais assim, realmente jovem, como você é — flor de elegância, flor de perfeição. Não, a Helena que se me apresenta aos olhos da imaginação é mais a Helena de Poe, quando pronuncio esse nome. A beleza que reconduz o viajante à sua praia de origem, à sua terra natal. Não a essa evidente pátria terrena das paixões. Não; mas a esta outra pátria, mais rara, mais linda, mais distante, além e acima das paixões. Além e acima; e, todavia, implicando, incluindo as paixões, muito embora lhes seja transcendente.

 

Era uma carta longa; mas, saindo a correr, chegou ainda a tempo de apanhar o correio da meia-noite. O sentimento de triunfo com que voltava, pela segunda vez, a casa, era de uma pureza quase absoluta. Chegou, por um momento, a esquecer sua timidez," sua covardia humilhante, só lhe vindo à mente a consciência da força altaneira de que se animara ao escrever sua carta. Num estado de exaltação muito acima do seu "eu" habitual, esqueceu-se, ao despir-se, de guardar sua funda no gaveteiro, afim de que a sra. Brinton não a visse quando lhe entrasse no quarto, de manhã cedo, para lhe trazer o chá. Já na cama, ficou muito tempo a cismar, a pensar, ternamente, paternalmente, poeticamente, a pensar e, ao mesmo tempo, a desejar. Mas era um desejo tão hesitante e tão fraco e tão brando, que a lubricidade assumia as proporções de uma prece. Ficou a pensar na mocidade perfeita de Helena, na fragilidade de sua esbelteza, na sua inocência, suave e delicada inocência, e naqueles inesperados, naqueles extraordinários beijos.

 

8 de dezembro de 1926

MARK morava numa casa suja, a pouca distância da Fulham Road. Casa escura de tijolo pardo com ornatos de terracota. No interior, linóleum com desenhos; tapetes vermelhos de Axminster; nas paredes, papel pintado de ocre e enfeitado com ramalhetes de centáureas, molhos de verduras e rosas carmesins; cadeiras e mesas de carvalho defumado; cortinas de reps; suportes de bambu encimados de rasos de esmalte azul. A hediondez — refletiu Anthony — era tão completa, tão absolutamente sem remédio, que só se poderia explicar como intencional. Mark devia ter escolhido de propósito o local mais feio que ele pôde encontrar. Para se castigar, sem dúvida — mas castigar-se por que, de que culpa?

— Cerveja?

Anthony aceitou, com um gesto.

O outro abriu uma garrafa e encheu ata único capo; quanto a ele, não bebia.

— Você ainda toca, pelo que vejo, — disse Anthony apontando na direção do piano.

— Um pouco, — teve Mark que concordar. — É um consolo.

O fato de, por exemplo, a "Paixão segundo São Mateus , ou a "Hammerklavier Sonata", terem tido autores humanos era uma fonte de esperança. Concebia-se que a humanidade pudesse um dia e de qualquer modo tornar-se um pouco mais a semelhante a Johann Sebastian. Bach. Se não houvesse nada conto "O cravo Bem Temperado", por que razão haveríamos de nos amofinar com o desejo de uma transformação revolucionária?

— Transformar uma humanidade banal noutra humanidade banal ligeiramente diferente — se é só isso que a revolução pode fazer, então a partida não vale o tempo que se perde.

Anthony protestou. Para um sociólogo, era o mais fascinante de todos os jogos.

— Para um sociólogo, como espectador ou como jogador?

— Como espectador, naturalmente.

Um espetáculo de uma comicidade incomensurável no que ele tinha de grotesco e, além disso, de uma variedade infinita. Examinando, porém, mais de perto, poder-se-ia descobrir as uniformidades sob a diversidade, as regras estabelecidas e imutáveis para o jogo infinitamente cambiante.

— Uma revolução para transformar uma humanidade banal noutra variedade de humanidade banal. Você acha isso horripilante. Mas é justamente isso o que eu quisera que os anos que ainda me restam de vida me permitissem ver. A teoria submetida à prova da prática. Descobrir, depois da reforma catastrófica de todas as coisas, as mesmas e antigas uniformidades ressurgindo e impondo-se de um modo ligeiramente diferente — não posso imaginar nada de mais satisfatório. Como se inferíssemos logicamente a existência de um novo planeta e depois o descobríssemos por meio do telescópio. Quanto ao fato de se produzirem mais Sebastian Bachs... — Ele encolheu os ombros. —Você poderia igualmente imaginar a revolução aumentando o número dos irmãos siameses.

Aí estava a principal diferença entre a literatura e a vida. Nos livros, a proporção entre as pessoas excepcionais e as vulgares é elevada; na vida real, ela é muito baixa.

— Os livros são ópio, — disse Mark.

— Precisamente. E aí está porque é duvidoso que exista essa coisa chamada literatura proletária. Os próprios livros proletários tratam de proletários excepcionais. E os proletários externais são tão proletários quanto os burgueses excepcionais são burgueses. A vida é uma coisa tão vulgar, que a literatura tem de versar o excepcional. Talento excepcional, poder, posição social, riqueza excepcionais. Daí esses gênios de ficção, esses condutores de povos e duques e milionários. As pessoas completamente condicionadas pelas circunstâncias — podemos lamentar imensamente a situação em que se encontram; mas não podemos achar-lhes as vidas muito dramáticas. O drama só começa onde existe liberdade de escolha. E a liberdade de escolha só começa quando as condições sociais ou psicológicas são excepcionais. Eis aí porque os habitantes da literatura de ficção têm sido, sempre recrutados nas páginas do Who's Who.

— Mas, então, você pensa, realmente, que as pessoas de dinheiro, ou poderosas, são livres?

— Mais livres do que as pobres, em todo caso. Menos completamente condicionadas pela matéria e pela vontade alheia.

Mark meneou a cabeça. — É que você não conhece meu pai, disse. — Nem os meus repelentes irmãos.

Anthony lembrou-se de que, no Bulstrode, ele sempre dizia: — O meu velho diz... — ou — O meu mano de Cambridge...

— Toda a raça vil dos Staitheses, — prosseguiu Mark. Descreveu o Staithes que era então Chefe dos Cavaleiros da Ordem de S .Miguel e S. Jorge e Subsecretário Permanente. Satisfeito, como o Polichinelo, com tudo aquilo, e serenamente côncio dos seus extraordinários méritos, adorando-se a si próprio por ser tão grande homem.

— Como se houvesse alguma dificuldade real em chegar aonde ele chegou! Alguma coisa de honroso, ao menos, numa conquista mesquinha dessa espécie! — Mark fez uma careta de desprezo e repugnância. — Tem-se na conta de uma maravilha!

E quanto aos outros Staitheses, os Staitheses da nova geração — estes também pensavam que eram maravilhas. Havia um deles em Delhi, heroicamente ocupado em tiranizar nativos que não podiam defender-se. E o outro estava na Bolsa em franca prosperidade. Prosperidade em que? como que? Como um esperto explorador da ignorância, da cobiça e da insânia de jogadores e avarentos. E como coroamento de tudo isso, o homem ainda se orgulhava de ser especialista em galanterias, um Don Juan profissional.

(Por que não ter o pobre diabo o direito de se divertir um pouco? Eis o que Anthony, enquanto chuchurreava sua cerveja não podia compreender.)

Um rapaz como os outros! Um cão como os outros! Um cio entre cadelas — que triunfo!

—E é a esses que você chama livres, — concluiu Mark. — Mas como pode um escalador ser livre, se ele está preso à sua escada?

—Mas as escadas sociais, — objetou Anthony, — vão-se tornando mais largas à medida que se sobe. Em baixo, mal há lugar para se botar o pé. Em cima, os degraus têm uma largura de vinte jardas.

— Bem, pode ser que seja um poleiro mais largo do que o de um empregado de banco, — admitiu Staithes. — Mas não é bastante largo para mim. Nem bastante alto; e o que mais importa — não é bastante limpo.

A raiva com que eles ficaram, quando ele se alistou, durante a guerra, como simples soldado! Achavam que ele ia rebaixar a família. Incapaz de compreender que, uma vez que se podia escolher, era mais decente optar pelo posto de soldado raso do que pelo de tenente do estado-maior.

— Excrementosos até ao âmago, — disse ele. — De sorte que não podem ter senão idéias e pensamentos fecais. Defecam pelo cérebro. E, sobretudo, não podem conceber que alguém pense de modo diferente. O fecal apela para o fecal; e, quando se responde com o não-fecal, então a confusão é completa.

E, quando terminou a guerra, já estava à sua espera, prontinho para ele ocupar logo que fosse desmobilizado, aquele emprego que seu pai tivera tanto trabalho para lhe arranjar na City — nada menos do que com Lazarus e Colt! Um emprego de possibilidades futuras quase ilimitadas para um jovem inteligente e ativo — para um Staithes, numa palavra. — Uma renda de cinco cifras quando você tiver cincoenta anos, — insistira seu Pai quase com lirismo, tendo acabado por ficar verdadeiramente Magoado e ofendido mortalmente, furioso enfim, quando Mark respondeu que não tinha a intenção de aceitá-lo.

— Mas, por que não? — perguntava insistentemente o pobre e velho suíno. — Por que não? — E não havia meio de compreender que era justamente por ser o emprego tão bom, que eu não podia aceitá-lo. Tão ilegitimamente bom! Isso era justamente o que ele não podia ver. De acordo com as suas idéias, eu deveria fechar os olhos, baixar a cabeça e atirar-me à posse do cargo, como todos os suínos de Gadara fundidos num só. Em vez disso, eu lhe restituí a imunda oferta e fui para o México, cuidar de uma finca de café.

— Mas você conhecia alguma coisa a respeito de café?

— Está visto que não. Foi justamente isso um dos atrativos que encontrei no trabalho. Sorriu. Depois que consegui saber alguma coisa a respeito, vim-me embora, para ver se havia aqui qualquer coisa a fazer.

— E há qualquer coisa a fazer?

O outro encolheu os ombros. Quem podia lá saber. Aderia-se ao Partido, fazia-se distribuição de livros, conseguia-se o financiamento de grupos de propaganda com os lucros apurados nos cravos sintéticos, falava-se nos comícios e escrevia-se nos jornais. E talvez tudo isso fosse completamente inútil. Talvez que, ao contrário, surgisse um dia o momento auspicioso...

— E depois...?

— Ah, essa é que é a questão. Tudo estará muito bem no começo. Nas fases preliminares, a revolução é um gozo. Enquanto se trata de alijar o pessoal que está de cima. Mas depois, se a coisa vencer — que fazer, então? Que fazer depois? Mais instalações de rádio, mais chocolates, mais rendez-vous, mais pequenas com melhores preventivos. — Sacudiu a cabeça. — Basta que demos ao homem uma oportunidade de bestializar-se, de assuínar-se, para que ele a aproveite logo, agradecido. Essa liberdade de que você falava há pouquinho, a liberdade no alto da escada social — não é senão a licença de ser um suíno; um suíno ou, alternativamente, um enfatuado, um fariseu contente de si, como meu pai. Ou, então, ambos a um tempo, como o meu precioso irmão. Suíno e enfatuado, simultaneamente. Na Rússia, ainda não tiveram a oportunidade de serem suínos. As circunstâncias os têm forçado a ser ascetas. Mas vamos supor que a experiência econômica dê certo; vamos supor que ven um tempo em que eles todos fiquem prósperos. Que é que poderá, então, impedir de se transformarem em Babbitts? Milhões e milhões de Babbitts amolentados, assuínados, governados por uma pequena minoria de ambiciosos Staitheses.

Anthony sorriu. — Uma nova fase da partida, jogada de acordo com as velhas regras imutáveis.

— É horrível, mas parece que você tem razão, — disse o outro — É o marxismo ortodoxo, sem dúvida. Os modos de agir e de pensar são produto das condições econômicas. Reproduzamos as condições econômicas de Babbitt e não poderemos deixar de reproduzir-lhe a moral e os costumes. Cruzes! — Levantou-se, encaminhou-se para o piano e, puxando uma cadeira, sentou-se em frente: — Vamos ver se tiramos esse gosto de nossas bocas. Suas grandes mãos ossudas ficaram por um momento pairando acima do teclado; e, em seguida, ele começou a tocar a "Toccata" e a "Fuga em ré" de Bach. Ambos se sentiram num outro universo, onde não existiam nem eram concebíveis os Babbitts e os Staitheses.

Havia apenas dois ou três minutos que Mark estivera tocando, quando a porta se abriu e entrou na sala uma mulher idosa, magra e de feições cavalares, metida num vestido de seda parda e trazendo em volta do pescoço uma peliça velha, já safada e também parda. Caminhava nas pontas dos pés, como que representando, numa pantomima estudada, a própria personificação do silêncio; mas, no desempenho do papel, ia produzindo toda sorte de ruídos perturbadores — um rinchar de sapatos, um farfalhar de sedas, um tilintar de contas de colares, um chocalhar de objetos de prata pendentes da cintura por pequenas correntes. Mark continuava a tocar, sem voltar a cabeça. Embaraçado, Anthony ergueu-se e fez urna mesura. A criatura de feições cavalares fez sinal com a mão para que ele se tornasse a sentar, e cautelosamente, numa última e prolongada explosão de ruídos, sentou-se no sofá.

— Perfeito! — exclamou, mal acabava de ouvir a última nota. — Toque-nos mais alguma coisa, Mark.

Que não, exprimiu Mark com sacudir a cabeça e erguer-se do piano. — Quero apresentar você a Miss Pendle, — disse a Anthony; e, voltando-se para a velha: Anthony Beavis esteve comigo no Bulstrode, explicou.

Anthony apertou a mão que ela, com um sorriso, lhe estendera. O sorriso pôs à mostra uns dentes postiços e mal ajustados, de uma brancura e brilho impossíveis. — Esteve, então, com Mark no Bulstrode! — exclamou. — Mas é extraordinário!

— Extraordinário que ainda continuemos bons amigos?disse Mark.

— Não, não, — retrucou Miss Pendle e, com uma jovialidade que Anthony achou positivamente espectral, deu-lhe urna pancadinha no braço. — Você sabe perfeitamente o que eu quero dizer. Ele sempre foi assim, Mr. Beavis, já desde quando era menino. O sr. deve se lembrar, não?

Como convinha, Anthony fez, com a cabeça, que sim.

— Tão ferino e sarcástico! Já mesmo antes do senhor o conhecer no Bulstrode. Horrível! — exclamou, voltando-se para Mark e pondo os dentes postiços numa reprovação simulada e afetuosa. — Saiba o senhor que ele foi o meu primeiro discípulo, — ajuntou confidencialmente. — E eu, sua primeira professora.

Ouvindo isso, Anthony ergueu-se e disse, numa atitude galante: — Então, deixe que eu felicite Mark por isso e, ao mesmo tempo, lhe apresente, Miss Pendle, os meus pêsames.

Miss Pendle olhou para Mark. — Você acha que eu mereço as suas condolências, — perguntou, quase com astúcia, como uma mocinha faceira à caça de elogios.

Mark não respondeu. Limitou-se a sorrir e encolher os ombros. — Vou fazer um pouco de chá, — disse. — Você tomaria chá, não, Penny? — Miss Pendle aceitou, com um gesto. Mark levantou-se e saiu da sala.

Anthony estava constrangido, sem saber o que deveria dizer àquele velho e embaraçante trapo humano, quando Miss Pendle se virou para ele. — É maravilhoso, esse Mark; realmente maravilhoso. — Os dentes postiços cintilavam, as palavras saíam aos jorros, com uma veemência incoerente anti-equina. Anthony sentia-se embaraçado e repugnado. — Ninguém sabe quanto ele é bom, — continuava ela. — Ele não gosta que se fale nisso; mas eu não me importo — quero que todos saibam. Tal foi a ênfase do seu gesto, que as contas do seu colar se chocaram, produzindo um som de matracas. — No ano passado. eu fiquei doente, — começou ela a contar. Suas economia tinham-se acabado e ela não podia arranjar trabalho. Desesperada escrevera a alguns de seus antigos empregadores e, entre eles, a Sir Michael Staithes. — Sir Michael enviou-me cinco libras. — disse.— Com isso eu fui tenteando a vida por algum tempo. Depois, tive que escrever de novo. Ele respondeu que não podia fazer mais nada. Mas referiu o caso a Mark. E que pensa o senhor que Mark fez? — Olhou para Anthony em silêncio. Era um cavalo transfigurado, cuja expressão era, a um tempo, de ternura e de triunfo e cujos olhos de pálpebras vermelhas estavam banhados de lágrimas.

— Que foi que ele fez? — perguntou Anthony.

— Veio em pessoa aonde eu estava — eu ocupava então um quarto em Camberwell — veio e levou-me consigo. Levou-me imediatamente, só me dando tempo para fazer a minha trouxa. E trouxe-me para aqui. E passei, desde então, a cuidar da casa para ele. Que é que me diz disso, Mr. Beavis? — perguntou. Sua voz estava trêmula e ela teve que enxugar os olhos; mas, sentia-se, entretanto, triunfante. — Que é que o senhor pensa disso?

Em verdade, Anthony não sabia o que pensar daquilo; disse, entretanto, que era maravilhoso.

— Maravilhoso, — repetiu o cavalo, aprovando. — Empregou o termo exato. Mas não lhe vá dizer que eu disse isso ao senhor. Ele ficaria furioso comigo. Ele é como aquele texto do Evangelho, que diz que a mão esquerda não deve saber o que está fazendo a direita. É assim que ele é. — Enxugou ainda, pela última vez, os olhos e assoou-se. Olhe, aí vem ele, — disse e, antes que Anthony pudesse intervir, já ela se tinha erguido num pulo, já tinha atravessado a sala como um raio, numa tempestade de ruídos farfalhantes e chocalhantes, e abria a porta. Mark entrou, trazendo uma bandeja com um serviço de chá e um prato de biscoitos sortidos.

Miss Pendle encheu a xícara, disse que não devia comer nada àquela hora da noite, mas, apesar disso, apanhou um biscoito redondo encimado por um confeito de açúcar cor-de-rosa.

— Ora, diga-me agora que espécie de menino era esse senhor Mark lá no Bulstrode, — disse ela com aquele seu modo — Vou apostar que ele fez toda sorte de travessuras. — outra dentada em seu biscoito.

— Ah, maltratou-me a valer, — disse Anthony.

Miss Pendle suspendeu a mastigação rápida do biscoito, para dar uma risada. — Rapaz incorrigível! — disse ela a Mark. E os seus maxilares entraram novamente em função

— Forte, como era, em futebol, ele tinha o direito de me tiranizar.

— Sim, sim, você era "captain" do "eleven", não era?

— Já não me lembro, — disse Mark:

— Já não se lembra! — Miss Pendle repetiu, olhando triunfante para Anthony. — Isso mostra bem como ele é. Já não se lembra! — Serviu-se de um segundo biscoito, pondo de lado os simples, para escolher um que tivesse confeito, e começou a ruminar mais uma vez com a paixão intensa e concentrada das pessoas cujos prazeres sensuais se resumem nos prazeres do paladar.

Depois que a velhota se recolheu, os dois homens voltaram a sentar-se junto ao fogo. Fez-se um longo silêncio.

— Sentimental, a velhota, — disse Anthony por fim. Mark esteve, por alguns momentos, calado. Mas afinal, comentou: — Um pouco sentimental demais.

Anthony examinou-lhe a fisionomia e viu nela demonstrada a anatomia da ironia sardônica. Seguiu-se outro silêncio. O relógio, sustentado por duas ninfas enroupadas de bronze dourado, tictaqueava em meio às imitações de figuras de Dresde que atulhavam as prateleiras do calorífero. Propositadamente horrível, dizia consigo Anthony, à medida que os seus olhos iam descobrindo os detalhes de cada particular atentado ao bom gosto. E, de todas aquelas bugigangas, seria o pobre cavalo velho, seria ela, a velhota, a maior, a mais monstruosa? — O que me surpreende, — disse em voz alta, — é que você não traga cilício sobre a pele. Ou será que traz? — acrescentou.

