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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Sinais da Eternidade / Clark Darlton
Sinais da Eternidade / Clark Darlton

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Sinais da Eternidade

 

O Imortal em fuga! Seu legado é o caos...

Surge o ano 2.326 da cronologia terrana e, neste meio tempo decorrido entre os episódios narrados no volume 149, registraram-se mudanças essenciais na parte conhecida da Via Láctea.

Desde 1o de janeiro de 2.115, data em que Atlan abdicou do cargo de imperador de Árcon, não existe mais o Império Solar, e nem o Império Arcônida, mas tão-somente o Império Unido, tendo à frente o Grande Administrador Perry Rhodan, enquanto que o arcônida Atlan passa a ser chefe da USO, cujos especialistas formam o “Corpo de Bombeiros da Galáxia”.

Sempre que surgem problemas ou crises que ultrapassam os âmbitos de determinados grupos de planetas, com reflexos na imensidão da Via Láctea, entra em ação a USO, criada e dirigida pelo Almirante Atlan. No entanto, Sinais da Eternidade obrigam Rhodan a intervir pessoalmente...

 

                                            

 

O cruzador pesado Nostasa estava voando de Árcon para o planeta Peregrino, chamado também de Mundo da Vida Eterna. A espaçonave esférica de duzentos metros de diâmetro, tendo a bordo uma tripulação de quatrocentos homens, saía da zona de libração e entrava no espaço normal a fim de descansar um pouco os super solicitados motores de propulsão.

Um ruído estridente veio arrancar Perry Rhodan de um sono profundo. Levou um susto e precisou de alguns segundos para ter noção de onde estava. Antes de deitar-se, pedira a Bell que permanecesse na central de comando da Nostasa e auxiliasse o Coronel Ten Hogard. Embora o posicionamento do planeta artificial pudesse ser encontrado com boa margem de segurança, não se estava nunca livre de surpresas e o tipo destas surpresas dependia muito da disposição de Ele ou Aquilo.

O ruído estridente...

Era o intercomunicador. Rhodan se levantou e apertou o botão que o ligava com a central de comando. Deviam ter um motivo imperioso para acordá-lo desta maneira.

— Pronto, que há?

— Bendito seja Deus — era a voz de Bell. — Você tem um sono que a gente tem que invejar. O “despertador” está tocando já há três minutos.

— Exagerando como sempre, hein? Que há de novo?

— Hiper-rádio, Perry, do próprio Atlan.

— Estarei aí neste instante.

Pulou da cama em que se deitara completamente vestido, e ficou refletindo por alguns segundos sobre o tom de voz de Bell, que parecia muito normal. O grande amigo estava se dominando com muita perfeição, embora estivesse praticamente condenado à morte pelo Ser do planeta Peregrino. Fazia trezentos e cinqüenta anos que existia a ducha celular, benefício maravilhoso que prolongava a vida sempre por mais sessenta anos. Mas, a partir de março do ano 2.326, esta ducha deixou de existir. Assim, completava agora quatro semanas que esta ducha maravilhosa, conservadora da eterna juventude, passara a ser um sonho inatingível. Duas pessoas apenas — Rhodan e Atlan — possuíam o ativador celular que os tornava imortais.

Todos os demais seres humanos, inclusive os mutantes, passaram a ser novamente mortais. Ele, o Ser do planeta artificial, assim o quis. Para três dos mutantes, o prazo estaria acabando dentro de poucos meses. Se até lá não acontecesse nada de extraordinário, haveriam de envelhecer em poucas horas e morrer.

O prazo para Bell era de apenas quinze dias e ele continuava tão tranqüilo como se nada estivesse para acontecer. Aos poucos, foi tomando vulto em Rhodan uma grande admiração por seu melhor amigo. Tirou da cabeça os pensamentos tristes e saiu pelo corredor a fora, correndo o mais que podia para a central de comando, onde foi recebido pelo radiotelegrafista de serviço. Bell estava ao lado do comandante e parece não ter notado a chegada de Rhodan.

Rhodan mordeu os lábios e seguiu o telegrafista.

— Hiper-rádio, tenente? E de quem?

— De Atlan, chefe.

— Então vamos lá. Qual é nossa posição agora?

— Sete mil e dois anos-luz de Árcon. Temos ainda vinte minutos de vôo normal para descansar os reatores. Depois continuaremos em vôo linear.

Rhodan entrara na sala de rádio. Da grande tela panorâmica veio-lhe ao encontro o olhar de Atlan. O arcônida imortal percebeu logo sua presença, embora estivesse a milhares de anos-luz. Um sorriso espontâneo aflorou-lhe nos lábios.

— Não faça nenhuma pergunta, Perry, pois temos pouco tempo. Depois lhe contarei tudo. O Imortal não mentiu quando nos prometeu espalhar na Galáxia vinte e cinco vezes a vida eterna. Encontramos um ativador celular.

Rhodan não foi capaz de responder na hora, pois centenas de hipóteses lhe passaram pela cabeça.

Um ativador celular... vida eterna para seu feliz dono! Exatamente agora que não havia mais a ducha celular, o ativador se tornava milhares de vezes mais precioso do que antes.

— Quem o achou?

— Lemy Danger e Melbar Kasom, dois especialistas.

— E eles o devolveram? — perguntou Rhodan, muito interessado.

O rosto de Atlan parecia imóvel como pedra.

— Sim, eles o entregaram.

Um dos vinte e cinco ativadores fora encontrado, restavam ainda vinte e quatro. Podia levar anos, até mesmo séculos, até que se encontrassem todos.

Rhodan ouviu barulho atrás de si e se virou. Era Bell que estava entrando no posto de rádio. Ficou apoiado na porta, olhando para Atlan.

“Um condenado à morte”, pensou Rhodan, “que vislumbra a possibilidade de escapar do carrasco. Tudo por causa do ativador celular...!”

Virou-se de novo para Atlan.

— E o que você resolveu fazer?

Atlan compreendeu logo.

— O ativador encontrado está sendo enviado para você. O cruzador leve Kenya encontrará a Nostasa mais ou menos na posição BL-67-KJ, setecentos anos-luz do posicionamento atual.

Rhodan respirou aliviado.

— Muito obrigado, Atlan.

Depois, um temor quase doloroso se apoderou dele. Um ativador seria um objeto de valor inestimável, infinito quase. Quem andasse com ele seria imortal. Será que existiria um homem a quem se pudesse confiar um tesouro deste porte? Seria certo expor um homem a uma tentação irresistível? Ou haveria um místico, um asceta, que não lhe daria importância?

Ouviu atrás de si a respiração de Bell. Estava ficando mais irregular, ofegante! Rhodan sentia o peso da responsabilidade que iria assumir.

— Não se preocupe, Perry. — Atlan parecia ler os pensamentos de Rhodan. — Confiei o ativador a alguém a quem o ativador certamente não interessará e a quem você dedica plena confiança. Não tenha receio que o tesouro chegará às suas mãos, dentro de poucas horas.

— Mas não será...?

— Claro que sim, quem seria então? Você queria levar mutantes com você para o planeta Peregrino. Gucky, depois de cumprir sua missão, passou aqui comigo, chegando na hora exata. Confiei-lhe o ativador e mandei que se teleportasse para o cruzador Kenya.

Gucky!

Rhodan ficou mais tranqüilo. Não havia ninguém que inspirasse mais confiança do que Gucky. Além disso, o rato-castor foi o único que até agora dispensou voluntariamente a ducha celular, embora lhe fosse constantemente oferecida. O fato é que ninguém sabia até que idade chegaria um rato-castor, mesmo não havendo dúvidas de que Gucky já estava bem além dos quatrocentos anos.

— Obrigado por tudo — repetiu Rhodan, ouvindo o pigarro de alívio de Bell. — Você foi muito prudente.

— Nem todo mundo é como Lemy Danger, Perry. Gucky vai lhe fazer um relatório minucioso sobre a descoberta do primeiro ativador. Quem sabe isto vai lhe abrir novas pistas. De qualquer maneira, não deixe de consultar o Imortal, pois talvez ele lhe possa indicar o rumo que levaram os aparelhos restantes. Pergunte também por que motivo deixou de conceder a ducha celular.

— É exatamente esta a finalidade de minha viagem. Sem o prolongamento da vida dos mutantes e de outras personalidades importantes, a segurança do Império está ameaçada. Francamente, não atino com a razão que levou o Imortal a agir desta maneira. Vou pedir que me exponha seu ponto de vista.

Atlan não quis insistir mais.

— Quero ainda lhe dizer que todas as outras operações iniciadas estão em pleno curso normal. A situação está tranqüila. Não há dificuldades. Estou esperando você no ponto combinado.

— Por favor, erga o polegar, para termos sorte.

Rhodan sabia que Atlan pintava a situação com demasiado otimismo. Realmente, as dificuldades estavam é sobrando.

— Avisarei, assim que tiver sucesso — disse Perry.

E a tela se apagou.

Virando-se lentamente, Rhodan fitou firme nos olhos bem abertos de Bell, seu amigo e companheiro inseparável de tantos e tantos anos. Julgou ver um vislumbre de medo que logo se dissipou.

— O velho Atlan, sempre com disposição para um bom papo — disse Bell, com naturalidade. — Então, Gucky vai tomar parte na viagem. Pensava que agora ele não iria mais largar Iltu sozinha. Desde que os dois se casaram, ficaram sempre juntos.

Rhodan notou algo de diferente em sua voz e um leve sorriso a lhe aflorar nos lábios.

— Meu velho amigo, você não está com inveja, não é verdade? Deixe um pouco de felicidade para eles.

— É exatamente o que desejo, tudo de bom para eles.

Havia alegria na voz de Bell, mas seu olhar continuava sério, pois o medo ainda habitava nele, de permeio com a incerteza e a angústia de ainda ter de fazer a terrível e decisiva pergunta.

Mas Rhodan soube pôr um fim à situação desagradável.

— Gucky vai trazer o primeiro ativador celular encontrado. Vou dá-lo a você, que era de fato o primeiro com direito à ducha celular.

Não houve palavras para descrever o alívio causado com estas palavras no coração de Bell. Seus olhos se encheram de luz e instintivamente se encaminhou para Rhodan, estendendo-lhe a mão.

— Obrigado, Perry. Jamais teria coragem de lhe fazer este pedido.

E Rhodan, apertando-lhe a mão:

— A quem então haveria eu de entregar este ativador?

Depois, com toda simplicidade voltou para a central de comando. O Coronel Hogard já o esperava, e se ouviu alguma coisa da conversa de Rhodan com Atlan, não deixou transparecer nada.

— Dentro de dois minutos, vamos reiniciar a viagem, chefe.

Rhodan deu as coordenadas do ponto de encontro combinado com Atlan, acrescentando:

— Comandante, quero lhe pedir que ao sair da zona de libração transmita os dados de posicionamento constantemente. Não podemos perder tempo e o cruzador Kenya tem que nos encontrar o mais rápido possível. Quando é, mais ou menos, que poderemos chegar à posição mencionada?

— Dentro de três ou quatro horas, dependendo naturalmente se vamos, ou não, precisar de uma pausa para aliviar os motores de propulsão.

— Ótimo. O senhor achará Reginald Bell e a mim em minha cabina.

Fizeram o caminho de volta em silêncio, embora encontrassem nos corredores e nos elevadores antigravitacionais muitos oficiais e auxiliares da tripulação da Nostasa. Todos cumprimentavam cortês e respeitosamente. O pessoal de serviço tinha que se habituar com o fato de ter a bordo o grande administrador.

Ao fechar a porta atrás de si, Bell voltou a ser o mesmo de sempre.

— Falando francamente, estou muito feliz com o ativador. Tenho que apertar a mão do homem que o encontrou. O nome dele é Danger, não é? Será que o conheço?

— Claro que sim — confirmou Rhodan, esticando-se na cama. — Descanse um pouco, quatro horas pode ser muito tempo, principalmente quando estamos próximos do Natal.

O semblante de Bell voltou aos traços sérios.

— Você está querendo bancar o homem despreocupado, meu caro, não é verdade? Na realidade, porém está quebrando a cabeça para resolver o problema. De que serve um único ativador quando se trata de conservar a vida de muitos mutantes? Não podemos perdê-los... Muitas pessoas vão me olhar com o “rabo do olho”, quando souberem que já possuo o aparelho. Alguns certamente vão falar de privilégio e nós vamos nos aborrecer.

— Mais do que isto. — Rhodan estava de olhos fechados, mas se percebia que todos seus sentidos estavam muito atentos. — Dentro de pouco tempo vamos ter de tratar com mutantes descontentes... O ser humano é imprevisível e seu íntimo continuará sendo um mistério. Muita gente já perdeu a cabeça somente pela ânsia do poder. Aqui, porém, o negócio tem outro vulto, infinitamente superior. Trata-se da imortalidade. Não são muitos os que estão totalmente a par do valor dos ativadores celulares, mas já é um número que inquieta.

“Acho que, dentro de pouco tempo, não poderemos mais confiar nos nossos mais fiéis amigos. O número dos imortais vai se reduzir muito. Teremos a difícil tarefa de selecionar os certos. Manter uma imparcialidade absoluta é humanamente impossível. Podemos apenas decidir da importância, da essencialidade dos diversos candidatos. Tenho medo de tomar estas decisões e, no entanto, temos de fazê-lo.”

A vibração diferente das paredes da cabina indicava que a grande espaçonave já entrara na fase do vôo mais veloz que a luz. Dentro de pouco tempo, a Nostasa estaria com mil vezes a velocidade da luz e depois, passageiramente, com mais de um milhão de vezes a louca velocidade da luz. A dias-luz de distância ficava o planeta Peregrino.

— Quem sabe o Imortal nos livrou de tomarmos estas decisões?

— Não acredito, não. Você o conhece. Vai se deliciar com o fato de nós bancarmos crianças peraltas correndo atrás dos ativadores. Só queria saber por que cortou de um dia para o outro as duchas celulares.

Era um enigma. Não havia explicação.

 

A Kenya chegou ao ponto X, poucos minutos após a entrada da Nostasa. Depois de um curto radiograma trocado entre os dois comandantes, prosseguiram no seu vôo.

Antes disso, porém, Gucky teleportou-se para a Nostasa. Para o rato-castor, isto era uma banalidade, um pulo de poucos quilômetros. Desmaterializou-se no cruzador Kenya e apareceu no mesmo instante na Nostasa. Fez uma orientação tão perfeita que se rematerializou exatamente no colo do navegador.

O jovem tenente, embora estivesse preparado para o aparecimento de um teleportador, assustou-se de tal maneira que pulou da poltrona horrorizado. Com isso Gucky rolou, caindo com o traseiro no chão. Mas, no mesmo instante, já estava de pé.

— Medroso! — disse, ajeitando o uniforme especialmente confeccionado para ele, de tal forma que sua cauda de castor ficava protegida.

Depois, olhando firme para o jovem, tenente, continuou:

— Será que ninguém jamais sentou em seu colo, meu pobre-coitado?

— Não, mister Gucky, perdão, Tenente Guck,

Gucky sorriu, mas logo voltou ao tom de zangado:

— Por amor de Deus, não me lembre de que sou ainda tenente, pois todo mundo se esqueceu de mim. Mas serei ainda tenente quando “proclamarmos” a nebulosa de Andrômeda colônia do Império? Deixa pra lá... — começou de novo a sorrir. — Você é acanhado por natureza, não é?

O navegador, entrementes, se recuperara do primeiro susto. Parecia não gostar de falar sobre coisas íntimas, muito menos com Gucky que podia ler seus pensamentos.

— Gostaria de ver quem não se assustaria com seu aparecimento repentino — disse retornando ao seu assento.

Depois de ameaçá-lo, sorrindo, Gucky se dirigiu triunfante para Hogard, que não dissera uma palavra em todo o espalhafato do rato-castor.

— Tenente Gucky, telepata, telecineta e teleportador, se apresenta, tal qual lhe foi ordenado. Onde devo colocar este aparelho?

Antes que o comandante conseguisse articular uma só palavra sensata, penetraram na central de comando Rhodan e Bell. De braços abertos, Bell correu ao encontro do seu grande amigo Gucky, que, espantado e mostrando o dente-roedor, procurava se esconder atrás do comandante Hogard.

Por alguns momentos, Rhodan se esqueceu de seus cuidados. Via sorrindo como os dois amigos se cumprimentaram. Mas isto não se deu depressa assim...

— Que há com você, Gucky? Está com medo de mim?

Bell corria em volta do comandante Hogard. Pareciam crianças no jardim de infância brincando de pega-pega.

— Você acha que devo receber seus carinhos? Iltu é tremendamente ciumenta.

Bell parou de repente, como se tivesse batido com a cabeça numa pedra e Gucky, que no ardor da brincadeira havia continuado a correria, foi se chocar, com toda força, com suas costas.

— Ciumenta? — repetiu Bell, segurando o rato-castor antes que este pudesse escapulir. — Ciumenta por quê? Que tem Iltu contra mim?

Gucky se contorcia inutilmente, não tendo coragem de fazer uso de suas forças telecinéticas. Procurou socorro em Rhodan:

— Você consegue presenciar como estou sendo esmagado por este bárbaro. Agora está me levantando tão alto que se continuar deste jeito vai acabar quebrando o ativador celular que trago em meu bolso...

Na mesma hora, Bell o soltou.

Pela segunda vez, no espaço de cinco minutos, Gucky caiu no chão, batendo duramente com o traseiro.

— Isto aqui está parecendo uma manobra combinada — disse irritado e olhando para Bell com ar provocador. — Levante-me imediatamente.

Bell não sabia o que fazer.

— Estou sentado em cima do ativador. Espero que ele agüente esta pressão.

Mais do que depressa, o gorducho se agachou, pegou Gucky por baixo dos braços e o levantou, tendo a impressão de que o rato-castor estava pesando três vezes mais que seu peso normal. O malandro do Gucky estava aumentando de propósito seu peso, usando agora suas forças de telecinésia.

Depois de ficar, de pé, disse para Bell:

— Bom dia, meu gorducho. Como vão as coisas? Ainda solteirão? Nenhuma mulher quis saber de você?

Bell estava furioso. Este novo modo de Gucky o tratar começara depois do casamento do rato-castor. Havia sempre as mesmas alusões, como se Bell tivesse mesmo tempo para se casar com alguém. Tinha muita coisa para fazer, mormente agora.

— Quem é que vai me querer? — respondeu pacificamente, sorrindo com bondade. — Tenho de continuar um solteirão, triste e solitário. Meu amigo é você, meu verdadeiro amigo, Gucky. Não acredita?

Gucky o olhou de alto a baixo.

— Não, não acredito — depois, meteu a mão no bolso e entregou o ativador a Rhodan. — Então, repita o que você acabou de dizer agora — disse Gucky para Bell.

Mas Bell não teve ocasião para isto. Estava recebendo das mãos de Rhodan o ativador celular, colocando-o em seguida em volta do pescoço. Foi tudo tão depressa, tão simples, sem nenhuma cerimônia.

De um segundo para o outro, Bell passou a ser imortal. Seu rosto irradiava alegria, mas Rhodan continuou sério. Notara já há mais tempo que este ativador celular era muito diferente do que ele mesmo portava.

— Então — chilreou Gucky, curioso. — Como se sente?

Bell fez um sinal para Rhodan e depois se virou para Gucky. Abaixou-se e olhou fundo nos olhos inteligentes do rato-castor.

— Torno a repetir, Gucky, que você é meu melhor e verdadeiro amigo. Está contente agora?

E dando-lhe a mão, Gucky falou:

— Muito obrigado, Bell. E eu pensava que você me queria surripiar o ativador — andava garboso de um lado a outro da central de comando. — E agora?

Depois, apontando para o comandante Hogard:

— Por que razão meu tio aqui ao lado não fecha a boca?

Todos os membros da Frota Espacial do Império conheciam Gucky, ao menos de nome, mas poucos tinham a oportunidade de vê-lo pessoalmente. Nos séculos anteriores, Gucky se tornara como que uma personalidade lendária. Corriam milhares de histórias e episódios sobre sua vida. Gucky sabia disto e se sentia feliz.

O comandante Ten Hogard, neste momento, dava mesmo a impressão de um velho tio desanimado. Seus cabelos estavam eriçados, não pelo motivo de o aparecimento repentino de Gucky o haver irritado, mas sim pelo modo como Gucky se portava na frente dos dois homens mais influentes da Galáxia.

— Senhor...? — disse meio desajeitado, olhando para Rhodan — Às suas ordens.

A seguir, Gucky encaminhou-se para ele, tocou-o delicadamente na parte do corpo que, por engano, julgava ser as costas, o que aliás era muito compreensível devido sua pequena estatura.

— Perdão, comandante, não foi intencional. Todos têm de se acostumar comigo.

Voltou-se depois para Rhodan, falando num tom que todos estranharam:

— Tenho o pressentimento de que devido a estes desgraçados aparelhos de ativação celular ainda teremos muitos aborrecimentos. Estou muito cansado. Onde é minha cabina?

O administrador fez um sinal para o comandante Hogard e deixou a central atrás de Gucky. Bell os seguiu.

Seus dedos acariciavam o objeto metálico que tinha pulsações suaves e se ajeitava confortavelmente em seu tórax. Sentiu então a energia que o inundava da cabeça aos pés.

 

Após dois dias de vôo contínuo, a Nostasa aproximava-se da região em que se localizava o planeta artificial, mundo exclusivo do misterioso Ser, que, conforme sua própria explicação, se originara da espiritualização de uma raça extinta.

Ele ou Aquilo era também conhecido como o Imortal.

Os aparelhos de rastreamento do cruzador já estavam dando sinais. Em algum lugar do vazio imenso havia matéria, embora envolta num campo temporal. Peregrino era um disco chato e quase plano, encimado por um céu artificial, iluminado por um sol artificial e também dispondo de uma atmosfera artificial, mas muito apropriada para o ser humano. Este planeta Peregrino percorria a Via Láctea numa órbita de escolha arbitrária, mais ou menos de conformação elíptica. Um dos dois focos estava singularmente ocupado pelo sol do sistema.

Em relação ao espaço infinito, o planeta Peregrino não passava de um humilde grãozinho de areia, mas era também o grãozinho mais admirável de toda a Galáxia. Tudo em sua superfície, quer fosse montanha, mar, estepes, edifícios ou seres vivos, tudo era pensamento transformado em matéria. O Imortal criara seu meio ambiente a seu bel-prazer.

“O planeta era um sonho materializado”, dissera uma vez Rhodan.

A Nostasa reduzira ainda mais sua velocidade e, só com a metade da velocidade da luz, continuava procurando o ponto invisível que se apresentava nos rastreadores como uma mancha diminuta.

Na central de comando da espaçonave, estavam reunidos Rhodan, Bell e Gucky. O comandante Ten Hogard, sem a menor contração dos músculos faciais, transmitia suas ordens aos oficiais. Uma vez ou outra, dava uma olhada para Gucky, que fazia pose de Napoleão, de pé entre Rhodan e Bell.

— Distância cinco minutos. Reduzir a velocidade.

Ficou mais nítida a mancha na grande tela e, aos poucos, Peregrino era também visto nas telas comuns. Parecia não haver mais o campo temporal. Podia-se ver livremente toda sua superfície.

E a Nostasa se aproximava cada vez mais do planeta artificial.

