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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SHIKASTA / Doris Lessing
SHIKASTA / Doris Lessing

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SHIKASTA

 

Johor foi considerado apto a representar nossos emissários em Shikasta — que foram muitos, e que desempenharam múltiplas funções — para compilar documentos destinados a apresentar um quadro geral de Shikasta, para uso dos alunos do primeiro ano do Reino" Colonial Canopiano.

Relatório de JOHOR:

 

Fui enviado a diversas missões às nossas colônias, em vários planetas. Crises de toda espécie me são familiares. Trabalhei em situações de emergência, que constituíam ameaça às espécies, bem como em programas cuidadosamente preparados. Mais de uma vez experimentei o que significa aceitar o fracasso final e irreversível, em tentativas ou experiências relacionadas a criaturas que possuem, no seu íntimo, o potencial de desenvolvimento sonhado, planejam e de súbito — Finis! O fim! O chamado da vida transformando-se, aos poucos, em silêncio...

Contudo, a capacidade de minimizar as perdas exige uma determinação bem diversa da paciência obstinada necessária para suportar o atrito, o esvaziamento contínuo da substância através dos séculos, dos milênios — restando, no fim de tudo, apenas um brilho esmaecido.

O desalento tem graus e qualidades. Sugiro que nem todos são inúteis. Deve ser registrado o posicionamento mental de um servo.

Sou um pequeno funcionário da Força-Tarefa, e, como tal, cumpro o meu dever. Isso não significa que não tenha direito, como todos nós, de dizer basta! Leis não-codificadas, consuetudinárias, invisíveis garantem esse direito. E eu diria que essas leis podem ser resumidas em uma única palavra: Amor. É o que sinto e sei que muitos outros também sentem. No nosso Serviço Colonial muitos são os que têm um ponto de vista diferente. Um dos meus objetivos, ao registrar conceitos que talvez ultrapassem os limites do estritamente necessário, é justificar o que, afinal de contas, é a opinião da maioria dos habitantes de Canopus sobre Shikasta, isto é, que é digno do nosso tempo e do nosso trabalho.

Tentarei esclarecer alguns pontos. Outros virão depois de mim e certamente estudarão esses relatórios como eu estudei, tantas vezes, os relatórios dos que me precederam. Quando se registra um acontecimento ou um estado de espírito, nem sempre se pode prever como serão interpretados 10 mil anos depois, por exemplo.

As coisas mudam. É a única certeza que temos.

Entre todas as minhas embaixadas, a de Shikasta foi a pior. Para ser franco, quase não pensei nela desde aquela época. Não queria me lembrar, conviver com a memória de um erro inevitável — não nos faz bem.

Este é um universo catastrófico, e sempre tem sido; sujeito a súbitas reversões, desordens, mudanças, cataclismos, onde a alegria não passa de uma melodia da substância remoldada, sob pressão, em novas formas e desenhos. Mas, pobre Shikasta — não, tenho procurado não pensar nela mais do que o necessário. Não procurei entrar em contato com o pessoal enviado (oh, muitos milhares, em muitas e muitas levas, pois ninguém pode acusar Canopus de ter negligenciado Shikasta, a infeliz Shikasta; ninguém poderá dizer que nos evadimos à responsabilidade), os que foram voltaram e fizeram relatórios, como todos nós. Shikasta estava sempre presente, está constantemente na nossa agenda — a agenda cósmica. Não é fácil esquecer, pois continua sendo notícia. Quanto a mim, não me mantive em contato, informado. Não. Terminei o relatório, e isso foi tudo. E quando fui novamente enviado, em minha segunda visita, na época da Destruição das Cidades, a fim de verificar os resultados daquela longa atrofia, não permiti que meus pensamentos ultrapassassem os limites da tarefa a cumprir.

E assim, ao voltar depois de um intervalo — mas realmente já se passaram tantos milhares de anos? —, estou deliberadamente revivendo memórias, e esta tentativa de reconstrução dos fatos será registrada no lugar apropriado, ou seja, neste relatório.


De: Notas sobre o Planeta Shikasta Para: Orientação dos Funcionários Coloniais

 

De todos os planetas que colonizamos totalmente ou em parte, Shikasta é o mais rico. Especificando: possui o maior potencial de variedades, categorias e profusão de formas de vida. Sempre foi assim, através de todas as mudanças que — a palavra exata, infelizmente — sofreu. Shikasta tende para os extremos, em todas as coisas. Por exemplo, conheceu fases de enormidades: formas de vida gigantescas e extremamente variadas. Conheceu fases de formas minúsculas. Essas fases eram às vezes justapostas. Muitas vezes os habitantes de Shikasta eram criaturas tão imensas que uma delas podia consumir o alimento e o espaço vital de centenas dos seus habitantes, em uma só refeição. Esse exemplo encaixa-se na escala do visível (podemos dizer, do dramático), pois a economia do planeta é tal que cada forma de vida oprime a outra, é sustentada por outra, e é, por sua vez, oprimida até o nível mais diminuto, ou subatômico. Esse processo nem sempre é evidente para as próprias criaturas, que tendem a se obcecar com o que consomem, esquecendo-se assim daquilo que as consome.

Repetidamente, um choque ou o excesso de tensão no equilíbrio estranhamente precário desse planeta provoca um acidente, e então Shikasta transforma-se em um lugar destituído de vida. Vezes sem conta tem sido infestada por espécies inferiores e, portanto, tem estado doente.

É, acima de tudo, um planeta feito de contrastes e contradições, graças às tensões que lhe são inerentes. Tensões em sua própria essência. Essa a sua força. Essa a sua fraqueza.

Os mensageiros devem ter sempre presente na memória o fato de que não podem encontrar em Shikasta tudo aquilo que estão habituados a encontrar nas outras partes dos nossos domínios, e para o que, naturalmente, estão preparados: longos períodos de stasis, épocas de equilíbrio harmonioso quase imutável.

Os enviados devem preparar-se minuciosamente. Fica a seu cargo o ajustamento mental sugerido pelas informações da Seção 5 da Unidade de Demonstração Planetária.

Por exemplo: podem colocar-se na frente do Modelo de Shikasta, escala 3 — essa escala é aproximada, em relação ao tamanho real. (A espécie dominante tem a metade do tamanho do povo de Canopus.) Essa esfera, tal como aparece nos mapas e documentos cartográficos, tem o diâmetro igual à média da espécie dominante. Pode-se ver que a maior parte da esfera é recoberta por uma mancha de líquido. A profusão de vida depende dessa película líquida. (Esse planeta ignora tudo o que diz respeito às subespécies que habitam a sua superfície; o planeta tem idéias completamente diferentes a seu próprio respeito, como sabemos, mas não trataremos do assunto, aqui neste relatório.) O objetivo destas informações resume-se no seguinte: compreender que a proliferação de possibilidades orgânicas, o conjunto de potencialidade que é Shikasta depende, de certa forma, de uma pequena quantidade de líquido que poderia ser absorvido num momento por alguma estrela desgarrada, ou sacudido como a lama de uma bola em um jogo infantil de crianças de outro planeta qualquer. O que, afinal de contas, não seria sem precedentes!

Por exemplo: procure ajustar-se aos vários níveis de existência dispostos em camadas concêntricas ao redor do planeta, seis ao todo, e nenhum exigindo grande esforço de sua parte, uma vez que entrará e sairá rapidamente deles — com exceção da última camada ou Concha, ou Círculo ou Zona, a Zona Seis, que deve ser estudada detalhadamente, uma vez que terá de permanecer aí o tempo necessário para completar as tarefas que lhe foram designadas, as tarefas que só podem ser realizadas através da Zona Seis. É um lugar difícil, cheio de perigos, mas estes podem ser dominados, como prova o fato de não termos perdido nenhum dos muitos emissários já enviados — que somam agora centenas — nem mesmo os mais jovens e inexperientes. Para quem não está preparado, a Zona Seis pode representar todo tipo de problemas, de atrasos, de exaustão. Isso porque a natureza do lugar resume-se em uma poderosa emoção — "nostalgia", como eles chamam — que significa uma saudade do que nunca existiu, pelo menos não na forma imaginada. Quimeras, fantasmas, aparições, os semicriados e os insatisfeitos vagam nessa zona, mas quando se está alerta e vigilante nada acontece que não possa ser resolvido.

Por exemplo: sugerimos que se dedique algum tempo ao estudo dos diferentes ângulos sob os quais podem ser focalizadas as criaturas de Shikasta. Todas as dimensões possíveis de Shikasta podem ser encontradas na sala 1-100 da Seção 31, desde o elétron até o Animal Dominante. O fascínio dessas diferentes perspectivas é que constitui o perigo real. Na escala do elétron, Shikasta aparece como um espaço vazio, onde formas como névoas minúsculas vibram levemente — as mais tênues manchas de substância, os impulsos mais diminutos separados por vastos espaços. (O maior prédio de Shikasta desmoronaria se fossem retirados os espaços que separam os elétrons, e se transformariam em uma substância do tamanho da unha de um shikastiano.) As experiências dos shikastianos no campo sonoro é algo a que não devemos nos expor, a não ser quando muito preparados. O uso da cor em Shikasta é uma agressão à qual não se sobrevive sem preparação.

Resumindo, nenhum dos planetas que conhecemos situa-se em níveis tão elementares e intensos de vibração como Shikasta, e uma exposição muito longa a eles pode perverter e subornar o bom senso.


Relatório de JOHOR:

 

Quando me pediram para realizar esta missão, a terceira, não foi prevista minha permanência na Zona Seis por muito tempo; devia passar por ela rapidamente, parando apenas para uma ou duas tarefas. Mas não sabíamos então que Taufiq fora capturado e que outros deveriam realizar o seu trabalho, eu especialmente. E deveria fazê-lo com rapidez, pois não teria tempo para encarnar e atingir a idade adulta antes de completar as tarefas agora urgentes em razão da desgraça de Taufiq. O nosso pessoal em Shikasta está assoberbado de trabalho e ninguém poderia substituir Taufiq naquele momento. Nem sempre compreendemos que não somos permutáveis. Nossas experiências, algumas escolhidas, outras involuntárias, nos amadurecem de modos diferentes. Talvez tenhamos começado em outros planetas, até mesmo em Shikasta, sem muita escolha, como uma ninhada de cães, mas após algumas centenas de anos, para não dizer milhares, fomos fundidos, amalgamados, cristalizados em formas tão diferentes como as dos flocos de neve. Quando um de nós é "escolhido" para descer a Shikasta ou a qualquer outro planeta, essa escolha é produto de muita deliberação: Joh or desempenha melhor este ou aquele tipo de trabalho; Nasar é mais hábil em outra modalidade e Taufiq foi designado para uma tarefa específica e difícil, a longo prazo, que aparentemente só ele poderia realizar — e entre parênteses e sem ênfase, confesso que tenho dúvidas a respeito. Muitas vezes têm-me comparado a Taufiq, dizendo que somos muito parecidos; não equivalentes, isso nunca, mas com freqüência encabeçamos as mesmas listas e somos amigos há... Mas, quantas vezes e em quantos planetas trabalhamos juntos! E se somos tão parecidos, irmãos, companheiros de vida e de morte, amigos entre os quais nada é proibido dizer (sem reservas), que se responsabilizam mutuamente pelas características do parceiro, se somos tão unidos e ele está perdido para nós, temporariamente sem dúvida, mas assim mesmo perdido e integrando as forças inimigas — o que posso esperar para mim? Deixo aqui registrado que, enquanto me preparo para esta viagem, que tem como um dos principais objetivos a realização do trabalho de Taufiq, tenho gasto muitas unidades de energia para reforçar minha decisão: não, de modo nenhum (digo a mim mesmo) seguirei os passos de Taufiq, meu irmão. E mais: suportarei o que for preciso suportar... por isso reagi negativamente ao saber que deverei passar tanto tempo na Zona Seis. Sei, por experiência, que é um lugar que enfraquece, debilita e sobrecarrega a mente com sonhos, suavidades, desejos ardentes que julgávamos — sempre a esperança! — para sempre perdidos no tempo. Mas é nosso destino, nossa tarefa, nos submetermos constantemente a riscos, perigos e tentações. Não há outro meio. Mas não quero ficar na Zona Seis! Estive lá duas vezes; a primeira como membro recente da Força-Tarefa do Primeiro Tempo e, depois, como Emissário do Penúltimo Tempo. Naturalmente deve ter mudado, como Shikasta mudou.

Atravessei as Zonas de Um a Cinco com todos os meus receptores funcionando no ponto mínimo. Visitei-as várias vezes e sei que são cheias de vida e, de um modo geral, agradáveis, pois são habitadas por aqueles que conseguiram abandonar e ultrapassar as tensões contraditórias de Shikasta, e estão fora do alcance dos miasmas da Zona Seis. Mas não são agora minha responsabilidade, e passando por essas zonas experimentei apenas rápidas manifestações de formas, sensações, mudanças de calor para frio, bem-estar. Logo percebi que me aproximava da Zona Seis, pois o que sentia, sem que ninguém precisasse me avisar, alertou-me. Oh, sim, Shikasta, aí está você outra vez — e com um suspiro interior reuni todas as minhas forças.

Um pesar indistinto, sombras de desejos ardentes, um esvaziamento de todas as emoções — e cada passo era um esforço, como se mãos invisíveis me segurassem os tornozelos, como se tivesse sobre mim o peso de seres invisíveis. Libertei-me da névoa, afinal, e ali, onde na última vez vira pradarias cobertas de relva, regatos, animais pastando, havia somente uma vasta planície árida. Duas pedras negras e planas marcavam o lugar do Portão Oriental e ao lado delas uma multidão de almas ansiosas para sair de Shikasta, para se afastar do que estava atrás delas, do outro lado da planície deserta da Zona Seis. Sentindo minha presença, pois não me podiam ver, adiantaram-se em tumulto, como cegos, os rostos ansiosos, procurando, e gemiam, um gemido profundo e comovente; e como eu ainda não me tornasse visível, iniciaram um canto intenso, um hino que ouvi na Zona Seis há milhares de anos.

 

Salve-me, Deus Salve-me,

Senhor Eu o amo

O Senhor me ama

 

Olhos de Deus

Que velam por mim

Dêem-me passagem

Dêem-me liberdade. (...)

 

E, enquanto isso, meus olhos estudavam aquelas faces! Quantas me eram familiares, alteradas apenas pela erosão da dor, quantos deles eu tinha conhecido, no Primeiro Tempo, quando eram animais perfeitos, belos e fortes, autoconfiantes e competentes. Ali estava o meu amigo Ben, descendente de David, e sua filha Sais, e ele sentiu a minha presença com tal intensidade que ficou ao meu lado, o rosto banhado de lágrimas, as mãos estendidas à espera das minhas. Manifestei-me afinal, sob a forma que ele conhecia, coloquei minhas mãos nas suas e Ben atirou-se em meus braços, soluçando.

— Até que enfim, até que enfim — disse, entre lágrimas. — Veio me buscar agora? Posso ir agora?

E todos os outros se aproximaram aos encontrões, agarrando, empurrando e quase me perdi na voragem do seu desespero. Fiquei ali parado, sentindo que cambaleava, que minha substância estava sendo sugada, e então afastei-me deles, obrigando-os a me soltar, e Ben também tirou as mãos de mim, mas ficou ao meu lado, gemendo.

— Faz tanto tempo, tanto tempo...

— Diga-me, por que vocês ainda estão aqui? — perguntei. E ficaram silenciosos enquanto Ben me explicava. Mas repetiu apenas o que já tinha dito, e quando terminou e os outros começaram a contar, chorando, suas histórias, um após o outro, compreendi que tinha sido apanhado e comprometido pelas necessidades da Zona Seis e em todo o meu ser fermentava a impaciência e o medo, pois todo o meu trabalho estava ainda por fazer, a obrigação me chamava — e não consegui me libertar. As histórias eram sempre as mesmas, sempre e sempre iguais — e imaginei se por acaso se lembravam que eu tinha estado ali há tanto tempo, dizendo as mesmas coisas... haviam conseguido deixar esse portão, e tinham voltado através da planície e entrado em Shikasta — alguns recentemente, outros há séculos e milênios — e todos tinham sucumbido a Shikasta, todos tiveram enfraquecidos a vontade e os objetivos e foram então expulsos para esse lugar, e agora amontoavam-se ao redor do Portão Oriental. Alguns tinham tentado novamente e de novo sucumbiram, voltando a esse lugar — vezes sem conta —, enquanto outros se desesperavam completamente de conseguir forças suficientes para entrar em Shikasta e receber a recompensa por suportá-la — recompensa que consistia em ver-se livre dela para sempre —, e ali ficaram, à deriva, fantasmas tênues e miseráveis, ávidos e sedentos por "Eles" que viriam buscá-los e os ergueriam para longe desse lugar terrível, como uma gata leva os filhotes para um canto seguro. O conceito de salvação, de socorro, era nesse portão mais evidente e poderoso do que em qualquer outro lugar, e a sua pressão e envolvimento me enlouqueciam.

— Ben — disse eu, falando a todos através dele —, Ben, você precisa tentar outra vez, não há outro meio.

Mas ele chorava e agarrava-se a mim, implorando. Eu estava em um turbilhão de suspiros e de lágrimas.

Ele não tinha desistido, não podia acusá-lo de ter desistido! Muitas e muitas vezes pairava sobre os portões de Shikasta, esperando, e quando chegava a sua vez, descia, cheio de ânimo e determinação, certo de que agora, por fim... mas então, só depois de deixar Shikasta, após meses ou anos de um ciclo vital completo (fosse qual fosse o tempo) é que se lembrava, já de volta à Zona Seis, dos seus propósitos tão firmes. Decidira salvar-se usando os terrores e perigos de Shikasta para se cristalizar em uma substância capaz de resistir e sobreviver, mas, quando se dava conta, compreendia que mais uma vez passara a vida cedendo aos próprios caprichos, enfraquecendo-se gradualmente, mergulhando no esquecimento. Outra e outra vez... e agora o lugar inspirava-lhe tal horror que não tinha forças para se juntar à multidão de almas que esperavam o renascimento às portas de Shikasta. Não, ele tinha realmente desistido. Estava condenado, como todos os outros, a esperar e esperar, até que "Eles" viessem para levá-lo. Até que eu viesse... e Ben agarrava-se a mim com insistência.

Eu disse o que lhes dissera antes, o que já havia dito a Ben:

— Vocês todos devem atravessar as planícies e esperar no outro lado, pacientemente, pela sua vez — mas agora a espera não será tão longa, pois Shikasta está repleta de almas, elas estão nascendo em grande quantidade, cada vez mais. Vão e esperem a sua vez.

Ergueram um grande clamor lamentoso. Ben exclamou:

— Mas dizem que está pior agora. Cada vez se torna pior e mais difícil. Se não consegui das outras vezes, como conseguirei agora? Não posso...

— Você deve — respondi, abrindo caminho à força entre eles.

Então Ben deu uma risada rouca e áspera, uma acusação:

— Lá vai você — exclamou —, você está bem, pode ir e vir à vontade, mas o que será de nós?

Consegui livrar-me da multidão. Bem afastado agora, olhei para trás. Aquela massa chorava e se lamentava ondulando sob a força do sofrimento. Mas Ben deu um passo. E depois outro. Apontei para a planície e vi quando ele dava os primeiros passos, com dificuldade Ele ia tentar. Caminhava na direção da planície vasta e dolorosa.

Ouvi o seu canto:

 

Olhar de Deus,

Que vela por mim,

Deixe que eu entre,

 Dê-me a liberdade.

 

Aqui estou,

Aqui espero,

Salve-me, Deus,

Salve-me, Senhor... numa ladainha contínua.

 

Exaurido pelo pesar, a mais inútil de todas as emoções, corri através da planície, sentindo a poeira espessa e macia sob os pés. Lembrei-me da relva, dos arbustos e dos rios da minha última visita, enquanto atravessava os canais secos e usava os leitos secos dos rios como estrada. Grilos e cigarras, o cintilar da luz quente sobre a rocha — tudo seria um deserto muito em breve. E pensei no que teria de enfrentar quando por fim pudesse entrar em Shikasta.

Sentada em uma saliência baixa da rocha, vi uma figura familiar e aproximei-me da forma feminina, curvada, envolta em um sofrimento e um desânimo tão profundos que nem se moveu à minha chegada. Parei ao lado dela e vi que era Rilla, que na minha última visita estava no Portão Oriental.

Cumprimentei-a. Ergueu o rosto e vi então suas feições marcadas por um pesar árido e implacável.

— Sei o que vai dizer — observou Rilla.

— Ben está tentando outra vez — disse eu. Mas, quando olhei para trás, não o avistei; via apenas a poeira avermelhada no ar e a relva seca e partida. Rilla olhou também, passivamente.

— Ele está lá — afirmei. — Acredite.

— Não adianta — respondeu. — Já tentei tantas vezes.

— Vai ficar sentada aí o resto do tempo?

Não respondeu e voltou à posição anterior, os olhos baixos, imóvel. Para si mesma, Rilla era um peso estático, vazio; para mim era uma voragem perigosa. Podia ver a mim mesmo tênue e transparente, sentia-me oscilar, inclinando-me — para ela, para o interior das suas violências secretas.

— Rilla — disse eu —, tenho um trabalho para fazer.

— Naturalmente — foi a resposta. — Quando já disse algo diferente?

— Vá procurar Ben — aconselhei.

Continuei o meu caminho. Bem mais tarde, olhei à minha volta — não ousara antes, temendo correr de volta para ela.

Oh, eu a conhecera, e muito bem. Sabia o que guardava no íntimo, encarcerado agora pelo desespero. Não estava olhando para mim. Voltara a cabeça e fitava as planícies enevoadas onde estava Ben.

Deixei-a.

Eu estava perdido. A memória da última visita não me ajudava, não me podia ajudar — tudo estava mudado. Procurava a morada dos Gigantes. Não queria vê-los, pois sabia o espetáculo de degeneração que apresentavam agora. Mas era o caminho mais curto para Taufiq. A condição de cativo do Inimigo só podia significar — não podia ser diferente — um excesso de vaidade, orgulho, idiotice. Poderia entrar em contato com Taufiq através das qualidades equivalentes. Os Gigantes, portanto... era preciso!

Ao longe, nos desertos, altas torres, rochas nuas e negras pareciam grupos de punhos erguidos para o céu vermelho como sangue. Nuvens purpúreas, imóveis, espessas e pesadas. Sob elas, redemoinhos de areia, suspensos no ar como bandos de gafanhotos. Um mundo estacionado e moribundo. Minha sombra longa e delgada estendia-se atrás de mim, quase até o horizonte, acompanhando-me negra e ameaçadora, uma inimiga. Os picos de pedra desenhavam sombras na areia, aos meus pés. Sombras profundas e atormentadoras, carregadas de memórias... uma delas avolumou-se, moveu-se, separou-se... resolveu-se em um grupo de Gigantes e à primeira vista senti no coração um movimento semelhante à súbita perda de forças, o movimento que significa pesar e dor.

Era esta a visão magnífica que eu guardara na memória? Estes seres?

Altos, conservavam em suas formas vestígios do que tinham sido, mas haviam perdido força e substância. Um batalhão de fantasmas ressequidos, curvados e cambaleantes, com movimentos desajeitados, os rostos vazios carregados de sombras, caminhavam para mim envoltos na poeira esvoaçante que os encobria e redemoinhava atrás deles, mostrando-os, a intervalos, como silhuetas recortadas no céu subitamente escurecido, um cinza negro sobreposto ao vermelho, um cinza que obscurecia as nuvens purpúreas, que abraçava e arrastava tudo e que se erguia como névoa ao redor dos seus pés. Caminhavam com dificuldade, vindo para mim, através do turbilhão das areias, espectros, sombras... era esta a grande raça a qual eu aconselhara na minha primeira viagem, aconselhara e apoiara e — para nada. Não consegui reprimir um gemido lamentoso que trouxe até mim, como um eco, o lamento das criaturas, um lamento que para eles significava um brado de guerra. Um brado triste e doloroso, e cada gesto, cada movimento revestia-se de uma imponência artificial e ridícula. Este batalhão de espectros estava consumido pelo orgulho de um passado, por falsas lembranças, e teria me atacado com os braços esqueléticos, se não lhes tivesse mostrado a Assinatura. Eles a reconheceram. Não de imediato e com facilidade, mas detiveram-se e ficaram ali parados na areia à minha frente, uns duzentos, incertos, com uma meia lembrança, olhando para mim, entreolhando-se, observando a Coisa cintilante que eu lhes mostrava... e eu fitava ora um, ora outro rosto devastado e, sim, podia reconhecer neles os seres magníficos que tinham sido.

Depois de algum tempo, sem saber o que fazer, voltaram-se, incluindo-me no grupo e caminharam, ou se arrastaram, ou cambalearam na direção das grandes rochas. Ali haviam construído um castelo primitivo, ou um conjunto de torres. As estruturas deselegantes nem de longe se pareciam com o que esses Gigantes tinham construído no Primeiro Tempo, mas tinham uma grandiosidade patética. Tive vontade de dizer: "Pensam mesmo que este lugar selvagem é igual ao que vocês criaram quando eram perfeitos?"

Conduziram-me a um salão de pedra toscamente trabalhada. Sentaram-me nas grandes cadeiras e tronos dispostos em círculo. Pelo menos conservavam a lembrança de que tinham sido iguais, um grupo de companheiros livres. Suas atitudes diziam "poder", os mantos pesados soletravam "pompa", e seguravam quinquilharias e brinquedos de todos os tipos, coroas e tiaras, cetros, globos, espadas. Onde teriam encontrado tanta coisa inútil? Sem dúvida tinham ousado entrar em Shikasta para roubá-las!

Olhei para aquelas sombras e mais uma vez senti-me atormentado pela necessidade de entregar-me à tristeza pela perda de tudo o que o Primeiro Tempo significara, mas lembrei-me de que não devia desperdiçar minhas forças, pois não tinha meios de externar o que sentia.

Conservando a Assinatura bem à vista, perguntei como tinham passado desde a minha última visita. Um silêncio, algum movimento e os grandes rostos vazios consultavam-se entre si nas sombras da sala... Notei que não conseguia distinguir os seus traços e fixei a vista, olhando-os mais de perto e com atenção. Faces negras, brilhantes, de vários tons de marrom, ou amarelas, cor de marfim, ou creme... mas era quase impossível vê-las. Mais de cem tinham entrado comigo na sala e ocupado as cadeiras, mas agora pareciam em menor número. Alguns lugares estavam vazios. Olhei em volta; tronos há pouco ocupados estavam vazios e percebi formas esvaecendo-se num crepúsculo cada vez mais profundo. Apenas a Assinatura tinha luz e vida. Os Gigantes, tão magros e cinzentos, tão desfeitos, que eram quase transparentes — sim, com cada movimento pareciam desaparecer e um enorme homem moreno com roupas suntuosas transformava-se em um manto dobrado sobre o espaldar do trono e olhos inquisidores, procurando no meu rosto memórias esquecidas, apagavam-se, transformando-se no brilho baço de pedras falsas de uma tiara partida pendurada nas costas de uma cadeira. Estavam se desfazendo e desaparecendo ante os meus olhos.

Eu disse:

— Não vão se arriscar em Shikasta? Não vão tentar vencer por esse caminho? — Mas um silvo murmurado percorreu o grupo, moveram as cabeças e os membros inquietos, reprimiram gestos de agressão e teriam me matado se não fosse a Assinatura.

— Shikasta, Shikasta, Shikasta... — o murmúrio sussurrado envolvia-me e era como o silvo de uma serpente, cheio de ódio e profundo desprezo... e de um pavor tenebroso.

Lembravam-se agora vagamente do que tinham sido; a Assinatura reavivava sua memória. Não muito, mais recordavam-se de algo esplêndido e correto. E sabiam em que os seus descendentes se haviam transformado. Estava escrito em seus rostos que a própria palavra Shikasta significava para eles imundície e excremento.

— Preciso sentar-me aqui com vocês — disse eu — até estar preparado para uma visita a Shikasta.

De novo o movimento de recuo, como cavalos ameaçados.

Eu disse, como era do meu dever, embora soubesse que não me escutariam (não que não pudessem ouvir, pois, se assim fosse, não teria desperdiçado minhas energias já bastante gastas), eu disse:

— Venham comigo, eu os ajudarei. Farei todo o possível para que consigam entrar e sair.

Continuaram ali sentados, imóveis, aquele grupo de meio-fantasmas. Não podiam mover-se.

— Muito bem, então — continuei. — Devem ficar onde estão até a minha volta. Só posso fazer essa viagem através de vocês.

E rodeado por esses hospedeiros da morte, sustentado por sua arrogância apavorante, consegui atravessar a névoa que me separava das realidades de Shikasta e iniciar a busca do meu amigo Taufiq.

 

Antes disso, porém, vou registrar as minhas lembranças da visita a Shikasta, então Rohanda, no Primeiro Tempo, quando essa raça era a glória e a esperança de Canopus. Estou usando também relatórios de outras visitas a Shikasta, no Templo dos Gigantes.

Durante milhões de anos, o planeta pertenceu à categoria das centenas de planetas dos quais nos ocupamos. Era tido como detentor de grande potencial graças à sua história de mudanças repentinas, criação rápida de novas formas e degradações súbitas, com períodos de estagnação. Podia-se esperar dele quase tudo. Mas o planeta estava em um período milenar de estagnação quando foi exposto à irradiação prolongada de uma estrela de Antar, que explodiu, e eu fui enviado em missão para verificar. O planeta era fértil, mas em sua maior parte coberto de pântanos. Havia vegetação uniforme e estável. Nos pântanos foram encontrados vários tipos de lagartos e, nas pequenas áreas de terra seca, pequenos roedores, marsupiais e macacos. A desvantagem do planeta estava na curta duração da vida. Nosso rival, Sirius, plantara alguns espécimes em Shikasta, que não se extinguiram, mas sua duração — antes normal: alguns milhares de anos — adaptou-se e os indivíduos passaram a ter uma expectativa de vida de apenas alguns anos. (Estou me referindo à medida de tempo de Shikasta.) Houve conferências de especialistas, em Canopus e em Sirius, para discutir as possibilidades dessas espécies de curta duração e determinar se valia a pena dividir as terras entre nós. Desde a grande guerra entre Sirius e Canopus, que acabou com todas as guerras entre nós, tem havido reuniões regulares para evitar justaposição ou interferência entre as experiências dos dois planetas. Essa prática continua até hoje.

A conferência não chegou a uma conclusão. Não sabíamos o que esperar do fluxo de radiação. Sirius e Canopus concordaram em esperar para ver. Durante esse tempo, Shammat tinha feito também uma inspeção — mas só viemos a saber disso mais tarde.

Quase imediatamente, nossos enviados relataram alterações assombrosas nas espécies. Todo o pântano nevoento e fértil fremia com as mudanças. Os macacos, especialmente, estavam gerando todo tipo de variações, algumas verdadeiros aleijões e monstros, mas outras notáveis, que prometiam resultados interessantes. O mesmo se dava com todo tipo de vida: vegetação, insetos, peixes. Compreendemos que o planeta estava em via de se colocar entre os mais férteis da sua classe, e foi então chamado de Rohanda, que significa fértil, cheio de vida.

Mas naquela época era ainda nevoento, coberto de pântanos e terrivelmente úmido. (Nada existe de mais deprimente do que esses planetas formados de água quente, nuvens, brejos, charnecas, umidade, e ninguém gosta de visitá-los.) Mas houve uma mudança no clima. A água fervia nos pântanos e nos brejos e pairava no ar, sob a forma de nuvens baixas. Apareceu mais terra seca, embora tudo o que se podia ver, ao se aproximar do planeta, fossem massas de nuvens ameaçadoras e imóveis. Houve outro fluxo de irradiação completamente inesperado e os pólos se congelaram, formando camadas espessas de gelo. Rohanda transformava-se em um planeta mais desejável, com imensas massas de terra, a água distribuída em áreas definidas ou correndo em canais ou rios.

Muito antes de termos feito o seu mapa, Sirius e Canopus conferenciaram novamente. Sirius queria o hemisfério sul para experiências que complementariam as que realizava nas áreas temperadas e meridionais de outra colônia. Nós queríamos o hemisfério norte porque era aí que um grupo de antigos "macacos" havia se estabelecido e começava a se desenvolver. Já tinham três ou quatro vezes a altura dos seus pequenos ancestrais. Demonstravam tendência para caminhar eretos e um rápido crescimento da inteligência, Nossos especialistas nos diziam que essas criaturas deveriam continuar essa evolução acelerada e que se tornariam uma espécie de Grau A, provavelmente dentro de 50 mil anos (desde que não houvesse mais nenhum acidente cósmico). E sua duração de vida já era bem maior agora: este era considerado o fator mais importante.

Canopus resolveu expor Rohanda a um Plano de Crescimento Forçado, Plano Prioritário a todo risco. Isso se deveu, em parte, ao fato de sabermos que uma de nossas colônias, instável como Rohanda, teria pouco tempo de vida. Em 20 mil anos, um cometa a colocaria fora do curso. Isso transtornaria o equilíbrio do nosso Sistema tão cuidadosamente mantido. (Ver Mapas e Cartas n.os 67M a 93M, Área 7D3, no Edifício de Demonstração Planetária.) Se por essa época Rohanda tivesse atingido o nível operacional, poderia tomar o lugar do infeliz planeta no nosso plano cósmico. Aconteceu exatamente como estava previsto: o planeta, colocado fora de equilíbrio, perdeu toda a vida rapidamente e hoje está morto.

Para sermos mais exatos, precisávamos apressar o progresso de Rohanda para que atingisse o nível desejado em 20 mil e não em 50 mil anos.

Como de hábito, sondamos o pessoal das colônias à procura de voluntários e escolhemos uma espécie da colônia 10, excepcionalmente bem-sucedida em desenvolvimento simbiótico.

Naturalmente é preciso que a espécie possua determinadas características mentais para preencher certas condições; digamos, deve ter espírito de aventura! Embora sejam conhecidas as linhas principais de um desenvolvimento provável, nunca se pode prever exatamente o resultado da simbiose de duas espécies; há muitos imprevistos. E, assim, eles foram informados de que Rohanda era imprevisível, anormalmente sujeita a alterações e ao acaso. Acima de tudo, não sabíamos como seria a adaptação do tempo de vida. Se fosse para baixo, isto é, favorecendo o tempo de vida de Rohanda, esses voluntários da colônia 10 estariam se expondo a suicídio racial.

Mas é preciso esclarecer que, nessa fase e nessa época, a espécie era forte e saudável, com mente viva e facilmente adaptável e memória genética de experiências similares.

Foram introduzidos pequenos grupos de voluntários da colônia 10 em Rohanda, em vários pontos do hemisfério norte. Eram ao todo mil indivíduos, entre homens e mulheres e quase imediatamente — isto é, em 500 anos — tudo indicava que a experiência seria um sucesso.

A interação entre as duas espécies era perfeita, tendo sido ambas afetadas positivamente. Não houve agressão instintiva devida a incompatibilidade genética. Nós, em Canopus, nos congratulamos.

Dentro do prazo de 20 mil anos, a raça mais jovem (os ex-macacos) atingiria o nível requerido e o povo da colônia 10, de desenvolvimento rápido, teria atingido um estágio que se poderia definir como um passo à frente na evolução que habitualmente levaria um tempo dez vezes mais longo.

Descreverei a situação de Rohanda mais ou menos mil anos depois da introdução das espécies da colônia 10.

Em primeiro lugar, a raça indígena. Nada de excepcional; já tínhamos visto isso antes, pois é um padrão encontrado em muitos planetas.

As criaturas caminhavam agora sobre as patas traseiras e seus braços e mãos podiam desempenhar os trabalhos mais variados e usar ferramentas. Tinham uma consciência acentuada do próprio valor — isto é, como criaturas capazes de manipular o meio ambiente e sobreviver. Caçavam e iniciavam-se na agricultura. Seu tamanho era o de um shikastiano médio de hoje, e aumentava rapidamente. O cabelo era espesso e longo e o corpo coberto de pêlos grossos e curtos. Viviam em pequenos grupos bem disseminados, com pouco contato uns com os outros. Não lutavam entre si. Sua expectativa de vida era de aproximadamente 150 anos.

Uma boa parte dos primeiros espécimes da colônia 10 morreu cedo — mas isso era de esperar. Parece não haver explicação para esse tipo de morte. As crianças atingiam o tamanho dos pais antes de saírem da infância; a espécie aumentava de tamanho com tanta rapidez que eles próprios se chamavam de Gigantes, desde o princípio. Isso provocava um certo constrangimento; nenhuma espécie observa mudanças rápidas em si mesma sem se preocupar. Eram por natureza uma raça alta e forte, mas depois de mil anos em Rohanda tinham três vezes sua altura inicial. Eram bem constituídos. Morenos ou negros, cuja pele saudável tinha um brilho atraente. O corpo sem pêlos e pouco cabelo na cabeça. As unhas dos pés e das mãos eram apenas vestígios, não passando de um espessamento da pele. Era muito cedo para saber como seria afetado seu tempo de vida. Alguns indivíduos introduzidos no planeta conservavam ainda todo o seu vigor e, quanto aos mais jovens, era muito cedo para prever. O clima da colônia 10 é temperado, com poucas variações. Roupas só são usadas em ocasiões especiais. Mas em Rohanda os Gigantes precisavam criar roupas, o que fizeram sem demora, libertando-se assim dos carregamentos enviados por Canopus. Passaram a usar o material retirado das cascas das árvores e das plantas de Rohanda.

Estabeleceram um relacionamento tutelar com os nativos que era interessante e satisfatório para ambos os lados. Os Gigantes ensinaram aos nativos os rudimentos da cultura das plantas. Ensinaram-nos também a se utilizar dos animais sem prejudicar as espécies. Começavam a desenvolver linguagens. Iniciavam assim o desenvolvimento de muitos talentos — artes, ciências — pois não chegara ainda o tempo de estabelecer a União entre Canopus e Rohanda, que daria início à Fase de Crescimento Forçado.

As condições continuavam favoráveis e, mais ou menos 7 mil anos depois do entrelaçamento das duas espécies, foi enviada uma missão especial de Canopus para verificar se tinha chegado o momento de estabelecer a União.

Aqui estão passagens do Relatório dessa missão (N.° 1.300, Rohanda).

 

OS gigantes

duração da vida: Na colônia 10 viviam até 12 mil ou 15 mil anos. Nosso temor de que sua imersão nas condições de Rohanda reduzisse drasticamente esse tempo de vida provou não ser infundado. A princípio, esse tempo foi reduzido para mais ou menos 200 anos. Logo a seguir, começou a melhorar e agora viviam 4 mil a 5 mil anos. A tendência era para elevar essa duração. Foram observadas as anomalias costumeiras. Uma minoria morre, aparentemente sem motivo, na juventude. Não são do tipo que se pode classificar de degenerado (ver Tamanho, abaixo) os que são magros e mais tênues, pois geralmente vivem tanto quanto os fortes. Não temos também meios de prever quem vai viver até 200 anos e quem chegará aos 500.

tamanho: Têm o dobro do tamanho que tinham ao deixar a colônia 10. São fortes e bem proporcionados, com grande resistência física. As variantes são: extremamente magros, com ossos longos e movimentos desajeitados; ou são muito gordos e fortes. Colocando esses dois extremos lado a lado, diríamos que pertencem a espécies diferentes.

cor: Os tons marrom escuro e negro apresentam variações de marrom claro e até mesmo creme.

capacidade mental: A capacidade mental geralmente melhora com a simbiose. O nível de inteligência prática não difere do nível da colônia 10, mas os níveis mais altos foram acentuadamente estimulados, o que faz da experiência um sucesso.

 

OS nativos

duração da vida: Aumentando. Mas não com a mesma rapidez da dos Gigantes. Vivem cerca de 500 anos, a não ser que sofram acidentes. Como os Gigantes, morrem quando atacados por minúsculos organismos, alguns de origem local, outros do espaço. Não foram encontrados sinais da Doença Degenerativa.

tamanho: Metade do tamanho dos Gigantes, cerca de 2,50 a 3,00m. O tipo físico refinou-se acentuadamente. O pêlo do corpo diminuiu. Os cabelos da cabeça aumentaram e têm sobrancelhas espessas. Estrutura, feições, características gerais sólidas e fortes. Continuam acentuados os sinais de origem animal. A maior parte tem olhos castanhos. Em todo o grupo do hemisfério norte, essas criaturas apresentam uma acentuada uniformidade.

COR: O tom da pele vai do marrom ao creme, mas a maioria tem a pele marrom claro.

capacidade mental: Nenhum traço dos Poderes mais Altos, mas sua inteligência prática desenvolve-se acima das expectativas, constituindo uma base firme e saudável para o que planejamos para a União.

 

GENERALIDADES

O relacionamento entre Gigantes e Nativos é bom. Mantêm contato permanente mas superficial. Os Gigantes os visitam apenas quando os Nativos precisam de conselho ou orientação. Os Gigantes vivem a não mais de 100 km dos seus protegidos. Suas instalações são confortáveis, mas naturalmente consideradas temporárias, usadas apenas como experiência para a fase futura. Isto é, todos os edifícios, plantações e sistemas de irrigação têm caráter experimental, visando aos alinhamentos cósmicos futuros que dependem da União. Esta missão tem o prazer de relatar que não há nenhum sinal da Doença Degenerativa. Em nenhum lugar existem construções ou outro tipo de desenvolvimento que não sejam destinados à preparação para a União. Todas as instalações são naturalmente dispostas, tanto quanto possível neste estágio, de acordo com os fatores geofísicos.

Os Nativos vivem em construções mais primitivas — do ponto de vista do alinhamento cósmico, embora, no que se refere ao aspecto físico, algumas moradias tenham atingido certo nível de beleza, além de suprir o calor e o conforto necessários. Esse fator, mais do que qualquer outro, nos leva à conclusão de que a União deve ser feita o mais brevemente possível. Algumas residências têm desenhos nas paredes, nos tetos, cerâmicas, utensílios, tecidos. Os desenhos, graças à orientação dos Gigantes, concordam com as necessidades desta fase, mas em pouco tempo o desequilíbrio será inevitável.

A caça deixou de ser a principal fonte de alimento. A agricultura está bem desenvolvida; têm grãos de toda espécie, vegetais e plantas de folhas. O cultivo da terra apresenta bom desenvolvimento, ao lado da criação de animais. Não há ainda necessidade urgente de irrigação; as fontes de água natural continuam adequadas. Mas as pesquisas dos Gigantes sugerem que deverá ser estabelecida nas áreas mais quentes do Centro.

O nosso relatório demonstra sucesso.

Esta missão é de opinião que as condições são favoráveis ao estabelecimento da União. Os Gigantes estão ansiosos por isso. Sem fazer exigências ou pretender apressar as fases que não devem ser apressadas, sentem-se excluídos dos contatos comuns com a Galáxia. Embora nenhum deles individualmente tenha lembrança do contato genuíno — o fluxo livre de pensamento, idéias, informação, crescimento entre planetas da nossa Galáxia —, não faz muito tempo que o mais antigo imigrante da colônia 10 morreu, e, de qualquer modo, sua memória genética é muito poderosa, ativa e em desenvolvimento. E a preparação para a União está completa.

 

UMA ADVERTÊNCIA

Há rumores persistentes — a maioria deles sob a forma de histórias e canções dos Nativos, que tomam conhecimento dos fatos nos encontros dos grupos, em expedições de caça e outras — de que "lá embaixo", "no Sul", existem raças de seres guerreiros e extremamente hostis. Os Gigantes enviaram expedições às duas principais massas de terra e apenas verificaram que as espécies introduzidas por Sirius desenvolvem-se satisfatoriamente. (Esse assunto será tratado em um sub-relatório.) É evidente que os instrutores de Sirius criaram esses rumores para evitar que nossa experiência atinja casualmente o seu território. Os Gigantes, que compreendem isso, criaram outras lendas e histórias, e estão fazendo de tudo para criarem atitudes mentais que facilitem o cumprimento do nosso acordo com Sirius.

Nada disso está além do que foi previsto, porém há mais. Existem rumores persistentes sobre "espiões" tanto entre os Nativos quanto entre os Gigantes. Esses espiões não entram no território dos Gigantes, mas aparecem freqüentemente entre os Nativos e em todo o hemisfério norte. A princípio os Gigantes pensaram que vinham das colônias de Sirius, em missões exploradoras, para verificarem fatos, mas agora acreditam que sejam espiões de algum outro império. São reservados nas suas conclusões mas repetem que a característica principal dessas criaturas não é a sua aparência, mas o seu comportamento. Ou seja, apresentam todos os sinais da Doença Degenerativa. Somos de opinião que tudo o que ouvimos confirma a presença de Shammat.

 

NOSSAS CONCLUSÕES

1 A União deve começar. Temos ótimas condições.

2 Não deve ser ignorado, em nossos planos, o fato de este planeta ser sujeito a mudanças súbitas e drásticas.

3 Sirius deve fazer uma investigação para verificar se espiões de Shammat foram vistos nos seus territórios.

4 Devemos concentrar nossa atenção no aparente objetivo de Shammat. Ao que sabemos, não há lugar para Shammat neste planeta.

 

Logo depois disso, foi feita a União, com sucesso, tornando desnecessária a presença de missões e enviados especiais. As mentes dos Gigantes — ou para sermos mais precisos e realistas, a Mente Gigantesca — fundiu-se com o Sistema canopiano, a princípio pardal e experimentalmente, mas criando uma corrente de crescimento e de sensibilização crescente. Todas as notícias de Rohanda eram animadoras. Absorver as gravações e relatórios sobre aquele período de quase 10 mil anos é participar da realização, do sucesso, do desenvolvimento. Poucas de nossas colônias realizaram tão completamente as nossas expectativas. Os "espiões" mencionados no relatório acima aparentemente desapareceram do cenário. Em Canopus admitimos que tivessem sido destruídos pelo inesperado da União — que não tivessem suportado a mudança para as vibrações mais tênues e mais elevadas, embora não tenhamos afastado a possibilidade de essas criaturas de Shammat terem evoluído, e não morrido, e isso podia ser atribuído à variedade e à riqueza geral de Rohanda.

Hoje, temos de considerar esses fatos de um ângulo diferente. Não se trata de determinar o culpado — um processo ineficaz, que desvia a atenção dos pontos essenciais, em vez de focalizá-los — mas de saber o que saiu errado, para evitar que aconteça em outros planetas. Entretanto, a causa principal do desastre foi exatamente o que a palavra des-astre implica: uma falha nas estrelas. E isso nós não podíamos prever. Sabíamos apenas que nada em Rohanda podia ser considerado permanente. Se não tivesse havido a alteração no alinhamento estelar, as ações e planos dos agentes de Shammat não teriam a mínima importância.

Mas por que não sabíamos de sua presença?

A falha foi especialmente nossa — de Canopus. Quanto a Sirius, nossas relações continuaram formalmente corretas; houve troca de informações entre os Serviços Coloniais dos planetas mães. A nível local, rohandiano ou shikastiano, não se comportaram pior do que esperávamos, considerando o nível inferior do seu Império. Mas é justamente o nível inferior do Império Siriano a chave para este e para outros problemas de Rohanda/Shikasta; e hoje eu o compreendo de modo diferente. É preciso lembrar que nós, os servos de Canopus, estamos também em processo de evolução, e nossa compreensão das situações muda, à medida que mudamos. (Ver História do Império Siriano.)

Resumindo, não estávamos pensando muito em Shammat. Agora é fácil dizer que estávamos errados. Até Puttiora aparentemente se preocupava em afastar-se do nosso caminho; a aliança entre o Império de Sirius e o Império de Canopus não podia ser ignorada! A nossa parte da galáxia estava em paz, com desenvolvimento harmonioso e ninguém nos desafiava. E por que o fariam? Raramente a galáxia tinha tanto esplendor de realizações, um período tão longo sem guerra.

Talvez seja uma fraqueza das espécies que progridem em paz e com auxílio mútuo, que aspiram apenas à continuação desse estado, o fato de esquecerem que além de suas fronteiras existem mentalidades diferentes, que se alimentam com outro tipo de incentivo. Naturalmente, Canopus protegia-se contra as asquerosas emanações de Puttiora, mantinha-se informado sobre esse revoltante império que nos desagradava especialmente por nos fazer recordar os primeiros estágios do nosso desenvolvimento — não, não negligenciamos esses fatos. Mas Puttiora não nos desafiava em nenhum lugar — então, por que em Rohanda?

E, assim, não demos a Shammat a devida importância. Sempre nos pareceu inexplicável o fato de Puttiora manter um posto naquele planeta que era formado só de rochas e desertos, embora houvesse rumores de que Shammat fora colonizado por criminosos fugidos de Puttiora, e que Puttiora os havia ignorado até ser muito tarde. Não tínhamos a mínima idéia de que Shammat estava sorvendo e esgotando as fontes de alimento em toda parte, não sabíamos como se desenvolvia; um ladrão prosperando com o produto do roubo. Quando Shammat já era um estado pirata florescente, ainda o considerávamos como um apêndice sem importância do terrível mas felizmente longínquo Puttiora.

E quanto aos Gigantes, aquela espécie viva e inteligente que controlava Rohanda?

Aqui também pensamos tratar-se do caso de mentes bondosas e instruídas, incapazes de acreditar na realidade de mentes devotadas ao roubo e à destruição. A colônia 10 sempre foi um lugar de cooperação fértil e, como já disse, uma espécie excepcionalmente adaptável à simbiose harmoniosa com outras espécies. E em Rohanda não tinham enfrentado nenhum fracasso ou ameaça. Acreditamos agora que não é vantajoso permitir muita prosperidade, desenvolvimento fácil — e em nenhuma outra colônia, depois disso, nos agrada um crescimento fácil e triunfante. Passamos a instalar uma certa porção de tensão, de perigo.

Mas suponhamos que não tivesse havido esse des-astre? Provavelmente ninguém teria sabido que Shammat estava em Rohanda... pois Shammat só tem sucesso onde existe desequilíbrio, dano, desalento.

Tivemos poucas informações sobre a crise. Não havia razão para prevê-la. O equilíbrio de Canopus e do seu Sistema alterou-se subitamente. Precisávamos descobrir o que estava errado, o mais depressa possível. Descobrimos. Era Rohanda. Estava em defasagem, e piorando rapidamente. A União se enfraquecia. Alterava-se o equilíbrio entre as forças no interior do corpo de Rohanda. Essas alterações eram como respostas — e então tivemos de procurar fora de Rohanda — a um desequilíbrio das forças em algum outro lugar, entre as estrelas que nos sustentavam, que sustentavam Canopus, numa teia de correntes interativas dos nossos planetas colonizados. Rohanda foi o primeiro a sentir o desalinhamento porque é sensível por natureza. Rohanda estava em perigo, Rohanda precisava ser salva urgentemente, e colocada em fase, ajustada — assim pensamos na época.

Logo, porém, verificamos que isso não podia ser feito. Rohanda não podia conservar seu lugar no nosso Sistema. Não se tratava de ajudá-la e sim dela mesma lançar-se para fora.

Muito bem: podíamos minimizar o impacto e providenciar tudo... assim pensamos no segundo estágio da nossa descoberta.

Rohanda estava iniciando um longo período — mas, naquele estágio, não podíamos imaginar quão longo — de estagnação. Precisávamos evitar que houvesse uma perda drástica de tudo o que tinha sido realizado; nós a manteríamos até a nova mudança nas forças cósmicas que, estávamos certos, se processaria.

No entanto, tivemos de enfrentar alguma coisa mais, alguma coisa muito pior. Não conseguíamos fazer com que nossa informação coincidisse com os dados recebidos de Rohanda! As correntes de Rohanda chegavam desconexas, estridentes, vacilantes... obviamente estavam sendo interceptadas. Antes disso, a União forte e completa entre nós e Rohanda impossibilitava qualquer tipo de interferência, mas agora não havia dúvida de que a comunicação estava sendo recebida por terceiros.

Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Informação de Sirius sobre o súbito acréscimo da força e do orgulho de Puttiora. Informações dos nossos espiões no Império de Puttiora — sobre Shammat, especialmente. Shammat parecia o cambaleio despudorado de um bêbado jactancioso... Shammat ia de força em força. Shammat aproveitava-se da recente fraqueza de Rohanda, que estava desprotegida, aberta, vulnerável. Isso significava que Shammat estivera esperando em Rohanda, estabelecido em Rohanda... e sabia o que estava para acontecer? Não, não era possível; porque, com a nossa tecnologia infinitamente mais avançada do que a de Shammat, não tínhamos sabido de nada.

Não se tratava apenas de manter e tratar Rohanda durante o longo período de inércia, mas, pior do que isso.

Era preciso mandar um emissário imediatamente.

Agora, descreverei Rohanda como a vi na minha primeira visita.

Mas então já era Shikasta; Shikasta, a magoada, a danificada, a ferida. O nome já tinha sido mudado.

Poderei dizer que faço esta descrição "com prazer"? É uma emoção retrospectiva, anterior às notícias terríveis que tive de transmitir. Rohanda nos dera tanta satisfação, era nossa melhor e mais fácil realização. E é preciso não esquecer que Rohanda estava destinada a substituir o infeliz planeta que em breve seria destruído, do qual já estávamos retirando os habitantes, levando-os para onde pudessem crescer e desenvolver-se.

Ao sair de Canopus deixava atrás de mim uma tremenda crise, uma movimentação de forças, mudanças, ajustamentos; planos feitos com carinho, e nos quais tínhamos confiado por milênios, eram modificados, adaptados, substituídos — e desse lugar tumultuado saí para Shikasta, a mortalmente ferida.

Era um consolo saber que tanta perfeição tinha existido. Todo o bem passado é uma promessa de que em outros lugares, outros tempos, a perfeição pode existir novamente... em épocas de tristeza e destruição, esse pensamento nos mantém.

Na época do desastre não havia mais de 60 mil Gigantes e cerca de um milhão e meio de Nativos, distribuídos pelo hemisfério norte. O planeta era extraordinariamente fértil e agradável. As águas que — quando libertadas — iriam criar os pântanos e as charnecas estavam ainda presas no gelo dos pólos e não víamos razão para que isso mudasse.

Grandes florestas estendiam-se nas zonas norte e temperada e nelas havia todo tipo de animais, diferentes dos que tinha visto na minha primeira visita apenas no tamanho. Não eram inimigos dos habitantes. Ao norte, mesmo em regiões de clima extremo, havia instalações de Gigantes e de Nativos, mas a maior parte da população estava mais para o sul, nas Áreas do Meio, onde o clima era saudável, revigorante e ameno.

As cidades tinham sido construídas nos locais indicados pelas marcas de pedra, de acordo com o plano, seguindo as linhas de força da terra, naquela época. Esses desenhos, linhas, círculos e combinações, não se diferenciavam dos que nos eram familiares nos outros planetas e eram a base e o alicerce dos sistemas de transmissão da União entre Canopus e Rohanda... agora a pobre Shikasta.

A disposição e o alinhamento das pedras tinham sido feitos, inicialmente, apenas pelos Gigantes, um trabalho fácil graças à sua força e ao seu tamanho, mas agora o relacionamento entre Gigantes e Nativos era tão perfeito que estes procuravam ajudar em um trabalho que, sabiam — como provam suas lendas e canções —, tinha por finalidade uni-los aos deuses, à Divindade.

Não viam os Gigantes como deuses. Eram muito adiantados para isso. Sua inteligência fora tão desenvolvida com a União que não era muito inferior à dos Gigantes, antes da União.

As cidades tinham sido construídas nas linhas determinadas pelas experiências exaustivas da fase que precedeu a União.

Eram de pedra e unidas aos desenhos das pedras, como parte do sistema transmissor.

Cidades grandes e pequenas, povoados com casas de barro, de madeira ou de qualquer material de origem vegetal, não perturbam o processo de transmissão, nem provocam oscilações indesejáveis. Por esse motivo, durante a fase preparatória, os Gigantes não aprovavam as construções de pedra e eles próprios viviam em casas feitas com a substância orgânica mais conveniente e mais acessível. Uma vez realizada a União, os modelos de pedra instalados e em operação, as cidades foram reconstruídas com pedra, e os Nativos foram orientados nessa arte tão cedo desaparecida na memória de Shikasta — pois, de acordo com o plano, quando os Nativos tivessem evoluído para o nível adequado, os Gigantes partiriam para outra missão em outro lugar, tendo eles atingido então um grau de evolução muito acima das previsões feitas para os voluntários da colônia 10, há muitos milhares de anos.

Os Nativos estavam aprendendo a ciência de manter contato permanente com Canopus, com sua Mãe, seu Defensor, seu Amigo e com o que chamavam de Deus, o Divino. Se mantivessem as pedras alinhadas, acompanhando os movimentos decrescentes e crescentes das forças, e se as cidades fossem conservadas de acordo com as leis da Necessidade, poderiam esperar — esses pequenos habitantes de Rohanda, que tinham sido apenas macacos ariscos pendurados nas árvores, animais sem nenhum traço da natureza dos canopianos —, esses animais poderiam esperar ser transformados em homens capazes de cuidar de si mesmos e do seu mundo, quando os Gigantes os deixassem, quando o trabalho da simbiose estivesse completo.

As cidades diferiam umas das outras em razão das variações dos terrenos onde se erguiam e de acordo com as correntes e forças desses locais. Podiam ser construídas nas planícies abertas, ao lado das fontes, à beira do mar ou em montanhas e platôs. Ou eram feitas no meio da neve e do gelo, ou em regiões muito quentes, mas todas exatamente de acordo com a Necessidade. Cada uma tinha a forma de um símbolo matemático, e os jovens aprendiam matemática viajando. Um instrutor levava um grupo de crianças para passar alguns dias na Cidade Quadrada, por exemplo, e lá elas absorviam, por osmose, tudo o que é possível saber sobre a quadratura. Ou sobre o rombóide, ou sobre o triângulo, e assim por diante.

Naturalmente, o formato da cidade era rigidamente controlado em todas as suas medidas e não só na área, e assim a noção de redondo, hexagonal, ou o espírito do Quatro ou do Cinco era expresso e sentido, tanto nas partes superiores, quanto nos pontos em que os modelos de pedra se confundiam com a terra.

O fluxo de água ao redor e dentro das cidades era disposto de acordo com a Necessidade, bem como a localização do fogo — distinto do aquecimento, que era feito por vapor e água quente —, mas o próprio fogo, que os Nativos não conseguiam deixar de considerar Divino, era colocado de acordo com a Necessidade.

Portanto, cada cidade era um artefato perfeito, onde tudo estava sob controle, constituindo um todo com os seus habitantes. Pois chegou-se à conclusão de que alguns temperamentos se adaptariam melhor e produziriam mais em uma cidade Redonda, ou Triangular, e assim por diante. Foi criada a ciência de distinguir, quando ainda na infância, quais as tendências do indivíduo quanto ao melhor lugar para viver. E nisso estava a fonte daquela "infelicidade" que deve ser o destino de todos os habitantes da nossa galáxia, de um modo ou de outro, pois nem sempre todos os membros de uma família se adaptavam ao mesmo tipo de cidade. E até os amantes — se é que posso usar essa palavra, que significa um relacionamento hoje impossível de ser reconhecido por qualquer shikastiano — tinham de se separar e o faziam, pois todos aceitavam o fato de que sua existência dependia da submissão voluntária ao grande Todo, e que essa submissão, essa obediência, não era servitude ou escravidão — estados que jamais existiram no planeta e que eram desconhecidos — e sim a fonte da sua força, do seu futuro e do seu progresso.

Agora, as duas raças viviam juntas, sem separação, embora não se unissem por casamento. Isso seria fisicamente impossível. Os Gigantes não tinham crescido mais desde o relatório anterior; tinham mais ou menos 6m de altura. E os Nativos tinham a metade. Mas, nesse intervalo, os Gigantes tinham sofrido variações na cor e no tipo do corpo e do rosto. Alguns eram negros, de um negro brilhante, como os primeiros imigrantes. Outros apresentavam todas as tonalidades do marrom quente e vivo. Havia alguns de pele pálida e seus olhos eram tão azuis que os primeiros a aparecer provocaram inquietação e até repulsa. Os Nativos eram também de diversas tonalidades e seus cabelos iam do negro ao castanho claro. Os Gigantes tinham agora algum cabelo, talvez em virtude da pressão climática, mas era ralo e curto, contrastando com as espessas cabeleiras dos Nativos. Os Gigantes de olhos azuis podiam ter cabelo descorado ou de um amarelo pálido, mas isso era considerado uma desgraça.

O sexo tinha intensidade diferente nas duas raças. Os Gigantes, que viviam 4 mil ou 5 mil anos, reproduziam-se uma ou duas vezes, ou nenhuma durante toda a sua vida. (E o período de gestação era longo, de quatro a cinco anos.) As mulheres Gigantes, quando não estavam grávidas ou cuidando dos filhos, faziam o mesmo trabalho que os homens, o que se dava na maior parte de suas vidas. O trabalho era quase todo mental, a tarefa devotada e contínua de conservar os níveis adequados de transmissão entre o planeta e Canopus. Para os Gigantes, o sexo não era um impulso tão forte quanto para os Nativos. A força do sexo, as atrações, as repulsões, a exacerbação e a diminuição do sentimento eram transformadas em forças mais altas, exceto quando necessárias para a propagação.

Os Nativos eram incentivados a se reproduzir. Viviam agora mais ou menos mil anos, mas o planeta podia comportar facilmente uma população maior. As previsões não ultrapassavam 20 milhões, mais ou menos, crescendo aos poucos, nos próximos mil anos. Nada fora planejado para o caso de um aumento mais rápido. Seriam construídas cidades bem situadas, seguindo um plano cuidadoso e não haveria falta de espaço para atender a Necessidade. Os Nativos que desejavam e que, por consenso geral, eram considerados aptos podiam ter vários filhos nos primeiros cem anos de vida. Depois disso, embora o sexo continuasse como prazer e força de equilíbrio, os mecanismos de procriação tornavam-se inoperantes e entravam então no período de meia-idade, longo, vigoroso e saudável. A Doença Degenerativa, como a chamamos, não existia; as doenças degenerativas físicas, que mais tarde se tornaram comuns, não tinham aparecido ainda. Gigantes e Nativos morriam em acidentes, naturalmente, mas não de outro modo, a não ser em casos raros de invasões de vírus, contra os quais não tinham defesa. Nesses casos, os programas de procriação eram reajustados de acordo com as necessidades.

Fui enviado a Rohanda em uma das nossas naves mais rápidas, e não por intermédio da Zona Seis. Queria inspecionar a Zona Seis, mas não antes de ter estudado a situação do planeta, aonde teria de chegar rapidamente e com figura humana. Tinha sido determinado que eu iria como Nativo, e não como Gigante, pois devia permanecer no planeta e ajudar os Nativos, depois da partida dos Gigantes. Foi uma decisão correta. Outras, porém, foram mais duvidosas. Mais tarde, pensando naquela época, reconheci que devia ter sacrificado outras considerações e iniciado o meu trabalho com maior rapidez. Contudo, precisava aclimatar-me. Não podia aparecer de repente em uma das cidades, com suas vibrações especiais, sem sofrer efeitos desagradáveis. A diferença entre Canopus e Rohanda era enorme, e nenhum de nós conseguia começar a trabalhar assim que chegava ao planeta. Era preciso um certo tempo para o processo de aclimatação. Mas as coisas estavam piores do que eu pensava; e pioravam com maior rapidez do que se esperava.

A nave espacial aproximou-se da borda extrema da principal massa de terra, a noroeste, desceu lentamente e sobrevoou as montanhas e os platôs férteis e cobertos de florestas, que mais tarde se transformaram em imensos desertos — milhares de quilômetros quadrados de desertos. Vimos várias cidades e imaginamos o que os habitantes que por acaso olhassem para cima pensariam da nossa veloz esfera cristalina e o que diriam aos outros sobre ela.

Na ocasião eu não sabia qual a cidade que devia ser visitada em primeiro lugar. Na praia, no extremo leste — do continente e não de uma das ilhas —, fiz meus cálculos. Nesse intervalo, a tripulação da nave fazia uma exploração cuidadosa, pois não queríamos assustar ninguém, e se fôssemos vistos poderia haver complicações. Sem dúvida pensariam que um Nativo fora capturado por alienígenas. Não era fácil avaliar a natureza da mudança, nem a sua extensão, mas resolvi que a Cidade Quadrada seria a melhor; tínhamos passado por ela. Teria de caminhar uma semana para alcançá-la, mas era justamente o tempo necessário para me adaptar a Rohanda. Já dera ordem de partida para a espaçonave quando percebi que o ar de Rohanda estava diferente. A mudança tinha sido muito rápida. Mais cálculos. A Cidade Quadrada já não era a melhor escolha. Dei novas ordens e levantamos vôo outra vez, passando agora sobre outras cidades, mais para o sul, sobre as Grandes Montanhas, onde eu sabia que devia estar o transmissor de Shammat. Já podia senti-lo. Desembarquei a leste da área dos grandes mares internos. Repeti os testes — e a mesma coisa aconteceu. Tinha escolhido a Cidade Oval, ao norte do mar interno do extremo norte, quando a atmosfera mudou novamente. Mas dessa vez eu já havia mandado a nave de volta. Precisava caminhar durantes semanas para chegar à Cidade Redonda, a escolha mais acertada agora. Mas isso tomaria muito tempo.

A Cidade Redonda ficava no platô elevado ao sul dos grandes mares interiores. Não era um centro administrativo, ou de poder, pois não existia tal coisa. Mas, além dos seus padrões vibratórios adequados, situava-se geograficamente no centro, e minhas mensagens seriam disseminadas mais facilmente. Sua altitude e a atmosfera fria a preservariam por mais tempo contra o que estava para acontecer. Pelo menos era o que eu esperava. Esperava também que não houvesse outra alteração no alinhamento do planeta, o que faria com que a Cidade Redonda não servisse mais para mim.

Em primeiro lugar estava o problema do tempo. Aproximei-me de uma manada de cavalos que pastavam na encosta do monte e fiquei ao lado deles, fixando-os intensamente, num pedido mudo de ajuda. Pareciam inquietos e incertos, mas afinal um deles se aproximou de mim e esperou que eu o montasse. Indiquei-lhe a direção e rumamos para o sul, em passo regular. A manada nos seguiu. Cavalguei por quilômetros e quilômetros e começava a me preocupar com os potros que nos acompanhavam e que pareciam estar gostando do passeio, dando saltos, relinchando e apostando corrida, quando vi outra manada, não muito longe. Fui levado até ela. Desmontei. Minha montaria explicou a situação a um animal forte e vigoroso do outro grupo e ele se aproximou de mim e esperou que eu o montasse. E partimos. Isso se repetiu diversas vezes. Descansei muito pouco; às vezes pedia à minha montaria que parasse e então dormia com a cabeça sobre o seu flanco, à sombra de um árvore. Passou-se uma semana e compreendi que meu problema estava resolvido. Agora, precisava usar meus próprios pés e aproximar-me mais lentamente. Agradeci aos meus acompanhantes pelo seu eficiente sistema de revezamento, eles tocaram o meu rosto com os focinhos, voltaram-se e galoparam de volta aos seus campos.

Agora, dia após dia caminhava para o sul, atravessando belos campos, savanas com árvores finas, etéreas, arbustos aromáticos, relva cor de ouro pálido. Em toda a parte, pássaros, rebanhos que são entidades, com mente e alma, como os homens, compostas de várias unidades, como os homens. Em toda parte animais amistosos, curiosos, vinham me cumprimentar, ajudavam-me, mostrando os lugares onde eu podia descansar. Várias vezes passei a parte mais quente do dia, ou a noite, com uma família de gamos, abrigando-nos do calor sob os arbustos, ou com tigres, deitado sobre as rochas, ao luar. O sol, quente, mas não em excesso — isso foi antes dos acontecimentos que o afastaram um pouco —, a lua, mais próxima e mais brilhante naquela época, brisas suaves, frutos em profusão, regatos frescos e luminosos — esse paraíso que atravessei naqueles dias e noites, alegremente recebido em toda parte, um amigo entre amigos, é o mesmo lugar onde hoje só há deserto e pedras, areia, xisto, as avaras plantas da seca e do calor inclemente. Há ruínas por toda parte e cada punhado de areia representa a lembrança dolorosa da substância de cidades de cujos nomes os shikastianos atuais não têm a menor idéia de cuja existência jamais suspeitaram. A Cidade Redonda, por exemplo, que se desfez no vazio e na discórdia, logo depois da minha visita.

Eu observava, controlava, ouvia constantemente; mas a influência de Shammat era ainda pequena, embora se pudesse sentir, sob as harmonias profundas de Rohanda, as discordâncias que se anunciavam.

Não queria que essa jornada terminasse. Oh, que lugar maravilhoso essa querida Rohanda! Nunca, em todas as minhas viagens e visitas, conhecera terra mais amena, que acolhesse o visitante com tanta suavidade natural, levando-nos para o seu interior, atraindo, enfeitiçando, fazendo-nos ceder, como cedemos ao encanto inesperado de um sorriso, de uma risada que parece dizer: "Está surpreso? Sim, sou especial, uma dádiva, supérflua, além do necessário, uma prova da generosidade que está no íntimo de todas as coisas." Entretanto, tudo aquilo que eu via em breve teria desaparecido, e cada passo no solo firme do qual se evolava um cheiro de calor, cada momento sob a proteção dos ramos amigos era uma despedida — adeus, adeus Rohanda, adeus.

Ouvi a Cidade Redonda antes de vê-la. As harmonias da sua matemática estavam em toda parte, em cantos ou canções, a música especial da sua personalidade. Ela também me acolheu alegremente, absorvendo-me, e a perversidade de Shammat era ainda apenas uma vibração vaga e inquieta. Os animais, agrupados ao redor da cidade, permaneciam ali, atraídos e conquistados pela música. Pastavam ou deitavam-se sob as árvores e pareciam ouvir, cheios de contentamento. Parei sob uma grande árvore para descansar, encostado no tronco, vendo através da rede dos ramos os atalhos e as avenidas, e desejei que os animais viessem a mim, pois seria a última vez, e eles vieram. Uma família de leões, três adultos e alguns filhotes, aproximou-se com seu andar macio e todos se deitaram à minha volta. Pelo tamanho, eu podia ser um dos filhotes, pois os animais eram enormes. Os adultos deitavam-se com as cabeças entre as patas estendidas e fitavam-me com olhos ambarinos, e os filhotes saltavam e brincavam. Dormi, e, quando continuei o meu caminho, dois filhotes me acompanharam, brincando e rolando no chão, até que um chamado os fez voltar.

As árvores eram agora mais esparsas. Entre elas e os arredores da cidade estavam os modelos de pedra. Durante os muitos dias da minha caminhada não vira as pedras, mas, agora, lá estavam os círculos e as avenidas. Pedras isoladas e em grupos. Ao redor das outras cidades pelas quais tinha passado, sem entrar, vira grande número de animais atraídos pela harmonia, deitados ao lado das pedras, mas aqui, do lado de fora da Cidade Redonda, não havia nenhum. A música, se assim podemos chamar a profunda harmonia das pedras, estava forte demais. Olhando para trás, percebi que os grupos de animais pareciam separados das pedras por uma cerca forte mas invisível. Aparentemente, os pássaros não tinham ainda sido afetados pelas pedras, e bandos deles me acompanharam, incorporando à sinfonia seus pios e trinados.

Não era agradável passar entre as pedras. Senti um leve mal-estar. Mas não podia evitá-las, pois circundavam toda a cidade. Terminavam no rio calmo e largo que corria em volta da Cidade Redonda, abrindo-se em dois braços que voltavam a se juntar, na parte sul, formando um lago e, daí, separavam-se, correndo um para leste, outro para oeste. Pequenos barcos a remo, canoas, embarcações de todos os tipos estavam amarrados nas margens, para quem precisasse atravessar o rio. Na margem interna, a música das pedras cessou, sendo substituída por um silêncio súbito. Um silêncio completo, que absorvia o som dos passos sobre as pedras, o tinir das ferramentas dos operários, a cadência das vozes.

Antes da curva branca formada pelos edifícios, um cinturão de hortas circundava a cidade. Os homens e mulheres que trabalhavam nelas não me deram atenção, pois eu era um deles. Era uma raça bela, rostos fortes e morenos, os membros expostos pelas roupas leves, quase todas de fazendas com tons de azul. O azul era a cor preferida dessa cidade para vestimentas e ornamentos, e combinavam com o céu quase sempre sem nuvens do platô.

Na Cidade Redonda tudo era redondo. Formava um círculo perfeito e não se podia expandir; seus limites demarcados eram permanentes. As paredes externas dos edifícios formavam o círculo e as paredes laterais eram levemente curvas, como podia ver enquanto caminhava por uma trilha em arco. Os telhados não eram planos, mas em forma de domos e cúpulas de delicados tons pastel: creme, rosa e azul suave, amarelo e verde, e brilhavam sob o céu ensolarado. Depois de atravessar a cidade externa encontrei-me em uma estrada que formava também um círculo completo, ladeada por árvores e jardins. Não havia muita gente. Um grupo conversava sentado em um dos jardins e mais uma vez notei sua força, saúde e tranqüilidade. Não eram menos robustos do que os trabalhadores das hortas, o que sugeria a ausência da separação entre o físico e o mental. Passei por eles, cumprimentei, responderam ao meu cumprimento, e pude ver o brilho das peles morenas e os olhos grandes, a maioria castanhos. Os cabelos das mulheres eram longos, castanho escuro ou claro, com penteados diferentes e enfeitados com flores e folhas. Todos usavam calças folgadas e túnicas azuis e brancas.

Depois de atravessar outro segmento da cidade, cheguei a uma rua curva também, mais movimentada, com lojas, barracas etc. A rua formava um círculo completo dentro do círculo externo e era estritamente comercial — e, como todo centro comercial, animada, cheia de gente. Outra faixa de prédios, outra rua, com cafés, restaurantes e jardins. Estava também cheia de gente, a multidão mais saudável e forte que eu jamais vira. O bom humor e a amabilidade dominavam — mas não havia ruído excessivo ou agitação. E notei que o rumor natural da multidão não violava o silêncio profundo que era a característica básica do lugar, a música do seu interior, que mantinha toda a cidade em segurança dentro da sua harmonia. Mais círculos de edifícios, mais ruas; aproximava-me do centro agora, e procurava a pompa e a grandiosidade que são os sinais da Doença Degenerativa. Mas não havia nem uma nem outra. Quando cheguei à área central, onde se erguiam os edifícios públicos, feitos com a mesma pedra castanho-dourada, tudo era harmonia e proporção. A criança trazida pelos pais a essa cidade para conhecer os salões, as torres, os centros dos seus antepassados, jamais se sentia diminuída ou alienada, jamais era uma criatura insignificante ou assustada que deve temer a Autoridade — e obedecer-lhe. Minha experiência, longa e triste, ensinara-me a procurar esses sintomas. Mas qualquer pessoa que caminhasse por essas ruas, entre esses edifícios amistosos de colorido quente, sentiria apenas a intimidade, a combinação perfeita entre o indivíduo e o ambiente.

Não estava ainda aclimatado o bastante para enfrentar as dificuldades da minha tarefa... e sentia-me triste, incontrolavelmente triste. Sentei-me por algum tempo na borda do pequeno lago que circundava uma fonte e observei as crianças que brincavam despreocupadas, as mulheres conversando, homens sozinhos, em grupos, homens e mulheres reunidos, sentados, andando ou apenas passeando. Tudo banhado pela luz do platô e envolvido pelo calor amenizado pelas fontes, árvores e flores. E podia sentir a determinação poderosa e tranqüila em toda parte — cidade, campo ou grupos de pessoas, em todos os planetas — da Necessidade, dos recuos e avanços e das oscilações da União.

Contudo, ali estava, apenas perceptível, a vaga discordância, o começo do fim.

Não tinha visto nenhum Gigante, mas estavam ali, em alguma parte. Não queria perguntar por eles, para não demonstrar que era um estranho, para não dar o alarma prematuramente. Caminhei a esmo por algum tempo e então vi dois Gigantes, no fim de uma avenida. Dirigi-me para eles. Eram dois homens de pele negra acetinada, roupas iguais às dos Nativos, e estavam concentrados no seu trabalho: mediam, com um aparelho que não me era familiar, feito de madeira e de metal avermelhado, as vibrações de uma coluna de pedra negra polida, na interseção das duas avenidas. A pedra negra sobressaía inesperadamente entre a grande quantidade de pedras cor de mel da cidade; seu brilho espelhava o azul das roupas dos Gigantes e o negro dos seus rostos.

Devo confessar que fiquei em guarda, sem saber como seria recebido. Tinha a aparência de um Nativo e jamais me habituei a não encarar com cautela o relacionamento entre instrutores e discípulos — bem, fazia parte do meu trabalho oficial suspeitar e procurar sinais da Doença Degenerativa. Fiquei parado, esperando a certa distância, com os olhos erguidos para aqueles homens enormes. Tinham o dobro da minha altura e da minha envergadura. Quando terminaram, deram pela minha presença e imediatamente sorriram, cumprimentaram com um gesto de cabeça — e iam se afastar, demonstrando não haver necessidade de maior comunicação.

Certifiquei-me de que não havia nenhum sinal de condescendência dos Gigantes para com um Nativo e disse-lhes então que eu era Johor, de Canopus.

Ficaram parados, olhando para mim.

Não tinham o encanto fácil e imediato do povo que eu estivera observando na cidade. É sempre difícil sentir-se à vontade com uma raça diferente da nossa; é preciso um período de adaptação, durante o qual se avaliam as conclusões do nosso senso de probabilidades. Contudo, muito mais do que isso estava em jogo! Os Gigantes conheciam a mente de Canopus, mas há milhares de anos não viam um canopiano, pois tínhamos confiado plenamente nos relatórios desses administradores conscienciosos. E ali estava Canopus anunciando sua presença física sob a forma de um Nativo. Quanto a mim, um sentimento infantil tomou-me de surpresa. Olhando para aqueles homens enormes, vieram-me à mente impulsos há muito esquecidos; queria que me tomassem pela mão, que me ajudassem; desejei ser erguido por eles até a altura dos seus rostos benignos e receber todo o conforto e segurança que na realidade não desejava — e senti vergonha, indignação mesmo. E esses conflitos entre os diferentes níveis de memória confirmavam a imensa tristeza que sentia por ter de dizer-lhes o que estava para acontecer. Além disso, não me sentia bem. Normalmente teria feito uma pausa preparatória na Zona Seis. Senti que ia desmaiar e os Gigantes perceberam. Antes que me pudessem amparar, o que já se preparavam para fazer e que eu não desejava, pois serviria apenas para fortalecer a criança, há muito esquecida, que vivia dentro de mim, sentei-me na borda da coluna, e desse plano mais baixo ergui os olhos para as figuras enormes atrás das quais as árvores não pareciam muito mais altas, e disse com esforço:

— Tenho notícias para vocês. Más notícias.

— Fomos avisados da sua vinda — responderam. Continuei sentado, avaliando essa informação, usando o meu mal-estar como desculpa para o silêncio.

Tinham-lhes dito para esperar o quê? Quanto tinham sido informados por Canopus?

Não se tratava de uma interação cognitiva de nossas mentes, entre Gigantes e canopianos. Não, era algo mais preciso e específico.

O objetivo da fase pré-União em Rohanda fora o desenvolvimento dos poderes — na falta de uma palavra melhor — do planeta, através da simbiose entre Gigantes e Nativos, de modo que Rohanda, isto é, a própria entidade física do planeta, pudesse ligar-se, através da combinação Gigante-Nativo, ao Sistema de Canopus. Durante essa fase, que foi mais curta do que se esperava, houve pouca troca de fluxo mental entre Canopus e Rohanda, mas apenas alguns momentos de comunicação bruxuleante e ocasional; nada definitivo, nada que pudesse ser desenvolvido.

Quando foi realizada a União, os poderes, vibrações (podemos usar qualquer palavra, uma vez que todas são imprecisas e apenas aproximadas) de Rohanda fundiram-se com os de Canopus, e através de Canopus com os das estrelas e planetas subsidiários.

No entanto, no momento da União não houve uma incorporação total e regular da mente dos Gigantes com Canopus. A partir desse ponto, Rohanda passou a ser uma função do funcionamento de Canopus, mas nada podia ser considerado permanente ou garantido. A manutenção da União dependia de cuidados constantes. Em primeiro lugar, a colocação e controle das pedras, que exigiam realinhamentos repetidos — pequenos, sem dúvida, mas em tão grande número que se tornava uma tarefa árdua e cansativa. Depois, a construção das cidades. E cada nova entidade matemática criada e mantida fortalecia a União, e cada cidade precisava ser conservada, adaptada, e tudo isso com o auxílio dos Nativos, aos quais tudo era ensinado no momento propício. E, acima de tudo, estava sendo transmitida a forma de observar seu próprio desenvolvimento e o modo de alimentá-lo e ajustá-lo constantemente para se conservarem em harmonia com Canopus, com as "vibrações" de Canopus.

A força de Canopus era continuamente irradiada para Rohanda. As forças de Rohanda, novas e cada vez mais profundas, eram continuamente revertidas para Canopus. Graças a essa troca precisa e específica de emanações, o objetivo principal e a finalidade da galáxia eram reforçados — a criação de Filhos e Filhas da Finalidade em desenvolvimento constante.