 

23 de junho e 5 de julho de 1927

Estava acima das suas posses; mas não tinha importância. A sra. Amberley estava acostumada a realizar coisas acima de suas posses. Era realmente tão simples; bastava vender um pequeno empréstimo da Guerra e pronto! Ei-la a viajar de automóvel pela Itália, a apreciar os nus de Pascino, a abrir conta com Fortnum and Mason. E ei-la, finalmente, em Berkshire, na sua adorabilíssima casinha, cheirando a pot-pourri, com altas tílias no prado e os outeiros nos fundos, estendendo-se milha após milha, numa nudez verde e macia debaixo do céu. Estava acima de suas posses; mas era a beleza, era a perfeição. E afinal, o que eram cento e cincoenta libras do Empréstimo de Guerra? Quanto rendiam? Cerca de cinco libras por ano, depois de pagas as taxas. E o que eram cinco libras por ano? Nada. Absolutamente nada. E além disso, Gerry ia fazer-lhe nova inversão do dinheiro. Seu capital talvez minguasse; mas sua renda, dentro em breve, começaria a crescer. No ano próximo, já a coisa não estaria acima de suas posses; de modo que, antecipando o momento feliz, ei-la já ali, sentada sob as tílias no prado, com seus convivas em volta.

Apoiada sobre um dos cotovelos, Helena estava deitada sobre um tapete, atrás da cadeira de sua mãe. Não estava prestando atenção alguma ao que se dizia. O campo apresentava um espetáculo tão belo que, em verdade, não se podia estar ouvindo o amigo Anthony arengar sobre a importância das máquinas na história; não, a única coisa que se podia fazer em tão celestial ambiente, era brincar com o gatinho. O brinquedo de que o gato mais gostava — assim pensava ela — era o tapete Metia-se uma varinha por baixo de um dos cantos do tapete devagarinho, até a ponta da varinha aparecer do lado oposto, como a cabeça de um bicho a espiar fora da toca, cautelosamente. A espiar um pouquinho só, muito desconfiado; e depois, com um arranco, puxava-se a varinha. O bicho se assustara e recuara para o seu esconderijo. Depois, tomando-se novamente de coragem, saía outra vez, farejando à direita e à esquerda por entre os caules das gramíneas e, afinal, recolhia-se e ia terminar sua refeição, tranqüilo e seguro, debaixo do tapete. Passavam-se longos segundos, até que, de súbito, reaparecia ele como um diabinho negro surgindo de uma caixa de surpresas como se estivesse tentando apanhar desprevenido um perigo iminente, para em seguida, rápido como um raio, desaparecer. Depois, uma vez mais, cheio de dúvidas e relutâncias — impelido apenas por uma necessidade brutal e contra melhor juízo próprio — emergia ao ar livre, côncio, como logo se notava, de ser a vítima predestinada, antevendo sua triste sorte. E durante todo esse tempo, o gatinho acompanhava, com uma ferocidade muda, mas intensa, os avanços e recuos do bicho. De cada vez que a varinha se retirava debaixo do tapete, lá vinha ele de rojo, aproximando-se, com uma precaução infinita. Mais perto, mais perto, até que chegava o momento de se enrodilhar todo, para o bote final e decisivo. Seus olhos verdes revelavam, na sua fixidez, uma maldade absurda; a intensidade tigrina de suas intenções sanguinárias era tal sobrecarga para seu pequenino corpo, que não somente a cauda, mas os próprios flancos se agitavam sob a pressão emotiva. Entrementes, no ar, as tílias farfalhavam ao sopro fraco do vento e, por sobre a grama, avançavam e recuavam círculos de luz dourada, silenciosamente. Do outro lado do prado, as sebes herbáceas dardejavam ao sol como que incendiadas e, mais além, os outeiros pareciam animais enormes adormecidos, sobre cujos flancos se arrastavam as sombras cor de anil que as nuvens projetavam. Tão belo era aquele qua tão celestial, que, de quando em quando, Helena sentia que não podia sequer resistir a tanto esplendor: largava então a. vareta e apanhando o gatinho, esfregava a face contra o pêlo sedoso do bichano, murmurava-lhe palavras sem sentido numa linguagem infantil, erguia-o no ar à altura do rosto, de modo que narizes de ambos quase se tocavam enquanto as patas do gato ficavam ridiculamente no espaço e ficava a olhar fixamente a aqueles olhos verdes e enigmàticamente vivos, até que, fielmente, o bichinho, impossibilitado de defender-se, começava miar de um modo tão patético, que ela se resolvia a soltá-lo de novo. "Coitadinho!" murmurava, arrependida. "Será que maltratei?" Mas esse mau trato preenchera o seu fim; sua felicidade, excessiva até doer, transbordara, por assim dizer, deixando-a agora à vontade, tornando-lhe de novo suportável a celestial beleza. Apanhou do chão a varinha, E o gato, tendo-lhe perdoado, pois que já tudo esquecera, recomeçou o brinquedo.

O toque de uma campainha de bicicleta fê-la erguer os olhos. Era o carteiro, que subia a estrada com a coleta da tarde. Helena ergueu-se nos pés e, levando o gato consigo, encaminhou-se para a casa às pressas, mas, segundo esperava, sem ser percebida. À porta, encontrou a criada, que saía com as cartas. Havia duas para ela. A primeira que abriu era de Joyce, procedente de Aldershot. (Não pôde deixar de sorrir ao ler o endereço no alto da página. "Joyce está morando agora em A-aldershot," costumava dizer sua mãe, estendendo a primeira sílaba do nome com voz cavernosa e enfática e num tom de incredulidade e de quem se sentia ligeiramente ofendida, como se fosse realmente inconcebível que uma filha sua se achasse morando em tal lugar. "Em A-aldershot, querida." E conseguia emprestar a esse subúrbio militar o fabuloso exotismo do Tibet, o horror e a longinquidade da torva Libéria. "Morando em A-aldershot — como uma memsahib.")

"Somente uma linha," leu Helena, ainda sorrindo, "para te agradecer sua meiga carta. Estou bastante aflita com a noticia que você me deu, de que mamãe está tomando esses entornes. Eles não lhe podem fazer bem. Colin acha que ela deveria fazer mais exercícios. Você poderia, talvez, sugerir-lhe a equitação. Estive tomando ultimamente lições de equitação, realmente uma delícia, quando a gente se acostuma. Estamos agora completamente instalados e você não faz idéia de como a nossa casinha está agora um amor. Colin e eu trabalhamos como negros para arranjar as coisas e devo dizer que o resultado compensa bem a luta que tivemos. Tive que fazer uma porção de visitas enervantes; mas todos aqui têm sido muito bons comigo, de sorte que me sinto agora perfeitamente à vontade. Colin manda lembranças. Sua Joyce.".

A outra carta — e aí estava porque ela tinha ido ao encontro do carteiro — era de Hugh Ledwidge. Se as cartas tivessem sido trazidas à sra. Amberley no prado e se esta as tivesse distribuído, em público... Helena ficou vermelha de vergonha cólera, somente com a idéia do que a mãe poderia ter dito a respeito dessa carta de Hugh. A despeito de estar ali sentada em volta, aquela gente toda; ou antes, justamente por causa dessa gente. Quando estavam sós, Helena geralmente resolvia o caso com uma palavra causticante. Mas quando estavam acompanhadas, a sra. Amberley sentia-se inspirada pelo auditório e entregava-se a esmeradas descrições e comentários. — Hugh e Helena, — costumava ela explicar, — são um misto de Sócrates e Alcibíades e Don Quixote e Dulcinéia. — Havia momentos em que tinha ódio da mãe. — É um caso, — dizia esta, — um caso que se resume assim: Eu não poderia amar-te tanto, querida, se não amasse a etnologia ainda mais. — Muito tivera Helena que sofrer por causa dessas cartas.

Rasgou o envelope.

 

22-VI-27

"Dia do solstício do verão, Helena. Mas creio que você é ainda demasiado jovem para meditar muito na importância de certos dias especiais. Há somente cerca de sete mil dias ao todo, que você está no mundo; e é preciso que se tenha vivido, pelo menos, dez mil, para se começar a compreender que esses não são em número infinito e que com eles não se pode fazer exatamente o que se quer. Estou no mundo há mais de treze mil dias e o fim já é visível, as possibilidades ilimitadas reduziram-se. Devemos cortar a roupa conforme o pano; e o nosso pano não é somente escasso; é também de um tipo especial e, geralmente, de má qualidade. Quando jovens, julgamos poder talhar no pano do tempo toda sorte de roupas esplêndidas e fantásticas, toda sorte de indumentária — shakos e casulas e becas de doutores em filosofia; calças colantes à Nijinsky e calças azul-ardósía à Rimbaud e camisa vermelha à Garibaldi. Mas quando já temos uns dez mil dias de vida, então começamos a compreender que seremos felizes se conseguirmos talhar no tempo à disposição um simples terno decente para usarmos no trato diário. É uma compreensão que deprime; e, de todos, o dia do solstício de verão é o que melhor faz compreender isso. É o dia mais longo. Um dos sessenta ou setenta dias mais longos dentre os vinte e cinco mil dias de uma pessoa. E que fiz eu nesse dia mais comprido — o mais comprido dentre os tão poucos, tão uniformes, tão ordinários dias. O catálogo de minhas ocupações seria humilhante, de tão absurdo e sem interesse. A única coisa a ser inscrita em meu crédito e, num sentido profundo da palavra, a única coisa razoável que eu fiz foi pensar um pouco em você, Helena, e escrever esta carta..."

 

— Há alguma carta que interesse? — perguntou a sra. Amberley quando a filha voltava da casa.

— Somente um bilhete de Joyce.

— Da nossa mem-sahib?

Helena sacudiu a cabeça, confirmando.

— Como sabem, ela está agora morando em A-aldershot, — disse Mary Amberley às pessoas ali reunidas. — Em A-a-al-dershot, — insistia, prolongando a primeira sílaba, até dar à localidade um irrealidade grotesca e transformar a residência de Joyce em tal lugar mim mito fantástico e ligeiramente indecente.

— Você pode agradecer à sua boa estrela o fato de não estar você mesma morando em Aldershot. Afinal de contas, é onde você deveria morar, como filha de general, que é.

Mary ficou, no primeiro momento, desnorteada com essa interrupção. Já havia premeditado como iria desenvolver suas variações fantasiosas em torno do tema Aldershot. Recuperou, porém, seu bom humor, quando percebeu que ele lhe fornecia uma oportunidade a mais. — Sim, eu bem sei, — exclamou com impaciência. — Filha de general. E você já pensou que, se não fosse a graça de Deus, eu talvez fosse hoje esposa de coronel? Estive a pique de me casar com um soldado. Por um triz, como lhe estou dizendo. Tipo de uma beleza das mais arrebatadoras. Mas uma pedra, — bateu na testa, — duro como pedra. E foi a minha felicidade, ser ele assim. Se ele tivesse um poucochinho mais de inteligência, eu teria ido para a Índia com ele. E depois? Nem se pode imaginar.

— Nem se pode imaginar, — repetiu Beppo, com uma risada esguichante.

— Pelo contrário, — disse Anthony, — pode-se perfeita mente imaginar. O clube, todas as noites, entre as seis e oito; recepções oficiais; adultério quando fizesse calor, pólo quando fizesse frio; amofinações constantes com os criados hindus; ataques ocasionais de malária e disenteria; a remessa mensal de romances de ocasião procedentes do "Times Book Club"; e tudo isso, acompanhado do avanço inexorável do tempo — com o dobro da rapidez com que corre aqui na Inglaterra. Se você tivesse ido para a índia, nada é mais fácil do que imaginar o que aconteceria.

— E você acha que tudo isso me teria acontecido, a mim — perguntou Mary.

— Que é, então, que poderia ter acontecido. Naturalmente, você não vai pensar que teria andado a comprar quadros de Pascino em Quetta?

Mary riu.

— Nem teria ido ler Max Jacob em Rawalpindi. Teria sido um mem-sahib como todos os outros mem-sahibs. Talvez um pouco mais amofinada e descontente do que muitos deles. Mas, fosse como fosse, um mem-sahib.

— Creio que sim, — concordou ela. — Mas estará a gente assim tão fatalmente à mercê das circunstâncias?

Ele confirmou, com um gesto.

— Você acha que eu não me teria libertado?

— Não posso ver porque.

— Mas isso quer dizer que não existe realmente uma coisa que é a minha pessoa. — Eu, — disse ela, levando a mão ao peito. — Quer dizer que eu realmente não existo.

— Sem dúvida, que não existe. Nesse sentido absoluto, não existe. Você é um composto químico, e não um elemento.

— Mas, se a gente, na realidade, não existe, então não se compreende porque é que... hesitou.

—Porque é que a gente se incomoda tanto com as coisas, sugeriu Anthony. — Porque toda essa berraria e toda essa algazarra e todo esse ranger de dentes. Porque tanta inquietação em torno das peripécias de uma personalidade que não é realmente uma personalidade, mas apenas o resultado de uma série de acidentes. — E certamente, — prosseguiu, — uma vez que você não pode explicar todas essas preocupações e inquietações, terá imediatamente que concluir que não há nenhuma razão, nenhum motivo que justifique tal atitude. E então deixará de preocupar-se, de inquietar-se, de impressionar-se — isto é, se você for sensata. Como eu, — acrescentou, sorrindo.

Houve um silêncio. — Não se incomodar, — repetiu consigo a sra. Amberley, pensando em Gerry Watchett. Não se incomodar. — Mas como era possível não se incomodar quando ele era tão estúpido, tão egoísta, tão brutal, e ao mesmo tempo objeto de um desejo tão torturante — como a água no deserto, como o sono depois da insônia? Teve ódio dele; mas a idéia de que, dentro de alguns dias, ele estaria ali, iria ficar em sua casa, produziu-lhe em todo o corpo uma sensação mordente de quentura. Fechou os olhos e respirou profundamente.

Carregando ainda nos braços o gatinho, como um bebê felpudo, Helena tinha-se afastado por sobre a relva. Queria estar só, sem que lhe chegassem aos ouvidos aqueles risos, aquelas vozes inconseqüentes e enervantes. — Sete mil dias, — repetia de quando em quando. E não era somente aquele sol no ocaso que emprestava a tudo uma beleza tão solene e tão rica; era também o pensar nos dias que se escoavam, nas limitações humanas, na dissolução final inelutável. — Sete mil dias, — disse em voz alta, — sete mil dias. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela apertou mais rente ao peito o gatinho adormecido.

 

Savernake, White Horse, Oxford; e, de onde em onde, os roncos e os guinchos do "Bugatti" de Gerry, o sopro rijo do vento, os ziguezagues e os saltos, os terrores vertiginosos, mas, ao mesmo tempo, deliciosos causados pelo excesso de velocidade. E ei-los, novamente, de volta, depois de um século, dir-se-ia; e era, ao mesmo tempo, como se nunca tivessem estado ausentes. O automóvel parou; Helena, porém, não fez nenhum movimento para desembarcar.

— Que é que há? — perguntou Gerry. — Por que não desce?

— É terrível, esse fim. Como um encanto que se desfaz. Como quando se sai de um círculo mágico.

— Mágico? — repetiu ele, perguntando. — De que espécie? Branco ou preto?

Helena riu. — Malhado. Absolutamente celestial e absolutamente imponente. Sabe, Gerry? você devia ser metido na cadeia, por dirigir um carro assim. Ou num hospício de alienados. Louco e criminoso. Mas eu adoro isso, — acrescentou enquanto abria a porta do carro e descia.

— Bem! — foi tudo quanto ele disse, enquanto lhe atirava um sorriso que procurou tornar o menos amoroso possível. Engrenou o carro e partiu como uma bala em volta da casa, fazendo desprender-se um fedor de óleo de rícino em combustão. E rumou para a garage.

Encantadora! pensava. E quão avisado ele fora em se ter comportado com ela como um irmão mais velho, jovial, virtuoso! Era a isca. Para a caça ir-se acostumando. Daí a pouco ela estaria comendo na mão dele. Em Mary é que estava, sem dúvida, o busilis. Fêmea importuna! pensou, com uma súbita sensação de náusea. Ciumenta, desconfiada, intrometida. Conduzindo-se como se ele fosse sua propriedade particular. E sôfrega, insaciável. Perpetuamente grudada a ele, esfregando nele aquele seu corpo velhusco. E enquanto manobrava para meter o carro na garage, rugas de repugnância lhe encarquilhavam o rosto. Mas graças a Deus, continuava ele a refletir, graças a Deus ela tinha apanhado aquela eólica de fígado ou lá o que era. A coisa deveria pô-la quieta por algum tempo, impedi-la de lhe barrar a passagem.

Sem se dar ao incômodo de tirar o capote, completamente esquecida da doença da mãe e até, por um momento, de que ela sequer existisse, Helena atravessou o "hall" e, quase correndo, irrompeu na cozinha.

— Onde está o Tompy, Mrs. Weeks? — reclamou da cozinheira. O efeito produzido pelo sol, pelo ar do campo e pelo automóvel de Gerry, pelo "Bugatti", fora tal, que ela sentia agora uma necessidade absoluta de tomar nos braços o gatinho. Imediatamente. — Preciso saber onde está o Tompy, — insistia. E à guisa de desculpa e explicação, ajuntou: — Desde manhã que ainda não tive tempo de vê-lo; saímos hoje tão às pressas.

— O Tompy parece que não está passando muito bem, não, miss Helena, — informou Mrs. Weeks, pondo a costura para o lado.

— Não está passando bem?

— Eu o trouxe aqui para dentro, — continuou Mrs. Weeks, levantando-se de sua cadeira Windsor e conduzindo Helena para a copa. — Aqui é mais fresco. Ele parecia sentir tanto calor. Parecia, assim, que estava com febre. Francamente, eu mesma não sei o que é que ele tem, — concluiu num tom meio de queixa, meio de pena. Tinha pena do Tompy. Mas também tinha pena de si própria, porque Tompy lhe dera todo aquele incômodo.

O gatinho estava deitado num lugar escuro, debaixo da pia. Agachando-se ao lado do cesto, Helena estendeu a mão para apanhá-lo. Depois, com uma breve exclamação de horror retirou-a, como se sentisse o contacto de algo repelente.

— Mas que foi que lhe aconteceu? — gritou.

O pêlo malhado do bichano perdera toda a sua maciez, todo o seu lustre sedoso, dispondo-se em tufos úmidos irregulares. Os olhos fechados e gosmentos segregavam uma substância amarela. Um corrimento no nariz sujara-lhe toda a careta, desfazendo o belo arranjo que o pêlo compunha. O absurdo e lindo Tompyzinho com que ela brincara ainda na véspera, o engraçado e admirável Tompy que ela erguera, patético e indefeso, numa das mãos, que esfregara contra o rosto, em cujos olhinhos fixara os seus olhos, desaparecera e deixara em seu lugar um trapo mole e impuro com um restinho de vida. Tal qual aqueles rins — ocorreu-lhe subitamente, de envolta com uma náusea; mas logo se envergonhou de semelhante pensamento, logo se envergonhou de ter,, com aquele seu primeiro gesto de retraimento, provocado automaticamente tal pensamento, antes mesmo de concebê-lo conscientemente.

— Que vileza, a minha! — pensou. — vileza absoluta!

Tompy estava doente, precário, talvez morrendo. E ela levava es seus melindres ao ponto de ter nojo de tocá-lo. Esforçando-se por vencer a repugnância, estendeu mais uma vez a mão, apanhou o gatinho e, com os dedos da mão que ficara livre, acariciou-lhe (com que relutância e náusea!) o pelo lambuzado e úmido. As lágrimas apontaram-lhe nos olhos, extravasaram, correram-lhe pelas faces.

— Hediondo! Hediondo! — repetia, com a voz entrecortada. Coitado do Tompyzinho! Meu belo, adorável, meu tão engraçado Tompyzinho! Trucidado — não pior do que isso: reduzido a um mulambo nojento; sem motivo nenhum, nem sentido nenhum; e num dia como este, neste dia maravilhoso, com as nuvens passando sobre White Horse, o sol coando-se por entre as folhas na floresta de Savernake. E agora, para cúmulo de males, ei-la com nojo do pobre bichinho, repugnada de tocá-lo, como se ele fosse um daqueles rins imundos... Ei-la ali, ela, que fingira gostar dele, que, de fato, gostava dele, emendou-se pressurosa. Mas não adiantava estar agora a segurá-lo assim, a afagá-lo assim; isso não modificava em nada o que ela estava realmente sentindo. Podia executar como quisesse o gesto tendente a dominar sua repugnância; a repugnância continuava. A despeito do bem que lhe queria.

