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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TARAN, O ERRANTE / Lhoyd Alexander
TARAN, O ERRANTE / Lhoyd Alexander

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TARAN, O ERRANTE

 

Esta quarta crônica de Prydain inicia-se com uma procura nobre e corajosa que logo se torna mais intensa e talvez, essencialmente, mais heróica do que as aventuras precedentes. Desta vez,

Taran enfrenta uma adversária implacável: a verdade a res­peito de si mesmo. Não mais o Taran, Porqueiro-Assisten­te, mas o Taran Errante, que aprende a reestruturar sua vida através de sua força interior; pois deve ocorrer não apenas o término da infância, mas também o início da ida­de adulta. Pretende-se que este conto seja sério — uma vez que todo humor é sério e toda fantasia é verdadeira —, e se não há um final feliz e convencional, nos termos dos contos de fadas, há um final mais esperançoso, em termos humanos.

Isso não leva a qualquer redução de humor ou de diversidade na história. É possível que esses elementos es­tejam ainda mais presentes na narrativa, uma vez que a jornada de Taran leva-o de um extremo ao outro de Prydain, dos Pântanos de Morva aos Condados Livres. No entanto, em vez de um choque de exércitos, a luta implícita entre bem e mal é expressa em conflitos individuais: o Rei Smoit faz um estardalhaço por estar vivo; o cadavérico Morda des­preza toda a humanidade; Annlaw Modelador-de-Barro é o criador; e Craddoc, em cujo vale desabitado Taran vive a angústia da decepção. A Princesa Eilonwy, infelizmente, só está presente na memória, embora se espere que os leitores sintam sua falta tanto quanto Taran... e, a propósito, o autor.

Ainda que os habitantes de Prydain se tenham origina­do de lendas galesas, em Taran, o Errante eles adquiriram características mais universais que específicas. O segredo da vida de Morda, por exemplo, é conhecido em muitas mito­logias. Orddu, Orwen e Orgoch têm surgido com outros disfarces (como era de se esperar): as Três Nornas, as Moiras, a Deusa Tríplice, e, provavelmente, algumas outras meta­morfoses que elas se recusam a admitir. Prydain, é claro, em parte é memória, e em parte é sonho, sendo que o saldo favorece o último.

Os Companheiros conquistaram muito mais amigos do que eu esperava; amigos desejosos de seguir essas narrativas, ao mesmo tempo como crônicas independentes e como parte de uma unidade abrangente; e a eles prometo que, no mo­mento certo, todas as perguntas serão respondidas e todos os segredos revelados. A alguns amigos dos Companheiros (especialmente a Gypsy Reeves) dirijo um apelo à piedade; aos demais, meus sinceros agradecimentos ao trabalho árduo e inestimável, discernimento e estímulo quando as dificulda­des pareciam ainda maiores para um autor do que para um Porqueiro-Assistente; e a todos, meu afeto mais caloroso.

 

 

Quem Sou Eu?

Era plena primavera, e tudo fazia crer que o ve­rão seria o mais esplêndido de todos na fazen­da. O pomar estava branco, repleto de flores perfumadas; os campos recém-plantados esten­diam-se, claros como uma névoa verde. Mesmo assim, a paisagem e os aromas pouco alegravam Taran. Para ele, Caer Dallben estava vazia. Embora ajudasse Coll a capinar e plan­tar, e cuidasse o melhor possível de Hen Wen, a leitoa branca, Taran estava sempre distraído enquanto cumpria as tarefas. Apenas um pensamento ocupava-lhe a mente.

— Então, meu garoto — disse Coll, num tom amisto­so, assim que terminaram a ordenha matinal. — Tenho observado que você está inquieto como um lobo acorren­tado desde que voltou da Ilha de Mona. Pode suspirar pela Princesa Eilonwy, se quiser, mas não derrube o balde de leite.

O velho e corpulento guerreiro bateu no ombro de Taran.

— Vamos, anime-se. Vou ensinar-lhe os grandes se­gredos do plantio de nabos. Ou do cultivo de repolhos. Ou qualquer coisa que você quiser saber.

Taran sacudiu a cabeça.

— O que preciso saber somente Dallben pode me revelar.

— Então, aceite meu conselho — disse Coll. — Não incomode Dallben com suas perguntas. Os pensamentos dele concentram-se em assuntos mais profundos. Tenha paciência e aguarde o momento propício.

Taran levantou-se.

— Não posso mais esperar o momento propício. Meu coração diz que devo falar com ele agora.

— Vá com calma — Coll advertiu, enquanto Taran ca­minhava a passos largos em direção à porta do galpão. — Ele se irrita à toa!

Taran passou pelo conjunto de construções de telha­dos baixos da fazenda. No chalé, diante da fornalha, uma mulher de vestido negro estava agachada, cuidando do fogo. Não ergueu a cabeça nem falou. Era Achren. Frustrada em sua tentativa de reconquistar o antigo poder nas ruínas do Castelo de Llyr, a rainha, outrora poderosa, havia aceitado o refúgio que Dallben lhe ofereceu; no entanto, por decisão própria, ela, que muito tempo atrás dominara a Terra de Prydain, realizava agora as tarefas que Eilonwy costumava fazer antes de partir para Mona, e, ao final do dia, Achren retirava-se em silêncio ao leito rústico de palha localizado no celeiro.

Diante do quarto de Dallben, Taran deteve-se, cons­trangido, e em seguida bateu rapidamente na porta. Ao en­trar, assim que o feiticeiro o autorizou, encontrou-o inclinado sobre o Livro dos Três, aberto sobre a mesa desordenada. Por mais que quisesse espiar ao menos uma página desse livro secreto, Taran manteve-se a distância. Certa vez, quan­do era menino, ousara tocar o volume antigo, encadernado em couro, e, com a lembrança, seus dedos sentiram a dor aguda outra vez.

— Sempre me pergunto — observou Dallben, irritado, fechando o Livro dos Três e olhando para Taran — por que os jovens, com todo o seu brio e vitalidade, encaram suas próprias preocupações como um fardo pesado a ser dividido com os velhos. Quanto aos velhos... — Agitou a mão frágil, ossuda. — Mas não importa, não importa. Para não estragar o meu humor, espero que o motivo dessa interrupção seja muito bom.

— Primeiro, antes que você pergunte — continuou Dallben —, asseguro-lhe que a Princesa Eilonwy vai bem e não está mais infeliz do que qualquer jovem bonita e excên­trica que tenha de se dedicar à costura em vez de à esgrima. Segundo, você sabe, tanto quanto eu, que o Kaw ainda não voltou. A esta altura, suponho que já tenha levado minha poção até a caverna de Glew, e o gigante-por-acaso, que tanto perturbou você em Mona, vai encolher e recuperar a baixa estatura que um dia teve. Mas você bem sabe que seu corvo é malandro e pode demorar-se onde quer que encon­tre divertimento. Finalmente, um Porqueiro-Assistente deve ter um número suficiente de tarefas que o mantenha ocupa­do lá fora. O que o traz aqui, então?

— Apenas uma coisa — disse Taran. — Tudo que pos­suo devo a sua generosidade. O senhor deu-me um lar e um nome, e deixou-me viver em sua casa como se eu fosse um filho. Ainda assim, quem sou eu, de verdade? Quem são meus pais? Tanto o senhor me ensinou, mas isso sempre manteve fora do meu alcance.

— Se foi sempre assim — respondeu Dallben —, por que isso o perturbaria agora?

Quando Taran baixou a cabeça sem responder, o velho feiticeiro sorriu para ele, demonstrando perspicácia.

— Desabafe, meu garoto. Se você quer a verdade, deve dizer a verdade desde o começo. Por trás de sua pergunta acho que estou vendo a sombra de uma certa princesa de cabelos dourados. Não é isso?

O rosto de Taran ruborizou-se.

— É — murmurou. Ergueu os olhos para encontrar os de Dallben.

— Quando Eilonwy voltar, é... é o que diz meu coração, pretendo pedi-la em casamento. Mas isso não posso fazer — extravasou —, não o farei até que eu saiba quem sou. Um enjeitado desconhecido, com um nome emprestado, não pode pedir a mão de uma princesa. Qual é minha ascendência? Não terei sossego enquanto não o souber. Sou de origem humilde ou nobre?

— Na minha opinião — disse Dallben, delicadamen­te —, a última possibilidade o agradaria mais.

— Seria minha esperança — admitiu Taran, um pouco envergonhado. — Mas não importa. Se houver honra... sim, que eu a compartilhe. Se houver desonra, que eu a enfrente.

— É preciso muita força no coração tanto para compar­tilhar uma quanto para enfrentar a outra — respondeu Dallben, com gentileza. Voltou o rosto preocupado para Taran. — Mas, infelizmente — disse —, não posso responder à sua pergunta. E o Príncipe Gwydion não sabe mais do que eu — prosseguiu, percebendo o que se passava na cabeça de Taran. — Nem o Grande Rei Math pode ajudá-lo.

— Então deixe-me descobrir por mim mesmo — excla­mou Taran. — Dê-me permissão para buscar a resposta.

Dallben observou-o atentamente. Os olhos do feiti­ceiro pousaram no Livro dos Três e seu olhar fixou-se como se penetrasse profundamente no volume de couro desgastado.

— Se a maçã está madura — murmurou consigo mes­mo —, nenhum ser humano pode torná-la verde outra vez.

Sua voz tornou-se grave devido à tristeza, quando se dirigiu a Taran.

— É este o seu verdadeiro desejo? O coração de Taran acelerou.

— É tudo o que anseio.

Dallben assentiu com um movimento de cabeça.

— Então, que seja assim. Viaje por onde preferir. Aprenda o que estiver a seu alcance.

— Aceite toda a minha gratidão — Taran exclamou, radiante, fazendo uma reverência. — Deixe-me partir logo. Estou pronto...

Antes que terminasse de falar, a porta abriu-se brusca­mente e uma figura coberta de pêlos atravessou rapidamente o quarto, atirando-se aos pés de Taran.

— Não, não, não! — uivou Gurgi, a plenos pulmões, balançando-se para trás e para a frente, agitando os braços peludos. — Os ouvidos apurados de Gurgi tudo escutam! Oh, sim, escutei bem atrás da porta!

Com o semblante enrugado de tristeza, sacudiu a cabe­ça peluda com tamanha violência que por pouco não desa­bou no chão.

— Pobre Gurgi vai ficar isolado e abandonado, com pran­tos e lamentos! — queixou-se. — Oh, ele deve ir com o mes­tre, sim, sim!

Taran pôs a mão no ombro de Gurgi.

— Seria uma tristeza para mim deixá-lo, querido amigo. Mas meu caminho, receio, pode ser longo.

— Leal Gurgi vai acompanhar! — implorou Gurgi. — É forte, corajoso e esperto para proteger gentil mestre de da­nos desastrosos!

Gurgi começou a fungar alto, choramingando, lamen­tando-se e, mais do que nunca, desesperando-se; e Taran, que não sabia como consolar a criatura infeliz, lançou a Dallben um olhar questionador.

No rosto do feiticeiro manifestou-se um raro olhar de compaixão.

— Não duvido da dedicação e do bom senso de Gurgi — disse Dallben a Taran. — E seu coração generoso lhe servirá de alento antes mesmo que sua busca esteja concluí­da. Sim — acrescentou lentamente —, se Gurgi quer ir, dei­xe-o acompanhá-lo.

Gurgi deu um grito de felicidade, e Taran, agradecido, inclinou-se diante do feiticeiro.

— Que seja assim — disse Dallben. — Seu caminho, com certeza, não será fácil, mas vá em frente se essa é sua escolha. Embora, talvez, você não encontre o que procura, quando retornar decerto será um pouco mais sensato, e tal­vez um homem feito.

Naquela noite Taran não conseguiu descansar. Dallben havia concordado que os dois companheiros partiriam de manhã, mas, para Taran, até o alvorecer as horas pareciam ter o peso dos elos de uma corrente pesada. Um plano deli­neou-se em sua mente, mas ele nada revelou a Dallben, nem a Coll ou Gurgi, pois ele mesmo temia a decisão que tomara. Ao mesmo tempo que seu coração sofria com a idéia de deixar Caer Dallben, doía mais ainda diante da ansiedade de começar sua jornada; e era como se seu sentimento por Eilonwy, o amor que ele tantas vezes escondera e até negara, agora aumentasse como uma inundação, e o impulsionasse.

Muito antes do alvorecer, Taran levantou-se e selou Melynlas, o garanhão de crina prateada. Enquanto Gurgi, pis­cando e bocejando, preparava sua montaria, um pônei forte e quase tão peludo quanto ele mesmo, Taran foi sozinho ao cercado de Hen Wen. Talvez pressentindo que Taran decidi­ra partir, a leitoa branca deu um guincho de tristeza quando ele ajoelhou e passou o braço a seu redor.

— Adeus, Hen — disse Taran, coçando o queixo pelu­do do animal. — Lembre-se de mim, com carinho. Coll cui­dará de você até que eu... Ah, Hen — murmurou —, será que eu estarei feliz quando chegar ao final de minha busca? Você pode me dizer? Pode me dar algum sinal de esperança?

Em resposta, entretanto, a porca oracular apenas resfo­legou e grunhiu ansiosamente. Taran suspirou e despediu-se dela dando-lhe um tapinha afetuoso. Dallben chegou man­cando à porta dos fundos do chalé e, a seu lado, Coll erguia uma tocha, pois a manhã ainda estava escura. Sob o efeito da luz trêmula, o rosto do velho guerreiro, tal qual o de Dallben, expressava ternura e preocupação. Taran abraçou-os, e pa­receu-lhe que seu amor por ambos nunca havia sido tão grande como naquela despedida.

Gurgi sentou-se curvado em cima do pônei. Pendurada no ombro estava sua mochila de couro com o inesgotável suprimento de comida. Levando apenas a espada presa ao cinto e a antiga trompa de prata que Eilonwy lhe dera, Taran saltou sobre o lombo do impaciente Melynlas, controlando-se para não olhar para trás, sabendo que, se o fizesse, a parti­da o deixaria ainda mais triste.

Os dois viajantes cavalgavam a passos firmes enquanto o sol erguia-se acima das colinas onduladas, cobertas de ár­vores. Taran falava pouco e Gurgi, quieto, trotava atrás dele, remexendo de vez em quando a sacola de couro para pegar um punhado de comida que, todo contente, mastigava. Quan­do pararam à beira de um rio para dar água às montarias, Gurgi desmontou e aproximou-se de Taran.

— Bondoso mestre — exclamou —, fiel Gurgi segue como ele guia, ah, sim! Andando e perambulando aonde ele vai primeiro? Ao nobre Lorde Gwydion em Caer Dathyl? Gurgi tem saudades das torres altas e douradas e dos grandiosos salões de festas.

— Eu também — respondeu Taran. — Mas seria tem­po perdido. Dallben disse-me que o Príncipe Gwydion e o Rei Math nada sabem sobre meus pais.

— Então ao reino de Fflewddur Fflam? Sim, sim! O bra­vo bardo há de nos receber bem, com reuniões e saudações, a cantar e dedilhar alegremente!

Taran sorriu diante da ansiedade de Gurgi, mas sacudiu a cabeça.

— Não, meu amigo, nem a Caer Dathyl, nem ao reino de Fflewddur.

Voltou os olhos ao oeste e falou devagar.

— Pensei bem sobre isso e acredito que há apenas um lugar onde poderei encontrar o que procuro. Os Pântanos de Morva.

Ao dizer essas palavras viu o rosto de Gurgi empalidecer. O queixo da criatura caiu; ele espalmou as mãos na cabeça peluda e começou a ofegar, parecendo sufocar de pavor.

— Não, não! — uivou Gurgi. — Perigos espreitam nos Pântanos maus! Gurgi, corajoso, mas cauteloso, teme por sua cabeça mimosa! Não quer jamais voltar lá. Feiticeiras assusta­doras quase transformaram Gurgi num sapo saltador e pula­dor! Ó terrível Orddu! Terrível Orwen! E Orgoch, ó Orgoch, a pior de todas!

— Mesmo assim pretendo enfrentá-las outra vez — disse Taran. — Orddu, Orwen e Orgoch, elas ou eles, ou seja lá o que forem na realidade, têm poderes tão grandes quanto os de Dallben. Talvez maiores. Delas nada se escon­de; todos os segredos estão a seu alcance. Saberiam a ver­dade. Pode ser — prosseguiu, e sua voz acelerou, esperanço­sa —, pode ser que meus pais sejam de linhagem nobre. E por alguma razão misteriosa deixaram-me com Dallben para que ele me criasse.

— Mas o bondoso mestre é nobre! — exclamou Gurgi. — Nobre, generoso e gentil para o humilde Gurgi! Não pre­cisa perguntar às feiticeiras!

— Estou falando de sangue nobre — Taran respondeu, sorrindo diante dos protestos de Gurgi. — Se Dallben não pode me dizer, então Orddu poderá dizer. Se ela vai fazer isso mesmo, não sei — acrescentou. — Mas preciso tentar.

— Não vou deixá-lo arriscar sua cabeça mimosa — pros­seguiu Taran. — Você há de encontrar um esconderijo à beira dos Pântanos e ficar por lá, à minha espera.

— Não, não — queixou-se Gurgi.

Com um ar infeliz, pestanejou, e sua voz ficou tão baixa, que Taran mal pôde ouvir o sussurro trêmulo.

— Leal Gurgi acompanha, assim como prometeu. Outra vez puseram-se a caminho. Depois de passarem alguns dias atravessando o Grande Avren, dirigiram-se rapi­damente ao oeste, pelas encostas esverdeadas à margem do rio, e apesar de não querer deixá-lo para trás, seguiram a direção norte, através de uma planície árida. O rosto de Gurgi franzia-se de ansiedade e Taran percebeu que a inquietação da criatura não era menor do que a dele próprio. Quanto mais se aproximavam dos Pântanos, mais ele se perguntava se sua escolha havia sido sensata. O plano que julgara ser tão coerente enquanto ele estivera na segurança de Caer Dallben agora parecia-lhe uma aventura impetuosa. Havia certos mo­mentos que, Taran admitia, se Gurgi tivesse dado meia-volta com o pônei e saído em disparada para casa, ele também teria feito o mesmo, de bom grado.

Outro dia de viagem e a região pantanosa estendeu-se diante deles, desolada, feia, sem traço algum da primavera. A visão e o cheiro do lodaçal e das poças embaçadas e estagna­das enojavam Taran. O relvado apodrecido sugava os cascos de Melynlas. O pônei bufava, assustado. Advertindo Gurgi a seguir logo atrás dele e a não se desviar nem à direita nem à esquerda, Taran conduzia, com cuidado, o garanhão pelos caminhos do bambual que crescia em solo firme à beira do banhado.

Menos perigosa era a travessia do istmo, na parte mais elevada dos Pântanos, e a trilha, de fato, estava gravada a fogo na memória de Taran. Nesse local, quando ele e Eilonwy, Gurgi e Fflewddur procuravam o Caldeirão Negro, os Caça­dores de Annuvin atacaram-nos, e, muitas vezes, Taran revivera em pesadelos aquele momento. Dando rédea a Melynlas, fez um sinal a Gurgi e avançou em direção aos Pântanos. Aflito, o garanhão escorregou, mas, em seguida, firmou a passada na série de ilhas que se estendia por baixo da água salobra. Mais ao longe, sem o incentivo de Taran, Melynlas passou a galo­par e o pônei seguiu-o, como se corresse para salvar a pró­pria vida. Depois de passar pela extremidade de um longo canal onde havia árvores mimadas, Taran parou. O chalé de Orddu encontrava-se bem à frente.

Construído contra o flanco de uma barragem alta, parcial­mente escondido pelo mato e galhos, segundo a memória de Taran, parecia estar em condições piores do que antes. O telhado de colmo, semelhante a um imenso ninho de pássaro, soltava-se e obstruía as janelas estreitas; uma teia de bolor forrava as paredes, que pareciam estar prestes a desabar. De pé na soleira da porta inclinada estava a própria Orddu.

Com o coração batendo forte, Taran apeou. Mantendo a cabeça erguida, em meio ao silêncio interrompido apenas pelo bater dos dentes de Gurgi, atravessou lentamente o pátio da entrada. Orddu observava-o com olhos aguçados, negros. Se ficou surpresa, a feiticeira nada demonstrou, além de cur­var-se um pouco mais à frente para espiar Taran de perto. Sua túnica disforme balançava à altura dos joelhos; os gram­pos e travessas cravejadas de pedras preciosas brilhavam nos cabelos desalinhados e entremeados de ervas, quando ela acenou com a cabeça, num gesto rápido, demonstrando evi­dente satisfação.

— Mas quem diria! — Orddu exclamou, contente. — O querido frangotezinho e o... seja-lá-o-que-for. Mas você cresceu bastante, meu pato. Que problema haveria de ser, se você quisesse entrar numa toca de coelho! Entre, entre — disse, fazendo um gesto apressado. — Tão pálido está, pobrezinho. Não esteve doente?

