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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SENHORA DONA DO BAILE / Zélia Gattai
SENHORA DONA DO BAILE / Zélia Gattai

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SENHORA DONA DO BAILE

 

ABRIL DE 1948

Chegaríamos a Lisboa no dia seguinte pela manhã. Enquanto amamentava João Jorge na acanhada cabine de segunda classe, eu fazia planos para o dia que passaria em terra. Navio italiano, de linha regular entre o Brasil e a Europa, o Argentina realizava duas escalas a partir do Rio de Janeiro: Cabo Verde e Lisboa, antes de atingir o porto de Gênova, seu fim de linha, meu destino. Eu embarcara no Rio de Janeiro, havia uma semana, levando nos braços meu filho de quatro meses.

Em Cabo Verde não pudera baixar. A Ilha de São Vicente, escala do Argentina, não possuía cais de atracação para navios de grande calado. O nosso ficara ao largo; os passageiros que desejassem desembarcar deveriam aventurar-se descendo por uma escada de corda — lembrava as dos trapezistas de circo —, antes de alcançar a lancha que os transportaria a terra. Que vontade tive de descer! A inconfortável escada não seria empecilho para mim, não me assustava. Com uma criança ao colo, porém, a coisa mudava de figura, não podia nem devia me arriscar. Paciência. Ficara contemplando de longe a ilha, uma das dez do arquipélago de Cabo Verde. Na paisagem árida, parda, despida de Colorido, terra e casas se confundiam. Segundo lera no jornalzinho de bordo, havia anos não chovia em Cabo Verde, nenhuma vegetação resistia à seca e a população era obrigada a servir-se de água importada.

Meninos apareceram nadando ao redor do navio, alguns completamente nus; exímios mergulhadores, verdadeiros peixinhos, iam pescar nas profundas do oceano as moedas que os passageiros atiravam à água, trazendo-as presas entre os dentes.

Achando que eu ficara frustrada por não ter desembarcado, doutora Janina, minha companheira de cabine, tratou de me consolar.

— Não fique triste, você não perdeu nada. Baixei uma vez para nunca mais. Um calor, uma poeira que Deus me livre! Quase tive uma insolação! — Fez um gesto de horror com as mãos.

A experiência da doutora não me dizia nada. Eu enfrentaria calor e poeira e, mesmo arriscando uma boa insolação, teria ido a terra. De Cabo Verde eu tinha notícias terríveis. Aprendera desde menina que as ilhas do arquipélago haviam sido importante trampolim, utilizado pelos portugueses, no tráfego de escravos africanos; mancha do passado. No presente, havia ali o campo de Tarrafal — na Ilha de São Tiago —, prisão na qual sofriam homens de valor, intelectuais africanos e portugueses, opositores da ditadura salazarista, isolados do mundo, sem possibilidades de defesa, sem perspectiva de liberdade. Ao ver agora, ao longe, aquela terra sofrida, sentia enorme vontade de andar entre seu povo, conhecer um pouco de seus hábitos, rodar pela cidade. Sempre tive fascínio pela geografia humana, muito mais do que pelas. paisagens.

 

DOUTORA JANINA

Médica italiana radicada em São Paulo, a doutora Janina dividia comigo a cabine nessa viagem de dez dias. Mulher disposta, sacudida, cheia de entusiasmo, animadíssima, beleza marcada por vincos na testa, rugas emoldurando os olhos negros, doutora Janina devia ter idade de sobra para ser minha mãe. Fizera muitas viagens de navio, sabia das coisas de bordo, dos oficiais e dos passageiros, punha-me a par da identidade dos companheiros de viagem, das ocorrências diárias e até do namoro de certa jovem casada, de família sua conhecida, a "se esfregar" pelos escuros do tombadilho com um bonitão italiano. "O marido, poveretto, trabalhando lá em São Paulo para sustentar os luxos e as viagens da mulher... e ela... se me contassem eu não acreditaria..."

Naquela noite, enquanto eu amamentava e fazia planos, doutora Janina, que saíra, havia muito, toda em traje de soirée, voltou à cabine, queria saber se eu não desejava dar um pulinho à festa de despedida. Muitos passageiros ficariam em Lisboa, e daí a três dias chegaríamos a Gênova. Aquela, pois, seria a última recepção de bordo. Penalizada por me ver ali sozinha, a doutora propunha-se a ficar com o menino até a minha volta. Tentava entusiasmar-me: "Andiamo! Via! Ânimo! Vá se divertir um pouco..." Monologava: "Poverina, sempre con questa creatura in braccia... não se diverte..." Vendo que eu não me animava, mudou de tática, começou a contar: "... sabe aquela que eu te contei? A civettonal" Ela mesma ria do adjetivo que arranjara para a pobre moça. "Está cantando, toda romântica, e o bonitão acompanhando no piano; uma cena! Vale a pena você ver!" Imitando a outra, a civettona, doutora Janina botou a mão no peito, meneou o corpo, sapecou um bolero muito era voga. "Nosotros, que fumos tan sinceros/ y desde que nos vimos/ amandonos estamos..." Essa doutora era uma bola! Não tinha jeito! Tão boa, tão gentil...

— Muito obrigada, minha querida — disse-lhe com um sorriso de agradecimento — não posso aceitar sua gentileza, prefiro dormir cedo, estou cansada e amanhã vamos ter um dia puxado... A senhora é um amor!

Eu não tomara parte nas inúmeras festas de bordo, nem participara do entusiasmo dos passageiros, sempre fatigada com"quella creatura in braccia...", de manhã à noite. Limitara-me a comparecer à insólita cerimônia de batismo, na passagem da linha imaginária do equador. Fomos batizados, João Jorge e eu, com um balde de água na cabeça, clara de ovo batida em neve e chocolatada pelas fuças. Ainda bem que, em meio àquela loucurada toda, sobrara um pouco de lucidez: respeitaram a criança, não nos atiraram à piscina, de roupa e tudo, assim como fizeram aos outros neófitos. Como recordação do acontecimento, nos brindaram com um diploma e nos conferiram um nome de peixe, nome a ser adotado, daí por diante, no reinado de Netuno. Para receber o diploma que seria entregue à noite, na festa do equador, a maior e a mais animada da viagem, com Netuno, seus Ministros e sereias — todos a caráter —, desfiz minhas trancinhas, troquei as calças compridas por um elegante vestido. Não me demorei, recebi o batistério e voltei para a cabine em seguida. Minha aparição, assim de repente, no salão do navio, causara surpresa, não fui reconhecida por ninguém. Haviam pilheriado: "Teria a desconhecida embarcado naquele dia?", contou-me mais tarde a doutora rindo.

 

MEU AVÔ PORTUGUÊS

Dissera à doutora Janina que desejava dormir cedo. Minha intenção era aquela, mas iria mesmo dormir, na excitação em que me encontrava? Minha emoção às vésperas de conhecer Lisboa era grande. Realizava um sonho, cultivado desde criança.

Meus laços afetivos com Portugal vinham de longe. Na escola, mesmo antes de aprender as primeiras letras, eu aprendera a amar Pedro Álvares Cabral. Apenas amar? Amar e muito mais. O hino de exaltação a Cabral e ao descobrimento do Brasil me empolgava. Verdadeira aula de patriotismo!: "...glória àquele varão que primeiro nossa terra do mar avistou..." O varão mencionado era Cabral, óbvio! E ele descobrira minha terra, o Brasil, certo? O fato de eu ser filha de italianos não me impedia de atribuir ao navegante português a razão da minha existência, minhas origens, minhas raízes, como se ele fosse meu ancestral, meu avô. Mas o hino não ficava ali, prosseguia: "Glória a quem o seu nome venera..." Eu levava o hino a sério, ao pé da letra, e, glorificada, mais do que amava, eu venerava o nome de Cabral. Uma única vez discordei da opinião de meu pai — menina acha que o pai sabe tudo, ninguém sabe mais do que ele —, achei que seu Ernesto não sabia nada ao vê-lo declarar que, antes de Cabral, outros navegantes haviam estado no Brasil. Cheguei quase a me sentir ofendida. Passara parte de minha infância a decorar e a declamar longos poemas anticlericais de Guerra Junqueiro; ouvia mamãe repetir trechos dos livros de Thomaz da Fonseca, escritor português, anarquista de longa tradição.

 

THOMAZ DA FONSECA, PATRIARCA DO ANARQUISMO

Certa vez, no Rio, depois de nosso regresso da Europa, tive a oportunidade de fazer uma surpresa a mamãe, dando-lhe ao mesmo tempo uma grande alegria. Guardo a lembrança desse momento raro.

Velho admirador da obra de Thomaz da Fonseca — da obra e do homem —-, Jorge foi surpreendido um dia com a visita do ilustre escritor português, de passagem pelo Brasil. Os dois não se conheciam pessoalmente, embora fossem ligados por mútua estima; Jorge era amigo de seu filho Branquinho da Fonseca, conhecido pela sua posição de intransigente adversário do salazarismo; Branquinho, que, muitos anos depois, também nos visitaria, na Bahia.

— Thomaz da Fonseca, o escritor? — perguntei quando, ao abrir a porta, ouvi o nome do visitante. Não havia dúvida, estava diante de um dos heróis de dona Angelina, nome tão presente na minha infância. Senti-me emocionada. Voltaram-me à memória as leituras de mamãe, um livro de Thomaz da Fonseca nas mãos a declamar, em voz alta, anarquismo para os filhos e para quem a quisesse ouvir. — Faça o favor de entrar.

Diante de mim uma figura impressionante! Um Dom Quixote, alto, esguio, um homem fino e delicado, as longas barbas brancas quase a alcançar-lhe a cintura, um patriarca. Thomaz da Fonseca, à porta, sorria de,meu indisfarçável assombro.

Por feliz coincidência, mamãe passava uns dias conosco, chegara pouco de São Paulo. Encantada, senti um misto de alegria e de exaltação, antegozando a reação de dona Angelina quando soubesse da presença do escritor em nossa casa. Levei-o até Jorge, que o recebeu com grande efusão. Deixei-os conversando e fui buscar mamãe em seu quarto. Sem fazer qualquer preâmbulo, assim como quem não quer nada, chamei-a:

—      Venha comigo à sala, mamãe, venha cumprimentar Thomaz da Fonseca.

Habituada ao meu espírito brincalhão, às peças que eu lhe pregava a cada oportunidade, dona Angelina voltou-se para mim, ar superior de quem diz: "nesta não caio", e atirou-me uma frase irônica:

—      Só isso? Thomaz da Fonseca, é? Não quer um tostão pela graça?

Nada lhe respondi, apenas continuei, de mão estendida, convidando-a a me acompanhar. Num profundo suspiro de impaciência: "Ufa!", dona Angelina franziu o cenho:

—      Menina, menina! Não me provoque!... Não brinque comigo!...

Insisti:

—      Vamos, mãe!

Ela só deixou de duvidar ao ser apresentada, minutos depois, pelo" genro — que foi ao quarto buscá-la —, ao homem das longas barbas brancas que, levantando-se educadamente, beijou-lhe a mão:

—      Thomaz da Fonseca, muito gosto em conhecê-la, minha senhora.

Anarquista, sim, mas cerimonioso e cavalheiro como todo bom português — um fidalgo!

Conversaram os dois durante largo tempo, com grande entusiasmo e maior satisfação. Estou certa de que o ilustre escritor saiu de nossa casa igualmente emocionado, comovido às lágrimas, depois de ter ouvido trechos de seus antigos livros recitados por aquela senhora tão simples, a sogra de Jorge Amado.

 

PRESENÇA PORTUGUESA

Personagem marcante de minha infância foi a transmontana dona Ana Maria, vendedora de galinhas, mulher sofrida e de grande coração. Dona Ana Maria costumava interromper suas andanças fazendo uma parada em nossa casa a fim de descansar no chão o pesado jaca que carregava às costas, seis dias por semana. Tomava um café que mamãe lhe oferecia, dava água às galinhas — pobres aves sedentas, com seus bicos abertos, as línguas de fora, os olhos redondos piscando de medo, que pena me davam! — e nos deliciava com histórias ingênuas. Ficávamos cativados sobretudo pela sua maneira de falar, trocando os bês pelos vês, os is pelos us e vice-versa, a pronúncia quase incompreensível para nós. Eu adorava ouvi-la contar os detalhes do acidente que a tornara viúva, e, quando mamãe não estava por perto, eu lhe perguntava:

—      Como foi mesmo que seu marido morreu, dona Ana Maria?

Com uma paciência infinita, ela me fazia a vontade e lá vinha a história sempre narrada com as mesmas palavras. Coisas tolas de criança mas que ficam gravadas para sempre, cheguei a decorar trechos do relato e nunca mais os esqueci. Mamãe me proibira: "... não fique aí a reavivar a dor da pobre...", mas eu bem percebia que ela também gostava de ouvir a história:

—      ... era o meu marido e mais o marido de uma outra. Venderam as galinhas e se foram ao Trianon ver os bailarinos que acolá se armavam (ela se referia a um certo dançarino, Trevise, que, numa maratona espetacular, dançou sem parar, muitos dias e muitas noites, empolgando São Paulo, no salão de festas do Trianon, na Avenida Paulista). O meu — continuava dona Ana Maria —, como era mui burro, pôs-se a contar o dinheiro em meio da Avenida. Nisso veio aquilo que eu cá nem sei dizeire, e não tocou a gaita e lá se foi o meu...

(A gaita em questão era, sem dúvida, a buzina do automóvel que matara o Manuel, seu marido.)

Mas dona Ana Maria nos falava também, e sempre com saudades, de sua terra, de seu Trás-os-Montes, das vindimas, da.s uvas esmagadas com os pés, do vinho, do outono de árvores se desnudando, da neve no inverno...

Com dona Josefina Strambi e sua irmã dona Luíza, ambas Portuguesas, vindas meninas para o Brasil, vizinhas e amigas de toda a vida de minha família, aprendi muita coisa sobre Portugal. Dona Luíza gostava de cantar e com ela aprendi a canção da Maria da Fonte:"Lá vem a Maria da Fonte, a cavalo sem cair/ Com uma cometa na boca, a tocar a reunir..." Aprendi também canções dedicadas a São João: "São João fez uma fonte, uma fonte toda de prata/ As moças não vão a ela, São João todo se mata./ Ai ripinica, ripinica, ripinica, e São João a chorar em bicas..." Essas canções, eu as repetia, cantando até ficar rouca, em torno das fogueiras da casa de dona Carmelina — portuguesa dos Açores, sogra de minha irmã Wanda —, onde os santos de junho eram festejados à portuguesa, com batatas e bacalhau assados na brasa e garrafões de vinho verde que se esvaziavam rapidamente. Rojões espocavam clareando o céu e, à meia-noite, começavam as sortes. As moças se afobavam preparando simpatias para Santo Antônio casamenteiro, para São João das bem-casadas e para São Pedro, o santo das viúvas. Gastavam dúzias de ovos para saber do noivo tão esperado: as claras eram despejadas em copos d'água, postos no sereno. Pela manhã, era aquela alegria! Cada moça encontrava, na imagem — ou escultura?

—      em que a clara se transformara dentro da água, a resposta positiva a

suas perguntas, na medida exata de seus desejos.

Para dizer a verdade, eu nunca vi diferença naquela coisa — que chamavam de imagem — dentro de cada copo; para mim elas eram todas iguais: uma espécie de montanha branca. Mas as candidatas ao matrimônio viam as mais diversas coisas, cada qual com seu significado

—      corações e igrejas: casamentos à vista; mar encapelado: viagem próxima. Ninguém queria saber do cordeirinho branco, mau presságio: destino de solteirona.

As irmãs de José Soares, marido de Wanda, se esmeravam nos doces, passavam dias e dias junto ao fogão, na preparação das queijadinhas, do arroz-doce decorado com desenhos de canela em pó, dos pastéis de Santa Clara, do toucinho-do-céu. Os rebuçados de Lisboa eram comprados, aos quilos, na Confeitaria Bussaco, onde seu Joaquim vendia doces portugueses de toda qualidade.

Em casa de dona Carmelina aprendi com a garotada uma cantiga que muito me divertiu. Fui cantá-la em casa e mamãe se escandalizou. Proibiu terminantemente que eu a repetisse: "Isso não é coisa pra menina...Se fosse coisa boa, você não aprendia com tanta facilidade, não cantava com tanto entusiasmo..." Nunca esqueci a cançãozinha proibida e engraçada: "Era uma velha que andava a varrer, e as badalhocas ao eu lhe bater/ e quanto mais a velha varria, mais as badalhocas ao eu lhe batiam..." Não adiantou explicar a mamãe que eu em Portugal era bunda, segundo me haviam dito. Mamãe não se impressionou com minha explicação, continuou achando que a canção era porca e manteve a proibição.

Ao saber de minha viagem e da escala que faria em Lisboa, meu cunhado José Soares me pedira que ao voltar lhe trouxesse um punhado de terra portuguesa.

Minhas duas irmãs haviam casado com descendentes de portugueses. Paulo Lima, marido de Vera, era filho de mãe lusitana, e seu pai, doutor Artur Lima, se bem nascido no Brasil, estudara Direito e se formara em Coimbra. Casara-se com dona Rita em Portugal e a trouxera para viver em São Luís do Maranhão. Muitos anos depois, divorciada do marido, dona Rita voltara a viver em Lisboa. O filho não a via fazia muitos anos mas tinha pela mãe verdadeiro culto. De tanto ouvi-lo elogiar as qualidades e as virtudes de dona Rita, ou quase cheguei a tomá-la por uma santa; ela se tornara figura de nossa intimidade e estima. Suas cartas ao filho eram sempre recebidas com ruidosa alegria; lidas em voz alta, provocavam lágrimas de saudades.

Ao despedir-se de mim, Paulo Lima pediu-me que fizesse uma visita à sua mãe e lhe entregasse um pacote com presentes que ele e Vera lhe mandavam. Não havia dúvida, visitar dona Rita seria um prazer para mim. Imaginava a surpresa que lhe causaria, já que minha viagem não lhe fora comunicada.

Pipo, mestre-cuca do navio, me faria companhia. Certamente eu dormiria mal naquela noite, à véspera da escala no porto de Lisboa; talvez nem dormisse, com tantos fatos a rememorar» tantos planos a fazer.

 

O MESTRE-CUCA

Dona Angelina puxara-me as orelhas, passara-me um sabão ao nos despedirmos:

— Está vendo só? Com a teimosia de não querer falar italiano em casa, agora como é que você vai se arranjar quando chegar na Itália? Não sabe falar italiano, vai ficar com cara de besta... que bela figura!

Meus pais em casa, entre eles, falavam italiano, mas nós, os filhos, respondíamos sempre em português, evitando usar o idioma deles, embora o compreendêssemos tão bem quanto o nosso.

Se dona Angelina me visse agora, em longos papos em italiano com Pipo, o velho chefe da cozinha do navio — que não sabia uma única palavra de português —, certamente não iria acreditar em seus ouvidos, se espantaria. Na hora da necessidade, não encontrei a menor dificuldade em me expressar no idioma familiar.

Na segunda classe as mordomias não eram lá essas coisas. Nem essas nem aquelas. Ao chamar a camaroteira, raramente era atendida. Aprendi logo que devia me desenvolver sozinha, tomar providências eu própria, se desejasse algo. Sorte a minha ter como companheira de cabine aquela médica gentil e prestativa. Mandada pelo céu, naquela viagem em que eu me aventurara com uma criança pequena, sem contar com a ajuda de ninguém, fato que preocupara a minha família, a Jorge e a mim. Foi a doutora quem me apresentou a Pipo, recomendando-me ao mestre-cuca. Eu caí nas suas graças e ele me franqueou as portas da cozinha, proibidas a pessoas estranhas ao serviço. Ao chegar em busca de sucos de frutas frescas ou da sopinha de meu filho, já encontrava tudo pronto à minha espera. Na enorme cozinha do navio, o Chefe Pipo, blusão branco impecável, calças de xadrez miúdo, a toque blanche de mestre-cuca a elevar-lhe a estatura, a dar-lhe imponência, dominava um mar de fogões e de panelas e toda uma legião de subalternos, que o atendiam a tempo e a hora. O Chefe acertara a profissão, gostava de comer, sentia orgulho de seus conhecimentos culinários, dava-me receitas e sentia-se feliz com os elogios que eu fazia a suas iguarias.

Não me foi difícil descobrir que o velho era homem de esquerda, antifascista. Puxei assunto sobre as eleições que se realizariam no dia 18 de abril, na Itália, precisamente na véspera da nossa chegada a Lisboa. Nessas eleições, a Democracia-Cristã e a Frente Popular — o Presidente De Gasperi e a Igreja comandavam os democratas-cristãos; a Frente Popular era constituída por forças de esquerda, os socialistas de Pietro Nenni e os comunistas de Palmiro Togliatti — faziam da campanha eleitoral uma briga de foice, na conquista de posições no Parlamento que lhes garantissem a força, o poder para governar o país. Havia um otimismo generalizado entre as camadas de esquerda; achavam que, depois de tanta luta, de tantos anos de fascismo, havia chegado a hora da vitória. Tão grande e tão difundida era essa esperança que, contagiado pelo otimismo, Jorge resolvera mudar-se da França para a Itália. Ele se encontrava viajando por lá, ia me esperar em Gênova.

Em conversa com Pipo sobre a esperada vitória da Frente Popular nas eleições, desapontei-me ao vê-lo pessimista:

— Com De Gasperi no governo a Democracia-Cristã está com a faca e o queijo na mão. Vão fazer misérias para vencer. Estão fortes, não se iluda!

Pipo passara inúmeras vezes pelo porto de Lisboa, porém jamais desembarcara. Embora fosse contra o regime salazarista, ele tinha vontade de conhecer a capital portuguesa. Sem compreender a língua, como se expressar? Desistia de descer a terra, acabava sempre ficando a bordo. Convidei-o a desembarcar comigo, passearíamos juntos pela cidade, ele me acompanharia na visita à dona Rita. Eu seria sua intérprete, pagando-lhe assim as inúmeras gentilezas que me prestava, além de ter a companhia de alguém que me ajudasse a levar a sacola contendo fraldas e apetrechos do menino e a carregar João, quando eu me cansasse. Com doutora Janina não podia contar, ela se engajara numa excursão.

 

LISBOA A VISTA

Despertei-me cedo, antes mesmo que o menino reclamasse a primeira mamada. Doutora Janina deitara tarde, ainda dormia. Tratei de me aprontar, estava doida para subir ao tombadilho a fim de assistir à entrada da barra.

Como era comum na minha geração, eu tinha uma idéia de Lisboa através da leitura dos romances de Eça de Queiroz; mas, tendo relido, pouco tempo antes, O Primo Basílio, o que me vinha à memória, naquela hora da chegada a Lisboa, era o discurso patrioteiro e gongórico do Conselheiro Acácio, declamando para Luísa as belezas da entrada da barra de Lisboa, onde, por sinal, ele nunca entrara: "...panorama grandioso, rival das Constantinoplas e das Nápoles!"

Pelos corredores o movimento já era intenso; pessoas passavam pisando forte, falando alto. Lá fora fazia frio. Com a criança envolta num xale de lã, busquei espaço entre os passageiros que se comprimiam na amurada, consegui um lugar, espremida entre eles. A cidade de Lisboa surgia ao longe. Deslizando docemente, o navio deixara o mar para trás, navegava pelo Tejo. Silenciosa, emocionada, eu contemplava a paisagem a se descortinar diante de meus olhos: "...panorama grandioso..." Pessoas ao meu lado anunciavam, entre exclamações entusiásticas, demonstrando sapiência, cada monumento que aparecia: "Lá está o Forte de Caxias! A Torre de Belém! Foi de lá que saíram as caravelas de Cabral! Vejam que colosso o Mosteiro dos Jerônimos! Lá ao fundo, o Castelo de São Jorge!" E a belíssima construção que se destacava entre tantas outras também belas, na montagem daquele grande e delicado presépio? Um presépio, sim, senhor! Assim meus olhos viam, na colina colorida, a cidade de Lisboa. Se eu procurasse com cuidado a manjedoura do Menino Jesus, talvez a encontrasse em meio ao casario... Alguém explicou que a construção, a destacar-se entre as demais, era a do Hospital da Cruz Vermelha d'Óbidos. D'Óbidos? Eu ouvira havia pouco esse nome. Ouvira ou lera? Eu lera, agora lembrava, na lousa fixada junto ao comissariado, anunciando que o barco atracaria às nove horas no cais da Rocha do Conde d'Óbidos. Nome tão pomposo, ficara me na memória.

 

CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA

Ao abandonar a indumentária imponente de chefe de cozinha, vestido num terno claro, sem gravata, Pipo mudara de aspecto, ficara modesto, diminuíra de estatura e, interessante, só então notei que mancava um pouco. Trazia uma garrafa térmica com o suco de frutas do "bambino", não esquecera. Mostrou-me uma listinha de coisas que desejava comprar, em geral guloseimas, lista encabeçada por latas de atum, "una ventresca specialef", como dizia o gourmet com água na boca. Atum igual ao daquela marca portuguesa jamais provara. Tinha o endereço, sabia onde encontrar a preciosa "ventresca".

Após as formalidades de praxe, tendo passado, em filas intermináveis, pelas autoridades sanitárias e pelo controle da polícia, descemos a terra. Já eram quase onze horas quando conseguimos um táxi. Devíamos estar a bordo, de volta, às dezessete horas, o navio zarparia às dezoito e trinta.

Conhecendo a tradição da hospitalidade portuguesa, contava que dona Rita nos convidasse, a mim e a Pipo, para almoçar com ela. Depois do almoço daríamos uma volta pela cidade, faríamos as compras. Havia tempo de sobra. Estávamos aflitos por notícias das eleições italianas realizadas na véspera. Compraríamos um jornal, quem sabe até festejaríamos em terra a vitória da Frente Popular? O pessimismo de Pipo não me afetara.

Eu falava português e, no entanto, o chofer do táxi não estava entendendo o endereço de dona Rita, repetido três vezes; continuava a me perguntar:

— Para onde deseja Vossa Excelência ir? Não estou a perceber o que diz, minha senhora...

Resolvi a questão dando-lhe um papel escrito com o nome da rua e o número da casa da mãe de meu cunhado. O chofer tratara-me de Vossa Excelência. Estaria se divertindo às minhas custas? Somente mais tarde concluí que esse tratamento cerimonioso era um hábito da terra.

Depois de muito rodar pela cidade, nosso carro entrou numa praça, o motorista diminuiu a marcha, voltou-se para trás: "Campo dos Mártires da Pátria. Cá estamos. Agora é procurar o número..." Consultou o papel, parou em frente a um prédio antigo. No endereço que eu trazia não constava o número da porta do apartamento, dizia apenas: rés-do-chão, esquerdo.

No acanhado e sombrio vestíbulo do térreo, à esquerda havia apenas uma porta, devia ser aquela. Pressionei o botão da campainha, primeiro timidamente, depois com insistência ao ver que não atendiam. Começava a desanimar, certa de que não havia ninguém naquela casa, quando abriu-se o postigo e dois olhos me fitaram. Uma voz áspera de mulher perguntou: "O que deseja?" Ao saber que eu procurava dona Rita e que vinha do Brasil, abriu a porta. Na sala mal iluminada, parada em minha frente, uma senhora de meia-idade, roupa escura amarfanhada, olhos estremunhados de quem acabava de acordar, fixou-me antes de declarar:

—      A senhora dona Rita morreu, foi enterrada hoje cedo.

Chocada diante da infausta notícia, tão infausta quanto inesperada, apenas pude perguntar:

—      Dona Rita morreu?

—      Pois foi o que lhe disse. Chegamos há pouco do cemitério, estava eu a dormir depois de uma noite de vigília. E a senhora, quem é?

—      Sou cunhada do Paulo, filho de dona Rita.

Ao ouvir o nome de Paulo, a mulher transfigurou-se, virou uma fera, esbravejou:

—      Assassino! Assassino da própria mãe! — reforçou.

Assassino? Mas que conversa mais estapafúrdia era aquela?

Perplexa, diante de tamanho disparate, custei a me recuperar:

—      Não estou entendendo nada...

—      Pois vai entender — retrucou a mulher, cada vez mais colérica, a ameaçar-me, dedo em riste. — Esse monstro matou a mãe!

—      Matou a mãe? Como? Que loucura é essa?

.— Ao escrever-lhe a última carta. A pobre senhora morreu de desgosto. Diga isso a seu cunhado quando com ele estiver...

Vendo que algo de anormal se passava, sem entender bulhufas do que aquela mulher dizia, preocupado, pronto a entrar em ação para me defender, caso fosse preciso, Pipo quis saber:

— Ma che cosa dice quella? Ma che cosa succede?

 

MISTÉRIO DESVENDADO

Algo de anormal acontecia, mas o quê? Que explicação dar ao meu baratinado acompanhante, tão desejoso de saber o que se passava, se nem eu mesma estava entendendo nada? Com um gesto de mão, pedi paciência a Pipo, logo lhe explicaria tudo. A mulherzinha botava os bofes pela boca, não me, dava oportunidade de perguntar nem de responder, soltara a corda de vez:

— Depois que ela recebeu a carta, nunca mais sorriu. Fui eu quem lha entregou — autoflagelava-se, dramática, patética, na verdade com certo prazer. — Dona Rita estava em seu quarto a descansar quando cheguei acenando-lhe com a carta. — A megera mudou de voz, melosa e quase infantil: — Olhe aqui o que chegou para si, cartinha do filho!... — Voltou a voz áspera e agressiva: — Foi o que eu lhe disse a rir, sem imaginar que lhe levava a morte.

Minha paciência se esgotava. Falei alto para ser ouvida, tomei a defesa de meu cunhado:

—      Deve haver um lamentável engano nisso tudo, minha senhora.

Paulo é louco pela mãe, adora ela! Ainda agora, sou portadora de um presente e de uma carta que ele manda para dona Rita.

A mulher olhou-me com escárnio:

—      Louco pode ser que ele seja, mas se adorasse a mãe, como está a me dizer, não ia dar-lhe nunca esse desgosto.

Lá de dentro, uma voz chamava: "Senhora dona Júlia!..." O apartamento deserto começava a criar vida; uma porta abriu-se e um rapazola de uns treze, quatorze anos aproximou-se discretamente: "...a mama está a chamá-la..." "Pois ela que espere", cortou, ríspida, dona Júlia.'"Diga-lhe que estou ocupada..." Assim como chegou, o menino partiu, e dona Júlia prosseguiu em sua catilinária.

Farta de tanto ouvir palavras insultuosas contra Paulo, doida para desvendar aquele mistério, interrompi-a em meio a uma frase:

—      Mas, afinal de contas, a senhora pode me contar o que dizia a tal carta?

Dona Júlia não deu importância à minha ansiedade. Não estava com pressa. Eu devia me preparar, cobrir-me de paciência para aturá-la, a mulherzinha perdia-se em detalhes:

—      Dona Rita era uma santa senhora. Morava em minha casa há quase vinte anos, nunca atrasou no pagamento da pensão, nunca me deu desgostos. Eu também a tratava muito bem. Sempre a tratei bem —repetiu. — A pobre vivia cheia de saudades do filho, desejosa de conhecer o netinho. Naquele dia, ao ler a carta que eu lhe entregara, ficou pálida, pôs-se a chorar. O filho confessava-lhe estar a trabalhar na praça.

Fazendo uma pausa para tomar fôlego e criar suspense, dona Júlia encarou-me antes de formular a pergunta acusatória:

—      Havia necessidade desse filho contar à mãe que estava a trabalhar na praça? Havia? Pois pouco importou-se ele de dar-lhe esse desgosto. Ainda vejo em minha frente a coitadinha entre soluços a lamentar-se: "...criei meu filho, dei-lhe estudos e diploma para quê?

Para andar por aí a sofrer dificuldades, um joão-ninguém, a trabalhar na praça, um mascate, um ambulante, sei lá!..."

Ao inteirar-me do motivo de todo aquele drama, primeiro fiquei bestificada, depois tive uma vontade doida de rir, precisei me conter, afinal de contas a pobre senhora acabara de morrer... Visualizei meu cunhado, homem ilustrado e discreto, dando uma de camelô, rodeado de populares curiosos, numa praça pública... Que absurdo! Que loucura!

Paulo havia entrado, recentemente, para uma grande firma, como vendedor de máquinas agrícolas. Corria a praça, fazia a praça, como se costuma dizer no Brasil. A mãe, em Portugal, interpretara à sua maneira. A senhoria, com toda a certeza, ajudara a botar lenha na fogueira, com a mesma veemência e o mesmo desembaraço com que dava agora sua própria versão à causa mortis; assassinato a longa distância! — Bom título para romance policial. A última carta de Paulo à mãe fora escrita fazia menos de um mês; ela falecera havia dois dias, de uma parada cardíaca, durante o sono.

Cansado de tanto esperar, inquieto, Pipo depositou o embrulho do presente, que até então carregara, sobre a mesa, tomou a criança de meus braços, foi espiar a rua pela janela recém-aberta por uma cidadã que surgira como um fantasma. A dita cuja abrira a janela, se aproximara para ouvir a discussão, lançara um olhar curioso para o meu lado e sumira por uma porta que devia ser a da cozinha, pois em seguida ouviu-se ruído de panelas, seguido de penetrante cheiro de cebola frita.

Pipo abandonou a janela, cansado da espera; fez-me um gesto com a cabeça: "Andiamó?" Eu devia sair dali o quanto antes, nada tinha a fazer naquele lúgubre apartamento. Os olhos de dona Júlia não desgrudavam do embrulho, os presentes que Paulo enviara para a falecida. O pacote continha uma caixa grande de chocolates e uma blusa de crivo, bordada em São Luís do Maranhão, cidade na qual dona Rita habitara durante os anos vividos no Brasil, onde lhe nascera o filho. Paulo sabia o quanto sua mãe apreciava aqueles bordados, queria dar-lhe o gosto de ter uma blusa da terra sempre lembrada por ela com saudades. Estaria dona Júlia candidatando-se a herdeira do presente destinado à sua inquilina? Pois ela que desistisse, que tirasse o cavalo da chuva. Não seria sua boca de impropérios que comeria os ricos chocolates brasileiros nem seu corpo de bruxa que vestiria a bela blusa.

Ao perceber que o velho me convidava para ir embora, dona Júlia amaciou a voz, encheu-se de delicadeza — os olhos sempre fixos no presente —, botou acento no carinho que nutria pela santinha, "mesmo que uma irmã!" Passou a falar das despesas que tivera com o enterro: "Ainda agora, com os funerais dela, gastei um dinheirão! O irmão da senhora dona Rita pagou uma parte dos gastos, não nego, mas e eu, que nem parente sou?..." Compreendi imediatamente o seu objetivo: no momento ela me nomeava parente da falecida, parente com obrigações de concorrer para as despesas.

Resmungando — devia estar blasfemando —, Pipo dirigiu-se à porta, girou o trinco: "Andiamo?", repetiu em voz alta e, sem esperar resposta, saiu rua afora, carregando o menino.

—      Vosso pai está com pressa! Diga-lhe que temos ainda algumas coisitas a acertar. Mando chamar agora mesmo o tio de seu cunhado, ele mora perto, faremos uma reunião de família... Já que Vossa Excelência diz que o senhor Paulo está em boa situação financeira, creio que não se negará a pagar os funerais da mãe... — Insinuava que eu adiantasse o dinheiro: — Vossa Excelência terá recibos, tudo direitinho.

Chegara a hora de dar um basta. Consultei o relógio. Passava de meio-dia; apanhei o pacote de cima da mesa, a sacola deixada sobre a cadeira:

—      Não se preocupe em mandar chamar ninguém. Estou de saída — disse secamente, andando em direção à porta aberta, em direção a Pipo que já se encontrava na calçada, impaciente —, vou embarcar e o navio não espera. — Fui saindo, passe bem, até outra vez, a rivederci, bye-bye, nem mesmo lhe estendi a mão e, sem dar atenção ao que a mulher falava atrás de mim, fui me salvando. Numa última tentativa de prender-me lá, dona Júlia chamava-me: "Não quer dar uma espiada no quarto da falecida?"

 

"LA STREGA"

Fora tanta a chateação daquela manhã, que nem tempo eu tivera de sentir a morte da pobre senhora. Ficara nervosa e irritada. Não ia permitir, no entanto, que essa tal de dona Júlia, desagradável e ignorante, estragasse as últimas horas que me restavam para conhecer Lisboa. Pedi ao chofer que nos levasse a um restaurante do centro, a um lugar agradável e simples e, sobretudo, onde se comesse bem a típica comida portuguesa.

Assim que o carro arrancou, sem dizer palavra, apenas juntando e balançando as cinco pontas dos dedos, num pedido de explicação, Pipo me fitou, a curiosidade estampada na cara. Contei-lhe apenas uma parte do sucedido: a pessoa a quem eu ia visitar tinha sido enterrada naquela manhã. A surpresa arrancou de Pipo um "càspita!", redondo e sonoro. Parei aí, não fui avante, o resto da história era muito complicado, difícil de explicar. Mas o velho não ficara satisfeito, queria mais: "Ma quella strega?", indagava. "Quella strega è una stregaf", disse-lhe rindo e encerrando o assunto.

 

PARQUE MAYER

Existe no centro de Lisboa, ao lado da Avenida da Liberdade, um grande parque arborizado — tílias, nespereiras, figueiras, um venerável jacarandá, oriundo do Brasil —, o Parque Mayer, a meu ver, um dos encantos da capital portuguesa. Nele se localizam alguns dos mais tradicionais teatros da cidade, nos quais se apresentaram e se apresentam artistas famosos da revista e da comédia — reino de Beatriz Costa e de Raul Solnado —, e uma dezena de restaurantes que servem a típica comida portuguesa, sem luxo mas de insuperável qualidade.

Quis minha estrela que o motorista nos conduzisse naquele dia ao Parque Mayer, do qual viria a ser freqüentadora habitual muitos anos mais tarde, e, ainda mais, que eu escolhesse para o nosso almoço um recanto pequeno e aprazível, O Retiro da Amadora. Nunca poderia imaginar que um dia me tornaria amiga fraterna daquelas jovens atenciosas que nos atenderam, as proprietárias do acolhedor restaurante.

Comemos, de entrada, queijinhos frescos de ovelha e em seguida uma deliciosa caldeirada acompanhada de vinho da casa, servido em jarrinha de barro. A família se esmerava no atendimento à numerosa e fiel clientela, formada sobretudo por artistas, jornalistas, escritores e funcionários dos teatros. Mestre na arte do sal e dos temperos, Pipo regalou-se com a comida portuguesa, lambeu os beiços.

Eu pensara alugar um táxi após o almoço para fazer um recorrido pela cidade, começando pela Alfama. Visitaríamos o Castelo de São Jorge, esticaríamos até a Torre de Belém e os Jerônimos.

Vendo-me atrapalhada, às voltas com a criança, sem que eu lhes pedisse, os proprietários do restaurante mandaram que a menina mais nova me acompanhasse a um quarto e me pusesse à vontade — a família residia em cima do restaurante, num alegre e limpo primeiro andar. Enquanto eu mudava as fraldas de João e dava-lhe o peito, Pipo saíra a andar um pouco, dar uma olhada pelo parque. Voltou aflito, trazendo um jornal. Dera-se conta, pela manchete do matutino, da vitória dos democratas-cristãos. Em meio a toda aquela confusão eu me distraíra a ponto de esquecer as eleições que tanto nos interessavam. Li, avidamente, o telegrama; as apurações ainda não estavam concluídas mas a vitória já era garantida."A IGREJA VENCEU!", dizia a manchete do jornal salazarista. Decepcionada, mais do que isso, triste e preocupada, eu começava a ver as coisas se complicarem para o meu lado. Perdi a graça, o interesse pela planejada excursão. Jorge devia estar chateado ao infinito! Pipo não escondia a contrariedade: "siamo fregati!", disse e repetiu. Também ele desistiu do passeio mas desejava fazer as compras, disso não abria mão. Entregou-me o papel com o endereço da casa comercial. O chofer nos levou à Rua do Carmo, sabia onde ficava a Martins & Costa. Quem, em Lisboa, não conhecia a famosa casa? Paramos na ladeira, em frente ao estabelecimento, pedi ao motorista que nos esperasse, pois de lá iríamos para o navio.

Além do almoço que o regalou, o velho cozinheiro teve, na sua malograda estréia de Lisboa, a oportunidade de conseguir o desejado atum. Aproveitei para comprar, também eu, uma lata grande para Jorge. Ele iria gostar.

 

'LA NAVE È IN PARTENZA!"

Os alto-falantes de bordo repetiam o aviso: "Signori passeggeri, Ia nave è inpartenza... Preghiamo ai signori visitanti..." Visitantes que se encontravam a bordo apressavam-se nas despedidas. Voltava-me a nostalgia que sentira, havia uma semana, ao deixar o Brasil. A voz estridente espalhada pelos alto-falantes me assustou, fazendo-me experimentar o mesmo choque que me sacudira na dolorosa partida do Rio. Na saída de Lisboa ninguém me acompanhara, ninguém me dera adeus lá do cais. Um casal de velhos despedia-se, aos prantos, de uma senhora que ali embarcava.

Lembraram-me Lalu e seu João, pais de Jorge: "Cuide bem de meu filho...", dissera Lalu; "Deus te acompanhe, minha filha...", dissera seu João. Antes mesmo que o navio tivesse zarpado, apenas levantada a escada, meus sogros desapareceram de minha vista. Ainda um adeus com a mão, um lenço enxugando os olhos e depois se foram. Lalu voltara-se duas ou três vezes para me acenar mas seu João não olhou mais para trás. O navio afastara-se lentamente e eu vira a paisagem do Rio de Janeiro cada vez mais longe. O bondinho entre o Pão de Açúcar e a Urca parecia solto no espaço, os cabos de aço invisíveis na distância; depois foi a vez da praia de Copacabana, estreita faixa branca em semicírculo, a compacta massa de edifícios por detrás; ao fundo o Corcovado... A imagem do Cristo sumira, certamente encoberta pela espessa névoa a circundar o cume da montanha. A cidade do Rio de Janeiro parecia se movimentar, afastando-se. Eu não percebia a mais mínima trepidação, as máquinas lá embaixo deviam estar paradas. Finalmente elas deram sinal de vida num solavanco, começavam a funcionar; daí por diante seria mar aberto. Um pungente apito de despedida — o prático que manobrara o navio se afastava numa lancha. Em meio a tanta gente e tanta animação, eu me sentira só, desprotegida.

Agora, ao sair de Lisboa, voltavam novamente o nervosismo, a nostalgia e as preocupações. Eu pensava em Jorge, na sua frustração com a derrota da Frente Popular, nossos planos de viver na Itália indo por água abaixo. De qualquer maneira, dentro de dois dias estaríamos juntos e toda a tristeza, todas as saudades afogadas em lágrimas desapareceriam.

 

VERSÍCULO INTERPRETADO POR LALU

Viajara apreensiva. Meus sogros iam sentir minha falta, principalmente agora quando haviam comprado apartamento depois de viverem muitos anos em hotel. "Deus me livre e guarde de pelejar mais com casa, já trabalhei muito na vida, quero mesmo é descansar", declarara-me dona Eulália, ao fazer o elogio do hotel onde habitava.

O segundo filho de dona Eulália, Joelson, o único que lhe fizera o gosto formando-se em Medicina, acabara de se casar e manifestava o desejo de morar com os pais. Esse o motivo da compra do imóvel. Os noivos estavam ainda em lua-de-mel mas os velhos já se encontravam instalados no apartamento quando parti. Tudo que pude fazer por eles foi deixar-lhes minha empregada, pessoa de confiança, para cuidar da casa.

Escutei por acaso, na véspera de meu embarque, o começo de uma conversa entre Lalu e Nina, a empregada. Interessada no assunto, deixei-me ficar a ouvir. Ladina, sabedoria em pessoa, Lalu dava conselhos à moça:

—      Menina, tu deve ter cuidado, se esforçar no trabalho, ser obediente e não dormir depois do almoço se quiser se salvar. Porque, tu sabe, está chegando o dia do juízo final.

—      Juízo final, dona Eulália?

—      É isso mesmo. Tu não sabe o que é o juízo final? Tu nunca leu a Bíblia? Pois tome tento: antes de Deus subir para o céu ele se virou para o povo e disse: "Mundo ficais, crescei e multiplicais que eu não me envolvo mais; agora só volto no dia do juízo final!" Saiu voando pro céu e, quando chegou mais adiante, deu uma paradinha e gritou: "Danem-se!"

Nina parecia perturbada:

—      E quando ele voltar, os mortos vão ficar vivos de novo?

Lalu resplandecia:

—      Vivinhos da "Silva! Ninguém vai escapar do poder de Deus. Os que se portaram bem vão diretos para o paraíso celeste. Os que se portaram mal podem ir cavando o buraco, não tem conversa, vão pras profundas do inferno, sem direito a perdão.

—      Então, dona Eulália, quer dizer que a senhora vai ver sua mãe de novo, quando ela voltar? — interrogava Nina, meio incrédula.

—      Ora, que besteira! Que menina mais boba! Tu então pensa que os mortos, quando voltam ao mundo, voltam do tamanho verdadeiro?

Nem pense nisso! Eles chegam na Terra pequenininhos assim como a ponta de um alfinete — mostrava a ponta do alfinete de seu broche — do tamanho de um maruim, nu e vermelho. Veja só que tola! Se iodos voltassem do tamanho dos vivos, não ia caber. Não ia ter lugar para tanta gente... Hum!

Interpelada por mim, depois, Lalu caiu em sonora gargalhada:

—      Tu ouviu, fia? Preguei um susto medonho nela... — Lalu não parava de rir de sua própria astúcia.

—      E por que isso? Para que, dona Eulália? — Fazia-me de desentendida.

—      Ora, pra quê? Pra botar ela nos eixos... Nina agora vai andar na linha, com medo do inferno...

—      Mas Nina sempre andou na linha... é uma menina boa.

—      Hum! Tu é quem diz. Tu é uma besta pra tratar com empregados; eles pintam e bordam, e tu, ói! Nem está lá! Comigo é diferente. Eu tenho muita experiência, sei como lidar...

História divertida de matreirice e sabedoria; eu rira muito e ria ainda agora ao recordá-la. Jorge ia gostar de ouvi-la. Mas ficara inquieta: Nina iria aceitar os métodos rurais da nova patroa? Duvidava que tais sistemas do interior do Nordeste fossem válidos para uma empregada citadina, do Rio de Janeiro. A sabida e experiente dona Lalu, se não mudasse de método, ia ficar na mão, já e já, pelejando sozinha com a casa.

 

CHAMPANHE E CAVIAR PARA COMEMORAÇÃO

Nem subi para jantar, estava cansada demais. Aborrecida, remoía a derrota da Frente Popular na Itália enquanto me preparava para deitar, quando surgiu, de repente, doutora Janina: faces esfogueadas de quem havia bebido, o entusiasmo estampado no rosto:

—      Andiamo! Via! Súbito! Venha comigo. Venha tomar champanhe e comer caviar. Estamos comemorando lá em cima a vitória nas eleições: Ia Chiesa ha vinto! Champanhe e caviar à vontade, correndo por conta da vitória... andiamo, su!

Diante de tal convite, fiquei sem ação. A coitada nem devia estar desconfiando... Eu não ia aceitar, não tinha o menor sentido festejar um acontecimento que me deixara na fossa, derrotada. Não ia dizer à doutora, certamente, o que estava sentindo nem o que pensava da vitória da Democracia-Cristã; não podia fazer uma desfeita àquela pessoa amiga, a quem devia inúmeras obrigações. Procurei maneira de não magoá-la:

—      Veja só, dona Janina, estou pronta para me deitar... meu corpo está dolorido de cansaço, me sinto rnoída... o menino acabou de adormecer...

—      Pelo menino, não — respondeu prontamente —, eu chamo a moça para prestar atenção à cabine...

—      Me desculpe, mas eu prefiro ficar. Não vou, não. Só tenho o dia de amanhã, o último a bordo, para fazer as malas, preciso descansar para ter forças...

Desconfiando ou não da causa verdadeira da minha recusa, a doutora não insistiu mais.

—      Está bem. Não faz mal, cara, descansa. — Passou a mão pela minha cabeça, coisa que nunca havia feito antes, e partiu.

Não me causou surpresa o entusiasmo da doutora pela vitória da Igreja. O velho Pipo me advertira sobre os pendores direitistas da médica. Por isso sempre evitara falar de política com ela, discutir certos problemas. Doutora Janina era uma pessoa ótima, certamente sincera em suas convicções assim como eu era nas minhas. Nossa convivência fora perfeita.

 

CHARQUE DE PRIMEIRA

Deitei-me sabendo que não ia dormir. A noite seria curta para pensar; pensar era o que eu mais fazia nas madrugadas de insônia no balanço do navio.

Além das razões ideológicas, eu tinha outras, particulares, para me sentir frustrada com a derrota da Frente Popular italiana. Contáramos, Jorge e eu, com a vitória da esquerda nas eleições, ao elaborar nossos planos. Agora, diante da derrota, as condições mudavam e devíamos, por conseqüência, tomar novo rumo, uma confusão!

Na certeza de montar casa na Itália, eu me precavera, levava bagagem enorme no porão do navio: roupas e pertences, tudo quanto Jorge não pudera carregar, quando partira sem rumo certo, estava agora incluído em minha bagagem. Eu não achara nada de mais levar um caixote repleto de gêneros alimentícios: garantiriam, pelo menos, os primeiros tempos, já que era voz geral a falta de comida na Europa. Jorge me pedira que lhe levasse livros, mandara-me uma lista enorme. Com eles enchera outro caixote. Abastecera-me fartamente de latas de leite em pó e dúzias de latinhas de sopa para João, e levava ainda um bom sortimento de sabão para lavar suas roupinhas. Pensara também no arroz, no feijão, na farinha de mandioca e sobretudo no café, indispensável para Jorge.

Vendo-me às voltas com as arrumações, Lalu e seu João se entusiasmaram, resolveram contribuir; apareceram com enorme manta de carne-seca: "Charque de primeira!", elogiou seu João. "Leve para Jorge", disse Lalu, "o pobrezinho deve estar passando fome por lá, com as comidas diferentes..." Fazia um ar de repulsa quando mencionava as comidas diferentes. "Meu filho deve estar morrendo de saudades de um jabazinho! Onde é que já se viu feijão sem um pedaço de charque dentro? Oxente!"

Era tal a satisfação e o entusiasmo dos velhos, antegozando a alegria do filho ao receber o presente, que nem tive coragem de recusar a incômoda encomenda. Rival no odor penetrante do bacalhau e da sardinha assada, o charque, mesmo muito bem embalado, é implacável: mantém sua personalidade, impõe sua presença; com seu forte cheiro infesta todo e qualquer ambiente. Não podendo me negar, aceitei a encomenda e a entregaria em mãos, muito em breve, a seu destinatário. Eu também quis levar-lhe um presente. Pensei, quebrei a cabeça antes de encontrar um que lhe agradasse em cheio: comprei-lhe uma linda rede baiana, de casal, maravilha para suas sonecas. Juntei à rede, já de si bastante volumosa, vários pacotes de cigarros marca "17", quebra-peito de sua preferência.

O problema da bagagem começava a me preocupar. Que diria ele ao ver desembarcar aquela tralha toda, o "charque de primeira" empestando tudo?

 

A ESTRELA COMPETENTE

A porta da cabine abriu-se docemente.

—      Já está dormindo?

Era doutora Janina que voltava trazendo um cestinho de frutas.

—      Eu acho que você nem jantou hoje. Trouxe essas frutas. Coma a maçã, pelo menos, cara... é tranqüilizante, bom para te ajudar a fazer una bella nanna. — Depositou a cestinha a meu lado e saiu novamente.

Respirei aliviada. Inda bem que ela não ficara aborrecida comigo.

O perfume das frutas despertara meu apetite. Sentada, devorando a maçã, ri pensando na reação de mamãe, quando eu lhe contasse as gentilezas de minha companheira de viagem. Sabia, sem perigo de errar, que Dona Angelina triunfaria: "Está vendo? Eu não digo? Você nasceu com a estrela!"

Mamãe inventara que, desde meu nascimento, uma estrela forte e competente — forte e competente já vai por minha conta — passara a me proteger. Segundo ela, eu fora a única de seus cinco filhos a merecer esse privilégio: "Com a Zélia tudo dá certo, tem uma sorte danada, consegue o que quer..." Era quase uma reclamação, uma queixa: por que os outros filhos não tinham nascido com a mesma estrela?, dizia e repetia para quem quisesse ouvir.

Não fosse o sectarismo de dona Angelina, talvez ela até falasse em anjo da guarda, em Deus, em Nossa Senhora e, quem sabe?, em Xangô ou Iemanjá ao referir-se à minha estrela. Mas mamãe, sendo anarquista, não podia colocar a filha sob a proteção de divindades. Para quem duvidasse dos efeitos de seu imaginário astro, a começar por mim, ela arranjara recentemente um argumento incontestável, um verdadeiro tapa-boca: o casamento da filha com Jorge Amado."Obra da estrela", fincava o pé e daí não arredava.

Durante aqueles dias de viagem, exatamente por causa de doutora Janina e do velho Pipo, resolvi dar uma colher de chá à estrela de mamãe, atribuindo-lhe os méritos por tão bons companheiros de viagem. Mas também lembrara — dona Angelina que me perdoasse — que nem sempre a estrela fora camarada comigo. Durante um largo período, naqueles últimos meses, eu me sentira perdida, num túnel escuro. Vira Jorge partir, seus direitos parlamentares cassados, expulso da Câmara Federal pela política do governo Dutra, sua segurança ameaçada.

Muita coisa ruim me sucedera; tivera muito trabalho, tanto! Nem sabia como conseguira dar conta. Depois da partida de Jorge para a Europa, havia três meses, eu, que sempre fora valente e otimista, andava assustada, traumatizada. Eu, que fora alegre, andava triste. Vira minha casa invadida, em plena madrugada, por policiais à procura de Jorge, ameaçando, devastando, roubando. Pouco tempo decorrera dessa terrível noite, menos de um mês. Eu passara a me sentir perseguida, a me torturar vendo fantasmas, descobrindo "tiras" atrás de mim, por toda parte. Imaginava que queriam impedir minha partida, que fosse ao encontro de Jorge. Pelo menos essa batalha eu vencera, estava ali, sã e salva a caminho da Itália.

Quando me dispus a viajar com a criança nos braços para um mundo desconhecido, uma Europa saída da guerra, uma Europa meio destruída, cheia de dificuldades, sufocada pela guerra fria, a sombra da bomba atômica presente em toda parte, ameaçando a humanidade, tomei a deliberação de enfrentar e vencer as barreiras que encontrasse pela frente e que, certamente, seriam muitas. Tínhamos pouco dinheiro, saberia fazer economia; agüentaria firme, não viveria me lastimando, não seria chata nem amarga. Jamais choraria na vista de Jorge as saudades de Luiz Carlos, meu filho, que ficara no Brasil. Manteria o bom humor e a velha garra dos Gattai. Não daria a Jorge motivos de queixa e de arrependimento. Eu o amava, nada seria sacrifício, estava disposta a ser feliz.

 

AS CARTAS DE JORGE

Enquanto aguardava a hora de deixar o Brasil, as cartas de Jorge me ajudaram a suportar a solidão e as saudades. Às vezes elas tardavam, e eu, feito louca, ia à rua ao encontro do carteiro; às vezes chegavam duas e três ao mesmo tempo.

A princípio Jorge falava em guerra fria, na preocupação causada pela ameaça da bomba atômica. Depois, percebendo evidentemente minha inquietação, passou a escrever menos sobre problemas políticos. Procurava distrair-me, contando sua vida em Paris, seu dia-a-dia, as coisas mais corriqueiras; enchia longas páginas que me enleavam e me transportavam para seu lado. Falava sobre o modesto Grand Hotel Saint-Michel, no Quartier Latin, onde morava. Carlos Scliar fora esperar Jorge no porto do Havre. Hóspede antigo e prestigioso, se empenhara junto à proprietária do Saint-Michel, Madame Salvage, i conseguindo um quarto para o amigo no hotel, quase sempre lotado, devido à conveniência do preço. "Trata-se de um escritor famoso", dissera Scliar. Diante das credenciais do novo hóspede, sensível às letras e às artes, Madeleine Salvage reservou-lhe o melhor aposento de seu imóvel, quarto amplo, de frente, com pia e bidê, nas proximidades da privada, uma única por andar.

Acompanhando os passos de Jorge, eu compartilhava de seus programas em Paris. Com ele fui ao teatro de horror, Le Grand-Guignol, tremi de medo; deliciei-me com os Frères Jacques, no Rose Rouge. Em pleno verão carioca, cheguei a sentir frio ao ver a neve cair em Paris: "...acordei cedo e pela janela vi que caía neve... aos poucos a rue Cujas foi ficando branca... pena você não estar aqui comigo... "...almocei hoje no La Grenouille. Você me disse um dia que gosta de rã. Pois vou te levar a esse restaurante cuja especialidade é rã, como o próprio nome indica. Pedi outro prato, é claro, você sabe que não tolero rã... Sinto falta do arroz e da farinha... A comida francesa é boa mas aqui eles não têm o hábito de comer arroz como acompanhamento. Arroz é prato isolado e com o racionamento não se encontra em parte alguma... Os franceses acompanham tudo com batatas... Já estou cansado de comer em restaurantes e além do mais custa muito caro, não tenho dinheiro para isso... O pessoal brasileiro que mora no hotel cozinha no quarto, cada qual faz sua comida... Scliar cozinha num fogareiro a álcool. Noutro dia entrei com ele numa fila enorme para retirar, na Prefeitura, cupons de racionamento de álcool... As filas para sabão também são grandes. Muita coisa por aqui anda racionada... Scliar me convidou para almoçar e eu caí na loucura de aceitar. Nosso amigo pinta muito bem mas não entende nada de panelas nem de temperos... Ótimo pintor, péssimo cozinheiro". "...Fomos no domingo almoçar na casa da Maria Helena Vieira da Silva e do Arpad. Perguntaram muito por você... Aqui é assim, cada convidado leva uma coisa para reforçar o almoço. Eu levei flores para Maria Helena. Mariuccia e Arnaldo Estrela levaram uma torta de maçã; Scliar inventou fazer um bolo. Misturou ovos, queijo, farinha de trigo, farinha de maizena, leite condensado — gastou uma lata inteira de leite condensado, que recebeu do Brasil do velho Henrique —, pó de chocolate e outras coisas mais. Ele diz que todos os ingredientes usados são nutritivos, mas o bolo resultou num grude incomível... Apenas Míriam e Eliana, filhas da Mariuccia, conseguiram comer do bolo do Carlitos e disseram que estava bom. Meninas bem-educadas!..." "...apanhei um resfriado medonho!... Aqui no Saint-Michel só há uma sala de banho para todo o hotel e mesmo essa não funcionava, transformada em depósito de camas e colchões... aderi à casa dos bains publics, aqui do Quartier, freqüentada pelo pessoal brasileiro... Levo minha toalha e o sabonete, compro uma ficha de cinco francos, entro na fila e espero pacientemente a minha vez... Foi depois de um banho, ao sair quente para o frio da rua, que apanhei um resfriado forte, tive febre. Mas já estou bom. Em vista do resfriado, dei um ultimatum à Madame Salvage: 'Ou abre o banheiro ou mudo de hotel'. Ela deve ter ficado impressionada, pois desentulhou tudo na hora. O banho do hotel é bem mais caro do que o banho público e ainda tem a agravante de ser curto; se o freguês não for rápido, termina de se lavar com água gelada.

Madame Salvage acende o bico do gás lá embaixo, na cozinha dela, conta cinco minutos no relógio e desliga. Tant pis para quem não andou ligeiro... Você vai estranhar muita coisa por aqui. Por exemplo, não se embrulha o pão nas padarias; não é conseqüência da guerra, não pense, sempre foi assim... O pão é entregue ao freguês do jeito que sai do forno... Coisa mais deliciosa é o pão francês! Não tem nada a ver com o nosso... Eu saio todas as manhãs para comprar frutas e pão; sou comprador de baguettes, compro duas, finas e compridas, torradinhas, quase só casca, assim como gosto, volto comendo pelo caminho, liquido uma antes de chegar ao hotel..." "Assinei contrato com Editeurs Réunis para uma edição de Seara Vermelha, que em francês terá o título de Les Chemins de Ia faim. O Scliar fará a capa e as ilustrações do livro..." "...passei pela Galeria Lafayette e comprei um chapéu de feltro vermelho para você. É muito bonito e vai te ficar bem..." "Estou encantado com Paris mas parece que vamos começar nossa vida na Itália... Aqui é tudo muito caro e nós não temos dinheiro bastante... Parece que na Itália, se a esquerda ganhar as eleições — as perspectivas são boas —, vai ser mais fácil para nós..."

A última carta de Jorge, ainda de Paris, anunciava sua partida para Roma. Viajaria com Scliar, estariam os dois à minha espera em Gênova.

 

GÊNOVA

Navios de todas as cores e de todas as bandeiras davam um tom festivo ao porto de Gênova. Parado ao largo, o Argentina aguardava instruções para encostar. Correntes encadeados que, durante a travessia, fechavam os portões que separam as classes, haviam sido retirados, deixando as passagens franqueadas à tripulação que devia cuidar dos trabalhos de atracação e ao vaivém dos carregadores que em breve invadiriam o barco. Passageiros da terceira classe, aproveitando a oportunidade, invadiam os tombadilhos da segunda e da primeira lotando os conveses e os corredores, criando verdadeira barafunda.

Fim de viagem, fim de papo. Com raras exceções, amizade feita em cruzeiro de navio é mesmo que amor louco: dura pouco. As despedidas em geral são rápidas, em meio à afobação da chegada. Eu também aproveitei a chance dos portões franqueados e subi para a primeira, e, na ânsia de ver tudo de vez, subi mais ainda, aos últimos tombadilhos.

O velho Pipo aparecera logo cedo, sobraçando as garrafas com o suco e a sopinha do "bambino": "Eccomi! anunciara-se ao chegar à cabine, os olhos cheios d'água. Eu também me emocionei; tornaria a ver o bom amigo? Com doutora Janina a despedida resumira-se num longo e apertado abraço: "Ci rivediamo?" Não houve troca de endereços. A doutora talvez voltasse a residir na Itália, segundo me disse. E eu? Eu não tinha endereço para lhe dar; nem sabia mesmo onde iria bater com os costados...

 

A VOLTA

Sensação mais estranha eu sentia, lá ao alto, na torre de comando, a contemplar os altos e baixos do contorno da cidade de Gênova, encoberta pela névoa matutina. As apreensões e o pessimismo da véspera e dos dias anteriores haviam se dissipado, eu me sentia feliz e eufórica, a alegria da volta às raízes depois de longa ausência, sabendo que alguém está à espera. Ao chegar a Lisboa eu me sentira emocionada, ia conhecer uma terra querida, realizar um sonho. Agora a sensação era distinta: como se eu fosse rever a terra amada.

Daquele mesmo porto de Gênova, em 1890, meus avós — de pai e de mãe — haviam partido, em viagens diferentes para o Brasil, carregados de filhos, famílias numerosas. Os Gattai, toscanos, viajavam movidos por princípios políticos numa aventura fabulosa, iam à procura da terra do sol, realizar um ideal, integrados num grupo de livres-pensadores anarquistas que tentariam pôr em prática, num país novo e acolhedor, as teorias do mundo livre, fundando a Colônia Cecília, no norte do Paraná.

Os D'Acol, vênetos, iludidos com promessas tentadoras de riqueza fácil, partiam contratados para trabalhar numa fazenda de café, em São Paulo, sem saber que iam substituir o braço escravo.

Nenhuma das duas famílias logrou realizar o seu intento, ambas fracassaram, mas, em compensação, descobriram no Brasil uma segunda pátria, onde permaneceram, lutaram, amaram, multiplicaram-se em filhos e netos, trabalharam até a morte. Agora, tantos anos passados, uma descendente das duas famílias voltava, a primeira, por acaso eu.

 

JORGE NO CAIS

Lá estava ele! O navio ainda não atracara e de longe avistei Jorge. Com o menino nos braços, todo bonito com chapeuzinho de marinheiro, comprado no navio, eu me acabava a fazer gestos com a mão para chamar a atenção de Jorge. Por fim ele sorriu e me acenou. A seu lado Scliar procurava me localizar. Levantei o bracinho de João para saudar o pai. Jorge expressava sua admiração pelo crescimento da criança, afastando as mãos, abrindo os braços. Agora ele já não poderia brincar com o filho, chamando-o de inseto, devia mudar o apelido. E de mim? O que acharia? Desde a última vez que me vira eu perdera dez quilos, estava com cinqüenta, peso que jamais tivera depois de adulta. Jorge dizia não gostar de mulher magra. Sempre que eu inventava fazer regime para emagrecer, ele protestava, sabotava o meu esquema pondo em minha frente coisas gostosas, tentações irresistíveis.   Repetia sempre:

— Veja só! O que me atraiu em você foi ó balaio grande! Detesto mulher de bunda chulada! Horrível!

Esse não era exatamente o meu caso, muito pelo contrário... Por mais que eu emagrecesse, no particular jamais o decepcionaria.

 

PÉS EM TERRA

Havia tanta coisa a dizer e eu não dizia nada. Apenas chorava no prolongado abraço. Chorava de alegria.

Procurando enxugar minhas lágrimas, Jorge afastou uma mecha de cabelos, teimosa, a me entrar pelos olhos:

—      Você está bonita... Parece uma menina... Magrinha... —

Havia ternura na voz e no gesto.

Depois, enquanto aguardávamos, naquele cais movimentado e barulhento, que nossa bagagem fosse retirada dos porões, com jeito, maneiroso, Jorge entrou no assunto que o inquietava:

—      Olhe, eu quero te dizer uma coisa: não vá se aborrecer, não!

Mas nós não podemos mais morar na Itália. A Frente Popular perdeu e não há condições...

Não deixei que continuasse, tratei de tranqüilizá-lo:

—      Eu já sabia. Por mim não precisa se preocupar. Tudo bem.

Aliviado, Jorge então me falou de nosso programa imediato:

—      Hoje à noite vou fazer uma conferência em Módena, devo falar aos operários de uma fábrica, compromisso que tomei com o Partido italiano. Vamos de ônibus até Módena e lá tomamos um trem para Roma. Eu quero muito te mostrar Roma, você vai adorar! Depois a gente decide o que fazer. Estou pensando em voltar para Paris. Vamos ver.

 

'PASTASCIUTTA DELLA MAMMA"

A espera pela bagagem de porão fora longa e quando terminamos de desembaraçá-la já passava de uma hora da tarde. Tínhamos passagens no ônibus das duas, para Módena, e, sem tempo para almoçar, comemos às pressas um sanduíche já na hora de partir.

A presença de Scliar fora providencial. Ele partiria para Roma naquele mesmo dia e levaria o grosso de nossa bagagem. Eficientíssimo, sabia até onde deixar guardados os dois caixotes, o de mantImentos e o de livros: ficariam em Roma, na casa da tia dê um seu amigo brasileiro, estudante em Paris, Enrico Camerini.

Carregando apenas duas maletas e a sacola da criança, chegamos a Módena no começo da noite, cansados e famintos. Tão famintos, que aceitamos com prazer o convite para jantar antes da conferência, feito por alguns companheiros que nos aguardavam no terminal rodoviário.

Levaram-nos a uma cantina popular, onde serviam uma famosa "Pastasciutta delia Mamma", especialidade da casa, macarrão feito em casa. Mulher simpática e risonha — num misto de vaidade e de orgulho, seus olhos brilharam ao ser solicitada a me dar a receita do prato —, revelou-me o segredo da suapasta: "Molto sémplice, uso farinha pura e ovos de quintal, na massa; no molho, óleo de oliva, salsa, folhas de sálvia, tomates de boa qualidade e funghi sechi, nada mais que isso. O queijo parmigiano se encarrega do resto."

Ao me ver devorando com gosto o prato fundo da suculenta macarronada, Jorge riu: "Está gostando, hem? Então vai repetir..." Antes que eu pudesse impedir-lhe o gesto, despejou em meu prato o que sobrara na travessa — e era bastante! "Coma, coma, você precisa se alimentar... precisa engordar..." "Sobretudo engordar, não é, seu Jorge?", disse-lhe, rindo. Eu sabia, embora ele não me tivesse dito, que se preocupara com a minha magreza; ia, na certa, se empenhar para que eu engordasse alguns quilos, fazendo-me comer. Embora saciada, farta, comi ainda algumas garfadas da deliciosa massa, somente para lhe fazer a vontade. Eu precisava mesmo me cuidar, me alimentar bem, não para engordar —- Deus me livre! Estava contente com meu peso — mas para ter resistência a fim de enfrentar o que desse e viesse. Eu não podia adoecer, não tinha esse direito enquanto não encontrássemos um pouso certo, casa onde morar; se eu baqueasse durante a nossa peregrinação, seria um desastre.

 

HERÓIS EM MÓDENA

Como não tínhamos o que fazer depois do jantar, dirigimo-nos para o local da conferência. Chegamos com uma hora de antecedência e já encontramos o enorme salão inteiramente lotado, nenhuma cadeira vaga. Na calçada em frente à porta, pessoas se acotovelavam tentando penetrar. Não havia condições de ficar ao lado de Jorge no calor e na fumaça do recinto fechado, sufocante. A única solução era esperar na rua. Uma camarada do Partido italiano, senhora de meia-idade, com ar de operária, foi convocada para me fazer companhia e me ajudar a carregar a criança enquanto Jorge fizesse sua conferência lá dentro. Ele se propunha a liquidar o assunto o mais rápido possível, "talvez uma hora", me disse, mas eu sabia de experiência própria que ia demorar muito mais. Fiz meus cálculos: já eram oito horas, por menos que demorasse a conferência, tomaria, com tradução, no mínimo uma hora; e as perguntas e as respostas que viriam depois? No maior dos otimismos, levaria no mínimo duas horas: antes das dez não estaria livre. Espera terrivelmente cansativa, chatíssima, mas, paciência, eu descansaria no expresso para Roma; embarcaríamos à meia-noite.

Caminhava lentamente ao lado de minha acompanhante, que não conseguia, por mais que se esforçasse, disfarçar o seu cansaço — tarefa mais velhaca a que lhe haviam dado, pobre!, pensava eu cheia de pena e de remorsos —; lá íamos as duas, caladas, sem vontade nem ânimo para conversar, de uma ponta a outra do quarteirão, quando de repente grossos pingos de chuva começaram a cair, prenuncio de temporal. Saímos correndo à procura de abrigo e entramos na primeira porta aberta que encontramos, exatamente a do salão onde Jorge falava. Logo à entrada, num pequeno saguão, encostada à parede, havia uma escrivaninha sobre a qual várias pessoas se encontravam sentadas ouvindo a conferência pelos alto-falantes, já que não tinham conseguido lugar lá dentro.

Nossa entrada, intempestiva, provocou curiosidade. Alguém quis saber quem era a moça com a criança. A informação foi dada e aí começou a confusão. Sem que eu pudesse impedir, João me foi arrebatado dos braços, todos queriam ver "il bambino d'Amado, Ia piccola vittima, ilpiccolo esiliato..." e lá se foi meu filho, salão adentro, eu atrás tentando recuperá-lo, ele passando de mão em mão, por cima das cabeças, cada vez se distanciando mais de meus braços estendidos, cada vez mais próximo do pai, no palco... Gritaria ensurdecedora... "...il bambino!, il bambino.'...", repetiam em coro, todos os olhos» voltavam-se para a criança que, assustada, chorava aos berros.

A custo cheguei junto ao palco onde, lá em cima, gritando, a plenos pulmões, ao lado do pai, calado e perplexo sem entender o que estava se passando, João era levantado bem alto para ser visto por toda aquela calorosa platéia que o aclamava. Cada vez mais aflita, preocupada com o menino e com a confusão que terminara por interromper a conferência, procurei os olhos de Jorge e pareceu-me que ele me fitava com um ar de reprovação, como quem diz: "Com efeito!" Ora, tudo o que eu não desejava era criar-lhe dificuldades, e, logo no primeiro dia, tamanha confusão... Ele devia estar me julgando culpada de todo aquele pandemônio. Com uma agilidade que não imaginara possuir, . apoiando-me nas mãos, num impulso, saltei para o palco. Ao mesmo tempo em que tentava recuperar meu filho, me aproximei de Jorge e gritei para que me ouvisse, grito de desculpas:

— Lá fora está chovendo que é um horror!

Não sei se ele escutou minha explicação, não consegui ouvir resposta alguma, pois, ao me ver no palco e ao adivinhar que eu era Ia compagna do orador, Ia mamma de Ia piccola vittima, também eu una esiliata, a entusiástica assistência, constituída de operários e militantes políticos, se pôs de pé redobrando os aplausos, aclamando-me delirantemente.

De repente senti os olhos rasos d'água. O cansaço e a aflição desapareceram. Envolvida por aquela imensa onda de calor humano, compreendi que não estávamos sós, perdidos no exílio.

 

EXPRESSO DE ROMA

O rapaz que ficara encarregado de comprar nossas passagens no expresso de Roma, displicente, esquecera de marcar os lugares no trem, que costumava passar por Módena sempre lotado. Com dificuldade, aos empurrões, conseguimos, nos rápidos minutos da parada, embarcar, ficando de pé num corredor abarrotado de gente. Espremidos, sufocados pela fumaça dos cigarros e pelo bafo quente do ambiente fechado, tudo que obtive foi me encostar junto a uma janela. Jorge me escorava para que eu não caísse num dos violentos solavancos do vagão; nas curvas, todo mundo era atirado de um lado a outro feito boneco de engonço. Não me agüentava nas pernas, temia desmaiar de exaustão. Inda bem que João dormia. Eu lhe dera o peito antes de embarcar, no reservado de um bar, enquanto aguardávamos o trem,. O expresso chegaria a Roma pela manhã, às oito horas, e não havia perspectiva alguma de se obter um lugar para sentar, mais adiante, no decorrer da viagem. A única parada do trajeto seria daí a duas horas, em Bolonha.

Decidimos saltar em Bolonha, pois eu estava sem condições de suportar a viagem até Roma. Arrastando as maletas como podia, aos trancos e barrancos, atropelando os passageiros, abrindo alas para eu passar, Jorge me guiou na direção da saída.

Naquela tardia hora da madrugada a estação se encontrava deserta. Alguns passageiros haviam embarcado, nós fôramos os únicos a desembarcar. Apenas um quiosque de venda de jornais e cigarros estava aberto. O rapaz que cuidava das vendas, meio adormecido, despertou ao saber da nossa dificuldade em terra estranha, deu-nos mais uma prova da hospitalidade e da gentileza italianas, fechando as portas do estabelecimento para ir em busca de táxi.

— Nos leve para o melhor hotel da cidade — pediu Jorge ao chofer; passou o braço em torno de meus ombros: — Neste resto de noite, pelo menos, minha querida, você vai dormir em colchão macio. — Carinho e ternura na voz fatigada.

 

OS ORFÃOZINHOS ROMANOS

Nos dias que antecederam a minha chegada, Jorge tivera tempo de andar pela cidade de Roma e de conhecer algumas de suas belezas. Agora ele desejava revê-las em minha companhia, ser meu guia, testemunhar minha emoção; retomaria comigo o seu roteiro através das maravilhas da cidade.

Entusiasmado, Jorge falava-me de lugares e de figuras que eram familiares aos meus ouvidos: visitara a Praça Campidoglio, deslumbrara-se com as escadarias, a perfeição da praça: "Que gênio, esse Miguel Ângelo!"

O nome de Michelangelo recordava-me a infância, trazia-me de volta seu Ernesto, meu pai, sempre atento à educação dos filhos, sempre pronto a proclamar, a boca cheia de orgulho, os nomes das grandes figuras de sua pátria: "Michelangelo Buonarroti! Galileo Galilei! Dante! Leonardo da Vinci! Verdi!" Jorge estivera na Capela Sistina e visitara o museu dos tesouros do Vaticano. Ao ouvir falar em tesouro do Vaticano, comecei a rir. Recordei que o bendito tesouro sempre vinha à baila nas discussões dos anarquistas, amigos da família; argumento usado para atacar a religião católica, o Vaticano, os padres e, sobretudo, seu chefe supremo, o Papa. Frases soltas ouvidas na infância, repetidas tantas vezes, voltavam-me à memória: "O tesouro do Vaticano é uma afronta à miséria universal!" Ironizavam: "Bom exemplo de humildade! Belo seguidor de Cristo!" "O povo morrendo de fome e o senhor Papa nadando em ouro!" "Com tanto dinheiro, com tanta riqueza, por que não cuidam eles mesmos de suas igrejas? Ficam pedindo óbolos ao povo, sugando seu sangue!"

A respeito dessa conversa, dei certa vez, quando criança, uma resposta atravessada a uma senhora que bateu à nossa porta pedindo uma contribuição para as obras da igreja da paróquia: "Por que é que vocês não vão pedir pro Papa, que é tão rico?" A tirada da menina, que repetia conversa de gente grande, correu de boca em boca e eu fui, pela proeza, muito paparicada; um anarquista, amigo de meu pai, até me ofereceu um saquinho de caramelos, como prêmio. Afirmação que também muito me impressionou e escandalizou foi a de que "// Papa scoréggia nella seta e caca sopra 1'oro". O velho anarquista, de cuja boca ouvi esta frase, afirmava que o penico do Papa era de ouro maciço; criança cheia de imaginação e inventiva, visualizei imediatamente Sua Santidade acocorado, fazendo cocô num reluzente vaso noturno.

Outra coisa que empolgara Jorge fora o Palazzo Venezia, que eu conhecia de fotografias e, sobretudo, de documentários cinematográficos, dos tempos em que o fascismo dominava a Itália. Lembro, inclusive, que certa vez, no cinema, ao ver o Duce pronunciando bombástico discurso ao povo que lotava a praça, da sacada do Palazzo Venezia — sua residência oficial —, escutei minha mãe comentar em voz alta: "Palácio tão bonito e tão mal empregado!" Jorge queria levar-me à Fontana de Trevi; doutora Janina, minha companheira de cabine, recomendara que eu não deixasse de visitá-la e, pondo-me de costas para a escultura de Netuno na fonte barroca, atirasse duas moedas para trás, por cima dos ombros: a primeira me daria a possibilidade de voltar a Roma e a segunda atenderia a qualquer pedido que eu fizesse.

A lista de Jorge era interminável: visitas às ruínas do Fórum Romano, ao Panteon, ao Coliseu e por aí afora. O Coliseu era meu velho conhecido; as histórias que seu Gattai contava aos filhos fascinavam-me: gladiadores na arena do Coliseu lutando entre si até a morte, enfrentando leões e tigres, para gáudio dos Imperadores e de uma massa cruel, propositadamente degradada. Narrando tais monstruosidades, papai não perdia vaza; sempre encontrava um jeito de encaixar, sutilmente, uma lição política — como, por exemplo, no caso dos cristãos condenados à morte nas arenas do Coliseu: "Os cristãos eram os anarquistas daquele tempo." Eu sabia que iria me comover ao visitar o Coliseu.

Um programão em minha frente. Agora só dependia de mim escolher por onde começar. Desejava ver tudo mas, no fundo, eu sentia uma vontade enorme, uma certa curiosidade, talvez ingênua e infantil, de ir em seguida ao Fórum Romano, andar entre as ruínas e me deter diante do túmulo de Rômulo e Remo: Rômulo, fundador de Roma, e Remo, seu gêmeo; haviam conseguido sobreviver mamando nas tetas de uma loba. Essa história dos dois meninos perdidos, sem mãe, me comovera às lágrimas; eu a ouvira dos lábios de dona Angelina, que explicava a razão de ter dado a seu primogênito, meu irmão, o nome de Remo. Podia parecer um capricho sem tamanho dar prioridade às ruínas do Fórum, havendo coisas talvez mais interessantes a visitar. Eu sentia acanhamento de dizer a Jorge que desejava iniciar a caminhada pelo túmulo dos dois meninos. Não podia confessar-lhe a razão sentimental da escolha: uma paixão oculta que nutrira por um dos orfãozinhos romanos, fantasia de criança romântica, noites de sono perdidas, um amor impossível pelo fundador de Roma.

 

LA ROTONDA

A igreja possuía vários nomes: Templo de Agrippa, Panteon, Igreja Santa Maria dos Mártires, Santa Maria Rotonda, La Rotonda; chamavam-na com carinho, em dialeto: La Ritonna.

O que Jorge sabia sobre essa igreja de mil nomes! Inacreditável! Deixara-me embasbacada com as coisas que contava: o templo, dedicado às sete divindades planetárias, fora construído por Agrippa no ano 27 a.C, depois destruído no ano 80, restaurado por Adriano e depois consagrado ao culto cristão no século VII.

De tudo quanto ouvi sobre La Rotonda, um detalhe me grilou, coisa incrível!"Sua cúpula, alta e larga, é aberta no topo e, pasme, minha querida!", dissera Jorge, "pelo enorme buraco, a chuva não penetra". Encantado de ver meu assombro diante de tal milagre, Jorge demorara-se a reforçar sua afirmação: "Podem desabar borrascas e temporais sobre Roma, sem que uma só gota de chuva caia dentro da igreja!" Os sábios engenheiros da época — "até hoje não nasceram outros iguais nem que se lhes comparem" — haviam estudado as correntes atmosféricas, o regime dos ventos no sentido dos meridianos e dos paralelos, a fim de obter aquele extraordinário êxito, e haviam-no alcançado.

Estava deveras abismada com tais afirmações de Jorge e também, devo dizer, com o pernosticismo científico dele. De paralelos e de meridianos jamais consegui entender, nem pouco nem muito — e Jorge entende, por acaso? —, mas sempre me impressionou o linguajar científico.

Detalhe simplesmente fantástico, o da cúpula aberta de La Rotonda, pela qual a chuva não passava, deixou-me boquiaberta. Apesar de acreditar, em princípio, em tudo quanto Jorge me conta, uma fraqueza, daquela vez fiquei em dúvida: como conseguira ele decorar tanta coisa a respeito da igreja, se jamais guarda na memória datas históricas, nem mesmo as dos aniversários da família? Ele nunca prestou atenção a explicações de guias — "esqueço tudo na mesma hora" — e agora danava-se a repetir datas e diâmetros, a me falar de paralelos e de meridianos... Não seria invenção dele? Não estaria querendo se divertir às minhas custas? Imaginação era coisa que não lhe faltava... Ali estavam os romances que já escrevera... E não era ele, por acaso, filho de dona Eulália? Dela herdara a poderosa imaginação e o espírito gozador, coisa que eu descobrira havia muito. Ironizei:

—      Quer dizer então que não chove dentro da igreja? Não chove mesmo? Você tem certeza?

Fingindo-se ofendido, Jorge monologou:

—      Que mania ela tem de não acreditar no que digo... — Voltou- se para mim, resoluto: — Quer saber de uma coisa? Vamos tirar essa história a limpo, já! Vamos ao Campo de Marte agora mesmo, e você vai ver com seus próprios olhos.

Diante de história tão fabulosa, meu interesse pelo túmulo de Rômulo e Remo empalideceu, passou para um segundo plano.

Tomamos um táxi e em poucos minutos nos encontramos numa praça grande e movimentada. Lá estava o Panteon, belo e imponente, com suas vigorosas colunas de granito. Acompanhei Jorge ao interior do templo; orgulhoso, ele apontava para o alto onde o sol penetrava através da enorme abertura, iluminando o interior da igreja; ao fundo, o céu azul, a morada celeste dos deuses. Cúpula fabulosa: permitia a entrada do sol mas impedia a da chuva, engenheiros geniais!

A visita ao Templo de Agrippa enchera-me as medidas, não apenas pela beleza arquitetônica, pela emoção de ver o túmulo de Rafael, mas também pelo ambiente festivo, claro e luminoso.

Ao contar aos meus filhos, muitos anos mais tarde, as inúmeras histórias de nossas andanças pelo mundo, a do Templo de Agrippa — aquele no qual não chovia dentro embora a cúpula, fosse aberta — foi, sem dúvida, a que mais impressionou as crianças. Tanto assim que, em l965, realizando uma viagem à Europa em companhia de nossos filhos, João Jorge e Paloma, ele um rapazinho de dezessete anos, ela se ensaiando de mocinha aos quatorze, apenas chegamos a Roma, manifestaram o desejo de visitar o templo prodigioso.

           Chovera a noite toda mas pela manhã um sol tímido surgira no céu.

—      É hoje que vamos tirar a limpo essa história de não chover dentro da igreja — disse João.

Sempre pronta a defender a mãe, Paloma protestou:

—      Ora, João! Não chateia! Se mamãe disse que não chove é porque não chove!

Antes que a discussão continuasse, resolvemos, pai, mãe, filha e filho, sair rumo ao Campo de Marte. Inda bem que havia chovido a noite inteira. As dúvidas terminariam de uma vez por todas.

Logo à entrada da igreja, meti o pé numa poça d'água. Instintivamente, sem me dar conta do que estava acontecendo, adverti os meninos:

—      Cuidado, olhem onde pisam, não vão encharcar os sapatos...