Ergueu o rosto em pranto para Mrs. Weeks. — Que é que eu devo fazer?

Mrs. Weeks sacudiu a cabeça. — Não me parece que haja muito coisa a fazer, — disse. — Com gatos, não creio.

— Mas é preciso que se faça qualquer coisa.

— A única coisa a fazer é deixá-lo sozinho, — insistia Mrs. Weeks, com um pessimismo reforçado pela decisão de não se amofinar. Depois, condoendo-se do estado precário em que Helena se achava, ajuntou, para consolá-la: — Ele vai ficar bom, ele vai ficar bom. Não é preciso chorar. Basta só deixá-lo dormir, que passa.

Soaram passadas nos lajedos do pátio da cavalariça e através da janela aberta entravam as notas do fox. "Oh, sim, senhor, esta pequena é minha," assoviado com certa desafinação. Helena, que estava de cócoras, ergueu-se logo e, voltando-se para a janela, gritou:. — Gerry! — E em seguida acrescentou, como em resposta à expressão de comiseração e surpresa que notou nele: —Aconteceu uma coisa horrível.

Nas mãos grandes e vigorosas do rapaz era de fazer pena a insignificante pequenez de Tompy. Mas com que delicadeza e eficiência ele o tratava. Vendo-o limpar os olhos do gatinho, tirar-lhe o muco das ventas, Helena admirava-se da delicadeza e precisão de seus movimentos. E pôs-se a refletir, com uma consciência mais viva de sua vergonhosa inépcia, que ela própria não pudera fazer outra coisa senão afagar o pêlo de Tompy e sentir-se enojada. Inconcebível, absolutamente inconcebível! E quando ele lhe pediu que o ajudasse a fazer Tompy engolir meia cápsula de aspirina dissolvida no leite, ela ficou, como se diz, cheia de dedos e acabou entornando o remédio.

— Eu acho que sozinho me arranjo melhor, — disse ele. E tomou-lhe a colher da mão. Sua humilhação atingiu o auge...

Mary Amberley estava indignada. Ali estava ela, com febre e sentindo dores, cheia de amofinações que ainda mais lhe aumentavam a febre e as dores e que eram motivadas pela idéia do perigoso passeio com Gerry na direção. E, entretanto, ali estava Helena, entrando casualmente no seu quarto depois de estar em casa havia mais de duas horas — mais de duas horas sem ter tido sequer a decência comum de vir ver como ela estava mais de duas horas, enquanto sua mãe — sua mãe, note-se bem! — jazia ali, angustiada e aflita, a pensar num desastre que talvez lhes tivesse acontecido.

— Mas eu encontrei Tompy morrendo, — explicava Helena- — Acaba de morrer, agora mesmo. Tinha o rosto muito pálido, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas.

— Bem, se você prefere um mísero gato à sua mãe...

— Além do mais, você estava dormindo, Se não estivesse dormindo, teria ouvido o barulho do automóvel, quando chegamos..

— Faltava só isto, agora: não querer que eu durma, — disse a sra. Amberley com azedume. — Será que não posso ter um momento de trégua para minhas dores. Além do que, — acrescentou, — eu não estava dormindo, como você diz. Eu me encontrava num estado de delírio. Tenho estado várias vezes assim, hoje. Certamente que não ouvi o barulho do carro. — Deparou-se lhe aos olhos a garrafa de "Somnifaine" sobre a mesinha ao lado da cama, e a desconfiança de que Helena também a tivesse nota. do tornou-a ainda mais zangada. — Seu egoísmo não é nenhuma novidade para mim, — continuou ela. — Mas uma coisa eu devo dizer: é que não imaginava, nunca imaginei que a coisa chegasse a esse ponto.

Noutra ocasião Helena teria tratado de se defender, ter-se- ia zangado, ou então, reconhecendo-se culpada, teria desatado a chorar. Naquele momento, porém, ela se sentia tão miseranda que não podia derramar mais lágrimas; tão subjugada pela vergonha e pela infelicidade, que se tornara insensível à mais flagrante injustiça. Seu silêncio exasperou ainda mais a sra. Amberley.

— A mim sempre me parecia, — voltou ela à carga, — que você era egoísta somente por estouvamento. Mas agora vejo que você não tem entranhas. De uma insensibilidade perfeita. Aqui estou eu — eu que sacrifiquei por você os melhores anos de minha vida; e que é que recebo em paga? — Sua voz tremia ao fazer tal pergunta. Estava convencida da realidade desse sacrifício, profundamente abalada pela lembrança de sua extensão, de sua enormidade que o tornava um verdadeiro martírio. — A mais cínica indiferença. Eu podia morrer e ser atirada à vala comum, que você pouco se incomodava. Incomodar-se-ia muito mais com o seu gato. E agora, trate de retirar-se, — disse, quase gritando, — saia daqui! Já estou sentindo o sangue me subir à cabeça. Saia daqui!

Depois de um jantar solitário — pois Helena tinha ficado em seu quarto a pretexto de uma dor de cabeça — Gerry subiu, a fim de fazer companhia à sra. Amberley. Estava particularmente encantador nessa noite, e tão afetuoso e solícito, que Mary chegou a esquecer todos os motivos acumulados de queixa e de novo se sentiu apaixonada por ele, desta vez por uma série de outras razões — não porque fosse bonito, não porque fosse o tipo consumado do amante cruel, do amante que dominava com facilidade e insolência, mas porque era bondoso, atencioso, afetuoso, porque era, numa palavra, tudo aquilo que ela antes tinha sabido que ele não era.

O relógio bateu dez e meia. Ele ergueu-se da cadeira. — São horas de você dormir.

Mary protestou; ele insistiu, com firmeza — para bem dela mesma.

Trinta gotas eram a dose normal de "Somnifaine"; mas ele contou quarenta e cinco, para ter a certeza de que ela dormiria, fê-la beber e, depois, aconchegou-a debaixo das cobertas (como uma cria velha da casa, exclamou ela, rindo de prazer, enquanto ele se ocupava de uma coisa e outra em volta da cama); enfim, depois de desejar-lhe boa noite com um beijo em que havia uma ternura quase maternal, apagou a luz e deixou-a.

O relógio da igreja soou onze horas. Ao ouvir as pancadas do sino distante, Helena pensava quanto eram tristes e desoladores. Era como se estivesse ouvindo a voz do seu próprio espírito, vinda misteriosamente como um revérbero das paredes da noite circunstante. Uma, duas, três, quatro... Cada uma das suaves notas que vibravam no ar parecia mais inapelàvelmente funérea do que a anterior, parecia erguer-se das profundezas de uma solidão mais extrema. Tompy morrera e ela não fora, sequer, capaz de dar-lhe uma colherada de leite com aspirina dissolvida, não tivera força para vencer sua repugnância.

Egoísta e sem entranhas; sua mãe tinha toda a razão. Mas, não menos do que egoísta, sentia-se solitária, isolada, inteiramente só em meio às malignidades absurdas que haviam tirado a vida ao pobre Tompyzinho; e a sua frieza, a sua insensibilidade, a sua indiferença falavam com a voz desesperada daquele sino; e, em volta, a noite era vazia e enorme.

— Helena!

Ela sobressaltou-se e virou a cabeça. Era impenetrável a escuridão do quarto.

—Sou eu, — continuou a voz de Gerry. — Fiquei tão preocupado com você. Está se sentindo melhor?

De surpresa e alarmada que a princípio estivera, Helena passou a sentir-se contrariada de se ver assim surpreendida por um intruso em sua infelicidade toda íntima. — Não precisava vir me amolar, — disse friamente. — Eu não tenho nada.

Envolto em sua branda aura de fumo turco, de pasta de dentes aromatizada com hortelã pimenta, de cosmético de folhas de louro, ele foi-se aproximando sem ser visto. Uma mão tateante tocou o cobertor e tocou, por fim, a pele dela; depois as molas do enxergão rangeram e arfaram sob o peso, ao sentar-se ele sobre a beira da cama.

— Eu me senti um tanto responsável, — prosseguiu ele. — Todo aquele "looping the loop"! O tom de sua voz implicava um sorriso invisível, sugeria um piscar caprichoso e afetuoso de olhos ocultos.

Ela não fez comentário algum. O silêncio foi longo. Abri mal o jogo, pensou Gerry, franzindo a testa na escuridão; depois começou de novo, mudando de tática.

— Não posso deixar de me lembrar desse infeliz Tompyzinho, — disse com uma voz diferente. — Extraordinária, a perturbação em que se fica quando um animal fica doente dessa maneira. Parece uma injustiça terrível.

Daí a alguns minutos ela chorava; e isso foi pretexto para ele consolá-la.

Brandamente, como quando tratara de Tompy, e com toda aquela ternura que tanto comovera a sra. Amberley, ele pôs-se a afagar-lhe os cabelos e, mais tarde, quando os soluços diminuíram, correu os dedos da outra mão ao longo de seu braço nu. Repetidamente, com uma regularidade paciente de ama acalentando o bebê para fazê-lo dormir. Repetidamente... Trezentas vezes pelo menos, pensava ele, antes de arriscar qualquer gesto que porventura pudesse ser interpretado como um gesto de amor. Trezentas vezes; e, ainda depois, as carícias teriam que desviar-se por graus insensíveis, como por uma série de acidentes, ate que, gradualmente, involuntariamente, a mão que estava agora sobre o braço dela viesse afinal roçando, com a mesma persistência maternal, sobre o seio, enquanto os dedos que iam e vinham metòdicamente por entre os anéis dos cabelos desviar-se-iam para a orelha, e da orelha, passando pela face, chegariam aos lábios, onde se demorariam levemente, castamente, mas pejados das alvíssaras dos beijos, procuradores e precursores da boca, que por último desceria sobre a dela, na escuridão, como recompensa. sua longa paciência.

 

3 de março de 1928

 “REORGANIZAÇÃO..." "Reajustamento..." "Lançamento de valores em dinheiro à luz das condições comerciais existentes..." Anthony ergueu os olhos da página impressa. Reclinada nos seus travesseiros, Mary Amberley tinha, conforme ele então notou, os olhos fixos nele com uma atenção incômoda.

— Então? — perguntou ela, inclinando-se para a frente. Uma mecha do seu cabelo desalinhado e pintado com hena de uma impossível cor de laranja caía-lhe ebriamente sobre a testa. Sua jaqueta de dormir abria-se à medida que ela se movia; sob a renda suja, os seios pendentes baloiçavam diante de Anthony.

— Que quer dizer isso?

— Quer dizer que eles estão delicadamente declarando-se falidos.

— Falidos?

— Pagam-lhe seis chelins e oito pence por libra.

— Mas Gerry me disse que os negócios iam correndo tão bem, — protestou ela num tom de queixa e de zanga.

— Gerry não sabe tudo, — ele explicou caridosamente.

Mas não havia dúvida que o rufião estava perfeitamente ao par de tudo; tinha sido informado, tinha agido com conhecimento de causa, tinha sido devidamente pago pelos negocistas que queriam resgatar suas ações antes que a coisa estourasse. — Por que não se informa com ele mesmo a respeito? — disse Anthony em voz alta e num tom que implicava certo ressentimento por ter sido levado a ocupar-se, na noite mesma de seu regresso de Nova York, com as complicações da tragédia sórdida de Mary. Todos os outros, supunha ele, tinham fugido dela logo que ela começou a tomar morfina; só ele, dentre todos os seus amigos, tendo estado fora da Inglaterra durante meio ano, só ele não tinha tido nenhuma oportunidade, nem encontrado razão para fugir. A ausência havia conservado a amizade entre os dois no mesmo estado em que se achava quando ele partiu; a ausência exercera, por assim dizer, a função de um frigorífico. Quando ela lhe pedira, insistente, que viesse vê-la, ele não encontrou pretexto para recusar. Além disso estavam exagerando; ela talvez não fosse tão ruim assim como diziam.

— Por que é que você não pergunta a ele mesmo? — repetiu, irritado.

— Ele foi para o Canadá.

— Ah, ele foi para o Canadá.

Seguiu-se um silêncio. Ele depôs o papel sobre a coberta. A sra. Amberley apanhou-o e tornou a lê-lo — pela centésima vez, na absurda e louca esperança de talvez encontrar nele, desta centésima vez, qualquer coisa de novo, qualquer coisa de diferente.

Anthony contemplava-a. A lâmpada sobre a mesa de cabeceira iluminava o perfil que ela lhe apresentava, envolvendo-o num brilho impiedosamente revelador. Como estavam encovadas as suas faces! E aquelas linhas em volta da boca, aquela pele empapuçada e descorada sob os olhos! Recordando-se do que ela era quando a vira pela última vez, naquela ocasião em Berkshire, ainda no verão anterior, Anthony ficou assombrado. Em dez meses a droga a fizera mais velha vinte anos. E não era somente o.seu corpo que tinha sido devastado; a morfina mudara-lhe também o caráter, transformara-a noutra pessoa, em alguém (não tinha havido exagero nenhum) em alguém muito pior. Aquela sedutora distração, por exemplo, aquela indeterminação, de que ela sempre se mostrava tão irritantemente vaidosa, como de mais um atrativo feminino, estava agora quase reduzida à indiferença de uma idiota. Esquecia tudo, não estava ao par de coisa alguma; e, sobretudo, não se interessava por coisa nenhuma, não podia mais ter a menor preocupação.

Grotescamente tintos (na esperança, ao que ele supunha, de recuperar alguns dos atrativos cuja perda ela não podia evitar que se notasse) seus cabelos estavam gordurosos e despenteados. Uma lambuzação de tinta vermelha, aplicada sem arte nem jeito, aumentava-lhe o lábio inferior, dando-lhe uma disformidade assimétrica. Uma ponta de cigarro tinha queimado o "edredon", produzindo um buraco redondo por onde a penugem saía como flocos de neve, de cada vez que ela se mexia. Os travesseiros estavam cheios de manchas de "rouge", e de gema de ovo. Havia uma mancha parda de café no lençol dobrado. Entre o seu corpo e a parede, a bandeja em que fora trazido o jantar equilibrava-se instável. Ainda suja de molho de carne, uma faca tinha escorregado para cima da colcha.

Com um movimento súbito, a sra. Amberley amarrotou o papel e jogou-o fora. — Esse animal! — exclamou, numa voz trêmula de raiva. — Esse animal! Forçou-me por todos os meios e modos a pôr o meu dinheiro nisto. E aí está qual foi o resultado! — As lágrimas saltaram-lhe dos olhos, dissolvendo a tinta preta das pestanas em longos fios fuliginosos que lhe corriam pelas faces.

— Ele fez isso de propósito, — prosseguiu ela por entre soluços cheios de ira. — Com o fim exclusivo de me fazer mal. É realmente um sádico. Tem o gosto especial de fazer mal aos outros. É por prazer que ele faz isso.

— Por lucro, — esteve quase a dizer Anthony; mas conteve-se. Ela parecia encontrar certo consolo na idéia de ter sido enganada, explorada, não por motivos vulgares de ordem comercial, mas gratuitamente, em conseqüência de uma malignidade demoníaca, aliada e decorrente da paixão amorosa. Seria uma falta de generosidade privá-la de semelhante ilusão. Que a pobre mulher se entretivesse com os pensamentos que achasse menos penosamente humilhantes. Além disso, era de esperar que, quanto menos ele a contradissesse e divertisse, tanto mais depressa ela se calaria. Aliando à prudência a indulgência, ele contentou-se com um gesto de assentimento sem compromisso.

— Quando penso em tudo quanto fiz por esse homem! — explodiu a sra. Amberley. Mas, enquanto ela recitava seu catalogo incoerente de generosidades e gentilezas, Anthony não pôde deixar de pensar no que o homem tinha feito por ela acima de tudo, nos termos em que Gerry costumava descrever o que tinha feito. Termos de uma incrível molecagem, o ouvinte deixava-se empolgar, era tomado de um riso súbito, envergonhava-se de que brutalidades inadmissíveis como aquelas contivessem qualquer parcela de verdade. E, todavia, elas eram mesmo verdadeiras.

— Todas as pessoas mais inteligentes de Londres, — disse a sra. Amberley entre soluços, — todas, ele as encontrou em minha casa.

— Essas velhas megeras! — soava na memória de Anthony, claramente, a voz de Gerry Watchett. — São capazes de tudo, absolutamente de tudo, para conseguirem a coisa.

— Não que ele as apreciasse, — continuou ela. — Era muito estúpido, muito bárbaro.

— Não é realmente má, a velha cadela, desde que obtenha o bastante para ficar quieta. O problema está em dar-lhe o suficiente. E posso lhes assegurar que é trabalho penoso.

Ao tom de cólera sucedia o de comiseração de si mesma. — Mas o que é que eu vou fazer? — gemia ela. — Que posso eu fazer? Sem um níquel. Viver de esmola.

Ele procurou tranqüilizá-la. Que ainda havia alguma coisa. Uma quantiazinha razoável, na verdade. Que ela nunca haveria de passar fome. Se levasse a vida com cuidado, se economizasse ...

— Mas terei que ficar sem esta casa, — interrompeu ela; e, quando ele concordou que, certamente, ela teria que ficar sem a casa, entrou em novas e mais altas lamentações. Ficar sem a casa era pior do que ficar sem um níquel e viver de esmolas — pior, porque mais concebível, uma contingência mais próxima das realidades da sua vida presente. Sem os seus quadros, sem os seus móveis, como poderia ela viver. A fealdade ambiente tornava-a fisicamente enferma. E, depois, os pequenos aposentos... nos pequenos aposentos haveria de desenvolver-se nela a claustrofobia. E como lhe seria possível viver sem os seus livros? Como podia ele esperar que ela trabalhasse quando fosse pobre? Pois, naturalmente, ela ia trabalhar; já tinha planejado um estudo crítico do romance francês moderno. Sim, como podia ele esperar dela que fizesse isso, privando-a de seus livros?

Anthony mexeu-se com impaciência na cadeira. — Eu não espero que você faça coisa alguma. Estou simplesmente lhe expondo o que você verificará que tem a fazer, — disse.

E um silêncio sobreveio. Depois, com um sorrisozinho que procurou tornar agradável e atraente, ela queixou-se: — Já está você ficando zangado comigo.

— Absolutamente. Estou apenas pedindo a você que encare os fatos de frente. — Levantou-se e, sentindo-se em perigo de ser ver inextricàvelmente enredado na desgraça de Mary, afirmou simbolicamente seu direito à liberdade andando sem cessar no aposento, para um lado e para o outro. — Eu deveria conversar com ela a respeito da morfina, — pensava consigo; — procurar convencê-la de que devia entrar para um asilo e tratar-se. No interesse dela mesma. No interesse da pobre Helena. — Mas sabia bem quem era Mary. Ela por-se-ia a protestar, faria um berreiro enorme, ficaria furiosa. Coisa parecida com um conflito num café. Ou pior, muito pior, pensava ele com um estremecimento; ela se arrependeria, faria promessas, banhar-se-ia em lágrimas. Ele teria que assumir o papel de seu único amigo, seu amparo moral na vida. Em conclusão, não disse nada. — Não adiantaria nada, — certificou-se. — Nunca se consegue nada com esses casos de morfina. O que há a fazer é enfrentar a realidade. — Uma chatice sem sentido — mas, que havia mais a dizer?

Inesperadamente, com uma alacridade submissa que ele achou positivamente inquietadora, ela concordou com ele. Oh, de perfeito acordo! Não adiantava chorar depois do caldo entornado. Não adiantava construir castelos no ar. Do que se precisava era de um plano — de muitos planos — planos sérios, práticos, sensatos, para a nova vida. Sorriu para ele com um ar de conivência, como se fossem dois conspiradores.

Relutando, com certa desconfiança, ele aceitou-lhe o convite para sentar-se à beira da cama. Desdobraram-se os planos — sérios até certo ponto. Um pequeno apartamento em Hampstead. Ou então, uma casinha numa daquelas ruas miseráveis a Pouca distância de King's Road, no Chelsea. Ela poderia ainda dar uma recepção, baratinha. Os verdadeiros amigos, com certeza, compareceriam, apesar do caráter modesto da festa. Não era verdade que compareceriam? — insistia ela na ânsia patética de uma confirmação.