Apreensivo, Taran acompanhou-a, enquanto Gurgi, tre­mendo, agarrava-se a ele.

— Cuidado, cuidado — choramingou a criatura. — Sau­dações amáveis provocam em Gurgi calafrios insuportáveis.

As três feiticeiras, conforme Taran podia ver, tinham se mantido ocupadas com tarefas domésticas. Orgoch, as fei­ções cobertas pelo capuz preto, estava sentada numa banqueta vacilante, tentando em vão cardar um punhado de lã tosquia­da que estava no seu colo. Orwen, se era mesmo Orwen, girava uma roda torta de fiar; as contas branco-leitosas que pendiam de seu pescoço pareciam estar prestes a se prender nos aros da roda. A própria Orddu, Taran supôs, estivera trabalhando no tear que estava no meio de pilhas de armas antigas e enferrujadas num canto do chalé. O trabalho do bastidor, de certo modo, estava adiantado, mas longe de ser concluído; fios atados e retorcidos saíam para todos os lados e, ao que parecia, alguns fios de lã de Orgoch estavam presos na urdidura e na trama. Taran não conseguiu decifrar o dese­nho, embora lhe parecesse, talvez devido a uma ilusão de ótica, que formas indefinidas, humanas e animais moviam-se e alternavam-se através da tecelagem.

Mas ele não teve oportunidade de analisar a curiosa ta­peçaria. Orwen, deixando de lado a roda, correu para perto dele batendo palmas, embevecida.

— O frango errante e o gurgi! — exclamou. — E como está o querido Dallbenzinho? Ainda tem o Livro dos Três? E sua barba? Que peso para ele! Não o livro; a barba — acres­centou. — Ele não veio com você? Lamentável. Mas não im­porta. É tão agradável ter visitantes.

— Não quero saber de visitantes — Orgoch resmun­gou, irritada, atirando a lã ao chão. — Não me caem bem.

— Evidentemente, sua gulosa! — retrucou Orwen, com aspereza. — E é de se admirar que ainda tenhamos alguns.

Dito isso, Orgoch bufou e resmungou em voz baixa. Sob o capuz preto da feiticeira, Taran visualizou a sombra de uma careta.

Orddu ergueu a mão.

— Não ligue para Orgoch — disse a Taran. — Hoje ela está aborrecida, pobrezinha. Era a vez de Orwen virar Orgoch e Orgoch estava ansiosa para ser Orwen. Agora está decep­cionada, pois Orwen, à ultima hora, simplesmente se recusou. Não que eu a culpe — sussurrou Orddu. — Tampouco me agrada ser Orgoch. Mas de algum modo haveremos de compensá-la.

— E você — Orddu continuou a dizer, e um sorriso enrugou-lhe o rosto encalombado —, você é o mais corajo­so dos gansinhos. Poucos em Prydain tiveram disposição de enfrentar os Pântanos de Morva; e desses poucos, nenhum ousou retornar. Talvez Orgoch os faça desistir. Só você con­seguiu, meu pintinho.

— Ó Orddu, ele é um herói corajoso — interferiu Orwen, olhando para Taran com a admiração de uma menina.

— Não diga bobagens, Orwen — revidou Orddu. — Há heróis e heróis. Não nego que, oportunamente, ele tenha agi­do com bravura. Lutou ao lado de Lorde Gwydion e orgulhou-se como um pinto usando penas de águia. Mas isso é apenas um tipo de bravura. Por acaso o gracioso sabiá alguma vez ciscou o chão à procura de suas próprias minhocas? Mas isso é outro tipo de bravura. E entre os dois, querida Orwen, ele poderá descobrir que o último denota coragem maior.

A feiticeira virou-se para Taran.

— Mas fale, meu franguinho. Por que nos procura outra vez?

— Não diga — interrompeu Orwen. — Deixe-nos adi­vinhar. Ah, eu adoro brincadeiras, embora Orgoch sempre as estrague.

Ela deu uma risadinha.

— Você deverá nos dar mil e três chances e eu serei a primeira a especular.

— Muito bem, Orwen, se isso lhe agrada — disse Orddu, sendo indulgente. — Mas mil e três é número suficiente? Para um cordeiro, talvez seja.

— As senhoras se preocupam com as coisas como elas são — disse Taran, obrigando-se a olhar a feiticeira bem nos olhos — e como devem ser. Devem saber tudo a respeito de minha busca, do começo ao fim, e que pretendo descobrir qual é minha ascendência.

— Ascendência? — disse Orddu. — Não podia ser mais fácil. Escolha os pais que quiser. Uma vez que são desconhe­cidos, que diferença faz para eles ou para você? Acredite no que quiser. Vai ficar surpreso ao perceber como é reconfortante.

— Não peço conforto — respondeu Taran —, mas a verdade, seja ela cruel ou feliz.

— Ah, meu amável sabiá — disse Orddu —, nada é mais difícil do que descobrir isso. Há os que passaram a vida toda à procura de uma verdade e, muitas vezes, em condi­ções piores do que a sua.

— Faz algum tempo, havia uma rã — prosseguiu Orddu, alegremente. — Lembro-me dela muito bem, pobrezinha; não tinha certeza se era uma criatura terrestre que gostava de nadar debaixo d’água, ou uma criatura aquática que gostava de tomar sol sobre troncos de árvores. Nós a transformamos numa cegonha com um apetite voraz por rãs e, desde então, ela não teve mais dúvidas a respeito do que era... nem as outras rãs, a propósito. Nós faríamos o mesmo por você, de bom grado.

— Por vocês dois — disse Orgoch.

— Não! — gritou Gurgi, escondendo-se por trás de Taran. — Ó gentil mestre, Gurgi alertou das temerosas trans­formações e adaptações.

— Não se esqueça da cobra — disse Orwen a Ord­du —, descontente e desorientada porque não sabia se era verde com manchas marrons ou marrom com manchas ver­des. Nós a transformamos numa serpente invisível — acres­centou —, com manchas marrons e verdes, de modo que pudesse ser vista com facilidade e nunca ser pisada. Depois disso ela ficou muito agradecida e mais tranqüila.

— E eu me lembro — grasnou Orgoch, pigarreando —, havia um...

— Fique quieta, Orgoch — interrompeu Orwen. — Suas histórias têm sempre uns desfechos tão... tão... atrapalhados.

— Veja bem, meu frango — disse Orddu —, podemos ajudá-lo de várias maneiras, todas mais rápidas e mais sim­ples do que qualquer uma que você escolher. O que você queria ser? Se quer minha opinião, sugiro um ouriço; é uma vida mais segura. Mas não me deixe influenciá-lo; a opção é sua.

— Não. Vamos surpreendê-los — exclamou Orwen, entusiasmada. — Tomaremos a decisão e os pouparemos do trabalho entediante de fazerem a escolha. Ficarão muito mais satisfeitos. Será fascinante ver os olhos deles em suas carinhas, ou bicos, ou seja lá o que tiverem, afinal.

— Nada de aves — resmungou Orgoch. — Nada de aves, de jeito nenhum. Não as suporto. Penas me fazem tossir.

Gurgi estava tão apavorado que só conseguia balbuciar. Taran sentiu o próprio sangue correr frio nas veias. Orddu dera um passo à frente, e Taran, numa atitude defensiva, le­vou a mão à espada.

— Ora, ora, meu franguinho — observou Orddu, ale­gremente —, não perca a calma ou poderá perder muito mais. Você sabe que sua lâmina é inútil aqui, e brandir espa­das não deixa ninguém no melhor estado de espírito. Foi você que preferiu entregar-se às nossas mãos.

— Mãos? — resmungou Orgoch.

Das profundezas do capuz, seus olhos avermelhados fais­caram e seus lábios contraíram-se. Taran não se alterou.

— Orddu — disse, procurando manter a voz firme, tan­to quanto possível —, vai me contar o que preciso saber? Caso contrário, seguiremos nosso caminho.

— Só estávamos tentando facilitar as coisas para você — disse Orwen, fazendo beicinho e passando os dedos pelas miçangas. — Não precisa se ofender.

— É claro que lhe diremos, meu bravo girino — disse Orddu. — Você terá conhecimento de tudo o que procura saber, assim que resolvermos outro assunto: o preço a pagar. Considerando que o que você quer é tão importante... para você, pelo menos... o custo pode ser bem alto. Mas estou certa de que pensou nisso antes de vir.

— Quando procurávamos o Caldeirão Negro — Taran começou a dizer —, como pagamento as senhoras levaram o broche mágico de Adaon, o objeto que eu mais estimava. Desde então, não encontrei mais nada que tivesse tanto va­lor para mim.

— Mas meu frango — disse Orddu —, fechamos esse negócio muito tempo atrás; está feito e encerrado. Você quer dizer que não trouxe nada? Pois então considere-se feliz de se transformar num ouriço, pois não pode esperar coisa melhor.

— Da última vez — Orgoch sussurrou com a voz rouca no ouvido de Orddu — você quis acabar com os dias do cordeirinho; que bocado delicioso teria sido.

— Orgoch, sempre pensando em seus próprios praze­res — respondeu Orddu. — Você devia ao menos fazer um esforço de pensar naquilo de que todas nós gostamos.

— Uma menina de cabelos dourados estava com ele — Orwen interveio —, uma criaturinha encantadora. Ele, certa­mente, tem memórias adoráveis a seu respeito. Poderíamos resgatá-las, não é mesmo?

E continuou a falar, com ansiedade.

— Seria tão agradável deixá-las espalhadas e olhar para elas durante as longas noites de inverno. Infelizmente, ele não ficaria com nenhuma lembrança, mas seria um excelente negócio.

Taran prendeu a respiração.

— Nem mesmo as senhoras seriam tão cruéis.

— Não seríamos? — respondeu Orddu, sorrindo. — Piedade, gansinho querido, ao menos isto você deve saber, simplesmente não entra em questão, no que nos diz respeito. No entanto — continuou, voltando-se para Orwen —, isso tampouco nos serviria. Já temos memórias suficientes.

— Então me escutem — exclamou Taran, endireitando a postura e fechando as mãos para evitar que tremessem. — É verdade que quase nada possuo de valioso, nem mesmo meu nome. Não há nada que as senhoras queiram de mim? Ofereço-lhes isso — continuou a dizer rapidamente, em voz baixa.

Taran sentiu a testa umedecer. Embora tivesse toma­do tal decisão em Caer Dallben, ponderando-a cuidadosa­mente, diante da situação real quase vacilou e desejou não revelá-la.

— Qualquer coisa de valor que eu, por acaso, encontre na minha vida futura — disse Taran —, o maior tesouro que venha parar nas minhas mãos, empenho-o agora. Será de vocês e poderão exigi-lo quando quiserem.

Orddu não respondeu. Apenas olhou para ele com curiosidade. As outras feiticeiras estavam quietas. Até Gurgi havia parado de choramingar. As figuras do tear pareciam se contorcer diante dos olhos de Taran enquanto ele aguardava que Orddu falasse.

A feiticeira sorriu.

— Sua busca pela verdade vale tanto que você está disposto a gastar o que ainda não ganhou?

— Ou o que talvez jamais ganhe — grasnou Orgoch.

— Nada mais posso oferecer — exclamou Taran. — Não podem recusar.

— O tipo de negócio que você propõe — disse Orddu num tom amável, mas objetivo — é, na melhor das hipóte­ses, arriscado, e a ninguém satisfaz. Nada é assim tão infalível, e quase sempre chegamos à conclusão que o infeliz pardal que faz tais promessas nunca vive o suficiente para pagá-las. Quando vive, sempre corre o risco de se tornar, digamos, um pouco teimoso. Em outra ocasião teríamos aceitado. Mas tris­tes experiências nos levam a encerrar o assunto. Não, meu frangote. Não vai ser possível. Lamentamos muito; isto é, la­mentamos tanto quanto nos é possível lamentar qualquer coisa.

A voz de Taran estava presa na garganta. Por um instan­te as feições das feiticeiras alternaram-se; ele não tinha certe­za qual delas encarava: Orddu, Orwen ou Orgoch. Era como se diante dele tivesse sido levantada uma parede de gelo cuja resistência não poderia ser rompida nem derretida. O deses­pero sufocou-o. Baixou a cabeça e virou-se.

— Mas, querido gansinho — chamou Orddu com ama­bilidade —, isso não quer dizer que não, existam outros que possam responder à sua pergunta.

— É claro que existem — acrescentou Orwen —, e para descobrir, basta procurar.

— Quem, então? — perguntou Taran, ansioso, agarran­do-se àquela nova esperança.

— Lembro-me de um melro castanho-alaranjado que, uma vez por ano, vinha afiar o bico no Monte Kilgwyry — disse Orwen. — Ele sabe tudo que até hoje aconteceu. Se você for paciente, poderá esperar e lhe perguntar.

— Ah, Orwen — interrompeu Orddu, demonstrando certa impaciência —, acho que às vezes você se detém demais no passado. O Monte Kilgwyry já se acabou há muito tempo com as bicadas do melro, e o fofinho voou para outro lugar.

— Você tem toda a razão, querida Orddu — respon­deu Orwen. — Fugiu-me da memória, por um instante. Mas e o salmão do Lago Llew? Jamais vi um peixe tão sábio como aquele.

— Foi-se — murmurou Orgoch, estalando a língua nos dentes. — Há muito tempo.

— Em todo caso, melros e peixes são efêmeros e fugidios — disse Orddu. — Algo mais confiável haveria de servi-lo melhor. Você pode, por exemplo, experimentar o Espelho de Llunet.

— O Espelho de Llunet? — repetiu Taran. — Nunca ouvi falar. O que é? Onde...

— Melhor ainda — interveio Orgoch —, ele poderia ficar conosco. E este gurgi também.

— Tente controlar-se, querida Orgoch, quando estou dando uma explicação — observou Orddu voltando-se a Taran. — Sim, talvez se você se olhasse nele, o Espelho de Llunet poderia mostrar-lhe algo de seu interesse.

— Mas onde... — Taran recomeçou a dizer.

— Longe demais — murmurou Orgoch. — De uma vez por todas, fique.

— Nas Montanhas Llawgadarn — respondeu Orddu, conduzindo-o pelo braço —, se não o mudaram de lugar. Mas ande logo, meu gansinho. Orgoch está cada vez mais agitada. Sei que ela gostaria que vocês ficassem aqui e, após duas contrariedades no mesmo dia, não posso me responsa­bilizar por seu comportamento.

— Mas como poderei encontrá-lo? — balbuciou Taran antes de se achar do lado de fora do chalé, com Gurgi tre­mendo a seu lado.

— Não se demore nos Pântanos — avisou Orddu, ao mesmo tempo em que Taran escutava gritos raivosos prove­nientes do interior da choupana. — Caso contrário, poderá se arrepender de sua coragem tola... ou tolice corajosa, não importa. Adeus, meu melro.

A porta desajeitada fechou-se de uma vez, apesar de Taran ter gritado, pedindo a Orddu que esperasse.

— Fuja! — implorou Gurgi. — Fuja, bondoso mestre, enquanto a cabeça mimosa de Gurgi ainda está presa ao pescoço.

Embora a criatura aflita cutucasse seu braço, Taran ficou imóvel, olhando fixamente para a porta. Seus pensamentos estavam confusos, um peso estranho apoiara-se sobre ele.

— Por que ela ridicularizou minha coragem? — disse ele, franzindo a testa. — Coragem para ciscar à procura de minhocas? Uma tarefa dessas seria muito mais fácil do que procurar o Espelho de Llunet.

— Depressa! — Gurgi implorou. — Gurgi está satu­rado de perguntas. Agora já pode voltar à feliz e segura Caer Dallben, sim, sim! Oh, não faça inúteis espionagens e sondagens!

Taran hesitou por um longo momento. Tudo o que sa­bia a respeito das Montanhas Llawgadarn é que ficavam dis­tantes, a leste. Taran afagou o ombro da criatura e, em segui­da, virou-se, encaminhando-se para Melynlas.

— O Espelho de Llunet é a única esperança que Orddu me deu — disse Taran. — Preciso encontrá-lo.

Enquanto Gurgi montou depressa no pônei, Taran pu­lou na sela de Melynlas. Mais uma vez olhou para o chalé, e sentiu algo estranho no coração.

— Deu-me? — murmurou. — Orddu dá alguma coisa à toa?


 

Cantreve de Cadiffor

Os dois companheiros saíram dos Pântanos de Morva e seguiram rapidamente, na direção su­deste, até os Cantreves do Vale, ao longo do Rio Ystrad, pois Taran tinha decidido interrom­per a jornada em Caer Cadarn, fortaleza do Rei Smoit, e pedir ao rei de barba ruiva que lhes fornecesse equipa­mento mais resistente do que aquele que trouxeram de Caer Dallben.

— A partir de Caer Cadarn — disse Taran a Gurgi — só poderemos continuar a procura conforme as circuns­tâncias nos guiarem. Minha pobre cabeça mimosa está cheia de perguntas — suspirou, com um sorriso oblíquo e desa­nimado —, mas de planos, infelizmente, está vazia.

Muitos dias após terem se afastado dos Pântanos, os dois companheiros cruzaram a fronteira de Cadiffor, reino de Smoit e o maior reino dos Cantreves do Vale. Já fazia tempo que a paisagem havia mudado e brejos cinzentos deram lugar a verdes prados e temas arborizadas, agradá­veis ao olhar, com fazendas aninhadas nas clareiras. Embo­ra Gurgi voltasse um olhar ansioso para os vales, sentindo o cheiro de fumaça que saía pelas chaminés das cabanas, Taran não se desviou do caminho que havia escolhido. Se mantives­sem um passo ligeiro, em três dias a mais de viagem chega­riam a Caer Cadarn. Um pouco antes do pôr-do-sol, ao ver as nuvens pesadas e escuras, Taran apeou a fim de buscar abrigo num bosque de pinheiros.

Enquanto desmontava e Gurgi desatava os alforjes, um bando de cavaleiros surgiu trotando no bosque. Taran virou-se e sacou a espada. Gurgi, gritando de susto, correu para perto do mestre.

Eram cinco cavaleiros, com boas montarias, bem ar­mados, e seus rostos estavam mal barbeados e queimados de sol. Pareciam homens muito habituados à sela. As cores que ostentavam não eram da Casa de Smoit, e Taran sus­peitou que fossem guerreiros a serviço de um dos súditos de Smoit

— Guarde sua espada — ordenou o líder do grupo, empunhando a própria arma, puxando as rédeas do cavalo diante dos viajantes e olhando-os com desdém.

— Quem são vocês? A quem servem?

— São bandidos! — exclamou outro. — Acabe com eles.

— Mais parecem espantalhos que bandidos — respon­deu o líder. — Para mim não passam de uma dupla de matutos que fugiu de seu patrão.

Taran baixou a espada, mas não a embainhou.

— Sou Taran, Porqueiro-Assistente...

— Onde estão seus porcos? — exclamou o primeiro cavaleiro com uma risada estridente. — E por que você não está tomando conta deles?

Fez um gesto com o polegar na direção de Gurgi.

— Ou vai me dizer que esta... esta pobre criatura tam­bém está sob seus cuidados?

— Não é nenhum porquinho! — retrucou Gurgi. — Nada de porquinho! É Gurgi, corajoso e esperto para servir bondoso mestre!

O desabafo da criatura só serviu para provocar mais risadas dos cavaleiros. Enquanto isso, o primeiro cavaleiro observava Melynlas.

— Um garanhão como este não pode pertencer a al­guém de sua condição, guardador de porcos — disse ele. — Como o conseguiu?

— Melynlas é meu, por direito — respondeu Taran, com firmeza. — Um presente de Gwydion, Príncipe de Don.

— De Lorde Gwydion? — exclamou o guerreiro. — Dado por ele? Roubado dele, isso sim — gracejou. — Tome cuidado; suas mentiras vão lhe custar uma surra.

— Não digo mentira alguma, nem procuro brigas — respondeu Taran. — Viajamos em paz ao castelo do Rei Smoit.

— Smoit não precisa de guardador de porcos — um dos guerreiros interveio.

— Nem nós — disse o primeiro cavaleiro. Virou-se para os seus camaradas.

— O que têm a dizer? Devemos levar seu cavalo ou sua cabeça? Ou ambos?

— Lorde Goryon receberá com prazer a montaria sau­dável e ainda há de nos recompensar — respondeu um cava­leiro. — Mas a cabeça de um porcariço não serve para nada, nem para ele mesmo.

— Disse-o bem, e está resolvido! — exclamou o guer­reiro. — A propósito, a pé ele pode cuidar melhor dos por­cos — acrescentou, estendendo a mão para o freio do garanhão.

