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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SR. ASSASSINO / Dean Koontz
SR. ASSASSINO / Dean Koontz

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SR. ASSASSINO

 

O escritor de livros de mistério Marty Stillwater se considera um homem de sorte. Tem um casamento feliz, duas lindas filhas, dinheiro e uma carreira de sucesso. Tudo vai bem, até o dia em que um estranho invade sua casa para reclamar: “Você roubou minha mulher, minha vida e minhas filhas. Eu quero tudo de volta.” Alegando ser o verdadeiro Stillwater, o estranho decide eliminar o escritor e resgatar a família e a vida que ele acredita serem suas. Sem a proteção da polícia, que não leva a sério as ameaças, a família inicia uma figa desesperada, sempre perseguida pelo estranho. Em seu novo romance, Dean R. Koontz opõe uma apaixonante família a um dos mais surpreendentes maníacos assassinos já criados, em uma trama de tensão crescente...

 

— Eu preciso...

      Recostado em sua confortável cadeira de escritório, de couro, balançando suavemente, segurando um gravador na mão direita e ditando uma carta para seu editor em Nova York, Martin Stillwater percebeu, de repente, que estava repetindo as mesmas duas palavras em um sussurro sonhador.

      — ... eu preciso... eu preciso... eu preciso...

      Marty desligou o gravador, franzindo as sobrancelhas.

      Sua seqüência de pensamentos moveu-se para um desvio e parou de súbito. Ele não conseguiu recordar-se do que estivera prestes a dizer.

      Precisava de quê?

      A enorme casa não estava apenas quieta, mas também lugubremente silenciosa. Paige havia levado as crianças para almoçar e para assistir a matinê de cinema de sábado.

      Mas aquele silêncio sem crianças era mais do que apenas uma condição. Tinha substância. O ar se solidarizava pesado com ele.

      Ele colocou a mão na nuca. A palma estava fria e úmida. Ele tremia.

      Lá fora, o dia outonal estava tão silencioso quanto a casa, como se todo o sul da Califórnia tivesse sido evacuado. Na única janela de seu gabinete do segundo andar, as largas folhas da persiana da fazenda estavam entreabertas. A luz do sol entrava inclinada entre tábuas angulosas, imprimindo no sofá e no tapete estreitas listras vermelhas e douradas tão lustrosas quanto pele de raposa; a faixa luminosa mais próxima envolvia um dos cantos da escrivaninha em forma de U.

      — Eu preciso...

      O instinto lhe disse que algo importante havia acontecido apenas um momento atrás, fora de sua visão, percebido de maneira subliminar.

      Ele girou a cadeira e examinou o aposento atrás dele. Fora as faixas acobreadas de luz do sol entrefolhadas de sombras das persianas, a única luz vinha de uma pequena luminária com quebra-luz de vitral. Entretanto, mesmo nessa obscuridade, ele pôde ver que estava sozinho com seus livros, arquivos de pesquisa e o computador.

      Talvez o silêncio parecesse artificialmente profundo apenas porque a casa havia estado cheia de barulho e alvoroço desde a quarta-feira, quando as escolas fecharam para o feriado do Dia de Ação de Graças. Ele sentia falta das crianças. Devia ter ido ao cinema com elas.

      — Eu preciso...

      As palavras foram ditas com tensão peculiar — e ânsia.

      Agora, um sentimento agourento dominou-o, um forte senso de perigo iminente. Era o medo premonitório que às vezes os personagens sentiam em seus romances e que ele sempre se esforçara para descrever sem lançar mão de lugares-comuns.

      Na verdade, havia anos que ele não experimentara algo parecido, não desde que Charlotte tivera uma doença séria quando estava com quatro anos e o médico preparou-os para a possibilidade de câncer. O dia inteiro no hospital, enquanto sua menininha era transportada de um laboratório para outro, para fazer testes, toda aquela noite sem sono e durante os longos dias que se seguiram antes que os médicos se arriscassem a dar um diagnóstico Marty sentiu-se perseguido por um espírito malévolo, cuja presença engrossava o ar, tornando difícil respirar, mover-se, ter esperança. Como se verificou, sua filha não havia sido ameaçada nem por uma maldade sobrenatural nem por alguma malignidade. O problema era uma tratável doença do sangue. Charlotte recuperou-se em três meses.

      Mas ele se lembrava bem demais daquele medo opressivo.

      Estava de novo naquele aperto gelado, embora por nenhuma razão discernível. Charlotte e Emily eram crianças saudáveis e bem ajustadas. Ele e Paige eram felizes juntos — uma felicidade absurda, considerando-se a quantidade de casais de trinta e poucos que ele conhecia que estava divorciada, separada ou que se enganava. Em termos financeiros, tinham mais segurança do que haviam esperado.

      Não obstante, Marty sabia que alguma coisa estava errada.

      Ele arriou o gravador, foi até a janela e abriu toda a persiana. Um sicômoro sem folhas lançava sombras fortes e alongadas no pequeno pátio lateral. Além daqueles galhos retorcidos, as paredes de estuco amarelo-claro da casa vizinha pareciam ter absorvido a luz do sol; reflexos dourados e cor-de-ferrugem pintavam as janelas; o lugar estava silencioso, parecia sereno.

      Ele podia ver à direita uma seção da rua. As casas do outro lado da quadra também eram de estilo mediterrâneo, estuque com telhados de telha de argila, douradas pelo sol do fim da tarde, ornamentadas por copas de palmeira real pendentes. Quieta, com boa paisagem, planejada em centímetro quadrado, a vizinhança — e, de fato, toda a cidade de Mission Viejo — parecia ser um paraíso no caos que reinava em grande parte do resto do mundo naqueles dias.

      Ele fechou a persiana, bloqueando o sol por completo.

      Aparentemente, o único perigo estava em sua mente, uma ficção da mesma imaginação ativa que o tornou, pelo menos, um escritor de romance de mistério, de razoável sucesso.

      No entanto, seu coração batia mais rápido que nunca.

      Marty caminhou para fora do gabinete e saiu no hall do segundo andar, chegando ao topo da escada. Ficou tão parado quanto o pilar do corrimão no qual pousou a mão.

      Não sabia ao certo o que esperava ouvir. O suave rangido de uma porta, passos furtivos? Os sussurros dissimulados, cliques e baques abafados de um invasor que avançava devagar pela casa?

      Aos poucos, como não ouviu nada suspeito e seu coração em disparada se acalmou, sua sensação de desgraça iminente se dissipou. A ansiedade tornou-se mera inquietação.

      — Quem está aí? — perguntou apenas para romper o silêncio.

      O som de sua voz cheia de perplexidade dispersou o ânimo agourento. Agora a quietude era apenas a de uma casa vazia, desprovida de ameaça.

      Retornou ao gabinete no final do corredor e se instalou na cadeira de couro atrás da escrivaninha. Com a persiana bem fechada e sem nenhuma luz acesa, exceto a luminária com vitral, os cantos do quarto pareciam retroceder além do que permitiam as dimensões das paredes, como se fosse um lugar de sonho.

      Como o motivo do vitral de luminária era fruta, o vidro de proteção do tampo da escrivaninha refletia ovais luminosos e círculos de vermelho-cereja, púrpura-ameixa, verde-uva, amarelo-limão e azul-baga. Em sua superfície de metal polido e plexiglas, o gravador sobre o vidro também refletia o mosaico brilhante, cintilando como se fosse incrustrado de pedras preciosas. Quando estendeu a mão para o gravador, Marty notou que ela parecia estar revestida com a pele pedregosa de arco-íris de um lagarto exótico.

      Ele hesitou, examinando as falsas escamas nas costas da mão e as pedras preciosas fantasmas no gravador. A vida real tinha tantas camadas de ilusão quanto qualquer Ficção.

      Pegou o gravador e, durante um ou dois segundos, pressionou o botão de rebobinar, procurando as últimas palavras da carta inacabada para seu editor. O guincho-zunido fino e de alta velocidade de sua voz ao reverso emergiu como uma língua estranha no pequeno alto-falante de estanho.

      Quando apertou o botão de tocar, descobriu que não havia rebobinado o suficiente: “... eu preciso... eu preciso... eu preciso...”

      Com a testa franzida, pôs o aparelho para rebobinar, voltando a fita o dobro do tempo anterior.

      Mas ainda: “... eu preciso... eu preciso...”

      Rebobinar. Dois segundos. Cinco. Dez. Parar. Tocar.

      “... eu preciso... eu preciso... eu preciso...”

      Após mais duas tentativas, encontrou a carta: “... assim, devo poder entregar em suas mãos o esboço do novo livro em cerca de um mês. Penso que esse é... esse é... hum... esse...”

      O ditado parou. O silêncio se desenrolou na fita... e o som de sua respiração.

      No momento em que o canto de duas palavras começou enfim a ser emitido através do alto-falante, Marty se reclinara tenso para a frente na beira da cadeira, franzindo as sobrancelhas para o gravador em sua mão.

      “... eu preciso... eu preciso...”

      Olhou para o relógio de pulso. Passavam quase seis minutos das quatro horas.

      No início, o murmúrio indistinto foi o mesmo de quando ele voltou à razão e ouviu o suave canto como se fossem respostas para uma interminável litania religiosa sem imaginação. Após cerca de meio minuto, entretanto, sua voz na fita mudou, tornando-se aguda de urgência, avolumada de angústia, depois de raiva.

      “... EU PRECISO... EU PRECISO... EU PRECISO...”

      A frustração fervia através dessas duas palavras.

      O Marty Stillwater na fita — que podia muito bem ter sido um total estranho para o ouvinte Marty Stillwater — soou em aguda dor emocional, carente de alguma coisa que ele não poderia descrever nem imaginar.

      Hipnotizado, ele olhou zangado para os carretéis brancos chanfrados do gravador que giravam sem parar atrás do visor de plástico.

      No final, a voz silenciou, terminou a gravação e Marty tornou a consultar o relógio. Mais de doze minutos depois das quatro.

      Ele havia presumido que perdera a concentração por apenas alguns segundos, entrando em um breve devaneio. Em vez disso, ficara com a mão agarrada no gravador, a carta para o editor esquecida, repetindo aquelas duas palavras durante sete minutos ou mais.

      Sete minutos, pelo amor de Deus.

      E não se lembrava de nada daquilo. Como em um transe.

      Agora, parou a fita. A mão estava tremendo e, quando colocou o gravador em cima da escrivaninha, o aparelho chocalhou contra o vidro.

      Ele olhou em volta do gabinete onde havia passado tantas horas solitárias na preparação e solução de tantos mistérios, onde havia colocado inúmeros personagens em enormes trabalhos árduos, desafiando-os a encontrar a saída de algum perigo mortal. O aposento era tão familiar: as abarrotadas prateleiras de livros, uma dúzia de pinturas originais que haviam sido impressas nas sobrecapas de seus romances, o divã que ele comprara na expectativa de preguiçosas sessões de esboço, mas no qual nunca tivera tempo ou inclinação para deitar, o computador com seu monitor de tamanho exagerado.

      Mas essa familiaridade já não era mais confortante, porque agora estava manchada pela estranheza do que acontecera minutos atrás.

      Enxugou as mãos úmidas no jeans.

      Após tê-lo deixado por um breve momento, o medo instalou-se de novo à maneira do misterioso corvo de Poe, aboletando-se sobre a porta de um quarto.

      Despertando do transe, percebendo o perigo, ele havia esperado encontrar a ameaça lá fora na rua ou na forma de um arrombador vagando pelos aposentos de baixo. Mas foi pior do que isso. A ameaça não era externa. De alguma forma, o erro estava dentro dele.

  

A noite está profunda e livre de turbulência.

      Abaixo, as nuvens coaguladas estão prateadas com o luar refletido e, durante algum tempo, a sombra do avião ondulou através do mar vaporoso.

      O vôo do matador que partiu de Boston chega a tempo em Kansas City, Missouri. Ele vai direto à área de entrega de bagagem. Os viajantes do feriado do Dia de Ação de Graças só irão dirigir-se para casa amanhã, de modo que o aeroporto está tranqüilo. Suas duas peças de bagagem — uma das quais contém uma pistola Heckler & Koch P7, silenciador destacável e pentes aumentados carregados com munição 9mm — são a primeira e a segunda a cair no carrossel.

      No balcão da agência de aluguel de carro, ele descobre que sua reserva não havia sido anotada de forma errada nem extraviada, como costuma ocorrer, com freqüência. Ele receberá o enorme Ford sedã que pediu, em vez de ficar enrascado com um subcompacto.

      O cartão de crédito em nome de John Larrington é aceito sem problema pelo funcionário e pela máquina verificadora do American Express, embora seu nome não seja John Larrington.

      Recebe o carro, que roda bem e cheira à limpeza. Até o aquecedor funciona.

      Tudo parece que vai acontecer à sua maneira.

      A algumas milhas do aeroporto, ele se hospeda em um agradável porém anônimo hotel de quatro andares, onde o funcionário ruivo do balcão da recepção lhe diz que ele pode ter um desjejum complementar — massas, suco e café —, que seria entregue pela manhã simplesmente se ele pedisse. Seu cartão Visa em nome de Thomas E. Jukovic é aceito, embora Thomas E. Jukovic não seja seu nome.

      Seu quarto tem tapete laranja-queimado e papel de parede com listras azuis. Entretanto, o colchão é firme e as toalhas são felpudas.

      A mala que contém a pistola automática e a munição permanece trancada no porta-malas do carro, onde não oferecerá tentação para empregados de hotel bisbilhoteiros.

      Depois de ficar sentado durante algum tempo em uma cadeira junto à janela, olhando para Kansas City ao luar, ele desce até o restaurante para jantar. Tem 1,82 m de altura, pesa 81 quilos, mas come com o mesmo entusiasmo de um homem muito maior. Uma tigela de sopa de legumes com torrada com alho. Dois cheeseburgers, batatas fritas. Um pedaço de torta de maçã com sorvete de baunilha. Meia dúzia de xícaras de café.

      Ele tem sempre um grande apetite. Muitas vezes, é voraz; há momentos em que sua fome parece quase insaciável.

      Enquanto come, a garçonete passa duas vezes para perguntar se a comida foi bem preparada e se ele precisa de alguma outra coisa. Ela não está sendo apenas atenciosa com ele, também está flertando.

      Embora ele seja razoavelmente atraente, sua aparência não rivaliza com a de algum astro do cinema. No entanto, as mulheres flertam com ele mais do que com outros homens mais bonitos e mais bem vestidos. Consistindo em sapatos Rockport, calças cáqui, um suéter verde-escuro de gola redonda, nenhuma jóia e um relógio de pulso barato, seu guarda-roupa não é notável nem memorável. É o que parece. A garçonete não tem nenhuma razão para confundi-lo com um homem de recursos. No entanto, lá está ela de novo, com o sorriso coquete.

      Um dia, em um salão de coquetel em Miami, onde ele pegou uma loura com olhos cor-de-uísque, ela assegurou-lhe que uma intrigante aura o cercava. Disse que um magnetismo constrangedor resultava de sua preferência pelo silêncio e pela expressão pétrea que em geral ocupava seu rosto.

      — Você é — ela havia insistido em tom jocoso — o epítome do tipo forte e silencioso. Pomba, se você estivesse num filme com Clint Eastwood e Stallone, não haveria nenhum diálogo!

      Mais tarde, ele a matou a pancadas.

      Não ficara enfurecido com nada do que ela havia dito ou feito. Na verdade, o sexo com ela foi satisfatório.

      Mas estivera na Flórida para explodir o cérebro de um sujeito chamado Parker Abbotson e ficara preocupado com a possibilidade de mais tarde a mulher vinculá-lo ao assassinato. Não queria que ela pudesse dar uma descrição sua à polícia.

      Após abatê-la, ele foi ver o último filme de Spielberg e depois uma fita de Steve Martin.

      Ele gosta de cinema. Além de seu trabalho, os filmes são a única vida que tem. Às vezes parece que seu verdadeiro lar é uma série de salas de cinema em diferentes cidades, mas tão parecidas em sua multiplicidade de shopping center que podiam muito bem ser o mesmo auditório escuro.

      Agora ele finge não ter percebido que a garçonete do restaurante está interessada nele. Ela é bastante bonita, mas ele não ousaria matar uma empregada do restaurante do próprio hotel em que está hospedado. Ele precisa encontrar uma mulher em um lugar com o qual não tenha nenhuma ligação.

      Ele dá de gorjeta os exatos 15%, porque a mesquinhez ou a extravagância é uma maneira segura de ser lembrado.

      Após um breve retorno a seu quarto para pegar uma jaqueta de couro com forro de lã, adequada para a noite do final de novembro, ele entra no Ford alugado e roda em círculos cada vez mais largos através do distrito comercial vizinho. Está procurando o tipo de estabelecimento no qual terá a chance de encontrar a mulher certa.

  

Papai não era papai.

      Ele tinha os olhos azuis de papai, o cabelo castanho-escuro de papai, as orelhas grandes demais de papai, o nariz sardento de papai; ele era um sósia perfeito do Martin Stillwater retratado na sobrecapa de seus livros. Ele falou igual a papai quando Charlotte e Emily e a mãe delas chegaram em casa e o encontraram na cozinha, tomando café, porque ele disse:

      — Não adianta fingir que foram fazer compras no shopping mall depois do cinema. Mandei que um detetive particular seguisse vocês. Sei que estiveram em uma sala de pôquer em Gardena, jogando e fumando cigarros.

      Ele se levantava, sentava e caminhava como papai.

      Mais tarde, quando foram a Islands jantar, ele até dirigiu como papai. O que foi rápido demais, segundo mamãe. Ou apenas “a técnica confiante e hábil de um motorista-mestre”, se você vir as coisas à maneira de papai.

      Mas Charlotte sabia que alguma coisa estava errada, e se martirizava. Oh, ele não havia sido agarrado por um alienígena que se arrastou para fora de uma enorme semente de vagem do espaço exterior ou alguma coisa tão extrema. Ele não era tão diferente assim do papai que ela conhecia e amava.

      Na maioria das vezes, as diferenças eram pequenas. Embora em geral fosse relaxado e fácil de lidar, ele estava um pouco tenso. Mantinha-se rígido, como se equilibrasse ovos na cabeça... ou como se talvez esperasse ser atingido a qualquer momento por alguém, alguma coisa. Não sorria tão rápida ou com tanta freqüência como de hábito, e quando sorriu, pareceu estar fingindo.

      Antes de sair de ré pela estradinha de carros, virou-se e examinou Charlotte e Emily para assegurar-se de que estavam usando cintos de segurança, mas não disse “o foguete Stillwater está prestes a disparar”, ou “se eu fizer as curvas rápido demais e vocês tiverem que vomitar, por favor vomitem bonito nos bolsos de suas jaquetas, não no belo estofamento de meu carro”, ou “se conseguirmos velocidade suficiente para voltar no tempo, não gritem insultos para os dinossauros”, ou alguma outra das coisas bobas que em geral dizia.

      Charlotte notou e ficou preocupada.

      O restaurante, Islands, tinha bons sanduíches, ótimas batatas fritas — que podiam ser pedidas bem crocantes —, saladas e tacos macios. Os sanduíches e as batatas fritas eram servidos em cestos e o ambiente era caribenho.

      “Ambiente” era uma palavra nova para Charlotte. Ela gostava muito de seu som e usava em cada oportunidade que tinha — embora Emily, a criança incorrigível, sempre ficasse confusa e dissesse “que ambulância, não estou vendo nenhuma ambulância” cada vez que Charlotte usava a palavra. Sete anos de idade podia ser um sofrimento. Charlotte estava com dez anos — ou faria em seis semanas — e Emily recém completara sete em outubro. Em era uma boa irmã, mas claro que sete anos de idade eram tão... setenianos.

      Em todo caso, o ambiente era tropical: cores vivas, bambu no teto, cortinas de madeira e grande quantidade de palmeiras em vasos. Tanto o garçon como a garçonete usavam camisas curtas e coloridas do tipo havaiano.

      O local lembrou a ela a música de Jimmy Buffet, que era uma dessas coisas que seus pais amavam, mas que Charlotte não entendia nem um pouco. Pelo menos o ambiente era frio e as batatas fritas eram as melhores.

      Sentaram-se em uma cabine na seção de não-fumantes, onde o ambiente era mais bonito ainda. Os pais pediram Corona, que veio em caneca gelada. Charlotte pediu uma Coca e Emily root beer.

      — Root beer é uma bebida de adulto — Em disse. E apontou para a Coca de Charlotte. — Quando você vai parar de beber coisa de criança?

      Em estava convencida de que root beer podia ser tão intoxicante quanto cerveja de verdade. Às vezes fingia estar tonta depois de dois copos, o que era estúpido e embaraçoso. Quando Em praticava sua rotina dar-voltas-arrotar-beber e estranhos se viravam para olhar, Charlotte explicava que Em tinha sete anos. Todos compreendiam — o que mais se poderia esperar de alguém com sete anos? —, mas mesmo assim era embaraçoso.

      No momento em que a garçonete trouxe o jantar, mamãe e papai falavam de pessoas que conheciam e que estavam se divorciando — conversa chata de adulto que rapidamente poderia arruinar um ambiente caso se prestasse alguma atenção. E Em empilhava batatas fritas em pilhas peculiares, como versões em miniatura de esculturas modernas que haviam visto em um museu no último verão; ela estava absorvida pelo projeto.

      Com todo mundo distraído, Charlotte abriu o zíper do bolso mais baixo da jaqueta de algodão, tirou Fred e colocou-o em cima da mesa.

      Ele ficou imóvel sob seu casco, as pernas rechonchudas dobradas, sem cabeça, tão grande quanto um relógio de pulso. No final seu pequeno nariz bicudo apareceu. Ele cheirou o ar com cuidado e depois esticou a cabeça para fora da fortaleza que carregava nas costas. Seus olhos escuros e brilhantes de tartaruga olharam o novo local com grande interesse, e Charlotte imaginou que ele devia estar maravilhado com o ambiente.

      — Fique comigo, Fred, e vou mostrar-lhe lugares que nenhuma tartaruga viu antes — sussurrou.

      Olhou de relance para os pais. Eles ainda estavam tão envolvidos um com o outro que não perceberam quando ela deslizou Fred para fora do bolso. Agora o animal estava escondido atrás de um cesto de batatas fritas.

      Além das batatas, Charlotte comia tacos macios com recheio de galinha, de onde retirou um pedaço de alface. A tartaruga cheirou-a e afastou a cabeça com asco. Ela tentou um pedaço de tomate. Está falando sério?, o animal pareceu dizer ao recusar o petisco.

      Em certas ocasiões, Fred conseguia ser mal-humorado e difícil. Charlotte imaginava que a culpa era dela, porque o havia mimado demais.

      Ela não achava que galinhas ou queijo fosse bom para ele, e não iria oferecer-lhe migalhas de tortilla enquanto Fred não comesse suas verduras, de modo que ela mordiscou as batatas fritas crocantes e olhou em volta do restaurante, como se estivesse fascinada com os outros fregueses que ignoravam o pequeno réptil primitivo. Ele havia rejeitado a alface e o tomate apenas para aborrecê-la. Se pensasse que ela não ligaria a mínima se ele comesse ou não, então era provável que comesse. Nos anos das tartarugas, Fred tinha sete de idade.

      Na verdade, ela ficou interessada em um casal heavy-metal com roupas de couro e cabelo estranho. Os dois a distraíram por alguns minutos, e ela se assustou com o gritinho agudo de alarme da mãe.

      — Oh — exclamou a mãe depois de gritar —, é apenas o Fred.

      A ingrata tartaruga — afinal de contas, Charlotte poderia ter deixado o bicho em casa — não estava ao lado de seu prato, onde tinha sido deixada. Ela rastejara em volta do cesto de batatas fritas indo direto para o outro lado da mesa.

      — Só tirei ela do bolso para dar comida — disse Charlotte na defensiva.

      Erguendo o cesto para que Charlotte pudesse ver a tartaruga, mamãe disse:

      — Querida, não é bom para ele ficar o dia inteiro em seu bolso.

      — Não é o dia inteiro — Charlotte apossou-se de Fred e devolveu-o ao bolso. — Só desde que saímos de casa para jantar.

      Mamãe franziu as sobrancelhas.

      -— Que outro animal está com você?

      — Só o Fred.

      — E quanto ao Bob? — perguntou mamãe.

      — Oh, argh — disse Emily, fazendo careta para Charlotte. — Você botou o Bob em seu bolso? Eu odeio o Bob.

      Bob era um besouro preto de movimento lento, do mesmo tamanho da última junta do polegar de papai, com pálidas marcas azuis em sua carapaça. Ela o mantinha em um jarro grande em casa, mas às vezes gostava de levá-lo para fora de casa, para observá-lo rastejar em seu trabalhoso trajeto sobre um tampo de balcão ou mesmo nas costas de sua mão.

      — Eu jamais levaria Bob para um restaurante — garantiu-lhes Charlotte.

      — Você também sabe que era melhor não trazer Fred — disse a mãe.

      — Sei, mamãe — disse Charlotte com genuíno embaraço.

      — Boba — disse Emily.

      Mamãe falou para Emily:

      — Não é mais boba do que usar batatas fritas como se fossem blocos de Lego.

      — Estou fazendo arte. — Emily estava sempre fazendo arte. Às vezes era estranha, mesmo para uma menina de sete anos de idade. Picasso reencarnado era como papai a chamava.

      — Arte, hum? — comentou mamãe. — Se está fazendo arte com sua comida, o que vai comer? Uma pintura?

      — Talvez — replicou Em. — Uma pintura de um bolo de chocolate.

      Charlotte fechou o zíper do bolso da jaqueta, aprisionando Fred.

      — Lave as mãos antes de continuar a comer — disse papai.

      — Por quê? — perguntou Charlotte.

      — O que você acabou de tocar?

      — Você se refere a Fred? Mas Fred é limpo.

      — Eu disse lave as mãos.

      O mau-humor do pai lembrou a Charlotte que ele não era ele. Poucas vezes ele falava em tom áspero com ela ou Em. Ela se comportava não por medo de que ele lhe desse uma palmada ou gritasse com ela, mas sim porque era importante não desapontar a ele nem a mamãe. A melhor sensação do mundo era quando ela recebia uma boa nota na escola ou tinha um bom desempenho em um recital de piano, deixando-os orgulhosos dela. E nada era pior do que fazer bagunça — e ver um ar triste de desapontamento em seus olhos, mesmo quando eles não a puniam ou diziam alguma coisa.

      A rabugice da voz de seu pai mandou-a direto ao banheiro de mulheres, piscando para reprimir as lágrimas em cada passo do trajeto.

     

Mais tarde, no caminho de Islands para casa, quando papai ficou com pé de chumbo, mamãe disse:

      — Marty, isso aqui não são as Quinhentas Milhas de Indianápolis.

      — Acha que estou tão rápido assim? — perguntou papai, como que espantado. — Não estou tão rápido assim.

      — Nem mesmo o próprio Batman conseguiria acelerar o Batmóvel a uma velocidade como essa.

      — Estou com 33 anos, nunca tive um acidente. Registro imaculado. Sem multas. Nunca fui parado por um tira.

      — Porque eles não conseguem agarrá-lo — disse mamãe.

      — Isso mesmo.

      No assento traseiro, Charlotte e Emily arreganham-se em sorrisos.

      Pois desde que Charlotte podia lembrar-se, os pais vinham tendo conversas engraçadas sobre a maneira de ele dirigir, embora a mãe falasse sério quando queria que ele fosse mais devagar.

      — Nunca recebi nem mesmo uma multa por estacionamento — disse papai.

      — Bem, claro, não é fácil receber uma multa por estacionamento quando a agulha do velocímetro está sempre no fundo.

      No passado, o bate-boca deles sempre havia sido bem-humorado. Mas agora ele disse de repente para mamãe, em tom brusco:

      — Pelo amor de Deus, Paige. Sou um bom motorista, este carro é seguro, gastei mais dinheiro com ele do que devia, justamente porque é um dos carros mais seguros na estrada. Portanto, quer fazer o favor de dar um tempo?

      — Claro. Desculpe — disse mamãe.

      Charlotte olhou para a irmã. Em estava com o olho arregalado de incredulidade.

      Papai não era papai. Alguma coisa estava errada. Errada pra valer.

      Tinham atravessado apenas um quarteirão quando ele diminuiu a velocidade, olhou para mamãe e disse:

      — Desculpe-me.

      — Não, você estava certo. Sou preocupada demais com certas coisas.

      Os dois trocaram sorrisos. Tudo estava bem. Não iriam divorciar-se como aquelas pessoas de que haviam falado no jantar. Charlotte não poderia lembrar-se com raiva um do outro por mais do que alguns minutos.

      Entretanto, ela ainda estava preocupada. Talvez ela devesse examinar a casa e o lado de fora atrás da garagem para ver se não encontrava uma gigantesca vagem vazia do espaço exterior.

 

O matador dirige como um tubarão atravessando correntes frias em um mar noturno.

      É sua primeira vez em Kansas City, mas ele conhece as ruas. Total domínio do mapa é parte da preparação de cada missão, para o caso de ele tornar-se objeto de uma perseguição policial e precisar empreender uma rápida escapada sob pressão.

      O curioso é que ele não tem nenhuma lembrança de ter visto — quanto mais estudado — um mapa e não consegue imaginar onde adquiriu essa informação bastante detalhada. Mas não gosta de pensar nos buracos de sua memória, porque pensar neles abre a porta para um abismo negro que o aterroriza.

      Assim, ele apenas dirige.

      Em geral, gosta de dirigir. Ter uma máquina poderosa e responsiva sob seu comando dá a ele uma sensação de controle e propósito.

      Mas de vez em quando, como acontece agora, o movimento do carro e as paisagens de uma cidade estranha — sem levar em consideração o quão familiar ele pode ser com o mapa de suas ruas — o fazem sentir-se pequeno, sozinho, sem rumo. Seu coração começa a bater rápido. De repente, as palmas de suas mãos estão tão úmidas que o volante desliza através delas.

      Depois, quando freia em um sinal de trânsito, ele olha para o carro na pista a seu lado e vê uma família revelada pelas lâmpadas da rua. O pai está dirigindo. A mãe está sentada no banco do carona, é uma mulher atraente. Um garoto de cerca de dez e uma menina de seis ou sete anos estão no assento traseiro. No caminho para casa depois de uma noite fora. Talvez um cinema. Conversam riem, pais e filhos juntos, compartilhando.

      Em seu estado de deterioração, essa visão é um implacável golpe de martelo, e ele solta um som fraco e sem palavras, de angústia.

      Ele sai da rua, entra no estacionamento de um restaurante italiano. Afunda no assento. Respira em arquejos rápidos e pouco profundos.

      O vazio. Ele tem medo do vazio.

      E agora o vazio está sobre ele.

      Ele se sente como se fosse um homem oco, feito do mais fino vidro soprado, frágil, só um pouco mais substancial do que um fantasma.

      Em momentos como esse, ele precisa desesperadamente de um espelho. Seu reflexo é uma das poucas coisas que pode confirmar sua existência.

      O elaborado anúncio de neon vermelho e verde do restaurante ilumina o interior do Ford. Quando ele enviesa o espelho retrovisor para olhar-se, sua pele tem uma cor cadavérica, e seus olhos estão iluminados com mutantes formas rubras, como se fogueiras ardessem dentro dele.

      Nessa noite, seu reflexo não basta para diminuir sua agitação. No momento, ele se sente menos substancial. Talvez ele expire uma última vez, expelindo a fina substância derradeira de si mesmo nessa exalação.

      Lágrimas borram sua visão. Ele está oprimido por sua solidão e torturado pela falta de sentido de sua vida.

      Ele cruza os braços no peito, abraça-se, reclina-se para a frente e encosta a testa no volante. E soluça como se fosse uma criança pequena.

      Não sabe seu nome, apenas os nomes que usará enquanto estiver em Kansas City. Quer tanto ter um nome que não seja a falsificação que aparece no cartão de crédito. Não tem família, nem amigos, nem lar. Não consegue lembrar-se de quem lhe deu essa missão — ou qualquer um dos trabalhos anteriores —, e não sabe por que seus alvos têm de morrer. É incrível, mas ele não tem nenhuma idéia de quem lhe paga, não se lembra onde conseguiu o dinheiro que está na carteira ou onde comprou as roupas que está usando.

      Em um nível mais profundo, ele não sabe quem é. Não tem nenhuma memória de um tempo em que sua profissão fosse alguma outra coisa que não matador. Ele não tem nenhuma linha política, nem religião, nem filosofia pessoal. Sempre que tenta se interessar por assuntos correntes, descobre-se incapaz de reter o que lê nos jornais; nem ao menos consegue concentrar a atenção nos noticiários da tevê. É inteligente; no entanto, só se permite — ou lhe são permitidas — as satisfações de natureza física: comida, sexo, a selvagem alegria do homicídio. Vastas regiões de sua mente permanecem não mapeadas.

      Alguns minutos passam em neon verde e vermelho.

      Suas lágrimas secam. Aos poucos, ele pára de tremer.

      Ele quer ficar bem. Voltar aos trilhos. Firme, controlado.

      Na verdade, ele ascende com velocidade notável das profundezas do desespero. É surpreendente a presteza com que está querendo continuar essa última missão — e a mera sombra de vida que leva. Às vezes lhe parece operar como se fosse programado à maneira de uma máquina estúpida e obediente.

      Por outro lado, se não fosse para continuar, que outra coisa iria fazer? Essa sombra de vida é a única vida que ele tem.

  

Enquanto as meninas estavam no andar de cima, escovando os dentes e se preparando para dormir, Marty ia metodicamente de quarto em quarto no primeiro andar, verificando se todas as portas e janelas estavam trancadas.

      Havia circulado metade do andar de baixo — e estava testando o trinco da janela em cima da pia da cozinha — quando percebeu a tarefa peculiar que estabelecera para si mesmo. Antes de deitar-se a cada noite, ele examinava as portas da frente e dos fundos, claro, mais as portas de correr entre o quarto da família e o pátio, mas em geral não verificava se uma janela particular estava fechada, a menos que soubesse que tinha sido aberta para ventilar durante o dia. No entanto, ele confirmava a integridade do perímetro da casa da mesma maneira consciente que uma sentinela inspeciona as defesas externas de uma fortaleza sitiada por inimigos.

      Quando terminava na cozinha, ouviu Paige entrar. Um momento depois ela deslizou os dois braços em volta de sua cintura, abraçando-o por trás.

      — Você está bem? — perguntou ela.

      — Sim, estou...

      — Dia ruim?

      — Não. Apenas um mau momento.

      Marty girou em seus braços para abraçá-la. Ela estava maravilhosa, tão quente e forte, tão viva.

      Não era nenhuma surpresa que ele a amasse mais agora do que quando se conheceram na universidade. Os triunfos e fracassos que haviam compartilhado, os anos de luta diária para conquistar espaço no mundo e para procurar o sentido de tudo isso, era solo rico no qual o amor pôde crescer.

      Entretanto, numa era em que a beleza ideal era corporificada supostamente por chefes de torcida profissionais de dezenove anos, dos times de futebol da liga principal, Marty conhecia um bocado de sujeitos que ficariam surpresos ao ouvir que ele achava sua mulher cada vez mais atraente à medida que ela envelhecia dos dezenove para os 33 anos. Os olhos dela não eram mais azuis do que na primeira vez em que se encontraram; os cabelos não estavam uma sombra de ouro mais ricos e a pele não se tornara mais macia nem mais flexível. Mesmo assim, a experiência lhe havia dado caráter, profundidade. Por mais antiquado que possa soar nessa era de cinismo condicionado, às vezes ela parecia brilhar com uma luz interior, tão radiante quanto o venerado objeto de uma pintura de Raphael.

      Assim, de fato, talvez o coração dele fosse tão mole quanto manteiga, talvez ele fosse um sugador de romance, mas achava o sorriso dela e o desafio de seus olhos infinitamente mais excitantes do que uma meia dúzia de chefes de torcida nuas.

      Ele beijou a testa da mulher.

      — Um mau momento? O que houve? — disse ela.

      Ele não havia decidido o quanto devia contar sobre os sete minutos desaparecidos. Por enquanto, talvez fosse melhor minimizar a profundidade da estranheza da experiência, procurar o médico na segunda-feira pela manhã, e até fazer alguns testes. Se estivesse com boa saúde, aquilo que aconteceu no gabinete nessa manhã poderia ser uma singularidade inexplicável. Ele não queria alarmar Paige sem necessidade.

      — E então? — ela insistiu.

      Com a inflexão que deu a essas duas palavras, ela lembrou-lhe que doze anos de casamento proibiam segredos sérios, não importavam que boas intenções motivavam sua reticência.

      — Está lembrada de Audrey Aimes? — disse ele.

      — Quem? Oh, você se refere a Um Bispo Morto?

       Um Bispo Morto era um romance que ele havia escrito. Audrey Aimes era a personagem principal.

      — Lembra qual era o problema dela? — perguntou ele.

      — Ela encontrou um padre morto, pendurado em um cabide no closet de seu vestíbulo.

      — Além disso.

      — Ela tinha outro problema? Parece que um padre morto já é suficiente. Você tem certeza de que não está complicando demais suas tramas?

      — Estou falando sério — disse ele, apesar de ter consciência de que era estranho optar por informar sua mulher sobre uma crise pessoal comparando-a com as experiências de uma heroína de romance de mistério que ele havia criado.

      Seria a linha divisória entre a vida e a ficção tão nebulosa para as outras pessoas como às vezes era para um escritor? E se assim fosse — havia algum livro com essa idéia?

      Paige disse, franzindo as sobrancelhas:

      — Audrey Aimes... Oh, sim, você está falando dos brancos dela.

      — Fugas — disse ele.

      Uma fuga era uma séria desagregação da personalidade. A vítima ia a lugares, falava com pessoas e se envolvia em várias atividades, parecendo normal — no entanto, mais tarde, não conseguia lembrar-se de onde estivera ou o que havia feito durante o lapso, como se o tempo tivesse passado no sono mais profundo. Uma fuga podia durar minutos, horas e até mesmo dias.

      Quando estava com trinta anos, Audrey Aimes começara de repente a sofrer de fugas. Memórias reprimidas de algum abuso de infância — das quais ela havia fugido através de algum mecanismo psicológico — passaram a emergir após mais de duas décadas. Ela estava convicta de que havia matado o padre durante um estado de fuga — embora, claro, uma outra pessoa tivesse assassinado o padre e o enfiado em seu closet — e todo o estranho homicídio tinha ligação com o que lhe acontecera quando ela era uma garotinha.

      Apesar de conseguir ganhar a vida tecendo elaboradas fantasias a partir do nada, Marty tinha a reputação de ser emocionalmente tão estável quanto o Rochedo de Gibraltar e tão fácil de lidar quanto um cão de busca tratado a Valium. Talvez fosse esse o motivo pelo qual Paige ainda sorria para ele, parecendo relutante em levá-lo a sério.

      Ela pôs-se na ponta dos pés, beijou-lhe o nariz e disse:

      — Quer dizer que você esqueceu de colocar o lixo lá fora, e agora vai dizer que foi porque está sofrendo um colapso de personalidade devido aos abusos horríveis, esquecidos há muito tempo, que você sofreu quando tinha seis anos de idade. Ora, Marty. Tenha vergonha. Sua mãe e seu pai são as pessoas mais doces que já conheci.

      Ele soltou-a, fechou os olhos e pressionou a mão contra a testa. Estava ficando com uma tremenda dor de cabeça.

      — Estou falando sério, Paige. Hoje à tarde, no gabinete... durante sete minutos... bem, só sei que droga eu estava fazendo durante esse tempo porque está gravado num gravador. Não me lembro de nada. E é horripilante. Sete minutos horripilantes.

      Ele sentiu o corpo dela tenso contra o seu, enquanto ela percebia que ele não se engajara em alguma brincadeira complicada. E quando ele abriu os olhos, viu que o sorriso jocoso dela havia desaparecido.

      — Talvez haja uma explicação simples — disse ele. — Talvez não haja nenhuma razão para ficar preocupado. Mas estou assustado, Paige. Sinto-me estúpido, como se devesse apenas encolher os ombros e esquecer tudo isso, mas estou assustado.

  

Em Kansas City, um vento frio dá polimento na noite até o céu parecer uma infinita placa de cristal claro na qual as estrelas estão suspensas e atrás da qual está confinado um vasto reservatório de escuridão.

      Abaixo desse enorme peso de espaço e escuridão, o Blue Life Lounge se aperta como uma estação de pesquisa no fundo de uma vala oceânica, pressurizada para resistir à implosão. A fachada é coberta por um revestimento de alumínio brilhante, reminiscência dos trailers de viagem Airstream e dos jantares à beira da estrada dos anos 50. O neon verde e azul soletra o nome em uma escrita preguiçosa e delineia a estrutura, reluzindo no alumínio e acenando com tanta fascinação quanto as lâmpadas de Netuno.

      Lá dentro, onde um conjunto amplificado explode o rock das duas últimas décadas, o matador move-se em direção ao gigantesco bar em forma de ferradura no centro do salão. O ar está denso de fumaça de cigarro, vapores de cerveja e calor corporal; o ar quase oferece resistência a ele, como se fosse água.

      A multidão oferece imagens radicalmente diferentes das cenas tradicionais do Dia de Ação de Graças que inundam as telas de televisão durante esse feriado de fim de semana. Os fregueses são em sua maior parte grupos de homens jovens e roucos com excesso de energia e testosterona. Para serem ouvidos eles gritam acima da música trovejante, agarram garçonetes para ter sua atenção, apupam de aprovação quando o guitarrista faz uma boa improvisação.

      Sua determinação de divertir-se tem a mesma qualidade frenética do frenesi de insetos.

      Um terço dos homens nas mesas está acompanhado de jovens esposas ou namoradas de cabelo grande e maquiagem pesada. Elas são tão arruaceiras quanto os homens — e seriam tão peixes fora d’água em uma reunião familiar ao lado da lareira quanto papagaios berrantes de plumagem colorida estariam fora de lugar ao lado da cama de uma freira moribunda.

      O bar em forma de ferradura circunda um palco oval, banhado em projetores de luz vermelha e branca, onde duas jovens mulheres com corpos de firmeza excepcional se sacodem com a música e chamam isso de dança. Usam trajes de vaqueira destinados a excitar, montes de franjas e lantejoulas, e uma delas provoca assobios e apupos quando tira o sutiã.

      Os homens nos banquinhos do bar são de todas as idades e, ao contrário dos fregueses nas mesas, parecem estar sozinhos. Estão sentados em silêncio, os olhos fixos nas duas dançarinas de pele macia. Muitos balançam de leve nos bancos ou movem a cabeça sonhadora de lado a lado num tempo que combinaria mais com alguma outra música menos vigorosa do que essa que a banda está tocando; eles são como uma colônia de anêmonas-do-mar agitadas por profundas correntes lentas, esperando mudos que um pedaço de prazer os arraste.

      Ele se senta em um dos dois bancos vazios e pede uma garrafa de Beck’s escura a um barman que podia esmagar nozes nas curvas dos braços. Todos os três barmen são altos e musculosos, contratados sem dúvida por causa de sua habilidade em atuar como leões-de-chácara caso haja necessidade.

      A dançarina na extremidade do palco, aquela cujos seios pulam livres, é uma morena impressionante com um sorriso de mil watts. Ela entrou na música e parece estar realmente gostando de atuar.

      Embora a dançarina mais próxima, uma loura de pernas compridas, seja ainda mais atraente do que a morena, sua rotina é mecânica e ela parece estar entorpecida por drogas ou por desgosto. Ela não sorri nem olha para ninguém, mas fixa algum lugar distante que só ela consegue enxergar.

      Ela parece arrogante, desdenhosa dos homens que a encaram, inclusive do matador. Ele teria um bocado de prazer em sacar a pistola e despejar vários cartuchos em seu corpo delicioso — e um de boa medida no centro de seu rosto aborrecido.

      Uma intensa vibração o sacode só de pensar em tirar a beleza dela. O roubo da beleza da dançarina o atrai mais do que o desejo de tirar-lhe a vida. Ele dá pouco valor à vida, e se importa muito com a beleza, porque geralmente sua própria vida é um deserto insuportável.

      Por sorte, a pistola está na mala do Ford alugado. Ele deixou a arma no carro justamente para evitar uma tentação como essa, quando se sente impelido para a violência.

      Duas ou três vezes por dia ele é possuído por um desejo de destruir alguém que por acaso esteja próximo a ele — homens, mulheres, crianças, não faz nenhuma diferença. Na escravidão desses ataques sombrios, ele odeia até o último ser humano na face da terra — seja ele bonito ou feio, rico ou pobre, inteligente ou estúpido, jovem ou velho.

      Por um lado talvez seu ódio surja por saber que é diferente deles. Ele precisa viver sempre como um forasteiro.

      Mas a simples alienação não é a razão primária pela qual pensa, com freqüência, em matanças ao acaso. Ele precisa de alguma coisa das pessoas que elas retêm e não estão dispostas a dar, por isso ele as odeia com tanta paixão que é capaz de qualquer atrocidade — embora não tenha a menor idéia do que espera receber delas.

      Essa necessidade misteriosa é às vezes tão intensa que se torna dolorosa. É uma fome parecida com a inanição — mas não fome de comida. Muitas vezes, ele se vê à beira tremulante de uma revelação; percebe que a resposta é de uma simplicidade atordoante. Se ao menos pudesse abrir-se para ela... mas a iluminação sempre escapa dele.

      O matador toma um longo trago no gargalo da garrafa de Beck’s. Ele quer a cerveja, mas não precisa dela. Querer não é precisar.

      No palco elevado, a loura tira o sutiã, expondo seios pálidos e curvados para cima.

      Se ele tirar a pistola e pentes expandidos de munição da mala do carro, terá noventa tiros. Quando a dançarina arrogante estiver morta, ele poderá matar a outra dançarina. Depois os três barmen musculosos com três tiros na cabeça. Ele é bem treinado no uso de armas de fogo — embora não tenha nenhuma lembrança de quem o treinou. Com aqueles cinco mortos, ele pode mirar na multidão em fuga. Muitos dos que não morrerem pelo fogo da arma, morrerão pisoteados durante o pânico.

      A perspectiva da carnificina o excita, e ele sabe que o sangue pode fazê-lo esquecer a necessidade dolorosa que o atormenta pelo menos durante um breve período de tempo; a frustração transforma-se em raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio gera a violência — e às vezes a violência conforta.

      Ele bebe mais cerveja e se pergunta se é louco.

      Recorda-se de um filme no qual um psiquiatra assegura ao herói que só as pessoas saudáveis questionam sua própria sanidade. Os loucos autênticos estão sempre firmemente convencidos de sua racionalidade. Portanto, ele deve ser são, inclusive por ser capaz de duvidar de si próprio.

 

Marty encostou-se no marco da porta e observou enquanto as meninas revesavam-se no banco da penteadeira do quarto para deixar Paige escovar seus cabelos. Cinqüenta escovadas em cada.

      Talvez tenha sido o tranqüilo movimento rítmico da escova de cabelo ou a confortante domesticidade da cena que aplacou a dor de cabeça de Marty. Qualquer que tenha sido a razão, a dor cessou.

      O cabelo de Charlotte era dourado como o da mãe, e o de Emily era tão castanho-escuro que quase chegava a ser preto, como o de Marty. Charlotte não parou de falar enquanto Paige escovava seu cabelo; mas Emily ficou em silêncio, com as costas arqueadas, os olhos fechados com um prazer quase felino em enfeitar-se.

      As metades contrastantes de seu quarto compartilhado atestava as outras diferenças entre as irmãs. Charlotte gostava de posters cheios de movimento: coloridos balões de ar quente sobre a meia-luz de um deserto; uma bailarina em pleno salto; gazelas correndo. Emily preferia posters de folhas outonais, sempre-vivas penduradas com a neve pesada e ondas prateadas de luar quebrando em uma praia pálida. A colcha da cama de Charlotte era verde, vermelha e amarela; a de Emily era de chenille bege. A desordem reinava nos domínios de Charlotte, ao passo que Emily dava valor à organização.

      Depois havia a questão dos animais de estimação. No lado do quarto de Charlotte, prateleiras embutidas abrigavam o viveiro que era o lar de Fred, a tartaruga; o jarro de boca larga onde Bob, o besouro, fez seu lar em folhas mortas e grama; a gaiola que abrigava Wayne, o gerbo; outro viveiro onde Sheldon, a cobra, era o arrendatário; uma segunda gaiola na qual Whiskers, o camundongo, passava um bocado de tempo de olho em Sheldon, apesar do vidro e da tela que os separava: e um último viveiro ocupado por Loretta, o camaleão. Charlotte rejeitara a sugestão de que um gatinho ou uma boneca era mais apropriado para ter como estimação. “Cães e gatos andam soltos o tempo inteiro, você não pode guardá-los em uma bela casinha segura para protegê-los”, explicou ela.

      Emily tinha uma coisa de estimação. Seu nome era Peepers. Era uma pedra do tamanho de um limão pequeno, alisada por décadas de água corrente do córrego Sierra, de onde ela a tirou nas férias de verão um ano atrás. Em pintou dois olhos comovedores na pedra e insistia: “Peepers é o melhor animal de estimação de todos. Não preciso alimentar nem ficar limpando ele. Como sempre esteve andando por aí, ele é esperto e sábio de verdade, e quando estou triste ou talvez só furiosa, é contar pra ele por que estou magoada e ele pega tudo e fica preocupado, e assim não preciso mais pensar na coisa e posso ser feliz.”

      Emily era capaz de expressar idéias que eram, na superfície totalmente infantis mas, observando-se melhor, pareciam mais profundas e mais maduras do que qualquer coisa que se poderia esperar de uma menina de sete anos. As vezes, quando Marty olhava em seus olhos escuros, sentia que ela estava com sete havia 400 anos, e mal podia esperar para ver o quão interessante e complexa ela seria quando fosse adulta.

      Depois que o cabelo delas foi escovado, as meninas subiram nas camas gêmeas. A mãe colocou as cobertas sobre elas, beijou-as e desejou-lhes sonhos doces.

      — Não deixe os percevejos morderem — ela advertiu Emily, porque a brincadeira sempre provocava uma risadinha.

      Quando Paige retirou-se para o vão da porta, Marty tirou uma cadeira de espaldar reto de seu lugar habitual e posicionou-a aos pés — e exatamente entre — das duas camas. Ele apagou todas as lâmpadas, exceto uma miniatura para leitura com energia de bateria, presa em seu caderno de apontamentos, e uma luminária de qualidade inferior de baixa voltagem, ligada numa tomada de parede próxima ao chão. Sentou-se na cadeira, segurou o caderno de notas à distância de leitura e aguardou até que o silêncio adquirisse a mesma qualidade de expectativa agradável que abrangia um teatro no momento em que a cortina começava a subir.

      Estava instalado o estado de ânimo.

      Essa era a parte mais feliz do dia de Marty. Hora de história. Não importava o que mais pudesse acontecer depois de levantar para enfrentar a manhã, ele sempre poderia ansiar pela hora da história.

      Ele próprio escrevia os contos em um caderno de notas intitulado Histórias para Charlotte e Emily, que talvez ele publicasse um dia. Ou talvez não. Cada palavra era um presente para suas filhas, de modo que a decisão de compartilhar as histórias com outras pessoas seria inteiramente delas.

      Essa noite marcava o começo de um prazer especial, uma história em verso que continuaria durante o dia de Natal. Talvez ela fosse boa o bastante para ajudá-lo a esquecer os perturbadores acontecimentos em seu gabinete.

Bem, agora que a Ação de Graças passou pela segurança,

com mais perus comidos neste ano do que numa festança...

      — Ele rima! — disse Charlotte encantada.

      — Psiu! — Emily repreendeu a irmã.

      As regras da hora da história eram poucas, porém importantes. E uma delas era que a platéia formada pelas duas meninas não podia interromper no meio de uma frase ou, no caso de um poema, no meio de uma estrofe. O retorno que davam era apreciado, suas reações eram estimadas, mas um contador de história precisa receber o devido respeito.

      Ele começou de novo:

       Bem, agora que a Ação de Graças passou em segurança, com mais perus comidos neste ano do que numa festança, com mais recheio recheado, mais inhame empurrado dentro de nossas bocas, e usando as duas mãos, salada de repolho de montão, biscoitos de dois, todos nós gordos demais para entrar em nossos sapatos.

      As meninas riam no ponto exato em que ele queria que elas rissem, e Marty mal pôde impedir-se de girar na cadeira para ver o que Paige estava achando até ali, já que ela não ouvira nada daquilo até esse momento. Mas ninguém responderia a um contador de história que não pudesse esperar até o final para ter os aplausos; um ar inabalável de confiança, sentida de maneira falsa ou autêntica, era essencial para o sucesso.

       Assim, vamos aguardar o grande feriado que está vindo, vindo, vindo em nossa direção.

       Tenho certeza de que vocês sabem a que dia me refiro.

        Não é o Domingo de Páscoa, nem o Dia das Bruxas.

       Não é um dia para ficar triste e indiferente.

       Eu lhes pergunto, jovens senhoritas, o que é...?

      — É o Natal! — Charlotte e Emily responderam em uníssono, e a resposta imediata confirmou que ele as envolvera em sua magia.

       Algum dia, em breve, vamos levantar uma árvore.

       Por que apenas uma? Talvez duas, talvez três!

       Enfeitá-la com lantejoulas e bugigangas coloridas.

       Será uma cena surpreendente e maravilhosa.

       Fio de luzes coloridas lá fora no telhado...

rezem para que nenhuma tenha sido quebrada por alguma pata.

       Salguem as telhas finas para derreter o gelo.

       Se Noel cair não vai ser bonito.

       Ele poderia quebrar uma perna ou se cortar,

       talvez até quebrasse sua enorme cabeça.

      Ele deu um rápido olhar nas meninas. Seus rostos pareciam brilhar nas sombras. Sem falar uma palavra, elas lhe disseram: não pare, não parei

      Deus, ele adorou. Ele adorava aquelas duas.

      Se o paraíso existia, era exatamente como aquele momento, aquele lugar.

       Oh, esperem! Acabei de ouvir notícias terríveis.

       Espero que não vá deixar seu Natal deprimido.

       Noel foi drogado, amarrado e amordaçado,

       teve os olhos tapados, os ouvidos arrolhados e foi ensacado.

       Seu trenó espera lá fora, no pátio,

       e alguém roubou o cartão do banco de Noel.

       Em breve farão uma limpeza em sua conta,

       usando os bancos automáticos de rua.

      — Oh, hum — disse Charlotte, aconchegando-se mais fundo nas cobertas. — Vai ser assustador.

      — Bem, claro que é — disse Emily. — Foi papai que escreveu.

      — Vai ser assustador demais? — perguntou Charlotte, puxando os cobertores até o queixo.

      — Você está usando meias? — perguntou Marty.

      Geralmente, Charlotte usava meias na cama para não sentir frio nos pés, exceto no verão.

      — Meias? — disse ela. — Sim? E daí?

      Marty reclinou-se para a frente na cadeira e baixou a voz ao nível de um sussurro fantasmagórico:

      — Porque essa história só terminará no Dia de Natal, e até lá você vai suar as meias de susto talvez umas doze vezes.

      Ele fez uma cara de mau.

      Charlotte puxou o cobertor até o nariz.

      Emily deu uma risada e pediu:

      — Vamos, papai, o que vem depois?

       Ouça, o som dos sinos de prata de trenó ecoa sobre as colinas e vales estreitos.

       E olhem... as renas lá em cima no céu!

       Algum ganso bobo as ensinou a voar.

       O cocheiro dá risadinhas como um estúpido...

       louco, pateta, um sicário e capanga.

       Alguma coisa está errada... qualquer tolo poderia dizer.

       Se esse for Noel, então Noel não está bem.

       Ele pia, algaravia, casquina e cospe, e parece estar tendo algum tipo de ataque.

       Seus olhinhos ariscos giram como piões.

       Portanto, é melhor alguém chamar rápido os tiras.

       Um olhar mais perto confirma sua psicose.

       E... oh, meus caros... é de fato uma péssima halitose.

      — Minha nossa! — disse Charlotte, puxando o cobertor para cima dos olhos. Ela alegava não gostar de histórias assustadoras, mas era a primeira a se queixar caso não acontecesse, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa que metesse medo.

      — E então, quem é ele? — perguntou Emily. — Quem amarrou Noel, roubou seu dinheiro e fugiu em seu trenó?

       Tomem cuidado quando o Natal chegar este ano, porque há algo novo a se temer.

       O gêmeo de Noel... que é malvado e mesquinho roubou o trenó, vai fazer um escândalo fingindo ser seu irmão bom.

       Proteja seus filhos amados, mãe!

       Descendo pela chaminé, entrando em seu lar,

       lá vem aquele vil e psicótico gnomo!

      — Uai! — gritou Charlotte e puxou a coberta acima da cabeça.

      — O que deixou o gêmeo de Noel tão mau assim? — perguntou Emily.

      — Talvez ele tenha tido uma infância ruim — respondeu Marty.

      — Talvez ele tenha nascido desse jeito — disse Charlotte por baixo do cobertor.

      — As pessoas podem nascer más? — perguntou novamente Emily. Depois respondeu sua própria pergunta antes que Marty pudesse fazê-lo. — Bem, claro que podem. Como algumas pessoas nascem boas, como você e mamãe, então algumas pessoas têm que nascer más.

      Marty absorvia as reações das meninas, adorando. Em um certo nível, ele era escritor, guardando as palavras delas, o ritmo de suas falas, as expressões, para o dia em que pudesse precisar deles para utilizar numa cena de um livro. Ele supunha que não era admirável estar tão constantemente atento a ponto de usar suas próprias filhas como material; podia ser repugnante do ponto de vista moral, mas ele não conseguia mudar. Ele era o que era. No entanto, também era pai e reagia, antes de tudo, nesse nível, preservando aquele momento na mente, já que um dia as lembranças seriam tudo que ele teria da infância delas. Queria ser capaz de recordar tudo, os momentos bons, os maus e os simples, assim como os grande acontecimentos, em tecnicolor e som dolby e com perfeita clareza, pois tudo era precioso demais para ele perder.

      — O gêmeo mau de Noel tem um nome? — perguntou Emily.

      — Tem — disse Marty —, ele tem, mas você terá que esperar uma outra noite para ouvir. Chegamos ao nosso primeiro ponto de parada.

      Charlotte apontou a cabeça para fora das cobertas e as duas meninas insistiram para que ele lesse de novo a primeira parte do poema, como ele sabia que elas fariam. Mesmo durante a segunda vez, elas ficariam envolvidas demais para conseguirem dormir. Pediriam uma terceira leitura, e ele concordaria, pois só então elas estariam suficientemente familiarizadas com as palavras para sossegar. Mais tarde, no final da terceira leitura, elas enfim estariam em sono profundo ou na beira sonolenta do sonho.

      Quando Marty começou a reler a primeira linha, ouviu Paige sair do vão da porta e caminhar na direção da escada. Ela ficaria esperando por ele na sala de estar, talvez com as chamas crepitando na lareira, talvez com vinho tinto e algum tipo de comida, e os dois se enroscariam e cada um contaria seu dia para o outro.

      Quaisquer cinco minutos da noite, agora ou mais tarde, seria mais interessante para ele do que uma viagem em volta do mundo. Ele era um incorrigível homem caseiro. Os encantos da lareira e da família eram mais fascinantes do que as enigmáticas areias do Egito, o feitiço de Paris e o mistério do Extremo Oriente combinados.

      Piscando os olhos para cada uma das filhas, recitou novamente.

      — Bem, agora que a Ação de Graças passou em segurança — nesse momento, ele havia esquecido que alguma coisa perturbadora acontecera antes em seu gabinete e que a santidade de seu lar tinha sido violada.

  

No Blue Life Lounge, ela passa esbarrando no matador e desliza no banquinho de bar ao seu lado. Não é tão bonita quanto as dançarinas, mas é atraente o bastante para seus propósitos. Vestida com jeans marrom e uma apertada camiseta vermelha, ela poderia ser apenas outra freguesa, mas não é. Ele conhece seu tipo — uma Vênus barata com as habilidades de contadora nata.

      Eles entabulam uma conversa, reclinando-se para perto um do outro a fim de serem ouvidos acima da banda, e pouco tempo depois suas cabeças estão quase se tocando. O nome dela é Heather ou é o que diz. Tem o hálito de hortelã de inverno.

      No momento em que as dançarinas se retiram e a banda faz uma pausa, Heather havia decidido que ele não era um tira da Delegacia de Costumes fazendo uma batida, de modo que fica mais audaciosa. Ela sabe o que ele quer, tem o que ele quer e faz com que ele saiba que é um comprador num mercado vendedor.

      Heather diz a ele que do outro lado da estrada do Blue Life Lounge tem um motel em que, se a moça é conhecida da gerência, os quartos podem ser alugados por hora. O que não é surpresa para ele, pois existem leis do tesão e da economia tão imutáveis quanto as leis da natureza.

      Ela veste a jaqueta forrada com pele de cordeiro e os dois saem juntos na noite fria, onde seu hálito de hortelã de inverno transforma-se em vapor no ar revigorante. Atravessam o estacionamento e depois a estrada de mãos dadas, como se fossem namorados de universidade.

      Embora ela saiba o que ele quer, não sabe que ele precisa mais do que faz. Quando ele conseguir o que quer, e quando isso não saciar a ardente necessidade dele, Heather irá conhecer o padrão de emoção que agora é tão conhecido dele: a necessidade alimenta a frustração; a frustração transforma-se em raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio gera a violência — e a violência às vezes conforta.