— Com certeza, — viu-se ele forçado a dizer; muito embora não fosse esse ar modesto que haveria de afugentá-los; era a sujeira, a imundície, a morfina, o cheiro nauseante que sé desprendia do seu hálito.

— Poderemos organizar a festa da garrafa, — continuava ela em seus projetos. — Vai ser um gozo! — Seu rosto iluminou-se. — Que garrafa vai você trazer, Anthony? — E, antes que ele respondesse, prosseguiu: — Haveremos de ficar numa bebedeira louca com todas essas bebidas misturadas. Um pifão único... — Um momento mais tarde, ela havia começado a dizer das investidas amorosas que George Wyvern tivera a lembrança de fazer-lhe naqueles últimos dias. Coisa bastante embaraçosa, em tais circunstâncias, visto que Sally Wyvern também era... Bem! Sorriu, com aquele seu sorriso enigmático em que os lábios se apertavam e as pálpebras mal se abriam. E o que era mais extraordinário, verdadeiramente extraordinário, era que o próprio Hugh Ledwidge, Hugh Ledwidge em pessoa, também tinha posto, ultimamente, as manguinhas de fora...

Anthony escutava, espantado. Aqueles poucos verdadeiros amigos se haviam transformado, como por um passe de mágica, numa verdadeira falange de encarniçados amantes. Seria que ela seriamente acreditava em suas próprias invenções? Fosse como fosse — raciocinava ele — não parecia ter importância o fato dela acreditar ou não. Mesmo que não acreditasse, tais ficções tinham evidentemente o poder de levantar-lhe o moral, de restituí-la, ao menos por um momento, a um estado de alegria e de confiança em si.

— Aquela vez em Paris, — dizia ela, com intimidade. — Lembra-se?

Mas isso já era demais!

— O Hotel des Saints-Pères. — Soltou uma risada subterrânea, numa voz cava e vibrante.

Sem erguer a cabeça, Anthony ia fazendo sinal de que se lembrava. Mas o que ela visivelmente queria, era que também ele sentisse essa nota de alegria significativa e desenvolvesse a referência escabrosa àquela antiga troça de ambos com os Santos Padres e aos prazeres que haviam usufruído sob aquele alto patrocínio eclesiástico. Na linguagem especial de que então se serviam "fazer um pouquinho de Santo Padre", ou, mais idiomàticamente ainda, "fazer o Santo" significava "faire 1'amour". Ele franziu a'testa, sentindo, de súbito, grande cólera. Como se atrevia ela...?

Os segundos iam-se passando. Num esforço desesperado por encher o glacial abismo do silêncio dele, Mary disse, em tom de reminiscência sentimental: — Foi uma ocasião, aquela em que nos divertimos muito.

— Muito, — repetiu ele, da maneira mais automática possível.

De repente, ela tomou-lhe a mão. — Anthony querido!

— Valham-me todos os deuses! — pensou ele; e procurou com a possível delicadeza, desvencilhar-se. Mas a pressão daqueles dedos quentes e secos não cedia.

— Nós fomos uns tolos, quando brigamos, — prosseguiu ela. — Ou melhor, eu é que fui uma tola.

— Absolutamente, — disse ele com polidez.

— Aquela aposta idiota. — Pôs-se a balançar a cabeça. — E Sidney...

— Você fez o que queria fazer.

— Fiz o que eu não queria fazer, — respondeu ela prontamente. — Estamos sempre a fazer coisas que não queremos fazer... estupidamente, por simples perversidade. Escolhemos o pior, precisamente porque é o pior. Hipérion em confronte com um sátiro? Logro, escolhemos o sátiro.

— Mas, para certos fins, — ele não pôde deixar de dizer — o sátiro talvez satisfaça mais.

Como se não lhe tivesse ouvido a observação, Mary suspirou e fechou os olhos.

— Fazendo o que não queremos, — repetiu, como para s própria. — Sempre fazendo o que não queremos, — Soltou; mão dele e, enclavinhando as próprias por trás da cabeça, recostou-se sobre os travesseiros, na atitude, na conhecida e familiar atitude que, no Hotel des Saints-Pères, fora tão deliciosa en sua graciosa indolência, de uma provocação irresistível, por efeito do colo branco e roliço estendido para trás como o colo de uma vítima, daqueles seios que se ofereciam erguidos e tesos sob a renda. Agora, porém, a renda estava suja e rota, os seios pendiam cansados sob o próprio peso, o colo da vítima já não era mais uma coluna lisa de carne branca, mas estava murcho, enrugado, cheio de sulcos entre os tendões salientes.

Quando ela abriu os olhos, ele reconheceu, estremecendo, no olhar que ela lhe dirigia, o mesmo, o mesmíssimo olhar, a um tempo terno e cínico, a um tempo velhaco e cheio de um lânguido abandono, com que ela o convidara, então, irresistivelmente, em Paris, já lá iam quinze anos. Era o olhar de 1913 no rosto de 1928, numa união dolorosamente híbrida. Fitou-a por um ou dois segundos, assombrado. Conseguiu, depois, romper o silêncio.

— Tenho que retirar-me.

Antes, porém, que tivesse tempo de levantar-se, já a sra. Amberley se inclinara, rápida e lhe punha as mãos nos ombros.

— Não, não vá. Não deve ir. — Ela tentou repetir aquele convite ridiculamente voluptuoso, mas não pôde evitar que surgisse em seus olhos uma expressão de profunda ansiedade.

Anthony meneou a cabeça e, a despeito daquele cheiro nauseante de éter, fez o possível por sorrir, ao mesmo tempo que mentia ter prometido comparecer, às onze horas, a uma reunião extraordinária. Brandamente, mas com um movimento firme e decidido, suspendeu as mãos que o seguravam e ficou de pé ao lado da cama.

— Boa-noite, Mary querida! — pronunciou, com certo calor na voz. Já agora, podia mostrar-se afetuoso. — "Bon courage!" — Comprimiu entre as suas as mãos dela; depois, curvando-se, beijou, primeiro uma, depois a outra. Agora que estava de pé e tendo o caminho da liberdade desembaraçado diante de si, sentia-se à vontade para entregar-se a qualquer, ou quase qualquer extravagância emocional. Mas, em lugar de aceitar a parada, Mary Amberley respondeu-lhe com um olhar fixo, como que petrificado, em que se resumia toda a sua irremediável miséria. A máscara que ele compusera e de que irradiava toda aquela bizarria de afetuosidades pareceu de súbito contrastar horrivelmente com a realidade da situação. Nos próprios músculos faciais ele pôde sentir-lhe fisicamente toda a incongruência. Bobo, hipócrita, covarde! Mas, foi quase a correr, que ele se dirigiu para a porta e desceu as escadas.

"Se uma mulher", — Helena estava lendo na Enciclopédia — “se uma mulher ministra a si própria qualquer veneno ou outra droga nociva, ou ilegitimamente se serve de qualquer instrumento ou de outros meios para provocar o próprio aborto, é culpada de..." Chegou-lhe aos ouvidos o som dos passos de Anthony na escada. Levantou-se e caminhou ligeira para a porta, saindo até ao patamar.

— Olá! — Nenhum sorriso dela em resposta ao seu, nenhuma simulação de prazer ao vê-lo. O rosto que ela ergueu estava tão tragicamente despido de todas as momices convencionais, como o estivera o rosto de sua mãe.

— Mas o que foi que houve, Helena? — exclamou ele, de assustado que estava. Ela olhou-o por alguns segundos em silêncio, sacudiu, depois, a cabeça e passou a fazer-lhe perguntas acerca dos tais títulos, de toda a situação financeira.

Naturalmente — estava ele pensando enquanto lhe respondia às perguntas — naturalmente era de esperar que ela achasse tudo aquilo um grande transtorno. Mas um transtorno até esse ponto — tornou a olhar para ela: não, isso ninguém esperaria. Pois não era o caso que a pequena tivesse pela mãe uma devoção sem limites. Como poderia tê-la, em face do egoísmo feroz de Mary. E além de tudo, já havia quase um ano que a infeliz mulher se dava ao vício da morfina. Era provável que, já agora, o horror tivesse perdido um pouco de sua intensidade. E, entretanto, ele nunca tinha visto um rosto tão infeliz. E não era justo que a tanta mocidade, a tanto frescor se viesse juntar uma expressão de tão intenso desespero. O vê-la assim fez que ele se sentisse, de certo modo, culpado — responsável. Mas a um gesto seu de simpatia e de ansiedade curiosa, ela apenas respondeu com abanar a cabeça, recuar e virar o rosto.

— É melhor que você se retire, — disse ela.

Anthony hesitou um momento e, depois, retirou-se. Afinal era essa a vontade dela. Ainda se sentindo culpado, mas com uma grande sensação de alívio, fechou atrás de si a porta da rua e, depois de uma respiração profunda, dirigiu-se para a estação do Subterrâneo.

Helena voltou ao seu volume da Enciclopédia. "...para provocar o próprio aborto, é culpada de crime capital. O castigo por esta ofensa consiste em galés perpétuas, ou por três anos no mínimo, ou prisão por dois anos no máximo. Se criança nascer viva..." Mais eles não diziam quais eram os venenos próprios, nem que espécie de instrumentos se tinham de usar, nem como usá-los. Somente essa insuportável tolice sobre trabalhos forçados. Mais uma válvula de escape que Se fechava contra ela. Era como se o mundo todo tivesse conspirado para enclausurá-la com o seu segredo imaginariamente assombroso.

Melódico, o relógio do salão dos fundos bateu as onze. Helena ergueu-se, recolocou em seu lugar o pesado volume e subiu a escada para ir ao quarto da mãe.

Com um cuidado e precisão de movimento que não lhe eram habituais, a sra. Amberley ocupava-se, quando a filha entrou, em encher uma seringa hipodérmica com o líquido de uma pequena ampola de vidro.

Sobressaltou-se quando a porta se abriu, ergueu os olhos, fez um gesto como para esconder a seringa e a ampola sob as roupas da cama; depois, receosa de entornar qualquer parcela do precioso líquido, suspendeu o gesto em meio.

— Vá-se embora! — gritou zangada. — Por que entra sem bater? Não quero que entre no meu quarto sem bater, — repetiu com mais estridência, contente de ter descoberto um pretexto para sua fúria.

Helena ficou um ou dois segundos na porta, completamente imóvel, como que incrédula do que os seus olhos testemunhavam; em seguida, entrou no quarto a passos rápidos.

— Dê-me essas coisas, — disse, estendendo a mão.

A sra. Amberley recuou na direção da parede. — Vá-se embora! — gritou.

— Mas você prometeu...

— Não prometi coisa nenhuma.

— Você prometeu, mamãe.

— Não prometi. E, seja como for, eu faço o que eu quiser. Sem dizer mais nada, Helena estendeu o braço e segurou a mãe pelo punho, A sra. Amberley deu um grito tão alto que, receosa de que os criados acudissem a ver o que acontecera, Helena deixou de apertá-la.

A sra. Amberley cessou de gritar; mas o olhar que lançou .. Helena era de uma malquerença apavorante. — Se você fizer entornar uma gota disso, — disse com uma voz trêmula de raiva, — eu mato-a. Mato-a! — repetiu.

Entreolharam-se por um momento, sem dizer palavra. Foi Helena quem rompeu o silêncio. — Você queria me matar, — disse pausadamente, — porque eu não deixo que você se mate.  Encolheu os ombros. — Está bem; eu suponho que, se você quer realmente se matar... — Deixou a frase inacabada.

A sra. Amberley olhou para ela fixamente e em silêncio. Se você quer realmente... — Lembrou-se das palavras que dirigira a Anthony somente alguns minutos antes e, de súbito, as lágrimas lhe correram pelas faces. Sentia-se esmagada pela piedade de si mesma. — Pensa que é porque eu quero, que faço isto? — E as suas palavras eram entrecortadas pelo choro. — Eu abomino isto. Abomino imensamente. Mas não posso evitar.

Sentando-se na beira da cama, Helena passou o braço em volta dos ombros da mãe. — Querida mamãezinha! — implorou.

— Não chore. Tudo isso se resolverá. — Estava profundamente comovida.

— O culpado de tudo é o Gerry, — exclamou a sra. Amberley; e sem notar o ligeiro estremecimento de Helena, prosseguiu: — Ele é que tem a culpa de tudo isso. De tudo. Eu já sabia que ele era um monstro. Mesmo quando eu estava mais caída por ele.

Como se a mãe se houvesse tornado subitamente uma pessoa estranha, com quem não ficasse bem aquele contacto tão intimo, Helena retirou o braço que a enlaçava. — Caída por ele? — murmurou incrédula. — Naquele sentido?

Em resposta a uma pergunta imaginária e completamente diferente, defendendo-se de um reproche que ninguém fizera, a sra. Amberley explicava: — Foi sem que eu quisesse; não pude sentir. Foi assim. — Fez um pequeno movimento com a mão que segurava a seringa hipodérmica.

— Você quer dizer, — insistiu Helena, falando muito lentamente e como que dominando uma relutância quase invencível, — quer dizer que ele era... que ele era seu amante?

O tom estranho dessas palavras despertou na sra. Amberley, pela primeira vez desde o começo da conversa, qualquer coisa como a consciência da existência real, pessoal de sua Voltando-se., olhou para Helena com uma expressão de espanto.

— Então, não sabia? — Diante daquela palidez extraordinária, daqueles lábios que tremiam sem possibilidade de domínio, a velha sentiu-se tomada de um remorso súbito. — Mas, meu amor eu estou desolada. Eu não imaginava... Você é ainda tão jovem; não compreende. Não pode... Mas aonde é que você vai? Venha cá! Volte! Helena!

A porta bateu. A sra. Amberley fez um movimento no sentido de seguir a filha; depois refletiu sobre o caso e, ao invés de segui-la, reassumiu a tarefa interrompida de encher a sua seringa hipodérmica.

 

25 de março de 1928

QUANDO Helena conservava os olhos fechados, animava-se-lhe, impetuosa e caótica, a treva vermelha por detrás das pálpebras. Qualquer coisa como uma estação de via férrea, cheia de gente apressada, de vozes que aturdiam; e as cores inflamavam-se, as formas projetavam-se com nitidez, ornadas de pedrarias, com essa nitidez, mais do que real, das formas e cores que se projetam sob a luz dos refletores. Era como se a febre lhe tivesse reunido dentro da cabeça uma multidão, tivesse acendido lâmpadas e posto o gramofone a funcionar. No fulgor fantástico do palco, as imagens iam e vinham por iniciativa própria, num desrespeito feroz aos próprios desejos de Helena. Iam e vinham, falavam, gesticulavam, representavam seus laboriosos e loucos dramas, sem cessarem, sem se apiedarem da fadiga em que ela estava, sem nenhuma consideração pelo seu ardente desejo de estar só e em repouso. Às vezes, na esperança de que o mundo exterior eclipsasse essa incessante alucinação íntima, ela abria os olhos. Mas a luz incomodava-a; e apesar daqueles ramalhetes de rosas no papel da parede, apesar da colcha branca e das maçanetas na extremidade da cama, a despeito do espelho, das escovas, do frasco de água de Colônia, aquelas imagens do outro lado de seus olhos continuavam vivendo aquela vida que lhes era particular, sem nada que as perturbasse. Vida intensa e doida, agora de uma incongruência extrema, qual uma história inventada por outrem, e daí a  pouco e de repente, torturantemente familiar, torturante dela.

 Nessa manhã, por exemplo, nessa tarde (tarde ou manhã) O tempo era igualmente intérmino e não existente: mas, em todo caso, foi logo depois que Mme. Bonifay tinha vindo vê-la — fedendo, fedendo a alho e a roupa suja), ela tinha visto um grande "hall", com estátuas. Estátuas douradas. Reconheceu Voltaire, com cincoenta pés de altura; e havia um daqueles camelos chineses, mas enormes. As pessoas estavam dispostas em grupos, formando um belo quadro, como pessoas no palco. Efetivamente, elas estavam no palco, representando uma peça de intriga, uma peça com cenas de amor e revólveres. Como fulgiam as gambiarras! Com que clareza e ênfase eles diziam os versos. Cada palavra — um sino, cada imagem — uma lâmpada a luzir, — Mãos ao alto... Amo-te... Se ela cair na armadilha... — E, todavia, quem eram eles, que estavam eles dizendo? E agora, por qualquer estranho motivo, estavam conversando sobre aritmética. Sessenta e seis jardas de linóleo, a três chelins e onze pence a jarda. E a mulher que empunhava o revólver resultou tornar-se, subitamente, Miss Cosmas. Já não havia nenhum Voltaire, nenhum camelo dourado. Somente o quadro negro. Miss Cosmas sempre tivera raiva dela por ser tão fraca em matemática, sempre fora odiosa e injusta. "A três chelins e onze pence". Mas o número da casa de Mme. Bonifay era onze e Helena achou-se mais uma vez caminhando ao longo da rua de la Tombe-Issoire, sentindo-se, a cada passo, cada vez mais apreensiva. Caminhando cada vez mais devagar, na esperança de nunca chegar lá. As casas, porém, precipitavam-se em direção a ela, como as paredes das escadas móveis do Subterrâneo. Vinham céleres para ela e depois, quando o número onze chegava bem em frente, paravam de chofre e sem ruído. "Mme. Bonifay, Sage-Femme de 1ère Classe". Ela ficou a olhar para as palavras, tal qual estivera olhando em realidade dois dias antes; depois, foi continuando seu caminho, justamente como tinha continuado seu caminho então. Mais um minuto só — insistiu ela consigo mesma — até poder vencer seu nervosismo, até que se sentisse menos mal. Subiu a rua de novo e achou-se em um jardim com sua avó e Hugh Ledwidge. Era um jardim murado, tendo a uma das extremidades um bosque de pinheiros. E desse bosque saiu um homem correndo, um homem que tinha na cara uma horrível moléstia de pele. Pústulas, escaras e crostas vermelhas. Pavoroso! Sua avó, porém, limitou-se a dizer: Deus cuspiu-lhe na cara; — e todos riram-se. Mas, continuando a andar, viu que no meio do bosque havia uma cama; imediatamente, sem saber como, era ela que estava deitada essa cama, olhando para outro grupo de pessoas em outro espetáculo, talvez no mesmo espetáculo. Iluminadas pelas luzes da ribalta, com vozes que soavam como sinos em seus ouvidos; mas incompreensíveis, irreconhecíveis. E ali estava Gerry, sentado à beira da cama, beijando-a, afagando-lhe os ombros, os seios_ — Não faça isso, Gerry! Toda essa gente que aí está pode nos ver. Não faça isso, Gerry! — Mas quando tentou empurrá-lo, notou que ele era como um bloco de granito, inabalável; e durante todo o tempo desprendiam-se das mãos e lábios dele leves mariposas que produziam sob a pele dela um prazer fugaz que a agitava toda; e a vergonha, o horror de ser vista por toda aquela gente produzia-lhe ao mesmo tempo uma angústia física toda especial — a sensação de um bicho a agitá-la internamente, um bicho de pés mais finos e que já não era uma mariposa, mas uma barata imensa, revoltante ao tacto, mas revoltantemente deliciosa. — Não faça isso, Gerry, não faça! — E, de repente, lembrou-se de tudo — daquela noite depois que o gatinho tinha morrido, e de todas as outras noites e, depois, dos primeiros sintomas, da ansiedade crescente, e do dia em que telefonara para ele e obtivera como resposta que ele tinha partido para o Canadá, e finalmente do dinheiro, e daquela noite em que sua mãe... — Odeio-o! — gritou; mas quando, com um último e violento esforço, conseguiu arredá-lo, sentiu como que uma pontada tão dolorosa, que esqueceu por um momento o seu destino e se viu inteiramente à mercê da realidade física imediata. Lentamente, a dor foi desaparecendo; o outro-mundo da febre fechou-se de novo sobre ela. E já não era mais Gerry; agora era Mme. Bonifay. Mme. Bonifay com aquela coisa na mão, le vous ferai un peu mal. E já não era a cama no bosque de pinheiros, mas o canapé na sala de Mme. Bonifay. Cerrava os dentes tal qual os tinha cerrado naquela ocasião. Com a diferença que, desta vez, a coisa era pior, pois sabia o que ia acontecer. E sob a luz dos refletores, aquela gente ainda estava ali, representando seu drama. E ali deitada no canapé, ela, ela também, era parte do drama, representava o seu papel do lado de fora; e, por fim, já não era ela própria, mas outra, alguém em traje de banho e com uns seios enormes, como os de Lady Knipe. E que se havia de fazer para impedir que os seus seios chegassem a ficar assim? Era essa possibilidade que os atores, com uma voz vibrante como o som de um sino, mas incompreensível, estavam discutindo, em seu pesadelo. A possibilidade de Helena com uns seios enormes, de Helena com espessos rolos de gordura em volta das ancas, de Helena com rugas nas coxas, de Helena com fileiras e fileiras de filhos — a berrarem durante todo o tempo; e ainda aquele cheiro repugnante de leite azedo; e as suas camisetas bordadas. E aqui, de repente, surgia Joyce empurrando o carrinho pelas ruas de Aldershot. Retirando o bebê. Dando-lhe de comer. Em parte horrorizada, em parte fascinada, ela o contemplava, assim grudado, assim mamando. Comprimindo-se contra o seio, aquela carinha de rã tinha uma expressão acentuada de gula, que gradualmente se ia atenuando à medida que o estômago se enchia, até transformar-se numa expressão de sono, de êxtase imbecil. Mas as mãos — estas eram perfeitamente humanas, estas eram verdadeiras maravilhas, verdadeiros milagres da mais delicada elegância. Lindas, superfinas mãozinhas; irresistíveis mãozinhas! Tomou o bebê das mãos de Joyce, apertou-o muito contra o corpo, baixou a cabeça para poder beijar aqueles dedinhos adoráveis. Mas eis que a coisa que ela segurava em seus braços era o gatinho moribundo, eram aqueles rins que ela roubara do açougue, era aquela coisa horrível que ela, abrindo os olhos, vira Mme. Bonifay apanhar com indiferença e levar para a cozinha dentro de uma bacia de folha.