— Não devemos chegar mais perto — disse Rhodan, de repente. — Alguma coisa me está avisando. Se aterrissarmos lá embaixo, haverá uma catástrofe.

A mão direita de Bell escorregou automaticamente para o peito. Ao apalpar o ativador, parecia tomar-se por uma fantástica onda de autoconfiança.

— Se houvesse de fato algum perigo, o Imortal nos avisaria.

— E por que haveria de fazer isto? — Rhodan abanou a cabeça descrente. — Nunca vi o planeta Peregrino sem o campo temporal. Gucky, que é que você acha?

O rato-castor fez como se fosse apanhado de surpresa, embora tivesse lido na mente de Rhodan a intenção da pergunta. Mas fazia sempre assim, para não dar impressão de estar espionando as pessoas.

— Dá para suspeitar mesmo e não se pode arriscar... — disse ele mudando a posição das mãos. — Acho que devemos perguntar ao Imortal, que costuma saber tudo.

— Isto parece um conselho muito inteligente mesmo — criticou Bell. — Como se não tivéssemos meios para descobrir isto.

Então vá e pergunte a alguém que nem está aí.

— Ele está aí sim, em algum lugar em volta de nós. Invisível e não palpável, nem mesmo telepaticamente. Mas, o que você entende destas coisas?

— Calma — ordenou Rhodan. — Deixem a discussão para mais tarde. Aliás, Gucky tem razão. O Imortal nos ouve e nos vê. Se tivesse alguma coisa para nos dizer, poderia fazê-lo a qualquer tempo. Portanto, vamos esperar.

A Nostasa reduzira de tal maneira a velocidade que podia iniciar o vôo orbital em torno do planeta artificial. Embora os rastreadores já registrassem o planeta, os sensores de matéria nada acusavam. De acordo, pois, com estes últimos instrumentos, o planeta Peregrino não possuía massa nenhuma!

Via-se bem, no aparelho de ampliação, a superfície, onde mares se revezavam com amplas planícies e altas montanhas. Um panorama que, na manhã seguinte, poderia ser totalmente diferente, dependendo da disposição de seu criador.

As galerias e edifícios onde estavam instaladas e funcionavam as duchas celulares não apareciam nos detalhes da ampliação. Sumiram simplesmente, como se nunca tivessem existido.

Era a primeira vez que o comandante

Ten Hogard via este mundo maravilhoso. Seus olhos atentos não se desprendiam das telas de bordo, pois não queria perder nada. Mas notava-se em seus traços alguma decepção. Sabe Deus quantas coisas super maravilhosas esperava ele encontrar.

Seu primeiro-oficial, Major Hagel Ferron, era quem cuidava da navegação. Apesar da importância do seu posto, era ainda relativamente muito moço, sendo que, por trás, podia-se confundi-lo com Bell. Tinha os mesmos cabelos cor de fogo, curtos e hirsutos, e o corpo troncudo e de pouca estatura.

Gucky percebeu tudo isto e naturalmente não deixou de fazer seus comentários, salientando que a natureza fora muito perdulária na distribuição de suas dádivas. Queria dizer que um tipo só desta espécie já bastava. Quando, porém, começou a externar sua suposição de que podia se tratar de um bisneto desconhecido de Reginald Bell, um cinzeiro cheio lhe passou rente do ouvido. Desistiu de prosseguir nas suas bisbilhotices.

De qualquer forma, o negócio com o bisneto deixou Bell muito intrigado. Caiu em profunda meditação e parecia estar pesquisando muitas coisas do passado. Assim, Gucky se divertia tremendamente, sem precisar dizer mais uma palavra. É claro que Hagel Ferron não tinha a menor suspeita do papel que, involuntariamente, estava representando.

— Não cheguem mais perto, eu vos aconselho! Perigo iminente!

Todos que estavam na central escutaram estas palavras. Se foi por via acústica ou telepática, ninguém podia dizer. Ouviu-se realmente a voz clara que lhes falara. Para Rhodan, Bell e Gucky isto não era nenhuma novidade, lembravam-se de vezes anteriores que lá estiveram. Já em muitas ocasiões, o Imortal assim lhes falara, embora, com mais freqüência, por intermédio de um medianeiro físico.

— Mantenha a altura da órbita, Hogard, não desça mais.

Mas parecia que o Imortal ainda não se dera por satisfeito.

— Aumentem a distância, do contrário não me responsabilizarei pelo que lhes acontecer — disse a voz que vinha do nada. — O planeta vai continuar existindo apenas mais alguns minutos na forma atual e eu não posso alterar nada.

Apenas faltou a gargalhada homérica que geralmente acompanhava as comunicações do Imortal. Será que Ele perdera o velho senso de humor? Sua voz soou calma e séria. Rhodan não conseguia se recordar de jamais ter ouvido uma mensagem assim tão seca.

Que será que aconteceu?

— Vamos aumentar a distância — disse Rhodan. — Mas você não pode nos dizer por que motivo não podemos aterrissar? Por que não existem mais as duchas celulares? Você nos devia ter avisado antes de suas intenções...

Desta vez se ouviu a gargalhada do Imortal, indubitavelmente cheia de ironia, reboando por dentro da espaçonave. Os membros da tripulação se entreolhavam, nos corredores, nas cabinas e na casa de máquinas, com sinais evidentes de medo, sem encontrarem uma explicação. A gargalhada provinha das paredes, dos tetos, do próprio chão que pisavam. Vinha do nada.

— ...avisá-los das minhas intenções? — Uma nova e longa gargalhada interrompeu a frase do Imortal. — Há coisas que nem eu sei. Perry Rhodan, escute. Aos seus olhos posso parecer onisciente, você me considera um ser todo-poderoso, acima de qualquer limitação, a despeito de todos os perigos. Mas saiba que não me está julgando como deve. Eu mesmo tenho que abandonar o planeta Peregrino porque estou ameaçado de um grande perigo. Só me resta fugir.

Fugir? O Imortal teria de fugir? Fugir de quem?

Bell olhava para Rhodan, sem dizer nada. De um momento para o outro, a situação se tornara extremamente séria. A influência do Imortal sobre os destinos da civilização galáctica era muito mais ampla do que se imaginava.

Antes que Rhodan pudesse dizer alguma coisa, manifestou-se novamente a voz misteriosa.

— Não me resta muito tempo, embora seja também dono do tempo. Sem a provocação de paradoxos catastróficos, não consigo fazer nada contra o destino ameaçador. Tenho de fugir e destruir Peregrino. Vinte e cinco ativadores celulares já estão espalhados na parte conhecida da Galáxia. Um deles os senhores já encontraram e Bell o está usando. Encontre também os outros, Rhodan. E perdoe as brincadeiras que acrescentei ao seu descobrimento. Não leve a mal também a maior e a pior brincadeira que você vai logo notar em sua constituição... Como consolo, quero presenteá-lo com Homunk, meu fiel servo. Ele não deve morrer na destruição do planeta.

“Homunk...”, pensava Rhodan perplexo. “Quer me dar de presente Homunk, o andróide ou o robô... o que é mesmo Homunk? Parece um ser humano, mas seu cérebro é semi-orgânico, não positrônico. Seu funcionamento é hexa dimensional. Sempre foi Homunk que nos recebia para as duchas celulares e nos transmitia as mensagens do Imortal...”

Antes que Rhodan pudesse responder ao Imortal, Gucky soltou um grito estridente e apontou para o centro da sala de comando, onde do nada surgia alguma coisa estranha.

Homunk!

O robô sorria e inclinava a cabeça para Rhodan.

— Meu senhor quer que eu esteja a seu serviço. E meu primeiro pedido é partir imediatamente em sua espaçonave, pois o mundo que o senhor chama de Peregrino vai deixar de existir dentro de cem segundos.

Rhodan fez um sinal para o Coronel Hogard e poucos segundos após as turbinas começaram a esfuziar. O planeta artificial foi ficando menor.

— Você vai ficar conosco, Homunk?

— Perfeitamente, senhor, estou inteiramente à sua disposição.

— Será que você... que você teria alguma coisa do Imortal para nos transmitir? Não nos deixou nenhum recado?

Homunk se encaminhou na direção de Rhodan e passando por Gucky fez-lhe um agrado, acariciando-lhe o pêlo.

— Sim. Ele me transmitiu um recado, não sei, porém, se é uma coisa boa. O Ser do planeta Peregrino lhe manda dizer, Rhodan, que sente muito o que está acontecendo com todos vocês, com todo o Universo.

Rhodan olhou desapontado para o robô.

— É só isto?

E sacudindo a cabeça, Perry perguntou:

— Por que sente ele por nós? Será que pode haver alguém mais poderoso que o Imortal? Ou existe mesmo uma desgraça diante da qual estamos completamente de mãos amarradas? Acho que não. Que está por trás de tudo isto, Homunk?

Neste momento houve uma alteração no planeta. Os cem segundos já haviam passado, mas a Nostasa já estava também a mais de vinte segundos-luz do planeta, quando o fogo irrompeu de todos os lados. A labareda atômica lambeu todo o disco, devorando a paisagem artificial. A atmosfera ficou incandescente e o sol artificial se extinguiu, desabando também o céu. Depois a bola de fogo foi reduzindo de tamanho, embora os rastreadores a registrassem com a mesma intensidade de antes. Apesar de Peregrino haver desaparecido, nada se alterou no seu substrato material.

— Hogard, vamos voltar para o planeta Peregrino, mais uma vez.

Homunk deu mostras de querer dizer alguma coisa, mas acabou silenciando. Talvez tivesse percebido que seria difícil demover Rhodan de seu intento.

O processo todo durou, no máximo, um minuto. Numa destruição normal, por via nuclear, teria que surgir um sol incandescente que naturalmente acabaria se extinguindo, sobrando depois uma nuvem incandescente indicando o lugar onde estava o planeta.

Mas o mundo artificial desaparecera, embora os rastreadores ainda o assinalassem. Portanto, devia ainda existir, talvez em sua forma primitiva.

Descrevendo uma grande curva, a Nostasa regressou ao local onde estivera o planeta. Flutuava ainda no espaço um diminuto pedaço de matéria, não maior do que uma casa comum, de formato irregular, cercado de forte campo magnético. A julgar pelos rastreadores, possuía ainda a mesma massa que o antigo Peregrino. Em rotação lenta, continuava ele em sua órbita, que parecia inalterada.

Era tudo que sobrara do mundo maravilhoso da vida eterna. Um asteróide, um diminuto bloco de matéria.

Homunk tocou no braço de Rhodan.

— Meu senhor, o Imortal, foi embora, mas deixou uma mensagem que será irradiada desse asteróide, assim que estivermos bem longe dele. Dê ordem para que esta espaçonave volte para a Terra, ou para Árcon, ou para onde o senhor achar melhor. Mas não fique aqui.

Mais uma vez, o administrador fez um sinal ao comandante e a Nostasa acelerou novamente. Em poucos segundos, o asteróide sumiu. Mergulhou na imensidão do espaço.

— Uma mensagem? Que você quer dizer com isto?

— Nada de extraordinário. Não posso dizer nada, pois não sei de nada. A mensagem será dirigida a todas as inteligências da Via Láctea.

— Talvez diga respeito ao grande perigo do qual Ele tinha que fugir. Eu só queria saber de que maneira nos proteger de uma desgraça, diante da qual o próprio Imortal tem que fugir. Nós somos mortais e mais fracos, somos a frágil matéria, enquanto Ele é espiritual e imortal.

Neste momento, invadiu a espaçonave uma voz tão forte e trovejante que todos tiveram de levar as mãos aos ouvidos. Os radiotelegrafistas da Nostasa estavam aturdidos, pois a voz vinha de todos os aparelhos. Parecia que um hiper-rádio incrivelmente mais potente se sobrepôs aos demais. Em todos os alto-falantes da nave se ouvia a mesma voz que Rhodan classificou logo como a do Imortal. Era como se Ele ali estivesse, no meio de todos, falando diretamente.

Devia ser a tal mensagem de que falara Homunk. A voz dizia:

— Aqui fala o Imortal. A Galáxia está tragicamente ameaçada de um grande perigo, do qual me vejo obrigado a fugir, pois seria o primeiro a ser atingido. Procurem, um dia, liquidar esta ameaça, sem meu auxílio. Quero, porém, reavivar a lembrança de todas as inteligências desta Galáxia a respeito do presente que deixei para os mais corajosos e para os mais capazes. Distribuí vinte e cinco vezes a vida eterna, na forma de pequenos ativadores das células, espalhados em vinte e cinco planetas. Um já foi encontrado. Todos têm direito à busca. Procurem, que acharão a vida eterna. Comecem logo, pois não dispõem de muito tempo. A Galáxia está condenada à destruição, mas ainda existe esperança. Reconheçam o perigo enquanto é tempo e encontrem a vida eterna.

Uma horrenda gargalhada veio finalizar a mensagem, que, depois de alguns minutos, foi repetida.

Um transmissor automático a continuou irradiando. Rhodan olhava desanimado para Homunk. Compreendera a mensagem do Imortal. Era a segunda vez que se desvendava o segredo dos ativadores celulares. Todos na Via Láctea sabiam, pois, de sua existência. Já neste segundo iria começar a terrível caçada a estas preciosidades. A ameaça contra a Galáxia não era apenas o perigo desconhecido, mas viria agora um segundo: todo ser inteligente haveria de enganar e matar seu próximo, mesmo seu melhor amigo, para ficar de posse de um ativador. Parecia inevitável o caos.

— Por que razão o Imortal agiu assim? Por quê?

Homunk não sabia responder.

— Deve ter tido suas razões para isto — disse por fim.

Em cinco segundos, Rhodan tomou uma decisão.

— Hogard, vamos voltar atrás, temos de encontrar o asteróide. Nele estará o transmissor do Imortal, que terá de ser destruído.

Mas, por mais que se esforçasse, a Nostasa não achou o asteróide. Estava e ficou perdido por todos os tempos, envolto num campo magnético, impossível de ser localizado não só pelos olhos, como também pelos instrumentos.

Resignado, Rhodan finalmente deu ordem de voltar para a Terra. A insistente repetição da mensagem do Imortal continuava sendo ouvida, apesar de estarem desligados todos os receptores do hiper-rádio.

Não haveria, pois, ninguém que não tivesse ouvido a mensagem.

 

Rhodan, porém, não desceu na Terra, mas na completamente reconstruída Lua. O satélite se transformara num estaleiro espacial de primeira ordem, produzindo em série os gigantes da Cosmonáutica. Não havia um palmo de chão que não estivesse aproveitado e os possantes campos magnéticos de proteção traziam segurança total de trabalho.

A coisa mais importante na Lua, era, porém, Natan. Natan, o sábio, como o costumava chamar Bell.

Natan era um gigantesco cérebro eletro-impotrônico. Incrustado nas profundas camadas rochosas da Lua, resolvia todo tipo de problemas que lhe fossem apresentados. Somente os especialistas é que tinham acesso ao ciclópico computador e, naturalmente, as pessoas credenciadas por Rhodan, com uma ficha especial confeccionada à base de ondas cerebrais. O próprio computador rejeitava todo aquele que não tinha direito de entrar. Rhodan desceu na Lua para consultar-se com Natan.

Continuava-se ainda ouvindo a mensagem do Imortal, embora não mais no mesmo volume. Quem sabe era o transmissor que estava se afastando a grande velocidade. E isto em nada contribuía para tranqüilizar Rhodan, pois significava apenas que o âmbito de audiência da mensagem se ampliava sempre mais.

Exatamente quando a Nostasa tocava o solo lunar, cessou a irradiação. Durou, porém, pouco esta interrupção, não mais de cinco minutos e, logo depois, começou de novo. E desta vez, mudando de teor, o Imortal disse:

— Somente os mais espertos e mais competentes é que acharão um ativador celular e o utilizarão. Mas certamente existirão pessoas ainda muito mais inteligentes e competentes. Quero garantir a estes últimos que não devem perder a esperança por um outro ter sido mais ágil que eles. Precisam apenas ir até ele e arrebatar-lhe o ativador. A vida eterna pertence a quem souber conquistá-la. O possuidor pode dar de presente seu ativador ou passá-lo simplesmente para frente. E mais uma coisa: os ativadores irradiam sempre muitos impulsos que só cessarão quando alguém os achar. Com qualquer rastreador de impulsos ou um aparelho receptor podem-se captar suas transmissões. Com ondas normais e hiperondas, o alcance chega até a distância de três anos-luz. Quem, pois, ouvir os sinais, não está muito longe da vida eterna. E não se esqueçam da iminente destruição. Quando ouvirem minha mensagem, estaremos separados por milhões e milhões de anos-luz. Desejo-lhes toda felicidade.

Depois de curta pausa, a mensagem foi repetida.

Rhodan ouvira tudo calado, enquanto Bell não ficou assim tão tranqüilo. Seu rosto ficou ainda mais vermelho e seus cabelos se arrepiaram.

— O diabo que carregue este Imortal — disse irritado. — Não sabe o que está provocando com isto?

— Mais uma de suas famosas e macabras brincadeiras, se bem que eu pessoalmente não vejo nenhuma graça em tudo isto. Vai começar uma corrida louca e perigosa, como nunca houve na Galáxia. Uma corrida atrás do ativador. E logo surgirão lutas imprevisíveis. Populações inteiras de um planeta entrarão em guerra fratricida, somente para ficar de posse de um destes ativadores. E teremos que ser muito rápidos, se quisermos prolongar a vida de alguns de nossos mutantes.

O rosto de Bell mudou de cor.

— Santo Deus, os mutantes... John Marshall, Ras Tschubai, as moças, e tantos outros... Que devemos fazer, Perry? Temos de ajudá-los. Mas... vinte e quatro ativadores espalhados em milhares de planetas... como conseguiremos apanhá-los?

— E como conseguiremos conservá-los? — disse Rhodan, tocando no ponto crucial da questão.

Olhou para Gucky que caminhava tranqüilo pelo corredor em direção à central de comando.

— Venha comigo, temos que consultar Natan. Comandante Hogard, esteja com a Nostasa sempre pronta para partir. Dentro de duas horas devemos estar de volta para a Terra. Há muita coisa a fazer.

Eram três figuras solitárias, demasiadamente pequenas, que logo depois se encaminharam para o bloco gigantesco, que não era outra coisa senão a entrada para o gigantesco cérebro eletro-impotrônico. O verdadeiro edifício, de proporções ciclópicas, estava abaixo da superfície.

O portão se abriu sem o menor ruído. Natan reconhecera as vibrações do cérebro de Rhodan, reagindo imediatamente. Os dois homens e Guck entraram, então, num deslizador que os levou para o centro do gigante. Alimentaram o cérebro com os dados conhecidos e fizeram suas perguntas, recebendo depois a resposta.

A caça desenfreada aos ativadores celulares já havia começado em toda a Galáxia, e, através do cálculo pelas probabilidades, se podia prever que o primeiro ativador dos vinte e quatro restantes, a esta hora, já podia ter sido descoberto.

 

Era um planeta desértico, pobre em atmosfera e muito esquisito. Os picos das montanhas se erguiam a mais de quatro mil metros acima de sua superfície. Nos desertos arenosos ou de cascalho crescia um tipo de vegetação que lembrava em muito os cactos. Em certos pontos, atingiam altura tal e tamanha densidade que chegavam a formar florestas impenetráveis.

Nos terrenos mais baixos havia água represada, originando assim lagos e pequenos mares interiores, não muito fundos e com pouca vida. Esta água era alimentada por chuvas esparsas. Não se podia, porém, falar em rios, no máximo pequenos riachos.

O planeta era habitado e os descendentes plenamente degenerados de colonizadores arcônidas viviam somente em alguns pontos de um mundo tão estéril, levando vida digna de lástima. Seu número era tão reduzido que podiam caber numa pequena cidade da Terra ou de Árcon.

O palco dos acontecimentos, que se seguirão, distava tanto das paupérrimas colônias dos nativos que estes não repararam nada, e continuaram com a crença de que eram os únicos seres inteligentes de sua terra.

O pequeno sol de cintilação avermelhada, que dava vida ao céu de um azul escuro, fornecia pouco calor. Mesmo durante o dia podiam ser avistadas nitidamente estrelas de maior grandeza. Aos pés de uma ampla cadeia de montanha, abria-se um lago, circundado por cactos. Trilhas estreitas atravessavam as extensões de cactos, não sendo raras grandes clareiras na floresta seca.

Numa destas clareiras havia uma espaçonave. De conformação cilíndrica, devia ter uns duzentos metros de comprimento. Muitas manchas e arranhões falavam de uma longa permanência no espaço e de colisões com meteoritos ou com raios energéticos inimigos. A grande nave repousava nos suportes de aterrissagem, em plena floresta, protegida de todos os lados contra uma eventual descoberta. Só não havia camuflagem para quem olhasse de cima, mas neste planeta não existia nenhum tipo de avião. Gol Kamer, comandante da estranha espaçonave, sabia de tudo isto.

Gol Kamer era um patriarca dos saltadores, um gigante assustador de quase dois metros de altura. Uma barba selvagem lhe emoldurava o rosto atrevido, dando-lhe a aparência de um guerreiro pré-histórico, das sagas nórdicas. Cabelos vermelhos, pele morena, nariz arrogante e recurvado. Nos olhos crepitava a malícia, amparada por notável esperteza e total ausência de medo. Os lábios carnudos exprimiam desenfreada ânsia de viver sensualmente.

Gol Kamer já era idoso, mas muito bem conservado para lutar contra a morte e as doenças. Ainda era o comandante da Kam V, onde passara quase sua vida inteira. Tinha que cuidar de seu clã. Em algum lugar viviam as mulheres e filhos, bem escondidos e protegidos. E ninguém haveria de descobrir o pequeno asteróide, girando em torno de um planeta desconhecido, sob a proteção de um forte campo energético, a centenas de anos-luz de distância. Apenas de dois ou de três em três anos é que a Kam V voltava para sua base, trazendo o fruto de seu comércio ou de seus roubos.

Ficava algumas semanas ou meses, havendo então algo semelhante a vida em família.

Eram homens rudes estes mercadores galácticos, ou saltadores, como eram chamados. Haviam aderido ao Império, mas ninguém confiava neles. Trilhavam sempre seus próprios caminhos, dando sempre um jeito de conseguir maiores vantagens comerciais.

Pareceu, pois, uma coisa estranha a chegada da Kam V a este planeta tão insignificante. O motivo desta passagem fortuita por um mundo desprovido de interesses comerciais, o patriarca Gol Kamer gostaria de manter em segredo, mas não lhe foi possível, pois, quando captou os impulsos do rádio, não estava sozinho na central de comando de sua nave. Seu filho Fella e outros oficiais ouviram tudo.

Fella era a imagem e semelhança do pai. Apenas era mais jovem e usava barba curta. Mas já se podia prever que, um dia, haveria ele de gerir os negócios do clã com a mesma prudência e argúcia como hoje seu pai. Os dois se dedicavam o mesmo amor e o mesmo respeito, pelo menos até o momento em que a importante notícia vinda pelos sinais de rádio se infiltrou em suas consciências, despertando no seu íntimo uma ganância irrefreável.

A ganância pela vida eterna!

Em qualquer lugar deste planeta árido, semidesértico, devia haver um ativador celular. Quem o achasse, e o soubesse conservar, jamais morreria. Só este fato daria para explicar a rivalidade entre pai e filho, que não haveriam de ter escrúpulos na escolha dos meios para atingir seu objetivo... o ativador, principalmente depois de ser encontrado.