      O céu é uma placa maciça de gelo claro como cristal. As árvores estão desfolhadas e cauterizadas no final do enfadonho novembro. O vento faz um som frio e triste enquanto varre a vasta campina vizinha atravessando a cidade. E às vezes a violência conforta.

     

Mais tarde, tendo-se consumido em Heather mais de uma vez, já não mais no poder da luxúria, ele acha que a pobreza do quarto de hotel é uma lembrança intolerável da natureza baixa e suja de sua existência. Seu desejo imediato foi saciado, mas seu desejo de mais vida, direção e sentido não foi diminuído.

      A jovem mulher nua, em cima da qual ainda está deitado, agora parece feia e até odiosa. A lembrança de intimidade com ela lhe causa aversão. Ela não pode ou não quer dar-lhe o que ele precisa. Vivendo à margem da sociedade, vendendo seu corpo, ela própria é uma proscrita e, portanto, um símbolo enfurecedor da alienação dele.

      Ela foi pega de surpresa quando ele a socou no rosto. O soco foi forte o bastante para atordoá-la. Quando Heather amolece, quase inconsciente, ele desliza as duas mãos em volta de seu pescoço e a sufoca com toda a força de que é capaz.

      A luta é tranqüila. O soco, seguido da extrema pressão em sua traquéia e a diminuição do fornecimento de sangue ao cérebro através da carótida, deixa-a incapaz de opor resistência.

      Ele está preocupado em não chamar a atenção indesejada de outros hóspedes do motel. Mas um mínimo de barulho também é importante, porque um assassinato silencioso é mais pessoal, mais íntimo, mais profundamente satisfatório.

      Ela sucumbe com tanta suavidade que ele se lembra de filmes sobre a natureza, nos quais certas aranhas e mantídeos matam seus parceiros logo depois de uma primeira e derradeira relação sexual, sempre sem nenhum ruído, nem do assaltante nem da vítima. A morte de Heather é caracterizada por um ritual frio e solene semelhante à selvageria estilizada desses insetos.

      Minutos mais tarde, depois de tomar um banho de chuveiro e de se vestir, ele atravessa a estrada do motel em direção ao Blue Life Lounge e entra em seu carro alugado. Tem negócios a fazer. Não foi mandado a Kansas City para matar uma prostituta chamada Heather. Ela foi uma mera diversão. Novas vítimas esperam por ele, e agora ele se sente relaxado e concentrado o suficiente para tratar dos outros.

 

Paige estava de pé no gabinete de Marty, à luz cor partida da lâmpada com vitral, olhando fixo para o pequeno gravador, ouvindo o marido cantar as duas palavras perturbadoras num tom de voz que ia do sussurro melancólico a um rosnar baixo de raiva.

      Menos de dois minutos depois, ela já não pôde mais tolerar. A voz dele era ao mesmo tempo familiar e estranha, o que tornava a coisa muito pior do que se ela não fosse capaz de reconhecê-la.

      Ela desligou o gravador.

      Ao perceber que ainda segurava o copo de vinho tinto na mão direita, ela tomou um longo gole. Era um bom cabernet da Califórnia, que merecia ser sorvido devagar, mas, de repente, ela ficou mais interessada em seu efeito do que em seu gosto.

      Marty disse do outro lado da escrivaninha:

      — Há pelo menos mais cinco minutos da mesma coisa. Sete minutos no total. Fiz alguma pesquisa depois que isso aconteceu, antes de você e as meninas chegarem em casa. — Ele acenou na direção das estantes de livros alinhadas numa parede. — Em minhas referências médicas.

      Paige não queria ouvir o que ele iria contar. A possibilidade de alguma doença séria era inconcebível. Se acontecesse algo de sério com Marty, o mundo seria um lugar muito mais sombrio e menos interessante.

      Ela não sabia ao certo se poderia lidar com a perda dele. Percebia que sua atitude era peculiar, considerando-se que era uma psicóloga infantil que, em sua clínica particular e durante as horas que doava aos grupos ligados ao bem-estar da criança, havia ensinado muitas delas a superar a dor e a seguir em frente depois da morte de um ente amado.

      Marty deu a volta na escrivaninha e foi em sua direção, já com seu próprio copo de vinho vazio:

      — Uma fuga pode ser sintoma de várias coisas — disse ele. — O estágio inicial da doença de Alzheimer, por exemplo, mas acredito que podemos descartar isso. Se fiquei com a doença de Alzheimer aos 33 anos, é provável que eu seja o caso mais jovem nos registros de uma década.

      Ele colocou o copo em cima da escrivaninha e foi à janela para olhar a noite por entre as frestas da persiana.

      Paige estava chocada com a vulnerabilidade que ele aparentou de repente. Um metro e oitenta e dois de altura, 81 quilos, com seus modos fáceis de lidar e entusiasmo ilimitado pela vida, Marty sempre a impressionou como sendo mais sólido e permanente do que qualquer coisa no mundo, inclusive montanhas e oceanos. Agora ele parecia tão frágil quanto uma peça de vidro.

      Com as costas voltadas para ela, ainda examinando a noite, ele disse:

      — Ou pode ter sido uma indicação de um pequeno derrame.

      — Não.

      — Embora de acordo com as referências que examinei, a causa mais provável seja um tumor no cérebro.

      Ela ergue o copo. Estava vazio. Mas não conseguiu lembrar-se de ter terminado o vinho. Uma pequena fuga sua.

      Ela colocou o copo na escrivaninha. Ao lado do odioso gravador. Depois foi até Marty e pôs a mão em seu ombro.

      Quando ele se virou, ela o beijou de leve, rápido. Ela encostou a cabeça em seu peito, abrançando-o, e ele envolveu-a com os braços. Por causa de Marty, ela aprendeu que os abraços eram tão essenciais para uma vida saudável como a comida, a água, o sono.

      Antes, quando o flagrava examinando sistematicamente as trancas de janelas, ela insistia, com apenas um olhar zangado e uma única palavra — então? —, que ele não escondesse coisa alguma. Agora desejava não ter insistido em ouvir sobre o mau momento que ele vivera num dia que, fora isso, tinha sido ótimo.

      Ainda abraçada a ele, ela levantou a vista e no final encontrou os olhos dele.

      — Pode não ser nada.

      — É alguma coisa.

      — Nada físico, eu quero dizer.

      Ele sorriu um sorriso triste.

      — É tão confortador ter uma psicóloga em casa.

      — Bem, poderia ser algo psicológico.

      — De certa forma, o fato de talvez eu estar louco não ajuda em nada.

      — Não louco. Estressado.

      — Ah, sim, o estresse. A desculpa do século XX, o embuste favorito das falsas licenças médicas, dos políticos que tentam explicar por que estavam bêbados em um motel com adolescentes peladas...

      Ela se soltou dele e virou-se, furiosa. Não estava exatamente preocupada com Marty, mas sim com Deus ou com o destino ou com qualquer outra força que subitamente trouxe correntes turbulentas para suas vidas que fluíam sem dificuldades.

      Ela andou em direção à escrivaninha para pegar o copo de vinho, antes de se lembrar que já o havia bebido. Tornou a virar-se para Marty.

      — Está bem... exceto quando Charlotte esteve muito doente naquela vez, você sempre esteve tão tenso quanto um torno. E nos últimos tempos você tem sofrido um bocado de pressão.

      — Tenho? — perguntou, levantando as sobrancelhas.

      — O prazo final para esse livro é mais apertado do que de praxe.

      — Mas consegui três meses, e acho que só vou precisar de um.

      — Todas as novas expectativas da carreira... seu editor, o agente e as pessoas do ramo que agora o observam de uma maneira diferente.

      A reimpressão em brochura de seus dois romances mais recentes o colocara na lista de best-seller do New York Times, cada qual por oito semanas. Ele ainda não havia desfrutado de um best-seller de capa dura, mas esse novo nível de sucesso parecia iminente com a publicação de seu novo romance em janeiro.

      O súbito crescimento das vendas era excitante, mas também assustador. Embora Marty desejasse um público maior, também estava determinado a não costurar sua escrita para obter uma atração mais ampla e assim perder aquilo que tornava seus livros estimulantes. Ele sabia que corria o perigo de modificar seu trabalho de maneira inconsciente, de modo que nos últimos tempos vinha sendo muito mais rígido consigo mesmo, apesar de ter sido sempre seu crítico mais ferrenho e sempre ter revisto cada página de uma história vinte ou trinta vezes.

      — Depois tem a revista People — disse ela.

      — Isso não é estressante. Já passou e acabou.

      Um jornalista da People tinha ido à casa algumas semanas antes, e um fotógrafo o seguiu dois dias depois para uma tomada de dez horas. Sendo Marty quem era, simpatizou com eles e vice-versa, embora a princípio houvesse resistido desesperadamente aos pedidos de seu editor para fazer a matéria.

      Devido a seu relacionamento amigável com o pessoal da People, ele não tinha nenhuma razão para pensar que o artigo seria negativo, mas em geral mesmo a publicidade favorável o fazia sentir-se desconcertado e sôfrego. Para ele, o que importava eram os livros, não a pessoa que os escreveu, e ele não queria ser, como o próprio Marty expressou, “a Madonna do romance de mistério posando nu em uma biblioteca com uma cobra entre os dentes para inchar as vendas”.

      — Não passou nem acabou — discordou Paige. A edição com o artigo sobre Marty só chegaria às bancas na segunda-feira. — Sei que você está com medo.

      Ele suspirou.

      — Não quero ser...

      — Madonna com uma cobra entre os dentes. Eu sei, garoto. O que estou dizendo é que você está mais estressado com essa revista do que pensa.

      — Estressado o bastante para apagar sete minutos?

      — Claro. Por que não? Aposto como é isso que o médico vai dizer.

      Marty pareceu cético.

      Paige moveu-se para dentro de seus braços de novo.

      — Tudo tem dado tão bem para nós nos últimos tempos, quase bem demais. Há uma tendência a se ficar um pouco supersticioso com isso. Mas nós trabalhamos duro e merecemos tudo isso. Nada vai dar errado. Está me ouvindo?

      — Estou — disse ele, abraçando-a.

      — Nada vai dar errado — ela repetiu. — Nada.

 

Depois da meia-noite.

      A vizinhança ostenta grandes lotes de terra e as grandes casas estão assentadas bem para trás das linhas frontais da propriedade. Arvores imensas, tão antigas que quase parecem ter adquirido inteligência nascente, montam sentinela ao longo das ruas, vigiando os prósperos residentes, os galhos negros riscados de outono eretos como antenas de alta tecnologia, colhendo informações sobre ameaças potenciais ao bem-estar daqueles que dormiam do outro lado dos muros de tijolos e pedras.

      O matador estaciona na volta da esquina da casa na qual seu trabalho espera. Ele caminha o resto do trajeto, sussurrando em voz baixa uma melodia alegre de sua própria criação, agindo como se já houvesse pisado naquela calçada mil vezes antes.

      O comportamento furtivo sempre é notado e, quando isso acontece, provoca um inevitável alarme. Por outro lado, um homem que age de modo audaz e direto é visto como honesto e inofensivo, não é percebido e, mais tarde, é esquecido por completo.

      Um frio vento noroeste.

      Um céu sem lua.

      Uma suspeita coruja repete em tom monótono sua única pergunta.

      A casa é em estilo georgiano, tijolo com colunas brancas. A propriedade é rodeada por uma cerca de ferro com pontas de lança.

      O portão da estradinha de carro está aberto e parece ter sido deixado nessa posição durante muitos anos. O ritmo e a qualidade pacífica da vida em Kansas City não podem sustentar a paranóia por muito tempo.

      Como se fosse dono do lugar, ele segue a estradinha circular até o pórtico da entrada principal, sobe os degraus e pára diante da porta da frente para abrir o zíper do pequeno bolso do peito de seu casaco de couro. E tira uma chave do bolso.

      Até esse momento, ele não estava consciente de que a carregava. Ele não sabe quem lhe deu, mas sabe de imediato qual seu propósito. Isso já lhe aconteceu antes.

      A chave se ajusta na fechadura de cavilha morta.

      Ele abre a porta para um vestíbulo escuro, atravessa a soleira e entra na casa quente, retirando a chave da fechadura. E fecha a porta suavemente atrás dele.

      Após afastar a chave, ele se vira para o painel de programação do sistema de alarme ao lado da porta. A partir do momento em que abriu a porta, tem sessenta segundos para digitar o código correto a fim de desarmar o sistema; caso contrário, a polícia será convocada. Ele se lembra dos seis dígitos da seqüência de desarme no momento que é preciso e digita.

      Retira outro artigo da jaqueta, dessa vez de um bolso fundo de dentro: um par de óculos de visão noturna, bastante compacto, de um tipo fabricado para os militares e que não se encontra à venda para cidadãos civis. Mesmo a luz mais fraca é ampliada com muita eficiência em um fator de dez mil, de tal modo que ele pode mover-se através de quartos escuros com absoluta confiança, como se todas as luzes estivessem acesas.

      Subindo a escada, ele tira a Heckler & Koch P7 do enorme coldre do ombro, sob a jaqueta. O pente ampliado contém dezoito balas.

      Um silenciador está enfiado em uma pequena manga do coldre. Ele o libera e depois o atarraxa em silêncio no cano da pistola. Isso garantirá de oito a doze tiros relativamente silenciosos, mas se deteriorará rápido demais para permitir que ele gaste o pente inteiro sem acordar outras pessoas da casa e da vizinhança.

      Oito tiros seriam mais do que ele precisa.

      A casa é grande e dez quartos se abrem no corredor em forma de T do segundo andar, mas ele não precisa procurar seus alvos. Ele é tão familiarizado com a planta desse andar quanto com o mapa das ruas da cidade.

      Através dos óculos, tudo tem um matiz esverdeado, e os objetos brancos parecem brilhar com uma espectral luz interior. Ele se sente como se estivesse em um filme de ficção científica, um herói intrépido explorando outra dimensão ou uma terra alternativa em tudo idêntica à nossa, exceto em poucos aspectos cruciais.

      Ele abre a porta do dono da casa. Aproxima-se da cama tamanho gigante com sua elaborada cabeceira ao estilo georgiano.

      Duas pessoas estão dormindo sob os lençóis esverdeados, um homem e uma mulher na casa dos quarenta. O marido está deitado de costas, roncando. Seu rosto é facilmente identificado como sendo o alvo primário. A mulher está a seu lado, o rosto semi-enterrado no travesseiro, mas o matador pode ver o bastante para se certificar que ela é o alvo secundário.

      Ele coloca o cano da P7 contra a garganta do marido.

      O aço frio desperta o homem, e seus olhos se abrem como se tivessem as pálpebras com contrapeso dos olhos de uma boneca.

      O matador puxa o gatilho, explodindo a garganta do homem; levanta o cano e dispara dois diretos em seu rosto. A arma de fogo soa como a leve cuspidela de uma cobra.

      Ele dá a volta na cama, sem fazer nenhum barulho no tapete de pelúcia.

      Duas balas na têmpora esquerda exposta da mulher completam sua missão, e ela jamais desperta, em absoluto.

      Ele fica parado ao lado da cama durante algum tempo, desfrutando a suavidade incomparável daquele momento. Estar presente na morte é compartilhar uma das experiências mais íntimas que uma pessoa terá neste mundo. Afinal de contas, ninguém, a não ser membros estimados da família e os amigos queridos, são bem-vindos num leito de morte para testemunhar o último sopro de um moribundo. Portanto, o matador é capaz de erguer-se acima de sua existência cinzenta e miserável apenas no ato da execução, pois então ele tem a honra de compartilhar da mais profunda de todas as experiências, mais solene e importante do que o nascimento. Nesses momentos mágicos e preciosos, quando seus alvos morrem, ele estabelece relacionamentos, vínculos significativos com outros seres humanos, conexões que banem por breves momentos sua alienação, fazendo-o sentir-se necessário, incluído, amado.

      Embora as vítimas sejam sempre estranhas para ele — e, nesse caso, ele nem sequer sabe seus nomes —, a experiência pode ser tão intensa a ponto de encher seus olhos de lágrimas. Nessa noite, ele consegue permanecer sob o total controle de si mesmo.

      Relutando em deixar acabar a breve conexão, ele coloca a mão num toque suave na face esquerda da mulher, que não está manchada de sangue e ainda tem um calor agradável. Ele torna a dar a volta na cama e dá um leve aperto no ombro do morto, como se dissesse: adeus, velho amigo, adeus.

      Ele se pergunta quem eram eles. E por que tinham que morrer.

       Adeus.

      No andar de baixo, ele atravessa a espectral casa verde, cheia de sombras e radiantes formas verdes. Pára no salão de entrada para desatarraxar o silenciador da arma e colocar as duas peças no coldre.

      Com desânimo, tira os óculos. Sem as lentes, é transportado daquela mágica terra alternativa — onde por breves momentos sentiu uma afinidade com outros seres humanos — para esse mundo ao qual ele tanto se esforça para pertencer, embora permaneça para sempre como um homem à parte.

      Ao sair da casa, ele fecha a porta, mas não se dá ao trabalho de trancá-la à chave. Não esfrega a maçaneta de metal, pois não está preocupado em deixar impressões digitais.

      O vento frio suspira e silva através do pórtico.

      Com um raspar e roçar felinos, folhas mortas enrugadas correm apressadas em bandos ao longo da estradinha de carros.

      Agora, as árvores de sentinela parecem dormir em seus postos. O matador sente que ninguém o vigia na janelas negras e vazias da rua. E até mesmo a voz interrogativa da coruja silenciou-se.

      Ainda comovido com o que havia compartilhado, ele não sussurra a pequena melodia absurda no trajeto de volta ao carro.

      No momento em que roda de volta para o hotel onde está hospedado, sente mais uma vez o peso do opressivo apartheid em que existe. Separado. Evitado. Um homem solitário.

      Em seu quarto, ele se desvencilha do coldre de ombro e o coloca na mesinha-de-cabeceira. A pistola ainda está na manga de couro revestido de linho. Durante algum tempo ele olha fixo para a arma.

      No banheiro, ele pega um par de tesouras na bolsa do aparelho de barbear, abaixa a tampa da privada, senta-se ao desagradável brilho fluorescente e, com movimentos meticulosos, destrói os dois cartões de crédito falsos que havia usado até ali na missão. Pela manhã ele voará para fora de Kansas City empregando outro nome e, no caminho para o aeroporto, espalhará os minúsculos fragmentos dos cartões ao longo dos quilômetros da auto-estrada.

      Ele retorna à escrivaninha.

      Olha fixo para a pistola.

      Após ter deixado os corpos mortos no local do trabalho, ele deveria ter quebrado a arma na maior quantidade de pedaços possível. Dever ter-se desfeito das partes em lugares bastante distantes uns dos outros: o cano talvez num cano coletor de chuva, metade da estrutura num córrego, a outra metade numa lixeira... até não sobrar nada. Esse era o procedimento-padrão, e ele estava perplexo, sem compreender por que dessa vez fora tão negligente.

      Uma culpa em baixo grau acompanha esse desvio da rotina, mas ele não vai sair de novo para se desfazer da arma. Além da culpa, ele se sente... rebelde.

      Tira a roupa e deita-se. Desvia-se do abajur ao lado da cama e olha fixo para as sombras em camadas no teto.

      Não está dormindo. Sua mente está agitada, e seus pensamentos saltam de tema em tema com rapidez tão enervante, que em pouco tempo seu estado mental hiperativo se traduz em agitação física. Ele se remexe, puxa os lençóis, ajusta cobertas, travesseiros.

      Lá fora, na rodovia interestadual, enormes caminhões rodam sem parar em direção a destinos distantes. O cantar dos pneus, o trovão dos motores e o chiado do ar deslocado por sua passagem formam um puro ruído em segundo plano, que em geral funciona como calmante. Muitas vezes ele foi atraído para o sono pela música cigana da estrada aberta.

      Nessa noite, entretanto, ocorre uma coisa estranha. Por razões que ele não consegue entender, esse conhecido mosaico de sons não é uma canção de ninar, mas sim o canto de uma sereia. Ele não consegue resistir.

      Ele sai da cama e atravessa o quarto escuro em direção à única janela. Tem uma obscura visão noturna de uma encosta de morro coberta de ervas e de uma placa de céu — como as metades de uma pintura abstrata. No alto da ladeira, separando céu e colina, as firmes estacas do guardrail da estrada são iluminadas por bruxuleantes faróis que passam.

      Ele levanta a vista, meio em transe, esforçando-se para vislumbrar os veículos que se destinam ao oeste.

      Em geral melancólica, a cantata da rodovia agora o seduz, chamando-o, fazendo uma promessa misteriosa que ele não compreende, mas sente-se forçado a explorar.

      Ele se veste e guarda as roupas na mala.

      Lá fora, o pátio e as calçadas do hotel estão desertos. De frente para os quartos, os carros aguardam a viagem matinal. Em um salão vizinho de venda por automáticos, uma máquina de refrigerantes estala e retine como se estivesse fazendo reparos em si mesma. O matador sente-se como se fosse a única criatura viva num mundo agora governado por — e para o benefício de — máquinas.

      Momentos depois, ele está na Interestadual 70, dirigindo-se para Topeka, a pistola no assento a seu lado, mas coberta com uma toalha do motel.

      Alguma coisa a oeste de Kansas City o chama. Ele não sabe o que é, mas sente uma atração inexorável em direção a oeste, da mesma maneira que o ferro é atraído por um ímã.

      Por mais estranho que possa parecer, nada disso o alarma e ele se permite levar por essa compulsão de dirigir rumo ao oeste. Afinal de contas, desde que consegue lembrar-se, ele foi a lugares sem saber o objetivo de sua viagem até chegar a seu destino, e matou pessoas sem saber por que deviam morrer ou para quem estava fazendo a matança. Entretanto, ele está seguro de que não se espera dele essa súbita partida de Kansas City. Devia permanecer no motel até a manhã e pegar um vôo cedo para... Seattle.

      Talvez em Seattle ele receberia instruções dos chefes, dos quais não consegue se recordar. Mas jamais saberá o que teria acontecido, pois agora Seattle está riscada de seu itinerário.

      Ele se pergunta quanto tempo se passará antes que seus superiores — quaisquer que sejam seus nomes e identidades — percebam que se tornou um renegado. Quando começarão a procurar por ele e como o encontrarão se ele não estiver mais operando dentro de seu programa?

      Às duas da madrugada, o tráfego é pequeno na Interestadual 70, a maioria composta de caminhões, e ele dispara para o outro lado de Kansas na frente de alguns dos grandes carrões e na esteira ruidosa de outros, recordando um filme sobre Dorothy e seu cão Totó e um tufão que os pegou na terra plana da fazenda e os deixou num estranho lugar distante.

      Deixando tanto a Kansas City/Missouri como a Kansas City/Kansas para trás, o matador percebe que está murmurando para si mesmo: eu preciso, eu preciso.

      Dessa vez, ele se sente próximo de uma revelação que irá identificar a natureza exata desse desejo.

       Eu preciso... ser... eu preciso ser... eu preciso ser...

      Enquanto os subúrbios e por fim a pradaria escura passam num lampejo nos dois lados, dentro dele a excitação aumenta sem parar. Ele treme à beira de um conhecimento que, ele sente, irá mudar sua vida.

       Eu preciso ser... ser... eu preciso ser alguém.

      Ele compreende, de imediato, a importância do que disse. Com “ser alguém” ele não está querendo dizer o que um outro homem poderia tencionar dizer com essas mesmas duas palavras: ele não quer dizer que precisa ser alguém famoso, rico ou importante. Apenas alguém. Alguém com um nome verdadeiro. Apenas um Joe comum como costumavam dizer nos filmes dos anos 40. Alguém que tenha mais substância que um fantasma. A atração da desconhecida estrela-guia a oeste fica mais forte a cada quilômetro. Ele se inclina um pouco para a frente, curvando-se sobre o volante, espreitando a noite com atenção.

      Além do horizonte, numa cidade que ainda não pode visualizar, uma vida espera por ele, um lugar para ser chamado de lar. Família, amigos. Em algum lugar há sapatos que ele pode calçar, um passado que pode usar confortavelmente, um objetivo. E um futuro no qual pode ser como as outras pessoas — aceito.

      O carro dispara na direção oeste, trespassando a noite.

 

Meia-noite e meia. No caminho para a cama, Marty Stillwater parou junto ao quarto das meninas, abriu a porta e atravessou a soleira em silêncio. No brilho amarelo-caramelo do abajur de Mickey Mouse, pôde ver as duas filhas dormindo um sono pacífico.

      De vez em quando, ele gostava de observá-las durante alguns minutos enquanto dormiam, só para se convencer que eram de verdade. Ele havia tido mais que sua quota de felicidade, prosperidade e amor, de modo que se deduzia que parte dessa bênção podia provar-se transitória ou mesmo ilusória; o destino podia intervir para equilibrar os pratos na balança.

      Para os antigos gregos, o Destino era personificado na forma de três irmãs: Cloto, que tecia a trama da vida; Láquesis, que media a extensão da trama; e Átropos, a menor das três porém a mais poderosa, que cortava a trama à sua vontade.

      Às vezes, para Marty, essa parecia ser uma maneira lógica de ver as coisas. Ele podia imaginar os rostos dessas três mulheres de robe branco com mais detalhes do que se lembrava dos próprios vizinhos de Mission Viejo. Cloto tinha um rosto bondoso com olhos alegres, lembrando a atriz Angela Lansbury, e Láquesis era tão atraente quanto Goldie Hawn, mas com uma aura de santa. Era ridículo, mas era assim que ele as via. Átropos era uma puta linda porém fria — boca apertada, olhos negros como antracito.

      O truque era permanecer nas boas graças das duas primeiras irmãs sem chamar a atenção da terceira.

      Cinco anos atrás, sob a máscara de uma doença do sangue, Átropos havia descido de seu lar celestial para tomar um pedaço da trama da vida de Charlotte e, por sorte, não conseguira cortá-la por completo. Mas essa divindade respondia por muitos nomes além de Átropos: câncer, hemorragia cerebral, trombose coronária, incêndio, terremoto, veneno, homicídio e muitos outros. Agora talvez ela estivesse fazendo uma visita a eles com um de seus muitos pseudônimos — com Marty como seu alvo em vez de Charlotte.

      Muitas vezes, a imaginação vivida de um romancista era uma maldição.

      De repente, um barulho de zumbido e clique surgiu nas sombras no lado do quarto que pertencia a Charlotte, assustando Marty. Tão baixo e ameaçador quanto um chocalho de cascavel. Então, ele percebeu o que era: metade da enorme gaiola do gerbo era ocupada por uma roda de exercício, e o incansável roedor corria furiosamente.

      — Vai dormir, Wayne — ele disse em voz baixa.

      Deu mais uma olhada nas meninas, depois saiu do quarto e fechou a porta sem fazer barulho.

 

Ele chega a Topeka às três da manhã.

      Ainda é atraído em direção ao horizonte ocidental — assim como uma criatura migrante podia ser atraída incessantemente para o sul com a aproximação do inverno —, respondendo a um chamado que não tem som, uma bóia luminosa que não pode ser vista, apesar de ser o traço de ferro em seu sangue que responde ao ímã desconhecido.

      Ele sai da auto-estrada nos subúrbios da cidade e procura outro carro.

      Em algum lugar há pessoas que conhecem o nome John Larrington, a identidade com a qual alugou o Ford. Quando ele não se apresentar em Seattle para qualquer trabalho que o esteja esperando, seus superiores estranhos e sem rosto irão, sem dúvida, procurar por ele. Ele suspeita que os superiores tenham recursos e influência substanciais; ele deve cortar cada ligação com seu passado e deixar seus caçadores sem meios para seguir sua pista.

      Ele estaciona o Ford alugado num bairro residencial e caminha três quarteirões, experimentando as portas dos carros junto ao meio-fio. Apenas a metade está trancada. Está preparado para fazer uma ligação direta num carro, se for preciso, mas num Honda azul encontra as chaves enfiadas atrás do visor de sol.

      Após rodar de volta ao Ford e transferir suas malas e a pistola para o Honda, ele parte em círculos cada vez mais largos, à procura de uma loja de utilidades aberta 24 horas.

      Não tem nenhum mapa de Topeka na cabeça porque ninguém esperava que ele fosse ali. Desanimado para olhar placas de rua nas quais todos os nomes são desconhecidos, ele não sabe para onde qualquer rota levará.

      Ele se sente mais proscrito que nunca.

      Em quinze minutos, localiza uma loja e quase esvazia as prateleiras de Slim Jim, biscoitos de queijo, amendoim, rosquinhas em miniatura e outros alimentos fáceis de comer enquanto dirige. Já está morto de fome. Se for ficar na estrada mais dois dias — supondo-se que possa ser atraído por todo o trajeto até a costa —, vai precisar de um suprimento considerável. Ele não quer perder tempo em restaurantes; no entanto, seu metabolismo acelerado pede que ele coma refeições maiores e mais freqüentes do que as outras pessoas.

      Após acrescentar três pacotes de seis Pepsi à sua compra, ele vai ao balcão onde o único empregado diz:

      — Você deve estar dando uma festa que vai durar a noite inteira ou algo parecido.

      — E isso aí.

      Quando paga a conta, percebe que os trezentos “mangos” que tem na carteira — o montante de dinheiro vivo que sempre leva consigo num trabalho — não o levarão longe. Já não pode mais usar os cartões de crédito falsos, dos quais ainda tem dois, porque com certeza alguém poderá segui-los através das compras. A partir de agora, terá de pagar em dinheiro.

      Ele leva para o Honda as três enormes sacolas de suprimento e retorna à loja com a Heckler & Koch P7. Dá um tiro na cabeça do empregado e esvazia a caixa registradora, mas tudo que consegue é seu próprio dinheiro de volta mais cinqüenta dólares. Melhor do que nada.

      Enche o tanque de gasolina do Honda em um posto de serviços Arco e compra um mapa dos Estados Unidos.

      Estacionado no canto do posto, ele come Slim Jim sob uma lâmpada de vapor de sódio que colore tudo com um amarelo doentio. Está faminto.

      No momento em que muda das salsichas para as rosquinhas, começa a examinar o mapa. Ele poderia continuar na Interestadual 70 em direção a oeste ou, em vez disso, dirigir-se ao sul para Wichita na auto-estrada de Kansas, indo para Oklahoma City, e depois virando de novo para oeste, na Interestadual 40.

      Ele não está acostumado a ter opções. Em geral, faz aquilo que está... programado para fazer. Agora que tem alternativas, acha inesperadamente difícil tomar decisões. Ele fica irresoluto, cada vez mais nervoso, correndo o perigo de ficar paralisado pela indecisão.

      No final, sai do Honda e fica parado no frio ar da noite, procurando orientação.

      O vento vibra os fios de telefone — um som fantasmagórico, tão tênue e débil quanto o choro de medo de crianças mortas passeando num além escuro.

      Vira-se para oeste de maneira tão inevitável quanto uma agulha de bússola que busca o norte magnético. A atração é sentida como psíquica, como se uma presença lá longe o chamasse, mas a ligação é menos sofisticada, é mais biológica, reverberando em seu sangue e em sua medula.

      De novo atrás do volante do carro, ele encontra a auto-estrada de Kansas e se dirige a Wichita. Ainda não está com sono. Quando é preciso, ele consegue ficar duas ou três noites sem dormir e sem perder o vigor mental ou físico, o que é apenas uma de suas forças especiais. Está tão excitado com a perspectiva de ser alguém que pode dirigir sem parar até encontrar seu destino.

  

Paige sabia que Marty já esperava ser atingido por outro lapso, dessa vez em público, por isso admirou sua capacidade de manter uma fachada despreocupada. Parecia tão alegre quanto as filhas.

      Do ponto de vista das meninas, o domingo era um dia perfeito.

      No final da manhã, Paige e Marty as levaram ao Ritz-Carlton Hotel em Dana Point para o almoço-lanche do fim de semana da Ação de Graças. Aquele era um lugar que eles só iam em ocasiões especiais.

      Como sempre, Emily e Charlotte ficaram encantadas com a paisagem exuberante, com as lindas salas públicas e com o pessoal impecável em seus uniformes engomados. Com suas melhores roupas e fitas nos cabelos, as meninas se divertiram muito, fingindo ser jovens senhoritas cultas — quase tão divertido quanto atacar o bufê de sobremesa duas vezes cada.

      À tarde, como estava mais ou menos quente, trocaram de roupa e visitaram o Irvine Park. Caminharam nas trilhas pitorescas, deram comida aos patos no lago e visitaram o pequeno jardim zoológico.

      Charlotte adorava o zoológico porque, como sua coleção de bichos selvagens, os animais eram mantidos em recintos fechados, a salvo de algum dano. Não havia nenhuma espécie exótica — todos os animais eram nativos da região —, mas em sua exuberância típica Charlotte achou cada qual a criatura mais interessante e atraente que já havia visto.

      Emily entrou numa briga de olhar com um lobo. Grande, com olhos cor de âmbar, com um pêlo lustroso cinza-prateado, o predador encontrou e sustentou com atenção o olhar da menina em seu lado da cerca de elos de corrente.

      — Se vocês desviarem o olhar primeiro — informou Emily em tom calmo e sombrio —, então o lobo vai comer vocês todos.

      O confronto durou tanto tempo que Paige ficou nervosa, apesar da cerca forte. Depois o lobo baixou a cabeça, cheirou o chão, bocejou com esmero — para mostrar que não tinha sido intimidado, mas apenas perdera o interesse — e afastou-se saracoteando.

      — Se ele não conseguiu pegar os três porquinhos com toda sua rabugice e bafo — disse Emily —, então eu sabia que ele não podia me pegar, porque sou mais esperta do que os porcos.

      Ela estava referindo-se ao desenho animado de Disney, a única versão do conto de fadas com a qual estava familiarizada.

      Paige resolveu nunca deixá-la ler a versão dos irmãos Grimm, que falava de sete pequenas cabras em vez de três porquinhos. O lobo devorou seis delas, que foram salvas da digestão no último minuto, quando sua mãe cortou a barriga do lobo para tirá-las das vísceras fumegantes.

      Quando ele se afastara, Paige tornou a olhar para o lobo. O animal observava Emily de novo.

  

O domingo é um dia cheio para o matador.

      Em Wichita, pouco antes do amanhecer, ele sai da auto-estrada. Em outro bairro residencial bastante parecido com o de Topeka, ele troca a placa de licença do Honda pela de um Chevy, tornando mais difícil de localizar seu veículo roubado.

      Pouco depois das nove da manhã de domingo, ele chega em Oklahoma City, Oklahoma, onde pára o tempo suficiente para encher o tanque de gasolina.

      Há um shopping mall do outro lado da estrada do posto. Em um canto do gigantesco estacionamento deserto há um pavilhão automático da Goodwill Industries do tamanho de um abrigo de jardim. Após encher o tanque, ele deixa as malas e seus conteúdos com a Goodwill. Fica apenas com as roupas que está usando e a pistola.

      Durante a noite, na estrada, ele teve tempo para pensar em sua existência peculiar — e para perguntar-se se podia estar carregando um transmissor compacto que ajudasse seus superiores a localizá-lo. Talvez tivessem previsto esse dia em que ele os renegaria.

      Ele sabe que um transmissor mais ou menos potente, operando com uma bateria minúscula, pode ser escondida num lugar extremamente pequeno. Como as laterais de uma mala.

      Quando vira direto para oeste na Interestadual 40, uma borra de nuvens negras como carvão se derrama do céu. Quarenta minutos depois, quando a chuva chega, ela é prata derretida e, no mesmo instante, varre todas as cores da vasta terra deserta que flanqueia a rodovia. O mundo é vinte, quarenta, cem matizes de cinza, sem um relâmpago que seja para aliviar a lugubridade opressiva.

      A paisagem monocromática não proporciona nenhuma distração, de modo que ele tem tempo para continuar se preocupando com os caçadores sem rosto que podiam estar bem atrás dele. É paranóia perguntar-se se um transmissor poderia ter sido costurado em sua roupa? Ele duvida que o aparelho pudesse ser escondido no tecido de suas calças, camisa, suéter, roupa de baixo ou meias sem ser detectado pelo próprio peso ou numa inspeção casual. O que deixa de sobra os sapatos e a jaqueta de couro.

      Ele deixa a pistola de fora. Eles não montariam coisa alguma na P7 que pudesse interferir em suas funções. Além disso, esperavam que ele se desfizesse da arma logo depois dos assassinatos para os quais ela foi fornecida.

      Na metade do caminho entre Oklahoma e Amarillo, a leste da fronteira com o Texas, ele sai da interestadual e entra numa área onde dez carros, dois enormes caminhões e dois motorhomes se refugiaram da tempestade.

      Em um arvoredo vizinho de sempre-vivas, os galhos das árvores se curvam como se estivessem encharcados de chuva, e parecem cinza carvão em vez de verde. As enormes pinhas estão inchadas e estranhas.

      Um bloco baixo de sanitários em construção. Ele corre através do aguaceiro para o banheiro dos homens.

      Enquanto o matador está no primeiro dos três mictórios, com a chuva tamborilando barulhenta no telhado de metal e o ar úmido pesado com o cheiro pegajoso de concreto molhado, entra um homem no início da casa dos sessenta. Em uma olhada: cabelo branco grosso, rosto cheio de rugas, nariz bulboso com desenhos de vasos capilares rompidos. Ele vai para o terceiro mictório.

      — Que tempestade, hem? — diz o estranho.

      — Um verdadeiro afogamento de ratos — responde o matador, tendo ouvido essa frase num filme.

      — Espero que passe logo.

      O matador nota que o velho tem mais ou menos seu peso e estatura. Enquanto fecha o zíper de suas calças, ele diz:

      — Você está indo para onde?

      — Neste exato momento, Las Vegas, mas depois para algum outro lugar e de novo para um outro lugar. Eu e minha mulher somos aposentados, gostamos muito de morar naquele motorhome. Sempre quisemos conhecer o país e garanto que agora estamos conhecendo. Nada como a vida na estrada, novas paisagens a cada dia, pura liberdade.

      — Parece genial.

      Enquanto lava as mãos na pia, o matador fica paralisado, perguntando-se se ousa pegar o velho bobão e tagarela agora mesmo, enfiar o corpo num banheiro. Mas com toda aquela gente no estacionamento, alguém pode entrar de repente.

      O estranho diz, enquanto fecha a braguilha:

      — O único problema é Frannie... é a minha mulher... ela odeia que eu dirija na chuva. Qualquer coisinha maior que a garoa mais fina e ela quer estacionar e esperar que passe — ele suspira. — Este não vai ser um dia que faremos um bocado de quilômetros.

      O matador seca a mão debaixo de um aparelho de ar quente.

      — Bem, Vegas não está indo a lugar nenhum.

      — Verdade. Mesmo quando o bom Senhor aparecer no Dia do Juízo Final, haverá mesas abertas de vinte-e-um.

      — Espero que você quebre a banca — o matador diz e sai quando o velho vai para a pia.

      No Honda de novo, molhado e tremendo, ele liga o motor e aciona o aquecedor. Mas não engrena o carro.

      Três motorhomes estão estacionados em espaços abertos ao longo do meio-fio.

      Um minuto depois, o marido de Frannie sai do banheiro dos homens. Através da chuva encrespada no pára-brisa o matador observa o homem de cabelo branco correr para um enorme Road King prata e azul, no qual ele entra pela porta do motorista. Há o contorno de um coração pintado na porta e dentro dele dois nomes com letra caprichada: Jack e Frannie.

      A sorte não está com Jack, o aposentado com destino a Vegas. O Road King só está quatro vagas distante do Honda, e essa proximidade torna fácil para o matador fazer o que tem de ser feito.

      O próprio céu está se derramando num oceano inteiro. A água cai direto para baixo no dia sem vento, espatifando sem parar as poças que parecem espelhos no pavimento negro, jorrando nas sarjetas em torrentes que parecem infinitas.

      Carros e caminhões saem da rodovia, estacionam por algum tempo, partem e são substituídos por novos veículos que param entre o Honda e o Road King.

      Ele é paciente. A paciência é parte de seu treinamento.

      O motor do motorhome trabalha em ponto morto. Colunas de fumaça cristalizada erguem-se nos canos gêmeos. Uma cálida luz âmbar brilha nas janelas com cortinas, nos dois lados.

      Ele sente inveja do confortável lar sobre rodas, que parece mais aconchegante do que qualquer casa que ele ainda pode esperar ter. Também inveja o longo casamento deles. Como seria ter uma esposa? Como seria ser um esposo amado?

      Após quarenta minutos, a chuva ainda não diminuiu, mas um bando de carros deixa o local. O Honda é o único veículo estacionado ao lado do motorista do Road King.

      Ele pega a pistola, sai do carro e caminha rápido para o motorhome, vigiando as janelas laterais para o caso de Frannie ou Jack abrir a cortina e olhar para fora no momento mais inoportuno.

      Ele olha de soslaio para os sanitários. Ninguém à vista.

      Perfeito.

      Ele agarra a maçaneta da porta de cromo frio. A trava não está arriada. Ele entra com dificuldade, sobe os degraus e olha para o assento do motorista.

      A cozinha fica logo atrás da cabine aberta, um recanto de jantar do outro lado da cozinha, depois a sala de estar. Frannie e Jack estão comendo no canto de jantar, a mulher de costas para o matador.

      Jack o vê primeiro, ao mesmo tempo começa a levantar-se e desliza para fora da estreita cabine, e Frannie olha para trás por cima do ombro, mais curiosa do que alarmada. As duas primeiras balas atingem Jack no peito e na garganta. Ele tomba sobre a mesa. Salpicada de sangue, Frannie abre a boca para gritar, mas a terceira bala de ponta oca remodela drasticamente seu crânio.

      O silenciador está atarraxado no cano, mas já não é mais eficaz. Os abafadores haviam sido comprimidos. O som que acompanha cada tiro só é um pouco mais abafado do que um tiro normal.

      O matador fecha a porta do motorista. Olha para a calçada, a área de piquenique varrida pela chuva, os sanitários. Ninguém à vista.

      Ele sobe pelo console com a alavanca de marcha, vai para o assento do carona e olha para fora da janela desse lado. Apenas quatro veículos compartilham o estacionamento. O mais próximo é um caminhão Mack, e o motorista deve estar no banheiro dos homens, porque não há ninguém na cabine.

      Não é provável que alguém pudesse ter escutado os tiros. O rugido da chuva proporciona a cobertura ideal.

      Ele gira a cadeira de comando, levanta-se e caminha de volta através do motorhome. Pára junto ao casal morto, toca as costas de Jack... depois a mão esquerda de Frannie, que está caída na mesa numa poça de sangue ao lado do prato com seu almoço.

      — Adeus — ele diz em voz baixa, desejando ter mais tempo para dividir com eles esse momento especial.

      Entretanto, tendo chegado até ali, ele mal espera para trocar de roupa com o marido de Frannie e cair na estrada de novo. Está convencido de que há um transmissor escondido de fato no salto de borracha de seu sapato Rockport, e que seu sinal está, mesmo nesse momento, mandando gente perigosa atrás dele.

      Do outro lado da sala de estar há um banheiro, um armário grande apinhado com as roupas de Frannie, e um quarto com um armário menor cheio de roupas de Jack. Em menos de três minutos ele fica nu e veste roupa de baixo nova, meias brancas, jeans, uma camisa com padrão vermelho e marrom, um par de alpargatas batido e uma jaqueta de couro marrom para substituir sua preta. A costura interna das calças está no tamanho certo; a cintura é 5 cm maior, mas ele aperta com um cinto. Os sapatos estão um pouco folgados, mas dá para usar, e a camisa e a jaqueta se ajustam à perfeição.

      Ele leva os sapatos Rockport para a cozinha. Para confirmar sua suspeita, pega uma faca de pão com serra e corta várias camadas do salto de borracha de um sapato até descobrir uma cavidade rasa cheia de equipamento eletrônico. Um transmissor miniaturizado está ligado a uma série de baterias de relógios, que parece estender-se por toda a volta do salto e talvez da sola também.

      Afinal de contas, não era nenhuma paranóia.

      Eles estão vindo.

      Ele abandona os sapatos num monte de borracha cortada no balcão da cozinha e, com movimentos apressados, revista o corpo de Jack e tira o dinheiro da carteira do velho. Sessenta e duas “pratas”. Ele procura a bolsa de Frannie e a encontra no quarto de dormir. Quarenta e nove dólares.

      Quando sai do motorhome, o céu com manchas cinzas e negras está convexo, inclinado para baixo pelo peso de cúmulos de trovoadas. Megatons de chuva bombardeiam a terra.

      Rolos de serpentina de fumaça entre os troncos de pinheiro parecem estar indo atrás dele enquanto ele patinha em direção ao Honda.

      De volta à interestadual, correndo através do perpétuo crepúsculo abaixo da tormenta, ela liga o aquecedor do carro na posição mais quente e logo depois atravessa a fronteira com o Texas, onde a terra plana se torna muitíssimo mais plana. Tendo se desvencilhado dos últimos parcos pertences de sua velha vida, ele se sente liberado. Encharcado pela chuva fria, treme de maneira incontrolável, mas também treme de expectativa e excitação.

      Seu destino fica em alguma parte a oeste.

      Ele rasga o envoltório de plástico de uma Slim Jim e come enquanto dirige. O sabor sutil no meio do gosto primário de carne em conserva faz com que ele se lembre do cheiro metálico de sangue na casa em Kansas City, onde ele deixou o anônimo casal morto em cima de sua enorme cama georgiana.

      O matador dirige o Honda o mais rápido que se atreve na estrada escorregadia de chuva, pronto para matar qualquer tira que o abordar. Ao chegar em Amarillo, Texas, pouco depois do crepúsculo da noite do domingo, ele descobre que o Honda está andando virtualmente de tanque vazio. Ele entra numa parada de caminhões o tempo suficiente para encher o tanque, usar o banheiro e comprar mais comida para levar no carro.

      Depois de Amarillo, voando na noite em direção a oeste, ele passa por Wildorado, com a fronteira do Novo México à frente, e de repente percebe que está atravessando as terras áridas, no centro do Velho Oeste, onde tantos filmes maravilhosos foram rodados. John Wayne e Montgomery Clift em Rio Vermelho, com Walter Brennan roubando cenas a torto e a direito. Onde Começa o Inferno. E Os Brutos Também Amam foi encenado lá no Kansas — não foi? —, com Jack Palance varrendo Elisha Cook Jr. para longe, décadas antes de Dorothy pegar o tufão para Oz. No Tempo das Diligências, O Matador, Bravura Indômita, O Homem que Luta Só, O Passado Não Perdoa, Cavaleiro Solitário, Céu Amarelo, tantos filmes geniais, nem todos rodados no Texas, mas pelo menos no espírito do Texas, com John Wayne e Gregory Peck, Jimmy Stewart e Clint Eastwood, lendas e lugares místicos tornados reais agora, esperando lá fora na rodovia, escurecidos pela chuva, a neblina e a escuridão. Quase era possível acreditar que essas histórias aconteciam nesse exato momento nas cidades fronteiriças pelas quais ele passava, e que ele era Butch Cassidy ou Sundance Kid ou algum outro pistoleiro de um século anterior, um matador mas de fato não um mau sujeito, incompreendido pela sociedade, forçado a matar por causa do que lhe fizeram, com um bando armado em seu rastro...

      Lembranças de telas de cinema e filmes de tevê de fim de noite — que de longe constituem a maior parte de suas memórias — inundam sua mente preocupada, tranqüilizando-o, e durante algum tempo ele fica tão perdido nessas fantasias que presta muito pouca atenção na direção do carro. Aos poucos, ele se dá conta de que a velocidade caíra para 60 km por hora. Carros e caminhões passavam explodindo por ele, com o vento de sua passagem golpeando o Honda, jogando água suja no pára-brisa, as lanternas vermelhas traseiras dissipando-se rapidamente na escuridão.

      Ele acelerou, assegurando-se de que seu misterioso destino acabaria sendo tão genial quanto qualquer um que John Wayne perseguia em seus filmes.

      Embalagens de comida vazias e semivazias, amassadas, engorduradas e cheias de migalhas, estão empilhadas no banco do carona. Caem em cascata no chão debaixo do painel de instrumentos, enchendo por completo o espaço da perna desse lado do carro.

      Do meio dessa confusão ele tira uma caixa nova de rosquinhas. Para ajudá-las e descer, ele abre uma Pepsi quente.

      Para oeste. Sempre para oeste.

      Uma identidade espera por ele. Ele vai ser alguém.

  

No final de domingo, em casa, após gigantescos cestos de pipoca e dois vídeos, Paige cobriu as meninas na cama, deu-lhes um beijo de boa-noite, e recuou para o vão da porta aberta para observar Marty, que se preparava para esse momento do dia que ele mais gostava. Hora de história.

      Ele continuou com o poema sobre o irmão mau de Noel, e no mesmo instante as meninas foram arrebatadas.

       As renas deslizam na noite.

       Vê como cada qual está cheia de medo?

       Sacudindo a cabeça, revirando os olhos, esses animais gentis são tão sábios — sabem que esse Noel não é seu amigo, mas sim um impostor e muito ruim inimigo.

       Elas vão debandar com toda sua força, derrubando esse maluco no canto da terra.

       Mas o irmão mau de Noel carrega um chicote, um porrete, um arpão, um revólver na cintura, um cassetete, uma Uzi — é melhor você correr! — e uma terrível, horrível arma de raios.

      — Arma de raios? — Charlotte disse. — Então ele é um extraterrestre!

      — Não seja boba — repreendeu-a Emily. — Ele é o irmão gêmeo de Papai Noel. Portanto, se for um extraterrestre, Noel também é um extraterrestre, coisa que ele não é.

      Com a presunçosa condescendência de uma menina de nove anos que já descobriu que Papai Noel não existe, Charlotte disse:

      — Em, você precisa aprender um bocado de coisa. Papai, o que a arma de raios faz? Transforma a gente em mingau?

      — Em pedra — disse Emily. Ela tirou uma das mãos de debaixo da coberta e mostrou a pedra polida na qual havia pintado um par de olhos. — Foi isso que aconteceu com Peepers.

       Eles aterrissam no telhado, em silêncio e às escondidas.

       Oh, mas esse Noel é muito esquisito.

       Ele sussurra uma advertência para cada rena, reclinando-se para perto a fim de que ouçam:

      “Vocês têm parentes lá no Pólo — almas com chifres, gentis e bastante inocentes.

       Assim, se fugirem voando enquanto estou lá dentro, vou voltar para o Pólo de avião.

       Farei um piquenique no sol da meia-noite: bolo de rena, patê, rena no bolo de passas, salada de rena e sopa quente de rena, oh, todos os tipos de saborosa comida de rena.”

      — Eu odeio esse cara — anunciou Charlotte em tom enfático. Puxou as cobertas até o nariz, como havia feito na noite anterior, mas não sentia um medo genuíno, apenas se divertia fingindo estar assombrada.

      — Esse sujeito, ele já nasceu mau — decidiu Emily. — Com certeza, não pode ser desse jeito só porque sua mãe e seu pai não foram tão bons para ele como deveriam ser.

      Paige se encantava com a capacidade de Marty de achar o tom certo para obter o total envolvimento das crianças. Se ele lhe tivesse dado o poema para rever antes de começar a leitura, Paige teria dito que ele era um pouco forte demais e sombrio para atrair meninas pequenas.

      Dava no mesmo a pergunta do que era superior — o discernimento do psicólogo ou o instinto do contador de histórias.

       Na chaminé, ele olha tijolo abaixo,

       mas essa entrada é estrita para caipiras.

Com todas as suas ferramentas, um caminho para dentro pode ser encontrado para um arrombador gordo e barbudo de fora da cidade.

       Do telhado ao pátio e à porta da cozinha,  ele dá uma risada pelo que tem em estoque  para a adorável família que dorme lá dentro.

       Ele arreganha um de seus sorrisos mais sórdidos.

       Oh, que arrepio, um refugo e um piolho.

       Ele está arrombando a casa dos Stillwater.

      — Nossa casa! — gritou Charlotte.

      — Eu sabia! — disse Emily.

      — Você não sabia — replicou Charlotte.

      — Sabia, sim.

      — Não sabia.

      — Sabia. É por isso que estou dormindo com Peepers, para que ele possa me proteger até depois do Natal.

      Elas insistiram para que o pai lesse tudo desde o começo, todos os versos das duas noites. Quando Marty começou a fazer esse favor, Paige desapareceu do vão da porta e foi ao andar de baixo para jogar fora o resto de pipoca e arrumar a cozinha.

      No que dizia respeito às crianças, o dia havia sido perfeito até ali, e para ela também. Marty não havia sofrido outro episódio, o que lhe permitiu convencer-se que a fuga fora uma singularidade — assustadora, inexplicável, mas não uma indicação de séria condição degenerativa ou doença.

      Sem dúvida, nenhum homem poderia acompanhar o passo de duas crianças tão ativas, entretê-las e impedi-las de ficar aborrecidas durante todo um dia agitado, a menos que tivesse uma saúde extraordinária. Falando como a outra metade da Fabulosa Máquina de Pais Stillwater, Paige estava exausta.

      Curiosamente, após ter jogado fora a pipoca, ela se viu examinando trancas de portas e janelas.

      No noite anterior, Marty não conseguira explicar o aumento de sua necessidade de segurança. Afinal de contas, seu problema era interno.

      Paige imaginou que fora simples transferência psicológica. Ele relutara em lidar com a possibilidade de tumores no cérebro e hemorragias cerebrais porque essas coisas estavam fora de seu controle, por isso ele se voltou para fora a fim de procurar inimigos contra os quais podia empreender uma ação concreta.

      Por outro lado, talvez ele tivesse reagido por instinto a uma ameaça real além da percepção consciente. Como pessoa que havia incorporado algumas teorias junguianas à sua visão de mundo pessoal e profissional, Paige tinha espaço para conceitos como inconsciente coletivo, sincronicidade e intuição.

      Parada junto às portas duplas da sala de estar, olhando o pátio escuro, ela perguntou-se que ameaça Marty podia ter sentido lá fora num mundo que, durante toda sua vida, tornara-se cada vez mais perigoso.

 

Sua atenção desvia-se da estrada à frente apenas para rápidas olhadas nas formas estranhas que surgem na escuridão e na chuva em ambos os lados da rodovia. Dentes de rocha quebrados, impelidos pela areia e entulhos, como se um hipopótamo abaixo da terra abrisse sua boca para devorar qualquer animal infeliz que por acaso estivesse na superfície. Grupos bem espaçados de árvores raquíticas lutam para manter-se vivos numa terra dura, onde as tormentas são raras e os aguaceiros mais raros ainda; galhos torcidos saem da bruma, tão recortados e quitinosos como os membros pontudos de imensos insetos, iluminados por breves momentos pelos faróis, pendendo ao vento por um instante para logo depois desaparecer.

      Embora o Honda tenha um rádio, o matador não o liga porque não quer se distrair do misterioso poder que o impele na direção oeste e com o qual ele procura comunhão. Quilômetro por triste quilômetro, aumenta a atração magnética, e isso é a única coisa que o interessa; ele não pode afastar-se disso, assim como a terra não pode reverter sua rotação e pôr o nascer-do-sol de amanhã no oeste.

      Ele deixa a chuva para trás e, num dado momento, sai de baixo das nuvens esfarrapadas para uma noite clara com estrelas que não podem ser contadas. Ao longo de parte do horizonte, é possível vislumbrar picos luminosos e cordilheiras, tão distantes que podem definir a beira do mundo, como plataformas de alabastro protegendo um reino de conto de fadas, as muralhas de Xangrilá nas quais ainda brilha a luz da lua do mês passado.

      Ele vai para a vastidão do sudoeste, passando por colares de luz que são as cidades do deserto de Tucumcari, Montoya, Cuervo e depois atravessando o Rio Pecos.

      Entre Amarillo e Albuquerque, onde ele pára com o objetivo de conseguir óleo e gasolina, ele usa o sanitário de um posto cheirando a inseticida. Duas baratas mortas estão caídas num canto. A luz amarela e o espelho sujo revelam um reflexo reconhecível como seu, mas diferente de alguma forma. Seus olhos azuis parecem mais escuros e mais ferozes do que ele já vira e as linhas de seu rosto em geral franco e amigável se haviam endurecido.

      — Vou ser alguém — ele diz para o espelho, e o sujeito do espelho declama as palavras de acordo com ele.

      Às 11:30 da noite de domingo, quando chega a Albuquerque, ele abastece o Honda em outra parada de caminhões e pede dois cheeseburgers para viagem. Depois, ele está no próximo trecho de sua viagem — 520 quilômetros até Flagstaff, Arizona — comendo os sanduíches nas sacolas de papel branco e nas quais pingam gordura cheirosa, cebolas e mostarda.

      Essa será sua segunda noite sem descanso; no entanto, ele não está com sono. Ele é abençoado com uma energia excepcional. Em outras ocasiões, ele ficou 72 horas sem dormir, mas permaneceu com a mente lúcida.

      Por filmes que assistiu em noites solitárias em cidades estranhas, ele sabe que o sono é o inimigo invencível dos soldados desesperados para vencer uma dura batalha. Dos policiais em batidas. Daqueles que precisam montar guarda contra vampiros até que o amanhecer traga o sol e a salvação.

      Sua capacidade de dar uma trégua ao sono sempre que deseja é tão incomum que ele se recusa a pensar nisso. Ele sente que há coisas nele que é melhor não saber, e esta é uma delas.

      Uma outra lição que ele aprendeu nos filmes é que todo homem tem segredos, inclusive aqueles que esconde de si mesmo. Que é exatamente a condição que ele mais deseja. Ser como outros homens.

 

No sono, Marty está num lugar frio e varrido pelo vento, nas garras do terror. Ele tem consciência de que se encontra numa planície tão plana e sem traços característicos quanto o vasto vale do deserto Mojave na estrada para Las Vegas, mas na verdade não conseguia ver a paisagem porque a escuridão era tão profunda quanto a morte. Ele sabia que alguma coisa corria em sua direção através das trevas — algo inconcebivelmente estranho e hostil, imenso e ‘ mortal, porém com um silêncio extremo —, sabia em seus ossos que estava vindo, meu Deus, mas não tinha a menor idéia da direção de sua aproximação. A esquerda, direita, na frente, por trás, pelo chão abaixo de seus pés ou do céu preto como sable, a coisa estava vindo. Ele podia sentir, um objeto de tamanho e peso tão colossais que a atmosfera se comprimia em sua passagem, o ar engrossava enquanto o perigo desconhecido se aproximava. Vinha rápido, cada vez mais rápido, e nenhum lugar para se esconder. Então, em algum lugar da escuridão infinita, ele ouviu Emily pedindo socorro, chamando seu pai, enquanto Charlotte também chamava, mas ele não conseguia saber a posição delas. Corria numa direção, depois na outra, mas suas vozes cada vez mais frenéticas pareciam estar sempre atrás dele. A ameaça desconhecida chegava mais perto, mais perto, as meninas choravam de medo, e Paige gritava seus nomes com uma voz tão assustada de terror que Marty começou a chorar de frustração por sua incapacidade de encontrá-las, ah meu Deus, e a coisa estava quase em cima dele, fosse o que fosse, tão impossível de ser detida quanto uma luz decrescente, mundos em colisão, um peso além da medida, uma força tão primitiva quanto a que criou o universo, tão destrutiva quanto a que um dia o extinguiria, Emily e Charlotte gritando, gritando...

     

A oeste do Deserto Pintado, fora de Flagstaff, Arizona, pouco antes das cinco horas da manhã de segunda-feira, rajadas de neve giram no céu e o ar frio é um bisturi penetrante que raspa seus ossos. A jaqueta de couro marrom que ele pegou no armário do homem morto no motorhome há menos de dezesseis horas atrás, em Oklahoma, não é pesada o bastante para mantê-lo aquecido na severidade do início da manhã. Ele treme enquanto enche o tanque do Honda numa bomba de self-service.

      Na Interestadual 40 de novo, ele começa a viagem de 560 quilômetros para Barstow, Califórnia. Sua compulsão de continuar avançando para oeste é irresistível. Ele se sente tão desamparado em seu poder quanto um asteróide capturado pela tremenda gravidade da terra e arrastado de maneira inexorável rumo a um impacto cataclísmico.

     

O terror ejetou-o para fora do sonho da escuridão e da ameaça desconhecida: Marty Stillwater sentou-se na cama. Sua primeira respiração para acordar foi tão explosiva que ele teve certeza de que havia despertado Paige, mas ela continuava dormindo, imperturbável. Ele estava com frio, mas banhado em suor.

      Pouco a pouco, seu coração parou de bater com tanta ferocidade. Com os números de brilho verde do relógio digital, a luz vermelha da caixa do cabo em cima da televisão e a luz ambiente das janelas, o quarto não estava tão preto quanto a planície de seu sonho.

      Mas ele não conseguia deitar-se. O pesadelo havia sido mais vivido e enervante do que qualquer outro que ele havia tido antes. O sono estava além de seu alcance.

      Deslizando para fora das cobertas, ele se arrastou descalço até a janela mais próxima. Examinou o céu acima dos telhados das casas do outro lado da rua como se alguma coisa naquela abóbada escura fosse acalmá-lo.