Contudo, esses intercâmbios de substância eram infinitamente variados e variáveis. A "mente" compartilhada por Rohanda e Canopus não significava que cada pensamento individual se tornava imediatamente propriedade de todos ao mesmo tempo. Consistia em compartilhar uma disposição, uma base, uma engrenagem, rede ou malha, um padrão que era de propriedade comum, não estática em si mesma, podendo crescer e mudar com o aumento ou a diminuição das emanações. Se um indivíduo quisesse entrar em contato com outro, devia fazê-lo por meio de uma "sintonização" cuidadosa e específica e seria comunicado exatamente aquilo que se desejava comunicar, nem mais nem menos. Portanto, embora os Gigantes fossem uma função da "mente" de Canopus, só sabiam o que Canopus determinava que deviam saber. Além disso, nem sempre as condições eram favoráveis para o intercâmbio de "pensamentos". Por exemplo, em um período de mais de 100 anos não foi possível a troca de informações específicas, por causa da interferência de uma configuração do sistema solar próximo, temporariamente em defasagem com Canopus. O intercâmbio de combustível continuou, mas correntes mais sutis ficaram interditadas até que a estrela em questão mudasse o seu posicionamento na dança celestial.

— Estavam medindo as vibrações da coluna por algum motivo especial? — perguntei, finalmente.

— Sim.

— Notaram algo errado?

— Sim.

— Não têm idéia do que possa ser? — Naturalmente eu estava ansioso para falar sobre Shammat, pois o futuro dependia do que eu tinha descoberto, mas enquanto pensava em um meio de introduzir Shammat na conversa, percebi que era um assunto ainda remoto e secundário que devia ser abordado mais tarde. A urgência da situação superou a minha fraqueza e erguendo-me fitei-os de frente.

— Disseram que o emissário Johor viria e que devíamos nos preparar para uma crise.

— Isso foi tudo?

— Isso foi tudo.

— Então estavam mais alarmados do que pensei com a possibilidade de o inimigo interceptar nossas comunicações — disse eu. Falei com voz firme, desesperada, olhando de um para o outro.

Não reagiram à palavra "inimigo". Passou por eles despercebida, não os atingindo de modo algum, e isso era uma fraqueza, sem dúvida nossa culpa.

Ao mesmo tempo em que registro essa falha muito séria, devo chamar atenção, em honra da memória de todos os responsáveis, para o fato de serem os Gigantes uma raça extraordinária — esses Gigantes que em breve não mais existiriam, pelo menos não com essa forma. Não eram extraordinários pelo seu físico, tamanho e força! Muitas vezes, no passado, trabalhei com raças de homens imensos. Nem sempre o tamanho pressupõe as qualidades que esses homens possuíam. Tinham algo inesquecível. Havia neles uma grandeza, uma magnanimidade, uma abrangência de compreensão muito além das que possuíam as outras raças que protegíamos. Sentia-se neles uma contenção profunda, como o profundo silêncio dessa cidade. Possuíam toda a força silenciosa da sua função — o que significa o melhor serviço que se possa imaginar. Seus olhos poderosos eram pen-sativos e observadores e falavam de elos e ligações de forças muito além, muito mais altas do que pode sonhar a maioria das criaturas. Os Nativos eram figuras magníficas, ao seu modo; tinham também raciocínio e observação acurados e, acima de tudo, um humor cálido e descontraído. Mas, nos Gigantes, era algo muito especial. Fitava aquelas faces majestosas e via nelas o que havia de melhor em Canopus. Sabia que eles representavam a Justiça e a Verdade — era isso, simplesmente.

— Talvez precise descansar? — perguntou um deles.

— Não, não, não — exclamei outra vez, tentando transmitir-lhes a urgência que sentia. — Não, preciso falar com vocês. Posso lhes dizer tudo agora, se quiserem, e depois contam aos outros.

Percebi que afinal compreendiam que algo terrível estava para acontecer. Mais uma vez observei-os enquanto recorriam às suas forças internas. A compreensão fluía entre os dois; não precisavam de gestos inferiores, como troca de olhares ou acenos significativos de cabeça.

À nossa frente, a avenida ladeada de árvores curvava-se levemente para baixo, na direção de um conjunto de prédios brancos.

— É melhor convocarmos uma reunião dos Dez — disse um deles, e partiu imediatamente, com passos tão largos que em um segundo chegou ao fim da avenida, sua figura em escala com os prédios, como que mantendo-os em proporção.

— Meu nome é Jarsum — disse o meu companheiro, enquanto caminhávamos. Ele diminuía o passo, parava, fazia tempo, enquanto eu andava o mais depressa possível, mas sem esforço, e vi que Gigantes e Nativos costumavam caminhar juntos e estavam adaptados a essa forma de companheirismo.

Quando chegamos ao grupo de edifícios dos Gigantes notei que eram muito altos, mas não opressivos; entretanto, uma vez lá dentro senti-me distender, encomendar, pois o cilindro parecia alcançar alturas infinitas sobre a minha cabeça e as cadeiras e bancos eram quase do meu tamanho. Jarsum percebeu isso e enviou instruções, através de um instrumento, para que fossem trazidas uma cadeira, uma mesa e uma cama do tamanho dos Nativos, que foram colocadas em um quarto especial, menor do que os outros. Mesmo assim, essas peças pareciam brinquedos de criança no quarto dos Gigantes.

Esse quarto, ou salão, era usado para reuniões. Em pouco tempo chegaram dez Gigantes. Sentaram-se no chão, sem observar a ordem costumeira e colocaram-me sobre uma pilha de tapetes dobrados, de modo que nossos rostos ficaram no mesmo nível. Esperaram que eu começasse a falar.

Pareciam preocupados, mas nada mais do que isso. Olhando aqueles seres magníficos, pensei que não existe ninguém tão protegido contra um choque que não possa senti-lo quando é desfechado. E precisava ir devagar, por estágios, mesmo em se tratando de seres como aqueles.

Precisava dizer-lhes que sua história chegara ao fim. Que sua utilidade em Rohanda tinha terminado. Que a longa evolução brilhantemente conduzida por eles e que acreditavam estar apenas começando — acabara. Como indivíduos tinham um futuro, pois seriam levados para outros planetas. Mas não teriam mais a existência e a função a que estavam habituados.

Um indivíduo, ao ser informado de que vai morrer, pode aceitar o fato, pois a espécie continuará. Seus filhos morrerão, absurda e arbitrariamente — mas a espécie continuará. Mas a idéia do desaparecimento ou da mudança drástica de toda uma raça — não, não pode ser compreendida ou aceita sem uma revolução total no mais profundo do ser.

Identificar-se como indivíduo — esta é a própria essência da Doença Degenerativa, e todos nós do Império de Canopus aprendemos a nos valorizar apenas na medida em que estamos em harmonia com o plano, com as fases da nossa evolução. O que eu tinha a lhes dizer seria um golpe naquilo que mais prezamos e não podia dar-lhes o conforto de acreditar que viveriam como indivíduos.

Quanto aos Nativos, não tinha nenhuma mensagem para eles, nenhuma esperança, a não ser que o advento de uma remissão em um futuro muito distante pudesse ser chamado de esperança. A evolução recomeçaria — após longas e longas eras.

A razão de ser dos Gigantes, sua função, seu uso, era o desenvolvimento dos Nativos, que constituíam as suas metades, sua própria substância. Mas os Nativos só tinham em seu futuro a Degeneração... Os Gigantes eram como gêmeos saudáveis, ou mais saudáveis, que seriam salvos, em uma operação na qual os outros deviam morrer. Eu precisava dizer-lhes tudo isso.

E disse.

Esperei que a idéia fosse absorvida.

Lembro-me de como fiquei ali sentado, ridiculamente empoleirado naquela pilha de tapetes, sentindo-me como um pigmeu, observando seus rostos, especialmente o de Jarsum. Agora estava no mesmo nível que ele e podia ver que se destacava dos outros. Era um homem de rosto extremamente forte, todo ele desenhado com curvas e cavidades dramáticas, os olhos brilhantes sob as sobrancelhas escuras, as maçãs do rosto salientes e bem definidas. Um homem imensamente poderoso, quer externa, quer interiormente. Mas estava perdendo essa força, enquanto eu o observava. Todos estavam. Não era falta de determinação, não se tratava disso; não eram ainda capazes desse tipo de desobediência às leis que os governavam. Mas, fitando rosto por rosto, atentamente, percebi um ligeiro evanescimento. Uma diminuição da força. E imaginei se estariam registrando esse momento em Canopus, se sabiam que eu cumprira a missão que me fora destinada. Em parte, mas pelo menos tinha passado o pior.

Esperei. Tinha de dar tempo para que absorvessem completamente minhas palavras. O tempo passou... passou...

Não falamos. A princípio pensei que isso se devia apenas à dor causada pelas notícias recebidas, mas logo percebi que esperavam que fosse completada a transmissão do que tinham em mente, em primeiro lugar para todos os Gigantes da Cidade Redonda e, através deles — embora necessariamente com menor intensidade e mais vagamente, talvez apenas a sensação de advertência, de perigo, de inquietação —, aos Gigantes das outras Cidades Matemáticas. O cilindro altíssimo em que nos encontrávamos era uma câmara transmissora, construída para funcionar com 10 ou 12 Gigantes no seu interior. Não eram especiais; qualquer um deles, homem ou mulher, podia fazer a transmissão, desde que fosse preparado, e por isso os muito jovens não eram usados para esse trabalho.

A transmissão era uma réplica do processo de intercâmbio entre Canopus e Rohanda. Havia uma rede, ou base comum, que tornava possível a transferência da notícia exata; mas tudo tinha de ser organizado, coordenado, planejado. Não se tratava de passar automática e imediatamente as notícias para as mentes dos outros Gigantes da cidade, e em seguida para os das outras cidades.

Enquanto estávamos ali sentados, todos os efeitos eram calculados. Em primeiro lugar, uma base de emoção, se é que se pode chamar assim aos sentimentos muito mais intensos do que os que mais tarde foram chamados de emoções, em Shikasta. Uma vez preparado o ambiente básico, eram enviadas as novas.

Nesse meio-tempo eu usava os meus olhos... Interessava-me o fato de haver entre os dez uma mulher cujo tipo era ainda, segundo os padrões de Canopus, considerado como uma anormalidade. Era mais alta do que os outros Gigantes, mais de um palmo, e seus ossos eram frágeis e longos. A carne parecia ter sido encaixada neles. A pele era branca e fria, com tonalidades cinza-azuladas. Nunca vira pele dessa cor em todas as minhas viagens e a princípio achei-a repulsiva, mas depois fiquei fascinado e não sabia se me sentia atraído ou repelido. Seus olhos eram de um azul surpreendentemente brilhante, como o do céu. Como os outros Gigantes, tinha pouco cabelo, mas parecia uma penugem de ouro pálido. E, além disso, havia longas extensões de tecido ósseo na ponta dos seus dedos, como nos dos Nativos, que antes tinham garras e patas. As possibilidades genéticas que evocava eram várias e perturbadoras — mas quais seriam os sentimentos dela a respeito de sua aparência? Era por demais exótica, entre tanta gente morena, negra ou morena clara de olhos pretos, castanhos e acinzentados. Devia sentir-se excluída, alienada. Além disso, dava a impressão de fraqueza, exaustão mesmo, não graças apenas ao momento difícil e opressivo, mas como parte inerente da sua substância. Evidentemente não possuía, como os outros Gigantes, uma vitalidade óbvia e imediata. Não. Para ela tudo parecia ser um esforço. Notei que foi a única afetada por minhas palavras a ponto de um colapso evidente. Suspirava seguidamente e aqueles incríveis olhos azuis moviam-se inquietos, e ela mordia os lábios vermelhos e finos. Eram também algo que eu nunca tinha visto antes: pareciam um ferimento no rosto claro. Mas ela esforçava-se para readquirir o controle, endireitando o corpo contra a parede e alisando a fazenda azul macia das calças compridas. Apoiou os dedos delicados nos joelhos e parecia resignada.

Quando o ambiente me pareceu propício, continuei, dizendo que a causa da crise era uma falha inesperada no alinhamento das estrelas que sustentavam Canopus. Devo registrar aqui que houve uma reação de inquietude — controlada — e de protesto — controlado...

Somos, todos nós, criaturas das estrelas e das suas forças, elas nos fazem, nós as fazemos, somos parte de uma coreografia da qual, de modo nenhum, nunca, podemos pensar em nos separar. Mas, quando os deuses explodem, ou erram, ou se dissolvem em etéreas nuvens de gás, ou se encolhem, se expandem, ou seja lá o que for que seu destino determine, então, os itens minúsculos da sua substância podem, em sua pequenez, expressar não protesto, o que naturalmente não é próprio da sua posição, mas o reconhecimento da existência da ironia; sim, podem se permitir — sempre com respeito — o mais leve sorriso doloroso de ironia.

Para os Nativos, nem isso era permitido, pois não seriam capazes de absorver, de compreender os acontecimentos a nível do pensamento e das ações dos Gigantes. Não, as vítimas principais desse lapso no comportamento celestial, dessa calamidade, dessa mudança no movimento de uma estrela não sabiam nem o suficiente para inclinar a cabeça com resignação, apertar os lábios e murmurar: "Bem, acho que está certo para eles!" Ou: "Lá vamos nós outra vez! Mas não cabe a nós reclamar!"

Não é justo que os Senhores das Galáxias, movimentando-se em suas ondas estelares, no tempo estelar, na perspectiva dos planetas, esperem de seus protegidos pelo menos esse sorriso irônico, um suspiro, frente ao contraste do trabalho de duração infinita, o esforço, a lenta ascensão da vida, para não falar na longa evolução cultural, com a declaração aparentemente casual: "Mas não prevíamos essa explosão radiativa, essa colisão planetária!" ou com a afirmativa: "Mas, comparados com as Majestades acima de nós, das quais somos parte, como vocês são parte de nós, não passamos de pequenos seres que, como vocês, têm de se submeter..."

Ao começar este relatório eu disse que, durante esse tempo, eu não tinha pensado nessa primeira visita. Sempre que a lembrança tentava insinuar-se em minha mente, eu lhe fechava as portas. Foi a pior coisa para mim, neste trabalho de Enviado.

Não me lembro se ficamos ali sentados durante a metade de um dia, um dia, ou mais, entreolhando-nos, tentando nos ajudar mutuamente, enquanto pensávamos no futuro. Os sons da cidade pareciam longínquos, absorvidos pelo silêncio e pelas proporções do prédio. Duas crianças Gigantes brincavam no pátio ensolarado, falando alto e rindo, sua exuberância um contraste marcante com a nossa condição, mas a Gigante branca e frágil fez um sinal e elas se foram.

Afinal Jarsum disse que não lhes era possível absorver mais informações no momento, e que continuaríamos no dia seguinte. Os Gigantes discutiram sobre a melhor maneira de contar aos Nativos, ou sobre a conveniência de lhes contar alguma coisa. Nesse meio-tempo, esperavam que eu me sentisse confortável no meu quarto. Se eu quisesse sair ou viajar podia fazê-lo, pois estava completamente livre. E as refeições seriam servidas nos seguintes horários... oh, todas as cortesias, toda a bondade e delicadeza. Meu coração, porém, estava partido. Tenho de dizer isso, apesar da banalidade da expressão. O que eu sentia era desolação, o nada, o vazio. Absorvia essas emoções dos Gigantes, que sentiam tudo isso e muito mais.

No dia seguinte, fui chamado bem cedo à sala de transmissão. Os Gigantes me esperavam, não os mesmos da véspera, mas senti-me à vontade com estes também.

Quando os Gigantes partissem, qual seria o efeito do choque nas expectativas dos Nativos, tão cuidadosamente criadas e treinadas? Que aberrações e perversidades adviriam? E o que seria dos animais do planeta, dos quais até recentemente os Nativos não passavam de uma variedade? Tinha sido planejado que os Nativos administrariam e cuidariam dos animais, para que os poderes e qualidades dos diversos gêneros se harmonizassem e se unissem, segundo a necessidade da União. Como veriam eles esses animais, agora? Como os tratariam?

Enquanto esses pensamentos se desenvolviam em nossas mentes, naquela manhã, eu sentia a urgência de falar sobre Shammat. Era uma força tão intensa em mim, que me admirei de os Gigantes não terem introduzido o assunto. E uma corrente de mal-estar, de suspeita mesmo, indicava que isso estava pronto para vir à superfície. Eu tinha de seguir as pistas que me davam, esperar os seus sinais e decisões. Logo deram por terminada a sessão e mais uma vez pediram que me retirasse, com a máxima cortesia. Desta vez, utilizando-me da liberdade que me conferiam, voltei aos locais da Cidade Redonda onde podia encontrar os Nativos. Tudo parecia normal e próspero. Fui de grupo em grupo e falei com todos aqueles que tinham tempo para conversar. A princípio, eu disse que era um visitante da Cidade Crescente, mas logo percebi que tinham o hábito de viajar e resolvi não me expor. Descobri então que havia uma Cidade Oval, no extremo norte, à qual se referiam como o ponto extremo da galáxia, que não era visitada por eles, e passei a dizer então que era de lá que eu vinha, inventando histórias interessantes de gelo e tempestades de neve, facilitando a conversa. Queria verificar se eles sentiam Shammat de algum modo, se os viajantes falavam sobre acontecimentos indesejáveis, se estavam doentes, se não se sentiam bem. Não encontrei nada que me pudesse ajudar, até que uma mulher, sentada em um banco da praça, com dois garotos, observou, a respeito da briga que começava entre as crianças, que "estavam muito irritados ultimamente". Não era muita coisa. Eu mesmo me sentia desanimado e irritado, mas tinha motivo para isso, e voltei ao meu quarto com suas paredes imensas, entre as quais a cama e a cadeira pareciam tão pequenas, e logo fui chamado de volta à sala da transmissão.

Jarsum estava lá, mas os outros me eram desconhecidos. Sentamo-nos como das outras vezes. Eu estava resolvido a falar de Shammat. E falei.

— Tenho mais alguma coisa para lhes dizer, que é muito mais séria — muito pior no que se refere aos Nativos, se não a vocês. Este planeta tem um inimigo. Não tinham percebido isso?

Silêncio. Mais uma vez a palavra "inimigo" parecia passar por eles, diluindo-se na atmosfera da sala. Simplesmente, era como se não soubessem onde encaixá-la. É uma sensação estranha, quando durante toda a vida se pensou em termos de confronto e superioridade, tratados e manobras políticas necessários para combater os vilões das galáxias, encontrar-se inesperadamente entre pessoas que jamais pensaram em termos de oposição, muito menos de maldade.

Tentei um pouco de humor:

— Pelo menos devem saber que existem inimigos! Eles existem, sabem? Na verdade, estão sempre ativos. Nesta nossa galáxia existem forças do mal em funcionamento, e são muito fortes...

Pela primeira vez entreolharam-se, com o movimento instintivo que é sempre sinal de fraqueza. Procuravam descobrir nos olhos dos companheiros o significado dessa coisa, "inimigo". Contudo, em seus primeiros relatórios, no início das nossas experiências em Rohanda, diziam que havia rumores sobre espiões, e naturalmente espiões implicavam a idéia de inimigos, até para o mais inocente.

Percebi que eram uma espécie que, por algum motivo imprevisto, não podia pensar em termos de inimigos. Eu mal podia acreditar. Jamais vira nada parecido nos outros planetas.

— Jarsum, quando você me disse que estava verificando a coluna porque suspeitava de algo errado, o que queria dizer com isso?

— As correntes têm estado irregulares — disse ele, imediatamente, com toda a seriedade e inteligência de que era capaz. — Notamos há alguns dias. Naturalmente sempre há pequenas variações. Às vezes, intermissões. Mas não nos lembramos de ter visto antes essa qualidade especial de variação. Há algo novo. E você explicou o que era.

— Mas é mais do que isso.

De novo um movimento leve mas geral de mal-estar, a mudança de posição dos membros, suspiros.

Lutando contra essa resistência, fiz um resumo da história do Império de Puttiora e de sua colônia Shammat.

Estavam ouvindo, mas pareciam incapazes de ouvir.

Repeti e insisti, Shammat, disse-lhes, tinha agentes neste planeta há algum tempo. Não tinham relatórios sobre estrangeiros? Sobre atividades suspeitas.

Os olhos de Jarsum vaguearam pela sala. Encontraram-se com os meus. Fugiram.

— Jarsum — disse eu —, não há entre vocês a memória de que seus ancestrais — seus pais mesmo — acreditavam na existência de elementos hostis no planeta?

— Os territórios do Sul há muito cooperam conosco.

— Não, não se trata dos territórios de Sirius. Mais suspiros e movimentos.

Tentei ser o mais breve possível.

Disse que o planeta, sujeito às influências das estrelas importantes, em breve teria falta de..., digamos assim, combustível. Sim, sim, eu sabia que já tinha dito isso. Mas Shammat tinha descoberto o fato e estava interceptando as correntes e as forças.

Rohanda, agora Shikasta, a terra violada, ferida, era como um precioso jardim planejado para depender de um suprimento de água que era inesgotável. Acontece que não era mais inesgotável. O jardim não podia ser mantido como antes. Mas um pequeno, um mínimo suprimento de força canopiana infiltrava-se ainda para manter Shikasta; o planeta não morreria à míngua. Entretanto, esse pequeno suprimento estava sendo drenado. Por Shammat. Não, nós não sabíamos como, e queríamos descobrir urgentemente.

Acreditávamos que um mínimo de manutenção seria possível; o "jardim" não desapareceria por completo. Mas, para planejar e executar, precisávamos saber tudo o que havia para saber sobre a natureza do inimigo.

Nenhuma reação. Não do tipo de que eu precisava.

— Em primeiro lugar — insisti —, quanto mais os nativos degenerarem, mais fracos ficarem e sofrerem perda de substância, melhor será para Shammat. Vocês compreendem? Quanto pior a qualidade do fluxo Canopus-Shikasta, melhor para Shammat. Na mesma proporção, Shammat não se pode alimentar com o que é elevado, puro, bom. É veneno para eles. O nível da União, no passado, sempre esteve além do alcance de Shammat. Estão de tocaia, à espera do momento exato, quando a sua natureza, a natureza de Shammat, possa agarrar-se com toda a sua força maligna, na substância da União! Já estão absorvendo força, estão se alimentando, crescendo e se tornando turbulentos com ela; mas isso não é nada, comparado ao que acontecerá se não fizermos alguma coisa para detê-los. Vocês compreendem?

Mas não compreendiam. Não era possível.

Não eram mais capazes de conceber a idéia de roubo e parasitismo. Não fazia parte da sua estrutura genética, talvez — embora fosse difícil explicar como se tinha processado essa mudança. De qualquer modo, percebi que nada podia fazer para alcançar suas mentes. Não com esse conceito. Teria de agir sozinho.

Minha primeira providência foi passar algum tempo com Jarsum, depois das sessões de transmissão e tentar causar algum impacto em sua mente. Consegui dele todo o tipo de auxílio e informação, menos um.

As sessões de transmissão recomeçaram. Sempre iguais. Um tema era colocado, captado pelas mentes de todos, discutia-se brevemente, ou havia um silêncio contínuo. O tema, traduzido para idéias e aspectos nas mentes individuais dos Gigantes, era enriquecido e desenvolvido; e essa complexidade emanava deles, alcançando os Gigantes das outras cidades.

Insisti para que fossem enviados mensageiros a fim de confirmar e complementar o que estava sendo transmitido. Como podíamos saber se a força das correntes era ainda a mesma? Eu queria que fossem enviados os indivíduos mais rápidos, nem que tivessem de correr o caminho todo. Mas defrontei-me com um curioso bloqueio ou barreira por parte dos Gigantes. Jamais haviam usado esse método, disseram.

— Certo, mas agora as coisas são diferentes. Não, eles iam esperar.

E não consegui convencê-los.

Então, de Canopus chegou a notícia de que as espaçonaves para transportar os Gigantes — com informações sobre datas, lugares e horas — estavam para chegar nas principais cidades.

— Jarsum, precisamos nos apressar. Não podemos esperar mais.

Mas ele tornou-se obstinado, desconfiado.

Percebi então que estava começando. Os Gigantes tinham sido afetados. Já não eram o que costumavam ser.

E, nesse caso, provavelmente eu também estava afetado... sentia tonturas momentâneas. Sim, e às vezes voltava ao normal, depois de um intervalo durante o qual minha mente parecia envolta em nuvens.

Não esperava ter de fazer isso tão cedo. Apanhei a Assinatura, do lugar em que a guardara e ocultei-a sob minha túnica, presa embaixo do braço. Minha mente desanuviou-se e compreendi que na verdade eu tinha mudado sem perceber. Em breve seria o único indivíduo em Shikasta com capacidade de julgar e agir razoavelmente.

Contudo, os Gigantes não estavam a par do próprio estado e ainda tinham o controle de tudo.

Percebi que nem todos eram afetados da mesma forma. Alguns estavam ainda com a mente clara e lúcida. Infelizmente, Jarsum não era um deles! Sucumbira quase que imediatamente. Eu não sabia explicar o porquê e assim não tentei. Estava preocupado com o aspecto prático, e continuei a insistir com os que entravam na câmara de transmissão, onde pareciam mais lúcidos.

Foi durante uma transmissão que me convenci de que a mudança era real e drástica. A forma das sessões era a mesma, mas havia maior inquietação e em certos momentos era como se estivessem todos perdidos; seus olhos ficavam vagos e vidrados e falavam incoerentemente. Então, certa manhã, um Gigante subitamente declarou com voz autoritária que tinha resolvido ficar no planeta, que não ia abandoná-lo com os outros. Expunha o caso como se fosse um debate, e isso era tão estranho para todos, que o espanto os levou à compreensão. Meu amigo Jarsum, por exemplo, voltou a si como se tivesse levado um choque e pude ver que sua mente estava de novo conosco, pela expressão dos seus magníficos olhos. Não falou, mas ficou imóvel, concentrando todos os seus poderes. Outro Gigante falou, rebatendo o argumento do primeiro, mas sem defender com convicção suficiente a idéia contrária. O primeiro bradou que "era óbvia" a estupidez de deixarem o planeta. Jarsum lutava, debatia-se interiormente, tentando reconduzir a assembléia ao que era antes. Outra voz fez-se ouvir. Percebi, pela tensão no rosto de Jarsum e pela força do seu olhar, que era demais para ele... e de súbito algo dentro dele cedeu e juntou sua voz às dos outros, à excitada gritaria de protesto.

E assim, quase "de um momento para o outro", tudo se desmoronou em Shikasta. Ouviam-se lá fora vozes dissonantes, crianças brigando, os sons da dissensão, o debate. Dentro, tudo era nervosismo e agitação. Inclinavam-se para a frente, tentando ver os olhos dos companheiros. Gesticulavam, interrompiam-se. Formaram-se duas facções: um grupo que tentava conservar sua força interior, todos com expressão atônita, e o grupo dos que cediam, conduzidos por Jarsum, que gritava, dizendo que "podiam mandar quantas espaçonaves quisessem, ele não sairia dali de modo algum!" — como uma criança teimosa. E então, o primeiro grupo sucumbiu.

Foi minha vez de intervir. Para tanto, segurei a Assinatura com firmeza e usei-a. Disse-lhes que todos os que resolvessem ficar estariam cometendo uma Desobediência. Pela primeira vez em sua história não estariam agindo de acordo com a lei canopiana.

Responderam com os argumentos e a lógica dos costumes degenerados.

Entre outras coisas disseram que sua permanência facilitaria as coisas para os Nativos porque eles, os Gigantes, "conheciam as condições locais", enquanto as pessoas estranhas não as conheciam. Disseram que, se os Nativos iam ser traídos por Canopus, os Gigantes não tomariam parte nessa traição.

Ponderei que, se ficassem, mesmo que fossem apenas alguns, estariam pondo em risco o plano modificado de Canopus. Que os Gigantes não seriam capazes de "liderar e conduzir'' os Nativos, como insistiam que fariam, porque seus poderes também iam desaparecer — já estavam se exaurindo — não estavam vendo que o seu comportamento era uma prova dessa decomposição? Mas, não, já não se lembravam do que tinham sido. A disputa e a inimizade eram agora naturais para eles.

Eu disse que, em todos os lugares, a Desobediência ao Plano Mestre era o primeiro indício da Doença Degenerativa, e olhei para aqueles rostos e aqueles olhos, até há pouco nobres e compreensivos, transformados agora em expressões de despeito e auto-afirmação e olhares vagos.

Os dias que se seguiram foram de discussões e vozes irritadas.

Eu procurava ir a todos os lugares com a Assinatura. Usando toda a minha força mental, consegui comunicar-me com a espaçonave canopiana e avisei que não encontrariam, ao descer, os Gigantes esperando para embarcar; as coisas estavam fora de controle. Deviam se preparar para ir a todas as cidades e argumentar, persuadir e, se necessário, capturá-los à força. A resistência às minhas transmissões espaciais era tão violenta que temi a possibilidade de não serem recebidas com clareza. Mais tarde, porém, soube que haviam compreendido o essencial. E na maioria das cidades, especialmente nas centrais, sabiam que havia uma crise e que a espaçonave se aproximava. A decolagem não foi tranqüila como tinham planejado. Em todas as cidades houve discussões e resistências antes da submissão aturdida — na melhor das hipóteses, pois cm algumas delas as tropas de Canopus precisaram fazer uso da força.

No momento eu não sabia o que tinha acontecido; consegui informações mais tarde.

Enquanto isso, na Cidade Redonda, Jarsum liderava um grupo que se recusava terminantemente a partir. Ele dava um exemplo do mais nobre sacrifício. Sabia que seus companheiros, e ele mesmo, todos os Gigantes desobedientes arriscavam o próprio ser, suas almas — ainda assim, ficaria. A Gigante branca e alta, com aquela beleza estranha e perturbadora, ficou, e com ela os outros, a sua progênie, todos mutantes, exibindo as mais estranhas combinações de características físicas. Explicou que, por ser uma anormalidade genética, não haveria lugar para ela no planeta para onde iam levar os Gigantes.

Como sabia disso? Eu lhe disse que a galáxia possuía uma variedade enorme de criaturas, de formas com as quais ela nem sonhava. Mas "ela sabia". Era bastante ter sido obrigada a viver até ali com um povo diferente; não queria começar tudo de novo.

Disse-me tudo isso enquanto esperávamos a chegada da espaçonave.

Nesse meio-tempo, discutimos sobre o que dizer aos Nativos.

Os Gigantes demonstravam uma preocupação apaixonada e ansiosa por seus antigos protegidos, que contrastava inteiramente com a força da sua antiga confiança. A todo momento defrontava-me com os grandes olhos acusadores e trágicos de Jarsum ou de outro Gigante. Como pode tratar as pobres criaturas desse modo! Era o que pretendiam me fazer sentir. E todas as discussões de ordem prática eram interrompidas por suspiros profundos, olhares reprovadores, murmúrios sobre crueldade e falta de sentimento.

Contudo, apesar de tudo isso consegui que compusessem histórias e canções para serem levadas por certos nativos escolhidos a todas as cidades, informando e transmitindo pelo menos os pontos básicos da nova situação.

E esses emissários foram informados de que deviam procurar, em cada cidade, os Nativos mais importantes e dizer-lhes que deviam se preparar para uma crise, um período de dificuldades e privações e esperar a vinda de outro mensageiro para orientá-los.

Os Gigantes providenciaram tudo. Precisavam fazê-lo. Os Nativos os consideravam seus mentores e não alterariam esse conceito de um momento para o outro.

Mas os Gigantes iam partir — diziam as canções.

 

Alçando vôo para os céus,

Eles se foram, os nossos Grandes,

Nossos amigos, nossos companheiros.

Para regiões remotas eles voaram,

Aqui ficamos, seus filhos,

E nada mais podemos fazer senão lamentar.

 

E assim por diante. Não eram exatamente as palavras que eu teria escolhido, mas expressavam a indignação dos Gigantes e a transmitiam aos Nativos.

Eu procurava fazer contato com os Nativos, lenta e cautelosamente, experimentando um depois do outro. Era interessante notar que a princípio os Gigantes pareciam mais afetados do que os Nativos, que continuavam comparativamente normais. Os organismos mais perfeitos e mais ajustados tinham de ser dominados em primeiro lugar. Isso deu-me tempo de comunicar tudo o que foi possível. Mas a contradição, ou a dificuldade inerente a essa tarefa, era óbvia: precisava dizer àqueles infelizes que, em virtude de circunstâncias inteiramente fora do seu controle e pelas quais não eram de modo algum responsáveis, iam se transformar em algo que seria menos do que sombras de si mesmos. Como poderiam aceitar isso? Não tinham sido programados para o fracasso e para o desastre! Sua defesa contra as más notícias era menor que a dos Gigantes. E quanto mais detalhada e real a informação, maior a possibilidade de ser distorcida. A questão essencial era que se tratava de mentes que logo deformariam o que tinham ouvido, começariam a inventar, a reprocessar.

Era como se minha tarefa consistisse em dizer a alguém em perfeita saúde que em breve se transformaria em um idiota, mas que devia se esforçar para guardar na memória alguns fatos essenciais que eram a... b... c...

Certa manhã, um terço dos Gigantes tinha desaparecido. Ninguém sabia para onde. Os outros permaneciam submissos, na pista onde desceria a nave espacial — o que ocorreu logo em seguida. Três das nossas maiores naves desceram e alguns milhares de Gigantes embarcaram. Subitamente, não havia mais Gigante nenhum, nem um só.

Os Nativos viram a descida da nave, viram os Gigantes apinharem-se dentro dela, observaram a imensa máquina levantar vôo e desaparecer nas nuvens.

 

Alçando vôo para os céus,

Eles se foram, os nossos Grandes...

 

continuavam a cantar. E por muitos dias os Nativos permaneceram nas pistas de aterrissagem, olhando para o céu e cantando. Naturalmente pensavam que os Gigantes voltariam. Esse boato logo se espalhou e deu origem a novas canções.

 

Quando eles voltarem, os nossos Grandes,

Nós não os desapontaremos...

 

Não consegui descobrir o paradeiro dos Gigantes desobedientes.

Os Nativos começaram então a entrar nos altos edifícios, moradias e prédios oficiais dos Gigantes e tomaram conta deles. Isso não era conveniente para a disposição da Cidade Redonda. Eu lhes disse. Tinham aceito a minha presença como a de alguém com certa autoridade, embora não no mesmo nível dos Gigantes, mas agora a maioria deles estava incapaz de receber informações. O bom senso e a honestidade começavam a ser substituídos por um olhar vago e perdido, ou por atitudes de impaciência e de beligerância, os primeiros sintomas da Degeneração.

Um contador de histórias e compositor de canções, David, tornara-se meu amigo, ou pelo menos parecia me reconhecer. Estava ainda, até certo ponto, senhor de si, e pedi que observasse o que acontecia e me informasse na minha volta da cidade mais próxima. Esta ficava em um grande rio, perto de um mar interior, cujos movimentos da maré eram mínimos — a Cidade Crescente. Era também circundada por um braço de rio, mas não em toda a sua extensão. No lado aberto, havia ruas e jardins, dispostos como as cordas de uma lira. A música dessa' cidade era como a harmonia de liras, mas, antes de chegar a ela, ouvi os sons discordantes, agudos e ásperos que me diziam o que encontraria no seu interior.

Era uma bela cidade de pedra branca e amarela, com desenhos complexos nas calçadas, nas paredes, nos telhados. As cores que predominavam nas roupas do povo eram o marrom avermelhado e o cinza, que se destacavam contra o fundo das folhagens e do céu límpido. Os Nativos tinham estrutura semelhante aos da Cidade Redonda, mas sua pele era amarela e o cabelo negro. Jamais os vi como realmente eram, porque, quando cheguei, o processo de decomposição já tinha começado. Mais uma vez procurei um que parecesse perceber o que estava acontecendo. As canções e as histórias tinham chegado até eles e esses Nativos tinham assistido também à partida dos Gigantes nas imensas naves cristalinas, e tudo isso, para a maioria deles, já não passava de um sonho... Pedi ao meu amigo que reunisse os outros, os convencesse a ter paciência, não tomar decisões precipitadas, não deixar que o pânico os dominasse, não terem medo. Eu disse tudo isso sentindo o absurdo de cada palavra.

Decidi voltar à Cidade Redonda. Se as canções e histórias tinham chegado à Cidade Crescente, na certa haviam se espalhado por todas as outras e isso era um começo. Eu sentia cada vez mais a urgência, o perigo — precisava voltar à Cidade Redonda rapidamente. Sabia disso, mas só compreendi a razão quando me aproximei.

Dirigi-me para o lado oposto àquele pelo qual tinha entrado na primeira vez. Aqui também precisava atravessar uma floresta de árvores espaçadas entre si. Ao me aproximar do local onde as pedras deviam começar, vi nozes e amêndoas, damascos, romãs. Havia muitos animais e pareciam inquietos, e olhavam apreensivos para a cidade. Sacudiam a cabeça, como se procurassem afastar um som desagradável; já ouviam o que os meus ouvidos ainda não captavam, mas que logo escutei também, ao chegar à área onde começavam as pedras. Havia agora uma aspereza nas harmonias que vinham da cidade e meus ouvidos doíam. Senti um princípio de dor de cabeça, e quando passei pelas pedras fiquei nauseado. O ar estava pesado, ameaçador.

Eu não sabia dizer se tudo isso era porque a disposição das pedras não atendia mais às necessidades de Canopus, em razão da discordância entre as estrelas, ou se as harmonias da Cidade Redonda se tinham alterado com a partida dos Gigantes e a ocupação de suas casas pelos Nativos. Mas, qualquer que fosse a razão, quando entrei na cidade a dor provocada pelo som aumentou e, olhando para cima, vi os pássaros, que voavam na direção das pedras, desviarem-se daquilo que emanava do lugar e que chegava até o céu, um céu maculado e hostil. Por toda parte o povo se empurrava e se acotovelava, formando grupos que logo se desfaziam para se formarem novamente. Estavam em constante movimento, procurando alguém, alguma coisa; andavam de rua em rua, de jardim em jardim, da periferia para o centro, e, quando o alcançavam, depois de correr de um lado para o outro, olhavam em volta desarvorados, inquietos, e os seus olhos, dominados agora por aquele ar perdido de insegurança, não se fixavam em nada, sempre procurando, sempre descontentes. Os grupos não se comunicavam, apenas se empurravam, se acotovelavam, como se fossem todos estranhos, inimigos mesmo. Vi discussões e provocações, crianças choramingando e brigando, ouvi vozes que se erguiam encolerizadas. As paredes marrom dourado já estavam sujas e rabiscadas. As crianças, isoladas, aos pares ou em grupos, passavam terra dos jardins nos muros, tentando, encarniçada e violentamente — o quê? Quando eram interrompidas, voltavam imediatamente à sua... tarefa, pois era exatamente o que parecia que estavam fazendo: uma obrigação. Mas, na verdade estavam procurando, procurando, esse o ponto central de toda aquela atividade. Se um grande número de pessoas se agitasse, correndo de lá para cá, se as crianças e alguns adultos espalhassem lama sobre os desenhos delicados dos muros ainda reluzentes, se todos se encontrassem, circulassem, se acotovelassem, entreolhando-se com expressão vaga e faminta — se repetissem vezes sem conta essas atividades — então, o que tinham perdido seria encontrado. Era o que eu, o estranho agarrado à Assinatura para me conservar vivo, sentia.

Aquelas pobres criaturas já não sabiam mais o que tinham perdido.

A perda da substância, o esvaziamento era enorme, podia ser medida pelos resultados.

Ninguém teria sido poupado? Pelo menos o bastante para me ouvir?

Procurei naqueles rostos um lampejo de compreensão, tentei conversar, mas os olhos castanhos, até há pouco sinceros e amigos, desviavam-se dos meus, como se não me vissem, como se não me pudessem ouvir. Procurei os contadores de histórias e os cantores que possuíam todo um cabedal de informações, encontrei um, depois outro; olharam-me com desconfiança, e, quando perguntei se o povo gostava das suas canções, hesitaram, pareciam chocados, quase se lembrando. Então vi David sentado ao lado de uma fonte atulhada de lixo, e ele dizia, em voz cantada: "Ouçam-me agora, ouçam esta história de eras remotas, quando os Grandes estavam entre nós e nos ensinavam tudo o que sabíamos. Ouçam-me, vou lhes contar sobre a sabedoria dos grandes dias." Mas David estava falando de 30 dias atrás.

Grupos de indivíduos interrompiam sua procura frenética e ouviam por um momento a voz de David, como se algo dentro deles tivesse sido tocado, alcançado — coloquei-me ao lado dele, e usando-o como ponto focalizador de atenção disse em voz alta:

— Amigos... amigos, tenho algo a lhes dizer... lembram-se de mim? Sou Johor, emissário de Canopus... — Olhavam-me. Viravam a costas. Não eram hostis. Apenas não podiam entender.


Sentei-me ao lado de David, o contador de histórias, que agora estava calado, abraçando os joelhos com os braços morenos e fortes, pensativo, absorto.

— Lembra-se de mim, David? — perguntei. — Falei com você muitas vezes, e mais recentemente há um mês. Pedi para observar o que acontecia por aqui para me informar. Estive na Cidade Crescente.

Os dentes alvos mostraram-se em um largo sorriso, tão caloroso e atraente quanto antes, mas os olhos estavam vazios.

— Nós dois somos amigos — disse eu. E fiquei algum tempo sentado ao lado dele. Mas David afinal levantou-se e se afastou, esquecendo-se da minha presença.

Quanto a mim, fiquei onde estava, observando a desordem e pensando. A situação era muito pior do que tínhamos previsto em Canopus. Minha ligação com Canopus estava quase desfeita, mesmo com a ajuda da Assinatura. Precisava resolver por mim mesmo e sem informação suficiente. Por exemplo, eu não sabia o que estava acontecendo nos territórios de Sirius. Para onde tinham ido os Gigantes rebeldes? Não tinha meios de descobrir. A degeneração dos Nativos era total ou parcialmente reversível? Qual seria a situação nas outras cidades?

Durante algumas horas não tomei nenhuma iniciativa, limitei-me a observar a inquietação que piorava a cada instante. Misturei-me então às pobres criaturas e verifiquei que as vibrações intensas que emanavam agora da cidade estavam provocando danos visíveis. Seguravam a cabeça com as duas mãos enquanto corriam, gritavam de dor, sempre com aquela expressão de incredulidade e incompreensão, pois o povo de Shikasta raramente sentia dor. Na verdade, a maioria deles não conhecia a dor. Ocasionalmente alguém quebrava uma perna ou um braço, ou, muito raramente, o planeta era assolado por uma epidemia, mas eram tão infreqüentes que as consideravam como contingências excepcionais. Dores de cabeça, de dentes, enjôo, dores nos ossos, nas juntas, doenças dos olhos ou dos ouvidos — toda essa triste relação de doenças do corpo físico afetado pela Degeneração era desconhecida desses seres. Vi um e depois outro cambalear, agarrar a cabeça, sempre com aquela expressão nos olhos, como se perguntassem: O que é isto? O que está acontecendo comigo?

Precisava levá-los dali. O que ia lhes dizer pareceria absurdo, impossível. Deviam deixar a cidade, seu belo lar, com suas simetrias perfeitas e jardins sincronizados, os padrões sutis que refletiam os movimentos das estrelas — precisavam partir imediatamente, se não quisessem enlouquecer. Mas não se sabia o que significava loucura! Contudo, alguns já estavam endoidecidos. Sacudiam e sacudiam a cabeça dolorida e levavam as duas mãos até ela naquele gesto de: "O que é isto? Não posso acreditar!" — e então soltavam verdadeiros uivos de dor e começavam a correr, para todos os lados, gritando, como se a dor fosse algo que pudessem deixar para trás. Ou encontravam uma área, ou um prédio onde a dor era menos violenta, pois a intensidade dos distúrbios nas vibrações não era igual em toda parte. E, então, aquele povo permanecia no lugar comparativamente confortável que tinha encontrado, e recusava-se a deixá-lo.

Quanto a mim, jamais me sentira desse modo desde que estivera em um lugar igualmente afetado, nossa pobre colônia que este triste planeta deveria substituir.

Encontrei David. Estava de bruços na calçada com as mãos sobre as orelhas. Obriguei-o a se levantar e disse-lhe o que precisava ser feito. Sem muita energia ou vontade, finalmente encontrou alguns amigos, sua mulher, seus filhos adultos, seus netos. Era um grupo de 50 pessoas, mais ou menos. Falei com eles, e David transformou minhas palavras em canção. Em todos os rostos o ricto de dor, de náusea, e sentiam-se tontos, encostavam-se nas paredes, gemiam. Pedi-lhes que deixassem a cidade imediatamente, antes de as vibrações matá-los. Disse que, se deixassem as emanações horríveis do lugar e fossem para as savanas e florestas próximas, a dor desapareceria. Mas deviam correr rapidamente ao passar pelas pedras. E, antes de partir, procurar avisar o maior número de amigos, para segurança e salvação de todos eles.

Tudo isso foi ouvido com o acompanhamento de gritos de incredulidade, de recusa; eles resistiam, gemiam dolorosamente. Agora, milhares de Nativos cambaleavam pelas ruas, ou caíam ao chão rolando de dor.

De súbito, o grupo ao qual eu me havia dirigido em primeiro lugar começou a fugir daquele lugar mortal, atravessando os jardins e chegando às pedras, onde a dor era tão intensa que muitos se atiraram no rio e se afogaram, conscientemente, avidamente, tamanho era o seu sofrimento. Mas alguns deles, encolhidos, segurando as cabeças, com as mãos sobre o estômago, correram, bem abaixados, próximo ao solo, como se a terra os pudesse ajudar, para fora do horrível círculo de radiações. Atiraram-se para o abrigo das primeiras árvores da floresta e começaram a chorar de alívio, pois a dor tinha passado.

Chamaram os que tinham ficado para trás. Alguns ouviram o chamado e os seguiram. Eu aproximei-me dos outros, dizendo-lhes que muitos dos seus companheiros tinham saído da cidade e estavam a salvo. E, logo, todos partiram. Deixaram os lares, móveis, alimento, roupas, deixaram sua cultura, sua civilização, tudo o que tinham construído. Essa pequena multidão, agrupando-se entre as árvores, sobre a relva, viu-se cercada de animais que os observavam com olhos inteligentes e intrigados. Não possuíam nada, tão indefesos quanto há milênios, quando eram apenas pobre animais tentando erguer-se sobre as patas traseiras.

Alguns deles, uma vez recobrados da emanação mortal da qual tinham fugido, correram de volta para os jardins da periferia, atravessando as pedras, e apanharam vegetais e sementes, trabalhando freneticamente até a dor se tornar de novo insuportável. Os realmente resistentes voltaram à cidade, onde, gritando e vomitando, entravam e saíam cambaleantes das casas, trazendo consigo agasalhos e tudo o que poderia servir de proteção — roupas de cama, utensílios de toda espécie. Assim conseguiram o bastante para se agasalhar e se alimentar. Mas essas excursões de volta à cidade tiveram seu lado trágico, como iam verificar mais tarde: mesmo naquele momento já se notava que as pessoas que tinham sido mais sujeitas às emanações das pedras pareciam ansiosas por senti-las novamente.

Faziam abrigos na floresta, usando galhos de árvores, folhas de capim, até mesmo terra molhada. O fogo tinha sido levado em um pote de barro e era guardado dia e noite sob a forma de uma grande fogueira que era o ponto central desse acampamento de selvagens. Fizeram marcas no solo e começaram a plantar. Houve tentativas de reproduzir as oficinas e fábricas das cidades, mas não se lembravam mais do que sabiam fazer, de suas habilidades que, de qualquer modo, dependiam dos poderes e da tecnologia dos Gigantes.

Os animais começaram a se afastar. Os primeiros caçadores os estavam matando: bastava aproximar-se deles e enfiar uma faca. Os animais não sabiam o que era o medo, essas criaturas mansas do Tempo dos Gigantes — pois esse foi o nome dado ao tempo que acabava de passar, era como todos se referiam ao que tinham perdido. Mas os animais aprendiam a ter medo e se afastavam, a princípio relutantemente, com o mesmo olhar de descrença e interrogação que surgira no rosto dos Nativos ao começarem a sentir as dores. E assim, ameaçados e caçados, os lindos animais, infinitamente mais variados e mais adaptados do que os que Shikasta conheceu mais tarde, começaram um rápido movimento de fuga. Ouvia-se o som das manadas se movendo e sabíamos que outra parte dos animais tinha-se afastado.

Nesse ínterim, eu precisava tentar visitar todas as outras cidades, onde esperava que o instinto tivesse levado os habitantes para lugar seguro. Será que restava algo da mente comum para que as outras cidades tivessem percebido o que estava acontecendo na Cidade Redonda? David, eu e alguns outros fomos primeiro à Cidade Crescente, onde encontramos bandos de habitantes caminhando a esmo, no lado de fora, nos campos férteis do delta do grande rio. Disseram que a cidade estava "cheia de demônios", mas que a maior parte da população ainda estava lá, porque "não havia ninguém para mandá-los sair, estavam esperando a vinda dos Gigantes". Os que tinham escapado estavam construindo cabanas de bambu, e o solo havia sido limpo para o plantio. Os animais tinham ido embora. Tínhamos visto bandos deles afastando-se da proximidade letal da Cidade Crescente e das criaturas de duas pernas que eram agora inimigos.

Para resumir esta parte do meu relatório: fomos de cidade em cidade, dividindo-nos em vários grupos; da Cidade Quadrada à do Triângulo; da cidade do Losango à Cidade Octógono; da Oval à Retangular — e assim por diante. Levamos nessa ronda uma volta completa de Shikasta ao redor do seu sol. Os grupos que visitaram as cidades se alteraram, pois alguns resolveram ficar nos acampamentos que lhes agradavam, outros ficaram doentes e morreram, outros ainda, tendo encontrado uma floresta ou um rio excepcionalmente atraentes, instalavam-se nas proximidades; mas cerca de 100, contando com os que aos poucos se juntavam a nós, procurando ser úteis, ou levados pela nova inquietação que era uma característica marcante dessa Shikasta, viajaram incessantemente durante o ano todo e viram que em toda parte a situação era a mesma. As cidades estavam vazias. Todas eram uma armadilha mortal ou uma casa de loucos. Os que ficaram nas cidades tinham-se matado ou ficado completos idiotas.

Ao redor de cada cidade viam-se os acampamentos dos Nativos, com as mais variadas cabanas. Comiam a carne dos animais que caçavam, vestiam-se com as peles e plantavam verduras e cereais. As roupas levadas das cidades, as que ainda existiam, estavam sendo conservadas, já eram parte de um ritual. Os contadores de histórias falavam dos Deuses que os tinham ensinado a fazer tudo o que sabiam e — pois isto tinha sido parte das primeiras histórias — que "iam voltar".

Quando voltamos à Cidade Redonda, tentamos passar ao lado do limite das pedras, mas as vibrações eram tão terríveis que demos uma grande volta. Por quilômetros e quilômetros ao redor da cidade não havia sinal de vida, nenhum animal, nenhum pássaro. E a vegetação estava secando. Os acampamentos tinham-se mudado para lugares mais distantes.

A maior mudança era que agora nasciam mais crianças do que antes. As precauções foram esquecidas: perdida estava a noção de quem devia ter filhos, de quem se devia unir, que tipo de pessoa servia para ser pai ou mãe. O conhecimento e o uso do sexo estavam esquecidos. E, se antes o indivíduo que morria antes do termo natural de mil anos era considerado sem sorte, agora o tempo de vida começava a flutuar. Alguns já tinham morrido, muito jovens, ou na meia-idade, e muitos dos recém-nascidos também.

Essa era a situação em toda Shikasta um ano após a União ter-se desmoronado.

Pelo menos havia um número suficiente de pessoas vivendo longe das cidades para garantir a continuação da espécie. E eu sabia que, embora por algum tempo as cidades se fossem tornando cada vez mais perigosas, depois de 300 ou 400 anos (informação inadequada não me permitia ser mais preciso), quando a natureza tivesse atuado sobre os prédios e as pedras, as cidades se transformariam em montes de ruínas, sem nenhum poder de causar o bem ou o mal.

Cheguei à fase final da missão.

Antes de tudo, precisava localizar os Gigantes rebeldes. Agora tinha uma idéia de onde poderiam estar, pois quando passei pela Cidade Hexagonal, ao norte das Grandes Montanhas, tinha visto de longe um acampamento onde não esperava que houvesse nenhum, e ouvi rumores sobre fantasmas e demônios "do tamanho das árvores".

Ainda desta vez escolhi David para ir comigo. Dizer que ele entendia o que tinha acontecido era verdade. Dizer que ele não entendia — era verdade. Pacientemente, sentava-me ao lado dele e explicava, e repetia. Ele ouvia, os olhos fixos no meu rosto, os lábios se movendo como repetindo para si mesmo o que eu lhe dizia. Acenava afirmativamente com a cabeça: sim, tinha entendido! Mas, minutos mais tarde, quando eu estava dizendo exatamente a mesma coisa, ele parecia embaraçado, temeroso. Por que eu estava lhe dizendo aquelas coisas? e aquelas outras? seus olhos perturbados perguntavam: o que eu queria dizer? E suas perguntas nesses momentos davam a entender que eu não lhe tinha dito absolutamente nada. Parecia drogado, ou em estado de choque. Mas, aparentemente, ele absorvia informação, pois às vezes falava como se baseado em conhecimentos mútuos. Era como se uma parte dele soubesse e recordasse tudo o que eu tinha dito, mas outra parte não tivesse ouvido nem uma palavra! Jamais, nem antes nem depois, passei pela experiência de estar com uma pessoa, sabendo que uma parte dela está em contato, como algo real, vivo e atento — mas, que, com maior freqüência, o que eu dizia não chegava até aquele ser silencioso e invisível, e que tudo o que ele dizia não vinha sempre da sua parte real. Era como se alguém estivesse na minha frente, amarrado e amordaçado, e um ser inferior falasse por ele.

Quando o convidei para viajar novamente em minha companhia, ele disse que não queria deixar sua filha mais nova. Jamais tinha mencionado essa filha. Onde estava ela? Oh... com amigos, ele achava. Mas, ele não a via? Não era responsável por ela? Aparentemente queria me agradar e sacudiu a cabeça afirmativamente dizendo que ela era uma boa menina e sabia tomar conta de si mesma. Foi a primeira vez que encontrei uma característica que deveria tornar-se típica dos shikastianos: a indiferença pela prole.

A filha de David, Sais, era uma moça grande, morena, com uma massa de cabelos muito crespos e cor de bronze. Tudo nela era saudável e animado. Era muito mais do que uma criança e sem dúvida podia tomar conta de si mesma... não tinha outro remédio. Parecia não se lembrar da Cidade Redonda, nem de sua vida com o pai e a mãe. Falava desta última como se tivesse morrido há muito tempo, mas descobri que tinha morrido em uma caçada, recentemente. Um casal de tigres a havia atacado. Sais não sabia que há pouco mais de um ano isso seria inconcebível. Para ela os tigres sempre tinham sido inimigos dos Nativos!

Concordou em ir conosco.

Quando a nave espacial me deixou no planeta, eu tinha ficado bem ao norte das Grandes Montanhas, na parte leste da grande massa de terra central. Tinha caminhado para oeste, Agora estávamos nos dirigindo para leste, mas ao sul das Grandes Montanhas, que são um ponto importante de Shikasta, dominando grandes extensões. As colinas ao pé dos montes eram mais altas do que os picos mais altos dos continentes do Sul, e subimos e subimos. Ao redor dos picos centrais formavam-se cadeias e cadeias de montanhas, um verdadeiro mundo de picos elevados ao norte e ao sul, a leste e a oeste. De uma altura imensa olhamos a Cidade Hexagonal, lá embaixo, com os acampamentos que a circundavam. E vi algo inesperado. Em uma clareira, no sopé de um monte, havia uma coluna, ou um pilar, algo que brilhava, que devia ser de metal e era extremamente alto, embora parecesse pequeno de onde estávamos. Devia ter alguma relação com Shammat. Embora estivéssemos lá em cima, naquele ar puro e revigorante, pude sentir a mensagem do mal que emanava dela. Não queria expor David ou Sais, portanto, marquei sua localização para encontrá-la quando voltasse sozinho.

Em seguida, descemos e descemos, afastando-nos bastante daquela coisa de Shammat, e então, na vertente de um pico menor, examinando as planícies intermináveis, vi o que esperava. O mais estranho dos acampamentos. Não tinha sido construído para dar abrigo ou calor, ou por nenhum objetivo familiar; representava apenas um ato falho de memória.

Um cilindro alto, sem teto, apenas com dois ramos sobre ele. Outro, quadrado, com uma abertura desigual no centro. Uma cabana de cinco lados, torta e inclinada. Havia construções de todos os tamanhos e formatos, mas nenhuma delas completa. O material usado tinha vindo da Cidade Hexagonal. Não era difícil para os Gigantes carregar grandes pedras por muitos quilômetros.

O que se passaria, porém, em suas mentes? O que podiam lembrar das velhas cidades? Como explicavam as radiações maléficas às quais deviam ter-se exposto, e como tinham sido afetados?

Enquanto caminhávamos para baixo, nas encostas cheias de árvores das montanhas mais baixas, falei sobre os Gigantes para David e Sais. Logo iríamos encontrar um povo muito alto e forte, mas não, não eram os das histórias e baladas. Precisávamos ser cuidadosos e ficar alerta todo o tempo. Era possível que nos fizessem mal.

Assim, tentei prepará-los para o que eu temia. Mas, como explicar àqueles dois que jamais haviam visto coisa igual, nem ouvido falar, o que significava escravidão ou servidão? Não tinham meios de saber, ou sequer imaginar, o desprezo que uma raça degenerada pode sentir por outra, diferente da sua.

Afinal chegamos à planície e caminhamos na direção daquele acampamento desordenado. Os Gigantes estavam todos no interior dos prédios. Gritamos palavras de saudação e eles saíram, aparentando medo. Então, quando perceberam que não os ameaçávamos, e que tínhamos a metade do seu tamanho, um deles teve um acesso de indignação, muito teatral, como se estivesse observando o efeito que causava nos companheiros, e todos se puseram a imitá-lo, agindo como se o fato de os termos chamado fosse um ato de impertinência. Eles nos levaram para uma espécie de curral, tão malfeito que a luz passava através das pedras. Jarsum estava lá. Era um chefe, ou um líder. Não me reconheceu. Ao seu lado, como um rainha, sentava-se sua consorte, a Gigante branca e estranha. Ela nos olhou longamente, depois bocejou. Nada podia ser mais patético do que os olhares furtivos que lançava aos outros para ver se seus gestos estavam sendo admirados. Jarsum e ela tentaram então toda sorte de gestos de ridículo orgulho, com ares desdenhosos, fitando-nos com desprezo, o nariz levantado. Percebi que David e a filha estavam confusos; nunca tinham visto nada igual.

Eu disse a Jarsum que era Johor, um velho amigo, e ele inclinou-se para a frente e me fitou, o rosto grande franzido, como tentando decifrar um enigma muito complexo. Disse que meus companheiros eram David e Sais, da antiga Cidade Redonda. Mas ele não se lembrava e olhou interrogativamente para a Gigante branca, que se recostava insolentemente na cadeira ao seu lado, e para os outros, que se encostavam nas paredes, como servos. Mas ninguém se lembrou da Cidade Redonda. Mais tarde soube que nem todos eram dessa cidade, mas tinham vindo de várias outras, aparentemente conduzidos pelo pouco que lhes restava de sua antiga intuição. Tentaram recriar o que lhes foi possível naquelas loucas caricaturas de edifícios.

A Gigante branca observou o corpo forte de David e o de Sais e então murmurou qualquer coisa para Jarsum. Ele nos examinou, orientado por ela, e viu três seres com metade do seu tamanho e com feições e cor de pele diferentes das suas.

Anunciou que nos seria permitido ficar e trabalhar para eles.

Então usei o nome de Canopus. Era preciso.

Alguma coisa pareceu chegar até eles, afinal. Entreolharam-se, primeiro Jarsum e a Gigante branca, e depois, não encontrando nada, inclinaram-se para os outros Gigantes, que retribuíram o olhar com seus olhos vazios.

Sim, Canopus, disse eu, Canopus, e esperei novamente que a palavra produzisse algum efeito.

Não deviam desobedecer às leis de Canopus, disse eu, nenhum de nós podia, e a primeira lei de Canopus era que não podíamos fazer escravos ou servos dos nossos semelhantes.

Isso os alcançou.

Pedi abrigo para a noite.

Responderam que não tinham nenhum prédio desocupado, mas a verdade é que queriam que partíssemos, pois representávamos um desafio muito grande para eles.

Eu disse que passaríamos a noite fora do acampamento, sob as árvores, e voltaríamos de manhã para conversar.

Podia perceber que iam pedir que partíssemos e podiam até nos expulsar.

Disse então que Canopus mandava que os viajantes fossem alimentados e abrigados. Era uma Lei que dizia respeito a todos nós.

Isso não foi tão fácil para eles. Interiormente eram rebeldes e estavam encolerizados e teriam nos matado se não fosse o medo que sentiam. Quanto a nós, esperamos, eu contendo o medo, porque sabia o perigo que estávamos correndo, mas David e Sais calmos e curiosos, sem entender nada do que estava acontecendo. E vi então que os Nativos estavam melhor do que os Gigantes, simplesmente porque tinham ficado mais próximo das pedras, da terra e das plantas e dos animais: possuíam uma força básica férrea, que os Gigantes não tinham. Os que tinham concordado em partir para ares e climas dos planetas escolhidos para eles — esses sim; mas não os que ficaram —, podia perceber, por seus olhos vazios e chocados, que até mesmo seu corpo físico estava fadado a desaparecer. Não viveriam por muito tempo.

Eles nos deram comida. Carne de animais, portanto também estavam caçando. Não tínhamos visto animais perto do acampamento, o que significava que tinham fugido para longe, para as planícies.

Deitamos sob as árvores e eu fiquei acordado enquanto os dois dormiam. Muito tarde da noite, quando as estrelas enchiam o céu negro de lado a lado, uma grande sombra saiu do cercado dos Gigantes, e vi que era Jarsum que caminhava para nós. Ele parou a alguns dos seus passos de distância — muitos dos nossos passos — e procurou com ar intrigado, mas não nos podia ver, sob as árvores, por isso chegou mais perto e inclinou-se. Quando viu que eu estava acordado, sorriu. Era um sorriso embaraçado. E partiu, quebrando as pedras e os galhos com seus pés enormes calçados de peles de animais. De manhã atravessamos a distância de alguns quilômetros até a Cidade Hexagonal, até o ponto onde começava o desenho das pedras. As vibrações maléficas não pareciam tão intensas como nas outras cidades, ou por terem sido enfraquecidas pelo tempo, ou pelo fato de tantas pedras terem sido retiradas quebrando os padrões, ou ainda por outra razão qualquer, eu não pude dizer.

Mas vimos uma coisa espantosa. Uma meia dúzia de Gigantes tinha-nos acompanhado, deixando seu patético acampamento, mas não nos pareciam ver, e caminharam para o centro das pedras, dando voltas com o corpo, erguendo os braços, inclinando-se para a frente e para trás. Compreendi que tinham prazer com aquela sensação. Contudo, isso só podia confundir suas mentes ainda mais.

Depois desse tipo de exercício, saíram do meio das pedras, fazendo movimentos espasmódicos com as cabeças, braços e pernas, como se estivessem realmente doentes, e voltaram para o acampamento, dançando e se retorcendo.

Percebi que David e Sais queriam "tentar para ver" — pois aparentemente tinham esquecido o que aquelas discordâncias podiam fazer. Eu disse que não, não deviam ir — e levei-os de volta aos Gigantes.

Estavam, dando uma festa, com montanhas de carne, e todos cantavam e dançavam. Compreendi que os Gigantes tinham ido até as pedras para trazer nos próprios corpos o poder das desarmonias que usavam como álcool para alimentar seu espírito festivo.

Fiz com que notassem nossa presença e pedi algumas frutas.

Pedi a Jarsum que fosse conversar conosco sob as árvores. Ele nos acompanhou, mas parecia bêbado ou meio adormecido. Falei outra vez de Canopus.

Ele aceitou. Ouviu. Mas pouca coisa atravessava a névoa e o vazio daquele pobre cérebro.

Segurei a Assinatura na frente do seu rosto. Não queria fazer isso, porque notara que seu poder tinha agora efeitos desiguais e contraditórios.

Sim, ele se lembrava. Lembrava-se de alguma coisa. Os olhos vidrados, vermelhos e semicerrados, como sob o efeito da bebida, examinaram de perto a Assinatura, e as mãos trêmulas estenderam-se para tocá-la. E então ele fez uma coisa que eu nunca tinha visto neste nobre planeta, que não poderia ter acontecido em Rohanda — inclinou-se até ficar prostrado no chão e jogou areia na cabeça. E David e Sais o imitaram com entusiasmo, satisfeitos por aprenderem essa coisa nova e tão atraente.

Eu os conduzi de volta ao acampamento, dizendo a Jarsum que devia fazer com que todos viessem até mim. Ele obedeceu, mas mais da metade estava dançando entre as pedras e tivemos de esperar que voltassem.

Então, fiquei na frente deles, entre os Gigantes e os prédios inacabados, e ergui a Assinatura, para que ela brilhasse e os ofuscasse, enviando seus raios luminosos diretamente aos seus olhos e rostos.

Disse que Canopus os proibia de chegar perto das pedras. Era uma ordem. E fiz com que a Assinatura emitisse clarões tremulares.

Disse que Canopus os proibia de usar seus semelhantes ou outras criaturas do planeta como servos, a não ser que fossem tratados tão bem quanto eles próprios, como iguais sempre.

Disse que Canopus os proibia de matar animais a não ser para se alimentar, e assim mesmo, cuidadosamente e sem crueldade. Deviam plantar, disse eu, e colher frutos frescos e secos.

Disse que não deviam desperdiçar os frutos da terra, e cada um devia tomar apenas o que precisasse, não mais.

Não deviam usar de violência entre si.

Acima de tudo, acima de todas essas proibições, estava a primeira delas: nunca, nunca deviam entrar nas velhas cidades ou usar aquelas pedras para suas construções, e não se deviam intoxicar novamente se chegassem perto de coisas intoxicantes. Estavam se destruindo e Canopus não estava satisfeito com eles.

Então guardei a Assinatura e fui até Jarsum, que estava prostrado e tremendo, com a Gigante branca ao seu lado, e disse:

— Adeus. Eu voltarei para vocês. E até lá lembrem-se das leis de Canopus.

E David, Sais e eu nos afastamos, sem olhar para trás. Eu os tinha proibido de virar as cabeças, temendo que isso pudesse enfraquecer o efeito de minhas palavras, que já era bastante fraco, e quando estávamos entre as árvores, no sopé das montanhas, perguntei aos meus dois companheiros o que tinha acontecido.

Não responderam. Estavam assombrados.

Quando insisti, David disse que eu sabia de alguma coisa chamada Canopus.

Sais? Talvez fosse melhor com ela?

Fiz uma experiência. Esperei até chegarmos às colinas e descermos até um vale cheio de regatos e plantas viçosas e perguntei outra vez se eles tinham compreendido o que acontecera com os Gigantes.

David tinha aquela expressão que eu agora conhecia tão bem, um ar obstinado, como se lhe tivessem perguntado algo muito complexo. Então, desviou os olhos e fingiu observar um pássaro no ramo da árvore.

Sais fitava-me atentamente.

— O que você sabe sobre Canopus? — perguntei.

Ela disse que Canopus era um homem zangado que não queria que ninguém dançasse no meio das pedras. Ele não queria expedições de caça, não queria que matassem os animais a não ser para comer. Ele não queria...

Muito bem, Sais tinha compreendido e eu resolvi me concentrar nessa possibilidade. Enquanto andávamos, fiz perguntas e mais perguntas, e David, seu pai, andava distraído, às vezes cantando, pois a nossa intensidade o aborrecia, mas às vezes

prestava atenção e interpunha uma frase ou duas: "Canopus não quer..."

E assim continuamos, dia após dia, caminhando entre as colinas e pelos vales das Grandes Montanhas, até que senti a presença de Shammat muito próxima e compreendi que precisava afastar os dois de mim.

Então fiz uma coisa solene e arriscada. Eles estavam encarregados de uma tarefa da maior importância — para mim, mas acima de tudo para Canopus. Deviam percorrer Shikasta, visitar todos os acampamentos e repetir tudo o que eu tinha dito. Sais devia falar, e David seria o seu protetor. E entreguei a ela a Assinatura, dizendo que deviam considerá-la como coisa muito importante, mais importante do que... do quê? Do que a vida? Eles não conheciam esse conceito: o pensamento da morte como algo eternamente presente não era possível para eles. Isto veio de Canopus, afirmei. Era a própria substância e ser de Canopus e devia ser protegido em qualquer tempo, mesmo que tivessem de perder a vida por ela. Assim coloquei a Morte diante deles, usando-a para criar naquelas criaturas um sentimento de dor e de vigilância que não possuíam.

Sais colocou a Assinatura no cinto, reverentemente, e apoiou a mão sobre ela, enquanto ficava parada na minha frente, olhando-me nos olhos e ouvindo minhas palavras.

Quando chegassem a um acampamento, disse eu, ela devia primeiro falar de Canopus, e se o nome fosse suficiente para reviver antigas lembranças e associações, e se os habitantes conseguissem ouvir apenas por causa dessa palavra, então devia dar sua mensagem e partir. Só no caso de não conseguir que alguém a ouvisse, ou se ela ou o pai estivessem em perigo é que devia mostrar a Assinatura. E depois de terem estado em toda parte, e falado com todos, mesmo com os bandos de caçadores que encontrassem no caminho, ou fazendeiros e pescadores solitários nas florestas ou nas margens dos rios, então deviam levar a Assinatura de volta para mim.

E então falei com ela lenta e cuidadosamente sobre o conceito de uma tarefa, algo que devia ser feito — pois eu temia que isso também se tivesse evaporado de sua mente. Essa jornada que ela ia empreender, disse eu, o ato de realizá-la e de levar a Assinatura e protegê-la, seria um fator de desenvolvimento para ela, e traria para seu espírito algo que estava enterrado e coberto de névoa. E quando eu deixasse Shikasta, disse — pela primeira vez lhes revelando que eu ia partir —, ela seria responsável pelo cumprimento das Leis e pela difusão.das mesmas. Vi o pânico nos olhos dos dois à idéia de minha partida, mas disse que iam ficar sem a minha presença por meses, talvez mais tempo, e iam descobrir que podiam se manter e fazer observar as Leis sem minha ajuda. Separamo-nos e eu os vi partir e minha vontade foi com ela: você pode fazer isso, você pode, você pode, comecei a murmurar, depois falei em voz alta, em seguida gritei, enquanto eles desapareciam na distância, para longe dos olhos e das vozes, no meio das árvores imensas daquela maravilhosa floresta. Eu não os veria antes que Shikasta desse outra volta ao redor do seu sol.

E agora para o transmissor de Shammat.

Se existe um paraíso eu estava nele. A região nunca tinha sido habitada por Gigantes ou por Nativos. As florestas eram naturais e algumas árvores tinham milhares de anos. Flores por toda parte e pequenos regatos. E os pássaros e outros animais não sabiam ainda que deviam temer este novo animal, e vinham me cheirar, deitavam-se ao meu lado, fazendo-me companhia. Naquela noite descansei na margem de um regato, e os animais vinham beber, e a coisa pior que me podia acontecer era ser pisado por algum enorme gamo, no escuro. Tigres e leões não sabiam que eu era uma presa. Manadas de elefantes estendiam as trombas na minha direção e depois se afastavam.

Esse descanso na floresta, respirando o ar purificado pelas árvores e em comunhão com os animais, tinha uma finalidade. Não tinha mais a Assinatura e ia enfrentar o poder de Shammat.

Mas agora não sabia como encontrar o transmissor. A sensação de sua presença parecia emanar de todos os lados. Acima de minha cabeça, estendendo-se para o céu mais azul que já vi, estava o pico de onde tinha avistado a clareira com a coluna reluzente. Teria de subir novamente até lá? Não me animava a fazer a cansativa escalada, o que era um indício de que estava muito afetado. Deitei para descansar sob uma grande árvore carregada de flores brancas com perfume revigorante. Quando acordei, uma criatura peluda estava inclinada sobre mim. Tinha o tamanho de um Nativo, mas muito mais pêlo, e compreendi imediatamente que era um descendente de um Nativo que há muito tempo se tinha perdido dos outros e não se desenvolvera como eles. Não se mostrava hostil, mas curioso, e parecia sorrir. Os olhos castanhos inquietos pareciam ter alguma expressão inteligente. Trouxe-me frutas e comemos juntos, e depois de algum tempo conseguimos nos comunicar. Usava uma espécie de linguagem, muito mais do que grunhidos e latidos. Alguns dos seus gestos e expressões faciais eram idênticos aos dos Nativos, e por meio de sons, combinados com caretas e sinais, eu disse que estava procurando uma coisa que devia estar nas Grandes Montanhas e que não pertencia à paisagem. Pareceu compreender e, quando expliquei que era uma coisa malévola, perigosa, demonstrou medo, mas dominou-o com rapidez e solicitamente me ajudou a me levantar — pois, para ele, o fato de ser maior e mais forte era motivo para me proteger e me ajudar sempre — e começamos a caminhar juntos.

Eu estava mais longe da coisa do que tinha imaginado. Subimos e subimos. Chegamos à linha nevada de alguns picos, e começamos então a descer, deixando a neve para trás. Eu sentia frio, mas ele não, protegido por todo aquele pêlo. Ele parecia preocupado, construía pequenos abrigos com galhos de árvores e à noite deitava-se junto a mim, aquecendo-me. E trazia-me frutas e nozes, e folhas, mas percebeu que eu não podia comer estas últimas, e fizemos pequenos banquetes durante a jornada.

Mas eu me sentia mortalmente doente e imaginava se seria capaz de terminar minha tarefa. Ele também começava a sentir-se mal e tremia. Não queria que eu continuasse. Mas expliquei que precisava fazer isso e que ele devia me esperar. Continuou comigo por mais algum tempo. Então, ficou apavorado e parecia querer se esconder entre as árvores, que agora eram partidas e maltratadas. Pedras tinham sido atiradas a esmo, árvores cortadas e deixadas ali para morrer, e, acima de tudo, havia aquele cheiro horrível. Continuamos, tropeçando nos ossos de animais e entre as carcaças semi-apodrecidas e pássaros mortos. E toda essa matança e destruição apenas pelo gosto de matar e destruir! Oh, sim, era Shammat, sem dúvida!

Afinal, ordenei ao meu amigo que ficasse onde estava e esperasse por mim. Ele não gostou e estendeu as mãos peludas para mim, para me segurar, mas voltei-me para não vê-lo, para não me sentir tentado a ficar e continuei o meu caminho.

Logo cheguei a uma crista alta. Lá embaixo estendia-se um vale, e ao redor dele os grandes picos brilhavam e treme-luziam com a brancura da neve. A sensação da presença de Shammat era muito intensa agora.

Tudo no vale estava quebrado e destruído. Eu sabia que era o mesmo vale que tinha visto de cima, mas a coluna não estava em parte alguma. Mas estava ali, podia senti-la. Ondas de força e pulsações de Shammat chegavam até mim e me faziam cambalear, mas segurei em uma pequena árvore meio cortada na base que estava deitada no solo, o tronco quase da minha altura, servindo de apoio. Olhei e olhei, mas nem sinal da coluna que eu sabia estar lá. O centro do vale, onde eu a tinha visto da primeira vez, não estava a mais de 200 passos. E as pulsações continuavam me atingindo, regulares, mortais. Enviei meu pensamento a Canopus, pedindo auxílio. Socorro, socorro, socorro, gritei silenciosamente, é o pior perigo que já enfrentei, perigo muito poderoso para minhas forças — conservei meus pensamentos firmes, como uma ponte, e logo senti uma centelha de ajuda. E, à medida que ficava mais forte, comecei a vê-la — de relance apenas — mas era a coluna. Havia um jato de água, ou uma fonte estreita, às vezes visível, outras não, mas que logo reaparecia. Era como se o próprio ar se tivesse espessado transformando-se em um líquido vaporoso e sutil, uma água cristalina, lançando-se para cima e caindo sobre si mesma. Mas então percebi aquilo de que se tratava e compreendi que a teria reconhecido antes, se a idéia não estivesse tão afastada da minha mente. Eu conhecia essa substância! Reuni toda a força possível e adiantei-me na direção da coluna cintilante que aparecia e desaparecia.

A alguns passos dela, parei, pois não podia me aproximar mais: ela me conservava a distância.

Era uma substância recentemente inventada, ou descoberta em Canopus, o Effluon 3, e por isso não esperava encontrá-la ali. Não, não era possível que Puttiora a conhecesse, pois sua tecnologia estava muito aquém da nossa. E Shammat certamente não podia conhecê-la. Portanto, deviam ter roubado o Effluon 3 de Canopus.

O Effluon 3 tinha a propriedade de absorver e emanar qualidades de acordo com a necessidade — de acordo com o que fosse programado. Era o mais sensível e ao mesmo tempo o mais poderoso condutor, não precisando de mecanismos para funcionar, pois era criada pelo uso da concentração mental. O que Puttiora ou Shammat tinham roubado de nós não era um objeto, mas uma habilidade. Era demais para mim tentar descobrir o mistério naquele momento, pois sentia que estava a ponto de perder os sentidos, e, além disso, havia uma questão mais urgente. O Effluon 3, ao contrário dos Effluons 1 e 2, não durava muito: era apenas um amplificador de energia.

Do alto da montanha eu tinha visto uma coluna de metal, uma coisa forte e durável, porque esperava algo nesse gênero. Mas, na realidade, era um objeto que, por sua própria natureza, logo não estaria mais ali. Contudo, era pouco provável que Shammat se tivesse dado a todo esse trabalho — provocando represálias de Canopus, de Sirius (e, possivelmente, até mesmo de Puttiora, se isso era, como parecia, um ato de desafio) — para uma vantagem de curta duração.

Mas eu não podia estar enganado. Um companheiro de Canopus tinha inventado esse processo e eu vira essas colunas de ar evanescente nos diversos estágios do seu desenvolvimento. Só podia ser o Effluon 3 — e não permaneceria ali por mais de um ano.

Percebi que estava ajoelhado, balançando o corpo a poucos passos daquela coisa horrível — que, naturalmente, seria uma fonte de força e de saúde em outros lugares e em outros tempos — mas minha mente obscurecia-se cada vez mais, envolta em ondas de névoa cinzenta e um zumbido doloroso instalou-se no meu cérebro e podia sentir o sangue que saía de meus ouvidos correr pelo pescoço. Os picos nevados, as colinas suaves do vale ensolarado, as árvores partidas e derrubadas, o jato semivisível da substância cintilante, tudo parecia dançar levemente e de súbito desapareceu e mergulhei em coma profundo.

Não fiquei ali por muito tempo e teria morrido se não fosse por meu novo amigo que estava observando de uma elevação próxima, agarrado a uma árvore, temendo por sua sanidade, porque sua mente, como a minha, estava perigosamente afetada. Ele me viu cambalear, ajoelhar-me e afinal cair de bruços no chão. Arrastou-se em minha direção, reunindo todas as suas forças até alcançar meus tornozelos. Virou meu corpo para que os galhos de solo não cortassem meu rosto e puxou-me para longe daquele lugar. E então me carregou. Quando voltei a mim, no outro lado da pequena colina, ele estava inconsciente. Era a minha vez de ajudar; massageei as mãos peludas e os ombros, com toda a força que me restava, mas era uma criatura tão grande que parecia impossível trazê-lo de volta à vida com esse expediente apenas. Mas surtiu efeito. Quando voltou a si e verificamos que ambos podíamos caminhar, apoiando-nos mutuamente subimos a montanha, afastando-nos das emanações. Ele tinha uma caverna abrigada, forrada com folhas secas e um armazenamento de frutas e nozes. Conhecia o fogo e logo estávamos aquecidos e revigorados.

Mas, enquanto estive inconsciente, tive um sonho, ou uma visão, e agora sabia o segredo da coluna de Shammat. Vi a antiga Rohanda, bela e cintilante, emitindo suas harmonias, como se estivesse na Sala dos Planetas em Escala. Entre Rohanda e Canopus distinguia-se o cordão prateado do nosso amor. Mas uma sombra caiu sobre ele, a sombra de um rosto hediondo, pálido e desfigurado, com olhos fixos de um verde acinzentado. Mãos que pareciam bocas estendiam-se para agarrar e ao seu toque o planeta estremeceu e o som mudou. As mãos arrancavam pedaços do planeta e os levavam à boca, que os mastigava e sorvia sem nunca ficar satisfeita. Então essa figura devoradora transformou-se no jato semivisível do transmissor, que retirou todo o bem e toda a força do planeta e depois dissolveu-se. No meu sonho, inclinei-me ansioso para saber o que tudo isso significava... vi que os habitantes de Shikasta tinham mudado, transformados em seres da mesma natureza da coluna voraz: Shammat tinha-se fixado na própria natureza da raça shikastiana e, agora, o povo era o transmissor que alimentava Shammat.

