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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TALTOS / Anne Rice
TALTOS / Anne Rice

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TALTOS

Primeira Parte

 

Nevara o dia inteiro. Enquanto a noite caía, muito fechada e rápida, ele estava em pé junto à janela observando as figuras minúsculas lá embaixo no Central Park. Um perfeito círculo de luz formava-se na neve abaixo de cada poste. Patinadores moviam-se no lago congelado, embora ele não pudesse discerni-los em detalhe. E automóveis seguiam lerdos pelas ruas escuras.

À sua direita e à esquerda, apinhavam-se os arranha-céus da cidade. Nada, porém, se interpunha entre ele e o parque, quer dizer, a não ser a selva de prédios mais baixos, as coberturas com jardins, com enormes equipamentos negros e volumosos e às vezes até com telhados em cumeeira.

Ele adorava essa vista. Sempre se surpreendia quando outros a consideravam fora do comum, quando um operário que vinha fazer algum conserto no escritório dizia espontaneamente que nunca havia visto Nova York assim antes. Pena que não houvesse torres de mármore para todos; que não houvesse nenhum conjunto de torres, às quais todos tivessem acesso para olhar a paisagem de alturas variadas.

Anote isso: Construir um conjunto de torres que não tenham nenhuma função a não ser a de servirem de parques no céu para as pessoas. Usar todos os mármores lindos de que tanto gosta. Talvez fizesse isso neste ano. Era muito provável que ele o fizesse. E as bibliotecas. Queria instalar mais delas, e isso representaria algumas viagens. Mas ele faria tudo isso, sim, e em breve. Afinal de contas, os parques já estavam quase prontos, e escolinhas haviam sido abertas em sete cidades. Haviam inaugurado carrosséis em vinte lugares diferentes. É verdade que os bichos eram de material sintético, mas cada um era uma reprodução meticulosa e indestrutível de alguma famosa obra-prima européia, talhada à mão. As pessoas adoravam os carrosséis. Mas já era hora de uma enxurrada de novos planos. O inverno o apanhara sonhan­do...

No último século, ele havia concretizado uma centena de idéias semelhantes. E as pequenas vitórias deste ano tinham seu encanto reconfortante. Neste mesmo prédio ele havia instalado um carrossel antigo, com todos os velhos leões, cavalos, originais que haviam proporcionado a forma para as réplicas. O museu de automóveis antigos agora ocupava todo um andar do sótão. O público acorria em multidão para ver os Fords bigode, os Stutz Bearcats, os MG-TDs, com suas rodas de raios de arame.

E é claro que havia os museus de bonecas, em grandes ambientes bem iluminados em dois andares acima do saguão: a vitrina da empresa, repleta de bonecas que ele trouxera de todas as partes do mundo. E o museu particular, aberto apenas ocasionalmente, que incluía as bonecas pelas quais ele próprio sentia afeto.

De quando em quando ele descia sorrateiro para ir ver as pessoas, para caminhar no meio do público, jamais sem ser percebido, mas pelo menos sem ser reconhecido.

Uma criatura com dois metros e dez de altura não tem como evitar os olhares. Isso sempre havia sido um fato. Mas nos últimos duzentos anos algo bastante divertido acontecera. Os seres humanos estavam mais altos! E agora, milagre dos milagres, mesmo com a sua altura, ele não sobressaía tanto assim. As pessoas lhe lançavam um segundo olhar, é verdade, mas elas não mais ficavam assustadas com ele.

Na realidade, com pouca freqüência, entrava no prédio algum ser humano que era mais alto do que ele. É claro que seu pessoal o avisava. Consideravam ser uma das suas pequenas esquisitices a de querer ser informado dessas pessoas. Achavam engraçado. Ele não se importava. Gostava de ver as pessoas sorrirem.

— Sr. Ash, tem um altão aqui embaixo. Câmera cinco.

Ele se voltava para o painel de pequenas telas luminosas e rapidamente avistava o indivíduo. Só humano. Ele geralmente sabia com certeza de imediato. Raríssimas vezes, ele não tinha certeza. E descia no elevador silencioso e veloz para caminhar por perto da pessoa tempo suficiente para se certificar, por uma quantidade de detalhes, de que aquele era apenas um homem.

Outros sonhos: pequenas construções de brinquedo para crianças, feitas primorosamente com plásticos da era espacial, com uma profusão de detalhes elaborados. Ele via pequenas catedrais, castelos, palácios, réplicas perfeitas dos tesouros arquitetônicos maiores, produzidas num piscar de olhos e "eficaz em custos", nos termos usados pela diretoria. Haveria diversos tamanhos, desde casinhas para bonecas até casas nas quais as próprias crianças pudessem entrar. E cavalos de carrossel à venda, feitos de resina de madeira, que praticamente qualquer um teria condições de comprar. Centenas poderiam ser doadas a escolas, hospitais, outras instituições semelhantes. E então vinha a obsessão atual: bonecas verdadeiramente lindas para crianças pobres, bonecas que não quebravam e podiam ser limpas com facilidade. Mas nisso ele vinha trabalhando praticamente desde o início do século.

Durante os cinco últimos anos, ele havia produzido bonecas cada vez mais baratas, bonecas superiores às que as precediam, bonecas de novos materiais químicos, bonecas que eram duráveis e adoráveis. Mesmo assim, elas ainda eram caras demais para as crianças pobres. Neste ano, ele ia tentar algo totalmente diferente... Tinha planos na prancheta... um par de protótipos promissores. Talvez...

Sentiu um calor reconfortante atravessá-lo enquanto pensava nesses numerosos projetos, pois eles lhe tomariam séculos. Há muito tempo, em épocas remotas, como se dizia, ele havia sonhado com monumentos. Enormes círculos de pedra para que todos vissem, uma dança de gigantes no capim alto da planície. Mesmo torres de dimensões modestas o obcecaram por décadas. E houve uma época em que as inscrições de belos livros haviam sugado toda a sua energia por séculos.

No entanto, nesses brinquedos do mundo moderno, essas bonecas, essas pequenas imagens de pessoas, não realmente crianças, pois as bonecas nunca chegam a se parecer com crianças, ele havia encontrado uma obsessão estranha e desafiadora.

Os monumentos eram para aqueles que viajavam para vê-los. As bonecas e brinquedos que ele aperfeiçoava e fabricava chegavam a todos os países do mundo. Na realidade, as máquinas haviam colocado todos os tipos de objetos novos e belos à disposição das pessoas de todas as nações: os ricos, os pobres, aqueles necessitados de consolo, sustento e abrigo, aqueles mantidos em sanatórios e asilos de onde nunca poderiam sair.

Sua empresa havia sido sua redenção. Mesmo suas idéias mais arrojadas e ousadas haviam sido aplicadas à produção com sucesso. No fundo, ele não conseguia compreender por que outros fabricantes de brinquedos faziam tão poucas inovações, por que bonecas idênticas com expressões desenxabidas cobriam as prateleiras das lojas, por que a facilidade da fabricação não havia resultado numa abundância de originalidade e criatividade. Ao contrário dos seus sisudos colegas, a cada vitória sua, ele se dispunha a correr riscos maiores.

Não o deixava feliz expulsar outros do mercado. Não, a concorrência ainda era algo que ele somente conseguia captar no nível intelectual. Sua crença secreta era a de que o número de compradores em potencial no mundo atual era ilimitado. Havia espaço para qualquer pessoa comercializar um produto de valor. E, dentro destas paredes, dentro desta altíssima e perigosa torre de aço e vidro, ele saboreava seus triunfos num estado de pura felicidade que não podia compartilhar com mais ninguém.

Com mais ninguém. Só com as bonecas. As bonecas que ficavam nas prateleiras de vidro encostadas nas paredes de mármore colorido; as bonecas que ficavam em pedestais nos cantos; as bonecas que se agrupavam sobre sua ampla mesa de trabalho de madeira. Sua Bru, sua princesa, sua beldade francesa, com cem anos de idade. Ela era sua testemunha mais duradoura. Não se passava um dia em que ele não descesse ao segundo andar do prédio para visitar a Bru: uma impecável belezinha de biscuit, de noventa centímetros de altura, com seus cachos de mohair intactos; seu rosto pintado, uma obra-prima; seu torso e pernas de madeira tão perfeitos agora quanto na época em que a empresa francesa a fabricara para o mercado de Paris há mais de cem anos.

Esse havia sido seu fascínio, o de ser um objeto para o deleite de centenas de crianças. Nela fora atingido um apogeu do artesanal aliado à produção em massa. Mesmo seus trajes fabricados em seda representavam essa realização específica. Não para um só, mas para muitos.

Houve anos em que ele, vagueando pelo mundo, a levava consigo, tirando-a da mala às vezes só para encarar seus olhos de vidro, só para lhe transmitir seus pensamentos, suas emoções, seus sonhos. A noite, em quartos solitários e miseráveis, ele havia visto a luz refletida nos seus olhos sempre observadores. E agora ela estava abrigada por trás do vidro, e a cada ano milhares a viam, bem como a todas as outras antigas bonecas Bru agrupadas ao seu redor. Às vezes ele sentia vontade de trazê-la em segredo cá para cima, de colocá-la numa estante no quarto. Quem iria se importar? Quem ousaria dizer uma palavra que fosse? O dinheiro cerca a pessoa de um silêncio abençoado, pensou ele. Os outros pensam antes de falar. Acham que precisam. Ele poderia voltar a conversar com a boneca se quisesse. No museu, ficava em silêncio quando se encontravam, com o vidro da vitrina a separá-los. Ela esperava paciente que fosse resgatada, a humilde inspiração do seu império.

É claro que essa empresa, esse seu empreendimento, como era chamado com tanta freqüência nos jornais e revistas, baseava-se no desenvolvimento de um modelo mecânico e industrial que existia agora há apenas trezentos anos. E se a guerra o destruísse? Mas as bonecas e os brinquedos lhe davam uma felicidade tão perfeita que ele imaginava que nunca mais ficaria sem eles. Mesmo que a guerra reduzisse o mundo a destroços, ele faria pequenas figuras de madeira ou barro e as pintaria com as próprias mãos.

Às vezes ele se imaginava desse jeito, sozinho em meio às ruínas. Via Nova York como ela poderia ter aparecido num filme de ficção científica, morta, muda e cheia de colunas derrubadas, frontões quebrados e vidro estilhaçado. Ele se via sentado numa escadaria arruinada de pedra, fazendo uma boneca com pauzinhos e a amarrando com pedaços de pano que tirava, com respeito e em silêncio, do vestido de seda de uma mulher morta.

Mas quem poderia ter imaginado que esse tipo de objeto viria a cair nas suas graças? Que, vagueando cem anos atrás por uma rua de Paris no inverno, ele se voltaria e olharia para a vitrina de uma loja, para os olhos de vidro da sua Bru, e se apaixonaria perdidamente?

É claro que seu povo sempre fora conhecido por sua capacidade de brincar, amar, sentir prazer. Talvez não fosse nem um pouco surpreendente. Embora o estudo de um povo, quando se é um dos seus únicos sobreviventes, fosse uma situação delicada, em especial para aqueles que não conseguiam apreciar a terminologia ou a filosofia médica, cuja memória era boa mas estava longe de ser extraordinária, cujo sentido do passado era com freqüência deliberadamente abandonado por uma imersão "infantil" no presente e um medo generalizado de pensar em termos de milênios, eras ou seja lá como for que as pessoas quisessem denominar os enormes períodos de tempo que ele testemunhara, nos quais vivera, lutando por resistir e dos quais afinal se esquecera alegremente nesse imenso empreendimento adequado aos seus talentos especiais e pouco numerosos.

Mesmo assim, ele realmente estudava seu próprio povo, fazendo e registrando anotações meticulosas sobre si mesmo. E não era competente na previsão do futuro, ou era o que achava.

Um zumbido baixo chegou aos seus ouvidos. Ele sabia que vinha das serpentinas por baixo do piso de mármore, a aquecer delicadamente o aposento à sua volta. Ele imaginava poder sentir o calor a lhe atravessar os sapatos. Nesta torre nunca fazia frio demais nem um calor sufocante. As serpentinas cuidavam de tudo. Se ao menos um conforto desses estivesse ao alcance de todo o mundo lá fora. Se ao menos todos pudessem conhecer a abundância de alimentos, a calefação no inverno. Sua empresa mandava milhões de dólares em auxílio aos que viviam nos desertos e nas selvas do outro lado dos oceanos, mas ele nunca tinha certeza de quem recebia o quê, quem se beneficiava.

Nos primeiros dias do cinema, e mais tarde da televisão, ele imaginara que as guerras terminariam. A fome acabaria. As pessoas não iam tolerar ver aquilo na tela à sua frente. Que idéia boba! Agora parecia haver mais guerra e mais fome do que nunca antes. Em cada continente, uma tribo contra a outra. Milhões morrendo de inanição. Tanto a se fazer. Por que tomar decisões tão cuidadosas? Por que não fazer tudo?

Recomeçara a nevar, com flocos tão minúsculos que ele mal os via. Eles pareciam derreter ao atingir as ruas escuras lá embaixo. Só que essas ruas estavam uns sessenta andares abaixo. Ele não sabia ao certo. A neve meio derretida se acumulava nas sarjetas e nos telhados próximos. Dentro de pouco tempo, talvez tudo estivesse branco e limpo novamente; e, nesta sala aquecida e fechada, seria possível imaginar a cidade inteira morta e acabada, como se em conseqüência de uma peste que não atacasse os prédios mas matasse os seres de sangue quente que neles viviam, como cupins em paredes de madeira.

O céu estava negro. Esse era o único detalhe que não lhe agradava na neve. Perdia-se o céu para tê-la. E ele amava tanto os céus da cidade de Nova York, os belos céus panorâmicos que as pessoas nas ruas na realidade nunca viam.

— Torres, construir torres para eles — disse ele. — Criar um grande museu bem alto no céu, com terraços ao redor. Trazê-los cá para cima em elevadores envidraçados, para o alto para que vejam...

Torres para o prazer em meio a todas essas torres que os homens haviam construído para o comércio e o lucro.

Ocorreu-lhe de repente uma idéia, uma velha idéia, na verdade, que costumava lhe ocorrer e que o levava a meditar e talvez até a conjeturar. Os primeiros textos escritos no mundo inteiro haviam sido listas comerciais de mercadorias compradas e vendidas. Era isso o que estava nas tábulas cuneiformes de Jericó, inventários... O mesmo era válido para Micenas.

Ninguém considerava importante, naqueles tempos, registrar suas próprias idéias ou pensamentos. Já os prédios eram totalmente diferentes. Os mais majestosos eram casas de culto: templos ou imensos zigurates de tijolo de barro, revestidos de calcário, que os homens escalavam para fazer sacrifícios aos deuses. O círculo de pedras na planície de Salisbury.

Agora, sete mil anos depois, os prédios mais imponentes eram comerciais. Eram identificados com os nomes de bancos, de grandes corporações ou de imensas empresas privadas, como a sua própria. Da sua janela, ele via esses nomes acesos em letras brilhantes e toscas, em meio ao céu nevoento, em meio à escuridão que não era realmente escura.

Quanto aos templos e locais de culto, eles eram lembranças do passado ou quase nada. Em algum ponto lá embaixo ele conseguiria vislumbrar os campanários da catedral de São Patrício, se tentasse. Mas ela agora era um santuário do passado mais do que um centro vibrante de espírito religioso comunitário, e dava uma impressão antiquada, na sua tentativa de alcançar os céus entre os prédios de vidro, altos e indiferentes, que a cercavam. Só era majestosa quando vista da rua.

Os escribas de Jericó teriam compreendido essa transformação, pensou ele. Por outro lado, talvez não. Ele próprio mal a compreendia; e no entanto, as implicações pareciam gigantescas e mais fantásticas do que percebiam os seres humanos. Esse comércio, essa infindável multiplicidade de objetos belos e úteis, poderia em última análise salvar o mundo, se ao menos... A obsolescência planejada, a destruição em massa dos produtos do ano anterior, a pressa para tornar antigos ou descabidos os projetos dos outros, tudo isso resultava de uma trágica falta de visão. Somente as implicações mais limitadas da teoria do mercado eram responsáveis por isso. A verdadeira revolução vinha não do ciclo de criação e destruição, mas de uma imensa expansão criativa e sem limites. Velhas dicotomias teriam de cair. Na sua querida Bru, e nas suas peças montadas em fábricas, nas calculadoras de bolso carregadas hoje por milhões de pessoas nas ruas, no toque leve e bonito das canetas esferográficas, nas Bíblias de cinco dólares e nos brinquedos, belos brinquedos vendidos nas prateleiras de cada loja por centavos, estava a salvação.

Pareceu-lhe que conseguiria abranger o assunto mentalmente, que conseguiria penetrar nele, criar teorias enxutas, de fácil explicação, se ao menos...

— Sr. Ash. — Era uma voz baixa que o interrompia. Nada mais do que isso era necessário. Ele havia treinado todos eles. Não façam o menor ruído com a porta. Falem baixo. Eu os ouvirei.

E essa voz vinha de Remmick, que era delicado por natureza, um inglês (com um pouco de sangue celta, embora Remmick não soubesse disso), um criado que havia sido indispensável nesta última década, apesar de que logo chegaria a hora em que Remmick deveria ser dispensado, por motivos de segurança.

— Sr. Ash, a senhorita chegou.

— Obrigado, Remmick — disse essas palavras com uma voz ainda mais suave do que a do criado. No vidro escuro da janela, se ele quisesse, poderia ver a imagem de Remmick: um homem atraente, com olhos azuis pequenos e muito brilhantes. Eram muito juntos, esses olhos. Mas o rosto não era feio, e apresentava sempre uma expressão de devoção tão tranqüila e sem dramaticidade que ele aprendera a gostar dela, a gostar do próprio Remmick.

Havia uma infinidade de bonecas no mundo com os olhos juntos demais. Em especial, as bonecas francesas feitas há muitos anos por Jumeau, Schmitt and Sons, Huret, Petit e Demontier; com rostos de lua cheia e cintilantes olhos de vidro próximos demais dos pequenos narizes de porcelana, com bocas tão pequenas que, à primeira vista, pareciam ser minúsculos botões ou ferrões de abelhas. Todos adoravam essas bonecas. As rinhas dos ferrões.

Quando uma pessoa ama bonecas e as estuda, passa a amar também todos os tipos de pessoas, porque vê a qualidade nas suas expressões, com que cuidados suas feições foram esculpidas, cada peça projetada para criar o triunfo deste ou daquele rosto notável. Ele às vezes caminhava por Manhattan, vendo deliberadamente cada rosto como foi feito, sem nenhum nariz, orelha ou ruga estar ali por acaso.

— Ela está tomando chá, senhor. Estava com muito frio quando chegou.

— Não mandamos um carro ir buscá-la, Remmick?

— Mandamos, senhor, mas mesmo assim ela estava com frio. Lá fora está muito frio, senhor.

— Mas o ambiente está aquecido no museu, sem dúvida. Você a levou para lá, certo?

— Ela subiu direto, senhor. O senhor compreende. Ela está muito ansiosa.

Ele se voltou, dando um relance de um sorriso animado (ou era isso o que esperava) para Remmick e acenou para que ele fosse embora com o mínimo gesto que o homem pudesse ver. Foi até as portas do escritório ao lado, atravessando o piso de mármore de Carrara, e olhou o aposento seguinte àquele, também revestido em mármore reluzente como todas as suas salas, onde a moça estava sentada sozinha junto à escrivaninha. Ele via seu perfil. Via que estava ansiosa. Via que ela queria o chá, mas também não queria. Ela não sabia o que fazer com as mãos.

— Senhor, seu cabelo. Posso? — Remmick tocou-lhe o braço.

— É preciso?

— Sim, senhor. Realmente devíamos. — Remmick apresentou sua pequena escova macia, do tipo que os homens usam porque não poderiam ser vistos a usar o mesmo tipo de escova que as mulheres. Ele esticou o braço e a fez passar com firmeza e rapidez pelos cabelos, cabelos que deveriam ser cortados e aparados, dissera Remmick, cabelos que caíam em desalinho e desafio sobre o colarinho.

Remmick afastou-se, equilibrando o corpo nas plantas dos pés.

— Agora está esplêndido, senhor Ash — disse, erguendo as sobrancelhas. — Muito embora esteja um pouquinho comprido.

Ele abafou uma pequena risada.

— Você receia que eu a assuste, não é? — perguntou, em tom provocante, afetuoso. — No fundo você não se importa mesmo com o que ela ache.

— Senhor, eu me importo sempre com a sua aparência, pelo senhor mesmo.

— É claro que se importa — respondeu ele, baixinho. — Eu gosto de você por isso.

Encaminhou-se na direção da moça e, à medida que ia se aproximando, foi fazendo uma quantidade adequada e educada de ruídos. Ela voltou a cabeça devagar; ergueu os olhos; viu-o, e houve o choque inevitável.

Ele estendeu os braços ao chegar perto.

Ela se levantou, radiante, e segurou suas mãos. Um toque firme, caloroso. Ela olhou para suas mãos, para os dedos, as palmas.

— Eu a deixo surpresa, senhorita Paget? — perguntou ele, apresentando-lhe seu sorriso mais gentil. — Meu cabelo foi penteado para sua aprovação. Estou assim tão feio?

— Senhor Ash, sua aparência é fabulosa — respondeu ela, rapidamente. Tinha uma voz brusca em estilo californiano. — Eu não esperava que... eu não esperava que fosse tão alto. É claro que todos disseram que era...

— E eu lhe pareço amável, senhorita Paget? Dizem isso de mim também. — Ele falava devagar. Com freqüência os americanos não conseguiam entender seu "sotaque britânico".

— Ah, sim, senhor Ash — disse ela. — Muito amável. E o seu cabelo é tão bonito e comprido. Adoro seu cabelo, senhor Ash.

Isso foi realmente muito gratificante, muito divertido. Ele esperava que Remmick estivesse ouvindo. Mas o dinheiro faz com que as pessoas ocultem sua opinião sobre o que se fez; faz com que elas procurem o lado bom nas suas opções, no seu estilo. O dinheiro faz surgir não o que há de subserviente nas pessoas, mas o que há de mais ponderado. Pelo menos às vezes...

Era óbvio que ela estava dizendo a verdade. Seus olhos se deleitavam nele, e ele estava adorando. Deu-lhe um pequeno aperto nas mãos e depois as soltou.

Enquanto dava a volta à mesa de trabalho, ela se sentou novamente, com os olhos ainda fixos nele. Seu próprio rosto era estreito e muito marcado para alguém tão jovem. Seus olhos eram de um violeta azulado. Ela era bela ao seu modo: com cabelos de um louro acinzentado, despenteados porém graciosos, e roupas velhas perfeitamente amarrotadas.

É, não as jogue fora, não as deixe ficar no cabide do bazar de roupas usadas, reinvente-as com nada mais do que alguns pontos e um ferro. O destino dos objetos manufaturados está na sua durabilidade e na mudança de contexto: seda amarrotada sob iluminação fluorescente, trapos elegantes com botões de plástico em cores jamais encontradas nas camadas geológicas, com meias de náilon tão forte que poderiam ter sido trançadas de modo a criar uma corda de resistência incalculável, se ao menos as pessoas não as arrancassem e as jogassem no lixo. Tantas coisas a fazer, tantos jeitos de ver... Se ele dispusesse do conteúdo de cada lata de lixo de Manhattan, poderia fazer mais um bilhão só com o que ali encontrasse.

— Admiro seu trabalho, senhorita Paget. E um prazer conhecê-la finalmente. — Ele indicou o tampo da mesa. Estava coberto de grandes fotografias coloridas das suas bonecas.

Seria possível que ela não as tivesse percebido? O prazer parecia dominá-la. Seu rosto enrubescia. Talvez ela até estivesse um pouquinho apaixonada pelo seu estilo e pelas suas maneiras. Disso ele não tinha certeza. Ele costumava deixar as pessoas apaixonadas, às vezes sem se esforçar por isso.

— Sr. Ash, este é um dos dias mais importantes da minha vida. — Ela disse essas palavras como se estivesse tentando se conscientizar disso, e depois ficou aturdida em silêncio, talvez por ter considerado que fora longe demais ao dizer o que realmente importava.

Ele deixou que seu sorriso se iluminasse e baixou ligeiramente a cabeça, como era seu costume, uma característica que as pessoas notavam, de tal modo que, por um instante, ele deu a impressão de estar olhando para ela de baixo para cima, embora fosse muito mais alto do que ela.

— Eu quero suas bonecas, senhorita Paget. Todas elas. Agradou-me muito tudo o que fez. Seu trabalho foi excelente com todos os novos materiais. Suas bonecas não são parecidas com as de mais ninguém. É isso o que eu quero.

Ela sorria a contragosto. Esse era sempre um momento emocionante, para os outros e para ele. Ele adorava fazê-la feliz!

— Meus advogados lhe apresentaram tudo? A senhorita está a par dos termos?

— Sim, Sr. Ash. Compreendi tudo. Aceito sua oferta, sem restrições. Esse é o meu sonho.

Esta última palavra ela proferiu com uma ênfase delicada. E dessa vez não hesitou, nem corou.

— Senhorita Paget, está precisando de alguém para negociar em seu nome! — ralhou ele. — Mas, se eu já enganei alguém, não me lembro; e francamente gostaria de que me lembrassem para que eu pudesse corrigir o que tivesse feito.

— Estou nas suas mãos, Sr. Ash. — Seus olhos estavam mais brilhantes mas não se enchiam de lágrimas. — As condições são generosas. Os materiais são deslumbrantes. Os métodos... — Ela abanou levemente a cabeça. — Bem, na realidade não entendo bem os métodos de produção em massa, mas conheço suas bonecas. Estive passeando pelas lojas, só olhando tudo o que é comercializado pela Ashlar. Sei que vai ser simplesmente fantástico.

Como tantos outros, ela havia feito suas bonecas na cozinha e depois numa oficina na garagem, queimando o barro num forno que ela mal tinha condições de possuir. Percorrera mercados de pulgas à procura dos tecidos. Buscara inspiração em personagens de filmes e romances. Suas obras eram "exclusivas" ou de "produção limitada", o tipo de produto apreciado nas galerias e lojas de bonecas sofisticadas. Ela ganhara prêmios, tanto importantes quanto insignificantes.

No entanto, suas matrizes poderiam ser usadas para algo totalmente diferente: meio milhão de belas cópias de uma boneca, e de mais uma e mais outra, feitas de um vinil trabalhado com tanto esmero a ponto de ficar tão bonito quanto a porcelana, com olhos pintados com tanto brilho quanto se fossem realmente de vidro.

— Mas e os nomes, senhorita Paget? Por que se recusa a escolher os nomes para as bonecas?

— Para mim, as bonecas nunca tiveram nomes, Sr. Ash. E os nomes que escolheu são ótimos.

— Sabe que logo estará rica, senhorita Paget.

— É o que me dizem — respondeu ela, de repente parecendo vulnerável, frágil na verdade.

— Mas terá de cumprir seus compromissos conosco. Terá de aprovar cada passo. No fundo, não levará muito tempo...

— Vou adorar o trabalho, Sr. Ash. Quero fazer...

— Quero ver tudo o que faça, imediatamente. Pode nos ligar.

— Está bem.

— Mas não tenha certeza de que irá apreciar o processo aqui. Como já observou, a manufatura não é igual ao artesanato ou à criação. Bem, ela é. Mas é raro que as pessoas a considerem dessa forma. Os artistas nem sempre encaram a produção em massa como um aliado.

Ele não teve de explicar seu antigo argumento, de que não ligava para as peças exclusivas ou de produção limitada; de que se importava apenas com as bonecas que pudessem pertencer a todos. E ele pegaria essas suas matrizes e produziria bonecas ano após ano, variando-as apenas quando lhe parecesse haver uma razão para isso.

Agora todos sabiam dessa sua característica: de que ele não tinha nenhum interesse por idéias ou valores elitistas.

— Alguma dúvida sobre nossos contratos, senhorita Paget? Não hesite em apresentar essas dúvidas diretamente a mim.

— Sr. Ash, já assinei os contratos! — Ela deu mais uma risadinha, nitidamente jovem e despreocupada.

— Isso me alegra, senhorita Paget. Prepare-se para ser famosa. — Ele ergueu as mãos e as cruzou sobre a mesa. Naturalmente ela estava olhando para elas. Estava assombrada com seu enorme tamanho.

— Sr. Ash, sei que é um homem ocupado. Nossa reunião é de quinze minutos.

Ele anuiu como se quisesse dizer, isso não tem importância, prossiga.

— Deixe-me fazer uma pergunta. Por que gosta das minhas bonecas? Quer dizer, na realidade, Sr. Ash...

— É claro que há uma resposta banal — disse ele, após pensar um pouco — que é perfeitamente verdadeira. O fato de suas bonecas serem originais, como a senhorita disse. Mas o que me agrada é que suas bonecas estão todas rindo abertamente. Os olhos estão espremidos. O rosto está em movimento. Os dentes brilham. Quase dá para se ouvir o riso.

— Esse foi o risco, Sr. Ash. — De repente, ela própria riu, e por um átimo pareceu tão feliz quanto suas criações.

— Eu sei, senhorita Paget. Será que agora vai querer me fazer algumas crianças tristes?

— Não sei se posso.

— Faça o que quiser. Tem meu apoio. Mas não faça crianças tristes. Muitos outros artistas são bons nisso.

Ele começou a se levantar, lentamente, o sinal da despedida, e não se surpreendeu quando ela se apressou a ficar em pé.

— Obrigada, Sr. Ash — disse ela novamente, estendendo a mão para a dele, aquela sua mão enorme, de dedos longos. — Não tenho palavras para...

— Não precisa.

Ele deixou que ela segurasse sua mão. Às vezes, as pessoas não queriam tocar nele uma segunda vez. Às vezes, sabiam que ele não era humano. Sem nunca, aparentemente, sentir repulsa pelo seu rosto, as pessoas costumavam sentir repulsa pelos seus grandes pés e mãos. Ou, no fundo do seu inconsciente, elas percebessem que seu pescoço era um pouquinho longo demais; suas orelhas, estreitas demais. Os humanos são treinados para o reconhecimento da sua própria espécie, tribo, clã, família. Uma grande parte do cérebro humano é organizada em torno do mero reconhecimento e lembrança de tipos de rostos.

Mas ela não sentia repulsa. Era apenas jovem, dominada pelas emoções e ansiosa quanto a transições simples.

— E por sinal, Sr. Ash, se não se importa que eu diga, as mechas brancas no seu cabelo lhe caem muito bem. Espero que nunca as tinja. Os cabelos grisalhos sempre caem bem num homem jovem.

— Ora, o que a fez dizer isso, senhorita Paget?

Ela corou mais uma vez, mas depois se entregou ao riso.

— Não sei — confessou. — É só que o cabelo está tão branco, e o senhor tão jovem. Não esperava que fosse tão jovem. É isso o que é tão surpreendente... — Ela se interrompeu, insegura. Era melhor que ele a liberasse antes que ela mergulhasse veloz nos seus próprios defeitos imaginados.

— Obrigado, senhorita Paget. Foi muito gentil. Gostei da nossa conversa. — Um reforço da confiança, direto e memorável. — Espero vê-la novamente em breve. Espero que fique satisfeita.

Remmick entrara para providenciar o desaparecimento da jovem. Ela disse mais algumas palavras apressadas, agradecimentos, confissões de inspiração e determinação de agradar o mundo inteiro. Palavras com esse doce sentido. Ele lhe deu um último sorriso discreto quando ela saiu e as portas de bronze se fecharam às suas costas.

É claro que quando chegasse em casa, ela desencavaria revistas. Faria contas nos dedos, talvez até com uma calculadora. Perceberia que ele não podia ser jovem, não pelas contas de qualquer ser humano. Concluiria que ele passava dos quarenta e que lutava bravamente contra os cinqüenta. Nisso não havia perigo.

Mas de que forma ele trataria esse problema, com o passar do tempo, pois o passar do tempo sempre foi seu problema? Esta era uma vida que amava, mas ele teria de fazer alguns ajustes. Ai, ele não conseguia pensar em nada tão horrível neste momento. E se os cabelos brancos começassem a se multiplicar? Isso ajudaria, certo? Mas o que eles realmente significariam, esses cabelos brancos? O que revelariam? Ele estava satisfeito demais para pensar nisso. Contente demais para abrigar medos terríveis.

Mais uma vez, ele se voltou para a janela, e para a neve que caía. Via o Central Park com tanta nitidez desse escritório quanto dos outros. Levou a mão ao vidro. Muito frio.

O lago de patinação estava deserto agora. A neve cobria o parque e o telhado logo abaixo da janela. E ele percebeu mais uma visão curiosa que sempre lhe provocava uma risadinha.

Era a piscina no alto do Parker Meridien Hotel. A neve caía firme sobre o telhado de vidro transparente enquanto, abaixo dela, um homem nadava de um lado para o outro na água verde profusamente iluminada, isso uns cinqüenta andares acima do nível da rua.

— Ora, isso é que é dinheiro e poder — refletiu ele, em silêncio, com seus botões. — Nadar no céu em meio a uma tempestade. — Construir piscinas no céu, mais um projeto que valia a pena.

— Sr. Ash — disse Remmick.

— Sim, meu querido — disse ele, distraído, observando as longas braçadas do nadador e vendo, agora com clareza, que se tratava de um homem idoso e muito magro. Uma criatura dessas teria sido vítima de inanição em tempos passados. Mas este era um indivíduo em boa forma física, dava para se ver, um empresário, talvez, preso por circunstâncias econômicas no rigoroso inverno de Nova York, a nadar de um lado para o outro numa água deliciosamente aquecida e perfeitamente higienizada.

— Telefone para o senhor — disse Remmick.

— Creio que não, Remmick. Estou cansado. É a neve. Ela me dá vontade de me enrodilhar na cama e ir dormir. Quero ir dormir agora, Remmick. Quero um pouco de chocolate quente e depois dormir e dormir.

— Sr. Ash, o homem disse que o senhor iria querer falar com ele, que eu devia lhe dizer...

— Todos eles dizem isso, Remmick.

— Samuel, senhor. Ele falou para eu lhe dizer esse nome.

— Samuel!

Ele se voltou da janela e olhou para o criado, para seu rosto plácido. Não havia julgamento ou opinião na sua expressão. Só devoção e uma aceitação muda.

— Ele disse que eu viesse diretamente ao senhor, que era esse o costume quando ele ligava. Arrisquei-me a que ele...

— Agiu bem. Agora pode me deixar sozinho um pouco. Sentou-se na sua cadeira à mesa.

Quando as portas se fecharam, ele tirou o fone do gancho e apertou o pequeno botão vermelho.

— Samuel! — sussurrou.

— Ashlar — veio a resposta, clara como se o amigo estivesse realmente falando ao seu ouvido. — Você me deixou esperando quinze minutos. Como ficou importante!

— Samuel, onde você está? Em Nova York?

— Claro que não — foi a resposta. — Estou em Donnelaith, Ash. Estou na estalagem.

— Telefones no vale — foi um murmúrio baixo. Aquela voz vinha da Escócia longínqua, do vale.

— É, meu velho, telefones no vale, e outras coisas também. Um Taltos veio aqui, Ash. Eu o vi. Um Taltos perfeito.

— Espere aí. Parece que você disse...

— Eu disse mesmo. Não fique muito nervoso com isso, Ash. Ele morreu. Era um bebê, metia os pés pelas mãos. É uma longa história. Há um cigano envolvido no caso, um cigano muito inteligente chamado Yuri, da Talamasca. O cigano estaria morto neste instante se não fosse por mim.

— Você tem certeza de que o Taltos morreu?

— O cigano me contou. Ash, a Talamasca está passando por tempos sinistros. Algo de trágico aconteceu com a Ordem. Eles matarão esse cigano em breve, talvez, mas ele está determinado a voltar à casa-matriz. Você deve vir o mais rápido possível.

— Samuel, eu o encontro em Edimburgo amanhã.

— Não, Londres. Vá direto para Londres. Prometi ao cigano. Mas venha rápido, Ash. Se os irmãos em Londres o avistarem, ele morre.

— Samuel, essa história não pode estar certa. A Talamasca não faria coisas dessa natureza a ninguém, muito menos à sua própria gente. Você tem certeza de que esse cigano está dizendo a verdade?

— Ash, o caso está relacionado a esse Taltos. Você vai vir agora?

—Vou.

— Não vai me deixar na mão?

— Não.

— Então, há mais uma coisa que preciso lhe dizer imediatamente. Você verá nos jornais em Londres assim que aterrissar. Estiveram escavando em Donnelaith, nas ruínas da Catedral.

— Disso eu sei, Samuel. Nós dois já conversamos sobre isso.

— Ash, eles descobriram o túmulo de Santo Ashlar. Encontraram o nome inscrito na lápide. Você vai ver nos jornais, Ashlar. Há estudiosos aqui vindos de Edimburgo. Ash, há bruxas envolvidas nessa história. Mas o cigano lhe contará tudo. Tem gente me observando. Preciso desligar.

— Samuel, sempre há gente o observando, espere...

— E o seu cabelo, Ash. Eu o vi numa revista. Você está com mechas grisalhas no cabelo? Não se incomode.

— É, meu cabelo está mesmo ficando branco. Mas muito devagar. Sob outros aspectos, eu não envelheci. Não há outros choques para você, à exceção do cabelo.

— Você vai viver até o fim do mundo, Ash, e vai ser você quem o fará desmoronar.

— Não!

— Claridge's em Londres. Vamos partir agora mesmo. Aquele é um hotel em que se pode fazer um belo fogo de carvalho na lareira e dormir num grande quarto aconchegante cheio de chintz e veludo verde-garrafa. Estarei lá à sua espera. E Ash, pague o hotel, por favor. Estou aqui embrenhado no vale há dois anos.

Samuel desligou.

— Irritante — sussurrou ele, pousando o fone no gancho.

Durante longos minutos, ficou olhando para as portas de bronze.

Não piscou nem focalizou a visão quando as portas se abriram. Mal discerniu a figura pouco nítida que entrou na sala. Não estava pensando. Apenas repetia as palavras Taltos e Talamasca mentalmente.

Quando ergueu os olhos, viu somente Remmick servindo chocolate de um pequeno e pesado bule de prata numa bonita xícara de porcelana. O vapor subia na direção do rosto paciente e ligeiramente cansado de Remmick. Cabelo grisalho, ora aquilo é que era cabelo grisalho, cobrindo a cabeça inteira. Eu não tenho tanto cabelo grisalho assim.

Na realidade, ele só tinha as duas mechas que saíam das têmporas para trás, e um pouco de branco nas suíças, como se chamavam. E, sim, um mínimo toque de branco nos pêlos escuros do seu peito. Temeroso, ele olhou para o pulso. Havia pêlos brancos ali também, mesclados nos pêlos escuros que cobriam seus braços há tantos anos.

Taltos! Talamasca. O mundo desmoronará...

— Foi acertado, senhor, o telefonema? — perguntou Remmick, naquele maravilhoso murmúrio quase inaudível que seu patrão adorava. Muita gente o teria chamado de resmungo. E agora vamos até a Inglaterra, vamos voltar a estar com aquelas pessoas agradáveis e delicadas... A Inglaterra, terra do frio rigoroso, vista da costa da terra perdida, um mistério de florestas de inverno e montanhas com o topo coberto de neve.

— É, de fato foi acertado, Remmick. Sempre venha falar comigo diretamente quando se tratar de Samuel. Tenho de viajar para Londres agora mesmo.

— Então, preciso me apressar, senhor. La Guardia esteve fechado o dia inteiro. Vai ser muito difícil...

— Apresse-se, então, por favor. Não diga mais nada.

Ele ficou bebericando o chocolate. Nada lhe parecia mais delicioso, mais doce ou melhor, a não ser talvez o leite puro e fresco.

— Outro Taltos — sussurrou ele, em voz alta. Pousou a xícara na mesa. — Tempos sinistros na Talamasca. — Ele não sabia ao certo se acreditava nisso.

Remmick havia desaparecido. As portas estavam fechadas, com o lindo bronze reluzindo como se estivesse quente. Uma faixa de luz atravessava o piso de mármore, proveniente da lâmpada embutida no teto, muito parecida com o luar sobre o mar.

— Outro Taltos, e era homem.

Eram tantos os pensamentos que passavam velozes pela sua cabeça; era tamanha a explosão de emoções! Por um instante, acreditou que se entregaria às lágrimas. Mas não. Era raiva o que sentia, raiva por mais uma vez ter sido atingido pelas notícias, por seu coração estar disparado, pelo fato de estar fazendo um vôo transatlântico para descobrir mais alguma coisa sobre outro Taltos que já estava morto, um macho.

E a Talamasca, quer dizer que eles haviam entrado em tempos sinistros, afinal? Bem, não seria isso inevitável? E o que ele devia fazer a respeito? Deveria ser atraído para o meio disso tudo mais uma vez? Há séculos, ele havia batido às suas portas. Mas quem entre eles sabia disso agora?

Seus membros ele conhecia de rosto e de nome, só porque os temia o bastante para não querer perdê-los de vista. Ao longo dos anos, eles nunca pararam de vir ao vale... Alguém sabia alguma coisa, mas nada mudava realmente.

Por que achava que lhes devia algum tipo de intromissão protetora agora? Porque eles um dia abriram suas portas, porque escutaram, porque lhe imploraram que ficasse, porque não riram da sua história, porque lhe prometeram que a manteriam em segredo. E à sua própria semelhança, a Talamasca era velha. Velha como as árvores nas imensas florestas.

Há quanto tempo havia sido? Antes da casa-matriz de Londres, muito antes, quando o velho palazzo em Roma ainda era iluminado com velas. Nenhum registro, prometeram-lhe eles. Nenhum registro, em troca de tudo que ele havia contado... que deveria permanecer impessoal, anônimo, fonte de lendas e fatos, fragmentos de conhecimento de eras passadas. Exausto, ele havia dormido sob aquele teto. Eles o haviam consolado. No entanto, em última análise, eram homens comuns, talvez dotados de um interesse extraordinário, mas homens comuns, de vida curta, assombrados por ele, estudiosos, alquimistas, colecionadores.

Fosse o caso qual fosse, não era bom que eles passassem por tempos sinistros, para usar os termos de Samuel; não, com tudo o que sabiam e mantinham nos seus arquivos. Nada bom. E por alguma estranha razão ele se enternecia com esse cigano no vale. E sua curiosidade ardia com a intensidade de sempre, no que dizia respeito aos Taltos, às bruxas.

Meu Deus, só de pensar nas bruxas.

Quando Remmick voltou, trazia o casaco forrado de peles no braço.

— Está frio o bastante para ele, senhor — disse, pondo o casaco sobre os ombros do patrão. — E o senhor já parece estar enregelado.

— Não é nada, Remmick. Não desça comigo. Há algo que precisa fazer. Envie dinheiro para o Claridge's em Londres. Para um homem chamado Samuel. A gerência não terá dificuldades para identificá-lo. Ele é um anão, corcunda, de cabelos ruivos e com o rosto muito enrugado. Você deve organizar tudo de modo a que esse homenzinho tenha à disposição o que quiser. Ah, e ele tem um acompanhante. Um cigano. Não faço a menor idéia do que isso quer dizer.

— Está bem, senhor. O sobrenome?

— Não sei qual é, Remmick — respondeu, erguendo-se para sair e puxando a pelerine forrada de peles mais para perto do pescoço. — Conheço Samuel há tanto tempo.

Ele já estava no elevador quando percebeu que esta última afirmação era absurda. Ultimamente andava dizendo muitas coisas descabidas. No outro dia, Remmick dissera o quanto amava o mármore em todos esses aposentos e ele respondera que era verdade, que ele adorava o mármore desde a primeira vez que o vira. E isso lhe parecera absurdo.

O vento uivava no poço do elevador enquanto a cabine descia numa velocidade espantosa. Era um som que se ouvia somente no inverno, e um som que assustava Remmick, embora ele próprio o apreciasse ou o considerasse no mínimo divertido.

Quando chegou à garagem subterrânea, o automóvel estava à espera, dele emanando uma grande onda de ruído e de fumaça branca. Suas malas estavam sendo postas no carro. Ali estava seu piloto noturno, Jacob, e o co-piloto anônimo, bem como o jovem e pálido motorista cor de palha que estava sempre de plantão a esta hora, aquele que raramente falava.

— O senhor tem certeza de que quer fazer a viagem ainda hoje? — perguntou Jacob.

— Ninguém está voando? — perguntou ele, parando com as sobrancelhas erguidas e a mão na porta. Vinha um ar aquecido de dentro do carro.

— Não, há pessoas voando.

— Então, nós vamos voar, Jacob. Se estiver com medo, não precisa vir.

— Onde o senhor for, eu vou.

— Obrigado, Jacob. Uma vez você me garantiu que voamos bem acima das intempéries agora e com muito mais segurança do que um jato comercial.

— É, eu disse isso, sim, não disse?

Sentou-se no banco de couro negro e estendeu as pernas compridas, de modo a pousar os pés no banco da frente, feito que nenhum homem de altura normal teria conseguido naquela limusine extremamente longa. O motorista estava confortavelmente isolado por trás do vidro interno; e os outros seguiam no carro atrás do seu. Seus guarda-costas iam no automóvel à frente.

A grande limusine subiu rápida pela rampa, passando pelo meio-fio com uma velocidade perigosa porém excitante e depois saindo pela boca escancarada da garagem para a fascinante tempestade branca. Graças a Deus os mendigos haviam sido resgatados das ruas. Mas ele se esquecera de perguntar pelos mendigos. Sem dúvida, alguns deles haviam sido trazidos para seu saguão, sendo-lhes ali oferecido algo quente para beber e camas de lona para dormir.

Atravessaram a Quinta Avenida e seguiram velozes na direção do rio. A tempestade era uma torrente silenciosa de flocos minúsculos e lindos. Eles se derretiam ao atingir as janelas escuras e as calçadas molhadas. Caíam entre os prédios sombrios e anônimos como num profundo desfiladeiro nas montanhas.

Taltos.

Por um instante, a alegria desapareceu do seu mundo: a alegria das suas realizações e dos seus sonhos. Na sua imaginação, ele viu a jovem bonita, a criadora de bonecas da Califórnia, no seu vestido de seda violeta amarrotada. Em pensamento viu-a morta sobre uma cama, com sangue à sua volta, escurecendo-lhe o vestido.

É claro que isso não aconteceria. Ele nunca mais permitira que acontecesse. Há tanto tempo que mal se lembrava de como era a sensação de envolver com os braços um corpo macio de mulher; mal se lembrava do gosto do leite de um seio de mãe.

No entanto, ele pensava na cama, no sangue, na moça morta e fria, com as pálpebras ficando azuladas, assim como a carne por baixo das suas unhas e, afinal, até mesmo seu rosto. Imaginava tudo isso porque, se não o fizesse, imaginaria muitas outras coisas. A ferroada dessas imagens o mantinha sob disciplina. Ela o mantinha sob controle.

— Ai, que diferença faz? Macho. E morto.

Só agora ele se dava conta de que logo iria ver Samuel! Ele e Samuel estariam juntos. Agora isso era algo que o inundava de felicidade, ou o inundaria se ele permitisse. E ele se tornara mestre na capacidade de permitir que ondas de felicidade ocorressem quando quisessem.

Não via Samuel há uns cinco anos, ou seriam mais? Precisava pensar. É claro que se falavam por telefone. À medida que os telefones e o telégrafo foram se aperfeiçoando, eles conversavam com maior freqüência. Mas ele não chegava a realmente se encontrar com Samuel.

Naquela época, havia apenas um pouco de branco no seu cabelo. Meu Deus, estava aumentando assim tão depressa? Mas é claro que Samuel havia percebido os poucos fios brancos e havia feito algum comentário a respeito. E Ash respondera que aquilo ia passar.

Por um instante, o véu se ergueu, o enorme escudo de proteção que o protegia com tanta freqüência de uma dor insuportável.

Viu o vale, a fumaça que subia. Ouviu o terrível retinir das espadas, viu as figuras que corriam na direção da floresta. A fumaça subia das antigas torres circulares e das rodas d'água... Impossível que aquilo pudesse ter acontecido!

As armas mudaram; as normas mudaram. Mas os massacres, sob todos os outros aspectos, continuavam os mesmos. Ele vivia neste continente agora há uns setenta e cinco anos, sempre retornando a ele um mês ou dois após ter saído, por muitos motivos, não sendo insignificante entre eles o de não querer estar perto das chamas, da fumaça, da agonia e da terrível destruição da guerra.

A lembrança do vale não o deixava. Outras lembranças estavam associadas: de campos verdejantes, flores silvestres, centenas e mais centenas de minúsculas flores azuis do campo. Ele seguia pelo rio numa pequena embarcação de madeira, e os soldados estavam parados nas altas ameias. Ah, que criaturas eram essas que empilhavam pedra sobre pedra para criar enormes montanhas para si mesmas! E afinal o que eram os seus próprios monumentos, os enormes blocos de pedra que centenas arrastavam pela planície para formar o círculo?

A caverna, ele a via também de novo, como se uma dúzia de fotografias nítidas fossem de repente embaralhadas diante dos seus olhos e num momento ele estivesse correndo pelo penhasco abaixo, escorregando e quase caindo, e no outro Samuel estivesse ali, falando com ele.

"Vamos sair daqui, Ash. Por que você vem aqui? O que há aqui para se ver ou para se aprender?"

Ele via os Taltos de cabelos brancos.

"Os sábios, os bons, os compreensivos" era como eram chamados. Não se dizia "os velhos". Essa nunca teria sido uma palavra que eles teriam usado naquela época, quando as fontes da ilha eram mornas e os frutos caíam das árvores. Mesmo quando chegaram ao vale, jamais diziam a palavra "velho", mas todos sabiam que eles haviam vivido mais do que os outros. Aqueles que tinham cabelos brancos sabiam as histórias mais longas...

"Suba agora e ouça a história."

Na ilha, podia-se escolher qual daqueles de cabelos brancos se queria ouvir, porque eles próprios não se dispunham a escolher, e você ficava ali sentado ouvindo o escolhido cantar, falar ou dizer versos, contando as coisas mais profundas das quais se lembrasse. Havia uma mulher de cabelos brancos que cantava com uma voz doce e aguda, com os olhos sempre fixos no mar. E ele adorava ouvi-la.

E ele se perguntava quantas décadas se passariam até que seu próprio cabelo estivesse completamente branco.

Ora, poderia ser muito em breve, ao que ele soubesse. O próprio tempo não significava nada naquela época. E as fêmeas de cabelos brancos eram tão poucas, porque o parto fazia com que murchassem cedo. Ninguém falava nisso também, mas todos sabiam.

Os machos de cabelos brancos eram vigorosos, amorosos, tremendos glutões e dispostos a fazer previsões. Mas a fêmea de cabelos brancos era frágil. Era isso o que o parto lhe fizera.

Terrível lembrar dessas coisas, tão de repente, com tanta clareza. Será que talvez não existisse algum segredo mágico para os cabelos brancos? Será que eles faziam com que as pessoas se lembrassem desde o início? Não, não se tratava disso. Era só que em todos aqueles anos de nunca saber quanto tempo, ele havia imaginado que acolheria a morte com um abraço, e agora já não tinha esse mesmo sentimento.

Seu carro atravessara o rio e seguia veloz na direção do aeroporto. Ele era grande, pesado e se agarrava ao asfalto escorregadio. Mantinha-se firme contra o vento forte.

E lá vinham as lembranças. Ele já era velho quando os cavaleiros se abateram sobre a planície. Era velho quando viu os romanos nas ameias da Muralha de Antonino, quando olhava lá de cima, da porta de Columba, para os altos penhascos de lona.

Guerra. Por que nunca lhe saíam da lembrança, mas ficavam ali à espera em sua glória plena, ao lado das doces recordações daqueles que ele havia amado, da dança no vale, da música? Os cavaleiros que se abatiam sobre os prados, uma massa escura que se espalhava como se fosse tinta sobre um quadro pacífico, e depois o ronco surdo que lhes chegava aos ouvidos e a visão do vapor que se erguia dos seus cavalos em nuvens infindas.

Acordou sobressaltado.

O pequeno telefone tocava para ele. Ele o segurou firme e o tirou do gancho negro.

— Sr. Ash?

— Sim, Remmick?

— Achei que o senhor ia querer saber. No Claridge's, conhecem seu amigo Samuel. Reservaram para ele a suíte de costume, segundo andar, de canto, com lareira. Estão à sua espera. E, Sr. Ash, eles também não sabem o sobrenome dele. Parece que ele não o usa.

— Obrigado, Remmick. Reze um pouco por mim. O tempo está muito instável e perigoso, acho.

Ele desligou antes que Remmick pudesse começar as advertências de costume. Jamais devia ter dito uma coisa dessas, pensou.

Mas a notícia era realmente espantosa: o fato de eles conhecerem Samuel no Claridge's. Imaginem só eles terem se acostumado a Samuel. Da última vez em que vira Samuel, seu cabelo ruivo estava desgrenhado e grudado de tão sujo, seu rosto apresentava rugas tão fundas que os olhos já não eram mais totalmente visíveis, mas cintilavam de vez em quando com alguma luz eventual, como fragmentos de âmbar na pele mole e sarapintada. Naquela época, Samuel usava trapos e carregava sua pistola no cinto, exatamente como um pequeno pirata. E as pessoas costumavam se desviar do seu caminho nas ruas.

"Todos têm medo de mim. Não posso ficar aqui. Olhe só para eles. Têm mais medo agora do que antigamente."

E agora estavam familiarizados com ele no Claridge's! Será que ele estava mandando fazer seus ternos em Savile Row? Será que seus imundos sapatos de couro não tinham buracos? Será que ele havia desistido do revólver?

O carro parou, e ele teve de fazer força para abrir a porta, com o motorista se apressando para ajudá-lo, enquanto a neve investia contra ele com o vento.

Mesmo assim, a neve era tão bonita e tão limpa antes de atingir o chão. Ficou em pé, sentindo uma rigidez momentânea nos membros, e então ergueu a mão para impedir que os flocos úmidos e macios lhe batessem nos olhos.

— Na verdade, não está tão mau assim, senhor — disse Jacob. — Podemos estar fora daqui em menos de uma hora. O senhor deveria embarcar imediatamente, se quiser.

— Claro, Jacob, obrigado — disse ele. E parou. A neve caía em todo o seu casaco escuro. Ele a sentia derretendo no cabelo. Mesmo assim, enfiou a mão no bolso e tateou à procura do pequeno brinquedo, o cavalinho de balanço, e estava ali.

— Isso é para o seu filho, Jacob. Prometi para ele.

— Sr. Ash, lembrar-se de uma coisa assim numa noite como esta!

— Tolice, Jacob. Aposto que seu filho se lembra.

Era embaraçosamente insignificante, esse brinquedinho de madeira. Ele agora desejava que fosse algo infinitamente melhor. Tomaria nota disso: algo melhor para o filho de Jacob.

A grandes passadas, ele ia rápido demais para que o motorista o alcançasse. Além do mais, era alto demais para o guarda-chuva. Tratava-se apenas de um gesto, o homem se apressando ao seu lado, com o guarda-chuva na mão, para que ele o apanhasse se quisesse, o que nunca fazia.

Embarcou no avião a jato, fechado, aquecido e sempre assustador.

— Temos sua música, Sr. Ash.

Ele conhecia essa moça, mas não conseguia se lembrar do seu nome. Era uma das melhores das secretárias noturnas. Estivera com ele na sua última viagem ao Brasil. Era sua intenção lembrar-se dela. Que pena não ter seu nome bem na ponta da língua.

— Evie, não é? — perguntou, sorrindo, pedindo perdão com um pequeno franzir do cenho.

— Não, senhor, Leslie — respondeu ela, perdoando-o instantaneamente.

Se ela fosse uma boneca, teria sido de biscuit, sem a menor dúvida, com o rosto discretamente pintado com um suave corado cor-de-rosa nas bochechas e nos lábios, os olhos deliberadamente pequenos, mas escuros e bem focalizados. Ela aguardava, tímida.

Quando ele tomou assento na grande poltrona de couro feita especialmente para ele, mais comprida do que as outras, ela pôs na sua mão o programa impresso.

Havia as opções de costume: Beethoven, Brahms, Shostakovich. Ah, aqui estava a composição que ele havia pedido, o Requiem de Verdi. Mas ele não poderia ouvi-la agora. Se ele se entregasse àquelas cordas e vozes sombrias, as lembranças cairiam sobre ele.

Recostou a cabeça, ignorando o espetáculo do inverno do lado de fora da janelinha.

— Durma, seu idiota — disse ele, sem movimentar os lábios.

Mas sabia que não dormiria. Iria pensar sem parar em Samuel e nas coisas que Samuel dissera, até que se vissem novamente. Ele se lembraria do cheiro da casa da Talamasca e de como os estudiosos dali se pareciam com clérigos, bem como de uma mão humana com uma pena de escrever a formar em grandes letras rebuscadas: "Anônimo. Lendas da terra perdida. De Stonehenge."

— Só quer silêncio, senhor? — perguntou a jovem Leslie.

— Não, Shostakovich, a Quinta Sinfonia. Ela vai me fazer chorar, mas você deve me ignorar. Estou com fome. Quero queijo e leite.

— Está bem, senhor, tudo está pronto. — Ela começou a recitar os nomes dos queijos, aqueles sofisticados queijos de nata que mandavam trazer para ele da França, da Itália e Deus sabe de onde mais. Ele fez que sim, aceitando, à espera da onda de música, a qualidade divinamente penetrante desse sistema eletrônico envolvente, que faria com que ele se esquecesse da neve lá fora e do fato de que logo estariam sobre o grande oceano, aproximando-se em velocidade uniforme da Inglaterra, da planície, de Donnelaith e da mágoa.

 

DEPOIS DO PRIMEIRO DIA, Rowan não falou mais. Ela passava o tempo à sombra do carvalho, numa cadeira branca de vime, com os pés apoiados numa almofada ou às vezes apenas pousados na grama. Seus olhos, fixos no céu, movendo-se como se houvesse uma procissão de nuvens lá em cima, e não aquele límpido azul de primavera, com traços de felpa branca que eram soprados em silêncio de um lado para o outro.

Ela olhava para o muro, para as flores ou para os teixos. Jamais olhava para o chão.

Talvez tivesse se esquecido de que a cova dupla estava exatamente abaixo dos seus pés. A grama a estava cobrindo, rápida e exuberante, como sempre ocorre na primavera na Louisiana. Houve chuvas abundantes para ajudá-la, e às vezes a maravilha do sol e da chuva ao mesmo tempo.

Ela fazia suas refeições, consumindo aproximadamente de um quarto à metade do que lhe ofereciam. Ou era o que Michael dizia. Ela não parecia estar com fome. Mas estava pálida, imóvel, e as suas mãos, quando ela as movimentava, costumavam tremer.

Toda a família veio vê-la. Os grupos chegavam pelo gramado, ficando um pouco distantes como se temessem feri-la. Eles a cumprimentavam; perguntavam pela sua saúde. Diziam-lhe que estava linda. E era verdade. Depois desistiam e iam embora.

Mona observava tudo isso.

A noite, Rowan dormia, dizia Michael, como se estivesse exausta, como tivesse estado trabalhando arduamente. Ela tomava banho sozinha, embora isso o apavorasse. Mas ela sempre trancava a porta do banheiro; e, se ele tentasse ficar ali dentro, ela ficava apenas sentada na cadeira, com o olhar perdido, sem fazer nada. Era preciso que ele saísse para que ela se levantasse. E então ele ouvia o trinco girar.

Ela prestava atenção quando as pessoas falavam, pelo menos no início. E ocasionalmente, quando Michael lhe implorava que falasse, ela segurava sua mão com carinho, como se quisesse consolá-lo, ou pedir-lhe que fosse paciente. Isso era triste de se ver.

Michael era o único que ela tocava ou reconhecia, embora com freqüência esse pequeno gesto fosse feito sem nenhuma alteração na sua expressão remota ou sequer um movimento nos seus olhos cinzentos.

Seu cabelo estava ganhando corpo novamente. Ele estava até um pouco amarelo em decorrência de ela ficar sentada ao sol. Quando estava em coma, ele ficara da cor de madeira encharcada, daquele tipo que se vê nas margens lamacentas de rios. Agora ele dava a impressão de estar vivo, embora, se não falhasse a Mona a memória, o cabelo em si fosse morto, não é verdade? Já estava morto quando a pessoa o escovava, o enrolava, fazia qualquer coisa com ele.

Todos os dias pela manhã Rowan acordava sozinha. Descia devagar pela escada, segurando na balaustrada à esquerda e se apoiando na bengala com a mão direita, para colocá-la com firmeza a cada passo. Ela não parecia se importar se Michael a ajudasse. Se Mona a segurasse pelo braço, isso não fazia diferença.

De vez em quando, Rowan parava junto à penteadeira antes de descer e passava um pouco de batom.

Mona sempre percebia. Às vezes Mona estava esperando por Rowan no corredor, e via Rowan fazer isso. Era muito significativo.

Michael sempre fazia um comentário sobre isso também. Rowan usava camisolas e négligés, dependendo do tempo. Tia Bea não parava de comprá-los, e Michael costumava lavá-los porque Rowan só usava roupas novas depois de lavadas, ou era isso o que ele lembrava. Ele as estendia na cama para ela.

Não, não se tratava de nenhum estupor catatônico, calculava Mona. E os médicos confirmaram, embora não soubessem dizer o que havia de errado com ela. A única vez em que um deles, um idiota segundo Michael, enfiou um alfinete na mão dela, Rowan recolheu a mão em silêncio, cobrindo-a com a outra. E Michael ficou furioso. Mas Rowan não olhou para o médico, nem disse uma palavra sequer.

— Eu gostaria de ter estado aqui nessa hora — disse Mona.

É claro que Mona sabia que ele estava dizendo a verdade. Deixem que os médicos especulem e enfiem alfinetes nas pessoas. Talvez quando voltassem para o hospital, enfiassem alfinetes numa boneca de Rowan: a acupuntura do vodu. Mona não teria ficado surpresa.

Afinal o que Rowan sentia? Do que ela se lembrava? Ninguém tinha certeza. Eles só tinham a palavra de Michael de que ela acordara do coma perfeitamente consciente, de que falara com ele durante horas depois de acordar, de que ela sabia de tudo que havia acontecido, de que no coma ela ouvia e compreendia. Algo de terrível no dia em que despertou, um outro. E os dois enterrados juntos à sombra do carvalho.

— Eu não devia nunca ter permitido — dissera Michael a Mona umas cem vezes. — O cheiro que saía daquela cova, a visão do que restava... Eu devia ter me encarregado de tudo.

E como era o outro, quem o carregara cá para baixo e o que Rowan teria dito: Mona havia repetido demais essas perguntas a Michael.

— Eu lavei a lama das mãos dela — dissera Michael a Aaron e Mona.

— Ela não parava de olhar para a lama. Acho que uma médica não ia querer ter as mãos imundas. Pense só, quantas vezes um cirurgião lava as mãos. Ela me perguntou como eu estava; ela queria... — E nessa parte ele ficou com a voz embargada nas duas vezes em que contou a história.

— Ela queria tomar meu pulso. Estava preocupada comigo.

Deus, como eu queria ter visto o que enterraram! Como eu queria que ela tivesse falado comigo!

Era estranhíssimo: ser agora rica, designada para herdeira aos treze anos, ter um motorista e um carro (tradução para o público: vistosa limusine negra alongada, com CD, toca-fitas, TV em cores e muito espaço para gelo e Diet Coke), e dinheiro na carteira o tempo todo, tipo notas de vinte dólares, nada menos do que isso, montanhas de roupas novas e gente reformando a casa velha na esquina de St. Charles e Amelia, que a abordavam com amostras de "seda crua" ou "revestimentos de paredes" pintados à mão, quando ela passava.

E querer isso, querer saber, querer participar, querer compreender os segredos desse homem e dessa mulher, dessa casa que um dia seria sua. Um fantasma está morto debaixo da árvore. Uma lenda jaz sob as chuvas de primavera. E nos seus braços, uma outra. Era como dar as costas ao brilho forte e seguro do ouro para apanhar de algum pequeno esconderijo sinistras quinquilharias de poder inestimável. Ah, é magia. Nem mesmo a morte da sua mãe havia perturbado Mona tanto assim.

Mona conversava com Rowan. Muito.

Entrava na propriedade com sua própria chave, sendo a herdeira e tudo o mais. E porque Michael disse que podia. E Michael, não mais olhando para ela com desejo, praticamente a adotara.

Ela seguia para trás, para o jardim dos fundos, atravessava o gramado, desviando-se da cova quando se lembrava, e às vezes não se lembrava, para ir se sentar à mesa de vime e dar bom-dia para Rowan. E depois falava sem parar.

Falava a Rowan sobre o andamento da Clínica Mayfair, que o local já havia sido escolhido, que haviam optado por um enorme sistema geotérmico para a calefação e a refrigeração, que as plantas estavam sendo desenhadas.

— Seu sonho está se realizando — disse ela a Rowan. — A família Mayfair conhece essa cidade melhor do que ninguém. Não precisamos de estudos de viabilidade e coisas semelhantes. Vamos fazer com que o hospital se concretize como você queria.

Nenhuma reação por parte de Rowan. Será que ela ainda se interessava pelo imenso complexo médico que revolucionaria o relacionamento entre pacientes e suas famílias, no qual equipes de profissionais atenderiam mesmo os pacientes anônimos?

— Encontrei suas anotações — disse Mona. — Quer dizer, elas não estavam trancadas. Não pareciam pessoais.

Nenhuma resposta. Os gigantescos galhos do carvalho mexeram-se só um pouco. As folhas das bananeiras estremeceram de encontro ao muro de tijolos.

— Eu mesma estive do lado de fora do Sanatório Touro, perguntando às pessoas o que elas queriam num hospital ideal, sabe? Conversei horas com as pessoas.

Nada.

— Minha tia Evelyn está no Touro — disse Mona, baixinho. — Ela teve um derrame. Deviam trazê-la para casa, mas acho que ela não percebe a diferença. — Mona começaria a chorar se falasse na Velha Evelyn. Começaria a chorar se falasse em Yuri. E não falava. Não dizia que Yuri já não lhe escrevia nem telefonava há três semanas. Não dizia que ela, Mona, estava apaixonada, e por um homem misterioso, moreno, encantador, de maneiras britânicas, que tinha mais do dobro da sua idade.

Isso ela explicara a Rowan alguns dias atrás: como Yuri viera de Londres para ajudar Aaron Lightner. Explicara que Yuri era cigano e compreendia as coisas que Mona compreendia. Chegou a descrever como os dois se encontraram no quarto de Mona na noite anterior à viagem de Yuri.

— Eu passo o tempo todo preocupada com ele — dissera ela. Rowan não lhe dirigira o olhar.

E o que ela podia dizer agora? Que ontem à noite ela teve algum sonho terrível com Yuri, do qual não conseguia se lembrar.

— É claro que ele é um homem adulto — disse ela. — Quer dizer, já passou dos trinta e tudo o mais, e sabe se cuidar, mas só imaginar que alguém da Talamasca poderia feri-lo. — Ai, pare com isso!

Talvez tudo isso estivesse errado. Era fácil demais despejar todas essas palavras numa pessoa que não podia ou não queria responder.

Mas Mona podia jurar que havia em Rowan um vago reconhecimento de que Mona estava ali. Talvez fosse só o fato de Rowan não aparentar estar irritada ou trancada.

Mona não percebia nenhum desagrado.

Seus olhos esquadrinhavam o rosto de Rowan. A expressão de Rowan era tão séria. Tinha de haver uma mente ali dentro; simplesmente tinha de haver. Ora, ela parecia estar vinte milhões de vezes melhor do que durante o coma. E vejam só, ela abotoou o négligé. Michael jurava que não fazia esse tipo de coisa para ela. Ela abotoara três botões. Ontem havia sido só um.

Mas Mona sabia que o desespero pode encher uma cabeça tão completamente que tentar ler seus pensamentos é como tentar ler o que está por trás de uma fumaça densa. Seria desespero o que se havia abatido sobre Rowan?

Mary Jane Mayfair viera neste último fim de semana, a caipira louca de Fontevrault. Andarilha, aventureira, vidente e gênio, se se acreditasse no que dizia, e meio velha meio menina alegre, à idade provecta dos dezenove anos e meio. Uma bruxa poderosa, temível, assim ela se descrevia.

— Rowan está perfeitamente bem — declarara Mary Jane depois de olhar e examinar Rowan com os olhos semicerrados, empurrando então seu chapéu de vaqueiro para trás de modo a que cobrisse sua nuca. — É, animem-se. Ela está demorando um pouco, mas sabe o que está acontecendo.

— Quem é afinal esse caso de hospício? — perguntara Mona, embora sentisse no fundo uma compaixão desenfreada pela menina, não importava que ela fosse seis anos mais velha. Essa era um nobre selvagem, trajando uma saia de brim da Wal-Mart, que não lhe passava da metade da coxa, e uma blusa branca e barata que estava apertada demais para seus seios generosos, além de lhe faltar um botão crucial. Graves privações, e se saindo muito bem.

É claro que Mona sabia quem Mary Jane era. Mary Jane Mayfair vivia de fato nas ruínas da fazenda de Fontevrault, na região do Bayou. Essa era a terra lendária dos caçadores clandestinos que matavam lindas garças de pescoço branco só pela carne, de crocodilos que podiam virar seu barco e comer seu filho, e de uns parentes malucos que nunca chegaram a Nova Orleans e à escada de madeira do famoso posto avançado de Fontevrault nessa cidade, também conhecida como a casa da esquina de St. Charles e Amelia.

Mona estava na realidade morrendo de vontade de conhecer esse lugar, Fontevrault, que ainda estava em pé com suas seis colunas no andar superior e seis colunas no inferior, muito embora o inferior estivesse inundado por um metro d'água. Vinha em segundo lugar conhecer a lendária Mary Jane, a prima que só recentemente voltara de "longe", que amarrava seu barco ao balaústre do pé da escada e que atravessava remando uma poça estagnada de lodo traiçoeiro para chegar à picape que a levava à cidade para as compras.