A nave da igreja estava transformada numa lagoa. Alguns empregados, munidos de rodos, vassouras, baldes e panos de chão, esforçavam-se para tirar a água, secar o piso.

—      Então não chove, hem? — dedo em riste, João reclamava.

Paloma não escondia sua decepção, cobrava:

—      Você garantiu, mãe, você disse que não chovia!...

Nessa história eu entrara de gaiata; senti-me lograda, derrotada, desmoralizada. Voltei-me para Jorge, que ria perdidamente. Apontei o autor da fábula aos meninos.

—      Não tenho nada a ver com o peixe! Reclamem com ele!

Jorge continuava rindo mas não se dava por vencido:

—      E quem disse que choveu aqui dentro?

Que horror! Ele tinha coragem de negar a própria evidência? Não me contive:

—      Essa não, Jorge! Você está dizendo que não choveu? E essa água aí empoçada?

—      Choveu lá fora, aqui dentro não choveu coisa nenhuma —

continuava a divertir-se. —Vocês estão cegos? Não estão vendo que os homens estão lavando a igreja? Ou igreja não se lava? — Voltando-se para o meu lado: — Por que você que fala italiano não se informa? Vai, olhe ali um guia que vem vindo...

Lá do fundo do templo, andando com cuidado, desviando-se aqui e acolá das poças d'água, marchava em nossa direção um velhinho de boné e bengala, no peito o crachá indicando sua qualidade de guia da igreja. Não esperamos que se aproximasse, fomos ao seu encontro. Jorge não se moveu, espiava de longe eu fazer papel de besta. Dirigi-me ao velho:

—      Prego, signore...

Solícito diante da turista, o velhinho parou atento e cordial, na expectativa de uma gorjeta; perguntei-lhe, então, o que significava aquela inundação dentro da igreja. A resposta veio prontamente:

—      Perchè ha piovuto!

—      Porque choveu, não? — disseram João e Paloma, ao mesmo tempo.

Envolvida naquele vexame, vítima inocente, eu não ia recuar, não ia dar o gosto nem a possibilidade de nova desculpa ao vilão que ria, cada vez mais, à distância. Prossegui decidida, iria até o fim:

—      E quando chove, meu amigo, a água cai aqui dentro? —

Apontava ao guia a abertura da cúpula.

Tão estupidificado ficou o velho com a pergunta da turista, que nem acreditou em seus ouvidos. Fez-me repetir. Fitando-me com desgosto — mais uma idiota das Américas! —, juntando os cinco dedos e balançando a mão, perguntou, em vez de responder:

—      Ma che! E lei crede a miracolli?

Ainda assim, mesmo assistindo à cena, o velho me tomando por uma débil mental, Jorge não entregou os pontos:

—      Ora, essa é boa! E vocês vão atrás do que diz um velho esclerosado?

Por mais que me esforçasse, durante esses anos, não cheguei a esclarecer uma dúvida: se essa história foi inventada por Jorge ou se ele também foi enrolado e não quis dar o braço a torcer. Até hoje ele afirma, de pés juntos, que a água da chuva não passa, jamais passou, jamais passará — engenheiros notáveis, sem iguais! — através da abertura da cúpula de La Rotonda.

 

PROGRAMA INTERROMPIDO

Do vasto programa que Jorge organizara para mostrar-me Roma, cumprimos a metade, se tanto. Teríamos esticado nossa estada na Itália, não fosse a chegada de um telegrama da Tchecoslováquia, convidando-nos para as festas do Primeiro de Maio em Praga, quando seria comemorado não apenas o dia dos trabalhadores como também o terceiro aniversário da libertação da Tchecoslováquia da ocupação nazista.

Eu estava deslumbrada — não encontro adjetivo mais adequado — com a Itália, com seu povo. Adorara Bolonha, cidade mais bela!, com suas casas e ruas de arcadas... Decidíramos até permanecer lá um dia a mais do que prevíramos, antes de chegar a Roma, um dia para curtir Bolonha, inteiramente sós, vagabundeando pelas ruas.

Meu encontro com Roma fora aquele impacto! Espetáculo grandioso: ruínas, praças, fontes e museus... Freiras e padres aos milhares invadindo as ruas, andando de bicicleta e de lambreta, coisa que me causou espécie e, sobretudo, me divertiu. O povo falando alto, gesticulando, sempre amável, gentil... Eu me sentia em casa, tinha a impressão de já ter visto tudo... e ao mesmo tempo de não ter visto nada antes... uma surpresa em cada esquina.

Scliar, que nos esperara em Roma, fez-nos companhia nas longas caminhadas em Roma e no Vaticano, inclusive desceu comigo às catacumbas da Via Ápia. Jorge preferiu ficar na superfície tomando conta do filho, boa desculpa para que não insistíssemos, já que tem horror a incursões pelas entranhas da terra, sobretudo — e esse era o caso — para ver ossos e caveiras. Scliar sabia coisa pra burro, era um ótimo professor; fora fundamental para mim, para meu esclarecimento, nas visitas aos museus e principalmente à Capela Sistina. Deu-me verdadeiras aulas sobre os afrescos de Michelangelo e de Rafael. Avesso a explicações de guias, como foi dito, Jorge já visitara anteriormente os museus e não se detinha a ouvir as lições, afastava-se ligeiro, fugindo às aulas do paciente mestre, divertia-se a declarar-lhe greve e a provocá-lo fazendo-lhe perguntas idiotas. Satisfeito, brilho no olhar, passava rápido, em acintoso desafio, diante de quadros e de murais que, na opinião do competente Scliar, mereciam pelo menos uma hora de estudo e de contemplação; às vezes, Jorge desaparecia como que por encanto, carregando o filho, deixando-nos doidos à sua procura. Nem sempre eu chegava a tempo de impedir o desastre: encontrava a criança encharcada — por dentro e por fora — de laranjadas artificiais e de chocolates oferecidos pelo pai, useiro e vezeiro em nutrir o filho, ameaça séria aos delicados intestinos da criança. Scliar achava graça no que ele chamava de "maluquices do Jorge", ria ao me ver aflita, receosa de que se ofendesse com as tais "maluquices".

— Que nada, menina! Não se preocupe, guria! Teu marido é uma bola! Conheço ele de sobra!

 

OS DOIS "PIU NOTO"

Jorge era conhecido entre os intelectuais italianos, sobretudo pelos de esquerda. Alguns haviam lido a tradução francesa de Jubiabá; outros, professores universitários que se interessavam pela literatura de língua portuguesa, acompanhavam sua carreira de escritor. Mas os seus romances apenas começavam a ser traduzidos para o italiano: sob o título de Terre dei Finimondo, a Editora Bompianni havia publicado, naquele mês, a tradução de Terras do Sem Fim, bela edição com capa de Picasso.

Um dia, passeávamos com nosso amigo Dário Puccini — professor universitário e ensaísta da literatura, que viria a se tornar um dos estudiosos mais importantes da ficção de Jorge —, quando, na entrada de uma galeria, vi na vitrine de uma livraria algo que me pareceu familiar. Aproximamo-nos e qual não foi a surpresa! O algo familiar era, nada mais, nada menos, do que um retrato de Jorge ilustrando um cartaz de propaganda da tradução de Terras do Sem Fim, Terre dei Finimondo; os volumes estavam ali expostos. Ao lado do retrato, um anúncio informava: "Jorge Amado, ilpiú noto scrittore dei Brazile." Só fiquei olhando, calada. Jorge riu, divertindo-se com a classificação: "// piú noto!"

Ainda sob o impacto da surpresa, continuamos nosso passeio. Na outra extremidade da mesma galeria encontramos outra livraria. Paramos diante da vitrine. Lá estava um retrato de Érico Veríssimo, ilustrando a propaganda de Caminhos Cruzados (creio que era esse o livro traduzido), ao lado de um cartaz idêntico em proporções ao de Jorge, que dizia: "Érico Veríssimo, il piú noto scrittore dei Brazile." Jorge comentou, divertido:

— Só sou o "piú noto" no outro lado, Dário. Neste é o Érico. Hoje mesmo vou escrever a ele, ele vai se divertir.

 

"SOUVENIR" PARA DONA ANGELINA

Eu desejara começar nosso programa pelo Fórum Romano, visitando o túmulo de Rômulo e Remo, como já expliquei anteriormente, mas essa visita acabou ficando para o fim, só pudemos fazê-la no último dia, já na véspera de deixarmos a Itália. Scliar nos acompanhou na cansativa caminhada, ajudando a carregar João, ajudando a procurar o túmulo, tão difícil em meio a tantos escombros. Por fim o desencravamos! Lá estava a plaquinha indicativa. Senti-me emocionada. Lembrei-me de mamãe; como ela iria gostar de estar ali, ela que soubera nos encantar com a história dos orfãozinhos mamando na loba! E se eu levasse uma lembrança das ruínas para dona Angelina? Boa idéia! Recolhi duas pedrinhas do túmulo, levaria para ela. Coloquei o souvenir numa caixinha e, durante os cinco anos que permanecemos na Europa, a guardei comigo.

Ao chegar a São Paulo, de regresso, no primeiro encontro com mamãe, pedi-lhe que abrisse a mão:

—      Abra a mão e feche os olhos, dona Angelina.

De mão espalmada, olhos fechados, obediente, mamãe aguardava, curiosa. Minhas irmãs se aproximaram. Depositei na palma aberta as duas pedrinhas. Dona Angelina não disfarçou sua decepção diante dos dois fragmentos de tijolo:

—      Duas pedrinhas? O que significa isso?

Chegara a hora da grande revelação:

—      Essas duas pedrinhas, mamãe, vieram do túmulo de Rômulo e Remo.

—      E o que é que eu vou fazer com isso? — reclamou dona

Angelina sem sentir a mínima emoção.

—      O que é que vai fazer com isso? Acho que nada, mãe — respondi desapontada, sem encontrar outra resposta.

A grande surpresa que eu preparara para dona Angelina não a impressionara. Nem a ela, nem a Wanda e nem a Vera, que assistiam à cena. As duas riam de ver minha cara de desaponto. Acabei rindo com elas, não ia me aborrecer com mamãe: afinal de contas, ela fora franca e sincera como sempre, não representara. Romântica e tola fora eu, ao achar que aquelas duas pedrinhas podiam significar alguma coisa.

 

UM BOLERO EM HORA ERRADA

Eu não me refizera completamente do trauma sofrido no Brasil quando, após a viagem de Jorge, nossa casa foi invadida e depredada pela polícia. Por isso, na hora do embarque para Praga pedi a Jorge que passasse na minha frente pelo controle policial dos passaportes, no aeroporto de Roma. Assim, caso surgisse algum problema com ele, eu poderia tomar as providências que o caso exigisse. Jorge achou graça dos meus temores mas concordou.

Entramos na longa fila; os passaportes já haviam sido entregues junto com as passagens, os receberíamos de volta no posto da polícia, depois de devidamente examinados.

Jorge ia na frente, logo atrás eu com João Jorge. O policial que entregava os documentos, homem alto e forte, abria-os, folheava-os, dava uma olhada rápida no passageiro, conferia com o retrato, devolvia-o em seguida. Eu não perdia um único lance de suas manobras, fiscalizando-o à distância, olho atento. Aproximávamo-nos do gigante e eu me sentia cada vez mais inquieta. Afinal de contas, estávamos ou não num país onde os comunistas acabavam de ser derrotados? Conhecido por suas idéias, expulso recentemente do Parlamento brasileiro, Jorge acabara de fazer uma conferência em Módena para operários do Partido e agora viajava para um país onde os comunistas estavam chegando ao poder. Se quisessem implicar, poderiam impedi-lo de embarcar... — com a polícia nunca se sabe. Poderiam querer repatriá-lo... Poderiam até prendê-lo... Se qualquer coisa sucedesse a Jorge, eu me grudaria nele: "Quer prender um, que prenda dois, ou três, que de meu filho não me separo!" Estava eu nessas conjecturas quando o maresciallo apanhou o passaporte de Jorge de cima da mesinha e abriu-o. Deteve-se a examiná-lo muito mais tempo do que o fizera com os anteriores. Parou um momento como que a refletir, depois, com voz empostada e forte, chamou: "Amado! Chi è Amado?"

Ai, meu Deus do céu! Pronto! Estamos fritos! Senti as pernas tremerem, uma fraqueza no tutano das canelas. Jorge fitou o policial — eu o achei simplesmente heróico ao vê-lo responder com voz firme, sem tremer: "Io sono Amado." Até o italiano, ele, que nem sempre é bom nas pronúncias, falou corretamente. O maresciallo examinou o cidadão, conferiu-o com o retrato do passaporte e o entregou a seu dono. Apenas Jorge dera os primeiros passos distanciando-se, o atleta estufou o peito, assumiu um porte de tenor no palco e, com certa ternura no rosto, sobrancelhas se encontrando na testa, destampou: "Amado mio, love me forever..." Repetia com voz afinada, em inglês de sotaque duvidoso, um bolero muito em voga, de um filme de 1946, Gilda, com Rita Hayworth no papel principal. Na hora, confesso, não achei graça nenhuma, mas em seguida ri com Jorge, aliviada: mais uma porteira do mundo se abria para nós.

 

O CAMPO SOCIALISTA

O chamado campo socialista, constituído inicialmente pela União Soviética, se ampliara depois da guerra: Polônia, Hungria,,Romênia, Bulgária, Iugoslávia e Albânia, depois de libertados da ocupação nazista, formavam o bloco das repúblicas populares, sob a égide da URSS. A Tchecoslováquia encontrava-se em vias de ser incorporada a esse bloco. Havia pouco, no mês de fevereiro daquele mesmo ano de 1948, vários ministros do governo Benes, não querendo aderir à nova política socialista recém-instalada em Praga, haviam se demitido, dando lugar ao Ministério de Klement Gottwald, de maioria comunista. Mas Benes ainda era o Presidente da República e nós fomos seus hóspedes nas comemorações daquele Primeiro de Maio. Logo depois, em junho, ele abandonaria a Presidência, discordando da política de Gottwald, que o sucederia no cargo.

Durante nossa visita, ocupou-se particularmente de nós o poeta e hispanista Lumir Civrny, então Vice-Ministro da Cultura, que veio a se tornar — e o é até hoje — um de nossos mais queridos amigos.

 

KUCHVALEK

No aeroporto de Praga nos esperava um representante do Ministério da Cultura, Jaroslav Kuchválek. Filólogo, especialista em português e espanhol, professor universitário, conhecedor da obra de Jorge, Kuchválek era o que se poderia chamar de um solteirão inveterado. Pessoa simpática, discreta e atenciosa, Kuchválek viria a ser, muitos anos depois, já casado, Embaixador da Tchecoslováquia no Brasil.

Foi Kuchválek quem nos acompanhou nessa primeira viagem à Tchecoslováquia, mostrando-nos a cidade de Praga, atendendo-nos em tudo quanto necessitávamos. E eu, com filho pequeno, necessitava de tanta coisa! Com ele assistimos ao gigantesco desfile e aos festejos do Primeiro de Maio de um palanque armado bem em frente ao nosso hotel, o Paris, na Vaclavské Namesti, ou seja, na Praça São Venceslau que, em realidade, não é uma praça e sim uma ampla avenida no coração da cidade. Eufórico, o povo lotava as ruas cantando e dançando, muita gente vestida de coloridos trajes típicos. Após o desfile, misturamo-nos com a multidão que disputava um lugar junto aos quiosques instalados nas calçadas da praça, onde vendiam salsichas com mostarda, perfumadas e deliciosas. Kuchválek nos levou por praças e ruas, chamando nossa atenção para detalhes curiosos, explicando-nos tudo. Revezávamo-nos na tarefa de carregar João, usando o mesmo sistema a que nos acostumáramos com Scliar em Roma.

O fato de Kuchválek nos ajudar, levando a criança nos braços, resultou em grande confusão no seio de sua família e entre amigos. Somente muito tempo depois, quando já tínhamos mais intimidade, ele nos contou: um cidadão de sua aldeia — onde vivia sua velha mãe — vira-o carregando João e espalhara aos quatro ventos que Kuchválek tinha um filho, filho de solteirão, filho de contrabando. A senhora Kuvalka, sua mãe, alvoroçou-se, passou a pressioná-lo — em telefonemas e cartas —, queria que o filho assumisse a paternidade, queria muito conhecer o neto, queria saber quem era a mãe, etc, etc.

Kuchválek sentia prazer em nos ver embasbacados diante das belezas de Praga. Com ele atravessamos a Ponte de Karlos, em cada coluna uma escultura, sobre o Rio Vltava, que corria manso circundando a cidade; na Malastrana, na praça medieval, fomos tomar Pilsen numa cervejaria que, segundo ele nos garantiu, Beethoven freqüentava em suas visitas a Praga. Kuchválek indicou-nos a cadeira onde o compositor genial costumava sentar-se, motivo de atração dos clientes.

 

GAFE LINGÜÍSTICA

Ao ouvir a língua tcheca achei, sinceramente, que jamais a falaria. Ao ser chamada de Amadová, aprendi que as declinações modificavam o nome da gente. Dei-me conta em seguida de que as vogais eram usadas com parcimônia, sendo possível pronunciarem-se palavras e até frases inteiras com absoluta ausência delas, como, por exemplo: "strc prst c kr krk." Tão simples: "meto um dedo na garganta". Aprendi que não devia dizer "curva" — "prostituta" — e que "bunda" era "casaco esporte"; encabulei ao ouvir Lumir Civrny pedir a Wally, sua mulher, que fosse buscar sua bunda, pois estava sentindo frio.

A primeira palavra que decorei, por achar engraçada, foi "zmrslina", que significa "sorvete". E foi atrás de zmrslina que nos aventuramos, Jorge e eu. numa tarde em que nosso tradutor se encontrava ausente.

Na vitrine de uma sorveteria próxima ao hotel, havia uma placa: ZMRSLINA NENI. "Aí está, vamos a ele...", disse Jorge entusiasmado ao ler a plaqueta. "Certamente, 'neni' é uma fruta tcheca", concluí. Entramos na sorveteria, Jorge me cutucou:

—      Pede você, que tem boa pronúncia...

E qual era essa pronúncia toda que eu tinha, se nunca havia aberto a boca para dizer uma única palavra em tcheco? Pura matreirice do sabido para me entusiasmar, espicaçando minha vaidade, dando-me coragem.

A mulher que nos atendeu aguardava pacientemente e eu — que jeito? — arrisquei:

—      Zmrslina neni — disse, e, para que ela soubesse quantos sorvetes de "neni" queríamos, mostrei-lhe dois dedos.

Em vez de nos servir, a senhora nos deu uma longa explicação da qual, lógico, não entendemos nada. Terminado o discurso, Jorge voltou à carga:

—      Capricha no sotaque e pede novamente, que ela não te entendeu.

Obediente, sem me dar conta de que a essas alturas ele já se divertia, voltei a mostrar os dois dedos e me esmerei na pronúncia ao repetir:

—      Zmrslina neni!

Visivelmente irritada, pois mudou o tom de voz e a atitude, ela gritou:

—      Neni, neni, neni... — não tem, não tem, não tem...

Jorge traduziu o que eu também já entendera:

—      Hoje, neca de sorvete! Ou, melhor, sorvete, neni!

 

A MADRASTA DA CAVERNA

Vasto programa turístico-cultural fora feito para nós pelo Ministério da Cultura. Além das visitas a monumentos históricos e a museus, encontros com escritores, espetáculos de ópera e de bale, havia sido organizado um passeio à Gmta Macocha — pronuncia-se Matsoha —, uma das mais famosas do país. Em tcheco, "macocha" significa madrasta, e esse nome fora dado à gruta devido a uma lenda que conta a história da madrasta que levara suas duas enteadas para o fundo da caverna a fim de perdê-las e se perdera, ela própria, ficando por lá para sempre, transformada em estátua de estalagmite.

Sempre na companhia de Kuchválek, partimos pela manhã no Tatra posto à nossa disposição, numa viagem de algumas horas, rumo à Macocha.

Foi Pavel, chofer do Ministério, quem nos contou a lenda da

madrasta; sabia tudo quanto se referia à gruta, falava com orgulho de

suas belezas e Kuchválek traduzia, não menos orgulhoso.  

Avesso a profundidades de terra e de água, Jorge, que em Roma, no último minuto, roera a corda e não me acompanhara às catacumbas, ouvia as explicações do chofer sobre a gruta, fazendo, de vez em quando, um comentário:

—      ...quer dizer então que lá embaixo corre um rio? Que beleza!

...E vamos ter que andar de barco entre as estalactites, não é?

Sensacional! ...E faz tanto frio assim? Ótimo!

As perguntas, acompanhadas de exclamações irônicas, me deixaram fria. Jorge devia estar tramando... O carro entrou por uma estradinha em meio a um bosque e estacionou: a boca da caverna ficava ali mesmo. Ao vê-la, Jorge dirigiu-se para o lado oposto. Inocente, Kuchválek chamou-o: "...é por aqui!"

—      Olhe, Kuchválek — disse Jorge —, me desculpe mas eu não vou descer, prefiro ficar aqui em cima, respirando o ar puro do bosque... A Zélia vai e depois me conta...

Surpreso com a repentina resolução do visitante, Kuchválek procurou demovê-lo da desistência, descrevendo as belezas impressionantes que ele iria encontrar no passeio subterrâneo. Preocupada, com receio de que os tchecos pudessem se ofender, chamei Jorge de lado e fi2-lhe um apelo: que fosse, pois ninguém ia compreender sua recusa, verdadeira desfeita, depois de tão longa viagem. Não tinha o direito de tomar tal atitude, no mínimo mal-educada.

Pressionado, Jorge não teve outro jeito senão capitular, faria o sacrifício. Ao saber que a excursão duraria duas horas me alarmei: e meu filho? Não poderia levá-lo comigo, mas tampouco tinha com quem deixá-lo. Não poderia visitar a gruta por mais que desejasse. Paciência, "ficaria no bosque respirando o ar puro". Jorge iria e na volta me contaria tudo.

Depois de levantar o capo do carro para refrescar o motor, Pavel se juntou ao nosso grupo, quando eu explicava a Kuchválek a dificuldade que surgira. Pavel percebeu que alguma coisa não corria bem. O que era? Ao saber do meu problema, ofereceu-se a ficar com o menino enquanto fizéssemos a excursão. Pai de vários filhos, tinha experiência com crianças. Kuchválek conhecia o motorista de longa data, responsabilizou-se: eu podia ir tranqüila, João estaria em boas mãos. Feliz da vida, entreguei meu filho a Pavel e desci com Jorge às profundas da terra, disposta a viver uma grande aventura.

Num barco a remos percorríamos as galerias entre estalactites e estalagmites de todos os feitios, eu me desmanchava em exclamações entusiásticas, achando tudo lindo, maravilhoso, na preocupação de compensar com o meu exagero o mutismo cabuloso de meu marido, quando, de repente, as luzes se apagaram: a eletricidade pifara."Kriste pane.1", resmungou o barqueiro, ordenando em seguida que baixásse-.mos a cabeça. "Cuidado com as cortinas de estalactite!", traduziu Kuchválek. Cabeças baixas, numa posição terrivelmente incômoda, permanecemos calados, humildes, à espera de que a luz voltasse. Inda bem que nas trevas eu não podia ver a cara de Jorge. Depois de um longo tempo, longo de não acabar, terminou a penitência, a claridade foi restabelecida. Jorge quebrou o silêncio para dizer:

—      Agora chega. Vamos voltar?

O velho barqueiro, que não precisou de tradução, concluiu que o passageiro pretendia dar o fora e não gostou:

—      Voltar? Desistir do passeio sem ver a Macocha?... — Não seria no seu barco, com ele nos remos.

Jamais passaria pela cabeça daquele patriota, fanático de sua caverna, deixar de exibir a escultura da Macocha ali tão próxima, obra-prima que ele se ufanava de ter mostrado a Deus e o mundo.

Diante da inesperada reação do barqueiro, Jorge desistiu de seu intento. Mudos, deixamo-nos levar até que por fim ouvimos a exclamação bem-vinda: mesmo em tcheco, nós a entendemos. Glorioso, o barqueiro nos apontava, cheio de orgulho, a famosa madrasta, de pé, no centro de um compartimento onde acabávamos de entrar. Lá estava ela, curva, uma verdadeira bruxa apoiada num bordão. Kuchválek chamou nossa atenção: "Reparem, ela é tão perfeita que até uma gota d'água cai da ponta de seu nariz!" Jorge não tugiu nem mugiu, creio até que nem olhou; mas eu, em compensação, comentei encantada tudo quanto vira, principalmente a gota d'água no nariz da velha; não poupei elogios, elogiei por mim e por Jorge.

Ao chegarmos ao alto, de volta, nem quis conversa, saí doida à procura de meu filho; estava agoniada, demoráramos muito, além do previsto. A pane na eletricidade atrasara o passeio.

Dentro do automóvel, João Jorge dormia tranqüilamente nos braços do chofer. Apenas nos viu, Pavel abriu-se em sorrisos, queria nos dar uma novidade:

—      Garanto que não sabem que está nascendo o primeiro dentinho de vosso filho.

—      Está? — perguntei meio apalermada. —- Como descobriu?

—      Foi fácil — disse Pavel. — Ele mordeu e chupou meu dedo o

tempo todo e eu senti a pontinha do dente saindo... Podem ver, é o de baixo...

O dedo que Pavel nos mostrava, o que servira de chupeta ao menino, estava branco como leite, contrastando com o resto da mão encardida, suja de graxa, graxa que, certamente, João achara deliciosa.

 

'TRADUTORES, TRAIDORES"

Naquele tempo, apenas dois livros de Jorge haviam sido publicados na Tchecoslováquia: Mar Morto e Terras do Sem Fim. Um terceiro, Cacau, estava sendo traduzido por um professor de Francês e Português, da Universidade de Praga, Jan Otokar Fisher.

Jorge era procurado diariamente no hotel por leitores, admiradores e estudantes de Literatura Brasileira, alunos de Fisher e de Kuchválek; vinham conhecê-lo, conversar, mas diante do escritor ficavam inibidos, faziam mil rapapés, tratando-o com a maior cerimônia.

Certa manhã, eu me encontrava sozinha no quarto do hotel, quando bateram à porta. Um jovenzinho loiro procurava por Jorge:

—      Bons dias — disse.

—      Bons dias — respondi.

O rapaz tornara-se escarlate e, sem jeito, procurava as palavras em português para prosseguir. Por fim perguntou:

—      O Mestre está?

Achei graça do tratamento. Quando, no Brasil, um jovem estudante chamaria Jorge de Mestre? Só se fosse por brincadeira. Jorge havia saído e eu expliquei isso ao rapaz, continuando a me divertir:

—      O Mestre não está, saiu mas volta antes das onze horas.

Percebi, em seguida, que o moço não entendera uma só palavra do que eu lhe dissera. Mostrei-lhe então os ponteiros do relógio, apontei o número onze e, com um gesto de mão, fiz-lhe compreender que às onze ele estaria de regresso ao hotel.

—      Han, han! — Ele compreendera e, satisfeito, empertigou-se, fez uma curvatura, deu uma batida de calcanhares, estendeu-me a mão despedindo-se: — Boa vida!

Soube depois que o rapaz era aluno de Português de Jan Otokar, que tinha fama de professor competente. Ensinava gramática portuguesa na perfeição, porém faltava-lhe o traquejo da conversação. Entendia pouco o que se dizia; não se chegava ao fim de uma frase sem que ele a interrompesse com um: "por favor?" Fisher devia padecer muito para traduzir Jorge. Aparecia com listas intermináveis de palavras e de expressões baianas, inacessíveis à sua compreensão. Um dia nos fez rir, queria que Jorge lhe explicasse o sentido da seguinte quadrinha popular: "Eu não vou à sua casa/porque você não vem na minha/você tem taioba grande/engole minha sardinha..." Explicar como, pelo amor de Deus? Kuchválek lera Terras do Sem Fim em português e ficara horrorizado com os absurdos que encontrara na tradução tcheca, feita por alguém que conhecia bem o espanhol e pensara que por isso podia traduzir do português. Kuchválek citava apenas um exemplo absurdo: numa cena em que alguns camponeses voltavam de uma festa, um deles trazia nas mãos as botinas rangideiras, que lhe apertavam os pés. O tradutor deve ter pensado: botina, botella; rangideira, ele desconhecia o termo, mas não se atrapalhou, tocou pra frente, traduziu: "o trabalhador carregava na mão garrafas de licor", O próprio Kuchválek, tempos depois, fez uma nova tradução do Terras do Sem Fim, restituindo ao camponês as suas botinas rangideiras, tirando-lhe da mão as garrafas de licor.

 

"BABY-SITTER"

Kuchválek nos transmitira um convite da União de Escritores para um jantar onde Jorge seria homenageado. Eu não poderia ir, não tinha com quem deixar João e seria um absurdo comparecer a um banquete com o menino no colo. Eu tivera triste experiência dias antes: fôramos convidados para um concerto, músicas de Dvorak, no Teatro Nacional. Com muita pena declinara do convite, não podia carregar meu filho comigo... Depois de idas e vindas, Kuchválek conseguiu com a direção do hotel uma camareira que cuidaria do menino durante a minha ausência. Deixei João no berço, a moça a seu lado lendo um jornal, e nos tocamos; voltaria a tempo de dar, no horário, a última mamada.

Tudo fora lindo, concerto de primeira, grande orquestra, ótimo regente, solista sensacional, mas ao regressarmos do teatro encontramos a criança sozinha, dormindo. A jovem encarregada, ao saber de nosso regresso, apressou-se a aparecer, a desculpar-se: havia se ausentado por alguns minutos apenas, o menino se portara bem; recebeu a gratificação e sumiu.

Ao me aproximar do berço, notei que algo estava errado: que se passara durante a nossa ausência? O rosto de João estava sujo de preto e suas mãozinhas mais sujas ainda. Despertei-o para lavá-lo, mudar-lhe a fralda e dar-lhe a mama. Pela primeira vez nessa viagem, enjeitou o peito. Eu insistia pacientemente quando, de súbito, numa golfada de vômito escuro, botou para fora vários pedaços de jornal nos quais se podia ler o nome de Stálin e frases que deviam ser da melhor teoria marxista. João os engolira depois de destroçar o vespertino que a desatenta baby-sitter deixara esquecido no berço, ao abandonar a criança, logo após a nossa partida.

Diante de tal precedente recusei o convite, nem podia pensar em ir ao jantar: "Me desculpe, Kuchválek, não posso ir", disse resignada. "Jorge vai sozinho."

Meu amigo riu: "O jantar vai ser no Zámek Dobris, o Castelo dos Escritores, onde vocês estão convidados para passar o fim de semana.

Lá não haverá nenhum problema." E lá nos fomos.

 

S.O.S.

Estávamos no mês de maio e fazia frio, o que facilitava minha vida. Eu secava a roupinha de João, fraldas inclusive, sobre os radiadores da calefação central do hotel, que permaneceriam ligados até a aproximação do verão. Todas as noites antes de dormir eu as lavava na pia do banheiro e as estendia sobre as grades quentes dos radiadores; pela manhã as encontrava sequinhas, uma beleza!

Perguntei a Kuchválek onde poderia comprar sabão; o sabão que eu trouxera do Brasil estava por terminar. Uma parte dele ficara na Itália, junto com a caixa de mantimentos. Jorge tivera o cuidado de despachar o caixote de livros para o endereço de Scliar em Paris, mas não conseguira fazer o mesmo com o dos mantimentos, questão de alfândega. Eu carregara comigo muitas latinhas de sopa para João, mas tivera escrúpulo de sobrecarregar nossa bagagem com barras de sabão, pois viajávamos de avião com limite de peso.

Notei pela expressão do rosto de meu amigo que lhe pedira algo muito difícil. Acertara. Sabão de toda e qualquer espécie figurava na lista das inúmeras coisas racionadas, eu não poderia encontrá-lo em parte alguma.

Naquela mesma tarde, Kuchválek apareceu todo afobado, pedindo a Jorge que assinasse várias vias de um requerimento, solicitando ao Ministério que nos hospedava permissão para comprar sabão. Entusiasmada, pensei que fosse conseguir ao menos uma dúzia de barras, mas o que recebi, horas mais tarde, foram dois pequenos tabletes de sabão branco.

A Tchecoslováquia encontrava-se em regime de grande austeridade, os gêneros de primeira necessidade eram escassos e racionados. Um regime de restrições iguais para todos, sem privilégios nem mordomias: do povo trabalhador aos intelectuais e Ministros de Estado, todos possuíam as mesmas cotas de racionamento.

Ao regressar de Dobris, eu teria que enviar um novo S.O.S. ao Ministério da Cultura, pedindo mais sabão.

 

ZAMEK DOBRIS

Situado a quarenta quilômetros de Praga, na localidade de Dobris, o Castelo dos Escritores era, sem tirar nem pôr, uma cópia em miniatura do Palais de Versailles. Apenas não possuía as dimensões gigantescas do palácio de Luís XIV. Seus jardins e parques também haviam sido copiados a capricho dos famosos jardins de Versailles. Suntuosos salões de festas, bibliotecas bem sortidas, salas de jogos com mesa de bilhar, galerias ostentando quadros de caça e cabeças de veados embalsamadas penduradas pelas paredes, luxuosos aposentos, sessenta ao todo. O castelo de Dobris estava agora à disposição dos escritores tchecos.

Durante a curta viagem de automóvel de Praga a Dobris, Kuchválek nos informava sobre o castelo e seus antigos proprietários, os príncipes Coloredo-Mansfield, de brasão ítalo-austríaco. Começou por nos esclarecer que "zámek" significa "castelo" em tcheco. Segundo Kuchválek, Reinhard Heydrich, comissário-geral da Gestapo durante a ocupação nazista, requisitara o castelo de Dobris para seu uso. Ali pernoitava freqüentemente. Os Coloredo-Mansfield, donos do castelo e senhores da região, haviam sido contemplados pelo beneplácito do chefe alemão: fora-lhes permitido ocupar uma das alas da residência, já que haviam recebido cordialmente os invasores. As outras alas foram ocupadas pelo alto comando nazista. Os príncipes habitaram no castelo até 1944, quando da expulsão dos nazistas do país pelo Exército Vermelho. Kuchválek ria ao recordar que os Coloredo-Mansfield tinham aberto os pesados portões do castelo para os russos vitoriosos, empunhando enorme retrato de Stálin. Ao saberem, no entanto, que apenas poderiam continuar ocupando a mesma ala onde viviam desde 1939, não gostaram, recolheram tudo o que possuíam de valor e, espontaneamente — nosso informante fazia questão de frisar que ninguém os mandara embora, haviam partido de livre e espontânea vontade —, exilaram-se na França carregando o que puderam.

Havia pouco tempo que o castelo fora entregue à administração da União de Escritores para que os criadores de literatura nele fossem trabalhar e passar as férias com suas famílias.

 

ENCONTRO GOM OS ESCRITORES

Havia entre os escritores que nos receberam, com carinho e cordialidade, um clima de euforia: fora aprovada, havia dias, uma nova constituição, que proclamava a Tchecoslováquia uma democracia popular. Benes ia deixar a Presidência da República, que seria ocupada pelo Presidente do Conselho, Klement Gottwald. A euforia se explicava pelo fato da maioria dos escritores ali presentes serem comunistas; alguns haviam tomado parte na resistência contra a ocupação nazista, alguns, como Jan Drda, tinham sido guerrilheiros, outros guardavam marcas visíveis de tortura dos campos de concentração. Lá, fomos apresentados ao citado Jan Drda e a Milena, sua mulher; Drda escrevera um livro de novelas sobre a luta do povo tcheco contra o nazismo: A Barricada Muda, do qual fora extraído um filme de grande sucesso. Presidente da União de Escritores, homem dinâmico, alegre, Drda tornou-se logo nosso amigo. Não falava línguas latinas mas tinha grande conhecimento do latim e imediatamente, para gozo de todo mundo, dirigiu-se a Jorge em latim, esforço inútil. Acabaram se entendendo através de uma complicada mistura de línguas e, sobretudo, de farta gesticulação. Milena, mãe de três filhos, mulher doce, de fisionomia tranqüila, tomou-me João dos braços, sorriu-me e levou-o a passear num carrinho pelo parque. Eu senti, pela primeira vez nessa viagem, uma sensação de alívio, um enorme descanso. Lá encontramos também o poeta surrealista, Nezval, que chegou para o banquete e depois partiu; Ivo Fleishman, jovem escritor e diplomata; Sergei Machonin com sua mulher Olga; Mane Maierová e Mane Puimanova, duas famosas escritoras; o poeta Pilar com sua mulher, também Mane; o romancista Pavel Bojar — que também, como Kuchválek, seria, muitos anos mais tarde, Embaixador no Brasil —; e Jiri Fried, roteirista de cinema; a editora Dasha Stainova; o pintor Antonin Pele com sua Jofika, entre outros.

 

"KENEDLIK, HUSA, ZÉLI"

A simplicidade e a descontração dos escritores que nos hospedavam, vestidos esportivamente, contrastavam com a suntuosidade do salão nobre do castelo, escolhido para o jantar. Jantamos num ambiente de requintada arte barroca, com móveis de estilo, bibelôs de biscuit distribuídos por toda parte, um belo piano de cauda, jarrões de porcelana pelos cantos, anjinhos robustos e coloridos voando entre flores e pássaros numa pintura que cobria o amplo teto côncavo; retratos antigos de damas e de cavalheiros bem-postos, certamente da linhagem dos ex-proprietários do castelo, multiplicavam-se refletidos nos espelhos, com molduras douradas, que pendiam do alto das paredes indo até o chão.

O jantar foi servido numa grande mesa comprida, forrada de toalha de linho com o brasão da família bordado em relevo, em pratos de porcelana também brasonados, com coroa e tudo, talheres de prata, copos e jarras de cristal. O jantar constava de apenas um prato, sem entrada nem direito a repetição, e funcionava à base dos tíquetes: cada um dos comensais, ao sentar-se à mesa, entregava ao administrador do restaurante o cupom correspondente à sua cota de carne.

Serviram o prato nacional tcheco: Kenedlik, husa, zéli. Como não encontro tradução para "Kenedlik", tentarei explicar o que é, aproveitando a ocasião para dar a receita a quem possa interessar. Ingredientes: farinha de trigo, leite, ovos, manteiga e pedacinhos de pão dormido. Depois de tudo bem misturado faz-se com a massa algo como pães compridos que devem ser cozidos em água e sal; cozidos, são cortados em fatias para acompanhar carnes de porco e de aves, principalmente a de ganso. Tínhamos, pois, para comer naquela noite, além do Kenedlik, husa, ganso e zéli, repolho, ou seja, chucrute. O prato foi provado e aprovado com entusiasmo por Jorge e por mim, uma delícia! Como sobremesa tivemos sonhos recheados de geléia de mirtilhas.

Alguns escritores falavam francês, bom para Jorge, para mim não adiantava nada, pois de francês eu conhecia apenas algumas palavras; outros falavam espanhol, aprendido nas brigadas da Espanha, onde haviam participado da luta contra Franco.

Perguntaram-me, rindo, se eu não tinha medo de fantasmas, pois nos fora reservado o quarto, a cama, o colchão de plumas — e quem sabe até os mesmos lençóis — em que dormira Heydrich, o "carrasco" — como era designado pelo povo —, até a véspera de sua morte.

Dormíramos na cama de Heydrich — não tive medo mas senti um certo asco — dias antes, no castelo de Dobris. Encontrávamo-nos agora em Lídice, aldeia arrasada pelos nazistas, exatamente devido à morte de Heydrich.

A destruição de Lídice, em junho de 1942, revoltara o mundo inteiro pela monstruosidade incomensurável cometida pelos nazistas. Toda uma aldeia fora bombardeada, as casas destruídas, os habitantes fuzilados. Não sobrara pedra sobre pedra. Na ocasião, diante de tão hediondo crime, a imprensa brasileira, já liberada da censura que proibira durante anos os ataques ao Eixo, abrira baterias denunciando a bestialidade nazista. Comovido, ò povo brasileiro revoltara-se, protestando, solidarizando-se com o povo tcheco. Inúmeras crianças do sexo feminino, nascidas na época do terrível massacre, receberam o nome de Lídice, e até uma cidade do município de Rio Claro, no Rio de Janeiro, o adotou em homenagem à "Cidade Mártir". Também eu me revoltara e sofrerá como todo mundo. Agora ali estávamos e me dava conta de que ouvir falar de uma tragédia ou apenas ler sobre ela era muito diferente de vê-la de perto, in loco. A dimensão era outra, muitíssimo maior. Diante de nossos olhos rasos d'água, de nossa angústia, encontrava-se o local do crime: um imenso campo raso, onde antes se erguera a pacata aldeia de Lídice. Espalhados em distâncias irregulares, fincados na terra, havia marcos de madeira contendo placas com inscrições explicativas: "Neste local funcionava uma escola"; "Aqui era o hospital";"Aqui se levantava a igreja"; "Aqui..." Bastava para nos dar a medida terrível, a noção verdadeira do que fora a carnificina.

Por coincidência, naquele dia de nossa visita completavam-se seis anos do desaparecimento de Lídice. Muita gente — alguns parentes dos desaparecidos e imensa multidão solidária — percorria o infindável campo e, num gesto comovente, espalhava flores sobre a terra nua. Ônibus chegavam trazendo classes inteiras de alunos acompanhados de professoras que lhes davam uma aula ao vivo sobre a tragédia da guerra. Um grupo de pessoas se aglomerava mais adiante, no local onde se ergueria mais tarde um museu. Numa pequena vitrine, debaixo do vidro, uma folha de papel com o histórico do crime. Uma professora lia em voz alta para os alunos que, em silêncio, prestavam atenção. Kuchválek nos traduziu o resumo: em 1942, patriotas tchecos, não suportando mais a opressão e as atrocidades cometidas pela polícia nazista comandada por Heydrich, tomaram a decisão de eliminá-lo e conseguiram fazê-lo. Na feroz caça aos responsáveis pela morte do chefe, a Gestapo fora informada de que os executores vinham da região de Kladno, provavelmente de Lídice. Enfurecidos, na ânsia de represália, prenderam, indiscriminadamente, cerca de duzentos habitantes da aldeia, talvez entre eles encontrassem o responsável ou quem desse informações. Torturados para que confessassem, nada confessaram, ninguém delatou ninguém, de nada sabiam, eram inocentes. Impotentes diante dos resultados negativos, os hitleristas fuzilaram a todos. Por ordem direta de Hitler a aviação nazi bombardeou a aldeia, casa por casa, e metralhou, em vôos rasantes, os habitantes que, desesperados, tentavam fugir dos bombardeios em meio aos escombros. De Lídice não sobrou absolutamente nada, ninguém.

Esse seria meu primeiro choque, diante dos fatos que começavam a dar-me a dimensão precisa da bestialidade nazista e do horror da guerra.

 

DADEM E PROGRESSO

A União de Escritores propôs a Jorge prolongar nossa estada na Tchecoslováquia, para viajar por todo o país. Mudamos para o Hotel Alkron, novo, de instalações modernas. O Alkron tinha ainda uma vantagem sobre o Paris: situava-se em rua lateral e calma. No grande living, fincadas num suporte de madeira preso ao chão, encontravam-se enormes bandeiras de diversos países, entre as quais a do Brasil. A saudade da terra distante aumenta o patriotismo, e foi, pois, com imenso carinho que nos aproximamos para vê-la de perto, a nossa bandeira, para nós a mais bela entre todas. Não custou muito descobrirmos que havia algo errado: em lugar, de "ORDEM E PROGRESSO" estava escrito "DADEM E PROGRESSO". A bordadeira, com certeza, desconhecendo o português, confundira a letra O com o D, o R com o A. Chamamos a atenção do diretor do hotel para o erro e ele nos prometeu mandar corrigi-lo, mas a burocracia existe em toda parte e o Dadem lá continuou, quem sabe, até hoje.

Recebêramos, como todos os habitantes da Tchecoslováquia, nossos carnes de tíquetes para a carne: 150 gramas por dia. A cota de João — como a de todas as crianças, tchecas ou não — era maior que a dos adultos: 200 gramas. Ele não comia carne, no hotel eu não tinha condições de utilizá-la, mas nem por isso devolvemos o carne destinado ao nosso filho; nem pensamos nisso, nossa consciência política não nos levava a tais extremos. Dividimos sua ração entre nós dois, ganhamos cada um 100 gramas de carne a mais por dia. João começava a contribuir para alimentar os pais.

 

HOTEL MAJESTOSO

Saíramos muito cedo de Praga, viajáramos o dia todo. Nosso destino era Zlin, na Morávia — Zlin não tardaria a se chamar Gottwaldov, no procedimento habitual do culto à personalidade —, cidade industrial onde se encontravam instaladas, entre outras indústrias, as mais importantes fábricas de calçados da Tchecoslováquia, as fábricas Bata. Fôramos convidados a participar de um festival cinematográfico, de curtas-metragens, que se realizaria naquele cidade. Chegamos com um dia de antecedência.

Cansada da longa viagem, tanto tempo sentada naquele carro, eu estava aflita, sobretudo por causa de João. Habituado a passeios diários ao ar livre, devia estar estranhando aquela prisão, contido no espaço limitado do automóvel; inquieto, ele não parava no lugar, puxando-me os cabelos, metendo os dedinhos em meu nariz... Suada, amarfanhada, despenteada pelo vento que entrava pelas janelas abertas do carro, cheirando a azedo — após a última mamada, João regurgitara e a golfada empapara minha blusa —, eu me sentia um trapo.

Kuchválek nos apontou, ao longe, um enorme hotel, rodeado de jardins:

— Já estamos nos aproximando, aquele é o nosso hotel. Nem em Praga existe outro tão luxuoso! Foi construído pelos Bata, nele já se hospedaram príncipes e reis.

Com os Bata se repetira a história dos Coloredo-Mansfield, de Dobris. Após a guerra, com a nacionalização das indústrias privadas, Jan Bata, proprietário das fábricas de Zlin, preferira abandonar o país, largar tudo, a trabalhar como simples diretor da empresa fundada por Tomás Bata, seu pai. Partira para o Brasil; sobre ele eu lera, nos jornais brasileiros, várias reportagens, entrevistas onde não escondia seu ódio ao novo regime, do qual dizia cobras e lagartos.

Ao saber que íamos nos hospedar naquele hotel majestoso — de príncipes e de reis —, em vez de me entusiasmar, me apavorei. Afinal de contas eu tinha minha vaidade: como enfrentar o saguão de um hotel daquela categoria, despenteada, amassada, acabada daquele jeito? Se pudesse entrar sorrateira, pela porta dos fundos... Em voz baixa, para que Kuchválek não me ouvisse, falei a Jorge da minha intenção. Vendo-o também mal-ajambrado, barba por fazer, roupa amarrotada, achei que podia contar com a sua solidariedade. Ele não me levou a sério, achou minha proposta divertida:

—      Mas que bobagem é essa? Você até está bonitinha...

O automóvel fazia voltas pelas alamedas do jardim, contornando o hotel. À proporção que nos aproximávamos, maior eu o via, um palácio imponente! Muita gente passeava pelos jardins. Comentei com Jorge e ele me disse que certamente deviam ser artistas estrangeiros e pessoas ligadas a cinema, vindas de toda parte do mundo para o festival.

—      Artistas estrangeiros, de toda parte do mundo? Xiiü... — exclamei, horrorizada, preocupada, cada vez mais, com a nossa aparência.

Vendo a minha inquietação, Jorge tratou de me acalmar:

—      Mas que besteira, minha filha! Se preocupando tanto com o que possam pensar?... Essa gente de cinema não liga a essas coisas; para eles, quanto mais à vontade, melhor...

O carro estacionou na porta principal. De dentro, chegavam até nós sons de música alegre, música de dança, de conversas em voz alta e de gargalhadas. Um funcionário, fardado mas sem alamares nem luvas, nos ajudou a levar a bagagem para o living entupido de gente; pessoas de aspecto modesto, jovens de camisetas da malha, de tênis, andavam para cima e para baixo, na maior descontração, sobre os tapetes e o mármore brilhante do piso, donos absolutos do espaço... Ninguém notou a presença daqueles paus-de-arara, ninguém me deu a mais mínima bola. Eu estava despenteada e cheirando a azedo? E daí?

Vendo-me confusa, antes que eu lhe perguntasse qualquer coisa, Kuchválek me explicou:

—      São operários da fábrica de calçados, donos de tudo isso. Aqui eles podem jantar a preços populares; costumam vir depois do trabalho, dançar e se divertir.

Não comentei nada, tão assombrada estava. Encontrava-me diante de uma conquista do socialismo, sentia-me recompensada de minha luta de tantos anos. Valera a pena.

 

ESTAMOS DE GRANDE!

Refeitos do cansaço do dia anterior, saímos pela manhã a passear pelo jardim, a rodar pela cidade. Quem sabe encontraríamos frutas para João? Kuchválek era pessimista. Se não encontráramos em Praga, muito menos na Morávia. Após a guerra, o Governo tcheco não importara mais frutas, economizando divisas para coisas consideradas mais necessárias. Um dia, em Praga, eu entrara numa fila para comprar maçãs, maçãs "de safra anterior, murchas e enrugadas, e conseguira apenas um quilo. Dei-me por feliz de ter levado João Jorge no colo, pude entrar numa fila bem menor que a normal: senhoras grávidas ou mulheres com crianças no colo tinham prioridade em tudo.

As primeiras cerejas começavam a aparecer naquele mês de junho, ainda poucas para os muitos que as desejavam. Mas nós não íamos atrás de cerejas, pois os entendidos as desaconselhavam para crianças pequenas e João apenas completara sete meses. Se eu encontrasse maçãs, mesmo enrugadas, que ventura! As que eu comprara em Praga haviam feito o regalo do menino, ele as devorara com a maior satisfação. Desde que chegáramos à Tchecoslováquia meu filho não tomara mais seu suquinho de frutas. Quando muito, uma limonada, o limão conseguido a duras penas. As crianças nascidas depois da guerra ainda não conheciam laranjas nem bananas. Inda bem que eu continuava tendo bastante leite para amamentar meu filho, leite que devia ser forte porque o menino crescia e engordava, um chumbo de pesado. Carregá-lo tornara-se tarefa cansativa.

Na porta de uma loja onde vendiam objetos diversos, Jorge espiou e descobriu, lá no fundo, um carrinho de criança. Uma beleza de carro, todo de madeira,, leve e desmontável, caberia perfeitamente na mala do automóvel. Entramos na loja com João nos braços e saímos com ele refestelado em seu "kocharék", o maravilhoso carrinho que acabávamos de comprar, o pai entusiasmado empurrando-o. Quanto a frutas, Kuchválek tivera razão: voltamos de mãos vazias.

Ao regressar ao hotel, já na hora do almoço, encontramos no jardim o cineasta holandês Joris Ivens, legendário documentarista, recém-chegado para o festival. Jorge o conhecera em Paris, assim como a Georges Sadoul, jornalista e crítico de cinema, que veio ao nosso encontro apenas nos avistou.

Sentamos juntos, os cinco. João Jorge empoleirado em seu carro, ao meu lado, destroçando uma côdea de pão, alvo de carinho das pessoas que nos rodeavam. Na mesa ao lado, o cineasta húngaro Bela Balazs almoçava com o tcheco Jri Trnka, o gênio dos bonecos animados. Todo mundo de tíquetes em punho, o garçom os recolhia antes de servir a refeição.

Estranhei a ausência dos operários que vira na véspera. Fiquei sabendo então que eles almoçavam na cantina da fábrica, freqüentavam o hotel somente à noite. "Hora de trabalhar, trabalhar..."

Na véspera, cansada, preferira deitar cedo, não tivera forças para acompanhar Jorge à sessão especial em que passavam um filme húngaro de Gesa Radványi e Bela Balazs, Em Qualquer Parte da Europa.

Ao voltar do cinema Jorge me acordou:

— Tenho uma notícia que vai lhe agradar, dona Zélia; a senhora foi convidada para assistir a outro festival de cinema, dentro de um mês, em Marianské Lazne...

Assistir a um festival em Marianské Lazne ou em Karlovy Vary, realmente, não era coisa para qualquer um. Balneários conhecidos no mundo inteiro por suas notáveis termas — pontos de encontro, antes da guerra, da elegância e da aristocracia européia —, as duas cidades vizinhas haviam se tornado, nos últimos tempos, ainda mais procuradas, devido à realização, lá, de festivais cinematográficos.

Tão alvissareira fora a notícia, que até me fez perder o sono. Com João pendurado em meus braços, limitando-me, ainda assim eu enfrentaria os programas de Zlin, os programas de Marianské Lazne, quaisquer outros que aparecessem, com muito prazer.

 

DOIS PRESIDENTES E UM INDUSTRIAL NO CORAÇÃO

O programa em Zlin era intenso: visitas às fábricas de calçados, às creches, aos clubes operários, etc.

Interessada nas primeiras realizações socialistas, eu queria ver tudo. Começamos pela creche de uma fábrica: num pavilhão erguido no jardim, no maior asseio, enfermeiras cuidavam das crianças enquanto suas mães trabalhavam. Percorremos todas as dependências, tudo bem organizado, as crianças sob controle médico.

Eu não cabia em mim de entusiasmo. Era exatamente isso que eu idealizara sempre: creches para todas as crianças cujas mães necessitassem trabalhar fora de casa. Encontrava-me diante de uma, a primeira que visitava num país socialista.

Antes de partir, fomos conversar com a diretora. Ao entrar em sua sala, uma coisa me surpreendeu: dois retratos pendurados na parede, um ao lado do outro: o do ex-Presidente Benes e o do atual, Klement Gottwald. Comentei com Kuchválek que no Brasil quando caía um Presidente o seu retrato também caía automaticamente das paredes.

A diretora, mulher de meia-idade, percebendo o meu interesse pelos dois retratos, esclareceu:

—      Trazemos o Presidente Gottwald no coração, mas Benes continua aí pendurado porque foi um bom Presidente, um homem de bem.

Kuchválek interrompeu-a para traduzir e aproveitou a ocasião para chamar nossa atenção para a franqueza e a liberdade com que ela expunha seu pensamento.

A primeira parte da frase: "trazemos o Presidente Gottwald no coração", cheirou-me a coisa forçada, expressão decorada, mas tratei de afastar de mim o mau pensamento. A diretora ainda não dissera tudo que desejava dizer: 

—      Havia um terceiro retrato aqui, o mais antigo, junto ao do Presidente Benes, o de Tomás Bata, fundador desta fábrica, da creche, do clube recreativo para os operários, das escolas, do serviço médico, enfim, de todos os benefícios usufruídos até hoje pelos operários.

Tomás Bata foi um homem progressista, bom, conquistou a estima dos operários dando-lhes dividendos dos lucros da empresa, oferecendo-lhes casas confortáveis para morar, creches que facilitaram a vida das mulheres. Por isso sua indústria progrediu, aumentou; cada operário trabalhou com vontade, teve condições e interesse em produzir o máximo — concluiu. — Levei o retrato do velho Bata para casa, está pendurado na minha sala.

Kuchválek confirmou o que acabáramos de ouvir. Contou-nos que Tomás Bata ficara conhecido por ter sido um dos primeiros industriais a dar aos seus operários participação nos lucros. "Era sabido. Com isso enriqueceu ainda mais." Tomás Bata morrera havia muitos anos e sua memória merecia respeito de todos, apesar de seu retrato ter sido retirado das paredes.

Um capitalista generoso? Isso existe?, perguntei-me um pouco incrédula. Estava por demais desconcertada com a revelação de que as conquistas sociais dos operários de Zlin não provinham, como eu imaginara, do regime socialista, ainda incipiente na Tchecoslováquia, e, sim, já existiam no antigo regime capitalista. Resistindo a acreditar no que ouvira, procurei satisfazer o meu radicalismo, concluindo que Kuchválek tinha razão: o velho Bata era mesmo um sabidório.

 

MARIANSKÉ LAZNE

Preso a compromissos na Universidade, Kuchválek não pudera nos acompanhar ao festival cinematográfico de Marianské Lazne, na Boêmia. Mesmo rodeada de gente que falava espanhol, de cineastas e atores italianos com quem eu podia conversar sem necessidade de intérprete, sentia-me um pouco desamparada, Kuchválek fazia falta. Cheio de compromissos, solicitado por todos os lados, Jorge não podia me dar a assistência habitual. Meu problema repetia-se: não tendo a quem confiar meu filho, não podia acompanhar Jorge. Resolvi não me aborrecer, pus meu coração à larga, desisti de participar das sessões de cinema, de assistir a filmes que gostaria de ver, contentando-me em conversar com artistas e diretores famosos, nas horas das refeições no hotel; com isso me dava por feliz.

Eu ninava João na penumbra do quarto, tentando adormecê-lo, quando Jorge, que ficara batendo papo lá embaixo, chegou:

—      João ainda não dormiu? Eu vinha buscar você... Tem um bocado de gente conhecida lá embaixo...

Vendo que eu não poderia acompanhá-lo, resolveu ficar também.

—      Amanhã de manhã você vai comigo assistir a uma sessão... não pode perder, de jeito nenhum! Vai ter uma surpresa, dona Zélia... Não vou contar. — No rosto um ar de mistério..

Por mais que eu insistisse, doida para saber, ele morto de vontade de contar, resistiu, não contou.

—      E quem fica com João? — perguntei.

—      Não se preocupe, em último caso João vai também.

 

DUAS SURPRESAS

Na porta do cinema, à nossa espera, estava Carlos Scliar. Com essa eu não contava. Scliar chegara na véspera, à noite, e ria ao ver minha cara de espanto. Ele fora convidado pela direção do festival, certamente na qualidade de documentarista, pois dirigira um curta-metragem: A Escada. Após os abraços, começou a explicar:

— Estou aqui representando o Rui Santos...

Jorge o interrompeu, fazendo-lhe um sinal para não dizer mais nada. Inadvertido, Scliar poderia pôr tudo a perder, revelando a grande surpresa que Jorge guardava para mim.

A sala de projeção, repleta, ficou às escuras, fez-se silêncio. A tela se iluminou e a melodia brasileira invadiu a sala. O primeiro letreiro apareceu no écran: "COMÍCIO NO PACAEMBU — SÁO PAULO, Direção: Rui Santos." Abafada, voltei-me para Jorge, que apertou minha mão; aparecia agora o grande estádio a encher-se, o povo lotando as arquibancadas aos poucos. De repente, em meio ao campo, me vi ajudando a Di Cavalcanti e a Clóvis Graciano na decoração do gramado. Em seguida chegava Prestes comboiado por vários companheiros, entre eles Jorge e Pablo Neruda. O povo, em delírio, aplaudia-os de pé.

Em 1945, Prestes aparecera em público, em São Paulo, pela primeira vez depois de passar dez anos na prisão. Antes, estivera num comício gigantesco, no Rio. Ele vinha agradecer ao povo paulista a campanha na qual se empenhara pela anistia dos presos políticos. Ouvia, rouca, a voz de Monteiro Lobato que, não podendo comparecer por encontrar-se doente, enviara sua mensagem numa gravação. Depois, Neruda declamou um poema de saudação a Prestes.

Ao terminar a exibição do documentário — o filme fora trazido por Scliar —, os aplausos irromperam no auditório, eu chorava no ombro de Jorge, na mais profunda emoção.

 

JORGE CUIDA DO FILHO

Passavam naquela tarde um filme de René Clair: Le Silence est d'or. Sabendo o quanto eu gostava dos filmes desse diretor francês, Jorge me convenceu a deixar o menino com ele e ir ao cinema. Quase na hora da sessão colocou o filho no carrinho, "vam'bora", conduziu-me até a porta do cinema; mal tive tempo de recomendar-lhe:"Não vá dar zmrslina para ele!" Com uma cara marota, olhar de desafio, ele só fez dizer: "Boa idéia, não tinha pensado nisso..." E lá se foram os dois em direção ao parque. Jorge voltou-se ainda uma vez para gritar: "Juízo!"

O filme me agradou muito, tanto que consegui tirar a cabeça dos dois, soltos, soltos à mercê de Deus, o menino à mercê de Deus e do pai, dos dois o mais arteiro. À saída da sessão, eles estavam à minha espera. Jorge veio ao meu encontro todo entusiasmado, o carrinho vazio, o filho ao colo, na mãozinha um floco de algodão-doce pela metade, o rostinho melado, a roupa amassada, suja e úmida, colorido da cabeça aos pés. O sorvete andara solto por ali. João me estendeu os bracinhos, risonho e farto. Jorge me entregou ele:

— Pegue, tome conta de teu filho que eu já não agüento mais suportar este sujeito!

Em geral reservávamos as manhãs para os passeios. Programas e itinerários sempre os mesmos, durante os dez dias que passamos em Marianské Lazne: andanças pelo belo parque com flores e árvores onde se encontravam as fontes de água mineral.

Era época de férias e todos os hotéis estavam lotados. O jardim, repleto de gente em fila diante das bicas jorrando água, água que servia de medicamento para as mais diversas enfermidades. As pessoas empunhavam canecos de longos bicos pelos quais sugavam o precioso líquido em pequenos sorvos. Encantado com os tais canecos, Jorge comprou um de porcelana e me ofereceu. Foi aí que Kuchválek realmente me fez falta. Sem ter quem me alertasse, sem nenhuma orientação, de posse do caneco, fui provando as águas de todas as fontes, num glute-glute interminável, águas frias e águas quentes... Ficaria nova em folha! As conseqüências não se fizeram esperar e foram desastrosas. Passei um dia todo no quarto sem poder sair. Aposentei meu belo caneco, desisti da cura.

Dias antes do encerramento da mostra cinematográfica aderimos a uma excursão a Karlovy Vary, organizada pelos promotores do festival. Saímos pela manhã num ônibus lotado de cineastas, numa viagem de poucos quilômetros. Karlovy Vary tinha as mesmas características de estação balneária que Marianské Lazne, porém era maior, mais importante e mais bonita. A cidade possuía uma imponente catedral barroca e fábricas de cristais.

Passamos o dia visitando a catedral, as manufaturas de objetos de vidro, passeando pelos jardins das termas, caminhando entre as colonnades. Essas colonnades eram famosas por terem sido, antes da guerra, o local preferido da aristocracia européia, que ali desfilava e ostentava elegância e riqueza. Agora, por elas transitavam pessoas de todas as classes sociais, inclusive operários, envergando vistosos paletós de pijama, listrados, sugando sua agüinha, debutando na famosa cidade balneária.

Passeávamos pelas alamedas proseando com o documentarista iugoslavo Teodoro Balk, pessoa simpática, inteligente, com quem falávamos espanhol, língua que ele aprendera ao integrar as Brigadas Internacionais na Espanha, quando, a poucos metros de nós, uma senhora de rosto simpático e traços fortes, conversando com alguns cineastas, chamou minha atenção. Sua fisionomia não me era estranha, certamente a vira antes mas não conseguia localizá-la. Cutuquei Jorge, perguntei: "Você conhece?" Antes que ele tivesse tempo de responder, Teodoro Balk adiantou-se:

— Lá está Dolores Ibarruri, almocei com ela ontem, vamos cumprimentá-la?

Os cineastas que conversavam com Dolores Ibarruri eram nossos conhecidos, a australiana Catherine Duncan, o documentarista inglês Ive Montagu e Joris Ivens. A emoção que senti ao aproximar-me de La Passionária era explicável. Desde menina eu ouvira falar nessa mulher valente lutadora que dedicara sua vida à defesa dos direitos dos trabalhadores. Diziam ser dela uma frase que nunca esqueci: "Antes morir de pie que vivir de rodillasF'1 Essa figura legendária estava ali, viva, em minha frente. La Passionária sempre representara para mim algo abstrato, uma alegria e uma esperança, coisa que não se vê nem se toca, apenas se sente. Eu a situara entre as figuras inatingíveis que me acompanhavam desde criança, como Greta Garbo, Charles Chaplin, Pietro Gori, Castro Alves, Kropotkine, Lenine, Jesus Cristo...

Diante de Dolores Ibarruri conservei-me calada. Amável comigo e com meu filho, ela mostrou-se satisfeita de conhecer Jorge pessoalmente. Estava em Karlovy Vary em tratamento de saúde. Convidou-nos para jantar com ela em seu hotel; ficamos tentados mas não pudemos aceitar o convite, pois devíamos regressar naquela mesma tarde a Marianské Lazne.

Na portaria do hotel, ao chegarmos, encontramos um recado urgente para Jorge: que ele entrasse em contato com a União de Escritores em Praga.

 

VAMOS PARAR COM A GUERRA?

A guerra fria dominava naquele então as relações internacionais, que se caracterizavam por uma política de constante hostilidade entre os Estados Unidos e a União Soviética, com permanente ameaça à paz. Apenas ameaça, porém ameaça de guerra atômica, guerra sem vencidos nem vencedores, o fim de tudo. A bomba atômica apavorava o mundo desde as primeiras devastadoras explosões sobre Hiroxima e Nagasáqui, em 1945.

Jorge fora convocado às pressas, por amigos franceses, entre os quais Aragon, Picasso e Paul Eluard, para comparecer a um encontro em Varsóvia, durante o qual escritores, cientistas e artistas, naquele mesmo mês de julho, colocariam as bases de um congresso mundial de intelectuais pela paz, contra a ameaça atômica, pela convivência pacífica entre as nações — a primeira manifestação coletiva pela paz no após-guerra.

Dessa reunião em Varsóvia saiu a convocação para o I Congresso de Intelectuais pela Paz Mundial, o famoso Congresso de Wroclaw, que teve lugar no mês de agosto naquela cidade polonesa da baixa Silésia — antiga Breslau, que pertencera anteriormente à Alemanha —, importante devido às indústrias metalúrgicas, muitas delas destruídas pela guerra.

De volta a Praga, tivemos a alegria de encontrar, na portaria do Alkron, Mariuccia e Arnaldo Estrela, que acabavam de chegar de Paris, a fim de participar de um Congresso de Música em Praga. Não tardou a aparecer outro amigo brasileiro, o compositor Cláudio Santoro, vindo para o mesmo Congresso. Jorge estiver a com eles em Paris, onde viviam, mas eu não os via fazia muito tempo. Em Paris, Cláudio Santoro musicara um poema que Jorge fizera para mim em 1945: "Eu te darei um pente pra te pentear/ colar para teus ombros enfeitar/ rede pra te embalar/ o céu e o mar eu vou te dar..." Jorge me confidenciara que num dia de baixo astral, as saudades apertando, ele acrescentara ao poema alguns versos: "Onde quer que te encontres, ai!/ Meu distante pensamento/ terno carinho meu/ hei de sempre te amar!... Venha que a noite é longa/ triste da tua ausência/ meu infinito amor..." Segundo Jorge, a música de Cláudio era belíssima e eu estava doida para ouvi-la. Mariuccia me oferecera laranjas que trazia de Paris e, mais do que isso, ao saber de minha dificuldade em obter sabão, deu-me as duas únicas barras que trouxera para lavar suas roupas na viagem e ainda três sabonetes, sendo que um deles ela conseguira com Cláudio. Presente régio! Felizmente, não precisaria incomodar Kuchválek tão cedo com pedidos de sabão, coisa que me constrangia demais.

Kuchválek encontrava-se à nossa espera no Alkron, trazia a passagem de avião para Jorge, que embarcaria daí a dois dias para Varsóvia. Viajaria com um grupo de intelectuais que já se encontravam cm Praga, entre os quais os escritores soviéticos llia Ehrenburg e Alexandre Fadeiev, o escritor francês Vercors, o deputado e dirigente do Partido Comunista Francês, Laurent Casanova, e o nosso amigo .loris Ivens, ele também chamado às pressas em Marianské Lazne. Quanto a mim, tudo já fora resolvido: enquanto Jorge estivesse na Polônia eu permaneceria no Castelo dos Escritores, aguardando sua volta. Ao saber que ficaria novamente sozinha, senti um nó na garganta mas não disse nada, aceitei a decisão, compreensiva assim como devem ser as mulheres de maridos engajados em lutas sociais e políticas. Isso eu aprendera havia muito. Ficaria em país estranho, curtindo preocupações, curtindo ciúmes e saudades. Aceitava a determinação como contribuição minha à luta pela paz, um bom consolo! Contribuição de c|iicm ajuda na sombra, na surdina, e leva fama de acomodada. Tantas vezes já sucedera, eu conhecia de sobra o problema.

 

O DESOLADO ZÁMEK

A tarde estava escura. Chovera muito pela manhã e o céu continuava carregado, ameaçando novos temporais. Mal tive tempo de arrumar meus trens para deixar o quarto do hotel, preparar uma valise menor para Jorge e partimos em dois carros, pois Mariuccia, Arnaldo e Kuchválek nos acompanhariam a Dobris. Eu tivera o cuidado de prevenir Arnaldo e Mariuccia para que não continuassem chamando Kuchválek de Kurválek; tão pequena diferença, apenas a substituição do ch pelo r, transformava seu nome no diminutivo de um palavrão: "kurva", em tcheco, é "prostituta"; "kurválek", "prostitutinha". Kuchválek apenas ria quando o chamavam assim, não reclamara mas comentou comigo.

Achei o Zámek Dobris terrivelmente triste naquele fim de tarde. Certamente a aproximação da noite e da chuva colaborava para a minha angústia. Quando teria notícias de Jorge? Quantos dias permaneceria ali, isolada, enclausurada à espera? E, na Polônia, haveria mulheres bonitas se insinuando? Essas jamais faltavam. Pelo jeito que Mariuccia me olhava, vi que ela estava morrendo de pena de mim. Senti vontade de chorar mas me contive. Amável, carinhoso, Jorge lia meu pensamento, procurava me consolar dizendo e repetindo que ia ser bom para mim e para João aquela estada num lugar tão belo e saudável. Na tranqüilidade de Dobris, eu iria recuperar as forças depois de tantas andanças, sem pouso certo... Quanto a ele, só ia ter trabalho e desgaste físico, a começar pela viagem de avião que o arrasava. Calada o ouvi, calada continuei, e na despedida não quis acompanhá-los ao portão, não queria dar vexame. Preferi me despedir no quarto. Olhei através das vidraças da janela para o céu carregado e, em vez de abraços e beijos, "dê notícias", e "volte logo...", só consegui dizer: "...se não andarem ligeiro... Apressem-se antes que a água caia!..."

Eles partiram e eu me vi de repente sozinha num quarto imenso, um verdadeiro salão com janelas para o jardim. Inda bem que não me haviam reservado, como da primeira vez, os aposentos do carrasco Heydrich. Inda bem.

Havia pouco que Jorge e os amigos tinham partido quando ouvi pancadas discretas na porta. Era o porteiro que me trazia três vasinhos plantados de flores. Em meio às flores, lindas e coloridas, cartões: o de Jorge falava em amor e saudades; o de Mariuccia e Arnaldo e o de Kuchválek traziam palavras de carinho e amizade. Não me contive mais, coloquei o menino no berço, atirei-me a corpo morto no amplo e macio leito, dei vazão ao pranto.

 

PAN PEPIKO

Encontrava-me havia cinco dias em Dobris, tivera apenas uma notícia de Jorge através de um telefonema de Kuchválek. Jorge tentara falar comigo diretamente sem conseguir. Estava bem, trabalhando muito, não tinha data para voltar. Eu me distraía percorrendo o castelo por dentro e por fora. Já conhecia palmo a palmo o enorme parque e todo o jardim; gostava de margear o lago e apreciar os patos e os gansos que nadavam tranqüilamente, as carpas, aos milhares, pulando fora d'água. Intrigava-me o fato de não haver nenhum pescador pelas imediações; não precisava ser pescador nem precisava tampouco saber deitar o anzol para pescar quantos peixes quisesse. Tive muita vontade de esclarecer esse assunto que me intrigava, mas como? Em que língua? Vim a saber, mais tarde, que o lago era um criatório de carpas, e uma vez por ano, na aproximação do inverno, antes que as águas gelassem, ela era escoada e as carpas, toneladas e toneladas, eram retiradas e distribuídas aos entrepostos para a venda, nas vésperas do Natal. Era terminantemente proibido pescar no lago do Zámek.

Havia bastante gente no castelo, ao contrário do que eu pensara ao chegar. Infelizmente não estava lá nenhum dos escritores meus conhecidos. As pessoas, amáveis, trocavam sorrisos comigo e era tudo. Certo dia, um garotinho, filho do porteiro, Pepiko, quis saber o nome de João. Consegui entender o que ele perguntava e disse-lhe. Pepiko repetiu à sua moda — impossível para um europeu pronunciar o nosso som nasal: "Joán?" Daí por diante, ao passar por mim, o menino cumprimentava-me gentil: "Dobriden, pane Joanova!" — bom dia, senhora de João — em vez de pane Amadova, o correto; eu lhe respondia: "Dobriden, pan Pepikoí' Ele ria da minha maluquice, chamando-o de senhor. A menor coisa era distração para mim. Naqueles dias no castelo eu não tivera oportunidade de falar com ninguém a não ser com Pepiko e com meu filho: falava longamente com ele c cantava-lhe canções brasileiras, as mais variadas. Distraía-me e ao mesmo tempo ensinava-o a falar e a gostar das músicas de sua terra. Uma das marchinhas do repertório carnavalesco que mais o entusiasmava, fazendo-o estremecer de gozo, era O Gato na Tuba.

 

"HELP!"

Estava eu, uma bela manhã, lavando fraldinhas na pia, enquanto João, no berço, na outra extremidade do quarto, distraía-se com uns brinquedos que havíamos comprado em Praga. Cansou-se logo do cativeiro, enfadou-se dos brinquedos atirando-os ao chão, resmungou, chorou. Por várias vezes larguei a roupa, recolhi os brinquedos, fui ao berço falar com ele, voltando em seguida às fraldas. Numa dessas idas e vindas, ouvi um grito e, sem me impressionar nem voltar a cabeça, disse: "Grite à vontade, seu moleque, que desta vez você não me tira daqui..." Estranhei o silêncio repentino que se fez, virei-me bruscamente: João havia metido a cabeça num buraco da rede de filé, filé feito de barbante grosso, que protegia as laterais do berço. Um fio se partira, abrira-se uma malha bem na base, junto ao colchão. A cabecinha metida ali, João começava a ficar roxo quando corri para acudi-lo. Estava de tal forma preso entre os cordões que não tive condições de retirá-lo do emaranhado; consegui apenas livrar seu pescocinho do fio que o apertava, mantendo-o afastado. Se o largasse, seria a tragédia, meu filho morreria enforcado. A custo consegui sentar-me no chão — dava-me mais jeito —; com uma das mãos sustentava seu corpinho, com a outra isolava o cordão de seu pescoço. Havia uma única coisa a fazer: pus-me a gritar por socorro, a gritar com todas as minhas forças, o mais alto que pude. Um medo horrível de que não me ouvissem naquela imensidão de castelo. Apelava, sem esmorecer, nas línguas que conhecia: "Socorro! Aiuto! Au secours! Help!..." Já nem sabia por quanto tempo me encontrava naquela agonia... Chorava, encharcada de suor, exausta. E se eu desmaiasse? Não, isso não ia acontecer, eu ficaria ali, bem viva, até chegar alguém... podia demorar o tempo que fosse... Continuava a pedir socorro quando, de repente, a porta se abriu intempestivamente e um jovem casal, praticamente nu — ela apenas de calcinha, ele com uma toalha de rosto presa à cintura —, invadiu o quarto. A moça correu para me ajudar, o rapaz, depois de examinar o problema, saiu rapidamente e voltou com uma tesourinha. Cortava o cordão do filé quando outro casal entrou também no quarto.

Os jovens haviam chegado na véspera à noite a Dobris, pedindo pousada no castelo. Vinham da Finlândia, num trailer, efetuavam longa excursão pela Europa. Eram os únicos vizinhos da ala em que eu habitava; despertaram com meus gritos e ao ouvirem a palavra help precipitaram-se, seminus como estavam, em meu socorro. O outro casal, o compositor alemão Hans Eisler e sua mulher Lou, americana, vinha do Congresso de Música em Praga, descansavam no castelo. Estavam passeando pelo jardim quando ouviram meus apelos dramáticos; haviam dado muitas voltas antes de descobrir o local de onde partiam os gritos de desespero.

João continuava a chorar, um pranto nervoso, convulso, no pescocinho o vinco vermelho do cordão que quase o sufocara. Nada o consolava, nem mesmo o confortável colinho da mãe, de que tanto gostava, nem as palavras carinhosas, que lhe sussurrava enquanto o embalava. Nervosa, eu também chorava, mas precisava reagir, tranqüilizar meu filho, distraí-lo, tirá-lo do choque, alegrá-lo... Instintivamente, sem nenhuma idéia preconcebida, diante da estupefação dos dois casais ao meu lado, pus-me a cantar, a voz rouca, quase afônica, o Gato na Tuba. O pranto de João foi diminuindo e, ao chegar à parte de sua preferência, o estribilho — o som da tuba e o miado do gato —, ele explodiu numa gostosa gargalhada, deixando a todos perplexos.

 

"CEST UN SNOB'

Jorge chegou sem avisar quando eu menos esperava. Encontrava-me passeando com Lou e Hans Eisler no jardim quando ele apareceu à minha procura. Não me preveniu, preferiu fazer-me uma surpresa.

Desde o dia da quase tragédia, os Eisler e eu nos tornáramos amigos. Quanto aos jovens finlandeses, haviam partido naquele mesmo dia. Lou e Hans falavam inglês, francês, um pouco de italiano, um pouco de espanhol, e com esse pot-pourri de línguas conseguíamos nos entender. Fiquei sabendo que Hans Eisler era amigo e parceiro de Bertolt Brecht em algumas composições. O casal conhecia Jorge de leitura, haviam lido The Violent Land — Terras do Sem Fim — em edição americana.

Eu continuava bastante rouca e Jorge estranhou. Mostrei-lhe então o pescocinho arroxeado do menino, antes de explicar-lhe o motivo da minha rouquidão. Jorge ficara impressionado e Eisler procurou desanuviá-lo elogiando os dotes de João:

—      Seu filho será, fatalmente, um músico. Tem uma sensibilidade musical extraordinária, impressionante...

Jorge riu:

—      Só se puxou à Zélia, deve ser o sangue italiano.

Nos sentamos num banco do jardim. Eisler não pilheriava, jamais poderia esquecer aquela cena, a criança passar das lágrimas ao riso, ao ouvir a música. Resolveu dar uma demonstração:

—      Quer ver? Vamos fazer uma experiência — disse, dirigindo-se a Jorge.

Pôs-se a cantarolar trechos de músicas alemãs. Era verdadeiramente divertido ver aquele homem cheio de corpo, rosto gordo e sangüíneo, famoso compositor, ali, a esforçar-se a cantar diante do menino que, impassível, sentado em seu carrinho, o mirava com a maior indiferença.

—      É. Positivamente ele não gosta de música alemã — reconheceu Eisler. — Cante você, Amado, cante qualquer coisa...

Surpreso com a proposta do compositor, Jorge até se assustou:

—      Eu? Impossível! Não sei cantar.

Jorge falava a verdade. Não poderia cantar, pois, como dizia sua mãe — e dizia com mágoa: "Jorge, coitadinho, não tem vozes." Eu já fizera todos os esforços, tentara o possível e o impossível para fazê-lo cantar e jamais conseguira, não lhe arrancara nem mesmo um trecho do Hino Nacional. Nem cantar, nem assobiar, nem mesmo um mísero fiu-fiu de galanteio. Atrapalhado, Jorge apelou para mim.

—      Cante você, Zélia! Não faz mal que esteja rouca... Cante Juraci, que ele gosta. — Jorge estava a par das preferências musicais do filho.

E lá fui eu: "Desde o dia em que te vi, Juraci/nunca mais tive alegria/meu coração ficou daquele jeito/dando pinotes dentro do meu peito..." O rosto de João se iluminou no momento do breque: "Bate-que-bate! Bate-que-bate!" O entusiasmo e a gargalhada explodiram.

—      Cest un snob de Ia musica! — sentenciou o entendido Hans Eisler.

 

PREPARATIVOS DO CONGRESSO DE WROCLAW

Jorge voltara à Tchecoslováquia apenas para me buscar, pois devia continuar em Varsóvia, onde tinha muito a fazer na preparação do Congresso da Paz, em Wroclaw. Os organizadores do Congresso estavam felizes, pois Irene Joliot-Curie e Sir Julian Huxley haviam aceito fazer parte da Presidência do Congresso. Irene Joliot-Curie recebera, em 1935, com seu marido Frédéric Joliot-Curie, o Prêmio Nobel de Química, por terem demonstrado a existência do nêutrón e descoberto a radiatividade artificial. Irene Joliot-Curie, ao contrário do marido, membro do Partido Comunista, não era filiada a nenhum partido. Sir Julian Huxíey, renomado biólogo por suas pesquisas sobre a genética e a evolução, exercia o alto posto de Diretor da UNESCO, desde 1946. As presenças de Irene Joliot-Curie e de Julian Huxley na Presidência do Congresso marcavam a seriedade e a importância do movimento, determinando sua categoria intelectual e ao mesmo tempo sua amplitude política.

Terrivelmente impressionado com Varsóvia, Jorge jamais imaginara ver tanta destruição em sua vida.

—      Vá se preparando — me disse — para ver o inimaginável.

Contou-me que sua intérprete era uma senhora que vivera muitos anos no Brasil e que voltara à Polônia, sua terra, no fim da guerra. Eu quis saber se ela era bonita e Jorge riu:

—      Lá vem ela com besteira... A mulher é feia e velha. Um breve contra a luxúria — pilheriou. — Pode ficar descansada.

Todas as vezes que Jorge se referia a uma mulher, dizendo que era velha e feia ou gorda e medonha, eu ficava de pulga atrás da orelha. Em geral a dama em questão era o oposto do que ele anunciava astuciosamente, e, ao me ver discordar de sua opinião, divertia-se:

—      Você acha ela bonita? Que horror! Que mau gosto!..

 

VARSÓVIA

Dessa vez ele dissera a verdade. Dona Anna, nossa acompanhante polonesa, não era moça nem bonita. Senhora de meia-idade, gentil e atenciosa, vivera trinta anos no Brasil. Enfermeira de profissão, estava agora à disposição da organização do Congresso de Wroclaw.

Apenas uma parte do Hotel Bristol, o único de Varsóvia, onde nos hospedamos, ficara de pé. A outra fora destruída, queimada. Sentia-se ainda no quarto um longínquo cheiro de fumaça. Varsóvia era só ruínas.

Ao visitar Lídice eu pensara ter visto tudo de que era capaz o bestialismo nazista. Pensara também saber tudo sobre a destruição de Varsóvia,- sobre o gueto, onde milhares de judeus haviam sido esmagados: lera nos jornais, vira documentários cinematográficos da época. Enxugara as lágrimas e procurara consolar amigos judeus. Andando agora pelas ruas de Varsóvia, onde não restara uma única casa inteira, entre escombros, eu me dava conta de que não sabia nada. No meio da terrível destruição, todos os recantos que restaram eram aproveitados para abrigar as pessoas que não tinham teto: onde sobraram três paredes cobertas, ali habitava alguém; às vezes essas três paredes e o teto se localizavam num segundo ou terceiro andar, sustentados por colunas e vigas, embaixo tudo vazado. Da rua via-se o movimento dos viventes dessas precárias habitações, cozinhando, lavando, levando a vida como se estivessem numa casa de portas fechadas. Pelas ruas transitavam aleijados, mutilados de guerra, tantos como nunca eu imaginara ver: gente de muletas, sem pernas, sem braços, sem olhos, rostos deformados... Todos eles atarefados, dando sua contribuição na remoção dos entulhos, num trabalho sem fim.

Para os que chegassem de outros países era indispensável, obrigatória, uma visita ao gueto de Varsóvia, ninguém podia deixar de ver a que ponto chegara a crueldade nazista. Durante a guerra, naquele bairro que fora cercado de correntes, os judeus haviam sido isolados, marginalizados, ali não entrava ninguém que não fosse judeu, dali nenhum judeu saía vivo. Milhares de homens, mulheres e crianças, relegados à condição de animais, sem possibilidade de sobrevivência, padeciam, aglomerados no gueto infecto.

Em 1943 os judeus se levantaram numa rebelião heróica e suicida. Como represália, o bairro inteiro foi arrasado pelos comandados de Hitler, restando, do gueto, apenas ruínas: ensaio para a destruição de Varsóvia, após o levante geral, em 1944, quando morreram 200 mil poloneses.

Junto aos nossos pés, misturada a fragmentos de óculos, dentaduras e bonecas, havia uma chupeta descorada, suja. Jorge e eu nos entreolhamos, algumas pessoas choravam; uma angústia imensa me invadiu, angústia e revolta. Revolta que fortaleceu a minha decisão, inabalável, de lutar contra a guerra e pela paz entre os homens, contra toda e qualquer discriminação racial.

 

RUMO AS MONTANHAS

A data do Congresso se aproximava, começavam a chegar delegações de toda parte. Os organizadores deviam partir antes, e eu me preparava para acompanhar Jorge, quando soube da novidade: eu não poderia ir a Wroclaw. Lá não havia condições para a criança: os hotéis, poucos e desconfortáveis, se encontravam repletos. Jorge ficaria num quarto com dois companheiros. "Em compensação", me consolava Jorge, "você vai descansar nas montanhas, numa casa do Comitê Central do Partido Polonês, até o fim do Congresso."