Até agora, ninguém pudera sair da Kam V. Tranqüila e aparentemente sem vida, lá estava a nave no cerrado de cactos. No seu interior, porém, a tranqüilidade, se existisse, seria aparente.

— Sou mais velho que você, Fella — dizia Gol Kamer, em tom ameaçador e de sobrancelhas levantadas. — Por que razão não deve ser eu quem vai dirigir o comando de procura do ativador? Se usarmos os instrumentos de rastrear, facilmente poderemos localizar o ponto em que se encontra. Sem sairmos de bordo, será impossível.

— A questão não é esta, pai — retrucou Fella com certa rispidez.

Desde a aterrissagem no planeta inóspito, estava com uma pistola energética na cintura e sua mão direita não estava muito longe da coronha.

— Até hoje, em todas as missões em terra, o senhor permaneceu a bordo e cuidou de sua segurança pessoal e da de sua nave. Por quê, de uma hora para outra, o senhor quer se expor ao perigo lá fora?

O pai piscou o olho mais intimamente.

— Você sabe por quê, meu filho. Sou mais velho, como você acabou de dizer neste instante. Você é muito jovem. Mais tarde, eu lhe darei o ativador, quando não tiver mais vontade de usá-lo. No entanto, agora, posso ainda deter o processo de envelhecimento. Como patriarca tenho direito a isto, não vê?

— Direito ou não direito, quem o encontrar ficará com ele.

Propositalmente, Gol lhe deu as costas, podendo, porém, através da imagem refletida no aço polido dos instrumentos de medição, acompanhar todos os movimentos do filho. Parecia estar desejando que o desfecho se desse naquele momento.

Mas Fella era bastante prudente para não agir com precipitação.

— Toda a tripulação, meu filho, parece estar com o diabo no corpo. Você é a única exceção. Não podemos deixar todo mundo sair correndo lá para fora à procura do ativador. Também não podemos deixar a nave sem uma guarda de proteção.

— Ninguém vai querer ficar parado aqui dentro, pois todos querem e esperam ter a chance de se tornar imortal. Também eu.

Gol se virou lentamente e muito excitado mordia o lábio inferior. Olhava penetrantemente para o filho.

— E os oficiais, seus subordinados? Que dizem eles?

A voz de Fella tinha um timbre de triunfo.

— São todos da mesma opinião: direitos iguais. Quem for o mais rápido, será o vencedor e receberá o galardão. O ativador não poderá ser tirado de ninguém. Quem o encontrar, ficará com ele.

O sorriso de Gol continha amargura.

— Isto significa luta, Fella. Haverá conflitos e ninguém terá mais segurança de vida, meu filho. Para que isto? Eu sou o patriarca, o senhor e responsável pelo clã. Até hoje, todos obedeceram às minhas ordens. Por que teria que mudar agora de repente?

Fella também sorria, mas de um modo diferente.

— Porque, desta vez, se trata de coisa muito mais importante do que riqueza. Trata-se da imortalidade, de um poder imensurável, da vida e da morte. Quem nasce está condenado à morte, um dia mais ou um dia menos. Toda nossa existência se caracteriza pelo medo da morte. O que não se daria então para perder este medo? O que que a gente não faria para se tornar imortal? Quero lhe dizer, meu pai: a gente faria tudo, daria tudo, para ficar livre do medo de morrer.

— Até mesmo da vida? — a gargalhada de Gol reboou pela central de comando. —

Parece coisa sem lógica. Que sentido tem perder a vida para vencer a morte?

Fella não sorriu mais. Sua fisionomia permaneceu séria e rígida.

— Aí está realmente o risco, pai. E todos nós vamos correr este risco. E agora, decida-se afinal. Não podemos esperar aqui eternamente. Se mais alguém captar estes impulsos de rádio, a situação ficará pior. Arregimente o pessoal do comando de busca. Eu os comandarei.

— E eu ficarei parado a bordo, esperando que você volte com o ativador pendurado no pescoço, não é? Isso nunca.

A mão de Fella chegou mais perto da arma.

— Então...

Não chegou a concluir o pensamento.

A porta do posto de comando se abriu bruscamente e um homem de aparência selvagem, em roupas de couro, se precipita para dentro. Estava armado e usava barba comprida. Antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, ele gritou:

— Uma nave estranha, um cruzador do Império se aproxima!

Gol e Fella se entreolharam por um instante e a decisão foi tomada. A luta pelo ativador deveria ser adiada para mais tarde. Primeiramente tinham que se descartar do novo inimigo, pois só poderia haver um motivo que justificasse a presença de uma espaçonave do Império ali, um planeta classificado nos mapas siderais como interditado.

— Estado de alarma e prontidão de fogo — gritou Gol no intercomunicador, e sua ordem chegou a todos os recantos da Kam V. — Ocupar todos os postos de artilharia. Abrir fogo contra a nave inimiga somente quando o alvo estiver bem próximo. Não deixá-la aterrissar incólume, se possível destruí-la.

Desligou o intercomunicador. Sem dizer uma palavra, olhou de novo para seu filho e, apontando com menosprezo para a arma na cintura dele, disse com visível ironia:

— Acho que isto pode ser resolvido mais tarde.

Cabisbaixo e mudo, Fella Kamer deixou a sala de comando.

 

A vida num cruzador do serviço de vigilância interestelar era tudo, menos divertida e variada. Seguia-se sempre a rota determinada, só se afastando por motivos imperiosos e mantendo sempre atitudes mais ou menos passivas. Por todos os recantos da Galáxia, os cruzadores de vigilância da Frota Imperial patrulhavam. Mesmo nas proximidades de Árcon.

A Nusis era um desses cruzadores, uma esfera de cem metros de diâmetro e com uma tripulação de cento e cinqüenta homens, quase todos terranos.

O comandante desta nave era o Major Felhak, um jovem oficial conhecido por seu orgulho. Tornou-se cadete muito jovem, mostrou suas qualidades excepcionais em diversas unidades e avançou até comandante de um cruzador leve. Seus superiores lhe previam uma carreira brilhante.

Apesar de seu orgulho, Felhak era muito querido por sua tripulação. Todos sabiam que ele jamais se meteria em riscos desnecessários apenas para satisfazer seu orgulho. Qualquer procedimento seu era sempre muito ponderado e sempre alimentado pela idéia de servir ao Império, de poupar vidas e dar o bem-estar a sua gente. A Nusis, equipada com propulsão linear, voava apenas com dez vezes a velocidade da luz ao encontro do próximo sistema solar. Era sua obrigação abordar todos os sistemas que estivessem em sua rota, como também orbitar mais vezes seus planetas. Não se tratava tanto de constatar alterações, mas sim de demonstrar a eventuais habitantes a permanente presença da Frota Imperial.

No sistema que tinha à sua frente, estavam previstos cuidados especiais, pois os três planetas do sol Thatrel eram classificados como “mundos interditados”. Isto queria dizer que nenhum aparelho da Frota Imperial poderia descer neles, exceto em casos de emergência. Isto valia sobretudo para o segundo planeta que, nos mapas siderais recebia o nome de Honur.

Quando a Nusis ainda estava a dois anos-luz do sol vermelho Thatrel, o Major Felhak pegou o atlas e começou a estudar tudo que constava sobre o sistema que estava em vias de inspecionar. Sua maior preocupação era fazer tudo do melhor modo possível.

E constava no atlas:

 

Sol Thatrel, grandeza quatro, vermelho, distância de Árcon: 47 anos-luz. Três planetas. Número um e três não-habitados e não-habitáveis. Habitável e habitado somente o número dois, chamado de Honur. Gravidade 0,7 G. Diâmetro seis mil quilômetros. Semelhante a Marte, porém mais úmido. Atmosfera: inadequada para o organismo humano (necessário compressor de oxigênio). Temperaturas baixas. Habitantes: descendentes de arcônidas, degenerados e primitivos.

 

E depois veio o mais importante. Felhak leu com muita atenção, pois se explicava a razão por que Honur era um planeta interditado.

 

Surgimento da hipereuforia, chamada também peste Nonu, no ano 1.984. Os portadores da doença foram todos exterminados, mas os germes da mesma são muito resistentes. Não se tem nenhuma certeza de que possam ser eliminados. Leia mais a respeito nas...

 

Felhak levantou os olhos do atlas e de suas interessantes explicações. Alguém entrara no posto de comando, era o primeiro-oficial Capitão Faucette.

— Revezamento, senhor. O senhor pode ir descansar. Quanto falta ainda? — perguntou apontando com o queixo para a tela panorâmica, onde se via com nitidez o sol vermelho Thatrel.

Felhak considerava muito seu braço direito, o primeiro-oficial, e já o conhecia há muitos anos. Serviam na Nusis há sete meses e combinavam muito bem. Faucette era o tipo do homem valente, inteligente e resoluto, pronto para tudo. Era pessoa em quem se podia confiar.

— Cerca de sete horas, mantendo esta velocidade, capitão. Pode assumir, mas peço que me acorde antes de chegar ao sistema, que sendo interditado, deve ser observado por nós dois juntos, principalmente o segundo planeta. Quem sabe, alguém desprevenido fixou residência lá?

Faucette sorriu compreensivo.

— Estou notando que mundos proibidos o atraem muito, senhor. Também gostaria muito de descer num deles.

— Certamente não teremos oportunidade para isto, capitão. Tenho que fazer tudo para não ir de encontro às prescrições galácticas. Você também, acho eu, não é?

— É claro — respondeu Faucette, sem muita convicção. — Só mesmo num caso de emergência.

Felhak fez um sinal com a cabeça para ele e para o navegador, deu um leve sorriso e deixou a sala de comando. Mas seu caminho não o levou para sua cabina, e sim para a biblioteca do cruzador, onde havia documentos sobre todos os planetas conhecidos.

Parecia ter intenção de ficar ali lendo um pouco.

 

Seis horas mais tarde, o oficial de serviço o veio despertar.

— Capitão Faucette manda dizer que dentro de uma hora estará alcançando a órbita de Thatrel III.

Felhak dormira pouco e estava muito cansado. Levantou, tomou uma ducha, fez a barba e meia hora mais tarde chegava à central de comando.

— Estamos captando sinais de rádio, senhor — anunciou o capitão. — Será que o pessoal lá embaixo, no segundo planeta, redescobriu a técnica? Nas informações consta que se trata de gente primitiva e degenerada...

— Sinais de rádio? — o major estava perplexo. — Que tipos de sinais?

— De rádio normal. Ouve-se como se alguém estivesse praticando, repetindo sempre os mesmos sinais, sem sentido.

Faucette parou de falar, olhando para seu chefe que parecia muito espantado. Realmente, o comandante estava atônito.

— Que há? Por que você parou de falar?

Mas Faucette lhe virou as costas e começou a contemplar a tela panorâmica.

O terceiro planeta do sistema estava passando ao lado da Nusis. Era um mundo sem atmosfera. Mais para a frente, surgia Honur, ficando cada vez maior. A velocidade do cruzador foi reduzida.

Bem lentamente, o primeiro-oficial virou-se para o comandante.

— Não tem mesmo muito sentido ficar falando, o melhor é o senhor falar com o radio telegrafista. Venha comigo, senhor. Ouça diretamente os sinais. É pena que não compreendi isto mais cedo...

Sentados imóveis diante dos instrumentos, estavam na cabina de rádio um tenente e dois cadetes. Olhavam fascinados para os alto-falantes de onde brotavam com nitidez os sinais comuns de Morse, inundando o pequeno cubículo.

Felhak acompanhava tudo com atenção, repetindo os sinais.

— ...longo-breve-breve. Pausa. Breve-breve-longo-breve-breve. Pausa e tudo começa de novo.

E Felhak não perdeu tempo... Pegou Faucette pelo braço e o puxou de volta para a central de comando, levando-o para um canto onde os oficiais navegadores e os rapazes de serviço não pudessem ouvir suas palavras.

— Você sabe o que significam estes sinais?

— Sim, a partir dos últimos instantes. São idênticos aos sinais usados pelo Imortal para seus ativadores. Sendo assim, uma grande surpresa nos aguarda em Honur. Um ativador celular. A vida eterna, senhor. Podemos descer...?

Não apenas suas palavras, mas principalmente a cobiça a cintilar em seus olhos, traía os pensamentos secretos do capitão. A primeira reação de Felhak foi de ira, mas depois teve que reconhecer que esta ira estava baseada somente no fato de não ser ele o único homem a bordo a entender a mensagem em código Morse.

— Se vamos ou não aterrissar, quem determina isto sou eu. Honur é um planeta interditado, onde só é permitido descer em caso de emergência.

O Capitão Faucette sorriu malicioso.

— O senhor não acha que um ativador celular é também um caso de emergência?

— Supondo que desçamos no planeta, seria nosso dever entregar o ativador na próxima base espacial, caso o encontremos. Acho que o capitão não tem dúvidas a respeito, não é? Ou será que suas intenções são outras?

Era mais do que evidente que as intenções de Faucette eram outras, mas ele não as haveria de confessar. Era melhor não falar nada.

Felhak não estava compreendendo ainda a gravidade da situação que daí se originaria, nem estava claro se ia ou não entregar o ativador. As testemunhas seriam muitas e não as conseguiria silenciar todas. O Imortal fora categórico ao afirmar que o objeto pertenceria a quem o achasse. Mas que vantagem poderia ter o ativador para a existência do Império, se fosse para tornar imortal um Major Felhak ou Capitão Faucette? Não deveria ser entregue ao grande administrador?

Felhak decidiu deixar a resolução final entregue ao destino. No íntimo, porém, alimentava a esperança de, com qualquer estratagema, ficar de posse do precioso aparelho, sem cometer nenhum deslize contra a ética profissional.

Neste momento, um vozeirão estrondoso irrompe do intercomunicador. Era o radiotelegrafista de serviço, como Felhak constatou logo.

— Pessoal, no segundo planeta ali na frente existe um ativador celular. Quem o achar, se tornará imortal. Comandante, providencie tudo para uma aterrissagem imediata. A vida eterna nos espera.

Felhak não podia mais fazer nada. Que loucura cometera o operador de rádio comunicando a toda a tripulação a existência de um ativador no planeta Honur... O comandante estava quase explodindo de raiva. Mais correndo do que andando, chegou à cabina de rádio e empurrou a porta.

— Becker, você está ficando louco? Quem lhe deu ordem de transmitir esta mensagem pelo intercomunicador? Considere-se preso a partir de agora. Vou entregá-lo na próxima base espacial à corte marcial.

Becker se levantou devagar. Era baixo-te, troncudo, cabelos louros e rosto avermelhado. Seu olhar tinha algo de sinistro.

— Senhor, acho que é conveniente rever sua decisão, peço mesmo que faça isto, em seu próprio benefício. Há um ativador celular em Honur e o senhor sabe o que isto significa. A tripulação toda tem direito de saber disso. O senhor não pode prosseguir no vôo, sem nos dar oportunidade, a todos nós, de procurar e achar o aparelho.

— Oportunidade? — Felhak olhava frio para o radiotelegrafista. — O que você entende como oportunidade? A possibilidade de encontrar o ativador? Não tem a menor importância quem o encontra, pois temos que entregá-lo na próxima estação espacial do Império.

— Não foi isto o que disse o Imortal...

— Não nos interessa o Imortal, mas sim o Império. Os ativadores celulares pertencem a Perry Rhodan. Está claro isto? Bem, e agora entregue-se à prisão, antes que mande chamar os guardas.

Becker levantou um pouco mais a voz.

— O que o senhor tem contra o fato de a tripulação estar a par dos acontecimentos? — perguntou insidioso.

— Minhas intenções e minhas razões não são da sua conta, tenente. Sei bem o que estou fazendo, quero lhe deixar claro que você é responsável pelo pânico que possa originar-se agora com a tripulação. Basta, siga seu caminho agora.

Becker saiu, não sem antes fazer um gesto significativo para os dois cadetes. Felhak viu, mas não estava ainda compreendendo a situação em toda sua plenitude e conseqüências. Estava piamente convencido de que o Tenente Becker tinha ido se apresentar ao oficial da segurança. Mas não foi exatamente isto que fez o telegrafista. Nem chegou a caminhar muitos metros, pois quando alcançou o corredor central, um grande grupo de homens alvoroçados lhe vieram ao encontro, acumulando-o de perguntas. Quando lhes explicou que devia ser preso naquele instante, exatamente por haver transmitido a notícia do ativador, o circo pegou fogo. Todos os cadeados da disciplina foram abertos, vendo cada um somente a possibilidade de poder viver eternamente, de não precisar mais ter medo da morte, permanecer sempre com saúde.

Num ímpeto quase selvagem, a massa excitada comprimiu o Tenente Becker contra a parede, deixou-o para trás, correndo na direção do elevador antigravitacional.

— Ei... por amor de Deus, parem. Vocês ficaram loucos? O comandante haverá de...

Becker parou de repente, pois ninguém queria ouvir o que estava dizendo. Será que cometera algum erro? Presenciara ali a transformação ocorrida com aqueles homens. Primeiro, olharam para ele como de maior hierarquia, depois como conspirador e afinal, ao saberem de tudo, como um empecilho incômodo no caminho para a central de comando.

Por um instante pensou em avisar o comandante, acabou desistindo com um sorriso irônico.

“Não, por que avisar Felhak? Não, o comandante está pensando em entregar o ativador na próxima estação espacial e com isto jamais o aparelho chegará às mãos de quem de direito. A mão legítima seria aquela que o achasse. Considerando tudo isto, será até melhor eu não me entregar à prisão, como é meu dever. Quem sabe mesmo, se daqui a cinco minutos, Felhak não será mais o comandante da Nusis?”

O tenente saiu, sem saber para onde ia. Resolveu depois caminhar para a parte externa, isto é, para o local do hangar, onde estavam também os aposentos da tripulação. Por lá ninguém iria pensar em prendê-lo, ou lhe fazer perguntas sobre o que iria fazer. Primeiramente, aí estaria bem seguro, podendo acompanhar calmo o desenrolar dos fatos.

Tinha, porém, menos tempo do que supunha.

 

Quando apareceu nítido na tela frontal o planeta Honur, desvendando os detalhes de sua superfície, os piores e mais contraditórios pensamentos conturbavam a mente do Major Felhak.

Firmava-se cada vez mais sua intenção original de entregar o ativador a Perry Rhodan, caso fosse mesmo encontrado. No entanto, os motivos que o levaram a esta resolução já não eram os mesmos. Se tentasse furtar o ativador, teria contra si não apenas o Capitão Faucette, mas a tripulação inteira. Seria tudo tão diferente se este desgraçado telegrafista Becker tivesse calado a boca. Com Faucette sozinho, ele resolveria facilmente a questão. Mas agora, a luta seria com toda a tripulação, que certamente não iria assistir de braços cruzados ao desenrolar dos fatos. Sempre haveria quem protestasse e “botasse a boca no mundo”.

Felhak não sabia como a situação entrementes mudara totalmente. Não foi, pois, de se estranhar quando chegou para o Capitão Faucette e lhe disse:

— Providencie que se entre em órbita para uma aterrissagem. Vou cuidar dos dados para isto, inclusive vou localizar com exatidão a área onde está o ativador. Quem sabe teremos sorte e o acharemos?

— Quer dizer, então, que vamos descer mesmo neste planeta? — perguntou com malícia o primeiro-oficial.

Felhak titubeou, mas dominou sua desconfiança.

— Quero lhe dizer uma coisa, Faucette. Honur é um planeta interditado, é verdade. Mas a razão desta medida, existia há trezentos anos atrás. Foi uma epidemia transmitida pelos ursinhos, já destruídos, o que naturalmente acabou com o perigo da peste. Até hoje, porém, não se resolveu suspender a interdição. Não vamos, pois, correr risco nenhum, ao descermos no planeta. Mas eu continuo com a exigência inicial: o ativador celular deverá ser entregue.

— Tem de ser entregue mesmo? — perguntou o Capitão Faucette em voz tão alta para que todos na sala de comando o pudessem ouvir, se bem que a maioria já estava a par de tudo. — E é esta realmente sua opinião sincera, major? Se ninguém tivesse ouvido nada a respeito do ativador celular e o senhor achasse o objeto, haveria mesmo de devolvê-lo? Ou é mero pretexto agora, porque não vê mais nenhuma possibilidade de ficar com ele? Não estará apenas escolhendo o mal menor, isto é, uma recompensa... e coisa e tal?

Enfurecido, Felhak via aumentar dentro de si o ódio tremendo pelo fato de Faucette ter desvendado a verdade. Mas no íntimo, o major ainda nutria um raio de esperança de acabar ficando com o ativador.

— Estamos já em órbita, senhor — disse o navegador indiferente, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. — Aguardamos ordens.

Felhak estudou seu tom de voz. Não, não parecia ter nada de extraordinário. O homem parecia mesmo não querer nada com o ativador. Ou seria tão fleumático para esperar com calma os acontecimentos?

Da cabina de rádio vinham sinais de Morse.

...breve-breve-longo, breve-breve...

— Falaremos disso mais tarde — disse Felhak para Faucette, fazendo-lhe um sinal. — Continue tentando a localização exata e me comunique os resultados.

Sorriu desajeitado e continuou:

— Não tente me indicar o lugar errado, para depois sair passeando por aí e voltar com o ativador.

A Nusis já estava sobrevoando o planeta Honur com bem menos altura. Os sinais do ativador eram tão fortes que podiam ser captados com qualquer rádio de bolso. E todo oficial usava no pulso um destes aparelhos. Faucette desaparecera na cabina de rádio e Felhak ouviu como ele dava suas ordens lá dentro. Podia, pois, confiar nele, pelo menos até que o ativador fosse localizado. Depois, no entanto...? Que aconteceria?

A porta da central de comando se escancarou de supetão e vários oficiais e sargentos, seguidos por cadetes mais tímidos, se precipitaram no recinto. Alguns, até com armas engatilhadas.

O Major Felhak foi apanhado de surpresa.

Motim, um verdadeiro motim! Teria o direito de condenar à morte cada um daqueles malucos. A disciplina da Frota era dura. Ele, Major Felhak, representava ali a lei do Império.

— É verdade que o senhor tenciona entregar o ativador celular ao comando da Frota? — perguntou um sargento com aparência de lutador de boxe, cujo nome o major esquecera no momento. — Se for verdade, ficará sabendo agora que não concordamos com isto. O ativador pertencerá a quem o achar, como foi sobejamente acentuado na mensagem do Imortal. A vida eterna pertence aos mais fortes, aos mais corajosos e aos mais espertos.

Felhak não recuou um passo. Podiam dizer o que quisessem dele, mas ninguém o podia chamar de covarde, o que nunca foi. Sua mão direita estava firme na coronha da arma, travada é verdade, mas municiada.

— Voltem imediatamente aos seus alojamentos e aguardem novas ordens — disse impertérrito. — Se recusarem a obedecer serão considerados amotinados e terão os castigos correspondentes. Vou lhes dar dez segundos. Um, dois...

Não chegou até cinco, pois, de repente todos avançaram contra ele.

À porta da sala de rádio estava o Capitão Faucette, olhando de braços cruzados.

 

O cadete Grabitsch tinha somente um ano de experiência em vôo espacial, começando já a se familiarizar com a vida na Frota. É verdade que sua ânsia por aventuras sensacionais não havia ainda sido satisfeita. Mas isto era questão de sorte, como diziam os colegas mais velhos. E, quando menos se espera, as aventuras surgem.