 

O cirurgião fora chamado a tempo e Helena estava agora fora de todo perigo. Mais animada, Mme. Bonifay havia reassumido o bom humor maternal e rabelaisiano que lhe era natural.

Era quase com uma expressão de pouco caso que ela agora falava de operação que salvara a vida de Helena. "Ton petit curetage", costumava ela dizer com uma espécie de brejeirice jovial, como se estivesse aludindo a algum prazer ilícito. Para Helena, cada tom dessa voz gorda e alegre era mais um insulto, mais uma humilhação. A febre cessara; a fraqueza em que estava não lhe tolhia a lucidez; voltava a habitar o mundo real. Virando a cabeça, pôde ver-se refletida no espelho do guarda-vestidos. E foi com certa satisfação que viu como estava magra, como estava pálida, como tinha por baixo dos olhos aquelas sombras azuladas e transparentes e como os olhos mesmos tinham perdido o brilho e a vivacidade. Bem que poderia agora empoar-se, pintar um pouco os olhos, carminar as faces, pentear-se, dar de novo ao cabelo o seu frescor e brilho; mas, perversamente, preferiu ficar assim, despenteada e em sua palidez doentia. "Como o gatinho", não cessava de pensar. Reduzida a um mulambo imundo de carne mole, transformada, de uma criatura cheia de vida, em qualquer coisa de repelente, naqueles rins, ou naquela coisa sem nome que Mme. Bonifay... Sentiu um arrepio. E agora este ton petit curetage — no mesmo tom em que ton petit amoureux. Era horrível, a última das humilhações. Sentiu-se enojada daquela mulher bestial, mas, ao mesmo tempo, satisfeita de que ela fosse tão hedionda. Aquela vulgaridade grosseira e expansiva era de certo modo adequada, estava de certo modo de acordo com tudo o mais. Mas tão depressa Mme. Bonifay tinha deixado a sala, já ela se punha a chorar em silêncio, na dor que lhe causava a pena de si mesma. Voltando sem ser esperada, Mme. Bonifay encontrou-a, nessa segunda manhã depois do petit curetage com as lágrimas a lhe correrem em fios pelas faces. Sinceramente compadecida, procurou consolá-la. Mas o consolo cheirava, como de costume, a cebola. Fisicamente enjoada, como também irritada com essa intrusão na intimidade de seu sofrimento, Helena voltou-se para o lado e, quando Mme. Bonifay lhe quis impor o seu consolo, sacudiu a cabeça e disse-lhe que se fosse embora. Mme. Bonifay hesitou um instante, depois obedeceu, mas com um insulto pártico em forma de uma observação sugestiva concernente à carta que trouxera e que colocou sobre o travesseiro de Helena. Dele, sem a menor dúvida. Um bom coração, apesar de tudo... A carta era, afinal, de Hugh. "Uma estação de férias em Paris!" — escrevia ele. Da minha pequena e sombria toca, do meio das minhas quinquilharias, que inveja eu tenho de você, Helena! Paris, em pleno verão. Belo em sua alegria, como jamais poderá ser aqui este lugar de distâncias brumosas. Londres é sempre tristonho, ainda mesmo nos dias de sol. A gente aqui vive a suspirar pelas claras e inequívocas rutilâncias do verão de Paris. Como eu quisera estar aí! Primeiro de tudo por egoísmo, pelo prazer de estar com você e fora de Londres e do Museu. E, depois, por altruísmo, por amor de você — porque me inquieta a idéia de você estar sozinha em Paris. Teoricamente, raciocinando, bem sei que provavelmente nada lhe pode acontecer. Mas mesmo assim, mesmo assim — eu gostaria de estar aí, protetor, mas invisível, de tal modo que você não se desse conta de minha presença, nunca sentisse minha dedicação como uma importunidade, mas sentisse, entretanto, a confiança decorrente do fato de estar acompanhada. Não que eu fosse, pobre de mim, um bom arrimo numa apertura. (Como tenho, às vezes, ódio de mim mesmo por causa desta minha incapacidade!) Mas, melhor assim, talvez, do que você estar sozinha. E nunca haveria eu de ser imprudente, importuno, intrometido. Seria como se não existisse; exceto quando você precisasse de mim. Minha recompensa estaria justamente em me achar a seu lado, em vê-la e ouvi-la — a recompensa de quem sai de um meio poeirento e entra num jardim e contempla as árvores em flor e escuta o rumorejar das fontes.

"Uma coisa que eu nunca lhe disse (receava que você se pusesse a rir — e talvez esteja rindo; não faz mal; porque, afinal, é seu esse riso), mas a verdade é que eu fico, às vezes, a embalar-me com histórias em que estou sempre com você, como lhe disse que quisera estar com você agora em Paris. Velando por você, guardando-a de todo mal e, em troca, sendo reconfortado pelo encanto, pelo calor, pelo deslumbramento que emana de você, que emana de sua refulgente pureza..."

Indignada, como se a ironia ali contida tivesse sido intencional, Helena atirou para o lado a carta. Mas, uma hora mais tarde, tinha tornado a apanhá-la e estava relendo-a desde o começo. Afinal de contas, era um consolo saber que havia alguém que se interessava.

 

14 de abril de 1928

UMA felicidade inexprimível — eis o que a carta dela lhe devia ter proporcionado. Mas a fisionomia de Hugh — de Hugh andando para cima e para baixo na longa galeria da Coleção Etnográfica, em vez de cuidar de almoçar, — era uma máscara de perplexidade e de angústia. As palavras da carta de Helena repetiam-se-lhe na memória: "Ninguém se incomoda, sequer, que eu esteja morta ou viva".

Do armário de vidro que continha a coleção mexicana, o símbolo da morte, em cristal, e aquele outro crânio com incrustações de turquesas fitavam-no quando ele passava. "Ninguém se incomoda..." Devia ter sido a vez dele. Tinha sonhado com a infelicidade dela — cheio de uma aflita compaixão, mas de esperança também. Infeliz, ela voltar-se-ia para ele. "Ninguém se incomoda..."

"Ninguém exceto você". Seu orgulho satisfeito, o prazer que aquelas palavras lhe causavam, foram intensificados, ao prosseguir na leitura, pela idéia de que ela realmente não compreendia quanto ele se incomodava, não apreciava a qualidade exata de seu sentimento. "Minha mãe?" tinha ela escrito. "Mas, afinal, ela é outra pessoa, desde quando começou a tomar aquela horrível droga. Sempre foi, aliás, outra pessoa, mesmo quando estava boa, se bem que não tão outra. Justamente como eu era sempre outra, se considerarmos bem essas coisas. Ela esperava ter em mim uma filha, mas eu sempre fui egoísta e irresponsável. Tal ela era. Outra pessoa. Como podia ela, pois, incomodar-se comigo? Você não é egoísta, Hugh. Você é..." Mas não se tratava simplesmente de ser ou não ser egoísta, começou ele a protestar, enquanto todas aquelas caras pintadas dos vasos peruanos à direita baixavam sobre ele um olhar fixo e intenso de vida que se congelara. Tratava-se, sim, de qualquer coisa diferente, de algo mais profundo e mais espiritual. A. sua esquerda, os troféus dos chefes caçadores papuas pendiam encarquilhados, mas pintados de um modo fantástico, como as cabeças de bufões decapitados. Os crânios do Passo de Torres tinham sido providos de redondos e brilhantes olhos de madrepérola. Sim, mais espiritual, insistia Hugh, lembrando-se do que escrevera a respeito dela — liricamente, liricamente! — e daquela análise sutil de suas próprias emoções. Aí é que estava o altruísmo, mas fundido, por assim dizer, em contemplação, refinado cm qualquer coisa de estético. Altruísmo num quadro. Altruísmo por Watteau, por Cima da Conegliano. E ela mesma, o objeto do seu altruísmo contemplativo e estético — ela também, em suas fantasias, nas páginas acumuladas de seu manuscrito, tinha possuído a qualidade de um quadro ou de uma peça de música; alguma coisa que ele se sentiria suficientemente feliz de contemplar perenemente, de escutar; talvez, ocasionalmente, de tocar, como se ela fosse uma estátua, de acariciar com quase imperceptível ternura. E, às vezes, em tais ficções, ela sentia frio, sentia-se infeliz — ninguém se incomodava, sequer — e pedia conforto e calor, encolhia-se e aconchegava-se-lhe nos braços, naqueles altruístas, contemplativos, impalpáveis braços dele, e ali jazia, como em abrigo seguro, mas nua, jazia ali, como um quadro, virginal, ideal, mas comovedora, enternecedora... Emplumada como um embaixador em uniforme de gala, com o bico de um pássaro, os dentes de um tubarão, essa máscara de madeira fizera outrora seu portador sentir-se, enquanto dançava, mais do que humano, um aliado, um parente dos deuses. "Você disse que quisera estar sempre comigo. Pois bem: tenho pensado muito nisso recentemente e creio que é isso o que eu também quisera. Meu caro Hugh, não estou apaixonada por você, mas gosto mais de você que de qualquer outra pessoa. Acho que você é mais sério, mais bondoso, mais gentil, menos egoísta. E, sem dúvida, isso já constitui boa base, sobre a qual se possa construir qualquer coisa". Essas palavras, da primeira vez que as leu, tinham-lhe produzido certo pânico; e era com a mesma agitação e o mesmo protesto, que ele agora caminhava entre a Nova Caledônia e as Ilhas Salomão. No ventre de um peixe de madeira, de um "'bonito", a viúva melanesiana abria uma portinha e lá estava, como um urinol, o crânio de seu marido. Mas era sempre espiritualmente e esteticamente, que ele quisera estar com ela. Não tinha ela podido compreender isso? Certamente que ele fora bastante claro, pois não? "Se você ainda deseja isso, aqui estou eu, que também o desejo". Era terrível, pensava, terrível! Ela o estava forçando a uma decisão, tornando-lhe impossível dizer "não", com presumir que ele já havia dito "sim". Sentia-se preso num círculo, via-se num beco sem saída. Casamento? Mas teria que mudar todo o seu estilo de vida. O apartamento era pequenino demais. Ela haveria de querer comer carne de noite. A sra. Barton exigiria que eles se mudassem. As pontas de algumas das lanças à sua esquerda eram de obsidiana, as de outras eram de aresta de arraia, as de outras ainda, de osso humano. "Você provavelmente acha que eu sou uma tola, e frívola, e irresponsável; e é verdade; é o que eu tenho sido até aqui. Sou incorrigível. Mas não nasci incorrigível — tornou-me assim a vida que tenho levado. Agora quero ser coisa diferente e sei que posso ser coisa diferente. Sérieuse. Uma boa esposa e outras coisas assim, por muito ridículo e embaraçoso que tal propósito se apresente assim, escrito. Mas recuso-me a continuar tendo vergonha de ser boa. Recuso-me terminantemente". Essa irresponsabilidade, considerava ele, era uma das coisas mais lindas e comoventes que ela possuía. Separava-a do comum, transportava-a para um plano exterior e superior à humanidade vulgar. Ele não queria que ela fosse responsável e boa esposa. Queria que ela fosse como Ariel, como aquela criatura delicada de seu manuscrito, um ser de outra ordem, além e acima do bem e do mal. Entrementes, tinha dirigido seus passos para o interior da África. Do fundo do armário de vidro reluzia como ébano a imagem de uma negra segurando com as duas mãos seus seios longos e pontudos. Tinha o ventre tatuado, e seu umbigo emergia em forma de um Pequeno cone. As lanças do armário seguinte tinham as pontas revestidas de ferro. Como Ariel, repetiu ele consigo, com aqueles Watteaus de Dresde, como Debussy. Como ressoador, este xilofone tinha, não a cuia habitual, mas um crânio humano, e havia vários crânios formando festões ao longo dos fetiches de marfim, fêmures em volta do tambor do sacrifício de Ashanti. Ela estava estragando tudo, disse consigo, irritado. E de repente, erguendo os olhos, viu-a ali, encaminhando-se apressada ao seu encontro, ao longo da estreita passagem entre os armários

— Você? — conseguiu ele murmurar.

Mas Helena estava muito perturbada para poder ver o olhar de espanto, a palidez e, em seguida, o rubor que um sentimento de culpa lhe punha no rosto; estava muito intensamente preocupada com seus próprios pensamentos, para poder perceber o tom de apreensão sobressaltada que havia na voz dele.

— Desculpe, — disse ela ofegante, enquanto lhe apertava a mão. — Eu não pretendia vir importuná-lo aqui. Mas você não faz idéia do que houve esta manhã lá em casa. — Sacudia a cabeça; seus lábios tremiam. — A mamãe tem estado como uma louca. Não lhe posso contar... Você é a única pessoa Hugh...

Sem jeito, ele procurava consolá-la. Mas a realidade era profundamente diferente do que ele imaginava como sendo a felicidade dela. A imaginação fora sempre sua deliciosa oportunidade; a realidade era a ameaça de uma condenação inevitável. Desesperado, tentava mudar de assunto. Muito interessantes, pois não? essas coisas procedentes de Benin. O leopardo de marfim, todo pontilhado de discos de cobre incrustados. Os guerreiros "nego", em bronze, com suas espadas e lanças foliformes, e as cabeças de seus inimigos penduradas à cinta. Os europeus, barbados e aquilinos, com os seus altos morriões do século dezesseis e suas bombachas, com seus mosquetes em punho e a cruz pendurada ao pescoço. O que há aqui de cômico — observou ele entre parêntesis — é que a única coisa que esses negros souberam aproveitar do cristianismo tenha sido a arte de crucificar as pessoas. A expedição punitiva de 1897 encontrou a região cheia de cruzes. E aqui esta bela cabeça da moça com seu barrete frígio de forma cônica e cheio de contas de coral...

—Olhe para isto, — Helena interrompeu de chofre; e, arando a manga do vestido, mostrou-lhe duas marcas vermelhas semicirculares sobre a pele do antebraço, algumas podas acima do punho. — Foi aqui que ela me mordeu, quando eu procurava fazê-la voltar para a cama.

Hugh agitou-se todo num misto de indignação e de pena. Mas é horrível! — exclamou. — É horrível. Tomou-lhe "mão. — Pobrezinha! — Estiveram um instante calados. Depois, subitamente, seu sentimento de piedade dissipou-se ante a idéia do fato consumado. Já não havia agora meio de escapar. Viu-se de novo a pensar na sra. Barton. Que faria, se ela o notificasse?

 

20 de maio de 1931

ERA mais um "knock-out". Fitzsimmons, Jefferies Jack Johnson, Carpentier, Dempsey, Gene Tunney — os campeões surgiam e desapareciam; mas a metáfora com que Mr. Beavis descrevia os seus lutos sucessivos permanecia inalterada.

Sim, um rude golpe. E, contudo, parecia a Anthony que havia uma nota quase de triunfo nas reminiscências do pai, à mesma do almoço, referentes à infância escolar do tio James.

"Pobre James... Aqueles cabelos ondeados que ele tinha então... nos et mutamur.'' A comiseração e o pesar mesclavam-se de certa satisfação — a satisfação de um velho que ainda se encontra cheio de vida, ainda capaz de assistir às exéquias de seus contemporâneos, de seus parentes e amigos mais novos.

— Dois anos, — insistia ele. — Havia uma diferença de quase dois anos entre mim e James. Na escola chamavam-me, para distinguir, o Beavis número um.

Sacudiu a cabeça, pesaroso e triste, mas brilhara em seus olhos cansados uma luz insopitável. — Coitado do James! — suspirou. — Poucas foram as vezes em que nos vimos, nestes últimos anos. Depois de sua conversão, então, nem uma vez. Como pôde ele converter-se? Não me posso explicar. Católico — no meio de tantos, justamente ele...

Anthony não dizia nada. Mas, afinal, — pensava consigo — não era tanto para surpreender. O pobre velhote formara-se ateu, segundo a escola secularista de Bradlaugh. Devia ter feito jus a uma felicidade beatífica, fazendo praça de sua incredulidade, de sua recusa ao mundo cósmico, de seu inflexível ceptismo. Mas tivera a má sorte de ser homossexual numa época em que uma pessoa não podia confessar que o era, nem mesmo a si própria. Pederastia passiva — eis o que envenenara toda sua vida e transformara aquela desesperança metafísica e deliciosamente pickwickiana numa miséria real, vulgar ou dourada. Miséria e neurastenia. O velhote tinha sido meio louco, lá isso era verdade. (O que não o impedira de ser um actuário de primeira ordem.) Depois, durante a guerra, o céu se desnublara. Podia-se ser bom para os soldados feridos — ser bom pro patria e com uma consciência limpa. Anthony lembrou-se das visitas que tio James lhe fizera no hospital. Vinha quase todos os dias. Carregado de presentes para uma dúzia de sobrinhos, tanto para o verdadeiro como para os adotivos. No seu rosto magro, melancólico, notava-se, naqueles dias, um sorriso permanente. Mas a felicidade não dura. Viera o Armistício; e, depois daqueles quatro anos no paraíso, o inferno parecera mais torvo do que nunca. Em 1923 fizera-se papista. Já era de esperar.

Mr. Beavis, entretanto, não podia absolutamente compreender. A idéia de James cercado de jesuítas, de James ajoelhando-se e levantando-se e tornando a ajoelhar-se durante a missa, de James indo a Lourdes com o seu tumor que não podia ser operado, de James morrendo e recebendo o conforto da religião — essa idéia enchia-o de assombro.

— E contudo, — disse Anthony, — não posso deixar de admirar o modo como eles nos ajudam a deixar a vida. A morte tem todas as características de um processo animal. Mais exclusivamente animal, mesmo, do que o enjôo de mar. — Calou-se um instante, pensando nos momentos últimos e mais fisiológicos do pobre tio James. A respiração pesada, estertorante, a boca escancarada como uma caverna, as mãos a rasparem o leito, como garras.

— Como andou a Igreja bem avisada em transformar isso num cerimonial!

— Charadas, — disse Mr. Beavis com desdém. — Mas boas charadas, — insistiu Anthony. — Uma obra de arte. Em si, o ato tem qualquer coisa como a travessia da Mancha quando faz mau tempo — com esta diferença: que é um pouco pior. Mas eles conseguem transformar isso em qualquer coisa de belo e significativo. Principalmente para o espectador, já se vê. Mas, talvez, também significativo para o ator.

Houve um silêncio. A copeira mudou os pratos e trouxe a sobremesa. — Querem torta de maçã? — perguntou cortando a crosta.

— Pastel de maça, querida, — corrigiu Mr. Beavis em tom severo. — Quando conseguirá aprender que uma torta é descoberta. Uma coisa com uma cobertura é um pastel.