Todo mundo falava de Mary Jane Mayfair. E, como Mona estava com treze anos e era agora a herdeira, a única pessoa vinculada ao legado que se dispunha a falar com as pessoas e a reconhecer sua presença, todos achavam que Mona consideraria de interesse especial falar de uma prima adolescente caipira que era "brilhante", "paranormal" e que andava por aí como Mona, sozinha.

Dezenove anos e meio. Até Mona bater os olhos nessa brilhante peça, ela não considerava ninguém dessa idade um verdadeiro adolescente.

Mary Jane era praticamente a descoberta mais interessante que haviam feito desde que começaram a amealhar todo mundo para exames genéticos da família Mayfair inteira. Era previsível que isso fosse acontecer, a descoberta de uma herança do passado como Mary Jane. Mona queria saber o que mais poderia sair se arrastando de dentro dos pântanos em breve.

Mas imaginem só uma sede de fazenda inundada, no majestoso estilo da Renascença grega, afundando aos poucos na lentilha d'água, com pedaços de reboco caindo ruidosos nas águas espessas. Imaginem peixes nadando entre os balaústres da escadaria.

— E se a casa ruir em cima dela? — perguntara Bea. — A casa está dentro d'água. Ela não pode ficar lá. Precisamos trazer essa menina para Nova Orleans.

— É água de pântano, Bea — dissera Celia. — Pântano, está lembrada? Não se trata de um lago ou da Corrente do Golfo. E além do mais, se essa criança não tem juízo suficiente para sair de lá e levar a velha para algum local seguro...

A velha.

Mona tinha tudo isso bem fresco na memória nesse último fim de semana quando Mary Jane entrou no pátio dos fundos e se enfiou no pequeno agrupamento que cercava a silenciosa Rowan, como se fosse um piquenique.

— Eu sabia de vocês todos — declarara Mary Jane. As palavras eram dirigidas também a Michael, que estava parado junto à cadeira de Rowan como se posasse para um elegante retrato de família. E como os olhos de Michael se fixaram nela.

— Às vezes eu venho até aqui para olhar vocês — disse Mary Jane. — Verdade. Eu vim no dia do casamento. Sabe, quando você se casou com ela? — Ela apontou para Michael e depois para Rowan. — Fiquei ali parada, do outro lado da rua, a olhar a sua festa?

Suas frases sempre subiam no final, mesmo que não fossem perguntas, como se ela estivesse sempre pedindo um sinal ou uma palavra de anuência.

— Você deveria ter entrado — disse Michael, gentil, atento a cada sílaba que a menina pronunciava. O problema de Michael era que ele realmente tinha um fraco pela beleza pubescente. Seu encontro com Mona não havia sido nenhuma aberração da natureza ou obra de feitiçaria. E Mary Jane Mayfair era uma avezinha do pântano suculenta como nunca se viu. Ela até usava o cabelo louro brilhante em trancas no alto da cabeça, e imundos sapatos tipo boneca de verniz branco, como uma criancinha. O fato de sua pele ser escura, meio morena e possivelmente bronzeada, fazia com que a menina tivesse a aparência de um palomino humano.

— O que os exames disseram a seu respeito? — perguntara Mona. — É isso o que você está fazendo aqui, não é? Você foi examinada?

— Não sei — disse o gênio, a poderosíssima bruxa dos pântanos. — Eles estão tão confusos por lá. Milagre se acertarem alguma coisa. Primeiro me chamaram de Florence Mayfair e depois de Ducky Mayfair. Até eu chegar e dizer, "Olhe, meu nome é Mary Jane Mayfair, olhe aí, bem ali, no formulário diante do seu nariz".

— Bem, isso não é muito promissor — resmungou Celia.

— Mas disseram que eu estava bem, que fosse para casa e que eles me avisariam se alguma coisa estivesse errada comigo. Olhe, eu calculo que tenho genes de bruxa saindo pelo ladrão. Imagino que vou ultrapassar o limite da tabela, sabe? E, cara, nunca vi tantos parentes como naquele prédio.

— O prédio é nosso — disse Mona.

— E todos eles eu reconheci à primeira vista, cada indivíduo. Não me enganei nenhuma vez. Tinha só um infiel lá, um pária, sabe, ou não, era um tipo mestiço, era isso o que ele era. Vocês já notaram que tem todos esses tipos de Mayfair? Quer dizer, todo um grupo que não tem queixo, uma espécie de narizinho bonito que se curva só um pouquinho aqui e olhos inclinados nas pontas. Depois, todo um monte que se parece com você — isso ela disse para Michael. — É, iguaizinhos a você, irlandeses de verdade, com sobrancelhas cerradas, cabelos crespos e olhos grandes e malucos de irlandês.

— Mas querida — protestara Michael, em vão. — Eu não sou Mayfair.

— ... e os outros de cabelos ruivos como os dela, só que ela é a mais bonita que eu já vi. Você deve ser Mona. Você tem o brilho e a luz de alguém que acabou de herdar toneladas de dinheiro.

— Mary Jane, amorzinho — disse Celia, incapaz de acrescentar algum conselho inteligente ou alguma pergunta sem sentido.

— Bem, como é essa história de ser tão rica assim? — perguntou Mary Jane, com os olhos enormes e palpitantes fixos em Mona. — Estou querendo saber, bem aqui no fundo. — Ela bateu com o punho fechado na sua blusinha barata e arreganhada, apertando de novo os olhos e se curvando para a frente de tal modo que o abismo entre seus seios ficou perfeitamente visível até para alguém baixo como Mona. — Não se preocupe, sei que não devia fazer esse tipo de pergunta. Vim até aqui para ver Rowan, sabe, porque Paige e Beatrice mandaram que eu viesse.

— Por que fizeram isso? — perguntou Mona.

— Fique quieta, querida — disse Beatrice. — Mary Jane é uma Mayfair legítima. Mary Jane, meu amor, você devia trazer sua avó para cá imediatamente. Estou falando sério, menina. Queremos que vocês venham. Temos toda uma lista de endereços, tanto temporários quanto fixos.

— Sei o que ela está querendo dizer — comentou Celia. Ela estava sentada ao lado de Rowan, e era a única com coragem suficiente para enxugar o rosto de Rowan de vez em quando, com um lenço branco. — Sobre os parentes que não têm queixo. Ela está falando de Polly. Polly tem um implante. Ela não nasceu com aquele queixo.

— Bem, se ela tem um implante — declarou Beatrice — ela tem um queixo visível, certo?

— É, mas ela tem os olhos oblíquos e o nariz pontudo — disse Mary Jane.

— Isso mesmo — concordou Celia.

— Vocês têm medo dos genes a mais? — Mary Jane atirava sua voz como um laço para captar a atenção de todos. — Você, Mona, tem medo?

— Não sei — disse Mona, que de fato não tinha.

— É claro que não se trata de nada que tenha a mais remota probabilidade de acontecer! — disse Bea. — Os genes. É claro que é pura teoria. Precisamos ficar falando nisso? — Beatrice lançou um olhar significativo na direção de Rowan.

Rowan olhava, como sempre, para o muro, talvez para o sol nos tijolos, quem poderia saber ao certo? Mary Jane já se lançava adiante.

— Eu acho que nada desse tipo vai acontecer de novo na família. Acho que o momento para esse tipo de feitiçaria passou, e que mais toda uma era de feitiçaria...

— Meu amor, nós realmente não levamos muito a sério toda essa história de feitiçaria — disse Bea.

— Você conhece a história da família? — perguntou Celia em tom grave.

— Se eu conheço? Sei de coisas sobre a família que vocês não sabem. Sei coisas que minha avó me contou, que ela ouviu do Velho Tobias. Sei coisas que estão escritas nas paredes daquela casa, ainda. Quando eu era pequena, sentei no colo da Velha Evelyn. A Velha Evelyn me contou todo tipo de coisas que eu me lembro. Só uma tarde, foi o que foi preciso.

— Mas o arquivo sobre a nossa família, o dossiê da Talamasca... — Insistia Celia. — Eles lhe deram para ler na clínica?

— Ah, sim, Bea e Paige me entregaram esse material — disse Mary Jane. — Olhe aqui. — Ela apontou para o band-aid no joelho. — Foi aqui que me picaram! Tiraram sangue suficiente para fazer um sacrifício ao demônio. Eu compreendo toda a situação. Alguns de nós têm toda uma cadeia de genes a mais. Se dois parentes próximos, os dois com a dose dupla de espiral dupla, procriarem, fuque-fuque, tem-se um Taltos. Pode ser! Pode ser! Afinal de contas, pensem bem, quantos primos se casaram e isso nunca aconteceu? Quantos fizeram sexo, até... Olhem, vocês têm razão, nós não deveríamos conversar sobre esse assunto diante dela.

Michael deu um sorrisinho exausto de gratidão.

Mary Jane mais uma vez olhou com atenção para Rowan. Mary Jane fez uma grande bola com a goma de mascar, chupou-a para dentro da boca e fez com que explodisse.

Mona riu.

— Eis um belo truque — disse ela. — Nunca consegui fazer isso.

— Ah, bem, talvez seja uma bênção — disse Bea.

— Mas você leu mesmo o arquivo — insistiu Celia. — É muito importante que você saiba tudo.

— Ah, li, sim, palavra por palavra — confessou Mary Jane — mesmo as que tive de procurar no dicionário. — Ela deu um tapa na própria coxa esbelta e bronzeada, e riu aos gritos. — Vocês vivem falando em me dar coisas. Podem me ajudar a me instruir. Acho que é a única coisa que me seria útil. Sabem, o pior que me aconteceu foi mamãe me tirar da escola. É claro que na época eu não queria mesmo ir para a escola. Eu me divertia muito mais na biblioteca pública, mas...

— Acho que você tem razão quanto aos genes a mais — disse Mona. E quanto a precisar de instrução.

Muitos, muitos membros da família tinham os cromossomos a mais, que podiam gerar monstros, mas nenhum havia jamais nascido no clã, não importa qual fosse a consangüinidade, até esta época terrível.

E o que dizer do fantasma que esse monstro havia sido durante tanto tempo, um espectro a enlouquecer moças, mantendo a casa de First Street sob uma nuvem de espinhos e trevas? Havia algo de poético nesses corpos estranhos jazendo bem aqui, debaixo do carvalho, debaixo da própria grama na qual Mary Jane pisava com sua saia curta de brim, seu curativo no pequeno joelho, com as mãos nos quadris delicados, com seu imundo sapatinho de fivela de verniz branco virado para um lado e besuntado com lama fresca, e com sua meia suja meio escorregada para dentro do sapato.

Talvez as bruxas do Bayou sejam simplesmente idiotas, pensou Mona. Podem pisar na cova de monstros sem saber. É claro que nenhuma das outras bruxas da família sabia. Só a mulher que não queria falar e Michael, aquele pedaço de sedução e músculos celtas, parado ao lado de Rowan.

— Você e eu somos primas em segundo grau — disse Mary Jane a Mona, reformulando sua abordagem. — Isso não é demais? Você ainda não era nascida quando eu vim até a casa da Velha Evelyn e tomei sorvete caseiro.

— Não me lembro de a Velha Evelyn ter feito sorvete caseiro.

— Querida, ela fazia o melhor sorvete caseiro que eu já experimentei. Minha mãe me trouxe a Nova Orleans para...

— Você se enganou de pessoa — disse Mona. De repente, essa garota era uma impostora. Talvez nem mesmo fosse uma Mayfair. Não, a sorte não seria tanta. E havia alguma coisa nos seus olhos que faziam com que Mona se lembrasse da Velha Evelyn.

— Não, não me enganei de pessoa — insistia Mary Jane. — Mas na verdade nós não viemos por causa do sorvete. Deixe-me ver suas mãos. Elas são normais.

— E daí?

— Mona, seja gentil, querida — disse Beatrice. — É que sua prima fala sem rodeios.

— Pois bem, está vendo essas mãos? Eu tinha seis dedos quando era pequena, nas duas mãos. O sexto não era um dedo de verdade? Sabe? Era só um bem pequeno. E foi por isso que minha mãe me trouxe para ver a Velha Evelyn, porque a própria Velha Evelyn tinha um dedo assim.

— E você acha que eu não sei disso? — perguntou Mona. — Cresci com a Velha Evelyn.

— Sei que cresceu. Sei tudo a seu respeito. Fique fria, querida. Não estou querendo ser grosseira. É só que sou uma Mayfair, igual a você, e aposto meus genes contra os seus a qualquer hora.

— Quem lhe contou tudo a meu respeito? — perguntou Mona.

— Mona — disse Michael, baixinho.

— Como pode ser que nunca nos tenhamos encontrado antes? — prosseguiu Mona. — Sou uma Mayfair de Fontevrault. Sua prima em segundo grau, como você acabou de dizer. E como é que você fala como se viesse do Mississippi quando diz que viveu todo esse tempo na Califórnia?

— Ora, escute bem, tem uma história por trás disso — disse Mary Jane. — Passei um tempo no Mississippi também, pode acreditar. Em Parchman Farm não poderia ter sido pior. — Era impossível derrubar a paciência dessa menina. Ela deu de ombros. — Vocês têm chá gelado?

— Claro que temos, querida. Desculpe. — Lá se foi Beatrice apanhar o chá. Celia abanou a cabeça de vergonha. Até Mona se sentiu negligente, e Michael rapidamente pediu desculpas.

— Não, eu mesma apanho. É só falar onde está — exclamou Mary Jane.

No entanto, Bea já havia desaparecido, o que era bastante conveniente. Mary Jane voltou a estourar a goma de mascar e depois fez uma série de pequenos estouros no lado da boca.

— Incrível — disse Mona.

— Como eu disse, tem uma história que explica tudo. Eu poderia lhe contar algumas coisas terríveis sobre o meu tempo na Flórida. É, estive por lá e um tempinho no Alabama, também. Tive de me esforçar para conseguir voltar para cá.

— Não diga — disse Mona.

— Mona, não seja sarcástica.

— Eu já vi você antes — prosseguiu Mary Jane como se absolutamente nada tivesse acontecido. — Eu me lembro de você quando você e Gifford Mayfair vieram até Los Angeles para ir ao Havaí. Aquela foi a primeira vez em que fui a um aeroporto. Você estava dormindo bem ali junto à mesa, deitada sobre duas cadeiras, debaixo do casaco de Gifford, e Gifford Mayfair nos pagou uma refeição fantástica???

Não vá descrevê-la, pensou Mona. Mas Mona tinha de fato uma vaga lembrança daquela viagem e de acordar com torcicolo no aeroporto de Los Angeles, conhecido pela interessante sigla de LAX, e de Gifford dizendo a Alicia que deviam trazer "Mary Jane" de volta um dia desses.

Só uma coisa. Mona não tinha nenhuma lembrança de nenhuma outra menininha por lá. Quer dizer que essa era Mary Jane. E agora ela estava de volta. Gifford devia estar fazendo milagres de lá do céu.

Bea voltara com o chá gelado.

— Aqui, meu amorzinho, com muito limão e açúcar, como você gosta, não é? Pronto, querida.

— Não me lembro de ver você no casamento de Michael e Rowan — disse Mona.

— É porque eu não entrei — disse Mary Jane, apanhando o chá gelado das mãos de Bea assim que ele chegou à órbita mais próxima, bebendo, ruidosa, metade do copo e limpando o chá do queixo com as costas da mão. Esmalte descascado, mas que tom maravilhoso de extremosa roxa.

— Eu lhe disse que viesse — disse Bea. — Telefonei. Deixei recado três vezes para você na mercearia.

— Eu sei, tia Beatrice, não tem ninguém que possa dizer que você não deu o melhor de si para fazer com que fôssemos ao casamento. Mas, tia Beatrice, eu não tinha sapatos! Eu não tinha um vestido? Eu não tinha um chapéu? Está vendo esses sapatos? Eu achei esses sapatos. São os primeiros sapatos que não são tênis que eu uso nos últimos dez anos. Além do mais, deu para eu ver tudo perfeito do outro lado da rua. E ouvir a música. Aquela foi uma música boa, a do seu casamento, Michael Curry. Você tem certeza de não ser um Mayfair? Você me parece ser um. Eu poderia apontar, digamos, sete traços diferentes da sua aparência que são da família Mayfair.

— Obrigado, querida. Não sou um Mayfair.

— Ah, você é de coração — disse Celia.

— Bem, é claro que sim — respondeu Michael, sem tirar os olhos da moça nem um instante, não importa quem estivesse falando com ele. E o que os homens vêem quando olham para tanto charme como esse?

— Você sabe que, quando éramos pequenas — prosseguia Mary Jane — não tínhamos nada por lá, só um lampião de querosene, um resfriador com gelo dentro e uma quantidade de telas contra mosquitos penduradas na varanda inteira, e vovó costumava acender o lampião e...

— Vocês não tinham eletricidade? — perguntou Michael. — Isso foi há quanto tempo? Há quanto tempo poderia ter sido?

— Michael, você nunca esteve na região do Bayou — disse Celia. E Bea fez um sinal com a cabeça, de quem sabe do assunto.

— Michael Curry, nós éramos posseiros, era isso o que éramos — disse Mary Jane. — Estávamos só nos escondendo em Fontevrault. Tia Beatrice poderia lhe contar. A polícia vinha nos expulsar periodicamente. Nós arrumávamos nossas coisas, eles nos levavam para Napoleonville e depois nós voltávamos. Eles desistiam de nós e nos deixavam em paz algum tempo até algum intrometido passar por ali de barco, algum guarda-florestal, alguém desse tipo que nos denunciava. Nós tínhamos abelhas, sabe, na varanda para ter mel? Podíamos pescar direto na escada dos fundos? Tínhamos na época árvores frutíferas em toda a volta do desembarcadouro, antes que a glicínia as atacasse como uma jibóia gigante, sabe, e amoras-pretas? Puxa, eu costumava catar tudo o que quisesse bem ali na bifurcação da estrada. Tínhamos de tudo. Além do mais, agora eu tenho eletricidade! Eu mesma puxei a instalação da estrada, e fiz o mesmo com a televisão a cabo.

— Você fez isso mesmo? — perguntou Mona.

— Meu amor, isso é contra a lei — atalhou Bea.

— Fiz, sim. Minha vida é interessante demais para eu começar a contar mentiras. Além disso, tenho mais coragem do que imaginação. Sempre fui assim. — Ela bebeu o chá gelado, sorvendo o líquido ruidosamente e derramando um pouco mais. — Meu Deus, como está bom. Está tão doce. Isso é adoçante artificial, não é?

— Receio que sim — disse Bea, olhando para ela com uma combinação de horror e embaraço. E imaginar que ela dissera "açúcar". E Bea detestava quem era desmazelado para comer e beber.

— Agora, imaginem só — disse Mary Jane, passando as costas da mão pela boca e depois limpando a mão na saia de brim. — Estou provando uma coisa que é cinqüenta vezes mais doce do que qualquer outra coisa que qualquer um jamais provou na terra até esta época exata. É por isso que comprei ações da indústria de adoçantes.

— Você comprou o quê? — perguntou Mona.

— Isso mesmo. Tenho meu próprio corretor, querida, só que a maior parte do tempo sou eu mesma quem escolhe. Ele opera em Baton Rouge. Tenho vinte e cinco mil dólares enfiados no mercado de ações. E, quando eu ficar rica, vou drenar e reerguer Fontevrault. Vou pôr tudo de volta no devido lugar, cada tábua e cada prego! Espere e verá. Você está olhando para uma futura executiva das quinhentas empresas mais bem-sucedidas da revista Fortune.

Talvez houvesse alguma coisa nessa biruta, pensou Mona.

— Como você conseguiu vinte e cinco mil dólares?

— Você podia morrer, mexendo com eletricidade — disse Celia.

— Cada centavo do total ganhei no caminho de volta. E isso demorou um ano, e não me pergunte como foi. Algumas coisas me ajudaram, é verdade. Mas, no fundo, isso agora é uma história.

— Você poderia ser eletrocutada — disse Celia. — Instalando sua própria eletricidade.

— Querida, você não está depondo — disse Bea, ansiosa.

— Olhe, Mary Jane — disse Michael. — Se você precisar de alguma coisa desse gênero, eu vou até lá e faço a instalação para você. Estou falando sério. Você só me diz quando, e eu vou até lá.

Vinte e cinco mil dólares?

Os olhos de Mona foram na direção de Rowan. Rowan franzia ligeiramente o cenho para as flores, como se as flores estivessem conversando com ela numa língua silenciosa e secreta.

Seguiu-se uma vivida descrição de Mary Jane subindo em casuarinas, sabendo exatamente que fios tocar e não tocar, furtando botas e luvas de trabalho. Talvez essa moça fosse mesmo algum tipo de gênio.

— Que outras ações você comprou? — perguntou Mona.

— Na sua idade, o que você está ligando para a Bolsa de Valores? — perguntou Mary Jane, com uma ignorância tagarela.

— Deus do céu, Mary Jane — disse Mona, procurando soar o máximo possível como Beatrice. — Sempre tive uma enorme obsessão pelo mercado de ações. Os negócios são para mim uma arte. Todo mundo sabe disso a meu respeito. Tenho planos de um dia administrar meu próprio fundo mútuo. Suponho que você saiba o que é, fundo mútuo?

— Bem, é claro que sei — disse Mary Jane, rindo de si mesma de um jeito totalmente agradável e condescendente.

— Nas últimas semanas, acabei de completar minha própria carteira — disse Mona e depois se calou, sentindo-se tola por ter sido fisgada com tanta facilidade por alguém que talvez nem estivesse prestando atenção ao que dizia. A zombaria da Mayfair & Mayfair era uma coisa, e não duraria muito tempo. Mas vinda dessa menina seria bem diferente.

A garota, no entanto, agora olhava realmente para ela e parava de sondar suas reações, enquanto lançava pequenos olhares de esguelha em meio às suas palavras apressadas.

— É mesmo? Bem, deixe-me perguntar-lhe uma coisa agora. O que você acha desse canal de compras na televisão? Acho que isso vai fazer um sucesso daqueles. Sabe? Pus dez mil nesse canal. Você sabe o que aconteceu?

— As ações dobraram de valor nos quatro últimos meses — disse Mona.

— Isso mesmo. Agora, como você soube disso? Bem, você é uma criança estranha, é ou não é? E eu achava que você era uma daquelas meninas burguesas, com aquela fita no cabelo, sabe, que você sempre usava, e estudando no Sagrado Coração, sabe? Eu calculava que você nem ia me dirigir a palavra.

Uma dorzinha tomou conta de Mona nesse instante, dor e pena por essa menina, por qualquer pessoa que se sentisse alijada desse jeito, humilhada a esse ponto. Mona jamais na sua vida sofrerá de falta de confiança em si mesma. E essa garota era interessante, fazendo tudo isso sozinha, com muito menos recursos do que Mona.

— Parem por aí, queridas, não vamos ficar falando de Wall Street — disse Beatrice. — Mary Jane, como está a vovó? Você não nos disse uma palavra sobre ela. Já são quatro horas e você vai ter de ir embora logo se for querer voltar até lá dirigindo...

— Ah, a vovó está bem, tia Beatrice — disse Mary Jane, mas olhava direto para Mona. — Agora, você sabe o que aconteceu com vovó depois que mamãe veio e me levou embora para Los Angeles? Eu tinha seis anos naquela época, sabe? Você já ouviu essa história?

— Já — disse Mona.

Todos conheciam a história. Beatrice ainda se sentia embaraçada a respeito dela. Celia olhava espantada para a garota como se ela fosse um mosquito gigante. Só Michael parecia não ter sido informado.

O que havia acontecido era o seguinte: a avó de Mary Jane, Dolly Jean Mayfair, havia sido jogada no asilo paroquial depois que sua filha foi embora com Mary Jane, aos seis anos de idade. Supunha-se que Dolly Jean tivesse morrido no ano anterior, tendo sido enterrada no jazigo da família. E o enterro havia sido um grande evento, só porque, quando alguém ligou para Nova Orleans, todos os parentes foram até Napoleonville, para bater no peito de dor e remorso por terem deixado essa velhinha, a pobre Dolly Jean, morrer num asilo paroquial. A maioria dos parentes nunca ouvira falar nela.

Na realidade, nenhum deles conhecera realmente Dolly Jean. Ou pelo menos não a conheceram como senhora de idade. Lauren e Celia a haviam visto muitas vezes quando eram meninas, é claro.

A Velha Evelyn conhecia Dolly Jean, mas a Velha Evelyn jamais saíra de Amelia Street para ir a um velório no interior, e ninguém chegou a pensar em lhe fazer alguma pergunta sobre o fato.

Bem, quando Mary Jane chegou à cidade um ano atrás e soube da história da morte e do enterro da avó, ela zombou daquilo tudo, até mesmo rindo diante de Bea.

— Ora, ela não morreu — dissera Mary Jane. — Ela me apareceu num sonho e disse, "Mary Jane, venha me buscar. Quero voltar para casa". Agora vou até Napoleonville e vocês precisam me dizer onde fica o tal asilo paroquial.

Só por causa de Michael, ela agora repetia a história inteira, e a expressão de espanto no rosto de Michael estava ficando espontaneamente cômica.

— Como é possível que Dolly Jean não lhe dissesse no sonho onde ficava o asilo? — perguntou Mona.

Beatrice lançou um olhar de censura na sua direção.

— Bem, ela não me disse, e essa é a verdade. Acho que você tem razão, também. Eu tenho toda uma teoria sobre aparições e sobre os motivos pelos quais elas ficam tão confusas.

— Nós todos temos — disse Mona.

— Mona, modere o tom — disse Michael.

Exatamente como se eu agora fosse filha dele, pensou Mona, indignada. E ele ainda não tirou os olhos de Mary Jane. Mas as palavras foram ditas com carinho.

— Querida, o que aconteceu? — insistiu Michael.

— Bem, uma velhinha daquelas — prosseguiu Mary Jane — nem sempre sabe onde está, mesmo num sonho, mas ela sabia de onde ela era! Foi exatamente isso o que aconteceu. Entrei pela porta do asilo de velhos, e lá bem no meio do salão de recreação, ou sei lá qual era o nome da sala, estava minha avó, e ela olhou direto para mim e depois de todos esses anos disse, "Por onde andou, Mary Jane? Leve-me para casa, chère, estou cansada de esperar."

Haviam enterrado a pessoa errada do asilo de velhos.

A verdadeira vovó Dolly Jean Mayfair estava viva e recebia todos os meses um cheque de aposentadoria em nome de outra pessoa, sem nunca pôr os olhos nele. Uma tremenda inquisição foi levada a cabo para provar isso, e então vovó Mayfair e Mary Jane Mayfair voltaram para morar nas ruínas da sede da fazenda. Uma equipe de parentes forneceu-lhes as necessidades básicas, e Mary Jane ficou parada ali fora atirando com sua pistola em garrafas de refrigerante e dizendo que tudo ia dar certo, que as duas podiam cuidar de si mesmas. Ela possuía alguns dólares que conseguira juntar na vida; era um pouco fanática por fazer as coisas ao seu próprio modo, não, muitíssimo obrigada.

— Quer dizer que deixaram a velhinha morar com você nessa casa inundada? — perguntou Michael, com tanta inocência.

— Querido, depois do que fizeram com ela naquele asilo de velhos lá naquele fim de mundo, que a confundiram com alguma outra mulher e puseram seu nome numa lápide e tudo o mais, o que você acha que eles podem vir me dizer sobre ela vir morar comigo? E o primo Ryan? O primo Ryan, da Mayfair & Mayfair? Sabe? Ele foi até lá e quase destruiu a cidade!

— É — disse Michael. — Aposto que sim.

— Foi tudo culpa nossa — disse Celia. — Devíamos ter mantido contato com esse pessoal.

— Você tem certeza de que não cresceu no Mississippi e quem sabe até mesmo no Texas? — perguntou Mona. — Sua voz parece um amálgama de todo o sul.

— O que é um amálgama? Viu, é aí que você leva vantagem. Você é instruída. Eu me instruí sozinha. A diferença entre nós é enorme. Tem certas palavras que eu não tenho coragem de pronunciar e não sei ler os símbolos no dicionário.

— Você quer ir para a escola, Mary Jane? — Michael estava ficando mais envolvido a cada instante que passava, com seus olhos azuis de uma inocência inebriante fazendo uma inspeção dos pés à cabeça a cada quatro segundos e meio. Ele era esperto demais para se deter nos seios e nos quadris da garota, ou mesmo na sua cabecinha redonda, não que ela fosse pequena de tamanho, só gostosa de se ver. Era essa a impressão final que ela dava: ignorante, biruta, brilhante, bagunçada e de algum modo deliciosa.

— Quero, sim, senhor — disse Mary Jane. — Quando eu for rica, vou ter um professor particular como a nossa Mona tem agora que é a herdeira indicada e tudo o mais, sabe? Algum cara realmente esperto que me diga o nome de todas as árvores pelas quais se passa, quem era o presidente dez anos depois da Guerra de Secessão, quantos índios ainda há no país e o que é afinal a Teoria da Relatividade de Einstein.

— Quantos anos você tem? — perguntou Michael.

— Dezenove e meio, cara — declarou Mary Jane, mordendo o lábio inferior com seus dentes brancos e brilhantes, erguendo uma sobrancelha e piscando.

— Essa história sobre a sua avó, você está falando sério? Isso aconteceu mesmo? Você apanhou sua avó e...

— Meu querido, tudo isso aconteceu — disse Celia — exatamente como a menina contou. Acho que devíamos entrar. Acho que estamos perturbando Rowan.

— Não sei, não — disse Michael. — Talvez ela esteja prestando atenção. Não quero sair daqui. Mary Jane, você tem condições de cuidar dessa senhora sozinha?

Beatrice e Celia de imediato aparentaram ansiedade. Se Gifford ainda estivesse viva, ela também teria aparentado ansiedade. "Deixar aquela velha abandonada tão longe!" costumava Celia dizer ultimamente.

E elas haviam prometido a Gifford, ou não? Que se encarregariam do assunto? Mona estava lembrada disso. Gifford estava num dos seus estados irremediáveis de preocupação com os parentes de todos os cantos, e Celia dissera que iam pegar o carro e verificar o que estava acontecendo com a velha.

— É, Sr. Curry, tudo isso aconteceu, e eu levei vovó para casa comigo, e sabe que a varanda de dormir no andar de cima estava exatamente do jeito que a deixamos? Puxa, depois de treze anos, o rádio estava lá, as telas contra mosquitos e a geladeirinha.

— Nos pântanos? — perguntou Mona. — Espere aí.

— Foi isso mesmo, querida, exatamente isso.

— É verdade — admitiu Beatrice, desanimada. — É claro que lhes demos roupas novas para a casa, coisas novas. Queríamos instalar as duas num hotel, numa casa ou...

— Bem, isso é claro — disse Celia. — Receei que essa história chegasse aos jornais. Meu amor, sua avó está lá sozinha neste exato momento?

— Não, senhora, ela está com Benjy. Benjy é daqueles caçadores que montam armadilhas e moram lá para aqueles lados, gente maluca de verdade, sabe??? Daquele tipo que vive naqueles barracos feitos de pedaços de lata, com janelas de refugo de obra e até mesmo de papelão? Eu pago abaixo do salário mínimo para ele cuidar da vovó e atender os telefones, mas não desconto nada.

— E daí? — disse Mona. — Ele é autônomo.

— Você é sem dúvida esperta — disse Mary Jane. — Acha que eu não sei disso? Eu estava mesmo era me segurando para não contar mais um detalhe bem naquele ponto, sabe??? Que Benjy, que Deus o proteja, já descobriu um jeito de ganhar dinheiro fácil no French Quarter aqui na cidade, sabe?? Oferecendo só o que Deus lhe deu.

— Ai, meu Deus — exclamou Celia. Michael riu.

— Qual é a idade de Benjy? — perguntou.

— Vai fazer doze no mês de setembro — disse Mary Jane. — Ele é legal. O grande sonho dele é ser traficante em Nova York, e o meu grande sonho para ele é que ele vá para Tulane e se forme em medicina.

— Mas o que você quis dizer com atender os telefones? — perguntou Mona. — Quantos telefones você tem? Afinal o que é que você está fazendo naquele fim de mundo?

— Bem, precisei morrer num dinheiro para esses telefones, era uma necessidade absoluta. E ligo para meu corretor, é claro. Para quem mais iria ligar? E tem também a linha para vovó poder conversar com minha mãe no México, sabe, minha mãe nunca mais vai sair daquele hospital no México.

— Que hospital no México? — perguntou Beatrice, totalmente perplexa. — Mary Jane, há duas semanas você me contou como sua mãe morreu na Califórnia.

— Eu estava tentando ser gentil, sabe, poupar a todo mundo a dor e a preocupação.

— Mas, e o enterro? — perguntou Michael, com toda probabilidade chegando perto o suficiente para dar uma olhadinha pelo decote da apertada blusa de poliéster barato de Mary Jane. — A velhinha. Quem foi enterrado, afinal?

— Querido, essa é a pior parte. Ninguém nunca descobriu! — disse Mary Jane. — Não se preocupe com a minha mãe, tia Bea, ela acha que já está no plano astral. Talvez ela já esteja no plano astral, ao que eu saiba. Além do mais, os rins dela não valem mais nada.

— Ora, essa não é a verdade exata a respeito da mulher enterrada — disse Celia. — Acreditam...

— Acreditam? — perguntou Michael.

Talvez os seios grandes sejam um indício de poder, pensou Mona enquanto olhava a garota quase se dobrar de tanto rir apontando para Michael.

— Vejam, toda essa história da mulher enterrada no túmulo errado é muito triste — disse Beatrice. — Mas, Mary Jane, você tem de me dizer como entrar em contato com sua mãe.

— Ei, você não tem seis dedos — disse Mona.

— Agora não, queridinha — respondeu Mary Jane. — Minha mãe fez com que algum médico em Los Angeles o extirpasse. Era isso o que eu ia lhe contar. Fizeram a mesma operação em...

— Chega dessa conversa, por favor — disse Celia. — Estou tão preocupada com Rowan!

— Ai, eu não sabia — disse Mary Jane. — Quer dizer...

— Fizeram a mesma operação em quem? — perguntou Mona.

— Aí está uma outra coisa. Quando é que se usa "em quem" e "com quem"?

— Acho que você ainda não atingiu esse estágio — retrucou Mona. — Há um monte de outras coisas básicas...

— Basta, senhoras e senhores — determinou Beatrice. — Mary Jane, vou ligar para sua mãe.

— Você vai se arrepender tanto, tia Bea. Sabe que tipo de médico cortou meu sexto dedo em Los Angeles? Era um curandeiro, um macumbeiro do Haiti, e ele fez o que foi preciso na mesa da cozinha.

— Mas será que não podem desenterrar a mulher errada e descobrir de uma vez quem ela era? — perguntou Michael.

— Bem, eles têm uma suspeita bem forte, mas... — começou Célia.

— E qual é? — perguntou Michael.

— Ah, é alguma coisa relacionada a pagamentos de aposentadoria — esclareceu Beatrice. — E nada disso é da nossa conta. Michael, por favor, esqueça essa mulher morta.

Como Rowan conseguia ignorar tudo aquilo? E aqui estava ele, chamando Mary Jane pelo nome de batismo, só faltando comer Mary Jane com os olhos. Se isso não fosse suficiente para acordar Rowan, nem um ciclone seria.

— Pois bem, Michael Curry, descobri que vinham chamando a velha falecida de Dolly Jean algum tempo antes da morte. Será que ninguém naquele lugar tinha um mínimo de bom senso? É o que eu queria saber. Acho que numa noite qualquer eles simplesmente começaram a pôr vovó na cama errada, e sabe-se lá, a velhinha na cama de vovó morreu, e pronto. Enterraram alguma pobre desconhecida no jazigo da família Mayfair.

A essa altura, Mary Jane olhou de relance para Rowan.

— Ela está ouvindo! — exclamou Mary Jane. — Está sim, juro por Deus. Ela está prestando atenção.

Se fosse verdade, ninguém pôde ver ou perceber. Rowan permanecia indiferente aos olhares que se voltaram na sua direção. Michael enrubesceu como se tivesse sido atingido pelo arroubo de Mary Jane. E Celia examinou Rowan, com um ar duvidoso, severo.

— Não tem nada de errado com ela — declarou Mary Jane. — Ela vai sair dessa com a maior facilidade, vocês vão ver. Gente parecida com ela fala quando quer. Eu posso ficar assim.

Mona sentiu vontade de perguntar por que Mary Jane não começava naquele mesmo instante.

Mas na realidade, ela queria acreditar que Mary Jane tinha razão. Essa garota devia ser uma bruxa poderosa, afinal de contas, calculou Mona. E se não fosse, ainda conseguiria chegar lá, de um modo ou de outro.

— Não se preocupem nem um pouco com vovó — disse ela quando se preparava para sair. — Ela deu um sorriso, e um tapa na coxa bronzeada. — Vou lhes contar uma coisa: pode ser que tenha sido melhor assim.

— Deus do céu, como? — perguntou Bea.

— Bem, eles disseram, sabe, que em todos aqueles anos naquele asilo ela nunca falou grande coisa. Era como se só conversasse com seus botões e agisse como se tivesse gente por ali que não estava, e tudo o mais. E agora??? Ela sabe quem ela é, sabiam??? Ela conversa comigo e assiste às novelas, nunca perde seus programas favoritos. Acho que foi toda aquela comoção bem como tudo o mais, voltar para Fontevrault e encontrar tudo lá no sótão? Vocês sabiam que ela conseguiu subir a escadaria?? Ouçam, ela está bem, não se preocupem com ela. Vou comprar queijo e bolachas de graham para ela quando chegar em casa. E nós duas vamos assistir ao show de sábado à noite, ou ao canal de música country. Disso ela também gosta, sabe? Ela chega a acompanhar cantando essas músicas. Não se incomodem. Ela está fantástica.

— É, querida, mas no fundo...

Mona chegou mesmo a gostar da garota por uns cinco minutos, uma criança que conseguia cuidar de uma velha nessas condições, fazendo com que as coisas se ajeitassem com band-aids e fios desencapados.

Mona veio acompanhá-la até a frente e ficou olhando quando ela entrou com um salto na picape, que tinha molas aparecendo no banco do passageiro, e saiu num ronco forte em meio a uma nuvem de fumaça azul.

— Temos de tomar conta dela — declarou Bea. — Precisamos nos sentar e conversar sobre a situação de Mary Jane, logo, logo.

Certo, concordou Mona. A situação de Mary Jane era um bom rótulo para o caso.

E, embora essa garota não tivesse demonstrado nenhum poder notável naqueles momentos, nela havia um quê de emocionante.

Mary Jane era cheia de garra, e havia algo de irresistível na idéia de cumulá-la de vantagens e dinheiro da família Mayfair, na tentativa de aprimorá-la. Por que ela não poderia vir estudar com esse professor particular que ia liberar Mona para sempre da chateação da escola convencional? Beatrice mal conseguira se conter para comprar roupas para Mary Jane antes que ela deixasse a cidade e sem dúvida vinha mandando para a menina as mais requintadas roupas usadas uma única vez.

E havia mais um pequeno motivo secreto pelo qual Mona gostava de Mary Jane, um motivo que ninguém mais ia compreender. Mary Jane estava usando um chapéu de vaqueiro. Ele era pequeno e de palha, e ela o deixara cair nos ombros preso pelas alças, mas ele permaneceu no lugar uns dois minutos quando ela apareceu pela primeira vez. E ela voltou a ajeitá-lo no lugar antes de puxar com firmeza a alavanca de mudanças daquela velha picape, e ir embora, acenando para todos.

Um chapéu de vaqueiro. O sonho de Mona sempre havia sido o de usar um chapéu de vaqueiro, especialmente quando ficasse realmente rica e no comando das coisas, a voar pelo mundo no seu avião particular. Mona durante anos havia se imaginado como um magnata com chapéu de vaqueiro, a entrar em fábricas e bancos, e... bem, Mary Jane Mayfair tinha lá seu chapéu de vaqueiro. E com as tranças presas no alto da cabeça e a saia justa e lisa de brim, havia algo de coerente nela. Apesar de tudo, ela apresentava um estilo deliberado e bem-sucedido. Mesmo seu esmalte roxo lascado e descascado fazia parte do todo, conferindo-lhe uma espécie de simplicidade sedutora.

Bem, não seria difícil verificar tudo isso, não é?

— E aqueles olhos, Mona — dizia Beatrice enquanto elas voltavam para o jardim. — A menina é adorável! Você olhou para ela? Não sei como eu pude um dia... E a mãe, a mãe, aquela sempre foi louca. Ninguém deveria ter permitido que ela fugisse com o bebê. Mas havia tanto rancor entre nós e aqueles parentes de Fontevrault.

— Bea, você não vai poder cuidar de todos eles, da mesma forma que Gifford não conseguiu — disse Mona em tom tranqüilizador. Mas é claro que cuidariam. E se Celia e Beatrice não o fizessem, bem, Mona o faria. Essa havia sido uma das revelações mais penetrantes dessa tarde, a de que Mona agora fazia parte da equipe; a de que não ia deixar que aquela garota não realizasse seus sonhos, não enquanto seu corpinho de treze anos tivesse vida.

— Ela é um doce de criatura, ao seu próprio modo — admitiu Celia.

— É, e aquele band-aid no joelho — murmurou Michael, baixinho, sem pensar. — Que garota. Acredito no que ela disse sobre Rowan.

— Eu também — disse Beatrice. — Só...

— Só o quê? — perguntou Michael, em desespero.

— E se ela nunca mais resolver voltar a falar!

— Beatrice, que vergonha — disse Celia, lançando um olhar penetrante na direção de Michael.

— Você acha aquele band-aid sexy, Michael? — perguntou Mona.

— Bem, quer dizer, acho sim. Acho que tudo naquela garota era sexy. E que diferença isso faz? — Ele parecia perfeitamente sincero e francamente exausto. Queria voltar a estar a sós com Rowan. Ele estava sentado com ela, lendo um livro sozinho, quando elas todas chegaram juntas.

Por um período, depois dessa tarde, Mona poderia ter jurado que Rowan esteve diferente, que seus olhos se concentravam de quando em quando, e que às vezes estavam mais abertos, como se ela estivesse fazendo uma pergunta a si mesma. Talvez o grande jorro de palavras por parte de Mary Jane tivesse feito bem a Rowan. Talvez devessem convidar Mary Jane outra vez, ou quem sabe ela mesma não voltasse? Mona descobriu estar na realidade desejando que isso acontecesse, ou pode ser que pedisse ao novo motorista que ligasse a limusine monstruosa, enchesse os bolsos de couro com gelo e bebidas e seguisse lá para aquela casa inundada. Dava para se fazer isso quando se tinha o próprio carro. Ora, Mona ainda não estava acostumada a nada disso.

Há dois ou três dias Rowan parecia melhor, revelando aquele pequeno franzir de cenho cada vez mais, o que era, afinal de contas, uma expressão facial.

Mas agora? Nessa tarde ensolarada, pegajosa, solitária e tranqüila?

Mona achava que Rowan regredira. Nem mesmo o calor parecia atingi-la. Estava ali sentada naquele ar úmido, e as gotas de suor apareciam na sua testa, sem nenhuma Celia por perto para enxugá-las, mas Rowan não as enxugava sozinha.

— Por favor, Rowan, fale conosco — dizia Mona, agora, com sua voz franca, quase atrevida, de menina. — Não quero ser designada para o legado! Nem quero ser a herdeira se você não der sua aprovação! — Ela se apoiou no cotovelo, com os cabelos ruivos formando um véu entre seu rosto e os portões de ferro que davam para o jardim da frente. Tinha uma impressão de maior intimidade. — Vamos, Rowan. Você sabe o que Mary Jane Mayfair disse. Você está aí dentro. Vamos. Mary Jane disse que você está nos ouvindo.

Mona estendeu a mão para o alto para ajeitar a fita do cabelo, para que a cabeça parasse de coçar. Não havia fita nenhuma. Ela não usava o laço desde o dia em que a mãe morrera. Estava com uma pequena travessa enfeitada com pérolas, que apertava demais uma porção do cabelo. Droga. Ela abriu a travessa e deixou o cabelo solto.

— Olhe, Rowan, se você quiser que eu vá, dê um sinal. Você sabe. Basta que faça alguma coisa estranha. E eu saio daqui no mesmo instante.

Rowan estava olhando para o muro de tijolos. Olhava fixamente para a lantana, a cerca viva extremamente crescida com pequenas flores marrons e laranja. Ou talvez estivesse olhando para os tijolos.

Mona deu um suspiro, uma atitude petulante e mimada, realmente. Mas também ela já havia tentado de tudo menos um acesso de raiva. Talvez fosse isso o que alguém devesse fazer!

Só que não pode ser eu, pensou, entristecida.

Ela se levantou, foi até o muro, arrancou dois galhinhos da lantana e os trouxe de volta, depositando-os diante de Rowan como uma oferenda a uma deusa que fica sentada à sombra de um carvalho, ouvindo as preces das pessoas.

— Amo você, Rowan — disse ela. — Preciso de você.

Por um instante, seus olhos se turvaram. O verde causticante do jardim pareceu se mesclar num imenso véu. Sua cabeça latejava um pouco. Ela sentiu um aperto na garganta e depois um alívio que era pior do que chorar, algum reconhecimento vago e terrível de todas as coisas apavorantes que haviam acontecido.

Essa mulher estava ferida, talvez sem possibilidade de recuperação. E ela, Mona, era a herdeira que agora tinha condições de procriar e que deveria procurar dar à luz uma criança para que a imensa fortuna da família Mayfair pudesse ser transmitida. Essa mulher, o que ela faria agora? Ela não podia mais ser médica, isso era quase certo. Parecia não se importar com ninguém e com nada.

E de repente Mona se sentiu mais constrangida, mal-amada e rejeitada do que nunca se sentira em toda a sua vida. Ela deveria sair dali. Era uma vergonha que tivesse ficado tantos dias junto a essa mesa, implorando perdão por ter um dia desejado Michael; implorando perdão por ser jovem, rica e capaz de um dia ter filhos, por ter sobrevivido quando sua mãe Alicia, e sua tia Gifford, duas mulheres que ela amava, odiava e de quem precisava, haviam morrido.

Egocêntrica! E daí?

— Não foi a sério com Michael — disse ela, em voz alta a Rowan. — Não, não entre nessa de novo!

Nenhuma alteração. Os olhos cinzentos de Rowan estavam focalizados, não perdidos em devaneios. Suas mãos estavam no colo, unidas da forma mais natural. A aliança do casamento era tão fina e discreta que fazia com que suas mãos lembrassem as de uma freira.

Mona teve vontade de tentar segurar uma das suas mãos, mas não ousou. Uma coisa era falar meia hora seguida, mas ela não conseguia tocar em Rowan. Não conseguia forçar um contato físico. Não tinha coragem nem de erguer a mão de Rowan e pôr nela o galhinho de lantana. Isso era algo íntimo demais para fazer com ela nesse silêncio.

— Bem, eu não toco em você, sabe? Não pego na sua mão, nem a apalpo ou tento descobrir alguma coisa a partir dela. Eu não toco em você nem lhe dou um beijo porque, se eu estivesse desse jeito, acho que detestaria que alguma pirralha ruiva e sardenta chegasse e fizesse isso comigo.

Cabelos ruivos, sardas, o que isso tinha a ver com aquilo tudo, a não ser a função de dizer, É, eu dormi mesmo com o seu marido, mas você é a misteriosa, a poderosa, a mulher, aquela que ele ama e sempre amou. Eu não fui nada. Fui só uma criança que o atraiu para a cama. E naquela noite nem fui tão cuidadosa quanto deveria ter sido. Na realidade, não tive o menor cuidado. Mas não se preocupe, nunca fui o que as pessoas poderiam chamar de regular. Ele olhou para mim do mesmo jeito que olhou para aquela outra garota, Mary Jane. Desejo, só isso. Desejo e nada mais. E minha menstruação acabará por vir, como sempre vem, e meu médico vai me passar mais um sermão.

Mona juntou os pequenos raminhos de lantana ali em cima da mesa, perto da xícara de porcelana e se afastou.

Pela primeira vez, quando olhou para as nuvens passando acima das chaminés da casa principal, ela percebeu que o dia estava lindo.

Michael estava na cozinha, fazendo os sucos ou "preparando a mistura", como todos vieram a chamá-la: suco de mamão, coco, grapefruit, laranja. Havia uma grande quantidade de papa e polpa indefinível por todos os lados.

Ocorreu a Mona, embora ela procurasse não ter consciência disso, que ele estava mais saudável e bonito a cada dia que passava. Ele estivera fazendo ginástica lá em cima. Os médicos o incentivavam. Ele devia ter ganho para mais de sete quilos desde que Rowan acordara e saíra da cama.

— Ela gosta disso, sim — dizia ele agora, como se estivessem discutindo a vitamina todo esse tempo. — Sei que gosta. Bea disse alguma coisa no sentido de que o sabor é ácido demais. Não temos nenhum indício de que ela ache ácido demais. — Ele deu de ombros. — Eu não sei.

— Acho — disse Mona — que ela parou de falar por minha causa.

Mona o estava encarando, e então vieram as lágrimas, aquosas e assustadoras. Ela não queria se entregar. Não queria fazer esse tipo de exigência ou de revelação. Mas estava aflita. Afinal o que podia querer de Rowan? Mal conhecia Rowan. Era como se precisasse receber atenções maternas da herdeira do legado que havia perdido a capacidade de dar continuidade à linhagem.

— Não, querida — disse ele, com o mais delicado, mais tranqüilizador dos sorrisos.

— Michael, é porque eu falei com ela a nosso respeito. Não era o que eu pretendia. Foi na manhã do primeiro dia em que falei com ela. Todo esse tempo, tive medo de contar para você. Eu achava que ela estava só quieta. Eu não... eu não... Ela nunca mais falou depois disso, Michael. É verdade, não é? Foi depois que eu cheguei.

— Minha criança, não se torture — disse ele, limpando um pouco do grude do balcão. Ele estava paciente, reconfortante, mas cansado demais para tudo isso, e Mona sentiu vergonha. — Ela parou de falar no dia anterior, Mona. Eu já lhe disse isso. Preste atenção. — Ele deu mais um sorrisinho, zombando de si mesmo. — Eu só não percebi na hora, que ela havia parado de falar. — Ele mexeu o suco mais uma vez. — Bem, agora vem a grande decisão. Com ovo ou sem ovo.

— Ovo! Não se pode pôr ovo num suco de frutas.

— Claro que se pode. Querida, você nunca morou no norte da Califórnia, certo? Essa é uma especialidade de primeira da alimentação natural. E ela precisa da proteína. Mas o ovo cru pode transmitir a salmonela. É o velho problema. A família está dividida ao meio quanto ao assunto do ovo cru. Eu deveria ter perguntado a opinião de Mary Jane no domingo.

— Mary Jane! — Mona abanou a cabeça. — A família que vá para o inferno.

— Disso eu não sei nada — respondeu Michael. — Beatrice acha que os ovos crus são perigosos, e ela tem sua razão. Por outro lado, quando eu estava estudando e jogando futebol, eu costumava jogar um ovo no milkshake todos os dias de manhã. Já Celia diz...

— Deus me livre — disse Mona, imitando Celia com perfeição. — O que a tia Celia sabe de ovos crus?

Ela estava tão cheia de ouvir a família discutir as ínfimas preferências e aversões de Rowan, o exame de sangue de Rowan, a cor da pele de Rowan que, se acabasse se descobrindo envolvida em mais uma conversa cansativa, fútil e sem sentido, começaria a berrar para poder sair dela.

Talvez fosse o caso de ela ter sido muito bombardeada, desde o dia em que lhe disseram que ela era a herdeira: gente demais dando conselhos, ou perguntando por ela como se ela é que estivesse inválida. Ela escrevia manchetes cômicas no computador:

GAROTA NOCAUTEADA POR UM MONTE DE DINHEIRO. Ou então, CRIANÇA DESAMPARADA HERDA BILHÕES, ATORMENTANDO ADVOGADOS.

Nããão, hoje em dia ninguém se "atormentaria" numa manchete. Mas ela gostava do termo.

Mona estava se sentindo tão péssima que de repente, ali parada na cozinha, as lágrimas começaram a transbordar dos seus olhos, como transbordariam dos de um bebê, e seus ombros começaram a tremer.

— Olhe, meu amor, ela parou de falar no dia anterior, eu já lhe disse.

Posso lhe dizer as últimas palavras ditas por ela. Estávamos sentados aqui mesmo, à mesa da cozinha. Ela estava bebendo café. Disse que estava morrendo de vontade de beber uma xícara de café de Nova Orleans. E eu lhe preparei um bule inteiro. Já se passavam cerca de vinte e duas horas desde o momento em que ela acordara, e ela não havia dormido mais. Talvez tenha sido esse o problema. Nós não parávamos de conversar. Ela precisava descansar e disse, "Michael, quero ir lá fora. Não, Michael, não saia daqui. Quero ficar sozinha um pouco".

— Você tem certeza de que isso foi a última coisa que ela disse?

— Absoluta. Tive vontade de ligar para todo mundo, avisar que ela estava bem. Pode ser que eu a tenha assustado! Fui eu, com essa minha sugestão. E depois disso, eu só a levava de um lado para o outro e ela não dizia nada. E é assim que tem sido desde aquela hora.

Ele apanhou o que parecia ser um ovo cru. Quebrou-o de repente na beira do liquidificador de plástico e abriu as duas metades da casca para deixar cair a gema e a clara viscosa.

— Acho que você não a magoou de modo algum, Mona. Realmente, duvido que a tenha magoado. Preferia que você não lhe houvesse contado. Se você quer saber, eu me sentiria melhor sem você lhe contar que eu cometi estupro no sofá da sala de estar com sua prima menor de idade. — Ele deu de ombros. — As mulheres agem assim, sabia? Depois elas contam. — Ele lhe lançou um belo olhar de reprovação, com o sol refletindo nos seus olhos. — Nós não podemos contar, mas elas podem. A questão é que eu duvido que ela tenha chegado a ouvir você. Acho que... ela não liga a mínima. — Sua voz foi sumindo.

O copo estava espumante e com uma apresentação ligeiramente repulsiva.

— Perdoe-me, Michael.

— Querida, não...

— Não, estou querendo dizer que estou bem. Ela não está bem, mas eu estou. Você quer que eu leve esse troço para ela? Está espesso, Michael. Estou dizendo que está grosso demais. Deve estar totalmente repugnante!

Mona olhou para a espuma, de uma cor absurda.

— Tenho de bater no liquidificador. — Ele pôs a tampa quadrada de borracha no copo e apertou o botão. Veio, então, o som horrendo das lâminas a girar enquanto o líquido pulava ali dentro.

Talvez fosse melhor se não se soubesse da inclusão do ovo.

— Bem, desta vez pus muito suco de brócolis.

— Meu Deus, não é de admirar que ela não queira tomar uma coisa dessas. Suco de brócolis! Você está querendo matá-la?

— Ora, ela vai beber. Sempre bebe. Ela bebe qualquer coisa que eu ponha diante dela. Estou só pensando no que eu pus aí dentro. Agora ouça o que vou dizer. Se ela não estava escutando quando você fez sua confissão, não tenho certeza se foi uma surpresa. Todo o tempo em que esteve em coma, ela estava ouvindo. Ela me disse. Ouvia coisas que as pessoas diziam quando eu não estava por perto. É claro que ninguém sabia de mim, de você e da nossa pequena atividade criminosa, sabe?

— Michael, pelo amor de Deus, se existe um crime de estupro de menores neste estado, você teria de contratar um advogado para pesquisá-lo, sem a menor dúvida. É provável que a maioridade entre primos fique nos dez anos, e talvez até exista uma lei especial baixando essa idade para oito no caso da família Mayfair.

— Não tente se enganar, querida — disse ele, abanando a cabeça em óbvio sinal de censura. — Mas o que eu estava dizendo é que ela ouviu as coisas que dissemos um ao outro quando estávamos sentados junto à cama. Estamos falando de bruxas, Mona. — Ele se ensimesmou, com o olhar perdido, quase taciturno, extremamente belo, musculoso e sensível.

— Sabe, Mona, não foi nada que ninguém disse. — Ele ergueu os olhos para ela. Estava triste agora, de uma tristeza muito real, do jeito que surge quando um homem da sua idade se entristece, e Mona se descobriu um pouco assustada. — Mona, foi algo que lhe aconteceu. Talvez... tenha sido a última coisa que aconteceu.

Mona concordou. Ela procurou visualizar a cena mais uma vez, da forma que ele havia relatado tão sucintamente. A arma, o tiro, o corpo que caiu. O terrível segredo do leite.

— Você não contou a ninguém, contou? — disse ele, sério, num sussurro. Deus que a ajudasse se ela tivesse contado, pensou Mona. Ela teria morrido naquele instante, pelo jeito que ele estava olhando para ela.

— Não, e não vou contar nunca — disse ela. — Sei quando falar e quando não falar, mas...

— Ela não quis que eu tocasse no corpo — disse ele, abanando a cabeça. — Insistiu em trazê-lo cá para baixo sozinha, e ela própria mal conseguia andar. Enquanto eu viver, não vou nunca tirar essa imagem da minha cabeça, jamais. Todo o resto, eu não sei. Posso superar, mas alguma coisa no fato de a mãe arrastar o corpo da filha...

— Você achou que era isso, que era a filha dela?

Ele não respondeu. Só continuou com o olhar perdido, e aos poucos a mágoa e o tormento foram abandonando seu rosto. Ele mordeu o lábio um instante e depois quase sorriu.

— Nunca conte essa parte a ninguém — murmurou ele. — Nunca, nunca, nunca. Ninguém precisa saber. Mas um dia, quem sabe, ela pode querer falar nisso. Talvez tenha sido isso, mais do que qualquer outra coisa, o que fez com que ela silenciasse.

— Não precisa nunca se preocupar com a possibilidade de eu falar, Michael. Eu não sou criança.

— Eu sei, querida, acredite em mim, eu sei — disse ele, com uma ínfima centelha de bom humor.

E em seguida, eleja estava perdido de novo, esquecido de Mona, deles dois e do enorme copo de líquido espesso, com os olhos no vazio. Por um segundo pareceu-lhe estar desistindo de toda esperança, como se estivesse em desespero total, fora do alcance de qualquer um, talvez até mesmo de Rowan.

— Michael, pelo amor de Deus, ela vai ficar boa. Se for isso, ela vai melhorar.

Ele não respondeu de imediato, mas depois como que sussurrou as palavras.

— Ela fica sentada naquele lugar, não em cima da cova, mas exatamente ao lado — disse ele. Sua voz estava embargada.

Ele ia chorar, e Mona não seria capaz de suportar. Ela quis do fundo do coração ir até ele e abraçá-lo. Mas teria feito isso por si mesma, não por ele.

Percebeu de repente que ele estava sorrindo, para tranqüilizá-la, é claro, e que agora dava de ombros, com um ar sereno.

— A sua vida vai ser repleta de coisas boas, pois os demônios foram mortos, e você herdará o Éden. — Seu sorriso cresceu, demonstrando uma bondade genuína. — E ela e eu levaremos para o túmulo a culpa pelo que fizemos, pelo que não fizemos, pelo que tínhamos de fazer ou deixamos de fazer um pelo outro.

Ele suspirou e se debruçou sobre os braços cruzados em cima do tampo do armário. Voltou os olhos para o sol, para o pátio cheio de movimentos suaves, cheio de folhas verdes e farfalhantes, cheio da primavera.

A crise parecia ter chegado a um fim natural.

E ele agora voltava ao seu antigo eu, calmo porém invicto.

Afinal, ficou em pé, ereto, apanhou o copo e o limpou com um velho guardanapo de pano.

— Ah, aí está uma coisa boa de se ser rico.

— O quê?

— Ter guardanapos de linho, sempre que se queira. E lenços de linho. Celia e Bea sempre estão com lenços de linho. Meu pai se recusava a usar lenços de papel. Huumm. Eu não pensava nisso há muito tempo.

Ele piscou o olho para ela. Ela não pôde deixar de sorrir. Que pateta. Mas quem mais podia sair ileso de uma piscada como aquela para ela? Ninguém.

— Você não teve notícias de Yuri, teve? — perguntou ele.

— Eu lhe teria contado — disse ela, em tom lúgubre, desanimada. Era uma agonia ouvir o nome de Yuri.

— Você contou a Aaron que não teve notícias dele?

— Umas cem vezes, e três hoje de manhã. Aaron também não teve nenhuma notícia. E está preocupado. Mas não vai voltar para a Europa, não importa o que aconteça. Vai viver o resto dos seus dias aqui conosco. Ele disse para eu me lembrar de que Yuri tem uma inteligência incrível, como todos os investigadores da Talamasca.

— Você acredita mesmo que alguma coisa aconteceu?

— Não sei — disse ela, desanimada. — Talvez ele tenha simplesmente se esquecido de mim. — Era uma possibilidade horrível demais para ser cogitada. Não poderia ter sido assim. Mas era preciso encarar as coisas de frente, não era? E Yuri era um homem viajado.

Michael olhou para a vitamina. Talvez ele tivesse juízo suficiente para ver que aquilo era absolutamente impossível de se beber. Em vez disso, ele apanhou uma colher e começou a mexer a mistura.

— Sabe, Michael, essa vitamina bem podia forçá-la a sair do transe, só com o choque. Quer dizer, quando ela a estiver tomando, exatamente nesse instante, quando metade do conteúdo do copo estiver deslizando pela garganta abaixo, basta lhe dizer com clareza quais foram os ingredientes.

Ele abafou um risinho, um fabuloso som do fundo do peito. Apanhou a jarra da mistura e encheu com ela um copo exageradamente grande.

— Vamos, venha cá fora comigo. Venha vê-la.

Mona hesitou.

— Michael, não quero que ela nos veja juntos, sabe, lado a lado.

— Use um pouco da sua feitiçaria, querida. Ela sabe que eu sou seu escravo até o dia em que eu morrer.

Sua expressão mudou novamente, muito devagar. Ele a olhava com calma, quase com frieza. E mais uma vez abateu-se sobre Mona uma sensação de como Michael estava consternado.

— É, consternado — disse ele, e havia algo de quase cruel no seu sorriso. Ele não disse mais nada. Apanhou o copo e saiu pela porta.

— Vamos conversar com aquela senhora — disse ele para trás. — Vamos ler juntos seus pensamentos. Você sabe, duas cabeças e tudo o mais. Talvez nós devêssemos fazer sexo de novo, Mona, na grama, sabe? Você e eu, e talvez ela acordasse.

Mona ficou escandalizada. Ele estava falando sério? Não, não era essa a questão. A questão era saber como ele pôde dizer uma coisa dessas.

Ela não lhe respondeu, mas sabia o que ele estava sentindo. Ou pelo menos imaginava saber. Em algum nível, ela sabia que não tinha realmente condições de saber, que as coisas afetavam um homem da sua idade de modo diferente do que apareciam para uma menina. Ela sabia isso, apesar de tanta gente já lhe haver dito algo mais ou menos semelhante. Era uma questão não de humildade, mas de lógica.

Ela o acompanhou pelas lajes, ao longo da piscina e depois passando pelos portões dos fundos. Seus jeans estavam tão justos que ela mal conseguia suportar. Seu caminhar natural era arrogante e atraente. Isso é bom. Fique com esses pensamentos excitantes! De jeito nenhum! E sua camisa esporte também não era exatamente larga. Mona adorava o jeito com que ela se movimentava sobre os ombros e as costas.

Não dá para parar. Ela preferia que ele não tivesse feito aquela piadinha amarga. Fazer sexo na grama! Uma terrível inquietação a dominava. Os homens sempre se queixavam de como a visão de mulheres sensuais os excitava. Bem, com ela, eram tanto as palavras quanto as imagens. Aqueles jeans apertados, e as imagens nítidas que invadiram sua mente depois do que ele dissera.

Rowan estava sentada à mesa, como estava quando Mona a deixou. A lantana ainda estava ali, com os raminhos um pouco espalhados, como se o vento houvesse mexido neles com um dedo para depois deixá-los em paz.

Rowan estava ligeiramente carrancuda, como se estivesse avaliando alguma coisa mentalmente. Agora, esse era sempre um bom sinal, pensou Mona, mas ela estaria incensando as esperanças de Michael se tocasse no assunto. Rowan parecia não perceber que eles estavam ali. Ainda olhava para as flores distantes junto ao muro.

Michael inclinou-se para lhe dar um beijo no rosto. Ele pôs o copo na mesa. Não houve nenhuma mudança em Rowan, a não ser pela brisa que soprou alguns fios do seu cabelo. Ele então estendeu a mão, ergueu a mão direita de Rowan e pôs seus dedos em volta do copo.

— Beba, querida — disse ele. Usou o mesmo tom que havia usado com Mona, brusco e afetuoso. Querida, querida, querida significa Mona, Rowan ou Mary Jane; ou talvez qualquer ser feminino.

Será que "querida" teria sido adequado para a criatura morta, enterrada na cova com o pai? Meu Deus, ai se ela pudesse ter posto os olhos neles por um segundo que fosse! É, e todas as mulheres da família Mayfair que o haviam visto durante suas incursões curtas e violentas pagaram com a vida. À exceção de Rowan...

Uau! Rowan estava erguendo o copo. Mona ficou olhando, fascinada e temerosa, enquanto ela bebia sem tirar os olhos jamais das flores distantes. Ela piscava devagar e com naturalidade enquanto engolia, mas só isso. E o cenho continuava franzido. Discreto. Pensativo.

Michael a observava, parado, com as mãos nos bolsos, e então fez algo surpreendente. Falou sobre Rowan com Mona, como se Rowan não pudesse ouvir. Essa foi a primeira vez.

— Quando o médico falou com ela, quando ele lhe disse que ela devia fazer uns exames, ela simplesmente se levantou e foi embora. Era como uma pessoa num banco de parque numa cidade grande. Dava para se imaginar que alguém viera se sentar ao seu lado, talvez com um excesso de proximidade. Era esse o tipo de isolamento dela, totalmente só.

Ele apanhou o copo. Estava mais repugnante do que nunca. Mas, para dizer a verdade, Rowan dava a impressão de que beberia qualquer coisa que ele pusesse na sua mão.

Não houve absolutamente nenhum registro no seu rosto.

— É claro que eu poderia levá-la até o hospital para os exames. Ela poderia concordar. Ela fez tudo o mais que eu quis que fizesse.

— Por que não a leva então? — perguntou Mona.

— Porque, quando ela se levanta de manhã, ela veste a camisola e o robe. Eu preparo roupas de verdade para ela. Ela não toca nas roupas. Essa é a minha pista. Ela quer estar de camisola e robe. Quer ficar em casa.

De repente, ele ficou irritado. Seu rosto corou, e seus lábios se torceram de um jeito franco que não escondia nada.

— Os exames também não vão ajudá-la, seja como for — prosseguiu ele. — Todas essas vitaminas, é esse o tratamento. Os exames só nos diriam detalhes. Talvez agora isso não seja da nossa conta. A vitamina é o que a ajuda.

Sua voz estava ficando embargada. Ele estava cada vez mais irritado enquanto olhava para Rowan. Parou de falar.

Curvou-se de repente e pôs o copo na mesa, espalmando as mãos de cada lado. Estava procurando encarar Rowan nos olhos. Aproximou-se do seu rosto, mas não houve nenhuma mudança nela.

— Rowan, por favor — sussurrou ele. — Volte!

— Michael, não faça isso!

— Por que não, Mona? Rowan, estou precisando de você agora. Eu preciso de você! — Ele bateu forte na mesa com as duas mãos. Rowan encolheu-se mas não apresentou nenhuma outra alteração. — Rowan! —gritou ele. Estendeu as mãos para ela como se fosse segurá-la pelos ombros e sacudi-la, mas não fez nada.

Ele apanhou o copo com brutalidade, virou-se e foi embora.

Mona estava paralisada, à espera, escandalizada demais para falar. Mas aquilo era como tudo o que ele fazia. Havia sido de bom coração. Havia sido grosseiro, porém, e meio terrível de se ver.

Mona não se afastou por enquanto. Lentamente ela se sentou na cadeira do outro lado da mesa, em frente a Rowan, o mesmo lugar que ocupava todos os dias.

Muito devagar, Mona foi se acalmando. Não tinha certeza dos motivos pelos quais permanecia ali, a não ser por lhe parecer uma atitude leal. Talvez ela não quisesse dar a impressão de ser aliada de Michael. Nesses últimos dias, a culpa pairava sobre ela o tempo todo.

Rowan estava linda, se se parasse de pensar no fato de ela não estar falando. Seu cabelo estava crescendo, quase lhe chegando aos ombros. Linda e ausente. Perdida.

— Bem, você sabe? É provável que eu continue vindo aqui até você me dar algum sinal. Sei que isso não me absolve ou torna aceitável que eu seja o tormento de uma pessoa emudecida, em estado de choque. Mas, quando alguém fica em silêncio dessa maneira, os outros são forçados a agir, a fazer opções, a decidir. Quer dizer, as pessoas não podem simplesmente deixá-la sozinha. Não é possível. No fundo, não é gentil.

Ela esvaziou os pulmões e se sentiu perfeitamente relaxada.

— Sou nova demais para saber certas coisas. Quer dizer, não vou ficar aqui sentada e lhe dizer que compreendo o que aconteceu com você. Isso seria muito idiota. — Ela olhou para Rowan. Os olhos de Rowan pareciam verdes, agora, como se captassem o tom do viçoso gramado de primavera.

— Mas eu... bem... eu me importo com o que está acontecendo com todo mundo, quer dizer, quase todo mundo. Eu sei coisas. Sei mais do que qualquer um à exceção de Michael e Aaron. Você se lembra de Aaron?

