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Servidão Mental / Robin Cook
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Servidão Mental

        

 

PROIBIDAS PESQUISAS FETAIS

Nova Regulamentação de Pesquisas Médicas

HAROLD BARLOW

Reportagem especial para o The New York Times

WASHINGTON, 12 de julho de 1974 — O Presidente Richard M. Nixon promulgou hoje a Lei Nacional de Pesquisas (Pub. 1. 93-348). A lei dispõe sobre a criação de uma Comissão Nacional de Proteção de Indivíduos em Pesquisas Biomédicas e Behavioristas. Vêm crescendo nos últimos tempos as preocupações com a ética de pesquisas que envolvam crianças, retardados mentais, prisioneiros, doentes terminais e, especialmente, fetos.

Espera-se que, com a elaboração de diretrizes apropriadas, alguns dos chocantes abusos que foram denunciados ultimamente possam ser impedidos, tais como a contaminação proposital, com hepatite, de grande número de crianças retardadas, a fim de se estudar o desenvolvimento natural da doença, ou a descoberta, há alguns meses, em um hospital de Boston, de uma dezena de fetos desmembrados abortados.

A primeira fase da implementação da lei inclui uma moratória à "pesquisa, nos Estados Unidos, de fetos humanos vivos, antes ou depois de aborto induzido, a menos que tal pesquisa seja feita com a finalidade de assegurar a sobrevivência de tais fetos". Obviamente, a questão do feto está intimamente relacionada com a questão altamente emocional do aborto.

Nos círculos científicos, foi conflitante a reação à nova regulamentação. O Dr. George C. Marstons, do Centro Médico de Cornell, aplaudiu a nova lei, declarando que "já tardavam diretrizes sobre comportamento ético em experimentação com seres humanos. A pressão econômica competitiva por progressos pioneiros em pesquisa cria uma atmosfera onde é inevitável o abuso".

O Dr. Clyde Harrison, da Arolen Pharmaceuticals, discordou do Dr. Marstons, dizendo que "a política antiaborto vem mantendo a ciência como refém, impedindo a pesquisa de tratamentos médicos necessários". O Dr. Harrison prosseguiu dizendo que a pesquisa com fetos resultará em muitos e importantes progressos científicos.

É cedo demais para julgar os efeitos dessa lei até que as várias comissões por ela criadas façam suas recomendações ao Secretário Caspar Weinberger. Na área das pesquisas, a nova lei produzirá um impacto imediato, limitando radicalmente a oferta de tecidos fetais. Aparentemente, abortos planejados têm sido a fonte principal desses tecidos, embora não se saiba se essa necessidade teve ou não alguma influência na decisão de médicos de induzirem abortos em suas pacientes.

 

                          

 

27 de NOVEMBRO de 1974 CLÍNICA JULIAN, CIDADE DE NOVA York

Candice Harley sentiu a agulha perfurar a pele da parte inferior das costas, seguida por forte sensação de ardor. Pareceu uma picada de abelha, com a diferença que a dor desapareceu rapidamente.

— Estou apenas aplicando um pouco de anestesia local, Candy — disse o Dr. Stephen Burnham, o anestesista moreno e bonitão que garantira a Candy que ela não ia sentir coisa alguma.

O problema era que já sentira dor — não muito, mas o suficiente para perder um pouco de confiança no que o Dr. Burnham lhe dissera. Solicitara anestesia geral. O Dr. Burnham, porém, informara que a anestesia epidural era mais segura e que ela se sentiria melhor após o aborto e os procedimentos de esterilização.

Candy mordeu o lábio inferior. Sentiu outra pontada de dor. Mais uma vez, não foi grande coisa, mas sentiu-se vulnerável e mal preparada para o que estava acontecendo. Aos 36 anos de idade, Candy nunca estivera internada em hospital, e muito menos para submeter-se a uma operação. Apavorada, disse isso mesmo ao Dr. Burnham. Sentiu novamente a queimação e, num ato reflexo, retesou as costas.

— Não se mexa agora — repreendeu-a o Dr. Burnham.

— Desculpe — gaguejou Candy, receosa de que, se não cooperasse, os médicos não lhe dessem o tratamento correto.

Encontrava-se sentada numa maca de rodas, numa alcova situada ao lado da sala de operações. A sua frente, uma enfermeira e, à direita, uma cortina que fora puxada para isolar a alcova do corredor do movimentado centro cirúrgico. Através da cortina, ouvia o som de vozes abafadas e de água corrente. Bem em frente, havia uma porta com uma pequena janela, através da qual podia ver a sala de operações.

A única coisa que usava era uma leve camisola de hospital, aberta nas costas, onde o médico fazia o que quer que estivesse fazendo. Embora ele lhe houvesse explicado detalhadamente o que ia acontecer, sua capacidade de concentrar-se fora severamente limitada pelo ambiente intimidador. Tudo aquilo ali era novo e assustador.

— Agulha Tuohy, por favor — pediu o Dr. Burnham. Candy perguntou-se o que seria uma agulha Tuohy. Parecia alguma coisa horrível. Ouviu o ruído do envelope de celofane sendo rasgado.

O Dr. Burnham olhou para a agulha de 7,5cm que segurava na mão enluvada, deslizando para cima e para baixo o estilete, a fim de certificar-se de que ela se movia livremente. Dando um passo para a esquerda, procurando verificar se Candy estava sentada espigada, posicionou a agulha sobre a área em que antes fizera a anestesia local.

Usando ambas as mãos, enfiou a agulha na coluna de Candy. Os dedos experientes sentiram a agulha romper a pele e penetrar entre as protuberâncias ósseas das vértebras lombares. Deteve-se pouco antes de chegar ao ligamento amarelo, a barreira que recobre o canal espinhal. A anestesia epidural, ou peridural como é também conhecida, constitui procedimento delicado, e este era um dos motivos por que gostava de usá-la. Sabia que nem todos os colegas podiam praticá-la tão bem como ele e essa certeza era motivo de satisfação. Com um floreio, puxou o estilete. Conforme esperara, não saiu qualquer líquido espinhal. Substituindo o estilete, introduziu em mais um milímetro a agulha Tuohy e sentiu-a atravessar o ligamento amarelo. Uma dose de ar para efeito de teste passou facilmente. Perfeito! Substituindo a agulha vazia por outra cheia de tetracaína, aplicou uma pequena dose em Candy.

— Estou sentindo uma sensação estranha do lado da perna — disse Candy preocupada.

— Isso significa que chegamos exatamente onde devíamos — explicou o Dr. Burnham.

Usando habilmente as mãos, acionou a seringa cheia de tetracaína e, em seguida, enfiou um pequeno cateter plástico através da agulha Tuohy. Uma vez posto o cateter no lugar, retirou a agulha. Um pedaço de papel adesivo cobriu o local da punção.

— Tudo acabado — comunicou o Dr. Burnham, tirando as luvas esterilizadas e pondo a mão nos ombros de Candy para forçá-la a deitar-se. — Agora, você não pode dizer que doeu muito.

— Mas eu não sinto a anestesia — reclamou Candy, temerosa de que os médicos iniciassem a operação mesmo que a anestesia não estivesse fazendo efeito.

— Isso é porque não apliquei nenhuma ainda — explicou o Dr. Burnham.

Candy deixou-se arriar na maca, a enfermeira erguendo-lhe as pernas para ajudá-la e, em seguida, cobrindo-a com um lençol de algodão. Candy puxou a beira do lençol para o peito, como se isso lhe pudesse dar alguma proteção. O Dr. Burnham mexia num pequeno tubo plástico que descia coleante da parte inferior de seu corpo.

— Ainda está nervosa como antes? — perguntou o Dr. Burnham.

— Pior! — confessou Candy.

— Vou-lhe aplicar um pouco mais de sedativo — disse o Dr. Burnham, apertando-lhe o ombro com um gesto tranqüilizador. Enquanto ela observava, o médico injetou alguma coisa no tubo. — Tudo bem. Vamos.

A maca que levava Candy entrou silenciosamente na sala de operações, onde era grande a atividade. Candy olhou em volta da sala, ofuscantemente branca nas paredes e pisos de ladrilhos e no teto acústico da mesma cor. Negatoscópios revestiam uma parede, enquanto equipamentos de monitorização eletrônica cobriam outra.

— Muito bem, Candy — disse a enfermeira que estivera ajudando o Dr. Burnham. — Passe para cá.

Ela se encontrava do outro lado da mesa de operações, na qual deu uma palmadinha para encorajá-la. Durante um momento, Candy sentiu-se irritada por estar recebendo ordens. O sentimento, no entanto, logo passou. Na verdade, não tinha opção. Estava grávida, com um feto de 18 semanas. Preferia usar a palavra "feto". Era mais fácil pensar nisso do que em "bebê" ou "criança". Obedientemente, passou para a mesa de operações.

Outra enfermeira subiu-lhe a camisola e pregou minúsculos eletrodos em seu peito. Começou a ouvir um som ritmado, mas precisou de um momento para se dar conta de que o som era o dos batimentos de seu coração.

— Vou inclinar a mesa — disse o Dr. Burnham.

Candy foi colocada num ângulo em que os pés ficavam em nível abaixo da cabeça. Nessa posição, sentia o peso do útero na pelve. No mesmo instante, sentiu a ondulação que notara na semana anterior e que pensara que pudesse ser o feto movendo-se dentro do útero. Felizmente, o movimento logo parou.

No momento seguinte, a porta que dava para o corredor foi aberta com um repelão e o Dr. Lawrence Foley entrou, andando de costas, as mãos gotejantes altas no ar, exatamente como cirurgiões fazem em filmes.

— Bem — falou em seu tom de voz peculiarmente destituído de emoção — como vai a minha garota?

— Não estou sentindo a anestesia — respondeu Candy nervosa. Estava aliviada em ver o Dr. Foley. Era um homem alto, rosto magro e nariz longo e reto, que dividia vivamente ao meio a máscara cirúrgica. Logo depois, tudo o que conseguiu ver foram os olhos cinzento-esverdeados do médico. O resto foi ocultado, incluindo os cabelos brancos prateados.

Estivera procurando esporadicamente o Dr. Foley para acompanhamento ginecológico rotineiro e sempre gostara e confiara nele. Dezoito meses haviam transcorrido sem um exame médico completo até a gravidez e, quando o consultara semanas antes, ficara surpresa ao notar como o Dr. Foley mudara. Lembrava-se dele como uma pessoa expansiva, e não sem uma certa dose de seco humor. A si mesma, perguntou-se o quanto da nova personalidade dele devia-se à desaprovação de seu estado de mulher solteira grávida.

O Dr. Foley olhou para o Dr. Burnham, que pigarreou e disse:

— Acabei de aplicar 8mg de tetracaína. Vamos utilizar pelidural contínua.

Dirigindo-se à extremidade da mesa, levantou o lençol. Candy viu os próprios pés, que lhe pareceram excepcionalmente pálidos à forte luz fluorescente dos negatoscópios. Viu o Dr. Burnham tocar-lhe o corpo, mas nada sentiu até que ele chegou a um ponto pouco abaixo dos seios. Nesse momento, sentiu a picada de uma agulha e lhe disse isso. Ele sorriu e respondeu:

— Perfeito!

Por um momento, o Dr. Foley permaneceu imóvel no centro da sala. Ninguém pronunciou palavra. Ficaram todos simplesmente à espera. Candy perguntou-se o que aquele homem estava pensando, uma vez que parecia olhar diretamente para ela. A mesma coisa que ele fizera quando o consultara na clínica. Finalmente, ele pestanejou e disse:

— Você tem o melhor anestesista do hospital. Quero que relaxe agora. Terminaremos tudo quando você menos esperar.

Candy ouviu o som de movimento às suas costas e em seguida o estalido de luvas de borracha, enquanto observava o Dr. Burnham instalar um gancho de arame por cima de sua cabeça. Uma das enfermeiras prendeu-lhe o braço esquerdo com o lençol que cobria a mesa de operações. Com esparadrapo, o Dr. Burnham fixou-lhe firmemente o braço direito a uma prancha que se projetava em ângulo reto da mesa. Era o braço que receberia a solução intravenosa. O Dr. Foley reapareceu no campo de visão de Candy, equipado com bata cirúrgica e luvas, e ajudou uma das enfermeiras a estender grandes pedaços de pano para delimitar o campo cirúrgico, com isso impedindo cerca de nove décimos de sua visão. Diretamente acima da cabeça, via as garrafas de soluções intravenosas. Atrás, se virasse a cabeça, poderia ver o Dr. Burnham.

— Estamos prontos? — perguntou o Dr. Foley.

— Pode começar — respondeu o Dr. Burnham, olhando para Candy e piscando. — Você está indo muito bem — tranqüilizou-a. — Pode sentir um pouco de pressão e a sensação de alguma coisa sendo puxada, mas não sentirá dor alguma.

— Tem certeza? — perguntou Candy.

— Absoluta.

Candy não tinha meios de ver o Dr. Foley mas ouvia-o bem, especialmente quando ele pediu:

— Bisturi.

Ouviu o som produzido pelo bisturi ao bater na luva de borracha.

Fechando os olhos, esperou a dor. Graças a Deus, não houve nenhuma. Tudo que percebeu foi a sensação de pessoas inclinando-se sobre ela. Pela primeira vez, permitiu-se o luxo de pensar que todo esse pesadelo pudesse realmente passar.

Tudo começara nove meses antes, quando resolvera suspender a pílula. Há cinco anos vivia com David Kirkpatrick. Ele acreditara que ela era tão dedicada a sua carreira de dançarina como ele à literatura. Ela, porém, em alguma ocasião após o trigésimo quarto aniversário, começara a insistir com ele que se casassem e tivessem filhos. Quando se recusara a fazer isso, ela resolvera engravidar, convencida de que ele mudaria de idéia. Ele, porém, permanecera inflexível quando ela lhe contou de seu estado. Se levasse a gravidez a termo, ele a deixaria. Depois de 10 dias de choro e inúmeras cenas, ela finalmente concordara em fazer aquele aborto.

— Oh! — arquejou Candy, ao sentir a pontada de uma dor que pareceu uma queimadura de ferro em brasa nas profundidades de seu ser. Uma sensação muito parecida com aquela que ocorre quando o dentista atinge um ponto sensível num dente. Felizmente, a pontada não durou muito.

O Dr. Burnham ergueu a vista do gráfico da anestesia e em seguida levantou-se para olhar por cima da tela que fechava o campo operatório.

— Vocês, caras, estão puxando o intestino delgado?

— Simplesmente o afastamos do campo operatório — respondeu o Dr. Foley.

O Dr. Burnham voltou a sentar-se e olhou diretamente nos olhos de Candy.

— Você está indo muito bem. É comum que a pessoa sinta dor quando o intestino delgado é mexido, mas eles não vão mais fazer isso. Certo?

— Certo — concordou ela.

Era um alívio saber que as coisas corriam como deviam. Ainda assim, não estava surpresa. Embora as maneiras de Lawrence Foley parecessem carecer do velho calor humano, tinha ainda absoluta confiança nele como médico. Ele fora maravilhoso com ela desde o início, compreensivo e prestativo, especialmente quando a ajudou a tomar a decisão sobre o aborto. Em várias consultas, simplesmente conversara com ela, apontando calmamente as dificuldades de criar um filho como mãe solteira e frisando a simplicidade do aborto, embora Candy já se encontrasse na décima sexta semana de gravidez.

Não tinha a menor dúvida de que fora o Dr. Foley e o pessoal da Clínica Julian que lhe tornaram possível ir até o fim com a idéia do aborto. A única coisa em que insistira fora que queria ser esterilizada. O Dr. Foley tentara fazer com que ela mudasse de idéia sobre a esterilização, mas nesse ponto fora inflexível. Tinha 36 anos de idade e não queria ser tentada novamente a vencer o relógio biológico engravidando, uma vez ser óbvio que o casamento não figurava em seu futuro imediato.

— Placa de cultura — ordenou o Dr. Foley, trazendo-lhe a atenção para o presente.

Ouviu o som de metal batendo em metal.

— Pinça Babcock — pediu o Dr. Foley.

Candy rolou os olhos para cima e procurou o Dr. Burnham. Só lhe viu os olhos. O resto do rosto do anestesista era escondido pela máscara cirúrgica. Mas tinha certeza de que ele sorria para ela. Deixou-se ser levada pela corrente e a primeira coisa que ouviu em seguida foram as palavras do Dr. Burnham:

— Acabou, Candy.

Com um pouco de dificuldade, Candy pestanejou e tentou compreender a cena que, lentamente, entrava em foco diante de seus olhos. Aquilo parecia um velho aparelho de tevê, esquentando: em primeiro lugar, sons e vozes; depois, devagar, surgiram imagens e significado. A porta que dava para o corredor foi aberta e entrou um atendente, puxando uma maca de rodas.

— Onde está o Dr. Foley? — perguntou Candy.

— Ele a verá na sala de recuperação. — Tudo correu perfeitamente — respondeu o Dr. Burnham, enquanto transferia a ampola de soro fisiológico para a maca de rodas.

Candy inclinou a cabeça, enquanto uma lágrima lhe descia pelo rosto. Felizmente, antes que pudesse pensar muito no fato de que nunca teria um filho, uma das enfermeiras segurou-lhe a mão e disse:

— Candy, vamos colocar você agora na maca.

Na sala auxiliar contígua, o Dr Foley olhava atento para a cuba de aço inoxidável, coberta por uma toalha branca. A fim de certificar-se de que o espécime estava intacto, levantou um canto da toalha. Satisfeito, pegou a cuba, tomou o corredor e desceu a escada para o departamento de patologia.

Ignorando residentes e técnicos, embora vários o chamassem pelo nome, cruzou o centro cirúrgico todo e penetrou num longo corredor. Ao fim da passagem, parou em frente a uma porta simples, sem qualquer marca. Equilibrando na mão esquerda a cuba com o espécime, tirou chaves do bolso e abriu a porta. O cômodo em que entrou era um pequeno laboratório, sem janelas. Devagar, mas em passos firmes, o Dr. Foley entrou, fechou a porta e pôs de lado a cuba.

Durante alguns momentos, permaneceu como que paralisado, até que uma forte dor nas têmporas o fez vacilar para trás. Bateu no tampo do balcão e segurou-se para não perder o equilíbrio. Relanceando a vista para o grande relógio elétrico na parede, notou surpreso que o ponteiro maior saltara cinco minutos.

Rápida e silenciosamente, realizou várias tarefas. Em seguida, aproximou-se de um grande caixote de madeira no centro do cômodo e abriu-o. Dentro havia um segundo recipiente, insulado. Soltando o fecho, ergueu a tampa e examinou-lhe o conteúdo. Repousando numa base de gelo seco, viu outros espécimes. Com todo cuidado, colocou no gelo o último acréscimo e fechou a tampa.

Vinte minutos depois, um atendente vestido de camisa branca e calças azuis entrou no laboratório empurrando um pequeno carrinho sem marcas, pegou o recipiente contendo o gelo e os espécimes e colocou-o no engradado. Utilizando o elevador de serviço, levou-o para a área de despacho e acondicionou-o num caminhão coberto com um toldo.

Quarenta minutos depois, o engradado foi tirado do caminhão e colocado na seção de bagagens de um jato Gulf Stream no Aeroporto de Teterboro, em Nova Jersey.

 

Adam Schonberg pestanejou, abriu os olhos e, na escuridão do quarto de dormir, ouviu o grito ondulante de uma sirene, anunciando outra catástrofe. Aos poucos, o ruído diminuiu e o carro de polícia, ambulância, caminhão de bombeiro ou o que quer que fosse, desapareceu na distância. Era manhã na cidade de Nova York.

Tirando lentamente a mão de baixo das cobertas quentes, tateou à procura dos óculos e, em seguida, virou para seu lado o mostrador do rádio-despertador: 4 e 47 da manhã. Aliviado, desligou o alarme, que estava ajustado para disparar às cinco, e recolocou a mão sob as cobertas. Dispunha ainda de 15 minutos antes de ter de se arrastar da cama para o banheiro gelado. Normalmente, nunca se arriscaria a desligar o despertador, com medo de recair no sono. Mas, tenso como estava naquela manhã, não havia essa possibilidade.

Rolando sobre o lado esquerdo, encostou-se na forma adormecida de Jennifer, a mulher de 23 anos com quem estava casado há um ano e meio, sentindo-lhe a subida e descida rítmica do peito, acompanhando a respiração. Desceu de leve a mão pela coxa da mulher, es-guia e firme, resultado dos exercícios diários de dança. A pele dela era macia e notavelmente lisa, mal se percebendo uma sarda qualquer que lhe desfigurasse a superfície. Possuía uma delicada tonalidade amorenada que sugeria alguma ascendência européia, mas não era esse o caso. Jennifer insistia em que sua ascendência era inglesa e irlandesa do lado do pai e alemã e polonesa por parte da mãe.

Jennifer estirou as pernas, suspirou e virou de costas, obrigando Adam a se afastar dela. Ele sorriu. Mesmo no sono, ela possuía uma personalidade enérgica. Embora o forte caráter da mulher lhe parecesse às vezes mais uma frustradora obstinação, era também uma das razões por que a amava tanto.

Lançando um olhar ao relógio, que nesse momento marcava 4 e 58, obrigou-se a sair da cama. Cruzando o quarto na direção do banheiro, bateu com o dedão no velho baú Pullman que Jennifer cobrira com uma colcha a fim de servir de mesa. Cerrando os dentes para não soltar um grito, foi mancando até a beira da banheira, onde se sentou para verificar a lesão. Era notavelmente baixa sua tolerância à dor.

Notara isso pela primeira vez durante sua carreira desastrosamente curta de jogador de futebol na escola secundária. Uma vez que era um dos garotos mais altos, todo mundo, inclusive ele, esperara que fizesse parte da equipe, sobretudo porque David, seu falecido irmão mais velho, fora um dos astros da pequena cidade. Mas não fora isso o que acontecera. Tudo correra bem, até que lhe passaram a bola e recebeu instruções de prosseguir com uma jogada ensaiada que decorara bem. No instante em que fora obstruído, sentira a dor e, quando todos voltaram a se levantar, resolvera que aquela era outra área em que não podia competir com a reputação do irmão.

Apagando a lembrança, tomou um banho rápido de chuveiro, raspou a barba cerrada, que começaria a espinhar já às cinco horas daquela tarde, e escovou os abundantes cabelos pretos. Vestiu-se rapidamente, mal olhando para o espelho, indiferente ao seu rosto moreno e bonitão.

Menos de 10 minutos depois de saltar da cama, encontrava-se na cozinha minúscula, esquentando o café. Lançou um rápido olhar para o apartamento apertado, mal mobiliado, prometendo novamente a si mesmo que, logo que se formasse em medicina, arranjaria um lugar decente para Jennifer morar. Foi até a escrivaninha na sala de estar e examinou rapidamente o material em que estivera trabalhando na noite anterior.

Uma onda de ansiedade desceu-lhe pelo corpo. Em menos de quatro horas, estaria frente a frente com o imponente Dr. Thayer Norton, Professor de Clínica Geral. Em torno dele estariam agrupados os outros alunos do terceiro ano que, naquele momento, estudavam clínica geral com ele. Alguns colegas, como Charles Hanson, poderiam estar torcendo por ele. Os outros, porém, estariam mais ou menos esperançosos de que ele cometesse uma cincada, o que era uma clara possibilidade. Ele, Adam, nunca se saíra bem diante de um grupo, o que constituíra mais um desapontamento para seu pai, orador famoso e solicitado. No início daquele período de estudos, cometera um erro durante a exposição de um caso clínico, e o Dr. Norton jamais permitira que ele se esquecesse desse fato. Por isso mesmo, adiara a exposição de seu principal caso até o fim daquele período, na esperança de ganhar mais confiança com a passagem do tempo. Conseguira, mas não muito. A prova ia ser dura, e este era o motivo pelo qual acordara antes do nascer do sol. Queria repassar o material.

Pigarreando e tentando apagar os ruídos crescentes da manhã de Nova York, recomeçou a exposição do caso. Falava em voz alta, fingindo se encontrar diante do Dr. Norton.

Jennifer teria dormido até as 10, não fossem duas coisas: em primeiro lugar, tinha consulta marcada com o médico às nove e, em segundo, por volta das 7 e 15 a temperatura do quarto subira para proporções tropicais. Suando, afastou com um pontapé as cobertas e permaneceu imóvel por um momento, até passar o choque da descoberta feita no dia anterior. Na véspera — após um mês inteiro tentando negar a possibilidade — comprara um desses testes de gravidez que são feitos em casa. Não apenas estava atrasada em duas menstruações mas começara a sentir também náuseas de gravidez. E fora principalmente a náusea que a levara a comprar o teste. Não quisera preocupar Adam, que estivera irritável e tenso nos últimos meses, até ter certeza absoluta. O teste dera resultado positivo e naquele dia ia consultar o ginecologista.

Com todo cuidado, saiu da cama, perguntando-se se todo mundo sabia que dançarinas, a despeito da graciosidade no palco, acordavam pela manhã duras e doloridas. Estirando os músculos da perna, sentiu o pânico envolvê-la, obliterando a náusea.

— Oh, Deus — gemeu para si mesma.

Se estava realmente grávida, de que maneira iriam viver? O dinheiro que recebia da Jason Conrad Dancers era a única fonte de renda do casal, com exceção do dinheiro que a mãe conseguia enviar-lhe, às escondidas do marido e de Adam. De que modo poderiam eles sustentar um bebê? Bem, talvez o teste estivesse errado. Usava o DIU, o qual diziam ser, depois da pílula, o meio anticoncepcional mais eficaz. Pelo menos o Dr. Vandermer acabaria com aquele suspense. Sabia também que o médico só concordara em encaixá-la em sua congestionada agenda porque Adam era estudante de medicina.

Virou-se e lançou um olhar ao rádio-relógio Sony que a mãe lhe dera de presente. Não dissera a Adam que aquilo fora um presente, uma vez que ele se tornara muito sensível com a generosidade dos pais dela ou com o que chamava de interferência deles. Desconfiava de que isso se tornara um assunto delicado com Adam apenas por causa da avareza do próprio pai dele. Não era segredo para ela que o Dr. David Schonberg fora tão contrário ao casamento que quando Adam teimosamente seguira em frente, ele praticamente o deserdara. De certa maneira, achou que sentiria um pouco de prazer quando soubesse da fúria do velho médico se ela estivesse realmente grávida. Colocando devagar as juntas duras em posição firme, escovou os compridos e lus-trosos cabelos castanhos e examinou com cuidado o rosto no espelho, a fim de se certificar de que os atraentes planos ovais e os claros olhos azuis não lhe revelavam a preocupação. Não adiantava aborrecer-se antes do tempo.

Obrigando-se a um sorriso alegre, entrou na sala de estar, onde Adam ensaiava a exposição pela décima vez.

— Falar sozinho não é o primeiro sinal de deterioração mental? — apoquentou-o Jennifer.

— Brilhante! — concordou Adam. — Especialmente porque eu não achava que a Bela Adormecida podia pensar antes do meio-dia.

— Como é que você está indo com a prova oral? — perguntou ela, envolvendo-o com os braços e erguendo o rosto para um beijo.

— Consegui reduzi-la aos necessários 15 minutos. Isso é mais ou menos tudo o que posso dizer. — Curvou-se e beijou-a.

— Oh, Adam, você vai se sair bem. Tive uma idéia: por que não faz a apresentação para mim? — Serviu-o de mais café e sentou-se.

— Que doença tem o paciente?

— O diagnóstico atual é discinesia tardia.

— O que, Deus do céu, significa isso? — perguntou Jennifer.

— É uma doença neurológica, com todos os tipos de movimentos involuntários. Está ligada a certas drogas receitadas para problemas psiquiátricos...

Jennifer inclinou a cabeça, esforçando-se por parecer interessada, mas apenas um minuto depois do início da exposição de Adam, sua atenção voltou à possível gravidez.

 

O consultório do Dr. Clark Vandermer ficava na Rua 36, bem perto da Park Avenue. Jennifer lá chegou tomando o metrô na Lexington Avenue até a Rua 36 e andando o resto do caminho a pé. Tratava-se de um grande prédio de apartamentos, com toldo à entrada e porteiro uniformizado. O acesso às suítes de profissionais liberais era feito à direita da entrada principal. Abrindo a porta, Jennifer encolheu-se ligeiramente ao ser atingida pelo leve cheiro de álcool medicinal. Nunca lhe agradara consultar ginecologistas, e a idéia de que poderia estar grávida tornava especialmente perturbadora essa visita.

Desceu o corredor acarpetado, lendo os nomes pintados em dourado nas portas. Passou pelas entradas dos consultórios de dois dentistas e um pediatra e chegou à porta com um letreiro: "GINECOLOGISTAS ASSOCIADOS". Sob o letreiro, uma lista de nomes. O segundo era o do Dr. Clark Vandermer.

Tirou o casaco, que comprara de segunda mão no Soho por 35 dólares, e passou-o por cima do braço. Estava muito bem-vestida, num elegante conjunto de saia e blusa etiqueta Calvin Klein que a mãe lhe comprara recentemente na Bloomingdale.

Abrindo a porta, reconheceu o consultório, de visitas anteriores. Na parede que dava frente para a porta havia um painel corrediço de vidro, atrás do qual sentava-se a recepcionista.

Havia grande número de mulheres na sala de espera. Não as contou, mas calculou haver mais de doze. Todas bem-vestidas, algumas lendo, outras fazendo trabalhos de agulha.

Depois de conferir com a recepcionista, que admitiu não ter idéia de qual seria a demora, sentou-se perto da janela. Pegou na mesinha junto ao sofá um exemplar recente do The New Yorker e tentou ler, mas conseguiu apenas preocupar-se com a reação de Adam se ela estivesse realmente grávida.

Passaram-se duas horas e quinze minutos até chegar sua vez. Seguiu a enfermeira até uma sala de exames.

— Tire toda a roupa e vista isto — disse a mulher, entregando-lhe uma bata descartável de papel. — Voltarei em seguida, e depois o médico a atenderá.

Antes que Jennifer pudesse fazer alguma pergunta, a enfermeira saiu, fechando a porta.

A sala media uns três por três, com uma janela acortinada num lado, uma segunda porta à direita e paredes nuas. O mobiliário incluía uma balança, uma cesta de papéis usados cheia até em cima, uma mesa de exame com apoios para as pernas, um armário aberto e uma pia. O lugar pouco tinha de acolhedor. Lembrou-se de que o Dr. Vander-mer era brusco a ponto de ser rude. Adam o recomendara porque ele era considerado o melhor, mas "melhor" aparentemente não incluía uma avaliação da cortesia do tradicional médico de família.

Sem saber quanto tempo a enfermeira se demoraria, Jennifer não perdeu tempo. Pôs no chão o grande casaco e a bolsa e guardou as roupas no armário. Ao se pôr nua, ficou em dúvida como vestir a bata. Não tinha idéia se a abertura devia ficar na frente ou nas costas. Optou pela frente. Depois, perguntou-se o que devia fazer. Deitar-se na mesa de exame ou continuar simplesmente de pé? Os pés estavam esfriando no chão de mosaico. Alçou-se sobre a mesa de exame e sentou-se na beira.

Um momento depois, a enfermeira voltou, apressada.

— Desculpe a demora — falou ela, em tom agradável mas preocupado. — O movimento aqui aumenta cada vez mais. Deve ser uma nova onda de nascimentos.

Rapidamente, começou a tirar o peso e a pressão arterial de Jennifer. Em seguida, mandou-a ao banheiro a fim de colher um pouco de urina. No momento em que voltou, o Dr. Vandermer já a esperava.

Sempre desconfiara de ginecologistas bonitões, e o Dr. Vandermer despertou a velha reserva. Parecia mais um ator desempenhando um papel do que um médico autêntico. Era alto, o cabelo preto que começava a pratear nas têmporas e rosto quadrado com uma linha de queixo nítida e boca firme. Usava óculos de leitura sobre a ponta do nariz e por cima deles olhou para Jennifer.

— Bom dia — disse ele, numa voz que não convidava a uma conversa. — Os olhos azuis examinaram-na de alto a baixo, e em seguida ele os concentrou na ficha. A enfermeira fechou a porta e ocupou-se com o conteúdo de uma cuba de aço inoxidável que se encontrava junto à pia. — Ah, sim, senhora Schonberg, esposa de Adam Schonberg, aluno do terceiro ano de medicina.

Jennifer não soube bem se aquilo era uma declaração ou uma pergunta, mas inclinou a cabeça e respondeu que era a mulher de Adam.

— Não creio que esta seja uma boa ocasião para ter um bebê, senhora Schonberg — comentou o Dr. Vandermer.

Jennifer ficou chocada. Se não estivesse nua e vulnerável, teria ficado zangada. Em vez disso, ficou na defensiva:

— Só espero não estar grávida. Foi para evitar isso que o senhor instalou o DIU há um ano.

— O que aconteceu com o DIU? — perguntou o Dr. Vandermer.

— Acho que continua no lugar — retrucou Jennifer.

— O que a senhora quer dizer com acho? — indagou o médico. — Não tem certeza?

— Verifiquei ainda esta manhã. Os cadarços continuam no lugar. Sacudindo a cabeça, o Dr. Vandermer sugeriu a Jennifer que a achava uma irresponsável. Inclinou-se e, rapidamente, escreveu algo na ficha clínica. Em seguida ergueu a vista e tirou os óculos de leitura.

— Nos dados que forneceu há um ano, a senhora disse que teve um irmão que só viveu algumas semanas.

— Isso mesmo — confirmou Jennifer. — Era um bebê mongo-lóide.

— Que idade tinha sua mãe nessa ocasião? — perguntou o Dr, Vandermer.

— Acho que uns 36 anos.

— Isso é uma coisa que a senhora devia saber com certeza — falou o Dr. Vandermer, uma nota malvelada de exasperação na voz. — Descubra exatamente. Quero essa informação para a ficha.

Pondo de lado a caneta, Vandermer pegou o estetoscópio e submeteu Jennifer a um rápido mas exaustivo exame, incluindo olhos e ouvidos e auscultando o tórax e o coração. Verificou o reflexo patelar e o estado dos tornozelos, coçou-lhe as solas dos pés e inspecionou-lhe cada centímetro quadrado do corpo. Trabalhava no mais completo silêncio. Jennifer sentiu-se como se fosse um pedaço de carne nas mãos de um açougueiro muito competente. Sabia que o Dr. Vandermer era competente, mas teria gostado se ele revelasse algum calor humano.

Concluindo, o médico sentou-se e rapidamente anotou os resultados do exame. Interrogou-a em seguida sobre sua história menstrual e a data do último período. Antes que ela pudesse fazer qualquer pergunta, colocou-a em decúbito dorsal e iniciou o exame da pelve.

— Agora relaxe — ordenou o Dr. Vandermer, lembrando-se finalmente de que a paciente estava, com toda probabilidade, ansiosa.

Jennifer sentiu um objeto penetrar em seu corpo. Introdução suave e hábil. Não houve dor, apenas um estado desagradável de plenitude. Ouviu o Dr. Vandermer falar com a enfermeira, o som da porta sendo aberta e a saída da enfermeira.

O Dr. Vandermer levantou-se e Jennifer pôde vê-lo.

— O DIU continua no lugar, mas parece que está baixo. Acho que deve ser retirado.

— Isso é difícil? — perguntou Jennifer.

— Muito simples — garantiu-lhe o médico. — Nancy foi apanhar um instrumento. A retirada demorará apenas um segundo.

Nancy voltou com alguma coisa que Jennifer não conseguiu ver. Sentiu uma rápida pontada de dor. O Dr. Vandermer levantou-se, segurando uma espiral de plástico na mão enluvada.

— A senhora está definitivamente grávida — disse ele, sentando-se à escrivaninha e voltando a anotar a ficha de paciente.

Jennifer sentiu um pânico semelhante ao que a invadira no momento em que vira o resultado positivo no teste caseiro.

— Tem certeza? — conseguiu perguntar em voz trêmula. O Dr. Vandermer sequer levantou a vista.

— Confirmaremos isso em teste de laboratório, mas tenho certeza. Nancy terminou de rotular os tubos de coleta e deu a volta à mesa a fim de ajudar Jennifer a tirar os pés dos apoios. Jennifer girou e sentou-se no lado da mesa de exames.

— Está tudo bem? — perguntou.

— Todos os indicadores estão inteiramente normais — garantiu-lhe o Dr. Vandermer.

Completou a anotação na ficha e virou-se para Jennifer. Expressão neutra, como no momento em que entrara na sala.

— O senhor pode me dar alguma idéia do que devo esperar? — perguntou Jennifer. Em seguida cruzou as mãos para esconder o tremor e colocou-as no colo.

— Claro. Nancy Guenther será sua enfermeira assistente — informou o Dr. Vandermer, inclinando a cabeça na direção da auxiliar. — Responderá à senhora perguntas como esta que me fez. Eu a atenderei em consultas mensais de rotina nos primeiros seis meses e em seguida a cada duas semanas até o último mês. Por último, semanalmente, a menos que surja alguma complicação.

O médico levantou-se e preparou-se para sair da sala.

— O senhor me atenderá em todas as ocasiões em que eu vier aqui? — perguntou Jennifer.

— Em geral, sim — replicou o médico. — Ocasionalmente, posso estar fazendo um parto. Nesse caso, a senhora será atendida por um de meus colegas ou por Nancy. Em ambos os casos, eles ficarão diretamente ligados a mim. Mais alguma pergunta?

Jennifer tinha tantas perguntas a fazer que nem sabia por onde começar. Parecia-lhe que sua vida estava se rompendo pelas costuras.— Achava também que o Dr. Vandermer queria se retirar naquele momento, uma vez que o exame havia terminado.

— O que vai acontecer quando chegar o momento de meu parto? — perguntou. — Não me importo de me consultar com alguma outra pessoa em visitas de rotina, mas quando se trata de parto, penso de modo diferente. O senhor não está pensando em sair de férias quando chegar o meu dia, está?

— Senhora Schonberg — começou o Dr. Vandermer —, não tiro férias há cinco anos. Compareço a um ou outro congresso de medicina e estou pensando em fazer uma série de palestras num seminário, durante um cruzeiro marítimo, dentro de uns dois meses. Mas isso de modo algum vai entrar em conflito com a data de seu parto. Agora, se não tiver outras perguntas, vou passá-la aos cuidados de Nancy.

— Apenas mais uma coisa. O senhor perguntou a respeito de meu irmão. Acha que é importante o fato de minha mãe ter dado à luz uma criança defeituosa? Significa que o mesmo pode acontecer comigo?

— Duvido muito — respondeu o Dr. Vandermer, aproximando-se da porta. — Deixe o nome do médico de sua mãe com Nancy e nós telefonaremos para saber dos detalhes. Enquanto isso, penso fazer com a senhora um estudo simples de cromossomos. No entanto, não acho que haja motivos para preocupação.

— O que o senhor acha de uma amniocentese? — perguntou Jennifer.

— No momento, não julgo haver a menor necessidade desse exame, e mesmo que houvesse, não poderia ser feito antes da décima sexta semana. Agora, se me dá licença, esperamos vê-la dentro de um mês.

— O que o senhor acha de um aborto? — perguntou Jennifer, nervosa. Não queria que o Dr. Vandermer fosse embora. — Se nós resolvermos não ter esta criança, será difícil providenciar um aborto?

O Dr. Vandermer, que tinha nesse momento a mão na maçaneta da porta, voltou para junto de Jennifer, postando-se muito alto a sua frente.

— Se está interessada em aborto, acho que consultou o médico errado.

— Não estou dizendo que quero fazer um aborto — retrucou Jennifer, encolhendo-se diante do olhar fuzilante do médico. — Acontece simplesmente que este não é um bom momento para eu estar grávida, como o senhor mesmo disse. Não contei ainda a Adam e não sei qual será a reação dele. Nós vivemos de minha renda.

— Não faço abortos, a menos que haja razões médicas para isso — respondeu o Dr. Vandermer.

Jennifer inclinou a cabeça. Evidentemente, aquele homem tinha idéias bem definidas do assunto. Perguntou:

— E o meu trabalho? Sou dançarina. Por quanto tempo vou continuar a poder trabalhar?

— Nancy discutirá essas questões com a senhora — respondeu o Dr. Vandermer, lançando outro olhar ao relógio de pulso. — Ela sabe mais a respeito desses assuntos do que eu. Agora, se não houver mais alguma coisa...

O Dr. Vandermer afastou-se da mesa de exames.

— Há mais uma coisa — lembrou-se Jennifer. — Senti enjôos esta manhã. Isso é normal?

— É... — esclareceu o Dr. Vandermer, abrindo a porta para o corredor. — Essas náuseas ocorrem em pelo menos 50 por cento dos casos de gravidez. Nancy lhe dará algumas sugestões para resolver o problema, mudando a dieta.

— Não há algum remédio que eu possa tomar? — quis saber Jennifer.

— Não sou favorável ao emprego de medicamentos no tratamento de enjôos de gravidez, a menos que eles estejam interferindo na nutrição da mãe. Agora, se me desculpar, espero vê-la dentro de um mês.

Antes que Jennifer pudesse pronunciar outra palavra, o Dr. Vandermer cruzou a porta. Fechou-a atrás de si e deixou-a em companhia de Nancy.

— A dieta é uma parte muito importante da gravidez — observou Nancy, entregando a Jennifer várias páginas de material impresso.

Jennifer suspirou e seus olhos baixaram da porta fechada para as páginas que a enfermeira lhe entregara. Sua mente era um turbilhão de pensamentos e emoções conflitantes.

 

Na Rua 12, Adam virou para o leste, enfrentando de cara o vento e a chuva. Já estava escuro como breu, embora o relógio marcasse apenas 7 e 30. Faltava apenas meio quarteirão. Levava um guarda-chuva mas em mau estado, e tinha de lutar para evitar que o vento o virasse pelo avesso. Pior ainda que o frio e a umidade, sentia-se exausto, física e mentalmente. O exame oral não fora bem. O Dr. Norton interrompera-o não uma, mas duas vezes, apontando erros gramaticais, interrompendo-lhe a cadeia de pensamentos. Em conseqüência omitira uma parte importante da história do caso. Ao fim da exposição, o Dr. Norton inclinara meramente a cabeça e perguntara a residente-chefe alguma coisa a respeito de outro paciente.

Em seguida, para arrematar o dia, fora chamado à emergência que estava com carência de pessoal, com instruções para fazer uma lavagem estomacal de uma jovem que tentara o suicídio. Inexperient nesse tipo de tratamento, fizera a moça regurgitar e pegara o vômito diretamente no peito. E se isso já não fosse péssimo, quinze minutos antes de deixar o serviço tivera de lidar com um internamento complicado: um paciente de 52 anos, um caso de pancreatite. Este o motivo pelo qual estava voltando tão tarde para casa.

Passando pelo beco que se comunicava com a área de ventilação externa ao seu apartamento, notou o grande número de latas de lixo que o departamento de limpeza pública esvaziava barulhentamente três manhãs por semana. Naquele dia, os latões estavam transbordando e uma dupla de esqueléticos gatos vadios enfrentava a chuva para investigá-los.

Entrou de costas pela porta da frente do prédio e fechou o guarda-chuva inútil. Durante um momento, ficou parado no saguão antigo, a água escorrendo pelo chão de mosaicos. Abriu a porta interna e começou a subir os três lances de escada até o apartamento.

A fim de anunciar a chegada, apertou a campainha no momento em que enfiava a primeira chave na primeira de várias fechaduras. O apartamento fora arrombado duas vezes no ano e meio em que moravam ali. Nada fora roubado; os ladrões reconheceram que haviam cometido um erro logo que viram os móveis estragados.

— Jen! — chamou no momento em que abriu a porta.

— Estou na cozinha. Só um segundo.

Adam ergueu as sobrancelhas. Uma vez que seu horário no hospital era tão irregular, Jennifer habitualmente esperava que ele chegasse para começarem o jantar. Sentindo o cheiro gostoso de comida, dirigiu-se ao quarto e tirou o paletó. Ao voltar à sala de estar, encontrou Jennifer à espera. Abriu a boca de espanto. No princípio, pareceu-lhe que ela usava apenas avental. As pernas nuas estiravam-se da borda inferior do avental até as sandálias de salto alto. O cabelo estava puxado para trás, preso com travessas. O rosto oval, como que iluminado por dentro.

Erguendo os braços e posicionando os dedos como se dançasse um ballet clássico, Jennifer girou lentamente. Enquanto ela dava uma volta, ele notou que a esposa usava um macaquinho cor de lavanda, franjado com renda.

Sorrindo, Adam, excitado, estendeu a mão para levantar a fralda do avental.

— Oh, não! — censurou-o Jennifer, evitando-lhe as mãos. — Não tão rápido assim.

— O que está acontecendo? — perguntou Adam com uma risada.

— Estou praticando para ser a Mulher Total — gracejou Jennifer.

— Onde, Deus do céu, você arranjou essa... coisa?

— Esta coisa é chamada macaquinho — Jennifer levantou a ponta do avental e fez outra pirueta. — Comprei-o na Bonwit's esta tarde.

— Mas por quê? — perguntou Adam, sem querer, perguntando a si mesmo o quanto aquilo custara.

Não queria negar a Jennifer coisa alguma, mas tinham de ter cuidado com o orçamento doméstico. Jennifer interrompeu a dança.

— Comprei porque sempre quis ser atraente e sexy para você.

— Se você fosse mais atraente e sexy, eu nunca me formaria em medicina. Você não tem de se enfeitar com esses babados todos para me excitar. Você é sexy paca do jeito que é.

— Você não gostou — afirmou Jennifer, o rosto anuviado.

— Gostei — gaguejou Adam. — Acontece simplesmente que você não precisa disso.

— Gosta mesmo? — perguntou Jennifer.

Adam reconheceu que pisava em terreno movediço.

— Adorei. Você se parece até com uma daquelas garotas da Pia) boy. Não, da Penthouse.

O rosto de Jennifer iluminou-se.

— Perfeito! Eu queria que ficasse exatamente no meio, entre sexy e informal. Agora, quero que você siga direto para o banheiro e tome um banho de chuveiro. Depois, comeremos um jantar que vai fazê-lo sentir-se como um rei. Agora!

Vigorosamente, Jennifer empurrou-o pelas costas na direção do banheiro. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ela fechou a porta com estrondo.

Terminado o banho, Adam descobriu que a sala de estar fora transformada, a mesa de jogo trazida da cozinha e posta para o jantar. Duas garrafas de vinho vazias com velas encarapitadas nos gargalos forneciam a única iluminação. Os talheres brilhavam. Possuíam apenas doi jogos de mesa, ambos presentes dos pais de Jennifer, o primeiro como presente de núpcias e o segundo quando fizeram um ano de casados. Raramente os usavam, deixando as peças embrulhadas em papel de alumínio e guardadas.

Dirigiu-se à cozinha e encostou-se à porta. Jennifer trabalhava febrilmente, a despeito da desvantagem de estar usando saltos altos. Adam teve de sorrir. Essa mulher atabalhoada na cozinha não parecia a Jennifer que conhecia. Se ela lhe notou a presença, não deu sinal.

Adam pigarreou:

— Jennifer, eu gostaria de saber o que está acontecendo. Jennifer não respondeu. Em vez disso, destampou uma panela

mexeu o conteúdo. Pela colher, quando ela a colocou na bancada Adam viu que era arroz silvestre. Perguntou-se o quanto aquilo havia custado. Logo depois, viu o pato assado, esfriando na tábua de carne

— Jennifer! — falou, o tom de voz um pouco mais alto. Virando-se, Jennifer jogou uma garrafa de vinho e um saca-rolhas nos seus braços. Ele teve de fazer ginástica para pegar as duas peças antes que caíssem no chão.

— Estou fazendo o jantar — disse ela com simplicidade. — Se quer ajudar, abra o vinho.

Espantado, Adam levou a garrafa para a sala de estar e tirou a rolha. Serviu um pouco de vinho no copo e examinou-o à luz das velas.

Tinto, de uma viva cor de rubi. Mas antes de poder prová-lo, Jennifer chamou-o de volta à cozinha.

— Preciso de um cirurgião aqui — falou ela, entregando-lhe um trinchante.

— O que devo fazer com isto? — perguntou ele.

- Abra o pato ao meio.

Com escasso sucesso, Adam tentou alguns cortes experimentais. Finalmente, aplicou toda a força no golpe e cortou o pato em dois.

— Agora, que tal me contar o que significa tudo isto?

— Quero simplesmente que você relaxe e tenha um bom jantar.

— Há algum motivo oculto para tudo isto?

— Bem, tenho uma coisa para lhe contar, mas só vou fazer isso depois deste banquete.

E foi mesmo um banquete. Embora as ervilhas estivessem um pouco torradas demais e o arroz um pouco cozido de menos, vinho e pato foram sensacionais. Enquanto continuava o jantar, Adam descobriu que estava ficando sonolento. Sacudiu-se para despertar e concentrou a atenção na mulher. Jennifer estava extraordinariamente bela à luz das velas. Tirara o avental e usava nesse momento apenas o provocador macaquinho cor de lavanda. Sua imagem tornou-se indistinta e, por um curto momento, ele cochilou à mesa.

— Você está-se sentindo bem? — perguntou Jennifer, que nesse momento começava justamente a descrever o teste de gravidez feito em casa.

— Estou ótimo — respondeu Adam, não querendo reconhecer que cochilara.

— De modo que — continuou Jennifer — segui as instruções. E quer saber o que foi que descobri?

— O que foi?

— Deu positivo.

— O que foi que deu positivo?

Adam sabia que devia ter perdido alguma frase muito importante.

— Adam, você estava escutando o que eu disse?

— Claro que estava. Acho que me distraí por um momento. Desculpe. Talvez seja melhor você recomeçar.

— Adam, estou tentando lhe dizer que estou grávida. Ontem, fiz um desses testes de gravidez e esta manhã fui consultar o Dr. Vander-mer.

Durante um minuto, Adam ficou chocado demais para falar.

— Você está brincando — disse finalmente.

— Não estou — protestou Jennifer, fitando-o nos olhos. Sentia o coração batendo forte num ritmo rápido. Involuntariamente, cerrou os punhos.

— Não está brincando? — repetiu Adam, sem saber bem se devia rir ou chorar. — Está falando sério?

— Estou falando sério. Acredite, estou.

A voz de Jennifer tremia. Alimentara a esperança de que ele se sentisse feliz, pelo menos no começo. Mais tarde, poderiam discutir o monte de problemas que a gravidez traria. Levantou-se, deu a volta à mesa, colocou-se por trás de Adam e segurou-o pelos ombros.

— Querido, amo-o muito.

— Eu também a amo, Jennifer — respondeu Adam. — Mas este não é o problema.

Levantou-se, soltando-se das mãos dela.

— Acho que é o problema — retrucou Jennifer, acompanhando o com os olhos enquanto ele se afastava.

Mais do que qualquer outra coisa, queria ser abraçada e que ele lhe dissesse que tudo ia correr bem.

— E o DIU que você estava usando? — perguntou Adam.

— Não funcionou. Acho que devo considerar este bebê uma espécie de milagre. — Jennifer obrigou-se a sorrir.

Adam começou a andar de um lado para o outro na pequena sala. Um bebê! Como eles poderiam ter um bebê? Do jeito como iam as coisas, eles mal conseguiam manter a cabeça fora d'água. E suas dívidas já estavam em quase 20 mil dólares.

Em silêncio, Jennifer observava-o. A partir do momento em que deixara o consultório do Dr. Vandermer, começara a recear a reação de Adam. Esse o motivo pelo qual lhe ocorrera a idéia de um jantar de celebração. Naquele momento, porém, acabada a refeição, restava a realidade de estar grávida e de um marido não muito satisfeito.,

— Você sempre quis ter filhos — lembrou ela tristemente. Parando no meio do tapete puído, Adam fitou-a.

— O fato de eu querer ou não ter filhos não é o problema. Claro que quero filhos, mas não agora. Quero dizer, como é que nós vamos viver? Você terá de deixar de dançar imediatamente, certo?

— Logo — reconheceu Jennifer.

— Bem, aí está! O que nós vamos fazer para ganhar dinheiro Não é como se eu pudesse fazer entrega de jornais após as aulas. Oh Deus, que bagunça. Nem acredito.

— Tem a minha família — lembrou Jennifer, lutando para não chorar.

Adam ergueu o olhar, os lábios esticados numa linha.

Percebendo-lhe a expressão, Jennifer acrescentou rapidamente:

— Sei o que você pensa sobre aceitar ajuda de minha família, mas se vamos ter um filho, a situação será diferente. Sei que eles adorarão nos ajudar.

— Oh, claro! — exclamou sarcástico Adam.

— Adorarão mesmo — retrucou Jennifer. — Esta manhã, fui até lá em casa e conversei com eles. Meu pai disse que terá todo prazer, se formos morar com eles em Englewood. Deus sabe que a casa é bem grande. Logo que eu voltar a dançar e você iniciar seu período de residência médica, poderemos sair de lá.

Adam fechou os olhos e bateu no alto da cabeça com um punho cerrado.

— Não acredito que isto esteja acontecendo.

— Minha mãe ficará contente se formos morar com eles — acrescentou Jennifer. — Por causa do bebê que perdeu, ela se preocupa muito comigo.

— Não há conexão entre as duas coisas — respondeu Adam secamente. — Ela teve uma criança anormal porque já tinha passado dos 30 anos.

— Ela sabe. É apenas a maneira como ela pensa. Oh, Adam! Não seria tão ruim assim. Teríamos espaço de sobra e você poderia usar o quarto do sótão como gabinete.

— Não! — berrou Adam. — Muitíssimo obrigado; não vamos aceitar esmolas de seus pais. Eles já interferem demais em nossa vida. Tudo o que há nesta lixeira nojenta foi dado por eles — finalizou, abarcando a sala com um gesto.

No meio de toda a sua preocupação, Jennifer sentiu um começo de raiva. Por vezes, Adam era frustrantemente teimoso e, sem dúvida alguma, um grande ingrato. Desde o começo do relacionamento de ambos, a rejeição dele à ajuda dos pais dela fora desmedida. Aceitara isso até certo ponto, reconhecendo a sensibilidade peculiar do marido, mas naquele momento em que estava grávida, a atitude dele parecia absurdamente egoísta.

— Meus pais não interferem. Acho que já é tempo de você combater esse seu orgulho ou o que quer que seja que o enfurece tanto sempre que meus pais querem nos ajudar. A verdade é que nós precisamos de ajuda.

— Você pode chamar do que quiser. Eu chamo de interferência. E não quero isso, hoje, amanhã, nunca! Somos independentes e vamos resolver isto sozinhos.

— Muito bem — concordou Jennifer. — Se você não pode aceitar ajuda de minha família, então peça-a a seu pai. Já é mais do que tempo de ele fazer alguma coisa.

Adam interrompeu as passadas pela casa e olhou fixamente para Jennifer.

— Vou arranjar um emprego — falou baixinho.

— Como é que você pode arranjar um emprego? — perguntou Jennifer. — Quando está acordado, você ou está estudando ou no Hospital.

— Vou trancar a matrícula — respondeu Adam. Jennifer ficou boquiaberta.

— Você não pode trancar a matrícula. Eu consigo outro emprego.

— Claro. Que tipo de emprego? Garçonete? Seja sensata, Jenifer. Não quero que você trabalhe enquanto estiver grávida.

— Neste caso, faço um aborto — retrucou Jennifer, desafiadoramente. Adam girou rapidamente e postou-se em frente à esposa. Devagar, ergueu a mão e apontou o indicador para o nariz dela.

— Você não vai fazer aborto nenhum. Não quero nunca mais o vir esta palavra.

— Então, peça ajuda a seu pai. Adam rilhou os dentes.

— Nós não teríamos de pedir ajuda a ninguém se você simplesmente não tivesse engravidado.

As lágrimas que Jennifer estivera prendendo o dia inteiro rolaram finalmente pelo seu rosto.

— Para isso é preciso duas pessoas, e você sabe muito bem disso. Não fiz isso sozinha — disse, começando a soluçar.

— Você me disse para não me preocupar com filhos — retrucou Adam secamente, ignorando-lhe as lágrimas. — Disse que isso era a sunto seu. E que grande trabalho fez!

Jennifer nem mesmo tentou responder. Sufocando, correu para o quarto, fechando a porta com estrondo.

Durante um momento, Adam permaneceu com os olhos pregados na porta. Sentia vontade de vomitar. Sentia a boca seca, com todo aquele vinho. Olhou para a mesa à frente, atulhada com os restos do jantar. Não precisava olhar na cozinha. Já sabia em que condições ela estava. O apartamento era uma bagunça, e parecia assustadoramente o sín bolo de sua vida.

 

O Dr. Lawrence Foley penetrou na longa e sinuosa entrada de automóveis de sua residência. A mansão de pedra, esparramada pelo terreno, estava ainda longe da vista quando apertou o botão que abria a porta da garagem. Fazendo a volta em torno do último grupo de olmos, avistou as torres em silhueta contra o céu noturno. Aquele castelo neogótico fora construído ali em Greenwich em princípios da década de 20 por um milionário excêntrico que perdera tudo no estouro da Bolsa em 1929 e estourara também os miolos com uma espingarda de caçar elefantes.

Laura Foley, na sala de estar do andar superior, ouviu o Jaguar entrar na garagem. A seus pés, Ginger apoodle miniatura cor de abricó, ergueu a cabeça e rosnou como se fosse um cão de guarda. Lançando para um lado o livro que lia, Laura levantou o olhar para o relógio de parede. Um quarto para as 10, e ela estava furiosa. Mandara preparar o jantar para as oito mas Larry nem se dera o trabalho de telefonar dizendo que ia chegar tarde. Era a sexta vez que fazia isso naquele mês. Dissera a ele centenas de vezes que telefonasse, avisando. Era a única coisa que pedia. Sabia que médicos têm de atender a emergências, mas telefonar leva apenas um minuto.

Sentada ainda no sofá, pensou no que devia fazer. Podia ficar onde estava e deixar que Larry se arranjasse sozinho na cozinha, embora já houvesse tentado isso antes, sem resultado. Até pouco tempo atrás, o marido fora sensível a seus estados de espírito. Por algum motivo, porém, desde que voltara de uma conferência médica há quatro meses, mostrara-se em geral frio e alheio.

Ruídos da cozinha subiram pela escada dos fundos, indicando que Larry já estava preparando alguma coisa. Não se dera o trabalho de subir e cumprimentá-la, pensou Laura, mordida de raiva. Tirou as per nas do pufe à frente, enfiou os pés nas sandálias e levantou-se Dirigindo-se até um espelho de moldura dourada, examinou-se atenta mente. Para uma mulher de 56 anos de idade, parecia estar numa excelente forma. Nas últimas seis semanas, porém, Larry não demonstrara o menor interesse sexual. Poderia ser essa a razão de sua nova explosão de entusiasmo profissional? Larry e Clark Vandermer precisaram de vinte anos para levar a clientela até um ponto em que podiam concentrar-se em ginecologia, deixando a obstetrícia um tanto de lado. Em seguida, porém, Larry mandara tudo aquilo pelos ares Ao regressar daquela reunião de médicos, anunciara calmamente que ia desligar-se da Ginecologistas Associados e que aceitara um emprego assalariado na Clínica Julian. Na ocasião, ela ficara tão estupidificada que nem conseguira responder. Desde que ingressara na Clínica Julian Larry vinha aceitando um número cada vez maior de casos de obstetrícia, mesmo recebendo salário igual, por mais que trabalhasse.

Um estrondo interrompeu-lhe os pensamentos. Este era outro problema. Ultimamente, Larry tornara-se desastrado, e tinha lapsos de atenção. Perguntou-se se o marido não estaria por acaso à beira de algum tipo de colapso.

Resolvendo que era tempo de ter uma explicação, endireitou o robe e começou a descer os degraus. Ginger seguiu-a nos tornozelos Encontrou-o junto à bancada da cozinha, comendo um grande sanduíche e lendo uma revista de medicina. Tirara o paletó, que colocara nas costas de uma cadeira. Ao ouvi-la entrar, ergueu a cabeça.

— Olá, querida — cumprimentou numa voz inexpressiva. Ao pé da escada, Laura deixou a raiva crescer. O marido fitou-a por um momento e voltou em seguida à revista.

— Por que não telefonou? — perguntou Laura secamente, enfurecida com a tentativa dele de ignorá-la.

Lentamente, Larry ergueu a cabeça e virou o rosto para a mulher, mas não falou.

Laura aproximou-se mais— Ei... — disse Laura, abanando a mão em frente ao rosto dele. — Lembra-se de mim? Sou sua mulher.

As pupilas de Larry contraíram-se e ele pestanejou, como se estivesse acabando de vê-la.

— Desculpe por eu não ter telefonado. Resolvemos abrir uma clínica noturna para atender pessoas que moram próximo à Julian, e a reação foi melhor do que esperávamos.

— Larry, o que está havendo com você? Está querendo me dizer que ficou lá até depois das nove horas da noite, trabalhando numa clínica de atendimento gratuito?

— Não está havendo coisa alguma comigo. Eu me sinto bem. Gostei. Descobri três casos insuspeitados de doenças venéreas.

— Maravilhoso — comentou Laura, lançando as mãos para o alto e sentando-se numa das cadeiras da cozinha. Olhou fixamente o marido e adquiriu uma respiração exasperada. — Temos de ter uma conversa. Alguma coisa muito esquisita está acontecendo. Ou você está ficando doido ou sou eu que estou.

— Eu me sinto muito bem.

— Você pode sentir-se bem, mas está-se comportando como se fosse uma pessoa diferente. Parece cansado o tempo todo, como se não dormisse há semanas. Essa idéia toda de abandonar sua clientela é uma loucura completa. Lamento dizer isso, mas é loucura renunciar ao que lhe custou a vida inteira para construir.

— Estou cansado de clientela particular — respondeu Larry. — A Clínica Julian é mais interessante e posso ajudar um número maior de pessoas.

— Tudo isso é uma maravilha, mas o problema é que você tem família. Tem um filho e uma filha no colégio preparatório e uma filha na faculdade de medicina. Não preciso lhe dizer o quanto custam as anuidades. E manter esta casa ridícula, que você insistiu em comprar há dez anos, custa uma fortuna. Não precisamos de trinta cômodos, especialmente agora que as crianças estão fora de casa. O salário que você recebe na Clínica Julian mal dá para a comida, e menos ainda para atender aos nossos compromissos.

— Podemos vender a casa — sugeriu Larry numa voz sem expressão.

— Sim, podemos vender a casa — repetiu Laura. — Mas as crianças estão na escola e, infelizmente, nossa poupança é pouca. Larry, você tem de voltar para a Ginecologistas Associados.

— Renunciei à minha parte na sociedade — lembrou Larry.

— Clark Vandermer a devolverá — garantiu Laura. — Vocês se conhecem há muito tempo. Diga a ele que cometeu um erro. Se mudar sua vida profissional, você pelo menos deve esperar até que esteja completada a educação das crianças.

Laura calou-se e observou o rosto do marido, que parecia talhado em pedra.

— Larry — chamou. Não houve resposta.

Levantou-se e abanou a mão em frente ao rosto do marido, que não se moveu. Parecia estar em transe.

— Larry — gritou ela, sacudindo-o pelos ombros.

O corpo dele estava estranhamente rígido. Em seguida, ele pestanejou e fitou-a nos olhos.

— Larry, já notou que às vezes parece dar um branco em você? -- Conservou as mãos nos ombros dele, enquanto lhe estudava o rosto.

— Não — respondeu Larry. — Eu me sinto bem.

— Acho que, talvez, você deva consultar alguém. Por que não telefonamos para Clark Vandermer e pedimos para que ele venha até aqui e o examine? Ele mora a apenas três casas daqui e tenho certeza que não se importaria. Ao mesmo tempo, poderíamos conversar sobre sua volta à antiga clientela.

Larry não respondeu. Em vez disso, os olhos reassumiram a expressão vazia, enquanto as pupilas se dilatavam. Laura fitou-o por momento e depois, rápida, dirigiu-se ao telefone da cozinha. A irritação transformara-se em preocupação. Procurou o número de Vandermer no livro de endereços pendurado no quadro de lembretes de cortiça, e ia discar quando Larry lhe arrancou o aparelho da mão. Pela primeira vez em meses, a flacidez desaparecera de seu rosto. Os dentes arreganharam-se numa careta estranha.

Laura soltou um grito. Não fora esta sua intenção, mas não conseguiu evitá-lo. Recuou, derrubando uma das cadeiras da cozinha. Ginger ladrou e rosnou.

A despeito da expressão horrenda do rosto, Larry não reagiu ao grito de Laura. Colocou o telefone no gancho e voltou-se. Em lento e agoniado movimento, segurou as têmporas com as mãos enquanto um gemido angustiado lhe escapava dos lábios. Em pânico, Laura subiu correndo as escadas.

Chegando ao andar superior, passou pela sala de estar e desceu o corredor. A imensa casa era construída na forma da letra H, o corredor superior ligando as duas pernas da letra. O quarto do casal situava-se por cima da sala de visitas, na ala oposta à cozinha.

Chegando ao quarto, Laura Fechou-o e passou a chave na porta. Correu para a cama e sentou-se na beira, a respiração ar-fante. Na mesinha-de-cabeceira havia outro livro de endereços. Abriu-o na letra V. mantendo o dedo no número de Vandermer, ergueu o telefone de modelo antigo e começou a discar. Mas antes de a ligação ser completada, um dos telefones do térreo foi tirado do gancho.

— Laura — disse Larry com voz fria, mecânica —, quero que desça imediatamente. Não ligue para ninguém.

Uma onda de terror envolveu Laura, fechando-lhe a garganta. A mão que segurava o telefone começou a tremer.

A ligação foi completada e ouviu o som de chamada no telefone dos Vandermers. Mas logo que alguém atendeu, a ligação caiu. Impotente, olhou para o aparelho. Larry devia ter cortado o fio.

— Meu Deus — sussurrou.

Devagar, recolocou o aparelho no gancho e tentou recuperar o controle de si mesma. O pânico não ia solucionar coisa alguma. Tinha de pensar. Era evidente que ela precisava de ajuda. A questão era como obtê-la. Virando a cabeça, olhou pela janela do quarto. Luzes acesas na casa vizinha. Se erguesse a janela e gritasse, alguém ouviria e, se ouvisse, responderia?

Tentou convencer-se de que estava exagerando em sua reação. Talvez devesse simplesmente descer, como Larry sugerira, e dizer-lhe que ele simplesmente tinha de pedir ajuda a alguém.

Uma batida à porta fê-la retesar-se. Apurou o ouvido e ficou aliviada ao ouvir um latido seco. Indo até a porta, encostou nela a orelha. Ouviu apenas o choro de Ginger. Rapidamente, abriu a fechadura, para que a poodle pudesse entrar.

A porta foi aberta violentamente, machucando-lhe a mão e chocando-se contra a parede. Tomada de pavor, viu Larry à soleira. Ginger correu para os pés de Laura e começou a saltar para cima e para baixo, pedindo para ser erguida do chão.

Laura gritou novamente. O rosto de Larry continuava ainda grotescamente contorcido. Na mão esquerda, ele trazia uma escopeta calibre 12.

Tomada por um pânico total, Laura virou-se e correu para o banheiro, fechando a porta com estrondo e correndo o ferrolho. Ginger seguiu-a e começou a tremer a seus pés. Levantou do chão a cachorrinha que tremia e recuou, olhando para a porta. Sabia que ela não era uma grande barreira.

Uma explosão ensurdecedora ecoou pelo cômodo mosaicado, enquanto parte da porta era arrebentada e arrancada. Lascas voadoras picaram-lhe o rosto e a cachorrinha soltou um gemido impotente.

Havia outra porta no banheiro. Pondo Ginger no chão, Laura lutou para abrir o ferrolho. Embora estonteada, conseguiu abrir a porta de correr para um quarto de vestir que dava para o dormitório. Olhando por cima do ombro, viu a mão de Larry passando através do buraco do aberto pelo tiro da espingarda.

No momento em que atravessava correndo o quarto, vislumbrou o marido entrando e desaparecendo no banheiro. Sabendo que só dispunha de alguns momentos de vantagem, disparou pelo corredor e desceu a escada, meio correndo, meio caindo, Ginger nos seus tornozelos.

Inutilmente, deu um puxão na porta da frente, mas ela estava fechada. O velho que construíra a casa fora tão paranóico que instalara em todas as portas fechaduras que podiam ser operadas de ambos os lados. Havia chaves em algum lugar no bureau da entrada, mas não tinha tempo de procurá-las. Suas chaves estavam na bolsa, na cozinha. Ouvindo Larry começar a descer a escada, correu pela galeria do corredor térreo.

Habitualmente, deixava a bolsa na mesinha que ficava embaixo do telefone da cozinha; ela, porém, não estava lá. Experimentou a porta dos fundos mas, como esperara, encontrou-a fechada. Tomada de pânico crescente, tentou pensar no que fazer. O fato de Larry ter realmente usado a espingarda na porta do banheiro fazia seu coração bater descompassado. Ginger saltou para seus braços e ela apertou-a co:ontra o peito. Ouviu em seguida os saltos dos sapatos de Larry batemdo no mármore da galeria.