Esse foi o meu sonho e agora compreendia por que Shammat precisava do transmissor apenas por algum tempo.

Fiquei com o meu amigo por alguns dias, recobrando minhas forças. Compreendia agora boa parte do que ele sabia e que tentava me comunicar. Trêmulo e temeroso, contou que uma Coisa imensa viera do céu e instalara-se nas colinas do vale, e então tinham vindo as criaturas horríveis — não podia falar delas sem tremer e esconder o rosto, como se procurasse não ver a memória — e mataram tudo, destruíram tudo. Fizeram fogueiras e deixaram que se expandissem sem controle nas encostas dos montes, destruindo e matando. Matavam por prazer. Apanharam e torturaram animais... A pobre criatura, sentada ao meu lado, choramingou um pouco e as lágrimas escorreram pelo rosto peludo, enquanto fitava o fogo da nossa pequena fogueira, lembrando-se.

E quantos eram?

Ergueu as mãos uma, duas, três vezes, desajeitadamente, pois este não era seu processo de raciocínio. Trinta ao todo.

Quanto tempo tinham demorado?

Oh, muito, muito tempo — mas ele levou as mãos, ou patas, aos olhos e começou a balançar o corpo dando gemidos de dor. Sim, ele tinha sido apanhado por eles, colocado em uma jaula de madeira, e eles o espicaçavam com varas e riam... levantou o pêlo do lado do corpo e mostrou-me as cicatrizes. Mas tinha escapado e retirado das jaulas muitos outros animais e fugiram — todos os animais, os pássaros tinham fugido para longe e, como eu podia notar, não voltaram. Não existia nem uma criatura das florestas naquele vale agora. Ele tinha voltado em uma noite escura e, sem fazer o menor ruído, subiu ao topo da colina e olhou em volta — e não viu nada, mas as emanações da coluna chegavam até ele e assim soube que ainda havia algumas coisa no vale... não sabia o que era, pois não viu nada, apenas sentiu.

E a Coisa enorme na qual esses seres tinham chegado? Ele a tinha visto, ou tocado?

Não, estava muito apavorado para chegar perto. Mas nunca tinha visto nada igual, não imaginava que tal coisa podia existir. Era redonda — ele fez o gesto com os dois braços. Era enorme — estendeu as mãos indicando todo o interior da caverna. E era — ele choramingou e balançou o corpo — horrível.

Não consegui saber mais do que isso.

Mas não precisava.

Eu disse que precisava viajar para muito longe. Ele não entendeu o que queria dizer "muito longe" e disse que ia comigo, mas, à medida que os dias passavam, ficava cada vez mais silencioso e apreensivo, pois estava muito afastado da parte das montanhas que conhecia. Eu podia ver que se sentia solitário. Mas talvez não soubesse disso? Teria havido outros iguais a ele? Sim, tinha havido! Muitos? Mais uma vez ergueu as mãos uma, duas, três, muitas vezes... Eram muitos e tinham morrido, talvez em uma epidemia, e agora só restava ele. Se havia outros nas montanhas, ele não sabia. Caminhava com seu passo balanceado e subimos e descemos montanhas, subindo e descendo outra vez, e afinal as deixamos para trás e continuamos a descer, deixando a neve para trás e atravessamos florestas maravilhosas, ainda virgens, e, mais para baixo, através das regiões cobertas de flores — e ali à nossa frente estavam agora as selvas do Sul, e além delas, mas muito distante, o mar. Ele conhecia o mar? Mas não compreendeu minhas explicações.

O que eu tinha a fazer era chegar aos acampamentos dos Nativos que tinham escapado da Cidade Redonda, onde encontraria Sais e seu pai. Tentei convencer o pobre animal a ir comigo, pois acreditava que os Nativos o tratariam bem. Pelo menos Sais. Mas, quando chegamos ao sopé das montanhas, onde começava a selva, ele se tornou silencioso e triste, desviando o rosto do meu constantemente, como se eu estivesse me afastando dele, e então correu para o meu lado, segurou-me o braço e a mão com força. Lágrimas corriam dos olhos castanhos bondosos e desapareciam no pêlo do rosto, para reaparecer como uma umidade brilhante sobre o peito. Gemeu, uivou de dor e correu desajeitadamente para trás, caindo e se levantando até alcançar a proteção da floresta. Parou, recortado contra as montanhas lá atrás, e gritou um adeus que era mais uma súplica: volte, volte! Então, correu na minha direção, mas voltou novamente. Eu acenei até a enorme figura se transformar em um pequeno ponto, tão pequeno que era difícil acreditar que na realidade era tão grande. Mas precisava continuar meu caminho. E deixei-o com sua solidão.

Quando cheguei ao acampamento um ano e meio tinha-se passado. Estava preocupado com Sais e David, mas não havia notícias deles. Era como se tivessem sido esquecidos. Construí um abrigo de terra e galhos de árvores e esperei. Nesse tempo tentei ensinar aos Nativos que pareciam mais inteligentes tudo o que foi possível sobre Canopus e como deviam viver para limitar o poder de Shammat. Mas não compreendiam.

Entretanto, estavam preparados para aprender tudo o que eu podia ensinar no campo das artes práticas, que começavam a esquecer. E eu os ensinei — ou reensinei — a plantar e cuidar das plantações. Ensinei-os a domar uma criatura parecida com uma cabra, que lhes podia dar leite, e a fazer manteiga e queijo. Ensinei-os a escolher as plantas para retirar as fibras e a tecê-las e tingi-las. Mostrei-lhes o processo de fazer tijolos. Estava ensinando tudo isso a criaturas que tinham esquecido em poucos meses. Às vezes era difícil acreditar que não estavam se divertindo à minha custa, enquanto observavam meu trabalho e quando seus rostos se iluminavam de surpresa ao ver o queijo, os utensílios de cerâmica, a maciez das peles tratadas.

Dois anos depois de nos termos separado, Sais e David chegaram. Assim que entraram no acampamento percebi que tinham atravessado um período difícil. Pareciam desconfiados e cautelosos, prontos para se defender — o que quase tiveram de fazer, pois seus amigos, até mesmo sua família, haviam se esquecido deles. Estavam mais magros e queimados de sol. A moça tinha crescido durante a jornada, mas era ainda bem mais baixa do que o pai, mais baixa do que a média dos Nativos, e eu percebi que começava a se processar uma redução na altura deles.

Tinham conseguido chegar à maioria dos acampamentos. Tinham andado a pé, cavalgado, usado canoas e botes. Não ficavam em um lugar mais de um dia. Fizeram exatamente o que eu mandara — falaram de Canopus, observaram o efeito, e só usaram a Assinatura quando foi realmente necessário.

De dois lugares foram expulsos e ameaçados de morte se voltassem.

Falaram dos mortos que tinham visto nos acampamentos. Não demonstraram medo ou mágoa: assim como a morte da mãe de Sais a tinha deixado mais intrigada do que sentida, as evidências da proximidade da morte, como um corpo insepulto na floresta, ou um grupo de pessoas carregando um cadáver em uma liteira, agiam como excitantes do seu poder de raciocínio. Minhas tentativas para que compreendessem o conceito da morte, ligando-o à Assinatura, não surtiram efeito. Não podiam acreditar na própria morte, porque seus corpos robustos sabiam que tinham centenas de anos para viver, e seus corpos dominavam os tênues pensamentos das mentes enfraquecidas. Disseram, como se estivessem falando de um fato extraordinário, que eu não podia realmente acreditar que os corpos que tinham visto eram resultado de brigas: sim, as pessoas matam-se umas às outras! Tinham matado! Não havia dúvida!

Em muitos acampamentos tornara-se prática comum, para a maioria pelo menos, especialmente os Nativos mais velhos que tinham dificuldade em se ajustar às novas condições, organizarem excursões até as pedras, e sujeitarem-se às sensações, a princípio terríveis, e depois atraentes, ou pelo menos compulsivas.

Mas a repetição das minhas ordens produziu algum efeito. Em quase todos os acampamentos o povo tinha memorizado as palavras levadas por aqueles dois estranhos, e as repetiam constantemente para si mesmos e para os outros: Canopus diz que não devemos ter escravos, Canopus diz... Canopus ordena...

Sim, repetiam milhares de vezes em centenas de lugares diferentes, disse Sais, ou cantavam, pois as palavras tinham sido transformadas em canção:

 

Canopus diz que não devemos desperdiçar ou estragar,

 Canopus ordena que não usemos de violência

 

e eles ouviram essas palavras murmuradas ou cantadas quando se afastavam.

Sais tinha crescido em todos os sentidos. Seu pai continuava a ser o mesmo homem amável e alegre, que não conseguia guardar nada na cabeça, mas que tinha protegido a filha durante toda a viagem, porque "Canopus assim desejava". Sem sequer se aproximar da agilidade e desenvolvimento mental de "antes da Catástrofe" — como diziam as canções e as histórias —, Sais estava com a mente mais clara, mais firme, mais capaz de aprender e de guardar, isso porque havia levado a Assinatura com ela e a tinha protegido. Era uma moça corajosa — o que eu já sabia antes de enviá-la para aquela missão — e era forte. Agora podíamos sentar e conversar, uma conversa real, um intercâmbio, porque ela já era capaz de ouvir. Era um processo ainda lento, pois seu cérebro faminto desligava-se constantemente, os olhos ficavam vazios e então, sacudindo o corpo todo, ela se obrigava a continuar escutando, compreendendo. '

Certo dia ela devolveu a Assinatura, embora eu não tivesse pedido. Parecia satisfeita consigo mesma por tê-la protegido e separava-se dela com dificuldade. Aceitei, a título temporário, embora Sais não soubesse disso, e expliquei que a parte mais importante do que ela devia aprender e fazer estava apenas começando. Pois muito em breve eu teria de deixar Shikasta e voltar para Canopus, e ela permaneceria no planeta como guardiã da verdade sobre Shikasta, verdade que ela devia aprender, guardar na memória e compartilhar com todos os que a pudessem ouvir.

Ela chorou. David também. E eu gostaria de poder chorar com eles. Essas infelizes criaturas tinham um longo período de provação pela frente, um caminho de incertezas, obstáculos e perigos — mas não eram capazes de compreender isso ainda.

Esperei que se recobrassem completamente da longa viagem e então nós três nos reunimos entre duas cabanas onde ardia o fogo central e coloquei a Assinatura no chão, e ensinei-os a ouvir instruções. Depois de alguns dias desse exercício, enquanto alguns nos tinham visto, e paravam para ouvir, um pouco afastados, mas demonstrando algum interesse, pedi que todos do acampamento que não estivessem caçando ou montando guarda, ou de qualquer modo providenciando a manutenção da tribo — pois agora não passavam de uma tribo —, viessem nos fazer companhia, todos os dias, por uma hora ou duas. Precisavam aprender a ouvir outra vez, a compreender que esse era o modo de obter informação. Pois haviam se esquecido completamente. Não tinham nenhuma lembrança das coisas que os Gigantes lhes haviam ensinado, compreendiam somente o que viam, como quando escovei uma pele com pedra, para amaciá-la, ou bati o leite para fazer manteiga. À noite, porém, eles ouviam David, que falava dos "velhos tempos" em suas canções e cantavam com ele...

E logo, todos os dias, quando o sol se punha, logo depois da refeição da noite, eu falava e eles ouviam; chegavam mesmo a demonstrar que entendiam, usando palavras do passado, em uma fugitiva abertura da memória — e então desviavam os olhos e se desligavam. Subitamente não estavam mais ali. Como posso descrever? Para os canopianos, só com muita dificuldade.

O que eu disse àqueles shikastianos foi o seguinte: Antes da Catástrofe, no tempo dos Gigantes, que tinham sido seus amigos e mentores, e que lhes haviam ensinado tudo o que sabiam, Shikasta era um mundo agradável e alegre, onde era raro o perigo e a ameaça. Canopus alimentava Shikasta com um ar rico e vigoroso que mantinha todos saudáveis e seguros, e, acima de tudo, fazia com que todos se amassem. Mas, por causa de um acidente, essa substância da vida não podia mais chegar até o planeta como antes, tendo sido reduzida a quantidades mínimas. O suprimento desse ar tinha um nome. Chamava-se sowf — substância do sentimento de comunhão — naturalmente eu despendera tempo e esforço para inventar uma única sílaba que fosse facilmente memorizada. O pequeno jato de sowf que chegava até o planeta era a coisa mais preciosa que possuíam, e evitaria que voltassem ao nível dos animais. Disse que havia um abismo entre eles e os outros animais de Shikasta, e o que os fazia superiores era seu conhecimento do sowf. O sowf os protegeria e preservaria. Deviam reverenciar o sowf.


Pois poderiam desperdiçá-lo, gastá-lo, usá-lo erroneamente. Por isso jamais deviam se perverter nas ruínas das velhas' cidades ou dançar entre as pedras. Por isso não deviam permitir jamais, sempre que chegassem perto de alguma fonte de intoxicação, deixarem-se intoxicar. Mas um pequeno jato dessa substância vinha de Canopus para Shikasta e continuaria a vir, sempre. Era uma promessa de Canopus a Shikasta. No tempo devido — não disse milhares e milhares de anos! — esse pequeno jato se transformaria em uma torrente. E seus descendentes poderiam banhar-se nela, como se banhavam agora nos rios cristalinos. Mas não haveria descendentes se não tomassem cuidado para se preservar. Se eles, que estavam ali sentados à minha frente, escutando essas preciosas revelações, não se protegessem, ficariam piores do que animais. Não se deviam prejudicar usando excessivamente a substância de Shikasta. Não deviam usar seus semelhantes. Não se deviam transformar em animais que vivem só para comer e dormir — não, uma parte de suas vidas devia ser reservada para a lembrança de Canopus, a lembrança da substância do sentimento de comunhão, que era tudo o que possuíam.

E havia mais, e pior. Havia inimigos em Shikasta, povos malvados, inimigos de Canopus, que estavam roubando o sowf. Esses inimigos escravizavam os shikastianos sempre que podiam. E o método que usavam era o de encorajar as qualidades que Canopus detestava. Tinham prazer em ferir os outros, em usar os outros — tinham prazer em qualquer manifestação da ausência da substância do sentimento de comunhão. Para vencer seus inimigos, os shikastianos deviam amar uns aos outros, ajudarem-se mutuamente, considerarem-se todos iguais e nunca tomarem os bens ou a substância dos outros... Foi o que eu disse a eles, dia após dia, enquanto a Assinatura cintilava com a luz do céu noturno e das chamas que dançavam na fogueira.

Sais era minha assistente devotada. Usando certas faculdades que pareciam reviver em sua mente, escolheu os indivíduos mais promissores e repetia para eles essas instruções, repetia sem cessar. Falava e cantava, e David fazia novas canções e novas histórias.

Quando um número suficiente de pessoas desse acampamento estivesse seguro do conhecimento do que dizíamos, devia viajar por toda Shikasta repetindo o que havia aprendido. Era preciso que todos ouvissem essas palavras, e, acima de tudo, que se lembrassem delas.

E, então, estava na hora da minha partida para a Zona Seis. Coloquei a Assinatura nas mãos de Sais, na frente de todos, e disse que ela era a guardiã do documento precioso.

Não disse que era o meio de conservar o fluxo de sowf de Canopus para Shikasta, mas sabia que eles logo acreditariam nisso. E precisava deixar alguma coisa para dar forças a Sais.

Então disse que ia voltar a Canopus e que algum dia os veria de novo.

Deixei a tribo de manhã bem cedo, quando o sol começava a se erguer no horizonte da clareira. Ouvi os pássaros conversando no topo das árvores antigas e estendi meus dedos para uma cabra que era um animal de estimação e que foi atrás de mim. Mandei-a de volta e dirigi-me para a parte do rio mais larga e profunda e onde a água tinha força suficiente para me carregar para bem longe do acampamento, onde ninguém encontraria o meu corpo. Entrei na água e nadei com a corrente.

 

Volto agora à visita dos Últimos Dias.

Taufiq devia nascer entre a raça minoritária do planeta, os povos de pele branca e pálida, nativos das áreas da Norte. A cidade que escolheu não ficava na região das Cidades Matemáticas do Grande Tempo, embora muitas das novas cidades tivessem sido construídas nesses locais — não é preciso dizer que sem a mínima idéia de suas potencialidades. A zona não era das melhores. As terras baixas tinham sido pantanosas até pouco tempo atrás, quando o clima era úmido. O solo era ainda lamacento e com pouca energia. Nada, no local, funcionava como condutor das altas forças, embora tivesse sido sincronizado e usado, temporariamente é verdade, por nós para certos fins e em determinadas condições. Era a cidade principal de uma pequena ilha que, por suas qualidades belicosas e aquisitivas, dominara uma boa parte do globo mas esse domínio sofria agora um retrocesso.

Taufiq era John, nome que usava com freqüência em suas missões — Jan, Jon, John, Sean, Yahya, Khan, Ivan e assim por diante. Era John Brent-Oxford. Tinha escolhido pais da classe média; essa escolha era um fator importante, objeto de julgamento cauteloso, uma vez que a sociedade dividia-se absurdamente em classes e castas, separadas por desconfiança mútua.

A missão de Taufiq exigia que fosse uma pessoa com grande conhecimento das regras segundo as quais os indivíduos ou partes da sociedade, constantemente envolvidos em guerras e discussões, controlavam a si mesmos e os outros. E ele havia conseguido. Sua juventude foi inteligentemente aproveitada, adquiriu os conhecimentos necessários e, com pouca idade, já era uma pessoa de importância. Assim como nas altas esferas os jovens promissores são observados por pessoas de cuja existência não têm a menor idéia, embora possam imaginar ou adivinhar, nas baixas esferas de atividades, várias são as possibilidades preparadas para aqueles que provam sua capacidade, e John, desde a infância, tinha sido observado por "pessoas de influência", como dizem os shikastianos. Mas as "influências" não eram de modo nenhum iguais!

Nessa era corrupta e terrível, o jovem não podia evitar as pressões que procuravam afastá-lo do caminho do dever, e muito cedo — não tinha mais de 25 anos — sucumbiu. Sabia que estava fazendo algo errado. Os jovens às vezes têm momentos de clareza mental, que se tornam mais raros à medida que envelhecem. Em alguma parte do seu ser conservara o conhecimento de que era "destinado" a realizar alguma coisa. Sentia que era algo puro e imaculado mas — com mais freqüência e mais profundamente à medida que crescia — "impraticável". A prova de que não sabia exatamente o que estava fazendo está na sua tendência para sorrir como quem se desculpa, em certos momentos, dizendo que "não tinha sido capaz de resistir à tentação". Contudo, essas palavras nada tinham que ver com os costumes reconhecidos da sua sociedade, e por isso tinha de rir. O riso prestava homenagem a esses costumes e hábitos. Ele estava sendo ridículo, dizia sua risada... mas sempre se sentia constrangido com o que fazia, com as resoluções que tomava.

Precisava estar em um determinado lugar, em um tempo determinado para desempenhar um papel que era essencial para o nosso manejo da crise que Shikasta enfrentava. Devia procurar uma posição — não apenas no sistema legal do seu país — mas uma posição de liderança em um dos sistemas dos países do Norte que unificavam, ou tentavam unificar, aquela parte do hemisfério norte, que recentemente havia conquistado e espoliado uma boa parte do planeta e que, ultimamente, estava sempre em guerra. Ele tinha de se tornar uma pessoa honesta e digna de confiança nessa esfera. Naquela época de corrupção pessoal e pública, devia ser conhecido como incorruptível, indomável, desinteressado, franco.

Mas acabava de deixar o último estabelecimento cultural, uma escola de elite que preparava a classe administrativa, quando se desviou do caminho certo. Em vez de ocupar uma posição secundária nos Conselhos do referido bloco dos países do Norte, como tinha sido planejado por nós (e por ele, naturalmente, como Taufiq), empregou-se em uma firma de advocacia conhecida pelo número dos seus membros que se dedicavam à política.

A Segunda Guerra Mundial terminara recentemente — terminologia de Shikasta. [Ver História de Shikasta, vols. 2955-3015, O Século da Destruição.] John tinha tomado parte na guerra, vira muita ferocidade, espoliação, sofrimento. Seus julgamentos e todo o seu ser foram terrivelmente afetados — como o de todas as pessoas viventes. Passou a desempenhar um papel importante — exatamente como devia — mas uma das mais falsas idéias da época, a política, penetrara em sua mente. Não desejava apenas o poder, a autoridade pura e simples, não, via-se como alguém capaz de "influenciar as coisas para melhor". Era um idealista, uma palavra que define as pessoas que atribuem a si mesmas a qualidade de desejar o bem dos outros e não o próprio interesse.

E registro aqui, como um parêntese, que se podia dizer isso de muitos dos nossos bons cidadãos — para usar o termo shikastiano — daquele tempo. Escolhiam o caminho errado e destrutivo, acreditando que eram melhores do que os outros cuja crença no próprio interesse era declarada abertamente, porque eles, e somente eles, sabiam como deviam ser conduzidos os negócios práticos do planeta. Uma reação emocional aos sofrimentos de Shikasta era considerada por eles qualificação suficiente para curar todos esses sofrimentos.

As atitudes descritas neste parágrafo definem a "política", os "partidos políticos", "os programas políticos". A maioria dos políticos eram incapazes de pensar em termos de interação, de intercâmbio de influências entre os vários "partidos" e seitas formando um todo, e muito menos em termos de nações como um todo. Não, penetrar no pensamento político era penetrar em um ambiente de parcialidade deformante, uma condição de cegueira provocada pela aceitação de um único ponto de vista, o único "certo". E, quando um desses partidos ou seitas conquistava o poder, agia quase sempre como se só seu ponto de vista fosse possível e verdadeiro. O único bom. Quando John escolheu um partido foi motivado pelas idéias mais elevadas. Considerava-se um salvador, sonhava ser o líder de uma nação. A partir do momento em que se aliou ao grupo de advogados conheceu poucas pessoas que pensavam de modo diferente. Em várias ocasiões os nossos agentes tentaram influenciá-lo, fazer com que se lembrasse, indiretamente é claro, mas sem resultado. O modo de pensar e de ser que Taufiq levara consigo até as fronteiras de Shikasta estava agora tão profundamente recalcado que raramente vinha à tona, em sonhos, ou em momentos de remorso e de pânico, cuja verdadeira causa não podia reconhecer.

Tinha-se desligado temporariamente. Se acontecesse — e essa era a opinião de Canopus —, por algum processo no momento não-evidente, de Taufiq voltar a si — frases como essa eram comuns em Shikasta — pois muitas vezes pessoas praticamente perdidas para nós, pelo menos temporariamente, "voltavam a si", "viam a luz", e assim por diante, geralmente em virtude de um choque ou trauma, só então nos ocuparíamos dele novamente. Estávamos tão sobrecarregados, tão dispersos, e a situação do planeta era realmente desesperadora.

Uma das minhas tarefas era observá-lo, avaliar seu estado presente e, se possível, administrar o processo de lembrança.

Taufiq estava com 50 e poucos anos, isto é, tinha passado a metade do tempo de vida dos shikastianos. Estava, porém, destinado a viver mais do que a maioria; sua missão final determinava que tivesse cerca de 75 anos quando passasse a representar os idosos. Um representante respeitado, embora naquele momento fosse difícil imaginar como isso poderia ser feito.

John morava em um bairro rico da cidade e sem dúvida descreveria o próprio modo de vida como moderado, pois não contrastava demais com o que era comum naquela área geográfica, mas, de acordo com o julgamento que seria universal muito em breve — segundo os padrões globais —, era uma vida vergonhosa, perdulária e libertina. Tinha duas famílias. A primeira mulher e os quatro filhos moravam em outra parte da cidade. Com a segunda tinha dois filhos. As crianças eram cheias de vontades, mimadas e despreparadas para o que o futuro lhes reservava. As duas mulheres tinham procurado apoiá-lo e às suas ambições. Ambas tinham por ele os sentimentos característicos de quem o conhecia intimamente. John sempre provocava nos outros extremos de aprovação ou desaprovação. Influenciava as pessoas. Mudava as suas vidas — para melhor ou para pior. Uma força interna poderosa (algo extremamente valioso, mas que tinha sido deturpado) fazia com que sua vida parecesse uma floresta devastada pelo fogo — o que também não era raro naquela época; tudo levado ao extremo; terra enegrecida, animais e vegetação destruídos, e então brotos novos e verdejantes surgindo, uma mudança nos padrões genéticos, potenciais de toda espécie.

Sua aparência era comum: cabelos escuros, olhos escuros, nos quais até mesmo agora eu imaginava ver os traços daqueles longínquos ancestrais, os Gigantes. A pele clara, provavelmente herdada dos mutantes genéticos dos Gigantes. Seu corpo forte e repleto de energia fazia-me lembrar os Nativos. Mas, naturalmente, agora a mistura era muito variada, graças às experiências de Sirius, dos espiões de Shammat e outros.

Como todos os que se dedicavam à vida pública naquele período, tinha duas personalidades: a pública e a privada. Isso porque não devia, como político, dizer verdades às pessoas que representava. Eram essenciais alguns traços de personalidade: força de persuasão, energia, encanto pessoal. E era necessário fazer uso de métodos que em outros tempos, em outros planetas, em outros lugares, seriam considerados falsidade, mentira, até mesmo crime. As qualidades admiradas nos "servidores públicos" de Shikasta eram quase invariavelmente as mais superficiais e irrelevantes que se podem imaginar, e só poderiam ser aceitas em uma época de falsidade e degradação total. Isso era válido para todas as seitas, grupos e "partidos", pois uma das coisas notáveis dessa época era a semelhança que existia entre eles, enquanto usavam a melhor parte de suas energias denunciando e criticando as diferenças que imaginavam existir.

John, aos 40 anos, era uma figura nacional. Isso porque ocupava certas posições, e não por ter competência acima da média ou por compreender melhor os problemas públicos — de acordo com o ponto de vista local, naturalmente. Era prejudicado pela sua divisão de personalidade. Suas qualidades mais íntimas faziam-no desprezar o que era. Sabia da existência de qualidades muito melhores do que as que punha em uso, mas não sabia quais eram. Esse descontentamento íntimo o levava a beber demais e a crises de auto-recriminação e cepticismo. Não era respeitado por aquilo que realmente importava, e sabia disso. Era apenas mais um entre centenas ou milhares de políticos do globo, de quem nada mais era esperado — certamente não pelo povo que deviam representar. Esse povo trabalhava, lutava, cometia crimes para levar seus representantes ao poder, mas depois disso não se considerava responsável por essa escolha. Pois uma característica talvez ' predominante dos habitantes desse planeta era o fato de as suas mentes imperfeitas lhes permitirem defender ativamente — até mesmo usando a força ou a violência — opiniões e idéias que, pouco tempo depois — anos, um mês, às vezes minutos — repudiavam.

Na época em que localizei John e me coloquei em posição (naturalmente bem disfarçado na Zona Seis) de observar o bastante para chegar a conclusões e influenciá-lo, se possível, ele atravessava um período de grande atividade emocional.

Precisava tomar decisões importantes. Interiormente sabia que enfrentava uma nova crise. A facção política que representava não estava no poder. Desde a Segunda Guerra Mundial (ou, como dizemos, a Segunda Fase Intensiva da Guerra do Século XX) seu partido estivera no poder e fora dele várias vezes, portanto não era isso que o preocupava agora. Sofria certa pressão (indireta, da nossa parte) para voltar ao antigo escritório de advocacia e dedicar-se ativamente à construção de um tipo de reputação com bases mais sólidas entre as pessoas que trabalhavam no mesmo ramo. Se fizesse isso teria tempo ainda para ser designado para algum caso útil. A outra opção era entrar para o Conselho do bloco dos países do Norte. Mas esta era uma posição muito elevada e Taufiq não tinha capacidade para manter-se nela e sabíamos que não era exatamente o lugar certo para ir em defesa das raças brancas quando estivessem ameaçadas de extinção. Taufiq não tinha as qualidades necessárias. Em nossa opinião, se aceitasse esse posto estaria cometendo um erro.

Sua mulher, a segunda, com quem vivia, pensava como nós. Ela previa o que poderia acontecer. Não lhe agradava a idéia de que o marido se tornasse um sectário fanático. A primeira mulher também pensava assim. Na verdade, ambas tinham casado com ele atraídas por seus poderes em potencial, ainda ocultos e não usados e que afinal Taufiq jamais usou. Por isso estavam desapontadas — mas Taufiq não compreendia e as duas sentiam-se frustradas e amarguradas. O segundo casamento estava à beira do fracasso. Por tudo isso John atravessava uma severa crise mental. Seu lar era um torvelinho de emoções e conflitos. [Ver História de Shikasta, vol. 3012, Instabilidade Mental durante o Século da Destruição. Seção 5. Figuras Públicas.] Era o segundo colapso que sofria e tinha estado em tratamento prolongado. Na verdade, a maioria dos políticos daquela época precisava sempre de apoio psiquiátrico por causa da natureza das suas preocupações: uma irrealidade no próprio âmago das suas tomadas de decisão, raciocínio, ação.

Eu o observei por vários dias. Estava em um grande quarto na parte superior de sua casa, um lugar isolado onde trabalhava e onde a família não podia entrar. Por estar sozinho, o desagradável charme do seu eu público não estava em uso. Caminhava de um lado para o outro, o cabelo despen-teado (a disposição exata dos cabelos naquela época era muito importante), os olhos vermelhos e vagos. Estava bebendo há semanas. Enquanto andava, gemia e resmungava, curvava-se, endireitava o corpo, como para aliviar uma dor interna; sentava-se, cruzava os braços sobre o peito, as mãos agarrando os ombros, ou atirava-se sobre a cama e dormia por alguns momentos, acordava e continuava a andar pelo aposento. Tinha resolvido unir-se ao bloco do Norte. Sabia que era um erro, mas ao mesmo tempo não sabia. Seu eu racional, aquele no qual confiava — e na verdade, sua mente era dotada de um raciocínio claro — via apenas as oportunidades para sua ambição... que ele definia como "progresso", "justiça" e assim por diante. Via o bloco do Norte cada vez mais poderoso, desenvolvendo-se com sucesso, para satisfação de todos os interessados. Contudo, o colapso geral da ordem mundial era evidente para todos. Era óbvio também que os problemas não seriam resolvidos pelos políticos partidários da época; algumas minorias, bastante influentes, apresentavam pontos de vista alternativos, e John ou Taufiq sentia-se atraído por eles... contudo estava comprometido com padrões de princípios partidários, e estaria, enquanto fosse político. E não queria a destruição do seu casamento. Também não queria desapontar seus dois filhos, como tinha desapontado os do primeiro casamento — temia sua prole, como as pessoas da época tendiam a temer. Mas falaremos disso mais tarde.

Se ele continuasse como membro do parlamento local, ia sentir-se cada vez mais inútil e frustrado — isso não era nem uma alternativa para ele.

E então, saltando da cama no aposento em desordem, ou deitando-se, ou balançando o corpo, ou andando de lá para cá, visualizava a outra possibilidade: voltar para seu escritório de advocacia e esperar as oportunidades para ser útil de um modo que podia facilmente prever... era extraordinário como esse prospecto parecia atraente... contudo, nada havia nele para alimentar sua ambição... estaria saindo do palco iluminado da política nacional, abandonando os campos mais vastos que se abriam à sua frente. Contudo... contudo... não podia evitar que sua vontade pendesse para o que tinha sido planejado para ele, e por ele, antes de entrar em Shikasta.

Nesse momento fiz minha intervenção.

A noite ia em meio. Tudo estava quieto na rua agradável e protegida. O ruído das máquinas com que eles conviviam tinha parado.

Nem um som na casa. Havia apenas um ponto de luz em um canto do quarto.

Seus olhos voltavam-se constantemente para ele... estava em estado de semitranse, pela fadiga e pelo álcool.

— Taufiq — eu disse —, Taufiq... você se lembra! Tente se lembrar!

Era uma mensagem mental, naturalmente. Ele não se moveu, mas ficou tenso e voltou a si, como se procurasse ouvir alguma coisa. Os olhos estavam alerta. Naqueles olhos negros e fortes, pensativos agora, e em tudo o mais reconheci meu amigo, meu irmão.

— Taufiq — repeti. — O que você está pensando agora é certo. Continue. Aja. Não é muito tarde ainda. Você tomou o caminho errado quando entrou para a política. Não era para você! Não piore as coisas!

Continuou imóvel. Escutava, com cada átomo do seu ser. Afinal, virou a cabeça cautelosamente, e percebi que ele esperava ver alguma coisa, ou alguém nas sombras do quarto. Lembrava-se vagamente de mim. Mas não viu nada, olhou para todos os lados, procurando nos cantos, nos lugares mais escuros. Não estava com medo.

Mas estava chocado. A intervenção das minhas palavras em sua mente, que se debatia em um torvelinho de quase-demência, era demais para ele. Ergueu-se de um salto, atirou-se na cama e adormeceu imediatamente.

Sonhou. Forneci o material para o sonho...

Ele e eu estávamos na sala de projeção do Prédio de Demonstração Planetária, em Canopus.

Víamos cenas de Shikasta, cenas recentes, aqueles milhões e milhões de novos habitantes — pobres selvagens, agora, com escasso tempo de vida, com a substância do sentimento de comunhão tão limitada e compartilhada por tantos, uma cota mínima para cada indivíduo, uma pequena gota de sentimento verdadeiro... ficamos emocionados com o destino dos shikastianos, incapazes de ajudarem a si mesmos, enquanto lutavam, odiavam, roubavam e morriam à míngua. Nós dois tínhamos conhecido Shikasta em outro tempo, Taufiq mais do que eu e mais recentemente. Estávamos juntos na sala de projeção, porque lhe tinham pedido que fizesse essa viagem, desempenhasse essa tarefa.

Ele nem pensava em recusar. Não recusamos esses pedidos. Ou, pelo menos, alguns de nós não recusavam! [Ver História de Canopus, vol. 1.752.357, Desacordo sobre Atuação em Shikasta, antiga Rohanda. Sumário.] Mas era como se estivessem lhe pedindo que se transformasse em um lunático, doido, demente, colocado em uma jaula de selvagens assassinos. Taufiq concordou imediatamente. Assim como eu concordei, logo depois, quando se tornou evidente que ele tinha falhado.

Estava completamente imóvel no sofá. Moveu-se, sonhando, e o reconhecimento quase chegou à superfície, mas voltou à imobilidade, exausto.

Sonhou com uma paisagem nua, montanhas coloridas, um céu brilhante, tudo muito belo e atraente; mas, visto de perto, apenas um imenso deserto. Cidades haviam morrido ali, transformadas em areia venenosa. A fome, a morte, a doença assolavam aquelas planícies. Sob a face da beleza ocultava-se o rosto sombrio da morte; contudo, estava repleta com emoções, desejos e falsa necessidade, emanados da Zona Seis, e que provocavam esse pesadelo. Ele acordou de súbito, gemendo e murmurando, e levantou-se para tomar água. Tomou um copo depois do outro, jogou água no rosto e recomeçou a andar pelo quarto. Estava sóbrio agora, mas muito doente.

Uma decisão precisava ser tomada. E imediatamente, do contrário ele morreria sob tamanha tensão.

Passou o dia todo naquele quarto. A mulher subiu para levar-lhe comida e ele agradeceu, mas tão distraidamente, com tanta frieza que ela resolveu definitivamente divorciar-se dele. Não tocou na comida. Seus olhos estavam sem vida. Fixos no espaço. Violentos. Atirou-se na cama para dormir e levantou-se de um salto novamente. Estava com medo. Tinha medo de me encontrar, o seu amigo, seu alter ego, seu irmão.

Estava sendo aterrorizado por Canopus, quase levado à demência, Canopus que era o seu lar e o mais profundo do seu ser.

Quando afinal adormeceu, porque não tinha forças para se manter acordado, fiz com que sonhasse conosco, com um grupo dos seus amigos, seus verdadeiros companheiros. Sorria enquanto sonhava. E chorou, as lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto, no sonho, andava e falava conosco, consigo mesmo.

E acordou sorrindo, e desceu para dizer à mulher o que tinha decidido. Ia aceitar essa nova posição, o novo emprego importante. Falou, usando toda a falsa afabilidade do seu eu público.

Mas eu sabia que o material fundido em sua mente durante o sonho permaneceria com ele e o faria mudar. Eu sabia — podia prever com exatidão, pois no meu íntimo havia um quadro nítido — que mais tarde, nos tempos terríveis que nos aguardavam, eu, um jovem, o confrontaria e lhe diria as palavras certas e funcionais. E ele se lembraria. Um inimigo — pois era isso o que ele seria por algum tempo — se transformaria em amigo novamente, voltaria a si.

 

História de Shikasta, vol. 3012, O Século da Destruição.

Extraído do Sumário

 

Durante os dois últimos séculos, as faixas estreitas a noroeste da principal massa de terra de Shikasta, com superioridade técnica sobre o resto do globo, conquistou fisicamente ou dominou, por outros meios, grande número de culturas e civilizações. O povo da faixa noroeste caracterizava-se por uma peculiar insensibilidade aos méritos das outras culturas, uma insensibilidade sem paralelo na história. Uma infeliz combinação de circunstâncias foi responsável por isso. (1) Esses povos recentemente haviam emergido do barbarismo. (2) As classes superiores desfrutavam grandes riquezas, mas nunca desenvolveram qualquer grau de responsabilidade pelas classes inferiores, portanto toda a área, embora desmedidamente mais rica do que a maior parte do globo, distinguia-se por contrastes de extrema riqueza e extrema pobreza. Não era assim durante o breve período entre as Fases II e III da Guerra do Século XX. [Ver vol. 3009, Economias da Riqueza.] (3) A religião local era materialista. Isso também se devia a uma infeliz combinação de circunstâncias: uma geográfica, outra, o fato de ter sido um instrumento das classes privilegiadas durante a maior parte da sua história, e outra ainda, por ter conservado em menor quantidade do que a maioria a religião ensinada por seu fundador. [Ver vols. 998 e 2041, Religião como Instrumento Controlador de Castas.] Por esses e outros motivos, os praticantes dessa religião pouco fizeram para mitigar a crueldade, a ignorância, a estupidez dos habitantes das faixas do Noroeste. Ao contrário, eram os piores criminosos. E assim, durante mais ou menos dois séculos, uma das características dominantes do cenário shikastiano foi o domínio da raça branca minoritária, arrogante e vaidosa, sobre a maior parte do planeta habitada por outras raças, culturas e religiões que, no conjunto, eram superiores às da raça dominante. Esses brancos do Noroeste agiam como a maioria dos conquistadores da história, destruindo o que conquistavam, mas eram mais hábeis na capacidade de persuadir a si próprios de que tudo o que faziam era "para o bem" dos povos conquistados. Por essa parte é que a religião acima mencionada deve ser considerada responsável.

A Primeira Guerra Mundial — para usar a terminologia shikastiana (para nós, a Primeira Fase Intensiva da Guerra do Século XX) — começou com uma disputa entre os povos do Noroeste sobre despojos de conquista. Distinguiu-se por uma selvageria jamais igualada pelos bárbaros mais cruéis. E por extrema estupidez. O desperdício de vidas humanas e dos produtos da terra foi, para os observadores, simplesmente incrível, mesmo julgados pelos padrões shikastianos. Caracterizou-se também pela incapacidade total das populações para compreender o que estava acontecendo. A propaganda em grande escala foi tentada pela primeira vez, com métodos de doutrinação baseados em novas tecnologias, e teve sucesso. Para os infelizes que tiveram de dar a vida e as propriedades — ou, na melhor das hipóteses, a saúde — para essa guerra, as explicações não tinham relação alguma com os fatos reais; e embora não seja raro o fato de um grupo local ou uma cultura empenhado em uma guerra aceitar idéias que favorecem seus interesses, nunca na história de Shikasta, ou de outro planeta qualquer — exceto dos planetas do grupo de Puttiora — a mentira foi usada em tão grande escala. Essa guerra durou cinco anos do tempo de Shikasta. Terminou com uma doença que eliminou seis vezes mais indivíduos do que a luta propriamente dita. A guerra dizimou, especialmente nas faixas do Noroeste, uma geração de homens jovens. Mas — o pior resultado em potencial — reforçou a posição das indústrias de armamentos (mecânicos, químicos e psicológicos) a tal ponto que essas indústrias passaram a dominar os governos de todas as nações participantes. Acima de tudo, essa guerra tornou mais bárbara e abaixou o nível, já bastante baixo, da conduta aceita no que chamavam de "mundo civilizado" — que para eles significava as faixas do Noroeste.

Essa guerra, ou essa Fase da Guerra do Século XX foi o alicerce da guerra seguinte.

Várias áreas, em razão dos sofrimentos causados pela guerra, explodiram em revoluções, compreendendo uma área que se estendia das faixas do Noroeste por milhares de quilômetros até o oceano da costa leste. Esse período viu o começo de um julgamento dos governos como "bons" ou "maus" não por seu desempenho, mas de acordo com rótulos e nomes. A razão principal foi a deterioração provocada pela guerra. Não podemos passar anos e anos mergulhados em uma propaganda falsa e mentirosa sem que as nossas faculdades mentais sejam prejudicadas (esse é um fato verificado por todos os nossos emissários em Shikasta!)

Seus" processos mentais, que não eram excepcionais por motivos alheios à sua vontade, foram rapidamente pervertidos pelo novo uso que faziam deles.

O período compreendido entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o começo da Segunda Fase Intensiva foi marcado por várias guerras menores, algumas tendo como finalidade experimentar o poder das novas armas que seriam em breve usadas em escala maciça. Como resultado do sofrimento extremo provocado pela punição imposta aos vencidos da Primeira Guerra Mundial, surgiu entre eles uma Ditadura — o que podia ser facilmente previsto. O Continente Isolado do Norte, recentemente conquistado por imigrantes das faixas do Noroeste, e conquistado com a habitual brutalidade, estava a caminho de se tornar uma grande potência, enquanto as várias áreas nacionais das faixas do Noroeste, enfraquecidas pela guerra, estavam em desvantagem. A exploração frenética das áreas colonizadas, especialmente no Continente I do Sul foi intensificada para compensar os danos da guerra. Como resultado, as populações nativas, exploradas e oprimidas além do que podiam suportar, começaram a organizar movimentos de resistência de todos os tipos.

As duas grandes Ditaduras estabeleceram-se com excepcional crueldade. Ambas disseminaram ideologias baseadas na supressão e opressão de populações inteiras, seitas, opiniões, religiões e culturas locais de vários tipos. Ambas usaram a tortura em grande escala. Ambas tinham seguidores no mundo todo, e essas Ditaduras e seus seguidores eram inimigos entre si, como se fossem totalmente diversas, desprezando-se e combatendo entre si — enquanto agiam de modo exatamente igual.

O lapso de tempo entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o começo da Segunda foi de 20 anos.

Neste ponto precisamos acentuar que a maioria dos habitantes de Shikasta não tinha consciência de estar vivendo o período que seria conhecido como a guerra dos cem anos, no século que levaria o planeta à destruição quase total. Queremos enfatizar esse fato porque é quase impossível para povos com mentes perfeitas — os que têm a sorte de viver (e nunca nos devemos esquecer de que é uma questão de sorte) com os benefícios da substância do sentimento de comunhão — é quase impossível, frisamos, para esses povos compreender o processo mental dos shikastianos. Quando as culturas do mundo todo estavam sendo arruinadas e destruídas por tecnologias viciosamente inadequadas, as guerras assolavam várias partes, populações inteiras desapareciam, tudo isso deliberadamente, para possibilitar o domínio das castas superiores; quando toda a riqueza das nações era gasta em guerras, na preparação para a guerra, na propaganda da guerra, em pesquisa para a guerra; quando os níveis gerais de decência e honestidade desapareciam a olhos vistos, e a corrupção estava em toda parte — quando tudo isso acontecia, esse pesadelo de dissolução, seria realmente possível, pode-se indagar, que essas pobres criaturas acreditassem que "no total" tudo estava bem?

A resposta é... sim. Especialmente, é claro, os que tinham riqueza e conforto — uma minoria; mas, até mesmo aqueles milhões, bilhões, aquele número sempre crescente dos que não tinham alimentos, agasalhos ou amigos, para eles também era possível viver de uma parca refeição à outra, de um momento de calor ao outro.

Os que sentiam a necessidade de "fazer alguma coisa" geralmente eram instrumentos de ideologias — todas iguais no desempenho, mas tão diferentes na própria definição. Esses, os ativos, corriam de um lado para o outro como meu infeliz amigo Taufiq, fazendo discursos, falando, ocupados com processos intermináveis que envolviam grupos que se formavam para trocar informações e declarar suas boas intenções, e sempre em nome das massas, daquelas populações desesperadas e atônitas que sabiam que tudo estava errado mas acreditavam que de algum modo, em algum lugar, as coisas se arrumariam.

Não é exagero dizer que em um país devastado pela guerra, reduzido a ruínas, envenenado, sua paisagem escurecida e calcinada sob céus baixos e enfumaçados, um shikastiano era capaz de fazer um abrigo de tijolos quebrados e fragmentos de metal, cozinhar ratos e tomar água de uma poça, que naturalmente tinha gosto de óleo e dizer: "Bem, afinal de contas, não é tão mau..."

A Segunda Guerra Mundial durou cinco anos e foi incomparavelmente pior do que a primeira, em todos os aspectos. Todas as características da primeira estavam presentes na segunda, desenvolvidas. O desperdício de vidas humanas transformou-se em extermínio em massa das populações civis. Cidades foram totalmente destruídas. A agricultura foi arruinada em muitas áreas. E mais uma vez as indústrias de armamentos floresceram, o que as estabeleceu afinal como os verdadeiros dominadores de todas as áreas geográficas. Acima de tudo, os piores ferimentos foram infligidos à própria substância, no mais íntimo das mentes do povo. A propaganda de todos os grupos era totalmente inescrupulosa, viciada, mentindo

— e vencendo a si própria — porque a longo prazo as pessoas não podiam mais acreditar na verdade, quando a encontravam. Sob as Ditaduras, mentiras e propaganda eram o governo. A manutenção do domínio das partes colonizadas era feita por meio de mentiras e propaganda

— mais eficientes e importantes do que a força física; e a retaliação do vencido e subjugado tomou a forma do fator mais importante e influente, a mentira e a propaganda. Era o que tinham aprendido com seus conquistadores. Essa guerra alastrou-se pelo globo inteiro — a primeira guerra, ou primeira fase da guerra, envolveu apenas parte. No fim da Segunda Guerra Mundial não havia nenhuma área de Shikasta que não estivesse subjugada por inverdades, mentiras, propaganda.

Essa guerra demonstrou também a força das armas que podiam levar o mundo à destruição total; não é preciso dizer que essa demonstração foi acompanhada de palavras como democracia, liberdade, progresso econômico.

A degeneração do que já era degenerado acelerou-se.

No fim da Segunda Guerra Mundial, uma das grandes Ditaduras foi derrotada — na mesma área em que sofrerá a maior derrota na Primeira Guerra Mundial. A Ditadura que vigorava em grande parte da massa de terra central ficou enfraquecida, quase vencida, mas sobreviveu e recuperou-se lentamente. Outra vasta área da massa de terra central, a leste dessa Ditadura, encerrou um período de meio século de guerras locais, guerras civis, sofrimento, e mais de cem anos de exploração e invasão dos povos do Noroeste, transformando-se em Ditadura. O Continente Isolado do Norte fortalecera-se com a guerra e era agora uma potência. As faixas do Noroeste debilitaram-se, de um modo geral. Foram obrigadas a libertar suas colônias. Empobrecidas, embrutecidas — embora vencedoras, formalmente —, deixaram de ser potências mundiais. Abandonando as colônias, deixaram nelas a tecnologia, uma idéia de sociedade baseada somente no bem-estar físico, na satisfação física, no acúmulo de bens materiais — para culturas que, antes de conhecerem os destruidores do Noroeste, tinham estado mais intimamente ligados a Canopus do que os marginais que as dominaram.

Esse período pode ser designado — de acordo com alguns de nossos estudiosos — como A Idade da Ideologia. [Para essa definição, ver vol. 3011, Sumário.]

Os grupos políticos estavam todos entrincheirados atrás de ideologias defendidas acerbamente.

As religiões locais continuaram infinitamente divididas e subdivididas, cada uma entrincheirada atrás de sua própria ideologia.

A ciência era a ideologia mais recente. A guerra a fortalecera de modo extraordinário. O pensamento científico, a princípio flexível e aberto, havia-se enrijecido, como tudo em Shikasta, e os cientistas, em geral — excluímos indivíduos nessa área, como em todas as outras —, eram tão insensíveis à experiência real quanto tinham sido os religiosos. A ciência, seus princípios básicos, seus preconceitos controlaram o globo, sem apelação. Assim como os indivíduos partidários das nossas tendências, da nossa inclinação para a verdade, os nossos "cidadãos" foram obrigados a viver sob o poder e a ameaça de religiões capazes de recorrer a qualquer ato violento para defender seus dogmas, assim também agora, indivíduos com inclinações e necessidades diferentes das que eram toleradas pela ciência precisavam viver prudentemente para não ofender a intolerância da classe científica governante, a serviço dos governos nacionais e, portanto, da guerra — uma classe governante invisível que obedecia aos que faziam a guerra. As indústrias que fabricavam armamentos, os exércitos, os cientistas que os serviam, não podiam ser atacados facilmente, pois o quadro oficiai do governo do globo não os incluía formalmente; esse era o quadro real. Jamais houve em nenhum lugar uma casta governante tão totalitária, tão completamente difundida, tão poderosa; e, ainda assim, os cidadãos de Shikasta mal percebiam isso, e continuavam a repetir os slogans enquanto esperavam pelo holocausto de suas vidas. Continuaram, sem perceber o que os seus governos estavam fazendo, até o fim. Cada grupo nacional criava indústrias, armas, horrores de toda espécie, dos quais o povo não tinha conhecimento. Se algumas dessas armas eram vistas de relance e por acaso, o governo negava a sua existência. [Ver História de Shikasta, vols. 3013, 3014 e o Capítulo 9 deste volume, "O Uso da Lua como Base Militar".] Havia pesquisadores do espaço, armas espaciais, exploração de planetas, o uso de planetas, rivalidades sobre a sua lua, que não eram do conhecimento da população.

E chegamos ao ponto em que é preciso dizer que as populações, os indivíduos comuns eram infinitamente melhores, de mentes mais sãs do que aqueles que os governavam; a maioria deles teria ficado chocada se soubesse o que estava sendo feito pelos "seus" representantes. Podemos afirmar com certeza que, se pelo menos uma parte do que estava sendo feito chegasse ao seu conhecimento, teria havido revoltas em massa no globo inteiro, massacres dos governantes, desordens... infelizmente, quando um povo está indefeso, traído, enganado, não tem outras armas a não ser as da desordem, pilhagem, assassinato em massa, denúncia (que, afinal, são inúteis).

Nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, houve muitas "pequenas" guerras, algumas tão extensas e cruéis como as que no passado recente foram definidas como maiores. As necessidades das indústrias armamentistas, tanto quanto as da ideologia, ditavam a forma e a intensidade dessas guerras. Durante esse período houve o extermínio selvagem de povos "primitivos", antes autônomos, especialmente no Continente Isolado do Sul (conhecido também como Continente II do Sul). Ainda nesse período revoltas coloniais foram usadas por todas as grandes potências para seus próprios interesses. Os métodos da guerra psicológica e o controle das populações civis desenvolveram-se a um nível incalculável.

Aqui tentaremos acentuar outro ponto que nossas mentes quase não conseguem compreender.

Quando terminava uma guerra, ou uma fase da guerra, com sua imersão no barbarismo, na selvageria, na degradação, quase todos os shikastianos conseguiam realizar uma espécie de realinhamento mental que os fazia "esquecer". Isso não significa que as guerras não fossem ídolos, objetos de piedosos exercícios mentais de toda espécie. Heroísmo, fugas, atos de bravura do tipo local e limitado eram elevados a preocupações nacionais, o que os transformava em uma religião. Mas esse fato não só não ajudava, como evitava a compreensão do quanto as estruturas culturais tinham sido atacadas e destruídas. Depois de cada guerra era visível uma queda para o barbarismo — mas, aparentemente, causa e efeito não eram ligadas em suas mentes.

Depois da Segunda Guerra Mundial, nas faixas do Noroeste e no Continente Isolado do Norte era evidente a corrupção e o baixo nível da vida pública. As duas guerras "menores", conduzidas pelo Continente Isolado do Norte reduziram suas agências governamentais, mesmo as que eram visíveis e apresentadas à inspeção do povo, a um escândalo público. Líderes nacionais foram assassinados. O suborno, a pilhagem, o roubo, do alto das pirâmides do poder até sua base, tornaram-se a norma. As pessoas aprendiam a viver apenas para o próprio sucesso e para a aquisição de bens materiais. O consumo de alimentos, bebidas, todas as facilidades possíveis, eram embutidos na estrutura econômica de todas as sociedades. [Vol. 3009, Economia da Riqueza.] Ainda assim, esses sintomas repulsivos da decomposição não eram vistos como conseqüências das guerras que governavam suas vidas.

Durante todo o Século da Destruição houve algumas reversões: tratados entre nações que tinham estado em guerra, de modo que voltaram suas hostilidades contra nações que há pouco eram suas aliadas; tratados secretos entre nações ainda em guerra; inimigos e aliados constantemente mudando de posição, provando que o fator governo estava precisando da guerra pela guerra. Durante esse período todas as principais cidades do hemisfério norte viveram dentro de um círculo de terror; cada uma delas tinha pelo menos 30 armas mortais apontadas em sua direção, armas que, em segundos, reduziriam seus habitantes a um monte de cinzas — apontadas de satélites artificiais, dirigidas por submarinos colocados a uma distância imensa. Estes eram controlados por máquinas que todos sabiam não ser infalíveis — e todos sabiam que mais de uma vez a destruição de cidades e de áreas tinha sido evitada por "milagre". Mas as populações jamais foram informadas de quantas vezes aconteceram esses "milagres" — acidentes quase letais entre as máquinas colocadas no céu, colisões entre as máquinas que estavam sob os oceanos, armas que deixaram de se soltar das bases. Observar o planeta de fora era ver uma espécie totalmente insana.

Em grandes partes do hemisfério norte o padrão de vida era semelhante ao dos imperadores e suas cortes. Especialmente no Continente Isolado do Norte, a riqueza era um verdadeiro escândalo, até mesmo para alguns dos seus cidadãos. Os pobres viviam como tinham vivido os ricos em épocas passadas. O continente estava repleto de lixo, de despojos do resto do mundo. Ao redor de cada cidade, vila ou até mesmo pequenos povoados no deserto, erguiam-se montes de refugo de objetos e alimentos que em outras partes do globo, menos favorecidas, significariam a diferença entre a vida e a morte para milhões de pessoas. Os visitantes desse continente ficavam maravilhados — mas com aquilo que o povo era ensinado a considerar como seu de direito.

Essa cultura dominante determinou o modo de vida e a cultura da maior parte de Shikasta. Pois, independentemente do rótulo ideológico de cada área nacional, todos tinham em comum a idéia de que a tecnologia era a chave de todo o bem, e que o bem era o aumento da riqueza material, do ganho, do conforto, do prazer. Os objetivos reais da vida — há tanto tempo pervertidos, conservados por nós com tanta dificuldade, mantidos a tanto custo — foram esquecidos, eram ridicularizados por aqueles que chegavam a ouvir falar deles, pois algumas insinuações distorcidas da verdade permaneciam ainda em algumas religiões. E durante todo esse tempo a terra estava sendo pilhada e despojada. Os minerais eram arrancados do solo, os combustíveis desperdiçados, as terras esgotadas por uma agricultura de pouca visão, os animais e plantas massacrados e destruídos, os mares poluídos com sujeira e venenos, a atmosfera corrompida — e sempre, em todo o tempo, as máquinas da propaganda martelavam: mais, mais, bebam mais, comam mais, consumam mais, joguem fora mais — como uma mania frenética. Eram criaturas enlouquecidas, e as fracas vozes que se erguiam em protesto não eram suficientes para interromper o processo posto a funcionar e que era sustentado pela ganância. Pela falta da substância do sentimento de comunhão.

Entretanto, os muito ricos do hemisfério norte não estavam distribuídos igualmente entre sua população, e as classes menos favorecidas cada vez mais se erguiam em rebelião. O Continente Isolado do Norte e as áreas das faixas do Noroeste também incluíam um grande número de povos de pele escura, que tinham sido levados originalmente para fazer os trabalhos desprezados pelos brancos e que eram mão-de-obra barata — e, embora até certo ponto eles tenham conseguido chegar a uma certa afluência, podia-se dizer, olhando para Shikasta, que os homens de pele branca estavam bem, e os de pele escura eram pobres.

E naturalmente isso era dito em voz cada vez mais alta pelos de pele escura, que odiavam os exploradores de pele clara como conquistadores talvez nunca tenham sido odiados.

No interior de cada área nacional, norte e sul, leste e oeste, o descontentamento crescia. Não apenas por causa do abismo entre ricos e pobres, mas porque seu modo de vida, no qual o aumento do consumo era o único critério a ser seguido, entristecia e deprimia cada vez mais suas personalidades verdadeiras, suas personalidades ocultas, que não eram alimentadas, eram ignoradas, famintas, enganadas por quase todas as instituições, por todas as autoridades, que segundo lhes tinham ensinado, deviam respeitar, mas que não conseguiam.

Cada vez mais os dois continentes principais do hemisfério sul eram atingidos por guerras e desordens de toda espécie — às vezes, guerras civis entre negros, às vezes entre negros e os remanescentes da opressão dos brancos, e entre seitas rivais e juntas e grupos de força. Abundavam as ditaduras locais. Vastos territórios eram privados de suas florestas, espécies de animais destruídas, tribos assassinadas ou dispersas...

Guerra. Guerra Civil. Assassinato. Tortura. Exploração. Opressão e supressão. E sempre mentiras, mentiras, mentiras. Sempre em nome do progresso, da igualdade, do desenvolvimento, da democracia.

A ideologia principal em toda Shikasta consistia agora em variações desse tema de desenvolvimento econômico, justiça, igualdade, democracia.

Não era a primeira vez na miserável história desse século terrível que esta ideologia — justiça econômica, igualdade, democracia e tudo o mais — tomava o poder quando a economia de uma área estava completamente desorganizada: as faixas do Noroeste foram dominadas por governos da "esquerda", que presidiram à descida para o caos e a miséria.

Às áreas antes exploradas do mundo regojizaram-se com a queda dos seus antigos perseguidores, seus carrascos — a raça que os tinha escravizado, feito deles servos, que lhes tinha roubado o que possuíam e que, acima de tudo, os desprezava pela cor de sua pele e havia destruído sua cultura indígena, agora finalmente compreendida e valorizada... mas era muito tarde, pois eles tinham sido destruídos pela raça branca e pela sua tecnologia.

Ninguém podia salvar as faixas do Noroeste, presas nas garras de Ditaduras massacrantes e repetitivas, dogmáticas, incapazes de resolver os problemas que tinham herdado — sendo o pior de todos o colapso dos impérios que tinham trazido riquezas, deixando-os em um vácuo e com idéias irreais do que realmente eram, da sua importância na escala global. A vingança desempenhou sua parte, uma parte considerável em tudo o que aconteceu.

O caos governava. Caos econômico, mental, espiritual — uso esta palavra no exato sentido canopiano — governava, enquanto a propaganda rugia e trombeteava nos alto-falantes, no rádio, na televisão.

O tempo das epidemias e das doenças, o tempo da fome e das mortes em massa tinha chegado.

Na principal massa de terra, duas grandes potências travavam um combate mortal. A Ditadura que nascera no fim da Primeira Guerra Mundial, no Centro, e a Ditadura que se apossara das áreas do Leste, agora provocavam o conflito na maior parte de Shikasta, de forma direta ou indireta. A Ditadura mais jovem era também a mais forte. A mais antiga começava a declinar, seu império esgarçava-se, suas populações revoltavam-se, a classe governante tornava-se cada vez mais remota, mais distante do povo — processos de crescimento e decadência que, no passado, se realizavam em dois séculos agora se desencadeavam em poucas décadas. Essa Ditadura não conseguiu suster o avanço da Ditadura do Leste, cujas populações estavam ultrapassando suas fronteiras. Essas massas superaram boa parte da Ditadura mais antiga, e em seguida as faixas do Noroeste, em nome de uma ideologia superior — embora fosse de fato uma versão da ideologia predominante nas faixas do Noroeste. Os novos senhores eram inteligentes, sagazes, hábeis; previram para si mesmos o domínio das principais massas de terra de Shikasta e a continuação desse domínio.

Enquanto isso, as pilhas de armamentos cresciam, cresciam, cresciam...

A guerra começou com um erro. Um mecanismo falhou e grandes cidades foram envoltas em poeira mortal. Essa possibilidade tinha sido prevista constantemente pelos técnicos de todos os países... mas as influências de Shammat eram muito fortes.

Em pouco tempo, quase todo o hemisfério norte estava em ruínas. Ruínas muito diferentes das deixadas pela segunda guerra, cidades que foram rapidamente reconstruídas. Não, essas ruínas eram inabitáveis, a terra estava envenenada.

Armas até então secretas enchiam os céus, e os sobreviventes que começavam a morrer, cambaleando e chorando e vomitando nas ruínas, erguiam os olhos para assistir às batalhas titânicas e, com seu último alento, murmuravam, falando de "Deuses" e "Demônios", de "Anjos" e "Inferno".

Havia abrigos subterrâneos, protegidos contra a irradiação, os venenos, as influências das armas químicas, impulsos sonoros mortais, raios da morte. Tinham sido construídos para as classes governantes. Alguns membros dessas classes sobreviveram.

Em áreas remotas, ilhas, locais protegidos naturalmente, algumas pessoas sobreviveram.

As populações de todos os continentes do Sul e das ilhas foram também afetadas pela pestilência, pelas radiações, pela contaminação do solo e da água e ficaram muito reduzidas em número.

No espaço de duas décadas, dos bilhões e bilhões de habitantes de Shikasta, talvez 1% sobreviveu. A substância do sentimento de comunhão, antes compartilhada por toda aquela multidão, agora era suficiente para sustentar e manter vivos esse sobreviventes, todos com bom temperamento, saudáveis e perfeitos.

Os habitantes de Shikasta voltaram a ser o que eram, olharam em volta sem acreditar no que viam — e perguntavam a si mesmos por que tinham estado loucos.

 

 

 

Relatório dos Emissários TAUFIQ, NASAR e RAWSTI, MEMBROS da COMISSÃO ESPECIAL INVESTIGADORA no ESTADO de SHIKASTA, PENÚLTIMO TEMPO. SUMÁRIO. [Esta foi a primeira missão de Canopus enviada ao planeta, desde a visita de Johor, no Tempo da Catástrofe.]

 

1 Verificamos minuciosamente o hemisfério norte e tivemos reuniões com os representantes de Sirius, tanto os que estão estacionados aqui como os visitantes. Encontramos também os agentes de Shammat, sem o seu conhecimento.

2 Confirmamos os relatórios dos nossos agentes visitantes e indígenas sobre um desenvolvimento inesperado. Em todo o hemisfério norte existe uma raça de "pequeninos", como são chamados em toda parte. As análises de sangue, tecidos e ossos sugerem origem siriana, e os representantes de Sirius confirmam que foram originários de experiências feitas por Sirius na época da visita de Johor, no Tempo do Desalinhamento. Uma grande parte do hemisfério norte foi coberta pelo gelo. Esse processo congelou grande parte da água de Shikasta e os níveis de água diminuíram, e apareceram terras secas onde não existiam, formando pontes entre as massas de terra e as ilhas, facilitando o movimento desses "pequeninos" para todos os lugares. Sirius confirma sua presença, em grande número, nos dois principais continentes do Sul e no continente menor do Sul. Esses "pequeninos" não têm mais de um palmo de altura, e os mais altos não passam de quatro palmos. São de vários tipos, entrançados, pesados e fisicamente muito fortes, ou esbeltos, bem-feitos e belos, mesmo pelos padrões de Canopus. Os primeiros geralmente habitam cavernas e subterrâneos de todo tipo, algumas vezes a grandes profundidades, a ponto de jamais verem a superfície. São hábeis em mineração, fundição, levantamento topográfico. Produzem e usam cobre, bronze, ouro, prata. Os segundos, mais delicados, vivem dentro e com a vegetação, conhecem o uso das plantas, são adaptados à água e conhecem todas as suas propriedades, ou são criaturas do fogo. Todos eles evitam os habitantes maiores de Shikasta a ponto de se terem tornado, em algumas áreas, assunto de mitos e lendas. Mas em alguns lugares foi estabelecida uma ligação que é mantida, e trocam informações e objetos de uso. Em nossa opinião, essas raças têm pouco ou nenhum potencial evolutivo. Diminuem em tamanho e em número e a maioria já se transferiu — não para a Zona Seis, onde não se sentem à vontade, mas para as Zonas Um e Dois.

Por causa das pressões das massas polares no sul, tem havido extensos movimentos das duas raças nas quais estamos interessados. Os Gigantes, estabelecidos especialmente nas áreas montanhosas e nos platôs das principais massas de terra, espalharam-se para o leste e emigraram para o Continente Isolado do Norte em grande número, passando pelas novas pontes de gelo. Lá o povo floresceu. Têm agora um terço do seu tamanho original. Vivem cerca de 2 mil anos. Seu tempo de vida e sua estatura estão diminuindo rapidamente.

Os Nativos, que se instalaram mais para o sul e mais para o norte do que os Gigantes, agruparam-se nas áreas deixadas livres, ou formaram povoados esparsos, chegando até o Norte do Continente I do Sul. Eles também estão diminuindo em altura e têm agora dois terços do tamanho que tinham no tempo de Johor. Vivem cerca de 800 anos. Como acontece com os Gigantes, seu tempo de vida e estatura diminuem rapidamente.

4 Agora essas duas raças se cruzam, produzindo um tipo fisicamente aperfeiçoado, forte, saudável, e acima de tudo extremamente adaptável, que suporta temperaturas extremas, sobrevive com qualquer espécie de dieta e acomoda-se rapidamente a qualquer mudança drástica. Por exemplo, estão vivendo muito bem na borda da calota polar. Suas mentes não são melhores do que as dos Gigantes ou dos Nativos, mas são engenhosos e — como já disse — adaptáveis, dentro de certos limites, naturalmente, impostos pela ingestão do sowf, pelo planeta.

Esses novos híbridos vivem entre os Nativos ou perto deles, mas os Gigantes são menos tratáveis. Existe sempre uma desarmonia, que tende a crescer a nível pessoal e grupai, mas não há sinais ainda de que se possa transformar em guerra, nem a guerra é considerada como algo inevitável ou desejável. Muito ao contrário, a parte essencial das regras de Johor permanece ainda e os faz sentir-se pouco à vontade quando demonstram belicosidade, por mais breve que seja; e os antagonismos são apenas locais e de curta duração.

Essas três espécies — pois o resultado do cruzamento pode ser considerado como uma nova espécie — criam animais de todos os tipos, para alimento, transporte e para utilização na agricultura. Sabem pouco sobre o uso dos metais, embora rumores sobre as habilidades dos "pequeninos" sugiram experiências e tentativas variadas. Inspiramos certos indivíduos em diversas partes de Shikasta para que procurassem os "pequeninos" e aprendessem com eles tudo o que fosse possível, especialmente sobre metais.

5 As "Leis de Canopus", descritas por Johor, estabeleceram, até certo ponto, normas para as diversas estruturas éticas, e até mesmo para a genética. As transgressões provocam mal-estar e precisam ser compensadas, às vezes por meios não muito acertados e improdutivos. Mas devemos informar que, como esperávamos, essas Leis estão rapidamente perdendo seu efeito. Especialmente por causa dos esforços de Shammat, cujos agentes trabalham com afinco. O mal-estar psicológico provocado pela transgressão é um campo fértil para os desígnios de Shammat. Por exemplo, estabeleceram com sucesso o costume do sacrifício humano para "agradar aos deuses". Essa prática tem aumentado em todas as partes de Shikasta. Shammat encoraja em todo o planeta a reversão dos shikastianos ao animalismo. Como isso não difere do que já sabemos sobre a atuação de Puttiora e Shammat em outros lugares, não precisamos descrever com minúcia.

 

 

NOSSAS RECOMENDAÇÕES

a) Um reforço de genes canopianos para o novo produto do cruzamento. Em nossa opinião, essa espécie tem um grande potencial evolutivo, demonstrando tendências para mutação freqüente e variada.

b) Visitas mais freqüentes dos nossos representantes. Sabemos que Shammat continua a roubar o sowf e que não podemos impedir, mas seus esforços no sentido de degeneração da raça podem ser combatidos.

 

ENVIADO 99, TAUFIQ. Relatório.

 

Percorri as áreas designadas. O gelo polar está se retraindo. O nível dos oceanos está quase o que era originalmente.

As populações agrupam-se em maior número nas regiões dos mares interiores por causa das vantagens oferecidas pelo clima, e nas ilhas oceânicas que separam o Continente Isolado do Norte da massa de terra central. (Essas ilhas são instáveis.) Isto é, entre 20 e 40 graus norte, segundo seu método de medição. A raça resultante do cruzamento dos Gigantes com os Nativos é, como prevíamos, a mais resistente. Os Gigantes e Nativos puros são agora em minoria, e tendem a viver isolados. Ambos são considerados "Gigantes" pela nova raça que em cada geração se torna menor, mais baixa, muito forte e vigorosa. É intelectualmente inferior, mesmo dentro dos limites impostos pelas depredações de Shammat. São belicosos e cúpidos.

Há um acúmulo de riquezas e mesmo de terras nas mãos de poucos, em detrimento da maioria, que geralmente ocupa posições de escravos e servos. Alguns destes últimos têm fugido para o Norte, depois da retração do gelo, e estabelecem seus povoados em climas muito severos. Fazem freqüentes incursões no Sul e roubam produtos vegetais e gado. Há lutas e pilhagens em toda parte.

Pouco permanece ainda das instruções deixadas pelo Enviado Johor e pelos visitantes que o seguiram.

Adotam sistemas de adoração de objetos, artefatos e animais. O sacrifício humano e de animais é feito, em sua maior parte, por "sacerdotes" que se dizem guardiões do "Divino".

 

minhas recomendações:

a) Concordo com a recomendação da Comissão sobre o reforço genético. Argumentam que já existem muitas espécies em Shikasta. Em minha opinião, o produto do cruzamento dos Gigantes com os Nativos logo será predominante. Suas qualidades peculiares de rapacidade e violência devem ser reduzidas. Do contrário, não haverá espécie alguma! Por exemplo, os "pequeninos" estão quase extintos, exceto em certas partes do extremo Norte, onde a temperatura os conserva. Têm sido caçados por esporte. Não preciso dizer mais para acentuar minha afirmação de que as influências de Shammat são quase insuperáveis.

b) Nossos funcionários foram aconselhados a permanecer invisíveis, sempre que for possível. Sua função tem sido, na maior parte, controlar e observar. Acredito que devemos adotar uma nova política de intervenção vigorosa. Será necessário trabalhar no interior dos conjuntos mentais existentes e influenciar as tendências. Isso significa fazer uso das "religiões" existentes e talvez introduzir novas.

 

 

ENVIADO 102, TAUFIQ. Relatório.

 

Nossos planos devem ser adiados. A instabilidade do planeta foi novamente confirmada. Shikasta inclinou-se sobre o seu eixo e voltou à posição inicial. Já providenciei para que os especialistas no assunto determinem as causas. Houve enchentes, tempestades, terremotos. Algumas ilhas submergiram. Vai haver mudança de clima. Shikasta distanciou-se um pouco do seu sol. O efeito sobre a sua lua ainda não é conhecido. Houve grandes perdas de vidas, maior no hemisfério norte do que no hemisfério sul. Várias culturas promissoras, cuidadosamente orientadas por nós, desapareceram. Uma delas foi a de Adalanterland. O agente Nasar, agora estabelecido permanentemente em Shikasta, está enviando um relatório em separado. Contudo, esses acontecimentos não alteram a situação básica, e depois de um intervalo, para que os efeitos dessas ocorrências diminuíam, as recomendações do meu relatório devem ser levadas a efeito.

 

 

ENVIADO 105, TAUFIQ. Relatório.

 

Escolhi cinco homens do Setor Leste de Canopus, cinco do Planeta 19 e cinco do Planeta 27.

Não existem agora muitos indícios dos desventurados acontecimentos recentes, mas os níveis da população continuam reduzidos.

Os homens foram divididos em cinco grupos e colocados nas seguintes posições: imediatamente ao norte das Grandes Montanhas. Imediatamente ao sul dessas montanhas. No extremo Norte do Continente I do Sul. Dois grupos ao sul dos Grandes Mares, a um dos quais me incorporei. Todos tiveram de se aclimatar durante alguns dias antes de se tornarem visíveis.

O grupo de três do qual eu fazia parte ficou em uma montanha próxima de uma planície onde nossa nave aterrissou. Essa área plana tinha conotações sagradas na região.

Nosso problema consistia em permitir que se realizassem uniões apenas com as mulheres escolhidas.

Aproximei-me das descendentes das linhas davídicas, as quais, graças à sua superioridade mental, ocupam posições influentes. Disse a cada uma delas "secretamente" que "seres sagrados" tinham vindo das "regiões mais elevadas" atraídos por sua beleza. Essas mulheres selecionadas foram conduzidas aos homens e deu-se o cruzamento. Havia mais ou menos 50 delas, cada uma pensando a princípio que era a única.

Nosso plano era fazer com que contassem às outras "em segredo". Isso facilitaria a disseminação da história dos deuses, mas não queríamos que o cruzamento se generalizasse.

Em pouco tempo, o platô nas montanhas onde estavam os nossos voluntários foi assediado por mulheres ansiosas e por homens desconfiados. Nós quatro nos dirigimos para a espaço-nave, procurando passar despercebidos, mas duas mulheres nos seguiram e houve mais cruzamentos, apesar da minha advertência de que não eram escolhidas. Na minha opinião, o Planeta 27 não se presta para esse trabalho. O Planeta 19 é menos ardente e menos entusiástico.

Fizemos questão de que as duas mulheres observassem a partida da nossa espaçonave, pois falariam ao seu povo sobre os "carros celestiais".

 

 

ENVIADO 111, TAUFIQ. Relatório.

 

Fiz as preparações para executar nosso primeiro plano. Devia descer na Zona Seis. Fora determinado que me encarnasse e me tornasse visível para atuar como mentor. Relatórios dos nossos agentes sobre certas condições inesperadas em Shikasta impediram a realização desse plano.

Portanto, mais uma vez usei a espaçonave. Os relatórios dos nossos agentes foram logo confirmados. As calotas de gelo estavam se derretendo com rapidez maior do que a prevista. Era um acontecimento inesperado, especialmente porque durante um certo período elas haviam feito um lento avanço, conquistando pequena parte do território perdido. A inversão súbita mais uma vez alterou as linhas das costas em todos os lugares. Os céus de Shikasta estão repletos de nuvens imóveis. A paisagem sombria provocou uma alteração no temperamento dos shikastianos. Tornaram-se menos estáveis, mal-humorados, desconfiados e com reflexos mais lentos.

Percorri as áreas indicadas. Foi uma passagem breve por causa da urgência que eu sentia.

Eis o que encontrei. Os descendentes do reforço genético — Planetas 19, 27 e Leste de Canopus — são satisfatórios. O declínio geral foi interrompido. Formam uma raça superior. Mas os outros estão rapidamente declinando para uma condição lamentável. Nosso plano para reforçar esse produto do nosso aperfeiçoamento genético sem dúvida devia ter sido adiado, mas sugiro que seja complementado quando Shikasta se recobrar desse novo retrocesso.

Era evidente a iminência de uma inundação vinda do céu. A massa de nuvens crescia e se tornava mais pesada e mais densa a cada momento.

Avisei o chefe da nova raça (davídica-aperfeiçoada) de que devia estar preparado para se abrigar em lugares altos com sua família e seus animais. Ele compreendeu que eu era de "algum outro lugar", como disse. A lenda dos "deuses" está bem estabelecida. A reação da nova raça à informação recebida é uma medida de sua inteligência. Mandei que avisasse a todos os habitantes daquela área. Os que o atendessem deviam apressar-se para deixar a região. Poucos o ouviram: o seu equipamento genético os impossibilitava de compreender. Essa nova emergência na verdade está nos fornecendo meios inesperados, mas úteis, de separar o superior do inferior. Estou interessado em discutir esse assunto com nossos enviados das outras áreas ameaçadas de Shikasta. Sugiro que o resultado dessa discussão, que nos dará informação valiosa sobre a mentalidade da nova raça shikastiana, seja a base de um relatório complementar.

Muito antes da inundação, a tribo davídica estava a salvo em uma montanha. O dilúvio começou ao mesmo tempo em toda Shikasta, como deduzi das informações recolhidas entre nossos enviados. Na área de que trata este relatório, a chuva durou quase dois meses. Com exceção dos picos mais altos, tudo foi inundado. O começo do dilúvio foi tão repentino que os animais inferiores e superiores não tiveram tempo de fugir para lugares altos. Nada sobreviveu. Naturalmente, à medida que as águas corriam para os oceanos, estes aumentavam de nível. Os mares internos transbordaram e ficarão para sempre muito maiores do que eram antes.

A condição psicológica da raça que se salvou era péssima. Foi necessário fazer um "pacto" com eles prometendo que essa visitação dos deuses jamais ocorreria. Quanto a eles, deviam compreender que o dilúvio era um castigo por sua maldade e práticas pecaminosas. Deviam estar sempre prontos a ouvir as nossas instruções, pois somos seus amigos. Essas instruções viriam, sempre que fossem necessárias.

Quando a terra secou, mandamos que voltassem aos seus antigos territórios. Deviam viver sobriamente, com moderação, sem oprimir os semelhantes e, como guardiões dos animais, não deviam prejudicar, nem oprimir. Deviam fazer sacrifícios aos deuses usando somente animais e não seres humanos e sem crueldade. (Infelizmente precisamos permitir essa prática: a perversão de Shammat é muito intensa.) Deixei com eles vários artefatos. Disse-lhes que tinham por fim estreitar a ligação entre eles e "o outro lugar".

Termino este relatório com um pedido pessoal. Se não for considerado fora de propósito, peço para não ser enviado a Shikasta novamente.

 

ENVIADO 159, TAUFIQ. Relatório.

 

Desde a minha última visita, foram estabelecidas 21 cidades nas áreas previamente inundadas. Cinco são grandes, com populações de um quarto de milhão ou mais. O comércio é florescente entre as cidades e estende-se até as áreas leste da principal massa de terra, suas faixas de Noroeste, algumas partes do Norte do Continente I do Sul e ao Continente Isolado do Norte.

Vivem com luxo, desperdício, os altos propósitos completamente esquecidos, salvo poucas exceções.

Houve misturas raciais, como resultado de experiências feitas nos dois continentes do Sul. Os méritos, deméritos e peculiaridades desses cruzamentos são analisados no Relatório anexo, dos Analistas de População desta Missão, Enviados 153 154, 155.

O fato mais adverso é terem cruzado com raças de Shammat, em resultado de uma ação deliberada de Shammat para contrabalançar nossos aperfeiçoamentos com os reforços genéticos, antes da inundação.

Shammat não só insiste em persuadir Shikasta a seguir suas instruções, mas agora diz a esses infelizes que Shikasta está sendo enganada pelos "deuses" que os exploram, roubando-lhes sua herança de direito, e que, se executarem certas práticas, todos os shikastianos se tornarão "deuses".

Essa crença tornou-se popular em todos os lugares. Planejam revoltas contra nós. Essas revoltas terão a forma de tentativas em massa de "transcender" a si mesmos, usando os meios sugeridos pelos espiões de Shammat. Congregam-se para executar as "altas práticas" — cujas vibrações são canalizadas para Shammat. Organizam massacres de animais, como um ritual. Praticam também uma versão espúria da Arte das Pedras, sugerida por Shammat.

Apoio as recomendações de 153, 154 e 155 no sentido de destruir seus centros de reunião.

Os representantes de todas as regiões de Shikasta conhecidas por eles devem reunir-se nas Áreas das Cidades para conferenciar sobre os meios de "se tornarem iguais aos deuses". Sem que saibam, Shammat vai presidir à reunião.

 

 

ENVIADO 160, TAUFIQ. Relatório.

 

Mais uma vez a urgência da situação exigiu o uso da nave espacial. Nós seis comparecemos à conferência, como delegados das áreas do extremo Noroeste. Como havia muitos tipos diferentes na reunião, isso não foi difícil. As técnicas recomendadas foram eficazes. Como resultado, o sistema de comunicações deles apresentou defeito, e Shikasta tem agora oito línguas principais. Essas línguas se multiplicarão e em breve serão centenas, milhares de linguagens e dialetos, por causa da Lei shikastiana da divisão e subdivisão inevitáveis.

Mais uma vez peço que me transfiram do serviço de Shikasta para outro ramo do Serviço Colonial.

 

 

ENVIADO 192, TAUFIQ. Relatório.