Serviram-se de creme e de açúcar.

— A propósito, — disse Paulina subitamente, — já tinham tido notícia do que aconteceu à sra. Foxe? — Anthony e Mr Beavis responderam com a cabeça que não. — Foi Maggie Clark quem me contou ontem. Teve um ataque.

— Deus meu! Coitada! — disse Mr. Beavis. Depois, refletindo, acrescentou: — Curioso, como as pessoas deixam de pertencer ao quadro de nossa vida. Depois de ocuparem grande parte nele. Não creio que tenha visto a sra. Foxe meia dúzia de vezes nestes últimos vinte anos. E entretanto, antes disso...

— Ela não sentia, não compreendia o "humour", — disse Paulina à guisa de explicação.

Mr. Beavis voltou-se para Anthony. — Não creio que você tenha... sim, quero dizer, que você tenha estado "em contacto mental" muito íntimo com a sra. Foxe desde a morte do pobre rapaz, do filho.

Anthony apenas sacudiu a cabeça, sem dizer palavra. Não lhe era agradável que lhe viessem recordar tudo o que fizera para evitar esse contacto com a sra. Foxe. Aquelas cartas longas e afetuosas que ela lhe escrevera durante o primeiro ano da guerra — cartas a que ele dera respostas cada vez mais breves, mais perfunctórias, mais convencionais; e às quais deixara, por fim, de responder de todo e que deixara, mesmo, de ler. Deixara, mesmo, de ler e, todavia — movido por não sabia que compunção supersticiosa — nunca tinha jogado fora. Uma dúzia, pelo menos, de envelopes azuis, endereçados com aquela sua letra grande, clara, corrente, jaziam ainda por abrir numa das gavetas de sua secretária. A presença delas ali era, de certo modo obscuro e inexplicável, uma espécie de bálsamo para sua consciência. Não, porém, um bálsamo de eficácia absoluta. A pergunta do pai produzira-lhe um verdadeiro mal-estar; tratou logo de mudar de assunto.

—E quais têm sido as suas sondagens nestes últimos tempos? — perguntou, servindo-se da linguagem que o próprio pai teria usado.

Mr. Beavis esboçou uma risota e começou e descrever suas pesquisas na gíria americana moderna. Quantas locuções saborosas! Que riqueza elizabetana de novas cunhagens e de metáforas originais! Horse feathers, dish the dope, button up your face — delicioso! — E que acharia você se lhe chamassem a fever frau? — perguntou ele à sua filha mais moça, Diana, que, durante todo o tempo da refeição, permanecera calada, severamente distanciada de quanto se passava. — Ou, pior do que isso, o cinch pushover, querida? Ou poderia eu dizer ainda que você, Anthony, tinha a dome complex. Ou aludir com pesar ao habite seu de smooching the sex jobs. — Piscou o olho com prazer.

— É quase como se fosse chinês, — disse Paulina da outra ponta da mesa. A alegria irradiava-lhe do rosto plácido e redondo em ondas concêntricas de carne rósea e mole. Ao moverem-se, seus maxilares vibravam como geléia. — Ele pensa que é um homem de linha. É o que seu pai pensa. Estendeu o braço, serviu-se de dois bombons de chocolate que tirou da salva de prata sobre a mesa e em frente dela, metendo um deles na boca. — Supõe-se muito fino... E agitava-se num riso repetido.

Mr. Beavis, que se estivera esforçando por atingir o grau necessário de mau comportamento, inclinou-se um pouco para frente e perguntou a Anthony, num cochicho confidencial: — Que faria você, se a fever frau tivesse a infelicidade de ser raptada.

Eles eram adoráveis, estava Diana pensando consigo; era isso uma coisa evidente. Mas até que ponto podiam ser bobos, de uma bobagem inexprimível! Fosse como fosse, Anthony não tinha o direito de criticá-los; e sob aquela capa de polidez excessiva que o caracterizava, era claro que ele os estava criticando, o garoto! Sentiu-se indignada. Ninguém tinha o direito de criticá-los, a não ser ela própria e, possivelmente, sua irmã. Procurou imaginar qualquer coisa de desagradável para dizer a Anthony, mas este não lhe dera vaza e, ademais, ela não tinha o dom do epigrama. Teve que contentar-se com franzir a testa e ficar calada. E, aliás, já era hora de voltar para o laboratório.

— Preciso ir, — disse, com aquele seu modo breve e abrupto, levantando-se. — Proíbo-a absolutamente de comer todo esses doces, — ajuntou, curvando-se para beijar a mãe. — Ordens de médica.

— Você ainda não é médica, querida.

— Ainda não sou, mas serei no ano que vem.

Tranqüilamente, Paulina meteu na boca o segundo bombom de chocolate. — Pois, no ano que vem, talvez eu deixe de comê-los, — disse.

Daí a alguns minutos, partia Anthony. Enquanto ia caminhando por South Kensington, aconteceu que os seus pensamentos de novo se voltaram para a sra. Foxe. E perguntava consigo se o ataque que ela tivera, tinha sido grave; se ficara paralítica. Tal fora a sua ansiedade em impedir que o pai falasse a respeito da sra. Foxe, que não dera a Paulina ocasião de lhe explicar isso. Imaginou-a no leito, perdida, semimorta, e ficou horrorizado ao descobrir que, ao lado do sentimento de comiseração, sentia certa satisfação, certo alívio. Porque, afinal de contas, ela era a principal testemunha de acusação, a pessoa que poderia depor contra ele até à condenação. Morta, ou apenas semimorta, não poderia ser chamada a depor; e, na ausência dela, nenhuma causa mais existia contra ele. Parte do seu ser rejubilava-se com a notícia que Paulina dera. Rejubilava-se vergonhosamente. Procurou pensar noutra coisa e, enquanto assim se esforçava, tomou um ônibus, afim de chegar mais depressa a seu porto de salvamento, que era, no caso, a Biblioteca de Londres.

Passou aí quase três horas, em busca de referências à história dos Anabatistas, e depois voltou para os seus aposentos em Bloomsbury. Contava com a visita de Gladys antes do jantar. A rapariga estava ficando um pouco aborrecida ultimamente; mas, contudo... Sorriu intimamente, antegozando o Prazer.

Devia vir às seis horas; mas, às seis e um quarto, ainda não tinha chegado. Nem às seis e meia. Nem mesmo às sete. Nem mesmo às sete e meia. Às oito, ele contemplava aqueles envelopes azuis com carinhos postais de 1914 e 1915 e sobrescritados com a letra da sra. Foxe — contemplava-os e não sabia, no desânimo com que se interrogava e que sucedera ao estado inicial de impaciência e raiva, não sabia se devia abri-los. Ainda estava nessa indecisão, quando o telefone tilintou: era Mark Staithes, perguntando se por acaso ele não tinha nenhum compromisso para jantar. À última hora tinham organizado uma reunião. Pitchley estaria presente com a esposa, a psicóloga, e havia ainda aquele político hindu, o Sen, e Helena Ledwidge... Anthony tornou a meter as cartas na gaveta e saiu apressado.

 

24 de maio de 1931

AS persianas suspensas deixavam projetar-se sobre a penteadeira a luz forte do sol. Helena, como de hábito, estava ainda deitada. Eram tão longos os dias. E o meio que ela encontrava para encurtá-los era ficar na cama, amolentada pelo brando calor do próprio corpo sob as cobertas, ou deixando-se vencer pelo sono, ou embalando-se em pensamentos vagos e inconseqüentes, eu entregando-se a leituras soporíficas. O livro dessa manhã era o dos poemas de Shelley. "Quente olor", leu, articulando as palavras num sussurro audível, "desprender-se parecia, das vestes claras..." (viu uma figura de pernas compridas, vestida de musselina branca, com as espáduas em declive e os seios em riste).

 

Das vestes claras, dos cabelos soltos,

        Dali onde o ar uma pesada trança,

                        Desnastrara, na pressa em que ela ia...

 

(A figura estava agora correndo, com sapatos para dança, com bico largo e atados com fita preta sobre meias brancas de algodão).

 

A doçura parece o vente leve

        Saciar e forte odor na alma é sentido.

                        Como orvalho incendido

                                       No álgido seio de um botão de rosa...

 

O botão de rosa cedeu lugar à face estranhamente contorcida de Mark Staithes. Aquelas coisas que ele lhe contara a respeito de perfumes naquela outra noite. O almíscar, o âmbar cinzento... E Henrique Quarto com sua bromidrose nos pés. Bien vous en prend d'être roi; sans cela on ne vous pourrait souffrir. Vous puez comme charogne. Ela fez uma careta. Hugh cheirava a leite azedo.

Um relógio bateu horas. Nove, dez, onze, doze. Doze! Sentiu-se envergonhada; mas depois, insurgindo-se, resolveu não se levantar e almoçar mesmo na cama. Uma voz de que se recordava —era a voz de Cynthia — soou-lhe como um reproche na memória. "Você deve sair mais vezes, procurar conviver com mais gente". Mas essa gente, a gente de Cynthia, era um pessoal cacete como tudo. Através das pálpebras cerradas, viu sua mãe batendo no alto do crânio: "Uma pedra, duro como uma pedra, meu caro!" Um pessoal de uma estupidez de uma ignorância, de uma insipidez, de uma obtusidade sem remédio. "Fui educada num meio acima do meu nível mental," foi o que ela tinha dito a Anthony naquela noite. "De sorte que, se eu agora tiver que conviver com gente tão tola e deseducada como eu, será uma tortura, uma verdadeira tortura!"

Cynthia era encantadora, sem dúvida; sempre o fora, desde quando estiveram juntas na escola. Mas o marido de Cynthia — aquele cão de caça! E os amiguinhos dela e as amiguinhas, esposas destes. "Meu amiguinho. Minha amiguinha". Como a enjoavam as palavras e, ainda mais, o modo horrível como as pronunciavam! Tão cheias de reservas, as insinuações impudentes ao fato de dormirem junto! Quando, na realidade, muitas delas eram absolutamente respeitáveis. Nos poucos casos em que o eram, a coisa ainda parecia pior — uma dupla hipocrisia, dormindo junto, de fato, e fingindo estar apenas fingindo mansamente, que o faziam. O desolador, o superfino "inglesismo” de tudo isso! E depois estavam sempre a jogar. Sempre os "jo-ogos" como dizia a sra. Amberley arrastando a pronúncia por efeito da morfina. Continuar a ver tal gente, continuar a fazer o que essa gente fazia... Sacudiu a cabeça.

 

Esposa! Irmã! Anjo do céu! Piloto

Do Destino, sem ter uma estrela a guiá-lo...

 

Absurdo, isso tudo? Ou significava alguma coisa — algo de maravilhoso, que ela jamais experimentara? Mas, sim, bem que ela já o tinha experimentado.

 

Porque, nos campos da Imortalidade,

Meu espírito a teu deve ter venerado,

Qual divina presença em um lugar divino...

 

Era agora humilhante admiti-lo: mas o fato era que ela tinha sentido, compreendido exatamente o que essas palavras queriam dizer. Uma divina presença em um lugar divino. E a presença fora a de um patife que era, igualmente, um virtuoso na arte de amar. Sentia um prazer perverso em insistir, o mais brutalmente possível, na disparidade grotesca entre os fatos e o que haviam sido, então, seus sentimentos.

 

É a ti que eu amo; oh, esta sensação

De que se fecha do meu coração

A fonte, para manter puras, claras,

As águas que por ti meus olhos vertem...

 

Helena riu, sem rumor. O som do relógio batendo o quarto de hora fê-la pensar, de novo, no conselho de Cynthia. Havia também os outros — aquela gente que ela e Hugh encontravam, quando jantavam com o Museu, ou a Universidade. "Aquela gente temente a Deus (era a voz de sua mãe que de novo falava), "que ainda continua a temer a Deus, mesmo depois de o ter alijado." Temendo a Deus nos comitês. Temendo a Deus nas salas de leitura da W. E. A. Temendo a Deus através das discussões intermináveis da Sociedade de Reorganização. Mas a figura simpática de Gerry, a técnica de Gerry como amante — como podiam essas coisas ser postas à margem? Ou o feto desenvolvendo-se irreprimivelmente no útero? "Um plano coordenado de habitação para todo o país". Lembrou-se da voz ardorosa, persuasiva de Frank Ditchling. Ele tinha um nariz arrebitado e as grandes ventas fixando-se na gente como um segundo par de olhos, insistentemente. Redistribuição da população... Cidades satélites... Faixas de verdura... Elevadores até para apartamentos da classe operária. Ela escutara, sucumbira ao feitiço de suas ventas hipnóticas e, no momento, a coisa parecera esplêndida, digna de se morrer por ela. Mas depois... Sim, os elevadores eram uma coisa muito conveniente e ela desejava ter um para o seu apartamento. Outra coisa boa onde a gente passear eram os parques. Mas como era que a cruzada de Frank Ditchling resolveria qualquer dos problemas sérios da vida? O plano coordenado de habitação não tornaria sua mãe menos impura, menos irremediavelmente à mercê de um corpo intoxicado. E Hugh? Dar-se-ia que Hugh, numa cidade satélite e com um elevador, se tornaria diferente do que era então, do que era quando subia quatro lances de escada em Londres? Hugh! Lembrou-se, com um sorriso de escárneo, das suas cartas, de todas as coisas delicadas, bonitas, que ele escrevera — e, depois, do homem tal qual ele havia sido na realidade de todos os dias, como marido. "Mostre-me como posso auxiliá-lo, Hugh". Pondo-lhe em ordem os papéis, datilografando-lhe as notas, fazendo consultas para ele na biblioteca. Entretanto, ele nunca deixara de sacudir a cabeça, enquanto seus olhos brilharam como vidro por trás do vidro dos óculos: ou ele não precisava que o auxiliassem, ou ela não era capaz de auxiliá-lo. "Quero ser uma boa esposa, Hugh". Com a risada alta de sua mãe a soar-lhe na imaginação, difícil lhe fora pronunciar tais palavras. Mas pensara-as, premeditara-as; queria, de fato, ser uma boa esposa. Remendando-lhe as meias, esquentando-lhe o leite ao deitar, lendo para ele, sendo, numa palavra, sérieuse pela primeira vez e profundamente. Mas Hugh não queria que ela fosse boa esposa, não queria que ela fosse qualquer coisa que ela pudesse ser. Uma divina presença num lugar divino. Mas esse lugar eram as cartas dele; presente, ela estava, no que se referia a ele, somente no outro extremo da rede postal. Nem mesmo na cama ele a queria — ou, se em todo caso a queria, não era muito, não era como comumente se queria. Grande coisa, as faixas de verdura!

A coisa não atingia o alvo, não feria a questão. Porque a questão eram aqueles silêncios em que Hugh se fechava durante as refeições. A questão era aquela expressão de martírio que ele assumia, se alguma vez ela entrava em seu gabinete quando ele estava trabalhando. A questão estava na indecência daquelas aproximações furtivas na escuridão, no revoltante desinteresse e generosidade num sensualismo em que a parte a ela conferida era puramente ideal. A questão estava naquela expressão de consternação, quase de horror e de repugnância, que ela descobrira daquela vez, nas primeiras poucas semanas de seu casamento, quando ela caíra doente de gripe. Ele mostrara-se solícito; de começo, ela sentira-se comovida, sentira-se grata. Mas quando descobriu o esforço heróico que lhe custava, a ele, o cuidar-lhe do corpo doente, a gratidão evaporou-se. Em si, o esforço era, sem dúvida, admirável. O que a irritava, o que ela não podia perdoar era o fato de ter que ser feito o esforço. Queria ser aceita como era, mesmo com febre, mesmo vomitando bílis. Naquele livro que ela lera, sobre o misticismo, havia uma história de Mme. Guyon apanhando do chão um horrível bocado de pituita e saliva e pondo-o na boca — como prova de força de vontade. Doente, ela fora a prova a que Hugh submetera a própria vontade; e, a partir daí, cada mês era uma renovação do horror secreto que ele tinha ao corpo dela. Era um insulto intolerável — e não haveria de ser menos intolerável, numa das cidades satélites de Ditchling, no mundo planificado de que estavam sempre a falar aqueles ateus tementes a Deus.

Mas havia ainda aquela Fanny Carling. "O camundongo" era o nome que Helena lhe dava, tão pequenina ela era, tão cinzenta, tão silenciosa e tão ligeira. Mas um camundongo místico. Um camundongo de enormes olhos azuis que pareciam perpetuamente admirados do que viam por trás das aparências das coisas. Admirados, mas, ao mesmo tempo, a cintilar de uma felicidade inexplicável, uma felicidade que a Helena parecia quase indecente, mas que, contudo, ela invejava, — Como é que se acredita em coisas que são evidentemente falsas? — perguntara, parte com malícia, parte verdadeiramente desejosa de conhecer um segredo valioso. — Vivendo, — respondeu o camundongo. — Quando vivemos com dignidade, todas essas coisas acabam por tornar-se de uma verdade manifesta. E passou a dizer uma serie de coisas incompreensíveis a respeito do amor de Deus e do amor das coisas e das pessoas por amor de Deus. — Não sei o que você quer dizer. — Apenas porque não quer saber, Helena — Resposta estúpida, de estarrecer! — Como é que se sabe o que eu quero?

Suspirando, Helena voltou ao seu livro.

 

Nunca me filiei a essa grande seita,

  Cuja doutrina é que por cada um seja eleita

    A amante dentre a turba, ou o amigo, escolhido,

 

("Um dos meus amiguinhos...")

 

E todos os demais, embora ao frio olvido

    Os relegue a moral moderna, que é pregada

        Por quem é justo e sábio; e ceda qual a estrada

            Que a passo tardo trilha a pobre legião

                De escravos também siga, em demanda à mansão

                    Eterna; a estrada real vá trilhando, consigo,

                        Na viagem triste e longa, arrastando um amigo

                            Ou, quem sabe? — talvez, invejoso inimigo.

 

Na viagem triste e longa, repetiu ela consigo mesma. Mas poderia ser tão longa — pensou — e tão triste com vários, do mesmo modo que com um só — com Bob e Cecil e Quentin, do mesmo modo que com Hugh.

 

Do ouro e da argila o Amor é, nisto, diferente:

Que, nele, o dividir não é tornar ausente.

 

— Não creio nisso, — disse em voz alta; e, aliás, não tinha havido muito amor para dividir. Pelo coitado do Cecil o que ela apenas sentira fora pesar. E com Quentin, tratava-se apenas — sim, apenas de higiene. Quanto a Bob, este, de fato, se mostrara vivamente interessado por ela; e ela, por sua vez, fizera o possível para também se interessar por ele. Mas, sob aquelas suas maneiras encantadoras, sob aquelas aparências heróicas, não havia realmente nada. E, como amante, que desastre, que falta de jeito irremediável, um verdadeiro bárbaro, que nada compreendia! Rompera com ele logo depois de umas poucas semanas. E talvez — continuava a refletir — talvez que a sua sorte fosse justamente esta: dar o seu coração somente a homens como Gerry e ser amada por homens como Hugh e Bob e Cecil. Venerar a crueldade e a baixeza e ser adorada pela deficiência.

O telefone tocou. Helena tomou do fone:

— Alô!

Foi a voz de Anthony Beavis que respondeu. Queria que ela fosse jantar com ele no dia seguinte. — Teria muito prazer em ir, — disse ela, embora já tivesse prometido aquela tarde a Quentin.

Um sorriso iluminava-lhe o rosto, quando ela se reclinou de novo sobre os travesseiros. Homem inteligente, pensava consigo. Homem que valia cincoenta desses pobres diabos que se chamavam Cecils e Quentins. E divertido, encantador, até mesmo fisicamente simpático. Como ele fora gentil com ela naquela noite do jantar de Mark! Esforçara-se, dera-se ao incômodo de ser gentil. Ao passo que o outro, aquele asno pretensioso que era o Pitchley, tudo fizera para ser rude e grosseiro. Naquela ocasião chegara a acreditar que Anthony sentia por ela uma real atração. Era uma dúvida, alimentada de uma esperança. Agora, esse convite lhe dava razões, não somente para esperar, mas também para se convencer disso. Cantarolou baixinho. Depois, com uma energia súbita, atirou para o lado as cobertas. Tinha resolvido levantar-se para q almoço.