Em desespero, abriu a porta do porão, acendeu as luzes e fechou-se por trás. Com todo o silêncio que lhe foi possível, desceu a escada íngreme. Havia um modo de sair do porão, que era fechado com uma trave de carvalho, em vez de fechadura.

Nunca haviam usado o porão, tal a abundância de espaço nos andares superiores. O local estava abafado, empoeirado e cheio de toda sorte de trastes deixados pelos antigos proprietários. Era um labirimto de pequenos cômodos, mal iluminados por raras lâmpadas nuas. Triopecou nos destroços que juncavam o corredor, prendendo com força Ginger contra o corpo, enquanto seguia uma rota estranhamente tortuosa. Chegava quase à saída quando as luzes se apagaram.

Na escuridão súbita e completa, parou interdita, desorientada, consumida pelo terror. Em desespero, estendeu à frente a mão esquerda procurando uma parede. Os dedos tocaram em madeira áspera. Tropeçando, acompanhou a parede até chegar à porta. Às suas costas, ouviu Larry começar a descer a escada do porão. O som dos passos dele era claro, como se ele estivesse se movendo devagar e deliberadamente.

Uma luz oscilante indicava que ele trazia uma lanterna elétrica. Sabendo que nunca encontraria a saída na escuridão, compreendeu que teria de se esconder. Com todos os cômodos e trastes que havia ali, achou que tinha uma oportunidade. Cruzou a soleira que encontrara e tateou na escuridão. Quase no mesmo instante, suas mãos tocaram venezianas encostadas na parede. Dando a volta em torno delas, tocou com o pé um objeto de madeira, um grande barril tombado no chão.

Depois de verificar que o barril estava vazio, ficou de quatro e se enfiou de costas no espaço, puxando consigo Ginger. Não teve de se preocupar muito, pensando se o esconderijo era adequado. Mal acabara de se mover, ouviu Larry aproximando-se pelo corredor. Embora a boca do barril apontasse para longe da porta, viu reflexos da lanterna que ele usava.

Os passos dele aproximavam-se cada vez mais, enquanto ela se esforçava para respirar sem fazer ruído. O feixe da lanterna entrou no cômodo. Laura prendeu a respiração. Nesse momento, Ginger rosnou e latiu. O coração de Laura perdeu uma batida, enquanto ouvia o gatilho da espingarda. Sentiu Larry dar um pontapé no barril, fazendo com que ela rolasse e ficasse de cabeça para baixo. Ginger ganiu e fugiu.

Freneticamente, Laura lutou para endireitar-se.

 

No avião da Eastern da ponte aérea para Washington, Adam teve seu primeiro momento de paz desde a noite anterior. Depois de Jennifer ter fechado com um estrondo a porta do quarto, procurara acomodar-se no incômodo sofá vitoriano. Tentara ler um pouco a matéria sobre pancreatite mas descobrira que lhe era impossível concentrar-se. De maneira alguma poderia continuar na escola de medicina se perdessem a renda de Jennifer. Ao amanhecer, após apenas umas duas horas de sono inquieto, telefonara para o hospital e deixara um recado para o seu interno, dizendo que não poderia ir trabalhar naquele dia. De um modo ou de outro, sabia que teria de encontrar uma solução.

Pela janela, olhou para o tranqüilo campo de Nova Jersey. O comandante anunciou nesse momento que estavam passando por cima do Rio Delaware. Adam calculou que dentro de uns vinte minutos aterrissariam em Washington. Chegaria assim à cidade às oito e meia. Poderia estar no gabinete do pai, na Food and Drug Administration, por volta das nove horas.

Não esperava com prazer a reunião, especialmente naquelas circunstâncias. Não via o pai desde meados de seu primeiro ano na escola de medicina, e fora um encontro traumático. Naquela ocasião, dissera ao velho que estava resolvido a casar-se com Jennifer.

Continuava tentando decidir como iniciar a conversa quando passou pela porta giratória que dava acesso ao edifício onde trabalhava o pai. Em criança, não visitara com muita freqüência aquele gabinete mas o fizera por um número suficiente de vezes para deixá-lo com uma sensação de desgosto. O pai sempre agira como se o filho constituísse motivo de embaraço.

Fora o filho do meio, imprensado entre um irmão mais velho su-perativo, David, e uma irmã mais moça, Ellen, a queridinha da família. David fora o tipo aberto e franco de criança e resolvera, bem jovem ainda, tornar-se médico, como o pai. Adam jamais conseguira resolver o que queria ser. Durante muito tempo, pensara que queria ser fazendeiro.

Entrou no elevador e apertou o botão do oitavo andar. Lembrava-se de ter subido naquele elevador em companhia de David, quando o irmão se encontrava na escola de medicina. David era dez anos mais velho e, no que lhe interessava, parecia mais um adulto do que um irmão. Naquele tempo, Adam era deixado na sala de espera, enquanto o pai levava David para ser apresentado aos colegas.

Desceu no oitavo andar e tomou a direita. À medida que os gabinetes se tornavam maiores e mais vistosos, mais feias ficavam as secretárias. Lembrou-se de que fora David quem lhe chamara a atenção para esse fato.

Hesitando diante dos gabinetes dos executivos, perguntou-se o que seria seu relacionamento com o pai se David não tivesse sido morto no Vietnã. Não foram muitos os médicos que morreram lá, mas David conseguira isso. Sempre fora daqueles que se apresentavam como voluntários para tudo. Acontecera no último ano da guerra, quando Adam tinha quinze anos.

O fato arrasara a família. A mãe entrara numa terrível depressão, que exigira terapia de choque. Ainda agora não era a mesma pessoa. O pai não suportara muito melhor a notícia. Depois de presenciar durante meses o silêncio fechado do pai, procurara-o e lhe dissera que resolvera ser médico. Em vez de ficar satisfeito, o pai chorara e lhe dera as costas.

Parou em frente ao gabinete do pai, reuniu toda a sua coragem e dirigiu-se para a mesa da Sra. Margaret Weintrob. Era uma mulher enorme, que ocupava toda a cadeira giratória. Seu vestido parecia uma tenda feita de tecido de algodão estampado com motivos florais. A parte superior dos braços possuía camadas enormes de gordura extra, fazendo com que os consideráveis antebraços parecessem magros.

Mas, à parte a gordura, ela era excepcionalmente fina. Sorriu quando viu Adam e, sem se levantar, estendeu-lhe a mão.

Adam apertou a mão ligeiramente úmida e retribuiu o sorriso. Eles sempre se deram bem. Ela era secretária de seu pai por tanto tempo quanto podia lembrar-se e sempre fora sensível a sua timidez de rapazola.

— Por onde é que você andou? — perguntou ela, fingindo-se de zangada. — Há séculos que não nos visita.

— A faculdade de medicina não dá muita folga — respondeu Adam.

Eram poucos os segredos que o pai guardava de Margaret, e tinha certeza de que ela sabia por que ele não aparecera mais.

— Como sempre, seu pai está no telefone. Mas ficará livre dentro de um minuto. Posso lhe oferecer um pouco de café, ou chá?

Adam sacudiu a cabeça, dizendo:

-- Não, obrigado.

Pendurou o casaco num cabide de latão. Sentou-se num banco forrado de vinil. Lembrou-se de que o pai não gostava de dar a impressão de que o governo estava gastando dinheiro público em mordomias, como assentos confortáveis. Na verdade, toda a ante-sala tinha um aspecto utilitário. Para o Dr. Schonberg, sênior, aquilo era uma questão de princípio. Pela mesma razão, recusara o carro e o motorista a que seu cargo dava direito.

Adam tentou reunir os argumentos que pensava expor, mas não se sentia muito otimista. Quando telefonara cedo naquela manhã, combinando a visita, o pai se mostrara ríspido, como se soubesse que Adam ia pedir-lhe dinheiro.

Uma campainha soou. Margaret sorriu.

— Seu pai está à espera.

No momento em que Adam se levantava, sombrio, ela estendeu a mão e tocou-lhe o antebraço.

— Ele ainda está sofrendo com a morte de David. Tente compreender. Ele realmente ama você.

— David morreu há nove anos — lembrou Adam. Margaret inclinou a cabeça e deu-lhe uma palmadinha no braço

— Quero apenas que você saiba o que ele está pensando.

Adam abriu a porta e entrou no gabinete do pai. O aposento, grande e quadrado, de janelas altas, dava para um agradável jardim interno. As demais paredes eram forradas por estantes, envolvendo uma grande escrivaninha de carvalho no centro. Duas mesas de biblioteca de bom tamanho eram espaçadas perpendicularmente de cada lado da escrivaninha, criando uma ampla área de trabalho em forma de U. O centro era ocupado pelo seu pai.

O Dr. Schonberg parecia-se com o filho o suficiente para que estranhos imaginassem qual o parentesco entre ambos. Ele também possuía espessos cabelos ondulados, embora tornando-se grisalhos nas têmporas. A maior diferença entre ambos era a altura, o pai uns doze centímetros mais baixo do que o filho.

No momento em que Adam entrou e fechou a porta, o Dr. Schon berg

tinha na mão uma caneta que, com todo o cuidado, colocou no suporte.

— Oi — disse Adam.

Notou que o pai envelhecera desde que o vira pela última vez. Muitas rugas novas vincavam-lhe a fronte.

O Dr. Schonberg respondeu ao cumprimento de Adam com uma ligeira inclinação da cabeça. Não se levantou da cadeira.

Adam aproximou-se da escrivaninha, olhando para os olhos profundamente empapuçados do pai. Não viu qualquer sinal de abrandamento.

— A que devemos esta inesperada visita? — perguntou o Dr. Schonberg.

— Como vai mamãe? — perguntou Adam, sentindo que seus receios foram justificados. O encontro já estava começando mal.

— Que gentileza a sua em perguntar. Na verdade, ela não vai nada bem. Teve de ser submetida novamente a tratamento de choque. Mas não quero incomodá-lo com essa notícia. Especialmente levando em conta o fato de que você ter casado com aquela moça contribuiu muito para o estado dela.

— O nome daquela moça é Jennifer. Eu tinha esperança de que, depois de um ano e meio, você pudesse lembrar-se do nome dela. O estado de mamãe começou com a morte de David, não com meu casamento com Jennifer.

— Ela estava justamente se recuperando quando você a chocou com o casamento com aquela moça.

— Jennifer! — corrigiu-o Adam. — E aquilo aconteceu sete anos depois da morte de David.

— Sete anos, dez anos, o que importa? Você sabia o que casar fora de sua religião faria com sua mãe. Mas você se importou? E quanto a mim? Eu lhe disse para não casar cedo por causa de sua carreira de médico. Mas você nunca teve a menor consideração pela família. Sempre faz o que quer. Bem, conseguiu o que queria.

Adam fitou o pai. Não tinha energia para discutir em face de tal irracionalidade. Tentara isso no último encontro de ambos, um ano e meio antes, sem o menor resultado.

— Não quer saber como vou, como estou indo na faculdade? — perguntou Adam, quase suplicante.

— Nas circunstâncias, não — retrucou o Dr. Schonberg.

— Bem, neste caso, cometi um erro em vir aqui — disse Adam. — Estamos em grandes dificuldades financeiras e pensei que havia passado

tempo suficiente para tornar possível conversar com você a esse respeito.

— Ah!, sim, agora ele quer conversar sobre assuntos financeiros! -exclamou o Dr. Schonberg, lançando as mãos para o alto. Voltou olhar para o filho, estreitando os olhos empapuçados. — Eu lhe avisei que se, obstinadamente, levasse adiante seu casamento com aquela moça, eu ia cortar relações com você. Pensou que eu estava brincando? Pensou que eu me referia apenas a uns dois anos?

— Não há por acaso circunstâncias que o façam reconsiderar a sua posição? — perguntou Adam tranqüilamente.

Sabia qual seria a resposta antes mesmo de perguntar e nem se deu o trabalho de dizer ao pai que Jennifer estava grávida.

— Adam, você vai ter de aprender a assumir as responsabilidades pelas suas decisões. Se diz alguma coisa, tem de cumprir o que disse. Em medicina, não há espaço para atalhos ou meios-termos. Ouviu o que eu disse?

Adam começou a dirigir-se para a porta.

— Obrigado pelo sermão, papai. Será muito útil.

O Dr. Schonberg saiu de trás da escrivaninha.

— Você sempre foi arrogante, Adam. Mas assumir responsabilidades por suas decisões é uma lição que tem de aprender. É a maneira como dirijo este departamento na Food and Drug Administration.

Adam inclinou a cabeça e abriu a porta. Margaret recuou desajeitada, nem mesmo se importando em fingir que não estivera escutando às escondidas. Adam dirigiu-se ao cabide para pegar o casaco.

O Dr. Schonberg seguiu o filho até a sala de espera.

— E dirijo minha vida pessoal da mesma maneira. Como meu pai também fez, antes de mim. E como você deve fazer.

— Não vou me esquecer disso, papai. Cumprimente mamãe por mim. Obrigado por tudo.

Desceu o corredor e chegou aos elevadores. Após apertar o botão, olhou para trás. A distância, Margaret acenava um adeus. Acenou também. Nunca devia ter ido até ali. Não havia maneira alguma de conseguir dinheiro com o pai.

Não chovia quando Jennifer deixou o prédio de apartamentos, embora o céu continuasse ameaçador. De muitas maneiras, pensou, março era o pior mês em Nova York. Embora a primavera estivesse prestes

a começar oficialmente, o inverno ainda prendia a cidade firme em suas garras.

Apertando mais o casaco em volta do corpo, dirigiu-se para a Sétima Avenida. Sob o casaco, usava uma velha malha de ensaios, calças justas, meias grossas para esquentar as pernas e uma velha suéter cinza, cujas mangas haviam sido cortadas. Na verdade, não sabia se ia dançar, uma vez que pensava em contar a Jason que estava grávida. Tinha esperança de que ele lhe permitisse continuar na companhia por mais uns dois meses. Ela e Adam precisavam desesperadamente daquele dinheiro, e o pensamento de o marido deixar a escola de medicina a a apavorava. Se pelo menos ele não fosse tão teimoso sobre aceitar ajuda de seus pais!

Ao chegar à Sétima Avenida, virou para o sul, lutando contra a multidão que se dirigia para o norte, para o distrito das confecções de roupas. Parando em um sinal luminoso, perguntou-se que tipo de recepção Adam estaria tendo do pai. Ao acordar naquela manhã, encontrara um bilhete dele, dizendo que ia a Washington. Se o velho safado ajudasse, pensou Jennifer, isso resolveria tudo. Na verdade, se oDr. Schonberg oferecesse ajuda, Adam provavelmente demonstraria menos relutância em aceitá-la também de seus pais.

Cruzou a Sétima Avenida e entrou na Greenwich Village. Minutos depois, cruzou a entrada do Cézanne Café, desceu os três degraus com um único salto e passou pela porta de vidro gravado. No lado de dentro, o ar estava pesado com a fumaça de cigarros Gauloise e cheiro de café. Como sempre, havia uma multidão ali.

Na ponta dos pés, tentou vasculhar a multidão à procura de um rosto conhecido. A meio caminho da estreita sala, viu alguém acenando para ela. Candy Harley, que fora uma das dançarinas de Jason Conrad, mas que nesse momento fazia trabalho administrativo. Ao lado dela, Cheryl Tedesco, secretária da companhia, parecendo mais pálida do que o habitual, em um macacão branco. Costumeiramente, as três tomavam café juntas antes do ensaio.

Jennifer tirou o casaco, enrolou-o na forma de uma grande bola e colocou-o no chão, junto a parede. Em cima, arriou a bolsa de pano mole. No momento em que se sentava, Peter, o garçom austríaco, chegou à mesa, perguntando se ela queria o de sempre. Queria. Cappucci-no e croissant com manteiga e mel.

Logo que ela se acomodou, Candy inclinou-se para a frente e disse:

— Temos boas e más notícias. Qual você quer ouvir primeiro?

Jennifer olhou de uma para outra. Não estava a fim de brincadeiras, mas Cheryl olhava para a xícara do café expresso como se houvesse perdido sua melhor amiga. Jennifer via nela uma moça bem melancólica, na casa dos vinte, com um problema de peso que ultimamente parecia estar-se agravando. Possuía o rosto mais parecido com uma fada que se poderia imaginar, nariz arrebitado e olhos grandes. O cabelo desgrenhado era de um amarelo sujo. Em contraste, Candice Mai tinha uma aparência notavelmente imaculada, os cabelos louros amarrado numa trança francesa.

— Talvez seja melhor você me dar primeiro a boa notícia — respondeu Jennifer inquieta.

— Ofereceram-nos um especial na CBS — disse Candy. — Desta vez, as Jason Conrad Dancers vão acertar em cheio.

Jennifer fez um esforço para parecer animada, embora soubesse que provavelmente sua gravidez estaria adiantada demais para que pudesse aparecer na televisão.

— Mas isso é maravilhoso! — obrigou-se a dizer com entusiasmo. — O programa está marcado para quando?

— Não temos certeza ainda da data exata, mas devemos gravar o espetáculo dentro de alguns meses.

— Bem, e qual é a má notícia? — perguntou Jennifer, ansiosa para mudar de assunto.

— A má notícia é que Cheryl está grávida de quatro meses e vai ter de fazer um aborto amanhã — respondeu Candy, atropelando as palavras.

Jennifer virou-se para Cheryl.

— Que pena — falou, desajeitada. — Eu nem mesmo sabia que você estava grávida.

— Ninguém sabia — esclareceu Candy. — Cheryl manteve segredo até saber que fiz um aborto. Ela, então, me falou em segredo, foi bom que tivesse feito isso. Recomendei a ela meu médico, que sugeriu uma punção da membrana fetal, porque Cheryl disse que continuara a tomar drogas durante todo seu segundo mês. Ela não sabia que estava grávida.

— Qual o resultado do teste? — perguntou Jennifer.

— Que o bebê tem deformações. Há alguma coisa de errado com os genes. É isso o que os médicos procuram quando fazem uma punção da membrana.

Jennifer virou-se para Cheryl, que continuava a olhar fixament para o café expresso, fazendo força para não chorar.

— O que o pai acha? — perguntou Jennifer, e logo se arrependeu porque Cheryl cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar sentidamente.

Candy envolveu-a com o braço, enquanto Jennifer olhava para as mesas vizinhas. Mas ninguém estava prestando atenção. Cheryl tirou um lenço de papel da bolsa e assoou-se ruidosamente.

— O nome do pai é Paul — respondeu ela tristemente.

— O que ele acha de você fazer aborto? — perguntou Jennifer. Cheryl enxugou os olhos e ficou examinando a mancha escura da maquilagem no papel.

— Não sei. Ele caiu fora e me deixou.

— Bem — disse Candy —, isso nos dá uma idéia muito boa do que ele pensa. O safado. Eu gostaria que homens pudessem ficar grávidos, digamos, ano sim, ano não. Acho que eles se tornariam um pouco mais responsáveis, se isso acontecesse.

Cheryl enxugou novamente os olhos. De repente, Jennifer deu-se conta de como era absurdamente jovem e vulnerável aquela moça. Em comparação, tornava banal o problema de sua própria gravidez.

— Estou com tanto medo — dizia Cheryl nesse momento. — Não contei a ninguém porque, se meu pai descobrir, ele me mata.

— Bem, espero que você não vá ao hospital sozinha — disse Jennifer, alarmada.

— A coisa não é tão grave assim — tranqüilizou-a de certa maneira Candy. — Fiquei preocupada com meu aborto, mas tudo correu bem. O pessoal da Clínica Julian é muito simpático e sensível. Além do mais, Cheryl vai ser atendida pelo melhor ginecologista do mundo.

— Qual é o nome dele? — perguntou Jennifer, pensando que não poderia dizer o mesmo do Dr. Vandermer.

— Lawrence Foley — respondeu Candy. — Ele me foi recomendado por outra moça que também teve de fazer um aborto.

— Parece que ele anda fazendo um bocado de abortos — comentou Jennifer.

Candy inclinou a cabeça, concordando.

— Isto aqui é uma cidade grande.

Jennifer tomou um pequeno gole do cappuccino, perguntando-se como iria contar às amigas que acabara de descobrir que também estava grávida. Adiou por um momento a revelação, virando-se para Cheryl e dizendo:

— Talvez você queira que eu a acompanhe amanhã. Acho que seria bom para você um pouco de companhia.

— Eu adoraria — respondeu Cheryl, o rosto iluminando-se de satisfação.

— Devagar com a louça, senhora Schonberg — lembrou Candy. — Temos um ensaio.

Jennifer ergueu as sobrancelhas e sorriu.

— Bem, eu também tenho notícias. Descobri ontem que estou grávida de dois meses e meio.

— Oh, não! — exclamou Candy.

— Oh, sim! — respondeu Jennifer. — E quando eu contar a Jason, ele talvez não se importe se eu ensaiar ou não.

Candy e Cheryl estavam espantadas demais para falar. Em silêncio, as três acabaram o café, pagaram a conta e dirigiram-se para o estúdio.

Jason não estava quando chegaram e Jennifer sentiu-se ao mesmo tempo aliviada e decepcionada. Tirou a vestimenta externa e procurou um lugar livre na área de dança. Virando-se de lado, levantou um pouco a malha para se observar de perfil no espelho e teve de reconhecer que a gravidez já aparecia um pouco.

Adam lavou as mãos no lavatório dos homens no primeiro andar do complexo hospitalar. Olhando rapidamente para seu rosto encovado no espelho, deu-se conta de que parecia exausto. Bem, talvez isso tornasse o diretor mais simpático. Depois de seu frustrado encontro com o pai, chegara à conclusão de que seu único recurso era um empréstimo adicional ao estudante, fornecido pelo centro médico. Endireitando o colarinho puído, pensou que certamente tinha a aparência de pessoa pobre e merecedora de ajuda. Iria diretamente ao gabinete do diretor, antes de perder a coragem.

Entrando impetuoso na sala da secretária, a fim de exigir ser recebido logo, ficou quase desolado quando ela disse que achava que o diretor dispunha de alguns momentos entre os encontros já marcados i Entrou para verificar. Ao voltar, disse a Adam que podia entrar imediatamente.

O Dr. Markowitz entrou no momento em que Adam cruzava a soleira do gabinete. Era um homem baixo, corpulento, com cabelo pretos ondulados, não muito diferentes dos de Adam. Apresentava um forte bronzeado, embora estivessem apenas em março. Aproximou-se com a mão estendida. No momento em que apertavam as mãos, com a outra, segurou Adam pelas costas.

— Por favor, sente-se.

Com um gesto, o diretor indicou uma cadeira preta formal em frente à escrivaninha.

Da cadeira, Adam pôde ver uma pasta de papel pardo com seu nome na etiqueta. Embora houvesse falado com ele apenas algumas vezes, em todas as ocasiões o Dr. Markowitz dera a impressão de que conhecia intimamente a sua situação. Obviamente, ele retirara a pasta do arquivo no minuto ou dois em que Adam fora mantido à espera. Adam pigarreou.

— Doutor Markowitz, lamento muito tomar seu tempo, mas estou com um problema.

— E veio ao lugar certo — retrucou o Dr. Markowitz, embora seu sorriso diminuísse apreciavelmente.

Adam sabia que o diretor era mais político do que médico. Sentiu a sensação desagradável de que essa reunião não seria mais frutífera do que a que tivera com o pai. Cruzou as pernas e segurou o tornozelo para evitar que as mãos tremessem.

— Acabei de descobrir que minha mulher está grávida — começou, observando o rosto do Dr. Markowitz em busca de sinais de desaprovação.

( Estes não foram sutis. Em primeiro lugar, desapareceu o sorriso do diretor. Em seguida, os olhos se estreitaram, enquanto ele cruzava os braços protetoramente sobre o peito.

— Desnecessário dizer — continuou Adam, lutando para manter a coragem — que essa situação vai nos colocar em grande aperto financeiro. Minha mulher e eu dependemos do que ela ganha e agora, com um bebê a caminho...

A voz de Adam morreu. Ninguém precisava ser adivinho para saber o resto.

— Bem — falou o Dr. Markowitz com um riso forçado —, sou clínico geral, não obstetra. Nunca fui muito bom em partos.

Que senso de humor, pensou Adam.

— Minha mulher se consulta com o Doutor Vandermer — prosseguiu Adam.

— Ele é o melhor — confirmou o Dr. Markowitz. — Ela não pode obter melhores cuidados obstétricos. Foi ele quem fez o parto de meus dois filhos.

Fez-se um constrangido silêncio. Adam ouviu o tique-taque de um relógio antigo na parede a sua esquerda. O Dr. Markowitz inclinou-se para a frente e abriu a pasta. Leu-a por um momento e levantou em seguida os olhos.

— Adam, você por acaso pensou que esta talvez não seja uma boa ocasião de começar a ter filhos?

— Foi um acidente — respondeu Adam, querendo evitar um sermão, se era isso o que o diretor pretendia fazer. — Uma falha de controle. Um dado estatístico. Mas, agora que aconteceu, temos de enfrentar a situação. Precisamos de ajuda financeira adicional, ou serei forçado a trancar a matrícula por um ano, mais ou menos. A situação é apenas esta.

— Você já pensou por acaso em interromper essa gravidez? perguntou o Dr. Markowitz.

— Pensamos, mas nenhum de nós dois está querendo isso.

— Que tal ajuda da família? — sugeriu o Dr. Markowitz. — Não acho que trancar a matrícula seja uma medida acertada. Você investiu muito para chegar ao ponto onde está hoje. Eu não gostaria de ter essa situação colocada em risco.

— Não há possibilidade alguma de ajuda da família — retrucou Adam. Não queria iniciar uma conversa sobre a intransigência de seu pai ou a interferência dos pais da mulher. — Minha única esperança é tomar novo empréstimo da escola. Se isso não for possível, terei que trancar a matrícula.

— Infelizmente, você já tomou o máximo de empréstimo permitido. Nossos recursos são limitados no tocante a empréstimos a estudantes. Temos de dividir bem a verba, de modo que possam ter acesso a ela todos os que precisam de ajuda. Sinto muito.

Adam levantou-se.

— Bem, de qualquer modo, muito obrigado por ter-me recebido. O Dr. Markowitz ergueu-se também. Reapareceu o sorriso.

— Eu gostaria de ter sido mais útil. Será uma pena vê-lo nos deixar. Seus antecedentes acadêmicos são excelentes até agora. Talvez você deva pensar na conveniência ou não de deixar que a gravidez vá a tirmo.

— Nós vamos ter a criança — respondeu Adam. — Para dizer a verdade, agora que o choque passou, estou ansioso para que isso aconteça.

— Quando iniciará sua licença? — perguntou o Dr. Markowitz.

— Vou concluir a cadeira de clínica médica dentro de alguns dias. — retrucou Adam. — Logo que terminar, começarei a procui emprego.

— Acho que, se vai trancar a matrícula, esta ocasião é tão boa como qualquer outra. O que você pensa em fazer?

Adam encolheu os ombros.

— Não fiz ainda planos específicos.

— Eu talvez lhe possa conseguir um cargo de pesquisa, aqui no centro médico.

— Agradeço muito o oferecimento, mas pesquisa não paga o salário que vou precisar. Preciso de um emprego com um salário razoável. Eu estava pensando mais em tentar uma das grandes companhias de medicamentos de Nova Jersey. A Arolen deu de presente a nossa turma todas aquelas malas de couro, de médico. Talvez eu tente conseguir alguma coisa com ela.

O Dr. Markowitz encolheu-se como se tivesse recebido uma bofetada.

— É onde está o dinheiro — confirmou, suspirando. — Mas tenho de dizer que me sinto como se você estivesse se passando para o inimigo. Recentemente, a indústria farmacêutica vem exercendo controle cada vez maior sobre a pesquisa médica e eu, pelo menos, estou verdadeiramente preocupado.

— Não estou muito entusiasmado com essa idéia — reconheceu Adam. — Mas a indústria é a única que pode realmente interessar-se num estudante terceiranista de medicina. Se isso não der certo, eu talvez aceite o cargo em pesquisas.

O Dr. Markowitz abriu a porta do gabinete.

— É uma pena que não haja mais recursos para ajuda financeira. Desejo-lhe toda sorte e avise-me logo que resolver voltar à escola.

Adam saiu, resolvido a procurar a Arolen naquela tarde. Deixaria as preocupações em relação à pressão da indústria farmacêutica sobre as pesquisas logo que tivesse recebido seu primeiro salário.

— Você está o quê?! — berrou Jason Conrad, o dono da Jason Conrad Dancers. Ergueu as mãos para o alto num gesto de exagerado desespero.

Nos quatro anos em que o conhecia, Jennifer sempre pensara que Jason tendia para o melodramático em tudo o que fazia, fosse pedindo o almoço num restaurante ou dirigindo dançarinos. Por isso mesmo, previra tal reação.

— Agora, deixe-me ver se entendo isto direito — gemeu ele. — Você está dizendo que vai ter um bebê. É isso mesmo? Não! Diga que eu estou errado. Diga que isso é apenas um pesadelo. Por favor!

Jason fitou-a com expressão suplicante. Era um homem alto — 1,87m — que parecia juvenil a despeito de seus 36 anos. Se era gay ou não, era assunto sobre o qual Jennifer não fazia idéia. Nem qualquer uma das outras dançarinas. A dança era a paixão da vida de Jason, e nisso ele era um gênio.

— Vou ter um filho — confirmou Jennifer.

— Oh, meu Deus! — exclamou Jason, deixando a cabeça cair entre as mãos.

Jennifer trocou um olhar com Candy, que ficara por perto a fim de lhe dar apoio moral.

— Isso não está acontecendo comigo — lamentou-se Jason.. No momento de nossa grande oportunidade, uma das principais bailarinas engravida. Oh, meu Deus! — Parou de andar de um lado para o outro. Erguendo o indicador, olhou para Jennifer. — O que você me diz de um aborto? Claro que não é uma criança que vocês planejaram ter.

— Sinto muito — respondeu Jennifer.

— Mas vocês poderão ter outro filho — protestou Jason.

 Jennifer simplesmente balançou a cabeça numa negativa.

— Não quer ouvir a voz da razão? — gemeu Jason. Pôs dramaticamente a mão sobre o peito e começou a respirar profundamente, como se estivesse sofrendo uma forte dor. — Você prefere me torturar desta maneira, espremendo-me o coração. Oh, Deus, que dor horrível!

Jennifer sentia-se culpada por ter engravidado justamente no momento em que a companhia conseguia sua grande oportunidade. Não podia faltar ninguém. A reação de Jason, porém, era egoísta, e não gostou da chantagem dele para tentar induzi-la a fazer algo tão sério como um aborto.

Candy segurou o braço de Jason.

— Tomara que você esteja brincando sobre essa dor no peito. -- Jason abriu um olho.

— Eu, brincando? Nunca brinco a respeito de uma coisa como esta. Essa mulher está-me levando a uma morte prematura e você me pergunta se estou brincando?

— Provavelmente ainda posso dançar por um mês ou dois ofereceu-se Jennifer.

— Oh, não, não, não! — respondeu Jason, esquecendo no mesmo instante a dor no peito. Começou a andar de um lado para o outro em frente ao velho quiosque da bilheteria. — Se você, Jennifer, é suficientemente insensível para nos abandonar nesta conjuntura, temos que fazer um ajuste imediatamente. — Parou e apontou para Candy. E você? Você poderia dançar a parte de Jennifer?

Pegada desprevenida, Candy gaguejou:

— Eu... eu não sei.

Jason observava Jennifer pelo canto do olho. Sabia que ela e Candi eram amigas. Achou que o ciúme poderia, quem sabe, conseguir o que pela razão fracassara.

Precisava de Jennifer até, pelo menos, o fim das gravações para o espetáculo na TV.             Jennifer, porém, não reagiu. Continuou calada, enquanto Candy finalmente respondia...

-- Acho que estou em boa forma. Claro que vou tentar e farei o possível.

— Hurra! — berrou Jason. — É bom saber que alguém por aqui está disposto a fazer sacrifícios. — Virando-se para Jennifer, disse: —

— Talvez você deva ir até o escritório dizer a Cheryl para tirá-la da folha de pagamento. Não somos obra de caridade.

Candy levantou a voz:

— Ela deve receber seu salário-base por mais duas semanas. Isso é o justo.

Jason fez um movimento ondulante com a mão, como se não se importasse. Fez menção de voltar para o ginásio.

— Além do mais — gritou Candy às costas dele —, acho que seria mais fácil para nossa contabilidade se lhe déssemos licença de maternidade.

— O que você achar melhor — retrucou Jason, pouco interessado. Abriu a porta que dava para o ginásio. Dali ouviram as outras dançarinas fazendo exercícios. — Vamos trabalhar, Candy — gritou por cima do ombro, desaparecendo pela porta.

As duas mulheres se entreolharam. Ambas um pouco constrangidas. Candy encolheu os ombros.

— Nunca pensei que ele me ofereceria uma oportunidade como dançarina.

— Estou contente por sua causa — disse Jennifer. — De verdade.

Juntas, as -duas voltaram para o ginásio.

A voz aguda de Jason reverberava pelo grande salão:

— Muito bem, vamos dançar a variação número dois, desde o começo. Posições! — Bateu palmas e o eco pareceu um tiro de pistola. — Vamos, Candy — berrou ele.

Durante alguns minutos, Jennifer ficou observando o ensaio. Em seguida, fazendo um esforço para afastar a sensação de tristeza, desceu o corredor em direção ao escritório de Cheryl.

Encontrou-a reclinada para trás, lendo um romance em brochura.

— Você tem que me colocar em licença de maternidade — disse, resignada.

— Que pena — falou Cheryl com simpatia. — Jason teve um ataque?

Pôs de lado o livro. Jennifer leu o título: As chamas da paixão.

— Um dos melhores — confirmou Jennifer. — Mas acho que isso é compreensível. Esta é uma péssima ocasião para eu entrar de licença. — Arriou-se na cadeira em frente à escrivaninha. — Jason concordou em me pagar o salário-base por mais duas semanas. Claro, ainda conservo minhas percentagens por apresentações anteriores.

— O que você vai fazer? — perguntou Cheryl.

— Não sei — confessou Jennifer. — Talvez eu consiga arranjar um emprego temporário. Tem alguma idéia? Como foi que você arranjou este emprego?

— Procurei uma agência — explicou Cheryl. — Mas se está procurando trabalho em meio expediente, experimente um desses serviços avulsos de secretária. Eles sempre precisam de gente.

— Eu não conseguiria datilografar nem para salvar a vida.

— Então, tente uma das grandes lojas de departamentos. Muitas amigas minhas fizeram isso.

Jennifer sorriu. A sugestão parecia promissora.

— Você ainda vai comigo amanhã? — perguntou Cheryl.

— Com toda certeza — confirmou Jennifer. — Eu nem pensei em deixar você ir sozinha. Foi sozinha quando fez a punção de placenta?

— Fui — respondeu orgulhosa Cheryl. — Uma bobagem. Quase não dói.

— Parece que você tem mais coragem do que eu.

Pensou no irmão mongolóide e perguntou-se se também não devia fazer um teste.

Cheryl inclinou-se para a frente, baixando a voz:

— Como Candy disse, eu usava um bocado de drogas. Maconha, ácido lisérgico, a lista toda. O Dr. Foley disse que eu devia realizar o teste a fim de fazer uma verificação de cromossomos. Mas ele tornou a coisa fácil. Se tiver de fazer um teste, não se preocupe. Fiquei muito nervosa, mas faria novamente, sem pensar duas vezes• Recostou-se, satisfeita consigo mesma.

Jennifer olhou para Cheryl, lembrando-se do Dr. Vandermer em sua atitude chauvinista.

— E esse Dr. Foley? Você gosta dele?

Cheryl inclinou a cabeça.

— O Dr. Foley é o médico mais bonzinho que já conheci. Se não fosse por ele, eu não teria feito coisa alguma. E as enfermeiras dele são bacanas, também. Para dizer a verdade, toda a Clínica Julian é o maior barato. Tenho certeza de que Candy telefonaria e marcaria uma consulta, se você quisesse.

— Jennifer sorriu. — Obrigada, mas meu marido recomendou outra pessoa do centro médico. Agora, voltando ao que interessa, o que tenho de fazer para entrar em licença de maternidade?

Cheryl franziu o nariz.

— Para dizer a verdade, não sei. Vou ter de perguntar a Candy.

Depois de combinar com Cheryl de encontrá-la na manhã seguinte, Jennifer pegou casaco e bolsa e saiu. Dirigindo-se para o metrô, lutou contra uma depressão quase esmagadora. Sempre pensara que gravidez seria uma experiência maravilhosa, mas, naquele momento, em vez de sentir-se feliz, o que havia era confusão e raiva. E pior que tudo, sabia que não ia poder compartilhar desses sentimentos com pessoa alguma porque tinha certeza de que ninguém compreenderia. Mordendo o lábio inferior, resolveu tentar primeiro a Macy's.

Eram quase seis horas quando Jennifer subiu cansadamente as escadas do apartamento. Ao abrir a porta, surpreendeu-se em ver Adam deitado no sofá. Em geral, ele não chegava tão cedo assim. Mas achou que ele devia ter tirado o resto do dia de folga, depois de ter ido visitar o pai.

— Como é que foi o encontro? — perguntou, fazendo um esforço para ser agradável. — Seu pai foi prestativo?

— Foi maravilhoso — respondeu secamente Adam. — Fez-me um valioso sermão sobre responsabilidade e coerência.

Jennifer pendurou o casaco e sentou-se ao lado de Adam. Os olhos dele estavam vermelhos, com olheiras em volta.

— A coisa foi tão ruim assim?

— Pior — corrigiu-a Adam. — Agora ele acha que sou o responsável pela depressão de minha mãe.

— Mas a depressão dela começou com a morte de seu irmão.

— Aparentemente ele esqueceu isso.

— O que ele disse quando você comunicou que vamos ter um filho?

— Eu não disse — retrucou Adam. — Não tive a menor oportunidade. Antes de eu sequer poder abordar o assunto, ele deixou muito claro que eu tinha de viver às minhas próprias custas.

— Que pena.

Examinou o rosto do marido. Ele parecia distante e frio. Teve vontade de pedir-lhe informações sobre o Dr. Lawrence Foley mas resolveu adiar a pergunta.

— Acho que vou tomar um banho — disse ela com um suspiro. Levantou-se e dirigiu-se para o quarto.

No começo, Adam ficou simplesmente sentado ali, macambúzeo. Aos poucos, compreendeu que estava se comportando como um adolescente. Levantando-se, foi para o quarto e despiu-se. Em seguida, abriu a porta que dava para o banheiro.

— Deixe a torneira aberta — gritou por cima do som do chuveiro.

Enquanto Adam escovava os dentes, Jennifer saiu do chuveiro sem olhar para ele, pegou a toalha e dirigiu-se para o quarto. Embora houvesse deixado a torneira aberta, como ele pedira, era evidente que ela estava zangada.

Adam sempre achara difícil pedir desculpas. Talvez eles devessem fazer alguma coisa maluca, tal como sair para jantar fora. Entrando no chuveiro, resolveu levar Jennifer a um restaurante chamado O by Land, Two by Sea. Ficava perto e eles poderiam ir a pé. Nunca haviam estado lá, mas um dos seus colegas de turma dissera que fora com os pais e que o lugar era fantástico e caro. Que diabo, pensou. Ele arranjaria logo um bom emprego e precisavam comemorar.

— Tive uma grande idéia — falou, ao entrar no quarto. — que tal a gente ir jantar fora hoje?

Jennifer desviou o olhar da tevê e sacudiu sombriamente a cabeça.

— O que você quer dizer? Não quer ir? — perguntou Adam. Ora, vamos. Nós precisamos sair um pouco. Será uma verdadeira farra.

— Nós não temos dinheiro para isso — respondeu Jennifer e voltou à tevê, como se o assunto estivesse encerrado.

Adam secou os cabelos, enquanto pensava nessa inesperada reação negativa. De modo geral, Jennifer estava sempre disposta a experimentar tudo. Sentou-se junto dela e desviou-lhe o rosto da tela

— Alô. Estou tentando conversar com você.

Jennifer ergueu o rosto e ele notou que ela parecia tão exausta quanto ele.

— Ouvi o que você disse — respondeu ela. — Fiz compras. Assim que o noticiário acabar, vou preparar o jantar.

— Hoje à noite eu quero algo diferente de hambúrguer — decidiu Adam.

— Não comprei hambúrgueres — respondeu Jennifer, irritada.

— Disse isso como figura de retórica — explicou Adam. — Vamos. Vamos jantar fora. Acho que precisamos relaxar um pouco. Fui procurar o diretor da faculdade esta tarde e descobri que não poderei pegar nem mais um tostão emprestado. De modo que informei a ele que vou trancar a matrícula.

— Você não tem de deixar a escola. Já arranjei outro emprego.

— Que tipo de emprego? — perguntou Adam.

— Na Macy's. Seção de sapatos. O único problema é que vou ter de trabalhar em fins de semana alternados mas, com sorte, poderemos coordenar isso com seus plantões. E, o que é surpreendente, vou ganhar a mesma coisa que dançando. De qualquer modo, você não tem que deixar a escola.

Adam levantou-se da cama.

— Você não vai trabalhar na Macy's, e isto é decisivo.

— Oh! — exclamou Jennifer, arregalando os olhos com fingida duresa. — O rei falou?

— Jennifer, esta não é exatamente a ocasião para sarcasmos.

— Não é? — retrucou ela. — Acho que você esteve sendo sarcástico há alguns momentos. Tudo bem quando é você, mas não quando sou eu?

— Não estou com vontade de discutir — respondeu Adam, dirigindo-se para a cômoda a fim de pegar uma cueca limpa. — Você não vai trabalhar na Macy's. Não quero você passando horas de pé, enquanto está grávida. O assunto está encerrado.

— Você está esquecendo que este é o meu corpo — lembrou Jennifer.

— Isso é verdade — concordou Adam. — Mas também é verdade de que se trata de nosso filho...

Jennifer sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.

— De qualquer modo, já me resolvi — continuou Adam. — Vou trancar a matrícula para poder trabalhar durante um ano ou dois. Seu trabalho será cuidar de si mesma e do bebê, e isso não significa ficar em pé o dia inteiro numa loja de departamentos.

Na esperança de terminar o diálogo, Adam passou para a sala de estar. Devido ao pequeno tamanho do guarda-roupa do quarto, suas roupas estavam no closet do corredor.

— Por que você não pode ficar aqui e discutir o assunto? — gritou Jennifer.

Adam voltou ao quarto.

— Não há nada mais a discutir.

— Oh, há — respondeu Jennifer, dando vazão à raiva. — Tenho tanto a dizer a este respeito quanto você. Ninguém concorda com você sobre essa idéia de deixar a escola de medicina e a razão é simples: você não deve fazer isso. Sou inteiramente capaz de trabalhar até o último

mês, mesmo até a última semana. Por que nós dois temos de interromper nossas carreiras? Uma vez que, obviamente, não posso continuar a dançar, é uma mera questão de sensatez que eu consiga um novo emprego. A longo prazo, você continuar na escola será melhor para nós dois. Além do mais, já tenho um emprego e você não tem a menor idéia do que pode fazer.

— Oh, sim, tenho — retrucou Adam furioso. — Vou trabalhar na Arolen Pharmaceuticals, em Nova Jersey. Telefonei esta tarde e o pessoal da empresa está ansioso para me conhecer. Tenho uma entrevista marcada para amanhã.

— Por que está sendo tão obstinado a esse respeito? Você não deve abandonar a escola. Eu posso trabalhar.

— Se você chama de obstinação meu desejo de mantê-la sadia e evitar que seus pais interfiram em nossa vida, então, sim, sou obstinado. Mas de qualquer maneira, o assunto está encerrado, a discussão acabou. Vou deixar a escola e você não vai trabalhar na Macy's. Mais alguma pergunta?

Adam sabia que estava provocando Jennifer, mas achou que merecia isso.

— Tenho perguntas de sobra — respondeu Jennifer. — Mas compreendo que é inútil fazê-las. Eu gostaria de saber se você compreende o quanto se parece com seu pai.

— Simplesmente cale a boca a respeito de meu pai — berrou Adam. — Se alguém por aqui vai criticá-lo serei eu. Além do mais, não me pareço com ele em coisa alguma.

Fechou a porta do quarto estrondosamente, com um pontapé. Durante um momento, no centro da sala, procurou uma coisa para quebrar. Depois, em vez de fazer uma coisa estúpida como esta, acabou de vestir-se e secar o cabelo. Mais calmo, resolveu tentar fazer as pazes com Jennifer. Tentou abrir a porta do quarto mas, chocado, descobriu que ela estava fechada a chave.

— Jennifer — gritou, abafando o som da tevê. — Vou sair e comer alguma coisa. Gostaria que você fosse comigo.

— Vá sozinho — gritou Jennifer do outro lado da porta. — Quero ficar sozinha por algum tempo.

Adam achou que ela estivera chorando e sentiu-se culpado.

— Jennifer, abra a porta — implorou. A tevê continuou ligada. — Jennifer, abra a porta.

Ainda nenhuma resposta. Adam sentiu a raiva voltar em torrente. Recuando, olhou para a porta. Durante um segundo, ela se transformara no símbolo de todos os seus problemas. Sem pensar, ergueu o pé direito e chutou-a com toda força. A madeira em volta da fechadura cedeu. A porta abriu-se com violência, chocando-se contra a parede do quarto.

Jenifer encolheu-se numa bola apertada contra a cabeceira da cama. Vendo que ela estava apavorada, Adam sentiu-se imediatamente um estúpido.

— Não se fazem mais portas como antigamente — disse desajeitado, tentando rir.

Jennifer permaneceu calada. Adam afastou a porta da parede. No • onde a maçaneta batera havia um buraco no reboco.

— Bem, foi estúpido o que fiz — falou, tentando parecer alegre. - De qualquer maneira, como eu estava dizendo, vamos sair e comer alguma coisa.

Jennifer sacudiu a cabeça, em negativa.

Adam olhou em volta constrangido, embaraçado com sua crise de mau humor. Talvez ela o perdoasse depois.

— Tudo bem. Volto mais tarde.

Jennifer inclinou a cabeça mas não respondeu. Seguiu Adam com os olhos e ouviu a porta do corredor ser fechada e trancada. O que i acontecendo com ele?, perguntou-se. Adam parecia uma pessoa diferente. Nunca fora violento e a violência a apavorava. Iria essa gravidez mudar tudo?

 

Subindo o terceiro e último lance de escada do prédio de apartamento de Cheryl Tedesco, Jennifer sentia-se atônita. Pensara que seu próprio prédio era ruim, mas o de Cheryl transformava-o, em comparação Helmsley Palace. Uma dupla de alcoólatras — tinha esperança de que não fossem moradores — havia acampado no saguão.

Conferindo o número do apartamento, hesitou antes de bater, depois, teve de esperar, enquanto ouvia uma série de estalidos e por fim o som de retirada da corrente, antes de a porta ser finalmente aberta.

— Oi! Entre — disse Cheryl. — Desculpe ter demorado tanto. Meu pai insiste em colocar toda sorte de cadeados por aqui.

— Acho que é uma boa idéia — comentou Jennifer, entrando rapidamente.

Cheryl dirigiu-se ao banheiro para terminar de se vestir, enquanto Jennifer examinava o bagunçado apartamento.

— Espero que tenha seguido as ordens do médico — gritou sabendo que Cheryl fora aconselhada a ficar em jejum, só poderia beber um pouco de água logo que acordasse.

— Não comi nada — berrou Cheryl em resposta. Jennifer mudou o peso de um pé para o outro. Achando aquele prédio imundo, não queria sentar-se. Toda aquela idéia de acompanhar Cheryl começava a deixá-la nervosa, mas não podia permitir que a amiga fosse sozinha. Pelo menos, ela conheceria o fabuloso Foley, embora ainda não estivesse em condições de desafiar Adan no que dizia respeito a obstetras. Haviam feito uma meia paz na noite anterior; ela, porém, continuava abatida com o pensamento de Adam deixar a faculdade de medicina. Cruzava os dedos na esperança de que a entrevista dele na Arolen fracassasse.

- Pronta! — exclamou Cheryl, saindo do banheiro. Trazia a tiracolo uma pequena bolsa de roupas. — Vamos botar o espetáculo na estrada.

A parte mais difícil da viagem até a Clínica Julian era descer sem cair os degraus do prédio e passar pelos bêbados. Cheryl não deu importância aos vagabundos, dizendo que quando o porteiro acordasse, poria os dois para fora.

Foram a pé até a estação do metrô na Lexington Avenue, onde pegariam o trem número 6 para a Rua 110. Não era um lugar muito bonito, o que melhorou quando chegaram à clínica. Na verdade, um quarteirão fora demolido para dar lugar ao novo centro de saúde. O prédio era uma estrutura moderna, de quinze andares de vidro espelhado, tendo a imagem das casas de cômodos circunvizinhas, do princípio do século XIX. Na distância de um bloco em todas as direções, todos os prédios haviam sido reformados, lixados e pintados e nesse aspecto refulgiam com elegante esplendor. Num outro quarteirãopróximo, muitos dos prédios tinham andaimes na frente, indicando que estavam sendo também reformados. A impressão era de que a clínica estava tomando um bairro inteiro da cidade.

Jennifer cruzou a entrada principal, esperando o mobiliário habitual de hospitais, e ficou agradavelmente surpreendida ao penetrar num saguão que lhe lembrou mais um hotel de luxo. Tudo ali era novo e imaculadamente limpo. A grande área de recepção era tão bem atendida de pessoal que Jennifer e Cheryl não tiveram de esperar muito, antes que uma bonita secretária negra dissesse:

— Posso ser útil em alguma coisa?

Ela usava jaleco branco sobre um blusão azul e um crachá que dizia: "Oi! Eu sou Louise".

Cheryl respondeu em voz quase inaudível:

— Estou aqui para falar com o doutor Foley. Vou fazer um aborto.

O rosto de Louise anuviou-se de preocupação.

— A senhora está bem, senhora...

— Tedesco — respondeu Jennifer. — Cheryl Tedesco.

— Eu estou bem — disse Cheryl. — Realmente, muito bem.

— Temos psicólogos de serviço para fazer a admissão de pacientes, caso queira conversar com um deles agora. Gostaríamos de fazê-la sentir-se tão confortável quanto possível.

— Obrigada — respondeu Cheryl —, mas eu tenho minha amiga

aqui. — Indicou Jennifer. — Eu gostaria de saber se ela poderia subir comigo.

— Mas claro. Somos favoráveis a que os pacientes tenham companhia. Mas, em primeiro lugar, vou procurar sua ficha em meu computador e, em seguida, avisar o pessoal de internação. Por que vocês duas não vão para a sala de espera e relaxam um pouco? Pedirei para entrarem em contato com vocês dentro de alguns minutos.

Dirigindo-se as duas para a confortável sala de espera, Jennifer observou:

— Estou começando a compreender por que você e Candy elogiam tanto este lugar. Se Louise é um exemplo de como tratam as pessoas aqui, estou realmente impressionada.

Mal haviam tirado os casacos quando um cavalheiro idoso aproximou-se delas, empurrando um carrinho com café e um bule de chá. Usava um paletó cor-de-rosa que, orgulhosamente, disse ser saudo ali por voluntários.

— As enfermeiras também são tão gentis assim? — perguntou Jenifer.

— Todos são gentis aqui — retrucou Cheryl, mas, a despeito do sorriso, Jennifer achou que ela estava nervosa.

— Como você está-se sentindo? — perguntou, segurando a mão de Cheryl e apertando-a.

— Muito bem — respondeu Cheryl, inclinando repetidamente a cabeça, como se estivesse tentando convencer-se.

— Desculpem-me, qual de vocês é Cheryl Tedesco? — perguntou outra jovem de aparência agradável, que usava saia branca e jaleco azul. O crachá dela dizia: "Oi! Eu sou Karen". — Sou Karen Krin — disse ela, estendendo a mão, que Cheryl apertou hesitante. —! Fui designada para coordenar seu caso e providenciar para que tudo corra bem. Se tiver algum problema, simplesmente me chame por este aparelho. — Deu uma palmadinha num pequeno dispositivo plástico preso a um cinto azul que combinava com o casaco. — Queremos que sua estada aqui seja a mais agradável possível.

— Cada paciente tem uma coordenadora? — perguntou Jennifer.

— Claro que sim — retrucou Karen, orgulhosa. — A idéia aqui é que o paciente vem em primeiro lugar. Não queremos deixar coisa alguma ao acaso. Há oportunidades demais de mal-entendidos, especialmente agora, que a medicina se tornou tão técnica. Às vezes, médicos podem se deixar absorver tanto pelo tratamento que a paciente é momentaneamente esquecida. Nosso trabalho é evitar que isso aconteça.

Jennifer observou a cena, enquanto a mulher se despedia e desaparecia por trás de um vaso de plantas. Havia nela alguma coisa que lhe pareceu estranha, embora não conseguisse identificar o quê.

— A fala dela não lhe pareceu estranha? — perguntou a Cheryl.

— Não entendi o que ela disse. É a isso que você está-se referindo?

— Não — retrucou Jennifer, virando-se para ver se podia ver novamente a mulher. — Achei simplesmente que havia alguma coisa esquisita na maneira como ela falava. Mas deve ser coisa minha. Acho que este enjôo de gravidez está afetando minha cabeça.

— Pelo menos, ela foi gentil. Espere até conhecer o doutor Foley. Minutos depois, apareceu um homem que se apresentou como Rodney Murray. Usava uma jaqueta azul feita do mesmo tecido de algodão encorpado do blusão de Karen, com um crachá idêntico apresentando seu nome. Sua voz apresentava também uma estranha inexpressividade e, observando-o, Jennifer notou que ele não parecia pestanejar.

— Está tudo pronto, senhora Tedesco — comunicou ele, prendendo um bracelete de identidade em torno do pulso de Cheryl. — Vou acompanhá-la até lá em cima mas, em primeiro lugar, temos de passar pelo laboratório para exame de sangue e alguns outros testes.

— Jennifer pode ir conosco? — perguntou Cheryl.

— Sem dúvida — respondeu Rodney.

O homem mostrava-se extraordinariamente atencioso para com Cheryl e, após alguns minutos, Jennifer disse a si mesma que a impressão inicial era obra de sua imaginação cansada.

O laboratório já estava à espera de Cheryl e não tiveram de esperar. Mais uma vez, Jennifer ficou impressionada. Nunca estivera em hospital ou consultório médico em que não tivesse de esperar por tudo. Cheryl foi despachada em minutos.

Enquanto subiam no elevador, Rodney explicou que Cheryl ia para uma área especial do hospital destinada a "interrupção de gravidez". Jennifer notou que todo mundo na Clínica Julian evitava conscienciosamente a palavra "aborto". Achou que era uma boa idéia. Aborto era uma palavra feia.

Saltaram no sexto andar. Mais uma vez, nada ali lembrava o hospital típico. Em vez de vinil lustroso, o chão era todo acarpetado. Das paredes pintadas de azul-claro pendiam quadros em belas molduras.

Rodney levou-as à área central, cuidadosamente decorada para não se parecer com um posto de enfermeiras. Na frente do posto central havia uma sala de estar mobiliada com bom gosto, onde estavam à espera cinco pessoas vestidas com o que Jennifer supôs ser o uniforme da Julian. Três das mulheres traziam crachás identificando-as como

enfermeiras diplomadas. Jennifer gostou do fato de elas não usarem o tradicional branco engomado. Teve a impressão de que Karen falara a verdade: a Clínica Julian pensava em tudo. Começou a se perguntar se o Dr. Vandermer tinha acesso àquelas instalações, porquanto tinha certeza de que a ala da maternidade refletiria o mesmo conforto.

— Senhora Tedesco, seu quarto fica bem à direita — disse uma das enfermeiras, que se apresentou como Marlene Polaski.

Era uma mulher larga, de ossos grandes e cabelos louros curtos que examinou o quarto de Cheryl como para certificar-se de todos os detalhes. Satisfeita, deu uma palmadinha na cama e disse a Cheryl que se despisse e ficasse à vontade.

O quarto, como o corredor, era agradavelmente mobiliado, como num bom hotel, exceto pela cama hospitalar padrão. Uma televisão instalada no teto permitia que a imagem fosse vista confortavelmente da cama ou da cadeira espreguiçadeira. As paredes eram verde-claro com abundância de armários embutidos. Um carpete verde cobria o chão.

Depois de vestir um de seus próprios pijamas, Cheryl subiu para a cama.

Marlene voltou ao quarto empurrando um carrinho com bandejas de soluções intravenosas para aplicação. Explicou a Cheryl que usavam aquilo apenas por questão de segurança. Introduziu habilmente a agulha no braço esquerdo de Cheryl, prendendo-o com cuidado num pequeno descanso ao lado. Jennifer e Cheryl ficaram olhando as gotas caírem na câmara de distribuição. De repente, aquilo tudo não pareceu tanto com um quarto de hotel.

— Muito bem — disse Marlene, pregando a última fita de esparadrapo. — Vamos levá-la para a sala de tratamento dentro de alguns momentos. — Virando-se para Jennifer, falou: — Poderá nos aco panhar, se quiser. Isto é, claro, se Cheryl concordar. Ela é quem manda da aqui.

— Oh, sim! — exclamou Cheryl, o rosto se animando. — Jenifer, você vai comigo, não vai?

O quarto pareceu girar por um momento. Jennifer sentiu-se como se, esperando andar com água pelos tornozelos, estivesse sendo puxada para a extremidade profunda de uma piscina. Marlene e Cheryl, porém, olhavam-na expectantes.

— Tudo bem, vou — concordou finalmente.

Outra enfermeira entrou nesse momento, trazendo uma seringa.

— Agora, vamos tomar um pouco de tranqüilizante — comunicou alegre, baixando o lençol que cobria Cheryl.

Jennifer virou-se para a janela, observando vagamente a paisagem de telhados que podia ser vista através das paletas da veneziana. Quando se virou, a enfermeira com a seringa havia desaparecido.

— Escada de embarque — disse outra voz, e uma enfermeira usando bata e touca entrou empurrando uma maca de rodas, que colocou ao làdo da cama de Cheryl.

— Meu nome é Gale Schelin. Sei que você não precisa realmente desta maca e que poderia ir andando até a sala de tratamento, mas o procedimento padrão aqui é que as pacientes sigam numa maca.

. Antes que Jennifer tivesse tempo de pensar, já estava ajudando aacomodar Cheryl na maca, e a levá-la às pressas para fora do quarto.

— Vamos até o final do corredor — instruiu Gale.

Do lado de fora da sala de tratamento, várias atendentes se encarregaram da maca. Logo que as portas se fecharam às costas de Cheryl, Jennifer sentiu-se aliviada. Nesse momento, Gale tomou-lhe o braço, ia foi dizendo:

— Você terá de entrar por este caminho.

— Não acho que seja uma boa idéia... — começou Jennifer.

— Tolice — interrompeu-a Gale. — Sei o que você vai dizer. Mas esta parte do procedimento nada significa. O mais importante é o ponto de vista de Cheryl. É importante que ela tenha o tipo de apoio que uma família possa proporcionar.

— Mas eu não sou da família — protestou Jennifer, perguntando-se se devia acrescentar "e eu mesma estou grávida".

— Família ou amiga — continuou Gale —, sua presença é fundamental. Vista isto por cima de suas roupas e cubra o cabelo com isto. Procure cobrir todo o cabelo. — Entregou a Jennifer uma bata esterilizada e um gorro. — Depois entre.

Gale desapareceu em seguida por uma porta de ligação.

Droga, pensou Jennifer. Estava num depósito cheio de roupa de cama e com uma grande máquina de aço inoxidável que parecia uma caldeira. Achou que aquilo devia ser um esterilizador. Relutantemente, enfiou a cabeça na touca, prendendo todo o cabelo, conforme a instrução. Em seguida, vestiu a bata, amarrando-a sobre o abdômen.

A porta de comunicação foi aberta nesse momento e Gale voltou, Observando Jennifer enquanto abria a tranca do esterilizador.

— Você está ótima. Entre e fique à esquerda. Se sentir que vai desmaiar ou qualquer outra coisa, simplesmente volte para cá.

Ouviu-se um silvo, enquanto escapava vapor da máquina. Respirando fundo, Jennifer entrou na sala de tratamento. O local era exatamente o que imaginara: paredes de azulejos brancos e, no chão, uma espécie de vinil, também branco. Viu uma pia de -porcelana branca projetando-se de uma parede e armários de portas de vidro cheios de parafernália médica, ao longo de um dos lados da sala.

Cheryl fora transferida para uma mesa de exames, localizada no centro da sala. Ao lado, uma armação com uma bandeja cheia de cubas de aço inoxidável e tubos plásticos. Junto à parede mais distamte, à beira da mesa de exames, estava o carrinho de anestesia, com os habituais cilindros de gás.

Duas enfermeiras trabalhavam na sala, uma delas lavando o abdômen de Cheryl, enquanto a outra se ocupava em abrir vários pacotes, esvaziando-lhes os conteúdos numa bandeja de instrumentos.

Aberta a porta de acesso à sala, entrou um médico vestido de bata cirúrgica e luvas. Imediatamente dirigiu-se à bandeja de instrumentos e e arrumou-os a seu gosto. Cheryl, que estivera descansando tranqüilamente, ergueu-se apoiada num cotovelo.

— Sra.Tedesco — falou uma das enfermeiras —, a senhora Hterá de se deitar para ser examinada pelo médico.

— Este não é o Dr. Foley — disse Cheryl. — Onde está o DR. Foley?

Durante um momento, ninguém se mexeu na sala. O médico e as enfermeiras trocaram olhares.

— Não vou me deixar operar, a menos que seja com o Dr. Foley — falou Cheryl, a voz alquebrada.

— Sou o Dr. Stephenson — explicou o homem. — O Dr. Foley não pôde vir e a Clínica Julian autorizou-me a substituí-lo. O procedimento cirúrgico é muito simples.

— Não interessa — disse Cheryl, fazendo beicinho. — Não faço aborto, a menos que seja com ele.

— O Dr. Stephenson é um de nossos melhores cirurgiões — falou uma das enfermeiras. — Por favor, deite-se e vamos continuar com isto. — Pôs a mão sobre o ombro de Cheryl e começou a empurrá-lo para baixo.

— Espere um minuto — disse Jennifer, surpresa com sua pronta assertividade. — É evidente que Cheryl quer o Dr. Foley. Não acho que se deva tentar obrigá-la a aceitar outra pessoa.

Todos os que se encontravam na sala voltaram-se para Jennifer como se só naquele momento se apercebessem de que ela estava ali. O Dr. Stephenson aproximou-se e começou a levá-la para fora da sala.

— Espere um minuto — protestou Jennifer. — Não vou embora daqui. Cheryl disse que não quer a operação, a menos que seja feita pelo Dr. Foley.

— Nós entendemos — respondeu o Dr. Stephenson. — Se é assim que a Sra. Tedesco pensa, então, claro, respeitaremos os desejos dela. Na Clínica Julian, a paciente sempre vem em primeiro lugar. Se agora puder simplesmente voltar ao quarto da Sra. Tedesco, ela logo irá lhe fazer companhia.

Jennifer lançou um olhar a Cheryl, que nesse momento estava sentada à beira da mesa de exame.

— Não se preocupe — disse ela a Jennifer. — Não vou deixar que façam coisa alguma comigo, a menos que o Dr. Foley venha.

Confusa, Jennifer deixou-se ser levada para fora da sala. A maca de rodas que trouxera Cheryl estava sendo levada para a sala, o que fez sentir-se mais confiante. Tirando a touca e a bata, jogou-as numa cesta no corredor.

Quase no mesmo instante, reapareceu Marlene Polaski.

— Acabei de ouvir o que aconteceu. Sinto imensamente. Por mais que a gente tente, numa grande instituição as coisas às vezes saem errado. Isto aqui tem sido um verdadeiro caos há 24 horas. Pensáva-que vocês sabiam a respeito do pobre Dr. Foley.

— Do que a senhora está falando? — perguntou Jennifer.

— O Dr. Foley cometeu suicídio anteontem — continuou Marle-ie. — Matou a esposa a tiros e depois suicidou-se. A notícia saiu em todos os jornais. Pensávamos que vocês sabiam.

Jennifer entrou no corredor. Cheryl passou por ela deitada na maca. Suspirou, satisfeita por estar sendo, afinal de contas, atendida pelo Dr. Vandermer.

Saltando do ônibus em Montclair, Nova Jersey, Adam agradeceu ao motorista, que o olhou como se ele fosse louco. Adam estava, de fato, num estado de espírito estranhamente confuso, um misto de preocupação com a entrevista iminente para o emprego e culpa pelo seu comportamento na noite anterior. Tentara pedir desculpas a Jennifer, mas o melhor que conseguira fora dizer que sentia muito ter quebrado a porta. Não mudara de idéia a respeito de ela ficar o dia inteiro de pé durante a gravidez, vendendo sapatos.

Viu o carro da Arolen exatamente no lugar onde a secretária dissera que estaria: em frente ao Montclair National Bank. Cruzou a movimentada rua comercial e bateu na janela do motorista, que lia nesse momento o Daily News de Nova York. O homem passou a mão por cima do ombro e abriu a porta traseira.

Foi curta a corrida do centro da cidade até a nova sede da Arolen. Com as mãos entre os joelhos, Adam absorvia todos os detalhes. Pararam num portão de segurança. Um guarda uniformizado, com 1 prancheta na mão, inclinou-se e examinou Adam pela janela.

— Schonberg — disse o motorista.

Aparentemente satisfeito, o guarda levantou a barreira listrada de preto e branco que barrava o portão.

Subindo a entrada de automóveis em aclive, Adam ficou espantado com o luxo do lugar. Viu uma piscina refletindo a luz do sol no centro de um bem-cuidado terreno cercado de árvores. O prédio principal era uma imensa estrutura cor de bronze, cuja superfície parecia um espelho. Os lados do edifício afilavam-se enquanto subiam pelos céus. De cada lado, dois prédios menores comunicavam-se com a estrutura principal através de pontes transparentes.

O motorista deu a volta pela piscina e parou exatamente em frente à entrada principal. Adam agradeceu ao homem e dirigiu-se a porta. Aproximando-se mais, verificou sua aparência na superfície espelhada. Estava usando sua melhor roupa, um blazer azul, camisa branca, gravata listrada e calças cinza. O único problema era a falta de dois botões na manga esquerda do paletó.

No lado de dentro, entregaram-lhe um crachá especial e recebeu instruções para subir até o 12º andar. Subindo em solitário esplendor, notou uma câmera de tevê que lentamente se movia de um lado para outro e perguntou-se se acaso estaria sendo observado. Ao se abrirem as portas, foi recebido por um homem mais ou menos de sua idade.

— Sr. McGuire? — perguntou Adam.

— Não, sou Tad, secretário do Sr. McGuire. Queira me acompanhar, por favor.

Levou Adam para uma ante-sala, disse-lhe que esperasse, e desapareceu por uma porta onde havia a inscrição: "Gerente Distrital de Vendas, Nordeste".

Olhou em volta. A mobília era em estilo Chippendale e um carpete num luxuoso tom bege corria de parede a parede. Não pôde deixar de comparar aquele ambiente com o decadente centro médico que recentemente abandonara, e lembrou-se do aviso do diretor. Mas não teve tempo de pensar mais no assunto porque Clarence McGuire naquele momento abriu a porta e mandou-o entrar com um gesto. Foi a um sofá, onde se sentou, enquanto McGuire dava a Tad algumas ordens finais, antes de dispensá-lo.

McGuire era um homem de aspecto jovem, corpulento, uns centínetros mais baixo do que Adam. Expressão satisfeita no rosto, seus olhos quase se fechavam quando ele sorria.

— Gostaria de beber alguma coisa? — perguntou. Adam sacudiu a cabeça.

— Neste caso, acho que podemos começar. O que o fez interessar-se pela Arolen?

Nervoso, Adam pigarreou:

— Resolvi deixar a faculdade de medicina e achei que na indústria farmacêutica poderia arranjar emprego para meu treinamento.

; Arolen forneceu a minha turma nossas maletas pretas de médico e o nome ficou gravado em minha mente.McGuire sorriu.

— Gosto de sua franqueza. Muito bem, diga-me por que está interessado em produtos farmacêuticos.

Adam mexeu-se um pouco. Relutou em dar as razões reais, humilhantes, de seu interesse: a gravidez de Jennifer e sua necessidade desesperada de dinheiro. Em vez disso, tentou a linha que havia ensaiado no ônibus:

— Em grande parte, fui influenciado pela minha decepção gradual com a prática da medicina. Acho que os médicos não consideram mais os pacientes como sua principal responsabilidade. Intelectual e financeiramente, a tecnologia e a pesquisa tornaram-se mais compensadoras e a medicina tornou-se mais um ofício do que uma profissão liberal. — Adam não tinha muita certeza do que significava essa última frase, mas ela soava bem e disse-a. Além do mais, McGuire pareceu aceitá-la bem. — Nos últimos dois anos e meio, passei a acreditar que as companhias de medicamentos têm mais a oferecer ao paciente do que o médico isolado. Acho que posso ser mais útil às pessoas se trabalhar para a Arolen do que se continuar na medicina.