Na hora de arrumar a bagagem, quando embalava o carrinho de João, dona Anna me disse que não o levasse; viajaríamos num trem antigo, desconfortável, superlotado, sem espaço para muita bagagem.

Embarcaríamos às onze horas da noite, amanheceríamos em Katowice, na Silésia. De lá, numa viagem de uma hora de automóvel, chegaríamos às montanhas, que tinham o mesmo nome do rio: Wisla, em português, Vístula.

Um vagão imenso, sombrio, corredor infindável abarrotado de gente em pé, malas, cestas, trouxas de roupa, cheiro de fumo, medonho, abafado... Aos trancos e barrancos, tropeçando aqui e ali em malas e pacotes, chegamos enfim ao compartimento onde passaríamos a noite. João dormira profundamente até a hora do embarque e acabava de despertar em meio ao barulho e à confusão. Ficou excitadíssimo, buliçoso, querendo pegar tudo, disposto a passar a noite na farra.

Dona Anna não exagerara ao referir-se a trem velho e desconfortável... Eu só pensei: "Bota velho e desconfortável nisso!" Trem mais infeliz eu jamais pensara existir: cada compartimento possuía seis leitos — três de cada lado — ocupados, indistintamente, por homens e mulheres; a altura entre um leito e outro era tão pequena que nem dava para a pessoa ficar sentada, mesmo com a cabeça curvada. Pareceram-me carneiras de defuntos nos cemitérios. Dona Anna desmanchava-se em explicações: tudo fora destruído com a guerra: estações, linhas de ferro, estradas inteiras, trens de carga e de passageiros, trens de luxo, magníficos... Agora os poloneses tinham que se arranjar com o que restara, mesmo com trens que já estavam fora de uso, desativados havia muito tempo, como o que viajávamos, por exemplo.

Nossos companheiros de cabine já se encontravam acomodados quando chegamos. Meu leito ficava embaixo, no lado esquerdo de quem entrava na cabine. O do lado direito estava ocupado por um cidadão, com jeito de camponês, que dormia a sono solto, os pés apoiados no duro estrado — nem colchão havia — onde eu ia dormir. Suas pernas impediam a passagem. Foi necessário despertá-lo para que as recolhesse e desimpedisse o caminho. Dona Anna aproveitou a ocasião para cochichar-lhe algo ao ouvido, em tom confidencial — como se entendêssemos o polonês! Ela devia estar lhe pedindo que trocasse de lugar com Jorge, cuja prateleira onde ia dormir ficava junto ao teto. O homem estava pouco se importando com a personalidade ali presente; resmungou qualquer coisa e concluímos que ele não topara a proposta. Deu-nos as costas e voltou a dormir.

Encaixei-me como pude no meu vão, ajeitei-me de lado, fazendo espaço para João. Mexendo em tudo, com o bicho-carpinteiro no corpo, ele meteu a mãozinha num vão da parede — pelo jeito, em outras eras, fora um espaço para colocar cinzeiro —, apanhou qualquer coisa que encontrou entre cinzas e tocos de cigarro e, com a rapidez de um raio, meteu-a na boca. Rapidamente também, meti-lhe um dedo goela abaixo, gritei, ai, meu Deus!, assustando Jorge, que quase despenca lá de cima. Dona Anna, que se encontrava na prateleira sobre a minha cabeça, também desceu célere para me socorrer. Eu tivera apenas tempo de sentir que o corpo estranho que João acabara de engolir era duro e pontiagudo. Muitas horas de agonia se passaram antes que eu me tranqüilizasse; somente no dia seguinte, ao trocar-lhe a fralda, verifiquei que ele comera um pequeno parafuso e o devolvera.

Terrivelmente mal-acomodada, eu não conseguia dormir, João não se aquietava. Com pena de mim, dona Anna desceu ainda uma vez de seu vão, prontificou-se a ficar com o menino: "Sou enfermeira, tratei de feridos, passei muitas noites em claro, estou acostumada..." Chega, dona Anna! Não precisa dar tanta explicação, não se desgaste, não use tantos argumentos para me convencer a entregar-lhe a criança... Eu não desejava outra coisa, tão fatigada me encontrava. Dei graças a Deus, quando os vi lá em cima. Que alívio! As risadas do moleque continuaram ainda por algum tempo, depois fez-se silêncio. Além do barulho natural do trem em movimento, ouvia-se apenas o ronco vigoroso do camponês, meu vizinho.

Bastante intrigada, quis saber, pela manhã, quais as artimanhas da enfermeira para aquietar a criança. Precisava aprender com urgência. Teria ela lhe dado um soporífero ou lhe aplicara algum truque polonês? Dona Anna sorriu, um sorriso de mártir, olheiras lá no fundo, olhar baço da vigília:."Apenas isso", disse, mostrando-nos o braço roxo dos beliscõezinhos que João lhe aplicara; ela deixara que o diabinho desse vazão aos seus instintos, fazendo-lhe todas as vontades até que ele adormecesse. "Valente polonesa!", exclamou Jorge, entusiasmado e gozador.

 

A "VALENTE POLONESA"

Estremunhados da noite maldormida, desembarcamos na estação de Katowice, estação que em realidade não existia. Cobrindo as plataformas havia apenas um precário teto de folhas de zinco pintadas de preto. Solícita, como sempre, dona Anna tratou de explicar que a estação fora destruída pela guerra assim como grande parte da cidade de Katowice. Se ela tivesse dito: "assim como toda a Polônia", não teria exagerado.

Esperava-nos um representante do recém-inaugurado Comitê da Paz; logo o descobrimos, pois ele ostentava na lapela um crachá azul com uma pombinha branca no centro. Conduzidos ao carro que nos levaria às montanhas, fomos surpreendidos pela proposta da Valente Polonesa — o apelido fora adotado —, além de valente, infatigável, que se propunha a nos levar num giro por Katowice, visitando fábricas destruídas e ruínas da cidade, antes de iniciarmos a viagem de automóvel para Wisla. Dona Anna devia estar tanto ou mais fatigada do que nós — certamente mais —, pois não dormira a noite toda. No entanto, ela se dispunha a nos arrastar a um programa exaustivo, penoso, desgastante.

Lutadores da garra e da raça da camarada Anna encontrei muitos em minha vida. Na Polônia era o que mais se via. Ardentes patriotas, incansáveis militantes, possuidores de uma "consciência política" sempre aguçada e por vezes sectária, mesquinha e cega, só comparável ao fanatismo religioso. A táo falada "consciência política" é capaz de grandes acertos e de feitos heróicos, como também, infelizmente, é capaz das maiores injustiças e de absurdos sem tamanho, em nome da causa. Estou convencida de que a ela se deve, em parte, o milagre da ressurreição da Polônia, da mesma maneira que ela é responsável pelos enormes erros cometidos ria tentativa de construção de uma sociedade socialista.

Ao saber da pretensão de nossa amiga, Jorge pulou:

—      Está brincando-, dona Anna? Dar um giro depois de uma viagem dessas? Nem pense nisso! A senhora nem dormiu, deve estar" morta de cansaço, não está?

Dona Anna pegou ò pião na unha:

—      Por mim, não! Eu estou muito bem! Só quero mostrar a vocês o que os miseráveis fizeram nesta terra! Uma hora a mais, uma hora a menos... Vale a pena ver!

Dona Anna era forte mas encontrara pela frente um adversário à altura. Jorge não se deixava vencer; resmungou a meia-voz: "não faltava mais nada", e foi ao contra-ataque:

—      A senhora esqueceu, minha amiga, que precisamos voltar hoje mesmo a Varsóvia? O giro fica para outra vez. Vam'bora! Toca o bonde! Não temos tempo a perder! — ordenou, encerrando a questão.

Por uma estrada secundária rumamos para Wisla, atravessando campos cultivados de beterrabas e de batatas; por toda parte viam-se montes de feno, currais, gado pastando, casas rústicas. De vez em quando aparecia um pomar, maçãs vermelhas grudadas nos galhos finos curvados pelo peso da fruta, ameixas amarelas e pretas, pondo-nos água na boca. De repente divisei um camponês com um cesto de frutas ao lado de uma cancela e pedi ao chofer que parasse, desejava comprar maçãs. O carro seguiu e dona Anna explicou que o tovaritch não parará porque não havia necessidade de comprar frutas na estrada, podendo encontrá-las à vontade em Wisla — Dona Anna e o motorista tratavam-se mutuamente por tovaritch, camarada, tratamento habitual nos países socialistas. Essa agora! Os tovaritches não compreendiam que desejávamos comprar maçãs naquela hora, ali, na estrada e não mais tarde?...

—      Pare, por favor! — ordenei.

—      Pare! — reforçou Jorge.

Foi definitivo. Após a tradução, o tovaritch freou o carro, deu uma longa marcha à ré, parou diante do camponês. Além das maçãs compramos também ameixas deliciosas. Puxamos conversa com o homem das frutas, dona Anna ali firme na tradução. Pequeno lavrador, ele cultivava beterrabas e batatas. O tovaritch chofer quis saber a razão dele vender as frutas particularmente em lugar de entregá-las à cooperativa. Fiscal improvisado, cumpria o dever patriótico de colaborar com o Estado. Toda a produção agrícola do país era entregue pelos camponeses às cooperativas do Estado que as tabelavam e vendiam, podendo assim uniformizar os preços.

—      Entrego à cooperativa as beterrabas, que são encaminhadas às usinas de açúcar, e as batatas, que são distribuídas pelos entrepostos de venda ao consumidor — explicou o camponês. — Minha produção de frutas é pequena e por isso eu a vendo aqui na porta, mantendo os preços tabelados pelo controle do Estado.

Jorge, que sempre adorou falar com gente do povo, estava verdadeiramente encantado com o papo que entabulou tom o tovaritch camponês. Ainda mal satisfeita com a derrota que sofrerá, ainda sob o impacto da recusa de Jorge, negando-se a acompanhá-la ao giro entre as ruínas da cidade, a Valente Polonesa aproveitou a ocasião para tirar a forra:

—      O camarada Amado não estava com pressa?

O camarada Amado não estava com pressa. O camarada Amado queria continuar proseando. O camarada Amado não gostava de fazer o que não queria, quer dizer, não era homem de ser levado pelo nariz, e disso a acompanhante e tradutora ainda não desconfiara. Sem responder à interpelação afrontosa, Jorge perguntou ao camponês se ele tinha empregados para ajudá-lo no cultivo da terra. Perguntou por perguntar, apenas no desejo de permanecer mais tempo ali na estrada, ou, em outras palavras, pelo desejo de pirraçar a atrevida. A camarada Anna não acreditava no que ouvia. Olhou bem para Jorge antes de traduzir a pergunta ao camponês; seria possível que um comprovado lutador do gabarito de Amado desconhecesse os princípios mais elementares do socialismo? Ou estaria ele se divertindo com coisa tão séria? Diante da indecisão da intérprete, Jorge insistiu:

—      Pergunte!

O tovaritch camponês sorriu:

—      Nas minhas terras só trabalham pessoas de minha família, filhos e irmãos... os que sobraram da guerra...

Interrompendo o camponês, indócil, camarada Anna achou por bem encerrar o assunto com um pequeno discurso, mais do que um discurso, uma aula de marxismo, explicando — já que o camarada Amado não sabia que no Estado Socialista não era permitida a exploração do homem pelo homem. "A condição de servilismo do homem pertence ao passado!" E tenho dito!

Diante da honesta exaltação da ingênua e poderosa polonesa, Jorge resolveu levantar acampamento, encantado com as frutas e com aquele inesperado bate-papo na estrada.

 

PADRONIZAÇÃO DE PREÇOS

Encontrava-me na Polônia havia pouco tempo mas já pudera constatar que, apesar de o país estar arrasado, sua situação alimentar era muito melhor do que a da Tchecoslováquia, menos castigada pela guerra. Para esse fenômeno havia apenas uma explicação: a Polônia era um país agrícola, enquanto a Tchecoslováquia era fundamentalmente industrial. Atravessando sérias dificuldades, os dois países adotavam idêntica solução para um problema essencial da população: a padronização dos preços. Na Tchecoslováquia eu me interessara muito por essa questão que tanto aflige o povo nos países capitalistas, onde os preços variam de um para outro estabelecimento comercial, ao bel-prazer e à ganância de negociantes inescrupulosos. Nas viagens que fizemos pela Tchecoslováquia e pela Polônia eu tivera o cuidado de me informar sobre os preços das mercadorias, e me assombrava ao constatar que eles eram idênticos, para a mesma qualidade do produto, em qualquer parte do país: nas pequenas e grandes cidades, nos bairros afastados ou no centro. O Estado controlava tudo com muita eficiência, o assunto era levado a sério.

Entretido com uma bela maçã, que roía com gosto, João suportou bem, sem dar trabalho, as quase duas horas que durou a viagem. Não uma, como nos haviam dito numa informação otimista.

 

VOLTA AO SILÊNCIO

O sobradão onde eu ficaria hospedada estava situado num platô em meio de uma montanha. De longe o avistamos: moderno, dois andares com terraços, fora construído havia uns vinte anos, não mais, numa área suficiente para contê-lo e a um pequeno jardim. Por detrás da casa a montanha se elevava, arborizada. A estradinha tortuosa mal dava passagem para dois automóveis. Antes de chegar ao topo da ladeira íngreme, o carro, velho e remendado, precisou parar mais de uma vez para tomar fôlego, a fumaça saindo pelo radiador.

Menos do que um hotel ou pensão, era uma casa de repouso destinada a ex-prisioneiros dos campos de concentração, ainda em tratamento, entre os quais algumas figuras de alto gabarito intelectual. Eu permaneceria ali por deferência muito especial do Comitê Central do Partido.

Ainda em Varsóvia nos disseram que o administrador da casa falava italiano e com ele eu ia poder me entender. Ele me ajudaria a resolver qualquer problema, inclusive o da volta a Varsóvia, já que Jorge não retornaria a Wisla para me buscar. Logo à chegada constatamos que o amável senhor, de italiano, possuía o sorriso aberto, a cortesia e o conhecimento de algumas bem pronunciadas palavras como: "bongiorno, grazie..." Dirigiu-se a mim com um gentil: "prego, signorina!" E por aí ficou. Jorge olhou para mim e teve vontade de rir ao ver minha cara de desconsolo:

—      Quer dizer então que a senhora voltou a ser signorina, hem?

—      Eu estou no mato sem cachorro, isso sim! — respondi, tentando conservar o bom humor.

Não adiantava me aborrecer, o melhor era levar a coisa na esportiva. Bem que eu tinha vontade de ir a Wroclaw, encontrar-me com os brasileiros que tomariam parte no Congresso, conhecer muita gente interessante, assistir aos debates que tanto me interessavam! Mas não podia ser.

Constituíam a delegação brasileira intelectuais e artistas c(ue viviam em Paris: Carlos Scliar, Cláudio Santoro, Vasco Prado, Zora Braga, Paulo Emílio de Salles Gomes, Alberto Castiel e outros. Apenas o físico Mário Schenberg viera especialmente de São Paulo a fim de participar do Congresso.

Eu saíra do Brasil havia quatro meses e ainda não tivera notícias de meu filho Luiz Carlos, nem de minha família. Pedira à Vera, minha irmã, que me escrevesse para o Grande Hotel Saint-Michel, endereço de Scliar. que em breve seria o nosso, pois tínhamos decidido viver na França; já reserváramos lugar no hotel. Certamente Scliar traria a correspondência chegada para Jorge e para mim e eu estava ansiosa. Iria, por fim, saber de Luiz Carlos, de mamãe, de todos os meus.

Jorge me explicou que o Comitê da Paz de Katowice forneceria passagens de avião para mim e João para voltarmos a Varsóvia ao mesmo tempo que ele, quando o Congresso terminasse seus trabalhos.

Dona Anna me aconselhou que ficasse de ouvido atento às notícias do rádio, para me inteirar do encerramento do Congresso.

—      Mas que rádio, dona Anna, se eu não tenho nenhum? Dona Anna virou, mexeu, acabou descobrindo o rádio da sala de jantar, cheio de estática. Retornou vitoriosa, estava salva a pátria!

Voltava a me dar instruções:      

—      Preste bem atenção: daqui a uma semana — fazia os cálculos —, nunca antes...

—      Em que língua devo prestar atenção? — Eu ironizava.

—      Deixa eu explicar, menina: quando você ouvir a palavra "ntir"— "mir" quer dizer "paz" —, você entra em contato com o tovaritch gerente e ele providencia o carro...

Dona Anna me tratava como se eu fosse uma criança, e Jorge se divertia à grande:

—      Isso mesmo! Preste atenção, e quando ouvir à palavra "mir", pronto! — Repetia tudo, palavra por palavra da lição.

Inda bem, estávamos bem-humorados, ia ser mais fácil a despedida.

 

PRIMEIRO DIA EM WISLA

Da janela de meu quarto, situado no andar superior da casa, eu tinha uma vista deslumbrante: montanhas cobertas de pinheiros; campos cultivados, vegetação de variados matizes de verde; um rio lá embaixo.

Somente depois do almoço, após a partida de Jorge, subi ao quarto para ajeitar minhas coisas. Jorge não comera quase nada, vi pela sua cara que não gostara do almoço: sopa espessa, engrossada com aveia e, por cima, gordura de porco em abundância; ensopado de carne com batatas — mais batatas do que carne — e leite à vontade. Eu também detestei a comida mas almocei, estava varada de fome e além do mais precisava me alimentar para garantir o leite do menino. João chegava aos nove meses e se desenvolvia a olhos vistos: punha-se de pé no berço e já engatinhava; possuía seis dentinhos afiados que me ferravam o seio quando o leite não corria farto e, às vezes, por pura diversão. Eu não estava disposta a desmamá-lo enquanto não estivesse com casa montada. Dava-lhe esporadicamente uma ou outra mamadeira, sempre que se apresentava a oportunidade de prepará-la eu mesma. Naquela casa da montanha eu pensava intercalar mamadeiras e mamadas, assim entraríamos os dois em regime de engorda. Tudo indicava que o cardápio do primeiro almoço se repetiria nas refeições seguintes, já que os hóspedes da casa estavam ali para se fortalecer e engordar, necessitavam de alimentos ricos em proteínas e calorias como os que nos haviam sido oferecidos ao meio-dia. Comida mais sem graça, mas eu não tinha opção. Mesmo que desejasse variar comendo um ovo frito ou um bife grelhado em lugar da sopa, não saberia pedir, mas, e se eu soubesse? Jamais teria coragem de fazer exigências, criar problemas. Felizmente havia fartura de frutas e de leite, e com isso eu ia me defender. Antes de partir, Jorge se abastecera de maçãs para comer pelo caminho.

As pessoas com quem eu ia conviver eram impressionantemente magras. Dona Anna contara que elas vinham de passar longas temporadas em hospitais e que ali nas montanhas — dizia com grande satisfação — já haviam engordado muito, antes eram esqueléticas. Ao vê-las, lembrei-me dos documentários cinematográficos a que eu assistira logo após o término da guerra, sobre os campos de concentração e suas vítimas. Nunca imaginara que um dia iria ver algumas tão de perto e conviver com elas sob o mesmo teto.

Sozinha em meu quarto experimentava o mesmo sentimento de abandono, a mesma angústia que me invadira no Zámek Dobris. Morta de sono e de fadiga, tive vontade de me deitar, já que João também fechava os olhinhos, mas resolvi agüentar firme; se dormíssemos à tarde, não íamos ter sono à noite.

Desci ao jardim e acabei descobrindo, atrás da casa, um galinheiro onde fiquei mostrando as galinhas a João, novidade que muito o interessou. Assim o entretive até ouvir a sineta tocar, chamando para a janta. Era verão e o sol ainda estava alto quando subi para o quarto, depois de tomar minha sopa. Fiquei feliz ao verificar que as fraldas sujas que eu juntara para lavar enquanto o menino dormisse haviam desaparecido, certamente levadas pela arrumadeira. Encontrei no quarto uma bela bacia esmaltada para o banho de João. Sentia-me confortada, cercada de atenções, confiante de que nada me faltaria apesar de ser uma estrangeira, sem condições de me expressar na língua desconhecida.

Adormeci com o dia ainda claro. Acordei no meio da noite. João chorava e se debatia. Apanhei-o no berço, não quis acender a luz com receio de despertá-lo de vez, e passei o resto da noite a niná-lo nos braços, andando de um lado para outro. Queria evitar que voltasse a chorar, não era justo incomodar os vizinhos tão necessitados de repouso.

 

GANHO UMA AMIGA

Seu nome era Monika. Não foi preciso me dizer de onde vinha, compreendi logo ao ver em seu braço o número tatuado, identificação do campo de concentração. Era tão magra, coitada, só pele e osso, mas me garantiu que desde que chegara a Wisla já recuperara alguns quilos.

Eu a encontrara no bosque, na encosta da montanha atrás do hotel, lendo à sombra de uma árvore. Ao me ver com João nos braços, cumprimentou-me, puxou conversa. Eu estava muito aflita. Passara a noite em claro, com o menino agitado, e pela manhã, ao clarear o dia, vi que a delicada pele de seu pequeno corpo estava coberta de pintinhas vermelhas, inflamadas. Sarampo não podia ser. Nem sarampo, nem catapora, nenhuma dessas doenças comuns nas crianças, pois ele não tinha febre. Talvez uma alergia alimentar: eu lhe dera, à noite, para reforçar a mamada, uma sopa de aveia. Talvez fosse isso mas eu não estava convencida.

Mostrei o corpinho de João a Monika e ela me tranqüilizou, dizendo que não era nada de grave. Como podia ter tanta certeza? Por que tanta segurança na afirmação? Ela era jornalista, não médica. Não era médica mas habitava a casa de repouso de Wisla, conjecturava eu, devia ter experiência, saber das coisas que provocavam aquele tipo de irritação cutânea. Não pude insistir, me aprofundar no assunto, pois ela se expressava em inglês e o meu inglês não era lá essas coisas. Mesmo assim, eu achava mais fácil compreender o inglês daquela senhora polonesa do que o dos ingleses ou dos americanos. Os meus conhecimentos dessa língua eram parcos; ainda jovem tomara aulas com uma amiga judia, Gertrudes Oelsner, que me ensinava de graça pois eu não podia pagar. Depois, anos mais tarde, freqüentei durante alguns meses um curso de inglês, no Rio: o que aprendera não dava para falar correntemente mas bastava para quebrar o galho. Eu entendia o que Monika me falava e ela o que eu dizia; esse encontro foi bom para mim, •pois deixei de me sentir tão só. Minha nova amiga me tranqüilizara quanto à saúde de João.

 

ASSALTO NO ESCURO

"Pode o céu desabar, o mundo vir abaixo, nada vai me despertar", dissera para mim mesma, naquela noite, nas montanhas. Mudei a roupinha de João já adormecido, deitei-me, tentei ler — trouxera comigo dois romances para me distrair —, não consegui ir além da primeira página, adormeci profundamente.

Nem sei quanto tempo dormi. Acordei sobressaltada com o choro nervoso de João. Ele devia estar se debatendo havia muito tempo, pois sua roupinha se encontrava encharcada de suor. Acendi a luz, assustada. Que horror! Quase desmaiei. Estávamos — João e eu — em meio a um mar de percevejos. Percevejos gordos e lentos circulando sobre lençóis e travesseiros, sobre nossos corpos. Agoniada, cheia de nojo, sacudi os lençóis e fui esmagando, feito doida, sob as solas dos sapatos, com o direito e com o esquerdo, para não perder nenhum, os que encontrava pela frente.

Coisa mais estranha! Uma casa tão bem-cuidada, limpa... Durante o dia não havia quem visse um único percevejo. Os miseráveis deviam ficar escondidos, na moita, aguardando a chegada da noite. Só depois fiquei sabendo que aquela praga se estendia pela Polônia afora, uma das heranças da guerra. Os percevejos haviam proliferado no gueto de Varsóvia e nos campos de concentração.

Compreendi ainda melhor o problema quando visitei com Jorge, uma semana depois, o campo de concentração de Auschwitz, nas proximidades de Katowice, onde, nos anos de 1940 a 1945, foram assassinados mais de quatro milhões de prisioneiros vindos de toda a Europa dominada pelos nazistas, a maioria constituída por judeus.

A funcionária que nos mostrava o campo, ela própria ex-prisioneira de Auschwitz, se empenhava em nos mostrar tudo em seus mais mínimos detalhes. Depois de percorrermos as dependências, salas com montanhas de óculos, de dentaduras, de cabelos, de mamadeiras, as câmaras de gás e o paredão de fuzilamento, ela nos perguntou se sabíamos por que as paredes eram de cor marrom-escura e eu não soube responder. Tampouco Jorge. Buscamos explicações diversas sem acertar.

— As paredes escureceram com o sangue de milhões de percevejos esmagados por nós— esclareceu a ex-prisioneira.

 

FERRO E FOGO

Em 1948, com a carência do após-guerra, os poloneses não dispunham de inseticidas capazes de extinguir a praga dos percevejos e havia tanta coisa mais importante a ser sanada, tanta..

Imagino que a notícia da invasão de percevejos no meu quarto correra, possivelmente a jornalista falara com alguém sobre a minha preocupação com o menino ou, talvez, o choro nervoso de João, durante a noite, tivesse despertado a casa toda, não sei. Sei apenas que naquela mesma tarde, quando me preparava para descer, ouvi umas pancadinhas na porta; uma voz familiar, a do "italiano", pedia licença:

— Prego... Bongiorno, signorina... prego...

Atrás dele vinham um funcionário da casa e a arrumadeira. O empregado trazia na mão estranho objeto de ferro com um bico comprido, uma lâmpada de pressão que foi acesa em seguida. Num botão giratório o homem controlava a labareda, verdadeira língua de fogo a sair pelo maçarico, fazendo-a estirar-se e encolher-se. A arrumadeira retirou colchões e travesseiros das camas e levou-os embora. Eu estava preparada para ir ao jardim mas me detive por alguns minutos, curiosa do que iria acontecer. O homem manejava a lâmpada com extrema segurança, devia ter muita experiência, praticava um trabalho de rotina pois lançava as línguas de fogo por entre as molas de aço dos estrados das camas com uma destreza incrível! Toneladas de percevejos tombavam no chão para serem, em seguida, queimados por uma rápida lambida de chama. Eram tantos que cheguei a pensar que todos os que havia na casa tinham migrado para meu quarto, no faro de sangue novo. Um mau cheiro, insuportável, invadia o ambiente e eu tratei de me retirar. Ao menos por uns dias ficaríamos livres de tão nojenta companhia. Somente depois de tudo passado fui me dar conta de que eu também estava picada, apenas não empolara.

Mesmo depois da limpeza eu não conseguia dormir tranqüila. Tão impressionada ficara que me acordava várias vezes durante a noite para dar caça aos percevejos e aconteceu-me encontrar ainda um ou dois remanescentes, perambulando, desorientados, pelos lençóis.

 

'UM CADÁVER QUE FALA'

Ainda no Brasil eu lera um romance da escritora alemã Anna Seghers, sem imaginar que ela viria a se tornar, um dia, nossa grande amiga: A Sétima Cruz, cuja ação de desenrolava num campo de concentração, livro que me impressionara profundamente.

Agora, em Wisla, eu ouvia histórias contadas por um personagem, uma das vítimas dos campos, Monika. Ouvi de seus lábios finos, numa fala arrastada, relatos corriqueiros do dia-a-dia no campo e histórias pungentes, de arrepiar.

Eu me sentira frustrada por não ter ido ao Congresso da Paz, em Wroclaw. Agora via que aproveitara muito, ficando. Todos os congressos a que eu assistisse, todos os discursos, por melhores que fossem, não teriam me dado o conhecimento vivo, a dimensão profunda dos horrores da guerra e da necessidade de uma paz permanente.

À sombra de um caramanchão, todas as tardes, Monika me contava fatos que lhe vinham à memória desordenadamente. A única que restara de numerosa família judia, queixava-se de não ter lhe ficado ninguém: nem marido, nem mãe, nem pai, nem irmãos, nem tios, nem sobrinhos... "Não sobrou nem um retrato." Estava sozinha num mundo de recordações e saudades. Tinha uma idéia fixa: deixar seu testemunho num livro que estava escrevendo, uma denúncia sobre o inferno dos campos de concentração. "Nada mais me interessa da vida... sou um cadáver que fala..."

Não era somente Monika quem escrevia suas memórias, os demais hóspedes da casa de repouso andavam de caderno em punho e eu os encontrava no parque, sentados à sombra das árvores, escrevendo. Segundo minha amiga, todos tinham um objetivo, um dever a cumprir: contar, divulgar a experiência vivida como prisioneiros do campo."Uma forma de lutar pela paz..."

A meu lado, enquanto João se distraía com brinquedos espalhados pelo chão, Monika recordava, entre outros, o caso das francesas, suas companheiras de prisão. Acabadas de fome, no dia da libertação, conseguiram juntar forças para arrombar a despensa onde as carcereiras nazistas guardavam suas iguarias e, desvairadas, afundaram as caras nos enormes potes de marmelada, comendo...

Ela ria ao recordar-se mas, em seguida, mudava a expressão do rosto ao falar do suplício da fome: "...é a dor mais angustiante que existe". Contava que jamais gostara de peru e, no entanto, nos delírios da fome, via em sua frente um enorme peru assado, a gordura escorrendo sobre a crosta dourada. Pior ainda quando as carcereiras, num requinte de maldade, vinham comer, na frente das prisioneiras famintas, aquelas finas iguarias reservadas às suas panças arianas. "Elas eram piores do que os homens, mais cruéis..."

Entusiasmava-se ao ver-me admirada diante de sua afirmação de que prisioneiras, mesmo no auge do sofrimento e do desespero, haviam conseguido unir-se numa organização ativa, atuante. Responsável pela manutenção, mesmo em tão terríveis condições, das indispensáveis noções de asseio físico e de dignidade humana, a organização conseguia manter-lhes o moral elevado.

Havia também a história da francesinha, cabeleireira em Paris, que lutara na Resistência, cuja profissão fora descoberta pelas guardas nazistas que a obrigavam a penteá-las, cuidar de seus cabelos, diariamente. Para a prisioneira não podia haver maior castigo do que cuidar das cabeças loiras daquelas malditas que perseguiam , torturavam as prisioneiras. Fazendo das tripas coração, ela ia cumprindo a sua sina. Mas, como diz o ditado, "nada como um dia depois do outro", e seu dia de revanche chegou: quando as tropas de libertação invadiram o campo, tão de surpresa que não houve tempo para os boches fugirem, os soldados aliados puseram as carrascas em fila, chamaram as prisioneiras e lhes deram carta branca para que desabafassem, se vingassem; podiam fazer com suas carcereiras o que bem entendessem. A francesinha não teve dúvidas, apanhou a tesoura e pelou a cabeça de todas, uma por uma. Para rematar o serviço, cuspiu-lhes em cima.

— Todas nós cuspimos, enchemos de tapas as caras das malditas, demos-lhes pontapés a torto e a direito, na ânsia da desforra... Houve casos de prisioneiros homens, mais violentos, que esganaram guardas nazistas. — Monika justificava: — Aqueles monstros nos fizeram padecer tanto! Criaturas normalmente boas e generosas que éramos, perdíamos as melhores qualidades, tomadas pelo desejo de vingança, cheias de rancor. Até hoje sinto ódio ao recordar meus parentes assassinados. Minha irmã mais nova, Eva, quase uma menina.

A história mais triste de Monika foi a de como perdera sua irmã, última parenta que lhe restava, asfixiada na câmara de gás. Trabalhavam no campo, plantando e colhendo, trabalho duro que começava com o nascer do dia, sob a vigilância dos guardas armados, a fim de impedi-las de comer as batatas arrancadas da terra. De volta ao acampamento, certa noite, receberam ordem para que se pusessem em fila. Todos sabiam o que isso significava: muitas delas iam ser sacrificadas na câmara de gás para dar espaço às prisioneiras recém-chegadas, em melhores condições físicas para o trabalho. Naquele dia seriam cem as vítimas. A guarda foi contando as prisioneiras, postas em fila, até chegar o número 100, que era Eva. Monika ainda tentou trocar de lugar com a irmã mas ela não aceitou. "Desmaiei e, ao voltar a mim, Eva já não estava..." O rosto cobria-se de dor mas Monika não chorava: "... minhas lágrimas secaram. Estamos vivos mas somos doentes, neuróticos. Só desejo não morrer antes de terminar meu livro."

Eu lhe prometi repetir sua história, sempre que tivesse oportunidade. O que mais uma vez faço aqui.

 

DOMINGO DE FESTA

Ao despertar no domingo, saí à janela como costumava fazer todas as manhãs, examinei o céu — o tempo não mudara durante toda a semana que passei em Wisla, dias claros, ensolarados — e reparei que lá embaixo, no sopé da montanha, acontecia algo de anormal, havia uma intensa movimentação de homens e mulheres no campo aberto, armavam um estrado de madeira, colocavam bancos, penduravam bandeirolas. Só podiam estar preparando uma festa. Não havia outra explicação.

Desci para o café, em realidade chá ou mingau, café não existia, somente em sonhos, cumprimentei os que já se encontravam na sala desejando-lhes em polonês: smatch niego!, bom apetite!, como aprendera a dizer no primeiro dia. Todos responderam sorridentes: smatch niego, pane!; bom apetite, senhora! Procurei Monika com os olhos, talvez ela tivesse detalhes da festa lá de baixo, mas não a vi. Um senhor, que terminara de comer, aproximou-se de minha mesa. Eu o conhecia de vista, sabia que era um cientista, mas até então me limitara a cumprimentá-lo como fazia com a maioria dos hóspedes. Seu inglês era idêntico ao de Monika. Contou-me haver lido num jornal de Varsóvia que o Congresso de Wroclaw se encerraria naquela tarde. Disse-me que Jorge fora eleito vice-presidente do Congresso e abrira os debates com um strong speech em favor da paz. Esse Congresso interessava vivamente os habitantes da casa da montanha, vítimas da guerra. O homem falou-me ainda que estavam reunidas em Wroclaw personalidades de projeção mundial: Picasso, Irene Joliot-Curie, Sir Julian Huxley, Pudovkine, llia Ehrenburg, Wanda Wasilewka, Gyorgy Lukács, Eugène Tarlé, Paul Eluard, Wanda Jakubowska, entre outros. Sobre o movimento no sopé da montanha, disse-me que se tratava de uma festa, como eu imaginara; os detalhes eu não entendi, fiquei sem saber se festejavam a colheita do trigo ou a vitória de uma emulação de trabalho. Terminado o café, ou chá, como queiram, tratei de subir ao quarto, aflita para começar a arrumação de minhas coisas, pois partiria, sem dúvida, no dia seguinte.

 

DESENFERRUJO AS PERNAS

Chegavam aos meus ouvidos sons de música e cantoria. Lá embaixo os camponeses dançavam no tablado enfeitado de bandeirolas. Ai quem me dera dar um pulinho até a festa! Devia ser divertido assistir de perto àquele animado baile campestre. Mas, eu iria agüentar a descida da montanha com João no colo? E a subida? Não me sentia aquela fortaleza toda! Achei melhor desistir da idéia. Ficaria espiando lá de cima; não era a mesma coisa, mas que remédio?

Assistia da balaustrada do caramanchão às danças, quando apareceu o gentil "italiano": "Prego, signorina..." Convidava-me a descer para a festa, apontando o carro mais adiante, o motor já ligado. O dito automóvel éra um calhambeque que servia às necessidades da casa. Não me fiz de rogada, tratei de me espremer entre os demais passageiros, lotando a caranguejola.

A festa era das boas, havia fartura de carne assada, de lingüiça e de um delicioso pão feito na hora, ali no forno, quentinho; tomavam-se sidra e vinho.

Eu me divertia, sentada num banco improvisado, ao lado da pista de dança, ria às bandeiras despregadas apreciando a animação de um camponês, todo enfatiotado, enormes bigodes torcidos nas pontas, a dançar aos saltos e aos pinotes, dentro e fora do compasso da música, arrastando a pobre dama, pisando-lhe os pés. A princípio pensei tratar-se de dança polonesa, desconhecida para mim, mas logo me dei conta de que aquilo não passava de uma grossa maluquice, não era dança coisa nenhuma.

Percebendo que eu ria dele, o camponês abandonou a dama no meio do tablado e veio andando em minha direção. Ao vê-lo aproximar-se, adivinhei logo a sua intenção e tratei de recolher as risadas. Parado em minha frente, ele fez uma curvatura ridícula e estendeu-me a mão num convite à dança. Tratei de arranjar um pretexto para dar-lhe uma tábua, e, mostrando João, falei em português:

— O senhor vai me desculpar mas com a criança não posso...

O camponês era duro na queda. Ainda não nascera a criança que o

impedisse de dançar com a dama escolhida! Antes que eu pudesse frear-lhe o gesto, arrancou-me João dos braços e entregou-o a uma camponesa gorda que ali se divertia assistindo ao arrasta-pé. Puxou-me vigorosamente pela mão — mão calosa e forte — e lá me fui aos tropeções, sem conseguir acompanhá-lo na correria, ao som da desafinada charanga. A nossa "dança" provocava hilaridade entre os meus companheiros de calhambeque, que riam de morrer, principalmente quando, ao passar por João, ao me ver, ele se despencava dos braços da camponesa — que o sustinha com esforço —, estendendo-me os bracinhos.

Que cara faria Jorge quando eu lhe contasse minha aventura campestre? Ia pegar no meu pé, ora se ia! Não havia nem dúvida! Já estava vendo ele dizer:

— ...a senhora, hem? Dançando com camponeses por aí...

Ia se divertir, já que o herói da questão, meu par na dança, não poderia, de forma alguma, lhe despertar ciúmes. Não poderia? Sem tê-lo visto, talvez o imaginasse o próprid Príncipe das Czardas... pois, em matéria de marido ciumento, eu estava bem servida.

 

A LONGA VIAGEM DE VOLTA

O "italiano" me avisou de que um carro viria de Katowice, depois do almoço, me apanhar. Colocou o ponteiro do relógio nas três para que eu soubesse a que horas viajaria. Eu estava feliz. Chegaria em Varsóvia naquele mesmo dia, me encontraria com Jorge, mataria as saudades.

Com bastante pena me despedi de Monika; ela disse que sentiria minha falta. Cumprimentei os hóspedes na hora do almoço, pois no momento de partir eles estariam dormindo a sesta, como de Gostume.

Para surpresa minha alguns deles, incluindo Monika, me acompanharam até o carro e ficaram acenando adeus com seus lenços.

O chofer levou-me diretamente ao Comitê da Paz em Katowice. Fiquei esperando de pé até que alguém viesse me atender. Havia grande movimento de pessoas entrando e saindo. Depois soube que se preparavam para receber congressistas procedentes de Wroclaw que passariam por Katowice e depois visitariam o campo de concentração de Auschwitz. Esperei pacientemente até ser levada a um escritório onde um homem me recebeu. Sorriu-me e eu lhe sorri. Indicou-me uma cadeira e eu me sentei. Depois falou algo em polonês e eu não entendi, claro! Com um gesto indaguei sobre as passagens de avião. Vendo que ele não compreendia o que eu desejava, pronunciei a palavra avião em italiano, em francês e inglês. Nenhum resultado. Recorri à mímica sonora: com a mão imitei um avião decolando e com a boca o ronco do motor. O homem riu, fez um pequeno discurso. Ele falava alto e compassadamente, como se isso me facilitasse entender o polonês. Que diabo de camarada mais burro que não conseguia entender o que eu desejava! Ou burra era eu? Tinha consciência de que imitara muito bem o avião, pelo menos me esforçara. Estávamos nesse impasse quando o tovaritch resolveu também apelar para a mímica sonora, imitando um trem:

— Piiii...piiii.... tchu, tchu, tchu...

Com braços e mãos ele reproduzia o serpenteio do trem nas curvas. Até que, como imitador, ele era dos bons... Eu entendera muito bem o que ele queria me explicar: só que não estava disposta a repetir a experiência da vinda, a viajar de trem — Deus me livre! E aí a coisa empacou. Jorge dissera que eu encontraria as passagens de avião em Katowice e a camarada Anna confirmara, não tinham nenhuma necessidade de mentir...

Depois de muitas idas e vindas, de muitas mímicas, sonoras e silenciosas, ajudadas por desenhos, o que estava nebuloso ficou claro: não havia avião; as linhas aéreas não faziam escala em Katowice, pois o campo destruído ainda não fora refeito, não havendo, portanto, nenhuma possibilidade de eu seguir de avião.

Tomaria o trem, quisesse ou não; o comboio passaria por Katowice às duas da madrugada. Fato consumado, tratei de esfriar a cabeça e resolvi esperar pacientemente que cuidassem de minha vida: "Seja lá o que Deus quiser!"

Por volta de sete horas o funcionário do Comitê da Paz arrumou sua mesa, fechou as gavetas, levantou-se e, com um gesto, convidou-me a acompanhá-lo. Deduzi que, terminado o expediente, ele me levaria a jantar em sua casa. Acertara.

Com a mulher e dois filhos ele ocupava parte de um apartamento. Amável, a senhora me recebeu, ajudou-me a dar um banho em João e me ofereceu um jantar simples mas gostoso. Os dois meninos estavam encantados com a novidade, faziam gracinhas para João, que ria das maluquices deles. Na impossibilidade de conversarmos, mantínhamo-nos calados, um sorriso de vez em quando. De repente a mãe lembrou-se de pedir qualquer coisa aos filhos e eles, obedientes, foram buscar seus cadernos escolares para que eu visse as notas — ótimas, claro! As horas custavam a passar e a luz fraca da lâmpada, quase morta, convidava ao sono. Por volta das dez, depois de alguns indisfarçáveis cochilos, a dona da casa desculpou-se e foi dormir levando consigo os dois filhos. Pelo que pude entender da explicação que me deu — entender propriamente não entendi, certamente fantasiei —, ela trabalhava na reconstrução da cidade e precisava acordar cedo. Sentia-me aflita só de pensar que ainda tinha um longo tempo de espera pela frente. Eu que sempre tive horror de incomodar os outros, prefiro mil vezes me prejudicar a chatear o próximo, estava ali, a sacrificar o pobre trabalhador que se agüentava em pé a duras penas. Estive a pique de pedir-lhe que me levasse de uma vez à estação, me deixasse lá, voltasse para casa. Não precisava esperar pelo trem. Com as passagens na mão eu saberia tomar minhas providências. Mas como lhe explicar tudo isso? E será que ele aceitaria a minha sugestão? Jamais! Recebera uma tarefa e a cumpriria até o fim. Tarefa é tarefa!

Na hora de sair, naquele início de madrugada, fazia frio e ventava lá fora. João dormia e eu o enrolei num xale de lã. Estava apavorada ao imaginar a noite que ia passar naquele trem horroroso, metida na prateleira da cabine mista. E se João acordasse como da outra vez? Cadê camarada Anna para me socorrer? Jorge, coitado, devia estar passado. Desesperara-se, na certa, ao saber que não havia aviões de Katowice para Varsóvia, pensando que eu, sozinha com a criança, ia enfrentar novamente a terrível viagem de trem. Certamente ele estaria me esperando na estação de Varsóvia. E se por acaso ele não estivesse? Eu não possuía um único zloty...

Fazia essas conjecturas ali de pé na plataforma deserta, o vento soprando, João colado contra meu peito. Temia que ele acordasse de repente e se debatesse desvencilhando-se do agasalho, podia resfriar-se... Pensava mil coisas, minha fantasia voava longe: pensei em minha mãe. Talvez, àquela hora, dona Angelina estivesse comentando toda satisfeita: "A Zélia? Aquela menina tem muita sorte, nasceu com a estrela, está se divertindo pelas Europas..." Mal sabia ela que sua filha se encontrava sozinha, em plena madrugada gélida, na estação deserta de uma cidade destruída pela guerra, à espera de um trem horrível, o filhinho grudado contra o peito, o vento uivando... Matava o tempo criando na cabeça um melodrama folhetinesco. Em realidade eu estava mais preocupada com meu acompanhante do que comigo mesma, coitado, ali, feito um dois de paus, morto de sono.

Por fim, ouviu-se um apito, o trem foi chegando mansamente, o bafo quente do vapor da locomotiva fez-se sentir, a marcha diminuiu e ele parou.

Vi logo, mesmo antes de entrar no vagão, que esse trem nada tinha a ver com aquele outro, da vinda. Tratava-se de um comboio de luxo. Cabine toda acolchoada de veludo vermelho, com abajures doirados cheios de pingentes de cristal. Certamente um trem muito antigo, reservado a príncipes e a barões, em priscas eras, havia muito desativado e posto novamente em serviço após a guerra. Cabine só para mim, que conforto! Que luxo! Não teria companheiros de viagem. Dormiria afundada entre cochins escarlates e macios, ouvindo o delicado tilintar dos pingentes de cristal, como se fosse uma fidalga da belle époque...

Desta vez eu fora premiada. O trem apitou e pela janela retribuí o aceno de mão de meu acompanhante: "Adeus, tovaritch, obrigada. Vá desculpando..." E o trem partiu.

 

BRISTOL

Aflita, da janela da cabine eu procurava Jorge entre a multidão que lotava a plataforma. Os passageiros desembarcaram e ainda continuei por algum tempo ali, firme, em posição estratégica, bem visível, para que Jorge, ou alguém que me estivesse esperando, me localizasse. Mas não havia ninguém à espera. Saltei para a plataforma como pude, sem ajuda, desajeitada, a criança num braço, no outro a mala, a sacola das fraldas pendurada ao pescoço, e fui andando lentamente, quase me arrastando, parando de vez em quando para descansar e ajeitar João, que escorregava de meu braço... Olhava para um lado e para o outro, sempre na esperança de ver Jorge surgir de repente. Naquele momento, mesmo que eu tivesse montes de zlotys não poderia contratar carregador, pois carregador era coisa que não existia. Cada qual cuidava de sua vida, eu que cuidasse da minha. Felizmente passavam táxis em frente à estação, embarquei num deles. O chofer esperava pelo endereço e eu lhe disse apenas uma palavra: Bristol. Ele se tocou. Bristol era o nome do hotel onde nos hospedáramos e onde, certamente, voltaríamos a nos hospedar.

Havia grande movimento na porta do hotel e eu procurei encontrar alguém que me emprestasse o dinheiro do táxi, mas não vi nenhum conhecido. Fiz um gesto de mão espalmada ao chofer, que esperasse, e me dirigi à portaria. Nem cheguei a alcançar o balcão, dei de cara com Jorge, todo afobado, que acabava de chegar do aeroporto aonde fora me esperar. Somente lá, depois da chegada de vários aviões, dos quais, obviamente, eu não desembarcara, foi que ele conseguiu descobrir que não havia vôos de Katowice.

Jorge se apressou a pagar o chofer do táxi e subimos com a bagagem para o quarto onde, segundo ele, uma surpresa me aguardava.

 

A SURPRESA

A surpresa anunciada era o monte de cartas do Brasil, trazidas de Paris, por Scliar.

Fui direta à de Vera, a que me daria notícias de Luiz Carlos, meu filho. Minha boa irmã! Cuidava do menino com carinho e me tranqüilizava: "Quanto a Luiz Carlos não se preocupe, ele está forte e bonito." Contava-me as travessuras do menino, eu gostaria de saber, "...noutro dia ele foi passear no Jardim da Luz com dona Gertrudes e a Míriam e voltou todo sujo, molhado como um pinto... imagine que ele queria apanhar os peixinhos com a mão e acabou caindo n'água. Inda bem que o laguinho é raso!..."".. .Teu filho é um danado! Veja só o que ele me fez: eu tinha chegado da feira com uma cesta de laranjas. Enquanto eu preparava o almoço, ele, na calada, foi atirando as laranjas pelas grades do terraço, esvaziou a cesta..." "Ainda agora, quis saber para quem eu estava escrevendo e, quando soube que era para você, disse que ia mandar uma carta para a mãe dele. Ele está agora todo compenetrado rabiscando no papel que eu lhe dei." A folha estava ali, junto com a carta da tia. Um papel cheio de garatujas e seu nome, todo torto, escrito por ele mesmo.

Vera se referia também à carta que eu mandara da Tchecoslováquia, com uma historinha que eu inventara para ele, ilustrada com desenhos horríveis, já que desenhar nunca foi meu forte, mas que me custara esforço. "...Tua carta fez sucesso! Chegou bem no dia do aniversário dele, assim como você queria. Luiz Carlos me fez contar a história nem sei quantas vezes e, quando a Míriam chegou para a festinha, ele foi correndo mostrar a carta e repetiu a história, tintim por tintim, como se estivesse lendo. Convidei algumas crianças do prédio e o pessoal de Pinheiros. Mamãe, Wanda, Déa e Flávio vieram trazendo presentes. Logo que Luiz apagou as seis velinhas do bolo, eu dei um beijo nele por você..." Ao ler essa última frase não agüentei mais, saí correndo, me tranquei no banheiro para chorar. Jorge estava satisfeito e eu não queria que ele me visse chorando.

 

ADEUS, PEJI DE OXÓSSI

A carta do Coronel João Amado e de Lalu trazia novidades. Era dirigida ao filho e a mim. Seu João falava da situação política que andava péssima, "uma perseguição medonha..." O velho contava que depois de nossa partida o sítio ficara abandonado, os caseiros tinham "arribado". Não encontrara quem os substituísse. Fora aconselhado por um corretor de imóveis a lotear o terreno e a vender a casa, o que seria uma boa solução. Estava propenso a aceitar a sugestão, mas, antes, queria saber a opinião do filho. Ao ouvir falar em lotear o sítio e vender nossa casa, levei um choque. No Peji de Oxóssi começáramos nossa vida juntos, lá vivêramos momentos de amor. Nada podíamos fazer, no entanto. Não tínhamos o direito de exigir que o Coronel, na sua idade, fosse se ocupar de nossa propriedade, e não contávamos com mais ninguém. Seu João devia, pois, fazer o que julgasse mais conveniente. As palavras que Lalu me dirigia eram de desabafo, quase uma queixa: "Zélia, tu gabava tanto aquela moleca" — referia-se a Nina, aquela empregada que lhe deixáramos de herança —, "tu nem sabe de nada: foi só tu virar as costas e ela deu o fora, deixou eu mais João na mão..." Nina não temera o juízo final — concluí, rindo.

Mamãe também me escrevera. Entre outras coisas dizia: "...tenho sonhado sempre com você. Já nem conto mais meus sonhos para as tuas irmãs porque elas ficam cheias de ciúmes, dizendo que eu não tiro teu nome da boca... São duas bobas! Imagina! Estou muito saudosa mas me conformo porque sei que você está se divertindo aí pelas Europas..." Caí na gargalhada, lembrando-me dos pensamentos da madrugada, na plataforma deserta de Katowice. Até que eu acertara... Jorge olhou-me intrigado: que teria dona Angelina escrito de tão divertido?

Impaciente, Jorge esperava que eu terminasse de ler minhas cartas, queria me contar as novidades, queria saber de minha estada em Wisla e eu ali, mergulhada nas notícias do Brasil...

Ainda assim, aproveitou um intervalo entre uma carta e outra para me prevenir de que haveria naquela noite, no próprio Hotel Bristol, uma recepção oferecida pelo Governo às personalidades presentes ao Congresso.

 

TÁBUA DE SALVAÇÃO

Toda esfogueada, dona Anna, nossa Valente Polonesa, apareceu no quarto, preocupada com o desacerto de minha viagem. Desculpava-se da informação errada: "...eu também não sabia..." Para me compensar da confusão que criara, trazia uma boa notícia: conseguira uma pessoa de sua confiança para cuidar de João. Eu poderia acompanhar Jorge por toda parte sem preocupação. A moça indicada por ela devia chegar logo depois do almoço. "Vai ser uma tábua de salvação", exclamara camarada Anna, satisfeita.

Satisfeita com a babá e entusiasmada com a intervenção de Jorge abrindo os debates do Congresso, eufórica, ela não parava de elogiá-lo, citando frases do discurso. Mas acontece que não eram só elogios que reservara para ele. Tinha também uma queixa grave, uma denúncia. Acompanhara-o a Gora — "não largou de meu pé o tempo todo", reclamou Jorge —, numa visita à famosa mina de sal: "sal-gema, o mais poderoso remédio para curar reumatismo, asma, bronquite e outras enfermidades", explicava ela. Pois não é que ele se recusara a trazer-me uma pedra desse milagroso sal? Camarada Anna tivera o cuidado de escolher uma de bom tamanho e lhe entregara: "Leve para Zélia, ela vai ficar contente de ver que o camarada não se esqueceu dela... coitada!" Jorge recebera a pedra com má vontade, para largá-la em seguida pof ali, no primeiro canto que apareceu. Mas camarada Anna era obstinada e o vigiava de perto, disposta a obrigá-lo a cumprir a missão, e assim fizera várias tentativas para que o precioso bloco de sal chegasse às minhas mãos, recolhendo-o e entregando-o novamente a seu portador a cada vez que ele o abandonava, fingindo distração. Mas Jorge ganhou a parada, a pedra de sal ficou largada na mina. Como se isso não bastasse, ele ainda tivera a coragem de atirar-lhe uma frase que muito lhe desagradara:"Pra que diabo vou carregar este pedregulho para minha mulher, se ela não sofre de asma, nem de reumatismo?" "Ai, esses homens!", suspirou camarada Anna. "Quanta insensibilidade! Quanta contradição na maneira de ser... Quem ouve um discurso daqueles que ele fez... nunca pode imaginar que está diante de uma criança..."

Ao ouvir a divertida história, ri muito, mas no fundo senti-me frustrada por não ter participado da visita à famosa mina de sal: eu, que sou tão chegada a minas e cavernas!...

 

LEVE E FELIZ

Berta — era esse o nome da protegida da camarada Anna — podia ter uns quarenta anos, talvez menos. Tão difícil adivinhar a idade daquela sofrida população polonesa! Depois das apresentações, ficamos sabendo que Berta era, como tantas na Polônia, a única que restara de uma família numerosa. Pessoa triste, sorriu para João. Apanhou-o nos braços e ele também lhe sorriu, tentou puxar-lhe o nariz. Depois dos detalhes acertados, o menino foi colocado no carrinho e ambos saíram a passeio. Eu me senti leve e feliz.

Descansamos a tarde toda. Berta apareceu, pontual, na hora exata da mamada do menino, ajudou-me a dar-lhe o banho. Agora eu tratava de me arrumar para a recepção.

Um pé no quarto, outro no corredor, Jorge me dava pressa, como sempre. Passei uma escova nos cabelos, nem tive tempo de prendê-los I — "um dia ainda hei de cortar meus cabelos bem curtos, seu Jorge, para 'não andar por aí descabelada..." Completei: "Pronto, seu cabinho", fiz-lhe uma continência. "Vam'bora!"

Fui saindo corredor afora enquanto abotoava a blusa, "segure aqui minha bolsa para eu dar o nó no cinto... Homem mais avexado!"

Estava muito excitada, pois iria encontrar, dentro em pouco, pessoas que jamais sonhara conhecer. Jorge me falara com entusiasmo de Ilia Ehrenburg, com quem fizera grande camaradagem.

No salão, as pessoas começavam a chegar, inclusive um grupo de brasileiros. Scliar veio ao meu encontro, risonho: "Jorge te entregou as cartas, menina?" Com ele estavam Paulo Emílio de Salles Gomes, homem de cinema, meu conhecido de São Paulo, e Henda da Rocha Freire, jovem bolsista, fazendo doutorado em Paris. Jorge me falara dela com simpatia: Henda pertencia ao grupo de brasileiros "acaudilhados" de Scliar, que costumava freqüentar o Saint-Michel. Gostei de Henda logo à primeira vista. Tivera ciúmes dela antes de conhecê-la, quando Jorge lhe fizera elogios, mas agora, mesmo achando-a encantadora, as minhas cismas se dissipavam. Meu radar raramente falhava, eu possuía um bom faro, capaz de localizar o perigo. Graças a Deus! Não fosse assim, com tantas mulheres no rastro de Jorge, o que seria de mim?

Sentados a uma mesa, no outro lado do salão, encontravam-se Ilia Ehrenburg, Paul Eluard e Vercors.

Simpático, fisionomia de homem bom, Vercors devia andar pelos quarenta anos. Conhecido desenhista de antes da guerra, ficara famoso como escritor ao publicar o romance Le Silence de Ia mer, escrito e publicado na clandestinidade, durante a Resistência. Jorge me contou que seu nome verdadeiro era Jean Bruller, mas ao publicar seu notável romance adotara o pseudônimo de Vercors, em homenagem à luta que os maquis sustentaram contra os nazistas no verão de 1944, no maciço de Vercors.

Figura bonita a de Paul Eluard: porte elegante, melenas brancas, grande poeta, atraía e encantava as mulheres que dele se acercavam, emocionadas, ousadas...

Paletó de camurça bege, gravata amarela, charutilho na boca, cabelos cinzentos em desalinho sobre a testa, Ehrenburg se destacava dos demais. Para mim, que o admirava de longa data, bastava-me vê-lo à distância, não desejava mais nada, me contentaria com isso. Invadida de um natural acanhamento, constrangida, não me sentia tentada a chegar junto a esses homens tão importantes... Nem saberia mesmo o que dizer... Mas Jorge conduziu-me pela mão até onde eles se encontravam. Ehrenburg sorriu-me:

—      Fala francês? — perguntou-me.

Eu não falava francês e fiquei rubra, senti pelas orelhas que ardiam. Jorge percebeu minha perturbação e tratou de me socorrer:

—      Ela fala espanhol.

Num castelhano arrastado, com bastante acento russo, rosto sério, Ehrenburg perguntou-me se eu gostara da pedra de sal que ganhara de Jorge.

—      Não a recebeu? Como assim? Eu mesmo ajudei a carregá-la...

Quem o visse falar com tanta seriedade, não deixaria de acreditar no que dizia. Felizmente, dei-me logo conta de que estava diante de um gozador da categoria de Jorge.

Ehrenburg também visitara a mina de sal de Gora e presenciara a "operação sal-gema". Não só presenciara como também participara dela, colaborando com o parceiro na divertida brincadeira de infernar a vida e a paciência da camarada Anna, deixando-a quase maluca. Agora ele se aproveitava da história para, gentilmente, quebrar o gelo da minha timidez, pondo-me à vontade.

Cercado de toda uma corte de admiradores, aproximou-se de nosso grupo um senhor cuja fisionomia não me era estranha. Era Picasso. Vinha dizer a Ehrenburg, seu grande amigo, que não ficaria para a festa. Regressaria no dia seguinte pela manhã para a França, no mesmo avião que levaria Irene Joliot-Curie.

Diante de Picasso não senti a timidez que deveria, logicamente, ter sentido. Pessoa simples, com a sua simplicidade Picasso deixou-me tão à vontade que até me arrisquei a dizer-lhe algumas palavras em espanhol.

Ao ouvir-me, o pintor sorriu: seus dentes eram bonitos, perfeitos, seus olhos vivos e penetrantes, disse-me:

—      Me gusta oir una brasilena hablar mi lengua...

Voltou-se para Jorge:

—      Tienes una mujer encantadora, Amado!

A cada instante chegavam pessoas que vinham pedir autógrafos àquelas famosas personalidades. Dei-me conta então de que, boba, por escrúpulo, não trouxera os dois álbuns que comprara para Luiz Carlos e João Jorge. Ligeira, subi ao quarto e voltei rapidamente, ainda a tempo de alcançar Picasso; estendi-lhe os cadernos abertos e ele assinou duas vezes seu nome com uma caneta de tinta verde.

Nessa noite de confraternização, obtive nos álbuns de meus filhos autógrafos os mais expressivos: a bela e poética assinatura de Paul Eluard, composta de dois pombinhos de asas abertas; a de Irene Joliot-Curie; as palavras marotas de Ehrenburg: "Amitiés d'un ours russe"; a de Louis Aragon: "A Don Juan Amado, pour qu'il ne soit pas trop méchant avec les filies"; a de Elsa Triolet: "Aux deux grands et à unfutur grand petit Amado"; a do grande poeta e futuro Prêmio Nobel, Salvatore Quasimodo: "Ai brasiliani che lottano per Ia liberta como gli italiani." Renato Guttuzo e Leopoldo Méndez fizeram desenhos; Alves Redol escreveu para João: "Teu pai é um grande camarada e um dos homens mais progressivos que este ano de 1948 conheceu. Pensa nisso um dia e merece-o." Hewlett Johnson, Deão de Canterbury, autor do livro publicado durante a guerra, O Poder Soviético, atendeu solícito ao meu pedido: assinou os álbuns, sorriu-me, apertou-me a mão. Fernando Lopes Graça compôs na hora uma pequena canção, em pauta que desenhou no caderno. E quanta gente mais? Elogiosa a dedicatória de um deputado representante do Congo, Felve Tchicaya: "Aupetit dontle père m'a entièrement gagnépar Ia vigueur de son intervention au Congrès Mondial des Intellectuels pour Ia Paix."

Conversando nessa noite com Manuel e Maria Valadares — ele notável cientista português, exilado na França, ela médica, componentes da delegação portuguesa ao Congresso —, notei que Maria sentia-se emocionada diante de Jorge. Prestava atenção ao que ele dizia, silenciosa, até que de repente o interrompeu:

—      Sou sua leitora, já li todos os seus livros e, agora, sinto-me confusa: como pode Jorge Amado escrever tão bem e falar tão mal o português?

Rimos da sinceridade e da franqueza de Maria da Costa Valadares, que até então não se dera conta da diferença existente entre o português do Brasil e o de Portugal.

Eu mesma tivera, tão recentemente, prova disso ao passar por Lisboa. Um mal-entendido, uma interpretação errada do que o filho lhe dizia numa carta, em português do Brasil, não levara dona Rita à morte?

 

FIM DE FESTA

Encontrei Zora, que não via fazia muito tempo. Ela chegara de Paris com a delegação brasileira, estivera no Congresso em Wroclaw. Conversávamos animadamente, ela me contava das entrevistas que já fizera com personalidades presentes ao Congresso, para um jornal do Brasil, animada com a perspectiva de outra, marcada para o dia seguinte, com Ilia Ehrenburg. Logo adiante vi, numa roda, Alexandre Fadeiev conversando com Roger Vaillant, Pierre Daix e Ambrozio Donini. "Você devia entrevistar Fadeiev", disse à Zora.

Jorge e eu havíamos almoçado naquele dia com Fadeiev e seu intérprete, e eu me deliciara com as histórias que ele nos contara, entrecortadas de gargalhadas estrepitosas. Fadeiev escrevera, nos álbuns dos meninos, palavras de carinho, para nós e para o Brasil.

Homem bonito, alto e elegante, cabeça completamente branca embora não tivesse ainda cinqüenta anos, secretário-geral da União de Escritores Soviéticos — substituíra Máximo Gorki após sua morte — Alexandre Fadeiev, condecorado com as honras de herói da pátria, soldado nas batalhas de Leningrado, colaborador de Andrei Jdanov. Escritor de romances consagrados como A Derrota e mais recentemente A Jovem Guarda, ele podia dar à Zora uma entrevista sensacional!

Estava eu fazendo o cartaz de Fadeiev a Zora, quando fui interrompida com a chegada de Jorge:

— Acaba de chegar a notícia da morte de Andrei Jdanov.

Voltei-me, instintivamente, na direção de Fadeiev e me assombrei com a transformação que se operara nele: indisfarçável marca de dor vincara seu rosto e ele chorava. Os soviéticos presentes à recepção, consternados, cercaram Fadeiev e, em seguida, retiraram-se em bloco; os outros convidados também foram se retirando. A festa terminara.

Acabava de morrer um dos homens mais discutidos do mundo socialista, naquele momento. Membro do Bureau Político Soviético, pai da teoria do formalismo e do cosmopolitismo literário e artístico, homem de Stálin, Andrei Jdanov provocava polêmicas pelo mundo afora. Suas teorias de exaltação ao realismo socialista eram certas ou erradas?

Stálin achava-as certas e Stálin estava vivo, cabeça do mundo, comandando, pensando por todos... Qual o comunista peitudo, capaz de discordar dele? Quem era o louco? A grande maioria, em nome da "consciência política" e, sobretudo, da fidelidade partidária, dizia amém a tudo, raciocinando assim: se Stálin acha que isso está certo, quem sou eu, mísero mortal, para achar que está errado? "Stálin sabe o que faz..." ou "Stálin escreve certo por linhas tortas": como Deus. Exatamente igual, sem tirar nem pôr: os stalinistas adotavam diante de Stálin a mesma atitude dos religiosos perante Deus. Outros militantes simplesmente não se manifestavam: cumpriam ordens — certas ou erradas — por concordar, ou tão-somente por se sentirem impotentes numa luta desigual contra o gigante? Quem sabe? A verdade é que ninguém quer ser acusado de traidor.

Voltando às teorias de Jdanov, que deram lugar a tantas e tão acirradas discussões, o que não se podia esconder é que elas estavam na base da condenação da poesia de Pasternak, da música de Prokofíev e de tantas outras violências cometidas contra artistas e escritores, em nome do realismo socialista. Mas, para mim e para muitos e muitos, isso só ficou claro tempos depois. Naquela noite da morte de Andrei Jdanov, eu era uma, entre tantos, a ficar triste e a chorar sua morte.

 

ATÉ A VOLTA, POLÔNIA!

Nossa estada na Polônia terminava. Viajaríamos no dia seguinte para a França. A última semana fora massacrante com a visita ao campo de concentração de Auschwitz, integrando um grupo de personalidades participantes do Congresso de Wroclaw. Para quem se propunha lutar pela paz, nada como ver de perto os horrores de um campo de concentração. Eu ouvira dos lábios de Monika, uma das vítimas de Auschwitz, histórias de arrepiar, mas, assim mesmo, a visão do campo deixou-me arrasada! Continuo afirmando, cada vez com maior convicção, que as coisas vistas pelos próprios olhos adquirem uma outra dimensão, a verdadeira. Chorei diante das montanhas de chupetas e de mamadeiras. A câmara da morte, onde o gás matara por asfixia milhões de inocentes, cortou-me a respiração.

Voltei de Auschwitz doente e angustiada. Felizmente, em Varsóvia participamos de outros programas: visitamos escolas novas e creches onde crianças bem-cuidadas riam e brincavam; fomos a uma cooperativa agrícola onde os camponeses trabalhavam com entusiasmo, as árvores cobertas de frutos, os campos verdes, cultivados. A remoção de entulhos e a reconstrução da cidade eram uma constante. O tempo da morte terminara, ficara para trás, a vida renascia. Sobre tanta desgraça, pairava a esperança de um futuro melhor. Para isso — mulheres e homens, velhos e moços — trabalhavam, trabalhavam sem cessar, sem medir sacrifícios.

Pude testemunhar, naquele ano de 1948, a esperança que se erguia sobre os escombros da guerra e a força imensa do povo da Polônia.

 

GRAND HOTEL SAINT-MICHEL

Na certa, minha família devia estar muito impressionada com meu endereço em Paris, pois dona Angelina fizera referências em sua carta:

— .. .você agora está de gran signora, morando num grand hotel... Que luxo, hem?

Só que o nosso Grand Hotel Saint-Michel, coitadinho, de grande só tinha o nome e de luxo, nada! Era, isso sim, um modesto e agradável hotel, situado na rue Cujas, no Quartier Latin, cinco andares e uma mansarda, sem elevador, apenas duas privadas em cada andar de oito quartos e um único banheiro no prédio todo.

Proprietária do hotel e do imóvel, Madeleine Salvage nos reservara um pequeno apartamento no primeiro andar, composto de quarto e sala conjugados, além de um cubículo escuro, sem janelas, onde estava instalado o bidê, aparelho dos mais importantes, indispensável em qualquer hotel na França. Dei à pequena peça nova serventia: mantendo o bidê, transformei-a em cozinha.

As janelas do quarto e da sala davam sobre um pátio interno, o mesmo do quarto de Scliar, que vivia no terceiro andar. Podíamos conversar de janela a janela, coisa mais prática, era só dar um berro em direção ao céu, o amigo logo atendia. Eu gritava: "Scliar! Quer lentilhas? Se quiser venha buscar..." Em três tempos, rápido, Scliar descia trazendo a panelinha vazia, batia um papinho com a gente e voltava ao trabalho com a panela cheia.

Madame Salvage acumulava as funções de proprietária e concierge, instalada num pequeno bureau logo à entrada. Sofria do fígado, doença crônica; quando aconteciam as crises, todo mundo logo se dava conta e tratava de sair de baixo, era aquele "salve-se quem puder!" Quem é que gosta de levar esbregues sem essa nem mais aquela? Mas ninguém se ofendia com as descargas biliares da patronne e, passada a tempestade, as vítimas até achavam graça.

Devo dizer que no hotel havia os protegidos da proprietária — uns poucos — que não eram atingidos pelas crises de fígado. Entre eles, em lugar de destaque, Carlos Scliar; Madame Salvage se orgulhava e sentia grande satisfação de hospedar o jovem e talentoso pintor. Jorge caíra nas suas graças assim passara a habitar o hotel da rue Cujas. Hóspedes como aquele valiam a pena! Eram de seu gosto: recebia telefonemas e visitas importantes, de personalidades do gabarito de Paul Eluard, Louis Aragon, Elsa Triolet, Michael Gold e... ôh-lalá! Até Picasso já lhe telefonara...

Havia no hotel dois outros brasileiros: Paulo Rodrigues, moço fino e educado a quem a senhoria apreciava e respeitava, e Alberto Castiel, jovem bolsista, outra pessoa que granjeara a sua estima. Para não dizer que somente os brasileiros eram privilegiados, merecendo urmlugar sob suas asas, devo falar também no médico hindu, Dr. Silva, morador do quarto andar, pessoa simpática e discreta que, creio, nunca sofreu as conseqüências des crises de foie de Ia patronne.    

Mulher culta, amiga das artes, das letras e da música, Madeleine Salvage sacrificara a entrada do hotel, fizera-a estreita e acanhada em benefício de um salão que ocupava boa parte da frente, no térreo. Grandes portas de vidro, cobertas de finas cortinas de renda, separavam o salão do corredor de entrada. Portas sempre fechadas, ninguém ousasse por elas penetrar, já que o salão era de uso particular dela. Mobiliado com bonitas peças antigas, decorado com jarrões chineses, tapetes persas pelo chão, abajures com longas franjas de vidrilhos e miçangas, armários com prateleiras e portas de vidro, uma verdadeira exposição de estatuetas e de bibelôs, de berliques e de berloques finos e, para completar, um piano de cauda no qual a nossa amiga costumava tirar, vez ou outra, umas sonatas.

Ali Madeleine Salvage recebia visitas de cerimônia e de velhos amigos de família. Infalível presença, em dias certos a de uma respeitável dama que chegava de chapéu, luvas e bengala de castão de prata, para o chá das cinco, competit-beurre e brioches. Para esses chás, Madeleine Salvage transformava-se: caprichava na indumentária, parecia outra, envergando vestidos bem talhados, finos e elegantes; ia ao cabeleireiro, maquiava-se e usava jóias antigas, de família.

 

LIÚ, JOSÉ & CIA.

O vigia da noite era Liú, um velho chinês. Liú morava no próprio hotel, nos fundos, atrás da cozinha. Dormia num diva no corredor de entrada; sono leve, acordava ao primeiro toque da campainha para abrir a porta ao hóspede que chegasse durante a noite.

Liú gostava de comer, talvez fosse esse o último dos prazeres que lhe restara na vida. Ele mesmo preparava sua comida e o fazia com capricho e requinte, dentro dos princípios da cozinha chinesa. Fabricava um esquisito fromage d'haricot — queijo de feijão —; possuía um grande estoque de "ovos de um ano". Ele os conservava crus, envoltos em mistura de barro, cal e palha de arroz, e, nesse barro, colocava-os dentro de caixotes de madeira, na adega úmida e escura, onde deviam permanecer no mínimo, um ano, antes de serem comidos. Depois de cozidos, clara e gema tornavam-se verdes, um verde-garrafa — a gema não se desfazia, continuava redondinha —, gelatinosos, de sabor delicado.

Os abundantes condimentos que Liú ingeria recendiam à noite, quando tudo se encontrava fechado e abafado. Um mau cheiro, mistura de cebola e alho, invadia o ambiente, empestando tudo. Conhecendo meia dúzia de palavras em francês — as únicas que conseguira aprender em dezenas de anos —, Liú ia levando a vida, sorridente.

Além do velho chinês, havia no hotel um único empregado, faxineiro, José, espanhol forte como um touro, trabalhador como ele só! Pegava no batente às sete da manhã e às quatro da tarde partia, todo aprumado, lépido e lampeiro como se nem tivesse trabalhado como um mouro o dia todo. Duas camareiras davam conta, sozinhas, da arrumação dos quarenta quartos, corredores e privadas. Arrumavam como os próprios narizes, trabalho rápido e porco, obrigando-me a refazer tudo novamente depois que partiam.

 

CONSELHOS MATERNAIS

No único aparelho telefônico, instalado na portaria, atendiam-se chamadas e se falava para fora, tudo sob o controle da vigilante Madame Salvage. Talvez por especial deferência, talvez por morarmos no primeiro andar, Madame Salvage, em lugar de nos chamar pelo interfone, chegava à janela e gritava: "Monsieur Amadôoo...télé-phone!"

— Vá tratando de adular Madame Salvage — divertira-se Jorge, tentando me amedrontar, antes de chegarmos a Paris —, porque se ela não for com tua cara...

Não precisei fazer grande esforço para cativar a dona do hotel. Ela foi com minha cara em seguida e, não apenas isso, arvorou-se em minha protetora. Tratava-me como se eu fosse uma criança indefesa, perdida no mundo, dando-me conselhos, buscando tutelar-me.

Certa vez, ao solicitar à Madame Salvage que acendesse o bico do gás para aquecer a água do banho, ela me pediu que a acompanhasse a seu quarto. Longe de eventuais ouvidos aguçados, ali, a sós, sapecou-me um sermão: havia mais de um mês, quase dois, que ocupávamos sua sala de banho diariamente sem falhar um dia sequer. Um exagero!, dizia horrorizada, nem sabíamos a que ponto nos arriscávamos, não conhecíamos o perigo de uma corrente de ar... "Da courant d'air a uma pneumonia, apenas um passo..." Por que não usarmos, para nos lavar, a luva esponjosa, à moda francesa? Tão prática e econômica... Se ela me dava conselhos, dizia dramática, outro não era o motivo senão a afeição que nutria por nós, nada além disso. Eu devia levar em conta que ela, ao tentar salvar-nos do perigo do banho diário, sacrificava os próprios interesses, já que lhe pagávamos as duchas. Quanto a Jorge, não ousaria falar-lhe sobre o assunto mas seria bom que eu lhe' transmitisse suas preocupações.

O ar apreensivo e o tom maternal com que Madame Salvage tentava salvar minha vida — e a de Jorge — me tocaram, chegaram a me emocionar mas não ao ponto de me fazer seguir seus discutíveis conselhos de higiene.

 

"FERMEZ LE ROBINET!"

Madame Salvage exagerara ao declarar que havíamos utilizado o quarto de banho diariamente desde que chegáramos ao seu hotel. Ela estava enganada. Dispensamos a ducha do hotel uma vez, no dia que visitamos Zora, recém-chegada de uma viagem à Iugoslávia, terra de seu pai.

O hotel de Zora não era lá muito melhor do que o nosso; apenas o salão no térreo podia ser utilizado pelos hóspedes com uma pequena restrição: os inquilinos não tinham o direito de tocar no piano de cauda, peça nobre, de estimação, a tampa sempre aberta, as teclas mudas. Essa proibição não afetava Zora em nada, pois ela não sabia tocar nem tinha vocação para a música. Mais importante que o uso do salão, era a outra vantagem que o hotel oferecia: cada quarto possuía seu banheiro. Em troca, pelo direito de freqüentar o salão e pela sala de banho particular, a diária era bem mais elevada do que a do Saint-Michel.

Ao saber do preço que pagávamos pelos banhos e da limitação da água quente — apenas cinco minutos —, Zora teve uma idéia:

— Por que vocês não vêm tomar banho aqui? A água é farta e quentinha e, além do mais, grátis. Fosse eu vocês, tomava logo o primeiro, hoje mesmo.

Achamos a idéia ótima e aceitamos o gentil oferecimento, sem pestanejar; tomaríamos um bom banho, demorado, e voltaríamos sempre, já que morávamos perto; faríamos, uma bela economia.

Estranha ducha manual, novidade naquele tempo, cujo chuveirinho era ver um telefone, encontrava-se instalada dentro da banheira — sem cortinas —, à nossa disposição.

Para manejar o curioso "telefone" era preciso ter prática e, sobretudo, habilidade para conduzir a água às partes desejadas sem errar a direção. Mas, pobres de nós, estreávamos o infernal aparelho. Sem nenhuma prática, nem habilidade, erramos a direção, inundamos tudo: teto, paredes, chão... o chão principalmente.

Não tardou e ouvimos pancadas fortes e nervosas na porta do quarto. A reclamação chegava célere, mais do que reclamação era um alarme, uma ordem: "Fermez le robinet!" Que fechássemos a torneira. O grito imperativo e aflito chegara aos nossos ouvidos antes mesmo de percebermos que Zora, por detrás da porta do banheiro, tentava nos explicar, educadamente, que as sobras de nosso banho transbordavam no salão... A água se infiltrara por debaixo do grosso linóleo que encobria as imperfeições do velho piso carcomido e ondulado. Pelas frestas, sem conta, descia em cascata para o salão, e, ó céus!, invadira o piano, escorrendo sobre as cordas e o teclado.

Zora infringira duas vezes o regulamento do hotel: encharcara o banheiro, provocando a "catástrofe", e permitira que estranhos usassem a ducha, gastando indevidamente a água quente. Não houve alternativa: teve que arrumar a trouxa sem demora e procurar outro teto.

 

VAMOS FALAR FRANCÊS?

Coisa boa estar em Paris! Chegávamos ao fim do verão e o outono se anunciava, mudando o colorido das folhas das árvores. Eu viera da Polônia muito deprimida com as coisas que vira. Longe das ruínas da guerra sentia um grande alívio.

Tendo passado tanto tempo ouvindo complicadas línguas eslavas, o francês agora parecia-me fácil. Eu o aprendia sem esforço. Com apenas dois meses de prática, comecei a me espalhar. Entendia quase tudo: ninguém caísse na besteira de contar segredos em francês na minha frente!... Fazia minhas compras diárias, sem necessidade de intérprete, e era só bonjour madame pra cá, au revoir messieurs-dames pra lá... Para facilitar minha vida eu conhecia três línguas latinas. Dei-me conta também de que, para aprender depressa, devia pôr de lado acanhamento e vaidade, ser ousada, falar sem medo nem vergonha de errar. Errou? Tant pis!... Ajudada ainda pelo bom ouvido e pela intuição aguçada que sempre tive — intuição de cachorro vira-lata —, fui em frente sem me atrapalhar.

Constatei que, como eu previra ao conhecê-la, Henda era uma pessoa muito legal. Encontrava-se havia bastante tempo em Paris e sabia das coisas, procurava me orientar. Contou-me que na Sorbonne — ali bem ao lado do Saint-Michel — existia um curso de Civilização Francesa, para estrangeiros. Por que eu não me inscrevia nele? A idéia me entusiasmou e Henda me acompanhou para fazer a matrícula. Eu tinha aulas três vezes por semana, pela manhã. Freqüentava a classe do professor Bijou enquanto Jorge passeava com João no jardim do Luxemburgo, também a dois passos de nosso hotel. Ao meio-dia ali estavam os dois, pai e filho, à minha espera no portão de saída da Universidade. Ia então tratar do almoço, em três tempos resolvia o assunto.

Como já disse, no sombrio cubículo, junto à sala, improvisei uma cozinha. Com dois fogareiros a álcool sobre a mesa de tampo de mármore, fazia a festa: nas chamas frágeis e azuladas do álcool, preparava todos os pratos que me vinham à cabeça. Todos, menos arroz que não havia à Venda. Estava racionado, somente as crianças tinham direito a meio quilo por mês. O meio quilo destinado a João era preparado em pequenas porções para Jorge, que sentia enorme falta de arroz, de feijão e de farinha de mandioca.

CIVILIZAÇÃO FRANCESA

Fazer as compras de todo dia pela manhã era um programa dos melhores. Com meu cesto enfiado no braço, ia à rue Saint-Jacques, a uns poucos quarteirões de nosso hotel, onde eu encontrava de um tudo: frutas, legumes, verduras, carnes, queijos, pão...

Estacionados, junto à calçada, carrinhos de madeira ostentavam perfumadas e coloridas frutas, legumes e verduras, fresquíssimos. Eram os marchands des quatre saisons que, como o próprio nome indica, vendiam os produtos da estação, verdadeiros artistas na arrumação da mercadoria exposta. Os pregões com os quais atraíam a freguesia eram gritados num jargão que me fascinava. Nesses carrinhos fazia meu sortimento de alcachofras, alfaces, endivas, tomates, melões, uvas, maçãs e peras.

Mais adiante, na esquina, ficava o açougue. A carne era caríssima!

Nosso dinheiro mal dava para comprar um fino bife para cada um de nós dois. Em compensação, que beleza de carne! Vinha tratada, cortada, batida, sem um único fiapo de pelanca nem de sebo, pura carne. Os açougueiros vestiam-se impecavelmente, sempre limpos e atenciosos. Ao entrar num açougue, eu tinha a impressão de me encontrar numa floricultura, tantas e tais as flores artificiais a enfeitar o ambiente.

Soube nessa ocasião que, devido ao preço da carne, quando uma pessoa da classe operária era convidada a almoçar em casa de um amigo, levava o seu bife. O convite o beneficiava com o pão, o vinho, as batatas e com o prazer da companhia.

Aos sábados fazíamos uma extravagância, comprando um quilo de carne ou pouco mais. Esse peso vinha envolto em fatias de toucinho, amarradas com um barbante branco que marcava os lugares certos onde a carne devia ser cortada. Eu preparava com esse rôti, aos domingos, o molho da macarronada e convidava amigos brasileiros para almoçar conosco: os que moravam no hotel e outros que apareciam eventualmente. Pela manhã, Scliar me chamava da janela:

—      Menina! Temos hoje o almoço coletivo?

—      Coletivo, gostoso e alegre... — lhe respondia.

A mercearia também tinha seus encantos, mas raramente eu comprava o que via lá exposto: gelatinas de carne e de peixe, saladas, salmão defumado, presuntos, pudins, cremes... Iguarias caras demais para.a nossa bolsa de pobres.

Uma só coisa me desagradava na rue Saint-Jacques: o açougue que vendia carne de cavalo. A primeira vez que vi a cabeçorra do cavalo exposta como chamariz, fiquei com o estômago embrulhado. Um letreiro na fachada do açougue anunciava: CHEVALINE. Sempre que passava em frente, instintivamente virava o rosto. Para mim, comer cavalo era o mesmo que comer cachorro ou gato, não havia diferença.

Na Saint-Jacques, a crémerie me encantava mais que tudo: perfumada de manteigas, leites, cremes e queijos. Eu entrava e esquecia da vida. Deixava os clientes passarem à minha frente na fila, ficava num canto apreciando, deliciada, a arte da compra e da venda do camemberí, uma ciência, uma arte.

Na crémerie havia camemberts para todos os gostos: desde os mais rijos, pas de tout fait, aos mais moles e cremosos, trop fait. A proprietária da crémerie atendia a todos no balcão com o mesmo sorriso nos lábios, o mesmo bonjour, Madame, et avec ça, Madame? Não deseja mais nada? Ditos quase que automaticamente, numa voz em falsete, aguda. Tratava-se de uma expert, mestra na arte de conhecer o ponto exato do queijo: colocava o queijo redondo na palma da mão e com o polegar comprimia-lhe o centro. Todos aguardavam o veredicto, olhos grudados no dedão mágico: "Pas assez fait!", sentenciava a doutora, e em seguida o candidato ao queijo nem mole nem duro levantava o indicador: "...à moi, madame..."

Na Sorbonne, com o professor Bijou, eu estudava Civilização Francesa; na rue Saint-Jacques, nas compras, com os marchands dês quatre saisons, com os vendedores de vinhos e de queijos, eu aprendia civilização francesa, a que decorre do povo e que por vezes não está nos livros de classe. Aluna da Sorbonne, eu continuava a cursar a escola da vida como sempre fizera, desde menina, nela aprendia mais e melhor do que nos livros.

 

NO REINADO DAS "BAGUETTES"

Enquanto eu coava o café da manhã, Jorge saía para comprar o pão e o leite, tarefa que cumpria com o maior prazer, pois ir à padaria sempre foi um de seus fracos: ele não resiste ao cheirinho do pão saído do forno. Em Paris Jorge se espalhava em meio a tantas boulangeries repletas de baguettes habilidosamente arrumadas de pé dentro de altos cestões de palha, verdadeiros ramalhetes de pão a seduzir os fregueses. Como faz até hoje, Jorge comprava pão pelo simples prazer de comprá-lo. Em Paris aparecia em casa com quatro, cinco variedades: além da longa e fina baguette, crocante, quase só casca, a sua preferida, ele comprava o ficelle, ainda mais fino do que a baguette; o pain defantaisie, bom para as tartines, a manteiga escorrendo pelos lados; o pain de campagne, quase só miolo, pesado e saboroso; o pain parisien... Inda bem que a freguesia lá de casa era grande e dava conta do estoque sempre renovado. Passava-se uma manteiguinha no pão dormido, depois uma esquentadela sobre as chamas do fogareiro... Quando havia queijo — e sempre havia —, os sanduíches faziam a festa de uns quantos amigos, bolsistas de dinheiro curto e de apetite voraz. Nada se jogava fora.