Dando um salto, Taran posicionou-se entre Melynlas e o cavaleiro. Gurgi deu um pulo à frente e, furioso, agarrou a perna do cavaleiro. Os outros guerreiros bateram com as esporas em suas montarias, e Taran, vendo-se no meio de cavalos empinados, foi afastado de seu próprio garanhão. Tentou erguer a espada. Um dos cavaleiros virou-se, fazendo a anca de sua montaria bater com força em Taran, que per­deu o equilíbrio. No mesmo instante outro atacante desferiu-lhe um golpe que poderia, decerto, ter custado a cabeça de Taran, caso o guerreiro não tivesse golpeado com o lado plano da espada. Assim mesmo, Taran foi ao chão, aturdido, com um chiado nos ouvidos, os pensamentos em turbilhão, e diante de seus olhos os cavaleiros pareciam irromper como se fossem cometas. Tinha uma vaga noção dos gritos de Gurgi, dos relinchos de Melynlas e parecia-lhe que outra figura se juntara à rixa. Quando conseguiu levantar-se, cambaleante, os cavaleiros haviam desaparecido, levando com eles Melynlas.

Gritando de angústia e raiva, Taran caminhou, aos tro­peções, até a trilha pela qual os homens seguiram. Foi quan­do sentiu a mão larga de alguém segurar-lhe o ombro. Virou-se bruscamente e viu um homem trajando uma veste de lã rústica, sem mangas, fechada por um cordão trançado. Os braços nus eram musculosos e fortes e suas costas curvadas, nem tanto em conseqüência do tempo, mas sim do trabalho. A mecha grisalha do cabelo um pouco longo caía-lhe no ros­to firme, porém amistoso.

— Calma, calma — disse o homem. — Agora não po­derá mais alcançá-los. Nada de mal acontecerá a seu cavalo. Os comparsas de Lorde Goryon tratam melhor os corcéis do que os estranhos.

Deu uma pancada ligeira com o bastão de carvalho que trazia.

— Dois do bando fronteiriço de Goryon vão ter de consertar as cabeças. E você também, ao que parece.

Apanhou uma sacola e atirou ao ombro.

— Sou Aeddan, Filho de Aedd — disse. — Venham, os dois. Minha fazenda não fica longe daqui.

— Sem Melynlas minha busca há de falhar — exclamou Taran. — Preciso encontrar...

De repente deteve-se. A zombaria do guerreiro ainda o magoava e ele relutava em dizer mais do que o necessário, até mesmo àquele homem que agira como amigo.

Mas o fazendeiro não estava interessado em lhe fazer perguntas.

— O que você procura — respondeu Aeddan — diz mais respeito a você do que a mim. Vi cinco enfrentando dois e apenas tornei a luta mais equilibrada. Quer curar seu fe­rimento? Então siga-me.

Assim dizendo, o lavrador começou a descer o flanco da colina, Taran e Gurgi atrás dele. Várias vezes Gurgi virou-se e brandiu o punho na direção que os cavaleiros haviam tomado, ao passo que Taran seguia com dificuldade pelo ca­minho escuro, sem dizer uma palavra, desesperado ao pensar em Melynlas e considerando, com amargura, que até aquele momento sua busca se resumira a perder o cavalo e machu­car a cabeça. Os ossos lhe doíam, os músculos latejavam. Para piorar, as nuvens tornaram-se mais densas; o cair da noite trouxe uma pancada de chuva, e quando chegaram à casa de Aeddan, Taran estava mais encharcado e enlameado do que nunca.

A moradia aonde Aeddan levou os companheiros era uma choupana simples feita de vime e barro, mas Taran ficou surpreso ao constatar o conforto e a boa mobília. Jamais, em todas as suas aventuras, havia sido hospedado pela gente do campo em Prydain; então, olhou em volta como se fosse um estranho numa terra nova. Agora que podia ver Aeddan mais de perto, percebeu a honestidade e a boa índole expressas naquele rosto curtido pelo tempo. O lavrador sorriu afetuo­samente e Taran, apesar dos ferimentos, que lhe doíam mui­to, sorriu também, sentindo que, de fato, havia encontrado um amigo.

A fazendeira, mulher alta e acostumada ao trabalho bra­çal, de feições tão marcadas quanto as do marido, ergueu as mãos diante de Gurgi, cujo pêlo molhado e emaranhado se cobrira de uma camada de gravetos e folhas de pinheiro, e deu um grito ao ver o rosto ensangüentado de Taran. En­quanto Aeddan lhe falava da luta, a mulher, Alarca, abriu um baú de madeira e de lá retirou um gibão espesso, gasto, mas cuidadosamente remendado, que Taran, agradecido, trocou por sua roupa encharcada.

Alarca começou a preparar uma mistura de ervas cura­tivas e, nesse ínterim, Aeddan deixou cair por cima de uma mesa o conteúdo de sua sacola: pedaços de pão, um queijo e algumas frutas secas.

— É pequeno o conforto que você encontra aqui — disse o lavrador. — Minha terra produz pouco, por isso, pas­so uma parte do dia trabalhando nos campos de meus vizi­nhos para ter acesso a produtos que não crescem nos meus campos.

— E olha que — disse Taran, decepcionado ao tomar conhecimento da situação de Aeddan — ouvi dizer que nos Cantreves do Vale a terra era fértil.

— Era, realmente — respondeu Aeddan, com uma risa­da sarcástica. — No tempo dos meus antepassados e não no meu. Assim como os Cantreves do Monte eram afamados pelos carneiros de lã espessa, também os Cantreves do Vale e de Ystrad eram conhecidos em terras distantes pela melhor aveia e cevada, e o próprio Cantreve de Cadiffor, pelo trigo claro e pesado como ouro. E, decerto, houve também dias dourados em toda a Prydain — continuou Aeddan, cortando o pão e o queijo em fatias e entregando-as a Taran e Gurgi. — Meu pai contou-me a história, já antiga quando lhe con­taram, de arados que trabalhavam por conta própria, foices que faziam a colheita sem o toque da mão de um homem.

— Isso também ouvi dizer — disse Taran. — Mas Arawn, Lorde da Morte, roubou aqueles tesouros, agora esquecidos e escondidos nas profundezas da fortaleza de Annuvin.

O lavrador concordou com um gesto.

— A mão de Arawn estrangula a vida de Prydain. Sua sombra arruina a terra. Nosso trabalho é mais pesado, e tudo isso porque nossas habilidades são limitadas. Foram apenas ferramentas encantadas que Arawn roubou? Havia segredos de como fazer a terra produzir em abundância, e isso tam­bém o Lorde de Annuvin nos levou.

— Duas vezes em dois anos minhas colheitas fracassa­ram — Aeddan continuou enquanto Taran escutava, pesaro­so. — O celeiro está vazio. E quanto mais trabalho para ou­tros, menos cultivo meus próprios campos. E ainda assim, meu conhecimento é insignificante. O que mais preciso está para sempre trancado com outros tesouros, nos porões de Annuvin.

— Não é habilidade que lhe falta — disse Alarca, pou­sando a mão no ombro musculoso do lavrador. — Antes da primeira semeadura — continuou —, o boi do arado e a vaca adoeceram. E na segunda... — disse em voz baixa — na se­gunda ficamos sem a ajuda de Amren.

Taran lançou um olhar indagador à mulher, cujos olhos embaçaram.

— Amren, nosso filho — disse. — Tinha a sua idade e este gibão que você está usando era dele. Ele não precisa mais da veste. Inverno e verão são iguais para ele. Está ador­mecido debaixo da terra, ao lado de outros guerreiros que tombaram. Sim, já se foi — acrescentou a mulher. — Fazia parte do exército quando enfrentaram os salteadores que tentaram nos saquear.

— Compartilho sua tristeza — disse Taran; e em segui­da, para consolá-la, acrescentou:

— Mas morreu com honra. Seu filho é um herói...

— Meu filho está morto — a mulher respondeu com amargura. — Os salteadores lutavam porque estavam famin­tos; nós, porque tínhamos pouco mais do que eles. E no final, todos ficaram com menos do que possuíam antes. Agora, o trabalho é demais para um par de mãos ou mesmo para dois. Os segredos que Arawn, Lorde da Morte, roubou poderiam nos ser muito úteis. Infelizmente não podemos recuperá-los.

— Não importa. Mesmo sem os segredos minha colhei­ta não vai fracassar este ano — disse Aeddan. — De todos os campos que tenho cultivei apenas um; mas neste trabalhei com todo o afinco.

Olhou, orgulhoso, para Taran.

— Quando minha mulher e eu não podíamos mais pu­xar o arado, cavei a terra com minhas próprias mãos e a semeei grão por grão.

O fazendeiro deu uma risada.

— Sim, e capinamos folha por folha, com o mesmo cui­dado de uma avó ao lidar com o canteiro preferido de ervas. Não vai fracassar. Com certeza, não pode fracassar — acres­centou, franzindo a testa. — Este ano, nossa subsistência de­pende da colheita.

Então, quase nada mais disseram e, quando a magra re­feição terminou, foi com satisfação que Taran estendeu seus ossos doloridos próximo à lareira, enquanto Gurgi aninhou­-se perto dele. A exaustão superou até mesmo a aflição que sentia ao pensar em Melynlas e, com o tamborilar da chuva no telhado de colmo e o assobio das brasas quase se apagan­do, Taran logo adormeceu.

Os companheiros levantaram-se antes da primeira luz da manhã e Taran já encontrou Aeddan trabalhando no cam­po. A chuva havia cessado, deixando a terra fresca e úmida. Taran ajoelhou-se e pegou um punhado de terra. Aeddan fala­ra a verdade. O solo havia sido arado com muito sacrifício e Taran olhou para o lavrador com respeito e admiração redo­brados. De fato, a fazenda poderia produzir com abundância e Taran deteve-se, olhando a terra desperdiçada, improdutiva pela falta de mãos para cultivá-la. Suspirando, virou-se rapida­mente, os pensamentos, mais uma vez, em Melynlas.

Não poderia prever como haveria de recuperar o garanhão de crina prateada, mas estava decidido a ir à fortaleza de Lorde Goryon, aonde, segundo a opinião de Aeddan, os guerreiros teriam levado o animal. Apesar de se sentir bastante aflito por causa do estimado corcel, Taran trabalhou durante toda a manhã ao lado de Aeddan. O casal de camponeses praticamente ha­via deixado de comer na noite anterior, e Taran não via outro meio de compensá-los. No entanto, por volta do meio-dia, decidiu não se demorar mais e preparou-se para partir.

Alarca chegara à porta da choupana. Do mesmo modo que o marido, a mulher nada quisera saber além do que Taran resolvera contar sobre sua busca, mas agora ela disse:

— Vai continuar a seguir seu caminho? Abandonou a casa e a família? Qual é a mãe cujo coração anseia pelo filho assim como anseio pelo meu?

— Infelizmente, ninguém que eu conheça — respondeu Taran, dobrando o gibão de Amren e pondo-o gentilmente em suas mãos. — E ninguém que me conheça.

— Você foi bem instruído nos trabalhos da lavoura — disse Aeddan. — Se procura um lugar onde seja bem-vindo, já o encontrou.

— Sejam quais forem as boas-vindas que eu venha a receber, que sejam tão sinceras quanto as suas — respondeu Taran.

E não foi sem tristeza que ele e Gurgi disseram adeus.


 

Goryon e Gast

Aeddan havia indicado o caminho mais curto para se chegar à fortaleza de Lorde Goryon e os dois viajantes lá chegaram ao entardecer. Não era um castelo, conforme Taran podia ver, mas um grande conjunto de casas circundado por uma cerca de estacas de madeira presas com vime e terra prensada. O portão de estacas pesadas estava aberto e havia um grande fluxo de cavaleiros, guerreiros a pé e vaqueiros tra­zendo o gado de volta do pasto.

Embora Gurgi não tivesse pressa alguma, Taran conti­nuou a avançar, mantendo no rosto a expressão mais co­rajosa possível e assim, no meio da multidão atarefada, os dois entraram no forte, despercebidos. Sem dificuldade Taran encontrou os estábulos, que eram maiores, mais lim­pos e estavam em melhores condições que as demais cons­truções; caminhou rapidamente na direção de um jovem que recolhia palha e perguntou-lhe, com voz firme:

— Diga-me, amigo, está aqui um garanhão cinzento que os guerreiros de Lorde Goryon capturaram? Um cor­cel bonito, é o que dizem, e raro.

— Garanhão cinzento? — exclamou o rapaz da estre­baria. — Dragão cinzento, melhor dizendo! A fera derru­bou metade de sua baia e deu-me uma mordida que jamais esquecerei. Até o final do dia Lorde Goryon vai estar com os ossos quebrados.

— Como assim? — Taran perguntou depressa. — O que ele fez com o garanhão?

— O que o corcel fez com ele! — respondeu o rapaz, sorrindo com malícia. — Já o derrubou mais de 12 vezes! O próprio Mestre de Cavalaria não consegue ficar três segun­dos no dorso da criatura, mas Goryon está tentando montá-lo, neste momento. Goryon, o Valoroso, assim é chamado — o jovem riu entre os dentes; em seguida acrescentou, tapan­do a boca: — Embora, no meu entender, ele não tenha estô­mago para desempenhar essa tarefa. Mas seus homens o ins­tigam, e então Goryon pretende dominar a fera, mesmo que antes ele tenha de quebrar as costas do animal.

— Mestre, mestre — Gurgi sussurrou, aflito. — Vá de­pressa ao Rei Smoit para pedir ajuda!

O rosto de Taran havia empalidecido ao ouvir as pala­vras do rapaz. Caer Cadarn era muito distante dali; a ajuda de Smoit chegaria tarde demais.

— Onde está o garanhão? — perguntou, ocultando a ansiedade. — Vale a pena ver o que está acontecendo.

O jovem do estábulo apontou o ancinho em direção a uma construção comprida, de teto baixo.

— No campo de treinamento atrás da Ala Nobre. Mas tome cuidado — acrescentou, esfregando o ombro —, man­tenha distância ou a fera vai fazer com você coisa pior do que fez comigo.

Taran saiu imediatamente e, assim que passou pela Ala Nobre, ouviu gritos e o relinchar furioso de Melynlas. Taran começou a correr. Adiante havia um campo sem grama, mar­cado pelos cascos de cavalos. Vislumbrou guerreiros cercan­do o garanhão cinzento que se empinava, dava pulos e girava com os cascos no ar. No momento seguinte a figura robusta e atarracada que estava em cima do dorso do cavalo voou longe; em seguida, com braços e pernas debatendo-se, Lorde Goryon precipitou-se no chão e lá ficou, parecendo um saco de chumbo.

Melynlas, desesperado, galopava tentando escapar do círculo de guerreiros, um dos quais se apressou para segurar a rédea do cavalo. Tendo esquecido toda a prudência, Taran gritou e correu para perto do garanhão. Agarrou a rédea antes que o homem, atônito, pudesse pensar em sacar a es­pada, e abraçou o pescoço de Melynlas, que relinchou, cum­primentando-o. Os demais espectadores correram na dire­ção de Taran quando ele tentava montar e puxar Gurgi para junto de si, Sentiu alguém agarrá-lo pela veste. Desvencilhou-se e apoiou as costas no flanco do garanhão. Enquanto isso Lorde Goryon conseguira levantar-se, e agora irrompia atra­vés do turbilhão de guerreiros.

— Insolência! Imprudência! — vociferou Goryon.

Sua barba grisalha estava eriçada como um ouriço furio­so. O rosto sisudo estava sarapintado de púrpura, talvez pe­los hematomas, pela respiração presa, ira ou pelas três razões juntas, Taran não saberia dizer.

— Um simples camponês põe a mão em meu cavalo? Levem-no daqui! Dêem-lhe uma boa surra pelo insulto.

— Nada mais faço do que reclamar meu próprio corcel — gritou Taran. — Melynlas, cria de Melyngar...

Um homem alto e esquelético, com o braço numa tipóia, que Taran julgou ser o Mestre de Cavalaria, olhou atenta­mente para ele.

— Cria de Melyngar, o cavalo de batalha do Príncipe Gwydion? É linhagem nobre. Como sabe disso?

— Assim como sei que Melynlas me foi roubado — declarou Taran — perto da fazenda de Aeddan, na fronteira de seu território; e de meu companheiro foi roubado o pônei.

Tentou então explicar quem era e o propósito de sua jornada, mas o lorde do cantreve, ignorando-o, interrompeu, encolerizado.

— Descaramento! — gritou Goryon, sua barba eriçando, ainda mais furioso. — Como se atreve um porcariço insultar-me com uma história de mentiroso? Meus homens da fronteira conseguiram essas montarias quase ao custo de suas vidas.

— Ao custo de nossas vidas — Taran retrucou, olhando depressa para os rostos a sua volta. — Onde estão os cava­leiros? Imploro-lhe que os chamem para testemunharem.

— Mais insolência! — disse com rispidez o lorde do cantreve. — Eles percorrem as fronteiras de acordo com as ordens que recebem. Você quer dizer que mantenho ho­mens indolentes a meu serviço?

— E grande serviço eles lhe prestaram — um dos guer­reiros disse a Goryon. — Heróis, todos eles, enfrentaram seis gigantes...

— Gigantes? — repetiu Taran, mal podendo acreditar no que ouvia.

— Decerto, gigantes! — exclamou Goryon. — Jamais se esquecerá de como os valentes guerreiros de Goryon, o Valoroso, foram cercados por inimigos, duas vezes mais nu­merosos que eles. Piores que gigantes! Pois um deles era um monstro feroz, com garras e presas afiadas. Outro levava um tronco de carvalho na mão e girava-o como se fosse um graveto. Mas, com honra e glória, os cavaleiros de Goryon derrotaram todos.

— O garanhão também estava enfeitiçado — acrescen­tou outro assecla de Goryon — e lutou com tanta fúria quan­to os gigantes. A fera é assassina de homens, cruel como um lobo faminto.

— Mas Goryon, o Valoroso, há de amansar o monstro — disse outro, voltando-se ao lorde do cantreve. — Você montará o bruto, não é mesmo, Goryon?

— Hã? — disse Goryon, com um sorriso doloroso e infeliz marcando-lhe o rosto. — Decerto, montarei sim — murmurou.

Em seguida disparou enraivecido.

— Você ofende minha honra se pensa que não conseguirei.

Diante desses guerreiros rudes, Taran começou a perder a esperança de encontrar quaisquer meios de convencer o temperamental lorde do cantreve; ocorreu-lhe a idéia de sacar a espada e lutar o melhor possível para escapar. Mas, dando outra olhada para os rostos endurecidos dos homens, desistiu.

— Meu senhor — disse Taran com segurança —, digo a verdade. Não havia gigante algum, apenas meu companheiro e eu, e um fazendeiro que lutou conosco.

— Nenhum gigante? — gritou Goryon. — Ora vejam, mais insultos!

Bateu o pé, como se o próprio turfe fosse impertinente.

— Está chamando meus homens de mentirosos? E tam­bém diz que estou mentindo?

— Meu senhor — Taran recomeçou, fazendo uma re­verência, pois a ele tornava-se claro que a honra suscetível de Goryon não deixaria que o lorde do cantreve acreditasse num simples relato de roubo de cavalo; e para o bando fron­teiriço, Taran percebeu, havia, consideravelmente, mais hon­ra em enfrentar gigantes do que em roubar porcariços. — Não chamo nenhum homem de mentiroso e seus homens dizem a verdade. A verdade — acrescentou — como a perceberam.

— Insolência! — gritou Goryon. — A verdade tal qual ela é! Havia gigantes, monstros, carvalhos arrancados. Meus homens foram bem recompensados por sua bravura, mas você vai levar uma surra por seu atrevimento!

— O que acredito, senhor, é o seguinte — Taran pros­seguiu, escolhendo com cuidado as palavras, pois tudo que conseguira dizer a Goryon, até o momento, havia se transfor­mado num ou noutro tipo de insulto. — O sol já se punha e nossas sombras fizeram com que parecêssemos duas vezes maiores. Na verdade, seus homens viram o dobro do que na realidade éramos.

— Quanto a gigantes — Taran disse depressa, antes que o lorde do cantreve gritasse, de novo, “insolência” —, repito, nossas sombras alongadas, no momento do crepúsculo, deram a impressão de que éramos muito mais altos, e qualquer ho­mem poderia ter se enganado quanto a nosso tamanho.

— O bastão de carvalho... — Lorde Goryon começou a dizer.

— O lavrador empunhava um bastão de carvalho maci­ço — disse Taran. — Seu braço era forte, os golpes rápidos, e dois de seus homens bem o sabem. E sua mão era tão poderosa, que não é de se admirar que os guerreiros sentis­sem que uma árvore lhes caísse em cima.

Por um instante Lorde Goryon nada disse, apenas esta­lou a língua entre os dentes e esfregou a barba arrepiada.

— E o monstro? Uma criatura encolerizada, feroz, que viram diante de seus próprios olhos.

— O monstro está à sua frente — Taran respondeu, indicando Gurgi. — Há muito tempo tem sido meu compa­nheiro. Considero-o amável, mas, quando provocado, pode se tornar o inimigo mais terrível.

— Ele é Gurgi! Sim, sim! — Gurgi gritou. — Valente e esperto, e terrível quando luta pelo bondoso mestre!