      Em vez disso, quando notou que o céu negro se iluminava com um profundo cinza-azulado ao longo do horizonte oriental, a aproximação da alvorada fez com que ele detectasse o mesmo medo irracional que sentira em seu gabinete na tarde de sábado. Quando as cores se moveram no céu, Marty começou a tremer. Ele tentou controlar-se, mas seu tremor ficou ainda mais violento. Não era a luz do dia que ele temia, mas alguma coisa que o dia estava trazendo, uma ameaça indizível. Ele podia senti-la indo em sua direção, buscando-o — o que era uma loucura, droga — e tremeu com tanta violência que foi obrigado a colocar uma das mãos no peitoral para firmar-se.

      — O que está errado em mim? — ele sussurrou em desespero. — O que está acontecendo, o que há de errado?

     

Hora após hora, a agulha do velocímetro oscila entre 140 e 160 km. O volante vibra sob as palmas até suas mãos doerem. O Honda trepida, chocalha. Como não está acostumado a ser acionado com tanta força, o motor emite um guincho agudo e resoluto.

      Vermelho-ferrugem, branco-osso, amarelo-enxofre, a púrpura de veias dissecadas, seco como cinza, tão estéril quanto Marte, areia pálida com saliências reptilianas de rochas sarapintadas, manchadas com moitas esbranquiçadas de algarobeira: a firmeza cruel do Deserto Mojave tem uma aridez majestosa.

      Como seria inevitável, o matador pensa em velhos filmes sobre colonizadores movendo-se para o oeste em caravanas de carroças. E percebe pela primeira vez quanta coragem era necessária para fazer essa viagem naqueles veículos frágeis, confiando suas vidas à saúde e energia dos cavalos de tiro.

      Filmes. Califórnia. Ele está na Califórnia, o lar dos filmes.

      Seguir, seguir, seguir.

      De tempos em tempos, o miado involuntário escapa dele. O som parece o de um animal prestes a morrer de desidratação avistando um bebedouro, arrastando-se em direção ao tanque que oferece salvação, mas com medo de morrer antes de poder satisfazer a sede.

     

Paige e Charlotte já estavam na garagem, entrando no carro, quando ambas gritaram:

      — Emily, vamos!

      Quando Emily se afastou da mesa do café da manhã e começou a andar em direção à porta aberta que ligava a cozinha à garagem, Marty pegou-a pelo ombro e virou-a para encará-lo.

      — Espere, espere, espere.

      — Oh — disse ela —, eu esqueci — e contraiu a boca para um beijo.

      — Isso vem em segundo lugar — disse ele.

      — O que vem em primeiro?

      — Isto — ele se agachou sobre um joelho, descendo ao nível dela e, com uma toalha de papel, enxugou-lhe o bigode de leite.

      — Oh, que indecência — falou ela.

      — Estava atraente.

      — Parece mais a Charlotte.

      Ele levantou as sobrancelhas.

      — Como?

      — Ela é a bagunceira.

      — Não seja rude.

      — Ela sabe disso, pai.

      — Mesmo assim.

      Paige chamou de novo da garagem.

      Emily beijou-o e ele disse:

      — Não crie problemas para sua professora.

      — Não mais do que ela cria para mim — ela respondeu.

      Num impulso ele puxou-a contra seu corpo, abraçou-a com força, relutando em soltá-la. O odor limpo de sabonete e de xampu de criança estavam aderidos nela; leite e aroma de aveia de Cheerios impregnavam seu hálito. Ele nunca antes havia sentido cheiro mais doce, melhor. As costas da menina eram assustadoramente pequenas sob sua mão. Ela era tão delicada que ele podia sentir o batimento de seu jovem coração tanto através de seu peito — pressionado contra ele — como através da omoplata e da espinha em sua mão. Ele estava tomado pela sensação de que alguma coisa terrível iria acontecer e que jamais a veria outra vez, se permitisse que ela saísse de casa.

      Ele tinha que deixá-la ir embora, claro — ou explicar sua relutância, coisa que não podia fazer.

       Querida, veja bem, o problema é que tem alguma coisa errada na cabeça do papai, e eu fico tendo esses pensamentos assustadores, como esse que vou perder você, Charlotte e mamãe. Bem, sei que nada vai acontecer, não de verdade, porque o problema todo está na minha cabeça, como um enorme tumor ou algo parecido. Você sabe soletrar “tumor”? Sabe o que é isso? Bem, vou procurar um médico e mandar cortar isso, cortar esse tumor mau, depois não ficarei mais assustado por motivo nenhum....

      Ele não se atrevia a dizer nada parecido. Só iria assustá-la.

      Deu-lhe um beijo na face quente e macia e soltou-a.

      Ela parou junto à porta da garagem e olhou para trás na direção dele.

      — Tem mais poema hoje à noite?

      — Pode apostar.

      Ela disse:

      — Salada de rena...

      — ... sopa de rena...

      — ... todo tipo de saborosas...

      — ... comidas de rena — concluiu Marty.

      — Sabe de uma coisa, papai?

      — O quê?

      — Você é bobo demais.

      Emily entrou na garagem dando uma risadinha. O catapum da porta se fechando atrás dela foi o som mais derradeiro que Marty escutou

      Ele olhou fixo para a porta, desejando não correr até lá para abri-la e gritar para que elas voltassem para casa.

      Ele ouviu a grande porta da garagem abrir-se rolando para cima.

      O motor do carro foi acelerado, o escape explodiu, pegou, rodou um pouco enquanto Paige pressionava o acelerador antes de engrenar a ré.

      Marty correu para fora da cozinha, atravessou a sala de jantar, entrou na sala de estar. Foi até uma das janelas da frente, de onde podia ver a entrada de carros. As persianas estavam dobradas para fora da janela, de modo que ele pôde parar a alguns passos do vidro.

      O BMW branco rodou de ré na estradinha, saiu da sombra da casa e entrou na luz do sol do fim de novembro. Emily viajava na frente com a mãe e Charlotte no assento traseiro.

      Enquanto o carro recuava ao longo da rua flanqueada de árvores, Marty aproximou-se tanto da janela da sala de estar que a testa encostou no vidro frio. Ele tentou manter a família à vista o maior tempo possível, como se elas pudessem sobreviver a qualquer coisa — até mesmo a queda de aviões e explosões nucleares —, desde que ele não as perdesse de vista.

      Sua última visão do BMW foi através de um súbito véu de lágrimas quentes, que ele mal conseguiu reprimir.

      Perturbado com a intensidade de sua reação emocional à partida da família, ele se afastou da janela e disse em tom irado:

      — Que droga está acontecendo comigo?

      Afinal de contas, as meninas estavam apenas indo à escola e Paige ao escritório, para onde iam todos os dias da semana. Seguiam uma rotina que nunca antes fora perigosa, e ele não tinha nenhuma razão lógica para acreditar que fosse perigosa hoje — ou algum dia.

      Ele olhou para o relógio de pulso. 7:48.

      Faltavam pouco mais de cinco horas para seu encontro com o Dr. Guthridge, mas isso pareceu uma extensão de tempo interminável. Qualquer coisa podia acontecer em cinco horas.

     

Setas para Ludlow, para Daggett.

      Seguir, seguir, seguir.

      9:04, horário padrão do Pacífico.

      Barstow. Uma cidade seca e descorada numa terra seca e dura. Diligências pararam aqui há muito tempo. Pátios da estrada de ferro. Rios sem água. Estuque rachado, pintura descascando. O verde das árvores desaparecendo pela perpétua camada de pó nas folhas. Motéis, restaurantes de fast food, mais motéis.

      Um posto de combustíveis. Gasolina. Sanitário. Balas confeitadas. Duas latas de Coca.

      Empregado amigável demais. Conversador. Lento para dar o troco. Olhinhos de porco. Bochechas gordas. Odeio ele. Cale a boca, cale a boca, cale a boca.

      Devia ter atirado nele. Devia ter explodido sua cabeça. Satisfatório. Não posso correr esse risco. Gente demais em volta.

      Na estrada de novo. Interestadual 15. Oeste. Balas confeitadas e Coca a 130 por hora. Planícies desoladas. Colinas de areia, xisto. Rochas vulcânicas. Árvores-da-pureza de muitos braços fazendo sentinela.

      Como um peregrino rumo a um lugar sagrado, como um lemingue para o mar, como um cometa em seu curso eterno, para oeste, para oeste, tentando correr mais que o sol em busca do oceano.

 

Marty tinha cinco armas.

      Não era um caçador ou colecionador. Não praticava tiro ao prato nem fazia tiro ao alvo para se divertir. Ao contrário de muitas pessoas que conhecia, não se armara por medo do colapso social — embora às vezes visse sinais disso em toda parte. Nem ao menos poderia dizer que gostava de armas, mas reconhecia a necessidade delas num mundo problemático.

      Havia adquirido as armas uma a uma com propósitos de pesquisa. Como romancista de mistério que escrevia sobre tiras e matadores, ele acreditava ter a obrigação de conhecer o assunto sobre o qual escrevia. Como não possuía o hobby da arma, dispunha de uma quantidade de tempo limitada para pesquisar todos os aspectos e temas que um romance abordava — sendo inevitáveis pequenos enganos de vez em quando —, mas ele se sentia mais confortável escrevendo sobre uma arma se já tivesse atirado com ela.

      Em sua mesinha-de-cabeceira, ele mantinha um revólver Korth .38 descarregado e uma caixa de balas. Produzido na Alemanha, o Korth era uma arma feita à mão da mais alta qualidade. Depois de aprender a usá-la para um romance intitulado O Crepúsculo Mortal, ele a conservara para a defesa da casa.

      Ele e Paige haviam levado as meninas várias vezes a um stand de tiro fechado para assistir tiro ao alvo, instilando nas filhas um profundo respeito pelo revólver. Quando Emily e Charlotte tivessem idade suficiente, ele as ensinaria a usar uma arma, embora menos potente e com menos recuo do que o Korth. Os acidentes com armas de fogo sempre resultam da ignorância. Na Suíça, onde cada cidadão do sexo masculino era requisitado a possuir uma arma de fogo para defender o país em tempos de crise a instrução de tiro era universal e os acidentes trágicos extremamente raros.

      Ele tirou o .38 da mesinha-de-cabeceira, carregou-o e levou-o para a garagem, guardando-o no porta-luvas de seu segundo carro, um Ford Taurus verde. Ele o queria para proteção e para o encontro às 13:00 com o Dr. Guthridge.

      Uma espingarda Mossberg cano 12, um rifle Colt M16 A2 e duas pistolas — uma Beretta modelo 92 e um Smith & Wesson 5904 — estavam guardados em suas caixas originais dentro de um armário de metal trancado num canto da garagem. Também havia caixas de munição em todos os calibres requeridos. Ele desembalou cada arma, que havia sido limpa e lubrificada antes de ser guardada, e carregou-as.

      Colocou a Beretta na cozinha, num armário alto ao lado do fogão, em frente a um par de pratos de cerâmica. As meninas não encontrariam a arma por acaso, antes que ele convocasse uma conferência familiar para explicar as razões dessas precauções extraordinárias — se pudesse explicar.

      O M16 foi para uma prateleira superior no armário da saleta de entrada, ao lado da porta da frente. Colocou o Smith & Wesson na escrivaninha de seu gabinete, na segunda gaveta à direita, e deslizou a Mossberg para baixo da cama no quarto de dormir.

      Durante esses preparativos, ele se preocupou com a possibilidade de estar perturbado, armando-se contra uma ameaça que não existia. Considerando-se a fuga de sete minutos que experimentara no domingo, meter-se com armas era a última coisa que ele devia estar fazendo.

      Ele não tinha nenhuma prova de perigo iminente. Operava apenas por instinto, era uma formiga-soldado construindo fortificações de maneira descuidada. Nada disso acontecera com ele antes. Por natureza, era um pensador, um planejador, um homem que meditava e, por último, um homem de ação. Mas aquilo era um dilúvio de respostas instintivas e ele tinha sido arrastado.

      Depois, tão logo terminou de esconder a espingarda debaixo da cama do quarto, as preocupações sobre sua condição mental foram repentinamente superadas devido a uma outra consideração, A atmosfera opressiva de seu sonho recente se instalava nele de novo, a sensação de que algum peso terrível caía sobre ele a uma velocidade assassina. O ar pareceu engrossar-se. Foi quase tão ruim quanto no sonho. E estava ficando pior.

      Deus, ajudai-me, ele pensou — e não sabia se pedia proteção contra algum inimigo desconhecido ou contra impulsos sombrios dentro dele.

     

— Eu preciso...

      Demônios do pó. Dançando no deserto alto.

      A luz do sol brilhando em garrafas quebradas ao longo da estrada.

      A coisa mais rápida na estrada. Carros e caminhões passavam. A paisagem era um borrão. Cidades espalhadas, todas borrões.

      Mais rápido, mais rápido. Como se estivesse sendo sugado por um buraco negro.

      Passando por Victorville.

      Passando por Apple Valley.

      Através do Desfiladeiro Cajon a 1.200 metros acima do nível do mar.

      Depois descendo. Passando por San Bernardino. Pegando a Riverside Freeway.

      Riverside. Carona.

      Através das montanhas Santa Ana.

      — Eu preciso ser...

      Ao sul. A Costa Mesa Freeway.

      A cidade de Orange. Tustin. No labirinto suburbano do sul da Califórnia.

      Um magnetismo poderoso atraindo, atraindo de maneira implacável.

      Mais do que magnetismo. Gravidade. Descendo ao vórtice do buraco negro.

      Mudança para a Santa Ana Freeway.

      Boca seca. Um amargo gosto metálico. O coração batendo feroz, o pulso latejando nas têmporas.

      — Eu preciso ser alguém.

      Mais rápido. Como se estivesse amarrado a uma âncora maciça numa corrente infinita, mergulhando direto nas profundezas sem luz da vala de um oceano sem fundo.

      Passando Irvine, Laguna Hills, El Toro.

      Para o centro negro do mistério.

      — ... preciso... preciso... preciso... preciso... preciso...

      Mission Viejo. Isso existe. Sim.

      Para fora da auto-estrada. Procurando o ímã. A atração enigmática.

      Todo o trajeto desde Kansas City para descobrir o desconhecido, para descobrir esse futuro estranho e maravilhoso. Lar. Identidade. Sentido.

      Virar à esquerda aqui, dois quarteirões, virar à direita. Ruas desconhecidas. Mas para encontrar o caminho, ele só precisa entregar-se ao poder que o atrai.

      Casas mediterrâneas. Gramados cuidados com esmero. Sombras de palmeiras nas paredes de estuque amarelo-claro.

      Aqui.

      Aquela casa.

      Para o meio-fio. Parar. Meio quarteirão de distância.

      Apenas uma casa como as outras. Exceto que. Alguma coisa lá dentro. O que ele sentiu na distante Kansas. O que o atrai. Alguma coisa.

      A atração.

      Lá dentro.

      Esperando.

      Um atônito grito de triunfo escapou de sua boca e ele tremeu violentamente de alívio. Já não precisa mais procurar seu destino. Embora ele ainda não saiba o que pode ser, tem certeza de que encontrou e se curva no assento, com as mãos suadas deslizando para fora do volante, contente por estar no fim da longa jornada.

      Ele está mais excitado do que já esteve antes, cheio de curiosidade; entretanto, finalmente liberto do férreo aperto da compulsão, ele perde o senso de urgência. O coração que martelava desacelera, voltando a um número normal de batimentos por minuto. Seus ouvidos param de zumbir, e ele consegue respirar de maneira mais profunda e ritmada do que nos últimos cinqüenta quilômetros. Num tempo espantosamente curto, ele está tão calmo e contido quanto esteve na enorme casa de Kansas City, onde compartilhou agradecido das suaves intimidades da morte com o homem e a mulher na antiga cama georgiana.

     

No momento em que Marty pegou as chaves do Taurus no quadro da cozinha, caminhou para a garagem, trancou a porta da casa e apertou o botão para levantar a porta automática da garagem, sua consciência do perigo iminente era tão aguda e angustiante que ele estava à beira de um pânico cego. Na servidão febril da paranóia, ele se convencera de que era caçado por um inimigo misterioso, que empregava não apenas os cinco sentidos habituais, mas também meios Paranormais, conceito bastante maluco, pelo amor de Deus, direto da National Enquirer, maluco mas inevitável porque, de fato, podia sentir uma presença... uma violenta presença à espreita que tinha conhecimento dele, o pressionava, sondava. Ele sentiu como se um líquido viscoso esguichasse com tremenda pressão em seu crânio, comprimindo seu cérebro, tirando-lhe a consciência. Um efeito físico muito real também fazia parte disso, pois ele estava tão pesado quanto um mergulhador de fundo de oceano sob a esmagadora tonelagem de água, as juntas doendo, músculos queimando, pulmões relutando em expandir e aceitar outra respiração. Uma extrema sensibilidade a qualquer estimulante quase o incapacitava: o matraquear duro da porta da garagem subindo era de arrebentar os ouvidos; a luz do sol intrusa queimava seus olhos; e um odor de mofo — em geral fraco demais para ser detectado — explodiu como uma venenosa nuvem de esporos num canto da garagem, tão penetrante que o deixou com náuseas.

      O acesso passou num instante, e ele recuperou o pleno controle de si mesmo. Embora tivesse parecido que seu crânio iria explodir, a pressão interna cessou de forma tão abrupta quanto surgira, e ele já não mais oscilava à beira da inconsciência. Desaparecera a dor em suas juntas e músculos, e a luz do sol não furava seus olhos. Foi como sair de um pesadelo de um estalo — só que ele estava desperto em ambos os lados do estalo.

      Marty recostou-se no Taurus. Receava acreditar que o pior tinha passado, esperando tenso que uma outra onda inexplicável de terror paranóico caísse sobre ele.

      Olhou para fora da garagem sombria, para a rua que era ao mesmo tempo familiar e estranha, quase esperando que um fantasma monstruoso saísse do pavimento ou descesse do ar encharcado de sol, uma criatura desumana e implacável, feroz e inclinada à sua destruição, espectro invisível de seu pesadelo agora tornado carne.

      Sua confiança não retornou e ele não conseguia parar de tremer, mas aos poucos sua apreensão caiu a um nível tolerável e ele se perguntou se teria o atrevimento de dirigir. E se um espasmo de medo igualmente desorientador o atingisse quando estivesse atrás do volante? Ele não tomaria conhecimento de sinais vermelhos, do tráfego correndo em sentido contrário e de riscos de todos os tipos.

      Mais do que nunca, ele precisava ver o Dr. Guthridge.

      Ele considerou se devia voltar para casa e chamar um táxi. Mas ali não era Nova York, com ruas abarrotadas de táxi; no sul da Califórnia, as palavras “serviço de táxi” eram freqüentemente um oxímoro. No momento em que pudesse chegar de táxi ao consultório do Dr. Guthridge, talvez já tivesse perdido a consulta.

      Ele entrou no carro, ligou o motor. Com cautelosa concentração, saiu de ré da garagem e alcançou a rua, manejando o volante com tanta firmeza quanto um velho de noventa anos consciente da fragilidade de seus ossos e do fio tênue de sua existência.

      Durante todo o trajeto até o consultório do médico em Irvine, Marty Stillwater pensou em Paige, Charlotte e Emily. Por traição de sua própria carne fraca, podia lhe ser negada a satisfação de ver as meninas se tornarem mulheres, o prazer de envelhecer ao lado da esposa. Embora acreditasse num mundo depois da morte, onde a certa altura poderia reunir-se com aqueles que amou, a vida era tão preciosa que mesmo a promessa de uma eternidade feliz não compensaria a perda de alguns anos deste lado da cortina.

 

A meio quarteirão de distância, o matador observa o carro sair devagar da garagem.

      Quando o Ford se afasta e desaparece aos poucos na luz do sol outonal cor de vinagre dourado, ele percebe que o ímã que o atraiu de Kansas estava naquele carro. Talvez seja o homem visto de modo obscuro atrás do volante — embora possa não ser uma pessoa, mas sim um talismã escondido em algum lugar do veículo, um objeto mágico além de sua compreensão e ao qual seu destino está ligado por razões que, por enquanto, ainda não estão claras.

      O matador quase liga o Honda para seguir a atração, mas decide que o estranho no Ford irá retornar mais cedo ou mais tarde.

      Ele coloca o coldre de ombro, enfia a pistola dentro dele e veste a jaqueta de couro.

      Retira do porta-luvas o estojo de couro com zíper que contém seu conjunto de ferramentas de arrombador. O estojo inclui sete pinças com mola de aço, um tensor em forma de L e uma lata de aerosol em miniatura com lubrificante de grafite.

      Ele sai do carro e avança ousado pela calçada em direção à casa.

      No final da estradinha de carros há uma caixa de correios branca na qual está escrito um único nome — STILLWATER. Essas dez letras pretas parecem possuir poder simbólico. Still water. Água tranqüila. Calma. Paz. Ele encontrou águas tranqüilas. Enfrentou muita turbulência, correntezas violentas e redemoinhos, e agora encontrou um lugar onde pode descansar, onde sua alma será aliviada.

      Ele abre o ferrolho de gravidade de um portão de ferro forjado entre a garagem e a cerca que limita a propriedade. Segue uma calçada flanqueada pela garagem à sua esquerda e uma sebe de eugênia da altura de um homem, à sua direita, por todo o trajeto até os fundos da casa.

      O insípido pátio dos fundos está cheio de plantas viçosas. Ele ostenta fícus maduros e uma continuação de sebe de eugênia do pátio lateral, que o defende dos olhos curiosos dos vizinhos.

      O pátio é protegido por uma coberta de madeira vermelha trançada de galhos espinhosos de buganvília. Mesmo nesse último dia de novembro, grupos de flores vermelho-sangue guarnecem o telhado do pátio. O chão de concreto está salpicado de pétalas caídas, como se ali tivesse sido travada uma dura batalha.

      Uma porta de cozinha e uma outra corrediça de vidro proporcionavam duas entradas possíveis do pátio. Ambas estão trancadas.

      A porta corrediça, atrás da qual ele pode ver uma sala de estar vazia, com mobília confortável e uma enorme televisão, ainda tem a segurança de uma estaca de madeira travada no trilho interior. Se ele passar pela fechadura, ainda assim terá que quebrar o vidro e estender a mão lá dentro para remover a estaca.

      Ele dá uma batida forte na outra porta, embora a janela ao lado revele que não há ninguém na cozinha. Como não há resposta, ele bate de novo, com o mesmo resultado.

      Ele tira a lata de grafite do estojo compacto de ferramentas de arrombador. Agacha-se diante da porta, borrifa o lubrificante na fechadura. Sujeira, ferrugem ou outra contaminação pode cegar as tranquetas.

      Ele troca o spray do grafite pelo tensor e pela ferramenta conhecida como “ancinho”. Insere primeiro a chave em forma de L para manter a tensão necessária no centro da fechadura. Enfia o ancinho no canal da chave o mais fundo que pode, depois leva-o para cima até senti-lo pressionar as cavilhas. Inclinando a fechadura, ele tira rápido o ancinho, mas este não levanta todas as tranquetas até o ponto de soltura, portanto ele tenta de novo e de novo e, finalmente, na sexta tentativa, o canal parece livre.

      Ele gira a maçaneta.

      A porta se abre.

      Ele quase espera que um sinal dispare, mas não há nenhuma sirene. Um rápido exame do umbral e do batente não revela nenhum interruptor magnético, de modo que tampouco deve haver um alarme silencioso.

      Após guardar as ferramentas e fechar o zíper do estojo de couro, ele atravessa a soleira e fecha a porta com um movimento suave.

      Durante algum tempo, fica parado numa cozinha fria e escura absorvendo as vibrações, que são boas. Essa casa lhe dá boas-vindas. Aqui começa seu futuro, que será incomensuravelmente mais brilhante do que o passado confuso e embaraçado pela amnésia.

      Quando ele sai da cozinha para explorar a casa, não saca a P7 do coldre do ombro. Está seguro de que não há ninguém em casa. Não sente nenhum perigo, só oportunidade.

      — Eu preciso ser alguém — ele diz para a casa, como se ela fosse uma entidade viva com poder para garantir seus desejos.

      O andar de baixo não oferece nada interessante. Os quartos habituais estão cheios de mobília confortável mas sem nada de singular.

      No andar de cima, ele pára apenas por breves momentos em cada quarto, obtendo um quadro geral da planta do segundo andar antes de tomar tempo para uma investigação pormenorizada. Há o quarto dos donos da casa, com banheiro contíguo, armário embutido... um quarto de hóspede... o quarto das crianças... outro banheiro...

      O último quarto de dormir no final do corredor — que o coloca na frente da casa — é usado como gabinete. Ele contém uma enorme escrivaninha e um sistema de computador, mas é mais aconchegante do que comercial. Um sofá gordo está debaixo da janela com persianas, um abajur com vitral em cima da escrivaninha.

      Uma das duas paredes mais longas é coberta de pinturas penduradas em fila dupla, com as molduras quase se tocando. Embora seja evidente que as peças da coleção sejam de mais de um artista, o tema é, sem exceção, sombrio e violento, realizado com habilidade impecável: sombras torcidas, olhos separados do corpo e arregalados de terror, um quadro de Quija sobre o qual está um tripé manchado de sangue, palmeiras negras como tinta com silhueta no agourento pôr-do-sol, um rosto deformado por um espelho de parque de diversões, brilhantes lâminas de aço de facas e tesouras afiadas, uma rua pobre onde figuras ameaçadoras espreitam do outro lado o brilho amarelo frio de lâmpadas de rua, árvores desfolhadas com galhos pretos, um corvo de olhos ardentes aboletado sobre um crânio descorado, pistolas, revólveres, espingardas, um picador de gelo, um cutelo de carne, machadinha, um martelo com estranha mancha tombado obscenamente sobre uma camisola de seda e lençol com laços...

      Ele gosta desse trabalho de arte.

      Significa algo para ele.

      Aquilo é a vida como ele conhece.

      Ele se afasta da parede de galeria, acende o abajur com vitral e se maravilha com sua beleza luminosa multicolorida.

      No vidro claro que protege o tampo da escrivaninha, os círculos, ovais e gotas de lágrimas da imagem do espelho ainda são encantadores, porém mais escuros do que quando vistos diretamente. De alguma maneira indefinível, eles também são agourentos.

      Reclinando-se para a frente, ele vê as ovais gêmeas de seus olhos fitando-o no vidro polido. Brilhando com os minúsculos reflexos do abajur-mosaico, eles não parecem ser olhos de fato, mas sim sensores luminosos de uma máquina — ou, se são olhos, os olhos febris de alguma coisa sem alma. Com um movimento rápido, ele desvia o olhar antes que um auto-exame exagerado atraia pensamentos terríveis e conclusões intoleráveis.

      — Eu preciso ser alguém — ele diz em tom nervoso.

      Seu olhar recai sobre uma fotografia com moldura de prata em cima da escrivaninha. Uma mulher e duas moças pequenas. Um lindo trio. Sorrindo.

      Ele pega a foto para examinar com mais atenção. Pressiona a ponta de um dedo contra o rosto da mulher e deseja poder tocá-la de verdade, sentir sua pele quente e flexível. Desliza o dedo pelo vidro, tocando primeiro a criança de cabelo louro e depois a fada de cabelo escuro.

      Após um ou dois minutos, quando se afasta da escrivaninha, está levando a foto consigo. Os três rostos são tão atraentes que ele precisa poder olhar para eles de novo sempre que surgir a vontade.

      Enquanto investiga os títulos nas lombadas dos volumes nas estantes, faz uma descoberta que lhe dá uma compreensão, ainda que incompleta, do motivo pelo qual foi atraído das cinzentas planícies outonais do Meio Oeste para o sol pós-Ação de Graças da Califórnia.

      Em algumas das prateleiras, os livros — romances de mistério — eram do mesmo autor: Martin Stillwater. O sobrenome que ele viu na caixa de correios lá fora.

      Ele põe de lado o retrato com moldura prateada e retira alguns desses romances das prateleiras, surpreso por ver que algumas das ilustrações das capas eram conhecidas, já que as pinturas originais estavam penduradas na parede da galeria que tanto o fascinou. Cada título aparece numa variedade de traduções: francês, alemão, italiano, holandês, sueco, dinamarquês, japonês e várias outras línguas.

      Mas nada é tão interessante quanto a foto do autor nas costas de cada capa. Ele as observa durante um longo tempo, seguindo as feições de Stillwater com um dedo.

      Intrigado, examina a cópia nas sobrecapas. Depois lê a primeira página de um livro, a primeira página de outro e de outro.

      Na frente de um dos livros, ele se depara com a página de dedicatória e lê o que está impresso: Esta obra é para minha mãe e meu pai, Jim e Alice Stillwater, que me ensinaram a ser um homem honesto — e que não podem ser culpados por eu ser capaz de pensar como um criminoso.

      A mãe e o pai. Atônito, ele olha fixo para os nomes. Não tem nenhuma lembrança deles, não pode imaginar seus rostos ou recordar onde poderiam morar.

      Ele retorna à escrivaninha para consultar o Rolodex. Descobre Jim e Alice Stillwater em Mammoth Lakes, Califórnia. O endereço de rua nada significa para ele, que se pergunta se aquela é a casa onde cresceu.

      Ele deve amar seus pais. Ele lhes dedicou um livro. No entanto, eles são cifras para ele. O quanto se perdeu.

      Ele retorna às prateleiras de livros. Abrindo a edição americana ou inglesa de cada título da coleção para estudar sua dedicatória, ele descobre em dado momento: Para Paige, minha mulher perfeita, em quem são baseados todos os meus melhores personagens femininos — exceto, claro, as psicopatas homicidas.

      E dois volumes depois: Para minhas filhas, Charlotte e Emily, com a esperança de que um dia leiam este livro, quando forem crescidas e souberem que o pai desta história fala ao meu próprio coração quando fala com tanta convicção e emoção sobre seus sentimentos por suas menininhas.

      Põe os livros de lado e torna a pegar a fotografia, segurando-a com ambas as mãos numa espécie de reverência.

      Com certeza a loura atraente é Paige. Uma mulher perfeita.

      As duas meninas são Charlotte e Emily, embora ele não tenha nenhum meio de saber quem é quem. Elas parecem doces e obedientes.

      Paige, Charlotte, Emily.

      Pelo menos ele encontrou sua vida. O lugar a que pertence. Aquele é seu lar. O futuro começa agora.

      Paige, Charlotte, Emily.

      Essa é a família para a qual o destino o levou.

      — Eu preciso ser Martin Stillwater — ele diz excitado, porque enfim encontrou seu lar nesse mundo frio e solitário.

 

O consultório do Dr. Paul Guthridge tinha três salas de exame. No decorrer dos anos, Marty passou por todas elas. Todas eram idênticas, não podiam ser diferenciadas das salas de consultórios de médicos do Maine ao Texas: parede azul-clara, acessórios de aço inoxidável e, fora isso, branco sobre branco; pia de lavar, cadeira, gráfico de um olho. O lugar tinha tanto charme quanto um necrotério — embora tivesse um cheiro melhor.

      Marty estava sentado no canto da mesa de exame acolchoada, protegida por um rolo contínuo de folha de papel. Estava sem camisa e a sala estava fria. Embora ainda estivesse de calças, sentia-se nu, vulnerável. No olho de sua mente, ele se viu tendo um ataque catatônico, incapaz de falar, mexer-se ou mesmo piscar o olho e assim o médico o confundiria com um morto, tiraria sua roupa, colocaria uma tarjeta de identificação no dedão do pé, fecharia suas pálpebras e o remeteria para o juiz investigador do processo.

      Embora ganhe a vida com a imaginação, um escritor de suspense tem mais consciência da proximidade da morte do que a maioria das pessoas. Cada cachorro era um potencial portador de raiva. Cada caminhonete estranha que passasse no bairro era dirigida por um psicopata sexual, que podia raptar e matar qualquer criança que fosse deixada sozinha por mais de três segundos. Cada lata de sopa na despensa era botulismo esperando para acontecer.

      Ele não sentia nenhum medo especial de médicos — embora tampouco se sentisse à vontade com eles.

      O que o perturbava era toda a idéia da ciência médica — não porque não confiasse nela, mas sim porque, de modo irracional, sua própria existência era uma lembrança de que a vida era tênue, a morte inevitável. Ele não precisava de lembranças. Já possuía uma consciência aguda da mortalidade, e passava a vida tentando agüentar isso.

      Determinado a não parecer um histérico enquanto descrevia os sintomas para Guthridge, Marty relatou as estranhas experiências dos últimos três dias com uma voz tranqüila e indiferente. Tentou usar termos clínicos e não emocionais, começando com a fuga de sete minutos em seu gabinete e terminando com o abrupto ataque de pânico que sofrera quando saía da casa para ir ao consultório.

      Guthridge era um excelente médico de doenças internas — em parte porque era um bom ouvinte —, ainda que não buscasse esse papel. Aos 45 anos, aparentava dez anos menos que essa idade e tinha maneiras juvenis. Nesse dia, usava tênis, calça de algodão e um suéter de Mickey Mouse. No verão preferia camisas com cores havaianas. Nas raras ocasiões em que usava o tradicional guarda-pó branco sobre calças largas, camisa e gravata, ele afirmava estar “brincando de médico” ou “em estrita experiência no comitê de código de roupa da Associação Médica Americana” ou “subitamente possuído pelas responsabilidades divinas do meu ofício”.

      Paige achava Guthridge um excelente médico, e as meninas o viam com um afeto especial, em geral reservado a um tio favorito.

      Marty também gostava dele.

      Ele suspeitava que as excentricidades do médico não eram totalmente calculadas para divertir os pacientes e deixá-los à vontade. Como Marty, Guthridge parecia ofender-se moralmente com o próprio fato da morte. Quando jovem, talvez tivesse sido atraído pela medicina porque via o médico como um cavaleiro lutando contra dragões encarnados em doenças e males. Os jovens cavaleiros pensam que as intenções nobres, a habilidade e a fé prevalecerão sobre o mal. Os cavaleiros mais velhos sabem melhor — e às vezes usam o humor como arma para afastar a amargura e o desespero. As brincadeiras e o suéter de Guthridge podiam relaxar seus pacientes, mas também eram sua armadura contra as duras realidades da vida e da morte.

      — Ataque de pânico? Você, entre todas as pessoas, sofrendo de um ataque de pânico? — perguntou Paul Guthridge em tom de dúvida.

      — Oxidação excessiva do sangue, coração batendo, achei que ia explodir... me parece ser um ataque de pânico — disse Marty.

      — Parece sexo.

      Marty sorriu.

      — Confie em mim, não foi sexo.

      — Talvez você tenha razão — disse Guthridge com um suspiro. — Já faz tanto tempo que não sei direito como é sexo. Creia-me, Marty, essa é uma péssima década para se ser solteiro, lá fora tem tantas doenças bastante sórdidas. Você conhece uma garota nova, marca um encontro com ela, dá um beijo inocente ao levá-la para casa... e depois espera para ver se seus lábios irão apodrecer e cair.

      — Imagem exagerada.

      — Vivida, hem? Talvez eu devesse ser escritor — ele começou a examinar o olho esquerdo de Marty com um oftalmoscópio. — Você tem tido dores de cabeça muito fortes?

      — Uma dor de cabeça no fim de semana. Mas nada incomum.

      — Vertigens repetidas?

      — Não.

      — Cegueira temporária, estreitamento da visão periférica?

      — Nada parecido.

      Mudando sua atenção para o olho direito, Guthridge disse:

      — Quanto a ser escritor... outros médicos já fizeram isso, você sabe. Michael Crichton, Robin Cook, Somerset Maugham...

      — Nossa!

      — Não seja sarcástico. Na próxima vez que eu tiver que lhe aplicar uma injeção, talvez eu use seringa de cavalo.

      — De qualquer modo, sempre parece que você usa. Vou dizer-lhe uma coisa: ser escritor não é tão romântico quanto as pessoas pensam.

      — Pelo menos você não precisa lidar com amostras de urina — disse Guthridge, pondo de lado o oftalmoscópio.

      Com imagens fantasmas irregulares da luz do instrumento ainda dançando em seus olhos, Marty disse:

      — Quando um escritor está começando, um bocado de editores e agentes o tratam como se ele fosse amostra de urina.

      — É isso aí, mas agora você é uma celebridade — disse Guthridge, colocando os fones do estetoscópio.

      — Longe disso — objetou Marty.

      Guthridge pressionou o aço frio do estetoscópio no peito de Marty.

      — Tudo bem, respire fundo... prenda a respiração... solte... agora de novo — após auscultar pulmões e o coração de Marty, o médico desfez-se do estetoscópio. — Alucinações?

      — Não.

      — Cheiros estranhos?

      — Não.

      — As coisas têm o sabor que devem ter? Quero dizer, você não andou tomando um sorvete que de repente passou a ter um gosto amargo ou de cebola, ou algo parecido com isso?

      — Nada parecido.

      Guthridge disse enquanto prendia a manga de pressão de um esfigmômetro no braço de Marty:

      — Bem, tudo que sei é que para aparecer na revista People você tem que ser uma celebridade de um tipo ou de outro... cantor de rock, ator, político bajulador, assassino ou talvez o sujeito com a maior coleção de cera de ouvido do mundo. Portanto, se você pensa que não é um autor celebridade, então quero saber quem você matou e a quantidade exata de cera de ouvido que possui.

      — Como você sabe da People?

      — Temos uma assinatura para a sala de espera — ele bombeou ar dentro da manga até enchê-la, depois fez a leitura do mercúrio descendente no medidor antes de continuar. — O último exemplar chegou na correspondência dessa manhã. Minha recepcionista me mostrou; divertido mesmo. Ela disse que você era o último Sr. Assassino que poderia imaginar.

      Confuso, Marty disse:

      — Sr. Assassino?

      — Você não viu a matéria? — perguntou Guthridge enquanto tirava a manga de pressão, pontuando a pergunta com o barulho desagradável de um selo de velcro sendo rasgado.

      — Não, ainda não. Eles não mostram antes da publicação. Você está dizendo que no artigo eles me chamam de Sr. Assassino?

      — Bem, esse tipo de graça.

      — Graça? — Marty estremeceu. — Eu me pergunto se Philip Roth acharia engraçado ser o “Sr. Literato” ou Terry McMillan a “Sra. Saga Negra”.

      — Você sabe o que eles dizem... toda publicidade é publicidade boa.

      — Essa foi a primeira reação de Nixon a Watergate, não foi?

      — Na verdade, temos duas assinaturas da People. Vou dar-lhe um exemplar quando você sair — Guthridge dá um sorriso demoníaco. — Sabe, antes de ler a revista, eu não havia notado o sujeito assustador que você é.

      Marty suspirou.

      — Eu tinha medo disso.

      — Mas, de fato, não é mau. Conhecendo você, suspeito que vai achar um pouco embaraçoso. Mas isso não vai matá-lo.

      — O que vai me matar, Doc?

      Guthridge disse, franzindo as sobrancelhas:

      — Baseado nesse exame, eu diria que a velhice. Por todos os sinais exteriores, você está em boa forma.

      — A palavra chave é “exteriores” — disse Marty.

      — Certo. Eu gostaria que você fizesse alguns testes. Vai ser no Hoag Hospital, na base do paciente externo.

      — Estou preparado — disse Marty em tom sombrio, embora não estivesse nem um pouco preparado.

      — Oh, não hoje. Eles só terão uma vaga amanhã, talvez só na quarta-feira.

      — O que você vai procurar com esses testes?

      — Tumores cerebrais, lesões. Graves desequilíbrios na química do sangue. Ou talvez uma mudança da posição da glândula pineal, fazendo pressão no tecido cerebral vizinho, o que poderia causar sintomas similares aos que está sentindo. Outras coisas. Mas não se preocupe com isso, porque tenho plena certeza de que vamos bater no vazio. O mais provável é que seu problema seja apenas estresse.

      — Foi o que Paige disse.

      — Está vendo? Você poderia ter economizado minha consulta.

      — Doc, seja franco comigo.

      — Estou sendo franco.

      — Não me importa dizer que isso me assusta.

      Guthridge acenou com a cabeça num gesto de simpatia.

      — Claro que sim. Mas, ouça, já vi sintomas muito mais estranhos e graves que os seus... e acabou sendo estresse.

      — Psicológico.

      — É, mas nada a longo prazo. Você não vai ficar maluco, se é o que o preocupa. Tente relaxar, Marty. No fim de semana vamos saber onde estamos — quando era preciso, Guthridge podia assumir um comportamento tão tranqüilizador — e uma conduta delicada tão calmante — quanto o de uma eminência médica de cabelos grisalhos, de terno e colete. Ele tirou a camisa de Marty de um cabide atrás de porta e entregou-a a ele. O leve brilho em seus olhos revelavam outra mudança de humor. — Pois bem, quando eu for reservar hora no hospital, que nome de paciente devo dar a eles? Martin Stillwater ou Martin Assassino?

 

Ele explora seu lar. Está ansioso para conhecer sua nova família.

      Como está mais intrigado com a idéia de ser pai, começa pelo quarto das meninas. Durante algum tempo, apenas fica parado do lado de dentro, examinando os dois lados bastante diferentes do aposento.

      Ele se pergunta qual de suas jovens filhas é a animada que decora as paredes com posters de deslumbrantes balões coloridos de ar quente e dançarinos saltitantes, que mantém um gerbo e outros animais de estimação em gaiolas de arame e viveiros de vidro. Ainda está segurando a foto de sua mulher e filhas, mas os rostos sorridentes nada revelam sobre suas personalidades.

      Ao que parece, a segunda filha é contemplativa, preferindo paisagens tranqüilas nas paredes. A cama está arrumada, os travesseiros só jogados. Os livros de história estão organizados nas prateleiras e a escrivaninha do canto não está bagunçada.

      Quando abre a porta do armário com espelho, descobre uma divisão parecida nas roupas penduradas. As roupas à esquerda estão arrumadas de acordo com o tipo e a cor. As da direita não têm nenhuma ordem especial; estão viradas nos cabides e amontoadas umas sobre as outras de uma maneira tal que certamente ficarão amassadas.

      Como os jeans e vestidos menores estão no lado esquerdo do armário ele pode ter certeza de que a menina arrumada e contemplativa é a mais nova das duas. Ele levanta a foto e olha fixo para ela. A fada. Tão engraçadinha. Ele ainda não sabe se ela é Charlotte ou Emily.

      Ele vai até a escrivaninha no lado da filha mais velha e fita a desordem: revistas, livros escolares, uma fita amarela e um pregador de cabelo, alguns bastões espalhados de chiclete Black Jack, lápis de cor, um emaranhado par de meias compridas cor-de-rosa, uma lata vazia de Coca, moedas e um Game Boy.

      Ele abre um dos livros didáticos, depois outro. Ambos têm o mesmo nome escrito na frente: Charlotte Stillwater.

      A mais velha e menos disciplinada é Charlotte. A mais nova que mantém seus pertences arrumados é Emily.

      Ele olha de novo para os rostos na fotografia.

      Charlotte é bonita e seu sorriso é doce. Entretanto, se vai haver encrenca com alguma das meninas, será com essa.

      Ele não vai tolerar desordem em sua casa. Tudo precisa ser perfeito. Arrumado e limpo e feliz.

      Em solitários quartos de hotéis em cidades estranhas, desperto na escuridão, ele sofrera com a necessidade sem compreender o que poderia satisfazer sua ânsia. Agora sabe que ser Martin Stillwater — pai daquelas meninas, marido de sua mulher — é o destino que preencherá o terrível vazio e enfim lhe dará contentamento. Ele está agradecido ao poder que o trouxe até ali, e está determinado a cumprir suas responsabilidades para com sua esposa, suas filhas e a sociedade. Quer uma família ideal como as que viu em certos filmes prediletos, deseja ser terno como Jimmy Stewart em A Felicidade Não se Compra e sábio como Gregory Peck em To Kill a Mockingbird e respeitado como os dois, e fará o que for preciso para garantir um lar encantador, harmonioso e ordeiro.

      Ele também assistiu a The Bad Seed e sabe que algumas crianças podem destruir um lar e toda a esperança de harmonia, perturbadas com o potencial para o mal. Os hábitos relaxados de Charlotte e a estranha coleção de animais indicam a sua propensão à desobediência e talvez à violência.

      Quando cobras aparecem em filmes, são sempre símbolos de maldade, perigosas para os inocentes; portanto a cobra no viveiro é prova segura da perversão da menina e de sua necessidade de ter orientação. Ela também tem outros répteis, um par de roedores e um feio besouro preto num vaso de vidro — sendo que os filmes lhe ensinaram que todos eles devem ser associados aos poderes das trevas.

      Ele examina de novo a foto, maravilhando-se com a aparência inocente de Charlotte.

      Mas lembra-se da menina em The Bad Seed. Ela parecia ser um anjo; no entanto, era completamente má.

      Ser Martin Stillwater podia não ser tão fácil quanto ele tinha pensado. Charlotte podia ser bastante difícil.

      Por sorte, ele havia visto Lean on Me, no qual Morgan Freeman é diretor de uma escola secundária que impõe ordem num estabelecimento dominado pela anarquia, e The Principal, com Jim Belushi, por isso sabe que mesmo os garotos maus querem, de fato, disciplina. Eles responderão de maneira adequada, se os adultos tiverem a coragem de insistir nas regras do comportamento.

      Se Charlotte for desobediente e teimosa, ele a punirá até ela aprender a ser uma boa menininha. Não fracassará com ela. No começo, ela vai odiá-lo por negar seus privilégios, por confiná-la no quarto, por machucá-la se for necessário, mas com o tempo ela verá que ele nutre o melhor dos interesses em seu coração e aprenderá a amá-lo e compreenderá que ele é sábio.

      De fato, ele consegue visualizar o momento triunfante em que, depois de muita luta, a reabilitação dela fica assegurada. A certeza de que estava errada e de que ele tem sido um bom pai culminará numa cena comovente. Os dois vão chorar. Ela se jogará em seus braços, cheia de remorsos e vergonha. Ele a abraçará com força e dirá que está tudo bem, tudo bem, não chore. E ela dirá “oh, papai” com voz trêmula e se agarrará com força nele; depois tudo ficará bem entre eles.

      Ele anseia por esse doce triunfo. Até consegue ouvir a música sublime e emocionante que acompanhará a cena.

      Ele se afasta do lado de Charlotte e vai para a cama arrumada da filha mais nova.

      Emily. A fada. Ela jamais dará problema algum para ele. Ela é a boa filha.

      Ele a segurará no colo e lerá os livros de história. Ele a levará ao zoológico, e a pequenina mão dela ficará perdida na sua. Ele comprará pipocas nos filmes, e os dois ficarão sentados lado a lado na escuridão, rindo do último desenho animado de Disney.

      Os enormes olhos escuros dela vão adorá-lo.

      Doce Emily. Querida Emily.

      Ele puxa a colcha de chenille num gesto quase reverente. O lençol. O lençol de cima. Olha para o lençol de baixo no qual ela dormiu na noite anterior, e os travesseiros nos quais repousou sua delicada cabeça.

      Seu coração cresce de afeição, ternura.

      Ele coloca uma das mãos no lençol, desliza para cima e para baixo, de um lado para o outro, sentindo o tecido no qual seu corpo jovem esteve deitado há tão pouco tempo atrás.

      Ele vai cobri-la na cama todas as noites. Ela pressionará sua boca pequena em seu rosto, beijinhos tão doces e quentes, e seu hálito terá o doce aroma de hortelã da pasta de dentes.

      Ele se reclina para cheirar os lençóis.

      — Emily — diz em voz baixa.

      Oh, como anseia ser seu pai e olhar naqueles olhos escuros porém límpidos, aqueles olhos grandes e adoráveis.

      Com um suspiro, ele volta para o lado do quarto de Charlotte. Deixa cair a foto com moldura prateada da família em cima da cama, e examina as criaturas mantidas em prateleiras sem livros.

      Algumas das coisas selvagens o observam.

      Ele começa com o gerbo. Quando abre a porta e enfia a mão dentro da gaiola, a tímida criatura se protege num canto distante, paralisada de medo, percebendo a intenção dele. Ele pega o animal, retira-o da gaveta. Embora o gerbo tente libertar-se contorcendo-se, ele segura seu corpo com firmeza na mão direita, a cabeça na mão esquerda, e puxa com força, quebrando o seu pescoço. Um som fraco, seco. O grito é penetrante, mas breve.

      Ele atira o gerbo morto na colcha de cores vivas.

      Esse vai ser o começo da disciplina de Charlotte.

      Ela vai odiá-lo por isso. Mas só por algum tempo.

      Logo ela perceberá que aqueles não são animais apropriados para uma menininha. Símbolos do mal. Répteis, roedores, besouros. O tipo de criaturas que as bruxas usam como amigas para se comunicar com Satã.

      Ele aprendeu tudo sobre os animais domesticados das bruxas nos filmes de terror. Se houver um gato na casa, ele também o matará sem hesitar, porque às vezes eles são engraçados e inocentes, como gatos e nada mais, mas às vezes são a própria cria do inferno. Ao convidar essas criaturas para sua casa, você se arrisca a estar convidando o próprio diabo.

      Um dia Charlotte entenderá. E será grata a ele.

      Um dia ela o amará.

      Todos o amarão.

      Ele será um bom marido e pai.

      Muito menor que o gerbo, o assustado camundongo treme em seu punho, com o rabo pendendo abaixo de seus dedos fechados, apenas com a cabeça de fora. O animal esvazia sua bexiga. Ele faz uma careta por causa da umidade quente e, com aversão, aperta com toda força, esmagando a pequena besta imunda.

      Ele joga o animal ao lado do gerbo morto na cama.

      A inofensiva cobra de jardim no viveiro, de vidro não faz nenhum esforço para se esquivar dele. Ele a segura pela cauda e bate como se ela fosse um chicote, bate outra vez, depois a chicoteia com força contra a parede, outra vez e uma terceira vez. Quando a balança diante do rosto, a cobra está totalmente flácida e seu crânio esmagado.

      Ele a enrola ao lado do gerbo e do camundongo.

      O besouro e a tartaruga fazem um gostoso barulho de esmigalhamento quando ele os esmaga sob o salto do sapato. Ele arruma os restos gotejantes sobre a colcha.

      Só o lagarto consegue escapar. Quando ele tira a porta do viveiro e estende a mão na direção do animal, o camaleão corre sobre seu braço, mais rápido do que o olho, e salta de seu ombro. Ele gira à procura do bicho, descobrindo-o sobre o toucador próximo, onde ele desliza entre uma escova de cabelo e um pente e entra numa caixa de jóias. Fica paralisado e começa a mudar de cor para igualar-se ao ambiente, mas quando ele tenta apanhá-lo, o animal se afasta em disparada, sai do toucador, vai para o chão, atravessa o quarto, passa por baixo da cama de Emily e desaparece de vista.

      Ele decide deixar o animal de lado.

      Talvez seja melhor assim. Quando Paige e as meninas chegarem em casa, os quatro vão procurá-lo juntos. Quando o encontrarem, ele o matará na frente de Charlotte, ou talvez peça para que ela o mate. Pode ser uma boa lição. Depois disso, ela não levará mais animais de estimação impróprios para a casa Stillwater.

 

No estacionamento do lado de fora do complexo comercial de estilo espanhol de três andares onde o Dr. Guthridge mantém seu consultório, enquanto um vento tempestuoso fustiga folhas mortas pelo pavimento, Marty estava sentado em seu carro lendo o artigo da People. Duas fotos e o texto espalhavam-se em três páginas da revista. Pelo menos nos poucos minutos que ele levou para ler a matéria, todas as outras preocupações foram esquecidas.

      Embora ele já o conhecesse, o título em letras pretas levou-o a encolher-se — SR. ASSASSINO —, mas o subtítulo em letras menores deixou-o embaraçado: NO SUL DA CALIFÓRNIA, O ROMANCISTA DE MISTÉRIO MARTIN STILLWATER VÊ TREVAS ONDE OUTROS SÓ VÊEM LUZ DO SOL.

      Ele sentiu que isso o retratava como um pessimista sorumbático, que se vestia todo de preto e ficava à espreita nas praias e entre as palmeiras, olhando furioso para as pessoas que se atreviam a se divertir, comentando tediosamente a torpeza inerente à espécie humana. Na melhor das hipóteses, deduzia-se que ele era um impostor teatral, que ostentava o que pensava ser a imagem mais comercial para um romancista de mistério.

      Talvez ele estivesse tendo uma reação exagerada. Paige diria que ele era sensível demais com essas coisas. Era o que ela sempre dizia e, em geral, o fazia sentir-se melhor, pudesse ele acreditar ou não.

      Martin examinou as fotos antes de ler a matéria.

      Na primeira foto, a maior, ele estava no pátio atrás da casa contra o pano de fundo de árvores e o céu crepuscular. Tinha uma aparência de demente.

      O fotógrafo, Ben Walenko, recebera instruções para induzir Martin a fazer uma pose que se julgava adequada para um romancista de mistério, de modo que chegara com adereços que supunha que Martin brandiria com expressões impregnadas de intenção malévola: um machado, uma enorme faca, um picador de gelo e um revólver. Como Martin recusou-se educadamente a usar os adereços, e também a vestir uma capa com a gola virada para cima com um chapéu “diplomata” caído na testa, o fotógrafo concordou que era ridículo um adulto brincar de disfarce e sugeriu que evitassem os lugares-comuns habituais em favor de fotos que o mostrassem como um simples escritor e um ser humano comum.

      Agora ficou óbvio que Walenko fora esperto o bastante para conseguir o que queria sem os adereços, após enganar seu objeto e dar-lhe uma falsa sensação de segurança. O pátio dos fundos parecera um cenário inócuo. Entretanto, por meio de uma combinação de sombras profundas de árvores sombrias e escuras, nuvens agourentas iluminadas por trás pela derradeira luz do dia, a colocação estratégica de luzes de estúdio e um extremo ângulo de câmara, o fotógrafo conseguiu fazer Marty parecer esquisito. Além disso, das vinte fotos feitas no pátio dos fundos, os editores tinham escolhido a pior: Marty tinha os olhos meio fechados, as feições deformadas, as luzes do fotógrafo se refletindo em olhos semicerrados que pareciam brilhar como os olhos de um zumbi.

      A segunda foto foi tirada em seu gabinete. Martin estava sentado na escrivaninha de frente para a câmera. Ele estava reconhecível nessa foto, embora agora preferisse não reconhecer-se, pois parecia que a única maneira de ele poder manter um fio de dignidade era fazer com que sua verdadeira aparência permanecesse um mistério; uma combinação de sombras e a luz peculiar do abajur com vitral, mesmo numa foto em preto-e-branco, fizeram-no assemelhar-se a cigano adivinho que vislumbrara um presságio de desgraça em sua bola de cristal.

      Ele estava convencido de que uma grande quantidade dos problemas do mundo moderno podia ser atribuída à saturação da sociedade pelos meios de comunicação e à sua tendência a não apenas simplificar toda as questões ao ponto do absurdo, mas também a confundir ficção e realidade. Os noticiários das televisões enfatizavam a extensão dramática em detrimento dos fatos, o sensacionalismo em detrimento da substância, procurando índices de audiência com as mesmas ferramentas empregadas pelos produtores dos filmes policiais do horário nobre e dos dramas dos tribunais. Os documentários sobre figuras históricas reais se tornaram “docudramas”, nos quais detalhes exatos de vidas e acontecimentos famosos sempre eram subordinados aos valores do entretenimento ou mesmo às fantasias pessoais dos criadores do espetáculo, causando grandes distorções no passado. Medicamentos eram vendidos em comerciais de tevê por atores, que também atuavam como médicos em programas de grande audiência, como se de fato se tivessem formado na Faculdade de Medicina de Harvard, em vez de apenas terem freqüentado um ou dois cursos de interpretação. Políticos faziam aparições em episódios de comédias. Atores dessas mesmas comédias apareciam em comícios políticos. Não fazia muito tempo que um vice-presidente dos Estados Unidos tivera uma discussão prolongada com um repórter ficcional da televisão de um programa de comédia. O público confundia atores e políticos com os papéis que eles interpretavam. Supunha-se que um escritor de mistério não fosse apenas parecido com um personagem de um de seus livros, mas sim com o arquétipo caricato do personagem mais comum de todo o gênero. Ano problemático após ano problemático, cada vez menos pessoas eram capazes de pensar com clareza sobre questões importantes, ou separar a fantasia da realidade.

      Marty estava determinado a não contribuir com essa doença, mas foi ludibriado. Agora fora fixado na mente do público como Martin Stillwater, autor arrepiante e misterioso de arrepiantes mistérios de assassinato, preocupado com o lado sombrio da vida, era tão estranho e taciturno quanto qualquer um dos personagens sobre os quais escrevia.

      Mais cedo ou mais tarde, um cidadão perturbado, tendo confundido a manipulação de Martin de pessoas ficcionais em romances com a manipulação de pessoas de verdade na vida real, chegaria em sua casa numa caminhonete antiga decorada com cartazes que o acusavam de haver matado John Lennon, John Kennedy, Rick Nelson e só-Deus-sabe-quem-mais, muito embora ele fosse criança quando Lee Harvey Oswald apertou o gatilho contra Kennedy (ou quando 17.031 conspiradores homossexuais apertaram o gatilho, se você acreditou no filme de Oliver Stone). Algo parecido aconteceu com Stephen King, não? E com certeza Salman Rushdie experimentou alguns anos de tanto suspense quanto qualquer um suportado por um personagem numa extravagância de Robert Ludlum.

      Mortificado pela imagem bizarra que a revista dera a ele, corado de embaraço, Marty inspecionou o estacionamento para assegurar-se de que ninguém o observava enquanto lia o artigo. Algumas pessoas entravam e saíam de seus carros, mas não prestavam nenhuma atenção a ele.

      Nuvens apareceram no dia que até então estava ensolarado. O vento girava folhas mortas num tufão em miniatura, que dançava na vastidão do pavimento vazio.

      Ele leu o artigo, pontuando-o com suspiros e resmungos. Embora contivesse alguns erros pequenos, o texto em geral era fatual, mas seu conteúdo comparava-se com as fotos. O velho e fantasmagórico Martin Stillwater. Que sujeito sorumbático e acabrunhado. Vê o arreganhar de dentes malvado de um criminoso por trás de cada sorriso. Trabalha num gabinete com luz fraca, quase escuro, e diz que está tentando diminuir o brilho da tela do computador (pisca, pisca).

      Sua recusa em permitir que Charlotte e Emily fossem fotografadas, baseada no desejo de proteger a privacidade delas e não deixar que fossem importunadas por colegas de escola, foi interpretada como medo de seqüestradores à espreita atrás de cada arbusto. Afinal de contas, há alguns anos atrás, ele escrevera um livro sobre um seqüestro.

      Paige, “tão bela e inteligente quanto uma heroína de Martin Stillwater”, era descrita como “psicóloga cujo trabalho exige que ela sonde os segredos mais sombrios de seus pacientes”, como se estivesse envolvida não no aconselhamento de crianças perturbadas com o divórcio dos pais, ou a morte de um ente querido, mas sim na profunda análise dos assassinos em série mais selvagens de toda a era.

      — Velha e fantasmagórica Paige Stillwater — disse em voz alta. — Bem, por que outro motivo se teria casado comigo se já não fosse um pouco esquisita?

      Ele disse para si mesmo que estava tendo uma reação exagerada.

      Depois de fechar a revista, ele disse:

      — Graças a Deus não deixei as meninas participarem. Teriam saído nessa matéria parecendo as crianças da “Família Addams”.

      Mais uma vez tentou se convencer de que estava tendo uma reação exagerada, mas seu humor não melhorou. Ele sentia-se violentado, trivializado; e o fato de estar falando sozinho em voz alta parecia, de maneira perturbadora, validar sua nova reputação nacional como excêntrico divertido.

      Martin girou a chave na ignição, ligou o motor.

      Ao atravessar o estacionamento em direção à rua movimentada, ele estava preocupado com a sensação de que sua vida sofrera mais do que uma virada temporária para pior com a fuga do domingo, que o artigo da revista era um outro sinal de sua nova rota sombria, e que ele viajaria uma longa distância em pavimento rude antes de redescobrir a suave estrada que havia perdido.

      Um redemoinho de folhas chocou-se contra o carro, assustando-o. A folhagem seca raspou o capô e o teto, como as garras de uma besta determinada a entrar no veículo.

 

Ele é possuído pela fome. Não dormia desde a noite de sexta-feira, viajara metade do país em alta velocidade, geralmente debaixo de tempo ruim, e vivenciara uma hora e meia emocionante e excitante na casa dos Stillwater, confrontando-se com seu destino. Seu estoque de energia está esgotado. Ele está trêmulo e com os joelhos fracos.

      Na cozinha, assalta a geladeira e empilha comida na mesa de carvalho. Consome várias fatias de queijo suíço, meia fatia de pão, alguns picles, a melhor parte de um pedaço de bacon, misturando tudo isso sem se dar ao trabalho de fazer sanduíches, um bocado disso e um bocado daquilo, mastigando o bacon cru para não perder tempo cozinhando, comendo rápido e com fixação decidida no banquete, voraz, esquecido das boas maneiras, engolindo tudo depressa com enormes goles de cerveja gelada que espuma em seu queixo. Há tanta coisa que ele deseja fazer antes que a mulher e as filhas voltem para casa, e ele nem sabe direito a que horas deve esperá-las. A carne gordurosa é enjoativa, por isso de vez em quando ele a mergulha no pote de maionese, pescando grossos tufos, chupando os dedos para lubrificar um bocado de comida que acha difícil de engolir, mesmo com a ajuda de outra garrafa de Corona. Termina a refeição com duas grossas fatias de bolo de chocolate, também deglutidas com ajuda da cerveja. Depois, às pressas, limpa a bagunça com toalhas de papel e lava as mãos na pia.

      Está revitalizado.