 

O HOTEL DE LENINE

Entre os "fregueses" do pão (e de petiscos em geral), ocupava brilhante lugar de destaque o cientista Jacques Danon, que naquela época era um jovem que acabara de completar vinte anos, formara-se em Química no Rio de Janeiro e partira em seguida para a França, sem saber ainda que rumo tomar. Amigo de Alberto Castiel e de Carlos Scliar, se tocou direto para o Hotel Saint-Michel. Mas não conseguiu ficar lá mais de um dia. Na euforia da chegada, varara a noite contando as novidades do Brasil aos amigos — do hotel e dos que foram vê-lo —, em papos calorosos, tomando umas e outras, rindo estrepitosamente, fazendo o hotel estremecer. Madame Salvage não gostou da barulheira e tratou de despejar o novo hóspede, que fosse bater noutra freguesia, aquele não era hotel de boêmios, nem de bagunça. Pela manhã, surgiu Jacques em nosso quarto, mala em punho, jururu... Para onde ir? Jorge aconselhou-o a mudar-se para o Hotel de Flandres, na própria Cujas, número 20, bem em frente ao Saint-Michel, que era o 19. O aspecto do Hotel de Flandres não era lá essas coisas e parecia ser de qualidade bem inferior ao nosso, mas houve um argumento trancha que fez Jacques atravessar a rua incontinenti e inscrever-se nele: lá vivera Lenine durante o seu exílio em Paris.

Proibido de habitar mas não de visitar os hóspedes do hotel, Jacques não saía de lá. Das escadas já ia se anunciando, e em altos brados a me adular:

— Doutora!... Como vai a doutora! O que é que a professora tem hoje para nos oferecer?

Inteligente, vivo e espirituoso, verdadeiro artista na arte de narrar histórias, Jacques sempre tinha um caso divertido a nos contar e a nos fazer rir.

Estava feliz de habitar o mesmo hotel em que Lenine vivera. "Quem sabe se não estou ocupando o mesmo quarto, dormindo na cama dele?"

Eu também sentia ternura pelo Hotel de Flandres. Ao passar em frente, nunca deixara de olhar a porta por onde Vladimir Ilitch entrara e saíra tantas vezes.

 

"LA BLANCHISSEUSE"

Não fora difícil, como eu temera, conseguir uma lavadeira em Paris. A mesma mulher que lavava a roupa de vários brasileiros habitantes do Quartier Latin passou a lavar a nossa, feliz da vida de ter novos clientes. Um dinheirinho a mais não lhe faria mal, como ela mesma disse.

La Blanchisseuse não fora sempre lavadeira: fidalga romena, diziam-na baronesa. Saíra da Romênia depois da guerra. Não se conformara com o novo regime, dera o fora e, em Paris, vivia de lavar roupa.

Ao vê-la pela primeira vez, tão magra e acabada, boca murcha sem dentes, até tive pena. A turma se divertia dizendo que, na pressa de fugir ela esquecera a dentadura em Bucareste. Apesar do ar altivo, que ela não perdera, preferia sujeitar-se ao ofício de lavadeira, humilhante para uma senhora baronesa, a viver em país socialista.

Apanhava e trazia a roupa, carregando ao colo um cachorrinho lulu, paralítico das patas traseiras, a quem se referia como "meu melhor amigo". Lavava mal e porcamente e se justificava, atribuindo o encardido à falta de sol, pedindo desculpas, prometendo esfregá-las melhor na vez seguinte. Eu lhe pedira que as passasse a ferro mas ela foi irredutível, só lavava, nem adiantava insistir. Era eu, pois, quem as passava, aumentando assim meus encargos.

Tendo sabido por Scliar que Jorge era um escritor importante, a lavadeira animou-se a lhe fazer um pedido. Talvez ele pudesse lhe dar uma carta de apresentação, recomendando-a, à Embaixada do Brasil em Paris. Ela soubera que o Rei Carol andava pelo Brasil com Madame Lupescu e se entusiasmara. Talvez a mudança de clima fosse boa para sua saúde, talvez lá pudesse ter melhores condições de vida... Diante de tal solicitação Jorge até achou graça. A pobre devia estar completamente por fora:

— Ao contrário do que a senhora pensa — disse Jorge com toda a franqueza—, uma recomendação minha para a Embaixada de meu país seria desastrosa para a senhora. Na melhor das hipóteses não lhe serviria de nada, mas também poderia lhe complicar a vida, trazer-lhe aborrecimentos. Eu não sou a pessoa indicada para isso, não sou persona grata para eles.

Surpresa, a lavadeira, no entanto, manteve a linha, nada lhe perguntou e não voltou ao assunto.

 

DOUTOR SILVA

Quem passasse pelo Saint-Michel, naquela época, podia até pensar que aquele era um hotel de brasileiros, pois o português, com o nosso acento, era a língua que mais se ouvia por lá. Em realidade nós éramos apenas cinco moradores brasileiros mas recebíamos muitas visitas de compatriotas residentes em Paris ou de passagem pela França.

Ainda um hóspede do hotel falava o português e chamava-se Silva. Mas não era brasileiro, era hindu, de Goa. Pessoa simpática, Dr. Silva nos salvou, certa ocasião, de uma grande agonia: João amanhecera tinindo de febre. Aflitos, sem saber a que atribuí-la, pedimos a Madame Salvage que nos indicasse um médico e ela, prestativa, tomou as devidas providências.       /

Em menos de uma hora apareceu Monsieur le Docteur, um velhinho alquebrado, carregando uma valise bojuda, tão antiquada quanto ele. Depois de examinar a criança, Monsieur le Docteur diagnosticou um início de pneumonia. Madame Salvage fuzilou-me com o olhar e eu li em seus olhos as palavras tão repetidas, alarmantes: courant d'air, e a recriminação: "Estão vendo? Eu não disse? Tantos banhos!..."

— Vamos lhe aplicar, sem perda de tempo, uma ventosa — ordenou o velhinho.

Pediu um copo, meteu dentro dele um capucho de algodão, acendeu o algodão e, paft!, emborcou-o nas costinhas da criança que, assustada, se debatia e gritava. A muito custo, Jorge e eu conseguíamos segurá-lo, um verdadeiro horror! Decidimos não repetir a ventosa receitada pelo doutor. Foi aí que o Dr. Silva entrou em cena.

Eu saía para ir à farmácia e, ao me ver sem o menino ele estranhou, perguntou pela criança. Ao saber que estava doente, pediu-me para vê-lo. Dr. Silva era pediatra, coisa que não sabíamos. Riu muito ao ouvir falar em ventosas. Antes de auscultar-lhe as costas, abriu-lhe a boca e sorriu: "São os dentes..." Mostrou-nos as gengivas de João, inflamadas. Percebendo que sua descoberta não nos convencera inteiramente, pediu-nos que esperássemos um instante, saiu às pressas, foi ao seu quarto. Voltou trazendo um enorme livro de Medicina, onde, acompanhando as palavras com o indicador, foi soletrando em voz alta o parágrafo em que dizia que muitas vezes a saída dos incisivos laterais provoca nas crianças febre alta e outros distúrbios. Jovem e modesto, o médico hindu conhecia o ofício e aliviou nossa aflição. Monsieur le Docteur, com sua ciência de ventosas démodées, cobrara um dinheirão pela visita. Dr. Silva nem quis ouvir falar em pagamento.

 

VISITAS ILUSTRES E QUERIDAS

Um dia, ao descer para o térreo com João no colo, encontrei-me com um rapaz que subia as escadas. Parecia hindu, pele morena azeitonada, cabelos lisos, alto, rosto cheio, e eu achei que devia ser visita para o Dr. Silva. Mas o hindu sorriu como se me conhecesse, e depois de me dar um "Alô! Tudo bem?", perguntou-me: "O Jorge está lá em cima?" O indivíduo, outro não era que o pintor Antônio Bandeira, cidadão de Paris. Depois dessa primeira visita, Bandeira voltou sempre, e, quando podia, vinha filar a macarronada domingueira.

Naquela semana estávamos com sorte, tivéramos duas boas surpresas: a primeira fora a visita do escritor e diplomata Antônio Houaiss com Ruth, sua mulher. Secretário da Embaixada do Brasil na Suíça, ele viera a Paris para uma reunião da Assembléia das Nações Unidas. Num intervalo de suas obrigações, ele e Ruth foram nos ver. Simpática, ela me ofereceu uma panelinha esmaltada para as sopinhas de João. Antônio Houaiss, diplomata de carreira, não tivera medo de comprometer-se ao visitar um exilado político visado como era Jorge.

Depois apareceram Lourdes e Sinval Palmeira. Antes de sair do Rio de Janeiro, o advogado tivera o cuidado de telefonar a seu João, pai de Jorge, prontificando-se a levar qualquer encomenda que ele quisesse mandar. O velho não teve dúvidas: usou e abusou do oferecimento. E lá estavam os dois, no pequeno apartamento do Saint-Michel, transportando um imenso e pesado saco — encomenda assim, só mesmo um amigo aceitaria carregar —, contendo farto material para feijoada, além de farinha de mandioca, arroz, um vidro de pimenta-malagueta, café, latas de goiabada e pacotes de cigarros. Em separado, num envelope, o dinheiro recebido das primeiras prestações do loteamento de nosso sítio, dinheiro que, diga-se de passagem, chegava em boa hora.

Nas suas idas a Paris, Mário Schenberg se hospedava no Saint-Michel. A presença do físico brasileiro, na ocasião professor na Universidade de Bruxelas, dava status ao hotel, e Madame Salvage, consciente disso, não fazia cerimônia, transferia ou botava para fora o inquilino que estivesse ocupando o quarto — grande e de frente — destinado ao hóspede ilustre.

Outra figura simpática, a jovem Rosinha Casoy; eu a conhecera, em Sâo Paulo, ainda menina. Em suas temporadas parisienses, freqüentava assiduamente nosso hotel. O padrão de vida de Rosinha era alto comparado ao dos outros brasileiros de nossa turma. Tão alto que ela até comprara um automóvel, um Citroen zero quilômetro, no qual circulava, dando carona a todos nós. Habituada ao conforto, Rosinha habitava um hotel de luxo mas passava a maior parte do tempo no Saint-Michel. Dona Rebeca e seu Manuel, seus pais, mandavam-lhe polpuda mesada e ela não tinha necessidade de fazer economia. Rosinha, assim como o médico Luiz Rey e a geógrafa Dora, bolsistas em Paris e que acabaram se casando, o crítico de arte Mário Barata, Dina Moscovitch, estudante de cinema, integravam o numeroso grupo reunido em torno de Scliar, que o conduzia aos mais variados eventos culturais escolhidos pelo artista — "os acaudilhados" ou "o rebanho de Carlitos", como gostava de dizer Jorge, divertindo-se.

Mário Barata tornara-se um dos nossos bons amigos logo que chegamos a Paris; depois ele viajou para a Itália e voltou casado com a pintora Tiziana Bonazola. Ao lado do marido, também Tiziana passou a freqüentar o Saint-Michel, os programas de Scliar e os bate-papos no pequeno e agitado apartamento dos Amado.

 

SCLIAR E OS PROGRAMAS CULTURAIS

Quando, após a guerra na qual tomara parte como cabo da Força Expedicionária, Scliar decidira morar na Europa, escolhera a cidade de Paris para viver. Lá poderia encontrar o melhor e o mais sério da vida artística e cultural. Embarcara sem prazo para voltar, pretendia aproveitar o máximo.

Metódico e bem informado, organizava um programa semanal de eventos culturais que incluía cineclubes, cinemateca, museus, exposições, concertos, conferências — tudo da melhor qualidade, tudo muito instrutivo e, além do mais, de graça ou quase de graça, pois a avidez de cultura que todos sentíamos deveria reduzir-se aos limites das magras posses de estudantes e bolsistas, de escritores e artistas pobres. Generoso por natureza, Carlitos não se contentava em aproveitar sozinho, egoisticamente, as possibilidades enormes que um meio tão rico lhe oferecia no que se refere à cultura: às artes, às letras, à música, ao teatro e ao cinema; queria que todos os seus amigos, sobretudo os jovens, participassem dessa riqueza colocada à disposição dos habitantes da cidade.

Cumpria à risca os programas semanais e exigia de seus comandados que os cumprissem cegamente, obedientes à sua escolha e preferência. Desse grupo fizemos parte, Jorge e eu: posso me dar conta, hoje, de quanto aproveitei, de quanto devo a Scliar e a seus programas culturais...

Jorge não aderia a tudo, tinha restrições: jamais subiria os íngremes e estreitos degraus em caracol que conduzem ao cimo da Notre-Dame de Paris. Recusou-se: "Não sou doido." Eu subi acompanhando Scliar, mas antes da. metade do caminho — valha-me Deus! Se arrependimento matasse! — dei razão a Jorge. Tudo era muito lindo visto lá de cima mas jurei nunca mais voltar; levei muitos dias com os músculos das pernas em petição de miséria.

Com Scliar visitamos o Museu de Cluny, pertinho de nosso hotel, no boulevard Saint-Michel; com ele assistimos, na Cinemateca, aos filmes surrealistas de Luis Bunuel: Um Cão Andaluz e A Idade de Ouro, que me impressionaram terrivelmente. E quantas vezes estivemos juntos no Grand-Palais, em exposições de grandes mestres? Não tem conta. Com Scliar viajamos quase cem quilômetros de ônibus para visitar a Catedral de Chartres e admirar seus varais. Sabendo quanto eu gostava de música clássica, Scliar não descuidava, conseguia ingressos para que eu fosse a concertos de fabulosos virtuoses como Alexandre Brailowsky e Yehudi Menuhin. Recém-chegados a Paris, nossa primeira saída com Scliar foi para assistir a um concerto na Sala Gaveau, da pianista brasileira Jamile Karan, mulher do pintor' Israel Pedrosa, amigos nossos. Lembro como se fosse hoje, pois nessa noite encontramos muitos brasileiros residentes em Paris.

De outra feita, Carlitos e eu fomos a uma exposição de artes regionais; o programa agradava a Jorge, era até muito de seu gosto, mas ele não pôde ir, devia terminar um texto encomendado por um jornal.

Na grande sala de exposição, barracas decoradas artisticamente, cada qual mais bonita, ostentavam artigos de todas as províncias da França. Em cada uma delas, moças e rapazes, vestidos com trajes regionais, ofereciam aos visitantes, à guisa de degustação, copos de sidra de diferentes qualidades. Na minha boa fé, sem imaginar que um néctar, tão delicado e inocente como a sidra, pudesse embriagar, fui degustando aqui, degustando ali, degustando mais adiante, virando um copo atrás do outro, e... o resultado não se fez esperar: comecei a sentir uma certa euforia, a sensação estranha de estar pisando em colchão de molas... Minha cabeça continuava boa mas eu me equilibrava mal. De repente Scliar se deu conta de que a coisa não andava bem pro meu lado e entre alarmado e divertido exclamou:"Bá! Você está bêbada, guria!" E eu estava! Bebinha da Silva! Carlitos me ofereceu o braço e me amparou até chegarmos ao hotel, em meio a muitas risadas, num percurso que me pareceu interminável.

Nos primeiros tempos em Paris, só podíamos sair à noite quando uma alma generosa se dispunha a ficar com João. Entre essas almas generosas estiveram Madame Salvage, Castiel e o escultor Vasco Prado, presença diária lá em casa. Seu hotel ficava a algumas quadras do nosso e ele vinha de bicicleta. Um dia, enquanto conversávamos na porta do Saint-Michel, sem que eu me desse conta, Vasco sentou João no quadro da bicicleta junto ao guidom e se tocou com o menino. Saí correndo atrás a chamá-lo mas quem disse? Ele voltou depois de muito tempo, rindo de se acabar do meu susto.

 

CLUBE DOS TURISTAS

No intuito de taquinar Scliar e se divertir, Jorge, com a cumplicidade de Jacques Danon, organizou o "Clube dos Turistas". O clube tinha como objetivo sabotar alguns programas de Scliar, aqueles considerados chatos: ouvir certas conferências, assistir filmes pela quinta vez, etc... Os objetivos do clube eram claros: "Jamais assistir mais de duas vezes ao mesmo filme!" "Abaixo as conferências!" Tais programas deviam ser1 substituídos por outros mais amenos como escutar os Frères Jacques, ir ao Grand-Guignol, ingênuo teatro de horror, ao Caveau des Oubliettes, nos subterrâneos de antiga prisão, onde se tomava um cálice de licor ouvindo canções medievais, ou sentar simplesmente na calçada de um bar, de um boulevard do Quartier, só pelo prazer de ver passar a extraordinária humanidade parisiense, observar os zazous, figuras estranhas para nós.

Os fundadores procuravam aliciar adeptos para o novo clube — eu fui a primeira e creio que a única a aderir —, tentando desgarrá-los do "rebanho de Carlitos".

Uma vez, ao saber que Scliar combinara com vários amigos encontrarem-se à noite no Saint-Michel para juntos saírem para um programa nobre, Jorge convocou Jacques e. resolveram se divertir. Jacques ficou à espreita, de plantão, a fim de, na passagem pelo primeiro andar, desviar as "ovelhas" de seu caminho — no caso, os três lances de escadas até o quarto de Scliar — para o nosso apartamento. Ali a boa prosa corria solta, prendendo os convidados, sabotando a combinada programação cultural.

Cansado de esperar pelos companheiros, sempre pontuais, e conhecendo de sobra as matreirices do vizinho do primeiro andar, fundador do "absurdo" Clube dos Turistas, Scliar resolveu espiar pela janela. Lá estavam Henda, Rosinha, Camerini, Luiz Rey, Dora, Cláudio Santoro, Dina... refestelados era nossa sala, conversando, rindo, esquecidos da vida, esquecidos do compromisso... Furioso, enfiou a inseparável boina basca na cabeça, enrolou o cachecol no pescoço, desceu as escadas a correr, gritou da porta aberta, sem entrar:

— Quem quiser me acompanhar, que venha, eu não espero mais por ninguém!

O prestígio de Scliar era grande: Jorge ficou falando sozinho na sala, melhor dito, rindo sozinho, pois até Jacques desertou acompanhando a turma.

 

FEIJOADA À TRIPA FORRA

O material de feijoada trazido do Brasil pelos Palmeira dava para alimentar um batalhão. Ao comprá-lo, seu João, certamente, pensara em matar nossa fome por um longo período. Ele ignorava que em Paris, dependendo de fogareiro à álcool, nós não podíamos cozinhar feijão todos os dias. O álcool custava caro e além disso estava racionado; todas as semanas, Jorge e eu enfrentávamos uma enorme fila em frente à Mairie, no departamento da Prefeitura que fazia distribuição de talões de racionamento de álcool e de outros gêneros como o arroz, por exemplo.

O jeito era cozinhar o feijão todo de vez, fazer uma vasta feijoada, convidar todo mundo. Eu pediria novamente a Madame Salvage permissão para ocupar sua cozinha e seu fogão a gás, como já fizera havia pouco, ao receber bacalhau, mandado de Portugal pelo escritor Alves Redol. Além de franquear a cozinha e o fogão, ela me emprestara pratos e talheres; participara da bacalhoada e lambera os beiços. Agora eu a convidaria novamente, embora uma coisa me preocupasse: seu fígado delicado agüentaria a feijoada?

Ao chegar a Paris, eu prometera à turma de brasileiros, sequiosa de um feijãozinho, preparar uma feijoada caso conseguisse alguém disposto a trazer o caixão de mantimentos que deixara em Roma. Mas minha intenção viera abaixo: tudo que ficara na Itália se perdera.

Camerini aparecera um dia, aflito, acabara de receber carta da tia, em cuja casa ele guardara nossa bagagem. Ansiosa, queria saber o destino a dar ao caixão, que exalava um cheiro horrível, além de estar entulhando sua casa. O cheiro ativo da carne-seca assustara a pobre senhora, que se queixava não apenas do puzzo como também dos carunchos que invadiam sua casa. Encabulados, pedimos a Camerini que nos desculpasse junto à tia e lhe pedisse para jogar fora o arroz e o feijão — fonte dos carunchos —, a farinha e a carne-seca, e ficasse com as outras coisas: sabão e latas de leite em pó. O assunto ficara encerrado para tristeza de todos e eu não pensara mais em feijoada. Agora o entusiasmo retornava. Além dos habitues, convidaríamos Mariuccia e Arnaldo Estrela, Merícia Lemos, os Santoro, os Prado, os Pedrosa, Antônio Bandeira. Certamente a notícia correria e outros amigos apareceriam de surpresa, além dos convidados de Jorge: Jorge tinha o mau costume de fazer convites e deles não me dar ciência. Habituada, não me atrapalhava, preparava sempre comida além da conta, e aumentava o número de talheres na mesa. Desta vez o panelão de feijoada daria de sobra para quem viesse, "comida pra tripa de Judas", como se costuma dizer em São Paulo; comeriam "à tripa forra", como dizem os baianos.

 

UM DIVERTIDO QÜIPROQUÓ

Por mais me esforçasse não estava conseguindo dar conta do recado: cuidar de João, lavar suas fraldas, cozinhar, arrumar a cozinha, atender às coisas de Jorge, estudar... Não dava mesmo. Eu precisava, com urgência, arranjar uma empregada. Scliar sabia de uma agência de empregos no próprio Quartier, ouvira falar que era boa. Nos dirigimos, pois, os três, para o endereço indicado, na rue des Saints Pères.

Empurramos um pesado portão de ferro que se encontrava apenas encostado e nos deparamos com um enorme pátio onde havia uma única residência, casa antiga de porão alto, indo de uma ponta à outra do terreno. Subimos os degraus da escada mais próxima; ao lado da porta de entrada, um cordão pendurado e uma indicação: clochette. Puxamos o cordão e a tal clochette soou tão estrepitosamente que chegou a nos assustar. Mas ninguém apareceu. Puxamos o cordão novamente e foi aí que surgiu uma velhinha, os olhos fuzilando de raiva, a perguntar-nos com maus modos o que desejávamos. Jorge e eu nos calamos, a palavra estava com Carlitos, mais treinado no francês. Ele então explicou à velha que éramos candidatos a uma empregada. Sem prestar atenção ao que o jovem lhe dizia, a velha enfureceu-se ainda mais, berrou, esbravejou, deu-nos as costas e sumiu pelos meandros da casa. Scliar chegara à conclusão que a velha se zangara porque tínhamos batido na porta errada. Aquela era a entrada de sua residência particular, a agência ficava na outra extremidade, devíamos subir as escadas dos fundos.

Humildes, demos meia-volta-volver, descemos os degraus, atravessamos o pátio seguindo o mapa da mina.

Por uma porta escancarada entramos numa sala estreita e comprida, com bancos laterais, onde várias moças se encontravam sentadas com ar de espera. Imaginei — e acertara — serem elas candidatas a empregos. Ao fundo, sobre um alto estrado, atrás de uma mesa, lá estava sentada a bruxa já nossa conhecida, dominando o ambiente. Ao ver-nos entrar, fez-nos sinal para que nos aproximássemos. Os olhos das moças nos mediram de alto a baixo, tão ostensivamente que cheguei a encabular. Obedientes, subimos ao estrado. Antes que pudéssemos abrir a boca, a velha atirou a primeira pergunta:

—      São estrangeiros? — Mais do que uma pergunta, era uma acusação.

Scliar disse que sim, éramos brasileiros.

—      Têm os documentos em ordem?

Claro que tínhamos. E na França era preciso tanta farofa para se contratar uma empregada?, pensei intrigada.

A velha tomou fôlego antes de descarregar sua ira.

Então não sabíamos que as leis francesas proíbem aos estrangeiros trabalhar na França? Por que não ficáramos trabalhando em nossa terra em vez de querer fazer concorrência aos franceses, tirar-lhes o trabalho, tirar-lhes o pão da boca? Tudo isso ela dizia aos berros, sem interrupção, numa linguagem tão enrolada que nem eu nem Jorge conseguíamos entender uma única palavra do que ela dizia.

Confuso com a descabida estupidez da mulher, Scliar emudeceu, não conseguiu sequer matar a nossa curiosidade, explicar-nos o que significava aquela gritaria. Só retomou pé ao ver a megera nos apontar a porta da rua. Ai peste! Ela estava exagerando! Revoltado diante de tanta grosseria, Scliar saiu do mutismo para gritar também: que ela visse bem com quem falava, que ela estava diante de um famoso escritor que fora à sua agência à procura de empregada... Por modéstia ele omitiu ser ele próprio um grande pintor.

Dando-se conta do engano, e ao ouvir falar em escritor famoso, a velha baixou a crista e deixou escapar um derrotado: "Ça, alors!"

Aquela era boa! Quem diria, quando ia ela imaginar que aqueles três mal-ajambrados, sem nenhuma pose, com uma criança pendurada ora no colo de um, ora no pescoço do outro, fossem patrões? "Ça alors!", repetiu.

Foi aí que se deu o milagre: o cão virou anjo, na boca viperina o veneno virou mel.

—      Mas por que não explicaram antes?

Desmanchou-se de vez ao saber que éramos hóspedes de Madelei-ne Salvage, sua velha conhecida. Pediu licença, saiu um momento. Por mais baixo que ela falasse, pudemos ouvir que tomava informações telefônicas junto à proprietária de nosso hotel. Voltou eufórica: ia nos conseguir a melhor empregada de sua agência. Com seus olhos de águia examinou as moças, uma por uma, chamou: "Francine!" Uma jovem magra e feiosa, vestida discretamente, dentes de coelho saídos da boca, atendeu-a prontamente, subiu ao estrado. Tudo ficou acertado, Francine iria nos procurar, no dia seguinte, já de armas e bagagens para começar a trabalhar. Pagamos a comissão da agência e partimos.

 

'CHAQUELINE"

Acordamos com pancadas na porta. Eram apenas sete horas. Seria a empregada, tão cedo? Antes de abrir a porta atendi ao interfone, pelo qual Liú nos anunciava que a empregada da agência acabara de subir.

Devia haver um engano. A moça ali em minha frente não era Francine, que conhecêramos na véspera. Esta era totalmente diferente, loira e gorda. Ela sorria.

—      Eu sou Jacqueline. Houve um engano ontem e eu estou no lugar da que foi contratada pelos senhores — explicou.

Quisemos saber qual fora o engano e ela acabou confessando que, como chegara antes de Francine na agência, era a primeira da fila e, portanto, tinha direito ao emprego. Protestara depois de nossa saída, inclusive haviam chegado às vias de fato. Ilustrou o pugilato mostrando-nos os arranhões que Francine lhe aplicara no braço e no rosto.

—      Ela não serve para lidar com crianças, é muito violenta... — sentenciou, ajuizada.

Alsaciana, Jacqueline falava com acento germânico. Ela se denominava "Chaqueline" e chamou João de "Chon".

Impecável e prestativa, antes mesmo que lhe pedíssemos um quarto para a empregada, Madame Salvage transferiu, sem fazer cerimônia, sem consulta prévia, o inquilino do quartinho ao lado do nosso apartamento, a fim de nele instalar João e Jacqueline. Até que fora boa para nós a mudança de empregada, ganháramos na troca. Francine exigira duas noites por semana além dos domingos de folga. Jacqueline declarara em seguida não gostar.de sair à noite. Apenas uma vez ou outra, quando não precisássemos dela. Adorava, isso sim, sair durante o dia, e, assim, João aproveitaria as manhãs e as tardes em passeios pelo Luxemburgo, um descanso para nós.

Agora sobrava-me tempo e eu tratei de matricular-me num curso de Fonética, na própria Sorbonne, que funcionava em outro edifício da Universidade, no boulevard Saint-Germain. Estudaria tranqüilamente e teríamos liberdade, eu e Jorge, para programas noturnos.

Enquanto João dormia, à noite, vestida num vistoso quimono azul de cetim, Jacqueline lavava e passava as roupinhas dele, ouvindo músicas no rádio que trouxera, sua grande distração.

 

AS QUATRO ESTAÇÕES

O outono se anunciara havia semanas e instalara-se de vez em Paris. Na Europa eu acompanhava, empolgada, a marcante mudança das estações. Assistira à chegada da primavera na Tchecoslováquia, quando as árvores secas do inverno, parecendo já mortas, ressuscitam de um dia para o outro, cobrindo-se de verde, os brotos despontando apressadamente, diante de nossos olhos. Outro espetáculo de sonho que a primavera me proporcionou foi a descoberta de coloridas e mimosas flores desabrochando debaixo de montes de folhas secas, nos bosques do castelo de Dobris. Além da ressurreição das plantas, senti também a euforia que a primavera traz aos seres humanos, enchendo os corações de amor. Depois chegara o verão, quente, muitas vezes tórrido; todo mundo entrando de férias, a ânsia incontida de apanhar sol, de bronzear-se, abarrotando margens de rios, deitando-se nas relvas dos parques e jardins... Querendo tirar o máximo proveito do curto tempo de calor... Agora era o outono. As folhas das árvores foram mudando o seu colorido, amarelecendo, avermelhando-se, tornando-se pálidas, e, de súbito, num sopro de vento forte foram todas de vez ao chão. As árvores se despiam à espera do inverno.

Jorge me levou uma tarde ao Champs-Elysées para que eu visse o espetáculo: um espesso tapete de folhas amarelas, de todos os matizes, cobria o chão das praças arborizadas, antes da subida para o Arco do Triunfo. Os caminhos sombreados do Luxemburgo tornaram-se claros, mesmo na ausência do sol, pois as folhas que os sombreavam no verão encontravam-se por terra.

 

O "ZAZOU" AMIGO DE JOÃO

Fazia frio, ventava, João já não podia ir todos os dias ao parque e Jacqueline não estava contente com isso. Andava de mau humor. Com vistas ao inverno que se aproximava, compramos para João um casaquinho de pele de coelho, cinza, e um gorro da mesma pele que lhe cobria as orelhas. Ao vê-lo todo agasalhado Jacqueline suspirou aliviada; agora o seu "petit poulet", o querido "Chon", poderia "se promener" quanto quisesse, enfrentaria ventos e chuvas... Não se conteve: "Coisa mais triste é ver uma criança trancada num hotel, longe do ar puro do jardim... ríest-ce pas, Madame?"

Como de hábito, saí naquele dia logo depois do almoço, para assiàtir à minha aula de Fonética. Ao chegar à escola, no entanto, tive a decepção de encontrar a porta da sala de aula trancada. Fiquei sem saber a razão daquele feriado — ou seria greve? — e tratei de voltar para o hotel. O dia frio e úmido convidava a ficar em casa. Jacqueline não parecia ser da minha opinião, pois encontrei-a já de saída, toda formosa. Com seu casaquinho de coelho, sentado no carro, João estava abraçado ao macaco de pelúcia que ganhara de Merícia Lemos, senhora portuguesa que conhecêramos na casa dos Estrela. Pendurado no carrinho, um saco repleto de brinquedos.

Embora surpresa e, sobretudo, desapontada com a minha inesperada presença no hotel, Jacqueline não quis, no entanto, encompridar conversa, estava com pressa e não escondia: "Chon precisa apanhar um pouco de ar no Luxemburgo, pobre criança, tão pálido..." Foi dizendo e foi saindo porta afora.

De pulga atrás da orelha, raciocinei: "Pra que diabo ela vai levar tantos brinquedos para o Luxemburgo? E por que essa pressa toda?" Resolvi segui-la.

Jacqueline descia, ligeira, a rue Cujas e eu atrás. No virar da esquina, no boulevard Saint-Michel, um zazou a esperava.

Naquela época, depois da guerra, surgira uma quantidade enorme de jovens excêntricos, desencantados da vida, sem perspectivas, sem ânimo para estudar nem para trabalhar, sem vontade de nada. Caracterizavam-se pela maneira de vestir: usavam enormes paletós, largos e compridos, quase nos joelhos, calças de cano estreito, barba sempre por fazer, longos cabelos em desalinho. Eram os existencialistas, apelidados de zazous. Esses existencialistas abundavam na rive gaúche, sobretudo em Saint-Germain-des-Prés.

Na esquina de Cujas com Saint-Michel, como já disse, encontrava-se, naquela tarde fria e escura, um zazou à espera de Jacqueline. Ao vê-lo, João estendeu-lhe os bracinhos com a intimidade e a afeição de um velho amigo, amigo de muitos encontros. Jacqueline e o jovem se beijaram e se abraçaram ardorosamente; depois ele retirou João do carrinho, cobriu-o também de beijos, atirou-o ao ar repetidas vezes. A cada subida ao céu e a cada aparada no ar, João explodia em gostosa gargalhada e meu coração quase estourava de horror. Finalmente o menino foi colocado novamente no carro.

Grudados num abraço entrelaçado, o casal atravessou o boulevard e entrou pela rue Monsieur le Prince. Andavam rápido, tinham pressa, quase impossível alcançá-los. O Luxemburgo ficara havia muito para trás. Eles entravam e saíam por ruas estreitas em direção ao Sena, eu podia divisar, ao longe, os bouquinistes na margem do rio. Ao passar em frente a um bar, ele entrou e, ao sair, trazia na mão uma garrafa de vinho. Por fim pararam diante de uma velha casa; tocaram a campainha. Enquanto esperavam que lhes abrissem a porta, voltaram aos beijos e aos abraços, esquecendo-se de João que se pusera de pé no carro, solto e livre, equilibrando-se num cai-não-cai... Corri e apanhei-o, antes que se esborrachasse no chão.

Ao ver-me, Jacqueline se assustou, empalideceu. Tentou dizer algo, gaguejou, não conseguiu. Eu também não lhe disse nada, controlei-me. Sentei meu filho no carro, dei meia-volta e regressei ao hotel, deixando-a lá plantada.

Ao saber das peripécias daquela tarde Jorge se divertiu, achou a história ótima, reclamou detalhes.

Eu não tinha outros detalhes a lhe fornecer. Nem por isso Jorge se apertou: inventar detalhes era com ele. Telefonou para Jacques, que viesse ao Saint-Michel com urgência, e apenas o jovem cientista chegou, Jorge lhe disse, apontando João:

— Você está vendo esse sujeito aí? É o mais célebre voyeur de Paris. Passa as tardes num rendez-vous assistindo aos embates da babá com um zazou. — E passou aos detalhes...

Terminou assim a curta temporada de Jacqueline em nossa casa. Terminaram também as movimentadas tardes de João que, se soubesse falar, poderia, quem sabe, confirmar tudo o que o pai inventara.

 

FRANCINE VOLTA À CENA

Horrorizada com a falseta que Jacqueline nos aprontara, Madame Salvage tomou a iniciativa de reclamar com a proprietária da agência e, no dia seguinte, chegou Francine, com seus dentes de coelho.

A situação na França estava difícil, ninguém se dava ao luxo de contratar empregada pelo mês todo, quando muito as donas-de-casa pagavam a uma faxineira para o grosso da limpeza, uma vez por semana. No trato não era incluída a refeição da empregada, ela devia levar marmita.

Explicava-se a luta por um emprego de tempo integral com refeições incluídas. Francine passara o mês todo encostada, à espera de trabalho. Agora, vitoriosa, tentara fazer carga contra a outra que lhe roubara o lugar, mas não quisemos saber nada, cortamos-lhe as asas.

Embora Francine saísse aos domingos, estávamos mais tranqüilos. Era boa empregada, asseada, parecia gostar realmente de João, trazia-o sempre limpo, bem vestido. Chegou uma vez ao exagero de passar-lhe gomalina nos cabelos — alisando-lhe os lindos cachinhos loiros, dividindo, com uma risca ao meio, o cabelo grudado na cabeça, tornando-o irreconhecível. Explicou que assim fizera para impedir que se despenteasse com o vento que andava soprando, vento insistente de outono.

 

O ALCOVITEIRO

Apressei-me a abrir a porta. Pancadas nervosas e repetidas me tiraram da cozinha. Era Liú que perguntava por Jorge; tão agitado estava que até esquecera do clássico e obrigatório bonjour, Madame.

—      Monsieur Amado est là?

—      O que é que você quer com Monsieur Amado? — perguntei- lhe.

Foi o mesmo que falar com o muro. Liú não me dava atenção, procurava divisar por cima de meus ombros Monsieur Amado, buscando-o com ar misterioso, olhar conivente.

—      É telefone, Liú? — quis saber.

Em vez de responder, Liú continuou a chamar por Jorge:

—      Monsieur Amado! Monsieur Amado!

Um berro de Madame Salvage, lá de baixo: "Monsieur Amado, téléphone!", fez-me compreender a atitude misteriosa de Liú. Afastei-o. Saí em disparada, desci as escadas voando, atendi o telefone, já que Jorge não se encontrava no hotel. Era voz de mulher — aí estava o segredo. Falava a secretária de Louis Aragon com um recado para Jorge: Ilia Ehrenburg chegara a Paris, estava na redação do Ce Soir, vespertino diário, do qual Aragon era diretor, desejava falar com Jorge.

Olhei séria para Liú, balancei o dedo em seu nariz e disse: "Ti-ti-ti!" Repetia-lhe o que aprendera na Tchecoslováquia, a maneira de ralhar com as crianças. Os tchecos jamais batem nas crianças, repreendem-nas balançando o indicador e dizendo ao mesmo tempo o repfeen-sivo "ti-ti-tü". O efeito é instantâneo, o faltoso compreende que errou e, coberto de arrependimento ou de mágoa por tão dura punição, chora. Apliquei o método tcheco em Liú mas o meu ti-ti-ti em seu nariz não produziu o menor efeito, ele nem ligou. Deve ter me achado maluca, se é que achou alguma coisa. Eu estava danada. Diabo de chinês rufião, malandro velho a querer dar cobertura ao outro... Mas, teria Liú agido por iniciativa própria ou estaria seguindo instruções de Jorge? "Sendo voz de mulher me chame pessoalmente..." Afastei rapidamente a hipótese, nem quis esclarecer a dúvida. Em questões de coração a prudência manda não tirar nada a limpo... É preferível ignorar os malfeitos — se é que existem —, viver na ilusão; porque, além de tudo, meu orgulho e a minha vaidade jamais me permitiriam provocar cenas de ciúmes ou aceitar traição comprovada. Isso não significa que eu não seja ciumenta. Sou ciumenta, sempre fui, mas meu sistema de reagir é muito pessoal: prefiro fazer-me sentir presente, fazer-me desejada, mostrar que existo.

 

POR EXEMPLO...

Pouco tempo depois de chegarmos a Paris fomos convidados por uma certa demoiselle a almoçar na casa de seus pais. Eu disse a Jorge que não ia. Meu radar, ou, melhor dito, meu sexto sentido me prevenira contra a dita moça, desde a primeira vez que a vira meu santo não fora com o dela, de jeito nenhum. Jorge não levou a sério a minha recusa, pensou que, certamente, eu voltaria atrás na hora.

O almoço seria naquele domingo e eu, como de costume, logo cedo arregacei as mangas, fui à cozinha cuidar do molho da macarronada. Vendo que eu continuava firme na decisão de não ir, Jorge tentou convencer-me a reconsiderar, explicando que na França os compromissos deviam ser cumpridos, que ficaria mal não irmos.

— O compromisso é seu — disse-lhe —, pois vá você, nada lhe impede. Eu prefiro ficar em casa com meu filho e meus amigos.

Contrafeito, sentindo que eu estava picada, Jorge foi sozinho, ao meio-dia, não levou João a passear como de hábito, não me trouxe as flores que costumava me oferecer na volta para casa; flores compradas ao vendedor, que aparecia aos domingos na esquina de Cujas com Saint-Michel. "Certamente levou minhas flores para a cretina...", pensei, morta de ciúmes.

Garanto que nem Scliar, nem seu amigo Luciano Hipólito, nem Jacques, nem os demais perceberam a minha angústia durante o almoço.

Jorge não demorou quase nada, voltou tão rápido que ainda nos encontrou sentados à mesa. Foi explicando: "Me vi obrigado a dizer que o menino estava doente, para te desculpar..." Eu não disse nada, não reclamei, tratei-o com a mesma cara risonha.

Ao voltar da aula de Fonética, no dia seguinte, passei por uma floricultura elegante, do boulevard Saint-Germain, CQmprei um ramo de flores, as mais belas e mais caras que havia, gastei o dinheiro reservado para as alcachofras e as endivas da semana — legumes caros e que só eu comia.

Ao ver-me chegar empunhando o esplendoroso buquê envolto em celofane e amarrado com fita de cetim, Jorge estranhou:

—      Quem foi que lhe deu essas flores? — Seu tom era agressivo.

— Eu mesma, quem mais podia ser? — respondi na maior calma.

— Por quê? Não tenho o direito de me oferecer flores?

Não acreditando que eu pudesse comprar flores tão finas e tão caras, Jorge ficara cismado, estava com ciúmes.

—      Não foi, por acaso, aquele mexicano?

Tive vontade de rir, mas me contive: —        Meu colega mexicano? O coitado não teria um tostão para mandar cantar um cego, quanto mais...

Eu me referira, dias atrás, a esse mexicano a Jorge, contando-lhe que o pobre — um índio, sem tirar nem pôr —, sentindo-se perdido na aula, sem entender patavina do que a professora ensinava, resolvera sentar-se ao meu lado a fim de copiar meus apontamentos, pedir-me explicações, pois descobrira que eu entendia espanhol.

Jorge deixou de falar comigo, mas eu continuei a falar com ele, não tomando — ou fingindo não tomar — conhecimento de sua zanga. O mal-estar entre nós perdurou alguns dias, o tempo em que as flores duraram no vaso, quando então resolvi acabar com aquela agonia. Ao jogar fora as flores murchas, comentei, estendendo-lhe o recibo da floricultura que, prudentemente, eu pedira e guardara:

—      Veja só, flores tão caras e duram tão pouco...

Jorge compreendeu tudo, sorriu encabulado e, no domingo seguinte, em lugar do costumeiro ramo de flores comprado ao florista da calçada, recebi imensa corbeille, de elegante floricultura, que quase não passava pela porta, com um cartão: "De seu apaixonado anônimo..."

 

CONVITE PARA REALIZAR UM SONHO

Naquela mesma noite saímos para jantar com Ehrenburg. Ele nos trazia um convite de Alexandre Fadeiev em nome da União de Escritores Soviéticos, para que visitássemos a URSS. Notícia excitante! Eu sempre desejara conhecer esse país tão discutido, era um sonho que alimentava desde menina. Mas havia um problema: o convite era para o mês de dezembro, em pleno inverno, eu não poderia levar João e não tinha com quem deixá-lo. Jorge foi dizendo que sozinho não ia, eu insistindo que ele fosse, numa discussão sem futuro. Estávamos ainda em novembro e havia tempo de sobra para encontrarmos uma solução.

Ehrenburg viera a Paris a fim de dar os primeiros passos na organização de um "congresso dos povos pela paz" a ser convocado por intelectuais que haviam participado do Congresso de Wroclaw.

Nos dias que se seguiram, durante a estada de Ehrenburg em Paris, estivemos sempre com ele, jantando juntos quase todas as noites, ora em restaurantes, ora em casas de amigos.

O programa daquele domingo me interessava sobremaneira. Fôramos convidados por Marc Chagall, por intermédio de Ehrenburg, seu grande amigo, a passar a tarde em seu castelo em Orgeval, nas aforas de Paris.

Nesse domingo, como em todos os domingos, como já foi dito, eu não contava com a ajuda de Francine, mas tanto Jorge quanto Ehrenburg acharam que podíamos levar a criança conosco, tranqüilamente. Eu não podia perder a oportunidade de conhecer pessoalmente o grande pintor, e assim, naquele domingo, depois do almoço, ocupamos um carro: pai, mãe, filho e amigo, e nos tocamos para Orgeval.

 

MARC CHAGALL

Marc Chagall vivia na França havia muitos anos. Nascera" em Vitebsk, na Bielo-Rússia, onde, após a revolução bolchevique, foi comissário de arte até o ano de 1922, quando saiu para o estrangeiro e não mais voltou. Fixou-se em Paris, viajando pela Alemanha, Palestina, Inglaterra, Paris novamente. Em 1941, com a ocupação da França pelas tropas nazistas, Chagall partiu para New York. Apesar de ter deixado a URSS, onde não encontrava ambiente para realizar sua obra com a liberdade de que necessitava, Chagall, ao saber que seu país estava sendo invadido pelos exércitos de Hitler, assumiu a presidência do Comitê Mundial de Solidariedade e Ajuda à União Soviética, que recolheu fundos para o esforço de guerra até 1945. Eu própria fizera parte do comitê de ajuda, em São Paulo, cujo presidente era Manuel Casoy, pai de Rosinha Casoy.

Chagall desejara muito visitar a União Soviética após a guerra, mas não conseguira a permissão necessária. As autoridades soviéticas continuavam a considerá-lo um desertor.

Mas Ehrenburg não o considerava assim. Estivera com Chagall conversando sobre o problema. Jorge devia ir em breve à União Soviética e talvez a intervenção dele e a de Aragon, também convidado, com Elsa Triolet, para essa visita, pudessem dar bom resultado.

Jorge tornara-se muito amigo de Alexandre Fadeiev, que, além de secretário-geral da União de Escritores Soviéticos, era membro do Comitê Central do Partido Bolchevique, e uma palavra de Jorge a ele poderia talvez influir a favor da pretensão de Chagall. Aragon, extremamente bem visto na URSS, poderia ser de ajuda decisiva. A reunião daquele domingo no castelo do artista, em Orgeval, tomara o caráter de uma conspiração de amizade para resolver o impasse da visita do grande pintor à sua terra. Incorporado à comitiva, Carlos Scliar estava feliz, ia conhecer pessoalmente o artista que tanto admirava e tanto respeito lhe merecia.

No castelo de Orgeval fomos recebidos por toda uma família: ao lado de Chagall uma jovem alta e esguia, cabelos lisos, de franja — a princípio pensei que fosse sua mulher mas era Ida, sua filha -r-, e dois meninos que, encantados com João, o levaram em seguida para longe.

Naquele castelo não encontrei o requinte nem a ordem característicos dos castelos de fidalgos. Havia telas encostadas nas paredes, livros sobre os móveis, álbuns de pintura em todos os cantos, almofadas e brinquedos espalhados pelo chão... Era uma casa que transpirava calor humano, vida, um castelo de artista, sem ostentação, onde habitava um grande homem, famoso, por isso mesmo simples. Chagall tinha então 61 anos; cabeça branca, olhos azuis, vivos...

A conversa estava animada, mas eu me sentia inquieta, sem saber por onde andava João, sumido de minhas vistas havia um tempão. Percebendo minha aflição, Ida me convidou a ir em busca do menino. Scliar também sumira logo depois de chegar, e — mesmo antes de descobrir João em meio a um mundo de brinquedos — fui encontrá-lo regalando-se, interessadíssimo, a examinar gravuras e chapas de metal no atelier do dono da casa. Estava na companhia de Mario Avati, jovem artista, filho de italianos, auxiliar de Chagall na produção das chapas de metal das gravuras que ele executava na ocasião. Por coincidência, Mario Avati e Scliar eram colegas no curso de gravura na École des Beaux-Arts.

Tivemos nesse dia o privilégio de ver, em primeira mão, uma série de novas e maravilhosas pinturas de Chagall. Ele as colocava no cavalete e tecia comentários sobre cada uma. Os meninos sentaram-se ao chão, defronte do cavalete, e, a cada quadro mostrado, manifestavam sua admiração com gestos e exclamações, chegando mesmo a aplaudir alguns deles, fato que arrancou mais de uma vez um sorriso satisfeito do artista.

Somente muitos anos mais tarde, depois da morte de Stálin, Marc Chagall voltou à sua terra, expôs em Moscou. Seu amigo Ilia Ehrenburg já morrera.

 

MISETTE

Zora chegara no momento exato. A viagem à União Soviética se aproximava sem que tivéssemos resolvido um problema fundamental: com quem deixar João.

Qualidade das mais louváveis de Zora Seljan é ter idéias para solucionar problemas de amigos. Naquele dia sua luz brilhara com maior intensidade ao procurar resolver nossa dificuldade.

— Por que vocês não pedem à Misette para tomar conta de João enquanto viajam? Ela voltou de Tarbes há quase um mês, está desempregada desde que a livraria fechou, morando em casa de amigos e sem perspectiva imediata de emprego.

Nascida na Ilha d'Oléron, Misette, cujo nome completo é Marie-Louise Nadreau, vivera durante muitos anos nos Altos Pireneus, em Tarbes, com seus pais. No fim da guerra, em 1945, logo após a saída das tropas de ocupação nazista da França, atendendo a um chamamento de um jornal de Paris, Misette se inscreveu para trabalhar na Missão Militar de Repatriamento, destinada a encaminhar e documentar, nas fronteiras, os franceses que se encontravam fora do país, prisioneiros de guerra, deportados políticos, judeus vindos de campos de concentração, a acompanhar os feridos em trens sanitários.

Após curto estágio nas casernas, fazendo exercícios militares, praticando enfermagem de emergência, num rápido curso, Misette recebeu as insígnias de sargento. Viajou pela Alemanha, Tchecoslová-quia e Polônia, ajudando no repatriamento dos seus compatriotas. Terminado esse trabalho, Misette resolveu tentar a vida em Paris e conseguiu emprego de vendedora na livraria do Partido Comunista.

Eu não a conhecia pessoalmente. Quando cheguei a Paris ela já não estava, se encontrava em Tarbes. Mas Jorge estivera com ela, trouxera-lhe uma carta do Brasil, fora vê-la na livraria. Gostara do "sargento".

Dias antes de viajar para a Europa, Jorge fora procurado por um dirigente sindical, vereador eleito à Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo Partido. Também ele tivera seu mandato cassado, como os demais parlamentares comunistas. Um assunto delicado levara-o a procurar o companheiro: pedia-lhe que buscasse Misette em Paris e lhe entregasse uma carta.

Jovem sindicalista, operário de profissão, homem dinâmico, inteligente, conquistara um posto de direção no Partido. Casara-se muito jovem, era pai de vários filhos. A mulher se ocupara das crianças e da casa enquanto ele estudara e evoluíra. Desacertos que acontecem com freqüência entre casais da classe operária e da pequena burguesia.

Tendo ido fazer um curso de dirigente sindical em Paris, ele conhecera Misette na livraria, situada no térreo da sede do Partido. Do conhecimento ao romance não demorou. Durante os meses que ele passou em Paris, viveram juntos uma terna história de amor. Quando regressou ao Brasil, Misette esperava um filho. Apaixonado, decidira ter uma conversa com a direção do Partido logo que chegasse ao Rio de Janeiro, para em seguida mandar buscá-la; o filho nasceria brasileiro. Estava disposto a desquitar-se da mulher, a quem estimava mas com a qual não tinha, havia muito tempo, afinidade nem diálogo; garantiria o sustento dela e dos filhos.

Aqueles que dizem ou pensam — e esses são muitos — que os comunistas são adeptos do amor livre, despidos de preconceitos, não existindo entre eles moral nem laços familiares, se enganam redondamente. Ao contrário disso, muitos deles são profundamente moralistas e por vezes preconceituosos. Esse moralismo provém, quase sempre, de razões políticas, do desejo de impedir que militantes e, sobretudo, dirigentes se exponham a críticas e falatórios prejudiciais à causa. Assim sendo, o nosso dirigente sindicalista não obteve o beneplácito da alta cúpula do Partido: "Casou? Deu-se mal? Pois agüente a carga até o fim! Está apaixonado? Paixão é safadeza, descaramento! Pense na família, ,dê o exemplo!" Foi mais ou menos isso que ele ouviu dos dirigentes.

Ameaçado de ser expulso do Partido caso persistisse em seu propósito, não desejando que isso acontecesse, não querendo ser chamado de safado nem de traidor, não insistiu mais — era o mundo todo contra ele sozinho —, abdicou de seu amor.

A carta que Jorge levara para Misette dava-lhe conta da situação.

A "compreensão política" opera milagres. Mesmo não sendo militante comunista, apenas simpatizante, Misette não se revoltou contra a decisão da direção do Partido brasileiro. Aceitou, resignada, o triste desfecho de seu sonho de amor. Assumiu a condição de mãe solteira, partiu para Tarbes, daria à luz junto a seus pais. Mas, ainda uma vez, a moça foi infeliz: a criança, um menino robusto, morreu ao nascer. Foi enterrado com o nome do pai: Pedro.

Ao voltar a Paris, Misette não mais encontrou a livraria onde trabalhara. Ameaças de atentados contra o Partido, bombas achadas entre os livros obrigaram a direção, por medida de segurança, a fechá-la. Misette entrava para a imensa lista de desempregados.

25 DE NOVEMBRO

Misette estava conosco havia já quase um mês. Era ótima companhia, apegara-se a João, transferindo para ele o amor que não pudera dar ao filho perdido. Sentíamos que era feliz em nossa casa. Pelo trato feito, ficaria conosco durante o tempo que durasse nossa viagem à União Soviética. Apesar de pagar-lhe um salário — o mesmo que ela recebia na livraria —, nunca a consideramos uma empregada e sim uma amiga. Não tivemos até hoje amiga mais leal, não conhecemos criatura mais decente. Misette habitava conosco, ocupando com João o pequeno quarto ao lado. Cheia de vida, sozinha ela movimentava o hotel e tornou-se logo amiga de todos os brasileiros.

Aquele 25 de novembro de 1948 foi uma data muito especial para nós: João Jorge completava o primeiro ano de vida. Preparamos uma festinha para ele, que acabou resultando num festão, com mil convidados, os amigos sobrando pelos corredores e escadas.

Saíramos depois do almoço, Jorge e eu, à procura de morangos silvestres — saborosos e perfumados — a fim de preparar um enorme ponche de champanhe. Antes de tomarmos o metrô que nos levaria a Les Halles, o grande mercado de Paris, onde encontrávamos tudo o que desejávamos, Jorge propôs-me andar um pouco pelas margens do Sena, queria dar uma olhada nas tendas dos bouquinistes ali armadas, folhear livros antigos, espiar velhas gravuras — a coisa que ele mais gostava de fazer em Paris. Pelo caminho deparamos com um grupo alegre de moças e... coisa mais estranha!, traziam na cabeça chapéus enfeitados com fitas verdes e amarelas. Serão brasileiras?, perguntamos ao mesmo tempo. Em seguida Jorge me apontou ainda outras que vinham em nossa direção, falando alto, rindo às gargalhadas... Demo-nos conta, ao passar junto a elas, que não eram brasileiras. Falavam francês sem sotaque, um francês de Paris. Misette nos esclareceria tudo, mataria nossa curiosidade, estaria, por certo, dentro do assunto, sabia tudo.

Ao chegar ao hotel tivemos a surpresa de encontrá-la também de cabelos presos por uma fita com as cores brasileiras. Riu muito do nosso espanto e nos explicou que no dia 25 de novembro as midinettes, costureiras das maisons de costura, festejam sua data. Nesse dia os ateliers de costura fecham as portas, as operárias da agulha e do dedal não trabalham. Enfeitam-se de verde e amarelo, cores tradicionais da festa, e saem rua afora dispostas a se divertir.

Não sendo Misette costureira, que diabo fazia ela toda engalanada de verde e amarelo? Por que se enfeitara assim? Ela se divertia com a nossa curiosidade e nos disse que também naquele dia comemorava-se a data das solteironas. As moças que, ao atingirem os 25 anos de idade sem terem se casado, deviam colocar o chapéu em Santa Catarina, coiffer a santa, no dia 25 de novembro.

— Eu também estou festejando Santa Catarina, hoje... — riu Misette.

Cada terra com seu uso... Ora veja! Na França,"Coiffer Sainte-Catherine"; no Brasil, ficar para tia, cair'no barricão, assumir a condição de vitalina.

 

PRIMEIRA VISITA À UNIÃO SOVIÉTICA

Na véspera de nossa viagem, embarcamos Misette e João num trem para os Pireneus. Para a criança seria melhor respirar o ar puro das montanhas do que ficar em Paris, sujeita ao inverno úmido. Foi, no entanto, com o coração apertado que vimos o trem, que os conduzia, se afastar.

Nosso avião sairia pela manhã. Tratamos de nos agasalhar ao máximo, íamos enfrentar, naquele mês de dezembro, o inverno em Moscou, anunciado como dos mais rigorosos dos últimos vinte anos.

A má visibilidade, teto baixo, nos obrigara a esperar várias horas no aeroporto. Agora, parado na pista, a postos, o avião da Aeroflot aguardava ordens para decolar. Essa ordem tardou ainda uma hora. Tivemos que esperar, ali sentados, tiritando de frio. Procuramos os cintos de segurança nas poltronas. Nem sinal! Vendo-nos intrigados por não encontrá-los, a aeromoça fez um gesto com a mão: "Nitchvó! — nitchvó era uma das poucas palavras que aprendera do russo, muito repetida por eles e que significa mil coisas: nada, não há necessidade, não tem importância, paciência, etc. — e, sumiu lá para dentro da cabine. Pelo que pudemos entender, nos aviões soviéticos não havia necessidade de se usarem cintos de segurança e nem de sacos sanitários para um eventual mal-estar... E, triste constatação: a companhia não oferecia refeições a bordo. Só nos demos conta disso quando, em pleno vôo, a fome apertando, vimos os passageiros, companheiros de viagem, abrirem caixas e embrulhos, retirando deles o próprio farnel. Provocante cheiro de queijos, de mortadela e de presunto entrava por nossas narinas. Ninguém nos prevenira e, agora, o que fazer? Não tínhamos nada, absolutamente nada para comer, nem mesmo uma balinha. Quanto mais olhávamos para aquela gente a se fartar, ferrando os dentes nos sanduíches, descascando ovos duros, mais nossa fome aumentava. E se fechássemos os olhos para não ver? Talvez fosse uma solução... Mas, podíamos fechar os olhos quanto quiséssemos, o olfato estava ali, de plantão, a nos infernar... Quanto tempo ainda duraria aquela agonia? A viagem parecia não ter fim, quando, de repente, ouviu-se uma voz que anunciava algo pelo alto-falante; Jorge, que acredita nos meus dotes lingüísticos, olhou para mim na esperança de que eu lhe traduzisse o aviso, mas desencantei-o em seguida, pois, como ele, não entendera absolutamente nada. O avião começava a baixar e eu disse:

—      Inda bem!

Jorge comentou, aliviado:

—      Eu pensei que a viagem fosse mais longa...

Acreditávamos estar baixando em Moscou, mas qual! Descíamos em Berlim. Certamente as condições atmosféricas não permitiam prosseguir viagem. O avião aterrizou na zona alemã ocupada pelo comando militar soviético. Lá estava, tremulando, a bandeira vermelha, com a foice e o martelo.

Embora nossos relógios marcassem pouco mais de três horas, já havia uma escuridão de noite, holofotes iluminavam o campo. Acompanhamos a aeromoça e os outros passageiros a um hotel da base. Não adiantava tentar entender o que diziam, ficamos à deriva, aguardando os acontecimentos. Passaríamos a noite naquele hotel, não havia dúvida, pois nos levaram a um quarto de dormir, com cama de casal.

—      Agora é esperar que nos dêem comida... — disse Jorge.

—      O melhor é esperar deitados, economizamos energia... — aconselhei.

Cansados, começávamos a dormir quando fomos despertados com batidas na porta. O comandante da base nos convidava a jantar à sua mesa. O rapaz que viera nos buscar falava um pouco de francês.

Sentados entre os oficiais, calados, jantamos com apetite, devoramos tudo que nos puseram na frente; até repolho, que Jorge detesta, ele comeu. Já que não podíamos conversar com os anfitriões, limitamo-nos á sorrir amavelmente e a nos entender através de mímica, coisa em que, sem falsa modéstia, eu me tornara craque.

Fitando uma cestinha cheia de pães em minha frente, Jorge disse: — Por que você não guarda uns pãezinhos na bolsa?

Eu estava pensando exatamente nisso: "dia de muito, véspera de nada", passaríamos fome novamente na longa viagem até Moscou. A idéia de Jorge me encorajou a tentar resolver o problema ou, pelo menos, a atenuá-lo. Aguardaria uma oportunidade para surrupiar uns pãezinhos, quantos pudesse. Enquanto aguardava, abri minha bolsa, tirei um lenço e, ao devolvê-lo, deixei-a aberta, em meu colo, à espera. Na primeira distração de meu vizinho... Mas o diabo do russo não me dava vez, não virava a cara para o outro lado... Não havia jeito! O jantar já chegava ao fim e eu, nada! Pensava até desistir do plano quando o tovaritch se voltou para falar com o oficial a seu lado. Mais do que depressa, num passe de mágica, fiz sumir dentro da bolsa dois pãezinhos que tirei do cestinho.

Tanta ansiedade, tanto suspense, tanto coração batendo, para quê? Para nada! De manhã, antes do embarque, nos entregaram, em nome do comandante da base, uma caixa contendo um farto lanche: frango assado, sanduíches, maçãs, tangerinas, vinho, água mineral, cerveja.

Até hoje uma dúvida me faz corar de vergonha: teria o comandante me surpreendido na manobra dos pães?

 

MOSCOU

Naquela tarde cinzenta nos esperavam no aeroporto de Moscou o escritor Aplétin, secretário da sessão de relações estrangeiras da União de Escritores Soviéticos, e o intérprete e guia que nos acompanharia durante a nossa estada na União Soviética, Max—nome com que figura nestas páginas —, que vivera muitos anos na Argentina e voltara para seu país após a guerra. Naquela época eram raras as pessoas que falavam o espanhol na URSS e raríssimas falavam ou conheciam o português. Pouquíssimos brasileiros haviam visitado aquele país socialista, e creio que nós éramos os primeiros a ir, depois do rompimento de relações com o Brasil, em 1947.

Num Zim preto, automóvel de fabricação soviética, fomos conduzidos do aeroporto ao hotel, no centro da cidade, num percurso de muitos quilômetros. Fazia frio, mas não nevava. Caíra neve havia dias e, com o degelo, os caminhos encontravam-se sujos de lama.

Pessoa simpática e risonha, falando bem o espanhol, Aplétin ia nos mostrando e explicando tudo sobre as coisas que víamos de passagem. Estávamos no centro da cidade quando, apontando um prédio, ele disse: "Aquele edifício, há alguns anos, estava situado mais adiante e foi transferido para onde está agora. Afastado inteirinho..." Contou que de um copo cheio de água, deixado sobre a mesa, de propósito, não entornara nem uma gota. O edifício em questão ocupava um quarteirão inteiro e possuía vários andares.

         É impossível descrever minha emoção! Apesar de fatigada da noite maldormida e da viagem, queria ouvir e ver tudo de vez. Apreciara a paisagem, o casario dos arredores de Moscou, as figuras envoltas em xales, em grossos casacos, calçadas de botas, com chapéus de pele... Estava encantada e feliz.

O apartamento reservado para nós no Hotel Monopol — velho e tradicional, situado na Praça dos Teatros, bem em frente ao Bolshoi — era grande e confortável: dormitório e salão com mesa de trabalho, poltronas, divas e piano de cauda.

Um ramo de flores, mandado por Ehrenburg e Luba, sua mulher, e uma caixa de chocolates, da parte de Fadeiev, estavam à nossa espera, sobre a mesa. Os cartõezinhos, davam as boas-vindas.

Aplétin nos deixou entregues a Max, o intérprete, e partiu. Momentos depois bateram à porta; pressuroso, Max foi atender. Entreabriu-a, cochichou demoradamente com alguém, fechou-a novamente. Jorge quis saber com quem ele falara, mas Max respondeu, simplesmente, que não era ninguém de importância. O tom misterioso do intérprete nos desagradou, mas calamos.

 

O POVO DITA A MODA

As mesas do amplo restaurante do Hotel Monopol — com pista de dança — estavam quase todas tomadas ao chegarmos para jantar, naquela primeira noite em Moscou. Muita gente continuava aparecendo c ocupando em seguida as mesas vagas. "Estão vindo do Bolshoi", informou o intérprete.

As sessões teatrais começavam, em geral, às sete da noite, e terminavam também cedo. As pessoas iam do trabalho diretamente ao teatro. Jantavam depois do espetáculo ou durante os longos intervalos, nos movimentados e bem sortidos bufês, como pudemos constatar no dia seguinte, no próprio Bolshoi.

Os clientes do restaurante pareceram-me bem arrumados. Não havia ostentação e isso me agradou.

De nossa mesa assistíamos a um estranho desfile de modas, como não poderíamos ver em parte alguma: a elegância era uma questão pessoal: cada qual ditava sua própria moda, vestindo o que mais lhe agradava, sem a preocupação do ridículo, sem medo de ser fiscalizado. Diante de nossos olhos passavam mulheres com roupas de todos os feitios, para os mais variados gostos, era só escolher: saias longas e saias curtas ou pela canela; cinturas altas e cinturas nos quadris, mangas justas e mangas bufantes, trajes de cetim, veludo, chamalote, etc..., flores no peito, flores nos cabelos... Em geral de cores discretas, não vi um único vestido vermelho ou branco.

Desde a Revolução de Outubro, o povo soviético não tivera contato com o mundo capitalista, onde as modas são ditadas por renomados costureiros, onde as mulheres de todas as camadas sociais, escravas dessa moda, seguem, como podem, os figurinos impostos pela propaganda. Na União Soviética, naquele ano de 1948, cada mulher inventava seu próprio figurino, usava o que lhe dava na telha.

Ao chegar aos teatros, vindas do trabalho, faziam uma toalete completa, nos chamados garde-robes, salas guarnecidas de armários com cabides, penteadeiras e grandes espelhos, vestiários destinados ao público. Trocavam as botas por sapatos leves, mudavam a roupa, quando era o caso, colocavam enfeites nos vestidos, se maquiavam. O material necessário para a sessão de embelezamento era conduzido em pequenas maletas, ali guardadas com os casacos, as botas e os pertences de trabalho, trocados novamente antes de sair. Verdadeira mão-de-obra, a que elas se dedicavam com satisfação.

Nunca vou esquecer a cena a que assisti no garde-robe do Bolshoi: uma jovem, simples em sua roupa de trabalho, as grossas botas sujas de lama, se transformar em Cinderela. Em poucos minutos ela soltou os cabelos loiros, colocou um ramo de orquídeas artificiais sobre um vestido azul, longo, calçou sandálias finas, prendeu nos cabelos um diadema de pedras brilhantes, fantasia. Achou-se bela e sentiu-se feliz. Não a perdi de vista e, à saída, acompanhei-a para novamente assistir às manobras: orquídeas e diadema foram retirados, com delicadeza, as finas sandálias trocadas pela botas pesadas, um elástico amarrado na cintura ajudou a suspender o vestido, os cabelos foram presos sob um gorro de pele, vestiu o casaco e, de maleta em punho, saiu rua afora. Jantávamos no Monopol quando a vi numa mesa ao lado: voltara a ser o anjo azul.

 

QUER ME DAR O PRAZER?

Uma jazz-band animava o baile, executando tangos, foxtrotes, valsas, etc, emendando uma música à outra, sem intervalo, mudando o ritmo de repente, confundindo os pares comprimidos na pista, a se atrapalhar nos passos... A maioria deles não sabia dançar, mas se esforçava — e como! Ao contrário dos bailarinos dos teatros, os melhores do mundo, os dançarinos de salão revelavam-se um verdadeiro fiasco.

O garçom chegou e estendeu o cardápio a Jorge mas, rápido, Max adiantou-se e o arrebatou: "Deixem que eu escolho."

Depois de longa espera, os pratos começaram a chegar, um atrás do outro, cobrindo a mesa: caviar, salmão, caranguejo, peixinhos defumados, de entrada. Depois veio o borsh — sopa típica russa, de beterraba —, filé de peito de galinha, um imenso bife, um exagero de pratos!

Os pares se arrastavam, rodopiando na pista repleta, os encontrões e os atropelos pareciam fazer parte dos passos da dança. De súbito, uma jovem aproximou-se de nossa mesa, voltou-se para Jorge: "Pajalsta..." Max explicou que ela o estava tirando para dançar. Surpreso diante do inesperado convite, ele ficou atrapalhado: "Logo eu que não sei dançar..," Max poderia substituí-lo, sugeriu Jorge com um gesto, apontando o intérprete. A moça não aceitou a sugestão, queria dançar com ele mesmo e daí não arredava. "Ele não sabe dançar? Nitchvó! Não precisa saber..." Continuou ainda por alguns momentos ali de pé, até se convencer de que devia procurar outro par. Agradeceu, "spaciva", deu meia-volta e se foi, fula da vida.

Não senti nem um tico de ciúmes, estava encantada. Dava-me conta, de repente, do verdadeiro significado da igualdade entre um homem e uma mulher; pelo menos no salão de dança, homens e mulheres tinham os mesmos direitos.

Logo depois coube a mim ser tirada para dançar. O cavalheiro trazia várias medalhas penduradas no peito e, pelo jeito, alguma vodca na cuca. Despachei o candidato tranqüilamente, e nitchvó!

Na hora de assinar a nota Jorge assombrou-se: aquele jantar custara uma verdadeira fortuna. Daí por diante, tomaria as rédeas das mãos de Max, não queria passar por aproveitador perante seus anfitriões, no caso, a União de Escritores.

 

A PRAÇA VERMELHA

Luba, mulher de Ehrenburg, nos telefonou. Ehrenburg encontrava-se na Letônia — uma das Repúblicas Socialistas Soviéticas —, pela qual fora eleito deputado à Câmara das Nacionalidades do Soviete Supremo da URSS. Viajava duas vezes ao ano para Riga, ia encontrar-se com seus eleitores, ouvi-los, saber de suas reivindicações imediatas, tomar providências para atendê-los. Sua ida a Riga coincidira com a nossa chegada a Moscou, aliás, ele fora nos esperar no aeroporto dois dias antes, quando o mau tempo nos forçara a pernoitar em Berlim. Ehrenburg voltaria no dia seguinte, pedira a Luba que nos chamasse para jantar com eles; podíamos dispensar o intérprete, pois seu motorista nos apanharia no hotel. Pedia que fôssemos cedo, antes que os outros convidados chegassem, para termos mais tempo de conversar.

Recebêramos também um telefonema de Sátva Brandão, uma das filhas de Otávio Brandão que, então, viviam em Moscou. Queria marcar hora para nos ver. No dia de nossa chegada, ela e Vólia, sua irmã, tinham vindo ao hotel e batido com o nariz na porta, pois Max, o misterioso, as despachara sem lhes permitir entrar. Quando, estranháramos, não nos dera explicação nem o recado deixado pelas moças. Arvorara-se em nosso dono e senhor. O telefonema de Sátva nos deu muita alegria e convidamos as moças a almoçar conosco.

Naquela manhã visitaríamos o mausoléu de Lenine; depois andaríamos a pé pelas ruas, sem rumo certo, coisa que gostamos de fazer sempre, ao chegarmos a uma cidade desconhecida.

Jorge me presenteara com um par de botas na Polônia. Botas quentíssimas, feitas artesanalmente, elas eram de lã prensada, beges com bordados marrons no cano, madeira grossa embaixo — lembravam as sandálias de Carmem Miranda —, ótimas para isolar os pés da umidade e elevar minha estatura em alguns centímetros; com elas eu ficava mais alta que Jorge. Se minhas chamativas botas não eram bonitas, nem elegantes, pelo menos eram confortáveis. Eu as estreava naquela manhã e não havia quem não olhasse para meus pés.

O dia estava escuro, o céu, de tão baixo, quase o tocávamos. O que seria, o que significava aquela fila sem fim, surgida diante de nossos olhos? Mais parecia um carreiro de formigas em marcha lenta, ao longo do gigantesco paredão avermelhado a circundar o Kremlin. As pessoas, homens e mulheres, roupas escuras, bem agasalhadas, caminhavam pacientemente até chegar a sua vez de ver, por instantes, o líder bem-amado, Vladimir Ilitch Ulianov. Havia 24 anos, desde a morte de Lenine, que essas filas se formavam duas vezes por semana, quando as portas do mausoléu eram franqueadas ao povo. Max tratou de nos tranqüilizar, não precisávamos entrar na fila, éramos hóspedes estrangeiros, com direito a furar fila, coisa que, aliás, muito nos constrange, sempre que somos obrigados a fazê-lo.

Fascinados pela Igreja de São Basílio, que divisávamos ao longe, levantada na outra extremidade da praça, tivemos desejo de vê-la de perto, antes de entrar no mausoléu. O antigo templo bizantino ortodoxo, que nos deslumbrara pela sua forma e por seu colorido, estava necessitando de melhor conservação, precisava ser restaurado com urgência. Comentamos isso com Max e ele prontamente respondeu:

—      Restaurar? Pra quê? Se todos pensassem como eu, esse símbolo do feudalismo e da superstição já teria sido destruído. Mas existe quem se oponha, não entendo por quê. Assim sendo, vamos deixar que o tempo se encarregue de fazer o serviço.

Estatelados, nem podíamos acreditar no que ouvíamos. Max continuou sua arenga contra o maravilhoso templo, parecia querer desculpar-se e desculpar o Governo soviético pelo fato da igreja ainda permanecer de pé. Jorge ficara uma fera:

—      Se você ama realmente sua pátria e o regime soviético, nunca mais repita essa bobagem!

Diante da veemência da resposta de Jorge e de nossa indisfarçável revolta, Max fechou a cara e calou-se. Creio que naquela hora nos considerou reacionários empedernidos, possivelmente a serviço do Padre Eterno.

Caminhávamos em direção ao mausoléu, quando, de repente, me senti envolvida por uma nuvem de mosquitos miúdos e atrevidos a picar meu rosto. Coisa mais estranha! Que novidade era aquela? Mosquitos naquele frio todo? Tratava de afastá-los com a mão, quando me dei conta de que não espantava mosquitos e sim a neve que começara a cair ainda timidamente e em seguida em rajadas desencontradas, os flocos aumentando de tamanho. Examinei um floco que pousara isolado em minha luva: uma estrela, sem tirar nem pôr, verdadeira obra de arte, recortada simetricamente, como se fosse feita com esquadro e compasso. Em poucos minutos toda a Praça Vermelha tornara-se branca, as estrelas de rubi nos picos das torres do Kremlin ficaram matizadas. Eu via a neve pela primeira vez e estava deslumbrada.

           O povo, na interminável fila, nem se abalara com a neve que desabava, prosseguia em sua lenta e longa marcha, seus agasalhos escuros pintalgavam-se de branco. O povo também não ligou ao ver-nos chegar e entrar no mausoléu, passando à frente de todo mundo. Foi só Max dizer umas palavras ao guarda, mostrar-lhe a credencial da União de Escritores, para receber em troca uma continência, um amável pajalsta!, a mão estendida indicando-nos a entrada.

Um silêncio profundo fez-me pensar na frase feita: "silêncio sepulcral". Uma luz morta de velório, apenas um foco a iluminar o rosto de Lenine. Embalsamado, numa redoma de vidro, no centro do salão, o chefe da Revolução de Outubro parecia estar apenas adormecido, o punho cerrado, sobre o coração. As pessoas passavam, circundavam a redoma, olhos fixos no líder, emocionados, alguns num pranto abafado, sentido, como se ele houvesse acabado de morrer. Eu também me emocionei..Fora, no paredão do Kremlin, atrás do mausoléu, encontravam-se os restos mortais de vários heróis da União Soviética.

 

SÁTVA E VÓLIA

Filhas de Otávio Brandão, antigo militante comunista, primas do Senador Teotônio Brandão Vilela e do Cardeal da Bahia, Brandão Vilela, Sátva e Vólia viviam em Moscou desde meninas, havia dezessete anos. Eleito vereador pela Aliança Operária e Camponesa, no Rio de Janeiro, em 1930, Otávio Brandão perdera seu mandato, com a subida de Getúlio Vargas ao poder e a dissolução do Congresso Federal, assim como de todas as assembléias estaduais e câmaras municipais. Sem mandato, perseguido, Otávio Brandão resolveu exilar-se na União Soviética, levando a família: a mulher, poetisa Laura Brandão, e quatro filhas menores. Em Moscou ganhava o sustento da família trabalhando na rádio, escrevendo para os jornais. Terminada a guerra, em 1945, entusiasmado com a ascensão da democracia no Brasil, a anistia aos presos políticos e a legalização do Partido Comunista, Otávio Brandão regressou à Pátria. Trouxe consigo, no entanto, apenas as duas filhas mais novas. Laura morrera durante a guerra; Sátva e Vólia, estudantes universitárias, ficaram para terminar o curso. Agora, já formadas, não tinham mais condições de voltar ao Brasil, pois as conquistas democráticas de 1945 sofriam um retrocesso, o Partido voltara à ilegalidade, os seus parlamentares haviam sido expulsos do Parlamento, perseguidos e presos.

Românticas e sentimentais, essas moças haviam sido criadas no amor ao Brasil, falavam o português sem o menor sotaque. Vólia se formara em Física, lecionava na Universidade de Moscou. Sátva era geóloga, mas não quisera aceitar o trabalho que lhe fora destinado, longe de Moscou; preferira ficar na capital, com a irmã. Trabalhava na rádio e preparava um dicionário português-russo. Brasileiras que podiam ser confundidas com jovens soviéticas, francas e sinceras, por vezes ingênuas, despidas de malícia.

Enquanto almoçávamos, naquele dia, comentávamos com as moças o fato ocorrido durante o jantar: uma jovem convidara Jorge para dançar. Perguntei a Sátva:

—      Você teria coragem de tirar um desconhecido para dançar?

A resposta veio rápida:

—      Claro que sim. Ora, essa é boa! No que é que os homens são melhores do que nós? Se eles podem tomar a iniciativa, por que é que nós não podemos?

Me animei:

—      E pedir um homem em casamento? Você teria coragem?

—      Por que não? Se um rapaz me interessar... Tudo o que pode acontecer é ele não querer. Daí... paciência, nitchvó!

Vólia contou-nos, como exemplo, que sua vizinha de apartamento se apaixonara por um jovem búlgaro, seu colega na Universidade. Ele voltara da guerra com uma perna amputada e sofria muito. Ela fora dedicadíssima, cuidara dele durante muito tempo e a amizade se transformou em amor. A moça achou que o rapaz também a amava e resolveu lhe propor casamento. Ele foi sincero: disse que gostava muito dela, tinha-lhe grande carinho, mas para casar não dava. Amava Natacha, bailarina do Berioska com quem se casou. A vizinha de Vólia sofreu como qualquer outra moça, mas... nitchvó!

As meninas Brandão costumavam passar as férias ora nas montanhas, ora no Mar Negro. Sátva disse-nos preferir o mar à montanha, pois gostava de tomar banho nua na praia, para queimar o corpo.

—      E nas praias do Mar Negro as mulheres tomam banho nuas? — perguntei, curiosa.

—      As mulheres e os homens.

—      Todos juntos?

—      Bem, os homens ficam de um lado da praia e as mulheres mais adiante.

—      E há uma cerca, alguma divisão para separar?

—      Nenhuma.

—      E não há o risco dos homens irem espiar?

Admirada com a minha tola preocupação, Sátva respondeu:

—      Se eles são sem-vergonhas, eu não tenho nada com isso... Pior para eles...

Cuidadoso com a educação das filhas, Otávio Brandão não se descuidara; apesar de não entender de música, chegou a compor um samba para que as meninas, afastadas de sua terra, se familiarizassem com o ritmo mais popular do Brasil. A letra do samba de Otávio Brandão refletia o seu espírito de luta, seu pensamento político, seu radicalismo. Ao compô-lo ele buscara matar dois coelhos de uma só cajadada. Recordo-me apenas de um trecho que dizia assim: "Proletariado não esmoreça, não! / Que   a burguesia está na podridão!"

Foi ótimo aquele almoço com as duas jovens; moças de fibra, agradáveis e simpáticas, elas nos falaram de coisas que ignorávamos e que nos interessava saber. Contaram-nos sobre os terríveis dias da guerra, sobre a evacuação da população de Moscou, quando os nazistas ameaçavam tomar a cidade. A família Brandão fora mandada numa leva para os Urais. Laura, a mãe, já enferma, morrendo pelo caminho na longa e dolorosa viagem. Faleceu logo depois de chegar a Ufá.

Naquele inverno, na República Soviética da Bakíria, a 912 quilômetros de Moscou, em condições insuportáveis, sob uma temperatura de vários graus negativos, realizavam, com entusiasmo patriótico, os trabalhos mais duros, mais pesados, dando tudo de si, conscientes do que significava a defesa do socialismo. As meninas Brandão cortavam lenha na floresta, as pernas enterradas na neve até os joelhos, tendo como alimentação diária uma cebola crua e meio copo de vodca.

A mãe ficara enterrada nos Urais, mas Sátva jurou que um dia iria buscar seus ossos e assim o fez muitos anos mais tarde. Ela mesma os lavou com uma escova, um a um, com álcool e formol. Acondicionados numa maleta de mão, carregou-os consigo no ônibus, na longa e terrível viagem, cheia de baldeações, até Moscou. Enterrou-os no cemitério, deu-lhes túmulo, na lápide um verso de Laura.

Por Sátva e Vólia ficamos sabendo que cada estudante universitário era bolsista do Governo, não necessitando trabalhar enquanto estudasse; devia apenas dedicar-se ao estudo. Caso fosse reprovado, perdia a bolsa. Podia continuar seus estudos, porém pagando de seu bolso. Findo o curso, tinha emprego garantido, seria mandado para um posto de sua especialização em Moscou ou em qualquer outra parte da União Soviética, onde calhasse. Quanto à educação das crianças, o curso de dez anos era obrigatório, completamente gratuito. O Estado Soviético havia liquidado o analfabetismo.

Sátva e Vólia prontificaram-se a nos acompanhar, ir às compras, sabiam onde encontrar as coisas, nos mostrariam os museus, as bibliotecas e ainda os recantos pitorescos; conheciam e amavam a cidade de Moscou. Max pareceu não gostar da nossa intimidade com as meninas, não disfarçou seu desagrado: "Eu também conheço Moscou..." Sem ligar ao azedume de nosso intérprete, continuamos a nos encontrar com as duas jovens brasileiras. Numa tarde lhe fizemos uma visita, tomamos chá no apartamento em que viviam. Ficamos conhecendo Natacha, linda e charmosa bailarina, cujo romance com o jovem búlgaro já conhecíamos. As duas moravam num prédio antigo, que fora, havia muitos anos, um famoso hotel onde viveram, exilados, famosos dirigentes internacionais. Elas ocupavam uma peça do apartamento no qual viviam outras famílias. Naquela época, um dos mais graves problemas da URSS era a falta de habitação. O problema era justificado com o argumento, válido, de que a guerra destruíra cidades inteiras, milhares de pessoas haviam morrido, milhares ficado sem teto. A reconstrução se fazia de forma rápida mas, ainda assim, insuficiente para resolver problema de tal envergadura. Em compensação os aluguéis eram baixíssimos, cobrados de acordo com o salário de cada um, sendo que jamais ultrapassavam os dez por cento. Os moradores de quartos de idêntica dimensão pagavam aluguéis diferentes.

Vólia, a mais romântica das irmãs, entre outras coisas, nos falou com entusiasmo do Parque Gorki, um jardim em plena cidade, de suas alamedas arborizadas e, sobretudo, da "Avenida dos Namorados", atração de casais jovens. Diante do entusiasmo da moça, curiosos, quisemos conhecer o tão decantado parque e, driblando o nosso intérprete, nos tocamos com Vólia para o Parque Gorki. A moça não escondia sua satisfação ao nos mostrar as alamedas cobertas de neve, explicando que na primavera e no verão, quando tudo era verde e colorido, o encanto do lugar redobrava.

Chegávamos a uma ampla avenida, bancos de um lado e de outro, um poste de iluminação atrás de cada um. Vólia estendeu a mão, cheia de entusiasmo: "Avenida dos Namorados." O entusiasmo de Vólia, no entanto, foi cortado com uma observação de Jorge que, como eu, se decepcionara:

— Avenida dos namorados com essa iluminação toda? Para se namorar, minha filha, quanto mais escuro melhor!

Ingênua, a moça não entendeu o que o amigo insinuava: — No escuro, Jorge Amado? — exclamou espantada, — E como os namorados vão ler versos de amor no escuro?

E os namorados liam versos de amor nas praças? Isso ainda existia? Pudemos verificar depois, em várias oportunidades, que, realmente, os namorados de lá gostavam de ler juntos versos de amor — poemas de Puskin, de Maiakovski, de Essenine —, como constatamos nos trens do metrô. Não chegamos a ver casais de namorados nos jardins. Também, pudera! Com tanto frio, qual o amor capaz de agüentar bancos tão gelados?...