Grabitsch tinha uma altura respeitável, mais de dois metros, cabelos cor de fogo e o rosto coberto de espinhas. Até hoje, ninguém se atrevera a fazer gozação com ele por causa de sua aparência. Os ombros possantes pareciam lhe dar boa “cobertura”.

Quando se diz em geral que pessoas fortes são bonachonas, é errado. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Pelo menos Grabitsch era uma grande exceção. Podia ficar mesmo perigoso, se fosse provocado. Devia agradecer à sua boa estrela o fato de nenhum de seus superiores lhe ter dado ocasião para perder a calma.

Ao ouvir as novidades do ativador celular, entrou também na onda viva dos acontecimentos, como qualquer outro a bordo da Nusis. Mas nem por isso perdeu a dignidade de sua calma e de sua garantida superioridade.

Não nutria nenhuma esperança de se tornar possuidor do ativador. Quem o deixaria botar os pés no planeta prometido, a ele, um simples cadete? Mas quando os amotinados o levaram de roldão e com eles penetrou na cabina de comando, aliás contra sua vontade, veio-lhe uma idéia.

Se os amotinados tomassem conta da espaçonave e matassem o comandante e os oficiais fiéis a ele, seria o maior desastre... Talvez achassem o ativador, mas logo depois começaria uma luta estúpida pela sua posse e somente o último sobrevivente seria o vencedor. As possibilidades estariam aqui na base de um para duzentos.

No entanto, se permanecesse ao lado do comandante, as possibilidades passariam de um para um.

Quando o Major Felhak rolou pelo chão, massacrado pela multidão, não podia pensar mais em ser salvo. Já lhe haviam há muito tirado a pistola de raios energéticos e devia dar graças a Deus por ninguém ter a ousadia de, naquele pequeno espaço, fazer uso de uma arma tão possante. Um disparo ali haveria de matar mais de uma pessoa. Provavelmente, esta foi a circunstância que o salvou. A ela devia a vida. E também à circunstância singular de que, de repente, alguém tocou em seu braço e lhe fez um sinal. À sua frente, sob os pés dos amotinados, estava deitado um enorme e forte cadete de cabelos cor de fogo.

— Psiu, major! — segredou ele, piscando os olhos. — Fique quieto aí deitado, até que o pessoal o esqueça. Depois, não restará outra coisa, senão fugir.

Mas não esqueceram o pobre Major Felhak.

Da cabina de rádio saiu o Capitão Faucette, gritando a todo pulmão.

— Prestem atenção! Prestem atenção! Quem de vocês concorda em organizarmos uma bela corrida à procura do ativador celular? Quem concordar, levante a mão. Minha proposta é que devemos aterrissar logo e, todos juntos, comecemos a procurá-lo. Cada um de nós deve ter sua chance. Quem achar o ativador, será seu proprietário, ninguém lhe pode tirar. Então, estou esperando a resposta de vocês.

Alguns ainda estavam desconfiados.

— O senhor não vai querer entregar o ativador ao comando da Frota, como planejava o comandante?

— Vocês me acham louco? Também estou ansioso à procura da vida eterna, como vocês todos. Portanto, possibilidade para todos e cada um. Combinado?

Quando todos, erguendo os braços, o aplaudiram, o Capitão Faucette continuou:

— Peguem Felhak e levem-no para o cárcere. Mais tarde, haveremos de decidir o que fazer com ele. Quem sabe, vamos arranjar um “lamentável acidente”?...

Grabitsch agarrou no braço de Felhak.

— Vamos embora, para fora daqui, antes que o pessoal o estrangule. Conheço um bom esconderijo...

Felhak obedeceu sem titubear. Foi se arrastando atrás do cadete, sem que os amotinados o vissem. Lá fora, no corredor, levantou-se e ficou olhando melhor para o seu salvador. Mas o espadaúdo de cabelos avermelhados não lhe deu muito tempo.

— Venha, major, se tiver amor à vida. Se o pessoal lá dentro notar que o senhor escapuliu, não dou mais nem um vintém por nossas vidas. Vamos lá para os hangares, onde não nos vão procurar.

Ainda puderam ouvir o grito lá na central de comando:

— Ele fugiu! Mas nós o pegamos ainda. Vamos, capitão, aterrisse.

Faucette não teve escolha. Teve que fingir que estava de acordo com os amotinados. Talvez, com eles conseguiria mais do que com o rígido comandante...

Sentou-se diante dos controles e iniciou as manobras de aterrissagem. Os sinais irradiados lhe indicavam o caminho.

Neste meio tempo, Felhak e Grabitsch se esgueiravam com toda cautela por corredores e elevadores. Aos poucos, se aproximavam da extremidade da nave, onde estavam os hangares. O comandante confiava plenamente no cadete que parecia já ter traçado um plano estratégico. O episódio da rebelião repentina o deixara desatinado, estando agora feliz por ter encontrado um apoio. Seu poder de reação parecia até então reduzido a zero, tão forte lhe fora o choque da indisciplina coletiva. O que mais o amargurava era o fato de seu primeiro-oficial ter passado para o lado dos amotinados.

Por várias vezes, depararam com os sargentos de serviço a bordo, sendo que muitos eram dos postos de artilharia. Parecia que ninguém estava em seu posto, quando o regulamento exigia que, no momento de aterrissagem, a prontidão nos postos de defesa era imprescindível. Um cruzador devia estar preparado para tudo, a qualquer hora.

— Daqui a pouco estaremos num bom esconderijo — disse-lhe o cadete.

— Por que você está fazendo tudo isto? — perguntou Felhak ainda desconfiado, quando iam chegando ao corredor circular onde existiam as saídas para os hangares e para os postos de artilharia. — Por que razão você se opõe à maioria e tenta me ajudar? Você está se arriscando inutilmente.

O cadete sorriu.

— Suponha que eu seja consciente do meu dever, major. Quero ajudá-lo a encontrar o ativador, nada mais. Não pode cair nas mãos sujas desta malta de desordeiros. É o motivo por que o ajudo.

Felhak sentiu algum alívio. Tivera muita sorte, o rapaz devia ser mesmo um tolo, não havia mais dúvida. Quem sabe contava com uma promoção por seu comportamento? Era coisa mais do que natural.

— Eu lhe agradeço muito, cadete. Seu comportamento será devidamente apreciado, pode confiar em mim que haverei de relatar isto no quartel-general. Cuidado, lá na frente vem alguém!

— Entre aqui — sussurrou o cadete, abrindo uma porta e puxando simplesmente Felhak para dentro. Estavam já dentro do hangar, quando fechou a porta sem fazer ruído e disse:

— Acho que estamos seguros. Assim que a Nusis aterrissar, vamos dar uma olhada por aí. Nas naves auxiliares, poderemos encontrar armas.

Havia três aparelhos de emergência no hangar. Mediam apenas dez metros de comprimento, mas eram capazes de receber até trinta pessoas. Com motores de propulsão relativamente pequenos, estas naves chegavam quase à velocidade da luz e podiam transportar sobreviventes com segurança até os planetas mais próximos. víveres e material de emergência, bem como armas, estavam bem protegidos em embalagens de chumbo.

— Lá está mais um. — disse Grabitsch, apontando para a escotilha aberta de uma pequena nave.

— Por que será que ele se esconde? É um oficial, se não me engano. Vamos atrás dele, não pode sair daqui, do contrário vai contar aos outros onde estamos.

Era o Tenente Becker. De repente virou-se de frente para os dois, apontando uma pistola pesada de raios energéticos.

— Parem aí! Que quer de mim, Felhak? Pretende me matar já, agora?

— Acho que é o contrário — respondeu Felhak, com ironia. — Afaste este negócio de nós e tenha juízo. Esqueça a ordem de prisão, pois já está sem efeito.

— Ah!... é? E por quê? — Becker estava desconfiado, mas a arma foi abaixando. — O senhor pensou melhor, não é?

— Becker, sua leviandade provocou a bordo um grande motim. A tripulação tomou conta do cruzador e vai aterrissar. Vai começar então a louca caçada ao ativador celular. Suponho que você tenha descortino suficiente para compreender que, em tais circunstâncias, o ativador não poderá ser útil a ninguém. A Frota Imperial haverá de perseguir os criminosos até capturarem o possuidor do ativador. Compreende isto?

Becker ficou pensativo.

— Sim, parece lógico e daí?

— Quero lhe fazer uma proposta. Vamos esperar aqui até que a Nusis tenha aterrissado e a tripulação tenha deixado o cruzador. Pode estar certo de que ninguém ficará a bordo. Iremos depois para a central de comando e partiremos.

Becker e Grabitsch ficaram refletindo por uns instantes. Felhak se mostrava satisfeito.

— Sim, partiremos. O que os rapazes vão fazer com o ativador? Podem passar muitos anos até que outra nave volte a passar por aqui. Enquanto isto vamos procurar socorro e fazer tudo para que os amotinados sejam punidos. Para vocês dois haverá recompensa e promoção.

Becker e também Grabitsch tinham outra opinião sobre o negócio, mas concordaram ou fizeram que concordaram. A primeira parte, pelo menos, lhes servia. O resto, veriam depois.

— Ótimo! — disse Becker, finalmente. — Já que não posso ficar com o ativador, os outros também não vão ficar.

Entraram na pequena nave, deixando a escotilha aberta. O Major Felhak rompeu o lacre do armário de munição e de lá tirou uma pistola pesada. Depois de tê-la examinado meticulosamente, meteu-a no coldre do cinturão. Depois pegou outra. Também Grabitsch se armou. Os dois oficiais não se opuseram a isto.

Aguardaram. Passaram-se uns dez minutos até que um baque bem forte abalou a espaçonave. Os três na pequena nave foram atirados ao chão. Houve um outro abalo, mais violento que o primeiro.

No mesmo instante ficaram completamente sem peso. Mas o Major Felhak compreendeu logo do que se tratava.

— Estamos caindo. Os projetores antigravitacionais falharam. Uma explosão no conjunto de tração ou...

— Ou o quê? — perguntou o Tenente Becker que flutuava no teto da pequena nave, segurando desesperadamente nos rebordos laterais.

— Ou fomos alvejados — concluiu Felhak assustado.

Seguiram-se outras explosões e pelo intercomunicador vinham ordens absurdas e confusas. A voz de Becker desapareceu naquele torvelinho. Ouviram-se gritos, seguidos por disparos energéticos. Logo depois voltou a gravidade e Becker aterrissou não muito suavemente em cima de Grabitsch que, com um rude palavrão, se desfez do peso incômodo.

A porta do hangar foi arrombada. Homens de uniformes sujos e cabelos desgrenhados surgiram... Corriam desesperados para as naves de socorro. Outro choque fez estremecer a Nusis, e Felhak notou que a queda era cada vez mais rápida. Mas, de repente, começou a diminuir, certamente ao penetrar nas primeiras camadas da atmosfera.

Na comporta da mininave ouviam-se passos apressados.

— Desgraçado! — exclamou Becker. — Devíamos ter fechado a escotilha.

Mas já era tarde.

O Capitão Faucette levou um susto ao notar a presença de seu superior na nave de emergência. Mas, na mesma hora foi arrastado ou melhor empurrado para dentro pelos homens que o seguiam. Compreendeu logo a situação.

— Comandante, decole logo! A Nusis foi atacada e está caindo. Estamos perdidos se não...

Felhak já percebera tudo. Não havia tempo agora para discussões. Isto poderia ser feito mais tarde. O Negócio era salvar a pele.

Felhak apertou o botão de emergência e o resto foi todo automático. A escotilha se fechou, não deixando mais ninguém entrar. A gritaria dos decepcionados, que não conseguiram entrar, logo emudeceu. A escotilha externa também se abrira.

Com um simples movimento na alavanca, a tração começou a funcionar e a pequena nave deslizou nos trilhos e ganhou o espaço.

No céu azul-escuro, cintilava o sol vermelho Thatrel, iluminando os desertos do planeta Honur. O pequeno aparelho se afastou da carcaça fumegante da Nusis que se precipitava na superfície de Honur, sem nenhuma possibilidade de salvação. Partes do cruzador iam se soltando no ar, flutuando no redemoinho provocado pela queda. Outra nave de emergência não teria agora mais possibilidade de decolar.

Felhak não se sentia bem. Alguma coisa estava errada na tração, pois o pequeno aparelho também estava caindo, embora não com tanta velocidade. Podia diminuir a velocidade do vôo, mas não impedir a queda. A superfície árida se aproximava sempre mais e muito depressa.

Uma vez chegou a ver na tela de bordo, mesmo funcionando mal, uma sombra grande, alongada, numa clareira da floresta, desaparecendo logo a seguir. Vieram depois, um lago, um deserto e muitos trechos de floresta.

— Becker! — exclamou Felhak desesperado. — Vamos ter uma aterrissagem dos diabos e é possível que a nave se espatife. Tire os aparelhos de oxigênio do armário B e dê um a cada tripulante. A atmosfera é rala demais para nossos pulmões, e há perigo!

O interessante é que, naquela altura, parecia a coisa mais natural que o comandante fosse de novo Felhak. Ninguém pensava mais no motim. Quem sabe já teriam esquecido do ativador celular?

Em compensação havia outros problemas. Quem foi que atirou na Nusis? Seriam eles os únicos sobreviventes, se conseguissem mesmo escapar vivos da queda iminente? Quais eram os perigos do planeta interditado?

Bem lá embaixo, a Nusis batia de encontro ao solo, explodindo num inferno das forças nucleares. Lá estava a gigantesca cratera. Depois o triste quadro sumiu.

— Atenção! — gritou Felhak, depois que as máscaras de oxigênio foram distribuídas. — Segurem-se firmes, choque dentro de dez segundos!

Um dispositivo especial permitia falar mesmo com a máscara de oxigênio, e até comer e beber. Um pequeno conjunto compressor garantia o uso por tempo indefinido do aparelho de respiração, que pesava quilo e meio.

A nave de emergência aterrissou num ângulo perigoso, arrastou-se por mais de cem metros em solo arenoso e bateu de frente contra um rochedo. Dois homens morreram na hora com o terrível impacto e outro ficou gravemente ferido, falecendo pouco depois. Além do Major Felhak, do Capitão Faucette, do Tenente Becker e do cadete Grabitsch, mais sete homens se salvaram. Assim eram ao todo onze os sobreviventes da Nusis. Até o momento...

O pequeno aparelho de emergência estava totalmente destruído. Infelizmente, a frágil instalação de rádio não dava mais para ser aproveitada. Um dos reservatórios de água vazara, mas isto não tinha muita importância, pois havia água em Honur. A carcaça do aparelho rebentara em diversos lugares, assim o ar de respiração se misturava com a rala atmosfera do planeta.

Felhak já se recuperara do grande choque. A revolta da tripulação tivera um fim inesperado e... rápido. Era ele de novo o comandante. Se fosse encontrado o ativador, seria entregue ao comando da Frota e os amotinados seriam punidos. Talvez achasse um jeito de ficar com o ativador para si...

Faucette ergueu o braço esquerdo. Seu receptor de pulso dava sinais fortes demais ali na estreita cabina. Qualquer um podia ouvi-los.

Duas vezes breve, uma vez longo, duas vezes breve!

— Está mais ou menos nesta direção — disse Faucette, indicando a cauda do aparelho, onde grandes fendas na carcaça deixavam penetrar a luz do dia. — Não muito longe, acho eu. Vamos procurar todos juntos?

Apesar de ainda traumatizados com os acontecimentos, todos aceitaram alegres a idéia. Felhak, desta vez, foi muito prudente em não fazer objeções. O pessoal devia agir livremente. Mesmo se achassem o ativador, nada se perderia. Ninguém poderia sair de Honur, a não ser quando chegasse outra nave.

A espaçonave estranha! Quase se esquecera dela, embora fosse a causa da grande catástrofe. Naturalmente tinha-se que procurar esta nave estranha, que devia ter um radiotransmissor. Por meio dele se podia ser socorrido.

— Não tenho nada contra que vocês procurem o ativador — disse ele, parecendo estar morrendo de rir devido às fisionomias assustadas daquela gente. — Mas não devemos esquecer aqueles que derrubaram nossa Nusis. Suponho que vamos nos deparar com eles, ou vocês acham que foi por mero acaso que desceram em Honur? Estão tão interessados no ativador, como nós. Talvez fosse até melhor saber antes quem são os nossos inimigos ou adversários, de que força dispõem e se temos possibilidade de conquistar para nós sua espaçonave.

A alusão feita ao adversário desconhecido veio abrandar a diversidade de opiniões. Estava certo de que havia um concorrente e realmente um concorrente perigoso. Se um dos sobreviventes, encontrasse o ativador, estaria tudo bem. Mas se fossem os estranhos que o achassem, a situação mudaria muito. A espaçonave iria partir logo e eles ficariam perdidos neste planeta horrível...

Faucette compreendeu tudo muito bem. A equação era a seguinte: a espaçonave dos estranhos era tão preciosa como o ativador celular. Quem sabe até mais preciosa?

— Temos que formar uma tropa de assalto — propôs ele. — Temos de saber com quem estamos lutando ou vamos lutar.

Felhak concordou em cheio com ele.

— Apoiado, capitão! Na meia hora em que você foi comandante da Nusis, aprendeu muito! Aliás, você já me transmitiu o comando?

Os homens fizeram silêncio. Olhavam de Felhak para Faucette, como se estivessem medindo suas possibilidades. Qual dos dois era o mais forte? De que lado se devia ficar, para terminar do lado do vencedor?

Faucette sorriu.

— Acho que nestas circunstâncias não existe nem comandante nem comandados. Somos sobreviventes, homens que estão na luta. Numa luta contra um inimigo cruel e também numa corrida pela vida eterna. Somos iguais; todos temos os mesmos direitos. A inteligência, a esperteza, e a coragem devem nos guiar...

Houve aplauso estridente. Felhak também sorriu.

— Pois bem — começou este — estou de acordo. O que se propõe?

A cobiça surgiu de novo em todos eles. O que até agora parecia uma quimera, um sonho impossível, emergia como realidade palpável. Antes eram duzentos concorrentes, agora apenas dez.

E mais um: o adversário desconhecido!

— Temos de descobrir o ativador antes que os outros o façam — disse o Tenente Becker. — Quem vai comigo?

Todos queriam ir com ele.

Menos Felhak e Faucette.

Os dois oficiais ficaram surpresos com este resultado, depois começaram a se estudar mutuamente. Ambos esperavam que os outros fossem tirar as castanhas do fogo. Sorriram os dois, meio desajeitados, mas espertos e senhores de si para não desvendarem seu íntimo.

— Temos de pensar na estranha espaçonave — disse Faucette. — Eu proporia que alguns procurassem o ativador, enquanto os outros cuidariam da espaçonave.

Mas ninguém estava disposto a acompanhar Faucette até a nave. Todos só pensavam em procurar o ativador e no rosto de cada um, estava estampado o medo de o vizinho enganá-lo.

— Está bem — decidiu Felhak. — Estou vendo que sem uma certa ordem as coisas não sairão do ponto morto. O capitão e eu vamos procurar a outra espaçonave e averiguar a quem pertence. Se conseguirmos chegar aos aparelhos de radiotransmissão, poderemos pedir socorro. Escolho o cadete Grabitsch para me acompanhar. O Capitão Faucette também escolherá seu companheiro. Os outros, se quiserem, poderão procurar o ativador e assim deixar os adversários chupando o dedo. Lembrem-se: eles chegaram aqui muito antes de nós.

Grabitsch atendeu na hora e também Faucette arranjou um sargento disposto a acompanhá-lo. A última observação do comandante não deixou de ter efeito. Mais uns esclarecimentos... e todos haveriam de preferir ingressar na tropa de assalto à espaçonave.

Depois de se terem desejado mutuamente muita sorte e feliz regresso, movidos por sentimentos vários, os dois grupos se separaram. O primeiro saiu caminhando pelo deserto a fora, na direção do pequeno lago, de onde vinham os impulsos do ativador. O outro penetrou na floresta de cactos, guiados pelos minirrastreadores que lhes indicavam a direção.

A pequena nave de emergência ficou esquecida e sem proteção...

 

Gol Kamer e seu filho observavam a cena nas telas da Kam V. Olhavam fascinados para o cruzador terrano, bem ampliado na tela.

O primeiro disparo dos canhões energéticos pegou o grande cruzador desprevenido e o arrancou da rota de aterrissagem. O cruzador logo começou a cair.

Gol continuava pensativo: “Por que não reagiram? Deviam nos ter visto já há mais tempo...”

Nos olhos de Fella cintilava um brilho selvagem.

— Atingimos o intruso. Já está perdido. Espero que não tenham tido tempo de emitir um pedido de socorro.

— Acho que temos que contar com isto. Depois da destruição do inimigo, não nos vai sobrar muito tempo para procurar o ativador.

A referência ao ativador veio despertar o clima de desconfiança que, por instantes, ficara em segundo plano. Esqueceram-se momentaneamente das telas panorâmicas e não perceberam quando uma nave auxiliar saiu do bojo do cruzador e logo desapareceu do alcance das telas de bordo.

— Não haverá sobreviventes — disse Fella Kamer. — O que estamos ainda esperando?

Antes que Gol pudesse responder, entraram na central três ou quatro homens.

— Espaçonave inimiga abatida, patriarca. Dê-nos agora permissão de poder mos sair de bordo.

Gol fitou calmo seu interlocutor. Conhecia-o bem. Já haviam concluído juntos muitos negócios escusos, sempre deixando de lado as leis. Seria muito perigoso, agora, tentar impedi-lo de sair à procura do ativador.

— Não tenho nada contra — disse, embora na realidade tivesse e muito.

Os homens soltaram um grito de alegria e saíram correndo da sala de comando.

Fella estava indignado.

— Você acha que isto está certo? Não podia esperar um pouco até que eu estivesse pronto? Você vai ficar aqui?

— Não estou pensando nisto, Fella. E não se esqueça de que, se achar o ativador, não poderei mais ter-lhe nenhuma consideração e não levarei em conta que você é meu filho, mas hei de combatê-lo.

Fella agüentou firme o olhar severo do pai.

— Eu também vou esquecer que você é meu pai.

De cabeça erguida, deixou a central de comando.

A escotilha externa já estava aberta há algum tempo. Em grandes grupos, os saltadores deixaram a enorme nave cilíndrica e foram à procura do tesouro. Muitos levaram aparelhos portáteis de rastreamento, para localizar mais depressa o valioso objeto.

Gol deixou-os à vontade... Esperou até ouvir um grande baque que fez estremecer sua Kam V. Era a nave dos terranos que fora abatida, não restando, certamente, mais nada do seu arcabouço. O local da queda fora a uns três quilômetros da Kam V, exatamente na direção oeste. Se os resultados dos aparelhos de rastreamento não estivessem errados, o ativador deveria estar a cerca de dois quilômetros a sudoeste do local da queda.

Gol tinha nos lábios um sorriso sardônico. Seus homens se julgavam tremendamente espertos. Exemplo disso era seu filho Fella. Dispararam, como idiotas pelo deserto a dentro, duzentos gananciosos, deixando a nave do clã completamente desprotegida. Saíram correndo ainda antes de a nave terrana explodir com a queda. E tudo, pela cobiça desenfreada da vida eterna.

Gol continuava sorrindo, ao percorrer os corredores vazios da sua Kam V, chegando já aos fundos, onde se localizavam os pequenos flutuadores.