      Com a fotografia de moldura prateada na mão, ele retorna ao segundo andar, subindo dois degraus de cada vez. Dirige-se ao quarto dos donos da casa, onde acende as duas lâmpadas das mesinhas-de-cabeceira.

      Durante algum tempo, olha fixo para a cama gigante, excitado com a perspectiva de fazer sexo com Paige. Fazer amor. Quando sexo é feito com alguém que realmente tenha importância, ele é chamado de “fazer amor”.

      Ele se importa de fato com ela.

      Ele tem que se importar.

      Afinal de contas, ela é sua esposa.

      Ele sabe que o rosto dela é bom, excelente, com a boca carnuda e bela estrutura de ossos e olhos sorridentes, mas pela foto não pode falar muito do corpo. Imagina que seus seios sejam fartos, sem barriga, pernas longas e bem modeladas, e está ansioso para deitar com ela, entrar fundo nela.

      Abre gavetas do toucador até encontrar a lingerie dela. Acaricia uma meia-taça, os gomos suaves de um sutiã, uma camisola com laço. Retira um par de calcinhas de seda da gaveta e esfrega seu rosto nelas, respirando fundo enquanto sussurra seu nome várias vezes.

      Fazer amor vai ser inimaginavelmente diferente do sexo suado que ele conheceu com as vadias rebocadas em bares, experiências que sempre o levaram a sentir-se vazio, alienado, frustrado com sua necessidade desesperada de intimidade verdadeira nunca saciada. A frustração alimenta a raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio gera a violência — e a violência às vezes alivia. Mas esse padrão não se repetirá quando ele fizer amor com Paige, pois ele pertence aos braços dela como nunca pertenceu a outros. Com ela, sua necessidade será satisfeita tanto quanto seu desejo. Juntos, eles atingirão uma união além de qualquer coisa que ele possa imaginar, uma unidade perfeita, felicidade, consumação espiritual e física, todas essas coisas que ele viu em inúmeros filmes, corpos banhados em luz dourada, êxtase, uma ardente intensidade de prazer possível apenas na presença do amor. Depois, ele não terá que matá-la porque então eles serão um, dois corações batendo em harmonia, sem nenhuma razão para matar, transcendência, todas as necessidades gloriosamente satisfeitas.

      A perspectiva do romance quase o deixa ofegante.

      — Eu a farei muito feliz, Paige — promete para a foto dela.

      Percebendo que ainda não tomara banho desde o sábado, querendo estar limpo para ela, devolve as calcinhas de seda à pilha de onde as retirara, fecha a gaveta do toucador e vai ao banheiro para tomar um banho de chuveiro.

      Tira as roupas que pegou no armário do motorhome de Jack, o aposentado de cabelo grisalho, no domingo em Oklahoma, há menos de 24 horas atrás. Após formar uma bola compacta com cada peça do vestuário, ele as enfia num cesto de metal.

      O box do chuveiro é espaçoso e a água está maravilhosamente quente. Ele faz bastante espuma com o sabonete e logo depois as nuvens de vapor estão carregadas com um aroma de flores quase intoxicante.

      Após secar-se com uma toalha amarela, ele revista as gavetas do banheiro até encontrar seus artigos de toucador. Usa um desodorante roll-on e depois penteia o cabelo molhado reto para trás, a fim de deixá-lo secar de maneira natural. Faz a barba com um aparelho elétrico, borrifa um pouco de colônia com cheiro de lima, e escova os dentes.

      Sente-se um homem novo.

      Na sua parte do armário embutido, escolhe uma cueca de algodão, jeans, uma camisa de flanela com padrão azul e preto, meias e um par de Nikes. Tudo se ajusta à perfeição.

      É tão gostoso estar em casa.

 

Paige estava junto a uma das janelas observando as nuvens cinzentas virem rolando do oeste, impelidas por um vento do Pacífico. Quando chegaram, a terra debaixo delas escureceu e os prédios banhados pelo sol vestiram mantos de sombras.

      O aposento interno de seu apartamento de três quartos no sexto andar tinha dois enormes painéis de vidro, que proporcionavam uma vista não inspiradora para uma estrada, um shopping center e os telhados comprimidos juntos da área residencial, que atravessava o condado de Orange aparentemente até o infinito. Ela gostaria de ter uma vista panorâmica para o oceano ou uma janela aberta para um pátio cheio de plantas, mas isso significaria um aluguel mais alto, coisa que estava fora de questão nos primeiros anos da carreira de escritor de Marty, quando ela fora a principal mantenedora da casa.

      Agora, apesar do sucesso crescente de Marty e da renda impressionante, ainda era imprudente forçar-se a ter um aluguel mais caro numa locação nova. Mesmo uma carreira literária próspera era um meio de vida inseguro. Quando adoecia, o dono de uma loja de produtos frescos tinha empregados que continuavam vendendo laranjas e maçãs em sua ausência, mas se Marty ficasse doente, todo o empreendimento pararia no ato.

      E Marty estava doente. Talvez uma doença grave.

      Não, ela não iria pensar nisso. Eles não tinham certeza de nada. Isso era com a velha Paige, a Paige antes de Marty, preocupar-se com meras possibilidades e não com o que já era fato.

      Desfrute o momento, Marty lhe diria. Ele era um terapeuta nato. Às vezes, Paige pensava que havia aprendido mais com ele do que com os cursos que fizera para terminar o doutorado em psicologia.

       Desfrute o momento.

      Na verdade, a constante azáfama da cena do outro lado da janela era revigorante. E enquanto no passado ela fora tão predisposta à depressão porque o mau tempo podia ter um efeito negativo em seu humor, todos aqueles anos com Marty e seu bom humor em geral inabalável lhe tornaram possível perceber a beleza sombria de uma tempestade que se aproximava.

      Ela nascera e crescera num lar sem amor, tão frio e sombrio como uma caverna do Ártico. Mas esse tempo ficara para trás, e o efeito dele diminuíra há muito tempo.

      Desfrute o momento.

      Ao examinar o relógio de pulso, ela fechou as cortinas porque o estado de espírito de seus dois pacientes seguintes com certeza não era imune à influência do dia cinzento.

      Quando as janelas foram cobertas, o lugar ficou tão aconchegante quanto qualquer sala de visitas de uma casa. Sua escrivaninha, livros e arquivos ficavam no terceiro consultório, que raras vezes era visto por aqueles a quem ela dava consulta. Ela sempre se reunia com eles nessa sala mais acolhedora. O sofá com padrão de flores e a grande quantidade de almofadas jogadas emprestavam um grande charme ao ambiente, e as três poltronas com estofado felpudo eram bastante cômodas para permitir que os pacientes jovens se enrascassem no assento com as pernas enfiadas debaixo do corpo, se desejassem. Abajures verde-acinzentados com cúpulas de seda franjadas emitiam uma luz cálida, que brilhava em bibelôs nas mesas e no esmalte das estatuetas da porcelana de Lladro no aparador de mogno.

      Em geral, Paige oferecia chocolate quente e bolinhos, ou biscoitos crocantes com um copo de Coca gelada, e a conversa fluía porque o efeito global era como estar na casa da vovó. Pelo menos, era assim a casa da vovó nos tempos em que nenhuma avó se submetia a uma cirurgia plástica, ou se remodelava com uma lipoaspiração, ou se divorciava do vovô e freqüentava turnês de solteiros no Cabo San Lucas, ou voava com o namorado para passar o fim de semana em Vegas.

      A maioria dos pacientes, em sua primeira visita, ficava atônita ao não encontrar a coleção de obras de Freud, um divã de terapia e a atmosfera extremamente solene do consultório de um psiquiatra. Mesmo quando ela os lembrava de que não era psiquiatra, de que não era médica, em absoluto, mas sim uma conselheira com diploma de psicologia que via “clientes” e não “pacientes”, pessoas com problemas de comunicação em vez de neuroses ou psicoses, eles permaneciam confusos durante a primeira meia-hora mais ou menos. A certa altura, a sala — e, ela gostava de acreditar, sua abordagem relaxada — os conquistava.

      A consulta das 14:00 de Paige, a última do dia, era com Samantha Acheson e Sean, seu filho de oito anos. O primeiro marido de Samantha, o pai de Sean, morrera pouco depois do quinto aniversário do menino. Samantha casou de novo dois anos e meio depois, e os problemas comportamentais de Sean começaram virtualmente no dia do casamento, resultado óbvio de sua convicção errônea de que ela traíra o pai morto e um dia também poderia traí-lo. Durante cinco meses, Paige se encontrou duas vezes por semana com o menino, ganhando sua confiança, abrindo canais de comunicação, de modo que eles pudessem discutir a dor, o medo e a raiva — sentimentos que ele não era capaz de dividir com a mãe. Hoje, Samantha iria participar da sessão pela primeira vez, o que era um passo importante porque, em geral, o progresso era rápido depois que a criança ficava pronta para dizer aos pais aquilo que tinha dito à conselheira.

      Paige sentou-se na poltrona que reservava para si e estendeu a mão em direção à mesa para pegar uma imitação de um antigo aparelho de telefone que, além de ligar para fora, funcionava como um intercomunicador ligado à sala de recepção. Ela tencionava pedir a Millie, sua secretária, que mandasse entrar Samantha e Sean Acheson, mas o intercomunicador zumbiu antes que ela levantasse o fone do gancho.

      — Marty na linha um, Paige.

      — Obrigada, Millie — pressionou a linha um. — Marty?

      Ele não respondeu.

      — Marty, é você? — perguntou, procurando ver se havia apertado o botão certo.

      A linha um estava acesa, mas só havia silêncio nela.

      — Marty?

      — Gosto do som de sua voz, Paige. Tão melódico.

      Ele falava... estranho.

      O coração dela começou a bater contra as costelas e Paige esforçou-se para reprimir o medo que crescia dentro dela.

      — O que o médico disse?

      — Gosto de sua foto.

      — Minha foto? — disse, desconcertada.

      — Gosto de seu cabelo, de seus olhos.

      — Marty, eu não...

      — Você é o que eu preciso.

      A boca de Paige tinha ficado seca.

      — Tem alguma coisa errada?

      De repente, ele falou muito rápido, engatando uma frase na outra.

      — Quero beijar você, Paige, beijar seus seios, estreitá-la contra mim, fazer amor com você, quero fazê-la muito feliz, quero estar dentro de você, vai ser como nos filmes, felicidade.

      — Marty, querido, o que...

      Ele desligou, interrompendo-a.

      Tão surpresa e confusa quanto preocupada, Paige prestou atenção ao ruído de discar antes de devolver o fone ao gancho.

      Que droga.

      Eram duas horas e ela duvidava que sua consulta com Guthridge houvesse durado uma hora. Portanto, ele não ligara do consultório do médico. Por outro lado, ele não teria tido tempo para rodar todo o trajeto até em casa, o que significava que ele havia telefonado em trânsito.

      Paige tirou o fone do gancho e discou o número do telefone do carro dele. Ele atendeu na segunda chamada:

      — Marty, o que houve?

      — Paige?

      — O que foi tudo aquilo?

      — O que foi tudo aquilo?

      — Beijar meus seios, pelo amor de Deus, como nos filmes, felicidade.

      Ele hesitou e ela pôde ouvir o leve ruído do motor do Ford, o que significava que ele estava em trânsito. Depois de algum tempo ele disse:

      — Garota, você me confunde.

      — Há um minuto atrás, você telefonou para cá, agindo como se...

      — Não. Não fui eu.

      — Você não ligou para cá?

      — Não.

      — Isso é uma brincadeira?

      — Você está dizendo que alguém telefonou e disse que era eu?

      — Sim, ele...

      — Ele falava como eu?

      — Falava.

      — Exatamente como eu?

      Paige pensou sobre isso durante um momento.

      — Bem, não exatamente. Ele parecia um bocado com você e depois... não igual a você. É difícil explicar.

      — Espero que você tenha desligado quando ele se tornou obsceno.

      — Você... — ela se corrigiu: — Ele desligou. Além disso, não foi um telefonema obsceno.

      — É mesmo? E essa história de beijar seus seios?

      — Bem, não pareceu obsceno porque pensei que fosse você.

      — Paige, refresque minha memória... quando foi a última vez que eu telefonei para o seu trabalho e falei em beijar seus seios?

      Ela deu uma risada.

      — Bem... nunca, eu acho — e como ele também riu, ela acrescentou: — Mas talvez não fosse uma má idéia de vez em quando animar o dia um pouco.

      — Eles são muito beijáveis.

      — Obrigada.

      — Seus dentes também.

      — Você me fez corar — ela disse, o que era verdade.

      — Também o seu...

      — Agora está ficando obsceno.

      — É isso aí, mas eu sou a vítima.

      — Por que você diz isso?

      — Foi você que ligou para mim e me pediu para ter uma conversa suja.

      — Acho que sim. Libertação das mulheres, sabe?

      — Onde vai dar tudo isso?

      Uma possibilidade perturbadora passou pela mente de Paige, mas ela relutava em externá-la: talvez o telefonema tivesse sido de Marty, dado pelo telefone do carro enquanto ele vivia um estado de fuga semelhante ao da tarde de domingo quando, durante sete minutos, repetira monotonamente aquelas duas palavras num gravador, sem que mais tarde tivesse qualquer lembrança disso.

      Ela suspeitou que a mesma idéia houvesse ocorrido a ele porque a súbita reticência de Marty foi comparável à dela.

      No final, Paige rompeu o silêncio.

      — O que Paul Guthridge tinha a dizer?

      — Ele pensa que é provável que seja estresse.

      — Pensa?

      — Está marcando testes para amanhã ou quarta-feira.

      — Mas não ficou preocupado?

      — Não. Ou fingiu que não ficou.

      O estilo informal de Paul não se refletia na maneira como ele prestava informação essencial a seus pacientes. Era sempre direto e objetivo. Mesmo quando Charlotte ficara muito doente, quando alguns médicos teriam minimizado possibilidades mais alarmantes para deixar que os pais se ajustassem aos poucos ao cenário do pior caso, Paul avaliou a situação da menina com Paige e Marty sem fazer nenhuma censura. Ele sabia que nenhuma meia-verdade ou falso otimismo seria confundido com compaixão. Se Paul não pareceu mais preocupado que o normal com a condição e com os sintomas de Marty — era uma boa notícia.

      — Ele me deu o exemplar de sobra da People — disse Marty.

      — Arrá! Você diz como se ele lhe tivesse dado uma sacola com cocô de cachorro.

      — Bem, não era o que eu esperava.

      — Não é tão ruim quanto você pensa — disse ela.

      — Como você sabe? Você ainda não viu.

      — Mas conheço você e sei como é com relação a essas coisas.

      — Em uma das fotos, eu pareço o monstro Frankenstein com uma tremenda ressaca.

      — Eu sempre adorei Boris Karloff.

      Ele suspirou.

      — Imagino que posso trocar de nome, fazer uma cirurgia plástica e mudar para o Brasil. Mas antes de comprar a passagem para o Rio, quer que eu pegue as crianças na escola?

      — Eu pego. Elas vão se atrasar uma hora hoje.

      — Oh, está certo. Segunda-feira. Aulas de piano.

      — Chegarei em casa às quatro e meia — ela disse. — Você pode me mostrar a People e passar a noite chorando em meu ombro.

      — Ao diabo com isso. Vou mostrar a People e passar a noite beijando seus seios.

      — Você é especial, Marty.

      — Também te amo, garota.

      Quando desligou, Paige sorria. Ele sempre conseguia fazê-la sorrir, mesmo nos momentos sombrios.

      Ela recusou-se a pensar no estranho telefonema, na doença, em fugas ou fotos que faziam Marty parecer um monstro.

      Desfrute o momento.

      Foi o que ela fez durante mais ou menos um minuto, depois ligou para Millie através do intercomunicador e pediu que mandasse entrar Samantha e Sean Acheson.

 

Em seu gabinete, ele senta-se na cadeira de executivo atrás da escrivaninha. É confortável. Quase consegue acreditar que já sentou nela antes.

      Mesmo assim, ele está nervoso.

      Ele liga o computador. É um PC IBM com substancial capacidade de armazenamento no disco rígido. Uma boa máquina. Ele não consegue lembrar-se de tê-la adquirido.

      Depois que o sistema rodou um programa de administração de dados, a tela de tamanho exagerado apresenta um “Menu de Seleção Principal”, que inclui oito escolhas, a maioria software com editor de texto. Ele escolhe o WordPerfect 5.1, que é carregado.

      Ele não se recorda de ter recebido instruções sobre a operação de um computador ou o uso do WordPerfect. Esse treinamento está oculto em brumas de amnésia, assim como seu treinamento com armas e sua misteriosa familiaridade com os sistemas de ruas de várias cidades. É evidente que seus superiores acreditavam que ele precisaria compreender a operação básica de computador e conhecer certos programas de software para que pudesse cumprir suas missões.

      A tela está limpa.

      Pronto.

      No canto direito inferior da tela azul, letras e números brancos lhe dizem que ele está no documento um, na página um, na linha um, na décima coluna.

      Pronto. Ele está pronto para escrever um romance. Sua obra.

      Olha fixo para o monitor em branco, tentando começar. Começar é mais difícil do que ele esperava.

      Ele trouxera uma garrafa de Corona da cozinha, suspeitando que podia precisar lubrificar seus pensamentos. Toma um longo gole. A cerveja está fria, refrescante, e ele sabe que é o tipo da coisa que o mantém em funcionamento.

      Após dar cabo de metade da garrafa, com a confiança renovada, ele começa a digitar. Martela duas palavras, depois pára:

                   O homem

O homem o quê?

      Fita a tela durante um minuto, depois digita “entrou no quarto”. Mas que quarto? Em uma casa? Em um prédio de escritórios? Como é esse quarto? Quem mais está nele? O que esse homem está fazendo nesse quarto, por que está ali? Tem que ser um quarto? Ele poderia estar entrando em um trem, um avião, um cemitério?

      Ele apaga “entrou no quarto” e substitui por “era alto”. Com que então, o homem é alto. Tem importância que ele seja alto? A altura será importante para a história? Que idade ele tem? Qual a cor de seus olhos, de seu cabelo? Ele é branco, negro, asiático? O que está vestindo? E a propósito, precisa ser um homem? Não podia ser uma mulher? Ou uma criança?

      Com essas questões na mente, ele apaga a tela e começa a história do princípio:

O

Ele fita a tela. Ela está terrivelmente vazia. Muito mais vazia do que antes, não apenas cinco letras mais vazia a partir do apagamento de “homem”. As opções para seguir esse simples artigo “o” são ilimitadas, o que torna a escolha da segunda palavra muito mais assustadora do que ele teria suposto antes de sentar na cadeira de couro negro e ligar a máquina.

      Ele apaga “O”.

      A tela está limpa.

      Pronta.

      Ele termina a garrafa de Corona. Ela está fria e refrescante, mas não lubrifica seus pensamentos.

      Ele vai até as prateleiras e retira oito dos romances que ostentam seu nome, Martin Stillwater. Leva-os para a escrivaninha e, durante algum tempo, fica sentado lendo as primeiras e segundas páginas, tentando dar a partida em seu cérebro.

      Seu destino é ser Martin Stillwater. Isso está perfeitamente claro.

      Ele será um bom pai para Charlotte e Emily.

      Será um bom marido e amante para a bela Paige.

      E escreverá romances. Romances de mistério.

      É evidente que ele já os escreveu antes, pelo menos uma dúzia, de modo que pode escrever de novo. Apenas tem de readquirir o sentimento de como se faz, reaprender o hábito.

      A tela está vazia.

      Ele põe os dedos nas teclas, pronto para digitar.

      A tela está tão vazia. Vazia, vazia, vazia. Zombando dele.

      Ele acredita que apenas está inibido pelo zumbido suave e persistente da ventoinha do monitor e pelo exigente campo eletrônico-azul do documento um, página um, por isso desliga o computador. O silêncio resultante é uma bênção, mas o vidro cinzento do monitor é ainda mais zombeteiro do que a tela azul; desligar a máquina parece uma confissão de derrota.

      Ele precisa ser Martin Stillwater, o que significa que ele terá que escrever.

       O homem. O homem era. O homem era alto com olhos azuis e cabelo louro; usava um terno azul e camisa branca e gravata vermelha, mais ou menos trinta anos de idade, e não sabia o que fazia no quarto em que entrou. Droga. Nada bom. O homem. O homem. O homem...

      Ele precisa escrever, mas cada tentativa de fazê-lo atrai, rapidamente a frustração. A frustração logo gera a raiva. O padrão conhecido. A raiva gera um ódio específico contra o computador, uma repugnância em relação a ele, e também um ódio menos concentrado de sua posição insatisfatória no mundo, do próprio mundo, e de cada um de seus habitantes. Ele precisa tão pouco, tão pateticamente pouco, apenas fazer parte, ser como as outras pessoas, ter um lar e uma família, ter um objetivo que compreenda. É tanto assim? Não quer ser rico, nem amarrar os bigodes com pessoas ricas e poderosas, nem jantar com socialites. Não está pedindo fama. Depois de muito esforço, confusão e solidão, ele agora tem um lar, uma esposa e duas filhas, um senso de direção, um destino, mas sente que isso está escapando dele, deslizando por entre seus dedos. Ele precisa ser Martin Stillwater, mas para ser Martin Stillwater precisa saber escrever e ele não sabe escrever, não sabe escrever, droga, não sabe escrever. Conhece o traçado das ruas de Kansas City e de outras cidades, e sabe tudo sobre armas, sobre como abrir fechaduras, porque eles semearam esse conhecimento dentro dele — sejam “eles” quem for —, mas não devem ter achado adequado implantar o conhecimento de como escrever romances de mistério, coisa que ele precisava, oh, precisava de maneira desesperada, se quisesse ser Martin Stillwater, se quisesse conservar sua adorável mulher, Paige, suas filhas e seu novo destino, que está escorregando, escorregando, escorregando por entre seus dedos. Essa chance de felicidade se evaporava rápido, porque eles estavam contra ele, todos eles, o mundo inteiro predisposto contra ele, determinado a deixá-lo sozinho e confuso. E por quê? Por quê? Ele os odeia, odeia seus esquemas e seu poder sem rosto, despreza-os e despreza suas máquinas com tal intensidade amarga que...

      Com um grito de raiva, ele bate com o punho na tela escura do computador, batendo com ferocidade no próprio reflexo quase tanto como na máquina e tudo que ela representa. O barulho de vidro quebrado é alto na casa silenciosa, e o vácuo dentro do monitor estoura simultaneamente, com um breve zumbido de invasão de ar.

      Ele retira as mãos das ruínas, enquanto fragmentos de vidro ainda estão presos no teclado, e olha fixo para seu sangue brilhante. Lascas pontudas estão em pé nas membranas e em alguns nós dos dedos. Um caco elíptico está enterrado na carne da palma de sua mão.

      Embora ainda esteja com raiva, pouco a pouco vai recuperando o controle sobre si mesmo. Às vezes a violência acalma.

      Ele gira a cadeira para longe do computador a fim de ficar de frente para o lado oposto da área de trabalho em forma de U, onde se reclina para examinar os ferimentos na luz do abajur com vitral. Os espinhos de vidro em sua carne cintilam como pedras preciosas.

      Só está sentindo uma dor leve, e sabe que passará logo. Ele é duro e tem recuperação rápida; desfruta de um esplêndido poder de recuperação.

      Alguns fragmentos da tela não penetraram fundo em sua mão e ele consegue arrancá-los com as unhas. Mas outros estão cravados com firmeza na carne.

      Ele afasta a cadeira de escrivaninha, põe-se de pé e se dirige ao quarto de dormir. Vai precisar de pinças para arrancar os estilhaços mais obstinados.

      Embora sangrasse bastante no começo, o fluxo já está diminuindo. Mesmo assim, ele mantém o braço para o alto, a mão reta, de modo que o sangue escorra por seu punho e penetre debaixo da manga da camisa, em vez de pingar no tapete.

      Depois de arrancar o vidro, talvez ele telefone de novo para Paige.

      Ele ficou tão excitado quando encontrou o número do escritório dela no Rolodex em seu gabinete, e vibrou quando falou com ela. Paige pareceu inteligente, segura de si, gentil. Sua voz tinha um timbre um tanto quanto gutural, que ele achou sexy.

      Vai ser um prêmio maravilhoso se ela for sexy. Nessa noite, eles vão dividir a cama. Ele a possuirá mais de uma vez. Recordando o rosto da fotografia e a voz rouca ao telefone, ele confia em que ela irá satisfazer suas necessidades como nunca antes foram satisfeitas, em que ela não o deixará não realizado e frustrado como tantas outras mulheres.

      Ele espera que ela iguale ou supere suas expectativas. Espera que não haja nenhuma razão para machucá-la.

      No quarto de dormir dos donos da casa, ele localiza uma pinça na gaveta onde Paige guarda sua maquiagem, alicate de cutícula, lixas de unha e outros acessórios de enfeite.

      Ele mantém a mão sobre a pia. Embora já tenha parado de sangrar, o fluxo de sangue recomeça em cada ponto de onde ele arranca um pedaço de vidro. Ele abre a água quente para que as gotas de sangue escorram através do dreno.

      Nessa noite, depois do sexo, talvez ele converse com Paige sobre seu bloqueio de escritor. Se já foi bloqueado antes, ela pode lembrar-se das medidas que ele tomou em outras ocasiões para romper o impasse criativo. De fato, ele tem certeza de que ela saberá a solução.

      Sentindo alívio e uma agradável surpresa, ele percebe que já não precisa mais lidar sozinho com seus problemas. Na condição de homem casado, tem uma parceira dedicada com quem compartilhar os muitos problemas do dia-a-dia.

      Erguendo a cabeça, olhando para seu reflexo no espelho atrás da pia, ele arreganha um sorriso e diz:

      — Agora eu tenho uma esposa.

      Ele nota uma mancha de sangue na face direita, outra ao lado do nariz.

      E diz, dando uma risada baixa:

      — Você é tão desajeitado, Marty. Tem que limpar sua ação. Agora você tem uma mulher. As mulheres gostam que seus maridos sejam limpos.

      Retorna sua atenção para a mão e, com a pinça, tira o último vidro espinhento.

      Com um humor cada vez melhor, ele ri de novo e diz:

      — A primeira coisa que farei amanhã será sair de casa para comprar um monitor novo para o computador.

      E balança a cabeça, surpreso com o próprio comportamento infantil.

      — Você é uma outra coisa, Marty — diz ele. — Mas imagino que os escritores devam ser temperamentais, hem?

      Após tirar a última lasca de vidro da membrana entre os dois dedos, ele se livra da pinça e coloca a mão ferida debaixo da água quente.

      — Não posso mais continuar assim. Não dá mais. Vou matar de susto a pequena Emily e Charlotte.

      Olha de novo para o espelho, balança a cabeça, sorrindo.

      — Seu maluco — diz para si mesmo, como se estivesse falando afetuosamente com um amigo cujos defeitos acha encantadores. — Que maluco.

      A vida é boa.

 

O céu cor de chumbo baixou sob seu próprio peso. Segundo um noticiário de rádio, a chuva cairia com o crepúsculo, garantindo engarrafamentos na hora do rush que tornariam o inferno preferível à auto-estrada San Diego.

      Marty devia ter ido direto para casa depois do consultório de Guthridge. Estava prestes a terminar seu romance atual e, durante a agonia final de uma história, ele costumava passar o maior tempo possível trabalhando, porque as distrações eram perniciosas para o ritmo da narrativa.

      Além disso, estava atipicamente apreensivo com a direção do carro. Repassou o tempo minuto a minuto desde que saíra do médico e tinha certeza de que não telefonara para Paige durante uma fuga atrás do volante do Ford. Claro que uma vítima de fuga não tinha nenhuma lembrança de estar aflito, de modo que mesmo uma reconstituição meticulosa da última hora poderia não revelar a verdade.

      Quando pesquisou para Um Bispo Morto, aprendeu que as vítimas que viajavam centenas de quilômetros e se relacionavam com dúzias de pessoas durante um estado dissociativo, mais tarde não conseguiam lembrar de nada do que tinham feito. O perigo não era mais grave do que dirigir bêbado... embora não fosse inteligente manobrar uma tonelada e meia de aço em alta velocidade num estado de consciência alterada.

      Mesmo assim, em vez de ir para casa, ele foi ao shopping de Mission Viejo. Grande parte do seu dia de trabalho já tinha sido liquidada. E ele estava agitado demais para ler ou assistir TV até Paige e as crianças chegarem em casa.

      Quando as coisas se tornam duras, o duro vai às compras, por isso ele folheou livros e fichas, comprou um romance de Ed McBain e um CD de Alan Jackson, esperando que essas atividades mundanas o ajudassem a esquecer os problemas. Passou duas vezes pela loja de doces, desejando os maiores com fatias de chocolate e nozes, mas encontrando forças para resistir a seu encanto.

      O mundo é um lugar melhor, ele pensou, se você ignora a boa nutrição.

      Quando saiu do shopping, gotas de chuva quente pintavam padrões de camuflagem na calçada de concreto. Relâmpagos caíam enquanto ele corria para o Ford. Trovoadas rolavam no céu pronto para o combate, e o chuvisco tornou-se uma torrente pesada no momento em que ele bateu a porta e sentou-se atrás do volante.

      Enquanto dirigia para casa, Marty sentiu um enorme prazer ao vislumbrar as ruas prateadas de chuva, o chapinhar borbulhante dos pneus que mergulhavam em poças profundas — e a vista das palmeiras balançando, que pareciam estar penteando as tranças prateadas do céu de tormenta e o lembravam de certas histórias de Somerset Maugham e de um antigo filme de Bogart. Como a chuva não era uma visita freqüente na árida Califórnia, os benefícios e a novidade superavam a inconveniência.

      Ele estacionou na garagem e entrou na casa pela porta de ligação com a cozinha, desfrutando do peso molhado do ar e do aroma de ozônio que sempre acompanhava o começo de uma tormenta.

      Na cozinha escura, o luminoso mostrador verde do relógio elétrico em cima do fogão indicava 16:10. Paige e as meninas podiam chegar em casa dentro de vinte minutos.

      Acendeu as lâmpadas e abajures enquanto andava de quarto em quarto. A casa sempre ficava mais aconchegante quando estava aquecida e bem iluminada, enquanto a chuva martelava no telhado e a mortalha cinzenta de uma tempestade escondia o mundo atrás de cada janela. Ele decidiu acender o bico de gás da lareira da sala de estar e preparar todos os acessórios para o chocolate quente, assim ele poderia ser feito logo que Paige e as meninas chegassem.

      Primeiro, foi ao andar de cima para examinar o fax e a secretária eletrônica de seu gabinete. Nessa hora, a secretária de Guthridge já teria telefonado com o programa de testes do hospital.

      Também estava com um forte pressentimento de que seu agente literário havia deixado um recado sobre uma venda de direitos em um ou outro território estrangeiro, ou talvez alguma notícia de uma oferta para uma opção de filme, um motivo para comemorar. Curiosamente, a tempestade melhorara seu humor em vez de piorá-lo, talvez porque o tempo inclemente tendia a concentrar a mente nos prazeres do lar, embora fosse de sua natureza encontrar razões para ficar otimista mesmo quando o senso comum sugeria que o pessimismo era uma reação mais realista. Ele nunca fora capaz de ficar oprimido durante muito tempo; e desde o sábado já havia tido pensamentos negativos suficientes para durar alguns anos.

      Ao entrar em seu gabinete, ele estendeu a mão para o interruptor da parede a fim de acender a luz do teto, mas não o tocou, surpreso porque o abajur de vitral e uma luminária de trabalho estavam acesos. Ele sempre apagava as luzes quando saía de casa. Entretanto, antes de partir para o consultório do médico, sentira-se tão inexplicavelmente oprimido pela estranha sensação de estar à beira de uma destruição desconhecida, que era evidente que não havia tido presença de espírito suficiente para apagar as luzes.

      Ao recordar o pior momento do ataque de pânico, na garagem, quando quase foi imobilizado pelo terror, Marty sentiu que parte do ar escapava do balão de otimismo.

      O fax e a secretária eletrônica estavam no canto do fundo da área de trabalho em forma de U. A luz vermelha de recados piscava na secretária, e algumas folhas de papel fino estavam na bandeja do fax.

      Antes de chegar às máquinas, Marty viu o monitor espatifado, com dentes de vidro de pé na armação. No centro havia uma boca aberta. Um pedaço de vidro foi triturado sob seus pés quando ele empurrou a cadeira de escritório para o lado e olhou fixo para o computador, sem conseguir acreditar.

      Pedaços denteados do monitor estavam espalhados sobre o teclado.

      Uma contorção de náusea deu um nó em seu estômago. Será que ele também tinha feito aquilo num estado de fuga? Teria pego algum objeto pesado e martelado a tela, deixando-a em pedaços? Sua vida se desintegrava como o monitor arruinado.

      Depois ele notou uma outra coisa no teclado além do vidro. À luz difusa, Marty pensou estar vendo gotas de chocolate derretido.

      Com as sobrancelhas franzidas, tocou um dos borrões com a ponta do dedo indicador. Ainda estava um pouco pegajoso. Uma parte grudou-se em sua pele.

      Ele moveu a mão para baixo da luminária de trabalho. A substância viscosa na ponta de seu dedo era vermelho-escura, quase marrom. Não era chocolate.

      Ele levou o dedo manchado ao nariz, procurando um cheiro que definisse a coisa. O odor era leve, quase não podia ser detectado, mas Marty soube de imediato o que era, talvez já soubesse no instante em que o tocou, porque em um profundo nível primitivo estava programado para reconhecê-la. Sangue.

      Quem quer que houvesse destruído o monitor havia se cortado.

      As mãos de Marty não ostentavam cortes.

      Ele estava extremamente tranqüilo, exceto por uma sensação que se arrastava ao longo de sua espinha deixando sua nuca com a pele arrepiada.

      Ele girou devagar, esperando encontrar alguém que tivesse entrado no gabinete atrás dele. Mas estava sozinho.

      A chuva esmurrava o telhado e gorgolejava através de uma calha vizinha. Relâmpagos oscilavam palidamente, visíveis por entre as fendas abertas da veneziana, e estrépitos de trovões reverberavam no vidro da janela.

      Marty prestou atenção na casa.

      Os únicos ruídos eram esses da tempestade. E as batidas rápidas de seu coração.

      Ele passou para a parte das gavetas no lado direito da escrivaninha, abriu a segunda delas. Nessa manhã, havia colocado ali a pistola Smith & Wesson 9mm, em cima de alguns papéis. Não esperava encontrá-la no lugar, mas de novo suas expectativas não foram realizadas. Mesmo à luz suave e traiçoeira do abajur com vitral, ele podia ver a arma com o brilho escuro.

      — Eu preciso da minha vida.

      A voz assustou Marty, mas seu efeito não foi nada comparado ao choque paralisante que o possuiu quando levantou a vista da arma e viu quem tinha falado. O sujeito estava no lado de dentro do vão da porta. Usava o que poderia ser o jeans do próprio Marty e camisa de flanela, que lhe caíam muito bem porque ele era um sósia de Marty. De fato, fora as roupas, o invasor podia ser um reflexo no espelho.

      — Eu preciso da minha vida — o homem repetiu em voz baixa.

      Marty não tinha irmão, gêmeo ou não. No entanto, só um gêmeo perfeito poderia ser tão igual a ele em cada detalhe do rosto, peso, altura e tipo de corpo.

      — Por que você roubou minha vida? — o intruso perguntou com o que parecia ser uma curiosidade genuína. Sua voz era uniforme e controlada, como se a pergunta não fosse inteiramente insana, como se de fato fosse possível, pelo menos em sua experiência, roubar uma vida.

      Ao perceber que o intruso também falava como ele, Marty fechou os olhos e tentou negar aquilo que tinha visto à sua frente. Supôs que estava tendo uma alucinação e que ele próprio falava pelo fantasma numa espécie de ventriloquismo inconsciente. Fugas, um pesadelo de intensidade incomum, um ataque de pânico e agora alucinações. Mas quando abriu os olhos, o sósia ainda permanecia lá, uma ilusão obstinada.

      — Quem é você? — o duplo perguntou.

      Marty não pôde falar porque sentia que o coração havia mudado para a garganta, e cada batimento feroz quase o sufocava. E não ousava falar porque meter-se numa conversa com uma alucinação sem dúvida faria com que ele perdesse a tênue parte final de sanidade, mergulhando por inteiro na loucura.

      O fantasma refinou sua pergunta, falando num tom de admiração e fascinação, mas ainda assim ameaçador:

      — O quê você é?

      O sósia deu outro passo para dentro do gabinete, sem nada da fluidez lúgubre e da luz difusa e fantasmagórica de uma aparição psicológica ou sobrenatural, nem transparente nem radiante. Quando se mexeu, sombra e luz tremularam nele da mesma maneira que teriam acariciado qualquer objeto de três dimensões. Ele parecia tão sólido quanto qualquer homem real.

      Marty notou a pistola na mão direita do intruso. Mantida encostada na coxa. Cano apontado para o chão.

      O sósia avançou mais um passo, parando a não mais de 2,5m do outro lado da escrivaninha. Com um meio sorriso que era mais enervante do que um olhar furioso o invasor disse:

      — Como isso aconteceu? E agora? De alguma forma nós nos tornamos uma pessoa, um desaparece no outro como em algum filme maluco de ficção científica...

      O terror aguçara os sentidos de Marty. Como se estivesse olhando para seu sósia através de lentes de aumento, ele podia ver cada contorno, linha e poro de seu rosto. Apesar da luz difusa, os móveis e livros nas áreas cobertas por sombras tinham detalhes tão claros quanto os objetos nos quais caía o brilho das lâmpadas. No entanto, com todos seus poderes de observação ampliados, ele não conseguiu reconhecer o modelo da outra pistola.

      — ... ou devo apenas matá-lo e assumir seu lugar? — o estranho continuou. — E se eu matá-lo...

      Parecia que qualquer alucinação que ele houvesse conjurado estaria carregando uma pistola conhecida.

      — ... as memórias que você roubou de mim serão minhas de novo quando você estiver morto? Se eu matá-lo...

      Afinal de contas, se aquela figura fosse apenas uma ameaça simbólica, vomitada por alguma psique doente, então tudo — o fantasma, as roupas, o armamento — teria que vir da experiência e imaginação de Marty.

      — ... serei tornado inteiro? Quando você estiver morto, serei devolvido à minha família? E vou voltar a saber escrever?

      De modo inverso, se a arma fosse real, o sósia seria real.

      Levantando a cabeça, reclinando-se um pouco à frente, como se tivesse um intenso interesse na resposta de Marty, o intruso disse:

      — Preciso escrever, se é para eu ser o que devo ser, mas as palavras não saem.

      A conversa unilateral surpreendeu Marty várias vezes, com suas voltas e giros, o que não sustentava a idéia de que sua mente enferma havia fabricado o invasor.

      A raiva apareceu pela primeira vez na voz do sósia, uma amargura em vez de fúria exaltada, tornando-se rapidamente feroz:

      — Você também me roubou isso, as palavras, o talento, e eu preciso disso de volta, preciso agora, tanto que até sinto dor. Um objetivo, sentido. Você sabe? Compreende? Seja você o que for, pode compreender? O terrível vazio, oco, Deus, um oco tão profundo e escuro — agora ele cuspia as palavras, e seus olhos estavam furiosos. — Quero o que é meu, meu, que droga, minha vida, minha, quero minha vida, meu destino, minha Paige, ela é minha, minha Charlotte, minha Emily...

      A extensão da escrivaninha é de 2,5m além, três metros no total: distância à queima-roupa.

      Marty tirou a pistola 9mm da gaveta da escrivaninha, segurando com as duas mãos, soltou a trave de segurança, com o dedo no gatilho mesmo enquanto levantava o cano. Não se importava se o alvo era real ou algum tipo de espírito. A única coisa que lhe importava era eliminá-lo antes que ele o matasse.

      O primeiro tiro arrancou um pedaço grosso do canto afastado da escrivaninha, e lascas de madeira explodiram como um enxame de vespas furiosas voando na luz. A segunda e terceira balas atingiram o outro Marty no peito. Não o atravessaram como se ele fosse um ectoplasma nem o espatifaram como se fosse um reflexo no espelho; em vez disso, catapultaram-no para trás, desequilibrando-o, pegando-o de surpresa antes que ele pudesse erguer a própria arma, que voou de sua mão e bateu no chão com um baque forte. Ele chocou-se contra uma estante, agarrando-se a uma prateleira com uma das mãos, jogando no chão uma dúzia de volumes, o peito coberto de sangue — meu deus, tanto sangue —, os olhos arregalados de choque, mas sem soltar nenhum grito exceto um “uh” baixo e forte, que foi mais um som de surpresa do que de dor.

      O bastardo devia ter caído como uma pedra num poço, mas continuou de pé. No mesmo momento em que bateu na estante, afastou-se dela, mergulhou cambaleando através da porta aberta, sumiu de vista no corredor do andar de cima.

      Mais aturdido com o fato de haver puxado o gatilho contra alguém do que esse alguém ser sua imagem no espelho, Marty caiu na escrivaninha, Ofegando com desespero, como se não houvesse inalado ar desde o primeiro momento em que o sósia entrara no gabinete. Talvez não tivesse entrado. Atirar num homem de verdade era um bocado diferente de atirar num personagem de romance; quase parecia que, de alguma maneira mágica, parte do impacto das balas tivesse atingido o próprio atirador. Seu peito doía, ele estava tonto e sua visão periférica mergulhou, durante breves momentos, numa escuridão densa, que ele empurrou para trás num ato de vontade.

      Não se atrevia a desmaiar. Pensava que o outro Marty devia estar morrendo com um ferimento grave, talvez já estivesse morto. Deus, o sangue espalhado em seu peito, flores escarlates, rosas súbitas. Mas não sabia ao certo. Talvez os ferimentos só parecessem mortais talvez fosse ilusório o breve olhar que ele dera, e talvez o sósia não apenas estivesse vivo, mas também forte o bastante para sair da casa e fugir. Se o sujeito escapasse e vivesse, voltaria mais cedo ou mais tarde, tão esquisito e maluco, mas mais furioso, mais bem preparado. Marty tinha que terminar o que começou antes que o sósia tivesse uma chance de fazer o mesmo.

      Olhou de soslaio para o telefone. Discar 911. Chamar a polícia, depois ir atrás do homem ferido.

      Mas o relógio da escrivaninha estava ao lado do telefone e ele viu a hora — 16:26. Paige e as meninas. Da escola para casa, mais tarde do que de hábito, atrasadas pelas lições de piano. Oh, meu Deus. Se entrassem na casa e vissem o outro Marty, ou o encontrassem na garagem, pensariam que era seu Marty, correriam para ele, assustadas com os ferimentos, querendo ajudar, e talvez ele ainda tivesse força para machucá-las. A pistola que caiu era sua única arma? Não podia fazer essa suposição. Além disso, o filho da puta podia pegar uma faca no armário da cozinha, a faca de açougueiro, escondê-la nas costas, deixar que Emily se aproximasse, depois enterrá-la na garganta da menina ou na barriga de Charlotte.

      Cada segundo importava. Esqueça o 911. Perda de tempo. Os tiras não chegariam antes de Paige.

      Quando Marty deu a volta na escrivaninha, suas pernas estavam trêmulas, mas ficaram mais firmes quando ele atravessou o gabinete em direção ao corredor. Viu sangue espalhado na parede, pingando nas lombadas de seus livros, manchando seu nome. Mais uma vez, uma onda rastejante de escuridão caiu nos cantos de sua visão. Ele trincou os dentes e continuou andando.

      Quando chegou na pistola do sósia, chutou-a para dentro do aposento, afastando-a do vão da porta. O simples ato lhe deu uma onda de confiança, porque pareceu algo que um tira teria a presença de espírito para fazer — impedir o bandido de recuperar sua arma.

      Talvez ele pudesse lidar com aquilo, passar por aquilo, por mais estranho e assustador que fosse, com o sangue e tudo mais. Talvez ele ficasse bem.

      Portanto, vamos agarrar o cara. Ter certeza de que está lá embaixo, lá embaixo e lá fora.

      Para escrever seus romances de mistério, ele havia feito um bocado de pesquisa sobre os procedimentos policiais, não apenas estudando os livros didáticos de uma academia de polícia e filmes de treinamento, mas também saindo com tiras uniformizados em patrulhas noturnas e acompanhando detetives à paisana no trabalho. Sabia muitíssimo bem como atravessar um vão de porta naquelas circunstâncias.

       Não seja confiante demais. Imagine que o sujeito esquisito tem outra arma além da que deixou cair, revólver ou faca. Mantenha-se abaixado, passe rápido por esse vão de porta. É mais fácil morrer num vão de porta do que em outra parte, porque toda porta se abre para o desconhecido. Enquanto anda, segure sua arma com as duas mãos, os braços para a frente, retos e firmes, olhe para a direita e para a esquerda ao atravessar a soleira, girando a arma para cobrir ambos os flancos. Depois deslize para o outro lado e mantenha as costas grudadas na parede enquanto anda, de modo a garantir que suas costas fiquem em segurança, você só tem três lados com que se preocupar.

      Todo esse conhecimento passou em disparada por sua mente, assim como podia ter passado na mente de um de seus personagens policiais de nariz duro — no entanto, ele se comportava como qualquer civil em pânico, tropeçando de maneira descuidada no corredor do andar de cima, com a respiração explosiva, tornando seu corpo mais um alvo do que ameaça, porque se a coisa fosse vista de frente, ele não era um tira, mas sim um bundão que às vezes escrevia sobre tiras. Não importava quanto tempo você se entregou a uma fantasia, não pode viver a fantasia, não poderia agir como um policial numa situação de pressão, a menos que fosse treinado como um tira. Ele era tão culpado quanto qualquer outra pessoa por haver confundido ficção e realidade , pensando que era invencível como um herói num jornal impresso, e tivera uma tremenda sorte porque o outro Marty não esperava por ele. O corredor do andar de cima estava deserto.

       Ele parecia exatamente como eu.

      Não podia pensar nisso agora; por enquanto, não tinha tempo. Concentrar-se em ficar vivo, abater o bastardo antes que ele machucasse Paige ou as meninas. Se você sobreviver, haverá tempo para procurar uma explicação para a surpreendente semelhança, resolver o mistério, mas agora não.

      Ouça. Movimento?

      Talvez.

      Não. Nada.

      Mantenha o cano para cima, a boca apontada para o alto.

      Do lado de fora da porta do gabinete, uma pegajosa impressão de mão ensangüentada manchava a parede. Uma tremenda quantidade de sangue formava uma poça no tapete bege-claro. Pelo menos parte do tempo em que Marty ficou parado atrás da escrivaninha, atordoado e imobilizado pela violência, o ferido ficara encostado nessa parede do corredor, talvez tentando, sem sucesso, estancar os ferimentos que sangravam.

      Marty suava, com náuseas e medo. A transpiração pingava no canto de seu olho esquerdo, picante, borrando sua visão. Ele enxugou a testa gordurosa com a manga da camisa, piscou com força para lavar o sal de seu olho.

      Quando o intruso se afastou da parede e começou a se mover — talvez enquanto Marty ainda permanecia congelado atrás da escrivaninha —, ele caminhou na poça de seu próprio sangue. Sua rota estava marcada por fragmentadas impressões vermelhas de desenhos em sulcos feitos pelas solas dos sapatos, bem como por contínuas gotas escarlate.

      Silêncio na casa. Com um pouco de sorte, talvez fosse o silêncio da morte.

      Trêmulo, Marty seguiu com cuidado a repulsiva trilha que passava pelo banheiro do corredor, dava a volta no canto, passava pela porta dupla da entrada do quarto dos donos da casa, passava pelo alto da escada. Ele parou nesse ponto, onde o corredor do segundo andar se transformava numa varanda que dava para a sala de estar.

      À sua direita havia um corrimão de carvalho esbranquiçado do outro lado pendia o lustre de latão que ele acendera antes, quando passara pela saleta de entrada. Abaixo do lustre ficavam os degraus de descida e a saleta de entrada, de dois andares e com chão de lajotas, que dava direto na sala de estar de dois andares.

      À sua esquerda e a alguns metros mais adiante na sacada ficava o quarto que Paige usava como escritório. Um dia seria outro quarto para Charlotte ou Emily, quando elas decidissem que estavam preparadas para dormir em lugares separados. A porta estava entreaberta. Sombras negras moviam-se atrás da porta, aliviadas apenas pela luz cinzenta da tempestade de fim de tarde que mal conseguia penetrar pelas janelas.

      A trilha de sangue passava por esse quarto e ia para o final do corredor, direto para a porta do quarto das meninas, que estava fechada. O intruso estava lá dentro, e era enfurecedor imaginá-lo no meio dos pertences das meninas, tocando coisas, manchando o quarto com seu sangue e sua loucura.

      Ele lembrou da voz furiosa, com um quê de loucura, mas que ainda assim parecia com a sua própria voz: Minha Paige, ela é minha, minha Charlotte, minha Emily...

      — Uma porra que são suas — ele disse, mantendo a Smith & Wesson apontada para a porta fechada.

      Marty olhou para o relógio de pulso.

      16:28.

      E agora?

      Podia ficar ali no corredor, pronto a mandar o bastardo para o inferno se a porta se abrisse. Esperar Paige e as meninas, gritar para elas quando entrassem, dizer a Paige para ligar para 911. Depois ela podia empurrar as meninas para o outro lado da rua, para a casa de Vic e Kathy Delorio, onde estariam em segurança, enquanto ele vigiava a porta até a chegada da polícia.

      Esse plano parecia bom, responsável, frio e calmo. Por um breve instante, a batida de seu coração contra as costelas tornou-se menos insistente, menos opressiva.

      Então, a maldição da imaginação de escritor atingiu-o em cheio, um redemoinho negro que o sugava para baixo, para possibilidades sombrias, a maldição do “e se”, e se, e se. E se o outro Marty tiver forças para abrir a janela do quarto das meninas, sair na cobertura do pátio nos fundos da casa e dali saltar no gramado? E se ele correr pelo lado da casa e sair na rua no momento em que Paige estiver entrando na estradinha de carros com as meninas?

      Isso podia acontecer. Poderia acontecer. Aconteceria. Ou alguma outra coisa tão ruim aconteceria, pior. O redemoinho da realidade tecia possibilidades mais terríveis do que os pensamentos mais sombrios de qualquer escritor. Nessa era de dissolução social, mesmo nas ruas mais pacíficas dos bairros mais tranqüilos, podiam acontecer atos inesperados de selvageria grotesca, atos que deixavam as pessoas chocadas e horrorizadas, mas não surpresas.

      Ele podia estar vigiando a porta de um quarto vazio.

      16:29.

      Paige podia estar virando a esquina a dois quarteirões de distância, entrando na rua deles.

      Talvez os vizinhos tivessem escutado os tiros e chamado a polícia. Por favor, Deus, deixe que este seja o caso.

      Ele não tinha nenhuma opção razoável a não ser abrir a porta do quarto das meninas, entrar e confirmar se O Outro estava lá ou não.

      O Outro. Em seu gabinete, quando a confrontação começou, ele logo descartou a idéia inicial de que estava lidando com alguma coisa sobrenatural. Um espírito não podia ser tão sólido e tridimensional quanto aquele homem. Se existissem mesmo, as criaturas do outro lado da linha entre a vida e a morte não seriam vulneráveis a balas. No entanto, persistia uma sensação estranha, que ficava mais pesada a cada momento que passava. Embora ele suspeitasse que a natureza de seu adversário era muito mais estranha do que os fantasmas ou demônios que mudavam de forma, que era ao mesmo tempo mais terrível e mundana, que havia nascido neste mundo e não em outro, ainda assim não conseguia pensar nele em termos geralmente reservados às histórias de espíritos assombrados: espectro, fantasma, espírito, aparição, O Não Convidado, O Imortal, A Entidade.

      O Outro.

      A porta esperava.

      O silêncio da casa era mais profundo do que a morte.

      Já concentrada apenas na perseguição do Outro, a atenção de Marty concentrou-se mais ainda, até ele esquecer o batimento do próprio coração, cego para tudo menos para a porta, surdo para todos os sons exceto para aqueles que podiam sair do quarto das meninas, consciente de nenhuma sensação a não ser a pressão de seu dedo no gatilho da pistola.

      A trilha de sangue.

      Fragmentos vermelhos de impressões de pés.

      A porta.

      Esperando.

      Ele estava enraizado na indecisão.

      A porta.

      De repente, alguma coisa ressoou acima dele. Marty jogou a cabeça para trás e olhou para o teto. Estava bem debaixo do poço de 1,50 de lado por 2,10 de profundidade onde se encaixava a clarabóia de plexiglas em forma de cúpula. A chuva batia contra o plexiglas. Apenas chuva, o barulho da chuva.

      Como se o peso da indecisão o tivesse puxado de volta ao pleno espectro da realidade, Marty foi abruptamente inundado por todas as vozes da tempestade, das quais não se havia dado conta enquanto seguia o rastro do Outro. Ele vinha prestando intensa atenção através do ruído de fundo, procurando os sons mais furtivos de sua caça. Agora há o vento que está rangendo-apupando-gemendo, o rataplã da chuva, o trovão fulminante, o raspar ossudo de um galho de árvore contra um lado da casa, o leve matraquear de uma parte solta da calha de chuva e outros barulhos menos identificáveis que fluem sobre ele.

      Os vizinhos não poderiam ter ouvido os disparos com aquela tempestade furiosa. Pior para essa esperança.

      Marty parecia estar sendo levado à frente pelo tumulto ao longo da trilha de sangue, um passo hesitante, depois outro, inexoravelmente em direção à porta que esperava.

  

A tempestade trouxe um crepúsculo precoce, triste e demorado, e Paige ficou de farol ligado durante todo o trajeto da escola das meninas para casa. Embora ligados na velocidade máxima, os limpadores do pára-brisas mal podiam acompanhar o ritmo das cataratas que caíam do céu. Ou a última seca seria interrompida por essa temporada de chuvas ou a natureza pregava uma peça cruel ao gerar expectativas que não iria realizar. Os cruzamentos estavam inundados. Os bueiros vazavam. O BMW espalhava enormes asas brancas de água, enquanto passava por uma poça funda após a outra. E saindo da escuridão nevoenta, os faróis de carros vindos na direção contrária os encontravam como holofotes de batiscafos sondando sulcos profundos no oceano.

      — Nós estamos num submarino — disse Charlotte excitada no assento do carona ao lado de Paige, olhando pela janela lateral através da cortina de água dos pneus —, nadando com as baleias, o Capitão Nemo e o Nautilus, vinte mil léguas abaixo da superfície do mar, com polvos gigantescos nos caçando. Lembra do polvo gigante, mamãe, do filme?

      — Lembro — disse Paige sem tirar os olhos da rua.

      — Periscópio para cima — Charlotte agarrou os cabos desse instrumento imaginário, espiando através do ocular. — Navegando na rota, batendo em navios com nossa proa de aço superforte — bum! — e o capitão maluco tocando seu enorme órgão de tubo! Está lembrada do órgão de tubo, mamãe?

      — Estou.

      — Mergulhando mais fundo, mais fundo, com o casco de pressão começando a estalar, mas o maluco do capitão Nemo diz mais fundo, tocando seu órgão de tubo e dizendo mais fundo, e o tempo todo lá vem o polvo. — Ela muda para o tema do filme O Tubarão — Dum-dum, dum-dum, dum-dum, dum-dum, da-da-dum!

      — Que coisa boba — disse Emily no assento traseiro.

      Charlotte girou no cinto de ombro para olhar para trás por entre os dois bancos da frente.

      — O que é bobo?

      — O polvo gigante.

      — Ah, é mesmo? Talvez você não achasse bobo se estivesse nadando e um deles viesse por baixo, lhe desse uma mordida cortando você em duas, comesse seus dois pedaços, depois cuspisse seus ossos para fora como um caroço de uva.

      — Os polvos não comem pessoas — disse Emily.

      — Claro que comem.

      — É o contrário.

      — Hem?

      — Pessoas comem polvos — disse Emily.

      — De jeito nenhum.

      — Sim.

      — De onde você tirou uma idéia estúpida como essa?

      — Vi num cardápio de restaurante.

      — Que restaurante? — perguntou Charlotte.

      — Vários restaurantes diferentes. Você foi neles. Não é verdade, mamãe... as pessoas não comem polvo?

      — Sim, comem — concordou Paige.

      — Você só está concordando para ela não parecer uma burra de sete anos de idade — disse Charlotte, cética.

      — Não, é verdade — assegurou-lhe Paige. — As pessoas comem polvos.

      — Como? — perguntou Charlotte, como se a própria idéia ultrapassasse sua imaginação.

      — Bem — disse Paige, freando diante de um sinal vermelho —, não todo de uma vez, um pedaço só.

      — Aposto que não! — disse Charlotte. — Pelo menos, não um polvo gigante.

      — Para começar, você pode cortar os tentáculos e fritar com manteiga de alho — disse Paige, olhando para a filha a fim de ver que impacto teria sobre ela essa notícia culinária.

      Charlotte fez uma careta e olhou para a frente de novo.

      — Você está tentando zombar de mim.

      — Tem um bom gosto — insistiu Paige.

      — Prefiro comer lama.

      — O gosto é melhor do que de lama, eu lhe garanto.

      No assento traseiro Emily começou a falar de novo.

      — Você também pode cortar e fritar os tentáculos.

      — É verdade — disse Paige.

      O julgamento de Charlotte foi simples e direto:

      — Que nojo.

      — Eles parecem pequenos anéis de cebola, só que são polvo — disse Emily.

      — Que nojo.

      — Pequenos anéis borrachudos de polvo frito pingando tinta grudenta de polvo — disse Emily, dando uma risada.

      Charlotte respondeu, novamente girando no assento para olhar a irmã:

      — Você é uma duende nojenta.

      — De qualquer modo — disse Emily —, nós não estamos num submarino.

      — Claro que não — concordou Charlotte. — Estamos num carro.

      — Não, estamos num hipofólio.

      — Num quê?

      Emily respondeu:

      — Igual a gente viu na televisão naquela vez, o barco que vai da Inglaterra a algum outro lugar e anda em cima da água, que passa zuuuumbindo mesmo.

      — Querida, você quer dizer “hidrofólio” — disse Paige, tirando o pé do freio quando a luz ficou verde e acelerando com cuidado ao atravessar o cruzamento inundado.

      — Isso mesmo — confirmou Emily. — Hiderfólio. Nós estamos num hiderfólio, indo para a Inglaterra encontrar a rainha. Eu vou tomar chá com a rainha, tomar chá e comer polvo e conversar sobre as jóias da família.

      Paige quase deu uma risada alta com essa tirada.

      — A rainha não serve polvo — disse Charlotte, exasperada.

      — Aposto como serve — disse Emily.

      — Não, ela serve bolinhos e bolo de aveia e meretrizes e coisas — disse Charlotte.

      Dessa vez, Paige deu uma risada alta. Ela teve uma imagem vivida na mente: a própria e graciosa rainha da Inglaterra indagando a um convidado se queria uma prostituta com o chá, indicando uma meretriz pomposa que esperava ali perto usando uma lingerie Frederick de Hollywood.

      — O que foi engraçado? — perguntou Charlotte.

      Paige mentiu, reprimindo a risada:

      — Nada, eu só estava pensando numa coisa, numa outra coisa que aconteceu há muito tempo. Não pareceria engraçado para vocês agora, é só uma lembrança da velha mamãe.

      A última coisa que queria era inibir a conversa delas. Quando estava no carro com as meninas, quase nunca ligava o rádio. Nada no dial era tão divertido quanto o Show Charlotte e Emily.

      Quando a chuva começou a cair mais forte que antes, Emily provou que estava num de seus humores loquazes.

      — É muito mais divertido estar num hiderfólio para ver a rainha do que estar num submarino com um polvo gigante dando mordida nele.

      — A rainha é uma chata — disse Charlotte.

      — Não é.

      — É sim.

      — Ela tem uma câmara de tortura debaixo do palácio.

      Charlotte tornou a se virar no assento, interessada contra a própria vontade.

      — Tem mesmo?

      — Tem sim — disse Emily. — E ela tem um sujeito lá embaixo com uma máscara de ferro.

      — Uma máscara de ferro?

      — Uma máscara de ferro — repetiu Emily em tom sombrio.

      — Por quê?

      — Porque ele é muito feio.

      Paige imaginou que as duas seriam escritoras quando crescessem. Tinham herdado a imaginação vivida e incansável de Marty. Provavelmente seriam tão impelidas a exercitá-la quanto ele, ainda que fossem escrever coisas bem diferentes dos romances do pai e obras bastante diferentes uma da outra.

      Ela mal conseguia esperar para contar a Marty sobre os submarinos, hiderfólios, polvos gigantes, tentáculos fritos e meretrizes com a rainha.

      Ela tinha decidido levar a sério o diagnóstico preliminar de Paul Guthridge, atribuindo os sintomas desanimadores de Marty apenas ao estresse e parando de se preocupar — pelo menos até obterem os resultados dos testes revelando algo pior. Nada iria acontecer a Marty. Ele era uma força da natureza, um poço fundo de energia e gargalhada, indomável e jovial. Ele se recuperaria, assim como Charlotte se recuperara de seu leito de morte cinco anos atrás. Nada iria acontecer com nenhum deles, porque tinham muita vida pela frente, muitos bons momentos para passar.

      Um relâmpago feroz — que raramente acompanhava as tempestades no sul da Califórnia, mas que dessa vez brilhou em toda plenitude — estalou no céu, trazendo em seu rastro o estrépito de um trovão tão incandescente quanto qualquer carruagem celestial que pudesse transportar Deus para fora do paraíso no Dia do Juízo Final.