 

Graças aos relatórios dos nossos agentes locais, segundo os quais as Áreas das Cidades são, no momento, impróprias para nossos objetivos, foram feitas investigações nas faixas do Noroeste e nas faixas do extremo Leste. As faixas do Noroeste são pouco populosas por causa da severidade das condições e do empobrecimento da paisagem, depois da era do gelo. Estabelecemos alguns agentes locais para criar e manter padrões de pedra suficientes para conservar a estabilidade da nossa corrente. O mesmo foi feito no extremo Leste. Mas aí as condições climáticas são boas, o solo é rico, e a população cresce. Construímos algumas pequenas cidades segundo o padrão canopiano, escolhemos habitantes de tipo apropriado para viver nelas e colocamos os padrões de pedras e de árvores nas áreas adequadas.

Visitei pessoalmente as Áreas das Cidades, e confirmo que a influência de Shammat é tão intensa que nenhuma melhora se pode esperar. Investiguei profundamente três cidades e não encontrei mais de cem indivíduos capazes de reagir às vibrações canopianas.

Nosso enviado faz notar — como já o fizeram os embaixadores que os precederam — que as raças que receberam reforço genético, se, por um lado, tiveram aperfeiçoados sua utilidade e seu contato com Canopus, por outro lado são mais sujeitas do que a média à corrupção.

Contudo, uma vez que os contatos que estabelecemos nas áreas das faixas do Noroeste e do extremo Leste perderão o contato dentro de 950 anos (na contagem shikastiana), é recomendável que se tente mais uma adição genética em candidatos adequados, das Áreas das Cidades, durante mais ou menos 400 anos. Assim, haverá tempo para o desenvolvimento de uma nova raça reforçada, sem dar tempo a Shammat para corrompê-la. Esta é naturalmente nossa previsão otimista. Peço a atenção dos eugenistas para essa sugestão.

 

 

ENVIADOS 276 e 277, TAUFIQ

e JOHOR. Relatório: (Missão conjugada)

 

TAUFIQ:

 

Visitei as faixas do Noroeste. O nosso pessoal, que colocou as Pedras e ensinou aos habitantes locais a Arte das mesmas já partiu, a maioria deles para o Planeta 35, conforme instruções. Alguns foram para as Áreas das Cidades, a fim de instruir candidatos adequados sobre a manutenção do contato.

Nas faixas do Noroeste a população indígena é estável, mas escassa. Praticam a agricultura e criação de gado, em baixo nível. Nosso pessoal foi contrário a um alto grau de instrução, uma vez que isso, no passado, tantas vezes levou a resultados opostos aos que pretendíamos: extremos de acúmulo de riquezas e opressão dos pobres. (Ver os últimos relatórios sobre as faixas do extremo Leste.) A unidade básica é a tribo. A paisagem é ainda pobre e hostil. O povo é valente, ousado. Houve uniões entre eles e nosso pessoal: não-programadas. As mulheres são atraentes, fortes e saudáveis. Pode-se esperar que seus filhos aperfeiçoem a raça de modo imprevisível. Os indígenas da região são pequenos e fortes, com cabelos escuros. Os genes introduzidos tendem a produzir indivíduos altos, de pele muito branca e olhos azuis ou acinzentados.

Visitei os territórios do extremo Leste. As cidades que funcionam como acumuladores foram abandonadas, segundo as instruções. Logo serão destruídas. Alguns indivíduos tinham por hábito visitar esses lugares para "fins sagrados", repetindo-se portanto a história. Foram advertidos. Nosso enviado residente usou ameaças e promessas. Essas práticas já mostravam seus resultados: deterioração da mentalidade. Estas observações aplicam-se às áreas adjacentes às cidades acumuladores.

Exceto por esse fato, esta é uma vasta civilização que já atingiu o nível G. Está crescendo e constantemente aumentando seus territórios, incluindo as ilhas da faixa sudeste. Têm uma agricultura estável e bem organizada. As cidades são quase que exclusivamente centros comerciais. A classe governante é extensa: no princípio era eficiente e devotada ao dever, mas agora se mostra amante do luxo e improdutiva. A civilização toda está para ser dominada por uma cultura vigorosa e mais primitiva do Norte, do Noroeste e das terras desertas, onde não existe nem sinal das nossas antigas Cidades Matemáticas nem das cidades mais recentes que se desenvolveram antes da era do gelo. Portanto, a cultura agora improdutiva será revitalizada. Ensinou-se um grupo de indivíduos escolhidos a manter contato. São todos comerciantes e fazendeiros; não encontramos na classe governante nenhum com as qualidades necessárias. Providenciou-se para que esses indivíduos estejam ausentes no momento da invasão, e para que voltem mais tarde, a fim de ocupar as posições que lhes foram destinadas.

Um terremoto recente devastou a principal ilha da faixa leste. Nada sobrou das suas cidades. Permanece, porém, uma agricultura suficiente para recomeçar um novo nível de cultura.

Estive com os representantes de Sirius. Relataram o êxito das suas experiências. O Continente II do Sul foi especialmente útil para eles. Os animais introduzidos na última experiência evoluíram bem e com rapidez e foram imediatamente removidos, por meio de suspensão espacial intensiva, de volta ao Planeta 3.

Relatam que houve uniões não-planejadas, mas limitadas, entre seus representantes e esses animais.

Este enviado toma a liberdade de aproveitar a oportunidade para sugerir que, quando os eugenistas de Canopus fizerem planos para Shikasta, levem em consideração as tendências sexuais dos shikastianos. Mais de uma vez expressei a opinião de que, quando a sexualidade foi enfatizada para garantir a sobrevivência das espécies, essa ênfase talvez tenha sido exagerada. Este seu enviado discutiu o assunto com os representantes de Sirius. Eles passaram algum tempo em Shikasta e concordam comigo. Estão expondo a mesma questão aos seus eugenistas. Ressalto que poucos são os casos, na história de Canopus ou de Sirius, de nossos indivíduos ou raças serem introduzidos, às vezes por um curto período de tempo, sem que ocorressem uniões não-planejadas.

Este seu enviado pede permissão para, nesta oportunidade, sugerir que uma delegação de eugenistas seja enviada a Shikasta a fim de estudar as condições pessoalmente.

 

 

JOHOR:

 

Faz 30 mil anos que estive em Shikasta, 31.505, para ser exato.

Como é escuro aqui! Como é difícil se mover, atraído para a terra, comprimido para baixo, pesado.

O ar que respiramos é tão fino e insubstancial, os suprimentos de sowf tão escassos.

Entrar em Shikasta — entrar em minhas memórias — é como ver tudo desenhado em escala menor. Essas pessoas podem ser realmente os descendentes dos Gigantes enormes e régios, dos magníficos Nativos? Olhando para trás, para o tempo passado, estas pessoas diminutas, que vivem 800 anos, quando seu limite de vida já foi muito maior, me parecem miniaturas. A vida apressadamente acumulada com frenesi, em alguns haustos famintos... mal acabaram de nascer, já são adultos, velhos, mortos.

Os nossos povos, instalados em Shikasta, mantendo-se com tanta dificuldade, adquirem uma aparência de resignação que facilmente se desfaz em horror, quando os contrastes são muito grandes. É com o maior esforço que nos controlamos para não nos agarrar a qualquer sensação que traga a promessa ou a garantia de um significado, ou mesmo de utilidade

— como fazem essas criaturas que, sem substância, correm atrás de sombras, atrás de qualquer coisa que as faça recordar

— pois a memória ainda existe, bem no seu íntimo — a verdade de Canopus. Olham para o sol como se quisessem trazê-lo até si, passeiam à luz da lua, que está mais longe do que nunca — e têm carências, desejos, estendendo os braços para o sol, e procurando banhar-se na luz da lua ou bebê-la. O cintilar da luz em uma árvore, ou na água, a breve beleza comovente dos jovens, tudo isso os tortura, sem que saibam por quê, ou talvez sabendo em parte, pois fazem canções e criam histórias, sempre com aquele fundo de carência, uma carência que não sabem definir. Contudo, suas vidas são orientadas por ela, são súditos de um rei invisível, de um reino, mesmo quando cortejam Shammat, que alimenta sua carência com ilusões.

Estive nas Áreas das Cidades, exatamente onde mais me demorei da outra vez. Onde existiam as Cidades Redonda, Quadrada, Crescente e todas aquelas outras maravilhas, outras cidades se ergueram e caíram, vezes sem conta. As águas do gelo derretido, as baterias do próprio gelo, submersas, arrasadas, destruídas. Entretanto tudo está verdejante novamente, fértil, exceto onde os desertos crescem, se expandem e tomam possessão. Há florestas e planícies verdes e manadas de animais... Lembro-me dos imensos animais de Rohanda, os maravilhosos ancestrais destes, destas miniaturas de leões e de gamos, destes elefantes que têm a metade do tamanho e que, no entanto, parecem tão grandes para o povo que também diminuiu — contudo, para os que conheceram os imensos e inteligentes animais do passado, são quase como belos brinquedos de criança. As crianças agora são comoventes. Naquele tempo, os filhos dos Gigantes, dos Nativos, nasciam como resultado de tanta deliberação, tanto estudo, cada um deles escolhido, de pais tidos como os melhores... todos com um tempo de vida tão longo, tempo para brincar, tempo para pensar, tempo para amadurecer seu íntimo e para crescer como indivíduos completos. Agora essas belas crianças nascem ao acaso de qualquer união, de quaisquer pais, são bem ou maltratadas, de acordo com a sorte, morrem com a mesma facilidade com que nascem — contudo, cada uma delas, todas elas, têm todo o potencial, ainda completo, para passar desse estado semi-animal para o estado de verdadeira humanidade. Cada uma delas com esse potencial, e tão poucas podem ser alcançadas, tão poucas dão esse passo!

Não me agradava segurar suas crianças, seus filhos; era muito triste.

E as mulheres, que dão à luz esses potenciais sem saber, ou sabendo apenas vagamente.

E, antes de acabarmos a longa e triste história de Shikasta, tanta coisa ainda, e pior para acontecer.

Chegará o tempo em que essas curtas vidas parecerão uma grande memória: um tempo em que 200 anos de vida serão considerados uma maravilha.

São muito generosos permitindo que seus enviados expressem os sentimentos subjetivos. Mas tenho dentro de mim uma fonte de mágoa que, espero, não considerem como queixa. Não são permitidas queixas aos filhos da fatalidade, enquanto as grandes estrelas ocupam seus lugares...

Eu, Johor, deste lugar sombrio, Shikasta a ferida, ergo minha voz, não uma queixa, mas um lamento, como essas pobres criaturas choram seus mortos, que viveram menos do que viviam antigamente os carneiros e os gamos, que respiravam mais profundamente.

Hoje caminhei pelas ruas da cidade construída onde outrora era a Cidade Redonda, um aglomerado de ruas, prédios, mercados, construídos de qualquer modo, em qualquer lugar, sem arte ou simetria, sem o menor sinal de conhecimento de como devem ser construídos — caminhei e observei os rostos dos comerciantes, dos donos de bordéis, dos que trabalham com dinheiro, vi como essas vítimas se tratam entre si, como se seu destino se resumisse em uma licença para enganar, mentir, matar e ver em cada transeunte apenas uma possibilidade de lucro, vivendo como se cada um estivesse sozinho em território inimigo, sem esperança de salvação.

Contudo, nem todos são assim e, quem sabe, talvez haja salvação — algum dia, de alguma forma.

Sentei-me no mesmo lugar em que Jarsum e os outros ouviram de mim sua sentença e a sentença de Rohanda; onde ficava aquele prédio circundado pelos desenhos brilhantes e quentes e pelas pedras da cidade criada, hoje vejo uma rua estreita com barracos feitos de barro seco ao sol e todas as faces são deformadas, por dentro e por fora.

Ninguém nos olha nos olhos com franqueza, sem suspeita ou medo, ninguém dá sinal de amizade.

É uma cidade terrível. E nosso enviado diz que todas são assim, todas as grandes cidades, todas elas ocupadas com lutas, enganos, tratados que são desfeitos pela traição, roubos de objetos, de animais, captura de homens para fazer deles escravos.

Existem pessoas ricas, mas são poucas; e inúmeros os escravos e servos possuídos e usados.

As mulheres são escravas da beleza, e a admiração dos homens vale mais para elas do que os filhos.

Os homens tratam as mulheres segundo o seu grau de beleza, e as crianças segundo seus progressos, seus nomes, suas propriedades.

O sexo é pervertido, deformado; o desespero com o curto sonho que é sua vida, entre o nascimento e a morte, alimenta o sexo, transformando-o em avidez e chama.

O que se pode fazer com eles?

O que devemos fazer?

Apenas o que foi feito tantas vezes antes, com os filhos de Shammat, Shammat o infame, o infamante...

Meu amigo Taufiq viajou para as faixas do Noroeste, segundo ele, para não estar aqui e ver outra vez o que viu antes.

Eu e o seu agente permanente, Jussel, deixamos as cidades e nos juntamos aos pastores das planícies. Fomos de manada em manada, de tribo em tribo. É um povo simples, com a franqueza dos que vivem com a natureza. Encontrei descendentes da raça davídica e demonstraram ser honestos, hospitaleiros e, acima de tudo, ávidos por alguma coisa diferente.

Com uma tribo que manifestou essas características mais acentuadamente do que as outras, ficamos como viajantes comuns, e, quando a afinidade foi aceita por eles, essa aceitação traduzida por confiança e desejo de que ficássemos, revelamos que éramos de "outro lugar" e estávamos cumprindo uma missão. Dirigiram-se a nós chamando-nos de Senhores, Deuses e Mestres. Essas palavras vivem ainda em suas canções e em suas lendas.

Dissemos que se conservassem certas práticas, que deviam ser executadas com exatidão, e alteradas de acordo com as necessidades, se conservassem vivo entre eles, sua tribo e seus descendentes o conhecimento de que essas práticas eram exigidas pelos deuses, pelos senhores, então seriam salvos da degeneração das cidades (que odeiam e temem) e seus filhos seriam fortes e saudáveis e não se tornariam ladrões, mentirosos e assassinos. Essa força, essa sanidade mental, um elo com as fontes de conhecimento dos deuses, seriam mantidas enquanto estivessem dispostos a agir de acordo com os nossos desejos.

Renovamos as instruções para uma existência segura e sábia em Shikasta — moderação, abstenção do luxo, vida simples, consideração pelos semelhantes, que não deviam nunca ser explorados ou oprimidos, o cuidado com os animais, a terra e, acima de tudo, atenção tranqüila ao que era mais importante, a obediência. Deviam estar sempre preparados para ouvir os nossos desejos.

E dissemos ao membro mais respeitado da tribo, um homem já velho — segundo os seus padrões —, que em suas veias corria o "sangue dos deuses" e seus descendentes estariam sempre perto dos deuses se seguissem o caminho certo.

Fizemos com que ele tivesse dois filhos, ambos irradiados por vibrações de Canopus.

E voltamos às cidades, à procura de uma que tivesse um número suficiente de indivíduos dignos de serem redimidos. Nenhuma podia ser salva. Poucos eram os que nos podiam ouvir, e a esses dissemos que partissem imediatamente com todos aqueles que os quisessem acompanhar.

Voltamos ao velho da tribo; seus filhos já tinham nascido e dissemos que, exceto por sua família, sua tribo e alguns outros, em breve não restaria mais ninguém com vida, pois as cidades iam ser destruídas por causa da maldade dos seus habitantes. Tinham caído nas mãos dos inimigos do Senhor, que sempre trabalhavam contra o Senhor para capturarem os corações e as mentes das criaturas.

Ele nos implorou.

Os poucos indivíduos bons das cidades nos imploraram.

Não desejo escrever mais sobre isto.

Depois de me certificar da segurança dos que podiam ser salvos, chamamos a frota de naves espaciais e as cidades foram destruídas para sempre, todas ao mesmo tempo.

Desertos se estendem onde essas cidades outrora se erguiam.

Os lugares férteis, ricos, populosos das cidades corruptas — tudo deserto agora, e as ondas de calor crepitam e cintilam, pois não existe mais relva, árvores, nada verde.

E mais uma vez eu vi os animais fugindo, grandes manadas, galopando, sacudindo as cabeças e gritando — fugindo da habitação dos homens.

 

 

História de Shikasta, vol. 997, Período dos Acauteladores Públicos. Extraído do Sumário

 

Embora seja possível datar o fim deste período exatamente, no ano preciso, não é tão fácil determinar quando começou. Por exemplo, devemos classificar Taufiq e Johor como acauteladores públicos? Em todas as suas visitas eles avisaram — ou talvez a palavra mais exata seja lembraram — a todos os que podiam ouvir o que diziam. Visitas de todo tipo continuaram a ser feitas, sem intermissão, quase desde o tempo do retraimento do gelo, e embora a maioria delas fossem "secretas" — isto é, os indivíduos contactados não sabiam que aquela pessoa era de um outro sistema estelar — havia sempre em Shikasta um enviado ou agente de determinada classe ou calibre, trabalhando abertamente, explicando, exortando, lembrando. Portanto, podemos dizer que Shikasta sempre teve conselheiros públicos, exceto por um curto espaço de tempo, na verdade 1.500 anos (na contagem deles), no fim.

Mas este volume cobre o período de mais ou menos mil anos antes da primeira destruição, a inundação das cidades da área extremamente favorecida e privilegiada que circunda a parte sul dos Grandes Mares, até aquela data, 1.500 anos antes do fim. Uma leitura atenta dos vários textos disponíveis esclarecerá por que esse tempo foi considerado por nós merecedor do envio constante dos nossos emissários. Não se pode dizer que tenha havido uma mudança na nossa política em relação a Shikasta — isso não pode e jamais poderá acontecer; nossos planos a longo prazo permanecem intactos. Também não se pode dizer que a degeneração geral da raça shikastiana, ou raças, não tivesse sido prevista. A diferença entre este período e os outros é mais na ênfase, na escala. Quando civilização após civilização, cultura após cultura tiveram de ser toleradas durante o maior tempo possível, com seu baixo nível de desempenho (de acordo com os padrões de Canopus) e ainda lhes ser permitido degradar-se e desaparecer sob o peso da própria corrupção, ou ser deliberadamente destruídas por nós por constituírem um perigo para o resto de Shikasta, para nós ou para outras colônias canopianas, quando se chega a essa situação, e em larga escala, em grandes extensões da massa de terra central, nesse caso isto deve ser encarado como diferente em tipo e em grau do que acontece em lugares onde populações esparsas estão extensamente disseminadas, talvez apenas auto-suficientes, onde uma única cidade cujo objetivo principal era o comércio, e não grupos de cidades unidas, define áreas, e de onde um ou dois dos nossos agentes podiam alcançar todos os habitantes de uma grande parte de Shikasta, simplesmente recorrendo a esforços limitados e durante uma estada limitada.

Durante os milhares de anos do Período dos Exortadores ou Acauteladores, observou-se esta série de ocorrências, constantemente repetida:

Observamos, ou nos foi relatado, que o elo entre Canopus e Shikasta estava se enfraquecendo além dos níveis de segurança.

Isso foi acompanhado de relatórios informando que uma cultura, uma cidade, uma tribo, ou grupos de indivíduos, vitais para os nossos interesses, estavam se afastando do que fora estabelecido pela união.

Era da máxima urgência providenciar o reforço desse elo, dessa ligação, reconduzindo alguns indivíduos selecionados aos modos de vida adequados, regenerando e revitalizando áreas, culturas ou cidades.

Enviamos um técnico, ou dois, ou vários. Podia acontecer que um ou dois deles trabalhassem silenciosamente, sem se revelar ao povo.

Esse técnico teve de renascer, através da Zona Seis, e ser criado por pais comuns para que suas palavras tivessem efeito.

Uma observação sobre a escolha do sexo. Naturalmente, indivíduos desenvolvidos, em nosso meio, são andróginos, para usarmos a expressão mais próxima à dos shikastianos: não temos características psicológicas, físicas ou emocionais consideradas como típicas de um sexo ou de outro, como acontece nos planetas mais atrasados. Muitos dos nossos enviados se manifestaram como "mulheres", mas desde o tempo do afastamento da União, antes da era em que homens e mulheres eram iguais em todas as partes de Shikasta e um não explorava o outro, as mulheres têm sido subjugadas, o que criou problemas que, no seu todo, são considerados por nossos enviados como uma dificuldade desnecessária adicionada a tarefas por si sós tão complexas. [Ver Capítulo 9 deste volume, "Manifestações dos Enviados como Mulheres para Fins Culturais Locais".]

Quando nosso enviado ou representante crescia e atingia a maturidade na cultura escolhida, ele ou ela tornava-se notável por um certo nível de percepção e compreensão demonstrado por conduta geralmente oposta às idéias e práticas locais.

Os indivíduos que se chegavam ao nosso enviado, por simpatia, ou — como muitas vezes podia acontecer — a princípio por antagonismo sobrepujado por um conhecimento crescente que se transformava em simpatia, formavam o centro ou núcleo que podia ser usado para fortificar e manter o elo, a ligação.

Nos primeiros tempos, esses indivíduos eram em grande número e podiam formar subculturas poderosas. Ou, espalhados entre populações inteiras, formavam um fermento com força suficiente para elevar todos a padrões de vida decentes e sadios de acordo com as necessidades gerais de Canopus. Então, com o passar do tempo, em virtude do crescimento das populações em todas as regiões, o que significava uma diminuição da substância do sentimento de comunhão para cada um, e em virtude do crescimento contínuo da força de Shammat, o número de indivíduos que podia responder — ou que, tendo respondido inicialmente, eram capazes de manter essa resposta como um contato constante e vivo conosco, com Canopus — foi diminuindo gradualmente. Em uma cidade onde a massa da população mergulhara em um desinteresse total, era comum haver apenas um ou dois indivíduos ainda ligados a nós, desesperadamente procurando sobreviver. Às vezes, civilizações inteiras não tinham nem um desses indivíduos, jamais tinham tido esse "fermento"; ou, se nossos esforços conseguiam conquistar uns poucos, eram logo desviados, ou destruídos, ou sucumbiam às pressões que pesavam sobre eles. Muitas vezes esses indivíduos valiosos só conseguiam sobreviver em asilos de loucos ou como marginais isolados nos desertos.

Houve casos de alguns dos nossos enviados, poucos, sem dúvida, caírem presas dessas pressões, temporária ou permanentemente. Neste último caso, eram submetidos a longos períodos de reabilitação, ao voltarem a Canopus, ou enviados a um planeta colonizado adequado para se restabelecer.

Durante todo o período aqui estudado, floresceram religiões dos mais variados tipos. As que nos interessam formaram-se com base nas vidas ou nas palavras dos nossos enviados. Isso ocorreu na maior parte dos casos, e pode ser considerado como uma regra: cada um dos nossos acauteladores públicos deixou uma religião, ou culto, e muitos dos que são desconhecidos fizeram o mesmo.

Essas religiões tinham dois aspectos principais. O aspecto positivo, na melhor das hipóteses: uma estabilização da cultura, evitando os piores excessos de brutalidade, exploração e cobiça. O negativo: um clero que manipulava as regras, regulamentos, com inflexível característica punitiva; às vezes permitindo ou exacerbando os excessos de brutalidade, exploração e cobiça. Esse clero distorcia o que restava das instruções dos nossos enviados, quando eram compreendidas por todos, e criavam um grupo vitalício de indivíduos totalmente identificados com suas normas de ética, regras, crenças, e que eram sempre os piores inimigos dos nossos enviados.

Essas religiões foram uma das grandes dificuldades para a manutenção de Shikasta no nosso sistema.

Sempre atuavam como agentes entusiastas de Shammat.

Em nenhum tempo, durante esse período, foi possível a um enviado aproximar-se de qualquer parte de Shikasta sem precisar se esquivar, enganar, ou de qualquer forma tornar inócuos esses representantes de "Deus", os "Deuses" ou o que fosse a moda no momento. Muitas vezes nossos emissários foram perseguidos, assassinados, ou coisa pior — pois todas as suas instruções, vitais e necessárias àquele lugar determinado, eram distorcidas. Freqüentemente a ascendência de uma "religião" sobre uma cultura, ou mesmo sobre todo um continente, era tão extensa que nossos agentes não conseguiam causar nenhum impacto e tinham de trabalhar em outras partes de Shikasta, onde as condições fossem menos monolíticas, talvez até — de acordo com as idéias da época — menos primitivas. Muitas vezes, na história de Shikasta, nossa união foi mantida por uma cultura ou subcultura, considerada desprezível pela classe governante, que era quase sempre um misto de militarismo e religião: os militares usavam os sacerdotes, ou estes usavam aqueles.

Por longos períodos da história de Shikasta podemos resumir a situação da seguinte maneira: em tal ou tal lugar, algumas centenas, ou até mesmo um punhado de indivíduos, conseguiram, com imensa dificuldade, adaptar suas vidas aos padrões de Canopus, dessa forma salvando o futuro de Shikasta.

Quanto mais esse processo se repetia, mais difícil se tornava aos nossos agentes abrir caminho entre as redes de formulações emocionais e intelectuais originárias dos visitantes que os precederam. Shikasta era uma olla podrida de cultos, crenças, religiões, credos, convicções; eram infindáveis e cada um dos nossos enviados devia levar em conta o fato de que mesmo antes de ele, ou ela, estar morto, suas instruções já teriam voado para o reino da fantasia, ou se petrificado sob a forma de dogma; cada um deles sabia que esse método flexível, novo, recém-criado, adaptado àquela fase particular, antes mesmo de ter terminado seu trabalho, seria capturado pela Lei shikastiana e se tornaria mecânico e inútil. Ela, ou ele, estaria trabalhando não só contra milhares de formulações passadas e congeladas, mas contra a sua também... Um dos enviados descreveu da seguinte maneira: era como se estivéssemos apostando uma corrida no máximo da velocidade, para nos conservarmos na frente de nossas próprias idéias, palavras e ações, que corriam atrás de nós e se transformavam em inimigos — o que há poucos minutos era vivo e funcional já estava morto e usado pelos mortos. Pelos representantes e cativos de Shammat que, nesse período, atingiram um alto nível de bestialidade, de poder destrutivo, dirigidos especialmente ao que era canalizado para fora de Shikasta. Os representantes de Shammat, como os nossos, estavam sempre em Shikasta. Shammat capturou culturas inteiras, civilizações, colocando-as completamente fora do nosso alcance. Shammat era, do seu próprio ponto de vista, um colonizador bem-sucedido de Shikasta. Mas nunca completamente, nunca totalmente. Isso não seria possível.

As principais religiões dos últimos dias eram todas fundadas por emissários Grau I. A última delas permaneceu, de certa forma, menos dilacerada e sectária do que as outras. A nível popular, era uma religião simples, baseada em emoção e em uma escritura cujo nível mais baixo de compreensão — o nível no qual tinha sido estabelecida — era composto de ameaças e promessas, pois só a isso os shikastianos podiam responder então. Nessa época, poucos deles eram capazes de responder a qualquer coisa, exceto em termos de ganho pessoal, ou perda. Ora, se tais indivíduos, por meio de contato prolongado e trabalhoso e instrução, aprenderam que o que precisavam não era a nível de ganho ou perda, então isso tinha de ser em um estágio mais avançado, pois os primeiros estágios de atração pelas influências canopianas eram vistos sempre como tudo era visto em Shikasta: algo dado, doado.

Pois, naquele tempo final, o Dever era um conceito completamente esquecido. Não se sabia o que significava o Dever. Dizer a eles que algo devia ser feito era dizer-lhes palavras estranhas, inconcebíveis, que não podiam ser absorvidas por suas mentes. Preocupavam-se apenas em tomar. Ou receber. Eram um conjunto de bocas abertas e mãos estendidas para receber — Shammat! Tudo apenas agarrar e segurar — Shammat! Shammat!

Nos primeiros tempos, depois do desastre, bastava que um de nós entrasse em uma vila, uma povoação e sentasse com eles, falando do passado, do que tinham sido, do que seriam um dia, mas apenas pelo próprio esforço e diligência — dizer-lhes que tinham deveres para com Canopus que os tinha criado, que os manteria durante os tempos difíceis, que os estava protegendo contra Shammat, que possuíam uma substância não-shikastiana, que um dia os havia de redimir —, muitas vezes bastava isso para que se dedicassem e procurassem se adaptar às necessidades do momento.

Mas isso começou a corresponder cada vez menos às nossas expectativas. Perto do fim, nossos agentes iniciavam o trabalho sabendo que seria preciso não um dia, um mês ou um ano, mas talvez toda a sua vida para estabilizar uns poucos indivíduos, a fim de que pudessem nos ouvir.

Relatórios, registros e memorandos dos nossos mensageiros demonstram um esforço sempre maior para resultado cada vez menor.

Pequenos grupos de indivíduos salvos do esquecimento eram o fruto do trabalho de dezenas de missionários de Canopus de todos os graus, tipos e níveis de experiência, em diversos planetas. Esses pequenos grupos, esses poucos eram o suficiente para manter o elo, a união. Mas a que preço!

O quanto Shikasta sempre custou a Canopus!

Quantas vezes os nossos enviados voltavam de uma missão em Shikasta, atônitos com a fragilidade do elo que nos unia; assombrados com o que tinham visto.

Deve ser registrado que mais de uma vez discutiu-se se Shikasta valia todo esse esforço. Uma conferência em escala completa, envolvendo Canopus e nossas colônias, foi convocada para discutir o assunto. Formou-se um grupo minoritário a favor de expulsar Shikasta do sistema. Por isso Shikasta ocupa uma posição sem paralelo entre os planetas colonizados: o serviço em Shikasta é voluntário, exceto para os que têm trabalhado nela desde o princípio.

 

 

JOHOR — Relatório.

 

Este é o relatório pedido sobre indivíduos que estariam em situação bem diferente se Taufiq não tivesse sido capturado, e sobre ocorrências que teriam também um alinhamento diverso. Nem sempre pretendo me estender sobre o papel exato que John Brent-Oxford deve ter desempenhado.

Para entrar em contato com eles, cheguei a Shikasta através da Zona Seis, em vários pontos, mas especialmente utilizando o habitat dos Gigantes.

 

INDIVÍDUO UM

Embora ela tenha nascido em um país de céu imenso e paisagens abertas, desde os primeiros anos foi perturbada por uma sensação de confinamento. Sentia que precisava encontrar dentro de si mesma memórias de uma experiência mais importante, de céus mais profundos. Mas não tinha essas memórias. A sociedade em que vivia parecia-lhe mesquinha, insignificante, uma caricatura. Quando era criança não podia acreditar que os adultos levassem a sério os jogos que faziam. Tudo o que era feito e dito parecia uma repetição, uma reciclagem, como se fossem fantoches representando a mesma peça. Sofrendo de uma severa claustrofobia, recusou todos os desenvolvimentos normais possíveis, e logo que se tornou financeiramente independente deixou a família e aquela sociedade. O modo pelo qual ganhava a vida não tinha a menor importância para ela. Foi para outra cidade no mesmo continente, mas tudo parecia igual. Não só os mesmos padrões de pensamento e de comportamento, como também as pessoas que chegou a conhecer eram amigos ou parentes dos que deixara em sua cidade. Mudou-se para outra cidade, mais outra — e afinal, para outro continente. Embora houvesse uma conspiração geral — pelo menos assim lhe parecia — para afirmar que esta cultura era diferente da que ela havia deixado, e essa idéia fosse defendida em milhares de livros e tratados sobre política, psicologia, economia, sociologia, filosofia e religião, para ela parecia idêntica. Uma língua, ou línguas diferentes. Um pouco mais generosos de certa forma — o modo de tratar as mulheres, por exemplo. Piores, em outra: as crianças não eram tratadas como deviam. Os animais eram respeitados em um lugar, mas não em outro, e assim por diante. Mas os padrões de servidão humana — que era como ela os definia — não variavam muito. E, não importa aonde fosse, não encontrava pessoas diferentes. Um homem conhecido em uma situação improvável — por acaso, em uma lavanderia ou no ponto do ônibus — era afinal parente ou conhecido de pessoas de outra cidade, ou amigo de uma família que ela conhecera quando criança. Partiu novamente, procurando então uma sociedade "antiga" — segundo os shikastianos — mais complexa, mais estruturada, mais variada do que as que conhecia. Mais uma vez definiam como diferenças o que para ela eram apenas semelhanças. Ganhava a vida como podia, sem se comprometer, não se casou, fez três abortos, porque os homens não lhe pareciam fabricados originalmente com humanidade bastante para merecer descendência. E não conseguia encontrar pessoas novas, diferentes. Sentia-se presa em uma tela invisível, ou dentro de um molde, que, nos seus momentos mais sombrios, tomava a forma de uma imensa teia de aranha, onde todas as pessoas e acontecimentos eram interligados, e da qual, por mais que se esforçasse, jamais se poderia livrar. E não expressava o que sentia, pois tinha a certeza de não ser compreendida. Ninguém estava vendo o que ela via. O que ela escutava não chegava a outros ouvidos.

Estava em um país das faixas do Noroeste. Ocorreu-lhe que essa mudança para esse país, que representava, em sua opinião, um grande esforço para fazer a escolha certa, esse grande autotransporte não tinha sido o resultado de sua vontade; era a vontade de seu pai. Lembrava-se agora de que ele sempre tinha desejado viver nessa cidade, nesse país, e de um certo modo especial. Embora não tivesse copiado o sonho do pai — pois era obsoleto —, estava vivendo o equivalente contemporâneo do mesmo. Logo depois de descobrir esse fato, encontrou-se do lado de fora de uma porta em uma rua desconhecida, à procura de um médico, e lembrou-se de que uma tia lhe tinha dado esse endereço, em carta enviada do seu país natal.

Tornou a partir, para o extremo Norte do Continente Isolado do Norte. Chegou a uma pequena cidade que era coberta de neve a maior parte do ano. Ninguém ia a esse lugar por prazer. Era uma cidade de trabalho, e ela arranjou emprego em uma loja que vendia mercadorias para caçadores e índios. Não podia ter encontrado uma situação mais contrária a tudo o que seus pais e seu antigo ambiente familiar teriam preconizado para ela. Então entrou na loja um homem que ela conhecia. Era um médico, que vira pela última vez em sua cidade natal, há 15 anos. Tinham sido ligados brevemente por uma união impessoal, típica daquela época.

Fugiu para as faixas do Noroeste. Estava agora no coração de uma cidade grande, espalhada, disforme, com alguns milhões de habitantes. Obedecendo a um impulso, desceu do ônibus e entrou em um restaurante para tomar chá. Sentiu algo familiar. Uma garçonete a cumprimentou: era a irmã do médico.

Afinal, o mundo se fechara em volta dela como uma algema. Gritou, correu pelo restaurante, quebrando louça, revirando as mesas.

Chegou a polícia. Ela foi levada a um hospital. Os médicos não chegaram a um acordo sobre sua sanidade mental e o restaurante processou-a por danos. Mas o advogado que teria defendido sua causa adequadamente não estava na cidade. Se estivesse, o caso teria sido estudado desde as suas origens e influenciado acontecimentos e pessoas...

Ela ficou no hospital por mais tempo do que era necessário, as providências se arrastavam, eram adiadas. Afinal foi multada pela justiça e alguma boa alma pagou a multa. Foi libertada, mas sentia-se na pior prisão que se pode imaginar.

Se John (Taufiq) a tivesse defendido, poderia ter feito com que ela parasse e procurasse analisar o que a aprisionava.

Eu consegui uma alternativa, uma crise temporária de paralisia, diagnosticada como de fundo histérico.

Incapaz de continuar fugindo, debateu-se interiormente por algum tempo, e como um falcão encurralado que se esconde entre as próprias penas, com os olhos brilhantes fitos no seu assaltante, ela aprendeu a encarar de frente o que mais a assustava.

 

INDIVÍDUO DOIS

A padronização intelectual e emocional era extrema. O principal mecanismo dessa uniformidade era um instrumento que produzia material doutrinário idêntico, simultaneamente em todas as unidades de vida e de trabalho, quer se tratasse de um indivíduo, de uma família ou uma instituição, no país inteiro. Esses programas eram padronizados, especialmente para as crianças. Na melhor das hipóteses, reforçavam um baixo nível de ética — bondade para com os animais, por exemplo —, mas o perigo estava justamente na repetição infinita.

O ventriloquismo tornou-se popular. Uma pessoa de temperamento afável e conformado desenvolvia uma personalidade subsidiária e a apresentava como um boneco de ventríloquo. Essa segunda personalidade podia ser a de sua própria espécie ou variações de temas sobre animais. Uma das mais populares era um cão, de aparência adorável, hábil em praticar desonestidades com sucesso. Em todos os episódios da história, esse animal roubava, mentia e enganava, sempre se saindo bem de um fracasso com malícia, fanfarronada, lisonja e manipulação. Era também extremamente guloso. Essa criatura não era um criminoso ou um monstro, apenas um espertalhão em pequena escala e, se aceitarmos a premissa, bastante divertido. Naturalmente, só poderia ser considerado assim em tempos de corrupção quase total.

As crianças se identificavam com essas figuras "irreais", que não passavam de bonecos, ou fantoches, e que serviam como uma dupla personalidade, simplesmente porque não exigiam os níveis de autocrítica que seriam exigidos das criaturas que agissem como elas e que fossem "reais".

Um determinado grupo de crianças, negligenciadas pelos pais, ocupados com seus trabalhos, eram deixadas sozinhas e criavam um mundo privado no qual se transformavam nesse boneco, esse cão com o nome típico de Collie Esperto. E essas crianças cada vez mais se retiravam para o interior desse mundo que tinham criado, baseado nos exemplos de fraude, enganos e mentiras — tudo isso com uma motivação padronizada, pois tudo o que tinham a fazer era, todas as tardes, apertar um botão, para ver o programa dos seus alter egos na tela. Começaram a idealizar crimes mais complexos. Logo arranjaram um líder. Era uma menina brilhante, inteligente, de 11 anos. Ela os conservava unidos, providenciava para que não perdessem os episódios da história do ventríloquo, e traduzia para ação as mensagens do Collie Esperto. Isso continuou por três anos, enquanto as crianças se tornavam jovens adultos, de 13, 14, 15 anos. Seus crimes, em uma sociedade em que todos usavam uma forma ou outra de engano e de roubo, passaram despercebidos. Roubavam de lojas, invadiam residências, tinham sempre dinheiro e mercadorias. Depois de cada incursão, o grupo se reunia para um ritual em que suas ações eram representadas em termos dos seus padrões.

Durante o assalto a uma casa foi cometido um homicídio, quase por acidente, sem nenhuma idéia do seu significado.

Foram apanhados e os detalhes do culto vieram a público. As fotografias dos jovens criminosos e da sala que usavam — em uma casa vazia, decorada com desenhos e modelos do Collie Esperto — foram reproduzidas por toda parte. Quando médicos e psiquiatras examinaram as crianças, descobriram que a identificação com o animal só as afetava em parte, pois todas possuíam uma personalidade comum, com objetivos, crenças e padrões completamente diferentes dos da personalidade adotada, que era uma personalidade de grupo.

A menina disse que há um mês o Collie Esperto, na história, atormentava e provocava uma velha louca antes de derrubá-la, deixando-a aparentemente inconsciente, reprovado por seu criador e alter ego, que sempre desempenhava o papel — ineficaz — de consciência para os excessos dessa personalidade secundária. Ou para os seus sucessos.

Todo o grupo foi julgado, de modo sem precedentes naquela época, um julgamento exemplar, pois a criminalidade infantil estava tão prevalente que as pessoas tinham mais medo das crianças do que dos adultos.

A menina ocupava uma posição especial como líder confessa do grupo ou líder autoproclamada, pois orgulhava-se desse papel.

Se Taufiq estivesse onde deveria estar, teria defendido essas crianças como vítimas da doutrinação. Se essa doutrinação era feita deliberadamente pelas autoridades, ou era o resultado da ignorância, não dizia respeito, não podia dizer respeito — ele teria argumentado — às crianças, que tinham de sofrer suas conseqüências. Em outras palavras, Taufiq, John, teria inspirado uma campanha pública para levar o público morno e indiferente a reconhecer onde, quando e como os métodos doutrinários mais sofisticados estavam sendo aplicados para cativar os povos.

Mais ainda, se Taufiq tivesse tomado parte nesses acontecimentos, sua personalidade especial teria influenciado esses jovens de um modo que seria impossível a qualquer outra pessoa influenciá-los. Todos tinham sido negligenciados, a nenhum haviam apresentado um exemplo digno de ser seguido. Taufiq os teria conduzido à liberdade interior para fazer escolhas reais sobre o rumo de suas vidas.

Mas, agora, o que um indivíduo poderia ter feito tornava-se tarefa de várias pessoas. Arranjei um grupo de advogados sem inspiração prévia, para o trabalho de responsabilidade pública da defesa do caso; poderiam pelo menos fazer uma parte do que devia ser feito. Quanto a influenciar os jovens, providenciei para que cada um entrasse em contato com aqueles que podiam ajudá-los, até certo ponto: um especialista em orientação infantil com certas características, um carcereiro — três deles haviam sido mandados para a cadeia — um médico, assistentes sociais.

A tarefa junto a esses três jovens foi mais demorada do que eu esperava e do que tinha planejado. Não foi a minha missão de maior sucesso. A menina não se refez do tempo passado em uma prisão que contribuiu apenas para empedernir e deformar; quando terminou a pena, era uma verdadeira criminosa e logo se transferiu emocionalmente para uma facção política extremada, uma das muitas que floresciam na época, e foi morta em uma façanha que podia ser definida como parte terrorista e parte visando a lucro material. Não tinha ainda 20 anos. Portanto, sua reabilitação precisou ser adiada para depois da sua entrada na Zona Seis.

 

indivíduo três (Líder Trabalhista)

Um tipo comum em todo o Século da Destruição em todas as partes de Shikasta, mas a variedade da qual vou falar foi produzida pelas faixas do Noroeste e desempenhava um papel-chave na estrutura social. Era um tipo estabilizador, e o fato de ser considerado como tal por muitos é um amargo paradoxo, uma vez que sua ideologia nascia quase sempre da filosofia de transformação completa e rápida da sociedade em uma espécie de "paraíso" não influenciado pela literatura "sagrada" local.

Esse indivíduo nasceu no caos intensificado pela Primeira Guerra Mundial. Uma classe pouco numerosa vivia ricamente, mas o grosso da população era pobre. Ele nasceu, cresceu e tornou-se um jovem adulto entre pessoas que jamais tinham alimento suficiente, nem agasalhos, nem habitações adequadas e raramente conseguiam trabalho. Três membros de sua família morreram de doenças provocadas pela desnutrição. A mãe estava gasta pelo trabalho e pelo sofrimento antes dos 30 anos.

Desde o momento em que tomou consciência de sua situação, o que se deu muito cedo, ele vivia em um estado de incredulidade ansiosa sobre o nível de vida dos que o rodeavam. O garoto franzino andava pelas ruas, protegido do frio, da fome e da dolorosa injustiça por seus sonhos e visões. Cada homem, mulher ou criança mirrada que via parecia possuir um ser alternado, um sósia... aquele que poderia ser, aquele que tinha sido... Fixava os olhos ardentes em um rosto e dirigia-se a ele, silenciosamente: "Pobre coisa exausta, você podia ser qualquer outra coisa, a culpa não é sua..." Olhava para a irmã e via a menina anêmica, que trabalhava desde os 14 anos, sem esperança de um futuro melhor do que o da mãe, e, no seu íntimo, dizia: "Você não sabe o que é, o que poderia ser" — e era como se estivesse passando os braços ao redor, não só dos ombros dela, mas de todos os pobres do mundo. Acariciava os vencidos e os deformados com seu olhar, dava força aos famintos e desesperados, murmurando: "Você tem o poder de ser uma maravilha! Sim, você é uma maravilha e não sabe!" E fazia promessas, votos ardentes para si mesmo e para eles, no íntimo do seu ser.

Simplesmente não podia acreditar que essa privação extrema fosse possível em um país — ele via o problema em termos do seu país, de sua cidade, pois "o mundo" para ele era apenas manchetes nos jornais — que se dizia rico e que dirigia um império mundial.

Era muito mais informado do que seus companheiros, porque seu pai era representante dos trabalhadores sempre que sua vida árdua lhe concedia tempo e forças para isso. Em sua casa havia livros e idéias além das que diziam respeito à luta para alimentar e vestir a família.

Ele esteve no exército por cinco anos, na Segunda Guerra Mundial. Sua emoção predominante de incredulidade ante o fato de as pessoas serem capazes de infligir tanto sofrimento aos seus semelhantes mudou. Já não estava incrédulo; como soldado, tinha viajado e vira condições semelhantes em toda parte. A guerra o ensinou a pensar em termos de Shikasta como um todo, e em termos de forças interatuantes, pelo menos até certo ponto: sua compaixão não abrangia os homens de pele escura; não conseguia vencer as influências de sua educação que o faziam considerar-se superior. Mas estava sendo afetado também, como todos, dentro ou fora do exército, pela brutalidade e pela crueldade. Agora aceitava como próprias da "natureza humana" certas coisas que, quando criança, teria rejeitado. Ainda assim, tinha objetivos determinados e estava ansioso por voltar para casa e animar os outros, salvando-os, ajudando-os, protegendo-os contra as realidades que ele próprio se sentia capaz de suportar, embora eles não pudessem.

Quando chegou em casa, depois de dar baixa no exército, começou a "falar em nome da classe trabalhadora", como se dizia na época, e logo se tornou conhecido.

O período que se seguiu ao fim da guerra foi amargo, um período de pobreza, sombrio, incolor. As nações das faixas do Noroeste estavam arrasadas, física e moralmente. [Ver História de Shikasta, vol. 3014, Período entre a Segunda Guerra Mundial e a Terceira Guerra Mundial. Sumário.] O Continente Isolado do Norte estava mais forte e mantendo as nações das faixas do Noroeste em condições que faziam delas aliados obedientes e servis do bloco militar dominado por esse continente. A riqueza fluía do bloco militar nas faixas do Noroeste, e 15 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial houve um surto súbito e breve de prosperidade em toda a área. Era um paradoxo, em tempos paradoxais, e extremamente desmoralizante para as populações que já estavam desmoralizadas e desprovidas de objetivos.

O sistema de produção econômica dependia do consumo de todos os tipos de mercadorias pela população inteira — consumo de objetos completamente desnecessários, alimentos, bebidas, roupas, aparelhos. Todos nas faixas do Noroeste — bem como no Continente Isolado do Norte — eram sujeitos, a cada momento do dia, através de métodos de propaganda com poder sem precedentes, à necessidade de comprar, consumir, desperdiçar, destruir, jogar fora — e isso quando o globo, como um todo, estava com deficiência de tudo e quando a maioria do povo de Shikasta morria de fome e passava privações.

O indivíduo sobre quem falamos estava com 40 anos e era um membro importante da organização dos trabalhadores.

Seu papel era evitar que aqueles a quem representava recebessem menos do que o necessário para uma vida decente — isso, como primeiro objetivo; ou seja, conseguir para eles "o maior pedaço possível do bolo"; ou — mas este já se tornara um objetivo secundário para os outros — derrubar o sistema econômico e substituí-lo por um governo dos trabalhadores. Muitas vezes ele comparava o modo como via as coisas agora e como as encarava quando, ainda criança, via ruas inteiras, bairros, cidades famintas e miseráveis. Esse surto de riqueza falso e sem base, que duraria tão pouco, era intoxicante. De súbito tudo parecia possível. Estavam ao alcance da mão experiências, modos de vida com os quais jamais sonhara, acessíveis aos seus iguais. Não apenas "um salário para uma vida decente", um slogan que agora lhe parecia mesquinho e covarde, mas tudo o que se pudesse obter. E essa atitude era constantemente reforçada por tudo o que o rodeava. Não que a classe trabalhadora tivesse tudo o que os ricos tinham, mas milhões estavam conseguindo mais do que parecia possível, sem uma mudança violenta na sociedade, sem uma revolução... nesta atmosfera onde parecia não haver limite para as expectativas, aparentemente também não havia motivo para que os trabalhadores de uma nação não exigissem uma retribuição pela pobreza dos seus pais, dos seus avós, dos seus bisavós, pelas humilhações da própria infância. A vingança era um motivo evidente.

Mas não era da natureza das coisas que a Era da Riqueza continuasse, e os motivos não estavam nas condições locais, mas globais — e isso o nosso amigo compreendia. Ainda examinava os acontecimentos com menor estreiteza de vistas do que os outros. Permaneceu solitário. Era chamado de "o homem singular". Onde grupos de pessoas são conservados por meio da atitude de defesa contra as forças que combatem, as características de individualismo são vistas com afeição, admiradas, elogiadas.

Eles o admiravam por defender pontos de vista da minoria. Por ser calado, observador, por refletir, por criticar.

Esse era o seu papel.

Ele tinha integridade.

E orgulhava-se disso, ainda tinha orgulho, embora soubesse agora que palavras como essa podem adquirir uma lâmina de corte duplo. Notava que as pessoas estavam sempre prontas a elogiá-lo por sua integridade. E notava que as pessoas estavam sempre dispostas a cumprimentar os outros do modo como desejavam ser cumprimentados: uma lisonja obrigatória.

"Integridade" era o seu pré-requisito.

Não o único. Muitas coisas boas chegavam até ele graças à sua posição como representante dos trabalhadores. E por que não? Não se comparava com o que recebiam os "seus superiores" — como tinha aprendido a chamá-los quando criança e contra o que se tinha revoltado. E todos faziam. Faziam o quê? Não muito! Migalhas e pedacinhos daqui e dali do bolo. Que mal havia nisso? Em primeiro lugar, podia-se dizer que esses "incentivos" não eram para ele, pessoalmente, de modo nenhum, eram sim uma honra prestada à sua posição, e, portanto, aos trabalhadores. Secretamente ele meditava sobre o suborno, sobre onde começava e onde acabava. Sobre a lisonja como o alimento que sustentava — e comprava? Parecia passar horas e horas à procura de definições, auto-avaliação, dúvidas.

Estava com quase 50 anos, dois terços de sua vida já passados, os filhos crescidos. Os filhos o desapontavam; preocupavam-se apenas com o próprio bem-estar, o prazer, com seus bens, seu conforto. Ele os criticava, dizendo para si mesmo que os pais sempre se desapontam com os filhos. (E com razão, dizia para si mesmo, mas não para a mulher, que o achava exigente e difícil.) Também tinha orgulho deles, porque, por um processo inevitável que conhecia muito bem, os filhos estavam um degrau acima dele na escala social nessa sociedade infinitamente dividida; assim como seus filhos, seus netos subiriam mais um degrau — mas orgulhava-se com uma parte de si mesmo que desprezava. Sentia-se dividido, satisfeito ao ver que eles faziam exigências da vida, que ele até hoje não ousava sonhar fossem possíveis, embora fosse à custa de subir em uma sociedade que ele desprezava mais do que nunca.

Mas, criticando os filhos, estava criticando os membros jovens do seu sindicato — uma geração inteira. Isso era perigoso, porque traição e deslealdade constituíam uma ameaça. Não conseguia, porém, livrar-se desses pensamentos. A incredulidade, que fora a emoção mais forte da sua infância, voltava agora, transformada. Como era possível ao povo esquecer, aceitando tudo o que recebia como se lhe fosse devido — ladrões, surrupiando tudo o que podiam sempre que tinham oportunidade (e todos sabiam disso, inclusive eles mesmos), mas orgulhavam-se de agirem assim, considerando esses furtos, essas manobras como esperteza de sua parte, um meio de superar o mundo — eram todos descuidados, desatentos, incapazes de pensar, de ver que essa era de facilidades e riquezas era resultado de uma mudança transitória no malabarismo da economia internacional. Contudo, esses eram os filhos e filhas de pessoas tão miseráveis que quase sempre iam para a cama com fome, e tiveram seu crescimento tão retardado que, observando um grupo de trabalhadores, era fácil distinguir os avós, até mesmo os pais, praticamente anões comparados aos seus filhos. A história das classes desprivilegiadas nesse país sempre foi de pobreza extrema e privação. Teriam se esquecido? Como era possível? Como tudo isso podia estar acontecendo?

Enquanto isso, ele estava sempre ocupado, fazendo mil coisas, presidindo a comitês, argumentando com os empregadores, viajando e fazendo discursos, assistindo a conferências.

O que exatamente estava fazendo?

Como definir sua posição atual comparando-a com os sonhos que tinha para si mesmo no fim da Segunda Guerra Mundial?

Muitas vezes via-se, em reuniões ou conferências, ao lado de homens e mulheres que conhecia desde criança. Observava, esperando não ser observado, sentindo-se cada vez mais distanciado deles.

Durante toda a vida tinha aperfeiçoado e burilado um hábito: conservava próximas e vivas certas lembranças da infância, como a consciência ou ponto de referência para medir os acontecimentos atuais. Depois da guerra, quando começou a trabalhar nos comitês, uma dessas lembranças estava sempre nítida, conservada por tudo o que via à sua volta. Um seu primo vendia verduras na rua. A luta tremenda pela sobrevivência o desgastara precocemente. Ficava ao lado do carrinho de mão cheio de verduras, dia e noite, com qualquer tempo, tossindo, tremendo de frio, apenas se conservando vivo. Mas essa era a lembrança que tinha ficado — um garoto, tantas vezes espancado pelos colegas mais fortes, que sabe que levantar-se do chão significa apanhar mais. Era uma bravata cambaleante, e cada gesto dizia não me podem deixar no chão, sou um grande homem, sou forte, estou acima das circunstâncias... e assim ele ficava ali, mal podendo se manter de pé, a pobre vítima. Bem, para o garotinho que olhava a cena, era terrível; e agora ele via os mesmos gestos, a mesma bravata no povo que o rodeava, e era terrível outra vez.

Mas vieram os tempos de facilidade, de "riqueza".

Quando era jovem tinha uma idéia clara dos que se opunham a ele, da "classe inimiga". Tinham como característica não dizer a verdade. Eles mentiam. Enganavam. Quando se tratava de defender suas posições, seus bens, não havia golpe desonesto ou maldade de que não lançassem mão. Em um confronto entre eles, os representantes das "classes governantes" e os homens que falavam em nome dos milhões que lutavam para viver exibiam os rostos calmos e tranqüilos dos perfeitos mentirosos que se orgulham de saber mentir. Na sua juventude, via-se como um lutador tendo como arma a verdade e os fatos, contra esses exércitos de ladrões e mentirosos.

E agora? Observava um homem bem-humorado, afável e sorridente expondo um caso, e lembrava-se...

Eles não eram os vitoriosos, ele e os seus, de modo algum: eram ainda os derrotados, pois tinham-se tornado iguais aos "seus superiores". Ele e os seus tinham-se deixado conquistar por tudo aquilo que deviam odiar e que tinham odiado, mas haviam-se esquecido de odiar. Nos primeiros tempos da sua história, tinham olhado de frente seus opressores, que provocavam e blefavam — e enganavam; e tinham-se sentido superiores porque eram honestos e defendiam a verdade. E, agora, eles também blefavam e provocavam e enganavam — como todo mundo, naturalmente. Quem não o fazia? Quem não mentia, e roubava e enganava e tomava tudo o que podia? Por que então tinham de ser diferentes?

Esses pensamentos eram uma espécie de traição.

Pensando assim, sem querer pensar assim, com vergonha de si mesmo, e então dizendo a si mesmo que estava certo e devia seguir esses pensamentos, o conflito levou-o a um colapso nervoso. Os colegas preocupados — e aliviados — concederam-lhe um ano de licença. Há meses que ele se limitava a sentar-se silencioso, ouvindo as deliberações de todas as espécies e de súbito dizendo algo como: "Mas não devíamos voltar aos primeiros princípios?" Ou: "Por que toleramos tanto roubo e corrupção?" Ou: "Sim, mas isso não é verdade, é?" — com o rosto crispado e olhos secos e insones.

Foi para casa, para a mulher que trabalhava fora o dia inteiro em um emprego que ele considerava indigno dela. Trabalhava porque dizia que não tinham o suficiente, e ele afirmava que estava ganhando o bastante para uma vida que seus pais teriam considerado luxuosa. Por que ela não procurava fazer algo de si mesmo, alguma coisa mais séria?

O quê, por exemplo?

Bem, podia ir à escola noturna. Aprender uma profissão.

Que profissão? E para quê?

Ou podia organizar uma associação para defender a posição da mulher na sociedade.

Mas ela continuou a ganhar dinheiro para encher a casa de móveis que ele achava pretensiosos. Constantemente trocava as cortinas, comprava roupas e abastecia o congelador com uma quantidade de alimentos que daria para uma imensa família.

Ele resolveu fazer uma viagem a pé, sozinho, visitar velhos amigos, alguns dos quais não via há anos. Todos pareciam possuídos por um espírito maligno, como nos contos de fadas, e não eram mais as pessoas de quem se lembrava. Ou as pessoas que tinha pensado que eram? Andando sem destino, sozinho, voltava a ser o menino de anos atrás, quando todos lhe pareciam sombras do que podiam ser, pois via neles, claramente, todo o potencial, o que deveriam ter sido, poderiam ter sido, o que seriam... ou era apenas imaginação?

Foi visitar uma de suas irmãs — não a que mais amava e a quem confortara silenciosamente em pensamento pela triste vida, pois ela tinha morrido tuberculosa — mas outra, muito mais nova do que ele. Encontrou uma mulher cansada. Essa era a característica dela. Cuidava do marido, um homem afável, mas cansado também e silencioso, que parecia gostar dela apenas pelo serviço que lhe prestava. Ambos foram se deitar cedo. Ela falava o tempo todo com seus gatos. A filha tinha ido para a Austrália com o marido e os filhos. Ela estava preocupada com um carpete que precisava ser substituído, mas era uma tarefa acima de suas forças, o trabalho de se descartar do carpete velho, os trabalhadores entrando e saindo da casa. Não falava de outra coisa. A não ser da guerra, que ela lembrava com saudade porque "todos eram tão bons uns para os outros".

Quando ele voltou para casa depois dessa extensa caminhada, disse à mulher que ia processar a si mesmo.

— Você vai fazer o quê?

— Vou me colocar em julgamento.

— Você ficou doido, doido — observou ela, com razão, naturalmente, e apressou-se em contar aos amigos e colegas de trabalho que ele ainda não estava curado daquilo que "o preocupava".

Ele compareceu à reunião do seu sindicato e informou que ia se colocar em julgamento, "para o bem de nós todos", e pediu a cooperação dos companheiros.

Fizeram o que lhes pedia.

Mas ele não encontrou ninguém para se encarregar do seu caso.

Naquela época não eram raros julgamentos exemplares de todo tipo. Um grupo de pessoas, por exemplo, levava a julgamento algum processo ou instituição que lhes parecia inadequado ou desonesto.

O nosso amigo queria um julgamento no qual o seu eu jovem fazia a acusação do seu eu de meia-idade, perguntando

0 que tinha acontecido com os ideais, a visão, a capacidade para ver nos indivíduos um potencial infinito de desenvolvimento, o ódio à mesquinharia e à falta de responsabilidade, o ódio, acima de tudo, às mentiras, as palavras com duplo sentido, os enganos das mesas de conferências e comitês, as declarações públicas, a persona pública.

Ele queria que aquele jovem ardente, entusiasmado, ávido, maravilhoso, expusesse em público e fizesse em pedaços aquele instrumento, aquele fantoche horrível, sorridente e desonesto no qual se transformara.

Foi de advogado em advogado. Indivíduos. Depois, às organizações. Havia milhares de pequenos grupos políticos, com diferentes objetivos ou, pelo menos, diferentes formulações.

Os grandes partidos políticos, as grandes uniões de trabalhadores, todos os órgãos governamentais tinham crescido tanto, eram tão complicados, tão consumidos pela burocracia, que nada podiam realizar a não ser a formação e reforma constante de grupos de pressão: era um governo por grupos de pressão, administração por grupos de pressão, pois o governo não podia iniciar nada, apenas respondia. Mas todos esses grupos, alguns admiráveis em seus propósitos, tinham ideologias e alianças, e nenhum estava preparado para se ocupar desse caso estranho e bizarro, e nenhum via aquele jovem incorruptível e defensor da verdade como ele via. Procuravam agradá-lo. Ou, vezes sem conta, percebeu que estava a ponto de encontrar-se em uma plataforma defendendo alguma causa partidária. Ia de grupo em grupo, empenhava-se em discussões intermináveis e geralmente exaltadas, em argumentos, definições. A princípio via acrimônia como um sinal de "integridade" íntima, mas depois mudou de opinião. Começou a imaginar se aquilo que admirava em si mesmo quando jovem não era mais do que intolerância, a energia resultante da identificação com um objetivo limitado?

Não demorou a ter um ataque cardíaco, e mais outro, e afinal morreu.

Se Taufiq estivesse lá, o caso teria sido perfeitamente adaptado às suas capacidades.

Não teria permitido que o "julgamento" fosse bizarro ou tolo ou que tomasse a forma de autopromoção. Seria um julgamento que conquistaria a imaginação de uma geração, focalizando problemas e dúvidas íntimas; teria conduzido, acima de tudo, a uma compreensão mais profunda, por parte dos jovens, das rápidas mudanças e reviravoltas do passado recente, do qual eles pareciam estar tão distanciados.

 

indivíduo quatro (Tipo Terrorista 3)

[Para uma lista dos terroristas desse período, ver História de Shikasta, vol. 3014, Período entre a Segunda e a Terceira Guerra Mundial.]

Essa jovem mulher era conhecida por seus companheiros, e pelo mundo, no seu breve momento de exposição ao público, como A Marca.

Passara a infância em campos de concentração, onde seus pais morreram. Se havia algum membro de sua família ainda vivo, não fez nenhum esforço para encontrá-lo. Foi adotada por uma família e era obediente e correta para com os pais adotivos — uma sombra. Para ela, eles não eram reais. Só as pessoas que tinham estado nos campos tinham realidade. Mantinha contato com elas. Eram seus amigos porque compartilhavam o conhecimento "do que o mundo é realmente". Era meio judia, mas não se identificava especialmente com nenhum aspecto do judaísmo. Assim cresceu, considerava normal as pressões que sofria. Como resposta, passou a chamar-se A Marca. Recusara-se a remover a tatuagem dos campos de concentração. Agora possuía camisas, suéteres com o estigma reproduzido neles, em negro. Na cama, com seus "amantes" — uma forma de desafiar o mundo, com sua maneira fria e indiferente — segurava a mão do homem ou da mulher (era bissexual) e sorrindo a colocava sobre a marca no seu braço.

Procurava sem cessar todos aqueles que tinham estado em campos de concentração, em prisões. Muitas vezes atravessou fronteiras ilegalmente para entrar em campos, em prisões; essas incursões eram consideradas "impossíveis". Enfrentando o "impossível" sentia-se mais viva do que nunca. Planejava as tarefas mais difíceis para si mesma. Chegou a passar um ano em um instituto correcional, em um país da faixa Noroeste. Os prisioneiros acreditavam que ela estava em missão política, mas na verdade testava a si mesma. Para quê? Mas seu "papel histórico" não tinha sido ainda "cunhado pela história". Seu vocabulário consistia em slogans ou chavões, a maior parte de esquerda, com gíria das prisões e dos campos. Naquele estágio não tinha ainda definido o seu futuro. Não tinha um lar, mudava-se de um apartamento para outro nas diversas cidades das faixas do Noroeste. Esses apartamentos pertenciam a pessoas iguais a ela, alguns com empregos comuns, outros vivendo à custa de meios ilegais, de um modo ou de outro. O dinheiro não significava coisa alguma para ela. Sempre usava calças compridas, camisa ou suéter, e se estes últimos não tinham impresso o estigma, usava uma pulseira de prata com a marca dos campos de concentração.

Era uma moça atarracada, feia, sem nada que a distinguisse; mas as pessoas instintivamente olhavam para ela, sentindo-se pouco à vontade em sua presença fria e observadora. Era sempre controlada e hostil, a não ser com seus alter egos, os produtos dos campos de concentração. Com eles era afetuosa, com um carinho infantil e desajeitado. Só uma pessoa sabia os detalhes das suas incursões nos campos e prisões. Era um homem chamado "X".

Quando os grupos terroristas surgiram em toda parte, a maioria deles formada por pessoas mais jovens do que ela, A Marca era quase uma lenda. Eles a viam como um perigo, um "exibicionismo" e se afastavam; mas, naquela rede de apartamentos e casas onde se moviam, sempre tinham notícia de que ela acabara de sair, ou ia chegar em breve, ou alguém a conhecia, ou tinha sido ajudado por ela. Um homem, respeitado por eles, que estava formando um grupo, de modo correto e formal, do qual seria o líder — embora essa palavra tivesse outro significado para eles —, recusava-se a falar sobre ela, mas deixava entrever que ela era mais capaz e corajosa do que qualquer outra pessoa. Insistiu para que ela fosse convidada a participar do seu grupo; insistiu contra a oposição da maioria.

Disse que ela era sua amante secreta.

Certa tarde ela chegou a um apartamento em uma cidade industrial das faixas do Noroeste. Era um dia extremamente frio, nevava, soprava um vento gelado. Quatro pessoas de mais ou menos 20 anos, dois homens e duas mulheres, viram aquela mulher entrar no prédio: loura, queimada de sol, um pouco gorda, com um casaco de pele vulgar e caro e o sorriso fácil e bem-humorado dos privilegiados deste mundo. Essa mulher típica da classe média sentou-se com gestos elaborados, preocupada com a bolsa que devia ter custado uma fortuna mas estava um pouco maltratada, como fazem as pessoas que cuidam dos objetos que possuem. Os presentes caíram na gargalhada. Tornou-se para eles a irmã mais velha, uma camarada infinitamente inteligente que tinha feito com sucesso, durante toda a sua vida, coisas com que nem sonhavam. Esse círculo de fora-da-lei era a sua família, e seria até a morte, pois não podiam deixá-lo e voltar à vida comum — uma condição não-desejada e não-compreendida por eles. Os desafios que ela tinha feito a si mesma, seus feitos, foram revelados, discutidos, e deles tirados ensinamentos práticos de todo tipo.

Era o grupo terrorista de maior sucesso. Operou por mais de dez anos antes de A Marca ser apanhada, junto com outros oito. Seus objetivos eram sempre os mesmos: missões extremamente difíceis e perigosas que exigiam todos os recursos de bravura, habilidade, astúcia. Eram todos pessoas que precisavam do perigo para se sentirem vivos. Eram uma espécie de socialistas da "ala esquerda". Contudo, discussões sobre uma "linha", variações de dogmas, não eram importantes para eles. Quando trocavam entre si as frases do vocabulário internacional da esquerda, faziam-no friamente.

Não procuravam nem cortejavam a publicidade, mas utilizavam-se dela.

A maioria dos seus encontros com o perigo eram anônimos e não chegavam aos jornais ou à televisão.

Chantageavam firmas ou companhias internacionais, ou indivíduos por dinheiro. Grandes somas eram enviadas a organizações de refugiados, para prisioneiros que queriam fugir das prisões ou fugitivos, ou para a "rede". Jovens, em campos de refugiados, tinham cursos pagos misteriosamente nas universidades ou em escolas técnicas. Apartamentos ou casas eram preparados em diferentes países para uso da "rede". Organizações similares, em dificuldades temporárias, eram ajudadas. Eles também faziam chantagens e seqüestros, para obter informação. Queriam detalhes de como este ou aquele negócio funcionava, as ligações desta ou daquela firma multinacional. Queriam informações sobre instalações militares secretas — e conseguiam. Compravam material para fazer todos os tipos de bombas e armas e forneciam aos outros grupos. Se alguém perguntasse àqueles jovens por que não usavam seus talentos para "o bem comum", teriam respondido: "Mas é o que estou fazendo!", pois viam a si mesmos como um governo mundial alternativo.

Se foram apanhados foi por acaso, e não vamos descrever aqui como isso aconteceu.

A Marca e seus companheiros foram presos, com acusações múltiplas contra eles. Assassinatos tinham sido cometidos, mas não pelo prazer de matar. O prazer — se se pode chamar assim a excitação ao mais alto grau, tensa, com o brilho do relâmpago, que procuravam, ou melhor, que criavam — não estava no ato isolado e brutal da tortura de um indivíduo, mas na ação como um todo — a idéia, o planejamento, a tensão que crescia lentamente, a atenção exata e escrupulosa a todos os detalhes.

 

indivíduo cinco (Tipo Terrorista 12)

X era filho de pais ricos, que tinham feito fortuna com armamentos e indústrias associadas aos esforços de guerra: a Primeira Guerra Mundial iniciara essa riqueza. Seus pais tinham-se casado e divorciado várias vezes, ele não conhecia nenhuma vida de família e desde criança tinha sido auto-suficiente emocionalmente. Falava várias línguas, era cidadão de vários países. Era italiano, alemão, judeu, armênio, egípcio? Era qualquer coisa, de acordo com as conveniências.

Sendo homem de talento e recursos, poderia ter-se tornado uma peça eficiente no mecanismo de morte que herdara, mas não quis ser herdeiro de homem nenhum.

Com 15 anos aplicou vários golpes — chantagem emocional — em alguns ramos dos negócios de sua própria família. O que demonstrou sua capacidade de análise, uma visão ampla e fria, uma indiferença pelos sentimentos alheios. Era um desses indivíduos incapazes de separar um homem, ou uma mulher, das circunstâncias. Seu verdadeiro pai (embora ele não o considerasse como tal; um homem que vira uma meiadúzia de vezes, quase casualmente, e que tinha iluminado sua vida com suas idéias era para ele "o pai"), comum, preocupado, ansioso, que morreu cedo, do coração, um dos homens mais ricos do mundo, era considerado por ele um monstro, pelas circunstâncias do seu nascimento. X jamais questionou sua atitude; não podia. Para ele, um homem ou uma mulher eram as circunstâncias que os rodeavam, as ações. Dessa forma, não conhecia o sentimento de culpa. Era uma palavra que não podia compreender, nem mesmo com o maior esforço de imaginação. Jamais fizera questão de compreender as pessoas entre as quais fora criado: eram todas podres, o próprio mal. Sua família, seu ambiente era a "rede".

Conhecer A Marca foi importante. Tinha 12 anos menos do que ela. Estudara as aventuras dela com a mesma total absorção com que se estuda "Deus" ou o absoluto.

Em primeiro lugar, aquele homem encontrado casualmente e cujas idéias cruéis foram para ele a verdadeira essência da sabedoria. Depois, A Marca.

Quando tinham relações sexuais — sempre muito rápidas porque, para ela, o sexo era um apetite a ser satisfeito, nada mais — ele sentiu-se afirmado no mais íntimo do ser: a fria eficiência do ato, muito próximo da perversidade, era para ele a definição da vida.

X jamais teve um sentimento de calor por qualquer ser humano, apenas admiração, uma determinação de reconhecer a excelência, como ele definia.

Não queria nem procurava a atenção do público, da imprensa ou dos outros instrumentos de propaganda; desprezava o mundo. Mas, depois de realizar com sucesso um golpe, com ou sem o auxílio da "rede" (geralmente trabalhava sozinho, ou com A Marca), sempre contra o império de sua família, ele deixava uma assinatura, para que soubessem a quem deviam agradecer: um X, como a assinatura dos analfabetos.

Na cama, com A Marca, traçava um X sobre o número marcado em relevo no braço dela, especialmente no momento do orgasmo.

Jamais foi apanhado. Mais tarde, entrou para uma das forças policiais internacionais que ajudaram a governar Shikasta nos últimos dias.

 

indivíduo seis (Tipo Terrorista 8)

Os pais desse indivíduo tinham estado em vários campos de concentração durante toda a Segunda Guerra Mundial. O pai era judeu. O fato de terem sobrevivido era praticamente "impossível". Existem milhares de documentos que atestam sobre esses sobreviventes "impossíveis", cada um uma história de dedicação à própria sobrevivência, força interior, astúcia, coragem — e sorte. Os dois, marido e mulher, jamais deixaram os campos — estiveram em um campo de trabalhos forçados a leste das faixas do Noroeste, na última parte da guerra — até cinco anos depois do fim da guerra. Não havia lugar para eles. Nessa época, o indivíduo de quem estamos tratando já havia nascido em condições de fome e frio extremos — condições impossíveis. Era mirrado, raquítico, fraco, mas capaz de funcionar. Não teve irmãos: a vitalidade dos pais se exauriu com o esforço de recomeçarem a vida, com o auxílio de organizações de caridade, como uma unidade familiar na pequena cidade onde o pai trabalhava em uma indústria. Eram frugais, cautelosos, desconfiados, aproveitando todos os recursos com economia. Pessoas como eles compreendem, acima de tudo, o custo das coisas, o custo da vida. Seu amor ao filho era gratidão pela continuidade de sua existência: nada de impensado, animal, instintivo nesse amor. Para eles, ele era algo que tinha sido salvo — de modo impossível — do desastre.

Os pais não faziam amigos com facilidade; suas experiências os separavam das pessoas com quem conviviam, todas elas reduzidas a marginais da vida pela guerra — mas poucas tinham estado nos campos de concentração. Os pais não falavam com freqüência sobre seus anos nos campos, mas, quando o faziam, suas palavras atingiam o menino como uma visão opcional. O que aqueles dois cômodos pobres mas quentes e seguros em que viviam tinham a ver com aquele pesadelo de que os pais falavam? Às vezes, nesse período de suas vidas, os jovens, sujeitos a uma transformação glandular, cristalizam seus sentimentos em forma de oposição aos pais com um vigor que fixa neles a atitude de oposição para o resto de suas vidas.

Esse menino olhava para os pais e sentia-se chocado. Como tinha sido possível?, pensava.

Faço uma digressão para me referir à incredulidade registrada em meu relatório sobre o Indivíduo Três, que levou anos examinando as privações das pessoas com quem vivia, pensando: Como é possível? Simplesmente não acredito! Em parte, querendo dizer: Por que agüentam isso? E também: Que seres humanos possam tratar-se assim, não acredito!

No Indivíduo Seis, essa incredulidade era muito mais extensa do que no Indivíduo Três, que via as ruas, a cidade, e só com dificuldade podia imaginar as faixas do Noroeste, e muito menos a massa central de terra, o mundo: foram necessários anos de experiência de guerra para alargar suas fronteiras.

Mas o Indivíduo Seis sentia que ele era a guerra, e a guerra tinha sido mundial, imprimindo sua visão da vida como um sistema de processos interligados e atuando por interação.

Desde o momento em que começou a pensar, não conseguia ver o desenvolvimento das ocorrências como a geração anterior as tinha visto. Não existia "nação culpada", como não existiam nações vitoriosas ou vencidas. Uma nação não podia ser a única responsável por seus atos, uma vez que os grupos de nações formavam um todo, interagindo como um todo. A área geográfica chamada "Alemanha" — a palavra significava agora crueldade — não podia ser a única responsável pelo assassinato em massa e pelas brutalidades que tinha perpetrado; como podia ser, se um dia na biblioteca, estudando os fatos, era o bastante para mostrar que a "Segunda Guerra Mundial" se havia originado de uma multiplicidade de causas, uma expressão das faixas do Noroeste, uma continuação da Primeira Guerra Mundial. Como era possível a esses povos encarar os fatos separadamente, como crianças, ou como idiotas! Eram pobres de espírito. Eram estúpidos! Acima de tudo, não pareciam ter a menor idéia do que realmente eram.

E o menino de 15 anos impôs a si mesmo um regime que perturbou extremamente os pais. Não tinha um quarto só para ele, mas havia uma cama desmontável na cozinha e ele arrumou-a com o que tinham recebido nos campos: um cobertor fino e sujo. Raspou a cabeça e conservou-a raspada. Uma vez por semana alimentava-se apenas com a dieta adotada nos campos nos últimos dias da guerra: água quente engordurada, cascas de batata, restos de latas de lixo. Com extremo cuidado, quase uma obsessão, preparava essa "comida" e colocava-a na mesa, na hora das refeições, comendo reverentemente — um sacramento. Os pais comiam sua frugal refeição costumeira; seus estômagos sensibilizados não podiam aceitar quantidades normais. Lia para eles passagens de biografias, relatos das condições nos campos, as negociações, ou a ausência delas, que levaram à "Segunda Guerra Mundial" — Sempre acentuando as causas múltiplas e o efeito: se cada nação tivesse feito tal coisa, então isso não teria acontecido. Se tais e tais advertências tivessem sido acatadas... tal providência tomada... se aquele estadista tivesse ouvido...

Para aquelas pobres pessoas era como se o pesadelo do qual tinham escapado por milagre estivesse tomando conta de suas vidas. Tinham construído um cantinho abrigado, onde podiam se acreditar seguros, porque a maldade estava em outro lugar, ou em outra nação; a crueldade estava contida no passado, na história — o terror podia voltar, mas, graças a Deus, seria no futuro e até lá, se tivessem sorte, estariam mortos e a salvo... e agora seu refúgio estava sendo invadido, não pela "história" ou pelo "futuro", mas por esse filho precioso, que representava tudo o que tinham conseguido salvar do holocausto.

O pai pediu que ele levasse as suas verdades a outro lugar.

— São ou não são verdades? — ele os desafiava.

— Sim... não... não me importa, pelo amor de Deus!

— Não se importa!

— Sua mãe... não sabe o que ela passou, tenha pena dela!

O menino adicionou à sua disciplina o uso de farrapos sujos em certos dias da semana. Nas paredes da cozinha, que afinal era o único cômodo que tinha o direito de considerar seu, colocou inúmeras fotografias e gravuras de campos de concentração, mas não apenas os das faixas do Noroeste: logo ajuntou também uma verdadeira coleção de testemunhos das atrocidades cometidas pelos homens contra os seus semelhantes.

Sentava-se à mesa, o pai e a mãe comendo em um silêncio que era uma prece para que ele não "começasse outra vez" — e ele começava, contando fatos, citando números, uma litania de destruições, mortes por maltratos e tortura nos países comunistas, nos países não-comunistas, em qualquer país, em qualquer lugar.

[Ver História de Shikasta, vol. 3011, A Idade da Ideologia, "Auto-retratos de Nações". Áreas geográficas, ou associações temporárias de povos para defesa ou agressão. Cada entidade acreditando-se diferente, melhor, mais "civilizada" do que as outras, quando na verdade, vistas de fora, nada há nelas que se possa escolher. E vol. 3010, Psicologia das Massas, "Mecanismos Autoprotetores".]

Através de uma série de circunstâncias fortuitas, era impossível a esse jovem identificar-se com mitos nacionais e autolisonjas. Realmente não compreendia como outros o faziam. Acreditava que deviam estar fingindo, ou sendo deliberadamente covardes. Pertencia a uma geração — parte dela — que via nos jornais apenas um amontoado de mentiras, que automaticamente traduzia qualquer noticiário ou documentário da televisão para aquilo que provavelmente era verdade, lembrado o tempo todo, como uma pessoa religiosa se lembra das astúcias do Demônio, de que aquilo que apresentavam ao mundo ou a uma nação sobre qualquer fato era, por definição, apenas parte da informação real; sabia que nunca, em lugar algum, a verdade fora dita à população de um país; os fatos eram gotejados na consciência geral só muito mais tarde, ou nunca.

Tudo isso era bom, era um passo na direção da liberdade, de se livrar dos miasmas de Shikasta.

Mas era inútil para ele, porque não havia bondade em seu íntimo.

Era intolerante com os pais. A mãe, uma mulher de meia-idade, segundo os padrões normais, sentiu-se velha, ficou doente, teve um ataque cardíaco. O pai pediu, implorou, chegou a dizer: poupe sua mãe, poupe-nos.

O anjo insensível da vingança e do direito continuou nos cômodos pobres da família, os olhos fixos nos pais, com desprezo incrédulo. Como é possível que sejam assim!

Afinal, o pai disse que, se ele não podia tratar a mãe — "Sim, e eu também! Admito!" — com mais consideração, devia sair de casa.

O menino tinha 16 anos. Estão me expulsando! alegrou-se, pois tudo o que já sabia estava se confirmando.

Foi morar em um quarto na casa de um colega de escola, e nunca mais viu os pais.

Na escola esforçou-se para ser uma presença perturbadora. Era uma escola comum de cidade pequena, sem nada de notável no que diz respeito a ensino ou professores. Sentado no fundo da sala de aula, emanava dele uma antipatia punitiva, ali parado, os braços cruzados, as pernas estendidas para o lado, fixando os olhos, sem piscar, primeiro em um alvo, depois em outro. Punha-se de pé, depois de ter levantado a mão corretamente e começava: "Não é fato que...? Talvez não saiba que... Naturalmente conhece o Relatório do Governo n.° XYZ... Suponho que tal ou tal livro será parte do currículo para essa matéria? Não? Mas, como é possível?"

O pessoal da escola o temia, e os colegas também, mas alguns o admiravam. Em uma época em que os mais variados tipos de grupos de extremistas políticos atormentavam as autoridades, e "os jovens" eram, por definição, uma ameaça, não tinha ainda completado 17 anos e seu nome já era conhecido pela polícia, pois o diretor da escola o havia mencionado, prevenindo-se contra probabilidades futuras.