Dizendo isso, mostrou os dentes, sacudiu os braços pe­ludos e deu gritos tão apavorantes que Goryon e seus ho­mens deram um passo atrás.

Demonstrando total perplexidade, o rosto do lorde do cantreve começou a enrugar. O homem deslocou o peso do corpo de um pé para o outro, e olhou fixamente para Taran.

— Sombras! — murmurou. — Está tentando apagar a bravura daqueles que me servem. Outro insulto...

— Se seus guerreiros acreditavam que tinham visto o que agora afirmam — disse Taran — e lutaram em função disso, a bravura não é menor. Na verdade — acrescentou, sussurrando —, em todos os sentidos, a coragem é tão gran­de quanto sua honestidade.

— Nada mais que palavras — interrompeu o Mestre de Cavalaria. — Mostre-me feitos. Não existe animal algum de quatro cascos que eu não consiga cavalgar, a não ser este. Você, mero camponês, ousará montar?

Como resposta, Taran pulou rapidamente na sela. Melynlas relinchou, bateu com as patas no chão, depois ficou quieto e calmo. Lorde Goryon perdeu o fôlego de tanto es­panto e o Mestre de Cavalaria arregalou os olhos, incrédulo. Um burburinho de surpresa surgiu entre os homens de Goryon, mas Taran ouviu uma risada grosseira quando um deles exclamou.

— E essa agora, Goryon! Um roceiro cavalga um garanhão que o lorde não conseguiu domar, e leva ao mes­mo tempo o cavalo e a honra do lorde!

Taran pensava ter visto um leve brilho de alívio no rosto machucado de Goryon, como se ele não estivesse de todo descontente por não precisar cavalgar Melynlas, mas, ao ou­vir as palavras do guerreiro, as feições do lorde do cantreve escureceram-se da raiva.

— Nada disso! — Taran gritou depressa para o círculo de homens. — O seu lorde soberano deveria montar o pangaré de um guardador de porcos? Isso condiz com a sua honra?

Então dirigiu-se a Goryon, pois ocorrera-lhe uma idéia inusitada.

— Mesmo assim, meu senhor, se quiser aceitá-lo como presente...

— O quê? — gritou Goryon a plenos pulmões, o rosto empalidecendo. — Insultos! Impertinência! Insolência! Como se atreve! Não aceito presente algum de porcariços! Nem hei de me humilhar montando outra vez a fera.

Ergueu bruscamente o braço.

— Fora! Sumam de minha vista... seu pangaré, seu mons­tro com o pônei, e você também.

Goryon cerrou os maxilares e nada mais disse. O pônei de Gurgi foi retirado do estábulo e, sob os olhos do lorde do cantreve e de seus subordinados, os dois companheiros pas­saram sem impedimento pelos portões.

Taran saiu cavalgando devagar, a cabeça erguida, de­monstrando toda a segurança possível. Mas, ao se afastarem da fortaleza, os companheiros bateram com os calcanhares nos flancos de suas montarias e galoparam a toda a velocidade.

— Oh, sabedoria que recupera cavalos de lorde arro­gante! — exclamou Gurgi, quando já haviam se afastado o suficiente e estavam a salvo de qualquer mudança de idéia da parte de Goryon. — Nem Gurgi teria sido tão esperto. Oh, ele quer ser tão sábio quanto o bondoso mestre, mas sua cabeça mimosa não tem habilidade para tais idéias!

— Minha sabedoria? — Taran riu. — Em primeiro lugar, não evitou que eu perdesse Melynlas.

Ansiosamente, Taran passou os olhos pelo vale. A noite caía e sua esperança era de que estivessem próxi­mos a uma fazenda onde pudessem abrigar-se, porque após o encontro com o bando fronteiriço de Goryon, Taran não queria conhecer outros mais que pudessem estar va­gueando pelas colinas. Mas não viu chalé nem choupana, então apertou o passo em meio ao crepúsculo que se tin­gia de púrpura.

Adiante, luzes brilhavam numa clareira e Taran refreou Melynlas, fazendo-o parar próximo a uma fortificação bem semelhante à de Lorde Goryon. Mas nesta havia tochas ace­sas em todos os cantos da paliçada, em suportes erguidos bem no alto, de cada lado do portão, até mesmo na viga da cumeeira da Ala Nobre.

— Vamos nos arriscar a parar aqui? — perguntou Taran. — Se o lorde desse cantreve demonstrar a mesma cortesia de Goryon, seria preferível dormirmos no mesmo ninho de um guidainte.

Contudo, a esperança de uma cama confortável e o bri­lho convidativo das tochas fizeram o cansaço pesar ainda mais. Hesitou por um momento e, em seguida, impeliu Melynlas em direção à entrada.

Aos homens da torre de vigia Taran gritou que eram viajantes a caminho de Caer Cadarn e conhecidos pelo Rei Smoit. Sentiu um alívio quando o portal rangeu ao abrir-se e os guardas sinalizaram para que a dupla entrasse. O Camareiro-Chefe foi chamado e levou Taran e Gurgi à Ala Nobre.

— Peçam hospitalidade a meu Lorde Gast — disse-lhes o camareiro — e ele lhes concederá o que julgar conveniente.

Enquanto seguia o camareiro, Taran animou-se ao pen­sar numa refeição quente e num leito confortável. Vozes al­tas, risadas e notas alegres de uma harpa vinham do salão. Ao atravessar a porta de entrada Taran viu mesas repletas de convivas, em cada um dos lados do recinto de teto baixo. No extremo oposto, ladeado por seus seguidores fiéis e suas damas, estava sentado um chefe militar ricamente vestido, segurando numa das mãos um chifre usado para se tomarem bebidas, e na outra, um bom pedaço de carne.

Taran e Gurgi fizeram uma reverência solene. Antes que pudessem se aproximar mais, o harpista, de pé no meio do salão, virou-se, deu um grito de espanto e correu na direção deles. Taran, cuja mão estava quase sendo arrancada do bra­ço, começou a piscar tal era a surpresa diante do nariz longo e pontudo e do cabelo louro e arrepiado do velho compa­nheiro Fflewddur Fflam.

— Que bom ver vocês dois! — exclamou o bardo, empurrando-os para a mesa alta. — Senti sua falta desde que nos separamos. Estiveram em Caer Dallben? Quando embar­camos e saímos de Mona — Fflewddur explicou rapidamen­te — minha intenção era, de fato, sossegar e instalar-me em meu reino. Foi quando disse a mim mesmo, Fflewddur, queri­do amigo, a primavera só acontece uma vez por ano. E aqui está. E aqui estou. Mas e vocês? Primeiro, comida e bebida, e mais tarde, as suas notícias.

Fflewddur levou os companheiros à presença de Lorde Gast, e Taran observou o guerreiro de expressões carrega­das e barba da cor de linho enlameado. Um bonito colar pendia-lhe do pescoço; anéis brilhavam nos dedos fortes, ca­pazes até de quebrar nozes; e braceletes de prata forjada envolviam seus braços. O traje do lorde do cantreve era rico e bem talhado, mas Taran percebeu que escondia manchas e respingos, não apenas deste banquete, mas de muitos outros do passado.

Passando os dedos pela harpa, o bardo apresentou os companheiros ao Lorde Gast.

— Estes dois recuperaram o Caldeirão Negro que esta­va em mãos de Arawn de Annuvin e lutaram ao lado de Gwydion, Príncipe de Don. Que a hospitalidade do lorde corresponda a tal bravura.

— E assim será! — Gast gritou. — Nenhum viajante pode se queixar da hospitalidade de Gast, o Generoso!

O lorde abriu lugar à mesa para os companheiros e, afastando pratos e travessas vazias, bateu palmas e gritou pelo camareiro. Quando o serviçal chegou, Lorde Gast ordenou-lhe que trouxesse tal quantidade de comida e bebida que Taran não se pudesse imaginar comendo sequer a metade. Gurgi, sempre faminto, estalou os lábios, radiante.

Assim que o camareiro se retirou, Lorde Gast retomou uma história, que Taran teve dificuldade em acompanhar, re­ferente ao valor da comida que oferecia e sua generosidade em relação aos viajantes. Taran ouviu tudo, educadamente, surpreso e encantado pela boa sorte de encontrar a fortaleza de Gast. Sentindo-se mais à vontade, graças à presença de Fflewddur, Taran afinal decidiu falar do encontro com Lorde Goryon.

— Goryon! — disse Gast, irritado. — Camponês arro­gante! Rústico e grosseiro! Presunçoso e ostentador! Osten­tar o quê?

Segurou o chifre em que bebia e exclamou:

— Está vendo isto? O nome Gast gravado, as letras tra­balhadas em ouro! Veja este copo! Esta tigela! São peças que enfeitam minha mesa do dia-a-dia. Meu depósito contém objetos ainda mais finos, como você poderá verificar. Goryon! Carne de cavalo é o que ele conhece, e bem pouca!

Enquanto isso, Fflewddur ergueu a harpa à altura do ombro e começou a entoar uma canção.

— É alguma coisa pequenina composta por mim mes­mo — explicou. — Embora deva dizer que tem sido aplaudi­da e apreciada por milhares...

Assim que as palavras passaram por seus lábios, a harpa vergou-se como um arco esticado e uma corda rompeu-se com um estridente “toing”.

— Coisa desgraçada! — resmungou o bardo. — Nunca vai me deixar em paz? Posso jurar que está cada vez pior. O detalhe mais sutil acrescentado aos fatos custa-me uma cor­da. Sim, como ia dizendo, conheço meia dúzia de pessoas que acharam a canção... hã... muito bem-feita.

Com uma destreza resultante de longa prática, Fflewddur emendou a corda partida.

Naquele momento Taran olhou ao redor do salão e ficou surpreso ao perceber que, diante dos convidados, as travessas e os copos feitos de chifres estavam quase vazios e, na realidade, não apresentavam sinais de que haviam sido cheios. Sua perplexidade aumentou quando o camareiro vol­tou para deixar a bandeja repleta de comida diante do Lorde Gast, que apoiou os cotovelos em cada lado da travessa.

— Comam à vontade — exclamou Gast a Taran e Gurgi, empurrando na direção deles um pedaço pequeno de pão manchado de molho de carne, e reservando o res­tante para si mesmo. — Gast, o Generoso, é sempre pródi­go! Um defeito triste que pode me tornar pobre, mas minha natureza é ser liberal com todos os meus bens; não consigo lutar contra isso!

— Generoso? — disse Taran a Fflewddur, murmurando entre os dentes, enquanto Gurgi, engolindo a exígua porção, olhou em volta, esperando mais. — A meu ver, se compara­do a ele, um avarento é pródigo.

Assim transcorreu a refeição, com Gast incentivando, em voz alta, os companheiros a se fartarem, apesar de sem­pre lhes oferecer, numa atitude mesquinha, nada mais que alguns bocados de carne fibrosa da travessa repleta. Somente no final, quando Gast já havia engolido tudo o que podia, a cabeça vacilava de sono e a barba se espalhava no copo de chifre, os companheiros puderam comer as sobras. Por últi­mo, desanimados e ainda de barriga vazia, os três seguiram, tateando pelo caminho escuro até chegarem a um cômodo cuja mobília era escassa, mas onde, apesar de tudo, dormiram como pedras.

Na manhã seguinte Taran estava impaciente para reto­mar o caminho que levava a Caer Cadarn, e Fflewddur con­cordou em acompanhá-lo. Mas, antes de mais nada, Lorde Gast queria que os companheiros admirassem sua despensa. O lorde do cantreve escancarou arcas repletas de tigelas, ade­reços, armas, arreios de cavalos e muitas coisas que, na per­cepção de Taran, eram valiosas, mas estavam de tal forma amontoadas que ele mal podia distinguir umas das outras. Entre todos esses bens os olhos de Taran demoraram-se numa taça de vinho, de formato gracioso, a mais linda que ele já havia visto. No entanto, não teve a oportunidade de observá-la bem, pois o lorde do cantreve passou depressa às suas mãos um arreio de cavalo com ornamentos espalhafatosos e, na mesma velocidade, substituiu-o por um par de estribos que Taran, prontamente, elogiou.

— Aquela taça de vinho vale mais do que tudo — sus­surrou Fflewddur a Taran, enquanto Lorde Gast levava os três companheiros a um grande curral do lado de fora da barricada.

— Reconheço o trabalho das mãos de Annlaw Mode­lador-de-Barro, um artesão-mestre, o ceramista mais talentoso de Prydain. Juro que sua roda é encantada! Pobre Gast! — acrescentou Fflewddur. — Julga-se tão rico e pouco sabe a respeito do que possui!

— Mas de que maneira conseguiu um tesouro desses? — perguntou Taran.

— Isso eu não ousaria perguntar — murmurou Fflewddur com um sorriso malicioso. — De modo semelhante ao de Goryon quando conseguiu o seu cavalo.

— E esta — exclamou o lorde do cantreve, detendo-se próximo a uma vaca preta que pastava tranqüilamente em meio à manada —, esta é Cornilla, a melhor vaca de toda a região!

Taran não poderia duvidar das palavras do lorde do cantreve, pois Cornilla brilhava como se alguém a tivesse polido, e seus chifres curtos e arredondados resplandeciam ao sol.

Lorde Gast orgulhosamente afagou os flancos lustrosos do animal.

— Suave como um cordeiro! Forte como um boi! Veloz como um cavalo e sábia como uma coruja! — continuou Gast enquanto Cornilla, ruminando com toda a calma, volveu os olhos pacientes a Taran, como se esperasse que a consi­derassem uma simples vaca.

— Ela conduz meu gado — declarou Lorde Gast — melhor do que qualquer um de meus vaqueiros. Se necessá­rio, puxará o arado ou fará girar a roda do moinho. Suas crias são sempre gêmeas! Quanto ao leite, ela fornece o mais doce de todos! Creme, cada gota! Tão concentrado que as leiteiras mal conseguem batê-lo.

Cornilla soltou o ar quase como um suspiro, balançou a cauda e voltou a comer o capim. Da pastagem, Lorde Gast apressou os amigos a seguirem até o galinheiro e de lá às gaiolas dos falcões. Metade da manhã havia passado e Taran começava a recear que jamais sairia da fortaleza, quando Gast, finalmente, ordenou que se aprontassem as montarias.

Taran viu que Fflewddur ainda montava Llyan, a enorme gata castanho-dourada que havia salvado a vida dos compa­nheiros na Ilha de Mona.

— Sim, eu decidi ficar com ela... melhor, ela decidiu ficar comigo — disse o bardo, quando Llyan, reconhecendo Taran, deu alguns passos à frente e, com alegria, começou a esfregar a cabeça em seu ombro.

— Ela gosta da harpa mais do que nunca — Fflewddur continuou. — Não se cansa de ouvi-la.

Assim que disse essas palavras, Llyan mexeu os bigodes compridos e virou-se, como se fosse dar um bote; portanto Fflewddur, ali mesmo, precisou retirar do ombro o instru­mento e dedilhar algumas cordas enquanto Llyan, ronronan­do alto, piscava afetuosamente para ele com os grandes olhos amarelos.

— Adeus — disse o lorde do cantreve, quando os com­panheiros montaram. — Na fortaleza de Gast, o Generoso, sempre encontrarão uma generosa acolhida!

— É uma acolhida que poderia nos matar de fome — observou Taran ao bardo, rindo, assim que retomaram a ca­valgada para o leste. — Gast pensa que é mão aberta, assim como Goryon pensa que é valoroso; e, conforme posso ava­liar, nem um nem outro detêm a verdade. Mesmo assim — acrescentou —, os dois parecem satisfeitos consigo mesmos. Pensando bem, será que um homem é, verdadeiramente, aquilo que vê em si mesmo?

— Somente se o que ele vir for verdadeiro — respon­deu Fflewddur. — Se existe uma diferença muito grande en­tre sua própria opinião e os fatos... ah... então, meu amigo, eu diria que tal homem não teria mais substância que os gigantes de Goryon!

— Mas não os julgue com tanta rigidez — prosseguiu o bardo. — Esses nobres dos cantreves muito se parecem; eri­çados como porcos-espinhos, num primeiro momento, e, em seguida, afáveis como filhotes de cachorro. Todos eles acu­mulam bens, mas podem ser muito generosos conforme seu estado de espírito. Se o assunto é bravura, não se pode dizer que são covardes. A morte cavalga com eles na mesma sela, mas os lordes não lhe dão a menor importância, e em com­bate já os vi dar a vida por um camarada. Ao mesmo tempo — acrescentou —, também posso afirmar, pela experiência que adquiri em todas as minhas andanças, que, quanto mais distante o fato, mais importante ele se torna, e que a batalha mais gloriosa já se distanciou muito no tempo. Por isso não é mesmo de se admirar que a gente esbarre com tantos heróis.

— Tivessem eles harpas como a minha — concluiu Fflewddur, olhando com preocupação para seu instrumento —, que barulho se escutaria de cada fortificação de Prydain!


 

Uma Questão de Vacas

No final daquela tarde, os companheiros avis­taram o estandarte vermelho-vivo da Casa de Smoit e o urso preto do brasão esvoaçan­do com bravura acima das torres de Caer Cadarn. Diferente das fortificações dos lordes dos cantreves cercadas por estacas, o castelo de Smoit era uma fortaleza com muros de pedra talhada e portões reforçados com ferro, com espessura suficiente para resistir a todo tipo de investida; lascas retiradas das pedras e marcas nos portões indicavam a Taran que o castelo, de fato, havia repelido vários ataques. No entanto, para os três viajantes, os portões abriram-se sem dificuldade, e um guarda de honra de lanceiros aproximou-se depressa, a fim de escoltá-los.

O rei de barba ruiva achava-se sentado à mesa de jantar da Ala Nobre e, a julgar pela quantidade de traves­sas, pratos e chifres para bebidas, Taran concluiu que Smoit não parara de comer desde o início da manhã. Ao ver os companheiros, o rei levantou-se imediatamente do trono de carvalho esculpido na forma de um urso gigantesco que muito se parecia com o próprio Smoit.

— Meu corpo e meus ossos! — bradou o rei, tão alto que os pratos chacoalharam sobre a mesa. — Melhor que um banquete é ver todos vocês aqui!

O rosto marcado por cicatrizes resplandecia de satisfa­ção e ele estendeu os braços fortes em torno dos compa­nheiros, dando-lhes um abraço de estalar as juntas.

— Tire uma canção dessa geringonça velha! — excla­mou para Fflewddur. — Uma canção alegre para um encon­tro alegre! E você, meu rapaz — prosseguiu, apertando os ombros de Taran com suas mãos fortes e cobertas de pêlos ruivos —, da última vez que nos vimos, você era um magrice­la, parecia um frango depenado. E seu amigo peludo... quê? Por acaso veio rolando no meio dos arbustos desde que saí­ram de Caer Dallben?

Smoit bateu palmas, pediu mais comida e bebida, e não quis saber das novidades de Taran antes que os compa­nheiros se servissem e ele próprio engolisse outra refeição completa.

— O Espelho de Llunet? — disse Smoit quando Taran, finalmente, pôde falar-lhe de sua busca. — Jamais ouvi falar de tal coisa. Procurar uma agulha no palheiro é o mesmo que tentar encontrar um espelho nas Montanhas Llawgadarn.

A testa sisuda do rei contraiu-se e ele sacudiu a cabeça.

— As Llawgadarn situam-se na região dos Condados Livres, e se aquela gente vai estar disposta a ajudá-lo...

— Os Condados Livres? — perguntou Taran. — Ouvi falar deles, mas quase nada sei a seu respeito.

— São vilarejos e burgos — interveio Fflewddur. — Es­tendem-se do leste dos Cantreves do Monte até o Grande Avren. Eu mesmo, em minhas andanças, jamais cheguei aos Condados Livres. Mas a região em si é a mais agradável de Prydain... belas colinas, vales, solo rico para a lavoura e capim macio para o pastoreio. Há ferro para se fazerem boas lâmi­nas, ouro e prata para ornamentos belíssimos. Dizem que Annlaw Modelador-de-Barro vive nos Condados, assim como muitos outros artesãos: mestres tecelões, ferreiros; desde tem­pos remotos, o talento desses artífices tem sido motivo de orgulho daquela gente.

— Um povo orgulhoso é o que são — disse Smoit. — E uma raça altiva. Não reverenciam nenhum lorde dos cantreves, a não ser o Grande Rei Math.

— Nenhum lorde dos cantreves? — perguntou Taran, intrigado. — Então, quem os rege?

— Ora, regem-se a si mesmos — respondeu Smoit. — Também são fortes e determinados. E, pelas minhas barbas, tenho certeza de que existem mais paz e boa vizinhança nos Condados Livres do que em qualquer lugar de Prydain. Por­tanto, que necessidade têm eles de reis ou lordes? No cerne da questão — acrescentou —, a força de um rei concentra-se na vontade daqueles que ele governa.

Taran, que estivera escutando com atenção essas pala­vras de Smoit, concordou com um movimento de cabeça.

— Não havia pensado nisso — disse. — De fato, a ver­dadeira lealdade é aquela que se presta espontaneamente.