Recostou-se no sofá. Achou que o que dissera parecia muito bom.

— Interessante — comentou McGuire. — Parece que você pensou bastante neste assunto. Contudo, tenho de lhe dizer que nosso método habitual de iniciar na firma pessoas como você é incluí-las em nossa equipe de vendas. O que os médicos gostam de chamar de "propagan-distas de laboratório". Mas não sei se isso lhe daria o senso de estar prestando o serviço que você procura.

Adam inclinou-se para a frente.

— Presumi que começaria em vendas e sei que se passarão alguns anos antes que eu possa dar realmente uma contribuição.

Observou McGuire à procura de sinais de ceticismo, mas ele continuava a sorrir.

— Um dos fatos que eu gostaria especialmente de discutir — disse McGuire — é que seu pai trabalha na Food and Drug Adminis tion.

Adam ergueu os olhos de chofre.

— Meu pai é David Schonberg, da FDA, mas isso nada tem a ver com meu interesse na Arolen. Para dizer a verdade, meu pai e eu não nos falamos, de modo que eu, de maneira alguma, poderia influenciar em uma decisão dele em qualquer sentido.

— Compreendo — assentiu McGuire —, mas posso lhe garantir que estamos interessados em você, e não em seu pai. Bem, agora gostaria de saber alguma coisa sobre seus antecedentes educacionais e experiência de trabalho.

Cruzando as pernas, Adam começou do princípio, da escola primária até a faculdade de medicina, e descreveu os empregos onde trabalhara nas férias de verão. O relato levou uns quinze minutos.

— Muito bom — assentiu McGuire quando ele terminou. Se quiser esperar lá fora por alguns minutos, logo o chamarei.

Assim que a porta foi fechada, McGuire pegou o telefone e ligou para seu chefe, William Shelly. No momento em que Joyce, a secretária, atendeu, McGuire disse-lhe que pusesse o figurão na linha.

— O que é? — perguntou Bill Shelly, a voz seca e autoritária.

— Acabei de entrevistar Adam Schonberg — explicou McGuire

— e você tem razão. Ele é filho de David Schonberg e também um dos melhores candidatos que conheci nos últimos cinco anos. É o executivo perfeito para a Arolen, descendo até sua filosofia sobre a atual prática médica.

— Parece bom — concordou Bill. — Se ele der certo, você receberá berá uma gratificação extra.

— Sinto, mas não posso assumir o crédito por tê-lo descobirto.

— confessou Clarence. — Foi o garoto que me telefonou.

— Você receberá de qualquer maneira a gratificação — resolveu Bill. — Convide-o para almoçar e depois traga-o ao meu gabinete, eu mesmo gostaria de conversar com ele.

Clarence desligou e voltou à sala de espera de seu gabinete.

— Acabei de falar com o vice-presidente do setor de marketing que por acaso é meu chefe, e ele gostaria de conversar com você depois do almoço. O que você acha?

— Sinto-me lisonjeado — respondeu Adam.

Jennifer desviou a vista da janela no quarto de Cheryl e olhou para a amiga. Ela parecia quase angelical, a pele branca e os cabelos louros recém-lavados. Obviamente, o tranqüilizante que lhe haviam aplicado produzira efeito. Cheryl dormia, a cabeça confortavelmente alta no travesseiro.

Não sabia o que fazer. Cheryl fora trazida de volta da sala de tratamento e informada da morte do Dr. Foley. Marlene Polaski tentara convencê-la de que o Dr. Stephenson era um médico tão bom quanto o Dr. Foley e que Cheryl devia levar adiante o procedimento cirúrgico. Lembrou-lhe de que, a cada dia que passava, o aborto tornava-se um risco maior.

No fim, ela concordara com Marlene e tentara convencer Cheryl. A amiga, porém, continuara a insistir em que ninguém ia tocar nela, exceto o Dr. Foley. Era como se recusasse a acreditar que ele cometera suicídio.

Olhando para a forma imóvel na cama, notou que as pálpebras da amiga estavam se abrindo lentamente.

— Como é que você está?

— Ótima — respondeu Cheryl sonolenta.

— Acho que devo ir agora — disse Jennifer. — Tenho de preparar o jantar antes que Adam volte para casa. Telefono mais tarde. E posso voltar amanhã, se você quiser. Tem certeza de que não quer que o Dr. Stephenson realize a intervenção?

A cabeça de Cheryl tombou mole para um lado. Quando falou, as palavras saíram engroladas:

— O que você disse? Não a ouvi bem.

— Eu disse que preciso ir, agora — repetiu Jennifer, sorrindo sem querer. — Deram champanha a você antes de a trazerem para aqui? Você parece bêbada.

— Nada de champanha — murmurou Cheryl, procurando tirar as cobertas. — Vou acompanhar você até o elevador.

Lançou para trás o cobertor, sacudindo distraidamente o tubo de soro fisiológico, ainda ligado ao seu braço esquerdo.

— Acho que é melhor ficar onde está — disse Jennifer.

Seu sorriso desapareceu e teve uma sensação inicial de medo. Estendeu a mão para deter Cheryl.

A amiga, porém, já passara as pernas por cima do lado da cama e estava levantando-se, trêmula. Nesse momento, Jennifer notou que se soltara o tubo de soro fisiológico e que Cheryl estava sangrando no ponto onde a agulha penetrara no braço.

— Olhe só o que eu fiz — disse Cheryl.

Apontou para a ampola de soro e, ao fazê-lo, perdeu o equilíbrio.

Jennifer tentou segurá-la pelos ombros, mas, num movimento mole, fluido, Cheryl escorregou da cama para o chão. Tudo que Jennifer conseguiu foi amortecer-lhe a queda. A amiga acabou dobrada em duas i

o rosto em cima dos joelhos.

Jennifer não sabia o que fazer: gritar por ajuda ou erguer Cheryl do chão. Uma vez que Cheryl encontrava-se numa posição tão antinatural, resolveu ajudá-la a voltar para a cama e chamar em seguida as enfermeiras. Ao erguer os braços de Cheryl, porém, tudo o que viu foi sangue.

— Oh, meu Deus! — exclamou.

O sangue jorrava abundante do nariz e da boca de Cheryl. Jenifer colocou-a de costas e notou que a pele em torno dos olhos da amiga estava preta e azulada, como se ela houvesse sido espancada. Havia mais sangue nas pernas, saindo de algum lugar por baixo da bata hospitalar.

Durante alguns segundos, ficou paralisada. Em seguida, mergulhou para o botão que chamava a enfermeira e apertou-o freneticamente. Cheryl continuava imóvel. Soltando o botão, Jennifer correu para a porta e gritou histericamente, pedindo ajuda. Marlene apareceu quase no mesmo instante e passou afoitamente por ela, imprensando-a contra a parede do corredor, onde ela ficou com as mãos tapando a boca. Várias outras enfermeiras correram para o quarto. Depois, alguém saiu correndo e emitiu um chamado de emergência pelo sistema de alto-falantes anteriormente silencioso.

Jennifer sentiu alguém segurar-lhe o braço.

— Sra. Schonberg, pode nos contar o que aconteceu? Jennifer virou-se e reconheceu Marlene. Viu sangue num lado do rosto da enfermeira. Olhou para o quarto. Estavam aplicando respiração boca a boca em Cheryl

.— Estávamos conversando — respondeu Jennifer. — Ela não se queixou de coisa alguma. Parecia simplesmente bêbada. Quando tentou sair da cama, caiu e houve depois aquela sangüeira toda.

Vários médicos, incluindo o Dr. Stephenson, chegaram correndo e entraram no quarto de Cheryl. Pouco depois, chegava outro médico com o que parecia ser uma máquina de anestesia. Marlene ajudou-o a levar a máquina para o quarto, deixando Jennifer sozinha. Ela encostou-se na parede, sentindo-se tonta. Vagamente, notou outras pacientes às portas de seus quartos.

Dois atendentes apareceram nesse momento com uma maca de rodas. Um momento depois, viu Cheryl pela última vez, quando ela era

levada de volta para a sala de tratamento. Notou que uma máscara de anestesia escondia-lhe o rosto chocantemente pálido. Pelo menos uma dúzia de pessoas encontravam-se reunidas em volta dela, berrando ordens.

— Você está bem? — perguntou Marlene, aparecendo de repente a sua frente.

— Acho que estou — respondeu Jennifer. A voz da enfermeira era inexpressiva, como a do Dr. Stephenson. — O que aconteceu com Cheryl?

— Acho que ninguém sabe ainda — retrucou Marlene.

— Ela vai ficar boa — disse Jennifer, mais como uma afirmação do que como uma pergunta.

— O Dr. Stephenson é um dos nossos melhores médicos — explicou Marlene. — Por que não vai para a sala de espera que fica em frente ao posto das enfermeiras? Não quero que você fique sozinha.

— Minha bolsa está no quarto de Cheryl — explicou Jennifer.

— Espere aqui; vou buscá-la — ofereceu-se Marlene. Trazendo a bolsa, Marlene levou Jennifer até a sala de espera e lhe ofereceu alguma coisa para beber. Jennifer, porém, disse que estava bem.

— Sabe o que eles vão fazer? — perguntou, sem ter muita certeza de que queria ouvir a resposta.

— Isso cabe aos médicos — lembrou Marlene. — Certamente, vão extrair o feto. À parte isso, não sei.

— É o feto que está causando aquela hemorragia?

— Com toda probabilidade. A hemorragia e o choque. Este é o motivo pelo qual têm de extraí-lo.

Fazendo-a prometer que a chamaria se precisasse de alguma coisa, Marlene voltou ao trabalho. A cada poucos minutos, porém, ela acenava para Jennifer, que retribuía com o mesmo gesto.

Jennifer jamais gostara de hospitais e aquela experiência reforça-a sua antiga aversão. Consultou o relógio. Eram 3h20m.

Transcorreu quase uma hora até que o Dr. Stephenson reaparecesse. Tinha o cabelo emaranhado na testa e o rosto contraído. O coração de Jennifer perdeu uma batida.

— Fizemos o melhor que pudemos — disse ele, sentando-se em frente a Jennifer.

— Ela... — começou Jennifer, sentindo-se como se estivesse assistindo a uma novela de televisão.

O Dr. Stephenson inclinou a cabeça.

— Morreu. Não pudemos salvá-la. Ela teve uma CID ou coagulação

intravascular disseminada. Trata-se de um estado que nós, na realidade, não compreendemos muito bem, mas que às vezes se associa a abortos. Só tivemos um caso destes aqui na Julian e, felizmente a paciente se recuperou. No caso de Cheryl, porém, a situação complicou-se com uma hemorragia incontrolável. Mesmo que tivéssemos podido ressuscitá-la, lamento dizer que ela perderia a função renal. Jennifer inclinou a cabeça mas não entendeu coisa alguma daquilo. A situação toda era por demais inacreditável.

— Conhece a família dela? — perguntou o Dr. Stephenson.

— Não — respondeu Jennifer.

— Isso é um problema. Cheryl não quis dar nem endereço nem número de telefone. Isso vai tornar difícil localizar a família.

Marlene e Gale aproximaram-se. Ambas haviam estado chorando. Jennifer ficou atônita. Nunca ouvira dizer que enfermeiras chorassem.

— Estamos todos profundamente desolados com isto — disse o Dr. Stephenson. — Este é que é o problema com a prática da medcina. Fazemos tudo o que podemos mas, às vezes, não é o suficiente. É uma tragédia perdermos uma moça jovem, cheia de vida, como Cheryl. Aqui na Clínica Julian encaramos esse tipo de fracasso como uma coisa muito pessoal.

Quinze minutos depois, Jennifer deixou a clínica pela mesma porta por onde entrara em companhia de Cheryl apenas algumas horas antes. Não podia ainda entender inteiramente o fato de a amiga estar morta. Virou-se e levantou a vista para a fachada espelhada da Clínica Julian. A despeito do que acontecera, sentia ainda boa impressão daquele hospital, um lugar onde a pessoa era gente.

Seguindo McGuire ao 19º andar após o almoço, Adam parou por um momento, mais uma vez impressionado e cheio de respeito com as custosas instalações. O equipamento era tão luxuoso que, em comparação, tornava o gabinete de McGuire meramente funcional.

Estugando o passo, emparelhou-se com McGuire no momento em que ele entrava no gabinete mais espetacular que jamais vira em sua vida. Do outro lado de uma parede inteira de vidro, o campo de Nova Jersey estendia-se em toda sua majestade invernal.

— Gosta da paisagem? — perguntou uma voz. Adam virou-se. — Sou Bill Shelly — disse o homem, dando a volta em torno da escrivaninha. — É um prazer que tenha vindo nos procurar.

— O prazer é meu — murmurou Adam, surpreso com a juventude de Shelly.

Esperara que, como executivo graduado, ele tivesse pelo menos 50 anos de idade. Shelly não parecia ter mais de 30. Era de sua altura, cabelos louros cortados rente, com uma divisão fina como gume de navalha. Olhos de um azul surpreendentemente brilhante. Usava camisa branca com mangas arregaçadas, gravata cor-de-rosa e calça marrom.

Shelly fez um gesto na direção da janela.

— Aqueles prédios a distância são New York. Até New York parece bonita quando vista de longe.

Às costas de Adam, McGuire soltou uma risadinha.

Olhando pela janela, Adam notou que podia identificar também aparte sul de Manhattan. Por entre a abundância de nuvens, desciam colunas inclinadas de luz, iluminando alguns dos arranha-céus de No-York, enquanto deixava outros mergulhados numa sombra azulada.

— Que tal alguma coisa para tomar? — convidou Shelly, dirigindo-se para uma mesinha de café onde brilhava um serviço de chá.

. — Temos café, chá e praticamente tudo mais. Os três sentaram-se. McGuire e Adam preferiram café. Bill Shelly serviu-se de uma xícara de chá.

— McGuire falou-me a seu respeito — começou Shelly, examinando Adam de cima a baixo enquanto falava.

Adam recomeçou, repetindo basicamente as mesmas coisas que dissera antes a McGuire. Os dois executivos da Arolen trocaram olhares, inclinando quase imperceptivelmente as cabeças. Bill não tinha dúvida de que fora exata a avaliação de McGuire. O conteúdo do perfil de personalidade que mandara preparar durante o almoço confirmava sua impressão de que Adam era um candidato especialmente indicado para o programa de treinamento gerencial da companhia. Descobrir candidatos era meta de alta prioridade, dada a expansão extremamente rápida da empresa. O único senão era que o rapaz poderia querer voltar à faculdade de medicina, mas isso também podia ser superado.

No momento em que Adam terminou, Bill pôs a xícara de chá na mesinha e disse:

— Sua atitude a respeito da prática da medicina é coincidente com anossa. Nós, também, estamos conscientes da falta de responsabilidade social por parte dos médicos. Acho que você veio ao lugar certo. AArolen pode muito bem ser o lar perfeito para você. Quer nos fazer alguma pergunta?

— Se eu for contratado, gostaria de permanecer na área de New York — respondeu Adam.

Não lhe agradava muito a idéia de ficar longe da escola de medicina e queria que Jennifer tivesse o filho no centro médico de lá. Bill virou-se para McGuire:

— Acho que poderíamos arranjar uma vaga para ele, não, Clarence?

— Sem dúvida — concordou rapidamente Clarence.

— Alguma outra pergunta? — perguntou Shelly.

— Não, que me ocorra no momento — retrucou Adam. Achando que a entrevista terminara, fez menção de levantar-se.

Bill, porém, inclinou-se para detê-lo. Dispensando o colega, disse:

— Clarence, eu o mandarei logo em seguida ao seu escritório. Assim que a porta se fechou às costas de McGuire, Bill levantou-se.

— Em primeiro lugar, quero lhe dizer que estamos muito interessados em sua pessoa. Seu currículo médico é excelente. Em segundo, quero lhe assegurar que vamos contratá-lo pelos seus próprios méritos, e não por causa de qualquer influência que você possa ou não exercer sobre seu pai.

— Estou muito grato pelo senhor ter dito isso — respondeu Adam impressionado com a franqueza de Shelly.

Apanhando o perfil de personalidade que McGuire elaborara, Shelly acrescentou:

— Você ficará sem dúvida espantado em saber que já temos um relatório completo a seu respeito.

Adam sentiu um momento de passageira indignação com o fato de a Arolen ousar invadir sua privacidade. Antes de poder protestar, porém, Bill continuou:

— Tudo o que há neste relatório leva-me não só a contratá-lo, mas a lhe oferecer um lugar em nosso programa de treinamento gerencial. O que você acha?

Atônito, Adam fez um esforço para recuperar a compostura.As coisas estavam se desenvolvendo mais rápido do que jamais esperara.

— Esse curso de treinamento gerencial é dado aqui também? -- perguntou.

— Não — explicou Shelly. — O treinamento de vendas é feito aqui mas o programa de administração é realizado em nosso principal centro de pesquisas, em Porto Rico.

Porto Rico!, pensou Adam. E ele estivera se preocupando com a possibilidade de deixar Manhattan.

— É um oferecimento muito generoso — falou finalmente. Mas acho que preferiria começar um pouco mais devagar. Minha idéia inicial era começar como representante de vendas, de modo a poder conhecer o mundo dos negócios.

— Posso entender isso — retrucou Shelly. — Mas o oferecimento continua de pé. E devo lhe dizer que a Arolen está planejando reduzir sua equipe de vendas a começar do próximo ano. Você talvez queira ter isso em mente.

— Significa que o senhor está-me oferecendo um emprego em vendas? — perguntou Adam.

— Sim, claro — confirmou Bill. — Mas há outra pessoa em nossa empresa que eu gostaria que você conhecesse.

Ligou o interfone e pediu à secretária que perguntasse ao Dr. Nachman se poderia descer e conhecer o novo recruta, sobre o qual haviam conversado antes.

— O Dr. Heinrich Nachman é o diretor de nosso centro de pesquisas em Porto Rico. Está na cidade para nossa reunião de diretoria, que foi realizada esta manhã. Eu gostaria que o conhecesse. É um renomado neurocirurgião e uma pessoa fascinante. Conversar com ele talvez o leve a pensar mais seriamente no oferecimento de um cargo em Porto Rico.

Adam inclinou a cabeça e perguntou em seguida:

— Quando é que o senhor gostaria que eu começasse? Estou disponível neste momento.

— Eu gosto, de fato, de sua atitude — comentou Shelly. — Vou mandar matriculá-lo em nosso próximo curso de representante de vendas que, se não me engano, deve começar dentro de uma semana. Mas antes disso você terá de passar um dia em companhia de um representante de vendas. Tenho certeza de que Clarence McGuire pode arranjar isso para você. Quanto a salário, você entra na folha de pagamentos imediatamente. Além do mais, depois de examinar sua pasta, acho que gostaria de conhecer nossos benefícios de maternidade.

Adam sentiu-se enrubescer. Foi salvo da resposta que ia dar pela entrada do Dr. Heinrich Nachman.

O neurocirurgião era um homem excepcionalmente alto e magro, possuía cabelos pretos emaranhados e olhos que aparentemente não diziiam muita coisa. Cumprimentou Adam com um largo sorriso e olhou-o intensamente durante vários minutos. Adam começava a se inquietar sob aquele olhar fixo quando o médico disse:

— Vamos ter este jovem em Porto Rico?

— Infelizmente ainda não — respondeu Shelly. — Adam acha melhor aprender alguma coisa sobre negócios antes de submeter-se ao treinamento gerencial.

— Compreendo — assentiu o Dr. Nachman. — Pelo que Billi disse, você seria um grande trunfo em nossa empresa. Nossas pesquisas estão progredindo mais rapidamente do que prevíamos. Seria uma oportunidade fantástica. Você nem pode fazer idéia.

— Quais são as áreas de pesquisa? — perguntou Adam.

— Drogas psicotrópicas e fetologia — explicou o Dr. Nachman. Houve um pequeno silêncio. Adam olhou de um para o outro.

Ambos o fitavam intensamente.

— Isso é muito interessante — falou, embaraçado.

— De qualquer modo — prosseguiu o Dr. Nachman —, seja bem-vindo à Arolen Pharmaceuticals.

O pesquisador estendeu a mão e Adam apertou-a novamente.!

Na viagem de volta à cidade, Adam sentiu algumas dúvidas. Lembrou-se das palavras do Dr. Markowitz sobre deserção para o inimigo. A idéia de que uma companhia podia ganhar tanto dinheiro vendendo drogas a pessoas doentes era contrária a todos os seus ideais. Mas deu-se conta de que, basicamente, médicos fazem a mesma coisa. Mas havia algo que o incomodava a respeito da Arolen, alguma coisa que não podia definir bem. Talvez tivesse a ver com o fato de que a empresa fizera "um levantamento completo" da sua vida.

De qualquer modo, não assumira um compromisso para toda a vida, e naquele momento precisava de dinheiro. Se ele e Jennifer poupassem com cuidado, não havia motivo para que não voltasse à escola de medicina em 18 meses.

No momento em que o ônibus penetrou no Lincoln Tunnel, puxou a carteira do bolso e, disfarçadamente, olhou para dentro. Lá estavam elas, 10 notas de 100 dólares novinhas em folha e uma meia dúzia de notas esmolambadas de um dólar. Nunca em toda sua vida vira tanto dinheiro vivo assim. Bill insistira em que ele aceitasse um adiantamento, observando que talvez precisasse de novas roupas. No trabalho, não usaria uniforme branco. Mas mil dólares! Ainda não conseguia acreditar nisso.

Lutando para carregar duas sacolas da Bloomingdale cheias de camisas, um paletó e um vestido novo embrulhado em papel de presente para Jennifer, tomou o metrô na Lexington Avenue até a Rua 14 e fez o resto do caminho a pé até o apartamento.

Logo que abriu a porta, ouviu Jennifer ao telefone, conversando com a mãe. Lançou um olhar para a cozinha e notou que não havia sinais de preparação do jantar. Na verdade, não viu também sinal algum de compras. Prometendo a si mesmo que não ia perder a calma naquela noite, entrou no quarto, onde Jennifer estava justamente dizendo boa-noite. Ela pôs o telefone no gancho e virou-se para ele.

A aparência dela era horrível, o rosto inchado e os olhos vermelhos de lágrimas, os cabelos meio presos num coque, o resto escorrendo mole pelos ombros.

— Não me diga — começou Adam — que seus pais vão se mudar para Bangladesh.

Grandes lágrimas subiram-lhe aos olhos e Adam desejou ter ficado calado. Sentou-se ao lado da esposa e envolveu-lhe os ombros com os braços.

— Tentei telefonar para você mais cedo mas o telefone estava ocupado.

Jennifer deixou as mãos caírem no colo.

— Por que você telefonou?

— Apenas para dizer que ia chegar um pouco tarde. Tenho uma pequena surpresa para você. Interessada?

Jennifer inclinou a cabeça. Adam saiu do quarto e voltou com o embrulho. Abriu-o lentamente. Por último, depois de tirar o papel com todo cuidado, abriu a caixa.

Esperando uma expressão de deleite, ficou perturbado quando Jennifer simplesmente permaneceu como estava, segurando o lindo che-mise Belle France, enquanto as lágrimas continuavam a escorrer-lhe pela face.

— Não gostou? — perguntou ele.

Jennifer enxugou os olhos, tirou o vestido da caixa, levantou-se e prendeu-o sob o queixo para se ver no espelho.

— É maravilhoso. Mas onde foi que você arranjou o dinheiro? Adam encolheu os ombros.

— Se não gostou, poderá trocá-lo por outro.

Jennifer aproximou-se e, com o vestido ainda colado ao peito, beijou-o na boca.

— Adorei. É um dos vestidos mais bonitos que já vi até hoje.

— Neste caso, por que está chorando?

— Porque tive um dia horrível. Conheceu Cheryl, a secretaria de Jason?

— Acho que não — respondeu Adam.

— Não importa — continuou Jennifer. — Cheryl tinha apenas 19 ou 20 anos. Hoje, fui com ela a um lugar chamado Clínica Julian

— Já ouvi falar nela — interrompeu-a Adam. — Uma nova imensa instituição, uma espécie de Clínica Mayo. Alguns estudamtes que estiveram nela em vários estágios dizem que é um lugar meio esquisito.

— O estranho não é o lugar mas sim o que aconteceu lá. Cheryl foi lá para fazer um aborto.

Adam encolheu-se todo.

— Oh, meu Deus! — exclamou, incrédulo. — Você acompanhou uma pessoa que ia fazer um aborto? Jennifer, você está louca?

— Ela não tinha ninguém mais — explicou Jennifer. — Eu não podia deixar que ela fosse sozinha.

— Claro que não. Mas, se não se importa que eu pergunte, que me diz da família ou do namorado dela? Por que tinha de ser justamente você, Jennifer?

— Não sei — reconheceu ela. — Mas eu fui. E ela morreu!

— Morreu! — repetiu Adam horrorizado. — Do que foi que morreu? Estava doente?

Jennifer sacudiu a cabeça.

— Aparentemente, estava com plena saúde. Iam justamente começar o aborto quando Cheryl descobriu que o médico dela não estava presente e recusou-se a continuar. Queria fazer o aborto com o Dr. Foley mas ele morreu. Cometeu suicídio. Assim, outro médico ia fazer o aborto.

— Segundo os costumes de algumas instituições, o paciente não pode escolher o médico que o atende — explicou Adam.

— Isso pode ser verdade — assentiu Jennifer —, mas acho que o paciente deve ser antecipadamente avisado se o médico que espera não vai estar presente.

— Desse ponto de vista não posso discordar — retrucou Adan — Mas, se ela se recusou a fazer o aborto, como foi que morreu!

— Disseram que foi coagulação intravascular disseminada. Morreu bem na minha frente. Num minuto, estava perfeitamente bem e no outro, caiu no chão, sangrando. Foi horrível.

Jennifer puxou o lábio inferior para dentro da boca e mordeu-o. Os olhos encheram-se de lágrimas.

Adam envolveu-a com os braços e deu-lhe palmadinhas nas costas.

Nenhum dos dois falou durante algum tempo. Adam deixou que jennifer se acalmasse, enquanto pensava no caso. De que modo poderia ter Cheryl morrido de CID se o aborto fora cancelado? Achou que fora um aborto induzido por solução salina e que a medicação fora iniciada. Sentiu-se tentado a fazer mais perguntas, mas achou que seria melhor se Jennifer não repisasse aquela experiência.

Jennifer, porém, não queria abandonar o assunto.

— O que é coagulação intravascular disseminada? — perguntou. - É uma coisa comum?

— Não, não — garantiu-lhe Adam. — É muito rara. Mas não conheço muito sobre esse assunto. Acho que ninguém sabe. Alguma coisa dá início ao processo de coagulação dentro dos vasos sangüíneos. Acho que está ligada a um grande trauma, queimaduras graves e, ocasionalmente, a aborto. Mas, de qualquer modo, é rara.

— E não acontece a mulheres que estão simplesmente grávidas? - perguntou Jennifer.

— Absolutamente não! — respondeu peremptório Adam. — Agora, não quero que você pegue escolite médica e pense que vai ter toda doença esquisita de que ouviu falar. Neste momento, quero que vá tomar um banho, vista o vestido novo, e depois vamos comer alguma coisa.

— Não comprei nada para o jantar — observou Jennifer.

— Eu notei — respondeu Adam. — Mas não tem importância. Estou com a carteira abarrotada e morrendo de vontade de lhe contar como arranjei esse dinheiro todo. Tome um banho e depois vamos a um restaurante elegante para comemorar, tá?

Jennifer pegou um lenço de papel e assoou o nariz.

— Tá — conseguiu dizer. — Espero ser boa companhia. Estou tão nervosa.

Enquanto Jennifer tomava banho, Adam foi até a sala de estar e procurou a CID nos tratados de medicina. Conforme esperara, esse estado mórbido não estava ligado à gravidez. Recolocando o livro na estante, notou o guia farmacológico ao lado. Com a curiosidade despertada, puxou o volume e procurou a seção dedicada à Aroien Phar-maceuticals. Exceto por uma extensa lista de antibióticos genéricos, a Aroien não fabricava muitos produtos exclusivos no rol dos que só eram vendidos com receita médica. Havia vários tranqüilizantes que não reconheceu, bem como alguns preparados contra enjôo, incluindo um para mulheres grávidas, chamado Pregdolen.

Perguntou-se como a Aroien podia ser uma empresa tão florescente com uma lista tão pequena de novos produtos. Tinha de vender um bocado de medicamentos a fim de custear aquelas instalações impressionantes. Recolocou o livro na estante, chegando à conclusão de que a base financeira da Arolen não era assunto seu. Pelo menos, não enquanto a empresa continuasse a pagar seu generoso salário.

 

Dois dias depois, Adam esperava na rua, na frente de seu prédio, que o representante da Arolen viesse apanhá-lo. McGuire telefonara na noite anterior, dizendo que Percy Harmon o pegaria às 8h3Om e o levaria para acompanhá-lo em visitas de vendas.

Embora estivesse ali há quase vinte minutos, sentia-se satisfeito por não se encontrar no apartamento, a despeito da chuva fina e fria que caía. Ainda que houvesse feito as pazes com Jennifer, ela continuava nervosa porque ele trancara a matrícula e fora trabalhar para uma companhia de produtos farmacêuticos. Sabia que parte da razão pela qual a reação dela o aborrecia tanto era sua própria ambivalência no tocante a trabalhar para a Arolen. Ainda assim, não era uma decisão definitiva, e de fato lhes resolvia os problemas financeiros. Talvez seus sogros lhe dissessem que ele fizera a coisa certa, quando ela fosse visitá-los naquele dia, mas duvidava muito.

Um Chevy azul estava diminuindo a marcha a sua frente. O motorista parou e baixou a janela.

— Pode me dizer onde fica o 514?

— Percy Harmon? — perguntou Adam.

— O próprio — respondeu o motorista, inclinando-se e abrindo a porta do assento do passageiro.

Fechando o paletó para se proteger da chuva, Adam desceu correndo os degraus e mergulhou no carro.

Percy desculpou-se por ter chegado atrasado, dizendo que o tráfego na estrada estivera um horror devido a um acidente na saída da Rua 49.

Adam gostou imediatamente de Percy, da sua cordialidade, pouco mais velho, usava terno azul-escuro com gravata de bolinhas vermelhas e lenço combinando. Parecia um indivíduo prático e bem sucedido na vida.

Viraram para o norte na Park Avenue e seguiram para a parte alta da cidade.

— No telefone, Clarence McGuire falou com grande entusiasmo a seu respeito — disse Percy. — Qual é o seu segredo?

— Não tenho muita certeza — respondeu Adam —, mas acho que é porque sou terceiranista de medicina no centro médico.

— Deus do céu, claro que é isso! — exclamou Percy. — Não é de espantar que o pessoal lá tenha adorado você. Com sua formação você vai passar a perna em todos nós, leigos.

Adam, porém, não estava convencido disso. Aprendera um montão de coisas sobre ossos, enzimas e função dos linfócitos. Mas que utilidade tinham essas informações para a Arolen? Além do mais, parte do que aprendera tinha a perturbadora mania de fugir de sua lembrança logo que acabava um exame específico. Olhou em volta no carro de Percy. Viu panfletos acondicionados em caixas no assento traseiro. Junto às caixas, cadernetas de folhas soltas, formulários impressos em computador e uma pilha de formulários de pedidos. Notou parte dos impressos guardados em reentrâncias do painel de instrumenentos. O carro parecia um movimentado escritório. Não estava absolutamente convencido de que a formação de estudante de medicina lhe fosse útil no novo emprego. Olhou para Percy, ocupado nesse instante com o complicado tráfego da cidade de Nova York. Parecia relaxado e confiante. Adam sentiu inveja.

— Como foi que você entrou para a Arolen? — perguntou

— Fui convidado logo que deixei a escola de administração de empresas — explicou Percy. — Eu havia feito alguns cursos de economia da saúde na faculdade e estava interessado nesse campo. De algum modo, a Arolen descobriu isso, entrou em contato comigo e me convidou para uma entrevista. Procurei me informar sobre a companhia e fiquei impressionado. Ser representante de vendas tem sido divertido, estou aguardando ansioso o próximo passo. E, graças a você, vou ser enviado para treinamento administrativo em Porto Rico.

— O que você quer dizer com esse "graças a mim"?

— Clarence me disse que você vai ser meu substituto. Há um tempo que venho tentando ser designado para Porto Rico.

— Eles me ofereceram a mesma oportunidade.

— Ir direto para Porto Rico?! — exclamou Percy. — Deus!

Homem, pegue-os pela palavra. Não sei se sabe, mas a Arolen pertence a um grupo financeiro em fase de extraordinário crescimento. Há uns dez anos, uns caras inteligentes fundaram uma empresa chamada MTIC a fim de investir na indústria de saúde. A Arolen foi uma das primeiras aquisições do grupo. Quando assumiram o controle, a companhia era um fabricante de medicamentos sem importância alguma. Agora, está desafiando os gigantes, como a Lilly e a Merck. Entrando nela agora, você vai crescer com ela. Quem foi que você conheceu na Arolen, além de Clarence McGuire?

— Bill Shelly e o Dr. Nachman.

Percy assoviou e desviou os olhos do tráfego por tempo suficiente para lançar uma olhada avaliadora em Adam.

— Você conheceu dois dos fundadores da MTIC. Dizem por aí que ambos fazem parte da diretoria da MTIC, além de ocuparem cargos executivos na Arolen. Como foi que você conheceu Nachman? Ele é o chefe da pesquisa lá em Porto Rico.

— Ele estava lá para uma reunião qualquer — Adam explicou sucintamente.

A reação de Percy fê-lo perguntar novamente a si mesmo se a Arolen estava interessada nele ou, a despeito das garantias dadas em contrário, em seu pai.

— O outro fato a respeito de Porto Rico — dizia nesse momento Percy — é que o centro de lá é tão luxuoso como um hotel de veraneio. Estive lá só uma vez, mas é uma coisa fora deste mundo. Ando doido para fazer treinamento lá. Como se fossem umas férias remuneradas.

Observando a chuva bater no pára-brisas, Adam perguntou-se que tipo de instalações de maternidade havia em Porto Rico. A idéia de um sol brilhante e da oportunidade de afastar Jennifer dos pais tinha certos atrativos. Suspirou. Era bom fantasiar, mas a verdade era que preferia permanecer tão perto quanto possível do centro médico. Porto Rico

estava fora de cogitações.

— Chegamos — disse Percy.

Encostando no meio-fio na frente de um típico prédio de apartamentos no centro da cidade de Nova York, ele estacionou numa zona onde havia uma placa de "Estacionamento Proibido", sujeito a reboque”, abriu o porta-luvas e tirou uma pequena tabuleta com um aviso: “Médico a Serviço".

— Isto é uma ligeira distorção do significado usual dessas palavras. mas, apesar disso, verdade — explicou sorrindo a Adam. Agora vamos planejar o ataque. A ação no particular é você formar uma idéia do que acontece na visita a um médico típico. O nome deste cara

é Dr. Jerry Smith. É um dos obstetras de maior sucesso da Park Avenue. É também uma besta. Considera-se um grande intelectual, de modo que será muito fácil adulá-lo. Ele também gosta de amostras grátis. Uma predileção que temos todo o prazer em atender. Alguma pergunta antes de entrarmos em combate?

Adam respondeu que não, mas lembrou-se novamente do comentário do Dr. Markowitz sobre indivíduos que se bandeavam para o lado do inimigo.

Percy abriu a mala do carro e deu a Adam um grande guarda chuva para segurar, enquanto retirava um bocado de amostras.

— Os favoritos de Smith são os tranqüilizantes — explicou Percy.

— Não tenho a menor idéia do que faz com eles.

Encheu uma pequena caixa de papelão com uma grande variedade de de medicamentos e fechou a mala do carro.

O consultório do Dr. Smith estava cheio de pacientes. No ar abafado havia um cheiro de lã molhada.

Adam correu atrás de Percy, que se dirigiu diretamente à recepcionista. Relutante, Adam olhou em volta e viu muitos pares de olhos examinando-o por cima de revistas.

— Oi, Carol — dizia Percy nesse momento. — Que vestido mais lindo. E seu cabelo! Há alguma coisa diferente nele. Não me diga que é... Deixe ver se descubro. Fez uma permanente. Deus, está maravilhoso. E como vai aquele seu garotinho? Ótimo. Bem, quero lhe apresentar Adam Schonberg. Ele vai me substituir junto à clientela. Agora, você se importaria em mostrar a ele aquela foto maravilhosa que você tem de seu filhinho? Aquela em que ele está num tapete de pele de urso.

Adam descobriu-se segurando um cubo de acrílico com fotos diferentes em cada lado. Percy ajustou-o em sua mão, de modo que ele pudesse ver o bebê gordinho deitado numa toalha de banho.

— E, Carol, como é que vai o pai dele? — perguntou Percy, tomando o cubo de fotos da mão de Adam e recolocando-o na mesinha. — Já saiu do hospital?

Dois minutos depois, Percy e Adam estavam no gabinete do consultório, esperando pelo Dr. Smith.

— Aquilo lá fora foi um desempenho impressionante — sussurrou Adam.

— Bobagem — respondeu Percy com um gesto de pouco caso da mão. — Mas eu lhe digo uma coisa. A recepcionista ou a enfermeira são as pessoas que você tem de impressionar no consultório de um médico.

Elas controlam o acesso ao homem e, se não tratá-las da maneira certa, vai morrer de velhice enquanto espera para entrar.

— Mas com aquela mulher você agiu como se fossem bons amigos — comentou Adam. — Como soube dessas coisas todas sobre a vida particular dela?

— A Arolen nos fornece esse tipo de informações — explicou Percy com simplicidade. — Mantém um registro completo de todos os auxiliares dos médicos, bem como dos próprios médicos. Esses dados são fornecidos a um computador. Quando temos perguntas, recebemos as respostas. Nada de misterioso nisso. Trata-se simplesmente de atenção a detalhes.

Adam olhou em volta do gabinete de Smith. Era um cômodo elegante, mobiliado com arquivos em laca preta e estantes do chão ao teto. Uma grande escrivaninha de mogno, atulhada de revistas, ficava de frente para a porta. Adam lançou um olhar para a data do último número do American Journal ofObstetrícs and Gynecology que encabeçava a pilha. Velha de mais de um ano. A cinta de despacho postal continuava em volta da revista. Nem fora aberta.

A porta abriu-se nesse momento. O Dr. Smith parou à soleira e gritou para o corredor:

— Levem as pacientes seguintes nas salas seis e sete.

Uma voz respondeu, mas longe demais para que as palavras fossem entendidas.

— Sei que estou atrasado — berrou o Dr. Smith. — E daí, o que que tem? Diga a elas que tive uma reunião importante. — Entrou no gabinete e fechou a porta com um pontapé. — Enfermeiras, merda!

Era um homenzarrão, possuidor de uma barriga respeitável. As grandes bochechas davam-lhe a aparência de um velho buldogue.

— Dr. Smith, como vai o senhor? — perguntou Percy radiante.

Smith permitiu que o representante lhe apertasse a mão e em seguida retirou-se rápido para trás da escrivaninha, onde pegou um maço de Camel com filtro. Acendeu um cigarro e expeliu a fumaça pelas narinas.

— Eu gostaria de lhe apresentar Adam Schonberg — continuou Percy, indicando Adam com um gesto. — Está iniciando o treinamento na Arolen e eu o estou levando para conhecer alguns de meus clientes mais prestigiosos.

O médico sorriu e disse:

— Bem, rapazes, o que vocês têm para mim esta manhã?

— Todo tipo de amostras — respondeu Percy, colocando a caixa de papelão sobre a borda da mesa e abrindo-a. Muito interessado, o Dr. Smith inclinou-se para a frente na cadeira. — Sei como o senhor gosta de Marlium, o tranqüilizante mais vendido da Arolen, de modo que lhe trouxe um bom suprimento. O senhor pode notar que a embalagem foi melhorada. Os pacientes adoram esses novos frascos amarelo-brilhantes. Trouxe também a reprodução de uma pesquisa médica. Estudos que acabam de ser completados na Clínica Julian, aqui em Nova York, indicam que o Marlium apresenta os menores efeitos colaterais de todos os tranqüilizantes ora no mercado. Mas não preciso dizer-lhe isso. O senhor vem dizendo a mesma coisa há muito tempo.

— Você tem toda razão — concordou o Dr. Smith.

Em fileiras bem arrumadas, Percy colocou outras amostras de medicamentos na escrivaninha do Dr. Smith, o tempo todo comentando as comprovadas qualidades dos produtos. Em todas as ocasiões possíveis, cumprimentava o Dr. Smith por sua perspicácia na prescrição dos medicamentos da Arolen aos seus clientes.

— E por último, embora não menos importante, trouxe-lhe 50 amostras do Pregdolen. Sei que não preciso convencê-lo das virtudes deste medicamento para a náusea matinal das gestantes. O senhor foi um dos primeiros a lhe reconhecer o valor. Contudo, tenho a reprodução de um artigo recente sobre o assunto, que apreciaria que o senhor lesse quando tivesse tempo. Compara o Pregdolen com medicamentos semelhantes no mercado e mostra que ele é eliminado pelo fígado com mais rapidez do que tudo até hoje lançado pelos concorrentes.

Percy colocou uma reprodução do artigo, em papel lustroso, em cima da pilha que formara na mesa do Dr. Smith.

— Por falar nisso, como vai seu filho, o David? Ele não é agora primeiranista na Universidade de Boston? Adam, você tem de conhecer esse garotão. Parece-se com Tom Selleck, só que apenas mais bonitão.

— Ele vai indo muito bem, obrigado — agradeceu radiante o Dr. Smith. Depois puxou outra tragada do cigarro antes de apagá-lo. -- O garoto está fazendo o pré-vestibular de medicina, não sei se sabe.

— Sei — confirmou Percy. — E não vai ter problema algum para entrar na faculdade.

Quinze minutos depois, Adam voltou a ocupar o assento ao lado do motorista do Chevy Celebrity. Pela janela, Percy passou o guarda-chuva para o piso do assento traseiro e tomou seu lugar ao volante. Um talão de multa fora enfiado sob o limpador de pára-brisas.

— Oh, bem — disse Percy —, essa tabuleta que uso nem sempre funciona. — Acionou o limpador e o talão de multa desapareceu. Ta-da! — continuou, erguendo as mãos como se houvesse acabado de realizar um passe de mágica. O carro está matriculado em nome da Arolen e o Departamento Jurídico cuida dessas coisas. Agora, vamos, quem é o seguinte na lista?

Pegou a prancheta e passou ao formulário seguinte, impresso por computador.

A manhã escoou-se rápida, enquanto Adam observava Percy tratar habilmente com recepcionistas e empurrar os produtos da Arolen para médicos ocupados. Espantado, notou como ele era eficiente com os médicos. Tendo conversado com ele a manhã inteira, percebeu como era pouca a informação científica a que Percy podia recorrer. Ainda assim, parecia que esse fato não tinha a menor importância. Percy lia apenas o suficiente do assunto para dar a impressão de que lia muito e, provido de informações correntes sobre medicamentos, podia engabelar os médicos. Adam começou a compreender o baixo conceito em que a Arolen tinha a inteligência do médico típico.

Por volta de 11h30m, depois de terem deixado o consultório de clínico geral na Sutton Place South, Percy entrou no carro e deitou a cabeça no volante.

— Acho que estou tendo uma crise de hipoglicemia. Tenho de comer alguma coisa. É muito cedo para você?

— Nunca é cedo demais para mim — garantiu-lhe Adam.

(— Ótimo! — aprovou Percy. — Uma vez que é a Arolen que está pagando, vamos fazer a coisa como manda o figurino.

No passado, Adam fizera piadas sobre o restaurante Four Sea-, dizendo que era um símbolo dos ricos, embora nunca houvesse ido lá. Quando Percy sugeriu que fossem até lá, pensou que ele estivesse brincando. Entrando atrás dele no Grill Room, quase desmaiou. Estendendo o guardanapo de linho sobre o colo, fez um esforço para se lembrar de como eram as refeições na congestionada lanchonete do hospital. Um lugar que parecia situar-se a um milhão de quilômetros de distância. Um garçom perguntou-lhe se aceitava um drinque. Sem saber o que responder, olhou para Percy que, calmamente, pediu um martíni. Que diabo, pensou Adam, e rapidamente respondeu que queria a mesma coisa.

— Bem, qual é sua impressão do negócio, agora que começou?

— Interessante — respondeu Adam evasivo. — Você almoça aqui todos os dias?

— Não, para ser franco. Mas McGuire disse-me para causar boa impressão a você.

Adam riu. Gostava da franqueza de Percy.

— Estou suficientemente impressionado com suas habilidades. Você é muito competente.

Percy sacudiu a cabeça.

— É fácil. Como pescar num tanque de criação de trutas. Por alguma razão inexplicável, os médicos quase nada sabem sobre medicamentos. Talvez você possa me dizer o motivo.

Adam pensou por um momento. Como todos os estudantes, tivera aulas de farmacologia, mas era verdade que pouco sabia sobre o uso concreto de medicamentos. Fora ensinado apenas sobre a ação dos mesmos no nível celular. O pouco que sabia sobre receitá-los aprendera em enfermarias. Mas antes de poder responder à pergunta de Perqy chegaram as bebidas.

— À sua carreira na Arolen — disse Percy, erguendo o cálice.

— O que você me diz desse Pregdolen que andou empurrando! — perguntou Adam, lembrando-se das queixas recentes de Jennifer. — Minha mulher vem tendo problemas de enjôo pela manhã. Talvez eu devesse pegar umas duas caixas dessas amostras gratuitas.

— Eu não faria isso, se fosse você — retrucou Percy, sério de repente. — Sei que a Arolen vende esse remédio às toneladas e que um bocado de gente pensa que é a melhor coisa que existe depois de um pedaço de pão, mas não acho que o medicamento funcione e há a possibilidade de que seja tóxico.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Adam.

-- Esse dado foi destacado em várias das revistas médicas mais importantes — esclareceu Percy, tomando outro gole da bebida. — Claro, não menciono esses artigos quando visito os médicos. Evidentemente, eles não os leram porque continuam receitando adoidado o remédio. Isso certamente acaba com o mito de que médicos se informa sobre medicamentos em revistas médicas. No que diz respeito à maioria, isso é conversa fiada. Obtêm suas informações sobre medicamentos, o pouco que recebem, de caras como eu, e só digo a eles o que quero dizer.

Percy encolheu os ombros ao notar a expressão chocada de Adam.

— Você, mais do que ninguém, deve saber que médicos receitam por palpite ou por hábito. Nosso trabalho consiste em tornar a Arolen uma parte desse hábito.

Lentamente, Adam girou o cálice entre os dedos e observou a aseitona revolver no líquido. Estava começando a compreender para o que teria de fechar os olhos nesse tipo de trabalho.

Notando a hesitação de Adam, Percy acrescentou:

— Para ser absolutamente honesto com você, será um alívio para mim deixar o ramo de vendas.

— Por quê? — perguntou Adam. Percy soltou um suspiro.

— Não sei se eu lhe devo contar. Não quero amortecer seu entusiasmo. Mas algumas coisas muito esquisitas vêm acontecendo em minha área. Por exemplo, certo número de médicos que eu visitava regularmente foi retirado de minha lista de vendas. No começo, pensei que eles haviam-se mudado ou morrido, mas depois descobri que a maioria tomara parte no Congresso e Cruzeiro Marítimo patrocinado pela Arolen, voltara, desistira da clínica particular e fora trabalhar para a Clinica Julian.

O nome "Clínica Julian” provocou uma estranha reação na boca do estômago de Adam, lembrando-lhe o que Jennifer lhe contara.

— Conheci muito bem alguns desses médicos — continuou Percy, de modo que fui visitá-los, embora a Clínica Julian não faça parte do meu território. O que me impressionou foi que todos eles mudaram de alguma maneira. Um bom exemplo foi o Dr. Lawrence Foley, a quem visito desde que comecei a trabalhar para a Arolen. Ele não apreciava muito os produtos da Arolen, mas eu continuava a visitá-lo porque gostava dele. Na verdade, jogávamos tênis umas duas vezes por mês.

— O Lawrence Foley que acaba de cometer suicídio? — perguntou Adam.

— O próprio — confirmou Percy. — E o suicídio dele é parte desse tipo de mudança de que estou falando. Eu achava realmente que o conhecia muito bem. Ele era sócio de um dos consultórios de obstetrícia e ginecologia mais renomados da cidade. Depois, foi fazer aquele cruzeiro patrocinado pela Arolen, voltou, desistiu de tudo e foi trabalhar na Clínica Julian. Quando fui visitá-lo, achei-o diferente. Estava tão preocupado com o trabalho que não podia reservar tempo algum para jogar tênis. E ele não era do tipo que se suicida. Nunca o vi deprimido um único dia em toda a vida e amava o trabalho que fazia, e também a esposa. Quando soube do que aconteceu, não pude acreditar. Depois de matar a esposa a tiro, pôs a espingarda na boca e...

— Posso imaginar — cortou-o rapidamente Adam. — Que história é essa de congressos médicos e cruzeiros patrocinados pela Arolen?

— São seminários médicos ministrados num navio de cruzeiro em viagem pelo Caribe — explicou Percy. — Mas isso é tudo o que sei. Sendo curioso, perguntei a Clarence McGuire, mas ele respondeu que não sabia de coisa alguma a respeito, exceto que eram organizados pela MTIC.

— Se você está realmente curioso — sugeriu Adam —, por que não pergunta a Bill Shelly? Se o que você me disse é verdade, que a Arolen aprecia informações sobre médicos, acho que ela ficará fascinada com suas observações. Além do mais, posso lhe dizer que Shelly é um cara surpreendentemente moço e gentil.

— Não diga — comentou Percy. — Talvez tenha razão. Talvez eu vá lá hoje à tarde. Sempre quis conhecer o Sr. Shelly, e esta talvez seja minha oportunidade.

Ao pedir a Percy que o deixasse no centro médico ao fim daquela tarde, Adam teve a impressão de que, depois de trabalhar para a Arolen, não ia ser o mesmo médico. Haviam visitado dezesseis consultórios e, de acordo com Percy, distribuído mais de 500 frascos de amostras de remédios. A maioria dos médicos lembrara o Dr. Smith: ansiosos para receber as amostras e presa fácil da argumentação de vendas de Percy.

Entrou no hospital pela porta da escola de medicina e dirigiu-se para a sala de periódicos da biblioteca. Queria verificar o que havia sobre o Pregdolen em revistas recentes. Curioso com os comentários de Percy, não lhe agradava a idéia de empurrar um medicamento que apresentasse efeitos colaterais realmente nocivos.

Encontrou o que queria num número de dez meses atrás do M England Journal Medicine. Teria sido difícil para um obstetra praticante ter deixado passar aquilo.

Exatamente como Percy sugerira, o Pregdolen se mostrara ineficaz quando submetido a teste com inclusão de um placebo indivíduos-controle. Na verdade, em todos os casos, com exceção de três, o placebo surtira melhor efeito no combate à náusea matutina. Mais importante que tudo, estudos demonstravam que o Pregdolen era com freqüência teratogênico, ocasionando graves anormalidades de desenvolvimento em fetos.

Passando ao Journal of Applied Pharmacology, descobriu que a despeito da publicidade contrária, as vendas do Pregdolen haviam aumentado sem cessar em anos recentes, com um surto espetacular no último ano. Fechou a revista, perguntando a si mesmo se estava mais aterrado com a capacidade de marketing da Arolen ou com a ignorância do obstetra típico.

Repondo a revista na estante, chegou à conclusão de que a margem era de 50-50.

Percy Harmon sentiu-se no auge de sua carreira ao sair da área de estacionamento de seu restaurante japonês favorito, depois de saborear um fabuloso jantar de bife suki-yaki. O restaurante era em Fortlee, Nova Jersey, mas àquela hora da noite, 10h30m, não levaria mais de dez minutos para voltar a seu apartamento em Manhattan. Não notou o homem de aparência comum, vestido de blazer azul e calça marrom que permanecera no bar durante todo o tempo em que estivera no restaurante. O homem seguiu o Chevy com os olhos, até que o carro desapareceu, e dirigiu-se em seguida a uma cabine telefônica próxima.

— Ele saiu do restaurante. Deve chegar à garagem em quinze minutos.. Vou telefonar para o aeroporto.

Sem esperar resposta, o homem cortou a ligação e introduziu mais fichas na ranhura. Pressionou devagar os botões, quase mecanicamente.

Descendo a Harlem River Drive, Percy perguntou a si mesmo porque nunca pensara antes em procurar Bill Shelly. Não apenas ele recebera com agrado suas observações como se mostrara extraordinariamente cordial. Na verdade, levara-o para conhecer o vice-presidente executivo e era de valor inapreciável fazer esse tipo de contatos numa empresa como a Arolen. Achou que seu futuro nunca parecera tão promissor.

Parou em frente à garagem que a Arolen alugara para ele a quatro quarteirões de seu apartamento na Rua 74. O local era inconveniente apenas quando chovia. O prédio era uma estrutura enorme, parecendo um armazém, situado numa rua esburacada. Um imponente portão de metal fechava a entrada. Apertou o dispositivo de controle remoto existente no porta-luvas e a grade de metal se ergueu. Acima da entrada havia uma tabuleta com a inscrição: "Estacionamento, por dia, semana ou mês", seguida de um número de telefone local. Uma vez dentro do prédio, a grade foi reativada e, com um guincho terrível, fechou-se com um estrondo definitivo.

Não havia vagas marcadas e, após uma volta exploratória, Percy dirigiu-se para a rampa de descida que levava ao nível seguinte. Preferia estacionar no térreo, pois os espaços mal-iluminados dos níveis abaixo da rua deixavam-no nervoso.

Devido ao adiantado da hora, teve de descer três níveis antes de icontrar uma vaga. Fechou o carro e dirigiu-se para o poço da escada, assoviando para manter a coragem. Seus calcanhares ecoavam no chão de cimento manchado de óleo e a distância ouvia o som de água pingando. Chegando à escada, puxou a porta e quase desmaiou de choque.

 

Devia haver mais de cem pessoas no auditório. Haviam todas comparecido para assistir à formatura de amigos e parentes no curso de vendas da Arolen. Arnold Wiseman, o homem que dirigira o treinamento, encontrava-se sentado em frente ao pódio, ao lado de Bill Shelly. À direita de ambos, uma grande e flácida bandeira americana.

Adam sentiu-se um pouco embaraçado com a cerimônia, consciente de que a Arolen estava incrementando mais a solenidade do que o curso de quatro semanas justificava. Ainda assim, aquilo era apropriado, uma vez que aprendera que nove décimos do que um propagandista de medicamentos empurrava era puro espetáculo.

Pensando no assunto, espantou-se com a rapidez com que haviam passado aquelas quatro semanas. Desde o primeiro dia, compreendera que seus dois anos e meio de faculdade de medicina o colocavam à frente de todos os colegas. Metade dos outros vinte estudantes tinha diploma de farmacologia, cinco possuíam mestrado em administração de empresas, e o restante provinha dos vários departamentos da Arolen Pharmaceuticals.

Procurou Jennifer na multidão, pensando que ela talvez houvesse mudado de idéia no último minuto e vindo, mas mesmo enquanto procurava sabia que era vã a esperança. Desde o começo ela fora contrária a seu trabalho na Arolen, e, mesmo que houvesse dominado a antipatia pelo seu novo emprego, o enjôo matinal tornara-se tão intenso que raramente ela conseguia deixar o apartamento antes do meio-dia. Ainda assim, não conseguia evitar olhar para todas as mulheres de cabelos pretos da platéia, tendo em vista a possibilidade de, por algum milagre, ela ter vindo.

De repente, seu olhar errante parou num homem baixo, de cabelos pretos ondulados, usando capa de chuva preta. Ele se encontrava junto à entrada, com as mãos enfiadas nos bolsos. Não havia a menor dúvida. Era seu pai.

Durante o resto da cerimônia, ficou em estado de choque. Concluídas as formalidades e iniciada a recepção, abriu caminho pela multidão até a porta onde se encontrava aquele homem. Era mesmo seu pai.

— Papai?

O Dr. Schonberg virou-se. Segurava um camarão na ponta de um palito. Mas não havia sorriso em seus lábios ou nos olhos.

— Mas que surpresa! — exclamou Adam, sem saber o que fazer. Estava lisonjeado com a presença do pai, mas também nervoso.

— Então é verdade — disse severo o Dr. Schonberg. — Você está trabalhando para a Arolen Pharmaceuticals!

Adam confirmou com um aceno.

— O que aconteceu com a escola de medicina? — perguntou zangado o Dr. Schonberg. — O que vou dizer a sua mãe? E depois de tudo o que fiz para ter certeza de que você seria admitido.

— Acho que minha nota máxima teve alguma coisa a ver com isso — respondeu Adam. — Além do mais, eu vou voltar. Tirei simplesmente uma licença, tranquei a matrícula.

— Por quê?

— Porque precisamos de dinheiro. Vamos ter um filho.

Durante um momento, Adam pensou ver alguma coisa se suavizando na expressão do pai. Logo depois, porém, o Dr. Schonberg olhava com antipatia para a sala.

— De modo que você se aliou a isto... — Fez um gesto para o salão luxuosamente mobiliado. — Não me diga que não sabe que interesses comerciais estão tentando substituir a medicina livre.

— A Arolen presta um serviço público — retrucou Adam, na defensiva.

— Poupe-me — cortou-o o Dr. Schonberg. — Não estou interessado na propaganda deles. As companhias de produtos farmacêuticos e as companhias de co-participação que as controlam estão querendo ganhar dinheiro, como qualquer outra indústria, embora gastem milhões de dólares em relações públicas tentando convencer o público do contrário. Muito bem, isso é uma mentira. E pensar que meu próprio filho tornou-se parte disso e por causa daquela moça com quem se casou...

-- O nome dela é Jennifer — interrompeu-o Adam secamente, sentindo o sangue subir-lhe ao rosto.

— Dr. David Schonberg. — Bill Shelly aparecera às costas de Adam, com uma taça de champanha na mão. — Seja bem-vindo à Arolen. Tenho certeza de que está tão orgulhoso de seu filho como nós. Meu nome é Bill Shelly.

O Dr. Schonberg ignorou a mão estendida.

— Sei quem o senhor é — retrucou ele. — E para ser perfeitamente honesto, estou mais aterrado do que orgulhoso em ver meu filho aqui. O único motivo pelo qual aceitei seu convite foi para me certificar de que a Arolen não espera qualquer tratamento especial porque meu filho entrou para sua empresa.

— Papai... — gaguejou Adam.

— Sempre gostei de honestidade — disse Bill, recolhendo a mão —, e posso lhe garantir que não contratamos Adam porque o pai dele trabalha na FDA.

— Tomara que isso seja verdade — retrucou o Dr. Schonberg.

— Não quero que pense que a Arolen terá um tratamento mais fácil na aprovação de novos medicamentos.

Sem esperar resposta, o Dr. Schonberg lançou o camarão numa cesta de papéis usados e abriu caminho pela multidão em direção à porta.

Incrédulo, Adam sacudiu a cabeça.

— Sinto imensamente que isto tenha acontecido — disse a Bill Shelly.

— Não há necessidade de pedir desculpas — interrompeu-o Bill.

— Você não é responsável pelas convicções de seu pai. Ele teve experiência demais com companhias menos que honestas em nosso campo de atividade. Sinto apenas que ele não tenha tido contato suficiente com a Arolen para compreender a diferença.

— Isso pode ser verdade, mas não desculpa o comportamento dele.

— Talvez, algum dia, possamos convencer seu pai a participar de um dos congressos médicos e cruzeiros patrocinados pela Arolen. Já ouviu falar neles?

Adam inclinou a cabeça, lembrando-se de Percy Harmon. Não pensava nele há mais de um mês, mas, naquele momento, perguntou-se por que o cordial propagandista não se mantivera em contato com ele, conforme prometera.

— Convidamos seu pai muitas vezes — continuou Bill. — Não apenas para participar dos cruzeiros mas também para visitar nossas instalações de pesquisa em Porto Rico. Talvez você possa convencê-lo a aceitar nosso convite. Tenho certeza de que, se aceitasse, ele mudaria de opinião sobre a Arolen.

Adam obrigou-se a rir.

— Nesta altura de minha vida, eu não poderia convencer meu pai a aceitar, de presente, um quadro de Rembrandt. Mal nos falamos. para ser franco, foi um choque para mim vê-lo hoje aqui.

— Que pena. Adoraríamos que seu pai fosse um de nossos destacados conferencistas. Assim, todas as despesas dele seriam pagas.

— Parece que o senhor deve tentar apelar para minha mãe — respondeu Adam, sorrindo.

— Esposas não são convidadas — explicou Bill, enquanto levava Adam para a mesa do champanha.

— Por que não? — perguntou Adam, servindo-se da bebida.

— Os cruzeiros são estritamente de estudos.

— Sim, claro — duvidou Adam.

— Estou falando sério — garantiu Bill. — Os cruzeiros são patrocinados pela Arolen mas dirigidos pela MTIC. A única razão pela qual a companhia escolhe um navio é para conservar os médicos a salvo das interrupções habituais: nem telefonemas, nem pacientes, nem corretores de ações. Cada cruzeiro concentra-se num determinado tópico clínico ou de pesquisa, e convidamos como conferencistas as figuras mais destacadas em cada campo.

— Assim, o navio se faz simplesmente ao largo e ancora? — perguntou Adam.

— Oh, não — explicou Bill. — O navio parte de Miami, segue até as Ilhas Virgens, toca em Porto Rico e volta a Miami. Alguns convidados, em geral os conferencistas, desembarcam em Porto Rico a fim de visitar nosso instituto de pesquisas.

— De modo que é tudo trabalho e nada de diversão. Nem mesmo um pouco de jogo?

— Bem, apenas um pouco de jogo — reconheceu Bill com um sorriso. — De qualquer modo, seu pai apreciaria a experiência, de modo que, se tiver alguma influência no que a isso interessar, talvez queira usá-la.

Adam inclinou a cabeça, mas continuava a pensar em Percy Harmon-. Ele parecera tão sincero que estava surpreso por ele não ter telefonado. Ia perguntar a Shelly quando o propagandista deixara Manhatan, mas nesse momento o chefão dizia:

— Pensou mais um pouco em nosso oferecimento de treinamento administrativo?

— Para dizer a verdade — respondeu Adam — estive inteiramente absorvido no curso de vendas. Mas prometo que vou pensar no caso.

— Faça isso — sugeriu Bill, os olhos brilhando sobre a borda da taça de champanha.

Depois, naquela mesma tarde, no gabinete de McGuire, conheceu seu território de vendas.

— Você vai assumir a área de Percy Harmon — informou McGuire. — Normalmente, designaríamos um representante mais experiente mas, como sabe, temos grande confiança em você. Aqui, deixe-me mostrar-lhe a zona.

Clarence abriu um mapa de Manhattan, no qual uma grande parte da zona leste estava marcada com lápis amarelo. Começava na Rua 34 e se estendia para o norte, limitada a oeste pela Quinta Avenida e a leste pelo rio. Ficou desapontado porque a área não incluía seu centro médico, mas abrangia o New York Hospital, o Mount Sinai e a Clínica Julian.

Como se lhe lesse a mente, Clarence disse:

— Claro, você compreende que não é responsável pelos hospitais ou por grandes empresas de manutenção da saúde, como a Clínica Julian.

— Por que não? — quis saber Adam.

— Você está entusiasmado! — riu Clarence. — Mas posso lhe garantir que terá trabalho de sobra com os médicos particulares de sua área. Todos os hospitais são atendidos pela sede.

— A Clínica Julian é mais do que um hospital — lembrou Adam.

— É verdade — concordou Clarence. — De fato, há um relacionamento especial entre a Arolen e a Julian, uma vez que ambas são controladas pela Infomed. Em conseqüência, a Julian proporciona à Arolen acesso direto a informações de natureza clínica e a Arolen proporciona à Julian instalações educacionais especiais. — Inclinando-se para a frente, Clarence apanhou um formulário de computador e colocou-o no colo de Adam. — Se pensou que não ia ter trabalho suficiente, simplesmente dê uma olhada nesta lista de clientes.

Era considerável o peso do material no colo de Adam. Na primeira página, um título: "Listagem de Médicos da Alta East Side de Manhattan". Embaixo, uma advertência: "Propriedade da Arolen Phar-maceuticals, Montclair, Nova Jersey" e, no canto inferior direito, uma única palavra: "Confidencial".

Adam folheou as páginas e em todas elas havia uma lista alfabética.

de médicos, seguida de seus endereços e números de telefone. O primeiro nome na última página era Clark Vandermer, 67 East Rua 36. Enquanto Adam pensava no que seria visitar o obstetra de Jennifer, McGuire iniciou uma longa descrição dos tipos de médicos que ele conheceria.

— Alguma pergunta? — perguntou finalmente.

— Sim — respondeu Adam, lembrando-se da pergunta que se esquecera de fazer a Shelly naquela manhã. — Sabe o que aconteceu com Percy Harmon?

Clarence sacudiu a cabeça.

— Ouvi dizer que ele ia fazer o curso de administração em Porto Rico mas não sei se foi realmente para lá. Por que pergunta?

— Nenhuma razão especial — retrucou Adam.

— Bem, se não tem mais perguntas, pode começar. Estaremos sempre à disposição, se precisar de nós e, quase ia me esquecendo, estas são as chaves do carro da Arolen que você vai usar. É um Buick Century.

Adam recebeu as chaves.

— E este aqui é o endereço da garagem onde é guardado. Fica tão próxima de seu apartamento quanto meu pessoal pôde arranjar. O aluguel corre por nossa conta.

Adam guardou o endereço, mais uma vez espantado com a generosidade da companhia. Uma vaga de estacionamento na cidade valia tanto quanto um carro.

— E, finalmente, embora não menos importante, este aqui é o seu código de acesso a seu computador, conforme lhe foi explicado durante o curso de vendas. Seu computador pessoal está na mala do carro. Boa sorte.

Adam recebeu o último envelope e mais uma vez apertou a mão do gerente distrital de vendas. A partir desse momento era, oficialmente, propagandista da Arolen.

Depois de sintonizar o rádio do carro para uma estação de FM de rock, baixou a janela e botou elegantemente o cotovelo para fora. viajando a 80 por hora, sentiu-se inexplicavelmente delirante de alegria. Lembrou-se em seguida da escarnecedora incredulidade do pai e o sorriso desapareceu.

— Precisamos do dinheiro! — falou em voz alta. — Se você tivesse nos ajudado, eu ainda estaria na faculdade de medicina.

O estado de espírito em nada melhorou ao chegar ao apartamento e encontrá-lo vazio, com um curto bilhete pregado no refrigerador: "Fui à casa da mamãe." Arrancou o bilhete, rasgou-o e lançou-o para o outro lado da cozinha.

Abriu e examinou a geladeira. Havia um resto de galinha assada. Tirou-o juntamente com um pote de maionese e dois pedaços de pão de centeio. Depois de fazer um sanduíche, voltou à sala de estar e instalou seu computador pessoal. Ligando-o, discou seu código de acesso. A respeito de que médico devia pedir informações? Hesitou por um momento e digitou o nome Vandermer. Em seguida, tirou o telefone do gancho e ligou-o ao modulador/demodulador. Realizados todos os passos iniciais, apertou o botão "Siga", recostou-se e deu uma grande mordida no sanduíche. Pequenas luzes vermelhas apareceram no modulador/demodulador, indicando que estava ligado ao computador principal da Arolen.

A tela a sua frente tremeluziu e em seguida apareceu um texto. Parou de mastigar por um momento e inclinou-se para a frente a fim de ler os dados.

CLARK VANDERMER, M.D. F.A.C.O.G.

Dados biográficos

Dados pessoais

Dados econômicos

Dados profissionais

Dados sobre uso de produtos farmacêuticos

(Pressione tecla de espaçamento para selecionar)

Com o interesse despertado, apertou a barra espaçadora até que o cursor ficou alinhado com "Dados Pessoais". Pressionou a tecla "Siga". Mais uma vez, obteve um índice:

DADOS PESSOAIS:

História familiar (passado) inclui pais e irmãos

História familiar (presente) inclui esposa e filhos

Interesses e hobbies

Simpatias e antipatias

História social (inclui educação formal)

História clínica

Perfil de personalidade

(Pressione tecla de espaçamento a fim de selecionar)

Deus do céu, pensou, isto é o próprio 1984, de Orwell. Moveu o cursor para "História familiar (presente)" e mais uma vez baixou a tecla "Siga". Imediatamente, a tela encheu-se com um longo texto. Nos dez minutos seguintes, leu tudo o que havia sobre a esposa e os filhos de Clark Vandermer. Na maior parte, detalhes insignificantes, mas também algumas coisas importantes. Soube que a esposa de Vandermer fora hospitalizada em três ocasiões para tratamento de depressão, em seguida ao nascimento do terceiro filho. Descobriu também que o filho do meio, uma mulher, tinha diagnóstico de anorexia nervosa.