Esteve em vários grupos, a princípio de direita e não afiliado a nenhum partido político, depois passou a fazer parte de um grupo revolucionário de esquerda. Mas este tinha compromissos bem específicos: este país era bom, aquele outro era mau, esta crença era detestável, esta outra era "correta". Mais uma vez ele começou a dizer: "Mas, naturalmente, deve saber... Por acaso não leu... ? Não sabe que... ? Era evidente que devia formar o seu grupo, mas não se apressava. Para se manter, roubava, e tomou parte em vários pequenos furtos. Era-lhe indiferente os meios pelos quais conseguia um apartamento por alguns meses, refeições de graça por uma semana, ou uma namorada. Era completamente, quase agradavelmente amoral. Acusado de uma mentira ou de um furto, sorria e seu sorriso era um comentário desfavorável a tudo o que o rodeava. Sua reputação entre os grupos políticos não estava ainda formada, mas de modo geral era tido como inteligente, conhecedor de métodos de sobrevivência que eram respeitados por todos, mas descuidado.

Quando seu grupo de 12 rapazes e mulheres se cristalizou afinal, não se baseava em nenhum credo político. Todos tinham sido formados por experiências de privação emocional ou física, todos tinham sido diretamente afetados pela guerra. Nada mais podiam fazer além de olhar fixamente para o mundo, com olhos frios e cheios de ódio: Isso é o que vocês são. Não sonhavam com utopias futuras; sua imaginação não estava sintonizada para o futuro, ao contrário dos antigos revolucionários ou regionalistas; para eles não era "no próximo ano, ou na próxima década, ou no próximo século, criaremos o paraíso na terra...", mas apenas, "Isso é o que vocês são". Quando esse sistema hipócrita, mentiroso, miseravelmente estúpido fosse destruído, então todos seriam capazes de compreender...

Sua tarefa era expor o sistema como realmente era.

Mas tinham uma fé e nenhum programa. Tinham a verdade — mas o que fazer com ela? Tinham um vocabulário, mas não uma língua.

Observavam os feitos dos grupos de guerrilhas, os feitos dos terroristas.

Viam que era preciso realçar situações, acontecimentos.

Organizaram o seqüestro de um político que estivera envolvido em transação que eles desaprovavam e pediram como resgate a libertação de um homem que consideravam inocente. Apresentaram razões detalhadas para provar a inocência do prisioneiro, e, quando não o soltaram, mataram o refém e o deixaram em uma praça pública. Isso é o que vocês são, era o que sentiam ao assassinar o homem, dirigindo-se ao mundo todo.

O assassinato não tinha sido planejado. Os detalhes do seqüestro seguiram um certo esquema, mas não esperavam ter de matar o político, de certa forma acreditavam que as autoridades lhes entregariam o "inocente". A coisa toda foi executada com um certo descuido, impensadamente, e vários membros do grupo exigiram uma abordagem mais "séria", estudo, considerações.

O nosso Indivíduo Seis ouviu as reclamações, com seu característico sorriso descuidado, mas com olhos mortalmente frios. "Naturalmente, o que mais se podia esperar de gente como vocês?", dizia seu olhar.

Dois dos membros do grupo que haviam protestado sofreram "acidentes" nos dias seguintes, e agora ele comandava um grupo que não o considerava mais "descuidado" — não, pelo menos, como tinham pensado antes.

Eram nove, três mulheres.

Uma delas achava que pertencia a ele mas era um ponto de vista unilateral, pois ele não reconhecia essa situação. Faziam sexo em grupo, de todos os tipos. Era violento, engenhoso, e utilizava drogas e armas variadas. Bastões de gelignite, por exemplo. Quatro deles morreram em uma explosão durante uma dessas orgias. Ele não recrutou outros.

Os quatro restantes observaram que ele tinha gostado da publicidade. Insistiu em um "enterro ritual" que, embora a polícia não soubesse qual o grupo responsável por esse massacre, era o mesmo que pedir publicidade e prisão. Elegias para os mortos, poemas, desenhos de cenas heróicas foram deixados no armazém onde efetuaram o "réquiem socialista".

A essa altura estavam convencidos de que ele estava louco, mas era tarde demais para deixarem o grupo.

Organizaram outro seqüestro. O descuido com que foi executado chegava às raias do desprezo, e foram apanhados e levados a julgamento. Foi um julgamento que solapou o país, pelo desprezo que tinham à lei, aos processos legais.

Nessa época, em todas as faixas do Noroeste, quase todos viam os processos legais como uma fraca — a mais fraca possível — barreira entre o povo e uma anarquia total e brutal.

Todos sabiam que a "civilização" dependia dos suportes mais frágeis. Os mais velhos viam o que estava acontecendo no mundo com o mesmo pavor, de certa forma, que os jovens, como o Indivíduo Seis, viam, ou os outros grupos de terroristas, mas o efeito era oposto. Sabiam que a menor pressão, mesmo um acidente, algo intencional, poderia desmanchar toda a estrutura... e aí estavam esses loucos, esses jovens idiotas, prontos a arriscar tudo — mais, pretendendo destruir, querendo a destruição. Se pessoas como o Indivíduo Seis "não podiam acreditar", então o cidadão comum também "não podia acreditar": nunca se entenderam.

Quando os cinco foram levados a julgamento, acorrentados e atrás de grades complementares colocadas no tribunal, viram-se realizados, completamente satisfeitos.

"Isso é o que vocês são", estavam dizendo ao mundo. "Estas correntes brutais, estas grades, o fato de nos darem sentenças que nos conservarão presos para o resto de nossas vidas — isso é o que vocês são! Olhem-se no espelho, em nós!"

Na prisão e no tribunal mostravam-se eufóricos, vitoriosos, cantavam e riam, como se estivessem em uma festa.

Um ano após a sentença, o Indivíduo Seis e dois outros fugiram. Tomaram rumos diferentes. O Indivíduo Seis engordou, passou a usar peruca e adquiriu uma aparência de homem comum da classe média. Não procurou entrar em contato com nenhum dos membros do grupo que haviam escapado, nem com os que estavam presos. Quase não pensava neles: pertenciam ao passado!

Deliberadamente cortejava o perigo. Parava na rua para conversar com policiais. Entrava nas delegacias para denunciar pequenas irregularidades, como o roubo de uma bicicleta. Foi preso por excesso de velocidade. Compareceu perante o juiz. Tudo isso com um desprezo secreto e ardente: isso é o que vocês são, estúpidos, incompetentes...

Voltou para a cidade de sua infância, conseguiu um emprego discreto e passou a viver sem nenhuma preocupação de se esconder, a não ser pela troca do nome e da aparência. As pessoas o reconheciam, falavam com ele. Isso lhe dava prazer.

O pai estava agora em um asilo para velhos, inválido, sua mãe tinha morrido. Quando o pai soube que o filho estava na cidade, começou a andar pelas ruas, esperando vê-lo. Encontraram-se, mas o Indivíduo Seis apenas acenou, com um gesto amigável e alegre de não-me-incomode, e seguiu seu caminho.

Esperava que sua prisão inevitável levasse a outro julgamento com a mesma publicidade do primeiro. Queria repetir aquele momento em que ele, acorrentado como um cão, ficara de pé atrás das grades duplas. Mas, quando afinal o prenderam, foi mandado diretamente para a prisão para cumprir sua sentença.

Aquela euforia, aquela loucura — que o tinha levado para cima, para cima, desde o momento da verdade, quando pela primeira vez viu o que era o mundo, que tinha "aberto seus olhos" — dissolveu-se subitamente e ele cometeu suicídio.

 

indivíduo sete (Tipo Terrorista 5)

Era filha de pais ricos, fabricantes de uma utilidade doméstica conhecida internacionalmente, que contribuíam apenas para o imperativo econômico: você deve consumir.

Tinha um irmão, mas como estavam em escolas diferentes e ninguém achava importante que se conhecessem, tiveram, desde a infância, pouco contato físico ou emocional.

A moça era infeliz, descontente, sem saber ao certo o que havia de errado. Quando chegou à adolescência, compreendeu que sua família não tinha um ponto central, uma pessoa responsável: nem pai, nem mãe, nem irmão — este último com a função única de ser o herdeiro — se impunham às circunstâncias. Eram passivos perante acontecimentos, idéias, modas, conduta. Quando ela compreendeu isso — e mal podia acreditar que levara tanto tempo para ver —, percebeu que era a única na família a pensar assim. Não ocorria a eles a possibilidade de dizer "não". Viu-os e a si mesma como pedaços de papel ou restos de lixo levados pelo vento.

Não os odiou por isso. Não os desprezou. Eram irrelevantes.

Cursou três anos de universidade, onde levou a vida dupla de tantos jovens: democráticos e frugais na universidade, e com o luxo de uma minoria privilegiada à qual tudo é possível, em casa.

Não se interessava pelo que estava aprendendo, apenas pelas pessoas que conhecia. Entrou e saiu de facções políticas, todas da esquerda. Usava o vocabulário obrigatório desses círculos, o mesmo para todos — mesmo quando são inimigos.

O que todos tinham em comum era a idéia de que "o sistema" estava condenado. E seria substituído por pessoas como eles, diferentes.

Esses grupos, e havia milhares deles nas faixas do Noroeste — agora estamos tratando de outras partes do mundo —, tinham liberdade para organizar os próprios programas, estruturas de idéias, exatamente como bem entendessem, sem referência a uma realidade objetiva. (Essa menina, por exemplo, jamais percebeu que, durante os anos em que fez parte desses grupos, estava sendo tão passiva quanto era na sua família.) [Ver História de Shikasta, vol. 3011. A Era da Ideologia, 'Patologia dos Grupos Políticos".]

A partir do momento em que as religiões dominantes perderam a ascendência sobre todas as faixas do Noroeste e em toda Shikasta, houve um fenômeno de recaída entre os jovens: quando chegavam a uma certa idade e viam seus predecessores imediatos com os olhos frios e fixos, o resultado da queda da cultura no barbarismo, grupos deles, subitamente atingidos pela "verdade", rejeitavam tudo que os rodeava e procuravam na ideologia política (naturalmente, isso era, a nível emocional, idêntico à reação dos grupos que continuamente se formavam e se desfaziam sob as tiranias religiosas) as soluções para sua situação, sempre encaradas como novas. Grupos desse tipo apareciam da noite para o dia, atingidos por uma visão do mundo que, acreditavam, era completamente original, e em poucos dias estruturavam uma filosofia, um código de conduta, uma lista de inimigos e de aliados, pessoais, intergrupais, nacionais e internacionais. Dentro de um casulo de virtude, pois a essência de tudo era o fato de estarem com a razão, esses jovens viviam por semanas, meses, até anos. E, então, o grupo se subdividia. Exatamente como se dividem as células e os ramos de árvores. Mas sua identificação emocional com o grupo era tão grande que impedia o exame da dinâmica que deve operar em grupos. Enquanto os estudos feitos por psicólogos, pesquisadores de todo tipo, os estudiosos da mecânica da sociedade, se tornavam cada dia mais inteligentes, completos, precisos, suas conclusões jamais eram aplicadas aos grupos — como jamais foi possível aplicar uma visão racional ao comportamento religioso, no tempo em que as religiões mantinham suas tiranias, ou para os grupos religiosos aplicarem essas idéias em si mesmos. Os políticos faziam parte agora do reino do sagrado — do tabu. O mais superficial estudo da história mostra que todos os grupos, sem exceção, tendiam a se subdividir como uma ameba, e nada podiam fazer contra isso; contudo, sempre que acontecia, era sob os brados de "traidor", "traição", "sedição" e outros ruídos similares, sem significado. Se um membro de um desses grupos sugerisse que as leis conhecidas (em outras áreas) deviam operar aqui, estava cometendo traição; e esse indivíduo seria imediatamente expulso, exatamente como acontecia com a religião e com os grupos religiosos, com maldições e denúncias violentas e muita emotividade — para não mencionar a tortura física e até mesmo a morte. Assim, aconteceu que nessa sociedade infinitamente subdividida, onde diferentes grupos de idéias podiam existir lado a lado sem se afetarem entre si — ou pelo menos, por longos períodos —, os mecanismos, como parlamentos, conselhos, partidos políticos, grupos defensores das minorias, podiam se furtar à análise, como se fossem tabus, que não podem ser examinados de modo frio e racional, enquanto em outra área da sociedade psicólogos e sociólogos recebiam prêmios e reconhecimento por um trabalho que, se fosse aplicado, destruiria essa estrutura por completo.

Quando o Indivíduo Sete deixou a universidade, nada do que tinha aprendido parecia relevante para ela. A família esperava que se casasse com um homem igual a seu pai ou a seu irmão, ou que arranjasse um emprego que não exigisse muito esforço. Subitamente achou que não era nada e que nada de interesse a esperava no futuro.

Nessa época começou a haver "demonstrações" contínuas. O povo estava sempre nas ruas, gritando as exigências do momento.

Na universidade, ela tomara parte em demonstrações, e agora, olhando para trás, parecia-lhe que, quando estava correndo e gritando, ou cantando, no meio da multidão, sentia-se mais viva e mais completa.

Passou a sair de casa às escondidas, quando havia demonstrações, para algumas horas de satisfação intoxicante. Não importava qual a causa, qual a reivindicação. Então, por acaso, viu-se à frente de uma multidão que lutava contra a polícia, e logo estava empenhada em uma disputa física com um policial, um jovem que a agarrou, chamou-a de nomes e jogou-a, como um monte de trapos, nos braços de outro, que a devolveu do mesmo modo. Ela gritou e debateu-se, foi retirada das mãos da polícia, como um troféu, e encontrou-se ao lado de um jovem que ela sabia ser um "líder".

O rapaz era um tipo comum naquela época: mentalidade estreita, mal-informado, dogmático,sem senso de humor — um fanático que só podia existir em um grupo. Ela admirou-o completamente, sem reservas, e fizeram amor naquela noite antes de a moça voltar para casa. Ela lhe era indiferente, mas o jovem fez o favor que ela parecia pedir.

Agora tinha como objetivo conquistar esse homem. Queria ser a "sua mulher". Ele ficou envaidecido quando soube que ela pertencia a uma das mais ricas famílias da cidade — não, das faixas do Noroeste. Mas tratou-a com brutalidade, e, como um teste da sua devoção à causa (e a si mesmo, pois, para ele, eram uma e a mesma coisa), obrigou-a a tomar parte em atividades cada vez mais perigosas. Não eram golpes sérios e bem planejados como os dos terroristas dos tipos 12 ou 13. O líder exigia que ela ficasse ao seu lado à frente das demonstrações, que se lançasse contra a linha de policiais, que gritasse mais alto do que os outros, que se debatesse nas mãos da polícia. Os policiais, na verdade, se divertiam com essas mulheres histéricas. O que estavam exigindo dela era um grau sempre crescente de degradação.

E ela exultava. Mais e mais, entrava em luta com a polícia. O líder quase sempre era preso e ela saía e entrava nas delegacias de polícia, esperando a fiança, acompanhando-o no carro de presos, distribuindo folhetos e circulares. Seus pais souberam dessas atividades, mas, depois de consultarem outros pais na mesma situação, consolaram-se com a fórmula: os jovens são assim mesmo. Ela ficou furiosa com essa atitude: não a estavam levando a sério. Seu namorado a levava a sério. A polícia também. Deixou-se prender e passou alguns dias na cadeia. Uma... duas, três vezes. Então, os pais insistiam em pagar a fiança e ela saía, livre, deixando o "seu homem" e os companheiros na prisão, enquanto voltava para casa levada pelo motorista no carro da família.

Trocou de nome, saiu de casa, insistiu em viver com o seu homem. O que significava morar com um grupo de 12 ou mais. Aceitou e passou a viver em um pardieiro. Exultava com o desconforto, a sujeira. Cozinhava, limpava e servia o seu homem e seus amigos. Eles tinham um certo prazer com isso, porque era de família rica, mas para ela significava ser levada a sério, ser perdoada.

Os pais a encontraram, foram buscá-la, ela os mandou embora. Insistiram em abrir contas bancárias para ela e mandavam dinheiro, alimento, objetos, roupas. Estavam dando o que sempre lhe haviam dado: coisas.

O namorado, a cavalo em uma cadeira, com os braços cruzados sobre o encosto, observava-a com um sorriso frio e sarcástico, sempre curioso com a reação dela.

Não dava valor às coisas que os pais mandavam; sabia que não tinham custado nada para eles, nem pensava em devolver. Tudo, objetos, dinheiro, ia para a "causa".

O namorado era indiferente. Para ele, uma boa refeição, boas roupas, calor e conforto eram coisas desprezíveis. Discutia sobre ela com os companheiros, sua posição social, sua posição econômica, sua psicologia, durante horas, embaralhando e tornando a embaralhar a terminologia dos livros de esquerda. Ela ouvia, sentindo-se indigna, mas estava sendo levada a sério.

Ordenou que, na próxima demo, ela atacasse um policial. Não vacilou. Obedeceu: jamais se sentira tão realizada. Passou três meses na cadeia; o namorado visitou-a apenas uma vez. Ele visitava os outros com maior freqüência. Por quê?, pensou, humildemente. Nem todos eram pobres e ignorantes; um deles, pelo menos, estava bem de vida e tinha alguma instrução. Mas ela era muito rica, sim, devia ser isso. Todos valiam mais do que ela. Na prisão, entre as outras prisioneiras, a maioria não-política, seu sorriso irradiava uma convicção inabalável que se manifestava em humildade. Fazia coisas que ninguém mais queria fazer. O trabalho sujo e a punição eram alimento para ela. As prisioneiras maldosamente a apelidaram de Santa, mas ela considerou um cumprimento. "Estou tentando ser digna de me tornar um membro real do..." e dizia o nome do seu grupo político. "Para ser uma verdadeira socialista é preciso sofrer e trabalhar."

Quando saiu da prisão, seu homem estava vivendo com outra mulher. Aceitou: naturalmente era porque não o merecia. E passou a servi-los como uma escrava. Deitava-se no chão, no lado de fora do quarto onde o seu homem e a outra dormiam abraçados, comparando-se a um cão, glorificando essa humilhação, e murmurava, como se rezasse: serei digna, vencerei, mostrarei a eles... e assim por diante.

Na demonstração seguinte, levou consigo uma faca de cozinha, sem se dar ao trabalho de verificar se estava afiada. O que valia era o gesto. Excitada, embriagada pelo entusiasmo, lutou e se debateu, uma valquíria de longos e maltratados cabelos louros, olhos azuis cercados de vermelho, um sorriso fixo e terrível. (Na família todos comentavam sua "aparência doce e gentil".) Atacou um policial com os punhos cerrados e, então, empunhou a faca — que, afinal, não tinha corte —, usando-a como arma. Mas não a prenderam. Estavam prendendo os outros. Era tão grande a desproporção entre a atmosfera e o objetivo da demonstração e sua fúria frenética que os policiais ficaram intrigados. Um oficial deu ordem para que não a prendessem; evidentemente era desequilibrada. Ela continuou, como se estivesse em transe, brandindo a faca, gritando, até perceber que a demonstração estava no fim e que todos se retiravam. Não a estavam levando a sério. Parou e ficou olhando os outros serem presos e amontoados nos carros da polícia, uma criança expulsa da festa, a faca de cozinha na mão, como se se preparasse para cortar carne e legumes.

Um grupo de pessoas a observava; não só nesse dia, mas há algum tempo, em outras demonstrações.

A moça, parada na beira da calçada, como uma estátua, a faca de cozinha na mão, o cabelo em desordem emoldurando o rosto inchado e vermelho, lágrimas de raiva e frustração escorrendo pelas faces, viu um homem à sua frente, esperando que ela o notasse. O sorriso dele lhe pareceu bondoso. Os olhos, severos e penetrantes. Esse homem compreendia muito bem esse tipo de personalidade exaltada.

— Acho que deve vir comigo — sugeriu.

— Por quê? — mas sua beligerância sugeria a intenção de obedecer.

— Você pode ser útil.

Automaticamente deu um passo para ele, mas parou, confusa.

— Útil para quê?

— Para o socialismo.

Uma breve expressão passou pelo rosto dela, algo que parecia dizer: "Não pode me apanhar com essa facilidade!", enquanto frases do vocabulário turbilhonavam em sua mente.

— Suas capacidades e qualidades são exatamente o que precisamos.

Foi com ele.

O grupo estava em um apartamento grande e miserável, nos arredores da cidade, a casa de um trabalhador, um dos refúgios daqueles 12 homens e mulheres liderados pelo homem que a trouxera. Enquanto, para seu antigo grupo, o ambiente e condições de vida — a pobreza sempre enfatizada — eram uma necessidade emocional para a autodefinição, estes eram indiferentes e passavam da opulência ao desconforto e ao conforto da classe média, no espaço de um dia, de acordo com a necessidade, não se importando com o que os rodeava. Ela adaptou-se imediatamente. Embora, quando se deitava no lado de fora do quarto do namorado e da outra, exultasse com sua miséria, agora quase não pensava nessa vida — onde não tinha sido devidamente apreciada. Não sabia ainda o que queriam dela, mas era paciente, obediente, gentil e fazia tudo o que lhe mandavam.

Os novos companheiros estavam planejando um golpe, mas não lhe disseram nada a respeito. Foi levada a um apartamento que não conhecia e mandaram que despisse e examinasse uma moça que ia ser "interrogada". Na verdade, era uma cúmplice do grupo, mas, antes de começar o "exame", disseram ao Indivíduo Sete que se tratava de "um caso extremamente difícil", e que "não adiantaria usar luvas de pelica com a prisioneira".

A sós com sua vítima, que parecia atônita e desmoralizada, a moça sentiu a excitação familiar e tão desejada dos combates contra a polícia, a atmosfera de perigo. "Examinou" a prisioneira, que, a seu ver, tinha todos os sinais de estupidez e corrupção. Era quase o mesmo que torturar, e ela deliciou-se com isso.

Foi cumprimentada pelo seu trabalho pelos membros do grupo, jovens revolucionários sérios, severos e responsáveis. Assim descreviam a si mesmos. Mas ela não os ouvira ainda definir seu credo ou compromisso. Jamais ouviria.

Disseram-lhe então que não saísse, que se escondesse. Era muito valiosa para se arriscar. Quando o grupo mudava de esconderijo, era levada com os olhos vendados. Aceitava com alegria humilde: naturalmente era necessário.

Esse grupo juntava ao seqüestro de pessoas ricas e bem conhecidas o refinamento do seqüestro com tortura, ou ameaça de tortura dos parentes — amantes, irmãs, esposas, filhas. Sempre mulheres. A moça foi encarregada da tortura, a princípio branda, depois mais completa, de uma mulher depois da outra.

Esperava ansiosamente esses momentos. Aceitou a situação. Os momentos de inquietude eram acalmados com o pensamento: eles têm mais experiência do que eu, e isso tudo deve ser necessário.

Refletindo que não conhecia ainda o credo ou compromisso do grupo, confortava-se com as frases que lhe eram familiares desde que — como ela dizia — se tinha tornado politicamente madura.

Nos momentos em que era invadida por um agudo prazer, enquanto realizava seu trabalho, ou mesmo quando lhe prometiam algum, imaginava se não a teriam drogado, se esses novos amigos não estavam lhe dando estimulantes, tal era a força viva que sentia, o vigor, a energia.

O grupo funcionou durante três anos antes de ser apanhado pela polícia, e ela cometeu suicídio quando se tornou evidente que seria presa. O impulso que a levou a esse ato era a continuação da ordem de não se tornar visível — não sair, não aparecer, nem mesmo saber onde estava. Sabia que se fosse torturada — em sua mente agora a tortura não era apenas possível, mas inevitável — ela "os trairia". Portanto, o suicídio, para ela, representava um ato de heroísmo e de auto-sacrifício para servir o socialismo.

 

Devem ter notado que nenhum dos indivíduos deste relatório classifica-se entre pessoas identificadas por uma injustiça, como sujeição a uma tirania, privação da nacionalidade, perseguição por pertencer a uma raça subjugada ou desprezada, ou pobreza causada por indiferença, crueldade ou cobiça.

 

Não consegui entrar em contato com o indivíduo seguinte através dos Gigantes, nem através de algo parecido com eles. Procurava alguém que servisse, e durante minhas viagens, entrando e saindo de Shikasta, vira uma velha amiga, Ranee, que esperava nas margens da Zona Seis onde se formam filas esperando a reentrada. Disse-lhe que muito em breve ia conversar com ela e expliquei por quê. Agora, procurei nas filas e não a encontrei. Notei também que as filas estavam mais curtas e mais esparsas. Ouvi dizer que corria o boato de uma emergência, de um perigo terrível, na Zona Seis, e todos os que podiam compreender tinham partido para ajudar o povo na fuga. As almas que permaneciam nas filas estavam muito absorvidas na esperança de reentrar, amontoavam-se em desordem cada vez que os portões se abriam, sem ver mais nada a sua frente, e não consegui nenhuma outra informação.

Passei por eles e dirigi-me para os platôs de relva seca e amarelada, e caminhei sozinho até o cair da noite. Sentia-me inquieto e a princípio pensei que era por ter ouvido falar em perigo, mas logo a sensação de ameaça tornou-se tão intensa que deixei os platôs e subi uma pequena montanha rochosa, no escuro. Encostei-me em um pequeno rochedo, voltado para o lado do nascente. Tudo estava silencioso, mas não completamente. Podia ouvir um murmúrio fraco como o do mar... de um mar onde não existia mar, onde não podia existir. As estrelas cobriam o céu, brilhantes e numerosas, e à sua luz podia ver arbustos baixos e pedras salientes. Nada que explicasse o som que eu jamais ouvira. Contudo, ele murmurava perigo, perigo, e fiquei onde estava, olhando para um lado e para outro, alerta, procurando ver no escuro, como um animal à espera de uma ameaça desconhecida. Quando o céu se iluminou e as estrelas se foram, o som ainda estava lá, mais forte. Desci a colina e logo cheguei na beira do deserto, onde podia ouvir o silvo sibilante. Contudo, não havia vento soprando a areia. Tudo estava imóvel e o orvalho da noite subia docemente ao redor dos meus pés. Caminhei, cada vez mais devagar, pois todos os meus sentidos me avisavam do perigo. Conservei-me à esquerda das colinas que me tinham abrigado naquela noite. Elas continuavam à minha frente, até juntarem-se aos picos negros, lá adiante, sombrios e sinistros na madrugada fria e cinzenta. A voz murmurante das areias ficou mais alta... via, não muito longe, grãos de areia no ar, que logo desapareciam. Mas não havia vento! As nuvens baixas lá estavam, escuras e imóveis, e as mais altas, pintadas de aurora, juntavam-se em massas compactas. Uma paisagem sem vento, um céu imóvel; e o murmúrio vinha de todos os lados. Uma pequena mancha dançou no ar à minha frente, cresceu, e ao meu lado as areias estremeceram. Subi novamente as colinas e olhei para onde tinha estado. A princípio, nada, e então, quase exatamente onde há pouco estivera, vi a areia tremer violentamente. Voltou a imobilidade. Mas eu não tinha imaginado! E agora, em toda a planície, em vários pontos apareciam manchas à esquerda das colinas, areia volteando no ar. Não tinha ainda olhado para a direita, não ousava tirar os olhos do lugar onde eu estivera, pois parecia importante vigiar, como se alguma coisa me fosse atacar, como se algum animal me espreitasse, pronto para o bote quando eu desviasse o olhar. Não podia explicar, mas tinha de ficar ali, olhando fixamente... para o lugar onde a areia se havia movido, estremecido novamente. Mais uma vez se moveu, sem dúvida agora, e parou. Como se uma vara invisível tivesse sido brandida no ar... o silvo suave encheu meus ouvidos, e não podia escutar nada mais. Esperei. Uma área que eu poderia abarcar com os braços abertos foi mais uma vez atingida pela vara invisível; o começo de um redemoinho, que logo desapareceu. Mais ou menos a 800 metros de distância, podia ver uma espiral sob uma das manchas de areia. Mas conservei os olhos no ponto de nascimento — pois agora sabia que era isso —, no redemoinho de areia mais próximo de mim. Lentamente, estalando, acomodando-se, recomeçando, formou-se o vórtice, e então, em vários pontos, a areia tremeu, parou, e tremeu outra vez... A parte central estava girando regularmente, e grãos de areia atirados para fora, brilhavam antes de cair. Então, tinha começado. Olhei para cima: o céu tingia-se de um vermelho colérico, pintando de ferrugem o brilho da areia.

O redemoinho estava formado e ritmicamente envolvia mais e mais areia à sua volta, e os pontos onde eu tinha notado pequenos movimentos começavam a girar e baixar, para girar novamente. Toda a planície estava coberta por esses pontos giratórios, e no ar, acima de cada um deles, formava-se uma pequena nuvem, que crescia mas não mudava de lugar, pela falta de vento. Então, com dificuldade afastei os olhos da planície horrível e traiçoeira, e voltei-me para a direita. Deserto, estendendo-se interminavelmente, e nenhum movimento. A terra árida estava quieta e imóvel, inflamada pelo vermelho do céu, mas nesse momento uma raposa do deserto aproximou-se de mim, o pêlo amarelo parecia em chamas, refletindo o céu, correu para a colina rochosa e desapareceu. Depois outra. Subitamente percebi que havia muitos animais fugindo de algum perigo que os perseguia. Que estava muito distante, pois eu não via nenhum movimento na areia nesse lado da colina, embora do outro lado toda a planície tremesse e estremecesse entre os redemoinhos da areia. Além da sólida planície, avistava-se o céu, agora totalmente iluminado em uma manhã clara onde tons de rosa e vermelho rapidamente desapareciam, e sob ele, uma névoa baixa, que agora eu sabia o que era.

Compreendi o que estava acontecendo, o que ia acontecer e corri desajeitadamente pela faixa rochosa que eu acreditava, ou esperava, não sucumbiria ao movimento das areias, pois estava firmemente apoiada ao solo.

Procurei refugiados desses redemoinhos de areia que provavelmente tinham subido nas colinas, mas que agora deviam estar nas montanhas, ainda tão distantes de mim. E então vi um grupo de cinco pessoas, uma mulher, um homem e duas crianças todos tão apavorados e atônitos com os perigos dos quais tinham escapado que não me podiam ver. Eram acompanhados por alguém de cujo rosto eu me lembrava, das filas na fronteira, e perguntei a ela o que estava acontecendo. "Rápido", disse ela, "ainda há gente nas areias, mas você precisa ser rápido..." E continuou a caminhar sobre a faixa rochosa, chamando o grupo que protegia, dizendo-lhes para correr. Estavam parados com as bocas abertas, mesmerizados pelos movimentos das areias na planície à esquerda, então à direita, e pareciam não ouvi-la. Ela os empurrou para que se movessem. Recomecei a correr, escorregando e caindo sobre as rochas, e passei por vários grupos, cada um deles conduzido por uma das pessoas das filas. Todos tremiam incontrolavelmente e olhavam para o deserto que parecia líquido, e tinham de ser empurrados para continuar se movendo e olhar apenas para a frente.

Quando afinal cheguei ao sopé dos picos montanhosos, que se erguiam diretamente das areias, vi que fugira no momento exato, porque, se a grande extensão de areia à minha direita se dissolvesse em movimento, como no outro lado, a pequena faixa rochosa não tardaria a ser envolta pelo redemoinho. Olhei para trás e vi que nenhum lugar estava imóvel: todo o deserto se torcia, estremecia, girava, se dissolvia. Do outro lado, as coisas pareciam paradas, seguras ainda, mas, além da areia, podia-se ver uma verdadeira multidão de pássaros e outros animais, correndo e saltando. Nenhum olhava para trás, nenhum estava em pânico ou fora de si, e escolhiam o caminho cuidadosamente entre as dunas e aberturas na areia, na direção da faixa rochosa. Mas, em um certo ponto da planície de areia não havia nenhum movimento de animais: eu estava vendo o último êxodo de refugiados, e atrás deles as areias jaziam imóveis. No horizonte, as nuvens de areia alcançavam o azul cobalto do céu matutino.

Agora sabia o que precisava fazer. Durante algum tempo não encontrei mais nenhum grupo de refugiados. Talvez todos tivessem sido salvos e não restasse ninguém? Continuei, subindo a encosta rochosa da montanha, para a direita, e quando cheguei a uma saliência formada por rochas jovens e arbustos secos, pude avistar bem além da planície, e agora, de súbito, havia um começo de movimento, o nascimento dos redemoinhos de areia. Ao mesmo tempo, avistei um grupo de rochas negras e sobre elas dois indivíduos. Estavam de costas para mim e olhavam a planície. Tive a impressão de que os conhecia e corri para eles, com mil pensamentos cruzando-me a mente. Um, que o choque levara essas vítimas a uma condição de estupor tal que nada mais podiam fazer senão olhar fixamente, hipnotizados, incapazes de qualquer movimento. Outro, que eu podia alcançá-los em tempo, mas se conseguiria tirá-los de lá era outra coisa... e pensava também que eram meus dois amigos, Ben e Rilla, juntos, finalmente salvos, embora em lugar perigoso.

Quando cheguei à planície e corri para eles, senti as areias tremerem sob meus pés. Cambaleei, gritando, chamando-os, mas não me ouviam, ou, se ouviam, não eram capazes de se mover. Alcancei o pequeno monte de pedras e vi que um redemoinho tinha-se formado não muito longe, saltei para as rochas e gritei: Rilla! Ben! Tremiam como cães molhados e com frio e não olharam para mim, mas continuavam com os olhos fixos no deserto líquido. Gritei mais uma vez, e então olharam para mim, com olhar vago, sem me reconhecerem. Sacudi-os violentamente, e não resistiram. Bati com a mão aberta em suas faces, gritando, e seu olhar parecia dizer indignado: para que está fazendo isso? Mas logo voltaram a olhar fixamente para a planície.

Dei a volta e fiquei na frente deles. "Sou Johor", disse. Johor, o seu amigo." Ben pareceu compreender por um momento, mas logo virou a cabeça, tentando ver as areias atrás de mim. Rilla parecia não me haver visto. Apanhei a Assinatura e coloquei-a na frente dos seus olhos esgazeados. Os dois acompanharam com o olhar a Assinatura, enquanto eu começava a descer das pedras, e me seguiram. Eles me seguiram! — mas como sonâmbulos. Segurando a Assinatura e andando de costas, na frente deles, cheguei ao deserto, que tremia com um silvo cantante agora, e gritei: "Agora, sigam-me! Sigam-me!", movendo a Assinatura para que brilhasse. Caminhei o mais depressa possível, primeiro de costas, e depois, vendo o terrível perigo que nos ameaçava, com vórtices se formando à nossa volta, voltei-me e caminhei de lado, conduzindo-os. Eles tropeçavam e caíam, todo o tempo impelidos pela necessidade de olhar para trás, mas eu os fazia caminhar com a força da Assinatura, e afinal chegamos às encostas seguras da montanha. Os dois se abraçaram, tremendo, e viraram-se, para mais uma vez olhar a planície. E eu fiquei com eles, pois também me sentia afetado pelo hipnotismo daquele espetáculo terrível. A parte que tínhamos atravessado era agora toda movimento e sedimentação variada: até onde podíamos avistar, as areias douradas se moviam. E ficamos ali, ficamos ali, pois eu também estava perdido, e olhávamos para um imenso redemoinho, toda a planície se transformara em uma centrífuga, girando, girando, com o centro profundo, mais profundo, e afinal a perder de vista. Alguma força terrível estava absorvendo o lugar, alimentando-se de suas energias, da força liberada, e eu não podia afastar os olhos, era como se eles também estivessem sendo sugados, minha mente se desfazia, se esgotava toda naquele torvelinho — e, então, uma águia negra mergulhou do céu com um grito estridente, que era um aviso para nós: Vão... o... o... Vão... o.... o Vão... o... o... e o tatalar das suas asas sobre minha cabeça tirou-me do transe. Tinha deixado cair a Assinatura, e abaixei-me para procurá-la. Encontrei-a, brilhando sob algumas pedras. Mais uma vez sacudi a Assinatura, esbofeteei Ben e Rilla, agitei-a na frente deles para quebrar o encanto. Lá em cima, a águia fez um círculo largo, olhando para ver se realmente estávamos bem, e então, quando percebeu que podíamos vê-la, mudou de direção e planou para o leste, onde o solo se erguia acima do nível das areias, formando platôs e blocos de rochas, a salvo da planície mortal de onde precisávamos nos afastar o mais depressa possível. Ben e Rilla estavam passivos, quase imbecilizados, e eu os conduzi, seguindo o caminho que a águia nos mostrava. Não tentei falar com eles, apenas pensava no que ia fazer, pois estávamos nos afastando das fronteiras da Zona Seis com Shikasta, que era para onde todos nós devíamos ir. Mas segui a águia, tinha de segui-la. Se sabia o bastante para me livrar do transe, então devia confiar nela... e, depois de horas de caminhada difícil com meus dois companheiros, o grande pássaro gritou para chamar a minha atenção, e voou para a esquerda descrevendo um grande arco e compreendi que devíamos seguir nessa direção. Viajamos durante todo o dia, até o cair da noite, confiando na ave, pois eu não sabia onde estávamos. Rilla e Ben agora falavam um pouco, mas apenas frases desconexas, palavras soltas. Encontramos abrigo para a noite e os fiz sentar-se ao meu lado e descansar. Afinal, dormiram, e fui até um ponto mais alto onde podia ver ainda o platô e o deserto. À luz das estrelas, vi um vórtice imenso que abrangia toda a planície; a faixa rochosa que tínhamos atravessado havia desaparecido. Nada restava além do imenso redemoinho que ia de horizonte a horizonte e o som agora era um rugido que fazia a terra tremer sob meus pés. Voltei para os meus amigos e sentei-me ao seu lado até o nascer do dia, quando a águia, que estava pousada em um pico rochoso, deu um grito me saudando. Havia urgência nessa saudação e compreendi que precisávamos continuar. Acordei Ben e Rilla e seguimos o pássaro durante todo o dia, atravessando as terras altas que circundavam as planícies arenosas, dando uma volta para chegarmos ao nosso destino. Já não víamos os desertos, mas ouvíamos o rugido da terra raivosa e violada. Ao cair da noite reconheci o lugar em que estávamos. E, agora, pensava que minha missão em Shikasta tinha sido atrasada e que era da maior urgência voltar para ela. Mas não podia deixar Ben e Rilla sozinhos ainda. Enquanto caminhavam, constantemente viravam a cabeça para ouvir aquele rugido distante, como o do mar batendo nas praias e fazendo-as tremer. Sabia que, se os deixasse, voltariam para o deserto. Não podia também deixar a Assinatura com eles: não confiava nos dois. Afinal, eu quase a perdera, e, comparado a eles, eu estava com a mente perfeita. Disse à águia que precisava da sua ajuda e, enquanto ela voava em círculos sobre nossas cabeças, pedi que conduzisse Ben e Rilla a salvo. Segurei a Assinatura na frente dos dois, outra vez, e disse que o pássaro era um servo da Assinatura e que deviam fazer exatamente o que ele mandasse. Disse que os veria novamente nas fronteiras de Shikasta e que não deviam desistir. Assim, exortando e pedindo, imprimi em suas mentes tudo o que foi possível e segui viagem, sozinho, rapidamente. Depois de algum tempo olhei para trás e vi os dois caminhando lentamente, os olhos fitos no vôo deslizante e cadenciado da águia, que os conduzia sempre para diante.

Encontrei Ranee com o grupo que ela havia salvo dos redemoinhos, perto da fronteira. Perguntei se podia viajar com ela, para fazer contato e ela concordou. Então seguimos juntos. As pessoas do grupo estavam tão atônitas, tão fora de si quanto Ben e Rilla. Mas aparentemente melhoravam aos poucos, ouvindo a voz firme e encorajadora de Ranee, a voz da mãe que acalma o filho depois de um pesadelo, suave e tranqüila.

 

INDIVÍDUO OITO

Seu tipo e situação eram endêmicos em Shikasta, repetindo-se por todo o planeta desde que surgiram as primeiras desigualdades de posição e de expectativas. Como as mulheres corriam perigo, precisavam de ajuda durante o tempo em que os filhos eram pequenos (repito fatos óbvios uma vez que os fatores básicos são ignorados com maior facilidade), por causa dessa dependência, em todos os tempos, elas nunca tiveram outra alternativa senão tornarem-se servas.

Uma palavra nobre.

Uma nobre condição.

Em Shikasta, a raça dominante em uma época pode ser subserviente na outra. Uma raça ou povo em condição de escravatura em um tempo ou lugar, em poucas décadas transforma-se em senhores. Os papéis das mulheres adaptavam-se a esse fato e, sempre que uma raça ou um povo estava por baixo, suas mulheres, duplamente oneradas, eram usadas como servas nas casas da raça ou do povo dominante.

Essas mulheres, geralmente em detrimento de seus filhos, que muitas vezes têm de abandonar, podem ser a escora, o apoio, o suporte, o alimento de uma família inteira, talvez para toda a vida. Para toda a sua vida de trabalho, pois essas servas podem ser mandadas embora, quando ficam velhas, exatamente com o que tinham quando começaram. Contudo, muitas vezes eram o fator que mantinha a família unida.

Uma pessoa ignorada, se não desprezada, tida como inferior, e considerada não como um indivíduo, mas como um papel desempenhado — uma empregada; mas, na verdade, o centro da família, seu ponto de equilíbrio — essa situação repetiu-se sempre, muitas e muitas vezes, em todos os tempos, todas as culturas, em todo lugar...

O exemplo de que trataremos agora ocorreu em uma ilha no extremo Oeste das faixas do Noroeste. Durante séculos fora um lugar pobre, muito explorado por outros povos.

Uma família orgulhosa do sangue que lhe corria nas veias, mas com pouco dinheiro, empregou uma moça da vila. Por causa das condições econômicas, o casamento era difícil na ilha, mas o motivo pelo qual essa moça não se casou, nem mesmo pensou em se casar, foi sua absorção nas necessidades dessa família, desde os 15 anos. Ela limpava a casa — uma casa grande —, cozinhava e tomava conta das crianças, desde que nasciam. Trabalhava tanto quanto qualquer escrava, e aceitava um ordenado modesto, porque sabia que a família não era rica, e porque jamais aprendera a esperar muito — e porque ela os amava. Gastava o ordenado de um mês em um brinquedo ou vestido para uma das crianças.

A mãe e o pai dessa família várias vezes brigavam e se separavam: e ela continuava tomando conta das crianças, mantendo o equilíbrio, até eles voltarem às boas de novo.

As crianças, cinco ao todo, cresceram enquanto ela envelhecia. Deixaram a casa e a ilha e foram para outros países. O casal, velho agora, ficou na casa grande, depredada, apenas com a lembrança de uma família. Resolveram emigrar. Certa noite, disseram à empregada, que trabalhava para eles há 50 anos, que não precisavam mais dos seus serviços.

Partiram, deixando-a para limpar e fechar a casa, que ia ser vendida, e, depois, voltar para a vila onde agora só tinha uma irmã viúva, que de má vontade a acolheu em sua casa. A empregada não possuía nada além das roupas, a maior parte roupas velhas, dadas pela família.

Só depois de alguns meses compreendeu o que tinha acontecido. Jamais se considerara explorada, maltratada. Tinha amado a família, como um todo e como indivíduos, e a vida deles era a sua vida. Eles não a amavam, mas ela acreditava que a tinham amado "a seu modo". Muitas vezes achava que eram descuidados, indiferentes, mas a encantavam, gostava de todos! Um beijo de uma das meninas, um sorriso da "patroa" e um "não sei o que faríamos sem você" — isso era o suficiente.

Estava atordoada, abatida, tinha crises de choro "sem nenhuma razão".

A irmã comentava indignada o tratamento dado a ela pela família. Uma jovem da cidadezinha, com aspirações a jornalista, escreveu uma história que foi publicada no jornal local e, mais tarde, apareceu em um grande jornal da ilha vizinha.

A empregada desceu a um nível mais baixo ainda com essa publicidade. Temia que a família a julgasse ingrata.

Recebeu uma carta de censura do casal, que agora morava em uma ilha ensolarada e onde, em razão das condições econômicas, os empregados eram numerosos. A cidade ficou a par do embaraço causado pela publicidade. A mesma jovem que escrevera o artigo, e que via a possibilidade de algum obstáculo em sua carreira promissora, consultou um advogado. A irmã, ao saber disso, procurou outro. A ilha era famosa por seu espírito litigioso, como todas as áreas sujeitas à pobreza e à exploração.

A empregada viu-se objeto de disputas acaloradas, sem saber o que tinha acontecido, nem como.

Escreveu uma carta incoerente aos antigos patrões, cheia de frases como "eu não sabia de coisa alguma!" "Fizeram tudo sem me consultar."

Eles também procuraram um advogado. Que deveria ter sido Taufiq, pois, bem conduzido, o caso teria exposto várias áreas de exploração. Ele teria demonstrado, por exemplo, que a situação da mulher, trabalhando durante anos para a família e depois despedida sem a menor consideração, como um animal, ou pior ainda, prevalecia naquela época — e ele poderia citar dezenas de países, chamando testemunhas de várias raças e culturas.

Houve um processo legal, mas desagradável, embaraçoso, um conflito de interesses e desonestidades, sem um ponto central que pudesse ser focalizado.

Minha responsabilidade limitou-se à pessoa da empregada, uma velha amiga, embora naturalmente ela não soubesse disso, e duas irmãs da família, que sentiam remorso. Nunca tinham pensado na velha empregada, exceto em termos sentimentais, desde que saíram de casa, mas o artigo no jornal e as cartas de autocomiseração escritas pelos pais as fizeram pensar duas vezes. Ambas estavam abertas às boas influências, fornecidas por mim, e então organizei o seu futuro de acordo com essa capacidade.

Quanto à empregada, sua mágoa era enorme. Sentia-se culpada e enganada. A vida com a irmã não estava fazendo bem a nenhuma das duas. Em pouco tempo morreu.

Coloquei-a sob os cuidados de Ranee, na Zona Seis, pois era indicada para uma breve reentrada em Shikasta para "outra tentativa".

Enquanto me ocupava com essas tarefas, preocupava-me em fazer um relatório adequado; como preceptor recente de indivíduos que se tinham oferecido para servir em Shikasta durante essa última e terrível fase, podia comparar suas expectativas e a imagem que faziam de Shikasta com a realidade. Fatos são facilmente descritos; atmosferas e emanações de determinado tipo não são. Sabia que meus relatórios eram lidos por mentes muito afastadas da situação de Shikasta. Portanto, criei certo material complementar para meus relatórios.

 

exemplos: A Situação em Shikasta

[Ao voltar de Shikasta, Johor apresentou alguns relatos e notas, além do que determinava sua missão. Como foi dito acima, ele acreditava que os estudiosos desse infeliz planeta compreenderiam melhor os extremos de conduta produzidos pela concentração extremamente baixa de sowf, com esses exemplos. O emissário Johor praticamente se desculpou por esses exemplos, os quais, segundo ele, muitas vezes tinha escrito para seu uso, para esclarecer a sua mente, e para ajudar os outros. Queremos acentuar — e o fazemos com permissão do emissário Johor — que ele tinha estado sujeito às influências de Shikasta há algum tempo quando escreveu esses textos, e essas influências são responsáveis pela emotividade neles revelada. Arquivistas.]

Na ilha situada no extremo Oeste das faixas do Noroeste (mencionada no caso do indivíduo oito), que, como já foi dito, sofreu todo tipo de conquista, ocupação e invasão durante muitos séculos e por povos diferentes, um período de extrema escassez devastou a economia, obrigou milhões a emigrar e intensificou as privações de toda espécie. Um certo jovem viu-se sem trabalho e sem recursos. A não ser um. Fora criado em um bairro miserável, mas seus avós, que viviam no campo, haviam fornecido leite e batatas para a família e ele cresceu alto, bem constituído e forte. E estúpido. Não teve inteligência suficiente para emigrar e começar uma nova vida. Por causa do seu físico foi recrutado para o exército dos últimos conquistadores da ilha, recebeu um uniforme vistoso, refeições regulares e perspectivas de viagens. Esse exército, como todos os das faixas do Noroeste, era muito estratificado e os oficiais eram arrogantes e com muita consciência de classe, e ele estava no degrau mais baixo, sem esperança de receber tratamento melhor do que o que era dispensado aos animais pertencentes aos da casta dominante. Durante 20 anos foi mandado de um lado a outro de Shikasta, sempre para partes de um império (que teve curta duração) que logo se desmoronaria, mas que naquela época estava no zênite. A função dessa vítima era policiar uma multidão de vítimas. Do extremo Leste da massa central de terra, ao norte do Continente I do Sul, o infeliz foi enviado para comandar povos de cultura e civilizações muito mais antigas e geralmente mais humanas do que a sua. Vivia em permanente estado de semi-embriaguez; desde criança sempre bebera muito para esquecer a brutalidade da sua existência. Seu rosto geralmente estava vermelho e suado, com uma expressão vazia que traduzia sua determinação de jamais pensar por si mesmo; tentativas vestigiais nesse sentido tinham sido punidas, durante toda a sua vida. Às vezes um oficial escrevia para ele as cartas que ditava, para sua família, e sempre havia estas palavras: "Aqui, basta estender o pé e os negros limpam as nossas botas."

Em todos os países onde esteve — e antes de chegar lá, não sabia nada além do nome do país —, não perdia a oportunidade de sentar-se em um lugar público, estendendo primeiro um pé e depois o outro, com um sorriso pomposo, orgulhoso e condescendente, enquanto um homem, transformado em sombra pela pobreza, abaixava-se à sua frente e engraxava suas botas.

Caminhava arrogantemente pelas áreas policiadas das cidades, com um companheiro, dois gigantes, às vezes com o dobro da altura do povo local, em uniformes vermelhos, alamares e medalhas, e em um país após o outro, o rosto vermelho e o sorriso idiota, as ordens e os insultos gritados, o desprezo e antipatia escritos no rosto do bárbaro tornaram-se o símbolo de tudo que era brutal, ignorante, tirânico. Para eles, ele simbolizava império. E, quando o império se desmoronou, em parte por causa da extrema antipatia dos conquistados pelos conquistadores, a imagem desse animal de rosto vermelho continuou na mente de milhões — lembrada com ódio e com medo.

Quanto a ele, o clima desses territórios, onde tinha comido e bebido em excesso durante 20 anos, provocou um derrame cerebral quando estava ainda na meia-idade. Foi mandado para casa, para a ilha onde a pobreza era pior do que quando saíra e que fervia com revolta e guerra civil. Resolveu instalar-se na terra dos seus conquistadores, trabalhando como carregador em um açougue. Casou-se com uma mulher da sua terra, que tinha sido babá — 18 horas por dia, seis dias e meio por semana, por um teto, comida e um ordenado irrisório. A única fuga era o casamento e foi um alívio unir-se a esse soldado forte, bem mais alto do que ela, com sua farda vermelha, e que em breve daria baixa.

A pensão do exército significava para ela segurança, um verdadeiro refúgio; na verdade poupou à família os extremos de pobreza, apesar das bebedeiras do marido.

Tiveram sete filhos, quatro vivos.

A mulher e as crianças sentavam-se à noite na casa miserável, à espera dos passos cambaleantes e ruidosos na escada, desejando que acontecesse o melhor, isto é, que o pai não chegasse gritando encolerizado e ameaçador, para depois de uma crise de choro, ainda soluçando, cair em um sono agitado; esperavam que estivesse de bom humor, que sentasse à cabeceira da mesa, senhor em sua casa, as pernas longas estendidas, o rosto inchado e vermelho complacente enquanto lhes contava que, "naqueles países, bastava estender meu pé e os negros lutavam entre si para engraxar minhas botas". E, "bastava olharmos para eles, e aqueles animais negros saíam correndo".

Ele morreu em um hospital de caridade. Sentou-se na cama, o paletó do pijama cheio de medalhas, o grande rosto vermelho e apoplético, os pequenos olhos azuis saltando das órbitas, entre as camadas de carne rubra, e suas últimas palavras foram: "Bastava olhar para eles e os negros infelizes saíam correndo."

 

exemplos: A Situação em Shikasta

Este incidente ocorreu no Continente I do Sul, mas foi repetido de várias formas durante o tempo em que as faixas do Noroeste usaram uma tecnologia avançada para conquistar outras partes de Shikasta, a fim de roubar matéria-prima, mão-de-obra, terras. Essa área geográfica era especialmente favorecida, uma região alta, com muita água e florestas, clima seco e saudável. O solo era fértil. Os animais, inúmeros e variados. A população era escassa, consistindo em uma tribo com homens de temperamento equilibrado, amantes da paz, bem-humorados, alegres, contadores de histórias, por natureza, e artesãos hábeis. Todos os habitantes do Continente I do Sul tinham música na alma: cantar, dançar, fabricar e tocar inúmeros instrumentos era a própria base de sua natureza. Viviam em equilíbrio com o ambiente, não tirando mais do que podiam repor. Sua "religião" era a expressão da identificação com a terra, a medicina era uma extensão dessa religião e os homens e mulheres sábios da tribo curavam as doenças da mente. Esse admirável estado de coisas não era muito antigo: todo o Continente I do Sul tinha sido invadido, para caça de escravos, durante séculos, por outros povos, mas o tráfico tinha cessado recentemente, e houve um período sem invasores e sem guerras.

Esse povo ouvira histórias do Sul sobre os povos brancos, que conquistavam e faziam escravos, que roubavam terras; tinha havido todo tipo de exploradores, alguns deles "religiosos". Os homens e mulheres sábios, os videntes e conselheiros haviam dito que essa parte também seria visitada pelos brancos, e que teriam de lutar pela vida. Mas o temperamento dessas tribos não tinha lugar para ansiedade e premonição do mal.

Certo dia apareceu uma longa coluna de homens brancos, a cavalo ou em carros. Os negros olhavam atônitos a estranha aparência dos invasores. E também os cavalos. Alguém riu. Logo estavam todos rindo incontrolavelmente. Tudo parecia tão ridículo. Em primeiro lugar, a cor dos homens, tão pálida, doentia. Depois, as roupas; os habitantes da terra usavam pouca roupa, pois o clima abençoado não exigia mais. Mas os intrusos estavam cheios de calombos, protuberâncias e excrescências de toda espécie, e tinham objetos extraordinários na cabeça. E, em terceiro lugar, a solenidade da sua atitude, a rigidez dos gestos. Não se podiam mover. Nunca os habitantes da região se haviam preocupado com suas vantagens, mas agora, vendo os estranhos e comparando-os a si mesmos, percebiam que tinham um porte natural, um andar livre, movimentos graciosos e como dançavam bem! As pulsações variadas da paisagem da qual faziam parte transmitiam o fluxo suave de movimento, mas os recém-chegados que estavam vendo e que provocavam tanto riso incrédulo, eram incapazes de estender um braço ou mover as pernas, eram desajeitados, como vítimas de uma maldição. E, além disso, sua equipagem. Que povo era esse que não podia viajar sem toda aquela bagagem que enchia inúmeros carros puxados por tantos bois? Para que precisavam de tanta coisa? O que faziam com tudo aquilo?

Eles indagaram, se maravilharam, e à noite viram aquelas pessoas rígidas, tão atrapalhadas com suas roupas, de pé, eretas, os braços ao longo do corpo, emitirem sons... mas que sons seriam aqueles? Não tinham nenhuma musicalidade, nenhum ritmo, era como o uivo das hienas.

Contudo. Havia os cavalos. Os habitantes da região não conheciam cavalos, apenas tinham ouvido falar deles. A espécie de "gamo" usado para puxar os carros os intrigava, e o modo como eram montados fazia com que desejassem imitá-los. E havia as armas, que matavam a distância. A princípio eles riram, depois admiraram; só mais tarde ficaram com medo.

Quando emissários da coluna invasora pediram para usar suas terras, a permissão foi imediatamente concedida. O conceito de propriedade de terra era desconhecido: a terra pertencia a si mesma, era a substância das pessoas e dos animais que viviam nela, estava saturada pelo Grande Espírito que era a fonte de toda a vida.

E dentro de dois anos suas terras e campos de caça já não lhes pertenciam; eles foram expulsos, como animais. Mas, acima de tudo, foram tratados com uma frieza e um desprezo que não conseguiam entender, dos quais não tinham experiência e que ressecou o espírito daquele povo amável e caloroso. Não se podiam defender dessa opressão do espírito, como acontecia com todos os povos "primitivos" em outras partes do mundo, que não tinham defesa contra as doenças levadas pelos brancos.

Os homens e mulheres sábios da tribo não chegaram a um acordo sobre o que deviam fazer, nem sobre os prováveis resultados. Que teriam de lutar por tudo que lhes tinham roubado era evidente. Era como se a invasão desses estrangeiros tivesse embotado a inteligência e os sentimentos naturais dos nativos, eliminado seus instintos e intuições. Como deviam lutar? Quando? Onde? Acima de tudo — por quê? — quando o país era tão grande e havia lugar para todos. Mas os invasores agora já estavam espalhados por toda parte.

Os subjugados, vendo que em breve seriam despojados de tudo, revoltaram-se. Os intrusos, usando a tecnologia de sua cultura estrangeira, reprimiram a rebelião com extrema crueldade e rigor.

É necessário que eu descreva a aversão e antipatia dos brancos pelos negros, que permaneceu até chegar o tempo — não muito distante, mas quando a cultura dominada estava destruída — de serem expulsos novamente. Nada é mais estranho do que essa aversão cheia de desprezo, mais de uma vez descrita pelos povos conquistados e por alguns conquistadores, pois nem todos os brancos desprezavam os negros, alguns os admiravam e gostavam deles, embora fossem considerados traidores do seu povo por isso.

Talvez possamos encontrar esclarecimento nas obras de um dos entendidos de Shikasta. (Mareei Proust, sociólogo e antropólogo.) A empregada de uma família rica recebeu ordens de preparar uma ave para o jantar. Enquanto corre atrás do animal, ela murmura Besta Nojenta, Animal Imundo, e imprecações semelhantes, e continua, depois de apanhá-lo e enquanto o mata.

O mesmo se dá com um torturador novato, que deve infligir dor e humilhação a alguém que não conhece, do qual sabe apenas que é um inimigo. À sua frente, está de pé, sentada ou deitada uma criatura atordoada e assustada, como ele mesmo, mas existe um meio: o torturador se auto-sugestiona para realizar a tarefa chamando a vítima de todos os nomes que conhece. Logo esse indivíduo, igual a ele, se transforma em um animal imundo, uma besta nojenta, e pode começar seu trabalho. Podemos definir esse processo como um imposto cobrado pelo sentimento-igualdade (sowf) às naturezas não completamente brutalizadas.

E é o mesmo com os conquistadores de um país, que se convencem de que o povo cuja terra estão roubando é composto de criaturas sujas, primitivas, cruéis, comunistas, fascistas, capitalistas, amantes de negros, brancos miseráveis, ou qualquer coisa que lhes venha à mente.

Por isso raramente a história de Shikasta registra que uma raça ou povo tenha conquistado uma raça ou povo civilizado e tratável, competentes para manejar suas próprias vidas.

O povo branco que invadiu o Continente I do Sul utilizando toda espécie de falsidades, mentiras, brutalidade, barbarismo, crueldade e uma cupidez que os fazia agarrar tudo o que viam, jamais falava com um negro sem um desprezo cortante, como se se tratasse de uma pessoa atrasada e sem inteligência.

A sua religião reforçava esses defeitos. De todas as principais religiões, a das faixas do Noroeste era a mais farisaica, mais inflexível, a menos capaz de autocrítica, e era sempre imposta, muitas vezes à força, a povos que estavam em perfeita comunhão consigo mesmos e com suas crenças no Grande Espírito, eram oficiadas por indivíduos incapazes de duvidar das próprias virtudes e direito. Para aumentar a confusão e danos que causaram, alguns demonstravam grande bravura, dedicação, probidade a toda prova, e capacidade — para não dizer sede — para o sacrifício. O fato de essas pessoas serem também vítimas da religião mais fanática que existiu em Shikasta não ajuda o redator desses acontecimentos.

Mas, fossem quais fossem as razões, os motivos, as desculpas e a explicação racional, a característica dominante desses conquistadores era sua couraça de farisaísmo, sua convicção de que estavam certos. Por causa do seu império. Por causa da sua religião.

Trinta anos após essa área geográfica ser dominada, o cenário era este: a terra onde tinha vivido um povo que não deixara marca, nenhum sinal de depredação, fora dividida entre fazendeiros brancos, favorecidos com várias vantagens, com a condição de não permitir que os negros as retomassem. Estes haviam sido removidos, à força de armas e de chicote, para reservas especiais onde a terra era pobre e das quais não podiam sair a não ser para procurar trabalho. Grandes fazendas de milhares de metros quadrados estavam nas mãos de determinadas famílias e já privadas das árvores, pois a madeira era empregada nos fornos, com imensas cicatrizes de mineração e lavras, ameaçadas pela erosão, constantemente castigadas por incêndios.

Em cada fazenda havia "recintos" para os trabalhadores negros, impossibilitados de trabalhar em outra profissão por causa dos impostos. Os negros só podiam trabalhar na terra, ou como empregados.

Os senhores representavam extremos dos seus países de origem, nas faixas do Noroeste. Podiam ser empreendedores, homens que precisavam de maior extensão para sua energia e seu talento do que a que lhes oferecia qualquer área superpopulosa. Podiam ser criminosos, esperando não serem descobertos, ou pessoas com tendências criminosas que sabiam haver ambiente para a ilegalidade nas terras conquistadas. Podiam ser estúpidos e incapazes de competir com seu próprio povo. Todos esses, bons ou maus, competentes ou não, tinham um nível de vida muito mais alto do que teria sido possível atingir nos seus países de origem, e muitos deles ficaram extremamente ricos.

Tentemos ouvir o que dizem, em um momento de rara clareza.

O lugar é uma fazenda de brancos e o recinto dos negros trabalhadores. Este consiste em uma coleção desordenada de choças de barro cobertas de palha, malfeitas, esquálidas, que deixam passar a água da chuva, uma versão patética das moradias desse povo no seu estado natural.

Uma imensa fogueira está sempre ardendo no centro do recinto, como nas vilas antigas, mas existem também fogos subsidiários, que são usados apenas para cozinhar; existem várias tribos aqui, pois os trabalhadores vêm de uma vasta região. Falam uma dúzia de línguas diferentes e esse recinto, com base na pequena vila cuja finalidade é conservar os povos unidos como um todo, divide-se em facções, às vezes hostis. Ao redor de um dos fogos subsidiários estão acocorados alguns jovens atentos às palavras de um homem mais velho, que, antes de serem conquistados, era o seu chefe. Um rapaz, ao lado do grupo, bate suavemente um tambor. Outros tambores soam em outras partes do recinto. Da mata próxima vem o som dos insetos e às vezes dos animais, mas já está bem avançado o processo de exterminação dos animais naturais da área.

Nessa tarde houve uma briga entre dois jovens de tribos diferentes. O motivo foi frustração.

O fazendeiro branco fez uma preleção sobre o espírito guerreiro deles, seus costumes primitivos. Lutar era prova de atraso e primitivismo, disse ele. Os brancos estavam ali para salvar os negros infelizes e atrasados da sua beligerância natural por meio do seu exemplo civilizador e civilizado.

O homem mais velho está sentado erecto e a luz do fogo dança no seu rosto, que tem uma expressão satisfeita. Ele os estava divertindo: sua família era de contadores de histórias na sua subtribo. Os jovens riem.

O contador de histórias estava analisando a cultura dos brancos vista de baixo, pelos olhos atentos dos escravos.

Enumerava as fazendas de brancos e os homens brancos que as possuem.

Isso se passa mais ou menos cinco anos depois do término da Primeira Guerra Mundial, descrita para os negros como uma guerra para preservar as decências da civilização. Alguns dos fazendeiros brancos da área tinham lutado no outro lado dessa guerra e também apresentavam seu motivo como a defesa das decências fundamentais.

— Na fazenda do outro lado do rio, o homem de um braço só...

— Sim, sim, é verdade, ele tem só um braço.

— E, na fazenda do outro lado do rio, o homem de uma perna só...

— Sim, uma perna só, uma só.

— E na estrada, na estação, o homem que tem uma placa de metal para segurar os intestinos.

— Sim, que coisa, os intestinos seguros por um pedaço de ferro.

— E, na fazenda onde procuram ouro, o homem com uma placa de metal na cabeça.

— Ah. É verdade, sem ela, seu cérebro ia se espalhar por toda parte.

— E na fazenda onde os dois rios se encontram, o fazendeiro com um olho só.

— Verdade, verdade, um olho só.

— E nessa fazenda, nessa fazenda, que não é nossa terra, mas que pertence a ele, o fazendeiro também tem uma perna só.

— Ah, ah! Que coisa terrível, tantos, todos feridos.

— E na fazenda...

Haviam sido concedidos benefícios especiais aos veteranos que quisessem emigrar e tomar conta daquelas terras. Por isso, aos olhos dos negros, os brancos eram um exército de aleijados. Como um exército de gafanhotos que, depois de algumas horas no chão, estão sem pernas, sem asas, incapazes de retomar o vôo, quando os outros se retiram. Gafanhotos, devorando tudo, cobrindo tudo, amontoando-se por toda parte...

Os gafanhotos comeram nossa comida...

Ai, ai, eles comeram a nossa comida.

Os gafanhotos escurecem os nossos campos.

Eles escurecem os nossos campos com suas bocas vorazes.

Os exércitos de gafanhotos vêm, eles vêm, eles vêm do norte, e nossas vidas são devoradas completamente...

Assim dizia uma canção popular dos recintos dos trabalhadores.

E aquele povo entregava-se a um riso solto, fazendo a lista dos brancos aleijados da área, comparando a preleção do fazendeiro aleijado e o quadro formado pelos dois jovens negros saudáveis brigando na poeira. Riam, e riam, balançando o corpo, rolando de tanto rir, dando gargalhadas sonoras...

Enquanto isso, em sua casa no topo da colina, o fazendeiro de uma perna só preparava-se para dormir. Sua perna fora cortada na altura da coxa. Tinha sobrevivido graças a esse ferimento: toda a sua companhia fora dizimada em uma grande batalha, duas semanas depois de ter "sofrido" a sorte de ter a perna estraçalhada por um pedaço de granada. Naturalmente, muitas vezes pensou se não teria sido melhor ter morrido com os companheiros. Tinha passado muito mal, quase perdera a razão. Antes da guerra, era um homem que vivia em função do seu corpo, dançava, jogava futebol e críquete, caçava com os outros fazendeiros, caminhava e andava a cavalo. Esse homem ativo teve de enfrentar a vida com uma perna só. Saiu-se bem. Quando se levantava, todas as manhãs, sua boca formava uma linha de determinação paciente, com a qual sua família já se acostumara. Sentava-se na beirada da cama, erguia o toco de perna e calçava um, dois ou até dez pés de meia apropriados, de acordo com o peso que tinha de carregar. Adaptava a pesada perna de madeira e metal ao toco assim protegido, e punha-se de pé, apoiando-se em uma mesa. Então prendia as correias ao redor da cintura e passava-as pelos ombros.

Podia começar o dia. Andava. Cavalgava. Descia às minas. Ficava acordado noites inteiras para observar a temperatura nos celeiros de tabaco. Manquejava pelos campos, pelos canais de irrigação, pelas colinas, equilibrava-se através dos campos recém-arados. Distribuía rações, permanecendo de pé, durante horas, ao lado dos sacos e recipientes de cereais.

Era um homem lutando contra a pobreza. Segundo seu ponto de vista.

À noite, retirava a perna de metal e madeira e deitava-se exausto, fechava os olhos e respirava fundo: "Meu Deus", murmurava, "meu Deus, bem, por hoje tudo está feito."

E adormecia ao som dos tambores do recinto dos trabalhadores.

Estão dançando lá embaixo, creio, pensava, antes de dormir. Dançando. Eles dançam por qualquer motivo. Têm esse dom. Música. Um dom. Hoje, debulhando feijões, eles dançavam, eles dançam o seu trabalho, compunham canções para acompanhar.

 

exemplos: A Situação de Shikasta

[Este relatório de Johor parece-nos um complemento útil

aos Exemplos. Arquivistas.]

Algumas áreas das faixas do Noroeste estão ainda comparativamente pouco afetadas pela tecnologia e o povo vive (no momento em que transmito estas informações) quase do mesmo modo que vivia há séculos. Uma pequena cidade, em uma área de extrema pobreza, distingue-se das outras porque todos os anos nela se realiza o Festival da Criança. O evento sempre atrai visitantes locais, e durante esta era de turismo, turistas também. O vilarejo não tinha hotéis para os visitantes, que se hospedavam em casa de parentes, mas agora há um local para acampamento, mantido pelo governo, e os trailers vêm em quantidade para o festival. Uma cidade próxima espera beneficiar-se com isso e faz provisões das mercadorias mais variadas.

A igreja é o centro das festividades, mas todo o vilarejo é enfeitado para a ocasião: lojas, o bar, a praça. E também as casas dos moradores, que jamais abriram mão dos seus direitos ao festival.

Depois do último relatório do Agente 9 houve uma inovação. Na véspera da festa, soltam fogos e dançam na praça e nas ruas adjacentes. Os turistas chegam sempre a tempo de assistir a essas comemorações, para eles a parte mais interessante do festival, e contrastam nitidamente, com suas roupas de boa qualidade e com a avidez que lhes é característica, com o povo local, que observa seus hóspedes ricos com bom humor, mesclado de certa ironia.

Essa noite de bebidas e danças é organizada pelas autoridades seculares, mas os padres mantêm o controle aparecendo nas escadas da igreja, ao pôr-do-sol, com turíbulos e cantos solenes. Quase toda a população passa a noite dançando e cantando, mas ao primeiro sinal da aurora devem estar na igreja, em seus lugares determinados, em atitude humilde e de adoração para ouvir as admoestações e ameaças dos sacerdotes.

Os "serviços" religiosos estendem-se por toda uma parte da manhã, as pessoas se revezando porque a igreja é muito pequena para comportar a população inteira de uma vez.

Ao meio-dia em ponto, um grupo de sacerdotes, envoltos em suas vestes mais luxuosas e enfeitadas, abre uma porta nos fundos da igreja e traz a Criança. É uma estátua de mau gosto, com pretensões a realismo, de olhos fixos, cabelo e pele claros, vestida com rendas e fitas de toda espécie. A figura é colocada em um pequeno andor coberto de flores e folhagens e carregado para fora da igreja por um grupo de crianças, escolhido pelos sacerdotes. Dão três voltas na praça (que não passa de um pequeno espaço poeirento, com algumas árvores em volta). As crianças vestem-se como a imagem e, enquanto passam, o povo e os sacerdotes cantam. A estátua é colocada em um pedestal na frente da igreja, guardada pelos sacerdotes, e os cantos continuam pela tarde até o pôr-do-sol.

Todas as crianças da vila, inclusive as que carregaram o andor, fazem fila, sob a supervisão dos pais e segundo ordem dos sacerdotes, e, duas a duas, passam pela imagem, enquanto os sacerdotes as abençoam. Depois disso recebem como prêmio doces e refrigerantes, os melhores que a cidade pode fornecer.

Até alguns anos atrás, o festival era exclusivamente para as crianças, mas a pressão econômica dos turistas fez com que se providenciassem bebidas e alimento para os adultos também. Neste ano, pela primeira vez apareceram câmaras de televisão, e, por isso, tudo foi mais elaborado. Quando a estátua é levada para dentro e guardada no armário, as danças recomeçam e continuam até meia-noite.

Ê um festival agradável e um lenitivo necessário para a vida árdua do povo.

Não se tornou muito mais elaborado desde o relatório do emissário 76, há 400 anos. Mas podemos prever que, enquanto houver turistas, cada ano vão aparecer novidades.

A nosso ver, esse festival não é mais necessário.

Não pude deixar de imaginar, observando aquelas cenas (bem policiadas), o que aconteceria se eu pudesse lhes contar a origem real da festa.

"Há mais de mil anos, um visitante chegou a esta vila. As faixas do Noroeste eram atrasadas, tidas como selvagens pelas áreas mais desenvolvidas — como as do ponto extremo nas margens do grande mar interior que vocês chamam Mediterrâneo. Essas culturas avançadas geralmente enviavam emissários ao norte, sob vários disfarces, os quais percorriam toda a região, ensinando técnicas e idéias para melhorar a triste condição daquele povo. Este visitante do qual estamos tratando chegou à vila com três jovens discípulos, que aprendiam com ele a arte de transmitir idéias avançadas aos povos menos favorecidos. Ao chegarem a este lugar extremamente pobre, descobriram que não havia nenhuma influência suavizante nas redondezas, exceto alguns monges que viviam afastados dos problemas indignos do povo da vila.

"A atmosfera era apropriada e o povo mostrou-se disposto a ouvir as histórias sobre civilizações cuja localização não podiam imaginar, pois sabiam tão pouco sobre geografia quanto a história das próprias origens — e o seu futuro.

"Os visitantes permaneceram discretamente na vila por várias semanas. Começaram com as informações de ordem prática sobre higiene, a necessidade de tomar banho para evitar doenças, a limpeza dos reservatórios de água, a maneira de cuidar dos enfermos, elementos de medicina, tudo isso ainda desconhecido por esse povo. Quando os mais inteligentes tinham compreendido o suficiente para transmitir aos outros, os visitantes passaram a instruir sobre os processos de destilação, tinturas, preservação e armazenamento dos alimentos para os períodos de escassez e certas técnicas de agricultura e economia que eram também completamente desconhecidas.

"A seguir, os visitantes passaram a contar ao povo da vila, em termos simples, às vezes sob a forma de histórias e canções, um pouco da sua história, o que ela significava para eles — o que eram realmente e o que seriam.

"Esse povo, cuja luta para se alimentar, vestir e morar exigia todas as suas energias, ouviu sem resistência, o que significava muito, pois, em geral, pessoas tão pressionadas pela necessidades simplesmente se recusam a ouvir: mesmo quando se trata de uma mensagem de esperança, o esforço de compreendê-la é demais para eles.

"Quando a noite caía e a luz não iluminava mais a vila e os trabalhadores voltavam dos campos para comer e descansar, nossos visitantes sentavam-se nesse lugar, na praça — que era quase como é hoje — e falavam, contavam histórias e cantavam.

"A fumaça erguia-se das cabanas e das casas. Crianças brincavam na areia. Cães esqueléticos e famintos coçavam-se ou brigavam. Burrinhos magros descansavam imóveis.

"O povo da vila sentava-se em silêncio na semi-obscuridade. As mulheres seguravam crianças no colo.

"Uma mulher, sentada em uma pedra, ninava o filho, cantando baixinho.

"O visitante mais velho perguntou se podia segurar a criança por alguns momentos e ela consentiu. Ele colocou o bebê sobre seus joelhos. A criança estava sonolenta, o homem baixou a voz para não despertá-la e os ouvintes inclinaram-se para a frente para escutar melhor. Ele disse para olharem aquela criança, que todos conheciam, que não se distinguia das outras, uma criança como todas as que existiam na vila, cuja vida seria igual à de todos, nada diferente, assim como as vidas dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos...

"A mulher inclinou-se para a frente e disse, como se desculpando, que o bebê era uma menina.

"Mas esta criança, continuou o visitante, não era o que parecia ser — não, não importava que fosse uma menina, pois uma menina era tão boa quanto o seu irmão... Ignorando o leve movimento de protesto, continuou. Esta criança, menina ou menino, não era o que parecia ser. Não, o que importava era que ela — ou ele — era igual a qualquer outra pessoa da vila, ou das outras vilas próximas, ou até mesmo da grande cidade (que poucos tinham visitado, embora tivessem ouvido falar dela), ou das cidades do outro lado do mar (das quais tinham ouvido falar porque um rapaz da vila, um marinheiro, tinha contado histórias assombrosas e improváveis que acharam mais prudente não levar a sério), ou igual a qualquer pessoa, em qualquer lugar. Eles não sabiam, mas esta vila, que lhes parecia tão grande, que continha suas vidas e tudo o que conheciam, era apenas uma pequena parte do mundo. Deviam multiplicar a sua vila pelo número de grãos de trigo nos campos, e as grandes cidades pelo número de pedras na colina — a luz do dia estava desaparecendo, a lua erguia-se e a colina próxima brilhava com suas pedras brancas. Aquela gente sentava-se em silêncio, ouvindo, escutando... a essa altura confiavam nesses homens que tinham vindo a eles 'como anjos', que lhes tinham ensinado tanta coisa útil, como estava provado. Sentiam que o que contavam eram coisas assombrosas e maravilhosas, mas era tão difícil compreender! Quando a cidade próxima tinha sido sempre o limite da sua imaginação, como acreditar que existissem muitas iguais, e muitas, milhares de vezes maiores...

"Havia cidades no mundo... cidades habitadas por tantas pessoas quantas eram as estrelas do céu. Povos como anjos, pois não deviam pensar que esses visitantes eram diferentes, fora do comum.

"Eles ouviam, tentando compreender.

"Havia cidades no mundo onde todo o povo tinha alimentação farta. Tinham roupas suficientes para se agasalharem. Suas casas eram muito maiores do que as casas daqui. Sim, isso era verdade. Mas o que importava era que esses povos maravilhosos tinham tempo para aprender muitas coisas, não apenas a fazer queijo ou a evitar que uma vaca adoecesse. Não, esses povos tinham tempo para estudar, para pensar, para sonhar. Sabiam todo tipo de coisas extraordinárias e verdadeiras — sim, era verdade, tudo o que estava dizendo era verdade.

"Esses povos podiam, por exemplo, estudar o movimento das estrelas, que não estavam tão distantes como pensavam os habitantes desta vila e de outras. Não, cada estrela lá em cima era um mundo, cada uma delas, feitas de substância que todos conheciam tão bem quanto conheciam suas mãos, seus pés, seus cabelos. Aquelas estrelas lá em cima eram feitas de terra

— como esta — e de rocha — como esta. E de água. E de fogo, sim, de fogo vivo e dançante.

"Na noite seguinte, e na outra, e outra, nossos visitantes sentavam-se na praça, pediam para segurar uma criança, qualquer criança, insistindo que não importava quem eram os pais, se era menino ou menina, que idade tinha, e, segurando essa criança na frente do povo, diziam que, se ela fosse tirada deles — não, não, essa não era a sua intenção (porque a multidão subitamente murmurou e se moveu), a criança estava ali, sobre seus joelhos, abrigada em seus braços, apenas para que se lembrassem —, se essa criança fosse levada para uma daquelas fabulosas cidades onde o povo não precisava passar o tempo todo fazendo trabalho braçal, se ela tivesse tempo para estudar, então seria exatamente igual àqueles povos. E se ela fosse levada para visitar — digamos, aquela pequena estrela lá em cima? Sim! Aquela! Ou aquela outra! — então...

"E eles riam olhando para cima, boquiabertos, observando o céu que nessa noite estava enfeitado de milhares de estrelas.

"Sim, aquela. Se este bebê que dorme sobre meus joelhos fosse levado para aquela estrela, então seria um bebê-estrela, talvez se tornasse um gigante, quem sabe? Ou ganhasse asas, e penas — quem poderia dizer?

"Eles riram. O riso generalizou-se. Mas era um riso confiante e maravilhado.

"Ou se transformaria em uma criança capaz de viver na água, ou no fogo, quem sabe?

"E esta é a questão, vêem? É isto que devem lembrar: que todas as crianças têm a capacidade de ser qualquer coisa. Uma criança é um milagre, uma maravilha! Uma criança tem em si toda a história da raça humana, que se estende no passado mais remoto, a uma distância difícil de imaginar. Sim, esta, a pequena Otilie, tem na substância do seu corpo e no seu pensamento tudo que já aconteceu a cada indivíduo humano. Assim como uma fatia de pão tem todas as substâncias de todos os grãos de trigo usados para sua confecção, misturado a todos os grãos daquela colheita e à substância do solo onde cresceu, assim também esta criança é o produto de toda a colheita de seres humanos.

"Essas palavras e idéias, diferentes de tudo o que até ali tinham ouvido e imaginado, eram absorvidas por eles todas as noites, e sempre com uma criança ante seus olhos.

"Lembrem-se, lembrem-se, que daqui a muito tempo, não no seu tempo, ou no tempo dos seus filhos, ou mesmo dos seus netos — mas esse tempo virá —, seu trabalho, suas privações, o peso de suas vidas, tudo isso será redimido, frutificará, e as crianças desta vila e do mundo serão tudo aquilo que podem ser... lembrem-se disso, lembrem-se... será como se viessem homens daquela pequena estrela lá em cima, cintilando sobre as sombras escuras das árvores, sim, daquela! e subitamente envolvessem esta vila tão cheia de privações e de problemas, em uma aura de coisas boas e de esperança. Lembrem-se, esta criança não é o que parece ser, é mais, é tudo, e guarda dentro de si todo o passado e todo o futuro — lembrem-se disso.

"Certo dia, bem cedo, uma menina chegou correndo à cabana onde os quatro homens dormiam e bateu na porta com urgência, dizendo, ofegante, que trabalhava na cozinha do mosteiro, e que os monges tinham ouvido falar dos visitantes e enviaram um mensageiro ao "próprio rei", e que os soldados estavam chegando. Sim, já estavam a caminho...

"Quando os soldados chegaram, não encontraram nenhum estranho na vila, eles tinham partido, entrando na perigosa floresta e deixando um desenho de pedras na colina, um colar no pescoço de uma criança, alguns desenhos feitos com argilas coloridas e terra nas paredes do prédio feito de pedra da vila, que era um armazém. Os habitantes da vila disseram que era um boato falso, invenção de uma menina que queria chamar atenção, pois naturalmente fora ela mesma que comentara, na cozinha do mosteiro, sobre os visitantes, e depois teve medo dos resultados.