 

30 de agosto de 1933

OS retratos já se iam cobrindo dessa turvação que costuma empanar nossas lembranças. Em pé num jardim, aí pelo advento do século, essa moça tinha qualquer coisa de uma aparição espectral em horas mortas. Era sua mãe, estava reconhecendo Anthony Beavis. Um ou dois anos, talvez um mês ou dois, antes de morrer. A moda é, porém, uma arte decorativa — eis o que se podia concluir dessa visão sombria. Esses flancos de cisne! Esses seios longos projetando-se em linha oblíqua, sem nenhuma relação perceptível com o corpo nu por baixo! E toda essa cabeleira que, ornamentando, deformava o crânio! Estranhamente hediondo e repelente parecia tudo isso em 1933. Se, entretanto, fechava os olhos, — e o desejo era irresistível — podia ver sua mãe, aqui, languidamente bela em sua chaise-longue, ali, àgilmente jogando tennis, adiante deslizando célere, qual uma ave, por sobre o gelo de remoto inverno.

Estavam no mesmo caso as fotografias de Mary Amberley, tiradas dez anos mais tarde. A saia era comprida como nunca e, envolta em sua estreita campana de panos, via-se ainda uma figura de mulher deslizando, ápode, como sobre rodízios. Verdade era que os peitos se empinavam um pouco, ao passo que as partes posteriores escondiam seus excessos. Mas a forma geral do corpo enroupado permanecia, contudo insuspeitável. Caranguejo de colete. E esse imenso chapéu de plumas de 1911 era simplesmente um funeral francês de primeira classe. Como podia um homem normal ter-se enamorado de visão tão profundamente anti-afrodisíaca. E, entretanto, a despeito dos retratos ele pôde recordar-se dela como tendo sido a concretização mesma do desejo. Diante desse caranguejo emplumado e de rodízios, ele sentiu o coração bater mais rápido e pôs-se a respirar com certo ofego.

Vinte anos, trinta, anos depois do fato, essas fotografias revelaram apenas coisas vagas e estranhas. O estranho (horrível automatismo!) é, porém, sempre o absurdo. O que lhe vinha à memória era, ao contrário, a emoção sentida quando o estranho era ainda familiar, quando o absurdo, uma vez aceito, nada tinha em si de absurdo. Hamlet vestido à moderna: eis o que são sempre, os dramas da memória.

Como tinha sido bela sua mãe — bela sob esses cabelos enrolados em bandos e apesar das saliências posteriores e dos seios em riste. E Mary, envolta, embora, por essa carapaça e sob essas plumas funéreas, quanto desejo provocara! E também ele, abrigado em seu casaco aleonado e com seu gorro escarlate; ou metido em sua belbutina verde-capim e apalermado em seus bofes e tufos; ou envergando o traje escolar de Norfolk — calções que terminavam abaixo dos joelhos em dois apertados canos de pelica; ou, se era domingo, com seu colarinho engomado e chapéu coco e, nos outros dias, com a sua casquette escolar rubro-negra — ele também, recordando-se do que fora, revia-se sempre vestido à moderna e jamais segundo a figurinha ridícula que esses instantâneos denunciavam. Não se achava em pior situação, como sentimento interior, do que os petizes de trinta anos depois em suas camisetas de jersey e suas calças curtas. Prova de que o progresso pode ser somente consignado e jamais experimentado — essa, a reflexão impessoal que acudiu a Anthony ao examinar sua própria imagem encasacada e de chapéu alto em Eton. Tomou um caderno de notas, abriu-o e escreveu: ''O progresso pode, talvez, ser percebido pelos historiadores; nunca, porém, sentido pelos reais participantes do suposto avanço. Os moços já encontram, ao nascerem, as condições de progresso e os velhos têm-nas por naturais dentro de alguns meses ou anos. O progresso não é sentido como tal. Nenhum sentimento de gratidão. O que se nota é somente irritação, quando, por uma razão qualquer, falham os recém-introduzidos elementos de conforto e bem-estar. Os homens não passam o tempo a dar graças a Deus pelos seus automóveis. Praguejavam, isso sim, quando o carburador se obstruiu."

Fechou o caderno e voltou a vista para o chapéu alto de 1907.

Um ruído de passos fê-lo erguer os olhos. Viu Helena Ledwidge aproximando-se com aquele seu passo largo, quase pulo, através do terraço. Refletiam-lhe no rosto, sob o chapéu largo, as cores flamejantes do seu pijama de praia. Como se estivesse no inferno. Sim, era aí que ela estava, continuava ele a pensar. O inferno está no espírito. Ela trazia sempre o inferno consigo. O inferno de seu grotesco casamento e, talvez, também outros infernos. Ele, porém, sempre se abstivera de aprofundar essas coisas, fingira sempre não notar a sua boa vontade em guiá-los nesse labirinto. Pressentia que uma investigação nesse sentido o levaria sabe Deus a que abismo de emoções e a que senso de responsabilidades, para as quais sentia que lhe faltavam tempo e energia. Em primeiro lugar estava o seu trabalho. Contendo a curiosidade, continuava, obstinado a representar o papel de que desde muito se incumbira — o papel do filósofo insulado, do homem da ciência preocupado, incapaz de ver as coisas que para os demais são óbvias. Conduzia-se como se nada pudesse descobrir no rosto dela a não ser sua beleza de forma e contextura. Se bem que a carne nunca seja, por certo, de uma opacidade completa e a alma se deixe ver através das paredes de seu receptáculo. Naqueles seus olhos pardo-claros, naquela boca com o lábio superior ligeiramente arregaçado, havia certa dureza, quase fealdade, tristeza e ressentimento.

Bastaram alguns passos, do sol para a sombra da casa, para que se apagasse aquele brilho infernal do rosto dela; mas a palidez que sobreveio súbita serviu apenas para tornar-lhe mais intensa a amarga melancolia da expressão. Anthony olhou para ela sem se levantar nem saudá-la. Haviam combinado entre si a abolição de toda e qualquer cerimônia; nem mesmo esta, de se dizerem bom dia. Quando Helena transpôs as portas de vidro e entrou na sala, ele voltou ao exame de suas fotografias.

— Aqui estou, — disse ela sem sorrir. Tirou o chapéu com um belo movimento de impaciência sacudiu a cabeça, atirando para trás os cabelos fulvo-escuros. — Calor horrível! Jogou o chapéu no sofá e: atravessando a sala, foi para junto de Anthony sentado à mesa de trabalho. — Não trabalha? — perguntou surpresa, pois era quase sempre mergulhado em livros e papéis, que o encontrava.

Ele, meneando a cabeça: — Não quero saber de socióloga hoje.

— Que é que está olhando? — E, de pé junto à cadeira ela debruçou-se para ver as fotografias dispersas.

— Meus velhos cadáveres, — disse ele estendendo-lhe o espectro do "falecido" estudante de Eton.

Ela examinou-o por um momento em silêncio e comentou: — Bonito, que você era...

— Merci, mon vieux! — Irônico e afetuoso, ele bateu-lhe com a palma da mão na parte posterior da coxa. — No meu colégio particular, costumavam chamar-me Benger. — Entre as pontas dos seus dedos e a esquiva carne dela a seda interpunha uma maciez seca e resvalante, estranhamente desagradável ao tato. — Chamavam-me Benger, mas queriam dizer: Benger's Food. Por causa do meu tipo infantil.

— Tão terno! — prosseguia ela, sem atender ao que ele dizia. — Você era a ternura em pessoa, nessa época. Atraente...

— Mas isso ainda eu sou! — Anthony protestou com um sorriso.

Ela olhou-o um instante, silenciosa. Via, sob os bastos cabelos escuros, uma fronte esplendidamente lisa e serena, como a fronte da criança que medita. Igualmente infantil, de um jeito mais cômico, era o nariz curto, e ligeiramente torto. Entre as pálpebras estreitas, um riso interior emprestava aos olhos certa vivacidade, que se completava com um sorriso na comissura dos lábios — um leve e irônico sorriso, que, de certo modo, contradizia o que a forma dos lábios parecia exprimir. Lábios grossos, bem talhados; voluptuosos e, ao mesmo tempo, graves, tristes, sensíveis, quase até ao tremor. Lábios, por assim dizer nus em sua sensualidade ansiosa; sem defesa própria e abandonados ao próprio desamparo por um queixo pequeno e agressivo logo abaixo.

— O pior, — disse Helena, afinal, — é que você tem razão. Você ainda agrada, você ainda atrai, e sabe Deus porque. Porque você não deve ser o que é. Tudo, afinal, não passa de esperteza, de um truque para fazer a gente gostar de você por simples aparências enganosas.

— Ora, venha cá! — protestou ele.

— Você consegue que a gente lhe dê alguma coisa a troco de nada.

Mas ao menos sou sempre de uma franqueza absoluta, quando a esse "nada". Nunca finjo que se trata de uma Grande Paixão, — disse, rolando o r e abrindo o a grotescamente. — Nem sequer, uma Wahlverwandtschaft, — a juntou, em alemão mesmo, afim de dar a toda essa questão romântica de afinidades e emoções violentas um tom particularmente ridículo. — Simples divertimento.

— Simples divertimento, — repetiu Helena como um eco e com ironia, lembrando-se do período inicial de suas relações, quando estivera, por assim dizer, no limiar do amor com ele. No limiar. À espera de ser convidada a entrar. Mas, com que firmeza (apesar de todo o seu silêncio e gentileza estudada), com que decisão ele lhe fechara a porta! Não queria ser amado. Ela estivera, num momento, à beira da revolta; mas depois, com esse espírito de resignação ulcerada e sarcástica com que aprendera a conhecer o mundo, aceitou suas condições. Eram as mais aceitáveis, uma vez que não havia melhor alternativa em vista; uma vez que, afinal de contas, ele era um homem notável e, enfim, ela gostava muito dele; uma vez que, também ele sabia dar-lhe, ao menos, uma satisfação física. — Simples divertimento, — repetiu ainda. E deu uma risada.

Anthony mirou-a de repente, estranhando e receando que ela pretendesse romper o compromisso tacitamente assumido por ambos, e abordar algum assunto proibido. Seus temores, porém, não se justificavam.

— Sim, concordo, — concluiu ela depois de um breve silencio. — Você é perfeitamente honesto. Mas isso não altera o fato de estar sempre recebendo alguma coisa a troco de coisa alguma. Chame a isso uma esperteza involuntária. Creio que é no rosto que está sua fortuna. É que, pelo menos no seu caso, são as belas plumas que fazem as belas aves. — Inclinou, se outra vez sobre as fotografias. — Quem é essa?

Ele hesitou um momento antes de responder; depois, com um sorriso, mas sentindo ao mesmo tempo certo constrangimento, respondeu: — Uma das grandes-paixões que eu não tive. Chamava-se Gladys.

— Havia mesmo de ser! — Helena franziu o nariz, desdenhosa. — por que a deixou?

— Não a deixei. Preferiu outro. Também, pouco se me dava... — ia acrescentando, quando ela o interrompeu:

— Talvez que o outro, às vezes, conversasse com ela na cama.

Anthony enrubesceu. — Que quer dizer?

— Algumas mulheres têm a esquisitice de gostarem que se converse com elas na cansa. E visto que você não o fazia... Realmente, é coisa que você nunca faz. — Atirou para o lado a Gladys e apanhou a mulher vestida à moda de 1900. — É sua. mãe?

Que sim, fez com a cabeça Anthony. — E esta é a sua, — disse avançando o retrato de Mary Amberley com as suas plumas funéreas. Depois, em tom de enfado: — Todo esse peso de experiências passadas que arrastamos conosco! Deveria haver um jeito de nos libertarmos de nossas reminiscências supérfluas. Como me aborrece o velho Proust! É realmente detestável. — E com uma eloqüência ultra-cômica, continuava evocando a visão desse asmático pesquisador do tempo perdido: acocorado, horrivelmente branco e flácido, com peitos quase femininos mas providos de longos pêlos negros, eternamente acocorado no banho morno do seu nunca esquecido passado. E toda a velha água ensaboada de incontáveis lavagens anteriores flutuava em volta dele; toda a sujeira que os anos haviam acumulado agarrava-se peganhenta aos lados da banheira ou formava uma camada escura à flor d'água. E ali estava ele, o inválido, na sua palidez repugnante, a espremer sobre a cara esponjadas d'água ensaboada, a esvaziar copázios dela, a deleitar-se com bochechos e gargarejos do líquido cinzento e granuloso, a enxaguar as ventas com ele, como um piedoso hindu no Ganges...

— Você fala dele, — disse Helena, — como de um inimigo pessoal.

Anthony limitou-se a rir.

No silêncio que se seguiu, Helena apanhou o retrato descolorido de sua mãe e começou a examiná-lo atentamente, como se se tratasse de misterioso hieróglifo, capaz de, uma vez interpretado, dar a chave decifradora de um enigma.

Anthony espreitou-a por um instante; depois, voltando à atividade, mergulhou num montão de fotografias, dentre as quais tirou a de seu tio James em costume de tennis, datada de 1906. Morreu de câncer, o pobre diabo, e com todas as consolações da religião católica. Largou esse retrato e apanhou outro. Era um grupo tirado em frente de brumosas montanhas suíças. Seu pai, sua madrasta e suas duas irmãs. "Grindelwald-1912" estava escrito no verso com a bela letra de Mr. Beavis. Notou que todos quatro empunhavam bastões de alpinistas.

— E eu quisera, — disse em voz alta, depondo o retrato, — quisera que os meus dias fossem separados uns dos outros por uma impiedade antinatural.

Helena levantou os olhos do hieróglifo indecifrável.

— Por que passa então o tempo olhando para velhas fotografias?

— Estava pondo em ordem meu armário, — explicou ele, —quando elas surgiram diante de meus olhos, como Tutankhamen. Não pude resistir à tentação de examiná-las. Além de tudo, — ajuntou, — faço anos hoje.

— Faz anos?

— Quarenta e dois, hoje. — Anthony sacudiu a cabeça: — Como isto abate! E dada a nossa tendência natural a sempre tornar maior nossa melancolia, daí terem surgido esses cadáveres no momento mais oportuno. — E apanhou um punhado de retratos que deixou novamente cair sobre a mesa. — Percebe-se ai o dedo da Providência: ou, se prefere, a pata da sorte.

— Você gostava muito dela, não? — perguntou Helena depois de outro silêncio, pondo p retrato da própria mãe diante dos olhos dele.

Ele confirmou com um sinal de cabeça e, para desconversar; — Foi ela quem me civilizou. Eu era um semi-selvagem, quando ela me acolheu. — Não queria discutir seus sentimentos acerca de Mary Amberley — especialmente (embora isso fosse, sem dúvida, um estúpido resto de barbárie) especialmente com Helena- — O fardo que se nos torna a mulher branca... — acrescentou rindo. E tornando a apanhar o grupo de alpinistas, disse: — Aqui está uma das coisas de que ela me libertou. A tenebrosa Suíça. Nunca poderei ser suficientemente grato.

— Pena é que ela mesma não tenha podido libertar-se, — disse Helena, depois de olhar para o grupo.

— E por falar nisso, como vai ela?

Helena ergueu os ombros. — Estava melhor, quando deixou a enfermaria, na primavera. Mas, naturalmente, começou de novo. Sempre a mesma coisa. Morfina. E ainda por cima, nos intervalos, bebe. Eu a vi em Paris, quando em caminho para cá. Coisa medonha! — disse com um tremor.

A mão irônica e afetuosa que ainda lhe premia a coxa pareceu, de súbito, extremamente fora de lugar. Anthony deixou-a cair.

— Não sei o que é pior, — prosseguiu Helena de uma pausa. — A imundície — você não faz idéia do estado em que ela vive! — ou essa maledicência, esse abominável vício da mentira- — Suspirou profundamente.

Com um gesto que nada tinha de irônico, Anthony tomou-lhe a mão e apertou-a. — Pobre Helena!

Ela ficou alguns segundos imóvel, sem falar, como que à parte; depois, sacudiu-se toda, de súbito, como se despertasse de um torpor. Ele sentiu na mão o contacto gordo da mão dela; e quando ela se voltou para ele, tinha o rosto animado de uma alegria cheia de resolução e destemor. — Pobre Anthony, digo eu! — E uma risada retida no fundo da garganta transformou-se num ruído inesperado e estranho. — Que importam as aparências enganosas!

E enquanto ele protestava que não, que para com ela as aparências eram verdadeiras, ela curvou-se e, quase com fúria, colou seus lábios contra os dele.

 

30 de agosto de 1933

DO teto plano da casa estendia-se a vista, primeiro, para oeste, onde os pinheiros se debruçavam sobre o mar — uma baía azul do Mediterrâneo franjada de rochas ossiformes e esbranquiçadas, como uma taça no meio de altas colinas esverdinhadas pelos vinhedos das vertentes, acinzentadas pelas oliveiras, escurecidas pelos pinheiros, matizadas pelo vermelho da terra, pelo branco das rochas, pelo pardo rosado das charnecas adustas. Pela brecha que as colinas mais próximas formavam, via-se a longa cadeia de Sainte-Baume, de uma claridade metálica, mas azulando-se à medida que se estirava ao longe, em linha reta. Ao norte e ao sul, jardim orlado de pinheiros; a leste, porém, os vinhedos e oliveirais elevavam-se em terraços vermelhos, como penachos; e as últimas árvores olhavam para o céu, às vezes escuras e cismarentas, outras vezes animadas de cintilações argentinas.

Sobre o teto havia colchões para banhos de sol; eles estavam deitados num desses colchões, com as cabeças na sombra projetada pelo parapeito do lado do sul. Era quase meio-dia; o sol dardejava, quase a pino, do céu escampo; o ar agitava-se, porém, em leve brisa, para logo depois parar e, em seguida, agitar-se de novo. Envolta nessa quentura convenientemente temperada, a pele parecia adquirir uma sensibilidade mais viva, quase uma consciência independente. Como se o sol lhe estivesse instilando nova vida. E essa vida estranha, violenta, flamejante, vinda do exterior, parecia perfurar a pele, atravessar e transfigurar a carne subjacente, até mudar o corpo todo em uma coisa adventícia, alienígena, feita de substância solar, e a própria alma sentir que perdia, por fusão sua identidade e se tornava outra coisa, qualquer coisa de diferente, de extra-humano.

Como são poucos os possíveis esgares, trejeitos, caretas e contorções, se os comparamos com todos os pensamentos, sentimentos e sensações possíveis! Como é humilhante a pobreza de reflexos, senão mesmo dos gestos conscientemente expressivos! Lúcido, ainda, no seu aturdimento, Anthony observava os sintomas dessa agonia, em que também tinha parte como assassino e como vítima. Num desassossego constante, ela voltava a cabeça nas almofadas para um e outro lado, como a procurar, mas sempre em vão, algum alívio, por mais ligeiro que fosse, um instante, ao menos, de interrupção em seu intolerável sofrimento. Às vezes, num gesto de quem, desesperado, suplica o afastamento de uma droga, enclavinhava as mãos e, levando-as à boca, mordia as falanges recurvas ou um dos punhos, como que para abafar o próprio choro. Desfigurado, o rosto se lhe tornara a máscara da dor. Era — notou ele, de súbito, ao inclinar-se sobre esses lábios torturados — o rosto de uma das mulheres santas de Van der Weiden ao pé da cruz.

Seguiu-se, inesperado, um estado de acalmia. A vítima deixou de agitar a cabeça angustiada no travesseiro. As mãos súplices caíram, moles. À expressão de agonia sucedeu uma serenidade sobre-humana de êxtase. A boca tornou-se grave como a de uma santa. Por detrás das pálpebras fechadas, que beatífica visão se apresentara?

Por muito tempo assim ficaram ambos, num áureo torpor produzido pelo sol e a saciedade. Foi Anthony quem se mexeu primeiro. Movido pela silenciosa e irrefletida gratidão e ternura de seu corpo satisfeito, ele procurou acariciá-la com a mão e sentiu-lhe a pele quente como um fruto ao sol. Ergueu-se sobre um dos cotovelos e abriu os olhos.

— Você parece uma pintura de Gauguin, — disse, depois de um momento. Trigueira como uma figura de Gauguin e, coisa curiosa que muito o impressionou, lisa, sem relevo, como, ainda, uma figura de Gauguin. Porque a pele tisnada perdeu todos aqueles tons carminados, azulados, esverdeados, que dão à pele branca não curtida essa riqueza de relevo que lhe é peculiar.