Abismado, ergueu a vista da tela. Não havia razão para uma empresa de produtos farmacêuticos como a Arolen ter um fichário completo sobre um médico. Desconfiou que tudo o que a empresa podia usar estava resumido sob a categoria "Dados sobre o uso de produtos farmacêuticos". A fim de verificar se acertara, digitou essa categoria e obteve o que esperava, isto é, uma análise dos hábitos de prescrição de receituário de Vandermer, incluindo os volumes de cada tipo de medicamento que ele receitava durante o ano.

Voltando ao índice, pediu ao computador que imprimisse um dossiê completo sobre o Dr. Vandermer. A impressora de alta velocidade começou a funcionar enquanto Adam voltava à cozinha para apanhar um refrigerante.

Passaram-se 32 minutos antes que a impressora recaísse no silêncio. Destacou a última folha e reuniu o longo novelo que se formara atrás do computador. Quase 50 páginas. Perguntou-se se o bom doutor tinha a menor idéia do volume de material que a Arolen reunira sobre ele.

O conteúdo do relatório era seco e tediosamente completo. Incluía mesmo os investimentos feitos por Vandermer. Folheou as páginas até chegar à descrição da clientela de Vandermer. Descobriu que o médico era co-fundador da Ginecologistas Associados, juntamente com Lawrence Foley! Lawrence Foley, o médico que cometera suicídio de forma tão inesperada. Perguntou-se se Jennifer sabia que Foley fora sócio de seu próprio médico no consultório.

Continuando a ler, descobriu que os atuais sócios de Vandermer eram o Dr. John Stens e a Dra. June Baumgarten.

Espicaçado pela curiosidade, resolveu que o Dr. Vandermer seria sua primeira visita. Lembrando-se do conselho de Percy Harmon, de Que o acesso a médicos é sempre feito através da recepcionista, discou-lhe o nome no computador. Chamava-se Christine Morgan, tinha 27 anos, era casada com David Morgan, pintor, e tinham um filho homem, David Júnior, apelidado DJ.

Procurando conjurar do ar o jeitão confiante de Percy Harmon, ligou para a Ginecologistas Associados. Quando Christine atendeu, ex-plicou que estava assumindo a zona de Harmon. De passagem, mencionou que o colega falara calorosamente do lindo filho dela. Deve ter acertado em cheio porque Christine lhe disse que poderia vir naquele mesmo dia. Tentaria conseguir fazer com que ele fosse recebido.

Cinco minutos depois, dirigia-se para o norte pela Park Avenue, tentando lembrar-se que medicamentos da Arolen devia tentar convencer a Ginecologistas Associados a receitar. Resolveu que se concentraria na linha geral de vitaminas que a Arolen anunciava para a gravidez.

Nas vizinhanças da esquina da Rua 36 com Park Avenue era difícil encontrar até zonas de reboque desocupadas. Teve de contentar-se com um espaço em frente a um hidrante, entre a Park e a Lexington. Depois de fechar o carro, deu a volta e abriu a mala. O compartimento estava abastecido com uma linha completa de amostras, reproduções de artigos e uma parafernália variada. Havia também uma dúzia de canetas Cross com o emblema da Arolen. Sua distribuição ficava a seu critério.

Escolheu um conjunto apropriado de amostras de medicamentos e reprodução de literatura médica e colocou-o na pasta. Enfiou uma das canetas Cross no bolso lateral do paletó. Fechando a mala do carro, dirigiu-se em passos vivos para o consultório de Vandermer.

Christine Morgan era uma mulher que usava uma permanente curta nos cabelos, e tinha maneiras de pássaro assustado. Deslizou para fora da porta de vidro e perguntou se lhe podia ser útil em alguma coisa.

— Sou Adam Schonberg, da Arolen — respondeu ele com o maior sorriso de que foi capaz, enquanto entregava seu primeiro cartão comercial com o nome Arolen.

Ela retribuiu o sorriso e com um gesto convidou-o a passar para a área de recepção. Depois que ele admirou as fotos mais recentes de DJ, Christine levou-o para uma das salas de exame vazias, prometendo que diria à enfermeira-chefe que ele estava ali.

Adam sentou-se num banco em frente a uma pequena escrivaninha branca. Olhou para a mesa de exame, com seus apoios de aço inoxidável para os pés. Era difícil imaginar Jennifer deitada ali como paciente.

Minutos depois, a porta foi aberta de chofre e o Dr. Clark Vandermer entrou. A fim de passar o tempo, Adam puxara a gaveta da escrivaninha e estava olhando casualmente para a coleção de canetas, blocos de receituário e requisições de exames laboratoriais. Tornando-se escarlate nesse momento, fechou a gaveta e levantou-se.

— Estava procurando alguma coisa em particular? — perguntou sarcasticamente o Dr. Vandermer. Com o cartão comercial na mão, olhava alternadamente do pedaço de cartolina para o rosto embaraçado do visitante. — Quem, diabo, deixou-o entrar aqui?

— Funcionários seus — conseguiu dizer Adam, propositadamente vago.

— Falarei com eles — respondeu o Dr. Vandermer, virando-se para se retirar. — Vou mandar alguém acompanhá-lo. Tenho clientes a examinar.

— Trouxe algumas amostras para o senhor — disse rapidamente Adam. — E também uma caneta Cross.

Rapidamente, puxou a caneta e estendeu-a a Vandermer, que nesse momento estava prestes a rasgar em dois seu cartão comercial.

— O senhor é por acaso parente de Jennifer Schonberg? — perguntou o Dr. Vandermer.

— Ela é minha mulher — respondeu Adam imediatamente, acrescentando: — E sua paciente.

— Eu pensava que o senhor fosse estudante de medicina — estranhou o Dr. Vandermer.

— E é verdade — retrucou Adam.

— Então, que diabo de absurdo é este? — perguntou Vandermer, agittando o cartão.

— Tranquei a matrícula na escola de medicina — respondeu Adam, caindo na defensiva. — Com Jennifer grávida, nós precisávamos de dinheiro.

— Esta não é a ocasião para vocês terem um filho — disse Van-denmer pedantemente. — Mas se são suficientemente tolos para fazerem isso, sua mulher pode trabalhar ainda.

— Ela é dançarina — respondeu Adam.

Lembrando-se dos próprios problemas pessoais de Vandermer, Adam não achou que fosse justo o médico oferecer soluções fáceis.

— Bem, é um crime você deixar a escola de medicina. E para trabalhar como propagandista de uma indústria de produtos farmacêuticos.. Deus do céu, que desperdício!

Adam mordeu o lábio. Vandermer começava a lembrar-lhe o pai. Na esperança de pôr um ponto final no sermão, perguntou a Vandermer se não se podia fazer alguma coisa com o enjôo de Jennifer.

— Cinqüenta por cento de minhas pacientes têm náuseas matinaiss -- respondeu o Dr. Vandermer com um gesto de pouco caso da mão. — A menos que cause problemas nutricionais, é melhor tratar sintomaticamente esse estado. Não gosto de usar medicamentos, se os posso evitar, e especialmente não o Pregdolen da Arolen. E não comece a bancar o médico e dar a ela aquela porcaria. Não é segura, a despeito de sua popularidade.

A opinião de Adam sobre o Dr. Clark Vandermer subiu um pouco. Ele podia ser desagradavelmente brusco mas pelo menos estava atualizado, em suas leituras médicas.

— Enquanto está aqui, o senhor pode me poupar um telefonema. Estou escalado para fazer uma palestra na próxima semana no Congresso Médico e Cruzeiro patrocinado pela Arolen. Qual é a última hora em que posso tomar o navio em Miami?

— Não tenho a menor idéia — reconheceu Adam.

— Maravilhoso. — O Dr. Vandermer reassumiu seu tom sarcástico. — Agora, se quiser fazer o favor de me acompanhar...

Pegando a pasta, Adam seguiu-o para fora da sala de exame e pelo estreito corredor. Uns vinte passos adiante, Vandermer parou, abriu uma porta e afastou-se para o lado a fim de permitir que Adam passasse. No momento em que ele cruzava a soleira, Vandermer, sem a menor cerimônia, enfiou-lhe o cartão comercial da Arolen na mão e em seguida fechou a porta. Pestanejando, Adam descobriu que estava de volta à apinhada sala de espera.

— Falou com o médico? — perguntou Christine.

— Falei, realmente — respondeu Adam, perguntando-se por que, diabo, não haviam discutido os cruzeiros da Arolen durante o curso de vendas. Se tivesse sabido a resposta à pergunta de Vandermer, poderia ter passado sua cantada de propagandista.

— Eu lhe disse que conseguiria que você fosse recebido — vangloriou-se Christine.

Adam ia perguntar se podia falar com os outros médicos do grupo quando notou as placas de nomes, na parede atrás da mesa da recepcionista. Além de Vandermer, Baumgarten e Stens, os Drs. Law-rence Foley e Stuart Smyth eram também listados. Não se lembrava de ter visto nenhum Dr. Smyth nos dados relativos a Vandermer.

Enfiando a mão no bolso, tirou a caneta Cross.

— Tenho uma pequena surpresa para você — disse, entregando-a a Christine. Ignorando-lhe os agradecimentos, apontou para o nome do Dr. Smyth: — Ele é sócio novo?

— Oh, não — respondeu Christine. — O Dr. Smyth é sócio do consultório há quinze anos. Infelizmente, está muito doente. Mas nunca tive muito contato com ele. Ele encaminhou a maioria de suas pacientes para a Clínica Julian.

Adam voltou a olhar para as placas.

— Esse aí é o Dr. Foley, que cometeu suicídio?

— É... Que tragédia — lamentou Christine. — Era meu médico favorito. Mas também não tivemos muito contato com ele nos últimos seis meses. Ele começou também a encaminhar suas pacientes para a clínica.

O comentário de Christine sacudiu-lhe a memória. Percy Harmon dissera que estava preocupado porque tantos médicos, incluindo Foley, estavam abandonando as clínicas para irem trabalhar na Julian.

— Você estava aqui quando o Dr. Foley foi embora? — perguntou.

— Infelizmente — admitiu Christine. — Foi um pesadelo porque todas as pacientes dele tiveram de ser avisadas e reencaminhadas.

— Ele fez alguma viagem antes de se mudar daqui? — perguntou Adam.

— Acho que sim — respondeu Christine. — Se me lembro bem, ele esteve em algum tipo de congresso de médicos. Acho que num cruzeiro.

— O que me diz dos Drs. Baumgarten e Stens? — perguntou Adam. — Estão aqui hoje?

— Sinto muito — obstou Christine. — Estão operando agora.

— Não entendo — disse Adam duas horas depois, agitando os pauzinhos de comer em frente a Jennifer. — Como é que você esteve doente demais para ir até a Arolen esta manhã, mas suficientemente boa para ir às compras com sua mãe durante toda a tarde?

Jennifer baixou os olhos, empurrando as verduras em volta do prato. Antes, tentara explicar a Adam por que era importante para ela conversar com a mãe. Adam, porém, ignorara a explicação com um encolher de ombros e, naquele momento, em vez de dizer alguma coisa grosseira, resolveu não dizer coisa alguma.

Tamborilou os dedos no tampo de fórmica da mesa. Desde que Jennifer descobrira que estava grávida, ao que parecia eles não conseguiam conversar racionalmente sobre coisa alguma. Receou que, se a criticasse mais, ela começasse a chorar.

— Escute aqui, esqueça tudo sobre hoje. Vamos simplesmente aproveitar o jantar. Você está linda. Vestido novo?

Ela inclinou a cabeça e ele desconfiou que o vestido fora presente da mãe dela.

— É muito bonito — falou diplomaticamente.

Jennifer, porém, não queria ser acalmada.

— O vestido pode ser bonito mas eu me sinto horrível. Achava que estar grávida me tornaria refulgente de feminilidade, mas me sinto simplesmente gorda e feia. — Como Adam continuasse calado, ela prosseguiu: — Acho que muita coisa disto tem a ver com este enjôo horrível. Não sei por que chamam a isso náusea matinal, quando dura o dia inteiro.

Adam apertou-lhe a mão por cima da mesa. Na esperança de animá-la, começou a contar sua desastrosa visita ao Dr. Vandermer. Enquanto falava, o rosto dela começou a relaxar.

— Eu lhe disse que ele tem um jeito horroroso de tratar as pacientes — riu Jennifer. — Ele falou alguma coisa de útil sobre a náusea?

— Não, apenas que passaria e que você está indo bem. Jennifer suspirou. Saindo do restaurante, ela pouco mais falou e quando chegaram em casa, foi para a cama e ligou a TV na novela.

Deprimido por seu primeiro dia como propagandista e preocupado com o silêncio da mulher, Adam ligou nervoso o computador. Preguiçosamente, digitou a Ginecologistas Associados, pensando em acrescentar o nome do Dr. Smyth. Para sua surpresa, o nome já constava. Perguntando-se se por acaso não cometera um erro naquela tarde, voltou ao formulário impresso sobre Vandermer. O nome Smyth não estava listado. A fim de fazer uma verificação cruzada, digitou os demais colegas do médico, Stens e Baumgarten. Nem Smyth nem Foley apareciam nos dados relativos a eles.

Mordeu o lábio inferior. No programa devia haver controles que indicariam uma omissão como essa. Ou talvez os programadores houvessem esquecido de incluir a verificação cruzada. Se este fosse o caso, achou que provavelmente deveria notificar a Arolen.

Curioso sobre que colegas apareceriam nos dados de Smyth, digitou-lhe o nome. O monitor piscou e em seguida transmitiu uma curta mensagem: "OBS-GIN, Curso de Cruzeiro 9/9/83. Curso de recapitulação marcado para 6/5/84, com visita planejada ao Centro de Pesquisas de Porto Rico." Adam cocou os cantos da boca. Obviamente, o computador sabia da existência de Smyth mas, aparentemente, não possuía dados sobre ele. Essa Adam não conseguiu entender.

Abriu a lista de clientes e desceu odedo pelos nomes. Smyth não era nem mencionado. Achou que a Arolen atendia Smyth na Clinica Julian, mesmo que, tecnicamente, ele fosse sócio da Ginecologistas Associados. Ainda assim, aquilo tudo parecia muito estranho.

Confuso, resolveu consultar o dossiê de Lawrence Foley. A máquina imprimiu uma única palavra: "Terminado".

Humor meio negro da parte de algum programador, pensou Adam.

Nas três semanas seguintes, melhorou bastante a sua eficiência como propagandista. Enquanto abastecia de amostras os médicos da lista, a maioria se mostrava satisfeita em ouvi-lo exaltar as virtudes da Arolen Pharmaceuticals. Raramente punham em dúvida suas alegações ou indagavam sobre possíveis efeitos colaterais. Animado, divulgou o melhor que pôde toda a linha de medicamentos da Arolen, com a única exceção do Pregdolen. Haviam-no impressionado o artigo na revista e o aviso de Vandermer, e não queria ser responsável pelo incentivo do uso de um medicamento potencialmente tão perigoso.

Às noites, consultava o computador sobre os médicos que pensava em visitar em seguida, mas apenas em busca de informações que ajudassem as vendas. Resolveu não se preocupar com possíveis omissões ou inexatidões, como a que descobrira envolvendo a Ginecologistas Associados.

Porém, justamente quando estava relaxando e se acomodando na nova rotina, aconteceu algo que lhe despertou dúvidas. Tinha hora marcada para visitar um grupo de ocupados clínicos gerais e quando foi visitá-los no consultório, a recepcionista lhe disse que todos haviam cancelado o encontro. Um dos sócios acabara de voltar de um cruzeiro patrocinado pela Arolen e anunciara que ia abandonar a clínica particular e que passaria a trabalhar na Clínica Julian. Os outros médicos estavam furiosos e não sabiam o que fazer para atender os clientes do colega.

Adam deixou o consultório, lembrando-se de que Percy Harmon descrevera um incidente parecido. Esse fato lembrou-lhe também que nunca descobrira por que Percy não entrara em contato com ele. Quando perguntara em Nova Jersey, ninguém parecia saber bem onde Harmon se encontrava, embora ele não tivesse, aparentemente, conforme planejado, ido fazer o curso em Porto Rico. Sabendo como Percy estivera interessado no programa administrativo, achou aquilo muito esquisito.

Certa tarde, terminando cedo as visitas, resolveu dar uma passada na sede a fim de verificar se Bill Shelly poderia responder a algumas de suas perguntas. Queria também descobrir mais alguma coisa sobre os misteriosos cruzeiros patrocinados pela Arolen. Embora não estivesse

pronto ainda para se mudar para Porto Rico, achava que um seminário médico de cinco dias no mar poderia ser uma experiência fascinante. Faria com que se sentisse novamente de volta à faculdade de medicina. E talvez umas pequenas férias recolocassem seu casamento em perspectiva. Com o agravamento dos enjôos, Jennifer passava cada vez mais tempo na casa dos pais. Quando tentava interessá-la em seu novo emprego ou convencê-la a visitar algumas amigas, ela simplesmente cortava-o.

Eram quase 3h30m quando entrou no pátio de estacionamento da Arolen. Shelly informara que estaria desocupado na meia hora seguinte. Um guarda uniformizado conferiu com o gabinete de Shelly, antes de permitir o ingresso de Adam no local. Ao chegar ao andar do executivo, a secretária de Bill, Joyce, esperava-o junto à recepcionista.

— Que prazer vê-lo de novo, Sr. Schonberg — cumprimentou-o ela. — Bill está lá em cima. Quer me seguir, por favor?

Ao fim do corredor, Joyce abriu a porta para um pequeno elevador. Entrou e, usando a mesma chave, selecionou o 21º andar. Espantado, Adam descobriu que estava subindo pelo lado externo do prédio, numa gaiola de vidro. Não era uma sensação agradável, e fechou os olhos para a paisagem de Jersey até que o elevador parou.

Foi recebido por um homem profundamente musculoso, usando camiseta e calças caqui.

— Adam Schonberg? — perguntou ele, levando-o por um corredor feericamente iluminado pelo sol.

Toda a parede externa era de vidro, e Adam afastou-se dela tanto quanto possível. Não tinha exatamente vertigem de alturas mas não gostava delas. Sentiu-se melhor quando entraram numa sala de estar vazia. Viu um aparelho de televisão ligado num noticiário. Do outro lado da sala de estar, havia um compartimento com uma aparelhagem de ginástica e, mais além, um vestiário ladeado de cubículos de massagens. Uma larga porta na extremidade mais distante abria para uma piscina.

O homem de camiseta abriu a porta mas não o seguiu. Durante um momento, a luz foi forte demais e Adam mal conseguiu ver alguma coisa. Uma parede inteira era de vidro, erguendo-se por dois andares e curvando-se sobre si mesma a fim de formar parte do telhado. O chão era de mármore branco brilhante e a piscina de mosaico bran co com marcas azuis.

Um nadador solitário ia e vinha vigorosamente na piscina. No" momento de fazer o retorno, viu Adam e nadou para a borda. Usava óculos

pequeninos de nadador, que lhe cobriam justamente os olhos, e uma touca de borracha de competição.

— Que tal uma nadada? — perguntou Bill Shelly. Adam sacudiu a cabeça.

— Sinto, mas não trouxe meu calção.

— Não há necessidade de calção agora. Esta hora é reservada aos homens. Vamos, experimente. Tenho certeza de que Paul pode lhe arranjar uma toalha.

Adam hesitou. Realmente, não havia motivo para recusar, e a oportunidade de nadar a uns vinte andares do solo não aparecia todos os dias.

— Tudo bem — concordou. — Onde é que encontro Paul?

— Volte ao vestiário. Há um botão de campainha na parede. Aperte-o e Paul aparecerá como se fosse o gênio da lâmpada.

Adam fez o que ele mandou. Paul deu-lhe um armário no vestiário e lhe forneceu uma toalha enorme e um roupão de banho de tecido felpudo branco.

Adam despiu-se e vestiu o roupão. Dirigindo-se para o lado externo, sentiu-se agudamente consciente da brancura de inverno de seu corpo e perguntou-se como Shelly mantinha aquele bronzeado. Extremamente embaraçado, tirou o roupão protetor e mergulhou. A água estava gelada.

— Conservamos a piscina fria assim porque é estimulante — explicou Bill ao notar a expressão dolorida no rosto de Adam.

Começando a nadar, Adam sentiu-se melhor. No entanto, quando tentou imitar as braçadas rápidas de Bill, conseguiu apenas encher o nariz de água. Rompeu a superfície tossindo e cuspindo.

Bill teve pena dele e levou-o de volta ao vestiário, sugerindo para ambos uma curta massagem.

— Sobre o que você queria me falar? — perguntou Bill, quando se acomodaram em mesas vizinhas.

Adam hesitou. Mesmo que Bill sempre houvesse se mostrado atencioso, nunca abandonara suas frias maneiras executivas.

— Eu queria saber mais alguma coisa sobre os cruzeiros em que são realizados congressos médicos — respondeu, enquanto Paul com um gesto mandava que ele rolasse sobre as costas. — Meus clientes sempre me fazem perguntas sobre eles.

— O que eles querem saber?

— Quem pode ir. Como a empresa seleciona as várias especialidades. Se há alguém na Arolen de quem possam obter informações.

— Eles podem ligar para o número da MTIC, com a ligação paga pela empresa — respondeu secamente Bill. — Eu estava esperando que você fosse me dizer que resolvera fazer o curso de treinamento administrativo.

— Neste momento, ainda não — respondeu Adam, enquanto Paul continuava a lhe massagear os ombros. — Mas eu estava pensando em se o senhor não estudaria a possibilidade de me incluir num dos cruzeiros. Neles vai algum propagandista?

— Lamento dizer que não — retrucou Bill, levantando-se e começando a vestir-se. — Há muitas pessoas aqui que gostariam de ir também. Infelizmente, o Fjord não é um navio tão grande assim. De qualquer modo, você acharia a viagem chata. Uma vez que a finalidade do programa é proporcionar atualização ao médico ativo, a maior parte das áreas de entretenimento do navio foi convertida em salas de aulas.

— Ainda assim eu gostaria de ir.

— Sinto muito — respondeu Bill, que obviamente estava perdendo o interesse pelo assunto. Foi até um espelho dar o nó na gravata. — Acho que seria bom para você concentrar-se no trabalho que se espera que esteja fazendo.

Adam chegou à conclusão de que aquele não era o momento de fazer perguntas sobre médicos que haviam abandonado a clientela após participarem de um cruzeiro. Evidentemente, Bill Shelly começava a irritar-se com as perguntas. Enquanto se vestia e seguia o executivo até o elevador, teve o cuidado de manter a conversa em tópicos neutros. Mais tarde, porém, voltando a Nova York, continuou a pensar em algumas das ocorrências estranhas que nesse momento ligava aos cruzeiros da Arolen. Perturbava-o em especial o desaparecimento de Percy Harmon. Ao saber que ele não fora para Porto Rico, tentara telefonar-lhe, mas não obtivera resposta alguma. Entrando na cidade pelo Lincoln Tunnel, resolveu parar no apartamento de Percy. Talvez um dos vizinhos soubesse do seu paradeiro.

Percy morava numa casa de pedra de aparência arruinada a umas quatro portas da Segunda Avenida. Adam descobriu-lhe o nome sob o botão do apartamento 3C. Apertou-o e esperou.

Numa posição em diagonal do outro lado da rua, um homem vestindo terno azul amarrotado lançou o cigarro no chão e apagou-o sob o calcanhar do sapato. Olhando em ambas as direções, começou a dirigir-se para a casa de pedra, levando enquanto isso a mão ao bolso interno do paletó.

Adam mudou o peso de um pé para o outro e apertou o botão de chamada do porteiro. Quase no mesmo instante, o pequeno saguão encheu-se de um zumbido rouco e Adam abriu a porta. O interior do prédio tinha aspecto arruinado também, embora fosse muito mais limpo do que o de seu próprio prédio. No andar embaixo, ouviu uma porta ser aberta. Dirigiu-se até o alto da escada e olhou para baixo. Um homem com barba por fazer, usando camiseta sem mangas por baixo da camisa, subia nesse momento.

— O que o senhor deseja? — perguntou o porteiro.

— Estou à procura de Percy Harmon — respondeu Adam.

— O senhor e todo mundo — retrucou o porteiro, obviamente indiferente. — Ele não está e não o vejo há mais de um mês.

— Desculpe tê-lo incomodado — disse Adam, enquanto o porteiro descia a escada.

Virando-se para ir embora, Adam hesitou junto à escada. Ouviu o som de porta se fechando no apartamento do porteiro e, obedecendo a um súbito impulso, subiu sem fazer ruído para o terceiro andar. Bateu à porta do 3C mas não obteve resposta. Tentou abrir a porta e descobriu que estava fechada. Enquanto pensava se devia deixar ou não um bilhete, notou uma janela na extremidade do corredor e que dava para uma escada de incêndio.

Embora nunca houvesse feito coisa semelhante na vida, abriu a janela e passou para fora. Um sentimento intuitivo dizia-lhe que alguma coisa acontecera a Percy. Queria examinar o apartamento e verificar se havia algum sinal que indicasse há quanto tempo ele estava desaparecido.

Na escada de incêndio, velha e enferrujada, fez um esforço para não olhar, através da grade de metal, para o pátio cimentado embaixo. Deslizando por fora com as mãos coladas à parede, chegou finalmente à janela de Harmon, semi-aberta uns cinco centímetros. Alimentando a esperança de que ninguém o visse e chamasse a polícia, ergueu a janela. Tendo chegado até ali, achou que nada tinha a perder, e passou para dentro do bolorento quarto de Percy.

O coração batendo forte, deu a volta em torno da cama desfeita e abriu a porta do armário. Encontrou-o cheio de roupas. Virando-se, foi olhar no banheiro. Estava baixo o nível da água no vaso, sugerindo que este não era usado já há algum tempo.

Atravessou novamente o quarto e entrou na sala de estar. Encontrou um jornal na mesinha de café, com a data de sete semanas atrás. Passando à cozinha, observou que os pratos que se encontravam na pia estavam cobertos com mofo flocoso preto. Evidentemente, Percy Harmon pensara em voltar. E era exatamente isso que Adam temia. Alguma coisa inesperada devia ter acontecido ao amigo.

Resolveu sair e chamar a polícia. Antes de deixar a cozinha, porém, um som baixo imobilizou-o. Era o som claro de uma porta se fechando.

Esperou. Ouviu apenas o silêncio. Olhou para a sala de estar. Na porta da frente, a corrente de segurança balançava-se vagarosamente de um lado para o outro.

Quase desmaiou. Se fora Percy quem entrara, por que estaria se escondendo? Permaneceu colado ao lugar onde estava na cozinha, forçando os ouvidos para ouvir algum outro som. Quando o termostato do refrigerador disparou ao lado, gemeu de medo. Finalmente, chegando à conclusão de que pelo menos dez minutos haviam-se passado e que, talvez, tudo aquilo fosse imaginação, entrou na sala de estar e foi olhar no quarto. Viu a janela aberta que dava para a escada de incêndio. Uma brisa leve enfunava as cortinas, formando uma corrente de ar. Calculou que precisaria apenas de um segundo para cruzar o quarto e sair dali.

Não chegou a fazer isso. Ao correr para a janela, alguém saiu do armário. Antes que pudesse reagir, um punho mergulhou em seu abdômen, lançando-o de pernas e braços abertos no chão.

 

Ao chegar à Ginecologistas Associados para o exame mensal, Jennifer notou que era muito menor o número de pessoas à espera do que em todas suas visitas anteriores. Sentando-se num dos sofás, onde ficou sozinha, pegou uma revista mas não conseguiu concentrar-se. Em vez disso, maravilhou-se que nada prejudicial houvesse lhe acontecido e ao filho que trazia no ventre, enquanto o Dr. Vandermer estivera fora num congresso médico. Tivera certeza de que começaria a ter hemorragias quando ele viajasse e, mesmo que não estivesse ainda reconciliada com as maneiras bruscas dele, não queria procurar outro médico. Em menos de quinze minutos, foi levada a uma sala de exames. Tirando as roupas e vestindo um robe de papel, perguntou a enfermeira se o Dr. Vandermer gostara das férias.

— Acho que sim — respondeu Nancy, mas sem entusiasmo. Entregou a Jennifer um recipiente para colher urina e indicou-lhe com um gesto a porta do banheiro.

Alguma coisa no tom da enfermeira incomodou Jennifer, mas quando saiu do banheiro o Dr. Vandermer já estava à espera.

— Não acabei ainda com a Sra. Schonberg — disse Nancy. — O senhor poderia me dar mais alguns minutos? Ainda tenho de tirar sangue para o hematócrito e pesá-la.

— Eu só queria dizer alô. — A voz do médico era inusitadamente gentil, sem resquício da brusquidão habitual. — Como vai você, Jennifer? Parece bem.

— Estou bem — respondeu Jennifer surpresa.

-- Bem, volto logo que Nancy tiver terminado.

Fechou a porta. Nancy ficou um momento olhando para o lugar por onde ele saíra.

— Deus! — exclamou ela. — Se eu não o conhecesse bem, juraria que ele bebeu alguma coisa.. Desde que voltou, tem-se mostrado esquisito. É muito mais gentil com as pacientes mas tornou meu trabalho dez vezes mais difícil. Oh, bem... — Virou-se para Jennifer: — Vamos tirar o sangue e verificar seu peso.

Mal acabara quando o Dr. Vandermer voltou.

— Eu me encarrego de tudo agora — falou ele no mesmo tom sem expressão. — Seu peso está ótimo. Como vem se sentindo em geral?

— Não a examinei ainda — interrompeu-o Nancy.

— Está tudo bem — retrucou o Dr. Vandermer. — Por que não faz o hematócrito enquanto converso com Jennifer?

Com um suspiro audível, Nancy pegou os tubos de hematócrito e deixou a sala.

— Bem, como você tem passado? — perguntou novamente o Dr. Vandermer.

Jennifer fitou o homem a sua frente. Ele tinha a mesma aparência bem conservada, embora o rosto estivesse caído, como de exaustão. Os cabelos também pareciam um pouco diferentes, mais cheios e em vez das maneiras habituais apressadas dava-lhe a impressão de que realmente queria saber o que ela pensava.

— Acho que estou me sentindo muito bem.

— Você não parece muito entusiasmada.

— Bem... — começou Jennifer. — Estou menos cansada mas o enjôo matinal piorou, a despeito de tudo que faço com a dieta.

— Como é que você se sente a respeito de sua gravidez? — perguntou o Dr. Vandermer. — Às vezes, as emoções têm importância em nosso bem-estar.

Jennifer olhou para o rosto do Dr. Vandermer. Ele parecia realmente interessado.

— Para dizer a verdade, eu me sinto muito ambivalente sobre o fato de estar grávida.

Até aquele momento, não quisera reconhecer isso, nem para a mãe. O Dr. Vandermer, porém, não parecia desaprová-la.

— Dúvidas são muito comuns — falou ele suavemente. — Por que não me diz como se sente, realmente?

Animada pela atitude do médico, Jennifer contou-lhe todos os seus receios sobre sua carreira e seu relacionamento com Adam. Reconheceu que o médico tivera razão. Aquele não era o momento apropriado para terem um filho. Falou durante quase dez minutos, salva das lágrimas apenas pela estranha falta de emoção na expressão do Dr. Vandermer. Ele demonstrava algum interesse, mas apenas de uma maneira muito remota.

Quando ela terminou, ele falou gentilmente:

— Foi bom que tivesse confiado em mim. Não é sadio reprimir sentimentos. Na verdade, podem relacionar-se com a continuação desse enjôo matinal, que já devia ter passado. Acho que teremos de tentar com você alguma medicação. — Virando-se para Nancy, que acabara de voltar à sala, pediu: — Poderia fazer o favor de ir até o depósito e me trazer algumas amostras de Pregdolen?

Nancy saiu sem pronunciar palavra.

— Agora — continuou o Dr. Vandermer — vamos fazer um bom exame em você.

O exame incluiu ultra-sonografia, que o Dr. Vandermer descreveu como um método mediante o qual imagens são formadas quando ondas ultra-sônicas ricocheteiam dos tecidos do bebê. Jennifer não teve certeza de haver compreendido bem mas o Dr. Vandermer garantiu-lhe que o exame era indolor e inofensivo para mãe e feto, o que de fato aconteceu. Embora um auxiliar técnico entrasse na sala para operar a unidade, o Dr. Vandermer insistiu em fazer pessoalmente o teste. Numa tela muito parecida com a de televisão, Jennifer viu os contornos do bebê.

— Quer saber o sexo da criança? — perguntou o Dr. Vandermer, endireitando-se.

— Acho que sim — respondeu Jennifer, não tendo pensado muito no assunto.

— Não posso ter certeza mas, se fosse dar um palpite, diria que é menino.

Jennifer inclinou a cabeça. No momento, não fazia a menor diferença se fosse menino ou menina. Perguntou-se, porém, o que Adam acharia.

De volta à sala de exames, o Dr. Vandermer sentou-se à pequena escrivaninha e começou a anotar os resultados. Dispensou Nancy, que saiu sem pronunciar palavra, obviamente aborrecida por aquela redução de suas atribuições.

Jennifer sentou-se na mesa, em dúvida se devia vestir-se ou não. Finalmente, o Dr. Vandermer voltou-se para ela:

— À parte o enjôo, você está indo bem, e talvez isto aqui acabe com a náusea. — Empilhou as amostras e passou também uma receita. — Tome um comprimido três vezes ao dia.

Jennifer inclinou a cabeça. Estava disposta a tentar tudo.

— Agora — continuou o Dr. Vandermer em seu novo e monótono tom de voz — há duas coisas que quero conversar com você. Em primeiro lugar, na próxima vez em que a examinar será na Clínica Julian.

Jennifer sentiu o coração falsear. A imagem de Cheryl desmoronando no chão relampejou diante de seus olhos. Viu o sangue e sentiu um pânico gelado.

— Jennifer, você está bem? — perguntou o Dr. Vandermer.

— Talvez seja melhor eu me deitar um pouco — respondeu Jennifer, sentindo-se inesperadamente tonta.

O Dr. Vandermer ajudou-a a deitar-se.

— Sinto muito — desculpou-se Jennifer. — Estou bem agora. Por que devo procurá-lo na Clínica Julian?

— Porque resolvi entrar para o quadro de médicos da clínica — respondeu o Dr. Vandermer, tomando-lhe o pulso. — Não estou mais interessado em clientela particular. E posso lhe garantir que, como paciente, você terá o melhor tratamento na Clínica Julian. Agora, está-se sentindo melhor?

Jennifer fez que sim com um aceno de cabeça.

— Esta foi a primeira vez que se sentiu tonta?

— Foi — respondeu Jennifer, e começou a descrever a inesperada morte de Cheryl.

— Mas que experiência pavorosa para você. Especialmente estando grávida. Por sorte, esse problema de coagulação é muito raro e espero que não culpe a Clínica Julian. Ouvi falar nesse caso e soube que a Srta. Tedesco ocultou certos aspectos de sua história médica. O uso contínuo de drogas provocou problemas hematológicos que não apareceram no trabalho de laboratório rotineiro. Se a Srta. Tedesco tivesse sido mais franca, estaria sem dúvida alguma viva ainda hoje. Estou-lhe dizendo isso apenas para que não tenha qualquer dúvida sobre a clínica.

— Ouvi boas referências da clínica antes de ir lá com Cheryl. E sou obrigada a reconhecer que fiquei bem impressionada com o interesse demonstrado pelo pessoal.

— Esse é um dos motivos por que vou trabalhar lá. Os médicos da clínica não estão envolvidos nessa concorrência absurda ligada à clientela particular.

Jennifer sentou-se na cama e ficou aliviada ao notar que a tonteira passara por completo.

— Vai ficar bem agora? — perguntou o Dr. Vandermer.

— Acho que sim — respondeu Jennifer.

— A segunda coisa que quero conversar com você é a possibilidade de fazermos uma punção de membrana.

Jennifer sentiu outro acesso de vertigem, que desta vez passou rapidamente.

— O senhor mudou de idéia. — Era uma afirmação, não uma pergunta.

— De fato — concordou o Dr. Vandermer. — Inicialmente, eu estava convencido de que o problema de seu irmão fora congênito, uma alteração cromossômica após a concepção. Mas obtive as lâminas do hospital onde seu irmão morreu e o laboratório acha que o problema talvez seja hereditário. Dada essa possibilidade, seria um erro não aproveitar toda a tecnologia a nossa disposição.

— O teste demonstraria se meu filho tem algum problema? — perguntou Jennifer.

— Com absoluta certeza — garantiu o Dr. Vandermer. — Mas teremos de fazer isso logo, uma vez que os resultados demoram várias semanas. Se esperarmos demais, será difícil fazer alguma coisa, se o resultado for positivo.

— Por "fazer alguma coisa" o senhor quer dizer aborto? — perguntou Jennifer.

— Exatamente — confirmou o Dr. Vandermer. — As probabilidades de haver algum problema são muito pequenas mas, dada a ambivalência que mencionou, acho que você poderá lidar bem com essa eventualidade.

— Vou ter de conversar com meu marido e meus pais.

Jennifer deixou o consultório nervosa com a possibilidade de fazer uma amniocentese, mas satisfeita porque tinha um médico tão interessado como Vandermer. Teria de confessar a Adam que mudara inteiramente a impressão inicial que o médico lhe causara.

Em nenhum momento Adam perdeu de todo a consciência. Vagamente, notou que estava sendo arrastado para a sala de estar de Percy e lançado sem cerimônia sobre o sofá. Sentiu a carteira ser retirada e recolocada no seu bolso. Essa pequena seqüência não combinou com suas expectativas e, pensando nisso confuso, sacudiu-se do estupor.

A primeira coisa que fez foi procurar os óculos, que lhe foram imediatamente empurrados para a mão. Colocou-os e a sala entrou em foco. Sentado a sua frente viu um homem corpulento, usando terno azul e camisa branca aberta no peito.

— Bom dia — disse o homem. — Seja bem-vindo. Adam mexeu-se, nada lhe doía, o que era de espantar.

— A menos que queira ir até a delegacia de polícia, Sr. Schon-berg, é melhor que me diga o que estava fazendo neste apartamento.

— Nada — grasnou Adam, e depois pigarreou.

— Vai ter de esclarecer melhor isso — observou o homem, acendendo um cigarro e soprando a fumaça para o teto.

— Eu podia dizer o mesmo a seu respeito — retrucou Adam. O estranho estendeu a mão e pegou Adam pelo peito da camisa, quase o levantando do sofá.

— Não estou a fim de piadinhas — rosnou. Adam inclinou a cabeça.

Com tanta rapidez como o pegara, o homem soltou-o.

— Muito bem — recomeçou ele. — Vamos do princípio. O que você estava fazendo neste apartamento?

— Sou amigo de Percy Harmon — respondeu Adam rápido. — Bem, uma espécie de amigo. Eu ia começar a trabalhar para a Arolen Pharmaceuticals e ele fez a visita dos clientes comigo, ensinando-me o trabalho.

O homem inclinou levemente a cabeça, como se acreditasse até aí na história.

— Percy ficou de me telefonar — continuou Adam. — Não telefonou e nunca atendeu neste telefone. De modo que vim aqui para ver se ele estava.

— Isso não explica por que você arrombou o apartamento — observou o estranho.

— Foi um impulso — explicou humildemente Adam. — Eu queria saber se ele estava bem.

O homem ficou calado. O silêncio e a tensão começaram rapidamente a desgastar Adam.

— Gosto de Percy. Estou preocupado com ele. Ele devia ir para Porto Rico a fim de fazer um curso de treinamento, mas não chegou lá.

O homem continuou calado.

— Isso é tudo o que sei — prosseguiu Adam. — Nunca mais o vi.

— Acredito em você — falou o homem, após uma pausa.

— Obrigado — agradeceu Adam, aliviado a um ponto em que podia ter até chorado.

O homem apagou o cigarro. Enfiando a mão no bolso interno do paletó, puxou um cartão e entregou-o a Adam. O cartão dizia: "Rojjert Marlow, Detetive Particular". No canto inferior direito havia um número de telefone.

— Há umas seis semanas, Percy Harmon deixou um restaurante japonês em Fort Lee, Nova Jersey. Não voltou para casa. Fui contratado pela família dele para verificar o que posso descobrir. Estive vigiando este apartamento. À parte umas duas moças, você é o primeiro que apareceu.

— Tem alguma idéia do que possa ter acontecido a ele? — perguntou Adam.

— Nem a mínima — reconheceu Marlow. — Mas se você souber de alguma coisa, pode me telefonar.

Adam sentia-se ainda profundamente abalado quando voltou para o apartamento vazio. A ausência de Jennifer irritou-o. Estava agitado e queria conversar com ela, mas desconfiou que a mulher fora novamente visitar a mãe. Lançou-se sobre a cama e ligou o noticiário da tevê. Aos poucos, começou a relaxar.

Quando menos esperava, ouviu a porta da frente ser aberta e por um momento pensou que estava de volta ao apartamento de Harmon.

— Ora, ora — provocou-o Jennifer —, dormindo na hora do trabalho.

Adam ficou calado.

— O que houve? — perguntou ela.

— Pensei que você tinha ido a Englewood — respondeu ele, seca e tolamente.

Jennifer fitou-o. Não estava disposta a tolerar uma das crises de mau humor do marido. Também não gostava de ter de pedir desculpa por ter ido visitar os pais. Pondo as mãos nas cadeiras, respondeu:

— Fui mesmo lá.

— Foi o que pensei — comentou Adam, voltando-se para a televisão.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Jennifer.

— Nada em particular — respondeu Adam.

— Escute aqui — recomeçou Jennifer, sentando-se na beira da cama —, eu tive uma boa razão para ir lá. O Dr. Vandermer sugeriu que eu fizesse uma amniocentese. Fui até em casa para conversar com eles se devia fazer o exame ou não.

— Isso é lindo — falou sarcástico Adam. — Discute o assunto com seus pais, mesmo se tratando de nosso filho.

— Eu sabia que não poderia falar com você durante o dia — explicou Jennifer, tentando ser razoável. — Claro que eu pensava em conversar sobre isso com você. Mas eu queria falar com mamãe porque ela passou pelo trauma de dar à luz a um bebê anormal.

— Ainda penso que a decisão cabe somente a nós — insistiu Adam. Rolou sobre a cama e pôs os pés no chão, sabendo que estava sendo injusto. — Além do mais, lembro que Vandermer lhe disse que você não precisa de uma amniocentese.

— Isso é verdade — concordou Jennifer. — Mas hoje ele me disse que, depois de ter examinado as lâminas de meu irmão, acha que devo fazê-la.

Adam levantou-se e espreguiçou-se. Pelo pouco que sabia de genética, não achava que Jennifer precisasse de uma amniocentese.

— Talvez você deva obter uma segunda opinião. Quando pedi no início que me indicassem um obstetra, recomendaram-me também Her-bert Wickelman..

Jennifer sacudiu a cabeça.

— Não preciso consultar ninguém mais. Outra opinião confundiria ainda mais o assunto. Estou contente com o Dr. Vandermer e confio nele, especialmente depois que os modos dele mudaram tanto.

— O que você quer dizer com isso? — quis saber Adam.

— Desde que voltou do congresso médico, ele parece ter mais tempo e interesse — explicou Jennifer. — Não está tão apressado.

Adam esqueceu a raiva.

— Ele mudou também de alguma outra maneira? — perguntou.

— Disse que está cansado de clientela particular — respondeu Jennifer, tirando o vestido e dirigindo-se para o banheiro. — Resolveu trabalhar na Clínica julian e, a partir de agora, devo ir consultá-lo lá.

Devagar, Adam recaiu na cama.

— Nunca pensei que voltaria à Julian depois da morte de Cheryl — continuou Jennifer em voz alta, falando do banheiro —, mas o Dr. Vandermer convenceu-me da excelência da clínica. E você sabe que fiquei impressionada com o pessoal de lá.

Adam ouviu o barulho de água na pia do banheiro. Não sabia o que dizer. Não falara coisa alguma a Jennifer sobre o desaparecimento de Percy Harmon ou sobre suas outras suspeitas da Arolen, mas agora que parecia que Vandermer estava envolvido, sabia que tinha de dizer alguma coisa.

Foi até o banheiro, onde encontrou Jennifer lavando o rosto.

— Insisto em que você consulte o Dr. Wickelman. Não gosto dessa idéia de Vandermer passar a trabalhar na Clínica Julian.

Surpresa, Jennifer ergueu o olhar. Ultimamente, havia ocasiões em que Adam agia de modo muito estranho.

— Estou falando sério... — começou ele, mas parou no meio da frase ao ver o conhecido frasco na borda da pia. — Que diabo é isso? — indagou, agarrando o frasco.

Jennifer olhou para o rosto dele e em seguida para o pequeno frasco que ele segurava. Em seguida, virou-se e, em silêncio, pendurou a toalha.

— Eu lhe fiz uma pergunta — berrou Adam.

— Acho que a resposta é óbvia. É Pregdolen. Para o meu enjôo., Agora, se me desculpar...

Fez menção de dirigir-se para o quarto. Adam agarrou-lhe o braço.

— Onde foi que você conseguiu isto? — perguntou, pondo o frasco sob os olhos dela.

Jennifer empurrou o frasco para longe.

— Se quer saber, do Dr. Vandermer.

— É impossível — duvidou Adam. — Vandermer nunca receitaria este remédio.

Jennifer soltou o braço.

— Você está insinuando que estou mentindo?

Adam voltou ao banheiro e colocou na mão algumas das cápsulas azuis e amarelas. Era Pregdolen, sem dúvida alguma.

— Ouviu o que eu disse? — perguntou Jennifer.

— Não quero que você tome este remédio — respondeu ele. — Tem mais dele?

— Vou seguir as instruções de meu médico — retrucou Jennifer.

— Desde que comecei a tomar esses comprimidos, tive o primeiro dia sem enjôo depois de meses. E, lembre-se, foi você, para começar, quem me mandou consultar o Dr. Vandermer.

— Bem, definitivamente, você não vai voltar a consultá-lo.

Tirou a bolsa de Jennifer da prateleira que havia por cima do vaso sanitário e examinou-a. As caixas adicionais de Pregdolen estavam bem no alto.

Tentando agarrar a bolsa, Jennifer gritou:

— Eu gosto do Dr. Vandermer e confio nele. Dê-me minha bolsa! Adam retirou as outras amostras antes de soltar a bolsa.

— Escute aqui! — exclamou. — Não quero que você tome isto. É perigoso.

— O Dr. Vandermer não o receitaria se fosse perigoso — respondeu Jennifer. — E tenciono tomá-lo. Afinal de contas, sou eu que estou sofrendo, não você. E acho que devo lhe lembrar que você não é médico. Na verdade, tudo o que é agora é propagandista de remédios. Adam abriu as caixas de remédio, enquanto, com o pé, erguia a tampa do sanitário.

— Dê-me meu remédio! — gritou Jennifer, compreendendo o que ele ia fazer.

Adam esvaziou no sanitário o conteúdo do primeiro frasco.

Em desespero, Jennifer arrancou um frasco da mão de Adam e correu para o quarto. Atordoado, Adam hesitou e depois correu atrás dela. Durante um minuto, enfrentaram-se em silêncio. Em seguida, Jennifer correu para o banheiro e tentou fechar a porta. Mas não foi suficientemente rápida. Adam pôs o pé na abertura e começou uma pequena prova para saber quem empurrava mais. Aos poucos, centímetro após centímetro, a porta cedeu, até que Jennifer desistiu. Recuou contra o boxe do banheiro, escondendo o frasco às costas.

— Dê-me o Pregdolen — ordenou Adam. Jennifer sacudiu a cabeça, a respiração arquejante.

— Muito bem! — exclamou Adam secamente, avançando e puxando-lhe com força as mãos de trás das costas.

— Não! — gritou Jennifer.

Um após outro, ele lhe abriu os dedos, tomou o frasco e esvaziou-o no sanitário. Jennifer começou a esmurrar-lhe as costas. A fim de proteger-se, Adam ergueu a mão direita, atingindo-a acidentalmente no lado da cabeça. O golpe lançou-a cambaleante contra a parede, momentaneamente atordoada.

Adam derramou o resto das amostras no vaso, dando descarga em seguida. Virou-se depois para desculpar-se, mas ela estava tão furiosa que nem quis ouvi-lo.

— Você não é meu médico — gritou. — Estou cansada de sentir enjôo todos os dias e se ele me passa um remédio com o qual me sinto melhor, vou tomá-lo.

Dirigiu-se em passos rápidos para o quarto e puxou do alto do guarda-roupa sua valise.

— Jennifer, o que você está fazendo? — perguntou Adam, embora estivesse muito claro o que ela pretendia fazer.

Jennifer, sem responder, começou a enrolar roupas e a jogá-las dentro da mala.

— Jennifer, nós podemos ter discussões sem que você tenha de ir embora.

Jennifer virou-se para ele, o rosto muito vermelho.

— Vou para casa. Estou cansada, não me sinto bem e não posso agüentar essas brigas todas.

— Jennifer, eu amo você. O único motivo pelo qual tomei de você aquelas cápsulas foi para proteger nosso filho.

— Não quero saber por que você fez isso. Tenho de me afastar por algum tempo.

Pegou o telefone e Adam ficou escutando enquanto ela ligava para o pai no escritório, combinando ir até lá de táxi, de onde ele poderia levá-la de carro para casa.

— Jennifer, por favor, não faça isso — implorou ele, enquanto ela continuava a pôr coisas na mala.

Recusou-se, sequer, a olhá-lo, fechou a mala, apanhou a bolsa e saiu em passos duros do apartamento.

Sozinho, Adam precisou de alguns minutos a fim de convencer-se de que ela fora realmente embora. Atordoado, foi até a sala e sentou-se em frente ao computador. Ligando-o, acoplou-o ao computador principal da Arolen e tentou acesso aos dados de Vandermer. Queria descobrir se haviam mudado os hábitos de receituário do médico. A tela, porém, continuou vazia, salvo por uma concisa mensagem: "Transferido para a Clínica Julian".

Chocado, perguntou-se se outros dossiês haviam sido também apagados no computador. Pegou o formulário impresso que McGuire lhe dera e pediu à máquina que fizesse nova listagem dos médicos de seu território. O computador havia não só eliminado o dossiê de Vandermer como também outros seis médicos haviam sido eliminados da lista.

Freneticamente, começou a discar os nomes dos médicos expungidos. Não havia dados sobre nenhum deles! Quatro apresentavam lançamentos como os do Dr. Smyth — "Curso de recapitulação marcado..." — sugerindo que, se o médico participava de um dos cruzeiros da Arolen, não precisava mais ser visitado. Dois registros eram iguais ao de Vandermer: "Transferido para a Clínica Julian". Perguntou-se se nesses cruzeiros médicos fazia-se tanta propaganda da Clínica Julian como dos produtos da Arolen.

Mais confuso do que nunca, pediu ao computador para listar todos os médicos que faziam parte do quadro da Clínica Julian. Obedientemente, a impressora começou a funcionar e despejou uma lista de tamanho apreciável. Descendo os olhos pelo papel, parou de súbito ao ver um nome na metade da folha: Dr. Thayer Norton! O que, diabo, estaria Norton fazendo na Clínica Julian? Era o titular da cadeira de clínica médica da universidade.

Lentamente, digitou o nome de Thayer Norton no computador e solicitou seu dossiê. Tudo o que obteve foi: "Transferido para a Clínica Julian"!

Para ele, era inconcebível que o velho guerreiro renunciasse a sua cobiçada cátedra na universidade. Gostaria de saber se ele não fizera recentemente um desses cruzeiros misturados com congressos médicos.

Voltando ao computador, procurou acesso a dados estatísticos sobre a Julian. Descobriu que dos seis médicos transferidos quatro eram especialistas em obstetrícia e ginecologia. Talvez isso provasse alguma coisa. Durante mais meia hora, fez perguntas ao computador, embora a maioria de suas solicitações fosse recusada com a mensagem de que seu código não era reconhecido como dando acesso ao material pedido. Mudando de tática, perguntou o número de vezes em que amnio-centeses haviam sido feitas na Julian no ano civil anterior. Obteve o número: 7.112. Quando perguntou quantas haviam acusado anormalidade no feto, o computador mais uma vez rejeitou seu código de acesso. Finalmente, perguntou quantos abortos terapêuticos haviam sido feitos durante o mesmo período de tempo: 1.217.

Inteiramente desnorteado, desligou o computador e caiu na cama, onde passou a noite enfrentando em sonhos uma indignada Jennifer.

 

Na manhã seguinte, ficou tão transtornado ao encontrar vazio o espaço de Jennifer na cama que saiu do apartamento sem mesmo se importar em tomar uma xícara de café. Às 8h30m, andava impaciente de um lado para o outro da Ginecologistas Associados, esperando que o consultório fosse aberto. No momento em que viu Christine, começou a apertar a campainha.

— Olá, Adam Schonberg.

Achou que era um bom sinal que ela houvesse se lembrado de seu nome. Aprumou o nó da gravata de crochê azul e disse com o sorriso mais sincero de que foi capaz:

— Eu estava passando por aqui e pensei em dar uma chegada para saber dos últimos sucessos de DJ no beisebol.

— Ele está indo maravilhosamente — disse Christine. — Melhor do que eu esperava. Para dizer a verdade...

Adam desligou, enquanto tentava organizar os pensamentos. No momento em que Christine parou para tomar fôlego, disse:

— Quais são as possibilidades de você conseguir que o Dr. Vandermer me receba?

— O Dr. Vandermer está trabalhando agora na Clínica Julian — esclareceu ela.

— Ele já se mudou?

— Sim. O consultório todo está uma bagunça. Ontem foi o último dia dele aqui, e o senhor nem pode imaginar que situação. Quero dizer, ele tinha centenas de pacientes com consultas marcadas para os próximos seis meses. Vou ficar pendurada no telefone até o Natal.

— Então não foi uma coisa esperada? — perguntou Adam.

— De maneira alguma. Ele voltou daquele cruzeiro e disse aos Drs. Stens e Baumgarten que ia embora. Disse que estava cheio da clínica particular.

Fora exatamente isso o que Percy contara sobre Foley, lembrou-se Adam, enquanto Christine se virava para atender o telefone.

— Que bagunça — lamentou-se ela, logo que desligou. — E todas as pacientes estão danadas comigo.

— O Dr. Vandermer se comportou de modo estranho quando voltou do cruzeiro? — perguntou Adam.

— Ora se... — Christine sorriu. — Nada que fazíamos era suficientemente bom para ele. Deixou-nos malucas, embora, de certa maneira, se mostrasse muito mais atencioso. Antes ele sempre foi muito brusco.

Lembrando-se de seu próprio encontro com o médico, Adam achou que a palavra "brusco" era uma descrição generosa demais dos modos daquele homem.

— O mais estranho de tudo — continuou Christine — é que o sócio do Dr. Vandermer, Dr. Foley, fez a mesma coisa. E na ocasião, aquilo deixou o Dr. Vandermer furioso. Mas a coisa não foi tão ruim quando o Dr. Foley nos deixou porque havia quatro médicos para agüentar a barra. Agora só temos dois, porque o pobre Dr. Smyth está no hospital com uma doença esquisita.

— Que tipo de doença? — perguntou Adam.

— Não sei o nome — respondeu ela. — Alguma coisa com os nervos. Lembro-me quando começou. — Baixou a voz como se estivesse confidenciando um segredo. — Assim, de repente, ele começou a fazer caretas estranhas. Ridículas. Muito embaraçoso.

Uma mulher entrou no consultório e aproximou-se da recepção. Adam cedeu-lhe o lugar, pensando se o problema de Smyth era semelhante ao caso de discinesia tardia que discutira na apresentação oral na faculdade de medicina. Naquele caso, a razão fora uma inesperada reação a tranqüilizantes.

— Você sabe se o Dr. Smyth tinha algum problema psiquiátrico? — perguntou Adam logo que a paciente foi sentar-se.

— Acho que não — retrucou Christine. — Ele era um dos rapazes mais bonzinhos que havia por aqui. Parece-se um pouco com você. Moreno, cabelos ondulados.

— Em que hospital está ele agora? — quis saber Adam.

— Foi internado no hospital universitário, mas ouvi uma das enfermeiras dizer que ele ia ser transferido para a Clínica Julian.

O telefone tocou novamente e Christine estendeu a mão para atender.

— Uma última pergunta — interrompeu Adam. — Foley ou o Dr. Smith participaram de um cruzeiro médico, como o Dr. Vandermer?

— Acho que os dois foram — respondeu Christine, erguendo o aparelho. — Ginecologistas Associados. Pode esperar um momento na linha? — Virando-se para Adam, perguntou. — Gostaria de falar com o Dr. Stens ou com a Dra. Baumgarten?

— Hoje não — desculpou-se Adam. — Em outra ocasião, quando a atmosfera estiver menos carregada. Lembranças a DJ.

Christine respondeu com o gesto de polegar para cima e apertou o botão que piscava no telefone.

Deixando o consultório, Adam achou que não podia ignorar mais as estranhas coincidências ligadas à Clínica Julian. Por que tantos médicos haviam bruscamente abandonado a clínica particular para ir trabalhar lá? E por que, depois de ter feito isso, Vandermer resolvera subitamente receitar Pregdolen para Jennifer? Mesmo que o encontro fosse desagradável, achou que não tinha opção senão pedir explicações ao obstetra. Tinha de convencê-lo ou a tratar Jennifer sem medicação ou a deixar de recebê-la como paciente. Sabia que não conseguiria convencer a mulher a mudar de médico.

Aproximando-se dos limites meridionais do Harlem, viu a clínica alteando-se sobre as casas de cômodos em torno. Admirando-lhe a superfície espelhada, achou que devia ter sido projetada pelos mesmos arquitetos responsáveis pela sede da Arolen. O prédio de escritório harmonizava-se mais com a paisagem. A clínica pareceu-lhe uma visão do século XXI lançada num ambiente velho, de duzentos anos.

A meio quarteirão de distância, encontrou uma vaga e estacionou em ré. Pegando a pasta, tendo em vista a possibilidade de ter de disfarçar a visita como propaganda, subiu correndo os largos degraus que davam acesso à entrada principal da clínica.

No momento em que entrou, porém, dissiparam-se suas suspeitas. Resolvera cruzar o saguão na direção do setor de obstetrícia e ginecologia, como se fosse um membro do quadro de pessoal. Em virtude de sua experiência como estudante de medicina, sabia que se alguém agisse com naturalidade e firmeza, poderia ir a qualquer lugar num hospital. A atmosfera relaxada da Julian, porém, fê-lo mudar de opinião. Dirigiu-se para a grande área de recepção e disse que desejava falar com o Dr. Vandermer.

— Certamente — respondeu a recepcionista. Pegou o telefone e retransmitiu a solicitação de Adam. — O doutor está na casa — comtinuou, sorrindo jovialmente. — Sabe como chegar à clínica de ginecologia?

— Talvez eu deva perguntar ao doutor se ele tem tempo para me receber. Quero falar com ele a respeito de minha mulher.

— Claro que ele vai recebê-lo — respondeu ela, como se Adam tivesse perdido o juízo. — Vou chamar um dos atendentes.

Apertou uma pequena campainha no balcão e apareceu um rapaz usando camisa azul e calça de sarja de algodão. A recepcionista deu-lhe as instruções necessárias.

O atendente levou Adam por um longo corredor central, passando por uma floricultura, uma livraria e uma lanchonete de aspecto agradável.

— Este lugar é impressionante — disse Adam.

— É sim — respondeu mecanicamente o jovem.

Adam examinou-o enquanto andavam. O rapaz possuía rosto largo e sem expressão. Olhando com mais cuidado, achou que ele parecia drogado e que era provavelmente um caso psiquiátrico. Um bocado de doentes crônicos trabalha em hospital. Isso os faz se sentirem mais confiantes.

O homem deixou-o num salão que se parecia mais com uma sala de estar de residência particular do que sala de espera de um hospital. Havia um sofá, duas cadeiras e uma pequena escrivaninha. Clínica estranha essa, pensou, enquanto ia até a janela. O vidro fumê dava uma tonalidade peculiar à fileira de casas do outro lado da rua. Sentiu-se como se estivesse olhando para uma velha fotografia.

Voltou ao sofá e começou a folhear uma revista. Minutos depois, a porta foi aberta e o Dr. Vandermer entrou. Adam levantou-se apressadamente.

Aquele homem era imponente, especialmente em sua bata branca engomada. No entanto, parecia menos hostil do que na última reunião de ambos.

— Adam Schonberg, seja bem-vindo à Julian.

— Obrigado — agradeceu Adam, aliviado mas ao mesmo tempo atônito com a cordialidade de Vandermer. — Estou surpreso de encontrar o senhor aqui. Pensava que o senhor estivesse satisfeito com sua clientela.

— Estive, antes — concordou o Dr. Vandermer. — Mas a medicina pelo honorário é coisa do passado. Aqui, tentamos manter as pessoas saudáveis, em vez de tentar curá-las quando elas adoecem.

Adam notou que a voz de Vandermer tinha uma estranha inflexão monótona, como se ele estivesse repetindo um texto decorado.

— Eu queria conversar sobre Jennifer.

— Supus que seria isso — disse o Dr. Vandermer. — Pedi ao geneticista que também viesse conversar conosco.

— Ótimo. Mas, em primeiro lugar, eu gostaria de conversar sobre o Pregdolen.

— O remédio ajudou na náusea de sua mulher? — perguntou o Dr. Vandermer.

— Ela acha que sim. Mas desconfio que foi apenas um efeito de placebo. O que me surpreende é que o senhor o tenha receitado.

— Há grande número de medicamentos no mercado — explicou o Dr. Vandermer —, mas acho que o Pregdolen é o melhor. Normalmente, não gosto de usar medicamentos para tratar de enjôo de gravidez, mas o de sua esposa vem demorando demais.

— Mas por que o Pregdolen? — perguntou Adam diplomaticamente. — Especialmente depois do estudo condenatório publicado no England Journal.

— Aquele estudo foi mal conduzido — explicou o Dr. Vandermer. — Não usaram os controles apropriados.

Não desejando enfrentar diretamente o Dr. Vandermer, Adam acabou por dizer:

— Mas na última vez em que conversamos, o senhor me disse que o Pregdolen era perigoso. O que o fez mudar de idéia?

O Dr. Vandermer sacudiu a cabeça, confuso.

— Eu nunca disse que o medicamento era perigoso. Eu o venho usando há anos.

— Eu me lembro claramente... — começou Adam, no momento em que dois outros médicos entravam na sala.

Um deles era um homem alto, magro, de cabelos grisalhos. Foi apresentado como o Dr. Benjamin Starr, geneticista da Clínica Julian.

— Esta manhã, o Dr. Starr e eu estivemos discutindo o caso de sua mulher — disse o Dr. Vandermer.

— Realmente — confirmou o Dr. Starr, e iniciou uma descrição minuciosa do caso.

Sua voz tinha a mesma inflexão monótona da de Vandermer, fazendo Adam perguntar-se se todos os médicos da Clínica Julian trabalhavam quase até a morte.

Fez um esforço para entender o que Starr estava dizendo mas ele parecia estar falando deliberadamente de assuntos superiores à sua compreensão. Depois de tentar entender as razões dadas para a amniocentese de Jennifer, Adam chegou à conclusão de que estava perdendo tempo. Parecia que Vandermer e Starr estavam procurando confundi-lo. Logo que pôde, disse que precisava ir embora. O Dr. Vandermer ofereceu-se para lhe pagar o almoço na lanchonete. Adam, porém, insistiu em que tinha de ir.

Descendo o corredor, achou que Jennifer tinha razão. O Dr. Vandermer era um homem mudado, e isso o deixava nervoso. Na verdade, a clínica inteira soava falso. Olhando para os cômodos belamente decorados, podia entender por que a Julian despertava tanta atração. Parecia o ambiente hospitalar ideal. Ao mesmo tempo, era quase bom demais e, na sua opinião, ligeiramente sinistro.

De volta ao carro, hesitou antes de virar a ignição. Não tinha a menor dúvida de que Vandermer lhe dissera antes que o Pregdolen era perigoso e toda aquela retórica pseudocientífica sobre a necessidade de fazerem uma amniocentese em Jennifer o alarmava. Com a mulher hospedada na casa dos pais dela, suas mãos estavam atadas. A única coisa de que tinha certeza era que não queria que Jennifer tomasse Pregdolen, o que significava que não queria que ela continuasse a consultar Vandermer. O problema era que ela evidentemente confiava nele e não queria mudar de médico.

Saindo para a rua, compreendeu que Jennifer tinha razão em dois pontos: ele não era médico e nada sabia sobre obstetrícia. E deu-se conta também de que, se esperava mudar a opinião de Jennifer, era melhor estudar o assunto.

Não havia vagas dentro dos blocos do hospital universitário, de modo que levou o Buick para a garagem do estabelecimento. Estacionando, dirigiu-se para o centro médico. O irlandês de serviço na área de informações reconheceu-o e lhe emprestou um jaleco branco.

Na biblioteca, escolheu vários textos recentes de obstetrícia e começou a procurar por enjôo de gravidez e amniocentese. Quando terminou, passou a um capítulo sobre fetoscopia — a visualização do feto no interior do útero — e olhou, cheio de espanto, para as fotos do que seu filho devia ser nesse estágio de desenvolvimento.

Devolvendo os livros à mesa, dirigiu-se ao hospital. Depois dos tapetes macios e paredes lustrosas da Julian, o centro médico da universidade lembrava o Inferno de Dante. Era uniformemente esquálido, com pintura descascando e chão cheio de manchas. Enfermeiras e médicos pareciam andar às carreiras e suas expressões fisionômicas indicavam que o bem-estar psicológico dos pacientes não constituía assunto de alta prioridade.

Tomou o elevador principal para a Neurologia, no 10º andar. Fingindo que era ainda estudante, dirigiu-se para ó posto das enfermeiras e colocou-se bem em frente da prateleira de fichas clínicas. Havia ali três enfermeiras, duas atendentes e um médico residente conversando, mas nenhum deles sequer o olhou.

A ficha clínica do Dr. Stuart Smyth encontrava-se na ranhura destinada ao quarto 1.066. Depois de um olhar furtivo às enfermeiras, pegou a ficha de sua prancheta de metal, tirou-a da prateleira e recuou para a relativa tranqüilidade da sala de plantão. Havia um médico ali, falando ao telefone, combinando um jogo de tênis. Adam sentou-se à escrivaninha.

Curiosamente, o caso do Dr. Smyth fora diagnosticado como dis-cinesia tardia. Lendo a história clínica, descobriu que o Dr. Smyth não tinha antecedentes de uso de drogas psicotrópicas. A causa da doença era mencionada como desconhecida, e a maior parte do tratamento implicava sofisticadas tentativas de isolar um vírus.

O único teste positivo que encontrou foi o de EEG, embora o residente houvesse escrito que os resultados, embora ligeiramente anormais, eram inespecíficos. Em suma, o Dr. Smyth fora cutucado, pun-cionado e sangrado para fazer uma miríade de testes, mas nem assim fora descoberta a causa de seu problema. Obtivera alta mas permanecera internado no hospital durante dois meses e meio. Um dado mais animador era que ele começara a melhorar, embora ninguém soubesse por quê.

Adam recolocou a ficha clínica na prateleira e seguiu pelo corredor até o quarto 1.066. Ao contrário dos demais, a porta estava fechada. Bateu. Depois de ouvir o que lhe pareceu um "Entre", empurrou a porta e entrou no quarto.

Stuart Smyth estava sentado junto à janela, cercado de livros e revistas. No momento em que Adam entrou, ele ergueu a vista e ajustou os óculos sem aros.

Adam imediatamente notou que Christine tivera razão quando dissera que ele e Smyth se pareciam, e ficou satisfeito, pois Stuart era um homem bonitão.

Apresentou-se como estudante de medicina. Smyth, cuja face se contorcia periodicamente numa careta, pediu-lhe que se sentasse e explicou que estava aproveitando ao máximo sua internação para passar em revista todo o campo da obstetrícia e ginecologia. A fala era difícil de entender porque lábios e língua também eram afetados por espasmos.

A despeito de sua deficiência, o Dr. Smyth estava ansioso por companhia, e não se furtou absolutamente em dar detalhes de sua doença. Adam ouviu pacientemente, enquanto ele contava tudo, a maior parte do qual já depreendera da leitura da ficha clínica. Não falou no cruzeiro patrocinado pela Arolen. Adam abordou o assunto dizendo que o Dr. Vandermer era o médico que estava atendendo Jennifer.

— Vandermer é um grande obstetra — disse o Dr. Smyth.

— Ele me foi recomendado por um dos residentes de obstetrícia — explicou Adam. — Aparentemente, ele atende um bocado do pessoal da casa.

O Dr. Smyth inclinou a cabeça.

— O senhor sabe que ele acaba de voltar de um cruzeiro patrocinado pela Arolen?