— Basta de conversa! — exclamou Smoit. — Faz a mi­nha cabeça doer e secar minha goela. Vamos comer mais carne e beber mais. Esqueça o espelho. Fique comigo em meu cantreve, rapaz. Iremos caçar, festejar e nos divertir. Aqui você acrescentará mais músculos a seus ossos do que se sair por aí numa caminhada inútil. E esse conselho, meu garoto, é dos bons.

No entanto, quando Smoit, afinal, percebeu que Taran não se deixaria dissuadir, concordou, de boa vontade, em ceder aos companheiros tudo o que precisariam para a jor­nada. No dia seguinte, após farta refeição matinal que, segun­do Smoit, lhes serviria para aguçar o apetite antes do almoço, o rei abriu-lhes a despensa e os acompanhou para se certifi­car de que escolheriam o que havia de melhor.

Taran mal começara a separar rolos de corda, alforjes e arreios de couro quando um dos guardas irrompeu no recin­to, gritando:

— Majestade! Chegou um cavaleiro do Lorde Gast. As­saltantes da fortaleza de Lorde Goryon roubaram a vaca pre­miada de Gast e, com ela, o resto da manada!

— Minha vida! — bradou Smoit. — Meu fôlego e meu sangue!

As sobrancelhas espessas e embaraçadas do rei uniram-se e seu rosto ficou vermelho como a barba.

— Como ele ousa tumultuar meu cantreve?

— Os homens de Gast armaram-se. Avançam contra Goryon — o guarda apressou-se a dizer. — Gast suplica-lhe que o ajude. Sua Majestade há de falar com o mensageiro?

— Falar com ele? — bramiu Smoit. — Vou acorrentar o senhor dele por romper a paz. E pior ainda! Por rompê-la sem meu consentimento!

— Acorrentar Gast? — perguntou Taran, de certo modo perplexo. — Mas Goryon roubou sua vaca...

— Sua vaca? — gritou Smoit. — Sua vaca, de fato! Ano passado, Gast roubou-a do próprio Goryon. E antes disso, ocorreu o contrário. Nenhum deles sabe a quem pertence o animal. Aqueles dois briguentos sempre foram uns desmiola­dos. Nesta época do ano, o clima quente faz o sangue deles esquentar. Mas vou esfriar os ânimos. Na minha masmorra! Os dois, Gast e Goryon!

Smoit apanhou um machado de guerra, pesado, e com lâminas duplas.

— Vou trazê-los pelas orelhas! — vociferou. — Eles conhecem bem minhas masmorras; já estiveram lá várias ve­zes. Quem vem comigo?

— Eu vou! — exclamou Fflewddur, os olhos iluminan­do-se. — Grande Belin, um Fflam jamais evita um combate!

— Ficaríamos contentes de poder ajudar, caso Sua Ma­jestade pedisse nossa ajuda — Taran começou a dizer. — Mas...

— Então monte, meu jovem! — gritou Smoit. — Você verá a justiça ser feita. E farei a paz entre Gast e Goryon, nem que seja preciso quebrar as cabeças deles.

Balançando o machado de guerra, Smoit saiu correndo da despensa gritando ordens a torto e a direito. Uma dúzia de guerreiros pulou nas selas dos cavalos. Smoit montou um garanhão imponente, de peito largo, e deu um assobio tão forte por entre os dentes que por pouco não os quebrou. Em seguida acenou para que seus homens avançassem; em meio aos gritos e à confusão, Taran, desnorteado, viu-se montado em Melynlas, atravessando o pátio a galope e sain­do do castelo.

O rei de barba ruiva atravessava os vales a tal velocidade que, para acompanhá-lo, até o vigor de Llyan era posto à pro­va; quanto a Gurgi, quase sem fôlego, agarrava-se ao pescoço de seu pônei, que galopava o mais rápido possível. O cavalo de batalha de Smoit estava espumando e Melynlas também, até que o rei do cantreve fez sinal para que parassem.

— À carne! — Smoit gritou, deslizando da sela, tão bem-disposto como se tivesse apenas começado uma cavalgada matinal. Os companheiros, ainda ofegantes, não haviam recu­perado o apetite, mas Smoit bateu com as mãos no cinturão de bronze.

— A fome entristece um homem e mina todo o espírito de luta.

— Majestade, temos de combater Lorde Gast? — per­guntou Taran, um pouco preocupado, pois o grupo de Smoit totalizava apenas os 12 que haviam deixado Caer Cadarn. — Se os homens de Lorde Goryon estiverem armados, sere­mos insuficientes para enfrentar todos eles.

— Combater? — replicou Smoit. — Não, e é lamentá­vel. Vou pegar aqueles arruaceiros pelo nariz e metê-los na masmorra antes do anoitecer. Eles farão o que eu ordenar. Pelas minhas barbas, sou seu rei! Aqui há músculo que che­gue — acrescentou, brandindo um punho forte — para que eles se lembrem.

— No entanto — Taran arriscou-se a dizer —, o se­nhor mesmo me disse que a verdadeira força de um rei resi­de na vontade daqueles que ele governa.

— Como é? — exclamou Smoit, que apoiara o corpanzil num tronco de árvore e estava prestes a atacar o pedaço de carne que retirou do alforje. — Não me confunda com mi­nhas próprias palavras! Meu corpo e meus ossos, um rei é um rei!

— Quis dizer apenas que o senhor já trancou Gast e Goryon em sua masmorra várias vezes — Taran respondeu. — E ainda assim eles brigam. Não há um modo de manter a paz? Ou fazê-los entender...

— Eu os farei entender! — berrou Smoit, apertando com força o machado de guerra.

Uniu as sobrancelhas arqueadas.

— Mas a verdade é — admitiu, contraindo o cenho e parecendo mastigar a idéia como se fosse uma cartilagem da carne — que de cara amarrada vão para a masmorra e de cara amarrada saem de lá. Você acertou, meu jovem.

A masmorra é inútil para aquela dupla. E, minha vida, eu sei por quê! Aquilo precisa de mais umidade, mais friagem. Então, que seja! Hoje à noite ordenarei que o lugar seja bem molhado.

Taran preparava-se para explicar que sua idéia era ou­tra, mas Fflewddur deu um grito e apontou um cavaleiro a galope pela planície.

— Vista as cores de Goryon — gritou Smoit, pondo-se de pé subitamente e ainda segurando o pedaço de carne numa das mãos e o machado na outra.

Dois guerreiros montaram rapidamente e, de espadas em punho, esporearam os cavalos para alcançar o cavaleiro. Mas este, brandindo a arma com o punho voltado para baixo, gritou que trazia notícias do lorde do cantreve.

— Seu embusteiro! — vociferou Smoit, deixando cair a carne e o machado e agarrando o cavaleiro pela gola para tirá-lo da sela. — Que brincadeira de mau gosto vem por aí? Fale! Dê-me notícias, homem, ou eu as arrancarei de você com suas tripas!

— Majestade! — disse o mensageiro, ofegante. — O ataque de Lorde Gast é intenso. Meu Lorde Goryon está em apuros; ordenou a mais guerreiros que se armassem e conta com sua ajuda.

— E as vacas? — gritou Smoit. — Gast conseguiu recuperá-las? Goryon ainda as tem?

— Nem uma coisa nem outra, Majestade — respondeu o mensageiro, da melhor maneira possível, pois Smoit o sacu­dia no intervalo de cada palavra. — Lorde Gast atacou Lorde Goryon a fim de recuperar o próprio rebanho e também apossar-se da manada de Lorde Goryon. Mas, enquanto luta­vam, os animais assustaram-se e fugiram. As vacas? Majestade, os dois rebanhos foram-se, perderam-se todas, e até mes­mo Cornilla!

— Que seja o ponto final do assunto! — declarou Smoit. — E uma boa lição para todos os ladrões de vacas. Gast e Goryon hão de suplicar a paz e escaparão da masmorra.

— Majestade, a luta é cada vez mais acirrada — disse o mensageiro, ansiosamente. — Nenhum deles desiste. Cada um culpa o outro pela perda do rebanho. Lorde Goryon jura vingar-se de Lorde Gast, e Lorde Gast jura vingar-se de Lorde Goryon.

— Os dois mal podiam esperar por uma batalha — estourou Smoit. — Agora encontraram a desculpa!

Chamou um de seus guerreiros e ordenou-lhe que le­vasse o mensageiro de Goryon a Caer Cadarn, onde seria mantido como refém.

— Os demais, às montarias — ordenou Smoit. — Meu corpo e meus ossos, no final das contas vamos nos divertir!

Agarrou o machado.

— Ah, cabeças vão se partir hoje! — exclamou com satisfação, e seu rosto marcado brilhou como se estivesse a caminho de um banquete.

— Os bardos hão de cantar esse acontecimento! — ex­clamou Fflewddur, influenciado pelo ardor de Smoit. — Um Fflam no ponto alto da batalha! Quanto mais alto, melhor!

A harpa estremeceu e uma corda rompeu-se em duas partes.

— Quero dizer — Fflewddur acrescentou rapidamen­te —, espero que não estejamos em minoria.

— Majestade — chamou Taran, quando Smoit cami­nhava em direção ao cavalo. — Se Gast e Goryon não que­rem interromper a luta porque os rebanhos se perderam, não deveríamos tentar encontrar as vacas?

— Sim, sim! — Gurgi interveio. — Encontrar as vacas desaparecidas e sumidas! E pôr um ponto final nos combates e embates!

Mas Smoit já havia montado e gritava à coluna para que o seguisse; e Taran nada mais podia fazer a não ser segui-lo a galope. A que fortaleza Smoit os guiava Taran não sabia. Se­gundo o critério de Smoit, Taran concluiu, pouca diferença faria se o primeiro a cair nas mãos do rei fosse Gast ou Goryon.

No entanto, Taran logo reconheceu o caminho que ele e Gurgi haviam tomado para chegar à fazenda de Aeddan, e então supôs que Smoit seguiria para a fortaleza de Goryon. Mas quan­do atravessavam a galope um descampado, o rei virou brusca­mente para a esquerda e, nesse momento, Taran viu de relance, não muito longe dali, uma tropa de guerreiros montados.

Ao ver os estandartes, Smoit bradou com fúria e espo­reou o cavalo a fim de alcançá-los. Mas os cavaleiros, que por sua vez galopavam a toda a velocidade, desapareceram rapi­damente no bosque. Smoit puxou as rédeas para parar, gri­tando por eles e agitando no ar o enorme punho.

— Goryon acrescentou mais guerreiros à rixa? — voci­ferou Smoit, ruborizando. — Então Gast fez o mesmo! Aque­les bobocas estavam usando as cores dele.

— Majestade — Taran tomou a palavra —, se encon­trarmos as vacas...

— Vacas? — bradou Smoit. — Não são apenas vacas que importam nessa história, rapaz. Uma rixa dessas pode propagar-se como faísca em pavio. Aqueles brigões obstina­dos hão de fazer Cadiffor inteiro arder em chamas, e quando nos dermos conta estaremos todos nos agredindo, mutua­mente! Mas, por minhas barbas, eles hão de saber que meu sangue é mais forte que o deles!

Smoit hesitou e sua fisionomia fechou-se de tanta preo­cupação. Fez uma careta e repuxou a barba.

— Os lordes do cantreve vizinho — murmurou — não vão ficar parados, e, sim, hão de nos atacar quando percebe­rem que nos enfrentamos uns aos outros!

— Mas as vacas — insistiu Taran. — Nós três podemos procurá-las enquanto o senhor...

— A masmorra! — gritou Smoit. — Farei com que Gast e Goryon estejam lá antes que a briga fuja ao controle.

Smoit bateu com os calcanhares no cavalo e avançou, sem fazer qualquer tentativa de se manter em qualquer trilha, precipitando-se às carreiras por entre os arbustos e o mata­gal. Com os companheiros e a fileira de guerreiros atrás dele, a galope, Smoit passou por cima das pedras à margem de um rio e lançou seu cavalo na correnteza. O rei escolhera mal o ponto da travessia pois, em seguida, Taran viu-se imerso em água à altura da sela. Smoit, gritando com impaciência, atra­vessou o rio, rapidamente. Taran viu o rei erguer-se nos estri­bos para acenar e apressar seus acompanhantes. Mas, no momento seguinte, o cavalo pisou em falso e pendeu para o lado; corcel e cavaleiro caíram, fazendo um estardalhaço na água e, antes que Taran pudesse apressar Melynlas a fim de alcançar o rei, Smoit desprendeu-se da montaria e, como um tonei com braços e pernas, foi levado rapidamente rio abaixo.

Mais atrás, alguns guerreiros que tinham voltado tenta­vam resgatar o rei, caminhando pela margem do rio. Taran, na margem oposta, exigiu o máximo de Melynlas, saltou da sela no solo seco e correu ao encalço de Smoit. O som da água impetuosa encheu-lhe os ouvidos e, apavorado, Taran percebeu que o rei estava sendo arrastado, implacavelmente, na direção de uma cachoeira. Com o coração explodindo no peito, Taran passou a correr duas vezes mais rápido; porém, antes que pusesse os pés na corredeira, viu a barba ruiva do rei submergir na água encrespada, e gritou de desespero quan­do Smoit desapareceu à beira da queda-d’água.


 

Um Julgamento

Taran desceu com dificuldade pelas pedras salien­tes ao lado da cachoeira. Na represa envolta num borrifo branco, a forma robusta de Smoit girando no turbilhão mal podia ser vista. Indiferente à água, que batia forte, Taran atravessou a corredei­ra e pulou na represa. Tateou à procura do cinturão de Smoit e finalmente o agarrou. Debatendo-se no redemoi­nho e quase se afogando, Taran, com muito custo, levou o rei semi-inconsciente até a margem.

Smoit sangrava muito na testa, e o rosto corado ago­ra estava pálido como giz. Taran arrastou o corpo enchar­cado do rei, pondo-o a salvo das águas revoltas. Logo de­pois Gurgi e Fflewddur já estavam a seu lado, ajudando-o a levar o rei para terra. Smoit, que mais parecia uma baleia encalhada, desfaleceu à beira do rio.

Gurgi, gemendo de aflição, afrouxou a vestimenta do rei enquanto Taran e o bardo examinavam os ferimentos.

— Smoit pode se considerar uma pessoa de sorte por ter apenas rachado o crânio e metade das costelas — disse Fflewddur. — Se fosse outro homem teria se partido em dois. Mas estamos em apuros — acrescentou em voz baixa, dando uma olhada para os guerreiros que haviam che­gado para se reunir em torno do rei desacordado. — Smoit não vai mais agarrar Gast ou Goryon pelos calcanhares. Pre­cisa de cuidados específicos. Seria melhor que o levássemos para Caer Cadarn.

Taran sacudiu a cabeça. Lembrou-se das palavras de Smoit sobre a possibilidade de os lordes dos cantreves vizi­nhos aproveitarem a chance para atacar. Também ocorria-lhe que encontrar Cornilla seria a melhor maneira de fazer Gast e Goryon entrarem num acordo e assim encerrar o conflito. Mas esses pensamentos estavam tão embaralhados quanto a tecelagem de Orddu, e Taran desejou ardentemen­te estar no lugar de Smoit, cujo estado de inconsciência pare­cia-lhe, naquele momento, invejável.

— A lavoura de Aeddan é perto daqui — disse Taran. — Nós o levaremos até lá e Gurgi ficará com ele. Você e eu temos de procurar Gast e Goryon e fazer o possível para interromper a rixa. Quanto a Cornilla e à manada, tenho mi­nhas dúvidas de que as encontraremos.

Os companheiros, depois de rasgarem os mantos em tiras, cobriram os ferimentos de Smoit. As pálpebras do rei tremularam e ele deu um gemido forte.

— Dêem-me de comer! — disse Smoit, arfando. — Posso até admitir que esteja meio afogado, mas isso não é razão para ficar meio faminto.

Pôs a mão no ombro de Taran.

— Bom rapaz, bom rapaz. Salvou minha vida. Mais um pouco e eu teria sido socado até virar uma pasta. Peça o que quiser e terá.

— Nada peço — respondeu Taran, prendendo as bandagens em torno do tórax imenso de Smoit. — Infeliz­mente — murmurou — o que mais quero ninguém pode me conceder.

— Não importa — disse Smoit, arquejando. — O que desejar de mim, você terá.

— Sua Majestade não pode viajar para longe — Taran começou a dizer enquanto Smoit, com dificuldade, tentava ficar de pé. — Permita que sigamos com seus guerreiros e...

— Gentil mestre! Ouça! — Gurgi gritou, agitado. — Ouça com atenção!

Llyan também havia captado algum ruído, pois suas ore­lhas voltaram-se para a frente e os bigodes contraíram-se.

— É o som do meu estômago gritando por carne e bebida! — exclamou Smoit. — Deve ser um som forte, pois estou vazio como um tambor!

— Não, não — gritou Gurgi, segurando o braço de Taran e levando-o para além das árvores da margem do rio. — Gurgi não escuta algo a tamborilar e rufar, mas sim a mugir e berrar!

Apoiando-se no bardo, Smoit cambaleou para se reunir a eles. Gurgi dissera a verdade; os ouvidos aguçados da cria­tura não o enganaram. Agora o próprio Taran ouvia um mu­gido fraco. Gurgi correu na direção do som. Adiante das ár­vores o terreno estendia-se até um vale sombrio banhado por um riacho. Taran deu um grito. Lá estava a manada, pas­tando calmamente ao redor de Cornilla.

— Minha vida! — urrou Smoit, tão alto que uma dúzia de cabeças chifrudas voltaram-se e olharam assustadas, como se uma espécie estranha de touro tivesse invadido a pasta­gem tranqüila.

— Grande Belin! — exclamou Fflewddur. — Cornilla conduziu todas a um local seguro. Ela é mais sábia do que todos os seus donos!

Cornilla ergueu a cabeça e Taran correu a seu encontro. A vaca bafejou suavemente e revirou os olhos, expressando a paciência há muito posta à prova. Smoit, sem se preocupar com os ferimentos graves, bateu palmas em sinal de triunfo e, aos berros, chamou os guerreiros.

— Majestade, deixe-nos levar a manada à fazenda de Aeddan — insistiu Taran. — Além disso, seus ferimentos pre­cisam de curativos melhores do que esses que fizemos.

— Leve-as aonde desejar, rapaz — respondeu Smoit. — Meu corpo e meus ossos, agora elas estão em nossas mãos! Isso vai trazer-me Gast e Goryon a galope!

Chamou dois homens e ordenou que levassem uma mensagem aos lordes dos cantreves.

— Digam àqueles dois arruaceiros onde estarei espe­rando por eles! — exclamou Smoit. — E digam a ambos que peçam trégua, pois as vacas foram encontradas!

— E Gurgi as encontrou! — gritou a criatura, dando pulos de entusiasmo. — Sim, sim! Valente, esperto e de ouvi­dos aguçados, Gurgi encontra tudo o que está perdido, ah, sim!

Agitava os braços peludos a sua volta e parecia prestes a explodir de orgulho e satisfação com o próprio feito.

— Oh, os bardos vão louvar o esperto Gurgi com de­clamações e canções.

— Tenho certeza que sim, amigão — disse Taran. — Você encontrou o rebanho. Mas não se esqueça de que ain­da temos de lidar com Gast e Goryon, e há apenas uma Cornilla.

De início as vacas estavam relutantes em deixar o vale, mas, depois de muita persuasão, Taran conseguiu conduzir Cornilla em direção à lavoura de Aeddan. As outras segui­ram-na baixando e sacudindo os chifres; era um estranho cortejo que percorria o caminho ao longo das planícies e dos morros ondulantes. Os guerreiros de Smoit cavalgavam de cada lado da manada, e o próprio rei de barba ruiva brandia a lança como se fosse o bastão de um vaqueiro; Llyan seguia o rebanho, atenta aos animais que se afastassem do bando; e Gurgi, envaidecido, empoleirava-se como um galo desgre­nhado no lombo de Cornilla.

Quando se avistou a choupana de Aeddan, Taran ga­lopou à frente, chamando o lavrador, porém, mal havia apea­do, a porta abriu-se de súbito e Taran recuou, surpreso. Lá estava Aeddan com uma espada enferrujada na mão. Atrás dele Taran entreviu Alarca, chorando e cobrindo o rosto com o avental.

— É assim que você retribui gentilezas? — gritou Aeddan, reconhecendo Taran de imediato. Os olhos dele faiscavam enquanto apontava a arma antiga ao bando que se aproximava. — Veio com eles para saquear nossa terra? Fora! Isso já foi feito!

— O que se passa? — gaguejou Taran, perplexo diante das palavras de alguém que considerava um amigo. — Acom­panho o rei Smoit e seus homens. Queremos a paz entre Gast e Goryon...

— Interessa saber quais foram os guerreiros que arrasa­ram minha colheita? — rebateu Aeddan. — Aquilo que Gast destruiu, Goryon destruiu duas vezes mais, e os dois guerrea­ram por todo meu terreno até que não houvesse uma só haste de trigo de pé! Para eles, combater é motivo de orgu­lho, mas a fazenda é minha vida. Buscam a vingança? Tudo o que almejo é a colheita.