 

Marty estava apenas a 1,5m ou dois de distância da porta do quarto das meninas. Ele se aproximou pelo lado das dobradiças, de modo a poder estender a mão para a maçaneta, empurrar a porta para dentro e evitar expor toda a sua silhueta no vão.

      Tentando não pisar no sangue, ele baixou os olhos para o tapete apenas por um segundo, para ver onde as manchas de sangue coagulado eram menores e mais raras do que em outros lugares do corredor. Vislumbrou uma anomalia que a princípio só registrou no subconsciente, e deu outro passo para a frente, de novo com o olhar fixo na porta, antes de perceber completamente o que havia visto: a impressão da metade da frente da sola de um sapato, uma tênue impressão em vermelho como vinte ou trinta outras pelas quais já havia passado, só que a parte estreita dessa impressão, do dedo grande do pé, estava apontada para a direção errada, de volta ao caminho por onde ele viera.

      Marty congelou ao compreender a importância da impressão do pé.

      O Outro fora até o quarto das meninas, mas sem entrar tinha feito a volta, tendo de alguma forma uma dramática redução no fluxo de sangue, por isso já não deixava mais um rastro claro — exceto uma reveladora impressão do pé e talvez mais uma ou duas que Marty não observara.

      Girando, segurando a arma com as duas mãos, Marty gritou para a visão do Outro saindo do gabinete de Paige e indo em sua direção, movendo-se rápido demais para um homem com ferimentos no peito e com menos sangue no corpo. Ele bateu com força em Marty, socando por baixo da pistola, jogando-o contra o corrimão e forçando seus braços para cima.

      Ao ser empurrado para trás, Marty apertou o gatilho num reflexo, mas a bala atingiu o teto do corredor. O firme corrimão chocou-se contra suas costas e um grito semi-estrangulado escapou de sua boca, quando uma dor violenta cruzou seus rins e brincou de amarelinha com sapatos de lança nos degraus de sua espinha dorsal.

      Quando gritou, perdeu a arma, que caiu de sua mão e fez uma curva sobre sua cabeça, indo para o espaço vazio e abobadado atrás dele.

      O torturado corrimão de carvalho tremeu, um estalido alto e seco sinalizou o colapso iminente e Marty teve certeza de que eles cairiam no poço da escada. Mas os balaústres não cederam e o corrimão se manteve firme nos pilares de cada extremidade.

      Pressionando sem parar para a frente, O Outro curvou Marty para trás, por sobre a balaustrada, tentando estrangulá-lo. Mão de ferro. Dedos como torqueses hidráulicas movidas por um potente motor. Comprimindo as artérias da carótida.

      Marty bateu com o joelho na virilha do assaltante, mas foi bloqueado. A tentativa deixou-o desequilibrado, com apenas um pé no chão, e foi empurrado para a frente na balaustrada até ficar imobilizado e equilibrado em cima do corrimão.

      Sufocando, sem conseguir respirar, consciente de que o pior perigo era a redução de sangue em seu cérebro, Marty segurou uma cunha com as duas mãos e empurrou-as para cima por entre os braços do Outro, tentando abri-los e romper o estrangulamento. O assaltante redobrou seus esforços, determinado a manter o aperto. Marty também fez mais força, enquanto seu coração sobrecarregado batia dolorosamente contra o osso esterno.

      Eles deviam estar empatados, droga, tinham a mesma altura, o mesmo peso, a mesma estrutura e o mesmo estado físico e, por toda as aparências, eram o mesmo homem.

      No entanto, embora estivesse com dois ferimentos a bala potencialmente mortais, O Outro era o mais forte, e não apenas por ter a vantagem da posição superior e, portanto, maior impulso. Ele parecia possuir uma força não humana.

      Face a face com sua réplica, banhado por cada respiração quente e explosiva, Marty podia estar olhando para um espelho, embora o selvagem reflexo à sua frente estivesse contorcido por expressões que ele nunca tinha visto em seu rosto. Raiva brutal. Ódio tão tóxico quanto cianureto. Espasmos de prazer maníaco retorciam as feições conhecidas, enquanto o estrangulador se excitava com o ato do assassinato.

      Com os lábios pressionados pelos dentes, a saliva voando enquanto falava, impossível mas repetidamente estreitando seu estrangulamento com o intuito de enfatizar as palavras, O Outro disse:

      — Preciso da minha vida agora, minha vida, minha, minha, agora. Preciso da minha família agora, minha, agora, agora, agora, preciso, PRECISO!

      Pirilampos em negativo percorriam de um lado ao outro o campo de visão de Marty. Eles eram o oposto dos vagalumes que portavam lanternas numa quente noite de verão; não eram pulsações de luz na escuridão, mas sim pulsações de escuridão na luz. Cinco, dez, vinte, cem, um enxame fervilhante. O rosto indistinto do Outro desaparecia em partes sob o enxame negro que pulsava.

      Desesperado para romper o aperto do assaltante, Marty arranhou o rosto cheio de ódio. Contudo não conseguiu atingi-lo direito. Seu próprio esforço pareceu débil, enfraquecido.

      Tantos pirilampos em negativo.

      Vislumbrado entre eles: o rosto corrompido e colérico de sua mulher exigindo um marido novo, o rosto imperioso do novo e severo pai de suas filhas.

      Vagalumes. Em toda parte, em toda parte. Abrindo suas asas da destruição.

       Bangue. Alto como um tiro de rifle. Segunda, terceira, quarta explosão — uma logo depois da outra. Balaústres quebrando.

      O corrimão estalou. Cedeu para trás. Já não tinha mais o apoio dos balaústres, que haviam se transformado em estilhaços debaixo dele.

      Marty parou de opor resistência ao atacante e, frenético, tentou enfiar pernas e braços no corrimão, com a esperança de se agarrar nos restos ancorados, em vez de ser arremessado no vão aberto. Mas a parte central da balaustrada desintegrou-se tão completa e rapidamente que ele não pôde encontrar um ponto de apoio em seus elementos partidos, e o peso do assaltante que o agarrava deu mais força à gravidade do que era preciso. Entretanto, enquanto eles balançavam à beira do vão, as ações de Marty alteraram a dinâmica de seus esforços, de modo que O Outro passou rolando por ele e caiu primeiro. O assaltante soltou a garganta de Marty, mas arrastou-o na posição superior. Os dois caíram no poço da escada, foram contra o corrimão externo, despedaçando-o instantaneamente, e bateram com força no chão da saleta de entrada feito de lajotas mexicanas.

      Foi uma queda de menos de dois metros; não era uma distância tremenda, talvez nem fosse uma distância letal, e a velocidade dos dois havia sido interrompida pelo corrimão inferior. No entanto, o impacto eliminou o pouco fôlego que Marty recuperara no trajeto para baixo, muito embora sua queda tivesse sido amortecida pelo Outro, que atingiu de costas as lajotas mexicanas com a pancada retumbante de uma marretada.

      Engasgando, tossindo, Marty afastou-se de seu sósia e tentou arrastar-se para fora de seu alcance. Estava ofegante, tonto e não sabia se havia quebrado algum osso. Quando respirava, o ar picava sua garganta ferida; quando tossia, a dor não poderia ser pior do que se tentasse engolir um rolo de arame farpado e pregos curvos. Rastejar rápido como um gato, era o que ele tinha em mente, acabou ficando fora de questão e ele só conseguiu arrastar-se no chão da saleta de entrada, mancando e tremendo como um besouro que acabava de receber um esguicho de inseticida.

      Piscando para reprimir lágrimas arrancadas pela tosse violenta, Marty localizou a Smith & Wesson. Estava a cerca de cinco metros de distância, muito além do ponto em que a transição de chão de lajota para a madeira dura indicava o fim da saleta de entrada e o começo da sala de estar. Considerando-se a intensidade com que ele se concentrou nela e a dedicação com que arrastava seu corpo dolorido e semi-entorpecido, a pistola bem poderia ter sido o Santo Graal.

      Ele tornou-se consciente de um rumor distinto dos sons da tempestade, seguido por um baque surdo, que ele supôs estupidamente que tivesse algo a ver com O Outro, mas não parou para olhar para trás. Talvez o que ouviu tenha sido um espasmo de morte, saltos de sapato tamborilando no chão, uma última convulsão. De qualquer forma, o sacana tinha que estar gravemente ferido. Aleijado e moribundo. Mas contudo, antes de comemorar a própria sobrevivência, Marty desejava pôr as mãos trêmulas na arma.

      Ele alcançou a pistola, agarrou-a e soltou um grunhido de débil triunfo. Caiu para o lado, fez a volta deslizando e apontou na direção da saleta da entrada, preparado para descobrir que seu perseguidor obstinado estava em cima dele.

      Mas O Outro ainda permanecia caído de costas. As pernas abertas. Os braços encostados no corpo. Imóvel. Podia até estar morto. Não tanta sorte assim. Sua cabeça pendeu na direção de Marty. Seu rosto estava pálido, brilhando de suor, tão branco e brilhante quanto uma máscara de porcelana.

      — Quebrado — ele disse, ofegante.

      Ele parecia conseguir mexer apenas a cabeça e os dedos da mão direita, mas não a própria mão. Uma careta mais de esforço do que de dor contorceu suas feições. Levantou a cabeça do chão, e os dedos ainda vivos se enrolavam e desenrolavam como pernas de uma tarântula moribunda, mas ele parecia incapaz de se sentar ou curvar as pernas até os joelhos.

      — Quebrado — ele repetiu.

      Alguma coisa na maneira como a palavra foi dita fez Marty pensar num soldado de brinquedo, molas curvas e engrenagens partidas.

      Marty pôs-se de pé, apoiando-se com uma das mãos na parede.

      — Vai me matar? — perguntou O Outro.

      A perspectiva de meter uma bala no cérebro de um homem ferido e indefeso era repulsiva ao extremo, mas Marty ficou tentado a cometer a atrocidade e se preocupar mais tarde com as conseqüências psicológicas e jurídicas. Foi reprimido tanto pela curiosidade quanto pelas considerações morais.

      — Matar você? Adoraria — sua voz saiu roufenha, e sem dúvida ficaria assim por um ou dois dias, até que ele se recuperasse da tentativa de estrangulamento. — Porra, quem é você? — Cada palavra irritada lembrava a Marty a sorte que tivera para ainda estar vivo e poder fazer a pergunta.

      O rumor baixo voltou, o mesmo barulho que ele ouvira quando rastejava em direção à pistola. Dessa vez, ele reconheceu: não eram convulsões e solas tamborilantes de um moribundo, mas apenas as vibrações da porta automática da garagem, que subira na primeira vez e agora estava descendo.

      Vozes elevaram-se na cozinha quando Paige e as meninas entraram na casa pela porta da garagem.

      Num segundo menos trêmulo, e tendo recuperado o fôlego, Marty atravessou correndo a sala de estar em direção à sala de jantar, ansioso para deter as crianças antes que vissem alguma coisa do que tinha acontecido. Durante um longo tempo, elas teriam dificuldade para se sentir confortável em sua própria casa, sabendo que um invasor havia entrado e tentado matar seu pai. Mas ficariam mais traumatizadas se vissem a destruição e o homem sujo de sangue, caído, paralisado no chão da saleta de entrada. Considerando-se o fato macabro de que o intruso também era um sósia perfeito de seu pai, talvez nunca mais dormissem direito nessa casa.

      Quando Marty irrompeu na cozinha através da sala de jantar deixando a porta giratória batendo para a frente e para trás às suas costas, Paige virou-se surpresa no cabide onde pendurava sua capa de chuva. Ainda com os impermeáveis amarelos e os frouxos chapéus de vinil, as meninas sorriram e balançaram a cabeça em expectativa, talvez imaginando que a explosiva entrada de Marty fosse uma brincadeira ou uma das improvisadas atuações bobas de papai.

      — Tire elas daqui — grunhiu para Paige, tentando parecer calmo, sendo derrotado pela voz roufenha e pelo evidente excesso de tensão.

      — O que aconteceu com você?

      — Agora — insistiu —, neste exato momento, leve-as para o outro lado da rua, para Vic e Kathy.

      As meninas viram a arma em sua mão. Seus sorrisos desapareceram e elas arregalaram os olhos. Paige disse:

      — Você está sangrando. O que...

      — Eu não — ele interrompeu, percebendo tarde que tinha ficado com o sangue do Outro em toda a camisa, quando caíra em cima dele. — Eu estou bem.

      — O que aconteceu? — perguntou Paige.

      Abrindo a porta que dava para a garagem, ele disse:

      — Tivemos uma coisa aqui. — Sua garganta doía quando ele falava, no entanto ele não balbuciava em seu urgente desejo de colocá-las em segurança fora da casa, incoerente talvez pela primeira vez em sua vida obcecada pela palavra. — Um problema, uma coisa, Deus, você sabe, como uma coisa que aconteceu, algum problema...

      — Marty...

      — Vamos, vamos para a casa dos Delorio, todas vocês. — Ele atravessou a soleira, entrou na garagem escura, apertou o botão e a enorme porta rolou para cima. Ele encontrou os olhos de Paige. — Elas ficarão a salvo na casa dos Delorio.

      Sem dar-se ao trabalho de tirar a capa do cabide, Paige conduziu as meninas passando por ele, entrando na garagem em direção à porta que subia.

      — Chame a polícia — gritou para ela, estremecendo com a dor que lhe custou o grito.

      Paige olhou para ele, o rosto vincado de preocupação.

      Ele disse:

      — Estou bem, mas temos um cara lá dentro, ferido a bala.

      — Venha conosco — suplicou ela.

      — Não posso. Chame a polícia.

      — Marty...

      — Vá, Paige, trate de ir!

      Ela moveu-se entre Charlotte e Emily, pegou as duas pelas mãos e levou-as para fora da garagem, para o aguaceiro, virando-se para olhar de novo para ele apenas uma vez.

      Ele ficou olhando até que elas chegassem ao final da estradinha de carros, examinassem o tráfego à direita e à esquerda e depois atravessassem a rua. Passo a passo, enquanto se afastavam nas cortinas prateadas de chuva, elas se pareciam menos com pessoas reais e mais com espíritos em retirada. Ele teve a desconcertante sensação previdente de que nunca mais as veria vivas de novo; sabia que isso era nada mais que uma reação irracional acirrada pela adrenalina, pelo que havia passado, mas mesmo assim o medo criou raízes nele e cresceu.

      Um vento frio e úmido invadiu os cantos mais profundos da garagem, e no mesmo instante Marty sentiu a transpiração em seu rosto transformar-se em gelo.

      Ele voltou para a cozinha e bateu a porta.

      Embora tremesse semicongelado, ele desejava uma bebida fria, já que sua garganta queimava como se abrigasse um fogo de querosene.

      Talvez o homem estivesse morrendo na saleta de entrada, tendo convulsões nesse exato segundo, ou um ataque do coração. Ele estava numa péssima forma. Portanto, seria uma boa idéia ir até lá para observá-lo, para o caso de ser preciso uma massagem cardíaca antes da chegada das autoridades. Marty não se importava se o sujeito morresse — queria que ele morresse —, mas não antes de um bocado de perguntas serem respondidas para que esses acontecimentos recentes fizessem pelo menos algum sentido.

      No entanto, antes de fazer qualquer coisa, tinha que tomar uma bebida para acalmar a garganta. Nesse momento, cada gole era uma tortura. Quando os tiras chegassem, ele tinha que estar preparado para falar um bocado.

      A água da bica não pareceu fria o bastante para realizar a mágica, então ele abriu a geladeira, que podia jurar que estava muito mais vazia do que no início do dia, e pegou uma caixa de leite. Não, a idéia do leite o fez sentir ânsias de vômito. O leite lembrava sangue, porque era um líquido do corpo, o que era ridículo, claro; mas os acontecimentos da última hora eram irracionais, assim deduzia-se que algumas de suas reações também fossem irracionais. Ele devolveu a caixa à prateleira, estendeu a mão para o suco de laranja, depois viu as garrafas de Corona e as latas de Coors. Nada jamais pareceu tão desejável quanto aquelas cervejas geladas. Pegou uma das latas porque continham um terço a mais de líquido do que uma garrafa de Corona.

      O primeiro longo trago aumentou o incêndio em sua garganta em vez de debelá-lo. O segundo doeu um pouco menos que o primeiro, o terceiro menos que o segundo e, depois disso, cada trago era tão calmante quanto mel medicamentoso.

      Com a pistola em uma das mãos e a lata de Coors semivazia na outra, tremendo mais pela lembrança do que tinha acontecido e pela perspectiva do que viria do que por causa da cerveja gelada, ele voltou para a saleta de entrada.

      O Outro desaparecera.

      Marty ficou tão assustado que deixou a Coors cair. A lata rolou atrás dele, despejando cerveja espumante no chão de madeira da sala de estar. Embora a lata tivesse se soltado de sua mão com muita facilidade, só alçapremas hidráulicas poderiam forçá-lo a soltar a arma.

      Balaústres partidos, uma parte do corrimão e lascas espalhadas pelo chão. Várias lajotas mexicanas tinham sido partidas e lascadas pelo impacto do carvalho duro e da Smith & Wesson. Nenhum corpo.

      No momento em que o sósia entrou no gabinete de Marty, o dia se transformara em pesadelo sem o pré-requisito do sono. Acontecimentos romperam as correntes da realidade, e sua própria casa transformara-se em sombria paisagem de sonho. Tão surrealista como fora o confronto, ele não duvidara a sério de sua realidade enquanto ela se desenrolava. E tampouco duvidava agora. Ele não havia atirado numa imaginação da mente, não fora estrangulado por uma ficção, nem mergulhara sozinho no corrimão da galeria. Deitado incapacitado na saleta de entrada, O Outro era tão real quanto a balaustrada partida que ainda estava espalhada nas lajotas.

      Alarmado com a possibilidade de Paige e as meninas terem sido atacadas na rua antes de chegar na casa dos Delorios, Marty virou-se para a porta da frente. Trancada. Por dentro. A corrente de segurança estava no lugar. O louco não saíra de casa por essa rota.

      Não saíra, em absoluto. Como poderia, em seu estado? Sem pânico. Fique calmo. Pense direito.

      Marty seria capaz de apostar um ano de sua vida que os catastróficos ferimentos do Outro eram verdadeiros, não fingimento. As costas do sacana estavam quebradas. Sua incapacidade de mover qualquer coisa, menos a cabeça e os dedos de uma das mãos, significava que talvez ele tivesse quebrado a espinha quando fez a dança da gravidade com o chão.

      Então, onde estava ele?

      Não no andar de cima. Mesmo que sua espinha não estivesse quebrada, mesmo que ele tivesse escapado da tetraplegia, não poderia ter arrastado seu corpo machucado para o segundo andar durante o curto tempo em que Marty ficou na cozinha.

      Oposta à entrada da sala de estar, uma pequena sala de estudo abria-se para o gabinete. A luz cinza-parda do crepúsculo lavado pela chuva infiltrava-se entre as ripas da persiana sem nada iluminar. Marty passou pelo vão da porta, acendeu as luzes. A sala de estudo estava deserta. Ele abriu a porta espelhada do armário, mas O Outro tampouco estava escondido lá.

      Saleta de entrada. Nada. Quarto de banho. Nada. O armário fundo debaixo da escada. Lavanderia. Sala da família. Nada, nada, nada.

      Marty fez uma busca frenética, temerária, sem se preocupar com a segurança. Esperava descobrir seu suposto assassino nas proximidades e essencialmente desamparado, talvez até morto, depois que essa frágil tentativa de fuga tivesse exaurido seus últimos recursos.

      Em vez disso, encontrou na cozinha a porta dos fundos aberta para o pátio. Uma lufada de vento frio entrou, chocalhando as portas do guarda-louças. No cabide junto à entrada da garagem, a capa de chuva de Paige elevou-se com falsa vida.

      Enquanto Marty retornara à saleta de entrada através da sala de jantar e da sala de estar, O Outro se dirigira para a cozinha por uma outra rota. Ele devia ter percorrido o pequeno corredor que levava da saleta de entrada, passando pela sala de banho e lavanderia, e cruzava uma das extremidades da sala da família. Não podia ter rastejado essa distância com muita rapidez. Ele estava de pé, talvez inseguro, mas mesmo assim estava de pé.

      Não. Não era possível. Está bem, talvez o sujeito não estivesse com a espinha rompida. Talvez nem mesmo com uma fratura na coluna. Mas suas costas tinham de estar quebradas. Ele não podia simplesmente levantar-se de um salto e sair dando cambalhotas.

      Mais uma vez, o pesadelo em estado de alerta substituía a realidade. Era hora de caçar à espreita — e ser espreitado — alguma coisa que gozava dos poderes regenerativos de um monstro num sonho, alguma coisa que disse estar chegando à procura de uma vida e que parecia bastante equipado para ficar com ela.

      Marty passou pela porta aberta, saindo no pátio.

      O medo renovado alçou-o a um estado de consciência mais elevado, no qual as cores eram mais intensas, os odores mais penetrantes, os sons mais claros e mais refinados do que antes. O sentimento era semelhante às inexplicáveis sensações fortes experimentadas em certos sonhos de infância e adolescência — sobretudo naqueles em que o sonhador voa leve pelos céus, como um pássaro, ou vivencia a comunhão sexual com uma mulher de uma forma tão extraordinária que, mais tarde, não consegue lembrar-se de seu rosto nem de seu corpo, apenas do esplendor essencial da beleza perfeita. Esses sonhos especiais não pareciam ser fantasias, mas sim vislumbres de uma realidade maior e mais detalhada, muito além da realidade do mundo em estado de alerta. Ao passar pela porta da cozinha, saindo da casa aquecida para o reino frio da natureza, Marty foi estranhamente lembrado da nitidez arrebatadora dessas visões há muito esquecidas, pois agora ele experimentava sensações igualmente agudas, atento para cada nuance do que via-ouvia-cheirava-tocava.

      Do denso colmo da buganvília acima, grandes quantidades de gotas e chuviscos chapinhavam nas poças negras como petróleo à luz efêmera. Sobre essa escuridão líquida flutuavam fluorescências vermelhas em desenhos que, embora ao acaso, pareciam misteriosos de forma consciente, tão portentosos e cheios de significado como a antiga caligrafia de algum místico chinês morto muito tempo antes.

      Em torno do perímetro do pátio dos fundos — pequeno e murado, como na maioria dos bairros do sul da Califórnia —, loureiros indianos e eugênias aglomeradas tremiam tristes no vento frio. Próximo ao canto noroeste, os galhos longos e delicados de um par de eucaliptos âmbares açoitavam o ar, deixando cair folhas oblongas tão prateadas quanto asas de libélulas. Nas sombras lançadas pela árvores — e atrás de vários arbustos maiores — havia lugares em que uma pessoa podia esconder-se.

      Marty não tinha a menor intenção de fazer uma busca ali. Se sua caça havia se arrastado para fora de casa para esconder-se num ninho frio e molhado de jasmim e agapanto, enfraquecido pela perda de sangue — que era o caso mais provável —, encontrá-lo não era urgente. Era mais importante ter certeza de que nesse momento O Outro não estava escapando sem ser perseguido.

      Longamente adaptados às condições secas e acostumados com a água fornecida pelo sistema de irrigadores, coros de sapos cantavam nos ninhos escondidos, vozes estridentes que, em geral, eram encantadoras, mas agora pareciam lúgubres e ameaçadoras. Mais alto que sua ária erguia-se o queixume de sirenes distantes, mas que se aproximavam.

      Se o intruso estava tentando escapar antes da chegada da polícia, eram poucas as possíveis rotas de fuga. Ele podia ter escalado um dos muros da propriedade, coisa que parecia improvável porque, apesar de sua recuperação milagrosa, ele simplesmente não tivera tempo suficiente para atravessar o gramado, avançar entre os arbustos e pular para um dos pátios vizinhos.

      Marty virou para a direita e saiu correndo do pátio com a coberta encharcada. Molhado até os ossos em meia dúzia de passos, ele seguiu pela calçada ao longo da casa, depois correu pelos fundos da garagem contígua.

      O aguaceiro atraíra lesmas para fora de abrigos úmidos e cheios de sombras, onde em geral permaneciam até muito depois do cair da noite. Seus corpos pálidos e gelatinosos estavam esticados para fora das conchas, com as antenas grossas sondando à frente. Sem poder evitar, ele pisou em algumas, esmagando-as numa pasta, e em sua mente brilhou a idéia supersticiosa de que uma entidade cósmica iria, a qualquer segundo, esmagá-lo debaixo dos pés com o mesmo descuido.

      Quando virou no canto que dava para a calçada de serviço, flanqueada por uma parede da garagem e uma cerca de eugênia, esperava ver o sósia coxeando em direção à frente da propriedade. A calçada estava deserta. O portão da frente estava entreaberto.

      No momento em que Marty correu a toda velocidade para a estradinha de carro na frente da casa, as sirenes soavam muito mais altos. Ele chapinhou na sarjeta com dez ou quinze centímetros de água que fluía rápido, tão fria quanto o Estige, saiu na rua, olhou para a direita e para a esquerda, mas ainda não era possível avistar nenhum carro de polícia.

      O Outro não podia ser visto em parte alguma. Marty estava sozinho na rua.

      No próximo quarteirão ao sul, um carro se afastava em disparada longe demais para que ele pudesse reconhecer a marca e o modelo. Apesar de o carro estar andando depressa demais para as condições do tempo, ele duvidou que estivesse sendo guiado pelo sósia. Marty ainda estava sob muita pressão para acreditar que o ferido tinha conseguido andar, muito menos chegar a seu carro e partir com tanta velocidade. Com certeza, iriam encontrar o filho da puta nas proximidades, caído no matagal, inconsciente ou morto. O carro fez a volta na esquina rápido demais, o guincho fino do protesto dos pneus pôde ser ouvido acima do plinque-ploque e do sussurro da chuva. Depois desapareceu.

      Ao norte, o grito de morte das sirenes ficou de repente muito mais alto, e Marty girou para ver um sedã preto e branco da polícia manobrar na esquina com tanta velocidade quanto o outro carro tinha entrado na esquina ao sul. As luzes giratórias de emergência vermelha e azul lançavam dardos brilhantes através da chuva cinzenta e do pavimento. A sirene foi desligada quando o sedã parou a seis metros de Marty, no centro da rua, com uma chamativa encenação do dublê de motorista que pareceu excessiva mesmo naquelas circunstâncias.

      A sirene de uma radiopatrulha de reserva soou ao longe quando foram abertas as portas da frente do primeiro preto e branco. Dois oficiais uniformizados saíram da carro, permanecendo abaixados, protegendo-se atrás das portas e gritando:

      — Deixe cair! Agora! Deixe cair agora ou morra, seu merda! Agora!

      Marty percebeu que ainda segurava a pistola 9mm. Os tiras só, sabiam o que Paige tinha contado quando ligou para o 911, que um homem fora alvejado, portanto imaginaram que ele era o criminoso. Se não fizesse exatamente o que pediam, e rápido, atirariam nele e teriam como se justificar.

      Marty deixou a arma cair de sua mão.

      Ela caiu com estrépito no pavimento.

      Os tiras ordenaram que ele chutasse a arma para longe. Ele obedeceu.

      Quando eles saíram de trás das portas um dos tiras gritou:

      — No chão, rosto para baixo, mãos nas costas!

      Marty sabia muito bem que não devia tentar fazê-los entender que ele era a vítima e não o criminoso. Eles queriam obediência primeiro, explicações depois, e se suas posições estivessem invertidas, Marty esperaria o mesmo deles.

      Ele deixou-se cair sobre joelhos e mãos, depois deitou no meio da rua. Mesmo de camisa, o pavimento estava tão frio que o deixou sem respiração.

      A casa de Vic e Kathy Delorio ficava bem do outro lado da rua onde ele estava deitado, e Marty esperava que Charlotte e Emily estivessem sendo mantidas afastadas das janelas. Não deviam ver seu pai deitado no chão sob a mira das armas dos policiais. Elas já estavam assustadas. Ele se lembrou de seus olhos arregalados, quando irrompera na cozinha com a arma na mão, e não queria que ficassem mais assustadas.

      O frio congelava seus ossos.

      De repente, a segunda sirene soou ainda mais alta, de um segundo a outro. Marty imaginou que a radiopatrulha houvesse virado na esquina ao sul, aproximando-se dessa extremidade da quadra. O silvo penetrante era tão frio quanto um pingente de gelo furando o ouvido.

      Com um lado do rosto no pavimento, piscando para afastar a chuva dos olhos, ele observou a aproximação dos tiras, que continuavam com as armas nas mãos. Quando pisaram numa poça rasa, os borrifos pareceram gigantescos da perspectiva de Marty.

      Quando o alcançaram, Marty disse:

      — Está bem. Eu moro aqui. Essa é minha casa. — Sua fala, já rouca, saiu ainda mais distorcida pelos tremores que o possuíam. Marty ficou preocupado em parecer bêbado ou demente. — É a minha casa.

      — Trate de ficar deitado — disse um deles em tom ríspido.— Mantenha as mãos nas costas e fique deitado.

      O outro perguntou:

      — Tem alguma identidade?

      Ele tremia tanto que os dentes batiam:

      — Sim, claro, na minha carteira.

      Sem correr nenhum risco, eles o algemaram antes de pescar a carteira no bolso. As algemas de aço ainda estavam quentes do aquecimento do carro.

      Marty sentia-se como se fosse um personagem de um de seus romances. Decididamente, não era uma boa sensação.

      A segunda sirene morreu. Portas de carro foram batidas. Ele ouviu a estática e as vozes sumidas dos rádios na faixa policial.

      — Você tem aqui alguma identidade com foto? — perguntou o tira que tirara sua carteira.

      Marty revirou o olho esquerdo, tentando ver alguma coisa do homem acima do nível do joelho.

      — Sim, claro, numa dessas divisões de plástico, a carteira de motorista.

      Em seus romances, quando personagens inocentes eram suspeitos de algum crime que não haviam cometido, muitas vezes ficavam preocupados e com medo. Entretanto, Marty nunca escrevera sobre a humilhação desse tipo de experiência. Deitado no pavimento frio, de bruços diante de oficiais da polícia, ele estava mortificado como nunca antes estivera, apesar de não ter feito nada errado. A própria situação — estar em posição de extrema submissão enquanto era visto com profunda desconfiança por figuras de autoridade — parecia disparar alguma culpa inata, um senso congênito de culpabilidade, numa monstruosa transgressão que não podia ser identificada, sentimentos de vergonha por ser descoberto, embora ele soubesse que não havia nada de que pudesse ser acusado.

      — Quanto tempo tem essa foto em sua carteira? — perguntou o tira.

      — Hum, não sei, dois, três anos.

      — Não parece muito com você.

      — Você sabe como são essas fotos — disse Marty, desanimado por ouvir mais súplica que raiva em sua voz.

      — Deixem ele levantar, está tudo bem, é meu marido, é Marty Stillwater — gritou Paige, correndo da casa dos Delorio na direção deles.

      Marty não podia vê-la, mas a voz dela alegrou-o, restaurando um senso de realidade naquele momento de pesadelo.

      Ele disse para si mesmo que tudo ficaria bem. Os tiras reconheceriam seu erro, o levantariam, revistariam o mato em volta da casa e os pátios vizinhos, encontrariam logo o sósia e teriam urna explicação para todas as esquisitices da última hora.

      — Ele é meu marido — repetiu Paige, bem mais perto agora, e Marty pôde ver os tiras olhando enquanto ela se aproximava.

      Ele fora abençoado com uma mulher atraente, que valia a pena ver mesmo quando ensopada de chuva e perturbada; não era apenas atraente, mas também inteligente, charmosa, divertida, adorável, singular. Suas filhas eram geniais. Ele tinha uma próspera carreira como romancista e gostava muito de seu trabalho. Nada iria mudar isso. Nada.

      No entanto, mesmo enquanto os tiras retiravam as algemas e o ajudavam a erguer-se, mesmo enquanto Paige o abraçava e ele a ela, com gratidão, Marty tinha a consciência aguda e desconfortável de que o crepúsculo estava dando lugar ao cair da noite. Ele olhou por sobre o ombro dela, buscando inúmeros lugares escuros da rua, perguntando-se de que ninho de escuridão viria o próximo ataque. A chuva parecia tão fria que devia ser granizo, as luzes de emergência feriam seus olhos, sua garganta queimava como se ele tivesse feito gargarejo com ácido, o corpo doía em vários lugares por causa das pancadas que havia levado, e o instinto lhe dizia que o pior ainda estava por vir.

      Não.

      Não, não era seu instinto falando. Era apenas sua imaginação superativa trabalhando. A maldição da imaginação de escritor. Sempre procurando a próxima virada na trama.

      A vida não era como a ficção. As histórias reais não tinham segundo e terceiro ato, estruturas esmeradas, ritmo de narrativa, desfecho em escalada. As coisas malucas apenas aconteciam, sem a lógica da ficção, e então a vida prosseguia como sempre.

      Todos os policiais observavam Marty abraçar Paige.

      Ele pensou ter visto hostilidade em seus rostos.

      Outra sirene soou ao longe.

      Ele estava tão frio.

 

A noite de Oklahoma deixava Drew Oslett inquieto. Quilômetro após quilômetro, em ambos os lados da auto-estrada interestadual, com raras exceções, a escuridão era tão profunda e inexorável que ele parecia estar atravessando uma ponte sobre um abismo muito amplo e sem fundo. Milhares de estrelas salpicavam o céu, sugerindo uma imensidão que ele preferia não considerar.

      Ele era uma criatura da cidade, com a alma sintonizada com o alvoroço urbano. Largas avenidas flanqueadas por prédios altos eram os mais largos espaços abertos nos quais se sentia bastante confortável. Tinha vivido em Nova York durante muitos anos, mas jamais visitara o Central Park; aqueles campos e vales estavam cercados pela cidade; no entanto, Oslett achava-os grandes e bucólicos demais a ponto de deixá-lo irritado. Só estava em seu elemento no abrigo das florestas de arranha-céus, onde as calçadas fervilhavam de gente e as ruas viviam congestionadas de tráfego barulhento. Em seu apartamento na Manhattan central, ele dormia sem cortinas nas janelas, de modo que a luz ambiente da metrópole inundasse o quarto. Quando acordava à noite, era confortado por sirenes periódicas, buzinas estridentes, gritos de bêbados, tampas de bueiros chocalhadas por carros e outros barulhos mais exóticos que se erguiam nas ruas mesmo durante as horas mortas, embora num volume menor que o glorioso estrondo e estrépito das manhãs, tardes e noites. A contínua dissonância e infinitas distrações da cidade eram a seda de seu casulo, protegendo-o, dando-lhe a certeza de que ele jamais se encontraria nas tranqüilas circunstâncias que encorajavam a contemplação e a introspecção.

      A escuridão e o silêncio não ofereciam nenhuma distração e, portanto, eram inimigos do contentamento. A Oklahoma rural tinha muita quantidade de ambos.

      Um pouco inclinado no assento do carona do Chevrolet alugado, Drew Oslett desviou a atenção da paisagem irritante para o moderno mapa eletrônico que carregava no colo.

      O instrumento era do tamanho de uma pasta de documentos, embora quadrada e não retangular, e operava com a bateria do carro através do acendedor de cigarro. O tampo chato parecia a frente de uma televisão: uma tela com uma moldura estreita de aço escovado e uma fileira de botões de controle. No fundo de suave luminosidade verde-lima, as auto-estradas interestaduais eram indicadas em verde-esmeralda, as vias estaduais em amarelo e as estradas de condado em azul; os caminhos secundários não pavimentados, de terra e cascalho, eram representados por linhas negras interrompidas. Centros populacionais — poucos preciosos nessa parte do mundo — eram cor-de-rosa.

      O veículo deles era um ponto de luz vermelha próximo ao centro da tela. O ponto movia-se sem parar ao longo da linha verde-esmeralda, que era a Interestadual 40.

      — Agora temos cerca de seis quilômetros pela frente — disse Oslett.

      Karl Clocker, o motorista, não respondeu. Mesmo no melhor dos dias, Clocker não era um grande Conversador. A média das pedras era mais loquaz.

      A tela quadrada do mapa eletrônico estava ajustada para uma escala de média distância, mostrando 160 quilômetros quadrados de território numa rede de 16km X 16km. Oslett tocou um dos botões e o mapa piscou, sendo substituído quase de imediato por um bloco de 40 quilômetros quadrados, oito quilômetros num lado, que ampliou um quadrante do primeiro quadro para encher a tela.

      O ponto vermelho que representava seu carro era agora quatro vezes maior que antes. Já não estava mais no centro do quadro, mas do lado direito.

      Próximo à extremidade esquerda da tela, a menos de seis quilômetros de distância, um X branco intermitente permaneceu estacionário em apenas uma fração de centímetro à direita da Interestadual 40. O X assinalava a presa.

      Oslett gostava de trabalhar com o mapa, porque a tela era tão colorida, parecia a tela de um videogame bem desenhado. Ele gostava um bocado de videogames. Na verdade, embora já estivesse com 32 anos, alguns de seus lugares favoritos eram as galerias onde esquadrões de máquinas frias hipnotizavam o olho com luzes estroboscópicas de todas as cores e namoravam os ouvidos com incessantes bipes, tuites, bizzes, hutes, upes, uau-uaus, clangues, buns e rifes de música e notas eletrônicas oscilantes.

      Infelizmente, o mapa nada tinha da ação de um videogame. E carecia por completo de efeitos sonoros.

      Contudo, o aparelho o excitava porque nem todo o mundo podia pôr as mãos no engenho — que era chamado de Unidade de Rastreamento Assistida por Satélite, URAS. Não era vendido ao público, em parte porque o custo era tão exorbitante que os potenciais compradores eram bem poucos para justificar sua comercialização. Além disso, parte da tecnologia estava obstruída por estrita proibição de segurança nacional contra a disseminação. E como o mapa era sobretudo uma ferramenta para rastreamento clandestino e vigilância, a maioria do número relativamente pequeno de unidades existentes era em geral usada por forças de aplicação da lei controladas pelo governo federal e órgãos de coleta de informações, ou estavam em mãos de organizações semelhantes em países aliados dos Estados Unidos da América.

      — Cinco quilômetros — disse ele a Clocker.

      O motorista alto e tosco nem sequer grunhiu à guisa de resposta.

      Cabos saíam do URAS e terminavam num copo de sucção de 7,5 cm de diâmetro, que Oslett fixara na parte mais alta do pára-brisa curvo. Um local com peças eletrônicas em microminiatura na base do copo era o transmissor e receptor do conjunto ligado ao satélite. Por meio de emissões de microondas codificadas, o URAS podia ligar-se rápido com satélites geossincrônicos de comunicação e vigilância, da indústria privada e de vários serviços militares, dominar seus sistemas de vigilância, inserir seu programa em suas unidades lógicas e incluí-las em operações, sem perturbar suas funções primárias ou alertar os monitores terrestres sobre a invasão.

      Usando dois satélites para procurar — e travar — o sinal único de um transportador particular, o URAS podia triangular uma posição precisa para o veículo transportador. Em geral, o transmissor-alvo era um inocente pacote colocado na subestrutura do carro do objeto de vigilância — às vezes em seu avião ou barco —, de modo que ele pudesse ser seguido à distância, sem jamais tomar conhecimento de que alguém o seguia.

      Nesse caso, tratava-se de um transportador escondido na sola de borracha de um sapato.

      Oslett usava os controles do URAS para dividir a área representada na tela, obtendo assim uma dramática ampliação dos detalhes do mapa. Examinando o novo mas igualmente colorido mostrador, ele disse:

      — Ele ainda não se mexeu. Parece que encostou no acostamento para um descanso.

      Os microchips do URAS continham mapas detalhados de cada quilômetro quadrado dos Estados Unidos, Canadá e México. Se Oslett estivesse operando na Europa, no Oriente Médio ou em outra parte, poderia instalar a biblioteca cartográfica adequada a esse território.

      — Três quilômetros — disse Oslett.

      Dirigindo com uma das mãos, Clocker enfiou a outra dentro do casaco esporte e tirou o revólver que carregava no coldre de ombro. Era um Colt Magnum .357, uma excêntrica escolha de arma — e um tanto quanto antiquada — para um homem que operava no ramo de trabalho de Karl Clocker. Também preferia duas jaquetas de tweed com botões cobertos de couro, remendos de couro nos cotovelos e, em certas ocasiões como agora, lapelas de couro. Tinha uma excêntrica coleção de suéteres com padrão arlequim, um dos quais usava naquele momento. Suas meias de cores vivas eram em geral escolhidas, de modo a não combinar com o resto das roupas e, sem falhar, ele usava Hush Puppies de camurça marrom. Considerando-se seu tamanho e comportamento, era improvável que alguém fizesse um comentário negativo sobre seu gosto para roupas, muito menos observações não pedidas sobre sua escolha de armamento.

      — Não vai ser preciso um poder de fogo pesado — disse Oslett.

      Sem dizer nenhuma palavra para Oslett, Clocker colocou o Magnum .357 no assento a seu lado, perto do chapéu, onde poderia pegá-lo com facilidade.

      — Estou com o revólver comum — disse Oslett. — Deve bastar.

      Clocker nem olhou para ele.

  

Antes de Marty concordar em sair da tempestade para contar às autoridades o que havia acontecido, ele insistiu que um oficial uniformizado ficasse vigiando Charlotte e Emily na casa dos Delorio. Ele confiava que Vic e Kathy fariam tudo que fosse preciso para proteger as meninas. Mas não seriam páreo para a cruel implacabilidade do Outro.

      Ele não era otimista a ponto de achar que um guarda bem armado fosse proteção suficiente.

      A chuva jorrava na saliência do pórtico frontal dos Delorio. Parecia lantejoula de festa brilhando no metal do lampião. De pé sob o pórtico, protegendo-se da chuva, Marty tentou fazer Vic compreender que as meninas ainda corriam perigo.

      — Não deixe ninguém entrar, exceto os tiras e Paige.

      — Claro, Marty — Vic era professor de educação física, treinador da equipe de natação da escola secundária local. Líder de tropa dos escoteiros, um dos principais motivadores do programa de Guarda da Vizinhança e organizador de várias atividades para levantamento de fundos para caridade, um sujeito sério e ativo que gostava de ajudar as pessoas e que usava sapatos esportivos mesmo em ocasiões em que vestia terno e gravata, como se um calçado mais formal não o permitisse mover-se tão rápido e realizar tanto quanto desejava. — Ninguém a não ser os tiras e Paige. Pode deixar, as crianças vão ficar bem comigo e Kathy. Por Deus, Marty, o que aconteceu lá?

      — E pelo amor de Deus, não dê as crianças para ninguém, nem mesmo para os tiras, a menos que Paige esteja com elas. Tampouco dê as crianças para mim, a menos que Paige esteja comigo.

      Vic Delorio desviou o olhar da atividade dos policiais e piscou os olhos, surpreso.

      Em sua memória Marty pôde ouvir a voz furiosa do sósia, ver os pontos de saliva voando de sua boca enquanto ele dizia com raiva: Quero minha vida, minha Paige... minha Charlotte, minha Emily...

      — Você entendeu, Vic?

      — Nem para você.

      — Só se Paige estiver comigo. Só então.

      — O que...

      — Eu explico mais tarde — interrompeu Marty. — Estão todos esperando por mim. — Ele girou e apressou-se pelo passeio da frente em direção à rua, olhando para trás apenas uma vez para dizer: — Só Paige.

      — ... minha Paige... minha Charlotte, minha Emily...

      Em casa, na cozinha, enquanto relatava o assalto ao oficial que atendera a chamada e fora o primeiro a chegar ao cenário, Marty permitiu que um técnico da polícia pusesse tinta em seus dedos e os rolasse numa folha de registro. Eles precisavam poder diferenciar suas impressões e as do intruso. Marty perguntava-se se ele e O Outro acabariam sendo idênticos nesse aspecto como pareciam ser em todos os outros.

      Paige também se submeteu ao processo. Era a primeira vez em suas vidas que lhes tomavam as impressões digitais. Embora Marty compreendesse a necessidade disso, todo o processo parecia uma invasão.

      Depois de obter o que pediu, o perito umedeceu uma toalha de papel com um detergente e disse que assim toda a tinta seria removida. Mas não removeu. Não importava a força com que Marty esfregasse, manchas escuras permaneciam nas linhas da pele.

      Antes de sentar-se para fazer uma declaração mais completa ao oficial encarregado, Marty foi ao andar de cima para vestir roupas secas. Também tomou quatro pílulas de Anacin.

      Ele aumentou o termostato e a casa aqueceu-se de imediato. No entanto, tremores periódicos ainda o sacudiam — em grande parte por causa da presença enervante de tantos oficiais de polícia.

      Eles estavam em todos os cantos da casa. Alguns de uniforme, outros não, mas todos estranhos cuja presença fazia Marty sentir-se mais violentado.

      Ele não havia previsto como uma vítima era despojada de sua privacidade a partir do momento em que notificava um crime sério. Policiais e peritos estavam em seu gabinete para fotografar o aposento onde teve início a violenta confrontação. Retiraram um par de balas da parede, polvilharam pó à procura de impressões digitais e tiraram amostras de sangue do tapete. Também fotografavam o corredor do andar de cima e a saleta de entrada. Em sua busca de provas que o intruso pudesse ter deixado para trás, eles supunham ter um convite para bisbilhotar em qualquer aposento ou armário.

      Claro que estavam na casa para ajudar, e Marty sentia-se grato por seu esforço. No entanto, era embaraçoso pensar que estranhos podiam estar notando a maneira obsessiva como ele organizava as roupas no armário segundo a cor — ele e Emily —, o fato de colecionar centavos e níqueis num jarro de meio galão, como um garoto que economizava para a primeira bicicleta, e outros detalhes sem importância porém muito pessoais de sua vida.

      E ele estava mais perturbado com o detetive encarregado à paisana do que com todo o resto junto. O nome do sujeito era Cyrus Lowbock, e ele extraía respostas complexas que iam além do mero embaraço.

      O detetive podia ganhar um bom dinheiro como modelo, posando para anúncios de revista de Rolls Royce, smoking, caviar e serviços de corretagem de ações. Tinha mais ou menos cinqüenta anos, estava em boa forma, com cabelos grisalhos, bronzeado mesmo em novembro, um nariz aquilino, ossos malares finos e extraordinários olhos cinzentos. De mocassins negros, calças de tecido canelado cor cinza, suéter de tricô azul-escuro e camisa branca — ele havia tirado um blusão de lã —, Lowbock conseguia parecer mais distinto e atlético, embora os esportes que poderiam ser associados a ele não fossem o futebol e o beisebol, mas sim o tênis, o iatismo, a corrida de barcos e outras ocupações da classe alta. Ele se parecia menos com qualquer imagem popular do tira do que com um homem que nascera para a riqueza e sabia como administrá-la e preservá-la.

      Lowbock estava sentado na mesa da sala de jantar, no lado oposto a Marty, ouvindo com atenção seu relato do assalto, fazendo perguntas para esclarecer detalhes e tomando notas num caderno em espiral com uma cara caneta Montblanc preta e dourada. Paige estava sentada ao lado de Marty, dando apoio emocional. Eram as únicas três pessoas na sala, embora policiais uniformizados os interrompessem periodicamente para consultar Lowbock. Por duas vezes o detetive desculpou-se para examinar provas que haviam sido julgadas relevantes para o caso.

      Bebendo Pepsi numa caneca de cerâmica, aliviando a garganta enquanto relatava a luta de vida e morte com o invasor, Marty também sentia ressurgir a culpa inexplicável que o assaltara pela primeira vez quando estava deitado na rua molhada com as mãos algemadas. O sentimento era tão irracional quanto antes, considerando-se que o maior crime do qual podia ser acusado, de maneira justificada, era o desprezo rotineiro pelos limites de velocidade de certas estradas. Mas, dessa vez, ele compreendia que parte de sua intranqüilidade resultava da percepção de que o tenente Cyrus Lowbock encarava-o com calada suspeita.

      Lowbock era educado, mas não falava muito. Seus silêncios eram vagamente acusadores. Quando não estava tomando notas, seus olhos cor de cinza-zinco focavam-se diretos e desafiadores em Marty.

      Não estava claro o motivo pelo qual o detetive devia desconfiar de que ele não dizia toda a verdade. Entretanto, Marty supôs que, após anos de trabalho na polícia lidando com os piores elementos da sociedade, dia após dia, era compreensível que o indivíduo se voltasse para o cinismo. Apesar do que prometia a Constituição americana, era provável que um tira de longa data se sentisse justificado na convicção de que todos os homens — e mulheres — eram culpados até provar sua inocência.

      Marty concluiu sua história e tomou um outro longo gole do refrigerante. Os líquidos frios já haviam feito tudo que podiam por sua garganta ferida; agora o maior desconforto estava no tecido de seu pescoço, onde as mãos do estrangulador tinham deixado a pele avermelhada e onde certamente apareceriam grandes hematomas na manhã seguinte. Embora os quatro comprimidos de Anacin começassem a surtir efeito, uma dor parecida com uma chicotada fazia-o estremecer quando ele virava a cabeça alguns graus para qualquer direção, por isso Marty adotou uma postura e movimento que mantinham seu pescoço rígido.

      Durante o que pareceu ser uma excessiva extensão de tempo, Lowbock folheou suas notas, revendo-as em silêncio, batendo com a caneta Montblanc nas páginas.

      Os esguichos e batidas da chuva ainda animavam a noite, embora a tempestade já tivesse diminuído um pouco.

      De vez em quando, as tábuas do assoalho do andar de cima rangiam com o peso dos policiais que ainda estavam na missão.

      Por baixo da mesa, a mão direita de Paige procurou a esquerda de Marty, que apertou a dela como se quisesse dizer que estava tudo bem agora.

      Mas nada estava bem. Nada havia sido explicado ou resolvido. Pelo que Marty sabia, os problemas deles estavam apenas começando.

      ... minha Paige... minha Charlotte, minha Emily...

      No final, Lowbock olhou para Marty. Usando um tom de voz insípido, que era condenatório justamente por causa de sua total falta de inflexão interpretável, o detetive disse:

      — Que história.

      — Sei que parece maluquice — Marty reprimiu a urgência de assegurar a Lowbock que não havia exagerado o grau de semelhança entre ele e o sósia ou qualquer outro aspecto de seu relato. Ele falara a verdade. Não era obrigado a pedir desculpas pelo fato de a verdade, nesse exemplo, ser tão surpreendente quanto qualquer fantasia.

      — E você disse que não tem um irmão gêmeo? — perguntou Lowbock.

      — Não, senhor.

      — Nenhum tipo de irmão?

      — Sou filho único.

      — Meio-irmão?

      — Meus pais estavam casados quando tinham dezoito anos de idade. Nenhum deles jamais foi casado com nenhuma outra pessoa. Eu lhe garanto, tenente, que não há uma explicação fácil para esse sujeito.

      — Bem, claro, não seria preciso nenhum outro casamento para você ter um meio-irmão... ou um irmão completo, no que diz respeito a esse assunto — disse Lowbock, olhando tão dentro dos olhos de Marty, que desviar o olhar teria sido uma admissão de alguma coisa.

      Enquanto Marty digeria a afirmação do detetive, Paige apertou-lhe a mão por baixo da mesa, uma advertência para não deixar Lowbock confundi-lo. Ele tentou dizer para si mesmo que o detetive apenas afirmava um fato, coisa que realmente fazia, mas teria sido decente olhar para o caderno de notas ou para a janela ao fazer esse tipo de dedução.

      Replicando quase que com a mesma rigidez com que mantinha a cabeça, Marty disse:

      — Deixe-me ver... então, acho que tenho três escolhas. Ou meu pai transou com minha mãe antes de casar, e eles entregaram esse irmão completo, esse irmão bastardo, para adoção. Ou, depois que meus pais se casaram, meu pai saiu por aí trepando com alguma outra mulher, e ela deu à luz meu meio-irmão. Ou minha mãe engravidou de um outro sujeito, antes ou depois de casar com meu pai, e essa gravidez é um profundo e obscuro segredo de família.

      Sustentando o contato de olho, Lowbock disse:

      — Sinto muito se o ofendi, Sr. Stillwater.

      — Também sinto por você ter feito isso.

      — Não está sendo um pouco sensível em relação a isso?

      — Estou sendo? — perguntou Marty em tom brusco, apesar de pensar se, de fato, não estava tendo uma reação exagerada.

      — Alguns casais têm um primeiro filho antes de estarem preparados para assumir esse tipo de compromisso, e muitas vezes oferecem a criança para adoção.

      — Não meus pais.

      — Você tem certeza de que isso é um fato?

      — Eu conheço meus pais.

      — Talvez devesse perguntar a eles.

      — Talvez eu pergunte.

      — Quando?

      — Vou pensar.

      Um sorriso, tão leve e breve quanto a sombra passageira de um pássaro em vôo, cruzou o rosto de Lowbock.

      Marty teve certeza de que viu sarcasmo nesse sorriso. Mas, por sua vida, não conseguia compreender por que o detetive o iria encarar como algo diferente de uma vítima inocente.

      Lowbock baixou o olhar para suas anotações, deixando o silêncio crescer durante algum tempo.

      Depois disse:

      — Se esse sósia não for parente seu, irmão ou meio-irmão, então você tem alguma idéia de como explicar essa semelhança notável?

      Marty começou a sacudir a cabeça, mas estremeceu quando a dor dardejou em seu pescoço.

      — Não. Não tenho a menor idéia.

      Paige disse:

      — Quer uma aspirina?

      — Tomei alguns Anacin — disse Marty. — Ficarei bem.

      Ao tornar a encontrar os olhos de Marty, Lowbock disse:

      — Só pensei que você pudesse ter uma teoria.

      — Não tenho. Sinto muito.

      — Sendo você um escritor e tudo mais...

      Marty não entendeu a observação do detetive.

      — Como disse?

      — Você usa sua imaginação todos os dias, ganha a vida com ela.

      — E daí?

      — Daí que eu pensei que talvez você pudesse resolver esse pequeno mistério se pusesse a cabeça para funcionar.

      — Não sou detetive. Sou bastante inteligente para construir mistérios, mas não os esclareço.

      — Na televisão — disse Lowbock —, o escritor de mistérios... aliás, qualquer detetive amador, no que diz respeito a esse assunto... é sempre mais esperto do que os tiras.

      — Nem sempre é assim na vida real — disse Marty.

      Lowbock deixou passar alguns segundos de silêncio, rabiscando na parte inferior de uma página, antes de replicar:

      — Não, não é.

      — Eu não confundo fantasia e realidade — disse Marty um pouco rude demais.

      — Não pensei que confundisse — assegurou-lhe Cyrus Lowbock, concentrando-se nos rabiscos.

      Marty girou a cabeça com cuidado para ver se Paige demonstrava algum sinal de haver notado hostilidade no tom de voz e maneiras do detetive. Ela estava com as sobrancelhas franzidas, olhando pensativamente para Lowbock, o que fez Marty sentir-se melhor; talvez sua reação não fosse exagerada, afinal de contas, e ele não precisava acrescentar paranóia à lista de sintomas que relatara para Paul Guthridge.

      Encorajado pela carranca de Paige, Marty encarou Lowbock novamente e perguntou:

      — Tenente, tem alguma coisa errada aqui?

      Lowbock disse em tom malicioso, levantando as sobrancelhas como se estivesse surpreso com a pergunta:

      — Sem dúvida, minha impressão é de que alguma coisa está errada, caso contrário você não nos teria chamado.

      Reprimindo-se para não dar a resposta cáustica que Lowbock merecia, Marty disse:

      — Quero dizer, estou sentindo hostilidade e não entendo a razão para isso. Qual é a razão?

      — Hostilidade? Você sente? — Sem tirar os olhos de seus rabiscos, Lowbock franziu a testa. — Bem, eu não gostaria que a vítima de um crime fosse tão intimidada por nós quanto pelo bandido que a assaltou. Isso não seria um bom trabalho de relações públicas, não é mesmo? — Com isso, ele evitou uma resposta direta à pergunta de Marty.

      Os rabiscos terminaram. Eram uma pistola sendo sacada.

      — Sr. Stillwater, a arma com que atirou no intruso... era a mesma que lhe tiraram na rua?

      — Ela não foi tirada de mim. Eu a deixei cair de livre e espontânea vontade quando me disseram para soltá-la. E, sim, era a mesma arma.

      — Um pistola Smith & Wesson nove milímetros? — Sim.

      — Você comprou essa arma num vendedor de armas licenciado?

      — Sim, claro. — Marty disse o nome da loja.

      — Tem um recibo da loja e provas do exame antes da compra feito pelo órgão apropriado de aplicação da lei?

      — O que isso tem a ver com o que aconteceu aqui hoje?

      — Rotina — disse Lowbock. — Mais tarde, terei que preencher todas as pequenas linhas do relatório do crime. Só rotina.

      Marty não estava gostando da maneira como a entrevista parecia, cada vez mais, transformar-se num interrogatório, mas não sabia o que fazer. Frustrado, ele olhou para Paige, esperando a resposta para a indagação de Lowbock, porque era ela quem fazia os registros financeiros de sua contabilidade.

      Ela disse:

      — Toda a papelada da loja de armas está arquivada junto com todos os nossos cheques cancelados desse ano.

      — Nós a compramos talvez há três anos — disse Marty.

      — Naquela coisa guardada no ático da garagem — acrescentou Paige.

      — Mas você pode ir pegar para mim? — perguntou Lowbock.

      — Bem... sim, basta escavar um pouco — disse Paige, começando a se levantar da cadeira.

      — Oh, não precisa ser neste exato minuto — disse Lowbock. — Não é tão urgente assim — e tornou a virar-se para Marty. — E quanto ao Korth 38 no porta-luvas de seu Taurus? Você comprou na mesma loja de armas?

      Surpreso, Marty disse:

      — O que você foi fazer no Taurus?

      Lowbock fingiu surpresa com a surpresa de Marty, mas ela pareceu ter sido calculada com o objetivo de parecer falsa só para espicaçar Marty, imitando-o.

      — No Taurus? Estava investigando o caso. Não foi o que nos pediram para fazer? Quero dizer, tem algum lugar, alguma coisa que você preferia que não vejamos? Porque, claro, nós respeitaríamos seus desejos em relação a isso.

      O detetive foi tão sutil em seu escárnio e tão vago em suas insinuações que qualquer resposta forte de parte de Marty pareceria ser a reação de um homem com alguma coisa a esconder. Claro, Lowbock pensava que ele tinha algo a esconder e estava brincando com ele, tentando provocá-lo para uma confissão inadvertida.

      Marty quase desejava ter uma confissão a fazer. Era muito frustrante a maneira como faziam aquele jogo.

      — Você comprou o 38 na mesma loja em que adquiriu o Smith & Wesson? — insistiu Lowbock.

      — Comprei — Marty sorveu sua Pepsi.

      — Tem a papelada disso?

      — Tenho, tenho certeza de que temos.

      — Você sempre carrega essa arma no carro?

      — Não.

      — Estava no carro hoje.

      Marty tinha consciência de que Paige olhava para ele com um certo grau de surpresa. Ele não poderia explicar seu ataque de pânico agora ou contar para ela sobre a estranha certeza de tragédia iminente que previu e que o levou a tomar precauções extraordinárias. Considerando-se a virada inesperada e nem um pouco benigna que o questionamento havia provocado, isso não era informação que ele queria compartilhar com o detetive, por medo de parecer desequilibrado e ver-se entregue involuntariamente à avaliação psiquiátrica.

      Marty tomou um pouco de Pepsi — não para acalmar a garganta, mas para ganhar um pouco de tempo para pensar antes de responder a Lowbock.

      — Eu não sabia que estava lá — disse ele no final.

      — Você não sabia que a arma estava em seu porta-luvas? — perguntou Lowbock.

      — Não.

      — Tem consciência de que é ilegal levar uma arma carregada em seu carro?

       E que porra vocês estavam fazendo quando foram bisbilhotar em meu carro?

      — Como eu disse, não sabia que estava lá, de modo que também não sabia que estava carregada.

      — Não foi você que a carregou?

      — Bem, é provável que tenha sido eu.

      — Você está dizendo que não lembra se carregou a arma nem como ela chegou ao Taurus?

      — O que talvez tenha acontecido... na última vez que fui ao estande de tiro, talvez eu tenha carregado a arma para mais uma roda de tiro ao alvo e depois tenha esquecido.

      — E trouxe do estande de tiro para casa no porta-luvas.

      — É verdade.

      — Quando foi a última vez que você foi ao estande de tiro?

      — Não sei... três, quatro semanas atrás.

      — Quer dizer que esteve andando com uma arma carregada por aí durante um mês?

      — Mas eu esqueci que estava dentro do carro.

      Uma mentira, dita para evitar uma acusação de delito leve por porte de arma, levou-o a uma série de mentiras. Eram todas falsidades sem importância, mas Marty tinha bastante respeito pelas habilidades de Cyrus Lowbock para saber que ele as percebia como inverdades. Como o detetive já parecia convencido, sem razão, de que a suposta vítima devia ser vista como suspeita, ele imaginaria que cada mentira era mais uma prova de que sombrios segredos estavam sendo escondidos dele.

      Jogando a cabeça de leve para trás, com o olhar frio porém acusador, usando sua aparência aristocrática para intimidar, mas mantendo a voz suave e sem inflexão, Lowbock disse:

      — Sr. Stillwater, você é sempre tão descuidado com armas?

      — Não creio que tenha sido descuidado.

      Outra vez, as sobrancelhas levantadas.