O Dr. Smyth inclinou novamente a cabeça, enquanto seu rosto se pregueava num espasmo.

— O senhor também fez um desses cruzeiros? — quis saber Adam. O livro que o Dr. Smyth estivera lendo escorregou-lhe do colo e caiu com um som surdo no chão. Ele estendeu a mão para apanhá-lo e, de fato, levantou-o, mas quando fez menção de responder, a língua não quis cooperar e ele acabou simplesmente inclinando a cabeça.

Adam teve receio de cansar Smyth com mais perguntas mas, quando se levantou para ir embora, o médico convidou-o com um gesto a sentar-se, deixando claro que queria falar.

— Os cruzeiros são maravilhosos — conseguiu Smyth finalmente dizer. — Participei de um deles há seis meses e estava escalado para outro esta semana. Desta vez, fui convidado a fazer uma parada em Porto Rico. Eu estava ansioso para ir mas, obviamente, não vou poder.

— Quando o senhor tiver alta, tenho certeza de que poderá ser reescalado.

— Talvez — assentiu Smyth. — Mas é difícil conseguir uma reserva, especialmente para Porto Rico.

Adam perguntou em seguida sobre a Clínica Julian. Smyth usou alguns superlativos para descrevê-la mas, enquanto falava, sofreu uma crise tão grave de contorções que, finalmente, com um gesto, pediu a Adam que se retirasse.

Adam pensou em voltar depois de alguns minutos, mas estava tão atrasado nas suas visitas de propagandista que resolveu que era melhor ir trabalhar. Mesmo que tivesse desconfianças em relação à companhia de medicamentos, não queria ser despedido.

Ao voltar para casa pouco depois das seis, encontrou o apartamento na mesma desordem em que o deixara. O bilhete deixado ali, "Seja bem-vinda. Sinto muito. Amo você", continuava no chão junto à porta, onde o deixara.

Olhando para o refrigerador, lembrou-se de que estava vazio. Resolveu telefonar para Jennifer antes de sair.

Infelizmente, foi a mãe dela quem atendeu:

— Adam! Que bondade a sua em telefonar — disse ela geladamente.

— Jennifer está aí? — perguntou Adam com toda polidez que conseguiu dar à voz.

— Está — confirmou a Sra. Carson. — Esteve tentando ligar para você desde cedo esta manhã.

— Saí para trabalhar — explicou Adam, satisfeito por ela ter querido falar com ele.

— Que bom — retrucou a Sra. Carson. — Preciso lhe dizer que Jennifer fez uma amniocentese esta manhã. Tudo correu bem.

Adam quase deixou cair o telefone.

— Oh, meu Deus, como está ela?

— Ótima, mas não graças a você.

— Chame-a ao telefone — pediu Adam.

— Sinto muito — falou a Sra. Carson numa voz que sugeria que não sentia, absolutamente —, mas ela está dormindo agora. Quando ela acordar, direi que você telefonou.

Adam ouviu um estalido, mostrando que a Sra. Carson havia desligado.

Adam olhou para o aparelho durante um momento, como se ele fosse responsável por sua frustração. Controlando-se, repôs calmamente o telefone no gancho. Voltaram, porém, numa onda, o nervosismo e o medo que sentira depois de deixar a Julian. Por que, em nome de Deus, Vandermer não dissera que Jennifer estava na clínica naquela manhã?

 

Jennifer não telefonou e na manhã seguinte Adam acordou ainda angustiado. Após barbear-se, começou a andar de um lado para o outro no banheiro. O que estaria acontecendo na clínica? Apavorava-o a idéia de que um Vandermer estranhamente mecânico continuasse a tratar de Jennifer, mas não sabia como impedir a mulher de continuar a consultá-lo. Se pudesse apenas descobrir por que os médicos mudavam tanto após aqueles cruzeiros! Se pudesse participar de um deles, talvez conseguisse encontrar um modo de convencer Jennifer de que Vandermer era perigoso.

Smyth dissera que seu cruzeiro estava programado para partir de Miami naquela semana. Adam perguntou-se o que aconteceria se, em lugar do médico, ele aparecesse por lá.

Eles me diriam para dar o fora o mais cedo possível, disse a si mesmo.

De repente, parou de andar, dirigiu-se à sala de estar e ligou o computador. No momento em que conseguiu acoplar o telefone ao modulador/demodulador, confirmou sua certeza.

No seu habitual estilo de catar milho, solicitou acesso ao dossiê do Dr. Stuart Smyth e foi novamente informado de que o médico estava matriculado num curso de recapitulação, um segundo cruzeiro, que devia começar naquele mesmo dia.

Vestindo-se rapidamente, tomou uma decisão. Christine dissera que ele se parecia com Smyth, e ele mesmo confirmara a semelhança. Pegou o telefone e discou para Miami, pedindo informações. Ao ser atendido, pediu à telefonista o número dos cruzeiros da Arolen. Em voz fanhosa, a moça respondeu:

— Sinto muito, mas nada há listado sob esse nome.

Adam recolocou o telefone no gancho. Teve em seguida outra idéia. Desta vez, pediu o número do Fjord. Nada. Havia uma Agência de Viagens Fjord, mas isso não dizia muito.

Pegou o paletó de tecido listradinho de algodão e levou-o para a cozinha. O ferro de passar estava em cima do refrigerador. Ligou-o à tomada junto à pia. Dobrando uma toalha no sentido do comprimento, estendeu-a na mesinha da cozinha e eliminou as piores rugas do paletó. Nesse momento, teve a inspiração de telefonar para a MTIC.

— Não há MTIC algum no catálogo — informou a telefonista de Miami —, mas há as Linhas de Cruzeiro MTIC.

Jubiloso, Adam anotou o número e tentou uma ligação. Quando uma mulher respondeu, apresentou-se como o Dr. Stuart Smyth e perguntou se estava ainda incluído no cruzeiro. Sua secretária esquecera de lhe confirmar a reserva.

— Um momento, por favor — respondeu a mulher. Adam ouviu sons baixos de um teclado de computador.

— Aqui está — confirmou ela. — Stuart Smyth, da cidade de Nova York. O senhor é esperado com o grupo de hoje de obstetrícia e ginecologia. O último prazo para embarque é às seis horas da tarde.

— Obrigado. Poderia me dar outra informação? Vou precisar de passaporte ou de qualquer outra coisa?

— Qualquer tipo de identificação serve — explicou a mulher. — O senhor precisa apenas de prova de cidadania.

— Obrigado — disse Adam, desligando.

Como, diabo, ia conseguir prova da cidadania de Smyth?

Durante uns dez minutos ficou sentado à beira da cama, tentando chegar a uma decisão. Exceto pelo problema do passaporte, a idéia de passar por Smyth no cruzeiro da Arolen o atraía muito. Não tinha a menor dúvida de que, para mudar a impressão de Jennifer sobre Vandermer, teria de apresentar uma prova muito convincente da instabilidade daquele homem. Participar do cruzeiro parecia o curso de ação mais promissor.

Mas poderia fazer o papel de um obstetra ativo? E se houvesse no cruzeiro amigos pessoais de Smyth? Impulsivamente, resolveu tentar. O que poderia perder? Se encontrasse um amigo pessoal de Smyth, dir-lhe-ia que o médico lhe cedera o lugar. E se a Arolen descobrisse, simplesmente diria que não podia funcionar como propagandista sem possuir mais informações. O pior que podiam fazer era botá-lo na rua.

Resolvido esse ponto, entrou rapidamente em ação. O primeiro telefonema foi para Clarence McGuire, dizendo-lhe que um problema de família obrigá-lo-ia a ausentar-se da cidade durante alguns dias. Clarence mostrou-se imediatamente compreensivo, manifestando a esperança de que tudo se resolvesse bem.

Em seguida, ligou para as companhias de aviação, informando-se sobre os vôos para Miami. Na Delta e Eastern, poderia viajar na hora em que quisesse.

Finalmente, reuniu coragem e ligou para Jennifer. Com a boca seca, esperou a ligação ser completada. Uma chamada. Outra. Em seguida, a Sra. Carson atendeu.

Usando de toda amabilidade de que foi capaz, disse bom dia e perguntou se podia falar com a esposa.

— Vou ver se ela está acordada — respondeu friamente a Sra. Carson.

Adam ficou aliviado quando Jennifer atendeu.

— Desculpe se a acordei — começou Adam.

— Eu não estava dormindo — garantiu Jennifer.

— Jennifer — continuou Adam —, sinto muito a respeito daquela outra noite. Não sei o que foi que me aconteceu. Mas quero que você volte para casa. O único problema é que vou sair da cidade a serviço, por alguns dias.

— Compreendo — disse Jennifer.

— Eu preferia não ter de explicar agora, mas provavelmente será melhor se você ficar com seus pais por mais alguns dias.

— Acho que você vai a Porto Rico — sugeriu friamente Jennifer.

— Não, não vou — garantiu-lhe Adam.

— Aonde é que você vai? — perguntou Jennifer.

— Eu preferia não dizer — esquivou-se Adam.

— Ótimo — concordou Jennifer. — Faça como quiser. Incidentalmente, apenas no caso de você estar interessado, fiz uma amniocentese ontem.

— Eu sei — disse Adam.

— Como é que você sabe? — perguntou Jennifer. — Tentei ligar para você desde as sete da manhã. Você não atendeu nem uma única vez.

Adam compreendeu que a Sra. Carson nem dissera a Jennifer que ele telefonara na noite anterior. Trazer a mulher de volta ia ser como remar contra a maré.

— Bem, divirta-se muito em sua viagem — finalizou Jennifer friamente, e desligou antes que Adam lhe pudesse dizer o quanto a amava.

Jennifer pôs o aparelho no gancho perguntando-se o que poderia ser tão importante para Adam deixá-la numa ocasião tão difícil como aquela. Tinha de ser Porto Rico. Adam, porém, nunca lhe mentira antes.

— Alguma novidade? — quis saber a Sra. Carson. Jennifer virou-se para os pais.

— Adam vai fazer uma viagem — explicou.

— Que bom para ele — disse a Sra. Carson. — Para onde ele vai?

— Não sei — retrucou Jennifer. — Não quis me dizer.

— Será que ele está tendo um caso amoroso? — sugeriu a Sra. Carson.

— Pelo amor de Deus, é melhor que não esteja — disse o Sr. Carson, baixando o Wall Street Journal e olhando zangado para as duas mulheres.

— Ele não está tendo caso algum — protestou irritada Jennifer.

— Mas não há dúvida de que está agindo de forma incorreta — comentou a mãe.

Jennifer pegou um pouco de cereal e cortou uma banana em rodelas. Desde que começara a tomar o Pregdolen, o enjôo praticamente desaparecera. Levou o prato para a mesa e sentou-se em frente à televisão.

O telefone tocou novamente e ela saltou, pensando que fosse Adam, por ter mudado de idéia sobre a viagem. Ao atender, porém, descobriu que era o Dr. Vandermer quem estava no outro lado da linha.

— Desculpe telefonar tão cedo assim — começou ele —, mas queria ter certeza de pegá-la ainda em casa.

— Tudo bem — disse Jennifer, o estômago dando uma cambalhota.

— Eu gostaria que você voltasse hoje à clínica — continuou o Dr. Vandermer. — Preciso falar com você. Poderia ser esta manhã, por volta de 10 horas? Lamento, mas vou operar hoje à tarde.

— Tudo bem — concordou Jennifer. — Estarei aí por volta das 10. Desligou, temerosa de perguntar ao médico sobre o que ele queria conversar.

— Quem foi, querida? — quis saber a Sra. Carson.

— O Dr. Vandermer. Quer que eu vá vê-lo esta manhã.

— Sobre o quê?

— Ele não disse — respondeu baixinho Jennifer.

— Bem, pelo menos não pode ser alguma coisa com a amniocentese — alvitrou a Sra. Carson. — Ele nos disse que os resultados demoram cerca de duas semanas.

Jennifer vestiu-se às pressas, o tempo todo tentando adivinhar o que o Dr. Vandermer lhe iria dizer. O comentário da mãe a respeito da amniocentese fê-la sentir-se um pouco melhor. A única outra coisa em que podia pensar era que os testes de sangue houvessem acusado deficiência de ferro ou de alguma vitamina.

A Sra. Carson insistiu em levá-la de carro à Clínica Julian e acompanhá-la na consulta. Imediatamente foram levadas ao novo consultório do Dr. Vandermer, que ainda cheirava a tinta fresca.

O Dr. Vandermer levantou-se quando elas entraram e, com um gesto, mandou que Jennifer e a mãe se sentassem nas cadeiras à frente da escrivaninha. Fitando-o, Jennifer teve certeza de que havia algo sumamente grave.

— Lamento dizê-lo, mas tenho más notícias — começou ele num tom de voz que não traía a menor emoção.

Jennifer sentiu o coração dar um salto. De repente, a sala pareceu intoleravelmente quente.

— Normalmente, leva duas semanas para conseguirmos os resultados de uma amniocentese — prosseguiu o Dr. Vandermer. — O motivo é que temos de fazer culturas de tecidos a fim de observar corretamente o material nuclear. Ocasionalmente, porém, a anormalidade é tão visível que as células livres no líquido amniótico dizem tudo. Jennifer, tal como sua mãe, você está com um bebê que apresenta a sín-drome de Down. O cariótipo é da variedade mais grave.

Jennifer ficou muda. Tinha de ser um engano. Não podia acreditar que o corpo a enganasse e gerasse algum tipo de monstro.

— Significa que a criança não viverá mais do que algumas semanas? — perguntou a Sra. Carson, lutando com suas próprias recordações.

— Achamos que o bebê não sobreviverá — opinou o Dr. Vandermer. Aproximou-se de Jennifer e pôs o braço em volta dos ombros dela. — Sinto muito ser o portador dessas notícias. Eu poderia ter esperado pelos resultados finais mas é melhor para você saber agora. Assim, terá mais tempo para tomar uma decisão. Isto talvez não lhe pareça um grande consolo. Tente, porém, lembrar-se de que você ainda é muito moça. Pode ter muitos outros filhos e, como você mesma disse antes, esta não é a melhor ocasião para você e Adam terem um bebê.

Jennifer escutou-o em chocado silêncio. O Dr. Vandermer virou-se e fixou seus olhos nos da Sra. Carson.

— Acho que devem ir para casa e conversar sobre a situação em família — continuou o Dr. Vandermer. — Acredite-me, é melhor chegar a uma decisão agora do que depois de uma gravidez longa e difícil.

— Isso eu posso garantir — concordou a Sra. Carson. — O Dr. Vandermer tem razão, Jennifer. Vamos voltar para casa e conversar. Tudo vai dar certo.

Jennifer inclinou a cabeça e conseguiu até sorrir para o Dr. Vandermer, cujo rosto finalmente revelou algum vestígio de emoção.

— Por favor, telefone-me quando quiser — disse ele, quando elas se despediram.

As duas mulheres cruzaram a clínica, desceram à garagem e pegaram o carro em silêncio. Subindo a rampa, Jennifer falou:

— Quero voltar para meu apartamento.

— Eu pensava que íamos voltar diretamente para Nova Jersey — espantou-se a Sra. Carson. — Acho que seu pai deve ser informado.

— Eu gostaria de conversar com Adam — insistiu Jennifer. — Ele não disse a que horas ia viajar. Talvez ainda possa pegá-lo em casa.

— Talvez seja melhor telefonar primeiro — sugeriu a Sra. Carson.

— Prefiro simplesmente ir até lá — protestou Jennifer. Resolvendo que aquele não era o momento para uma discussão, a Sra. Carson levou a filha para o centro. Ao subirem para o apartamento, Jennifer verificou que as duas valises de Adam continuavam no armário e que aparentemente não faltava roupa alguma. Achou que ele ainda não viajara.

— Bem, o que você quer fazer? — perguntou-lhe a mãe.

— Esperar e conversar com ele — respondeu Jennifer num tom de voz que bloqueava qualquer discussão posterior.

— Vou-lhe cobrar uma taxa se isto acontecer novamente — brincou o porteiro no guichê de informações da universidade.

Adam recebeu o jaleco branco e vestiu-o.

— Simplesmente não posso ficar longe daqui. Estou com saudades de casa. — As mangas eram uns cinco centímetros mais curtas e uma grande mancha amarela enfeitava um dos bolsos. — Este é o melhor que você pode conseguir? — brincou.

Confiante no disfarce de médico, tomou o elevador para a Neurologia, dirigiu-se imediatamente ao posto das enfermeiras, sorriu para o atendente de plantão e mais uma vez puxou a ficha clínica de Smyth da prateleira.

Na verdade, tudo o que desejava eram as informações contidas na primeira página. Virando as costas ao atendente, copiou todos os dados pessoais que pôde obter sobre Smyth: dados sobre o seguro de saúde, número da previdência social, nome da esposa e data do nascimento. Era um bom começo.

Repondo a ficha clínica na prateleira, tomou o elevador para a biblioteca no andar principal. Uma auxiliar de pesquisas indicou-lhe um catálogo de médicos americanos. Procurando o nome de Stuart Smyth, verificou quais as escolas onde ele havia estudado, de preparatórios até a residência e, interessado, notou que ele fizera um ano de treinamento cirúrgico no Havaí. Decorou também todas as associações profissionais a que Smyth pertencia.

A providência final, antes de deixar o centro médico, foi telefonar para Christine na Ginecologistas Associados, sob o pretexto de marcar um encontro com Baumgarten e Stens na semana seguinte. Conseguiu descobrir que Smyth era um entusiasta do tênis, amante da música clássica e maluco por cinema.

De volta ao Buick, cruzou o centro e virou à direita na Oitava Avenida. Ao aproximar-se da Rua 42, a cidade mudou, de prédios de escritórios e armazéns para cinemas de fachadas esfuziantes, com luzes fortes em neon e livrarias que anunciavam revistas ilustradas a 25 centavos com a censura de "só para adultos". Piranhas usando sapatos de salto alto e minissaias acenaram para ele quando estacionou o carro.

Dirigiu-se a pé para o leste, demorando-se em frente às bancas de revistas. Após recusar numerosos oferecimentos de tóxicos, foi abordado por um homem magro, usando um daqueles bigodes estreitos de que se lembrava de filmes da década de 30.

— Está interessado numa mulher de verdade? — perguntou o homem.

Adam perguntou a si mesmo se uma mulher de verdade era o contrário daquelas que a pessoa tinha de soprar para encher. Sentiu vontade de perguntar mas não teve muita certeza se o homem lhe apreciaria o senso de humor.

— Estou interessado em cartões de identidade — respondeu Adam.

— Que tipo? — perguntou o homem, como se aquilo fosse um pedido que ouvia todos os dias.

Adam encolheu os ombros.

— Não sei. Talvez uma carteira de motorista ou um título de eleitor.

— Um título de eleitor? — repetiu o homem magro. — Nunca ouvi ninguém pedir isso.

— Não? — espantou-se Adam. — Bem, sou meio novo nesta coisa. Quero viajar num cruzeiro e não quero que ninguém saiba quem eu sou realmente.

— Neste caso, quer um passaporte frio — comentou o homem. — Para quando?

— Agora mesmo — retrucou Adam.

— Espero que tenha dinheiro.

— Um pouco.

Tivera o cuidado de fechar a maior parte do dinheiro, além de seus documentos de identidade, no porta-luvas do carro.

— Vai lhe custar 25 paus a carteira de motorista e 50 o passaporte — resolveu o homem magro.

— Uau — espantou-se Adam. — Só tenho aqui 50 paus.

— Que pena — disse o homem. Virou-se e dirigiu-se para a Oitava Avenida.

Adam observou-o por um momento e em seguida continuou na direção da Broadway. Após alguns passos, sentiu segurarem-lhe o ombro.

— Sessenta dólares pelos dois — falou o homem magro. Adam concordou com um aceno.

Sem mais palavras, o homem levou-o de volta para a Oitava Avenida e para uma das muitas lojas cobertas de cartazes escritos a mão que diziam: "Mudança do Ramo! Últimos Três Dias! Tudo a Preço de Banana!" Adam notou que o "Últimos Três Dias!" estava descascando com o tempo.

A loja vendia o estoque habitual de câmeras fotográficas, calculadoras, vídeo-teipes e um punhado de "autênticos marfins chineses". Numa mesa de centro, havia uma linha de miniaturas do Empire State Building e da Estátua da Liberdade, além de canecas de café com a inscrição "Eu Amo Nova York" nos lados.

Nenhum dos vendedores apareceu para olhar quando o homem magro levou Adam por todo o comprimento da loja e saiu por uma porta nos fundos. Nos fundos do prédio havia um saguão com portas de cada lado. Adam começou a alimentar a esperança de que não estivesse se metendo em alguma coisa da qual não pudesse se livrar. O homem magro, porém, bateu na primeira porta, abriu-a e, com um gesto, mandou Adam entrar num cômodo pequeno e escuro.

Num canto, viu uma câmara Polaroid montada num tripé. Noutro, uma prancheta de desenho sob uma forte luz fluorescente. À mesa encontrava-se sentado um homem com uma lustrosa calva. Usava uma daquelas viseiras verdes de que ele se lembrava de ter visto em jogadores nos velhos filmes do Oeste.

O homem magro falou:

— Este garoto quer uma carteira de motorista e um passaporte por 60 dólares.

— Que nome? — perguntou o homem da viseira verde. Rapidamente, Adam deu o nome, endereço, data de nascimento e número da previdência social de Smyth.

Nenhuma palavra mais foi trocada. Colocaram-no em frente à câmara Polaroid e foram tiradas várias fotos. Em seguida, o homem de viseira verde dirigiu-se para a mesa de desenho e começou a trabalhar. O homem magro encostou-se na parede e acendeu um cigarro.

Dez minutos depois, Adam voltou pela loja, levando nas mãos os falsos documentos de identidade. Não os abriu até chegar ao carro, mas quando o fez achou que pareciam absolutamente autênticos. Satisfeito, virou o carro na direção da Village. Tinha apenas uma hora para fazer as malas.

Ao chegar ao apartamento, descobriu que o cadeado de segurança estava aberto. Empurrou a porta e viu Jennifer e a mãe.

— Oi — disse ele, atônito. — Mas que surpresa mais agradável.

— Eu estava com esperança de falar com você, antes que fosse para Porto Rico — começou Jennifer.

— Não vou para Porto Rico — retrucou Adam.

— Não acho que você deva ir a lugar algum — interveio a Sra. Carson. — Jennifer acaba de levar um choque e precisa de apoio.

Adam pôs as coisas que trazia sobre a escrivaninha e virou-se para Jennifer. Ela, de fato, parecia pálida.

— O que houve? — perguntou.

— O Dr. Vandermer deu más notícias a ela — respondeu a Sra. Carson.

Nem por um momento Adam despregou os olhos do rosto de Jennifer. Queria dizer à Sra. Carson que calasse o bico, mas o que fez foi postar-se bem em frente à esposa.

— O que o Dr. Vandermer disse? — perguntou meigamente.

— Que a amniocentese foi positiva. Que nosso filho é profundamente deformado. Sinto muito, Adam. Acho que vou ter de fazer um aborto.

— Isso é impossível — explodiu Adam, dando um murro na palma da mão. — São necessárias semanas para se fazer uma cultura de tecidos após uma amniocentese. O que diabo está havendo com esse Vandermer?

Em passos largos dirigiu-se ao telefone. Jennifer prorrompeu em lágrimas.

— Não é culpa dele — soluçou. -- Ele explicou que a anormalidade era tão grave que não haviam sido necessárias culturas de tecidos.

Adam hesitou, tentando lembrar-se do que lera. Não podia recordar-se de caso algum em que as culturas não houvessem sido necessárias.

— Isso para mim não é o suficiente — disse, ligando para a Clínica Julian. Quando pediu para falar com o Dr. Vandermer, disseram-lhe que esperasse na linha.

A Sra. Carson pigarreou.

— Adam, acho que você deve preocupar-se mais com os sentimentos de Jennifer do que com o Dr. Vandermer.

Adam ignorou-a. A telefonista da Clínica Julian voltou à linha e disse-lhe que o Dr. Vandermer estava operando mas que telefonaria depois. Adam deu nome e número e recolocou o fone no gancho.

— Isso é loucura — murmurou ele. — Tive uma sensação esquisita a respeito da Clínica Julian. E Vandermer... — Não acabou a frase.

— Acho que a Clínica Julian é um dos melhores hospitais onde jamais estive até hoje — protestou a Sra. Carson. — E exceto pelo meu próprio médico, nunca conheci um homem mais interessado do que o Dr. Vandermer.

— Vou até lá — disse Adam, ignorando a sogra. — Quero falar com ele pessoalmente. — Apanhando as chaves, dirigiu-se para a porta.

— E sua mulher? — perguntou a Sra. Carson.

— Eu volto.

Saiu, fechando a porta com estrondo.

A Sra. Carson ficou furiosa. Não podia acreditar que, no princípio, fora favorável àquele casamento. Mas, ouvindo Jennifer chorar, achou que era melhor ficar calada. Aproximou-se da filha, murmurando:

— Vamos para casa. Seu pai cuidará de tudo. Jennifer não objetou. Ao chegar à porta, porém, disse:

— Tenho de deixar um bilhete para Adam.

A Sra. Carson concordou com um aceno e ficou olhando enquanto Jennifer escrevia um curto bilhete na escrivaninha de Adam e colocava-o no chão junto à porta. A nota dizia apenas: "Fui para casa. Jennifer."

Adam dirigiu-se para a parte alta da cidade como se fosse um daqueles agressivos motoristas de táxi de Nova York. Parou bem em frente à Clínica Julian e deixou o carro com um salto. Um guarda de segurança uniformizado tentou detê-lo. Adam, porém, apenas gritou por cima do ombro que era o Dr. Schonberg e que se tratava de uma emergência.

Ao chegar à Ginecologia, a recepcionista deu a impressão de que ele era esperado.

— Adam Schonberg — disse ela. — O Dr. Vandermer deixou instruções para que o esperasse no consultório dele. — Apontou para outro corredor. — Terceira porta, à esquerda.

Adam agradeceu à moça e dirigiu-se para o consultório indicado. O cômodo impressionava, com as paredes cobertas de livros e estantes cheias de revistas médicas. Olhou para uma fileira de modelos de fetos, sentindo uma ânsia muito estranha de quebrar todo aquele lugar. Foi até a mesa. Era uma peça grande, trabalhada, com pés em forma de garras. Na parte superior havia uma pilha de notas datilografadas sobre operações, à espera de assinaturas.

O Dr. Vandermer entrou quase imediatamente. Sob o braço trazia uma pasta de papel pardo.

— Não quer sentar-se? — sugeriu.

— Não, obrigado — respondeu Adam. — Não vou demorar muito. Eu simplesmente queria confirmar o diagnóstico dado a minha mulher. Segundo sei, o senhor acha que ela tem no ventre uma criança cromossomicamente defeituosa.

— Infelizmente, é assim — confirmou o Dr. Vandermer.

— Eu pensava que eram necessárias semanas para se fazer culturas de tecidos — observou Adam.

O Dr. Vandermer fitou-o diretamente nos olhos.

— Normalmente, isso é verdade — explicou. — Mas no caso de sua esposa, havia células suficientes para examinarmos diretamente no líquido amniótico. Adam, como estudante de medicina, tenho certeza de que você compreende que essas coisas acontecem. Mas, como eu disse a sua mulher, vocês dois são jovens. Podem ter outros filhos.

— Quero ver as lâminas — exigiu Adam, preparando-se para uma discussão.

Vandermer, porém, simplesmente inclinou a cabeça e disse:

— Quer fazer o favor de me acompanhar?

Adam começou a perguntar-se se não fora precipitado demais em seu julgamento. Aquele homem parecia autenticamente penalizado por ser o portador de tão más notícias.

No quarto andar, Vandermer levou-o ao laboratório de citologia. Adam pestanejou ao cruzarem a porta. Tudo ali era branco: paredes, chão, teto, tampos de mesa. No fundo da sala, viu uma bancada de laboratório com quatro microscópios. Só um deles estava em uso. Uma mulher de meia-idade, cabelos escuros, levantou os olhos quando o Dr. Vandermer aproximou-se.

— Cora — disse ele —, lamento muito incomodá-la, mas poderia nos mostrar as lâminas de Jennifer Schonberg?

Cora inclinou a cabeça e Vandermer, com um gesto, disse a Adam para sentar-se em frente a um microscópio didático, equipado com oculares duplas.

— Não sei se você quer ver ou não a chapa da ultra-sonografia — disse o Dr. Vandermer —, mas trouxe-a de qualquer maneira.

Abriu a pasta que trazia e mostrou as chapas a Adam.

Como estudante de medicina, Adam não tivera experiência alguma com ultra-sonografia, e as imagens pareceram-lhe apenas manchas de tinta. O Dr. Vandermer pegou a chapa que Adam estava examinando, virou-a ao contrário e desenhou os contornos do feto com a ponta do dedo.

— A técnica está ficando cada vez mais aperfeiçoada. Aqui você pode ver claramente os testículos. Muitas vezes, nesta fase, não podemos saber o sexo pelo ultra-som. Talvez este garotinho puxe ao pai.

Adam compreendeu que Vandermer estava fazendo o que podia para ser cordial.

A porta foi aberta e Cora voltou com uma bandeja de lâminas, cada uma delas com uma minúscula cobertura de vidro no centro. O Dr. Vandermer selecionou uma que fora rotulada com lápis-cera. Colocou-a sob o cabeçote óptico do microscópio, pingou uma gota de óleo e abaixou a lente de imersão em óleo. Adam espigou-se e olhou pela ocular.

O Dr. Vandermer explicou que os espécimes haviam sido especialmente corados para tornar tão fácil quanto possível a verificação do material cromatínico. Disse que precisavam encontrar uma célula durante o processo de divisão. Por último, desistiu e pediu a ajuda de Cora.

— Para começar, eu devia ter deixado você fazer isso — falou, enquanto trocava de lugar com a mulher.

Nuns 30 segundos, Cora encontrou a célula apropriada. Manipulando um indicador fino como um cabelo, mostrou a Adam a anormalidade cromossômica.

Adam ficou arrasado. Tivera a esperança de que os resultados fossem ambíguos, mas mesmo para seus olhos inexperientes, o problema era claro. Cora continuou a mostrar outros pequenos problemas que haviam sido notados, incluindo o fato de que um dos cromossomos X parecia ligeiramente anormal.

Finalmente, Cora perguntou-lhe se ele queria ver outro caso, que demonstrava um tipo mais comum da síndrome de Down.

Adam sacudiu a cabeça.

— Não, mas obrigado pelo seu trabalho. — Pôs ambas as mãos sobre a bancada do laboratório e começou a levantar-se. A meio caminho, parou. Havia alguma coisa errada. Inclinou-se para a frente e olhou no microscópio. — Mostre-me novamente aquela anormalidade no cromossomo X — pediu.

Cora inclinou-se para a frente e colou o rosto à ocular. Logo depois, o indicador moveu-se na direção de um par de cromossomos idênticos. Cora começou a explicar a anormalidade suspeita mas Adam interrompeu-a:

— Esses aí são cromossomos X? — perguntou.

— Com absoluta certeza — respondeu Cora. — Mas... Adam, mais uma vez, interrompeu-a e pediu ao Dr. Vandermer que desse uma olhada:

— O senhor está vendo os cromossomos X?

— Estou — disse o Dr. Vandermer — mas, como você, não posso discriminar a anormalidade de que Cora está falando.

— Não estou interessado na anormalidade. Estou interessado nos dois cromossomos X. Há um momento, na imagem de ultra-som, o senhor mostrou que meu filho é um menino. Esta lâmina que estamos observando é de uma menina.

O Dr. Vandermer se espigara quando Adam começara a falar, o rosto isento de qualquer expressão.

Imediatamente, Cora voltou ao microscópio.

— Ele tem razão. Esta lâmina é de uma menina.

Bem devagar, o Dr. Vandermer levou a mão ao rosto. Cora virou a borda da bandeja de lâminas e conferiu o número. Em seguida, verificou o número da lâmina. Combinavam. Consultando o registro principal, verificou o número que nele constava. O nome era Jennifer Schonberg. Muito pálido, o Dr. Vandermer disse a Adam para esperar um minuto.

— Alguma coisa parecida còm isto aconteceu antes? — perguntou Adam quando o médico saiu.

— Nunca — respondeu Cora.

O Dr. Vandermer reapareceu, trazendo em sua companhia um homem muito corpulento. Como Vandermer, ele usava uma longa bata branca. Vandermer apresentou-o a Adam como o Dr. Ridley Stanford.

Adam conhecia-o de nome. Era o autor do livro de patologia que estudara em seu segundo ano na faculdade e fora chefe de patologia do Hospital Universitário.

— Isto é uma calamidade — falou o Dr. Vandermer, depois que o Dr. Stanford deu uma olhada na lâmina.

— Concordo — anuiu o Dr. Stanford, sua voz tão destituída de expressão como a de Vandermer. — Não posso imaginar como isto possa ter acontecido. Vou dar alguns telefonemas.

Dentro de minutos, dez outras pessoas formavam um círculo em volta do microscópio.

— Quantas amniocenteses foram feitas ontem? — perguntou o Dr. Vandermer.

Cora lançou um olhar ao livro.

— Vinte e uma.

— Todas elas têm de ser repetidas — decidiu o Dr. Vandermer.

— Com toda certeza — concordou o Dr. Stanford. Voltando-se para Adam, o Dr. Vandermer disse:

— Nós lhe devemos um voto de agradecimentos. Os outros ecoaram-lhe os sentimentos.

Adam sentiu-se como se uma enorme nuvem negra houvesse sido retirada de sobre sua cabeça. Seu filho não era nenhum monstro genético. A primeira coisa que quis fazer foi telefonar a Jennifer.

— Ficaríamos honrados se ficasse para o almoço — convidou o Dr. Stanford. — Haverá depois uma ótima aula sobre tumores retro-peritoneais que o senhor talvez ache interessante.

Adam desculpou-se e rapidamente desceu para o saguão principal. Não podia acreditar que diante daquele desastre eles ainda quisessem que ele ficasse para almoço e para uma aula! Não havia dúvida, aquele lugar era estranho. Cruzando a porta da frente à procura de um telefone, notou satisfeito que seu carro continuava no mesmo lugar.

Telefonou primeiro para o apartamento, mas não houve resposta. Pensando que Jennifer poderia ter voltado para a casa da mãe dela, discou o número de Englewood, mas tampouco obteve resposta.

Após um momento de hesitação, resolveu voltar ao apartamento. Saiu correndo da Clínica Julian, tomou o carro e dirigiu-se para casa.

Mas a satisfação com a boa notícia começava a ceder a um senso mais agudo de inquietação a respeito da Clínica Julian e do Dr. Vandermer. Fora apenas por um feliz acaso que notara a discrepância. E se não tivesse tido aquela sorte e Jennifer houvesse feito o aborto?!

Sentiu todas as suas preocupações voltarem em tropel. Evitara por pouco uma catástrofe mas, a menos que pudesse convencer Jennifer a mudar de médico e de clínica, poderia haver outras. Durante momentos, esqueceu a idéia do cruzeiro da Arolen. Naquele momento, parecia que a viagem era a única maneira de conseguir a prova de que Vandermer era perigoso. Olhou para o relógio. Eram 12h20m. Tempo ainda para embarcar no Fjord às seis da tarde.

Chegando ao apartamento, ficou desapontado ao encontrar fechado o cadeado. Encontrou o frio bilhete de Jennifer e resolveu telefonar novamente para Englewood. Foi um alívio quando Jennifer atendeu, e não a mãe dela.

— Tenho boas e más notícias.

— Não estou para brincadeiras — respondeu Jennifer.

— A boa notícia é que o seu espécime foi misturado com outros na clínica. O bebê de alguma outra mulher é que tem os cromossomos defeituosos. Trocaram as lâminas.

Durante um momento, Jennifer teve medo de perguntar se Adam estava dizendo a verdade ou se aquilo era simplesmente algum tipo de tramóia para que ela perdesse a confiança em Vandermer. A notícia parecia boa demais para ser verdade.

— Jennifer, ouviu o que eu disse?

— É verdade mesmo? — perguntou ela, sondando.

— É — confirmou Adam, e descreveu como notara a discrepância no tocante ao sexo da célula.

— O que foi que o Dr. Vandermer disse? — perguntou Jennifer.

— Disse que todas as amniocenteses feitas ontem têm de ser repetidas.

— Essa é a má notícia de que você falou? — quis saber Jennifer.

— Não — corrigiu-a Adam. — A má notícia é que ainda vou viajar, a menos que você me prometa uma coisa.

— O que eu tenho de prometer? — perguntou Jennifer céptica.

— Que vai consultar o Dr. Wickelman durante o resto de sua gravidez e que deixará de tomar Pregdolen.

— Adam... — falou Jennifer, pronunciando impaciente o nome do marido.

— Estou mais convencido do que nunca de que há alguma coisa estranha na Clínica Julian — insistiu Adam. — Se você concordar em consultar o Dr. Wickelman, prometo não interferir nada do que ele sugerir.

— Enganos acontecem todos os dias em hospitais — retrucou Jennifer. — Apenas porque um deles aconteceu na Clínica Julian, não significa que eu não deva ir mais lá. Ela parece o lugar ideal para eu ter meu filho, agora que superei aquele episódio com Cheryl Tedesco. Gosto do pessoal e da atmosfera de lá.

— Bem, daqui a alguns dias a gente se vê.

— Aonde vai você? — perguntou Jennifer.

— Prefiro não dizer.

— Nestas circunstâncias — observou Jennifer —, você não acha que devia permanecer aqui? Adam, preciso de você.

— Isso é um pouco difícil de acreditar, com você na casa de seus pais e eu sozinho no apartamento. Sinto muito, mas vou ter de correr. Amo você, Jennifer.

Desligou e telefonou para a Eastern Airlines antes de mudar de idéia. Reservou um lugar no vôo que partia de LaGuardia para Miami em 48 minutos.

Tirou do armário a pequena valise Samsonite e começou a enchê-la de roupas. No momento exato em que colocava os artigos de toale-te, o telefone tocou. Estendeu a mão mas, pela primeira vez na vida, ignorou-o. Até mesmo um minuto de demora o faria perder o vôo.

Jennifer esperou, ouvindo o telefone tocar, tocar. Finalmente, desligou. Logo depois de falar com Adam, resolvera que consultaria esse Dr. Wickelman, se isso significava tanto para o marido. Poderia pelo menos dar a ele uma oportunidade e, se não lhe agradasse o médico, poderia voltar a consultar-se com o Dr. Vandermer. Adam, porém, aparentemente já saíra de casa. Mas antes de tirar a mão do aparelho, o telefone tocou novamente. Na esperança de que fosse Adam, levantou-o antes de se completar a primeira chamada. Era o Dr. Vandermer.

— Acho que você já soube da boa notícia.

— Sim. Adam acaba de me contar — confirmou Jennifer.

— Estamos muito gratos a seu marido — continuou o Dr. Vandermer. — É raro uma pessoa notar uma anormalidade secundária em face de resultados positivos esmagadores.

— Então é verdade que não tenho um filho defeituoso? — perguntou Jennifer.

— Lamento, mas não posso afirmar isso — desculpou-se o Dr. Vandermer. — Infelizmente, não temos idéia do resultado de sua am-niocentese. Temos de repetir a intervenção. Sinto imensamente que isto tenha acontecido. Naquele dia, vinte outras pacientes fizeram amniocenteses e todos esses exames terão de ser repetidos. Obviamente, isso será feito às custas da clínica.

— Quando é que o senhor quer repetir o exame? — perguntou Jennifer.

Gostava da generosidade do Dr. Vandermer em assumir a responsabilidade, mesmo que o erro indubitavelmente houvesse sido cometido por alguém no laboratório.

— Tão logo possível. Lembre-se de que enfrentamos um limite de tempo, se realmente houver um problema.

— Que tal se eu o procurar amanhã pela manhã? — sugeriu Jennifer.

— Será ótimo. Não há pressa, mas quanto mais cedo fizermos o exame, melhor.

 

O vôo até Miami foi normal. Logo que o avião subiu, Adam tirou da carteira de notas a licença de motorista e substituiu-a pela de Smyth. Em seguida, examinou os endereços no passaporte. Se alguém lhe perguntasse onde residia, queria poder dizer sem a menor hesitação.

O avião aterrissou às 4h5m e, uma vez que só levava bagagem de mão, chegou ao ponto de táxi às 4h15m. O táxi era uma velha e arrebentada perua Dodge e o motorista só falava espanhol, mas reconheceu o nome Fjord e entendeu que Adam ia viajar num cruzeiro.

Adam olhou para a paisagem tropical. Miami era muito mais bela do que jamais imaginara. Logo depois passaram por um longo molhe e viu o porto. Os navios de cruzeiro encontravam-se atracados em fila, o Fjord em último lugar. Em comparação com os outros, o Fjord nem parecia especialmente grande nem particularmente pequeno. Como os demais, era pintado de branco. Possuía uma única grande chaminé com o desenho de duas flechas entrelaçadas nos lados. Adam perguntou-se se aquele era o logotipo da MTIC.

O motorista não conseguiu aproximar-se do meio-fio, de modo que Adam pagou e desceu no meio da rua. Valise na mão, dirigiu-se para a entrada do armazém. A barulheira de buzinas de carros, vozes e motores em ponto morto era apavorante, e o ar estava pesado de fumaça. Foi um alívio entrar.

Dirigiu-se para o balcão de informações, onde os uniformes dos recepcionistas lembraram-lhe os do pessoal da Clínica Julian. Usavam também blusas brancas e jalecos azuis.

Teve de gritar para ser entendido. Perguntou como devia se apresentar para embarque e mandaram-no tomar a escada rolante para o segundo piso. Com um mero movimento dos lábios, agradeceu à moça que lhe dera as instruções.

Subir na escada rolante foi complicado, especialmente levando a valise. Enquanto era transportado, olhou para a multidão em volta. Embora houvesse algumas mulheres, a maioria era de homens e certamente pareciam médicos — prósperos e satisfeitos consigo mesmos. Muitos usavam ternos, embora alguns houvessem preferido camisa e calça esporte.

No segundo andar do terminal, encontrou uma longa mesa de registro, dividida em segmentos alfabéticos. Entrou na fila marcada "N-Z".

Olhando em volta, apavorou-se subitamente. Talvez fosse melhor ir embora. Ninguém notaria. Poderia simplesmente pegar um táxi até o aeroporto e voltar para casa. Começou a contar o número de pessoas entre ele e a escrivaninha de registro. Nesse momento, seus olhos se fixaram nos de um homem a pouca distância, numa fila vizinha. Desviando rapidamente a vista, bateu nervoso os pés. Não havia razão para que alguém olhasse fixamente para ele. Aos poucos, deixou os olhos voltarem à fila vizinha. Infelizmente, o homem fitava-o ainda. Quando viu Adam erguer a vista para ele, o homem sorriu. Embaraçado, Adam retribuiu o sorriso. Depois, para seu horror, viu o homem aproximar-se.

— Meu nome é Alan Jackson — disse ele, obrigando Adam a depositar a valise no chão e lhe apertar a mão.

Nervosamente, Adam apresentou-se como Stuart Smyth. Alan simplesmente inclinou a cabeça e sorriu de novo.

Era mais velho do que Adam e possuía ombros largos e cintura fina. O cabelo amarelado estava penteado para a frente, possivelmente para ocultar um ponto calvo.

— Você me parece conhecido — disse Alan. — É de Nova York? Adam sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. Nem mesmo se apresentara para embarque e já estava tendo problemas.

Nesse momento, o sistema de alto-falantes se fez ouvir: "Boa tarde, senhoras e senhores. Àqueles que já têm suas senhas de embarque, informamos que o Fjord estará pronto para recebê-los dentro de alguns minutos. Se não receberam ainda a senha, recomendamos que se dirijam imediatamente à recepção."

— Está em ortopedia? — perguntou Alan, logo que o alto-falante recaiu no silêncio.

— Não — respondeu Adam, aliviado. Obviamente, aquele homem não conhecia o verdadeiro Smyth. — Estou em obstetrícia/ginecologia. E você?

— Ortopedia. Trabalho na Universidade da Califórnia, San Diego. Este é o seu primeiro cruzeiro da Arolen?

— Não — respondeu Adam rápido. — E você?

— É o meu segundo — respondeu Alan, virando-se subitamente. — Meu Deus, lá está Ned Janson. Ei, Ned, seu velho safado. Aqui!

Adam viu um homem entroncado, de cabelos pretos, acompanhado de uma das poucas mulheres presentes, erguer a vista. Notando Alan, o rosto do homem iluminou-se e ele sorriu. Pegou a mulher pelo braço e aproximou-se.

Enquanto Alan e Ned trocavam palmadinhas nas costas, Adam apresentou-se à mulher. O nome dela era Clair Osborn, bonitona, de uns 30 anos de idade, rosto redondo e sadio e pernas compridas e mus-culosas. Usava saia curta preta e branca. Adam estava apreciando o encontro até que ela lhe disse que era ginecologista.

— Qual é sua especialidade? — perguntou Clair. — Ortopedia ou obstetrícia/ginecologia?

— Por que limitar as opções a essas duas? — brincou Adam, tentando mudar de assunto.

— É a minha intuição brilhante — respondeu Clair —, além do fato de que este cruzeiro destina-se apenas a ortopedistas e obstetras.

Adam riu nervosamente.

— Bem, faço obstetrícia.

— Realmente? — perguntou deliciada Clair, — Neste caso, vamos comparecer às mesmas funções.

— Isso será ótimo. É o seu primeiro cruzeiro?

Adam queria conversar sobre tudo, menos sobre obstetrícia/ginecologia. Não se enganava a ponto de pensar que pudesse sair-se airo-samente de uma conversa em nível profissional.

—- Claro que é — retrucou Clair. — E também o primeiro de Ned. Certo, Ned?

Clair puxou o braço de Ned para lhe chamar a atenção. Ouvindo trechos da conversa de ambos, compreendeu que ela e Ned haviam feito residência no mesmo hospital.

— Ei! Isto é maravilhoso — disse Ned. — Por que nós todos não jantamos juntos esta noite?

Alan sacudiu a cabeça.

— O pessoal da Arolen é que faz a distribuição dos lugares. Consideram as refeições um prolongamento das sessões científicas.

— Oh, besteira — resmungou Ned. — O que isto vai ser, um acampamento de verão de estudantes?

O homem que estava na frente de Adam afastou-se, a senha de embarque na mão. Adam aproximou-se do balcão e viu-se frente a frente com um rapaz elegantemente vestido com um blazer branco. No bolso do lenço havia o mesmo logotipo que vira nos lados da chaminé do Fjord. Na lapela, um crachá dizia: "Juan". Abaixo do nome, em.letras pequenas, a sigla: "MTIC".

— Seu nome, por favor? — perguntou Juan. A voz dava a impressão de que ele fizera a pergunta tantas vezes que falava mecanicamente.

Adam respondeu que era Stuart Smyth e puxou a carteira para pegar a licença de motorista. No meio do movimento, seu cartão da Arolen caiu em cima do balcão. Por sorte, Juan já estava ocupado digitando-lhe o nome no computador e não o viu. Adam virou-se a fim de verificar se algum de seus novos amigos notara alguma coisa mas eles estavam também ocupados, conversando. Voltou-se novamente para Juan, pensando que, quando aquele cruzeiro acabasse, ele seria um trapo nervoso. Furtivamente, enfiou o cartão da Arolen num bolso do paletó.

— Passaporte? — perguntou Juan.

Após um momento de pânico, Adam achou o passaporte num bolso interno e entregou-o. Juan examinou-o. Adam sentiu uma pontada de terror. Juan, porém, simplesmente examinou-o por uns dois segundos e devolveu-o, dizendo:

— Esta é sua senha de embarque. Por favor, apresente-a ao comissário e ele lhe indicará o camarote. Se deixar o navio durante o cruzeiro, não se esqueça de levar a senha. O seguinte, por favor.

Adam deu um passo para o lado, abrindo lugar para o homem que vinha em seguida. Até aquele momento, tudo bem.

Depois que Alan recebeu sua senha, ele, Ned e Clair acompanharam-no até a mesa da Arolen. Ali receberam um pacote de "bombons", como os chamou Ned. O processo começa, pensou Adam, recebendo o presente, uma bolsa de couro a tiracolo, com o logotipo da MTIC nos lados. Dentro da sacola havia uma caneta Cross e lapiseira, um bloco de notas tamanho ofício encadernado em couro e a programação de conferências durante o cruzeiro. E também uma amostragem de produtos da Arolen que era uma pequena farmácia. Adam olhou com interesse o butim, mas sabia que teria de esperar para examiná-lo em detalhe.

O alto-falante ressuscitou e anunciou que os médicos podiam começar a embarcar. Uma salva de palmas subiu da multidão, enquanto Adam e seus novos amigos dirigiam-se vagarosamente para a parte externa do prédio. No lado da doca, um policial uniformizado examinou senhas de embarque e eles se dirigiram para a escada de bordo. Saltando da escada, Adam chegou ao tombadilho principal. Não era um navio novo, por mais que se forçasse a imaginação, mas parecia bem conservado e algumas seções davam impressão de remodelação recente. Todo o pessoal vestia-se da mesma maneira que o homem da mesa de recepção, blazers brancos e calças esporte pretas. Os uniformes estavam imaculadamente limpos e cuidadosamente passados. Foi abordado por um dos auxiliares de comissário que, polidamente, examinou-lhe a senha e encaminhou-o a uma mesa à direita. Aparentemente, havia senhas de embarque coloridas para aqueles que aviam feito um cruzeiro anterior. Ned e Clair foram levados a uma mesa diferente.

Designaram-lhe o camarote 407, no tombadilho A, que era o nível abaixo do convés principal. Pegando a chave, notou que o comissário falava com a mesma inflexão monótona de voz que notara no homem na mesa de registro.

Alan, que estava bem às suas costas, recebeu o camarote 409. Afastando-se dos dois, Adam comentou aquele modo inexpressivo de falar.

— Acho que eles repetem a mesma coisa um número infinito de vezes — disse Alan.

Um camareiro aproximou-se de Adam e tomou-lhe a pequena valise e a nova bolsa a tiracolo da Arolen.

— Obrigado — disse Adam.

O homem não respondeu, exceto para indicar que Adam devia segui-lo.

— Até mais tarde, Stuart — gritou Alan.

Adam precisou de um momento para lembrar-se de que esse era o seu nome.

— Sim, claro — gritou também.

O camareiro levava-o nesse momento, passando por uma loja de presentes cheia de bolsas Gucci e câmaras fotográficas japonesas. Nos fundos da loja viu vinhos, licores e pacotes de fumo e cigarros, além de uma seção de medicamentos. Pela primeira vez, Adam pensou na possibilidade de enjôo no mar.

— Desculpe, mas quando é que a loja abre?

— Mais ou menos uma hora depois da partida.

— Vendem aí Dramamine ou aqueles tampões de ouvido para enjôo no mar?

O camareiro fitou-o com um rosto inexpressivo.

— Não sei se vendem Dramamine ou esses tampões de ouvido. A maneira como ele repetiu a pergunta de Adam não convidava a mais conversa.

Os camarotes 407 e 409 localizavam-se a bombordo e eram contíguos. Adam não viu Alan em parte alguma. O camareiro abriu a porta do 407 e afastou-se para deixá-lo entrar.

Para Adam, que nunca estivera num navio de luxo, o cômodo pareceu de dimensões exíguas. Havia apenas uma cama de solteiro à direita e uma mesinha-de-cabeceira ao lado. À esquerda, uma pequena escrivaninha e uma cadeira. O banheiro era minúsculo, com chuveiro, vaso e uma pia espremida junto a um armário estreito.

O camareiro enfiou a cabeça pela porta do banheiro, entrou e reapareceu um momento depois com um copo de água, que entregou a Adam.

— Para mim? — perguntou Adam.

Aceitou o copo e provou a água. Tinha um gosto acentuado de produto químico.

O camareiro enfiou a mão no bolso lateral e tirou uma cápsula amarela, que entregou a Adam.

— Seja novamente bem-vindo — disse ele. Adam sorriu embaraçado.

— Claro que é bom estar aqui de novo — disse, olhando para a cápsula amarela.

Tornou-se óbvio que o camareiro esperava que ele a engolisse. Estendeu a mão e o camareiro pôs-lhe a cápsula na palma. Não parecia Dramamine, mas como ia saber?

— Isso é para enjôo no mar? — perguntou.

O camareiro ficou calado e seu olhar fixo provocou em Adam um agudo desconforto.

— Aposto que é para enjôo — disse Adam, pondo a cápsula na boca.

Devolveu o copo ao camareiro, que foi levá-lo até o banheiro. Logo que ele saiu do cômodo, Adam tirou a cápsula da boca e guardou-a no bolso.

O camareiro puxou as cobertas da cama, como se esperasse que Adam tirasse um cochilo. Em seguida, pôs a valise num suporte e começou a retirar as roupas.

Espantado com tal serviço, Adam sentou-se na cama e ficou observando o homem trabalhar em silêncio. Quando terminou, ele agradeceu a Adam e foi embora.

Por um momento, Adam continuou sentado, pensando, confuso, no comportamento do camareiro. Depois, levantou-se e virou de cabeça para baixo sua nova bolsa a tiracolo. As caixas de medicamentos espalharam-se pela coberta.

Tirando a cápsula amarela do bolso, procurou ver se correspondia a alguma das amostras. Não combinava. Perguntou-se se por acaso haveria um exemplar da Farmacopéia a bordo. Forçosamente teria de haver ali uma biblioteca com os livros básicos de referência. Estava curioso a respeito da cápsula amarela. Tinha de ser para enjôo no mar. Olhou-a pela última vez e colocou-a em seguida num pequeno frasco de aspirina.

Pegou o programa de palestras e começou a lê-lo. Quase 25 páginas. A primeira metade dizia respeito a obstetrícia e a segunda, a obstetrícia/ginecologia. Notou que a maioria das palestras era orientada para a clínica médica, o que explicava a popularidade daqueles congressos.

Estava convencido de que, se alguma coisa fosse tentada à guisa de lavagem cerebral, isso teria de ser feito durante as palestras. Mas o que poderiam dizer para fazer um médico como Vandermer mudar de idéia a respeito de um medicamento? Poderia ser algum tipo de hipnose subliminar? Jogou a programação para um lado. Achou que, dentro de pouco tempo, descobriria.

Um apito ensurdecedor fê-lo saltar da cama. Logo depois, ouviu o som de motores sendo ligados. Resolveu ir até o tombadilho para observar a partida.

Passando pelo braço o paletó de tecido listradinho e tirando a gravata, saiu para o corredor. Parou em frente ao camarote 409, lembrando-se de que embora tivessem uma parede comum, nada ouvira de Alan. Bateu à porta mas não obteve resposta. Outro camareiro passou e Adam teve de imprensar-se contra a parede. Em seguida, voltou a bater. Estava prestes a ir embora quando ouviu um som surdo dentro do camarote. Com o punho bateu com força na porta, pensando que Alan talvez estivesse no banheiro. Nem assim obteve resposta. Baixando a mão, forçou a maçaneta. A porta estava sem trinco e rodou para dentro.

Encontrou Alan sentado à beira da cama. Aos seus pés, um copo de água, que aparentemente acabara de cair no chão.

— Desculpe — disse Adam, embaraçado.

Alan murmurou que não tinha importância, mas Adam notou que ele devia ter estado dormindo.

— Desculpe tê-lo incomodado. Eu ia assistir à partida e pensei que talvez você...

Não terminou a frase. Alan estava caindo para a frente. Entrando no quarto, agarrou-o antes que ele atingisse o piso, e recolocou-o na cama.

— Ei, você está bem? — perguntou. Sonolento, Alan inclinou a cabeça.

— Estou simplesmente cansado.

— Acho que é melhor você dormir um pouco — Adam riu, olhando em volta para a mesinha-de-cabeceira, pois desconfiou de que Alan poderia ter tomado um drinque ou dois. Mas não havia bebida à vista. Ficou em dúvida se devia cobri-lo mas, uma vez que Alan estava inteiramente vestido, deixou-o simplesmente sobre a colcha da cama.

De volta à área de recepção, onde havia ainda algumas pessoas à espera de que lhes fossem designados os camarotes, notou que a escada de embarque fora erguida. Subiu mais dois níveis até o que é chamado de convés superior.

Foi um choque a mudança do frio ar condicionado do interior do navio para o calor entorpecedor de Miami. Dirigiu-se à amurada e olhou para o cais. O pessoal em terra soltava as amarras, libertando o navio. As vibrações dos motores aumentaram, enquanto rebocadores laterais afastavam o navio do cais. Da popa subiu uma ovação e em seguida o som de uma banda de música.

Dirigindo-se para a frente, chegou depois a uma barreira de teca com uma porta que descia para a proa. Um cartaz avisava: "Apenas a Tripulação. Passageiros Não Podem Entrar." Experimentou a porta. Não estava fechada, mas resolveu não arriscar a sorte ultrapassan-do-a.

O apito soou novamente e, no mesmo instante, mudou a vibração do navio. Adam calculou que as hélices principais haviam começado a girar. Lentamente, o navio começou a mover-se para a frente.

Encontrou outros passageiros conhecendo o navio. Todos se mostravam cordiais e descontraídos. Prevalecia ali uma atmosfera de férias.

Desceu um convés e descobriu-se cercado por salas de conferências de todos os tamanhos, variando de auditórios completos a salas para seminários de menos de uma dezena de pessoas. Quase todos os aposentos eram equipados com quadros-negros e projetores de slides.

A meia-nau, chegou a uma porta com uma tabuleta: "Biblioteca". Quis entrar e consultar a Farmacopéia, mas a porta estava fechada a chave. Supondo que seria aberta pela manhã, continuou a andar. Logo em seguida, o corredor central acabou numa porta trancada, que achou devesse conduzir ao alojamento da tripulação.

Descendo mais outro nível, chegou ao tombadilho principal. Passou pela loja e área de recepção e foi dar uma olhada no salão principal de jantar. Era imenso, com candelabros de cristal e imensas janelas panorâmicas. Numa extremidade, havia uma plataforma elevada, com um pódio para oradores. De cada lado da plataforma, viu portas de vaivém que aparentemente se comunicavam com a cozinha. Muito ocupados, camareiros punham as mesas, entrando e saindo pelas portas com suas bandejas. Um aviso à entrada dizia que o jantar seria servido às nove horas.

Desceu mais outro nível até o tombadilho A, onde se localizava seu camarote. Várias portas estavam abertas e viu médicos desfazendo malas e se visitando mutuamente.

Baixando para outro nível ainda, descobriu mais salas de conferências, um pequeno ginásio, o consultório do médico de bordo e uma piscina interna. Voltou ao andar superior, onde ocorria um movimentado coquetel.

Ned Janson viu-o e levou-o para um grupo perto da piscina. Não havia maneira de recusar, e logo depois estava bebendo uma Heinekem geladíssima.

— Onde, diabo, está Alan? — perguntou Ned, abafando o vozerio.

— No quarto dele, dormindo — respondeu Adam.

» Ned inclinou a cabeça, como se aquilo já fosse esperado, e começou em seguida a bater na coxa quando a banda começou a tocar When the Saints Come Marchin' In.

De seu lado da mesa, Adam sorriu para Clair, que parecia estar se divertindo, e em seguida olhou em volta. Aquilo parecia uma reunião típica de médicos. Era barulhenta, muitas pessoas — com abundância de palmadinhas nas costas, piadas e bebida. No momento em que terminou sua cerveja, Ned enfiou-lhe outra na mão.

Com grande brusquidão, porém, o navio começou a jogar. Olhando para trás, Adam notou que as luzes de Miami haviam desaparecido. O navio encontrava-se nesse momento no Atlântico. Seu estômago deu uma cambalhota e apressadamente pôs a cerveja de lado.

Os outros médicos à mesa pareciam indiferentes aos movimentos do navio, e Adam desejou ter arranjado alguma coisa contra enjôo. Uma vez mais, perguntou-se se a cápsula amarela era para enjôo. Sentiu-se tentado a perguntar mas logo depois resolveu que não podia permanecer nem mais um minuto em companhia do vociferante e risonho grupo.

Pediu licença e rapidamente dirigiu-se para um lugar tranqüilo na amurada. Após alguns minutos, sentiu-se melhor, mas resolveu deitar-se por algum tempo em seu camarote. Fechando os olhos, sentia-se bem, mas a cerveja continuava a revolver em seu estômago.

Jennifer e o pai haviam saído para um passeio em um campo que ficava atrás da casa. Ela sabia que ele queria discutir com ela a gravidez e, por meia hora, mantivera-o longe do assunto com uma barreira de tagarelice. Finalmente, voltando os dois para a casa, ela resolveu que era hora de enfrentar o assunto.

— O que você acha que devo fazer, pai? O Sr. Carson envolveu-a com o braço.

— O que quer que você ache que é direito.

— Mas qual é a sua opinião?

— Essa é uma pergunta diferente — observou o Sr. Carson. — Sua mãe confia realmente nesse Dr. Vandermer. A confusão com as lâminas da amniocentese foi lamentável, mas gostei da maneira como ele enfrentou a situação. Minha opinião é que você deve seguir as recomendações dele.

— O Dr. Vandermer quer que eu repita a amniocentese.

— Então acho que deve fazê-la. Nem sua mãe nem eu achamos que uma criança gravemente defeituosa deva ser trazida para este mundo. Não é justo para ninguém, inclusive para a criança. Mas isso é apenas a maneira como pensamos.

— Acho que penso da mesma maneira. Apenas, essa possibilidade me deixa muito mal.

O Sr. Carson deu um abraço na filha.

— Claro, querida. E seu marido não está facilitando as coisas. Não gosto de fazer julgamentos mas não aprovo a maneira como ele está-se conduzindo. Ele devia estar aqui, ajudando-a a tomar essas decisões, e não zanzando por aí em alguma viagem misteriosa.

Chegaram à porta de tela dos fundos da casa. Ouviram o barulho que a Sra. Carson fazia na cozinha, preparando o jantar.

— Você tem razão — disse Jennifer abrindo a porta. — Vou telefonar para o Dr. Vandermer e repetir a amniocentese amanhã.

— Boa noite, senhoras e senhores. O jantar está sendo servido agora.

Adam acordou de um sono profundo e precisou de vários minutos para compreender que a voz vinha de um pequeno alto-falante localizado na parede do camarote. Olhou para o relógio. Eram nove horas.

Levantando-se com dificuldade, sentiu o navio jogar e corcovear. A idéia de jantar não o atraía tanto assim. Tomou um rápido banho de chuveiro, procurando manter o equilíbrio, vestiu-se e deixou o camarote. Parou por um instante à porta de Alan e bateu, mas não obteve resposta. Ou ele estava ainda dormindo ou fora jantar. O que quer que fosse, não era de sua conta.

Notou que a loja do navio estava aberta e entrou para comprar Dramamine. O homem atrás do balcão, porém, disse que estava em falta e que teriam de esperar até a manhã seguinte para obterem mais do depósito. Desapontado, Adam dirigiu-se para o salão de jantar, onde um camareiro lhe perguntou se ele era obstetra ou ortopedista. Adam respondeu que era obstetra, e o camareiro levou-o para uma mesa situada perto da tribuna do orador.

Encontrou já sentados cinco outros médicos. Tão ocupado estava em lembrar-se de que seu nome era Stuart que só guardou o nome de dois colegas durante as apresentações: Ted e Archibald.

A conversa foi quase inteiramente médica, embora mais sobre os aspectos econômicos da profissão do que sobre os científicos.

Adam pouco falou, preocupado com o estômago embrulhado. Logo que pôde, pediu com um gesto ao camareiro que lhe tirasse o prato, perguntando-se como os demais podiam ignorar o jogo do navio. Após o jantar, um homem alto e moreno subiu à tribuna.

— Alô, alô — disse ele, experimentando o microfone. — Meu nome é Raymond Powell e sou o anfitrião oficial da MTIC. Sejam bem-vindos ao Congresso Médico e Cruzeiro, patrocinados pela Arolen Phar-maceuticals.

As conversas pararam, enquanto todos concentravam a atenção na tribuna. Powell fez um típico discurso de boas-vindas e em seguida cedeu o microfone ao Dr. Goddard, que era o encarregado da parte de programação médica.

Logo que ele concluiu sua exposição, Powell voltou ao microfone:

— Agora, temos uma surpresa para todos. Para o prazer de vocês, permitam-me lhes apresentar as Dançarinas do Caribe.

Portas de cada lado da tribuna foram abertas subitamente e doze dançarinas sumariamente vestidas entraram no salão. Adam notou que havia apenas dois dançarinos. O restante do grupo era constituído de moças inusitadamente bonitas. Atrás dos dançarinos apareceu um grupo de rock com guitarras elétricas. Rapidamente, o conjunto armou alto-falantes na plataforma.

Enquanto as moças exercitavam seus encantos sobre a platéia, Adam observou que Powell e Goddard se postavam de um lado, como se tentando avaliar o efeito das dançarinas sobre o grupo de médicos, habitualmente contidos. Depois de alguns minutos, teve sua atenção atraída por uma morena especialmente atraente. Ela possuía quadris esbeltos e seios firmes e empinados. A moça captou-lhe o olhar apenas por um momento e ele poderia ter jurado que ela piscara para ele. Infelizmente, seu estômago não estava cooperando e, no meio do espetáculo, resolveu, a contragosto, que era melhor fazer uma visita à amurada do navio.

Pedindo licença, abriu caminho com dificuldade pela multidão ululante, cada vez mais apressado para sair dali. Mal chegou ao balaústre do convés principal, seu estômago revirou-se e ele vomitou violentamente. Após um minuto, olhou em volta a fim de verificar se havia alguém observando-o. Felizmente, o tombadilho estava deserto. Baixando os olhos, examinou a frente da camisa. Limpa. Aliviado, caminhou um pouco contra o vento. Não estava ainda pronto para descer.

Após alguns minutos, sentiu-se um pouco melhor e, quando chegou à porta proibida a passageiros, simplesmente abriu-a e passou. As luzes eram menos numerosas nessa parte do navio e o tombadilho tinha uma cor cinzenta baça. Foi até a proa e olhou para um emaranhado de cordas e correntes. O mar saltava e contorcia-se de cada lado da proa. O céu estrelado estendia-se imenso acima de sua cabeça.

De repente sentiu ser puxado pelo ombro.

— Esta área é proibida — disse um homem com sotaque espanhol.

— Sinto muito — respondeu nervoso Adam, tentando distinguir o rosto do homem. — Este é meu primeiro cruzeiro e eu estava simplesmente andando ao léu. Há alguma possibilidade de eu visitar a ponte de comando? — Adam lembrou-se do adágio que diz que a melhor defesa é o ataque.

— Você está bêbado? — perguntou o homem.

— Eu? — perguntou Adam, surpreso. — Não. Estou bem.

— Não o quis ofender mas já tivemos algumas experiências desagradáveis com passageiros. O comandante está por acaso na ponte. Vou ver se ele deixa o senhor subir.

Depois de lhe perguntar o nome, o homem desapareceu tão silenciosamente como chegara. Um momento depois, Adam ouviu um grito, uma voz convidando-o a subir. Havia uma escada a estibordo.

Deu a volta por um dos lados e encontrou uma escadaria. Achou que num navio escada e escadaria eram a mesma coisa. No patamar em cima, o homem de sotaque estrangeiro mantinha aberta a porta que dava acesso à ponte de comando.

No interior da ponte, Adam notou que os instrumentos eram iluminados por luzes vermelhas, que davam ao cômodo uma atmosfera surrealista. O marinheiro ao leme ignorou-lhe a presença. Outro homem, porém, levantou-se e apresentou-se como o Capitão Eric Nordstrom. Era mais jovem do que Adam teria esperado e, a princípio, pareceu desconfiado de seu pedido.

— José disse que este é o seu primeiro cruzeiro, Dr. Smyth.

— É verdade — respondeu Adam contrafeito, lembrando-se de que Smyth já estivera num cruzeiro da Arolen. O comandante não fez qualquer comentário e Adam perguntou: — Quem é o proprietário do navio?

— Não tenho certeza — respondeu Nordstrom. — A tripulação trabalha para uma companhia chamada Infomed. Se é a dona do navio ou o arrenda, não sei realmente.

— A Infomed é boa empregadora?

O Capitão Nordstrom encolheu os ombros.

— Recebemos nossos salários em dia. É um pouco cansativo fazer sempre a mesma rota e a confraternização com a tripulação tem seus limites.

— O senhor não mantém contatos com os passageiros? — perguntou Adam.

— Nunca — respondeu o Capitão Nordstrom. — A Infomed é rigorosa na questão de manter os passageiros e a tripulação separados. O senhor é a primeira pessoa que convido a vir à ponte em muito tempo. Tivemos algumas experiências desagradáveis com passageiros que se embriagaram.

Adam inclinou a cabeça. Se o volume de álcool consumido pelos médicos naquela noite servia de indicação, não ficava surpreso.

Longe da brisa marinha, o jogo do navio começou a incomodá-lo novamente e resolveu despedir-se.