“Flutuadores”, pensava Gol sorridente e feliz, “são sempre muito mais velozes do que o melhor corredor!”

 

O sargento Redston era franzino, de cabelos negros. Em momentos apropriados, era quem se tornava o foco das conversas, havendo muitos que diziam com muita seriedade que sua boca era maior que ele mesmo. Foi exatamente este sargento que Faucette escolheu para seu companheiro, não pelo fato de conhecê-lo ou de estimá-lo, mas tão-somente porque Redston era radiotelegrafista.

Felhak dirigia o pequeno grupo e sob a proteção da floresta de cactos fez uma pausa para se orientar. O outro grupo estava caminhando na direção dos impulsos de rádio do ativador. Os homens passavam de pontos minúsculos na imensidão das grandes planícies. Felhak puxou seu receptor e constatou a direção do ativador.

O ponto de interseção estava a cerca de três quilômetros a sudeste do local onde estavam no momento. Lá estava, pois, o ativador esperando por seu feliz achador.

— Temos de andar ainda seis quilômetros para o leste, isto é, temos o caminho mais longo. Isto quer dizer que o grupo de Becker achará logo o ativador. Só quero saber o que vai acontecer depois.

— É óbvio o que vai acontecer — interveio o cadete Grabitsch. Vão se destruir mutuamente até sobrar um só. Deste poderemos tirar o tesouro com muita facilidade.

Todos olharam para ele e Faucette disse:

— Você se esquece, cadete, de que os estranhos ainda estão aqui.

Continuaram sua caminhada para o leste, na direção da espaçonave dos estranhos. No íntimo de Felhak, ardia o desejo de vingança contra os estranhos que abateram a Nusis, embora soubesse que sem a ação destes talvez não estivesse mais vivo. Haveria de transmitir o pedido de socorro na nave estranha, esperar a confirmação e depois deixar a espaçonave sem possibilidade de voar. Mas, quem sabe a nave lhes poderia servir de proteção contra os próprios estranhos, caso todos tivessem saído atrás do ativador? Quando seus pensamentos chegaram a este ponto, ele parou de repente e olhou em volta, como se procurasse alguma coisa. Uma rocha escarpada, quase cônica, de uns trinta metros de altura, parecia ser o que procurava. Apontando para ela, disse:

— Esperem aqui. Vou subir para dar uma olhada lá de cima. Temos que saber se os estranhos abandonaram sua espaçonave.

Sem esperar resposta, foi subindo pela pedra. Seus pés encontravam pontos de apoio, mas teve de aumentar o suprimento de oxigênio, regulando seu aparelho.

Chegou finalmente ao cume, onde a vista era melhor do que pensava. No lado do poente, via-se a pequena nave de emergência destroçada. Bastava um olhar superficial para se perceber que estava imprestável. Do lado oposto, era uma cerrada plantação de cactos. Felhak não conseguia, porém, ver nenhum sinal da espaçonave estranha. Quem sabe estaria escondida numa clareira da floresta? Mas, no sudoeste, havia alguma coisa se movendo. Não parecia ser o grupo de Becker, pelo fato de seus componentes serem apenas sete. Os que lá caminhavam deviam ser pelo menos duzentas pessoas. Como uma manada de búfalos, disparavam cegos na direção do lago, como se estivessem morrendo de sede. Felhak ligou mais uma vez o rastreador.

O ativador estava mesmo na margem leste do lago. Desceu com cuidado até seus companheiros.

— Proponho fazermos um armistício — disse ofegante. — Acho que daqui para frente temos de considerar nosso objetivo comum a descoberta do ativador, independente do fato de quem vai ficar com ele. Se não nos unirmos, não veremos nem cheiro do ativador. Lá embaixo, na planície, estão caminhando umas duzentas pessoas na direção do tesouro. Tenho receio de que, dos nossos sete colegas, não sobrará muita coisa quando os dois grupos se defrontarem, o que infalivelmente acontecerá, pois ambos caminham para o mesmo objetivo.

— Duzentas pessoas?! — perguntou Faucette, admirado. — Que quer dizer com isto?

— De qualquer maneira, são humanóides, como nós. Se arcônidas, acônidas ou saltadores, não sei.

— Saltadores! Isto pode ser. Somente eles poderiam atirar covardemente, sem motivo, sem aviso, numa nave terrana. Em todo lugar onde houver complicações, lá estão eles.

— A gente pode ter complicações também com os terranos — rebateu logo Felhak. — Portanto, armistício entre nós...

Todos estavam de acordo. Até mesmo o fanfarrão Redston não fez nenhuma objeção quando o comandante opinou.

— Bem, então vamos continuar a caminhada. Os saltadores, se é que são eles mesmos, terão deixado apenas uma pequena guarda em sua nave.

Felhak hesitou um pouco e continuou em tom de zombaria:

— Se tomarmos por base o que se passou conosco, pode ser que não haja mesmo ninguém a bordo, o que nos facilitará muito. Entraremos na espaçonave e fecharemos todas as escotilhas. O sargento Redston se encarregará da sala de rádio. Quem sabe mesmo poderemos entrar em contato com os saltadores para impor nossas condições?

— Que condições? — perguntou interessado o cadete Grabitsch.

Mas Felhak não estava disposto a detalhar-lhe o plano e tinha bons motivos para isto.

Enquanto caminhavam sob a proteção da espigada plantação de cactos, na direção do local onde estava a espaçonave dos saltadores, Felhak teve tempo de urdir toda sua trama. Era bem provável que os comerciantes da Galáxia iriam descobrir facilmente os sete homens da Nusis e matá-los. Então, iriam buscar o ativador e trazê-lo para a nave. Neste meio tempo, a Frota Imperial teria recebido o alarma. Assim, com toda calma, poderia propor aos saltadores que trocassem o ativador por sua nave cilíndrica, o que aceitariam sem pestanejar, pois uma vez de posse de sua nave, julgariam ser muito fácil retomar o tesouro da vida eterna.

Mas, até lá, já teriam chegado os gigantes da Frota Imperial aos céus de Honur e não haveria mais comiseração com os malfeitores. As três testemunhas oculares — Felhak estava olhando para seus comandados — não veriam nada disso, já estariam mortas. Então, ele, Felhak, lamentavelmente, seria o único sobrevivente da Nusis. E no seu peito repousaria, para sempre, a força da vida eterna.

Felhak não podia supor que o Capitão Faucette nutria as mesmas esperanças e que os planos de Grabitsch e de Redston não eram essencialmente diferentes. Assim então, todos os quatro caminhavam com a melhor das disposições e o mais rápido possível para chegar à nave dos saltadores.

Uma hora mais tarde, estavam à sua sombra.

Para surpresa de todos, duas escotilhas estavam abertas. Primeiro a entrada normal, depois, nos fundos, a comporta de carga.

— Esquisito! — disse Faucette, irritado. — Como se pode ser tão irresponsável assim? Haverá alguém a bordo?

Esconderam-se atrás de alguns arbustos, sem perder de vista a clareira. Nela ou na nave, não se percebia o menor movimento.

— Temos de estar preparados para tudo — disse Felhak. — Estejam de armas engatilhadas. Fiquem afastados dez metros um do outro para não formarmos um alvo fácil.

Nos próximos minutos, iriam arriscar a vida. Entrariam na espaçonave sem nenhuma cobertura e podiam esperar que a qualquer momento alguém abrisse fogo contra eles. Mas não aconteceu nada, chegaram sãos e salvos até uma das escotilhas abertas.

Felhak foi o primeiro a entrar. Depois de todos lá dentro, fechou-se a escotilha externa. Para maior garantia, o Capitão Faucette travou-a por dentro, o que não era necessário na comporta de carga que só se abria por dentro. Assim, havia sempre uma saída à disposição para um caso de emergência.

O sargento Redston ocupou a cabina de rádio da nave e ficou estudando o transmissor. Não havia mais dúvida quanto à identidade dos estranhos. O formato cilíndrico da nave já dizia que seus donos eram os mercadores galácticos.

Quando Redston anunciou que o transmissor estava pronto, Felhak tomou posição. Antes de entrar em contato com a base espacial terrana mais próxima, avisou:

— Não podemos ser apanhados de surpresa, em hipótese alguma, seria uma desgraça. Faucette, vá para a central de comando e observe bem em torno da espaçonave. Grabitsch, você será o responsável pelos postos de artilharia de bordo, enquanto souber lidar com estas armas. Redston, procure achar munição para nossas armas. Rápido... rápido!

Somente depois de ficar sozinho, transmitiu o pedido de socorro. Não foi preciso esperar muito pela resposta. Um cruzador da vigilância, patrulhando a apenas dez anos-luz, deu o sinal de reconhecimento.

— Aqui fala o Major Felhak. Peço socorro. Minha nave, a Nusis, foi abatida sobre o planeta Honur pelos saltadores. Os poucos sobreviventes estão em luta com os piratas espaciais. Consegui penetrar até a cabina de rádio da nave inimiga.

— Vamos apanhá-los e, logo depois, transmitir a notícia ao quartel-general. Espero que vocês agüentem um pouco.

— Seria mais importante para mim, se você pudesse fazer imediatamente uma ligação direta para o grande administrador. Gostaria de falar com ele.

Notou-se o espanto na voz do desconhecido interlocutor.

— Com Perry Rhodan? Você sabe que o administrador atende somente em casos de extrema gravidade...

— É um caso de extrema gravidade, pode crer em mim. Trata-se de um ativador celular.

Por alguns segundos, se fez silêncio total. Depois, o outro disse:

— Um ativador celular? Explique-se, por favor...

— Nada de explicação. Faça imediatamente a ligação com Rhodan, rápido, do contrário terei que fazer queixa de seu comportamento.

Ficou esperando. Os minutos passavam como se fossem horas. Entrementes o Capitão Faucette voltou.

— Lá fora está tudo tranqüilo. Não se vê um saltador. E, conforme Grabitsch observou, está faltando um deslizador lá no hangar. Um dos saltadores deve estar a caminho. Daí a razão da comporta aberta.

Antes que Felhak pudesse mandar de volta o Capitão Faucette, soou no alto-falante a conhecida voz do administrador:

— Major Felhak! Aqui fala Rhodan. O senhor deseja fazer uma comunicação importante?

Felhak sentiu o coração disparar, mas se controlou na presença de Faucette. Descreveu com calma os acontecimentos, e omitiu os lances a respeito do motim. E concluiu:

— A menos de quatro quilômetros daqui, há um ativador celular, pelo qual lutam renhidamente os saltadores e o resto de minha tripulação. Era minha intenção entregar este ativador ao quartel-general, mas me permito a pergunta se ele poderá ficar comigo, caso o consiga arrebatar dos saltadores?

A voz de Rhodan estava um pouco hesitante.

— Do ponto de vista jurídico, ele lhe pertence, major. Por outro lado, temos de considerar que o senhor está a serviço. E como cidadão normal jamais poderia chegar a Honur... Sob este aspecto, a situação jurídica se altera um pouco.

Felhak viu como a mão de Faucette escorregou para a arma. Nos olhos do capitão se vislumbrava a chama do ódio de quem se sente enganado. Se Rhodan já estava quase prometendo o ativador a Felhak, era então mais do que evidente que não lhe restava nenhuma chance de chegar a dono do precioso objeto.

Felhak disse tranqüilo no microfone:

— Senhor, desisto então do ativador e o deixo à sua disposição. No momento, aliás, estou sendo ameaçado de morte pelo Capitão Faucette, meu primeiro-oficial. Ele quer o ativador.

— Eu lhe agradeço, major — foi a resposta de Rhodan. — Que está havendo com o Capitão Faucette?

O administrador não recebeu mais a resposta.

O Major Felhak silenciou. O transmissor foi desligado ou, quem sabe, destruído!

 

O Tenente Becker era o último na fila de seu grupo.

“Deixe estes malucos correrem”, pensava ele, com malícia. “Tornam-se demasiadamente levianos na ânsia desmedida de arrebatarem a vida eterna. Cada um já se julga dono do ativador. Mas terão grande decepção. Assim que alguém botar a mão no tesouro vai ver como será espoliado.”

Os que caminhavam na frente, corriam cada vez mais, na proporção em que soavam mais alto os sinais de Morse em seus receptores. Becker já não tinha mais força para acompanhá-los. O terreno descia um pouco e a floresta ficava cada vez mais rala, não oferecendo mais a mesma proteção. Na frente cintilava o espelho de um lago à luz de um sol avermelhado. Mais à esquerda, a floresta se adensava mais. Por entre as árvores se moviam pequenos pontos que os sete terranos não chegaram a notar. Toda sua atenção estava concentrada no lago, em cujas margens estaria o tesouro.

Quem estava à frente agora era Allan Pollard, sargento especialista em armas. Ia tropeçando pelo declive que levava à margem. Ali crescia uma espécie de grama e o chão parecia mais úmido.

Sob a jaqueta do uniforme, Pollard trazia escondida uma arma de choque. Escolhera propositalmente esta arma porque lhe facultava, com um só disparo, deixar fora de combate dez ou mais adversários, pois estava convencido de que teria que usar deste expediente, assim que sua mão tocasse no ativador. Numa situação destas, ninguém teria oportunidade para dar dois tiros.

A arma já estava destravada, bastando só apertar o gatilho. Antes que os outros percebessem o que pretendia, já estariam inconscientes. E quando voltassem a si, já teria alcançado a espaçonave dos estranhos. Lá, faria a mesma coisa com os outros quatro homens e quando chegassem as naves da Frota Imperial...

Pollard ficou de repente pensativo. Estava acontecendo alguma coisa com ele. Uma profunda onda de melancolia o invadiu, sem que houvesse explicação. Pelo menos não no momento... O interessante foi que, quando parou, os outros também se detiveram onde estavam, mantendo os mesmos intervalos.

Numa grande encenação, ergueu os braços e como um profeta do Antigo Testamento fitou o céu claro e começou a se condenar:

— Perdão, meu Deus! Sou uma criatura indigna, um condenado, um traidor. Que crime estava eu para cometer! — virou o rosto para os outros seis homens que olhavam para ele como se fosse um animal raro.

— Colegas, eu queria matar vocês todos, quando achasse o ativador, aqui, com este aparelho de choque.

Tirou a arma de sua jaqueta, levantou-a no ar e a atirou para longe.

— Matem-me, que outra coisa não mereço.

O Tenente Becker já tinha sacado da arma há mais tempo, mas guardou-a de novo, assim que Pollard se desfez da sua.

— Que há com você, sargento? Não está se sentindo bem?

— Ah! Então, você ia nos trair, não é? — gritou um homem que estava atrás de Pollard.

Mas, para espanto geral, parou a dois passos do sargento arrependido, como se houvesse ali uma barreira intransponível.

— Oh! Desgraçado de mim — começou ele, caindo de joelhos. — Mereço condenação, sou um miserável pecador. Queria também o ativador para mim, a fim de viver para sempre. Mas que vida seria esta? Não mereço mais viver, minha vida foi um rosário de crimes, a começar com as maçãs roubadas do quintal do vizinho e...

— Vamos nos confessar — atalhou-o o sargento Pollard, se ajoelhando também ao lado dele. — Vamos pedir perdão dos nossos pecados, para que todos os outros nos perdoem.

O Tenente Becker estava de respiração presa e os demais pareciam perplexos, sem saber como julgar os dois recém-convertidos. E se tudo isto fosse um truque?

Nesse instante, um terceiro homem caminhou mais para frente, mas também parou de repente, como se algo o prendesse. Começou a chorar em voz alta e a fazer lamúrias que ninguém pôde compreender. Seu choro parecia tão sincero e contagiante que o próprio Tenente Becker sentiu uma grande tristeza e talvez fosse capaz de, no momento, praticar até uma boa ação.

“Algo não está certo”, pensava ele. Primeiro Pollard, depois Smith e finalmente Mommler, exatamente Mommler, que ninguém julgaria capaz de chorar. E assim tão bonito, um atrás do outro.

O quarto da fila começou arrancando os cabelos, rasgando a roupa, com gritos alucinantes. Depois começou a apanhar areia do chão e salpicar com ela os cabelos.

Foi então que Becker teve uma idéia luminosa. Com passos rápidos, recuou e logo sentiu que o sentimento de depressão desaparecera subitamente. Sentia-se agora normal.

Aquela sensação estranha vinha do lago. Seria do ativador celular?...

Com esta suposição, Becker cortara com sucesso o nó górdio e resolveu a questão sem querer. Tudo não passara de uma brincadeira de mau gosto do Imortal. O ativador de Honur tinha um circuito psíquico, atuando num âmbito de, mais ou menos dois quilômetros. Todo aquele que penetrasse nesse raio de ação era envolvido por uma onda de melancolia, mesclada com misticismo e arrependimento dos erros da vida pregressa. Cada um dos vinte e cinco ativadores tinha um circuito idêntico, variando, porém, quanto à modalidade da sensação.

Becker não compreendera plenamente o que se passava em volta dele, mas já tinha um pressentimento de que aproximar-se do ativador não seria muito simples.

“Será que, com estes fenômenos psíquicos, a vontade de luta se arrefecerá?”, indagou-se.

— Que é isto, Pollard? Coragem, homem! Pense no ativador celular. Ou você não quer mais saber dele? — gritou enérgico.

Pollard ergueu a cabeça e ficou ouvindo. Seu rosto se desanuviou. Lentamente se levantou, apontando cambaleante para o lago e dizendo em tom de declamação:

— Lá está a vida eterna! Vou buscá-la para vocês, meus amigos. Deixem-me ir, que a vida eterna será de vocês.

Saiu caminhando, sem esperar resposta.

Becker ficou na mesma, não sabia se Pollard estava apenas encenando ou se ia mesmo apanhar o ativador para alguém. Mordeu os lábios e foi atrás do cabeça da fila.

Porém, repentinamente, a força do campo psíquico envolveu-o. Sentiu como seu íntimo se desmoronava e as lágrimas lhe marejavam os olhos. Com dificuldade, conseguiu morder o lábio inferior e não deixar que seus companheiros notassem o que estava se passando com ele. Suportou com valentia a avalanche de melancolia e continuou atrás de Pollard, que caminhava para o lago cintilante, como um sonâmbulo. Os outros cinco ficaram olhando apenas para os dois. Pouco depois, atiraram-se à terra e, com gritos histéricos, começaram a esconder o rosto na areia, continuando, porém, a lastimar sua vida pregressa, seus vícios e fraquezas e, principalmente, a cobiça do ativador.

Não viram com isso que atrás deles vinha um deslizador, em cuja direção estava um gigante de barba comprida, com os dedos no botão de disparo das armas de bordo.

Somente Smith conseguiu dar um grito de dor, antes de acompanhar os outros na noite do eterno esquecimento.

Como se nada houvesse acontecido, Gol Kamer tomou a direção dos dois terranos que iam na frente.

 

Quando o Capitão Faucette atirou no Major Felhak, errou por pouco. O feixe de raios energéticos passou alto demais, atingindo a instalação do transmissor. O metal derretido escorria pelo chão e a voz de Rhodan silenciou.

Ainda durante a queda, Felhak sacou da pistola, mas Faucette dirigiu-se para o corredor, fechando a porta e, como fizera poucos instantes antes com a escotilha de saída, travou o ferrolho, soldando-o, de maneira que Felhak era agora seu prisioneiro. Comprimido na diminuta sala de rádio, o major não podia se arriscar a derreter a pesada porta com um disparo energético. O calor o acabaria matando.

Faucette tinha nos lábios um sorriso malicioso, mas aos poucos sua alegria foi se dissipando. Rhodan fora avisado de sua intenção de matar o comandante. Não demoraria muito, começariam a chegar as naves terranas. Haveriam de achar Felhak...

Mas teria que ser assim? Se os saltadores voltassem antes para sua nave e pudessem decolar livremente, simplesmente não existiria mais o Major Felhak. Desapareceria para sempre e jamais poderia fazer acusações contra seu primeiro-oficial. Assim calculando, o sorriso voltou à sua fisionomia.

Correu para a central de comando e examinou a instalação comum de rádio que ali existia, com a qual, talvez, pudesse entrar em contato com os saltadores. Para sorte sua, chegou logo depois o sargento Redston. O telegrafista, perito no assunto, em pouco tempo conseguiu ligação. Mas foi um tal de Gol Kamer que, furioso, perguntou quem havia ficado na espaçonave. Tão furioso que não permitiu que Faucette pudesse falar. Embora entendesse alguma coisa do dialeto dos saltadores, não dava para fingir que era também um tripulante da nave estranha. Portanto, tinha de botar as cartas na mesa.

— Escute uma coisa, Gol Kamer, tenho uma proposta a lhe fazer — disse em intercosmo, uma língua usada em toda a Galáxia. — Faça tudo para encontrar o ativador celular. É o único objeto pelo qual eu lhe cedo sua nave. Está me entendendo?

Não houve resposta de imediato, ouvia-se somente o resfolegar do interlocutor invisível. Depois, um palavrão e então a voz bronca do saltador, entrecortada de ameaças.

— Ah! É um terrano maldito? Então, alguns sobreviveram à destruição da nave?

— O número suficiente para lhe preparar um bom inferno, saltador covarde.

— Esperem só um pouco! Vocês todos estão na minha nave, a Kam V?

— Alguns procuram o ativador, os outros estão aqui. E vamos mandar pelos ares sua nave, se você não fizer exatamente o que eu lhe disser. É o ativador contra a nave. Entendido?

Demorou uns três segundos, mas veio a resposta.

— Se eu conseguir pegar o ativador, conversaremos de novo.

O receptor emudeceu. Grabitsch chegou correndo à central de comando.

— Quem era?

Faucette, virando-se com calma:

— O dono da espaçonave, um tal de Gol Kamer. Vai entrar em contato conosco, assim que achar o ativador. Não precisamos fazer outra coisa a não ser esperar. Já está mais ou menos certo que um de nós três será o felizardo do ativador. Quem, exatamente, terá que ser decidido mais tarde. Não tem nenhum sentido brigar desde já por isto.

Redston olhou para ele desconfiado.

— Por que não? Não devemos fugir de nenhuma luta. Não podemos decidir desde já a quem pertencerá o tesouro?

Faucette fulminava com o olhar o avantajado cadete. Grabitsch, de pé à porta, ainda com a arma na mão, devolveu o mesmo olhar firme ao capitão.

Depois, de frente para Redston, Faucette disse:

— Luta? E como devemos decidir? Talvez tirando a sorte?

Redston abanou a cabeça, enquanto o dedo indicador chegava mais perto do gatilho.

— Falou-se que o ativador pertenceria ao mais ágil, ao mais veloz. Não podemos mudar o que foi dito. Se for eu o mais rápido, então...

— Você esqueceu o mais esperto! — exclamou Faucette, fazendo um sinal para Grabitsch.

Redston apontou a arma contra o capitão. No mesmo segundo, o disparo certeiro de Grabitsch o atingiu. Enquanto Redston rolava no chão, Faucette apanhou a arma para liquidar Grabitsch, embora este o tivesse salvo da morte certa naquele instante. Mas Grabitsch foi mais rápido. Sacou a arma com uma agilidade incrível e o feixe de raios atingiu o peito de Faucette. O cadete jamais se esquecerá do olhar espantado do primeiro-oficial, que mesmo morrendo não podia compreender que outra pessoa pudesse ser mais ágil e mais esperto do que ele.