"Assim que os soldados partiram, chegou um grupo de monges.

"Visitavam a vila uma vez por ano, se tanto. Desprezavam os habitantes da pequena comunidade, embora não fossem muito mais do que eles, quase tão pobres e não muito menos ignorantes. Isso foi na época em que homens e mulheres se agrupavam em abrigo de toda espécie, dizendo-se monges e freiras para escapar às brutalidades dos homens.

"Os soldados ordenaram aos monges, em nome do rei, que se certificassem de que não havia nenhum estrangeiro indesejável nas vilas.

"Os monges informaram o povo dessas ordens, e voltaram às suas tocas de pedra na montanha.

"Os habitantes das vilas concordaram com tudo.

"Mas, agora, era como se as estrelas tivessem vindo morar com eles e depois partido. Guardavam segredo do que tinha acontecido, conservando como tesouros as artes que aprenderam, que logo se espalharam pelas outras vilas — e também tudo o que lhes fora dito.

"Eles seguravam uma criança no colo e repetiam o que se lembravam.

"Das pessoas que habitavam a vila naquele tempo, nenhuma se esqueceu. As crianças que haviam sentado nos joelhos dos visitantes eram apontadas por todos. Algo realmente assombroso tinha acontecido e todos sabiam, e logo as vilas próximas souberam também.

"Os filhos das crianças que tinham sido apresentadas ao povo da vila na pequena praça conservaram algo daquela qualidade, nelas ou ao seu redor.

"Mas agora não se lembravam exatamente do que tinha sido dito, ou feito, e de quem os tinha visitado — anjos, teriam sido anjos?

"Certa noite, o fim de um dia quente e empoeirado, na hora em que as pessoas se sentavam na frente das casas, as crianças brincavam, os cães se cocavam e alguns asnos magros tentavam encontrar relva fresca entre o verde queimado, eles diziam: Você se lembra?... Não, não foi assim... Sim, minha mãe disse... Mas não foi isso... — quando um homem, que era filho de uma das meninas mostradas na praça, segurou o próprio filho nos braços, e colocando-o sobre os joelhos, disse: 'Vamos tentar lembrar exatamente o que foi dito, e então nós repetiremos, e vamos fazer isso regularmente para nos lembrarmos sempre.'

"Todos os anos, esse homem segurava o filho para que todos pudessem ver e repetiam tudo o que se lembravam, e olhavam para o céu, rindo e balançando a cabeça. 'Aquela estrela lá em cima!' 'Não, aquela outra!' 'Povo feito de fogo!' 'Ou de penas!'

"E guardavam segredo disso, como de muitas outras coisas, para que os monges e os soldados não soubessem, mas naturalmente a cerimônia tornou-se conhecida. A princípio, os monges a proibiram e os puniam mas não fez a menor diferença. Todos os anos, numa determinada noite, em uma das casas da vila, escolhiam uma criança e ela ficava na frente do povo, enquanto repetiam as frases que não queriam esquecer.

"Mas agora as palavras parecem os murmúrios invejosos dos pobres contra os ricos, em toda Shikasta — ou em qualquer outro lugar, na verdade.

"Sou tão bom quanto ele, meu filho é tão bom quanto o filho dos ricos, dêem-me suas roupas e eu serei uma mulher fina também.

"Então chegaram os monges e os soldados e muitas pessoas foram levadas e condenadas à morte por rebelião, por falar contra o rei, por desobedecer aos monges.

"Os monges instituíram, por ordem superior, a Cerimônia da Criança, celebrada todos os anos e conduzida por eles. Foi construída uma pequena igreja na vila, que não tinha nenhuma, e esta foi mais tarde construída e reconstruída muitas vezes. A Criança era o Menino Deus, diziam os monges, mas a cerimônia jamais perdeu suas verdadeiras raízes, nascidas naquela visita há tanto tempo, pois havia ainda no povo a força para acreditar que eles e não os monges tinham sido abençoados, eles e não os monges tinham visto a Criança. Quem a tinha mostrado, porém? Ou o quê? Pessoas vindas de uma estrela? Não, isso não podia ser. Da lua? Que tolice! Mas alguém tinha vindo, um ou vários, e tinham feito promessas, e tinham sido expulsos...

"E um dia voltariam, e seria o fim das privações e do trabalho estafante, dessa terrível necessidade que nos prende à poeira, que nos impede de voar...

"E essa, bom povo, e visitantes, e sacerdotes e turistas, e os que estão nos acampamentos, e pessoas das cidades vizinhas, essa foi a origem do festival que vocês realizam todos os anos. Foi assim que aconteceu. E agora, preciso fugir para salvar a minha vida..."

[Durante as transmissões de Johor nessa fase de sua embaixada, forneceu informação de fatos reais não pedida por nós porque acreditava (e com razão) que nosso Serviço Colonial nem sempre apreciava devidamente certas dificuldades locais. A ampla visão do plano de manutenção e desenvolvimento planetário não tem necessidade, nem pode depender de simpatias, empatias dos que estão mais próximos, de parcialidades, de pontos de vista. Contudo, estar em Shikasta (dois dos arquivistas responsáveis por estas notas passaram pela experiência shikastiana) é tornar-se presa de emoções poderosas que devem ser abandonadas quando a deixamos. Submetemos este texto, e o que se segue, certos de que os estudiosos os acharão muito úteis. Arquivistas.]

 

 

INFORMAÇÃO EXPLANATÓRIA ADICIONAL. I

 

A Lacuna entre Gerações: para empregar uma frase shikastiana muito popular na época e empregada em todos os contextos e por todos os tipos de "especialistas".

Um fenômeno comum a todos os animais foi distorcido e exagerado nos últimos dias de Shikasta. Há sempre um momento em que a mulher afasta do seio o filho crescido, e o pássaro empurra o filhote para fora do ninho. O momento em que uma criança se torna adulta transformou-se em cerimonial público e privado em todas as culturas: nesse sentido, "a lacuna entre as gerações" deve ser considerada como um fato social inato, e, se não é celebrado por um ritual, um fato psicológico.

Certas civilizações de Shikasta conservaram-se estáveis durante centenas, até mesmo milhares de anos; naturalmente, estáveis dentro dos limites das guerras, epidemias, desastres naturais que fazem parte do destino dos shikastianos. A maioria delas floresceram na época em que os shikastianos viviam muito mais do que hoje, 10, 20 vezes mais, embora o tempo de vida tenha sempre estado em processo decrescente, mais rápido ou mais lento. O jovem que chegava à idade adulta tinha à sua frente uma vida muito mais longa do que nos últimos tempos. Todos os jovens sabiam qual o momento em que teriam de lutar por sua independência psicológica pessoal, e isso levava muitas vezes a um período de insegurança, e talvez algum reajustamento por parte dos pais. Mas o normal era que os jovens adultos vivessem, por muito tempo ainda, ao lado dos pais. A infância era uma preparação breve para a vida. Os pais que tinham o número permitido de filhos, um, dois ou três, estavam contribuindo para o aumento de uma população com a qual esperavam gozar vários anos ainda de afeição pessoal.

Quando o tempo de vida decresceu tão dramática e tragicamente, permaneceu no que os shikastianos chamam de "memória da raça" a mesma expectativa de quando viviam mil anos — ou até mesmo, em certos casos, os 2 mil ou 3 mil anos da espécie original, o híbrido. Todos os jovens esperam ter uma vida longa. Seu fim está tão longe que poucos são capazes de acreditar realmente que um dia vão morrer. Um indivíduo que, por sorte, chegue a viver 80 anos, tem no seu sangue e nos seus ossos o conhecimento de que viverá 800. Ou talvez 3 mil anos.

Esse fato, não suspeitado pelos shikastianos, que relegaram suas longas vidas do passado à região dos mitos, é a causa de grande parte dos seus desajustes psicológicos. Mas aqui vou considerar um fato isolado de desajuste: o efeito no relacionamento entre as gerações.

Os shikastianos sabem que o movimento do tempo é diferente para os jovens e para os velhos. A definição "subjetiva" da passagem do tempo é, para a criança, muito lenta, infindável, quase eterna. Uma criança mal pode avistar o início de um dia quando chega ao fim do mesmo, e é nessa época que a memória genética da antiga expectativa de vida é mais acentuada.

Portanto, a unidade de tempo para uma criança é diferente da adotada pelo jovem adulto e diferente da unidade da pessoa de meia-idade e os velhos. Generalizando, pode-se dizer que a curva de vida de um shikastiano atualmente atinge o ponto mais alto no centro, mais ou menos aos 50 anos. Antes disso, o indivíduo está no regime do "Viverei mil anos", mas depois dos 50 é como se um véu tivesse sido rasgado, e eles entendem então que, na juventude, viveram uma ilusão.

Um indivíduo de meia-idade olha para trás e vê metade da sua vida, do seu "tempo permitido", que, depois da expectativa de eternidade, parece muito curto, um sonho vivido, mas que lhe foge das mãos. É quando ele começa a morrer — o que acontecerá em breve — e vê no passado nada além do que enfrenta ainda hoje: ocorrências e atmosferas excitantes e agradáveis, ou horríveis, que escorregaram para o passado e já estão quase esquecidas.

Voltam as esperanças para os filhos, sua continuação — mas estes estão vendo os pais com desapontamento, ou pior.

Uma das razões é que os pais se identificam com a horrível condição de Shikasta; a geração passada representa o caos e o terror, visível por toda parte. É um fato emocional, não intelectual, pois, se perguntarmos à maioria dos jovens, naturalmente não pensa que seus pais são responsáveis pelo Século da Destruição?, responderão, naturalmente, que não! Mas o que todos sentem é exatamente isto: uma antipatia rebelde pelos pais por terem permitido que isso acontecesse.

Outra razão é que o povo de Shikasta, do modo que é agora, nesta época, os filhos da tecnologia, do materialismo, aprendeu que tem direito a tudo, que pode ter tudo, que deve ter tudo. Cada jovem — estou falando de modo geral, não dos indivíduos raros — enfrenta os pais com antagonismo porque, tendo-lhe sido prometido tudo, compreende agora que isso não vai acontecer, e a rejeição, o desapontamento por uma promessa não-cumprida, une-se à reprovação dirigida aos pais.

Não conhecem a própria história como espécie, nem as razões reais da sua condição: não sabem de nada, não compreendem coisa alguma, mas estão convencidos, pela arrogância da sua educação, de que são os herdeiros intelectuais de todo o conhecimento e de toda a compreensão. Contudo, a cultura se desmoronou, e é odiada pelos jovens. Eles a rejeitam enquanto se agarram a ela, a exigem, tiram dela tudo o que podem tirar. E, por causa desse ódio, mesmo aquilo que é bom e perfeito e útil nos valores tradicionais, é rejeitado. E, assim, cada jovem vê-se subitamente enfrentando a vida sozinho, sem normas ou regras, ou leis, ou mesmo alguma informação na qual possa confiar. Como acreditar que da anarquia brutal que os rodeia possa sair algo de bom? Contudo, estão equipados para fazer julgamentos, e para usar a mente de certo modo — assim lhes ensinaram. São equipados para ser auto-suficientes e capazes de julgamento individual, e começam então a cinzelar seus territórios emocionais com a crueldade total e o interesse pessoal característicos das faixas do Noroeste, desde quando esses animais dominaram o mundo saqueando e pilhando — mas agora não se trata apenas dos povos dessas faixas, mas de todos, em todos os lugares. Pois, à sua frente, estende-se essa longa vida, sem fim, sem fronteiras — têm tempo para corrigir erros, mudar de caminho, transformar o errado em certo...

E são observados com desespero pelos adultos.

Nada do que os adultos digam é ouvido por essas crianças que vagueiam em sua névoa colorida e enganadora.

A maioria dos adultos, especialmente os do hemisfério norte, ou os que pertencem às classes afluentes, em toda parte, viveram de acordo com o princípio de que nada precisará ser pago, e foram levados pela correnteza, estão presos em várias praias sombrias, rodeados pelos resultados da sua pirataria de quando eram jovens. A maioria deles, se pudesse, voltaria atrás, desfazendo tudo o que foi feito, "fazendo tudo diferente, se eu tivesse tempo outra vez". Anseiam por comunicar aos jovens: "Pelo amor de Deus, não faça isso, tenha cuidado, você tem tão pouco tempo, se fizer isso, tal e tal coisa pode acontecer."

Mas os jovens "precisam aprender por si mesmos". Ê o seu direito, sua forma de autodefinição, essencial para eles. (Como foi para seus pais, que sabem a futilidade de sugerir que podem estar errados.) Desistir desse direito, do autodesenvolvimento, da auto-expressão, da autodescoberta significa sucumbir às pressões intoleráveis, corruptas, falsas.

Os velhos vêem os jovens com angústia, dor, medo. Acima de tudo, todos aprenderam o que custam as coisas, o que tem de ser pago, as conseqüências e os resultados das ações. Mas suas vidas foram inúteis, porque nada do que aprenderam pode ser transmitido. De que adianta aprender tanto, com tanto sofrimento, a tão alto preço para si mesmos e para outros (geralmente os filhos) se a geração seguinte não pode aproveitar nada disso, não pode aceitar coisa alguma "dada", aprendida, já compreendida?

E esses velhos que já passaram por tanta coisa sabem muito bem que o horror é possível e sem dúvida inevitável, mas os jovens pensam, ora, talvez tudo dê certo no fim.

Os velhos vivem esperando, desejando que os jovens caiam em si e compreendam que têm pouco tempo, e que o planeta tem tão pouco tempo de vida: "Pelo amor de Deus! Não há mais tempo, não há mais tempo para vocês, nem para nós, e só pensam em vaidades e brincadeiras..."

Mas lá estão os jovens, em bandos, grupos, cultos, partidos políticos, seitas, gritando slogans, infinitamente divididos, antagonistas entre si, sempre com a razão, lutando pelo comando. Lá estão eles — o futuro, que está condenado.

Os velhos não têm futuro, porque, especialmente para as criaturas que devem morrer quase antes de caírem em si, os jovens têm de ser o futuro. Os velhos, olhando para trás, para o seu espaço de névoa colorida, dizem: "Eu não vivi." E é verdade. Mas olham para os seus filhos — e sabem que eles também não viverão.

Esta é uma das poderosas forças que atuam aqui, agora, em Shikasta. Entre as inúmeras divisões e subdivisões, povos, raças, sub-raças, idéias, credos, religiões, essa força opera em toda parte, em toda área geográfica, esse golfo que separa os jovens dos velhos.

 

 

JOHOR. Relatório.

 

Eis uma lista dos indivíduos que fui encarregado de verificar. Não foram incluídos aqueles cuja situação é satisfatória e que se desenvolvem de acordo com o plano. Adicionei, porém, alguns casos que nossos agentes consideram difíceis, indivíduos cuja situação não era ainda conhecida em Canopus, e por isso seus nomes não constavam da lista.

Estes últimos são relacionados em separado, não juntos com aqueles que eu devia verificar por causa da negligência de Taufiq: eles não se enquadram neste plano.

[Os shikastianos passam grande parte do tempo surpreendendo-se com a conduta dos outros e fazendo comentários sobre a mesma. Isso se deve, em parte, ao conhecimento falho na área que classificam como "psicológica", e em parte porque não aplicam o que sabem.

Em geral a surpresa, agradável ou não, que demonstram com certos acontecimentos, deve-se ao movimento de um impulso interno abrindo caminho por meio de encontros ou choques de personalidades. A sabedoria tradicional do povo afirma que as pessoas geralmente se sentem atraídas por quem lhes pode causar dor. E é verdade que a força interna, que impulsiona Shikasta por seus caminhos difíceis e dolorosos, sen; ida por alguns como o " guia" ou "monitor interno", não é do tipo que considera ' felicidade" ou "conforto" quando opera para levar o indivíduo para o autoconhecimento, a compreensão.

Na maioria das vezes, não é necessário conduzir um indivíduo a esta ou aquela situação, a este ou aquele relacionamento — certos componentes da sua personalidade, aspectos que eles próprios ignoram, os impelem, pelas leis da atração ou repulsão, para lugares, para pessoas que podem beneficiá-los. Geralmente duas pessoas, ou um grupo de pessoas, encontram-se em situações obrigatórias e benéficas, e então dizem que isso é o resultado de um "milagre" ou "intervenção divina". O casal, par ou grupo muitas vezes é atraído através de oceanos, ou têm de superar perigos "impossíveis", porque precisam um do outro — precisam aprender um com o outro. Mas quase sempre esse processo parece, ao observador não-avisado, um conflito inútil e sem sentido, ou um impasse, ou até mesmo algo prejudicial.

E, naturalmente, às vezes esses encontros são realmente erros, perda de tempo, prejuízo. Como poderia ser de outra forma na pobre Shikasta já no fim, na última fase do longo processo que a levou a esse estado vergonhoso?

Mas freqüentemente não são, e as pessoas envolvidas mais tarde talvez digam a si mesmas, para outras, referindo-se àquele tempo que consideraram difícil, doloroso, quase acima de suas forças, ou errado: Quanto eu aprendi com isso! Não teria perdido essa oportunidade por nada no mundo! Arquivistas.]

 

33. Sua tarefa consistia em manejar a imensa fortuna da família, da qual era a única herdeira. Não era seduzida pela riqueza, a que de um modo geral permanecia indiferente, mas pelos homens atraídos por sua fortuna. Casou-se várias vezes, sem nenhum benefício para si mesma, embora um dos seus maridos tenha tirado bom proveito da experiência a ponto de completar um aspecto de si mesmo e começar a trabalhar em outro. Mas ela não conseguia fugir ao ciclo de "se apaixonar" e se desiludir. Conversando com o agente 15, este sugeriu que sua fortuna fosse drasticamente, grotescamente mesmo, aumentada de um modo que ela não podia nem imaginar, o que acentuaria sua responsabilidade. O Agente 15, encarregado desse caso, providenciaria também para que ela conhecesse o Agente 44, que estava inativo e cuja influência poderia ser construtiva.

 

44. Se ele não se beneficiar, o Agente 15 o designará para outro caso. Mas ele não poderia estar em pior condição, e o risco de uma recidiva de um envolvimento, mesmo comercial, com uma mulher de espírito tão infantil deve ser enfrentado.

 

14. Sua tarefa consistia em se devotar à mãe viúva, inválida e de temperamento difícil. Fazia isso desde os 30 anos. Essa missão inexorável, constante, estava dentro dos limites da sua capacidade até o momento em que envelheceu também e foi atacada por uma doença que lhe tirou as forças. Não conseguia se livrar do estado de depressão, e estava pensando em suicídio, ou mesmo em abandonar a mãe, agora senil, colocando-a em um asilo. Eu adicionei a essas dificuldades o cuidado de uma tia na mesma condição da mãe, mas de temperamento forte e alegre. A Agente 14 não pereceu, mas reanimou-se, e, estimulada pelo golpe, "encarregou-se" de visitar e cuidar de homens e mulheres velhos da vizinhança. Está novamente otimista e capaz como era antes.

 

21. Esse homem, da raça negra oprimida do Continente I do Sul (na região sul), tomou a si a tarefa de enfrentar a opressão para o bem dos outros. Envolveu-se na ação política, como era de esperar, uma vez que não existiam outros meios de expressar autoconfiança, auto-respeito, naquela área, na época. Foi preso, torturado e ficou inválido. Foi quando se desviou do caminho e tornou-se amargo e desencorajado. Isolou-se de todos e passaram a chamá-lo de O Homem Zangado. Se tivesse continuado assim, teria atraído sobre si mesmo uma morte prematura. Ganhava a vida vendendo vegetais em uma cidadezinha "negra", quando foi novamente preso durante uma manifestação cívica e injustamente condenado. Sua cólera aumentou. Era óbvio para seus companheiros de prisão que não duraria muito tempo, pois combatia a autoridade e os outros prisioneiros de todas as formas possíveis. Fiz com que o colocassem junto com um homem inválido como ele, injustiçado também e que aceitava esse estado de coisas com a ajuda de um dos vários cultos religiosos locais. Os dois homens cumpriram suas penas como amigos. Agora, livres, continuam amigos e trabalham para melhorar as condições das crianças aleijadas e defeituosas da comunidade "negra".

 

42. A tarefa consistia em viver uma vida tão normal e completa quanto era possível em tempos de tanto horror, fazendo com que todos aqueles levados a situações extraordinárias pela guerra, privação, riscos da política, vissem a possibilidade de uma vida simples de família, e especialmente que se lembrassem de como os pais devem conduzir e cuidar dos filhos. Foi criado pela mãe, que, tendo enviuvado inesperadamente, encontrou consolo na comida; indulgente, ela ensinou auto-indulgência ao filho. Ele tinha a obsessão da comida. Não é uma condição incomum; o alimento assumiu uma importância que assombra todos que visitam Shikasta. Vários fatores contribuíram para essa situação. Em primeiro lugar, é grande o número de povos que nunca tiveram alimento suficiente, e portanto são obcecados pela necessidade; e quando são salvos da indigência, o alimento torna-se algo mais do que uma necessidade. Segundo, a guerra impôs em vastas áreas de Shikasta períodos em que a comida não passa de um sonho, um desejo ardente; quando têm abundância novamente, esse hábito permanece. Terceiro, como já foi comentado, a economia de grandes áreas de Shikasta é toda dirigida para o consumo, de modo que os indivíduos são pressionados, a todo momento, a pensar em comida e em bebida, e poucos são capazes de superar essa compulsão. E, naturalmente, há Shammat, o voraz, cujo veneno circula nos corpos e nos cérebros de todos os shikastianos. Essa situação é tão extrema que não consideram chocante, em um mundo onde a maioria dos habitantes morre à míngua, que alguns indivíduos viajem de uma cidade para outra, de um país para outro, de um continente para outro só para comer, atraídos pelos lugares famosos por suas cozinhas. Nas descrições de uma cidade, o primeiro item é a lista da comida e até detalhes de como é preparada.

Quando 42 se casou, escolheu uma mulher que, como quase todas as pessoas que conhecia, pensava em comida acima de qualquer outra coisa. Em sua casa imperava a compra, o preparo e o consumo de alimentos. Os filhos consideravam a comida algo de extraordinária importância. O Agente 9, no relatório anterior, explicou que foi providenciado para que 42 perdesse subitamente seus meios de subsistência e fosse obrigado a dirigir um restaurante. A intenção era que ele passasse a encarar o processo de comer e preparar comida de modo mais objetivo. Mas ele, a mulher, os filhos e alguns amigos ficaram obcecados por um restaurante que era famoso em vários países. Jamais pensavam em outra coisa que não fosse comida, e a situação estava pior do que antes. Providenciei para que ele fosse convidado por uma agência internacional, por causa do seu conhecimento de todos os aspectos de nutrição, para desempenhar o papel de conselheiro do programa nutricional para várias áreas extremamente pobres do Continente I do Sul. Acredito que ele e a mulher vão aceitar o convite, e, quando estiverem diariamente em contato direto com os extremos de fome, libertem-se da sua preocupação. Resta o problema dos filhos, que é parte da minha missão, e pedi ao Agente 20 que se encarregasse dessa parte.

 

17. Sua tarefa era pôr em risco a própria sanidade mental — em uma época em que crescia o número das pessoas que perdiam a razão ou que viviam à beira da loucura, ou que eram ameaçadas de "um colapso" várias vezes durante sua vida — a fim de explorar essas áreas calmamente e delimitá-las, em benefício de outros. Foi demais para ela. Foi submetida a pressões muito mais intensas e em maior número do que esperávamos, em virtude da morte prematura da mãe. Muitas pessoas aprenderam com ela as possibilidades e os riscos do desequilíbrio mental, mas ela não conseguiu manter o próprio equilíbrio. Grande parte de sua vida foi passada em hospitais para doentes mentais ou em situações ao abrigo dos riscos, à custa de outros, tanto financeira como emocionalmente. Um relatório anterior descreve sua condição, e sugere uma intervenção positiva, mas esta não produziu nenhuma melhora. Fiz contato com ela em um hospital onde estava por vontade própria e se mostrou obstinada e recalcitrante; para manter a sanidade tênue e intermitente que possui agora, precisa ser obstinada e desconfiada; muitas vezes foi tratada com ignorância e brutalidade. Providenciei para que um médico com uma visão especial dessas condições, trabalhando silenciosamente e com discrição, fizesse contato com ela e trabalhasse para curá-la, sugerindo que ela descreva as experiências que teve ajudando os outros. Isso será benéfico para ambos, mas não tenho muita esperança.

 

nota: Eu estava errado. Ver o material anexo sob o título Lynda Coldridge.

 

4. Em uma época em que convencionalmente a informação sobre descobertas científicas deve ser acessível a todos, mas em que na verdade grandes áreas de pesquisa, quase todas, mas não todas, relacionadas a assuntos militares permanecem secretas, de modo que o público conhece apenas parte do horror que lhes está reservado, esse homem tomou a si a tarefa de trabalhar em um estabelecimento de pesquisa científica militar. Muito eficiente no trabalho, ficou logo conhecido na sua especialidade, embora apenas no pequeno círculo de pesquisadores do mesmo campo. Mas ocupa ainda uma posição-chave. Pouco a pouco tornou-se obcecado pela monstruosidade da natureza dessas pesquisas, o que teve como resultado uma neurose — o conflito do dever para com "país", "ciência", "família" etc, que não pode resolver, fez com que ficasse doente. E durante anos guardou segredo da sua doença, pois não havia ninguém com quem pudesse discutir a situação. Embora continuasse a realizar seu trabalho com eficiência e até mesmo adiantando com algumas descobertas o campo da ciência que considerava criminoso, o seu íntimo debatia-se em um pesadelo de culpa. Providenciei para que conhecesse, em uma conferência internacional sobre outro assunto, um homem que trabalhava no mesmo campo científico, em um país "inimigo" — coloco a palavra entre aspas porque, nessa época, os inimigos podem se tornar aliados da noite para o dia, ou são secretamente aliados, estejam ou não em guerra. Esses dois homens, ambos carregando com dificuldade o peso do seu conhecimento, foram imediatamente atraídos um para o outro graças às suas preocupações semelhantes. Combinaram um meio de conseguir que as informações mais letais que possuem sejam passadas adiante, adiando assim a possibilidade do seu uso. Portanto, esse homem voltou ao caminho que escolheu. Cada vez mais se dedicará à disseminação dessas informações secretas, até ser descoberto e preso.

Agora trataremos dos indivíduos cujas situações foram trazidas ao meu conhecimento por precisarem de atenção. Eu os numerei de acordo com o Sistema 3.

 

1 (5). A principal característica desse indivíduo era o senso crítico, acurado e agudo. Várias influências, durante a sua educação, reforçaram esse equipamento, e qualquer situação era por ele "analisada" imediatamente. Deixou seu ambiente natal muito cedo, rebelando-se contra a situação dos pais, na qual via apenas hipocrisia, e casou-se ainda jovem. Teve três filhos, sentiu que estava preso a uma situação de "mediocridade e hipocrisia" e passou a ter vários casos com mulheres, dos quais resultaram três filhos ilegítimos. Casou-se novamente, teve dois filhos, mas o casamento não deu certo. Casou-se mais uma vez, mais uma vez se divorciou, desta vez com mais um filho. Com a idade de 55 anos estava sozinho, incapacitado e incapaz de produzir, em virtude do sentimento de culpa. Sua profissão era de crítico de arte. Seu estilo era satírico. Mas o senso de humor, que sempre o impediu de sucumbir a qualquer situação, era sempre prejudicado por um coração generoso e cheio de calor humano — um atributo reforçado pela culpa e que o faz flutuar constantemente entre o "não" e o "sim".

Depois de conversar com o Agente 20, resolvemos inspirar uma de suas filhas a pedir sua ajuda. Ele a acolheu e responsabilizou-se por ela. Os outros filhos, sabendo disso, recorreram a ele também. Nessa época em que os filhos geralmente se afastam dos pais, como se permanecer em contato com eles significasse perpetuar todos os vícios de Shikasta, é comum os adolescentes saírem de casa e procurarem pais adotivos. Neste caso, ele é o pai adotivo, pois há anos não via os filhos. E viu de um momento para outro sua casa repleta de crianças, adolescentes, jovens adultos, todos envolvidos nas dificuldades mais variadas, e resolveu se mudar para uma casa maior, no campo. Sua atitude para com "laços", "deveres", "convenções", "falsa fidelidade", "hipocrisias" era muito conhecida, e ele se transformou quase em um exemplo. Mais do que o homem comum, cujos filhos saem de casa quando ele entra em sua quinta década, ele está assoberbado com responsabilidades atrasadas. Uma ex-amante ficou doente, e ele a acolheu também. Outra sofreu um esgotamento nervoso e foi morar com ele. O marido de uma de suas ex-mulheres teve sérias dificuldades financeiras e está sendo ajudado por ele. Esse homem hoje é responsável, de um modo ou de outro, por mais ou menos 20 pessoas, e está curado de sua condição estagnada e pouco saudável. Seu senso crítico é agora usado para o diagnóstico dos males e necessidades dos que estão a seu cargo. Como sua responsabilidade é muito pesada, encarreguei o Agente 20 de acompanhá-lo, com poderes para intervir, se necessário.

1 (13). Esse homem, depois de lutar arduamente, na infância e na juventude, contra a pobreza e falta de instrução, tornou-se jornalista. Durante muitos anos foi considerado um indivíduo duvidoso pelas autoridades, pois era um dos que — com uma capacidade crítica e analítica não muito diversa da do n.° 1 (5) — continuamente tentavam apresentar ao público um quadro real dos acontecimentos e dos processos, bem diferente do ponto de vista da maioria. Isso de um ponto de vista apolítico, embora fosse rotulado como socialista, em uma época em que ser socialista era malvisto e fora de moda. Como acontece sempre em Shikasta, os pontos de vista que ele representara por três décadas, lado a lado com a minoria de homens e mulheres que tinham sofrido por essas idéias, de súbito tornaram-se os pontos de vista da maioria e da noite para o dia tornou-se um herói popular, especialmente para os jovens. Em certas áreas de Shikasta os críticos da sociedade são perseguidos e caçados durante toda a vida. Em outras, são absorvidos. Repetidamente, pessoas que mantiveram a mente sempre em movimento, defendendo, aperfeiçoando e refinando sua percepção dos fatos, subitamente transformam-se no foco de todas as atenções das máquinas publicitárias, passam a ser figuras nacionais, são congeladas em atitudes públicas estáticas. Freqüentemente pessoas de valor são neutralizadas, transformadas em figuras ridículas, e finalmente perdem o ímpeto e a força. O homem de quem tratamos caiu nessa armadilha e não compreendeu que estava repetindo velhas atitudes. Providenciei para que conhecesse uma mulher do Continente I do Sul, que lutou tão bravamente para sobreviver durante toda a vida que tem energia suficiente para dois: ele se casará com ela, recuperará as forças e se libertará do padrão. Seus filhos deverão ser notáveis, e providenciei para que sejam acompanhados pelo Agente 20.

 

1 (9). Essa mulher sempre foi supersensível a influências de todo tipo e faltam-lhe força e autodefinição. Foi protegida por uma família forte, e depois por um marido também forte. Ele morreu, e ela imediatamente caiu em um estado de depressão e de mágoa que se tornou um vício. Essa condição atraiu vampiros para a Zona Seis de um tipo especialmente virulento e persistente. Estava claro que ela não viveria por muito tempo e que na Zona Seis estariam à sua espera entidades maléficas. Pensei em providenciar outro casamento para ela, mas aconteceu que uma mulher com força de caráter e decisão suficientes para repelir qualquer quantidade de influências maléficas estava em uma condição de indecisão sobre sua vida. Estão agora morando juntas e as energias resultantes estão afastando as entidades perigosas da Zona Seis.

 

 

Documento, Lynda Coldridge (N.° 17, este Relatório)

 

Estou escrevendo isto para o Dr. Hebert. Insisto em lhe dizer que não posso escrever. Nunca escrevo. Nunca escrevi. Ele me diz que preciso. Portanto, estou escrevendo. Ele diz que se outras pessoas lerem isto serão beneficiadas. Mas o motivo pelo qual ele quer que eu escreva é que isso vai me ajudar. É o que ele pensa. Bem, ele vai ler isto e assim ficará sabendo o que eu penso. Embora já lhe tenha dito muitas vezes. O Dr. Hebert é um bom homem. (Você é um bom homem!) Mas você não escuta. Médicos são sempre assim. (E não só os médicos.) Sempre converso com o Dr. Hebert horas a fio. Mas ele quer que eu escreva os meus pensamentos. Acho engraçado. Doido. Mas eu é que sou doida e não o Dr. Hebert. O Dr. Hebert sabe de tudo o que aconteceu comigo. Sabe mais sobre mim do que qualquer outro médico. Mais do que Mark. Bem, isso nem é preciso dizer. Ou do que Martha. Ou Sandra ou Dorothy. O Dr. Hebert diz que é importante que ele saiba tudo a meu respeito. Diz que já tive todas as formas de tratamento nos hospitais. Ele diz que eu consegui sobreviver a esses tratamentos. Está errado. Eu não sobrevivi. Eu lhe conto como era quando criança. Eu era louca. De acordo com as idéias deles. Então eu lhe digo como fiquei furiosa quando estava louca e quando começaram a me tratar e a me internar em hospitais. Porque as duas formas de loucura são diferentes, não a mesma. Compreende isso, Dr. Hebert? (Você diz que eu devo chamá-lo de John, mas não vejo por quê. O fato de chamá-lo de John não o torna louco e não me faz normal.) Quando eu era menina, passava pela minha cabeça todo tipo de coisas, e agora eu sei que era louca. Porque tanta gente disse que eu era. Mas era bom. Sempre penso sobre isso. Nunca mais me senti tão bem. (Mas às vezes tenho alguns lampejos, mas escreverei sobre isso mais tarde. Se chegar a escrever.) E quando eles começaram com as máquinas e as injeções e aquele horror, as coisas na minha cabeça ficaram diferentes. Mas eles não viam isso. Vê isso, Dr. Hebert? Compreende? Eu estou lhe dizendo. Com palavras. Palavras, mas no papel. Vou recomeçar daqui. Fico confusa. Queria dizer outra coisa em primeiro lugar.

O Dr. Hebert tem idéias de todo tipo. Algumas são boas. Eu aprovo. Eu aplaudo o Dr. Hebert. Clap clap. Este é um dos meus dias infantis. O Dr. Hebert diz que eu me sinto inútil. (Mas eu sou. Qualquer um pode ver isso imediatamente.) Ele diz que posso ser útil às pessoas que enlouqueceram e que não entendem o que está acontecendo com elas. Diz que devo ir a essas pessoas e dizer: é isso que está acontecendo com vocês. Diz que então vou me sentir melhor. E isso vai me fazer sentir melhor porque elas vão se sentir melhor. Mas o que ele não entende é que o que as faz sentir-se melhor é o fato de se sentirem melhor. Isto é, tudo pára, tudo vai embora, não são mais loucas. Ele diz que eu devo chegar para uma pobre maluca, que treme e chora e ouve vozes, às vezes saindo das paredes, ou vê coisas horríveis que não existem (mas talvez existam) e devo dizer... nova sentença. Olhe, devo dizer. Não tenha medo. Veja, o caso é este. (Estou falando com a pobre maluca agora.) Nós temos os sentidos ajustados para um pequeno alcance de visão ou audição. Durante todo o tempo, sons vêm de toda parte, como uma queda d'água. Mas nós somos máquinas reguladas para aceitar apenas digamos 5%. Se a máquina não funciona bem, então ouvimos mais do que precisamos. Vemos mais do que precisamos ver. Sua máquina está com defeito. Em vez de ver apenas a luz do dia e a noite e sua prima Fanny e o gato e seu dedicado marido, que é tudo o que você precisa para continuar a viver, você está vendo muito mais, isto é, todos esses horrores e cores estranhas e visões e coisas. A razão por que são horrores e não coisas agradáveis é que sua máquina está distorcendo o que realmente existe, que na verdade é muito agradável. (É o que diz o Dr. Hebert. Mas ele é um homem agradável. Você é um homem agradável, Dr. Hebert, e como pode saber?) E em vez de ouvir o seu marido dizer que a ama, ou o ruído do ônibus que passa, você está ouvindo o que o seu marido pensa. Assim como você é um saco de batatas. Ou o que seus filhos pensam. Ou o cachorro. (Eu posso ouvir o que o cachorro do guarda pensa. Gosto dele mais do que de muita gente. Será que ele gosta de mim mais do que dos outros cães? Preciso lhe perguntar. Se as pessoas soubessem o que os cães pensam ficariam surpresas. E com razão, realmente.) Bem, se eu disser tudo isso aos pobres malucos, eles vão se alegrar e se sentir melhor. É o que diz o Dr. Hebert. Compreender tudo é perdoar tudo. Mas eu digo ao Dr. Hebert que não é assim. Quando temos vozes, às vezes centenas delas martelando na cabeça, não nos importamos em saber o porquê. Pode deixar de lado suas idéias originais sobre porcentagens, acredite-me. A única coisa que se deseja é que parem. Será que vão se alegrar? Quero dizer, saber que nós (gente, e pelo que sei, cães também) somos ajustados para ver somente a tia Fanny e o gato e a rua porque, fora disso, tudo é horror? (Dr. Hebert, por que está tão convencido de que os horrores não estão aí? Quero dizer, por quê? Quero realmente saber. Quero dizer, em que mundo você vive, Dr. Hebert, porque acho que não é o mesmo em que eu vivo. Bem, acho que não é preciso dizer isso, porque você não é louco e eu sou.) Vou começar outra vez. Porque você está errado a respeito de as pessoas se sentirem melhor se você ou eu lhes dissermos essas coisas. Porque quase todo mundo foi criado na crença de que os 5% são tudo o que existe. Cinco por cento do universo inteiro. E, se pensarem diferente, são estranhos. E se a máquina não funciona bem e começa a receber, digamos, 10%, então, além de se assustarem com as vozes que saem do cotovelo de alguém ou da maçaneta da porta, eles sabem que são maus. Perversos. Porque não se pode mudar as idéias dos outros. Não com essa facilidade. Não de repente. Assim, os pobres malucos têm de enfrentar as vozes idiotas que eles sabem que são idiotas, o que é terrível, mas as vozes dizem que eles são perversos e nojentos. Quase sempre. E então, além disso tudo, precisam enfrentar o fato de que estão abertos para mais de 5%, o que é mau por definição. Quando eram crianças é quase certo que viam e ouviam todo tipo de coisas além dos 5% como os amigos que só eles podiam ver, e os pais quando lhes diziam que eram mentirosos e perversos. Estou ficando perturbada. Vou parar.

 

 

A noite passada uma pobre maluca chegou ao hospital. Estava assustada. O Dr. Hebert pediu-me que ficasse com ela. Fiquei. Ela é esquizofrênica. Bem, isso é evidente, creio. Ela amava um amigo e eles iam se casar nesta semana. Ele desistiu. Ela ficou transtornada. Ela não comia. Não dormia. Chorava muito. Ontem, ela estava passando pela ponte de Waterloo e subitamente estava a uns seis metros de altura olhando para si mesma, lá embaixo, andando na ponte. Isso me acontece com freqüência. O que acontece é o seguinte. Somos várias pessoas encaixadas umas nas outras. Como caixas chinesas. Nosso corpo é a caixa externa. Ou a interna, se quiserem. Quando levamos um choque, como o seu amigo dizer: não, não vou me casar com você, vou me casar com a sua amiga Arabella, então qualquer coisa pode acontecer. Eu gosto de olhar para mim mesma, do lado de fora. Faz com que esta continuidade monótona da vida pareça mais importante. Olho para mim, pobre velha feia, que é o que sou (o Dr. Hebert diz que devo usar meus vestidos bonitos e fazer a maquilagem). Mas ele nem desconfia, você nem desconfia, Dr. Hebert, que a caixa chinesa que olha para esta velha feia Lynda, lá de fora, não se importa. O que eu sou realmente não é esta pobre velha feia Lynda esquelética, trêmula e arrepiada. Fico de fora e olho para ela e penso, muito bem, chore, se quiser, por que não? Não me importo. Mas esta pobre maluca da noite passada. Seu nome é Anne. Suponho, Dr. Hebert, que você pensa que ela vai se sentir melhor se eu disser: você é um conjunto de caixas chinesas, e quando você estava atravessando a ponte de Waterloo sentindo-se miserável e doente, as caixas se separaram um pouco, e então uma delas olhou para baixo, para as outras, ou a outra. Porque, Dr. Hebert, é preciso estar acostumado. Não se pode ir dizendo isso, anunciando as boas notícias. Se ela for religiosa, então sim, talvez. A alma. Mas essa Anne não é religiosa, eu perguntei a ela. Se fosse religiosa, ficaria assustada, talvez, mas seria uma idéia da qual já ouviu falar. Eu diria alma e não caixa chinesa. Mas a maioria das pessoas religiosas pensam que a caixa chinesa é menos importante e pensam em enterrá-la ou jogá-la fora, e como ficará na sepultura, ou se for cremada, ou coisas assim. Portanto, se pensam assim, nem mesmo a alma pode explicar, muito menos a caixa chinesa. Palavras. Caixa chinesa má. Alma boa. Se são cristãos. Às vezes chega algum pobre maluco e eu converso com ele. Com ela. Uma criança é melhor. Quero dizer, geralmente não ficam assustadas quando se separam desse jeito. Para algumas é uma segunda natureza. Um jogo. Mas não devem dizer nada. Eu fazia isso quando era criança. Meus pais brigavam. Quando eles começavam eu saía da sala. Eles pensavam que eu estava ali com eles, mas não estava. Ficava ali sentada com um sorriso idiota nos lábios mas estava sempre lá fora, pensando outras coisas. Vou parar agora.

 

 

Anne está muito mal. Tenho estado com ela. Está acima de tudo assustada. Ouve as vozes que dizem que é má e perversa e tudo mais. Também vê o amigo que vai se casar com Arabella. Ela vê os dois conversando. E fazendo amor. Ela me disse isso. Tem medo de contar ao Dr. Hebert. Eu lhe disse para não contar ao Dr. Hebert. Eu estou contando ao Dr. Hebert agora. O Dr. Hebert é uma coisa, mas há outros médicos aqui. Assim, o Dr. Hebert fica sabendo e os outros não. Eu disse a ela que tudo o que estava fazendo era usar sua "segunda visão" e que ela devia ter ouvido falar disso. Eu disse que muita gente tem essa visão. Perguntei se ela via coisas quando era criança. Disse que via. Eu disse que é como tocar piano ou andar de bicicleta. A prática traz a perfeição. Eu disse todas essas coisas. Sensatas. Segunda visão, isso é tudo! Olhar para si mesma de seis metros de altura, ora, não dê importância a isso! Muito bem, ela não se sentiu nada melhor. Porque, quando essas coisas acontecem com força suficiente para deixar a pessoa doente, é sinal de que os 6% ou seja lá o que for, são um comprimento de onda. São uma voltagem. São mil volts em vez de um. Não é como estar normal e subitamente olhar para si mesma lá de cima, de fora, ou ouvir vozes, o que pode acontecer como uma espécie de escorregão para o lado ou para cima, e não um aumento de voltagem, mas então, em outras ocasiões e com outras pessoas, a voltagem sobe de repente e é como se a gente fosse se partir em pedaços. Os 5% de visão, audição etc, são energia. Essa é a questão. Voltagem de vista e audição. E, se for um pouco mais, a máquina se faz em pedaços. Essa é a questão. Essa é a questão, Dr. Hebert. Anne quer que isso pare. Ela não agüenta mais.

 

 

Ontem à noite o Dr. Hebert e eu tivemos uma das nossas sessões. Depois do apagar das luzes. No escritório dele. Ele estava de plantão. Leu tudo o que escrevi. Teve uma idéia sensata. Esta. Quando uma pessoa, vamos dizer uma senhora escocesa em Highlands, como uma velha enfermeira que eu tive, tem segunda visão e diz: um estranho alto e moreno vai cruzar o seu caminho, e isso acontece, ou: alguém vai morrer esta semana, e alguém morre, então essa pessoa está se fazendo aos pedaços porque a voltagem é muito alta. Ou crianças, olhando para si mesmas lá de cima em um ramo de árvore, vendo-se sentadas no chão brincando na terra. Não estão se fazendo aos pedaços. Não estão tremendo e chorando e gritando e querendo que isso pare, ao contrário, para elas é a coisa mais normal do mundo.

 

 

A resposta é que algumas pessoas nascem para receber não apenas 5%, mas talvez 6%. Ou 7%. Ou até mais. Mas, quando se é uma pessoa de 5% e subitamente um choque a deixa aberta a 6%, então essa pessoa está "louca". Tenho certeza de que nasci aberta a 6%, nada louca. Mas me fizeram ficar louca porque eu contei o que sabia. Se tivesse calado a boca, teria vivido em paz. Com Mark. Pobre Mark. Oh, pobre Mark. Ele está no Norte da África com Rita. Escreve para mim. Ele me ama. Ele ama Rita. Ele ama Martha. Amor amor amor amor. Se eu tivesse gostado quando ele me babava toda e enfiava as mãos e outras coisas em mim, então acho que isso queria dizer que eu o amava. Era assim que ele via as coisas.

 

 

As conversas que tenho com o Dr. Hebert são como as que tinha com Martha. Não tão longas, não por noites ou dias inteiros, porque o Dr. Hebert trabalha muito. Ele tem de cuidar das coisas. Mas falamos dos mesmos assuntos. Dr. Hebert diz que eu apreendi tanto e não uso nada. Diz, de que adianta eu e Martha termos descoberto tantas coisas se não as usamos. Usar como? Escrever uma carta para The Times. (Esse é Mark falando.) Discursando em plataformas? (Arthur, Phoebe.) Eu lhe disse que quando Martha escrever outra vez vou lhe pedir que venha me visitar, assim poderemos conversar outra vez. Martha está na comuna. Eu estive lá visitando Francis. Acho que está certo. Mas, por que as pessoas precisam se juntar em um lugar e viver todas amontoadas? Como cães enrodilhados em uma cesta, lambendo uns aos outros. Lambe, lambe. As pessoas que são iguais estão juntas, de qualquer modo. É isso que eu penso. Não precisam se lamber, lamber.

 

 

O Dr. Hebert quer ir comigo visitar Martha e Francis e conversar a noite toda. Eu não me importo.

 

 

O Dr. Hebert quer que eu trabalhe todos os dias as "minhas faculdades". Digo a ele (eu estou dizendo a você agora) que às vezes as minhas "faculdades" estão fortes e às vezes não e não adianta falar em "todo dia" como se se tratasse de trabalho de escritório. Mas ele insiste de 9 às 5, ou talvez, 2 às 4. De segunda a sexta? Posso ter sábados e domingos livres? Ele diz que as pessoas que entram aqui e que não estão muito assustadas devem se integrar. Integrar-se a quê? Ele está muito curioso sobre o "que eu sei". E se o que eu sei não for muito agradável? E se eu souber o que vai acontecer, mas preferir não saber? O Dr. Hebert fala com muita facilidade sobre saber isto ou aquilo. Eu lhe pergunto (estou lhe perguntando agora outra vez, Dr. Hebert) por que supõe que a maioria de nós está ajustada para os 5%, e apenas umas poucas pessoas para 6% e um número menor ainda para 7 ou 8%? (Mas não poderíamos saber nada sobre eles, não é mesmo? Seriam como Deuses, eu acho. Segundo o nosso ponto de vista.) Acha que isso é porque seja lá quem for que nos regula, nós, essas pobres máquinas, sabe muito bem o quanto podemos agüentar? Porque, Dr. Hebert, eu não posso agüentar, e tento desesperadamente não pensar no que eu sei.

 

 

Quando escrevi antes, esqueci-me de dizer algo importante. Se uma pessoa é uma coleção de caixas chinesas, uma dentro da outra, então o mundo é isso? Estou escrevendo isto porque é importante. Quando olho para mim, do lado de fora tenho vontade de rir. Eu vejo Lynda, a velha feia, um monte de ossos com dedos que sangram. Mas a pessoa que está olhando não é isso. Não é importante o fato de ser uma velha feia com um vestido feio. (Não consegui ir à sala de passar, hoje, tinham perdido a chave, Dr. Hebert, se realmente acha que devo me vestir e me arrumar por causa do auto-respeito.) Portanto, talvez exista um outro mundo que olha para o nosso mundo, este lugar horrível. Inferno. Sabia que isto é o inferno, Dr. Hebert? Sabia? Eu disse isso e você sorriu. É a doença, você pensou. Mas isto é o inferno, Dr. Hebert. Mas, supondo que eu esteja certa, outro mundo, uma espécie de cópia mais leve deste monte de miséria, acorrentado à gravidade, gravidade, é tão pesado e tão espesso — supondo que esse outro mundo seja descalçado como uma luva e olhe para o inferno e erga os ombros. E outro mundo, e mais outro. Caixas chinesas redondas. Isso o diverte? Sinto um sorriso nos meus lábios portanto suponho que seja divertido.

 

 

Às vezes Martha e eu sentávamos e ríamos, ríamos. Às vezes Dorothy ria. Não com freqüência. Sandra não ria, nunca.Mas Dorothy se matou e Sandra melhorou. Ninguém gostava de Sandra. Diziam que ela era vulgar. Muito bem, ela era. Depois de ter estado em todos aqueles hospitais, não me importava com isso. Não pensei nisso durante anos e anos. O que importa é dizer alguma coisa e ser compreendido. Mark era meu marido. Não é mais porque eu lhe disse que devia se divorciar de mim para que Rita pudesse ter filhos convencionalmente. Mark me amava. Ele me amava. Ele me enlouqueceu com seu amor. Eu costumava ouvir o quanto ele me amava. Ele queria enrolar meu cabelo sujo e malcheiroso nos seus dedos. Amor. Lynda querida, eu amo você. Mas nunca compreendia nada do que eu lhe falava. Enquanto isso ele estava amando Martha. Muito bem, boa sorte para eles. Pensava assim naquele tempo e penso assim agora. Então chegou Rita. Beija beija, lambe lambe, devora devora. Rita jamais compreendeu uma palavra do que Mark dizia. Mas isso não importava, quando Rita estava com Mark a casa parecia melhor, diferente do que era antes. Portanto, chego à conclusão de que não adianta eu tentar entender o sexo. Amor como dizem. É perda de tempo. Não estou equipada, isso é evidente.

 

 

O Dr. Hebert entendeu o que eu quis dizer sobre das 9 às 5, horário de escritório. Quer que eu o procure quando estiver disposta, assim não vou desperdiçar nada e ele pode fazer experiências comigo. Ele não disse experiências porque acredita que eu tenho medo desse tipo de coisas. Dr. Hebert, você não escuta quando eu falo. Jamais posso ficar assustada, porque se acontecerem coisas más, eu simplesmente saio do meu corpo e vou para outro lugar qualquer. Não me incomodo que queira fazer experiências. Mas não vão adiantar coisa alguma. Vai convencer seus colegas? É isso o que pretende? Não vou ser uma cobaia em conferências ou reuniões de médicos. Não, não. O que você não compreende é que as pessoas nunca acreditam nessas coisas. Não, enquanto vocês não as experimentam em si mesmos. Então, quando as experimentam transformam-se em pessoas nas quais os outros não acreditam. É difícil. Martha e Francis dizem que os militares fazem pesquisas sobre essas coisas e usam os resultados. Por que não pergunta ao exército? Eles não dizem a verdade aos cidadãos comuns. A morte é mais importante.

 

 

O Dr. Hebert vai ser transferido para outro hospital. Diz que posso ir com ele. Eu vou com ele. Quero ficar no hospital. Eles dizem que posso sair e viver sozinha, mas estou extremamente deteriorada e prefiro ficar. Poderia morar naquela comunidade, mas teria de me comportar o tempo todo. Lambe lambe lambe. Na próxima semana saio daqui para ir com o Dr. Hebert. Um hospital é igual aos outros. O Dr. Hebert diz que quer continuar trabalhando comigo.

 

 

Desde que comecei a conversar com o Dr. Hebert às vezes só por alguns momentos sinto-me como quando era criança. Antes de eles me agarrarem e me colocarem nos hospitais. As vozes da minha infância eram amigas. Era um amigo que falava comigo. Dizia: sim, Lynda, está certo, faça isso. Ou aquilo. Ou, já pensou em fazer aquilo, porque você pode, se tentar. Lynda, Lynda, não fique triste. Não seja infeliz. E uma vez, quando eu estava chorando e chorando, porque meus pais brigavam o tempo todo, a voz disse, entre todo o barulho que eu fazia, o que há, Lynda? Querendo dizer tanto barulho por nada. E durante todos estes anos tenho me lembrado da amizade das vozes e me pergunto para onde foram. Desde que os médicos começaram a me tratar tudo o que ouço são vozes dizendo que sou má, perversa, horrível, cruel. Mas agora estão voltando. Isso porque o Dr. Hebert é um homem bom. Quero dizer bom em si mesmo, não apenas em palavras. Palavras são nada. A coisa que está lá, a coisa amiga em uma pessoa ou em um lugar é doce. É uma espécie de doçura e união. Repito sempre ao Dr. Hebert que as vozes que atormentam os pobres malucos, que dizem você é horrível e tudo isso, eu vou punir você, poderiam muito bem dizer: sou seu amigo, confie em mim.

 

EXEMPLOS: A Situação de Shikasta

Isso aconteceu em uma parte de Shikasta controlada por uma religião obscurantista que estendia seu fanatismo e ignorância a todos os aspectos da vida, e que afirmava, como verdade absoluta, que "Deus" tinha criado a humanidade em uma certa data, cerca de 4 mil anos atrás. Acreditar em qualquer coisa diferente era arriscar represálias que incluem ostracismo social, perda da oportunidade de ganhar a vida, a reputação de "impiedade" e de perversidade. A relação contra a mesquinhez e o dogmatismo, sem precedentes nem mesmo em Shikasta, manifestou-se em certos intelectuais que estudavam história da humanidade, biologia, evolução, e que ofereciam uma crença alternativa, segundo a qual os povos do planeta tinham evoluído, lentamente, através de muitos milhões de anos, do reino animal. Alguns tipos de macacos foram designados como os ancestrais de todos os shikastianos. A religião reagiu violentamente e a autoridade civil, nessa época quase indistinta da religião, sentiu-se ofendida, irritada e começou a punir arbitrariamente.

Aqueles poucos indivíduos lutaram com coragem e espírito, opondo "racionalismo", "livre pensamento" e "ciência" a "superstição". De um modo ou de outro, todos eles sofreram por suas convicções.

Descrevo aqui a história de um deles, "um pequeno soldado da causa do livre pensamento" — como ele mesmo se definia. Não vinha de família rica, era pobre e um ótimo professor, cuja paixão sempre fora — e sempre foi — inspirar os jovens para uma vida útil, livre das tiranias da ignorância, e sempre prontos a seguir qualquer jato, fosse onde fosse que ele os conduzisse.

Estava em uma pequena cidade onde a opinião pública era completamente sujeita à religião. Começou a ensinar às crianças esse novo "conhecimento" — que toda a humanidade descende de animais — e, depois de ser repreendido, perdeu o emprego. A moça com quem ia se casar disse que ficaria do seu lado, mas sucumbiu às pressões da família. Ele achou forças em sua consciência e aprendeu carpintaria, e com grande dificuldade — pois a maioria das pessoas da cidade o evitava—conseguiu se manter. Depois de algum tempo, os sacerdotes tornaram até isso impossível. Teve de abandonar a cidade e foi para um grande centro, onde sua história não era conhecida. Conseguiu emprego como carpinteiro. Formou uma biblioteca de obras sobre o "novo conhecimento", sobre todas as formas de pensamento livre, ciência, algumas sobre genética, que era um campo onde se fazia grande progresso na época. Essa biblioteca ele oferecia aos que pensavam como ele, especialmente aos jovens, que eram muito mais numerosos no grande centro do que na pequena cidade onde "todos se conheciam". Mais de uma vez, sua biblioteca, suas opiniões, suas conversas destemidas com quem estivesse disposto a ouvir provocaram visitas de representantes dos religiosos locais. Certa vez sua biblioteca foi queimada pelos fanáticos locais. Mudou-se de casa duas vezes. Não se casou. Viveu 60 anos pobre e sozinho, sustentado sempre pela crença de que estava certo, e de que "o futuro me absolveria" e "lutei pela verdade".

Essa atitude decidida dele e de outros homens bravos que tinham a mente aberta para as descobertas e opiniões da época, algumas delas verdadeiras e valiosas, mas de um modo geral transformadas em slogans pelo populacho irônico, que dizia coisas como "se você quer ser um macaco, ninguém o impede!", foi, na verdade, o começo de um movimento bem-sucedido que se estendeu para destruir a fortaleza dessa religião particularmente destrutiva, em grandes áreas de Shikasta — em alguns lugares ela se manteve como tirana absoluta por centenas de anos.

Esse homem, já velho, quando entrava em uma loja ou quando se sentava ao sol, era atormentado pelas crianças, e às vezes por adultos, que gritavam: "Macaco! Macaco! Macaco!" E ele sorria, o corpo muito erecto, a cabeça erguida, destemido, sustentado pela Verdade.

 

 

johor: O Agente 20, a quem foi pedido um relatório, contribuiu com o seguinte:

 

Estou em uma grande cidade no Continente Isolado do Norte, onde há extremos de riqueza e de pobreza. Esta é uma área residencial, onde prédios altos abrigam um grande número de pessoas. Todos os homens, e muitas mulheres, saem de casa durante o dia, para trabalhar. Aqui a pobreza não chega ao extremo, não é uma luta para comer e se agasalhar, mas do tipo comum nas áreas ricas de Shikasta: um grande esforço é despendido em manter um certo padrão de vida, padrão esse arbitrariamente ditado pelas necessidades da economia. A vida de família desmoronou-se. Os casais raramente ficam juntos por muito tempo. As crianças, tendo de se defender sozinhas desde pequenas, sem afeição, formam grupos e logo se transformam em criminosos. Os estudiosos preocupam-se muito com esse problema, e freqüentemente anunciam a solução: maior atenção dos pais aos jovens. As autoridades exortam as famílias nesse sentido, mas os resultados são quase nulos.

Um aspecto interessante é que constantemente são mostradas histórias de famílias ideais, nos vários meios de comunicação de propaganda, mas são exemplos de épocas passadas e dificilmente se relacionam com o presente, mas são muito populares. O contraste entre o calor e a responsabilidade demonstradas pelos adultos nessas histórias e o que se observa realmente fortalecem o cepticismo e a alienação dos jovens.

É quase inútil aproximar-se desses grupos de crianças — que, naturalmente, logo se tornam jovens adultos — individualmente. Como indivíduo, meu campo é muito limitado.

Consegue-se melhor resultado aproximando-se dos adultos, sobretudo das mães, mas geralmente é muito tarde.

Às vezes imagino se entre os milhares de famílias que se amontoam nesses prédios enormes existe alguém com energia moral, ou mesmo a convicção necessária, para criar um filho tão bem quanto um animal é capaz de criar.

E não me refiro à crueldade que se esconde aqui, física e mental, infligida às criancinhas, mas a uma indiferença, uma falta de interesse.

Moro em um quarto, em uma casa antiga próxima à extensão de asfalto nu onde ficam os prédios. Raramente se encontra um jardim, ou árvores, mas meu quarto, no andar térreo, dá para um pequeno pedaço de terra onde crescem algumas flores. Há duas árvores, uma pequena e a outra bem crescida.

A mulher que mora no quarto do outro lado do corredor cuida das flores e cria gatos. Como muitas mulheres, ela consegue o máximo de prazer e interesse com muito pouco.

Uma gata que ela recolheu numa noite fria teve quatro filhotes. Ela deu três. A gata, que já era velha, morreu. Sobrou um gato, uma fêmea preta e branca, bonita e engraçada, mas estúpida. Acho que era até mesmo retardada. Dormia a maior parte do tempo, era tímida e não saía de casa. Quando ficou no cio, acasalou-se com um grande gato preto, que deixou bem claro a todos os outros gatos que o jardim era território seu. A mulher pensava que ele devia ter uma casa, mas o alimentava quando ele tinha fome. Não o deixava entrar no seu quarto, mas, quando a fêmea teve a primeira ninhada de dois gatinhos, um gato malhado e uma gata preta, o pai insistiu tanto para entrar que a mulher concordou; ele sentava-se ao lado da caixa onde estava a sua família e chamava a gatinha mãe e às vezes lambia os filhotes.

A mulher ficou intrigada com esse comportamento paternal e me chamou para ver. Nós chamávamos a gata de sua "esposa" — com um sorriso, mas às vezes a mulher parecia embaraçada, e ria, com uma risada que era uma vergonha para a raça humana.

A gatinha preta e branca era uma boa mãe, no que se refere a alimentar os filhotes. E conservava-os limpos. Mas não parecia capaz de ensiná-los a usar a caixa própria para fazer as necessidades. O pai foi quem ensinou. Ele os levava até a caixa, fazia-os sentar dentro dela e imitava o som vibrante que as gatas usam para encorajar os filhos. Ele soltava um rosnado áspero que achávamos engraçado, e então lambia os filhotes.

O gato não era bonito. Pensávamos que devia ser muito velho, pois era magro, tinha as orelhas partidas e o pêlo falho, apesar da boa alimentação que desfrutava no novo lar. Não era importuno nem guloso. Esperava a nossa volta, quando saíamos, e então, com os olhos amarelos fitos em nós, como um igual, pedia delicadamente para entrar.

Quanto à comida, esperava quieto enquanto sua "esposa" comia, não muito, mas sem pensar nos filhotes, como se nem os notasse, em volta da vasilha. Quando terminava, ela voltava à caixa. O gato esperava que os filhotes acabassem de comer e então aproximava-se e comia o que tinha sobrado. Geralmente não era muito, mas ele não pedia mais. Lambia o prato, sentava-se ao lado dos gatinhos, ou os lambia e ali ficava, de guarda.

Quando chegou a hora de levar os filhotes para conhecer o jardim, a mãe gata aparentemente não percebeu que devia fazer isso. Não deu o menor sinal de levá-los para fora. O gato sentou-se na escada e soltou seu estranho rosnado áspero para chamar os filhotes e eles atenderam. Levou-os para dar uma volta no jardim, devagar, e eles durante o passeio brincavam e provocavam-se entre si e ao pai, mas o gato mostrou-lhes tudo, cada canto, e ensinou-os a cobrir com terra o próprio excremento.

A mulher observou a cena, da janela do seu quarto e eu da janela do meu.

Na casa ao lado havia um gato jovem que era um verdadeiro alpinista. Estava sempre no alto de uma árvore ou colocando uma pata cuidadosamente na frente da outra enquanto se equilibrava na beirada de um telhado.

Os gatinhos, vendo esse herói corajoso no alto da grande árvore, subiram atrás dele e depois não podiam descer. Ele, ignorando-os, saltou para os ramos da árvore menor, e daí para o chão — e desapareceu.

Os filhotes entraram em pânico e começaram a gritar e a miar.

O gato preto, que tinha assistido a tudo do seu lugar preferido, nos degraus da escada, foi pensativamente para baixo da grande árvore, sentou-se e olhou para cima, estudando a situação. Lá, bem em cima dele, estavam os gatinhos, agarrando-se ferozmente, o pêlo em desordem, soltando seus lamentos chorosos de pânico.

Ele começou a dar instruções para descerem a salvo, mas os filhotes estavam desesperados para prestarem atenção.

O gato preto então subiu na árvore e levou um deles para baixo, voltou e levou o outro.

Passou uma descompostura nos dois pela tolice e, rosnando asperamente, deu patadas nas suas orelhas.

Então, ele foi até a árvore menor, chamou-os e subiu lentamente, olhando para trás, esperando que o seguissem. Em primeiro lugar subiu o pequeno tigre, e depois a gatinha preta. Quando a árvore começou a balançar com o peso, ele rosnou mandando que olhassem para ele, e começou a descer lentamente de costas. Os dois, com miados de queixa e de medo, o seguiram. Perto do solo, saltaram, e começaram a correr pelo jardim, aliviados porque a lição tinha acabado. Mas o gato os chamou novamente e subiu até a metade da grande árvore. Não queriam acompanhá-lo. O pai ficou lá, as quatro patas agarradas na árvore, olhando para baixo e encorajando-os a subir. Mas nesse dia não. No dia seguinte recomeçou a lição e logo os gatinhos podiam subir na árvore grande e descer com segurança.

Durante o dia todo ele ficava no jardim tomando conta deles, e, quando eles entravam e iam se juntar à mãe, ele deitava-se ao lado do muro, ou às vezes entrava com eles. Sentava-se então ao lado da "esposa", deitada discretamente na caixa, e olhava para ela. Parecia estar tentando compreendê-la. A gatinha era jovem e parecia uma mulher velha, sem energia para as mínimas exigências da vida, ou uma jovem deprimida, depois de uma grave doença. Não demonstrava o menor sinal da energia alegre e possessiva das gatas jovens quando amamentam. Às vezes ele encostava o nariz feio nela e cheirava-a, ou a lambia, mas sem resposta.

Os gatinhos cresceram e foram para outras casas.

O outono chegou. Um bravo caçador com uma espingarda de ar comprimido deu um tiro no gato preto e o ferimento custou muito para cicatrizar, deixando-o manco. Mas ele sempre tivera o andar um tanto rígido, talvez por causa da idade.

Quando o inverno chegou, ele passou a fazer uma coisa que nunca tinha feito. Sentava-se no degrau da escada, olhando para a janela da mulher, ou para a minha, e miava sem emitir som. Se a mulher o deixava entrar, sentava-se ao lado da gata por alguns momentos, mas como esta nem o notava, deitava-se em um canto, sozinho. Mas a mulher não o queria em casa, e então ele dirigia seu miado silencioso para mim. No meu quarto, esperava que eu estendesse um cobertor perto do fogão e dormia sobre ele, e de manhã ia até a porta, murmurava agradecimentos com seu rosnado rouco, encostava-se delicadamente nas minhas pernas, e saía. Foi um inverno rigoroso. Às vezes ele mal podia se arrastar para fora, de tão enrijecido que estava, e ficava no meu quarto, sobre o cobertor. Só saía com dificuldade, por alguns minutos, para fazer as necessidades. Isso parecia estar acontecendo com muita freqüência. Eu coloquei uma caixa com areia no quarto, pois a neve estava alta lá fora. Ele a usava muitas vezes. O frio está fazendo mal aos seus rins, pensei. Bem, ele estava velho. Conversei a respeito com a mulher e decidimos que, sendo tão velho, não devia ser incomodado com médicos e com tentativas para mantê-lo vivo. Mas compramos remédios.

Ficou extremamente magro e não comia.

Uma ou duas vezes visitou a "esposa", que pareceu muito alegre por vê-lo. Mas, quando ele voltou para o meu quarto, ela nem sequer notou.

Era evidente que ele estava sofrendo. Deitava-se no cobertor com cuidado, acomodando primeiro um músculo e depois o outro, e reprimia um gemido.

Às vezes, ao fazer um movimento, prendia a respiração, depois soltava o ar dos pulmões lentamente, seus olhos amarelos fitos em mim, como se dissessem: não posso evitar.

Imaginei se o pobre animal estaria com medo de que eu o pusesse para fora na neve, se me importunasse, mas não, logo percebi que era o autocontrole de uma nobre criatura dominando a dor.

Sua presença no meu quarto era sempre uma força amiga, e se eu estendia a mão para ele, com cuidado, pois sabia que se assustava com movimentos bruscos, rosnava agradecido.

Não melhorou. Enrolei-o cuidadosamente em um cobertor e levei-o ao veterinário, que diagnosticou câncer.

Disse também que não era um gato velho, mas jovem, um gato desgarrado, que tivera de se defender sempre sozinho e que tinha apanhado reumatismo por dormir no frio e na chuva.

 

 

JOHOR:

INFORMAÇÃO EXPLANATÓRIA

ADICIONAL II

 

[Esta deve ser considerada, em certo sentido, uma continuação da Informação Explanatória Adicional I. Arquivistas.]

 

Há muito tempo os shikastianos não conseguem viver sem drogas de toda espécie. Olho para trás, bem para trás, e vejo que quase a partir do momento em que o fluxo de sowf foi cortado, sentiram necessidade de aliviar a dor da sua condição. Naturalmente sempre houve indivíduos, poucos, que não agiram assim.

Álcool e alucinógenos, derivados do ópio, cacau e tabaco, produtos químicos, cafeína — quando não foram usados? Por quem? Começo com os mais simples, os reconfortantes óbvios e suavizadores da realidade; mas não é preciso me estender em um assunto estudado por meus colegas e sobre os quais existe muita informação em nossos arquivos.

O número dos reconfortantes emocionais era quase infinito...

Mas agora, neste tempo, poucos conservam sua substância, sua solidez. Posso definir exatamente dizendo que nesta minha visita a Shikasta posso usar as mesmas palavras para descrever — digamos — uma religião, como já o fiz; mas um fator principal estará faltando: isto é uma sensação, uma atmosfera.

O número de religiões em Shikasta não diminuiu, embora tenham perdido seu poder de tiranizar; proliferam as novas seitas religiosas, a maioria delas seitas extatogênicas. Mas o que aconteceu foi que o céu de Shikasta foi levantado. Mandaram homens à sua lua e máquinas aos outros planetas e quase todos acreditam que Shikasta tem sido visitada por espaçonaves de outros planetas. As palavras, as línguas da religião — e todas as religiões baseiam-se em palavras que criam imagens emocionais — tornaram-se mais pesadas e mais portentosas, e, ao mesmo tempo, mais transparentes e escorregadias. Um shikastiano, ao dizer Estrela, Galáxia, Universo, Céu, usa as mesmas palavras, mas não quer dizer a mesma coisa que esses termos significavam para seus antepassados há um século. Desapareceu uma certa certeza, uma solidez. A religião, sempre o mais poderoso entorpecente da realidade, perdeu as suas certezas. Não faz muito tempo, cem anos mais ou menos, ainda era possível aos membros de uma religião acreditar que a sua era melhor do que qualquer outra, e que eles eram o único povo do mundo que seria "salvo". Mas agora esse estado de espírito só pode durar enquanto se recusarem a conhecer a sua própria história.

Os nacionalismos de Shikasta, esse novo credo pernicioso que usa grande parte das energias que antigamente alimentavam as religiões, são muito fortes e cada dia nasce uma nova nação. E em cada uma delas, uma nova geração de jovens, mulheres e homens, dispostos a morrer por essa quimera. E se até pouco tempo era possível para um shikastiano levar toda a vida pensando apenas em termos de sua vila ou cidade, com uma vaga compreensão do conceito de nação — hoje a "nação" é forte, voraz, bem como a idéia do mundo como um todo que funciona por interação. Morrer por um país não tem mais o poder de convicção que tinha. Recentemente, há cem anos, ou mesmo 50, era possível aos membros de uma nação acreditar que um pequeno pedaço de Shikasta era melhor do que todos os outros, mais nobre, mais livre. Mas, recentemente, até mesmo as nações mais orgulhosas de si mesmas são obrigadas a ver que são iguais ao resto, e que todas mentem, torturam, iludem e sacrificam seu povo no interesse da classe dominante... e se desmoronam, como deve acontecer nestes dias terríveis.

A política, os partidos políticos, que criam as mesmas emoções usadas pelas religiões, pelas nações, geram novos credos todos os dias. Até pouco tempo atrás era possível aos membros de uma facção política acreditarem que ela era pura, nobre, a melhor — mas houve tanta traição e desapontamentos, mentiras, defecções, tantos assassinatos, torturas e insanidade, que os mais fanáticos têm períodos de descrença.

A ciência, a mais recente religião, tão fanática e inflexível como as outras, criou um modo de vida, uma tecnologia, mentalidades cada vez mais odiadas e desacreditadas. Há pouco tempo um "cientista" sabia que era o ponto culminante e a coroação do pensamento humano, do conhecimento, do progresso — e agia com a arrogância dessa posição. Mas agora começam a compreender sua insignificância, e a terra explorada e espoliada levanta-se contra eles como testemunha.

Por toda parte idéias, mentalidades, crenças, que foram os alicerces dos povos durante séculos, esgarçam-se, dissolvem-se, desaparecem.

O que resta?

É verdade que a capacidade dos shikastianos para fechar as brechas abertas nos muros das suas certezas é imensa. A natureza de sua existência, exposta, sujeita a miríades de acasos além do seu controle ou influência, seu desamparo, enquanto se debatem nas tempestades cósmicas, as violências e discordâncias de suas mentes danificadas — quando tudo isso se torna intolerável, eles ainda fecham os olhos e rezam, ou adicionam novos elementos às fórmulas dos seus laboratórios.

Cada uma dessas alianças de um indivíduo com algum grande todo, a identificação de um indivíduo com uma estrutura mental maior do que ele mesmo, era uma droga, um arrimo, uma chupeta de criança. Eram maiores do que o álcool, o ópio e todo o resto, mas estão se acabando, se adelgaçando, se dissolvendo, e as lutas insensatas e furiosas, fanáticas e desesperadas, em nome deste ou daquele credo ou crença, a própria fúria, é um meio de acalmar a dúvida, de amortecer os terrores do isolamento.

Que outros meios têm os shikastianos usado para afastar o conhecimento de sua situação, que está sempre ameaçando erguer-se das profundezas e dominar tudo? A que mais podem se agarrar, como se fosse um cobertor em uma noite fria?

Diversos tipos de prazer foram implantados neles para que sobrevivam, a necessidade de alimento e de sexo que, uma vez que toda a espécie está ameaçada, tomam maior importância, como um esforço instintivo para salvar e preservar.

Há outra coisa que é mais forte do que tudo: o bem-estar, a sempre renovada, regeneradora força curativa da natureza; sentir-se um só com as outras criaturas de Shikasta e com seu solo, suas plantas.

O mais baixo, mais espezinhado, o mais miserável shikastiano, olha uma planta movida pelo vento e sorri; planta uma semente e a vê crescer; pára a fim de observar a vida das nuvens. Ou fica acordado, no escuro, ouvindo satisfeito os uivos do vento que não pode — não desta vez — molestá-lo no seu refúgio. Essa a origem da força que se transmite, irresistível, a cada criatura de Shikasta.

Forçado a voltar-se sobre si mesmo, cada vez mais, privado de conforto, segurança, conhecendo talvez apenas fome e frio; roubado da sua crença no "país", "religião", "progresso" — despido de suas certezas, não há um shikastiano que não pouse o olhar em um pedaço de terra, talvez um pequeno espaço de solo poluído e improdutivo, entre os prédios de um bairro miserável, pensando: sim, mas isso recobrará vida, existe ali força suficiente para vencer todo este horror e curar toda esta feiúra — mais duas estações e tudo estará vivo outra vez... e, na guerra, um soldado, vendo um tanque subir uma colina e vir na sua direção, antes de morrer vê a relva, uma árvore, um pássaro que voa célere, e conhece a imortalidade.

É aqui, neste ponto exatamente, que coloco a maior ênfase.

No momento, aplica-se só a algumas criaturas de Shikasta, aos que têm uma visão mais firme, ou nervos, mas esse número aumenta — logo serão multidões... onde existia o apoio mais profundo, mais constante, mais firme, não há mais nada; a própria estufa da vida está envenenada, as sementes da vida, as fontes que alimentam o poço.

Privado de todo o apoio, esse homem estende a mão para um muro de tijolo aquecido pelo sol; suas mãos lhe enviam mensagens de solidez, mas de sua mente chegam mensagens de destruição, pois essa substância que respira, feita de terra, será uma dança de átomos, ele sabe, sua inteligência lhe diz; logo haverá guerra, ele está no centro da guerra, o lugar em que descansa agora será um deserto, um monte de lixo, e esta sólida substância terrena se transformará em uma película de pó sobre as ruínas.

Ela toma nos braços a criança que brinca no chão, mas quando encosta no rosto a frescura da infância, sabe que ela está fadada ao holocausto e que, se escapar, por um milagre, então a substância da sua hereditariedade está sendo atacada enquanto as duas estão ali, juntas, o calor da sua mortalidade entre elas, enquanto a criança ri.

Ele olha para a criança, pensando na natureza, na chama criadora que gera novas formas a cada respiração. Ele tem de pensar assim, pois sabe que em toda parte de Shikasta a espécie começa a rarear, a reserva de genes está sendo destruída, destruída, nada pode voltar atrás... Não pode encontrar alívio no pensamento do grande criador, da natureza, e olha pela janela para a paisagem vista milhares de vezes, sob as mais diversas formas, que agora parece esgarçar-se e desaparecer. Ele pensa: bem, o gelo estendeu-se até aqui, não faz muito tempo, 10 mil anos, e vejam, tudo se refez! Mas a era glacial é nada, são 10 mil anos — o gelo vem, e depois se retira. Destrói e mata, mas não perverte e deturpa a própria substância da vida.

Ela pensa, mas há os animais, os nobres e pacientes animais, com sua linguagem que não compreendemos, sua bondade para os semelhantes, sua amizade por nós — e ela estende a mão para sentir o calor vivo do pequeno gato, mas sabe que, enquanto está ali, eles estão sendo dizimados, destruídos, extintos por insensível estupidez, por cobiça, cobiça, cobiça. Não pode encontrar repouso nos pensamentos familiares sobre o grande reservatório da natureza, e, quando sua gata tem filhotes, ela se abaixa perto do ninho e examina os gatinhos à procura das mutações que sabe estarem se processando, que logo se tornarão evidentes.

Ele pensa, quando a solidão o perturba, ali de pé, girando entre as estrelas, uma espécie entre miríades — como só recentemente veio a saber —, que esses pensamentos são grandiosos demais para ele, precisa abraçar sua mulher, sentir os braços dela ao redor do seu corpo, mas, quando seus olhos se encontram, vêem tensão e medo, pois esse abraço pode gerar monstros.

Ela faz o que tem feito durante milênios, parte o pão, coloca vegetais cortados em um prato, ao lado de uma garrafa de vinho, e pensa que nada nessa refeição é seguro, que os venenos da civilização estão em cada garfada, e que estão se preparando para levar à boca todo tipo de morte. Com um gesto instintivo de salvaguarda, de renovação, estende uma fatia de pão para o filho, mas o gesto perdeu a força da fé porque sabe o que pode estar dando ao filho.

Quando ele está trabalhando — nas épocas em que consegue trabalho, pois pode ser um dos que apenas se mantêm vivos, sem utilidade, sem se expandirem, se desenvolverem através do trabalho — ele, quando está trabalhando, muitas e muitas vezes, porque a necessidade é tão antiga quanto o tempo, renova-se com o pensamento de que o que faz é em benefício de outros, que seu trabalho o une aos outros, faz parte de uma teia criativa e pulsa ao ritmo de todos os trabalhadores da terra... mas o pensamento é interrompido, não pode viver nele, pois há amargura e cólera, e depois um cansaço, a descrença; ele não sabe por que, ela não sabe por que, mas é como se estivessem vertendo no vazio o que há de melhor em seus íntimos.

Ela e ele, pondo em ordem o lugar onde vivem, limpando e arrumando seu lar, param juntos entre pilhas de vidros, materiais sintéticos, papel, latas, recipientes — o lixo da sua civilização que, eles sabem, é o cultivo da terra e é alimento, o trabalho de homens e mulheres, lixo, lixo, para ser levado e despejado em grandes montanhas que cobrem a terra, que sujam a água. Enquanto limpam e arrumam seus pequenos cômodos, sentem uma irritação, uma aversão crescentes e incontroláveis. Um recipiente que continha alimento é jogado fora, mas em imensas áreas de Shikasta seria usado e protegido como um tesouro por milhões de pessoas desesperadas. Mas, aparentemente, não há nada a fazer. Contudo, as coisas acontecem, continuamente, sem parar. Raiva, frustração, desgosto por si mesmos, pela sociedade, cólera — lançando-os um contra o outro, contra os vizinhos, contra a criança. Nada do que podem tocar ou ver ou segurar os ampara, em nenhum lugar podem se refugiar no simples bom senso da natureza. Certa vez ele viu uma aboboreira com as grandes folhas e as flores amarelas e os suntuosos globos dourados espalhando-se sobre um enorme monte de lixo, onde as moscas zuniam e voavam — na ocasião, quase não notou, mas agora é uma imagem que dá alívio à sua imaginação, alívio e conforto. Ela observa um vizinho tentando queimar pedaços de plástico na fogueira, e o mau cheiro envenena tudo, e ela fecha os olhos e pensa em um utensílio de barro quebrado atirado pela porta dos fundos de uma casa de cidade pequena, quebrando-se e, lentamente, voltando a ser terra.

Em toda a sua história, o homem sempre foi capaz de se refazer com a visão das folhas que no outono retornam à terra, ou com a imagem de um muro iluminado de sol, que se desfaz, ou a lembrança de ossos brancos na beira de um riacho.

E os dois ficam juntos, vendo a cidade do alto, olhando para o lugar em que as máquinas que os destroem, giram e amassam, no ar, na terra, sob a terra... ficam juntos, respirando, mas o ritmo de sua respiração fica mais curto, altera-se, quando pensam que o ar está cheio de corrosão e destruição.