Essa foi uma pergunta boba. É claro que Rowan se lembrava de Aaron, se é que ela se lembrava de alguma coisa.

— Bem, o que eu pretendia dizer era sobre esse cara, o Yuri. Já lhe falei nele. Acho que você nunca o viu. Na verdade, tenho certeza de que não viu mesmo. Bem, ele sumiu, sumiu completamente, no pé em que as coisas andam, e eu estou preocupada. Aaron, também, está preocupado. É como se tudo estivesse paralisado agora, com você aqui sentada no jardim desse jeito, e a verdade é que as coisas nunca chegam a parar...

Ela se interrompeu. Essa abordagem era pior do que a outra. Não havia meios de se saber se essa mulher estava sofrendo. Mona suspirou, procurando calar-se sobre esse assunto. Descansou os cotovelos na mesa. Começou a erguer os olhos bem devagar. Poderia ter jurado que Rowan estivera olhando para ela e que só agora acabava de desviar o olhar.

— Rowan, a história não acabou — sussurrou novamente. E então afastou o olhar, através dos portões de ferro, para além da piscina, até o meio do gramado da frente. A extremosa estava começando a florir. Ela não passava de gravetos quando Yuri foi embora.

Ele e ela ficaram parados por ali, cochichando um com o outro e ele lhe dissera que, não importava o que acontecesse na Europa, ele voltaria ali para ela.

Rowan estava mesmo olhando para ela. Rowan a estava encarando nos olhos.

Ela ficou perplexa demais para poder falar ou se mexer. E estava com pavor de fazer qualquer coisa, com pavor de que Rowan desviasse o olhar. Ela queria acreditar que isso era bom, que isso era uma confirmação e uma redenção. Ela havia captado a atenção de Rowan, mesmo que tivesse sido uma pirralha incorrigível.

Aos poucos, a expressão preocupada de Rowan começou a se desvanecer enquanto Mona olhava para ela. E o rosto de Rowan ficou eloqüente e de urna tristeza inconfundível.

— O que houve, Rowan? — murmurou Mona.

Rowan emitiu um barulhinho, como se estivesse pigarreando.

— Não é Yuri — sussurrou Rowan. E então seu cenho se cerrou, seus olhos se anuviaram, mas ela não voltou à atitude distante.

— O que foi, Rowan? — perguntou Mona. — Rowan, o que você disse sobre Yuri?

A impressão exata era a de que Rowan imaginava ainda estar falando com Mona e não sabia que não estava emitindo palavra alguma.

— Rowan — Mona sussurrou. — Fale comigo. Rowan... — Mona parou de falar. De repente, não teve coragem de abrir o coração.

Os olhos de Rowan estavam fixos nela. Rowan ergueu a mão direita e passou os dedos pelos cabelos de um louro acinzentado claro. Uma atitude natural, normal, mas os olhos não estavam normais. Eles estavam em meio a algum esforço violento...

Um ruído distraiu a atenção de Mona: homens falando, Michael e mais alguém. E depois o som súbito e alarmante de uma mulher chorando ou rindo. Por um segundo, Mona não pôde discernir qual das duas opções.

Ela se voltou e olhou espantada pelos portões, para o outro lado da piscina ofuscante. Sua tia Beatrice vinha na sua direção, quase correndo ao longo da borda de lajes da piscina, com uma das mãos na boca e a outra estendida para a frente como se ela estivesse a ponto de cair com o rosto no chão. Era ela quem estava chorando, e era decididamente um choro. O cabelo de Bea estava se soltando do seu coque invariavelmente perfeito na nuca. O vestido de seda estava molhado e manchado.

Michael e um homem num ameaçador traje escuro à paisana a acompanhavam rapidamente, falando enquanto andavam.

Fortes soluços vinham de Beatrice. Os saltos dos seus sapatos afundaram na grama macia, mas ela prosseguia.

— Bea, o que houve? — disse Mona, pondo-se de pé. Rowan fez o mesmo. Rowan olhava espantada para a figura que se aproximava. E enquanto Beatrice atravessava rapidamente o gramado, torcendo o tornozelo e se endireitando de imediato, era para Rowan que ela estendia os braços.

— Eles conseguiram, Rowan — disse Bea, ofegante. — Eles o mataram. O carro subiu pelo meio-fio. Eles o mataram. Eu vi com meus próprios olhos!

Mona procurou apoiar Beatrice, e de repente sua tia a abraçava com o braço esquerdo e quase a esmagava com beijos, enquanto a outra mão ainda tateava em busca de Rowan, que se apressou a segurá-la, apertando-a com as duas mãos.

— Bea, quem eles mataram, quem? — gritou Mona. — Você não está falando de Aaron?

— Estou — respondeu Bea, anuindo nervosa, com a cabeça. A voz, agora rouca e quase inaudível. Ela continuou com o mesmo movimento da cabeça quando Rowan e Mona a cercaram. — Aaron. Eles o mataram. Eu vi. O carro subiu pelo meio-fio na St. Charles Avenue. Eu lhe disse que o traria aqui de carro. Mas ele recusou. Queria vir a pé. O carro o atingiu de propósito. Eu vi. Passou três vezes por cima dele!

Quando também Michael a abraçou, Bea perdeu o equilíbrio como se fosse desmaiar, e se deixou cair ao chão. Michael levantou-a e a segurou. E ela, chorando, afundou o rosto no seu peito. Os cabelos de Bea caíam nos seus olhos, e suas mãos ainda tateavam, trêmulas, como pássaros que não podem pousar.

O homem nos trajes ameaçadores era um policial. Mona viu o revólver e o coldre de ombro. Um americano de origem chinesa, com uma expressão terna e emocionada.

— Lamento muito — disse ele, com um nítido sotaque de Nova Orleans. Mona jamais ouvira um sotaque daqueles num rosto tão chinês.

— Eles o mataram? — perguntou Mona, num sussurro, olhando do policial para Michael, que agora acalmava Bea lentamente com beijos e com a mão delicada a afagar seu cabelo. Em toda a sua vida, Mona jamais vira Bea chorar daquele jeito, e por um instante dois pensamentos entraram em conflito no seu íntimo: Yuri já devia estar morto; e Aaron havia sido assassinado, o que significava que talvez todos eles estivessem correndo perigo. E isso era terrível, indescritivelmente terrível, acima de tudo para Bea.

Rowan falou calmamente com o policial, embora sua voz estivesse rouca e parecesse fraca em meio à confusão, ao alvoroço das emoções.

— Quero ver o corpo — disse Rowan. — Pode me levar até ele? Sou médica. Preciso vê-lo. Só demoro um instante para me vestir.

Havia tempo para que Michael ficasse perplexo? Para que Mona ficasse de queixo caído? Ah, mas fazia sentido, não fazia? Aquela horrorosa da Mary Jane dissera que ela estava escutando, que falaria quando estivesse pronta.

E graças a Deus ela não havia permanecido imóvel, sentada, muda, num momento como esse! Graças a Deus ela não pôde ou não precisou disso, e agora estava com eles.

Não importava o quanto ela parecesse frágil, e o quanto sua voz estivesse rouca e pouco natural. Seus olhos estavam claros quando ela olhou para Mona, ignorando a resposta solícita do policial de que talvez fosse melhor ela não ver o corpo, tendo o acidente sido o que foi.

— Bea precisa de Michael — disse Rowan. Ela estendeu a mão e segurou o pulso de Mona. Sua mão estava fria e firme. — Eu preciso de você agora. Quer vir comigo?

— Quero — disse Mona. — Quero, sim.

 

ELE PROMETERA AO HOMENZINHO que entraria no hotel instantes depois.

— Você entra comigo — dissera Samuel — e todos irão vê-lo. Agora, não tire os óculos escuros.

Yuri concordara. Ele não se importava de ficar sentado no carro por enquanto, observando as pessoas que passavam pelas elegantes portas da frente do Claridge's. Nada lhe parecia tão reconfortante, desde que deixara o vale de Donnelaith, quanto a cidade de Londres.

Mesmo a longa viagem na direção sul, com Samuel, atravessando o túnel da noite escura em rodovias que poderiam ser de qualquer parte do mundo, o deixara perturbado.

Quanto ao vale, ele estava nítido na sua lembrança e perfeitamente horripilante. O que o fizera pensar que era prudente ir até lá sozinho, procurar nas próprias raízes algum conhecimento sobre os Pequenos e os Taltos? É claro que ele havia encontrado exatamente o que procurava. E, ao mesmo tempo, recebido uma bala de calibre 38 no ombro.

A bala havia sido um choque aterrador. Ele nunca havia sido ferido dessa forma antes. Mas a revelação verdadeiramente perturbadora haviam sido os Pequenos.

Confortavelmente sentado no assento traseiro do Rolls-Royce, ele mais uma vez teve uma lembrança sofrida daquela visão: a noite com suas nuvens pesadas e velozes e sua lua obsessiva, o caminho da montanha totalmente coberto de mato, e o som sinistro dos tambores e das trompas subindo pelos penhascos.

Só quando ele viu os Pequenos no círculo, percebeu que estavam cantando. Só então ele ouviu seus cânticos de barítono, com palavras totalmente irreconhecíveis para ele.

Ele não tinha certeza de acreditar neles até aquele momento...

Eles davam voltas em círculo, deformados, corcundas, erguendo seus joelhos curtos, balançando de um lado para o outro, irrompendo ritmadamente em cantoria, alguns bebendo em canecas, outros em garrafas. Usavam cartucheiras nos ombros. Atiravam com suas pistolas para a grande noite cheia de ventos com a hilaridade tumultuosa dos selvagens. As armas não provocavam estrondo. Elas se detonavam em explosões contidas, como bombinhas. Piores, muito piores, eram os tambores, a terrível batida dos tambores, e as raras gaitas que guinchavam e lutavam com sua triste melodia.

Quando a bala o atingiu, ele achou que ela viera de um deles: talvez de uma sentinela. Estava errado.

Passaram-se três semanas antes que ele saísse do vale.

Agora, o Claridge's. Agora a chance de telefonar para Nova Orleans, de falar com Aaron, de falar com Mona, de explicar por que ficara em silêncio tanto tempo.

Quanto ao risco de Londres, quanto à proximidade da casa-matriz da Talamasca e daqueles que estavam tentando matá-lo, ele se sentia infinitamente mais seguro aqui do que se sentia no vale apenas momentos antes de ser derrubado de rosto no chão pela bala.

Hora de subir. De conhecer esse misterioso amigo de Samuel, que já havia chegado e que não havia sido descrito ou explicado a Yuri. Hora de fazer o que o homenzinho queria porque o homenzinho salvara a vida de Yuri, tratara dele até que recuperasse a saúde e queria que ele conhecesse esse amigo, que tinha, em todo esse drama, algum significado importantíssimo.

Yuri saltou do carro, com o simpático porteiro inglês vindo imediatamente ajudá-lo.

Seu ombro doeu. Uma dor aguda. Quando ele ia aprender a não usar o braço direito! Era de enlouquecer!

O ar frio agrediu-o com violência, porém momentânea. Ele entrou direto no saguão do hotel, tão amplo, tão agradavelmente aquecido. Subiu pela grande escada em curva à sua direita.

Os acordes suaves de um quarteto de cordas vinham do bar próximo. O ar estava parado em toda a sua volta. O hotel o tranqüilizava e fazia com que se sentisse seguro. Também fazia com que se sentisse feliz.

Incrível que todos esses ingleses bem-educados, o porteiro, os carregadores, o senhor simpático que vinha descendo pela mesma escada, não demonstrassem de forma visível notar seu suéter sujo ou suas calças pretas imundas. Eram educados demais, pensou.

Seguiu pelo segundo andar até chegar à porta da suíte de canto, que o homenzinho descrevera para ele, e, ao encontrar a porta aberta, entrou num hall pequeno e acolhedor, muito parecido com o de uma casa elegante, que dava para um salão maior, antiquado porém luxuoso, como o homenzinho dissera que seria.

O homenzinho estava de joelhos, empilhando lenha na lareira. Ele havia tirado o paletó de tweed, e a camisa branca estava extremamente esticada sobre sua corcunda e seus braços atrofiados.

— Pronto, pronto, entre, Yuri — disse ele, sem sequer erguer os olhos.

Yuri chegou ao portal. O outro homem estava lá.

E esse homem tinha uma aparência tão estranha quanto a do homenzinho, só que em termos totalmente diferentes. Ele era exageradamente alto, embora sua altura não fosse impossível. Tinha a pele branca e pálida, e o cabelo escuro, com uma apresentação bastante natural. Os cabelos eram longos, soltos e destoavam do belo terno de lã preta, do reflexo opaco da caríssima camisa branca que usava e da sua gravata vermelho-escura. Sua aparência era decididamente romântica. Mas o que isso significava? Yuri não tinha certeza. No entanto, era essa a palavra que lhe ocorria. O homem não parecia ser decididamente atlético. Não era um daqueles gigantes nervosos dos esportes que dão o melhor de si nas Olimpíadas ou em ruidosas quadras de basquete. Em vez disso, ele parecia romântico.

Yuri encarou sem nenhuma dificuldade o olhar do homem. Não havia nada de ameaçador nessa figura extraordinária e bastante formal. Na verdade, seu rosto era liso e jovem, de uma beleza quase feminina para um homem, com seus cílios longos e densos e os lábios cheios, de um formato delicadamente andrógino, e não era intimidante. Só o branco no seu cabelo lhe conferia um ar de autoridade, que estava claro que ele não impunha normalmente. Seus olhos eram da cor da avelã e bem grandes, e olhavam para Yuri, intrigados. Era realmente uma figura impressionante, a não ser pelas mãos. As mãos eram um pouco grandes demais, e havia alguma anormalidade nos dedos, embora Yuri não tivesse certeza de qual ela era. Finas como aranhas, talvez fosse essa a síntese da questão.

— Você é o cigano — disse o homem, com uma voz grave, agradável, que era quase ligeiramente sensual e muito diferente do cáustico barítono do anão.

— Entre, sente-se — disse o anão, com impaciência. Agora o fogo estava aceso e ele o atiçava com os foles. — Mandei que trouxessem algo para comer, mas quero que entre no quarto quando chegarem. Não quero que você seja visto.

— Obrigado — disse Yuri, baixinho. Ele percebeu que havia se esquecido de tirar os óculos escuros. Como o aposento de repente lhe pareceu claro, mesmo sua mobília de veludo verde-escuro e suas antiquadas cortinas floridas. Um quarto simpático, com a marca de pessoas nele.

Claridge's. Ele conhecia os hotéis do mundo, mas nunca se hospedara no Claridge's. Em Londres, nunca se hospedara em outro lugar, a não ser na casa-matriz, para onde ele agora não podia ir.

— Você está ferido, meu amigo me contou — disse o homem alto, aproximando-se e olhando para ele de uma forma tão gentil que sua altura não despertava nenhum medo instintivo. As mãos de aranha estavam erguidas e estendidas, como se, para ver o rosto de Yuri, o homem precisasse emoldurá-lo.

— Estou bem. Foi uma bala, mas seu amigo a extraiu. Eu estaria morto se não fosse pelo seu amigo.

— Foi o que ele me disse. Você sabe quem eu sou?

— Não, não sei.

— Você sabe o que é um Taltos? É isso o que eu sou.

Yuri não disse nada. Ele não suspeitara dessa possibilidade tanto quanto não imaginara que os Pequenos realmente existissem. Taltos significava Lasher: assassino, monstro, ameaça. Ele estava chocado demais para falar. Apenas ficou olhando para o rosto do homem, pensando que o homem parecia ser nada mais nada menos do que um ser humano gigantesco, a não ser pelas mãos.

— Pelo amor de Deus, Ash — disse o anão. — Tenha alguma astúcia, pelo menos uma vez na vida. — Ele deu uma escovada nas calças. O fogo estava esplêndido e vigoroso. Ele tomou assento numa poltrona macia e amorfa que parecia extremamente confortável. Seus pés não tocavam o chão.

Era impossível interpretar seu rosto profundamente enrugado. Será que ele estava assim tão irritado? As pregas na pele destruíam toda e qualquer expressão. Na realidade, a voz sozinha transmitia tudo no caso desse homenzinho, que apenas ocasionalmente mostrava os olhos brilhantes e abertos enquanto falava. Seu cabelo ruivo era o chavão apropriado para sua impaciência e seu temperamento. Ele tamborilava com os dedos curtos nos braços de pano da poltrona.

Yuri caminhou até o sofá e ocupou, rígido, um lugar bem na extremidade, consciente de que o homem alto havia ido até o consolo da lareira e olhava para o fogo ali embaixo. Yuri não queria ficar olhando com grosseria para a criatura.

— Um Taltos — disse Yuri. Sua voz apresentava uma calma aceitável. — Um Taltos? Por que você quis falar comigo? Por que quis me ajudar? Quem é você e por que veio aqui?

— Você viu o outro? — perguntou o homem alto, voltando-se e encarando Yuri com olhos que eram quase tímidos na sua franqueza, mas não exatamente. Esse homem teria sido lindo de arrasar se não fossem as mãos. As juntas pareciam nós.

— Não, nunca o vi — disse Yuri.

— Mas tem certeza de que ele morreu?

— Tenho, tenho certeza — disse Yuri. O gigante e o anão. Ele não ia rir daquilo, mas era horrivelmente divertido. As anormalidades dessa criatura a tornavam agradáveis de se ver. E as anormalidades do homenzinho o tornavam perigoso e perverso. E tudo não passava de um ato da natureza, não era? Era algo fora do âmbito dos acidentes nos quais Yuri acreditava.

— Esse Taltos tinha uma parceira? — perguntou o homem alto. — Quer dizer, outro Taltos, uma fêmea?

— Não, sua parceira era uma mulher chamada Rowan Mayfair. Falei ao seu amigo sobre ela. Ela foi a mãe dele, e sua amante. Ela é o que chamamos de bruxa na Talamasca.

— Certo — disse o homenzinho. — E o que nós também chamaríamos de bruxa. Há muitas bruxas poderosas nesta história, Ashlar. Toda uma família de bruxas. Você tem de deixar o rapaz contar sua história.

— Ashlar, esse é o seu nome completo? — perguntou Yuri. Havia sido um choque.

Por horas a fio, antes de deixar Nova Orleans, ele ouvira Aaron resumir a história de Lasher, o espírito do vale. Santo Ashlar, esse nome havia sido repetido inúmeras vezes. Santo Ashlar.

— É — disse o homem alto. — Mas Ash é a versão monossilábica, que eu prefiro imensamente. Não quero ser indelicado, mas prefiro tanto o nome Ash que com freqüência não respondo quando me chamam pelo outro. — Isso foi dito com firmeza e cortesia.

O anão riu.

— Eu o chamo pelo nome completo para fazer com que se fortaleça e preste atenção.

O homem alto ignorou essas palavras. Ele aqueceu as mãos junto ao fogo. Com os dedos espalmados, elas pareciam doentes.

— Você está sentindo dor, não está? — disse o homem, afastando-se da lareira.

— Estou. Por favor me perdoe por deixar transparecer. O ferimento é no meu ombro, numa localização tal que qualquer movimento ínfimo provoca uma fisgada. Permite que eu me recoste no sofá e procure permanecer na mesma posição, aparentando preguiça? Minha cabeça está a mil. Você quer me dizer quem você é?

— Isso eu já fiz, certo? — perguntou o homem alto. — Fale você. O que lhe aconteceu?

— Yuri — atalhou o anão, com uma impaciência bastante bem-humorada —, eu lhe disse que esse era o meu amigo e confidente mais antigo neste mundo. Eu lhe disse que ele conhecia a Talamasca. Que ele sabe mais sobre a organização do que qualquer outro ser vivo. Por favor, confie nele. Conte-lhe o que ele quer saber.

— Eu confio em você — disse Yuri. — Mas com que finalidade vou lhe falar das minhas atividades ou das minhas aventuras? O que você irá fazer com esse conhecimento?

— Ajudá-lo, é claro — disse o homem alto, sem pressa, com um delicado sinal de anuência. — Samuel diz que os homens da Talamasca estão tentando matá-lo. Para mim é difícil aceitar esse fato. Ao meu próprio modo, sempre tive admiração pela Ordem da Talamasca. Eu me protejo dela, como me protejo de qualquer coisa que possa me restringir sob qualquer aspecto. Mas os homens da Talamasca raramente foram meus inimigos... pelo menos não por muito tempo. Quem tentou feri-lo? Você tem certeza de que essas pessoas de más intenções vieram de dentro da própria Ordem?

— Não, não tenho certeza — disse Yuri. — O que aconteceu foi mais ou menos o seguinte. Quando eu era um menino órfão, a Talamasca me acolheu. Aaron Lightner foi o responsável. Samuel sabe quem ele é.

— E eu também — disse o homem alto.

— Toda a minha vida adulta, servi à Ordem, na maioria das vezes viajando, com certa freqüência realizando tarefas que eu mesmo não compreendia plenamente. Sem que eu tivesse consciência disso, parece que meus votos pressupunham uma lealdade a Aaron Lightner. Quando ele foi para Nova Orleans para investigar uma família de bruxos, não sei bem como as coisas deram errado. Essa era a família Mayfair, essa família de bruxos. Li a história deles nos antigos registros da Ordem antes que esses registros me fossem vedados. Foi de Rowan Mayfair que o Taltos nasceu.

— Quem ou o que foi o pai? — perguntou o homem alto.

— Foi um homem.

— Um mortal? Você tem certeza disso?

— Sem sombra de dúvida. Mas houve mais a se considerar. Essa família era assombrada há muitíssimas gerações por um espírito, tanto mau quanto bom. Esse espírito apoderou-se do feto no ventre de Rowan Mayfair, tomou possessão dele e auxiliou esse parto extraordinário. O Taltos, que nasceu adulto dessa mulher, possuía por inteiro a alma do espírito que assombrava a família. Na família, essa criatura era chamada de Lasher. Nunca soube de nenhum outro nome para ele. Agora, essa criatura está morta, como eu lhe disse.

O homem alto estava francamente perplexo. Ele abanou levemente a cabeça, compreensivo. Caminhou até a poltrona mais próxima e se sentou, voltando-se delicadamente na direção de Yuri, e cruzando as longas pernas e os tornozelos, exatamente como Yuri fizera. Estava sentado muito ereto, como se nunca se envergonhasse da sua altura ou se sentisse constrangido por ela.

— De dois bruxos! — disse o homem alto, num sussurro.

— Com certeza absoluta — disse Yuri.

— Você fala em certeza absoluta — disse o homem alto. — Que significado isso pode ter?

— Há provas genéticas, em quantidade abundante. A Talamasca dispõe dessas provas. A família de bruxos possui um conjunto excedente de genes dentro das suas várias linhagens. Genes dos Taltos, que sob circunstâncias normais, nunca são acionados pela natureza, mas que nesse caso, fosse por bruxaria, fosse por possessão, de fato cumpriram sua função de trazer o Taltos a este mundo.

O homem alto sorriu. Isso surpreendeu Yuri, porque o sorriso iluminou o rosto com expressividade, afeto e puro prazer.

— Você fala como todos os homens da Talamasca — disse o homem alto. — Você fala como um padre em Roma. Fala como se não tivesse nascido nesta época em que estamos.

— Bem, recebi minha formação nos seus documentos em latim — disse Yuri. — Sua história dessa criatura, Lasher, remonta ao século XVII. Eu a li por inteiro, da mesma forma que a história dessa família, sua ascensão à sua enorme fortuna e poder, suas atividades secretas com esse espírito, Lasher. E é claro que li centenas de arquivos semelhantes.

— Leu mesmo?

— Não histórias dos Taltos — disse Yuri — se é isso o que quer saber. Jamais ouvi essa palavra até vir para Nova Orleans, até dois membros da nossa Ordem serem mortos ali, quando procuravam libertar esse Taltos, Lasher, do homem que o matou. Mas não posso contar a história.

— Por quê? Eu quero saber quem o matou.

— Quando eu o conhecer melhor, quando você me apresentar suas confissões como eu apresentei as minhas.

— O que posso confessar? Sou Ashlar. Sou um Taltos. Há séculos não vejo um único membro da minha própria espécie. Ah, houve outros. Eu soube da sua existência, corri atrás deles e, em alguns casos, quase os encontrei. Preste atenção, eu disse quase. Mas nunca em séculos toquei alguém da minha própria carne, como os seres humanos gostam de dizer. Nunca em todo esse tempo.

— Você é velhíssimo, é isso o que está me dizendo. A duração da nossa vida não é nada em comparação com a sua.

— Bem, parece que não é mesmo — disse o Taltos. — Devo ser velho. Agora tenho esses cabelos brancos, como você está vendo. Mas como vou poder saber qual é a minha idade, como será minha velhice e quanto tempo ela levará em anos humanos? Quando eu vivia feliz entre os meus, era jovem demais para aprender o que precisaria saber para essa viagem longa e solitária. E Deus não me proporcionou uma memória sobrenatural. Como um homem comum, eu me lembro de algumas coisas com uma clareza obsessiva; outras totalmente apagadas.

— A Talamasca sabe de você? — perguntou Yuri. — É de importância crucial que me diga. A Talamasca foi a minha vocação.

— Esclareça de que forma isso se modificou.

— Como eu lhe dizia, Aaron Lightner foi para Nova Orleans. Aaron é um especialista em bruxos. Nós estudamos os bruxos.

— Isso já sabemos — disse o anão. — Passe adiante.

— Cale-se, Samuel, saiba se comportar — disse o homem alto, em tom sério, com a voz baixa.

— Não seja imbecil, Ash. Esse cigano está se apaixonando por você! O Taltos ficou escandalizado e indignado. A raiva dominou-o de uma forma total e bela. E de repente ele abanou a cabeça e cruzou os braços, como se soubesse lidar com esse tipo de raiva.

Quanto a Yuri, mais uma vez ele estava perplexo. Parecia que agora o mundo ia ser assim: revelações e choques abomináveis. Ele ficou pasmo e magoado porque até certo ponto se afeiçoara a esse ser muito além dos termos pelos quais se afeiçoara ao homenzinho, que eram em geral mais intelectuais.

Ele desviou o olhar, humilhado. Não tinha tempo agora para contar a história da sua própria vida, de como caíra tão plenamente sob o domínio de Aaron Lightner, bem como da força e do poder que os homens fortes muitas vezes exerciam sobre ele. Ele queria dizer que isso não era erótico. Mas era erótico, na medida em que tudo e qualquer coisa são.

O Taltos mantinha um olhar frio, fixo no homenzinho.

Yuri retomou sua história.

— Aaron Lightner foi ajudar as bruxas Mayfair nas suas intermináveis batalhas com o espírito Lasher. Aaron Lightner nunca soube de onde esse espírito vinha, ou o que ele realmente era. Que uma bruxa o havia invocado em Donnelaith no ano de 1665, isso se sabia, mas não muita coisa além disso.

— Depois que o ser se tornou carne, depois que ele provocou a morte de uma grande quantidade de bruxas, só depois de tudo isso Aaron Lightner viu o ser e ouviu dos seus próprios lábios que ele era o Taltos, que havia vivido num corpo antes, no tempo do rei Henrique, tendo encontrado a morte em Donnelaith, o vale que assombrava, até a bruxa invocá-lo.

— Esses dados não estão em nenhum arquivo da Talamasca de meu conhecimento. Mal se passaram três semanas desde que a criatura foi eliminada. Mas esses dados podem estar em arquivos secretos do conhecimento de alguém. Uma vez que a Talamasca soube que Lasher havia reencarnado, ou sei lá qual é o verbo que deveríamos usar, eles procuraram cercá-lo e removê-lo, para suas próprias finalidades. Enquanto isso, podem ter tirado algumas vidas, com frieza e determinação. Eu não sei. Sei que Aaron não fazia parte dos seus planos e se sentia traído por eles. É por isso que estou lhe perguntando se eles sabem da sua existência. Você faz parte do conhecimento da Talamasca? Porque, se faz, é de algum conhecimento altamente secreto.

— Sim e não — disse o homem alto. — Você não diz mentiras nunca, certo?

— Ash, procure não dizer coisas estranhas — resmungou o anão. Ele também se recostara, deixando suas pernas curtas e atarracadas esticadas com perfeição. Ele havia trançado os dedos sobre o colete de tweed, e sua camisa estava aberta no colarinho. Um resquício de luz refulgiu nos seus olhos semicerrados.

— Eu estava só fazendo um comentário, Samuel. Tenha paciência. — O homem alto deu um suspiro. — Procure você também não dizer coisas estranhas. — Ele pareceu um pouco irritado, e então seus olhos se voltaram para Yuri.

— Deixe-me responder à sua pergunta, Yuri. — Seu jeito de falar era afetuoso e descontraído. — Os homens da Talamasca de hoje talvez não saibam nada de mim. Seria necessário um gênio para descobrir as histórias sobre nós que estão relatadas nos arquivos da Talamasca, se é que tais documentos ainda existem. Eu jamais compreendi plenamente o status ou a importância desse conhecimento, os arquivos da Ordem, como são agora chamados. Li um manuscrito uma vez, há séculos, e ri muito das palavras que ele continha. Mas naquela época, toda linguagem escrita me parecia ingênua e comovente. Uma certa parte ainda me parece.

Para Yuri, essa era uma questão fascinante. É claro que o anão estava certo: ele estava caindo sob a influência desse ser. Ele havia perdido sua saudável relutância em confiar, mas era nisso que se resumia esse tipo de amor, não era? O ato de se despojar de uma forma tão completa dos habituais sentimentos de alienação e desconfiança que a aceitação subseqüente era orgástica em termos intelectuais.

— Que tipo de linguagem não faz com que ria? — perguntou Yuri.

— A gíria moderna — disse o homem alto. — O realismo na ficção e o jornalismo repleto de coloquialismos. É uma linguagem à qual falta qualquer resquício de ingenuidade. Ela perdeu toda a formalidade e, em vez disso, atém-se a uma intensa compressão. Quando as pessoas escrevem agora, é às vezes como o guincho de um apito, em comparação com as canções que costumavam cantar.

Yuri riu.

— Acho que você tem razão — disse ele. — Mas isso não ocorre com os arquivos da Talamasca.

— Não. Como eu estava explicando, eles são melodiosos e divertidos.

— Mas a verdade é que há documentos e documentos. Quer dizer que você acha que atualmente eles não sabem da sua existência.

— Tenho quase certeza de que não sabem de mim. E, à medida que você vai contando sua história, fica muito claro que eles não têm como saber de mim. Mas prossiga. O que aconteceu a esse Taltos?

— Eles tentaram levá-lo embora e morreram na tentativa. O homem que matou o Taltos matou esse pessoal da Talamasca. Antes de morrerem, porém, quando esses homens estavam procurando como que manter sob sua custódia o Taltos, eles afirmaram que tinham um Taltos do sexo feminino, que há séculos vinham tentando unir o macho à fêmea. Eles indicaram que esse era o objetivo declarado da Ordem. O objetivo clandestino e oculto, eu deveria dizer. Isso foi uma desmoralização para Aaron.

— Dá para ver por que motivo.

Yuri prosseguiu.

— O Taltos, Lasher, não demonstrou surpresa com tudo isso. Ele parecia ter imaginado. Mesmo na sua encarnação anterior, a Talamasca procurara tirá-lo de Donnelaith, talvez para uni-lo à fêmea. Mas ele não confiou neles, e não os acompanhou. Naquela época, ele era padre. Acreditavam que fosse santo.

— Santo Ashlar — disse o anão com mais seriedade, a voz parecendo sair não das rugas do seu rosto, mas do seu tórax troncudo. — Santo Ashlar, que sempre retorna.

O homem alto abaixou ligeiramente a cabeça, com seus profundos olhos cor de avelã passando lentamente de um lado para o outro do tapete, quase como se estivesse lendo o belo desenho oriental. Levantou os olhos na direção de Yuri, ainda cabisbaixo, de modo que as sobrancelhas escuras os sombreassem.

— Santo Ashlar — disse ele, com a voz triste.

— Você é esse homem?

— Não sou santo nenhum, Yuri. Você se importa de eu chamá-lo pelo nome? Não vamos falar de santos, por favor...

— Ah, pode me chamar de Yuri, sim. E eu vou chamá-lo de Ash? Mas a questão é saber se você é esse mesmo indivíduo. Esse que eles chamavam de santo? Você fala de séculos! E nós estamos aqui sentados nesta sala de estar, com o fogo crepitando e o garçom chamando à porta com nossa refeição. Você precisa me dizer. Eu não vou poder me proteger dos meus próprios irmãos da Talamasca, se você não me disser e não me ajudar a compreender o que está acontecendo.

Samuel deslizou para descer da poltrona e seguiu na direção do pequeno hall.

— Entre no quarto, por favor, Yuri. Desapareça agora. — Ele passou com ares de superioridade por Yuri.

Yuri levantou-se, com uma forte dor no ombro por um instante, e entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. Encontrou-se num ambiente silencioso e sombreado, com cortinas leves e soltas filtrando a luz amena da manhã. Apanhou o telefone. Teclou rapidamente o acesso à discagem direta seguido do código internacional para os Estados Unidos.

Depois hesitou, sentindo-se totalmente incapaz de contar as mentiras protetoras que teria de contar a Mona, ansioso por falar com Aaron e lhe dizer o que sabia, e receando um pouco ser momentaneamente impedido de falar com qualquer pessoa.

Algumas vezes na viagem desde a Escócia até Londres, ele se encontrara em telefones públicos, passando pelo mesmo dilema, quando o anão lhe ordenava que entrasse no carro imediatamente.

O que dizer ao seu amorzinho? O quanto contar a Aaron nos poucos instantes que poderia ter para falar com ele?

Apressado, teclou o código da área de Nova Orleans e o número da casa da família Mayfair na esquina de St. Charles com Amelia, e esperou, de repente um pouco preocupado com a possibilidade de agora ser exatamente o meio da noite na América, e depois percebendo subitamente que de fato era.

Que erro grosseiro e terrível, sob qualquer circunstância. Alguém atendia. Era uma voz conhecida, mas que ele não conseguia identificar.

— Estou ligando da Inglaterra. Lamento muito. Estou tentando falar com Mona Mayfair. Espero não ter acordado a casa inteira.

— Yuri? — perguntou a mulher.

— Sim — confessou ele, sem a surpresa óbvia pelo fato de a mulher ter reconhecido sua voz.

— Yuri, Aaron Lightner morreu — disse a mulher. — Aqui quem está falando é Celia, prima de Beatrice. Prima de Mona. Prima de todo mundo. Aaron foi morto.

Houve um longo silêncio durante o qual Yuri não fez nada. Ele não pensou em nada, não visualizou nada, nem tirou nenhuma conclusão apressada. Seu corpo estava preso de um medo gélido e terrível, medo das implicações daquelas palavras, de que ele jamais voltaria a ver Aaron, de que nunca mais se falariam, de que ele e Aaron... de que Aaron se fora para sempre.

Quando ele procurou mover os lábios, teve dificuldade. Fez alguma coisa tola e sem sentido com a mão, beliscando o fio do telefone.

— Perdoe-me, Yuri. Estivemos tão preocupados com você. Mona esteve tão preocupada. Onde você está agora? Você pode ligar para Michael Curry? Eu posso lhe passar o número de lá.

— Eu estou bem — disse Yuri, baixinho. — Eu tenho o número.

— É lá que Mona está agora, Yuri. Lá na outra casa. Eles vão querer saber onde você está, como você está e como entrar em contato imediato com você.

— Mas Aaron... — disse ele, em tom de súplica, incapaz de falar mais. Sua voz lhe parecia ínfima, mal escapando do peso das tremendas emoções que chegavam a anuviar sua visão e prejudicar seu equilíbrio, todo o seu sentido de quem ele era. — Aaron...

— Ele foi atropelado, de propósito, por um homem num carro. Estava vindo do Pontchartrain Hotel, onde acabara de deixar Beatrice com Mary Jane Mayfair. Eles iam hospedar Mary Jane lá. Beatrice estava prestes a entrar no saguão do hotel quando ouviu o barulho. Ela e Mary Jane testemunharam o que ocorreu. Aaron foi atropelado pelo carro diversas vezes.

— Então foi mesmo assassinato — disse Yuri.

— Sem a menor dúvida. Prenderam o homem. Um vagabundo. Ele foi contratado mas não conhecia a identidade do homem que o contratou. Recebeu cinco mil dólares em dinheiro para matar Aaron. Estava tentando há uma semana. Já havia gasto metade do valor.

Yuri queria desligar o telefone. Parecia totalmente impossível continuar. Ele passou a língua pelo lábio superior e, com firmeza, se forçou a falar.

— Celia, por favor, diga a Mona Mayfair o seguinte para mim, e a Michael Curry também. Que eu estou na Inglaterra, que estou em segurança. Logo entrarei em contato. Estou tendo o máximo de cuidado. Meus pêsames a Beatrice Mayfair. Meu amor... a todos.

— Eu dou o recado.

Ele pôs o fone em cima da mesa. Se ela disse mais alguma coisa, ele não ouviu. O aparelho agora estava mudo. E as delicadas cores pastel do quarto o embalaram por um instante. A luz linda e suave se refletia no espelho inteiro. Todas as fragrâncias do quarto eram de limpeza.

A alienação, uma falta de confiança na felicidade ou nos outros. Roma. A chegada de Aaron. Aaron erradicado da sua vida, não do passado, mas totalmente do presente e do futuro.

Ele não soube quanto tempo ficou ali parado.

Começou a lhe parecer que já estava plantado junto à penteadeira há muito, muito tempo. Ele sabia que Ash, o homem alto, havia entrado no quarto, mas não para afastar Yuri do telefone.

E alguma dor terrível e profunda em Yuri foi tocada de repente, talvez desastrosamente, pela voz afetuosa e solidária desse homem.

— Por que você está chorando, Yuri?

Palavras ditas com a pureza de uma criança.

— Aaron Lightner morreu — respondeu Yuri. — Eu nunca liguei para lhe contar que haviam tentado me matar. Eu deveria ter contado. Eu deveria tê-lo avisado...

Foi a voz ligeiramente abrasiva de Samuel que chegou a ele, vindo da porta.

— Ele sabia, Yuri. Ele sabia. Você me contou como ele o alertou para que não voltasse para cá, como eles disseram que voltariam para pegá-lo a qualquer instante.

— Ah, mas eu...

— Não se apegue a isso com culpa, meu jovem amigo — disse Ash.

Yuri sentiu as grandes mãos, de aranha, segurarem seus ombros com ternura.

— Aaron... Aaron era meu pai — disse Yuri, sem alterar o tom da voz. — Aaron era meu irmão. Aaron era meu amigo. — No seu íntimo, a dor e a culpa fervilhavam, e o terror cruel e apavorante da morte se tornou insuportável. Não lhe parecia possível que esse homem tivesse desaparecido, que tivesse sumido para sempre da vida, mas isso ia começar a parecer cada vez mais possível, depois real e afinal categórico.

Yuri bem poderia ter voltado a ser um menino, na aldeia da sua mãe na Iugoslávia, parado junto ao seu corpo morto na cama. Aquela havia sido a última vez que experimentara uma dor como essa. Ele não conseguia suportá-la. Cerrou os dentes, receando que acabasse gritando ou rugindo, numa demonstração de fraqueza.

— A Talamasca o matou — disse Yuri. — Quem mais teria feito uma coisa dessas? Lasher, o Taltos, está morto. Ele é que não foi. A culpa de todos os assassinatos foi da Talamasca. O Taltos matou as mulheres, mas não matou os homens. Foi a Talamasca.

— Foi Aaron quem matou o Taltos? — perguntou Ash. — Era ele o pai?

— Não, mas ele amava uma mulher de lá, e agora talvez a vida dela também tenha sido destruída.

Ele queria se trancar no banheiro. Não tinha nenhuma visão nítida do que queria fazer. Sentar-se no piso de mármore, talvez, com os joelhos recolhidos e chorar.

Mas nenhum desses dois estranhos indivíduos quis ouvir falar nisso. Preocupados e alarmados, eles o levaram de volta para a sala de estar da suíte e fizeram com que se sentasse no sofá, com o homem alto tendo o maior cuidado para não machucar seu ombro, e o homenzinho se apressando para preparar chá quente. E lhe trazer bolos e biscoitos num prato. Uma refeição leve, mas particularmente convidativa.

Pareceu a Yuri que o fogo estava queimando rápido demais. Seu pulso estava acelerado. Na realidade, ele sentiu que estava suando intensamente. Tirou o suéter pesado, puxando-o pelo pescoço e provocando uma forte dor no ombro antes de perceber o que estava fazendo e antes de perceber que não estava usando nada por baixo e que agora estava sentado aqui, com o peito nu e o suéter nas mãos. Ele se recostou e abraçou o suéter, constrangido de estar assim tão exposto.

Ouviu um barulhinho. O anão lhe trazia uma camisa branca, ainda envolta na cartolina da lavanderia. Yuri pegou-a, abriu-a, desabotoou-a e a vestiu. Era absurdamente grande para ele. Devia pertencer a Ash. Mas ele arregaçou as mangas, abotoou alguns dos botões e se sentiu grato por estar novamente encoberto. Ela era confortável, como um enorme paletó de pijama. O suéter jazia no tapete. Dava para Yuri ver o capim, os gravetos e restos do solo nele.

— E eu me achava tão nobre por não telefonar para ele, por não preocupá-lo, deixando que o ferimento curasse e eu recuperasse a saúde antes de me apresentar para confirmar que tudo estava bem.

— Por que a Talamasca ia querer matar Aaron Lightner? — perguntou Ash. Ele havia voltado para sua poltrona e estava sentado com as mãos unidas entre os joelhos. Também dessa vez, ele estava bem ereto, improvável e muito bonito.

Deus meu, era como se um golpe tivesse deixado Yuri inconsciente, e agora ele estivesse vendo tudo isso de novo pela primeira vez. Observou a pulseira simples e preta no pulso de Ash, e o próprio relógio de ouro, com mostrador digital. Viu o corcunda de cabelos vermelhos parado junto à janela, que ele abrira um pouco agora que a lareira estava decididamente exuberante. Sentiu a lâmina gélida do vento atravessar cortante a sala. Viu o fogo se arquear e sibilar.

— Yuri, por quê?

— Não sei responder. Eu de algum modo esperava que estivéssemos enganados, que eles não tivessem sido tão desastrados nisso tudo, que não tivessem matado homens inocentes. Que era uma mentira fantasiosa ou coisa semelhante, essa história de eles terem a fêmea que sempre quiseram ter. Eu não podia conceber um objetivo de tanto mau gosto. Ai, eu não pretendia ofendê-lo...

— ... claro que não.

— Quer dizer, eu sempre considerara seus propósitos tão elevados, toda a sua evolução tão admiravelmente pura: uma Ordem de estudiosos que registram e estudam mas que nunca interferem em termos egoístas naquilo que observam; estudiosos do sobrenatural. Acho que me fizeram de tolo! Eles mataram Aaron porque ele sabia de tudo isso. E é por isso que precisam me matar. Eles precisam deixar que a Ordem volte lentamente às suas rotinas, sem que seja perturbada por nada disso. Eles devem estar em alerta na casa-matriz. Devem estar ansiosos para me impedir de entrar lá a qualquer custo. Os telefones devem estar grampeados. Eu não poderia ligar para lá, para Amsterdã ou para Roma, se quisesse. Eles interceptariam qualquer fax que eu enviasse. Eles não vão relaxar a guarda, ou parar de me procurar, até que eu morra.

— E então quem vai sobrar para ir persegui-los? Para contar aos outros? Para revelar aos irmãos e irmãs o terrível segredo de que essa Ordem é perversa... de que as velhas máximas da Igreja Católica talvez tenham sempre sido verdadeiras. O que é sobrenatural e não é de Deus é o mal. Descobrir o Taltos macho! Reuni-lo à fêmea...

Ele ergueu os olhos. O rosto de Ash estava triste. Samuel, encostado na janela fechada, apesar de todas as dobras de carne no seu rosto, também aparentava tristeza e preocupação. Acalme-se, pensou ele, dê importância ao que diz. Não se entregue à histeria.

— Você fala de séculos, Ash, como outros falam de anos — prosseguiu ele. — Portanto, a fêmea dentro da Talamasca poderia estar viva há séculos. Esse poderia ter sido o propósito desde sempre. A partir de tempos obscuros, uma teia tão maléfica e tão perversa que os homens e mulheres modernos não conseguem sequer concebê-la! É simples demais, todos esses homens e mulheres imbecis em alerta para descobrir um único ser, um Taltos, uma criatura que pode procriar com tanta velocidade e sucesso que sua espécie rapidamente dominaria o mundo. Eu me pergunto o que dá tanta segurança a esses Anciãos invisíveis, anônimos e misteriosos da Ordem, o que lhes dá a certeza de que eles próprios não estão sendo...

Ele parou de falar. A idéia nunca lhe havia ocorrido. É claro. Ele alguma vez estivera numa sala com um ser consciente que não fosse humano? Agora estava, e quem poderia dizer quantas espécies semelhantes habitavam nosso mundinho confortável, passando-se por humanos enquanto cumpriam sua própria programação sob todos os aspectos? Taltos. Vampiros. O anão idoso, com sua própria noção de tempo, seus próprios rancores e histórias.

Como os dois estavam quietos. Será que houvera uma decisão tácita de deixá-lo delirar?

— Sabem o que eu gostaria de fazer? — perguntou Yuri.

— O quê? — perguntou Ash.

— Ir até a casa-matriz de Amsterdã para matá-los, os Anciãos. Mas a questão é essa mesma. Acho que não vou conseguir encontrá-los. Acho que eles não ficam em Amsterdã, ou que jamais ficaram lá. Não sei quem ou o quê eles são. Samuel, quero o carro agora. Preciso ir para casa aqui em Londres. Preciso ver meus irmãos e irmãs.

— Não — disse Samuel. — Eles o matarão.

— Eles não podem estar todos envolvidos. Essa é a minha última esperança. Estamos todos sendo enganados por alguns. Agora, por favor, quero levar o carro até a casa-matriz fora de Londres. Quero entrar lá rapidamente, antes que alguém se dê conta, agarrar os irmãos e irmãs e fazer com que prestem atenção. Olhe, preciso fazer isso! Preciso avisá-los. Puxa, Aaron morreu!

Ele parou. Percebeu que os estivera assustando, esses dois amigos estranhos. O homenzinho cruzou os braços de novo, de um modo grotesco, porque eles eram tão curtos e seu tórax tão grande. As pregas de carne da sua testa haviam caído formando uma carranca de preocupação. Ash apenas o observava, sem cerrar o cenho, mas visivelmente preocupado.

— Que diferença faz para vocês dois? — disse Yuri, de repente. — Você salvou a minha vida quando atiraram em mim nas montanhas. Mas ninguém lhe pediu que fizesse isso. Por quê? O que sou eu para vocês?

Samuel emitiu um barulhinho como que para dizer que a pergunta não merecia resposta. Ash, no entanto, respondeu com ternura na voz.

— Talvez nós também sejamos ciganos, Yuri.

Yuri não respondeu, mas ele não acreditava nos sentimentos que esse homem estava descrevendo. Ele não acreditava em nada, a não ser no fato de Aaron estar morto. Visualizou Mona, sua bruxinha ruiva. Ele a viu, com seu rostinho notável e seu grande véu de cabelos vermelhos. Ele viu seus olhos. Mas não conseguia sentir nada por ela. Desejava do fundo do coração que ela estivesse ali.

— Nada, eu não tenho nada — sussurrou ele.

— Yuri — disse Ash. — Por favor, ouça o que vou lhe dizer. A Talamasca não foi fundada para encontrar o Taltos. Dou-lhe minha palavra de que pode acreditar nisso. E embora eu não saiba nada a respeito dos Anciãos da atualidade, eu os conheci no passado. E não, Yuri, eles não eram Taltos naquela época, e eu não acredito que sejam Taltos agora. O que eles seriam, Yuri? Fêmeas da nossa espécie?

A voz prosseguiu tranqüila e ainda terna, mas profundamente vigorosa.

— Uma Taltos fêmea é tão impetuosa e infantil quanto um macho — disse Ash. — Uma fêmea teria ido imediatamente atrás dessa criatura, desse Lasher. Teria sido impossível impedir uma fêmea, que vivesse apenas entre fêmeas, de agir assim. Para que mandar homens mortais para capturar uma presa dessas e um inimigo semelhante? Ah, eu sei que para você não pareço ameaçador, mas você poderia ficar muito surpreso com as minhas histórias. Tranqüilize-se: seus irmãos e irmãs não são enganados pela própria Ordem. Mas creio que você descobriu a verdade nas suas reflexões. Não foram os Anciãos que subverteram o propósito declarado da Talamasca, para poderem capturar essa criatura, Lasher. Foi alguma panelinha de membros que descobriu os segredos da antiga espécie.

Ash parou de falar. Era como se o ar de repente ficasse desprovido de música. Ash ainda contemplava Yuri com olhos pacientes, simples.

— Você tem de estar certo — disse Yuri, baixinho. — Não posso suportar a idéia se você não estiver.

— Está ao nosso alcance descobrir a verdade — disse Ash. —Nós três juntos. E francamente, embora eu tenha gostado de você no momento em que o conheci e o ajudasse por ser você meu semelhante e porque meu coração se afeiçoou a você, devo ajudá-lo por um outro motivo. Eu me lembro de quando não existia a Talamasca. Lembro-me de quando a Ordem era apenas um homem. Lembro-me de quando suas catacumbas encerravam uma biblioteca que não era maior do que esta sala. Lembro-me de quando ela passou a ter dois membros, depois três, mais tarde cinco e então dez. Lembro-me de todas essas coisas e daqueles que se reuniram para fundar a Ordem. Eu os conheci e os amei. E é claro que meu próprio segredo, minha própria história, estão ocultos em algum lugar desses arquivos; registros que estão sendo traduzidos para línguas modernas e armazenados por meio eletrônico.

— O que ele está dizendo — interrompeu Samuel, com aspereza, mas lentamente apesar de toda a sua irritação — é que nós não queremos que a Talamasca seja deturpada. Não queremos que sua natureza se altere. A Talamasca sabe demais sobre nós para que se tolere uma possibilidade dessas. A Ordem sabe demais sobre uma infinidade de assuntos. Para mim, não se trata no fundo de uma questão de lealdade. É uma questão de se viver em paz.

— Já eu falo de lealdade — disse Ash. — Falo de amor e gratidão. Falo de muitas coisas.

— É, agora compreendo — disse Yuri. Ele estava sentindo o avanço do cansaço: o término inevitável do tumulto emocional, o salvamento inevitável, a necessidade pesada, derrotada, de um pouco de sono.

— Se eles soubessem da minha existência — disse Ash em voz baixa — esse pequeno grupo viria me procurar, tão certo quanto foram procurar essa criatura, Lasher. — Ele fez um pequeno gesto de aceitação. — Os seres humanos fizeram isso antes. Qualquer grande biblioteca de segredos é perigosa. Qualquer tesouro de segredos pode ser roubado.

Yuri começara a chorar. Não fazia o menor ruído. As lágrimas não se derramavam. Seus olhos encheram-se de água. Ele ficou olhando para a xícara de chá. Não o bebera, e agora ele estava frio. Apanhou o guardanapo de linho, abriu-o e enxugou os olhos com ele. Era áspero demais, mas ele não estava ligando. Sentia vontade de comer os doces no prato, mas não queria comê-los. Após uma morte, não lhe parecia correto comê-los.

— Não quero ser o anjo da guarda da Talamasca — prosseguiu Ash. — Eu jamais quis isso. Mas houve no passado ocasiões em que a Ordem foi ameaçada. Se eu puder impedir, não verei a Ordem ferida ou destruída.

— Yuri — disse Samuel. — Há muitos motivos pelos quais um pequeno bando de renegados da Talamasca poderia tentar armar uma cilada para esse Lasher. Imagine que bela presa ele não seria. Eles talvez sejam seres humanos desejosos de capturar um Taltos por nenhum motivo elevado. Eles não são homens da ciência, da magia ou da religião. Não são nem mesmo estudiosos. Mas talvez quisessem possuir essa criatura rara e indescritível. Talvez a quisessem para contemplá-la, conversar com ela, examiná-la, conhecê-la e fazer com que procriasse sob cuidadosa vigilância, é claro, inevitavelmente.

— Eles talvez a quisessem para cortá-la em pedaços — disse Ash. — É lamentável, mas talvez a quisessem para lhe enfiar agulhas e ver se ela berraria.

— É, faz mesmo sentido — disse Yuri. — Uma conspiração de fora. Renegados ou forasteiros. Estou cansado. Preciso dormir numa cama. Não sei por que disse coisas tão terríveis a vocês dois.

— Eu sei — disse o anão. — Seu amigo morreu. Eu não estava lá para salvar a ele.

— O homem que tentou matar você — disse Ash. — Você o matou?

— Não, quem o matou fui eu — respondeu Samuel. — Na realidade, não foi premeditado. Ou eu o derrubava do penhasco, ou deixava que ele desse mais um tiro no cigano. Devo confessar que fiz isso por puro prazer, já que eu e o cigano ainda não havíamos trocado uma palavra. Aqui estava esse homem mirando sua arma em outro homem. O corpo do falecido está lá no vale. Quer encontrá-lo? Há uma boa chance de que os Pequenos o tenham deixado onde ele caiu.

— Ah, quer dizer que foi assim — disse Ash.

Yuri não disse nada. Tinha uma vaga noção de que devia ter procurado esse corpo. Deveria tê-lo examinado, tomado seus documentos de identidade. Mas no fundo isso não teria sido viável, considerando-se seu ferimento e a topografia aterradora. Parecia haver algo de justo no fato de o corpo ter ficado perdido para sempre na mata de Donnelaith, e de os Pequenos o terem deixado apodrecer.

Os Pequenos.

No instante em que ele caíra, seus olhos estavam cravados no espetáculo daqueles homenzinhos, lá embaixo no pequeno bolsão de grama abaixo dele, dançando como se fossem uma quantidade de anões modernos e deformados. A luz dos archotes havia sido a última coisa que viu antes de cair inconsciente.

Quando abriu os olhos e viu Samuel, seu salvador, com a pistola e a cartucheira, e um rosto tão velho e desfigurado que parecia um emaranhado de raízes de árvores, pensou que eles haviam vindo matá-lo. Mas eu os vi. Gostaria de poder contar a Aaron. Os Pequenos, eu os vi...

— Trata-se de um grupo de fora da Talamasca — disse Ash, despertando-o abruptamente desse encantamento inoportuno, trazendo-o de volta para esse pequeno círculo. — Não de dentro.

Taltos, pensou Yuri, e agora eu vi o Taltos. Estou numa sala com essa criatura que é o Taltos.

Se a honra da Ordem tivesse permanecido imaculada, se a dor no seu ombro não o relembrasse a cada instante da violência traiçoeira e vil que envolvera sua vida, como seria importante ter visto o Taltos. Mas a verdade é que era esse o preço dessas visões, não era? Elas sempre tinham seu preço, disse-lhe Aaron um dia. E agora ele nunca mais poderia conversar sobre isso com Aaron.

Samuel falou em seguida, num tom levemente cáustico.

— Como você sabe que não se trata de um grupo de dentro da Talamasca?

Ele agora não apresentava a menor semelhança com a aparência daquela noite em que usava calções e gibão esfarrapados. Sentado junto ao fogo, ele parecia ser um sapo horrendo enquanto contava suas balas, enchia os espaços vazios no cinto e bebia o uísque, sem deixar de oferecê-lo insistentemente a Yuri. Esse foi o dia em que Yuri bebeu mais na sua vida. Mas era medicinal, não era?

"Anão", dissera Yuri. E o homenzinho respondera que ele podia chamá-lo assim se quisesse. Que já havia sido chamado por nomes piores. Mas que seu nome era Samuel.

"Em que língua estão cantando?" Quando vão parar com essa cantoria, com os tambores!

"Na nossa língua. Fique quieto agora. Contar é difícil para mim."

Agora o homenzinho estava confortavelmente acomodado numa poltrona civilizada, envolto em trajes civilizados, olhando ansioso para o gigante magro e fantástico, Ash, que demorava a responder.

— É — disse Yuri, mais para se desligar das lembranças do que para qualquer outra coisa. — O que o faz pensar que se trata de um grupo de fora? — Esqueça-se do frio, da escuridão e dos tambores; da dor enfurecedora da bala.

— É desastrado demais — disse Ash. — A bala de uma arma. O carro que sobe pelo meio-fio e atinge Aaron Lightner. Há muitos modos fáceis de se matar gente sem que os outros sequer percebam. Os especialistas sempre sabem disso. Eles aprenderam ao estudar bruxas, bruxos e outros príncipes de maleficia. Não. Eles não entrariam no vale perseguindo um homem como se ele fosse caça. Não é possível.

— Ash, o revólver é agora a arma do vale — disse Samuel, zombeteiro. — Por que magos não usariam armas de fogo se os Pequenos as usam?

— O revólver é o brinquedo do vale, Samuel — respondeu Ash, calmamente. — E você sabe disso. Os homens da Talamasca não são monstros caçados e espionados, que precisam se afastar do mundo para a mata e que, quando avistados, provocam o medo no coração dos homens. — Ele prosseguiu com seu raciocínio. — Não foi de dentro do círculo de Anciãos da Talamasca que essa ameaça surgiu. Trata-se da pior amolação imaginável: algum pequeno grupo de gente de fora, que por acaso teve acesso a certas informações e optou por acreditar nelas. Livros, discos de computador. Quem sabe? Talvez esses segredos tenham sido vendidos por empregados...

— Então devemos parecer crianças aos olhos deles — disse Yuri. — Como monges e freiras, informatizando todos os nossos registros, nossos arquivos, armazenando antigos segredos em bancos de dados.

— Quem foi o bruxo que gerou o Taltos? Quem o matou? — perguntou Ash, de repente. — Você garantiu que me contaria se eu lhe contasse o que sei. O que mais posso lhe passar? Fui mais do que acessível. Quem é esse bruxo que pode gerar um Taltos?

— O nome dele é Michael Curry — disse Yuri. — E é provável que procurem matá-lo também.

— Não, isso não lhes seria útil, certo? — disse Ash. — Pelo contrário, vão se esforçar por repetir a fecundação. A bruxa Rowan...

— Ela não pode mais ter filhos — disse Yuri. — Mas há outras, toda uma família. Existe uma que é tão poderosa que até mesmo...

Yuri sentiu um peso na cabeça. Ergueu a mão direita e a levou até a testa, decepcionado por sua mão estar tão quente. Inclinar-se para a frente fazia com que se sentisse mal. Procurou recostar-se bem devagar, tentando não esticar ou atingir o ombro, e então fechou os olhos. Enfiou a mão no bolso da calça, tirou sua carteira e a abriu.

Tirou de um canto da carteira a pequena fotografia de escola de Mona, com um colorido muito vivido. Sua querida, com o sorriso, os dentes brancos e uniformes, a grande cabeleira vermelha bela e selvagem. Bruxinha, bruxa amada, mas bruxa sem sombra de dúvida.

Yuri enxugou os olhos novamente e os lábios. Sua mão tremia tanto que o lindo rosto de Mona estava fora de foco.

Ele viu os dedos longos e magros de Ash tocarem a borda da fotografia. O Taltos estava em pé debruçado sobre ele, com um braço comprido para trás apoiado no encosto do sofá, enquanto com a outra mão firmava o retrato e o examinava em silêncio.

— Da mesma linhagem da mãe? — perguntou Ash, baixinho.

De repente, Yuri agarrou a fotografia e a apertou junto ao peito. Caiu para a frente, sentindo-se mal mais uma vez, com a dor no ombro a paralisá-lo de imediato.

Ash afastou-se com gentileza e foi até a lareira. O fogo estava algo mais brando. Ash ficou parado com as mãos no consolo da lareira. Suas costas estavam muito retas; seu porte quase militar; sua cabeleira escura e cheia formando cachos junto ao colarinho, encobrindo totalmente o pescoço. De onde estava, Yuri não via nenhum cabelo branco, só os cachos escuros, entre o negro e o castanho.

— Quer dizer que eles tentarão apanhá-la — disse Ash, ainda de costas, erguendo a voz de acordo com a necessidade. — Ou eles tentam apanhá-la, ou alguma outra bruxa da família.

— É — disse Yuri. Ele estava atordoado e no entanto enfurecido. Como podia ter imaginado que não a amava? Como Mona podia ter ficado tão distante dele tão de repente? — Eles vão tentar apanhá-la. Ai, meu Deus, mas nós lhes demos uma vantagem — disse ele, só então percebendo isso e percebendo plenamente. — Deus do céu, nós lhes entregamos tudo de bandeja. Computadores! Dados! Foi exatamente o que aconteceu com a Ordem!

Ele ficou em pé. O ombro latejava. Ele não estava ligando. Ainda segurava firme o retrato, encoberto pela mão, encostado na camisa.

— Como assim, entregaram de bandeja? — perguntou Ash, voltando-se, com a luz do fogo iluminando-lhe o rosto de baixo para cima de tal modo que seus olhos pareceram tão verdes quanto os de Mona, e sua gravata dava a impressão de uma forte mancha de sangue.

— Os exames genéticos! — disse Yuri. — A família inteira está se submetendo a exames para nunca mais se formarem casais de bruxos que possam gerar o Taltos. Vocês não percebem? Há dados sendo compilados, genéticos, genealógicos, médicos. Estará nesses dados quem é um bruxo poderoso e quem não é. Meu Deus, eles saberão quem selecionar. Saberão mais do que o Taltos inexperiente! Nesse conhecimento terão uma arma de que ele nunca dispôs. Ai, ele tentou fecundar tantas delas, E as matou. Cada uma morreu sem lhe dar o que ele queria, uma filha. Mas...

— Posso ver novamente a foto da jovem bruxa de cabelos ruivos? — perguntou Ash, com timidez.

— Não — disse Yuri. — Não pode.

O sangue pulsava no seu rosto. Ele sentiu algo molhado no ombro. Havia rasgado o ferimento. Estava com febre.

— Não pode, não — repetiu, encarando Ash.

Ash não disse palavra.

— Por favor, não me peça isso — disse Yuri. — Preciso de você. Preciso muito que você me ajude, mas não me peça para ver seu rosto. Agora não.

Os dois se entreolharam. E então Ash concordou.

— Está certo. É claro que não vou pedir para vê-lo. Mas amar uma bruxa tanto assim é muito perigoso. Você sabe disso, não sabe?

Yuri não respondeu. Por um átimo ele teve consciência de tudo, de que Aaron estava morto, de que Mona poderia em breve correr riscos, que quase todos os que ele um dia amara ou a quem queria bem lhe haviam sido tomados, quase todos, que lhe restava uma remota esperança de felicidade, satisfação ou alegria, que ele estava muito fraco, cansado e ferido para continuar a pensar, que precisava ir se deitar na cama no quarto ao lado, cama para a qual ele não ousara olhar nem de relance já que era a primeira que via em todo esse tempo desde que a bala o atingira e quase o matara. Ele se deu conta de que nunca, nunca, deveria ter mostrado o retrato de Mona a esse ser que estava ali de pé olhando para ele com uma ternura enganosa e uma paciência aparentemente sublime. Soube que ele, Yuri, poderia cair morto de repente ali mesmo.

— Vamos, Yuri — disse Samuel, com uma delicadeza rude, vindo na sua direção com sua costumeira postura de superioridade. A mão grosseira e deformada estava estendida para segurar a de Yuri. — Agora quero que vá dormir, Yuri. Durma agora. Estaremos aqui com uma refeição quente para você quando acordar.

Ele se deixou ser levado na direção da porta. No entanto, algo fez com que parasse, com que oferecesse resistência ao homenzinho que era mais forte do que qualquer adulto normal que Yuri um dia conhecera. Yuri descobriu-se olhando para trás, para o homem alto junto à lareira.

Entrou então no quarto e, para sua própria surpresa, caiu atordoado na cama. O homenzinho tirou-lhe os sapatos.

— Desculpe — disse Yuri.

— Não se preocupe — disse o homenzinho. — Quer que eu o cubra?

— Não, aqui não faz frio, e eu estou em segurança.

Ele ouviu a porta se fechar, mas não abriu os olhos. Já estava se afastando dali, para longe de tudo; e, num relance de realidade em sonho que o atingiu e o despertou com um choque. ele viu Mona sentada na beira da cama, a lhe dizer que se aproximasse. Os pêlos entre as suas pernas eram vermelhos, mas mais escuros do que a sua cabeleira.

Ele abriu os olhos. Por um instante, só percebeu uma escuridão próxima, uma ausência da luz que deveria estar ali. E então, aos poucos, notou que Ash estava em pé ao seu lado, olhando para ele. Com repulsa e medo instintivo, Yuri permaneceu imóvel, com os olhos fixos na lã do longo casaco de Ash.

— Não vou roubar a fotografia enquanto você está dormindo — disse Ash, num sussurro. — Não se preocupe. Vim lhe dizer que preciso ir para o norte hoje, para visitar o vale. Estarei de volta amanhã e preciso encontrá-lo aqui quando voltar.

— Eu não fui muito inteligente, fui? — perguntou Yuri. — De lhe mostrar o retrato dela. Fui um idiota.

Ele ainda estava com os olhos fixos na lã escura. E então, bem acima do seu rosto, viu os dedos brancos da mão direita de Ash. Voltou-se bem devagar e olhou para o alto. Horrorizou-o a proximidade do grande rosto do homem, mas ele não disse nada. Apenas contemplou os olhos que se fixavam nele com uma curiosidade cristalina e olhou então para a boca voluptuosa.

— Acho que agora estou ficando louco — disse Yuri.

— Não, não está — respondeu Ash. — Mas precisa começar a ser esperto de agora em diante. Durma. Não tenha medo de mim. E permaneça aqui, em segurança, com Samuel até que eu volte.

 

O NECROTÉRIO ERA ACANHADO, imundo, composto de pequenas salas com um revestimento velho de azulejos e cerâmica branca nas paredes e pisos e com encanamentos enferrujados e mesas metálicas que rangiam.

Só em Nova Orleans, pensou ela, poderia ser assim. Só aqui eles deixariam uma menina de treze anos se aproximar do corpo, vê-lo e começar a chorar.

— Saia daqui, Mona — disse ela. — Deixe-me examinar Aaron.

Suas pernas tremiam, suas mãos ainda mais. Era como na velha piada. A pessoa está ali sentada, paralitica e se contorcendo; alguém lhe pergunta o que ela faz na vida, e ela responde, "Sou ne... ne... neuro-cirurgiao!"

Ela se apoiou na mão esquerda e ergueu o lençol ensangüentado. O carro não havia atingido o rosto. Era Aaron.

Esse não era o lugar adequado para lhe render homenagem, para relembrar suas múltiplas gentilezas e vãos esforços no sentido de ajudá-la. Uma imagem talvez surgisse luminosa para ocultar a sujeira, o fedor, a ignomínia do corpo anteriormente cheio de dignidade, jogado de qualquer jeito na mesa imunda.

Aaron Lightner no velório da sua mãe. Aaron Lightner a pegá-la pelo braço para ajudá-la a atravessar a multidão de perfeitos desconhecidos que eram seus parentes e se aproximar do caixão da mãe. Aaron, sabendo que era exatamente aquilo o que ela queria fazer e precisava fazer: contemplar o corpo delicadamente maquilado e perfumado de Deirdre Mayfair.

Nenhum cosmético havia tocado nesse homem que jazia aqui fora do alcance da distinção e em profunda indiferença, com sua cabeleira branca lustrosa como sempre, emblema da sabedoria lado a lado com uma vitalidade extraordinária. Seus olhos claros estavam abertos, porém inconfundivelmente mortos. A boca se relaxara talvez no seu formato mais agradável e familiar, prova de uma vida vivida com uma proporção surpreendentemente pequena de rancor, raiva ou humor sinistro.

Ela pôs a mão na sua testa e depois movimentou a cabeça só um pouco para um lado e depois de volta à posição. Calculou que a hora da morte havia sido menos de duas horas antes.

O tórax havia sido esmagado. A camisa e o paletó estavam empapados de sangue. Sem dúvida, os pulmões entraram em colapso instantaneamente, e mesmo antes disso era possível que o coração tivesse sofrido uma ruptura.

Tocou delicadamente os seus lábios, afastando-os como se fosse uma amante a provocá-lo, preparando-se para beijá-lo, pensou. Os olhos de Rowan estavam úmidos, e a sensação de tristeza ficou de repente tão profunda que lhe voltaram cheiros do velório de Deirdre, a presença envolvente de flores brancas e perfumadas. A boca estava cheia de sangue.

Ela examinou os olhos, que não retribuíram seu olhar. Eu o conheço, eu o amo! Debruçou-se ainda mais perto. É, ele morrera instantaneamente. Morrera do coração, não do cérebro. Ela fechou delicadamente as suas pálpebras e deixou os dedos pousados ali.

Quem faria uma autópsia decente nessa masmorra? Vejam só as manchas na parede. Sintam o cheiro das gavetas.

Ela puxou um pouco mais o lençol e depois o afastou com força, desajeitada ou impaciente, não sabia dizer qual. A perna esquerda estava esmagada. Era óbvio que a parte inferior e o pé haviam sido separados e postos de volta na calça de lã. A mão direita tinha apenas três dedos. Os outros dois haviam sido decepados brutal e completamente. Será que alguém havia recolhido os dedos?

Houve um chiado. Era o detetive chinês que entrava na sala, a terra na sola do seu sapato provocava aquele ruído detestável em contato com o piso.

— Tudo bem aí, doutora?

— Tudo bem — disse ela. — Estou quase terminando. — Ela deu a volta até o outro lado. Pôs a mão na cabeça de Aaron e no seu pescoço, e ficou ali parada, calada, pensando, escutando, sentindo.

Havia sido o acidente de automóvel, simples e selvagem. Se ele havia sofrido, nenhuma imagem do sofrimento pairava agora junto a ele. Se ele havia lutado para não morrer, isso também permaneceria uma incógnita para sempre. Beatrice vira sua tentativa de se desviar do carro, ou era isso o que ela achava. Mary Jane relatara que ele tentou sair da frente. Simplesmente não conseguiu.