Exausto de tanto desespero, Aeddan baixou a cabeça e lançou a espada ao chão.

Consternado, Taran fixou o olhar no terreno que Aeddan havia cultivado com tanto sacrifício. Os cascos dos cavalos haviam revolvido o solo até transformá-lo em lama, desen­raizando os brotos, agora destroçados. A colheita, que seria o sustento de Aeddan, não ocorreria, e Taran sentiu como se fosse sua a amargura do lavrador.

Antes que pudesse falar, um bando de homens a cavalo, surgindo do bosque que margeava a lavoura, irrompeu a ga­lope. Taran reconheceu Lorde Goryon à frente deles. Logo depois Lorde Gast e seus cavaleiros apareceram. Ao avistar o rival, o lorde do cantreve bateu as esporas na montaria, galo­pou desesperadamente até o chalé, pulou da sela e deu um grito furioso, correndo em direção a Goryon.

— Ladrão! — gritou Gast. — Pretende roubar-me Cornilla outra vez?

— Ladrão é você! — gritou Goryon. — Para começar, peguei o que era meu!

— Mentiroso! — bradou Gast. — Ela nunca foi sua!

— Insultos! Insolência! — bradou Goryon, o rosto avermelhando-se, a mão agarrando a espada.

— Quietos! — berrou Smoit.

Sacudiu o machado na direção dos lordes dos cantreves.

— Fala o seu rei! Como ousam brigar e trocar ofensas, seus arruaceiros, cabeçudos!

Smoit acenou para seus guerreiros, que correram e agarraram Gast e Goryon. Os cavaleiros dos dois grupos de combate gritavam enraivecidos e ameaçavam desem­bainhar as espadas; por um momento Taran temeu que outra batalha fosse deflagrada ali mesmo. Mas os guerrei­ros de Smoit mantiveram-se inabaláveis, e quando os ca­valeiros viram o próprio rei enfurecido, recuaram em ati­tude de submissão.

— Minha masmorra vai ensiná-los a serem bons vizi­nhos — gritou Smoit. — Lá ficarão até aprenderem. Quanto a Cornilla... hoje quebrei meu crânio, rachei meus ossos e cavalguei até quase morrer de fome, portanto exijo-a para mim mesmo! Um espólio de guerra! Uma pequena recom­pensa pelo tormento que vocês me causaram! Mais um dia e teriam incendiado todo o cantreve!

Dito isso, Gast e Goryon, furiosos, protestaram aos gri­tos; e Taran não conseguiu mais controlar a língua. Correu para perto do rei.

— Majestade, nem mesmo uma vida inteira em sua mas­morra fará nascer um grão de trigo num campo destruído. Aeddan perdeu tudo o que esperava conseguir, uma colheita que o manteria vivo, a ele e à mulher. O senhor ofereceu-me um favor — Taran prosseguiu. — Eu havia recusado; permiti­ria que o pedisse agora?

— Peça o que quiser, meu jovem — respondeu Smoit. — Já está concedido.

Taran ficou indeciso por um momento, enquanto dava alguns passos e detinha-se diante dos lordes dos cantreves. Então voltou-se para Smoit.

— Liberte Gast e Goryon — disse. — É o que lhe peço. Enquanto Smoit, atônito, piscava, Goryon, olhando de relance para Taran, pela primeira vez, exclamou:

— É o guardador de porcos que me enganou com a história de meu cavalo! Pensei que fosse um simples campo­nês, mas pede um nobre favor. Conceda-lhe o pedido, Smoit. Ele demonstra sabedoria!

— Deixe-os livres — continuou Taran — para trabalha­rem ao lado de Aeddan e tentar reparar o que destruíram.

— O quê? — gritou Gast. — Eu o considerei um herói, mas ele não passa de um matuto. Como se atreve a pedir que Gast, o Generoso, cave a terra como uma toupeira e sem qualquer recompensa!

— Desaforo! Impertinência! Insolência! — gritou Goryon. — Não admitirei que um porcariço emita julgamentos sobre Goryon, o Valoroso!

— Nem sobre Gast, o Generoso! — exclamou Gast.

— Então julguem-se a si mesmos — respondeu Taran, enchendo as duas mãos de terra e brotos despedaçados, es­tendendo-os aos lordes.

— Isto é o que resta do sustento de Aeddan. É como se pegassem numa espada e o matassem. Olhe para isto, Lorde Goryon, pois há mais verdade aqui do que em suas histórias de gigantes e monstros. E era isto que ele valorizava, Lorde Gast, mais do que o senhor valoriza qualquer um de seus bens... e, na verdade, Aeddan tinha mais direito à colheita, pois trabalhou duramente para consegui-la.

Gast e Goryon calaram-se; os dois lordes valentões olha­ram para o chão como dois meninos tímidos.

Aeddan e a mulher observavam sem dizer nada.

— O rapaz tem sobre os ombros uma cabeça melhor do que a minha — exclamou Smoit — e seu julgamento é mais sensato! Mais generoso, também, pois minha escolha teria sido a masmorra e não o plantio!

Os dois lordes dos cantreves, embora indecisos, con­cordaram, balançando a cabeça. Taran voltou-se a Smoit.

— O restante do favor que lhe peço é o seguinte: con­ceda a parte maior aos que mais necessitam. Sua majestade reivindica Cornilla para si mesmo? Senhor, entregue-a a Aeddan.

— Desistir de Cornilla? — disse Smoit tropeçando nas palavras e engasgando. — Minha prisioneira de guerra...

Finalmente, concordou, meneando a cabeça.

— Que seja, rapaz.

— Aeddan ficará com ela — Taran prosseguiu —, e Gast e Goryon terão seus próximos novilhos.

— E meu rebanho? — gritou Goryon.

— E o meu! — gritou Gast. — Do jeito que estão mis­turadas, não há quem possa distingui-las umas das outras.

— Lorde Goryon deverá dividir os rebanhos em partes iguais — disse Taran.

— Ele não! — irrompeu Lorde Gast. — Ele daria a mim todas as magras e ficaria com as gordas. Eu é que vou escolhê-las!

— Essa não! — gritou Goryon. — Não vai me empurrar nenhuma de suas vacas esqueléticas!

— Lorde Goryon vai separar as manadas — repetiu Taran. — Mas Lorde Gast será o primeiro a escolher a meta­de que lhe cabe.

— Disse-o bem! — irrompeu Smoit, com uma risada estrondosa. — Meu fôlego e meu sangue! Você os tem na palma da mão! Goryon divide e Gast escolhe! Ah, vejam só! É preciso que haja dois ladrões para se chegar a um acordo justo!

Aeddan e Alarca tinham se aproximado e ficaram dian­te de Taran e do Rei Smoit.

— Quem você é, na realidade, eu não sei — disse o lavrador a Taran. — Mas ajudou-me muito mais do que eu o ajudei.

— Oh, sabedoria do bondoso mestre! — exclamou Gurgi, enquanto os lordes dos cantreves começavam a dividir as manadas e os guerreiros de Smoit preparavam-se para voltar a Caer Cadarn. — Gurgi encontra as vacas, mas somente o sábio mestre pode decidir o que fazer com elas!

— Se, de fato, agi corretamente — respondeu Taran —, Gast e Goryon vão ficar à espera dos novilhos de Cornilla. Gast disse que as crias são sempre gêmeas. Espero — acres­centou com um sorriso — que Cornilla não nos decepcione.

Era noite fechada quando os companheiros chegaram a Caer Cadarn. Fflewddur e Gurgi estavam tão cansados que se atiraram nos leitos. Taran teria feito o mesmo, com satisfa­ção, mas Smoit conduziu-o pelo braço até a Ala Nobre.

— Considere que seu dia foi muito proveitoso, rapaz! — exclamou Smoit. — Evitou que o cantreve entrasse em guerra e eu fosse socado até virar geléia. Quanto a Gast e Goryon, não posso prever quanto tempo permanecerão em paz. Mas você ensinou-me uma coisa: minhas masmorras são inúteis. Meu cor­po e meus ossos! Vou mandar fechá-las imediatamente. A partir de hoje vou acostumar minha mão a falar em vez de bater!

— Mesmo assim, rapaz — prosseguiu Smoit, franzindo a testa —, meu raciocínio é lento. Não é preciso que nin­guém me diga que penso melhor quando tenho uma arma na mão. Poderá você retribuir favor por favor? Fique comigo em Cantreve de Cadiffor.

— Majestade — Taran respondeu —, pretendo desco­brir quem são meus pais. Não posso...

— Pais! — gritou Smoit, batendo na cintura larga. — Você tem em mim todos que precisar! Escute-me — acres­centou, com a voz mais suave agora —, sou mesmo um viú­vo, e não tenho filhos. Você deseja ter pais? Pois eu desejo muito ter um filho. Quando a trompa de Gwyn, o Caçador, soar para mim, não haverá quem me substitua, e não esco­lheria ninguém mais a não ser você. Fique, rapaz, e um dia você será o Rei de Cadiffor.

— Rei de Cadiffor? — gritou Taran.

Seu coração bateu forte. Para que procurar o Espelho, se ele mesmo poderia oferecer a Eilonwy o trono real, o pre­sente mais suntuoso a ser deixado a seus pés? Taran, Rei de Cadiffor. Essas palavras eram mais suaves aos seus ouvidos do que Taran Porqueiro-Assistente. Mas, de súbito, sua ale­gria arrefeceu. Eilonwy poderia até honrar sua posição, mas será que ela o respeitaria por ele ter desistido da busca antes mesmo de começá-la? Teria ele respeito por si mesmo? Du­rante um longo momento Taran não respondeu. Então, com sincera admiração, voltou os olhos para Smoit.

— A honra que o senhor me concederia — Taran co­meçou a dizer —, nada mais é tão importante para mim. Sim... queria muito aceitar.

Sua voz falhou.

— Mesmo assim, eu preferia que a dignidade real fosse para mim um dom legítimo adquirido desde o berço nobre, e não um presente. Na verdade — continuou a dizer, deva­gar —, pode ser que eu seja nobre de nascença. Se isso for comprovado, então, de bom grado, hei de governar Cadiffor.

— Qual o quê! — exclamou Smoit. — Meu corpo e meus ossos, preferia ver um guardador de porcos sensato em meu trono do que um príncipe legítimo e tolo!

— Mas essa também é a questão — respondeu Taran. — Meu coração diz que devo descobrir a verdade a respeito de mim mesmo. Não vou parar por aqui. Se o fizesse, não saberia jamais quem sou na realidade, e por toda a minha vida eu sentiria que algo me falta.

Ao ouvir essas palavras, o rosto marcado de Smoit fe­chou-se de tristeza e ele baixou a cabeça. Mas, passado um momento, bateu nas costas de Taran, alegremente.

— Meu fôlego, meu sangue e minhas barbas! — excla­mou. — Você está mesmo decidido a perseguir o ganso sel­vagem, a miragem, espelho ou seja lá o que for, e nada mais direi para impedi-lo. Procure, rapaz! Caso encontre ou não, volte, e Cadiffor o receberá bem. Mas vá depressa, pois se Gast e Goryon se enfrentarem novamente, não posso prever o que restará do cantreve!

Assim, Taran, Gurgi e Fflewddur mais uma vez se foram. No fundo do coração, Taran acalentava a esperança de re­gressar ao reino de Smoit trazendo excelentes notícias a res­peito de sua origem. Contudo, não saberia dizer quanto tem­po levaria até que voltasse a pôr os pés no Cantreve de Cadiffor.


 

Uma Rã

Saindo de Caer Cadarn, os companheiros se­guiram adiante bem depressa, e em poucos dias atravessaram o Rio Ystrad, onde Fflewddur guiou-os por algum tempo pela margem oposta, antes de tomarem a direção nordeste, através dos Cantreves do Monte. Ao contrário dos Cantreves do Vale, essas ter­ras eram acinzentadas e pedregosas. O que em outros tem­pos poderia ter sido uma pastagem viçosa, agora, confor­me Taran observava, cobria-se de mato, e as extensas áreas de floresta eram densas, escuras e emaranhadas.

Fflewddur admitiu que suas andanças raramente o le­varam àquelas paragens.

— Os nobres do cantreve são carrancudos como seus domínios. Toque a canção mais alegre e o melhor que se pode esperar em troca é um sorriso inexpressivo. Mesmo assim, se a sabedoria antiga é verdadeira, estes reinos eram tão ricos quanto quaisquer outros em Pry­dain. Ouviu falar dos carneiros dos Cantreves do Mon­te? Grande Belin, dizem que a lã deles era tão espessa que se podia afundar nela o braço, até chegar ao coto­velo! Hoje em dia, infelizmente, os carneiros andam bem malvestidos.

— Aeddan disse-me que Arawn, Lorde da Morte, rou­bou muitos segredos dos lavradores do vale — respondeu Taran. — Decerto roubou também os pastores dos Cantreves do Monte.

Fflewddur concordou com um gesto de cabeça.

— Entre os poucos tesouros que ele não destruiu ou roubou estão aqueles do Povo Formoso, e até mesmo Arawn pensaria duas vezes antes de se meter com eles.

— Seja como for — prosseguiu —, eu não trocaria os Reinos do Norte, onde está o meu reinado, por nenhum desses. Lá, meu jovem, não criamos carneiros, mas bardos e guerreiros famosos! Naturalmente, a Casa de Fflam vem man­tendo por lá seu trono... digamos, por um longo tempo.

— Nas veias de um Fflam — declarou o bardo — corre o sangue real dos Filhos de Don! O próprio Príncipe Gwydion é meu parente. Distante... distante, é verdade — acrescentou depressa —, mas, assim mesmo, um parente.

— Gurgi não liga para carneiros famosos ou bardos fel­pudos — murmurou Gurgi, saudoso. — Ele está feliz em Caer Dallben, ah, sim, e gostaria de voltar logo para lá.

— Quanto a isso — respondeu Fflewddur —, receio que você ainda tenha de cobrir muito chão até rever sua casa.

— Ninguém pode calcular quanto tempo será neces­sário para encontrar seu espelho misterioso. Seguirei você aonde me for possível — disse ele a Taran —, embora, mais cedo ou mais tarde, eu tenha de regressar a meus domínios. Meus súditos sempre anseiam por meu retorno...

A harpa sacudiu violentamente e uma corda rompeu-se em duas. O rosto de Fflewddur ficou vermelho.

— Haham — pigarreou —, sim, o que quis dizer foi: eu é que anseio por tornar a vê-los. A verdade é que sempre tenho a sensação de que eles se saem muito bem quando não estou por lá. Contudo, um Fflam tem noção de respon­sabilidade!

Os companheiros pararam, enquanto Fflewddur escor­regava das costas de Llyan e agachava-se no relvado para consertar a corda rompida. De seu gibão o bardo retirou uma chave grande, que usava para ajustar os pinos de madei­ra e, pacientemente, começou a afinar o instrumento mais uma vez.

Um grito rouco fez Taran olhar rapidamente em dire­ção ao céu.

— É o Kaw! — exclamou, indicando a forma alada que mergulhava verticalmente em direção aos companheiros. Gurgi deu um grito de alegria e bateu palmas quando o corvo pou­sou no punho de Taran.

— Então encontrou-nos, amigão! — exclamou Taran, feliz de estar com o corvo outra vez. — Diga-me — prosse­guiu depressa —, como está Eilonwy? Sente saudades... de nós todos?

— Princesa! — Kaw grasnou, batendo as asas. — Prin­cesa! Eilonwy! Taran!

Bateu o bico, pulou para cima e para baixo no punho de Taran e começou a tagarelar de tal forma que Taran mal podia distinguir uma palavra da outra. O que melhor com­preendeu foi que a rebeldia de Eilonwy quanto à obrigação de aprender a se comportar segundo os padrões reais havia, sem dúvida, diminuído, e que ela, de fato, sentia a falta dele... notícias que alegraram o coração de Taran e, ao mesmo tem­po, intensificaram as saudades que sentia da princesa dos ca­belos dourados.

Kaw também conseguiu relatar que na caverna de Mona, Glew, o gigante, tinha recuperado o tamanho original depois de tomar a poção de Dallben.

O próprio Kaw estava no melhor humor possível. Ainda tagarelando em voz alta, bateu as asas negras e brilhantes, pulou do pulso de Taran para cumprimentar os outros ami­gos e até empoleirou-se na cabeça de Llyan, onde passou a esfregar o bico no pêlo castanho-avermelhado da enorme gata.

— Os olhos dele vão nos ajudar durante a busca — Taran disse a Fflewddur, que havia deixado a harpa de lado e veio acariciar as penas lustrosas do pássaro. — Kaw pode vigiar toda a área melhor do que qualquer um de nós.

— Pode, sim — concordou Fflewddur —, se estiver determinado a fazê-lo, e se você conseguir que ele lhe preste a atenção. Do contrário, o malandro vai meter o bico na vida de todo o mundo exceto na dele próprio.

— Sim, sim — acrescentou Gurgi, agitando o dedo para o corvo. — Prestar atenção aos comandos do gentil mestre! Voar e espiar, sim, espionar e falsear, não.

Em resposta, o corvo, descaradamente, pôs para fora a língua preta e pontuda. Com um movimento rápido da cauda esvoaçou até a harpa, e com o bico fez vibrar as cordas. Aos gritos de protesto do bardo, Kaw saltou da armação curva do instrumento, pegou a chave de afinação e saiu arrastando-a pela relva.

— É atrevido como uma pega! — gritou Fflewddur, sain­do ao encalço do corvo. — E larápio como uma gralha!

Quando Fflewddur estava a meio passo de alcançá-lo, Kaw, agilmente, deu um salto e se afastou de novo, levando a chave no bico. Grasnando de alegria, o corvo mantinha-se fora do alcance de Fflewddur. Taran não conseguia parar de rir, ao ver o bardo de pernas compridas comendo em círculos en­quanto Kaw dançava à sua frente. Quando Gurgi e Taran jun­taram-se à perseguição, e os dedos de Taran quase tocaram as penas da cauda do corvo, Kaw deu um salto para cima e, numa atitude provocadora, percorreu uma distância curta, voando até o bosque. Pousou no galho retorcido de um carvalho alto e antigo e, com os olhos brilhantes como contas, ficou obser­vando os companheiros reunidos embaixo da árvore.

— Desça — Taran ordenou no tom mais firme possível, pois os trejeitos engraçados do pássaro não o deixavam ficar zangado de verdade. — Tentei ensiná-lo a se comportar bem — Taran suspirou —, mas não adianta. Ele vai trazê-la de volta quando bem entender.

— Ei! Ei! Largue a chave! — gritou Fflewddur, agitando os braços. — Largue!

Dito isso, Kaw abanou a cabeça, levantou as asas e dei­xou a chave cair — não nas mãos estendidas do bardo, mas num buraco do tronco da árvore.

— Largue! Largue! — grasnou Kaw, balançando-se para a frente e para trás no galho, matraqueando e gargalhando em vista da própria travessura.

Fflewddur bufou.

— Esse pássaro é mal-educado como um estorninho! Agora que já se divertiu bastante, cabe a mim o trabalho.

Aos resmungos, e fazendo comentários severos a res­peito do atrevimento de corvos brincalhões, o bardo abra­çou o tronco tentando erguer-se. Nem havia chegado à me­tade do caminho quando as mãos fraquejaram e ele caiu, rolando pelo solo no meio das raízes.

— Um Fflam é ágil! — disse Fflewddur, ofegante, massageando as costas doloridas. — Grande Belin, posso su­bir em qualquer árvore... hã, mas não nesta aqui.

Limpou a testa e observou o tronco alto.

— Gurgi sobe, sim, sim! — gritou Gurgi, dando um salto no carvalho.

Com braços e pernas peludos trabalhando ao mesmo tempo, num abrir e fechar de olhos a criatura escalou a árvo­re. Enquanto Fflewddur gritava, animando-o, Gurgi mergu­lhou a mão magra no buraco.

— Aqui está a chave afinada, ah, sim! — gritou. — Gurgi esperto encontrou-a!

De repente, calou-se. Taran viu o rosto da criatura en­rugar de surpresa e espanto. Atirando a chave para Fflewddur, Gurgi pôs, de novo, a mão no buraco.

— Mas o que é isso? O que mais Gurgi encontra com apalpadelas? Bondoso mestre — gritou —, aqui está algo es­tranho, todo escondido!

Taran viu a criatura eufórica descer do carvalho com um objeto debaixo do braço.

— Veja com olhadelas! — gritou Gurgi, assim que Taran e o bardo aproximaram-se dele.

Naquele momento a travessura de Kaw fora esquecida e o corvo, nada envergonhado, voou para o ombro de Taran, esticou o pescoço e inclinou-se, decidido a ser o primeiro a espiar a descoberta de Gurgi.

— É um tesouro? — perguntou Gurgi. — Oh, tesouro de grande valor! E Gurgi o encontra!

Bateu os pés com força.