      — Não?

      — Não.

      O detetive pegou sua caneta e fez uma anotação enigmática em seu caderno de notas em espiral. Em seguida, começou a rabiscar de novo.

      — Diga-me, Sr. Stillwater, tem permissão para carregar uma arma escondida?

      — Não, claro que não.

      — Entendo.

      Marty bebeu a Pepsi.

      Por baixo da mesa, Paige procurou de novo sua mão. Marty ficou grato pelo contato.

      Os novos rabiscos estavam assumindo forma. Um par de algemas.

      Lowbock disse:

      — Você é fã de armas, é colecionador?

      — Não, não mesmo.

      — Mas tem um bocado de armas.

      — Não tantas.

      Lowbock enumerou-as nos dedos de uma das mãos.

      — Bem, a Smith & Wesson, o Korth... o rifle de assalto Colt M16 no armário da saleta de entrada.

       Oh, meu bom Deus.

      Deixando de encarar as mãos e encontrando os olhos de Marty com o olhar fixo, intenso e frio, Lowbock disse:

      — Você sabe que o M16 já estava carregado?

      — Eu comprei todas as armas sobretudo para pesquisa, pesquisa para livro. Não gosto de escrever sobre uma arma sem tê-la usado — era verdade, mas mesmo para Marty soou como um disparate.

      — E as mantém carregadas, guardadas em gavetas e armários espalhados por toda a casa?

      Não ocorreu a Marty nenhuma resposta segura. Se dissesse que sabia que o rifle estava carregado, Lowbock iria querer saber por que alguém precisa manter uma arma militar em tal estado de prontidão num bairro pacífico e bastante residencial. Com toda certeza, um M16 não era uma arma adequada para defesa domiciliar, exceto talvez quando se vive em Beirute ou na cidade de Kuwait ou na Los Angeles central sul. Por outro lado, se dissesse que não sabia que o rifle estava carregado, haveria mais perguntas ordinárias sobre sua negligência com armas e insinuações descaradas de que ele mentia.

      Além disso, o que quer que dissesse podia parecer tolo ou enganoso ao extremo se eles também tivessem encontrado a espingarda Mossberg debaixo da cama no quarto dos donos da casa ou a Beretta que ele escondera num armário da cozinha.

      Tentando não perder a calma, Marty disse:

      — O que minhas armas têm a ver com o que aconteceu aqui hoje? Tenente, me parece que estamos saindo do caminho.

      — É assim que parece? — perguntou Lowbock como se estivesse genuinamente intrigado com a atitude de Marty.

      — Sim, é isso que parece — disse Paige em tom brusco, percebendo que estava em melhor condição do que Marty para ser ríspida com o detetive. — Você fala como se Marty fosse a pessoa que tivesse invadido a casa de alguém e tentado matar essa pessoa por estrangulamento.

      Marty disse:

      — Você tem homens fazendo buscas nas vizinhanças, você emitiu um boletim?

      — Um boletim?

      Marty ficou irritado com a estupidez intencional do detetive.

      — Um boletim para O Outro.

      Lowbock disse, franzindo as sobrancelhas:

      — Para o quê?

      — Para o sósia, o outro eu.

      — Oh, sim, ele. — Na verdade, isso não foi uma resposta, mas Lowbock continuou com seu caderno de notas antes que Marty ou Paige pudessem insistir numa resposta mais específica. — A Heckler e Koch é uma das outras armas que adquiriu para pesquisa?

      — Heckler e Koch?

      — A P7. Dispara munição nove milímetros.

      — Não tenho uma P7.

      — Não tem? Bem, está caída no chão de seu gabinete do andar de cima.

      — Era a arma dele — disse Marty. — Eu lhe disse que ele tinha uma arma.

      — Você sabia que o cano dessa P7 tem rosca para um silenciador?

      — A única coisa que eu sabia era que ele tinha uma arma. Não gastei tempo para observar se tinha um silenciador. Não tive o tempo disponível para catalogar todos os seus traços.

      — Na verdade, não havia um silenciador na arma, mas ela tem rosca para um. Sr. Stillwater, sabia que é ilegal equipar uma arma de fogo com um silenciador?

      — Tenente, a arma não é minha.

      Marty começava a se perguntar se devia recusar-se a responder outras perguntas sem a presença de um advogado. Mas isso era uma loucura. Ele não tinha feito coisa alguma. Era inocente. Era a vítima, pelo amor de Deus. A polícia nem estaria lá se ele não dissesse a Paige para chamá-los.

      — Uma Heckler e Koch P7 com rosca para um silenciador... trata-se de uma arma muito profissional, Sr. Stillwater. Sicário, assassino de aluguel, como quiser chamá-lo. Como você o chamaria?

      — O que você quer dizer? — perguntou Marty.

      — Bem, eu estava pensando, se você estivesse escrevendo sobre esse tipo de gente, um profissional, quais seriam os vários termos que usaria para referir-se a ele?

      Marty sentiu uma insinuação velada na pergunta, alguma coisa que se aproximava do centro daquilo que Lowbock estava criando na agenda, mas não sabia ao certo o que era.

      Aparentemente Paige também sentiu a mesma coisa:

      — Tenente, o que exatamente está tentando dizer?

      Mais uma vez, Cyrus afastou-se da confrontação de maneira frustrante. Na verdade, ele baixou o olhar para suas anotações e fingiu que nada mais havia em sua pergunta além da curiosidade casual sobre a escolha de sinônimos de um escritor.

      — Em todo caso, você teve muita sorte. Um profissional como esse, um homem que carregava uma P7 com rosca para silenciador, não ter conseguido tirar sua pele...

      — Eu o surpreendi.

      — É evidente.

      — Porque tinha uma arma na gaveta da minha escrivaninha.

      — Sempre vale a pena estar preparado — disse Lowbock. Depois, acrescentou rápido: — Mas você teve muita sorte de levar a melhor sobre ele num combate corpo-a-corpo. Um profissional como ele deve ser um bom lutador, talvez até conheça toe kwon do ou algo do gênero, como sempre acontece nos livros e filmes.

      — Ele ficou um pouco lento. Dois tiros no peito.

      O detetive concordou com um aceno de cabeça:

      — Sim, é verdade, estou lembrado. Podia ter derrubado qualquer pessoa comum.

      — Ele estava bem vivo — Marty tocou a garganta.

      Lowbock mudou de assunto com uma rapidez que tencionava ser desconcertante:

      — Sr. Stillwater, esteve bebendo hoje à tarde?

      Marty disse, cedendo à raiva:

      — Tenente, a coisa não pode ser explicada com essa facilidade.

      — Você não esteve bebendo hoje à tarde?

      — Não.

      — Nem um pouco?

      — Não.

      — Sr. Stillwater, não quero parecer inclinado a discussões, não quero mesmo, mas assim que nos encontramos senti cheiro de álcool em seu hálito. Cerveja, acredito. E tem uma lata de Coors caída na sala de estar, com cerveja derramada no chão de madeira.

      — Eu bebi um pouco de cerveja depois.

      — Depois do quê?

      — Depois que a coisa acabou. Ele estava caído no chão da saleta de entrada com as costas quebradas. Pelo menos pensei que estivessem quebradas.

      — Que dizer então que você imaginou que, depois de todo o tiroteio e luta, uma cerveja gelada era a coisa certa.

      Paige olhou de modo fixo e penetrante para o detetive.

      — Você está se esforçando para fazer todo esse negócio parecer uma coisa boba...

      — ... e, porra, eu gostaria que você se abrisse e dissesse por que não acredita em mim — acrescentou Marty.

      — Eu não desacredito em você, Sr. Stillwater. Sei que tudo isso é muito frustrante. Você se sente subjugado, ainda está abalado, cansado. Mas ainda estou absorvendo, ouvindo e absorvendo. É isso que eu faço. É o meu trabalho. E, por enquanto, ainda não formei nenhuma teoria ou opinião.

      Marty tinha certeza de que isso não era verdade. Lowbock já carregava consigo todo um conjunto de opiniões bem formadas quando sentou-se pela primeira vez à mesa da sala de jantar.

      Após esvaziar o resto da Pepsi na caneca, Marty disse:

      — Quase tomei um pouco de leite ou suco de laranja, mas minha garganta estava tão irritada, doía pra burro, como se estivesse queimando. Eu não conseguia engolir. Quando abri a geladeira, a cerveja me pareceu muito melhor do que qualquer outra coisa e mais refrescante.

      Com a caneta Montblanc, Lowbock rabiscava de novo num canto da página de seu caderno de notas.

      — Quer dizer que você só tomou essa lata de Coors.

      — De jeito nenhum. Eu bebi a metade, talvez dois terços. Quando minha garganta ficou um pouco melhor, voltei para ver como O Outro... como o sósia estava passando. Carreguei a cerveja comigo. Fiquei tão surpreso ao ver que o sacana havia desaparecido, depois de parecer meio morto, que a lata simplesmente deslizou para fora de minha mão.

      Apesar de estar de cabeça para baixo, Marty pôde ver o que o detetive desenhava. Uma garrafa. Uma garrafa de cerveja de gargalo comprido.

      — Quer dizer então que foi meia garrafa de Coors — disse Lowbock.

      — Certo.

      — Talvez dois terços.

      — Sim.

      — Mas nada mais.

      — Não.

      Lowbock terminou seu rabisco, levantou o olhar do caderno de anotações e disse:

      — E quanto às três garrafas vazias de Corona na lata de lixo debaixo da pia da cozinha?

  

— Essa saída aqui — interpretou Drew Oslett, depois disse para Clocker: — Está vendo a placa?

Clocker não respondeu.

      Voltando a atenção para a tela do URAS, Oslett disse:

      — É onde ele está, tudo bem, talvez dando uma mijada no banheiro dos homens, talvez até deitado no assento traseiro do carro que estiver dirigindo, tirando uma soneca.

      Eles estavam prestes a entrar em ação contra um adversário imprevisível e formidável, mas Clocker parecia imperturbável Mesmo enquanto dirigia, era como se estivesse perdido num estado meditativo. Seu corpo de urso estava tão relaxado quanto o de um monge tibetano num transe transcendental. Suas mãos enormes repousavam no volante, com os dedos grossos apenas um pouco dobrados, mantendo a pressão mínima. Oslett não ficaria surpreso se soubesse que o enorme sujeito dirigia o carro com algum misterioso poder da mente. Nada no rosto largo e de feições embotadas de Clocker indicava que ele soubesse o que significava a palavra “tensão”: castanho-claro tão liso quanto mármore polido; bochechas sem linhas, olho azul-safira um pouco brilhante à luz refletida do painel de instrumentos, olhando fixo ao longe, não apenas para a estrada à frente, mas talvez para o outro lado deste mundo. A boca larga estava aberta o suficiente para aceitar uma fina hóstia de comunhão. Os lábios estavam curvos no mais leve dos sorrisos, mas era impossível saber se ele estava contente com alguma coisa que contemplava num sono espiritual, ou com a perspectiva da violência iminente.

      Karl Clocker possuía um verdadeiro talento para a violência.

      Por essa razão, apesar de seu gosto para roupas, ele era um homem de seu tempo.

      — Lá está a área de descanso — disse Oslett quando se aproximaram do final da estrada de acesso.

      — Em que outra parte estaria?

      — Hem?

      — Está onde está.

      O enorme sujeito não era muito loquaz e, quando tinha algo a dizer, na metade das vezes era enigmático. Oslett suspeitava que Clocker era um existencialista teórico ou — na outra extremidade do espectro — um místico da Nova Era. Embora a verdade pudesse ser que ele era tão totalmente fechado em si que não precisava de muito contato humano ou interação; seus próprios pensamentos e observações o entretiam e absorviam. Uma coisa era certa: Clocker não era tão estúpido quanto parecia; na verdade, tinha um QI bem acima da média.

      A área era iluminada por oito lâmpadas de vapor de sódio. Após tantos quilômetros sombrios de escuridão desoladora, que começara a parecer a aridez negra e crestada de uma paisagem pós-nuclear, o humor de Oslett foi melhorado pelo brilho das lâmpadas, embora fosse a doentia reminiscência amarelo-urina da luz desagradável de um pesadelo. Ninguém jamais confundiria aquele lugar com alguma parte de Manhattan, mas ele confirmava que a civilização ainda existia.

      Um enorme motorhome era o único veículo à vista. Estava estacionado próximo ao prédio de concreto, que abrigava o banheiro público.

      — Agora nós estamos bem em cima dele — Oslett desligou a tela do URAS e colocou a unidade no chão entre seus pés. Tirou o copo de sucção do pára-brisas, deixou-o cair sobre o mapa eletrônico e disse:

      — Não há dúvida quanto a isso... nosso Alfie está aconchegado nesse porco de estrada. É provável que tenha tirado de algum pobre otário; agora está em fuga com todos os confortos do lar.

      Passaram por uma área gramada com três mesas de piquenique e estacionaram a cerca de três metros do Road King, no lado do motorista.

      Não havia nenhuma luz acesa no motorhome.

      — Não importa o quão longe Alfie chegou — disse Oslett —, ainda acho que ele vai nos responder bem. Somos tudo que ele tem, certo? Sem nós, ele está sozinho no mundo. Porra, somos como uma família.

      Clocker apagou as luzes e o motor.

      Oslett disse:

      — Não importa em que estado ele esteja, não acredito que vá nos machucar. Não o velho Alfie. Talvez ele derrubasse qualquer outra pessoa que se metesse em seu caminho, mas não a nós. O que você acha?

      Clocker saiu do Chevy e pegou o chapéu e o Colt .357 Magnum no assento da frente.

      Oslett pegou uma lanterna e a pistola com tranqüilizante. A arma tinha dois canos, superior e inferior, cada qual carregado com um grosso cartucho hipodérmico. Destinado para uso em zoológicos, não tinha precisão para mais de quinze metros, o que já era bom para o propósito de Oslett, já que ele não planejava sair atrás de leões nas estepes.

      Oslett ficou agradecido porque a área não estava apinhada de viajantes. Esperava que ele e Clocker pudessem concluir seu negócio e ir embora antes que algum carro ou caminhão saísse da auto-estrada e estacionasse.

      Por outro lado, quando desceu do Chevy e fechou a porta às suas costas, ficou perturbado com o vazio da noite. Fora o cantar de pneus e o vuup do tráfego da interestadual, que cortava o ar, o silêncio era tão opressivo quanto devia ser no vácuo do espaço sideral. Um bosque de pinheiros altos formava o pano de fundo de toda a área e, na escuridão sem vento, seus pesados galhos pendiam como coroas de funeral.

      Ele desejava a algazarra e os zumbidos das ruas urbanas, onde a atividade incessante oferecia distrações contínuas. A comoção propiciava a fuga da contemplação. Na cidade, o lampejo-tinido-giro da vida diária permitia que sua atenção se mantivesse eternamente dirigida para fora, se ele quisesse, poupando-lhe dos perigos inerentes à auto-análise.

      Juntando-se a Clocker junto à porta do motorista do Road King, Oslett pensava em fazer a entrada mais furtiva possível. Mas se Alfie estivesse lá dentro, como indicava especificamente o mapa eletrônico URAS, era provável que já soubesse da chegada deles.

      Além disso, nos níveis cognitivos mais profundos, Alfie estava condicionado a responder a Drew Oslett com absoluta obediência. Era quase inconcebível que ele tentasse machucá-lo.

      Quase.

      Eles também tiveram certeza de que as possibilidades de Alfie estar apenas ausente sem licença eram quase inexistentes. Estavam errados em relação a isso. Talvez o tempo provasse que estavam errados em relação a outras coisas.

      Era por isso que Oslett estava com a pistola com tranqüilizante.

      E também foi este o motivo pelo qual não havia tentado dissuadir Clocker de levar o Magnum .357.

      Protegendo-se contra o inesperado, Oslett bateu na porta de metal. Bater na porta pareceu uma maneira ridícula de se anunciar naquelas circunstâncias, mas ele bateu assim mesmo, esperou vários segundos e tornou a bater, mais alto.

      Ninguém respondeu.

      A porta não estava trancada. Ele abriu-a.

      A luz amarela das lâmpadas do estacionamento infiltrou-se através do pára-brisas de forma a iluminar a cabine do motorhome. Oslett pôde ver que não havia nenhuma ameaça iminente.

      Ele pisou na soleira da porta, inclinou-se para frente e olhou para os fundos do Road King que apresentava um túnel com uma escuridão pulsante tão profunda quanto as câmaras das antigas catacumbas.

      — Esteja em paz, Alfie — disse em tom suave.

      Esse comando falado devia ter resultado numa imediata resposta ritual como em uma ladainha: Estou em paz, Pai.

      — Esteja em paz, Alfie — repetiu Oslett com menos esperança.

      Silêncio.

      Embora Oslett não fosse o pai de Alfie nem um homem do clero, e não podendo ter portanto uma legítima pretensão ao grau honorífico, ainda assim seu coração se teria alegrado se ele tivesse ouvido a resposta sussurrada e obediente: Estou em paz, Pai. Essas quatro simples palavras, num murmúrio de resposta, teriam significado que tudo estava essencialmente bem, que o desvio de Alfie das instruções era menos uma rebelião do que uma temporária confusão de objetivo, e que a farra de assassinatos na qual embarcara era algo que podia ser esquecido e descartado.

      Embora soubesse que era inútil, Oslett tentou uma terceira vez, falando mais alto que antes:

      — Esteja em paz, Alfie.

      Como não recebeu nenhuma resposta da escuridão, ele acendeu a lanterna e entrou no Road King.

      Ele não pôde deixar de pensar no desperdício e na humilhação de ser ferido de morte num motorhome estranho, ao longo de uma interestadual na vastidão de Oklahoma, na tenra idade de 32 anos. Um jovem tão brilhante, uma promessa tão singular (os acompanhantes do enterro diriam), com dois diplomas — um de Princeton, outro de Harvard — e uma árvore genealógica invejável.

      Movendo-se para fora da cabine quando Clocker entrou atrás dele, Oslett varreu com o feixe de luz à esquerda e à direita. Sombras cresceram e agitaram-se como capas negras, asas de ébano, almas perdidas.

      Apenas alguns membros de sua família — menos ainda entre aquele círculo de artistas, escritores e críticos de Manhattan que eram seus amigos — saberiam em que ramo de trabalho ele havia falecido. O resto acharia os detalhes do falecimento desconcertantes, bizarros, talvez sórdidos, e fofocariam com a exaltação febril de pássaros que cortam um cadáver em putrefação.

      A lanterna revelou armários com revestimento de fórmica. A tampa de um fogão. Uma pia de aço inoxidável.

      O mistério em torno de sua morte peculiar garantiria que os mitos surgiriam como recifes de coral, incorporando cada cor do escândalo e da vil superstição, mas deixando sua memória com pequena e preciosa tinta de respeito. O respeito era uma das poucas coisas que importavam para Drew Oslett. Ele vinha exigindo respeito desde que era garoto. Era seu direito nato — não apenas um agradável pingente do nome de sua família, mas também um tributo que devia ser pago a toda a história e realizações da família, que se corporificavam nele.

      — Esteja em paz, Alfie — disse ele nervoso.

      Uma mão, tão branca quanto mármore e de aparência sólida, esperava para ser descoberta pelo feixe de luz da lanterna. Os dedos de alabastro estavam caídos no tapete, ao lado da cabine acolchoada do recanto de jantar. Mais alto: o corpo de cabelos grisalhos de um homem tombado sobre a mesa manchada de sangue.

  

Paige levantou-se da mesa da sala de jantar, foi à janela mais próxima, enviesou as ripas da persiana para ampliar os espaços e olhou para fora, para a tempestade que diminuía aos poucos. Olhava para o pátio dos fundos, onde não havia luzes. Não podia ver nada com clareza, exceto os trilhos de chuva no outro lado do vidro, que pareciam pingos de cuspe talvez porque ela quisesse cuspir em Lowbock, direto em seu rosto.

      Paige estava com mais hostilidade do que Marty — não em relação ao detetive, mas sim em relação ao mundo. Em toda sua vida adulta ela havia lutado para resolver os conflitos de infância, que eram sua fonte de raiva. Tinha feito um progresso considerável. Mas diante de provocações como essa, ela sentia nascer de novo os ressentimentos e a amargura de sua infância, e sua raiva sem direção encontrou um foco em Lowbock, tornando difícil para ela manter seu humor sob controle.

      Desvio consciente — encarar a janela, manter o detetive fora do campo de visão — era uma técnica comprovada para manter o autocontrole. Conselheiro, aconselha-te a ti mesmo. Reduzir o nível de interação também devia reduzir a raiva.

      Ela esperava que isso funcionasse melhor para seus pacientes do que para ela, porque ainda estava fervendo.

      À mesa com o detetive, Marty parecia determinado a ser razoável e a colaborar. Do jeito que era, Marty se aferraria o tempo que fosse possível à esperança de que o misterioso antagonismo de Lowbock fosse mitigado. Por mais furioso que pudesse estar — e estava mais furioso do que ela já havia visto —, ainda tinha tremenda fé no poder das boas intenções e das palavras, principalmente das palavras, para restaurar e manter a harmonia em quaisquer circunstâncias.

      Marty disse para Lowbock:

      — Deve ter sido ele que bebeu as cervejas.

      — Ele? — perguntou Lowbock.

      — O sósia. Ele deve ter passado algumas horas na casa enquanto eu estava fora.

      — Quer dizer que o intruso tomou as três Coronas?

      — Joguei o lixo fora ontem à noite. Na noite de domingo, de modo que sei que não foram deixadas vazias no fim de semana.

      — Esse cara invadiu sua casa porque... como foi exatamente que ele disse?

      — Ele disse que precisava de sua vida.

      — Precisava de sua vida?

      — Sim. Ele me perguntou por que eu roubei a vida dele, quem eu era.

      — Quer dizer que ele invadiu isso aqui — disse Lowbock —, agitado, falando maluquices, bem armado... mas enquanto espera que você chegue em casa, decide dar o troco e toma três garrafas de Corona.

      Sem afastar-se da janela, Paige disse:

      — Tenente, meu marido não tomou essas cervejas. Ele não é um bêbado.

      — Se você quiser, estou disposto a fazer um teste no bafômetro — disse Marty. — Se tomei essa quantidade de cerveja, uma após a outra, o nível de álcool em meu sangue vai acusar.

      — Bem — disse Lowbock —, se fôssemos fazer isso, devíamos ter testado você logo de cara. Mas não é necessário, Sr. Stillwater. Com certeza não estou dizendo que estava intoxicado, que imaginou a coisa toda sob a influência do álcool.

      — Então, o que está dizendo? — indagou Paige.

      — Às vezes — observou Lowbock — as pessoas bebem com o intuito de tomar coragem para encarar uma tarefa difícil.

      Marty suspirou.

      — Talvez eu seja estúpido, tenente. Sei que há uma dedução desagradável disso que acabou de dizer, mas juro por minha vida que não consigo imaginar o que devo deduzir disso.

      — Eu disse que queria que você deduzisse alguma coisa?

      — Será que não dá para você parar de ser enigmático e me dizer por que está me tratando assim, como suspeito em vez de vítima?

      Lowbock ficou em silêncio.

      Marty pressionou a questão:

      — Sei que essa situação é inacreditável, esse negócio do sósia, mas se você me dissesse de cara as razões pelas quais está sendo cético, tenho certeza de que poderia eliminar suas dúvidas. Bem, pelo menos eu poderia tentar.

      Lowbock não respondeu durante um tempo tão longo que Paige quase virou-se na janela para olhar para ele, perguntando-se se sua expressão revelaria alguma coisa sobre o significado de seu silêncio.

      No final, ele disse:

      — Nós vivemos num mundo litigioso, Sr. Stillwater. Se um tira comete o mais leve engano ao lidar com uma situação delicada, o departamento é processado e às vezes a carreira do oficial vai pelo ralo. Isso acontece com homens bons.

      — O que os processos têm a ver com isso? Não vou processar ninguém, tenente.

      — Digamos que um cara atende um telefonema sobre um roubo que está acontecendo, então responde, cumpre seu dever, encontra-se em perigo com alguém atirando nele, e atinge o criminoso em legítima defesa. O que acontece depois?

      — Aposto que você pode me dizer.

      — Sabe, a próxima coisa é que a família do criminoso e a Organização Americana pelos Direitos Civis vão atrás do departamento por causa de violência excessiva, querendo uma indenização financeira. Querem que o oficial seja demitido, até querem levar o pobre otário a julgamento, acusando-o de fascista.

      — A coisa fede — disse Marty. — Concordo com você. Hoje em dia, parece que o mundo virou de cabeça para baixo, mas...

      — Se o mesmo tira não responde com força, e algum curioso sai machucado porque o criminoso não foi alvejado na primeira oportunidade, a família da vítima processa o departamento por negligência, e os mesmos ativistas caem em nossos pescoços como uma tonelada de tijolos, mas por razões diferentes. As pessoas dizem que o tira não apertou o gatilho com a rapidez necessária, porque é insensível em relação à minoria da qual a vítima fazia parte, que seria mais rápido se a vítima fosse da raça branca, ou então dizem que o tira é incompetente, é covarde.

      — Eu não iria querer seu emprego. Sei como é difícil — compadeceu-se Marty. — Mas nenhum tira atirou ou deixou de atirar em alguém aqui, e não entendo o que isso tem a ver com a situação.

      — Um tira pode meter-se nas mesmas encrencas atirando em criminosos ou fazendo acusações — disse Lowbock.

      — Quer dizer que sua questão é que você é cético quanto a minha história, mas não dirá o motivo enquanto não tiver prova absoluta de que se trata de besteira.

      — Ele nem vai admitir que é cético — disse Paige em tom amargurado. — Ele não quer assumir nenhuma posição, de uma maneira ou de outra, porque assumir uma posição significa correr risco.

      — Mas, tenente — replicou Marty —, como vamos acabar com isso, como vou conseguir convencê-lo de que tudo isso aconteceu da maneira que contei, se você não me diz por que duvida?

      — Sr. Stillwater, eu não disse que duvido.

      — Por Deus — exclamou Paige.

      — Tudo que peço — disse Lowbock — é que você dê o melhor de si para responder às minhas perguntas.

      — E tudo que nós pedimos — retrucou Paige, ainda de costas para o detetive —, é que você encontre o lunático que tentou matar Marty.

      — Esse sósia — Lowbock pronunciou a palavra em tom insípido, sem nenhuma inflexão, que pareceu mais sarcástico do que se tivesse dito com uma alta risada de escárnio.

      — Sim — confirmou Paige —, esse sósia.

      Ela não duvidava da história de Marty, por mais desvairada que fosse, e sabia que de alguma forma a existência do sósia estava vinculada — e no final das contas explicaria — à fuga do marido, ao pesadelo esquisito e a outros problemas recentes.

      Enquanto ela começava a aceitar que a polícia, por alguma razão qualquer, não iria ajudá-los, sua fúria contra o detetive se dissipava. A raiva deu lugar ao medo, porque ela compreendeu que eles estavam diante de alguma coisa excessivamente estranha com a qual teriam que lidar sozinhos.

  

Clocker regressou da parte da frente do Road King para informar que as chaves estavam na ignição na posição de ligar, mas que era evidente que o tanque estava vazio e a bateria descarregada. As luzes da cabine não podiam ser acesas.

      Preocupado com o fato do feixe de luz da lanterna, visto de fora, parecer suspeito para alguém que estacionasse naquela área, Drew Oslett fez um rápido exame nos dois cadáveres que estavam no apertado recinto de refeições. Como o sangue derramado estava totalmente seco e duro, ele sabia que o homem e a mulher tinham sido mortos muitas horas antes. Entretanto, embora o rigor mortis ainda estivesse presente em ambos os corpos, eles já não estavam tão rígidos assim; era evidente que a rigidez atingira um pico e começava a se dissipar, como em geral ocorria entre dezoito e trinta horas depois da morte.

      Os corpos ainda não haviam começado a se decompor de maneira perceptível. O único cheiro ruim vinha de suas bocas abertas — os gases azedos produzidos pela comida apodrecendo em seus estômagos.

      — A melhor estimativa no olhômetro... é que eles foram mortos em algum momento da tarde de ontem — disse para Clocker.

      O Road King estava parado havia mais de vinte horas ali, portanto pelo menos um oficial da Patrulha da Auto-estrada de Oklahoma devia tê-lo visto em dois turnos separados. A legislação estadual devia proibir o uso das áreas de descanso junto à estrada como camping. Não havia fornecimento de energia elétrica, de água ou bombeamento de esgoto, o que criava um potencial problema de saúde pública. Às vezes, os tiras podiam ser complacentes com aposentados com medo de dirigir numa chuva tão inclemente quanto a tempestade que desabara sobre Oklahoma no dia anterior; o plástico da Associação Americana de Pessoas Aposentadas na traseira do motorhome podia ter conseguido algum privilégio para aquelas pessoas. Mas nem mesmo um tira simpático deixaria que ficassem estacionados duas noites. A qualquer momento, um carro-patrulha podia parar e alguém bater na porta.

      Contrário a complicar seus já sérios problemas matando um patrulheiro de estrada, Oslett afastou-se do casal morto e fez uma busca apressada no motorhome. Já não estava mais cauteloso com medo de que Alfie, desobediente e desarranjado, metesse uma bala em sua cabeça. Fazia muito tempo que Alfie partira dali.

      Encontrou os sapatos descartados no balcão da cozinha. Com uma comprida faca de serra, Alfie cortara um dos saltos até expor o circuito eletrônico e a concomitante cadeia de minúsculas baterias.

      Ao olhar para os Rockport e a pilha de lascas de borracha, Oslett estremeceu com uma premonição de desgraça.

      — Ele nunca soube nada sobre os sapatos. O que daria na cabeça dele para cortá-los?

      — Bem, ele sabe o que sabe — disse Clocker.

      Na interpretação de Oslett a afirmação de Clocker significava que parte do treinamento de Alfie incluía técnicas e equipamento moderno de vigilância eletrônica. Portanto, embora não lhe tivessem dito que estava “rastreado”, ele sabia que um transmissor em microminiatura podia ser reduzido o suficiente para ajustar-se no salto de um sapato e, recebendo um remoto sinal de ativação em microondas, poderia ter energia suficiente através de uma série de baterias para transmitir um sinal rastreável, durante pelo menos 72 horas. Embora não pudesse lembrar quem era ou quem o controlava, Alfie era bastante inteligente para aplicar seus conhecimentos de vigilância em sua própria situação e chegar à conclusão lógica de que seus controladores haviam tomado precauções prudentes para localizá-lo e segui-lo caso ele se tornasse renegado, mesmo que eles estivessem totalmente convencidos de que a rebelião não era possível.

      Oslett temia dar a má notícia à matriz em Nova York. A organização não matava o portador de notícias ruins, sobretudo se seu sobrenome fosse Oslett. Entretanto, como principal operador de Alfie, ele sabia que parte da responsabilidade incidiria sobre ele, embora a rebelião do operativo não fosse culpa sua em nenhum nível. O erro devia estar no condicionamento fundamental de Alfie, droga, não em sua manipulação.

      Deixando Clocker na cozinha para ficar de guarda contra visitantes indesejáveis, Oslett fez uma rápida inspeção no resto do motorhome.

      Não encontrou nada mais que o interessasse, exceto uma pilha de roupa descartada no chão do quarto principal, nos fundos do veículo. A luz da lanterna, ele só precisou revirar um pouco as roupas com a ponta do sapato para constatar que era a mesma que Alfie usava quando embarcou no avião para Kansas City, na manhã de sábado.

      Oslett retornou à cozinha onde Clocker esperava no escuro. Virou a lanterna uma última vez para os aposentados mortos.

      — Que zona. Droga, isso não tinha que acontecer.

      Clocker referiu-se com desprezo ao casal assassinado:

      — Pelo amor de Deus, quem se importa? Eles não são nada, a não ser a porra de um casal de Klingons.

      Oslett não se referia às vítimas, mas ao fato de que agora Alfie era mais do que um mero renegado: era um renegado que não podia ser rastreado, colocando assim em risco a organização e todos que dela faziam parte. Ele tinha tão pouca compaixão pelo casal morto quanto Clocker, não se sentia responsável pelo que havia acontecido com os dois e, na verdade, imaginava que o mundo estava melhor sem dois parasitas improdutivos, que sugavam a substância da sociedade e impediam o tráfego com seu pesado lar sobre rodas. Ele não sentia nenhum amor pelas massas. O problema básico com o homem e a mulher médios era precisamente o fato de serem tão médios e de haver tantos deles, tomando muito mais do que davam ao mundo, incapazes de administrar suas próprias vidas de maneira inteligente, quanto menos a sociedade, o governo, a economia e o meio ambiente.

      Mesmo assim, ficou alarmado com a maneira com a qual Clocker externara seu desprezo pelas vítimas. A palavra “Klingons” deixou-o intranqüilo porque era o nome da raça de alienígenas que travara guerra com a humanidade em muitos episódios de televisão e filmes da série Jornada nas Estrelas, antes que os acontecimentos nesse futuro ficcional começassem a refletir a melhoria das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética no mundo real. Oslett achava Jornada um tédio, uma chatice insuportável. Nunca compreendeu por que tantas pessoas tinham tamanha paixão pela série. Mas Clocker era um fã ardente do seriado, intitulava-se imperturbável de “Trekker”, sendo capaz de recitar as tramas de cada filme e episódio já filmado, e conhecendo as histórias pessoais de cada personagem como se fossem os amigos mais queridos. Jornada era o único assunto sobre o qual ele parecia disposto ou capaz de entabular uma conversa; e da mesma forma que era taciturno a maior parte do tempo, era tagarela quando se tratava do tema de sua fantasia favorita.

      Oslett tentava garantir que ele nunca surgisse.

      Agora, em sua mente, a temida palavra “Klingons” soava como um alarme de incêndio.

      Com toda a organização correndo risco porque o rastro de Alfie fora perdido, com alguma coisa nova e intensamente violenta solta no mundo, a viagem de volta à cidade de Oklahoma através de tantos quilômetros de terra despovoada e sem luz iria ser deprimente e triste. A última coisa que Oslett precisava era ser assaltado por um dos exaustivos monólogos de Clocker sobre o capitão Kirk, o Sr. Spock, Scotty, o resto da tripulação, e suas aventuras nos distantes recantos de um universo que, no filme, tinha muito mais sentido e momentos de frívolo iluminismo do que o universo real feito de duras escolhas, feias verdades e crueldade estúpida.

      — Vamos dar o fora daqui — disse Oslett, passando por Clocker e dirigindo-se para a frente do Road King. Ele não acreditava em Deus, mas mesmo assim rezou com fervor para Karl Clocker acalmar-se em seu costumeiro silêncio autocentrado.

  

Cyrus Lowbock desculpou-se um instante para ir consultar alguns colegas que desejavam falar com ele numa outra parte da casa.

      Marty ficou aliviado com sua partida.

      Quando o detetive saiu da sala de jantar, Paige deixou a janela e mais uma vez sentou-se na cadeira ao lado de Marty.

      Embora a Pepsi tivesse acabado, alguns cubos de gelo tinham se derretido na caneca e ele bebeu a água fria.

      — A única coisa que desejo agora é pôr um fim nisso tudo. Nós não devíamos estar aqui, não com esse sujeito solto em algum lugar lá fora.

      — Você acha que devemos nos preocupar com as meninas?

       ... preciso... minha Charlotte, minha Emily...

      Marty disse:

      — Acho. Estou muito preocupado.

      — Mas você deu dois tiros no peito do sujeito.

      — Eu também pensei tê-lo deixado com as costas quebradas na saleta de entrada, mas ele se levantou e deu o fora. Ou saiu mancando. Ou talvez tenha desaparecido no ar. Não sei que diabo está acontecendo aqui, Paige, mas é mais desvairado do que qualquer coisa. E ainda não acabou, de jeito nenhum.

      — Se fossem apenas Vic e Kathy tomando conta delas... mas também tem um tira lá em cima.

      — Se aquele bastardo soubesse onde as meninas estão, eliminaria o tal tira, Vic e Kathy num minuto.

      — Você o enfrentou.

      — Tive sorte, Paige. Apenas uma baita sorte. Ele não imaginava que eu tivesse uma arma na gaveta da escrivaninha ou que seria capaz de usá-la. Peguei o sujeito de surpresa. Ele não vai deixar isso acontecer de novo. Terá toda a surpresa do seu lado.

      Marty inclinou a caneca nos lábios, deixou que um cubo de gelo deslizasse para sua língua.

      — Marty, quando você tirou as armas do armário da garagem e carregou-as?

      Ele respondeu, com o cubo de gelo na boca:

      — Eu percebi que isso chocou você. Fiz isso hoje de manhã. Antes de ir ver Paul Guthridge.

      — Por quê?

      Marty descreveu, da melhor maneira que pôde, a curiosa sensação que teve de que alguma coisa estava caindo em cima dele e iria destruí-lo antes que tivesse uma chance de identificar o que era. Tentou transmitir a maneira como a sensação se intensificou, transformando-se em pânico, até ele ter certeza de que precisaria de armas para se defender, quase paralisado pelo medo.

      Marty teria ficado embaraçado em contar para ela, teria parecido desequilibrado — se os acontecimentos não tivessem provado a validade de suas percepções e precauções.

      — E alguma coisa estava mesmo vindo — disse ela. — Esse sósia. Você o sentiu aproximar-se.

      — É isso aí. Acho que sim. De alguma forma.

      — Mediúnica.

      Ele sacudiu a cabeça.

      — Não, eu não chamaria assim. Não se você quer dizer uma visão mediúnica. Não houve nenhuma visão. Eu não vi o que estava vindo, não tive uma premonição clara. Só isso... essa terrível sensação de pressão, de gravidade... como num desses brinquedos de um parque de diversões, quando você está girando com muita velocidade, preso no assento, sentindo o peso de seu peito. Você sabe, já esteve nesses brinquedos, Charlotte sempre os adora.

      — Sim. Entendo... eu acho.

      — Começou desse jeito... e ficou cem vezes pior, até que eu mal conseguia respirar. Então, de repente, quando saí para o consultório do médico, a coisa parou. E, mais tarde, quando cheguei em casa, o filho de uma égua estava aqui, mas eu não senti coisa alguma quando entrei.

      Os dois ficaram em silêncio por alguns momentos.

      O vento lançava bolinhas de chuva contra a janela.

      — Como ele podia ter a aparência exatamente igual à sua?  — quis saber Paige.

      — Não sei.

      — Por que ele diria que você roubou a vida dele?

      — Não sei, não sei mesmo.

      — Estou com medo, Marty. Quero dizer, tudo é tão esquisito. O que vamos fazer?

      — Depois dessa noite, não sei. Mas hoje à noite, pelo menos, não vamos ficar aqui. Iremos para um hotel.

      — Mas se a polícia não encontrá-lo morto em algum lugar, então temos o amanhã... e depois de amanhã.

      — Estou quebrado, cansado e sem conseguir pensar direito. Por enquanto, só consigo concentrar-me em hoje à noite, Paige. Só vou precisar preocupar-me com o amanhã quando ele chegar.

      O adorável rosto de Paige estava vincado de ansiedade. Desde a doença de Charlotte, cinco anos atrás, ele não a via sequer com a metade da perturbação que ostentava.

      — Eu te amo — disse, pousando a mão ao lado de sua cabeça.

      Paige falou, colocando a mão sobre a dele:

      — Oh, Deus, eu também te amo, Marty, você e as meninas, mais do que qualquer coisa, mais do que a própria vida. Não podemos deixar que nada aconteça conosco, ou com o que temos em comum. Não podemos.

      — Não vamos deixar — disse ele, mas suas palavras soaram tão ocas e falsas quanto a fanfarronice de um garoto.

      Ele estava consciente de que nenhum dos dois expressara a mais leve esperança de que a polícia os protegesse. Não conseguia reprimir a raiva por causa do fato de a polícia não estar oferecendo nada que se assemelhasse ao serviço, cortesia e consideração que os personagens de seus romances sempre recebiam das autoridades.

      Em sua essência, os romances de mistérios eram sobre o bem e o mal, sobre o triunfo do primeiro sobre o segundo e sobre a confiabilidade do sistema de justiça numa democracia moderna. Eram populares porque garantiam ao leitor que o sistema costumava funcionar com muito mais freqüência do que se imaginava, ainda que a prova da vida cotidiana apontasse para uma conclusão mais perturbadora. Marty tinha conseguido trabalhar no gênero com convicção e tremendo prazer, porque gostava de acreditar que os órgãos de cumprimento da lei e os tribunais faziam justiça na maior parte das vezes e só contrariavam isso de maneira inesperada. Mas agora, na primeira vez em sua vida em que o procurava pedindo ajuda, o sistema estava falhando com ele. Essa falha não apenas colocava sua vida em risco — assim como as vidas de sua esposa e filhas —, mas também parecia colocar em dúvida o valor de tudo que ele havia escrito e o mérito do objetivo com o qual se envolvera em tantos anos de luta e trabalho duro.

      O tenente Lowbock retornou pela sala de estar, movendo-se como se estivesse no meio de uma sessão de fotografia de moda da revista Esquive. Carregava uma bolsa de provas de plástico claro, contendo um estojo preto com zíper, mais ou menos da metade do tamanho de um estojo de barbear. Colocou a bolsa em cima da mesa de jantar enquanto tomava assento.

      — Sr. Stillwater, a casa estava trancada com segurança quando saiu hoje de manhã?

      — Trancada? — disse Marty, perguntando-se para onde estavam indo agora e tentando não demonstrar raiva. — Estava, muito bem trancada. Sou cuidadoso com esse tipo de coisa.

      — Você parou para pensar na maneira como o intruso pode ter entrado?

      — Quebrando uma janela, eu acho. Ou forçando uma fechadura.

      — Sabe o que tem aqui dentro? — perguntou, dando um tapinha no estojo de couro preto dentro da sacola de plástico.

      — Receio não ter visão de raios X — disse Marty.

      — Pensei que pudesse reconhecer.

      — Não reconheço.

      — Encontramos isso em seu banheiro.

      — Nunca vi isso antes.

      — No toucador.

      — Vá direto ao assunto, tenente — pediu Paige.

      A leve sombra de sorriso tornou a cruzar o rosto de Lowbock tal como um espírito visitante brilhando por breves momentos no ar acima de uma mesa de sessão espírita.

      — É um conjunto completo de gazuas para fechadura.

      — Foi assim que ele entrou? — perguntou Marty.

      Lowbock encolheu os ombros.

      — Suponho que é isso que esperam que eu deduza.

      — Que coisa desagradável, tenente. Nós temos filhas com as quais estamos preocupados. Concordo com minha mulher... vá direto ao assunto.

      O detetive reclinou-se sobre a mesa fitando Marty mais uma vez com seu intenso olhar patenteado:

      — Sr. Stillwater, sou tira há 27 anos, e essa é a primeira vez que encontro um arrombamento numa residência particular em que o intruso usou um conjunto profissional de gazuas.

      — E daí?

      — Eles quebram um vidro ou forçam uma fechadura, como você disse. As vezes arrombam com pé-de-cabra uma porta deslizante ou janela. A maioria dos arrombadores tem cem maneiras de entrar... todas elas muito mais rápidas do que abrir uma fechadura.

      — Ele não era um arrombador.

      — Oh, dá pra notar — disse Lowbock. Afastou-se da mesa, ajeitou-se na cadeira. — Esse cara é muito mais teatral do que a média dos criminosos. Ele consegue ser exatamente igual a você. Declara uma bobajada estranha sobre querer sua vida de volta, chega armado com a arma de um assassino de aluguel com rosca para silenciador, usa ferramentas de arrombador como um artista hollywoodiano no papel de ladrão num filme policial, leva duas balas no peito, mas não se perturba, perde sangue suficiente para matar um homem comum, mas sai andando. Esse cara é muito extravagante, mas também muy misterioso, o tipo de personagem que Andy Garcia poderia interpretar num filme policial ou, melhor ainda, o tipo que Ray Liotta foi em Os Bons Companheiros.

      De repente, Marty percebeu aonde o detetive se dirigia e compreendeu por que se encaminhava para lá. A inevitável estação final do interrogatório devia ter ficado óbvia antes, mas Marty não havia “sacado” porque era óbvia demais. Como escritor, ele vinha procurando razões mais exóticas e complexas para a descrença e hostilidade que Lowbock mal conseguia disfarçar, enquanto o tempo todo Cyrus Lowbock procurava o lugar-comum.

      Contudo, o detetive ainda tinha mais uma surpresa desagradável para revelar. Tornou a reclinar-se para a frente e fez contato de olho de uma forma que deixara de ser um modo de confrontação eficaz para transformar-se num tique pessoal tão aborrecido e transparente quanto a frustrante postura humilde de Peter Falk, e sua inexorável autodepreciação ao interpretar Columbo, o pensativo franzir de boca de Nero Wolfe em momentos de inspiração, o esperto sorriso afetado de James Bond, ou qualquer um dos inúmeros traços com os quais Sherlock Holmes era caracterizado.

      — Suas filhas têm animais de estimação, Sr. Stillwater?

      — Charlotte tem. Vários.

      — Uma estranha coleção de animais de estimação.

      Paige disse em tom frio:

      — Charlotte não os acha estranhos.

      — Você acha?

      — Não. Que importância tem se são estranhos ou não?

      — Há muito tempo que ela tem? — indagou Lowbock.

      — Alguns há mais tempo do que outros — disse Marty, desconcertado com essa nova virada no interrogatório, mesmo estando convencido de que compreendia a teoria que Lowbock tentava provar.

      — Ela gosta dos animais?

      — Gosta. Muito. Como qualquer criança. Por mais estranho que você possa achar que sejam, ela os adora.

      Sacudindo a cabeça, afastando-se de novo da mesa, tamborilando com a caneta no caderno de notas, Lowbock disse:

      — É mais um toque extravagante, mas também convincente. Quero dizer, se você fosse detetive e se dispusesse a duvidar de todo o cenário, teria que pensar duas vezes se o invasor matasse todos os animais de estimação da filha.

      O coração de Marty começou a afundar dentro dele como uma pedra atirada procurando o fundo de uma lagoa.

      — Oh, não — disse Paige com tristeza. — Não os pobres Whiskers, Loretta, Fred... não todos eles, não?

      — O gerbo foi morto por esmagamento — disse Lowbock, o olhar fixo em Marty. — O camundongo teve o pescoço quebrado, a tartaruga foi esmagada debaixo do pé, bem como o besouro. Não examinei os outros com esse mesmo cuidado.

      A raiva de Marty transformou-se em fúria mal contida, e ele fechou as mãos debaixo da mesa porque sabia que Lowbock o estava acusando de ter eliminado os animais de estimação apenas para dar credibilidade a uma mentira elaborada. Ninguém iria acreditar que um pai amoroso pisaria na tartaruga de estimação da filha e quebraria o pescoço de seu lindo camundongo com o vil propósito que Lowbock acreditava ter motivado Marty; por conseguinte, de maneira perversa, o detetive supunha que Marty tinha feito isso porque era tão ultrajante que o exonerava, o toque final perfeito.

      — Charlotte vai ficar com o coração partido — disse Paige.

      Marty sabia que estava corado de raiva. Podia sentir o calor em seu rosto como se tivesse passado a última hora debaixo de uma lâmpada solar, e sentia as orelhas como se estivessem em brasas. Também sabia que o tira iria interpretar sua raiva como rubor de vergonha, um testamento de sua culpa.

      Quando Lowbock revelou novamente aquele sorriso fugaz, Marty quis dar-lhe um soco na boca.

      — Sr. Stillwater, por favor me corrija se eu estiver errado, há pouco tempo não teve um livro na lista dos bestsellers de brochura, a reimpressão de um capa dura publicado no ano passado?

      Marty não respondeu.

      Lowbock não exigiu uma resposta. Agora estava dando voltas.

      — E um novo livro que sairá em um mês, mais ou menos, que algumas pessoas acham que pode ser seu primeiro best-seller de capa dura? E é provável que já esteja trabalhando num outro livro. Em todo caso, tem um bocado de manuscritos na escrivaninha de seu gabinete. E acho que depois que conseguir fazer alguns gols em sua carreira, só vai ter que ficar pisando no acelerador para aproveitar a velocidade, por assim dizer.

      Com as sobrancelhas franzidas, todo o corpo tenso de novo, Paige parecia estar prestes a entender direito a ridícula interpretação do detetive em relação ao relato do crime de Marty, a fonte de seu antagonismo. Ela tinha o mau humor da família; e como Marty mal conseguia reprimir-se para não bater no tira, ele se perguntava qual seria a reação dela quando Lowbock explicitasse suas suspeitas idiotas.

      — Deve ajudar uma carreira quando seu perfil sai na revista People — continuou o detetive. — E aposto que se o Sr. Assassino se torna alvo de um matador muy misterioso, então consegue um bocado de publicidade gratuita na imprensa, justamente no ponto de virada crucial de sua carreira.

      Paige estremeceu na cadeira como se tivesse sido esbofeteada.

      Sua reação chamou a atenção de Lowbock.

      — Sim, Sra. Stillwater?

      — Você consegue mesmo acreditar...

      — Acreditar em quê, Sra. Stillwater?

      — Marty não é um mentiroso.

      — Eu disse que ele é?

      — Ele detesta publicidade.

      — Então, o pessoal da People deve ter sido muito insistente.

      — Pelo amor de Deus, olhe o pescoço dele! Está vermelho, inchado, dentro de algumas horas estará coberto de hematomas. Você não pode acreditar que ele tenha feito isso.

      Mantendo uma irritante aparência de objetividade, Lowbock disse:

      — É nisso que acredita, Sra. Stillwater?

      Ela falou com os dentes cerrados, dizendo aquilo que Marty não se sentia permitido a dizer:

      — Seu merda estúpido.

      Levantando as sobrancelhas e parecendo ferido, como se não pudesse imaginar o que teria feito para merecer tanta hostilidade, Lowbock disse:

      — Sra. Stillwater, com certeza percebe que existem pessoas lá fora, um mundo de cínicos, que podem dizer que a tentativa de estrangulamento é a forma mais segura de falsificação de um assalto. Quero dizer que cortar um braço ou uma perna seria um toque convincente, mas sempre há o perigo de um cálculo errado uma artéria cortada, então, de repente, você se vê com uma hemorragia muito mais séria do que seria a sua intenção. E quanto aos ferimentos à bala... bem, o risco é maior ainda, com a possibilidade de a bala ricochetear num osso e penetrar mais fundo na carne. Além do mais, sempre tem o risco de choque.

      Paige pôs-se de pé com um movimento tão brusco que derrubou a cadeira.

      — Fora daqui.

      Lowbock piscou os olhos para ela, fingindo inocência muito além do ponto que permitia um retorno.

      — Como disse?

      — Fora de minha casa — exigiu ela. — Agora.

      Embora Marty percebesse que estava jogando fora a última esperança de vencer o detetive e ganhar proteção policial, ele também se levantou da cadeira, tão furioso que chegava a tremer.

      — Minha mulher está certa. Acho que é melhor você e seus homens irem embora, tenente.

      Permanecendo sentado, porque isso era um desafio aos dois, Cyrus Lowbock disse:

      — Vocês querem dizer, ir embora antes de terminar nossa investigação?

      — Isso mesmo — apoiou Marty. — Terminada ou não.

      — Sr. Stillwater... Sra. Stillwater... vocês sabem que é contra a lei dar queixa de um crime falso?

      — Nós não demos queixa de um crime falso — replicou Marty.

      — A única falsificação nessa sala é você, tenente — disse Paige. — Você sabe que é contra a lei se fingir de oficial da polícia?

      Teria sido satisfatório ver a cor de raiva no rosto de Lowbock, ver seus olhos se fecharem e seus lábios enrijecerem com o insulto, mas sua serenidade permaneceu furiosamente inabalável.

      Quando se levantou devagar, o detetive disse:

      — Se as amostras de sangue retiradas no tapete do andar de cima forem, digamos, apenas sangue de porco ou de vaca, ou qualquer coisa parecida, o laboratório conseguirá determinar a espécie exata, claro.

      — Conheço os poderes analíticos da ciência forense — assegurou-lhe Marty.

      — Ah, sim, é verdade, você é um escritor de mistérios. Segundo a revista People, costuma fazer muita pesquisa para criar seus romances.

      Lowbock fechou o bloco de anotações e prendeu a caneta dentro dele.

      Marty esperava.

      — Em suas várias pesquisas, Sr. Stillwater, você aprendeu a quantidade de sangue que há num corpo humano, digamos num corpo mais ou menos de seu tamanho?

      — Cinco litros.

      — Ah. Está correto — Lowbock colocou o bloco de anotações em cima da sacola de plástico que continha o estojo de couro com as gazuas de fechadura. — Em sua suposição, porém uma suposição bastante educada, eu diria que há entre um e dois litros de sangue coagulado no tapete do andar de cima. Entre 20 e 40 por cento de todo o estoque do seu sósia, mais para 40 por cento, a menos que eu esteja errado. Sabe o que eu esperaria encontrar com essa quantidade de sangue, Sr. Stillwater? Eu esperaria encontrar o corpo de onde o sangue veio, porque realmente exige imaginação supor que um sujeito com esse ferimento grave consiga fugir do cenário do crime.

      — Eu já lhe disse que também não consigo entender.

      — Muy misterioso — disse Paige, colocando nessas duas palavras uma medida de escárnio idêntica ao tom zombeteiro com que o detetive usara antes.

      Marty decidiu que havia pelo menos uma coisa boa nessa confusão: a maneira como Paige não duvidara dele em nenhum instante, muito embora a razão e a lógica demandassem dúvida: a maneira como ela estava a seu lado agora, feroz e resoluta. Em todos aqueles anos em que haviam estado juntos, ele nunca a amara mais do que naquele momento.

      Pegando o caderno de anotações e a sacola de prova Lowbock disse:

      — Se ficar provado que o sangue do andar de cima é humano, isso vai suscitar todos os tipos de questões, exigindo que terminemos a investigação, mesmo que vocês prefiram livrar-se de nós. Na verdade, qualquer que seja o resultado do laboratório, vocês terão notícias minhas de novo.

      — Nós simplesmente adoraremos vê-lo de novo. — A sutileza desaparecera da voz de Paige, como se de repente ela deixasse de ver Lowbock como uma ameaça e não pudesse deixar de vê-lo como uma figura cômica.

      Marty sentiu-se contagiado pela atitude dela e percebeu que, tanto no seu caso como no dela, a súbita hilaridade sombria fora uma reação à tensão insuportável da última hora. Ele disse:

      — Claro, dê uma passada aqui de novo.

      — Faremos uma bela xícara de chá — disse Paige.

      — E bolinhos.

      — Pãezinhos.

      — Bolo de chá.

      — E, claro, traga sua mulher — sugeriu Paige. — Nós somos indulgentes. Adoraríamos conhecê-la, mesmo que ela seja de uma outra espécie.

      Marty teve consciência de que Paige estava perigosamente próxima de uma risada alta, porque ele próprio também estava. Sabia que o comportamento dos dois era infantil, mas precisou de todo seu autocontrole para não continuar zombando de Lowbock durante todo o trajeto até a porta da frente, conduzindo-o com piadas da mesma forma que o professor von Helsing forçaria o conde Drácula a se retirar, brandindo um crucifixo diante dele.

      Estranhamente, o detetive ficou desconcertado com a frivolidade dos dois como antes não ficara com sua raiva ou com a insistência séria de que o invasor era real. Uma dúvida visível apoderou-se dele, e por um momento pareceu que ele iria sugerir que os três se sentassem para começar de novo. Mas a dúvida era uma fraqueza que ele não conhecia, e Lowbock não conseguiu sustentá-la por muito tempo.

      A incerteza logo cedeu lugar à sua conhecida expressão convencida:

      — Nós vamos levar a Heckler e Koch do sósia, e também suas armas, claro, até você apresentar a papelada que requisitei.

      Por um terrível momento, Marty teve certeza de que eles haviam encontrado a Beretta no armário da cozinha e a espingarda Mossberg debaixo da cama no andar de cima, bem como todas as outras armas, deixando-o indefeso.

      Mas Lowbock relacionou as armas e mencionou apenas três:

      — A Smith and Wesson, o Korth 38 e o M16.

      Marty tentou não aparentar o alívio.

      Paige distraiu Lowbock dizendo:

      — Porra, tenente, quando é que você vai sair?

      Enfim, o detetive não pôde impedir que seu rosto se contraísse de raiva.

      — Sra. Stillwater, claro que pode apressar-me se repetir o pedido na presença de outros dois oficiais.

      — Sempre preocupado com esses processos — disse Marty.

      — Ficarei feliz em fazer esse favor, tenente — replicou Paige. — Gostaria que eu expressasse o pedido na mesma linguagem que acabei de usar?

      Marty nunca a tinha ouvido falar a palavra “porra”, a não ser em circunstâncias íntimas — o que significava que, embora disfarçada pelo tom de voz brando e pelos modos frívolos, sua raiva era tão forte como antes. O que era bom. Depois que a polícia fosse embora, ela iria precisar da raiva para atravessar a noite. A raiva ajudaria a manter o medo em xeque.

  

Quando ele fecha os olhos e tenta imaginar a dor, pode vê-la como uma filigrana de fogo. Uma linda passamanaria luminosa, incandescente com sombreados vermelhos e amarelos, se estende de seu pescoço latejante até as costas, envolve seus lados, dá laços e nós intricados no peito e na barriga.

      Ao visualizar a dor, ele consegue perceber melhor se o seu estado está melhorando ou piorando. Na verdade, sua única preocupação é a rapidez de sua recuperação. Fora ferido em outras ocasiões, embora não de forma tão grave como essa, e sabe o que deve esperar; a continuação da deterioração seria uma experiência totalmente nova e alarmante para ele.

      A dor fora violenta durante um ou dois minutos depois que ele fora alvejado. Ele sentira como se um feto monstruoso houvesse despertado dentro dele e estivesse escavando seu caminho para fora.

      Por sorte, ele tem uma singular tolerância para a dor e sabe extrair coragem do conhecimento de que a agonia logo é reduzida a um nível menos paralisante.

      No momento em que ele sai cambaleando pela porta dos fundos da casa e se dirige para o Honda, o sangramento pára por completo e suas pontadas de fome tornam-se mais terríveis do que a dor de seus ferimentos. Seu estômago dá nós, desata com espasmos, mas no mesmo instante dá um outro nó, apertando e afrouxando com violência, de maneira repetida, como se fosse um punho ávido capaz de agarrar o alimento de que precisa desesperadamente.

      Ao se afastar da casa no carro, através de torrentes cinzentas no auge da tempestade, sua voracidade se torna tão dolorosa que ele começa a tremer de privação. Não são apenas tremores de necessidade, mas sim terríveis estremecimentos que fazem seus dentes baterem. As mãos crispadas marcam uma tatuagem entorpecida sobre o volante, e ele mal consegue segurá-lo com firmeza suficiente para controlar o veículo. Ele tem convulsões com os acessos de respiração ofegante, lampejos de calor se alternam com os de frio, e o suor que jorra em seu corpo é mais gelado do que a chuva que ainda encharca seus cabelos e roupas.

      Seu extraordinário metabolismo lhe dá grande força, mantém alto seu nível de energia, liberta-o da necessidade de dormir todas as noites, permite que se cure com rapidez milagrosa e, em geral, é uma cornucópia de suas bênçãos físicas, mas também lhe faz exigências. Mesmo num dia normal, ele tem um apetite formidável, o bastante para dois lenhadores. Quando se nega o sono, quando está ferido, ou quando qualquer outra demanda incomum é feita a seu sistema, a simples fome logo se transforma numa necessidade ! voraz, e a voracidade aumenta de imediato para uma horrenda j compulsão de alimento que expulsa todos os outros pensamentos de sua mente, forçando-o a um consumo devastador de qualquer coisa que possa encontrar.

      Embora o interior do Honda esteja à mercê de embalagens vazias de alimento — envoltórios, pacotes e sacolas de todos os tipos — não há nenhuma guloseima escondida no lixo. No trecho final entre as montanhas San Bernardino e as planícies do condado de Orange, ele havia consumido febrilmente cada migalha que restava. Agora havia apenas manchas secas de chocolate e mostarda, finas camadas de óleo brilhante, gordura, borrifos de sal, nada suficientemente fortificante para compensar a energia de que ele necessitava para buscar e lamber na escuridão.

      No momento em que localiza um restaurante fast food com uma janela de serviço, no centro de suas entranhas há um vácuo gelado do qual ele parece estar se dissolvendo, tornando-se cada vez mais oco, mais frio, como se seu corpo se consumisse para se restaurar catabolizando duas células para cada uma que cria. Ele quase morde a própria mão numa tentativa frenética e desesperada de aliviar as fortes pontadas de fome. Ele se imagina arrancando com os dentes pedaços da própria carne e engolindo com avidez, chupando seu próprio sangue quente, qualquer coisa para mitigar seu sofrimento — qualquer coisa, não importa o quão repulsiva possa ser. Mas ele se reprime porque, na loucura de sua fome não humana, está convencido de que não há nenhuma carne sobre seus ossos. Sente-se vazio ao extremo, e acredita que pode dissolver-se em milhares de fragmentos sem vida no momento em que seus dentes cortarem a pele frágil e, assim, espatifarem a ilusão de substância.

      O restaurante é uma filial do McDonald’s. O minúsculo alto-falante do intercomunicador no posto de pedidos fora exposto a suficientes anos de sol de verão e frio de inverno, de forma que o cumprimento do balconista invisível é trêmulo e abafado pela estática. Confiante de que sua voz cansada e trêmula não parecerá estranha, o matador pede comida suficiente para saciar o pessoal de um escritório pequeno: seis cheeseburgers, Big Macs, batatas fritas, dois sanduíches de peixe, dois milk-shakes de chocolate — e Cocas grandes, porque seu metabolismo acelerado, se não for abastecido, conduz rápido tanto à desidratação como à inanição.