 

RUA GORKI, NÚMERO 8

O chofer de Ehrenburg nos apanhou no fim da tarde e nos levou à Rua Gorki, número 8, onde os Ehrenburg viviam no quinto andar de um velho edifício cujo elevador, pequeno e arcaico, transportava apenas dois passageiros para subir; a descida tinha de ser a pé pelas escadas. Lembro-me de uma visita que fizemos certa vez, em 1957, aos Ehrenburg, com Matilde e Pablo Neruda. Na despedida, desprezando os conselhos do dono da casa, Pablo teimou em descer pelo elevador, violando o regulamento do prédio, e eu, solidária, fiz-lhe companhia. Havíamos descido dois andares quando fomos surpreendidos por uma voz forte e cavernosa, vinda de um alto-falante instalado dentro do elevador, voz de além-túmulo; tudo indicava que estávamos levando uma descompostura. Não entendíamos as palavras, mas o tom era de reprimenda. Ao chegar no terceiro andar, o elevador empacou. Neruda ainda tentou prosseguir viagem, apertou repetidas vezes o botão do térreo, apertou todos os botões, sem resultado... Desembarcamos, murchos e humilhados diante das gargalhadas incontidas dos três: Matilde, Ilia e Jorge, que desciam as escadas sem nos esperar. "Não queremos nos comprometer...", gritou Ilia. Não tivemos outra alternativa senão segui-los escada abaixo, dois andares a pé, para, no térreo, juntar nossas risadas.

O apartamento dos Ehrenburg era pequeno, mas talvez, se lhe tirassem a metade dos livros e dos objetos acumulados em estantes e espalhados por toda parte, ele aumentasse bastante de tamanho e de espaço. O pequeno saguão lembrava uma sala de espera de consultório médico, com cadeiras e revistas: revistas para distrair os clientes enquanto aguardam a chamada para o exame médico. A diferença era que dessas paredes pendiam quadros célebres, como, por exemplo, o famoso Sapo de Picasso, Le Crapaud. Em lugar de doentes, o Deputado Ilia Grigorievitch Ehrenburg ali recebia eleitores que tinham votado no escritor, elegendo-o duplamente deputado, ouvindo-os quando tinham algum problema a lhe expor.

Ehrenburg acumulava funções: além de deputado à Câmara das Nacionalidades do Soviete Supremo da URSS, era também deputado do Soviete da República Federativa Russa, eleito por um distrito da antiga Prússia Oriental, incorporada à URSS após a derrota da Alemanha. Ehrenburg costumava dizer que esse distrito eleitoral lhe havia sido dado como troféu de guerra, pelos serviços prestados como jornalista correspondente na frente de batalha.

Atendia duas vezes por semana, em sua casa, a pessoas do distrito sob a sua jurisdição, para ouvi-los e, quando era o caso, resolver seus problemas, mas recebia e se ocupava principalmente com judeus, que o procuravam em grande número. Pelos dois cargos que exercia, Ehrenburg ganhava um subsídio, suficiente apenas para pagar o salário de uma secretária, que se ocupava desses assuntos parlamentares, e os honorários de um advogado que prestava serviços jurídicos aos eleitores que procuravam o deputado. Contas feitas, não lhe sobrava um único rublo, às vezes punha de seu bolso.

Conhecemos Luba pessoalmente naquela noite. Mulher elegante, de alto porte, à primeira vista parecia seca, dura, pouco acessível. Recebeu-nos, no entanto, muito bem. Reclamou de nosso intérprete, com quem se comunicara duas vezes antes de conseguir nos falar. Jorge aproveitou a ocasião para desfazer uma dúvida: queria saber de Ilia se, por alguma circunstância qualquer, havia uma ordem superior para afastar-nos das pessoas que nos procuravam, pois não somente as meninas Brandão, como vários jornalistas que o entrevistaram, haviam tido dificuldade de nos contactar. Ehrenburg respondeu que não havia ordem de espécie alguma, nem motivo para isso. Apenas uma explicação: idiotice do intérprete. Ele vivera toda a vida fora da URSS, passando dificuldades na Argentina, e agora sentia-se muito importante, dono do regime, querendo dar ordens e sobretudo se mostrar importante.

—      E se deixarem, ele derruba a Igreja de São Basílio — disse Jorge, contando o diálogo com Max, na Praça Vermelha.

Ilia balançou a cabeça, não escondeu sua indignação:

—      Mas que imbecil! Que idiota! Não sabe o que diz... Esse indivíduo não sabe nada, não manda nada! Eu conheço bem essa classe de intérpretes, eles querem dirigir a vida da gente... Às vezes uma patada não faz mal... —Dia ria, mas no fundo estava danado, disposto a falar na União de Escritores para que nos dessem outro intérprete menos sectário e mais inteligente; Jorge não permitiu.

Embalado pelo assunto ignorância e sectarismo, Ehrenburg lembrou-se de um caso recente, passado em seu apartamento, que exemplificava bem o sectarismo e a estreiteza de pensamento de certos cidadãos:

— Vocês viram o Crapaud de Picasso, logo na entrada, não? Pois há pouco tempo recebi a visita do diretor de um importante jornal, vinha me encomendar alguns artigos. Eu estava ocupado e ele teve que esperar durante certo tempo em companhia do quadro de Picasso. Quando me desocupei e fui buscá-lo, o encontrei apoplético, à beira de um ataque. "Camarada Ilia Grigorievitch", disse-me, antes mesmo de me cumprimentar, "não entendo como o camarada pendura em sua casa coisa tão monstruosa: esse aleijão é o exemplo mais perfeito da arte burguesa decadente! Nunca vi nada mais reacionário!" Então eu lhe perguntei se ele conhecia o título do quadro. "Não conhece? Pois o título é Imperialismo Americano. É como Picasso vê a política de guerra norte-americana." O importante jornalista voltou a examinar o quadro de Picasso, com outros olhos, e disse: "Esse tal de Picasso até que tem certo talento!"

Essa história divertia Ilia enormemente, mas deixava Luba furiosa; ela não tinha paciência para aturar tanta ignorância.

Bem em frente do sofá onde me sentara, encontrava-se, colocado num cavalete, um auto-retrato de Marc Chagall, o artista com uma paleta na mão. Pelas paredes do apartamento, o que mais se via eram pinturas e desenhos de Picasso, de várias fases, desenhos de Manet e de Monet, pinturas de Matisse, de Léger.

 

LIDA

Ehrenburg fez uma pausa na animada conversa, queria nos apresentar, antes que chegassem os outros comensais, uma pessoa muito especial, "a mais importante desta casa..." Foi à cozinha e voltou acompanhado de Lida, a empregada. Mulher de uns trinta anos, loira e simpática, bem-falante, Lida era quem cuidava dos afazeres domésticos e cozinhava. Ter uma empregada na URSS era coisa rara, um luxo. Em geral, marido e mulher dividiam os trabalhos caseiros, já que quase a totalidade das mulheres trabalhava fora. Casada com um dos motoristas da casa, Lida dava algumas horas de serviço, diariamente. Para ter um chofer à sua disposição a qualquer hora do dia — Ehrenburg não dirigia —, fora obrigado a contratar três motoristas que se revezavam trabalhando para ele, durante as horas vagas: cada um tinha horário diferente em seus empregos oficiais.

Tendo lido, havia pouco, São Jorge dos Ilhéus, traduzido para o russo com o título de A Terra dos Frutos de Ouro, Lida sentia-se agora emocionada ao se encontrar frente a frente com o autor do romance. Orgulhava-se de já ter preparado jantares para muitas celebridades internacionais, na casa dos Ehrenburg: "Cozinhei para eles e os vi de perto, apertei a mão deles todos...", dizia faceira. Nós éramos os primeiros brasileiros que ela conhecia e surpreendia-se de não sermos diferentes dos demais, como ela imaginara. Luba nos falou do entusiasmo de Lida, quando aparecia algum escritor estrangeiro que ela conhecia de nome ou de leitura. Esmerava-se no preparo dos pratos da cozinha russa.

 

OS CONVIDADOS E SUAS HISTÓRIAS

Os convidados da noite começavam a chegar: a primeira foi Irina, filha do primeiro casamento de Ehrenburg. Ela vinha na companhia de um irmão de Luba, cineasta, cujo nome não me recordo. Aos poucos foram chegando outros. O poeta, romancista e dramaturgo, de origem nobre, Konstantin Simonov com sua mulher, artista do Teatro Nacional, uma linda loira; Lili Brik, irmã de Elsà Triolet, russa de nascimento. Diziam à boca pequena que Lili Brik fora a inspiradora da poesia de Vladimir Maiakovski. Por ela o poeta se suicidara. Lili chegara acompanhada de seu marido Wassia. O dramaturgo Alexandre Korneitchuk e sua mulher, a escritora polonesa Wanda Wassilewska. Fadeiev chegou com Angelina, sua mulher.

Korneitchuk era Vice-Presidente do Soviete Supremo da República da Ucrânia, membro do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, membro do bureau do Conselho Mundial da Paz. Conhecêramos Korneitchuk e Wanda em Paris, num jantar com Ehrenburg. Alegre e simpático, Korneitchuk contava histórias muito divertidas e todos riam de perder o fôlego. Histórias das quais Ehrenburg e Luba nos davam um rápido resumo. Recordo-me sobretudo de uma, quando Korneitchuk se meteu a falar francês em Paris, língua da qual sabia apenas algumas palavras.

Trabalhara a manhã toda no Comitê da Paz e, ao se dar conta de que passara havia muito da hora do almoço, levantou-se e resolveu ser gentil com a secretária francesa que o assessorava, senhora respeitável, entrada em anos, convidando-a a almoçar. Achou que daria certo afrancesar a palavra "kuçhat" (em russo: "comer") para "coucher" (em francês: "deitar"), e, dirigindo-se a ela, formulou o convite: "Madame, allons coucher?" Diante da inesperada proposta, ousada mas simpática, partida de quem partia, importante personalidade soviética, e, além do mais, tão bem-posto e vigoroso cavalheiro de olhos verdes, Madame Ia Secrétaire, enlevada, não pestanejou, aceitou-à sem discutir: "Quand? Maintenant?"

Nessa noite, Fadeiev contou uma história que nos pareceu muito interessante, sobre uma velha escritora, famosa na Rússia tzarista, nos tempos de Nicolau II, autora de romances cor-de-rosa, espécie de M. Delly ou Florence Barclay moscovita.

Na voragem da Revolução ela sumira, nunca mais se soube de seu paradeiro. Seus livros deixaram de ser reeditados, é claro. Qual não foi o espanto quando, após a guerra, vieram a saber que ela ainda vivia. A União de Escritores preocupou-se com o caso e tratou de localizar a velha romancista para ajudá-la, pois, certamente, devia estar necessitada de amparo. Ela tinha direito, pelo menos, a uma pensão como escritora, profissão que exercera durante uma vida inteira. Terminaram por descobrir sua morada, e uma comissão da União de Escritores foi visitá-la, oferecer-lhe apoio.

A velhinha habitava pequeno quarto num apartamento coletivo. A comissão foi surpreendê-la refestelada numa poltrona rodeada de almofadas, num ambiente florido: flores artificiais em jarros, flores plantadas em vasos, na janela, tudo limpo, tudo bem-cuidado... A seus pés, sentadas no chão, mocinhas absortas na leitura de seus romances...

Ao ver aqueles homens a invadir sua intimidade, a velhinha sobressaltou-se, teve medo. O que significava aquilo? Tratou de se desculpar, dizendo que vivia honestamente, não recebia dinheiro... Ao saber tratar-se de gente da União de Escritores em missão de paz, tranqüilizou-se e tudo se esclareceu rapidamente.

A única coisa que a escritora conseguira salvar, quando o turbilhão revolucionário modificara a sociedade russa, do tzarismo para o socialismo, colocando fora de circulação os chamados "romances para menina-moça", fora uma coleção completa, uma única, de seus romances, noventa em total. Pois às custas dessa coleção ela vivia, e vivia como uma rainha! Não os emprestava nem os alugava: apenas permitia que moças, de quatorze a vinte e tantos anos, os lessem em sua casa, melhor dito, em seu pequeno tugúrio. Não podiam levá-los, tinham que ler ali, ao alcance de suas vistas. Não recebia dinheiro para. não violar a lei: aceitava, no entanto, presentes, sobretudo alimentos e gulodices: chocolates, biscoitos e caramelos, frutas secas e frutas frescas, que faziam seu regalo. As jovens leitoras encarregavam-se da arrumação da casa, a vestiam e a perfumavam e, mais do que isso, a adoravam. Vivia feliz.

— Isso prova — arrematara Fadeiev — que nós, escritores soviéticos, não estamos dando aos nossos leitores todo o que eles desejam e necessitam. Falta o romantismo, sem o qual a beleza da vida não é completa.

 

BEBEMOS VINHO DA ADEGA DE GOEBBELS

Durante a guerra os jornais viviam cheios de notícias referentes à adega de Goebbels, a mais famosa do mundo pela qualidade dos vinhos finos e raros, pilhados de importantes garrafeiras da Europa ocupada. Contavam-se as mais diferentes histórias sobre os saques cometidos por Goebbels para ampliar e elevar a qualidade da sua extraordinária reserva de vinhos.

Quando os russos ocuparam Berlim, confiscaram a imensa e inigualável adega e os vinhos Goebbels foram levados para Moscou.

Numa de nossas viagens à URSS, já depois da morte de Stálin, Ehrenburg nos contou que certa tarde, por ocasião do julgamento de Béria, recebeu um telefonema de ilustre cientista, membro da Academia de Ciências, seu amigo.

—      Camarada Ilia Grigorievitch? Quero lhe informar que amanhã vai haver em Moscou um acontecimento de excepcional relevância, e para ele chamo sua atenção.

—      Vai ser ditada a sentença de morte de Béria?

—      Que Béria, qual nada! Diante do que vai acontecer, a sentença de Béria não tem a menor importância. Amanhã, pela manhã, no gastronom da Praça Vermelha, serão postos a venda os vinhos da adega de Goebbels.

—      Não é possível! Tem certeza? Como soube?

—      Informação absolutamente segura. Diretamente do Kremlin.

Depois dessa, Ehrenburg não duvidou mais. E, da mesma maneira que seu amigo cientista e alguns outros privilegiados a par da excitante informação, preparou-se para comprar o maior número possível de garrafas.

Todos os vinhos da adega de Goebbels haviam sido engarrafados e, sobre cada garrafa, colado um rótulo onde se lia uma só palavra: VINO. Nem indicação de origem, nem de tipo, nem de safra. Absolutamente nada. O preço era o mesmo do vinho nacional, de venda corrente, barato.

Ehrenburg mobilizou uma equipe composta por ele, Luba, Irina, os três choferes, Licia, sua mãe e uma tia, a secretária, o irmão de Luba e ainda três pessoas, num total de quatorze. Amanheceram no gastronom da Praça Vermelha e toma a comprar vinho! Os quatorze da equipe de Ehrenburg — e os outros das equipes dos demais bem informados — compravam, levavam para os automóveis, voltavam a comprar. Tinham pressa, pois, apenas os fregueses habituais do gastronom se dessem conta de que ali estava sendo vendido um produto tão disputado, acorreriam também a comprar, sem mesmo querer saber do que se tratava.

Não tardou a que assim acontecesse; já então, porém, Ilia e seus assistentes da "operação de guerra adega de Goebbels", como ele a denominou, haviam adquirido 817 garrafas de vinho: tintos, brancos e roses. Todos com o mesmo rótulo: VINO. Nacionalidade, tipo, buquê, tudo a adivinhar.

Nós tomamos muito vinho daquelas garrafas — cada qual melhor — em sucessivos almoços e jantares, em várias ocasiões, em casa dos Ehrenburg.

O vinho era a bebida de Ilia; o vinho, o conhaque e um cálice de vodca, para acompanhar o caviar. Na mesa do almoço e do jantar, ele colocava as garrafas com o rótulo simples sem outra indicação: os brancos para os peixes, os tintos para as carnes. Tomava da garrafa e do saca-rolha e, com aquele seu sorriso cheio de malícia, de alegria de viver e de amizade, dizia:

—      Vamos ver o que nos cabe hoje!

Destampava a garrafa, aspirava o aroma, provava o vinho e completava o rótulo, dando o tipo, a origem e toda a biografia.

Foi assim que, naquele verão de 1957, tomamos vinhos da adega de Goebbels.

 

O OURO DE MOSCOU

Naquela época a URSS ainda não era signatária da Convenção de Berna para direitos autorais, não sendo assim obrigada a pagar aos escritores estrangeiros os direitos de seus livros traduzidos na União Soviética; da mesma forma os autores soviéticos traduzidos no Brasil nada recebiam dos editores brasileiros. Os soviéticos, no entanto, faziam uma concessão, pagando aos que, porventura, aparecessem por lá. Os direitos eram pagos em rublos que deviam ser gastos na URSS mesmo, sem possibilidade de serem exportados: o rublo é moeda de circulação interna.

O secretário da União de Escritores, Aplétin, o mesmo que fora nos receber no aeroporto, apareceu no hotel a fim de acertar umas coisas. No fim da tarde Jorge seria homenageado na sede da União de Escritores; precisava chegar antes dos demais convidados, a tempo de assinar o contrato de 55o Jorge dos Ilhéus — edição de 100 mil exemplares que, aliás, já se esgotara — e receber 25 mil rublos.

O contrato que Jorge assinou naquela tarde era diferente dos que ele havia assinado em outros países. Os soviéticos compravam-lhe os direitos do livro para sempre, podiam reeditá-lo quantas vezes quisessem, traduzi-lo em todas as línguas das demais repúblicas soviéticas, sem pagar mais nada. Contrato assinado em 1948, cujos termos vigoraram até quando a URSS, recentemente, aderiu à Convenção de Berna.

Ao receber a bolada, Jorge e eu nos entreolhamos e tivemos o mesmo pensamento, nos pusemos a rir: ali estava o tão falado "ouro de Moscou". O "ouro de Moscou" era uma expressão muito usada pelos anticomunistas para atacar os adversários e tachá-los de vendidos.

Ainda não fora feita a reforma monetária no país, mas os 25 mil rublos, mesmo na moeda antiga, representavam um horror de dinheiro. O problema era gastá-lo em tão pouco tempo.

Já que passaríamos ainda alguns invernos na Europa — nem imaginávamos quantos —, a prudência mandava que gastássemos parte do dinheiro em agasalhos, pois os que tínhamos eram insuficientes.

Levaram-nos à seção de casacos de um dos imensos armazéns, de vários andares, onde se podia comprar do alfinete ao automóvel, quando havia. Descobrimos, entre tantos, um sobretudo preto, pesado e grosso, forrado de cetim matelassê sobre pasta de lã, ampla gola de lontra que, levantada, agasalhava o rosto todo do freguês.

Foi amor à primeira vista: Jorge bateu o olho no casaco — ele vinha acompanhado de um gorro de lontra, igual à gola —, se encantou, comprou-o na hora, mergulhou dentro dele e já saiu vestido. Em seguida o apelidamos: o casaco ficou sendo o "Couraçado Potemkin". Nessa transa de compra de agasalhos a beneficiada maior fui eu, pois ganhei um manto de lontra: por tratar-se de aquisição de alto valor — o manto custava, teoricamente, o preço de dois automóveis pequenos —, a transação foi assistida por um técnico, especialista em peles. Escolhi o modelo e o entendido se encarregou do resto: examinou a pele, munido de lupa, por dentro e por fora, de cima a baixo, depois de ter aberto o forro. Um gorro e um regalo da mesma lontra castanha acompanhavam o abrigo. Agora sim, eu podia enfrentar até o inverno da Sibéria.

Ganhara de Luba um xale branco de lã, rendado, com o qual passara a agasalhar a cabeça. De casaco de pele e gorro tipo cossaco sobre o xale, ninguém diria que eu não era uma russa, sendo confundida na rua a toda hora; as pessoas me paravam falando-me em russo, querendo saber onde eu comprara as botas polonesas. Só podia ser isso, pois as palavras eram acompanhadas de um gesto apontando meus pés.

Luba nos prevenira sobre várias peculiaridades da vida soviética e nos aconselhara: se víssemos alguma coisa que nos interessasse, devíamos comprá-la na hora, não titubear, pois se deixássemos para decidir mais tarde, certamente não a encontraríamos mais. Os produtos chegavam às lojas e sumiam num instante. O poder aquisitivo era alto e as mercadorias escassas. Luba também nos contou como o povo era desinibido: "...eles falam com estranhos sem a menor cerimônia..." Havia uma grande curiosidade em torno de todas as novidades que surgiam à venda. O desejo de saber onde encontrá-las, a ânsia de comprá-las e de como as utilizar. Dava um exemplo: descobrira numa loja uma partida de finos tapetes búlgaros, recém-chegados, "surpresas que aparecem..." Encantada, ela começara a separar alguns, os mais belos, quando uma senhora, a seu lado, quis saber o que a levava a comprar tantos tapetes. Ao saber que Luba os utilizaria para forrar divas, dela e da filha, a mulher assombrou-se, não estava de acordo, "tapetes servem para cobrir o chão..." Atraídas pela conversa das duas, outras mulheres se aproximaram e a discussão generalizou-se: "pode cobrir diva, não pode..." O resultado foi que Luba só conseguiu levar dois tapetes para casa, em poucos minutos o estoque fora vendido, inclusive alguns que ela havia separado.

Jorge e eu também tivemos uma experiência mais ou menos igual: vimos, na vitrine de um gastronom, pilhas e mais pilhas de latas de milho verde, importado do México. Resolvemos comprar algumas latinhas para levar para Paris, onde tal produto não havia. Uma senhora que assistia à compra quis saber o que faríamos com o milho, novidade para ela. Eu comecei a explicar e, de repente, me vi cercada de gente — no meio da roda me sentia o próprio camelô —, mulheres munidas de papel e lápis tomando nota das receitas que lhes dava, de doces e de salgados; Sátva Brandão, que servia de intérprete, ela própria tomava nota das receitas, mas, quando quis comprar, já não encontrou nem uma lata para remédio.

 

OS MELHORES DO MUNDO!

Luba nos advertira que tomássemos cuidado com a bolsa, pois os ladrões andavam à solta. Admiramo-nos com essa revelação: ladrões na URSS? Que absurdo! Luba nos explicou que se tratava de uma herança da guerra. Na Rússia tzarista, proliferavam os ladrões, mas, com o regime soviético, aos poucos eles foram desaparecendo. Antes de ser deflagrada a guerra, já eram raros os casos de roubo. Mas os amigos do alheio ressurgiram durante o conflito, quando as circunstâncias terríveis, de vida ou morte, levavam as pessoas a perder qualquer escrúpulo, na ânsia de sobreviver. O Governo soviético estava tendo muito trabalho e muita paciência para terminar com eles.

As meninas Brandão também se preocuparam com a nossa bolsa. Ao sairmos juntos, elas ficavam sempre atentas, repetindo: "...olhe a bolsinha... cuidadinho com a carteira..."

Um dia quase fui roubada. Estávamos, Jorge, eu e o intérprete, numa loja de venda de pedra dos Urais e âmbar. A custo conseguimos furar a massa que se comprimia, até alcançar o balcão onde, por debaixo do vidro, encontravam-se expostas mil coisas que me interessavam. Estava eu ali, muito na minha, debruçada sobre a vitrine, quando a vendedora puxou-me pelo braço: ela vira, pelo espelho da parede atrás de minhas costas, um rapazinho tentando abrir minha bolsa a tiracolo. Outros jovens lhe davam cobertura, tratava-se de uma quadrilha. Dado o alarme, o bando sumiu na confusão.

A princípio, quando falamos com Max sobre o problema de roubos, ele tentou negar: "...o que é isso, camarada? Onde já se viu, ladrões na União Soviética?" Depois, diante da evidência dos fatos, acabou confessando, um sorriso de orgulho patriótico, um brilho no olhar: "Existem, sim. Mas lhe digo uma coisa: os ladrões soviéticos são os melhores, os mais perfeitos do mundo!"

Luba também nos contou que jamais saíam nos jornais casos de roubos, "o alarde estimula..." Quase não havia crimes passionais, a própria estrutura da sociedade colaborava para isso. Raros também os crimes crapulosos. Luba recordou um deles muito comentado no momento. Após roubar, estuprar e matar a vítima, uma jovem, os bandidos furaram-lhe os olhos. Assim agiram com receio de serem identificados, pois corria a superstição de que a última visão da vítima fica gravada na menina de seus olhos, revelando a imagem dos assassinos. "Para esses crimes nefandos não há clemência. Por isso eles são raros", concluiu Luba.

 

AINDA UMA VIAGEM

Na recepção da União de Escritores, Alexandre Fadeiev, o anfitrião, viera ao nosso encontro de braços abertos. Tinha uma boa notícia a nos dar: convidava-nos a ir à Geórgia para as comemorações dos 69 anos de Stálin, em Gori, local de seu nascimento. Viajaríamos dentro de uma semana. Entusiasmamo-nos com a notícia, iríamos conhecer a Geórgia e também a casa onde Stálin nascera, grande privilégio.

Jorge estava interessado, naquela noite, em conversar com algumas pessoas presentes à recepção, coisa praticamente impossível numa reunião social onde ele, o homenageado, devia dar atenção a todos. Entre as pessoas com quem ele tinha vontade de conversar com mais tranqüilidade estava Vera Kuteitchkova. Especialista em literatura latino-americana, Vera trabalhava no Instituto Gorki, especializado no estudo das literaturas estrangeiras; defendera tese com um trabalho sobre a obra de Jorge. Eles se correspondiam havia muito tempo, mas somente naquele dia se conheceram pessoalmente. Jorge convidou Vera a almoçar conosco no hotel, no dia seguinte, a ela e também a Nicolai Gabinski, outro estudioso de literatura de línguas espanhola e portuguesa, com trabalhos publicados sobre os livros de Jorge.

Eu me entusiasmara com a notícia da viagem à Geórgia, mas meu entusiasmo passara rápido. De repente, em meio à alegria da festa, onde todos riam, a vodca correndo e o caviar servido em profusão, me senti invadida por uma incontrolável nostalgia. Começava a me sentir cada vez mais longe de meus filhos. As saudades de Luiz Carlos tornavam-se mais agudas e dolorosas e agora se acumulavam com as de João Jorge. Preocupava-me ao imaginá-lo tão distante, nos Altos Pireneus.

No hotel, Jorge me surpreendeu chorando e tratou de me consolar falando também das saudades que sentia de Lila, sua filha, que ficara no Brasil. "Sonho com ela todas as noites..." Disse-me da falta que João lhe fazia... tanta que tinha pensado em escrever uma história para ele. Tinha até os personagens: um gato e uma andorinha que já se movimentavam em sua cabeça.

 

O GUM

Dispensamos Max naquele dia, não precisaríamos de seus préstimos. Nossos convidados para o almoço, Vera Kuteitchkova e Nicolai Gabinski, falavam espanhol e, mais do que tudo, estávamos doidos para sair sozinhos, fazer o que bem entendêssemos, andar naquela manhã soltos nas ruas, fazer compras no Gum.

Verdadeira multidão, gente de todas as repúblicas soviéticas, se comprimia dentro do enorme centro comercial, disposta a comprar fosse o que fosse, tudo o que encontrasse. Misturavam-se ali pessoas dos mais variados tipos físicos, desde os lituanos, loiros de olhos azuis, aos iacutos, esquimós morenos de olhos puxados.

O edifício do Gum, localizado próximo ao nosso hotel — havia vários deles espalhados pela cidade —, tornava-se pequeno para receber a imensa multidão que o invadia, lotando escadas e departamentos.

A indústria leve, que havia sido adaptada às necessidades da guerra, voltava agora a produzir artigos de uso doméstico, ainda precariamente, sem capacidade de atender aos reclamos da população.

Naquela manhã vimos uma coisa curiosa que nos fez rir: uma senhora, elegantemente vestida, casaco de pele, chapéu com um véuzinho caído sobre o rosto, saía da loja, carregando pela alça nada mais, nada menos do que um penico. O Gum começara a vender, naquele dia, utensílios esmaltados, e entre eles, urinóis. Como não havia papel de embrulho nas lojas, as compras eram levadas a descoberto. Nem papel de embrulho, nem máquinas registradoras. As vendedoras faziam os cálculos em ábacos, as moças das caixas manejavam as coloridas bolinhas de madeira e, com uma destreza incrível, realizavam as quatro operações num abrir e fechar de olhos.

Pessoas aproximavam-se dos que se encontravam nas filas para perguntar o que era que "estavam dando" naquele dia. Diziam "dando" e não vendendo. Aconteciam casos de indivíduos que entravam em filas sem saber qual a surpresa que lhes estava reservada mais adiante no balcão.

A seção de chapéus para senhoras, no segundo andar, estava concorrida, repleta. Curiosos de saber o que "davam" de tão atraente ali, resolvemos averiguar. Com dificuldade, aos empurrões, conseguimos entrar e chegamos a nos aproximar do balcão.

Amontoadas em prateleiras, ao alcance das mãos, encontravam-se pilhas e mais pilhas de chapéus de feltro; todos do mesmo feitio mas de cores diferentes: preto, marrom, bege e grená. Modelo antiquado, se usara no Brasil havia muitos anos, quando eu era ainda menina: aba larga levantada na frente e, atrás, na nuca, apenas a copa. Chamavam-no de "chapéu de boneca". O modelo, antiquado e deselegante para mim, para as soviéticas, no entanto, era novidade, e elas os achavam elegantes, pois os compravam com satisfação. Além da "elegância" eles ainda ofereciam uma vantagem: eram confortáveis, pois estavam providos de um elástico que, passado sob o queixo, evitava que voassem ao vento.

Espelhos ovais, de pé sobre o balcão, eram disputados pelas clientes que queriam ver como lhes ia o chapéu. Em geral, depois de uma olhadela, sem pensar duas vezes, os compravam felizes.

Detive-me observando uma das vendedoras, senhora simpática e alegre, que se esforçava por ajudar as clientes na disputa à mercadoria. Agora ela socorria uma jovem indecisa: segurando um chapéu grená, a moça parecia receosa de experimentá-lo, temendo desmanchar o penteado de cachos. Arrebatando-o da mão da freguesa, "pajalstal" — com licença! —, enterrou-o na cabeça, cabelos sobrando por todo lado, colocou as mãos, uma sobre a outra, na cintura, numa pose de manequim de vitrine, embora o espelho em que se contemplava refletisse apenas o rosto. Perguntou à cliente:

—      Harachó?

—      Harachól — respondeu a cliente, encantada, e levou a prenda.

Verdade seja dita, a vendedora ajudava as freguesas sem nenhum interesse particular, fazia-o por pura gentileza, pois não tinha nenhuma necessidade de esforçar-se, não ganhava comissão sobre as vendas, e o enorme estoque de chapéus desaparecia a olhos vistos.

Sufocado em meio a tanta gente, impaciente, Jorge resolveu sair. Eu quis ficar ainda um pouco, iria encontrá-lo em seguida lá fora. Estava interessada no desfecho de uma disputa entre mãe e filha, uma jovem senhora e uma menina de uns dez anos, não mais do que isso. Forçando-a a olhar-se no espelho, a mãe tentava convencer a filha de que o chapéu, que lhe enterrara até os olhos, ia-lhe às maravilhas.

Relutando em aceitar o chapéu e a opinião da mãe, a menina se mirava no espelho, fazendo caretas horríveis.

Divertia-me com a cena quando Jorge voltou, inesperadamente, trazendo um sorvete em cada mão:

—      Vá se divertindo com esse marójna — disse "marójna" com a maior satisfação — e me encontre depois, ali ao lado... — Saiu feliz da vida, lambendo o sorvetão.

Ao entrarmos no Gum estranhamos ver tanta gente tomando sorvete, em pleno inverno. Sorvetes enormes, cremosos, substanciosos, cada um valia por uma refeição. Vimos uma placa: MARÓJNA, e uma seta indicando o local de venda. Não havia dúvida de que "marójna" significava sorvete, pois o povo que se acotovelava diante do balcão indicado pela seta saía do aperto vitorioso, de sorvete em punho. O danado do Jorge, pensei orgulhosa, conseguira comprar dois!

A peleja entre a mãe e a filha prosseguia. A menina era obstinada e possuía, a meu ver, inato bom gosto. Eu torcia por ela. Não adiantou nem a opinião do pai, um militar, o peito cheio de condecorações. Calado até então, sua intervenção fora curta, não passara de uma única palavra aprovando o chapéu: "Harachó!" Mas nem assim a menina se convenceu: arrancou-o da cabeça e, rebelde, atirou-o sobre o balcão.

Satisfeito o meu interesse, saí à procura de Jorge. Fui encontrá-lo num departamento ao lado, onde vendiam, como verifiquei, roupas e artigos femininos. Consegui localizá-lo, rodeada de mulheres, jovens e velhas, feias e bonitas, encantadas com ele. Ao divisar-me em meio a tanta gente, me chamou:

—      Zélia, vem cá, veja se convence a burra desta mulher a me vender um pijama. Não sei por que ela se recusa...

A situação era cômica: Jorge insistindo em comprar, para ele, um pijama e a vendedora recusando-se a vender um pijama de mulher a um homem. Ignorando tratar-se de roupa feminina e sem atinar com o motivo da resistência da vendedora, Jorge insistia por meio de gestos, repetindo uma ou outra palavra em tcheco, palavras soltas sem sentido, que aprendera havia pouco, provocando hilaridade entre as mulheres.

Ao ver-me ao lado do freguês teimoso, a vendedora tratou de reconsiderar sua atitude, afinal de contas o estrangeiro bem podia estar querendo comprar o pijama para sua mulher... Perguntou-me se era para mim, pois não podia vender uma calça sem braguilha para um homem... Mostrava a nós dois a frente das calças sem abertura, fechadinha de baixo a cima. O mistério, finalmente, fora desvendado. Ou Jorge já se dera conta havia mais tempo e apenas se divertia? Não duvido.

Voltando-se para a vendedora, Jorge puxou o dinheiro para pagar. Levaria o pijama de qualquer jeito: me ofereceria de presente, mesmo sabendo que eu jamais o usaria, pois lhe dissera que nunca vira coisa mais horrível, mais deselegante. Mas capricho é capricho!

AINDA UMA FILA

Havíamos demorado até as duas da madrugada em casa do escritor Boris Polevoi; Júlia, sua mulher, nos preparara um jantar tipicamente russo, onde não faltaram o borsh, os blinis de caviar, os pirojkis de galinha e de carne, sem contar as entradas obrigatórias, que por si sós já constituem uma ceia: salmão, caranguejo, peixes defumados, e, claro, caviar.

Entre os escritores convidados, estava Konstantin Feedin, autor de um livro que eu lera e do qual gostara muito: As Cidades e os Anos. A noite transcorrera animada, alegre, e, em meio a tostes e histórias divertidas, as horas haviam passado rapidamente.

O automóvel nos esperava, o motorista acordou estremunhado ao notar nossa presença. A cidade encontrava-se coberta de neve, as ruas desertas, um ou outro carro passava lentamente. O chofer nos conduzia em silêncio; a vodca, que tanto nos animara pouco antes, começava agora a nos embalar, o sono nos invadia.

Aproximávamo-nos do hotel, quando, numa avenida larga, nossa atenção foi despertada por uma longa fila que se estendia por todo um quarteirão, dobrando a esquina. Curiosos, tentamos arrancar do chofer uma informação sobre o significado daquela fila ali, à espera, de madrugada. À espera de quê? Não conseguimos saber nada, pois ele só falava russo.

O comércio de Moscou abria suas portas depois das dez da manhã. O que teria levado tanta gente, debaixo de neve, curtindo um frio de rachar, a ficar de plantão, pacientemente, na rua? Fomos dormir intrigados.

Pela manhã, pedimos a Max que nos desse uma explicação, mas ele também não sabia de nada. Diante de nossa curiosidade e da nossa insistência, saiu conosco em busca de informações. Lá estava a fila ainda mais longa, quarteirões afora. Ali mesmo nos disseram que aquele povo todo estava aguardando que a livraria abrisse. Saíra na véspera, no jornal, um aviso de que se iniciariam, naquela manhã, as inscrições para a venda antecipada da coleção das obras de Gogol, uma edição de 400 mil exemplares, a ser lançada daí a um mês.

Fatos como esse, por nós testemunhados, revelando tamanho interesse pela cultura, nos empolgavam e nos levavam a não dar maior importância às dificuldades e limitações da vida soviética.

 

ENTRADAS PARA O BOLSHOI

Viajaríamos na manhã seguinte para a Geórgia. Mesmo tendo de acordar muito cedo, não quisemos perder a oportunidade de ir ao Teatro Bolshoi, naquela noite, assistir ao bale Romeu e Julieta, dançado por Galina Ulanova. Amada pelo povo soviético, Ulanova se apresentava raramente, e a notícia de um balé dançado por ela constituía-se num acontecimento. Todos queriam vê-la, o Bolshoi fazia-se pequeno para conter os que desejavam aplaudi-la. As meninas Brandão, comentando esse fato, acrescentaram que jamais haviam conseguido ingressos para assistir a uma apresentação da genial bailarina. Por isso, quando Max nos falou que a Inturist — organização de turismo — nos mandaria ingressos, perguntamos se não seria possível conseguir mais dois; faríamos a felicidade das duas amigas brasileiras. Max mostrou-se pessimista, explicou que seria impossível, assim à última hora. Não conseguira ingresso nem para ele, razão pela qual teríamos de ir sozinhos. Nesse momento chegou Aplétin; vinha combinar detalhes da viagem do dia seguinte. Ao saber que desejávamos ainda dois ingressos, o secretário da União de Escritores ficou de ver se os obteria com a Inturist e daria a resposta mais tarde. As meninas Brandão iriam almoçar conosco e ficariam de sobreaviso, caso Aplétin tivesse êxito nas démarches.

Na hora combinada, as irmãs chegaram. Vólia vinha toda elegante de chapéu tipo boneca, dos que víramos no Gum. O elástico apertado sob o queixo causava-lhe uma papada que normalmente a moça não possuía.

Ao vê-la assim, toda enchapelada, Jorge não se conteve:

—      Não é possível! Você também comprou o chapéu! Por favor, Vólia, não use essa coisa medonha!

Espantada com a franqueza do amigo, a jovem não conseguia entender nada.

—      Não está achando bonito o meu chapéu, Jorge Amado? Pois é a ultima moda, a grande novidade em Moscou... Comprei ontem, já não há mais... Uma colega da Universidade gostou do meu, hoje foi comprar e não encontrou mais, havia terminado...

Jorge pôs-se a rir:

—      Pois aproveite a ocasião e negocie o teu, Vólia Otavióvna!

Venda-o rapidamente à tua colega...

A sinceridade e a graça com que ele dizia o que pensava e o inesperado do patronímico que empregava pela primeira vez impediram que a moça se ofendesse. Ela também ria, entrara na onda da galhofa:

—      Pois eu gosto muito do meu chapéu: é bonito e confortável, pode bater o vento que for e ele fica firme na cabeça... Não vou negociá-lo de jeito nenhum... — Vólia fez uma pausa antes de recomeçar: — Me diga uma coisa, Jorge Amado: como é que sabe que sou Otavióvna? Foi Sátva quem contou?

—      Ninguém me contou — respondeu Jorge. — Você não é por acaso filha de Otávio? Pelas regras russas, pelo que sei, você e Sátva são duas Otavióvnas... Coisa mais do que sabida! Mas não vamos mudar de assunto, continuemos falando das modas russas.

A brincadeira ainda rendeu muito, Sátva só fazia rir. Ela me confidenciou que também não gostara do chapéu, mas não dissera nada para não desagradar à irmã.

O telefone tocou e Max apressou-se a atendê-lo. Voltou com a resposta do secretário Aplétin: infelizmente ele não conseguira as entradas. Ainda uma vez as meninas Brandão deixavam de ver a Ulanova.

 

MALANDRO VELHO

Já estávamos prontos para o teatro quando Max despontou acompanhado da mulher. Contou-nos uma história muito atrapalhada de como conseguira os dois ingressos e pediu-nos que não comentássemos com Aplétin sobre sua ida e a da mulher conosco ao teatro.

Em frente ao Bolshoi o povo se comprimia. Dezenas de pessoas passavam perguntando: "bilét?" "bilét?" Afinal de contas, o que significava aquilo? Estariam, por acaso, tentando vender entradas no câmbio negro? Em realidade, tratava-se de indivíduos que, sem conseguir comprar bilhetes — ou "bilét", como diziam —, iam aventurar na porta do teatro, na doce esperança de encontrar alguma desistência de última hora, coisa difícil mas não impossível de acontecer.

Nossas poltronas eram bem localizadas e, estranha coincidência, os quatro lugares juntos.

 

PLUMA OU MULHER?

O povo que lotava o Bolshoi naquela noite era o mais variado possível: pessoas que pelo aspecto me pareceram operários ou camponeses, oficiais fardados, homens e mulheres bem e mal vestidos, algumas senhoras ostentando toaletes de soirée (havia uma cujo veludo adamascado do vestido era idêntico ao das cortinas do teatro), outras vestidas simplesmente de saia e blusa. Trajes diferentes mas em todos, ou em quase todos, o mesmo adorno: medalhas penduradas no peito.

Chamara-nos a atenção, desde o início de nossa estada na URSS, o número imenso de pessoas condecoradas, usando medalhas noite e dia, parte obrigatória da indumentária. Não se tratava apenas de oficiais condecorados, o que seria explicável devido à guerra, mas de homens e mulheres de todas as classes.

Ainda uma constatação nossa: na União Soviética era quase impossível classificar um indivíduo por sua aparência. Por exemplo, o cavalheiro bem vestido, sentado duas fileiras adiante de nós, aplaudindo entusiasticamente a bailarina, não era outro senão um padre da Igreja Católica. Fomos apresentados no intervalo, tratava-se de um sacerdote progressista, "...uso batina apenas na igreja...", disse-nos ao julgar que eu me admirava de vê-lo à paisana. Eu estava mesmo admirada, pois naquela época não havia essa de padre e freira andarem sem batina, sem hábito. O padre convidou-nos a ir à sua igreja fazer-lhe uma visita, se quiséssemos assistir a uma missa...

Agradeci o convite, mas só fui à sua igreja muitos anos depois, levando minha amiga e companheira de viagem, Norma Sampaio, que ouvira tanto falar que na URSS não havia igreja católica e queria ver "com os próprios olhos" uma funcionando na União Soviética.

Ao entrarmos no teatro, como de hábito, dirigi-me ao guarda-roupa para deixar meu casaco. A mulher de Max, argentina, simpática, não cabia em si de alegria, chegou a me agradecer a oportunidade... Ela levara, como tantas outras mulheres, adornos para colocar no vestido. Ainda uma vez me diverti assistindo às manobras do tira botas, calça sapatos, coloca flores no vestido, coloca flores nos cabelos, das mestras em transfiguração nos garde-robes dos teatros.

Quando as luzes se apagaram e as cortinas se abriram, dei-me conta de que assistiria, realmente, a um espetáculo completo: cenários deslumbrantes, músicos da mais alta categoria.

Ansiosos, aguardávamos a entrada em cena de Galina Ulanova, quando ela despontou, diáfana e bela. A platéia no mais profundo respeito, emocionada, acompanhava quase sem respirar, num suspense, os movimentos do esguio corpo, flexível e leve. Seria um ser humano ou uma pluma solta em loucas piruetas e saltos fantásticos, encarnando a figura de Julieta? Emocionada, contive as lágrimas a duras penas, nunca vira nada tão belo.

 

ENTREATO

Os intervalos no Bolshoi são longos. Todos se levantam e, em geral, vão diretos ao bar, um amplo e bem sortido bar, repleto de mesinhas e cadeiras, enormes balcões onde são servidos pratos feitos, sanduíches, doces, cerveja, limonada, sorvetes, etc... Ali costuma-se jantar, já que a maioria das pessoas sai direto do trabalho para o teatro, que começa, como já foi dito, às sete horas. Depois de se alimentar, o público ainda tem tempo de passear pelos largos corredores; algumas mulheres desfilam sua elegância, outras param diante dos retratos de artistas célebres, pendurados nas paredes, muitas visitam o museu do teatro, onde está exposto tudo quanto se relaciona com as representações do Bolshoi desde o seu início. Por lá se distraem até que o sinal de chamada os convide a entrar.

Pretendíamos deitar cedo, preocupados com a viagem na manhã seguinte. Por isso, resolvemos comer qualquer coisa no teatro mesmo, num dos intervalos, dispensando assim o demorado jantar no hotel, depois do espetáculo.

Max mostrou-se surpreso e bastante decepcionado ao saber da nossa intenção. Fizera planos de levar a esposa para jantar conosco naquela noite. Inconformado, insistiu, garantindo que conseguiria com o mattre do restaurante que nos servissem com rapidez. Ao dar-se conta das manobras do intérprete, Jorge, que já estava bastante irritado com a sua esperteza desviando as entradas destinadas às meninas Brandão para ele próprio e para a sua mulher, foi irredutível: comeríamos um sanduíche ali mesmo, nada de jantar! Depois do teatro iríamos dormir.

Já que ele convidara a esposa, que fossem os dois sozinhos, e pagassem a conta, pois Jorge não estaria lá para assinar a nota. Max que se desse por feliz de não levarmos o assunto das entradas a Aplétin. Não iríamos criar um caso, mas ficaríamos atentos para evitar que ele tentasse novamente nos enrolar. Ficáramos decepcionados e aborrecidos.   

 

INTÉRPRETES

O sucesso ou o fracasso, o prazer ou o desprazer de uma viagem depende muitas vezes dos intérpretes que nos acompanham. Pessoas servidas por guias incompetentes ou desagradáveis se chateiam, não aproveitam a viagem, levam a pior impressão de um país — muitas vezes falsa —, ao passo que outras, acompanhadas por um bom guia, realizarão uma viagem proveitosa, terão as mais gratas recordações.

Com a experiência de tantos anos, Jorge e eu podemos, sem dificuldade, distinguir o mau do bom acompanhante apenas lhe botamos os olhos em cima. Em nossas caminhadas por esse mundo de Deus tivemos intérpretes ótimos, bons, medíocres, péssimos e também pitorescos.

Por exemplo, Kuchválek, na Tchecoslováquia, foi um maravilhoso e eficiente tradutor e guia, tornou-se um amigo querido, até o fim de sua vida.

Camarada Anna, na Polônia, responsável, correta, boa companheira de viagem, apesar do sectarismo que a limitava.

Marina Kostrissin e Ludmila Novíkova, que estiveram ao nosso lado em diversas visitas à União Soviética, pessoas de alto gabarito intelectual e humano, tornaram nossas estadas na URSS produtivas e agradáveis.

Gentil e prestimosa, Natacha nos fez companhia no Transiberiano — verdadeiro hotel a correr sobre trilhos —, de Moscou até Irkutsk, na Sibéria, na ocasião em que Jorge recebeu, em 1952, o Prêmio Internacional Stálin da Paz.

Prêmio Internacional Stálin, concedido em dezembro de 1951, entregue em janeiro de 1952, Jorge, nessa ocasião, foi brindado com duas acompanhantes: Alexandra Petróvna, importante quadro do Partido soviético, responsável pelo programa e por tudo que se relacionava com a estada do premiado na União Soviética, e a jovem Natacha, tradutora de espanhol. Alta, forte e morena, Alexandra Petróvna tinha um porte militar — durante a guerra servira no Exército —, contrastava com Natacha, frágil e loira.

Alexandra Petróvna e Natacha nos acompanharam nos cinco dias de viagem até Irkutsk, onde tomaríamos o avião para a China. Nicolás Guillén, o grande poeta cubano, e Rosa, sua mulher, faziam essa viagem conosco. Recordo-me de que antes de deixarmos o hotel, em Moscou, quando as malas já haviam sido levadas para o carro, Alexandra Petróvna nos fez sentar por alguns minutos» confortavelmente, na sala. "É uma superstição que tenho... Jamais saio afobada para iniciar uma viagem..." Ria ao nos explicar a sua cisma. Ela era o que se pode chamar de uma mulher sacudida, capaz e bem-disposta. Logo ao conhecê-la, Jorge nomeou-a marechal e ela gostou da brincadeira, tinha senso de humor.

Nas paradas do trem, nas estações siberianas, o frio cortando lá fora, temperatura de 36 graus negativos, ela nos fazia descer à plataforma a fim de respirar o ar puro. No escorregadio chão de gelo, o "Marechal" rodopiava conosco: "... precisamos fazer exercício para não congelar..." Arrastava Jorge que, tolhido dentro de seu sobretudo, o famoso "Couraçado Potemkin", esforçava-se para não levar uma queda ao acompanhar os rápidos passos do corrupio daquela mulher poderosa. Poderosa, jamais conseguiu, no entanto, convencer Guillén e Rosa a sair do trem; ao contrário, em cada parada o casal encolhia-se no compartimento fechado, Nicolás apavorado, com medo de um resfriado, doença que mais temia no mundo.

Em Irkutsk, despedimo-nos de Natacha e do "Marechal", com emoção. Elas choravam.        

 

INTÉRPRETES CHINESES

Em duas viagens à China, em 1952 e em 1957, tivemos vários intérpretes e guias, um melhor do que o outro.

Na primeira viagem nos acompanharam Liú, professor de francês, pessoa culta, delicada, atenciosa. Liú morreu num desastre de avião, em 1956, ao retornar do Brasil, onde estivera com a Ópera de Pequim.

Chun falava apenas algumas palavras de espanhol: fora designado pela União de Escritores para atender, sobretudo, a Rosa Guillén, que solicitara um intérprete de sua língua materna, a única que falava e entendia.

Naquele tempo, na China Popular, eram raras as pessoas que dominavam o espanhol e o português, línguas distantes, cujo ensino apenas se iniciava. Chun viera de se inscrever num curso de espanhol, tivera apenas umas poucas aulas, mas aceitou alegremente, sem discutir, a missão que lhe ofereciam.

Foi assim que apareceu no hotel, no fim da tarde, um jovem sorridente, de alto porte, pouco comum num chinês, que se dirigiu a Rosa:

— Buenos dias, camalada Losa.

O belo e bondoso rosto de Rosa Guillén se iluminou:

—      Pero que bien habla! Ahora si... puedo hablar y entender...

O conhecimento da língua espanhola de Chun não foi além daquela frase. Em compensação, revelou-se de uma eficiência a toda prova. Juntou-se ao grupo, utilíssimo, parecia adivinhar nossos pensamentos.

Era Chun quem se encarregava de mandar revelar os negativos dos filmes, vários, das fotos que eu tirava durante os passeios do dia. Levava os rolos à tarde, quando se ia, e pela manhã aparecia, todo risonho, acenando com os envelopes cheios de fotos, anunciando em seu parco espanhol com acento chinês: "Fodos, fodos!..." Ríamos todos e nos assombrávamos com a rapidez do serviço: alguns laboratórios de Pequim trabalhavam 24 horas por dia.

Na sua mania de distribuir postos militares, Jorge deu ao espigado intérprete a patente de general. Passamos a tratá-lo de "General" Chun.

A princípio Chun não entendeu a brincadeira:

—      General, por quê?

Acabou se acostumando com o apelido e, durante os dois meses que passou em nossa companhia, algo aprendeu do espanhol de Cuba e até palavras de português.

Às vezes, recordando nossa primeira viagem à China, Jorge e eu nos perguntamos: por onde andará o "General" Chun, que foi feito dele, como teria atravessado as tormentas que agitaram e comoveram a China de Mao?

 

O DISCRETO FONZA

Na segunda viagem à China, em 1957, em companhia de Matilde e Pablo Neruda, tivemos o mais extraordinário dos intérpretes, o discreto Fonza.

Entrávamos na China pelo Sudoeste, vínhamos da Birmânia; nosso avião fazia a rota entre Rangum e Kuo-Ming, onde saltamos. No aeroporto, uma comissão de intelectuais nos aguardava, sendo que alguns vindos de Pequim, entre eles o famoso poeta Hai-Chin e um intérprete de língua francesa.

Eu conversava com o intérprete no saguão do hotel, querendo que me ensinasse a dizer em chinês bom dia, obrigada, até logo, etc, coisa (pie costumo fazer ao chegar a um país de língua desconhecida para mim. Aprendo as palavras escrevendo-as foneticamente. Em 1952, quando estivemos na China pela primeira vez, aprendera aquelas palavras mais necessárias, mas havia muito que as esquecera. De caderno aberto eu ia tomando nota e repetindo em voz alta o que o intérprete ditava, quando Neruda, sentado a uma certa distância, pediu-me que indagasse do tradutor qual era seu nome. Perguntei em seguida, apontando-o, e ele prontamente respondeu algo que soou aos meus ouvidos como: Huan-Zã. Nome mais estranho!, pensei. Pedi-lhe que o repetisse para que todos ouvissem bem e o decorassem; Neruda declarou logo que jamais conseguiria repetir nome tão difícil. Nem ele, nem Jorge. Mas Pablo não era homem de se apertar e resolveu dar um jeito; riu, adorando o apelido que acabara de inventar para o rapaz:

—      Vou chamá-lo Fonza, muito mais fácil de pronunciar.

Durante os dois meses de nossa estada na China, era só Fonza pra cá, Fonza pra lá e nosso amigo atendendo prontamente ao ser chamado, respondendo sempre sorridente. Somente no fim da viagem, quando já estávamos de partida, foi que, de repente, durante um ato público, num teatro de Pequim, onde Jorge e Neruda tinham um encontro com intelectuais e leitores, em meio ao burburinho da sala repleta, Fonza criou coragem e perguntou-me timidamente:

—      Diga-me, camarada, por que é que me chamam de Fonza?

Expliquei-lhe, então, que seria difícil, para Pablo e para Jorge, pronunciarem seu verdadeiro nome: Huan-Zã. Dificílimo, impossível! Ao ouvir o que eu lhe revelava, Fonza arregalou os olhos, assombrado:—   Mas... Que absurdo! Que disparate! Meu nome é Li! Huanzan quer dizer mosquito! — Recobrado da surpresa, agora ria: — No dia da vossa chegada, quando a camarada me fez a pergunta, apontou para um mosquito pousado em meu braço, me recordo bem, pensei que desejasse saber como se diz mosquito em chinês...

 

UM PANDA NA BAGAGEM

Em 1957, ao saber que embarcaríamos para o Oriente, Paloma, nossa filha que acabara de completar seis anos, abriu no berreiro: "...eu também quero ir... eu vou!" Nada a convencia nem a consolava, queria ir conosco, fosse como fosse, não aceitava explicações. Queria porque queria e pronto!

Jorge acabara de receber uma revista chinesa cuja capa ostentava a fotografia de um filhote de panda, tão lindo que nos encantou e pôs as crianças doidas. Jorge teve uma idéia:

—      Se você parar de chorar eu te trago um pandazinho igualzinho a esse de presente.

Uma boa promessa opera milagres. Paloma de triste ficou alegre, a manha passou.

—      Traz mesmo, paizinho?

—      Prometido.

Partimos do Rio de Janeiro para Colombo, no Ceilão, onde Jorge participou de um Congresso da Paz, e de lá seguimos com Matilde e Pablo Neruda para a China, visitando antes o Paquistão, a índia e a Birmânia.

Os dois intérpretes postos à nossa disposição eram: Fonza, professor de francês, e Hu, tradutor de espanhol, ambos simpáticos, cultos e educados, sempre atentos para que nada nos faltasse. Manifestamos o desejo de que em nosso programa em Pequim fosse incluída uma visita ao zoológico, cuja fama corria mundo. Interessava-nos, sobretudo, conhecer os pandas, animais raros, raça em extinção nas montanhas do Himalaia. No zôo de Pequim a grande atração era exatamente o casal de pandas, capturados ainda pequenos: magníficos espécimes, realmente espetaculares! Também interessados nos pandas, os Neruda aderiram ao programa. Matilde e eu, de máquinas fotográficas em punho. Nesse dia apenas Hu nos acompanhou.

Em enormes compartimentos de vidro, grosso de um palmo, encontravam-se separados os gigantescos pandas. Um veterinário do zoológico veio, gentilmente, nos dar explicações sobre os animais e seus hábitos. Apanhados nas montanhas geladas, ainda filhotes, viviam isolados naquelas redomas de vidro, climatizadas com a temperatura do Himalaia, teto do mundo, de onde haviam chegado.

—      São tão ferozes — explicou o doutor — que ninguém pode se aventurar a entrar nas jaulas, nem mesmo os tratadores. Seria por demais arriscado. São alimentados com brotos de bambu e ervas do Himalaia, colocados aí dentro através dessas pequenas janelas. A limpeza também é feita pelas mesmas aberturas, utilizando-se mangueiras e jatos d'água.

Depois de ouvir atentamente a explicação, Jorge perguntou:

—      E os filhotes onde estão?

—      Infelizmente, no nosso zoológico, não há filhotes de panda.

Temos a esperança de que este casal se reproduza em cativeiro.

—      Coitadinha de Paloma — comentei com Jorge —, vai ficar muito decepcionada. — E, passei a fotografar os pandas.

Apenas o veterinário deu as costas, Jorge perguntou a Hu:

—      Onde seria possível conseguir um filhote? Eu o compraria, sem discutir preço. — Falava compenetrado, o ar sério. — Prometi um filhote de panda à minha filha e não quero faltar com a palavra... Preciso arranjar um, de qualquer jeito.

Percebendo que o compadre se divertia, Pablo se animou, interessado na brincadeira, gozando a reação do ingênuo Hu, que, de olhos arregalados, parecia não acreditar em seus ouvidos.

—      Comprar um filhote? O camarada não ouviu o veterinário dizer que não há filhotes? Mesmo que houvesse...

—      É uma pena, Hu. Já que não existem filhotes eu vou ter que me contentar com um adulto...

—      Um adulto?

—      Que remédio! Se possível a fêmea... mais dócil...

—      Que bárbaro! — riu Matilde.

—      Impossível! Absolutamente impossível! — declarou Hu, sem sequer imaginar que aquele escritor famoso, Prêmio Internacional Stálin da Paz, pudesse estar brincando.

—      E se voltássemos à noite? — prosseguiu Jorge, cada vez mais sério. — Talvez de madrugada... Que acha? Molharemos a mão do vigia, escorregando-lhe uns ienes... Levaremos o panda para o hotel e o colocaremos na mala grande de Pablo, onde ele guarda as telas chinesas

e as esculturas hindus, que andou afanando por aí...

Caímos na gargalhada. O camarada Hu manteve-se sisudo, não entendia que se pudesse pilheriar com coisas tão sérias como os pandas, orgulho do zoológico de Pequim, e com o poeta Neruda, orgulho da poesia mundial. Quanto a Paloma, teve de contentar-se, coitadinha, com as fotos que fiz e, não é pra me gabar, ficaram ótimas, à altura dos modelos belíssimos.

 

TRIFON

Em realidade, Trifon — jovem, risonho, entusiasta, ruivo e sardento — não era intérprete e sim chofer do automóvel posto à nossa disposição pela União de Escritores Búlgaros em Sofia. O intérprete, propriamente dito, era um escritor, homem culto e atencioso porém fraco; deixava-se dominar por Trifon, que resolveu tomar conta de nossa vida, comandando os programas a seu bel-prazer. Sem rios consultar, levava-nos a restaurantes de sua preferência, escolhendo os pratos e os vinhos, metendo o bedelho onde não era chamado. Encabulado com as intromissões do motorista, o tímido escritor, contudo, não reclamava. Abdicava de sua autoridade, tolhido pelo desconhecimento ou, antes, pela má interpretação dos que pensam que regime socialista é bagunça, cada qual faz o que quer e bem entende. Deixava-se levar, temeroso de ser tachado de reacionário, palavra que urde como fogo, pecha atirada muitas vezes contra aqueles que se atrevem a corrigir erros, um tapa-boca bastante usado.

De asas soltas, Trifon, como já foi dito, só fazia o que lhe dava na telha. Em primeiro lugar cuidava de seus interesses, de suas maluquices.

Encontrávamo-nos, certa vez, em trânsito por Plovdiv, a caminho de Dimitrovgrad, pernoitáramos na parte velha da cidade, onde a antiga arquitetura primava pela originalidade: as casas de três, quatro andares aumentavam de dimensão à proporção que subiam. Sobre a pequena base quadrada, os andares alargavam-se pelos quatro lados como se fossem caixas sobrepostas, as maiores sobre as menores.

Pela manhã, já prontos para seguir viagem, todo mundo dentro do carro, Trifon resolveu exibir-se para linda jovem debruçada numa janela. Calcou o pé no acelerador e, em alta velocidade, pôs-se a dar voltas no quarteirão, parando de repente em estrepitosas freadas diante da moça que se divertia com a brincadeira; Trifon dizia-lhe coisas, ria muito e, sem dar confiança aos três idiotas dentro do carro, repetia a operação voltã-no-quarteirão-em-alta-velocidade, em freadas, piadinhas e gargalhadas... O rapaz divertia-se sem dar mostras de pretender desistir tão cedo do arriscado circuito. Vendo que o intérprete não se manifestava, não tomava nenhuma providência para dar fim àquele descalabro, Jorge tomou a iniciativa, estrilou, fazendo o incorrigível galã abandonar a brincadeira.

De outra feita, atrasou nossa viagem, obrigando-nos a esperá-lo com a bagagem na porta do hotel. Trifon sumira, ninguém sabia dar notícias dele. Apareceu uma boa hora depois, explicando, na maior tranqüilidade, que fora despedir-se da namorada, conquista amorosa da véspera, e, não querendo incomodá-la, esperara até que ela acordasse.

Trifon jamais nos deixava na porta dos locais onde éramos aguardados, sobretudo quando se tratava de entrevistas de imprensa, encontros com escritores, almoços e jantares. Estacionava o carro em local estratégico, perto ou distante, pouco lhe importava, saía rápido em nossa frente para ser o primeiro a entrar e a sentar-se no melhor lugar.

Verdade seja dita, Trifon, vivo e inteligente, prestava muita atenção às entrevistas e aos debates e vibrava com as respostas de Jorge. Os assuntos tratados — as ameaças à paz mundial, a vida dos povos da América Latina e em particular do povo brasileiro — se repetiam em todos os encontros e, obviamente, perguntas e respostas também se repetiam. Rapidamente" Trifon ficou por dentro dos problemas da guerra fria, tornou-se doutor em América Latina. Não tardou, passou a adiantar-se e a responder em lugar de Jorge, sem lhe dar tempo de abrir a boca. Devo convir que não lhe faltava vocação para orador.

Pitoresco, sem dúvida, mas excessivamente irresponsável, fez-nos perder a paciência por mais de uma vez, levando Jorge a pedir a intervenção do intérprete. Crítico literário de notória importância nas letras búlgaras, nosso acompanhante explicou-nos por que não intervinha, expondo irrespondíveis razões políticas:

— Estamos num país socialista, sob o comando da classe trabalhadora. Aos trabalhadores e não aos intelectuais compete dirigir. — E acabou-se.

Não estávamos a fim de discutir sua curiosa tese marxista e, assim sendo, Trifon dirigiu nossas vidas até a volta à encantadora cidade de Sofia.

 

CAROL ASSOBIA

Seu nome era o mesmo do ex-soberano: Carol. Rapaz alto, moreno, bem-apessoado, pontual, eficiente e atencioso, nosso intérprete romeno seria perfeito, não fosse a mania de assobiar. Era um campeão do assobio e sentia orgulho de sua habilidade, de sua "arte", como gostava de designá-la. Fazia-nos demonstrações de trinados e de agudos. Em matéria de resistência e fôlego não havia quem o vencesse.

Numa viagem de trem, de Bucareste a Constantza, no Mar Negro, Carol deu vazão a seu virtuosismo, assobiando todas as árias de óperas que conhecia, e, infelizmente, conhecia muitas. Viajávamos numa composição especial, que fora privativa do Rei Carol: vagão amplo, poltronas giratórias e reclináveis, divas, bar, tapetes pelo chão, conforto absoluto. Mesmo assim, antes de alcançarmos metade do caminho, Jorge não via a hora de chegar. Já não agüentava mais tanto assobio a ferir-lhe os tímpanos, tanta ópera a secar-lhe a paciência. Em sinal de protesto, trancou-se num silêncio sepulcral, cara amarrada, sem esconder sua repulsa pela "arte" do acompanhante.

Na preocupação de não ofender o rapaz, querendo contrabalançar o patente mau humor de Jorge, redobrei de atenções, comentando as músicas que o compenetrado artista, simplório e entusiasta, executava.

Esses meus cuidados com o pobre-diabo fizeram, no entanto, piorar ainda mais a situação: se Jorge já estava de mau humor, ficou uma fera comigo, amarrou ainda mais a cara, fuzilou-me com um olhar cheio de acusações as mais pesadas.

Alheio ao que se passava, o assobiador prosseguiu, sem dar mostras de cansaço, até esgotar seu estoque de árias de óperas. Quando Jorge pensou que o concerto havia terminado, nosso herói anunciou:

—      Agora vou assobiar uma música que deve lhes dizer algo de particular. Prestem atenção!

Terminados os floreios da introdução, reconheci a música, cantada por Carmem Miranda num filme americano de 1940, Uma Noite no Rio.

—      Já sei... Uma Noite no Rio, não é?

Cresceu a empolgação de Carol que, sem interromper o assobio, assentiu com a cabeça. Danado da vida, Jorge fechou os olhos.

Tendo terminado de executar a música, Carol ajeitou-se na poltrona, revestiu-se de um ar dramático e, voz taciturna, anunciou que ia nos contar uma pungente história relacionada com a rumba que acabava de assobiar:

—      Quem vai gostar é aí o Mestre... Parece coisa de romance. Carol não relatava a história, declamava-a como se estivesse num palco:

—      Esta é uma história muito triste que aconteceu na Romênia há alguns anos. Um trágico caso de amor entre uma linda moça e um jovem encantador. Conheceram-se num piquenique nos Cárpatos...

Pôs-se de pé, declamatório, gestos largos, inteiramente tomado pela narrativa. Jorge abrira os olhos, graças a Deus! Carol caprichou:

—      Em meio ao arvoredo da montanha e à brisa perfumada das flores silvestres, ao som de uma flauta de Pã tocando Uma Noite no Rio, teve início o amor entre dois jovens, amor proibido, pois ambos eram casados. O romance prosseguiu, cada vez mais intenso, mas... os preconceitos surgiram e os amantes foram violentamente separados.

Desesperada, não vendo possibilidade de viver com o homem que amava, a jovem encontrou uma solução para a sua infelicidade: suicidar-se. Deixou uma carta dirigida ao amante, pedindo-lhe que levasse as cinzas de seu corpo cremado aos Cárpatos e, em meio ao arvoredo e à brisa perfumada no alto da montanha onde haviam se conhecido, cantasse Uma Noite no Rio e, ao mesmo tempo, espalhasse ao vento os seus restos mortais. Assim foi feito. Cumprida a missão, realizada a última vontade da mulher querida, também o jovem se suicidou depois de escrever uma carta a sua mãe, na qual rogava-lhe que espalhasse suas cinzas no mesmo bosque em que estavam as de seu amor, cantando, ela também, Uma Noite no Rio.

Terminada a história, na tentativa de emprestar maior impacto ao quadro que pintara — já que não pudera assobiar e narrar ao mesmo —, Carol achou por bem dar um bis, repetir o leitmotiv dodrama. Não conseguiu, no entanto, ir até o fim, a emoção tomara conta dele.

Nesse momento — envergonho-me de confessar — assaltou-me um pensamento insólito, contive-me para não rir: visualizei a pobre mãe do suicida, espalhando as cinzas do filho na montanha e cantando, com a inconfundível voz da "Pequena Notável": "Eu sou carioca da gema..."

Quanto a Jorge, prestara muita atenção, ouvira tudo calado e sério mas eu percebi que ele se divertia às pampas. Carol estava doido por saber sua opinião:

—      O Mestre gostou?

—      Demais! — Foi a resposta.

 

AS BATATAS DE SEU AVELINO

Em 1967, tivemos como companheira de viagem, na Europa, uma querida amiga, Norma Guimarães Sampaio, mulher do artista Mirabeau Sampaio, amigo de Jorge desde a infância. Impossível descrevê-la em poucas linhas; basta apenas dizer que foi nela que Jorge se inspirou para levantar a personagem dona Norma, do romance Dona Flor e Seus Dois Maridos. Todas as peripécias, todos os lances vividos por dona Norma em Dona Flor poderiam perfeitamente ter sido realizados por Norma Guimarães Sampaio, pessoa extraordinária, fora de série. Aquela era a primeira viagem de Norma à Europa e, hélas, a única, pois morreu pouco tempo depois.

Em geral, quando viajamos de automóvel pela Europa, encarrego-me de pilotar o carro. Gosto de dirigir e, modéstia à parte, sou entendida no assunto, não fosse eu filha de Ernesto Gattai, o rei do volante. Quanto a Jorge, nunca dirigiu automóvel nem tem vontade de fazê-lo.

Daquela vez, no entanto, com um longo itinerário a percorrer — estivemos em treze países —, preferimos alugar um carro com chofer, logo após termos desembarcado em Lisboa, do Monte Umbe, pequeno navio espanhol que escalava na Bahia.

O chofer que nos coube foi seu Avelino. Seu Avelino, simples motorista de uma locadora de automóveis, arvorou-se em nosso guia, disposto a comandar nossa vida enquanto durasse a excursão. Mas, desde o primeiro dia, ainda em Lisboa, suas asas começaram a ser cortadas quando, ao estacionar o carro diante de um restaurante na hora do almoço, sem nos consultar previamente, abrindo a porta do automóvel foi saltando e anunciando:

—      Cá comeremos bons petiscos...

Jorge deu-lhe o contra:

—      Aqui não, seu Avelino, vamos a outro lugar, não gostei nada deste.

Seu Avelino ainda quis insistir, mas percebeu que não levaria a melhor e tratou de conduzir-nos à tasca popular que lhe indicamos.

Ainda assim se dispôs a dirigir o almoço, no velho estilo a que devia estar habituado a fazer com turistas inexperientes, que costumava transportar em seu carro. Ordenou::

—      Comecemos por um peixinho frito... depois...

Jorge o interrompeu:

—      Escolha o que quiser comer, seu Avelino. Nossos pratos, nós os escolheremos.

O contrato com a empresa locadora incluía uma verba para as despesas de refeições e hospedagem do chofer, mas, apesar disso, nas estradas, sempre o convidávamos a comer conosco. Somente quando permanecíamos algum tempo numa cidade ele ficava por conta da verba recebida pela locadora.

Nossa primeira etapa foi Sevilha, onde passamos alguns dias. Seu Avelino resolveu fazer economia, cozinhando sua própria comida no quarto do hotel em vez de freqüentar restaurantes. Foi aí que soubemos que ele carregava no porta-malas do carro uma cesta com fogareiro a gás, panelas e toda uma provisão de alimentos: bacalhau, batatas, cebolas, azeite, vinagre, etc. Não fosse aquele perigoso bujão de gás debaixo de nossos assentos, até teríamos achado graça...

A princípio, ao ouvir o barulho estranho que vinha lá de trás, pensamos tratar-se de um defeito do carro, uma peça quebrada, sei lá...

—      Vamos parar, seu Avelino? — pedi-lhe, preocupada. — Creio que se partiu uma mola ou o cano de escape está solto... Ouça o barulho.

—      Qual mola partida, dona Zélia! — riu de bom gosto o chofer.

— São as garrafas...

—      Garrafas?

Só então descobrimos que nosso amigo juntava garrafas vazias na intenção de vendê-las na volta a Lisboa:

—      Vão me render um bom dinheiro!...

Na primeira parada verificamos o porta-malas: ali estavam mais de duas dúzias de garrafas a se baterem umas na outras, barulhentas, ocupando espaço. Aí Jorge estrilou:

—     Seu Avelino, trate de dar destino a essas garrafas. Onde já se viu?

Com o carro aliviado do peso e do barulho, da Espanha fomos a Paris. Seu Avelino se apresentara como um verdadeiro poliglota, com ele não havia problema de línguas, não se apertava com nenhuma delas. Em francês então! Dizia-se mestre.

Quem primeiro reparou foi Norma:

—      Você não acha que o Avelino anda macambúzio?

Prestamos atenção e constatamos que a observação de Norma era justa. Ele que sempre fora piadista, falador e alegre, agora já quase não conversava. Algo de anormal devia estar acontecendo para deixá-lo daquela forma, acabrunhado. Perguntamos-lhe o que se passava, insistimos em querer saber o que o afligia, queríamos ajudá-lo, e Avelino acabou nos contando a razão de sua tristeza:

—      Como hei de andar alegre, se já não tenho a base de minha alimentação? Terminaram-se as batatas, seu Doutor... — desabafou num suspiro.

—      Acabaram-se as batatas? E por que não compra outras? Tão fácil! — aconselhou Jorge, bastante admirado com a falta de iniciativa daquele homem, em geral tão expedito.

—      Como hei de comprá-las se na França não há batatas? Já andei por vários sítios à procura delas e não encontrei em nenhuma parte...

Ficamos assombrados com tão absurda afirmação:

—      Quem foi que lhe disse que na França não há batatas, seu Avelino? — perguntamos, Jorge e eu ao mesmo tempo.

—      Podem duvidar como queiram — replicou Avelino bastante picado — Mas que não há, não há!...

Passávamos exatamente diante de uma épicerie.

—      Pare, seu Avelino! — ordenei-lhe. — Vamos comprar suas batatas já, agora mesmo.

Na mercearia pedi à senhora que atendia um quilo de pomme de terre e fui servida imediatamente. Ao ver as batatas, seu Avelino deu um tapa na testa, exclamando:

—      Mas que parvo sou! Eu pedia avec frites!...

 

SEU AVELINO E OS PARDAIS

Chegávamos a Veneza e o ouvido de nosso chofer, fino e atento às conversas, havia descoberto que de lá iríamos à Iugoslávia. Cauteloso, cheio de dedos, desculpou-se:

—      Seu Doutor, perdoe-me, mas eu não posso ir ao satélite com os senhores.

—      Satélite? Que satélite é esse que você está inventando?

—      Inventando, não senhor! — Mostrou-nos o passaporte salazarista: — Vejam, aqui está: "Não é válido para a Rússia e seus satélites..."

Divertimo-nos muito com a história do satélite; em realidade, não entrara em nossas cogitações ir de automóvel a Belgrado. Tomaríamos um trem em Veneza, muito mais simples.

—      O senhor fica nos esperando aqui — tranqüilizou-o Jorge.

Entusiasmado, Avelino não cabia em si de satisfação:

—      Ai, que bom! Vou fazer uma boa economia alimentando-me de pardais. Nem preciso comprar carne. Com dez pardaizitos por dia...

Apesar dos antecedentes, Avelino ainda conseguia nos surpreender. Eu quis saber:

—      E onde é que o senhor vai encontrar pardais aqui em Veneza?

—      Há muitos na praça...

—      Vai ver que o senhor está confundindo pardais com pombos — provocou Norma.

Seu Avelino não gostou da piada:

—      Não senhora! Conheço pombos e pardais e sei distingui-los.

Estou habituado a comer pardais, como-lhes até os ossos... aqui há muitos — repetiu.

—      E trouxe espingarda para caçá-los? — Jorge dava corda, se divertia.

—      Não é preciso, seu Doutor. Basta-me um porrete e uns vermes de milho para tentá-los... — Detalhou seu plano de caça aos pardais: — Fico à espreita, disfarçando, fingindo que não estou a vê-los, e, quando forem ao verme... dou-lhes uma porretada!

Ao voltarmos da Iugoslávia, Jorge quis saber de Avelino quantos pardais havia comido. Um tanto quanto encabulado, um sorriso desenxabido de quem se sente derrotado, confessou seu fracasso:

—      Não consegui porrete, nem vermes, nem pardais... Comi esparraguétis.

Sem dar-se conta de que ele se referia a espaguete, Norma estranhou:

—      Esparraguétis? Que comida é essa, seu Avelino?

—      Então, a senhora dona Norma não conhece? — admirou-se. — Pois são uns macarrões compridos e finos... É o que há de mais barato na Itália, mas para o meu bolso é caro — disse o manhoso.

 

RUMO A TBILISSI

Saímos do Metropol noite fechada, embora passasse das oito horas da manhã. Mas isso já nãò era novidade para nós, habituados a ver o dia clarear em Moscou somente depois das nove.

Ainda uma vez Max, que nos acompanhou nessa viagem à Geórgia, exagerara ao fazer a encomenda do farnel para o avião: as duas caixas, preparadas pelo restaurante do hotel, estavam pesadas e cheias do bom e do melhor: maçãs da Criméia — perfumadas e suculentas —, tangerinas, queijos e presunto, ovos duros, frangos assados, chocolates, vinhos e a indispensável garrafa de vodca.

Jorge ainda escrevera na véspera, ao voltar do teatro, um artigo para o Konsomolskaia Pravda, a pedido de Oleg Ignatiev, redator desse diário que pertence ao Konsomol, organização da juventude soviética.

Rapaz simpático e dinâmico, Oleg conseguira de Jorge a promessa de entregar o artigo antes de viajar para a Geórgia. Como sempre acontece, ele não resistiu à simpatia e. à boa conversa do repórter, insistente e obstinado, como deve ser um bom repórter, e comprometeu-se, embora sabendo que seu tempo estava todo tomado. Ainda que fatigado, Jorge sentou-se à máquina e só se levantou com o texto pronto. Não quis faltar com a palavra, não é de seu feitio.

A viagem transcorria normalmente, cheguei mesmo a dormir. Quantas horas? Nem sei. Fui despertada, de repente, sacudida por violento balanço, seguido de brusca queda no vácuo. Atravessávamos terrível temporal e o avião, arremessado pela turbulência de um lado para o outro, provocava ruídos assustadores.

Olhei para Jorge. Tenso, ele apertou minha mão.

—      Está jogando um bocado, hem? — comentei bocejando.

—      Você acha? — ironizou. — Tem mais de uma hora que estamos dentro de um furacão e só agora você acorda, se dá conta...

Nunca vi sono mais pesado, Deus me livre! Quanta irresponsabilidade!

Claro que Jorge não estava reclamando de meu sono. Ele reclamava, isso sim, companhia para a sua inquietação ou, falando claro, para o seu medo. Achando, certamente, que não conseguira me impressionar bastante, voltou à carga, reforçando:

—      Se o vendaval não passar já, não sei não! Este aviãozinho se desintegra e... adeus! Era uma vez... aliás, já não está agüentando...

Os sinistros prognósticos de Jorge começavam a me impressionar. Não havia dúvida, ele tinha razão de estar nervoso, a situação não estava para brincadeira...

Dávamo-nos conta agora de que o aparelho perdia altura. Uma voz feminina anunciou algo pelo alto-falante e, claro, não entendemos nada. E o que significava o letreiro luminoso a piscar? Não podiam estar mandando que os passageiros apertassem os cintos de segurança, que, aliás, não existiam... Talvez ordenasse que permanecêssemos nos assentos... Ora, permanecer nos assentos! Ordem mais idiota! Quem era doido de se aventurar, sair zanzando por ali aos trambolhões, arriscando-se a quebrar a cabeça numa daquelas sacudidas? E por onde andava Max? Só ele podia nos traduzir o que a aeromoça dissera e o que significava o letreiro a piscar. Duas poltronas mais adiante, pálido, olhos fechados, sem condições de traduzir fosse lá à que fosse, jazia Max, mais morto do que vivo.

O avião baixava cada vez mais e as bruscas quedas no vácuo se sucediam uma atrás da outra, causando-nos terrível mal-estar, um desagradável frio no estômago. Não estávamos aterrizando em Tbilissi. Que esperança! Tampouco havia escalas previstas na rota... Então, estávamos caindo? Só podia. Apertei ainda mais a mão de Jorge, fechei os olhos. De repente, quando menos esperávamos, as rodas do aparelho tocaram bruscamente o chão e tudo estremeceu: "Um pouso de emergência", disse Jorge. Refeito do impacto, o avião agora deslizava sobre uma pista bastante precária, coberta de gelo, em pleno descampado, pendendo ora para um lado ora para outro, tal qual um barco à vela em mar de tempestade.

Avistamos, ao longe, homens que corriam na pista. O avião parará, mas a porta continuava cerrada. Lá fora a ventania dificultava a tarefa dos trabalhadores, empenhados em sustentar o aparelho com grossas cordas amarrando-as em argolões de ferro presos ao chão. Só depois de terminado o trabalho, o avião bem firme, a porta foi aberta e os passageiros puderam saltar.

Caminhávamos na direção de um barracão de madeira a uns cem metros da pista. O vento gelado nos empurrava, o frio nos enregelava, mas e daí? Pisávamos era terra firme, o resto pouco importava.

Baixáramos, realmente, numa pista de emergência. As péssimas condições atmosféricas impossibilitavam o prosseguimento da viagem. Devíamos, pois, aguardar no barracão de madeira que o tempo melhorasse.

Bem maior do que nos parecera à distância, o improvisado hotel possuía dois andares ligados internamente por uma escada de madeira estreita, a prumo. Tive a impressão de entrar num restaurante. Nas diversas mesas rodeadas de cadeiras, espalhadas por todo lado, pessoas comiam e bebiam. Eram passageiros de outro avião que descera antes, nas mesmas circunstâncias que o nosso. Aglomerados em torno de um grande samovar colocado sobre um móvel a um canto, pessoas procuravam servir-se de um chazinho quente, muito do gosto dos russos, única oferta do hotel aos passageiros. Recobrado do susto, Max voltava à atividade, preocupado exclusivamente em providenciar que fossem buscar as caixas com o farnel, deixadas no avião.

Os responsáveis pela estada dos passageiros no barracão discutiam e, pelo jeito, estavam resolvendo algum problema. Por onde andava o diabo do Max que sumia sempre nos momentos críticos, quando precisávamos mais dele? Eu estava, sobretudo, necessitada de descobrir, rapidamente, o toalete. Não havia qualquer indicação. Jorge se encontrava na mesma situação que eu. A aeromoça passou junto de mim, por acaso, e eu a segurei pelo braço.

—      Pajalsta, toalete? — Dei uma olhada sorrateira para as bandas de Jorge, queria sentir o efeito da minha frase em russo.

Foi tiro e queda, não deu outra! Impressionado de me ver falar com a aeromoça, Jorge não se conteve:

—      Sim senhora! Já está falando russo...

Aproveitei para esnobar:

—      Pajalsta, tovaritchl Como disse, camarada?

A jovem aeromoça puxava-me pela mão, levando-me à porta de saída. Ela entendera o que eu desejava, pois eu pronunciara "pajalsta" corretamente e toalete em russo é quase igual: "tualét".

Apontou-nos, ao fundo do terreno, uma espécie de guarita de soldado, a "casinha", propriamente dita.

Amparados um no outro, Jorge e eu fomos andando lentamente, pisando com cuidado para não escorregar no chão de gelo, até chegar ao nosso destino. A casinha não tinha porta; demos uma espiada lá dentro antes de entrar e, ai, céus! Do buraco da cisterna, rente ao chão, subia das profundas, monumental, uma pirâmide de cocô congelado, que já passava um bom meio metro da superfície. Pelo chão, em derredor, outros montes transformados em gelo, verdadeiras esculturas de estalagmites, semelhantes às que víramos numa gruta na Tchecoslová-quia. Jorge fez uma careta de nojo:

—      Xiii... E agora?

Eu não tinha tempo a perder, mas, ainda assim, ocorreu-me um provérbio italiano, bastante repetido por meu pai: "O mangia de questa minestra o salta de questa finestra..." Como de hábito, tratei de tirar uma vantagem da desagradável situação, dando-me por feliz: "Se fosse no verão seria muito pior..."

Ao voltarmos ao barracão, encontramos Max que nos procurava feito doido. Vitorioso, mostrou-nos as caixas de comida que, devo confessar, chegavam em boa hora, quando a fome já apertava. Ele nos forneceu o resultado das conversações que presenciáramos. Ficara resolvido que as mulheres, somente as mulheres, dormiriam no andar superior, pois as camas lá em cima não eram suficientes para todo mundo. Os homens se arranjariam por ali mesmo. Por isso, depois de jantarmos, com grande apetite e satisfação, parte das coisas que trouxéramos, e de tomar um bom trago de vodca para esquentar, Jorge e eu nos despedimos. Já era noite, ou ainda era dia? A hora pouco importava, não tínhamos o que fazer, o melhor era dormir, descansar.

 

O INESPERADO "STRIPTEASE"

Achei que Jorge ficara triste. Eu também não gostara da decisão, não estava satisfeita. O pobre ia ter de dormir mal acomodado numa cadeira dura, a noite toda... Tive vontade de renunciar, solidária, à cama lá em cima e ficar com ele embaixo. Ao saber da minha intenção, não aceitou.

—      Nada disso! De jeito nenhum! Nem pense! Suba, suba depressa! Não se preocupe comigo, eu me arranjo...

Com dificuldade consegui chegar ao andar de cima. Meu enorme casaco de lontra — que eu não retirara um só momento — e as botas polonesas me estorvavam na difícil tarefa de galgar a incômoda escadinha de madeira.

O salão do andar superior era idêntico em dimensão ao do térreo, só que, em lugar de cadeiras e de mesas, havia camas. Camas de ferro, de solteiro, separadas umas das outras por uma largo espaço. Minhas companheiras de dormitório trataram de ocupar cada qual a sua, deitando-se de roupa e tudo, sem muita vontade de conversar. Deviam sentir-se exaustas como eu. Também deitei do jeito que estava, fazia um frio medonho. Por muito favor descalcei as botas e me meti debaixo de um cobertor de lã. Pensava em Jorge sozinho lá embaixo... como estaria se arranjando? Nas minhas divagações sentia falta dele, que bom se ele estivesse ali comigo... De súbito, a grande surpresa! Quem surgia em minha frente? Jorge, o próprio, todo lampeiro, sorridente, acompanhando a aeromoça. Solícita, a jovem foi logo empurrando uma cama e encostando-a à minha para que pudéssemos dormir juntos. Com um sorriso que achei malicioso, ela perguntou:

—      Harachó?