— Abra, gentil mestre! Abra e veja que riquezas contém! Gurgi passara para as mãos de seu dono um pequeno cofre de ferro, raso e de largura menor do que a palma da mão de Taran. Na tampa arredondada havia dobradiças re­forçadas, fixadas com pequenas barras de ferro, presas por um cadeado forte.

— São jóias faiscantes e cintilantes? Ou ouro brilhante e reluzente? — exclamou Gurgi, enquanto Taran virava o cofre de um lado para o outro.

Fflewddur também olhava, curioso.

— Bem, amigos — observou o bardo —, pelo menos teremos alguma recompensa pelo transtorno que a gralha ladrona nos causou. Embora, a julgar pelo tamanho, receio que não haja muito aí dentro.

Nesse ínterim, Taran tentava abrir o fecho, que se recu­sava a ceder. A tampa resistia a todas as suas pancadas e, finalmente, ele deixou o cofre no chão, de modo que Gurgi o segurasse com firmeza, enquanto o bardo e ele tentavam levantar as dobradiças com as pontas das espadas. Mas o co­fre era mais resistente do que se esperava, e os companhei­ros usaram toda a sua força, até que a tampa por fim se desprendeu e caiu com um ruído estridente. No interior acha­va-se uma pequena embalagem de couro macio, que Taran desamarrou cuidadosamente.

— O que é? O que é? — gritou Gurgi, pulando numa perna só. — Deixe Gurgi ver o tesouro brilhante!

Taran riu e sacudiu a cabeça. Na embalagem não havia nem ouro nem pedras preciosas, mas somente um pedaço fino de osso, do mesmo comprimento do dedo mínimo de Taran. Gurgi deu um gemido de decepção.

Fflewddur bufou.

— Eu diria que nosso amigo peludo achou um grampo de cabelo bem pequeno ou um palito bem grande. Duvido que um ou outro tenha alguma utilidade para nós.

Taran continuou a examinar o estranho objeto. A lasca de osso era seca e quebradiça; parecia ter sido alvejada, e estava bem polida. Se era animal ou humana ele não saberia dizer.

— Que valor pode ter isso? — murmurou, franzindo a testa.

— Grande valor — respondeu Fflewddur —, caso al­guém precise de um palito. Fora isso... — deu de ombros. — Guarde-o, se quiser, ou jogue fora; no meu entender, tanto faz. E quanto ao cofre, não tem mais conserto.

— Mas se não tem valor algum — disse Taran, ainda examinando o osso de perto —, por que teria sido trancado com tanto cuidado? E tão bem escondido?

— Posso afirmar, por minha longa experiência, que as pessoas podem agir de modo bem estranho em relação a seus pertences — disse Fflewddur. — Um palito de esti­mação, uma herança de família... mas, sim, compreendo aonde você quer chegar. Um Fflam tem raciocínio rápido! Aquele que jogou fora este objeto não queria que ele fos­se encontrado. Conforme eu estava prestes a comentar, o que temos aqui está muito além do que os olhos podem perceber.

— E apesar disso — Taran começou —, um buraco de árvore não me parece o local mais seguro para se guardar qualquer coisa.

— Ao contrário — respondeu o bardo. — Qual a me­lhor maneira de esconder alguma coisa? Em casa poderia ser encontrado sem muita dificuldade. Se fosse enterrado have­ria o problema de toupeiras, texugos e semelhantes. Mas numa árvore como esta — continuou, olhando para cima —, duvi­do que alguém, a não ser Gurgi, pudesse subir sem uma esca­da, e é pouco provável que alguém saísse por esta floresta carregando uma escada. Se os pássaros ou esquilos fizessem o ninho por cima, o esconderiam ainda mais. Não, aquele que pôs isso ali pensou bem no assunto e teve tanto trabalho como se...

O rosto de Fflewddur empalideceu.

— Como se...

Ele engoliu em seco, engasgando com as próprias palavras.

— Livre-se disso — sussurrou ansiosamente. — Esque­ça que um dia encontramos essa coisa. Posso farejar feitiços a quilômetros de distância. Palito, grampo ou seja lá o que for, há algo de estranho nisso tudo.

Estremeceu.

— É o que sempre digo: não mexa com magia. Você sabe muito bem o que penso sobre o assunto. Não convém interferir com feitiços.

Taran não respondeu de imediato, mas fixou o olhar por alguns instantes no fragmento polido. Afinal, disse:

— Seja o que for, não cabe a nós ficar com ele. Contu­do, se é um feitiço, bom ou mau, devemos abandoná-lo?

— Jogue-o fora! — gritou Fflewddur. — Se é bom, não houve dano algum. Se é mau, não há como prever que tipo de coisa desagradável poderá ocorrer. Em todo caso, deixe-o onde estava.

Relutante, Taran concordou. Depois de embrulhar o osso mais uma vez, recolocou-o no cofre, pôs a tampa quebrada por cima e pediu a Gurgi que levasse de volta a peça para o buraco. Gurgi, que escutara com atenção a conversa de Fflewddur a respeito de feitiços, tinha receio até de tocar no cofre; e somente depois de muitos pedidos e incentivos, os companheiros conseguiram que ele aceitasse a incumbên­cia. Galgou rapidamente o carvalho e foi ainda mais veloz na descida.

— E já vai tarde — murmurou Fflewddur, caminhan­do tão rápido quanto possível e se afastando da floresta. Taran e Gurgi seguiram-no, este último lançando para trás olhares assustados, até que o carvalho desaparecesse de vista.

Os companheiros voltaram seus cavalos e prepararam-se para montar. Fflewddur segurou a harpa, olhou ao redor e exclamou:

— Então, onde está Llyan? Não me diga que ela se perdeu!

Taran, que a princípio levou um susto, logo se tranqüili­zou, pois em seguida viu a enorme gata surgir dentre os ar­bustos e pular na direção de Fflewddur, que bateu palmas e fez todo o tipo de ruídos soprando entre os dentes.

— Bichana! Bichana! Aí está você, boa menina! — excla­mou o bardo, exultando de alegria, enquanto Llyan brincava a sua volta. — Vamos, e você andou atrás do quê?

— Parece que ela pegou uma... ora, sim... ela pegou uma rã! — exclamou Taran, vendo de relance um par de pernas compridas, cujas patas membranosas pendiam da boca de Llyan.

— Sim, sim — confirmou Gurgi. — Uma rãzinha! Uma rãzinha saltitante e pulante!

— Mal posso acreditar — disse o bardo. — Não vimos pântanos nem lagos e, a propósito, a água é escassa por aqui.

Ronronando de orgulho, Llyan deixou cair o seu fardo aos pés de Fflewddur. Era, de fato, uma rã, a maior que Taran já vira. O bardo, depois de dar umas palmadinhas na cabeça de Llyan e acariciar-lhe as orelhas, ajoelhou e, com certa re­pulsa, pegou a criatura imóvel.

— Sim, garota, decerto, estou fascinado — disse ele, esticando o braço e segurando a rã entre o polegar e o indicador.

— É linda! Não sei como lhe agradecer. Ela sempre faz isso — explicou a Taran. — Quero dizer, nem sempre são rãs mortas, mas bugigangas... às vezes um rato, esse tipo de coisa. Presentes pequenos que ela imagina que vão me agra­dar. Um sinal de afeição. Sempre faço uma festa quando ela os traz para mim. O que conta, afinal, é a intenção.

Curioso, Taran tomou a rã da mão do bardo. Observou que Llyan havia carregado a criatura com cuidado e de modo algum a havia ferido. Por outro lado, a rã tinha sofrido por falta d’água. A pele, com manchas verdes e amarelas, estava ressequida. As pernas abriam-se, enfraquecidas; as patas em forma de nadadeiras começavam a se enrolar e murchar como folhas secas; e os grandes olhos salientes estavam bem fecha­dos. Pesaroso, Taran estava prestes a devolver a criatura aos arbustos quando um leve tremor de batida de coração tocou a palma de sua mão.

— Fflewddur, a pobrezinha está viva — disse Taran. — Talvez haja tempo de salvá-la.

O bardo sacudiu a cabeça.

— Duvido. Está em péssimo estado. Lamentável, pois é um ser bem simpático.

— Dê um pouco d’água à pobre rãzinha — sugeriu Gurgi. — Dê-lhe água de esguichar e lavar.

Na mão de Taran a rã agitou-se como se fizesse o últi­mo e doloroso esforço. Um olho piscou, a boca larga escan­carou-se e sua garganta tremeu como um pulso fraco.

— Arrad! — coaxou a rã.

— Então ainda vive! — exclamou Fflewddur. — Mas deve estar muito doente. Jamais vi uma rã fazer um barulho desses.

— Argui! — coaxou a rã. — Ud!

A criatura esforçava-se para produzir um outro som, mas seu coaxar ficou mais fraco e o som que emitiu era rou­co e áspero, difícil de se ouvir.

— Scor! Scor!

— É uma espécie estranha — observou Fflewddur, en­quanto Taran, mais intrigado do que nunca, segurou a rã per­to do ouvido. A criatura conseguira abrir os olhos e parecia encarar Taran com uma expressão dolorosa e suplicante.

— Conheci algumas que fazem “cha-a-chag” — conti­nuou Fflewddur — e às vezes “dzonc”. Mas esta... se as rãs falassem, eu poderia jurar que ela estava dizendo “socorro”!

Taran fez um sinal ao bardo para que ficasse em silêncio. Do fundo da garganta da rã surgiu outro som, pouco mais que um sussurro, porém claro e inconfundível. O queixo de Taran caiu. Os olhos arregalados de espanto voltaram-se para Fflewddur. Quase sem poder falar, segurou a rã na mão es­tendida e disse, ofegante:

— É Doli!


 

Amigos em Perigo

— Doli! — repetiu o bardo, perplexo, dando um passo atrás.

Seus olhos ficaram salientes como os da rã e ele bateu as mãos na cabeça.

— Não pode ser! Não pode ser o Doli do Povo For­moso! Não o nosso querido Doli!

Gurgi estava se aproximando com um cantil de couro com água e, ao ouvir as palavras de Fflewddur, começou a gritar de pavor e tristeza. Taran tomou o cantil da mão trêmula de. Gurgi, destampou-o e, com toda a pressa, co­meçou a banhar a rã.

— Oh, terrível! Oh, horrível! — choramingou Gurgi. — Doli azarado! Infeliz companheiro anão! Mas como foi que essa rãzinha o engoliu com engolidas?

Sob o fluxo de água a rã começou a reviver e agora dava chutes fortes com as longas pernas traseiras.

— Pele! Pele! — surgiu a voz de Doli. — Derrame na minha pele! Na minha garganta não, seu idiota! Quer me afogar?

— Grande Belin — murmurou Fflewddur. — De iní­cio pensei que fosse apenas uma rã que por acaso tinha o mesmo nome de Doli. Mas eu reconheceria este tempera­mento em qualquer lugar.

— Doli! — gritou Taran. — É você mesmo?

— É claro que sim, sua estaca de feijão de pernas compri­das! — rebateu a voz de Doli. — Só porque me pareço com uma rã, não quer dizer que por dentro não sou eu mesmo!

A cabeça de Taran girou só de pensar em Doli sob a forma de uma rã. Gurgi estava mudo, os olhos tão abertos e redondos quanto a boca. Fflewddur, estarrecido como os demais companheiros, havia se recuperado, de certa for­ma, do primeiro choque e abaixou-se, apoiando-se nas mãos e nos pés na relva úmida, onde Taran pusera o pequeno animal.

— Você escolheu um modo estranho para viajar — dis­se Fflewddur. — Cansou-se de se fazer invisível? Entendo que isso seja cansativo. Mas... uma rã? Apesar de que você conse­gue se transformar numa espécie bem bonita. Comentei so­bre isso assim que o vi.

A rã virou os olhos para cima, totalmente exasperada, e seu corpo manchado de verde começou a inchar como se fosse explodir.

— Escolhi? Pensa que eu escolhi isto? Estou enfeitiçado, seu tolo! Não percebe?

O coração de Taran deixou de bater uma vez.

— Quem o enfeitiçou? — perguntou, horrorizado pe­rante o estranho destino que se abatera sobre o companhei­ro. — Foi Orddu? Ela já nos ameaçou. Você também esteve nos Pântanos?

— Tolo! Pateta! — retrucou Doli. — Tenho juízo sufi­ciente para não me meter com ela.

— Quem, então, fez isto com você? — perguntou Taran. — Como poderemos ajudar? Dallben, decerto, tem poderes para combater um feitiço como este. Coragem! Nós o leva­remos até ele.

— Não há tempo! — Doli respondeu. — Não sei se Dallben pode quebrar o encantamento. Nem sei se o Rei Eiddileg do Povo Formoso pode fazê-lo. Neste momento não importa.

— Se você quer me ajudar — Doli continuou —, cave um buraco e encha-o de água. Estou seco tal qual um osso, e isto é o pior que pode me acontecer, quero dizer, a uma rã. Foi o que aprendi, mais que depressa.

Piscou para Fflewddur.

Se sua gata gigantesca não me tivesse encontrado, eu estaria morto como um galho seco. Onde foi que vocês con­seguiram uma gata tão grande?

— É uma longa história — começou o bardo a dizer.

— Então não me conte — Doli respondeu bruscamen­te. — Quanto ao que lhes trouxe a um lugar como este, poderão me explicar quando houver mais tempo.

Acomodou-se no buraco lamacento que Taran e Fflewddur haviam aberto com as espadas e enchido de água do cantil.

— Ah... ah, bem melhor agora! Devo-lhes minha vida. Ah... que alívio. Obrigado, amigos, obrigado.

— Doli, não podemos deixá-lo numa situação dessas — Taran insistiu. — Diga-nos quem lhe rogou esta praga. Nós o encontraremos e faremos com que ele a retire.

— A ponta da espada, se for preciso! — gritou Fflewddur. O bardo parou e observou Doli atentamente, mais fas­cinado do que antes.

— Diga-me, garotão, qual é a sensação de ser uma rã? Eu sempre quis saber.

— Úmida, é o que é — retrucou Doli. — Úmida! Pega­josa! Se eu achava que ficar invisível era desconfortável, isto aqui é 100 vezes pior. É como se... ah, não me aborreça com perguntas estúpidas! Não importa. Darei um jeito, seja lá como for. Há trabalho mais importante a fazer.

— Sim, vocês podem me ajudar — Doli continuou a dizer, bem depressa. — Se é que alguém pode mesmo aju­dar. Coisas estranhas têm acontecido.

— É o que parece — concordou o bardo.

— Fflewddur, deixe-o falar — intercedeu Taran. — A vida dele pode estar em jogo.

— Coisas estranhas — Doli prosseguiu. — Esquisitas, perturbadoras. Para começar, não faz muito tempo, chegou ao Rei Eiddileg, em nossos domínios, no fundo do Lago Ne­gro, a notícia de que alguém havia encontrado e saqueado um tesouro do Povo Formoso. O tesouro fora arrombado! E o ladrão fugira com as pedras mais valiosas.

Um fato inusitado em toda a história de Prydain. Fflewddur assobiou, surpreso.

— Conhecendo bem Eiddileg, imagino que ficou muito aborrecido com isso.

— Não pela perda das pedras preciosas — respondeu Doli. — Pedras temos de sobra. E sim porque, em primeiro lugar, alguém havia encontrado o tesouro; e em segundo lu­gar, esse alguém atreveu-se a pôr as mãos no tesouro do Povo Formoso. A maioria dos mortais, como vocês, seria mais sensata.

— Teria sido Arawn ou alguns de seus serviçais? — per­guntou Taran.

— Eu diria que não — interveio Fflewddur. — Ainda hoje comentei que até mesmo o Lorde de Annuvin teria o máximo de cautela ao lidar com o Povo Formoso.

— Ao menos uma vez você está certo — respondeu Doli. — Não, Arawn não. Disso tínhamos certeza. Mas havia apenas um relato incompleto de um vigia do Povo Formoso que se encontrava nos Cantreves do Monte. Nenhuma notí­cia da sentinela do posto avançado daqui... o que era muito estranho.

“Eiddileg mandou um mensageiro investigar e chegar ao fundo da questão. Ele jamais retornou. Nem ao menos uma palavra dele. Eiddileg mandou outro. A mesma coisa. Silêncio mortal.

“Podem adivinhar quem foi escolhido para ir em segui­da? Certo. O mesmo Doli de sempre. Algo embaraçoso para se fazer? Alguma tarefa desagradável?”

Até aquele momento, Taran jamais imaginara que a face de uma rã pudesse expressar a indignação e injustiça sofridas.

Doli fungou o melhor que pôde em sua forma atual.

— Naturalmente, mandem o Doli.

— Mas você descobriu quem roubou o tesouro? — perguntou Taran.

— Claro que sim — retrucou Doli. — Mas, afinal, levei a pior. Olhe para mim! Definitivamente, não poderia ser mais inútil! Ah, se eu tivesse meu machado!

— O Povo Formoso corre perigo — prosseguiu rapida­mente. — Perigo temível. Sim, eu descobri quem encontrou e roubou nosso tesouro. O mesmo que me lançou o feitiço: Morda!

— Morda? — repetiu Taran, contraindo a testa. — Quem é Morda? Como foi que ele conseguiu? Por que se arriscaria a desafiar a cólera de Eiddileg?

— Por quê? Por quê? — repetiu Doli. Seus olhos salta­ram outra vez e ele começou a inchar.

“Não entendem? Morda, aquele feiticeiro sórdido, infa­me! Oh, é astuto como uma serpente! Não compreendem? Ele encontrou um meio de enfeitiçar o Povo Formoso! Ne­nhum mago conseguiu até agora rogar uma praga em nós. Jamais se ouviu dizer algo assim! Impensável!

“E se ele conquistou o poder de nos transformar em animais... peixes, rãs, o que for... estamos em suas mãos. Pode matar todos nós, quando quiser. Decerto foi o que aconte­ceu à sentinela do posto avançado, aos mensageiros que de­sapareceram sem deixar vestígio. Pode acontecer a qualquer um de nós. Ao próprio Eiddileg! Nenhum ser do Povo For­moso está a salvo de Morda. Nosso reino jamais esteve sob ameaça tão grande. “

Doli caiu exausto em conseqüência de todo o esforço que fez, e os companheiros entreolharam-se amedrontados.

— Ainda não consegui descobrir qual é o plano dele — Doli afinal pôde prosseguir. — Ah, segui-o com certa facilida­de até seu esconderijo. Ele mora numa área cercada, não muito longe daqui. Fui para lá invisível, nem é preciso dizer. Mas por isso sentia um zumbido forte nos ouvidos, pior do que o barulho de dois vespeiros! No escuro, pensei que po­deria me arriscar e tornar-me visível... ao menos por alguns instantes, para escapar daquele barulho terrível. Pouco de­pois, lá estava eu, na forma que vocês me vêem agora.

“Morda poderia ter-me esmagado naquele instante. No entanto, zombou de mim. Divertia-o ver uma rã desprotegida. Por isso atirou-me nas pedras. Satisfez-se diante de minha lenta agonia, mais do que se fizesse o favor de me matar imediatamente. Estava certo de que eu haveria de sucumbir nestas colinas áridas, definhar aos poucos até a morte. E se por acaso isso não acontecesse... que diferença faria? Como poderia uma rã levar a melhor sobre um feiticeiro? Arrastei-me para longe, procurando água. Rastejei até não agüentar mais. Sua gata encontrou-me. Caso contrário, posso garantir-lhes, teria sido meu fim.”

— Morda esqueceu um detalhe — acrescentou Doli —, algo pequenino que lhe escapou: eu podia falar. Àquela altura eu mesmo não sabia. O choque de ter sido transformado em rã tirou-me a voz, por completo, durante algum tempo.

— Grande Belin — murmurou Fflewddur —, já ouvi falar de pessoas que engoliram sapos, mas nunca... Perdoe-me, perdoe-me, rapaz — acrescentou bem depressa quando Doli o encarou. — Não quis bulir com seus sentimentos.

— Doli, diga-nos o que devemos fazer! — exclamou Taran, apavorado ao ouvir o relato do anão.

Não era apenas a situação de Doli que fazia seu sangue gelar; via, nitidamente, o destino que estava reservado para todo o Povo Formoso.

— Leve-nos até Morda. Tentaremos fazê-lo prisioneiro, ou matá-lo, se for preciso.

— Assim faremos! — exclamou Fflewddur, sacando a espada. — Meus amigos não serão transformados em rãs!

— Não, não! — gritou Gurgi. — Rãzinhas são rãzinhas, mas amigos são amigos!

— Atacar Morda! — respondeu Doli. — Perderam o juízo? Vão acabar como eu. Não, não podem se arriscar. Eiddileg precisa ser avisado, mas antes disso devo terminar minha tarefa. Descobrir mais a respeito dos poderes de Mor­da e o que ele pretende. O Povo Formoso não terá a menor chance de enfrentá-lo, a não ser que saibamos muito bem com o que vamos lidar. Levem-me de volta à fortaleza de Morda. De algum modo chegarei ao fundo de seu plano. De­pois levem-me ao posto avançado para que eu possa avisar Eiddileg e dar o alarme.