      Ele está numa fila comprida de carros e o avanço para a janela da entrega é lento. Ele não tem outra escolha a não ser aguardar, porque com as roupas manchadas de sangue e a camisa rasgada à bala não pode entrar num restaurante ou numa mercearia para pegar o que precisa, a menos que esteja disposto a atrair um bocado de atenção.

      Na verdade, embora os vasos sangüíneos tenham sido reparados, os dois ferimentos à bala no peito ainda não foram inteiramente curados devido à escassez de combustível necessário aos processos metabólicos. Esses buracos sugadores, nos quais pode enfiar o dedo mais grosso a uma profundidade perturbadora, causariam mais comentários do que a camisa ensangüentada.

      Uma das balas o atravessou por completo, saiu pelas costas à esquerda da espinha. Ele sabe que o ferimento da saída é mais largo do que os buracos do peito. Quando se recosta no assento do carro, ele sente as bordas denteadas se alargarem.

      Teve sorte porque nenhum dos projéteis perfurou seu coração. Isso talvez o detivesse para sempre. Isso e um tiro na cabeça capaz de espatifar o cérebro são os únicos ferimentos que ele teme.

      Quando chega na janela da caixa, ele paga o pedido com o dinheiro que pegou de Jack e Frannie em Oklahoma mais de 24 horas atrás. A jovem da caixa pode ver seu braço quando ele lhe estende o dinheiro, por isso o matador faz força para reprimir os fortes tremores que poderiam despertar sua curiosidade. Ele mantém o rosto afastado; com a noite e a chuva, ela não pode ver seu peito devastado nem a agonia que contorce suas pálidas feições.

      Na janela de entrega, seu pedido chega em várias sacolas brancas que ele empilha no desordenado assento a seu lado, conseguindo desviar o rosto também desse empregado. Ele se utiliza de toda sua força de vontade para impedir-se de rasgar as sacolas e devorar a comida no mesmo instante em que a recebe. Ele conserva clareza de mente suficiente para perceber que não deve fazer uma cena bloqueando a pista de retirada.

      Estaciona no canto mais escuro do estacionamento do restaurante, desliga os faróis e os limpadores de pára-brisa. Quando olha no espelho retrovisor, seu rosto parece tão descarnado que ele compreende que perdeu vários quilos na última hora; os olhos estão fundos e parecem rodeados por borrões de fuligem. Ele escurece ao máximo as luzes do painel, mas deixa o motor funcionando porque, em seu atual estado debilitado, precisa aquecer-se no ar quente do aquecedor. Ele está envolto em sombras. A chuva que corre no vidro brilha com a luz refletida dos anúncios de neon, e subjuga o mundo noturno em formas mutantes, ao mesmo tempo que o protege de olhares indiscretos.

      Nessa caverna mecânica, ele volta à selvageria e, durante algum tempo, é alguma coisa menos humana, rasgando a comida com impaciência animal e enfiando-a na boca mais rápido do que pode engolir. Sanduíches, pães e batatas fritas se desintegram em seus lábios e seus dentes e deixam uma rampa crescente de entulho orgânico em seu peito; a Coca e o milk-shake pingam em sua camisa. Ele se sufoca várias vezes, jogando comida no volante e no painel, mas não pára de comer como um lobo, com a mesma urgência, soltando sons sôfregos sem palavras e grunhidos baixos de satisfação.

      O frenesi de comida se traduz num período de recolhimento entorpecido e silencioso muito semelhante a um transe do qual ele desperta em dados momentos com três nomes nos lábios, sussurrados como uma prece:

      — ... Paige... Charlotte... Emily...

      Ele sabe por experiência que, nas horas antes do amanhecer, sofrerá novos acessos de fome, embora não tão devastadores e obsessivos quanto o que acabara de suportar. Algumas barras de chocolate ou latas de lingüiça vienense ou pacotes de cachorro-quente — dependendo da sua necessidade de carboidratos ou proteínas — garantirão a suspensão das pontadas.

      Ele poderá concentrar sua atenção em outras questões críticas, sem preocupar-se com distrações de natureza fisiológica. A mais séria dessas crises é a escravização permanente de sua esposa e filhas por parte do homem que roubou sua vida.

      — Paige... Charlotte... Emily...

      Lágrimas obscurecem sua visão quando ele imagina a família nas mãos daquele odioso impostor. Elas são tão preciosas para ele. São sua única riqueza, sua razão de existir, seu futuro.

      Ele lembra a admiração e a alegria com que explorou a casa, permaneceu no quarto das filhas e tocou na cama em que ele e sua mulher fazem amor. No momento em que viu seus rostos na foto em cima da escrivaninha soube que eram seu destino e que, em seu abraço de amor, encontraria o fim da confusão, da solidão e do desespero quieto que o incomodava.

      Também lembra nitidamente do primeiro confronto surpreendente com o impostor, o choque e a consternação de sua misteriosa semelhança, o diapasão e o timbre de sua voz perfeitamente iguais. De imediato ele compreendeu, porque o sujeito pôde entrar em sua vida sem ninguém se dar conta.

      Embora a exploração da casa não tivesse revelado nenhuma informação que explicasse as origens do impostor, ele se lembrou de certos filmes que poderiam dar respostas quando tivesse uma oportunidade para revê-los. As duas versões de Vampiros de Almas, a primeira estrelada por Kevin McCarthy, a segunda por Donald Sutherland. A refilmagem de John Carpenter de A Coisa, mas não a primeira versão. Talvez até O Planeta Vermelho. Bette Midler e Lily Tomlin num filme cujo título ele não conseguia lembrar. O Príncipe e o Mendigo. Luar Sobre Parador. Deve haver outros.

      Os filmes têm todas as respostas para os problemas da vida. Graças aos filmes, ele aprendeu tudo sobre romance, amor e a alegria da vida em família. Na escuridão das salas de exibição, passando o tempo entre os assassinatos, faminto de sentido, ele aprendera a necessitar do que não tinha. E a partir das grandes lições dos filmes, ele poderia, num dado momento, deslindar o mistério de sua vida roubada.

      Mas primeiro tinha que agir.

      Essa é outra lição que aprendeu nos filmes. A ação tem que vir antes do pensamento. Nos filmes, raras vezes as pessoas se sentam para meditar sobre a situação em que se encontram. Por Deus, elas fazem alguma coisa para resolver até seus piores problemas; ficam em movimento, movem-se sem parar, procurando resolutamente o confronto com aqueles que se opõem a elas, travando luta de vida ou morte com seus inimigos, e sempre vencem, desde que tenham determinação suficiente e sejam justas.

      Ele é determinado.

      Ele é justo.

      Sua vida foi roubada.

      Ele é uma vítima. E sofreu.

      Ele conheceu o desespero.

      Ele suportou os maus-tratos, a angústia, a traição e a perda como Omar Sharif em Doutor Jivago, como William Hurt em O Turista Acidental, como Robin Williams em O Mundo Segundo Garp, Michael Keaton em Batman, Sidney Poitier em No Calor da Noite, Tyrone Power em O Fio da Navalha, Johnny Depp em Edward Mãos de Tesoura. Ele é uma das muitas pessoas brutalizadas, desprezadas, tiranizadas, incompreendidas, enganadas, rejeitadas e manipuladas que vivem na tela prateada e que se portam heroicamente diante das aflições devastadoras. Seu sofrimento é tão importante quanto o deles, seu destino tão glorioso, sua esperança de triunfo tão grande quanto a deles.

      Esse conhecimento o comove profundamente. Ele é arrebatado por soluços com tremores, chorando não de tristeza, mas sim de alegria, dominado por um sentimento de posse, de fraternidade um senso de humanidade comum. Ele tem fortes vínculos com aqueles cujas vidas ele compartilha nos cinemas, e essa gloriosa epifania o motiva a levantar-se, mover-se, mover-se, confrontar, desafiar, lutar e levar a melhor.

      — Paige, estou indo buscá-la — diz por entre lágrimas.

      Ele abre a porta do motorista e sai na chuva.

      — Emily, Charlotte, não vou traí-las. Contem comigo. Confiem em mim. Morrerei por vocês, se for preciso.

      Joga fora o lixo de sua glutonaria, dá a volta até a traseira do Honda e abre o porta-malas. Encontra uma chave de roda que, numa extremidade , tem um pé-de-cabra para soltar calotas e, na outra ponta, uma chave de porca. Seu peso e equilíbrio são satisfatórios.

      Ele retorna ao assento da frente, desliza para trás do volante e coloca a chave de roda em cima do lixo perfumado que abarrota o assento a seu lado.

      Quando vê na memória a foto de sua família, ele murmura:

      — Morrerei por vocês.

      Ele está se curando. Quando explora os buracos de bala no peito, só consegue enfiar o dedo até a metade da profundidade que antes conseguia penetrar.

      No segundo ferimento, seu dedo encontra uma massa dura e sulcada que podia ser um chumaço de cartilagem deslocada. Mas ele logo percebe que se trata da bala de chumbo que não o atravessou. Seu corpo a está rejeitando. Ele escarafuncha e puxa até que a bala deformada sai com um barulho úmido, e ele a joga no chão.

      Embora saiba que seu metabolismo e poderes de recuperação são extraordinários, ele não se vê como sendo diferente de outros homens. Os filmes lhe ensinaram que todos os homens são extraordinários de uma maneira ou de outra. Alguns exercem um magnetismo poderoso sobre as mulheres, que não conseguem resistir; outros possuem uma coragem além dos limites; outros, cujas vidas Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone retrataram, podem caminhar através de uma chuva de balas sem ser atingidos e vencer um combate corpo-a-corpo com meia dúzia de homens ao mesmo tempo ou em vertiginosa sucessão. A rápida convalescença parece menos excepcional quando comparada à habilidade comum dos heróis da tela, que passam incólumes pelo próprio inferno.

      No resto da pilha de comida, ele pega um sanduíche frio de peixe, devora-o com seis grandes mordidas e sai do McDonald’s. E começa a procurar um shopping mall.

      Como se trata do sul da Califórnia, ele logo encontra o que procura: um extenso complexo de lojas de departamento e de especialidades, com seu telhado composto de mais folhas de metal que um navio de guerra, paredes de concreto armado tão formidáveis quanto as defesas de uma fortaleza medieval, cercado por centenas de metros de pavimento iluminado por lâmpadas. A implacável natureza comercial do lugar é disfarçada por fileiras e aglomerados de árvores, loureiros indianos, salgueiros e palmeiras, como um parque.

      Ele atravessa infinitas filas de carros estacionados até localizar um homem de capa de chuva, que sai correndo do mall carregando duas sacolas de compras cheias. O comprador pára atrás de um Buick branco, coloca as sacolas no chão e procura as chaves para abrir a mala.

      Há uma vaga disponível a três carros do Buick. O Honda, que esteve com ele todo o trajeto desde Oklahoma, já durou mais do que devia. Deve ser abandonado ali.

      Ele sai do carro com a chave de roda na mão direita, segurando-a pela ponta e mantendo-a encostada à perna para não chamai atenção.

      A tempestade começa a perder um pouco de sua força. O vento está diminuindo. Nenhum relâmpago corta o céu.

      Embora a chuva não esteja menos fria que antes, ele a acha mais refrescante que congelante.

      Enquanto se dirige para o mall — e o Buick branco —, ele vigia o imenso estacionamento. Pelo que pode ver, ninguém o observa. Nenhum dos carros agrupados ao longo dessa fileira se encontra em processo de partida: nenhum farol, nenhum rolo revelador de fumaça de escapamento. O carro em movimento mais próximo está a três filas de distância.

      O comprador encontrou as chaves, abriu a mala do Buick e guardou a primeira das duas sacolas. Ao se curvar para pegar a segunda sacola, o estranho toma conhecimento de que não está mais sozinho; gira a cabeça, olha para trás e para cima de sua posição curvada a tempo de ver a chave de roda descendo sobre seu rosto, no qual uma expressão de alarme mal teve tempo de se formar.

      É provável que o segundo golpe fosse desnecessário. O primeiro jogou fragmentos de ossos faciais no cérebro. De qualquer modo, ele torna a golpear o comprador inerte e silencioso.

      Joga a chave de roda na mala aberta. Ela atinge alguma coisa com um tinido abafado.

       Mover-se, mover-se, confrontar, desafiar, lutar elevar a melhor.

      Sem perder tempo olhando em volta para verificar se continua sem ser observado, ele pega o homem no pavimento molhado à maneira de um halterofilista que inicia um levantamento de halteres. Deixa o cadáver cair na mala, e o carro balança com o peso morto.

      A noite e a chuva dão o pouco de cobertura de que ele precisa para tirar a capa de chuva do cadáver oculto na mala aberta. Um dos olhos mortos olha fixamente enquanto o outro rola solto na órbita, e a boca está congelada num uivo de dentes quebrados que nunca foi dado.

      A capa que ele veste por cima de suas roupas molhadas fica um pouco larga e alguns centímetros comprida nas mangas, mas é adequada por enquanto. Ela cobre as roupas manchadas de sangue, rasgadas e sujas de comida, deixando-o apresentável, que é a única coisa com que se preocupa. Ela ainda está quente com o calor do corpo do comprador.

      Mais tarde ele se livrará do cadáver e amanhã comprará roupas novas. Agora tem muito o que fazer e bem pouco tempo para realizar o que deve ser feito.

      Ele pega a carteira do morto, que contém um agradável maço grosso de notas. Joga a segunda sacola de compras em cima do cadáver, bate a tampa da mala. As chaves estão balançando na fechadura.

      No Buick, perdendo tempo com os controles do aquecedor, ele se afasta do mall.

       Mover-se, mover-se, confrontar, desafiar, lutar elevar a melhor.

      Começa a procurar um posto de gasolina, não porque o Buick precise de combustível, mas sim porque precisa encontrar um telefone público.

      Ele lembra das vozes na cozinha, enquanto se contorcia em agonia no meio das ruínas do corrimão da escada. O impostor empurrava Paige e as meninas para fora da casa, antes que pudessem chegar na saleta de entrada e ver seu verdadeiro pai lutando para se erguer sobre as mãos e os joelhos.

      — ... leve-as para o outro lado da rua, para Vic e Kathy...

      E segundos depois, ouviu um nome mais útil ainda:

      — ... para a casa dos Delorio...

      Embora sejam seus vizinhos, ele não consegue lembrar de Vic e Kathy Delorio ou mesmo da casa deles. Esse conhecimento lhe foi roubado junto com o resto de sua vida. Entretanto, se tivessem um telefone registrado, ele seria capaz de encontrá-los.

      Um posto de serviços. O emblema azul da Pacific Bell.

      Mesmo enquanto dirige para o lado da cabine de telefone com parede de plexiglas, consegue ver vagamente o grosso catálogo preso por uma corrente.

      Deixa o motor do Buick ligado e atravessa uma poça em direção à cabine. Fecha a porta para acender a luz do teto e, com movimentos frenéticos, folheia as Páginas Brancas.

      A sorte está com ele. Victor W Delorio. A única anotação com esse nome. Mission Viejo. Sua própria rua. Bingo. Ele memoriza o endereço.

      Corre ao posto para comprar doces em barra. Vinte. Barras de Hershey com amêndoas, 3 Musketeers, Mounds, chocolate branco Crunch da Nestlé. Seu apetite está saciado por enquanto; não precisa dos doces agora — mas a necessidade vai surgir logo.

      Paga com o dinheiro vivo que pertence ao morto na mala do Buick.

      — Sem dúvida que você tem um dente doce — diz o empregado.

      No Buick de novo, saindo do posto de serviços para o tráfego, sente medo por sua família que, sem querer, permanece escrava do impostor. Podem ser levadas para um lugar distante onde ele não possa encontrá-las. Podem ser machucadas. Ou até mortas. Qualquer coisa pode acontecer. Ele apenas viu a foto delas e apenas começou a reconhecê-las; no entanto, podia perdê-las antes de ter uma oportunidade de beijá-las de novo ou de dizer o quanto as amava. Tão injusto. Cruel. Seu coração bate com ferocidade, reavivando parte da dor que fora extinta há pouco nos ferimentos recém-fechados.

      Oh, Deus, ele precisa de sua família. Precisa segurá-las nos braços e ser abraçado em resposta. Precisa confortá-las e ser confortado e ouvi-las dizer seu nome. Ao ouvi-las dizer seu nome, ele será alguém de uma vez por todas.

      Acelerando em frente a um sinal de trânsito que muda do amarelo para o vermelho, ele fala alto para as filhas, num tom de voz que treme de emoção:

      — Charlotte, Emily, estou indo. Tenham coragem. Papai está indo. Papai está indo. Papai. Está. Indo.

  

O tenente Lowbock foi o último tira a sair da casa.

      Na varanda da frente, enquanto as portas dos carros do esquadrão eram batidas na rua atrás dele e os motores eram ligados, ele se virou para Paige e Marty para obsequiá-los com mais um sorriso de vida curta e quase imperceptível. Era evidente que estava sem disposição para se lembrar da raiva bem controlada que no final jogaram em cima dele.

      — Virei vê-los tão logo consiga os resultados do laboratório.

      — Não pode ser logo? — disse Paige. — Tivemos uma visita tão encantadora, que simplesmente não podemos esperar pela próxima vez.

      — Boa noite, Sra. Stillwater — cumprimentou Lowbock e virou-se para Marty. — Boa noite, Sr. Assassino.

      Marty sabia que era uma infantilidade fechar a porta na cara do detetive, mas na verdade também foi muito gratificante.

      Paige colocou a corrente de segurança no lugar enquanto Marty encaixava a fechadura de cavilha morta:

      — Sr. Assassino?

      — Foi como me chamaram no artigo da People.

      — Eu ainda não vi.

      — Bem na manchete. Oh, espere só até ler. O artigo me faz parecer ridículo: Marty Stillwater, o-velho-fantasmagórico-o-velho-assustador, extraordinário punguista de livros. Por Deus, se por acaso Lowbock tivesse lido esse artigo hoje, eu não o culparia por pensar que tudo isso não passou de um golpe de publicidade.

      Ela disse:

      — Ele é um idiota.

      — Trata-se de uma maldita história improvável.

      — Eu acredito nela.

      — Eu sei. E te amo por isso.

      Ele beijou-a. Ela abraçou-o, mas por breves momentos.

      — Como está sua garganta? — perguntou ela.

      — Vou sobreviver.

      — Aquele idiota pensa que você se sufocou.

      — Não fiz isso. Mas é possível, imagino.

      — Pare de ver o lado dele. Você me deixa louca. E agora? Não devíamos sair daqui?

      — O mais rápido que pudermos — ele concordou. — E não voltaremos enquanto não entendermos que porra significa tudo isso. Você pode fazer algumas malas contendo o básico para todos nós durante alguns dias?

      — Claro — ela respondeu, já se dirigindo para a escada.

      — Vou dar um pulo na casa de Vic e Kathy, ver se está tudo bem por lá, depois volto para ajudá-la. E, Paige... a Mossberg está debaixo da cama em nosso quarto.

      Enquanto começava a subir a escada, passando por cima dos escombros em lascas, ela disse:

      — Está bem.

      — Enquanto estiver fazendo as malas, tire a arma e coloque-a em cima da cama.

      — Farei isso — disse ela, já tendo subido um terço da escada.

      Marty achou que não a impressionara o bastante com a necessidade de precaução extra.

      — Leve-a para o quarto das meninas.

      — Está bem.

      Falando em tom bastante brusco para detê-la, com a dor envolvendo seu pescoço quando jogou a cabeça para trás na tentativa de encará-la, ele disse:

      — Droga, estou falando sério, Paige.

      Ela olhou para baixo, surpresa, porque ele nunca usava aquele tom de voz.

      — Está bem. Ficarei com ela por perto.

      — Ótimo.

      Ele se dirigia ao telefone da cozinha, e já havia chegado na sala de jantar, quando ouviu Paige gritar no segundo andar. Com o coração batendo tão forte que só conseguia respirar em staccato, Marty voltou correndo para a saleta de entrada, esperando vê-la agarrada pelo Outro.

      Paige estava parada no topo da escada, horrorizada com as repulsivas manchas no tapete que ela via pela primeira vez.

      — Quando ouvi sobre isso, não pensei... — ela olhou para Marty. — Quanto sangue. Como ele conseguiu... sair andando?

      — Ele não poderia se fosse... apenas um homem. É por isso que tenho certeza de que voltará.

      — Marty, isso é uma loucura.

      — Eu sei.

      — Meu bom Deus — disse ela, menos num sentido profano do que numa prece, e correu para o quarto dos donos da casa.

      Marty regressou à cozinha e tirou a Beretta do armário. Embora ele mesmo tivesse carregado a pistola, retirou o pente, examinou-o, recolocou-o no lugar e soltou uma bala na câmara.

      Notou uma grande quantidade de impressões sujas de pés em todo o chão de lajotas mexicanas. Muitas ainda estavam úmidas. Nas últimas duas horas, os policiais ficaram entrando e saindo na chuva e era evidente que nem todos haviam tido a consideração de enxugar os pés junto à porta.

      Embora soubesse que os tiras haviam estado ocupados e tinham coisas melhores a fazer do que se preocupar em ficar limpando a casa, as impressões dos pés — e a desconsideração que representavam — pareciam ser uma violação quase tão profunda quanto o assalto do Outro. Um ressentimento surpreendentemente intenso despertou em Marty.

      Enquanto sociopatas se espalhavam pelo mundo moderno, o sistema judicial operava com a premissa de que o mal era gerado sobretudo pela injustiça social. Os assassinos eram considerados vítimas da sociedade com a mesma certeza com que as pessoas que eles roubavam ou matavam eram suas vítimas. Pouco tempo antes, um sujeito fora solto de uma prisão da Califórnia após cumprir seis anos por haver estuprado e assassinado uma menina de onze anos. Seis anos. A menina, claro, ainda estava tão morta quanto antes. Esses ultrajes eram agora tão comuns que a história teve pouca cobertura da imprensa. Se os tribunais não protegiam inocentes de onze anos, e se o Congresso e o Senado não decretavam leis para forçar os tribunais a protegê-los, então não se podia contar com juízes e políticos para proteger alguém em algum lugar a qualquer momento.

      Mas, droga, pelo menos se esperava que os tiras o protegessem, porque os tiras estavam na rua o dia inteiro, no meio da confusão, e sabiam como o mundo era de fato. Os grandes “marajás” em Washington e as eminências almofadinhas nos tribunais haviam se isolado da realidade com altos salários, infinitos adornos e gordas pensões; viviam em condomínios fechados com segurança privada, mandavam os filhos para escolas particulares — e perdiam contato com o dano que causavam. Mas os tiras não. Os tiras eram trabalhadores, colarinho azul. Homens e mulheres de trabalho. Em sua função, viam o mal todos os dias; sabiam que o mal estava tão disseminado na classe alta quanto na média e na pobre, sabiam que a sociedade tinha menos culpa do que a natureza imperfeita da espécie humana.

      Supunha-se que a polícia fosse a última trincheira de defesa contra a barbárie. Mas se ficasse cínica em relação ao sistema que devia defender, se acreditasse que era a única que ainda se importava com a justiça, deixariam de se importar. Quando você precisasse da polícia, ela faria seus testes forenses, preencheria grossos formulários da papelada para agradar a burocracia, espalharia a sujeira em seu assoalho antes limpo e iria embora sem sequer ter simpatia.

      Parado na cozinha, segurando a Beretta, Marty sabia que ele e Paige constituíam agora sua última trincheira de defesa. Não havia ninguém mais. Nenhuma autoridade maior. Nenhum guardião do bem-estar público.

      Ele precisava de coragem, mas também da imaginação de rédeas soltas que ele empregava ao escrever seu livros. De repente, ele parecia estar vivendo num romance noir, naquele reino amoral onde tinham lugar as histórias de James M. Cain e Elmore Leonard. A sobrevivência nesse mundo sombrio dependia do pensamento rápido, da ação ligeira, da extrema crueldade. Tudo isso dependia a maior parte das vezes da capacidade de imaginar o pior que a vida poderia apresentar e, ao imaginar, estar preparado e não surpreso.

      Sua mente estava vazia.

      Ele não sabia para onde ir, o que fazer. Arrumar as malas e dar o fora da casa, sim. Mas e depois?

      Embora adorasse as obras de Cain e Leonard, seus próprios livros não eram tão noir assim. Eles celebravam a razão, a lógica, a virtude e o triunfo da ordem social. Sua imaginação não o conduzia rumo a soluções cuidadosas, à ética situacional ou ao anarquismo.

      Vazia.

      Preocupado com sua capacidade de lutar quando tanta coisa caía em cima dele, Marty pegou o telefone da cozinha e ligou para os Delorio. Quando Kathy atendeu no primeiro toque, ele disse:

      — Aqui é Marty.

      — Marty, você está bem? Vimos que todos os policiais foram embora e o oficial daqui também partiu, mas ninguém nos esclareceu a situação. Quero dizer, está tudo bem? O que é que está acontecendo?

      Kathy era uma boa vizinha e sua preocupação era autêntica, mas Marthy não tinha intenção de perder tempo relatando tudo pelo qual havia passado, tanto com o sósia quanto com a polícia.

      — Onde estão Charlotte e Emily?

      — Assistindo televisão.

      — Onde?

      — Bem, na sala de estar.

      — Suas portas estão trancadas?

      — Estão, claro, acho que sim.

      — Tenha certeza. Verifique. Você tem uma arma?

      — Uma arma? Marty, o que é isso?

      — Você tem uma arma? — ele insistiu.

      — Não acredito em armas. Mas Vic tem uma.

      — Ele está com ela agora?

      — Não. Ele...

      — Diga a ele para carregar a arma e ficar com ela até eu e Paige podermos passar aí para pegar as meninas.

      — Marty, não estou gostando disso. Eu não...

      — Dez minutos, Kathy. Pegarei as meninas em dez minutos ou menos, o mais rápido que puder.

      Ele desligou antes que ela pudesse responder.

      Correu ao andar de cima até o quarto de hóspede que funcionava às vezes como escritório de Paige. Era ela que fazia a contabilidade da família, acompanhava o talão de cheques e cuidava do resto de seus assuntos financeiros.

      Na gaveta de baixo à direita da escrivaninha de pinho havia arquivos de recibos, faturas e cheques cancelados. A gaveta também continha seu talão de cheques e cadernetas de conta de poupança presas por um elástico, que Marty retirou. Ele colocou tudo no bolso do paletó.

      Sua mente já não estava mais vazia. Ele havia pensado em algumas precauções que devia tomar, embora fossem febris demais para serem consideradas um plano de ação.

      Em seu gabinete, foi ao armário embutido e, às pressas, escolheu quatro cartões de papelão de pilhas de trinta a quarenta caixas do mesmo tamanho e forma. Cada qual continha vinte livros de capa dura. Ele só pôde levar dois de cada vez até a garagem. Colocou-os na mala do BMW, estremecendo com a dor no pescoço, acentuada pelo esforço.

      Ao entrar no quarto do casal após sua segunda viagem corrida até o carro, depois de passar pela soleira, ele se deteve subitamente ao avistar Paige pegando a espingarda e virando-se para ficar de frente para ele.

      — Desculpe — disse ela quando viu quem era.

      — Você agiu certo — disse ele. — Já juntou as coisas das meninas?

      — Não, estou acabando aqui.

      — Vou começar com as coisas delas — disse ele.

      Seguindo a trilha de sangue para o quarto de Charlotte e Emily, passando pela parte do corrimão quebrado na galeria, Marty olhou de relance para a saleta de entrada no andar de baixo. Ainda esperava ver um morto caído nas lajotas rachadas.

  

Charlotte e Emily estavam afundadas no sofá da sala de estar dos Delorio com as cabeças encostadas. Fingiam estar absortas numa estúpida comédia de televisão sobre uma família estúpida, com seus filhos e parentes estúpidos, fazendo coisas estúpidas para resolver um problema estúpido. Enquanto elas pareciam ligadas no programa, a Sra. Delorio ficava na cozinha preparando a janta. O Sr. Delorio ou andava de um lado para o outro, ou parava diante das janelas da frente, observando os tiras lá fora. Ignoradas, as meninas tiveram a chance de trocar sussurros tentando imaginar o que acontecia em casa.

      — Talvez papai tenha levado um tiro — Charlotte preocupou-se.

      — Já lhe disse um milhão de vezes que não levou.

      — O que você sabe? Você tem apenas sete anos.

      Emily suspirou.

      — Ele disse pra gente que estava bem, na cozinha, quando mamãe achou que estava ferido.

      — Ele estava coberto de sangue — irritou-se Charlotte.

      — Ele disse que não era dele.

      — Não lembro disso.

      — Eu lembro — disse Emily em tom enfático.

      — Se papai não levou um tiro, então quem levou?

      — Talvez um ladrão.

      — Não somos ricos, Em. O que um ladrão iria querer em nossa casa? Ei, talvez papai tenha atirado na Sra. Sanchez.

      — Por que atirar na Sra. Sanchez? Ela é só a faxineira.

      — Talvez ela tenha ficado louca de raiva — disse Charlotte, e essa possibilidade exerceu uma enorme atração sobre sua sede de drama.

      Emily sacudiu a cabeça.

      — Não foi a Sra. Sanchez. Ela é simpática.

      — As pessoas simpáticas ficam loucas de raiva.

      — Não ficam.

      — Ficam.

      Emily cruzou os braços no peito.

      — Diga uma.

      — A Sra. Sanchez.

      — Fora a Sra. Sanchez.

      — Jack Nicholson.

      — Quem é ele?

      — Você sabe, o ator. Em Batman ele era o Coringa e ficou totalmente maciçamente louco de raiva.

      — Então, talvez ele sempre seja totalmente maciçamente louco de raiva.

      — Não, às vezes ele é simpático, como naquele filme com a Shirley MacLaine. Ele era um astronauta e a filha da Shirley ficou muito doente e descobriram que estava com câncer, ela morreu e Jack foi tão doce e simpático.

      — Além disso, não é dia da Sra. Sanchez — disse Emily.

      — O quê?

      — Ela só vem nas quintas-feiras.

      — Ora, Em, se ela ficou louca de raiva, não saberia que dia é hoje — replicou Charlotte, contente com sua resposta que fazia perfeito sentido. — Talvez ela tenha saído de um asilo de pirados, ande por aí pegando trabalhos de faxina, depois, às vezes, quando enlouquece de raiva, ela mata a família, assa todo mundo e come na janta.

      — Você é esquisita — disse Emily.

      — Não, ouça — insistiu Charlotte num sussurro urgente. — — Como Hannibal Lecter.

      — Hannibal o Canibal! — ofegou Emily.

      Nenhuma das duas tivera permissão para ver o filme — que Emily insistia em chamar de A Sirene dos Inocentes — porque mamãe e papai acharam que não tinham idade suficiente, mas elas ouviram sobre ele de outras crianças da escola que haviam visto em vídeo um bilhão de vezes.

      Charlotte pôde ver que Emily já não estava tão segura quanto à Sra. Sanchez. Afinal de contas, Hannibal o Canibal tinha sido um médico que ficara louco de raiva e mordia os narizes e coisas das pessoas, de modo que, de repente, a idéia de uma faxineira louca de raiva fez um bocado de sentido.

      O Sr. Delorio entrou na sala de estar para abrir a cortina das portas deslizantes de vidro e examinar o pátio dos fundos, bastante iluminado. Segurava uma arma na mão direita. Nunca antes carregara uma arma.

      Deixando a cortina cair de volta, afastando-se da porta de vidro, ele sorriu para Charlotte e Emily.

      — Vocês estão bem, meninas?

      — Sim, senhor — disse Charlotte. — O programa é muito bom.

      — Precisam de alguma coisa?

      — Não, obrigada, senhor — disse Emily. — Só queremos assistir ao programa.

      — É um ótimo programa — repetiu Charlotte.

      Quando o Sr. Delorio saiu da sala, tanto Charlotte quanto Emily viraram-se para observá-lo até ele desaparecer de vista.

      — Por que ele tem uma arma? — perguntou Emily.

      — Para proteger a gente. E você sabe o que isso significa? Que a Sra. Sanchez ainda deve estar viva e solta, procurando alguém para comer.

      — Mas e se o Sr. Delorio for o próximo a ficar louco de raiva? Ele tem uma arma, nós nunca poderíamos fugir dele.

      — Não seja boba — disse Charlotte, mas depois percebeu que era tão provável um professor de educação física enlouquecer quanto uma faxineira. — Ouça, Em, sabe o que fazer se ele ficar louco?

      — Ligar para nove-um-um.

      — Você não teria tempo para isso, sua boba. Portanto, o que você tem que fazer é chutar ele no saco.

      Emily franziu as sobrancelhas.

      — Hem?

      — Não lembra do filme de sábado? — perguntou Charlotte.

      Mamãe tinha ficado perturbada com o filme a ponto de fazer queixa ao gerente do cinema. Ela quis saber como um filme podia receber uma censura “livre para todas as idades, com acompanhamento dos pais” com a linguagem e violência que exibia, e o gerente disse que era um filme livre com acompanhamento dos pais, o que era muito diferente.

      Uma das cenas que aborreceu mamãe foi a cena em que o mocinho se livrava do bandido chutando-o entre as pernas. Mais tarde, quando alguém perguntou ao mocinho o que o bandido desejava, o mocinho disse: “não sei o que ele desejava, mas o que ele precisava era de um bom chute no saco”.

      Charlotte havia notado, de cara, que esse estilo aborrecera a mãe. Mais tarde, ela poderia pedir uma explicação e a mãe lhe daria. Mamãe e papai acreditavam que deviam responder, de maneira honesta, a todas as perguntas de uma criança. Mas, às vezes, era mais excitante tentar saber a resposta por conta própria, porque então era uma coisa que ela sabia, que eles não sabiam que ela sabia.

      Em casa, ela examinou o dicionário para ver se havia uma definição de “saco” que explicasse o que o mocinho fizera com o bandido, e também explicasse por que sua mãe ficara tão triste com a coisa. Quando viu que um dos significados da palavra era a gíria obscena para “testículos”, investigou essa misteriosa palavra no mesmo dicionário, aprendeu o que pôde, depois entrou no gabinete de papai, com andar leve e furtivo, e usou sua enciclopédia médica para descobrir mais. Era uma coisa muito estranha. Talvez mais do que ela queria compreender. E explicou o melhor que pôde para Em. Mas Em não acreditou em nenhuma palavra e, como era evidente, logo esqueceu o assunto.

      — Que nem no filme de sábado — Charlotte lembrou-a. — Se as coisas ficarem muito ruins e ele pirar, chute ele entre as pernas.

      — Ah, sim — Em disse ainda com dúvidas. — Chuto ele nos ticlos.

      — Testiclos.

      — Era ticlos.

      — Era testiclos — insistiu Charlotte com firmeza.

      Emily encolheu os ombros.

      — Seja como for.

      A Sra. Delorio entrou na sala de estar enxugando as mãos num pano de prato amarelo. Usava um avental sobre a saia e blusa. Cheirava a cebolas que estava cortando; começava a preparar a janta quando elas chegaram.

      — Meninas, estão prontas para outra Pepsi?

      — Não, senhora — disse Charlotte. — Estamos bem, obrigada. Vendo o programa.

      — É um ótimo programa — declarou Emily.

      — Um de meus favoritos — disse Charlotte.

      — É sobre um menino com ticlos e todo mundo fica dando chutes nele — acrescentou Emily.

      Charlotte quase bateu na cabeça da fedelha.

      Franzindo a testa, confusa, a Sra. Delorio ficou olhando da televisão para Emily, e de Emily para a tevê.

      — Ticlos?

      — Pickles — Charlotte disse, fazendo um inútil esforço para dissimular.

      A campainha da porta tocou antes que Em pudesse fazer mais estrago.

      A Sra. Delorio disse:

      — Aposto como são seus pais — e saiu apressada da sala de visita.

      — Cabeça de ervilha — disse Charlotte para a irmã.

      Emily fez uma careta.

      — Você só está braba porque mostrei que tudo era mentira. Ela nunca ouviu dizer que meninos têm ticlos.

      — Psiu!

      — Aí está — disse Emily.

      — Fedelha.

      — Nagra.

      — Isso nem é uma palavra.

      — É se eu quiser.

      A campainha da porta tocou e tocou, como se alguém estivesse encostado nela.

     

Vic olhou pela lente olho-de-peixe para o homem na varanda da frente. Era Marty Stillwater.

      Ele abriu a porta, dando um passo para trás a fim de que o vizinho pudesse entrar.

      — Meu Deus, Marty, parecia um congresso de policiais lá do outro lado. Por que tudo aquilo?

      Marty fitou-o intensamente por um momento, sobretudo para a arma na mão direita, depois pareceu ter tomado alguma decisão e piscou os olhos. Molhado de chuva, a pele parecia vítrea e com um branco tão artificial quanto o rosto de uma figura de porcelana. Parecia embriagado, encolhido, como alguém que se recupera de uma doença grave.

      — Você está bem, Paige está bem? — perguntou Kathy entrando na saleta atrás de Vic.

      Hesitante, Marty atravessou a soleira da porta e se deteve na saleta de entrada, sem entrar o suficiente para permitir que Vic fechasse a porta.

      — O que foi? — perguntou Vic. — Está preocupado em não molhar o chão? Você sabe que Kathy me acha um bagunçado sem esperança, por ela tudo na casa teria que brilhar. Entre, entre.

      Sem entrar, Marty desviou o olhar de Vic e olhou para a sala de estar, depois para a escada. Usava uma capa de chuva preta abotoada até o pescoço, e ela era grande demais para ele, o que era parte do motivo pelo qual parecia encolhido.

      Quando Vic começava a achar que ele tinha ficado mudo pelo choque, Marty disse:

      — Onde estão as meninas?

      — Elas estão bem — assegurou Vic. — Estão em segurança.

      — Preciso delas — disse Marty. Sua voz não estava mais roufenha como antes, mas sim inexpressiva. — Preciso delas.

      — Bem, pelo amor de Deus, meu chapa, será que não dá para você entrar o tempo suficiente para nos contar o que...

      — Preciso delas agora — disse Marty. — Elas são minhas.

      Vic Delorio percebeu que, afinal de contas, não era uma voz inexpressiva, mas sim controlada, como se Marty estivesse engolindo a raiva ou o terror ou alguma outra emoção forte, com medo de perder o autocontrole. Ele tremia um pouco. Parte da chuva na testa podia ser suor.

      Kathy disse, avançando na saleta:

      — Marty, o que está errado?

      Vic estava prestes a fazer a mesma pergunta. Em geral, Marty Stillwater era um sujeito fácil de se lidar, relaxado, de riso rápido, mas agora estava rígido, estranho. O que quer que tivesse acontecido com ele naquela noite deixara marcas profundas.

      Antes que Marty pudesse responder, Charlotte e Emily apareceram no final do corredor, onde ele se abria para a sala de estar. Devem ter colocado a capa de chuva no minuto em que ouviram a voz do pai. Estavam abotoando-se quando saíram.

      A voz de Charlotte tremeu quando ela disse:

      — Papai?

      Ao avistar as filhas, os olhos de Marty se encheram de lágrimas. Quando Charlotte falou com ele, Marty deu outro passo para dentro, de modo que Vic pôde fechar a porta.

      As meninas passaram correndo por Kathy, Marty caiu de joelhos no chão da saleta de entrada e as crianças voaram em seus braços com força suficiente para derrubá-lo. Enquanto os três se abraçavam, as meninas falaram de imediato:

      — Papai, você está bem? Ficamos com tanto medo. Você está bem? Eu te amo, papai. Você estava todo sujo de sangue. Eu disse para ela que não era o seu sangue. Foi um ladrão, foi a Sra. Sanchez ela ficou doida, o carteiro ficou doido, alguém ficou maluco, vocês estão bem, mamãe está bem, já acabou, mas por que as pessoas simpáticas de repente ficam loucas de raiva? — Na verdade, os três falavam ao mesmo tempo, porque Marty continuou falando enquanto elas faziam perguntas:

      — Minha Charlotte, minha Emily, minhas filhas, eu amo vocês, amo muito, não vou deixá-los roubar vocês de novo, nunca mais — ele beijou-lhes os rostos, as testas, abraçou-as com força, ajeitou-lhes os cabelos com as mãos trêmulas e, no geral, comportou-se como se houvesse passado anos sem vê-las.

      Kathy sorria e, ao mesmo tempo, chorava em silêncio, cobrindo os olhos com um pano de prato amarelo.

      Vic imaginava que a reunião era comovente, mas não estava tão comovido quanto sua mulher, em parte porque Marty parecia e falava de maneira peculiar; não estranha como seria de se esperar da parte de um homem que acaba de brigar com um invasor em sua casa — se foi isso, de fato, o que aconteceu —, mas apenas... bem, apenas estranho. Esquisito. As coisas que Marty dizia eram um tanto quanto esquisitas:

      — Minha Emily, Charlotte minha, tão mimosa como no retrato, minha, ficaremos juntos, é o meu destino.

      Seu tom de voz também era incomum, trêmulo e urgente demais para uma provação que talvez já tivesse acabado — como a partida da polícia indicava, sem dúvida —, mas também afetado demais. Dramático. Dramático em excesso. Ele não estava falando de modo espontâneo, parecia estar interpretando um papel no palco, fazendo força para se lembrar da coisa certa a dizer.

      Todo o mundo dizia que as pessoas criativas eram estranhas, sobretudo os escritores, e quando Vic conheceu Martin Stillwater esperava que o romancista fosse excêntrico. Mas Marty desapontara nesse aspecto; ele era o vizinho mais normal e dotado de bom senso que se poderia esperar ter. Até agora.

      Marty pôs-se de pé e segurou as filhas:

      — Temos que ir embora — e virou-se na direção da porta da frente.

      — Espere um instante, Marty, meu chapa — disse Vic —, você não pode sair daqui assim, quando estamos tão curiosos.

      Marty soltara Charlotte apenas o tempo suficiente para abrir a porta. Ele agarrou-a de novo e o vento entrou assobiando na saleta, chocalhando o bordado emoldurado de pássaros azuis e flores de primavera pendurado na parede.

      Como o escritor saiu sem dar nenhuma resposta a Vic, este olhou de soslaio para Kathy e viu que sua expressão havia mudado. Lágrimas ainda brilhavam em suas faces, mas os olhos estavam secos e ela parecia intrigada.

      Então não sou só eu, ele pensou.

      Ele saiu e viu que o escritor já estava na varanda da frente, dirigindo-se para a calçada na chuva lançada pelo vento, segurando as mãos das meninas. O ar estava gelado. Sapos cantavam, mas suas canções eram irreais, frias e metálicas, como o som triturante de engrenagens numa máquina congelada. O som deles fez Vic querer voltar para dentro, sentar-se diante da lareira e tomar um bocado de café quente com conhaque.

      — Que droga, Marty, espere um minuto!

      O escritor girou, olhou para trás, com as meninas aninhadas em seus lados.

      — Somos seus amigos — disse Vic —, queremos ajudar. Não importa o que esteja errado, queremos ajudar.

      — Você não pode fazer nada, Victor.

      — Victor? Cara, você sabe que odeio “Victor”. Ninguém me chama assim, nem mesmo minha querida mãe de cabelos grisalhos, se souber o que é bom para ela.

      — Desculpe... Vic. Só estou... estou com muita coisa na cabeça. — Com as meninas a reboque, ele tornou a descer para a calçada.

      Um carro estava estacionado no final da calçada. Um Buick novo. Parecia adornado com jóias na chuva. O motor funcionava. As luzes acesas. Ninguém dentro.

      Precipitando-se da varanda para a tempestade, que já não era mais o aguaceiro de antes, mas ainda era forte, Vic alcançou-os.

      — É seu carro?

      — É — disse Marty.

      — Desde quando?

      — Comprei hoje.

      — Onde está Paige?

      — Nós vamos encontrá-la. — O rosto de Marty estava tão branco quanto o crânio oculto dentro dele. Ele tremia visivelmente, e seus olhos pareciam estranhos ao brilho da lâmpada da rua. — Ouça, Vic, as crianças vão ficar ensopadas até os ossos.

      — Sou eu que vou ficar ensopado — disse Vic. — Elas estão de capa de chuva. Paige não está lá na casa?

      — Já saiu — Marty olhou preocupado para a casa do outro lado da rua, onde ainda havia luzes acesas nas janelas do primeiro e segundo andar. — Nós vamos encontrá-la.

      — Está lembrado do que me disse...

      — Vic, por favor...

      — Eu quase esqueci do que você me disse, e então, quando você começou a caminhar para a calçada, eu me lembrei.

      — Vic, temos que ir embora.

      — Você me disse para não dar as crianças a ninguém se Paige não estivesse junto. A ninguém. Está lembrado do que disse?

     

Marty levou duas enormes malas para a cozinha, no andar de baixo.

      A Beretta 9mm Parabellum estava enfiada sob o cós da calça. Fazia uma pressão desconfortável em sua barriga. Ele usava um suéter de lã com padrão de rena que escondia a arma. A jaqueta de esqui vermelha e preta estava com o fecho aberto, de modo que ele pudesse sacar a pistola com facilidade, apenas deixando a bagagem cair.

      Paige entrou na cozinha atrás dele. Carregava uma mala e a espingarda Mossberg cano 12.

      — Não abra a porta externa — disse Marty, ao passar pela pequena porta de ligação entre a cozinha e a garagem escura.

      Não queria que a porta de dois vãos ficasse aberta enquanto carregavam o carro, porque então se tornaria um ponto de vulnerabilidade. Pelo que sabia, O Outro podia ter rastejado de volta quando os tiras foram embora e talvez estivesse lá fora naquele exato momento.

      Paige seguiu-o até a garagem e acendeu os painéis fluorescentes do teto. Os tubos compridos piscaram, mas não acenderam de imediato porque os starts estavam ruins. Sombras saltaram e giraram nas paredes, entre os carros, nos caibros abertos.

      Torturando seu pescoço machucado, Marty girou a cabeça sem querer em direção aos fantasmas saltitantes. Nenhum deles tinha um rosto, muito menos uma cara igual à dele.

      As lâmpadas fluorescentes acenderam. A dura luz branca, fria e insípida como um sol de manhã de inverno impôs uma parada súbita nas sombras dançantes.

 

Ele está a poucos metros do Buick, segurando firme as mãos das meninas, tão perto de fugir com elas. Sua Charlotte. Sua Emily. Seu futuro, seu destino, tão perto, uma proximidade tão exasperante.

      Mas Vic não pára. O cara é um sanguessuga. Segue-os durante todo o trajeto desde a casa, como que esquecido da chuva, tagarelando sem parar, fazendo perguntas, um bastardo intrometido.

      Tão perto do carro. O motor funcionando, os faróis acesos. Emily numa das mãos, Charlotte na outra, e elas o amam, o amam de fato. Elas o beijaram e abraçaram lá na saleta de entrada, tão felizes em vê-lo, suas menininhas. Elas conhecem seu pai, seu pai verdadeiro. Se ao menos puder entrar no carro, fechar as portas e partir, elas serão suas para sempre.

      Talvez ele possa matar Vic, o bastardo abelhudo. Então, seria tão fácil fugir. Mas ele não tem certeza se pode fazer isso.

      — Você me disse para não dar as crianças a ninguém, se Paige não estivesse junto — diz Vic. — A ninguém. Está lembrado do que disse?

      Ele encara Vic sem pensar numa resposta que não fosse eliminar o filho da puta. Mas está com fome de novo, trêmulo e fraco dos joelhos, começando a desejar as barras de doce no assento da frente, açúcar, carboidratos, mais energia para os reparos pelos quais ainda está passando.

      — Marty? Está lembrado do que disse?

      Ele não tem uma arma, o que em geral não seria um problema. Foi bem treinado para matar com as mãos. Talvez até tenha forças para fazer isso, apesar de seu estado e do fato de Vic parecer bastante resistente para enfrentar uma briga.

      — Achei estranho — diz Vic —, mas você me disse, disse inclusive para eu não entregá-las a você se Paige não estivesse junto.

      O problema é que o bastardo tem um arma. E está desconfiado.

      Segundo após segundo, toda esperança de fuga vai se desintegrando, sendo lavada pela chuva. As meninas ainda estão segurando suas mãos. Ele as agarra com firmeza, sim, mas elas estão prestes a deslizar e ele não sabe o que fazer. Ele olha boquiaberto para Vic, a mente girando, tão impedido de dizer alguma coisa quanto esteve impedido de escrever alguma coisa, quando sentou-se no gabinete e tentou começar um livro novo.

       Mover-se, mover-se, confrontar, desafiar, lutar elevar a melhor.

      Repentinamente ele percebe que, para enfrentar esse problema e levar a melhor, precisa agir como um amigo, do mesmo jeito que os amigos se tratam e conversam entre si nos filmes. Isso atenuará toda suspeita.

      Um rio de lembranças de filmes corre em sua mente, e ele flui junto com elas.

      — Vic, por Deus, Vic, eu... eu disse isso? — Ele imagina ser Jimmy Stewart, porque todo o mundo gosta e confia em Jimmy Stewart. — Não sei o que estava dizendo, devia estar fora de mim com todas essas preocupações. Por Deus, acontece que... acontece que fiquei com um maldito medo maluco por causa de todo esse negócio que está acontecendo, uma loucura.

      — O que está acontecendo, Marty?

      Receoso mas ainda gracioso, hesitante porém sincero, Jimmy Stewart num filme de Hitchcock:

      — É complicado, Vic, tudo é... tão maluco, inacreditável, eu mesmo não acredito nem na metade. Levaria uma hora para contar a você, e eu não tenho uma hora, não tenho uma hora, não senhor, não agora, com certeza não. Minhas filhas, essas crianças, estão em perigo, Vic, e Deus me livre se alguma coisa acontecer a elas. Eu não iria querer viver.

      Ele pode ver que suas novas maneiras estão tendo o efeito desejado. Empurra as meninas nos poucos passos que faltam para o carro, confiando que o vizinho não vai detê-los.

      Mas Vic os acompanha, chapinhando numa poça d’água.

      — Você não pode me contar alguma coisa?

      Ele abre a porta traseira do Buick, introduz as meninas no interior e se vira para Vic mais uma vez.

      — Estou envergonhado por dizer isso, mas sou eu que as coloco em risco. Eu, seu pai, por causa do que faço para ganhar a vida.

      Vic parece perplexo.

      — Você escreve livros.

      — Vic, sabe o que é um fã obsessivo?

      Vic arregala os olhos, depois aperta-os quando uma lufada de vento arremessa gotas de chuva em seu rosto.

      — Como aquela mulher e Michael J. Fox alguns anos atrás.

      — É isso, está certo, como Michael J. Fox. — As duas meninas já estão no carro. Ele bate a porta. — Só que é um cara que está nos incomodando, não uma mulher maluca, e hoje à noite ele foi longe demais, invadiu a casa. Ele é violento, tive que machucá-lo. Eu. Imagine você, eu tendo que machucar alguém, hem, Vic? Agora estou com medo de que ele volte e preciso levar as meninas para longe daqui.

      — Meu Deus — diz Vic totalmente engabelado pela história.

      — Pois bem, isso é tudo que tenho tempo para lhe contar, Vic, mais do que tenho tempo para contar, portanto você... basta você... volte para dentro de casa, antes que pegue uma pneumonia mortal. Ligarei dentro de alguns dias, contarei o resto.

      Vic hesita.

      — Se pudermos fazer alguma coisa para ajudar...

      — Vá agora, vá. Agradeço pelo que já fez, mas a única coisa que pode fazer agora para ajudar é sair da chuva. Olhe para você está ensopado, pelo amor de Deus. Vá, saia da chuva para que eu não tenha que me preocupar com você caindo doente de pneumonia por minha causa.

 

Paige juntou-se a Marty na traseira do BMW onde ele deixara as sacolas no chão, e arriou a terceira mala e a Mossberg. Quando abriu e levantou a tampa da mala, ela viu as três caixas lá dentro.

      — O que são?

      — Coisas de que podemos precisar — disse ele.

      — Como o quê?

      — Explicarei depois. — Ele coloca a bagagem na mala.

      Como só cabiam duas das três malas, ela disse:

      — As coisas que coloquei nas malas são necessárias. Pelo menos uma caixa tem que sair.

      — Não. Vou colocar a mala menor no assento traseiro, no chão, debaixo dos pés de Emily. Em todo caso, os pés dela não chegam ao chão.

     

Na metade do caminho para casa, Vic olha para trás em direção ao Buick.

      Ainda bancando Jimmy Stewart:

      — Vá, Vic, vá agora. Lá está Kathy na varanda; também vai pegar sua pneumonia, se vocês não entrarem agora, os dois.

      Ele se vira, dá as costas para o Buick e só volta a olhar para a casa quando chega na porta do motorista.

      Vic está na varanda com Kathy, longe demais agora para impedir sua fuga, com ou sem a arma.

      Ele acena para os Delorio, que acenam em resposta. Entra no Buick atrás do volante, com a capa de tamanho exagerado formando um fardo em torno dele. E bate a porta.

      No outro lado da rua, em sua casa, as luzes estão acesas no andar de cima e de baixo. O impostor está lá dentro com Paige. Sua linda Paige. Ele não pode fazer coisa alguma em relação a isso, não por enquanto, não sem uma arma.

      Quando se vira para olhar o assento traseiro, vê que Charlotte e Emily já se afivelaram no cinto de segurança. São boas meninas. E tão engraçadinhas com suas capas de chuva amarelas e chapéus de vinil da mesma cor. Mesmo no retrato não estavam tão graciosas assim.

      As duas começam a falar, Charlotte primeiro:

      — Papai, aonde vamos, onde conseguimos esse carro?

      Emily diz:

      — Onde está mamãe?

      Antes que ele possa responder, elas disparam uma impiedosa salva de perguntas:

      — O que aconteceu, em quem você atirou, matou alguém?

      — Foi a Sra. Sanchez?

      — Ela ficou maluca como Hannibal o Canibal, papai, ela ficou pirada mesmo? — perguntou.

      Espiando através da janela do lado do carona, ele vê os Delorio entrarem na casa e fecharem a porta da frente.

      — Papai, é verdade? — pergunta Emily.

      — É isso, papai, é verdade o que disse ao Sr. Delorio, como aconteceu com Michael J. Fox, é verdade? Ele é bonito.

      — Tratem de ficar caladas — ele diz, impaciente. Engrena a marcha do Buick, aperta o acelerador. O carro resiste, porque ele esqueceu de soltar o freio de mão. Ele solta, mas o carro dá um solavanco para a frente e morre.

      — Por que mamãe não está com você? — pergunta Emily.

      A excitação de Charlotte está aumentando, e o som das vozes delas o deixa tonto:

      — Puxa, você está com a camisa cheia de sangue, com certeza deve ter atirado em alguém, é nojento mesmo, peso pesado.

      A necessidade de comida é intensa. Suas mãos tremem tanto que as chaves fazem barulho quando ele tenta dar a partida de novo. Embora dessa fez a fome não vá ser tão tremenda como da vez anterior, ele só conseguirá andar alguns quarteirões antes de ser dominado pela necessidade de comer os doces em barra.

      — Onde está mamãe?

      — Ele deve ter tentado atirar em você primeiro, ele tentou atirar em você primeiro, tinha uma faca, isso seria assustador, uma faca, o que ele tinha, papai?

      O motor de arranque range, o carro estremece, mas o motor não pega, como se estivesse afogado.

      — Onde está mamãe?

      — Você brigou mesmo com ele só com as mãos, tirou uma faca dele ou alguma outra coisa, papai, como pôde fazer isso, você sabe karatê, sabe?

      — Onde está mamãe? Quero saber onde está mamãe.

      A chuva bate no teto do carro. Bate no capô. O motor afogado enlouquece qualquer um porque não responde: ruuuuum-ruuuuum-ruuuuum. Os limpadores do pára-brisa batendo, batendo. De um lado para o outro. De um lado para o outro. Socando sem parar. Vozes de meninas no assento traseiro, um barulho cada vez mais agudo. Como o estridente zumbido de abelhas. Buzz-buzz-buzz. Tem que se concentrar em manter a mão trêmula com firmeza na chave. Dedos suados e espasmódicos ficam deslizando. Com medo de supercompensar, talvez quebrar a chave na ignição. Ruuuumm-ruuuuuum. Morto de fome. Preciso comer. Preciso dar o fora daqui. Tumpe. Pangue. Um martelar incessante. A dor ressuscita em seus ferimentos quase curados. Dói respirar. Droga de motor. Ruuuum. Não pega. Ruuuuum-ruuuuwn. Papai-papai-papai-papai-papai, buzzzzzzz.

      Da frustração à raiva, da raiva ao ódio, do ódio à violência. A violência às vezes aplaca.

      Ansioso para bater em algo, qualquer coisa, ele gira no assento, olha fixo para as meninas, grita para elas:

      — Calem a boca, calem a boca, calem a boca.

      Elas ficam espantadas. Como se ele nunca antes houvesse falado com elas dessa maneira.

      A menor morde os lábios, não consegue suportar olhar para ele, vira o rosto para a janela.

      — Quietas, pelo amor de Deus, fiquem quietas!

      Quando vira o rosto para a frente de novo e tenta dar a partida no carro, a mais velha explode em lágrimas como se fosse um bebê. Os limpadores de pára-brisa batem, o motor de arranque tritura, o motor afogado, a batida constante da chuva, e agora o choro lamuriento dela, tão agudo, desagradável demais para suportar. Ele grita com ela, sem palavras, alto o bastante para abafar o choro e todos os outros barulhos por alguns instantes. Ele considera a possibilidade de passar para o assento traseiro, onde está a maldita coisinha chorosa, fazê-la parar, bater, sacudir, apertar a mão em seu nariz e em sua boca até ela não poder fazer mais som algum, até ela enfim parar de chorar, parar de se debater, apenas parar, parar — e, de repente, o motor explode, pega, ronrona docemente.

     

— Volto logo — disse Paige enquanto Marty colocava a mala no chão, atrás do assento do motorista do BMW

      Ele levantou a vista a tempo de ver que ela se dirigia para a casa.

      — Espere, o que está fazendo?

      — Vou apagar todas as lâmpadas.

      — Ao diabo com isso. Não volte lá.

      Foi um momento de ficção, saído direto de um romance ou filme, e Marty o reconheceu como tal. Tendo feito as malas, tendo chegado até o carro, tão perto de escapar ilesos, eles retornariam à casa para completar uma tarefa não essencial, confiantes em sua segurança, e de alguma forma o psicopata estaria lá dentro, ou Porque havia retornado enquanto eles estavam na garagem, ou porque ele havia sido bem-sucedido ao se esconder em algum nicho bem disfarçado enquanto a polícia fazia a busca no local. Eles andariam de quarto em quarto, apagando as luzes, deixando que a escuridão se espalhasse pela casa — então, o sósia se materializaria, uma sombra saída das sombras, brandindo uma enorme faca de açougueiro tirada do armário de instrumentos da cozinha, golpeando, espetando, matando um deles ou os dois.

      Marty sabia que a vida real não tinha o colorido extravagante da ficção mais agitada, nem a metade da monotonia do romance acadêmico médio — e era menos previsível que ambos. Seu medo de voltar à casa para apagar as luzes era irracional, produto de uma imaginação fértil demais e da predileção do romancista por esperar o drama, a maldade e a tragédia em cada assunto humano, em cada mudança de tempo, de plano, de sonho, de esperança ou lance de dados.

      Mesmo assim, eles não iriam voltar à maldita casa. De maneira nenhuma, porra.

      — Deixe as luzes acesas — ele disse. — Tranque, levante a porta da garagem, vamos pegar as crianças e dar o fora daqui.

      Talvez Paige houvesse vivido com um romancista o tempo suficiente para sua imaginação ser corrompida, ou talvez tenha se lembrado de todo o sangue no corredor do andar de cima. Por alguma razão, ela não protestou que deixar tantas luzes acesas seria um desperdício de eletricidade. Ela apertou o botão para ativar o elevador Genie, e com a outra mão fechou a porta da cozinha.

      Enquanto Marty batia e fechava a mala do BMW, a porta da garagem parou de correr. Com um estrépito final, ela acomodou-se na posição de plena abertura.

      Ele olhou para a noite chuvosa lá fora, a mão direita buscando a coronha da Beretta em sua cintura. Sua imaginação ainda estava encrespada, e ele estava preparado para ver o indomável sósia vir pela estradinha de carro.

      Em vez disso, o que ele viu foi pior do que qualquer imagem conjurada por sua imaginação. Havia um carro parado no outro lado da rua, diante da casa dos Delorio. Não era o carro dos Delorio. Marty nunca o vira antes. Os faróis estavam acesos, embora o motorista estivesse tendo dificuldade para ligar o motor, que se sacudia e sacudia. Apesar de o motorista ser apenas uma forma escura, a pequena oval pálida de um rosto de criança era visível na janela traseira, olhando para fora. Mesmo a distância, Marty teve certeza de que a menininha do Buick era Emily.

      Junto à porta de ligação com a cozinha, Paige procurava desajeitadamente as chaves da casa nos bolsos de sua jaqueta de veludo cotelê.

      Marty estava dominado por um choque paralisante. Não conseguia gritar para Paige, não podia mexer-se.

      No outro lado da rua, o motor do Buick pegou com uma tosse tísica, depois rangeu com força e tomou vida. Nuvens de fumaça cristalizada se elevaram do escapamento.