Caiu morto bem ao lado de Redston. O cadete Grabitsch deixou ali suas duas vítimas e saiu da central de comando, sem sequer olhar para elas. Sentiu um gosto amargo na boca e, de uma hora para a outra, desejou não se considerar o homem mais esperto. Matara dois homens...

E tudo por causa do desgraçado ativador celular. O pensamento na imortalidade não lhe causava mais nenhuma alegria. Parecia não desejar mais o objeto maravilhoso. Uma coisa lhe dizia no íntimo que nunca mais teria paz. Estaria sempre fugindo, fugindo de homens como Redston, Faucette ou Becker. E um dia, eles o pegariam. O ativador celular não tinha nenhuma valia contra o disparo das armas energéticas.

Teria ainda apenas uma satisfação, proveniente das circunstâncias... Deveria libertar o Major Felhak e fazer tudo para que este entregasse o ativador a Perry Rhodan. Somente assim, poderia reparar alguma coisa e melhorar sua situação. O que o movia a isto, não era tão-somente o arrependimento, mas principalmente a ponderação exata de suas possibilidades.

Apesar de sua repugnância, voltou à central e tirou do Capitão Faucette o minirrádio que felizmente não fora danificado com a queda de seu portador. Entrou em ligação com o Major Felhak. Descreveu-lhe o que acontecera, explicando-lhe que não lhe restara outra alternativa.

— Está bem, Grabitsch. Não precisa se desculpar. No seu lugar, teria que fazer a mesma coisa. E agora procure me libertar daqui. Fundindo a...

— Fundir? E o calor?

— Temos de arriscar, não é? Não ficará tão quente assim, se tentar fazê-lo por dentro. Temos de fazer pequenas pausas, para que o metal esfrie. Mas comece logo.

— Mais uma coisa — acrescentou Grabitsch. — O senhor promete não me assassinar na primeira oportunidade? Estou renunciando agora, solenemente, ao ativador, aconteça o que acontecer. Não o desejo mais, entende? Nem quero pensar mais nele.

— Você não está obrigado a ficar com ele — veio a resposta um tanto perplexa e zombeteira. — Está falando sério?

— Estou.

— Sim, prometo-lhe que não lhe acontecerá nada. Mas, antes de tudo, temos que tirar o ativador das mãos dos saltadores, creio eu.

Grabitsch iniciou seu trabalho de libertar o comandante. Meia hora depois, suado e esgotado, Felhak passou tropeçando sobre os escombros fumegantes da porta derretida, caindo nos braços de seu libertador. Num intervalo de poucas horas, era a segunda vez que o cadete lhe salvava a vida.

Grabitsch levou seu chefe para a central de comando. Puxou os dois cadáveres para o corredor e detalhou a Felhak a conversa que Faucette tivera com o patriarca dos saltadores.

Felhak sorriu contente.

— Ótimo — disse respirando tranqüilo. — Então, agora não podemos fazer outra coisa, a não ser esperar com calma, até que nos tragam o ativador. Depois veremos o que temos que fazer.

— Vai ficar com ele, senhor?

— Estou curado, Grabitsch. Não tem sentido querer ficar com o ativador. Rhodan já sabe de tudo. Só podemos fazer uma coisa: enviar o aparelho para Rhodan. Se quisermos continuar vivos, esta é nossa única e última chance.

O cadete sabia que o major estava falando sério. Parecia que os dois haviam superado a crise. Antes, porém, morreram estupidamente quase duzentos homens da Frota Imperial!...

 

O Tenente Becker ouviu o grito de morte de Smith.

Não obstante sua enorme depressão, não perdera o discernimento. Pegou Pollard pelos braços e o arrastou para a primeira touceira de cactos, onde esperava ficar protegido. Só então teve tempo de olhar em volta, e percebeu a causa de sua reação instintiva. Um diminuto deslizador atirava sem dó nos homens estirados no chão. Depois, voando a baixa altura, foi ao encalço dos dois sobreviventes. Mas não passou de onde estava, como se alguma coisa lhe servisse de barragem. O aparelho balançou de um lado para o outro, como se estivesse enguiçado. Becker logo notou o que havia acontecido. Deixou Pollard no chão, numa reentrância do solo. Puxou a arma e a apontou para o deslizador que se aproximava, abrindo fogo.

O velho patriarca Gol Kamer foi de tal maneira acometido pela onda de tristeza que, por alguns minutos, perdeu o controle do deslizador. Em fração de segundos, toda sua vida cheia de arbitrariedades se descortinou diante dele, em visão panorâmica e, gritando, expunha todas as injustiças cometidas.

O disparo longo de Becker atingira a parte frontal do deslizador que se precipitou na areia, ficando semi-encoberto. Embora o próprio Becker não conseguisse dominar as lágrimas e a tristeza profunda, continuou firme no seu propósito de matar o saltador.

Mas, ao ver o rosto do barbudo inundado de lágrimas, ficou hesitante. Gol chorava como uma criança, contudo, no fundo, curtia um ódio cego contra o inesperado episódio.

Abriu a portinhola de saída e, reunindo suas forças, gritou para Becker:

— Espere um pouco, antes de me matar, terrano. Você procura o ativador, como eu. Mas garanto que não será útil a nenhum de nós dois.

Becker continuava com a arma engatilhada. O metal cintilante estava todo molhado, como se estivesse na chuva. Becker nunca imaginara que pudesse verter tanta lágrima.

— Chegue mais perto e tire o dedo do gatilho.

Gol deu uns passos para frente.

— Há terranos em minha nave e eles a entregarão somente a quem lhes entregar o ativador. Está me entendendo, terrano? Nem mesmo você poderá entrar na espaçonave, se não levar o objeto maravilhoso. Foi o que exigiram categoricamente.

Becker compreendeu tudo. Ligando uma coisa à outra, percebeu a razão por que Faucette e Felhak se empenhavam tanto em encontrar a nave do clã de Gol Kamer. Queriam ter na mão o trunfo vital. Os outros que foram em busca do ativador teriam que se desfazer dele, caso não quisessem morrer naquele planeta infernal.

Travou a arma e a enfiou na cintura.

— Está certo, saltador, vamos procurar o ativador. Depois veremos o resto. Temos de liquidar com os homens lá da nave. Vamos.

Gol recomeçou com seu choro.

— Por que razão você abateu meu belo deslizador, agora temos que ir a pé e talvez os outros cheguem na nossa frente.

— Que outros? — perguntou Pollard, que entrementes se levantara.

— Meus companheiros — disse Gol, com uma ponta de satisfação na sua voz áspera e triste. — Duzentos homens.

Não quiseram mais perder tempo. Becker ia na frente, Gol no meio e Pollard fechava a fila. Chegaram até a margem do lago e dobraram para o leste. O ativador não podia estar longe, pois o tic-tac do receptor de pulso estava forte demais.

Gol apontou na direção do nordeste, onde havia florestas.

— Lá está minha gente. Eles nos viram e começam agora a correr, temos de nos apressar para chegar antes deles.

De repente Becker ficou indeciso. Que poderia fazer ele e o pobre do Pollard contra duzentos saltadores? Que sentido tinha agora descobrir o ativador, mesmo que já estivesse a seus pés?

Gol estava cambaleando e quase caiu.

— Diabo! Estou com dores nas pernas. É muito cansativo mesmo. Mas vamos embora.

Caminharam para o sul. O avanço dos dois grupos era praticamente o mesmo, não havia vantagem nem de um lado, nem do outro.

Becker ficou ouvindo seu receptor e rastreador. Reagia a qualquer mudança de direção. O tesouro devia estar bem perto. O patriarca também verificou seus instrumentos.

Depois, vieram os impulsos do lago. Gol deu meia-volta e foi para a praia. Becker e Pollard o seguiram ansiosos. Era o momento de se constatar que todos os esforços e sacrifícios não havia sido inúteis.

A margem era quase plana e, no chão arenoso, cresciam touceiras. Gol tomou a direção de uma destas touceiras. Tinha nas mãos seu medidor e o consultava com muita concentração. De repente estacou e apontou para baixo.

— Aqui está ele.

Becker olhou para baixo e Pollard estava atrás dele.

A menos de dois metros da beira d'água havia uma touceira de capim, no centro da qual parecia que alguma coisa fora escondida.

Um ovo de Páscoa! Era um objeto de brilho metálico, não maior que uma mão fechada e de formato oval. Enrolada como uma cobra, via-se uma corrente de brilho prateado.

A vida eterna!

Bastava curvar-se um pouco para apanhá-la.

As lágrimas de Gol gotejavam sobre o tesouro, quando ele disse:

— É ele! Permitam que eu o apanhe?

Seu cavalheirismo deixou Becker tão fora de si, que só pôde dizer sim. A opinião de Pollard não tinha muita importância, pois estava desarmado. Além disso, era o mais triste deles, não podendo ter pensamentos claros.

Gol se abaixou.

Fê-lo o mais lentamente possível. Seus dedos se esticaram de encontro ao objeto tão cobiçado, mas não chegou a tocá-lo.

— Sua gente, saltador, estão a menos de cem metros. Como poderemos contê-los?

Gol se ergueu de novo. Olhou na direção indicada por Becker e reconheceu, na frente da multidão ansiosa e frenética, seu filho Fella. O rapaz estava ainda abalado pelo choro convulsivo e vinha cambaleando. Gol não conseguiu rir daquele espetáculo ridículo, pois estava triste demais. Mas, nem por isso perdera a cabeça. Pelo contrário.

— Vou destruir o ativador, se chegarem mais perto. Diga isto a eles, terrano. Assim, os afastaremos de nós.

O velho sacou a pesada arma e a apontou para o ativador.

Becker não estava entendendo bem como poderia deter por mais tempo a horda desenfreada, mas agiu rápido. Correu ao encontro deles e esperou um pouco até que o rapaz de cabelo vermelho, Fella, chegasse mais perto.

— Fique parado! — gritou firme. — Gol Kamer destruirá o ativador celular, se vocês derem mais um passo.

Foi o suficiente. Fella parou na hora e, sem poder fazer nada, ficou olhando para seu pai, de arma engatilhada à beira d'água, apontando para alguma coisa no fundo. A julgar pelos impulsos fortíssimos, devia estar ali mesmo o sonhado tesouro.

Os outros saltadores — eram quase duzentos — ficaram parados, afastados. O medo de perder o ativador, lhes devolveu momentaneamente o bom senso. Isto não impedia, entretanto, que dessem largas à melancolia em todas as “tonalidades” imagináveis.

Lágrimas copiosas e cabelos arrancados, era o quadro que se repetia, que Becker jamais esqueceria!

Gol se agachou de novo, sem desviar o cano da arma de seu alvo, enquanto a mão esquerda pegava o ativador.

No mesmo instante, silenciou o emissor de impulsos e desapareceu também o campo psicológico.

Gol sentiu imediatamente como lhe voltara a vontade de viver e a tristeza desaparecera. Sentiu novas energias e era como se um fluxo misterioso emanasse daquele objeto.

Foi neste momento que o patriarca pôde aquilatar o imensurável valor do ativador celular, que não proporcionava apenas vida eterna mas uma energia permanente, uma fonte inesgotável de bem-estar para o corpo e para o espírito.

Olhou para Fella, que se encontrava parado, indeciso, sem saber o que fazer. Não estava mais chorando, mas refletindo e não poderia tardar muito uma decisão qualquer. Por sua vez, Gol sabia que não poderia mais destruir o ativador, mesmo que alguém viesse para arrebatá-lo.

O terrano estava entre os saltadores e também não sabia o que fazer. Sua arma dirigia-se ora a Fella, ora a Gol.

De repente, Gol deu uma gargalhada, meio homérica, meio histérica, e, começando a xingar como um possesso, atirou sua arma para dentro do lago e iniciou uma corrida desabalada. Tomou o rumo norte, onde havia densas florestas que lhe poderiam servir de abrigo. Sentia uma força indizível, uma confiança em si, como nunca tivera, nem nos anos da juventude e tudo em virtude do ativador que, depois de poucos passos, dependurara no pescoço. O objeto oval se adaptava tão bem contra sua pele, como se tivesse sido feito para ele.

Becker levou alguns segundos para vencer a perplexidade. Mas então saiu em louca carreira atrás do fugitivo.

Todos os saltadores, tendo Fella à frente, saíram também correndo numa gritaria infernal. Devia ser coisa simples encurralar um único homem e prendê-lo. Além do mais, Gol estava desarmado. Todos acreditavam que ele enlouquecera. A posse do ativador lhe alterara as faculdades mentais. Mas, poucos minutos após, ficou evidente que Gol não estava louco.

A distância entre ele e seus perseguidores aumentava a cada segundo. Os saltadores, cansados e ofegantes da longa corrida, cambaleavam e tropeçavam em toda parte. Uma exceção, talvez, era a figura de Fella, cuja fúria e cobiça lhe davam novas forças. Pollard já havia sumido na massa anônima dos saltadores retardatários. Ninguém lhe dava maior atenção. O inimigo comum se chamava Gol Kamer. Fora dele, não havia inimigos.

Pelo menos por enquanto.

O patriarca corria com a velocidade de um antílope. A reduzida gravidade de Honur e a corrente energética emanada do ativador, não lhe permitiam sentir cansaço. Seus passos eram quase saltos de cinco ou seis metros. Seus perseguidores já iam tomando a feição de pontos minúsculos se arrastando nas areias escaldantes. Jamais o alcançariam.

O velho tornado jovem se embrenhou pela floresta a dentro, tomando logo a direção do leste. A Kam V estaria agora a uns cinco quilômetros e se mantivesse essa velocidade lá chegaria em vinte minutos. Seus perseguidores levariam um pouco mais que uma hora. Seu plano era muito simples. Haveria de atrair os terranos para fora da nave, com a promessa do ativador. Deviam ser três ou quatro que teria de liquidar de qualquer maneira. Quem sabe poderia enganá-los e chegar mais depressa até a escotilha? Uma vez dentro da nave, seria fácil dominar a situação. Logo depois chegariam os seus que fariam justiça sumária com os terranos.

Sim, e por fim só restaria seu filho Fella, mas o ativador valia mais do que ele!...

Continuou correndo, sem maior esforço, sem dificuldade de respiração, sem cansaço. Sentia-se no vigor da juventude: forte e resistente. As maravilhosas forças do ativador já começavam a regenerar seu organismo. Não havia mais porque temer a morte. Era imortal.

Mas, esquecera-se da argúcia e esperteza de Fella...

 

Quando Fella viu seu pai tomando a direção norte, calculou logo seu plano. A Kam V estava exatamente neste sentido, cerca de quatro quilômetros para trás. Seu pai haveria de querer ir para a nave, corria, porém, na direção norte, até encontrar a proteção da floresta. Lá, naturalmente, haveria de virar para o leste. Com isto, iria perder dois ou três quilômetros, fazendo uma volta enorme.

Sem quebrar mais a cabeça, Fella mudou de direção e começou a correr para trás, voltando pelo mesmo caminho do qual viera em companhia da multidão amotinada.

Pollard e os saltadores não repararam em nada disto. Olhavam apenas para frente, para o norte, seguindo de longe a figura solitária do Gol Kamer. Ele, unicamente, era seu alvo que tinham que alcançar, se quisessem mesmo o ativador. Continuaram correndo, sem se preocupar com Fella.

O único que podia pensar com mais descortino era Becker, que foi seguindo o jovem saltador, na direção da nave. Sabia muito bem que, sem uma espaçonave, estariam perdidos neste planeta.

Fella fazia um bom tempo, usando todas as suas forças, como se tratasse de salvar a própria vida, o que, em certo sentido, estava certo, pois se seu pai chegasse antes dele, não haveria mais possibilidade de salvação. Havia, porém, um enigma que não conseguia resolver, isto é, de quê maneira seu pai Gol chegara tão depressa à beira do lago. O rapaz não sabia que o velho astucioso se utilizara de um deslizador.

A cratera que a Nusis abrira na areia ainda estava incandescente, irradiando enorme calor, de tal forma que Fella teve que dar uma pequena volta. Faltavam ainda três quilômetros para chegar à nave. Ali, à esquerda, seu pai entrara na floresta. Quem sabe haveria de ter sorte?

Becker, trezentos metros atrás de Fella, esperava a mesma coisa.

Quase não conseguia mais respirar e, além do mais, perdera a arma. Portanto, não podia mais se defender, quando o rapaz na frente virasse para trás a fim de esperar por ele. Becker suava por todos os poros, com a roupa colada ao corpo.

Vinte minutos depois, Fella se aproximava da clareira. Podia ser que seu pai já estivesse ali, o que não era muito provável. Mesmo com o ativador, não seria possível um milagre. Portanto, Gol iria chegar ainda...

E Gol estava desarmado! Um sorriso inequívoco lhe assomou aos lábios, quando a mão ia acariciar a coronha da pistola energética. Mas sentiu um calafrio a lhe percorrer o corpo.

— A pistola...? Onde deixei a pistola? Devo tê-la perdido no caminho. Estou, pois, nas mesmas condições de meu pai!

Abaixou-se numa touceira, perto da clareira e ficou observando a nave. As escotilhas estavam cerradas, de modo que o mistério continuava: como Gol chegara tão depressa ao lago?

Ouviu passos atrás de si. “Ah!... O terrano que me preveniu e me deteve à beira do lago. Seria melhor ele não ter vindo”, pensou Fella.

Becker passou a uns cem metros à sua esquerda, também se escondendo. O silêncio chegava a ser triste, mas um vento suave perpassava pela vegetação.

Começou o tempo de espera. Uns dez minutos mais tarde, novos passos vindo de trás, até que apareceu Gol Kamer na clareira. Parou e seu olhar pesquisador sondou todos os lados. Dos terranos na Kam V nada tinha a temer. De maneira alguma seriam loucos a ponto de atirarem nele, pois podiam com isto perder o ativador ou, no mínimo, danificá-lo.

Ligou seu transmissor portátil.

— Vocês estão me ouvindo? — disse falseando a voz. — Achei o ativador!

Fella, observando cada movimento do patriarca, acompanhava atento sua conversa. As palavras de Gol certamente não chegariam aos ouvidos de Becker, mas ele o conseguiu de outra maneira. Ligou seu aparelho de pulso, podendo agora ouvir tudo.

— Estamos vendo você, saltador — era a voz de Felhak. — Está mesmo com o ativador? Mostre-o.

Gol bateu com a palma da mão no peito.

— Está vendo a corrente? O ativador está preso nela.

— E como será feita a entrega? Como posso saber se você não armou uma cilada com sua gente? Quando deixarmos a nave, vocês caem em cima de nós e...

— Estou desarmado, terrano. Se você vir um só de meus homens, pode me matar. Ofereço-lhe o ativador em troca de minha nave.

— Você já imaginou o que vai acontecer comigo em Honur com o ativador mas sem a espaçonave?

Gol tinha resposta pronta:

— Assim que partir, chamarei pelo rádio uma nave da Frota Imperial. Virão buscar você aqui. Quantos homens são ao todo?

— Felhak era bastante vivo e não disse a verdade.

— O suficiente para mandá-lo para o inferno, caso você pense em armar uma de suas ciladas. Vou deixar a nave agora com um companheiro e ir até aí. Você me entregará o ativador, depois poderá entrar na nave, que ninguém o impedirá.

Becker ouvia a tudo, muito impressionado. Que pretendia o louco do major? Será que iria mesmo deixar a proteção garantida da nave? Gol estava desarmado, mas cem metros para trás estava seu filho. Se Felhak não fosse muito esperto, estaria perdido.

— Combinado — disse Gol.

— Atenção! — interveio Becker resoluto, usando seu aparelho de pulso. — Gol não está sozinho. A poucos metros dele, está seu filho, mas Gol não sabe nada disto. Quem está falando é o Tenente Becker. O velho conseguiu me enganar.

— Becker, é você?! — perguntou Felhak admirado, talvez julgando o tenente há muito morto. — Onde está você?

— Estou aqui — levantou-se e chegou até a clareira. — Estou sem arma. Gol também está.

O susto de Gol foi grande e queria se retirar, mas resolveu ficar onde estava. Ninguém iria atirar nele, exatamente devido ao ativador.

Fella também se levantou e caminhou lento na clareira, na direção de seu pai.

— Não lhes entregue o ativador — disse Fella, energicamente. — Querem enganá-lo.

Becker reparou que o jovem saltador também não tinha arma. Cortou-lhe o caminho e o obrigou a parar.

— Ninguém quer enganar seu pai. Se quiser salvar sua nave, não terá outra opção. Entregue o ativador. Nós, os terranos, não queremos sua nave, pois, dentro de poucas horas, teremos muito mais espaçonaves da Frota Imperial, do que você gostaria de ver. Ou você acha que não sabemos manusear as instalações de rádio de seus aparelhos?

Fella olhou com ódio para Becker. Aos poucos, foi compreendendo o significado de suas palavras.

Gol protestou.

— É uma traição! — gritou irritado.

Era evidente que agora não iria mais trocar o ativador pela posse da nave, da sua Kam V. Não o largaria mais.

Felhak comprimiu os lábios, também irritado. Sem o querer, o Tenente Becker destruíra seus planos. Já estava para tranqüilizar Gol e lhe dar garantia de que Becker se enganara, quando percebeu que era tarde demais para isto.

— Não se pode tratar com terranos — gritou Gol furioso. — Vocês queriam me tapear, mas não foram muito inteligentes. — fez uma reverência para Becker. — Muito obrigado, terrano, você me livrou de uma insensatez. Venha. Fella! Não temos mais nada que fazer aqui.

Virou-se para ir embora.

— E a Kam V, pai? Que vai ser dela? Não podemos deixá-la aqui.

— Vamos esperar até que as naves terranas cheguem e desapareçam. O planeta tem muito lugar para se esconder e eu não tenho pressa. Haverei de sobreviver a todos.

Não esperou pela decisão do filho, e, com alguns passos rápidos, desapareceu entre os cactos. Seus passos apressados eram ouvidos longe. Fella saiu correndo atrás do pai, sem olhar para Becker.

— Que besteira que você fez, Becker! — a voz de Felhak mostrava indignação. — Você nos atrapalhou tudo. Veja! Como vai explicar isto a Rhodan? Estará aqui dentro de um ou dois dias. Virá antes um cruzador para nos livrar dos saltadores.

— Não foi esta minha intenção... não sabia que...

— Está bem — interrompeu-o Felhak.

— Venha para a parte traseira da nave, nós o deixaremos entrar. Depois conversaremos mais.

— E o ativador?

— Não ficará perdido. Embora não esteja mais emitindo sinais, haveremos de achá-lo, ou a seu dono.

A comporta de carga se abriu e Becker entrou na Kam V.

Embora estivesse seguro, não se sentia bem ali. Tudo saíra ao contrário do que haviam imaginado e ele pessoalmente tinha alguma culpa no desenrolar dos acontecimentos. É claro que teria de prestar contas.

O singular era que não estava mais pensando que o ativador ainda seria seu. Enquanto estivesse nas mãos dos saltadores, era mais do que evidente que passaria para o controle de Perry Rhodan. Pelo menos até que os terranos o pegassem.

Grabitsch o conduziu para a central de comando, onde Felhak estava sentado e o recebeu com olhar severo.

— E agora, explique-nos afinal como podemos tirar o objeto deste saltador velhaco, antes que Rhodan chegue, Tenente Becker.