Afinal, ela recuou. Precisava lavar as mãos, mas onde? Foi até a pia, abriu a torneira antiqüíssima e deixou que a água jorrasse sobre seus dedos. Fechou então a torneira e enfiou as mãos nos bolsos do casaco de algodão. Passou pelo policial para voltar para a pequena ante-sala diante das gavetas de corpos não procurados.

Michael estava ali, com o cigarro na mão, o colarinho aberto, aparentando estar totalmente devastado Dela dor e pelo peso do consolo.

— Você quer vê-lo? — perguntou ela. Sua garganta ainda doía, mas isso não tinha absolutamente a menor importância. — Não há nada de errado com o rosto dele. Não olhe para mais nada.

— Acho que não quero — disse Michael. — Nunca estive antes numa situação dessas. Se você diz que ele está morto, que o carro o atingiu e que não há nada que eu possa descobrir, não quero vê-lo.

— Eu compreendo.

— Esse cheiro está me fazendo mal. Mona já enjoou.

— Houve uma época em que eu estava acostumada com ele — disse ela.

Ele se aproximou dela, segurando-lhe a nuca na sua mão grande e áspera, e depois a beijando, desajeitado, de um modo totalmente diferente do jeito terno e cheio de remorsos dos seus beijos durante todas aquelas semanas de silêncio. Ele estremeceu de corpo inteiro, e ela entreabriu os lábios e retribuiu o beijo, esmagando-o com um abraço, ou pelo menos procurando fazê-lo.

— Preciso sair daqui — disse ele.

Ela recuou um passo apenas e olhou de relance para a outra sala, para o monte ensangüentado. O policial chinês havia rearrumado o lençol, talvez por respeito, ou por normas de procedimento.

Michael olhava fixamente para as gavetas ao longo da parede em frente. Os corpos ali dentro geravam aquele cheiro abominável. Ela olhou. Uma gaveta estava parcialmente aberta, talvez por não poder ser fechada, e ela viu a comprovação de que havia dois corpos nela, a cabeça marrom de um olhando para cima, e os pés rosados e embolorados do outro deitado direto em cima do primeiro. Havia um bolor verde também no rosto. Mas o horrível não era o bolor; era o empilhamento. Cadáveres não procurados, tão íntimos ao seu próprio modo quanto amantes.

— Eu não posso... — disse Michael.

— Eu sei, vamos — respondeu ela.

Quando entraram no carro, Mona já havia parado de chorar. Ela estava sentada olhando pela janela, tão imersa nos seus pensamentos que impossibilitava qualquer conversa, qualquer distração. De vez em quando ela se voltava e olhava de relance para Rowan. Rowan encarava esse olhar e sentia sua força e seu afeto. Nas três semanas em que ouvira essa criança abrir seu coração, uma bela dose de poesia que para Rowan muitas vezes não passava de simples som naquele seu estado sonambúlico, Rowan viera a amar Mona por inteiro.

Herdeira, a que dará à luz a criança que transmitirá o legado. Criança com um ventre ali dentro, e as paixões de uma mulher experiente. Criança que segurara Michael nos seus braços, que na sua exuberância e ignorância não havia absolutamente temido pelo seu coração prejudicado, ou receado que ele pudesse morrer no auge da paixão. Ele não morrera. Conseguira sair da vida de inválido e se preparar para a volta da esposa! E agora a culpa estava nos ombros de Mona, uma culpa por demais inebriante, a confundir todas as doses poderosas que Mona tivera de engolir.

Ninguém falava à medida que o carro avançava.

Rowan estava sentada junto a Michael, encostada nele toda enrodilhada, resistindo à vontade de dormir, de afundar de novo, de voltar a se perder em pensamentos que fluíam com toda a uniformidade e impassibilidade de um rio, pensamentos como aqueles que a encobriam delicadamente há semanas, pensamentos através dos quais fatos e palavras surgiam com tanta lentidão e tanta suavidade que mal parecia que eles a haviam atingido. Vozes que falavam com ela por cima do ruído amortecedor da água corrente.

Ela sabia o que pretendia fazer. Ia ser mais um golpe terrível, terrível, para Michael.

Encontraram a casa fervilhando. Novamente cercada por seguranças. Isso não era surpresa para nenhum deles. E Rowan não exigiu nenhuma explicação. Ninguém sabia quem havia contratado o homem para atropelar Aaron Lightner.

Celia chegara e se encarregara de Bea, deixando-a "chorar à vontade" no quarto de hóspedes regularmente usado por Aaron no segundo andar. Ryan Mayfair estava de plantão, o homem sempre pronto para o tribunal ou a igreja, no seu terno e gravata, falando com cautela sobre o que a família devia fazer agora.

É claro que todos olhavam para Rowan. Ela havia visto esses rostos junto à sua cama. Ela os havia visto passar diante dela durante suas longas horas no jardim.

Não se sentia à vontade no vestido que Mona a ajudara a escolher porque não se lembrava de tê-lo visto antes. Mas isso realmente não importava tanto quanto comer. Ela estava com uma fome voraz, e haviam servido um grande bufê ao estilo Mayfair na sala de jantar.

Michael encheu um prato para ela antes que os outros pudessem fazê-lo. Ela se sentou à cabeceira da mesa de jantar e comeu, enquanto observava os outros que se moviam aqui e ali em pequenos grupos.

Sedenta, bebeu um copo de água gelada. Eles a estavam deixando em paz, por respeito ou por impotência. O que poderiam lhe dizer? Em sua maioria, eles sabiam muito pouco do que de fato ocorrera. Jamais compreenderiam seu seqüestro, como o chamavam, seu cativeiro e as agressões que sofrerá. Como era boa aquela gente. Eles realmente se importavam, mas agora não havia nada que pudessem fazer, a não ser deixá-la em paz.

Mona estava parada ao seu lado. Mona inclinou-se e beijou seu rosto, fazendo isso muito devagar, para que a qualquer instante Rowan pudesse impedi-la. Rowan não o fez. Pelo contrário, ela segurou o pulso de Mona, puxou-a para perto e retribuiu o beijo, adorando a suavidade da sua pele de bebê, pensando só por um instante como Michael devia ter apreciado essa pele, para ver, tocar e penetrar.

— Vou subir para dar uma dormida — disse Mona. — Estou lá em cima se precisar de mim.

— E preciso mesmo — disse Rowan, mas numa voz bem baixa de tal forma que Michael não percebesse. Michael estava à sua direita, devorando um prato de comida acompanhado de uma lata de cerveja gelada.

— É, está bem — disse Mona. — Vou estar só deitada. — Havia uma expressão de pavor no seu rosto, exaustão, tristeza e pavor.

— Agora, precisamos uma da outra — disse Rowan, pronunciando as palavras o mais baixo possível. Os olhos da menina a contemplavam fixamente, e as duas ficaram apenas olhando uma para a outra.

Mona fez que sim e saiu, sem sequer uma despedida rápida para Michael.

O constrangimento de quem sente culpa, pensou Rowan.

Alguém na sala da frente deu uma súbita risada. Parecia que, não importava o que acontecesse, a família Mayfair sempre ria. Quando ela estava à morte no andar de cima, e Michael chorava junto ao leito, havia pessoas rindo na casa. Ela se lembrava de ter pensado nisso, pensado nos dois sons com distanciamento, sem alarme, sem reação. Em devaneio. A verdade é que o riso sempre parece mais perfeito do que o choro. O riso jorra numa cascata violenta e tem sua melodia sem esforço. O choro é com freqüência combatido, abafado, meio estrangulado ou, quando a pessoa se entrega a ele, é com humilhação.

Michael limpou o prato de rosbife, arroz e molho. Bebeu o final da cerveja. Alguém veio rápido pôr mais uma lata junto ao seu prato, e ele a apanhou e bebeu metade dela de imediato.

— Isso é bom para o seu coração? — murmurou ela. Ele não respondeu.

Ela olhou para o prato. Também havia terminado. Decididamente gulosa.

Arroz e molho. Típico de Nova Orleans. Ocorreu-lhe que ela deveria lhe dizer que durante todas aquelas semanas ela havia adorado o fato de ele lhe dar comida com as suas próprias mãos. Mas de que valia dizer uma coisa dessas para ele?

Que ele a amasse era um milagre tão grande quanto qualquer outra coisa que lhe houvesse acontecido, qualquer coisa que houvesse acontecido nesta casa com qualquer um. E, quando se prestava atenção ao que importava, refletiu, tudo havia acontecido nesta casa. Ela se sentia enraizada aqui, vinculada de uma forma que nunca sentira com relação a nenhum outro lugar, nem mesmo no Sweet Christine, a navegar corajosa pela Golden Gate. Sentia a firme certeza de que esse era o seu lar, nunca deixaria de ser e, com os olhos fixos no prato, lembrou-se do dia em que Michael e ela haviam percorrido a casa juntos, abrindo a despensa para encontrar toda essa porcelana antiga, essa porcelana preciosa e as pratarias.

E, no entanto, tudo isso poderia perecer, poderia ser arrancado das suas mãos e das de todos os outros, por uma tempestade de vento quente, vento da boca do inferno. O que lhe dissera sua nova amiga, Mona Mayfair, apenas horas atrás? "Rowan, a história não acabou."

Não, não acabou. E Aaron? Será que eles teriam ligado para a casa-matriz para informar os seus amigos mais antigos do que lhe acontecera, ou será que ele acabaria sendo enterrado entre amigos recentes e parentes por afinidade?

As lâmpadas brilhavam forte sobre o consolo da lareira.

Lá fora, porém, ainda não estava escuro. Através dos louros-cereja, ela via que o céu estava da lendária cor de púrpura. Os murais emitiam suas cores tranqüilizantes ao crepúsculo na sala, e nos carvalhos magníficos, carvalhos que podiam lhe dar conforto quando nenhum ser humano conseguia, as cigarras começavam a cantar. E o ar agradável da primavera entrava pela sala à vontade, por janelas que estavam abertas por toda parte: aqui, no salão e talvez nos fundos, voltadas para a grande piscina fora de uso, janelas que se abriam para as covas do jardim, onde jaziam dois corpos, os corpos dos seus dois únicos filhos.

Michael acabou de beber a segunda cerveja, espremeu a lata como de costume e depois a pousou sobre a mesa com cuidado, como se a grande mesa exigisse essa etiqueta. Ele não olhou para ela. Tinha os olhos fixos nos louros que roçavam as pequenas colunas da varanda, roçavam as vidraças das janelas de cima. Talvez ele estivesse admirando o céu purpúreo. Talvez estivesse prestando atenção à comoção dos estorninhos que a essa hora arremetiam em grandes bandos para devorar as cigarras. Era só a morte, aquela dança, as cigarras enxameando de arvore em árvore, e os bandos de pássaros cruzando o céu crepuscular. Era simplesmente a morte. Só uma espécie devorando a outra.

"É só isso no fundo, minha querida", dissera ela no dia em que despertara, com a camisola coberta de lama, as mãos cobertas de lama, os pés descalços na lama molhada ao lado da cova recente. "No fundo, é só isso, Emaleth. Uma questão de sobrevivência, minha filha."

Parte dela queria voltar para as covas e o jardim, para a mesa de ferro à sombra da árvore, à danse macabre das criaturas aladas lá em cima, fazendo com que a admirável noite violácea pulsasse com cantos incidentais e maravilhosos. Parte dela não ousava fazer isso. Se ela saísse daqui e voltasse para aquela mesa, poderia abrir os olhos e descobrir que uma noite havia passado, talvez mais... Algo de feio e desastroso como a morte de Aaron a apanharia novamente de surpresa para lhe dizer, "Acorde, eles precisam de você. Você sabe o que deve fazer". Será que Aaron teria estado ali por um átimo de segundo, desencarnado e misericordioso, a sussurrar no seu ouvido? Não, não havia sido nada tão claro ou pessoal.

Ela olhou para o marido. O homem descansado na cadeira, esmagando a triste lata de cerveja até transformá-la num objeto redondo e quase chato, com o olhar ainda pousado nas janelas.

Ele era tanto maravilhoso quanto temível, para ela indescritivelmente atraente. E a verdade medonha e vergonhosa era que seu amargor e seu sofrimento o deixavam ainda mais bonito. Era como uma pátina fantástica. Ele não parecia agora tão inocente, tão diferente do homem que realmente era no íntimo. Não, seu íntimo havia se infiltrado pela beleza da pele, mudando totalmente sua textura. Ele emprestara uma leve ferocidade ao seu rosto, bem como muitas sombras delicadas e inconstantes.

Cores entristecidas. Ele lhe dissera algo uma vez sobre cores entristecidas, nos tempos luminosos de recém-casados, antes que soubessem que seu filho não era humano. Ele dissera que na época vitoriana, quando pintavam as casas, usavam-se cores "entristecidas". Isso significava um certo escurecimento das cores; cores abrandadas, sombrias, complexas. As casas vitorianas em todos os Estados Unidos haviam sido pintadas dessa forma. Era isso o que dissera. E ele adorava tudo aquilo, aqueles vermelhos acastanhados, verdes puxados para o oliva e tons azulados de cinza. Mas aqui era preciso criar um outro termo para esse crepúsculo cinzento, para o verde profundamente sombrio, os tons da escuridão que pairavam em torno da casa lilás com suas venezianas pintadas de cor clara.

Ela agora estava pensando se ele não estaria "entristecido". Era isso o que lhe havia ocorrido? Ou será que ela teria de encontrar uma outra palavra para a expressão mais sinistra porém mais audaciosa nos seus olhos, para a forma pela qual seu rosto revelava agora tão pouco à primeira vista, e no entanto não ficava, nem por um instante, feio ou cruel.

Ele se voltou para ela, com os olhos mudando de direção e a atingindo como faróis. Clique. Azuis, e o sorriso quase ali. Faça isso de novo, pensou ela quando ele desviou o olhar. Dê um olhar desses para mim. Volte para mim esses olhos grandes, azuis e realmente deslumbrantes por um momento. Seria uma vantagem ter olhos daqueles?

Ela estendeu a mão e tocou a sombra de barba no seu rosto, no seu queixo. Sentiu-a no pescoço e depois tocou seus finos cabelos negros e todo o cabelo grisalho mais novo e mais grosso, enfiando os dedos nas mechas.

Ele manteve o olhar fixo à frente como se estivesse chocado e então, com muito cuidado, quase sem mexer com a cabeça, voltou os olhos para olhar para ela.

Ela recolheu a mão, levantando-se ao mesmo tempo, e ele se levantou junto com ela.

Havia quase um espasmo na mão de Michael quando ele lhe segurou o braço. Quando ele afastou a cadeira para não atrapalhar o caminho, ela deixou seu corpo roçar no dele.

Subiram as escadas em silêncio.

O quarto estava como estivera todo esse tempo, muito sereno e exageradamente aquecido, talvez, com a cama nunca feita, mas só arrumada para dormir de tal modo que ela pudesse a qualquer momento voltar para ela.

Ela fechou a porta e a trancou por dentro. Ele já estava tirando o paletó. Ela abriu a blusa, puxando-a de dentro da saia com uma das mãos para tirá-la e a deixar cair ao chão.

— A operação que fizeram — disse ele. — Achei que talvez...

— Não, eu estou curada. É o que quero fazer.

Ele se aproximou e a beijou no rosto, virando-lhe a cabeça enquanto a beijava. Ela sentia a aspereza ardente da barba, a aspereza das mãos que puxavam seu cabelo com um pouco de força enquanto levavam sua cabeça para trás. Ela estendeu as mãos e começou a puxar a sua camisa.

— Tire essa camisa — disse ela.

Quando ela abriu o zíper, a saia caiu aos seus pés. Como estava magra. Mas ela não estava ligando para si mesma, nem queria se ver. Queria vê-lo. Ele agora estava nu, e duro. Ela estendeu a mão, agarrou os pêlos negros e crespos no seu peito e lhe beliscou os mamilos.

— Ai, foi com força demais — murmurou ele. Ele a puxou para si, forçando-lhe os seios contra os pêlos. A mão de Rowan subiu-lhe entre as pernas, sentindo-o duro e pronto.

Ela o puxava enquanto subia na cama, atravessando-a de joelhos e depois se deixando cair no lençol fresco de algodão para sentir seu peso descer desajeitado sobre ela. Meu Deus, esse homenzarrão a esmagá-la de novo, esse emaranhado de pêlos entre nós, esse cheiro bom do corpo e de perfumes finos, esse divino sexo que pulsa e arranha.

— Vem, rápido — disse ela. — Na segunda vez, a gente vai devagar. Vem me inundar.

Mas ele não precisava ser atiçado.

— Vem fundo! — murmurou ela entre dentes.

O pau a penetrou, com seu tamanho a chocando, machucando, ferindo. A dor era maravilhosa, delicada, perfeita. Ela o apertou o melhor que pôde, com seus músculos fracos, doloridos e sem obedecer ao seu comando, traída pelo próprio corpo machucado.

Não importava. Ele a invadia com violência, e ela gozou, sem dar sinal com gritos ou suspiros. Estava ali sem pensar, corada, com os braços abertos que depois o abraçaram com toda a força, abraçaram a própria dor, enquanto ele continuava a penetrá-la e depois se exauria em grandes movimentos espasmódicos que pareciam elevá-lo de cima dela e depois abandoná-lo para que ele caísse nos seus braços, suado, conhecido e amado. Amado com desespero. Michael.

Ele rolou para o lado. Não conseguiria repetir a dose tão cedo. Era de se esperar. Seu rosto estava úmido, com o cabelo colado à testa. Ela ficou deitada imóvel no ar refrescante do quarto, descoberta, a observar o lento movimento das pás do ventilador junto ao teto.

O movimento era tão lento. Talvez ele a estivesse hipnotizando. Acalme-se, disse ela ao próprio corpo, ao ventre, ao eu interior. Ela como que sonhou, temerosa, revivendo os momentos nos braços de Lasher e, felizmente, considerou-os insuficientes. Um deus selvagem e lascivo, é, ele poderia ter parecido ser isso. Mas este aqui era um homem, um homem brutal com um coração imenso e amoroso. Era tão divina essa sua crueza, esse seu jeito rude, tão perfeitamente deslumbrante, contundente e simples.

Ele saiu da cama. Rowan tinha certeza de que ele dormiria, e ela própria sabia que não conseguiria dormir.

Mas ele já estava de pé e se vestia, apanhando roupas limpas nos cabides do closet do banheiro. Estava de costas para ela e, quando se voltou, a luz do banheiro lhe iluminou o rosto.

— Por que você fez aquilo? Por que foi embora com ele? — Sua voz era um rugido.

— Pssssiuuu! — Ela se sentou na cama e levou o dedo aos lábios. — Não traga todos para cá. Não faça com que venham. Odeie-me se quiser...

— Odiar você? Meu Deus, como você pode me dizer uma coisa dessas? Entra dia, sai dia, sempre lhe digo que a amo! — Ele veio na direção dela e pôs as mãos com firmeza no pé da cama. Olhou ameaçador para ela, horrivelmente lindo na sua fúria. — Como pôde me deixar daquele jeito? — Ele sussurrou o grito. — Como!

Deu a volta pelo lado e de repente agarrou-a pelos braços nus, com os dedos machucando sua pele de uma forma insuportável.

— Não faça isso! — gritou ela, esforçando-se para manter a voz baixa, sabendo como soava feia, como estava cheia de pânico. — Não bata em mim, estou lhe avisando. — Era isso o que ele fazia, o que fazia o tempo todo sem parar. — Eu o mato se bater em mim.

Ela conseguiu se soltar e rolou para o lado, caindo da cama e seguindo rápido para o banheiro, onde o piso de mármore frio gelou seus pés descalços.

Matá-lo! Droga, se você não se controlar, é o que vai fazer. Com todo o seu poder, vai matar Michael!

Quantas vezes ela experimentara com Lasher, cuspindo nele, com o ódio mesquinho, matá-lo, matá-lo, matá-lo, e ele só ria. Bem, esse homem aqui morreria se ela atacasse com sua fúria invisível. Ele morreria tanto quanto os outros que ela havia matado: os assassinatos imundos e espantosos que haviam caracterizado sua vida, trazendo-a a esta casa, a este momento.

Pavor. O silêncio, a mudez do quarto. Ela se voltou devagar, olhou pela porta e o viu parado ao lado da cama, só a observá-la.

— Eu deveria ter medo de você — disse ele. — Mas não tenho. Só tenho medo de uma coisa. Que você não me ame.

— Ai, mas eu amo. Sempre amei. Sempre.

Seus ombros encurvaram-se por um instante, só por um instante, e então ele lhe virou as costas. Estava tão magoado, mas nunca mais teria a aparência vulnerável de antes. Nunca mais teria aquela docilidade pura.

Havia uma poltrona junto à janela que dava para a sacada, e ele pareceu encontrá-la às cegas e optar por ela desanimado ao se sentar, ainda de costas para ela.

E eu estou a ponto de magoá-lo mais uma vez, pensou ela.

Ela quis ir até ele, conversar com ele, abraçá-lo novamente. Conversar do jeito que conversaram naquele primeiro dia em que ela despertara e enterrara sua filha única, a única filha que um dia teria, à sombra do carvalho. Queria começar agora com o entusiasmo afetuoso que sentira naquela hora, o amor por inteiro, irrefletido, precipitado e sem a menor cautela.

No entanto, isso agora parecia estar tão fora do seu alcance quanto a fala havia estado logo em seguida.

Ela ergueu as mãos e as passou com força pelo cabelo. Depois, mecanicamente, procurou as torneiras do chuveiro.

Com a água jorrando, pôde pensar, talvez com clareza, pela primeira vez. O barulho era agradável, e a água quente, deliciosa.

Parecia haver uma quantidade impossível de vestidos entre os quais escolher. Era absolutamente desnorteante que houvesse tantos nos closets. Ela afinal encontrou um par de calças de lã macia, calças velhas que haviam sido suas há séculos em San Francisco, e as vestiu, pondo por cima um suéter de algodão largo e enganosamente pesado.

Estava bastante fresco agora para uma noite de primavera. E era gostoso estar novamente usando as roupas de que gostava. Perguntava-se quem poderia ter comprado todos aqueles vestidos bonitinhos.

Escovou os cabelos e fechou os olhos, pensando, "Você vai perdê-lo, com razão, se não conversar com ele agora, se não explicar mais uma vez, se não lutar contra seu próprio medo instintivo das palavras e for até ele".

Ela largou a escova. Ele estava parado junto ao portal. Ela não havia fechado a porta esse tempo todo e, quando olhou para ele, a expressão de tranqüila aceitação no seu rosto foi para ela um grande alívio. Quase chorou. Mas isso teria sido de um egoísmo ridículo.

— Amo você, Michael. Isso eu poderia gritar aos quatro ventos. Nunca deixei de amá-lo. Foi vaidade e foi onipotência. E o silêncio, o silêncio foi a impossibilidade de uma alma se curar e se fortalecer, ou talvez apenas o retiro necessário que a alma procurou, como se fosse um organismo egoísta.

Ele ouvia atento, com um leve franzir do cenho, com o rosto calmo mas jamais inocente como costumava ser antes. Os olhos eram enormes e brilhantes, mas duros e sombreados de tristeza.

— Rowan, não sei como pude tê-la machucado agora mesmo. Realmente não sei. Simplesmente não sei...

— Michael, não...

— Não, deixe-me falar. Sei o que aconteceu com você. Sei o que ele fez. Eu sei. E não sei como pude ter posto a culpa em você, ter-me zangado com você, tê-la machucado desse jeito, não sei!

— Michael, eu sei. Não fale assim. Não fale, ou vai me fazer chorar.

— Rowan, eu o destruí — disse ele. Ele baixara a voz a um sussurro, como tantas pessoas fazem ao falar da morte. — Eu o destruí, e isso não basta! Eu... eu...

— Não, não diga mais nada. Perdoe-me, Michael, perdoe-me para o seu bem e para o meu bem. Perdoe-me. — Ela se inclinou para a frente e o beijou, tirando-lhe o fôlego deliberadamente para que ele se calasse. E dessa vez, quando ele a envolveu nos braços, foi com a antiga delicadeza, com o velho carinho afetuoso, a enorme doçura protetora que fazia com que ela se sentisse segura, segura como quando eles fizeram amor pela primeira vez.

Devia existir alguma coisa mais adorável do que cair nos seus braços desse jeito, mais adorável do que estar simplesmente perto dele. Agora, no entanto, ela não conseguia imaginar o que seria. Certamente não a violência da paixão. Era óbvio que essa também existia, para ser apreciada repetidamente, mas aqui havia algo que ela jamais conhecera com outro ser humano na terra!

Afinal, ele se afastou, segurando-lhe as duas mãos, a beijá-las, e depois dando seu belo sorriso de menino, exatamente aquele que ela imaginara ter certeza de que nunca mais veria. Ele piscou então e falou, com a voz embargada.

— Você ainda me ama de verdade, querida?

— Amo — disse ela. — Parece que aprendi a amá-lo um dia, e que vai ter de ser para sempre. Venha comigo, vamos lá para fora, para a sombra do carvalho. Quero ficar um pouco perto deles, não sei por quê. Você e eu, só nós dois sabemos que eles estão ali juntos.

Eles desceram sorrateiros pela escada dos fundos, passando pela cozinha. O segurança junto à piscina fez apenas um cumprimento com a cabeça. Estava escuro no quintal quando eles encontraram a mesa de ferro. Ela se jogou contra ele, e ele a amparou. É só por enquanto, e depois você vai me odiar de novo, pensou ela.

É, vai me desprezar. Ela beijou seu cabelo, seu rosto, esfregou a testa de um lado para o outro na barba áspera. Sentia seus suspiros discretos e receptivos, densos, profundos, de dentro do peito.

Você vai me desprezar, pensou ela. Mas quem mais pode ir atrás dos homens que mataram Aaron?

 

O AVIÃO ATERRISSOU no aeroporto de Edimburgo às onze da noite. Ash estava cochilando, com o rosto encostado na janela. Ele viu os faróis dos automóveis que se aproximavam cada vez mais, os dois pretos, os dois alemães: sedãs que levariam a ele e a seu pequeno séquito pelas estradas estreitas até Donnelaith. Não se tratava mais de uma trilha que se precisasse vencer a cavalo. Ash ficava feliz com isso, não porque não gostasse dessas viagens pelas montanhas perigosas, mas porque queria chegar ao próprio vale com a maior rapidez possível.

A vida moderna tornou a todos impacientes, pensou ele em silêncio. Quantas vezes na sua vida longuíssima ele não partira com destino a Donnelaith, determinado a visitar o local das suas perdas mais trágicas e a reexaminar mais uma vez seu destino? Houve épocas em que levara anos para chegar à Inglaterra e depois seguir para o norte, para as montanhas da Escócia. Em outras ocasiões, havia sido questão de meses.

Agora, a viagem era algo que se completava em horas. E isso o alegrava. Pois ir até lá nunca havia sido a parte difícil ou catártica. A própria visita, sim.

Ele se levantou agora quando essa jovem hesitante, Leslie, que viera com ele dos Estados Unidos, lhe trouxe o casaco, um cobertor dobrado e também um travesseiro.

— Está com sono, minha querida? — perguntou ele, com uma censura delicada. Os criados na América costumavam desconcertá-lo. Faziam coisas estranhíssimas. Ele não teria ficado surpreso se ela tivesse trocado de roupa e vestido uma camisola.

— São para o senhor, Sr. Ash. A viagem é de quase duas horas. Achei que o senhor poderia querer.

Ele sorriu enquanto passava por ela. Como deveriam ser para ela, perguntou-se, essas viagens noturnas a locais distantes? A Escócia deveria ser como qualquer outro lugar para onde ele a havia arrastado, a ela ou a seus outros auxiliares. Ninguém podia adivinhar o que isso significava para ele.

Quando ele pôs o pé na escada metálica, o vento o tomou de surpresa. Aqui fazia ainda mais frio do que em Londres. Na realidade, sua viagem o levara de um cinturão de frio intenso a outro e a mais outro. E, com uma ansiedade infantil e tristeza superficial, ele sentiu saudades do calor do hotel em Londres. Pensou no cigano a dormir tão lindo no travesseiro, magro e moreno, com uma boca cruel e sobrancelhas e cílios muito negros que se curvavam para cima, como os de uma criança.

Ele cobriu os olhos com as costas da mão e se apressou a descer a escada e entrar no carro.

Por que as crianças tinham cílios tão grandes? Por que elas os perdiam mais tarde? Será que precisavam dessa proteção adicional? E como seria com o Taltos? Ele não conseguia se lembrar de nada que tivesse conhecido, intrinsecamente, como infância. Sem dúvida, existia um período semelhante para o Taltos.

— Conhecimento perdido... — Essas palavras lhe haviam sido ditas tantas vezes. Ele não se lembrava de alguma época em que não as conhecesse.

Isso era no fundo uma agonia, essa sua volta, essa recusa a dar um passo adiante sem uma amarga consulta a sua alma plena.

Alma. Você não tem alma, ou foi o que lhe disseram.

Através da vidraça escura, ele viu a jovem Leslie entrar no assento do passageiro à sua frente. Ficou aliviado por ter o compartimento traseiro só para si, pelo fato de terem encontrado dois automóveis para levá-lo e a sua pequena comitiva até o norte. Teria sido insuportável estar agora sentado ao lado de um ser humano, ouvir tagarelice humana, sentir o cheiro de uma mulher robusta, tão jovem e tão doce.

Escócia. Sinta o cheiro das florestas. O cheiro do mar no vento.

O automóvel saiu sem solavancos. Motorista experiente. Ele ficava grato. Não poderia ter sido jogado de um lado para o outro dali até Donnelaith. Por um átimo, viu o reflexo ofuscante dos faróis atrás dele, os guarda-costas a acompanhá-lo, como sempre.

Abateu-se sobre ele uma terrível premonição. Por que se expor a essa tortura? Por que ir a Donnelaith? Por que escalar a montanha e visitar esses santuários do passado mais uma vez? Ele fechou os olhos e viu por um segundo a brilhante cabeleira vermelha da bruxinha que Yuri amava como se fosse um menino de tão tolo. Viu seus olhos verdes e duros a encará-lo dali da fotografia, desmentindo seus cabelos de menininha com a fita de cor vibrante. Yuri, você é um bobo.

O automóvel ganhou velocidade.

Ele não conseguia ver nada, pelo vidro profundamente escurecido. Era lamentável. Decididamente irritante. Nos Estados Unidos, os seus próprios carros não tinham janelas escurecidas. A privacidade jamais havia sido uma preocupação para ele. Já ver o mundo nas suas cores naturais, isso era algo de que ele precisava, como precisava do ar e da água.

Ah, mas talvez ele pudesse dormir um pouco, sem sonhar. Surpreendeu-o uma voz: a da moça, vindo pelo alto-falante do teto.

— Sr. Ash, liguei para a estalagem. Estão preparados para sua chegada. Quer parar por algum motivo agora?

— Não, quero apenas chegar lá, Leslie. Acomode-se com o cobertor e o travesseiro. A viagem é longa.

Ele fechou os olhos, mas o sonho não veio. Essa seria uma dessas viagens em que ele sentiria cada minuto e cada irregularidade na estrada.

Então, por que não voltar a pensar no cigano? No seu rosto magro, moreno, no brilho dos seus dentes mordendo o lábio, tão brancos e perfeitos, dentes de homens modernos. Um cigano rico, talvez. Uma bruxa rica, isso lhe ficara claro durante a conversa. Com a imaginação ele estendeu a mão para o botão da sua blusa branca na fotografia. Abriu-a para ver seus seios. Deu-lhes bicos rosados e tocou as veias azuis por baixo da pele, que tinham de estar lá. Suspirou, deu um assobio baixo por entre os dentes e voltou a cabeça para o lado.

O desejo era tão doloroso que ele se forçou a combatê-lo, a deixar que passasse. Viu, então, o cigano mais uma vez. Viu seu longo braço moreno jogado sobre o travesseiro. Sentiu novamente o cheiro dos bosques e do vale que estava impregnado no cigano.

— Yuri — murmurou ele na sua fantasia, e virou o rapaz de lado para beijá-lo na boca.

Essa também era uma tremenda fornalha. Sentou-se mais para a frente, com os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos.

— Música, Ash — disse ele, baixinho. E, recostando-se novamente, com a cabeça encostada na janela, os olhos dilatados, lutando para ver através do horrível vidro escurecido, ele começou a cantar para si mesmo com uma voz fraquinha, num ínfimo falsete, uma canção que ninguém compreenderia a não ser Samuel, e era possível que nem Samuel a conhecesse ao certo.

Eram duas da madrugada quando ele disse ao motorista que parasse. Não podia continuar. Do lado de fora do vidro escurecido, estava o mundo inteiro que ele viera ver aqui. Não podia esperar mais.

— Estamos quase chegando, senhor.

— Eu sei. Vocês encontrarão a cidadezinha apenas alguns quilômetros adiante. Devem ir direto para lá. Acomodem-se na estalagem e esperem por mim. Agora, chamem os seguranças no carro atrás do nosso. Digam-lhes que os acompanhem. Eu preciso ficar aqui sozinho agora.

Não esperou pelos inevitáveis protestos ou argumentações.

Saiu do carro, batendo a porta antes que o motorista pudesse vir ajudá-lo e, com um pequeno aceno simpático, cruzou rapidamente a borda da estrada e penetrou na floresta fria e densa.

O vento agora não estava forte. A lua, emaranhada nas nuvens, lançava uma luz intermitente e diáfana. Descobriu-se envolto pelas fragrâncias dos pinheiros, da terra fria e dura aos seus pés, das corajosas folhas do primeiro capim da primavera, esmagadas pelos seus sapatos, do suave perfume de flores novas.

As cascas das árvores pareciam agradáveis aos seus dedos.

Por muito tempo, ele prosseguiu no escuro, às vezes tropeçando, às vezes agarrando-se ao grosso tronco de uma árvore para se equilibrar. Não parava para recuperar o fôlego. Conhecia essa subida. Conhecia as estrelas lá em cima, muito embora as nuvens procurassem escondê-las.

Na realidade, o céu estrelado provocava nele uma emoção estranha, dolorida. Quando afinal parou, foi num cimo alto. Suas pernas compridas doíam um pouco, como as pernas talvez devessem doer. Mas neste lugar sagrado, neste lugar que significava mais para ele do que qualquer outro pedaço de terra do planeta, ele se lembrou de uma época em que seus membros não teriam doído, em que ele poderia ter subido correndo a encosta a passos largos.

Não importava. O que era uma dorzinha? Ela lhe proporcionava uma idéia da dor dos outros. E os humanos sofriam dores tão terríveis. Pense só no cigano dormindo na cama quentinha, sonhando com a sua bruxa. E a dor era dor, fosse física fosse mental. Nem o mais sábio dos homens, das mulheres ou dos Taltos jamais saberia o que era pior, a dor do coração ou a dor da carne.

Voltou-se, afinal, e procurou um terreno ainda mais alto, subindo firme a encosta mesmo quando ela parecia impossível de tão íngreme, muitas vezes procurando se agarrar a galhos e a rochas firmes para ajudar na escalada.

O vento ganhou força mas não muita. Suas mãos e seus pés estavam frios, mas não era um frio que ele não pudesse suportar. Na realidade, o frio sempre fora revigorante para ele.

E de fato, graças a Remmick, ele estava com seu casaco de gola de pele; graças a si mesmo, estava usando roupas quentes de lã; graças a Deus, talvez, a dor nas suas pernas não estava pior, apenas um pouco mais irritante.

O chão esboroou-se um pouco, mas as árvores eram como uma alta balaustrada que o protegia, permitindo que prosseguisse rapidamente.

Finalmente, ele se voltou e encontrou o caminho que sabia estar ali, que subia serpenteando entre duas encostas suaves onde as árvores eram antigas, intactas, talvez poupadas por todos os intrusos há séculos.

A trilha descia para um pequeno vale coberto de pedras pontiagudas que lhe machucaram os pés e fizeram com que perdesse o equilíbrio mais de uma vez. E então voltou a subir, calculando a encosta totalmente impossível, a não ser pelo fato de já ter subido por ali antes e saber que sua vontade superaria a evidência dos seus sentidos.

Acabou por emergir numa pequena clareira, com os olhos fixos no pico altíssimo e distante. As árvores estavam tão próximas que lhe era difícil agora encontrar a trilha ou qualquer lugar onde pudesse pisar. Prosseguiu, esmagando os arbustos mais baixos à medida que andava. E, quando se voltou para a direita, viu lá embaixo ao longe, para além de uma imensa e profunda fissura, as águas do braço de mar, brilhando à luz pálida da lua, e ainda mais distantes as ruínas altas e esqueléticas de uma catedral.

Perdeu o fôlego. Não sabia que haviam avançado tanto na reconstrução. Ao fixar os olhos no desenho lá embaixo, distinguiu todo o projeto em forma de cruz da igreja, ou foi o que lhe pareceu, e uma quantidade de tendas e prédios atarracados, bem como algumas luzes trêmulas que não eram mais do que pontas de alfinetes. Descansou encostado na rocha, abrigado em segurança, como que espionando esse mundo, sem nenhum perigo de tropeçar e cair.

Ele sabia o que era isso, cair sem parar, procurar se segurar, gritar e ser incapaz de impedir a queda, com o corpo indefeso ganhando peso e velocidade a cada metro acidentado do terreno dali para baixo.

Seu casaco estava rasgado. Os sapatos, molhados com a neve.

Por um instante, todos os cheiros dessa terra o envolveram e o dominaram de tal forma que ele sentiu um prazer erótico atravessá-lo, tomar seu sexo e transmitir ondas de puro prazer por toda a sua pele.

Fechou os olhos e deixou que o vento suave e inofensivo lhe afagasse o rosto, lhe esfriasse os dedos.

Está perto, muito perto. Tudo o que tem a fazer é prosseguir subindo e dar a volta diante do penedo cinzento que pode ver, agora que a lua está descoberta. Num momento, as nuvens podem voltar a encobrir a luz, mas não será menos fácil para você.

Um som distante chegou-lhe aos ouvidos. Por um momento, pensou que talvez o estivesse imaginando. Mas lá estava ele, o batuque baixo dos tambores e o guincho agudo e monótono das gaitas, sinistro e sem nenhum ritmo ou melodia que ele pudesse discernir, que provocou nele um súbito pânico e depois uma ansiedade surda, latejante. O barulho ficou mais intenso, ou melhor, ele se permitiu ouvi-lo com maior fidelidade. O vento cresceu e depois sumiu. Os tambores vinham fortes das encostas lá embaixo, com as gaitas a guinchar, e mais uma vez ele procurou discernir a melodia. Não encontrando nenhuma, ele trincou os dentes e apertou a base da palma da mão contra o ouvido direito para finalmente impedir a entrada do som.

A gruta. Siga em frente. Suba e entre nela. Vire as costas aos tambores. O que representam os tambores para você? Se eles soubessem que você está aqui, será que tocariam uma canção de verdade para atraí-lo? Será que eles ainda conhecem as canções?

Ele prosseguiu a subida e, dando a volta ao penedo, sentiu com as duas mãos a superfície fria da pedra. Uns seis metros adiante, talvez mais, ficava a entrada da gruta, coberta de mato, talvez oculta de qualquer outro alpinista. Mas ele conhecia as formações aleatórias das pedras acima dela. Subiu um pouco mais, com um passo pesado e íngreme após o outro. O vento assobiava aqui entre os pinheiros. Ele empurrou o mato cerrado, deixando que os pequenos ramos lhe arranhassem as mãos e o rosto. Não se importava. Afinal, penetrou na própria escuridão. E se jogou contra a parede, com a respiração pesada e os olhos fechados mais uma vez.

Nenhum som chegava a ele de lá das profundezas. Só o vento cantava como antes, ocultando misericordiosamente os tambores distantes se é que, de fato, eles ainda estavam fazendo sua algazarra feia e medonha.

— Estou aqui — sussurrou ele. E o silêncio recuou de um salto, recolhendo-se talvez para as próprias profundezas da gruta. No entanto, não houve resposta. Ele ousaria pronunciar o nome dela?

Deu um passo tímido e mais outro. Prosseguiu, com as duas mãos sobre as paredes próximas, com o cabelo roçando no teto acima, até a passagem se ampliar e o próprio eco dos seus passos lhe dizer que o teto acima dele estava agora numa nova altura. Ele nada via.

Por um instante, o medo o atingiu. Talvez ele estivesse vindo de olhos fechados; não sabia. Talvez tivesse deixado que suas mãos e ouvidos o guiassem. E agora, ao abrir os olhos, ao procurar atrair luz para eles, ele via somente as trevas. Sentiu tanto medo que poderia ter caído. Uma sensação profunda lhe dizia que não estava só. Mas ele se recusava a correr. Ele se recusava a sair apressado como algum passarinho assustado, constrangido, humilhado, talvez até mesmo se ferindo com a pressa.

Ficou firme. A escuridão não apresentava nenhuma variação. O som delicado da sua respiração parecia estar saindo para todo o sempre.

— Estou aqui — murmurou. — Voltei. — As palavras escoavam dele para o nada. — Ah, por favor, mais uma vez, por caridade... — sussurrou.

O silêncio foi a resposta.

Mesmo com esse frio, ele suava. Sentia o suor nas costas por baixo da camisa e em torno da cintura, sob o cinto de couro que lhe apertava as calças de lã. Sentiu a umidade como algo sujo e gorduroso na sua testa.

— Por que eu vim? — perguntou, e dessa vez sua voz estava fraca e distante. Em seguida, ele a levantou o máximo que pôde. — Foi na esperança de que você me tomasse pela mão mais uma vez, como fez antes, e me consolasse! — As palavras infladas, ao desaparecer, deixaram-no abalado.

O que se concentrava nesse lugar não era nenhuma aparição terna, mas as lembranças do vale que nunca poderiam abandoná-lo. A guerra, a fumaça. Ele ouvia os gritos! Ele ouvia a voz dela em meio às próprias chamas.

"... maldito Ashlar!" O calor e a raiva atingiram sua alma como haviam atingido seus tímpanos. Sentiu por um instante o velho pavor, e a antiga convicção.

"... que o mundo desmorone ao seu redor antes que o seu sofrimento termine."

Silêncio.

Ele precisava voltar. Precisava encontrar agora a passagem mais estreita. Cairia se ficasse ali, incapaz de vez, incapaz de fazer qualquer coisa a não ser se lembrar. Em pânico, deu meia-volta e seguiu apressado, até sentir as paredes de pedra, ásperas a se fecharem sobre ele.

Quando afinal viu as estrelas, soltou um suspiro tão profundo que as lágrimas ameaçaram cair. Ficou imóvel, com a mão sobre o coração, e o som dos tambores aumentou, talvez porque o vento tivesse parado novamente e não houvesse nada para impedir sua aproximação. Começara uma cadência, rápida e alegre, que depois voltou a ser lenta, como os tambores que acompanham uma execução.

— Não, afastem-se de mim! — murmurou ele. Precisava escapar desse lugar. De algum modo, sua fama e sua fortuna tinham de ajudá-lo agora a fugir. Não podia ficar sem recursos no alto desse pico, deparando-se com o horror dos tambores, com as gaitas que agora tocavam uma melodia nítida e ameaçadora. Como podia ter sido tão imbecil a ponto de vir? E a gruta vivia e respirava logo atrás do seu ombro.

Socorro! Onde estavam aqueles que obedeciam a cada ordem sua? Havia sido tolo de se separar deles e subir sozinho até esse lugar terrível. A dor que sentia era tão aguda que ele emitiu um ruído, como o de uma criança chorando.

Lá se foi montanha abaixo. Não se importava de tropeçar, de seu casaco se rasgar, de algum galho aqui ou ali prender seu cabelo. Ele o soltava e ia em frente, com as pedras sob seus pés a machucá-lo mas não o impedindo de prosseguir.

Os tambores estavam mais altos. Ele devia passar bem perto. Devia ouvir essas gaitas e sua música pulsante e anasalada, tanto feia quanto irresistível. Não, não preste atenção. Tape os ouvidos. Ele continuava descendo e, apesar de ter as mãos grudadas à cabeça, ainda ouvia as gaitas bem como a cadência antiga e sinistra, lenta e monótona, a bater de repente como se viesse do interior do seu cérebro, como se emanasse dos seus próprios ossos, como se ele estivesse imerso nela.

Deitou a correr, caindo uma vez e rasgando o tecido fino das suas calças. E outra vez tombou para a frente, machucando as mãos nas pedras e nos arbustos quebrados. Prosseguia, no entanto, até que de repente os tambores o cercaram. As gaitas o cercaram. A música penetrante o amarrou como se com voltas de corda, e ele girava sem parar, incapaz de fugir. Quando abriu os olhos, viu através da floresta fechada a luz dos archotes.

Eles não sabiam que ele estava ali. Não haviam captado seu cheiro nem nenhum ruído seu. Talvez o vento estivesse a seu favor, e continuasse com ele agora. Segurou-se no tronco de dois pequenos pinheiros como se eles fossem as grades de uma prisão, e baixou os olhos até o espaço pequeno e escuro em que eles brincavam, dançando no seu círculo pequeno e ridículo. Como eram desajeitados. Como eram horrendos aos seus olhos.

Os tambores e as gaitas faziam um alarido detestável. Ele não conseguia se mexer. Só conseguia ficar observando enquanto eles saltavam, giravam e balançavam de um lado para o outro. Uma pequena criatura, com longos cabelos grisalhos e desgrenhados, entrou na roda e ergueu os braços pequenos e deformados, gritando mais alto do que o barulho da música, na língua antiqüíssima.

— Ó deuses, tende piedade. Tende piedade de vossos filhos perdidos.

Olhe, veja, disse ele com seus botões, embora a música não lhe permitisse articular essas sílabas nem mesmo na imaginação. Olhe, veja, não se entregue à música. Veja os trapos que eles usam agora, as cartucheiras nos seus ombros. Veja as pistolas nas suas mãos, e agora, agora eles sacam suas armas para atirar, e chamas diminutas explodem dos canos! A noite ecoa com as armas! Os archotes quase se apagam com o vento, e depois renascem como flores horripilantes.

Ele sentia o cheiro de carne queimando, mas isso não era real. Era só sua recordação. Ele ouvia berros.

— Maldito seja, Ashlar!

E hinos, ah, sim, hinos e cânticos na nova língua, no idioma dos romanos, e aquele fedor, aquele mau cheiro de carne apodrecida!

Um grito forte e agudo cortou o alarido. A música cessou. Apenas um tambor emitiu talvez mais duas notas surdas.

Ele percebeu que o grito havia sido seu e que eles o ouviram. Corra, mas por que correr? Para quê? Para onde? Você não precisa mais correr. Você não pertence mais a este lugar! Ninguém pode fazer com que pertença.

Ficou observando em frio silêncio, com o coração acelerado, quando a pequena roda de homens se fechou, com os archotes ardendo muito próximos uns dos outros, e o pequeno grupo veio lentamente na sua direção.

— Taltos! — Eles o haviam farejado! O grupo espalhou-se com gritos descontrolados e depois se refez voltando a ser um só corpo.

— Taltos! — exclamou uma voz áspera. Os archotes aproximavam-se cada vez mais.

Agora, ele podia ver seus rostos com nitidez enquanto eles se posicionavam à sua volta, olhando atentos para cima, segurando os archotes no alto, com as chamas criando sombras feias nos seus olhos, nas suas faces e nas suas bocas. E o cheiro, o cheiro da carne queimada, vinha dos archotes!

— Meu Deus, o que andaram fazendo! — exclamou ele, sibilando e cerrando os punhos. — Vocês as mergulharam na gordura de uma criança pagã?

Veio uma risadaria estridente e descontrolada, mais outra e afinal toda uma muralha de barulho que subia ao seu redor a cercá-lo. Ele girava para um lado e para o outro.

— Desprezíveis! —disse ele, sibilando mais uma vez, tão furioso que não estava se importando nem um pouco com a sua própria dignidade, ou com as inevitáveis contorções do seu rosto.

— Taltos — disse um que se aproximou mais. — Taltos.

Olhe para eles. Veja o que são. Ele retesou ainda mais os punhos, preparado para rechaçá-los, para espancá-los, erguê-los e atirá-los para a direita e para a esquerda, se necessário.

— É, Aiken Drumm! — exclamou, reconhecendo o velho, com a barba grisalha caindo até o chão como um musgo sujo. — E Robin e Rogart, eu os estou vendo.

— É, Ashlar!

— É, Fyne e Urgart. Eu o estou vendo, Rannoch! — E só então ele percebeu. Não restava nenhuma mulher entre eles! Todos os rostos que o encaravam eram de homens, homens que ele sempre conhecera, e não havia nenhuma megera, nenhuma megera a berrar com os braços estendidos. Não havia mais nenhuma mulher entre eles!

Começou a rir. Seria isso verdade mesmo? Sim, era! Ele avançou, tateando, forçando-os a recuar. Urgart brandiu o archote perto dele, para atingi-lo ou para iluminá-lo melhor.

— Aaaaaah, Urgart! — gritou ele e estendeu a mão, ignorando o fogo, como se quisesse agarrar o homenzinho pelo pescoço e erguê-lo do chão.

Com gritos guturais, eles se espalharam, enlouquecidos, na escuridão. Homens, somente homens. Homens, e não mais do que catorze, no máximo. Só homens. Ora, por que cargas d'água Samuel não lhe contara?

Ele foi caindo lentamente de joelhos. Riu. E se deixou tombar de lado sobre o chão da floresta, para poder olhar para cima e ver, através dos ramos rendados dos pinheiros, as estrelas maravilhosamente salpicadas acima do algodão das nuvens, e a lua a navegar delicada na direção norte.

Mas ele devia ter sabido. Devia ter calculado. Devia ter concluído da última vez que viera, e as mulheres eram velhas e enfermas, jogavam pedras nele e se aproximavam às pressas para berrar no seu ouvido. Sentira o cheiro da morte em tudo à sua volta. Ele o sentia agora, mas não era o cheiro de sangue das mulheres. Era o cheiro seco e ácido dos homens.

Virou-se e repousou o rosto direto na terra. Seus olhos fecharam-se novamente. Ele os ouvia correndo à sua volta.

— Onde está Samuel? — perguntou um deles.

— Diga a Samuel que volte.

— Por que veio aqui? Está livre da maldição?

— Não me falem da maldição! — exclamou. Sentou-se, rompido o encantamento. — Não me dirijam a palavra, sua corja! — E dessa vez ele conseguiu agarrar, não um homenzinho, mas seu archote. E, segurando a chama bem perto, sentiu o cheiro inconfundível de gordura humana queimando. Jogou o archote fora, enojado.

— Que vão para o inferno, peste maldita!

Um deles lhe beliscou a perna. Uma pedra atingiu seu rosto, mas o corte não foi fundo. Varas foram atiradas na sua direção.

— Onde está Samuel?

— Foi Samuel quem o mandou para cá?

E em seguida a risada forte de Aiken Drumm, superando a voz de todos.

— Nós tínhamos um cigano delicioso para o jantar, se tínhamos, até Samuel levá-lo para Ashlar!

— Onde está o nosso cigano? — berrou Urgart.

Risos. Gritos e berros de deboche; gargalhadas e maldições em seguida.

— Que o demônio o leve para casa em pedacinhos! — gritou Urgart. Os tambores haviam recomeçado. Eram tocados com os punhos fechados, e uma série tresloucada de notas saiu das gaitas.

— E vocês, todos vocês, que vão para o inferno — gritou Ash. — Por que não os mando para lá agora mesmo?

Ele se voltou e correu de novo, a princípio sem certeza da direção. Mas a subida havia sido constante, e essa foi sua melhor orientação. E, nos rangidos dos sapatos, nos estalidos do mato e no ar que passava rápido por ele, ele estava a salvo dos tambores, das gaitas, das zombarias.

Logo, logo, ele já não ouvia sua música ou suas vozes. Afinal, soube que estava só.

Ofegante, com uma dor no peito, com as pernas e os pés doendo, ele caminhou devagar até que, depois de muito tempo, chegou à estrada e pisou no asfalto como se tivesse saído de um sonho e agora estivesse no mundo conhecido, por mais vazio, frio e silencioso que fosse. As estrelas enchiam todos os quadrantes do firmamento. A lua afastou seu véu e depois voltou a baixá-lo, enquanto a brisa suave fazia com que os pinheiros tremulassem de uma forma quase imperceptível, e o vento descia com força como se quisesse instigá-lo a prosseguir.

Quando chegou à estalagem, Leslie, sua pequena auxiliar, estava acordada à sua espera. Com um gritinho de espanto, ela o cumprimentou e rapidamente apanhou o casaco rasgado. Ela segurava sua mão enquanto os dois subiam pela escada.

— Ai, aqui está tão agradável, um calor tão bom.

— Está, senhor, e o seu leite. — Lá estava o copo alto junto à cama. Ele o bebeu. Ela estava desabotoando sua camisa.

— Obrigado, minha querida, minha pequena — disse ele.

— Durma, Sr. Ash.

Ele caiu pesadamente sobre a cama e sentiu o grande edredom de plumas que o cobria, o travesseiro fofo sob seu rosto, a cama inteira terna e macia ao atraí-lo, girá-lo na primeira volta do sono e puxá-lo para baixo.

O vale, meu vale, o loch, meu loch, minha terra.

Traidor do seu próprio povo.

Pela manhã, tomou um desjejum rápido no quarto enquanto sua equipe se preparava para um retorno imediato. Não, ele não ia descer para ver a Catedral dessa vez, disse ele. E sim, ele havia lido os artigos nos jornais. Santo Ashlar, é, eleja conhecia essa história também. E a jovem Leslie estava tão intrigada.

— Quer dizer, senhor, que não foi por esse motivo que viemos aqui? Não foi para ver o túmulo do santo?

Ele apenas deu de ombros.

— Um dia voltaremos, minha cara.

Quem sabe numa outra vez eles não dariam aquele pequeno passeio?

Antes do meio-dia, já estava aterrissando em Londres.

Samuel o esperava ao lado do carro. Estava decentemente trajado no seu terno de tweed, com uma camisa branca, nova e engomada, e gravata. Parecia um cavalheiro minúsculo. Até mesmo seu cabelo ruivo estava penteado adequadamente, e seu rosto apresentava a aparência respeitável de um buldogue inglês.

— Você deixou o cigano sozinho?

— Ele foi embora enquanto eu dormia — confessou Samuel. — Eu não o ouvi sair. Ele sumiu por completo. Não deixou nenhuma mensagem.

Ash pensou por algum tempo.

— É provável que não faça diferença — disse ele. — Por que você não me contou que não havia mais mulheres?

— Pateta. Eu não teria permitido que você fosse se houvesse ainda alguma mulher. Você devia saber disso. Você não pensa. Não conta os anos. Não raciocina. Fica brincando com seus brinquedos, com seu dinheiro e com todos os seus belos objetos, e se esquece. Você se esquece, e é por isso que é feliz.

O carro os levou do aeroporto para a cidade.

— Vai voltar para casa, para seu playground nos céus? — perguntou Samuel.

— Não. Você sabe que não. Preciso encontrar o cigano — disse ele. — Preciso descobrir o segredo na Talamasca.

— E a bruxa?

— É claro. — Ash sorriu e se voltou para Samuel. — Preciso encontrar a bruxa, também, talvez. Pelo menos para tocar seus cabelos ruivos, beijar sua pele branca, me inebriar com seu perfume.

— E...?

— Como posso saber, homenzinho?

— Ah, você sabe. Você sabe que sabe.

— Deixe-me, então, em paz. Pois se for para ser, meus dias afinal estarão contados.

 

ERAM OITO HORAS quando Mona abriu os olhos. Ouviu o relógio bater as horas, devagar, em tons profundos, sonoros. Mas foi um outro ruído o que a acordou, o toque estridente de um telefone. Devia estar vindo da biblioteca, calculou ela, e estava muito longe dali e tocando há muito tempo para que ela fosse atender. Virou-se, aconchegando-se no grande sofá de veludo com suas numerosas almofadas soltas e olhou através das janelas para o jardim, que estava imerso no sol da manhã.

Na realidade, o sol entrava pelas janelas, tornando o assoalho lindo e cor de âmbar bem diante da varanda lateral.

O telefone havia parado. Sem dúvida, algum dos novos criados por aqui o atendeu: Cullen, o novo motorista, ou Yancy, o jovem caseiro, que diziam estar de pé já às seis da manhã. Ou quem sabe, até mesmo a velha Eugenia, que encarava Mona com ar tão solene agora, cada vez que seus caminhos se cruzavam.

Mona adormecera aqui ontem à noite, no seu vestido novo de seda, exatamente no sofá do pecado que ela e Michael haviam cometido juntos. E, embora ela se esforçasse ao máximo para sonhar com Yuri, Yuri, que havia ligado e deixado um recado com Celia dizendo que de fato estava bem e que em breve entraria em contato com todos eles, ela se descobrira pensando em Michael, pensando naquelas três transas, em como haviam sido, muito proibidas e talvez a melhor experiência erótica que ela já tivera na vida.

Não que Yuri não tivesse sido maravilhoso, o amante dos seus sonhos. Mas eles dois foram tão cuidadosos um com o outro. Haviam feito amor, sim, mas da maneira mais segura que se possa imaginar. E isso deixara Mona querendo ter sido mais espontânea naquela última noite, quanto aos seus costumeiros desejos desenfreados.

Desenfreada. Ela realmente adorava essa palavra. Combinava com ela. "Você está desenfreada." Era esse o tipo de coisa que Lily ou Celia lhe diriam. E ela lhes respondia, "Agradeço o elogio, mas compreendo aonde quer chegar."

Meu Deus, se ao menos ela tivesse falado pessoalmente com Yuri. Celia lhe dissera que ligasse para a casa de First Street. Por que ele não havia ligado? Ela nunca saberia. Até mesmo o tio Ryan ficara irritado.

— Precisamos falar com esse homem. Precisamos conversar a respeito de Aaron.

E essa era a parte realmente triste, o fato de ter sido Celia quem contara a Yuri, e talvez ninguém mais no mundo, a não ser Mona, soubesse o que Aaron representava para Yuri. Mona, em quem ele confiara, preferindo falar a fazer amor na única noite que conseguiram roubar para si. Onde ele estaria agora? Como estaria? Naquelas poucas horas de troca apaixonada, ele se revelara intensamente emotivo, com os olhos negros cintilando enquanto lhe contava numa linguagem despojada, naquele inglês lindo daqueles para quem ele é uma segunda língua, os acontecimentos principais da sua vida trágica mas de um sucesso surpreendente.

— Simplesmente não se pode dizer uma coisa dessas a um cigano, que seu amigo mais velho foi atropelado por algum louco.

Foi então que lhe ocorreu. O telefone estivera tocando. Talvez tivesse sido Yuri, e ninguém na casa tivesse conseguido encontrá-la. Ninguém chegara a vê-la entrar ali na noite anterior e se jogar no sofá.

É claro que ela estava totalmente fascinada por Rowan, e estivera assim desde o primeiro instante na tarde de ontem quando Rowan se pôs de pé e começou a falar. Por que Rowan lhe pedira que ficasse aqui? O que Rowan tinha a lhe dizer, sozinha e em particular? O que Rowan estaria realmente pretendendo?

Rowan estava bem, disso não tinha dúvida. Ao longo de toda a tarde e da noite, Mona a observara ganhar forças.

Rowan não revelara nenhum sinal de cair de volta no silêncio que a havia confinado durante três semanas. Pelo contrário, assumira facilmente o comando da casa, descendo sozinha ontem à noite, depois que Michael havia adormecido, para consolar Beatrice e convencê-la a subir para dormir no antigo quarto de Aaron. Beatrice relutara em se submeter às "coisas de Aaron", só para acabar confessando que se enrodilhar na cama de Aaron, aqui no quarto de hóspedes, era exatamente o que queria fazer.

— Ela vai sentir o cheiro de Aaron em toda a sua volta — dissera Rowan a Ryan, quase distraída. — E se sentirá segura.

Essa não era uma observação normal, pensara Mona, mas sem dúvida havia esse truque de procurar a cama do parceiro depois de uma morte, e as pessoas comentavam que essa cura para a dor era muito boa. Ryan estava tão preocupado com Bea, tão preocupado com todos. Mas na presença de Rowan, ele mostrava aquele ar de um general, todo seriedade e competência, diante do comandante-em-chefe.

Rowan levou Ryan para a biblioteca e, por duas horas, com a porta aberta para qualquer um que quisesse ficar ali parado ou escutar, eles conversaram sobre tudo, desde os planos da Clínica Mayfair até vários detalhes sobre a casa. Rowan queria ver a ficha médica de Michael. É, ele parecia tão forte agora quanto no dia em que ela o conhecera. Mas precisava ver os dados, e Michael, sem querer brigar, a encaminhara a Ryan.

— E o que dizer da sua própria recuperação? Eles querem que você se apresente para fazer exames, sabe? — dizia Ryan na hora em que Mona entrou para um boa-noite final.

Yuri deixara seu recado em Amelia Street pouco antes da meia-noite, e Mona sentira uma dose suficiente de ódio, amor, paixão, remorso, ansiedade e um nervosismo excruciante para acabar ficando exausta.

— Não tenho tempo para esses exames — dizia Rowan. — Há coisas muito mais importantes. Por exemplo, o que foi encontrado em Houston quando abriram o quarto em que Lasher me mantinha prisioneira?

A essa altura, Rowan parou por ter visto Mona.

Levantou-se como se fosse cumprimentar algum adulto importante. Seus olhos estavam brilhantes agora, e não tão frios quanto sérios, uma distinção realmente crucial.

— Não pretendo perturbar vocês — disse Mona. — Não quero ir para casa em Amelia — prosseguiu, sonolenta. — Eu estava pensando se poderia ficar por aqui...

— Eu gostaria que ficasse — disse Rowan, sem hesitação. — Já a deixei esperando horas.

— Deixou e não deixou — disse Mona, que preferia ter ficado aqui a ficar na sua própria casa.

— É imperdoável — disse Rowan. — Será que podemos conversar amanhã de manhã?

— Claro — disse Mona, exausta, dando de ombros. Ela está falando comigo como se eu fosse uma mulher adulta, pensou Mona, o que é mais do que qualquer um por aqui costuma fazer.

— Você é uma mulher, Mona Mayfair — disse Rowan, com um sorriso repentino, profundamente pessoal. Voltou a se sentar imediatamente e retomou sua conversa com Ryan.

— Devia haver papéis lá, no meu quarto em Houston, resmas de garatujas. Era o que ele escrevia; genealogias que fizera antes de sua memória se deteriorar...

Puxa, pensou Mona, afastando-se o mais devagar que pôde, ela está conversando justamente com Ryan sobre Lasher, e Ryan ainda não consegue pronunciar esse nome. E agora Ryan tem de lidar com provas concretas do que ainda não se dispõe a aceitar. Papéis, genealogias, coisas escritas pelo monstro que matou sua mulher, Gifford.

No entanto, o que Mona percebeu num lampejo foi que ela não ia necessariamente ser excluída de tudo isso. Rowan acabara de voltar a falar com ela como se ela, Mona, fosse importante. Tudo estava mudado. E se Mona perguntasse a Rowan amanhã ou depois o que estava nesses papéis, nessas garatujas de Lasher, Rowan poderia até lhe dizer.

Incrível ter visto o sorriso de Rowan, ter visto o esfacelamento da máscara do poder frio, ter visto os olhos cinzentos se encresparem e cintilarem por um instante, ter ouvido a voz grave de chocolate assumir aquela dose a mais de carinho que um sorriso lhe confere: espantoso.

Mona afinal se apressara a desaparecer. Saia enquanto está na frente. Além do mais, você está com muito sono para poder ficar escutando às escondidas.

A última coisa que ela ouvira foi a voz constrangida de Ryan afirmando que tudo proveniente de Houston havia sido examinado e catalogado.

Mona ainda conseguia se lembrar de quando todas essas coisas haviam chegado à Mayfair & Mayfair. Ela ainda se lembrava daquele cheiro dele que vinha das caixas. Eventualmente, ela ainda captava aquele cheiro na sala de estar, mas agora ele quase não existia mais.

Ela se jogara no sofá da sala de estar, cansada demais para pensar naquilo tudo agora.

Todos os outros já haviam saído àquela altura. Lily dormia no andar superior, perto de Beatrice. A tia Vivian de Michael havia se mudado de volta para seu próprio apartamento em St. Charles Avenue.

A sala de estar estava vazia, com a brisa entrando pelas janelas que davam para a varanda lateral. Lá fora um segurança andava de um lado para o outro, Mona calculara, não preciso fechar essas janelas. E se jogou de bruços no sofá, pensando em Yuri, depois em Michael e, enfiando o rosto no veludo, adormeceu profundamente.

Diziam que, quando se ficava mais velho, não se conseguia dormir desse jeito. Bem, Mona estava pronta para isso. Esse tipo de sono atordoado sempre fazia com que se sentisse frustrada, como se ela se tivesse desligado do universo por um período de tempo que ela própria não podia controlar.

Às quatro, porém, ela acordara, sem certeza do motivo.

As janelas que iam até o chão ainda estavam abertas, e o segurança estava lá fora fumando um cigarro.

Sonolenta, ficou ouvindo os sons da noite, os gritos dos pássaros nas árvores escuras, o ronco distante do trem ao longo da beira-rio, o som da água espirrando num chafariz ou numa piscina.

Ela devia ter ficado ouvindo uma meia hora antes que o ruído da água começasse a atormentá-la. Não havia chafariz nenhum. Alguém nadava na piscina.

Em parte na esperança de ver algum fantasma delicioso, a pobre Stella, por exemplo, ou só Deus sabe que outra aparição, Mona saiu sorrateira e descalça, e cruzou o gramado. O segurança não estava em nenhum lugar visível, mas isso não significava grande coisa numa propriedade daquele tamanho.

Alguém estivera nadando com constância, de um lado para o outro da piscina.

Através dos arbustos de gardênia, Mona viu que era Rowan, nua e se movimentando com uma velocidade incrível, volta após volta. Rowan respirava com regularidade, com a cabeça para o lado, do jeito que nadadores profissionais respiram, ou do jeito de médicas atléticas que querem trabalhar o corpo e condicioná-lo; talvez mesmo curá-lo e trazê-lo de volta à sua plena forma.

Não era hora para perturbá-la, pensou Mona, ainda sonolenta, ansiando por voltar para o sofá, na realidade com tanta preguiça que poderia ter se jogado na grama fresca. No entanto, algo naquela cena a transtornara. Talvez a nudez de Rowan, ou o fato de nadar tão rápido e com tanta constância. Ou talvez ainda a possibilidade de o segurança estar por ali, espiando em meio aos arbustos neste exato momento, o que não agradava a Mona.

Fosse como fosse, Rowan tinha pleno conhecimento dos seguranças na propriedade. Ela passara uma hora com Ryan falando só sobre esse tema.

Mona voltou para dormir.

Agora, no instante em que acordava, era em Rowan que pensava, mesmo antes de invocar o rosto de Yuri, ou de sentir sua culpa rotineira e religiosa quanto a Michael; ou de se fazer lembrar de imediato, mais ou menos como se desse um forte beliscão no braço, de que Gifford e sua mãe estavam mortas.

Ficou olhando para o sol que banhava o piso e a poltrona de damasco dourado, mais próxima da janela. Talvez fosse essa a pura verdade. As luzes como que se apagaram para Mona quando Alicia e Gifford morreram, disso não havia dúvida. E agora, só porque essa mulher sentia interesse por ela, essa mulher misteriosa que significava tanto para ela por inúmeras razões, as luzes brilhavam novamente.

A morte de Aaron havia sido terrível, mas ela podia lidar com isso. Na realidade, o que sentia mais do que qualquer outra coisa era o mesmo entusiasmo egoísta que experimentara ontem diante da primeira expressão de interesse de Rowan, diante do seu primeiro olhar confidencial e respeitoso.

Talvez ela queira me perguntar se eu quero ir para um colégio interno, pensou Mona. Sapatos altos ali no chão. Ela não podia calçá-los de novo. Mas era gostoso caminhar no assoalho nu de First Street. Agora ele estava sempre encerado, com os novos criados. Yancy, o caseiro, polia o assoalho horas a fio. Até mesmo a velha Eugenia vinha trabalhando mais e resmungando menos.

Mona levantou-se, alisou o vestido de seda que talvez estivesse perdido agora, ela não sabia ao certo. Andou até a janela que dava para o jardim e se deixou inundar pelo sol, um calor agradável e fresco, com o ar cheio da umidade e dos perfumes do jardim: todas as coisas que geralmente ela considerava normais, mas que, na casa de First Street, pareciam duplamente maravilhosas, valendo um momento de meditação antes do mergulho de cabeça no dia pela frente.

Proteínas, carboidratos complexos, vitamina C. Ela estava faminta. Na noite passada houve o costumeiro bufê exagerado, com toda a família ali para proteger Beatrice com abraços, mas Mona se esquecera de comer.

— Não é de surpreender que você tenha acordado no meio da noite, sua idiota. — Quando ela deixava de comer, tinha invariavelmente dor de cabeça. E agora, de repente, voltou a pensar em Rowan, a nadar sozinha, e essa idéia voltou a perturbá-la: a nudez, o estranho descaso pela hora e pela presença dos seguranças. Ora, sua imbecil, ela é da Califórnia. Eles fazem esse tipo de coisa por lá o tempo todo.

Ela se espreguiçou, deixou as pernas bem abertas, tocou os dedos dos pés com as mãos e depois se inclinou para trás, balançando o cabelo de um lado para o outro, até ele ficar solto e arejado de novo. Saiu, então, da sala e seguiu pelo longo corredor, atravessando a sala de jantar e entrando na cozinha.

Ovos, suco de laranja, a mistura de Michael. Talvez houvesse um bom estoque.