— José, acompanhe o Dr. Smyth até a área dos passageiros — ordenou o Capitão Nordstrom.

José moveu-se rápido, precedendo Adam até a porta. Desceu a íngreme escada indiferente ao movimento do navio. Adam seguiu-o, embora com muito maior cautela.

— Dentro de um ou dois dias o senhor se acostuma — disse. rindo.

Adam ficou em dúvida.

Dirigindo-se para a popa, José deu alguns dados técnicos sobre o navio. Adam inclinou obedientemente a cabeça mas escapou-lhe a maior parte dos dados. Quando chegaram à barreira, José hesitou, mudando o peso de uma perna para a outra. Na luz mais forte que ali havia, Adam viu o rosto do homem, que era servido por um luxurioso bigode.

— Dr. Smyth... — começou José. — Eu gostaria de saber se o senhor poderia me fazer um favor.

— O que você quer? — perguntou Adam desconfiado.

Pelo que o comandante dissera, tripulação e passageiros não se deviam misturar e ele não estava interessado em criar problemas. Por outro lado, a idéia de ter um amigo entre a tripulação era interessante e poderia ser útil.

— Vendem cigarros na loja do navio — disse José. — Se eu lhe der o dinheiro, o senhor me compra alguns?

— Por que você mesmo não vai comprá-los? — perguntou Adam

— Não temos permissão de passar desta porta. Adam pensou no pedido. Pareceu-lhe bastante inócuo.

— Quantos maços quer?

— Tantos quantos puder comprar com isto.

José enfiou a mão no bolso e tirou uma nota de 50 dólares.

Adam achou que o pedido de José não era, afinal de contas, tão inocente assim. Provavelmente, José estava explorando um pequeno mercado negro a bordo.

— Vamos começar com 10 dólares — disse Adam. Rapidamente, José substituiu a nota de 50 por outra de 10. Adam guardou o dinheiro e disse a José que o encontraria no dia seguinte, no mesmo local, às 11 horas. Lembrou-se de que havia uma pausa para o café marcada para aquela hora. José sorriu alegre, os dentes brilhando surpreendentemente brancos contra o bigode.

Respirando profundamente o ar marinho, Adam entrou no navio e dirigiu-se para seu camarote.

 

Ouviu uma voz chamando o nome Dr. Smyth mas ignorou-a. O nome nada tinha a ver com ele e preferiu permanecer imóvel onde se encontrava. Neste momento, alguém agarrou-lhe o braço e com um grande esforço ele abriu os olhos.

— Meus óculos — disse, surpreso ao descobrir que estava engro-lando as palavras.

Devagar e com todo o cuidado, passou os pés pelo lado do beliche e procurou às cegas na mesinha-de-cabeceira. A mão tocou os óculos e derrubou-os. Curvando-se para apanhá-los, lembrou-se de repente de que era o Dr. Smyth.

O camareiro entregou-lhe um copo de água.

— Obrigado — disse Adam, confuso.

O camareiro estendeu-lhe outra das cápsulas amarelas. Sem hesitar, aceitou-a e colocou-a na boca. Mas, como no dia anterior, não a engoliu, limitando-se a beber um pouco de água.

Satisfeito, o camareiro tomou-lhe o copo e entrou no banheiro. Adam tirou disfarçadamente a cápsula da boca.

— Desculpe — gritou, a voz muito mais clara. — O que são estes comprimidos amarelos?

— São para relaxar o senhor — respondeu o camareiro com voz estranhamente mecânica.

— Ei — disse Adam —, eu estou relaxado. Um pouco enjoado, talvez, mas relaxado. Não seria melhor que me desse alguma coisa para o estômago?

— As pílulas amarelas são para torná-lo mais relaxado e receptivo — explicou o camareiro, abrindo a porta.

— Receptivo a quê? — perguntou Adam em voz alta.

— Às instruções — respondeu o camareiro, fechando a porta. Adam levantou-se, sentindo-se estranhamente cansado e fraco. Não tinha idéia de que enjôo no mar pudesse ser tão debilitante. Obrigando-se a ir ao banheiro, tomou um banho de chuveiro, confuso ainda com o comentário do camareiro.

A caminho do café da manhã, resolveu verificar se Alan já acordara. Desta vez, em vez de bater, virou simplesmente a maçaneta e abriu a porta.

Encontrou Alan ainda estirado na cama, olhos fechados, respiração profunda e regular.

— Alan — chamou Adam.

Lentamente, os olhos do homem bateram, abriram-se e fecharam-se novamente. Adam curvou-se e suavemente ergueu as pálpebras de Alan. No começo, viu apenas a esclerótica, mas depois as córneas desceram e pareceram focalizar-se.

— Acorde — insistiu Adam.

Tirou as mãos dos olhos de Alan e, segurando-o pelos ombros, puxou-o para uma posição sentada.

— O que há com você? — perguntou.

— Nada — respondeu Alan numa voz monótona que lhe lembrou a do camareiro. — Estou simplesmente cansado. Deixe-me dormir.

Começou a desmoronar para trás, mas Adam pegou-o a tempo.

— Diga-me uma coisa — exigiu. — Qual é o seu nome?

— Alan Jackson.

— Onde está você?

— Num cruzeiro da Arolen. — Alan falava sem qualquer inflexão na voz.

— Em que mês estamos?

— Junho.

— Levante a mão direita — ordenou Adam.

Obediente, Alan ergueu a mão direita. Parecia um autômato ou um paciente sob efeito de forte sedativo. Na verdade, ele lhe lembrou o paciente com discinesia tardia. Quando o homem fora internado, estivera tão fortemente medicado que dormira o dia inteiro, embora, quando despertado, mostrasse orientação no tempo e no espaço.

Deixou que Alan recaísse na cama. Depois de observá-lo por um momento, voltou ao seu camarote. Fechando a porta, sentiu realmente medo pela primeira vez. Alan fora drogado. Quanto a isso, não havia dúvida.

Obviamente, as cápsulas amarelas eram algum tipo de tranqüilizante. Imediatamente, lembrou-se de como se sentira sonolento quando o camareiro o acordara. Atribuíra esse estado ao resto do enjôo do mar mas, talvez, ele também houvesse sido drogado. Ainda assim, como poderia ter isso acontecido? Não engolira as cápsulas amarelas e vomitara quase imediatamente o pouco que comera ao jantar. Talvez fosse a água.

Entrou no banheiro e encheu o copo. A água não tinha cheiro. Cautelosamente, provou-a. Possuía gosto de produto químico, mas isso podia ser do cloro. Despejando-a na pia, resolveu ir tomar o café da manhã.

O salão de jantar não mostrava sinal algum da farra da noite anterior. Um bufê fora organizado no centro do salão e nele havia uma impressionante variedade de alimentos. Pessoas faziam fila, aguardando pacientemente a vez. Andou por entre as mesas, à procura de Ned e Clair, mas não os viu.

Seu estômago estava não só bem melhor como sentia realmente fome. O único problema era que, naquele momento em que sentia apetite, sentia também medo de comer. Olhou para o bufê. Viu o cardápio habitual de ovos mexidos, bacon, salsichas e queijos dinamarqueses. Em seguida, algo ainda melhor: uma grande tigela de frutas.

Achando que fruta não-descascada era segura, pegou várias bananas, duas laranjas, um grapefruit e dirigiu-se para uma mesa vazia. No momento em que se sentava, Ned e Clair apareceram. Chamou-os e eles aproximaram-se. Disseram que logo depois viriam fazer-lhe companhia.

Observou-os entrar na fila do bufê. Pareciam cansados e quando voltaram e se sentaram, Adam notou que não haviam pego muita comida. Ficou confuso. Se a droga se encontrava nos alimentos e na água, por que eles e os outros médicos não estavam nos camarotes, sem sentidos, como Alan? Talvez fosse a cápsula amarela. Talvez ela fosse dada apenas a convidados no segundo cruzeiro. Talvez fosse a combinação da cápsula e o que quer que colocassem na comida...

— Grande bagunça a da noite passada — disse Ned, interrompen-do-lhe os pensamentos.

Adam inclinou a cabeça.

— Estou exausta — queixou-se Clair. — Não pensava que tinha bebido tanto. Dormi como se fosse um cadáver.

— O mesmo aconteceu comigo — acrescentou Ned. — Deve ser o ar salgado.

Tentando parecer casual, Adam perguntou:

— Vocês dois receberam cápsulas amarelas para enjôo no mar?

— Eu não — respondeu Ned, tomando um gole de café. Olhou para Clair.

— Nem eu — respondeu ela. — Por que pergunta?

— Bem, estou à procura de alguma coisa contra enjôo. Eu simplesmente queria saber...

Deixou a voz morrer, não querendo despertar suspeitas dos dois médicos. Se dissesse alguma coisa sobre médicos sendo drogados, pensariam que ele estava louco. Ned e Clair tomaram o café em silêncio. Obviamente, nenhum dos dois se sentia muito bem.

Após o desjejum, parou na loja do navio, que tinha novo suprimento de Dramamine e tampões para os ouvidos. Comprou alguns dos tampões e antes de ir embora lembrou-se de comprar 10 dólares de Marlboro para José.

De volta ao camarote, encontrou outra cápsula amarela, juntamente com um copo de água, na mesinha-de-cabeceira. Desta vez, simplesmente despejou os dois no vaso e deu descarga.

A primeira palestra da manhã estava marcada para o grande auditório. Feita por um patologista de Columbia, foi embrutecedoramente chata. Adam notou que alguns médicos cochilavam e se perguntou se isso acontecia porque estavam entediados ou drogados. A segunda palestra, feita pelo Dr. Goddard, foi muito mais interessante. Adam notou que vários médicos se endireitaram nas poltronas. Goddard resumia um experimento recente que demonstrara que tecido de fetos, quando injetado em adultos, não era rejeitado. O palpite era que o tecido fetal não desenvolvera antígenos suficientemente fortes para provocar uma reação de anticorpos. O potencial disso para terapia era imenso. O repovoamento das ilhotas celulares na pancreatite dos diabéticos era apenas uma das possibilidades revolucionárias.

Na pausa do café, Adam voltou ao camarote, pegou os pacotes de Marlboro e dirigiu-se para o convés principal. Esperou até achar que não havia ninguém em volta, dirigiu-se à porta e passou. José estava à espera. Trazia uma bolsa de lona a tiracolo e os pacotes de cigarros desapareceram como por encanto. Pelo menos ele não fora drogado, pensou Adam, devolvendo-lhe a nota de 10 dólares.

Confuso, o marinheiro examinou-a, pensando que havia algum problema com ela.

— Eu lhe proponho um negócio que você não pode recusar — disse Adam. — Eu lhe arranjo os cigarros se você me arranjar comida e água.

José ergueu as sobrancelhas.

— Qual é o problema com a comida que servem lá atrás? Eu pensava que fosse coisa muito fina.

— Parte do negócio é nada de perguntas. Não vou perguntar o que você vai fazer com tantos cigarros e você não pergunta o que eu faço com a comida.

— Comigo, tudo bem — concordou José. — Quando é que quer se encontrar comigo novamente? — Olhou por cima do ombro e disse à Adam que o seguisse.

Foram à frente até uma porta numa antepara, que José abriu, certificando-se de que estavam sozinhos, levou Adam para sua cabine, nas entranhas do navio. O lugar era como uma cela de prisão. Havia chuveiro e vaso sanitário mas nenhuma porta, e o ar estava pesado com o cheiro de suor e cigarros velhos.

José disse-lhe para ficar como em casa, rindo com a própria piada ao sair. Adam olhou para o beliche e sentou-se.

Cinco minutos depois, José voltou com um saco de papel cheio de comida, incluindo pão, queijo, frutas e sucos. Entregou o embrulho a Adam, que apontou para um recipiente vazio num canto e lhe pediu que o enchesse na pia.

— Vocês recebem a mesma água que o resto do navio? — perguntou Adam.

— Não sei — respondeu José. — Não sou engenheiro. — Abriu a porta e olhou para fora. — Temos de ter cuidado. Há algumas pessoas que não apreciariam o fato de estarmos fazendo negócios.

Adam aceitou o conselho e voltou rápido a seu camarote, onde escondeu a comida na valise. Colocou as duas garrafas de suco no armário e cobriu-as com uma camisa usada. Consultando o relógio, deu-se conta de que estava atrasado para a terceira palestra e voltou apressadamente ao auditório.

Deitada na mesa de exame na Clínica Julian, Jennifer ficou espantada com sua própria calma. Resolver se repetia ou não a amniocentese fora muito mais difícil do que a volta ao hospital. O Dr. Vandermer lhe marcara uma hora cedo e ela e a mãe o esperavam à chegada. Ele não as fez esperar muito, mas parecia tão arrasado que Jennifer chegou à conclusão de que o erro na amniocentese anterior tivera repercussões piores para ele do que para ela. O rosto de Vandermer estava inchado e ele falava em frases curtas e sincopadas, embora fizesse a intervenção de modo mais delicado do que da primeira vez. O único problema para Jennifer foi que sentiu o bebê mover-se logo depois de introduzida a agulha. O fato assustou-a, mas o Dr. Vandermer garantiu-lhe que não havia motivo para alarme. Mais tarde, sentada na mesa, Jennifer disse:

— Acho que não preciso lhe dizer que entre em contato comigo logo que souber de alguma coisa.

— Não tenha dúvida. Vou tomar um interesse especial na maneira como o laboratório cuida disto. Tente relaxar e não se preocupe.

— Vou tentar — prometeu Jennifer.

Gostava da atenção que o Dr. Vandermer lhe demonstrava, mas gostaria que ele não se mostrasse tão sério. Esse fato tornava-a ainda mais nervosa.

Depois do almoço, Adam comprou mais 10 dólares de cigarros e levou-os para o camarote. Ao sair, resolveu ver novamente como estava Alan.

A porta continuava sem tranca. Quando a abriu, descobriu Hque Alan desaparecera! Verificou no banheiro, pensando que o médico talvez houvesse desmaiado ali, mas o camarote estava inteiramente vazio. Tinha certeza de que o homem que vira antes do café da manhã não estava em condições de dar passeios. Mas era possível que ele houvesse melhorado. Adam ficou esperançoso de que esta fosse a explicação. Ainda assim, era possível também que ele houvesse sido levado, e as implicações disso eram assustadoras. Como quer que fosse, achou que era importante descobrir onde ele se encontrava.

Foi verificar primeiro no salão de jantar e depois no solário, onde fora armada uma churrasqueira para preparação de hambúrgueres e hot dogs. Encontrou vários passageiros estirados em cadeiras de tombadilho, adormecidos. Voltou pelas salas de conferência vazias e foi até o ginásio e o consultório do médico de bordo. Uma tabuleta na porta do médico dizia: "Em Caso de Emergência, Chame o Camareiro".

Estava ficando cada vez mais preocupado. Tinha de acalmar-se ou alguém notaria e ficaria desconfiado. Resolveu voltar ao salão de jantar. Não comeria coisa alguma, mas observaria os outros médicos.

Logo que chegou à mesa, descobriu que a moça a sua direita era a dançarina morena que admirara na noite anterior. Ela usava um recatado vestido e podia ter sido confundida com uma das passageiras.

Olhando em volta da sala, Adam notou algumas outras dançarinas. Sentindo um puxão na manga do paletó, voltou a atenção para a morena a seu lado.

— Meu nome é Heather — disse ela naquela voz estranhamente uniforme, sem inflexões, que Adam viera a associar com o cruzeiro. Ela não deu o sobrenome.

Os demais convivas na mesa pareciam concentrados na refeição. Uma tigela de saboroso minestrone foi colocada na frente de Adam. Enquanto ele fingia comer um pouco, Heather dirigia-lhe atenção total. Adam continuou a inclinar a cabeça e a sorrir, até que ela finalmente disse:

— Você não está comendo muito.

Adam, que estivera brincando com a comida, respondeu com simplicidade:

— Tenho estado enjoado.

Foi a única desculpa que lhe ocorreu.

— É melhor comer — aconselhou Heather. — Estranhamente, o estômago vazio é mais vulnerável.

— É mesmo? — perguntou Adam evasivo. Depois, como se lhe ocorresse outro pensamento, acrescentou: — Você também não comeu muito.

Heather soltou uma risada aguda e áspera.

— Esse é o problema das dançarinas. Tenho de cuidar sempre de meu peso.

Adam inclinou a cabeça. Sabia por Jennifer que dançarinas viviiam obcecadas com a questão do peso.

— Gostaria que eu fosse a seu camarote hoje à noite? — perguntou Heather tão casualmente como se estivesse perguntando sobre o estado do tempo.

Adam ficou satisfeito por não ter comido. Se tivesse alguma coisa na boca, ter-se-ia engasgado. Ainda assim, tossiu e olhou em volta a fim de verificar se alguém ouvira. Os companheiros de mesa, porém, simplesmente continuaram a comer no silencioso semi-estupor. Adam virou-se para Heather. Embora a voz dela fosse estranha, ela certamente não parecia drogada. Resolveu topar a parada. Ela poderia, quem sabe, responder a algumas perguntas sobre esse cruzeiro cada vez mais estranho.

— Apareça depois de seu último espetáculo — murmurou.

-- Estarei no seu camarote às 11 horas — concordou ela entusiasticamente.

Adam ficou vermelho como uma beterraba. Por sorte, os demaisconvivas pareciam desligados demais para notar alguma coisa. Com um rápido sorriso, Adam inclinou a cabeça na direção dela.

Voltou ao camarote e apressadamente comeu um pouco do pão e do queijo que José lhe arranjara. Na palestra da tarde, notou que havia um número sempre maior de assentos vazios. Não viu sinais de Alan, embora mais tarde encontrasse Ned e Clair. Eles sorriram mas quase não falaram e Adam perguntou-se se eles não estariam recebendo doses pequenas do tranqüilizante. Por ocasião da terceira palestra, notou que boa parte da platéia dormia e convenceu-se de que não apenas porque estivesse entediada.

Às quatro horas saiu e foi encontrar-se com José. Talvez o marinheiro tivesse uma idéia do lugar onde Alan poderia estar escondido.

— Eu gostaria de conversar — disse, quando José deixou-o passar pela porta.

— Qual é o problema? — perguntou José.

— Nada — respondeu Adam. — Eu gostaria simplesmente de lhe fazer algumas perguntas.

José levou-o novamente para sua cabine nos fundos do navio e fechou a porta. De um armário vertical tirou dois copos e uma garrafa de rum escuro. Adam declinou mas José encheu, apesar disso, os dois copos.

— O que você quer saber?

— Você anda por todo o navio? — perguntou Adam. José emborcou o rum de um único gole.

— Não — respondeu, enxugando a boca com as costas da mão. — Todo, não. Não conheço o lugar onde ficam todos esses safados de casacos brancos.

— Eu pensava que eles ocupavam alojamentos aqui, com o resto da tripulação — observou Adam.

— O quê? Você está doido? — perguntou José. — A gente nunca vê aqueles caras esquisitos. Os camarotes deles ficam no convés C.

— Onde fica isso? Eu pensava que o B fosse o convés mais baixo. José ergueu o segundo copo.

— Tem certeza de que não quer um pouco de rum? Adam sacudiu a cabeça.

— As escadas para o alojamento dos camareiros ficam no salão de jantar — falou José, depois de tomar o segundo drinque. — O único motivo por que sei disso é que fui lá procurando alguma coisa para comer em um dia em que estávamos ancorados. Infelizmente, fui descoberto e quase perco o emprego. Mas por que você se preocupa com esses caras?

Estou perguntando — explicou Adam — porque o passageiro do camarote junto ao meu parece ter sumido. No começo, ele parecia doente. Agora, sumiu.

— Verificou na enfermaria? — perguntou José. — Um dos tripulantes me disse que há aqui um hospital inteiramente equipado.

— Onde fica? — perguntou Adam.

— No convés B — explicou José. — Por trás do consultório do médico.

Adam pegou os alimentos que José embrulhara para ele. A enfermaria parecia um lugar promissor para encontrar Alan.

— Que tal mais alguns cigarros? — perguntou José.

— Claro — concordou Adam. — Amanhã, mesma hora.

— Tudo bem — disse José. — Deixe eu ir ver se o corredor está livre. — Pôs o copo vazio de lado e fez menção de abrir a porta.

— Mais uma pergunta — disse Adam. — Sabe de alguma coisa a respeito das dançarinas?

José fitou-o com um grande sorriso.

— Não tanto quanto eu gostaria de saber.

— Elas são prostitutas? — perguntou Adam, pensando que seria bom saber com certeza antes da visita de Heather.

José sacudiu a cabeça, rindo.

— Não, são universitárias, trabalhando para ganhar créditos extras. Que tipo de pergunta é essa?

— Você se encontra algumas vezes com as moças? — quis saber Adam.

— Eu gostaria — queixou-se José. — Escute aqui, eles nunca deixam que a gente se misture com esses tipos esquisitos que dirigem o cruzeiro. Mas vi uma das moças na praia em Porto Rico, há um ano mais ou menos. Tentei uma cantada, mas ela não estava interessada. Eu estava muito bêbado e tentei agarrá-la. Foi aí que descobri que ela usava peruca. A peruca soltou-se e a cabeça dela era raspada. Em cada têmpora havia grandes cicatrizes redondas. Não é estranho?

— O que aconteceu com ela? — perguntou Adam.

— Nunca descobri — continuou José. — Ela me deu uma joelhada e eu perdi o interesse de repente.

— Que cruzeiro! — comentou Adam, pegando o embrulho.

— Qual é o problema? — perguntou José. — Você não está se divertindo?

Quando o telefone tocou, Jennifer teve a premonição de que era o Dr. Vandermer. Ouviu a mãe responder e um momento depois soltar um pequeno grito. Foi nesse momento que Jennifer teve a certeza. Desceu antes que a mãe pudesse chamá-la. Ao chegar à cozinha, a Sra. Carson, sem uma palavra, entregou-lhe o aparelho.

— Alô, Dr. Vandermer — falou Jennifer, controlando a voz.

— Olá, Jennifer — respondeu ele. Houve uma longa pausa. — Lamento, mas tenho más notícias.

— Eu esperava isso — confessou Jennifer.

Podia sentir que o Dr. Vandermer estava lutando para encontrar as palavras certas.

— A amniocentese foi definitivamente positiva — continuou ele. — Desta vez, eu mesmo supervisionei a filtração do líquido amniótico. Não há possibilidade de erro. Está presente a mesma grande anormalidade cromossômica. Na verdade, os espécimes nunca foram trocados. Receio que além da síndrome de Down seu feto deve ter uma grande anormalidade de desenvolvimento dos órgãos sexuais.

— Oh, Deus — exclamou Jennifer —, mas isso é horrível.

— É, de fato — concordou o Dr. Vandermer. — Se vamos fazer alguma coisa, acho que devemos agir rapidamente.

— Concordo. Pensei muito nisso e quero fazer um aborto. Quanto mais cedo, melhor.

— Neste caso, vou tentar providenciar isso para amanhã.

— Obrigada, Dr. Vandermer — despediu-se Jennifer, e desligou. A Sra. Carson abraçou a filha, dizendo:

— Sei como você se sente, mas acho que está fazendo a coisa certa.

— Sei que estou. Quero simplesmente conversar com Adam. A boca da Sra. Carson endureceu-se de irritação.

— Mamãe, ele ainda é meu marido e não quero fazer isso sem dizer a ele.

— Bem, querida, faça o que achar melhor.

A mãe deixou a cozinha e subiu para o andar superior, provavelmente para queixar-se de Adam ao marido no outro telefone.

Logo que ficou sozinha, Jennifer ligou para o apartamento, na esperança de Adam ter voltado. Deixou o aparelho chamar vinte vezes, antes de desligar e pedir à telefonista o número da Arolen Phar-maceuticals, em Montclair, Nova Jersey. Quando a mesa atendeu, pediu para falar com Clarence McGuire. Só foi atendida depois de trocar algumas palavras ásperas com a telefonista.

— Como está, Sra. Schonberg? — perguntou McGuire ao surgir finalmente na linha.

— Não estou muito bem — respondeu ela friamente. — Quero saber onde está meu marido.

— Sinto muito, mas eu mesmo não sei. Ele telefonou e disse que ia sair da cidade por causa de problemas familiares.

— O senhor não estaria me mentindo? — perguntou Jennifer. — Pensei que o havia enviado a Porto Rico.

— Ele recusou o oferecimento — explicou McGuire. — E não há razão para que eu lhe minta.

Jennifer desligou, sentindo-se confusa. Estivera tão convencida de que Adam estava viajando para a Arolen e não lhe quisera dizer que teve problema em pensar noutra possibilidade. Impulsivamente, ligou para o pai de Adam.

— Sinto muito incomodá-lo, Dr. Schonberg — ela nunca telefonara para o sogro antes —, mas estou procurando Adam e pensei que o senhor talvez pudesse saber onde ele está.

— Não tenho a menor idéia — respondeu o Dr. Schonberg — e você mais do que ninguém devia saber disso.

Jennifer desligou o telefone no momento em que a mãe voltava à cozinha. Ela provavelmente ouvira a conversa de Jennifer com McGuire.

— É melhor não contar a seu pai — aconselhou. — Ele já pensa que Adam está tendo um caso amoroso.

Adam estava nervoso. Recebera outra cápsula amarela por volta das seis horas e os camareiros observavam-no atentos durante o jantar. Receoso de que eles estivessem descobrindo que lhes evitava o tratamento, recorreu ao expediente de esconder a comida no guardanapo para dar a impressão de que estava comendo. Logo que pôde, saiu do salão. De volta ao camarote, foi olhar na enfermaria. Era uma instalação impressionante, com centro cirúrgico completo e equipamento radiológico sofisticado. Mas ali não havia pacientes.

Passando pelo camarote de Alan, abriu a porta, esperando encontrar o local vazio. Para surpresa sua, Alan estava na cama, mais ou menos nas mesmas condições que antes do seu desaparecimento. Alan parecia saber onde se encontrava, mas insistiu em que em nenhum momento deixara o camarote. Adam ajudou-o a deitar-se e voltou ao seu próprio camarote.

Tomar parte num cruzeiro para descobrir por que Vandermer mudara de idéia sobre o Pregdolen parecera uma boa idéia na segurança de Nova York. Naquele momento, porém, só queria voltar inteiro e bem para junto de Jennifer. Lembrou-se de que alguém lhe explicara que o motivo de a Arolen proporcionar um cruzeiro a médicos era o de afastá-los de seus cuidados habituais. Mas drogá-los a um ponto em que eles não sabiam o que faziam era mais do que uma medida extremada. Era apavorante.

Uma batida à porta disparou-lhe a pulsação. Teve esperança de que não fosse o camareiro de expressão vazia, trazendo outra cápsula.

— Oh, Deus! — exclamou, quando viu que era Heather.

— Estou tão contente porque me dispensaram do último número — disse ela, entrando e olhando em volta do pequeno camarote.

Usava blusa transparente e a mais curta das saias que Adam já vira. Tinha de fato um corpo maravilhoso. Estou pirado, pensou Adam, incapaz de despregar os olhos dela. De que maneira poderia explicar aquela cena a Jennifer?

— Heather, por que você não se senta para conversarmos um pouco?

Heather parou a pequena dança que estava executando em volta do quarto.

— Claro — concordou ela, deixando-se cair na cama ao lado de Adam e encostando a coxa nua na perna dele.

Com dois elegantes pontapés, lançou para o outro lado os sapatos de salto alto.

— Sobre o que você quer conversar?

— Sobre você — respondeu Adam, achando difícil não olhar para a curva dos seios dela.

— Prefiro conversar sobre você — retrucou Heather, envolvendo-lhe o pescoço com os braços.

— Foi isso o que me disse no almoço — respondeu Adam. soltando-se suavemente —, mas quero realmente conhecê-la.

— Não há muita coisa a dizer — insistiu Heather.

— Escute aqui, isto não é um trabalho comum para uma mocinha. Como foi que acabou aqui?

Heather não respondeu. No começo, Adam achou que ela estava pensando mas, quando a examinou bem, achou que ela parecia estar em transe.

— Heather? — falou, abanando a mão em frente aos olhos dela.

— Sim — respondeu ela, piscando.

— Eu lhe fiz uma pergunta.

— Oh, sim, como foi que acabei no Fjord. Bem, é uma história muito comprida. Eu era secretária da Arolen Pharmaceuticals em Nova Jersey. Gostaram de mim e me ofereceram um emprego na Info-med, em Porto Rico. Lá, comecei também como secretária, mas depois descobriram que eu gostava de dançar e me ofereceram este trabalho.

Isso explicava a dança, pensou Adam, mas não a prostituição, se ela na verdade era uma piranha. Estava disposto a dar-lhe o benefício da dúvida.

— Está gostando do cruzeiro? — perguntou Heather, mudando de assunto.

— Estou gostando muito — garantiu Adam.

— Vou fazer com que você goste ainda mais — prometeu Heather. — Mas, em primeiro lugar, tenho um presente para você.

— Não diga — duvidou Adam.

— Espere aqui.

Levantando-se, ela foi apanhar a pequena bolsa que deixara na escrivaninha. Quando ela se voltou, Adam notou que tinha na mão mais duas cápsulas amarelas. Sentiu uma pontada de pânico.

— Pode me arranjar um pouco de suco de fruta no armário? — perguntou ele. — Não suporto a água daqui.

— Tudo bem — respondeu ela prazerosamente.

Pôs as cápsulas na escrivaninha e foi buscar o suco. Tirando a tampa da garrafa, entregou-a a Adam,, que pegou as cápsulas e deixou-as cair atrás da cama quando ela foi guardar novamente o suco.

— Agora vou fazer com que você realmente goste deste cruzeiro — disse ela, sentando-se no colo dele.

— Espere um pouco — pediu Adam, evitando-lhe os lábios. — O que era aquela cápsula que você acabou de me dar?

— Para lhe dar prazer — garantiu Heather. — Para fazer você relaxar e esquecer seus problemas.

— Você também as toma? — perguntou Adam.

— Não — retrucou Heather com aquele seu riso agudo. — Eu não tenho problema algum.

— Por que acha que eu tenho? — perguntou Adam.

— Todos os médicos têm problemas — garantiu-lhe Heather.

— Você visita todos os médicos? — perguntou Adam. — Você e as outras dançarinas?

— Não — retrucou Heather. — Só os que o Sr. Powell e o Dr. Goddard nos dizem para procurar.

— E eles lhe disseram para me procurar? Heather confirmou com um aceno.

— Sabe por quê?

— Porque você não relaxou o suficiente — respondeu Heather petulante. — Não está interessado em mim?

— Claro que estou.

Inclinou a cabeça e beijou-a enquanto com os dedos sondava-lhe a linha dos cabelos a fim de verificar se ela usava peruca. Não usava, mas ao esfregar a pele acima das têmporas, sentiu minúsculas linhas elevadas.

— Heather, quero lhe fazer uma pergunta. Isso aqui é uma cicatriz?

— Acho que não — respondeu Heather, parecendo aborrecida.

— Onde?

— Em suas têmporas — respondeu Adam. Suavemente, virou-lhe a cabeça e afastou os cabelos para ver melhor. Encontrou pequenas cicatrizes, de mais ou menos um centímetro de comprimento, exatamente como José as descrevera.

Heather ergueu a mão e tocou no ponto. Depois", encolheu os ombros.

— Tem alguma idéia de como conseguiu essas cicatrizes? — perguntou Adam.

— Não — respondeu Heather. — E também não me importo.

— Desculpe se não sou muito divertido. Acho que estou relaxado demais.

Heather pareceu desapontada.

— Talvez fosse melhor eu ter esperado para lhe dar as cápsulas.

— O Sr. Powell ficará satisfeito se eu finalmente esquecer minhas preocupações? — perguntou Adam.

Heather inclinou a cabeça, acariciando-lhe suavemente os ombros.

— Por que o Dr. Powell se interessa em que eu fique relaxado? — perguntou Adam.

— Para que você possa ir para a sala de instruções.

Adam olhou fixamente para a moça. Ela notou o olhar e perguntou rapidamente.

— Tem certeza de que está bastante relaxado?

— Absoluta — garantiu Adam. — Sabe onde fica essa sala de instruções?

— Claro. Na verdade, devo levá-lo para lá. Mas só depois que você estiver pronto.

— Nunca estive tão relaxado assim — disse Adam, amolecendo os braços. — Por que não me leva para lá agora?

Em vez de responder, Heather aparentemente entrou em outro transe. Minutos depois, recomeçou a conversa como se não tivesse notado a interrupção:

— Posso levá-lo à sala de instruções se você tomar outra cápsula. Tenho de me certificar de que você caiu no sono.

— Pode me dar a cápsula — pediu Adam. — Mal consigo manter os olhos abertos agora.

Era curiosa a facilidade com que podia enganar Heather. Como o camareiro, ela parecia quase infantil em sua confiança. Após um momento, Adam recaiu na cama e fechou os olhos. Dez minutos depois, Heather ajudou-o a levantar-se e levou-o para fora da cabine. Voltaram à escadaria central, subiram para o convés principal e entraram na sala de jantar. Do outro lado da porta havia uma despensa, com toalhas, pratos e talheres. A porta à direita abria para uma escada que descia para as profundezas do navio. Adam calculou que levava ao convés C.

Enquanto desciam, passaram por vários camareiros que subiam. Adam procurou evitar-lhes os olhos. Não queria que ninguém notasse que estava fingindo um estado de sedação.

Ao chegarem ao pé da escada, desceram um longo corredor até chegarem a duas portas duplas.

— Stuart Smyth — disse Heather ao camareiro que guardava a entrada. — É a segunda viagem dele.

— Cadeira 47 — indicou o camareiro, entregando a Heather algo que se parecia com um cartão de crédito.

Ela e Adam entraram no cômodo.

Quando seus olhos se ajustaram à escuridão, Adam notou que se «encontrava no que parecia o saguão de um teatro. Olhando por cima da parede, à altura do peito, observou uma tela de cinema. Não ouviu qualquer som mas pensou ver imagens, de médicos, tremeluzindo na escuridão.

O camareiro tomou o cartão de Heather e, sem uma palavra, segurou Adam pelo braço e puxou-o para dentro do cinema. Mesmo na escassa luz, Adam achou que as poltronas eram muito diferentes das de um cinema comum. Pareciam cadeiras elétricas em miniatura, com miríades de eletrodos e correias. Havia de quinze a vinte poltronas em cada fila e mais de vinte filas.

Segurando-lhe o braço numa empunhadura desagradavelmente firme, o camareiro levou-o pela coxia central. Chocado, Adam viu que os médicos estavam nus em pêlo e presos por correias de couro. Usavam capacetes equipados com fones e eletrodos epidérmicos para estimulação. Pareciam profundamente drogados, como Alan, num estágio entre o sono e a vigília. Mais fios enrolavam-se em torno de seus corpos e eram presos com eletrodos de agulhas a vários feixes de nervos.

O camareiro parou junto a uma cadeira vazia na fila da frente. Inseriu o cartão numa ranhura no lado da cadeira e começou a ajustar os fios.

Adam tinha medo até de respirar. Sentiu-se como se estivesse participando de um filme de horror. Erguendo a vista para a imensa tela, viu a imagem de um médico oferecendo a um paciente uma marca qualquer de remédio. No momento em que o nome do medicamento relampejou na tela, o rosto do médico contorceu-se de dor e ele deixou cair o frasco. Na mesma ocasião, Adam ouviu um lamento sobrenatural subir dos médicos reunidos ali na sala. Em seguida, o médico na tela pegou um produto da Arolen e um grande sorriso espalhou-se pelo seu rosto. Adam lançou um olhar para o médico a seu lado e viu que ele também sorria feliz.

Observando o camareiro colocar-lhe as correias, compreendeu que estava presenciando o que havia de mais moderno em técnicas de controle da mente, implicando condicionamento adverso e reforço positivo. À medida que mais situações clínicas eram mostradas na tela, via os rostos dos médicos próximos ora se contorcerem de dor ou de prazer, dependendo das circunstâncias projetadas.

Meu Deus, pensou, estou num pesadelo onde o médico se tornou o paciente! Não era de espantar que Vandermer houvesse mudado de idéia sobre o Pregdolen. E pensar que ele estava tratando de Jennifer!

O camareiro começou a desabotoar-lhe a camisa e o toque dos dedos do homem tornou-o consciente de sua própria vulnerabilidade. Ele não era um observador ali. Queriam ligá-lo a fios e sujeitá-lo ao mesmo tratamento.

Estudando o rosto vazio do camareiro que, desajeitado, lutava com os botões, deu-se conta de que ele também estava drogado como os médicos, apenas em dosagem menor. Na verdade, concluiu, todos os camareiros deviam estar drogados. Talvez alguns houvessem sido mesmo submetidos à psicocirurgia, como achava que acontecera com Heather.

Surgiu na tela uma seqüência que condenava a cirurgia desnecessária. Aparentemente, a MTIC queria fazer mais do que simplesmente proceder a uma lavagem cerebral dos médicos para que receitassem os produtos da Arolen.

O camareiro já havia tirado a camisa de Adam e estava mexendo em seu cinto.

— Você sabe o que está fazendo? — perguntou Adam asperamente, incapaz de permanecer calado.

— Estamos ajudando os médicos a aprenderem — respondeu o camareiro, surpreendido com a pergunta inesperada de Adam.

— A que custo? — perguntou Adam, agarrando o punho do homem.

Lentamente, mas com grande força, o camareiro despregou-lhe os dedos do braço. Adam ficou surpreso com a força do homem, em vista do volume de drogas que ele indubitavelmente tomara.

— Por favor — disse o camareiro. — O senhor tem de cooperar. Ergueu o capacete, com a intenção de colocá-lo na cabeça de Adam.

Sabendo que a surpresa era sua única arma, Adam arrancou-lhe da mão o capacete e enfiou-o na própria cabeça do camareiro. Agarrando a massa de fios, enrolou-os em volta do pescoço do homem, virou-se e fugiu, esperando que o camareiro não pudesse gritar, antes de ele conseguir escapar dali.

Enquanto subia correndo a passagem central, os médicos soltaram outro grito de angústia, pregando um novo cravo de pavor em sua espinha. Camisa na mão, correu para a porta, entrando no saguão a toda velocidade. Quando passou pelo guarda que se encontrava na cabine, o homem soltou um grito.

Subiu com tanta rapidez a escada para o convés principal que quase caiu. Um camareiro que descia estendeu a mão para ajudar, mas não fez qualquer tentativa para detê-lo.

Na sala de jantar, teve de decidir se subia mais ou não. Resolveu subir porque as áreas embaixo deixavam-no com um sentimento de claustrofobia. Passando veloz pelas salas de conferência, ouviu uma série de toques de campainha. Em seguida o sistema de alto-falantes do navio foi acionado:

— Atenção para o aviso seguinte. O passageiro Smyth está em grandes dificuldades e precisa ser detido.

Parando no alto da escada, Adam começou a tremer de medo. Em desespero, tentou controlar o pânico e pensar num lugar onde pudesse esconder-se. Os numerosos vestiários e armários pareciam óbvios demais. Além de tudo, ficaria encurralado. Subiu outro lance de degraus. Ao chegar ao convés principal, ouviu gritos no nível inferior.

Dominado pelo terror, correu pelo lado da piscina. De repente, a imensa chaminé branca surgiu altaneira à sua frente. Viu uma escada de metal no lado mais próximo. Sem pensar, alcançou o degrau mais baixo e começou a subir. Deixando o abrigo do tombadilho, o vento começou a açoitar-lhe o peito nu. Havia subido uns 15 metros quando ouviu o som dos perseguidores no solário embaixo. Imaginando um farol prendendo-o contra a parede branca, fechou os olhos, apavorado.

Depois de vários segundos sem um grito que indicasse ter sido ele descoberto, arriscou-se a olhar para baixo. Vários camareiros estavam erguendo metodicamente as coberturas de lona dos botes salva-vidas e abrindo os vários armários. Pelo menos eles não haviam desconfiado de seu esconderijo. Vendo a altura em que se encontrava sobre o convés, porém, sentiu-se subitamente tonto. Olhando para cima, a situação em nada melhorava. As estrelas pareciam balançar de um lado para o outro no céu.

Após alguns momentos, olhou novamente para baixo. Vários camareiros estavam se mexendo em volta da base da chaminé. A despeito de seu medo de alturas, começou a subir mais, devagarinho. Calculava que tinha mais uns sete metros para subir antes de chegar ao alto. Imediatamente abaixo da borda, de cada lado da chaminé, havia duas aberturas escuras, cada uma delas do tamanho de um homem. Resolveu verificar se podia esconder-se numa delas. Tentando não pensar na possibilidade de cair, chegou a elas. Dentro de cada uma havia um chão de grade de metal.

Sabendo que não podia continuar mais nessa posição exposta, agarrou a borda da abertura à esquerda e passou o pé sobre ela. Suspenso entre a escada e a abertura, quase perdeu a coragem. Era uma longa queda até o tombadilho. Procurando esquecer o medo, soltou-se da escada e puxou-se para dentro da chaminé.

Logo que recuperou o equilíbrio, andou em volta do passadiço dentro da chaminé. Não tinha idéia para que fim aquele espaço podia ser usado, mas sentiu-se feliz em estar ali. Convencido de que ninguém o descobriria, abotoou a camisa e começou a tentar pensar no que fazer em seguida. Obcecava-o a lembrança daqueles médicos gemendo de dor. Naquele momento compreendeu o que Vandermer e Foley haviam suportado.

Lembrando-se da palestra do Dr. Goddard sobre o interesse da Arolen pela fetologia, compreendeu que a companhia devia ter uma necessidade crescente de tecido fetal. De repente, soube por que a Clínica Julian possuía um programa de amniocentese tão ativo. A confusão com o espécime de Jennifer não fora provavelmente um acidente. Começou a suar frio. E se convencessem Jennifer a repetir a amniocentese antes de ele voltar a Nova York?!

Caiu de joelhos. Se apenas tivesse corrido para a frente, poderia ter chegado ao alojamento da tripulação e, de algum modo, usado o rádio. Não, pensou, isso era pura fantasia. Estava pensando de que maneira poderia voltar ao tombadilho, quando ouviu um som surdo contra o lado externo da chaminé.

Com todo o cuidado, puxou-se para a beira da abertura e olhou pela borda. A meio caminho na escada viu um camareiro. Entrou novamente em pânico. Estava encurralado. Talvez o homem não entrasse na abertura, mas isso parecia improvável.

Ouviu a respiração difícil do homem e, um segundo depois, a mão pegou a borda, seguida pelo pé e depois o restante do corpo do camareiro. Adam esperou até que o homem aparecesse em silhueta na abertura, os braços abertos para manter o equilíbrio. Usou as duas mãos para pegar a cabeça do homem e batê-la com toda força contra a chapa de aço da chaminé. Teve de agarrar a jaqueta do camareiro para evitar que ele caísse para trás pela abertura. Em seguida, puxou-o para dentro e deixou-o desmoronar no passadiço. Curvou-se para examinar a cabeça do homem. Pelo menos, não havia sangue.

Puxando-o para uma posição sentada, lutou para lhe tirar a jaqueta branca. A gravata-borboleta saiu fácil, uma vez que era do tipo de pressão. Levantando-se, experimentou a jaqueta. Grande, mas servia. Abotoando o botão superior da camisa, colocou a gravata-borboleta, resolvendo que era melhor descer a escada antes que o homem recuperasse os sentidos. Achou que sua melhor chance seria esconder-se no alojamento da tripulação.

Estava a meio caminho na escada, descendo, quando notou alguns camareiros no tombadilho embaixo. Teria simplesmente de passar por eles na base do blefe. Ao chegar ao tombadilho, endireitou a gravata, alisou a jaqueta e começou a andar para a frente.

Teve de dominar a ânsia de correr ao passar por um camareiro que estava examinando os armários onde eram guardadas as cadeiras de tombadilho e que ficavam perto da escada principal. Por sorte, a escada estava vazia e ele chegou ao convés superior sem ser observado. O restante dos camareiros havia-se dispersado, sem dúvida para procurá-lo em outras partes do navio. Saiu no lado de estibordo e andou para a frente. Passando pela borda da divisória, compreendeu que seu disfarce poderia torná-lo suspeito nessa área do navio. Tirando a jaqueta, lançou-a pela amurada.

Movendo-se rápido, dirigiu-se para a porta por onde entrara em companhia de José. Abrindo-a, olhou para um corredor iluminado por lâmpadas nuas que lançavam sombras grotescas nas paredes. Na extremidade mais distante, ouviu o som de vozes e o tinir de talheres. Achou que ali devia ser o refeitório da tripulação.

Movendo-se com todo o silêncio que o chão de metal permitia, foi na ponta dos pés até a porta de José e bateu. Não obteve resposta. Tentou a maçaneta, que girou facilmente, e entrou, fechando em silêncio a porta.

Infelizmente, não havia luz no quarto. Passou os dedos pela parede junto à porta mas não encontrou interruptor algum. Cautelosamente, penetrou mais no quarto, tentando recordar-se da disposição interna. Lembrou-se de que havia uma lâmpada na parede acima da cama suspensa.

De repente, uma mão saiu da escuridão e pegou-o pela garganta.

— José! — arquejou, antes que a mão apertasse a empunhadura e lhe cortasse o ar.

Ia justamente desmaiar quando a empunhadura no pescoçoafrou-xou. Ouviu um estalido e a luz inundou o quarto. A sua frente, José fitava-o enojado.

— Está tentando se matar? — perguntou José, largando-o e sentando-se na cama.

— Eu bati — conseguiu Adam dizer, massageando o pescoço. — Você não respondeu.

— Eu estava dormindo — explicou José.

— Sinto muito — desculpou-se Adam —, mas é uma emergência.

— Uma das universitárias está atrás de você? — perguntou José sarcástico.

— Não exatamente. São aqueles tipos esquisitos de jaquetas brancas.

— O que, diabo, eles querem com você? — perguntou José.

— Você não acreditaria se eu lhe contasse. Mas há uma oportunidade de você ganhar algum dinheiro. Isso o interessa?

— O dinheiro sempre me interessa — retrucou José. — No que você está pensando?

— Quando é que nós chegamos a St. Thomas?

— Que horas são?

Adam olhou para o relógio.

— Uma e meia.

— Em quatro ou cinco horas. Por aí.

— Bem, preciso ficar escondido até o navio ancorar e, depois, escapulir sem que ninguém me veja.

José enxugou o rosto com as costas da mão.

— De que tipo de dinheiro você está falando?

Adam tirou a carteira e contou. No total, tinha ali perto de 300 dólares.

— Vou precisar de algum para o táxi, mas 275 dólares são seus — prometeu Adam.

José ergueu as sobrancelhas.

— Não posso garantir coisa alguma mas vou tentar. Se pegarem você, porém, vou jurar que nem o conheço.

Adam entregou-lhe 100 dólares.

— Você recebe o resto quando eu desembarcar.

José inclinou a cabeça, concordando, e foi até o armário. Puxou de dentro um par de calças caqui manchadas de óleo e uma camisa de flanela rasgada. Lançando-as na direção de Adam, recomendou:

— Vista-as e você passa por tripulante. Tenho uns dois amigos que odeiam tanto esses camareiros quanto eu. Talvez eles ajudem. Fique aqui. Ninguém deve incomodá-lo.

Adam tentou dizer a José o quanto apreciava aquela ajuda, mas o marinheiro cortou-o, dizendo que tudo o que o interessava era o dinheiro. Depois, vestiu as calças e deixou a cabine.

Adam enfiou-se nas roupas imundas e escondeu as suas no fundo do armário. Depois, olhou-se no espelho em cima da pia. Parecia horrível mas, pelo menos por uma vez, apreciou possuir barba de crescimento rápido. Certamente, não se parecia mais com um dos passageiros.

A porta foi aberta novamente e ele quase desmaiou, mas era apenas José.

— Na próxima vez, que tal bater? — perguntou Adam.

— Ei, esta é minha droga de cabine — respondeu José irritado. Adam não pôde contestar esse ponto. José sentou-se no beliche.

— Falei com um amigo meu para tirá-lo do navio. Ele sabe como fazê-lo. Parece que ele mesmo a usou um dia quando a tripulação não devia descer em St. Thomas. O problema é que precisa de todo seu dinheiro na frente. Tenho de pagar os outros dois caras. Adam sacudiu a cabeça.

— Escute aqui — exclamou José —, se não está feliz com este arranjo, por que não vai embora?

Adam entendeu. Não tinha alternativa. Se quisesse, José poderia tomar-lhe o dinheiro à força.

Com um suspiro de resignação, puxou a carteira. Guardando 25 dólares, entregou o resto a José.

— Você age como se estivesse me fazendo um favor — comentou o marinheiro, enfiando as notas no bolso. — Mas ouça aqui, a gente não ia arriscar o pescoço por este pouco dinheiro se não odiasse aqueles camareiros nojentos.

— Entendo — falou Adam, perguntando-se quais eram as chances de que José simplesmente fosse acabar com ele.

— Pode ficar escondido aqui pelo resto da noite. Pela manhã, quando o navio atracar, venho buscá-lo. Entendeu?

Adam inclinou a cabeça.

— Pode me dar uma idéia de quais são seus planos? José sorriu.

— Prefiro que seja surpresa. Fique à vontade e não se preocupe com coisa alguma.

Adam ouviu o riso de José quando a porta se fechava.

Olhando para o relógio, Adam achou que aquela ia ser umanoite comprida. Percebeu que estava tenso demais para dormir; no entanto, logo após cochilou. Não soube quantas horas haviam passado, até ser acordado por altos berros no corredor. Imediatamente, reconheceu a voz.

— Nesta parte do navio eu estou no comando e ninguém vai dar busca sem minha permissão. — Era o capitão falando.

Uma voz mais profunda respondeu:

— Sou o responsável pelo navio, de modo que, por favor, deixe-me passar.

Adam achou que a voz devia ser de Raymond Powell.

Outras vozes começaram a berrar e Adam ouviu portas sendo abertas e fechadas com estrondo.

Em pânico, olhou em volta do pequeno cômodo, à procura de um lugar para se esconder. Não havia lugar algum. Até mesmo o armário era estreito demais para que pudesse espremer-se dentro dele. Nesse momento, teve uma idéia. Puxou o cabelo para a testa e arriou até os tornozelos as calças manchadas de graxa. Saltando até o vaso sem tampa, sentou-se. Encontrou um número da revista Penthouse ao lado, apanhou-o e colocou-o no colo. Uns dois minutos depois, ouviu o som de uma chave na fechadura e a porta foi aberta.

Ergueu a vista. Viu um camareiro à porta. Imediatamente atrás dele, o Sr. Powell e o Capitão Nordstrom, que ainda protestava. Powell lançou-lhe um olhar de nojo e foi embora. O camareiro fechou a porta com estrondo.

Durante um momento, Adam permaneceu imóvel. Ouviu o grupo descendo barulhentamente o corredor. Por fim levantou-se e puxou as calças para a cintura. Levando a Penthouse para o beliche, tentou ler, mas não conseguiu, pois era grande demais o medo de que o grupo voltasse. Afinal recaiu no sono, até que uma pancada forte anunciou que o navio atracara. Eram 5h15m.

A hora e um quarto seguintes foram os mais longos de sua vida. Ocasionalmente, passava alguém pelo corredor e todas as vezes tinha certeza de que iam encontrá-lo.

Às 6h30m José voltou.

— Está tudo pronto — disse ele, indo até o armário e pegando uma garrafa de rum escuro. — Em primeiro lugar, acho que você deve tomar um drinque.

— Você acha que preciso disso?

— Acho — retrucou José, entregando-lhe um copo. — Eu tomaria, se fosse você.

Adam tomou um pequeno gole, mas a bebida era forte e amarga. Sacudiu a cabeça e devolveu o copo. Indiferente, José emborcou-o.

Recolocando a garrafa no armário, José esfregou as mãos.

— Seu nome é Angel, no caso de alguém perguntar. Mas não acho que você vá ter muito o que conversar.

Abriu a porta do corredor e com um gesto disse a Adam que o seguisse.

 

Jennifer dormiu mal e estava na cozinha quando o telefone tocou às 7h30m. Atendeu rapidamente, pensando que os pais continuavam a dormir; sua mãe, porém, já levantara o aparelho.

— Eu atendo, mãe — disse Jennifer ao ouvir a voz do Dr. Vandermer.

— Bom dia, Jennifer. Está tudo providenciado para recebê-la aqui às 3h30m. Sinto que seja tão tarde assim, mas estamos tão ocupados que tivemos problema até para encaixar você. Beba somente água; hoje à noite estará tudo terminado e você poderá comer no jantar tudo o que quiser.

— Tudo bem — respondeu Jennifer, sem muito entusiasmo. — Quanto tempo vou ficar aí?

— Provavelmente só essa noite. Eu lhe explicarei tudo quando você chegar.

— A que horas devo me apresentar?

— Por que não chega aqui um pouco mais tarde, esta manhã? Desta maneira, podemos fazer o trabalho rotineiro de internação. E se a programação cirúrgica melhorar, talvez possamos atendê-la mais cedo. Enquanto isso, simplesmente relaxe e deixe que eu me preocupe com os detalhes.

Jennifer fez um pouco de café e saiu para o jardim. Durante um momento, ficou em dúvida, mas depois chegou à conclusão de que estava fazendo o certo. O Dr. Vandermer e seus pais achavam que ela não tinha alternativa. Só queria que Adam estivesse ali para compartilhar da decisão.

Adam seguiu José, tentando tornar-se tão invisível quanto possível. Cruzaram todo o corredor, passaram pelo refeitório e desceram uma escada íngreme. Os tripulantes que encontraram pareciam achar natural a sua presença. Mesmo assim, foi uma experiência torturante para ele. Continuava a temer que alguém o reconhecesse e desse o alarma.

Ao chegarem ao nível mais baixo, começaram a percorrer um estreito corredor cheio de canos e que cheirava a óleo diesel. Passaram por salas cheias de máquinas e achou que aquilo eram os geradores. Muitos homens trabalhavam ali, nus da cintura para cima, os corpos brilhantes de suor. O ruído era ensurdecedor.

Continuaram a andar até que chegaram a uma grande sala escura cheia de latões de metal pintado, sobre rodinhas, e que desprendiam uma grande fedentina do lixo que continham. José entrou e levou Adam para o canto mais distante, onde encontraram dois homens sentados no chão jogando vinte-e-um. Quando José se aproximou, o tipo mais corpulento ergueu rapidamente a vista e voltou ao jogo.

— Agora você me pegou — disse ele ao homem mais baixo, enquanto José se agachava.

Na parede atrás do jogador havia uma larga abertura, através da qual Adam viu uma parte do movimentado cais. Uma faixa de radiante luz solar, que parecia celestial naquele lugar infernal, entrava oblíqua pela abertura.

— Aleluia — murmurou, aproximando-se da porta baixa, protegendo os olhos da intensidade do sol tropical.

Sentiu-se muito perto da terra — e da liberdade. Pouco importava que não soubesse ainda como ia chegar lá. Olhou novamente para fora e para o cais de concreto e sua alegria desapareceu. À direita, uma escada de passageiros descia para o cais, guardada por camareiros de jaquetas brancas que examinavam com cuidado todas as pessoas que deixavam o navio.

— José, não há maneira de eu descer para lá sem ser detido — disse, fazendo um esforço para controlar a voz.

Sem erguer a vista do jogo de cartas, José respondeu:

— Simplesmente espere.

Adam permaneceu onde estava durante alguns minutos, perguntando-se o que devia fazer.

— José — recomeçou —, é por ali que vai me tirar do navio? — Indicou a escada com a cabeça.

— Nunquinha — respondeu José. — O melhor ainda está por vir.

— O que você está pensando em fazer? — perguntou Adam zangado.

José não respondeu. Voltando à abertura, Adam olhou ansioso para as colinas verdes que subiam suavemente do porto. Estavam pontilhadas de pequenos bangalôs. Ia fazer outra pergunta a José quando uma fila de caminhões de lixo amarelos começou a descer o cais, vomitando fumaça preta de seus canos de descarga verticais. Pararam não muito longe da amurada do navio, um atrás do outro. Ouviu-se nesse momento o som horrível de uma buzina de pressão.

Os jogadores soltaram palavrões, jogaram as cartas no chão e aproximaram-se do primeiro latão de lixo. Com o grandalhão empurrando e os dois outros puxando, rolaram-no pela rampa até o caminhão que estava à frente da fila. Quando os homens voltaram para pegar o outro latão, o caminhão começou a trabalhar. Grandes braços hidráulicos adiantaram-se e agarraram o latão, erguendo-o por cima da cabine do caminhão e derramando o lixo na caçamba. Tudo era feito com grande perfeição porque os latões tinham uma tampa de metal que só se abria no último momento. Quando o latão foi devolvido com estrondo ao chão de concreto, José e os outros já tinham o seguinte na borda. Depois de mais algumas cargas terem sido engolidas pelo caminhão, José gritou para Adam:

— Muito bem, venha para cá. — Adam seguiu-o até o latão seguinte na fila.

— Você vai sair com o lixo — disse José. Os três homens começaram a rir.

— Você quer que eu entre nisso? — perguntou Adam horrorizado.

— Você não tem tempo de discutir — lembrou José. — Esta é a última carga do primeiro caminhão.

— Esta é a única maneira de sair do navio? — perguntou Adam.

— A única — confirmou o jogador grandalhão. — Eu mesmo fiz isso uma vez. Não é a maneira mais bacana de andar pela cidade, mas as ruas não estão congestionadas.

— Aonde é que o caminhão vai me levar? — perguntou Adam, pensando no que deveria fazer se concordasse com o plano daqueles homens.

— Até um aterro perto do aeroporto.

— Jesus — lamentou-se Adam —, por que vocês não me disseram que iam me tirar daqui com o lixo?

— Isso não é lixo — respondeu o jogador. — O lixo a gente joga no mar. Isso é refugo.

A buzina do caminhão soou impaciente.

— Você tem de ir — decidiu José. — Não pode ficar para sempre em minha cabine. Bote o pé aqui.

Fez uma cama com as mãos e Adam usou-a como degrau. O jogador grandalhão ergueu a tampa do latão e, com um movimento rápido, José lançou-o de cabeça na confusão de caixas, papel, recipientes encerados e outros restos. Mas, ao contrário do que o jogador dissera, havia lixo também. A tampa fechou-se com grande barulho e Adam ficou mergulhado na escuridão. Sentiu o latão rolar pela rampa até o cais. Uma sacudidela violenta e visualizou sua subida no ar. O latão tremeu, inclinou-se até ficar de cabeça para baixo e, com um relâmpago, Adam, soltando um grito, voou para a caçamba do caminhão. Aterrou sobre as mãos e joelhos, coberto de refugo.

Quase no mesmo instante, o caminhão começou a se mover. Já estava bem longe do cais quando Adam conseguiu levantar a cabeça acima do refugo. O material que havia ali amorteceu a viagem e não foi perturbado pelos solavancos da estrada. Após alguns minutos, porém, o sol tropical transformou num forno a carapaça de metal do caminhão. Começou a suar e, quando o caminhão chegou ao aterro, não se importou mais com o que pudesse lhe acontecer, desde que saísse dali. Obscuramente, ouviu um motor diesel zumbindo sob seu corpo, enquanto a caçamba do caminhão começava a subir no ar. Um momento depois, despencou como uma pedra numa enorme pilha de lixo. Levantou-se a tempo de ver o caminhão afastar-se lentamente.

Ninguém o vira deixar o navio. Estava em segurança. Olhando em volta, viu o minúsculo aeroporto da ilha, a uns 200 metros à direita. À esquerda, o Caribe azul estendia-se até onde a vista alcançava.

Espanando-se o melhor que pôde, começou a andar na direção do terminal.

O aeroporto era uma construção improvisada, com a entrada tomada por táxis garridamente pintados. Ao entrar, notou que um grupo de turistas o observava nervosamente. Era claro que ele não podia comprar uma passagem, a menos que cuidasse da aparência. Entrando numa pequena loja, mudou a roupa para um par de jeans e camisa de malha que alegremente convidava: "venha a St. Thomas." No congestionado lavatório masculino, entrou num sanitário vazio e vestiu a camisa e a calça. Na saída, lançou numa lata de lixo, certamente o lugar delas, as velhas roupas de José.

Olhando em volta, viu a programação dos vôos, que era mostrada em tabuletas forradas de feltro e escrita com letras plásticas. Serviam ao aeroporto duas grandes empresas: a American e a Eastern. Satisfeitíssimo, verificou que poderia facilmente fazer um vôo sem escala para Nova York pela American, que partiria às 9h20m. Entrou no fim da fila para comprar a passagem.

A fila movia-se a passos de caracol e ele começou a temer que pudesse perder o avião.

— Uma viagem de ida a Nova York — pediu, quando chegou finalmente ao balcão.

A moça fitou-o como se achasse um pouco estranhos seu traje casual e falta de bagagem, mas tudo o que disse foi:

— Como é que o senhor pensa em pagar?

— Cartão de crédito — respondeu Adam, e puxou a carteira onde, de algum modo, ficara pregada uma casca de limão. Embaraçado, tirou-a com um piparote e puxou seu cartão Visa.

A moça olhou para o cartão e pediu uma identificação qualquer. Adam puxou a carteira novamente e tirou a licença de motorista. A moça examinou-a e mostrou-a ao despachante corpulento que estava sentado ao lado dela no balcão.

— O cartão Visa é de Schonberg mas a licença diz Smyth — falou o homem, aproximando-se de Adam.

Vermelho como uma beterraba, Adam tirou sua licença autêntica, juntamente com a carteira de empregado da Arolen, onde se via sua foto, e entregou-a ao homem.

— Poderia vir até aqui, por favor? — Chamou o homem, pegando os cartões de Adam e desaparecendo por uma porta.

Adam fez o possível para não parecer nervoso, enquanto a moça continuava a vender passagens ao restante do pessoal da fila, olhando Adam de tempos em tempos, como se para certificar-se de que ele não iria embora.

Passaram-se quase dez minutos antes de o despachante voltar em companhia de um agente da companhia, que se identificou como Bald-win Jacob, o supervisor. Ele trazia nas mãos os cartões de Adam.

— Nós lhe venderemos uma passagem mas o vôo está lotado. O senhor terá de esperar.

Adam inclinou a cabeça. Nada mais havia que ele pudesse fazer. O despachante emitiu a passagem e propositadamente perguntou-lhe se ele levava bagagem.

— Não — respondeu Adam. — Viajo leve quando estou de férias. Foi até a cafeteria e pediu umas duas roscas e uma xícara de café, feliz por não ter de preocupar-se com a possibilidade de estar sendo drogado. Em seguida, ligou para a casa dos Carson. Conforme temia, Jennifer não atendeu ao telefone. Em vez disso, a voz de barítono do Sr. Carson ecoou pelo fio.

— Olá — disse Adam, mais alegremente do que se sentia. — Aqui Adam. Jennifer já acordou?

— Jennifer não está — respondeu o Sr. Carson, em voz claramente hostil.

— Onde está ela?

— Não creio que você possa falar com ela.

— Escute aqui, sei que o senhor ama sua filha — disse Adam —, mas a verdade é que sou o marido dela e tenho urgência em falar com ela.

Houve uma pausa, enquanto o Sr. Carson aparentemente chegava a uma decisão:

— Ela não está. Ela e a mãe acabam de seguir para a Clínica Julian. Jennifer vai ser internada esta manhã.

— Internada? — repetiu Adam alarmado. — Por que ela vai ser internada? Houve algum problema com ela?

— Ela está bem — retrucou o Sr. Carson. — E é por isso que acho que você deve deixá-la em paz por alguns dias. Depois disso, vocês dois podem resolver suas diferenças. Mas, para ser franco, Adam, sua ausência nesta ocasião é muito preocupante.

— Por quê? O que está acontecendo? — perguntou Adam, tentando controlar o medo.

— Jennifer repetiu a amniocentese, que foi novamente positiva. Ela resolveu fazer um aborto.

Adam sentiu alguma coisa estalar dentro de si.

— Ela não precisa de aborto — berrou.

— Essa é a sua opinião — falou calmamente o Sr. Carson. — Não é a nossa nem a de Jennifer e, nas circunstâncias, não há muita coisa que você possa fazer a esse respeito.

Adam ouviu um estalido. A linha morreu.

Em pânico, tentou ligar para Jennifer na clínica mas soube apenas que não lhe fora destinado ainda um quarto e que pacientes não podiam ser chamadas pelo sistema de alto-falantes.

Adam bateu com força o telefone. Dispunha ainda de meia hora antes do vôo. Tentou ligar para Vandermer e foi informado de que ele estava operando.

Deixando a cabine telefônica, Adam correu de volta ao balcão da American Airlines, nesse momento congestionado de passageiros que se apresentavam para o vôo. Puxando e empurrando, conseguiu chegar à frente da fila e pediu para falar com o supervisor.

Passaram-se vários minutos antes que o Sr. Jacob aparecesse. Sem procurar ocultar a crescente histeria, Adam disse que tinha de chegar a Nova York porque a esposa ia ter um bebê.

O supervisor tomou-lhe a passagem e, sem pronunciar uma só palavra, consultou o computador.

— Faremos o melhor que pudermos, mas o vôo está inteiramente lotado — foi tudo o que ele disse ao voltar para junto de Adam.

Adam não sabia o que fazer. Jacob, evidentemente, não ia fazer um esforço extraordinário por sua causa. Ficou ali, tentando pensar no que fazer. Correu de volta ao telefone e ligou para um velho amigo da escola de preparatórios, Harvey Hatfield. Harvey concluíra o curso de direito e trabalhava num grande escritório de Wall Street. Sem entrar em detalhes, disse-lhe que a esposa ia fazer um aborto e que queria detê-la.

Harvey pareceu pensar que ele estava brincando.

— Neste caso, por que está telefonando para um escritório que se especializa em fusões de empresas? — perguntou.

— Jesus, Harvey, estou falando sério.

— Bem, é melhor falar com alguém especializado em litígios civis. Tente Emmet Redford. Ele é amigo de meu pai.

— Obrigado — disse Adam, enquanto seu vôo era anunciado no alto-falante, o vôo em que ele tinha esperança de seguir.

Deixou cair o fone e correu de volta ao balcão, onde praticamente se lançou aos pés da despachante que o atendera inicialmente.

— Por favor, moça, tenho de ir naquele avião. Minha mulher está tendo um bebê e eu vou morrer a menos que chegue a Nova York.

Pela primeira vez, Adam teve a impressão de que alguém estava sentindo pena dele. A moça fitou-lhe os olhos frenéticos e disse:

— Vou colocá-lo na cabeça da lista de espera.

Adam permitiu-se um pouco de esperança, mas alguns outros passageiros chegaram quase sem fôlego e receberam senhas de embarque. Nesse momento, um homem corpulento apareceu com um aparelho transmissor/receptor na mão. Cruzou o portão de embarque e puxou-o às suas costas.

— Sr. Schonberg — chamou Carol, a despachante da companhia. Adam voltou correndo ao balcão mas Carol estava sacudindo a cabeça.

— Sinto muito mas o avião está inteiramente lotado. Não pode embarcar ninguém à espera.

Esmagado, Adam desmoronou numa poltrona. Ouviu o uivo dos motores do jato pegando na pista. De repente, o portão de embarque se abriu e uma aeromoça apareceu, erguendo um dedo.

A despachante virou-se para Adam:

— Parece que há ainda uma poltrona, mas fica na seção dos fumantes. Aceita-a?

Infelizmente, a recepcionista que recebeu Jennifer na Clínica Julian era a mesma moça que ajudara a internar Cheryl Tedesco. Vendo Karen Krinitz com sua blusa branca e jaleco azul, Jennifer lembrou-se de todo o pavoroso episódio. Karen, contudo, agiu como se não se conhecessem. Cumprimentou-a e a sua mãe com o mesmo sorriso mecânico.

— Oi! Sou Karen. Fui designada para seu caso. Estou aqui para ajudar, se tiver alguma pergunta ou problema. Queremos que sua estadia seja tão agradável quanto possível, de modo que me diga se precisa de alguma coisa.

— Ora, mas isso não é lindo? — comentou a Sra. Carson, embora Jennifer tivesse a estranha sensação de que ouvira todo aquele discurso antes, palavra por palavra.

Karen continuou, explicando a filosofia da Julian. Quando acabou, a Sra. Carson agradeceu-lhe entusiasticamente, dizendo:

— Não sei se aceitarei o Englewood Memorial depois disto. A gente nota aqui tanto interesse pela paciente...

Jennifer inclinou a cabeça. A clínica certamente cuidava das pessoas. Ainda assim, o discurso de Karen incomodou-a. Achara-o um pouco falso na primeira vez em que o ouvira.

Suspirou. Chegou à conclusão de que a experiência com Cheryl estava perturbando-a. Quem se importava se uma mulher decorava um discurso que tinha de fazer para todas as pacientes?

— Você está bem, querida? — perguntou a Sra. Carson.

— Estou ótima, mãe — retrucou Jennifer, observando Karen desaparecer no corredor. — Obrigada por ter vindo comigo hoje. Isso significa muito para mim.