Com um sorriso também malicioso, respondi-lhe:

—      Otchen harachó! — Não satisfeita de ter achado ótimo, introduzi na língua russa um superlativo: — Harachosíssimo! — A moça não entendeu bulhufas, mas sorriu.

A vodca de cinqüenta graus produzia seu efeito. Com toda a corda, disposto a se divertir e a me provocar, Jorge maldou:

—      Sim senhora! Então achou "otimíssimo" poder dormir comigo? A aeromoça, coitada, deve estar horrorizada com o teu assanhamento! E não é pra menos... — Ele ria da minha cara de espanto e acrescentava: — Trate de ir tirando qualquer intenção da cabeça... Nem pense...

Mas que sujeito mais atrevido! Que "inventador" de coisas!... Preparava-me para lhe dar uma boa resposta, quando me dei conta de que ele deitara todo encapotado, não demonstrando intenção de retirar o enorme sobretudo, verdadeira couraça blindada que o tornava intocável, inacessível, impossível! Ora veja! E o convencido contando prosa! Botando banca pra cima de mim! Achei a situação tão cômica que caí na gargalhada. A princípio, desconfiado, sem entender o meu súbito fou rire, Jorge encabulou; mas, ao ver-me apontar para o seu grosso casaco, compreendeu tudo e acabou rindo comigo.

Sempre rindo, Jorge agora me contava o que se passara havia pouco lá embaixo: os responsáveis pelo "hotel" tinham decidido abrir uma exceção para ele, escritor estrangeiro, de fama, lutador da paz, etc, permitindo-lhe dormir entre as mulheres. Encarregaram Max de transmitir-lhe a decisão e Max, malandro escolado, aproveitou a ocasião para dar um golpe, tirar partido da mordomia do outro, engajar-se, dormir também no conforto do andar superior. Preparava-se para subir, tomando a dianteira do homenageado, quando foi barrado. Vendo-o retroceder, tentando parlamentar com os guardiães da escada, sem obter sucesso, Jorge tivera que conter-se para não rir de sua cara desconsolada.

Comentávamos, divertidos, o golpe frustrado do malandro, quando vimos a aeromoça, que acabara de descalçar as botas, ficar de pé sobre a cama,, em frente à nossa, e, cara a cara, com a maior naturalidade, começar a despir-se: tirou o casaco, o xale, depois o suéter, em seguida a grossa saia de lã, agora a blusa. A jovem era robusta, de pele rosada. Sob a transparência da combinação branca podiam-se notar os grandes e rijos seios cujos bicos, certamente aumentados e endurecidos pelo frio, pareciam querer furar o fino tecido.

Epa! Espera aí! Que negócio é esse? Jorge está vendo isso tudo?, perguntei-me, surpresa. Claro que estava! De olhos arregalados, encantado com o inesperado striptease, ele se deliciava.

—      Feche os olhos! — ordenei-lhe, entre risonha e séria, mais séria do que risonha. — Vire a cara pra lá! Deixe de ser atrevido!

Foi o mesmo que nada. Sem se mexer, nem se voltar para mim, respondeu:

—      Oxente! Você está maluca? Como é que eu vou perder uma oportunidade dessas?

Felizmente o striptease parará por ali. A moça ficara de combinação, não fora adiante. Antes de se acomodar entre os cobertores, deu um boa-noite geral:

—      Spokóinoi nótch!

 

HOMENAGEM A PEPE DIAS

Chegamos finalmente, são e salvos, a Tbilissi. Hospedados num bom hotel, no centro da cidade, lá encontramos outros convidados, vindos de diferentes repúblicas soviéticas para as festas do aniversário de Stálin, no país de seu nascimento. Entre eles estava o famoso General Modesto que conhecêramos na Tchecoslováquia, onde vivia exilado. Pelo General Modesto soubemos que o corpo de Pepe Dias, antigo Secretário-Geral do Partido Comunista Espanhol, encontrava-se enterrado em Tbilissi. Ao lado de Dolores Ibarruri, Pepe Dias lutara contra Franco.

Do Brasil, Jorge acompanhara, na época, a atuação heróica do revolucionário e, velho admirador, resolveu prestar-lhe uma homenagem. Pediu a Max que providenciasse uma coroa de flores para depositarmos no túmulo do combatente espanhol. Max mostrou má vontade. Começou por argumentar que uma coroa custaria muito caro. Estaria ele com receio de que, além de encomendar a coroa, também esperássemos que ele a pagasse? Antes de embarcarmos, Aplétin entregara a Max, na nossa presença, um polpudo envelope de dinheiro para que ele pagasse as despesas extras que fizéssemos. Até aquele momento pagáramos tudo sem que ele tivesse ao menos esboçado um gesto para pagar fosse o que fosse. Assim seria até o fim da viagem, estávamos certos.

— Quem lhe perguntou o preço da coroa? Pago o que custar — irritou-se Jorge.

Max não se deu por vencido:

—      Com esse frio, camarada, onde é que vamos encontrar flores?

—      Vá se informar — disse Jorge num tom que não admite réplicas.

Saindo à procura do intérprete local, Max voltou com ele, poucos minutos depois. Desde que chegáramos a Tbilissi andávamos com dois intérpretes, já que Max não entendia a língua georgiana,

Sem disfarçar a satisfação que sentia ao dar uma resposta negativa, Max informou que em Tbilissi não havia flores no inverno.

—      Pergunte ao camarada se há folhas — ordenou Jorge; não seria Max quem iria fazê-lo desistir da homenagem.

Folhas havia.

—      Pois encomende uma coroa de folhas, grande!

Nesse dia almoçávamos no hotel com um grupo de escritores georgianos e com alguns artistas de bale popular, vindos de Moscou para a festa.

Nossa mesa ficava ao lado de uma grande porta de vidro que dava para a rua. Uma cortina descia quase até o chão, a pouco mais de dois palmos do piso. Ela protegia os hospedes, que almoçavam, da curiosidade dos passantes. Sentados junto à porta de vidro, Jorge e eu notamos, em dado momento, que várias pessoas se encontravam paradas ali, na calçada. Curiosa de saber o que se passava, suspendi a cortina e me deparei com um grupo de homens e de mulheres que se divertiam com alguma coisa. Ao darem de cara comigo, uma delas apontou para as minhas botas, motivo da hilaridade. Minhas botas polonesas com seu alto solado de madeira e seus canos de lã, bordados, continuavam a causar sensação. Nem por isso eu me separaria delas, confortáveis e quentinhas. Risse quem quisesse, pouco me importava.

Na saída do almoço encontramos à nossa espera, no saguão do hotel, uma enorme coroa. Muito bonita, as folhas eram de variadas cores e de formatos diversos. Presas ao alto, pendiam duas faixas roxas: uma trazia a frase em português, dada por Jorge; na outra, a tradução em georgiano. Escrita mais linda a georgiana! Desenhada em arabescos, verdadeira filigrana! Diante dela nos tornávamos completamente analfabetos. Do cirílico eu consegui decorar todas as letras, Jorge quase todas. Eu lia o que via pela frente e me entusiasmava ao descobrir palavras russas semelhantes às nossas, como por exemplo: professor, dóctori restaurara, crocodll, pedant, tuaíét... Essa última até já me fora útil. Do georgiano, nem me atrevi, nem sonhar querer decifrá-lo...

Como já passasse das três horas e às sete deveríamos estar no teatro para assistir a um bale folclórico dá Geórgia, partimos sem perda de tempo para o cemitério. Mas, como transportar a coroa? No carro não ia caber. O chofer posto à nossa disposição adiantou-se antes que manifestássemos qualquer intenção: em cima do carro ela não poderia ser levada, os galhos arranhariam a pintura. Depois de muito estudar a situação, Jorge encontrou o jeito: ela iria de pé, apoiada no estribo, do lado de fora: Max e o intérprete georgiano, sentados junto às janelas, se encarregariam de segurá-la.

Foi uma viagem triunfal, do hotel ao distante cemitério! Pelas ruas por onde passávamos, a coroa despertava curiosidade geral. Todo mundo parava para olhar e alguns até aplaudiam.

Ao contrário das previsões otimistas: "Na Geórgia vocês encontrarão o sol e uma temperatura amena", nada disso ocorreu. Em Tbilissi fazia tanto frio quanto em Moscou, não víamos a cara do sol, os dias também clareavam tarde e a noite chegava cedo. Só não nos disseram que o povo georgiano era diferente do moscovita. Na Geórgia ele tinha outro temperamento: era alegre, malicioso, gozador, entusiasta e curioso, sobretudo curioso.

Eram apenas quatro horas e já começava,a escurecer, quando chegamos ao cemitério. Max reclamara o tempo todo, ao contrário do jovem georgiano, que se mostrava muito compungido e solidário com a homenagem. Notava-se que ele sentia prazer em colaborar.

O portão do cemitério estava fechado, mas havia luz no escritório da administração. Pelas grades do portão podia-se ver a neve alta encobrindo as campas.    

Demonstrando boa vontade, o administrador mostrou-nos, num livro, a lista das pessoas sepultadas ali e as respectivas datas dos enterramentos.

O nome de José Dias, porém, não constava da lista. "Procure Pepe Dias, quem sabe?", lembrou Jorge. Nem José, nem Pepe. Ele não estava enterrado ali. O funcionário nos disse que, possivelmente, o encontraríamos em outro cemitério situado no extremo oposto da cidade.

Não havendo nada mais a fazer ali, o jeito foi voltar para o hotel. Eu nem olhei para a cara de Max, que bufava e resmungava o tempo todo.

Chegamos noite fechada. Max ficou incumbido de levar a coroa para dentro. Iríamos no dia seguinte, pela manhã, ao outro cemitério.

Descansávamos um pouco, antes de nos arrumar para o teatro, quando bateram forte à porta. Ao abri-la me deparei com Max, ali plantado, a coroa ao lado. Jorge chegava para ver quem nos chamava com tanta veemência e ficou surpreso:

—      O que significa essa coroa aqui, Max?

—      O gerente do hotel não permite que ela fique lá embaixo e eu achei que o único bom lugar é no seu quarto, que é grande...

—      Engano seu, Max — respondeu-lhe Jorge. —É no seu quarto, não no meu!

Sem ter o que responder, ele saiu corredor afora, arrastando a coroa, arrastando sua raiva.

Mais-tarde, ao descer ao térreo, Jorge apontou para um canto do saguão: "Olhe ali a capela!" Lá estava ela sobre um cavalete, onde ficou até o dia seguinte.

A saída com a coroa, pela manhã, obteve o mesmo sucesso da véspera. Muita gente aglomerada na porta do hotel, quase obstruindo a passagem, querendo vê-la de perto e também os que a carregavam.

O segundo cemitério era tão distante quanto o primeiro, mas levávamos a vantagem da claridade da manhã.

Nova consulta de lista, na administração. Por fim! Pepe Dias estava enterrado lá. Um empregado do cemitério nos acompanhou, orientando-nos para que não tropeçássemos nem caíssemos em alguma cova, já que tudo estava sepultado sob a neve; medida absolutamente necessária, pois a cada passo nos afundávamos até os joelhos. Consultando um mapa, o guia nos levou, sem dificuldade, diretamente ao nosso destino. Com uma pá limpou a lápide e pudemos ler, em espanhol, as referências elogiosas ao falecido. Havia também a tradução em georgiano. Tomamos a coroa das mãos dos intérpretes e a depositamos sobre a sepultura. Eu levava minha máquina fotográfica, presente de Jorge em Moscou, aproveitei para tirar uns instantâneos.

Começávamos a bater em retirada, quando o jovem georgiano, ar de desaponto, interceptou nossos passos, falou algo.

—      O que ele disse, Max? — perguntou Jorge, ao perceber que

Max não tinha a intenção de nos transmitir o que o rapaz desejava.

—      Este cretino quer saber se o camarada não vai proferir algumas palavras... — monologou. — Não faltava mais nada!

—      Aí está!... — retrucou Jorge. — Até que um discurso cairia bem. Pepe Dias merece. — Consultou o relógio. — Não fosse um compromisso que tenho antes do almoço... Que pena! Explique isso ao camarada.

Max estava sem saber se Jorge falava sério ou apenas queria divertir-se às suas custas. Por via das dúvidas, traduziu.

 

MUSEU STALIN

A caravana, composta de vários automóveis, partiu assim que o dia clareou. Talvez até tivéssemos achado a viagem curta, não fossem as péssimas condições da estrada, estreita, escorregadia, o carro derrapando a toda hora...

O Prefeito de Gori, acompanhado de colcosianos e de personalidades locais, nos recebeu efusivamente, cumulando Jorge de atenções. Único escritor estrangeiro presente às comemorações, era um dos convidados de honra.

A primeira parte do programa constava de uma visita à casa onde Stálin nascera. Casa humilde de trabalhadores, pequena. Sobre ela fora levantada outra casa com bastante espaço para o museu que lá funcionava.

Stalinistas ardorosos e sinceros, emocionamo-nos ao ver o bercinho onde Stálin dormira, as fotografias de seus pais, as de sua infância e juventude, penduradas nas paredes... Encontrava-se também no museu a velha máquina impressora usada por Stálin na clandestinidade. Ela fora retirada do fundo de um poço onde o jovem revolucionário, escondido das perseguições, imprimia folhetos e manifestos subversivos.

A revelação da clandestinidade de Stálin, refugiado no fundo de um poço, a presença da máquina impressora ao alcance de nossas mãos, nos tocou profundamente. Educados no amor incondicional ao "Guia Genial", acreditávamos nele, pia e cegamente.

 

O TOSTE

Do museu partimos para um colcós, onde cultivavam uvas e produziam vinhos. Visitamos a imensa fazenda coletiva em caminhadas sem fim pelos vinhedos, secos pelo frio; fomos ao alambique provar a forte aguardente, destilada ali mesmo. Num imenso galpão encontravam-se os lagares, onde eram esmagadas as uvas para a produção do vinho. Tanques enormes, roxos do vinho entranhado, estavam vazios, à espera da próxima vindima. O vinho da última safra já se encontrava dentro das pipas, ali enfileiradas. Ouvimos do presidente do colcós explicações sobre as vinhas e as vindimas; do processo da transformação da uva em vinho, das variedades de vinhos produzidos no colcós. Por fim, ele nos convidou a ir a sua casa. Deduzimos que seria para almoçar.

A sala da frente era bastante ampla para acomodar aquele mundo de gente que a invadia. Numa lareira de ferro, a dona da casa, camponesa alta e gorda, assava grossas fatias de toucinho fresco. Eu nunca havia comido toucinho puro, assim... Senti até uma certa repugnância ao ver as pessoas mastigando com tanto gosto, em grandes bocados, postas que lhes eram servidas, a gordura a escorrer-lhes pelos cantos da boca. Pobre de Jorge! Tão especial para comer, detestando toucinho fresco, iria, ao menos, prová-lo? Eu, francamente, não acreditava. Pelo jeito não haveria outra coisa a comer. Max nos dissera que, no campo, o toucinho era considerado comida fina, e, além do mais, era rica em calorias, excelente alimento no inverno.

Bastante desconsolada, olhei para Jorge e ele me disse:

—      Estou morto de fome! E você?

Eu me encontrava, como diria Lalu, com o estômago grudado no espinhaço, uma gastura... uma fraqueza...

—      E você vai comer esse toucinho? — perguntei, certa de que ele diria não. Mas me enganara:

—      A essas alturas, minha filha, vou comer o que puserem na minha frente —- respondeu.

Chegara a minha vez de ser servida e, convencida mesmo de que não haveria mais nada além do toucinho, aceitei a grossa fatia de pão caseiro com o diabo do toucinho em cima. Em todo o caso, o pão garantiria o meu almoço; se de todo eu não conseguisse comer aquela gordura daria um jeito de fazê-la sumir, talvez no vaso com planta ao meu lado, no qual ficara de olho.

Assim, mais próximo de meu nariz, até que ele cheirava bem! Dei uma provadinha, e não é que o danado era gostoso mesmo? Com a fome que estava, liquidei rapidamente o quinhão que me coubera. Limpei a gordura que escorria dos cantos de minha boca), enquanto esperava por outra fatia.

Uma rodada de vodca foi servida. Estranhei não oferecerem vinho, eles que eram grandes produtores. Jorge também estranhou e tirou a limpo: na Geórgia somente a vodca acompanhava o toucinho, jamais o vinho. Tradição.

O dono da casa levantou-se para fazer um toste. Na mão um pequeno chifre trabalhado, a borda e o bico incrustados de prata, com vodca até a boca. Jorge me disse: "Certamente ele agora vai contar uma história."

Em Moscou, Ilia Ehrenburg nos falara da tradição georgiana de brindar usando a moral de uma história contada no momento. Ele próprio nos contara várias e lindas.

O presidente do colcós esperou que fizessem silêncio e começou: — Vou contar-lhes uma história que ouvi de meu avô. É uma história muito antiga...

Repetiu então o que ouvira dos lábios do "deduchka" — assim se referia ao avô: a história do forasteiro que visitara, pela primeira vez, um cemitério georgiano. Acompanhado de um velho coveiro, o homem começou a ler as inscrições nas lápides das sepulturas: "Aqui jaz Dimitri Ignatiev, nascido em 1700 e falecido em 1780 — viveu dez anos." Ao lado, em outra campa, estava inscrito: "Aqui jaz Ludmila Kuteitchkova, nasceu em 1720 e faleceu em 1750 — viveu cinco anos." Em outra sepultura se encontrava aquele que nascera em 1800 e morrera em 1840 e vivera apenas dois anos. Como se explicava aquilo? Em todas as inscrições que lera encontrara, com surpresa, o disparate dos cálculos; todos eles errados, os números não correspondiam, não coincidiam, entre a data do nascimento e a da morte do indivíduo. Intrigado e curioso, quis uma explicação e o velho coveiro, prontamente, a deu: "O homem só vive o tempo da amizade."

— Brindemos, pois, à amizade! — concluiu o colcosiano. Brindamos todos à amizade, com vodca e com beijos, beijos dados na boca do que fizera o brinde. Todos o beijaram, homens e mulheres.

Outra tradição da terra. Aliás, em Moscou eu já me surpreendera ao vê Fadeiev, Polevoi, Simonov, Korneitchuk, Feedin, e tantos outros, beijarem-se na boca entre si e também na boca de Jorge. Quanto ao brinde, havia ainda um detalhe: a vodca devia ser tomada de um trago.

De toste em toste, em pouco em pouco tempo ninguém mais era capaz de responder por seus atos.   

Sentada em lugar estratégico, onde não podia ser observada, tratei de tapear, provando apenas na ponta dos lábios a fortíssima bebida. Inexperiente, eu tomara a vodca do primeiro brinde de uma só talagada; de estômago vazio, ela me pegara, atordoando-me por um bom pedaço de tempo. Mas Jorge, que não tem o hábito de se exceder na bebida — bebe o tanto que lhe dá prazer —, acompanhara os outros e começava a sentir os primeiros resultados:

— Estou péssimo! Estômago enjoado... — queixou-se.

 

O ALMOÇO ESTÁ SERVIDO!

Já passava das quatro horas, estávamos ali havia quase duas, comendo toucinho e bebendo vodca, quando a dona da casa bateu palmas, chamando a atenção, e disse qualquer coisa. Procuramos Max com os olhos. Ele estivera, havia pouco, ao nosso lado, traduzindo, mas agora sumira. Traduzira a história da amizade, o toste do Prefeito de Gori, dirigido a Jorge, de quem se declarou leitor e admirador; traduzira o toste de Jorge, agradecendo a hospitalidade e as palavras do camarada Prefeito...

Dessa vez Max não fez falta. A porta da sala se abriu e, do outro lado, na sala de jantar, apareceu uma grande mesa coberta de travessas de comida. A dona da casa anunciara que o almoço estava servido. Naquela mesa camponesa havia iguarias inesquecíveis! Leitões assados inteiros, pernis de porco e de vitela, frangos, lingüiças de todas as cores e grossuras, tortas, pastelões... tudo em grande quantidade. Apareciam, finalmente, os vinhos: brancos, tintos, rosados, doces e secos, para o paladar de cada um, servidos em abundância.

Diante daquele espetáculo pantagruélico, tentador mas inteiramente inútil para quem já estava farto, como era o nosso caso, Jorge e eu nos pusemos a rir. Quem ia adivinhar?

Deixamos que todos se servissem, ficamos onde estávamos. Não tardou, vieram nos buscar.

Eu sempre soube que, quando uma pessoa toma bebida alcoólica, precisa comer a fim de contrabalançar o efeito do álcool e assim evitar a embriaguez. Havíamos assistido em Moscou, havia pouco, a uma peça de Alexandre Korneitchuk, na qual um cidadão chegara em casa bêbado altas horas da madrugada e, preocupado com que a mulher se apercebesse do seu estado, procurara algo para comer, revirara os armários e a geladeira; não encontrando outra coisa, comera pó de café.

Já que estavam insistindo para que comêssemos, lembrei-me da peça para ilustrar o conselho que daria a Jorge:

— Eu acho até bom você comer um pouco e parar de beber. Você come e fica bom em três tempos... Resolve seu problema num minuto... Lembra da peça de Korneitchuk? Quem bebe precisa comer — arrematei.

Jorge não gostou do conselho e, para demonstrar a sua resistência ao álcool — que aliás é grande —, apanhou um copo de vinho tinto que lhe ofereciam, mandou-o pra baixo num só trago. Eu fiz que não vi.

A zanga, no entanto, não rendeu. Vendo que eu ficara triste, ele procurou conversa, chamou minha atenção para o velhinho que não desgrudava os olhos de nós, um colcosiano que devia andar pelos cem anos. Participava de tudo com entusiasmo, apesar da idade avançada, e os demais o tratavam com carinho e respeito. Informáramo-nos e ficáramos sabendo que no colcós o consideravam um sábio, o homem que viera do passado e sabia das coisas. Nenhuma decisão era tomada sem antes consultá-lo.

O velhinho se aproximou. Com um gesto, indagava se não íamos comer. Também com um gesto lhe respondemos que não agüentávamos comer mais, estávamos fartos. Balançando a cabeça, ele parecia querer nos dizer alguma coisa, buscava o intérprete com o olhar. Chamamos Max, que se divertia devorando uma enorme coxa de peru. Max chamou o intérprete georgiano. O velhinho então disse:

— Como os senhores já sabem — ele usava o tratamento antigo, não dizia camaradas, como os demais —, nós temos dois estômagos... Francamente, não sabíamos disso, essa era uma novidade mas não quisemos interrompê-lo, continuamos atentos ao que dizia.

Da explicação sobre os dois estômagos, traduzida pelo jovem georgiano a Max e de Max para nós, sobrou pouco, ou nada. Apenas entendemos que o velho afirmava que o nosso primeiro estômago já se encontrava livre, garantindo-nos uma segunda rodada de comida, e convidava-nos a encostarmos à mesa.

Agradecemos-lhe e o acompanhamos. Decidíramos ir ao primeiro estômago. Faríamos um esforço, não queríamos desapontar o velho nem os donos da casa, sobretudo a dona da casa, que ficara decepcionada ao recusarmos o prato cheio que nos oferecera havia pouco. Quanto ao seu marido, o pobre já não agüentava mais nada! Bebera além de toda medida, Havia pouco, Jorge me cutucara discretamente: o gigante colcosiano encontrava-se de quatro» debaixo da mesa.

Todo mundo se preparava para sair. Iríamos do colcós diretamente para o teatro, a festa começaria às sete horas mas devíamos chegar bem antes.

Noite escura lá fora, nunca vira outra igual, noite de trevas. Nem uma única estrela no céu, nem uma lâmpada acesa, nem mesmo pirilampos voando. As luzes da casa eram fracas, tristes.

Eu continuava preocupada com Jorge, mas decidira não tocar no assunto, para não criar novo motivo de aborrecimento.

Dentro em pouco chegaríamos ao teatro, onde Jorge devia fazer um discurso sobre Stálin. Do jeito em que se encontrava não teria condições de apresentar-se em público. Impossível!

Jorge escrevera um discurso, na véspera; ele já fora traduzido para o russo e também para o georgiano. Falaria em português e uma famosa artista de teatro, de Tbilissi, leria a tradução em georgiano. Tudo já estava combinado.

 

OS DISCURSOS

O povo que se comprimia na calçada, em frente ao teatro completamente lotado, aplaudiu ao ver a caravana chegar.

Rodeamos o edifício e entramos pelos bastidores. No palco, ainda de cortinas abaixadas, as personalidades presentes procuraram seus lugares marcados, na primeira fila. Sentei-me atrás de Jorge, tendo Max ao meu lado.

Dando-se conta de que Jorge não se sentia bem, o Prefeito de Gori convidou-o a sair um pouco, antes que levantassem as cortinas, e juntos se afastaram em direção ao toalete, lá nos fundos. Imaginei o que teriam ido fazer. O Prefeito de Gori também estava péssimo, precisando, tanto ou mais que o outro, de aliviar o estômago.

Ao voltar ao palco, Jorge nem parecia o mesmo, tinha outra cara.

— Agora sim, me sinto aliviado, leve... — disse.

Leve e lúcido para enfrentar um discurso de responsabilidade, pensei.

Todos a postos, cada qual em sua cadeira, a cortina foi levantada. O presidente da mesa, figura séria e compenetrada, abriu a sessão, apresentando ao público as personalidades presentes.

A primeira parte do programa constava de números de declamação — arte muito apreciada na URSS — de poemas a Stálin, interpretados por artistas do Teatro Nacional, os mais famosos.

A cada número, o povo pedia bis, aplaudindo de pé. Entre um poema e outro, o presidente sacudiu uma sineta, pediu um momento de atenção: rogava ao público que não insistisse pedindo bis, os artistas não poderiam mais repetir seus versos devido ao extenso programa e ao tempo escasso.

Terminadas as declamações, teve início a série de discursos.

Ainda uma vez o presidente da mesa pedia aos oradores que não ocupassem a tribuna por mais de quinze minutos, pois ainda haveria, para encerrar, o bale popular, com artistas de Moscou.

O primeiro orador foi correto. Seguiu à risca as instruções do presidente: falou quinze minutos, nem isso. Muito aplaudido, deu seu lugar ao seguinte. O segundo orador, também consciencioso, vibrou com as próprias palavras, fez a platéia delirar, não gastando mais de dez minutos.

Jorge seria o quarto orador, e seu discurso, três páginas datilografadas, contando as pausas e a tradução, não tomaria todo o tempo a que tinha direito.

Cheio de credenciais, apresentado como portador de vários títulos, inclusive o de Dóctor — coisa levada muito a sério na URSS —, o terceiro orador assumiu seu posto e iniciou o discurso. Sua voz era fraca e arrastada. Eu prestava atenção nele, como se entendesse alguma coisa, quando senti tocarem no meu braço. Max chamava-me a atenção pedindo a minha interferência:

—      Veja! O camarada Amado está dormindo... Acorde ele, companheira.

Dei uma batidinha nas costas de Jorge, que despertou sobressaltado:

—      O que foi?

—      Você está dormindo — disse-lhe a meia voz. — Acorda.

Ainda tonto de sono, ele protestou:

—      Estou dormindo coisa nenhuma!

Minutos depois, novamente sua cabeça voltava a pender para a frente; dei-lhe nova cutucada. Inda bem que o teatro estava na penumbra; a iluminação da cidade era toda ela precaríssima, como já notara na casa do presidente do colcós. O teatro no escuro era ótimo para disfarçar as cochiladas de Jorge, mas ao mesmo tempo péssimo, pois convidava ao sono.

O orador já passara havia muito dos quinze minutos a que tinha direito e não dava mostras de querer parar. Fazia uma conferência, não havia dúvida. Eu estava achando ótimo, pois minha batalha contra o sono de Jorge prosseguia sem resultado. O conferencista continuava a

falar, manso, quando o presidente sacudiu a sineta. Com o estridente ruído Jorge acordou:   

—      Já é minha vez?

Não era a sua vez e ele voltou a dormir. O orador era chamado à atenção:

—      Seu tempo está esgotado! — disse o presidente.

Fazendo um gesto com a mão, que significava "Espera aí!". Agüenta as pontas!", o homem continuou na dele...

Jorge prosseguia entregue ao seu soninho e eu, cansada de tanto cutucá-lo, resolvi desistir, deixá-lo dormir tranqüilo, resistindo até à pressão de Max, que fazia gestos de desânimo:

—      Pero, companera!

A sineta soou novamente, outros quinze minutos haviam se escoado e o orador continuava firme.       

—      Rogo ao tovaritch Professor — disse em tom solene o presidente — encerrar seu discurso.

Novamente Jorge fora despertado pela sineta:

—      Já está na minha hora? — voltou a perguntar.

Como não chegara ainda a sua hora, ele voltou novamente a dormir. Eu me despreocupara completamente ao constatar que Jorge não estava só, tinha boa companhia na sua soneca; várias personalidades haviam entregue os pontos, sendo que algumas delas, inclusive, roncavam alto.

A sineta já funcionara três vezes e o orador sem dar confiança. Calmo e imbatível, ele falava de Stálin — única palavra que eu conseguia entender daquele discurso todo.

Agora, pela quarta vez, a sineta tilintou, doida, frenética! Tovaritch presidente perdera a paciência, a cerimônia e a tramontana:

—      Tovaritch! — sentenciou. — O camarada já falou uma hora e cinco minutos! Sua palavra está cassada!

Aplausos delirantes da platéia coroavam a decisão do presidente. Pelo menos foi assim que os interpretei.

Completamente desperto com os aplausos e a barulheira em volta, Jorge e seus colegas de sono também bateram palmas. Inda bem que o discurso de Jorge era curto! Seu nome foi anunciado e o povo irrompeu em aplausos. Um escritor brasileiro vinha da longínqua América do Sul falar numa língua desconhecida sobre o grande filho de Gori, o imortal Stálin.

A mão nos bolsos do paletó, nos de fora e nos de dentro, Jorge procurou o discurso e não o encontrou. Onde o teria metido? Não havia tempo a perder, a tribuna estava à sua espera. Não se afligiu, daria um jeito. A bela atriz que leria a tradução o acompanhou, na maior elegância, vestido longo, bem maquiada. Jorge subiu à tribuna e a moça colocou-se a seu lado.

Com voz firme deu início ao discurso. Graças a Deus! Porém, ao chegar à primeira pausa, quando a atriz entrou com a tradução — eu diria mesmo, com a declamação — Max que acompanhava atento as palavras de Jorge, comparando-as ao texto russo, não se conteve, sobressaltou-se, doido:

—      Pero, companera! Que se passa! Amado não está dizendo nada do que escreveu! Isso não é sério! — De tão zangado engolira o tratamento "camarada", que até então não dispensara ao referir-se a Jorge.

Inocente do que acontecia, a atriz entrava com sua fala a cada pausa, direitinho, como haviam combinado. Só que Jorge dizia uma coisa e ela outra, diferentes na forma mas idênticas no conteúdo, ambas de exaltação ao aniversariante. O público delirava, aplaudindo freneticamente todas as vezes que a declamadora terminava de interpretar a sua parte. Tratava-se de uma senhora mestra nas modulações de voz, dona da arte de levantar e baixar o tom no momento preciso, dar ênfase às palavras, pondo em relevo o valor do texto, transformando prosa em verso. Como ali ninguém conhecia o português — ou haveria alguém naquela grande Geórgia que conhecesse o português, já que o ato estava sendo transmitido por uma cadeia de rádio para toda a República? —, o desacordo formal entre o improviso e o texto lido nem foi notado. Só Max não parou de reclamar o tempo todo, impedindo-me de ouvir Jorge falar, como gostaria.

Chegara a hora do bale. A entrada ruidosa, alegre e colorida dos dançarinos foi uma apoteose! Realmente infernais, eles enlouqueciam a platéia, que os aplaudia de pé, fazendo estremecer o teatro.

O povo pedia bis e os bailarinos atendiam. Não havia mais presidente, nem sineta, e mesmo que houvesse...

 

BANQUETE DANÇANTE

Um grande banquete fora preparado para encerrar os festejos. Depois do teatro, os convidados, inclusive os artistas, iriam brindar oficialmente o camarada Stálin no jantar onde seriam entregues prêmios e medalhas. O homenageado não estaria presente, mas era como se estivesse: onipotente e onipresente, Stálin estava em todas as partes da União Soviética, comandando todos os acontecimentos: os grandes e os pequenos. O Prefeito de Gorí, à frente de tudo, convidou-nos a ir em seu automóvel.

Quem nos dera ir diretos para a cama! Mas isso não era possível, nem pensar! Mesmo exaustos, cumpriríamos o programa até o fim.

A enorme mesa do banquete no salão de nosso hotel estava forrada das mais finas iguarias, inclusive de frutas, coisa boa para quem está empanzinado e só lhe apetece mesmo uma fruta, como era nosso caso.

Em frente à mesa, num largo espaço do salão, bailarinos georgianos — os mesmos que víramos no teatro em Tbilissi — dançavam suas danças folclóricas. Eu, deslumbrada de vê-los tão de perto, acompanhava seus passos, verdadeiras acrobacias, quando, num intervalo, percebi que um dos dançarinos caminhava em minha direção, ao mesmo tempo que outros convidavam minhas companheiras de mesa para dançar. E agora?, pensei aflita, ia ter de rodopiar com aquele bailarino fabuloso? Havia anos que eu não dançava, devia estar "enferrujada". Se fosse nos meus tempos, quando eu me sentia a maior num salão, não errando passo, enfrentando qualquer ritmo... Precisava, sem perda de tempo, arranjar uma desculpa...

Percebendo o meu recuo, Jorge veio em meu socorro, dando-me coragem:

— Deixe de bobagem, vá dançar!

O jovem esperava de pé em minha frente. Levantei-me, acompanhei-o à arena, onde outros pares já dançavam. Meu cavalheiro era aquela maravilha, leve como uma pluma; sabia conduzir a dama e eu o acompanhava com facilidade. Tudo marchava bem até quando, de repente, ele resolveu fazer floreados; sem perder o compasso, numa inspiração do momento, consegui encaixar no ritmo georgiano uns requebros de samba, sapequei uns passos de picardia... Aplaudida pelos que assistiam e até pelo meu cavalheiro com um: "Harachó! Otchen harachó!", ouvi de Jorge, que não é muito de me elogiar, dizer que eu dançara lindo. Não sendo entendido em danças, nem sabe dançar, no entanto, sua opinião, se não me envaideceu, me deixou feliz.

 

BATE-PAPO DE RESSACA

O carro parara várias vezes na estrada mas Jorge não estava preocupado em chegar pontualmente ao encontro marcado. Devíamos estar às quatro horas na União de Escritores, em Tbilissi para uma reunião de despedida com escritores georgianos, na qual Jorge falaria — a pedido deles — sobre a literatura brasileira. Jorge não estava preocupado com o horário, ele que sempre é tão pontual em seus compromissos, porque ao sair de Gori, às duas horas da tarde, alguns dos escritores que deveriam estar presentes à reunião continuavam no banquete da véspera a comer e a beber.  

Tivemos tempo de chegar ao hotel em Tbilissi, tomar um banho e ir calmamente para a reunião. Como prevíramos, ninguém ainda chegara, não havia vivalma por lá, a não ser um contínuo, que nos fez aguardar na sala da diretoria: ele recebera telefonema de Gori, pedindo-nos que esperássemos, pois os escritores já estavam a caminho. Enquanto aguardava, Jorge afundou-se numa poltrona e dormiu. Eu segui o seu exemplo. Coisa mais absurda, um encontro literário depois daquela noite assombrosa. Não tinha o menor sentido! Jorge comentara comigo, mas, apesar disso, lá fomos à União de Escritores: aquela era a única e última oportunidade de nos despedirmos dos amigos, agradecer-lhes as atenções e gentilezas, pois partiríamos no dia seguinte.

Dormíamos a sono solto, quando apareceu o presidente da União dos Escritores. Esbaforido, cara de ressaca, o pobre se desculpava pelo atraso: "...estrada péssima..." Resolveram, Jorge e ele, esperar pelos outros antes de começar a tertúlia e acabaram dormindo enquanto aguardavam. Aos poucos os retardatários foram aparecendo cada qual mais ressacado que o outro... A noite caíra, havia muito, quando os debates foram iniciados.

As perguntas eram feitas na embriaguez do sono e as respostas, idem, tudo muito divertido. Num visível esforço, olhos pesados, o presidente da União de Escritores lançou uma pergunta — perguntara por perguntar, por puro dever, pura gentileza, sem o mínimo interesse no assunto, nem em ouvir a resposta:

—      O que me diz o camarada Amado do realismo socialista na literatura brasileira?

O camarada Amado cocou discretamente a cabeça:

—      O realismo socialista...

Antes de prosseguir, lançou uma olhada para as bandas de seu interlocutor. Ele dormia. Os outros, por mais que se esforçassem, também não conseguiam manter os olhos abertos, o sono se impondo, mais forte que tudo.

—      Este encontro não tem o menor sentido — monologou Jorge, e em seguida, levantando a voz na intenção de despertar os colegas por apenas um momento, o suficiente para que o ouvissem, Jorge usou de franqueza: — Os camaradas não acham que estamos fazendo um esforço inútil, vocês e eu? Proponho irmos para a cama dormir...

A proposta foi recebida com entusiasmo, aprovada por unanimidade.

EXCESSO DE PESO

A princípio não entendemos a razão de Max não ir conosco no mesmo carro para o aeroporto. Ele seguiu-nos em outro automóvel, no qual colocou um enorme saco.

Muita gente partia naquela manhã e o aeroporto estava movimentado. Leváramos pouca bagagem, mas nossas malas voltaram cheias de presentes e de livros de autores georgianos, com dedicatória. Nunca iríamos ler esses livros naquela língua desconhecida, mas não quisemos deixá-los por lá. Afinal de contas, tinham um valor afetivo.

Na maior atividade, de um lado para outro, Max parecia estar resolvendo algum problema. Jorge o interpelou:

—      O que é que está acontecendo, Max?

—      O que está acontecendo? Estamos com excesso de peso. Mais de sessenta quilos, e eu estou vendo se consigo liberá-lo de pagar...

—      E nossa bagagem pesa tanto assim? — perguntou Jorge admirado.

Acompanhamos Max ao balcão de despacho. Ali estava, junto à balança, um saco enorme, razão do excesso, o mesmo que Max trouxera no automóvel.

Confuso, ele acabou confessando que comprara cinqüenta quilos de maçãs para a mulher. "Ela gosta muito..." Elogiou a qualidade das maçãs georgianas: "...superiores às da Criméia..." O malandro procurava mudar de assunto.

O Prefeito de Gori acabava de chegar e Max correu ao seu encontro. Acabou conseguindo que á Aeroflot dispensasse o pagamento do excesso. Certamente ele não explicou que as maçãs lhe pertenciam...

 

ANO-NOVO EM MOSCOU

Chegávamos em Moscou às vésperas do Ano-Novo. A risonha figura de Pai Nicolau enfeitava a cidade. Nas praças públicas havia gigantescas árvores de Natal iluminadas de pequenas lâmpadas coloridas e salpicadas da neve que caía. Lembravam-me as do Brasil, em pleno verão, velinhas acesas, derretendo de calor, flocos de algodão à guisa de neve.

As lojas se encontravam mais cheias do que nunca. Mulheres faziam filas quilométricas para comprar farinha de trigo. Nesses dias de festa, elas faziam questão de preparar, em casa, bolos e pães de todos os tipos. 

Apenas chegamos ao hotel, soubemos por Aplétin que Varela, nosso amigo, se encontrava em Moscou, hospedado no Hotel Nacional. Chegara na véspera, perguntara logo por nós. Alfredo Varela, escritor argentino, autor do romance El Rio Oscuro, pessoa de nossa maior estima.

Entusiasmados ao sabê-lo em Moscou, quisemos logo entrar em contato com ele. Pedi a Aplétin que fizesse a ligação telefônica, mas Jorge teve uma idéia:

— E se déssemos um trote nele?

Varela adorava nos pregar peças e desta vez ele iria cair como um patinho. Achei a idéia de Jorge genial e em seguida armamos um plano: Eu falaria em russo com ele, lhe diria todas as palavras que aprendera, palavras soltas, sem ligação uma com a outra, o que certamente o impressionaria muito. Numa folha de papel fiz uma lista que começava por: avião, café, trabalho, água, por favor, boa-noite, amor, leite, paz, batata, pão, cerveja etc.

Aplétin fez a ligação, passou-me o fone e eu caprichei na pronúncia, afinei a voz:

—      Tovaritch Varela!

—      Si, si, Varela! — respondeu, solícito.

Eu então fui desfiando a ladainha:

—      Samalóte, cófe, rabotae, vodá, pajalsta...

Agoniado, sem entender nada, Varela apelava para o francês:

—      Je ne comprend pas... un moment!

Eu não esperei, fui falando:

—      Spokóinoi nótch, lubof, malacó, mir...

Cada vez mais atrapalhado, cada vez mais doido, o pobre pedia ajuda ao intérprete, enquanto me dizia:

—      Un moment... un moment...

Que momento, que nada! Toma lá mais russo!

—      Cartófel, xléb, pivô...

Na extensão do aparelho, Jorge rolava de rir e Aplétin, meio bestificado com a nossa molequeira, balançava a cabeça: quanta doidice! Não agüentando mais me conter, explodi numa gostosa gargalhada. Varela calou-se por um segundo para exclamar em seguida:

—      Ah! Eres tu, Célia! Te reconocípor tu risa... Ah! Bandida!

Varela viera por Paris, se hospedara; na passagem, no Hotel Saint- Michel, onde Scliar lhe entregara cartas do Brasil para nós.

Ao saber que ele havia trazido cartas, ficamos excitadíssimos e Jorge deu-lhe um ultimátum:

—      Venha aqui imediatamente, Varela, e traga as cartas!

Estávamos ansiosos por notícias. Combináramos não falar em saudade, não chorar, agüentar firme para não estragar a viagem. No fundo, o acordo era uma besteira muito grande, pois eu vivia me remoendo de saudades, chorando às escondidas, calada — o que é muito pior, maltrata mais —, e Jorge também sofria.

As cartas eram de Lila, de seu João, de Vera, de James e de Misette. Lendo minhas cartas, num canto, eu chorava e ria. Vera me contava as peripécias de Luiz Carlos, o menino estava forte, um touro! Mamãe e todo o pessoal de Pinheiros morriam de saudades minhas e mandavam lembranças... Vera falava ainda da morte e do enterro de um velho amigo de meus pais, de quem eu guardava remota lembrança, e era tudo. Bastante para mim. Misette escrevera de Tarbes, carta endereçada a Scliar, na esperança de que ele entrasse em contato conosco. Entre as maravilhas que Misette contava de João, forte, corado, esperto, "ele entende o francês e já fala...", ela dizia, como se nos desse uma grande notícia, que o menino era louco por carne de cavalo. Comia um bife malpassado todos os dias. Ai, Misette! Por que me contava essa coisa tão horrível! Certamente ela não sabia que eu tinha verdadeiro horror a carne de cavalo... O detalhe do "malpassado", ainda agravava mais o meu desgosto.

Emocionado, Jorge terminava de ler a carta da filha. Vendo que eu já lera as minhas, perguntou:

—      Boas notícias? Como vai teu filho? Está contente agora, hem?

Riu muito da minha revolta ao saber que Misette dera carne de cavalo a João:

—      Até dizem que carne de cavalo é saudável... — Falava para me consolar, pois ele também tinha aversão a ela.

Perguntei por Lila, seu João, Lalu, James e Joelson. Jorge me deu notícias da filha:

—      Lila fez boas provas, passou de ano. Ela já vai completar quatorze anos, que coisa! Está ficando mocinha... Ela me pediu uma bicicleta para o aniversário e eu vou escrever hoje mesmo a meu pai que compre a bicicleta dela.

Seu João dava conta ao filho das prestações que recebia dos lotes do sítio. Esperava ter um portador de confiança para mandar-lhe nova remessa de dinheiro. Falava de política nas entrelinhas, receoso da censura, tão comum naquela época. Prudente, ele nem mesmo dirigira a carta ao filho, o envelope vinha endereçado a mim, Zélia Gattai, ilustre desconhecida.

James falava do romance que acabara de publicar, Chamado do Mar, falava de Janaina, sua filha, das saudades e da falta que o irmão lhe fazia.

De alma leve, depois da leitura das cartas, passamos a estudar o programa que Aplétin nos propusera — a nós e a Varela. Passaríamos o réveillon no Clube dos Artistas de Teatro, onde começaríamos a noite, e no Clube dos Trabalhadores da Fábrica de Automóveis Stálin, onde era fabricado o mais possante e luxuoso automóvel soviético, o Ziz. Segundo nos disseram, a fábrica fora montada pela Rolls-Royce.

Ao acertar o programa conosco, Aplétin trouxera uma caixa de bombons. Max o recebera à porta, tomara-lhe a caixa das mãos, assim como quem quer ajudar, escondera-a, sorrateiramente, atrás de um jarrão. Por acaso presenciei de longe a manobra e estranhei.

— Vocês vão gostar do Clube dos Artistas — disse Aplétin. — Vão ter uma surpresa...

Partiu em seguida, apressado como sempre. Max, ao descer logo depois, levou a caixa de bombons.

 

NOITE DE GALA

No salão de festas do Clube dos Artistas, Konstantin Simonov e sua mulher, conhecida atriz, famosa igualmente por sua beleza, nos aguardavam e nos conduziram a uma alegre mesa, onde quase todos os lugares já se encontravam tomados.

Elegante no vestido rosa-pálido, de saia longa, no decote quadrado largas alças bordadas de pérolas, a moça de rosto sereno e olhos brilhantes que presidia à mesa estendeu-nos a mão, como se nos esperasse e sorriu. Ao sorrir, rugas leves e prematuras apareceram circundando seus olhos. Eu a conhecia. Onde a vira antes?

— Já se conhecem, não? — perguntou Simonov enquanto puxava uma cadeira para Jorge. — Sente-se aqui, Amado, ao lado de Galina Ulanova.

Então era ela? Claro que era ela. A Julieta que flutuara, em passos de dança, no palco do Bolshoi... Sentia agora renovada emoção ao vê-la de perto, apertar sua mão e compartilhar de sua mesa.

Sim senhor. Aquela era a surpresa prometida por Aplétin, verdadeiro presente de Ano-Novo!

Teríamos passado o resto da noite ao lado de Galina Ulanova, de Simonov e de sua mulher, tão agradável companhia, mas, ainda cedo, tivemos que nos retirar para ir à festa dos operários da Fábrica Stálin.

 

VÍTIMA DE UMA FALSETA

O Clube Stálin encontrava-se instalado num sobradão de três andares, situado no imenso terreno da fábrica. Ali os operários e suas famílias passavam as horas de lazer entregues a variadas distrações: jogar xadrez, ouvir música, freqüentar as bibliotecas — a dos adultos e a das crianças, jogar bilhar, pingue-pongue, dançar, etc. O clube possuía salas de teatro e de cinema, bar e restaurante.

Em frente à porta de entrada do casarão feericamente iluminado, avistamos no jardim imensa árvore de Natal.

Um dos diretores do clube nos recebeu, deu-nos as boas-vindas e nos deixou à vontade: "A casa é vossa, camaradas!"

Combinamos com Varela que nos manteríamos juntos, pois, em meio àquela loucura de gente, seria difícil que nos reencontrássemos caso nos perdêssemos.

Em cada sala descobríamos uma novidade. Aqui um mágico fazia malabarismos infernais, encantando adultos e crianças; mais adiante, num pequeno palco, marionetes se agitavam, diziam coisas, provocando gargalhadas; num salão, jovens dançavam animadamente. E naquela sala repleta, com gente sobrando do lado de fora, o que haveria? Curiosos, nos aproximamos para espiar a placa no alto da porta. Max traduziu: SALA DOS HABILIDOSOS. E quais seriam as habilidades que os russos iam exibir lá dentro? Manifestamos vontade de entrar.

Também interessado, Max não perdeu tempo: foi abrindo alas entre a massa que se comprimia, repetindo em voz alta uma frase, verdadeiro "abre-te-sésamo!": "Escritores latino-americanos, escritores latino-americanos... pajalstal" As pessoas se apertaram ainda mais e nos deram passagem. Sem muito esforço chegamos à primeira fila. De pé sobre um estrado de madeira, um homem declamava diante do microfone. Ao terminar foi muito aplaudido. O animador do programa — devia ser espirituoso, pois fazia o público rir — anunciou o número seguinte; alto e encorpado, voz de barítono, um senhor cantou uma ária de Beethoven. Foi aplaudido, menos porém do que o declamador; muito nervoso, desafinara um pouco. Assistíamos, sem dúvida, a um programa de calouros. Divertia-me aplaudindo um candidato que imitava animais, quando o animador anunciou com grande estardalhaço:

— E... agora, um número muito especial! Vamos ouvir a companheira do escritor Jorge Amado, que nós honra com sua presença, cantar um samba brasileiro!

Do discurso eu entendera apenas o nome de Jorge, que os russos pronunciam "Jorgí Amadú", e a palavra samba. Ia pedir explicação a Max, mas ao notar que os três comparsas olhavam para mim e riam, ao ver o apresentador.estender-me a mão, entendi tudo: ele anunciara, nada mais, nada menos, que eu ia cantar um samba. Não era outra coisa: uma brincadeira inventada por Varela para se vingar do meu trote. Max, o porta-voz, soprara ao ouvido do animador e Jorge apoiara com entusiasmo.

Quis reagir, dizer que não sabia cantar, mas Jorge me pressionou, insistiu comigo: "Vai, vai, canta uma de Caymmi..." Os aplausos não cessavam, cada vez mais fortes e cadenciados, e eu sem saber o que fazer. Tive até vontade de chorar. Por fim, vi que não havia outro remédio. Se eu já dançara um samba com música georgiana, podia também entrar nessa fria, cantar e dançar sem acompanhamento... Subi ao estrado, respirei fundo, com um gesto de mão pedi silêncio e o silêncio se fez. Coragem, dona Zélia! Soltei a voz, me espalhei num requebro gingado, cantei me acompanhando: "Acontece que eu sou baiano..."

Desci do estrado debaixo de aplausos, encharcada de suor, as pernas tremendo, as mãos frias, o coração batendo forte no peito. O povo, generoso, aplaudia a hóspede estrangeira, a mulher do ilustre romancista... Só podia ser isso.

Fui pedindo licença e saindo de fino, acompanhada pelos três judas, que continuavam a aplaudir, rindo.

Antes que eu lhes soltasse os cachorros, Varela se adiantou:

— Muy bien! Muy bien, Célia! Te felicito!... — Tentava se reabilitar.

Dei o braço a Jorge, ainda nervosa, fomos em busca de novas aventuras e encontramos algo que nos impressionou mais do que tudo: naquela noite de Ano-Novo, numa sala, debruçados sobre um tabuleiro de xadrez, dois jovens, alheios à festa, à animação que fazia estremecer o sobrado, disputavam, calados, uma partida.

À meia-noite, soou a sirene da fábrica, todos se abraçaram e nos ofereceram uma taça de champanhe. Mais um salão de baile fora aberto, pois o primeiro revelara-se insuficiente, estava repleto.

Assaltou-me de repente uma idéia, mais do que uma idéia, uma esperança, ao ver a nova sala entrar em funcionamento. Esperança de convencer Jorge a dançar comigo. Fazia-lhe um apelo e ele já estava quase cedendo, "...só danço marcha...", quando um rapaz, todo suado, esbaforido, se aproximou. Disse que estava à nossa procura. Pelo ar malicioso de Max desconfiei que a coisa era comigo. Acertara. Eu fora aprovada no concurso da Sala dos Habilidosos — aprovada por um júri que lá estava e do qual eu, graças a Deus, nem me dera conta... Devia me apresentar com os demais classificados para a disputa final, cantando e dançando no palco do teatro do clube. Por acaso passáramos, havia pouco, pelo teatro, déramos uma espiada e víramos que estava lotado. O rapaz garantia que eu cantaria com acompanhamento, podia até ensaiar se quisesse... Apesar da insistência, dessa vez fui irredutível! De jeito nenhum eu pisaria o palco! Desculpei-me como pude mas, temerosa de acabar fraquejando, pedi a Jorge para ir embora o quanto antes, desistindo até do projeto tão acalentado e quase conseguido de dar uma dançada com ele no salão recém-aberto.

 

"BODAS DE SANGRE"

Ehrenburg passara o Ano-Novo com Luba em sua "datcha", em Nova Jerusalém. Ao voltar, convidou-nos a jantar em sua casa em companhia de Varela. Luba e Ilia estavam doidos pelas novidades da viagem à Geórgia. Divertiram-se a valer com nossas peripécias: com a história da coroa funerária pelas ruas de Tbilissi, com os detalhes do interminável almoço no colcós. Riram a mais não poder do samba que dancei com o bailarino georgiano.

Ilia nos aconselhou a ir ao Teatro Cigano, onde estavam levando a peça de Garcia Lorca, Bodas de Sangre. Valia a pena, sobretudo devido a uma velha atriz cigana, admirável, disse-nos ele.

Pedimos a Max, no dia seguinte, que providenciasse, com Aplétin, ingressos para o Teatro Cigano. Ele se admirou:

—      Teatro Cigano? Mas, camaradas, com tantos teatros importantes em Moscou vocês querem ir a um teatro de segunda? É pequeno, pobre, artistas ciganos... Eu não aconselho.

Jorge não estava se incomodando com a opinião dele, não quis discutir, não ia perder tempo.

—      Peça, por favor, Max, entradas para nós e para as meninas Brandão, queremos ir ainda esta noite, se for possível, ao Teatro Cigano. Você pode ir para casa descansar.

Max andava meio ressabiado desde o dia em que Aplétin, ao ver que eu não lhe agradecia os chocolates que me trouxera na véspera do Ano-Novo, perguntara, na sua frente, minha opinião sobre os bombons soviéticos que ele me oferecera.       

—      Bombons? — perguntei admirada. — Não recebi nenhum bombom, eu teria lhe agradecido...

O que se passou mais tarde entre Aplétin e Max não sei; apenas sei da desculpa que me deu mais tarde, justificando-se:

—      Como vejo que a companheira faz regime, come pouco para não engordar, levei os bombons para minha mulher, que gosta muito e não tem dessas vaidades burguesas.

Furiosa diante de tanto caradurismo, preferi conter-me, não dar trela. Disse-lhe, secamente, que não repetisse o que fizera, pois agindo assim dava uma impressão falsa dos soviéticos.

O Teatro Cigano era completamente diferente dos teatros que havíamos freqüentado até então. Sala pequena, simples, decorada com pinturas primitivas, cores vivas, um ambiente alegre e festivo.

Conhecíamos a peça de Lorca e por isso quase não necessitamos de tradução; as moças Brandão tiveram pouco trabalho nessa noite. Os artistas eram ótimos, viviam seus papéis com a maior autenticidade; a peça encontrara em Moscou um clima e intérpretes à altura. Depois do espetáculo fomos cumprimentar os artistas nos camarins. A mais velha das atrizes — de quem falara Ehrenburg — nos contou que em sua mocidade lera a buena-dicha, andara de déu em déu, hoje aqui, amanhã ali... A Revolução de Outubro, disse, lhe dera a oportunidade de se revelar e se desenvolver como atriz. Ela era a única do elenco que não cursara escola de teatro; artista nata, a melhor de todas.

 

'BAS-FOND" E "ANA KARENINA"

Naquela primeira visita a Moscou, como nas demais, comparecemos a diversos espetáculos: óperas, bale clássico e popular, teatro declamado, marionetes, circo. Fomos duas vezes ao Teatro de Arte Máximo Gorki — criação do famoso ator e diretor Stanislavski —, assistir a Bas-Fond, de Gorki, e Ana Karenina, adaptação do romance de Tolstoi. As montagens do Teatro de Arte, eram grandiosas e os atores, excelentes. Admirador profundo de Máximo Gorki, Jorge se emocionou muito ao assistir a Bas-Fond.

Quanto a mim, não posso esquecer os cenários de Ana Karenina, que se transformavam diante de nossas vistas, passando, num abrir e fechar d'olhos, de uma grande sala de espetáculos com platéia cheia, camarotes, damas luxuosamente vestidas, palco com artistas cantando, a um hipódromo, onde apareciam arquibancadas repletas e cavalos sobre a relva verde. Também não esquecerei a estação ferroviária invadida, de repente, por possante locomotiva avançando contra a platéia, a apitar, fumegante, sob a qual Ana Karenina se atirava para suicidar-se...

 

TEATRO DE SÁTIRA E MAIAKOVSKI

O Teatro de Sátira foi fundado no início da Revolução, nos tempos de Lenine, quando a criação literária e artística ainda respondia ao entusiasmo das grandes massas e possuía um poderoso sopro romântico. Sua finalidade era apontar, criticar e corrigir erros do regime, ajudando, assim, na construção do socialismo.

Manifestamos desejo de ir a esse teatro mas desistimos. Amigos nossos desaconselharam: o Teatro de Sátira já não era o mesmo dos primeiros tempos. As peças, medíocres, já não satirizavam nem criticavam.

Só fomos conhecer o Teatro de Sátira, muitos anos mais tarde, depois da morte de Stálin, por ocasião do degelo que sucedeu à denúncia, feita no XX Congresso do PC da URSS, das arbitrariedades, das terríveis violações dos direitos humanos, das violências por ele cometidas. A designação de "degelo" dada a esse momento da vida soviética resultou do título de um romance de Ilia Ehrenburg, O Degelo, onde o grande escritor fez a literatura da URSS retornar aos seus grandes dias.

Assistimos então às peças de Maiakovski, O Percevejo e Os Banhos, proibidas durante toda a época stalinista. O Teatro de Sátira retomava sua grande tradição. Ali assistimos igualmente a uma peça de nosso fraterno amigo, o poeta turco Nazin Hikmet, exilado em Moscou, corrosiva sátira à burocracia soviética.

Na mesma ocasião obtivemos com grande dificuldade, tal a procura, ingressos para um teatro recém-inaugurado por um grupo jovem, que obtivera autorização para constituir uma nova companhia. Levou uma peça sobre a vida e a obra de Maiakovski, belíssimo espetáculo, a que Jorge e eu assistimos.

As falas da peça eram em sua quase totalidade constituídas por poemas ou trechos de poemas de Maiakovski adaptados às diversas situações da sua dramática existência de revolucionário. Os demais textos eram fragmentos de artigos soviéticos, autênticos todos, escritos sobre o poeta, ataques à sua poesia, torpes acusações às suas posições políticas. Essas citações eram ditas por atores — representando os críticos —, sentados em vasos sanitários em duas latrinas, colocadas ao alto do cenário, nos dois extremos do palco. Interrompiam a ação da peça, do começo ao fim, para atirarem seus insultos "latrináriòs" contra Maiakovski.

O papel de Maiakovski era vivido por três atores diferentes representando três aspectos da complexa personalidade do poeta: o revolucionário, o lírico e o surrealista. Este último vestia-se de palhaço,

No final da peça, ao entrar em cena para suicidar-se com um tiro de revólver contra o peito, Maiakovski declama o poema que escrevera por ocasião do suicídio de Essenine, condenando o gesto desesperado daquele que o precedeu na poesia e na morte.

 

PALÁCIO DOS PIONEIROS

Passamos uma tarde inteira visitando o Palácio dos Pioneiros de Moscou, localizado num palácio que pertencera à nobreza russa e após a Revolução de Outubro fora destinado ao lazer dos adolescentes na idade de descobrir suas vocações. Acompanhados por uma diretora, visitamos os diversos departamentos, falando com crianças e mestres.

As crianças freqüentavam o Palácio depois das aulas e ali aprendiam brincando. Revelavam-se aptidões, descobriam-se vocações, sob os cuidados e a orientação dos mestres. O que se escondia por detrás de cada um daqueles meninos? Um pintor? Um artesão? Um músico? Um bailarino? Nas salas do Palácio dos Pioneiros alunos e mestres interrogavam o futuro.

Na sala de Química as crianças se divertiam fazendo experiências em coloridos tubos de ensaio. Na sala de Geografia um imenso mapa-múndi iluminado desvendava países e raças. Numa terceira sala, sob um céu de estrelas, planetas e cometas, ensinavam Astronomia — quem sabe não saiu dali algum dos astronautas que andam hoje pelo espaço? Os estudantes interessados em História dispunham de livros especializados, de projeção de filmes e slides. Sempre havia por perto algum professor para esclarecer dúvidas, responder a perguntas.

Meninos e meninas faziam exercícios nas barras e nas paralelas, outros preferiam a luta livre, o boxe. Havia os que soldavam ferro ou manejavam tornos mecânicos na oficina de serralharia. Mais adiante um salão para quem quisesse desenhar ou esculpir, mexer com tintas de pintor. Assistimos a ensaios de peças de teatro.

—      E quanto pagam? — quis saber.

—      Absolutamente nada. — A diretora quase se ofendera com a

minha pergunta, e explicou, uma ponta de orgulho na voz: — Na União Soviética o estudo é praticamente grátis. Os alunos pagam apenas uma pequena taxa anual. O curso primário de dez anos é obrigatório.

Ficamos encantados com o que víamos e ouvíamos. E mais encantados ainda quando nos informaram que o índice de mortalidade infantil na União Soviética era quase nulo. Segundo nos disseram, quando acontecia morrer uma criança era aberto inquérito para apurar a causa da morte. "Quando morre uma criança, há sempre um responsável."

— As crianças não devem morrer. Por isso buscamos saber se houve descaso da parte dos responsáveis por sua vida — explicou a nossa informante.

Conversando com as crianças no Palácio dos Pioneiros, quisemos saber se preferiam o teatro ou o cinema. A maioria era pelo teatro e todos falavam acerca de uma peça a que haviam assistido no Teatro para Jovens, tendo como tema a vida de um herói da aviação soviética, durante a guerra. Ficamos curiosos e, como a peça que tanto empolgara os meninos ainda se encontrava em cartaz, convidamos Sátva e Vólia e fomos vê-la à tarde.

 

TEATRO PARA JOVENS

Como os demais teatros de Moscou, aquele, destinado sobretudo à juventude, estava superlotado, não fugia à regra. O público era constituído, obviamente, por jovens.

Ao entrar na imensa sala, procurando localizar nossas cadeiras, deparamos com um avião suspenso no ar, avião de caça, pequeno mas que, entre as quatro paredes do teatro, aumentava enormemente de dimensão.

A peça, baseada num acontecimento real, narrava os feitos heróicos de um aviador soviético durante a guerra. Vólia e Sátva buscavam traduzir os diálogos soprando baixinho em nossos ouvidos para não incomodar os demais espectadores, que seguiam com a maior atenção todos os lances e as falas patrióticas dos atores. De repente, já no fim do espetáculo, o teatro foi sacudido pelo ronco do motor do avião suspenso no teto, dando a impressão de deslocar-se lentamente. Só então reparamos que o ator principal, o aviador que até pouco antes estava no palco, encontrava-se dentro do aparelho, Uniformizado, de óculos e capacete. Cada vez mais acelerado, o motor roncava num ruído ensurdecedor, dando a impressão de que o avião desenvolvia grande velocidade. De súbito, labaredas o envolveram. Assustada, acreditando num princípio de incêndio, gritei, mas Vólia apertou meu braço, tratou de me tranqüilizar: "Calminha, calminha, não vai acontecer nada..."

Grossas nuvens de fumaça saíam do aparelho, invadiam a sala. Já não se via nada; percebemos, pelo ruído, que as cortinas da boca de cena se fechavam. As portas de entrada se abriram e as luzes se acenderam. A fumaceira se dissipava aos poucos, o espetáculo terminara.

Ao alto, impávido e intacto, o avião de caça encontrava-se novamente a postos, apto a entrar em cena no espetáculo seguinte.

 

BALANÇO POSITIVO

Nesse mês e tanto na URSS aproveitáramos bastante, víramos mil coisas. Assistíramos aos principais espetáculos dos teatros de Moscou. O teatro de marionetes nos agradara tanto que até voltamos uma segunda vez na companhia de Varela. O mesmo acontecera com o bale folclórico e popular russo no Teatro do Exército Vermelho, cujos dançarinos pertencem aos quadros do Exército Soviético.

No circo, construção permanente de pedra e cimento, ríramos de nos acabar com o impagável e célebre palhaço Karandache. Entre os números apresentados no picadeiro, todos eles extraordinários, sensacionais, colocaríamos, no entanto, em destaque o do adestrador de animais: esse homem, com extrema maestria e muita paciência, conseguira o milagre de se comunicar com o galo e a galinha, que, segundo consta, são os animais mais obtusos deste mundo. Quando minha avó queria dizer que alguém era completamente destituído "de inteligência, chamava-o de "miolo de galinha".     

O adestrador dirigia-se a uma galinha empoleirada num toco de pau:

—      Amiga galinha, por favor, cacareje um pouco...

Obediente, sem se fazer de rogada, a galinha soltava o seu conhecido "có, có, có, có..."

—      Agora, minha amiga — pedia ele —, cante três vezes.

Boa nos cálculos, a galinha cantava as três vezes pedidas, depois as oito, as duas e assim sucessivamente. Com o galo a coisa se repetira da mesma maneira, apenas com respostas em "qui-quiri-quü..."

Visitáramos fábricas, escolas, creches, bibliotecas, museus e, sobretudo, tivéramos bastante contato com intelectuais, artistas e gente do povo; vimos coisas extremamente positivas que nos foram mostradas no correr daqueles dias. Não vimos coisas negativas nem acreditávamos que elas pudessem existir. Certos detalhes, como, por exemplo, o grande número de gente embriagada e de pequenos ladrões, não chegaram a nos impressionar. Talvez não quiséssemos sequer pensar que existiam coisas negativas.

Quanta coisa tínhamos para contar aos amigos que nos esperavam ansiosos em Paris! Mais tarde — quando? — contaríamos também aos parentes e amigos que, no Brasil, deviam estar acompanhando passo a passo a nossa viagem. Regressávamos mais convencidos do que nunca da necessidade de paz no mundo; reforçados em nossa confiança no socialismo.

 

STALINGRADO

Não me entusiasmara, no primeiro momento, saber que ainda faríamos uma viagem a Stalingrado, antes de voltar a Paris; já estava morta de saudades de João. O convite me apanhara desprevenida, quando já me sentia de espírito preparado para voltar para casa e abraçar meu filho. No fundo, o que eu não tinha era vontade de visitar, naquela ocasião, uma cidade que fora totalmente arrasada. Guardava ainda viva a dolorosa lembrança de Varsóvia destruída.

Quem, no mundo, não acompanhou, naquele terrível inverno europeu de 1942, a batalha sem quartel entre russos e alemães na cidade de Stalingrado? O mundo inteiro se emocionava a cada dia, seguindo, aflito, o noticiário dos jornais e da rádio que falavam da barbárie nazista e do heroísmo da população de Stalingrado, morrendo na defesa de sua cidade... Nós também sofrêramos no Brasil e, depois, festejáramos a vitória que mudara a face da guerra.

Agora iríamos a Stalingrado, quando se comemoravam os seis anos da vitória do povo soviético sobre o VI Exército nazista, comandado por von Paulus. Seis anos apenas, tempo demasiadamente curto para apagar as marcas da guerra, a destruição que, sabíamos, fora total.

Ouvira falar no milagre da reconstrução de Stalingrado mas, ainda assim, temia a visão de um espetáculo semelhante ao de Varsóvia. Por isso, quando saímos do aeroporto de Stalingrado, acompanhados por escritores e jornalistas que nos esperavam, assombrei-me ao ver a cidade de pé, praticamente sem marcas de guerra.

No museu, local de encontro dos convidados vindos para as comemorações do aniversário da vitória, vimos, reproduzida em gigantescas maquetes, a cidade como fora antes da guerra e depois, destruída, totalmente arrasada.

Acompanhados por um engenheiro, visitamos a cidade, os bairros já levantados e a parte onde ainda se trabalhava dia e noite sem parar.

O engenheiro chamou nossa atenção para os operários; na sua maioria eram prisioneiros alemães: "Em vez de matá-los ou de conservá-los presos em celas, nós os fazemos trabalhar, reconstruir o que destruíram... São fortes e trabalham bem..." Nesse momento chegava um batalhão deles, em fila dupla. Vinham revezar os que haviam trabalhado à noite.

Stalingrado estava sendo reerguida sobre os escombros — não encontraram meios de removê-los — aplainados por possantes máquinas e pela força do homem. O espetáculo era de vida, não de morte.

 

O PATRÍCIO

Na portaria do hotel havia um recado para Jorge. Segundo o porteiro, deixado por um artista brasileiro. Jorge admirou-se:

—      Vai ver que é algum latino-americano que está por aqui... o porteiro pensa que é brasileiro.

Na Europa, em geral, sabe-se pouco ou nada dos países latino-americanos: não se faz diferença entre um brasileiro e um argentino, um peruano e um boliviano. Alguns até acham que a capital do Brasil é Buenos Aires...

Dando-se conta de que Jorge duvidava da informação, o rapaz da portaria insistiu através do intérprete:

—      É um negro brasileiro. Ficou de voltar na hora do almoço.

Jorge não se convenceu:

         Negro? Deve ser o Lázaro Pena. — Em Moscou havia uma reunião internacional de sindicalistas e Lázaro Pena representava Cuba.

Estávamos nessa conversa quando vimos surgir na porta um preto elegantemente vestido, capa de chuva, anelão de ouro, quase maior do que o dedo que o carregava. Ao vê-lo, Jorge, grudando os olhos no anelão, disse-me baixinho:

—      Não há dúvida, é brasileiro.

Estendendo a mão a Jorge para cumprimentá-lo, o rapaz perguntou:

—      É Jorge Amado, não?

—      Sou. E você, quem é?

—      Tito Ramalho, seu criado. Um artista brasileiro.

Tito Ramalho falava corretamente o português, mas por falta de hábito — não tinha com quem, conversar na sua língua materna —, perdera o ritmo, falava pausadamente, buscava as palavras.

Satisfeitos com o inesperado encontro, convidamos o patrício para almoçar conosco. Aparentava uns 30 anos, mas já completara 38, como viemos a saber.

Tito Ramalho nos contou como fora parar na União Soviética, onde vivia fazia dez anos. Nascera e se criara em Santos, filho da cozinheira da família do ex-Ministro "Lauro Müller. Ainda rapazinho, fascinado pelo circo Sarrazani, um dos maiores e mais famosos do mundo, que fazia uma temporada em São Paulo, ele fugira de casa e conseguira engajar-se na trupe como mata-cachorro. O Sarrazani partira para o Rio de Janeiro e depois para a Europa levando o menino de Santos. Na Europa, Tito Ramalho mudara de circo, melhorando a sua situação: deixara de ser servente para apresentar-se como artista, dançando e cantando músicas brasileiras, acompanhando-se ao violão.

Encontrava-se na Lituânia, com um circo sueco, quando se deu a invasão nazista. A companhia se dispersou. A maioria dos artistas, escandinavos, voltou para seus países. Tito Ramalho, não tendo para onde ir, permaneceu naquela república soviética durante toda a ocupação alemã, onde preferiu submeter-se aos trabalhos mais pesados a ter de cantar para os nazistas.

— Fiquei do lado dos soviéticos, pois eles me tratavam como um igual, sem preconceitos nem racismo...

Por intermédio da representação diplomática brasileira na Suíça ele tentara obter um passaporte, mas a resposta fora a de que teria o documento apenas para regressar ao Brasil. Tito não aceitou. Terminada a guerra, requereu cidadania e a obteve. O brasileiro dera provas de solidariedade ao povo soviético, portara-se bem durante a ocupação. Casara-se com uma jovem siberiana, a mais loira de todas as siberianas, tinha dois filhos.

Viajava pelas repúblicas soviéticas, contratado para exibir-se em colcoses, em clubes, etc. Cantava, no momento, num clube de Stalingrado e partiria daí a dois dias. Soubera pelos jornais da chegada de Jorge e ficara aflito, querendo vê-lo. Havia muito não tinha contato com brasileiros, nunca mais falara a sua língua. Ao solicitar o passaporte brasileiro, soubera que a mãe, seu único parente, morrera. Não pensava voltar a residir no Brasil, criara raízes na URSS, sentia-se realizado, "um cidadão!", como gostava de repetir. Do Brasil guardava remota lembrança.

Curiosos, quisemos saber se cantava em português ou em russo.

—      O povo gosta de ouvir o português... Eu canto em português e também em russo, com as letras que eu mesmo traduzi.

—      E qual é o seu repertório? — perguntei, curiosa.

—      Meu repertório é antigo... Na Casa Branca da Serra, Mamãe,

Eu Quero, Má, me Deixa Subir Essa Ladeira e a Jardineira. Faço uma adaptaçãozinha nas letras... A mentalidade aqui é outra... Por exemplo: em lugar de "Mamãe, eu quero mamar" eu canto "Mamãe, eu quero estudar..."

Rimos da astúcia do patrício e prometemos mandar-lhe discos de músicas brasileiras recentes, para que ele atualizasse seu repertório. Tito nos ofereceu seu retrato com a família: a mulher de cabelos loiros, mais loiros que um trigal maduro, olhos azuis. As crianças, um menino e uma menina, mulatos lindos. Ao chegar em Paris, não esquecemos a promessa e mandamos a Tito Ramalho os discos que pudemos arrebanhar entre os amigos brasileiros.

 

CASAS DE COMISSÃO

Fazíamos as últimas compras antes de embarcar para Paris. Faltava pouca coisa. Luba quis saber se ainda tínhamos dinheiro, pois ela descobrira, numa casa de comissão, uma jóia bela e valiosa, achava que devíamos vê-la.

Nas casas de comissão de Moscou eram vendidos objetos novos ou de segunda mão, sobretudo de segunda mão, deixados em consignação por pessoas que desejavam ou precisavam desfazer-se deles. Nunca sabíamos o que iríamos encontrar nessas lojas, das quais ficáramos fregueses.

A peça, muito antiga, descoberta por Luba era verdadeiramente linda: corrente de ouro, pendentif de coral e brilhantes. Contamos o dinheiro: dava e sobrava. Antes, além dos agasalhos de inverno, compráramos também talheres de vermeille. Os rublos que Jorge recebera dos direitos autorais deviam ser gastos, não poderíamos cambiá-los por nenhuma outra moeda.

Admiramos a jóia na loja e Jorge me perguntou se a queria. Claro que a queria! Ela era linda e eu jamais poderia possuir outra igual — nem parecida — se tivesse que comprá-la com a nossa moeda; além de tudo, ela representava um capital para qualquer emergência.

Eu andara de olho num anelzinho de ouro e esmalte com um brilhante no centro, exposto numa vitrine entre outras jóias à venda, no hall de nosso hotel. Custava mil rublos. Não dissera nada a Jorge de minha intenção; esperava terminar as compras e, caso sobrasse dinheiro, eu o compraria.

Com a aquisição do valioso pendentif, desisti do anel, nem fui mais namorá-lo na vitrine.

Faríamos a festa dos amigos em Paris, com a quantidade e a variedade de caviar que compráramos. Matariam a fome comendo caviar! Levávamos também presentes para todo mundo: em Paris e no Brasil, cada amigo receberia sua lembrança. Compráramos pulseiras, broches, anéis e colares de âmbar e de pedras dos Urais, cigarreiras, garrafas de vodca... Aliás, o hábito de levar presentes de viagem para os amigos perdura até hoje. Nossa lista é grande e cada vez aumenta mais. Nossa bagagem se tornara enorme: partíramos com duas malas e voltávamos com seis, repletas, socadas, trabalhão danado para conseguir fechá-las.

Viajávamos pela Aeroflot, diretamente a Paris. Dessa vez, escaldados, levávamos provisões; uma hora antes de sairmos do hotel, chegaram duas caixas cheias do bom e do melhor. Amigos que vieram despedir-se — Jorge proibiu-os de irem ao aeroporto, não gosta de despedidas — trouxeram para ele, sabendo que colecionava, lindas peças de cerâmica popular e caixas de bombons para mim. Eu já nem sabia onde arranjar tantas mãos para carregar tantos pacotes de última hora.

Olhos cheios de lágrimas, Sátva e Vólia emocionaram-se na despedida. Nós também ficamos tristes ao dizer adeus às duas boas amigas. Apenas duas pessoas nos acompanhariam ao aeroporto: o dedicado Aplétin e Max que, por sinal, havia muito já não nos acompanhava, andava às voltas com Varela.

Acabavam de avisar pelo telefone que o avião estava no horário, devíamos, pois, nos aviar. Bateram à porta. Um funcionário do jornal Konsomolskaia Pravda trazia um envelope e um recibo para Jorge assinar. Dentro do envelope, mil rublos.

—      E agora? O que é que vou fazer com este dinheiro, no último minuto? — perguntava Jorge desconsolado, na mão os mil rublos que acabara de receber. Pagamento inteiramente inesperado! Referente ao artigo que escrevera para o jornal, na véspera de partir para a Geórgia.

—      Essa agora é boa! O que é que vou fazer com este dinheiro? — repetia Jorge, as notas na mão levantada.

Se Jorge não sabia o que fazer, o mesmo não se passava comigo; antes que ele tivesse tempo de pensar, arrebatei o dinheiro de sua mão:

—      Me dê aqui esses mil rublos, meu querido. Deixe comigo!

Saí porta afora, na disparada, desci ao térreo. O anelzinho ainda estava na vitrine à minha espera. Apontei-o à moça que me atendeu. Meti-o no dedo — certinho em mim —, entreguei-lhe o dinheiro. Nem uma única palavra foi dita nessa transação e não levei nem cinco minutos para estar de volta ao quarto. Sem entender absolutamente nada, Jorge olhava o dedo que eu lhe mostrava, o brilhante reluzindo. Afobado para sair, nem fez comentários, disse-me apenas:

— Vam'bora que já estamos atrasados...

A caminho do aeroporto, lembrou-se de me perguntar se não sobrara dinheiro, pois, como já nos fora explicado, não podíamos sair da URSS levando moeda do país. Eu levava, escondidinho, alguns copeques, como lembrança; tão poucos que, somados, passavam apenas de um rublo. Respondi que o anel custara mil rublos, redondos; não sobrara nem um tostão furado.

 

KIEV

Como de hábito, logo depois da decolagem do avião, me ajeitei na poltrona e adormeci. Estava muito fatigada, ficara até as tantas arrumando malas; deixáramos tudo para a última hora, fomos fazê-las depois do jantar de despedida na casa de Ehrenburg.

Logo nos encontraríamos com Ilia em Paris, pois ele viajaria daí a um mês e permaneceria lá até a realização do Congresso Mundial da Paz, em abril, na Salle Pleyel. Ehrenburg e Jorge estavam entre os principais organizadores do Congresso.

Eu dormia havia muito quando Jorge me acordou:

—      Estamos descendo e não é em Paris, tenho certeza. Preste atenção, certamente vão dar algum aviso.

Jorge, coitado, acreditava demais nos meus conhecimentos de russo. Como ele previra, não demorou a aeromoça falar pelo microfone.

—      O que foi que ela disse? — quis saber.

Eu não entendera bulhufas, mas resolvi pilheriar:

—      Ela acaba de dizer que somos dois orfãozinhos à mercê do destino...

Jorge não gosta de brincadeiras em avião, fechou a cara:

—      Não achei graça!...

Felizmente o aparelho não demorou .a aterrizar. As portas se abriram, os demais passageiros se levantaram e nós também. Algo mais foi dito pelo alto-falante, mas desta vez Jorge não me perguntou nada. Descemos e nos vimos num aeroporto desconhecido. Doidos por saber onde nos encontrávamos, acabamos por descobrir uma placa onde estava escrito: KIEV. Descêramos na capital da Ucrânia. O avião mudara de rumo.

Ainda não eram duas horas da tarde, mas já começava a escurecer. Caía neve e deduzimos que não continuaríamos viagem naquele dia.

—      E onde foi que você escondeu minhas caixas de comida? — Agora era Jorge quem se divertia, me provocando; sabia tanto quanto eu que malas e caixas de comida haviam ficado no avião, mas insistiu na brincadeira: —Você está querendo me matar de fome?...

Eu também estava faminta. Ficamos ainda uma boa hora no aeroporto à espera; depois vieram nos buscar e aos outros passageiros, nos embarcaram num ônibus que saiu cortando a neve das estradas a caminho da cidade.

Apesar da penumbra, podíamos divisar pela janela do ônibus casas destruídas, chocante presença da guerra.

Fomos instalados na suíte de um hotel, no centro da cidade. Sabíamos que Alexandre Korneitchuk e sua mulher, a romancista Wanda Wassilewska, viviam em Kiev. Além de renomado dramaturgo, Korneitchuk era Vice-Presidente do Soviete Supremo da Ucrânia, cargo que equivale ao de Vice-Presidente da República. Se pudéssemos entrar em contato com eles, estaria salva a pátria. Jorge estirou-se na cama macia:

—      Daqui não me levanto antes de comer qualquer coisa. Estou que não me agüento...

Dei uma espiada pelo apartamento, na esperança de encontrar algo para comer. Sobre a mesa da sala de jantar havia uma fruteira, muito bonita, mas vazia, sem nada. Jorge me chamou:

—      Você que fala russo — lá vinha ele novamente —, veja se

descobre lá embaixo alguém que possa avisar o Korneitchuk. Pode ser até que funcione neste hotel um escritório da Inturist...

Desci e no térreo encontrei, realmente, o bureau da Inturist. Expliquei, em inglês, o que desejava e o rapaz que me atendeu ficou de entrar em contato com Korneitchuk, avisando-o de nossa presença no hotel.

Voltei gloriosa para dar a notícia a Jorge que continuava deitado; sentei a seu lado na beirada da cama. Aproveitando a ocasião — como gosta de fazer —, virou de braços e me pediu:

—      Coça minhas costas!...

Enquanto lhe coçava as costas ele confessou que guardava uns copeques de recordação.. ."quem sabe você podia ver por aí se consegue comprar com eles um pedaço de pão..." Eu lhe confessei que trazia escondidos "uns copequinhos...", também de recordação. Se juntássemos as duas fortunas, talvez desse... Reuni os de Jorge aos meus, deram quase três rublos; animada lhe disse: "Aguarde!"

Saí rua afora à procura de um gastronom. Andava na neve alta na avenida mal iluminada, temerosa de escorregar e me esborrachar no chão, medo também de me perder por aquelas ruas escuras. Ao virar a primeira esquina, suspirei aliviada: avistara, a menos de uma quadra, a placa iluminada de um gastronom. Lá dentro havia muita gente comprando e fazia calor. Aproximei-me, a custo, da vitrine onde se encontravam expostos pães de vários feitios. Talvez eu comprasse aquele redondo, bem torradinho; era de bom tamanho e custava apenas um rublo, estava marcado. Dividido ao meio daria, brincando, para matar a fome de duas pessoas. Chamei a atenção da vendedora e apontei o pão, no velho estilo a que já me habituara nos países de línguas desconhecidas. Em lugar de me atender, a vendedora resmungou algo e as pessoas em volta também disseram coisas em tom de reclamação. Não havia dúvida, eu não me dera conta, mas estava furando uma enorme fila. Não encontrando outra saída — se entrasse na fila levaria horas ali de pé e eu não tinha condições de enfrentar tal contingência —, pedi desculpas em português, disse que estava com uma fome medonha, coloquei a mão no estômago para ilustrar... Ninguém entendeu patavina do que eu disse, é claro, mas compreenderam, sem dúvida, que a fura-filas, uma estrangeira, estava morta de fome, precisando urgentemente de um pedaço de pão; a pobrezinha não entendia nada de regras de filas, coitada! Fui logo objeto de curiosidade e de atenções; aproveitei para mostrar aos que me cercavam os copeques que possuía reunidos na palma da mão, suficientes para comprar o pão. Foi uma risada geral. Até a mulher que tanto reclamara, havia pouco, riu compreensiva. Eu conquistara a simpatia do público. Em vista disso, achei que não havia nada de mal comprar ainda alguma coisinha para fazer um sanduíche, melhor do que comer pão seco. Minhas moedas talvez dessem para adquirir um pouco do salame exposto na vitrine ao lado. Abri novamente a mão, separei e reservei o rublo do pão, apontei para o salame. Todos compreenderam que os copeques que restavam destinavam-se à compra do salame. A senhora, que primeiro reclamara e depois rira, àquelas alturas já me dera o braço, tomara a frente das operações e, na qualidade de minha assistente, pediu à velhota encarregada dos frios que me servisse. A mulher não tinha cara de muita conversa; atarefada atendendo à freguesia, deu uma rápida olhada nas moedas que eu lhe mostrava, balançou a cabeça negativamente — aquele mísero dinheiro não dava para nada, muito menos para comprar salame, coisa cara. Por fim, pressionada pelo grupo que me cercava, com muita má vontade a vendedora se decidiu: cortou duas fatias fininhas de salame, duas apenas, a conta do que eu poderia pagar com aqueles tostões. Satisfeita, dei a batalha por vencida; estendi a mão para pagar, receber o pão e o salame; daria o fora em seguida. Mas não recebi nem pão nem salame, pois devia entrar noutra longa fila e pagar na "Kassa" — eu aprendia ainda uma palavra de russo parecida com o português. Felizmente, eu continuava bem assessorada; abrindo alas, puxando-me pelo braço, disposta a ir até o fim, a senhora que se arvorara em minha protetora conduzia-me até a caixa, onde a funcionária, manejando o misterioso ábaco, recebia e dava trocos. Explicou, ainda uma vez, o meu drama. Os que estavam na fila para pagar na "Kassa" lançaram-me um olhar de pena, afastaram-se e eu passei à frente de todos. Sem palavras para agradecer a gentileza infinita daquela mulher que me ajudara, dei-lhe, na despedida, dois beijos nas faces coradas.