Surpreendeu-a o aroma de café fresco. Pegou imediatamente uma caneca de louça preta do armário e ergueu o bule. Muito forte, expresso, o tipo de café de Michael, o que Michael apreciava em San Francisco. Mas ela percebeu que não era isso absolutamente o que queria. Estava louca por alguma coisa bem refrescante. Suco de laranja. Michael sempre tinha garrafas de suco, já misturadas, na geladeira. Ela encheu a xícara com suco de laranja e tampou com cuidado a jarra para impedir que todas as vitaminas morressem no ar.

Percebeu de repente que não estava sozinha.

Rowan estava sentada à mesa da cozinha, a observá-la. Rowan estava fumando um cigarro que agora batia num belo pires de porcelana com flores nas bordas. Usava um costume preto de seda, com brincos de pérolas e um pequeno colar de pérolas no pescoço. Era um desses costumes com o paletó longo e curvilíneo, de abotoamento duplo, sem blusa ou camisa por baixo, só a carne nua num decote discreto.

— Não vi você — confessou Mona. Rowan baixou a cabeça.

— Você sabe quem comprou essas roupas para mim? — A voz tinha o mesmo tom suave de chocolate da noite anterior, depois que toda a rouquidão passara.

— Provavelmente a mesma pessoa que comprou este vestido para mim — disse Mona. — Beatrice. Meus armários estão lotados de coisas compradas por Beatrice. E tudo de seda.

— O mesmo acontece com os meus — disse Rowan, e lá veio novamente aquele sorriso luminoso.

O cabelo de Rowan estava escovado para trás, mas natural sob todos os outros aspectos, caindo solto logo acima da gola. Os cílios estavam muito escuro e nítidos, e ela estava usando um batom claro de um rosa arroxeado que delineava perfeitamente sua boca de lábios bem-feitos.

— Você está mesmo bem, não é? — perguntou Mona.

— Sente-se aqui, por favor — disse Rowan. Ela fez um gesto para a cadeira na outra extremidade da mesa.

Mona obedeceu.

Uma fragrância caríssima emanava de Rowan, lembrando cítricos e chuva.

O traje de seda negra era realmente fantástico. Nos dias anteriores ao casamento, ninguém jamais vira Rowan usando algo tão decididamente sensual. Bea tinha uma mania de se intrometer nos armários das pessoas e verificar seu manequim, não só pelas etiquetas, mas com uma fita métrica, para depois vesti-las do jeito que ela, Beatrice, achava que essas pessoas deviam vestir.

Bem, com Rowan, ela havia acertado.

E eu destruí esse vestido azul, pensou Mona. Simplesmente não estou pronta para esse tipo de coisa. Ou para os saltos altos que havia jogado de qualquer jeito no chão da sala de estar.

Rowan baixou a cabeça enquanto apagava o cigarro. Uma grande mecha de cabelo louro-acinzentado caiu para frente logo abaixo do malar. Seu rosto estava magro e tremendamente dramático. Era como se a enfermidade e a dor lhe houvessem conferido exatamente aquela aparência descarnada pela qual as modelos e as atrizes iniciantes passam fome até morrer.

Com esse tipo de beleza, Mona não podia competir. Com ela, eram os cabelos ruivos e as curvas; e seria sempre assim. Se você não gostasse, então não gostaria de Mona.

Rowan deu um risinho.

— Há quanto tempo você vem fazendo isso? — perguntou Mona, tomando um bom gole de café. Ele estava na temperatura exata. Delicioso. Em dois minutos estaria frio demais. — Quer dizer, lendo meus pensamentos. Não é o tempo todo, é?

Rowan foi apanhada de surpresa, mas pareceu achar ligeiramente divertido.

— Não, não é absolutamente o tempo todo. Eu diria que acontece em lampejos quando você está como que preocupada com alguma outra coisa, como que mergulhando nos seus próprios pensamentos. É como se de repente alguém riscasse um fósforo.

— É, gostei da idéia. Sei do que você está falando. — Mona bebeu uma boa parte do suco de laranja, pensando em como estava gostoso, como estava gelado. Por um instante, sua cabeça doeu com o frio. Ela procurava não olhar para Rowan com adoração. Isso era como estar apaixonada por uma professora, algo que nunca havia acontecido a Mona.

— Quando você olha para mim, Mona, eu não consigo ler nada. Talvez sejam seus olhos verdes que me ofuscam. Não se esqueça deles quando estiver fazendo seus cálculos. Pele perfeita, uma cabeleira ruiva de morrer, comprida e absurdamente densa, e enormes olhos verdes. Depois, vêm a boca e o corpo. Não, eu acho que sua visão de si mesma está ligeiramente prejudicada neste exato momento. Talvez seja só porque você está mais interessada em outras coisas: na herança, no que aconteceu a Aaron, em quando Yuri vai voltar.

Palavras inteligentes ocorreram a Mona e desapareceram instantaneamente. Nunca na sua vida ela se demorara diante de um espelho mais do que o necessário. Ela ainda não olhara num espelho nessa manhã.

— Olhe, não tenho muito tempo — disse Rowan, unindo as mãos sobre a mesa. — Preciso ser direta com você.

— Claro, por favor.

— Compreendo perfeitamente o fato de você ser a herdeira. Não há rancor entre nós. Você é a melhor opção concebível. Isso eu mesma soube ao meu modo instintivo assim que me dei conta do que havia sido feito. Mas Ryan me esclareceu tudo. Os exames e o perfil são perfeitos. Você é a filha bem-dotada. Tem a inteligência, a estabilidade, a resistência. Tem a saúde perfeita. Ah, os cromossomos a mais estão aí, sim, mas estão aí há séculos nos homens e mulheres da família Mayfair. Não há nenhum motivo para se imaginar que algo semelhante ao que aconteceu no Natal volte jamais a acontecer.

— É, é isso o que eu calculo — disse Mona. — Além do mais, não preciso me casar com ninguém que tenha a cadeia adicional, certo? Não estou apaixonada por um membro da família. Ah, sei que isso deve mudar, é o que está pensando, mas quero dizer que no momento presente não tenho nenhuma síndrome do namoradinho de infância com alguém carregado dos genes fatais.

Rowan pensou nisso e concordou, baixando a cabeça. Olhou para a xícara de café, ergueu-a e tomou o último gole, pondo a xícara um pouco para o lado.

— Não tenho nenhum ressentimento contra você pelo que aconteceu com Michael. Você tem de entender isso também.

— É difícil de acreditar. Porque eu acho que o que fiz foi tão errado.

— Irrefletido, talvez, mas não errado. Além do mais, acho que entendo exatamente o que aconteceu. Michael não fala no assunto. Também não estou me referindo à sedução. Estou falando do efeito.

— Se eu o curei, então acabo não indo para o inferno — disse Mona. Ela apertou os lábios num sorriso triste. Havia mais do que um traço de culpa e de ódio a si mesma na sua voz e no rosto, e ela sabia. Mas estava sentindo tanto alívio agora, que não conseguia pôr isso em palavras.

— Você o curou, e talvez fosse isso mesmo que devesse fazer. Um dia poderemos conversar sobre os sonhos que tinha e sobre a Victrola que se materializou na sala de estar.

— Então Michael lhe contou.

— Não, foi você quem me contou. Todas as vezes em que pensou no acontecido, ali fora, lembrando-se da valsa da Traviata e do fantasma de Julien a lhe dizer que fosse em frente. Mas isso não é importante para mim. Só é importante que você não se preocupe mais com a possibilidade de eu detestar você. Você tem de ser forte para ser a herdeira, especialmente do jeito que as coisas estão agora. Você não pode se preocupar com as coisas erradas.

— É, você tem razão. No fundo, você não me considera culpada. Sei que não.

— Você poderia ter sabido antes — disse Rowan. — Você é mais forte do que eu, sabe? Ler os pensamentos e as emoções das pessoas, é quase uma brincadeira. Eu sempre odiei isso quando era criança. Ficava assustada. E isso assusta muitas crianças dotadas. Mas com o tempo aprendi a usar o dom de um jeito mais sutil, quase subconsciente. Espere um pouquinho depois que alguém lhe falar, especialmente se as palavras forem confusas. Espere um átimo e saberá o que a pessoa está sentindo.

— Você tem razão. É assim mesmo. Eu já experimentei.

— E vai ficando melhor e mais forte. Eu imaginaria que, sabendo o que você sabe a respeito de tudo, seria mais fácil para você. Esperavam que eu fosse repulsivamente normal, uma aluna excelente com uma paixão pela ciência, crescendo com todos os luxos de uma filha única numa família rica. Já você sabe o que é.

Ela fez uma pausa. Tirou um cigarro do maço que estava em cima da mesa.

— Você não se importa?

— Não, nem um pouco — respondeu Mona. — Gosto do cheiro dos cigarros, sempre gostei.

Mas ela se conteve. Voltou a enfiar o cigarro no maço. Largou o isqueiro ao lado.

Olhou, então, para Mona, e seu rosto assumiu de repente uma rigidez momentânea, como se ela tivesse mergulhado fundo nos seus pensamentos, esquecendo-se de ocultar seu eu interior mais forte.

O olhar era tão frio e de uma ferocidade tão tranqüila que fez com que ela parecesse desprovida de sexo aos olhos de Mona. Poderia ser um homem a olhar para ela, essa pessoa de olhos cinzentos, com as sobrancelhas escuras e retas e o cabelo louro e sedoso. Poderia ter sido um anjo. Sem dúvida, era uma bela mulher. Mona estava por demais curiosa e emocionada com tudo isso para deixar que seus olhos fossem forçados a se afastar.

Quase de imediato a expressão abrandou-se, talvez deliberadamente.

— Vou à Europa — disse Rowan. — Vou sair daqui a pouco.

— Por quê? Para onde você vai? — Mona quis saber. — Michael sabe?

— Não — disse ela. — E quando ele descobrir, ficará magoado mais uma vez.

— Rowan, espere aí, você não pode fazer isso com ele. Por que vai viajar?

— Porque preciso. Sou a única pessoa que pode destrinchar esse pequeno mistério sobre a Talamasca. Sou a única pessoa que tem como descobrir por que Aaron morreu daquele jeito.

— Mas, Michael, você tem de levar Michael junto; você tem de permitir que ele ajude. Você o abandona outra vez, Rowan, e vai ser preciso mais do que uma menina sedutora de treze anos de idade para salvar seu ego e o que restar da sua masculinidade.

Rowan prestou atenção a essas palavras, pensativa.

Mona no mesmo instante se arrependeu do que disse, mas imediatamente achou que não havia usado uma imagem forte o suficiente.

— Vai doer — disse Rowan.

— Ora, você está querendo se iludir — disse Mona. — Talvez ele não esteja esperando por você aqui quando você voltar.

— Olhe, o que você faria se fosse eu? — perguntou Rowan.

Mona levou um segundo para absorver a pergunta. Tomou mais um grande gole do suco de laranja e afastou o copo para um lado.

— Você está realmente me fazendo essa pergunta?

— Não há mais ninguém a quem eu preferiria fazê-la.

— Leve-o junto para a Europa. Por que não? Qual é a finalidade de ele ficar aqui?

— Há certas coisas — disse ela. — Michael é o único que compreende o tipo de perigo direcionado contra esta família. E há também a questão da própria segurança dele, mas nesse caso eu não sei avaliar até que ponto ela é crítica.

— A segurança dele? Se os caras da Talamasca quiserem atingi-lo, eles sabem onde encontrá-lo se ele simplesmente ficar aqui nesta casa. Além do mais, Rowan, o que dizer da sua própria segurança? Você sabe mais sobre tudo isso do que qualquer um à exceção de Michael. Você não precisa dele ao seu lado? Você realmente se sente preparada para ir lá sozinha?

— Eu não estaria sozinha. Estaria com Yuri.

— Yuri?

— Ele ligou novamente hoje cedo, há poucos minutos.

— Por que você não me disse?

— Estou dizendo agora — respondeu Rowan, sem se alterar. — Ele tinha só alguns minutos para falar. Estava num telefone público em Londres. Eu o convenci a ir me esperar em Gatwick. Só disponho de poucas horas antes da viagem.

— Você deveria ter me chamado, Rowan, deveria ter...

— Acalme-se, Mona. O objetivo da ligação de Yuri era o de avisá-la para que ficasse junto da família e sob vigilância. É isso o que é importante agora. Ele acha que há pessoas que podem tentar seqüestrá-la, Mona. Ele estava falando muito sério. Não quis dar maiores explicações. Disse coisas sobre os exames genéticos, sobre pessoas tendo acesso a esses dados, descobrindo que você era a bruxa mais poderosa do clã.

— É, bem, é provável que eu seja mesmo. Isso eu descobri há muito tempo, mas, Rowan, se eles estão atrás de bruxas, porque não estão atrás de você?

— Porque nunca mais vou poder dar à luz, Mona. Mas você pode. Yuri acha que eles querem Michael também. Michael gerou Lasher. Essas pessoas perversas, sejam elas quem forem, tentarão reunir vocês dois. Creio que Yuri está enganado.

— Por quê?

— Acasalar dois bruxos? Esperar que os genes adicionais gerem um Taltos? Isso agora é tão improvável quanto sempre foi. Você poderia dizer que o acasalamento de dois bruxos é o caminho mais longo para se conseguir o resultado. De acordo com os nossos dados, a única tentativa com sucesso demorou trezentos anos. Houve interferência e propósito nesse único sucesso. Eu lhe dei meu auxílio num momento crucial. Talvez nada tivesse acontecido sem essa minha ajuda.

—E Yuri acredita que eles vão nos forçar, a Michael e a mim, a fazer isso?

Todo esse tempo, os olhos cinzentos de Rowan estavam fixos nela, examinando-a, avaliando sua reação a cada palavra.

— Eu não concordo com ele — disse Rowan. — Creio que os bandidos mataram Aaron como queima de arquivo. Foi por isso que também tentaram matar Yuri. É por isso que podem estar providenciando algum tipo de morte acidental para mim. Por outro lado...

— Então, você corre perigo! E o que houve com Yuri? Quando aconteceu? Onde?

— Meu argumento é simples — disse Rowan. — Nós não conhecemos os limites do perigo para qualquer um que esteja envolvido de qualquer forma. Não podemos saber, porque não conhecemos de fato os motivos dos assassinos. A teoria de Yuri, de que eles não desistirão enquanto não criarem um Taltos, é obviamente a mais pessimista e a mais abrangente. E é por ela que vamos nos pautar. Você e Michael têm de ser protegidos. E no fundo Michael é o único membro da família que sabe por quê. É imperioso que você permaneça dentro da casa.

— Quer dizer que você vai nos deixar aqui sozinhos? Bem acomodados no aconchego do seu próprio lar? Rowan, quero lhe dizer uma coisa que exige muita coragem.

— Você não deveria ter nenhum problema para isso — respondeu Rowan, com simplicidade.

— Você está subestimando Michael. Você o está menosprezando sob todos os aspectos. Ele não vai concordar com isso. E, se você o abandonar sem lhe dizer nada, não é provável que ele fique por aqui desempenhando o papel que lhe foi designado. Se ele ficar, o que você acha que o homem ali dentro vai querer? E se ele realmente quiser dormir comigo, o que você acha que eu sou? Rowan, você está organizando tudo isso como se nós fôssemos peões num tabuleiro de xadrez. Rowan, nós não somos.

Rowan não respondeu. Depois de um breve silêncio, ela deu um sorriso.

— Sabe, Mona, eu gostaria de poder levá-la comigo. Seria bom se você viesse.

— Eu vou! Leve a mim e a Michael! Nós três deveríamos ir juntos.

— A família não toleraria uma traição dessas da minha parte — disse Rowan. — E eu própria não poderia agir assim.

— Isso é loucura, Rowan. Por que estamos conversando? Por que você está me fazendo perguntas do tipo do que eu acho sobre o que está acontecendo?

— Há muitas razões, Mona, pelas quais você deve ficar aqui com Michael.

— E se nós dois nos enfiarmos na cama juntos?

— Isso é decisão sua.

— Maravilha, você arrasa com o homem e espera que eu o console, mas que não...

Distraída, Rowan, tirou um cigarro do maço e depois parou, exatamente como da vez anterior, deu um pequeno suspiro e o empurrou de volta para dentro do maço.

— Não me incomoda que você fume — disse Mona. — Eu mesma não fumo, graças à minha inteligência superior, mas...

— Você vai se importar logo, logo.

— O que você está querendo dizer?

— Você não sabe?

Mona estava pasma. Não respondeu.

— Você está dizendo... Ai, meu Deus, eu devia ter imaginado.

Ela se recostou na cadeira. Mesmo assim, já havia se enganado tantas vezes. Estava sempre ao telefone com a ginecologista. "Acho que desta vez aconteceu."

— Não se trata de nenhum engano — disse Rowan. — A criança é de Yuri?

— Não — respondeu Mona. — Impossível que seja. Sir Galahad foi muito cuidadoso. Quer dizer, é simplesmente impossível.

— É de Michael.

— É. Mas você tem certeza de que estou grávida? Quer dizer, isso foi só há um mês, e...

— Tenho certeza — respondeu Rowan. — A bruxa e a médica sabem a mesma coisa.

— Quer dizer que esse poderia ser o Taltos — disse Mona.

— Você quer um motivo para se livrar dele?

— Não, de jeito nenhum. Não há nada neste mundo que faça com que eu me livre dele.

— Está segura disso?

— Até que ponto preciso estar segura? Rowan, esta é uma família católica. Nós não nos livramos de bebês. Além do mais, eu não me livraria desse bebê não importa quem fosse o pai. E se for Michael, aí está mais uma razão para todos se sentirem felizes, porque Michael faz parte da família! Você no fundo não nos conhece assim tão bem, Rowan. Você ainda não está compreendendo, nem mesmo agora. Se for um bebê de Michael... quer dizer, se esse bebê existir realmente...

— Termine, por favor.

— Por que você não termina para mim?

— Não, eu gostaria de ouvir as suas palavras, se não se importar.

— Se ele for de Michael, então Michael será o pai da nova geração que herdará esta casa.

— Certo.

— E se o bebê for uma menina, eu poderia designá-la herdeira de tudo, e... você e Michael poderiam ser os padrinhos. E nós poderíamos todos juntos levá-la à pia batismal. Poderíamos ficar em pé ali, e Michael teria um filho. E eu teria um pai que eu queria para o bebê que todos irão amar e em quem todos irão confiar.

— Eu sabia que você faria uma descrição mais cheia de vida do que a minha — disse Rowan, baixinho, com um pouco de tristeza. — Essa aí superou minhas expectativas. Você tem razão. Ainda há coisas nesta família que eu preciso aprender.

— Acrescente a igreja de Santo Afonso, onde Stella, Antha e Deirdre foram batizadas. E acho... acho que também batizaram você lá.

— Isso nunca me contaram.

— Parece que eu ouvi alguma coisa nesse sentido. Parece algo que eles fariam.

— Não há a mínima chance de você resolver se livrar do bebê.

— Você deve estar brincando! Eu quero o bebê. Eu ia querer qualquer filho meu, estou falando sério. Olhe, vou ser tão rica que poderei comprar qualquer coisa neste mundo, mas na existência não há o que substitua meu próprio filho. Só posso fazer com que isso aconteça de um jeito. Ai, se você conhecesse mais a família, se você não tivesse passado a vida lá na Califórnia, você compreenderia que isso nem chega a estar em cogitação, a menos que, é claro... Mas mesmo nesse caso...

— Mesmo nesse caso?

— Vamos nos preocupar com isso quando acontecer. Deve haver alguma indicação, todo tipo de sinal, se ele for anormal.

— Talvez sim. Talvez não. Quando eu estava grávida de Lasher, não houve nenhum sinal até chegar a hora.

Mona quis responder, dizer alguma coisa, mas estava por demais mergulhada nos seus próprios pensamentos. Seu próprio filho. Seu próprio filho, e ninguém, ninguém mesmo, ia mais mandar na sua vida. Seu próprio filho, e ela teria passado a ser adulta, independentemente da idade. Seu próprio filho. De repente, ela não tinha mais pensamentos, mas via objetos. Via um berço. Via um bebê, um pequeno bebê vivo, de verdade, e se via segurando o colar da esmeralda e pondo o colar no pescoço do bebê.

— E Yuri? — perguntou Rowan. — Será que ele vai entender isso? Mona queria dizer que sim. A verdade era que não sabia. Pensou em Yuri, de uma forma rápida, como que completa. Ele estava sentado na beira da cama naquela última noite e dizia para ela que há todos os tipos de razões importantes pelas quais uma pessoa deve se casar entre sua própria gente. Ela não queria pensar que tinha treze anos de idade e era inconstante. De repente percebeu que o fato de Yuri ser compreensivo com relação ao bebê era a menor das suas preocupações, a mais ínfima.

Ora, ela nem havia descoberto como tentaram matar Yuri. Ela nem havia perguntado se ele estava ferido.

— Houve uma tentativa de matá-lo a tiros — disse Rowan. — E essa tentativa fracassou. Infelizmente o assassino foi morto pela pessoa que o impediu de atingir seu objetivo. E o corpo não vai ser tão fácil de encontrar. Seja como for, não vamos tentar encontrar o corpo. Temos um outro plano.

— Ouça, Rowan, seja qual for o plano, você tem de contar a Michael tudo isso. Você não pode simplesmente ir embora.

— Eu sei.

— Por que você não tem medo de que esses bandidos matem vocês dois, você e Yuri?

— Tenho algumas armas de meu uso exclusivo. Yuri conhece a casa-matriz por inteiro. Creio que posso entrar lá. Posso procurar um dos membros muito velhos, um dos mais confiáveis e venerados. Preciso talvez de uns quinze minutos com essa pessoa para saber se o mal é gerado pela Ordem coletivamente, ou por um pequeno grupo.

— Não pode ser uma única pessoa, Rowan. Muita gente morreu.

— Você tem razão, e três dos seus soldados morreram também. Mas poderia ser um grupo muito pequeno dentro da Ordem, ou de estranhos que tenham alguma ligação com ela.

— Você acha que vai descobrir os próprios bandidos?

— Acho.

— Use-me como isca!

— E a criança dentro de você também? Se Michael for o pai...

— Ele é.

— Nesse caso, eles poderiam querer a criança mais do que querer você. Olhe, não quero fazer especulações. Não quero pensar em bruxas como alguma rara mercadoria para aqueles que sabem como usá-las. Não quero pensar nas mulheres da família sendo vítimas de uma nova espécie de cientista louco. Estou cheia de ciência louca. Estou cheia de monstros. Só quero que isso termine. Mas você não pode ir. Nem Michael. Vocês têm de ficar aqui.

Rowan afastou um pouco a seda negra da manga do paletó e olhou para um pequeno relógio de ouro. Mona jamais a havia visto com esse relógio. Provavelmente Beatrice o havia comprado também. Ele era delicado, o tipo de relógio que as mulheres usavam quando Beatrice era criança.

— Vou subir para falar com meu marido — disse Rowan.

— Graças a Deus. Eu vou com você.

— Não, por favor.

— Desculpe, mas eu vou.

— Com que finalidade?

— Para me certificar de que você vai lhe dizer tudo o que deveria dizer.

— Está bem. Então vamos juntas. Talvez você esteja um passo à minha frente. Você vai lhe dar o motivo para cooperar. Mas deixe-me lhe perguntar mais uma vez, Jezabel. Você tem certeza de que a criança é dele?

— Foi Michael. Posso lhe dizer quando é provável que tenha acontecido. Foi depois do enterro de Gifford. Eu me aproveitei mais uma vez dele. Não pensei em precauções da mesma forma que da primeira vez. Gifford estava morta e eu estava possuída pelo demônio, juro. Foi logo depois disso que alguém tentou entrar pela janela da biblioteca e eu senti aquele cheiro.

Rowan não disse nada.

— Era o homem, não era? Ele veio atrás de mim depois de ter estado com a minha mãe. Deve ter sido assim. Quando ele tentou entrar, o ruído me acordou. E então eu fui vê-la, e ela já estava morta.

— E o cheiro estava forte?

— Muito. Às vezes eu ainda o sinto aqui na sala de estar e lá em cima no quarto. Você não sente?

Rowan não respondeu.

— Quero que você faça uma coisa só porque eu estou pedindo — disse Rowan.

— E o que é?

— Não diga nada a Michael sobre o bebê antes que os exames habituais sejam realizados. Deve existir alguém em quem você confie, alguém que pode ser como uma mãe? Deve haver alguém assim.

— Não se preocupe, Rowan. Tenho minha ginecologista secreta. Estou com treze anos.

— É claro. Olhe, não importa o que aconteça, estarei de volta antes que você tenha de contar a qualquer pessoa.

— É, espero que sim. Isso não seria o máximo, se você pudesse terminar tudo tão rápido? Mas, e se você não voltar nunca, e Michael e eu nunca soubermos o que aconteceu com você ou com Yuri?

Rowan pareceu considerar essa hipótese e depois apenas deu de ombros.

— Eu volto. Mais um aviso, se não se importa.

— Pode mandar.

— Se você falar com Michael sobre o bebê e depois resolver se livrar dele, isso vai ser a morte para Michael. Duas vezes antes prometeram-lhe um filho e isso não se concretizou. Se houver alguma dúvida, por menor que seja, não fale com ele enquanto não a tiver resolvido.

— Mal posso esperar para lhe contar. Posso marcar para que a minha médica me veja hoje à tarde. Vou dizer que estou tendo um colapso nervoso e que já estou indo para lá. Ela está acostumada a esse tipo de coisa comigo. Quando os exames chegarem, nada vai me impedir de contar para ele. E nada, nada mesmo, vai impedir um filho meu de nascer.

Ela estava a ponto de se levantar quando se deu conta do que acabara de dizer, e de que Rowan nunca mais enfrentaria esse dilema em particular. Rowan, no entanto, não pareceu nem um pouco ofendida pelas suas palavras, nem magoada sem dúvida. Sua expressão estava muito tranqüila. Ela olhava para os cigarros.

— Dá para você dar o fora daqui para eu poder fumar em paz? — perguntou Rowan, com um sorriso. — Depois, nós acordamos Michael. Ainda tenho uma hora e meia para pegar o avião.

— Rowan, eu... eu ainda me arrependo de ter feito amor com ele. Só não lamento pela criança.

— Nem eu — disse Rowan. — Se ele sair dessa com seu próprio filho, e com uma mãe que deixará que ele ame esse filho, bem, talvez ele descubra um jeito de perdoar tudo com o passar dos anos. Lembre-se só de uma coisa, Jezabel. Você fica com a esmeralda e com o bebê. Mas Michael ainda é meu.

— Saquei — disse Mona. — Gosto de você de verdade, Rowan. Gosto mesmo de você. Isso além de amar você porque é minha prima e nós somos da família Mayfair. Se eu não estivesse esperando, eu faria você me levar junto, para o seu bem, o de Yuri e o de todo mundo.

— E como você faria com que eu a levasse, Mona?

— Como você disse mesmo? Minhas armas de uso exclusivo.

Elas se entreolharam, e então Rowan fez que sim e sorriu.

 

A COLINA ESTAVA LAMACENTA, e fazia frio, mas Marklin nunca havia feito essa subida escorregadia, fosse no inverno fosse no verão, sem adorar aquilo tudo: ficar parado em Wearyall Hill ao lado do Espinheiro Santo e contemplar a cidadezinha pitoresca e antiquada de Glastonbury. A paisagem ao redor era sempre verde, mesmo no inverno, mas agora ela apresentava a cor nova e intensa da primavera.

Marklin estava com vinte e três anos. Era muito claro, com cabelos louros, olhos de um azul claro e pele fina e clara que sofria facilmente com o frio. Ele usava uma capa de chuva com forro de lã, um par de luvas de couro e, na cabeça, um pequeno gorro de lã que se ajustava bem e que o mantinha mais aquecido do que se poderia esperar de uma peça tão pequena de vestuário.

Tinha dezoito anos quando Stuart os trouxe ali. Ele e Tommy eram os dois estudantes dedicados, apaixonados por Oxford, apaixonados por Stuart e ansiosos por qualquer palavra que saísse da boca de Stuart.

Durante todo o tempo que passaram em Oxford, eles honraram esse local com visitas regulares. Costumavam ocupar quartos pequenos e aconchegantes no George and Pilgrims Hotel e caminhar juntos pela High Street, examinando as livrarias e as lojas que vendiam cristais e o Tarô, murmurando um para o outro sobre sua pesquisa secreta, sua aguçada abordagem científica de assuntos que outros consideravam meramente mitológicos. Os fiéis do local, chamados variadamente de hippies de outrora ou de fanáticos da Nova Era, ou ainda os boêmios e artistas que sempre procuram o encanto e a tranqüilidade de um lugar desses, não os atraíam.

Eles eram a favor de decodificar o passado, rapidamente, com todos os instrumentos à sua disposição. E Stuart, seu professor em línguas antigas, era seu sacerdote, seu vínculo mágico com o santuário: a biblioteca e os arquivos da Talamasca.

No ano anterior, após a descoberta de Tessa, havia sido no penhasco de Glastonbury que Stuart lhes dissera: "Em vocês dois, encontrei tudo o que sempre procurei num estudioso, num aluno, num noviço. Vocês são os primeiros a quem eu realmente desejo passar tudo o que sei."

Isso havia parecido uma suprema honra para Marklin, algo mais importante do que qualquer reconhecimento que tivesse recebido em Eton, Oxford ou em qualquer parte deste mundo para onde seus estudos o houvessem carregado dali em diante.

Aquele havia sido um momento ainda mais importante do que o de ser aceito na Ordem. E agora, em retrospectiva, ele sabia que aquela aceitação havia tido algum significado só porque ela representava tudo para Stuart, que vivera toda a sua vida como membro da Talamasca, e que logo morreria, como dizia com tanta freqüência, dentro dos seus muros.

Stuart estava agora com oitenta e sete anos e talvez fosse um dos homens mais velhos em atividade na Talamasca, se é que se podia chamar o ensino de línguas uma atividade da Talamasca, pois ele era mais a paixão especial da aposentadoria de Stuart. A conversa sobre a morte não era nem romântica, nem melodramática. E na verdade nada alterava a atitude prática de Stuart com relação ao que estava por vir.

"Um homem da minha idade que ainda está lúcido? Se ele não for corajoso diante da morte, se não sentir curiosidade e ansiedade para ver o que acontece, bem, então ele desperdiçou a vida. É um completo idiota."

Mesmo a descoberta de Tessa não contaminara Stuart com nenhum desespero de último instante no sentido de prolongar o tempo que lhe restava. Sua devoção a Tessa, sua crença nela, não incluía nada de tão mesquinho. Marklin temia a morte de Stuart muito mais do que o próprio Stuart. E Marklin sabia agora que havia calculado mal sua força junto a Stuart, e que precisava seduzi-lo de volta ao momento da dedicação mútua. Perder Stuart para a morte era inevitável. Perder Stuart antes dessa hora era inimaginável.

"Vocês estão pisando no solo consagrado de Glastonbury", dissera Stuart naquele dia em que tudo começou. "Quem está enterrado nesse pico rochoso? O próprio Artur, ou apenas os celtas anônimos que nos deixaram suas moedas, suas armas, suas embarcações nas quais eles cruzavam os mares que outrora fizeram desta ilha a ilha de Avalon? Nunca saberemos. Mas há segredos que podemos desvendar, e as implicações desses segredos são tão amplas, tão revolucionárias e tão inauditas que valem nossa lealdade à Ordem, valem qualquer sacrifício que devamos fazer. Se não for assim, então estamos mentindo."

O fato de Stuart agora ameaçar abandonar Tommy e Marklin, de se ter voltado contra eles na sua fúria e repulsa, era algo que Marklin poderia ter evitado. Não teria sido necessário revelar todas as partes do plano a Stuart. E Marklin percebia agora que sua recusa a assumir ele próprio a plena liderança causara a cisão. Stuart tinha Tessa... Stuart deixara claros os seus desejos. Mas nunca deveriam ter contado a Stuart o que realmente acontecera. Esse havia sido o seu erro. E Marklin só poderia culpar sua própria imaturidade, a questão de ele amar tanto Stuart ao ponto de sentir uma compulsão no sentido de lhe contar tudo.

Ele atrairia Stuart de volta. Stuart concordara em vir hoje. Ele sem dúvida já estava ali, visitando o Poço do Cálice, como sempre fazia antes de vir até Wearyall Hill e conduzi-los até lá em cima ao próprio pico. Marklin sabia o quanto Stuart o amava. Esse rompimento de relações seria anulado com um apelo da alma, com poesia e com um fervor cheio de honestidade.

Que sua própria vida seria longa, que esta seria apenas a primeira das suas aventuras sinistras, Marklin não tinha a menor dúvida disso. Seriam dele as chaves que abririam o tabernáculo, o mapa do tesouro, a fórmula da poção mágica. Tinha certeza absoluta disso. Mas se esse seu primeiro plano terminasse em fracasso, seria um desastre moral. É claro que ele prosseguiria, mas sua juventude havia sido uma série ininterrupta de sucessos, e esse esforço também deveria ter sucesso para que sua ascensão não perdesse o ímpeto.

Tenho de vencer. Preciso sempre vencer. Não devo nunca tentar algo que não possa realizar com pleno sucesso. Esse sempre havia sido o lema pessoal de Marklin. Nunca havia deixado de cumpri-lo.

Quanto a Tommy, Tommy era fiel aos votos feitos pelos três, fiel ao conceito e à pessoa de Tessa. Não havia nenhuma preocupação relativa a Tommy. Profundamente envolvido nas suas pesquisas no computador, nas suas planilhas e cronologias precisas, Tommy não apresentava nenhum risco de dissidência pelos exatos motivos que o tornavam valioso. Ele não era dos que vêem o esquema total das coisas, ou dos que questionam sua legitimidade.

Num sentido muito básico, Tommy nunca mudava.

Tommy era agora o mesmo garoto que Marklin viera a amar na infância: colecionador, confrontador de textos, um arquivo ambulante, apreciador e investigador. Tommy sem Marklin nunca havia existido, ao que Marklin soubesse. Os dois se conheceram aos doze anos de idade, num colégio interno nos Estados Unidos. O quarto de Tommy era cheio de fósseis, mapas, ossos de animais, equipamento de computação do tipo mais secreto e uma ampla coleção de ficção científica em brochura.

Marklin muitas vezes imaginava que, aos olhos de Tommy, ele devia ter parecido ser um dos personagens daqueles romances fantásticos (o próprio Marklin detestava ficção) e que Tommy havia passado de observador a ator de destaque num drama de ficção científica, ao conhecer Marklin. Nem por um momento sequer, a lealdade de Tommy esteve sob questionamento. Na realidade, durante os anos em que Marklin quisera sua liberdade, Tommy sempre ficava perto demais, sempre à mão, sempre à disposição de Marklin. Marklin inventava tarefas para o amigo, simplesmente para se proporcionar espaço para respirar. Tommy nunca se sentira infeliz.

Marklin estava sentindo frio, mas não se importava.

Glastonbury nunca seria nada para ele além de um lugar sagrado, embora ele literalmente não acreditasse em quase nada que estivesse associado ao local.

A cada vez que vinha a Wearyall Hill, com a devoção particular de um monge, costumava imaginar o nobre José de Arimatéia plantando seu cajado exatamente naquele ponto. Não lhe importava que o atual Espinheiro Santo tivesse crescido de um rebento da árvore antiga, agora desaparecida, tanto quanto não lhe importava nenhum outro detalhe específico. Em lugares desse tipo ele sentia uma emoção peculiar aos seus objetivos, como que uma renovação religiosa que o fortalecia e o mandava de volta ao mundo mais impiedoso do que nunca.

Ser implacável. Era isso o que era necessário agora, e Stuart deixara de perceber isso.

É, as coisas tinham dado pavorosamente errado, sem a menor dúvida. Homens haviam sido sacrificados, cuja inocência e substância certamente exigiam uma justiça maior. Mas essa culpa não cabia inteiramente a Marklin. E a lição a ser aprendida era que, em última análise, nada disso fazia diferença.

Chegou a minha hora de instruir meu mestre, pensou Marklin.

A quilômetros da casa-matriz, neste espaço aberto, nosso encontro explicado sem nenhum risco pelos nossos próprios costumes de tantos anos, vamos nos reunir novamente como um só. Nada foi perdido. Stuart deve receber permissão moral para aprender com o que aconteceu.

Tommy havia chegado.

Tommy era sempre o segundo. Marklin observou o antigo carro esporte de Tommy reduzir a velocidade ao seguir pela High Street. Ficou olhando quando ele encontrou uma vaga, quando Tommy fechou a porta sem trancar, como sempre, e começou a subir a colina.

E se Stuart não aparecesse? E se ele não estivesse em nenhum lugar por perto? E se ele tivesse de fato abandonado seus seguidores? Impossível.

Stuart estava junto ao poço. Ele bebia daquela água ao chegar, e voltava a beber dela antes de ir embora. Suas peregrinações a esse lugar eram tão rígidas quanto as de um druida antigo ou de um monge cristão. De santuário em santuário, viajava Stuart.

Tais hábitos do seu mestre haviam sempre despertado uma ternura em Marklin, tanto quanto as palavras de Stuart. Stuart os "consagrara" a uma vida misteriosa de penetração da "mística e do mito, com a finalidade de apreender o horror e a beleza no seu cerne".

Parecia poesia tolerável tanto naquela época quanto agora. Só era preciso relembrar Stuart. Era preciso convencer Stuart com metáforas e sentimentos elevados.

Tommy havia quase chegado à árvore. Ele deu os últimos passos com cuidado, pois era fácil perder o equilíbrio na lama escorregadia e cair. Isso acontecera a Marklin uma vez, há anos, quando eles haviam começado suas peregrinações. O que resultará numa noite no George and Pilgrims Hotel enquanto suas roupas eram bem lavadas.

A queda não havia sido negativa. Foi uma noite maravilhosa. Stuart ficara com ele. Passaram a noite a conversar, muito embora Marklin estivesse confinado a um robe e chinelos emprestados e a um quarto pequeno e simpático; e os dois ansiassem em vão por escalar o penhasco à meia-noite e entrar em comunhão com o espírito do rei adormecido.

É claro que Marklin jamais por um instante que fosse acreditara que o rei Artur jazia aos pés do penhasco de Glastonbury. Se houvesse acreditado nisso, teria apanhado uma pá e começado a cavar.

Stuart já em idade avançada chegara à convicção de que o mito só era interessante quando havia uma verdade por trás dele, e de que era possível descobrir essa verdade, bem como comprovação física da mesma.

Os estudiosos, pensava Marklin, eles sofrem de um defeito inevitável. Para eles, as palavras e os atos se transformam na mesma coisa. Era isso o que estava na própria base da confusão atual. Stuart, aos oitenta e sete anos de idade, fizera talvez sua primeira incursão pela realidade adentro.

A realidade e o sangue estavam entrelaçados.

Tommy afinal tomou seu lugar ao lado de Marklin. Soprou os dedos gelados e depois enfiou a mão nos bolsos para pegar as luvas: uma atitude clássica em Tommy, a de ter subido o morro sem elas, a de ter se esquecido de que as luvas sequer estavam ali até ver as luvas de couro de Marklin, as que ele mesmo dera a Marklin muito tempo atrás.

— E o Stuart? — perguntou Tommy. — É, luvas. — Ele olhou para Marklin, com olhos enormes atrás dos óculos redondos, grossos, sem aro, e o cabelo ruivo cortado curto de tal modo que ele bem poderia ter sido um advogado ou um banqueiro. — Luvas, isso mesmo. Onde é que ele está?

Marklin estava a ponto de dizer que Stuart não viera quando de fato viu Stuart que iniciava a última etapa da subida depois de deixar o carro, que trouxera pelo Wearyall Hill acima até onde era permitido. Pouco característico de Stuart ter agido assim.

Sob outros aspectos, porém, Stuart não parecia mudado. Alto, magro no conhecido sobretudo, com o cachecol de caxemira em volta do pescoço e ondulando ao vento atrás dele, e o rosto macilento dando a impressão de ter sido entalhado em madeira. Seu cabelo grisalho lembrava, como sempre, a crista de um gaio. Parecia que nos últimos dez anos ele não mudara em absolutamente nada.

Ele olhava direto para Marklin enquanto se aproximava. E Marklin percebeu que ele próprio estava tremendo. Tommy afastou-se um passo. Stuart parou a uns dois metros deles, com os punhos cerrados, o rosto magro angustiado ao enfrentar os dois rapazes.

— Vocês mataram Aaron! — exclamou. — Vocês, vocês dois. Vocês mataram Aaron. Como, em nome de Deus, puderam fazer uma coisa dessas?

Marklin estava perplexo, com toda a sua autoconfiança e todos os seus planos abandonando-o de repente. Procurou parar o tremor nas mãos. Sabia que, se falasse, sua voz sairia frágil, sem nenhuma autoridade. Não podia suportar que Stuart estivesse irritado ou decepcionado sob nenhum aspecto.

— Meu Deus, o que vocês fizeram, vocês dois! — vociferou ele. — E o que eu fiz que dei início a esse plano? Deus do céu, a culpa é minha!

Marklin engoliu em seco, mas permaneceu em silêncio.

— Você, Tommy, como poderia ter participado disso tudo? — prosseguiu Stuart. — E Mark. Mark, você, o próprio autor de tudo isso.

— Stuart, você precisa me ouvir! — protestou Marklin antes que pudesse se conter.

— Ouvir você? — Stuart aproximou-se, com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo. — Ouvir você, é o que eu deveria fazer? Deixe-me fazer-lhe uma pergunta, meu jovem e brilhante amigo, minha esperança maior, mais ousada! O que irá impedi-lo de me matar, como fez com Aaron e com Yuri Stefano?

— Stuart, foi por você que eu agi assim — insistiu Marklin. — Se ao menos você quisesse me ouvir, entenderia. Essas não passam de flores das sementes que você plantou quando começamos isso juntos. Aaron tinha de ser silenciado. Foi por pura sorte que ele não se apresentou de volta, que não voltou em pessoa para a casa-matriz, Stuart! Ele poderia ter feito isso qualquer dia desses, e Yuri Stefano também teria vindo. Sua visita a Donnelaith foi um acaso feliz. Ele poderia ter ido direto do aeroporto para casa.

— Você está falando de circunstâncias, de detalhes! — rebateu Stuart, dando mais um passo na sua direção.

Tommy estava calado, aparentemente inabalado, com os cabelos ruivos desgrenhados pelo vento, espremendo os olhos por trás dos óculos. Ele observava Stuart com firmeza, com o ombro muito próximo do braço de Marklin.

Stuart estava fora de si.

— Você fala de conveniência, mas não fala da vida e da morte, meu aluno — insistiu. — Como pôde fazer isso? Como pôde dar um fim à vida de Aaron? — E nesse ponto faltou-lhe a voz, e a dor se manifestou, monstruosa como a raiva. — Eu o destruiria, Mark, se eu pudesse. Mas eu não sei fazer esse tipo de coisa, e talvez seja por isso que eu tivesse imaginado que você não faria! Mas você me surpreendeu, Mark.

— Stuart, era algo que valia qualquer sacrifício. O que é o sacrifício se não for um sacrifício moral?

Isso horrorizou Stuart, mas o que mais Marklin podia fazer a não ser mergulhar fundo? Tommy realmente devia dizer alguma coisa, pensou, mas ele sabia que, quando Tommy falasse, defenderia com firmeza sua posição.

— Acabei com aqueles que poderiam impedir nosso avanço — disse Mark. — Só isso, Stuart. Você chora por Aaron porque o conhecia.

— Não seja idiota — disse Stuart, com rancor. — Choro pelo derramamento de sangue inocente. Choro pela estupidez monstruosa! É, foi isso o que aconteceu. Você acha que a morte de um homem desses permanecerá sem vingança dentro da Ordem? Você acha que conhece a Talamasca. Acha que, com sua mente jovem e astuta, poderia avaliar a Ordem em questão de alguns anos. Mas tudo o que fez foi aprender suas fraquezas organizacionais. Você poderia viver a vida inteira na Talamasca e não conhecer a Talamasca. Aaron era meu irmão! Foi meu irmão que você matou! Você me traiu, Mark. Você traiu a Tommy. Você traiu a si mesmo! Você traiu a Tessa.

— Não — disse Mark. — O que está dizendo não é a verdade, e você sabe. Olhe para mim, Stuart. Olhe nos meus olhos. Você deixou a meu encargo a tarefa de trazer Lasher para cá. Você me encarregou de sair da biblioteca e planejar tudo. A mim e a Tommy também. Você acha que isso poderia ter sido orquestrado sem nós?

— Você se esquece de um ponto crucial, não é, Mark? — perguntou Stuart. — Você fracassou. Não conseguiu resgatar o Taltos e trazê-lo para cá! Seus soldados foram tolos, e o mesmo deve ser dito do general.

— Stuart, seja paciente conosco — disse Tommy. Era seu costumeiro tom prático. — Eu soube, no primeiro dia em que falamos, que isso não poderia ser realizado sem que alguém pagasse com a própria vida.

— Você nunca me disse essas palavras, Tommy.

— Permita-me relembrá-lo — disse Tommy, com a mesma atitude neutra — de que você determinou que nós deixássemos Aaron e Yuri incapacitados para interferir e que destruíssemos todas as provas de que o próprio Taltos havia nascido na família Mayfair. Ora, como isso poderia ter sido feito a não ser do modo que fizemos? Stuart, não temos nada do que nos envergonhar nos nossos atos. O que buscamos torna essas coisas totalmente insignificantes.

Marklin procurou desesperadamente ocultar seu suspiro de alívio.

Stuart olhou de Tommy para Marklin e de volta para Tommy. Voltou-se, então, para a paisagem desbotada de suaves colinas verdes e ondulantes e depois para o pico rochoso de Glastonbury. Deu-lhes as costas para encarar o penhasco e baixou a cabeça como se estivesse em comunhão com alguma divindade pessoal.

Marklin aproximou-se e, muito hesitante, pôs as mãos nos ombros de Stuart. Ele agora era muito mais alto do que Stuart, e Stuart, na velhice, perdera parte da sua altura anterior. Marklin aproximou-se do seu ouvido.

— Stuart, a sorte foi lançada quando nos livramos do cientista. Não havia mais como voltar atrás. E o médico...

— Não — disse Stuart, abanando a cabeça com uma ênfase dramática. Seus olhos estavam semicerrados e fixos no penhasco. — Essas mortes poderiam ter sido atribuídas ao próprio Taltos, vocês não compreendem? Era essa a beleza do plano. O Taltos compensava as mortes dos dois homens que só poderiam ter usado indevidamente a revelação que lhes foi feita!

— Stuart — disse Mark, muito consciente de que Stuart não havia procurado se libertar do seu discreto abraço. — Você precisa compreender que Aaron se tornou nosso inimigo no instante em que se tornou inimigo oficial da Talamasca.

— Inimigo? Aaron nunca foi inimigo da Talamasca! Sua excomunhão forjada partiu-lhe o coração.

— Stuart — argumentou Marklin. — Agora, em retrospectiva, vejo que a excomunhão foi um erro, mas foi nosso único erro.

— Não havia escolha na questão da excomunhão — disse Tommy, inabalável. — Ou agíamos daquela forma, ou nos arriscávamos a ser descobertos a cada instante. Fiz o que eu tinha de fazer, e fiz de um jeito perfeitamente convincente. Eu não teria tido condições de manter uma correspondência forjada entre Aaron e os Anciãos. Isso teria sido demais.

— Admito que foi um erro — disse Marklin. — Só a lealdade à Ordem poderia ter mantido Aaron calado quanto às diversas coisas que ele havia visto e chegado a suspeitar. Se cometemos um erro, Stuart, nós três o cometemos juntos. Não deveríamos ter alijado Aaron e Yuri Stefano. Deveríamos ter reforçado nossa influência, ter sido mais competentes.

— A trama já era por demais complexa em si — disse Stuart. — Estou lhes avisando, a vocês dois. Tommy, venha cá. Estou avisando! Não ataquem a família Mavfair. O que fizeram já basta. Destruíram um homem melhor do que qualquer outro que eu jamais conheci, e fizeram isso por uma vantagem tão ínfima que os céus se vingarão de vocês. Mas, por nada do que nos resta agora, não ataquem a família!

— Acho que já atacamos — disse Tommy, com sua habitual voz prática. — Aaron Lightner acabava de se casar com Beatrice Mayfair. Além disso, ele se tornara tão amigo de Michael Curry e, na realidade, de todo o clã, que o casamento praticamente não era necessário para consolidar o relacionamento. No entanto, o casamento se realizou e, para a família Mayfair, o casamento é um vínculo sagrado, como sabemos. Aaron tornou-se um deles.

— Tomara que você esteja errado — disse Stuart. — Peça aos céus que esteja enganado. Incorra na ira das bruxas Mayfair, e o próprio Deus não poderá ajudá-lo.

— Stuart, vamos examinar o que precisa ser feito agora — disse Marklin. — Vamos descer daqui e ir até o hotel.

— Nunca. Onde outros possam nos ouvir? Nunca.

— Stuart, leve-nos a Tessa. Vamos discutir tudo isso lá — insistiu Marklin.

Era o momento crucial. Marklin sabia. Ele agora desejava não ter pronunciado o nome de Tessa, por enquanto não. Desejava não ter chegado a esse clímax.

Stuart observava os dois com a mesma determinação para a censura e a repulsa. Tommy mantinha-se firme, com as mãos enluvadas unidas à sua frente. A gola dura do seu casaco estava em pé, a lhe esconder a boca, dessa forma não revelando nada a um exame minucioso a não ser seu olhar neutro, imperturbável.

O próprio Marklin estava à beira das lágrimas, ou era isso o que imaginava. Na realidade, Marklin nunca havia chorado uma vez sequer na sua vida, de que se lembrasse.

— Talvez essa não seja a hora de vê-la — disse Marklin, apressando-se a reparar o erro.

— Talvez vocês nunca devessem vê-la de novo — disse Stuart, com a voz contida pela primeira vez, os olhos abertos, a especular.

— Você não está falando sério — disse Mark.

— Se eu os levar a Tessa, o que irá impedi-los de se livrarem de mim?

— Ah, Stuart, você está nos magoando. Como pode nos fazer uma pergunta dessas? Não somos pessoas sem princípios. Somos simplesmente dedicados a um objetivo comum. Aaron tinha de morrer. Yuri também. Yuri na realidade nunca pertenceu à Ordem. Yuri foi embora tão rápido e com tanta facilidade!

— É, e nenhum de vocês jamais foi membro, certo? — perguntou Stuart. Sua atitude estava mudando, ficando mais rígida.

— Nós somos devotados a você, e sempre fomos — disse Marklin. — Stuart, estamos perdendo nosso tempo precioso. Guarde Tessa para si se quiser. Não abalará minha crença nela, nem a de Tommy. E nós prosseguiremos na direção do nosso objetivo. Não podemos agir de outro modo.

— E qual é o objetivo agora? — perguntou Stuart. — Lasher desapareceu como se nunca houvesse existido! Ou vocês duvidam da palavra de um homem que seguiu Yuri obstinadamente cruzando terras e mares só para afinal matá-lo a tiros?

— Lasher já não existe mais — disse Tommy. — Acho que todos nós estamos de acordo quanto a isso. O que Lanzing viu não poderia ser interpretado de nenhuma outra forma. Mas Tessa está nas nossas mãos, tão real quanto no dia em que você a descobriu.

Stuart abanou a cabeça.

— Tessa é real, e está sozinha como sempre esteve. E a união não se realizará; e meus olhos se fecharão sem que eu jamais presencie o milagre.

— Stuart, ainda é possível — disse Marklin. — A família, as bruxas Mayfair.

— É — gritou Stuart, com a voz descontrolada. — Ataquem a família, e eles os destruirão. Já se esqueceram da primeira advertência que lhes fiz. As bruxas Mayfair conquistam aqueles que desejam atingi-las. Sempre agiram assim! Se não como indivíduos, conquistam como família!

Eles ficaram calados por um instante.

— Os destruirão, Stuart? — perguntou Tommy. — Por que não a nós três, Stuart?

Stuart estava em desespero. Seu cabelo branco, soprado de um lado para o outro pelo vento, lembrava o cabelo despenteado de um bêbado. Ele baixou os olhos para a terra abaixo dos seus pés, com o nariz aquilino brilhando como se não fosse nada agora além de cartilagem polida. Uma águia de homem, verdade, mas não um homem idoso, isso nunca.

Marklin temia por ele no vento. Os olhos de Stuart estavam vermelhos e lacrimejantes. Marklin podia ver o mapa de veias azuis que se espalhava a partir das têmporas. Stuart tremia por inteiro.

— É, você tem razão, Tommy — disse Stuart. — A família Mayfair destruirá a nós todos. Por que não fariam isso? — Ele ergueu os olhos, direto para Marklin. — E qual é a maior perda para mim? A de Aaron? A do próprio casamento de um Taltos macho com uma fêmea? A da cadeia de lembranças que esperávamos descobrir elo por elo até suas origens mais remotas? Ou será que é a de vocês agora estarem condenados vocês dois, pelo que fizeram? E eu os perdi. Que a família Mayfair venha destruir a nós três, sim. Será a justiça.

— Não, não quero essa justiça — disse Tommy. — Stuart, você não pode se virar contra nós.

— Não, isso você não pode fazer — disse Marklin. — Não pode invocar uma derrota para nós. As bruxas podem gerar o Taltos novamente.

— Daqui a trezentos anos? — perguntou Stuart. — Ou amanhã?

— Escute-me, senhor, eu lhe imploro — disse Marklin. — O espírito de Lasher possuía o conhecimento do que havia sido e do que poderia ser. E o que aconteceu aos genes de Rowan Mayfair e Michael Curry ocorreu sob a vigilância consciente do espírito, para realizar seu objetivo.

— Mas nós agora temos esse conhecimento, do que um Taltos é, e talvez tenha sido, e do que pode gerar um. E Stuart, as bruxas também têm! Pela primeira vez, as bruxas conhecem a finalidade da espiral em dupla hélice. E seu conhecimento é tão poderoso quanto o de Lasher.

Stuart não teve resposta para essas palavras. Estava claro que ele não havia pensado nessa hipótese. Ficou olhando muito tempo para Marklin.

— Você acredita nisso? — perguntou, então.

— Talvez sua consciência seja ainda mais poderosa — disse Tommy. — O auxílio telecinético que pode ser proporcionado pelas próprias bruxas na hora do nascimento não pode ser subestimado.

— O cientista de sempre — disse Marklin, com um sorriso de triunfo. A maré estava mudando. Ele sentia; ele via isso nos olhos de Stuart.

— E devemos nos lembrar de que o espírito era abobalhado e desastrado — disse Tommy. — As bruxas estão a anos-luz disso, mesmo quando são mais ingênuas e incompetentes.

— Isso aí é adivinhação sua, Tommy.

— Stuart — argumentou Marklin. — Já fomos longe demais!

— Em outras palavras, nossas realizações até aqui não foram de modo algum insignificantes. Verificamos a encarnação do Taltos e, se pudéssemos pôr as mãos em quaisquer anotações feitas por Aaron antes de morrer, poderíamos constatar o que todos suspeitamos, de que não se tratou de uma encarnação, mas de uma reencarnação.

— Sei o que fizemos — disse Stuart. — De certo e de errado. Você não precisa fazer nenhum resumo para mim, Tommy.

— É só para esclarecer — disse Tommy. — E nós temos bruxas que conhecem não só os velhos segredos em termos abstratos, mas que acreditam no próprio milagre físico. Seria impossível dispor de oportunidades mais interessantes.

— Stuart, volte a confiar em nós — disse Marklin.

Stuart olhou para Tommy e depois para Marklin. Marklin viu a velha centelha, o amor.

— Stuart — prosseguiu ele —, as mortes já aconteceram. Essa parte está terminada. Nossos outros auxiliares inocentes podem ser dispensados sem que jamais venham a apreender o plano em sua magnitude.

— E Lanzing? Ele deve saber de tudo.

— Ele era um mercenário, Stuart — respondeu Marklin. — Ele nunca entendeu o que viu. Além do mais, ele também morreu.

— Nós não o matamos, Stuart — disse Tommy, num tom quase despreocupado. — Encontraram parte dos seus restos aos pés do rochedo de Donnelaith. Sua arma havia atirado duas vezes.

— Parte dos seus restos? — perguntou Stuart. Tommy deu de ombros.

— Disseram que ele havia sido devorado por animais selvagens.

— Nesse caso, não se pode ter certeza de que ele matou Yuri.

— Yuri nunca voltou ao hotel — disse Tommy. — Seus pertences ainda não foram procurados por ninguém. Yuri morreu, Stuart. As duas balas foram para Yuri. Como Lanzing caiu, ou por quê, ou ainda se algum animal o atacou, são coisas que não temos como saber. Mas, no que nos diz respeito, Yuri Stefano está desaparecido.

— Você não vê, Stuart? — disse Marklin. — A não ser pela perda do Taltos, tudo funcionou perfeitamente. E agora podemos recuar e concentrar a atenção nas bruxas Mayfair. Não precisamos de mais nada da Ordem. Se algum dia descobrirem a interceptação, ninguém jamais conseguirá associá-la a nós.

— Vocês não temem os Anciãos, certo?

— Não há motivos para temer os Anciãos — disse Tommy. — A interceptação continua a funcionar perfeitamente. Sempre funcionou.

— Stuart, nós aprendemos com os nossos erros — disse Marklin. — Mas talvez certas coisas tenham acontecido com uma finalidade. Não estou falando em termos sentimentais. Mas olhe para o quadro como um todo. Todas as pessoas certas morreram.

— Não me falem com tanta insensibilidade dos seus próprios métodos, nenhum de vocês dois. E o Superior Geral?

Tommy deu de ombros.

— Marcus não sabe de nada. Só que muito em breve vai poder se aposentar com uma pequena fortuna. Ele jamais conseguirá armar o quebra-cabeça depois disso. Ninguém será capaz. Essa é a beleza do plano todo.

— Precisamos de mais algumas semanas no máximo — disse Marklin. — Só para nos protegermos.

— Não tenho tanta certeza assim — disse Tommy. — Pode ser interessante eliminar as interceptações agora. Sabemos tudo o que a Talamasca sabe sobre a família Mayfair.

— Não seja tão apressado, tão confiante! — disse Stuart. — O que acontecerá quando suas comunicações forjadas forem afinal descobertas?

— Você deve estar querendo dizer nossas comunicações forjadas — disse Tommy. — Na pior das hipóteses, haverá um pouco de confusão, talvez até mesmo uma investigação. Mas ninguém poderia associar as cartas ou a própria interceptação a nós. É por isso que é tão importante que continuemos sendo noviços leais, que não façamos nada agora que desperte suspeitas.

Tommy olhou de relance para Marklin. Estava funcionando. A atitude de Stuart havia mudado. Stuart estava voltando a dar as ordens... quase.

— Isso tudo é eletrônico — disse Tommy. — Não há provas concretas de nada em parte alguma, a não ser algumas pilhas de papel no meu apartamento em Regent's Park. Só você, Mark e eu sabemos onde esses papéis estão.

— Stuart, estamos precisando da sua orientação agora! — disse Marklin. — Ainda vamos entrar na fase mais emocionante.

— Silêncio — disse Stuart. — Deixem-me olhar para vocês dois. Deixem-me fazer uma avaliação.

— Por favor, Stuart — disse Marklin. — Faça essa avaliação e nos considere jovens e corajosos, sim, jovens e tolos, talvez, mas corajosos e dedicados.

— O que Mark quer dizer é que a nossa posição atual é melhor do que poderíamos ter chegado a esperar — disse Tommy. — Lanzing matou Yuri e depois caiu, sofrendo ferimentos fatais. Stolov e Norgan morreram. Nunca foram mais do que um estorvo, e sabiam demais. Os homens contratados para matar os outros não nos conhecem. E nós estamos aqui, onde começamos, em Glastonbury.

— E Tessa está nas nossas mãos, sem que ninguém tenha conhecimento disso a não ser nós três.

— Eloqüência — disse Stuart, quase num sussurro. — É isso o que vocês estão me dando, eloqüência.

— A poesia é a verdade, Stuart — disse Marklin. — Ela é a mais alta verdade, e a eloqüência é sua característica.

Houve uma pausa. Marklin precisava fazer Stuart descer desse morro. Protetor, ele pôs o braço em volta de Stuart e, para grande alívio seu, Stuart permitiu isso.

— Vamos descer, Stuart — disse Marklin. — Vamos jantar agora. Estamos com frio. Estamos com fome.

— Se tivéssemos a oportunidade de começar de novo, agiríamos melhor — disse Tommy. — Não precisávamos ter tirado aquelas vidas. Poderia ter sido um desafio maior, sabe? O de atingir nosso objetivo sem realmente ferir ninguém.

Stuart parecia mergulhado em pensamentos, só relanceando o olhar distraído para Tommy. O vento voltou a aumentar, cortante, e Marklin estremeceu. Se ele estava sentindo todo esse frio, o que não estaria sentindo Stuart? Precisavam descer até o hotel. Precisavam sentar-se à mesa juntos.

— Sabe, Stuart, nós não somos nós mesmos — disse Marklin, olhando para a cidadezinha lá embaixo, e consciente de que os outros dois tinham o olhar fixo nele. — Quando estamos reunidos, formamos uma pessoa que nenhum de nós conhece bem o suficiente, talvez, uma quarta entidade à qual deveríamos dar um nome, porque esse ser é maior do que a reunião das nossas identidades. Talvez devamos aprender a controlá-lo melhor. Mas destruí-lo agora? Não, isso não podemos fazer, Stuart. Se o fizermos, estaremos todos nos traindo uns aos outros. É uma dura verdade a ser encarada, mas a morte de Aaron não significa nada.

Jogara sua cartada final. Dissera o melhor e o pior que tinha a dizer, aqui nesse vento frio, e sem de fato premeditar, apenas com seu instinto a guiá-lo. Afinal, ele olhou para o mestre e para o amigo, e viu que os dois estavam impressionados com as suas palavras, talvez ainda mais impressionados do que ele poderia ter esperado.

— É, foi essa quarta entidade, como você a chama, que matou meu amigo — disse Stuart, tranqüilo. — Você tem razão a esse respeito. E nós sabemos que o poder, o futuro, dessa quarta entidade é inimaginável.

— Exatamente — disse Tommy, num sussurro neutro.

— Mas a morte de Aaron é uma coisa terrível, terrível! Nenhum de vocês dois jamais volte a falar a esse respeito comigo; e nunca, nunca a tratem com leviandade seja com quem for.

— De acordo — disse Tommy.

— Meu amigo inocente — disse Stuart — que procurou apenas ajudar a família Mayfair.

— Ninguém na Talamasca é realmente inocente — atalhou Tommy. Stuart pareceu assombrado, a princípio enfurecido e depois intrigado por essa simples afirmação.

— O que está querendo dizer com isso?

— Quero dizer que não se pode esperar possuir conhecimento que não mude a pessoa. Uma vez que se saiba, já se está agindo com base nesse conhecimento, quer se oculte o conhecimento daqueles que também desejariam mudar, quer se transmita o conhecimento a eles. Aaron sabia disso. A Talamasca é maléfica por natureza. É esse o preço que ela paga por suas bibliotecas, catálogos e dados informatizados. Exatamente como Deus, não se poderia dizer, que sabe que algumas das suas criaturas irão sofrer enquanto outras triunfarão, mas que não diz às suas criaturas o que sabe? A Talamasca é ainda mais maléfica do que o Ser Supremo, mas a Talamasca não cria nada.

Tão acertado, pensou Marklin, embora não pudesse ter dito uma coisa dessas em voz alta para Stuart, por medo da resposta que Stuart daria.

— Talvez você tenha razão — disse Stuart, entre dentes. Ele parecia derrotado, ou desesperado por algum ponto de vista tolerável.

— É um sacerdócio estéril — disse Tommy, com a voz mais uma vez desprovida de qualquer sentimento. Ele deu um empurrão nos óculos pesados com um dos dedos. — Os altares são áridos; as imagens ficam guardadas. Os estudiosos estudam pelo prazer de estudar.

— Não diga mais nada.

— Deixe-me falar de nós, então — prosseguiu Tommy. — Que nós não somos áridos, que veremos a realização da união sagrada e que ouviremos as vozes da lembrança.

— É — disse Marklin, incapaz de adotar uma voz tão fria. — É, nós somos os verdadeiros sacerdotes agora! Verdadeiros intermediários entre a terra e as forças do desconhecido. Possuímos as palavras e o poder.

Voltou a cair um silêncio.

Será que Marklin conseguiria um dia tirá-los daquele morro? Ele saíra vitorioso. Estavam juntos novamente, e ele ansiava pelo calor do George and Pilgrims. Ansiava pelo sabor da sopa quente e da cerveja forte, além da luz do fogo. Ansiava por celebrar. Estava novamente emocionadíssimo.

— E Tessa? — perguntou Tommy. — Como vão as coisas com Tessa?

— Na mesma — disse Stuart.

— Ela sabe que o Taltos macho morreu?

— Ela nunca soube que ele estava vivo — respondeu Stuart.

— Ah.

— Vamos, mestre — disse Marklin. — Vamos descer agora até o hotel. Vamos jantar juntos.

— É — concordou Tommy. — Nós todos estamos sentindo frio demais para continuar a falar.

Começaram a descida, tanto Tommy quanto Marklin apoiando Stuart na lama escorregadia. Quando chegaram ao automóvel de Stuart, preferiram ir de carro a fazer a longa caminhada.

— Tudo isso está muito bem — disse Stuart, entregando as chaves do carro a Marklin. — Mas eu quero visitar o Poço do Cálice como sempre, antes de irmos embora.

— Para quê? — perguntou Marklin, dando às suas palavras um tom tranqüilo, respeitoso e aparentemente expressivo do amor que sentia por Stuart. — Vai lavar as mãos no Poço do Cálice para limpá-las do sangue? A própria água de lá já é sangrenta, mestre.

Stuart deu um risinho amargo.

— É, mas aquele é o sangue de Cristo, não é?

— É o sangue da condenação — disse Marklin. — Depois do jantar, vamos até o poço, pouco antes que escureça. Eu lhe prometo.

Desceram o morro juntos, de carro.

 

MICHAEL DISSE A CLEM que queria sair pelo portão da frente. Ele traria as malas para fora. Eram só duas, a de Rowan e a dele. Não se tratava de nenhuma viagem de férias que exigisse grandes malas e bolsas de acessórios.

Ele olhou para o diário antes de fechá-lo. Havia ali uma longa explicitação da sua filosofia, escrita na noite da terça-feira de Carnaval, antes que ele pudesse sequer imaginar que seria despertado mais tarde por uma melodia lamentosa num gramofone ou pela visão de Mona dançando como uma ninfa na sua camisola branca. Com o laço na cabeça, fresca e perfumada como pão quente, leite fresco, morangos.

Não, não posso pensar mais em Mona neste momento. Vou aguardar o telefonema em Londres.

Além do mais, havia a passagem que ele queria ler:

 

E acho que acredito, em última análise, que é possível se atingir uma

paz de espírito diante dos piores horrores e das maiores perdas. Ela

pode ser atingida através da crença na mudança, na vontade e no

acaso; e através da crença em nós mesmos, que iremos com maior

freqüência agir com correção diante da adversidade.

 

Seis semanas haviam se passado desde aquela noite quando, enfermo e magoado, ele pusera por escrito esses sentimentos. Ele era um prisioneiro dessa casa naquela época, e continuara sendo até este exato momento.

Fechou o diário. Guardou-o na capa de couro, enfiou-o debaixo do braço e apanhou as malas. Desceu pela escada, um pouco nervoso por não ter nenhuma das mãos livre para se apoiar no corrimão, e dizendo a si mesmo que não ia ter agora nenhuma crise de tontura ou qualquer outra forma de fraqueza.

E se estivesse enganado a esse respeito, bem, então morreria em atividade.

Rowan estava parada na varanda da frente conversando com Ryan, e Mona estava lá, com lágrimas nos olhos, que se erguiam para ele com uma devoção renovada. Ela parecia tão deliciosa usando seda quanto em qualquer outro tecido. E, quando ele olhou para ela agora, viu o que Rowan havia visto, viu como um dia ele havia sido o primeiro a ver o mesmo em Rowan: o novo volume dos seios, a coloração mais forte no rosto e um brilho nos olhos de Mona, bem como um ritmo ligeiramente diferente nos seus movimentos mais discretos.

Meu filho.

Ele acreditaria quando ela lhe desse a confirmação. Ele se preocuparia com genes e monstros quando precisasse fazê-lo. Sonharia com um filho ou uma filha nos seus braços quando houvesse uma verdadeira chance de isso acontecer.

Clem apanhou rapidamente as malas e as levou para fora do portão. Michael apreciava esse novo motorista muito mais do que o último. Gostava do seu bom humor e do seu jeito prático. Ele lembrava Michael de músicos que conhecera.

A mala do carro foi fechada. Ryan beijou Rowan nos dois lados do rosto. Só então, Michael ouviu a voz de Ryan.

— ... algo mais que você possa me contar.

— Só que esta situação não deverá se prolongar. Mas nem por um instante considere seguro dispensar os guardas. E não deixe Mona sair sozinha sob nenhuma hipótese.

— Acorrentem-me às paredes — disse Mona, dando de ombros. — Teriam feito isso com Ofélia se ela não se tivesse afogado no córrego.

— Quem? — perguntou Ryan. — Mona, até agora aceitei tudo isso muito bem, levando-se em conta que você tem treze anos de idade e...

— Fique frio, Ryan. Ninguém está aceitando tudo isso melhor do que eu mesma.

Ela deu um sorriso amarelo. Ryan estava desnorteado, com os olhos fixos nela.

Esse era o momento, calculou Michael. Ele não poderia suportar uma longa despedida ao estilo Mayfair. E Ryan já estava suficientemente confuso.