A Sra. Carson aproximou-se mais e abraçou a filha. Não queria que Jennifer soubesse o quão preocupada estava.

No momento em que o avião de Adam aterrou no Kennedy, ele correu para a cabine telefônica mais próxima. Em primeiro lugar, ligou para a Clínica Julian e pediu para falar com o quarto de Jennifer. Não obteve resposta. Discou novamente e perguntou para que horas estava marcada a operação de Jennifer. Quando a telefonista perguntou quem queria saber isso, respondeu que era o Dr. Smyth. A telefonista pareceu aceitar a resposta e, um momento depois, uma enfermeira interveio na linha e disse que a cirurgia de Jennifer Schonberg estava marcada para aquela tarde.

— De modo que ela ainda não a fez? — perguntou Adam.

— Ainda não, mas já foi chamada para os preparativos. O Dr Vandermer está quase pronto para atendê-la.

Adam puxou mais algumas moedas e discou pela terceira vez para a Clínica Julian, desta vez pedindo que o Dr. Vandermer fosse localizado pelo serviço de alto-falante. Uma enfermeira da sala de preparação de pacientes atendeu à chamada e disse que o médico não podia atender, mas que devia terminar dentro de 30 minutos o ato cirúrgico que estava realizando.

Com o pânico voltando, Adam telefonou para o advogado recomendado por Harvey, Emmet Redford. Gritando que era uma situação de vida ou morte, conseguiu finalmente que a ligação fosse com pletada. Na maneira mais concisa possível, disse ao advogado que sua mulher ia fazer um aborto e que queria impedi-la de fazê-lo.

— Não há muito que você possa fazer, meu amigo — respondeu o Dr. Redford. — De acordo com uma decisão do Supremo Tribunal, um marido não pode impedir o aborto da esposa.

— Mas isso é incrível — protestou Adam. — É meu filho também. Não há nada que eu possa fazer, qualquer coisa?

— Bem, posso retardá-lo.

— Isso certamente ajudaria. Eu apreciaria tudo o que o senhor pudesse fazer.

— Dê-me o nome dela e todos os detalhes — pediu o Dr. Redford Adam fez isso com toda a rapidez possível.

— Para quando está marcado o aborto? — perguntou o advogado

— Para daqui a 30 minutos mais ou menos — respondeu em desespero Adam.

— Trinta minutos! O que o senhor espera que eu faça em meia hora?

— Tenho de ir agora — disse Adam. — Ela está na Clínica Julian. Simplesmente faça o que puder.

Pôs o telefone no gancho e correu pelo terminal até um ponto de táxi. Saltando no primeiro carro da fila, berrou ao motorista que o levasse à Clínica Julian.

— Você tem dinheiro? — perguntou o motorista, olhando para o traje informal de Adam.

Adam puxou do bolso sua única nota de 20 dólares, esperando que isso fosse suficiente. Satisfeito, o motorista engrenou e afastou-se do meio-fio.

Jennifer encontrava-se deitada na maca de rodas imediatamente à porta da sala de tratamento. De pé a seu lado, a mãe. Mais uma vez, sem poder evitar, Jennifer lembrou-se de sua visita anterior à Clínica Julian. A Sra. Carson lhe sorriu, fingindo confiança, mas era claro que estava tão nervosa quanto a filha.

— Por que você não volta à sala de espera? — sugeriu Jennifer. — Vou ficar bem aqui. Pelo que o Dr. Vandermer disse, vai ser fácil.

A Sra. Carson olhou para a filha, sem saber o que devia fazer.

— Por favor — continuou Jennifer. — Não faça disto um cavalo de batalha. Volte para a sala e leia uma revista.

Cedendo, a Sra. Carson inclinou-se, beijou Jennifer na testa e dirigiu-se para a sala de espera. Tomada de emoções conflitantes, Jennifer seguiu-a com os olhos, enquanto ela se afastava.

— Muito bem — disse a enfermeira, saindo da sala. — Estamos todos prontos para você.

Soltou o freio da maca e empurrou Jennifer pela porta. Em contraste com a sala onde fizera a amniocentese, esta se parecia muito com uma sala de operações. Jennifer lembrou-se do piso branco e dos grandes armários de portas de vidro.

Duas outras enfermeiras estavam à espera. Ao levarem-na para a mesa, uma delas disse:

— Vai acabar logo e você poderá esquecer tudo isto. Deitada de costas, Jennifer pensou que sentia o bebê mover-se.

Lutou para não chorar, enquanto uma das enfermeiras fazia a assepsia no seu baixo-ventre.

A porta que dava para o corredor foi aberta nesse instante e o Dr. Vandermer entrou, usando roupa de cirurgia. Jennifer sentiu-se melhor no momento em que o viu.

— Como está você? — perguntou ele.

— Bem, acho — respondeu Jennifer com voz sumida. Queria que ele dissesse alguma coisa mas o médico simplesmente fitou-a com olhos que não piscavam. Ela olhou interrogativamente para as enfermeiras, mas elas aparentemente não achavam que houvesse alguma coisa estranha no silêncio dele. Em seguida, Vandermer pareceu sair do transe em que se achava e pediu às enfermeiras que lhe passassem o anestésico.

— Você vai sentir agora apenas uma pequena picada — falou o Dr. Vandermer numa voz sem expressão. Com um movimento hábil, introduziu a agulha sob a pele dela.

Fechando os olhos, Jennifer tentou fechar também a mente para o que ia acontecer.

A corrida de táxi do Aeroporto Kennedy até a Clínica Julian foi de arrepiar os cabelos. Logo que Adam mostrara a nota de 20, o motorista passara a agir como se estivesse numa corrida para salvar a própria vida. Em menos de 30 minutos parou com um chiado de pneus na frente do hospital. Adam lançou-lhe a nota de 20 e subiu correndo a escadaria, sem esperar pelo troco.

Interrompendo as moças que batiam papo no balcão de recepção, quis saber onde Vandermer estava operando.

— Ele está fazendo um aborto em minha mulher — arquejou.

— As terminações de gravidez são realizadas no sexto andar, mas...

Adam não esperou que ela acabasse a frase. Mergulhou num elevador exatamente no momento em que as portas se fechavam, ignorando a recepcionista, que lhe gritou que ele não podia subir sem acompanhante.

No momento em que o elevador parou, saltou para fora e dirigiu-se para as portas duplas ao fim do corredor, marcadas com uma tabuleta: "Salas de Tratamento". Passando pelo posto das enfermeiras, notou o mobiliário antigo refinado e perguntou-se o que a Julian estava tentando provar.

Uma das enfermeiras gritou-lhe que parasse. Adam, porém, continuou a correr. Cruzou as portas duplas e abriu a porta da primeira sala de tratamento. Vazia. Dirigiu-se à segunda. Uma enfermeira tentou impedir sua passagem mas ele conseguiu olhar por cima do ombro para a paciente. Não era Jennifer.

Cruzou o corredor e tentou outra porta.

— O que o senhor pensa que está fazendo? — perguntou uma enfermeira com sotaque alemão.

Rudemente, Adam empurrou-a para um lado. Viu o Dr. Vandermer curvado sobre a mesa. Segurava na mão uma seringa, cuja agulha brilhava à luz que vinha de cima.

— Jennifer — berrou Adam, aliviado porque a cirurgia não fora além da aplicação de anestesia local. — Não faça isso, por favor. Não faça o aborto. Não sem outros testes.

Jennifer começou a sentar-se, ao mesmo tempo em que dois atendentes entravam correndo pela porta e prendiam os braços de Adam atrás das costas. Adam notou que ambos tinham o mesmo olhar fixo dos camareiros do navio.

— Muito bem, muito bem — disse Adam. — Vocês provaram o. que queriam. São mais fortes do que eu. Agora, por favor, soltem-me:

— Adam Schonberg? — perguntou o Dr. Vandermer. Até ouvir a voz de Adam, pensara que os atendentes estavam lidando com um psicótico estranho. — O que você está fazendo aqui? Jennifer me disse que você estava fora da cidade.

— Por favor, não continue com a operação. Há uma coisa que tenho de lhe dizer.

Como que se lembrando subitamente da presença dos atendentes, o Dr. Vandermer bateu no ombro do mais próximo e disse:

— Eu conheço este homem. Podem soltá-lo.

Soltou a máscara cirúrgica e deixou-a cair sobre o peito. Os atendentes soltaram Adam enquanto a porta do corredor se abria e mais gente do quadro de pessoal olhava para dentro a fim de ver o que estava acontecendo.

— Está tudo sob controle — falou o Dr. Vandermer. Dirigindo-se-aos atendentes, perguntou: — Por que vocês dois não esperam lá fora?

Logo que a porta foi fechada, Adam disse impetuosamente:

— Consegui fazer um daqueles cruzeiros da Arolen.

O Dr. Vandermer olhou-o, como se notando apenas nesse instante, pela primeira vez a camisa de malha com a inscrição de St. Thomas. Se sabia do que Adam falava, não deu indicação.

— Estou contente porque você conseguiu ir — foi tudo o que disse. — Poderemos comparar notas depois. Neste momento, preciso cuidar de sua mulher. Por que não vai para a recepção e me espera lá? Não vou demorar muito.

— Mas o senhor não compreende — insistiu Adam. — Os cruzeiros da Arolen são mais do que sessões de atualização médica. São um disfarce de um complicado plano de modificação do comportamento.

O Dr. Vandermer debateu consigo mesmo o que fazer. Adam obviamente estava psicótico. Talvez pudesse convencê-lo a ir até a Psiquiatria, onde alguém com experiência poderia ajudá-lo. Dando um passo à frente, o Dr. Vandermer pôs o braço em volta dos ombros de Adam.

— Acho que a pessoa com quem você deve conversar é o Dr. Pa-ce. Por que não descemos e eu o apresento a ele?

Adam empurrou para longe o braço do Dr. Vandermer.

— Acho que o senhor não ouviu o que eu disse. Estou falando de alteração do comportamento, induzida por drogas. Dr. Vandermer, o senhor foi uma vítima. O senhor foi drogado. Entendeu o que eu disse?

O Dr. Vandermer suspirou.

— Adam, sei que você acredita no que está dizendo, mas não fui drogado no meu cruzeiro. Fiz palestras. Foi um tempo maravilhoso, como também os dias que passei em Porto Rico.

— Eu vi tudo aquilo — continuou Adam. — Estive no Fjord. Vi como eles drogavam a comida dos médicos e continuavam a lhes dar aquelas cápsulas amarelas. Depois, eles foram submetidos àqueles filmes. Era controle da mente. Escute aqui, o senhor tem de acreditar em mim. Pense. Por que mudou de idéia a respeito do Pregdolen? Antes de tomar parte naquele cruzeiro, o senhor pensava que o medicamento era perigoso. O senhor me disse que jamais o receitava.

— Nunca mudei de idéia a respeito do Pregdolen — protestou o Dr. Vandermer. — Sempre achei que era o melhor produto que havia no mercado, se tivéssemos de usar medicamentos para enjôo de gravidez.

Compreendendo que não estava fazendo progressos, Adam agarrou a mão do Dr. Vandermer. Fitando-o diretamente nos olhos, disse:

— Por favor, mesmo que não acredite em mim, não aborte meu filho. Acho que foi deliberada a confusão de laboratório que ocorreu com a amniocentese. Creio que a Arolen está tentando aumentar seu suprimento de tecidos fetais, e é assim que os obtém.

A porta da sala foi aberta.

— Dr. Vandermer, o que devemos fazer? — perguntou uma enfermeira.

O Dr. Vandermer mandou-a embora com um gesto.

— Adam — falou ele bondosamente —, entendo como você deve estar perturbado com o rumo que as coisas tomaram.

— Não me venha com ares condescendentes — avisou Adam, esfregando os olhos. — Tudo o que quero é adiar o aborto. Só isso. Não acho que seja pedir muito.

— Isso depende do ponto de vista de quem você está falando. — Apontou para a sala de tratamento. — Jennifer pode pensar de outra maneira. Adiar a intervenção nesta altura seria cruel para ela. Ela já suportou mais do que o suficiente.

Adam percebeu que estava perdendo a luta. Em desespero, procurou um modo de conseguir tocar o médico.

— Agora — disse o Dr. Vandermer firme — por que não desce para a recepção e espera lá. Logo depois, irei procurá-lo.

— Não — berrou Adam, bloqueando o caminho. — O senhor não ouviu tudo.

— Adam! — gritou o Dr. Vandermer. — Saia da minha frente ou serei obrigado a mandar tirá-lo daqui.

— Escute, acho que algumas das pessoas que dirigem o cruzeiru foram submetidas a cirurgia psíquica. Estou-lhe dizendo a verdade. Têm cicatrizes nas têmporas. Aqui.

Estendeu a mão para mostrar na cabeça de Vandermer o ponto a que se referia. E saltou para trás, cheio de horror. Pequenas cristas formavam um círculo de cada lado do crânio do médico. Adam pôde ver justamente as incisões, ainda em processo de cicatrização. O Dr. Vandermer reagiu furioso.

— Isto já foi longe demais. — Abriu a porta e chamou com um gesto os dois atendentes. — Por favor, levem o Sr. Schonberg à recepção. Ele poderá esperar lá, caso se comporte, mas, se criar qualquer problema, chamem a Psiquiatria.

Adam parou de lutar.

— Não vou criar caso algum — prometeu baixinho.

A última coisa que queria era que lhe aplicassem algum tranqüilizante. Compreendeu que, se Vandermer sofrera algum tipo de intervenção cirúrgica no cérebro, não havia maneira de convencê-lo da traição da Arolen.

— Posso falar com minha mulher? — perguntou.

O Dr. Vandermer fitou-o por um momento e depois sacudiu a cabeça.

— Não acho que isto seja o melhor para Jennifer, mas vou deixar que ela tome a decisão.

Abriu a porta da sala de tratamento. Jennifer levantou-se apoiada num cotovelo.

— O que está acontecendo? — perguntou ela, preocupada. Em curtas palavras, o Dr. Vandermer descreveu a cena com Adam, terminando com o pedido dele de falar com ela.

— Aparentemente, ele não conseguiu agüentar o estresse de sua gravidez — foi a única coisa que Vandermer disse à guisa de opinião.

— Bem, ele de modo algum tornou a situação mais fácil para mim — respondeu Jennifer. — Lamento que ele lhe tenha causado tantos problemas.

— Não há necessidade de pedir desculpas — retrucou o Dr. Vandermer. — Acho que devemos prosseguir com a intervenção. Você poderá se entender com Adam depois que tivermos acabado.

Jennifer inclinou a cabeça.

— Por que ele teve de voltar? O senhor tem razão. Não acho que possa me entender com Adam agora. Por que não continua com a operação, enquanto ainda estou sob anestesia?

O Dr. Vandermer sorriu tranqüilizador e com um gesto indicou à enfermeira que reiniciasse os preparativos. Depois, voltou à ante-sala e disse a Adam que Jennifer lhe falaria depois.

Adam compreendeu que não adiantava protestar mais. Embota-damente, seguiu os atendentes pelo corredor.

O Dr. Vandermer voltou a fazer a assepsia e regressou à sala de operações. Pegando a seringa, aplicou o anestésico local. Ia justamente iniciar a operação quando a porta foi novamente aberta.

— Dr. Vandermer, lamento, mas o senhor vai ter de suspender a intervenção neste caso.

Jennifer abriu os olhos. Viu, de pé, à porta, uma mulher forte, uniformizada. Jennifer não a reconheceu, mas o Dr. Vandermer sabia quem era ela. Helen Clark, diretora das salas de operação da Clínica Julian.

— Acabamos de receber um mandado de interdição. Não podemos continuar com o aborto de Jennifer Schonberg.

— Sob que fundamento? — perguntou o Dr. Vandermer atônito.

— Não conheço os detalhes — respondeu a Sra. Clark —, mas o mandado está assinado por um dos juizes do Supremo Tribunal de Justiça de Nova York.

O Dr. Vandermer encolheu os ombros e voltou-se para Jennifer.

— Não faça nenhuma tolice — avisou a Sra. Clark. — Ignorar o mandado de um tribunal causaria problemas para todos nós.

— Isto é ridículo! — exclamou o Dr. Vandermer. — Litígios judiciais na sala de operações.

Mas tirou a máscara e as luvas.

Notando que ele estava para se retirar, Jennifer mordeu o lábio inferior para não gritar.

Depois que Vandermer o expulsou da sala de tratamento, Adam telefonou imediatamente para Emmet Redford. O advogado disse-lhe que cobrara um velho favor e que conseguira um mandado de interdição.. No momento em que falava, alguém estava indo para a clínica a fim de entregá-lo. Adam voltou à sala de espera, rezando para que a interdição judicial chegasse a tempo. Vendo a Sra. Carson curvada sobre uma revista, procurou uma cadeira fora da linha de visão dela. Menos de cinco minutos depois, uma enfermeira correu para a Sra. Carson. Curvou-se e sussurrou alguma coisa no ouvido da mulher mais velha, que ergueu as mãos para os céus e exclamou:

— O aborto dela foi cancelado! -- Adam sentiu vontade de soltar vivas mas só até ouvir os soluços de Jennifer, que era levada de volta, na maca, para o quarto. Ele e a Sra. Carson correram para ela e acabaram ficando de lados opostos da maca de rodas.

— Jennifer — falou Adam, agarrando-lhe a mão —, tudo agora vai correr bem.

Ela soltou a mão, chorando histericamente. — Deixe-me em paz. Você ficou louco. Deixe-me em paz. Adam afastou-se e tristemente observou a maca continuar a descer o corredor.

— Você é o responsável por este desastre? — explodiu a Sra. Carson.

Adam estava abalado demais para responder. Seria um desastre impedir um aborto desnecessário? Quase em lágrimas também, virou-se e dirigiu-se cegamente para o elevador. Uma vez na rua, examinou a carteira. Apenas três dólares e alguns trocados. Resolveu que era melhor tomar o metrô até o escritório de Emmet Redford na Wall Street.

— Desculpe o meu traje — disse Adam, quando uma secretária o mandou entrar no gabinete do advogado. — Não quis perder tempo indo até em casa mudar de roupa.

O Dr. Redford inclinou a cabeça, embora estivesse perturbado com a aparência de Adam. Na verdade, estava perturbado com o caso todo. Embora tivesse obtido o mandado de interdição, achava que as razões de Adam, na melhor das hipóteses, eram duvidosas.

— Acho que devo ser franco — começou Redford. — Concordei em ajudá-lo como um favor a Harvey, mas há certos pontos que me preocupam seriamente.

— Eu não poderia concordar mais com o senhor — retrucou Adam. — Acho que a Clínica Julian está realizando deliberadamente abortos desnecessários.

— Entendo — falou Redford, observando os cabelos desgrenhados e a barba por fazer de Adam.

— Mas o problema real — continuou Adam — é que a Arolen Pharmaceuticals e sua companhia matriz, a Infomed, executam um programa complexo envolvendo drogas e cirurgia cerebral, a fim de influenciar a maneira como médicos praticam a medicina.

Esse homem está doido, pensou Redford desalentado.

A voz de Adam tornou-se mais urgente:

— Mas agora que descobri tudo, não sei o que fazer.

— Compreendo seu dilema — respondeu Redford, perguntando-se se Adam não seria potencialmente violento. Ele certamente parecia excitável. Apertou um botão oculto sob a escrivaninha e disse: — Sr. Schonberg, o senhor se importa se eu lhe fizer uma pergunta pessoal?

— Em absoluto.

— O senhor já procurou alguma vez ajuda profissional para suas obsessões? Acho que isto seria do melhor interesse para todos.

— O que estou lhe dizendo é a pura verdade — protestou Adam. Ouviu-se uma batida leve à porta. Redford levantou-se para abri-la e disse à secretária que chamasse o Dr. Stupenski.

— Acho que um júri de instrução não daria muito crédito às suas alegações — comunicou ele a Adam, enquanto esperavam.

Adam examinou o rosto do advogado à procura de algum sinal de que aquele homem acreditasse nele. Não viu nenhum.

— Acho que o senhor tem razão — reconheceu. — A única prova que tenho é o que vi.

A porta foi aberta nesse instante e entrou um homem moço, usando uma gravata fina idêntica à de Redford, que fez a apresentação:

— Este é o meu colega, Dr. Stupenski.

Adam cumprimentou-o e, mais uma vez, tentou convencer Redford de que sua história era a pura verdade.

— Nos cruzeiros, põem drogas nos alimentos e suplementam essas drogas com cápsulas amarelas que devem ser algum tipo de tranqüilizante.

— Isso é o que o senhor diz, Sr. Schonberg, mas o problema é que não tem provas — repetiu Redford.

Os advogados trocaram olhares entendedores. Adam fitou-os, frustrado.

— Acho que devo lhe dizer que, em vista do laudo da amniocen-tese que a clínica mostrou ao Dr. Stupenski, lamento que tenhamos obtido o mandado de interdição — continuou Redford. — Da maneira como estão as coisas, o mandado permanece em vigor até uma audiência especial, que será realizada dentro de três dias, a contar de hoje, e uma vez que certamente não vou pedir que seja mantido, o senhor pode esperar que a ordem seja revogada naquela ocasião. Bom dia, Sr. Schonberg.

Adam precisou apenas de um segundo para compreender que a entrevista terminara.

Quatro horas depois, de banho tomado, barbeado e usando seu melhor terno, encontrava-se sentado na ante-sala do gabinete do pai, esperando que o Dr. Schonberg atendesse o último visitante. Passava das seis horas da tarde.

Quando ficou finalmente livre, o Dr. Schonberg escutou com alguma impaciência o que, até mesmo Adam tinha de reconhecer, parecia uma história absurda.

— Simplesmente não posso acreditar nisso — disse ele a Adam. — Escute aqui, se isto o faz sentir-se melhor, vou telefonar para Peter Davenport, da AMA. Ele é o cara que certifica os cursos para créditos na CME. Ele mesmo fez vários desses cruzeiros.

O Dr. Schonberg telefonou para Davenport em casa e jovialmente lhe perguntou a opinião sobre os cruzeiros da Arolen. Depois de escutar durante alguns minutos, agradeceu e desligou.

— Pete diz que os seminários realizados no Fjord são inteiramente sérios. Alguns dos divertimentos à noite são um pouco arriscados, mas, à parte isso, as palestras foram das melhores que ele já ouviu até hoje.

— Ele provavelmente foi drogado, como os outros — opinou Adam.

— Adam, por favor. Você está sendo ridículo. A MTIC vem há mais de uma década patrocinando seminários e congressos médicos, seja sob seus próprios auspícios, seja através da Arolen Pharmaceuticals. Esses cruzeiros são feitos há cinco anos.

— Pode ser — disse Adam, perdendo a esperança de convencer até mesmo seu próprio pai —, mas eu lhe juro que eles estão drogando os médicos e submetendo-os a rigorosa modificação de comportamento. Chegam a operar certas pessoas. Eu mesmo vi as cicatrizes no Dr. Vandermer. Acho que o estão submetendo através de algum aparelho de controle remoto.

O Dr. Schonberg levantou os olhos para o alto.

— Mesmo com o pouco de psiquiatria que você estudou, Adam, acho que poderia reconhecer como é paranóica essa sua história.

Adam levantou-se bruscamente e dirigiu-se para a porta.

— Espere — chamou-o o Dr. Schonberg. — Volte aqui por um minuto.

Adam hesitou, perguntando-se se o pai cederia. O Dr. Schonberg inclinou a cadeira para trás.

— Digamos, para fins de discussão, que haja alguma coisa nessa sua história.

— Isso é muita generosidade de sua parte.

— O que você desejaria que eu fizesse? Sou diretor de novos produtos da FDA e não posso aceitar uma teoria maluca como essa sua. Mas vendo que você está tão nervoso, talvez eu deva participar de um desses cruzeiros e verificar por mim mesmo.

— Não — interrompeu-o Adam —, não vá num desses cruzeiros. Por favor.

— Bem, o que então você quer que eu faça?

— Desejo que inicie uma investigação.

— Faço um negócio com você — propôs o Dr. Schonberg. — Se você concordar em consultar um psiquiatra e verificar a possibilidade de que talvez esteja passando por algum tipo de reação paranóica, eu farei novas indagações sobre a Arolen.

Adam tirou os óculos e esfregou os olhos. Se mais alguém sugerisse que consultasse um psiquiatra, soltaria um grito.

— Obrigado, papai. Vou pensar seriamente na sua sugestão. Voltando ao aeroporto, perguntou-se a que tipo de tratamento a Arolen submetera Pete Davenport, da Associação Médica Americana.

Desembarcou em LaGuardia por volta de nove horas da noite e tomou um táxi para a cidade. Deprimia-o o pensamento de voltar ao apartamento vazio e estava muito preocupado com Jennifer. Embora tivesse receio de ir até Englewood e enfrentar a raiva dos Carson, não achou que houvesse muitas opções. Tinha de falar com Jennifer.

Não viu luzes na casa de Carson quando entrou na passagem de automóveis. Cautelosamente, subiu os degraus da frente da casa e apertou a campainha. Ficou surpreso quando a porta se abriu quase no mesmo instante.

— Seus faróis iluminaram todo nosso quarto — recebeu-o o Sr. Carson zangado. — O que diabo você quer a esta hora da noite?

— Desculpe se o acordei — penitenciou-se Adam —, mas preciso falar com Jennifer.

O Sr. Carson cruzou os fortes braços sobre o peito.

— Bem, você tem mesmo coragem, reconheço, mas minha filha não quer falar com você. Talvez ela mude de idéia dentro de alguns dias, mas, no momento...

— Lamento, mas tenho de insistir — continuou Adam. — O senhor compreende, não acho que ela precise fazer um aborto...

O Sr. Carson agarrou-o pela camisa.

— Você não vai insistir em coisa alguma! — exclamou, empurrando Adam para longe da porta.

Adam recobrou o equilíbrio, levou as mãos em fone à boca e começou a gritar:

— Jennifer! Jennifer!

— Isso é demais! — bradou o Sr. Carson.

Agarrou Adam novamente, tencionando levá-lo até o carro. Adam, porém, soltou-se do sogro e correu para dentro da casa. Ao pé da escada, gritou novamente pela mulher. Jennifer apareceu de camisola no patamar da escada. Desalentada, olhou para o marido.

— Escute o que tenho a dizer — gritou novamente Adam, mas antes que Jennifer pudesse falar, o Sr. Carson agarrou-o por trás e levou-o de volta à porta. Sem querer resistir, Adam tropeçou quando ele o empurrou para o carro e caiu do terraço em cima de algumas moitas. Ouviu a porta ser fechada, com uma batida forte, antes de conseguir levantar-se. Sabia que, naquela noite, Carson nunca deixaria que ele falasse com Jennifer.

Subindo no carro, tentou pensar no que poderia fazer para impedir que Jennifer fizesse o aborto até que, pelo menos, ela ouvisse uma segunda opinião médica. Só dispunha de três dias para convencê-la.

Estava no meio da Ponte George Washington, voltando para casa, quando soube o que tinha de fazer. Todo mundo queria provas. Bem, iria a Porto Rico obter as provas. Tinha certeza de que tudo o que vira no cruzeiro lá era reproduzido aos montes.

 

Bill Shelly levantou-se da escrivaninha e apertou fortemente a mão de Adam.

— Meus parabéns. Você, provavelmente, acaba de tomar a melhor decisão de sua vida.

— Não estou dizendo que aceito definitivamente o cargo — avisou-o Adam. — Mas ando pensando um bocado em Porto Rico e gostaria de aceitar seu oferecimento de ir até lá e conhecer pessoalmente as instalações. Jennifer não está muito feliz com a idéia mas, se eu quiser realmente ir, ela me apoiará na decisão.

— Isso me lembra de uma coisa: Clarence mandou-me um recado dizendo que recebera um telefonema estranho de sua mulher. Ela pensava que você estava viajando a serviço da Arolen.

— Problemas de parentesco por afinidade — respondeu Adam com um gesto de pouco caso da mão. — Ela e meu pai nunca se deram bem.

Nem mesmo Adam tinha certeza do que queria dizer com isso, mas, por sorte, Shelly inclinou a cabeça como quem entendia, dizendo:

— Voltando ao que interessa, tenho certeza de que você vai ficar entusiasmado com o centro de pesquisas da Arolen. Quando gostaria de ir?

— Imediatamente — respondeu Adam alegremente. — Minha mala está feita e no carro.

Shelly soltou uma risadinha.

— Seu modo de proceder sempre foi interessante. Vou verificar se o avião da Arolen está disponível.

Enquanto esperava que a secretária se informasse, Shelly perguntou a Adam o que o levara a mudar de idéia sobre o programa de treinamento de gerência.

— Eu estava com receio de não ter sido suficientemente convincente.

— Muito ao contrário — assegurou-lhe Adam. — Se não fosse pelo senhor, nunca teria pensado no programa.

Enquanto falava, observava o crânio de Bill Shelly, resistindu à tentação de verificar se ele, também, fora submetido à cirurgia. A essa altura, não tinha idéia se alguém na Arolen podia merecer confiança.

O luxuoso jato Gulf Stream transportava igualmente dois executivos da Arolen. O primeiro embarcara em sua companhia e o segundo subira a bordo em Atlanta. Embora ambos o cumprimentassem cordialmente, levaram o tempo todo da viagem trabalhando, deixando que Adam se distraísse com algumas velhas revistas.

Ao chegarem a San Juan, os dois executivos dirigiram-se para o mini-ônibus da Arolen que os esperava junto ao meio-fio. Adam estava em dúvida se devia acompanhá-los ou não, quando foi cumprimentado por dois homens de blazers azuis e calças brancas. Usavam ambos cabelos cortados rentes, o primeiro louro e o segundo moreno. Os crachás da Infomed dizia-lhes os nomes: Rodman e Dunly.

— Boa tarde, Sr. Schonberg — cumprimentou Rodman. — Seja bem-vindo a Porto Rico.

Enquanto Dunly lhe tomava a bolsa a tiracolo, Adam sentiu arrepios nas costas e braços a despeito do calor tropical. A voz de Rodman tinha o mesmo tom inexpressivo dos camareiros do Fjord. Dirigindo-se para uma limusine à espera, notou que ambos se moviam com os mesmos passos mecânicos.

A limusine não era nova, mas era uma limusine apesar de tudo, e sentiu-se embaraçado quando lhe deram todo o assento traseiro para seu uso.

Inclinando-se para a frente, olhou para o tráfego na hora do rush. Deixaram a cidade, aparentemente acompanhando a costa norte da ilha, embora ele não pudesse ver o oceano. Passaram por shopping centers, postos de gasolina e oficinas de lanternagem. Tudo ali parecia estar simultaneamente em processo de decadência e de reconstrução. Era uma combinação estranha. Vergalhões enferrujados projetavam-se do concreto em vários locais, como se salas ou andares adicionais houvessem sido inicialmente planejados, mas os operários não tivessem vindo mais trabalhar. E havia lixo por toda parte. Adam não ficou bem impressionado.

Aos poucos, os prédios comerciais arruinados cederam lugar a habitações igualmente arruinadas, embora por vezes surgisse uma casa bem construída e conservada em meio à esqualidez geral. Não se notava separação alguma entre ricos e pobres, e cabras e galinhas corriam livres por toda parte.

Finalmente, a estrada estreitou-se de quatro para duas pistas e ele teve vislumbres do oceano do outro lado dos morros verdes. O ar tornou-se fresco e limpo.

Por último, depois de cerca de uma hora e meia de viagem, saíram da estrada principal e entraram numa pista bem pavimentada que se contorcia e coleava por entre vegetação luxuriante. Através de uma brecha na folhagem, Adam teve uma visão espetacular do Caribe. O céu estava tingido de vermelho e ele notou que se aproximava a hora do pôr-do-sol.

A estrada mergulhou morro abaixo e se afunilou por entre um escuro dossel de árvores exóticas. Uns 400 metros mais adiante, a limusine reduziu a marcha e parou em seguida. Haviam chegado a uma guarita. De cada lado e estendendo-se até a floresta, corria uma impressionante cerca de correntes, encimada por espirais de arame farpado. Resistores instalados no arame sugeriam que a cerca era eletrificada.

Um guarda armado saiu da guarita e aproximou-se do carro. Depois de receber uma folha de papel do motorista, lançou um olhar a Adam e abriu o portão. No momento em que a limusine penetrava nos terrenos da MTIC, Adam virou-se no assento e olhou para o portão que se fechava. Perguntou-se se a segurança estava ali para manter estranhos a distância ou para conservar ali dentro os que lá se encontravam. E começou a alimentar dúvidas sobre a situação em que se estava metendo. Da mesma forma que lhe acontecera no Fjord, não tinha um plano autêntico e não se iludia pensando que possuía talento como detetive. Seu único consolo era que, em Porto Rico, não estava se ocultando atrás de um nome tomado de empréstimo.

O carro fez bruscamente uma volta e ele se viu à frente do mais magnífico exemplo de arquitetura que jamais vira, tendo por pano de fundo gramados ondulados e um claro mar de turquesa.

O prédio principal era uma estrutura hexagonal de vidro, do mesmo tipo espelhado dourado que a sede da Arolen. À esquerda e mais perto da praia, erguia-se outro prédio, de apenas dois andares, e que parecia ser um clube. De um lado estendiam-se quadras de tênis de generosas dimensões. Atrás, numa praia de areia branca, podia ver um campo de voleibol e uma fileira de Hobie Cats e pranchas de surfe a vela. Várias dessas embarcações estavam sendo usadas e suas velas coloridas destacavam-se vivamente contra a água. O outro lado da clareira era ocupado por casas de um condomínio fechado. Tudo bem examinado, o conjunto parecia uma estação de veraneio de classe internacional. Desta vez Adam ficou bem impressionado.

A limusine parou embaixo de um grande toldo que se estendia à entrada do prédio principal.

— Boa tarde, Sr. Schonberg — cumprimentou o porteiro. — Seja bem-vindo à MTIC. Por aqui, por favor.

Adam desceu do carro e seguiu o homem até o balcão de registro. Aquilo era como hospedar-se num hotel. A principal diferença era a ausência de um caixa para receber o pagamento.

Depois de assinar o registro, outro empregado, usando jaqueta azul, identificado como Craig pelo crachá, pegou-lhe a mala e levou-o até o elevador. Desceram no sexto andar e percorreram um longo corredor. Bem no fim da passagem havia outro elevador.

— O senhor vai ficar muito tempo conosco? — perguntou Craig naquele tom de voz inexpressivo e agora tão conhecido.

— Apenas alguns dias — respondeu Adam evasivo, enquanto Craig tirava uma chave do bolso e abria uma das portas.

Não lhe fora dado um quarto, mas uma suíte. Craig circulou em volta como se fosse um mensageiro de hotel, verificando todos os pontos de luz, certificando-se de que o aparelho de tevê funcionava, examinando o bar bem abastecido e correndo as cortinas. Adam tentou dar-lhe uma gorjeta, que ele polidamente recusou.

Estava atônito com as acomodações que lhe haviam reservado. Tinha dali uma vista magnífica do oceano, que escurecera com a aproximação da noite. Em ilhas distantes, luzes minúsculas piscavam. Observou um Hobie Cat isolado dirigindo-se para a praia. Ouvindo sons de música do Caribe, saiu para o terraço. Aparentemente, uma banda tocava no prédio que julgara ser um clube. O tempo estava perfeito e desejou ter Jennifer ali a seu lado. Nem mesmo a suíte de lua-de-mel que haviam alugado em Poconos, com a banheira em forma de coração, fora assim tão luxuosa.

Resolveu telefonar para ela. Para seu deleite, ela mesma atendeu. Quando compreendeu, porém, quem era, a voz tornou-se fria.

— Jennifer, prometa-me uma coisa — pediu. — Não faça o aborto até eu voltar.

— Voltar? — perguntou Jennifer. — Onde está você?

Não pretendera dizer a ela onde estava mas era tarde demais para pensar numa mentira.

— Porto Rico — admitiu relutante.

— Adam — começou Jennifer, deixando claro que estava furiosa —, se quer me dizer o que tenho de fazer, você não pode continuar a fugir. No momento em que o tribunal me liberar, tenciono voltar à clínica.

— Por favor, Jennifer — implorou.

— Tomara que você esteja se divertindo — retrucou Jennifer, e bateu com força o telefone.

Adam recaiu na cama inteiramente deprimido. Só dispunha de mais dois dias. O telefone tocou nesse instante e ele pegou apressado o aparelho, na esperança de que pudesse ser Jennifer. Mas era apenas o recepcionista, informando que o jantar seria servido em meia hora.

O salão de jantar situava-se no clube que dava frente para a praia. A fileira de Hobie Cats estendia-se pela areia imediatamente além das portas corrediças. A lua cheia aparecera, lançando uma faixa tremelu-zente de luz pela superfície da água.

O salão era de paredes verde-escuras, com tapetes combinando, mesas forradas de toalhas cor-de-rosa e cadeiras acolchoadas da mesma cor. Os garçons usavam jaquetas brancas e calças pretas.

Foi levado a uma mesa redonda de oito pessoas. A sua direita sentou-se o Dr. Heinrich Nachman, que ele conhecera no dia em que fora entrevistado na Arolen. A cadeira seguinte era ocupada pelo Dr. Sinclair Glover, um homem baixo, corpulento, rosto vermelho, que se identificou como o supervisor da pesquisa fetal.

Junto do Dr. Glover sentou-se o Dr. Winfield Mitchell, um homem barbado mas calvo e que usava óculos de aros de metal. Nachman esclareceu que Mitchell era o encarregado do desenvolvimento de drogas psicotrópicas. Adam teve a clara impressão de que aquele homem era psiquiatra, a julgar pela maneira calma como ele ouvia as conversas, sem contribuir com coisa alguma para elas, mas, ao mesmo tempo, mantendo uma atitude do tipo eu-sou-superior-a-você.

O Dr. Mitchell tinha ao lado um executivo empresarial, um Wil-liam Qualquer Coisa. Adam não lhe guardou o sobrenome. Era produto típico de colégios grã-finos, cabelos louros e fisionomia juvenil. Completavam a mesa Brian Hopkins, o encarregado de treinamento gerencial, a Sra. Linda Aronson, chefe de relações públicas, e um homem mais velho e jovial, chamado Harry Burkett, que era o gerente das instalações ali em Porto Rico.

Lembrando sua experiência no Fjord, hesitou inicialmente em provar a comida. Viu, porém, que todos estavam comendo com prazer e nenhum deles parecia drogado. Além do mais, raciocinou, se tivesse havido a intenção de drogá-lo, podiam ter feito isso no avião.

A atmosfera em volta da mesa era relaxada e todos se esforçavam para fazê-lo sentir-se bem recebido. Burkett explicou que o motivo pelo qual a MTIC escolhera Porto Rico para seu centro de pesquisas foram os excelentes incentivos fiscais oferecidos pelo governo, bem como uma política de não-interferência. Adam foi informado de que muitas companhias de produtos farmacêuticos possuíam grandes instalações na ilha.

Adam perguntou a razão do forte esquema de segurança.

— Esse é um dos preços que temos de pagar para viver neste paraíso — explicou Harry Burkett. — Há sempre a possibilidade de atividade terrorista por parte do pequeno grupo que reivindica a independência porto-riquenha.

Adam ficou em dúvida se era a verdade, mas não insistiu no assunto.

William, o executivo da MTIC, olhou Adam de alto a baixo e disse:

— A MTIC adota uma certa filosofia a respeito da profissão médica. Achamos que os interesses econômicos suplantaram o serviço ao paciente. Ouvi dizer que você concorda com essa premissa.

Adam notou que o resto da mesa aguardava sua resposta. Engoliu um pouco de sobremesa e respondeu:

— Sim, isso é verdade. Durante algum tempo, estudei medicina e fiquei desalentado com a falta de humanismo. Eu achava que a tecnologia e a pesquisa eram consideradas mais compensadoras do que o cuidado ao paciente.

Havia vários médicos em volta da mesa e teve esperança de que não os estivesse ofendendo; notou, porém, que o Dr. Nachman sorria. Ficou satisfeito, uma vez que pensava que quanto mais entusiasmados ficassem com ele, melhor sua oportunidade de descobrir o que eles estavam fazendo.

— Você acha que sua atitude tornaria difícil seus contatos com médicos? — perguntou Linda Aronson.

— Em absoluto — retrucou Adam. — Acho que minha compreensão da realidade médica torna a situação mais fácil. Como propagandista, fui razoavelmente bem-sucedido.

— Pelo que Bill Shelly informa — disse Nachman —, acho que o Sr. Schonberg está sendo modesto.

— Adam, alguém lhe descreveu nossos planos, no caso de você resolver matricular-se em nosso programa de treinamento gerencial? — perguntou o Dr. Glover.

— Não especificamente — confessou Adam.

O Dr. Nachman cruzou as mãos e inclinou-se para a frente.

— Em conseqüência de nossa pesquisa com fetos, a Arolen está prestes a liberar uma geração inteiramente nova de medicamentos ou modalidades de tratamento. Estamos procurando alguém que trabalhe com Linda, a fim de educar a profissão médica sobre esses novos conceitos. Achamos que você tem a formação e as atitudes perfeitas para o trabalho.

— Precisamente — confirmou Linda. — Mas não queremos sufocá-lo com detalhes. No princípio, tudo o que você faria seria familiarizar-se com a linha de pesquisas da Arolen.

Adam desejou poder dispor de mais de dois dias. O cargo que tinham em mente para ele o colocaria indubitavelmente em condições de descobrir o que necessitava.

— Isso não é inteiramente verdade — lembrou Brian Hopkins.

— Inicialmente, o Sr. Schonberg terá de fazer nosso curso de treinamento administrativo.

— Brian, todos nós sabemos que o Sr. Schonberg terá de fazer primeiro o seu curso.

— Por favor — atalhou o Dr. Nachman —, não vamos exibir agora nossas ciumeiras departamentais. Haverá tempo de sobra para isso.

Todos riram, exceto Hopkins.

Adam terminou a sobremesa e pôs a colher de lado. Olhando para o Dr. Nachman, disse:

— O jantar foi maravilhoso, mas estou ansioso para conhecer as instalações de pesquisas.

— E estamos ansiosos para mostrá-las a você. Amanhã, nós pensamos em...

— Por que não hoje à noite? — interrompeu-o Adam entusiasmado.

O Dr. Nachman olhou para Glover e Mitchell, que encolheram os ombros, sorrindo.

— Acho que poderíamos lhe mostrar hoje à noite algumas das instalações — concordou o Dr. Nachman. — Tem certeza de que não está cansado demais?

— De maneira alguma — garantiu-lhe Adam.

O Dr. Nachman levantou-se, seguido pelos Drs. Glover e Mitchell. Os demais desculparam-se, preferindo permanecer à mesa para mais café e drinques.

O Dr. Nachman levou Adam de volta ao prédio principal, onde os hóspedes se registravam. Em seguida, os quatro passaram por outro conjunto de portas duplas que davam acesso ao centro de pesquisas. Esta parte do prédio possuía piso de mosaico branco e paredes pintadas de vivas cores primárias.

— Estes são os escritórios administrativos — explicou o Dr. Nachman.

Momentos depois, Adam cruzou uma espécie de ponte de paredes de vidro. Viu palmeiras ondulando de ambos os lados e compreendeu que havia ali dois prédios concêntricos, um dentro do outro, de forma muito parecida com a do Pentágono, em Washington.

Descendo outro corredor, sentiu o cheiro inconfundível de animais engaiolados. O Dr. Glover abriu a primeira porta e, na meia hora seguinte, levou Adam de sala em sala, explicando a complicada maquinaria e examinando um número incontável de ratos e macacos. Era aí que a Arolen estava realizando sua pesquisa básica de fetologia.

Para surpresa de Adam, auxiliares técnicos usando batas brancas trabalhavam em alguns dos laboratórios, a despeito do adiantado da hora. O Dr. Glover explicou que desde que haviam começado a obter resultados positivos com implantes fetais, vinham trabalhando durante as 24 horas do dia.

— Onde os senhores conseguem o material? — perguntou Adam, parando diante de uma gaiola de camundongos rosados.

— A maior parte de nossa pesquisa é feita com sistemas animais — esclareceu o Dr. Glover —, e criamos nossos animais aqui mesmo no centro.

— Mas certamente os senhores estão fazendo alguns implantes humanos. Onde conseguem os tecidos? — insistiu Adam.

— Essa é uma pergunta muito boa — reconheceu o Dr. Glover.

— Enfrentamos um pequeno problema depois que as novas leis foram promulgadas, mas demos um jeito, de um modo ou de outro. A maior parte de nosso material vem da Clínica Julian.

Num estado de profunda frustração, Adam teve vontade de esmurrar as gaiolas de vidro. Por que não conseguia que alguém lhe desse ouvidos? Obviamente, médicos como Vàndermer estavam aumentando o suprimento de tecidos fetais meramente aumentando o número de abortos terapêuticos.

— Amanhã — continuou o Dr. Glover, satisfeito com o grande interesse demonstrado por Adam — vamos levá-lo para conhecer nossa ala hospitalar. Obtivemos alguns resultados espantosos, especialmente no tratamento de diabéticos com extratos fetais pancreáticos.

— Sei como isso é interessante, mas acho que o Dr. Mitchell gostaria também de descrever alguma coisa de seu trabalho — observou Nachman, sorrindo para Glover.

— Realmente — concordou o Dr. Mitchell. — Dentro de um ano a partir de agora, quando tivermos as estatísticas de vendas, veremos que departamento será responsável pelos maiores aumentos.

Nos trinta minutos seguintes, Mitchell falou ininterruptamente sobre drogas psicotrópicas, sobretudo um novo tipo de fenotiazina.

— Ela é eficaz em todos os tipos de estados psicóticos. Essencialmente não-tóxica, transforma o indivíduo mais perturbado num cidadão exemplar. No processo, é claro, alguma espontaneidade é sacrificada.

Adam pensou em protestar mas pensou melhor. Tinha certeza de que o "alguma espontaneidade é sacrificada" era a maneira de a companhia suavizar os efeitos colaterais da droga. Não havia dúvida de que os camareiros do Fjorde os atendentes da Julian "careciam de espontaneidade".

— Qual é o nome da nova droga? — perguntou em vez disso.

— Nome científico, genérico ou comercial? — perguntou o Dr. Mitchell, quase sem fôlego com o monólogo que vinha mantendo.

— Comercial.

— Conformina.

— Seria possível obter uma amostra?

.— Você obterá todas as amostras que quiser quando o medicamento for liberado — prometeu o Dr. Mitchell. — Estamos à espera de autorização da FDA.

— Nem uma pequena quantidade? — perguntou Adam. O Dr. Mitchell lançou-lhe um olhar estranho.

— Talvez sim — murmurou. Adam não insistiu e disse:

— Se o medicamento está prestes a ser liberado, então os senhores já iniciaram testes com indivíduos humanos.

— Pode acreditar que sim — respondeu o Dr. Mitchell, animando-se. — Estamos usando o medicamento em seres humanos há anos, em pacientes com problemas psiquiátricos incuráveis, trazidos de todas as partes do mundo, na verdade. O medicamento revelou-se cem por cento eficaz.

— Eu gostaria de visitar a enfermaria — sugeriu Adam.

— Amanhã — prometeu o Dr. Mitchell. — Neste momento, eu gostaria de lhe mostrar nosso principal laboratório de química. É um dos mais avançados do mundo.

Adam não tinha a menor dúvida de que as instalações de pesquisa da Arolen eram soberbas, em especial quando comparadas com as do Hospital Universitário, onde o dinheiro era tão escasso que até mesmo lápis Mongol N? 2 tinham de ser incluídos em solicitações de donativos. Depois de visitar tantos laboratórios, porém, ficou entediado. Tentou mostrar-se interessado mas, quanto mais demorava a visita, mais difícil ela se tornava.

— Acho que é o suficiente por hoje à noite — disse finalmente o Dr. Nachman. — Não queremos cansar o Sr. Schonberg na primeira noite que passa conosco.

— Apoio inteiramente — concordou o Dr. Glover. — Passamos apenas meia hora em meu departamento.

— Isso acontece porque aqui há mais coisas para ver — retrucou o Dr. Mitchell.

— Cavalheiros! — interveio o Dr. Nachman, erguendo as mãos.

— Gostei muito de tudo — falou Adam, usando com cuidado o tempo passado do verbo para não encorajar uma reencenação da visita por parte do Dr. Mitchell.

Seguiram pelo corredor principal e cruzaram a ponte de ligação para o prédio externo. Adam parou e olhou para trás. Notou que a ponte continuava além do corredor até um terceiro prédio interno, que era fechado por pesadas portas de aço.

— O que há lá atrás? — perguntou.

— As enfermarias clínicas — explicou o Dr. Nachman. — O senhor as conhecerá amanhã.

É lá que deve situar-se a enfermaria psiquiátrica, pensou Adam. Hesitou por um instante e em seguida acompanhou Nachman até o saguão principal, onde todos se despediram.

Faltava um quarto para a meia-noite e, mesmo que o dia tivesse sido agitado, Adam não sentia sono. Uma dor de cabeça surda estava começando por trás de seus olhos e não podia esquecer-se de que só dispunha de mais dois dias para descobrir uma evidência concreta, convincente. Mesmo que obtivesse uma amostra da Conformina, levaria tempo para ela ser analisada e, em seguida, mais tempo ainda para tentar convencer uma pessoa como Vandermer a submeter-se a exame, a fim de verificar se lhe fora aplicado o medicamento. Sabendo que (O sono estava fora de cogitação, abriu a porta e percorreu o corredor até o elevador mais distante. Um pequeno aviso em fórmica dizia: "Elevador de Banhistas".

Descendo para o térreo, saiu para um luxuriante jardim de palmeiras, bambus e samambaias. Um caminho em curva cortava a densa vegetação. Seguindo-o, chegou à praia.

Tirando os sapatos, pisou na areia fria. A lua cheia tornava a noite quase tão clara como o dia. A areia era lisa e macia como pó. Uma leve brisa sacudia o cordame dos Hobie Cats, que lembravam campainhas japonesas acionadas pelo vento. Podia entender muito bem por que pessoas como Bill Shelly sentiam tanto encanto por aquele lugar.

Passando pelo clube, olhou no salão. Alguns atendentes já estavam arrumando as mesas para a próxima refeição.

Cerca de 100 metros depois do clube, chegou às casas do condomínio fechado. As casas eram em estilo pseudo-espanhol, com paredes de estuco e cobertura de telhas vermelhas. Havia luzes em algumas das casas e vislumbrou homens e mulheres assistindo à televisão ou lendo. Toda a cena era tão pacífica que se tornava difícil acreditar que pudesse ser o centro de uma conspiração gigantesca. Ainda assim, aparentemente era. Todas as companhias fabricantes de medicamentos gastam milhões de dólares tentando influenciar os hábitos de prescrição de médicos, mas a Infomed queria mais. Queria controlá-los. Não era de espantar que a Arolen estivesse pensando em reduzir sua força de vendas.

Virou-se e refez os passos pela praia até o lugar onde deixara os sapatos e depois voltou ao prédio principal. A meio caminho do corredor, notou uma placa indicadora de saída. Tentou a porta, que se abriu para uma escada que subia em espiral para o teto. Depois de certificar-se de que poderia voltar, subiu os degraus até uma porta, que encontrou também destrancada. Girando a maçaneta, descobriu que se encontrava no telhado do prédio principal. O vento soprava vindo do mar. Dirigiu-se até a mureta de 1,20m que assinalava a borda do telhado. Dessa grande altura, teve uma visão clara das instalações. As estruturas residenciais terminavam num pequeno morro rochoso, além do qual se estendia uma densa floresta. Grande como era o centro, compreendeu que poderia haver mais prédios ocultos da vista.

Voltando-se, olhou para o primeiro prédio interior. À luz clara do luar, observou-lhe claramente a forma e deu-se conta de que era uma solução arquitetônica excelente para eliminar escritórios sem janelas. Olhando para baixo, reconheceu que o espaço entre os prédios recebera cuidadoso tratamento paisagístico, com tanques, com folhagem verde de palmeiras. Ambos os prédios eram da mesma altura e uma ponte ligava um ao outro em cada andar.

O edifício central, que o Dr. Nachman dissera que abrigava o hospital, não era visível. Cruzou a ponte para o segundo prédio, foi até a borda interna e olhou para baixo. Aos seus pés, viu o hospital. Tinha apenas três andares, e este era o motivo pelo qual não pudera vê-lo antes. Diretamente abaixo estendia-se a ponte de ligação que terminava nas portas de aço que vira ao sair do laboratório.

O telhado estava eriçado de antenas, fios e discos parabólicos de captação de transmissão por satélites os quais, presumiu, estavam interligados a algum complicado centro de comunicações. Viu também certo número de clarabóias, a maior das quais ficava no centro exato do prédio. O telhado abrigava ainda uma torre de resfriamento do aparelhamento de ar condicionado e uma porta de acesso semelhante à que usara para chegar ao telhado do prédio externo. A luz que provinha da clarabóia central dava a todo o complexo uma aparência estranha, futurista.

Durante alguns minutos, ficou ali, com as mãos descansando na parede de concreto, quente ainda por efeito do calor do dia. A brisa da noite desmanchou-lhe os cabelos. Com um suspiro, perguntou-se que insano impulso o trouxera a Porto Rico. Não havia maneira de a MTIC deixar que ele fosse embora, levando-lhe os segredos. Frustrado e deprimido, resolveu que seria melhor ir dormir.


 

No dia seguinte, a despeito de sua impaciência, descobriu que a visita ao hospital só seria feita na programação da tarde. Passou a maior parte da manhã em companhia do Sr. Burkett, que lhe mostrou não só a casa no conjunto onde ele e Jennifer residiriam, mas também as instalações que a MTIC oferecia às esposas e filhos dos empregados. Perguntou-se qual seria a reação de Burkett, caso lhe dissesse bruscamente que a MTIC estava fazendo tudo que podia para que seu filho jamais nascesse. Precisou de toda a força de vontade para sorrir cheio de admiração enquanto percorriam o conjunto fechado. Ficou aliviado quando Burkett finalmente o deixou à porta do gabinete de Linda Aronson.

Linda recebeu-o com entusiasmo e mostrou-lhe os terminais de computador que, numa questão de minutos, distribuía as informações da Arolen por todo o mundo. Apresentou-o também ao Sr. Crawford, o organizador dos cruzeiros da Arolen. Achou-o bem à altura do falso artista que fornecera o falso passaporte de Smyth.

Crawford mostrou-lhe um gráfico, onde eram anotadas as regiões onde clinicavam os médicos que faziam os cruzeiros. A maioria trabalhava na zona da Cidade de Nova York, embora, em meses recentes, houvesse também grande número de médicos procedentes de Chicago e Los Angeles. Notou que nada menos de dez por cento dos que haviam feito mais de um cruzeiro trabalhavam nesse momento na Clínica Julian.

— Os cruzeiros evidentemente tornaram-se muito populares — comentou, ocultando seu desalento.

— Popular não é a palavra — retrucou Crawford orgulhoso. —

Com nossos meios atuais, não há maneira de atender à procura. A Infomed já adquiriu um segundo navio de cruzeiro na Costa Oeste. Calculamos que entre em serviço dentro de um ano. O plano final prevê cinco navios em operações, o que significa que poderemos atender a todos os profissionais da área médica.

O Sr. Crawford cruzou os braços no peito e endereçou a Adam aquele olhar tipo o-que-é-que-você-acha-disso?, como um pai orgulhoso que descreve as gracinhas dos filhos. Adam sentiu vontade de vomitar. Uma geração inteira de médicos programados para serem inocentes representantes de uma empresa de produtos farmacêuticos.

O Dr. Nachman reuniu-se a ele para o almoço e levou-o mais tarde ao gabinete do Dr. Glover, onde este e Mitchell discutiam sobre quem ia ser o primeiro a lhe mostrar as coisas.

— A situação está ficando de uma maneira tal que não posso deixar vocês dois na mesma sala — disse Nachman irritado.

Adam perguntou-se se o isolamento do centro seria responsável pela guerrinha particular dos dois. Achou que a concorrência entre os dois médicos tinha alguma coisa de neurótica. No entanto, estava satisfeito porque, pelo menos, iria visitar o hospital. Mas não esperava com prazer outra hora de comentários de Mitchell e tinha esperanças de escapar deles.

Ao chegarem às portas duplas do prédio mais interior, o Dr. Nachman abriu-as suavemente ao pressionar o polegar contra um pequeno botão eletrônico. Do outro lado das portas, a ponte coberta era revestida de vidro em ambos os lados, e Adam reviu o belo tratamento paisagístico que apreciara do telhado na noite anterior.

Havia um segundo conjunto de portas duplas ao fim da passagem, que o Dr. Nachman mais uma vez abriu com o polegar. No momento em que entrou, Adam reconheceu o cheiro peculiar de um hospital. Após passar por um saguão da altura de três andares, iluminado por algumas das clarabóias em forma de bolha que vira na noite anterior, passaram por uma série de salas de operações até uma estação de enfermeiras, equipadas com todos os instrumentos de telemetria. Uma das enfermeiras levou-os a uma enfermaria fechada mais adiante. O Dr. Glover apresentou Adam a vários pacientes.

O médico fez a apresentação de cada caso, impressionando Adam com o volume de informações que gravara na memória. Os poucos detalhes que não conseguia lembrar, podia solicitar a um dos terminais de computador que existiam em todos os cômodos.

Conheceu vários diabéticos que haviam recebido implantes de ilhotas de pâncreas de fetos e que nesse momento dispensavam inteiramentE a insulina. A contragosto, Adam ficou impressionado, embora soubesse que os fins jamais podiam justificar os meios.

No lado mais distante da enfermaria ficavam os pacientes que haviam recebido infusões de sistema nervoso central. Adam conheceu uma moça cuja medula espinhal fora seccionada num acidente automobilístico. Depois de ter sido paraplégica por mais de um ano, ela conseguia nesse instante mover as pernas, graças a infusões de tecidos do sistema nervoso central. Os movimentos eram ainda descoordenados, mas os resultados tinham algo de impressionante quando comparados com a desesperança do tratamento tradicional.

Ela recebeu com um abraço o Dr. Glover.

— Obrigada por ter-me dado esperança.

— Não há de quê — respondeu Glover com um radiante sorriso de prazer, enquanto o Dr. Mitchell examinava o gráfico clínico.

— A contagem de bactérias está aumentando na urina — observou Mitchell com ares críticos.

— Sabemos perfeitamente disso — respondeu o Dr. Glover.

— Vamos continuar — disse o Dr. Nachman.

Visitaram mais dez ou quinze pacientes antes que o Dr. Nachman os levasse de volta ao saguão, onde tomaram o elevador para o nível seguinte. Era o andar reservado à psiquiatria e no momento em que desceram o corredor o Dr. Mitchell pareceu ganhar nova vida. Cofiando a barba, passando a mão pela calva lisa, descreveu os pacientes com o entusiasmo de um professor nato.

— Nossa principal modalidade de tratamento é a psicofarmaco-logia — declarou. — Logo que níveis terapêuticos de medicamentos psicotrópicos são atingidos, passamos a usar certo tipo de modificação do comportamento.

Chegaram a um conjunto de portas duplas semelhantes às que bloqueavam o acesso ao hospital propriamente dito. O Dr. Mitchell encostou o polegar no vasculhador eletrônico.

— Este, naturalmente, é o posto das enfermeiras — falou o Dr. Mitchell, acenando para duas mulheres de meia-idade, vestidas de blusas brancas e casacos azuis. Elas simplesmente inclinaram a cabeça. Dois atendentes usando blazers azuis, porém, levantaram-se imediatamente. No mesmo instante Adam notou-lhes os sorrisos fixos e ausência de piscar dos olhos.

"Um pouco da espontaneidade é sacrificada", lembrou-se ironicamente.

Enquanto continuavam a descer o corredor, Mitchell descrevia todos os aspectos técnicos, até que o Dr. Glover interrompeu-o, dizendo:

— Adam sabe de tudo isso, pelo amor de Deus. Ele foi estudante de medicina.

O Dr. Mitchell, porém, sequer interrompeu a explicação. Usando novamente o polegar, abriu as portas duplas de acesso à enfermaria e Adam e os demais entraram.

Para uma instalação hospitalar tão moderna, Adam descobriu surpreso que a enfermaria tinha uma disposição idêntica à do Hospital Universitário. Mas à parte a arrumação interna, tudo mais era diferente. No Hospital Universitário, as camas, as mesinhas-de-cabeceira até mesmo o teto pareciam prestes a desmoronar por falta de manutenção. Em total contraste, a enfermaria da MTIC era tão imaculadamente limpa que parecia que acabara de ser inaugurada. Até os pacientes eram bem cuidados em suas camas, as cobertas uniformemente puxadas à altura do peito. Estavam despertos, mas imóveis. Só os olhos deles se moviam, enquanto seguiam a passagem dos visitantes pela enfermaria. Adam nunca vira uma enfermaria tão silenciosa e certamente nunca uma psiquiátrica tão pacífica.

Seus olhos passaram de uma a outra face vazia. O Dr. Mitchell iniciara outra de suas intermináveis palestras. Adam começava a se perguntar por quanto tempo teria de agüentar aquilo, quando seus olhos caíram sobre o paciente deitado na segunda cama à direita. Reconheceu Alan Jackson. Seu coração começou a bater violentamente. Sentiu-se horrorizado com a possibilidade de que Alan pudesse reconhecê-lo. Virou rapidamente o rosto e, quando olhou para trás, viu que a expressão de Alan não mudara. Obviamente, ele estava sob profunda sedação. Adam permitiu-se olhar mais de perto. A cabeça de Alan estava envolvida em bandagens e de uma ampola de solução intravenosa gotejava um líquido claro para dentro de seu braço direito. Adam deu-se conta de que o Fjord devia ter parado em Porto Rico no dia anterior. Não era de espantar que houvessem mantido Alan sob sedação tão forte. Já o haviam escolhido para a cirurgia involuntária.

No momento em que Mitchell fez uma pausa na descrição dos pacientes, apontou para Alan e perguntou:

— Esse paciente criou algum problema?

O Dr. Mitchell olhou para o Dr. Nachman, que inclinou a cabeça. Mitchell pegou a ficha hospitalar ao pé da cama de Alan e leu o resumo em voz alta: "Robert Iseman, de Sandusky, Ohio, internado por epilepsia intratável do lobo temporal, com manifestações de violência criminosa. Insensível ao tratamento convencional." Iseman fora recolhido a um manicômio judiciário sem esperança de livramento condicional. Oferecera-se voluntariamente para se submeter à série de tratamentos da Arolen. O Dr. Mitchell recolocou a ficha no gancho.

— Ele está aqui há muito tempo? — perguntou Adam.

— Alguns dias — respondeu vagamente o Dr. Mitchell. — Por que nós"não...

— Desculpe — interrompeu-o Adam — mas, às vezes, é mais fácil aprender com um caso específico do que com generalidades. Que tipo de tratamento esse homem recebeu? Pelas ataduras, parece que ele foi submetido a alguma forma de cirurgia cerebral.

— Foi, realmente — concordou Mitchell, após mais um rápido olhar ao Dr. Nachman. — Sabemos pela história clínica que ele era um caso extremamente intratável e, após uma série de Conformina, implantamos microeletrodos no sistema límbico do cérebro. Era a única esperança de cura permanente. Lembra-se do experimento clássico em que eletrodos foram implantados na cabeça de um touro e usados para impedir que ele atacasse? Bem, nós aperfeiçoamos essa técnica. Podemos fazer muito mais do que meramente impedir um touro de arremeter.

Adam inclinou lentamente a cabeça, como se estivesse tentando compreender, mas sua mente encolheu-se toda de horror.

— Note que o tratamento do Sr. Iseman apenas começou — disse o Dr. Nachman. — Quando se recuperar mais da operação, ele será submetido a condicionamento.

— Exatamente — confirmou o Dr. Mitchell. — Na verdade, o tratamento começará amanhã e podemos prever a alta do paciente para dentro de uns quatro dias. Por que não vamos às salas de condicionamento para que você possa ver exatamente o que fazemos?

Adam lançou um olhar final ao rosto inexpressivo de Alan e seguiu os médicos através da enfermaria.

— O Sr. Iseman receberá uma combinação de condicionamento operante de reforço e um condicionamento oposto — dizia nesse momento o Dr. Mitchell. — Um programa orientado por computador poderá detectar processos mentais indesejáveis e revertê-los antes que se manifestem em comportamento visível.

A mente de Adam entrou em parafuso. Gostaria de saber o que Mitchell pensava quando se referia a "processos mentais indesejáveis". Provavelmente, eles variavam da recusa a receitar produtos da Arolen à crença na medicina privada.

— Esta é uma de nossas salas de condicionamento — disse Mitchell, empurrando uma porta e deixando que Adam olhasse.

Tratava-se de uma miniatura do auditório do Fjord. Adam viu na grande tela de cinema na parede mais distante, de frente para duas fileiras equipadas com eletrodos e correias. Afastou-se horrorizado, enquanto o médico fechava a porta.

— É grande o efeito sobre a personalidade? — perguntou.

— Naturalmente — respondeu o Dr. Mitchell. — Isso faz parte do programa. Selecionamos apenas os traços de personalidade mais desejáveis.

— E o intelecto? — perguntou Adam.

— São muito pequenos os efeitos adversos — explicou o Dr. Mitchell, tomando a frente na volta pela enfermaria. — Conseguimos documentar uma pequena redução da criatividade, mas a retenção de memória continua normal. Na verdade, em alguns aspectos, a memória aumenta, especialmente no tocante a informações de natureza técnica. Adam olhou novamente para Alan ao passarem por ele. Ainda não mudara a expressão do paciente. Ele fora reduzido a um estado parecido com o de um morto-vivo.

— A pesquisa vem se desenvolvendo bem — falou o Dr. Nachman, levando-os através das portas de aço. — Claro, a aplicação é limitada.

— Mas o trabalho com fetologia certamente poderá ter aplicação mais geral — lembrou o Dr. Glover.

— Isso é uma questão de opinião — rebateu o Dr. Mitchell. — Com as técnicas de modificação do comportamento que estamos aperfeiçoando, eventualmente não haverá mais enfermarias de segurança em hospitais ou prisões. Na verdade, o Instituto Nacional de Saúde Mental e a Junta de Administração de Prisões estão financiando nossos experimentos.

Chegaram ao saguão de três andares, iluminado pelas clarabóias em forma de bolha. Mas o Dr. Glover não ia deixar que Mitchell dissesse a última palavra. Começou a enumerar os vários órgãos públicos que estavam financiando a fetologia.

Adam encontrava-se em estado de choque. A MTIC planejava a destruição final da medicina privada e independente. Os médicos não seriam mais profissionais dotados de livre-arbítrio, mas empregados do império médico da MTIC-Arolen.

— Adam — chamou o Dr. Nachman, tentando despertar-lhe a atenção — você está sonhando?

— Não, claro — respondeu imediatamente Adam. — Estou simplesmente maravilhado.

— O que é muito compreensível — concordou o Dr. Nachman.

— E acho que devemos lhe dar algum tempo para desfrutar de nossos meios de recreação. Algumas horas na praia lhe farão um grande bem. Que tal nos reunirmos para jantar às oito?

— Que tal visitarmos as salas de operação de psicocirurgia? Se fosse possível, eu gostaria de conhecê-las.

— Lamento, mas isso está fora de cogitação — retrucou o Dr. Nachman. — Elas estão sendo preparadas para uma intervenção esta tarde.

— Eu poderia assistir? — perguntou Adam. O Dr. Nachman sacudiu a cabeça.

— Apreciamos seu interesse mas, infelizmente, não dispomos de galeria para espectadores. Se decidir aceitar o emprego aqui, porém, tenho certeza de que poderemos levá-lo a conhecer as salas de operações.

Enquanto voltava ao seu quarto para mudar de roupa, Adam compreendeu que era melhor descobrir logo um modo de contrabandear para fora do centro alguma evidência tangível. Mas que evidência? O que poderia levar de volta a Nova York que não só convencesse Jenni-fer a não fazer o aborto mas levasse a classe médica a fechar a MTIC?

Após várias horas estendido ao sol, pensou que tinha uma idéia. Era uma coisa maluca e de execução praticamente impossível, mas, se tivesse êxito, sabia que não teria problema para convencer a todos a levar a sério suas advertências.

Os coquetéis e o jantar foram verdadeiros suplícios. O Dr. Nachman parecia querer apresentá-lo a tantas pessoas quanto possível e só um pouco antes das 11 pôde voltar ao quarto, alegando cansaço.

Resolvera que não poderia pôr em ação seu plano até a meia-noite. Inquieto demais para deitar-se enquanto esperava, trocou o terno por uma camisa azul jeans e, com todo cuidado, abriu a bolsa a tiracolo e examinou as peças que ali colocara naquela tarde.

Às 11h45m não conseguiu agüentar mais o suspense. Deixou o quarto e tomou a escada para o telhado. Mais uma vez, o luar estava quase tão claro como o dia. Rapidamente, cruzou a ponte para o primeiro edifício interno e atravessou-o em direção ao segundo. As clara-bóias brilhavam intensamente; ele, porém, não tinha certeza se aquilo indicava alguma atividade especial no interior do prédio.