Saí do gastronom levando pão, salame e ainda um copeque que sobrara.

Ao chegar ao quarto com o pão, Jorge nem quis acreditar:

—      Você conseguiu? Mas você é mesmo uma porreta!

O elogio à queima-roupa, sincero e caloroso, me envaideceu, fiquei feliz.

Sentados na cama dividimos e comemos avidamente nosso pão. A miserável fatia de salame dera-lhe um gostinho inesquecível! Agora sim, podíamos dormir tranqüilos.

Eu ainda sacudia as migalhas de pão dos lençóis quando bateram à porta. Fui atender e... Ave Maria! O que era aquilo? Na porta um garçom conduzia um carrinho com travessas de comida. Colocou-o na sala de jantar, cobriu a mesa com uma toalha.arrumou os pratos e talheres, fez uma reverência e retirou-se.

—      E agora? — perguntou Jorge.

—      E agora? — repeti eu, destampando a sopeira. — Sinta só, meu querido, que bafo mais quentinho... que sopa mais cheirosa, mais tentadora! — Não resistimos e atacamos.

Tomávamos a sopa quando bateram novamente à porta. Uma senhora loira perguntou-me:

—      Are you Zélia? Fm Oxana. Fm bringing you welcome wishes from Wanda Wassilewska and Alexandre Korneitchuk...

A intérprete transmitia-nos as boas-vindas e as desculpas de Korneitchuk que não pudera vir pessoalmente ao hotel por estar ocupado, participando de uma reunião do Soviete Supremo. Oxana trazia ingressos para um espetáculo de danças folclóricas ucranianas, no Teatro Nacional de Kiev, e avisou que Korneitchuk nos encontraria mais tarde no teatro para nos levar a jantar em sua casa, onde Wanda nos aguardava. Programão e tanto, mas o diabo do cansaço nos tirava o entusiasmo. Teríamos preferido mil vezes ir para a cama a sair rua afora, debaixo de neve. Ainda tentei dar uma desculpa, explicando que nossas malas haviam ficado no avião, não tínhamos roupa decente para ir ao bale. Oxana achou graça dos meus luxos, não aceitou a desculpa. Recebera a ordem de nos levar ao teatro e a cumpriria.

Tomamos banho, descansamos meia hora e acompanhamos a simpática e risonha senhora ao teatro, onde ela nos instalou na frisa presidencial.

Da platéia lotada, os espectadores voltaram-se para os ocupantes da frisa oficial, recém-aberta. Centenas de olhos nos fixavam, curiosos, sobretudo os de uma senhora que, com ar atônito, embasbacada, timidamente me acenou com a mão, ainda não acreditando no que via. Aquela moça, refestelada na frisa reservada aos altos dirigentes do Soviete Supremo, seria a mesma que, havia um par de horas, não pudera comprar mais do que duas fatias de salame por falta de dinheiro? Não devia estar enganada, pois até a roupa era a mesma...

Apontei-a a Jorge:

— Olhe a mulher, aquela que te contei, a que me ajudou no gastronom. Sorri para ela e retribuí o aceno. Pena não ter visto sua cara dois dias depois, quando os jornais deram destaque à nossa passagem por Kiev, com fotografias ao lado de Korneitchuk e Wanda Wassilewska.

 

CONFUSÃO NA FRONTEIRA

O mau tempo perdurara, impedindo o vôo direto a Paris. Assim, passamos três dias em Kiev e acabamos saindo para Praga.

Convidados oficiais, não havíamos pago o excesso de bagagem, que era de muitos quilos, sobretudo devido ao grande número de livros e peças de arte popular que levávamos.

De Praga a Paris já não viajaríamos em avião soviético. Assim sendo, teríamos que pagar o excesso de bagagem em coroas tchecas ou em dólar, e nós não tínhamos nem coroas tchecas, nem dólares. O jeito era ir de trem, numa cansativa viagem de um dia e uma noite.

O trem cruzava a fronteira entre a Tchecoslováquia e a Alemanha exatamente na parte ocupada, naquele tempo, pelos americanos do norte. Solicitamos os vistos de trânsito ao Consulado americano em Praga e ele foi concedido a Zélia Gattai e negado a Jorge Amado. O único jeito, pois, foi Jorge seguir de avião e eu de trem, levando a bagagem.

Viajava comigo, na mesma cabine, apenas uma passageira. Pessoa reservada, de boa aparência, cumprimentou-me educadamente e em seguida mergulhou na leitura de um livro. Eu também aproveitei para ler um pouco, embora a excitação da chegada a Paris perturbasse minha leitura; muitas vezes tive que voltar atrás, o pensamento voava longe, apenas os olhos seguiam as linhas impressas.

O trem diminuíra a marcha, paramos no lado tcheco da fronteira. Dois soldados apareceram pedindo os documentos e me perguntaram se eu tinha algo a declarar. Com a maior inocência, respondi que não levava nada de valor, apenas bijuterias de metal e pedras dos Urais. Eles quiseram vê-las; abri a maleta e mostrei-lhes o que compráramos em Moscou para presentear amigos; ali estavam pulseiras, anéis, broches, etc. Havia também um colar meu, de cristal de rocha, cujo brilho despertou a atenção dos soldados. Perguntaram se eram diamantes e eu até achei graça. Mas os guardas, durões, resolveram que eu devia acompanhá-los até o departamento de polícia na estação, onde as "jóias" iam ser examinadas por um perito. Acompanhei-os descansada, tranqüila, pois nada tinha a temer. Entre telefonemas, a chegada do perito e o tempo que ele levou para examinar aquele monte de peças, esperei quase duas horas sentada num banco duro. Por fim, fui liberada com os meus badulaques. O trem atrasara e as pessoas curiosas, das janelas, acompanhavam meus passos.

A composição partiu, a fronteira tcheca ficou para trás e na fronteira alemã tudo se passou tranqüilamente, só olharam o passaporte. Minha companheira de viagem, que se mostrara até então muito reservada, botou o livro de lado, soltou uma sonora gargalhada e agradeceu-me:

— A senhora salvou a minha pele... Os soldados tchecos, preocupados com a sua bagagem, esqueceram-se da minha...

Fiquei sabendo então que ela estava fugindo da Tchecoslováquia, levando tudo o que possuía: jóias de valor e preciosas peças de arte. Casara por procuração com um francês que mal conhecia, somente para obter permissão de viajar. Na maior euforia, ela me disse que, apenas chegasse a Paris, anularia o casamento.

Não lhe perguntei por que abandonava seu país. Cada qual sabe de sua vida.

 

GARE DE L'EST

Na plataforma da Gare de L'Est, Jorge, Misette com João ao colo e alguns amigos brasileiros me esperavam. Estendi os braços para meu filho e ele virou-me as costas, agarrando-se ao pescoço de Misette; numa atitude de quem pede socorro, gritou: "Bisette!" Desapontada, caí no pranto; em tão pouco tempo ele esquecera a mãe... Jorge tratou de me consolar:

—      Também comigo ele não quer vir...

Felizmente, antes de chegarmos ao hotel, eu já conseguira reconquistar meu filho. Estava encantada de vê-lo balbuciar, em francês, as primeiras palavras. Estranhei ao ver Jorge chamá-lo de "Bandido". Pela manhã o pai lhe dissera "bom dia" e ele respondera: "bom dida!" Daí surgira o apelido que perdurou durante anos: chamavam-se de "Bandido" um ao outro.

Festejamos no hotel a nossa volta, com caviar e vodca. Jacques Danon chegou quase a ter uma indigestão de tanto comer caviar. Nos dias que se seguiram, quando ele chegava, gritando das escadas, como de hábito: "...Doutora! Professora! O que temos de bom pra hoje?", eu lhe apontava a porta de vidro da sala que dava para um pequeno balcão onde eram conservadas, no frio, as latas de caviar — Jacques virava o rosto, ainda enjoado:

—      Não brinca, Doutora! Nem me fale em caviar...

 

CAFÉ DE LA PAIX

Personalidades de todos os países do mundo estariam em Paris naquele mês de abril de 1949, a fim de participar do Congresso Mundial da Paz. Ao lado de Frédéric Joliot-Curie, Ilia Ehrenburg, Alexandre Fadeiev, Renato Guttuzo, Emílio Sereni, Louis Aragon, Vercors, Jean Laffitte, do abade Bulier e de outros, Jorge trabalhava dia e noite na preparação do Congresso.

Paul Robeson telegrafara confirmando sua presença na Salle Pleyel; também Nicolás Guillén, Antônio Berni, Mulk Raj Anand, Leopoldo Méndez... Apenas Pablo Neruda não poderia comparecer; cerceado em sua liberdade, Neruda, encontrava-se na clandestinidade, em seu país.

Naquela tarde Jorge comparecera a uma reunião onde os amigos mais chegados de Pablo — Ehrenburg, Aragon, Picasso, Alfredo Varela, Paul Eluard e outros — punham de pé um movimento de solidariedade ao poeta, visando obter sua saída do Chile, talvez ainda a tempo de vir ao Congresso. Na reunião ficou decidido o envio de um telegrama ao Presidente do Chile, González Videla, protestando contra a perseguição ao autor de Vinte Poemas de Amor e Uma Calção Desesperada, exigindo que lhe fossem restituídos Os seus direitos civis, inclusive o passaporte a que tinha direito. O telegrama devia ser assinado por nomes famosos das letras e das artes, conhecidos internacionalmente. Havia pressa e cada um dos participantes da reunião tomara o encargo de obter algumas assinaturas da lista. Jorge pediria entre outras a de Jean-Paul Sartre e a de Maurice Chevalier.

Jorge chegou em casa com a novidade. Da assinatura de Chevalier eu me encarregaria, armada com um cartão de apresentação dado por Aragon, pois o artista era pessoa difícil de ser contactada. Jacques Danon apareceu quando discutíamos o assunto, entusiasmou-se e se ofereceu:

— Eu posso acompanhar a Doutora...

Maurice Chevalier se apresentava, na ocasião, no Café de Ia Paix. Arrumei-me o melhor que pude, enfiei na cabeça o belo chapéu com plumas que Maria Delia Costa me dera ao viajar. Empunhando o cartão de Aragon, Jacques e eu saímos, eufóricos, em busca do cantor que tanto admirávamos. Tarefa desse tipo valia a pena.

De pé, na porta do salão, assistíamos ao show, esperando p intervalo para abordá-lo — Chevalier cantava com aquele charme irresistível e aquela graça infinita —, quando se aproximou de nós um cavalheiro querendo saber se tínhamos reserva para o espetáculo. Não só não tínhamos reserva, como ainda por cima queríamos falar com o artista. O leão-de-chácara — que outra coisa ele não era — simplesmente tentou nos botar para fora, mas quando lhe mostramos a apresentação de Aragon, amoleceu e se dispôs a nos levar aos bastidores para que falássemos com o empresário. Novamente o abençoado cartão entrou em cena; para reforçar ainda mais a credencial, citamos os nomes de Paul Eluard, de Picasso, de Elsa Triolet e outros e conseguimos convencê-lo a nos apresentar a Chevalier no primeiro intervalo.

Todo maquiado, ainda de palheta na cabeça, rosto suado, Maurice Chevalier veio direto do palco falar conosco, na mão o cartãozinho de Aragon, entregue pelo empresário: quis saber o que desejávamos. Explicamos o assunto, Jacques falando mais do que eu com seu francês ótimo. Chevalier nos ouviu atentamente. Depois disse lamentar, não ia assinar o telegrama porque ele era apenas um artista e tinha como norma não se meter em assuntos políticos, não assinar documentos, mesmo quando por uma causa tão simpática como a que defendíamos. Não queria abrir precedente.

Não adiantava insistir, despedimo-nos e agradecemos a gentileza com que nos tinha recebido.

Com Jorge a coisa fora fácil: ao chegarmos ao hotel o encontramos já com a assinatura de Sartre.

 

O CLANDESTINO

O telegrama assinado por tantas personalidades mundiais não comovera o Presidente Videla. Pablo continuou sem passaporte, escondido em Santiago.

Um dia, já próximo da abertura do Congresso, Jorge entrou em casa e eu notei o seu ar tenso, os olhos brilhando. Chamou-me ao quarto e em voz baixa me contou que Neruda estava em Paris, entrara na França usando um passaporte falso.

Com a ajuda de amigos e camaradas, Pablo atravessara a Cordilheira dos Andes e entrara clandestinamente na Argentina. Procurara o escritor Miguel Angel Asturias, seu amigo, na ocasião Embaixador da Guatemala em Buenos Aires. Corajoso, arriscando seu posto, Asturias fornecera ao poeta um passaporte diplomático em nome de um Antônio de tal, pseudo-adido cultural da Guatemala. Pablo usaria o passaporte apenas para entrar em Paris, onde esperava obter um permis de séjour para ficar na França.

Jorge voltava de um encontro com Neruda:

— Ele está gordo e com um bigode enorme! Tão engraçado!...

Preocupados com a situação ilegal do poeta, seus amigos precisavam, com urgência, encontrar um local seguro onde escondê-lo até que estivesse com seus documentos em ordem. Jorge lembrara-se do apartamento de Françoise Leclercq, amplo e bonito, com janelas abrindo sobre o jardim do Palais Royal; Pablo estaria confortavelmente instalado e, certamente, seria recebido de braços abertos pela dona da casa.

Católica praticante, dirigente do movimento feminino francês, inteligente, sensível e corajosa, Françoise Leclercq vinha de uma família aristocrata. Havia muito, porém, rompera com os preconceitos tradicionais e partira para militar ativamente nos movimentos progressistas como havia antes participado da Resistência.

Françoise Leclercq lutara corajosamente contra a ocupação nazista. Em seu luxuoso apartamento reuniam-se os chefes da Resistência. Ela ocultara judeus perseguidos, salvara vidas, arriscara-se em todos os momentos. Seus feitos lhe valeram a Cruz de Guerra, após a liberação.

Como Jorge previra, Pablo adorou o apartamento e Françoise Leclercq sentiu-se honrada em receber como hóspede o grande poeta. Recomendou a Quin, seu cozinheiro vietnamita, que caprichasse nos quitutes, arrumou o melhor quarto de casal do apartamento, pois Delia dei Canil, mulher de Neruda, estava sendo esperada, chegaria a qualquer momento.

Os amigos de Neruda movimentavam-se, Picasso à frente, a fim de conseguir-lhe a permissão para residir na França. Enquanto não fosse obtida essa autorização, a prudência mandava que o clandestino se cuidasse, ficasse quietinho em seu canto, não botasse o nariz fora das portas.

Admirei-me, pois, quando Jorge me disse que ia jantar com Pablo num restaurante:

—      Ele já pode sair?

—      Poder, não pode, mas você acha que Pablo é homem de ficar trancado num apartamento, em plena Paris? — respondeu Jorge ao ver minha cara de espanto.

O jantar reuniria Neruda, Varela, Guillén e Miguel Otero Silva, no Coq d'Or, restaurante russo, perto lá de casa.

Pablo não resistira mais de dois dias à clausura, nem mesmo no lindo e amplo apartamento do andar nobre no edifício da rue Mompensier, 36, cheio de quadros de Picasso, Bonnard e de outros pintores célebres. Nada disso, no entanto, confortava Pablo, que se sentia um prisioneiro necessitado de liberdade, precisando andar pelas ruas de Paris: "...tengo ganas de caminar..." A frase, dita em cadência de poesia, fora argumento definitivo para dobrar, comover e obter o beneplácito dos amigos para a arriscada saída noturna.

 

GIPSY´S

Eu dormia a sono solto quando Jorge chegou e me acordou:

—      Que horas são? — perguntei, sonolenta.

—      Pouco mais de duas... Mas isso não tem nada, levante depressa, se vista! Neruda quer te ver. Estamos aí em frente, no Gipsy's. Vam'bora!

Levantei-me e me vesti rapidamente, Jorge a me apressar. Instalado defronte ao Saint-Michel, o Gipsy's era um cabaré de segunda classe, onde jamais tínhamos posto os pés.

Pablo e Nicolás vieram ao meu encontro para me abraçar. Não estivesse eu prevenida, não teria reconhecido o dono daqueles bigodes, que ria: "Soy Don Antônio!" "Mucho gusto, Don Antônio!", respondi, também rindo. Varela, a quem eu via toda hora, pois era hóspede do Saint-Michel, me saudou com um "óla!".

Mal nos sentamos, surgiu, não sei de onde, uma jovem e parou junto à nossa mesa. Estendendo os braços para Jorge, emitiu um escandaloso "mon chéri!", aboletou-se em seu colo, abraçou-o e cobriu-o de beijos. Pelas suas maneiras, pelas maquiagem carregada e pela ousadia do decote, a mostrar seios e umbigo, me dei conta em seguida de sua profissão.

Num muxoxo forçado ela reclamou:

—      Mon petit, pourquoi ríes-tu pas venu, hein? Je t'aime, je t´adore!

Redobrou a carga de beijos, lambuzando de batom a cara de Jorge. Apanhada de surpresa, não gostei. O que significava aquela cena? A mulher reclamava que Jorge faltara ao encontro marcado e ao mesmo tempo fazia-lhe juras de amor... Chocada a princípio, não disse, no entanto, uma única palavra, fiquei só olhando: Jorge esforçava-se por sorrir, sem esconder seu visível mal-estar. Não tardou e me dei conta de que Jorge, assim como eu, estava sendo vítima de um trote. Varela ria de perder o fôlego, aliás, todos riam. Menos que Varela, mas riam. Não havia a menor dúvida, fora ele o autor da brincadeira. Aproveitara-se da ausência do amigo para contratar a moça.

Missão cumprida, a rapariga pôs-se de pé e perguntou ao "empresário":

— J'ai été bien? — Com um rápido "pardonnez-moi, Madame", sumiu de minhas vistas.

Vendo que eu não me manifestava, continuava calada, Varela passou a me elogiar:

—      Pero, que comportamiento impecable! Que dignidad! Célia, eres una verdadera dama...

Ele me elogiando e eu pensando em vingança. Varela havia de me pagar caro! Ora se havia! Fui rápida:

—      Verdadeira dama, Varela? É aí que você se engana! Jorge vai ver quem é a dama lá em casa! Não se admire quando souber que arrumei as malas e voltei para o Brasil...

Apavorado com a minha reação, ele nem percebeu minha piscadela para Jorge. Certo de que eu acreditara na farsa, decidiu me convencer, por todas as maneiras, da inocência do amigo: confessou ser o autor da trama, assumiu a responsabilidade de tudo, pedia-me desculpas... não esperava que eu fosse sofrer, não era sua intenção, fora apenas uma brincadeira... Firme, fingi não acreditar em suas palavras:

—      Nada como ter bons amigos, Alfredo! Jorge deve se dar por feliz... Vocês, homens, são formidáveis: sempre unidos, sempre prontos a acobertar os "podres" uns dos outros... Ah! Se as mulheres também fossem assim...

Enquanto eu judiava de Varela, uma mulata gorda, boca rasgada, lábios carnudos, abancara-se ao lado de Guillén. O diálogo absurdo entre os dois era dos mais divertidos, me fez rir e na gargalhada lá se foi meu plano de vingança. Gozador como ele só, Guillén se divertia, perguntando, no seu francês de acentuado sotaque cubano, à mulatona a seu lado, que acabara de conhecer:

—      Tu m´aimes?

Nariz levantado, ar de desdém no olhar e nos lábios carnudos, ela respondia, voz de deboche:

—      Beaucoup!

Tudo terminou em riso, mas Varela ficou sempre com uma vaga dúvida que o perseguiu vida afora: eu acreditara ou não em suas palavras?

A derradeira vez que estivemos com Alfredo Varela foi em Lisboa, em 1982. Almoçávamos juntos e, em meio à conversa, ele de repente me perguntou:

—      Aun te acuerdas de aquella broma nel cabaré de Paris? No hás creído en ella, no es así, Célia?

Cada vez que nos encontrávamos ele falava no assunto e eu lhe respondia da mesma forma, rindo:

—      Claro que acreditei!

Nessa ocasião, em Portugal, almoçavam conosco o romancista chileno Volódia Teitelboin e o escritor português Antônio Alçada Baptista . Volódia quis saber sobre o que falávamos. Só então contei a verdade, dei por encerrada a minha vingança:

— Não acreditei, não, Varela, não sou tão ingênua assim!

Alfredo Varela morreu há pouco tempo, neste ano de 1984, quando, derrotada a ditadura militar na Argentina, ele pudera, enfim, viver em liberdade no seu país.

 

MADRUGADA EM PARIS

Já era tarde e resolvemos ir embora. Neruda, porém, não estava com nenhuma vontade de encerrar a noitada ali no Gipsy's. "Por que não vamos aux Halles tomar uma sopa de cebola?", propôs.

Saímos todos, a pé, descemos o boulevard Saint-Michel, margeamos um pedaço do Sena. Pena não estarem ali os bouquinistes, àquela hora da madrugada as bancas de livro se encontravam fechadas, evidentemente, as ruas estavam desertas...

Sopa mais deliciosa a do mercado! Servida no rústico pote de barro, a espessa camada de queijo derretido por cima grudando na colher, alongando-se em fios desordenados, longos e delicados fios elásticos, antes de chegar à boca, por baixo a cebola macia sobre fatias de pão...

O dia clareara e achamos que já era tempo de voltar para casa. Miguel Otero acompanharia Pablo à rue Mompensier mas ele não quis saber de histórias; não sentia sono e desejava muito ir ao nosso hotel, queria ver como morávamos e tomar o café da manhã conosco.

Misette acabara de se levantar, preparava o mingau de João que ainda dormia. Admirou-se ao ver-nos chegar trazendo uma visita. Nem sabia que eu havia saído.

—      Qui est celui-là? — quis saber, curiosa.

—      É Don Antônio, Misette. — E não lhe dei outra explicação. Ela não perguntou mais nada, certa do que se tratava de um dos vários latino-americanos que estavam chegando para o Congresso.

Neruda puxou conversa com ela, mas Misette não lhe deu muita. bola, apenas lhe disse:

—      Sabe quem eu gostaria de ver e de apertar a mão? — Não esperou que ele adivinhasse: — Quem eu tenho vontade mesmo de conhecer é Pablo Neruda. Se ele viesse para o Congresso ia ser a maior sensação! ôh-lalá! Se ia!

Encantado com a coincidência, com a opinião e os modos francos da moça, Pablo meteu a mão no bolso e dele retirou algo que escondeu rapidamente e ninguém viu o que era. Rosto iluminado, disse a Misette:

— Quer ver uma mágica? Vire-se para a janela e, quando eu disser já!, você olha.

Misette obedeceu, meio desconfiada, e ao voltar-se viu Don Antônio com um lindo caracol rosado cobrindo um de seus olhos como um estranho monóculo.

Era conhecida e comentada a paixão de Neruda pelos caracóis. Sua coleção, numerosa e variada, com exemplares vindos dos quatro cantos do mundo, raros, de grande beleza, exposta em sua casa de Los Guindos, em Santiago, era cantada em prosa e verso. Entendemos que Pablo, tocado pela espontânea declaração de Misette, quisera dar-lhe uma deixa sobre sua verdadeira identidade. Aquele caracol que tirara do bolso, ele o obtivera em meio às peripécias da fuga.

Misette lia e admirava a poesia de Neruda, assim como admirava sua luta política, mas da coleção de caracóis não sabia nada. Apenas achou graça da brincadeira, reagiu chamando-o de maluco:    

— Vous êtes fou, complètement fou!  

Deu uma rabanada e saiu. Não ia perder tempo com um Don Antônio qualquer. Estava apressada, foi ver o menino que já ia acordar.

 

PICASSO E JORGE NAS "DÉMARCHES'

O Congresso da Paz já fora instalado e Neruda não pudera comparecer, continuava ilegal. Apesar dos esforços dos amigos, especialmente de Picasso, não fora possível obter-lhe o permis de séjour. Sem a apresentação de passaporte válido, rien à faire, responderam as autoridades consultadas.

Delia chegara e telefonara em seguida a um amigo, cônsul honorário do Chile numa cidade da Suíça, que se prontificara a renovar o velho passaporte de Pablo, já caduco. O problema agora era atravessar a fronteira entre a França e a Suíça sem documentação.

Havia urgência. Pablo deveria comparecer ao Congresso, nem que fosse no último dia. Ele viajaria de automóvel, prolongaria a validade do passaporte e regressaria imediatamente.

As providências agora objetivavam a obtenção de um laissez-passer para ser apresentado na fronteira.

Mais uma vez Picasso se encarregou de resolver o problema. Com Imenso prestígio, com trânsito livre em toda parte, prontificou-se a falar com Ministros ou quem quer que fosse preciso. Jorge e Varela o acompanharam enquanto ele fazia as démarches necessárias. Tudo isso aconteceu exatamente no dia em que Françoise, mulher de Picasso, fora levada à maternidade para dar à luz.

Indo de um Ministério a outro, de repartição em repartição, de cada lugar Picasso telefonava para ter notícias da mulher. Quando tudo já estava praticamente resolvido, faltando apenas diligência de pouca monta, Jorge propôs a Picasso que fosse para o hospital, deixando com ele, Jorge, o pouco que restava a fazer e que não dependia do prestígio do grande pintor. Mas ele não aceitou, quis ir até o fim.

Paloma Picasso nasceu naquele dia, quando seu pai, o grande Picasso, conseguia que o poeta Pablo Neruda saísse ilegal da França para poder retornar no dia seguinte, legalmente, a Paris, a tempo de participar do I Congresso Mundial da Paz.

Ao chegar em casa, cansado mas satisfeito, Jorge me contou que a filha de Picasso se chamaria Paloma. Os muros de Paris estavam forrados com a paloma que Picasso desenhara para o cartaz do Congresso.

Eu disse a Jorge:

— Se um dia tivermos uma filha ela vai se chamar Paloma.

Nossa Paloma nasceu dois anos mais tarde, em Praga.

 

SALLE PLEYEL

Personalidades da vida intelectual e política viajaram do Brasil expressamente para o Congresso Mundial da Paz; entre elas, Caio Prado Júnior, Mário Schenberg, Branca Fialho, Abel Chermont e o professor Paulo Guimarães da Fonseca. Juntaram-se a brasileiros residentes na França: Jorge, Arnaldo Estrela, Carlos Scliar, Vasco Prado, Cláudio Santoro, Israel Pedrosa, Jacques Danon, Henda da Rocha Freire, e, entre outros, eu própria, para formar a delegação que representaria o Brasil na Salle Pleyel. Além dos organizadores: Aragon, Ehrenburg, Fadeiev, Picasso, Guttuzo, Gabriel d'Arboussier, Elsa Triolet, Mulk-Raj-Anand, Eugenie Cotton, etc, lá estavam os escritores americanos Howard Fast e Michael Gold, o poeta italiano Salvatore Quasimodo, o poeta cubano Nicolás Guillén, Juan Marinello; o escritor francês Vercors, James Aldridge, romancista australiano; Eugene Tarle, historiador soviético, os escritores portugueses Alves Redol e Mário Dionísio e o cientista Manuel Valadares; Pietro Nenni, Presidente do Partido Socialista Italiano, Ambrozio Donini, político e professor da Universidade de Roma, Ives Farge, um dos chefes da Resistência francesa, Pierre Cot, antigo Ministro da Aviação, Martin Andersen-Nexo, romancista dinamarquês, o crítico de cinema Georges Sadoul, o poeta Aimé Césaire, o poeta Pierre Seghers, a romancista alemã Anna Seghers, o poeta alemão Stefan Hermlin e muitos outros.

Eu não perdi uma única sessão, ouvi atenta, por vezes comovida, todos os discursos daqueles grandes homens testemunhando, do alto da tribuna, o seu repúdio à guerra e às armas atômicas e conclamando os povos à luta pela paz.

Uma das grandes atrações do Congresso era a presença dê Paul Robeson. O gigante negro, a mão em concha no ouvido, olhos fechados, voz profunda e terna, entoara uma canção de paz.

De Paul Robeson viemos a ser amigos fraternos e muitas vezes, nos anos que se seguiram, nos encontramos na URSS, na Alemanha, na Tchecoslováquia. No dia da instalação do Congresso jantamos; juntos, e ao saber de minha frustração de não ter comigo os álbuns dás crianças, onde ele poderia autografar, me disse: "Never mind!" Retirou do bolso um caderninho de notas, destacou uma folha onde escreveu: "Hello, John! Every kind wishes to you. From your friend..." Tive ganas de pedir ainda um autógrafo para o álbum de Luiz Carlos, mas não me atrevi.

 

SEGREDO DE POLICHINELO

Pablo Neruda voltou da Suíça no último dia do Congresso. Sua presença em Paris era um segredo tumular, em verdade um segredo de polichinelo, cochichado de ouvido em ouvido. A surpresa de sua aparição no encerramento do Congresso, naquela tarde, fora precedida da maior expectativa. A novidade correra de boca em boca, todo mundo já sabia que Pablo era esperado e que devia falar. Todo mundo, menos Misette, pois não lhe contamos nada, deixamo-la na ignorância das notícias e boatos, para que sua surpresa fosse completa. Ela iria conosco à sessão de encerramento: que cara,faria ao ver Neruda subir à tribuna?

Comunicativa por natureza, naquela tarde, na Sallé Pleyel, Misette exultava, falando com uns e com outros, saudando Deus e o mundo, dando adeuses à distância... Ela ficara conhecendo, naquela semana e na que precedera o Congresso, personalidades importantes de todo o mundo, amigos que vinham bater papo conosco no Saint-Michel. Miuleleinc Salvage também andava excitada com o entra-e-sai de liguiiis famosas em seu hotel; não só apareciam pessoalmente como também telefonavam, e para cada um havia sempre uma palavra amável tln proprietária. Ela própria se oferecera para cuidar de João, ao saber que convidáramos Misette para a última sessão do Congresso.

O gravador mexicano Leopoldo Méndez sentara-se ao lado de Misette e eu lhe recomendei — assim como já havíamos recomendando a Henda, Scliar, Jacques e aos outros amigos — que não lhe falasse sobre a vinda de Neruda.

A princípio pasma, em seguida alvoroçada, Misette pôs-se de pé ao ouvir Frédéric Joliot-Curie, que presidia à mesa, anunciar a presença de Neruda. A sala toda se levantou para ovacionar o poeta que conseguira romper o cerco da ditadura de seu país e ali se encontrava. Misette era quem mais aplaudia, mas interrompeu suas palmas, mãos ainda abertas no ar, ao ver Pablo surgir de uma porta lateral do palco, elegantemente trajado, bigodes raspados. Mesmo sem bigodes ela o identificara, olhou para mim, assombrada:

—      Don Antônio — exclamou, ainda sob o impacto da surpresa. —

Cest lui, n'est-ce pasl — pedia, ainda incrédula, uma confirmação.

—      Oui, Misette — respondi-lhe, gozando-a. — É Don Antônio Neruda!

Nunca poderei descrever a cara que ela fez.        .

 

DISCURSO SOFRIDO

Daquele I Congresso Mundial da Paz resultará a fundação do Conselho Mundial da Paz, organismo formado por personalidades do mundo inteiro.

Segundo a opinião de muitos, esse órgão seria apenas um instrumento da política externa soviética. Para nós, era um órgão que se propunha lutar pela paz, mantendo uma vigilância permanente contra as ameaças de guerra.

Do Brasil foram eleitos para o Conselho Jorge, dona Branca Fialho e o ex-Senador Abel Chermont; Jorge fora eleito também para o bureau executivo do Conselho.

Encerrados os trabalhos do Congresso, vários dos delegados estrangeiros foram convidados a falar sobre o acontecimento e sobre a luta pela paz, nas diversas regiões da França. Para isso foram organizados meetings pelo movimento da paz de cada cidade. Jorge falaria em Nice. Scliar em outra cidade no Sul da França, Paulo Rodrigues, no Norte e eu no Sudeste, em Chaumont, a duzentos e tantos quilômetros de Paris.

Fiquei sabendo da novidade — por Jorge, que chegara afobado, de passagem para o aeroporto — que eu substituiria Ambrozio Donini, no comício de Chaumont. O eminente professor universitário e político italiano tivera um contratempo de última hora, precisara voltar às pressas para a Itália. Eu iria "tapar o buraco", deveria partir dentro de algumas horas. Entrei em pânico:

—      Eu, fazer um discurso? Mas meu francês não dá, de jeito nenhum! — disse a Jorge, apavorada. — Nem mesmo em português eu seria capaz...

Entregando-me as passagens de trem Jorge riu, tentando me animar:

—      Você escreve aí qualquer coisa e a Misette traduz... Não há nenhum motivo para se apavorar... Vai ser uma boa experiência, você até vai gostar... — disse e saiu apressado, com receio de perder o avião para Nice.

Minha mãe sempre dizia, repetindo um provérbio de sua coleção: "A necessidade faz virtudes." Necessitada como ninguém, sem ter a quem recorrer para me orientar na difícil tarefa que me tombara de repente sobre a cabeça, decidi tentar escrever o discurso. Apanhei lápis e papel e fui escrevendo, sem procurar palavras bonitas, sobre as maravilhas e as riquezas do Brasil, minha terra, e as qualidades de seu povo, terra e povo ainda tão desconhecidos na Europa... Escrevi sobre a emoção que sentira ao ouvir os oradores no Congresso, clamando contra a guerra, eu que vira Varsóvia arrasada... Entre os oradores destaquei Ambrozio Donini, a quem, encabulada, substituía... E por essa trilha fui caminhando até conseguir encher três páginas de papel ofício. Reli várias vezes, fiz algumas correções. Até que meu discursinho não estava tão ruim assim! Agora faltava traduzi-lo, e dei-me conta de que fazia muito não via Misette pelas imediações. Por onde andaria ela? Sumira com João e eu feito doida à sua procura até ser informada de que Carlitos Scliar a chamara. Na certa, ele também lhe pedira que desse uma olhada em seu discurso, em seu francês... Pela janela dei um berro aflito e Misette desceu logo.

Misette não falava nem lia o português. O jeito era ler para ela em francês, à minha moda, e ela corrigiria. Comecei a leitura, mas em seguida tive que interrompê-la para esperar que Misette parasse de rir. Ao ver-me impaciente, ela tratou de explicar e justificar a gaitada:

— O começo do teu discurso é igualzinho ao do Scliar e também ao do Paulo Rodrigues; as mesmas palavras: "Je viens d'un pays lointain..."

 

RUMO A CHAUMONT

Com minhas míseras três folhas já em francês, embarquei. A coincidência no texto com os discursos de Scliar e de Paulo não tinha a menor importância. Falaríamos em lugares diferentes. Não houvera plágio, cada qual escrevera em seu canto, apenas com idéias idênticas, do que resultará idêntica cantilena.

No balanço do trem, naquela viagem de quase cinco horas, li e reli o danado do discurso e antes mesmo de chegar a Chaumont o havia decorado, sabia-o na ponta da língua. Ao menos levava essa vantagem. Não precisaria grudar os olhos nem fincar o nariz no papel o tempo todo. Podia encarar a massa, impressionar com inflexões à maneira de Aragon — verdadeiro artista da tribuna.

Conforme instruções recebidas, alguém estaria me esperando na estação; a senha seria uma bandeirinha azul com uma pombinha branca no centro, já muito minha conhecida. Uma oradora da região, jurista ligada ao movimento da paz de Chaumont, que participara do Congresso em Paris, abriria o comício dessa noite dando conta dos trabalhos e das resoluções resultantes do encontro na sala Pleyel.

Antes mesmo de saltar do trem, avistei um homem sacudindo a bandeirinha azul. Vestido modestamente, recebeu-me com deferência e cortesia. Conduziu-me em seguida ao encontro de outros companheiros que se achavam num pequeno escritório: o comitê, como ele designava. Nenhum deles escondia a decepção de não contar com Ambrozio Donini naquela noite. Haviam anunciado aos quatro ventos a presença do famoso político italiano e em seu lugar aparecia uma desconhecida brasileira.

Encabulada, desculpei-me; eu também fora apanhada de surpresa, à última hora, por isso a minha intervenção seria breve.

O comício estava marcado para as sete horas e eram apenas cinco. Para encher o tempo, me convidaram a conhecer a cidade; levaram-me à antiga igreja, impressionante construção do século XIII. Fiquei sabendo tudo sobre Chaumont, que na época não possuía mais de 30 mil habitantes; sua população era, em grande parte, muito conservadora. Nem o movimento da paz nem qualquer outro movimento de esquerda tinha força na cidade. De uma colina, mostraram-me bela paisagem. Um dos meus acompanhantes, em dado momento, resolveu fazer uma piadinha, creio que por falta de assunto: apontou um boi, ou uma vaca, já não me lembro, que pastava no campo, lá embaixo, e disse:"Et le voilá, Jules Moch!" Todos riram ao vê-lo comparar o bovino ao Ministro do Interior da França, socialista porém pró-americano. Eu ri apenas por educação.

O camarada que me aguardara na estação era operário e membro do Partido Comunista, conforme fiquei sabendo. Fora designado para me dar assistência e, gentilmente, me convidara a comer alguma coisa com sua família, num rápido jantar. Fui recebida com afeto por sua mulher e seus filhos. Filha de operários, senti-me em casa.

Eu soubera antes, no comitê, que o trem de Paris passaria em Chaumont por volta da meia-noite. Eu tinha, pois, duas opções: ou pegar aquele trem e chegar de madrugada em Paris, ou dormir na casa da família que me recebera para jantar. Tudo o que eu queria era voltar para casa. Não titubeei, decidi voltar na mesma noite. Jorge também pretendia regressar no mesmo dia, tudo dependendo de avião. A única coisa que me afligia era obrigar aquele companheiro, tão gentil e tão cansado, a fazer-me companhia na gare até a hora do embarque. Quis dispensá-lo mas não houve jeito: tarefa é para ser cumprida, repeti a mim mesma, recordando-me do camarada de Katowice.

 

"CHEVALINE"

Já eram quase sete horas, acabávamos de levantar da mesa quando vieram nos buscar. Saímos andando rua afora, rumo ao local do comício, que não era muito distante dali. A princípio, na expectativa da presença de Donini, o comício fora programado para a praça pública. Temerosos de que, com a ausência da ilustre personalidade italiana, não houvesse assistência, os organizadores do meeting haviam resolvido transferi-lo para uma pequena praça no interior do Mercado Municipal, em meio a caixotes e balcões de venda/de Comestíveis. Bancos de madeira cercavam o palanque improvisado.

Eu acabara de sentar no lugar que me fora indicado quando, ao levantar a vista, dei de cara com uma enorme cabeça de cavalo, presa à porta de um açougue, bem em minha frente. No frontispício, em letras enormes, estava escrito: CHEVALINE — açougue de venda exclusiva de carne de cavalo. Por mais que eu quisesse desviar o olhar, não conseguia; aqueles enormes olhos pretos, redondos, me atraíam, me perseguiam, me causavam um profundo mal-estar. Se ao menos eu pudesse ficar de costas para o açougue... Mas não podia, os bancos se encontravam todos ocupados e, além do mais, eu não queria criar um caso, não ia dizer ao camarada ao lado: "Olhe aqui, moço, eu não estou a fim de ver essa cabeça de cavalo em minha frente..."

Para distrair-me fiz um cálculo das pessoas presentes e não chegavam a cinqüenta. Enquanto isso, na calçada em frente ao portão de entrada do mercado, aberto de par em par, muita gente circulava. Pessoas interessadas no problema da paz, mas que estavam com medo de se comprometer; outros apenas curiosos e também alguns provoca-dores, aguardando oportunidade para acabar com a festa. Isso tudo eu soube pela advogada, aquela que ia abrir a sessão, sentada ao meu lado enquanto aguardávamos a hora de começar.

Inteligente e objetiva, a moça fizera um discurso muito bom, falara com ênfase e emoção, mas a platéia mantivera-se fria, tão fria quanto o ambiente do mercado desativado, com pouca iluminação, onde nos encontrávamos. Os raros aplausos que ela recebeu foram arrancados, a duras penas, pelo pessoal do comitê. Felizmente ainda havia um segundo orador, que voltou à carga para explicar o motivo da ausência de Ambrozio Donini e para esclarecer que a companheira que o substituiria era, nada mais nada menos, do que a mulher do escritor Jorge Amado. Ele dava essa informação, certamente, na intenção de me valorizar um pouco, mas o resultado foi nenhum.

Meu nome acabara de ser anunciado, a claque do comitê puxava os aplausos. Dei ainda uma olhada pras bandas do açougue, encarei a cabeça do cavalo, olhos nos olhos, li pela centésima vez a palavra CHEVALINE, respirei fundo antes de subir ao palanque — e seja lá o que Deus quiser...

Comecei falando pausadamente no propósito de espichar, de fazer o discurso render um pouco mais: "Je viens d'un pays lointain..." Possivelmente, naquele mesmo momento, Scliar e Paulo Rodrigues estariam dizendo exatamente a mesma frase...

Os aplausos — poucos e frios — foram os mesmos que os outros oradores haviam recebido. Comício ruim assim, valha-me Nossa Senhora! Desci do palanque de coração leve, feliz da vida; bem ou mal a tarefa fora cumprida.

 

OS "MUGUETS" DO PRIMEIRO DE MAIO

Henda fora estudar com Annie — filha de Françoise Leclercq por quem Jacques Danon andava apaixonado e com quem se casou anos depois — e nos trouxera um recado: Françoise mandava nos convidar para um piquenique no dia 1º. de Maio.

Dia internacional dos trabalhadores, 1º. de Maio é também o dia em que são colhidos na França os primeiros muguets. Nessa data, um francês que se preze não sai à rua sem trazer metido na lapela, ou preso ao peito, um raminho de muguets. Eles são vendidos nas ruas, em todas as esquinas. Inúmeros grupos de pessoas fazem piqueniques nos bosques, pelo prazer de descobrir e colher, entre musgos e folhas apodrecidas no chão, a mimosa e perfumada florzinha branca — pequenos sinos em pendão — que dá sorte a quem a recebe e é oferecida a quem se quer bem.

Aceitamos encantados o convite de Françoise, excelente oportunidade de participar da vida e dos costumes franceses, sem contar a satisfação de passar um dia fora da cidade em tão agradável companhia e levar João a respirar o ar puro do campo.

Jorge e eu tínhamos por princípio aproveitar a nossa estada em Paris para viver ao máximo a vida dos franceses. Não queríamos permanecer isolados num gueto de brasileiros. Estávamos exilados, não podíamos regressar ao nosso país, buscávamos tirar o maior proveito da situação, diminuindo o lado negativo, ampliando as vantagens da permanência na Europa.

Pablo e Delia já haviam deixado o apartamento da rue Mompen-sier, passando a habitar um outro, alugado, em Saint-Louis-en-1'Ile. Jorge os convidara e a outros amigos para, naquela noite de 1º. de Maio, participar da mesa de queijos e vinhos que oferecíamos em homenagem a Ehrenburg, de partida para Moscou no dia seguinte.

Pensando no engarrafamento da estrada, que deveria estar repleta na volta, temíamos não chegar a tempo de receber os amigos. Mas Françoise nos tranqüilizou, não iríamos muito longe; o lindo bosque onde faríamos o piquenique ficava perto de Paris. Podíamos ir tranqüilos, estaríamos de volta no fim da tarde.

O inverno se despedira oficialmente desde o mês de março, mas em realidade ele continuava presente; partira, tão de mansinho que deixara um rastro de frio a se prolongar no tempo. Nesse dia do piquenique, os vestígios do inverno sumiram de vez, um sol lindo e quente apareceu. A primavera, com sua força poderosa, em pouco mais de um mês cobrira a terra de verde. Ressuscitara primeiro os dourados junquilhos, depois os arroxeados lilases em cachos e agora nos oferecia os suaves muguets que procurávamos, sentindo, ao encontrá-los, uma satisfação quase infantil. Aberta a cesta repleta de iguarias, preparadas por Quin, o cozinheiro vietnamita, a pitança fora espalhada na alva toalha estendida sobre a relva. Sentados em bancos improvisados com blocos de terra cobertos de musgo — Annie e Guy, seu irmão, acostumados a esses piqueniques, sabiam onde encontrá-los —, musgo verde, macio, um veludo como jamais vira antes. Naquele dia no bosque, curtimos, sobretudo, nosso filho que, feliz e peralta, corria entre as árvores, descobrindo a beleza do mundo.

 

OS DOIS COMPADRES

Nicolás Guillén passara a habitar o Saint-Michel, pois demoraria ainda algumas semanas em Paris. Madame Salvage, impecável, desalojara um inquilino para ceder o quarto ao poeta.

Aos poucos ela ia transformando seu hotel num reduto de latino-americanos, sobretudo de brasileiros. Tinha particular estima por um hóspede: o jornalista Justino Martins.

Chegáramos cedo do piquenique, carregados de muguets. Eu mandaria um pendãozinho — depois de secá-lo como Annie me ensinara — em algumas cartas que enviasse ao Brasil.

Compráramos na véspera uma boa variedade de queijos, de frutas e de pães. Entendido no assunto, Jorge escolhera a dedo os vinhos. Para Ilia, grande conhecedor, só podíamos oferecer o que havia de melhor.

Além de Ehrenburg, dos Neruda e de Guillén, que já se tornara íntimo amigo de João, convidáramos Gonzalito, Varela, Miguel Otero Silva, Scliar e Vasco Prado. Mais ninguém. Uma noitada, um bom papo para ser agradável, só mesmo em petit comitê: com muita gente, ninguém conversa. João dormira a viagem toda, e à noite, excitado com tantas pessoas a lhe fazer festas, se exibia, dizia coisas engraçadas fazendo todos rirem. Recusara-se decididamente a ir para a cama.

Guillén andava encantado com o "Bandido" — aprendera com Jorge a chamá-lo assim, achando graça no apelido. Segurou o menino que passava por ele:

— Venga, vamos a hacer caballito. — Sentou João em seus joelhos mas, de súbito parou: — Soy tu padrino, Bandido. Yo estaba en Rio quando nasciste... De ahora em adelante eres mi ahijado.

Ao ouvir Nicolás proclamar-se padrinho de João, Pablo não perdeu tempo:

— Pués yo seré tu madrina. — Estendeu os braços para o menino: — Ven, Juan, dar un hesito en tu madrina.

Precisávamos oficializar, o quanto antes, o compadrio e marcamos logo a data. A festa do batizado simbólico seria a 8 de maio. Ehrenburg lamentou não estar presente, mas queria que o considerássemos também padrinho e madrinha de João. Não fazia por menos.

ANAXIMANDRO

Convidada para a festa do batizado, Madame Salvage pôs à nossa disposição a grande poncheira de cristal, forneceu-nos copos, talheres, pratos, etc. Vestida nos trinques, logo cedo ela subiu para ajudar nos preparativos e a receber os convidados, uma verdadeira dama.

O apartamento ficou repleto. Como sempre, havíamos convidado muita gente e, como sempre, outros vieram sem ser convidados. Em meio ao movimento, Jorge chegou junto a mim e disse rindo:

—      Não vai sobrar neste hotel um único inquilino antigo. Vai tudo para o olho da rua. Madame Salvage vai despejar os que restam... Ela está prometendo quarto para Antônio Berni, Gonzalito e Espínola — o escritor uruguaio Francisco Espínola, que viveu no Saint-Michel durante muitos meses.

Varela surgiu com um gorro de lontra, a aumentar-lhe ainda mais a estatura, e foi dizendo:

—      Yo soy ei cura.

Guillén, o padrinho, pediu silêncio e declamou um poema escrito para o afilhado, na véspera:

 

             A JOÃO

             Con Zélia y Jorge

             Juan del Brasil

             se abrasa en brasas

             de anejo anil,

             mescla toronjas

             con toronjil,

             ei mes de mayo

             Io abre en abril,

             juega en ei atrio,

             frente a un atril...

             El coro canta:

             — Juan del Brasil,

             los anos cuente

             por anos mil,

             viendo sus asas

             de anejo anil

             y Ias toronjas

             y ei toronjil

             y ei mes de mayo

             y ei mes de abril,

             que bajo el atrio,

             junto al atril

             ei coro canta:

             — Juan del Brasil

             los anos cuente

             por anos mil!

 

Neruda, madrinha descuidada que não escrevera poema para o afilhado, tratou de improvisar um batistério: "Te llamarás, desde hoy, João Jorge Amado Gattai da Col Faria Leal Neruda Guillén González Nadreau Varela Scliar Espínola Salvage De Santis Berni Casoy..." Esgotada uma página inteira com os nomes dos presentes, Pablo acrescentou ainda um último, a divertir-se: Anaximandro! "Lindo nome, hem, comadre?", disse rindo. Além de redigir o batistério — que foi lido pelo cura Varela —, ele desenhou no álbum do afilhado uma árvore, cujas raízes formavam o nome de João. No mesmo álbum o pintor Antônio Berni, num desenho simples, comemorou a data e Scliar fez, a tinta, um retratinho de João. Atendendo a uns e outros, Misette exultava de entusiasmo: "Qual a criança que já teve um batizado igual, tão importante? Uma festa tão linda? Nenhuma, não?" Comentara com a jornalista Dominique De Santis, que concordara, ali espremida em meio àquele mundo de gente.

No final da festa, despedimo-nos de nossos compadres: adeus, compadre; adeus, comadre... até amanhã.

ANNA SEGHERS

O que mais gostávamos de fazer, nas horas vagas, era andar pelas ruas de Paris, sem destino, entrando em livrarias, espiando vitrines, margeando o Sena, folheando livros velhos nos bouquinistes, descobrindo gravuras antigas. Muitas vezes Michael Gold, que era nosso vizinho — vivia num hotel ao lado do nosso —, vinha nos buscar para as andanças, ele também adorava uma caminhada. Quantas vezes encontrávamos Ferreira de Castro margeando o Sena! Um de seus romances, A Selva, fora traduzido na França com o título de La Forêt vierge e estava tendo muito sucesso. Ferreira de Castro passava uma temporada em Paris com sua mulher, Helena Muriel, e a filhinha Elsa e víamo-nos constantemente.

Às vezes passávamos no hotel onde a escritora alemã Anna Seghers se hospedava, para bater um papo; outras vezes ela saía conosco. Anna participara do Congresso e para mim fora a grande revelação. Eu lera, ainda no Brasil, o seu romance A Sétima Cruz — do qual foi feito um filme nos Estados Unidos — e me encantara com a força de narrativa e a grandeza humana da romancista.

Logo que Anna Seghers chegara a Paris, sabendo da admiração que eu tinha por ela, Jorge inventou que eu devia entrevistá-la para uma revista do Brasil. E eu lá sabia entrevistar alguém? Com que cara eu ia me apresentar diante de uma pessoa tão famosa, tão importante, tão séria, tão cheia de sabedoria? Eu não era jornalista... Mas Jorge, que já a conhecia, insistiu, éu acabei entregando os pontos e lá me fui, tremendo feito vara verde, ao encontro de Anna Seghers. Só que em lugar da pessoa austera, cheia de importância que eu esperava, encontrei um anjo, criatura simples, risonha, camarada. Tornamo-nos amigas desde esse dia. Anna gostava de ouvir e de contar histórias. Entre as suas histórias, sempre divertidas, lembro-me de uma que ela narrava fascinada: a de um pequeno país, do qual já não lembro o nome, terra tão fria e pobre que o povo, miserável, criava e alugava cães para aquecer a cama durante as noites de inverno. "Você já ouviu falar em coisa semelhante?", perguntava Anna, olhando-me nos olhos, muito à sua maneira, para sentir a minha reação.

Certa ocasião, muitos anos mais tarde, Anna Seghers veio nos visitar no Rio de Janeiro, onde morávamos. Hospedara-se num hotel na Praia do Flamengo e todas as manhãs fazia um passeio a pé. Numa dessas caminhadas, descobriu que no Largo do Machado, esquina com a Rua do Cate te, ia ser aberta uma lanchonete. Entusiasmada, ela nos telefonou, convidando-nos para a inauguração, no dia seguinte. Admirado com tal convite, Jorge quis saber:

—      O proprietário é teu amigo, Anna?

O proprietário não era amigo de Anna, nem mesmo compatriota, nunca o vira mais gordo, mas ela já se considerava da casa:

—      Colocaram na porta um aviso, anunciando a inauguração e convidando o público em geral... O público em geral, imagine!

Maravilhoso, não? — Ela acompanhara durante a semana, no seu passeio quotidiano, os preparativos, os últimos retoques na montagem e decoração da loja e não escondia seu entusiasmo: — Já está tudo terminado, até já lavaram o chão e estão enfeitando com bandeirinhas e flores... Tragam as crianças, elas vão gostar... Nós somos o público em geral, não?

Jorge até que gostaria de ir, encantado com o entusiasmo da amiga, mas tinha outro compromisso; eu fui, levando Paloma e João. Dos primeiros a chegar, conseguimos nos empoleirar em quatro altos e redondos assentos junto ao balcão; os meninos se deliciavam tomando um sorvete atrás do outro, sorvete grátis. Os olhos de Anna brilhavam mais do que nunca. Encarando-me de repente, ela ergueu as sobrancelhas e perguntou: "Hem?" Nem precisou dizer mais nada."Formidável!", respondi. Assim era Anna, cheia de amor pelas coisas simples da vida. Nos dias que se seguiram ela passou pela lanchonete do Largo do Machado, todas as manhãs, preocupada em verificar se o negócio estava marchando bem, como se nele houvesse empregado capital. O proprietário até hoje não sabe que teve madrinha tão ilustre.

 

'LE CHIEN"

João adorava sair a passear conosco pelas ruas de Paris. Q moleque já falava tudo em francês, sua primeira língua, e seu maior divertimento era correr solto pelos bulevares, separando casais que porventura — ou por desventura — passassem abraçados junto a ele. Com um delicado: "Pardon, Madame; pardon, Monsieur!", ele ia se metendo entre o par... quase sempre recebido com um sorriso, por vezes fuzilado com um olhar de raiva.

Certa manhã entramos numa livraria do Quartier, cuja vendedora, amiga de Jorge, chamava-lhe a atenção para as novidades. Apenas entramos, João começou a imitar um cachorro latindo: "Au, au, au..." Olhamos em volta, talvez houvesse algum cão escondido entre os balcões de livros. Ao ver-nos intrigados com a insistência da criança, que não parava de fazer "au, au, au...", a vendedora riu: "Mais, regardez: il a vu Le Chien de Picasso' Sobre o balcão havia um cartaz, de pé, anunciando uma gravura de Picasso: Le Chien. Francamente, custei um pouco a descobrir naquela espiral a figura de um cachorro... Dias depois, num almoço na Embaixada da Tchecoslováquia, encontramos Picasso e na mesa ele sentou-se a meu lado. Eu então lhe contei que João, de apenas um ano e meio de idade, reconhecera e se encantara com o seu Chien. Picasso gostou da história, não escondeu a sua satisfação e depois comentou com Jorge e comigo: mais do que os adultos, as crianças entendiam e amavam a sua arte.

 

JORGE SAI PARA ESCREVER UMA HISTÓRIA E APRESSA A VOLTA

Jorge publicara seu último romance, Seara Vermelha, havia mais de dois anos e, depois desse livro, não tivera mais tempo de sentar-se para escrever outro. Amadurecera na cabeça uma história e, terminados os compromissos com o Congresso, queria passá-la para o papel. Fez uma tentativa de trabalhar no Saint-Michel, em nosso quarto; arranjou uma escrivaninha emprestada, começou a escrever, mas não conseguiu ir avante. Por sua própria natureza, incapaz de se isolar, Jorge não resistia ao ouvir conversas em casa, aparecia logo: "...quem está aí?" Em Paris eram tantas as pessoas que apareciam sem aviso prévio.,. Se — coisa comum — era alguém lhe fazendo unr pedido: um prefácio, uma apresentação ou um artigo, ele não sabia recusar, não tinha coragem; deixava sua história de lado para atender à solicitação. Assim era ele, como ainda é até hoje. Não podendo trabalhar no Saint-Michel, decidiu-se a sair de Paris, ir para um lugar distante, onde não conhecesse ninguém e ninguém o conhecesse. Só assim poderia escrever sua história.

Tomou um ônibus e foi para Villefranche-sur-Mer, no Sul da França. Hospedou-se num pequeno hotel, com o propósito de só voltar com o livro terminado. Não pude acompanhá-lo: não queria me separar novamente de João e não tínhamos dinheiro suficiente para levá-lo, instalar a família toda em Villefranche; poroutro lado, eu não podia perder aulas. Motivos suficientes para que me conformasse, mas não me conformei, dei na tristeza. Sentia falta de Jorge, muitas saudades dele, a casa ficara vazia embora Misette se encarregasse de animá-la, João me distraísse e os amigos redobrassem as atenções comigo.

Foi Jacques quem inventou a novidade para alegrar um pouco o ambiente:

—      Por que não festejamos o aniversário de Misette?

Misette fizera anos havia quase dois meses, mas para Jacques isso não tinha a menor importância. Acabei me dando conta de que, no fundo, toda a preocupação de Jacques em alegrar a casa, de festejar Misette, não passava de pura sabedoria. Apaixonado por Annie, andava aflito dizendo que ela se fazia de rogada, fingindo não ligar ao seu entusiástico assédio. A festa para Misette seria um bom pretexto para encontrá-la e renovar seus protestos de amor. Convidada, Annie não se recusaria a vir às comemorações do aniversário em casa dos Amado. Aliás, Jacques andava entusiasmado em geral: com o amor e com o início de seu trabalho como pesquisador científico, colaborador de Irene Joliot-Curie.

No contato diário que vinha mantendo com Frédéric Joliot-Curie no Conselho Mundial da Paz, Jorge ouvira a opinião do sábio sobre o perigo atômico: "Nós não temos ainda uma idéia exata do mal que as experiências atômicas já causaram, mas podemos afirmar que uma guerra atômica não significará apenas o fim da humanidade: será o fim da vida sobre a Terra." Seria uma boa coisa se essa opinião de Joliot fosse divulgada no Brasil, através de uma entrevista. Jorge convocou a pessoa que lhe pareceu a mais indicada para realizá-la: Jacques Danon. Formado em Física — com palmas e louvores —, o nosso amigo possuía condições para fazer uma excelente reportagem com o grande cientista. A primeira reação de Jacques foi de surpresa:

—      Espera aí! Nunca fui jornalista...

Mas, diante da perspectiva de poder entrar em contato com o mestre, detentor juntamente com sua mulher, Irene, do Prêmio Nobel, o homem que dirigira a construção da primeira pilha atômica francesa, figura que tanto admirava, Jacques entusiasmou-se. Armado com um cartão de Jorge apresentando-o, foi recebido por Joliot e a entrevista durou quase duas horas. No final da conversa, o sábio lhe perguntou — mais do que uma pergunta, uma afirmação:

—      Mas, meu jovem amigo, parece-me que você não é jornalista profissional. Estou certo? Em que trabalha?

Ao saber que o rapaz era formado em Física e que ainda não se decidira sobre o rumo a tomar na vida, Joliot encaminhou-o a Irene que o convidou a trabalhar em seu laboratório, auxiliando-a em suas pesquisas. Jacques subiu aos céus.

A proposta de Jacques sobre a comemoração do aniversário de Misette foi recebida com entusiasmo pela turma toda: "Misette merece!", dissemos em coro. Cada um trouxe sua contribuição para a festa: vinhos, licores, queijos, patês, pães.

Passava das onze, a animação no auge, gargalhadas soltas, conversas acaloradas, quando começaram as reclamações dos hóspedes do hotel. Liú apareceu de emissário, pedindo silêncio. O jeito era terminar a festa o quanto antes. E Jacques se conformaria em separar-se de Annie tão cedo, quando tudo parecia caminhar tão bem? Nem pensar! "Podemos moderar a voz", propôs. Prudente, Misette, que não bebe, tratou de esconder o licor que restava — o vinho se fora havia muito —, mas o resultado foi negativo: iniciou-se a "busca à bebida", transformando-se em ruidosa e divertida brincadeira.

Antes que Madame Salvage subisse, ela própria, para pedir silêncio e dar um esbregue em todo mundo, achei de bom alvitre botar todos para fora. Jacques, sempre Jacques, propôs darmos um giro por Paris, tínhamos à disposição dois automóveis: o Citroen de Rosinha Casoy e o carro de Annie, por coincidência, também um Citroen.

 

NO LE LAPIN AGILE

Acabamos indo a Montmartre e depois de uma circulada pela butte, em meio aos pintores e aos exóticos zazous que por lá abundavam, entramos no Le Lapin Agile, cabaré de nossa estima, minha e de Jorge. Já estivéramos algumas vezes na colina de Montmartre, um de nossos programas favoritos; gostávamos de jantar no Mimiche, pequeno restaurante de deliciosa comida, preparada nas vistas do freguês pela proprietária, que sabia como ninguém fazer uma coquille Saint-Jacques; de ir até o Sacre-Coeur apreciar a paisagem.

No Le Lapin Agile, num ambiente aconchegante, todo mundo — conhecidos e desconhecidos — sentava junto nos mesmos bancos compridos, tomando um traguinho, ouvindo velhas canções francesas e repetindo com o cantor os seus estribilhos: Chevalier de Ia table ronde, Sur le pont d'Avignon, Auprès de ma blonde e tantas outras vieilles chansons françaises. 

Sentamos, por acaso, ao lado de outros brasileiros; Henda me apontou, entre eles, Cícero Dias e Raymonde, sua mulher.

No intervalo, enquanto os cantores descansavam, o apresentador veio falar com os clientes:

—      Vamos ver quem se habilita a cantar uma canção de seu país, aqui junto ao piano. Eu garanto o acompanhamento. — Enquanto falava dedilhava as teclas.

A princípio a inibição foi geral, ninguém se atrevia, ninguém queria ser o primeiro, mas, aos poucos, os candidatos foram aparecendo, alguns com boa voz, outros francamente desafinados. Achamos que Henda devia representar o Brasil, cantando uma canção antiga. Desconfiada, ela jurava não saber cantar, resistiu o quanto pôde, a coitada, mas acabou cedendo à pressão e, no meio da sala, encabulada, cantou Casinha Pequenina. Agora a turma se voltava para mim: "Canta, canta, canta..." Atrevida, como dizia dona Angelina, minha mãe, não me fiz de rogada, fui até o piano e anunciei meu número:

—      Vou cantar um samba de carnaval: Não me Diga Adeus.

Esse samba já me fizera derramar lágrimas amargas quando Jorge viajara para a Europa e eu ficara sozinha com as minhas saudades. A situação agora se repetia, embora não fosse idêntica, longe disso, apenas eu sentia a mesma nostalgia, as mesmas saudades, e a música que me ocorreu cantar naquela hora foi essa e eu cantei com muita emoção. Nem mal terminara, o pianista dava os últimos acordes, quando alguém se aproximou de mim e me abraçou: o pintor Antônio Bandeira, que ali se encontrava sem que nós o tivéssemos visto. Ele aderu ao grupo e assim confraternizamos com Cícero, Raymonde e seus amigos, todos eles conhecidos de Bandeira. Saímos juntos do cabaré para um famoso baile de negros.

O baile era dos mais animados, os pares grudados requebravam, exatamente iguais aos das gafieiras do Brasil. Em meio ao barulho ensurdecedor da orquestra, Jacques só tinha olhos para Annie:

—      Doutora — perguntava embevecido —, ela não se parece com a Ingrid Bergman?

Encabulada, Annie só fazia rir.

Na manhã seguinte, vieram os remorsos: "Coitado de Jorge, lá longe trabalhando, dando duro, e eu na gafieira..." Não perdi tempo, escrevi-lhe em seguida uma longa carta, contando da festa de aniversário, dos acontecimentos no Le Lapin Agile e do baile de negros. Também não esqueci de dizer que não dançara, apenas assistira. Ao menos isso!

Dois dias depois, Jorge chegava de surpresa, o livro por terminar "falta pouca coisa", explicou. Já tinha título: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.

 

A MAISON DE LA PENSÉE FRANÇAISE

Convidado pelo Comitê National des Écrivains, Jorge ia participar da grande venda anual de livros autografados, que se realizava na Maison de Ia Pensée sob o patrocínio do Comitê des Écrivains.

A Maison de Ia Pensée, em Paris, reunia várias organizações culturais nascidas durante a Resistência, na luta contra a ocupação nazista. Entre elas, o Comitê National des Écrivains, fundado na clandestinidade, símbolo da unidade dos escritores franceses antifascistas, do católico François Mauriac ao comunista Louis Aragon, organização que exercia grande atividade cultural, realizando sucessivos atos públicos, onde literatura e política se misturavam, levando muitas vezes ao desacordo aqueles que se haviam encontrado unidos na defesa da pátria e da liberdade.

A venda de livros que o Comitê National des Écrivains realizava anualmente, inaugurada sempre pelo Presidente da República, reunia os escritores franceses e também os estrangeiros com livros traduzidos em francês, que porventura se encontrassem em Paris. Cada autor convidava uma celebridade artística, uma vedete que lhe servia de madrinha e também autografava os livros.

Neruda viajara para o México, Guillén voltara para Cuba, não puderam estar presentes. Entre os escritores estrangeiros que iam participar da venda daquele ano, estavam Anna Seghers e Jorge. Jorge com três romances traduzidos em francês: Jubiabá (lançado pela Gallimard em 1938 com o título de Bahia de tous les saints, reeditado depois da guerra), Terras do Sem Fim (Terre violente) e Capitães da Areia (Capitaines du sable) que a mesma editora Gallimard acabara de publicar.

—      E quem vai ser tua vedete? — quis saber, curiosa.

—      Minha vedete, minha querida, adivinhe quem será? Quem poderia ser, senão você? A famosa cantora do Le Lapin Agile!

Credo! Jorge quase me mata ao me escolher e eu tratei de me arrumar à altura de uma verdadeira vedete, para ficar ao seu lado sem fazer má figura. Usei o vestido que fizera para ser madrinha de casamento de Joelson e Fanny, fiz uma suave e linda maquiagem num renomado instituto de beleza na place Vendôme, usei o chapéu de plumas que Maria Delia Costa me dera: "...ele varser útil em Paris" — e eú achara graça, não acreditando em suas previsões. Maria pensara bem, o danado do chapéu estava sendo da maior serventia: já o usara no casamento de nossos amigos, os artistas venezuelanos Adelita e Hector Poleo — ele pintor e ela ceramista —, de quem fôramos padrinhos, usara-o também na visita a Maurice Chevalier.

No amplo salão da Maison de Ia Pensée, o stand de Jorge era bastante procurado, formara-se uma fila para a compra de seus livros e para a obtenção de autógrafos. Eu não cabia em mim de felicidade em ver o seu prestígio. Nem me importei de estar ali presa, sem poder circular entre as barracas para ver os artistas célebres presentes. Jorge foi o escritor estrangeiro que mais vendeu e isso para mim foi o que mais importou.

Ao nosso lado estava sentado Georges Sadoul, que assinava seus livros sobre a história do cinema, tendo como padrinho o ator-diretor Jacques Tati, que, no ano anterior, estreara, com grande sucesso, o filme Jour de fête.

Entre os nossos amigos escritores, encontravam-se: Paul Eluard, Louis Aragon, Elsa Triolet, Vercors, Roger Vailland, Claude Roy, Pierre Daix, Claude Morgan, Pierre Gamarra, Renaud de Jouvenel, Pierre Seghers, Andrée Viollis, Aimé Césaire.

Gilberto Amado apareceu com a filha, a atriz Vera Clouzot, e o genro, o metteur en scène Georges Clouzot, viera abraçar o primo. Jorge e Gilberto pouco se encontravam, mas mantinham boas relações. Eu o via pela primeira vez e me surpreendi com a incrível semelhança dele com o pai de Jorge. Nenhum filho de seu João saíra fisicamente tão parecido com ele quanto o sobrinho, filho de Melquisedeque, seu irmão mais velho. Depois de se abraçarem, Gilberto reparou em mim:

—      E essa, quem é? — Ao saber que eu era a mulher de seu primo, brindou-me com um elogio: — Menina, quantos anos você tem? Já completou quinze anos? Jorge se casou com uma criança!

Jorge não resistiu, deu o serviço:

—      Você é quem pensa. Ela só tem quatro anos menos que eu!

Ao vê-lo fazer essa declaração, revelando minha idade, lembrei-me de Nicolás Guillén e Rosa e comecei a rir. Bonita e jovem, aparentando dez anos menos que Nicolás, Rosa era, no entanto, um ano mais velha que o marido. Nicolás não perdoava e, sempre que a elogiavam, se apressava a pôr em pratos limpos a realidade do calendário. Certa vez, em 1947, no Rio de Janeiro, fomos os quatro jantar em casa de Cândido Portinari. O pintor convidara vários amigos, e Rosa, cheia de espírito, ao ver a sala cheia, disse a Nicolás: "Digales, Nicolazito, digales en seguida que soy un afio mas vieja que tu y quedate tranqüilo..."

Uma historinha divertida, passada com Georges Sadoul naquela tarde de autógrafos, nos foi contada por ele mesmo. Feíiz de ter Jacques Tati a seu lado de padrinho, assinando, Sadoul deu-se conta de repente de que, distraído, em lugar de escrever seu nome ao autografar os livros, escrevia Jacques Tati. Encabulado, mostrou a assinatura ao companheiro: "Veja só..." Mas Tati não o deixou continuar, tranqüilizou-o em seguida: "Não se preocupe... Já faz tempo que estou assinando Georges Sadoul."

 

SARTRE E SIMONE DE BEAUVOIR ME ENSINAM FRANCÊS

Assíduos fregueses, voltamos uma noite ao Rose Rouge para ver os Frères Jacques, de quem éramos grandes fãs.

Em outras ocasiões víramos e saudáramos Sartre e Simone de Beauvoir no famoso cabaré existencialista. Naquele sábado, Sartre nos convidou à sua mesa.

Jorge havia estado com ele apenas duas vezes: por ocasião de sua chegada a Paris, no coquetel oferecido pelo editor de Terre violente, e, depois, quando fora lhe solicitar que assinasse o telegrama a Videla.

Passado bastante tempo um amigo nos contou que Sartre ficara muito tocado ao saber que Jorge, na reunião onde decidiram enviar um telegrama a Videla, pedindo liberdade para Neruda, garantira a Aragon e aos outros franceses presentes que Sartre o assinaria. Eles duvidavam que Sartre o fizesse, baseados nas divergências existentes, naquele momento, entre o filósofo criador do existencialismo e os comunistas. Jorge fizera justiça a Sartre: tais divergências não afetariam os princípios do pensador, sempre levantados em defesa da liberdade e dos direitos humanos:

—      Vou procurá-lo e aposto que ele assina.

—      Pois está apostado — retrucou Aragon.

Resultado: o nome de Jean-Paul Sartre encabeçou a lista dos signatários do telegrama.

A partir dessa noite no Rose Rouge, Jorge e Sartre se encontraram em muitas ocasiões e em várias partes do mundo, estiveram juntos em congressos, ficaram amigos.

Eu só vim a conhecer Simone de Beauvoir e Sartre mais de perto quando, em 1959, eles vieram ao Brasil, convidados para o I Congresso de Crítica e História Literária, realizado em Recife. O escritor Eduardo Portella era o secretário-geral do Congresso e dele partiu a idéia de convidar o casal de mestres franceses. Reforçando o convite oficial, feito pelo Reitor da Universidade Federal de Pernambuco, Jorge escreveu uma carta a Sartre, dizendo-lhe da importância do encontro e de suas presenças.

Com Sartre e Simone estreitamos relações de amizade sem a cerimônia nem o constrangimento que tantas vezes inibe os simples mortais no trato com grandes personalidades. Eles me puseram à vontade. Juntos viajamos pelo Brasil, mostrando-lhes a Bahia, o Rio de Janeiro onde morávamos, Minas Gerais, Brasília, ainda em construçãp, e a Ilha do Bananal, numa visita aos índios carajás. Tivemos oportunidade de conversar longamente, misturando temas sérios com coisas divertidas, indignando-nos algumas vezes com o que víamos, emocionando-nos noutras, rindo muito com as originalidades da vida brasileira.

Nessa ocasião eu era aluna da Aliança Francesa e para acompanhá-los estava perdendo aulas. Um dia Simone me disse que ela e Sartre andavam com remorsos. Por isso tinham resolvido dar-me lições particulares para compensar-me do prejuízo nos estudos. De caderno e lápis na mão, passei a receber aulas diárias — às vezes duas por dia. Os improvisados professores, mais ilustres impossível, passavam-me ditados, explicavam-me regras gramaticais. Acontecia uma ou outra vez divergirem sobre exceções ou acordos de verbos, em alegres teimas. Esse curso, ministrado em restaurantes enquanto esperávamos ser atendidos, nos divertia muito, pois Sartre fazia questão de me ensinar a linguagem popular, não apenas o elevado vocabulário próprio da Aliança Francesa, como fazia questão de especificar, mas, sobretudo, palavras, expressões e frases para o' uso diário:

—      Coisas que jamais você aprenderá na Aliança Francesa, Zéde — dizia, chamando-me pelo apelido que inventara para mim.

A aula começava:

—      Vamos ver: qual a diferença entre "s'enfoutré" e "être foutu'"? Âllons-y!

Boa aluna, encontrei, no entanto, dificuldade para dar um exemplo de s´en foutre", não dar bola, não dar confiança; mais difícil do que o da segunda expressão, que resumi num único gesto de mãos, arrancando dos mestres boa gargalhada acompanhada de um entusiástico e estimulante: "Bravo!"

—      Três bien. — Agora a mestra era Simone. — O que você deve dizer a quem te chateie? Et alors? Allons-y!

Eu repetia, caprichando na pronúncia, a frase que eles me haviam ensinado na véspera: "Il y a des coups de pied au cul qui se perdent!"

Meu vocabulário popular crescia e, a conselho dos mestres, eu o ia aplicando, seguindo-lhes o exemplo, au fur et à mésure que se apresentavam as ocasiões durante o dia: "Flúte!, merde, merde alorsf, con, espèce de con, espèce d'andouille! E daí pra mais.

 

SEU PAULO E DONA SIMONE NO CANDOMBLÉ

Na Bahia, o casal mostrou interesse em conhecer um candomblé e Jorge os levou ao terreiro do Axé do Opô Afonjá, onde reinava, na época, a falecida Mãe Senhora.

Na mesinha redonda, forrada de alva toalha de linho bordada, Mãe Senhora jogou os búzios para desvendar aos ilustres visitantes quais os orixás que os acompanhavam. Para evitar qualquer dúvida, Jorge escrevera numa folha de papel, em letras de fôrma: Jean-Paul e Simone, e entregou-a a Mãe Senhora.

Sérios, no maior silêncio, os dois aguardavam que a mãe-de-santo terminasse sua conversa com Xangô e lhes desse o resultado da consulta. Depois de atirar os búzios repetidas vezes sobre a toalha, entre seixos de rio e correntes de prata, o papel com os nomes ao lado, Mãe Senhora sorriu satisfeita:

—      Sim, senhores! Confirmado. Dona Simone é filha de Oxum e seu Paulo de Oxóssi, Oxum é das águas, santo de vaidade e dengue, santo bom, forte. É o meu e de Zélia, minha irmãzinha. — Voltando-se para mim, disse: — Tu é a Mãe Pequena dela. Tem que zelar por ela.

—      E o meu? — quis saber Sartre. — O que significa?

—      Oxóssi é caçador. O homem das florestas e da caça, terrível! — Deu uma olhada brejeira para as bandas de Jorge e Carybé, o grande pintor da Bahia que nos acompanhara: — É também o santo deles. De Jorge e de Carybé.

O olhar brejeiro de Mãe Senhora tinha sua razão de ser: Jorge e Carybé gostavam de se divertir, provocando-a, dizendo que o santo deles, Oxóssi, era muito mais forte do que Oxum, dela e meu. Resposta na ponta da língua, Mãe Senhora os derrotava:

—      Os senhores me digam, por favor: com o que se apaga o fogo?

— Ela mesma respondia: — Com a água! E agora me digam se já conseguiram, alguma vez, segurar a água na mão. — Mostrava o punho fechado. — Não há quem prenda ela, meus senhores! Oxum é forte, tem poderes... — Voltava em seguida a falar a sério, não era doida de se indispor com os orixás: —Todos os santos são bons! Sim, senhor! Todos são muito bons...

Carybé ainda a provocava:

—      E Exu, minha mãe?

—      E o que é que tem Exu, seu maluco? Exu é um senhor muito traquinas, brincalhão, não há dúvida, mas é muito bom, prestativo. Mas não se meta com ele, não!

Sartre e Simone ficaram fascinados pela figura imponente de Mãe Senhora, pelas coisas inteligentes e por vezes poéticas que ela dizia. A inesquecível ialorixá presenteou-os, na despedida, com patuás de seus orixás, que eles guardaram, encantados.

Durante sua estada no Rio de Janeiro, Sartre e Simone foram muito recepcionados, convidados para vários jantares, entre eles, na casa de Antônio Callado, de Oscar Niemeyer e de Roland Corbusier; num desses três, não me recordo em qual das casas, ocorreu um fato curioso e imprevisto. Em conversa sobre candomblé, durante o jantar, o dono da casa contou que sua cozinheira era baiana e de candomblé. Sartre demonstrou vontade de conhecê-la e a empregada veio à sala; ele lhe perguntou se conhecia Mãe Senhora e ela respondeu que sim: "Qual o baiano que não conhece Mãe Senhora?" Tirando do bolso o patuá que guardava com carinho, Sartre mostrou-lhe o presente que ganhara da mãe-de-santo: "Cest elle qui me l'a offert..." Foi mal-interpretado: pensando que a visita lhe oferecia o breve, a moça apossou-se dele, comovida: "Deus lhe pague." Sartre nunca se conformou com a perda de seu patuá. Jorge conseguiu-lhe outro igual,-mas não adiantou, para ele o que valia era o de Mãe Senhora.

 

AUTÓGRAFOS NA FRONTEIRA

Numa cidade de nosso roteiro, um romancista, leitor e admirador do casal, promoveu um grande jantar para homenageá-lo. Não sabendo falar francês o anfitrião conseguiu uma intérprete, jovem filha de um amigo seu que tinha fama de ser cobra no francês. Colocada à esquerda de Sartre, constrangida, sem saber por onde começar, a mocinha mantinha-se calada. Aflito, o dono da festa reclamava:

— Fale, Helena, você fala tão bem francês... Que é isso? Está acanhada? Você nunca foi disso... Fale... — insistia.

Depois de um visível esforço, a única coisa que ocorreu à moça foi perguntar a Sartre se realmente ele era um existencialista. Criou coragem:

—      Monsieur Sartre, est-il vrai que vous êtes un existentialiste?

—      Oui, oui! — respondeu Sartre.

Mais animadinha um pouco, ela voltava à carga:

—      Monsieur Sartre, qu'est-ce que c'est Vexistentialisme?

Paciente,   Sartre respondeu-lhe que já escrevera centenas e centenas de páginas sobre o existencialismo e não estava certo de ter conseguido explicar sua filosofia. Como poderia defini-la ali, em duas palavras?

Já engrenada, solta, Helena, que ouvira cantar o galo sem saber onde — ouvira, certamente, falar sobre os existencialistas franceses que dançavam nos porões —, dava vazão à sua curiosidade:

—      Monsieur Sartre, est-ce que vous dansez dans les caves?

Atenta, acompanhando o diálogo em frente, Simone não pôde conter o riso; achou muita graça na pergunta ingênua da menina e se pôs a rir sem parar, a ponto de deixar Sartre incomodado. Mais tarde ele reclamou:

—      Coisa mais desagradável, Castor — era assim que a chamava —, rir na cara da menina...

Durante a viagem, Simone voltava sempre à carga:

—      Monsieur Sartre, est-ce que vous dansez dans les caves?

Sartre já não reclamava, ria conosco:

—      Eu prefiro ver Castor rindo, mesmo quando é às minhas custas, a vê-la com cara de chameau. — Ele me perguntava: — Você reparou, Zéde, que ela costuma se transformar num camelo quando algo lhe desagrada?

Sartre tinha uma posição frontal de luta contra a política colonialista do Governo francês, batia-se valentemente pela independência da Argélia. Por essa destemida posição, estava sendo terrivelmente atacado e ameaçado de prisão na França.

Para evitar aborrecimentos à chegada, no aeroporto de Orly, eles decidiram partir do Rio de Janeiro para a Espanha. De Madri seguiriam para a França, de automóvel.

Ao nos despedirmos, Simone retirou de seu dedo o anel de jade que usava sempre, presente que lhe haviam dado na China, e colocou-o no meu dedo: "Guarde como recordação", disse, e nos abraçamos. Era o segundo anel de jade que eu ganhava de uma amiga francesa.

Ao chegar a Paris, Simone nos escreveu. Contava que, ao passarem pela fronteira da Espanha com a França, o policial que controlava os passaportes, ao reconhecê-los, pediu-lhes que esperassem um momento. Sartre se chateara, iam começar as amolações: "Qu'est qu'il va encore nous foutre?" O policial não demorou, voltou sorridente trazendo o Livro de Ouro que fora buscar lá dentro, pedindo-lhes a honra de seus autógrafos.

 

VERÃO EUROPEU

Paris começava a esvaziar-se com a entrada do verão, estação das férias, quando as escolas deixam de funcionar, todo mundo tranca suas casas, suspende os negócios, fecha os estabelecimentos comerciais, sai para o campo, para as montanhas, para as praias ou, simplesmente, vai visitar parentes em qualquer outra cidade. As ruas ficam desertas de franceses; os cinemas e os teatros, em geral, apresentam reprises ou espetáculos sem importância. Com raras exceções de umas quantas lojas, somente os grandes magazines funcionam. A população que circula pelas ruas já não é a mesma, tem outro aspecto, na maneira de vestir e de se comportar, ela é, na sua maioria, constituída de provincianos ou de estrangeiros, vindos das mais variadas partes do mundo para passar as férias em Paris.

A nossa turma, amigos brasileiros e amigos franceses, não fugiu à regra, eles também saíram de Paris. Aquela seria uma boa ocasião para aceitar os convites que recebêramos das sociedades de escritores da Hungria, da Romênia e da Bulgária para visitar seus países. Jan Drda, Presidente da União de Escritores Tchecos, nosso amigo, também nos chamara para nova temporada no castelo de Dobris. Queria que conhecêssemos o castelo durante o verão.

Decidimo-nos, pois, a dar uma circulada de pouco mais de um mês pelos quatro países.

Jorge partiu de avião para a Tchecoslováquia, não quis arriscar nova recusa de visto dos americanos, foi nos esperar na estação de Praga. Na cabine do trem, comigo, além de João, viajaram Misette e Rosinha Casoy.

Em Praga nos esperava um convite para ir à Eslováquia. A República da Tchecoslováquia é formada por três regiões autônomas: a Boêmia, a Morávia e a Eslováquia, as duas primeiras falam a língua tcheca e a terceira tem língua própria, o eslovaco.

Jorge tinha livros traduzidos para o eslovaco e os seus leitores queriam encontrá-lo e conversar com ele. Visitaríamos a capital Bratislava, e, se quiséssemos — constava do convite —, poderíamos fazer esporte de inverno, em pleno verão, nos Tatras, lá nas alturas dos Cárpatos, onde a neve é eterna.

A tentação de galgar montanhas geladas não nos seduzia de jeito nenhum. Andávamos cansados de tanto frio, preferíamos, como os europeus, desfrutar do breve sol do verão.

Misette e João ficaram em Dobris e nós seguimos de automóvel para Bratislava levando conosco Rosinha que, munida de trajes de esporte de inverno, sapatões próprios para a neve, se dispunha, no maior entusiasmo, a enfrentar quantos Tatras encontrasse pela frente.

 

DANÚBIO AZUL

Chegamos a Budapeste após uma longa e linda viagem de automóvel, passando por pequenas cidades e pitorescos vilarejos, atravessando largas extensões de campos cultivados, coloridos campos de trigo, onde as douradas espigas se entremeavam com papoulas, margaridas e miosótis.

Nosso hotel, o Gelert, ficava em Buda, na parte alta da cidade, à direita do Danúbio. Para ir a Peste, ao lado esquerdo, devíamos atravessar uma ponte.

Durante a guerra a aviação nazista destruíra muitas pontes, criando verdadeiro caos nas duas partes da cidade, isoladas uma da outra.

Verdadeira espinha dorsal que mantém, une e dá vida às duas partes da cidade, as pontes de Budapeste mereceram prioridade na sua reconstrução. Cumprindo o programa organizado para nós, passamos nosso primeiro dia em Budapeste, margeando o Danúbio, em visita às pontes: as novas, construídas depois da guerra, as que estavam sendo construídas e as destruídas pelos bombardeios.