— Ryan, entro em contato com você assim que for possível — disse ele. — Vamos visitar o pessoal do Aaron. Descobrir o que pudermos. E voltar para casa.

— Agora, vocês podem me dizer exatamente para onde estão indo?

— Não, não podemos — respondeu Rowan. Ela já estava de costas, praticamente saindo pelo portão.

De repente, Mona desceu ruidosa a escada atrás dela.

— Ei, Rowan! —disse Mona, enlaçando-a pelo pescoço e a beijando.

Por um instante, Michael ficou apavorado, com receio de que Rowan não retribuísse, que ficasse parada como uma estátua à sombra dos carvalhos, sem reconhecer esse abraço súbito e desesperado e sem procurar se desvencilhar dele. No entanto, o que aconteceu foi totalmente diferente. Rowan deu um abraço apertado em Mona, beijando-a no rosto, depois afagando seu cabelo e até pousando a mão na testa de Mona.

— Vai dar tudo certo — disse Rowan. — Mas faça tudo o que eu lhe disse.

Ryan acompanhou Michael que descia a escada da frente.

— Não sei o que dizer a não ser boa sorte — disse Ryan. — Preferia que vocês me falassem mais sobre isso tudo, sobre o que realmente vão fazer.

— Diga a Bea que tivemos de ir — respondeu Michael. — Eu não diria aos outros nada além do necessário.

Ryan fez que sim, obviamente cheio de suspeitas e preocupação, mas basicamente sem ter o que fazer.

Rowan já estava dentro do carro. Michael entrou ao seu lado. Os segundos iam passando deslizantes, sob os galhos baixos das árvores, e Mona e Ryan formavam um pequeno quadro, juntos em pé no portão, a acenar. A cabeleira de Mona como uma explosão estelar e Ryan, nitidamente perplexo como sempre e cheio de incertezas.

— Parece que ele está condenado a administrar tudo para uma panelinha que nunca vai lhe dizer o que está realmente acontecendo.

— Nós tentamos um dia — disse Michael. — Você precisava estar lá. Ele não quer saber. E vai fazer exatamente o que você mandou. E Mona? Será que vai? Não faço a menor idéia. Mas ele, sim.

— Você ainda está zangado.

— Não. Deixei de ficar zangado no instante em que você cedeu.

Mas essa não era a verdade. Ele ainda estava profundamente magoado pelo fato de ela ter planejado viajar sem ele, pelo fato de Rowan não tê-lo considerado como um companheiro para essa viagem, mas como algum tipo de guardião da casa, e do bebê na barriga de Mona.

Bem, mágoa não era raiva, era?

Ela se voltou. Olhava direto para a frente, e ele teve a impressão de que talvez assim fosse seguro olhar para ela. Ainda estava muito magra, exageradamente magra, mas seu rosto nunca lhe parecera tão lindo. O costume negro que usava, as pérolas, os saltos altos, tudo isso lhe conferia um encanto ilusoriamente perverso. Mas ela não precisava dessas coisas. Sua beleza residia na sua pureza, nos ossos do seu rosto, nas sobrancelhas retas e escuras que determinavam sua expressão com tanta nitidez e na boca macia e larga que ele agora queria beijar, com um brutal desejo masculino de despertá-la, de abrir-lhe os lábios, de fazer com que ela se derretesse toda nos seus braços mais uma vez, de possuí-la.

Essa era a única forma que um dia teria de possuí-la.

Ela ergueu a mão e apertou o botão acionador do painel de couro que os isolaria do motorista. Voltou-se, então, para Michael.

— Eu estava errada — disse ela, sem rancor e sem implorar perdão. — Você amava Aaron. Você me ama. E ama também a Mona. Eu estava errada.

— Você não precisa entrar nessa — respondeu ele. Era-lhe difícil encará-la nos olhos, mas ele estava decidido a fazer isso, a se acalmar interiormente, a parar de se sentir magoado, enfurecido ou fosse lá o que estivesse sentindo no momento.

— Mas uma coisa você precisa entender — disse ela. — Não pretendo ser gentil e respeitar a lei com essa gente que matou Aaron. Não pretendo dar explicações a ninguém sobre o que eu fizer, nem mesmo a você, Michael.

Ele riu. Encarou seus olhos grandes, cinzentos e frios. Perguntou-se se era isso o que os pacientes viam quando erguiam os olhos imediatamente antes de a anestesia começar a funcionar.

— Eu sei disso, querida. Quando chegarmos lá, quando nos encontrarmos com Yuri, eu quero saber o que ele sabe, e só isso. Quero estar lá com vocês dois. Não estou alegando ter as suas capacidades ou a sua coragem. Mas quero estar lá.

Ela fez que sim.

— Quem sabe, Rowan? Talvez você descubra uma finalidade para mim. — Manifestara-se a raiva. Era tarde demais para recolhê-la de volta. Ele sabia que seu rosto estava vermelho. Desviou o olhar.

Quando ela falou dessa vez, foi com uma voz secreta que nunca a ouvira usar a não ser com ele, e nos últimos meses ela havia adquirido uma nova profundidade de sentimento.

— Michael, eu amo você. Mas sei que é um bom homem. Já não sou mais uma boa mulher.

— Rowan, você não está falando sério.

— Ah, estou, sim. Eu desci ao inferno, Michael.

— E voltou — disse ele, voltando a olhar para ela, no esforço de abafar os sentimentos que estavam a ponto de explodir de dentro dele.

— Você voltou a ser Rowan e está aqui; e há coisas pelas quais viver além da vingança.

Era isso, não era? Ele não havia conseguido despertá-la do seu sono acordada. Foi a morte de Aaron que realizou o milagre, trazendo-a de volta a todos eles.

Se ele não pensasse em alguma outra coisa logo, ia perder a paciência novamente. Tão intensa era sua mágoa, tão descontrolada.

— Michael, eu amo você. Eu o amo muito. E sei o que você sofreu. Não pense que eu não sei, Michael.

Ele concordou. Esse crédito ele podia lhe dar, mas talvez estivesse mentindo para si mesmo e para ela.

— Mas não imagine saber como é ser a pessoa que eu sou. Eu estava presente no nascimento, eu fui a mãe. Seria possível se dizer que eu fui a causa, o instrumento crucial. E paguei por isso. Paguei e paguei. E agora não sou mais a mesma. Amo você como sempre amei. Meu amor por você nunca foi questionado. Mas não sou a mesma e não posso ser a mesma, e eu sabia disso quando estava sentada lá fora no jardim, sem poder responder às suas perguntas, sem poder olhar para você ou abraçá-lo. Eu sabia. E mesmo assim eu o amava, e o amo agora. Você consegue acompanhar o que eu estou dizendo?

Mais uma vez, ele fez que sim.

— Você tem vontade de me ferir, e eu sei que você tem — disse ela.

— Não, não de ferir você. Isso não. Não de machucar você, só... só... de lhe arrancar essa sainha de seda, talvez, e rasgar esse blazer que está tão perfeitamente pintado no seu corpo e fazer com que você saiba que eu estou aqui. Que eu sou Michael! Isso é vergonhoso, não é? É repugnante, não é? Que eu queira possuí-la da única forma que eu posso, porque você me excluiu, você me deixou, você...

Ele parou. Isso já lhe havia acontecido antes, que às vezes em meio a uma fúria crescente, ele percebia a futilidade daquilo que estava fazendo ou dizendo. Via o vazio da própria raiva e percebia, num relance de total praticidade que não podia continuar desse jeito. Que, se continuasse, não conseguiria nada a não ser sua própria desgraça.

Ficou imóvel e sentiu que a raiva o deixava. Sentiu que seu corpo se relaxava e estava quase cansado. Recostou-se no banco do carro. E então voltou a olhar para ela.

Ela não havia desviado os olhos. Não aparentava medo nem tristeza. Ele se perguntou se, no fundo do seu coração, ela não estaria entediada, desejando que ele estivesse em casa em segurança enquanto ela planejava os próximos passos que iria dar.

Elimine esses pensamentos, homem, porque, se não eliminar, não poderá mais amá-la, nunca mais.

E ele a amava. De repente, não havia a menor dúvida. Ele amava sua força; amava sua frieza. Era assim que havia sido em Tiburon, quando eles fizeram amor sob o teto de madeira aparente, quando eles conversaram sem parar, sem a mínima intuição possível de que, durante a vida inteira, os dois haviam se movido na direção um do outro.

Ele estendeu a mão e tocou seu rosto, muito consciente de que sua expressão não havia mudado, de que ela parecia estar no comando como sempre estivera.

— Eu amo você de verdade! — sussurrou ele.

— Eu sei.

Ele deu um riso contido.

— Você sabe? — perguntou ele. Sentiu que estava sorrindo, e isso lhe pareceu bom. Riu em silêncio e abanou a cabeça. — Você sabe!

— Sei — disse ela com um pequeno gesto de concordância. — Sinto medo por você, sempre senti. Não que você não seja forte, que não seja capaz, que não seja tudo o que deveria ser. Tenho medo porque existe em mim um poder que você não possui; e nesses outros, esses nossos inimigos que assassinaram Aaron, há um poder proveniente de uma total falta de escrúpulos. — Ela espanou um pouquinho de poeira da saia justa e curta. Quando suspirou, o ruído suave pareceu encher o carro, da mesma forma que o seu perfume.

Ela baixou a cabeça, num pequeno movimento que fez com que o cabelo caísse sedoso e como que comprido junto ao rosto. E, quando ela ergueu os olhos, as sobrancelhas pareceram especialmente longas e os olhos, bonitos e misteriosos.

— Pode chamá-lo de poder de bruxa, se quiser. Talvez seja tão simples assim. Talvez esteja nos genes. Talvez seja uma capacidade física de fazer coisas que os normais não conseguem fazer.

— Então, eu tenho esse poder — disse ele.

— Não. Você tem a espiral em dupla hélice, talvez por coincidência.

— Coincidência uma ova! Ele me escolheu para você, Rowan. Lasher fez isso. Há anos, quando eu era menino e parava no portão da sua casa, ele me escolheu. Por que você acha que ele fez isso? Não porque chegou a imaginar que eu seria um bom homem e destruiria sua carne conquistada com tanta dificuldade, não. Não foi por isso. Foi o bruxo em mim, Rowan. Nós dois descendemos da mesma raiz celta. Você sabe que sim. E eu sou filho de operário; por isso não conheço a minha história. Mas ela remonta aos mesmos primórdios que a sua. O poder existe. Ele apareceu nas minhas mãos quando eu lia o passado e o futuro ao tocar as pessoas. Ele apareceu quando eu ouvi a música tocada por um fantasma especialmente para me levar até Mona.

Ela franziu ligeiramente o cenho e seus olhos se contraíram por um átimo de segundo, voltando, então, ao seu tamanho grande, cheios de conjecturas.

— Não usei esse poder para derrotar Lasher. Estava assustado demais, com medo de usá-lo. Usei minha força de homem, e as ferramentas simples, como Julien me dissera que eu usaria. Mas o poder existe. Tem de existir. E se for isso o necessário para que você me ame, quer dizer para me amar de verdade, eu posso mergulhar no fundo de mim para descobrir exatamente o que esse poder tem condições de fazer. Essa sempre foi uma opção minha.

— Meu Michael inocente — disse Rowan, mas com o tom de uma pergunta em vez de uma declaração.

Ele abanou a cabeça. Inclinou-se para a frente e a beijou. Talvez não fosse a melhor coisa a fazer, mas não pôde se controlar. Segurou-a pelos ombros, forçou-a para trás contra o banco do automóvel e lhe cobriu a boca com a sua. Sentiu sua reação instantânea; o jeito com que seu corpo se sintonizava de imediato com o desejo, os braços que lhe subiam pelas costas, a boca que retribuía seu beijo, as costas que se arqueavam como se ela quisesse se comprimir inteira de encontro a ele.

Quando ele a soltou, foi só porque era preciso.

O automóvel seguia veloz pela rodovia. O aeroporto surgia enorme, lá adiante. E não havia tempo agora para o desejo que ele sentia, para a consumação da raiva, da mágoa e do amor, de que ele precisava com tanto desespero.

Dessa vez, foi ela quem se estendeu até ele, segurou sua cabeça com as duas mãos e o beijou.

— Michael, meu amor. Meu único amor.

— Estou ao seu lado, querida. E nunca tente mudar isso. O que tivermos de fazer, por Aaron, por Mona, pelo bebê, pela família, por seja lá quem for, faremos juntos.

Foi só quando já estavam sobrevoando o Atlântico que ele tentou dormir. Haviam comido como glutões, bebido um pouco além da conta e conversado durante uma hora a respeito de Aaron. Agora a cabine estava em silêncio e às escuras; e os dois estavam bem agasalhados debaixo de uma meia dúzia de cobertores.

Precisavam dormir, calculou ele. Aaron os teria aconselhado a dormir, não teria?

Aterrissariam em Londres após oito horas, e lá seria bem cedo de manhã, embora para seus corpos fosse noite. E lá estaria Yuri, ansioso por saber e com todo o direito de saber como Aaron havia morrido. Dor. Tristeza. O inevitável.

Ele estava quase cochilando, sem saber ao certo se estava entrando direto num pesadelo ou em alguma coisa vibrante e sem sentido como um mau desenho animado, quando sentiu que ela tocava seu braço.

Ele deixou a cabeça rolar na poltrona de couro quando voltou o rosto para ela. Ela estava recostada ao seu lado, com uma das mãos segurando a dele.

— Se nós virmos o fim disso tudo, Michael, se você não recuar diante do que eu fizer, se eu não o excluir...

— Sim...

— Nesse caso, nada jamais ficará entre nós. Ninguém, nunca. E qualquer coisa que você possa ter tido com uma garotinha estará acabada.

— Não quero saber de garotinhas. E nunca quis. Não sonhei com outras mulheres enquanto você esteve longe. Amo Mona ao meu modo, e sempre vou amar, mas isso faz parte do que nós somos, todos nós. Eu a amo e quero a criança. Quero tanto esse filho que nem quero falar sobre isso. É cedo demais. Estou desesperado demais. Mas só desejo você, e isso vale desde o dia em que estive com você pela primeira vez.

Ela fechou os olhos, com a mão ainda quente a lhe apertar o braço e depois a afastou com muita naturalidade, como se tivesse caído no sono. O rosto parecia sereno e totalmente perfeito.

— Você sabe que eu já tirei a vida — disse ele, num sussurro. Mas não sabia ao certo se ela ainda estava acordada. — Tirei a vida três vezes, e saí desses atos sem remorso. Isso muda qualquer um.

Nenhuma resposta dos lábios de Rowan.

— Posso fazer isso de novo, se for necessário.

Seus lábios se mexeram.

— Sei que você pode — disse ela, baixinho, sem abrir os olhos, ainda recostada como se estivesse num sono profundo. — Mas veja bem, eu vou fazê-lo quer seja necessário quer não. Fui mortalmente atingida.

Ela se aproximou e o beijou novamente.

— Nós não vamos agüentar até Londres — disse ele.

— Estamos sozinhos em toda a primeira classe — disse ela, erguendo as sobrancelhas e o beijando de novo. — Uma vez eu estava viajando de avião quando um certo tipo de amor se manifestou para mim. Pode-se dizer que foi o primeiro beijo de Lasher. Era algo elétrico, selvagem. Mas eu quero os seus braços, Michael. Quero o seu pau. Quero o seu corpo! Não posso esperar até Londres. Vamos.

Chega de palavras, pensou ele. Graças a Deus ela havia aberto o blazer, ou ele poderia ter arrancado os botões no conhecido estilo romântico.

 

NÃO ESTAVA TÃO MUDADO ASSIM. Ficava no seu bosque ou parque, sem portões trancados ou cães a protegê-lo, um imponente solar com belas janelas em arco e inumeráveis chaminés, suntuosamente grandes e suntuosamente bem cuidadas. Dava para imaginar os velhos tempos, olhando-se para ele. Sua brutalidade e sua escuridão, seu fogo específico: tudo isso respirava fundo e sibilava na noite vazia.

Só os automóveis ao longo do caminho de cascalho, os automóveis estacionados nas garagens abertas em longas fileiras, denunciavam a era atual. Até mesmo os fios e cabos eram subterrâneos.

Ele caminhou por entre as árvores, aproximou-se dos alicerces e depois seguiu ao longo das pedras, à procura das portas de que se lembrava. Não estava usando terno nem sobretudo agora, mas apenas roupas simples, calças compridas de operário de veludo cotelê marrom e um grosso suéter de lã, o preferido dos marinheiros.

A casa pareceu crescer imensa à medida que ele se aproximava. Salpicadas por toda ela, luzes fracas e solitárias, mas mesmo assim luzes. Estudiosos nas suas celas.

Por uma série de pequenas janelas gradeadas, ele viu uma cozinha no porão. Duas cozinheiras vestidas de branco estavam pondo o pão sovado para descansar. E a farinha branca cobria suas mãos e a madeira clara do balcão. Subia desse aposento o aroma de café, fresco e delicioso. Havia uma porta... uma porta para entregas e coisas semelhantes. Ele prosseguiu, saindo da proveitosa iluminação das janelas, a tatear a parede de pedra com as mãos até chegar a uma porta, embora ela não tivesse sido usada recentemente e aparentasse não permitir passagem.

Valia a pena tentar. E ele viera equipado. Talvez ela não estivesse provida de alarmes como qualquer porta dele próprio estaria. Na realidade, ela aparentava estar negligenciada e esquecida. Ao examiná-la, viu que ela não tinha nenhum tipo de fechadura, mas somente velhas dobradiças, muito enferrujadas, e uma simples aldrava.

Para seu espanto, ela se abriu a um toque seu e deu um rangido preguiçoso que o surpreendeu e o amedrontou. Havia uma passagem de pedra e uma pequena escada que subia. Pegadas recentes na escada. Um bafo de ar morno e ligeiramente viciado, o ar de dentro de casa no inverno.

Ele entrou e fechou. Uma luz vinha do alto da escada para iluminar um cartaz escrito com esmero, com os dizeres, NÃO DEIXE ESTA PORTA ABERTA.

Obediente, ele se certificou de que ela estava fechada. Voltou-se, então, subiu pela escada e chegou a um corredor amplo, com lambris escuros.

Era esse o corredor que se lembrava. Seguiu por ele, sem procurar abafar o ruído dos seus tênis ou se esconder nas sombras. Aqui ficava a biblioteca acadêmica das suas lembranças; não aquele arquivo secreto de registros valiosíssimos, que se esfarelavam, mas a sala de leitura diária, com longas mesas de carvalho e poltronas confortáveis; com pilhas de revistas de todas as partes do mundo e uma lareira apagada, ainda morna sob seus pés, com algumas brasas espalhadas ainda luzindo em meio a achas carbonizadas e cinzas.

Ele havia imaginado que o lugar estaria vazio mas, ao inspecioná-lo melhor, viu um velho cochilando numa poltrona, um indivíduo atarracado, careca, com pequenos óculos na ponta do nariz e um roupão elegante sobre a camisa e as calças.

Não seria conveniente começar aqui. Seria fácil demais acionar um alarme. Ele saiu dali recuando, com cuidado para não fazer barulho agora e sentindo com sorte por não ter acordado o homem. Seguiu, então, para uma grande escadaria.

Os quartos de dormir começavam no terceiro andar antigamente. Seria o mesmo agora? Subiu direto. Era sem dúvida provável.

Quando chegou ao final do corredor do terceiro andar, dobrou para outro pequeno corredor e vislumbrou luz por debaixo de uma porta. Resolveu que começaria por ali.

Sem bater, ele girou a maçaneta e entrou num quarto pequeno porém elegante. A única ocupante era uma mulher de cabelos grisalhos, que ergueu os olhos da mesa com um espanto óbvio mas sem medo.

Era exatamente isso o que ele havia esperado. Aproximou-se da mesa.

Havia ali um livro aberto sob a sua mão direita, ela estivera sublinhando palavras nele.

Era Boécio. De topicis differetiis. E ela havia sublinhado a frase, ¨O silogismo é um discurso no qual, depois que certos pontos foram estabelecidos e aceitos, um outro ponto diferente dos que foram aceitos deve resultar a partir dos pontos aceitos¨. Ele riu.

— Desculpe — disse ele à mulher.

Ela olhava para ele e não havia nenhum movimento desde que ele entrara.

— É verdade, mas é engraçado, não é? Eu havia esquecido.

— Quem é você? — perguntou ela.

A rouquidão da sua voz, talvez a manifestação da idade, deixou-o espantado. Seus cabelos grisalhos eram pesados e ela os usava num coque antiquado atrás da cabeça em vez do corte curto e assexuado da moda atual.

— Estou sendo grosseiro, eu sei. Sempre sei quando estou sendo grosseiro, e peço que me perdoe.

— Quem é você? — voltou ela a perguntar, usando quase exatamente o mesmo tom de voz de antes, mas inserindo uma pausa após cada palavra para dar ênfase.

— O que eu sou? Essa é a pergunta mais importante. Sabe o que eu sou?

— Não — disse ela. — E eu deveria saber?

— Não sei. Olhe para as minhas mãos. Veja como são longas e magras.

— Delicadas — disse ela, com a mesma voz rouca, com os olhos passando rapidamente para as mãos e depois voltando para o rosto. — Por que entrou aqui?

— Meus métodos são os de uma criança. Essa é a minha única forma de agir.

— E daí?

— Você sabia que Aaron Lightner faleceu?

Ela o encarou por um instante e depois se recostou na cadeira, com a mão direita soltando o marcador verde. Desviou o olhar. Era uma terrível revelação para ela.

— Quem lhe disse? — perguntou ela. — Será que todos sabem?

— Aparentemente não.

— Eu sabia que ele não voltaria — disse ela, apertando os lábios de tal forma que as rugas fundas acima da sua boca ficaram muito nítidas e escuras por um instante. — Por que veio aqui para me dizer isso?

— Para ver o que você diria. Para saber se você teve ou não teve alguma coisa a ver com sua morte.

— O quê?

— Você ouviu o que eu disse, não ouviu?

— Com sua morte? — Ela se levantou lentamente da cadeira e lhe lançou um olhar cruel, especialmente agora que percebia como era alto. Olhou para aporta, na realidade parecia pronta a ir naquela direção, mas ele levantou a mão com delicadeza, pedindo-lhe que tivesse paciência.

Ela avaliou esse gesto.

— Você está dizendo que Aaron Lightner foi morto por alguém? — perguntou ela. Suas sobrancelhas ficaram pesadas, enrugadas, acima da armação prateada dos óculos.

— É. Assassinado. Atropelado criminosamente por um carro. Morto.

A mulher fechou os olhos desta vez, como se, na impossibilidade de sair, ela se permitisse nutrir os sentimentos adequados. Ficou olhando direto para a frente, sem expressão, aparentemente sem considerar que ele estava parado ali, e depois ergueu os olhos.

— As bruxas Mayfair — disse num sussurro rouco e profundo. — Meu Deus, por que ele foi até lá?

— Acho que não foram elas — disse ele.

— Quem então?

— Alguém daqui, da Ordem.

— Não está querendo dizer isso! Não sabe o que está dizendo. Nenhum de nós faria uma coisa dessas.

— A verdade é que eu sei muito bem o que estou dizendo. Yuri, o cigano, disse que foi um de vocês, e Yuri não mentiria numa questão dessas. Yuri não mente, ao que eu saiba, ele não mente nunca.

— Yuri. Você esteve com Yuri? Sabe onde ele está?

— Você não sabe?

— Não. Ele foi embora numa noite. É só isso o que todos sabem. Onde ele está?

— Está em segurança, embora só por acaso. Os mesmos vilões que mataram Aaron também tentaram matá-lo. Tinham de acabar com ele.

— Por quê?

— Você desconhece tudo isso? — Ele estava satisfeito.

— Claro! Espere. Onde está indo?

— Estou saindo, para ir procurar os assassinos. Ensine-me o caminho até o superior geral. Antigamente eu o conhecia, mas as coisas mudam. Preciso vê-lo.

Ela não esperou que ele pedisse pela segunda vez. Passou correndo por ele e acenou para que a acompanhasse. Seus saltos grossos batiam barulhentos no piso encerado enquanto ela seguia, decidida, pelo corredor, com a cabeça grisalha baixa, e as mãos balançando com naturalidade.

Pareceu que não paravam de andar, até que chegaram à extremidade oposta do corredor principal. Portas duplas. Ele se lembrava delas. Só que antigamente elas não eram limpas e lustradas até brilhar, mas cobertas por camadas de tinta a óleo velha.

Ela bateu na porta com força. Poderia acordar a casa inteira. Mas ele não conhecia nenhum outro jeito de fazer o que queria.

Quando a porta se abriu, ela entrou e depois se voltou de forma bem marcante para revelar ao homem que estava ali dentro que não estava sozinha.

O homem olhou para fora cheio de desconfiança. Quando viu Ash, seu rosto transformou-se, passando do espanto para o choque e para um sigilo imediato.

— Você sabe o que eu sou, não sabe? — disse Ash, baixinho.

Ele entrou rapidamente no aposento e fechou as portas atrás de si. Era um gabinete amplo com um quarto anexo. Havia uma certa confusão, abajures espalhados com lâmpadas fracas, lareira vazia.

A mulher o olhava com a mesma expressão feroz. O homem recuara como se quisesse se livrar de algum perigo.

— É, você sabe — disse Ash. — E você sabe que mataram Aaron Lightner.

O homem não se surpreendeu, só demonstrou estar profundamente alarmado. Ele era grande e corpulento, mas gozava de boa saúde, e dava a impressão de um general indignado que sabe estar correndo perigo. Ele sequer tentou fingir surpresa. A mulher percebeu.

— Eu não sabia que iam fazer isso. Disseram que você estava morto, que havia sido destruído.

— Eu?

O homem recuou mais. Estava agora apavorado.

— Não fui eu quem deu a ordem para matar Aaron. Nem sei qual foi o objetivo dessa ordem, ou por que motivo queriam você aqui. Não sei de praticamente nada.

— O que isso tudo significa, Anton? — perguntou a mulher. — Quem é essa pessoa?

— Pessoa. Pessoa. Que palavra mais imprópria — disse o homem chamado Anton. — Você está olhando para uma coisa que...

— Diga-me qual foi a sua participação na história — disse Ash.

— Nenhuma! Eu sou o superior geral aqui. Mandaram-me para cá para que eu me encarregasse de que os desejos dos Anciãos fossem concretizados.

— Independentemente da natureza desses desejos?

— Quem é você para me questionar?

— Você deu ordens aos seus homens no sentido de que lhe trouxessem o Taltos?

— Dei, mas foi isso o que os Anciãos me mandaram fazer! Do que está me acusando? O que eu fiz para que você viesse aqui, a exigir respostas de mim? Os Anciãos escolheram os homens, eu não. — O homem respirou fundo, examinando Ash o tempo todo, examinando os pequenos detalhes do seu corpo. — Você não se dá conta da minha situação? Se Aaron Lightner sofreu algum mal, você não percebe que esse era o desejo dos Anciãos?

— Você aceita isso. Será que alguém mais aceita?

— Ninguém mais sabe, e ninguém deve saber — disse o homem, indignado.

A mulher abafou um grito. Talvez tivesse esperanças de que Aaron não estivesse morto, afinal de contas. Agora ela sabia.

— Tenho de informar os Anciãos da sua presença aqui — disse o homem. — Preciso anunciar o seu aparecimento imediatamente.

— Como vai fazer isso?

O homem indicou o equipamento de fax em cima da mesa. O gabinete era amplo. Ash mal percebera isso. A máquina de fax era cheia de luzes brilhantes e bandejas para papel. A mesa tinha muitas gavetas. Era provável que uma delas escondesse uma arma.

— Devo notificá-los imediatamente — disse o homem. — Você terá de me dar licença.

— Acho que não — disse Ash. — Você é corrupto. Você não tem nada de bom. Isso eu posso ver. Você enviou homens da Ordem para praticar o mal.

— Recebi ordens dos Anciãos.

— Ordens? Ou pagamento?

O homem emudeceu. Olhou, em pânico, para a mulher.

— Ligue pedindo ajuda — disse ele. Voltou-se então para Ash. — Eu disse que eles tinham de trazê-lo para cá. O que aconteceu não foi minha culpa. Os Anciãos disseram que eu devia vir para cá para fazer o que tinha de ser feito, a qualquer preço.

Mais uma vez, a mulher ficou visivelmente chocada.

— Anton — disse ela, baixinho, sem se mexer para apanhar o telefone.

— Vou lhe dar uma última chance de me dizer alguma coisa que me impeça de matá-lo — disse Ash. Era uma mentira. Ele percebeu isso assim que as palavras lhe saíram da boca; mas, por outro lado, talvez o homem dissesse alguma coisa.

— Que audácia! — disse o homem. — Basta que eu erga minha voz, e virão em meu auxílio.

— Então, pode gritar! — disse Ash. — Essas paredes são grossas, mas você deveria tentar.

— Vera, chame pedindo socorro! — gritou ele.

— Quanto eles lhe pagaram? — perguntou Ash.

— Você não sabe de nada a respeito disso.

— Ah, mas eu sei. Você sabe o que eu sou, mas sabe pouquíssimo além disso. Sua consciência está decrépita e inútil. E você está com medo de mim. Além disso, está mentindo. É, está mentindo. Com toda a probabilidade, deve ter sido fácil corrompê-lo. Ofereceram-lhe promoção e dinheiro, e assim você cooperou com algo que sabia ser maléfico.

Ele olhou para a mulher que estava evidentemente horrorizada.

— Isso já aconteceu antes na sua Ordem — disse-lhe.

— Ponha-se daqui para fora! — disse o homem. Gritou por socorro, com a voz parecendo muito forte no aposento fechado. Voltou a gritar, mais alto.

— Pretendo matá-lo — disse Ash.

— Espere — exclamou a mulher com as mãos estendidas. — As coisas não podem ser feitas desse modo. Não há necessidade. Se algum mal proposital atingiu Aaron, devemos convocar o conselho imediatamente. Nesta época do ano a casa está cheia de membros antigos. Convoque o conselho agora. Eu o acompanharei.

— Pode convocá-lo quando eu me for. Você é inocente. Não pretendo matá-la. Mas você, Anton, sua cooperação foi necessária para o que ocorreu. Você foi comprado. Por que não admite esse fato para mim? Quem o subornou? Suas ordens não vinham dos Anciãos.

— Vinham, sim.

O homem tentou escapar. Ash esticou-se, agarrando o homem com facilidade graças ao extraordinário comprimento dos seus braços, e fechou os dedos em volta da garganta, talvez com mais força do que um ser humano poderia ter feito. Ele começou a lhe tirar a vida com a máxima rapidez possível, esperando que sua força fosse suficiente para quebrar o pescoço do homem, mas não era.

A mulher se afastara. Ela apanhou o telefone e agora falava nervosíssima. O rosto do homem estava vermelho; os olhos, esbugalhados. Quando ele perdeu a consciência, Ash apertou com maior força ainda até ter certeza de que o homem estava morto e não se levantaria do chão, ofegante, como às vezes acontecia. Ele deixou o homem cair.

A mulher largou o fone.

— Diga-me o que aconteceu! — gritou ela. Era quase um berro. — Diga-me o que aconteceu a Aaron! Quem é você?

Ash ouvia gente correndo no corredor.

— Depressa, preciso do número através do qual eu possa entrar em contato com os Anciãos.

— Isso eu não posso lhe dar — disse ela. — Esse número é de nosso conhecimento exclusivo.

— Minha senhora, não seja tola. Acabei de matar esse homem. Faça o que lhe peço.

Ela não se mexeu.

— Faça isso por Aaron e por Yuri Stefano.

Ela olhou para a mesa, levando a mão à boca e depois apanhou uma caneta, escreveu algo rapidamente num pedaço de papel branco e o empurrou na sua direção.

Batiam nas portas duplas.

Olhou para a mulher. Não havia tempo para mais nenhuma conversa.

Ele se voltou e abriu as portas, para encarar um grande grupo de homens e mulheres que acabava de parar ali, para se arrumar ao seu redor e olhar para ele.

Aqui estavam alguns que eram velhos, outros bem jovens, cinco mulheres, quatro homens e um rapaz muito alto, mas ainda quase imberbe. O velho da biblioteca estava entre eles.

Ele fechou as portas atrás de si, esperando retardar a mulher.

— Vocês, qualquer um de vocês, sabem quem eu sou? — perguntou Ash. Ele olhava rapidamente de um rosto para o outro, com os olhos passando velozes repetidamente até ele ter certeza de ter gravado as feições de cada pessoa. — Vocês sabem o que eu sou? Respondam-me, por favor, se souberem.

Nenhum deles lhe deu nada a não ser uma expressão intrigada. Ele ouvia a mulher chorando dentro do gabinete, um soluçar denso, pesado, bastante parecido com a sua fala, tornado áspero pela idade.

Agora o alarme estava se espalhando pelo grupo. Mais um rapaz chegava.

— Precisamos entrar aí — disse uma das mulheres. — Precisamos ver o que aconteceu aí dentro.

— Mas vocês me conhecem? Você! — Ash agora falava com o recém-chegado. — Você sabe o que eu sou e por que motivo eu poderia ter vindo aqui?

Nenhum deles sabia. Nenhum deles sabia de nada. E, no entanto, eles eram gente da Ordem, todos estudiosos. Não havia nenhum criado entre eles. Homens e mulheres no apogeu da vida.

A mulher no gabinete atrás dele começou a mexer nas maçanetas das portas e depois as abriu com violência. Ash deu um passo para o lado.

— Aaron Lightner morreu! — gritou ela. — Aaron foi assassinado.

Houve arquejos, gritos contidos de consternação e surpresa. Mas em toda a sua volta, havia inocência. O velho da biblioteca pareceu ferido de morte pela notícia. Inocente.

Era hora de sair dali.

Ash abriu caminho em meio ao grupo pouco compacto, com rapidez e decisão, e correu para a escada, descendo de dois em dois degraus antes que qualquer um o seguisse. A mulher berrou para que o detivessem, para que não o deixassem escapar. Mas ele dispunha de uma boa vantagem, e suas pernas eram muito mais longas do que as deles.

Ele chegou à saída lateral antes que seus perseguidores alcançassem o topo da pequena escada.

Saiu pela noite afora, a caminhar rápido pela grama molhada. E depois, olhando de relance para trás, começou a correr. Correu até atingir a cerca de ferro, que pulou com facilidade, e então andou até o carro. Fez um gesto apressado para que o motorista abrisse a porta para ele e saísse dali imediatamente.

Sentou-se relaxado enquanto o carro adquiria velocidade cada vez maior na rodovia desimpedida.

Leu os números de fax escritos pela mulher num pedaço de papel. Era um número fora da Inglaterra e, se a memória não lhe falhava, era de Amsterdã.

Soltou o telefone preso ao seu lado na porta do automóvel e digitou o número da telefonista internacional.

É, Amsterdã.

Gravou o número de cor, ou pelo menos tentou, e dobrou o papel para enfiá-lo no bolso.

Quando chegou de volta ao hotel, ele anotou o número de fax, pediu o jantar, tomou banho imediatamente e ficou olhando, paciente, enquanto os garçons do hotel serviam uma grande refeição para ele numa mesa com toalha de linho. Seus auxiliares, incluindo-se a jovem e bonita Leslie, estavam por ali ansiosos.

— Quero que procure para mim outro local de residência assim que amanheça — disse a Leslie. — Um hotel tão bom quanto este, mas algo muito mais espaçoso. Preciso de um gabinete com algumas linhas telefônicas. Venha me buscar só quando tudo estiver acertado.

A jovem Leslie pareceu cheia de alegria de receber tal missão e autoridade, e lá se foi ela com os outros a reboque. Ele dispensou os garçons e começou a consumir a refeição de massa suntuosa em molho branco, muito leite gelado e carne de lagosta, que ele não apreciava, mas que era, mesmo assim, branca.

Deitou-se, depois, no sofá, ouvindo em silêncio o crepitar do fogo e talvez esperando por uma chuvinha delicada.

Também esperava que Yuri voltasse. O que não era provável. Mas ele insistira em que ficassem no Claridge's para a eventualidade de Yuri voltar a confiar neles.

Afinal, Samuel chegou, tão bêbado que cambaleava. O paletó de tweed, jogado sobre o ombro e a camisa branca, amarrotada. Só agora Ash percebia que a camisa era sob medida, da mesma forma que o terno, Para servir no corpo grotesco de Samuel.

Samuel deitou-se junto ao fogo, desajeitado como uma baleia. Ash levantou-se, apanhou algumas almofadas macias do sofá e as colocou sob a cabeça de Samuel. O anão abriu os olhos, mais do que o normal, aparentemente. Seu hálito recendia a bebida. Sua respiração vinha resfolegante, mas nada disso repelia Ash, que sempre adorara Samuel.

Pelo contrário, ele poderia ter debatido com qualquer pessoa no mundo que Samuel tinha uma beleza entalhada, de rocha, mas de que isso adiantaria?

— Você encontrou Yuri? — perguntou Samuel.

— Não — disse Ash, que permaneceu apoiado num dos joelhos de modo a poder falar com Samuel quase num sussurro. — Não o procurei, Samuel. Onde é que eu ia começar em Londres inteira?

— É verdade, não há fim nem começo — disse Samuel, com um profundo suspiro de frustração. — Olhei por todos os lugares onde estive. De bar em bar em bar. Receio que ele tente voltar. Vão procurar matá-lo.

— Ele agora tem muitos aliados — disse Ash. — E um dos seus inimigos morreu. A Ordem inteira foi avisada. Isso deve ser bom para Yuri. Eu matei o superior geral.

— Em nome de Deus, por que foi fazer isso? — Samuel forçou-se a se apoiar no cotovelo e lutou para chegar a uma posição ereta, mas Ash afinal precisou ajudá-lo.

Samuel ficou ali sentado, com os joelhos dobrados, olhando carrancudo para Ash.

— Bem, fiz isso porque o homem era corrupto e mentiroso. Não pode existir corrupção na Talamasca que não seja perigosa. E ele sabia o que eu era. Ele acreditou que eu fosse Lasher. Usou o nome dos Anciãos como motivo para o que fez quando ameacei tirar-lhe a vida. Nenhum membro leal teria mencionado os Anciãos para alguém de fora, ou dito coisas que fossem tão defensivas e óbvias.

— E você o matou.

— Com as minhas mãos, como sempre faço. Foi rápido. Ele não sofreu muito, e eu vi muitos outros. Nenhum deles sabia o que eu era. Por isso, o que se pode dizer? A sujeira está perto do topo, talvez esteja no próprio topo, e não penetrou de modo algum nas fileiras. Se penetrou, foi de alguma forma confusa. Eles não reconhecem um Taltos ao vê-lo, mesmo quando têm ampla oportunidade de estudar o espécime.

— Espécime — repetiu Samuel. — Quero voltar para o vale.

— Você não quer me ajudar para que o vale permaneça sendo um local seguro onde seus amiguinhos repugnantes possam dançar, tocar suas gaitas e matar humanos confiantes para derreter a gordura dos seus ossos em tachos?

— Você tem uma língua cruel.

— Tenho? Talvez tenha mesmo.

— O que vamos fazer agora?

— Não sei qual será o próximo passo. Se Yuri não tiver voltado antes de amanhecer, creio que devemos sair daqui.

— Mas eu gosto do Claridge's — resmungou Samuel. Ele se deixou cair, e seus olhos se fecharam no instante em que ele atingiu a almofada.

— Samuel, refresque minha memória — disse Ash.

— A respeito do quê?

— O que é um silogismo?

Samuel riu.

— Refrescar sua memória? Você nunca soube o que era um silogismo. O que sabe de filosofia?

— Sei demais — disse Ash, procurando relembrar sozinho. Todos os homens são animais. Os animais são selvagens. Portanto, todos os homens são selvagens.

Ele entrou no quarto e foi se deitar na cama.

Por um instante, viu novamente a bruxa de belos cabelos, a amada de Yuri. Imaginou que seus seios nus faziam uma pressão delicada no seu rosto, e que sua cabeleira cobria os dois como um grande manto.

Adormeceu, então, profundamente. Sonhou que estava passeando pelo museu de bonecas no seu prédio. O piso de mármore acabava de ser encerado. Ele via todas as inúmeras cores e como as cores se alteravam dependendo da cor que estava imediatamente próxima a elas. Todas as bonecas nas vitrinas de vidro começaram a cantar: as modernas, as antigas, as grotescas, as lindas. As francesas dançavam e balançavam seus pequenos vestidos em forma de campânula, com seus rostinhos redondos cheios de alegria; e as estupendas bonecas Bru, suas rainhas, suas rainhas mais queridas, cantavam num soprano agudo, com seus olhos de vidro pesado cintilando à luz fluorescente. Ele nunca ouvira uma música daquelas. Estava tão feliz.

Faça bonecas que cantem, pensou ele nesse sonho. Bonecas que realmente cantem, não como as antigas que eram brinquedos mecânicos imperfeitos, mas bonecas com vozes eletrônicas que cantem para sempre. E quando o mundo terminar, as bonecas ainda cantarão em meio às ruínas.

 

— NÃO HÁ NENHUMA DÚVIDA — disse a Dra. Salter, pondo a pasta de papel pardo na beirada da mesa. — Mas não aconteceu há seis semanas.

— Por que está dizendo isso? — perguntou Mona. Ela detestava aquela salinha de exames porque ali não havia janelas. Dava-lhe a impressão de que ia se sufocar.

— Porque você já está com uns três meses, só por isso. — A médica aproximou-se da mesa. — Olhe, quer sentir o bebê? Dê-me sua mão.

Mona deixou que ela levantasse seu pulso e posicionasse a mão na sua barriga.

— Aperte bem. Está sentindo? É o bebê. Por que você acha que está usando essa roupa solta? Você não agüenta nada apertado na cintura, não é verdade?

— Olhe, uma tia minha comprou essas roupas para mim. Elas estavam ali penduradas, ou melhor, ela estava ali pendurada. — O que era mesmo, droga, ah, claro, linho, preto para enterros, ou para ficar elegante com lindos sapatos de amarrar, de salto alto, em preto e branco. — A gravidez não pode estar tão adiantada assim. Simplesmente não é possível.

— Vá para casa e verifique seus registros no computador, Mona. Você está com três meses.

Mona se sentou e pulou da cama, alisando a saia preta e calçando rapidamente os sapatos elegantes. Não precisava amarrar ou desamarrar. Apesar de que tia Gifford teria dado berros se a tivesse visto enfiando o pé daquele jeito num sapato caro.

— Preciso ir. Estão me esperando num enterro.

— Não o daquele pobre homem que se casou com sua prima, o que foi morto pelo carro?

— É, esse mesmo. Ouça, Annelle, será que podemos fazer um daqueles exames em que se vê o feto?

— Claro, e ele vai confirmar exatamente o que estou lhe dizendo, que você já está com umas doze semanas. Agora preste atenção, você tem de tomar todos os suplementos que eu receitei. Um corpo de treze anos não está pronto para ter um bebê.

— Está bem, quero marcar uma hora para o exame em que se vê o bebê. — Mona começou a se dirigir para a porta e já estava com a mão na maçaneta quando parou. — Pensando bem, prefiro não fazer esse exame.

— Qual é o problema?

— Não sei. Vamos deixá-lo em paz um pouco. Os exames podem assustar, não é?

— Meu Deus, você está ficando branca.

— Não estou não. Só estou quase desmaiando como as mulheres nos filmes.

Ela saiu, passando pelo pequeno consultório atapetado e pela porta, embora a médica a estivesse chamando. A porta fechou-se pesadamente, e ela atravessou apressada o saguão envidraçado.

O carro estava esperando junto ao meio-fio. Ryan estava parado ao lado, de braços cruzados. Trajado em azul-escuro para o enterro, ele apresentava quase a mesma aparência de sempre, só que seus olhos estavam lacrimejantes e ele, evidentemente, cansado. Abriu a porta para ela.

— Bem, o que disse a Dra. Salter? — perguntou ele, voltando-se para olhar para ela dos pés à cabeça, e com atenção.

Ela realmente desejava que todos parassem de olhar para ela.

— Estou grávida mesmo — disse Mona. — Está tudo bem. Vamos sair daqui.

— Já vamos. Você está triste? Talvez esteja começando a se dar conta de tudo isso.

— Claro que não estou triste. Por que haveria de estar? Estou pensando em Aaron. Alguém ligou? Michael ou Rowan?

— Não, ainda não. É provável que estejam dormindo agora. O que está havendo, Mona?

— Ryan, fique frio, está bem? As pessoas não param de me perguntar o que está havendo. Não está havendo nada. É que as coisas estão acontecendo... com uma velocidade terrível.

— Você está com uma expressão muito atípica — disse Ryan. — Você parece assustada.

— Não, só estou me perguntando como vai ser. Meu próprio filho. Você falou com todo mundo, não falou? Nada de sermões ou repreensões.

— Não foi preciso, Mona. Você é a herdeira indicada. Ninguém vai lhe dizer nada. Se houvesse a probabilidade de alguém dizer, esse alguém seria eu, mas eu não consigo me forçar a fazer as preleções necessárias, a fazer os habituais avisos e advertências.

— Melhor assim — disse ela.

— Já perdemos tantas vidas, e esta aí é novinha em folha. Eu a encaro como uma chama e estou sempre querendo pôr minhas mãos à sua volta para protegê-la.

— Você não está regulando bem, Ryan. Está cansado de verdade. Precisa descansar um pouco.

— Você quer me contar agora?

— Contar o quê?

— A identidade do pai, Mona. Você planeja nos contar, não é? Foi seu primo David?

— Não, não foi David. Pode esquecer David.

— Yuri?

— O que é isso? Um jogo de adivinhações? Eu sei quem é o pai, se é isso o que quer saber, mas não quero falar nisso agora. E a identidade do pai pode ser confirmada assim que o bebê nascer.

— Antes também.

— Não quero ninguém enfiando agulhas no meu bebê! Não quero nenhum tipo de ameaça contra ele. Já lhe disse que sei quem é o pai. Vou lhe contar quando... quando eu achar que chegou a hora.

— É Michael Curry, não é?

Ela se virou e olhou furiosa para ele. Tarde demais agora para rebater a pergunta. Ele já vira a resposta no seu rosto. E parecia tão exausto, tão desprovido da sua fibra habitual. Era como um homem submetido a medicamentos fortes, um pouco perplexo e mais franco do que de costume. Era bom que estivessem na limusine, e que ele não estivesse dirigindo. Entraria direto numa cerca.

— Gifford me contou — disse ele, falando devagar, no mesmo estilo dopado. Olhou pela janela. Passavam lentamente por St. Charles Avenue, pelo seu trecho mais bonito de mansões mais novas e árvores antiqüíssimas.

— Gifford, de volta? Gifford lhe contou? Ryan, você está se sentindo bem? — O que aconteceria com esta família se Ryan ficasse maluco? Ela já tinha preocupações suficientes sem mais essa. — Ryan, responda.

— Foi um sonho que tive ontem à noite — disse ele, afinal voltando-se para ela. — Gifford disse que o pai era Michael Curry.

— Gifford estava alegre ou triste?

— Alegre ou triste. — Ele refletiu. — Na verdade, não me lembro.

— Ah, mas isso é uma maravilha. Mesmo agora que ela morreu, ninguém presta atenção ao que ela diz. Ela aparece num sonho, e você nem presta atenção.

Isso o surpreendeu, mas só um pouco. Ele não se ofendeu, ao que ela pudesse notar. Quando olhou para ela, seus olhos estavam distantes e muito tranqüilos.

— Foi um lindo sonho, um bom sonho. Nós estávamos juntos.

— E como é que ela estava? — Havia algo de errado com ele. Estou sozinha, pensou ela. Aaron foi assassinado. Bea precisa do nosso carinho. Rowan e Michael ainda não ligaram. Nós todos estamos apavorados. E agora Ryan está divagando. E talvez, talvez seja melhor assim.

— Como estava Gifford? — perguntou ela novamente.

— Bonita como sempre. Ela sempre me pareceu a mesma, sabe? Aos vinte e cinco, aos trinta e cinco e mesmo aos quinze. Ela era a minha Gifford.

— O que ela estava fazendo?

— Por que você quer saber?

— Eu acredito em sonhos. Ryan, por favor, conte para mim. Procure se lembrar. Gifford estava fazendo alguma coisa?

Ele encolheu os ombros e deu um sorrisinho.

— Ela estava cavando um buraco, na verdade. Acho que era à sombra de uma árvore. Creio que era o carvalho de Deirdre. É, era ali mesmo, e a terra formava montes altos em toda a sua volta.

Por um instante, Mona não respondeu. Estava tão abalada que não confiava na própria voz.

Ele voltou a devanear, olhando pela janela, como que esquecido de que estavam conversando.

Ela sentiu uma dor na cabeça, muito intensa, nas duas têmporas. Talvez o movimento do automóvel a estivesse enjoando. Isso acontecia quando se estava grávida, mesmo que o bebê fosse normal.

— Tio Ryan, não posso ir ao enterro de Aaron — disse ela, de repente. — O carro está me provocando enjôos. Eu quero ir mas não posso. Preciso ir para casa. Sei que parece uma tolice, egoísmo meu, mas...

— Vou levá-la direto para casa — disse ele, cavalheiresco. Ele estendeu a mão e apertou a tecla de comunicação interna. — Clem, leve Mona para First Street. — Ele desligou o microfone. — Você realmente quis dizer First Street, não é?

— É, claro que sim — disse Mona. Ela prometera a Rowan e Michael que se mudaria para lá imediatamente, e já se mudara. Além do mais, a casa era mais seu lar do que a de Amelia Street, sem a presença da mãe e com o pai agora bêbado de cair, só se levantando eventualmente à noite para procurar suas garrafas, seus cigarros ou sua falecida mulher.

— Vou chamar Shelby para ficar com você — disse Ryan. — Se Beatrice não precisasse de mim, eu mesmo ficaria.

Estava muito preocupado. A situação estava totalmente diferente. Ele estava decidido a paparicá-la, como costumava fazer quando ela era bem pequena e Gifford a vestia como uma boneca. Ela devia ter sabido que ele reagiria assim. Ele adorava bebês. Adorava crianças. Todos eles adoravam.

E para eles eu não sou mais uma criança, de forma nenhuma.

— Não, não preciso de Shelby. Quer dizer, quero ficar sozinha. Sozinha lá na casa, só com Eugenia. Vou me sentir bem. Vou tirar um cochilo. Lá em cima há um belo quarto para se tirar um cochilo. Nunca estive sozinha por lá. Quero pensar e como que sentir as coisas. Além do mais, as cercas estão sendo vigiadas por uma força equivalente à Legião Estrangeira. Ninguém vai conseguir entrar nela.

— Você não se importa de ficar na própria casa sozinha?

Era óbvio que ele não estava pensando em intrusos, mas em velhas histórias, histórias que no passado sempre a deixaram encantada. Agora elas pareciam remotas, românticas.

— Não, por que deveria me importar? — respondeu ela, impaciente.

— Mona, você é uma menina e tanto — disse ele, sorrindo de uma forma que ela raramente o havia visto sorrir. Talvez fossem necessárias a exaustão e a dor para conduzi-lo ao ponto em que algo tão espontâneo pudesse acontecer. — Você não tem medo do bebê e não tem medo da casa.

— Ryan, eu nunca tive medo da casa. Nunca. Quanto ao bebê, ele agora está me provocando náuseas. Vou vomitar.

— Mas você tem medo de alguma coisa, Mona — disse ele, com franqueza.

Ela precisava responder à altura. Não podia continuar desse jeito, com todas essas perguntas. Ela se voltou para ele e pôs a mão direita no joelho de Ryan.

— Tio Ryan, estou com treze anos. Preciso pensar, só isso. Não há nada de errado comigo, e eu desconheço o significado de "assustado" ou "apavorado", a não ser pelo que li dessas palavras no dicionário, certo? Preocupe-se com Bea. Preocupe-se com quem matou Aaron. Isso é algo com que se preocupar.

— Está bem, Mona querida — disse ele, com mais um sorriso.

— Você sente falta de Gifford.

— Você achava que eu não ia sentir? — Ele voltou a olhar pela janela, sem esperar uma resposta. — Agora, Aaron está com Gifford, não é?

Mona abanou a cabeça. Ele estava mal mesmo. Pierce e Shelby precisavam saber o quanto o pai precisava deles.

Acabavam de virar a esquina de First Street.

— Você tem de me contar no instante em que Rowan e Michael ligarem — disse Mona. Ela apanhou a bolsa e se preparou para saltar do carro. — E... dê um beijo em Beatrice por mim... e... em Aaron.

— Eu dou — disse ele. — Tem certeza de que pode ficar aqui sozinha? E se Eugenia não estiver em casa?

— Seria bom demais para ser verdade — disse ela, já de costas. Dois guardas uniformizados estavam ao portão, e um deles acabava de destrancá-lo para ela. Ela o cumprimentou com a cabeça ao passar.

Quando chegou à porta da frente, enfiou a chave na fechadura e em segundos estava dentro de casa. A porta fechou-se como sempre com um ruído grave, abafado, pesado, e Mona se apoiou na porta com os olhos fechados.

Doze semanas, isso era decididamente impossível! Esse bebê havia começado quando ela dormiu com Michael pela segunda vez. Ela sabia! Tinha tanta certeza disso quanto de qualquer outra coisa. Além do mais, simplesmente não houve ninguém entre o Natal e o Carnaval! Não, a hipótese de doze semanas estava fora de cogitação!

Crise! Pense.

Ela se encaminhou para a biblioteca. Haviam trazido seu computador na noite passada, e ela já o instalara, criando uma pequena estação de trabalho à direita da grande escrivaninha de mogno. Ela se jogou agora na cadeira e acionou o sistema imediatamente.

Abriu depressa um arquivo: /WS/MONA/SECRETO/Pediátrico.

"Perguntas que precisam ser feitas", escreveu. "Qual foi o ritmo de progresso da gravidez de Rowan? Houve sinais de desenvolvimento acelerado? Ela sentiu enjôos fora do normal? Ninguém sabe essas respostas porque ninguém sabia naquela época que Rowan estava grávida. Será que Rowan aparentava estar grávida? Rowan ainda devia saber a cronologia dos acontecimentos. Rowan pode esclarecer tudo e erradicar esses medos irracionais. E é claro que houve a segunda gravidez, aquela da qual ninguém mais tem conhecimento, a não ser Rowan, Michael e eu. Você ousa fazer perguntas a Rowan sobre essa segunda..."

Medos irracionais. Ela parou. Recostou-se na cadeira e pousou a mão na barriga. Não fez pressão para sentir o caroço endurecido que a Dra. Salter a deixara sentir. Apenas abriu os dedos e segurou a barriga frouxamente, percebendo que ela já estava maior do que jamais fora.

— Meu bebê — sussurrou ela, fechando os olhos. — Julien, ajude-me, por favor.

Mas não sentiu a chegada de nenhuma resposta. Tudo aquilo fazia parte do passado.

Queria tanto conversar com a Velha Evelyn, mas a Velha Evelyn ainda estava se recuperando do derrame. Estava cercada de enfermeiras e equipamentos no seu quarto em Amelia Street. Era provável que nem soubesse que a haviam trazido do hospital para casa. Seria muito irritante sentar lá entregando seu coração à Velha Evelyn para depois descobrir que a Velha Evelyn não podia entender nada do que ela dizia.

Ninguém, não há ninguém. Gifford!

Foi até a janela, a mesma que havia sido aberta naquele dia, de modo tão misterioso, talvez por Lasher, ela nunca saberia. Espiou pelas venezianas verdes de madeira. Seguranças na esquina. Um guarda do outro lado da rua.

Saiu da biblioteca, andando devagar, entrando num ritmo quase arrastado, embora não soubesse por que motivo, a não ser pelo fato de estar olhando para tudo por que passava. E, quando pisou ali fora no jardim, ele lhe pareceu de um verde glorioso, denso à sua volta, com as azaléias da primavera quase prontas para florir, os lírios alaranjados carregados de botões e as extremosas cheias de minúsculas folhas novas, que as tornavam enormes e cheias.

Todos os espaços nus do inverno estavam ocupados. O calor havia liberado tudo, e até o ar dava um suspiro de alívio.

Ela parou junto ao portão dos fundos do jardim, a olhar para o carvalho de Deirdre, para a mesa à qual Rowan se sentava e para a grama nova e verde que crescia ali, mais viçosa e de um verde mais forte do que a grama ao redor.

— Gifford? — sussurrou ela. — Tia Gifford. — Mas ela sabia que não queria que um fantasma a atendesse.

Na realidade, estava com medo de uma revelação, uma visão, um dilema horrível. Voltou a pôr a mão na barriga e a deixou simplesmente parada ali, morna e firme.

— Os fantasmas sumiram — disse ela, dando-se conta de estar falando com o bebê tanto quanto consigo mesma. — Essa parte acabou. Não vamos mais precisar dessas coisas, você e eu. Não, nunca. Eles foram matar o dragão. E, uma vez morto o dragão, o futuro é nosso, meu e seu, e você nunca vai sequer precisar saber tudo que aconteceu antes, não antes de crescer e ser esperto. Gostaria de saber qual é o seu sexo. Gostaria de saber qual é a cor do seu cabelo, quer dizer, se é que você tem cabelo. Eu deveria dar-lhe um nome. É, um nome.

Ela interrompeu esse breve monólogo.

Teve a sensação de que alguém falara com ela, alguém muito próximo sussurrara alguma coisa, apenas um pequeno fragmento de uma frase, agora perdido, e ela não conseguia mais captá-lo. Chegou mesmo a se virar, assustada de repente. Mas é claro que não havia ninguém perto dela. Os seguranças estavam na periferia. Eram essas as suas instruções, a menos que ouvissem soar o alarme dentro da casa.

Encostou-se no pilar de ferro do portão. Seus olhos passearam mais uma vez pela grama e subiram até os galhos grossos e negros do carvalho. A folhagem nova explodia em ramos de um verde brilhante. As folhas velhas pareciam escuras, empoeiradas e talvez prontas para secar e cair. Os carvalhos de Nova Orleans nunca ficavam verdadeiramente mortos, graças a Deus. Mas na primavera eles renasciam.

Ela se voltou e olhou para a direita, na direção da frente da propriedade. Relance de uma camisa azul do outro lado da cerca da frente. Tudo estava mais quieto do que ela jamais havia visto. Era possível que até mesmo Eugenia tivesse ido ao enterro de Aaron. Ela esperava que sim.

— Sem fantasmas, sem espíritos — disse ela. — Sem sussurros da tia Gifford. — Será que ela realmente queria ouvir algum? De repente, pela primeira vez na vida, não tinha assim tanta certeza. Toda a perspectiva de espíritos e fantasmas a confundia.

Deve ser o bebê, pensou, e uma daquelas misteriosas alterações mentais que se abatem sobre a pessoa, mesmo tão no início da gravidez, levando-a a uma existência sedentária e sem questionamentos. Agora, os espíritos não eram o mais importante. O bebê era tudo. Ela havia lido bastante sobre essas mudanças físicas e mentais na noite anterior nos seus novos livros sobre a gravidez, e tinha muito mais a ler.

A brisa atravessou sorrateira os arbustos, como sempre fazia, agarrando pequenos botões, folhas e pétalas soltas aqui e ali, para derramá-los sobre as lajes arroxeadas e depois desaparecer completamente. Subia do chão um calor preguiçoso.

Ela deu meia-volta e voltou para dentro da casa vazia, atravessando-a até a biblioteca.

Sentou-se diante do computador e começou a escrever.

"Você não seria humana se não tivesse essas dúvidas e suspeitas. Como pode não se perguntar se o bebê é normal, considerando-se as circunstâncias? Sem dúvida, esse medo tem alguma origem hormonal, e é um mecanismo de sobrevivência. Mas você não é uma incubadora desprovida de consciência. Seu cérebro, embora inundado por novos produtos químicos e novas combinações de produtos químicos, ainda é o seu cérebro. Examine os fatos.

"Lasher conduziu o desastre anterior desde o início. Sem a intervenção de Lasher, Rowan poderia ter tido um bebê perfeitamente saudável e lindo..."

Ela estancou. O que aquilo significava, a intervenção de Lasher?

O telefone tocou, assustando-a, até mesmo a ferindo um pouco. Ela estendeu a mão, apressada, sem querer ouvi-lo tocar de novo.

— Aqui é Mona, vá falando — disse ela. Houve uma risada na outra ponta da linha.

— Menina, que bela maneira de atender o telefone.

— Michael! Graças a Deus. Eu estou grávida mesmo. A Dra. Salter diz que não há absolutamente nenhuma dúvida. — Ela o ouviu suspirar.

— Nós amamos você, querida — disse ele.

— Onde vocês estão?

— Num hotel terrivelmente caro, numa suíte decorada em estilo francês, cheia de cadeiras de cerejeira, paradas nas pontas dos pés. Yuri está bem, e Rowan está examinando o ferimento a bala que ele tem. Está infeccionado. Eu quero que você espere mais um pouco para falar com Yuri. Ele está nervosíssimo e falando um pouco pelos cotovelos, mas no geral está bem.

— Claro, entendi. Eu não quero falar com ele agora sobre o bebê.

— Não, isso não seria nem um pouco conveniente.

— Dê-me seu número aí.

Ele lhe deu o número.

— Querida, você está bem?

E lá vamos nós de novo. Até mesmo ele sabe que você está preocupada. E ele sabe por que motivo você poderia se preocupar. Mas não diga nada! Não, nem uma palavra. Trancou-se alguma coisa dentro dela, de repente com medo de Michael, a própria pessoa com quem ela tanto queria falar, a própria pessoa, além de Rowan, em quem ela achava que podia confiar.

Aja com cuidado.

— Sim, estou bem, Michael. O gabinete de Ryan tem seu telefone?

— Nós não vamos desaparecer, meu amor.

Percebeu que tinha os olhos fixos na tela, nas perguntas que relacionara com tanta lógica e inteligência.

Qual foi o ritmo de progresso da gravidez de Rowan? Houve sinais de desenvolvimento acelerado?

Michael saberia essas respostas. Não, não se abra.

— Vou desligar, querida. Ligo mais tarde. Nós todos amamos você.

— Até logo, Michael.

Ela desligou o telefone.

Ficou sentada algum tempo e depois começou a digitar com velocidade.

"É cedo demais para fazer perguntas idiotas sobre este bebê, cedo demais para nutrir medos que podem afetar sua saúde e sua paz de espírito, cedo demais para preocupar Rowan e Michael, que têm a mente ocupada com coisas muito mais importantes..."

Ela parou.

Ouvira um sussurro ali perto! Era como se alguém estivesse exatamente ao seu lado. Olhou ao redor, levantou-se e foi até o outro lado do aposento, olhando para trás para se certificar do que já sabia. Não havia ninguém ali, nenhum fantasma diáfano, nem mesmo sombras. Sua luminária fluorescente de mesa se encarregara disso.

Guardas lá fora em Chestnut? Talvez. Mas como poderia ouvir seus sussurros através de quarenta e cinco centímetros de tijolos maciços?

Os minutos foram passando.

Ela estaria com medo de se mexer? Isso é loucura, Mona Mayfair. Quem você acha que seja? Gifford, ou a sua própria mãe? Oncle Julien de volta? Será que ele não merece descansar agora? Talvez essa maldita casa fosse simplesmente assombrada, e sempre tivesse sido, por todos os tipos de espíritos, como o fantasma da criada dos quartos de 1859 ou o de um cocheiro que caiu tragicamente do telhado para a morte em 1872. Podia ser. A família não anotava tudo que acontecia. Ela começou a rir.

Fantasmas proletários na casa Mayfair em First Street? Fantasmas que não eram parentes de sangue? Uau, que escândalo! Nada disso, não havia mesmo nenhum fantasma aqui.

Olhou para a moldura dourada do espelho, o mármore marrom-escuro do consolo da lareira, as prateleiras de livros velhos em deterioração. Abateu-se sobre ela uma calma, como que agradável e boa. Gostava desse lugar acima de todos, pensou, e não havia nenhum gramofone etéreo tocando, nem rostos no espelho. Esse é o seu lugar. Você está em segurança. Está em casa.

— É, você e eu, minha criança — disse ela, falando mais uma vez com o bebê. — Agora esta é a sua casa, com Michael e com Rowan. E eu lhe prometo que vou arrumar um nome interessante.

Voltou a se sentar e começou a digitar na mesma velocidade de antes.

"Nervos à flor da pele. Imaginando coisas. Comer proteína, vitamina C para os nervos e para o estado de saúde geral. Ouço vozes que cochicham no meu ouvido, parece... parece, não tenho certeza, mas parece alguém cantando ou mesmo cantarolando! Meio irritante. Poderia ser um fantasma ou deficiência de vitamina B.

"O enterro de Aaron está transcorrendo neste momento. Isso sem dúvida contribui para o nervosismo generalizado."

 

— VOCÊ TEM CERTEZA DE QUE ERA UM TALTOS? — perguntou Rowan. Ela havia guardado as ataduras e o anti-séptico e lavado as mãos. Estava parada à porta do banheiro da suíte, olhando para Yuri, que caminhava de um lado para o outro, uma figura sombria, desengonçada e imprevisível em contraste com as cuidadosas franjas das sedas e a abundância de ouropel no aposento.

— Meu Deus, você não acredita em mim. Era um Taltos.

— Poderia ter sido um humano com algum motivo para enganá-lo — disse ela. — A altura em si não significa necessariamente...

— Não, não, não — disse Yuri, no mesmo tom enlouquecido e maníaco em que vinha falando desde que o encontraram no aeroporto. — Ele não era humano. Era... era lindo e medonho. Suas articulações eram enormes, e os dedos eram tão compridos... O rosto poderia ter sido humano, sem dúvida. Um homem muito, muito bonito, sim. Só que era Ashlar, Rowan, o próprio. Michael, conte-lhe a história. Santo Ashlar, da igreja mais antiga de Donnelaith. Conte-lhe. Ah, se ao menos eu estivesse com as anotações de Aaron. Sei que ele as fez. Ele escreveu a história inteira. Muito embora tivéssemos sido excomungados da Ordem, ele não teria deixado de anotar tudo.

— Ele fez essas anotações, sim, meu filho, e elas estão conosco — disse Michael. — E eu também contei a Rowan tudo o que sei.

Michael já havia explicado esse ponto duas vezes, se Rowan não estava enganada. As intermináveis repetições e rodeios do dia a deixaram exausta. Ela estava tendo sérios problemas com a mudança do fuso horário. Toda a sua constituição havia sofrido um envelhecimento e um enfraquecimento, constatava ela agora, se é que algum dia houvera alguma esperança real de que não fosse assim. Graças a Deus, ela havia dormido no avião.

Michael recostou-se no braço do elegante sofá francês, com os pés calçados com meias cruzados sobre as almofadas douradas. Ele havia tirado o paletó, e seu tórax, no suéter de gola alta, parecia possante, como se alojasse um coração que bateria triunfante por mais cinqüenta anos. Ele lançou um olhar cúmplice, de solidariedade, para Rowan.

Graças a Deus você está aqui, pensou ela. Graças a Deus. A voz e a atitude tranqüila de Michael eram mais do que reconfortantes. Ela não conseguia se imaginar aqui sem ele.

Outro Taltos. Mais um deles! Meu Deus, quantos segredos esse mundo abriga? Que monstros estão sob camuflagem em meio às suas florestas, suas grandes cidades, seus desertos, seus mares? A mente de Rowan lhe pregava peças. Ela não conseguia visualizar Lasher com nitidez. A imagem ficava toda fora de proporção. Sua força parecia sobrenatural. Isso não era exato. Essas criaturas não eram todo-poderosas. Procurou expulsar essas lembranças desagradáveis, dos dedos de Lasher a machucar seus braços, do dorso da sua mão a atingi-la com tanta força que ela caía inconsciente. Sentia aquele instante de desligamento e o instante do despertar, quando, atordoada, ela se descobria procurando engatinhar para se proteger debaixo da cama. No entanto, precisava sair dessa, precisava se concentrar e fazer com que Yuri se concentrasse.

— Yuri — disse ela, no seu tom autoritário mais suave e comedido. — Descreva esses Pequenos mais uma vez. Você tem certeza...

— Os Pequenos são uma raça selvagem — disse Yuri, com as palavras saindo atropeladamente, enquanto ele girava, com as mãos estendidas, como se segurasse uma bola de cristal na qual estivesse vendo as imagens de tudo o que descrevia. — Eles estão condenados, disse Samuel. Já não há mais mulheres entre eles. Não têm mais futuro. Vão se extinguir, a menos que uma Taltos surja entre eles, a menos que alguma fêmea da sua própria espécie seja encontrada em algum canto remoto da Europa ou das Ilhas Britânicas. E isso acontece. Prestem bem atenção, isso acontece. Samuel me contou. Ou uma bruxa, vocês não entendem? Uma bruxa? As feiticeiras daquela região nunca se aproximam do vale. Os turistas e arqueólogos chegam e saem em grupos e à luz do dia.

Já haviam passado por isso, mas Rowan começava a perceber que, cada vez que contava a história, Yuri acrescentava alguma coisa, somava algum detalhe novo e possivelmente importante.

— É claro que Samuel me contou tudo isso quando achava que eu fosse morrer naquela caverna. Quando a febre cedeu, ele ficou tão surpreso quanto eu. E depois Ash. Ash não tem absolutamente nenhuma duplicidade. Não se pode imaginar a candura ou a simplicidade desse ser. Homem, eu quero dizer homem. Por que não homem, desde que vocês se lembrem de que ele é um Taltos? Nenhum ser humano poderia ser tão franco, a não ser que fosse um idiota. E Ash não é idiota.

— Quer dizer que ele não estava mentindo quando disse que queria ajudá-lo — concluiu Rowan, observando-o atentamente.