Sua voz veio tirar Helena do estado de tépida e deliciosa inconsciência em que se encontrava. Ela estremeceu, como se sofresse. Por que não deixá-la em paz? Tão feliz que fora nesse outro mundo, em que seu corpo se transfigurara; e agora estava ele ali a chamá-la, a querer que ela voltasse ao seu habitual inferno de vacuidade, aridez e descontentamento. Deixou-lhe as palavras sem resposta e, cerrando ainda mais os olhos contra a ameaça da realidade, esforçou-se por voltar ao paraíso de onde tinha sido arrancada.

Trigueira como uma figura de Gauguin e sem relevo... Mas a primeira figura de Gauguin que ele viu (e bem se lembrava de que fingira, então, gostar muito mais do que realmente gostou) tinha sido em companhia de Mary Amberley, por ocasião de sua estada em Paris — ocasião cheia de emoções e, para o rapaz de vinte anos que ele então era, extraordinária e apocalíptica.

Fechou-se, por um momento, numa severa autocrítica: esse seu passado se estava tornando importuno! Mas quando, para esquecê-lo, curvou-se e beijou o ombro de Helena, sentiu que a pele quente estava impregnada de um cheiro fraco, mas penetrante, um cheiro, a um tempo, de sal e de coisa queimada e que o transportava, instantaneamente, a uma grande caieira no flanco dos Chilterns, onde em companhia de Brian Foxe, passara uma hora inexplicavelmente deliciosa, batendo, um contra o outro, dois pedaços de pederneira e fungando, com volúpia, no ponto da pedra onde a faísca havia deixado seu sabor característico de combustão marinha.

— É f-feito f-fumaça no fundo do m-mar, — tinha sido o comentário tartamudeado por Brian, ao receber as pedras para cheirar.

A realidade presente, mesmo naqueles seus fragmentos que mais sólidos parecem, está crivada de ciladas. Que poderia haver de menos comprometedor, ali na hora presente, do que um corpo de mulher exposto ao sol. E entretanto ele tinha-o traído. O terreno firme do imediatismo sensual desse corpo e de sua própria ternura física tinha-se-lhe aberto sob os pés precipitando-o noutra época e noutro lugar. Não havia segurança em Parte alguma. Até mesmo essa epiderme cheirava a fumaça no fundo do mar. Essa epiderme viva, atual. E havia quase vinte anos que Brian tinha morrido.

Uma caieira, uma galeria de pintura, uma figura trigueira ao sol, uma epiderme, redolente, aqui, de substâncias salinas e enfurnadas e, ali, (como a de Mary, recordava-se) selvagemente almiscarada. Num ponto qualquer do seu espírito, um louco embaralhava um maço de fotografias e distribuía-as ao acaso, tornava a embaralhá-las e a distribuí-las noutra ordem; e, assim, sucessivamente, indefinidamente. Sem ordem cronológica. O idiota não distinguia entre "antes" e "depois". A caieira era tão real e nítida como a galeria. Dez anos de distância entre as pederneiras e os quadros de Gauguin não constituíam um fato dado, objetivo, mas resultante, apenas, de pensamentos segundos simples produto possível do raciocínio. Os trinta e cinco anos de sua vida consciente revelaram-se-lhe imediatamente como um caos — um maço de fotografias nas mãos de um lunático. E destas, quem decidia quais as que deviam ser conservadas, quais as destinadas ao refugo? De acordo com as freudistas, um animal amedrontado e libidinoso. Os freudistas, porém, eram vitimas de uma ilusão emocional, eram uns racionalizadores incorrigíveis, sempre em busca de razões suficientes, de motivos compreensíveis. De todos os motivos, os mais fáceis de compreender são o medo e a concupiscência. Logo... Mas a psicologia não tinha, mais do que qualquer outra ciência, direito de ser antropomórfica, ou, sequer, exclusivamente zoológica. Além da razão e dos instintos animais, o homem era ainda constituído por um grupo de partículas sujeitas às leis da probabilidade. Algumas coisas eram lembradas por sua utilidade ou seu apelo às faculdades superiores do espírito; outras, sob a presidência dos instintos animais, lembradas (ou deliberadamente esquecidas) devido ao seu conteúdo emocional. Mas que dizer das inúmeras coisas recordadas sem nenhum conteúdo emocional particular, sem utilidade, sem beleza, sem nenhuma significação para a razão? Nestes casos a memória parecia reduzir-se a uma questão de puro acaso. No momento da ocorrência, acontecia estarem certas partículas fortuitamente em posição favorável. Clic! e estava capturado o fato, indelevelmente impresso, registrado na memória. E sem razão nenhuma. A não ser que (imaginava ele agora, um tanto inquieto) a razão fosse, não anterior, mas conseqüente ao fato, estivesse no que fora o futuro do fato. E se essa galeria de pintura tivesse sido registrada e reservada nas adegas do espírito, única e expressamente para afluir à consciência  nesse momento presente? Afluir à consciência agora, aos quarenta e dois anos de idade, quando ele se sentia confiante em si, firme, com personalidade definida, afluir à consciência com todos aqueles anos críticos de sua adolescência e com a mulher que fora sua professora, a primeira amante sua, e era agora um mulambo de gente, a morrer de corrupção e de veneno num antro imundo? E se aquele brinquedo com as pederneiras, absurdo e pueril, tivesse tido um alvo, uma finalidade profunda, qual fosse a de ser lembrado aqui, sobre esse teto ensoalheirado, justamente quando em seus lábios sentia a quentura solar da carne de Helena? E para forçá-lo, em meio àquele ato de sensualidade ocasional e irresponsável, a pensar em Brian e nas coisas para as quais Brian vivera e pelas quais morrera — morrera, sim — ao espírito lhe veio, súbito, esta outra imagem ao pé desse mesmo rochedo, sob o qual os dois tinham brincado, como crianças, na caieira. Sim; até mesmo o suicídio de Brian — compreendia ele agora com horror — até mesmo aquele pobre corpo enrodilhado sobre as rochas estava misteriosamente implícito nessa epiderme cálida.

Um, dois, três, quatro... Contando os movimentos que ia fazendo com a mão, começou a acariciá-la. O gesto era mágico e havia de, repetido suficientemente, transportá-lo para além do passado e do futuro, para além do bem e do mal, para dentro do presente discreto, independente, atômico. Partículas de pensamento, de desejo e de sentimento, movendo-se ao acaso em meio a partículas de tempo, entrando acidentalmente em contacto e igualmente ao acaso separando-se. Um cassino, um asilo, um jardim zoológico; mas também, a um canto, uma biblioteca e alguém pensando. Alguém vastamente à mercê dos croupiers, à mercê dos idiotas e dos animais. Mas alguém cuja vontade era, todavia, irreprimível e incansável. Dois ou três anos mais e os Elementos de Sociologia estariam concluídos. Apesar de tudo. Sim, apesar de tudo! pensava ele com uma espécie de exaltação arrogante. E continuava contando:... trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro, trinta e cinco...

 

30 de agosto de 1933

ESTES tavães ignóbeis! — Helena esfregou a parte avermelhada do braço. Anthony não fez comentário algum.

 Ela o examinou um instante em silêncio. Disse por fim: — Que porção de costelas que você tem!

— Esquizotimo físico, — respondeu ele de detrás do braço que lhe servia de quebra-luz para o rosto. Por isso é que estou aqui. Predestinado pelo ângulo das minhas costelas.

— Predestinado a quê?

— À sociologia; e, nos intervalos, a isto. — Ergueu a mão, fez um pequeno gesto circular e deixou-a cair de novo sobre o colchão.

— Mas o que é esse "isto"? — insistiu ela.

— Isto? — Anthony repetiu. — Vejamos... — Hesitava. Gastaria muito tempo, se fosse falar desse divórcio idiossincrásico entre as paixões e o intelecto, dessas sensualidades avulsas, dessas idéias esterilizadas. — "Isto" é você, — proferiu, afinal.

— Eu?

— Oh, concedo que poderia ser outra, — disse ele, rindo, verdadeiramente deleitado com o seu próprio cinismo.

Helena também riu, mas com certo azedume, que surpreendia. — Pois eu sou essa outra.

— Que quer dizer? — perguntou ele, descobrindo o rosto para olhá-la.

— Quero dizer o que estou dizendo. Pensa você, que eu estaria aqui — o meu verdadeiro "eu"?.

—Verdadeiro "eu"! — zombou ele. — Você está falando como os teosofistas.

— E você está falando como um tolo, — disse ela. — Fazendo de tolo. Porque, certamente, você não o é. — Seguiu-se um longo silêncio. O "eu", o "eu" verdadeiro? Mas onde, mas como, mas por que preço? Sim, acima de tudo, por que preço? Essas Cavells e Florence Nightingales... Mas era impossível isso; uma coisa dessas era impossível; era, acima de tudo, ridículo. Franziu a testa, sacudiu a cabeça; depois, abrindo os olhos, pois que os tinha fechado, procurou alguma coisa no mundo exterior, para distraí-la desses inúteis e importunos pensamentos íntimos. No primeiro plano só havia Anthony. Olhou um instante para ele; depois, com uma espécie de relutância fascinada, como diante de algum animal irresistivelmente estranho, mas, ao mesmo tempo, repulsivo, estendeu a mão e tocou a pele rósea e enrugada da grande cicatriz que lhe atravessava diagonalmente a coxa, uma ou duas polegadas acima do joelho.

— Ainda dói? — perguntou.

— Quando estou exausto. E, às vezes, quando o tempo está úmido. — Levantou do colchão, um pouco, a cabeça e, dobrando, ao mesmo tempo, o joelho direito, examinou a cicatriz.

— Qualquer coisa no estilo do Renascimento, — disse, refletindo. — Torsos estigmatizados.

Helena estremeceu. — Deve ter sido horrível! — Depois, com repentina veemência, exclamou: — Como detesto a dor! — E o seu tom de voz era o de um ressentimento apaixonado, profundamente pessoal. — Detesto-a! — repetiu, para que o ouvissem todas as Cavells e Nightingales.

Mais uma vez ela o impelira para o passado. Aquele dia de outono em Tidworth, dezoito anos antes. Instrução de granadeiros. Quando ia atirar, um recruta imbecil deixara cair a granada. Gritos. O pânico de que se deixara tomar, o estampido. Estranhamente impreciso tudo isso se lhe afigurava agora, e inconseqüente, como qualquer coisa vista através de um telescópio as avessas. E até mesmo a dor, todos aqueles meses de dor se haviam apagado em sua memória quase até à inexistência. Fisicamente era a pior coisa que já lhe tinha ocorrido... e entretanto o lunático que lhe superintendia a memória já a tinha praticamente esquecido.

— Ninguém pode lembrar-se da dor, — disse em voz  alta.

— Eu posso.

— Não pode, não. Você pode somente lembrar-se da ocasião em que a sentiu, das circunstâncias que a acompanharam.

A ocasião fora quando estivera na casa da parteira, na rue de la Tombe-Issoire, e as circunstâncias — a imundície e a humilhação. Seu rosto tinha uma expressão de dureza, enquanto ouvia as palavras dele.

— Você não pode lembrar-se dos seus atributos reais, continuava ele. — Como não pode recordar-se dos atributos de um prazer físico. Hoje, por exemplo, ainda há pouco, há meia hora — não pode lembrar-se. Não há nada como uma recriação do fato. E felizmente. — Ele sorria, agora. — Imagine se a gente pudesse lembrar-se perfeitamente dos perfumes e dos beijos! Como seria estafante a realidade deles. E que mulher dotada de memória existiria, capaz de ter mais de um filho?

Helena mexeu-se inquieta. — Não posso imaginar que isso possa ocorrer a qualquer mulher, — disse em voz baixa.

Ele prosseguiu: — Em virtude, porém do esquecimento, as nossas dores e os nossos prazeres são sempre novos, cada vez que os experimentamos. Novinhos em folha. Cada gardênia é a primeira gardênia que cheiramos. E cada parto...

— Está você de novo a falar como um tolo, — interrompeu ela, zangada. — Confundindo o caso.

— Pensei que o estava elucidando, — protestou ele. — Mas, afinal, qual é o caso?

— O caso sou eu, é você, é a vida real, é a felicidade. E está você aí a tagarelar sobre fantasias. Tal qual um louco!

— E você? Será, porventura, muito experiente em matéria de vida real? Técnica em matéria de felicidade?

No espírito de cada um deles estas últimas palavras evocaram a imagem de uma figura prudente por detrás de uns óculos.

Aquele casamento! Que coisa poderia tê-la induzido a tal. Por certo que o velho Hugh tivera por ela um amor todo sentimental. Mas era isso razão suficiente? E, depois, quais tinham sido as suas desilusões? Na maior parte, de ordem fisiológica, supunha ele. E cômicas, quando se pensava nelas com relação ao velho Hugh. Uma prega arregaçou levemente os cantos da boca de Anthony. Mas, naturalmente, só poderiam ter sido desastrosas para Helena. Ele quisera conhecer os detalhes — mas em segunda mão, com a condição de não ter que pedir, ou de lhe serem oferecidas confidencias. Confidencias eram coisa perigosa, viscosa, prendiam a gente — espécie de papel de apanhar moscas; isso mesmo: papel de apanhar moscas... Helena suspirou: depois, pondo as mãos nos quadris e com um tom de decisão, disse: — Pedra é pedra e pau é pau; as coisas são o que elas são. Demais, eu faço o que bem me apraz.

Antes assim, pensou ele consigo. Houve um silêncio.

— Quanto tempo esteve você no hospital com esse ferimento? — perguntou ela, já noutro tom.

— Quase dez meses. Sobreveio uma infecção de mau caráter. Fizeram, ao todo, seis operações.

— Coisa horrível!

Anthony encolheu os ombros. Ao menos, assim, não tivera que ir para as trincheiras. Se não fosse a misericórdia divina:... — É uma coisa esquisita, — acrescentou, — as formas inverossímeis que às vezes assume a misericórdia divina! Um camponês apalermado com uma granada de mão. Não fosse ele e eu teria sido embarcado para a França e massacrado — quase tão certo como eu estar agora aqui. Foi ele que me salvou a vida. — E ajuntou, depois de uma pausa: — E a liberdade também. Ter-me-ia deixado inebriar por aquelas intoxicações do começo da guerra: "A honra voltou, enfim, como um rei, sobre a terra." Mas creio que você é ainda muito jovem para ter ouvido falar no pobre Rupert. Isso parecia corresponder ao sentimento dominante então, em 1914. — "A honra voltou..." Mas Rupert esquecera-se de mencionar que a estupidez também tinha voltado. Foi no hospital que eu tive todo o vagar para pensar nessa outra descida régia sobre a terra. A estupidez como um rei... Não; como um imperador, como um “Führer” divino de todos os Arianos. Era uma reflexão desintoxicante.  Desintoxicante e profundamente libertadora. E eu a devia àquele labrego. A ele, que era um dos súditos mais fieis do grande "Führer" — Houve outro silêncio. — Às vezes eu me sinto um pouquinho nervoso — como Policrates, de ter tido tanta sorte na vida. Todas as ocasiões parecem sempre ter conspirado em meu favor. Até isto aqui. — pos um dedo na cicatriz. — Talvez eu deva fazer qualquer coisa no sentido de conjurar a inveja dos deuses — lançar, talvez, um anel ao mar na próxima vez que eu for banhar-me — deu uma risadinha. — O diabo é que eu não tenho um anel.

 

30 de agosto de 1933

UM brando rumor acariciou as franjas semi-conscientes do torpor que os envolvia; foi-se depois avolumando, como se uma concha lhes fosse sendo aproximada cada vez mais do ouvido, até se tornar afinal um rugido atroador que se impunha brutalmente à atenção. Anthony abriu os olhos apenas um instante suficiente para ver que o aeroplano estava quase diretamente acima deles e depois tornou a fechá-los, ofuscado pelo azul intenso do céu.

— Essas malditas máquinas! — disse. Em seguida acrescentou com uma risadinha: — São como o olho severo de Deus descobrindo-nos aqui.

Helena não respondeu; mas, por trás de suas pálpebras fechadas, sorria. Olhados de relance, com um olhar de reprovação e ao mesmo tempo de satisfação maliciosa e obscena. O simples fato de imaginar esse visitante celeste era de um cômico irresistível.

— Davi e Betsabé — prosseguiu ele. — Infelizmente a cem milhas horárias...

Um ganido estranho veio misturar-se ao fragor da máquina. Anthony abriu novamente os olhos, a tempo ainda de ver uma massa precipitando-se sobre ele. Soltou um grito, fez um momento rápido e automático para proteger o rosto. Com uma pancada violenta, mas surda e seca, a coisa veio bater contra o teto chato, a uma ou duas jardas do lugar em que eles estavam deitados. Sentiram por um instante aquecer-lhes a pele as gotas de um líquido violentamente esguichado, as quais se tornaram, a seguir, de um frio intenso, com o sopro mais forte da brisa de oeste. Houve um longo segundo de silêncio. — Cristo! Anthony murmurou enfim. Da cabeça aos pés, estavam ambos salpicados de sangue. Numa poça vermelha, a seus pés, jazia a carcaça quase informe de um "fox terrier". Com o distanciar-se do aeroplano, o barulho diminuíra até tornar-se um zunido rouco e, de súbito, o ouvido passou novamente a perceber o ruído estridente e áspero das cigarras.

Anthony respirou profundamente; depois, com esforço ainda um tanto vacilante, conseguiu rir. — Mais uma razão para eu não gostar de cães, — disse e, erguendo-se sobre pés e as mãos e de cara franzida pela repugnância, pôs-se a olhar para o próprio corpo banhado de sangue. — Se tomássemos um banho? — perguntou, voltando-se para Helena.

Sentada e completamente imóvel, Helena olhava com uns olhos arregalados a carcaça despedaçada. Um jacto de  sangue tendo-lhe escorrido pelo rosto pálido, deixara-lhe uma longa risca vermelha desde o lado direito do queixo até ao canto do olho esquerdo, passando em diagonal por sobre a boca.

— Você parece Lady Macbeth, — disse ele, tentando, ainda uma vez, pilheriar. — Allons. — Tocou-lhe no ombro. — Vamos tirar estas manchas horríveis. Esta imundície está secando no meu corpo. Parece secante.

Como única resposta, Helena cobriu o rosto com as mãos e começou a soluçar.

Anthony esteve imóvel um instante, olhando para ela, ali encolhido, ouvindo-lhe a plangência do pranto provocado por aquela abjeção desesperada de sua nudez suja de sangue. — Parece secante — suas próprias palavras repercutiram-lhe sem graça nos ouvidos. Moveu-o interiormente a pena e, a seguir, um ímpeto quase violento de amor por essa mulher que sofria, por essa pessoa, sim, essa pessoa de que ele pretendera deliberadamente não tomar conhecimento, como se não existisse a não ser como um dos elementos do prazer. Agora que ela estava ali ajoelhada e em soluços, toda a ternura que ele já alguma vez sentira pelo seu corpo, toda a afeição implícita nos prazeres sensuais e jamais expressa pareciam descarregar-se, numa espécie de faísca elétrica de sentimento acumulado, sobre essa pessoa, esse espírito corporificado, que chorava em solidão, por detrás de mãos recatadoras.

Ajoelhou-se ao lado dela no colchão e, com um gesto visante a exprimir tudo quanto ele então sentia, passou-lhe o braço em volta dos ombros.

Ao seu contacto, porém, ela recuou, como de uma conspurcação. E num estremeção violento, sacudiu a cabeça.

— Mas, Helena... — protestou ele, na tola convicção de que devia haver qualquer mal-entendido, que era impossível não sentisse ela o que ele estava sentindo. Era apenas questão de fazê-la compreender o que a ele acontecera. Pôs-lhe, mais uma vez, a mão no ombro. — você... — Mesmo nesse se com a palavra "amor."

— Não me toque, — gritou ela, quase sem articular as palavras e curvando-se toda para evitá-lo.

Ele retirou a mão, mas ficou ali, ajoelhado junto dela, perplexo e miserando em seu silêncio. Lembrara-se de quando ela quisera que lhe fosse dado amar e de