Eles abrem torneiras e a água corre facilmente, vinda do interior das paredes, mas, quando se inclinam para beber ou para se lavar, seus instintos os impedem e têm de lutar contra eles. A água tem gosto de água parada, de corrupção, e por dez vezes já passou pelos seus estômagos e pelos seus rins e sabem que chegará o tempo em que não mais poderão tomá-la e quando tentarem colher a água da chuva, descobrirão que também está inutilizada, por causa das substâncias químicas espalhadas no ar.

Olham o vôo dos pássaros, os dois juntos na janela, e é como se estivessem despedindo pesarosamente, com um pedido de desculpas silencioso, doloroso, desculpando-se pela espécie a que pertencem; tudo o que levaram àquelas criaturas foi destruição e veneno, e o vôo suave e gracioso da ave não lhes traz alegria; é apenas outra coisa da qual devem desviar os olhos, com sofrimento.

Essa mulher, esse homem inquietos, irritados, magoados, que dormem demais para esquecer, ou que não conseguem dormir, lembrando, procuram por toda parte algo que lhes sirva de amparo, algo que não se desfaça em repulsa no vazio — um deles apanha uma folha do chão, leva-a para casa, fita-a demoradamente. Ali está ela, sobre a palma da mão, com seu dourado brilhante, um objeto meio curvo, uma obra de arte, leve como uma pena, pronta a flutuar, ou planar no espaço, ali está ela, pousada levemente, o menor sopro pode movê-la, sobre a palma humana aberta, e levemente úmida, e a mente que a observa nota as nervuras, as miríades de veios que se ramificam e se sub-ramificam, os capilares, as minúsculas áreas entre eles — que não são, como parecem a esses olhos humanos, apenas fragmentos de uma substância indiferenciada, no meio das diminutas artérias e veias que as alimentam, mas mundos perfeitamente estruturados, a fonte da vida celular, microscópica, dos vírus e das bactérias — um universo em cada milímetro de folha. Já está sendo devolvida ao solo, mesmo enquanto permanece ali cativa, com sua forma tão perfeita quanto a vela de um barco enfunada pelo vento ou a concha de um molusco. Mas o que está sendo observado não é essa exatidão de linhas perfeitas, pois com um ligeiro desvio dos olhos pode-se ver a forma da matéria adelgaçando-se, esgarçando-se, sob os milhares de forças do crescimento e da morte. E é isso o que os olhos vêem através da janela, na árvore de onde a folha caiu, pois é outono e a energia necessária à árvore para sobreviver durante o inverno já se concentra dentro dela — não, não é uma árvore, mas um conjunto de matéria que luta e estremece nos extremos da tensão, do crescimento, destruição, milhares de espécies de pequenas criaturas, que se alimentam umas das outras, sempre — essa a realidade da árvore, e esse homem, essa mulher, inclinados sobre a folha, tensos, sentem a natureza como um fogo ululante e criativo no qual espécies nascem e morrem e tornam a nascer a cada respiração... cada vida... cada cultura... cada mundo... a mente, retirada à força do seu lugar de repouso nos ciclos visíveis do crescimento, da renovação e da destruição, as simplicidades do nascimento e da morte, é empurrada para trás e para trás, para dentro de si mesma, e repousa — experimentalmente e sem nenhuma expectativa — onde não pode haver repouso, com o pensamento de que sempre, em todos os tempos, existiram espécies, criaturas, novas formas de vida, formando um todo harmonioso com a interação das suas partes, mas todas finalmente colidem! são levadas embora! — a colisão alcançará impérios e civilizações, e as explosões que virão transformarão em desertos os mares e os oceanos, as ilhas e as cidades, e nos desertos já existentes, onde pululava uma vida inventiva e caprichosa, e onde a mente e o coração costumavam descansar, mas não mais descansam, pois devem ir para a frente, como a pomba enviada por Noé, e afinal, depois de longos círculos e ciclos, avistar o pico distante de uma montanha emergindo das águas poluídas, e pousar aí, olhando para o nada, nada a não ser a destruição da morte, e que não pode repousar aí também, • pois sabe que amanhã, na próxima semana ou daqui a milhares de anos, esse pico também desmoronará, sob a força de um cometa que passa ou com a chegada de um meteorito.

O homem, a mulher, humildemente sentados no canto do quarto, olham fixamente para aquela coisa indescritivelmente perfeita, uma folha dourada no outono, que acaba de cair flutuando da árvore, e então executarão alguns atos que vêm do seu interior, e que não podem justificar nem argumentar contra — apenas fecharão a mão sobre a folha, esmagando-a, reduzindo-a a pó, e a jogarão pela janela, olhando a poeira fina chegar ao solo, pois há um certo alívio no pensamento de que a chuva, na próxima semana, levará o pó da folha de volta para a terra, para as raízes, para que, no ano seguinte, ela brilhe no ar novamente. Ou talvez a mulher coloque a folha gentilmente em um prato azul sobre a mesa, e ironicamente se curve em uma reverência, e com uma espécie de pedido de desculpas que está sempre no pensamento dos shikastianos agora, pense que as leis que construíram essa forma perfeita devem ser, têm de ser, no fim, mais fortes do que os lentos venenos que distorcem e pervertem a substância da vida. Ou, quem sabe, o homem olhará pela janela, forçando-se a ver a árvore como a sua outra verdade, a da guerra feroz e cruel de devorar e ser devorada, poderá ver, por um momento tão curto que terá passado antes que possa chamar a mulher: Olhe, olhe, depressa! — por trás da fúria e da luta de devorar uns aos outros que é uma das verdades, e por trás da árvore no outono, tão comum, que é a outra —, uma terceira, uma árvore que possui uma luminosidade perfeita e elevada, como se fosse moldada pela luz do sol. Um mundo, um mundo, outro mundo, outra verdade...

E, quando a noite desce, ele talvez olhe para cima e veja uma pequena mancha de luz, galáxia que explodiu há milhões e milhões de anos, e a opressão que aperta seu coração se aliviará, e ele vai rir, vai chamar a mulher e dizer: olhe, estamos vendo algo que deixou de existir há milhões de anos — e ela verá, exatamente, e vai rir com ele.

Portanto, esta é a condição dos shikastianos agora, poucos ainda, mas em breve mais e mais, e logo — multidões.

Nada do que tocam ou vêem tem substância, e assim eles repousam em imaginação, no caos, procurando forças nas possibilidades de uma destruição criativa. Estão vazios de tudo, menos do conhecimento de que o universo é um motor ruidoso de criatividade e eles, manifestações temporárias do mesmo.

Criaturas infinitamente danificadas, reduzidas e degeneradas, afastadas das suas origens, quase perdidas — animais que perderam o caminho determinado para eles por seus mentores, estão sendo levados para trás e para longe de tudo que tinham, e agora não têm onde se firmar a não ser nos extremos mais ultrajantes da paciência. Uma paciência humilde e irônica, que aprende a olhar uma folha, perfeita por um dia, e a ver nela a explosão das galáxias e o campo de batalha das espécies. Os shikastianos, nesse fim ignóbil e horrível, enquanto lutam, procuram, correm entre seus artefatos desmoronados, esquálidos, erguem as mentes para os píncaros da coragem e da... vou usar a palavra fé. Depois de pensar sobre o assunto. Com cautela. Com um respeito exato e esperançoso.

 

 

JOHOR continua:

 

Foram recebidos avisos de que é perigoso demorar-me mais. Antes de entrar em Shikasta no nível necessário, devo verificar as possibilidades dos dois pares de pais sugeridos pelo Agente 19. É mais difícil do que pensamos escolher as circunstâncias que me permitirão desenvolver-me rapidamente, tornar-me independente, sem nenhum dano incapacitante.

 

JOHOR. Relatório.

 

Não há muito o que escolher entre os dois casais.

Primeiro Casal. Ele é fazendeiro, um técnico no cultivo da terra e não lhe faltará emprego. Ela também está empregada. Já têm dois filhos. É um casal saudável, inteligente e prático, com uma atitude responsável em relação aos filhos. Há uma desvantagem: ambos são nativos de uma ilha das faixas do Noroeste e com pouca tendência a se adaptar a outras raças ou povos. Por causa da natureza da minha missão, não tive outra alternativa senão escolher pais brancos, pelo menos em parte, portanto esse problema precisa ser circunscrito. Creio que por meio do

Segundo Casal. Os dois formam uma combinação de várias habilidades úteis. Os pais dele são originários da massa de terra central e chegaram às faixas do Noroeste durante a Segunda Guerra Mundial, e ele fala várias línguas. Possuem a energia freqüentemente observada nos imigrantes e refugiados. Ele é médico, administrador e músico. A mãe dela é nativa das ilhas do extremo ocidente nas faixas do Noroeste. Pertencia à "classe trabalhadora" e sentia-se muito prejudicada em uma sociedade com extrema consciência de classe, mas conseguiu superar essa desvantagem, em parte, com energia e habilidade e procurou dar à filha a melhor educação possível. Seu pai é de origem mista, o que sem dúvida é uma vantagem. Portanto, essa mulher tem um passado de esforço e energia tão rico quanto o do marido. Conhece medicina e sociologia e escreve livros de certa forma informativos. Esse casal provavelmente não se divorciará. Em virtude da sua ascendência cosmopolita, podem olhar para o cenário mundial com competência e com uma comparativa falta de regionalismo. São saudáveis, bem equilibrados, sem dúvida preparados para serem bons pais. Não têm filhos ainda. Graças ao seu trabalho e disposição, provavelmente viajarão muito. Esse casal parece adequado.

 

 

JOHOR. Relatório.

 

Tirei tanta força dos Gigantes que não esperava ver nada mais daquela triste habitação, dos seus pobres ocupantes. Viajei o mais depressa que pude através das areias esvoaçantes e vi que elas estavam mais profundas e mais extensas, as rochas mais nuas e mais escuras, nenhum verde, nenhuma vida — como em Shikasta, quando os desertos se apossam das regiões em que as árvores foram cortadas ou morreram de doenças. As casas dos Gigantes eram como uma miragem, torres cintilantes, casas, pátios, muros quebrados — fantasmas e ilusões, tudo, tudo, e eu passava por eles como se passa por uma bolha de sabão. No grande salão os tronos, a tribuna, as bandeiras, as coroas e os cetros faiscavam e desapareciam de vista, e assim, em um momento, eu estava em um sonho enganador de salões e príncipes, procurando Jarsum ou alguém que pudesse ter sobrevivido, e no momento seguinte encontrava-me nas areias vazias que rodopiavam aos meus passos com um pequeno suspiro sibilante. Quando a cena surgia, podia ver os espectros transparentes dos meus antigos amigos, Jarsum entre eles, mas dissolviam-se, e eu esperava que reaparecessem, e em dado momento tentei mesmo segurar sua mão — mas quando fiquei parado onde ele estivera há um segundo, esperando a sua volta, e ele voltou, os grandes olhos suplicantes fixos em mim, Jarsum era como um reflexo na água. Jarsum, Jarsum, eu disse, ou exclamei, olhando através daqueles reflexos que tremiam e se dissolviam, Jarsum, talvez você não saiba, mas você e os seus companheiros foram muito úteis para os nossos fins, vocês nos ajudaram, vocês me deram forças e apressaram o início da minha missão... e então era o fim. Era como se uma fonte falhasse e desaparecesse, as últimas emanações daquela força que os sustentara durante milênios atenuaram-se e sumiram e não havia nada. E jamais haverá.

Deixei aquele lugar e dirigi-me para as fronteiras de Shikasta. Deixei passar várias oportunidades de infiltrar-me em outras Zonas, especialmente as Quatro e Cinco, e, lembrando-me das cenas alegres que tinha compartilhado em minhas visitas, foi com grande esforço que continuei o meu caminho.

Além disso, precisava passar ainda por uma desagradável região da Zona Seis e não me sentia entusiasmado com essa perspectiva.

Circundando as fronteiras de Shikasta, em um certo nível, agrupam-se fantasmas ávidos, e não gostamos de fazer contato com eles.

São as almas que não conseguiram desfazer os elos que os ligavam a Shikasta quando a deixaram. Muitas vezes nem sabem que a deixaram, como peixinhos dourados que subitamente se encontram fora do aquário e desejam voltar a ele, sem entender como saíram nem como poderão entrar. Como pessoas famintas em um banquete; mas, ao passo que a comida e as festas são reais, eles não são mais que sonhos em um mundo real. Esses pobres espectros agrupam-se em qualquer ponto de Shikasta, como uma colmeia. Algumas cenas, lugares, ocasiões os atraem irresistivelmente. Colocam-se ao lado dos orgulhosos, dos amantes do poder, tentando compartilhar as coisas que eles almejam, porque em suas vidas foram poderosos e orgulhosos e não podem deixar de querer esse doce alimento, ou então por terem sido humilhados e vencidos e procuram vingança. Oh, os fantasmas vingativos e amargos que se misturam a toda a pompa e a todo o poder em Shikasta! Cenas de sadismo, crueldade, assassinato — lá estão os que se deixaram mergulhar no aroma da dor e que provocaram dor, e jamais se satisfizeram, e que desejam senti-la outra vez, ou infligi-la novamente... Sexo: aí eles se amontoam, pois ninguém se satisfaz nunca, está na natureza deles, e muitos dos que estão ali famintos são exatamente os que durante a vida viveram especialmente em função do sexo. Comida: nas cozinhas e nas salas de jantar pululam os glutões, os que passaram a vida comendo ou pensando em comida. Os que durante a vida se preocuparam apenas com a própria beleza, ou com pensamentos da superioridade de sua família, raça ou país, aqueles que... mas toda paixão desperdiçadora tem seus cortesãos, que enxameiam bem próximo, invisíveis, vendo tudo, famintos, destituídos, nunca alimentados, que nunca serão alimentados...

E há os que desejam realizações mais refinadas, pois nem todos esses famintos procuram o sensacional e o violento, o rude e o horrível.

Ao redor dos leitos onde amantes se enlaçam obcecados, que maravilhosos seres pairam, saboreando cada carícia, cada longa e embriagadora troca de olhares, cada beijo — de todas as poções esta é a mais poderosa, e esses fantasmas não são brutais, não desejam a dor nem causar dor, não desejam possuir corpos confortantes e leitos macios — não, são as almas mais refinadas e sensíveis, mais sintonizadas às emanações de Canopus, mas que se deixaram envolver nas redes de Shikasta e não conseguiram escapar antes de morrer. Entre as multidões fascinadas há seres horríveis, os íncubos e súcubos, as diversas variedades de vampiros, os que aprenderam a se alimentar com as energias de Shikasta.

Ao redor dos realizados e talentosos, os que, facilmente ou por uma feliz combinação de circunstâncias, se tornaram artistas, contadores de histórias, músicos, escultores ou pintores — estão as almas mais dignas de pena. Elas sabem o que significa alimentar as necessidades da pobre humanidade com a força da arte (um alimento parcial, sombra apenas do que poderiam ter) mas que não conseguiram realizar essa missão, por diversos motivos relacionados com a opressão e os riscos que são a própria natureza de Shikasta, que sufocam e destroem tanta criatividade vital. Essas almas não são apavorantes ou perigosas. Quando passei por uma cena dessas, talvez um cientista calculando a natureza e o poder das estrelas, ou uma mulher escrevendo uma história que talvez esclareça, para alguns, uma situação ou um sentimento, vi amigos meus avidamente à volta deles. Pobres fantasmas. "Afastem-se", eu disse, "afastem-se, não se deixem prender ao redor dessas paredes de vidro, vão — libertem-se. Procurem algum trabalho útil nas outras zonas, ou voltem a Shikasta pelo caminho mais difícil — são as únicas formas de saída. Podem ficar aqui, ansiosos e desejosos, por um longo tempo sem conhecer nada além de frustração e vazio e desespero..." Mas não podem me ouvir, essas almas enfeitiçadas, e continuam com os olhos fixos nas cenas que para elas têm uma atração maravilhosa, um encanto que as faz esquecer tudo o que já aprenderam sobre a verdade.

Passei por grupos de almas que, sabendo das desgraças iminentes que se abaterão sobre Shikasta, atormentados, ansiosos pelos filhos, amigos, amantes, suspiram e definham, agrupados ao redor das salas de conselho, das reuniões onde os poderosos discutem e decidem sobre o futuro de Shikasta — ou pensam que o fazem — e encontrei vários amigos. Alguns me reconheceram. "Johor", exclamaram, "Johor, olhe, deixe-me voltar, deixe-me dizer a eles, deixe-me, deixe-me..." e gemem e choram ao ouvir os debates infantis das conferências, a competição de forças contra forças, poder contra poder — e à sua frente está a destruição, quando nada sobreviverá em nenhum continente, a não ser aqui ou ali um animal doente, uma criança enlouquecida. "Johor, Johor", exclamam, agarrando-me, puxando-me, "deixe-me entrar, deixe-me passar, deixe-me voltar agora, e chegar a eles e dizer-lhes, avisá-los... "

"Saiam daí", eu lhes disse, "partam, deixem essas fronteiras. Já desempenharam o seu papel que não foi escolhido por vocês — e se não fizeram o que deviam, então, voltem as costas ao que não podem mudar agora. Ou se querem ser aqueles que podem mudar, então não se amontoem aí como crianças que não podem fazer nada além de imaginar competência em um futuro que não serão capazes de dirigir, crianças que não são nada a não ser em sua imaginação. Não podem ajudar suas famílias, nem os amigos. Não dessa forma. Voltem para Shikasta, mas do modo mais difícil..."

Mas não me podem ouvir, escutam apenas o que querem escutar. Voltam a se lamentar ao redor das conferências e dos comitês.

Oh, as fronteiras e divisas de Shikasta são terríveis, não são para os que se deixam dominar pela piedade ou que se impressionam facilmente. Muitos hesitaram nessa parte, os olhos tão cheios com o que viram que se tornaram cegos para o que deviam fazer. E eu também, abrindo caminho entre eles, senti-me aturdido e perdi minha força para aqueles fantasmas famintos e amargos. Como já me acontecera antes, naturalmente, o que me ajudou a reconhecer o que estava sentindo — embora essa visita fosse muito pior do que a última, tudo está muito pior, oh, pobre Shikasta, seus dramas representados nesse palco e com fileiras e fileiras de observadores.

Deixei essa região e me aproximei dos postos de entrada onde as filas eram enormes. Procurei Ranee, que estava outra vez no meio da fila, pois perdera o lugar, para atender a uma emergência. Estava sozinha. Não vi Rilla e Ben. Perguntei onde estavam e ela disse que os levara até a região das filas, tinha então deixado os dois juntos, voltando ao seu lugar. Fiquei ao lado dela, olhando para todos os lados, depois caminhei para lá e para cá, perguntando por eles. Afinal me disseram que um casal parecido com a descrição que eu fazia tinha sido visto. Estavam em seus lugares, no fim de uma longa linha, mas depois de um tempo se afastaram e ninguém os vira voltar.

E agora, o que fazer? Já atrasado, e enfraquecido — mas precisava ir em busca dos dois.

Não precisei ir muito longe. Antes de chegar perto, vi as bolas coloridas flutuando e brincando no ar, e quase sem sentir parei, olhando, encantado. Era como se aquelas bolas pintadas tivessem vida e intenções, e pudessem se dirigir sem nenhuma ajuda. Como se estivessem fazendo um jogo, provocando umas às outras, fugindo, perseguindo, chocando-se suavemente, antes de se afastarem outra vez. Percebi que estava ali absorvido há algum tempo. Com esforço continuei a andar. Logo cheguei a Ben e Rilla, sentados na areia quente, entre pequenos arbustos, olhando para cima, sorrindo, maravilhados, completamente perdidos. "Rilla! Ben!", chamei e chamei. Só depois de algum tempo consegui desviar sua atenção daquelas bolas ou bolhas deliciosas que, agora, de perto, pareciam bolhas de sabão animadas, de cores luminosas diferentes, transparentes, ou pelo menos pareciam, pois quando uma delas passou por cima da minha cabeça — talvez para me observar, pensei — percebi que dentro das superfícies transparentes moviam-se fagulhas e centelhas, em constante mudança. Logo Rilla e Ben teriam se esquecido da minha presença, por isso chamei-os de novo e ordenei que me seguissem. Não o fizeram, pelo menos não imediatamente. Olharam para cima, olharam para baixo, olharam para todos os lados, para tudo, menos para mim. Vi que Rilla estava escondendo alguma coisa e ouvi ou senti uma leve pulsação de queixa e de medo. Aproximei-me dela, segurei o seu braço e a obriguei a abrir a mão; ela havia capturado uma daquelas bolhas, que, confinada naquela prisão, tinha perdido a cor e quase toda a vitalidade, transformando-se em uma coisa doentia que pulsava freneticamente, como se respirando para viver. Coloquei minha mão sob a dela e ergui as duas até nossas palmas ficarem uma sobre a outra bem na frente de nós, com a criatura revivendo aos poucos, lentamente recobrando a vida, e subitamente ela fugiu em um vôo rápido e juntou-se às outras, continuando o brinquedo. E mais uma vez surpreendi-me olhando para cima, exatamente como Ben e Rilla tinham feito, pois jamais vira algo tão lindo e atraente como o jogo de luzes, ou cristais. Coloquei um braço no ombro de Ben, outro no ombro de Rilla e afastamo-nos daquele lugar, eles procurando voltar e olhando para trás — como tinham feito nas areias ardentes. E então, quando nos afastamos, Rilla começou a me censurar. "Por que demorou tanto? Pensei que viesse me buscar muito antes!" Não pude deixar de rir, era tão absurdo, e Ben riu também, mas Rilla não, e continuou a ralhar comigo enquanto nos aproximávamos das longas filas dos que esperavam.

Encontrei Ranee e deixei Rilla sob seus cuidados, com instruções precisas. Pois sabia que quando Ranee chegasse ao posto de entrada seria hora de Rilla entrar.

Então, segurei a mão de Ben, enquanto Rilla, naturalmente, se queixava de que eu a estava abandonando e preferindo Ben, segui com ele, passamos pelas filas, sempre segurando a sua mão com firmeza. Ele compreendeu afinal que o momento chegara e estava com medo, e percebi sua indecisão. Eu lhe disse:

— Ben, você precisa ir. Agora. Confie em mim.

Ele suspirou, fechou os olhos e agarrou-se ao meu braço com as duas mãos.

Atrás de nós as filas estendiam-se, perdendo-se na distância. Não podia avistar onde acabavam. Em certa época havia apenas 12 ou 20 almas. Mas as guerras de Shikasta, as fomes de Shikasta, as doenças de Shikasta devoravam pessoas, e agora havia oportunidades, e outras oportunidades... algumas das almas nas filas estavam lá quando entrei na Zona Seis, nessa mesma visita, e nesse tempo já tinham ido a Shikasta, sucumbido — doença, acidente, guerra — e ali estavam outra vez. Quantas faces corajosas eu vi enquanto me agarrava a Ben, e ele a mim, entrando na névoa colorida e rodopiante. A multidão de almas ficou para trás, desapareceu na escuridão nevoenta. Estávamos os dois juntos em uma névoa opalescente. Havia uma pulsação cantante, suave. Que pulsava... e pulsava...

Nesse momento era preciso se concentrar como nunca. Não tínhamos nada além da marca da Assinatura para nos sustentar, uma marca que só apareceria na carne com o calor ou sob pressão. Era como se tivéssemos resolvido deliberada-mente nos obliterar, confiando em um intangível em que não tínhamos outra alternativa senão confiar.

Éramos como aquelas bravas almas de Shikasta que, acreditando estar do lado do que é certo e justo, desafiam os governantes cruéis e criminosos, sabendo que o castigo será uma destruição deliberada de suas mentes, feita por médicos corruptos, da compreensão que têm de si mesmas, por meio de drogas, tortura psicológica, dano aos seus cérebros, privação física. Mas, bem no íntimo, estão certas de possuir recursos que as farão suportar tudo. Éramos como pessoas saltando para as trevas envenenadas, confiantes em que alguém nos há de amparar...

Na trovejante escuridão vimos lado a lado dois pedaços de substância em fermentação, e eu entrei em um deles, abandonando minha identidade por um tempo, e Ben deslizou para a outra, e ali ficamos, duas almas pulsando silenciosamente numa carne que crescia com rapidez. Nossas mentes, nossos seres estavam atentos e conscientes, mas nossas memórias já se haviam distanciado, dissolvendo-se.

Devo reconhecer — não posso evitar — que é um momento de terrível consternação. De pânico mesmo. Os terríveis miasmas de Shikasta me envolvem e envio este relatório com meu último impulso consciente.

 

 

 

 

DOCUMENTOS RELATIVOS A GEORGE SHERBAN (JOHOR)

 

DIÁRIO DE RACHEL SHERBAN

 

Compreendo que devo começar. Quanto mais penso a respeito, mais difícil me parece. Os fatos são melhores. Eu disse a George que ia começar este diário, e ele disse: primeiro veja se tem os fatos em ordem correta.

Tenho dois irmãos, George e Benjamin, dois anos mais velhos do que eu. São gêmeos. Não gêmeos idênticos. Eu sou Rachel. Tenho 14 anos.

Nosso pai é Simon. Nossa mãe é Olga. Nosso nome é Sherban, mas era Sherbansky. Nosso avô o modificou quando vieram para a Inglaterra, da Polônia, na última guerra (Segunda Guerra Mundial). Os nossos avós riem quando dizem que ninguém podia pronunciar Sherbansky. Eu costumava ficar zangada quando eles diziam isso. Não acho os ingleses engraçados. São estúpidos. Meu avô é judeu. Minha avó não é.

Vejo que nossa educação é bastante diferente do comum. Estou vendo muitas coisas pela primeira vez depois que comecei a escrever este diário. Bem, acho que a questão é essa.

Primeiro. Nossa família estava na Inglaterra, onde todos nós nascemos. Nossos pais trabalhavam em um grande hospital de Londres. Ele na parte de administração. Ela era médica. Mas resolveram deixar a Inglaterra para trabalhar na América. Isso porque a Inglaterra era tão burocrática e conservadora. Não disseram que foi por isso que saíram da Inglaterra para nunca mais voltar. Não para trabalhar, pelo menos. Depois da América, fomos para a Nigéria e depois para Quênia e o Marrocos. Que é aqui. Geralmente nossos pais trabalham juntos em um hospital ou em projetos. Sempre estamos a par do seu trabalho. Eles nos contam o que jazem e explicam por quê. Fazem questão de nos dizer. Pensando sobre isso, enquanto escrevo, compreendo que é coisa que não acontece com freqüência nas outras famílias. Às vezes minha mãe, Olga, trabalha em algum outro lugar, sozinha. Eu vou com ela. Mesmo quando eu era bebê ela me levava. Engraçado, para mim isso era natural. Preciso lhe perguntar por que eu estava sempre com ela. Perguntei. Ela disse: "Nos países onde não há muita burocracia, existe uma latitude mais extensa." E depois disse: "De qualquer modo, eles gostam de crianças, isto não é a Inglaterra."

Nossos pais jazem muitas críticas à Inglaterra. Mas têm nos mandado para lá muitas vezes.

Aprendi todo tipo de coisas, mas não freqüentei a escola regularmente. Sei francês, russo, árabe, espanhol. E inglês, naturalmente. Meu pai me ensinou matemática. Minha mãe me indica livros para ler. Sei muito sobre música porque eles estão sempre tocando música.

Meus irmãos algumas vezes foram com minha mãe, mas ultimamente ficam mais com Simon. Quando ele ia a seminários <ou fazer conferências ele os levava. Às vezes eles nos puseram em escolas por um ou dois anos.

Em Quênia aconteceu isso. Compreendo agora. O diretor da escola era nosso amigo. Ele nos passava de uma turma para outra, alegando que não nos serviam, ou que estávamos muito adiantados, ou coisa assim. Mas o que ele estava fazendo era garantindo que apreendêssemos uma porção de coisas diferentes. Ele fazia isso com as crianças que não eram de Quênia e com algumas das crianças negras também. Ele é um kikuyu. Aprendemos muito sobre geoistória aqui e geoeconomia. Durante todo o tempo temos também professores particulares. Uma coisa se pode dizer a respeito dessa educação maluca, a gente nunca se entedia. Mas se for dizer a verdade, o que eu desejava era realmente ficar em um lugar e fazer amigos. Aparentemente temos muitos amigos, mas geralmente estão em outros países. Na verdade, a maior parte do tempo isso acontece.

Nós, as crianças, fomos passar férias na Inglaterra três vezes. Ficamos em Londres, e depois com uma família em Gales. Eles são fazendeiros. Aprendemos a cuidar dos animais e das plantações. Meu irmão George ficou na fazenda um ano inteiro, de dezembro a dezembro, para aprender sobre o ciclo das estações. Benjamin não aprovou a ida de George e não quis acompanhá-lo, mas poderia ter ido. Estava atravessando uma fase péssima nessa época. Pior do que de costume, quero dizer!

Senti quando George partiu, não o vi durante um ano inteiro.

Preciso dizer a verdade outra vez. Sempre senti muito ciúme. Quando era pequena, tinha ciúmes dos gêmeos. Eles estavam sempre juntos! E geralmente nem me notavam. George me dava mais atenção do que Benjamin.

Benjamin sempre queria estar com George, quando eram mais novos. Todos pensavam que Benjamin era o mais novo. São tão diferentes! Benjamin não é alegre e confiante como George. George estava sempre dizendo para Benjamin: sim, você pode fazer isto, sim, você pode fazer aquilo. Benjamin costumava ficar de mau humor e se afastar de todos. Mas, quando voltava, queria que George notasse a sua presença.

E George sempre notava. Isso me fazia ficar com ciúmes.

Ê por isso que ainda sinto ciúmes.

Quando George ficou longe por um ano, pensei que Benjamin ia me dar atenção, mas ele não o fez. Não me incomodei muito porque, na verdade, o que eu quero é a atenção de George.

Agora vou escrever sobre os fatos de que me lembro, quando éramos crianças.

Vou escrever o que penso agora das coisas que aconteceram naquele tempo. Não o que pensei então.

Quando estávamos em Nova Iorque tínhamos um pequeno apartamento e nós três dormíamos no mesmo quarto. Certa noite acordei e vi George de pé perto da janela olhando para fora. Estávamos no 12.° andar. Ele parecia estar falando com alguém. Pensei que estava brincando e quis entrar na brincadeira. Ele me disse para ficar quieta.

De manhã, no café, eu contei que George estava na janela, de noite. Mamãe ficou preocupada.

Mais tarde George me disse: Rachel, não conte para eles, não conte para eles.

Quando mamãe ou papai perguntaram, eu disse que estava brincando.

Mas muitas foram as vezes em que acordei e vi que George não estava dormindo. Geralmente estava ao lado da janela. Eu não fingia estar dormindo. Sabia que ele não se zangaria. Uma vez perguntei: com quem você está falando? Ele disse que não sabia. Com um amigo, disse ele. Achei que estava perturbado. Não infeliz.

Mas algumas vezes ele ficava infeliz. Não como Benjamin. Quando Benjamin estava de mau humor todos nós tínhamos de saber e ficar aborrecidos também.

George ficava quieto e ia para um canto. Fingia que estava olhando um livro. Eu podia ver que tinha chorado. Ou que queria chorar. Ele sabia que eu sabia, como sabia que eu sabia que ficava tanto tempo acordado de noite. Ele apenas sacudia a cabeça para mim. Isso era tudo. Não era como Benjamin. Benjamin brigava e me batia às vezes.

Uma vez, na Nigéria, aconteceu uma coisa. Os meninos tinham um quarto e eu dormia sozinha. Eu detestava isso. Sentia muita falta de George. No mesmo quarto sentia-me perto dele, e agora estava longe. Ele entrou no meu quarto uma noite. Eu estava dormindo e acordei. Ele estava sentado no chão, sobre um tapete de palha, inclinado na direção do mosquiteiro da minha cama. Pus a cabeça para fora do mosquiteiro. Lá fora o luar estava claro e eu podia ver o rosto dele brilhando porque tinha estado chorando. Sem fazer nenhum ruído. Ele disse: Rachel, este lugar é terrível, é um lugar terrível, é terrível... Falava com voz abafada e não consegui entender, a princípio. Tentei confortá-lo dizendo: bem, a família vai se mudar outra vez, nossos pais disseram que vamos para Quênia. Ele não disse nada. Mais tarde eu compreendi que ele não estava falando da Nigéria. Compreendo agora que ele foi ao meu quarto porque se sentia só, mas não pude ajudar em nada.

Compreendo que ele se sentia só naquela época. Sei que Benjamin não compreendia a maior parte das coisas que ele dizia. E eu só agora compreendo algumas delas.

De súbito compreendi que Benjamin era geralmente tão mal-humorado e agressivo porque sabia que George queria que ele compreendesse e ele não compreendia.

Eu tinha oito anos quando fomos para o Quênia.

George dormia na varanda da casa. O clima era diferente do da Nigéria, era saudável. Ele gostava de dormir sob as estrelas. Eu sabia que George ficava acordado parte da noite e que não queria que nossos pais soubessem. Às vezes eu saía pela janela do meu quarto para a varanda e lá estava ele, sentado no parapeito, olhando para fora. Estávamos nas vizinhanças de Nairobi, sobre umas colinas. De nossa casa víamos uma grande extensão de terra. Era lindo. Às vezes ficávamos sentados no muro que servia de parapeito para a varanda por longo tempo, e sempre era lua cheia ou quarto crescente. Uma vez um africano passou silenciosamente, nos viu e parou. Então ele disse: olá, meninos, o que estão fazendo aí, deviam dormir. E continuou o seu caminho, rindo. George gostou disso. Quando eu ficava com sono, George me pegava no solo. Ele fingia que estava cambaleando com o meu peso, mas na verdade não me achava pesada. Ele cambaleava por toda a varanda, me levando nos braços e quase morríamos de tanto abafar o riso. Então ele me ajudava a entrar no meu quarto, pela janela. Eu adorava esses momentos com George, embora a gente não falasse muito. Às vezes ficávamos sentados por muito tempo sem dizer uma palavra.

Certa vez fizemos uma coisa da qual eu me lembro. Naquela tarde nossos pais tinham tido visitas. Eram todas pessoas com posições importantes em Quênia. Havia negros, brancos, mestiços. Não pensava nisso naquele tempo porque era uma criança acostumada com coisas diferentes. Muitas vezes éramos a única família branca em alguns dos lugares em que estivemos, mas não me lembro muito disso.

Era uma festa, uma comemoração de alguma coisa. Nós, as crianças, tínhamos ajudado a servir as bebidas, comidas e coisas assim. Nossos pais sempre nos mandavam fazer essas coisas. Benjamin, em geral, não gostava. Dizia que tínhamos empregados e perguntava por que não faziam esse serviço.

Durante a festa, George adivinhou o que eu estava pensando, e sorriu para mim, com aquele sorriso especial, que queria dizer: sim, eu sei e concordo. Eu estava pensando como os adultos eram tolos, não nossos pais, mas os outros, procurando parecer importantes como fazem os adultos.

Naquela noite, sentados no muro, ao luar, George disse: havia 30 pessoas lá.

Eu compreendi o que ele queria dizer.

Eu estava pensando, como fazia muitas vezes, que eu sabia exatamente o que ele queria dizer, mas Benjamin não. E ele disse uma coisa que eu não esperava. Lembro-me daquela noite porque chorei muito. Por dois motivos. Um era que eu nem sempre sabia o que ele estava pensando mais do que Benjamin sabia. A outra era que George estava tão só, pensando aqueles pensamentos.

George disse: passando xícaras e copos de bebida e dizendo por favor e obrigado...

Bem, eu estava rindo disso, vendo o que ele via.

Mas então ele disse: 30 bexigas cheias de urina e 30 traseiros cheios de merda, e 30 narizes cheios de ranho e milhares de glândulas sudoríparas emitindo gordura...

Eu fiquei perturbada porque ele falava com voz áspera e colérica. E quando ouvia essa voz eu sempre pensava que estava zangado comigo.

Ele continuou, uma sala cheia de merda e de urina e de ranho e de suor. E câncer e ataques cardíacos e bronquites e pneumonias. E 150 litros de sangue. E por favor obrigado e sim, Sr. Amaldi, e não, Sr. Volback, e por favor Sra. Sherban, e oh, desculpe-me, ministro Mobote, e eu sou mais importante do que você, Dr. Chefe do Registro.

Eu podia ver que ele estava zangado. Inquieto, também, como ficava às vezes, e parecia se enrodilhar sobre si mesmo, uma perna sobre a outra.

Ele estava furioso. Começou a chorar.

Ele disse: este é um lugar terrível, um lugar terrível.

Não gostei disso e fui para a cama, e chorei.

No dia seguinte ele foi gentil comigo e brincamos juntos muito tempo e eu não tinha certeza de estar gostando daquilo porque ele estava me tratando como uma criancinha.

Ainda não descrevi a nossa aparência. Somos todos diferentes. É por causa da mistura de genes, dizem os nossos pais.

Em primeiro lugar, George. Ê magro e alto. Olhos negros. Cabelo negro e liso. Sua pele é branca mas não igual à dos povos brancos da Europa. Branco marfim. No Egito e aqui, no Marrocos, muita gente se parece com ele. Ê nosso avô indiano aparecendo em sua pele.

Agora Benjamin. Ele se parece com Simon. Ê entroncado. Engorda com facilidade. Tem cabelos castanhos e olhos cinza-azulados. Seu cabelo é crespo. Está sempre queimado de sol, de um moreno bronzeado.

E eu. Sou mais parecida com George. Infelizmente não sou magra. Tenho cabelos negros. Olhos castanhos, como minha mãe. Minha pele é morena, mesmo quando não tomo sol. Na Inglaterra ninguém repara em mim porque não sou um tipo raro. Todos notam Benjamin.

O que mudou tudo para nós quando éramos crianças foi o que aconteceu quando George passou um ano na fazenda em Gales. Olga e Simon disseram que era errado "ter saudades" de George. E naquele ano me obrigaram a fazer uma porção de coisas, estudei duas línguas, francês e espanhol, e tive aulas de guitarra. Eu não estava sentindo saudades. Estava me sentindo só. E, quando ele voltou, continuei a me sentir só. George tinha 13 anos quando foi para o País de Gales e 14 quando voltou. Era um adulto, eu não compreendi isso naquela época, mas agora compreendo.

Benjamin foi muito difícil durante todo aquele ano. Não foi bem na escola. Tinha crises de mau humor. Mas, quando George voltou, tentou fazer Benjamin voltar às boas e conseguiu. Mas agora compreendo que George tinha crescido e Benjamin não. Benjamin sempre fez tudo para chamar a atenção de George, e acho que nossos pais não sabiam nem a metade. Isso não é porque estão muito ocupados para notar. Bem, às vezes eles estão muito ocupados. Pensam muito em nós e em como nos educar bem. Mas uma irmã vê coisas que os pais não vêem. Creio que eles já se esqueceram. Acho que se lembram dessas coisas de um modo generalizado, mas não vêem as pequenas coisas que acontecem todos os dias.

Hoje compreendo que uma das razões pelas quais queriam afastar George era libertar Benjamin de George. Além de George aprender o ciclo das estações. Mas isso piorou as coisas, na minha opinião. Benjamin sentia que tinham dado a George alguma coisa que ele não tinha. Mas não quis ir para o País de Gales, e caçoava de George por se tornar um fazendeiro. Benjamin é um pouco esnobe.

Vejo agora que não tomei conhecimento de muitos jatos. E imagino se a gente precisa passar a vida toda descobrindo subitamente certos jatos que deviam ter sido óbvios na ocasião em que aconteceram.

Quando George voltou, perguntou-me várias vezes: o que aconteceu? Diga-me, o que aconteceu? E eu lhe contei sobre as aulas de espanhol e de francês e toquei guitarra para ele.

George estava impaciente, mas tentava não demonstrar. Ele disse: não, não quero dizer só com você. E então, contei sobre Benjamin, embora ele já soubesse, pois tinha passado muito tempo com ele, e então ele ficou muito quieto, e percebi que não era isso, falei sobre nossa mãe estar organizando um grande hospital e sobre nosso pai estar trabalhando com ela. Isso foi melhor, mas ainda não era a coisa certa. Pois ele disse: Rachel, nossa família não é tudo e não somos tão importantes. Então entrei em pânico. Ê o que me acontece quando vejo que o desapontei. Comecei a falar sobre mamãe e papai e o que eles tinham dito, mas ele parecia desinteressado. Continuou sendo delicado comigo quando tinha tempo. Mas estava sempre inquieto. Não podia parar quieto. Andava com um grupo de meninos do colégio, barulhento e insubordinado, e eu não podia acreditar que fosse o mesmo George. Eles falavam sobre coisas que não me interessavam naquela época.

Comecei a prestar atenção nas conversas de meus pais sobre a situação do mundo e matriculei-me no curso de Ocorrências Atuais, na escola, e passei a ouvir os programas de notícias e informações.

Nossa família é diferente da maioria. Em todos os lugares onde temos estado, as pessoas são defensoras apaixonadas deste ou daquele partido. Ou fingem que são. Ê fácil perceber quando estão fingindo. Nossos pais costumam dizer que não devemos culpar esses que fingem. Trata-se de sobrevivência e isso é mais importante do que carregar bandeiras. Às vezes quando eles dizem isso as pessoas ficam chocadas. Mas eu sei que meus pais pensam que a política é um erro. Que as pessoas que se dedicam à política estão no caminho errado. Só estão interessadas em fazer coisas, como reorganizar hospitais e fazer com que as coisas funcionem. Não dizem essas coisas em qualquer lugar, mas apenas para nós e para amigos íntimos. Na verdade, não falam sobre isso com muita freqüência, o que não dizem é que jaz com que sua opinião seja óbvia. Mas a política é tão importante em todo lugar e eu compreendo que isso deve ter sido sempre um grande problema para eles, agora que penso sobre o assunto. Quero dizer, é o mesmo que se proclamar ateu na Idade Média.

Fatos. Inglaterra. As duas primeiras vezes que nós três a visitamos foi antes da Ditadura, e não havia muita coisa para ver a não ser que tudo funcionava mal. Mas, na terceira vez, o alimento era escasso, embora estivéssemos em uma fazenda, e o Sr. e Sra. Jones estavam preocupados. Procurei me informar com Simon e Olga e eles disseram que muita gente estava nas prisões e que as pessoas eram presas subitamente e desapareciam. Bem, não há nada de novo nisso. E os que não conseguiam obter trabalho, especialmente os jovens, provocavam desordens. Isso foi antes de serem recrutados pelo exército ou recolhidos aos campos. No País de Gales e na Escócia era a mesma coisa, embora fossem países independentes. A Ditadura estava tentando ser somente inglesa, sem muitos estrangeiros. Quando George passou o ano na fazenda, não foi fácil conseguir sua estada na Inglaterra. As viagens eram complicadas desde a Ditadura e, além disso, as pessoas não podiam pagá-las. Mamãe disse que foi graças a contatos especiais que George conseguiu entrar. Embora sejamos todos ingleses. Quero dizer, quando se trata de visita, tudo bem, embora seja difícil, mas viver lá durante um ano era quase impossível. Sublinhei os contatos especiais porque cada vez mais me convenço da sua importância.

Estados Unidos. Olga e Simon dizem que são tão ricos, afinal, que a crise foi bem disfarçada. Mas eu me lembro das filas à espera de comida. E Olga disse que era a mesma coisa, como na Inglaterra, os desempregados formando grupos enormes e criando desordens e destruindo as coisas, e, quando estávamos lá, o começo dos campos e dos uniformes e da disciplina militar. A Nigéria era diferente porque o povo era pobre. Talvez isso seja melhor do que ter sido rico e ficar pobre. Acabo de pensar nisso. Na Nigéria víamos pessoas com fome e pessoas doentes. Isso foi quando comecei a acompanhar minha mãe por toda parte. A hospitais e a campos de assistência. Houve uma epidemia. Minha primeira epidemia. Eu fui com ela. Naturalmente eu era vacinada contra tudo. Mas não sabiam ao certo qual era a doença. Até hoje ela diz que ainda não sabem o que era. Agora compreendo como ela era corajosa, levando-me a toda parte. Ela disse, quando lhe perguntei (agora), que eu devia estar preparada para o perigo e para as emergências. E essa é uma das razões pelas quais nós três fomos levados a tantos lugares pelos nossos pais, até mesmo aos campos cheios de doenças, epidemias e fome. Na Nigéria não havia muitos desempregados, porque a maioria deles trabalhava na terra de um modo ou de outro. No Quênia, não era muito diferente — povo pobre e todo tipo de doenças. Olga e Simon trabalharam com uma grande equipe, durante seis meses, com pessoas que tinham escapado de um extenso período de escassez. Estavam fazendo higiene no campo. Havia muitos jovens desempregados e eles também foram para o exército. Agora todos têm enormes exércitos. Nunca pensei sobre esse aspecto antes. Simplesmente por causa da falta de trabalho. No Egito era diferente em alguns aspectos. Muito muito pobres. Doença também. Olga e Simon trabalhando como sempre em campos e tratamentos. Eu me lembro das crianças correndo nas ruas quebrando tudo, gritando e incendiando. Eu tinha medo que o nosso prédio, onde tínhamos um apartamento, também fosse incendiado. Dois prédios na nossa rua pegaram fogo. Toda a cidade estava cheia de prédios incendiados. Mais exércitos! Mais uniformes! E agora o Marrocos. Bem, diferente, mas não muito, pensando bem. Palavras diferentes, mas as mesmas coisas. Povo pobre. Exércitos. Falta de alimentos.

Vejo que me afastei da política. Quero dizer, deixei de escrever sobre todos os partidos políticos. Governos. Esse tipo de coisa. Mas parece-me que em todos os países em que nossa família esteve as mesmas coisas aconteceram. Estão acontecendo. Mas os Estados Unidos são uma Democracia. A Grã-Bretanha é Socialista. A Nigéria é uma Ditadura Benevolente. (Perguntei a Olga e foi isso que ela disse.) O Quênia é Livre e em Desenvolvimento. (Mamãe diz Oligarquia Benevolente.) O Marrocos é Islâmico e Livre e Socialista e em Desenvolvimento. (Benevolente.) Não sei se este é o tipo de fato sobre o qual devo estar escrevendo. Não posso me convencer de que seja importante. Bem, todo mundo parece achar que é importante. Mas, para mim isso mostra que nossa educação foi muito estranha, para não dizer mais. Quase todo mundo é entusiasmado por este ou aquele partido. Quando temos visitas, eles têm sempre algo a dizer, um depois do outro. Geralmente eu e George temos de nos conter para não rir. E até saímos da sala. E isso acontece em todos os países, não importa sob qual governo. Naturalmente papai e mamãe nunca tomam parte em qualquer atividade política, mas são sempre Peritos, empregados pelo Governo. Isso significa, se se tem o hábito de pensar assim, que devem apoiar esse governo. Ou deveriam. E isso significa que os visitantes devem dizer certas coisas em benefício dos nossos pais e para os outros visitantes. Ê tão maçante! Bem, isso é tudo o que pretendo dizer a esse respeito.

Contatos especiais. Sei que isso é importante. Vejo que sempre foi importante e não compreendo. Porque estou escrevendo isto, começo a compreender as coisas. Estou tentando escrever tudo do modo como vejo as coisas hoje e não naquele tempo, mas é difícil, porque estou sempre escapando para meu modo de pensar quando tudo aconteceu.

A primeira coisa sobre a qual tenho de pensar é Hasan. Logo depois que George voltou do seu ano na fazenda, Hasan apareceu em casa e George começou a passar muito tempo com ele. Pensando bem, tudo aconteceu de um modo engraçado. Porque não parecia estar acontecendo muita coisa. Hasan era uma visita habitual, um membro da Associação Médica. Mas ficou amigo de George desde o princípio. E nós não vimos nada de estranho nisso. Correção. Eu não vi nada de estranho, porque sempre acontecia isso.

Da primeira vez foi em Nova Iorque. George devia ter uns sete anos. Havia uma mulher que nos visitava muito e ela levava George para ver coisas e para fazer coisas. Benjamin foi com eles uma ou duas vezes mas ele não gostava dela. Perguntei a George o que eles faziam e ele disse: falamos sobre coisas. Não pensei muito no assunto naquela época, mas estou pensando agora. E então as férias no País de Gales, nós três. Um homem que vinha da Escócia. Pensávamos que era um especialista em agricultura. Talvez fosse. Mas agora eu duvido. Ele levou George para acampar, uma vez, e para pescar também. E outras coisas. Já me esqueci quais. Não estava prestando muita atenção, mas agora queria ter reparado. Benjamin foi acampar uma vez. Não gostou muito. Ele sempre estava achando as coisas aborrecidas. Era seu estilo. Compreendo agora que não era tanto o que ele pensava, mas um estilo. Para se proteger. Estou aqui sentada tentando imaginar se fui alguma vez convidada para um desses passeios. Por que não fui também? Mas lembro-me que eu gostava tanto da fazenda que nunca queria sair, eles podiam ter-me convidado para qualquer coisa que eu não teria deixado a Sra. Jones. Mas lembro-me de um passeio com George e com esse homem. Lembro-me de alguma coisa sobre ele. Que posso identificar agora. Seu nome era Martin. George gostava dele. E então, a Nigéria. Quando houve a epidemia e nossos pais estavam tão ocupados, nem sempre estávamos com eles. Começamos a ter professores particulares. Um deles era de Kano e ensinava matemática, história e árabe. E também a observar tudo. Dava muita importância a isso. Ensinava a nós três, mas agora me lembro que George saía com ele muitas vezes. E, no Quênia, além da escola tínhamos também professores particulares. Era a mesma coisa. Quero dizer, era sempre George, lembro-me agora.

Perguntei a mamãe sobre isso. (Acabo de perguntar.) Ela sabia exatamente do que eu estava falando, assim que comecei. Estava esperando que eu perguntasse algum dia e tinha pensado em como responderia. Percebi isso logo que fiz a pergunta. Ela prepara-se cuidadosamente para responder a todas as minhas perguntas, sempre. Ê muito paciente com nossas perguntas. Compreendi isso observando outras mães quando os filhos perguntam alguma coisa. Quando fazemos uma pergunta, ela demonstra que está pensando que o assunto é importante e que está tomando a sério.

Eu lhe disse que estava escrevendo este diário. Bem, ela sabia disso. Eu disse que precisava saber os fatos com exatidão. E então contei que à medida que ia escrevendo ia compreendendo as coisas. Ela não pareceu surpresa com isso. Contou-me muita coisa sobre Martin. Quem ele era, e coisas assim. E sobre os professores e sobre aquela mulher em Nova Iorque. Mas quando acabou de dizer que eles eram assim e assim, que faziam isto ou aquilo, ela respondeu, como se eu lhe tivesse feito uma pergunta: eu não sei. Rachel. O modo como ela disse isso antecipou a pergunta que não cheguei a fazer.

Vou explicar o que está acontecendo. Estamos morando em uma pequena casa com um telhado chato. Gostamos mais do que do grande bloco de apartamentos onde morávamos antes. Nesta parte da cidade quase que só há habitantes locais, isto é, nativos. Como são chamados. A maioria deles é muito amável e temos muitos amigos. Quero dizer, amigos verdadeiros. Freqüentemente dormimos no telhado. Ê uma delícia. Deitamo-nos ao relento, sobre colchões, e olhamos as estrelas e conversamos. Ê a melhor hora para nós todos. Sinto-me tão feliz que nem sei o que fazer comigo mesma. Pelo menos quando a família está reunida. Porque isso não é comum. Papai, por exemplo, neste momento está fora, organizando hospitais, com uma equipe de médicos. Médicos "Todos os Tipos", como Benjamin chama esse tipo de equipe, querendo dizer, de todas as raças. Papai está trabalhando muito. Bem, creio que nem era preciso dizer.

Os quartos são pequenos e dispostos ao redor de um pátio. O chão é de terra. Não é uma casa apropriada para "pessoas como nós". Os brancos dizem que somos excêntricos. Eu prefiro ser excêntrica e dormir no telhado olhando as estrelas e a lua.

Mamãe está neste momento no pátio, jazendo um relatório para a OMS* O pátio não é só para nós, mas para diversas famílias. Ê muito barulhento. Ela trabalha no meio disso tudo, crianças brincando etc. Há um grande vaso de terracota com grandes lírios e um lago minúsculo, empoeirado, mas é melhor do que nada.

* Organização Mundial da Saúde. (N. da T.)

 

Mamãe está sentada em uma almofada na beira do lago, escrevendo. Sentei-me ao lado dela.

Não precisei jazer mais perguntas depois que ela disse: não sei, Rachel — apenas fiquei sentada, esperando. Pensei que ela não ia dizer mais nada. Eu compreendo quando ela não diz nada. Estamos juntas a maior parte do tempo e sabemos o que a outra está pensando. Eu sabia que ela sabia que eu estava em um daqueles períodos em que nós compreendemos as coisas subitamente, tudo de uma vez-

Ela me disse: o que você acha?

Devo confessar que isso me surpreendeu. Ela falou em voz baixa, não assustada, nada disso, mas como se realmente não soubesse o que dizer, e como esperasse que eu dissesse alguma coisa sobre a qual ela ainda não havia pensado.

Eu disse: bem Olga, parece que há alguma coisa estranha em tudo isso.

Ela disse: Sim. Sim.

Ficamos caladas por um longo tempo. Não parecia um bom momento para uma conversa importante. Quero dizer, por causa das crianças. O bebê do quarto no outro lado do pátio teria caído no lago se eu não o segurasse a tempo, por exemplo.

Eu disse: só agora senti que havia algo de estranho o tempo todo.

Sim, começou muito cedo. George tinha sete anos.

Sim, com a mulher em Nova Iorque.

Miriam.

Ela era judia?

Sim.

Nunca foi importante o que eles são.

Não.

Então eu disse, no mesmo tom de voz que ela tinha usado, baixo, e no meu caso era porque estava com um pouco de medo, na verdade, George é especial, de certa forma?

Sim, deve ser isso.

O que Simon pensa?

Ele percebeu primeiro. Eu fiquei muito assustada a princípio, Rachel. Mas ele me disse para não ter medo. Disse-me para pensar sobre o assunto. E eu pensei. Nunca pensei tanto em uma coisa em toda a minha vida. Acho que desde então é só no que tenho pensado. Sim, posso dizer isso, Rachel.

E foi tudo, no momento. Levei o bebê para a mãe. Há uma coisa a respeito de viver assim. Ninguém pode dizer que não estamos integrados às próprias raízes da vida marroquina.

Estou aqui pensando há algum tempo. Este é o meu quarto de dormir. Parece mais um cubículo. Mas gosto dele. Ê muito fresco. Ê todo de barro. Tem cheiro de terra. Um cheiro úmido, porque eu borrifo água de manhã, antes do sol ficar muito quente. E jogo água no lado de fora da porta todas as manhãs, também, para abaixar a poeira e o cheiro é delicioso.

Quando olho pela porta, lá está o céu azul. Isso é tudo. Céu azul. Quente.

Neste momento tenho duas coisas em minha mente.

Uma é esta. Benjamin. Um dos motivos pelos quais Benjamin é tão difícil e horrível e tão mal-humorado, e está sempre querendo brigar com George é que ele tem ciúmes de George porque George sai muito com Hasan. Mas Hasan mais de uma vez o convidou para ir a um café ou coisa assim e Benjamin nunca aceita. Isso porque ele pensa que querem que fique satisfeito com um café ou um passeio à noite. Eu sei disso porque infelizmente basta olhar para mim mesma para saber. Eu penso em George tendo todo tipo de experiências realmente profundas com Hasan, não sei o quê, e cafés não são realmente grande coisa. Mas perguntei a George, algumas vezes, quando estamos deitados no teto e ele diz: nós falamos, isso é tudo.

Agora, olhando para trás para lugares e pessoas, sempre que eu perguntava, ele me dizia: nós conversamos, isso é tudo. Ou ele me conta coisas.

Benjamin recusou os contatos especiais desde o princípio. Em Nova Iorque, quando ele tinha apenas sete anos, não gostava de Miriam. Essa é a verdade. Ele teve as mesmas oportunidades de George, mas sempre as recusou. A gente pode pensar e pensar sobre isso. Estou pensando agora, e há algo tão terrível que não sei o que fazer, porque naturalmente estou pensando. O que foi que eu recusei? A mim também sempre ofereceram tudo, mas eu sempre arranjava alguma razão para recusar. Como gostar da Sra. Jones e preferir ficar na cozinha com ela ou alimentar as galinhas.

Benjamin. Sempre a mesma coisa. Desde o começo, ele sempre quis mais do que lhe era oferecido. Queria que Miriam ou Hasan convidassem somente ele, ou qualquer coisa assim. Aposto que teria dito que Miriam o aborrecia se ela o tivesse convidado. E, quando George saía com nossos professores particulares, Benjamin nunca ia com eles. Ele disse uma vez: negro estúpido. O engraçado é que ele não pensa assim, realmente. Quero dizer ele não acha que os negros são estúpidos ou coisa assim. Ele diz isso porque faz parte do seu estilo. O que é assustador, quando se pensa bem. Quero dizer, qualquer pessoa pode fingir, mas o caso é se comprometer com esse fingimento. Como o mímico que não consegue tirar a máscara. Há algo de assustador nisso tudo. Benjamin, na.verdade, não gosta de morar aqui. Faz piadas sobre o "bairro nativo". Mas adora dormir no telhado, e faz amizade com os jovens locais e é gentil com as crianças. E é sincero. Ele gostaria de um apartamento moderno, agradável e sem personalidade, em um prédio moderno, agradável e sem personalidade, tendo por vizinhos pessoas agradáveis e sem personalidade. O que eu acho, agora que penso nisso, é que Benjamin diz essas coisas só porque não é tratado como uma pessoa especial. Mas George não tem sido tratado como uma pessoa especial. George sempre usa as coisas que estão ao seu alcance. Ele as vê, mas Benjamin não.

E geralmente não eram coisas importantes. Pelo menos era o que eu achava naquele tempo.

Pode-se dizer que nada acontecia. Bem, o que aconteceu? George viajou, acampou, foi convidado para tomar chá ou para visitar um museu por este ou por aquele. Ou um professor disse: vamos ao parque. Ou a uma mesquita, ou qualquer coisa assim. Ou apenas: vamos conversar sob uma árvore ou na beira da calçada. Uma vez eu vi George e lbrahim sentados no chão sob uma árvore. Ele tinha mais ou menos nove anos. Ou dez. Foi na Nigéria. Estavam conversando. Só conversando. Olhei para eles e desejei estar lá também. Mas acho que eu disse não quando me convidaram. Não me lembro, mas devo ter dito.

O que são essas pessoas, essa é a questão. Depois de aparecerem em casa algumas vezes, eu digo para mim mesma: eis aí, outra vez.

O que é, então?

Essa é a questão.

Bem, essa é a segunda coisa na minha mente, o que eles são.

Gostei de Hasan desde o princípio, mas achei que ele era velho. Acho que não é. Mamãe diz que ele tem mais ou menos 45 anos. A idade de Simon, aproximadamente.

Hasan conversa muito com George. Passa mais tempo com ele do que os outros "contatos especiais".

George está com Hasan quase diariamente. Ele foi à Cidade Sagrada com Hasan e ficaram uma semana. Agora estou pensando sobre isso. Foi no mês passado. Quando George voltou, percebi que nossos pais não lhe perguntaram o que tinha acontecido durante a viagem. Eles tratam George como se ele fosse adulto. Ele tem 16 anos. Será que têm medo dele? Essa é a palavra errada. Existe uma palavra certa, mas eu não sei qual é.

O que quero dizer é o seguinte. Quanto mais se pensa sobre isso, mais estranho parece. Mas não estranho como quando a gente diz: extraordinário. Quero dizer, a mente vai se aprofundando cada vez mais.

Cada dia há mais coisas para serem consideradas. (Estou escrevendo um pouco cada dia.) E, nos intervalos, penso um bocado e pergunto coisas a minha mãe. Quando George chega em casa, tento falar com ele, mas isso não é muito comum. Ele não é desatencioso. Não nos provoca como costumava fazer quando era criança.

Gostaria de voltar ao tempo em que George não era adulto. Eu não quero crescer. Quero ficar menina. Estou escrevendo isto porque devo contar a verdade. Essa é a verdade. Às vezes (recentemente) tenho observado Olga e Simon, a sua vida, e é sempre tão difícil para eles, posso ver muito bem, não apenas o trabalho intenso, acabo de compreender que eles levam uma vida pesada. Esta é. a palavra certa. Para variar. E eu vejo George agora, e sei que está sendo difícil para ele.

Eu diria que ele está pensando furiosamente. Acho que isso é a questão principal. As vezes ele tem uma expressão que chego a sentir em mim quando fico sentada pensando e pensando. Como se as coisas estivessem se acumulando com muita rapidez e a gente tivesse medo de não poder acompanhar todas ao mesmo tempo. Quando a gente sabe que não está apanhando todas.

Ele fica sozinho com muita freqüência. As vezes ele está no pátio e todas as crianças desta casa e de outras casas vizinhas também estão. Ele brinca com elas, conta histórias, mas está pensando. Ê tão inquieto! Levanta-se e se afasta assim que acaba de se sentar, às vezes, como se tivessem espetado um alfinete nele. Assim que o sol se põe ele vai para o telhado. Esquece-se de comer. As vezes levo um prato para ele, ou qualquer coisa assim. Geralmente ele dá para as crianças. Não é preciso dizer que elas estão com fome a maior parte do tempo. Ele senta-se encostado em uma parte do telhado, com uma das pernas e um braço sobre o outro joelho levantado e olha para o céu, por sobre os outros telhados. E está pensando. As vezes, acordo durante a noite e ele está sentado, acordado, olhando para o céu. E nossos pais também acordam, mas logo adormecem de novo. E agora fico pensando se eles sempre souberam que quando ele tinha quatro ou cinco anos muitas vezes não dormia, e era pior ainda quando tinha sete, quando Míriam começou a visitá-lo. Será que sabiam disso tudo? Tentei falar no assunto com minha mãe, mas ela não gosta de falar sobre isso. Acho que ela sabia o tempo todo mas só compreendeu o que ela própria pensava muito mais tarde, como eu. Mas isto ê difícil. Pesado. Porque, se o que pensamos agora é diferente do que pensávamos naquele tempo, podemos estar certos de que daqui a um ano vamos pensar diferente outra vez. Ou mesmo daqui a um mês, do jeito que meus pensamentos estão mudando agora. Os nossos pensamentos são a última coisa em que devemos confiar.

Mas, apesar disso tudo, há alguma coisa na qual se pode confiar. Por trás dos pensamentos.

Embora essa coisa tão estranha, seja lá o que for, esteja acontecendo, nossa vida familiar é bastante comum e normal. Até Benjamin é normal, creio. Existem outras famílias com filhos "emburrados". Papai diz que Benjamin é "muito emburrado", quando perde a paciência com ele.

Na verdade, Benjamin é terrível. Mas eu sei que ele é assim porque não compreende onde foi que ele errou. Ele deve saber que disse "não" ao que George está fazendo agora. Deve pensar sobre isso. Benjamin pode ser "emburrado" mas não é burro. George o está deixando quase louco. Ele não pensa em outra coisa.

Quando George voltou da viagem de uma semana na Cidade Sagrada ele não perguntou nada, mas ficou rodeando George o tempo todo, como uma tempestade. George é sempre amável com Benjamin. Bem, a maior parte do tempo. Como é comigo. Mas eu sei que muitas vezes ele está muito preocupado com seus pensamentos para notar nossa presença. E provavelmente deseja que não estivéssemos ali. Eu fico em volta dele também. Estou sempre à espera de uma palavra ou um olhar de George. Para não falar em um sorriso. Quando ele era pequeno tinha um sorriso maravilhoso. Um sorriso caloroso e amigo. Mas ultimamente não ri muito. Ele anda todo curvado. Como se tivesse um peso invisível sobre os ombros e precisasse fazer um esforço tremendo para não jogá-lo fora. Âs vezes parece atormentado.

E então, subitamente, quando a família está reunida em volta da mesa ou no telhado, ele começa a fazer graça e brinca conosco e demonstra grande afeição por todos. Eu observo mamãe e papai e os dois parecem aliviados. Eles gostam quando isso acontece. E Benjamin parece uma criança, e grita e ri demais, mas é de alívio. Acho que eu também.

Espero não ser um peso para Simon e Olga como o Benjamin.

Fecho os olhos e vejo a expressão deles quando olham para Benjamin. Ê uma expressão paciente e bem-humorada. Quando olham para George seus olhos são doces e cheios de alegria. Essa é a palavra exata. Eu adoro olhar para os dois quando George está alegre e amigo. Ê como se tivessem recebido um presente maravilhoso. Bem, não creio que eles considerem eu e Benjamin presentes maravilhosos. Não pela expressão deles.

Vejo que este relatório de Fatos é todo sobre George. Não sabia que ia ser assim, quando comecei.

Foi Hasan que me disse para escrever este diário.

Eu não tinha me esquecido que foi ele quem disse, mas esse fato estava no fundo da minha mente. Não se surpreenderia se fosse capaz de esquecê-lo completamente.

São tão engraçadas as coisas que a gente lembra e as que a gente não quer lembrar.

O que aconteceu foi isto.

Foi logo depois do pôr-do-sol. A lua estava aparecendo. Quase não havia estrelas ainda. Estava lindo. Ê maravilhoso quando termina o dia tão quente. A poeira é tão espessa e doce, porque foi jogada água sobre ela. E os gritos e vozes da cidade à nossa volta são misteriosos. E o chamado para a prece também, acho uma beleza. Vou detestar ter de sair daqui. Espero que não precise sair, não por muito tempo ainda. Mas acho que não vai durar muito. E o cheiro dos temperos das comidas. Fico completamente embriagada com ele, todas as noites, ao pôr-do-sol.

George tinha ido para o telhado sozinho. Não me contive, e subi também. Ele sorriu quando cheguei, mas depois pareceu me ignorar. Eu me senti miserável porque ele não me deu atenção. Logo depois Hasan subiu também. George não pareceu surpreendido ao vê-lo. Hasan sentou-se em outro canto do telhado. Ficou calado por algum tempo. O calor do barro do telhado passava para minhas costas e para meus pés. Não me lembro de como a conversa começou. Agora, olhando para trás, ligando essa noite com outras vezes que estive com George e Hasan, vejo que nunca prestei muita atenção em como as conversas começavam. George e Hasan estavam falando, mais Hasan, enquanto George ouvia atentamente. Ele às vezes assentia com a cabeça ou sorria levemente como faz quando alguma coisa lhe agrada. Naquela noite eu compreendi. Compreendi que. estava compreendendo. Eu podia ter compreendido antes que, quando George está com Hasan e Hasan está falando, George ouve coisas nas palavras de Hasan que estão bem além da minha compreensão. Coisas que não posso ouvir. Podia ver pela expressão de George que havia muito mais do que as palavras comuns que estavam sendo ditas. Não conseguia entender. Estava indo muito depressa para mim. Estava acima da minha mente. A conversa aparentemente não era sobre coisa muito importante. Eu pensava de um modo angustioso que não estavam falando de nada especial ou importante. Contudo, o rosto de George se iluminava porque ele entendia as coisas que não estavam sendo ditas.

Fiquei tão infeliz e frustrada que estava a ponto de chorar.

Hasan notou e passou a me observar, enquanto continuou conversando com George, por mais algum tempo. Então, voltou-se diretamente para mim e começou a falar comigo, não do mesmo modo, com mais simplicidade. Perguntou se eu tinha um diário ou algo parecido. Disse que tinha um e que escrevia coisas como: tive uma aula de árabe ou uma aula de guitarra ou fui à escola. Ele disse que queria que eu escrevesse sobre a minha infância.

Agora devo confessar uma coisa. A verdade. Quando ele disse isso, do modo mais casual, senti um imenso ressentimento. Ele não era meu professor nem nada! Por que dizia, como se tivesse todo o direito de dizer, que ele queria que eu fizesse isto ou aquilo? Mas, enquanto me ressentia, estava pensando que se tivesse perguntado se eu queria passar todas as tardes com ele, conversando, sem a presença de George, eu não teria ficado ressentida ou zangada. Muito ao contrário!

Eu sabia que Hasan compreendia exatamente o que eu pensava.

Então ele fez um gesto de assentimento com a cabeça, como se dissesse: isso pode esperar, não se preocupe.

E continuou a falar com George, daquele jeito que estava acima da minha compreensão.

Queria que falasse comigo outra vez, que fizesse perguntas. Desejava que repetisse que queria que eu escrevesse alguma coisa para ele. Minha cabeça estava cheia de idéias. Escreveria ensaios sobre a vez em que eu tinha ido com Olga e a havia ajudado a tratar das pessoas atacadas pelo vírus da epidemia, durante um mês inteiro. Queria que ele me visse como uma pessoa sensata e responsável. Olga tinha dito que minha ajuda fora muito valiosa durante a epidemia e que ela podia confiar em mim para fazer exatamente o que eu tinha prometido. Fiquei cheia de orgulho quando ela disse isso, mas queria que Hasan me visse como Olga via. E então, quando eles me deram atenção, comecei a pensar em coisas tolas e rudes como: ora, se pensam que sou apenas uma mocinha insípida e comum, muito bem, então vou ser exatamente isso. E estava ali sentada, toda irônica no meu íntimo (igualzinha a Benjamin), pensando em escrever uma redação idiota como as que tinha de escrever na escola — O que eu Fiz nas Férias.

Enquanto eu pensava nisso, não ouvia George e Hasan e agora daria qualquer coisa para estar outra vez ali, tentando escutar. Nunca tivera outra oportunidade antes. Não com George e Hasan, por algumas horas, só nós três, enquanto eles falavam. E por que teria outra? Joguei fora aquela que me foi oferecida. Vejo agora que isso foi feito de propósito. Eu tinha desejado e me agitado tanto para estar com George e Hasan, para fazer as coisas excitantes que imaginava que faziam — não sei exatamente a quê! Mas, afinal, o que acontecia era que Hasan falava daquele jeito tão comum e tão especial, e George ouvia. Completamente encantado. Tão absorto que se alguém jogasse um balde de água em cima dele nem ia perceber.

Mas quando me ofereceram a mesma coisa, eu não soube ouvir, minhas emoções se atravessaram no caminho e lá estava eu furiosa e querendo que olhassem para mim, falassem comigo, como uma criancinha.

Vejo agora que isso foi feito de propósito para que eu compreendesse — estavam me fazendo ver — o que se interpunha entre a minha pessoa e a capacidade de aprender com Hasan.

De qualquer modo, uma vez que estou contando a verdade, aqui vai. Desci correndo do telhado, apanhei um ensaio que tinha escrito para a aula de Compreensão de Texto. Tinha orgulho desse ensaio. Tirei boas notas. Mas agora fico pensando. Vou copiar o ensaio aqui. Não é muito comprido. Isso porque eu estava tentando dar a impressão de que minhas nobres emoções me faziam silenciar, ou qualquer coisa assim.

 

O VELHO E A VACA AGONIZANTE

Ontem à noite vi uma coisa na televisão que me afetou e me transformou para sempre.

A televisão estava na praça pública e uma porção de gente viu também. Eram todos pobres, que nunca têm o suficiente para comer.

Era um programa sobre a fome no Sahel. Vários períodos de fome, para ser exata, porque tinham juntado cenas de vários programas para uma apresentação geral.

Uma das cenas ficou na minha mente.

Um velho sentado ao lado de uma vaca.

O homem é extremamente magro. Podem-se ver suas costelas. Os braços e as clavículas parecem de um esqueleto.

Mas tem uma expressão sábia e paciente e seus olhos são pensativos. E muito majestosos.

A vaca é tão magra, pele sobre ossos e o osso pélvico parece descarnado. Pode-se ver como ficará quando morrer, em poucos dias.

Mas ela olha para a câmara, e seu olhar é paciente e sábio.

Por quilômetros e quilômetros, só poeira. Perto da câmara alguns galhos secos, o painço plantado para servir de alimento naquele ano. Mas a seca matou tudo.

A vaca tinha andado até cambalear e cair por terra. Não vai se levantar mais. Vai morrer ali.

O sol é implacável.

O velho construiu um pequeno abrigo para protegê-la do calor. Um pouco de palha sobre quatro paus. Uma sombra pequena e tênue.

A vaca é sua amiga.

O velho está ali ao lado da vaca. Ela está na sombra e ele sentado ao sol. A poeira rodopia em volta deles.

Não há água suficiente para todos.

O velho segura uma lata com um pouco de água. A vaca às vezes fica com a respiração ofegante e sua língua pende da boca e ele deixa cair sobre ela algumas gotas e depois toma um pouco também.

Lá estão os dois. Ele ficará ali até a vaca morrer.

A vaca sabe que vai morrer.

A vaca pensa que pertenceu a esse homem e à sua família durante toda a vida. Mas a mulher e os filhos morreram. A vaca tenta imaginar por que tem de estar ali deitada, sem poder se levantar, ao lado do velho e por que há tanta poeira, e não há chuva, nem comida, nem água.

A vaca não compreende.

O velho não compreende. Mas ele diz que é a vontade de Alá.

Eu acho que é cruel, cruel, e que Alá vai punir-nos a todos por deixarmos o velho morrer ali e deixar a pobre vaca morrer na poeira.

Por quê? Ô Deus!

Por quê? Ô Alá!

 

Bem, voltei ao telhado com isto na mão, pronta para dar a Hasan. Ele estava falando com George e nem me notou. Sentei-me outra vez.

Agora, o céu estava cheio de estrelas brilhantes, e era a hora do jantar em todas as pequenas casas. Eu sabia que logo nosso jantar estaria pronto.

Então Olga chamou: jantar!

Hasan terminou o que estava dizendo e levantou-se. Estava com a túnica branca de costume e parecia muito alto e irreal. Meu coração doía. Doía muito. Eu não sabia o que fazer. Estava confusa.

George levantou-se e ficou ao lado de Hasan. Para minha surpresa, notei que era quase tão alto quanto ele.

Os dois olhavam para mim, altos e irreais, com todas aquelas estrelas à sua volta.

Hasan sorriu. Estendi o meu ensaio mas ele não o pegou. Naturalmente que não. Não tinha pedido aquilo!

Então, eu disse, as palavras saindo aos tropeços: quero jazer isso, vou escrever o diário, é verdade, eu quero mesmo.

Bom, foi tudo o que ele respondeu.

E, acreditem ou não, mais uma vez fiquei ressentida, porque ele não apanhou meu precioso ensaio. Como se ele devesse ter me congratulado ou se mostrar entusiasmado por eu ter dito que ia escrever o diário.

Desci na frente, pela escada no lado externo da casa. George atrás de mim. Depois Hasan. Eu queria que Hasan ficasse para jantar. Tinha ficado várias vezes.

Mas, ao pé da escada, ele disse boa-noite, George disse boa-noite, e isso foi tudo.

Benjamin não estava em casa, graças a Deus.

E foi assim que comecei a escrever tudo isto.

E agora sei por que ele queria que eu escrevesse.

Estou escrevendo várias semanas depois. Nove, para ser exata.

Dois fatos, O primeiro é que muitas vezes me surpreendi — digo isso porque aparentemente foi sempre por acidente, com Hasan e George enquanto conversavam. Ou melhor, quando Hasan estava falando e George ouvindo. Pelo menos agora eu não me emociono nem me torço toda por dentro. Sei ouvir. Às vezes, apanho apenas o sentido geral do que está sendo dito. Mas a verdade é que sei que, depois dessas conversas, eu compreendi uma coisa e George compreendeu outra. Essa é a natureza desse tipo de conversa.

O segundo fato é que George fez uma coisa que eu não esperava, nem em mil anos. Tornou-se o líder de um grupode rapazes da faculdade. E um grupo tão idiota, barulhento e horrível quanto todos os outros. Estão sempre correndo e fazendo discursos, cheios de importância.

E George está com eles.

Eu acho isso horrível.

Sei que mamãe não gosta, nem papai.

Quanto a Benjamin, naturalmente está encantado, cheio de desprezo.

Mas George também está com Hasan todo tempo. Não sei o que pensar.

Mais tarde. Meses depois.

George esteve na Índia, visitando a família do nosso avô.

Ele está mais crescido ainda, se isso é possível, mas continua como chefe daquele grupo e está com Hasan mais do que conosco.

 

História de Shikasta, vol. 3.014, Período entre a Segunda Guerra Mundial e a Terceira. Exércitos: Vários Tipos: os Exércitos dos Jovens.

 

"As coisas que estão para acontecer lançam sombras com antecedência." Esta observação shikastiana era muito adequada em uma época em que o ritmo dos acontecimentos acelerou-se extraordinariamente. Pequenos sinais anunciando importantes fenômenos sociais podiam ser notados, não um ou dois séculos, mas alguns anos antes, às vezes até meses. Jamais foi tão fácil perceber o que estava para acontecer em Shikasta; jamais em tempo algum foi tão fácil para eles compreender a simples verdade de que não controlavam mais o que lhes acontecia.

Na oitava década todos os governos de Shikasta estavam preocupados, geralmente temerosos e reservados, com as conseqüências do desemprego maciço, especialmente entre os jovens. Já era óbvio que as novas (e muitas vezes inesperadas) tecnologias inevitavelmente provocariam desemprego em toda parte, independentemente da crise econômica, devida em grande parte ao uso das riquezas e recursos do planeta sobretudo para guerras e na preparação das guerras; inevitável, mesmo que a população não estivesse crescendo de modo tão alarmante. (O controle natural desse crescimento, provocado por mortes causadas pela fome, por epidemias e desastres naturais — estes aumentados extremamente pelas pressões cósmicas —, só se tornou significativo mais tarde.)

Nessa época, os conhecimentos sobre psicologia das massas, controle das multidões, psicologia dos exércitos eram sofisticados, dentro dos limites que Shikasta impusera a si mesma, (ver subseção 3, "Alterações dos Critérios e Padrões no Cientificamente 'Respeitável' e Permitido. Intolerância Científica Analisada e Comparada com Intolerância Política e Religiosa em Várias Culturas." vol. 3.010, capítulo 9, "Resultados de Pesquisas Secretas em Estabelecimentos Científicos Militares e seu Impacto na Ciência Civil e Revelada."]

Todos os governos tinham uma idéia clara do dilema que enfrentavam; e a maioria deles ocupava-se, de várias formas, em discussões intensivas e permanentes com especialistas, com o controle das populações.

No fim da década ninguém estava alheio ao que se devia esperar do grande número de jovens permanentemente desempregados. As cidades já estavam indefesas ante a violência sem objetivo, feita ao acaso, desorganizada, característica dos pequenos grupos de jovens, homens e mulheres, que, "sem motivo", destruíam tudo o que era possível. Os confortos de que dependiam os centros de Shikasta para uma vida relativamente cômoda — telefones, transporte, parques, edifícios públicos, tudo enfim que era do domínio público — podiam ser destruídos a qualquer momento, desfigurados ou danificados temporariamente. As cidades não eram mais seguras à noite, pois esses grupos de jovens roubavam, assaltavam, assassinavam, sempre no impulso do momento — e sem ódio, quase como se fosse um jogo.

O remédio, reforço policial — um aumento geral na militarização, na realidade —, já estava ressaltando a natureza do problema. Tudo que começa sofre um impulso; as conseqüências do policiamento excessivo, penalidades mais severas e a lotação subseqüente das prisões já superlotadas, são maior intensidade no policiamento, penalidades mais severas e a brutalização mais acentuada de uma população criminosa. Mas esse era o começo do problema, a sua infância. Multidões enfurecidas de — nesse estágio — rapazes, em sua maioria, em ocasiões especiais, como em jogos e espetáculos públicos; a violência ocasional e esporádica, aparentemente sem motivo, dos pequenos grupos — esses sintomas eram a tênue sombra do que estava para acontecer, um prenuncio, embora a vida pública das cidades já estivesse transformada, e os mais velhos já deplorassem a falta dos padrões civis e dos confortos perdidos, pois é preciso não esquecer que podemos olhar para trás e estudar um século de barba-rismo crescente, de profundo horror, quando uma família que desejasse apenas uma vida sem desafios ou drama podia encontrar uma rua tranqüila, e "paz", desde que tivesse a sorte de morar em uma área relativamente abrigada e favorecida, e desde que pudesse se ajustar mentalmente à idéia de relegar a guerra — e suas conseqüências — para o plano de algo que estava acontecendo em outro lugar e que não a afetava; ou algo que lhe tinha acontecido, mas entre tal e tal datas, e depois desaparecera.

Em inúmeras cidades, nesta época de guerra quase permanente, quando a riqueza de Shikasta era toda vertida nas guerras, quando todos os canais de informação falavam sobre guerra e preparação para a guerra era possível viver, por curtos períodos, e fazendo certos ajustamentos mentais, em um estado de ilusão bastante confortável.

Mas isso não era possível aos governos, que tinham de enfrentar os problemas das multidões, a maioria jovens, que não tinham nenhuma perspectiva de trabalho, que nunca haviam trabalhado e cuja educação os preparara para o ócio.

Chegaria o tempo em que esse número teria de aumentar a ponto de se tornar muito mais do que uma violência ocasional e sem objetivo, vandalismo casual. Multidões, massas, a um sinal, mas que lhes pareceria "por acaso", invadiriam as cidades, destruindo tudo o que encontrassem, matando — casualmente e sem razão — os que deparassem no caminho, e, quando a orgia da destruição terminasse, voltariam sombrias e atônitas para casa. Hordas, ou pequenos exércitos, ou bandos, ou até pequenos grupos se espalhariam pelos campos, matando os animais, destruindo a maquinaria, queimando plantações, criando o caos.