— Não, ele não estava mentindo. E ele quer proteger a Talamasca. Por que motivo, não sei dizer. Tem a ver com o passado e talvez com os arquivos e os segredos, apesar de ninguém saber agora ao certo o que realmente está naqueles arquivos. Ai, se eu ao menos tivesse certeza de que os Anciãos não fazem parte disso. Mas uma bruxa, vocês não percebem? Uma bruxa com o poder de Mona é simplesmente valiosa demais para Ashlar e Samuel. Eu nunca, nunca deveria ter mencionado Mona para eles. Ah, fui tolo de lhes contar tudo sobre a família. Mas sabem, esse Samuel, ele me salvou a vida.

— Mas esse Taltos disse que não tinha parceira? — perguntou Michael. — Se é que "parceira" é o termo acertado?

— Isso estava evidente. Ele veio aqui porque Samuel lhe disse que um Taltos (Lasher, com você, Rowan!) havia aparecido em Donnelaith. Ash veio imediatamente de algum lugar distante. Não sei de onde. Ash é rico. Tem guarda-costas, auxiliares. Viaja num pequeno cortejo, ao que me disse Samuel. Na realidade, Samuel fala demais para seu próprio bem.

— Mas ele não mencionou um Taltos do sexo feminino?

— Não. Os dois me deram a nítida impressão de não saberem da existência de um Taltos do sexo feminino! Rowan, você não percebe? Os Pequenos estão morrendo, e o Taltos está praticamente extinto. Meu Deus, Ash poderia ser o único sobrevivente, agora que Lasher morreu. Imagine só! Você compreende o que Mona representa para esses dois?

— Está bem, você quer saber a minha opinião? — perguntou Michael. Ele estendeu a mão para apanhar o bule de café na bandeja ao seu lado e encheu sua xícara, segurando-a como uma caneca sem o pires. — Já fizemos tudo o que podemos quanto a Ashlar e Samuel. — Ele olhava para Rowan enquanto falava. — Há uns dez por cento de chance, quem sabe, de conseguirmos encontrá-los no Claridge's mesmo...

— Não, vocês não devem se aproximar deles — disse Yuri. — Vocês não podem nem deixar que eles saibam que estão aqui. Ainda mais você.

— É, eu compreendo — disse Michael, com um gesto de aquiescência — mas...

— Não, você não compreende, ou então não acredita em mim. Michael, essas criaturas sabem distinguir um bruxo ao vê-lo, seja homem, seja mulher. Eles sabem. Eles não precisam de exames médicos modernos para saber que você dispõe dos cromossomos que são tão valiosos para eles. Eles o reconhecem, talvez pelo faro, e sem dúvida pela visão.

Michael encolheu um pouco os ombros, como se quisesse dizer que ia manter sua opinião, mas sem insistir nela agora.

— Está bem, então eu não vou agora ao Claridge's. Mas é muito difícil não ir até lá, Yuri. Quer dizer, você afirma que Ash e Samuel estão a apenas cinco minutos deste hotel?

— Puxa, espero que tenham ido embora. E espero que não tenham ido para Nova Orleans. Por que eu fui contar para eles? Por que eu não fui mais esperto? Por que fui tão tolo na minha gratidão e no meu medo?

— Pare de se culpar por isso — disse Rowan.

— Nós quadruplicamos o número de seguranças em Nova Orleans — disse Michael. Sua postura relaxada não havia mudado. — Vamos abandonar o assunto de Ashlar e Samuel um pouco e voltar a Talamasca. Agora, estamos fazendo uma lista dos membros mais antigos em Londres, aqueles em quem se pode confiar ou que sem dúvida devem ter percebido algo de errado.

Yuri suspirou. Estava muito perto de uma pequena poltrona de cetim junto à janela, revestida com o mesmo moiré vibrante das cortinas, de tal modo que parecia praticamente invisível. Ele se deixou cair na beira dessa poltrona, escondendo a boca com as mãos. Soltou a respiração lentamente. Seu cabelo estava desgrenhado.

— Está bem — disse Yuri. — A Talamasca, meu refúgio, minha vida. Ah, a Talamasca. — Ele agora contava nos dedos da mão direita. — Tínhamos Milling, que está acamado. Não há como entrar em contato com ele. Não quero ligar para ele e deixá-lo agitado. Depois, tínhamos...

— Joan Cross — disse Michael, apanhando o bloco amarelo de cima da mesinha de centro. — É, Joan Cross, setenta e cinco anos, inválida. Cadeira de rodas. Recusou a indicação para superiora geral em virtude da artrite degenerativa.

— Nem o próprio demônio poderia corromper Joan Cross — disse Yuri, com as palavras se atropelando cada vez mais. — Mas Joan é muito voltada para si mesma. Ela passa o tempo todo nos arquivos. Ela não perceberia se os outros membros estivessem correndo nus de um lado para o outro.

— Então, o próximo é Timothy Hollingshed — disse Michael, lendo o que estava escrito no bloco.

— É, Timothy, se eu ao menos o conhecesse melhor. Não, quem devemos escolher é Stuart Gordon. Eu mencionei Stuart Gordon? Eu disse o nome de Stuart Gordon antes, não disse?

— Não, não disse, mas não tem problema nenhum dizer agora — respondeu Rowan. — Por que Stuart Gordon?

— Ele está com oitenta e sete anos e ainda leciona, pelo menos dentro da própria Ordem. O amigo mais íntimo de Stuart Gordon era Aaron! Stuart Gordon pode saber tudo sobre as bruxas Mayfair. Ora, é praticamente certo que ele saiba! Lembro-me de que ele um dia me disse de passagem, acho que foi no ano passado, que Aaron havia passado tempo demais com essa família. Juro pela minha alma que nada poderia corromper Stuart Gordon. Ele é o homem em quem deveríamos confiar.

— Ou pelo menos de quem deveríamos extrair informações — disse Rowan, entre dentes.

— Você tem mais um nome aqui — disse Michael. — Antoinette Campbell.

— Ela é mais jovem, muito mais nova. Mas, se Antoinette for corrupta, Deus também é. Só que Stuart... Se há alguém nesta lista que possa ser um Ancião, e nunca sabemos quem eles são, seria Stuart Gordon, compreende? Ele é o nosso homem.

— Vamos guardar os outros nomes. Não deveríamos entrar em contato com mais de uma dessas pessoas de cada vez.

— E o que você perde se telefonar agora para Stuart? — perguntou Michael.

— Eles ficam sabendo que ele está vivo — disse Rowan. — Mas talvez isso seja inevitável. — Ela observava Yuri. Como ele poderia conseguir ter uma conversa crucial ao telefone com quem quer que fosse, nesse estado? Na verdade, ele recomeçara a suar forte. Tremia. Ela arranjara roupas limpas para ele, mas elas já estavam encharcadas com a transpiração.

— É, é inevitável. Mas, se eles não souberem onde eu estou, não haverá perigo nenhum. Posso descobrir mais coisas com Stuart em cinco minutos do que com qualquer outra pessoa que eu possa imaginar, mesmo meu velho amigo Baron, de Amsterdã. Deixem-me ligar agora.

— Mas não podemos nos esquecer de que ele pode estar a par da conspiração. Pode ser a Ordem inteira. Podem ser todos os Anciãos.

— Ele preferiria morrer a prejudicar a Talamasca. Ele tem dois noviços brilhantes que talvez até nos ajudassem. Tommy Monohan, que é uma espécie de gênio da informática. Ele poderia ser de grande auxílio na investigação da corrupção. E o outro, o louro bonito, de nome estranho. Marklin,é isso. Marklin George. Mas Stuart deve avaliar a situação.

— E nós não vamos confiar em Stuart antes de termos certeza de podermos confiar.

— Mas como vamos ter certeza? — perguntou Yuri, dirigindo-se a Rowan.

— Sempre há um jeito de se saber — disse Rowan. — Você não vai ligar para ele daqui. E quando ligar, quero que diga certas coisas. Você não pode se abrir com esse homem, compreende? Por mais que confie nele.

— Diga-me o que falar — pediu Yuri. — Mas vocês se dão conta de que Stuart pode não falar comigo. Ninguém tem permissão para conversar comigo. Estou excomungado, lembram-se? A menos, é claro, que eu apele a ele na qualidade de amigo de Aaron. Esse é o segredo com Stuart! Ele sentia tanto amor por Aaron!

— Perfeito, o telefonema é um passo crucial — disse Michael. — Temos de dá-lo. Agora, a casa-matriz. Você tem condição de desenhar uma planta da casa, ou de me dar as informações para que eu possa desenhar a planta e você a aprove? O que acha?

— Claro, é uma idéia excelente — disse Rowan. — Faça uma planta. Mostre-nos a localização dos arquivos, dos subterrâneos, das saídas, de tudo.

Yuri estava novamente em pé, como se alguém o houvesse empurrado para a frente. Ele olhava ao redor.

— Onde está o papel? O lápis?

Michael apanhou o telefone e pediu a recepção.

— Vamos conseguir lápis e papel — disse Rowan. Ela segurou as mãos de Yuri. Estavam úmidas e ainda tremiam. Seus olhos negros estavam ansiosos, correndo de um objeto para outro. Ele não queria encará-la. — Fique tranqüilo — disse ela, apertando suas mãos com firmeza, pensando Acalme-se e se aproximando, até ele ser forçado a olhar nos seus olhos.

— Eu sou racional, Rowan. Acredite em mim. Só estou... só estou temendo por Mona. Cometi um terrível erro. Mas também, com que freqüência a gente vê esse tipo de criatura? Nunca pus os olhos em Lasher, nem por um instante. Eu não estava presente quando ele contou sua história a Michael e Aaron. Eu nunca o vi! Mas vi esses dois, e não em alguma nuvem ou névoa! Eles estavam comigo como vocês estão. Eles estavam entre quatro paredes!

— Eu sei — disse ela. — Mas não é culpa sua, toda essa história de você lhes ter falado da família. Você tem de superar isso. Pense na Ordem. O que mais você pode nos contar? E o superior geral?

— Há algo de errado nele. Nele eu não confio. É novo demais. Ai, se você tivesse visto essa criatura, Ash, não teria acreditado nos próprios olhos.

— Por que não, Yuri? — perguntou ela.

— Ah, sim. É claro. Você viu o outro. Você conheceu o outro.

— Conheci. Em todos os sentidos. O que lhe dá certeza de que esse era mais velho, de que ele não estava procurando confundi-lo com aquelas afirmações banais que fez?

— O cabelo. Duas faixas brancas no cabelo. Isso indica idade. Dava para eu ver.

— Faixas brancas — disse ela. Essa informação era nova. Quantas outras coisas Yuri não poderia transmitir se eles continuassem a interrogá-lo? Ela ergueu as duas mãos para a cabeça, como que para perguntar onde ficavam as duas faixas de cabelo branco.

— Não, aqui, nas têmporas, o padrão de envelhecimento dos humanos. Essas faixas deixaram Samuel alarmado assim que ele as viu. O rosto? O rosto é de um homem de trinta anos. Rowan, a duração da vida desses seres é desconhecida. Samuel descreveu Lasher como um recém-nascido.

— É o que ele era — respondeu Rowan. Percebeu, de repente, que Michael a observava. Ele se pusera de pé e estava parado perto da porta, com os braços cruzados.

Ela se voltou para encará-lo. Eliminou da sua mente todo e qualquer pensamento sobre Lasher.

— Não há ninguém que possa nos ajudar nesse caso, será que há? — disse Michael. Estava falando exclusivamente com ela.

— Ninguém — disse Rowan. — Você não sabia disso o tempo todo?

Ele não respondeu, mas ela sabia no que ele estava pensando. Era como se quisesse que ela soubesse. Estava pensando que Yuri estava entrando em colapso. Yuri agora precisava ser protegido. E eles haviam contado mais com Yuri no que dizia respeito a opiniões, orientação, ajuda.

A campainha tocou. Michael procurou no bolso e tirou algumas notas de libra enquanto se dirigia para a porta.

Como é extraordinário, pensou ela, que ele se lembre desse tipo de coisa, que ele mantenha tudo funcionando. Mas ela precisava se controlar. Os dedos de Lasher doendo no seu braço. Seu corpo inteiro de repente sofreu uma convulsão e ela estendeu a mão para o lugar em que ele tantas vezes a machucara. Siga seu próprio conselho, doutora. Acalme-se.

— Agora, Yuri, você precisa se sentar e desenhar as plantas — disse Michael, com o papel e os lápis.

— E se Stuart não souber que Aaron está morto? — perguntou Yuri. — Não quero ser quem vai lhe dar a notícia. Meu Deus, eles devem saber. Eles sabem, não sabem, Rowan?

— Preste atenção — disse Rowan, com delicadeza. — Já lhe expliquei isso antes. O gabinete de Ryan não ligou para a Talamasca. Insisti com eles para que esperassem. A excomunhão foi minha desculpa. Eu queria ganhar tempo. Agora podemos nos aproveitar do desconhecimento deles. Temos de planejar esse telefonema.

— No outro cômodo, há uma mesa de bom tamanho — disse Michael. — Essa mesinha Luís XV vai se desmanchar se tentarmos usá-la.

Ela sorriu. Ele dizia que adorava a mobília francesa, mas tudo nesta sala parecia estar se pavoneando. As molduras douradas pareciam estar piscando de alto a baixo dos lambris das paredes como se fossem feitas de lâmpadas de néon. Aposentos de hotel, ela estivera em tantos deles. Tudo em que podia pensar quando chegava era onde ficam as portas, os telefones, será que o banheiro tinha uma janela para uma possível fuga. Outro relance da mão de Lasher a se fechar no seu braço. Ela se encolheu assustada. Michael a observava.

Yuri tinha o olhar perdido. Ele não a viu fechar os olhos e depois lutar para recuperar o fôlego.

— Eles sabem — disse Yuri. — Os que se encarregam de recortes de jornais para eles terão visto a notícia nos jornais de Nova Orleans. Mayfair. Eles terão visto a notícia, e terão mandado por fax cópias dos recortes. Eles sabem tudo. Absolutamente tudo. Toda a minha vida está nos seus arquivos.

— Mais razão ainda para pôr mãos à obra já.

Rowan estava imóvel. Ele acabou, está morto, não pode machucá-la. Você viu seus restos. Você os viu cobertos de terra quando pôs Emaleth ao seu lado. Você viu. Ela havia cruzado os braços e estava esfregando os cotovelos. Michael falava com ela, mas ela não captara as palavras.

Ela olhou para Michael.

— Preciso ver esse Taltos. Se ele existe, preciso vê-lo.

— É perigoso demais — afirmou Yuri.

— Não é, não. Tenho um pequeno plano. Ele tem suas limitações, mas é um plano. Você disse que Stuart Gordon era amigo de Aaron?

— Disse, eles trabalharam juntos anos a fio. Você quer estender nossa confiança a Stuart? Você quer acreditar que Ash nos contou a verdade?

— Você disse que Aaron nunca havia ouvido o termo "Taltos" até Lasher pronunciá-lo?

— Exato — disse Michael.

— Vocês não podem entrar em contato com aqueles dois, não podem! — disse Yuri, nervosíssimo.

— Michael, o desenho pode esperar. Preciso ligar para o Claridge's.

— Não! — gritou Yuri.

— Não sou boba — disse Rowan, com um sorriso discreto. — Qual foi o nome usado para registro dessas pessoas de tamanho disparatado?

— Não sei.

— Basta descrevê-las — disse Michael. — Mencione o nome Samuel. Yuri disse que todos o conheciam, que o tratavam como se ele fosse um pequeno e alegre Papai Noel. Quanto mais rápido dermos esse telefonema, melhor. Eles podem já ter ido embora.

— Aaron nunca soube o que era um Taltos. Ele nunca leu nada, nem ouviu nada...

— É verdade — disse Yuri. — Rowan, o que você está planejando?

— Tudo bem. Eu ligo primeiro — disse Rowan. — Depois você liga. Devemos ir agora.

— Você não quer me dizer o que pretende fazer? — perguntou Michael.

— Vamos ver se conseguimos entrar em contato com esses dois. Tudo vai desmoronar se não pudermos encontrá-los, e estaremos de volta ao ponto de partida. Vamos.

— Eu não preciso desenhar as plantas? — perguntou Yuri. — Vocês disseram alguma coisa sobre desenhos.

— Agora não, pegue seu paletó, vamos — disse Michael. Mas Yuri parecia tão desamparado e confuso quanto havia estado a manhã inteira. Michael apanhou o paletó de cima da poltrona e o colocou nos ombros de Yuri. Olhou para Rowan.

O coração de Rowan batia forte. Taltos. Tenho de dar esse telefonema.

 

MARKLIN JAMAIS HAVIA VISTO a casa em tal alvoroço. Esse era um teste ao seu talento para disfarçar ao máximo. A sala do conselho estava apinhada de membros, mas a sessão ainda não havia sido aberta. Ninguém prestou atenção a ele enquanto ele passava pelo corredor. O barulho era ensurdecedor sob as abóbadas de madeira. No entanto, essa comoção era uma bênção. Ninguém parecia se importar com um noviço e suas reações, com o que ele fazia ou onde ia.

Nem o haviam despertado para informá-lo do que estava ocorrendo. Ele dera com tudo isso no instante em que afinal abriu a porta e descobriu alguns membros "patrulhando" o corredor. Ele e Tommy mal haviam trocado algumas palavras.

A essa altura, porém, Tommy teria chegado a Regent's Park e desligado a interceptação do fax. Todas as provas materiais dos comunicados falsos estavam sendo destruídas.

E onde estava Stuart? Não estava na biblioteca, nos salões, na capela orando pelo seu querido Aaron, nem tampouco na sala do conselho.

Stuart não podia fraquejar sob essa pressão! E, se ele tivesse saído, teria sido para estar com Tessa... Mas não, ele não teria fugido. Stuart estava novamente com eles. Stuart era seu líder, e eram os três contra o mundo.

O grande relógio do corredor marcava 11:00 da manhã, com a face da lua de bronze sorridente acima dos algarismos floreados. Em meio ao barulho, as badaladas estavam quase inaudíveis. Quando teriam início as deliberações formais?

Ele ousava subir até o quarto de Stuart? Mas será que isso não seria natural para ele? Stuart era seu orientador dentro da Ordem. Essa não seria a atitude correta a tomar? E se Stuart estivesse novamente em pânico, em desintegração, a questionar tudo? E se Stuart se voltasse novamente contra ele, como fizera em Wearyall Hill? E agora ele não dispunha de Tommy para ajudá-lo a trazer Stuart de volta?

Alguma coisa acabava de acontecer. Ele ouvia algo na sala do conselho. Deu alguns passos até se encontrar na porta voltada para o norte. Membros da Ordem estavam tomando seus lugares em volta de uma imensa mesa de carvalho. E lá estava Stuart, Stuart, a olhar direto para ele: um pássaro de bico afilado, com olhinhos redondos e azuis, usando o costumeiro traje lúgubre, quase sacerdotal.

Meu Deus, Stuart estava parado ao lado da cadeira vazia do superior geral. Estava com a mão no encosto da cadeira. Todos olhavam para Stuart. Haviam designado Stuart para assumir o comando! É claro!

Marklin procurou encobrir seu sorriso imprudente e inevitável com uma tosse abafada, levando a mão fechada à boca. Perfeito demais, pensou ele. É como se as forças que dominam o mundo estivessem a nosso favor. Afinal de contas, poderia ter sido Elvera ou Joan Cross. Poderia ter sido o velho Whitfield. Mas foi Stuart! Brilhante! O mais velho amigo de Aaron.

— Entrem, todos. Sentem-se, por favor — disse Stuart. Estava extremamente nervoso. Isso dava para Marklin perceber. — Vocês devem me perdoar — disse Stuart, forçando um sorriso educado que decerto não era necessário e que dificilmente se adequava à situação. Deus do céu, ele não vai conseguir se sair dessa! — Ainda não estou perfeitamente recuperado do choque. Mas vocês sabem que fui indicado para assumir o comando. Estamos, neste exato momento, aguardando o comunicado dos Anciãos.

— Eles sem dúvida responderam, Stuart — disse Elvera. Cercada de amigos, ela havia sido a estrela ao longo de toda a manhã, testemunha do assassinato de Anton Marcus, a única que conversara com o homem misterioso que entrara no prédio e fizera perguntas estranhas a todos que encontrara, para depois, com frieza e determinação, estrangular Marcus até a morte.

— Não houve ainda resposta, Elvera — disse Stuart, paciente. — Sentem-se aí, todos vocês aí. Já é hora de começarmos essa reunião.

Afinal, a sala ficou em silêncio. A mesa gigantesca estava cercada de rostos curiosos. Dora Fairchild estivera chorando e deixava transparecer isso mesmo. O mesmo com Manfield Cotter. E o mesmo com outros que Marklin nem conhecia. Todos amigos de Aaron Lightner, ou adoradores, para ser mais exato.

Ninguém aqui chegara realmente a conhecer Marcus. É claro que sua morte horrorizava a todos. Mas a dor por ele não era o caso.

— Stuart, a família Mayfair respondeu? — Surgiu uma pergunta. — Temos mais alguma informação sobre o que aconteceu com Aaron?

— Tenham paciência, vocês todos. Divulgarei a informação assim que ela for recebida. O que sabemos agora é que algo de terrivelmente errado aconteceu nesta casa. Intrusos entraram e saíram. Talvez tenham ocorrido outras falhas na segurança. Nós não sabemos se todos esses acontecimentos estão relacionados entre si.

— Stuart — disse Elvera, com a voz muito aguda. — Esse homem me perguntou se eu sabia que Aaron havia morrido! Ele entrou no meu quarto e começou a falar em Aaron!

— É claro que estão relacionados — afirmou Joan Cross. Joan estava numa cadeira de rodas há um ano. Sua aparência não poderia ser mais frágil; até seu cabelo branco e curto estava raleando. Mas sua voz era impaciente e dominadora, como sempre havia sido. — Stuart, nossa primeira prioridade é a de determinar a identidade desse assassino. Temos a afirmação das autoridades de que é impossível identificar as impressões digitais. Mas nós sabemos que esse homem pode ter vindo da família Mayfair. As autoridades não sabem.

— É... tudo relacionado de alguma forma, não é isso o que parece? — Stuart estava de fato gaguejando. — Mas não temos nenhuma outra indicação. Foi isso o que eu quis dizer. — De repente, seus olhos fundos fixaram-se em Marklin, que estava sentado quase na extremidade oposta da mesa, olhando calmamente para ele.

— Senhores, para ser franco — disse Stuart, desviando o olhar para examinar os rostos ao seu redor — sinto-me completamente inadequado para assumir o posto de Anton. Creio... creio que deveria passar o cetro para Joan, se a assembléia aqui reunida estiver de acordo. Não posso continuar!

Stuart, como pôde fazer uma coisa dessas! Marklin olhava fixamente para a mesa, procurando ocultar sua decepção, exatamente como momentos antes havia tentado ocultar seu sorriso de triunfo. Você está no comando, pensou ele com azedume, mas não consegue lidar com isso. Está abdicando do poder quando você é necessário para bloquear o próprio comunicado que vai acelerar as coisas. Você é um idiota.

— Não tenho alternativa! — disse Stuart, em voz alta, como se estivesse falando apenas com seu noviço. — Senhores, estou... estou abalado demais pela morte de Aaron para ser útil.

Frase interessante, frase sábia, pensou Marklin. Stuart sempre lhes ensinara que, se tivessem um segredo que desejassem ocultar dos paranormais ao seu redor, bastava pensar em algo próximo à verdade.

Stuart estava de pé. Estava passando a cadeira a Joan Cross. Houve exclamações de aprovação vindas de todos os lados. Até mesmo Elvera estava de acordo. O jovem Crawford, um dos alunos de Joan, estava manobrando a cadeira de rodas para posicioná-la à cabeceira da mesa. Stuart recuara e estava encostado na parede. Stuart ia tentar fugir!

Não sem mim, pensou Marklin, mas como poderia sair agora? Stuart não ia escapar dele; não ia ter a oportunidade de fugir para o esconderijo secreto onde mantinha Tessa. Não, isso não ia acontecer.

Mais uma vez, houve um alvoroço. Um dos velhos estava reivindicando que, numa emergência dessas, os Anciãos presentes deveriam se identificar. Outra pessoa mandou que o velho se calasse e que não mencionasse mais uma sugestão dessas.

Stuart desapareceu! Rapidamente, Marklin deixou, sorrateiro, o seu lugar e se apressou a sair pelo portal norte. Ele viu Stuart léguas à sua frente, ao que lhe parecia, indo na direção do gabinete do superior geral. Marklin não ousou gritar seu nome. Havia dois membros mais jovens com Stuart: Ansling e Perry, os dois secretários auxiliares. Eles haviam sido uma ameaça para a operação desde o início, embora nenhum dos dois tivesse capacidade para perceber que alguma coisa estava errada.

De repente, o trio sumiu, entrando pelas portas duplas, que se fecharam. Marklin estava sozinho no saguão vazio.

Um martelo soou na sala do conselho, ou algo parecido. Marklin ficou parado olhando para as portas. Sob que pretexto poderia entrar? Para oferecer ajuda, apresentar seus pêsames? Todos sabiam que ele era devotado a Stuart. Meu Deus, o que ele deveria fazer sob circunstâncias normais, se ele não estivesse... Não pense nisso, jamais se detenha nitidamente nesses pensamentos, não aqui, não entre essas paredes.

Olhou de relance para o relógio de pulso. O que eles estavam fazendo? Se Stuart havia renunciado ao cargo, por que ele estaria naquele gabinete, afinal? Talvez estivesse chegando um fax dos Anciãos. Tommy havia tido tempo para desativar a interceptação. Ou talvez Tommy houvesse escrito o comunicado que poderia estar chegando.

Finalmente, ele não conseguiu mais suportar a espera. Avançou, bateu às portas e as abriu sem esperar pela permissão.

Os dois rapazes estavam sozinhos no gabinete, Perry, sentado à mesa de trabalho de Marcus, falando ao telefone, e Ansling o rondando, na óbvia tentativa de acompanhar o telefonema. O fax estava em silêncio. As portas que davam para o quarto de Anton estavam fechadas.

— Onde está Stuart? — perguntou Marklin em voz alta e direta, embora os dois rapazes fizessem gestos para que permanecessem em silêncio.

— Onde você está agora, Yuri? — disse Perry, ao telefone.

Yuri!

— Você não deveria estar aqui — disse Ansling. — Todos deveriam estar na sala do conselho!

— Certo, certo... — disse Perry, com óbvia indulgência para com o homem no outro lado da linha.

— Onde está Stuart? — perguntou Marklin.

— Não sei lhe dizer.

— Você vai me dizer — insistiu Marklin.

— Quem está ao telefone é Yuri Stefano — disse Ansling, demonstrando hesitar em revelar isso, enquanto olhava ansioso de Perry para Marklin. — Stuart foi se encontrar com ele. Ele disse a Stuart que fosse só.

— Fosse para onde? De que modo ele foi embora?

— Bem, ele desceu pela escada privativa do superior geral, imagino — disse Ansling. — Como eu poderia saber?

— Calem a boca, vocês dois! — disse Perry. — Ai, meu Deus, ele desligou! — Ele bateu com o fone no gancho. — Marklin, saia daqui.

— Não fale comigo nesse tom, seu idiota — respondeu Marklin, furioso. — Stuart é meu orientador. Que escada privativa?

Ele passou direto pelos dois, ignorando suas vozes indignadas e imperiosas, atravessando o quarto e vendo, então, o recorte perfeito de uma porta nos lambris, a própria porta sem qualquer indicação estava entreaberta apenas alguns centímetros. Ele a empurrou. Era ali a escada. Porcaria!

— Onde ele foi se encontrar com Yuri? — gritou ele a Ansling, que só agora entrava no quarto.

— Saia dessa passagem — disse Perry. — Saia imediatamente deste quarto. O quarto do superior geral não é o seu lugar.

— Qual é o problema com você, Marklin? — perguntou Ansling. — A última coisa que precisamos agora é de insubordinação. Volte para a sala do conselho imediatamente.

— Eu lhes fiz uma pergunta. Quero saber onde foi meu orientador.

— Ele não nos disse. E, se você tivesse calado a boca e ficado fora disso tudo, eu mesmo poderia ter extraído essa informação de Yuri Stefano.

Marklin olhou enfurecido para os dois rapazes irados e assustados. Idiotas, pensou, idiotas. Tomara que culpem a vocês e aos seus semelhantes subservientes e lamurientos por tudo. Tomara que sejam expulsos. Ele se voltou e desceu pela escada secreta.

Um corredor longo e estreito dava a volta no canto antes de chegar a uma pequena porta. Ela dava direto para o parque, como ele sabia que daria. Nunca havia sequer percebido essa porta! Havia tantas delas. Algumas pedras esparsas atravessavam o gramado, levando na direção aproximada da garagem.

Ele começou a correr, mas sabia ser inútil. Quando chegou aos carros, o encarregado já estava de pé.

— Pediram que todos ficassem na casa, senhor, até que termine a reunião.

— Stuart Gordon. Ele levou um carro oficial?

— Não, senhor. Foi com o dele mesmo. Mas as ordens que me deu foram que ninguém mais deveria sair sem permissão expressa, foi isso o que ele disse, senhor.

— Isso eu já sabia! — respondeu Marklin, furioso. Foi direto para seu próprio Rolls-Royce e bateu a porta na cara do encarregado, que o acompanhara. Já estava a mais de cinqüenta antes de chegar aos portões.

Na auto-estrada, acelerou veloz até cem, cento e vinte, cento e quarenta. Mas Stuart havia saído muito antes. E ele nem podia saber se Stuart chegara a tomar a auto-estrada ou não. Se Stuart havia ido ao encontro de Yuri ou de Tessa. Ele estava indo atrás de nada e de ninguém!

— Tommy, preciso de você — disse ele, em voz alta. Apanhou o telefone do automóvel e, com o polegar, digitou o número do esconderijo secreto em Regents' Park.

Não houve resposta.

Tommy poderia já ter desligado tudo. Ah, por que não haviam planejado um encontro em Londres? Sem dúvida, Tommy perceberia o erro. Sem dúvida, Tommy ficaria lá à sua espera.

O guincho estridente de uma buzina o assustou. Ele desligou o telefone com violência. Precisava prestar atenção ao que estava fazendo. Pisou fundo no acelerador e passou o caminhão à sua frente, levando o Rolls à sua velocidade máxima.

 

ERA UM APARTAMENTO EM BELGRAVIA, não muito distante do Palácio de Buckingham, e primorosamente equipado com tudo de que precisava. Cercava-o mobília em estilo georgiano, com muito mármore branco novo e bonito e tons pastel de pêssego, limão e gelo. Uma equipe de funcionários qualificados havia sido contratada para cumprir suas ordens, homens e mulheres de aparência estritamente eficiente, que puseram mãos à obra de imediato para preparar para ele o fax, o computador, os telefones.

Ele se certificou de que Samuel, quase inconsciente, fosse acomodado na cama de modo adequado, no maior dos quartos, e então tomou posse do gabinete, sentando-se à mesa para ler os jornais rapidamente e absorver o que pudesse da história do assassinato fora de Londres, do homem que havia sido estrangulado por um intruso misterioso com mãos muito grandes.

Os artigos não faziam nenhuma menção à sua altura. Estranho. Teria a Talamasca decidido manter esse dado em segredo? E se fosse esse o caso, por quê?

"Sem dúvida, Yuri leu isso", pensou. "Se é que Yuri está em atividade normal." Mas também, como podia saber se Yuri estava ou não?

Já estavam chegando mensagens de Nova York.

É, era dessas coisas que ele precisava cuidar. Realmente, não podia fingir nem por um dia que a empresa pudesse funcionar sem ele.

A jovem Leslie, que aparentemente não dormia nunca, parecia radiante enquanto o atendia, recebendo mais algumas páginas de um auxiliar e as pondo num lado da mesa.

— As linhas estão ligadas, senhor. Mais alguma coisa?

— Querida, encarregue-se de que um enorme assado seja preparado na cozinha para Samuel. Ele vai estar morrendo de fome quando abrir os olhos.

Já estava digitando o número do telefone direto de Remmick em Nova York enquanto continuava a falar com ela.

— Certifique-se de que meu carro e o motorista estejam prontos para mim a qualquer hora que eu precise deles. Encha as geladeiras com leite fresco e compre alguns queijos para mim, queijos moles de nata. O melhor que você puder encontrar em Camembert e Brie. Mas deve mandar que tudo isso seja entregue a domicílio. Preciso de você aqui. Informe imediatamente se o Claridge's ligar com algum recado e, se não tiver notícias deles, ligue para lá exatamente de hora em hora, compreendeu?

— Sim, Sr. Ash! — disse ela, solícita, e começou imediatamente a escrever tudo num caderno que segurava a cinco centímetros dos olhos.

Num piscar de olhos, havia desaparecido.

Mas ele a veria a se apressar de um lado para o outro com uma energia assombrosa cada vez que erguesse os olhos.

Eram três da tarde quando ela veio até a mesa, com todo o entusiasmo de uma adolescente.

— Claridge's. Querem falar pessoalmente com o senhor. Linha dois.

— Com licença — disse ele, satisfeito ao ver que ela recuava de imediato.

Ele atendeu a linha acesa.

— Aqui é Ashlar. Estão me ligando do Claridge's?

— Não. Aqui é Rowan Mayfair. Consegui seu telefone com o Claridge's há uns cinco minutos. Disseram que o senhor saiu hoje pela manhã. Yuri está comigo. Ele está com medo do senhor, mas eu preciso lhe falar. Preciso vê-lo. O senhor reconhece meu nome?

— Claro que sim, Rowan Mayfair — disse ele, baixinho. — Quer me dizer onde posso encontrá-la, por favor? Yuri está bem?

— Primeiro, quero que me diga por que está disposto a vir me ver. Exatamente o que o senhor deseja?

— A Talamasca está cheia de traições. Ontem à noite, assassinei o superior geral. — Nenhuma reação por parte dela. — O homem fazia parte da conspiração. Essa conspiração está relacionada à família Mayfair. Quero restaurar a ordem na Talamasca para que ela continue sendo a Talamasca, e também porque no passado jurei que sempre cuidaria de proteger a Talamasca. Rowan Mayfair, você sabe que Yuri está correndo perigo? Que essa conspiração é uma ameaça à vida dele?

Silêncio na outra ponta da linha.

— A ligação não caiu, caiu? — perguntou ele.

— Não. Eu estava só pensando no som da sua voz.

— O Taltos que você gerou não viveu além da tenra infância. Sua alma não estava em paz antes de ele nascer. Você não pode pensar em mim nesses termos, Rowan Mayfair, mesmo que minha voz faça com que se lembre dele.

— Como matou o superior geral?

— Eu o estrangulei. Impus-lhe o mínimo possível de sofrimento. O que fiz tinha um objetivo. Eu queria expor a conspiração à Ordem inteira, para que tanto os inocentes quanto os culpados soubessem. No entanto, não creio que o problema envolva a Ordem como um todo. Só alguns. — Silêncio. — Permita que eu vá ao seu encontro. Irei sozinho se preferir. Podemos nos encontrar num lugar movimentado. Talvez você saiba que esse telefone é de Belgravia. Diga-me onde está.

— Yuri vai se encontrar com um membro da Talamasca neste exato momento. Não posso deixá-lo sozinho.

— Precisa me dizer onde esse encontro vai se realizar. — Ele rapidamente se levantou e acenou para a porta. O auxiliar de gabinete surgiu imediatamente. — Preciso do motorista! Agora! — sussurrou. Ele voltou a apanhar o telefone. — Rowan Mayfair, esse encontro pode ser perigoso para Yuri. Poderia ser um erro muito, muito grave.

— Mas o homem vem sozinho — disse Rowan. — E nós o veremos antes que ele nos veja. Seu nome é Stuart Gordon. Esse nome lhe diz alguma coisa?

— Já ouvi esse nome. O homem é muito velho. É só isso que posso lhe dizer.

Silêncio.

— Sabe mais alguma coisa a respeito dele? Qualquer coisa que torne provável que ele saiba da sua existência?

— Não, nada. Stuart Gordon e outros membros da Talamasca de quando em quando chegam a viajar até o vale de Donnelaith. Mas nunca me viram lá. Nem em nenhum outro lugar. Nunca puseram os olhos em mim.

— Donnelaith? Tem certeza de que era Gordon?

— Tenho. Tenho certeza absoluta. Gordon costumava ir lá com freqüência. Os Pequenos me contaram. Os Pequenos roubam objetos dos estudiosos durante a noite. Apanham suas mochilas ou qualquer coisa em que possam pôr as mãos por um instante. Conheço o nome de Stuart Gordon. Os Pequenos cuidam para não matar os estudiosos da Talamasca. Cria problemas matá-los. Tampouco matam gente da zona rural. Mas matam outras pessoas que vagueiam por lá com binóculos e fuzis. Eles me informam quem chega ao vale.

Silêncio.

— Por favor, confie em mim — disse Ash. — Esse homem que matei, Anton Marcus, era corrupto e sem escrúpulos. Nunca ajo dessa forma por impulso. Por favor, aceite minha palavra de que não represento perigo para você, Rowan Mayfair. Preciso conversar com você. Se não quiser permitir que eu vá...

— Sabe encontrar a esquina de Brook Street e Spelling?

— Sei onde fica. É onde está agora?

— É, mais ou menos. Vá até a livraria. É a única livraria da esquina. Eu o verei quando chegar aqui e irei ao seu encontro. Ah, e venha rápido. Stuart Gordon deve estar aqui a qualquer momento.

Ela desligou.

Ele desceu correndo os dois lances de escada, com Leslie atrás, fazendo todas as perguntas de praxe. Ele queria os seguranças? Ela deveria acompanhá-lo?

— Não, querida, fique por aqui — disse ele. — Brook e Spelling, logo acima do Claridge's — disse ele ao motorista. — Não me acompanhe, Leslie. — Ele entrou na traseira do carro.

Não sabia se devia levar o carro até o exato local do encontro. Sem dúvida, Rowan o veria e gravaria sua placa, se é que isso chegava a ser necessário com uma limusine Rolls-Royce alongada. Mas por que se preocupar? O que ele podia ter a temer de Rowan Mayfair? Que vantagem ela teria se o ferisse?

Ash tinha a impressão de estar deixando escapar alguma coisa, alguma coisa de extrema importância, alguma probabilidade que só se faria conhecida a ele com reflexão e tempo. Mas essa forma de pensar fazia sua cabeça doer. Estava ansioso demais para ver essa bruxa. Seguiria seu instinto de criança.

A limusine foi abrindo caminho aos solavancos em meio ao tráfego conturbado de Londres, chegando ao seu destino, duas movimentadas ruas comerciais, em menos de doze minutos.

— Por favor, fique por aqui, por perto — disse ele ao motorista. — Não tire os olhos de mim e venha a mim se eu o chamar. Entendeu?

— Entendi, Sr. Ash.

Lojas elegantes dominavam a esquina de Brook e Spelling. Ash saltou, esticou as pernas por um instante, caminhou devagar até o meio-fio da esquina e esquadrinhou a multidão, ignorando os inevitáveis palermas e as poucas pessoas que lhe faziam comentários bem-humorados em voz alta sobre a sua altura.

Lá estava a livraria, em diagonal ao local onde se encontrava. Muito bonita, com caixilhos de madeira encerada e ferragens de latão. Estava aberta, mas não havia ninguém do lado de fora.

Ele atravessou o cruzamento com audácia, caminhando contra o tráfego, deixando dois ou três motoristas furiosos, mas chegou ao outro lado ileso, naturalmente.

Havia uma pequena multidão dentro da livraria. Nenhuma das pessoas era bruxa. Mas ela dissera que o veria e que se encontraria com ele aqui.

Deu meia-volta. Seu motorista estava mantendo a posição, apesar do trânsito ao seu redor, com toda a arrogância de um chofer à direção de uma limusine monstruosa. Isso era bom.

Rapidamente, Ash examinou as lojas na Brook à sua esquerda e depois, olhando para o outro lado, percorreu a Spelling, detendo-se em cada loja e transeunte.

Diante da vitrina abarrotada de uma loja de artigos de vestuário, estavam um homem e uma mulher. Michael Curry e Rowan Mayfair. Tinha de ser.

Seu coração praticamente parou de bater.

Bruxos. Os dois.

Os dois estavam olhando para ele e tinham olhos de bruxos. Deles emanava aquele brilho suavíssimo que os bruxos sempre apresentavam aos seus olhos.

Ficou maravilhado. O que era que produzia esse brilho? Quando ele os tocasse, se chegasse a fazer isso, eles se revelariam mais quentes do que outros seres humanos. E, se ele grudasse o ouvido às suas cabeças, ouviria um som grave, orgânico, que não detectava em outros mamíferos ou em pessoas que não fossem bruxas. Embora ocasionalmente, com pouquíssima freqüência, ele tivesse ouvido esse murmúrio baixo e sussurrante, vindo do corpo de um cão vivo.

Meu Deus do céu, que bruxos! Fazia tanto tempo que ele não via bruxos com esse poder, e jamais vira bruxos com mais do que isso. Não se mexeu. Apenas olhava para eles e procurava se liberar dos seus olhos fixos. Não era nada fácil. Ele se perguntava se eles sabiam disso. Não deixou transparecer nada.

O homem, Michael Curry, era celta até a alma. Poderia ter vindo da Irlanda, e não dos Estados Unidos. Nele não havia nada que não fosse irlandês, desde os cabelos crespos e negros, os olhos azuis deslumbrantes, a jaqueta de caça de lã, que ele estava usando por estar na moda, é claro, e as calças de flanela macia. Era um homem grande, um homem forte.

Pai do Taltos, e seu assassino! Lembrou-se disso com um choque surdo. Pai... assassino.

E a mulher?

Muito magra e extremamente bela, embora num estilo totalmente moderno. O cabelo era simples, apesar de lustroso e atraente, emoldurando o rosto fino. Suas roupas também eram sedutoras, calculadamente diminutas, na realidade de um erotismo quase extravagante. Seus olhos eram muito mais assustadores do que os do homem.

Na verdade, ela possuía olhos de homem. Era como se essa parte do seu rosto tivesse sido retirada de um ser humano do sexo masculino e aplicada ali, acima da boca macia, larga, feminina. No entanto, era comum ele ver essa seriedade, essa agressividade, na mulher moderna. Só que essa, bem, essa era bruxa.

Os dois estavam fascinados.

Não falavam um com o outro, nem se mexiam. Mas estavam juntos uma figura parcialmente encobrindo a outra. O vento não trazia seu cheiro até Ash. Estava soprando na outra direção, o que queria dizer, em termos estritos, que eles deveriam estar sentindo o seu.

A mulher de repente rompeu o silêncio, mas apenas com um pequeno movimento dos lábios. Murmurara alguma coisa para seu companheiro. Mas ele permaneceu calado, estudando Ash, como antes.

Ash relaxou por inteiro. Deixou que as mãos pendessem naturalmente ao lado do corpo, o que raramente fazia, em virtude do comprimento dos seus braços. Mas eles precisavam ver que ele não estava escondendo nada. Voltou a atravessar Brook Street, muito devagar, dando-lhes tempo para fugir se quisessem, embora pedisse a Deus que não fugissem.

Foi se aproximando lentamente deles na Spelling. Eles não saíram do lugar. De repente, um pedestre deu-lhe um encontrão acidental, deixando cair na calçada com estrondo todo um saco de papel de pequenas compras. O saco estourou. As compras ficaram espalhadas.

"Justo numa hora dessas", pensou ele, mas sorriu rapidamente e se abaixou apoiado num joelho para começar a apanhar tudo para o pobre indivíduo.

— Peço que me perdoe — disse ele.

Era uma mulher idosa, que agora dava uma risada alegre e lhe dizia que ele era alto demais para se abaixar e fazer esse tipo de coisa.

— Não me incomodo nem um pouco. Foi minha culpa — disse ele, dando de ombros. Estava perto o suficiente dos bruxos para que eles talvez o ouvissem, mas não podia demonstrar medo.

A mulher trazia uma grande bolsa de lona no braço. Afinal, ele recolheu todos os pequenos pacotes e os depositou na bolsa de lona. E lá se foi ela, acenando para ele enquanto ele acenava com cordialidade e respeito para ela.

Os bruxos não haviam se mexido. Ele sabia. Dava para sentir que eles o observavam. Sentia o mesmo poder que provocava o brilho na sua visão, talvez a mesma energia. Ele não sabia. Agora não havia mais de seis metros entre eles.

Ele virou a cabeça e olhou para eles. Estava de costas para o trânsito, e os via nitidamente diante da vitrina de vidro laminado, cheia de vestidos. Como os dois pareciam temíveis. A luz que emanava de Rowan havia se tornado um fulgor muito leve aos seus olhos, e agora ele sentia seu cheiro: sem sangue. Uma bruxa que não podia parir. O cheiro do homem era forte, e o rosto era mais terrível, cheio de suspeita e talvez mesmo de ira.

Dava-lhe calafrios, o jeito com que olhavam para ele. Mas nem todos podem amar a gente, pensou, com um sorriso discreto. Nem mesmo todos os bruxos podem amar a gente. Isso é pedir demais. O importante era que eles não haviam fugido.

Mais uma vez, ele começou a andar na direção deles. No entanto, Rowan Mayfair o assustou. Ela fez um gesto, apontando com um dedo, e com a mão junto ao seio, para que ele olhasse para o outro lado da rua.

Talvez seja uma cilada. Eles pretendem me matar, pensou. A idéia o divertiu, mas só um pouco. Ele olhou para onde ela indicara. Viu um café do outro lado. E o cigano acabava de sair dali, com um homem idoso ao seu lado. Yuri parecia doente, pior do que nunca, e seus jeans e camisa eram leves demais para o frio que fazia.

Yuri viu Ash imediatamente. Ele desimpediu a entrada movimentada. Ficou olhando enlouquecido para Ash, ou foi o que pareceu. Pobre coitado, está ficando louco, pensou Ash, de verdade. O homem de idade falava atentamente com Yuri, e não parecia perceber que Yuri estava olhando para longe.

Esse homem de idade. Tinha de ser Stuart Gordon! Usava os trajes discretos e antiquados da Talamasca, sapatos sociais de bico reforçado e lapelas muito estreitas, além do colete combinando com o paletó. Quase afetado. É, era Gordon, sem dúvida, ou outro membro da Talamasca. Não podia haver engano.

Como Gordon argumentava com Yuri, como parecia aflito. E Yuri não estava a trinta centímetros do homem. Este podia a qualquer momento matar Yuri com qualquer um dentre meia dúzia de métodos secretos.

Ash começou a atravessar a rua, desviando-se de um automóvel e forçando outro a parar ruidosamente.

De repente, Stuart Gordon percebeu que Yuri estava sendo distraído. Stuart Gordon ficou irritado. Queria ver o que estava distraindo Yuri. Virou-se exatamente quando Ash se abatia sobre ele, tendo chegado ao meio-fio e estendido a mão para segurar o braço de Stuart.

O reconhecimento foi incontestável. Ele sabe o que eu sou, pensou Ash, e seu coração se compadeceu um pouco do homem. Esse homem, esse amigo de Aaron Lightner, era culpado. É, sem sombra de dúvida o homem o conhecia e erguia os olhos para o seu rosto com uma mescla de horror e de reconhecimento profundo e secreto.

— Você me conhece — disse Ash.

— Você matou nosso superior geral — disse o homem, mas a isso ele se agarrar em desespero. A confusão e o reconhecimento iam muito além de qualquer coisa que houvesse acontecido apenas na noite passada. Gordon entrou em pânico e começou a arranhar os dedos de Ash. — Yuri, faça com que ele pare. Faça com que pare.

— Mentiroso — disse Ash. — Olhe para mim. Você sabe muito bem quem eu sou. Você sabe da minha existência. Sei que sabe, não minta para mim, homem cheio de culpa.

Eles haviam se tornado um espetáculo. Havia gente saindo da calçada para a rua para se desviar deles. Outros paravam para observar.

— Tire suas mãos de cima de mim! — disse Stuart Gordon, furioso, com os dentes cerrados e o rosto enrubescido.

— Exatamente como o outro — disse Ash. — Você matou seu amigo Aaron Lightner? E Yuri? Você mandou o homem que lhe deu um tiro no vale?

— Só sei o que me contaram sobre isso hoje pela manhã! — protestou Stuart Gordon. — Você deve me soltar.

— Devo? — disse Ash. — Vou matá-lo.

Os bruxos estavam ao seu lado. Com um relance à sua direita, viu Rowan Mayfair junto ao seu braço. Michael Curry estava logo ao seu lado, com os olhos cheios de maldade, como antes.

A visão dos bruxos despertou novo pavor em Gordon.

Segurando Gordon com firmeza, Ash olhou para a esquina e ergueu rapidamente a mão esquerda para o motorista. O homem estava fora do carro e estivera apreciando os acontecimentos. Ele entrou imediatamente, assumiu a direção e logo o carro fazia a volta para descer pela rua.

— Yuri! Você não vai deixar que ele faça isso comigo, vai? — reclamou Gordon. Uma indignação desesperada, brilhante, falsa.

— Você matou Aaron? — perguntou Yuri. Esteja estava praticamente fora de si, e Rowan Mayfair fez um movimento para contê-lo quando ele investiu contra Gordon. Gordon começou a se contorcer numa fúria corajosa, voltando a arranhar os dedos de Ash.

O longo Rolls-Royce parou ao lado de Ash. O motorista desceu imediatamente.

— Posso ajudá-lo, Sr. Ash?

— Sr. Ash — disse Gordon, apavorado, interrompendo sua luta em vão. — Que espécie de nome é "Sr. Ash"?

— Um policial está vindo para cá, senhor — avisou o motorista. — Diga o que quer que eu faça.

— Vamos sair daqui, por favor — disse Rowan Mayfair.

— É, todos nós, vamos. — Ash voltou-se e arrastou Stuart, que cambaleava, para fora da calçada.

Assim que a porta traseira do carro estava aberta, Ash jogou Gordon, indefeso, no banco de trás. Sentou-se ao seu lado, forçando-o para o canto oposto. Michael Curry havia entrado na frente, ao lado do motorista, e agora Rowan entrava passando por Ash, com a pele a queimá-lo quando tocou na sua perna, e se sentava no banco retrátil enquanto Yuri se jogava ao seu lado. O carro deu uma guinada e partiu.

— Para onde devo levá-lo, senhor? — perguntou o motorista. O painel de vidro estava descendo. Agora ele desaparecia na parte traseira do banco dianteiro, e Michael Curry se voltou e olhava por cima de Yuri bem nos olhos de Ash.

Esses bruxos, esses olhos, pensou Ash, em desespero.

— Basta que saia daqui — disse Ash ao motorista.

Gordon estendeu a mão para a maçaneta da porta.

— Tranque as portas — disse Ash, mas não esperou pelo conhecido estalido eletrônico. Grudou sua mão direita ao braço direito de Gordon.

— Solte-me, seu filho da mãe! — ordenou Gordon, num tom grave e retumbante de autoridade.

— Você quer me dizer a verdade agora? — perguntou Ash. — Vou matá-lo como matei seu capanga Marcus. O que pode me dizer que me impeça de agir assim?

— Como ousa, como pode... — começou Stuart novamente.

— Pare de mentir — disse Rowan Mayfair. — Você é culpado e não fez tudo isso sozinho. Olhe para mim.

— Não vou olhar! — disse Gordon. — As bruxas Mayfair — prosseguiu ele, cheio de rancor, quase cuspindo as palavras. — E essa coisa, essa criatura que vocês invocaram dos pântanos, esse Lasher. Ele é seu vingador?

O homem estava sofrendo intensamente. Seu rosto estava branco com o choque. Mas ele estava longe de ser derrotado.

— Está bem — disse Ash, sereno. — Vou matá-lo, e os bruxos não têm como me impedir. Não imagine que eles possam fazê-lo.

— Não, você não vai me matar! — disse Gordon, voltando-se de tal modo que pudesse ver tanto Ash quanto Rowan Mayfair, com a cabeça encostada no canto estofado do automóvel.

— E por que motivo? — perguntou Ash, com delicadeza.

— Porque eu tenho a fêmea! — sussurrou Gordon.

Silêncio.

Só os sons do trânsito à sua volta, enquanto o carro seguia em frente veloz e agressivo.

Ash olhou para Rowan Mayfair. Depois para Michael, que olhava para trás, de lá do banco dianteiro. E finalmente para Yuri, bem em frente a ele, Yuri, que parecia incapaz de pensar ou de falar. Ash deixou que seus olhos voltassem a Gordon.

— A fêmea sempre esteve comigo — disse Gordon, numa voz baixa, compungida, porém sardônica. — Fiz tudo isso por Tessa. Fiz isso para levar o macho a Tessa. Era esse o meu propósito. Agora, quero que me libertem, ou nenhum de vocês ira jamais pôr os olhos em Tessa. Muito menos você, Lasher, Sr. Ash ou quem quer que seja. Não importa que nome você use! Ou será que eu estou tragicamente enganado e você realmente possui um harém só seu?

Ash abriu os dedos, esticou-os, deixando que assustassem Gordon, e depois os recolheu, pousando a mão no próprio colo.

Os olhos de Gordon estavam vermelhos e lacrimosos. Ainda rígido de indignação, ele tirou do bolso um enorme lenço amarfanhado e assoou o nariz, que tinha a frágil aparência de um bico de ave.

— Não — disse Ash, tranqüilo. — Acho que vou matá-lo agora.

— Não! Você nunca verá Tessa! — rebateu Gordon.

Ash debruçou-se sobre ele, bem de perto.

— Então, leve-me a ela, por favor, imediatamente, ou eu o estrangulo agora mesmo.

Gordon calou-se, mas só por um instante.

— Diga ao seu motorista que vá para o sul. Que saia de Londres na direção de Brighton. Não vamos até Brighton, mas por enquanto isso basta. Fica a uma hora e meia daqui.

— Então, temos tempo para conversar, não é? — perguntou a bruxa, Rowan. Sua voz era grave, quase rouca. Ela ofuscava a visão de Ash, refulgindo levemente no escuro do carro. Seus seios eram pequenos mas de belo formato sob as lapelas de seda do paletó decotado. — Conte-me como pôde fazer uma coisa dessas — disse ela a Gordon. — Matar Aaron. Você mesmo é um homem como Aaron.

— Eu não o matei — disse Gordon, amargurado. — Não queria que isso acontecesse. Foi um ato idiota e perverso. E aconteceu antes que eu pudesse impedi-lo. O mesmo com Yuri e o tiro. Não tive nada a ver com isso. Yuri, no café, quando lhe disse que estava preocupado com os riscos à sua vida, eu estava falando sério. Há certas coisas que simplesmente estão fora do meu controle.

— Quero que conte tudo agora — disse Michael Curry. Ele olhava para Ash enquanto falava. — Realmente não temos condições de conter esse nosso amigo aqui. E se tivéssemos, não o conteríamos.

— Não vou lhes contar nada — disse Gordon.

— Isso é tolice — opinou Rowan.

— Não, não é — respondeu Gordon. — É o único movimento que me resta. Eu lhes conto o que sei antes que vocês tenham acesso a Tessa e, quando vocês estiverem com ela, vão se livrar de mim na mesma hora.

— É provável que eu aja dessa forma, de qualquer maneira — disse Ash. — Você está comprando algumas horas de vida.

— Não tão rápido assim. Há muitas coisas que posso lhe revelar. Você não faz a menor idéia. Vai precisar de muito mais do que algumas horas.

Ash não respondeu.

Os ombros de Gordon relaxaram. Ele respirou fundo, encarando seus captores, um a um, novamente, antes de voltar a Ash. Ash havia se afastado até também ele estar no canto. Não queria a proximidade desse humano, desse humano nervosinho e perverso que ele sabia que acabaria matando.

Olhou para os seus dois bruxos. Rowan Mayfair estava sentada com a mão no joelho, quase igual a Ash, e agora erguia os dedos num gesto circular, talvez a lhe pedir que tivesse paciência.

O estalido de um isqueiro acendendo assustou Ash.

— Importa-se se eu fumar, Sr. Ash, neste seu carro elegante? — perguntou Michael Curry, do banco dianteiro. Sua cabeça já estava inclinada sobre o cigarro e a chama minúscula.

— Por favor, fique à vontade — disse Ash, com um sorriso cordial. Para seu espanto, Michael retribuiu com um sorriso. — Temos uísque no carro. Água e gelo. Alguém aceita um drinque?

— Eu aceito — disse Michael Curry, com um pequeno suspiro, soprando a fumaça do cigarro. — Mas em nome da boa conduta, esperarei até depois das seis.

E esse bruxo pode gerar o Taltos, pensou Ash, examinando o perfil de Michael Curry e suas feições ligeiramente toscas mas de proporções fascinantes. Sua voz tinha um vigor que sem dúvida atingia muitas coisas, pensou Ash. Olhe como ele observa os prédios por onde passamos. Nada lhe escapa.

Rowan Mayfair continuava a olhar exclusivamente para Ash.

Haviam acabado de sair da cidade.

— Esse é o caminho — disse Gordon, com a voz embargada. — Siga em frente até eu avisar.

O velho olhou ao longe como se estivesse verificando a posição geográfica, mas em seguida sua testa bateu com força na janela, e ele começou a chorar.

Ninguém falou. Ash apenas olhava para os bruxos. Pensou, então, na fotografia da bruxa ruiva e, quando deixou que seus olhos vagassem até Yuri, que estava sentado bem à sua frente, ao lado de Rowan, viu que os olhos de Yuri estavam fechados. Ele estava encolhido, encostado na lateral do carro, com a cabeça voltada para fora, e também derramava lágrimas, sem emitir praticamente nenhum som.

Ash inclinou-se para a frente para pousar a mão tranqüilizadora no joelho de Yuri.

 

ERA, TALVEZ, UMA DA TARDE quando Mona acordou no quarto da frente no andar superior, com os olhos voltados para os carvalhos do lado de fora da janela. Os galhos estavam cobertos de samambaias, verdes mais uma vez graças às recentes chuvas de primavera.

— Telefone para você — disse Eugenia.

Mona quase disse, Meu Deus, que bom que tem alguém por aqui. Mas ela não gostava de admitir para ninguém que havia sentido medo de fantasmas naquela casa famosa e que seus sonhos a estavam deixando profundamente perturbada.

Eugenia olhou de soslaio para a enorme e ondulante camisa branca de algodão que Mona estava usando. Qual era o problema? Era roupa para usar em casa, não era? Nos catálogos de compras, elas eram chamadas de Camisas de Poeta.

— Não devia estar dormindo com essa roupa bonita! — reclamou Eugenia. — E olhe só essas mangas lindas, tão amarrotadas. E essa renda, essa renda delicada!

Se ao menos ela pudesse dizer Suma daqui.

Eugenia, ela foi feita para ser amarrotada.

Na mão de Eugenia, havia um copo alto de leite, espumante e convidativo. E na outra mão, uma maçã num pequeno prato branco.

— Quem mandou isso? — perguntou Mona. — A Rainha Má?

É claro que Eugenia não sabia do que ela estava falando, mas isso não fazia diferença. Eugenia apontou novamente para o telefone. Mona estava a ponto de tirar o fone do gancho quando seu pensamento, desviando-se de volta para o sonho, descobriu que o sonho desaparecera. Como um véu que é arrancado, ele não deixou nada além de uma leve lembrança de textura e cor. E a certeza estranhíssima de que ela deveria chamar sua filha de Morrigan, nome que ela jamais havia ouvido antes.

— E se você for menino? — perguntou. Ela apanhou o fone.

Era Ryan. O enterro estava terminado, e a família Mayfair estava chegando à casa de Bea. Lily ia ficar lá alguns dias, da mesma forma que Shelby e tia Vivian. Cecilia estava na cidade alta, cuidando da Velha Evelyn, e tudo estava bem.

— Você poderia oferecer um pouco da tradicional hospitalidade de First Street a Mary Jane Mayfair por enquanto? — perguntou Ryan. — Só posso levá-la a Fontevrault amanhã. Além do mais, seria bom se você começasse a conhecê-la. E é claro que ela está apaixonada pela esquina de First e Chestnut e quer lhe fazer mil perguntas.

— Pode trazê-la — disse Mona. O leite estava tão bom! Era simplesmente o leite mais gelado que ela havia provado na vida, o que eliminava aquele sabor repugnante, que ela nunca apreciara. — Será um prazer ter sua companhia — prosseguiu. — Essa casa é assombrada, você tem razão.

Imediatamente, ela desejou não ter admitido esse fato, o de que ela, Mona Mayfair, fora assustada por fantasmas na grande mansão.

Ryan, no entanto, já enveredava pela trilha do dever e da organização e simplesmente continuou a explicar que Vovó Mayfair, lá em Fontevrault, estava aos cuidados do menino de Napoleonville, e que essa era uma boa oportunidade para convencer Mary Jane a sair daquela ruína e se mudar para a cidade.

— Essa menina precisa da família. Mas ela não precisa de nem mais um pouco de dor e aflição neste exato momento. Sua primeira visita de verdade transformou-se, por motivos óbvios, num desastre. Ela está em estado de choque devido ao acidente. Você sabe que ela presenciou o acidente todo. Quero tirá-la daqui...

— Bem, é claro, mas ela vai se sentir mais íntima de todos depois — disse Mona, encolhendo os ombros. Ela deu uma grande mordida, ruidosa e molhada, na maçã. Meu Deus, como estava com fome. — Ryan, você já ouviu o nome Morrigan?

— Acho que não.

— Nunca houve uma Morrigan Mayfair?

— Não que eu me lembre. É um antigo nome inglês, não é?

— Huumm. Você acha bonito?

— Mas e se for menino, Mona?

— Não é. Eu sei — disse ela. E depois se conteve. Como poderia afinal saber? Era o sonho, não era? E também podia ser o que desejaria que fosse realidade, o desejo de ter uma menina e de criá-la livre e forte, do jeito que as meninas quase nunca são criadas.

Ryan prometeu estar lá em dez minutos.

Mona sentou-se recostada nos travesseiros, olhando mais uma vez para as samambaias e os fragmentos de céu azul para além delas. A casa estava em silêncio à sua volta, tendo Eugenia desaparecido. Ela cruzou as pernas nuas, com a camisa facilmente encobrindo seus joelhos com a larga barra de renda. As mangas estavam horrivelmente amarrotadas, era verdade, mas e daí? Eram mansas dignas de um pirata. Quem poderia manter uma coisa daquelas em perfeito estado? Os piratas? Os piratas deviam andar por aí amarrotados. E Beatrice havia comprado uma tal quantidade dessas camisas! Mona imaginava que esse tipo de roupa devia ser considerado "juvenil". Bem, a camisa era bonita. Tinha até botões de pérola. Fazia com que ela se sentisse uma... uma pequena mamãe!

Ela riu. Puxa, essa maçã estava gostosa.

Mary Jane Mayfair. De certo modo, essa era a única pessoa na família que Mona talvez pudesse sentir entusiasmo em ver. Por outro lado, e se Mary Jane começasse a dizer todo tipo de coisa amalucada, típica de uma bruxa? E se ela começasse a disparar opiniões irresponsáveis? Mona não seria capaz de lidar com a situação.

Deu mais uma mordida na maçã. Isso vai ajudar nas carências vitamínicas, mas ela precisava tomar os suplementos que Annelle Salter lhe receitara. Bebeu o resto do leite num gole único e enorme.

— E Ofélia? — perguntou em voz alta. Seria certo dar a uma filha o nome da pobre louca, que se matou depois de ser rejeitada por Hamlet? Provavelmente não. Ofélia é meu nome secreto, pensou. E você vai se chamar Morrigan.

Inundou-a uma imensa sensação de bem-estar. Morrigan. Ela fechou os olhos e sentiu o cheiro do mar, ouviu as ondas que batiam com estrondo nos rochedos.

Acordou abruptamente com um ruído. Estivera dormindo e não sabia há quanto tempo. Ryan estava em pé ao lado da cama, e Mary Jane Mayfair estava com ele.

— Ah, desculpem — disse Mona, balançando as pernas para o lado da cama e dando a volta para cumprimentar os dois. Ryan já estava recuando para sair do quarto.

— Suponho que você saiba que Michael e Rowan estão em Londres. Michael disse que ligaria para você — declarou Ryan, e seguiu para descer a escada.

Cá estava Mary Jane.

Que diferença da tarde em que chegara jorrando diagnósticos para cima de Rowan. No entanto, era preciso que se lembrasse, pensou Mona, que aqueles diagnósticos estavam certos.

Os cabelos louros de Mary Jane caíam soltos e esplêndidos, como linho, sobre seus ombros, e seus seios volumosos pareciam empurrar a blusa justa do seu vestido branco de renda. Havia um pouco de lama, provavelmente do cemitério, nos sapatos altos de cor bege. Sua cintura era a mítica cintura fina da sulista.

— Ei, Mona, espero que isso não a atrapalhe, minha presença aqui — disse ela, agarrando imediatamente a mão direita de Mona e a sacudindo vigorosamente. Seus olhos azuis cintilavam enquanto ela olhava para Mona da sua aparentemente imensa altura de um metro e setenta, já de salto alto. — Olhe, posso me mandar daqui a qualquer hora que você queira. Pegar carona não é novidade para mim, isso eu posso lhe dizer. Chego a Fontevrault perfeitamente. Ei, olhe só, nós duas estamos usando renda branca, e você não está com a bata mais linda? Puxa, ela é simplesmente maravilhosa. Você está parecendo um sino branco de renda com cabelo vermelho. Olhe, será que posso ir ali fora na varanda da frente?

— Claro que pode. Estou feliz por você estar aqui — disse Mona. Sua mão estava pegajosa da maçã, mas Mary Jane não havia percebido.

Mary Jane vinha passando por ela.

— Você tem de empurrar essa janela para cima e sair abaixando a cabeça um pouco. Mas isso aqui não é bem um vestido. É um tipo de camisão ou coisa semelhante. — Ela gostava do caimento do tecido à sua volta. E adorava o jeito com que a saia de Mary Jane ia se alargando a partir daquela cinturinha.

Bem, essa não é uma hora adequada para ficar pensando em cinturas, certo?

Saiu atrás de Mary Jane. Ar puro. A brisa do rio.

— Depois, posso lhe mostrar meu computador e minhas opções para a bolsa de valores. Tenho um fundo mútuo que venho administrando há seis meses, e ele está rendendo milhões. Pena que eu não pude de fato comprar nenhuma das ações que escolhi.

— Estou ouvindo, querida — disse Mary Jane. Ela pôs as mãos na grade da varanda e olhou para a rua lá embaixo. — É uma senhora mansão. É, sem dúvida.

— Tio Ryan salienta que ela não é uma mansão, mas, na realidade, uma residência urbana — disse Mona.

— Bem, então ela é uma senhora residência urbana.

— É, e de uma senhora cidade.

Mary Jane riu, dobrando o corpo inteiro para trás, e depois se virou para olhar para Mona, que mal acabava de pisar na varanda.

De repente, examinou Mona dos pés à cabeça, como se alguma coisa tivesse causado alguma impressão nela, e depois ficou paralisada, encarando Mona nos olhos.

— O que houve? — perguntou Mona.

— Você está grávida.

— Ora, você só está dizendo isso por causa dessa camisa, bata ou sei lá o quê.

— Não, você está grávida.

— Bem, estou. Estou, sim. — O jeito de falar caipira dessa menina era contagioso. Mona pigarreou. — Quer dizer, todo mundo sabe. Ninguém lhe contou? Vai ser menina.

— Você acha? — Alguma coisa estava deixando Mary Jane sem jeito. Seria de se esperar que ela fosse gostar de se abater sobre Mona fazendo todos os tipos de previsões sobre o bebê. Não é isso o que se diz que as bruxas fazem?

— Você já recebeu os resultados do exame? — perguntou Mona. — Já sabe sobre a espiral em dupla hélice? — Era lindo aqui no alto das árvores. Dava-lhe vontade de descer para o jardim.

Mary Jane de fato a estava examinando com olhos semicerrados. Em seguida, seu rosto relaxou um pouco, com a pele bronzeada sem uma única imperfeição e, sobre os ombros, os cabelos louros, cheios porém lisos.

— É, eu tenho mesmo os genes — disse Mary Jane. — Você também tem, não é? — Mona fez que sim.

— Eles lhe disseram mais alguma coisa?

— Que provavelmente não faria diferença, que eu teria filhos saudáveis. Que todo mundo sempre tinha na família, a não ser por um incidente do qual ninguém se dispõe a falar.

— Huummm — disse Mona. — Ainda estou com fome. Vamos descer.

— É, vamos. Com a fome que estou, podia comer um boi!

Mary Jane parecia bastante normal quando as duas estavam chegando à cozinha. Falava sem parar de cada quadro e cada peça da mobília que via. Parecia que nunca estivera dentro da casa antes.

— Que grosseria inominável não a termos convidado a entrar — disse Mona. — Todos estavam preocupados com Rowan naquela tarde.

— Eu não espero convites elegantes de ninguém — disse Mary Jane. — Mas esta casa é linda! Olhe só essas pinturas nas paredes!

Mona não pôde deixar de sentir orgulho por Michael tê-la restaurado. E ocorreu-lhe de repente, como lhe ocorrera mais de cinqüenta milhões de vezes nessa última semana, que a casa um dia seria sua. Parecia que já era. Mas ela não deveria abusar disso, já que Rowan estava bem de novo.

Será que Rowan um dia estaria bem de verdade? Voltou-lhe à memória um relance, Rowan naquele costume elegante de seda negra, ali sentada, olhando para ela, com as sobrancelhas retas e escuras e os olhos grandes, duros, cinzentos, como pedras polidas.

Que Michael era o pai do bebê, que era ela quem estava grávida, que esse fato a vinculava a eles dois — de repente tudo isso a atingiu.

Mary Jane segurou uma das cortinas da sala de jantar.

— Renda — disse ela, baixinho. — Renda finíssima, não é? Tudo aqui é o melhor que se pode encontrar.

— Bem, acho que é isso mesmo.

— E você, também — disse Mary Jane. — Parece algum tipo de princesa, toda vestida de renda. Puxa, nós duas estamos usando renda. Estou adorando.