Colocando a sacola no telhado, abriu-a e tirou a corda que roubara naquela tarde de um dos veleiros. Em seguida, procurou uma tubulação apropriada de ventilação. Depois de experimentar se estava bem presa ao telhado, amarrou nela a corda e deixou a extremidade livre cair por três andares e em cima da ponte do prédio mais interno.

Desacostumado a escaladas e apavorado com alturas, precisou de toda a sua fortaleza de ânimo para galgar a mureta de 1,20m e descer as pernas pelo lado. Depois de uma curta oração, agarrou a corda e escorregou pela parede. Agarrando-se com unhas e dentes, desceu centínetro por centímetro até que seus pés tocaram o telhado da ponte. Caiu sobre as mãos e os joelhos e arrastou-se para o telhado do prédio do hospital, por onde seguiu até a grande clarabóia central. Um movimento embaixo fê-lo parar.

Lentamente, aproximou-se da borda e olhou para baixo. Sob seus olhos desenrolava-se uma cena saída diretamente de um filme de horror de ficção científica. A área sob a clarabóia era uma enorme sala de operações, mas, em vez de servida por médicos e enfermeiras, era inteiramente automatizada. Dois pacientes estavam sendo simultaneamente operados por máquinas que pareciam robôs, dotadas de longos braços flexíveis.

No lado mais distante da sala, vários pacientes encontravam-se deitados no que parecia um sistema de correias transportadoras, as cabeças presas em tornos estereotáxicos. No momento, havia apenas quatro; ele, porém, observou que o sistema fora projetado para atender a pelo menos uma dezena de cada vez.

Permaneceu colado à clarabóia, fascinado pela pura amplitude do horror. Um dos pacientes que se encontrava na correia começou a aproximar-se e foi introduzido num grande rastreador de tevê, que começou a girar em torno de sua cabeça. Ao se completar a rotação, a máquina parou, enquanto braços de robô se estendiam e procediam a incisões na cabeça do paciente nos lugares exatos onde vira as cicatrizes em Vandermer. Um pouco de sangue surgiu e se juntou sob a cabeça do paciente. Outros braços apareceram e suavemente brocaram o crânio. Adam ouviu o chiado da broca através da clarabóia. Em seguida, o rastreador voltou a funcionar, enquanto um terceiro conjunto de braços se adiantava e introduzia algo no cérebro do paciente. Desconfiou que o sistema estava inserindo eletrodos de controle no cérebro, utilizando o rastreador de tevê para obter a colocação apropriada.

Um movimento à esquerda da sala chamou-lhe a atenção e fê-lo recuar. Por trás de uma divisão de vidro, viu pessoas sentadas em frente a um painel de controle. Tê-lo-iam visto claramente se houvessem levantado a vista. Adam agachou-se. Podia ver o que ocorria embaixo por cima da borda da clarabóia, mas tinha certeza de que naquela posição não podia ser visto.

Observou o Dr. Nachman estender a mão e dar uma palmadinha nas costas do Dr. Mitchell. O trabalho num dos pacientes fora completado e ele estava sendo levado dali para ceder lugar ao outro. Adam achou que ia vomitar. A MTIC-Arolen estava, disso não havia dúvida, planejando utilizar psicocirurgia em escala maciça.

Afastando-se da clarabóia, levantou-se e cruzou o telhado até a porta de acesso. Por sorte, ela não estava fechada. Entrou num poço de escada semelhante ao que usara para chegar ao telhado de seu prédio. Exceto pelo zumbido contínuo da maquinaria automatizada que vinha da sala de operação, era total o silêncio. Movendo-se rápido, desceu para o segundo andar e cuidadosamente abriu a porta. Conforme esperara, estava justamente do outro lado da sala de condicionamento. Pelo corredor, olhou para a enfermaria às escuras. A única luz vinha do posto envidraçado das enfermeiras, no lado contrário ao da enfermaria. A enfermeira de serviço parecia estar comendo alguma coisa. Atrás dela, viu dois atendentes imóveis, sentados em cadeiras de espaldar reto.

Permanecendo rente à parede, entrou na enfermaria e agachou-se atrás da primeira cama. Na meia-luz, teve um vislumbre da face do paciente. Para sua surpresa, o homem estava acordado. Esperou, em dúvida se o paciente daria alarme, mas ele permaneceu simplesmente imóvel, os olhos fixos em Adam.

Respirando fundo, Adam começou a rastejar por baixo das camas. Ao chegar à segunda mais perto do fim da enfermaria, ergueu a cabeça para olhar o posto das enfermeiras. Ficou surpreso ao notar como estava perto dele. A enfermeira continuava a comer seu sanduíche e os dois atendentes permaneciam imóveis.

No que interessava a seu plano, era naquele momento ou nunca mais. Virou-se para o paciente que se encontrava deitado na cama acima. Alan não deu sinal de reconhecimento.

— Alan, quero tirar você daqui — sussurrou. — Você pode se mexer?

Não houve resposta. Para todos os efeitos, poderia estar falando com a armação de soro fisiológico. Alan nem mesmo pestanejou quando Adam, com todo o cuidado, soltou o esparadrapo que prendia o tubo e retirou o cateter.

— Se eu o puser de pé, você acha que pode andar? Mais uma vez, nenhuma resposta.

Agarrando as cobertas de Alan, ia puxá-las para trás quando viu o feixe de uma lanterna dançando de um lado a outro do teto da enfermaria. Olhando para as portas duplas, Adam viu a enfermeira pressionar o rastreador com o polegar. No momento em que as portas se abriram com um silvo, Adam deslizou para o chão e escondeu-se embaixo da cama.

A enfermeira subiu a coxia central, lançando o feixe da lanterna no rosto de cada paciente. Adam prendeu a respiração quando ela passou pela cama de Alan, esperando fervorosamente que ela não notasse o tubo solto da solução intravenosa. Ela não parou. Adam viu-lhe os pés movendo-se até o final da enfermaria, darem a volta e regressarem. As portas duplas abriram-se com um silvo e a enfermeira saiu.

Achando que ela não voltaria durante algum tempo, pensou que aquele era o momento oportuno para agir. Afastando as cobertas de Alan, agarrou-o pelos braços e puxou-o devagar para o lado da cama. Em seguida, com toda suavidade possível, ergueu-lhe o tronco e baixou-o. Houve um pequeno som surdo quando as pernas dele tocaram o chão, mas ninguém no posto das enfermeiras pareceu ter ouvido coisa alguma.

— Você pode rastejar pelo chão? — murmurou ele ao ouvido de Alan.

Não obteve resposta.

Recusando-se a desistir, agarrou a mão de Alan e começou a puxá-lo. Para sua surpresa, Alan reagiu nesse momento e logo depois começou a rastejar sozinho. Era como se não conseguisse agir, a menos que lhe mostrassem o que fazer.

Chegaram à extremidade da enfermaria. Ao olhar para trás, Adam notou que havia completo silêncio no posto das enfermeiras. Os cinqüenta passos seguintes iam ser os mais perigosos. Deixando a proteção das camas, arrastaram-se pelo corredor na direção da escada. Se alguém olhasse naquela direção, eles seriam vistos. Ao chegarem à porta, Adam abriu-a alguns centímetros e ficou alarmado com a luz que descia pelo poço da escada. Prendendo a respiração, abriu mais a porta e empurrou Alan para dentro. Um momento depois estavam em segurança.

Levantou-se e espreguiçou-se. Depois, curvou-se e levantou Alan do chão. No princípio, ele pareceu vacilante, mas em segundos recuperou o equilíbrio.

— Você pode me compreender? — perguntou Adam. Notou o que lhe pareceu um vestígio de inclinação de cabeça, mas não teve certeza. — Nós vamos sair daqui!

Segurando a mão de Alan, tomou a frente pela escada. Alan subia como se não tivesse idéia do lugar onde estavam seus pés, mas ao chegar ao segundo andar, seus movimentos tornaram-se mais suaves, parecia que quanto mais coisas ele tinha a fazer, mais fácil isso se tornava. Ao chegarem ao telhado, Alan parecia estar agindo por conta própria. A melhora rápida fez Adam pensar que Alan estivera recebendo uma dose pequena, embora constante, de tranqüilizante por via intravenosa. Ao chegarem ao telhado, Alan parecia quase desperto, e Adam notou que suas pupilas não estavam mais tão dilatadas. Mas aparentemente não havia maneira de Alan subir pela corda três andares até o prédio externo. Nem mesmo ele, Adam, tinha certeza de que poderia fazer isso, e amaldiçoou sua falta de previsão por não ter planejado melhor a fuga.

Olhando para o espaço bem-cuidado embaixo, entre o hospital e o prédio seguinte, achou que seria provavelmente mais fácil descer do que subir, mas achou que não haveria maneira de escapar do jardim fechado.

Receoso de que a ausência de Alan fosse notada, deu-se conta de que tinha de fazer alguma coisa. Por falta de idéia melhor, pegou a ponta da corda e amarrou-a sob os braços de Alan. Em seguida, segurando-a, começou a subir pelo lado do prédio. A parte mais difícil ficava no alto, quando teria de soltar a corda e agarrar a parte superior da mureta. Os pés bateram soltos no ar, enquanto tentava agarrar-se ao concreto liso. Finalmente, conseguiu chegar ao telhado.

Depois de recuperar o fôlego, curvou-se sobre a mureta. Alan continuava de pé, de costas contra o lado do prédio.

Puxou a corda, mas só conseguiu erguer Alan por alguns centímetros. Compreendeu que precisava de mais ação de alavanca. Subitamente, lembrou-se de desenhos que vira de escravos egípcios içando blocos de pedra na construção de pirâmides. Prendiam as cordas sobre os ombros como se fossem bestas de carga. Resolveu fazer o mesmo. Puxando com toda força, voltou aos tropeços à parte mais distante da mureta e rapidamente amarrou a ponta solta na mesma tubulação onde a corda fora inicialmente presa. Quando voltou correndo para a borda, viu Alan pendendo no ar a um terço do caminho da altura.

Repetiu a manobra três vezes mais. No quarto puxão, a corda prendeu e, quando olhou, viu Alan imediatamente abaixo da beirada da mureta que circundava o telhado. Estendendo os braços para baixo, içou o médico de lado e segurou-lhe as pernas. Com um grande esforço, puxou-o por cima da mureta. Os dois caíram sobre o telhado.

Ao recuperar o fôlego, desamarrou a corda e guardou-a na bolsa a tiracolo. Em seguida, ajudou Alan a levantar-se. Notou uma forte abrasão do lado direito do rosto do médico, mas, afora isso, ele parecia ter sobrevivido muito bem à provação.

Pendurando a sacola no ombro, levou Alan pelo telhado até o prédio e em seguida desceu com ele pelo poço da escada. Nessa altura ele tropeçava mais do que Alan. Sentia os braços moles, as coxas tremiam com o esforço e estavam em carne viva as palmas das mãos. Ao chegarem ao quarto, deitou o médico na cama e caiu ao lado dele, de exaustão.

Estava fora de forma para uma atividade física tão cansativa assim. Gostaria de descansar; sabia, no entanto, que o perigo de serem descobertos aumentava a cada minuto. Ajudou Alan a tirar o uniforme hospitalar e rapidamente vestiu-o. Por sorte, tinham aproximadamente a mesma altura. Depois, recolocou Alan na cama e rezou para que ele estivesse ainda suficientemente drogado para voltar a dormir. Como precaução, fechou a porta quando deixou o quarto, a fim de verificar se podia arranjar um carro. Cruzando apressado o corredor, desejou mais uma vez ter elaborado um plano de fuga melhor.

Selma Parkman bocejoue olhou para o relógio em cima do armarinho de remédios. Era apenas 1h15m. Seu turno de serviço prolongava-se por mais cinco horas e já estava entediada até a morte. Lançando o olhar para os dois atendentes, desejou ter um pouco da paciência deles. Desde o momento em que chegara ao centro, ficara espantada com a plácida aceitação da rotina por parte do pessoal.

— Acho que vou dar um passeio — anunciou, fechando com um piparote o romance que lia. Os atendentes não responderam. — Vocês ouviram o que eu disse? — perguntou ela, petulante.

— Nós vigiaremos a enfermaria — respondeu finalmente um deles.

— Faça isso — retrucou Selma, enfiando os pés nos sapatos. Sabia que coisa alguma aconteceria enquanto estivesse longe. Coisa alguma jamais acontecia. Quando aceitara o emprego, esperara um pouco mais de agitação do que servir de babá para um grupo de autômatos. Deixara um bom emprego em Philadelphia, no Hobart Psychiatric Institute, e viera para Porto Rico, mas começava a se perguntar se não cometera um erro.

Deixou o posto das enfermeiras e, ansiosa por um pouco de conversa, tomou o elevador para o andar das salas de operação e penetrou na galeria. O Dr. Nachman sorriu ao vê-la.

— Entediada? — perguntou. — Estou vendo que temos de arranjar uma programação mais animada.

Na verdade, estava irritado com a inquietação dela e já a colocara na lista para uma série de tratamentos com Conformina.

Selma observou as imagens geradas por computador que apareciam na tela situada em frente aos operadores. Não tinha idéia, porém, do que estava vendo e logo depois ficou tão enfadada como no andar inferior. Despediu-se mas ninguém respondeu. Encolhendo os ombros, deixou a galeria, desceu um andar e foi de novo até o posto das enfermeiras. Os atendentes estavam na mesma posição em que os deixara. Não era hora ainda de sua ronda, mas já que estava de pé, pegou a lanterna e entrou na enfermaria.

O trabalho não era absolutamente difícil. Mais ou menos metade dos pacientes tomavam soluções intravenosas e devia examiná-los pelo menos duas vezes durante seu turno. Fora disso, tudo o que tinha de fazer era lançar o feixe da lanterna no rosto de cada paciente e verificar se ele continuava vivo.

Parou, a luz iluminando um travesseiro vazio. Curvando-se, olhou pelo chão. Certa vez, um paciente caíra da cama, mas aquele não parecia ser o caso. Aproximou-se da ficha hospitalar e leu o nome: Ise-man.

Ainda pensando que o paciente devia estar por perto, voltou ao posto de enfermagem e ligou as luzes do teto. Um forte clarão fluorescente inundou a enfermaria. Chamando os atendentes, rapidamente inspecionou o local. Não havia mais dúvida: Iseman desaparecera.

Começou a preocupar-se. Nada parecido jamais acontecera ali. Dizendo aos atendentes que continuassem a procurar, voltou correndo ao andar das salas de operação.

— Um paciente desapareceu — disse ela, encontrando os Drs. Nachman e Mitchell no momento em que os dois se retiravam.

— Isso é impossível — protestou o Dr. Mitchell.

— Pode ser impossível — insistiu Selma — mas a cama do Sr. Iseman está vazia e ele não é encontrado em lugar algum. Acho que é melhor os senhores descerem e irem ver pessoalmente.

— É o paciente que foi operado ontem — lembrou-se o Dr. Nachman. — Ele não estava em regime de aplicação contínua de Conformi-na?

Sem esperar pela resposta de Mitchell, dirigiu-se apressadamente para o andar de baixo. Ao entrarem na enfermaria, Selma indicou triun-falmente a cama vazia.

O Dr. Mitchell pegou a linha da solução intravenosa e examinou o cateter, que ainda gotejava lentamente.

— Bem, ele não pode estar longe.

Depois de esgotarem todos os possíveis esconderijos no andar, os Drs. Nachman e Mitchell tentaram o andar de fetologia, o telhado e finalmente o jardim.

— Acho que é melhor chamarmos todos os atendentes — disse o Dr. Nachman. — Temos de encontrar Iseman imediatamente.

— Isto é incrível — falou o Dr. Mitchell, atônito. — Estou surpreso de que ele tenha podido mesmo andar.

— Se não o encontrarmos imediatamente — perguntou o Dr. Nachman —, o que aconteceria se ativássemos os eletrodos imputados nele? Isso nos levaria diretamente a ele?

O Dr. Mitchell encolheu os ombros.

— O paciente não iniciou ainda o condicionamento. Se o ativarmos, os sinais poderiam ocasionar ou dor ou prazer, mas sem qualquer controle específico de comportamento. E poderia ser perigoso.

— Perigoso para quem? — perguntou o Dr. Nachman. — Para o paciente ou para as pessoas em volta dele?

— Isso eu não posso responder — reconheceu o Dr. Mitchell.

— Bem, essa será a pior situação — resolveu o Dr. Nachman. — Tomara que o encontremos logo. Talvez a dosagem na solução intra-venosa dele tenha sido errada. De qualquer modo, vamos alertar todos os atendentes. Diga a eles para levarem seringas cheias de Conformina, de modo que, quando ele for encontrado, não haja problemas.

Adam estava começando a entrar em desespero. Havia carros à vontade no pátio de estacionamento em frente ao edifício principal, mas não as chaves. E supusera que, com a rigorosa segurança, as pessoas seriam descuidadas. Mas, infelizmente, não era o que acontecia. Mais uma vez, censurou-se por seu planejamento desleixado.

Sem ter certeza do que poderia encontrar, desceu o caminho protegido até a praia e tomou a direção do clube. Havia alguns carros estacionados no pátio atrás da sede do clube e foi de um a outro, sem sucesso. Notou nesse instante um caminhão Ford grande, parado junto à porta de entregas.

A porta da cabine estava aberta e ele subiu. Começou a procurar a ignição mas, antes de poder encontrá-la, um alarme disparou com um uivo ensurdecedor. Abriu a porta atabalhoado e saltou em pânico.

A porta do clube foi aberta, enquanto ele dava a volta em torno do edifício e corria para o abrigo de um bosque de pinheiros. O alarma foi desligado mas o som de vozes que se aproximavam fizeram-no compreender que tinha de continuar em movimento. Vendo os mastros dos Hobie Cats, correu para a praia e enfiou-se embaixo do mais próximo.

Ouviu o som de homens voltando ao clube. Obviamente, eles haviam chegado à conclusão de que fora um alarme falso, mas Adam sabia que só dispunha de mais algumas horas, até o amanhecer, para descobrir um meio de tirar Alan daquele recinto fechado. E gostaria muito de saber se alguém havia notado que um paciente desaparecera.

O rosto do Dr. Nachman parecia mais encovado do que o habitual, os olhos visivelmente enterrados na cavidade ocular.

— Ele tem de estar aqui — disse o Dr. Mitchell.

— Se está, então já devia ter sido encontrado — respondeu o Dr. Nachman, mas sem humor algum.

— Talvez ele esteja no jardim. É o único lugar em que não demos busca ainda.

— Temos vinte atendentes procurando — retrucou secamente o Dr. Nachman. — Se esteve lá, devem tê-lo encontrado.

— Ele vai ser encontrado — garantiu Mitchell, mais para convencer-se do que para convencer alguém. — Talvez tenhamos de esperar até que amanheça.

— Estou me perguntando se ele pode ter saído do hospital — lembrou o Dr. Nachman. — Ele não é o tipo de paciente que gostaríamos que fosse encontrado do lado de fora.

— Ele não pode ter escapado, mesmo que quisesse — objetou o Dr. Mitchell. — Não poderia ter aberto as portas de segurança. E, além do mais, a Sra. Parkman disse que ele esteve aqui. Disse que certamente o viu quando fez as rondas anteriores.

— Ela não estava aqui quando subiu para as salas de operação — observou o Dr. Nachman.

— Mas foram apenas alguns minutos — justificou-se Selma. — E os dois atendentes de serviço disseram que não houve barulho algum.

— Quero que a busca seja estendida ao prédio principal — decidiu o Dr. Nachman, ignorando Selma. — Estou começando a recear que haja mais alguém envolvido, alguém com acesso à enfermaria. Se este for o caso, acho que devemos tentar ativar os eletrodos do paciente. Isso deve permitir-nos descobrir seu paradeiro por intermédio do transmissor.

— Não sei se vai funcionar — avisou o Dr. Mitchell. — Nunca tentamos fazer isso a distância.

— Bem, tente agora — ordenou o Dr. Nachman. — Além disso, telefone para a segurança e avise que ninguém tem permissão de cruzar o portão principal.

O Dr. Mitchell encaminhou-se a um telefone e ligou para o chefe de programação, Edgar Hofstra, dizendo-lhe que havia uma emergência e que sua presença era necessária na sala de controle. Em seguida, ele e Nachman subiram para o andar superior.

A sala de controle localizava-se no mesmo andar das salas de operação. Numa extremidade do prédio, protegido por uma parede de vidro, estava instalado o computador-mestre da Infomed. Mais ou menos uma meia dúzia de técnicos usando casacos brancos se encontrava lá, realizando uma ampla variedade de procedimentos operacionais e de manutenção.

Hofstra chegou dez minutos depois, os olhos ainda inchados de sono.

Sem se incomodar em pedir desculpas, Mitchell expôs o problema.

— Se ativarmos os eletrodos do paciente, penso que a segurança poderá localizá-lo com ajuda do transmissor. Você acha que podemos ativá-lo a longa distância?

— Não tenho certeza — respondeu Hofstra, sentando-se em frente ao terminal.

Logo que digitou o nome Iseman, o computador respondeu dizendo que havia um erro e que o paciente não fora ativado. Hofstra cancelou o sinal.

Todos os que se encontravam na sala observavam, ansiosos. Após um minuto, apareceu na tela um aviso: "Eletrodos ativados". Um minuto depois, outra palavra: "Prossiga".

— Até agora, tudo bem — disse Hofstra. — Agora, vamos ver se a bateria dele tem energia. — Discou o comando para que os eletrodos de Iseman passassem a transmitir. O resultado foi um sinal muito fraco e ininteligível para o computador. — Hofstra girou na cadeira. Bem, os eletrodos estão ativados, mas o sinal é fraco demais. Duvi-do que possamos localizá-lo.

Adam nunca soube onde encontrou coragem para voltar ao edifício principal, especialmente quando notou que a maioria das luzes fora acesa e que grupos de homens usando blazers azuis e armados com seringas hipodérmicas andavam por toda parte no andar térreo. Só o pensamento em Jennifer e no aborto iminente o obrigou a arriscar-se a trocar a relativa segurança do local onde se encontrava pela volta ao prédio. Naquele momento, simplesmente entrou pelo saguão principal como se tivesse todo o direito de fazê-lo. Ao descer do elevador no sexto andar, encontrou o corredor em silêncio. Chegou à conclusão de que não haviam começado ainda a dar buscas nos quartos dos hóspedes.

Acendeu a luz ao chegar ao seu quarto e descobriu aliviado que Alan ainda dormia tranqüilamente.

— Não sei se você pode me compreender — disse tenso —, mas temos que cair fora daqui de qualquer jeito.

Pôs Alan em posição sentada e examinou a atadura de gaze que lhe envolvia a cabeça. Logo que a desenrolou com todo o cuidado, notou satisfeito que a cirurgia automatizada raspara apenas uma pequena área de ambos os lados da cabeça. Puxou o pente do bolso e com todo cuidado cobriu as manchas da raspagem com o resto dos cabelos de Alan.

O coração batendo forte, ajudou-o a levantar-se e abriu tranqüilamente a porta. Três atendentes entravam nesse momento numa suíte situada no fundo do corredor. Teve certeza de que se hesitasse não teria uma segunda oportunidade. No momento em que eles desapareceram na suíte, agarrou a mão de Alan e levou-o apressadamente para o elevador de banhistas. No momento em que as portas se fechavam, ouviu vozes, mas ninguém parecia estar dando um alarme.

Apertou o botão do térreo. Para seu horror, depois de descer por um instante, o elevador parou no terceiro andar!

Olhou para Alan. Ele parecia melhor sem as ataduras, mas o rosto conservava ainda aquele vazio drogado e revelador.

As portas se abriram e um atendente com uma cicatriz no rosto entrou no elevador. Olhando mecanicamente para Adam e Alan, ele voltou em seguida o rosto para as portas que se fechavam. Estava tão perto que Adam pôde ver cada fio de cabelo no pescoço dele. Prendeu a respiração quando o elevador recomeçou a descida.

Estavam justamente pelo segundo andar, quando o atendente pareceu reconhecer a presença deles e girou lento sobre si mesmo. Na mão esquerda trazia uma seringa hipodérmica, sem a capa protetora de plástico.

Por reflexo, Adam reagiu com uma velocidade que o surpreendeu. Mergulhou para a agulha, arrancando-a da mão do atendente com uma rápida torção, e em seguida lançou-o na direção de Alan. No momento em que os dois colidiram, enfiou a agulha nas costas do homem, imediatamente ao lado da espinha, pressionando o êmbolo com a base da mão.

Todos os três caíram contra a parede do elevador e desmoronaram numa pilha, Alan por baixo. O atendente arqueou as costas, rolou para o lado e abriu a boca para gritar. Adam fechou-lhe a boca com a mão para abafar o grito. O elevador parou e as portas se abriram.

O atendente pegou com força a mão de Adam e começou a empurrá-la de seu rosto. Adam lutou para manter coberta a boca do homem. Nesse momento, viu os olhos do atendente convergirem um para o outro. Bruscamente, a empunhadura afrouxou e ele amoleceu.

Adam recolheu a mão e recuou em seguida, cheio de horror. Obrigou-se a afastar-se e olhou fixamente para o homem, cujos olhos nesse momento haviam-se virado para cima. Embora ele parecesse ter sofrido algum tipo de cirurgia plástica para lhe modificar as feições, ainda assim conseguiu reconhecê-lo. Era Percy Harmon!

Por um segundo, ficou atordoado demais para reagir. Nesse momento, as portas do elevador começaram a fechar-se e ele soube que tinha de continuar em movimento. Empurrando Alan contra a porta a fim de mantê-la entreaberta, puxou Harmon para fora e lançou-o por trás de algumas frondosas samambaias. Teve momentaneamente a esperança de levá-lo também, mas compreendeu que já seria mais do que difícil tirar Alan dali. Levou o médico pela porta dos fundos, pelo caminho que ia dar na praia. Seu vago plano era dirigir-se para o condomínio fechado e verificar se poderia encontrar lá um automóvel.

A lua estava nesse momento baixa no céu e a praia não era mais a paisagem iluminada de antes. As palmeiras e pinheiros forneciam uma densa sombra ocultadora.

A meio caminho do clube, os dois chegaram ao Hobie Cat sob o • qual Adam se escondera antes. Parou. Uma idéia luziu no fundo de sua mente. Olhou para o oceano e ficou em dúvida. Não era um bom marinheiro, por mais boa vontade que tivesse, mas conhecia um poupo a respeito de barcos pequenos. Satisfeito, notou que a última pessoa a usar o Hobie Cat o arrastara para a praia sem retirar as velas.

O som de um grito de homem vindo da área do prédio principal fê-lo decidir-se de uma vez por todas. O tempo estava se esgotando.

Em primeiro lugar, arrastou o bote para a água. Em seguida, levou Alan até ele e o ajudou a subir, obrigando-o a deitar-se sobre a lona. a linha de escarpa amarrou-o frouxamente ao mastro. Entrando na água, puxou o Hobie da areia e empurrou-o depois para as ondas.

As ondas tinham apenas uns 60 ou 70 centímetros de altura mas dificultavam o manejo do barco. Quando ficou com água pela cintura, alçou-se para bordo.

Sua idéia original era impelir o barco com o remo até dar a volta em torno da língua de terra que avançava nesse ponto para o mar, mas viu que ia ser impossível. Teria de içar a vela. Com toda a rapidez que pôde conseguir, ergueu a vela principal. Finalmente, a vela enfunou-se e a retranca ergueu-se com um som seco. Para seu alívio, o barco estabilizou-se no momento em que pegou o vento. Virando-se, colocou os lemes em posição e empurrou em seguida o timão para a direita.

Durante um agoniado minuto, o barco pareceu deslizar de volta à terra. Logo depois, recebendo o vento de través, saltou para a frente, estalando nas ondas que chegavam ao afastar-se da praia. Pouco mais pôde Adam fazer do que segurar Alan com uma das mãos e manter o timão do leme com a outra.

O bote passou bem em frente ao clube. Adam, porém, teve medo de mudar o curso. Soltou um suspiro de alívio quando deixaram para trás a arrebentação. Logo depois, fizeram a volta em torno do promontório e puseram-se em segurança fora do alcance da vista.

Relaxando um pouco, olhou para a vela, recortada contra o céu tropical estrelado. Virando-se para o oeste, viu a lua, ocasionalmente velada por nuvens pequenas. Abaixo da lua estendia-se o contorno escuro das escarpadas montanhas de Porto Rico. Logo depois, o barco atingiu as longas ondas do Atlântico e Adam teve de dedicar toda sua atenção ao leme. Hobie Cat disparou pela água a uma velocidade ainda maior. Começou a sentir-se otimista e a pensar que dentro de algumas horas estaria suficientemente longe da costa para encontrar ajuda.

Furioso, o Dr. Nachman afastou-se do computador. Hairy Bur-kett chegou para pôr o diretor de pesquisas a par do andamento das buscas, mas Nachman não aceitou as falsas garantias.

— Você está me dizendo que tudo o que soube com a ajuda de 40 homens e milhões de dólares de equipamento de segurança é que um dos atendentes foi encontrado inconsciente e que um de nossos hóspedes, o Sr. Schonberg, não se encontra em seu quarto?

— Exatamente — confirmou o Sr. Burkett.

— E que o atendente — continuou o Dr. Nachman — provavelmente recebeu nas costas uma injeção com sua própria seringa de Conformina?

— Exatamente — repetiu Burkett. — A injeção foi aplicada com tamanha força que a agulha quebrou e está cravada na pele dele.

Burkett queria impressionar o diretor de pesquisa com a minuciosidade de sua investigação, mas Nachman não se estava deixando engabelar. Achava inconcebível que Burkett, com seu enorme contingente de auxiliares e sofisticados recursos, não pudesse localizar um paciente sob profunda sedação. Graças à ineficiência de Burkett, o que começara como mera inconveniência estava se transformando rapidamente em assunto sério.

Irritado, o Dr. Nachman acendeu o cachimbo, que se apagara pela décima vez. Não conseguia decidir-se se devia ou não transmitir a informação aos círculos mais fechados da Infomed. Se o problema se agravasse, quanto mais cedo o comunicasse, melhor para ele. Mas caso se resolvesse por si mesmo, seria melhor continuar calado.

— Houve alguma evidência de que alguém tenha tocado o perímetro da cerca? — perguntou.

— Absolutamente nenhuma — respondeu Burkett. — E ninguém passou pelo portão principal desde que o Dr. Mitchell telefonou.

Olhou para o psiquiatra, que nervosamente examinava as próprias cutículas.

O Dr. Nachman inclinou a cabeça. Tinha certeza de que o paciente continuava no terreno e que a cerca eletrificada constituía uma barreira intransponível mas, ainda assim, continuava preocupado com a Imcompetência da força de segurança de Burkett. Não havia razões para Incorrer em riscos.

— Quero que envie alguém ao aeroporto a fim de verificar todas as partidas de vôos — ordenou.

— Acho que isso é ir um pouco longe demais — protestou Burkett. — O paciente não sairá da área da propriedade.

— Não me interessa o que você pensa — cortou-o o Dr. Nachman. — Todo mundo me disse que o paciente não podia ter deixado o hospital e obviamente ele fez isso. De modo que mande vigiar o aeroporto.

— Muito bem — murmurou Burkett com um exasperado suspiro. Dr. Mitchell, que sabia muito bem ser a pessoa que insistira em que o paciente não podia ter deixado o hospital, levantou-se, dizendo:

— Mesmo que o transmissor seja fraco demais para que possamos localizar o paciente, talvez se lhe estimularmos os eletrodos ele se revele.

O Dr. Nachman olhou para Hofstra.

— Podemos fazer isso?

— Não sei — respondeu Hofstra. — A posição dos eletrodos dele não foi mapeada neurofisiologicamente. Não sei o que acontecerá se o estimularmos. Poderemos matá-lo.

— Mas poderemos estimulá-lo? — voltou a perguntar o Dr. Nachman.

— Talvez — respondeu Hofstra. — Mas levará algum tempo. O atual programa foi montado na expectativa de que o paciente estaria presente.

— A que período de tempo você se refere? Hofstra abriu largamente as mãos.

— Dentro de uma hora, mais ou menos, devo descobrir se posso fazer isso ou não.

— Mas você não teve problema algum em ativar os eletrodos.

— É verdade — confirmou Hofstra —, mas o estímulo concreto é coisa muito mais complicada.

— Tente — ordenou cansadamente o Dr. Nachman. Em seguida, gesticulando na direção de Burkett, que continuava ao telefone, disse: — Eu gostaria de dar alguma ajuda aos policiais trapalhões dele.

Olhando para o relógio, Adam verificou que estavam navegando há quase duas horas. Uma vez feita a volta em torno da língua de terra ao norte da praia MTIC-Arolen, encontraram ondas cada vez mais altas que ocasionalmente lavavam e se quebravam por cima do toldo de lona que ligava os dois pontões do barco. Umas duas vezes, no cavado de uma onda extremamente alta, temeu que fossem sepultados por toneladas de água salgada. Mas em todas as ocasiões o barco se elevou e passou como uma rolha por cima da onda.

Dirigiram-se diretamente para o oeste pela costa norte. Incerto se havia à frente recifes ou não, Adam permaneceu cerca de 200 ou 300 metros ao largo da praia. Mas a pior parte da aventura era controlar a própria imaginação. A cada momento aumentava sua preocupação com a possibilidade da existência de tubarões rondando sob as águas turbilhonantes. A cada vez que olhava para baixo, esperava ver uma enorme barbatana negra cortar a superfície da água.

Certo de que haviam deixado muito para trás os limites do recinto fechado da MTIC-Arolen, começou a embicar o Hobie Cat para terra. Nos últimos 15 minutos mais ou menos começara a avistar luzes ocasionais. E nesse último momento podia ouvir o som de ondas se quebrando. Fez um esforço para não pensar no que aquilo poderia significar.

Um grito despedaçou o silêncio. Inesperadamente, Alan agarrou sua cabeça com ambas as mãos e soltou um uivo que se perdeu na noite.

Adam foi pego inteiramente de surpresa. Uma grande dosagem de adrenalina foi lançada dentro de sua corrente circulatória.

Os gritos de Alan aumentaram até onde os pulmões os podiam emitir e ele tentou erguer-se, lutando contra a corda que o prendia ao mastro. Começou a debater-se de um lado para o outro, ameaçando virar o bote. Adam abandonou o timão do leme, ferrou a vela principal e tentou conter o homem enlouquecido. O bote imediatamente entrou de través no vento e a vela principal bateu.

— Alan! — gritou Adam acima do som do vento. — O que está acontecendo?

Segurou-o pelos ombros e sacudiu-o com toda a força de que foi capaz. Alan continuava a apertar a cabeça com as mãos e com tal violência que tinha o rosto inteiramente contorcido. Os guinchos saíam em meio a arquejos, enquanto ele procurava respirar.

— O que está acontecendo? — gritou novamente Adam. Alan soltou a cabeça e por um segundo Adam viu-lhe o rosto. A

A fisionomia anteriormente vazia do médico contorcia-se nesse momento num esgar de dor e raiva. Como um cão danado, ele mergulhou para a garganta de Adam.

Chocado com a força de Alan, Adam tentou escapar recuando, mas havia pouco espaço na plataforma de lona do Hobie Cat. Alan torceu-se dentro das cordas que o prendiam e lançou os braços à frente, atingindo Adam no rosto com um poderoso soco. Gritando também, Adam vacilou na borda do Hobie Cat, as mãos procurando freneticamente algo em que se segurar. Os dedos encontraram a verga da vela principal, mas esta não lhe deu nenhum ponto de apoio. Numa espécie de torturante câmera lenta, caiu no oceano revolto.

Mergulhou bem abaixo da superfície da água gelada. Em desespero, espadanando, lutou para subir para o ar livre, apavorado que a qualquer momento pudesse ser atacado por um monstro do mar. Ao sentir a perna roçar a corda que tinha na mão, soltou um grito.

Embora as velas estivessem batendo frouxas, o vento forte continuava a empurrar o barco pela água. Agarrou-se com toda força à verga da vela principal e foi arrastado como uma isca no fim de uma linha de pesca. Sentiu a pálpebra do olho direito inchando, mas, pior que tudo, um calor escorria de seu nariz, o que o levou a pensar que fosse sangue. Esperava que as pernas fossem arrancadas do corpo a qualquer momento. Uma mão após outra, freneticamente, içou-se de volta ao barco. No toldo de lona, Alan continuava a gritar de dor. Adam agarrou a ponta de um dos pontões e começou a sair da água.

Os estalidos da vela principal pareciam tiros de fuzil. O barco girara para barlavento e, de repente, a retranca do mastro varreu a parte traseira do barco, chocando-se com um lado da cabeça de Alan e lançando-ocom o rosto para baixo, sobre a lona.

Adam içou-se para fora da água e, atento à retranca que oscilava, aproximou-se cauteloso do homem caído, meio esperando que ele explodisse novamente. Alan, porém, estava inconsciente e respirando profundamente. Firmando-se no barco oscilante, Adam apalpou a cabeça de Alan, à procura de fraturas. Tudo o que encontrou foi um caroço oval em rápida formação.

Cautelosamente, virou-o de barriga para cima, perguntando-se que demônio possuíra aquele homem. Estivera tão tranqüilo até aquele momento apavorante. Notou que uma das incisões suturadas se abrira e, de repente, calculou o que poderia ter acontecido.

Voltando aos trancos para a popa, pegou o timão do leme e armou corretamente a vela principal. O barco respondeu e as velas se enfunaram. Pegando de través o vento, dirigiu-se para a praia. Tinha nas mãos nesse instante um novo e inesperado problema. Não formava idéia do que Alan podia ser condicionado a fazer. Estremeceu, mais de medo do que do frio das roupas molhadas.

Edgar Hofstra levantou a vista para o Dr. Nachman, cujos olhos estavam injetados de sangue. As pálpebras inferiores pendiam, afastando-se dos globos oculares, quando ele se curvava sobre o ombro de Hofstra, toda a atenção na tela.

— Não posso ter cem por cento de certeza de que os eletrodos tenham reagido — disse Hofstra —, mas aquele foi o sinal mais forte que pude enviar no momento. Se me der umas duas horas, poderei aumentar a potência.

— Bem, veja se pode apressar as coisas — ordenou o Dr. Nachman. — E talvez possa lembrar-se se alguns de nossos antigos experimentos com macacos nos deram pistas sobre a maneira como o sujeito reagirá.

— Odeio lhe dizer isso — confessou Mitchell —, mas além de destruírem tudo em volta, os macacos, nessas situações, acabaram por se matar.

O Dr. Nachman levantou-se e espreguiçou-se.

— Escutem aqui, isso pode ser a boa notícia.

— Vou ter de tirar todo o sistema de operação enquanto trabalho nisso — avisou Hofstra.

— Tudo bem — concordou o Dr. Nachman. — A esta hora, não posso imaginar pessoa alguma querendo enviar instruções a algun dos médicos "controlados".

— Que pena que o paciente não tenha sido pelo menos condicionado para o modo de autodestruição — observou o Dr. Mitchell.

— Sim, é uma grande pena — concordou o Dr. Nachman.

Quando Adam chegou a uns cem metros da praia, a lua desaparecera e a noite se tornara muito mais escura. Virou o barco para oeste e navegou paralelo à ilha, enquanto escutava atento o som das ondas se quebrando. Tinha esperança de que o tipo de som lhe desse meios de adivinhar o tipo de praia. Com as ondas fortes, estava com receio de haver por ali formações de coral.

Alan gemera algumas vezes, mas não fizera esforço algum para se levantar. Adam pensou que ele ou estava ainda inconsciente com o golpe na cabeça ou num estado pós-crise de icto, devido ao que fora certamente uma espécie de convulsão. De qualquer modo, esperava que ele permanecesse tranqüilo até o momento de chegarem à praia.

O som dos latidos de cachorro, misturado com os sons do oceano, despertou-lhe a atenção e ele forçou os olhos na direção da praia. - Aninhado entre os troncos graciosos de uma floresta de coqueiros, distinguiu um grupo de casas escuras. Achando que aquilo constituía boa indicação da existência de uma praia de areia, evitou, abaixando-se, a vela principal e embicou para a terra.

Embora houvesse soltado a vela e ela estivesse batendo, o barco parecia estar voando. Segurando o timão do leme com a perna, estendeu a mão e soltou a bujarrona, que começou também a bater furiosa no vento. À frente, viu o lugar onde as ondas atingiam seu ponto máximo antes de desabar na praia, uma linha branca de espuma contra a escuridão da ilha.

Quanto mais perto chegavam, mais alto era o ruído dos vagalhões quebrando-se na praia. Rezou em silêncio por uma praia de areia, embora, àquela velocidade, mesmo a areia constituísse problema. Uma grande onda passou sob o barco e em seguida uma mais alta formou-se atrás. O Hobie cavalgou a crista da onda e, cheio de pavor, Adam pensou que iam capotar. O barco, porém, endireitou-se enquanto a onda passava por baixo. Olhando novamente para trás, viu outra onda aproximando-se. Parecia tão alta quanto uma casa. Sua borda superior encrespava-se contra o céu, sugerindo que estava prestes a quebrar-se. Viu a parte superior começar a encurvar-se. Segurando o timão com uma das mãos e o lado do toldo de lona com a outra, fechou os olhos e preparou-se para a submersão.

As toneladas de água que esperava, porém, não chegaram. Em vez disso, o Hobie Cat saltou para a frente com uma embriagadora explosão de velocidade. Adam abriu os olhos e viu que iam correndo para a praia, à frente da torrente de água branca.

Antes de Adam perceber o que estava acontecendo, o barco, em alta velocidade, atingiu o refluxo da onda anterior e saltou no ar, lançando-o pela borda na água. Subiu cuspindo e notou, com alegre surpresa, que a água lhe batia apenas pela cintura. Alan permanecera no toldo do barco, preso pela linha em volta do peito, mas girara em torno do mastro e suas pernas pendiam para um lado. Adam agarrou o barco e puxou-o para a praia, lutando contra a corrente que o impelia na direção oposta. Os pontões finalmente tocaram o fundo e ele esperou pela onda seguinte, antes de empurrar o barco para terra seca.

Imediatamente, desmoronou na areia para recuperar o fôlego. Puxou em seguida os óculos do bolso e ajustou-os. Olhando em volta, viu que haviam chegado a uma praia estreita e bastante íngreme, coberta por toda sorte de destroços. Notou certo número de barcos de madeira alinhados à beira da água e presos por cordas a troncos próximos de palmeiras. Em meio à escuridão das árvores, distinguiu um vilarejo de casas arruinadas.

Uma comissão de recepção de dois cães esqueléticos apareceu à beira da praia e começou a ladrar alto. Uma luz apareceu na casa mais próxima. Quando Adam se levantou, os cães fugiram por algum tempo, mas apenas para reaparecer e ladrar mais insistentemente. Adam ignorou-os. Desamarrou Alan e colocou-o de pé.

Alan segurava a cabeça enquanto Adam levava-o praia acima. Pouco antes de chegar ao bosque de palmeiras, encontrou uma casa velha, com uma velha camioneta de meia tonelada estacionada do lado de fora. Olhou ansiosamente para dentro da cabine. Não viu chaves penduradas na ignição. Resolveu bater à porta da casa e arriscar-se. Os cães latiam furiosos nesse momento, tentando morder-lhe as pernas.

Quando subia os degraus da casa, uma luz foi acesa e um rosto apareceu à janela. Adam apalpou o bolso traseiro para certificar-se de que a carteira continuava ali. Um momento depois, abriu-se a porta. O homem que apareceu estava nu da cintura para cima e descalço. Tinha na mão uma arma, um velho revólver com cabo de madrepérola.

— No hablo muito espanol — disse Adam, tentando sorrir. O homem não retribuiu o sorriso. — Me puede dar uma carona até o aeropuerto? — continuou, virando ligeiramente e apontando para a caminhoneta.

O homem olhou para Adam como se ele fosse louco. Em seguida, fez com a pistola um movimento como quem o mandava embora e começou a fechar a porta.

— Por favor — implorou Adam.

Em seguida, numa combinação de espanhol e inglês, tentou explicar rapidamente que estivera perdido no mar num barco a vela, com um amigo doente, e que tinham de chegar imediatamente ao aeroporto. Puxando a carteira, começou a contar notas molhadas. Isso finalmente despertou o interesse do homem. Ele enfiou o revólver no bolso e deixou que Adam o levasse até a praia.

No meio da tentativa frenética de despertar o interesse do homem, teve uma idéia súbita. Ao chegar à praia, pegou a amarra de proa do Hobie Cat e colocou-a na mão do porto-riquenho. Ao mesmo tempo, esforçou-se para explicar que o barco seria dele, se os levasse ao aeroporto.

O porto-riquenho pareceu finalmente compreender. Um largo sorriso desenhou-se em seu rosto. Alegremente, puxou o barco para um lugar mais alto na praia e amarrou-o a um dos coqueiros. Depois, voltou à casa, presumivelmente para se vestir.

Adam não perdeu tempo e colocou Alan na cabine da caminhoneta. Quase no mesmo instante, o porto-riquenho voltou, tilintando as chaves. Deu partida ao veículo, lançando um estranho olhar a Alan. Ele estava derreado no assento e a ponto de cair novamente no sono. Adam tentou explicar que o amigo estava doente, mas logo desistiu, resolvendo que seria mais fácil fingir que ele, também, caíra no sono. Permaneceu de olhos fechados até que chegaram ao aeroporto. Indicando por gestos que queria ser deixado na área de partida da Eastern, começou a preocupar-se como, em nome de Deus, poderia explicar ao despachante a estranha aparência sua e de Alan.

A caminhoneta parou e Adam tocou o ombro de Alan. Desta vez, foi mais fácil acordá-lo.

— Muchas grácias — disse ao descer.

— De nada — gritou o motorista, e partiu com um rugido do motor.

— Muito bem — tranqüilizou Adam, dirigindo-se a Alan e segurando-o pelo braço —, esta é a última etapa.

Entrou no terminal quase vazio. Alguns táxis e uma ambulância encontravam-se parados à entrada, mas era cedo demais para muitos turistas de partida. Vasculhou o velho prédio com os olhos e sentou Alan na cadeira vazia de um engraxate. Em seguida, sozinho, dirigiu-se para o balcão de despacho.

Olhando para a programação de vôo, notou que o vôo seguinte da Eastern com destino a Miami partiria dentro de duas horas. Uma pequena tabuleta ao lado do balcão dizia: "Fora do Expediente, Use o Telefone". Adam levantou o aparelho junto à tabuleta. Logo que respondeu, o despachante disse a Adam que viria atendê-lo logo em seguida. De fato, quando Adam ia desligando, um homem, usando uniforme limpo e bem-passado, saiu por uma porta atrás do balcão. Ao ver Adam, seu sorriso vacilou.

Adam estava agudamente consciente de sua aparência andrajosa, A corrida na caminhoneta quase lhe secara as roupas mas, notando a reação do despachante, achou que era melhor inventar uma boa história. Hesitando apenas por um momento, iniciou uma longa explicação em que destacava uma festa de fim de férias com bebida à vontade e um passeio por mar de última hora. Ele e o amigo haviam sido lançados na praia a quilômetros do hotel e vindo de carona para o aeroporto. Disse que tinham de estar de volta ao trabalho no dia seguinte e que a bagagem seria trazida pelo resto do grupo, no vôo de volta.

— Foram umas férias bem movimentadas — acrescentou.

O despachante inclinou a cabeça, como se compreendesse o que era aquilo, e respondeu que havia lugares à vontade no avião. Adam perguntou se havia vôos mais cedo para os Estados Unidos e foi avisado de que a Delta tinha um vôo para Atlanta dentro de uma hora.

No que o interessava, quanto mais cedo saíssem da ilha melhor. Pediu indicações de como procurar o balcão da Delta e recebeu instruções de seguir para o prédio contíguo. Resolvendo que era melhor deixar Alan onde ele se encontrava, correu para o terminal seguinte, onde havia um grupo de visitantes esperando a hora de apresentação para o embarque.

Entrou no final da fila. Ao chegar ao balcão, o despachante olhou-o desconfiado, mas Adam repetiu sua história, nesse momento bem ensaiada. Mais uma vez, o despachante pareceu acreditar.

— Primeira classe ou classe turística? — perguntou.

Adam olhou para o homem, perguntando-se se ele estava querendo ser engraçado. Lembrando-se, porém, de que era a Arolen que pagava as despesas que fazia com seu cartão Visa, respondeu:

— Primeira classe, claro.

Olhou nervosamente em volta do terminal, enquanto o empregado emitia os bilhetes, mas não viu ninguém que lhe parecesse ter sido enviado pela MTIC.

Quando o despachante terminou, Adam disse:

— Nós gostaríamos de ter uma cadeira de rodas. Meu amigo ficou muito contundido quando rolamos pelas ondas.

— Oh, Deus — disse o despachante —, vou ver o que posso arranjar.

Adam agradeceu e voltou ao outro prédio a fim de buscar Alan.

De um lugar alto no mezanino que ficava a cavaleiro do balcão de passagens da Delta, dois enfermeiros de ambulância, usando uniformes brancos, observaram enquanto Adam se afastava. O fato de ele estar empurrando uma cadeira de rodas sugeria que Iseman não podia estar muito longe.

Rapidamente, os dois homens desceram para o térreo do terminal e correram para a ambulância estacionada do lado de fora, onde disseram ao motorista para comunicar pelo rádio ao Sr. Burkett que os indivíduos procurados haviam sido localizados. O mais alto dos dois enfermeiros, um homem entroncado de cabelos louros cortados rente, puxou dos fundos da ambulância duas macas de rodas dobráveis, enquanto o colega enfiava certo número de seringas numa maleta médica.

De volta ao terminal, conferiram o número do portão do vôo da Delta para Atlanta e dirigiram-se para o Salão B.

Ao chegar à cadeira do engraxate, Adam descobriu horrorizado que ela estava vazia. Freneticamente, correu empurrando a cadeira para o balcão da Eastern, onde encontrou Alan tentando conversar com o despachante, que lhe dizia nesse momento que ele se encontrava em Porto Rico, e não em Miami, mas que poderia lhe arranjar uma reserva para Miami, se tal fosse seu desejo.

— Ele está comigo — explicou Adam, ajudando Alan a sentar-se na cadeira.

— Ele pensa que está em Miami — disse o despachante.

— Ele passou por momentos muito difíceis — justificou-se Adam.

— O senhor sabe, os náufragos... — A voz morreu e ele iniciou a volta para o prédio da Delta.

— O que estou fazendo em Porto Rico? — perguntou Alan.

Embora a dicção estivesse ainda um pouco engrolada, ele se mostrava mais alerta do que em qualquer outro momento, desde que Adam conversara com ele no terminal de partida do Fjord.

Com apenas vinte minutos para o vôo, Adam empurrou a cadeira em ritmo veloz. Um grupo de turistas usando camisas berrantes reunia-se barulhento em frente ao balcão da Delta. A presença de gente em volta despertou-lhe certa sensação de alívio. Passando pela segurança como medida prévia para subir no avião, ajudou Alan a levantar-se da cadeira a fim de que ele passasse pelo detector de metais. O guarda olhou-os desconfiado mas não pronunciou palavra. Logo que passaram e começaram a dirigir-se para o portão de embarque, Adam começou a sentir-se cada vez mais animado. Conseguira. Dentro de algumas horas, estaria desembarcando nos Estados Unidos.

O piso da área de embarque apresentava um declive e nesse momento Adam teve de segurar a cadeira de rodas para que ela não deslizasse por si mesma. À frente havia um bebedouro e sanitários. Pensou em parar um pouco. Dispunham ainda de quase vinte minutos. Notou um pequeno sinal no chão, junto à porta do lavatório de homens, indicando que naquele momento estava sendo feita faxina ali. Resolveu beber água e urinar no avião.

Voltara a andar em passo normal e ia continuar seu caminho quando percebeu um movimento súbito pelo canto do olho. No exato momento em que ia virar a cabeça, alguém segurou-o por trás, prendendo-lhe fortemente os braços contra o tronco. Antes que pudesse reagir, foi erguido do chão.

Tentou virar-se enquanto gritava, mas foi lançado diretamente contra a porta fechada do lavatório de homens, atingindo-a com o peito e a testa. O impacto abriu a porta e Adam e seu atacante caíram de bruços no chão de mosaico.

A força da queda soltou a chave-de-braço que o homem lhe aplicava. Embora atordoado, Adam conseguiu livrar os braços e levantar-se, embora caísse novamente quando o homem segurou-o pelos tornozelos. Mais uma vez no chão, sua cabeça errou por pouco a borda de uma pia, mas desta vez tinha as mãos livres para amortecer a queda.

Às suas costas, percebeu vagamente que Alan, ainda na cadeira de rodas, estava sendo empurrado para longe por um segundo homem vestido de branco. Alan fora também empurrado contra a porta do sanitário como Adam, sua cabeça projetando-se para a frente com o impacto. Quando a porta se abrira, fora lançado com força para a frente, a cabeça espichando-se muito. A cadeira de rodas, sem orientação nesse momento, descreveu um arco para a esquerda e colidiu em seguida contra uma bateria de mictórios, jogando Alan no chão.

O segundo homem virou-se, fechou a porta e veio correndo em ajuda do companheiro. Juntos, os dois atacaram Adam, rapidamente dominando-ó e prendendo-o ao chão.

Reunindo toda a sua força, Adam lançou as pernas para o alto e conseguiu soltar um braço. Mandando-o selvagemente à frente, atingiu a mandíbula inferior do mais forte dos dois atacantes. O homem soltou um grito. O colega dele recuou e, numa explosão de raiva, descarregou o punho com toda força no estômago de Adam.

A respiração deixou o peito de Adam com um silvo audível, fazendo-o engasgar-se e tornando-o momentaneamente impotente. Os dois homens prenderam-no ao chão, usando a força combinada. O enfermeiro mais baixo puxou uma seringa do bolso. Usando os dentes, removeu a proteção plástica da agulha, apalpou o tecido que cobria a coxa de Adam e mergulhou a agulha em sua carne.

Adam tentou mover-se, sem sucesso. O enfermeiro puxou o êmbolo para trás a fim de certificar-se de que a agulha não atingira uma veia e, em seguida, voltando a firmar a seringa, preparou-se para injetar o medicamento.

De repente, um uivo pavoroso reverberou pelo lavatório mosaica-do. O som sobrenatural paralisou momentaneamente Adam e os dois homens que o prendiam ao chão.

Alan segurou a cabeça com as mãos, como fizera no Hobie Cat, e levantou-se com um salto. Seus olhos se esbugalharam e os lábios se arregaçaram, expondo os dentes. Com um som de coisa rasgada, as mãos deixaram a cabeça, trazendo entre os dedos tufos de cabelo. Como um cão raivoso, ele saltou do local dos mictórios na direção dos três homens que lutavam no chão. Juntou as mãos para formar um porrete e depois de baixá-las num grande arco, atacou o homem que acabara de enfiar a agulha em Adam. O golpe pegou o homem no lado da cabeça com tal força que ele foi lançado de sua posição, escancha-do sobre Adam para a porta de um cubículo aberto do sanitário, penetrando na parede divisória com um som de arrepiar.

O enfermeiro mais baixo levantou-se tomado de choque, os olhos refletindo o pavor de ter presenciado a materialização de um monstro. Deu um passo para trás e ergueu as mãos, mas Alan caiu sobre ele com a velocidade de um relâmpago, arrancando a maior parte da orelha do homem com uma mordida súbita. O terror do enfermeiro impediu-o de defender-se. Alan agarrou-lhe a cabeça e começou a usá-la como se fosse um martelo contra um dos espelhos em cima das pias, lançando em graciosos arcos espumantes espirais de sangue no vidro. O espelho rachou, estilhaçou-se e em seguida desfez-se numa chuva de cacos.

Adam ficara também paralisado com a transformação inesperada de Alan mas, tendo-a visto antes, pôde recuperar-se melhor. Arrancou a seringa da coxa e levantou-se com pernas trêmulas. Rapidamente avaliou as possibilidades de dominar Alan, que continuava a martelar a cabeça do enfermeiro contra o espelho. Infelizmente, nesse momento, o corpo do enfermeiro amoleceu e ele tombou. Imediatamente, Alan perdeu o interesse por ele. Lançando a cabeça para trás e soltando um novo uivo, adiantou-se para atacar Adam.

O único recurso de Adam foi correr para o cubículo de um sanitário e tentar fechar a porta. Alan porém pegou a borda da porta e começou a vencê-lo lentamente no jogo de empurra-empurra que então começou. Sentindo que estava perdendo no teste de força, Adam ergueu as pernas, as costas contra a parede, prendendo os dedos de Alan, que uivou novamente e puxou a mão para trás.

Adam passou o ferrolho e recuou para a parede, ficando o vaso sanitário entre suas pernas, a mente girando loucamente, procurando descobrir o que fazer em seguida.

Nesse momento, Alan começou a lançar repetidamente o ombro contra a porta. A cada golpe, o ferrolho envergava um pouco mais. Finalmente, arrebentou e a porta escancarou-se.

Adam gritou o nome do médico, mas Alan veio contra ele como se fosse uma locomotiva, suas pupilas meros pontos nos olhos alucinados. Mais por pura defesa do que por pensamento, Adam estendeu a seringa que estivera segurando nas mãos crispadas. Alan correu diretamente para a agulha, que lhe perfurou o abdômen. A força do ataque acionou o embolo e o conteúdo da seringa penetrou em suas carnes.

Alan nem mesmo sentiu a picada da agulha. Agarrou a cabeça de Adam com uma força aparentemente sobre-humana e praticamente ergueu-o do chão. Nesse momento, porém, enquanto Adam olhava, os olhos loucos tremeram e as pupilas se dilataram. O olho direito vagueou como um olho estrábico de criança e o esquerdo assumiu uma expressão inquiridora. A empunhadura relaxou e, devagar, ele caiu de joelhos. Finalmente, tombou para trás, saindo do cubículo e esparramando-se em frente às pias.

Durante um momento, Adam não conseguiu mover-se. Sentiu que estivera muito perto da morte. Vagarosamente, baixou os olhos para examinar a ponta da agulha que continuava em sua mão. Uma gota de líquido que se acumulara ali pingou nesse momento. Soltou a seringa e ela caiu com um estalido.

Saindo do cubículo e empurrando para o lado as duas macas de rodas, que se encontravam no fundo do cômodo, ajoelhou-se ao lado de Alan e tomou-lhe o pulso. Forte e normal. Para surpresa sua, os olhos do médico bateram e ele os abriu. Numa voz muito engrolada, queixou-se de que as mãos lhe doíam.

— A esse nível de energia, não há dúvida de que os eletrodos de nosso paciente foram estimulados ao máximo — disse Hofstra. — O resultado deve ter sido devastador.

— Mas agora podemos ter nas mãos um novo problema — retrucou o Dr. Nachman. — Se o paciente estiver morto, ninguém poderá examinar o corpo. Não podemos deixar que descubram os implantes. Temos de encontrá-lo imediatamente.

O telefone tocou nesse momento e o Dr. Mitchell respondeu. Depois de escutar e dizer "ótimo" várias vezes, virou-se para Nachman, erguendo um polegar.

— Sua idéia de mandar vigiar o aeroporto foi boa. Burkett disse que o paciente e o Sr. Schonberg foram vistos e estão sendo recolhidos pelos enfermeiros da ambulância.

— E se eles já estavam na ambulância quando o estímulo foi aplicado? — perguntou Nachman.

— Pode ter havido um grande problema. Acho que é melhor darmos uma busca na estrada, daqui até o aeroporto.

O Dr. Nachman ergueu as mãos para os céus e exclamou:

— Quando é que tudo isto vai acabar?

Adam não tinha dúvida de que as crises psicóticas de Alan eram provocadas por estímulos de controle remoto. Rezou para que, quando se encontrassem a bordo, Alan ficasse fora de alcance. A única esperança de ambos era subir naquele avião, mas nesse momento teve receio de que a aparência de ambos fosse tão ruim que os despachantes da Delta lhes recusassem acesso ao aparelho. Dispunham de apenas cinco minutos mais antes da hora da decolagem.

Rapidamente, lavou o rosto e tentou limpar as mãos de Alan, que estavam cobertas de sangue. Pior ainda, havia várias áreas em carne viva na sua cabeça, dos lugares onde ele arrancara os tufos de cabelos. Penteou-os, mas com escasso resultado. Bem, não havia muito mais que pudesse fazer. Levantou-o do chão e colocou Alan na cadeira de rodas e ia começando a empurrá-lo para a porta quando notou uma seringa cheia no chão. Pegou-a, achando que ela seria útil se Alan tivesse outra crise. Aproximando-se do portão, notou que o avião estava recebendo nesse momento os últimos passageiros.

— Parem — gritou.

Dois despachantes da Delta olharam-no curiosos. Um deles perguntou:

— São vocês os dois que encalharam num barco a vela?

— Nós mesmos — respondeu Adam.

— O despachante no balcão disse-nos para esperá-los. Pensávamos que vocês talvez tivessem mudado de idéia.

— Deus do céu, não — retrucou Adam. — Apenas foi difícil motivar meu amigo.

O agente olhou para Alan, cuja cabeça pendia para um lado.

— Ele não está bêbado, está?

— Não, droga — garantiu Adam. — Ele ficou muito contundido quando capotamos. Os médicos tiveram de dar-lhe um analgésico e parece que ele dormiu.

— Oh, compreendo — falou o agente, entregando as senhas de embarque a Adam. — Entregue-as à aeromoça quando subirem a bordo. Vai precisar de uma cadeira de rodas em Atlanta?

— Seria ótimo — agradeceu Adam. — Na verdade, vamos continuar até Washington. O senhor poderia fazer essa conexão para nós?

— Certamente — respondeu o despachante.

Adam empurrou Alan para o avião, inundado por uma sensação de alívio. As aeromoças não se mostraram entusiasmadas quando viram o par que subiu a bordo, mas ajudaram Alan a sair da cadeira e escutaram polidamente enquanto Adam contava mais uma vez a história do naufrágio. O aparelho levava apenas a metade da lotação e a maioria dos outros passageiros já dormia. Adam resolveu fechar os olhos e dormiu o tempo todo até Atlanta, exceto pelos poucos minutos em que permaneceu acordado, devorando o café da manhã.

Sentiu receio da transferência de vôo, pensando que talvez pudesse haver problemas. O despachante da Delta, porém, tinha uma cadeira de rodas à espera e colocou-os num vôo que seguia diretamente para Washington. A demora em terra foi de apenas quarenta minutos, mas lhe deu oportunidade de telefonar para Jennifer. Por sorte, ela mesma respondeu.

— Jennifer, tudo vai dar certo. Posso explicar tudo.

— Oh... — respondeu ela vagamente.

— Prometa apenas que não fará o aborto até eu chegar aí.

— A audiência é esta manhã — lembrou Jennifer — e não vou fazer coisa alguma hoje, mas se você não chegar aqui até amanhã... — A voz dela morreu.

— Jennifer, amo você. Tenho de pegar o avião. Nós vamos decolar agora mesmo de Atlanta.

— Atlanta? — repetiu Jennifer, inteiramente confusa. — E quem são esses "nós"?

— Adam? — perguntou Margaret Weintrob, os dedos ágeis parando bruscamente no teclado da máquina de escrever. — É você?

De braços dados, como bêbados íntimos, Adam e Alan passaram cambaleantes pela mesa da espantada secretária.

— Adam! — gritou a Sra. Weintrob, começando a levantar-se. — Você não pode entrar no gabinete de seu pai. Ele está com...

Adam, porém, já abrira a porta.

Os dois homens bem-vestidos sentados em frente ao Dr. Schonberg viraram-se, surpresos. Mudo por um momento, o Dr. Schonberg permaneceu impotente em sua cadeira, enquanto Adam pedia aos dois cavalheiros que esperassem do lado de fora.

— Adam — disse finalmente o Dr. Schonberg —, o que, em nome de Deus, significa tudo isto?

— Você fez alguma coisa sobre as acusações que discutimos na última vez em que estive aqui? — perguntou Adam.

— Não, ainda não.

— Não estou surpreso — continuou Adam. — Você disse que precisava de mais provas. Bem, trouxe todas as provas que você poderá vir a desejar. Venha até aqui e deixe que eu lhe apresente o Dr. Alan Jackson, da Universidade da Califórnia. Ele acaba de voltar de um dos famosos cruzeiros da Arolen. E fez uma curta parada no centro de pesquisas de Porto Rico.

— Esse homem está bêbado? — perguntou o Dr. Schonberg.

— Não, não está. Está drogado e foi vítima de psicocirurgia. Venha até aqui. Eu lhe mostro.

Cauteloso, o Dr. Schonberg aproximou-se, como se esperasse que aquele homem saltasse bruscamente da cadeira.

Com suavidade, Adam inclinou a cabeça de Alan para que o pai pudesse ver as pequenas incisões nos locais onde haviam sido implantados os eletrodos.

— Implantaram aí algum tipo de dispositivo de controle remoto — falou Adam, a voz mais baixa e cheia de compaixão. — Mas consegui tirar Alan de lá antes que o "condicionassem". Assim que o efeito da droga passar, ele poderá lhe contar pelo menos parte do que aconteceu. E sei que ele vai concordar em que se removam e examinem os eletrodos.

O Dr. Schonberg olhou para o filho, após examinar as incisões nas têmporas de Alan. Permaneceu calado por um momento; em seguida, acionou o interfone e disse:

— Margaret, quero que você telefone para Bernard Niepold, no Departamento de Justiça. Diga-lhe que é urgente e que preciso falar com ele imediatamente. E telefone para o Hospital Naval de Bethesda, dizendo que esperem um paciente confidencial que será internado sob minha responsabilidade. E quero uma guarda de 24 horas em torno dele.

 

Jennifer estava exausta. A despeito de todas as aulas sobre parto, não estivera preparada para a experiência real. Dar à luz um filho era simultaneamente melhor e pior do que esperara. Nenhum volume de leitura ou palestras sobre as experiências de outras mulheres poderia tê-la condicionado para esse acontecimento excepcional e apaixonante.

As dores do parto haviam sido intensas mas, ainda assim, estranhamente excitantes. À medida que as horas passavam, sentia-se cada vez mais esgotada. A si mesma, perguntou-se se teria forças para ir até o fim. Em seguida, as dores se repetiram com mais freqüência e duração até que, finalmente, de algum lugar nas profundezas de seu ser, surgiu uma nova explosão de energia. Sentiu uma ânsia irresistível, meio voluntária, meio involuntária, de empurrar e expelir. Um crescendo de pressão fê-la sentir que estava esticada ao máximo, mas, ainda assim, empurrava e prendia a respiração.

De repente, sentiu uma libertação quase sensual, acompanhada por um jorro de líquidos e o berro apaixonante do recém-nascido, exercitando as cordas vocais pela primeira vez.

Abrindo os olhos, agarrou a mão de Adam com as poucas forças que ainda lhe restavam. Erguendo os olhos para o rosto dele, viu que toda a atenção do marido estava dirigida para o espaço entre suas pernas estiradas. Com uma pavorosa sensação de medo, observou-o. Nenhum exame fora capaz de eliminar as preocupações sobre a saúde e o bem-estar do filho que levava no ventre. Os médicos do Hospital Universitário haviam repetido a amniocentese e comunicado que a criança era normal. Mas, com tudo aquilo que acontecera, tivera dificuldade em acreditar.

Olhou para Adam a fim de ver que vislumbre de tragédia se registraria em seu rosto. Queria saber por ele como era o filho de ambos, não ver por si mesma. Como esperara, ele nem sorria nem pestanejava. Depois do que pareceu um longo tempo, ele baixou os olhos, encontrou os dela e lhe segurou a cabeça entre as mãos. Falou baixinho, sensível aos sentimentos dela. Em primeiro lugar, disse que a amava!

O coração de Jennifer como que parou. Prendeu a respiração, embora a dor física houvesse cessado, e esperou pelo inevitável, a notícia pavorosa. No fundo de seu coração, soubera o tempo todo. Não devia ter dado ouvidos a pessoa alguma, disse a si mesma, tivera uma sensação desagradável desde aquela confusão no laboratório da Julian, pouco importando que ela houvesse sido feita de propósito.

Adam passou a ponta da língua pelos lábios secos.

— Nós temos um menino, Jennifer, belo, sadio. Por sorte, ele se parece com você.

Demorou apenas um momento antes que as palavras de Adam encontrassem eco nela. Quando ela finalmente as compreendeu, lágrimas de felicidade e alívio inundaram-lhe os olhos. Tentou falar mas não pôde. Engoliu em seco. Depois, estendeu as mãos, puxou Adam para baixo e abraçou-lhe a cabeça com todas as forças que ainda lhe restavam. O riso dele deu voz à alegria e alívio que havia no coração dela. A única coisa que lhe veio à mente foi agradecer a Deus.

Adam recuperou o controle de si mesmo,