Mas Becker não soube responder. Olhava assustado para a tela panorâmica. De todos os lados acorriam os saltadores, bem armados, envolvendo a espaçonave e constatando que todas as escotilhas estavam fechadas. Brandiam as armas pesadas, ameaçando atirar na direção da central de comando.

Felhak se virou de novo para o tenente recém-chegado:

— Fale, Becker, não se preocupe com o pessoal lá embaixo, não podemos fazer nada com eles. Como é que pegaremos o homem de barba vermelha?

O cadete Grabitsch respondeu em lugar de Becker, com toda simplicidade.

— Por que não usamos um deslizador, senhor?

 

O patriarca e seu filho, caminhando para o norte, chegaram ao pé da montanha. Aí haveria bastante possibilidade de se esconderem em inúmeras cavernas e gargantas rochosas. Uma coisa, porém, já os preocupava, mesmo durante a subida: o fantasma da fome, problema que se avolumava.

Novamente, o velho Gol sabia como contornar a situação:

— Lá embaixo, a menos de dois quilômetros daqui, está a pequena nave dos terranos. A bordo há mais alimento do que precisamos para uma semana. E, até lá, tudo já estará resolvido e nós seremos salvos. O patriarca Rokulf está aí por perto...

— Sabendo que nós estamos aqui, não se esquecerá da gente. Haverá, porém, de exigir o ativador como recompensa do salvamento — falou o filho.

Gol deu um longo suspiro. — Estou com o ativador há apenas uma hora, mas já está se tornando uma maldição. Todos irão me perseguir, enquanto eu viver e... isto pode durar muito, infelizmente.

Fella olhou surpreso para o pai.

— Você já está saturado com a vida eterna? — perguntou com ironia, sem receber resposta.

Chegaram à entrada de um vale e subiram por ele. Um pequeno veio d’água lhes aliviou a sede. Fella se sentia exausto, ao passo que seu pai não acusava nenhum sinal de cansaço. Avançava resoluto como se quisesse atingir o cume da montanha antes do pôr-do-sol. Era mais do que visível que Honur possuía rotação, já que o sol Thatrel se deslocava lentamente. Dentro de poucas horas, sumiria no horizonte. Só então estariam plenamente seguros. De noite, Gol desceria ao vale para procurar mantimentos nos escombros da pequena nave dos terranos.

Mais para cima, o vale se alargava. À direita e à esquerda surgiam as rampas escarpadas, que não ofereciam bons abrigos. Em compensação ampliava-se o raio de vista para a planície. Estavam vendo sua nave na clareira, mais ou menos a seis quilômetros em linha reta. O gigante cilíndrico achava-se cercado pela multidão dos saltadores.

— Os terranos vão ter de se aborrecer muito com eles, antes de mais nada — disse Gol, satisfeito. — Não têm tempo para pensar em nós. A única coisa que me preocupa é a Frota Imperial de Rhodan. Quando souber que há um ativador em Honur, não descansará enquanto não o encontrar. Temos de nos esconder nas cavernas mais profundas para escapar dele. Felizmente, o ativador não emite mais sinais e não pode, pois, ser descoberto.

Enormes blocos de pedra entupiam o caminho do vale, obrigando os dois a fazer grandes voltas. O ponto mais alto não estaria muito longe. Lá haveriam de descansar e procurar um bom abrigo para a noite.

De repente, Fella olhou para cima, abaixou-se e se escondeu atrás de uma pedra.

— Proteja-se, pai! Um deslizador!... Lá em cima. Os desgraçados terranos, estão nos procurando.

Gol já estava abrigado sob um rochedo. A mão direita acariciava nervosa o ativador. Sua respiração estava ofegante.

O deslizador desceu bem mais, descrevendo círculos cada vez menores. Era evidente que o piloto notara alguma coisa suspeita e agora estava examinando o vale. Se ele continuasse descendo, haveria de descobri-los.

Gol travava a maior batalha de sua vida.

— Fella! — gritou ele. — Ouça bem o que estou dizendo. Vou subir e tentar atingir as escarpas rochosas, para encontrar um bom abrigo. Você toma a direção oposta. O deslizador não pode seguir dois ao mesmo tempo. Irá atrás daquele que julgar o portador do ativador. Continue no seu caminho, que os terranos não farão nada com você.

Fella não entendeu.

— Vamos ficar juntos, pai!

— Venha logo para cá e não perca tempo com palavras inúteis.

Enquanto Fella vinha correndo, aproveitando os esconderijos, Gol tirou o ativador do peito e ficou olhando embevecido para aquele objeto metálico. Virando-se para o filho, disse:

— Tome, Fella, é o presente de seu pai. Seja um bom patriarca de nosso clã, caso os terranos me apanhem, no que não creio muito. De qualquer maneira, o deslizador vai perseguir a mim e não a você. Você, entrementes se porá a salvo, cuidando em não perder o precioso objeto. Mais tarde nos encontraremos.

Meio perplexo, Fella recebeu o ativador, sem tirar os olhos do pai.

— Você está dizendo... que me dá o tesouro? Para mim? Devo ficar com ele? Por quê?

Gol sorriu, apontando para o deslizador lá em cima.

— Também por este motivo, meu filho. Mas principalmente porque aprendi nestas últimas horas como é difícil ser o portador deste presente divino, que pode ser carregado por qualquer um. Mas, não vamos mais perder tempo, está na hora de agirmos. Passe bem, Fella.

Não esperou mais resposta, saiu correndo para a próxima escarpa, rumo ao alto da montanha, a uns dois quilômetros. Ali embaixo, o vale era largo e quase plano, sem possibilidade de se abrigar. O piloto do deslizador vira logo o saltador que fugia.

A barba comprida e cor de fogo o identificava como o patriarca, o homem que portava o ativador. Quase no mesmo instante, como uma ave de rapina, o deslizador se abateu na direção do velho solitário, que não corria mais, passando agora a um caminhar penoso.

Bem para trás, no entanto, inundado por um fluxo de novas energias, Fella pulava de um esconderijo para o outro, sem ser visto. Caminhava para o outro lado da montanha, onde eram melhores as condições de proteção. Ali, nem um exército inteiro o acharia, mesmo que procurasse durante muitos dias.

Quem dirigia o deslizador era o Tenente Becker, enquanto no banco de trás estava sentado Grabitsch, “controlando” o oficial.

— Aquele é o velho, que está com o ativador. Está tentando fugir. Vamos atrás dele.

Grabitsch, muito excitado, virava a arma de um lado para o outro, enquanto Becker, em constantes manobras voava atrás de Gol.

— Ele vai para a rampa da montanha, temos que lhe cortar o caminho. De qualquer maneira, está quase perdendo o fôlego. Estranho, até agora pouco parecia tão forte e decidido.

Viram que o velho virava para trás muitas vezes, como se quisesse certificar se seu filho já estava seguro. Becker teve, de repente, a sensação de ter cometido um engano.

Fez com que o pequeno aparelho descesse vertical e parou bem rente do chão, aterrissando no cascalho. A escada de descida surgiu e os dois terranos desceram, de armas em punho, dirigindo-se imediatamente para o barbudo que, visivelmente aliviado, os esperava sentado numa pedra. Sorria, apesar de tudo.

Becker lhe estendeu a mão esquerda:

— O ativador, barbudo! Passe-o para cá.

— Vá procurá-lo, terrano!

— Quer bancar o engraçadinho, hein? Você está desarmado e não tem mais chance. Onde está o ativador?

— Não está comigo.

Grabitsch se aproximou, abaixou-se e apalpou o peito do patriarca. Levantou-se com o rosto transtornado.

— Não está mesmo com ele, a não ser talvez no bolso.

E no bolso não havia nada. Depois de um exame completo, se constatou que o saltador não tinha ativador nenhum.

O velho continuava sorrindo, vendo-se a alegria em seus olhos por ter enganado os terranos.

— Quem sabe o escondeu pelo caminho? — disse Grabitsch.

Becker concordou. Talvez fosse isso mesmo. Então somente o patriarca saberia onde estava e como se podia achá-lo.

— Leve-me para o lugar onde está — disse ameaçador, apontando a arma.

Mas o barba ruiva apenas sorria.

— Matem-me, se quiserem e depois poderão andar a vida toda e jamais acharão o ativador. Somente eu sei onde ele está.

— O outro saltador não é seu filho? Talvez ele saiba onde o aparelho está. Vamos interrogá-lo também. Vamos, embarque aqui.

Gol se ergueu indiferente e, sem resistir, entrou no deslizador, sentando-se no banco de trás. Parecia haver perdido todo o interesse no ambiente em torno dele, desejando apenas voltar para sua nave. O ativador celular parecia não representar nada para ele. — Onde ficou o rapaz? — perguntou Becker, dando a partida. — Deve estar na outra dobra da montanha e não vai nos escapar.

Enganou-se. Por mais que procurassem, não encontraram Fella. Percorreram toda a montanha, os baixios de cascalhos, até que o sol começou a se esconder no poente. Voltaram para a Kam V de mãos vazias.

Aí chegando, Gol ordenou aos seus que ficassem esperando nas proximidades da espaçonave. Sua voz soou firme e quase triunfante. Sabia que nada lhe poderia acontecer.

Agora que não tinha mais o ativador, sua vida não estava em perigo. Tinha mesmo que sorrir, ao pensar no incrível paradoxo.

Mas, duas horas depois, quando o cruzador Gamos aterrissou, parou de rir...

 

De repente o sargento Pollard botou tudo a perder...

Estava sentado no meio dos saltadores na floresta de cactos, a mais ou menos quinhentos metros da clareira. Quando o Patriarca lhes pediu calma, não lhes restava outra coisa a não ser se retirar e esperar. Estavam em geral falando sobre o que deviam fazer e, entre os saltadores e o terrano, havia harmonia total. O objetivo de todos havia sido ou era o ativador, tudo mais lhes era secundário. Também ninguém sabia se o patriarca ainda estava com ele.

Quando o cruzador Gamos surgiu no firmamento e aterrissou ao lado da Kam V, Pollard deu um salto de alegria.

— Estão vendo? O patriarca os traiu. Está entregando o ativador aos terranos.

Um dos saltadores olhou admirado para ele.

— Oba! Você não é um dos terranos?

— E isto tem alguma importância? — perguntou Pollard, botando as mãos na cintura. — Não estávamos todos atrás do ativador, juntos? E vocês agora vão permitir de braços cruzados que ele lhes seja roubado? Acham também que vão ficar impunes depois de terem derrubado um cruzador da Frota Imperial? Serão julgados e condenados e não verão mais suas mulheres e seus filhos, nunca mais. É por causa disto que Gol trocou o ativador. Perceberam agora que foram redondamente tapeados?

O argumento de Pollard parecia muito convincente. Os saltadores ficaram pensativos e queriam continuar ouvindo o terrano.

— Têm somente um meio para recuperar o ativador e a liberdade. Estou do lado de vocês, pois vão me acusar de amotinado e o amotinado é severamente punido. Não tenho, pois, nada a perder, mas muito a ganhar. Temos de nos apoderar do cruzador.

Um dos saltadores balançava a cabeça de um lado para o outro.

— E como devemos fazer isto? Acha que nos deixarão entrar sem mais nem menos no cruzador?

— A mim vão deixar entrar, pois sou terrano. Mas eu sozinho não posso dominar uma nave inteira, tendo uma tripulação de duzentos homens. Isto só se pode conseguir com esperteza e inteligência.

— Ah! Quer dizer então que você é esperto e inteligente para isto?

— Quando chegar à Gamos, já me sentirei em casa. É o mesmo tipo da Nusis que vocês abateram e da central de tiro podemos impor nossas condições aos outros.

Os saltadores estavam pensativos. O plano não parecia assim tão promissor, mas também não era nada agradável ficar ali esperando, para ser perseguido depois. As armas dos saltadores não passavam de pistolas leves de raios energéticos, com as quais, naturalmente, não se podia lutar contra um cruzador, mas só contra homens.

O primeiro saltador já estava convencido.

— Parece mesmo que não nos sobra outro caminho. Não temos escolha. O ativador está mesmo na Kam V? Tem certeza?

— Onde estaria, então?

— O terrano tem razão — disse um deles, batendo com a mão na coronha de sua arma. — Estou do lado dele.

Todos estavam do lado dele. Sem exceção. Os argumentos de Pollard não falharam. Sem protestar, subordinou-se às ordens de um saltador de barba ruiva, que era um primo do traidor Gol.

A ninguém passou pela cabeça que Gol pudesse ser mais vivo do que todos eles juntos!

 

Com alguns de seus oficiais, o comandante da Gamos deixou o cruzador e passou para a Kam V. Sentindo-se seguro, deixou apenas um sentinela na escotilha de aeração entreaberta.

Enquanto isto, os saltadores, protegidos pelos cactos e pela escuridão que aumentava, foram chegando até a Gamos, esperando pelo sinal combinado. O sargento Pollard se ergueu e caminhou com passos firmes pelos apoios telescópicos, até chegar à escada que dava para a comporta. Parou e olhou para cima.

— Alô! — disse em voz baixa.

Desenhou-se na escuridão um rosto indeciso.

— Quem é?

O sentinela estava na penumbra. Talvez, assim julgasse poder ver melhor o interior da noite.

— Sou o sargento Pollard, da Nusis.

— Do cruzador abatido? Por que razão não está na nave dos saltadores? Nosso comandante...

— Os saltadores me prenderam. Consegui escapar e agora estou aqui. Não vou de maneira alguma para a nave dos barbudos. Não quero mais lidar com eles. Comunique aos seus superiores que eu peço autorização para entrar na Gamos.

Pollard deu um gemido e caiu de joelhos.

— Rapaz, não estou agüentando mais. Estou ferido e faminto.

— Consegue subir a escada? Espere que vou ajudá-lo.

O guarda deixou o posto e desceu a escada, o que era uma grave transgressão do regulamento, mas talvez o tenha feito por compaixão com o colega ferido.

Uma forte pancada, abrandada somente pelo capacete, o atingiu. Caiu desmaiado e foi, na mesma hora, puxado para fora e colocado na touceira mais próxima.

Pollard subiu pela escada e um atrás do outro, os saltadores o foram seguindo, penetrando na Gamos de arma engatilhada, numa arriscada operação para seqüestrar a nave terrana.

Quando se deu o alarme, a metade da nave já estava em poder dos invasores, incluindo a central de armamentos. A intimação para se renderem foi respondida por Pollard com a ameaça de fazer explodir a Gamos. Houve então uma espécie de trégua no interior da nave, uma situação que não podia durar muito, sem que um dos dois lados perdesse a calma.

Já que para os dois lados estava em jogo vidas humanas, a situação não se alterou até a manhã do dia seguinte. Pollard e os saltadores se entrincheiraram na parte conquistada da Gamos, ocupando todos os postos de artilharia. Ninguém podia deixar a espaçonave sem ser ameaçado pelo fogo de bordo. As ligações de comando da central para as reservas de munição estavam interrompidas.

O pedido de socorro urgente pelo hiper-rádio chegou à central da Nostasa que estava apenas a trezentos anos-luz do sol Thatrel.

 

Rhodan continuava balançando a cabeça.

— É uma coisa que não compreendo. Como os saltadores dominaram tão facilmente a tripulação da Gamos? Alguma coisa está errado por lá.

O comandante Ten Hogard não sabia o que responder. Trouxera pessoalmente o radiograma à cabina de Rhodan. Aborrecido, Bell estava sentado ao lado de Gucky, na cabina, e não fez comentário. Próximo da porta estava Homunk, com quem antes conversavam.

— Em quanto tempo poderemos chegar a Honur? — perguntou Rhodan.

— Em poucas horas, senhor — respondeu Hogard.

— Bem, estarei logo na central. Tente entrar em contato com o pessoal na nave dos saltadores.

— Só é possível através da Gamos, senhor. As instalações de rádio dos saltadores foram destruídas.

— Sim, é verdade. Sei disso. A ligação com o Major Felhak foi interrompida bruscamente. Aliás é um ponto que temos de esclarecer ainda. Tenho o pressentimento de que o pessoal está meio maluco, desde que ouviu falar em ativador celular. Seria um milagre se não o estivesse.

Depois que Hogard deixou a cabina, Bell disse:

— Que se pode fazer? Não podemos entrar na Gamos, pois os saltadores ocuparam o depósito de armas e munições. Os dois comandantes estão na nave dos saltadores, a Kam V. Você tem algum palpite para resolver o dilema, sem prejudicar a ninguém? E mais uma coisa, onde está o ativador?

— Isto ninguém sabe, mas haveremos de achá-lo. E quanto à solução dos outros problemas, quero falar com Felhak. Os saltadores devem ter dado qualquer golpe de esperteza e vamos combatê-los com o mesmo método.

Com estas insinuações, Rhodan saiu da cabina, deixando seus amigos incertos e pensativos. Assim que a porta se fechou, Homunk disse apenas uma frase:

— É, assim teria que ser mesmo.

Gucky olhou para ele sem compreender. Não conseguira ler nos pensamentos de Rhodan nada que levasse a uma solução satisfatória dos problemas.

Rhodan entrou na sala de rádio da Nostasa e ficou esperando até que o telegrafista-chefe lhe comunicasse que estava pronta a ligação com a Gamos. Na tela oval surgiu o rosto de um oficial moço, tremendamente espantado ao ver Rhodan.

— Senhor...?

Rhodan tentou disfarçar sua preocupação com um sorriso.

— Não posso perder tempo agora e considerar sua situação como um fato consumado. Vocês estão em perigo na central de comando da Gamos? Têm ainda uma influência técnica sobre o arsenal de armas e munição?

O oficial de rádio, estava hesitante.

— Senhor, talvez seja melhor eu chamar o primeiro-oficial, Capitão Rogers.

Rogers dava a impressão de um homem que sabia o que queria.

— A central de comando está firme em nossas mãos, senhor — informou ele. — As ligações para o arsenal de munição, porém, estão interrompidas. Os saltadores dominam assim todas as armas de bordo e estão praticamente com a nave nas mãos. Mas nem com isto poderão decolar. No momento, estamos em trégua.

— Ótimo! — respondeu Rhodan, pois, até então, tudo estava encaixando em seu plano. — Tente agora obter uma ligação com seu comandante e com o Major Felhak. Preciso falar com eles.

Não era coisa tão difícil assim, embora não fosse possível a transmissão da imagem. Mas a ligação de rádio foi feita no mesmo instante.

Major Felhak se apresentou.

— Quem é que está aí com você, major?

— Major Raps e três outros oficiais da Gamos. Estão também aqui o Tenente Becker, e o cadete Grabitsch da Nusis. Nós três somos os únicos sobreviventes da Nusis. Está ainda aqui o patriarca dos saltadores, um tal de Gol Kamer.

— Portanto, oito pessoas. Que horas do dia são aí?

— Mais ou menos meio-dia. Em cinco ou seis horas, escurece novamente.

— Chegaremos daqui a uma hora. Você acha possível saírem todos da Kam V, sem que ninguém na Gamos o perceba?

— Sair? Deixar a Kam V?

Rhodan, impaciente, fez que sim com a cabeça.

— Sim, abandonar a Kam V. Tenho a intenção de destruir a nave dos saltadores. Somente depois disso é que lhes posso impor minhas condições. Uma coisa importante: vigie bem o patriarca. É o único que nos pode conseguir o ativador.

— Sairemos da Kam V, usando um deslizador. Isto será fácil e tenho certeza de que não seremos surpreendidos pelas armas dos saltadores na Gamos. Uma das comportas de carga se abre do lado oposto à Gamos. Estaremos longe, antes que o percebam.

— É tarefa sua, major. Posso, pois, contar que dentro de uma hora a Kam V não estará mais ocupada? Posso confiar nisso?

— Perfeitamente, senhor. Estaremos com nossos aparelhos de rádio à sua espera, no deslizador.

Rhodan pediu ainda para falar com o Capitão Rogers.

— Você ouviu tudo, não é Rogers? Ótimo, então está a par da situação. Agora tenho tempo para uma pergunta. Como foi possível os saltadores entrarem em sua nave, sem ninguém perceber?

— O comandante saiu da Gamos com sua comitiva, deixando um sentinela na escotilha. Devem ter armado uma cilada para o guarda, embora não saiba como se deu isto. O sentinela sabia que os saltadores andavam por ali...

— Vamos descobrir isto — prometeu Rhodan. — Suspeito que os saltadores tenham ouvido a conversa normal com o Major Felhak. Então podem estar informados sobre nossas intenções. Vocês têm de contar com a possibilidade de um ataque, a fim de confirmar sua posse da Gamos. Defendam-se do melhor modo possível. Que tal o uso do gás?

— Impossível, senhor. O sistema de compressão do ar está numa parte da nave ocupada por eles. Eles é que poderiam nos...

— Está bem — interrompeu Rhodan. — Distribua bem seus homens para que possam fazer alguma coisa. Certo?

Na central de comando, Rhodan deu as últimas instruções ao Coronel Hogard, voltando depois à sua cabina, onde se travavam calorosas discussões.

Homunk veio ao encontro de Rhodan, dizendo:

— Senhor, se desejar mandar alguém para os saltadores, permita que eu vá.

— Vão matá-lo, Homunk!

— Posso ativar um campo de proteção individual que nenhuma arma consegue penetrar e acho mesmo que sirvo muito bem para seus planos.

— Totalmente impenetrável? — quis saber Rhodan.

E depois que o robô lhe confirmou, o administrador começou a sorrir.

— Está bem, então sobrou uma boa surpresa para os saltadores. Obrigado, Homunk.

Gucky recebeu uma missão de Perry:

— Procure se familiarizar com os pensamentos do barbudo Gol Kamer, para espioná-lo. Tem que descobrir onde ele deixou o ativador.

— Será um prazer perambular pelos meandros de uma cabeça tão maldosa — disse o rato-castor, sério. — Pelo menos é uma cabeça onde se pode achar alguma coisa.

— Espero que sim, — redargüiu Bell, sem fazer alusão à indireta.

 

O sargento Pollard recebeu de um saltador a notícia de que um deslizador zarpara da Kam V, quando já era tarde demais para tomar qualquer providência.

— Gol lhes contou onde está o ativador, desgraçado! E nós ficamos aqui sentados numa armadilha.

— A idéia foi sua — lembrou-o o primo de Gol.

— Eu queria a espaçonave toda e não apenas o arsenal de munição. Que vamos então ficar fazendo aqui, esperando a vida toda?

Haveriam de saber mais coisas se tivessem ligado o receptor da nave na onda certa. Teriam ouvido a conversa de Rhodan com Felhak.

Segundos mais tarde, um posto avançado no corredor central comunicou que estava saindo da sala de comando uma tropa de assalto para atacá-los.

O saltador de barba ruiva colocou suas forças de prontidão e minutos depois travou-se uma batalha encarniçada entre terranos e saltadores. Depois de uma hora, os terranos se retiraram, vendo que os adversários mantinham firmes suas posições.

Quando Pollard voltou para o arsenal de munições e retomou seu posto de observação na clarabóia superior, não quis acreditar no que estava vendo. A cerca de cem metros da abandonada Kam V, repousava soberana a esfera gigantesca de um cruzador pesado. Não se podia vê-la com nitidez, era como se o ar cintilasse fortemente entre Pollard e a grande nave. Era o campo energético de proteção à prova de qualquer tipo de arma, com exceção dos raios transformadores. Mas estes raios transformadores eram exatamente a única arma a bordo das naves terranas que só podia ser disparada da central de comando. Não estava, pois, sob o controle do chefe dos postos de artilharia.