      Marty só percebeu que rompera a paralisia e começara a se mover depois que chegou do lado de fora da garagem, no meio da estradinha de carro, correndo a toda velocidade pela chuva fria em direção à rua. Sentia-se como se houvesse sido movido por telecinesia, fazendo dez metros numa minúscula fração de segundo, mas o que acontecia era que, operando por instinto e puro terror animal, seu corpo estava à frente de sua mente.

      A Beretta estava em sua mão. E ele não se lembrava de tê-la tirado da cintura.

      O Buick afastou-se do meio-fio e Marty virou à esquerda para segui-lo. O carro movia-se devagar, porque o motorista ainda não percebera que estava sendo seguido.

      Emily ainda podia ser vista. Seu rosto assustado estava agora pressionado com força no vidro. Ela olhava direto para seu pai.

      Marty se aproximava do carro, a três metros do pára-choque traseiro. Então, o Buick acelerou, afastando-se dele, muito mais rápido do que Marty podia correr. Seus pneus cortavam as poças com borbulhas e borrifos coados.

      Como uma passageira numa gôndola de Caronte, Emily estava sendo transportada não ao longo de uma rua, mas sim atravessando o Rio Estige, em direção à terra dos mortos.

      Uma onda negra de desespero caiu sobre Marty, mas seu coração começou a bater com mais ferocidade do que antes, e ele encontrou uma força que não imaginava ter. Ele correu com mais ímpeto do que antes, chapinhando nas poças, os pés martelando o pavimento como uma britadeira, jogando os braços, a cabeça abaixada, os olhos sempre na presa.

      O Buick diminuiu a velocidade no final do quarteirão. E parou por completo no cruzamento.

      Ofegando, Marty alcançou-o. Pára-choque traseiro. Pára-lama traseiro. Porta traseira.

      O rosto de Emily na janela.

      Agora ela olhava para ele.

      Seus sentidos estavam tão aguçados pelo terror que era como se ele tivesse tomado drogas que alteravam a mente. Marty estava alucinadoramente consciente de cada detalhe das gotas de chuva no vidro entre ele e a filha — suas formas curvas e pendulares, as tristes espirais e fragmentos de luz das lâmpadas da rua refletidas em suas superfícies trêmulas — como se cada uma dessas gotas tivesse importância igual a de qualquer outra coisa do mundo. Do mesmo modo, ele via o interior do carro não como um borrão escuro, mas sim como uma elaborada tapeçaria dimensional de sombras em incontáveis matizes de cinza, azul, preto. Além do rosto pálido de Emily, no intricado tricô de lusco-fusco e brilho, havia uma outra figura, uma segunda criança: Charlotte.

      O carro começou a se mover de novo, no exato momento em que ele chegou na porta do motorista e estendeu a mão para a maçaneta. O Buick virou à direita, atravessando o cruzamento.

      Marty deslizou e quase caiu no pavimento molhado. Recuperou o equilíbrio, agarrou a arma com firmeza e se arrastou atrás do Buick, que já virava na rua transversal.

      O motorista olhava para a direita, sem saber que Marty estava à sua esquerda. Ele estava vestido com um casacão negro. Apenas sua nuca era visível na janela lateral riscada de chuva. Seu cabelo era mais escuro do que o de Vic Delorio.

      Como o carro ainda rodava devagar enquanto completava a volta, Marty alcançou-o de novo, respirando com dificuldade, os ouvidos cheios do forte tamborilar de seu coração. Dessa vez ele não estendeu a mão para a porta, porque talvez estivesse travada. Ele desperdiçaria o elemento surpresa se tentasse. Levantou a Beretta e mirou na nuca do outro.

      As crianças podiam ser atingidas por um tiro de ricochete, por vidro voando. Ele tinha que arriscar. Caso contrário, elas seriam perdidas para sempre.

      Embora houvesse poucas possibilidades de que o motorista fosse Vic Delorio ou algum outro inocente, Marty não poderia apertar o gatilho sem saber com certeza em quem estava atirando. Ainda movendo-se paralelo ao carro, ele gritou:

      — Ei, ei, ei!

      O motorista girou a cabeça para olhar pela janela.

      Marty olhou para seu próprio rosto no final do cano de sua pistola. O Outro. O vidro à sua frente parecia um espelho amaldiçoado, no qual seu reflexo não estava confinado numa mímica precisa, mas sim livre para revelar emoções mais pérfidas do que alguém gostaria que o mundo visse; quando confrontou-se com ele, o rosto que parecia vidro contraiu-se com ódio e fúria.

      Assustado, o motorista deixara o pé escapar do acelerador. Por um breve momento o Buick diminuiu de velocidade.

      Não mais que um metro até a janela. Marty disparou duas balas. Um pouco antes do estrondo ressoante do primeiro disparo ecoar numa infinidade de superfícies molhadas da noite lavada pela chuva, Marty pensou ter visto o motorista jogar-se para o lado e para baixo, ainda segurando o volante pelo menos com uma das mãos, tentando tirar a cabeça da linha de fogo. O cano brilhou e vidro espatifado obscureceu o rosto do bastardo.

      Enquanto a segunda bala explodia perto da primeira, os pneus do carro rangeram. O Buick disparou para a frente, como um cavalo bravo que explode para fora de um portão de rodeio.

      Marty correu atrás do carro, que se afastou dele com uma contracorrenteza de ar turbulento e fumaça de escapamento. O sósia ainda estava vivo, talvez ferido, mas ainda vivo e determinado a fugir.

      Disparando na direção leste, o Buick começou a pender para o lado errado da rua de duas pistas. Nessa trajetória, iria bater no meio-fio e cair no gramado de alguém.

      Em seu traiçoeiro olho da mente, Marty imaginou o carro chocando-se no meio-fio em alta velocidade, sendo atirado para o ar, rolando, batendo em uma das árvores ou na lateral de uma casa, incendiando-se, com as filhas presas num caixão de aço em chamas. No canto mais sombrio de sua mente, ele até pôde escutá-las gritando enquanto o fogo cauterizava a carne em seus ossos.

      Então, enquanto Marty o perseguia, o Buick girou de volta à pista do centro, sua própria pista. Ainda movia-se rápido, rápido demais, e ele não tinha nenhuma esperança de alcançá-lo.

      Mas corria como se corresse pela própria vida, com a garganta começando a arder de novo enquanto ele respirava pela boca aberta, o peito doendo, agulhas de dor lancetando ao longo de suas pernas. Sua mão direita segurava a coronha da Beretta com tanta força que os músculos do braço latejavam do punho ao ombro. E a cada passo desesperado, os nomes de suas filhas ecoavam em sua mente num grito não externado de perda e sofrimento.

 

Quando seu pai gritou para elas calarem a boca, Charlotte ficou tão magoada como se ele a tivesse esbofeteado, pois em seus nove anos nada do que dissera e nenhuma proeza que tinha feito jamais o deixaram tão furioso. No entanto, ela não compreendia o que o enraivecera, porque tudo que fizeram foram algumas perguntas. Foi injusto ele ralhar com ela; e o fato de em sua memória ele nunca ter sido injusto só acrescentava ferroada em sua reprimenda. Ele pareceu ter ficado furioso com ela, apenas por ela ser ela mesma, como se de repente alguma coisa em sua própria natureza causasse repulsa e desgosto nele, o que era um pensamento insuportável porque ela não podia mudar quem ela era, e talvez seu pai jamais a amasse de novo. Ele jamais conseguiria retirar o olhar de raiva e ódio de seu rosto, e ela jamais conseguiria esquecer enquanto vivesse. Tudo mudara entre eles para sempre. Tudo isso ela pensou e compreendeu em um segundo, antes mesmo de ele terminar de gritar e de ela ter caído no choro.

      Quase sem se dar conta de que enfim o carro pegara, se afastara do meio-fio e chegara ao final do quarteirão, Charlotte só perdeu um pouco da tristeza quando Em afastou-se da janela, agarrou seu braço e sacudiu-a. Em sussurrou-lhe:

      — Papai.

      A princípio, Charlotte pensou que Em estava injustamente irritada com ela por ter deixado papai furioso, e estivesse lhe avisando que ficasse calada. Mas antes de poder lançar-se ao combate com a irmã, ela percebeu uma excitação de alegria na voz de Em.

      Alguma coisa importante estava acontecendo.

      Reprimindo as lágrimas, ela viu que Em já estava de novo pressionada contra a janela. Enquanto o carro atravessava o cruzamento e virava à direita, Charlotte seguiu a direção do olhar da irmã.

      Assim que localizou papai correndo ao lado do carro, soube que era seu pai verdadeiro. O papai atrás do volante — o papai com aquele ar de ódio no rosto, que gritava para as filhas sem nenhuma razão — era uma falsificação. Alguma outra pessoa. Ou alguma outra coisa, talvez como nos filmes, surgindo de uma semente de vagem de uma outra galáxia, um dia era apenas um monte de gosma feia e no dia seguinte assumia uma forma parecida com papai. Ela não se sentiu confusa ao avistar os dois pais idênticos, não teve nenhum problema para saber qual era o verdadeiro, como um adulto poderia ter, porque ela era uma criança e as crianças sabiam essas coisas.

      Acompanhando o carro, quando ele entrou na próxima rua, apontando a arma para a janela do motorista, papai berrou:

      — Ei, ei, ei!

      Quando o falso papai percebeu quem estava gritando para ele, Charlotte esticou-se para fora do cinto de segurança, agarrou um pedaço do casaco de Em e puxou a irmã para fora da janela.

      — Abaixe-se, proteja seu rosto, rápido!

      As duas se encostaram, aconchegaram-se uma na outra, protegeram as cabeças com as mãos.

      BAM!

      O disparo da arma de fogo foi o barulho mais alto que Charlotte ouvira na vida. Campainhas soaram em seus ouvidos.

      Ela quase começou a chorar de novo, dessa vez de medo, mas tinha que ser dura por causa de Em. Nesses momentos, uma irmã mais velha tem que pensar em suas responsabilidades.

      BAM!

      Quando o segundo tiro explodiu num piscar de olhos depois do primeiro, Charlotte soube que o falso papai fora atingido, porque ele gritou de dor e praguejou, cuspindo a palavra com M várias e várias vezes. No entanto, ainda estava em boa forma para dirigir, e o carro pulou para a frente.

      Pareciam fora de controle, tombando para a esquerda, indo rápido demais, depois virando com força para a direita.

      Charlotte sentiu que iriam bater em alguma coisa. Se não fossem esmigalhadas na batida, ela e Em tinham que estar preparadas para se mover com rapidez quando parassem, tinham que sair do carro e do caminho para que papai pudesse tratar do falso.

      Ela não tinha nenhuma dúvida de que papai poderia tratar do outro homem. Embora não tivesse idade para ter lido algum de seus romances, ela sabia que papai escrevia sobre assassinos e armas e perseguições de carro, esse tipo de coisa, de modo que saberia exatamente o que fazer. O falso ficaria muito arrependido de ter se metido com papai; acabaria numa prisão por um tempo muito, muito longo.

      O carro desviou-se de novo para a esquerda, e no assento da frente o falso fazia sons choramingados de dor, que lembravam os gritos de Wayne, o gerbo, na vez em que conseguiu ficar com o pé preso debaixo do mecanismo de sua roda de exercícios. Mas Wayne nunca praguejava, claro, e aquele homem estava praguejando com mais raiva que antes, não apenas usando a palavra com M, mas também o nome de Deus em vão, além de todos os tipos de palavras que ela nunca ouvira antes, mas sabia, tinha certeza de que era linguagem ruim da pior espécie.

      Segurando Em com um braço, Charlotte apalpou o cinto de segurança com a mão livre, procurando o botão de soltar. Achou-o e manteve o polegar sobre ele.

      O carro bateu em alguma coisa, e o motorista pisou no freio. Eles deslizaram de lado na rua molhada. A traseira do carro girou para a esquerda, e a barriga dela deu uma volta, como se estivessem num brinquedo do parque de diversões.

      O lado do motorista de carro bateu forte em alguma coisa, mas não com força suficiente para matá-los. Ela apertou o polegar no botão e o cinto de segurança recuou. Apalpando a cintura de Em, ela disse:

      — Seu cinto, solte o cinto... — e, em um ou dois segundos, encontrou o botão da irmã.

      A porta de Em estava emperrada na coisa contra a qual tinham batido. Elas tinham que sair pelo lado de Charlotte.

      Ela puxou Em por sobre seu corpo. Abriu a porta. Empurrou Em para fora.

      Ao mesmo tempo, Em a puxava, como se fosse a pessoa que estava fazendo o salvamento, e Charlotte quis dizer: Ei, quem é a irmã mais velha aqui?

      O falso papai viu ou ouviu que elas estavam saindo. E investiu contra elas por sobre o assento da frente.

      — Suas putinhas! — e agarrou o desengonçado chapéu de chuva de Charlotte.

      Ela deslizou por baixo do chapéu, passou pela porta, saiu na noite e na chuva, caindo de mãos e joelhos no pavimento. Levantou a vista, viu que Em já cambaleava na rua em direção à calçada distante, tropeçando como um bebê que recém aprendeu a andar. Charlotte pôs-se de pé correu atrás da irmã.

      Alguém estava gritando seus nomes.

      Papai.

      O verdadeiro papai.

 

A três quartos de quarteirão de distância, o Buick atingiu um galho de árvore quebrado numa enorme poça e deslizou levantando uma cortina de espuma.

      Marty ficou animado com a chance de se aproximar, mas horrorizado com o pensamento do que podia ter acontecido com as filhas. O filme mental de uma batida de carro não passou por sua mente de novo; ele nunca parou de passar. Agora parecia prestes a sair de sua imaginação, exatamente como as cenas se traduzem em palavras a partir de imagens mentais, só que dessa vez ele estava indo longe demais, saltando do manuscrito, traduzindo-se diretamente de imaginação em realidade. Marty teve a idéia maluca de que o Buick não teria perdido o controle se ele não houvesse imaginado isso acontecendo, e que suas filhas morreriam queimadas no carro apenas porque ele imaginara que isso aconteceria.

      O Buick bateu súbita e ruidosamente contra a lateral de um Ford Explorer estacionado. Embora o barulho da colisão estremecesse a noite, o carro não capotou nem incendiou.

      Para espanto de Marty, a porta direita traseira se abriu e as meninas saíram como um par de cobras de brinquedo pulando de uma lata.

      Pelo que ele podia ver, elas não tinham ferimentos sérios, e Marty gritou para se afastarem do Buick. Mas elas não precisavam de seu conselho. Tinham sua própria agenda e, no mesmo instante, arrastaram-se na rua, procurando proteção.

      Marty continuou correndo. Agora que as meninas estavam fora do carro, sua fúria era maior que seu medo. Ele queria machucar o motorista, matá-lo. Não era uma raiva quente, mas fria, a selvageria irracional de réptil que o assustava, ainda que se entregasse a ela.

      Estava a menos de um terço de quarteirão do carro, quando o motor uivou e os pneus começaram a soltar fumaça. O Outro tentava escapar, mas os veículos estavam engatados. De repente, o metal torturado guinchou, estalou e o Buick começou a rasgar-se, livrando-se do Explorer.

      Marty preferia estar mais perto para abrir fogo, de modo a ter mais chances de atingir O Outro, mas sentiu que essa era a maior proximidade que teria. Parou derrapando, levantou a Beretta, segurando-a com as duas mãos, tremendo tanto que não conseguia manter a visão no alvo, xingando-se por sua fraqueza, tentando ser uma rocha.

      O recuo do primeiro tiro jogou o cano para o alto, e Marty baixou-o antes de dar o segundo tiro.

      O Buick se libertou do Explorer e arremessou-se alguns metros à frente. Por um momento, seus pneus perderam tração no pavimento escorregadio e giraram no vazio, lançando para trás um borrifo prateado de água.

      Ele apertou o gatilho, grunhindo de satisfação quando a janela traseira do Buick implodiu e, no mesmo instante, tornou a disparar, mirando o motorista, tentando visualizar o crânio do bastardo implodindo da mesma forma que a janela, esperando que todos os seus pensamentos se traduzissem em realidade. Quando os pneus agarraram o pavimento, o Buick afastou-se em disparada. Marty deu outro tiro e mais outro, apesar de o carro já estar fora do alcance. As meninas não estavam na linha de fogo e parecia não haver ninguém mais na rua chuvosa, mas era irresponsável continuar atirando, já que ele tinha poucas possibilidades de atingir O Outro. Era mais provável acertar algum inocente que por acaso passasse na mesma rua mais à frente; mais provável espatifar a janela de uma das casas próximas e eliminar alguém sentado diante da televisão. Mas ele não se importava, não conseguia refrear-se, queria sangue, vingança, o pente vazio, e apertou o gatilho várias vezes até gastar a última bala, emitindo primitivos sons de raiva, totalmente fora de controle.

 

Paige ligou a seta do BMW. O carro deslizou em volta da esquina, quase tombando de lado antes de ela endireitá-lo de frente para leste na rua transversal.

      A primeira coisa que viu depois de virar a esquina foi Marty no meio da rua. Estava parado de costas para ela, com as pernas bem abertas, atirando com a pistola contra o Buick que desaparecia.

      Ela prendeu a respiração e o coração parou de bater. As meninas deviam estar no carro que se afastava.

      Ela pisou fundo no acelerador, tencionando contornar Marty e alcançar o Buick, bater em sua traseira, tirá-lo da rua, lutar de mãos limpas contra o seqüestrador, arrancar com os dentes os olhos do filho da puta, fazer qualquer coisa que fosse preciso, qualquer coisa. Então, ela viu as meninas com suas capas de chuva amarelas na calçada à direita, paradas ao lado de um poste. Estavam abraçadas. Pareciam tão pequenas e frágeis na chuva garoenta e na penetrante luz amarelada.

      Paige passou por Marty e puxou o freio de mão. Abriu a porta e saiu do BMW, deixando os faróis acesos e o motor funcionando.

      Enquanto corria para as meninas, ouviu sua voz dizer:

      — Graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus.

      Não conseguia parar de dizer isso, nem mesmo quando se agachou e pegou as duas nos braços ao mesmo tempo, como se num certo nível acreditasse que as duas palavras possuíssem poderes mágicos, e que as filhas desapareceriam de seu abraço se ela parasse de cantar esse mantra.

      As meninas abraçavam-na com ferocidade. Charlotte enterrou o rosto no pescoço da mãe. Emily estava com os olhos arregalados.

      Marty caiu de joelhos ao lado delas. E ficou tocando as meninas, sobretudo no rosto, como se tivesse dificuldade em acreditar que a pele delas ainda permanecia quente e seus olhos vivos, aturdido ao ver que a respiração ainda saía de suas bocas. Ele disse várias vezes:

      — Vocês estão bem, estão machucadas, estão bem?

      O único machucado que pôde encontrar foi uma pequena esfoladura na palma esquerda de Charlotte, feita quando ela mergulhara do Buick e caíra de mãos e joelhos no chão.

      A única diferença grande e perturbadora nas meninas era seu constrangimento incomum. Estavam tão reprimidas que pareciam humildes, como se tivessem recebido um castigo sério. A breve experiência com o seqüestrador as deixara assustadas e contidas. A autoconfiança costumeira poderia levar algum tempo para voltar, talvez nunca mais fosse tão forte quanto antes. Só por essa razão, Paige queria fazer com que o sujeito do Buick sofresse.

      No quarteirão, algumas pessoas haviam saído pelo portão da frente para ver o motivo daquela comoção — agora que os tiros tinham cessado. Outras estavam nas janelas.

      Sirenes soaram ao longe.

      Marty pôs-se de pé.

      — Vamos dar o fora daqui.

      — A polícia está vindo — disse Paige.

      — Foi o que eu quis dizer.

      — Mas eles...

      — Serão tão maus quanto da última vez, pior.

      Ele pegou Charlotte e saiu apressado em direção ao BMW, enquanto as sirenes ficavam mais altas.

 

Lascas de vidro estão alojadas em seu olho esquerdo. A maior parte da janela de vidro temperado se dissolvera numa massa pastosa. Não cortou seu rosto. Mas minúsculos fragmentos estão enterrados em seu tecido ocular, e a dor é devastadora. A cada movimento do olho, o vidro se enterra mais fundo, causa mais dano.

      Como seu olho se contrai quando as piores dores o assaltam, ele fica piscando sem querer, embora seja uma tortura piscar. Tentando parar com isso, ele coloca os dedos da mão esquerda sobre a pálpebra fechada, aplicando apenas uma suave pressão. Tanto quanto possível ele dirige só com a mão direita.

      Às vezes tem que deixar o olho contrair-se, porque precisa usar a mão esquerda para dirigir. Com a direita, ele rasga a embalagem de uma barra de doce, enfiando-a na boca o mais rápido que pode mastigar. Sua fornalha metabólica exige combustível.

      Um furo de bala marca-lhe a testa acima do mesmo olho. O sulco tem a largura de seu dedo indicador e quase três centímetros de comprimento. Até o osso. A princípio, sangrou sem parar. Agora o sangue pegajoso pinga grosso sobre sua sobrancelha e escorre por entre os dedos que ele mantém grudados na pálpebra.

      Se a bala pegasse dois centímetros à esquerda, acertaria a têmpora e penetraria no cérebro, jogando estilhaços de osso para a frente.

      Ele teme os ferimentos na cabeça. Não confia em que possa recuperar-se de danos no cérebro com a mesma rapidez com que se recupera de outros ferimentos. Talvez não possa se recuperar, em absoluto.

      Ele dirige com cuidado, está meio cego. Com um olho apenas perdeu a noção de profundidade. As ruas encharcadas pela chuva são traiçoeiras.

      Agora a polícia tem uma descrição do Buick, talvez até o número da placa. Estarão à sua procura, de maneira rotineira se não for ativa, e os danos que o carro sofreu no lado do motorista irão facilitar sua localização.

      Ele não está em condições de roubar um outro carro a essa hora. Não apenas está meio cego, mas também ainda trêmulo por causa dos ferimentos de bala feitos há três horas atrás. Se for surpreendido no ato de roubar um carro sem ocupantes, ou se encontrar resistência quando estiver tentando matar outro motorista, como aquele cuja capa de chuva está usando e que por enquanto se encontra tombado na mala do Buick, é provável que seja preso ou ferido com mais gravidade.

      Rodando para o noroeste de Mission Viejo, pouco tempo depois ele atravessa a fronteira com El Toro. Embora esteja numa comunidade nova, ainda não se sente seguro. Se houver um pedido de captura do Buick, é provável que seja para todo o condado.

      O maior perigo é ficar em movimento, aumentando o risco de ser visto pelos tiras. Se puder encontrar um lugar recolhido para estacionar o Buick, onde possa ficar em segurança sem ser descoberto pelo menos até amanhã, ele pode enroscar-se no assento traseiro e descansar.

      Ele precisa dormir e dar ao corpo uma oportunidade de se recompor. Desde que deixou Kansas City, passou duas noites sem descanso. Em geral, ele poderia permanecer ativo e em estado de alerta por uma terceira noite, talvez uma quarta, sem nenhuma diminuição de suas faculdades mentais. Mas o pedágio de seus ferimentos, combinado com o sono perdido e o esforço físico, requer um tempo para a convalescença.

      Amanhã ele pega sua família de volta, reclama seu destino. Já caminhou durante muito tempo sozinho na escuridão. Um dia a mais vai fazer pouca diferença.

      Esteve tão perto do sucesso. Durante um breve tempo, suas filhas lhe pertenceram de novo. Sua Charlotte. Sua Emily.

      Ele recorda a alegria que sentiu na saleta de entrada da casa dos Delorio, pressionando os corpinhos das meninas contra o seu. Eram tão doces. Beijos com suavidade de borboletas em suas faces. Suas vozes musicais — “papai, papai” — tão cheias de amor por ele.

      Ao lembrar do quão perto esteve de tomar posse permanente delas, ele fica à beira do choro. Não deve chorar. A convulsão dos músculos no olho machucado aumentará a dor de maneira insuportável, e lágrimas em seu olho direito o reduzirão à cegueira virtual.

      Em vez disso, ele atravessa bairros residenciais de El Toro indo para Laguna Hill, onde as luzes das casas brilham na chuva, escarnecendo dele com imagens de felicidade doméstica. Ele pensa em como aquelas mesmas crianças o desafiaram e abandonaram; esse tema o tira das lágrimas e o conduz à raiva. Ele não compreende por que suas doces meninas escolheriam o charlatão em vez do pai verdadeiro, quando momentos antes o haviam coberto de beijos e adoração. A traição delas o perturba. Corrói suas entranhas.

 

Enquanto Marty dirigia, Paige estava sentada no assento traseiro com Charlotte e Emily, segurando suas mãos. Por enquanto ela se sentia emocionalmente incapaz de soltá-las.

      Marty seguia uma rota indireta através de Mission Viejo. No início, manteve-se afastado o máximo possível das ruas principais, conseguindo evitar a polícia. Quarteirão após quarteirão, Paige continuava examinando o tráfego em torno deles, esperando que o Buick batido surgisse e tentasse forçá-los para fora do pavimento. Virou-se duas vezes para olhar pela janela traseira, certa de que o Buick os seguia, mas seus medos não se concretizaram.

      Quando Marty entrou na Marguerite Parkway e se dirigiu ao sul, Paige enfim perguntou:

      — Para onde estamos indo?

      Ele olhou para ela pelo espelho retrovisor.

      — Não sei. Só estamos saindo daqui. Ainda estou pensando em nosso destino.

      — Talvez eles acreditem em você dessa vez.

      — Não tem a menor chance.

      — As pessoas de lá devem ter visto o Buick.

      — Talvez. Mas não viram o sujeito que estava dirigindo. Nenhuma delas pode apoiar minha história.

      — Vic e Kathy devem ter visto o homem.

      — E pensaram que fosse eu.

      — Mas agora sabem que não era você.

      — Elas não nos viram juntos, Paige. É isso que importa, droga! Alguém que nos visse juntos, uma testemunha independente.

      — Charlotte e Emily — disse ela. — Elas viram você e o outro ao mesmo tempo.

      Marty sacudiu a cabeça.

      — Isso não vale. Gostaria que valesse. Mas Lowbock não daria nenhum crédito ao testemunho de crianças pequenas.

      — Não tão pequenas — falou Emily ao lado de Paige, parecendo ainda menor e mais jovem do que era de fato.

      Charlotte permanecia em silêncio, o que não era sua característica. As duas meninas ainda tremiam, mas Charlotte sofria um acesso de tremores pior do que Emily. Estava encostada no corpo da mãe para se aquecer, com a cabeça enfiada na gola de seu casaco, como se fosse uma tartaruga.

      Marty ligou o aquecedor no ponto mais alto possível. O interior do BMW deveria estar sufocantemente quente. Mas não estava.

      Até Paige sentia frio. Ela disse:

      — Talvez devêssemos voltar e tentar falar sério com eles, mesmo assim.

      Marty foi inflexível.

      — Querida, não, não podemos. Pense só. Com toda certeza, eles vão tomar a Beretta. Eu atirei no cara com ela. Do ponto de vista deles, de uma maneira ou de outra houve um crime, e a pistola foi usada para cometê-lo. Ou alguém tentou, de fato, seqüestrar as meninas e eu tentei matá-lo. Ou tudo isso é um embuste para vender livros, para me colocar mais alto na lista de bestsellers. Talvez eu tenha contratado um amigo para dirigir o Buick, depois atirei nele com balas de festim, induzi minhas filhas a mentir e agora estou fazendo outra queixa policial falsa.

      — Depois de tudo isso, Lowbock não vai continuar com essa teoria ridícula.

      — Não vai? Uma droga que não vai.

      — Marty, ele não pode.

      Ele suspirou.

      — Está bem, está bem, talvez ele não possa, é provável que não possa.

      — Ele vai perceber que está acontecendo algo muito mais sério — disse Paige.

      — Mas tampouco vai acreditar na minha história, que parece ser mais maluca que uma lata tamanho gigante de Planters, admito. E se você tivesse lido o artigo da People... Em todo caso, ele tomará a Beretta. E se descobrir a espingarda na mala do carro?

      — Não há nenhuma razão para ele tomá-la.

      — Ele pode achar uma desculpa. Ouça, Paige, Lowbock não vai mudar de opinião a meu respeito com essa facilidade, nem que as meninas contem a verdade para ele. Vai desconfiar muito mais de mim do que de um sujeito no Buick que ele nunca viu. Se tomar as duas armas, ficaremos indefesos. Suponhamos que os tiras vão embora, e aí aquele bastardo, o sósia, entra na casa dois minutos depois, quando não tivermos nada para nos proteger.

      — Se a polícia continuar não acreditando, se não nos der proteção, não ficaremos na casa.

      — Não, Paige, estou falando literalmente. E se aquele bastardo entrar na casa dois minutos depois que os tiras forem embora, sem nos dar chance de fugir?

      — Não é provável que ele arrisque...

      — Ah, é sim, é provável. É provável sim. Ele voltou quase que imediatamente depois que os tiras partiram na primeira vez, não voltou? Foi direto até a porta da frente dos Delorio e tocou a maldita campainha. Parece que ele floresce com o risco. Eu não afastaria a possibilidade de ele invadir a casa enquanto os tiras ainda estão lá, atirando na frente de todo o mundo. Ele é louco, toda essa situação é maluca e não quero arriscar minha vida, a sua ou a das meninas ignorando o que esse cretino pode fazer em seguida.

      Paige sabia que ele tinha razão.

      Contudo, era difícil e até doloroso aceitar que a situação deles era tão terrível ao ponto de colocá-los além da ajuda policial. Se não podiam receber assistência e proteção oficial, então o governo falhara com eles no dever mais fundamental: proporcionar a ordem civil através da aplicação justa porém estrita de um código criminal. Apesar da máquina complexa na qual eles viajavam, apesar da moderna auto-estrada na qual rodavam e da rede de luzes suburbanas que cobria a maior parte dos morros e vales do sul da Califórnia, essa falha significava que não estavam vivendo num mundo civilizado. Os shopping malls, os elaborados sistemas de trânsito, os fulgurantes centros para a realização de artes, os estádios esportivos, os imponentes prédios do governo, as múltiplas salas de cinema, os prédios de escritórios, os sofisticados restaurantes franceses, igrejas, museus, parques, universidades e usinas nucleares não significavam coisa alguma, a não ser uma elaborada fachada de civilização de tecido fino com toda sua solidez aparente. Na verdade, eles viviam numa anarquia com alta tecnologia, sustentada pela esperança e pela auto-ilusão.

      O constante zumbido dos pneus do carro fez nascer dentro dela um medo crescente, um estado de espírito de calamidade iminente. Era um som tão comum, banda de borracha dura girando em alta velocidade sobre o pavimento, apenas uma parte da música cotidiana da vida diária; mas, de repente, isso era tão agourento quanto o ronco de bombardeiros se aproximando.

      Quando Marty virou para sudoeste na Crown Valley Parkway, em direção a Laguna Niguel, Charlotte enfim rompeu seu silêncio.

      — Papai?

      Paige viu quando ele olhou pelo espelho retrovisor e soube, por seu olhar de preocupação, que ele também estava inquieto com o estranho período de introversão da menina.

      Ele disse:

      — Sim, querida.

      — O que era aquela coisa? — perguntou Charlotte.

      — Que coisa, querida?

      — Aquela coisa que parecia com você.

      — Eis aí uma pergunta de um milhão de dólares. Mas, seja ele quem for, é apenas um homem e não uma coisa. É apenas um homem que se parece um bocado comigo.

      Paige pensou em todo aquele sangue no andar de cima, na rapidez com que o sósia se recuperou dos dois tiros no peito para empreender sua rápida fuga e, pouco tempo depois, voltar, forte o bastante para renovar seu assalto. Ele não parecia humano. E a declaração de Marty — ela sabia — nada mais era que a tranqüilização obrigatória de um pai consciente de que, às vezes, as crianças precisam acreditar na onisciência e equanimidade inabaláveis dos adultos.

      Após mais algum tempo de silêncio, Charlotte disse:

      — Não, não era um homem. Era uma coisa. Má. Feia por dentro. Uma coisa fria. — Um tremor sacudiu-a, fazendo com que suas palavras seguintes soassem trêmulas: — Eu beijei e disse “eu te amo” para ela, mas era apenas uma coisa.

 

O condomínio de alta classe abrange uma grande quantidade de prédios enormes, cada qual alojando dez ou doze apartamentos. Ele se estende pela propriedade, que se assemelha a um parque, sombreada por uma pequena floresta.

      As ruas dentro do condomínio são sinuosas. Todos os residentes dispõem de galpões para carro, com estrutura de sequóia e apenas uma parede nos fundos e o telhado, cada qual com oito ou dez baias. Buganvílias sobem pelas colunas que sustentam cada telhado, dando-lhes um ar de graça, embora à noite as flores vivas percam a maior parte de sua cor com a luz azul das lâmpadas de segurança a vapor de mercúrio.

      Em toda a propriedade há áreas de estacionamento não cobertas, nas quais está escrito no meio-fio branco com letras pretas: ESTACIONAMENTO APENAS PARA VISITANTE.

      Num beco sem saída ele encontra uma zona de visitantes que lhe proporciona o local perfeito para passar a noite. Nenhum dos seis espaços está ocupado e o último é flanqueado num dos lados por uma cerca de oleandros de 1,50m de altura. Quando ele dá ré no carro e se encaixa no espaço bem encostado na cerca, o oleandro disfarça a batida no lado do motorista.

      Uma acácia teve permissão para deitar-se sobre a lâmpada de rua mais próxima. Seus galhos cheios de folhas bloqueiam a maior parte da luz. O Buick está quase todo na escuridão.

      Não é provável que a polícia atravesse o condomínio mais do que uma ou duas vezes até o amanhecer. E, quando o fizer, não vai examinar placas de carro, mas sim esquadrinhar a propriedade procurando indicações de invasão de domicílio ou outros crimes em andamento.

      Ele desliga os faróis e o motor, recolhe o que sobrou de seu estoque de doces e sai do carro para livrar-se dos fragmentos de vidro que estão presos nele.

      A chuva já não cai mais.

      O ar está frio e limpo.

      A noite não revela suas intenções. Está em silêncio, com a exceção do tique e plop das árvores que ainda pingam.

      Ele passa para o assento traseiro e, com movimentos suaves, fecha a porta. Não é uma cama confortável. Mas ele já conheceu piores. Acomoda-se na posição fetal, aninhado entre barras de doce em vez do cordão umbilical, coberto apenas pela larga capa de chuva.

      Enquanto espera que o sono se apodere dele, pensa de novo nas filhas e em sua traição.

      Como é inevitável, ele se pergunta se elas preferem o outro pai a ele, o falso ao real. É uma terrível possibilidade para ser forçado a explorar. Se for verdade, significa que aquelas que ele mais ama não são vítimas, como ele, mas sim participantes ativos no complô bizantino armado contra ele.

      É provável que o falso pai seja clemente com elas. Permite que comam o que querem. Deixa irem para a cama tão tarde quanto queiram.

      Todas as crianças são anarquistas por natureza. Precisam de regras e padrões de comportamento, caso contrário crescem selvagens e anti-sociais.

      Quando ele matar o odioso falso pai e recuperar o controle de sua família, estabelecerá regras para tudo e as aplicará estritamente. O mau comportamento será punido instantaneamente. A dor é uma das melhores professoras da vida, e ele é especialista na aplicação de dor. A ordem será estabelecida na casa dos Stillwater, e suas filhas não cometerão nenhum ato sem primeiro refletir com sobriedade sobre as regras que as governam.

      Claro que no começo vão odiá-lo por ser tão severo e inflexível. Não compreenderão que ele está agindo no interesse delas.

      Contudo, cada lágrima que suas punições arrancarem será doce para ele. Cada grito de dor será música alegre. Ele será inflexível; sabe que elas acabarão percebendo que ele impõe orientação porque se importa muito com elas. Elas o amarão por sua severa preocupação paternal. Elas o adorarão por ele estar proporcionando a disciplina de que precisam — e desejam secretamente —, mas faz parte de sua natureza resistir.

      Paige também precisará ser disciplinada. Ele conhece as necessidades das mulheres. Ele lembra de um filme com Kim Basinger, no qual é mostrado que sexo e desejo de disciplina estão ligados de maneira inexorável. Ele antegoza a instrução de Paige com prazer especial.

      Desde o dia em que sua carreira, família e memórias lhe foram roubadas — fato que pode ter ocorrido há um ou dez anos, pelo que sabe —, ele viveu sobretudo através dos filmes. As aventuras vividas e as dolorosas lições aprendidas em inúmeros cinemas escuros lhe parecem tão reais quanto o assento de carro no qual está deitado agora e o chocolate que se dissolve em sua língua. Ele lembra ter feito amor com Sharon Stone e com Glenn Close, e que ambas lhe ensinaram o potencial de mania sexual e traição inerente às mulheres. Ele lembra da diversão exuberante que foi o sexo com Goldie Hawn, o êxtase de Michelle Pfeiffer, e excitante urgência suada de Ellen Barkin, quando ele incorretamente suspeitou que ela era uma assassina, mas assim mesmo espetou-a na parede de seu apartamento e penetrou-a. John Wayne, Clint Eastwood, Gregory Peck e tantos outros homens o haviam colocado debaixo de suas asas, ensinando-lhe coragem e determinação. Ele sabe que a morte é um mistério de infinitas complicações, porque aprendeu muitas lições conflitantes sobre isso. Tim Robbins mostrou-lhe que a vida após a morte é apenas uma ilusão, ao passo que Patrick Swayze mostrou-lhe que o além é um lugar alegre tão real quanto qualquer outra parte e que aqueles a quem se ama (como Demi Moore) o encontrarão ali quando, mais tarde, deixarem este mundo. No entanto, Freddy Krueger demonstrou que a vida após a morte é um pesadelo terrível do qual se pode retornar para uma alegre vingança. Quando Debra Winger morreu de câncer, deixando Shirley MacLaine desolada, ele ficara inconsolável, mas alguns dias depois tornou a vê-la, viva novamente, mais jovem e mais linda do que nunca, reencarnada numa vida nova na qual desfrutava de um novo destino ao lado de Richard Gere. Muitas vezes, Paul Newman dividiu com ele seu conhecimento sobre a morte, a vida, o bilhar, o pôquer, o amor e a honra, por isso ele considera esse homem um de seus mentores mais importantes. Do mesmo modo, Wilford Brimley, Gene Hackman, o velho e robusto Edward Asner, Robert Redford, Jessica Tandy. Com freqüência, ele absorve lições bastante contraditórias desses amigos, mas como já ouviu algumas dessas pessoas dizerem que as crenças têm valor igual e que não existe uma verdade única, ele se sente confortável com as contradições com que vive.

      Ele aprendeu a mais secreta de todas as verdades não num cinema público ou no serviço de cinema pago de um quarto de hotel. Em vez disso, esse momento de formidável conhecimento ocorreu no quarto particular de um dos homens que devia matar.

      Seu alvo era um senador dos Estados Unidos. Uma exigência do extermínio era fazer com que parecesse suicídio.

      Ele tinha que entrar na residência do senador numa noite em que o homem estivesse sozinho. Estava de posse de uma chave, de modo que não haveria sinais de entrada forçada.

      Após ganhar acesso à casa, ele encontrou o senador numa sala de oito lugares, com som de alta fidelidade e sistema de projeção com qualidade profissional capaz de apresentar imagens de televisão, vídeo ou laserdisc numa tela de 1,50m x 1,80m. Era um aposento forrado com veludo, sem janelas. Havia inclusive uma máquina antiga de Coca que — ele soube mais tarde — fornecia a suave bebida na clássica garrafa de vidro de 300ml, mais uma máquina de doces estocada com Milk Duds, jujubas, passas e outras guloseimas favoritas do cinema em casa.

      Por causa da música do filme, ele não teve dificuldade para rastejar até chegar atrás do senador e dominá-lo com um pano embebido em clorofórmio, que ele tirou de uma sacola de plástico um segundo antes de usar. Ele carregou o político para o andar de cima, para o ornamentado banheiro do dono da casa; despiu-o e, com delicadeza, levou-o para a banheira cheia de água quente, empregando o clorofórmio periodicamente para garantir a inconsciência permanente. Com uma lâmina de barbear, fez um corte profundo e perfeito no pulso direto do senador (já que o político era canhoto, sendo portanto provável que usasse a mão esquerda para fazer o primeiro corte), e deixou esse braço afundar na água, que logo depois foi descolorida pelo jorro arterial. Antes de deixar a lâmina cair na água, ele fez algumas débeis tentativas para cortar o pulso esquerdo, sem fazer um sulco profundo, já que o senador não teria conseguido segurar a lâmina com firmeza na mão direita, depois de haver cortado os tendões e ligamentos junto com a artéria desse pulso.

      Sentado na beira da banheira, ministrando clorofórmio cada vez que o político gemia e parecia prestes a despertar, ele compartilhou, com gratidão, da sagrada cerimônia da morte. Quando se tornou o único homem vivo no banheiro, ele agradeceu ao falecido pela preciosa oportunidade de compartilhar da mais íntima das experiências.

      Normalmente ele teria saído da casa depois, mas o que havia assistido na tela de cinema atraiu-o de volta à sala de projeção do primeiro andar. Já vira pornografia antes, no cinema só para adultos de muitas cidades, e nessas experiências aprendera tudo sobre posições e técnicas sexuais. Mas a pornografia naquela tela doméstica era diferente de tudo que ele já vira, pois incluía correntes, algemas, correias de couro, cintos com botões metálicos, além de uma ampla variedade de outros instrumentos de punição e repressão. Por incrível que pareça, as lindas mulheres na tela pareciam ficar excitadas com a brutalidade. Quanto maior a crueldade com que eram tratadas, maior era a disposição com que se entregavam ao prazer orgástico; na verdade, muitas vezes elas suplicavam para ser tratadas com mais crueldade, violadas com mais sadismo.

      Ele acomodou-se no assento de onde tirara o senador. Fascinado, olhou fixo para a tela, absorvendo, aprendendo.

      Quando a fita de vídeo chegou ao fim, uma rápida busca levou-o a um pequeno armário embutido — em geral oculto atrás do painel da parede —, que continha uma coleção de material semelhante. Um assombroso tesouro de fitas, mostrando crianças envolvidas em atos carnais com adultos. Filhas com pais. Mães com filhos. Irmãs com irmãos, irmãs com irmãs. Ele ficou sentado horas, até quase o amanhecer, pasmo.

      Absorvendo.

      Aprendendo, aprendendo.

      Para ter se tornado senador dos Estados Unidos, um líder exaltado, o morto na banheira devia ter sido muito sábio. Portanto, sua videoteca pessoal conteria, claro, diversos materiais de natureza transcendente, refletindo seu singular discernimento intelectual e moral, incorporando filosofias complexas demais para serem compreendidas pela média do público das salas de cinema. Que sorte ter descoberto o político sentado na sala de cinema, e não preparando um lanche na cozinha ou lendo um livro na cama. Caso contrário, jamais teria aquela oportunidade de usufruir a sabedoria do armário oculto do grande homem.

      Agora, enroscado na posição fetal no assento traseiro do Buick, ele podia estar temporariamente cego de um olho, furado e arranhado à bala, fraco e cansado, por um momento derrotado, mas não desesperado. Ele tem outra vantagem além do corpo que se recupera de forma mágica, da energia sem paralelo e dos exaustivos conhecimentos das artes de matar. Igualmente importante, ele possui o que percebe ser a grande sabedoria adquirida nas telas públicas e privadas de cinema, e essa sabedoria assegurará seu triunfo derradeiro. Ele conhece o que acredita serem os grandes segredos, que as pessoas mais sábias escondem em armários: aquelas coisas de que as mulheres realmente precisam; coisas que elas podem não conhecer, mas que subconscientemente desejam; aquelas coisas que as crianças querem, mas não ousam falar. Ele compreende que sua mulher e filhas acolherão com prazer e florescerão com a extrema dominação, rígida disciplina, abusos físicos, subjugação sexual e até humilhação. Na primeira oportunidade, ele pretende realizar seus desejos mais profundos e primitivos, que o tolerante pai falso, ao que parece, jamais conseguirá; e juntos serão uma família, vivendo em harmonia e amor, compartilhando um destino, unidos para sempre por sua sabedoria singular, força e coração exigente.

      Ele flutua rumo ao sono curador, confiando em acordar com plena saúde e vigor dentro de algumas horas.

      A pouca distância dele, na mala do carro, está o morto que antes era dono do Buick — frio, rígido e sem nenhuma perspectiva atraente.

      Que bom é ser especial, ser necessário, ter um destino.

 

Hora de História no Manicômio

No ponto em que esperança e razão se separam,

está o lugar onde começa a loucura.

Esperança de tornar o mundo mais cordial e livre —

mas as flores da esperança enraízam-se na realidade.

 

Não existe leito pacífico para o carneiro e o leão,

a não ser em algum além de Orion.

Não instrua as corujas para poupar os camundongos.

Não é maldade coruja agir como coruja.

 

As tormentas não respondem às súplicas sinceras.

Nem todas as palavras dos homens podem acalmar os mares.

A natureza — sempre benéfica e cruel —

não mudará para um sábio ou um tolo.

 

A humanidade compartilha de todas as imperfeições da Natureza

claramente visíveis em inspeções casuais.

Resistir ao aperfeiçoamento é um traço humano.

O ideal da utopia é nosso trágico destino.

             O Livro dos Sofrimentos Contados

 

Sentimos que a vida é uma comédia sombria e talvez possamos

viver com isso. Entretanto, como a coisa toda é escrita para o

entretenimento dos deuses, muitas das brincadeiras passam direto

sobre nossas cabeças.

             Duas Vítimas Desaparecidas, Martin Stillwater

            

Logo depois de deixar a área à margem da estrada, onde os aposentados mortos descansavam para sempre no aconchegante refeitório de seu motorhome, retornando pela I-40 em direção à cidade de Oklahoma, com o inescrutável Karl Clocker atrás do volante, Drew Oslett usou seu telefone celular último tipo para se comunicar com a matriz na cidade de Nova York. Relatou os acontecimentos e pediu instruções.

      O telefone usado ainda não era vendido ao público em geral. Para o cidadão comum, ele jamais estaria disponível com todas as características do modelo de Oslett.

      Como outros celulares, ele se encaixava no acendedor de cigarros. Entretanto, ao contrário de outros, podia ser operado virtualmente em qualquer parte do mundo, não apenas dentro do estado ou área de serviço em que fora licenciado. Como o mapa eletrônico URAS, o telefone incorporava uma ligação direta com satélite. Podia ter acesso direto a pelo menos 90% dos satélites de comunicação em órbita no corrente momento, evitando suas estações de controle com base na terra, atropelando os programas de exclusão de segurança e ligando para qualquer telefone que o usuário desejasse, sem deixar nenhum registro de que a ligação tinha sido feita. A companhia telefônica violada jamais emitiria uma conta da chamada de Oslett para Nova York, porque jamais saberia que ela fora feita usando seu sistema.

      Ele falou livremente com seu contato de Nova York, contando o que encontrara à beira da estrada, sem medo de ser ouvido por alguém, porque seu telefone também incluía um mecanismo de interceptação acionado por um simples interruptor. Um mecanismo semelhante instalado no telefone da matriz tornava sua mensagem inteligível de novo ao recebê-la, mas para qualquer pessoa que pudesse interceptar o sinal entre Oklahoma e a Big Apple as palavras de Oslett soariam como algaravia.

      Nova York só ficou preocupada com os aposentados mortos, porque podiam ser um caminho para as autoridades de Oklahoma ligarem seu assassinato a Alfie ou à Rede, que era o nome que eles usavam entre si para descrever a organização.

      — Você não deixou os sapatos por lá, não? — perguntou Nova York.

      — Claro que não — disse Oslett, ofendido com a insinuação de incompetência.

      — Todos os artigos eletrônicos no salto...

      — Estou com os sapatos.

      — É coisa recém-saída do laboratório. Qualquer pessoa bem informada ia ficar vidrada e talvez...

      — Eu tenho os sapatos — disse Oslett em tom firme.

      — Ótimo. Então deixe que encontrem os corpos e batam com a cabeça na parede para tentar solucionar. Não é problema nosso. Uma outra pessoa pode varrer esse lixo.

      — Exato.

      — Volto a contatá-lo daqui a pouco.

      — Estou contando com isso — disse Oslett.

      Após desligar, enquanto esperava uma resposta da matriz, ele ficou cheio de inquietação com a perspectiva de passar mais de cem quilômetros sombrios e vazios só com a companhia de Clocker. Por sorte, estava equipado com diversão barulhenta e envolvente. Pegou um Game Boy no chão, atrás do assento do motorista, e colocou os fones nos ouvidos. Logo depois, estava feliz e distraído da enervante paisagem rural graças aos desafios propostos por um jogo de computador de ritmo rápido.

      Luzes suburbanas salpicavam a noite quando Oslett levantou a vista da tela em miniatura para responder ao tapinha no ombro dado por Clocker. O telefone celular tocava no chão entre seus pés.

      O contato de Nova York falou sombrio, como se tivesse acabado de chegar do funeral de sua mãe.

      — Em quanto tempo você pode chegar ao aeroporto da cidade de Oklahoma?

      Oslett transmitiu a pergunta para Clocker.

      O rosto impassível de Clocker não mudou de expressão quando ele respondeu:

      — Meia hora, quarenta minutos... supondo-se que o tecido da realidade não se rompa entre aqui e lá.

      Oslett transmitiu a Nova York apenas o cálculo do tempo de viagem, deixando a ficção científica de fora.

      — Chegue o mais rápido que puder — disse Nova York. Vocês vão para a Califórnia.

      — Onde, na Califórnia?

      — Aeroporto John Wayne, condado de Orange.

      — Vocês têm uma pista de Alfie?

      — Não sabemos que porra temos.

      — Por favor, nada de respostas tão técnicas — disse Oslett. — Está me deixando confuso.

      — Quando chegar ao aeroporto da cidade de Oklahoma, encontre uma banca de jornais. Compre a última edição da revista People. Olhe as páginas 66, 67 e 68. Então saberá tanto quanto nós.

      — Isso é uma piada?

      — Acabamos de descobrir isso.

      — Descobrir o quê? — perguntou Oslett. — Olha, não estou interessado no último escândalo da família real inglesa ou na dieta que Julia Roberts segue para manter a forma.

      — Páginas 66, 67 e 68. Telefone para mim depois que tiver olhado. É como se estivéssemos com gasolina até a cintura e alguém tivesse acabado de riscar um fósforo.

      Nova York desligou antes que Oslett pudesse responder.

      — Vamos para a Califórnia — disse ele para Clocker.

      — Por quê?

      — A revista People pensa que vamos gostar do lugar — decidiu dar ao sujeito grande um gostinho de seu próprio diálogo enigmático.

      — É provável que gostemos — respondeu Clocker, como se as palavras de Oslett fizessem um sentido perfeito para ele.

      Quando rodavam pelos subúrbios de Oklahoma, Oslett ficou aliviado ao ver-se cercado de sinais de civilização — embora preferisse explodir os próprios miolos do que viver ali. Mesmo em sua hora mais agitada, a cidade de Oklahoma não assaltava os cinco sentidos à maneira de Manhattan. Ele não apenas florescia com a sobrecarga sensorial; ele a achava quase tão essencial para a vida quanto a comida e a água, e mais importante do que o sexo.

      Seattle fora melhor que a cidade de Oklahoma, embora não chegasse aos pés de Manhattan. Na verdade, tinha céu demais para uma cidade, e pouca multidão. As ruas eram comparativamente quietas, e o povo parecia... relaxado, de uma maneira inexplicável. Era como se eles não soubessem que iriam morrer mais cedo ou mais tarde, como qualquer pessoa.

      Ele e Clocker ficaram esperando no Internacional de Seattle às duas horas da tarde de ontem, quando Alfie deveria ter chegado num vôo de Kansas City, Missouri. O 747 tocou o solo com dezoito minutos de atraso e Alfie não estava nele.

      Nos quase catorze meses em que Oslett tratara de Alfie, o tempo inteiro que Alfie esteve em serviço, nada parecido com isso acontecera antes. Alfie aparecia onde devia aparecer, viajava para onde era mandado, realizava a tarefa de que era incumbido, e era tão pontual quanto um condutor de trem japonês. Até ontem.

      Eles não entraram em pânico de imediato. Era possível que algum “bololô” — talvez um acidente de trânsito — tivesse retardado Alfie em seu trajeto para o aeroporto, fazendo com que perdesse o vôo.

      Claro que no momento em que saísse do plano, um “comando subterrâneo” implantado no fundo de seu subconsciente devia ter sido ativado, forçando-o a ligar para um número na Filadélfia para informar sobre sua mudança de plano. Mas esse era o problema com os comandos subterrâneos: às vezes estava enterrado tão fundo na mente do sujeito que o gatilho não disparava e continuava enterrado.

      Enquanto Oslett e Clocker esperavam no aeroporto para ver se o garoto deles aparecia num vôo posterior, um contato da Rede em Kansas City foi de carro para checar o motel onde Alfie ficara hospedado. A preocupação era que o garoto pudesse ter jogado no lixo todo o seu condicionamento e treinamento, assim como se pode perder informação quando o disco rígido de um computador quebra. Nesse caso, o pobre palhaço ainda estaria sentado no quarto em estado catatônico.

      Mas ele não estava no motel.

      Tampouco estava no vôo seguinte de Kansas City/Seattle.

      Oslett e Clocker partiram de Seattle a bordo de um Learjet particular pertencente a um filiado da Rede. No momento em que chegaram a Kansas City, na noite de domingo, o carro alugado de Alfie fora encontrado abandonado num bairro residencial de Topeka, mais ou menos a uma hora para oeste. Eles não podiam mais evitar encarar a verdade. Tinham um menino mau nas mãos. Alfie era um renegado.

      Claro, para Alfie era impossível tornar-se renegado. Catatônico, sim. Ausente sem licença, não. Todo o mundo que tinha um envolvimento íntimo com o programa estava convencido disso. Tinham tanta confiança quanto a tripulação do Titanic antes de beijar o iceberg.

      Como a Rede monitorava as comunicações da polícia em Kansas City, como em qualquer outro lugar, sabia que Alfie assassinara seus dois alvos durante o sono, em algum momento entre a meia-noite de sábado e uma da madrugada de domingo. Até esse ponto, ele seguira o plano à risca.

      Depois disso, eles não podiam responder por seu paradeiro. Tinham que supor que ele havia dado o fora e estava fugindo desde uma da madrugada de sábado, hora legal da região central, o que significava que em três horas ele seria renegado durante dois dias completos.

       Será que ele poderia ter viajado todo o trajeto até a Califórnia em 48 horas? Oslett perguntou-se enquanto Clocker entrava na estrada de acesso ao aeroporto de Oklahoma.

      Acreditavam que Alfie estava de carro porque um Honda tinha sido roubado numa rua residencial, não muito longe de onde o carro alugado fora abandonado.

      De Kansas City a Los Angeles eram 2.700 ou 2.800 quilômetros. Ele poderia ter viajado essa distância em menos de 48 horas, supondo-se que só tivesse esse propósito e não parasse para dormir. Alfie podia ficar três ou quatro dias sem dormir. E era tão obstinado quanto um político perseguindo um dólar desonesto.

      Na noite de domingo, Oslett e Clocker tinham ido a Topeka para examinar o carro abandonado. Esperavam encontrar uma pista que levasse a seu genioso assassino de aluguel.

      Como Alfie era bastante esperto para não usar os cartões de crédito falsos que lhe haviam dado — e pelos quais poderia ser rastreado —, e como possuía todas as habilidades necessárias para ser muito bem-sucedido num assalto armado, eles usaram os contatos da Rede para acessar e examinar arquivos computadorizados do Departamento de Polícia de Topeka. Com isso, descobriram que um armazém tinha sido assaltado por desconhecidos mais ou menos às quatro horas da manhã de domingo; o empregado recebeu um tiro na cabeça e morreu, e pelo cartucho ejetado encontrado no cenário do crime verificou-se que a arma do assassino disparava munição de 9mm. A arma que Alfie recebeu para o trabalho em Kansas City era uma pistola Heckler & Koch P7 9mm Parabellum.

      A prova concludente era a venda que o empregado fizera minutos antes de ser morto, que a polícia averiguara a partir de um exame do registro computadorizado do caixa. Foi uma compra muito grande para um armazém: várias unidades de Slim Jims, biscoitos de queijo, amendoins, sonhos tamanho pequeno, barras de doce e outros artigos ricos em calorias. Com seu metabolismo veloz, Alfie se abasteceria de artigos como esses se houvesse fugido com a intenção de esquecer de dormir durante algum tempo.

      E, nesse ponto, eles o tinham perdido por um tempo longo demais.

      De Topeka, ele poderia ter ido para oeste pela Interestadual 70, todo o trajeto até o Colorado. Ao norte pela Auto-estrada Federal 75. Ao sul por diversas rotas até Chanute, Fredonia, Coffeyville. A sudoeste para Wichita. Para qualquer lugar.

      Em teoria, minutos depois que fosse julgado renegado, teria sido possível ativar o transportador de seu sapato por meio de um sinal codificado em microondas através de satélite para todos os Estados Unidos continental. Eles poderiam usar uma série de satélites de rastreamento geossincrônicos para averiguar sua posição, acossá-lo e trazê-lo para casa em questão de horas.

      Mas houve problemas. Sempre havia problemas. O beijo do iceberg.

      Foi só na tarde de segunda-feira que eles localizaram o sinal do transportador em Oklahoma, a leste da fronteira do Texas. Oslett e Clocker, que esperavam em Topeka, voaram para a cidade de Oklahoma e, a bordo de um carro de aluguel, seguiram para oeste na Interestadual 40, equipados com o mapa eletrônico que os levara aos velhos mortos e ao par de sapatos Rockport com um dos saltos cortados, expondo seu mecanismo eletrônico.

      Agora estavam de novo no aeroporto de Oklahoma, rolando de um lado para o outro, como dois fliperamas dentro da máquina mais lenta do universo conhecido. No momento em que rodaram em direção ao estacionamento da agência de aluguel para entregar o carro, Oslett estava quase gritando. A única razão para ele não gritar era o fato de não haver ninguém para ouvi-lo, a não ser Karl Clocker. Podia muito bem gritar para a lua.

      No terminal, ele encontrou uma banca de jornais e comprou a última edição da revista People.

      Clocker comprou um pacote de goma de mascar sabor de frutas, um botão de lapela em que estava escrito: EU ESTIVE EM OKLAHOMA — AGORA POSSO MORRER, e a edição em brochura da enésima novelização de Jornada nas Estrelas.

      Na calçada lá fora, onde o trânsito de pedestres não era tão intenso nem tão interessantemente bizarro quanto no aeroporto JFK ou no La Guardia de Nova York, Oslett sentou-se num banco emoldurado por verde enjoativo em vasos grandes. Folheou a revista até as páginas 66 e 67.

SR. ASSASSINO

NO SUL DA CALIFÓRNIA, ROMANCISTA DE MISTÉRIOS

MARTIN STILLWATER VÊ ESCURIDÃO E MAL

ONDE OUTROS VÊEM APENAS A LUZ DO SOL.

      As duas primeiras páginas que abriam a matéria estavam ocupadas, em sua maior parte, por uma fotografia do escritor. Crepúsculo. Nuvens agourentas. Árvores fantasmagóricas como pano de fundo. Um ângulo esquisito. Stillwater estava como que investindo contra a câmera, as feições desfiguradas, os olhos brilhando com a luz refletida, parecendo um zumbi ou assassino ensandecido.

      Era óbvio que o sujeito era um imbecil, um autopromotor detestável que ficaria feliz em vestir as velhas roupas de Agatha Christie, se isso ajudasse a vender seus livros. Ou emprestaria seu nome a um cereal de café da manhã: Bolo Fofo Mistério de Martin Stillwater, feito de aveia e enigmáticos subprodutos de moagem. Uma figura de ação livre incluída em cada caixa, numa série de onze vítimas de assassinato, cada qual eliminada de uma maneira diferente, com todos os ferimentos detalhados em vermelho brilhante. Comece sua coleção hoje e, ao mesmo tempo, deixe nossos subprodutos de moagem fazerem um favor às suas tigelas.

      Oslett leu o texto da primeira página, mas ainda não compreendia por que o artigo tinha feito com que a pressão arterial do contato de Nova York atingisse uma zona de risco de enfarte. Enquanto lia sobre Stillwater, ele pensou que a manchete podia ser “Sr. Tédio”. Se algum dia aquele sujeito vendesse seu nome para um cereal, este não precisaria de alto conteúdo de fibras porque, com toda garantia, arrancaria a merda do freguês do tédio.

      Drew Oslett detestava livros com a mesma intensidade com que certas pessoas detestam dentistas, e achava que os autores — sobretudo os romancistas — haviam nascido na metade errada do século e deviam conseguir um emprego de verdade nas áreas de desenho computadorizado, gerência cibernética, ciências espaciais ou fibra ótica aplicada, indústrias que tinham uma contribuição a dar à qualidade de vida no final do milênio. Como diversão, os livros eram tão lentos. Os escritores insistiam em colocar o leitor na mente dos personagens, mostrando o que estavam pensando. Não era preciso agüentar isso nos filmes. Os filmes nunca colocam alguém na mente dos personagens. Mesmo se os filmes pudessem mostrar o que pensam as pessoas que estão nele, pelo amor de Deus, quem iria querer entrar na mente de Sylvester Stallone, Eddie Murphy ou Susan Sara