Ao saltar do carro para visitar a primeira ponte, fui direta até a margem do rio. Curiosidade romântica minha, a de querer espiar as águas azuis do Danúbio. Mas que decepção! Aquelas águas que eu via correr, tranqüilamente, aos meus pés, nada tinham de azul, talvez até fossem mais barrentas do que as do meu Tietê, em São Paulo... Jorge me perguntou:

—      Será que você pretendia mesmo que elas fossem azuis?

—      Você nunca ouviu a valsa de Strauss, Danúbio Azul? — respondi.

Jorge riu:  

—      De um artista se pode esperar tudo. Certamente, quando ele compos a valsa, devia estar muito apaixonado...

Nossa intérprete, Marita, falava bem o português, pois vivera e estudara em São Paulo, tendo retornado à Hungria, sua pátria, havia apenas dois anos.

Eu estranhara ver tantas piscinas públicas nas praças e o intenso movimento, por toda a cidade, de pessoas esportivamente vestidas, carregando toalhas de banho. Marita aproveitou a deixa para propor: "Se querem dar uma mergulhada..." Ela própria, coitada, naquele calorão, devia estar morta de vontade de dar uma caída, se refrescar, como fazia o povo em geral.

Uma orquestra cigana tocava no restaurante do hotel, onde costumávamos comer, e, desde o primeiro dia, o violinista se encantou conosco — o colete vermelho, com penduricalhos dourados, que usava dava-lhe um toque pitoresco, completado pelos grandes bigodes caídos. Nem bem nos sentávamos, lá vinha ele, parava junto à nossa mesa e sapecava uma música francesa conhecida, sempre a mesma: "J'attendrai le jour et la nuit..." Não gostando da insistência do virtuose que, fazendo mil trejeitos com o corpo ao manejar o arco, cometia a imprudência de fixar os olhos em mim, Jorge amarrou a cara, explodiu:

—      Esse sujeito está se fazendo de besta...

Reação tão inesperada contra o pobre inocente a princípio me deixou perplexa, mas depois me fez rir.

Os dez dias em Budapeste passaram rapidamente, os programas eram variados: almoços com escritores, encontro com leitores de Jorge, visitas a monumentos e a museus. Marita fez questão de nos mostrar o Parlamento, que percorremos por dentro e por fora.

 

UM AMIGO QUERIDO

Em Budapeste Jorge reviu, e eu conheci pessoalmente, Gyorgy Lukács, com quem fizera amizade durante o Congresso de Wroclaw. Os debates do Congresso, como já contei antes, foram abertos por Jorge com um discurso que obteve grande repercussão. Quando Lukács falou — e sua palavra de mestre era ansiosamente esperada —, teceu os maiores elogios à intervenção de Jorge, que ficou sensibilizado, pois muito prezava a opinião do grande pensador. Naquele Congresso, Lukács foi duramente criticado pelos soviéticos, que o acusavam de teórico e porta-voz do formalismo. Certamente por esse motivo, ao regressar à Hungria o despojaram de seus cargos no Partido e colocaram no ostracismo.

Estranhando não ver Lukács entre os muitos escritores húngaros que o cercaram durante a nossa estada em Budapeste, Jorge perguntou por ele. Soubemos então o que se passava: Lukács caíra em desgraça, não era convidado para nada. Imediatamente Jorge dirigiu-se ao Secretário do Comitê Central encarregado das relações com os partidos estrangeiros, dizendo-lhe que desejava cumprimentar Lukács, de quem era amigo. O Secretário não só tomou providências para que o encontro se realizasse o quanto antes, como também comentou com Jorge: "Eu gostaria que os escritores húngaros tivessem a mesma atitude do camarada..." Não preciso dizer que Lukács ficou comovidíssimo.

Todas as vezes que voltamos à Hungria estivemos com ele e nos tornamos bons amigos — inclusive ele era, como nós, amigo fraterno de Anna Seghers, alemã de nacionalidade, húngara de origem. Anos depois, Lukács foi expulso do Partido, despojado de todo e qualquer cargo, preso e perseguido devido à sua participação no governo de Imre Nagy, como Ministro da Cultura, e na insurreição de 1956. Escapou da pena de morte mas, mesmo depois de solto, vivia relegado ao completo isolamento, acusado de traidor. Nessa ocasião, Anna Seghers e Jorge escreveram-lhe uma longa e afetuosa carta. Anna, que visitava o Brasil pela segunda vez, passava uma temporada em nossa casa do Rio Vermelho, onde escreveu alguns de seus admiráveis contos. Soubemos posteriormente, pela própria Anna, que aquela carta proveniente do Brasjl foi uma das raras que o mestre da crítica literária contemporânea recebeu nos últimos anos de sua vida.

Nosso encontro com Lukács, nessa rápida passada por Budapeste, valera a viagem. Os programas prosseguiram naqueles últimos dias. Marita nos acompanhou ao Lago Balaton, onde tomamos ótimos vinhos da região e eu me entretive colhendo pedrinhas, na margem do famoso lago, pedras brancas como o leite, em formato de unha de cabra. O passeio maravilhoso nos possibilitou também conhecer !um pouco do interior da Hungria.

De lá fomos para a Romênia. O trem sairia às dez da noite e durante a tarde daquele último dia visitamos uma fazenda coletiva, experiência do novo regime; ao nos despedirmos dos camponeses, recebemos de presente dois queijos de tipos diferentes, ali fabricados.

Arrumamos as coisas de última hora, antes de sair para a estação; a bagagem de mão já estava repleta e o pacote dos queijos sobrara. Cadê lugar para ele? Jorge me perguntou se eu pretendia levá-lo na mão e eu respondi que já não tinha mãos disponíveis, pois tudo o que estava programado para eu carregar já era muito. Acrescentei que os queijos, cheirando daquele jeito na cabine fechada, iam empestar tudo, nos sufocar.

— E se a gente der os queijos a Marita? — propôs Jorge.

Achei a idéia genial, nos livraríamos do volume e a moça iria adorar. Eu dera a Marita uma blusa quase nova. Ela perguntara, certa manhã, se a blusa que eu vestia era do Brasil, pois tivera uma igual, comprada na Sloper de São Paulo. Por coincidência, a minha fora comprada na mesma casa de modas e eu não vacilei em oferecê-la à gentil intérprete, que suspirara ao recordar sua blusa brasileira. Para o meu gosto, as blusas húngaras, bordadas e coloridas, eram infinitamente mais bonitas. Eu comprara várias e estava encantada.

No trem, nossa cabine recendia a rosas, rosas lindas e perfumadas que eu ganhara na despedida.

Passaríamos a fronteira da Hungria com a Romênia depois de meia-noite, por isso deixamos os passaportes com o cabineiro para não sermos despertados pelo guarda que viria examiná-los. Marita explicou tudo direitinho a ele; podíamos dormir tranqüilos, pela manhã receberíamos os passaportes de volta, já carimbados.

 

NOITE TRANQÜILA, TRÁGICO DESPERTAR

A confortável cabine de primeira classe nos proporcionara um sono profundo e reparador. Dormimos além da conta, acordamos com o trem parando numa estação. Já estávamos na Romênia, porém só chegaríamos à capital, Bucareste, às dez da noite, se porventura não houvesse atraso.

Jorge consultou o relógio e deu pressa: se não andássemos ligeiro não pegaríamos o restaurante aberto para o café da manhã. Vestíamo-nos rapidamente, quando, parando de súbito, Jorge começou a ler um aviso fixado atrás da porta:

— Quer saber da melhor? — disse, alarmado. — Estamos em território romeno e sem um tostão no bolso, não temos dinheiro romeno, nem um único leu.

O aviso explicava, em várias línguas, que as divisas estrangeiras só podiam ser cambiadas na fronteira por um funcionário governamental. No restaurante não eram aceitas moedas estrangeiras, nem cheques.

Em pleno sono, não vimos o funcionário e, conseqüentemente, não trocamos dinheiro.

—      Por via das dúvidas — disse Jorge —, não custa nada averiguar, eu vou perguntar ao cabineiro, quem sabe existe algum guarda por aí que troque?

O cabineiro chegava naquele momento trazendo os passaportes e foi logo mostrando os carimbos: o da saída da Hungria e o da entrada na Romênia. Ele só falava húngaro e romeno, o que não nos ajudava em nada. Tentando fazer-se compreender, Jorge mostrou-lhe as diferentes moedas que trazia: dólares, coroas tchecas e alguns poucos florins que nos sobraram na Hungria. Experiente, o funcionário não custou a entender o que desejávamos; balançou a cabeça como quem diz: "nada feito", apontou-nos o aviso que já tínhamos lido e partiu.

—      Babau, era uma vez um café da manhã!. — comentei pilheriando para contrabalançar a decepção.

—      Essa agora! — exclamou Jorge, contrafeito.

O ritmo de nossa toalete diminuiu, já não havia pressa. Passava de meio-dia quando a sineta tocou anunciando o almoço, o restaurante devia estar abrindo as portas. Eu mesma me maltratava:

—      Vai ver que até gulache tem no almoço... — disse com água na boca, relembrando os gulaches deliciosos que comêramos em Budapeste.

Jorge me aconselhou a descansar, pois deitada, imóvel, como ele já se encontrava, sentiria menos fome.

Aquele era um trem parador. Logo na primeira estação, debruçados na janela, acháramos graça ao ver um soldado encostado a uma porta, muito na dele, a se cocar, desinibido. Jorge comentou:

—      Veja só, aquele soldado bem podia ser brasileiro. Já se nota aqui a presença do sangue latino, a mesma esculhambação.

Nas paradas seguintes, tarde afora, nossa fome só fazia aumentar ao ver mulheres e meninos espalhados pela plataforma, movimentando-se no afã de vender coisas de comer aos passageiros do trem. Carregados de fieiras de cerejas graúdas, pretas e rosadas, presas em cordões pelos cabinhos; ameixas amarelas e pretas, enfiadas em barbantes; rosquinhas de massa de trigo e ovos, polvilhadas de açúcar, dez ou doze em cada barbante, os vendedores se aproximavam da janela, levantavam as benditas rosquinhas à altura de nossos narizes — ai, que perfume embriagador! Jorge me confessou que sempre detestara, sempre tivera horror a roscas. Mas se aquelas fieiras lhes caíssem nas mãos...

A necessidade de alimento já se tornara idéia fixa. Afinal de contas, eu ficara algumas vezes sem comer o dia todo, fazendo regime para emagrecer, e suportara bem, não me queixara. Agora via que existia uma pequena diferença entre o jejum por falta do que comer e o jejum programado: ao fazer o regime eu sabia que podia rompê-lo à hora que quisesse. No outro caso, mesmo que eu quisesse, não podia, não tinha como. Pensei no sacrifício das pessoas que protestam fazendo greve de fome. E os que passam fome por falta de recursos, por falta de comida? Tantos, no Brasil.

Impressão ou realidade, eu sentia dores no estômago e muita fraqueza. Propus a Jorge:

—      E se eu batesse à porta de uma cabine qualquer do corredor e pedisse ao vizinho?

Propunha, sabendo de antemão que Jorge não estaria de acordo, e mesmo que estivesse, achasse boa a minha idéia, jamais eu bateria à porta de alguém para pedir um pedaço de pão. Nem eu nem Jorge. Claro que não! Nem mortos! O brio e o pudor eram mais fortes do que tudo.

Em contraproposta à minha idéia, que fora refutada como eu previra, Jorge me apresentou um plano que acabara de engendrar, plano, segundo ele, infalível, que eu poderia executar com a maior competência:

—      Preste bem atenção: na próxima parada, quando um vendedor — se for um menino, tanto melhor — te oferecer roscas e frutas, não vacile! Compre, apanhe as frutas e as roscas, venha buscar o dinheiro e só volte à janela quando o trem der a partida; aí você mete umas dez ou vinte coroas tchecas na mão dele e... adeus amigo! Que tal?

—      Que tal? Horrível. Prefiro morrer à míngua a fazer uma falcatrua dessas! Por que é que você não tenta, você mesmo? Me diga!

Nem Jorge nem eu teríamos coragem de fazer tal pilantragem, é claro, mas tais projetos ao menos serviam para encher o monótono e infindável tempo, para nos distrair um pouco.

Eu já pensara muito nos queijos que déramos a Marita. Não só pensara como até sonhara com eles, numa rápida cochilada, mas nem me atrevi a comentar com Jorge. Mas não adiantou nada ser prudente, ele também pensava nos queijos:

—      Você sabe o que eu comeria agora com o maior prazer?

Aqueles queijos que você não quis que eu trouxesse... — Suspirou: —

Não me deixou trazer...

Que Jorge mais abusado! Boba, eu não me dava conta de que ele se divertia à minha custa. Desconcertada, quis esclarecer as coisas:

—      Eu não te deixei trazer? Mas que ousadia! Se você não tivesse concordado em dar...

Não cheguei ao fim de meu discurso, interrompida pela risada do provocador que voltava à carga, o próprio Exu:

—      Não se altere, não, meu bem! Guarde tuas energias, senão a fome aumenta. Eu te perdôo, não fique triste. Eu sei, de outra vez você não vai dar meus queijos a ninguém, não é? — Revoltada, deixei-o sem resposta.

Depois que saíramos do Brasil, em menos de dois anos, aquela era a terceira vez que passávamos fome: a primeira fora no vôo de Paris à Moscou, com pouso forçado em Berlim; depois em Kiev e agora, em situação bem mais grave: teríamos que amargar o dia todo, entrar pela noite, esperar até chegar ao hotel. Segundo nossos cálculos, por volta de meia-noite. Pensei em Lalu. Se ela pudesse desconfiar que o filho estava passando fome, certamente se desesperaria: "Mas como é que tu deixa meu filho sem comer, Zélia? Fazer o pobrezinho passar fome? Hum!"

Já passava das oito horas e o dia ainda estava claro, coisa normal no verão. A sineta anunciando o jantar soara e emudecera havia muito. Deitada, olhei para o ramo de rosas já fanadas que eu colocara, na véspera, na redinha para pequenos volumes, ao alto. A idéia surgiu de repente: e por que não? Como não pensara antes? Ia comer as rosas, depois de dividi-las com Jorge no sistema do mezzo-a-mezzo, meio buquê para cada um.

—      Vamos comer as rosas, Jorge?

Ele me olhou assombrado: "Teria ela entrado em delírio?" Nem esperei a resposta que não veio, apanhei as flores, meti uma rosa inteira na boca: "Hum! Até que é bom! Docinho...", tentava entusiasmar Jorge. À medida, porém, que fui mastigando, o docinho foi se tornando amarguinho, um gosto insuportável! Ainda assim consegui comer umas seis rosas de cores variadas, o gosto sempre o mesmo: horrível! Jorge assistia calado, os olhos grudados em mim. Por fim, rompendo o silêncio, murmurou com pena:

—      Coitadinha!

Já passara muito das dez horas quando o trem, finalmente, entrou na estação de Bucareste. Espiamos pela janela; havia muita gente aglomerada na plataforma em atitude de espera. Comentei:

—      Parece que está chegando, neste trem, alguma personalidade importante, algum graudão...

Tratamos de arrumar as maletas de mão sobre o assento, a fim de facilitar a descida. Jorge combinou comigo:

— Eu desço logo e você vai me dando as coisas pela janela. Baixe em seguida pra gente dar o fora antes que o graúdo salte e a confusão na plataforma se generalize.

Por sorte tínhamos o nome e o endereço do hotel onde íamos ficar. Os escritores húngaros haviam se encarregado de avisar à União de Escritores Romenos de nossa chegada mas, apesar disso, não contávamos encontrar ninguém na estação àquela hora da noite. Certamente nos procurariam no dia seguinte, no hotel reservado por eles.

A composição dava os derradeiros solavancos antes de parar de vez, quando nosso vagão foi invadido por um bando de homens que se precipitou sobre Jorge no corredor, quando ele já se preparava para saltar. Envolveram-no e o levaram; da janela vi que se distanciavam em direção à aglomeração, onde havia um microfone de pé. Estupidificada, soltei uma exclamação criada por mim para ocasiões muito especiais: "Carmalacha! O graudão é ele mesmo!" Flashes de aparelhos fotográficos espocavam, holofotes se acenderam iluminando tudo. E eu, pobre de mim, na confusão ficara ali abandonada, sem saber o que fazer com a bagagem. Felizmente minha agonia durou pouco; apareceu, apressada, uma senhora em meu socorro. Era Emília, pessoa designada para nos acompanhar. Moça despachada, em três tempos Emília deu destino à bagagem; puxando-me pela mão, furou o cerco e chegamos até Jorge. Atordoada com todo aquele movimento, eu esquecera a fome.

Na comitiva encontravam-se, entre outras personalidades, o Ministro da Cultura e Zaharia Stancu, Presidente da União de Escritores Romenos. Zaharia Stancu já era nosso conhecido. Excelente escritor. Entre seus romances, um deles foi traduzido, anos depois, para o português e editado no Brasil, Pés Descalços. Estivéramos com Stancu em Varsóvia e em Paris.

Pelo rádio, transmitindo para todo o país, o Ministro deu as boas-vindas ao grande escritor brasileiro, lutador da causa da paz e do socialismo, e à sua companheira. Preocupada, cheguei a temer que Jorge, fraco do jeito que devia estar, não tivesse condições de responder à saudação do Ministro, medo inclusive de que ele desmaiasse de fome. Mas Jorge não desmaiou, falou com voz firme e emocionada, agradecendo em seu e em meu nome a acolhida, enviando uma mensagem de saudação ao povo romeno.

No automóvel posto à nossa disposição, chegamos ao hotel por volta de meia-noite. Emília perguntou se queríamos comer alguma coisa. Perguntou por perguntar, por pura educação, devia achar que àquelas horas tardias estaríamos doidos para dormir, cansados da fatigante viagem. Nunca iria supor que estivéssemos em jejum desde a véspera:

— Subam para tomar um banho, eu espero, não se apressem, o restaurante fica aberto até tarde.

Em menos de cinco minutos chegávamos de volta, assombrando a moça com a nossa rapidez; apenas lavamos as mãos e passamos um pente nos cabelos. E para que mais?

 

"DÊ-ME UM JURNAL"

Naquela ocasião Jorge tinha apenas um romance, Terras do Sem Fim, traduzido e publicado em romeno. Seu prestígio na Romênia provinha também, e sobretudo, de sua atuação na luta pela paz, pelo posto de responsabilidade que ocupava como membro do Bureau do Conselho Mundial da Paz.

Em todos os jornais de Bucareste a notícia de sua chegada, ilustrada com fotos, saíra estampada na primeira página.

Pela manhã, depois de atender a jornalistas e fotógrafos que o procuraram no hotel para entrevistá-lo, fomos à Livraria Noastra, no centro da cidade, onde uma vitrine estava dedicada a Jorge, enfeitada de cartazes anunciando a edição de Terras do Sem Fim; exemplares do livro e fotos. Haviam programado uma tarde de autógrafos e um encontro com leitores, para daí a alguns dias.

Na Romênia eu podia, tranqüilamente, dispensar a listinha de palavras que costumava fazer e decorar em cada país a que chegava. Na Hungria fracassara: língua mais difícil a magiar, sem raízes nem parentesco com nenhuma outra. Só consegui aprender uma palavra, e essa, por acaso, até bem fácil, talvez a única palavra fácil da língua: "iro", que significa "escritor". O romeno me pareceu familiar, com muitas palavras italianas, outras portuguesas, outras francesas... Língua de invenção, língua de poesia.

Passávamos por um jornaleiro e Jorge quis comprar um jornal onde aparecia nosso retrato na primeira página. Mandaria para os pais; seu João e Lalu ficariam contentes ao ver o filho brilhando pelo mundo. Emília pediu ao jornaleiro: "Dê-me um jurnal." Pagou e recebeu o jornal. Percebendo a nossa admiração, ela se divertia: "Se, por acaso, quiserem comprar carne, é muito fácil, é só chegar num açougue e pedir: 'Dê-me um quilogramo de carne de boi."' Os exemplos eram muitos, e, em italiano, então...

Lembrei-me de que, certa vez, no hall do Hotel Alcron, em Praga, eu encontrara um jornal, certamente largado ali por algum hóspede. Comecei a ler e vibrei: até que enfim, depois de tanto tempo, deparava-me com um jornal que podia ler, um jornal italiano. Mas, à proporção que ia lendo, fui começando a perceber nas frases palavras em francês, em português e em outras línguas que absolutamente eu não entendia. O que significava aquilo? Apenas um jornal romeno. Aprendi também que a língua romena contém trinta por cento de vocábulos eslavos. Ainda assim, dá para entender muita coisa.

 

DOFTANA — CAMBUCI

Um de nossos primeiros programas em Bucareste, creio que o primeiro, foi visitar as ruínas de Doftana; Doftana é o nome de um castelo que fora construído havia muitos séculos, no alto de uma colina e que servira de cárcere a presos políticos, durante a monarquia. Anna Pauker, antiga lutadora revolucionária e que na ocasião era Ministro das Relações Exteriores da Romênia, ali estivera presa. O castelo desabara com um terremoto, antes da guerra, e os homens ali aprisionados perderam suas vidas sob os escombros. Restaram de pé apenas algumas celas, por acaso as câmaras de tortura, onde os prisioneiros eram emparedados. Diante dessas celas, comparei-as às que vira em 1945, em São Paulo. A guerra terminara, nazistas e fascistas haviam sido derrotados e a ditadura do Estado Novo chegava ao fim. As comportas da opressão explodiam e o povo vinha às ruas; a polícia política era desmascarada, as torturas de presos políticos chegavam ao conhecimento público, as prisões se esvaziaram e seus portões se abriram, franqueados a quem quisesse ver com seus próprios olhos o que se passara lá dentro. Eu tivera meu pai encarcerado por longo tempo. Ele adoecera na prisão e morrera logo depois de ser posto em liberdade. Fiz questão de ver de perto a cadeia que diziam ser a mais terrível de todas: a "masmorra do Cambuci"; lá estavam os monstruosos cubículos, quatro apertadas paredes onde apenas cabia um homem de pé, sem se mover, paredes pintadas de piche, uma gota d'água caindo do alto, sem parar... Essa prisão romena, tombada como Monumento Nacional, não era mais terrível do que as do Brasil, elas se igualavam.

 

NAS MONTANHAS DE SINAIA

Passamos um fim de semana numa das casas destinadas ao repouso dos escritores, nas montanhas de Sinaia, onde se situavam o palácio de verão do Rei Carol e um cassino, transformados, após a guerra, em colônia de férias para escolares.

Antes da guerra os milionários davam-se ao luxo de construir casas magníficas nas montanhas de Sinaia, um dos mais elegantes lugares de veraneio da Romênia, onde passavam temporadas; construções belíssimas, levantadas em meio aos bosques, na encosta da montanha. A maioria de seus proprietários, terminada a guerra, com a mudança de regime, havia seguido o exemplo do Rei Carol, deixando o país e abandonando as propriedades. Alguns desses solares haviam sido postos, pelo Governo, à disposição da União de Escritores, que os administrava, proporcionando aos escritores um ambiente confortável e tranqüilo para o trabalho criador. Ao lado, independente das casas, funcionava um restaurante que os atendia. Ficamos hospedados numa das belas mansões durante um sábado e um domingo, na alegre companhia de escritores e de suas famílias que também lá se encontravam, alguns para escrever, outros apenas para o weekend.

Das montanhas não regressamos a Bucareste; de lá mesmo seguimos adiante, íamos conhecer uma fazenda coletiva. Pelo caminho paramos algumas vezes, visitando colônias de férias para crianças, casas de repouso para velhos, sanatórios para pessoas debilitadas, todos instalados em residências senhoriais abandonadas por seus proprietários. Voltávamos a ver coisas que já nos haviam mostrado na Tchecoslováquia, na Polônia e na Hungria. Programas obrigatórios quando se visita pela primeira vez um país socialista. Mesmo já conhecendo, estando a par dos planos e das iniciativas assistenciais dos governos democráticos populares, me entusiasmava sempre.

 

NAS MINHAS BARBAS

Na cooperativa agrícola, muito semelhante, como sistema e planos, à que visitáramos em Budapeste, encontramos uma peculiaridade que chamou nossa atenção: entre os camponeses havia ciganos, famílias inteiras arando a terra. Para mim essa novidade rompia com o tabu estabelecido de que cigano é ladrão de cavalo e que as ciganas, além de ler a buena-dicha, não fazem outra coisa senão roubar. Tínhamos estado, é bem verdade, com os artistas do Teatro Cigano de Moscou, mas cigano lavrando a terra é coisa diferente, era a primeira vez que víamos.

Conversávamos com alguns deles quando se aproximou do grupo uma cigana, o filho de poucos meses escanchado na cintura. Eu nunca vira mulher mais bela. Os olhos rasgados e expressivos e os dentes alvos sobressaíam na pele fina e morena do rosto. Mesmo em desalinho, seus longos cabelos eram bonitos.

Impressionada com a formosura da moça, quis comentar com Jorge, chamar-lhe a atenção, mas chegava atrasada, ele a vira antes mesmo que eu e estava verdadeiramente encantado. Percebendo que a acháramos bela, a cigana ria faceira, fazendo charme, quando, de repente,, ao se aperceber de que sua filha, menina de uns quatro anos, ali ao lado, puxava o rabo de um cachorro — que lhe mostrava os dentes, pronto para mordê-la —, soltou um grito terrível: "Nandita!" Assustada, a criança largou a brincadeira e o cão saiu ganindo de dor do pontapé que levara daquela mãe apavorada. O sobressalto transfigurara a cigana, tornara-a ainda mais impressionante, uma fera!

Passado o momento de tensão, voltando a si, as mãos ainda trêmulas, ela pediu um cigarro a Jorge; enquanto o acendia, ele lhe dirigiu duas palavras romenas, expressão de que gostara e aprendera logo ao chegar: "Você é forte formosa! Envaidecida, lisonjeada com o elogio, sentindo-se cortejada, a zíngara deu uma tragada, soltou a fumaça no rosto do galanteador e, acintosamente, o provocou passando a língua, de leve, nos lábios. Mulher mais atrevida! Senti-me humilhada, invadida por um ciúme mortal, não tanto pela petulância da audaciosa mas, principalmente, por ver Jorge entusiasmado. Tão balançado ele estava que nem conseguiu disfarçar. Engoli o sapo com dignidade, calada. Mas teria engolido mesmo? Por vezes o diabo do sapo me sobe à garganta — como acontece neste momento —, pois não consegui ainda esquecer aquele flerte — como dizem os baianos —, ali, nas minhas barbas.

 

NAS PROFUNDAS DA TERRA

À tardinha chegamos a uma pequena cidade de mineiros, na Valéa Jiului, às vésperas da grande festa em homenagem ao mineiro Pop Ludovico. À frente de sua equipe, no fundo da mina, Pop Ludovico extraía carvão, enchia vagonetas e mais vagonetas, vencendo a emulação estabelecida entre os mineiros no plano de trabalho para 1949. Cada equipe recebera uma cota, devia encher determinado número de vagonetas de carvão até dezembro daquele ano. Estávamos ainda no mês de junho e Pop Ludovico encheria sua última vagoneta no dia seguinte, cumprindo assim, no primeiro semestre, a cota do ano inteiro.

A cidade embandeirada festejava o herói do trabalho, enfeitando as "ruas com faixas e com flores.

Depois de vários dias embaixo da terra, sem subir à superfície, sem respirar o ar puro, a fim de avançar no trabalho, o jovem mineiro apareceria glorioso diante do povo que o aguardava, na manhã seguinte, às dez horas.

Em frente à entrada da mina, por onde ele devia sair, fora erguido um palanque onde vários oradores, entre eles o Secretário do Partido na região, o saudariam; Jorge estava incluído na lista.

Na cidadezinha, onde só habitavam mineiros e suas famílias, não existiam hotéis. Ficamos hospedados, por uma noite, na casa de um mineiro — casa simples, sem conforto —, num pequeno quarto do filho do casal que dele fora desalojado para que o ocupássemos.

Com a nossa chegada antecipada, as comemorações também se anteciparam com um improvisado jantar num restaurante popular. Na mesa sentei ao lado do Secretário do Partido. Ele quis saber se gostaríamos de descer à mina, pela manhã, antes do sol nascer. Podíamos cumprimentar Pop Ludovico a quatrocentos metros de profundidade da terra, ter a honra de colocar uma pá de carvão na última vagoneta. Empolgadíssima com a proposta, nem consultei Jorge e, achando que ele estaria de acordo, aceitei o convite. Devia ser sensacional descer a uma mina de carvão e surpreender um herói em sua trincheira de trabalho! Ao ouvir mais tarde as minhas considerações entusiásticas sobre a chance que nos ofereciam, de descer à mina no dia seguinte, Jorge ficou uma fera:

— Quem foi que lhe disse que eu gosto de descer em minas? Tenho horror a minas! Não vou descer nessa nem morto! Desci na da Polônia, para nunca mais!

A reação de Jorge me desapontou mas, mesmo assim, resolvi não desistir. Eu iria de qualquer jeito. Ficara frustrada por não ter visitado a mina de sal polonesa, não ia perder agora essa oportunidade. Preferia mil vezes, lógico, descer com Jorge numa boa, comentar tudo, divertindo-nos... mas já que ele não tinha gosto nem vontade de ir, paciência. Eu iria sozinha e, em vez de uma pá de carvão, colaboraria com duas, pelo casal, para completar a vagoneta da vitória. Disse-lhe:

— Já que você se recusa a ir, meu querido, não quero insistir. Vou sem você. Triste, mas vou. Estou doida para conhecer uma mina.

Por essa ele não esperava, mas diante de minha decisão — obstinação, dizia —, não vendo jeito de recusar o convite sem a minha cumplicidade, Jorge ficara num impasse: ou deixar que eu fosse só, sem ele, coisa que pegava mal, ou ir, mesmo forçando a natureza. Acabou cedendo, aceitou a segunda opção mas desabafou, acusando-me de obrigá-lo a fazer o que não tinha vontade, de oprimi-lo, etc, etc. Amarrou a cara em sinal de protesto, não abriu mais a boca.

Não eram seis horas, os galos ainda cantavam, quando saímos para visitar Pop Ludovico na sua mina. Na entrada nos entregaram roupas próprias de mineiros, que devíamos usar na excursão: calças de lona grossa, larguíssimas, presas na cintura por um elástico bastante frouxo; um blusão também de lona e um chapéu de plástico, de aba larga virada na frente como os dos lobos-do-mar.

Ao ver Jorge vestido de mineiro, com o chapéu que ele enterrara de propósito até os olhos, na visível intenção de me afrontar, tive ganas de rir mas me contive. Perguntaram se desejávamos descer por uma escada ou se preferíamos o elevador. Temeroso de que eu me antecipasse, entusiasmando-me com a escada, ele se apressou: "Queremos ir de elevador." De elevador tinha pouco aquela prancha de madeira, suspensa por fios de aço, que nos transportou a uma boa dezena de metros do solo. Ali terminava a mordomia, daí por diante só Deus sabia o que nos era reservado. Apenas duas lanternas iluminavam o caminho: a do guia à frente e a do último da fila. Na quase escuridão, num calor úmido e abafado, seguíamos o luciferário, esgueirando-nos por uma longa e estreita galeria antes de atingir a escada. Jorge, coitado, não escapara da escada. Ali estava ela, estreita, íngreme e escorregadia; nos preveniram desse último detalhe, no momento de descer, com recomendações de "escorrega muito, todo o cuidado é pouco", uma queda naquele local poderia trazer problemas imprevisíveis. A lanterna iluminou o rosto de Jorge: mais preto, impossível! No seu rosto, de branco havia apenas o branco dos olhos. Como pudera lambuzar-se daquele jeito? Ainda uma vez me contive para não rir. Eu não conseguia deixar de constatar o lado cômico da situação e me controlava. Se risse, Jorge explodiria e ai de mim! Naquela hora o seu habitual senso de humor baixara a zero, sumira nos arcanos da mina.

Quis ser a primeira a descer a danada da escada escorregadia. Parecia sabão. Lá embaixo aguardaria a chegada de Jorge. Inda bem que ele era magro, eu poderia apará-lo caso deslizasse, pensei, entre preocupada e divertida. Ele descia cautelosamente, atrapalhado pelas calças que caíam: tratei de chamar-lhe a atenção e, como resposta, obtive apenas um resmungo seco: "Deixa que caiam!"

Chegávamos agora a outra galeria ainda mais longa do que a anterior, descemos outra escada, mais uma galeria... perdêramos a noção do tempo, de direção, de tudo: marchávamos num labirinto sem fim, enlouquecedor. Nunca pensara que iríamos enfrentar uma empreitada daquelas, ao aceitar o convite. Comecei a achar que Jorge tinha razão de estar tão zangado. Perguntei aos camaradas se ainda faltava muito. Responderam que faltava pouco, chegaríamos em seguida ao local onde labutava Pop Ludovico. Aquela maratona dentro da mina fazia-me recordar as fantásticas aventuras de Júlio Verne em Viagem ao Centro da Terra, que me impressionara na juventude.

Resolvendo quebrar o mutismo, Jorge me perguntou, mais do que uma pergunta, uma acusação:

—      Já está satisfeita ou ainda quer mais? Já pensou na volta?

Pensando refazer aquela terrível caminhada, verdadeiro castigo, eu me sentia bastante preocupada; vê-lo tão contrariado, tão infeliz, me deixava profundamente chateada. Para melhorar o seu humor eu até seria capaz de desistir de tudo, ali mesmo, embora estivesse louca para ir até o fim. Procurei falar-lhe com carinho, ansiosa por uma reconciliação:

—      Você não acha, meu querido, que depois de tanto sacrifício, já no fim... é só ter um pouquinho mais de paciência... — Falava sem ter coragem de olhá-lo de frente, de olhar para sua cara negra de carvão, suas calças arriadas que ele teimava em não suspender como faziam os

demais. Se olhasse para ele não conseguiria conter o riso que eu prendia na boca a duras penas.

Felizmente, o Secretário do Partido anunciou que chegáramos à última galeria; para mim, alcançáramos a última etapa do purgatório. Daí para baixo já seria o inferno, com labaredas de fogo e tudo.

—      E onde está Pop Ludovico? — perguntei.

O guia respondeu que para chegarmos até ele tínhamos apenas uns trinta metros, nem isso. Havia, no entanto, ainda um detalhe que ele, tendo notado o nosso mal-estar, explicou timidamente:

—      Vamos ter que nos curvar um pouco, pois a galeria que conduz ao nosso homem ainda não foi totalmente aberta e a passagem é muito baixa.

Ao saber que devia percorrer, curvado, uns trinta metros, Jorge não agüentou rnais, estourou num monólogo para que eu ouvisse:

—      Quando dizem trinta metros é porque são cem, e quando dizem que vamos andar curvos é porque vamos andar de quatro, feito bichos! — Numa última investida, tentou ainda encerrar ali a caminhada: — Os camaradas não acham que a nossa presença pode perturbar o trabalho de Pop Ludovico? Acham justo interrompê-lo quando está empenhado em cumprir sua cota antes das dez horas?

Tentativa mais inútil! Não obteve o menor sucesso. Ninguém achou que íamos atrapalhar o herói, muito pelo contrário, a presença do representante do Movimento Mundial da Paz lhe daria ainda mais ânimo, uma homenagem dessas o faria muito feliz.

Quando o teto baixou de vez, depois de menos de vinte metros percorridos, nos aconselharam a seguir o exemplo do guia; pusemo-nos de quatro e saímos engatinhando pelo chão enlameado. Desta vez Jorge tomou a minha dianteira, as calças se perdendo pelo caminho, resmungando, dizendo palavras pesadas que só eu entendia. A galeria não só era baixa, como surgiam de quando em vez, para atrapalhar, canos atravessados no caminho, obrigando-nos a rastejar para conseguir passar por baixo. Por fim, chegamos a uma espécie de praça, galeria larga e iluminada, onde se encontrava Pop Ludovico, magro e musculoso, no afã de cumprir a tarefa. Parou um momento, enxugou o suor do rosto com as costas da mão, enxugou a mão na calça suja e apertou as nossas. Sorriu ao receber os elogios que lhe fazíamos. Cada um de nós encheu uma pá de carvão; eu enchi a minha o mais que pude e dei uma espiada, disfarçada, para a de Jorge, quase vazia, quatro ou cinco pelotinhas de carvão, não mais que isso.

Uma coisa me intrigara: aquela enorme vagoneta não poderia passar pelos terríveis e tortuosos caminhos por onde chegáramos até ali. Qual seria a mágica capaz de transportá-la até o alto? Não precisei perguntar nada, pois nosso guia e o Secretário do Partido abriam caminho e nos conduziam a um elevador enorme que, em poucos minutos, nos levou ao alto, à saída para a rua.

Satisfeito e risonho, o Secretário do Partido pediu-nos um minuto de atenção, antes de irmos ao chuveiro. Sapecou-nos uma aula política, explicando por que preferira levar-nos pelos piores caminhos da mina, por galerias já mortas; escolhera-os propositalmente, confessava: "... os intelectuais, mesmo quando lutadores do vosso gabarito, necessitam conhecer de perto, sentir na própria carne, como é dura e heróica a vida dos trabalhadores, ter consciência da importância do proletariado que luta e enfrenta os maiores sacrifícios pela construção do socialismo. Os intelectuais", disse, o dedo em riste, "devem se mirar nesse espelho para vencer suas contradições de classe!" Conclusão: daríamos, daí por diante, estava certo, mais valor aos trabalhadores de minas e em especial aos mineiros da Valéa Jiului.

Aula terminada, Jorge resmungou entre dentes:

— E, ainda por cima, esse imbecil!

 

HISTÓRIA DE UM MENINO REBELDE

Eu tentava limpar o rosto de Jorge com meu creme de limpeza; o sabão não dera conta do recado, o carvão se entranhara de tal maneira, fundo nos poros, difícil de removê-lo. Ao realizar a operação limpeza, lembrei-me de contar a Jorge a associação de idéias que me viera à cabeça ao vê-lo de rosto negro, lambuzado. Recordara-me uma das histórias que Ilia Ehrenburg nos contara, a mim e a Jorge, uma façanha de sua meninice.

Bom contador de histórias, Ilia possuía uma grande qualidade, rara nos contadores de histórias: gostava também de ouvi-las e o fazia prestando atenção. Por isso nosso intercâmbio de casos do passado era dos mais movimentados e divertidos. Ele a contar passagens de sua infância, peripécias de Ilia, o menino rebelde, e nós a lhe falar de nossa vida familiar dos tempos de criança, as histórias de Jorge, menino vivo e astucioso, e as de Zélia, a menina atrevida. Ele apreciava os casos de dona Angelina com seu anarquismo e os de Lalu a contar vantagens dos filhos.

Terceiro filho — único varão — de uma família abastada, Ilia era uma criança revoltada; sentia-se oprimido pelas irmãs e preterido pelos pais. A história que me ocorrera naquele momento tragicômico, nas profundas da terra, ele nos contara para que tivéssemos uma idéia exata do menino insubordinado que fora.

Os Ehrenburg abriam seus salões para um grande jantar. Temerosos de que o pequeno Ilia — useiro e vezeiro em diabruras — aprontasse uma das suas durante a recepção, os pais trataram de preveni-lo de que não se sentaria à mesa com os convidados. Nem mesmo o autorizaram a descer aos salões.

Sozinho no quarto, curtindo mágoa e revolta contra tudo e contra todos, imaginando as irmãs, já mocinhas, de donas da festa, remoia infelicidade e raiva, tramava vingança. Lá de baixo chegava aos seus ouvidos rumor de vozes, risos soltos, e o que mais o apoquentava era sentir o odor das iguarias preparadas no correr do dia. Estava nesse tormento, quando a porta se abriu e por ela entrou a irmã mais velha trazendo a bandeja com seu jantar: arenques defumados, cebola crua e pão. Nada mais. Arenques e um sorriso, sorriso que ele interpretou como insuportável provocação. Aquilo já passava das medidas, era demais! Não ia aturar tal afronta. Apenas a jovem virou as costas, rapidamente arquitetou um plano de vingança e, mais rápido ainda, tratou de executá-lo: cortou os arenques e a cebola em pedaços miúdos e, embebendo-os no azeite, espalhou-os pelas gavetas, entre as finas roupas das irmãs, colocou-os dentro de bolsas, de chapéus, em bolsos de vestidos, fez o serviço completo. Mas achou pouco. Desceu, sorrateiro, ao porão, despiu-se todo, untou dos pés à cabeça o corpo nu com óleo de lamparina e, por fim, espojou-se no monte de carvão ali em depósito: "Fiquei completamente negro, irreconhecível! Quase mato minha mãe de susto e de horror ao aparecer entre os convidados, no salão, naquele estado."

Recordei a história a Jorge e lhe disse:

— Quem tem razão é Luba, quando me diz que nossos maridos se dão tão bem porque se parecem demais. Confesse, não minta, por favor: você se melou todo daquele jeito por vingança, só para me afrontar. Foi ou não foi?

Jorge apenas riu.

 

SENHORA DONA DO BAILE

Nossa estada na Romênia chegava ao fim. Despedíamo-nos com pena, cativos do país, de seu povo, de suas belezas naturais, de sua arte. Nos deslumbraram as cerâmicas e o artesanato em geral, mas as blusas bordadas me deixaram louca. Gastei o dinheiro que possuía comprando blusas. Recebi duas de presente da União de Escritores, duas maravilhas, blusas antigas bordadas com fios de ouro, peças de museu. Com elas uma estola finíssima, tecida a mão.

Como último programa, antes de partir para a Bulgária, participaríamos de uma recepção no palácio do Governo, onde estariam reunidas personalidades do Partido, escritores e artistas de toda a Romênia.

Zaharia Stancu e sua mulher vieram nos buscar no hotel. Na intenção de homenagear nossos hospedeiros vesti uma das blusas com fios de ouro, a estola por cima.

Pessoa simpática, liberal e sem nenhuma pose, o Presidente da República, Petru Grosa, nos recebeu risonho e afável. Conversamos longo tempo, ele desejava saber o que víramos e qual a nossa impressão do país.

No jantar magnífico, voltávamos a nos regalar com as deliciosas comidas romenas: os quifteluces, os mussacás, os chacheliques, os pimentões e as berinjelas assados na brasa, os tomates recheados...Voltamos a tomar ó feria, vinho branco romeno, néctar sublime. O Perla não ficava atrás dos bons vinhos franceses da Alsácia nem dos alemães do Reno.

Uma orquestra cigana abrilhantou o baile, após o banquete. Aos primeiros acordes dá música senti um arrepio. Nunca ouvira antes nada semelhante, nada que me tocasse tanto e me fizesse vibrar como aquela orquestra alucinante; de instrumentos diferentes, com suas flautas de Pã. O baile se iniciara com uma polca. O compasso binário da música, com seguimentos alegres, mexeu comigo, fez-me cócegas nas solas dos pés. EU apreciava, entusiasmada, o rodopio e os saltos dos pares dançando, quando Petru Grosa se aproximou, puxou-me pela mão: "Vamos dançar?"

Eu nunca dançara põlca, dança da época de meus pais, e também nunca dançara com um Presidente da República, mas não hesitei, saí a polcar com Petru Grosa.

Pé-de-valsa de primeira, o Presidente não só era um exímio bailarino como também uni mestre na arte de conduzir a dama. Mais uma vez me saía bem — dá outra, com o dançarino georgiano, não fizera feio —, rodopiava acompanhando meu par, sem errar o passo, em meio à roda que se formara em nossa volta, na alegria da polca, sentindo-me a própria senhora dona do baile.

UMA COROA PARA DIMITROV

Saímos de avião ao meio-dia, numa viagem de uma hora, de Bucareste e Sofia, com muitas despedidas no aeroporto: La rivedere, amigos, até logo e não adeus, voltaremos mais dia menos dia!

Devido ao fuso horário, a Bulgária uma hora mais cedo do que a Romênia, chegamos em Sofia ao meio-dia, na mesma hora em que partimos.

Esperavam-nos no aeroporto escritores e representantes do Conselho de Cultura e Arte. Sentimos logo o clima de tristeza que os invadia, todos traziam no braço a faixa de crepe, luto pela morte de Georgi Dimitrov.

Presidente do Conselho da República Popular da Bulgária e ídolo do povo búlgaro, Dimitrov morrera havia cinco dias, deixando de luto não apenas os seus compatriotas mas também aqueles que, no mundo inteiro, durante anos, haviam acompanhado sua luta pela causa do socialismo. Dimitrov derrotara, em 1933, no Tribunal de Leipzig, a Cioering e a todo o seu bando nazista, passando de acusado a acusador, desmascarando aqueles que haviam tentado envolver e responsabilizar os comunistas pelo incêndio do Reichstag, provocado pelos próprios nazistas com o propósito de desencadear represálias contra os seus oponentes políticos e aniquilá-los. Assistido por um grupo de juristas, entre os quais o francês Mareei Willard — a quem conhecemos em Paris —, Dimitrov desmascarou, no Tribunal de Leipzig, a farsa montada pelos asseclas de Hitler. Foi esse mesmo advogado, Mareei Willard, quem acompanhou e deu assistência a dona Leocádia Prestes, na luta para reaver sua netinha Anita Leocádia, filha de Olga Benário e de Luiz Carlos Prestes, nascida numa prisão nazista.

Em apenas quatro dias o povo búlgaro construiu, no jardim em frente ao antigo Palácio Imperial, um mausoléu onde foi colocado, exposto à visitação pública, o corpo de Dimitrov.

Prestamos nossa homenagem a Dimitrov, na manhã seguinte à nossa chegada, levando uma coroa de flores ao mausoléu.

A cidade de Sofia, tão bonita, estava triste. Nas ruas, onde faixas de crepe pendiam das janelas das casas, notava-se a desolação, e na face das pessoas refletia-se um pesar verdadeiro.

Iniciamos, a seguir, o programa que a União de Escritores estabelecera para nossa visita. Partimos numa longa viagem pelo país, fugindo daquele clima tenso, de morte próxima.

QUANDO O NÃO E SIM E VICE-VERSA

Num almoço com escritores, antes de sairmos estrada afora, sentei-me ao lado do Presidente da União de Escritores Búlgaros — meu conhecido da Polônia e de Paris — e aproveitei para fazer minha listinha costumeira. Meu vizinho falava bem o francês e mostrou-se encantado em colaborar comigo.

— A primeira coisa que desejo aprender — disse-lhe — é como se agradece, como se diz "obrigado" em búlgaro, pois quero lhe agradecer, no seu idioma, o convite que nos fez para visitar a Bulgária e a acolhida tão cordial.

Ele sorriu:

—      Não tem o que agradecer, nós é que nos sentimos honrados...

Mas se deseja saber como se diz "obrigado" em búlgaro, é muito fácil: "blagadariú".

Prestara atenção e repeti: "Blagadariú". O meu professor de búlgaro balançou a cabeça em sinal negativo e eu repeti: "Blagadariú". Novamente a cabeça do mestre dizia não. Pedi-lhe que repetisse a palavra e ele, pacientemente, a repetiu; intrigada, pois estava convencida de ter pronunciado "blagadariú" corretamente, reclamei:

—      Pois olhe, me desculpe, mas tenho a impressão que repeti direito.

Meu vizinho continuou a balançar a cabeça de um lado para o outro, mas, ao mesmo tempo, elogiava a minha pronúncia: "Uma perfeição!"

—      E por que então faz com a cabeça que não? — perguntei.

Ao ver-me confusa, ele se pôs a rir, certamente estava se divertindo desde o início do diálogo:

—      A companheira não sabia? Na Bulgária, nós invertemos os gestos, ou seja: o vosso não de cabeça para nós quer dizer sim e o vosso sim quer dizer não. Daí a sua confusão. Foi bom até ter aprendido logo essa peculiaridade búlgara, sem o que vocês iriam enfrentar outros qüiproquós e confusões.

Antes de sair de Sofia visitamos uma igreja medieval, a Bojana, linda na sua simplicidade; no momento, também ela de luto, uma faixa negra fora colocada na entrada do templo ortodoxo.

TERRA DE GUERRILHEIROS

Com o esporreteado e já citado Trifon ao volante, saímos de Sofia com destino às montanhas para conhecer o famoso Monastério de Rila.

Pela estrada afora e por toda parte, a lembrança de guerrilheiros mortos estava sempre presente através de monumentos nas praças públicas, de obeliscos, grandes e pequenos, ou simplesmente de marcos com inscrições, em beira de estradas, com que o Governo e o povo búlgaros os homenageavam. Assim a Bulgária enaltecia os seus heróis tombados nas lutas contra os invasores nazistas, lutas que haviam culminado com a insurreição de 1944, quando, com o apoio de tropas soviéticas, o povo búlgaro expulsara o inimigo do solo de sua pátria.

No início da viagem descemos várias vezes do carro, diante dos marcos, na estrada, para conhecer os nomes dos heróis, a convite do nosso bom intérprete, que traduzia as inscrições, com exaltado entusiasmo patriótico. Seu nome, se não me falha a memória, era Anton. Ouvíamos com interesse e, por que negar?, esquecíamos logo em seguida, nomes, datas e pormenores. Eram muitos, impossível reter na memória aqueles difíceis nomes búlgaros.

Mais ainda que Anton, o intérprete, Trifon revelava-se um fanático de heróis guerrilheiros, não deixando escapar um marco sequer, parando em frente de quantos encontrasse. Começávamos a ficar fartos e achamos por bem pedir-lhe que em vez de parar o carro, apenas diminuísse a marcha diante dos monumentos, a fim de não atrasar a viagem. Ouvidos de mercador, Trifon continuou a fazer o que lhe dava na telha e até desviou o caminho, só para nos exibir mais um monumento. Saímos da estrada principal, metemo-nos num caminho estreito, indo nos bater, por fim, num campo de girassóis, girassóis gigantescos como nunca antes víramos iguais. Em meio às flores, à beira da estrada, encontrava-se um pequeno obelisco, em cuja placa constava uma relação de nomes de guerrilheiros tombados naquele lugar:

— Esse aqui — disse Trifon apontando um dos nomes — eu conheci, era meu amigo. — Falava com orgulho, realmente emocionado.

 

GRANJA EXPERIMENTAL

O campo de girassóis valera o longo desvio. Pertencia a uma granja experimental, e tão encantados estávamos que resolvemos visitá-la. Percorremos as plantações e ficamos sabendo que existiam no país outros campos semelhantes, nos quais eram aplicados os métodos revolucionários de Mitchurin para o desenvolvimento da agricultura. Mitchurin, o célebre cientista russo, autor das pesquisas de hibridação, criara novas espécies de vegetais. Os resultados da aplicação de seus métodos eram verdadeiramente surpreendentes; pudemos ver espigas de milho e espigas de trigo de grãos enormes, bem maiores do que o comum.

Dessa vez agradecemos a Trifon que, sem saber, por puro capricho, nos proporcionara ver algo muito interessante e que não estava no programa.

 

MONASTÉRIO DE RILA

Até o ano de 1944, fim do poder do Príncipe Cyrillo, início do regime socialista, o Monastério de Rila, construído no ano 900, num vale entre as altas montanhas das quais herdara o nome, possuía um estatuto que lhe dava grande autonomia, fazendo-o um Estado dentro do Estado búlgaro. Os monges ortodoxos que o dirigiam detinham direitos absolutos sobre as terras que o circundavam, mantendo os camponeses na condição de servos, obedecendo às leis do monastério, trabalhando para os monges.

Terminada a guerra, os sacerdotes permaneceram no seu monastério mas perderam o poder feudal, o domínio sobre a região e o povo que lá habitava. Ficaram sujeitos às leis do país e, obviamente, nada satisfeitos com a nova situação.

A noite começava a tombar quando avistamos, ao longe, o monastério imenso, impressionante, plantado ali, naquele fim de mundo, havia mais de mil anos. Ele não só me deslumbrou como chegou mesmo a me assustar.

Estávamos chateados com nosso trêfego chofer que não havia meio de se emendar. Ao passarmos por uma aldeia, havia pouco, atropelara e matara uma galinha. Um de seus divertimentos preferidos era o de assustar galinhas e outras aves que encontrasse pela frente, nas ruas dos povoados. Saía a persegui-las com o carro em ziguezagues, ameaçando a vida das pobrezinhas e também as nossas. Naquela tarde ele matara uma infeliz que ciscava despreocupada no meio da rua e não conseguira escapar a tempo. Indignados, reclamamos, mas Anton não traduziu a queixa ao ferrabrás.

Estacionados diante do pesado portão do convento, tocamos campainha e sineta repetidas vezes, esperando que viessem nos atender e nos dessem pousada. Não havia, nas imediações, onde pernoitar, e voltar no escuro pelo tortuoso e estreito caminho da montanha parecia-nos arriscado demais. Se tivéssemos chegado mais cedo, dia claro, não haveria problema, mas as paradas nos monumentos atrasaram a viagem, e a única solução seria passar a noite no monastério. Ao reclamarmos das paradas sem fim a que o caprichoso fanfarrão nos submetia, Anton garantiu que não nos faltaria lugar onde dormir, não nos preocupássemos. Os monges podiam hospedar, se quisessem, até um regimento, espaço era o que não faltava no enorme mosteiro. Se quisessem? E se não quisessem?

Depois de muito insistir na sineta, um monge abriu a pequena porta embutida no grande portão e nos fitou com cara de poucos amigos. Travou com Anton um longo diálogo. Evidentemente não entendemos uma única palavra, mas percebemos que o diálogo era áspero e inamistoso. Anton pedia-lhe pousada, por uma noite, para os hóspedes estrangeiros. O monge acentuava a resposta balançando a cabeça de cima para baixo e eu traduzi em seguida:

—      O padre está dizendo que não.

Entabulara-se uma discussão entre Anton e o sacerdote e dela só percebíamos o bater de cabeça do padre: "não, não e não!" Jorge comentou comigo que eles deviam ter muito ódio de tudo que cheirasse a governo socialista, dele queriam distância. Nosso carro oficial, do Ministério da Cultura, ali estava, denunciando a presença do inimigo.

Trifon, que, curiosamente, até então apenas ouvira, resolveu tomar a dianteira das negociações e entrou na discussão; eu temi que ele pusesse tudo a perder, ao vê-lo, sem a menor diplomacia, tratar o monge de "tovaritch" — "camarada", tanto em russo quanto em búlgaro.

Qual seria o problema? Qual a desculpa que o sacerdote apresentava para negar o pernoite? Ocupado com a discussão, no afã de demover o padre de sua posição, Anton não respondia às nossas indagações, não nos explicava nada. Por fim, esgotados todos os argumentos, ele decidiu botar, de vez, as cartas na mesa: puxou do bolso uma credencial assinada pelo Presidente do Conselho de Arte e Cultura, Secretário do Comitê Central do Partido Comunista, estendeu-a para que o monge lesse. Tomando o papel, iluminando-o com a lanterna, o padre examinou atentamente o documento — a assinatura, principalmente —, pediu que esperássemos. Ele próprio não podia decidir nada, não passava de um pau-mandado, devia consultar os maior ais. Afinal de contas, nem tudo lhes fora tirado, usufruíam ainda de algumas regalias e favores do governo popular.

Enquanto aguardávamos a resposta, Anton nos esclareceu: "O problema todo reside na presença da camarada Zélia. Eles concordam em hospedar os homens mas não podem hospedar mulheres." Segundo o padre, desde que o monastério fora erguido, jamais uma mulher transpusera os umbrais daquele templo sagrado, a entrada lhes era terminantemente proibida.

Ao ouvir a explicação, Jorge resolveu se divertir:

—      Você está mal de vida! Esses teus parentes não te querem lá dentro... Já decidiu onde vai dormir?

A coisa que mais divertia Jorge — aliás, diverte até hoje — era atribuir-me parentesco com pessoas as mais estranhas, na intenção de me traquinar. Assim os monges ortodoxos passaram a ser meus parentes, todos eles.

Lá vinha o padre de volta, um molho de chaves na mão. Tudo indicava que eu fora admitida.

—      Está vendo a força do poder? — comentou Jorge. — Aqui somos governo, aqui mandamos...

Eu também resolvera me divertir:

—      Nada como ter bons parentes! Vamos, vá! — Apertei-lhe o braço. — Agradeça-me a hospedagem!

O monge abria o pesado portão para que o carro também entrasse. Estávamos com fome e Trifon adiantou-se reclamando jantar. A cozinha se encontrava fechada, os monges comiam cedo, mas concordaram em nos dar um prato de sopa e um pedaço de pão.

O refeitório, com longas mesas e bancos rústicos, quase na penumbra, iluminado apenas por lampiões, dava uma impressão desoladora e triste. Jorge continuava de bom humor, a se divertir dizendo que meu tio não ia permitir que dormíssemos juntos, que eu seria conduzida para outra ala do convento onde ficaria isolada para não tentar os homens. Eu lhe respondi que estava morrendo de medo e não o largaria por nada. Aquele lugar lúgubre, de largas paredes úmidas e teto baixo, cenário assustador de filmes de Frankenstein, me apavorava.

O teto da cela que nos coube para dormir não era mais alto do que a mina de Pop Ludovico: se não nos cuidássemos arranjaríamos um galo na cabeça. Certamente aquela era a pior cela do monastério, um verdadeiro pardieiro, mais desconfortável, impossível! Não tinha janela, apenas a porta, na parede uma espécie de nicho com uma pia rachada e encardida onde, da torneira quebrada, corria um fiozinho de água; um lastro de alvenaria, estreito, um colchão fino em cima, era a cama para que nos arrumássemos. Inda que magros, mesmo juntinhos, não sobrava espaço para nos movermos. Cheguei a pensar que teriam escolhido a dedo aquele covil, com o propósito de me castigar. Soubéramos que o monastério havia sido restaurado no século XIX, mas, certamente, no cubículo onde passaríamos a noite não deviam ter bulido desde os tempos de sua construção. Enquanto fazia a toalete para deitar-me, perguntei a Jorge:

—      Você não está morrendo de medo? Eu estou tremendo...

—      Medo? Medo de quê? — riu Jorge. — De assombração? Deixe disso! Eu estou bastante admirado, isso sim, de terem deixado você entrar. Se esses padres não mentiram, você será a primeira mulher, na história do Monastério de Rila, a ter tido acesso, dormido numa de suas celas, profanando-a. Já pensou? Você não está achando isso tudo muito excitante? Vem cá me dar um beijo, sua demônia!

 

FRONTEIRA TURCA

Pelas ruas passavam mulheres maometanas de rostos cobertos de espessos panos negros. Vivendo nos limites entre a Bulgária e a Turquia, sofriam influência dos costumes turcos. Alguns homens usavam faixas vermelhas na cintura, dando um colorido pitoresco à paisagem. Nessa região estava sendo construída uma cidade industrial, Dimitrovgrad, levantada onde antes existiam aldeias muito pobres.

Projeto e mão-de-obra eram executados, na sua maioria, por voluntários, mutirões formados por estudantes, operários, camponeses, sacerdotes, doutores recém-saídos das faculdades, que ali trabalhavam de graça durante suas férias.

Um dos grupos era composto por judeus sefaradins, moças e rapazes vivos, alegres e simpáticos. "Eles falam o espanhol", nos disseram. Nossa conversa com os jovens judeus, cujos ancestrais provinham da Espanha, foi muito interessante, pois eles falavam um espanhol quase incompreensível, quinhentista, do tempo de Cervantes: "... y vuestra mancebez, es buena o es negra?" Perguntavam pela juventude brasileira: é boa ou má?

Adoramos almoçar na companhia de cinco mil jovens, todos empenhados na construção da cidade, entusiasmados, empolgados, conscientes dé estar dando o seu esforço por uma causa que consideravam justa e humana.

Chegara a hora de voltar e estávamos numa pequena cidade ao lado de Dimitrovgrad quando Trifon nos pregou ainda um susto, desta vez freando o carro, estrepitosamente, em cima de duas senhoras de rosto coberto, que passavam. Dirigiu-lhes um dichote e acabou levando uma tremenda descompostura de um homem que a tudo assistira e que, revoltado com a grosseria do chofer, insultava-o e também a nós, passageiros do carro, considerando-nos coniventes.

Sem se perturbar com o carão que acabara de receber, Trifon engrenou uma primeira e arrancou a toda!

—      O que foi que ele disse às mulheres? — quisemos saber,

contrafeitos com o vexame que nos fizera passar.

—      Nada de mais — desculpou-o Anton. — Ele só pediu a elas

que lhe mostrassem a cara e chamou-as de "blackout individual", que é o apelido dessas mulheres atrasadas, desde os tempos dos blackouts durante a guerra.

Anton interpretava o socialismo de maneira bastante curiosa. Nos dissera, havia poucos dias, que, "num país socialista, os trabalhadores mandam e os demais devem obedecer". Trifon era o trabalhador e nós apenas os demais, por conseqüência... Valia a pena discutir?

 

CAVEIRAS, ÁGUIA E ROSAS

Ali estavam eles, os esqueletos, cada qual em seu caixão com tampa de vidro, um junto ao outro, acompanhando a linha circular da parede no interior da singela igrejinha, idosa de vários séculos.

Naquela aldeia, nos confins dos Balkans, toda uma população de guerrilheiros havia sido cercada e trucidada por tropas nazistas.

Em cima de cada esquife uma fotografia identificava aquele cujo esqueleto se encontrava nu caixão.

Jorge não se demorou na igreja, não conseguiu; eu também tive ímpetos de sair correndo mas forcei a natureza, não podia decepcionar aquele mundo de gente — familiares e amigos dos heróis — que, à nossa chegada, acorrera ao encontro dos anunciados visitantes, cada qual mais desejoso de apontar o retrato de seu ente querido, falar de suas boas qualidades, de suas façanhas, de seu heroísmo:

—      Esse aí — o homem apontava um esqueleto — era meu filho, ainda não tinha completado vinte anos... mas era valente... A mãe, coitada, morreu de desgosto...

Eu não sabia se olhava para o esqueleto ou para o retrato do jovem que fazia pose para o fotógrafo, compenetrado, ar sério.

—      Aquele ali — Uma mulher que me puxara pelo braço indicava uma caveira — era noivo de minha filha, iam casar, ele era tão bom...

A caveira sorria, na arcada dentária dois dentes de ouro. Na fotografia o rapaz, quase genro da senhora a meu lado, lindo, moreno de cabelos encaracolados, também sorria e os dentes de ouro lá estavam. Senti um mal-estar, uma tontura... Levaram-me para fora onde Jorge me esperava e tratamos de partir o mais depressa possível.

Trifon nos propunha almoçar num restaurante a uma dezena de quilômetros dali, especializado em cabeças de carneiro, prato que ele adorava. Convite mais inoportuno, fez-me ter engulhos.

Pelos estreitos caminhos da montanha, descendo os Balkans, sobressaltei-me, de repente: o que seria aquele vulto enorme sobrevoando nossas cabeças? Jorge também o vira e ordenou a Trifon que parasse o carro e saltamos. A águia voava a pouca altura e pudemos ver, preso em suas garras, um carneirinho que se debatia. Lá embaixo pastava o rebanho do qual ela o arrebatara. Eu só vira águias tristes em cativeiros. Esta se encontrava em plena liberdade, majestosa, dona do mundo, ameaçadora. Distanciava-se cada vez mais, subia ao píncaro de uma montanha. Em seu ninho, lá nas alturas, possivelmente os filhotes aflitos de fome a aguardavam.

Após dez dias de aventuras, iniciávamos o regresso a Sofia. As últimas impressões nos haviam chocado; os esqueletos em exposição e depois o pobre cordeirinho se debatendo nas garras da águia.

Mas a viagem terminou em festa. De súbito, na estrada, começamos a sentir um suave odor de rosa. Entrávamos no Vale das Rosas, vários quilômetros de terra plantada de roseiras, floridas e olorosas. À medida que avançávamos, o perfume se tornava mais penetrante. Dessas rosas era retirada a essência tão famosa no mundo inteiro: o extrato de rosas búlgaro. Faziam-se necessárias quinhentas rosas para um grama de essência, segundo nos contaram. Por mais que Anton e Trifon insistissem, recusamo-nos a parar para visitar os roseirais. Estávamos com pressa de chegar a Sofia; o perfume ativo das flores já começava a nos enjoar. Mais do que qualquer outro motivo, porém, a ansiedade de chegar a Sofia vinha da certeza de encontrar, no hotel, notícias de João; havia mais de mês que não sabíamos dele, e

Misette ficara de nos escrever para a Bulgária, última etapa da viagem, antes de voltar a Praga.

 

JOÃO, O ESQUILO E O CUCO

Ao chegar a Dobris, fomos surpreender João e Misette que passeavam pelo bosque. Eu temia que ele não nos conhecesse, como acontecera ao voltarmos da União Soviética. Mas não, apenas nos viu, seu rosto se iluminou, veio correndo, bracinhos abertos, gritando: "Bandido, Bandido!..." O pai o suspendeu, atirou-o ao ar repetidas vezes — brincadeira que ele adorava —, provocando-lhe gostosas gargalhadas. Depois de apertá-lo em meus braços, de beijá-lo muito, coloquei-o no chão; ele me puxou pela mão, queria nos mostrar as novidades que descobrira na floresta. Apontou com o dedinho um esquilo numa árvore; animal arisco, que, com incrível agilidade, em desabalada carreira, sumiu de nossas vistas. João ainda não mostrara tudo que desejava mostrar e, escondendo-se atrás de uma árvore, procurou imitar o canto do cuco. Ríamos ainda da esperteza de nosso filho quando o próprio pássaro entoou o seu cadenciado: "cuco, cuco, cuco..." Excitado, João o procurou com os olhos entre a ramagem. Misette riu: "Pode procurar à vontade..." Segundo a lenda a coisa mais difícil deste mundo, quase impossível, é ver-se um cuco em plena liberdade na floresta: instintivamente, o sabido se defende, só cantando depois de estar escondido.

Revoadas de corvos, negros e barulhentos, sobrevoavam nossas cabeças. Esses nada tinham a ver com o nosso urubu a quem chamamos, indevidamente, de corvo. João apontou: "Kafka!" Assim o corvo é chamado em tcheco e chegávamos à conclusão de que em apenas um mês, pouco mais, nosso menino — que prodígio! — começava a falar tcheco. Kuchválek viera passar o fim de semana conosco no castelo e, ao nos ver embasbacados, contou, orgulhoso: "Aprendeu comigo." Durante nossa ausência, impecável, Kuchválek ia sempre visitar João, saber se precisava de alguma coisa.

O castelo de Dobris estava repleto de hóspedes, por toda parte encontrávamos amigos; lá estavam, entre outros, Georgette e Jean Laffitte, que passavam as férias no Zámek.

 

OS LAFFITTE

Foi em Paris, durante o Congresso da Paz, na Salle Pleyel, que conhecemos o escritor Jean Laffitte, eleito na ocasião Secretário-Geral do Conselho Mundial da Paz. Agora voltávamos a encontrá-lo, com Georgette, sua mulher, descansando em Dobris.

Pessoas simples e agradáveis, logo nos tornamos íntimos, tantas e tais eram nossas afinidades. Escritor novato, Jean Laffitte exercera a profissão de pasteleiro na juventude. Preso durante a luta contra a ocupação nazista, passara alguns anos num campo de concentração, terrível experiência da qual resultou seu primeiro livro: Çewc qui vivent, sobre os horrores do campo, livro que revelou sua vocação de escritor e obteve grande sucesso. Escrevera em seguida dois romances: Nous retoumerons à cueillir les jonquilles e Rose France, sobre a luta dos maquis.

Georgette, ela também egressa de um campo de concentração, não ficara, no entanto, amarga como sucedia com muitos outros sobreviventes do pesadelo nazista. Não lhe restara marca; dona de permanente bom humor, ria com facilidade. Certamente esse estado de espírito resultava do casamento feliz, nascido do amor recíproco: nunca vi casal mais unido.

A bonita história de Georgette era alegre e triste ao mesmo tempo. Félix Cadras, seu irmão, herói da Resistência, estivera preso com Laffitte e morrera no campo. Georgette soubera pelo irmão, nas raras cartas que recebera, da amizade que o ligava a Jean Laffitte e este ouvira Félix falar sobre a irmã. Laffitte fora casado; sua mulher também participara da Resistência e acabara assassinada num campo de concentração.

Entre risadas de entusiasmo, Georgette me contou como vencera a grande batalha de sua vida, ou seja, como convencera Jean a casar-se com ela. Ao contrário do que normalmente sucede, fora ela quem seduzira e conquistara o marido, pedindo-o em casamento.

— Você nem pode imaginar a revolução que se opera numa pessoa ameaçada de morte diariamente, durante um tempo longo e desesperado. O instinto de conservação, a vontade de viver, nos faz entender o valor real da vida e desprezar todo e qualquer preconceito, derrubando inclusive as barreiras do falso pudor. E esse estado de espírito perdura durante longo tempo. Não fosse isso, eu seria até hoje uma solteirona, frustrada e amarga.

Terminada a guerra, Georgette encontrou-se com Jean, por acaso. Ao saber que aquele homem esquelético, de cabeça raspada, era Jean Laffitte, o amigo de seu irmão, pendurou-se em seu pescoço e cobriu-o de beijos. Conversaram longamente, juntos relembraram a figura de Félix. Depois desse encontro ela o perdeu de vista, mas não o esqueceu.

Caloroso com a irmã do amigo, Laffitte não demonstrara, porém, nenhum outro interesse pela moça quase tão esquelética e sofrida quanto ele. Georgette, no entanto, ficara marcada para sempre, amor à primeira vista, "un coup de foudre", como ela gostava de dizer.

Algum tempo depois lhe contaram que Jean Laffitte estava de casamento contratado com a cunhada; ia casar-se não porque amasse a moça, mas por sentir-se solitário, necessitado de uma companheira que com ele compartilhasse das alegrias e das tristezas da vida. Diante da notícia, Georgette não vacilou; partiu para a luta, disposta a conquistar o homem cuja figura não lhe saía da cabeça, o homem a quem amava.

Procurou-o, foi direta ao assunto; sem cerimônia, nem constrangimento, declarou-lhe amor. Disse-lhe que ele não ia casar com nenhuma outra e sim com ela, que saberia fazê-lo feliz.

Surpreso, estupefato, sem saber o que responder, Laffitte pediu-lhe uns dias para refletir. Até então não entrara em suas cogitações casar-se com a irmã do amigo, embora tivesse simpatizado com ela e a encontrasse encantadora. Ela lhe concedeu dois dias para pensar, não mais que isso, e, no prazo marcado, voltaram a se encontrar num recanto romântico à beira de um rio, à sombra de um chorão, e ele, tomando-a nos braços, deu-lhe a mão em casamento. Georgette concluiu sua história:

— ... alors, je me suis donnée... — E acrescentou, o olhar terno e distante, perdido no passado: — Pour toujours...

 

OS LAFFITTE "DESCOBREM A MINA" EM DOBRIS

Nossa amizade com os Laffitte estreitou-se ainda mais quando, tempos depois, premidos pelas circunstâncias, estávamos vivendo no castelo de Dobris e os Laffitte também lá foram morar.

O macarthismo atacava na Europa e a sede do Conselho Mundial da Paz foi obrigada a mudar-se da França, indo instalar-se em Praga; o Secretário-Geral, obviamente, também.

Com Georgette, cozinheira maravilhosa, aprendi muitos pratos franceses. Assistindo ao marido comer, prazenteiro, os quitutes que lhe preparava com capricho e amor, ela costumava perguntar-lhe: "... tu te regales, Janou?" Perguntava pelo prazer de perguntar, pois o seu Janou comia com gosto, se regalava sem esconder a satisfação que sentia. Mulher com intenso passado de lutas, Georgette acreditava piamente na vitória mundial e próxima do comunismo. Alimentava como nós, talvez até um pouco mais, ardentes esperanças e transpirava sectarismo por todos os poros.

Ehrenburg chegara a Praga, em trânsito para Bruxelas. Nessa época os Laffitte já se encontravam instalados num apartamento na cidade. Georgette nos convidou para jantar com Ehrenburg, ela prepararia os escargots que colhêramos, havia uma semana, entre as pedras, no jardim do castelo, após um temporal. Entendidos em assuntos de caracóis, de cogumelos e de pitus, o casal "descobrira a mina" no bosque e no córrego do Zámek Dobris.

De cara, na primeira noite, pois pitu se pesca à noite, Laffitte, de calças arregaçadas, desencavara, das locas nas pedras do riacho, écrevisses em grande quantidade, enchendo duas imensas latas, causando a admiração dos escritores tchecos, que ignoravam a existência dos maravilhosos pitus em seus domínios principescos. Depois chegou a vez dos caracóis: "...onde há pedreiras em meio à vegetação haverá, certamente, escargots", sentenciou o expert Laffitte. E os caracóis apareceram de fato, após as chuvas fortes, na estiada. E lá fomos nós a caça dos escargots, e eles lá estavam à nossa espera, enormes e bonitos, deslizando sobre as pedras, deixando nelas seu rastro, uma lista prateada. Até uma cançãozinha Georgette cantava na "operação caça nos escargots":

 

             "...cagouille, cagouille,

               montre-nous tes cornes

               et si tu ne les veux pas montrer

               je te les couperai

               avec mes petits ciseaux dores..."

 

Era uma gargalhada só.

Quanto aos champignons, nós os buscávamos entre a folhagem seca e úmida no chão do bosque sombrio. Cogumelos de todas as qualidades eram colhidos e examinados pelos dois mestres, que sabiam diferenciar os bons dos venenosos. Os cèpes de Bordeaux ou bolets eram os mais raros e também os mais carnudos e deliciosos. Seu formato de guarda-chuva me lembrava os cogumelos de cerâmica, enormes e coloridos, ao lado dos anõezinhos, que enfeitavam o jardim da mansão dos Horácio Sabino, na esquina da Avenida Paulista, com a Rua Augusta, para o encanto das crianças que por lá passavam, entre elas, eu.

 

A VACA E A CABRA

Para Jorge, que declarara: "tenho horror a caracóis", fazendo cara de nojo, Georgette preparara um bom assado, consumindo nele os tíquetes de carne aos quais o casal tinha direito para uma semana.

O jantar estava delicioso, regado a vinhos e conhaque franceses, mas o convidado de honra não estava num de seus melhores dias; chateado, não escondia sua contrariedade. Tendo de ir a Bruxelas em missão do Conselho Mundial da Paz, Ilia projetara esticar até Paris, mas o visto francês lhe fora negado. Em compensação não tivera dificuldade em obter o visto belga.

A conversa, durante o jantar, girara em torno de assuntos políticos: guerra fria, macarthismo e perseguição aos escritores de esquerda. Ao servir-se de conhaque, Ilia resolveu fazer um brinde georgiano, "que se adapta bem ao meu caso":

— Um camponês georgiano desejava comprar uma vaca mas seu dinheiro era insuficiente. Só dava para comprar uma cabra, mas ele não queria comprar uma cabra. Eu desejo ir a Paris e me negaram o visto. Tenho visto para ir a Bruxelas e não desejo ir a Bruxelas. Assim como fez o camponês georgiano, eu bebo para que as minhas possibilidades coincidam com os meus desejos. — Emborcou o cálice de um trago. Georgette ouviu-o atentamente, no olhar a dor do patriotismo ferido, a revolta a transbordar, tomou da palavra:

       — Camarada Ehrenburg, não se preocupe. Essa situação não vai perdurar. Em breve tomaremos o poder na França, teremos um regime socialista e o camarada poderá ir a Paris quantas vezes quiser...

—      E quem foi que lhe disse que eu quero ir a Paris quando lá existir um regime socialista? — desabafou Ilia, deixando a pobre Georgette sem ação e sem fala.

 

'MALINOVA" — "DORIPHORE"

Chegávamos à Tchecoslováquia num momento de grande agitação, eu poderia mesmo dizer de comoção nacional, quando o país inteiro, alarmado, se empenhava na busca da malinova, inseto que surgira de repente e, verdadeira praga, exterminara rapidamente inúmeras plantações de batatas. Segundo voz corrente, esses besourinhos, verdes com listras pretas no dorso, provinham dos Estados Unidos, faziam parte da guerra fria, obra de sabotagem do imperialismo americano contra o jovem país socialista. Dizia-se mais: os insetos haviam sido espalhados no país inteiro por pequenos aviões não identificados, em vôos rasantes, com o propósito de acabar com a batata, base da alimentação dos povos tcheco e eslovaco. Retratos e desenhos da malinova eram mostrados por toda parte: em jornais e revistas, nas telas dos cinemas, nas caixas de fósforos, etc, para que pudessem ser identificados por qualquer pessoa. Pediam, a quem os encontrasse, dar o alarme imediatamente. Essa praga precisava ser exterminada o quanto antes e para isso era necessária a colaboração do povo.

Misette estava excitadíssima, pois tinha alguma experiência no assunto. Na França, antes da guerra, esses mesmos besourinhos haviam surgido, também de repente, e devastado imensos batatais da noite para o dia. Possuíam as mesmas características dos que haviam aparecido na Tehccoslováquia, eram conhecidos na França por doriphore. O boato espalhado na ocasião, sobre a sua procedência, era idêntico ao que corria na Tchecoslováquia: sabotagem do imperialismo americano. Inda bem que, responsabilizando o imperialismo, ninguém responsabilizava todo um país, nem seu povo, pelos malfeitos de um grupo de magnatas, fabricantes de armas, fomentadores de guerras. O povo americano nada tinha a ver com o peixe. Assim eram as conversas que se ouviam por toda parte.

Formavam-se mutirões de voluntários que ofereciam seus préstimos para localizar e aniquilar o voraz besouro e suas larvas, em meio às plantações.

Jan Drda, que, apesar de seus cento e tantos quilos, era mais ágil do que qualquer um de nós, homem dinâmico, pleno de iniciativa, propusera formar um pelotão com os escritores que se encontravam em férias no castelo. Todos, sem exceção, aderiram à idéia. No domingo pela manhã, bem cedo, antes que o sol esquentasse, todo mundo sairia para o campo, nas imediações, onde havia imensas plantações de batatas.

Havíamos chegado no sábado, véspera da catação, e fomos incorporados em seguida ao pelotão.

Achei graça só em imaginar Jorge catando malinova nos pés de batatas. Jorge não nasceu para certas coisas que requerem paciência e habilidade manual, como, por exemplo, consertar uma tomada elétrica, uma torneira quebrada, abrir a tampa emperrada de um frasco, colocar uma lâmpada, nem mesmo sintonizar as estações num aparelho de rádio. Por falta de paciência, Jorge jamais aprendeu a jogar xadrez, ele que é bom em outros jogos, sobretudo no jogo de pôquer, que o apaixona. Eu ria por achar que ele não ia ter paciência de catar insetos, acocorado sob o sol. Isso não fazia seu gênero, de jeito nenhum. Impossível para sua natureza inquieta, incapaz de concentrar-se numa empreitada daquelas. Disse-lhe o que pensava e ele, sentindo-se desafiado, não gostando do que considerava uma provocação, aceitou o repto: cataria, encontraria e destruiria malinovas e doriphores, quantos houvesse. Eu que esperasse para ver!

Logo cedo saímos a pé, estrada afora, um batalhão de mais de cinqüenta intelectuais, Misette e Kuchválek incluídos.

O batateiral ao qual devíamos dedicar nossos patrióticos esforços de catadores era bem-cuidado: as leiras verdinhas se estendiam por quilômetros, em meio a caminhos limpos. Leiras divididas, cada qual tomou conta da sua. Nesse trabalho estava excluído o sistema de emulação, coisa muito em moda no mundo socialista, naquela época. Não devíamos ter pressa, nada de querer terminar a tarefa em primeiro lugar, o serviço devia ser bem feito, com muita atenção e extremo cuidado.

Todos a postos, cada qual buscou a melhor posição para executar, com certo conforto, a sagrada missão anti-malinova, uns acocorados, outros ajoelhados ou apenas abaixados. Jorge ainda permanecia de pé estudando a situação, arquitetando um processo mais racional, diferente dos demais, menos cansativo, mais produtivo, mais divertido, sobretudo mais divertido. De costas voltadas para a direção à qual devia se encaminhar, pôs-se a cavalo sobre sua leira, um pé cá, outro lá, as batateiras no meio das pernas, e deslanchou de marcha à ré, afastando-se rápido. Vistoriava as folhas superficialmente, dando-lhes umas espanadinhas ligeiras de mão e toca pra frente! Ou antes, toca pra trás!

Apenas iniciávamos nosso labor e Jorge já ia longe; de súbito, ouviu-se um grito de alarme — era ele quem anunciava, a plenos pulmões: "Malinova à vista! Achei uma!" Acorremos, excitados, Misette à frente de todos, na ânsia de defrontar-se com o maldito doriphore.

Uma pequena, linda e vermelha joaninha circulava, meio desorientada, na palma da mão de Jorge. Rosto resplandecente de felicidade, ele ouvia reclamações entre gargalhadas dos companheiros de missão. Drda, o chefe, ria mais que todos do alarme falso, brincadeira inventada por Jorge, o traquinas.

Voltamos para o castelo, cansados, queimados de sol, felizes e de mãos vazias, pois o imperialismo americano não chegara a Dobris.

 

RECEPÇÃO DE GRANDE GALA

Jan Drda, sempre ele, animava o ambiente, descobria e planejava coisas. Dessa vez descobrira enormes baús, num depósito do sótão, repletos de fardas abandonadas pelos príncipes Coloredo-Mansfield: fardas de gala, cheias de dragonas, de botões dourados e brasonados, alamares vermelhos, fardas de luxo para grandes dias. Havia também capacetes com e sem penachos, espadas e botas de todas as cores e feitios.

Estavam sendo aguardados, a qualquer momento,.os D'Arbous-sier, marido, mulher e quatro crianças, que vinham passar as férias de verão no castelo. Diante daquele carnaval de vistosos fardamentos e aparatos, Drda teve uma idéia luminosa:

— E se nos vestíssemos, todos, com essas roupas dos príncipes, para recepcioná-los?

Gabriel D'Arboussier foi nosso amigo fraterno desde que, em 1948, o conhecemos em Paris, até sua morte, há três anos, em Bonn, quando exercia as funções de Embaixador do Senegal junto à República Federal da Alemanha, a Áustria e a Suíça.

Filho de um fidalgo, o Conde D'Arboussier, antigo Governador-Geral da África Ocidental Francesa, com uma negra de Dakar, nascido no Senegal, Gabriel foi criado pela tia, irmã do pai, na França, onde concluiu a Faculdade de Direito na Universidade de Paris. Brilhante advogado, orador extraordinário, de retorno à África transformou-se num político de grande influência e enorme popularidade, tendo desenvolvido um papel fundamental na luta dos povos africanos pela independência de suas pátrias, ao lado de outros líderes, entre os quais o grande poeta Léopold Sedar Senghor, também nosso amigo.

Quando, após a independência, Senghor foi eleito Presidente da República, Gabriel ocupou o Ministério da Justiça. Durante sua gestão foram estabelecidos códigos e leis que regem até hoje a vida do Senegal. Quando nós o conhecemos, Gabriel era Secretário-Geral do Ressemblement Démocratique Africain, partido da luta pela independência; ocupava a vice-presidência da Assemblée de 1'Union Française, sendo também Vice-Presidente do Conselho Mundial da Paz. Posteriormente, ocupou o alto cargo de Vice-Secretário-Geral das Nações Unidas e, nessa condição visitou o Brasil em 1967. Já estivera em nosso país a convite de Jorge, em 1954, participando de um congresso de intelectuais em Goiânia.

Gabriel D'Arboussier escolhera, para se casar, encantadora mulata de Cabo Verde. Bonita, elegante, despachada e franca, Antônia não mandava dizer o que pensava, nem escondia sua origem popular. Com Tatanha, como a chamava o marido, ele aprendia muito; dela — que era o próprio povo — ouvia conselhos. "Casei com a mulher certa", dizia sempre.

De Praga chegara o aviso de que a família D'Arboussier saíra de automóvel para Dobris: quarenta quilômetros em excelente estrada. Tratamos, pois, de nos aviar. Jorge vestiu-se com um dólmã preto ornamentado de alamares vermelhos e botões dourados, botou um capacete na cabeça — lembrava-me os capacetes dos bombeiros —, empunhou belicosa espada; eu usei uma farda branca igualmente enfeitada de alamares, coloquei na cabeça um capacete e empunhei uma espada. Por mais que Drda buscasse, não encontrou nada que coubesse nele — os príncipes não deviam ser tão gordos —, mas como não era homem de desanimar nem de capitular, meteu-se dentro de um abajur enorme, forrado de seda cor-de-rosa, calçou umas botas espaventosas, de canos largos, forradas de palha, solado de mais de um palmo, usadas pelas sentinelas no inverno, nos portões do castelo, durante a ocupação nazista. Como se isso não bastasse, para completar a indumentária, abriu um guarda-sol colorido e, debaixo dele, colocou-se em posição de sentido, numa das alas formadas por nós, no pátio interno, logo à entrada do castelo. Com um bicorne enterrado na cabeça, Jean Laffitte era a própria figura de Napoleão. Quanto a Georgette, esgotado o estoque de capacetes e bicornes — o último fora usado por Kuchválek —, contentou-se com uma cartola alta e luzidia, que lhe elevava ainda mais a estatura.

Ao abrirem-se os portões, perfilamo-nos e, com as espadas, saudamos os re