— Rhodan!... — sussurrou Pollard horrorizado, sentindo um tremor nas pernas. — Isto só pode ser Perry Rhodan!

O saltador de barba ruiva se aproximou dele. Havia ódio e traição nos seus olhos.

— Quer dizer que agora estamos mesmo sentados na armadilha. Você que nos meteu nisto, dê um jeito de nos tirar daqui.

— Rhodan!

Toda a energia acumulada, toda valentia, desapareceu de Pollard, de um momento para o outro. Só o pensamento de que, neste instante, a poucas centenas de metros dele, estava o grande administrador, o deixou quase paralisado. E quando pensou, então, nos mutantes, já não era o arruaceiro de antes.

— Vamos, não fiquemos parados aqui — disse o de barba ruiva, exigindo uma decisão. — Você não vai acreditar que o “seu” Rhodan atacará este cruzador, pondo em perigo sua própria gente. Certamente terá idéia melhor.

— Ele sempre tem idéias melhores — disse Pollard, branco de medo. Era mesmo estranho como mudara radicalmente nos últimos instantes. — Temos que fugir.

O primo de Gol olhou zombeteiro para ele.

— Sim, fugir... e como? A pé?

Um dos saltadores mexia num rádio portátil que — como os terranos — usava no pulso. Foi por mera casualidade que pegou a onda certa e, de repente, na confusão do arsenal, se ouviu uma voz estranha, a voz de Rhodan.

— ...pela última vez, manifestem-se! Vocês não podem deixar de ter aparelhos de rádio. Se, dentro de cinco minutos, não se manifestarem, terei de destruir a nave Kam V. Aqui fala Rhodan.

O de barba raiva tirou o rádio das mãos do saltador e o levou para Pollard.

— Então, o que você está esperando? Fale com ele. Pergunte a ele o que quer de nós, diga que o ativador não está conosco.

Pollard pegou automaticamente o aparelho na mão e apertou o botão de recepção.

— Sargento Pollard falando aqui, senhor.

Seguiu-se uma pausa, não houve resposta. Talvez, Rhodan estivesse se informando sobre quem era Pollard. Depois veio sua voz.

— Sargento Pollard... da Nusis?! Onde é que você está?

— A bordo da Gamos, senhor, no arsenal de munição, com os saltadores. Eu queria... isto é, queria... eu...

Complicou-se todo e não sabia o que dizer a Rhodan. Como é que lhe iria expor seu imenso fracasso?

Teve muita sorte. Não era necessário saber falar com desenvoltura. Por lá estava Gucky, a bordo da Nostasa, e o mutante tinha há muito tempo captado suas ondas cerebrais, lido seus pensamentos. Rhodan foi informado, antes de Pollard iniciar nova frase.

— Está certo, sargento, não há muito tempo para explicações. Mas onde está você agora?

— Onde eu...? No arsenal de armas, senhor!

— Seu ponto exato, perto da porta ou da escotilha, onde mesmo? Quero saber exatamente onde você está, entende?

Pollard não entendeu nada, mas disse a Rhodan que estava perto da clarabóia de observação, bem diante do quadro de controle das armas leves.

— Ótimo — respondeu-lhe Rhodan. — Mas não vá se assustar agora.

O de barba ruiva queria saber do que se tratava.

— Que quer dizer isto, terrano? Será que você quer inventar mais um truque?

— Eu mesmo não sei o que quer dizer isto. Não seja tão desconfiado. Porcaria! Antes não tivesse me metido com vocês.

A menos de um metro dele, o de barba ruiva foi, de repente, empurrado para o lado por algo invisível, como se fosse uma forte compressão vinda não se sabe de onde. Antes que os demais saltadores se recuperassem do susto, Gucky se materializou e apoiando-se com as duas mãos no quase petrificado Pollard, deu um pontapé no primo de Gol, cujos olhos estavam arregalados. O saltador caiu.

Gucky ainda tirou das mãos de Pollard o pequeno rádio e o jogou para o saltador mais próximo, dizendo:

— Fique com isto, para que possamos conversar um pouco.

Depois, desmaterializou-se com Pollard.

Quando terminou o rápido salto de teleportação, Pollard estava na frente de Rhodan. Gucky o deixou ali e sorrindo pulou para cima de seu sofá.

— Então, Pollard! — disse Rhodan. — Foi rápido, não é verdade?

— Gucky! — disse o sargento, completamente atônito. — Ele é também telepata?

Rhodan fez que sim com a cabeça.

— Seu procedimento exige punição, sargento, o senhor, bem como Major Felhak e Tenente Becker terão de assumir responsabilidade. O único que está livre de punição é o cadete Grabitsch. Foi o único que cumpriu com seu dever.

Mas, subitamente, Rhodan começou a sorrir.

— Posso compreendê-lo, Pollard, o que aliás não o isenta de sua falta.

Depois, em tom mais sério, Perry indagou:

— Que sabe do ativador? Onde está ele?

A surpresa de Pollard foi sincera:

— Deve estar com o patriarca, foi ele quem achou... lá no lago.

— ...e o perdeu de novo. Bem, o Capitão Millbox vai levá-lo para a cela. Quando chegarem Felhak e os outros, conversaremos mais.

Assim que o oficial saiu com Pollard, Bell disse:

— E agora vamos aos saltadores. Como é que podemos tirá-los da nave?

— Podemos fazê-lo por intermédio de Gucky, um depois do outro. Mas poderiam perceber logo e atirar no rato-castor. Vamos experimentar com ameaças.

Ligou de novo o aparelho especial de rádio.

— Vocês estão me ouvindo, saltadores? A resposta veio surpreendentemente rápida.

— Sim, estamos ouvindo. Qual é sua proposta, terrano?

Rhodan foi claro.

— Quem fala é Rhodan, o Grande Administrador do Império Unido. Exijo que vocês deixem imediatamente o cruzador e deponham as armas na escotilha. Vou lhes dar cinco minutos. Passado este prazo, mandarei destruir a Kam V. Está claro?

O rosto do primo de Gol mudou de cor.

— Neste caso, nós também vamos destruir este cruzador.

— Não será possível. Ou vocês querem passar o resto da vida em Honur?

O barbudo voltou atrás:

— E se nós sairmos desarmados? O que vai nos acontecer?

— Serão submetidos ao Tribunal do Império por motivos de pirataria. Será sempre melhor do que a morte imediata...

— Não sairemos — disse o saltador desligando.

Seus seguidores aplaudiram sua atitude.

Mas, quando cinco minutos depois, a Kam V ardia numa nuvem radiativa, não pareciam mais tão otimistas, e o saltador fez nova ligação.

— ...apenas cinco minutos — ouviram a voz impiedosa de Rhodan. — Faremos penetrar na central de comando um explosivo químico através dos raios transformadores. Ninguém sobreviverá, a não ser que se submetam imediatamente às minhas determinações. Posso também enviar meu teleportador com uma bomba.

Os saltadores se convenceram, de um momento para o outro, que não tinham opção. O terrano possuía muitos modos de destruí-los. Antes que se pudesse abrir fogo contra o rato-castor, ele já teria desaparecido, depois de lançar a bomba.

Os saltadores não eram, nem tinham teleportadores. Estariam, então, presos com a bomba dentro da nave. E quando explodisse...

O saltador disse no microfone:

— Bem, desistimos de tudo. Exigimos apenas sermos libertados.

— Quatro minutos do prazo já se foram!

Rhodan era implacável. Instantes depois, os saltadores começaram a sair da Gamos, um atrás do outro.

 

O Major Felhak e os outros voltaram logo depois para a clareira. Rhodan deixou de submetê-los imediatamente ao inquérito, para tratar primeiro do caso de Gol Kamer. Bell estava a seu lado e, no fundo, parecendo cochilar, lá estava Gucky “para-passeando” pelos pensamentos do patriarca e vendo a verdade.

— Onde foi que você deixou o ativador?

Gol tinha nos lábios um sorriso lacônico.

— Eu o perdi, terrano, em qualquer ponto da montanha.

Rhodan olhou em volta.

— Que diz a isto, Gucky?

— Ele o entregou a seu filho que está agora na montanha. Pretende ficar escondido lá até que um certo Rokuf o venha buscar.

Gol olhou perplexo para o rato-castor:

— Seu rato da peste, você também sabe ler os pensamentos? Eu vou pegá-lo e...

— Você prefere ficar com sua bela barba ruiva? — perguntou Gucky, em voz branda. — Ou gostaria de aprender a voar? Sou telecineta e se o largar de mil metros da altura...

— Ah!... Você é o célebre rato-castor! — disse quase gemendo, pálido de medo. Depois olhou para Rhodan, meneando a cabeça. — Pergunte que vou contar tudo. Não tem mais sentido nenhum...

Depois de Rhodan ficar a par de tudo, Gol foi também levado para a prisão. Teve de enfrentar um tribunal interestelar e foi acusado de assassinato, ele e seu clã. Muitos deles jamais tornariam a ver o mundo pátrio. A caçada à vida eterna realmente não valeu a pena... para eles.

— Gucky, você consegue localizar este Fella Kamer? — perguntou Rhodan. — Não temos possibilidade de encontrar nada, nem ele, nem o ativador. O saltador, por sua vez, não será tolo de entrar em contato radiofônico conosco, embora possa ouvir toda nossa conversa, se quiser.

O rato-castor mantinha a cabeça levantada.

— É um pouco difícil, pois não conheço o tipo de suas ondas cerebrais, mas considerando que o planeta não é habitado nesta região, acho que posso captar seus impulsos mentais. Fella está armado.

— Pelo menos foi o que disse Gol.

— Mas Gol se referiu à nave de emergência. Dizia que seu filho, na noite passada, fora para o local onde caíra a nave, em busca de víveres e de armas. Depois deveria procurar esconderijo numa caverna bem funda e lá esperar com calma. — considerou o rato-castor.

— O lado legal está bem claro. Depois que os saltadores destruíram a Nusis, sem motivo justo, sem o menor aviso, o ativador é nosso. Fella não tem nenhum direito a ele. Se não o der espontaneamente, teremos que fazer uso da força. Gucky, você tem plenos poderes.

Gucky se empertigou todo.

— Antes do pôr-do-sol, você terá o ativador — prometeu, empurrando Bell com a ponta do dedo, naturalmente usando, de seus dons extra-sensoriais, para abrir caminho e saiu solene para sua cabina.

Parou à porta da central de comando e disse:

— Vou apanhar uns brinquedinhos bem bonitos no arsenal de munições. Alguém tem alguma coisa contra?

Rhodan abanou a cabeça rindo, mas logo depois a seriedade voltou-lhe.

— Major Felhak, pode iniciar seu relatório.

Felhak começou a falar da insurreição e de sua fuga, tendo o cuidado de não mencionar o papel desempenhado por Grabitsch. Descreveu o bombardeio sofrido pela Nusis e a corrida louca atrás do ativador. Confessou-se culpado de ter alimentado, por algum tempo, a pretensão de se tornar dono do grande tesouro.

Rhodan o ouviu com paciência e quando o oficial terminou o relatório, o semblante do administrador não estava mais tão carregado.

— Você agiu como um ser humano normal, major, ninguém teria reagido de modo diferente. O fato de pretender possuir o ativador não é nenhum crime. Todo homem quer viver o maior tempo possível. Tudo depende do modo como se procede. Não obstante seus motivos particulares, você se portou como um homem de responsabilidade. Aproveitou a primeira oportunidade para me pôr a par dos fatos. Acho que o tribunal que vai julgar o caso Honur, tomará isto em consideração. Suponho que terá muitas atenuantes.

— Muito obrigado, senhor. Tudo teria sido bem diferente se o Tenente Becker não tivesse alvoroçado a tripulação com a transmissão apressada e inoportuna da mensagem do Imortal.

— Realmente, ele tem esta responsabilidade sobre os ombros. Ele e seu primeiro-oficial, que não pode mais ser punido.

— O cadete Grabitsch o matou, senhor.

— Sei disso, major. Fê-lo, porém, em legítima defesa. Caso ele tivesse encontrado o ativador neste planeta, poderia ficar com ele, pois foi o único que não infringiu nenhum regulamento.

Meio acanhado e com o rosto vermelho, Grabitsch estava na frente de Rhodan. Por um instante, seu pensamento voou para o momento em que resolveu salvar Felhak dos amotinados. Estava pensando que havia feito tudo isto apenas com a intenção de chegar mais perto do ativador... O cumprimento do dever foi, pois, acidental, dentro de seu plano ambicioso. Mereceria elogio?

— Senhor...! — começou ele.

Mas Rhodan fez um sinal e sorriu compreensivo.

— Não toquemos mais no assunto, Tenente Grabitsch. Acha que sou juiz de sentimentos e fraquezas humanas? Tudo depende do modo de proceder. Somente disso.

O demasiadamente jovem e inexperiente cadete, agora tenente, ficou sabendo de repente que ninguém podia ser mais ferrenho, duro e objetivo, mas também mais compreensivo e justo do que o Grande Administrador Perry Rhodan.

Com estes sentimentos de gratidão e respeito, recebeu os cumprimentos. Quem mais lhe apertou a mão foi o Major Felhak.

 

Fella desabotoou a túnica e colocou o ativador na palma da mão. Ficou observando seu pulsar suave e seu brilho. Não podia deixar de reconhecer os fluidos vivificantes que dele emanavam. Sentia-os a cada segundo, fluidos estes que lhe davam força, coragem, confiança e, acima de tudo... a vida eterna.

Por que razão seu pai lhe dera tesouro assim imensurável? Por que mudara assim tão bruscamente? Ficara louco?

Sim. Gol devia ter ficado louco, pois só um louco jogaria fora a vida eterna. Não podia entrar na cabeça do jovem que Gol, que o pai, se convencera da inutilidade da luta e tivesse chegado à conclusão de que Fella finalmente era seu filho, que um dia iria herdar tudo, inclusive a vida eterna.

Vagarosamente, com carinho, enfiou o colar no pescoço, sob a túnica, e o ajeitou. Não, nunca mais se desfaria dele. Não o entregaria a ninguém, e se fosse necessário, destruí-lo-ia. Ninguém, fora ele, haveria de usá-lo.

Ligou novamente o rádio. As transmissões agora eram quase todas em código. Soube que sua gente fora presa e não podia fazer nada por eles. Continuava assim sentado no fundo de uma caverna, acompanhando os acontecimentos pelo pequeno rádio. E, como Rhodan havia previsto, não se apresentou, nem fez nenhuma exigência. Sabia que, com qualquer manifestação, estaria dando a direção do seu esconderijo.

Na noite passada, estivera nos escombros da nave de emergência e fizera boa provisão de alimentos e de armas. Com as duas poderosas pistolas de raios, estaria a salvo contra qualquer agressão. Os alimentos lhe bastavam para semanas. Até então, os terranos já teriam desistido de procurá-lo.

Teriam desistido também do ativador? Por que motivo? Não era exatamente com eles que disputava a posse do fantástico objeto? Haveriam de ajudá-lo, se a situação fosse diferente?

Aqui estaria seguro e ninguém o acharia, a não ser que viessem investigar toda a montanha. Caverna por caverna, fenda por fenda, morro por morro. Isto levaria meses e anos.

Levou um susto, quando, no meio dos sinais confusos, se fez ouvir uma voz clara e aguda demais, falando em intercosmo.

— Fella Kamer, seu tempo já acabou, saia de seu esconderijo.

O jovem saltador sentiu o coração quase parar. Depois deu uma gargalhada nervosa. Era mais do que natural que tinham de supor estar ele uma caverna. Onde estaria então? Fingiam saber o lugar exato só para lhe armar uma cilada, ou talvez queriam apenas que ele se manifestasse, a fim de determinar seu ponto exato.

Portanto, não respondeu nada. Mas logo depois, a voz voltou, já um pouco mais impaciente.

— Seu silêncio não lhe vai adiantar nada, saltador, suas armas também não, e muito menos seus alimentos. Se você julgar que não sei qual é sua caverna, está redondamente enganado. Olhe para a direita, aí estão seus alimentos. Isso, ponha a mão na arma. Por que ficou indeciso de repente? Acha que não o estou vendo? Engana-se. Isto, agora você está se levantando.

Fella não se sentia bem. Olhou para todos os lados, apreensivo. A caverna continuava em plena escuridão e não havia sinal de ninguém por perto. No entanto, era observado. Como era possível?

— Sim, sente-se de novo na pedra e reflita um pouco.

Realmente, o jovem se sentara. Pensamentos estranhos iam e vinham, deixando-o confuso. Depois tudo se esclareceu e foi confirmado pela voz aguda.

— Exatamente, sou telepata. Seus pensamentos não me escapam e assim o pude encontrar. Não, seria coisa sem sentido tentar me ameaçar com a destruição do ativador. Você jamais terá coragem para isto, pois é muito covarde e ganancioso. Portanto, terá coragem de lutar comigo. É isto, vamos lutar pelo ativador!

Um telepata! De que maneira podia ele enganar alguém que já sabe de suas intenções?

Pensando assim, colocou a pistola de novo na pedra e... recuou assustado. A arma começou a flutuar, foi saindo da caverna, até desaparecer completamente.

— Além de telepata, sou também telecineta — explicou-lhe o interlocutor invisível. — Isto! Agora também a segunda arma.

Mas desta vez, Fella estava prevenido. Usando as duas mãos, segurou-a firme, na coronha e no cano. A arma reagiu, como se fosse um ser vivo, mas o saltador não cedia e sem o notar, estava sendo arrastado para fora da caverna. Já estava percebendo os primeiros raios avermelhados do sol poente. Logo estaria lá fora, entregue ao implacável inimigo.

Então iria mesmo lutar? Conseguiu destravar a arma. Embora segurasse ainda com as duas mãos, podia ainda pôr o dedo indicador no gatilho...

Fazendo esforço para se convencer que não era covarde, caminhou para fora da caverna. A cinqüenta metros, havia um ser estranho. Não era um terrano, pois os conhecia bem. Tinha pouco mais de um metro de altura e uma cauda muito longa. Trajava um impecável uniforme da Frota Imperial e na cintura, bem visível, estava a pistola energética. Ao lado algumas granadas de mão.

Fella quis apontar a arma contra o estranho membro da Frota Imperial, mas não conseguiu erguê-la. Apontava para o chão de pedra e dali não se movia.

— Quis bancar o corajoso, hein? — soou de novo a voz de falsete, não branda como antes, mas já ameaçadora. — Então você queria simplesmente me matar, não é? Isso é impossível. Eu sou Gucky, o rato-castor.

Fella não tinha ainda ouvido falar de Gucky. E este foi, pois, seu azar...

De qualquer jeito, portou-se de maneira bastante inteligente. Usando de todas as suas forças, deixou-se cair de costas e apertou o gatilho. Seu peso de homem corpulento o ajudou um pouco para contrabalançar as forças telecinéticas de Gucky. O cano da arma estava agora na posição horizontal, e não mais dirigido ao solo. O disparo energético, passando próximo a Gucky, atingiu em cheio o rochedo no fundo. Não fora o salto rápido do rato-castor, seria ele mortalmente atingido.

Com isto, a paciência do mutante se esgotou.

Antes que Fella tocasse no chão, foi atingido pelas forças invisíveis do telecineta e mandado para o ar. Gucky o fez subir duzentos metros, rodando-o para todos os lados, para que não pudesse fazer pontaria.

— Tire o ativador e o segure firme — ordenou pelo rádio.

O saltador o ouvia perfeitamente. O rato-castor era um ponto diminuto contra um solo, a esta hora, pardacento. Raivoso, o pobre rapaz ligou seu rádio:

— Prefiro destruí-lo!

— Isto seria difícil e muito perigoso, você se machucaria. Além disso não esqueça que eu o mantenho lá em cima, se deixar de fazê-lo, você cai. Sua vida está pois em minhas mãos.

— Vou destruí-lo! — gritou furioso, metendo a mão sob a túnica e pegando o ativador.

Com um movimento resoluto, o tirou do pescoço.

— Terá de procurá-lo, se quiser.

Gucky sabia, então, que vencera a parada. Fez com que o saltador subisse mais um pouco e ficou atento aos seus pensamentos para não perder o segundo decisivo, do contrário tudo estaria perdido. Tinha de levar seu oponente para tão alto que este acabasse desistindo.

— Você flutua agora a quinhentos metros do solo, quer cair de costas?

Fella olhou para baixo e viu que flutuava sobre rochas escarpadas e muito irregulares, mantido por força, para ele, misteriosa e incompreensível. Se caísse, não sairia com vida. Viu bem longe, na direção do sudeste, os dois cruzadores terranos. No lugar da Kam V existia somente uma cratera.

Apontou a pistola energética de novo para o minúsculo ponto escuro na entrada da caverna e disparou. O feixe de raios passou longe. Começou depois a rodar e cair tão depressa, que seus olhos não podiam ver mais nada. Tudo girava em torno dele, montes, planícies, florestas, o próprio horizonte. De repente, viu-se novamente parado no ar.

Lá embaixo, o granito com suas fendas e pontas. Se caísse desta altura, com toda certeza o ativador se espatifaria, e mesmo se ele não morresse, jamais seria encontrado.

— Rato desgraçado! — gritou no auge da fúria. — Você também não terá o ativador e Rhodan não chegará a vê-lo. Ninguém, ninguém o terá.

Dizendo isto, atirou o ativador no abismo. Enquanto o objeto metálico se precipitava, Fella atirava doidamente. Mas sua mão não tinha firmeza e não conseguiu acertar no ativador.

Gucky só chegou a vê-lo a uns cem metros do solo, quando um raio do sol poente o atingiu. Foi o segundo tão esperado por ele. Concentrou-se todo no ativador, que não podia bater no chão, nem em lugar nenhum. Com toda sua força extra-sensorial em atividade, atingiu o precioso objeto e deteve a queda, fazendo com que viesse, numa curva suave, lentamente até suas mãos.

Segundos antes, Fella se estatelara na rocha. Gucky não tivera tempo de deter sua queda para a morte. O ativador lhe era mais importante para manter a paz na Galáxia, do que um saltador, responsável ou co-responsável pela morte de duzentos terranos.

Mais tarde, quando estava entregando o ativador a Rhodan, Gucky disse:

— A opção foi entre valores. Ou o ativador, ou Fella? Os dois juntos não era possível. Não podia parar os dois no ar, ao mesmo tempo. Ou um ou outro! Decidi-me pelo ativador.

Por um instante, Rhodan segurou o ativador na palma da mão. Viu como os olhos de Felhak se detiveram no objeto oval, cintilando estranhamente. Também Hogard e Hagel Ferron pareciam hipnotizados.

Rhodan enfiou o ativador no bolso, sem esperar muito. Sabia que nenhum homem poderia resistir à tentação. A vida eterna tem mais valor que todos os tesouros da Terra ou mesmo do Universo.

Sobravam ainda vinte e três... novamente vinte e três problemas!

Rhodan bateu de leve no ombro de Gucky.

— Obrigado, meu amigo, coisas de vida eterna posso confiar somente aos imortais, a você...

— E à minha querida Iltu — completou Gucky, retirando-se solene da central de comando.

Depois que o rato-castor se ausentou, Rhodan disse em voz baixa:

— Este é o melhor terrano que possuímos!...

 

                                                                                            Clark Darlton  

 

                      

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