— Obrigada — disse Mona, um pouco perturbada. — Mas por que uma pessoa tão bonita quanto você ia notar alguém como eu?

— Não seja boba — disse Mary Jane, passando majestosa por ela para entrar na cozinha, com um gracioso menear de quadris e os saltos altos a bater no chão com importância. — Você é maravilhosa. Eu sou bonita. Sei que sou. Mas gosto de apreciar outras garotas bonitas. Sempre gostei.

Sentaram-se juntas à mesa de tampo de vidro. Mary Jane examinou os pratos que Eugenia estava pondo diante delas, segurando o seu contra a luz.

— Puxa, isso é porcelana verdadeira — disse ela. — Temos algumas peças em Fontevrault.

— Verdade? Vocês ainda têm esse tipo de coisa por lá?

— Querida, você ficaria pasma com o que temos no sótão. Puxa, temos prata, porcelana, cortinas velhas e caixas de retratos. Você precisava ver aquilo tudo. Aquele sótão é bem seco e quente também. Bem isolado lá no alto. Barbara Ann vivia lá. Sabe quem ela era?

— Sei, mãe da Velha Evelyn. E minha tataravó.

— Minha também — declarou Mary Jane, triunfal. — Não é incrível?

— É, sem dúvida. Faz parte de toda essa experiência de se pertencer à família. E você devia ver as árvores genealógicas em que tudo fica entrecruzado. Por exemplo, se eu me casasse com Pierce, com quem compartilho não só uma tataravó, mas também um bisavô, que ainda aparecesse... Puxa, é a coisa mais difícil de se acompanhar. Chega uma época na vida de cada membro da família em que a pessoa passa um ano inteiro a desenhar árvores genealógicas por toda a parte, só na tentativa de esclarecer quem está sentado ao seu lado no piquenique da família, sabe do que estou falando?

Mary Jane concordou, com um movimento de cabeça, as sobrancelhas erguidas, os lábios formando um sorriso. Estava usando um batom de um violeta esfumaçado, lindo de morrer. Meu Deus, eu agora sou mulher, pensou Mona. Posso usar toda essa droga, se quiser.

— Ora, todas as minhas coisas você pode pegar emprestado, se quiser — disse Mary Jane. — Tenho uma frasqueira, sabe??? Cheia de cosméticos que tia Bea comprou para mim. E todos eles da Saks Fifth Avenue e da Bergdorf Goodman de Nova York.

— Bem, é muita delicadeza sua. — Lê pensamentos. Cuidado.

Eugenia havia tirado vitela da geladeira, pequenos cortes macios para escalopinhos, que Michael havia separado para Rowan. Ela agora os fritava, como Michael lhe ensinara, com cogumelos fatiados e cebolas, tudo já preparado em saquinhos plásticos.

— Puxa, que cheirinho delicioso, não é? — disse Mary Jane. — Eu não pretendia ler seus pensamentos. Só que isso acontece.

— Não ligo para isso, não tem importância. Desde que nós duas saibamos que há muita possibilidade de erro; que é fácil um engano de interpretação.

— Ah, sem a menor dúvida — disse Mary Jane.

Olhou, então, mais uma vez para Mona, como havia olhado no andar superior. Estavam sentadas uma diante da outra, exatamente como Rowan e Mona antes, só que Mona estava agora no lugar de Rowan, e Mary Jane no de Mona. Mary Jane olhava para um garfo de prata e, de repente, ficou imóvel, forçou os olhos e olhou para Mona.

— O que houve? — perguntou Mona. — Você está me olhando como se houvesse algum problema.

— Todo mundo fica simplesmente olhando para a gente quando se está grávida. Sempre fazem isso. Assim que sabem.

— Isso eu sei — disse Mona. — Mas tem alguma diferença no jeito que você está me olhando. Outras pessoas estão me dando olhares amorosos, lânguidos, olhares de ratificação, mas você...

— O que é ratificação?

— Aprovação — disse Mona.

— Preciso me instruir — disse Mary Jane, balançando a cabeça. Ela pôs o garfo sobre a mesa. — Qual é esse faqueiro?

— Sir Christopher — respondeu Mona.

— Você acha que é tarde demais para eu um dia conseguir ser uma pessoa realmente instruída?

— Não — disse Mona. — Você é inteligente demais para permitir que um começo tardio a desestimule. Além disso, você já é instruída. Só que recebeu uma formação diferente. Eu nunca estive nos lugares em que você esteve. Nunca tive a responsabilidade.

— Bem, eu mesma nem sempre quis tê-la. Sabia que eu matei um homem? Eu o empurrei de uma escada de incêndio em San Francisco, e ele caiu num beco quatro andares abaixo, fraturando a cabeça.

— Por que você fez isso?

— Ele estava querendo me machucar. Ele me aplicou heroína e começou a bater em mim e dizer que ele e eu íamos ser amantes. Era um maldito gigolô. Eu o empurrei da escada de incêndio.

— E alguém a perseguiu?

— Não — disse Mary Jane, abanando a cabeça. — Nunca contei essa história para mais ninguém da família.

— Eu também não vou contar. Mas esse tipo de força não é raro na família. Quantas meninas você acha que esse gigolô tinha posto nas ruas? É assim que se diz, não é?

Eugenia as servia e as ignorava. A vitela estava com ótima aparência, bem-passada e suculenta, com um leve molho de vinho. Mary Jane baixou a cabeça, concordando.

— Um monte de meninas, umas idiotas.

Eugenia serviu uma salada fria de batatas e ervilhas, mais uma criação de Michael Curry, temperada com azeite e alho. Eugenia pôs uma boa colherada no prato de Mary Jane.

— Será que tem mais leite? — perguntou Mona. — O que você vai beber, Mary Jane?

— Coca-Cola, por favor, Eugenia, se não se importa, mas eu mesma posso me levantar para apanhar na geladeira.

Eugenia ficou indignada com a sugestão, especialmente por ter partido de uma prima desconhecida que era evidentemente uma perfeita caipira. Ela trouxe a lata e o copo com gelo.

— Coma, Mona Mayfair! — disse Eugenia. Ela serviu o leite da caixa. — Ande, vamos!

A carne parecia horrível a Mona. Ela não conseguia entender por quê. Adorava esse tipo de comida. Assim que o prato foi posto diante dela, porém, ela começou a sentir repugnância. Talvez fosse só a costumeira crise de enjôo, pensou. E isso prova que estou na época certa. Annelle dissera que o enjôo começaria por volta da sexta semana. Quer dizer, antes de declarar que o bebê era um monstro de três meses.

Mona baixou a cabeça. Pequenos fiapos daquele último sonho vinham agora dominá-la, com muita tenacidade e cheios de associações que simplesmente se afastavam dela a jato assim que ela tentava captá-las, segurá-las e desvendar o próprio sonho.

Ela se recostou e tomou o leite devagar.

— Pode deixar a caixa — disse a Eugenia, que a rondava, solene e enrugada, olhando furiosa para ela e para seu prato intocado.

— Ela vai comer o que precisar comer, não é? — perguntou Mary Jane, solícita. Boazinha. Ela já estava devorando sua vitela e atacando ruidosamente cada pedacinho de cogumelo e cebola que conseguia encontrar com o garfo.

Afinal, Eugenia foi se afastando.

— Ei, quer isso? — perguntou Mona. — Pode ficar para você. Eu nem toquei nele — disse ela, empurrando o prato na direção de Mary Jane.

— Tem certeza que não quer?

— Está me embrulhando o estômago. — Ela se serviu mais um copo de leite. — Bem, eu nunca fui grande fã de leite, sabe? Talvez porque a geladeira lá em casa nunca o mantivesse gelado. Mas isso está mudando. Tudo está mudando.

— Ah, sim, e como? — perguntou Mary Jane, com os olhos bem abertos. Ela bebeu a Coca inteira sem parar para respirar. — Posso me levantar para apanhar mais uma?

— Claro — respondeu Mona.

Ela ficou olhando Mary Jane ir saltitante até a geladeira. Seu vestido era rodado apenas o suficiente para fazer pensar no de uma menininha. Suas pernas tinham músculos bem torneados, graças aos saltos altos, embora também tivessem parecido bem torneadas no outro dia, quando ela estava usando sapatos sem salto.

Ela se jogou de novo na cadeira e começou a devorar a oferenda de Mona.

Eugenia enfiou a cabeça pela porta que dava para a despensa.

— Mona Mayfair, você não comeu nada. Você vive de batata frita e comida que não alimenta!

— Suma daqui! — disse Mona com firmeza. Eugenia desapareceu.

— Mas ela só está tentando ser maternal, esse tipo de coisa — protestou Mary Jane. — Por que gritou com ela?

— Não quero que ninguém venha dar uma de maternal para cima de mim. Além do mais, ela não é maternal. Ela é uma praga. Ela acha... acha que eu não sou uma boa pessoa. É uma história comprida demais para explicar. Ela está sempre ralhando comigo.

— É, bem, quando o pai do bebê tem a idade de Michael Curry, sabe, as pessoas ou põem a culpa em você ou nele.

— Como você sabia disso?

Mary Jane parou de comer e olhou para Mona.

— Bem, ele é o pai, não é? Eu como que imaginei que você gostava dele no primeiro dia que vim aqui. Não pretendia deixar você zangada. Achei que estivesse feliz com a idéia. Não paro de sentir essa vibração de que você está realmente feliz por ele ser o pai.

— Não tenho certeza.

— Ah, é ele — disse Mary Jane. Ela fisgou o último pedaço de vitela com o garfo, levantou-o, enfiou-o na boca e o mastigou com prazer. Suas bochechas lisas e bronzeadas trabalhavam furiosamente sem a menor linha, ruga ou deformação. Era uma bela garota. — Eu sei — declarou, assim que havia engolido um naco de carne mastigada de tamanho suficiente para ficar preso na sua traquéia e sufocá-la até a morte.

— Olhe — disse Mona. — Essa é uma coisa que ainda não contei a ninguém e...

— Todo mundo sabe — disse Mary Jane. — Bea sabe. Foi Bea quem me contou. Você sabe o que vai salvar Bea? Aquela mulher vai superar a dor da perda de Aaron por um simples motivo. Ela nunca pára de se preocupar com todos os outros. Ela está preocupada de verdade com você e Michael Curry, porque ele tem os genes, como todo mundo sabe, e ele é marido de Rowan. Mas ela diz que aquele cigano por quem você se apaixonou simplesmente não combina com você. Que a mulher certa para ele é de outro tipo, alguém rebelde, sem lar, sem família, como ele mesmo.

— Ela disse tudo isso?

Mary Jane fez que sim. De repente, ela percebeu o prato de pão que Eugenia havia preparado para elas, fatias de pão branco.

Mona não considerava esse tipo de pão próprio para consumo. Ela só comia pão francês, pãezinhos ou qualquer pão preparado corretamente para acompanhar uma refeição. Pão fatiado! Pão branco fatiado!

Mary Jane apanhou a fatia de cima, amassou-a e começou a limpar com ela o molho da vitela.

— É, ela disse tudo isso — prosseguiu Mary Jane. — Contou a tia Viv, a Polly e a Anne Marie. Parecia não estar sabendo que eu estava ouvindo. Mas o que eu quero dizer é que isso vai salvá-la, o fato de ter a mente tão ocupada com a família, como ter de ir a Fontevrault para me fazer sair de lá.

— Como podem todos eles saber disso a respeito de Michael e de mim?

Mary Jane deu de ombros.

— Você me pergunta? Querida, esta é uma família de bruxos, você devia saber disso melhor do que eu. Uma infinidade de meios com os quais eles poderiam ter descoberto. Mas, pensando bem, a Velha Evelyn deu com a língua nos dentes com Viv, se não estou enganada. Alguma história de você e Michael estarem aqui sozinhos?

— É — disse Mona com um suspiro. — Grande coisa. Não preciso contar para eles. Melhor assim. — Mas se eles começarem a ser cruéis com Michael, se começarem a tratá-lo de algum jeito diferente, se começarem...

— Ora, acho que você não precisa se preocupar com isso. Como eu disse, quando se trata de um homem e uma menina da sua idade, vão culpar um ou outro, e acho que estão culpando você. Quer dizer, não de algum jeito perverso, não, eles só dizem coisas do tipo, "O que Mona quer Mona consegue", e "Coitado do Michael". E sabe, coisas como, "Bem, se ele se levantou daquela cama e se sentiu melhor, pode ser que Mona tenha o dom da cura".

— Maravilha — disse Mona. — No fundo, é exatamente assim que eu mesma encaro a situação.

— Sabe, você é muito forte — disse Mary Jane.

O molho da vitela acabou. Mary Jane comeu a fatia seguinte pura Fechou os olhos com um sorriso deliberado de satisfação. Seus cílios estavam todos esfumaçados num leve tom de violeta, bem parecido com o do batom, na verdade, porém muito sutil, lindo e charmoso. Seu rosto era praticamente perfeito.

— Agora eu sei com quem você se parece! — exclamou Mona. — Você é parecida com a Velha Evelyn, quer dizer, nos retratos dela de mocinha.

— Bem, isso faz sentido, não faz? Já que nós duas somos descendentes de Barbara Ann.

Mona serviu o restante do leite no seu copo. Ainda estava deliciosamente gelado. Talvez ela e o bebê pudessem sobreviver só de leite, ela não tinha certeza.

— O que você quis dizer com muito forte? — perguntou Mona. — O que quis dizer com isso?

— Quero dizer que você não se ofende com facilidade. A maior parte do tempo, se eu falar desse jeito, sabe, com total franqueza, sem segredos, num verdadeiro esforço para conhecer melhor alguém??? Sabe??? A pessoa fica ofendida.

— Não é de se admirar — disse Mona. — Mas você não me ofende.

Mary Jane olhava faminta para a última fatia de pão branco, fina e abandonada.

— Pode ficar com ela — disse Mona.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Mary Jane apanhou a fatia, partiu-a ao meio e começou a fazer uma bola com o miolo macio.

— Cara, adoro pão desse jeito. Quando eu era pequena??? Sabe??? Costumava pegar um pão inteiro e fazer bolinhas com ele.

— E a casca?

— Fazia bolinhas com ela também — disse Mary Jane, abanando a cabeça num enlevo nostálgico. — Bolinhas com tudo.

— Uau — disse Mona, em tom neutro. — Sabe de uma coisa, você é realmente a combinação mais provocante do mundano com o misterioso, com a qual já me deparei.

— Lá vai você se exibir — disse Mary Jane. — Mas eu sei que sua intenção não é má. Você só quer me provocar, não é? Sabia que, se mundano começasse com b, eu saberia seu significado?

— Verdade? Por quê?

— Porque cheguei à letra b nos meus estudos de vocabulário — disse Mary Jane. — Venho trabalhando no sentido de me instruir de alguns modos diferentes. Gostaria de saber o que acha deles. Veja só o que eu faço. Arranjo um dicionário de letras bem grandes??? Sabe??? Do tipo para velhinhas com vista cansada??? Recorto as palavras da letra b, o que já me familiariza com elas de cara, sabe? Recorto cada uma com a definição e depois jogo todas as bolinhas de papel... epa, lá vamos nós de novo — riu ela. — Bolas, mais bolas.

— Deu para eu perceber — disse Mona. — Nós, menininhas, simplesmente somos todas obcecadas por elas, não somos?

Mary Jane decididamente uivou de tanto rir.

— Isso está saindo melhor do que eu esperava — disse Mona. — As meninas da escola apreciam meu humor, mas quase ninguém da família ri das minhas piadas.

— As suas piadas são bem engraçadas — disse Mary Jane. — Isso porque você é um gênio. Imagino que haja dois tipos, os providos de senso de humor e os desprovidos.

— Mas e todas aquelas palavras da letra b, recortadas e enroladas em bolinhas?

— Bem, eu ponho as bolinhas num chapéu, sabe??? Igual a nomes num sorteio.

— Entendi.

— E então eu tiro uma de cada vez. Se for alguma palavra que ninguém usa, sabe, como batráquio?? Eu simplesmente jogo fora. Mas, se for uma palavra boa, como beatitude, "estado de suprema felicidade"???? Bem, eu decoro a palavra na mesma hora.

— Huumm, parece um método bem razoável. Imagino que seja mais provável você decorar as palavras que aprecie.

— Ah, é verdade, mas no fundo eu me lembro de quase tudo, sabe?? Espertinha como eu sou? — Mary Jane jogou na boca a bolinha de miolo e começou a pulverizar a casca vazia.

— Até mesmo o significado de batráquio? — perguntou Mona.

— "Anfíbio saltador desprovido de cauda" — respondeu Mary Jane. Ela mordiscou a bola de casca.

— Ei, escute, Mary Jane, tem muito pão nesta casa. Você pode comer quanto quiser. Ali, uma fôrma bem em cima do balcão. Vou apanhar para você.

— Fique sentada! Você está grávida. Eu apanho! — protestou Mary Jane. Levantou-se de um salto, estendeu a mão para o pão, segurou-o pela embalagem plástica e o deixou cair sobre a mesa.

— E manteiga? Você não quer manteiga? Está bem aqui.

— Não, eu me condicionei a comer pão sem manteiga para economizar, e não quero voltar para a manteiga, porque vou começar a sentir falta dela e o pão não vai parecer tão gostoso. — Ela arrancou uma fatia de dentro do plástico e a amassou ao meio.

— A questão é que eu vou me esquecer de batráquio se não usar a palavra, mas beatitude eu vou usar e nunca me esquecer.

— Entendi. Por que você estava me olhando daquele jeito?

Mary Jane não respondeu. Lambeu os lábios, soltou alguns fragmentos de pão macio e os comeu.

— Esse tempo todo, você se lembrava de que estávamos falando disso, não é?

— É.

— O que você acha do seu bebê? — perguntou Mary Jane, e dessa vez ela parecia preocupada e como que protetora, ou pelo menos sensível aos sentimentos de Mona.

— Poderia haver alguma coisa errada com ele.

— É — concordou Mary Jane. — É isso o que eu imagino.

— Ele não vai ser alguma espécie de gigante — disse Mona rapidamente, apesar de, a cada palavra, achar mais difícil prosseguir. — Não se trata de nenhum monstro ou coisa semelhante. Mas talvez alguma coisa tenha dado errado nele; os genes fazem alguma combinação e... alguma coisa pode sair errado.

Ela respirou fundo. Essa podia ser a pior dor mental que ela jamais sentira. Toda a sua vida ela tivera preocupações: com a mãe, com o pai, com a Velha Evelyn, com as pessoas que amava. E conhecera muita dor, especialmente nos últimos tempos. Mas essa preocupação com o bebê era totalmente diferente. Despertava nela um medo tão intenso que era uma agonia. Ela percebeu que havia posto a mão na barriga de novo.

— Morrigan — sussurrou. Algo se mexeu dentro dela, e ela olhou para baixo apenas movendo os olhos, em vez da cabeça.

— O que houve? — perguntou Mary Jane.

— Estou me preocupando demais. Não é normal pensar que há algo de errado com o bebê da gente?

— É, é normal — respondeu Mary Jane. — Mas esta família tem muita gente com a espiral em dupla hélice, e ninguém teve bebês horríveis e deformados, certo? Quer dizer, você sabe, qual é a estatística de todos esses cruzamentos de espirais em dupla hélice?

Mona não respondeu. Estava pensando. Que diferença faz? Se este bebê não for saudável, se este bebê... Percebeu que estava olhando para as plantas lá fora. Ainda era o início da tarde. Pensou em Aaron na cripta semelhante a uma gaveta no mausoléu, jazendo um nível acima de Gifford. Bonecos de cera de gente, cheios de líquidos. Não era Aaron. Não era Gifford. Por que Gifford estaria cavando um buraco num sonho?

Ocorreu-lhe uma idéia louca, perigosa e sacrílega, mas no fundo não tão surpreendente. Michael não estava lá. Rowan não estava lá. Naquela noite ela podia sair até o jardim sozinha, quando ninguém estivesse acordado na propriedade, e podia desenterrar os restos daqueles dois que jaziam à sombra do carvalho. Poderia ver com os próprios olhos o que estava ali.

O único problema era que ela sentia pavor de fazer isso. Ao longo dos anos, vira uma quantidade de cenas em filmes de terror nas quais as pessoas faziam esse tipo de coisa, iam passeando até o cemitério para desenterrar um vampiro, ou iam lá à meia-noite só para descobrir quem estava em qual túmulo. Ela jamais acreditara nessas cenas, especialmente se a pessoa agia assim sozinha. Era simplesmente por demais assustador. Para desenterrar um corpo, era preciso ter muito mais coragem do que Mona tinha.

Ela olhou para Mary Jane. Mary Jane parecia ter terminado seu banquete de pão e estava só ali sentada, de braços cruzados, olhando com firmeza para Mona, de um jeito que era ligeiramente perturbador, já que os olhos de Mary Jane haviam assumido aquele brilho sonhador que os olhos apresentam quando a mente está divagando, um olhar que não era vazio, mas concentrado, de uma forma ilusoriamente séria.

— Mary Jane?

Ela esperava ver a outra ter um sobressalto, como que acordar e imediatamente revelar aquilo em que estava pensando. Mas nada disso aconteceu. Mary Jane simplesmente continuou a olhar para ela, exatamente do mesmo jeito.

— O que é, Mona? — perguntou, sem a menor alteração no rosto.

Mona levantou-se. Foi na direção de Mary Jane e parou bem ao lado da prima, olhando para ela, enquanto Mary Jane continuava a encará-la com aqueles mesmos olhos grandes e assustadores.

— Toque aqui neste bebê, pode tocar, não fique com vergonha. Diga-me o que está sentindo.

Mary Jane desviou o olhar para a barriga de Mona e começou a estender a mão muito devagar, como se fosse fazer o que Mona lhe pedia. De repente, ela recolheu a mão com violência. Levantou-se da cadeira, afastando-se de Mona. Parecia preocupada.

— Acho que não devíamos fazer isso. Não vamos fazer nenhuma bruxaria com esse bebê. Você e eu somos bruxinhas. Você sabe, nós somos mesmo. E se a bruxaria puder, sabe, ter algum efeito sobre ele???

Mona suspirou. De repente não tinha mais vontade de falar nisso; a sensação de medo era dolorosa demais, extenuante demais, e já bastava.

A única pessoa no mundo que poderia responder às suas perguntas era Rowan, e Mona teria de fazer essas perguntas, mais cedo ou mais tarde, porque já sentia o bebê agora, e isso era totalmente impossível realmente, sentir um bebê mexendo desse jeito, mesmo esse movimento ínfimo, quando o bebê estava com apenas seis, dez ou mesmo doze semanas de vida.

— Mary Jane, preciso ficar sozinha agora. Não quero ser grosseira. É só que o bebê está me deixando preocupada. Essa é a pura verdade.

— Você é tão carinhosa de me dar explicações. Vá em frente. Vou subir, está bem? Ryan??? Ele pôs minha mala no quarto de tia Viv, sabe??? Vou ficar lá.

— Pode usar meu computador se quiser — disse Mona. Ela deu as costas a Mary Jane e voltou a olhar para o jardim. — Ele está na biblioteca. Há uma quantidade de programas disponíveis. Ele entra direto no WordStar, mas é simples passar para o Windows ou para o Lotus 1-2-3.

— É, isso eu sei fazer. Cabeça fria, Mona. Me chame, se precisar de mim.

— Chamo, sim. Eu... — Ela deu meia-volta. — Eu estou gostando de verdade de ter você aqui, Mary Jane. Ninguém sabe quando Rowan ou Michael estarão de volta.

E se eles nunca mais voltassem? O medo crescia, abrangendo todas as coisas aleatórias que lhe ocorriam. Bobagem. Eles iam voltar. Mas é claro que eles haviam partido à procura de pessoas que podiam muito bem querer feri-los...

— Querida, vamos, não se preocupe — disse Mary Jane.

— É — disse Mona, abrindo a porta.

Saiu a vaguear pela calçada de lajes e na direção do jardim dos fundos. Ainda estava cedo, e o sol alto brilhava sobre o gramado embaixo do carvalho, como na realidade continuaria brilhando até bem tarde. A hora melhor, mais quentinha no jardim dos fundos.

Ela caminhou pela grama. Tinha de ser aqui que eles estavam enterrados. Michael trouxera mais terra para o lugar, e aqui crescia a grama mais nova e mais tenra.

Ajoelhou-se e se esticou de bruços na terra, sem ligar para o fato de que a terra estava sujando sua linda camisa branca. Tinha tantas dessas. Era isso o que queria dizer ser rico, e ela já sentia os efeitos: ter tanto de tudo, e não ter de usar sapatos furados. Ela enfiou o rosto na grama e na terra fresca, e sua manga direita franzida era como um grande pára-quedas caído dos céus ao seu lado. Fechou os olhos.

Morrigan, Morrigan, Morrigan... As embarcações cruzavam o mar, com archotes acesos. Mas os rochedos pareciam tão perigosos. Morrigan, Morrigan, Morrigan... É, era esse o sonho! A fuga da ilha para a costa norte. Os rochedos eram o perigo, assim como os monstros das profundezas que viviam nos braços de mar.

Ela ouviu o barulho de alguém cavando. Estava bem acordada com os olhos fixos além da grama nos distantes lírios alaranjados, nas azaléias.

Ninguém estava cavando. Imaginação. É você quem quer desenterrá-los, sua bruxinha, disse a si mesma. Tinha de admitir que era divertido brincar de bruxa com Mary Jane Mayfair. É, foi bom ela ter vindo. Pode comer mais pão.

Seus olhos foram se fechando. Aconteceu uma coisa linda. O sol bateu nas suas pálpebras, como se algum grande galho ou nuvem tivesse acabado de liberá-lo, e a luz tornou a escuridão um laranja brilhante. E ela sentiu o calor a inundar todo o seu corpo. Dentro dela, dentro da barriga que ainda lhe permitia dormir de bruços, a criatura se mexeu mais uma vez. Meu bebê.

Alguém estava cantando novamente a canção de ninar. Puxa, aquela devia ser a canção de ninar mais antiga do mundo. Aquilo era inglês antigo, ou seria latim?

Preste atenção, disse Mona. Quero ensiná-la a usar o computador antes dos quatro anos de idade, e quero que tenha em mente que não existe nada que possa impedi-la de ser aquilo que você um dia queira ser, está me ouvindo?

O bebê ria sem parar. Dava saltos mortais, esticava seus pequenos bracinhos e perninhas e ria a mais não poder. Parecia um minúsculo "anfíbio saltador, desprovido de cauda". Mona também não conseguia parar de rir.

— É isso o que você é! — dizia ela ao bebê.

E então veio a voz de Mary Jane, agora em puro sonho, e num certo plano Mona sabia, sabia, sim, porque Mary Jane estava toda vestida como a Velha Evelyn, em trajes de senhora de idade, um vestido de gabardine e sapatos de amarrar, é, era positivamente um sonho. E a voz de Mary Jane dizia:

— É mais do que isso, querida. É melhor você tomar sua decisão rapidinho.

 

— OLHE, ESQUEÇA O QUE FEZ, ESSA FUGA — disse Tommy. Estavam voltando para a casa-matriz, por insistência de Tommy. — Temos de nos comportar como se não tivéssemos culpa de nada. Todas as provas desapareceram; a interceptação está destruída. Eles não vão conseguir associar nenhum telefone a qualquer outro. Mas nós temos de voltar para lá e temos de nos comportar como se nada tivesse acontecido. Precisamos demonstrar consideração pela morte de Marcus, só isso.

— Vou alegar que estava preocupadíssimo com Stuart — disse Marklin.

— É, é exatamente isso o que você deve dizer. Você estava preocupado com Stuart. Stuart estava sofrendo de uma terrível tensão.

— Talvez nem tenham percebido, quer dizer, pode ser que os mais velhos nem tenham se dado conta de que eu cheguei a sair.

— E, sem encontrar Stuart, você agora voltou para casa. Percebeu? Você voltou para casa.

— E depois?

— Isso depende deles — disse Tommy. — Não importa o que aconteça, devemos permanecer lá para não despertar suspeitas. Nossa atitude é simplesmente a de perguntar: "O que aconteceu? Será que ninguém sabe explicar?"

Marklin concordou.

— Mas onde está Stuart? — perguntou. Arriscou um olhar de relance na direção de Tommy. Tommy estava tão calmo quanto estivera em Glastonbury, quando Marklin teria caído de joelhos diante de Stuart para lhe implorar que voltasse.

— Ele foi se encontrar com Yuri, só isso. Stuart não está sob suspeita, Mark. Você é que pode estar sob suspeita em decorrência do seu modo de fugir. Agora, fique firme, meu velho, temos de representar muito bem.

— Por quanto tempo?

— Como eu poderia saber? — perguntou Tommy, com a mesma voz calma. — Pelo menos até dispormos de alguma razão natural para voltar a sair. Voltamos então para meu apartamento em Regent's Park e tomamos uma decisão. A brincadeira terminou? O que temos a perder se permanecermos na Ordem? O que temos a ganhar?

— Mas quem foi que matou Anton?

Tommy abanou a cabeça. Agora estava observando a estrada como se Marklin precisasse de um co-piloto. E Marklin não tinha tanta certeza assim de não estar precisando. Se não conhecesse o trajeto de cor, não tinha certeza de que teria conseguido cobri-lo.

— Não sei se devíamos voltar para lá — disse Marklin.

— Bobagem. Eles não fazem a menor idéia do que realmente aconteceu.

— Como você sabe? — perguntou Marklin. — Meu Deus, Yuri pode ter contado! Tommy, quer fazer o favor de usar a cabeça? Talvez não seja saudável ficar tão calmo diante de tudo isso. Stuart foi se encontrar com Yuri, e o próprio Yuri pode estar na casa-matriz agora.

— Você não acha que Stuart teria o bom senso de dizer a Yuri que se mantivesse afastado? Que havia algum tipo de conspiração, cuja extensão Stuart desconhecia?

— Acho que você teria o bom senso de dizer isso, e talvez eu tivesse, mas não tenho certeza quanto a Stuart.

— E daí, se Yuri estiver lá? Eles sabem da conspiração, mas não sabem de nós! Stuart não falaria a Yuri a nosso respeito, não importa o que acontecesse. É você quem não está pensando. O que Yuri tem a dizer? Ele vai fornecer dados adicionais sobre o que aconteceu em Nova Orleans; e, se isso ficar registrado... Sabe, acho que vou me arrepender de ter destruído a interceptação.

— Eu não me arrependo! — disse Marklin. Estava ficando irritado com a atitude calculista de Tommy, com seu otimismo absurdo.

— Você está com medo de não conseguir levar isso a cabo? — perguntou Tommy. — Está com medo de não resistir, igualzinho a Stuart? Mas, Marklin, você tem de compreender que Stuart esteve na Talamasca a vida inteira. O que é a Talamasca para você ou para mim? — Tommy deu um risinho indiferente. — Cara, eles realmente se enganaram conosco, não é verdade, irmão?

— Não, não se enganaram — respondeu Marklin. — Stuart sabia exatamente o que estava fazendo, que nós teríamos a coragem de executar planos que ele jamais conseguiria realizar. Stuart não se enganou. O erro foi alguém ter assassinado Anton Marcus.

— E nenhum de nós ter ficado por ali tempo suficiente para descobrir algo sobre essa pessoa, esse crime, esse acidente fortuito. Você tem consciência de que foi acidental, não tem?

— Claro que tenho. Estamos livres de Marcus. Acabou-se. Mas o que aconteceu no instante do assassinato? Elvera conversou com o assassino. O assassino disse coisas a respeito de Aaron.

— Não seria simplesmente fantástico se o intruso fosse alguém da família Mayfair? Um bruxo do mais alto calibre? Vou lhe dizer, quero ler todo o dossiê das Bruxas Mayfair de cabo a rabo. Quero saber tudo sobre essa gente! Estive pensando. Deve haver algum meio de reivindicar na justiça os papéis de Aaron. Você conhece Aaron. Ele registrava tudo por escrito. Deve ter deixado caixas de documentos. Elas devem estar em Nova Orleans.

— Você está se adiantando demais, Tommy. Yuri pode estar lá, Stuart pode ter perdido o controle. Eles podem saber de tudo.

— Tenho sérias dúvidas — disse Tommy, com um ar de quem quer meditar sobre coisas mais importantes. — Marklin, a entrada!

Marklin quase havia passado direto e, quando desviou a direção, entrou na frente de outro carro, que cedeu passagem. Marklin seguiu adiante, acelerado. Dentro de segundos, estava longe da rodovia, percorrendo a estrada secundária. Relaxou, só então percebendo que havia se preparado tanto para um acidente que seu maxilar doía da tensão dos dentes cerrados.

Tommy olhava com raiva para ele.

— Veja se me esquece! — disse Marklin, de repente, sentindo o calor atrás dos olhos que sempre significava que ele estava totalmente furioso, e não havia percebido isso perfeitamente. — Não sou eu o problema aqui, Tommy. São eles! Agora relaxe. Vamos agir com naturalidade. Nós dois sabemos o que fazer.

Tommy virou a cabeça lentamente enquanto passavam pelos portões da frente do parque.

— Todo mundo da Ordem deve estar aqui. Nunca vi tantos carros — comentou Marklin.

— Estaremos com sorte se não tiverem requisitado nossos aposentos para algum octogenário cego e surdo de Roma ou de Amsterdã — disse Tommy.

— Espero que tenham feito isso. É uma perfeita desculpa para entregar tudo à velha guarda e dar o fora, cheios de consideração.

Marklin parou o carro a alguns metros do encarregado do estacionamento, que estava ocupado encaminhando o automóvel à sua frente para uma vaga muito distante, do outro lado da cerca-viva. Em todos esses anos, Marklin jamais havia visto carros estacionados em fileiras cerradas do outro lado da cerca. Saltou e atirou as chaves para o encarregado.

— Quer por favor estacionar para mim, Harry? — disse ele, separando algumas notas de libra, suborno suficiente para superar todas as objeções a essa violação dos costumes. Dirigiu-se, então, para as portas da frente da casa.

— Por que cargas d'água foi fazer isso? — perguntou Tommy, alcançando-o. — Procure seguir as normas, por favor. Não chame atenção para si mesmo. Não diga nada. Não faça nada que possa atrair atenção para você, estamos de acordo?

— Você mesmo está nervoso demais — disse Marklin, irritado.

As portas da frente estavam abertas. O saguão estava apinhado de homens e mulheres; o ar, denso com a fumaça de charutos e o ambiente, decididamente ensurdecedor com as vozes das pessoas. A impressão era a de um velório concorrido ou de um intervalo no teatro.

Marklin parou. Todos os instintos lhe diziam que não entrasse. E a vida inteira ele havia acreditado nos seus instintos, tanto quanto na sua inteligência.

— Vamos, homem — disse Tommy, entre dentes, insistindo para que Marklin avançasse.

— Olá, como vão — disse um senhor de expressão animada, que se voltou para cumprimentá-los. — E quem são vocês?

— Noviços — disse Marklin. — Tommy Monohan e Marklin George. Estão permitindo a entrada de noviços?

— Claro, claro — disse o homem, abrindo caminho. A multidão acotovelava-se às suas costas. Alguns rostos voltaram-se na sua direção e se afastaram, indiferentes. Uma mulher estava cochichando no ouvido de um homem do outro lado do portal e, quando seus olhos encontraram os de Marklin, ela emitiu uma pequena exclamação de surpresa e tristeza.

— Tudo isso está errado — disse Marklin, baixinho.

— É claro que todos deveriam estar aqui — disse o homem jovial. — Todos os jovens deveriam estar presentes. Quando acontece uma coisa dessas, todos são chamados de volta para casa.

— Eu me pergunto por que motivo — disse Tommy. — Ninguém gostava de Anton.

— Cale-se — disse Marklin. — É incrível, não é, como as pessoas, por exemplo você e eu, reagem sob pressão?

— Não, infelizmente, não é nem um pouco incrível.

Eles foram abrindo caminho em meio à multidão. Rostos estranhos à direita e à esquerda. Por toda a parte, gente bebendo vinho e cerveja. Ele ouvia francês, italiano, e até alguns falando holandês.

Lá estava Joan Cross, sentada, no primeiro dos salões cerimoniais, cercada por rostos desconhecidos para Marklin, mas todos eles mergulhados em conversas sérias.

Nem sombra de Stuart.

— Está vendo? — disse Tommy, sussurrando junto ao seu ouvido. — Eles estão agindo da forma natural depois que alguém morre. Reúnem-se, conversam, como se fosse uma festa. Agora é isso o que temos de fazer. O que for natural. Está me entendendo?

Marklin fez que sim, mas não estava gostando daquilo, nem um pouco. Olhou para trás de relance, procurando encontrar a porta, mas parecia que a porta havia sido fechada e, fosse como fosse, a multidão impedia sua visão. Não estava vendo nada. Na realidade, ocorreu-lhe ser estranha a presença de tantos rostos estranhos, e ele quis dizer algo a Tommy, mas Tommy havia se afastado.

Tommy estava batendo papo com Elvera, concordando com movimentos de cabeça enquanto Elvera lhe explicava alguma coisa. Ela estava tão deselegante quanto sempre, com o cabelo grisalho preso num coque junto à nuca e os óculos sem aro mais ou menos no meio do nariz. Enzo estava ao seu lado, aquele italiano de aparência pouco confiável. Onde estaria seu irmão gêmeo?

Que horrível passar a vida inteira neste lugar, pensou. Ele ousaria perguntar por Stuart? Sem dúvida, não ousava perguntar por Yuri, embora estivesse claro que ele sabia. Ansling e Perry lhe haviam falado do telefonema de Yuri. Meu Deus, o que ele devia fazer? E onde estariam Ansling e Perry?

Galton Penn, um dos outros noviços, vinha abrindo caminho na direção de Marklin.

— Ei, você, Mark. O que acha disso tudo?

— Bem, não sei se as pessoas estão falando nisso aqui — disse Marklin. — Mas a verdade é que não prestei atenção.

— Vamos falar agora, cara, antes que proíbam qualquer menção ao assunto. Você conhece a Ordem. Eles não têm a menor pista de quem matou Marcus. Nem uma pista. Sabe o que todos nós estamos pensando? Que há alguma coisa que eles não querem que nós saibamos.

— Tipo o quê?

— Que se trata de alguma entidade sobrenatural, o que mais? Elvera viu alguma coisa que a deixou horrorizada. Algo de mau aconteceu. Sabe, Mark, lamento muito por Marcus e tudo o mais, mas esse foi o acontecimento mais emocionante desde que fui aceito.

— É, sei o que você quer dizer — respondeu Mark. — Você não viu Stuart, viu?

— Não, não vi mesmo. Desde hoje de manhã, quando ele se recusou a assumir o comando. Você estava aqui na hora?

— Não, quer dizer, estava, sim — respondeu Mark. — Eu estava me perguntando se ele saiu ou sei lá o quê.

Galton abanou a cabeça.

— Está com fome? Eu estou. Vamos comer alguma coisa.

Ia ser difícil, muito difícil. Mas, se as únicas pessoas que falassem com ele fossem imbecis alegres como Galton, ele ia se sair muito bem, muito bem mesmo.

 

ESTAVAM NA ESTRADA HÁ MAIS DE UMA HORA, e estava quase escurecendo, com o céu coalhado de nuvens prateadas e uma atmosfera entorpecida caindo sobre as grandes extensões de colinas ondulantes e lavouras de um verde vivo, primorosamente recortadas como se a paisagem estivesse coberta por uma enorme colcha de retalhos.

Fizeram uma parada para reabastecer num pequeno vilarejo de uma única rua com algumas casas de enxaimel em preto e branco e um pequeno cemitério coberto de mato. O bar era mais do que convidativo. Tinha até o famoso alvo e uns dois homens a jogar dardos; e o cheiro da cerveja era maravilhoso.

No entanto, essa não era exatamente a hora adequada para parar para tomar um drinque, pensou Michael.

Ele saltou do carro, acendeu mais um cigarro e ficou olhando com um fascínio mudo a delicada formalidade com que Ash conduzia seu prisioneiro até o interior do bar e, inevitavelmente, na direção do banheiro.

Do outro lado da rua, Yuri estava numa cabine telefônica, falando rapidamente, aparentemente tendo conseguido entrar em contato com a casa-matriz; e Rowan estava ao seu lado, de braços cruzados, olhando para o céu ou para alguma coisa nele, Michael não sabia dizer ao certo. Yuri estava novamente perturbado, torcendo a mão direita enquanto segurava o fone com a esquerda, sem parar de balançar a. cabeça. Estava óbvio que Rowan prestava atenção ao que ele dizia.

Michael recostou-se na parede de reboco, e tragou. Ele sempre ficava surpreso de como é cansativo simplesmente andar de carro.

Mesmo essa viagem, com seu suspense angustiante, não era diferente, em última análise, e agora que a escuridão havia encoberto a linda paisagem rural, ele calculava que sentiria mais sono, sem se importar com o que pudesse estar por vir.

Quando Ash e seu prisioneiro saíram do bar, Gordon parecia desesperado e cheio de rancor. Mas era óbvio que ele não havia conseguido pedir ajuda, ou não havia ousado tentar.

Yuri desligou o telefone. Foi a sua vez de desaparecer pelo bar adentro. Ele ainda estava ansioso, se não enlouquecido. Rowan estivera a observá-lo atentamente durante a viagem, quer dizer, quando não estava com os olhos pregados em Ash.

Michael ficou olhando para Ash enquanto ele devolvia Gordon ao assento traseiro. Michael não tentou disfarçar o fato de estar olhando. Isso pareceu desnecessariamente trabalhoso. A questão a respeito do homem alto era a seguinte: ele não parecia, sob nenhum aspecto, horrendo, como Yuri havia afirmado. A beleza estava lá, sim, mas a hediondez? Michael não conseguia vê-la. Via apenas uma compleição graciosa e movimentos leves e eficientes que indicavam tanto força quanto vigilância. Os reflexos do homem eram espantosos. Ele havia provado isso quando Stuart Gordon voltou a estender a mão para a maçaneta da porta quando estavam parados num cruzamento uma meia hora atrás.

Os cabelos negros e macios do homem infelizmente faziam com que Michael se lembrasse de Lasher: sedosos demais, finos demais, com volume demais, ele não sabia bem ao certo. As faixas brancas acrescentavam uma espécie de distinção à figura como um todo. O rosto tinha ossos grandes demais para parecer feminino em qualquer sentido convencional, mas era delicado, com o longo nariz compensado talvez pelo fato de os olhos serem tão grandes e tão separados. A pele era a de um adulto, não fina como a de um bebê. Mas a real atração do homem estava mesclada com sua voz e seus olhos. A voz poderia convencer uma pessoa de qualquer coisa, pensou Michael, e os olhos também eram extremamente persuasivos.

Tanto uma quanto os outros quase chegavam a ser de uma simplicidade infantil, mas não eram essencialmente simples. O efeito? O homem parecia uma espécie de ser angelical, infinitamente sábio, paciente e, no entanto, indubitavelmente determinado a assassinar Stuart Gordon, exatamente como dissera que faria.

É claro que Michael não estava fazendo nenhuma suposição quanto à idade da criatura. Era muito difícil deixar de considerá-lo humano, só diferente, inexplicavelmente estranho. É claro que Michael sabia que ele não era. Sabia disso a partir de centenas de pequenos detalhes: o tamanho das articulações dos dedos, o jeito estranho com que ele abria os olhos de vez em quando de modo a aparentar assombro e, talvez acima de tudo, a absoluta perfeição da sua boca e dos dentes. A boca era macia como a de um bebê, impossível para um homem com aquela pele, realmente, ou pelo menos altamente improvável, e os dentes eram tão brancos quanto algum tipo de anúncio cintilante que tivesse sido descaradamente retocado.

Michael não acreditou em nenhum momento que essa criatura fosse antiga ou que ele fosse o famoso Santo Ashlar das lendas de Donnelaith, o antigo rei que se converteu ao cristianismo nos últimos dias do império romano na Grã-Bretanha e permitiu que sua esposa, Janet, fosse queimada viva.

No entanto, ele havia acreditado nessa história sinistra quando Julien a contou. E esse era um dos muitos Ashlars, sem a menor dúvida um dos poderosos Taltos do vale, um ser da mesma espécie daquele quê Michael matara.

Esses fatos não eram questionados por nenhuma parte da sua mente.

Ele já vivenciara muita coisa para duvidar. Era só que não conseguia acreditar que o homem alto e bonito fosse o velho Santo Ashlar em pessoa. Talvez ele simplesmente não quisesse que isso fosse verdade por motivos muito razoáveis que faziam sentido dentro daquelas estruturas elaboradas que ele agora aceitava plenamente.

É, você agora está convivendo com todo um conjunto de realidades totalmente novas, pensou. Talvez seja por isso que esteja aceitando tudo com calma. Você viu um fantasma; prestou atenção ao que ele dizia; você sabe que ele estava lá. Ele lhe disse coisas que você jamais poderia ter imaginado ou criado. E você viu Lasher e ouviu seu longo apelo por compaixão; e aquilo também foi algo totalmente inimaginável para você, algo repleto de novas informações e detalhes estranhos de que você ainda se lembra com perplexidade, agora que terminou a aflição que você sentia enquanto ele contava e que Lasher está enterrado debaixo da árvore.

Ah, sim, não se esqueça do enterro do corpo, de deixar a cabeça cair na cova ao seu lado, e depois encontrar a esmeralda, apanhá-la e segurá-la no escuro enquanto o corpo decapitado jazia ali na terra molhada, pronto para ser coberto.

Talvez a gente possa se acostumar a qualquer coisa, calculou. E se perguntou se não teria sido isso o que havia acontecido com Stuart Gordon. Não tinha nenhuma dúvida quanto a Stuart Gordon ser culpado, horrível e indesculpavelmente culpado de tudo. Yuri não tinha a menor dúvida. Mas como o homem chegara a trair seus valores?

Michael tinha de admitir que ele próprio sempre fora suscetível a exatamente esse tipo celta de mistério e incerteza. Seu próprio amor pelo Natal tinha suas raízes talvez em algum anseio irracional por rituais criados naquelas ilhas. E os minúsculos enfeites de Natal que colecionara com tanto carinho ao longo dos anos eram sob certo aspecto simbólicos dos antigos deuses celtas e de um culto encoberto como segredos pagãos.

Seu amor pelas casas que restaurava às vezes o levara tão perto dessa atmosfera de antigos segredos, de velhos projetos e de um conhecimento latente a ser revelado, quanto se poderia chegar um dia nos Estados Unidos.

Michael percebeu que compreendia Stuart Gordon, em termos. E muito em breve a figura de Tessa explicaria, com muita clareza, os sacrifícios e os terríveis erros de Gordon.

Fosse como fosse, Michael havia passado por tanta coisa que sua calma agora era apenas inevitável.

É, você passou por essas coisas e foi usado e esmagado por elas. Agora está aqui parado, junto ao bar do vilarejo, nesta pequena aldeia pitoresca, com sua rua de pedra de leve subida, e pensa em tudo isso sem emoção: que está com algo que não é humano, mas que é tão inteligente quanto qualquer ser humano, e que em breve vai encontrar uma fêmea da sua espécie, acontecimento de tamanha importância que ninguém realmente deseja mencioná-lo, talvez só por respeito ao homem que deve morrer.

É difícil viajar uma hora num carro com um homem que deveria morrer.

Michael terminou o cigarro. Yuri acabava de sair do bar. Estavam prontos para seguir em frente.

— Conseguiu falar com a casa-matriz? — perguntou Michael, logo.

— Consegui, e falei com mais de uma pessoa. Dei quatro telefonemas e entrei em contato com quatro indivíduos. Se esses quatro, meus amigos mais antigos e mais íntimos, fizerem parte da conspiração, eu perco as esperanças.

Michael apertou de leve o ombro magro de Yuri e o acompanhou até o carro.

Ocorreu-lhe mais uma idéia, de que ele agora não ia pensar em Rowan e nas suas reações ao Taltos mais do que havia pensado durante todo o caminho até aqui, quando uma possessividade profunda e instintiva quase o fizera exigir que parassem o carro, que Yuri viesse para a frente para que ele pudesse se sentar ao lado da mulher.

Não, ele não ia se entregar a isso. Não tinha meios neste mundo de saber o que Rowan estava pensando ou sentindo enquanto olhava para essa criatura estranha. Podia ser bruxo, sim, por perfil genético e talvez por alguma herança peculiar sobre a qual nada sabia. Mas não lia o pensamento. E, desde os primeiros instantes do seu encontro com Ashlar, estava consciente da probabilidade de Rowan não ter a saúde prejudicada se fizesse amor com essa estranha criatura porque, agora que ela não podia mais ter filhos, também não sofreria as terríveis hemorragias que haviam acabado com as vítimas de Lasher uma a uma.

Quanto a Ash, se ele sentia desejo por Rowan, estava mantendo isso em segredo, como um cavalheiro. Mas a questão era que a criatura estava viajando na direção de uma fêmea da sua espécie, que talvez fosse a última fêmea Taltos no mundo.

E havia ainda a consideração imediata, não é verdade, pensou ele enquanto se sentava no banco do passageiro e fechava a porta com firmeza. Você vai ficar olhando e deixar esse homem gigantesco assassinar Stuart Gordon? Você sabe muito bem que não pode agir assim Não pode ficar olhando enquanto outra pessoa é assassinada. É impossível. A única vez que teve essa atitude, tudo aconteceu tão de repente com o estampido do revólver, que você mal teve tempo de respirar.

É claro que você mesmo matou três pessoas. E esse filho da mãe desnorteado, esse louco que alega ter uma deusa em cativeiro, foi quem matou Aaron.

Estavam deixando o pequeno vilarejo, que praticamente desaparecera nas sombras que se fechavam. Como era suave, controlável, domesticada, essa paisagem. Em qualquer outra ocasião, ele teria pedido que parassem para ele poder dar uma caminhada ao longo da estrada.

Quando se voltou, ficou surpreso ao descobrir que Rowan estava a observá-lo. Que ela estava sentada de lado e que dobrara a perna sobre o assento bem atrás dele, aparentemente para poder olhar para ele. É claro que suas pernas seminuas estavam magníficas, mas e daí? Ela havia puxado a saia para baixo, como devia. Não passava de um relance da moda de coxa coberta de náilon.

Ele estendeu o braço pelo velho estofamento de couro e pôs a mão esquerda no ombro dela, movimento que ela permitiu, olhando para ele em silêncio com aqueles olhos cinzentos, imensos e misteriosos, e lhe dando algo muito mais íntimo do que um sorriso.

Ele a evitara todo o tempo que passaram na aldeia e agora se perguntava por que agira assim. Por quê? Num impulso, resolveu fazer algo vulgar e grosseiro.

Debruçou-se, esticando-se para abrigar a nuca de Rowan numa das mãos, e lhe deu um beijo rápido, voltando a se acomodar. Ela poderia tê-lo evitado, mas não o fez. E quando sua boca tocou em Michael, ele sentiu uma dorzinha aguda por dentro, que agora começava a se difundir e a aumentar de intensidade. Amo você! Meu Deus, dê-lhe mais uma chance!

E mal essa recomendação passou pela sua mente, ele reconheceu que não estava absolutamente falando com ela. Estava falando consigo mesmo a respeito dela.

Ele se recostou, olhando pelo pára-brisa, vendo o céu escuro se adensar e perder o que restava do seu brilho de porcelana. Inclinou a cabeça para um lado e fechou os olhos.

Nada havia que pudesse impedir Rowan de se apaixonar loucamente por essa criatura que não extrairia dela nenhum bebê monstruoso, nada a não ser seus votos nupciais e sua vontade.

E Michael percebeu que não estava seguro quanto a nada disso. Talvez nunca mais voltasse a se sentir seguro a esse respeito.

Dentro de vinte minutos, a luz havia desaparecido. Os faróis abriam caminho na escuridão, e essa poderia ter sido qualquer estrada, em qualquer canto do mundo.

Afinal, Gordon falou. A próxima estrada à direita, e à esquerda logo na primeira.

O carro fez a curva para entrar na floresta de árvores altas e escuras, aparentemente uma mistura de faias e carvalhos, com algumas árvores frutíferas leves que ele não conseguia discernir. As flores apareciam rosadas aqui e ali, iluminadas pelos faróis.

A segunda estrada não era pavimentada. O bosque ficou mais fechado. Talvez fosse o que restava de alguma floresta antiqüíssima, o tipo de vegetação imponente, infestada de druidas, que outrora cobria toda a Inglaterra e a Escócia, possivelmente toda a Europa, o tipo de floresta que Júlio César havia erradicado com uma convicção impiedosa para que os deuses dos seus inimigos fugissem ou perecessem.

A lua brilhava. Michael via agora uma pequena ponte à medida que iam avançando, depois, mais uma curva e eles estavam seguindo ao longo das margens de um lago pequeno e tranqüilo. Ao longe, do outro lado da água, havia uma torre, talvez um castelo normando. Era uma visão tão romântica que sem dúvida os poetas do último século ficaram loucos por esse lugar, pensou Michael. Talvez até o tivessem construído, e ele fosse uma dessas lindas imitações que existiam por toda a parte, da mesma forma que a recente paixão pelo gótico transformou a arquitetura e o estilo no mundo inteiro.

No entanto, à medida que se aproximavam, quando deram a volta e chegaram perto da torre, Michael a viu com maior clareza. E percebeu que se tratava de uma torre normanda arredondada, bem grande, com talvez três andares até as ameias. As janelas estavam iluminadas. A parte inferior da edificação estava encoberta por árvores.

É, era exatamente isso o que ela era, uma torre normanda. Ele havia visto muitas nos seus tempos de estudante, quando perambulava pelas estradas turísticas de toda a Inglaterra. Talvez em algum passeio dominical no verão, do qual ele não mais se lembrava, tivesse visto essa mesma.

Não parecia ser possível. O lago, a árvore imensa à esquerda, tudo isso era praticamente perfeito. Agora ele via os alicerces de uma estrutura maior, que se afastavam aleatoriamente em montes e pedaços esfarelados, desgastados pelo vento e pela chuva, sem dúvida, e tornados ainda mais obscuros por moitas de hera silvestre.

Passaram por um denso bosque de carvalhos jovens, perdendo totalmente a visão do prédio, e foram sair surpreendentemente perto dele. Michael viu dois carros estacionados diante dele, bem como duas lâmpadas elétricas de cada lado de uma porta enorme.

Tudo muito civilizado, pensou, habitável. Mas como sua conservação havia sido maravilhosa, sem ser prejudicada por nenhum acréscimo moderno visível. A hera subia pelas pedras arredondadas e rejuntadas até acima do arco simples do portal.

Ninguém falava.

O motorista finalmente parou o carro, numa pequena clareira de cascalho.

Michael desceu imediatamente e olhou ao redor. Via um jardim inglês viçoso e exuberante que se espalhava na direção do lago e da floresta, canteiros de flores que mal começavam a se abrir. Ele conhecia suas formas indefinidas, mas elas estavam fechadas com a escuridão, e quem sabia o esplendor que cobriria tudo aquilo quando o sol nascesse?

Será que ainda estariam ali quando o sol nascesse?

Um enorme lariço estava entre eles e a torre, árvore que era sem dúvida uma das mais velhas que Michael jamais vira.

Ele foi na direção do tronco venerável, dando-se conta de estar se afastando da mulher. Mas não podia agir de outra forma.

E, quando finalmente parou à sombra da copa imensa da árvore, ergueu os olhos para a fachada da torre e viu uma figura solitária na terceira janela. Cabeça e ombros pequenos. Uma mulher, com o cabelo solto ou coberto por um véu, ele não sabia dizer ao certo.

Por um átimo, foi dominado por tudo aquilo: as nuvens brancas, oníricas, a lua cheia, a própria torre em toda a sua grandiosidade tosca.

Embora ele ouvisse o rangido da chegada dos outros, não saiu do caminho, nem se mexeu de modo algum. Queria ficar ali, ver aquilo tudo: o lago sereno à sua direita, com a água entrecortada e emoldurada pelas fruteiras delicadas com suas flores pálidas, trêmulas. Nespereira, com toda probabilidade, exatamente a árvore que floria em toda Berkeley, Califórnia, na primavera, às vezes conferindo à própria iluminação das ruas pequenas um tom rosado.

Ele queria se lembrar de tudo isso. Queria nunca se esquecer. Talvez por ainda estar enfraquecido pela diferença de fusos horários; talvez por estar previsivelmente enlouquecendo, como Yuri. Ele não sabia. Mas essa, essa era uma imagem que falava de toda a aventura, dos seus horrores e revelações: a torre alta e a promessa de uma princesa dentro dela.

O motorista havia desligado os faróis. Os outros já passavam por ele. Rowan parou ao seu lado. Ele olhou mais uma vez para o outro lado do lago e depois para a silhueta enorme de Ash, que caminhava à sua frente. A mão de Ash ainda grudada a Stuart Gordon, e Stuart Gordon, andando como se logo fosse desmaiar: um homem idoso, de cabelos grisalhos, com os tendões do pescoço parecendo lamentavelmente vulneráveis quando ele entrou no círculo de luz do portal.

É, esse era o momento perfeito, pensou. E foi atingido, como se alguém lhe desse um soco com uma luva de boxe, pelo fato de que uma Taltos fêmea morava nessa torre, como Rapunzel, e de que Ash ia matar esse homem que estava conduzindo até a porta.

Talvez a lembrança desse momento, dessas imagens, dessa noite fria e delicada, talvez fosse só isso o que restaria da experiência. Era uma possibilidade muito verdadeira.

Ash tirou a chave das mãos de Stuart Gordon com um gesto firme, porém lento, e a enfiou numa grande fechadura de ferro. A porta abriu-se com eficiência moderna, e todos entraram num saguão inferior, provido de aquecimento elétrico e repleto de mobília grande e confortável, volumosas peças em estilo renascentista, com pernas bulbosas porém primorosamente entalhadas, garras no lugar dos pés, e tecidos de tapeçaria, gastos mas ainda muito bonitos e autênticos.

Havia quadros medievais nas paredes, muitos com o brilho forte e imperecível da verdadeira têmpera de ovo. Uma armadura em pé, toda empoeirada. E outros tesouros amontoados aqui e ali num luxo descuidado. Esse era o refúgio de um homem poético, um homem apaixonado pelo passado da Inglaterra e talvez fatalmente alienado do presente.

À esquerda, vinha uma escadaria que acompanhava a curva da parede. Caía uma luz do andar de cima e, ao que fosse dado a Michael saber, do andar superior àquele.

Ash soltou Stuart Gordon. Foi até o pé da escada. Pôs as mãos no pilar tosco e começou a subir.

Rowan foi imediatamente atrás dele.

Stuart Gordon parecia não perceber que estava livre.

— Não a machuque — gritou ele, de repente, com rancor, como se fosse a única frase na qual pudesse pensar. — Não toque nela sem sua permissão! — Implorou. A voz, emitida pelo rosto velho e esquelético, parecia abrigar suas últimas reservas de força masculina. — Você que ataque meu tesouro!

Ash parou, olhou pensativo para Gordon e retomou a subida.

Todos o acompanharam, finalmente até mesmo Gordon, que passou com grosseria por Michael e empurrou Yuri para abrir caminho. Alcançou Ash no alto da escada e desapareceu do campo visual de Michael.

Quando afinal chegaram ao topo, encontraram-se em outro aposento amplo tão simples quanto o do andar inferior. Suas paredes eram as paredes da torre, a não ser por dois pequenos cômodos, primorosamente construídos em madeira antiga, os dois fechados por tetos, talvez banheiros ou closets, Michael não sabia dizer. Eles pareciam se fundir com a pedra por trás deles. A sala enorme tinha uma quantidade de sofás macios e velhas poltronas afundadas, abajures de pé espalhados, com cúpulas de papel vegetal criando ilhas nítidas em meio à escuridão, mas o centro era fantasticamente vazio. E um único lustre de ferro de verdade, uma circunferência de velas que se derretiam, revelava abaixo de si um grande círculo de chão encerado.

Michael levou um momento para perceber que o aposento continha mais uma figura parcialmente encoberta. Yuri já estava olhando para essa figura.

Do outro lado do círculo, na extremidade diametralmente oposta por assim dizer, uma mulher muito alta estava sentada num banco parecendo estar trabalhando num tear. Um pequeno abajur recurvado iluminava suas mãos, mas não seu rosto. Um pouco de tapeçaria estava à mostra, e Michael viu que o trabalho era muito elaborado e cheio de cores discretas.

Ash estava paralisado, com os olhos fixos nela. A mulher retribuía o olhar. Era a mulher de cabelos longos que Michael vira à janela.

Os outros não fizeram o menor movimento. Gordon correu até ela.

— Tessa — disse ele. — Tessa, estou aqui, minha querida. — A voz estava falando num reino só seu, esquecida dos outros.

A mulher ergueu-se, parecendo agigantar-se diante da frágil figura de Gordon, quando ele a abraçou. Ela deu um suspiro terno, suave, com as mãos subindo para tocar com carinho os ombros magros de Gordon. Apesar da sua altura, sua compleição era tão delicada que ela parecia ser a mais fraca dos dois. Abraçado a ela, ele a trouxe até o círculo de iluminação mais forte.

Havia algo de sinistro na expressão de Rowan. Yuri estava fascinado. O rosto de Ash nada revelava. Ele apenas olhava enquanto a mulher ia se aproximando cada vez mais e agora parava abaixo do lustre, com a luz refulgindo no alto da sua cabeça e da sua testa.

Talvez em virtude do seu sexo, a altura da mulher parecesse verdadeiramente monstruosa.

Seu rosto era perfeitamente redondo, sem mácula, bem-parecido com o de Ash, mas não tão longo ou com definição tão profunda. Sua boca era pequena e macia, e os olhos, embora grandes, eram tímidos e desprovidos de qualquer vivacidade extraordinária. Olhos azuis, porem, doces. E, como os de Ash, orlados de cílios longos e abundantes. Uma grande cabeleira branca crescia da sua testa, caindo à sua volta como que por mágica. Parecia macia e imóvel; talvez mais uma nuvem do que um cabeleira. E os cabelos tão finos que a luz fazia com que parecessem transparentes.

Ela usava um vestido violáceo, com um belo trabalho em casa de abelha logo abaixo do busto. As mangas eram lindíssimas e antiquadas, franzidas logo acima do cotovelo e novamente bufantes até os punhos bem ajustados aos pulsos.

Ocorreram a Michael vagas lembranças de Rapunzel, ou com mais exatidão de cada fragmento de romance de aventuras que ele um dia havia lido, um mundo de rainhas encantadas e príncipes de poder inquestionável. Quando a mulher se aproximou de Ash, Michael não pôde deixar de ver que sua pele era tão clara a ponto de ser quase branca. Ela parecia um cisne em forma de princesa, com as bochechas firmes, a boca a reluzir ligeiramente e os cílios muito nítidos em volta dos olhos de um azul intenso.

Ela franziu o cenho, o que formou uma única ruga na sua testa, e deu a impressão de um bebê a ponto de cair na choradeira.

— Taltos — sussurrou ela. Mas isso foi dito sem o menor alarme. Na realidade, ela parecia quase triste.

Yuri deixou escapar um grito abafado, leve, ínfimo.

Gordon estava transtornado de espanto, como se nada o houvesse preparado de fato para a realização desse encontro. Por um instante, ele pareceu quase jovem, com os olhos inebriados de amor e enlevo.

— É essa a sua fêmea? — perguntou Ash, baixinho. Ele a contemplava, até mesmo com um leve sorriso, mas não fazia menção de cumprimentá-la ou de tocar na mão que ela estendia. Voltou a falar, lentamente.

— É essa a fêmea pela qual você assassinou Aaron Lightner, pela qual você tentou matar Yuri, a fêmea à qual você queria trazer o Taltos macho a qualquer preço?

— Do que você está falando! — disse Gordon, numa voz assustada. — Você ouse feri-la, com palavras ou atos, e eu o mato.

— Creio que não — respondeu Ash. — Minha querida — disse à mulher. — Você me compreende?

— Compreendo — disse ela, delicada, com uma voz ínfima e cristalina. Ela deu de ombros e lançou as mãos para o alto, quase do mesmo jeito de um santo em êxtase. — Taltos — disse ela, e abanou a cabeça com tristeza, voltando a franzir o cenho com uma dor quase de sonho.

Será que a pobre Emaleth havia sido tão bela e tão feminina?

Com um choque, Michael viu o rosto de Emaleth destruído quando as balas o atingiram; viu o corpo cair para trás! Seria por isso que Rowan estava chorando? Ou estaria ela apenas cansada a devanear, com os olhos ligeiramente lacrimosos, enquanto observava Ash olhar para baixo, para a mulher, e a mulher a olhar para cima. O que isso significava para ela?

— Linda Tessa — disse Ash, erguendo levemente as sobrancelhas.

— Qual é o problema? — perguntou Gordon. — Há algo de errado com vocês dois. Digam qual é o problema. — Ele se aproximou, mas parou, obviamente sem querer entrar entre os dois. Sua voz agora estava grave e cheia de dor. Tinha semelhança com a de um orador, ou de alguém que soubesse influenciar seus ouvintes. — Ai, Deus do céu, isso não é o que eu imaginei. Esse encontro aqui neste lugar, cercado por quem não pode realmente captar o significado.

No entanto, ele estava dominado demais pela emoção para haver qualquer artificialidade no que dizia ou fazia. Seus gestos não eram mais histéricos. Eram trágicos.

Ash estava imóvel como sempre, sorrindo para Tessa com determinação e aprovando com prazer quando sua boquinha se abriu e se alargou, e as bochechas se inflaram com seu próprio sorriso.

— Você é muito linda — sussurrou Ash, erguendo então a mão aos lábios para beijar os dedos e delicadamente levar o beijo até o rosto de Tessa.

Ela suspirou, esticando seu longo pescoço e deixando os cabelos caírem pelas costas abaixo. Ela então estendeu as mãos para ele, e ele a abraçou. Ele a beijou, mas não havia paixão nesse beijo. Michael estava vendo.

Gordon interpôs-se entre eles, segurando a cintura de Tessa com a mão esquerda para puxá-la sem violência.

— Aqui não, eu lhes peço. Por favor, não como se fosse em qualquer bordel.

Ele soltou Tessa e se aproximou de Ash, com as mãos unidas como se estivesse orando, a olhar para cima sem medo agora, enredado em algo mais crucial para ele do que sua própria sobrevivência.

— Qual é o lugar para o casamento dos Taltos? — perguntou ele, reverente, com a voz suave, a implorar. — Qual é o local mais sagrado da Inglaterra, onde a linha de São Miguel passa pelo topo do morro e a torre em ruínas da antiga igreja de São Miguel ainda permanece como sentinela?

Ash encarou-o quase com tristeza, controlado, apenas ouvindo enquanto a voz apaixonada prosseguia.

— Permita que eu leve vocês dois até lá. Permita que eu veja o casamento dos Taltos no penhasco de Glastonbury! — Ele baixou a voz, e as palavras foram saindo neutras, quase lentas. — Se eu presenciar isso, se eu vir o milagre do nascimento ali no monte sagrado, no local em que o próprio Cristo chegou à Inglaterra, onde velhos deuses caíram e novos deuses subiram, onde se derramou sangue em defesa do que é sagrado, se eu vir isso. O nascimento da cria. plenamente crescida, procurando abraçar os pais, o próprio símbolo da vida, então não importa se vou continuar vivo ou morrer.

Suas mãos haviam subido como se nelas estivesse contido o conceito sagrado, e sua voz perdera toda a histeria. Seus olhos até estavam límpidos e quase meigos.

Yuri observava com óbvias suspeitas.

Ash era a imagem da paciência, mas pela primeira vez Michael via uma emoção mais profunda e mais sombria por trás dos olhos de Ash e até mesmo do seu sorriso.

— Então — disse Gordon — eu terei visto aquilo que nasci para ver. Terei presenciado o milagre que os poetas cantaram e com o qual os velhos sonham. Um milagre mais estupendo do que qualquer outro de que tomei conhecimento desde o tempo em que meus olhos aprenderam a ler, meus ouvidos ouviram as histórias que me eram contadas e minha língua soube formar as palavras que expressariam as tendências mais fortes do meu coração.

— Conceda-me esses últimos momentos preciosos, o tempo de ir até lá. Não fica longe. No máximo a um quarto de hora daqui, apenas alguns minutos para todos nós. E no penhasco de Glastonbury, eu a entregarei a você, como um pai entregaria a filha, meu tesouro, minha amada Tessa, para que façam o que vocês dois desejam.

Ele parou, olhando para Ash, desesperadamente imóvel, profundamente entristecido, como se, por trás dessas palavras, estivesse alguma aceitação total da sua própria morte.

Não prestou nenhuma atenção ao desdém evidente, embora mudo, de Yuri.

Michael estava maravilhado com a transformação no velho, a pura convicção.

— Glastonbury — sussurrou Stuart. — Eu lhe imploro. Aqui não. — E afinal ele abanou a cabeça. — Aqui não — repetiu e se calou.

O rosto de Ash não se alterou. E então, com muita delicadeza, como se estivesse revelando um terrível segredo a um coração frágil, a alguém por quem sentisse compaixão, ele falou.

— Não é possível nenhuma união. Não é possível nenhuma prole. — Ele se demorava com as palavras. — Ela está velha, seu lindo tesouro. Está estéril. Sua fonte secou.

— Velha! — Stuart estava desnorteado, incrédulo. — Velha! — murmurou. — Ora, você está maluco. Como pode dizer uma coisa dessas? — Ele se voltou, desamparado, para Tessa, que o observava sem dor ou decepção.

— Você ficou louco — repetiu Stuart, levantando a voz. — Olhe para ela! — exclamou. — Olhe para seu rosto, suas formas. Ela é magnífica. Eu o reuni a uma parceira de tal beleza que você deveria cair de joelhos e me agradecer! — De repente, ele foi atingido pela realidade, ainda sem acreditar mas sendo arrasado lentamente.