O que tinha de ser feito estava claro. E foi feito. Inúmeros desses destruidores e provocadores de incêndios, em potencial, foram colocados em várias organizações militares que tinham títulos civis; na verdade, foi feito o mesmo que se fazia nas épocas dessas desordens em Shikasta; a ladrão era treinado para apanhar o ladrão, os saqueadores controlados por saqueadores, uniformizados e transformados em servidores públicos.

Mas haveria mais, e mais, e mais... e houve mais e mais, milhões. E milhões.

Os exércitos têm seu próprio ímpeto, sua lógica, sua vida.

Qualquer governo que recruta homens ou mulheres e os reúne em um lugar, sob disciplina, sabe que tem de exercitar essa massa constante e vigorosamente, para garantir o reforço de todas as suas energias, embora poucos shikastianos entendessem essa frase em toda a sua dimensão, como deveriam e podiam. Massas de indivíduos em condições de disciplina militar não são mais indivíduos, mas obedecem a leis diferentes e não podem ficai ociosos, pois começarão a queimar, saquear, destruir, violentar, pela própria lógica da massa das suas diversas forças.

Os remédios não eram muitos, nem eficazes, pelo menos, não por muito tempo. Um deles era criar, não um exército, que prestasse juramento a um slogan, a um comandante, a uma idéia, mas, tanto quanto possível, com uniformes diversos. Em cada área geográfica havia dezenas de subexércitos, encorajados a se considerar diferentes de todos os outros. E encorajados a competir de todos os meios imagináveis. Esportes, jogos públicos, batalhas simuladas, marchas forçadas, escaladas, maratonas — Shikasta inteira estava inundada de jovens cheios de energia, com milhares de uniformes diferentes, competindo feroz e ruidosamente em confrontos que a extrema vigilância oficial tornava inofensivos.

E os milhões continuavam a crescer.

Cada vez mais a riqueza do planeta era empregada na guerra, na não-produtividade.

Esses exércitos eram alimentados, agasalhados, cuidados, mas, fora deles, decrescia o nível da alimentação dos povos e o número dos artigos de primeira necessidade. Aterrorizados pelos seus "protetores", dependendo inteiramente da boa vontade das massas uniformizadas, os civis, os desorganizados, os não-militarizados, os não-institucionalizados, mergulhavam cada vez mais fundo na insignificância e no desamparo.

A lacuna entre os jovens — de uniforme, ou à espera de entrar para uma das forças militares — e os velhos, ou mesmo os de meia-idade, era quase total. Os mais velhos tornavam-se cada vez mais invisíveis para os jovens.

No topo dessa estrutura estava a classe privilegiada dos técnicos, organizadores e manipuladores, de uniforme ou não. Uma classe internacional dos peritos em tecnologia, os planejadores e organizadores, alimentava-se bem, morava em boas casas, viajava interminavelmente, conferenciava interminavelmente e tecia entre os países uma teia de peritos e administradores cujo conhecimento da situação desesperada de Shikasta anulava todas as barreiras ideológicas e nacionais entre eles, enquanto nas camadas inferiores essas barreiras se intensificavam e se reforçavam. Os países superpovoados, amontoados, recebiam slogans e ideologias com o próprio ar que respiravam e em nenhum lugar se estava livre deles.

Esses milhares de exércitos de jovens, com seus uniformes multicoloridos, ou pelo menos com bandeiras e distintivos, constituíam apenas um dos tipos dos exércitos de Shikasta.

Em todos os países existiam exércitos especializados, com treinamento diferente do recebido pelos jovens. Eram os exércitos cuja função real era a luta. A tecnologia avançada tornara redundantes os antigos exércitos. Os exércitos especializados eram formados em sua maior parte por mercenários, isto é, voluntários com aptidão especial para matar, ou com experiência nas guerras passadas, ou que procuravam uma justificativa para atos de barbarismo.

Embora a maioria dos jovens recrutados recebesse pouca instrução, e essa mesma de pouca relevância para os problemas que tinham de enfrentar, isso não significa que não tenham recebido o que era na verdade uma doutrinação extremamente meticulosa, sobre as virtudes do conformismo, através da propaganda. As várias formas de doutrinação nem sempre coincidiam com a que lhes era imposta nos exércitos. E devemos nos lembrar de que até mesmo os mais simples e básicos fatos ensinados a um jovem shikastiano na última parte do Século da Destruição sempre eram mais exatos — mais próximos da realidade — do que qualquer coisa que seu pai e seu avô jamais tinham aprendido. Para dar um exemplo, os mapas geográficos comuns, produzidos em massa, usados nas escolas tinham informações que, por sua exatidão e sofisticação, superavam os sonhos mais absurdos dos geógrafos de duas ou três décadas atrás. E a geografia é a chave para a compreensão dos problemas básicos — muito mais do que a maioria dos shikastianos podia supor. Até os jovens com instrução falha e superficial, mal-informados, tinham à mão fatos que contradiziam, de todos os modos, óbvia e implicitamente a propaganda que os perturbava.

O que os shikastianos no início do Século da Destruição chamavam de "dupla linguagem" logo se tornou a norma geral. Todos os shikastianos usavam a linguagem e os dialetos da doutrinação, habilmente, para fins de autopreservação; mas, por outro lado, usavam ao mesmo tempo as idéias e linguagens do fato, do método útil, da informação prática.

Sempre que linguagens e dialetos de uma cultura são ultrapassados pelo desenvolvimento prático, essas linguagens tornam-se repetitivas — formais — e ridículas. Frases, palavras, associação de sentenças formam-se automaticamente, mas não produzem efeito: perderam a força, a energia.

O que aconteceu foi exatamente aquilo que todos os governos haviam previsto, que os aterrorizava e que tinham tentado evitar: os exércitos dos jovens começaram a criar seus líderes, não os que eram designados pelas autoridades. Esses jovens, homens e mulheres compreendiam, graças à quantidade de informação de que ainda dispunham (embora os governos sempre procurassem suprimi-la), os mecanismos das organizações a que pertenciam, os métodos usados para controlá-los, sua sujeição, enfim. E explicaram para as massas que estavam abaixo deles.

Rapidamente, as massas de jovens estavam realizando o que podia ser considerado uma auto-educação sobre a situação real. Que tinham sido orientados para competir entre si, tornando-se inimigos formais; que não lhes era permitido, ou pelo menos não os encorajavam a misturar-se e unir-se; que lhes tinha sido ensinado a temer uniformes e distintivos que não fossem os seus, como a marca do estrangeiro; que sua própria existência fazia tremer os governos; que a estrutura, organização, cada momento de suas vidas eram feitos em função de sua redundância, sua inutilidade no processo de produção da riqueza real — seu pouco valor para a sociedade — tudo isso aprenderam por si mesmos.

Mas compreender não melhorava a situação.

Tinham a infelicidade de ser jovens em um mundo onde a população sempre crescente competia pelo alimento escasso, onde não havia perspectiva de melhora a não ser com a morte de muitos, e onde a guerra podia ser esperada com certeza absoluta.

De país a país, em toda parte de Shikasta movimentavam-se os representantes dos exércitos de jovens, seus próprios representantes, fazendo conferências, explicando, formando organizações e alianças que solapavam e contrariavam os ucasses e regulamentos da camada dominante, dos peritos e administradores — e era como se por toda Shikasta se erguesse um imenso brado de desespero.

Pois, o que poderia ser feito para mudar este mundo herdado pelos jovens?

Mais e mais sentiam-se envoltos por um ódio desesperado e sombrio pelos mais velhos, a quem atribuíam toda a culpa — e, finalmente, compreendendo a própria força, começaram a dar instruções aos seus superiores, aos governos, aos senhores de Shikasta. Como já acontecera tantas vezes antes, os soldados tinham-se tornado muito fortes para um Estado enfraquecido e corrupto. Apenas desta vez isso acontecia a nível mundial. Os governos e seus dependentes, as classes dos militares e técnicos especializados, procuraram esconder o fato, esperando um milagre — talvez uma nova descoberta técnica — que os salvasse.

Os exércitos invadiram Shikasta. Nesse meio-tempo, alastravam-se as epidemias entre os homens e entre o que restava das populações de animais e de plantas. Nesse meio-tempo, as águas e o ar encheram-se de venenos e miasmas, e não havia um lugar seguro. Nesse meio-tempo, todo tipo de desequilíbrios, provocados por sua própria arrogância e presunção maníacas, trouxeram toda espécie de desastres naturais.

Entre as multidões trabalhavam os nossos agentes e servidores, silenciosos, geralmente invisíveis; às vezes, o que era raro, publicamente; Canopus, como sempre, elaborava planos de salvamento e reforma.

E ali moviam-se também os agentes de Shammat. E de Sirius. E dos Três Planetas — todos defendendo os próprios interesses, invisíveis na sua maior parte, sem o conhecimento dos habitantes de Shikasta, que não sabiam reconhecer esses estranhos, não sabiam se eram amigos ou inimigos.

 

DIÁRIO DE RACHEL SHERBAN

 

Nossa família ocupa quatro pequenos cômodos em um dos cantos da casa de barro, se assim se pode chamar uma construção formada de pequenos quartos com portas que dão diretamente para a rua e portas internas que se abrem para o pátio central. Não posso imaginar uma só família morando aqui, a não ser que tivesse dezenas de pessoas, como as famílias dos romances russos. Portanto, o edifício foi feito para abrigar diversas famílias pobres. Sobre nossos quartos fica o pedaço de telhado que nos pertence. São mais seis famílias, cada uma com seu pedaço de telhado, separados por muros baixos, que escondem quem está sentado ou deitado, mas não de pé. Mamãe e papai têm um quarto minúsculo. Benjamin e George usam o outro. Eu tenho um cubículo. Depois, o cômodo que usamos para comer e nos reunir, quando não estamos no telhado. A cozinha é do lado de fora. Ê uma espécie de forno de barro.

Nós nos damos bem com todas as famílias, mas Shireen e Naseem são amigos especiais. Shireen adora Olga. E a irmã dela, Fátima, me adora.

Naseem estudou na universidade e saiu-se bem. Ê inteligente. Queria ser físico. Seus pais privaram-se de tudo para que ele pudesse ir para a universidade, mas não o impediram de se casar, de modo que antes dos 20 anos já tinha mulher e um filho. Ê o modo oriental de ver as coisas. Ele tinha de sustentá-los, portanto trabalha em um escritório. Diz que teve sorte de arranjar esse emprego. Pelo menos é fixo. Muitas vezes tento imaginar como ele se sente, um empregado de escritório, trabalhando das sete da manhã às sete da noite, com mulher e filho e com 24 anos.

Passo muito tempo com Shireen e Fátima. Quando Naseem vai para o trabalho e todos os homens saem do edifício, exceto os velhos, as mulheres se visitam constantemente e as crianças e bebês parecem pertencer a todos. As mulheres tagarelam, riem, brigam e fazem as pazes. Tudo muito íntimo. Às vezes eu acho horrível. Como uma escola feminina. Muitas mulheres juntas sempre riem idiotamente e agem infantilmente e trocam pequenos presentes. Ocidente ou Oriente. Quando Shireen não tem nada além de dois ou três tomates e cebolas e um punhado de lentilhas e não sabe o que vai dar de comer para a família, ela faz um pequeno rissole de lentilhas para uma amiga especial do outro lado do pátio. E essa mulher põe um pouco de açúcar em um pote de iogurte e dá para Shireen. Ê sempre uma festa, mesmo com uma colher de iogurte e sete grãos de açúcar. Ê encantador. Será essa a palavra? Não, provavelmente não é.

Shireen está sempre cansada. Tem uma úlcera em um dos seios, que cicatriza e torna a se abrir. Tem o útero caído. Parece uma mulher de 40 anos em um dos seus piores dias. Naseem chega em casa cansado e os dois brigam e gritam. Ela solta gritos estridentes. Então ele chora. Ela chora e o consola. As crianças choram. Têm fome. Fátima corre para dentro e para fora, gritando e invocando Alá. Ela diz que Naseem é demônio. Depois, que Shireen é um demônio. Então, beija os dois e todos choram mais um pouco. Isso é pobreza. Nenhum deles tem jamais o bastante para comer. Nunca tiveram cuidados médicos adequados. Não sabem o que quero dizer quando lhes falo de cuidados médicos. Pensam que se trata do grande hospital novo, tão mal organizado que é uma verdadeira armadilha mortal e onde são tratados como idiotas. Não vão lá. Quando ficam doentes, tudo o que têm são as histórias de velhas curandeiras. Um médico para tratar realmente deles é muito caro. Shireen está grávida outra vez. Eles estão satisfeitos. Depois que brigam eu os ouço rir. E então há uma espécie de brincadeira agressiva e vulgar. Isso quer dizer que vão fazer amor. Já vi Shireen com marcas no rosto e no pescoço, provocadas pelo ato sexual, e Fátima, a irmã solteira, fica corada e as mulheres casadas caçoam de Shireen. Ela é orgulhosa. Embora esteja sempre cansada e cansada, tem bom humor e é maravilhosa com as crianças. Exceto algumas vezes. Quando está tão exausta que se senta balançando o corpo de um lado para o outro, chorando e gemendo. Então Fátima a consola e trabalha mais do que de hábito, embora sempre trabalhe bastante, ajudando Shireen. Então, Naseem a acaricia e Jura que está zangado porque ela está tão cansada. E há mais antagonismo brincalhão entre eles. Ê um mistério essa maré baixa e alta. Quero dizer, há um mistério nisso tudo. Não compreendo nada. Eu os observo e quero compreender. Eles se respeitam entre si. Tratam-se com ternura. Por causa dessa vida horrível e tão difícil ele jamais poderá ser um físico, ou qualquer coisa além de um empregado de escritório. Muitas vezes ele se revolta quando pensa nisso. E ela será uma velha aos 40 anos. E alguns dos seus filhos estarão mortos. Minha mãe diz que dois deles são muito fracos e não sobreviverão. Porque nenhuma das crianças tem alimento suficiente, podem sofrer danos cerebrais, diz minha mãe.

Ás vezes eu vejo uma velha e penso que deve ter pelo menos 70 anos, e então fico sabendo que tem 40, e teve dez filhos, quatro deles mortos, e é viúva.

Não posso suportar isso. Não posso compreender.

Sou do Ocidente e acredito na igualdade da mulher. Isto é o que eu sou. Olga também. Mas quando Olga está com Shireen e Fátima ela é exatamente igual a elas. Ela ri e mostra-se alegre e íntima. Essas mulheres se divertem a valer. Riem de si próprias por qualquer coisa. Eu as invejo. Acreditem ou não. Deveriam ser miseráveis e oprimidas. E são. A escória da escória. E seus maridos também. Quando se comparam essas vidas, reduzidas a coisa alguma, com o que lembro claramente dos Estados Unidos, tenho vontade de vomitar. A imensa vulgaridade. Quando essas mulheres conseguem uma velha revista americana, uma revista feminina, amontoam-se em volta dela e riem de puro prazer. Uma revista velha e rasgada, dessas que a gente folheia na sala de espera do dentista e pensa que monte de lixo, elas tratam com tanto respeito. Cada anúncio horrível as diverte durante dias. Apanham um desses comerciais e se colocam na frente do único espelho do prédio. Ê um velho espelho rachado cuja dona acha natural que todas usem. Enrolam-se em um vestido velho, comparam-no com o do anúncio e riem.

Eu observo e penso nas coisas que jogamos fora e que nada é bom demais para nós.

Ás vezes elas dizem que vão aprender línguas como eu, esta menina inteligente, e sentam-se à minha volta e eu começo com francês ou espanhol. As crianças também estão presentes, exigindo atenção, e então uma tem de sair, e outra também. Eu fico ali sentada com minhas frases maravilhosas, enquanto elas as repetem. Mas, na próxima aula, o número de alunas é menor, e por fim há apenas duas. Fátima está aprendendo espanhol comigo. Diz que pode arranjar um emprego melhor. Ela é faxineira. Se é que se pode chamar uma moça de 17 anos de faxineira. As aulas de línguas não foram um grande sucesso, mas enquanto duraram serviram de divertimento para elas.

Shireen está encantada porque vai ter outro filho, embora esteja sempre cansada demais para se arrastar de um lado para o outro e signifique uma boca a mais para alimentar. E está sempre preocupada porque Fátima ainda não se casou.

Fátima é muito esguia, não bonita, mas exótica. Sabe como se tornar atraente. Usa kohl e henna e ruge. Tem dois vestidos. Ela os lava e conserva. Benjamin diz que estão bons para uma feira de antiguidades. Mas isso é próprio dele. Eu detesto quando Benjamin chega perto dessa gente. São todos tão magros e elegantes e com movimentos ágeis. Como o ar, porque nunca comem o suficiente. E lá está Benjamin, o grande urso marrom e peludo. George se adapta a eles. Ê igual a eles. Rápido e magro.

Benjamin sabe que está deslocado e que eles o acham surpreendente, portanto fica afastado.

Shireen quer que Fátima se case com um amigo de Naseem que trabalha no mesmo escritório. Naseem acredita que eles vão se casar. Brincam a respeito. Naseem diz: tenha pena, ou coisas assim, por que você quer que a pobre criatura se case e tenha de carregar nos ombros toda esta miséria? E mostra Shireen e os cinco filhos. Ele ri. Ela ri. Fátima ri. Quando estou perto, eu não rio, e eles voltam-se para mim e me provocam, dizendo que eu sou tão solene e aborrecida, até me fazerem rir.

E então vem uma onda súbita de amargura sombria. Ê horrível, uma irritabilidade que domina Naseem e Shireen e eles se odeiam. As crianças choramingam e gritam. Os dois cômodos parecem cheios de sujeira, e vômito de criança, e coisas piores. Moscas. Restos de comida. Ê horrível, esquálido e feio.

Naseem então brinca, dizendo que talvez seu amigo Yusuf prefira a mim em vez de Fátima, porque pelo menos eu sou educada e posso mantê-lo no luxo. Então, Fátima me chama para o cubículo que compartilha com as três crianças mais velhas e apanha seu melhor vestido de um gancho na parede de barro. Ê um vestido azul escuro, muito usado, de fazenda macia. Cheira a Fátima e ao seu perfume, pesado e embriagador. O vestido é todo bordado com cores vivas. Fátima fez o vestido e o bordado. £ uma coisa importante em sua vida. Ela põe brincos de ouro nas minhas orelhas, longos, até os ombros, e depois uma centena de penduricalhos. Ouro, vidro, cobre, latão, plástico. Amarelos, vermelhos, azuis, cor-de-rosa, verdes. A pulseira de ouro e os brincos são preciosos para Fátima, são o seu dote. Mas ela os coloca no meu braço e nas minhas orelhas e fica encantada.

Isso aconteceu várias vezes. Ela adora fazer essas coisas. Porque me admira por ser tão instruída e porque posso fazer o que bem entendo. Acha que sou maravilhosa. Minha vida está além da sua compreensão e é extremamente espantosa.

Ontem à tarde ela pôs todas aquelas coisas em mim e depois pintou meus olhos. Pintou meus lábios de um vermelho escuro e úmido, como os de uma prostituta. Fez-me ficar na frente do espelho rachado da vizinha e as mulheres se amontoaram para ver. Estavam excitadas e encantadas. Então ela me levou de volta aos cômodos da irmã e me fez sentar à espera do jantar. Yusuf ia jantar com eles. Eu disse que ela estava louca. Mas não era a coisa certa para dizer, percebi logo. Ela tinha de fazer aquilo. Shireen, durante todo o tempo, sorria com ar experiente. Naseem chegou, exausto. Magro como um caniço, porque não come nem a sua parte das refeições, sempre dá para as crianças. Riu ao me ver. Então entrou Yusuf. Ele é bonito, com olhos escuros e líquidos. Um xeque da Arábia. Ele riu. Fingiu que eu era a sua noiva. E engraçado e terno. Como se todos estivessem perdoando a todos por alguma coisa. Eu digo, zangada, que tudo isso é idiota porque não tenho intenção de me casar. Mas fiz mal em dizer isso, porque é tudo uma espécie de jogo. Estão criando uma ocasião alternativa. Uma possibilidade. Suas vidas são tão limitadas. Têm tão pouco. E aqui está esta menina ocidental mimada, Rachel. Mas gostam dela de verdade. Mas precisam controlá-la. Afinal de contas, talvez ela se case com Yusuf, quem sabe! As coisas mais estranhas acontecem! Yusuf pode se apaixonar por Rachel! Rachel pode se apaixonar por Yusuf! Um romance! Mas naturalmente não acreditam nisso nem por um momento. E, assim, é uma espécie de possibilidade encenada, nada de zangas. Foi um banquete. Cozido de vegetais e bolinhos de carne. Raramente comem carne. E eu tinha insistido em levar um pudim que minha mãe fez para nós. Era de iogurte e frutas. Shireen fez com que as crianças ficassem acordadas para comer o pudim, depois do cozido. Não podia deixar passar a oportunidade de lhes dar algo nutritivo.

E ali estava eu, toda enfeitada, o bezerro a ser imolado. Foi uma refeição adorável. Eu adorei. E todo o tempo estava furiosa. Não com eles. Com o horror desta pobreza. Com Alá. Com tudo. E tudo era tão ridículo porque Fátima e Yusuf talvez já estivessem casados. Havia aquele algo tão forte e físico, e o antagonismo. Brigam como se fossem casados e seguros um do outro.

Depois do jantar, a sensação de festa empalideceu. As crianças estavam excitadas e impossíveis. Tudo estava em desordem. Naseem e Yusuf foram a um café. Shireen levou as crianças para a cama. Fátima limpou tudo. Então sentou-se ao meu lado e disse: você gosta dele, Rachel? Com seriedade, mas rindo. Eu disse: sim, gosto dele e vou tê-lo! Oh, então vai se casar com ele? Sim, vou me casar com ele, eu disse. Ela riu, mas sua expressão era grave, pois podia haver uma chance em mil de que eu estivesse dizendo a verdade. E eu a beijei para que soubesse que naturalmente não ia casar-me com Yusuf. E todo tempo eu tinha vontade de gritar e chorar. Mas, refletindo bem acho que eu sou extremamente infantil e eles não são.

Então Fátima levou-me para o pátio.

Era noite de lua, a noite passada.

As pessoas estavam sentadas na sombra do pátio. Sentamos ao lado do pequeno lago. Ê minúsculo e retangular. Os lírios no pote de barro exalavam um perfume muito forte. Olga estava lá, sentada silenciosa na semi-obscuridade. Tinha uma das crianças no colo. A criança dormia. Não sei onde estavam George e Benjamin. Olga sabia que eu estava com Shireen, Naseem e Fátima, porque eu tinha pedido para levar o pudim. Ela sabia sobre Yusuf. Estava preocupada pensando que eu não tivesse me comportado bem. Não queria que eu ferisse os sentimentos deles.

Quando saí e me sentei ao lado do lago com Fátima, ela olhou para o meu rosto para verificar se eu tinha me comportado. Olhei para ela com expressão de quem diz: sim, eu me comportei.

A lua estava alta. Poderia refletir o lago, mas havia aquela poeira na água. E pequenos galhos secos. E pedaços de papel. A água nunca está limpa. As mulheres às vezes lavam as crianças que se sujam, no pequeno lago. Ou alguém lava o rosto, quando está muito quente. Olga tentou impedir que usassem a água do lago, mas desistiu. Diz que devem ser imunes a qualquer germe. Fátima inclinou-se para a frente e com a palma da mão começou a tirar cuidadosamente a poeira e o lixo da água. Então Shireen saiu e sentou-se ao lado de Fátima e começou a afastar a poeira da água também. Ela sabia o que Fátima ia fazer, mas eu não. E Olga não sabia. Obviamente estavam tramando alguma coisa. Limparam a água por algum tempo. As pessoas estavam sentadas à nossa volta, cansadas depois do dia quente, observando as irmãs que afastavam, com o lado da mão, a poeira da água e tentando adivinhar o que ia acontecer.

Então Naseem voltou do café. Tinha-se demorado só uma hora. Estava cansado e bocejava sem parar. Ficou por algum tempo encostado na parede olhando as duas irmãs. Então, sentou-se ao lado da mulher, perto, mas não muito perto, porque eles agem com dignidade em público. Estava perto porque queria estar. Sua perna e sua coxa estavam a uns dez centímetros das pernas cruzadas de Shireen, mas eu podia sentir o calor daquela proximidade. Podia sentir a compreensão entre os dois, em sua carne. Estavam conscientes de cada parte do outro, embora quase não se olhassem e Shireen continuasse a limpar a água. Fiquei assombrada com o que sentia entre eles. Quero dizer, a força daquilo. Se ao menos eu pudesse entender. Aqueles dois sentados juntos no escuro, na borda do pequeno lago, com a lua brilhando lá em cima — todas as outras pessoas não existiam para eles. Não sei como explicar. Estava olhando fixamente para eles e tentando desviar os olhos.

E durante todo o tempo Shireen continuou a tirar a poeira e a sujeira da água, e Fátima limpava e afastava a poeira. E eu, sentada ali, toda enfeitada. Então afinal o lago ficou limpo. Era um pequeno retângulo de água com um pedacinho de lua brilhando nele.

Fátima, sorrindo satisfeita, e Shireen, sorrindo e encantada, se aproximaram de mim, uma de cada lado, e gentilmente me empurraram para a frente para olhar a água.

Eu não queria. Sentia-me ridícula. Mas precisava. Naseem estava ali sentado, as pernas cruzadas, alerta, observando, sorrindo, muito bonito.

Olhei para mim mesma. Eu estava linda. Eles me fizeram bonita. Parecia muito mais velha, não com 15 anos. Era uma mulher de verdade, ao estilo deles. Detestei a coisa toda. Senti que Shireen e Fátima estavam me segurando e me levando para uma terrível rede ou armadilha. Mas eu as amava. Amava aquela compreensão vigorosa entre Naseem e Shireen e queria compartilhá-la, ou pelo menos saber o que significava. Não era apenas sexo, oh, não.

As duas exclamavam sua admiração vendo o meu reflexo, batiam as mãos suavemente e fizeram Naseem inclinar-se para olhar no lago e ele bateu as mãos, com um misto de ironia e admiração. E todas as outras pessoas ao redor do lago estavam sorrindo.

Tive medo de que George chegasse e visse essa brincadeira. Porque ele não tinha visto o começo de tudo. Senti que as lágrimas começavam a correr e esperei que ninguém notasse. Mas naturalmente Shireen e Fátima notaram. Mais exclamações e me beijaram e enxugaram as lágrimas do meu rosto com o lado das mãos ainda úmidas da água do lago e disseram que eu era linda e encantadora.

Durante todo tempo, Olga ficou ali sentada observando, com a criança adormecida no colo. Ela não sorriu. Ela não deixou de sorrir.

Olga, e vou escrever aqui um fato, não é bonita. Porque está sempre cansada e não tem tempo. Ê a inglesa típica, apesar do seu pai indiano. Ê sólida e entroncada. Tinge os cabelos de louro e a tintura quase nunca está perfeita. Os olhos escuros são sensatos e amáveis. Na verdade, ela é muito gorda. Isso porque às vezes se esquece de comer durante um dia inteiro e então, faminta, vai ao armário e distraidamente come pão, ou o que tiver, para matar a fome. Não se importa. Ou então come quilos de frutas e de doces na hora da refeição, quando está escrevendo um relatório.

Tem roupas bonitas que compra de uma vez, para se ver livre desse trabalho, mas não se lembra de cuidar delas.

Ficou ali sentada olhando aquela sua filha, que estava tão bonita e exótica.

Estava muito interessada em tudo aquilo. Eu sabia muito bem que pensava que seria bom para mim. Educativo. Como morar neste prédio pobre, na parte pobre da cidade, é bom para nós.

Não consegui parar de chorar. As moças ficaram muito perturbadas. De repente elas não entendiam mais nada. Logo Naseem as levou para casa, mas antes Shireen e Fátima me abraçaram e me beijaram, com muito carinho e muito preocupadas, e eu mais do que nunca tive vontade de chorar como uma criancinha.

Fiquei na beira do lago. Olga também. Então, os outros foram dormir. Todos tinham de se levantar cedo e estavam cansados do dia trabalhoso.

Só ficamos Olga e eu. Inclinei-me para a frente e examinei aquela beleza encantadora. Emagreci neste último ano. Às vezes olho para o meu corpo, sem roupa. A rainha de Sabá não ganha em nada. Seios e lírios e taças e umbigo e tudo o mais. Mas não quero nada disso. Como posso querer crescer e casar e ter seis filhos e saber que eles vão morrer de fome ou que nunca terão comida suficiente.

Quando não havia mais ninguém, nem o perigo de algum deles voltar para o pátio, fiz uma coisa que estava querendo fazer, mas não ousei enquanto Shireen e Fátima estavam ali. Eu as amava muito.

Apanhei areia do vaso de lírios e gentilmente a espalhei sobre a superfície parada da água brilhante. Gentilmente. Não muita. O bastante para não poder mais ver a linda e exótica Srta. Sherban, Rachel, a virgem núbil.

Olga observava. Não disse uma palavra.

Inclinei-me sobre o lago para me certificar de que não podia mais me ver, apenas o desenho apagado da bela lua, brilhando entre as estrelas.

De manhã, se Shireen e Fátima se lembrassem e olhassem por acaso, pensariam que o vento tinha levado a areia para o céu e alguma tinha caído no lago.

Olga levantou-se e levou a criança para a mãe. Então voltou, passou o braço pela minha cintura e disse: agora, vamos, vá para a cama. E me levou para nossos cômodos. Abraçou-me e beijou-me. Disse: Rachel, não é tão ruim quanto você pensa.

Disse em tom bem-humorado, mas com algum desespero.

Eu disse: oh, sim, é.

Ela foi se deitar.

Sentei-me na soleira da porta do meu pequeno quarto de barro, com os pés na poeira, e olhei a noite. Naturalmente estava ainda usando o melhor vestido de Fátima e seus preciosos enfeites de ouro. Estar dentro daquele vestido que ela havia usado milhares de vezes era algo indescritível. Se existe uma palavra, não sei qual é. A fazenda do vestido estava cheia de Fátima. Mas a questão não era essa. Cheirava,a Fátima, à sua pele, ao seu perfume. Era como se tivesse posto sua pele sobre a minha. Nenhum outro vestido em toda a minha vida jamais se pareceu com aquele. Nenhum foi tão importante. Se encontrasse um pedaço dele, daquela fazenda, dentro de uma gaveta ou em uma caixa, em qualquer lugar do mundo, eu teria de dizer, imediatamente, Fátima.

A fazenda morna e macia queimava-me.

Posso compreender a velha história da mulher que abre o peito com as próprias unhas. Se não fosse o vestido precioso de Fátima, do qual ela ia precisar para o casamento, eu teria rasgado o pano e o meu peito com as unhas. E teria arranhado meu rosto também, mas o sangue mancharia o vestido de Fátima.

Fiquei ali sentada até a noite adquirir um tom cinzento. Alguns cães passeavam ao luar. Muito magros. Três cães. Vira-latas. Tão magros que não tinham barriga, só costelas. Eu podia sentir sua fome. Vivendo neste país tenho uma ardência no estômago, a fome que eu sei todos sentem o tempo todo, mesmo quando estão dormindo.

Então faço minhas refeições com a família, porque seria ridículo não comer. Mas cada garfada parece um peso, parece demais, e penso nas pessoas que estão famintas. Tenho certeza de que mesmo que vivesse em um país onde todos tivessem o suficiente para comer o tempo todo, mesmo que vivesse aí durante anos, continuaria sentindo esta ardência no estômago.

Não me deitei a noite passada. Quando o sol apareceu, tirei o vestido de Fátima, dobrei-o e coloquei os brincos e todos os berloques junto com ele. Mais tarde vou levar tudo para ela. Um dia, muito em breve, espero, eu e Shireen vamos ajudar Fátima a pôr esse vestido para se casar com Yusuf.

 

 

Carta de benjamin sherban a um amigo da faculdade

 

Caro Siri.

Aqui está o relatório que prometi sobre o circo.

Na véspera de partir, à tarde, George "recebeu" — a única palavra para isso, creio! — representantes das três organizações que vai representar. Judeus Guardiães dos Pobres (mulher, negra). Federação da Juventude Islâmica para Proteção das Cidades (homem, com ar superior, um misto de marxista socialista peculiar a ele e a talvez uns quatro outros, e uma ascendência muito antiga que faz questão de que todos reconheçam). Federação Cristã Unida dos Jovens Funcionários para Proteção Civil (mulher, morena).

Os três confiaram um grande número de mensagens, anotações, advertências e votos de boa sorte ao seu delegado e partiram para três diferentes e distantes áreas do Marrocos, muito satisfeitos.

Acompanhei George, por causa da insistência dele, e quando chegamos fomos recebidos na casa do professor Ishak. As intermináveis confabulações habituais prolongaram-se até depois da meia-noite e mais uma vez George parecia precisar do meu apoio, do contrário eu teria ido para a cama. Essas conversas pré- e/ou pós-conferências nunca me interessaram.

Mais de mil representantes de todo o mundo reuniram-se no Salão Bênçãos de Alá, que é moderno, tem ar refrigerado, é grande, circundado por bares e cafés, pequenos restaurantes atraentes para orientais e ocidentais, nortistas e sulistas, e tudo do melhor. Desde o começo da reunião, todos estavam provando as delicias apresentadas, especialmente os delegados da Europa ocidental, e muito particularmente os representantes das ilhas Britânicas, que se satisfazem com uma meia refeição, sempre que se lhes oferece a oportunidade.

Discursos começaram às 9h. George é um dos oradores. Todas as coisas para todos os homens. Para não mencionar as mulheres. A metade dos representantes é de mulheres, e não deixam nada a desejar, mesmo para meus olhos de conhecedor. Havia quase tantos uniformes diferentes quanto delegados, de todas as cores, e o lugar parecia a sala de amostra de uma estamparia. As medalhas brilhavam. Fitas fulgiam. Será mesmo possível que tanto valor, inteligência, realização, devoção a todo tipo imaginável de dever estivesse reunido no mesmo lugar, na mesma hora?

Seu pobre amigo não estava entre os uniformizados. Eu estava com a minha túnica pós-Mao e com os distintivos da nossa faculdade. George usava um conjunto de algodão que não podia ofender ninguém e seus três distintivos, Judeus Guardiães dos Pobres, Federação da Juventude Islâmica para Proteção das Cidades e Federação Cristã Unida dos Jovens Funcionários para Proteção Civil, superando em importância e em estratégia todos os interesses locais com a maior facilidade. Naturalmente estava belo como a estrela da tarde (como ouvi dizer alguém num murmúrio delicioso) e ninguém, homem ou mulher, deixava de se comover ante aquele homem belo e modesto.

O tema da conferência era a união e cooperação geral e troca de informações e de amor e boa vontade (etc. e assim por diante) entre as Organizações de Jovens do Mundo, logo, era necessário, antes de tudo, antes de descermos às praias perigosas da unanimidade, estabelecer fronteiras, eliminar mal-entendidos e efetivar reivindicações. As habituais agressões verbais (bocejo bocejo) começaram imediatamente.

A Federação da Juventude Comunista (Ramo europeu, seção 44) pelo Esporte e Saúde entrou na discussão, com algumas referências rotineiras sobre os cães do capitalismo, as hienas fascistas e os chamados democratas.

Uma abertura convencional e sem dúvida modesta.

Foi contestada pela Seção Jovem da Liga Escandinava de Proteção das Costas, com referências a escravistas tiranos, carcereiros do livre pensamento, pervertidos que desviam as verdadeiras correntes do desenvolvimento humano para os canais lodosos da retórica repetitiva.

E então foi a vez da Juventude Soviética a Serviço do Mundo (Subseção 15) com oportunidades revisionistas e necrófagos das riquezas dos cofres da teoria marxista.

Os delegados da Federação Islâmica Social Democrática do Norte da África iam-se contentar em permanecer silenciosos? Herdeiros deteriorados da corrupta ética revolucionária e contaminadores dos verdadeiros ideais da herança socialista que se intitulavam guardiães do dogma — foi o mínimo que disseram.

E, agora, o que disseram os Representantes da Juventude Chinesa pela Paz e Verdadeira Liberdade? Você está perguntando, não está? Com diligente dedicação à definição exata, eles se manifestaram: o uso de dogmas religiosos supersticiosos e arcaicos para escravizar as massas, e a bazófia vazia de peões fracassados do sistema econômico antediluviano.

Agressores das verdades absolutas e eternas, guardadas no relicário do Corão!

Opressores desregrados!

Invectiva rançosa!

Poluidores da verdadeira herança da saúde mental crescente das massas trabalhadoras da humanidade!

Essa estonteante troca de insultos foi interrompida pela representante da Juventude Norueguesa contra a Poluição do Ar, as trancas louras balançando-se, os seios trêmulos e ansiosos, ela gritava que tudo não passava de tolices disfarçadas em pensamento livre e flexível e era exatamente o que esperava de tantos homens prisioneiros de suas doutrinas decadentes.

Veio então a plenipotenciária dos Exércitos de Jovens Britânicos para a Preservação das Crianças e discordou da norueguesa, dizendo que, na sua opinião, os delegados 1 e 5 estavam certos, mas os delegados 3 e 7 sem dúvida não estavam, e, quanto a ela, só podia ver racismo nessa farsa de humanismo, e preconceito óbvio nos gordos bêbados dos chiqueiros da auto-indulgência pós-imperialista.

Isso nos levou ao primeiro intervalo, e saímos em bando, irmãos e irmãs, rindo e brincando e trocando endereços e nomes de hotéis, e números dos quartos, e os que há cinco minutos se insultavam começavam a cimentar uma amizade eterna.

Meia hora depois, estávamos na luta novamente.

Não vou aborrecê-lo citando nomes e estilos dos mestres dos insultos arcaicos, mas apenas registrarei algumas das minhas observações, a primeira das quais é a necessidade absoluta de invocar o reino animal (o que os nossos antepassados nos deixaram dele) nos momentos de maior mentalização.

Cães covardes e hienas já citei, mas logo chegaram gatos gordos, porcos — para indignação dos semitas, árabes e judeus — pombos arrulhadores de hipocrisias, serpentes (escorregadias e de outros tipos), mariscos venenosos das praias da poluição mental, crocodilos e rinocerontes atacando cegamente através das sutilezas da revelação marxista.

E o que dizer dos fenômenos naturais? O que faríamos sem eles?

Depois do almoço, que foi farto e amistoso, mais uma vez dando sustento tão necessário aos famintos, voltamos ao salão, unidos por uma aura brilhante de boa vontade, e anotei: orvalhos da aurora trazendo o refrigério da vida do Islã às areias vazias da impiedade irreligiosa. Flores do Pensamento do Nosso Mestre. (Mestre de quem? Não me lembro.) Tsunamis* de obscurantismo ignorante. Bancos de areia de má interpretação obstinada. Ventos contaminados de mentes doentias. Águas estagnadas do dogma. (Não me lembro que águas. Marxistas? Islâmicas? Cristãs? E quem se importa? Não eles, por certo.) Trombas d'água de confusão. Reservatórios vazios de teoria falida. Terras improdutivas onde nada vinga a não ser os cardos ressecados de credos agonizantes. Desertos de mortífera destruição. Nuvens de fraternidade superficial. Dinastas tentando refrear as ondas nascentes da inspiração marxista. Pés de barro. Cabeças empoeiradas mas erguidas. Células cerebrais danificadas pela erosão. Areias movediças de... rios transbordantes de... ramos embolorados de...

* Tsunami — em japonês = grande vaga, maremoto. (N. da T.)

 

E assim chegamos à refeição da noite, e podia-se observar que alguns de nós estavam tentando engolir tudo o que podiam, nossa primeira refeição completa a julgar pela aparência de muitos. E então, o baile! Estavam todos lá, homens e mulheres, um verdadeiro jardim de uniformes coloridos e algumas moças com uma ou duas flores timidamente colocadas entre os cabelos, e até mesmo um ou dois vestidos. Estas últimas estavam rodeadas de admiradores, o que uma moça qualificou desaprovadamente de "assalto sexual", mas foi a única voz discordante na festa perfeita de amor e harmonia. Fazendo minhas perguntas habituais, realizando minha habitual análise solitária, descobri que para muitas dessas pobres almas esse era o primeiro festival "real", isto é, a primeira vez que encontravam outros grupos diferentes, tendo conhecido apenas socialistas revisionistas, Novos Pensadores Islâmicos, ou coisa assim. Esses estavam realmente se divertindo, absolutamente maravilhados pela riqueza de pensamento existente neste imenso mundo, "oh, admirável mundo novo que tem pessoas como essas!" e precisavam ser protegidos contra sua inexperiência por algumas almas atentas, eu entre outros (designado para isso por George), pois, embora não tivéssemos nada contra as pessoas acordarem em camas que tinham escolhido, tentávamos evitar um triste despertar, de madrugada, nos braços de completos estranhos. E depois, fui para a cama. (Sozinho.) Mas George passou a noite toda conversando, como de costume.

No dia seguinte pairava no ar uma sensação de urgência, pois a parte principal da agenda estava para ser apresentada, mas não, as preliminares não tinham terminado ainda.

Prevaleceu uma temática militar. Identificação do alvo obscurecida por retórica vazia... invectiva automatizada... mira calibrada no front sociológico... conservar as posições inimigas à vista da perspicácia revolucionária social-identificação do alvo obscurecida por armas de análise falhas... vigilância nas fronteiras constantemente variadas da mudança social... minas no setor social... invencíveis batalhões de dialética... bombas de profundidade nos nossos bastiões intelectuais... penetração fatal em baixa altitude das bases teóricas... camuflagem inútil de uma posição ideológica já em colapso... demolição de... destruição de... reconhecimentos... medida de altura... procura do alcance de mira...

Você pensa que este devia ser o fim? Bem, quase, havíamos chegado ao intervalo da manhã, e só tínhamos o resto do dia para nossos objetivos reais.

Mas ouviam-se ainda murmúrios da tempestade que morria... comunistas burgueses... socialistas burgueses... democratas burgueses... tecnocratas burgueses... pseudofilósofos burgueses... pessimistas burgueses... optopolimatas burgueses... burocratas burgueses... e racistas burgueses e sexistas burgueses.

Faltando uma hora para o almoço e com os perdigueiros do tempo acossando nossos calcanhares sempre em movimento, chegamos ao ponto, e uma vez que a essa altura estávamos todos cimentados em uma única alma, dispensamos os debates para as resoluções sobre unidade, fraternidade, cooperação e assim por diante. Pois esses são os princípios aos quais nós todos servimos. E depois do almoço veio o acordo fácil sobre a formação urgente e necessária de exércitos subsidiários e campos e organizações para as inúmeras crianças sem lar e sem pais de todo o mundo. Foi eleito um subcomitê para tratar do assunto, do qual me vi embaraçadamente fazendo parte, pois não esperava isso. Sei que George fez com que Ali me escolhesse, mas não tenho prova e não me importa, pelo menos é alguma coisa útil. Na verdade, urgentemente necessária.

Diversos subcomitês foram eleitos em menos tempo do que o necessário para escrever estas palavras, para uma grande variedade de tarefas, como cursos intensivos sobre as reais diferenças nacionais e regionais (note-se que as irritantes obrigações dos retóricos hostis foram habilmente sobrepujadas nesta única palavra não-abrasiva — compreendida por todos os presentes com sorrisos satisfeitos) e sobre sobrevivência, e sobre o intercâmbio de grupos entre os países. E assim por diante.

A conferência terminou apressadamente, as bandas tocando em acelerado, porque tínhamos excedido o tempo regular, um vasto número de hinos nacionais, canções das organizações e música marcial de todos os tipos e estilos, mas, graças a Deus, os delegados já estavam saindo para tomar os seus carros, muitos em verdadeiras torrentes de lágrimas pela interrupção das amizades e dos amores, fazendo planos improváveis de novos encontros, beijando-se, abraçando-se, acenando. Jamais houve uma cena igual de — será certo? — traição, pois esses inimigos estavam unidos como balas de cevada em dia de chuva, e mal podiam se separar.

E assim terminou a conferência.

George estava satisfeito. Na viagem de volta mostrou-se bem-humorado, cantando e brincando. A vida e a alma da festa, pode-se dizer, e eu digo. Suponho que não é de todo mau, o meu santo irmão. Mas, o que ele estava fazendo lá, afinal?

 

 

DIÁRIO DE RACHEL SHERBAN

 

Há muito tempo não escrevo. Dezoito meses, para ser exata. Agora estamos em Túnis. Um bairro moderno. Infelizmente. Eu digo infelizmente. Sentia-me completamente em casa naquela toca de coelhos de barro. Adorava morar lá. Benjamin gostou da mudança. Assim que ele entrou neste apartamento sem graça sentiu-se em casa. Pode-se perceber que está se expandindo a cada minuto. Sorridente e aliviado. Não tive notícias de Shireen e Naseem. Fátima casou-se com Yusuf logo depois que nos mudamos. Moram em um quarto ao lado de Shireen e Naseem. Suponho que em breve Fátima terá cinco filhos. Quem vai ajudar Shireen com os seus? Eu ajudaria se estivesse lá. Sinto como se fossem minha família tanto como esta. Eu os amo. Hoje aqui, amanhã ali. Neste prédio de apartamentos, nada de dormir no telhado. A melhor coisa que já fiz.

Bem, pelo menos aqui não nos chamam de excêntricos.

Estou me obrigando a escrever isto porque não sei o que penso sobre as coisas. Especialmente sobre George. Eu detesto esse negócio todo de movimento jovem. Acho que é infantil Simplesmente não compreendo como podem levar a sério. Ê óbvio para a mais ínfima inteligência por que eles se juntam ao movimento. Ê porque não terão nenhum privilégio de outro modo. Acho isso desprezível. E George está metido nele até as orelhas. Naturalmente, muitos deles precisam fazer parte de alguma coisa. Ê a lei.

A última vez que escrevi eu acabei compreendendo o que acontecia. Vou tentar outra vez-

Da última vez foi Hasan quem disse que eu devia escrever.

Onde está Hasan? Desapareceu completamente de nossa vida. E George aparentemente deixou Marrocos sem nenhum sentimento. Aparentemente, mas quem sabe o que ele sente? Mas creio que nunca mais viu Hasan e encontravam-se diariamente em Marrakech. Perguntei se sentia falta de Hasan e ele pareceu aborrecido, depois suspirou. Por minha causa, naturalmente. Perguntei outra vez, e ele disse: Rachel, você está fazendo as coisas mais difíceis.

Depois que viemos para cá, George já esteve na índia outra vez. Não falou sobre a viagem. Olga e Simon não perguntaram. Por isso também não perguntei. Benjamin perguntou. Mas com algum sarcasmo. Quando ele fala assim, George não responde. De qualquer modo, ele foi convidado e não quis ir. Mas George tem estado muito com Benjamin. Ã noite, muitas vezes vão aos cafés. Eu raramente vou. Estou estudando para os exames. Vou fazer geopolítica, geoeconomia e geoistória.

 

Compreendi uma coisa. Estudo para os exames. Benjamin estuda para os exames. George não estuda para os exames. O que ele faz é isto. Em todo lugar em que moramos, ele freqüenta a universidade ou coisa assim. Ou tem professores particulares. Ou viaja com mamãe ou papai, embora agora não tanto, mais quando ele era menor. Agora viaja com outras pessoas, como Hasan. Mas não faz exames. E sabe tanto quanto nós sabemos. Mais até. O que acontece é que ele freqüenta uma classe, ou tem um professor particular durante mais ou menos um mês, e fica sabendo a matéria. Nossos pais nunca o fizeram fazer exames. Mas nós sempre temos de fazer. Eles fazem questão de que ele aprenda tudo o que é possível. Mamãe está no Sul, onde há uma epidemia, por isso vou perguntar a papai.

Perguntei. Obviamente ele esperava a pergunta. Disse que se supunha que George não precisava fazer exames. Supunha-se. Não percebi logo que ele tinha dito isso. Então perguntei, quem supõe? Eu estava irritada e um pouco sarcástica. (Como Benjamin.) Papai mostrou-se muito paciente, afetuoso, mas definitivamente de sobreaviso. Não evasivo.

Ele disse: você já devia ter compreendido a situação, Rachel.

Isso me fez refletir. Porque naturalmente acho que compreendo.

Eu disse: sim, creio que sim. Mas o que quero saber é quem disse a você e a mamãe que George devia ser educado desse modo?

Ele disse: foi sugerido pela primeira vez em Nova Iorque.

Miriam?

Ele disse: sim, é isso. E depois, os outros.

Subitamente compreendi. Foi como naqueles momentos em que Hasan estava falando e eu compreendia de repente alguma coisa, embora não tivesse sido dito nada de muito importante. Vi que o mesmo tinha acontecido com meus pais. Obviamente Miriam, e depois um dos professores ou outra pessoa tinham dito coisas simples e casuais que ficaram em suas mentes e, então, lentamente compreenderam.

Escrevendo sobre isso, sinto que preciso saber mais sobre Simon e Olga. Como é que são como são? Por que entenderam com tanta facilidade? Ou talvez não tenha sido fácil. Mas compreenderam. Não conheço outros pais, quero dizer os das minhas amigas, que sejam capazes de compreender uma coisa dessa. Agora, pensando na nossa educação, toda ela, todas as coisas estranhas, os professores particulares e os cursos especiais e a companhia de Olga e Simon em tantos lugares, alguns deles perigosos, e como permitiram que George fosse educado desse modo, e vejo como são diferentes. Para começar, e acima de tudo, preocupam-se muito conosco. A maioria dos pais não se incomoda.

Acabei de perguntar a papai. Ele está trabalhando em alguns papéis no quarto de dormir. Bati na porta, entrei e ele disse: espere um pouco, Rachel. Terminou de fazer alguns cálculos. Então perguntou: o que é?

Sentei na cama, num lugar de onde podia ver seu rosto iluminado pela lâmpada. Sentia-me muito decidida, mas não sabia o que perguntar.

Simon empurrou a cadeira para trás e voltou-se para mim. Ele está começando a envelhecer. O cabelo está grisalho e tem emagrecido muito. Está cansado. Posso perceber que preferia que não o tivesse procurado nesse momento. A luz da janela reflete nos seus óculos e eu queria ver seus olhos. Quando estava pensando nisso ele tirou os óculos. E bem o modo dele. Subitamente senti uma grande afeição e entrei no assunto. Disse que queria perguntar algo difícil. Pergunte, então. Quero saber por que você e mamãe são o tipo de pais que são. Por quê?

Não pareceu surpreso. Compreendeu logo. Mas estava pensando sobre o que ia dizer. Sentava-se com as pernas estendidas, quase até a cama onde eu estava. Balançava os óculos na mão. Isso sempre irrita mamãe. Óculos são difíceis de conseguir, quanto mais de consertar.

Ele disse: por mais estranho que pareça — é assim que começa a dizer coisas que acha difíceis. Com humor. — Por estranho que pareça, esta não é uma idéia nova para sua mãe ou para mim.

Por estranho que pareça, não fico surpresa ao ouvir isso. Suponho que como de hábito você estava à espera deste momento da verdade e tem um discurso preparado.

Alguma coisa assim, disse ele, balançando os óculos.

Mamãe vai matar você se quebrar os óculos.

Desculpe-me. Colocou os óculos sobre a mesa. Escute, Rachel, acho que você compreende isso tanto quanto nós.

Oh, não, respondi, furiosa. Pensei que ele ia fugir ao assunto. Isto é, eu disse, é impossível. Escute! Lá estão vocês e seus três filhos, mamãe, papai e três filhinhos queridos, em Nova Iorque e vocês naturalmente querem o melhor para eles. Então aparece uma mulher como todas as outras, chamada Míriam Rabkin, que compra sorvete para as três crianças e diz: oh, não, não se incomodem em mandar George para uma escola comum, deixem que ele vá aprendendo tudo o que puder, isso é o melhor, e enquanto isso vou levá-lo ao Museu do Homem Moderno. E vocês dizem, mas naturalmente, Sra. Rabkin, que ótima idéia, faremos exatamente isso.

Silêncio. Ali estávamos nós. Ele sorria simpaticamente. Eu sorria com desespero. Ando me sentindo muito desesperada nestes últimos dias. Essa é a verdade.

Alguma coisa assim, diz ele.

Muito bem. Em Marrakech George passa exatamente três meses na classe de Mahmoud Banaki. Quando sai, ele sabe tudo sobre a História das Religiões no Oriente Médio, desde Adão pelo menos, se não antes. Certo?

Certo.

Mas quem disse a vocês que deviam mandar George fazer aquele curso naquela época?

Hasan.

Quer dizer que ele apareceu por acaso uma tarde e disse: Sr. Sherban! Sra. Sherban! Sou Hasan e estou interessado em George, um garoto muito promissor, e quero que compreendam etc. etc. E vocês dizem: naturalmente! E pronto.

Ele começava a se colocar na defensiva, mas com paciência.

Rachel, você está se esquecendo de que Hasan veio depois de muitos outros desse tipo.

Dizendo desse tipo daquele modo significava que eu tinha de aceitar suas palavras e os pensamentos que tinha sobre o assunto.

Está bem, eu disse.

Lá estava ele, inclinando a cadeira para trás, num movimento de balanço, olhando para mim. E eu olhava para ele.

Então, Simon disse o que eu estava todo tempo esperando que dissesse.

Você deve compreender Rachel, que sendo pais de George temos de ser diferentes.

Sim.

Fomos ensinados a ver as coisas de modo diferente.

Sim.

No começo, quando tudo começou, muitas vezes sua mãe e eu pensamos que estávamos ficando loucos. Ou qualquer coisa assim.

Sim.

Mas continuamos. Nós concordamos. E deu certo.

Sim, eu disse.

Então ele falou: Rachel, vá agora, preciso terminar isto, preciso, você quer ajuda no seu trabalho da escola? Posso ver isso depois do jantar.

Não, respondi, não preciso.

 

Eu percebi uma coisa. Nos três meses em que George cursou História das Religiões do Oriente Médio, em Madrasa, ele também teve um professor cristão e um judeu. Em outras palavras, enquanto ele estava aprendendo o programa do curso, estava simultaneamente aprendendo os pontos de vista partidários que não seriam apresentados na faculdade. Para não mencionar só Deus sabe o que, de Hasan. Isso queria dizer que não podia fazer os exames, porque o que tinha aprendido não estaria nunca nas questões da prova. Naturalmente ele podia resumir tudo, como Benjamin e eu fazíamos sempre. Mas a questão não é essa. Ele está sendo educado para alguma coisa diferente.

Por quem?

Para quê?

 

Enquanto isso, ele é a figura principal nos movimentos locais dos jovens. E detesto isso. Benjamin diz que George precisa se mostrar. Bem, não posso deixar de pensar isso mesmo. Mas, por experiência sei que Benjamin sempre está errado. Tudo por causa do seu ciúme. Como eu. Pelo menos eu sei que sou ciumenta e Benjamin não. De qualquer modo, cada vez mais me convenço de que meus pensamentos não valem nada. Cada vez mais me torno um amontoado de emoções. Que crescem. Fico zangada. Não sei por quê. Fico tão zangada que parece que vou estourar. Às vezes vejo essas emoções passando por mim. Alô raiva! Alô ciúmes! Alô vocês todos! Aqui é Rachel dizendo alô!

 

Preciso escrever sobre o que sinto por Suzannah. Acho que Suzannah é horrível. Mamãe tem muita paciência com ela e papai demonstra muito bom humor. Ela é uma garota vulgar, espalhafatosa, burra. E louca por George. Bem, garotas loucas por George são tantas quanto as areias da praia. Portanto, por que Suzannah?

 

Perguntei a mamãe. (Ela já voltou da epidemia. Mas vai partir na semana que vem para uma região onde estão morrendo de fome.) Ela disse: George tem 17 anos e meio. Disse que ele tem 17 anos e meio pelo menos dez vezes no espaço de meia hora. Foi tudo o que pôde dizer a respeito. E percebi que ela gostaria de que eu parasse de aborrecê-la. O tempo todo falando, falando, perguntando. Posso ver minha figura. Perguntei a papai. Ele disse que Suzannah tem um físico extremamente atraente. Não agüento isso. Além de tudo, não acredito que George esteja dormindo com Suzannah. Benjamin estava fazendo uma porção de observações vulgares e eu disse que naturalmente George não estava dormindo com Suzannah. Ele disse: irmãzinha querida, o que pensa que fazem nessas noites estreladas? Eu disse que ele era burro e não compreendia George.

Perguntei: George, você dorme com a Suzannah, e ele disse: sim.

 

Quando ouvi isso foi como se ele tivesse me batido. Chorei um bocado. Se George podia dormir com Suzannah então nada mais importava. Como é que ele faz isso? Ê um insulto. Quero dizer, para as moças que são sérias. Sinto que tudo está estragado. E acho que Benjamin está com toda a razão. Ele diz que George é um amante do poder e ele é. Ê isso.

Escrevi o último parágrafo há semanas. Foi um período ruim na minha vida. Benjamin subitamente começou a ser muito bom para mim e começamos a sair juntos. Às vezes, por acaso — embora eu saiba que nossos pais não acreditam —, Benjamin e eu víamos George e Suzannah em um café. Quando ele está com Suzannah, eu acho que é muito diferente do George que conhecemos. Ele é divertido. Ri muito. Completamente despreocupado; se mostrando. Sinto até náuseas. Mas, então, Benjamin começa a se mostrar também e mais de uma vez dirige-se a George e a Suzannah, em voz alta, fazendo todo tipo de brincadeiras. Tenho vontade de morrer. Por isso eu disse que não ia mais sair com Benjamin. E fiquei em casa. Fui mal na escola. Então mamãe veio falar comigo. Estava desapontada. Sei que ela e papai conversaram a respeito. Não sou burra. Ela foi ao meu quarto uma noite. Eu estava chorando. Disse para ela: está certo, você e papai pensam que tenho ciúmes de George. Ela respondeu: a questão não é essa. Perguntei: muito bem, o que é então? — pois eu já via uma nova perspectiva. Olga disse: George não é um santo, não é uma espécie de modelo ideal. Mas a questão é que ele não tem ainda 18 anos.

Eu disse que achava tudo horrível.

Olga perguntou com ar divertido: Rachel, o que é horrível?

E respondi: Olga, George é uma pessoa que entra em uma sala e se tem 30 pessoas ali ele pensa que são 30 intestinos cheios de merda, 30 bexigas cheias de urina, 30 narizes cheios de ranho e 120 litros de sangue. Portanto suponho que ele está em um café com Suzannah, com aqueles seios enormes e pendentes dela e está pensando: dois intestinos cheios de merda, duas bexigas cheias de urina, dois narizes com ranho, dois corpos suados e 10 litros de sangue. Para não mencionar os 70 milhões de espermatozóides e um ovo. E uma ereção e uma vagina.

Olga senta-se. Acende um cigarro. Inclina-se para trás. Cruza os braços. Suspira. E diz: quando ele disse essas coisas? Indo direto ao ponto.

Foi... há muito tempo.

Eu diria que ele deve ter adicionado uma dimensão ou duas desde então.

Bem, eu não agüento, digo. Não agüento a vida. Essa é a verdade.

Acho que eu esperava mais ou menos que ela me abraçasse e me consolasse. Mas, embora isso fosse o que eu estava querendo antes de ela chegar, agora ficaria embaraçada se o fizesse.

Ela disse: você não tem alternativa, Rachel. Porque tem de agüentar ou cometer suicídio. Ou viver de um modo que será o mesmo que cometer suicídio. E as provas sugerem — e aqui ela estava sendo irônica como papai, ela pegou isso dele — a evidência sugere que isso é um inferno. Realmente. Mas, de qualquer modo, nós não cometemos suicídio. E o modo como disse isso foi diferente de tudo o que já ouvi de Olga, com muito orgulho. Com toda a seriedade. Era como se me tivesse esbofeteado ou me atirado dentro da água gelada. De súbito eu a vi de modo diferente. Eu a vi como uma pessoa. Não como minha mãe. Ela já tinha pensado em tudo. Ela já tinha pensado em suicídio. Ela jamais cometeria suicídio. Naquela noite eu cresci. Ou pelo menos quero acreditar que cresci.

 

Tenho pensado sobre a vida de Olga. Tento me colocar em seu lugar, sempre nos campos cheios de refugiados, pessoas morrendo, famintas, agonizando com doenças, crianças morrendo. Quando estive com ela naquela epidemia eu a vi chorando em um quarto cheio de crianças agonizantes. Ninguém mais estava lá. Olga estava muito cansada, por isso chorava. Desde que me entendo por gente, minha mãe está sempre trabalhando com pessoas agonizantes, por um motivo ou outro. Está sempre em lugares que são verdadeiros infernos. Sempre. E meu pai também. Para mim isso é extremamente infantil.

 

O que vou contar agora aconteceu há três dias. Não pude escrever antes, porque foi tudo muito difícil. Agora já pensei sobre o assunto. Ouvi George chegar tarde da noite. Eram 4 h da madrugada. Fazia calor. A hora em que a noite é ainda absoluta mas a manhã está aqui, só que não podemos vê-la, apenas sentir. Lá fora tudo estava silencioso daquele modo especial. Sou capaz de reconhecer qualquer das cidades onde já estive pelo tipo de silêncio às 4 h da manhã. George entrou em casa. Ouvi quando chegou ao quarto. Fui até lá e bati na porta. Não respondeu. Entrei. Ele estava tirando a calça e eu a vi. Nossa família nunca fez da nudez um mistério, mas eu estava pensando: aquilo esteve dentro daquela vaca horrível. Ele voltou as costas para mim e vi suas nádegas e suas costas enquanto vestia o pijama. Então ele se deitou com os braços sob a cabeça. George é muito bonito. Mas se fosse feio seria a mesma coisa. Estava muito cansado. Preferia que eu não estivesse ali. Exatamente como meus pais, afetuoso e paciente. Disse: Rachel, você não está sendo boa. Eu esperava que ele dissesse: justa. Quando ele usa palavras como "justa", Olga e Simon sempre riem e dizem que ele continua infantil e britânico. Mas ele disse "boa". Então respondi: não me importo, George. Não compreendo. E ele disse: Rachel, não posso fazer nada.

Ali estava eu, de pé na porta, e ele na cama, lutando para conservar os olhos abertos.

Perguntou: Rachel, o que você quer?

E senti-me esbofeteada outra vez. Porque naturalmente queria que ele dissesse: eu odeio Suzannah, ela é uma idiota desajeitada e vulgar. Mas ele jamais diria isso.

Sente-se, disse George.

Sentei-me aos pés da cama.

Eu esperava alguma observação esclarecedora, compreendo agora, mas naturalmente os olhos dele nem podiam ficar abertos.

Estava tão bonito. Mas cansado. E comecei a pensar sobre a vida dele. Nunca dormia mais de três ou quatro horas por noite.

Pensei que tinha dormido. Comecei a falar. Falava com George. Eu disse: é absolutamente intolerável, tudo, é horrível, feio, repulsivo e a vida absolutamente insuportável.

Seu peito subia e descia. Tive vontade de encostar minha mão nele e dormir.

Subitamente, ele disse, com os olhos fechados: bem, Rachel... estou ouvindo. E adormeceu outra vez. Um sono profundo. Fiquei mais um pouco, esperando que ele acordasse. Mas a janela iluminou-se. Lá estavam as palmeiras empoeiradas da rua. O cheiro de poeira. Quente. George dormia e dormia. Envergonhada e zangada fui para minha cama.

 

Estive pensando em Suzannah. Suzannah faz parte da vida de George há quase um ano. Ê muito tempo. Olho para trás e um ano parece uma eternidade. E cresci tanto nesse tempo. Suzannah vem jantar em casa muitas vezes. Sempre ansiosa para agradar. Não tira os olhos de George. Tenho pena dela. Até agora não tinha percebido isso. Porque ela sabe muito bem que não é bastante boa para George. Quer se casar com ele. Há algum tempo eu teria pensado que ela estava louca. Mas, se George pode dormir com Suzannah, então ele pode se casar com ela. Eu perguntei: George, você vai se casar com Suzannah? E ele: minha irmãzinha querida! Detesto isso, é assim que Benjamin me chama, e afinal, tenho mais de 16 anos agora. Mas, e sobre Suzannah, perguntei. Ela tem 23 anos, disse ele. Fiquei chocada até a alma quando ele disse isso. Primeiro por ela ser tão mais velha. E, depois, porque ele achava que isso fazia muita diferença para ela. Ele disse: ela sabe muito bem que o casamento não está na minha agenda. E fiquei chocada outra vez. Não me lembrava de George ter sido tão idiota. Eu disse: George, Suzannah quer se casar com você. Ela não pensa em mais nada, dia e noite. E ele respondeu: minha irmãzinha, você nasceu para me atormentar, para ser minha camisa de cilício. Segurou-me pela cintura e, levantando-me do chão, me fez rodopiar pela sala.

Estávamos na sala de estar. Benjamin entrou nesse momento. Queria tomar parte na brincadeira. Assim que ele chegou, as coisas ficaram diferentes, quero dizer, o ato de George dar voltas comigo tornou-se diferente, hostil e contra mim e não um gesto amigo. O que tinha sido. Percebi que ele diminuía o movimento, porque sentiu isso também. Benjamin tentou entrar na brincadeira, como se eu fosse um troféu a ser conquistado. George me encostou na parede e ficou na minha frente. Benjamin continuou tentando me pegar porque queria me atirar para o ar e rodopiar comigo. Mas então comecei a chorar de raiva. Ao mesmo tempo estava grata a George.

Depois de um minuto, Benjamin sentiu-se ridículo e sentou-se. Então George sentou-se.

Rachel acha que eu não devia dormir com Suzannah, ele disse para Benjamin. Posso garantir que falou seriamente. Ele tinha me levado a sério.

Naturalmente deve dormir com ela. Foder todas elas, eu acho, disse Benjamin. Percebemos que se arrependeu antes mesmo de acabar a frase. Parecia embaraçado.

Lá estava Benjamin na cadeira. Grande, peludo, moreno. Como um camponês. E George, magro, esguio e elegante. Ambos embaraçados. Fiquei onde estava, porque tinha medo de que Benjamin quisesse me pegar.

Muito bem, irmãzinha, disse Benjamin, então você acha que George não devia estar dormindo com Suzannah. Mas, por que não?

Eu disse: ora, durmam com quem quiserem, quem se importa? Eu não. Pensava que era importante, mas vejo agora que não é.

Eu estava chorando e as lágrimas quase jorravam no chão.

George olhava para mim. Ficou olhando para mim. Evidentemente sentia-se infeliz. Eu estava cheia de triunfo com isso.

George disse: muito bem, irmãzinha, diga-me, com quem devo dormir?

E Benjamin: obviamente com Rachel.

Então nada aconteceu por alguns momentos. George parecia chocado e divertido. As duas coisas. Benjamin jicou envergonhado outra vez.

Era um daqueles momentos dos quais eu cada vez estava mais consciente: podem-se ver cenas paralelas ao que está acontecendo. Por causa de Benjamin, do que ele era, eu via claramente que devia me lançar contra ele e arrancar-lhe os olhos. Então George se levantaria, e me faria sentar.

Essa era a cena de Benjamin. O que ele impunha.

Mas a presença de George evitava que isso acontecesse.

Porque George estava ali, com aquela expressão, eu me afastei da parede e sentei-me.

Esta é uma conversa séria, disse George para Benjamin, e Benjamin calou a boca.

Então, com quem eu devo dormir? George me perguntou. Sou um homem normal. Não vou me casar nestes cinco anos.

Isso fez com que eu e Benjamin ficássemos calados, cada um por um motivo diferente. Fez-se um longo silêncio.

Eu realmente quero saber, disse George. Nesta cidade e em qualquer outra existem centenas de bordéis. E naturalmente existe a castidade. Uma porção de moças quer dormir comigo. Suzannah é uma delas.

Tudo parecia tão fora do assunto que eu nem podia acreditar.

E quando você acabar com ela?, perguntei. O que ela vai fazer quando você se casar?

Meu Deus!, exclamou Benjamin, ouça só isto!— Estava representando o papel do homem resignado e atônito. A eterna mulher — o absoluto absoluto, o último ultimato.

Muito bem, continue, irmãzinha, disse George, quero saber.

Ela o ama, eu disse.

Ela o ama, disse Benjamin para George, com o mesmo tom.

Sim, é verdade, eu disse. Ê engraçado e você não compreende. Por quê? Por que é assim? Por que ficou burro de repente? Você é a coisa mais importante que já aconteceu na vida dela.

Bem, isso é verdade, disse Benjamin. A falsa modéstia não vai ajudar em nada.

Pois George parecia realmente intrigado.

Eu disse: você pode se casar com mais 50 mulheres e ela pode se casar com um político gordo e estúpido que vive fazendo discursos, e ela pode ser uma grande dama e fazer discursos e andar por aí de uniforme, e você continuará a ser a coisa mais importante que já aconteceu e que jamais vai acontecer na vida dela.

George estava extremamente embaraçado. Seu rosto estava vermelho. Nunca tinha visto George corar, antes.

Benjamin, para variar, parecia muito sensato e até mesmo crescido.

Benjamin disse para George: ela tem razão.

George perguntou: muito bem, então o que devo fazer?

E Benjamin, dramático: encurralado!

 

Tenho estado pensando.

Cheguei a uma conclusão. Só se compreende uma coisa quando se vêem os resultados.

Pensei nisso por causa da Conferência da Juventude. Quando ele disse que ia à conferência, eu me senti mal. Mais tarde eu soube que tinha ido como representante de alguns muçulmanos, alguns judeus e de alguns cristãos. Bem, ninguém mais poderia ter feito isso. Não sei como ele consegue. E poderia ter representado grupos socialistas, marxistas e grupos comerciais. Eles queriam que os representasse.

Não fui à conferência. Não fui convidada. Como podia ser se nem chego perto de qualquer grupo?

Benjamin foi. Primeiro disse que não iria nem morto, mas foi, naturalmente.

Eu soube tudo o que aconteceu. Benjamin contou. Mas, quando ele acabou eu pensei em tudo do meu ponto de vista.

Benjamin disse que George foi um sucesso retumbante e a bela da festa, e insinuou que ele passou a noite com uma mulher. Suzannah não estava lá. Eu podia perguntar e ele me diria, mas nunca mais vou fazer essa pergunta, nunca mais.

Desde que ele voltou chegam mensagens todos os dias, de todas as partes. Não vou citar os países porque seria uma lista infindável. Por ter ido àquela conferência daquele modo, George agora pode viajar para onde quiser que será bem-vindo. E muita gente veio ao nosso apartamento e comentou o que George fez, o que ele disse na conferência. Ele estava falando, dizem. Mencionam especialmente o fato de ele estar falando. E Benjamin diz que ele "fez jorrar" palavras a noite toda. Se ele ficou discursando, como pode ter dormido com uma mulher? Perguntei isso a Benjamin e ele disse que jamais insinuou que George tenha feito algo mais além de falar.

E eles continuam aparecendo, brancos, negros, morenos, rosados e verdes, dia e noite, de dia e de noite, e é evidente que querem ouvir George falar. Percebi uma coisa, George fala como Hasan fala. Ele pegou o jeito de Hasan. Foi isso que percebi. E fico sentada ouvindo, como todo mundo em volta. Como Olga e Simon. E Benjamin. Ele não diz uma palavra. Pode caçoar quanto quiser, mais tarde, e às vezes ele não tem a mínima idéia do que está acontecendo, mas ouve, como todos nós. Portanto, como de hábito, tenho de dizer isto: meus sentimentos são uma coisa. Mas o que penso é outra. Quanto ao que eu compreendo quando George fala, bem... mas obviamente não adianta falar sobre isso.

 

De TAFTA, SENHOR SUPREMO de SHIKASTA,

para o SUPREMO SENHOR SUPERVISOR

 ZARLEM em SHAMMAT, saudações.

 

Obediência ó Grande Senhor!

Suas ordens foram executadas!

As Quatro Áreas Nacionais foram testadas.

Chefe do Governo N.° Um: seguindo as diretivas de dizer exatamente a verdade, minuciosamente, sem esconder nada, aos seus súditos, informou o conselho de ministros de que essa era sua intenção porque "tinha resolvido". Foi imediatamente recolhido a uma prisão para os mentalmente perturbados, e o povo foi informado de que tinha renunciado por problemas de saúde.

Chefe do Governo N.° Dois: esse homem, tendo "tomado o poder" há pouco, aproveitou a primeira oportunidade (uma transmissão de televisão) para informar seus governados de que as condições eram muito piores do que tinha imaginado antes de tomar posse e ficar a par de certas informações reservadas somente aos chefes de governo. Considerava seu dever informar o povo sobre as mesmas, que não deveriam ser secretas. Para sobreviver, todos deviam estar cientes de certos fatos: estes eram os fatos. (...) Quando terminou sua entrevista na televisão, foi informado pelo partido que "o levou ao poder" de que perdera seu apoio. Foi obrigado a renunciar.

Chefe do Governo N.° Três: esse homem, decidido a dizer aos habitantes da sua área geográfica (por nossa influência) a verdade sobre certos fatos que lhes tinha sido ocultada, foi assassinado pelos militares, antes de poder falar; graças ao excepcional serviço de espionagem, souberam das suas intenções com antecedência.

Chefe do Governo N.° Quatro: durante uma das piores crises já enfrentadas, revelou ao público certos fatos, e ninguém acreditou; havia um abismo imenso entre o que lhes tinha sido dito antes e o que dizia agora. Procurou incessantemente fazer com que conhecessem a verdade, sem resultado, tornou-se emocionalmente instável e sofreu um ataque cardíaco fatal.

Esses testes provam que o planeta é imune à verdade.

Não existe, portanto, nenhum obstáculo ao nosso progresso.

Excelsior! Glória para nós! Triunfamos!

Obediência ó Grande Senhor!

FEDERAÇÃO PAN-EUROPÉIA das DITADURAS DO POVO DEMOCRATA-COMUNISTAS para a PRESERVAÇÃO DA PAZ.

Integrando os SERVIÇOS EUROPEUS GERAIS para a SUPERVISÃO VIGILANTE dos INIMIGOS do POVO e a PREVENÇÃO de CRIMES CONTRA a VONTADE do POVO. DEPARTAMENTO 15. (GRÃ-BRETANHA) NÍVEL SUPERIOR. SECRETO.

Ao nosso Grande Líder, Saudações! Nossos agradecimentos a Ele, cuja Vida nos guarda a todos com sua destemida antevisão no Serviço de um infatigável avanço para o futuro. Nossa homenagem a Ele, que é um baluarte entre nós e as forças da degeneração. Faltam-nos palavras para descrever Seus sacrifícios pela nossa Causa Sagrada!

 

[Este é um relatório elaborado por 74 líderes que surgiram dos movimentos da juventude ou que conservavam influência do passado, isto é, não designados pela burocracia dominante. O relatório baseia-se em material fornecido por espiões e agentes. Começou logo depois da invasão da Europa pelos chineses e foi completado e em alguns casos corrigido por um oficial chinês. Escolhemos este documento para exemplificar as habilidades superiores dos novos senhores. A escolha desses três representantes foi naturalmente feita por nós: nem o oficial britânico nem o chinês julgavam-se muito importantes e enfatizavam a importância de outros. Arquivistas.]

 

Benjamin Sherban. N.° 24. O que podemos dizer sobre esse decadente filisteu cuja imundície polui a luta gloriosa, transformando a propriedade dos meios de produção em benefício de todos os trabalhadores da humanidade. Esses degenerados nos ensinam que temos ainda muito que fazer para conseguir a vitória total nas frentes políticas e ideológices. Temos de nos preparar para uma luta prolongada e de eterna vigilância contra os reacionários dominados pelas correntes subterrâneas da influência capitalista do passado imundo para escalarmos os píncaros da verdadeira realização socialista. Esse inimigo do povo assumiu com impudência a chamada liderança do Movimento Jovem filiado aos Movimentos da Juventude do Norte da África (Seção III) e está abertamente desafiando a vontade dos verdadeiros chefes do Povo. Sob o pretexto falso e transparente de falar em nome das crianças (oito a 12 anos) desses territórios, ele impôs seu vômito de palavreado subjetivo a suas mentes indefesas, contrariando as verdadeiras conclusões a que nos levaram os métodos da disciplina de camaradagem partidária e a recomendação é que ele seja preso em nome da Vontade do Povo quando comparecer ao Congresso Mundial da Juventude, no outono. Se isso for impossível, em virtude dos aspectos contraditórios da situação atual, então ele deve ser exposto sem piedade como o que realmente é.

 

George Sherban. N.° 19. Essa hiena é irmão do acima citado. Por meio de métodos inescrupulosos e miseravelmente oportunistas jamais vistos na história da gloriosa luta de classes, impôs-se como representante de várias facções, em nome do que chamam de Justiça, sem desconfiar que suas fracas manobras na poeira do subjetivismo histórico são percebidas claramente pela massa em sua gloriosa escalada na montanha da Verdade. Ele visitou vários países da nossa gloriosa Federação nos últimos dois anos e em toda parte impôs sua baba pegajosa a favor da própria ambição. O que podemos dizer sobre criminosos sem escrúpulos e degenerados como esse, que levam consigo a poeira infestada de germes e poluída do passado morto? Devemos nos decidir pela eterna vigilância. Devemos estar sempre prontos a expor seus erros! Sempre preparados para as oportunidades de falar com um empirismo sincero e disciplinado para que nunca mais esses chacais maculem o espírito das gloriosas massas. Esse homem deve ser preso na primeira vez que fizer seu impertinente aparecimento em nosso glorioso solo europeu, e ser levado a julgamento se se recusar a retirar-se de boa vontade das páginas da história. Se isso for impossível por qualquer motivo, então nossa propaganda, sempre pronta a expor as contradições e a impor a linha correta, deverá desmascará-lo.

 

John Brent-Oxford. N.° 65. Essa patética relíquia do passado algumas vezes serviu aos interesses do povo, mas aqueles que insistem em seguir os velhos métodos durante um período revolucionário são incapazes de compreender os novos sistemas em constante desenvolvimento. Sob a bandeira da imparcialidade e do objetivismo ele defendeu os camaradas mal orientados que erroneamente desviaram os olhos da Verdade e chegou mesmo a se aliar aos membros do Partido Trabalhista cujos crimes e erros há muito foram desmascarados. Apesar do cuidado e das atenções dos Reeducadores, ele se recusa obstinadamente a abrir a mente para a Verdade, e como precisamos de todo o espaço disponível em nossas gloriosas prisões para o elemento criminoso da população, recomendamos que seja enviado para o Estabelecimento Penal N.° 5. Nossa nova Europa não tem lugar para restos do passado!

 

[Notas sobre o relatório acima, feitas pelo Camarada Chen Liu, encarregado dos Serviços Secretos do Povo, Europa. Arquivistas.]

 

24. Benjamin Sherban. Emocionalmente instável. Na minha opinião, responderá à reeducação. Deve ser convidado a freqüentar a reeducação. Com as recompensas habituais. Deve então ser enviado de volta à posição atual como chefe do movimento infantil, como nosso representante e com um título honorífico.

 

19. George Sherban. É inteligente, instruído, com forte personalidade. Muito hábil no manejo de pessoas e grupos. Em minha opinião, é perigoso. Não há possibilidade de reeducação. Também não deve ser preso em sua próxima visita, nem usado em um Julgamento; a repercussão seria indesejável. Deve ser eliminado por "acidente". Já dei as instruções necessárias.

 

65. John Brent-Oxford. Esse homem é um embaraço. Tem influência sobre a geração mais velha, que se recorda de quando era membro do Parlamento e representante da Grã-Bretanha nos conselhos pan-europeus. É um bom tipo moralmente falando. Não pode ser condenado por corrupção ou delinqüência de nenhum tipo. Sofreu grande deterioração na prisão. Sofre de diabetes. A dieta da prisão não faz exceções para esses casos. Dentro ou fora, não viverá por muito tempo. Sugiro que lhe seja conferida uma posição de modesta autoridade na administração de qualquer organização de jovens. Seu desprezo e desatenção por qualquer pessoa de idade apressará sua morte. Ele deve ser tratado com respeito por nós para não alienar os velhos socialistas que ainda restam e que podem ser educados para trabalhar para nós.

 

 

Carta particular enviada pela Mala Diplomática,

 

Ambien II de Sirius, para Klorathy, Canopus

 

Urgente. Acabei de examinar nossos relatórios sobre Shikasta. No caso de não terem recebido esta informação — o que é improvável, eu sei —, Shammat convocou uma reunião de todos os seus agentes no mesmo local. Isso por si só parece sintomático de algo que há muito suspeitávamos — e eu sei que vocês também suspeitavam. As condições em Shikasta estão afetando mais os shammatianos do que os shikastianos, ou afetando mais rapidamente. Sua mentação geral parece estar se deteriorando a passos largos. Sofrem de agitação, aceleração, arritmia. Seus diagnósticos das situações — nos limites da capacidade dos da sua espécie — é adequada. Adequada para certas situações e condições específicas. As conclusões que tiram de suas análises são cada vez mais absurdas. O fato de Shammat convocar essa reunião, expondo seus agentes a tamanho peri