Um espasmo momentâneo agitou-o; por um instante parecia que Doli ia sufocar-se, e então um forte espirro quase o jogou para fora da poça.

— Maldita umidade! — falou ao mesmo tempo que espirrava. — Maldito seja Morda, aquele desalmado! Deu-me todas as más qualidades de uma rã e nenhuma das boas!

Doli começou a tossir intensamente.

— Droga! Ara stou pertento a boz! Rápt! Rápt! Peguem-be. Bou bostrar-lhes o cabinho. Dão há tempo a perder!

Os companheiros montaram depressa. Doli estava agar­rado à sela, e Taran, a galope, seguia as instruções do anão. Mas a floresta tornou-se mais densa e foi preciso andar mais devagar; diante do emaranhado de galhos, foram obrigados a desmontar várias vezes e prosseguir a pé. O anão havia afir­mado que a distância não era grande, mas seu senso infalível de direção já não era o mesmo. Em dados momentos, Doli não sabia qual caminho seguir e, por duas vezes, os compa­nheiros tiveram de parar e retornar.

— Dão be culpem! — vociferou Doli. — Fiz este cabinho rastejando binha barriga. Tudo é diferente quando se olha daqui de ciba.

Para piorar, Doli começou a se sacudir e a estremecer; os olhos lacrimejavam; tinha coriza; mesmo levando-se em conta que era uma rã, sua aparência era deplorável. Após freqüentes acessos de tosse e espirros, a rouquidão piorou, e ele mal conseguia forçar um leve sussurro coaxante, o que o deixava mais desanimado e incapaz de dar instruções claras a Taran.

Até agora não havia sinal de Kaw. No momento em que todos comeram para seguir as ordens de Doli, o corvo resol­veu se rebelar, deixando todos exasperados. Voou até o bos­que e se recusava a atender aos apelos de Taran para que voltasse. Finalmente, Taran deixou-o para trás, certo de que o corvo haveria de encontrá-los quando bem entendesse; no entanto, assim que os companheiros avançaram na área mais densa da floresta, Taran ficou apreensivo ao se lembrar do pássaro atrevido. Quando pararam para deixar Doli em contato com o solo, onde ele afirmava que poderia recuperar o senso de direção, Kaw finalmente apareceu, e Taran ficou tão aliviado que não o repreendeu. Logo viu que o traquinas an­dara fazendo das suas, pois trazia no bico algo brilhante.

Grasnando com todo o orgulho, Kaw deixou cair o ob­jeto nas mãos de Taran, que se surpreendeu ao ver o pedaço de osso polido.

— Olha só o que você fez! — gritou Taran, espantado, enquanto Kaw, satisfeito consigo mesmo, balançava-se para a frente e para trás e sacudia a cabeça.

— Travesso! — irrompeu Fflewddur. — Voltou lá e sa­queou o cofre. Pensei que já estávamos completamente li­vres daquele palito enfeitiçado e agora está conosco outra vez. Uma brincadeira de mau gosto, sua pega! — exclamou, sacudindo o manto na direção do pássaro, que se esquivou com destreza.

— Um Fflam adora divertir-se, mas não vejo graça ne­nhuma nisso. Jogue-o fora — insistiu, dirigindo-se a Taran —, jogue-o no mato.

— Não me atrevo; se, de fato, é um objeto enfeitiçado, não me atrevo — respondeu Taran, embora se sentisse tão apreensivo quanto o bardo, e desejasse, sinceramente, que o corvo tivesse deixado o cofre intocado.

Um estranho pensamento, vago e incompleto, perturbou-lhe a mente e ele ajoelhou, mostrando o fragmento a Doli.

— O que pode ser isto? — perguntou, depois de expli­car, em poucas palavras, como a lasca de osso foi parar nas mãos deles pela primeira vez. — O próprio Morda poderia tê-lo escondido?

— Quem sabe? — coaxou Doli. — Dunca vi uba coisa dezas. Bas está enfetizado, pode der zerteza. De qualquer bodo, guarde-o.

— Guardá-lo? — exclamou o bardo. — Essa coisa ruim só vai nos trazer má sorte! Enterre-o!

Influenciado pela veemência de Fflewddur, mas ainda relutante por não seguir o conselho de Doli, Taran deteve-se, indeciso. Afinal, com fortes pressentimentos, guardou o pe­daço de osso no gibão.

Fflewddur resmungou.

— Lidar com magia! Só arranjaremos encrenca, marque bem minhas palavras. Um Fflam é destemido, mas não quando há um feitiço desconhecido espreitando no bolso de alguém.

Assim que retomaram o caminho, Taran logo se con­venceu de que havia tomado a decisão errada e que a previ­são nefasta de Fflewddur tinha fundamento. Doli havia piora­do; não conseguia dizer mais do que uma palavra ou duas de cada vez. O corpo da rã estremecia como se estivesse aco­metido de febre alta; uma doença, Taran bem o sabia, decor­rente do fato de Doli ter-se arrastado até ficar exausto. Para evitar o ressecamento de sua pele, os companheiros molha­vam-no com freqüência; o tratamento que, por um lado, mantinha-o vivo, por outro, aumentava-lhe a aflição. Sob o fluxo de água ele espirrava, sufocava e tossia. Pouco depois, ficou prostrado e estava tão enfraquecido que nem conse­guia ficar de mau humor.

O dia logo terminara e os companheiros pararam numa clareira, pois Doli havia sugerido que, daquele ponto em diante, teriam de viajar com o máximo de cautela. Aco­modando a rã, com todo o cuidado, nas dobras de um manto úmido, Taran afastou-se com Fflewddur e falou-lhe rapidamente.

— Ele não tem energia suficiente para cumprir o que pretende — murmurou Taran. — Não devemos permitir que continue.

Fflewddur concordou com um aceno de cabeça.

— Duvido que ele conseguisse, apesar de querer.

A fisionomia do bardo, tal qual a de Taran, estava carre­gada de preocupação.

Taran calou-se. O que tinha a fazer estava claro para ele; apesar disso, não queria admiti-lo. O pensamento buscava um plano diferente, melhor, mas nada encontrava, voltando sempre à mesma resposta. O que o impedia de tomar o caminho livre não era o fato de se recusar a ajudar um amigo íntimo, pois isso faria com toda a satisfação. Tampouco era o medo de arriscar a própria vida, e sim o pavor de que pudes­se partilhar o mesmo destino de Doli; o que significaria não apenas que sua busca iria fracassar, mas também que ficaria aprisionado, infeliz sob a forma de alguma criatura desprezí­vel, cativo para sempre.

Ajoelhou ao lado de Doli.

— Você precisa ficar aqui. Fflewddur e Gurgi vão cuidar de você. Diga-me como poderei encontrar Morda.


 

O Muro de Espinheiros

Ao ouvir isso, Doli deu alguns chutes fracos e coaxou, protestando de maneira incompreen­sível, embora nada mais pudesse fazer a não ser concordar com o plano de Taran. Levando

Kaw no ombro, Taran seguiu a pé pela floresta. Gurgi, que insistira em acompanhá-lo, vinha atrás, aos pulos.

Passado algum tempo, Taran diminuiu a passada e, finalmente, parou para olhar ao redor de si mesmo e ob­servar a floresta, agora fechada de espinheiros. Arbustos altos, cheios de espinhos, erguiam-se entre as árvores for­mando uma barreira emaranhada e intransponível. Taran percebeu que achara o que estava procurando. Os arbus­tos não tinham crescido por acaso, mas haviam sido entre­laçados, habilmente, para armar a barreira compacta, a cer­ca viva quase duas vezes mais alta do que Taran, eriçada de espinhos mais afiados que as garras de um guidainte. Taran sacou a espada e procurou abrir uma passagem no mato cerrado.

Os espinheiros eram duros como ferro frio e, na ten­tativa de cortá-los, Taran quase acabou com sua força e com a lâmina. Tudo o que conseguiu foi fazer um pequeno buraco no qual encostou os olhos; nada mais viu além de um monte escuro de pedregulhos e mato, cercados de fileiras de ervas daninhas e bardanas. O que, à primeira vista, pareceu-lhe a toca de uma fera, na realidade era uma habitação mal construída de paredes baixas, revestidas de estuque. Não havia movimento algum, nenhum sinal de vida, e Taran perguntou a si mesmo se o feiticeiro já havia deixado sua fortificação e os companheiros tinham chegado tarde demais. A idéia dei­xou-o ainda mais aflito.

— De algum modo Doli conseguiu passar — murmu­rou Taran, sacudindo a cabeça. — Mas ele é mais habilidoso do que eu; deve ter encontrado uma passagem mais fácil. Se tentarmos por cima — Taran acrescentou —, poderemos ser vistos.

— Ou ficar presos em espinheiros com pontadas e es­tocadas! — respondeu Gurgi. — Oh, Gurgi corajoso não gosta de subir em muros sem saber o que se esconde do outro lado.

Taran retirou o corvo do ombro.

— Decerto Morda tem sua própria passagem: uma bre­cha nos espinhos ou talvez um túnel. Encontre-a para nós — disse rapidamente a Kaw. — Encontre-a, amigão.

— E depressa, também — acrescentou Gurgi. — Nada de graças e troças!

Silencioso como uma coruja, o corvo voou para o alto, descreveu um círculo sobre a barreira e em seguida sumiu de vista. Agachados, Taran e Gurgi ficaram aguardando nas som­bras. Algum tempo depois, quando o sol havia mergulhado atrás das árvores, a escuridão aumentara e nada de notícias de Kaw, Taran começou a temer pelo pássaro. Embora fosse travesso, Kaw compreendia a seriedade de sua missão, e Taran sabia que não era apenas um capricho que estava retardando a volta do corvo.

Afinal, Taran não se arriscou a esperar mais. Dirigiu-se rapidamente até a barreira e começou a subir, com todo o cuidado. Os galhos retorciam-se como serpentes e, sem pie­dade, rasgavam-lhe as mãos e o rosto. Onde quer que achas­se um ponto de apoio os espinhos voltavam-se contra ele, como se tivessem vontade própria. Podia ouvir Gurgi, logo abaixo, gemendo cada vez que as pontas afiadas penetravam em seu pêlo. Taran fez uma pausa para tomar fôlego e Gurgi o alcançou. Tinham chegado quase ao topo da cerca.

Subitamente, ouviu-se um chicotear e chocalhar no meio do espinheiro, e o antebraço erguido de Taran ficou preso num laço. Ele gritou de susto e, naquele instante, viu a face apavorada de Gurgi, enquanto laçadas com nós perfeitos en­volviam o corpo da criatura. Uma árvore curvada soltou-se, levando para cima as cordas. Taran percebeu que tinha se desprendido do espinheiro e, pendurado na ponta de uma corda resistente, pairava no alto, acima da cerca. Agora en­tendia as palavras que Doli tentara pronunciar armadilhas e ciladas. Taran caiu e foi engolido pela escuridão.

Sentiu a mão ossuda de alguém agarrar-lhe o pescoço. Nos ouvidos soou uma voz estridente como um punhal atira­do numa pedra.

— Quem é você? Quem é você? — repetiu.

Taran debatia-se para se soltar, quando percebeu que suas mãos estavam amarradas às costas. Gurgi choramingava, desesperado. A cabeça de Taran rodopiou. A luz intermiten­te de uma vela apunhalou seus olhos. Assim que a visão me­lhorou, Taran enxergou um rosto esquelético, cor de argila seca, e, abaixo da testa saliente, olhos brilhantes como cristais frios que pareciam estar encravados no fundo de um poço. No crânio não havia cabelo e a boca era uma cicatriz azulada costurada com rugas.

— Como veio parar aqui? — perguntou Morda. — O que quer de mim?

Na escuridão, Taran mal pôde distinguir o recinto de teto baixo e a lareira apagada, cheia de cinzas. Ele havia sido deixado no canto de uma parede baixa. Gurgi estava a seu lado, atirado no chão de pedras. De relance viu Kaw amarra­do numa cesta de vime em cima de uma mesa de carvalho pesada, e gritou o nome do pássaro.

— Então — disse o feiticeiro, rispidamente — este cor­vo é seu? Assim como você, ele encontrou uma de minhas armadilhas. Ninguém entra aqui sem meu consentimento. Isso você já sabe. Agora eu é que preciso saber mais sobre você.

— Sim, o pássaro é meu — respondeu Taran com voz firme, decidindo que a única esperança era dizer a verdade, conforme lhe fosse possível. — Ele voou por cima do espinhei­ro e não voltou. Imaginamos que algum problema tivesse acon­tecido e viemos à sua procura. Estamos viajando para as Monta­nhas Llawgadarn. Você não tem motivos para nos prender.

— Vocês se prenderam — retrucou Morda —, tolas criaturas que não têm nem o cérebro de uma mosca. Para as Montanhas Llawgadarn é o que você diz. Talvez sim, talvez não. Na corrida dos homens há muita ganância e inveja, mas verdade há pouca. Seu rosto fala por você e diz que você é um mentiroso. O que espera esconder? Não importa. Seu suprimento insignificante de dias, chamado vida, esgotou-se. Daqui não sairão. E no entanto... agora que estão em minhas mãos, pode ser que me sirvam. Preciso pensar nisso. Suas vidas, decerto, podem ter alguma utilidade... para mim ou, quem sabe, para vocês mesmos.


Não eram apenas as palavras do feiticeiro que horrori­zavam Taran. Enquanto observava, incapaz de desviar os pró­prios olhos, Taran percebeu que Morda não piscava. Mesmo diante da chama da vela, as pálpebras paralisadas jamais se fechavam; o olhar fixo e gelado de Morda jamais hesitava.

O feiticeiro alisou e ajustou o manto gasto ao corpo mimado. Taran sentiu faltar-lhe a respiração, pois do pescoço franzino de Morda pendia uma corrente de prata com uma lua crescente. Ele só conhecia uma outra pessoa que usava tal enfeite: a Princesa Eilonwy, Filha de Angharad. Mas, diferente­mente do adorno de Eilonwy, em cada ponta desta lua cres­cente havia uma pedra lapidada, clara como água, cujas facetas resplandeciam como se fossem acesas por um fogo interno.

— O emblema da Casa de Llyr! — Taran gritou.

Morda assustou-se e deu um passo atrás. Com os de­dos magros como se fossem pernas de aranha ele agarrou a pedra.

— Idiota — sibilou —, pensava tirá-lo de mim? É por isso que foi mandado aqui? Sim, sim — murmurou —, deve ser.

Seus lábios descorados contraíram-se levemente, enquan­to encarava Taran com os olhos sem pálpebras.

— Tarde demais. A Princesa Angharad está morta há muito tempo e todos os seus segredos são meus.

Ao ouvir o nome, Taran olhou-o fixamente, desnorteado.

— Angharad, Filha de Regat? — sussurrou. — Eilonwy jamais soube o destino de sua mãe. Mas foi você... em suas mãos — disse inesperadamente —, em suas mãos ela encon­trou a morte!

Morda ficou em silêncio por algum tempo, e parecia estar preso a um pesadelo. Quando falou, sua voz estava carregada de ódio.

— Pensa que me preocupo com a vida ou a morte de algum de vocês, seres medíocres? Já conheço o suficiente sobre a raça humana e julguei-os pelo que são: inferiores às feras, são cegos e ignorantes, briguentos, presos às suas próprias preocupações. São devorados pelo orgulho e por lutas insen­satas; mentem, enganam e traem uns aos outros. Sim, nasci no meio da raça humana. Eu, humano!

Cuspiu a palavra com desprezo.

— Mas há muito reconheci que meu destino não era ser um deles e há muito me separei de suas discórdias e invejas, pequenas perdas e pequenos ganhos.

Os olhos do bruxo faiscaram no fundo das cavidades.

— Assim como não me rebaixaria a compartilhar minha vida com a deles, não haveria de compartilhar suas mortes. Por conta própria estudei a arte da feitiçaria. Da sabedoria antiga aprendi que o Povo Formoso guardava algumas pedras preciosas entre seus tesouros secretos; aquele que possuísse uma delas teria vida muito mais longa do que qualquer mor­tal. Ninguém encontrara esse tesouro, sendo que poucos ousaram procurá-lo. Mesmo assim, eu sabia que poderia encontrá-lo.

— Quanto àquela que se chamava Angharad de Llyr — continuou o mago —, numa noite de inverno, implorou abri­go em minha casa, alegando que sua filha pequena havia sido raptada e que ela viajara muito à procura da criança.

Os lábios do feiticeiro retorceram-se.

— Como se o destino dela ou da criança me interessas­se. Em troca de comida e teto ofereceu-me o berloque que usava em torno do pescoço. Eu não precisava barganhar; já era meu, pois ela estava muito fraca, ardendo em febre, e nada poderia fazer, se eu decidisse ficar com o objeto. Ela não viveu além daquela noite.

Enojado, Taran virou o rosto.

— Você tirou-lhe a vida, como se tivesse cravado um punhal no coração.

A risada áspera e cruel de Morda fazia lembrar gravetos secos se quebrando.

— Não pedi que ela viesse aqui. Em meu entender, sua vida não valia mais do que o livro de páginas em branco que encontrei entre seus pertences. Embora o livro viesse a ter um pequeno valor. Passado algum tempo um fracote lamu­riento acabou por me encontrar. Chamava-se Glew e queria enfeitiçar-se. Pequeno idiota! Implorou-me que lhe vendesse qualquer feitiço, amuleto ou palavra mágica. Pretensioso e chorão! Foi um prazer dar-lhe um castigo. Vendi-lhe o livro em branco e o avisei que não o abrisse, nem o folheasse até que se afastasse bastante daqui, caso contrário o feitiço seria anulado.

— Glew! — murmurou Taran. — Então foi você que o iludiu.

— Assim como ocorre com todos de sua espécie — respondeu Morda —, a própria ganância e ambição iludiram-no, e não eu. Seu destino desconheço, e nem quero saber. Uma coisa ele aprendeu: a arte da feitiçaria não se compra com ouro.

— Nem se rouba através da covardia e da maldade, como você fez com a Princesa Angharad — rebateu Taran.

— Covardia? Maldade? — indagou Morda. — Essas palavras são brinquedos para criaturas como você. Para mim nada significam; com meus poderes estou além de tais pala­vras. O livro serviu para fazer um tolo sentir o gosto de sua própria insensatez. Mas a jóia, a jóia foi útil para mim, assim como todas as coisas o serão no final. A mulher de Angharad dissera-me que a pedra tornaria mais leves os fardos e faci­litaria as tarefas mais árduas. E assim aconteceu, embora eu tenha passado alguns anos investigando os segredos da pe­dra até conseguir usá-la com perícia. Sob meu comando reduzia as mais pesadas toras a simples gravetos. Com a ajuda da pedra ergui um muro de espinheiros. Assim que meu talento se desenvolveu, fui capaz de localizar uma fon­te escondida.

Os olhos do feiticeiro, que jamais piscavam, brilharam de triunfo.

— Finalmente — sussurrou —, finalmente, a pedra con­duziu-me àquilo que eu mais procurara: o esconderijo do tesouro do Povo Formoso.

— Naquele esconderijo não havia nenhuma das pedras que concedem vida — continuou Morda. — Mas, que impor­ta? Se não estavam ali, eu as encontraria em outro lugar. Ago­ra, o tesouro inteiro do Povo Formoso, minas, caminhos es­condidos... tudo está aberto para mim.

— Uma das sentinelas do Povo Formoso veio até aqui. Não permiti que ele desse o alarme. Embora ninguém, até hoje, tivesse enfrentado aquele povo, eu o fiz! — exclamou Morda. — Minha jóia não era apenas uma bugiganga para iluminar a área de serviço de uma criada. Eu agarrara a essên­cia do poder daquele povo. Sob minhas ordens o tal espião do Povo Formoso transformou-se numa toupeira cega e rastejante! Sim — Morda sibilou —, eu conquistara um poder maior do que procurara. Quem ousaria agora desobedecer-me, se eu tenho em meu poder os meios de transformar homens em criaturas fracas, rasteiras, que eles realmente são! Era apenas uma pedra preciosa que eu procurava? Todo o reino do Povo Formoso estava a meu alcance. E toda Prydain! Foi então que apreendi meu verdadeiro destino. A raça hu­mana, enfim, encontrara seu mestre.

— Mestre? — retrucou Taran, horrorizado diante das palavras de Morda. — Você é pior do que as pessoas que despreza. Atreve-se a falar de ganância e inveja? O poder de Angharad existe para servir e não para escravizar. Cedo ou tarde você há de pagar com a vida sua maldade.

O brilho nos olhos sem pálpebras de Morda tremulou como a língua de uma serpente.

— Você acha? — respondeu suavemente.

Ouviu-se um grito e, de súbito, o ruído de algo se que­brando na cerca de espinheiros. Morda fez um breve movi­mento de cabeça.

— Outra mosca acaba de cair em minha teia.

— Fflewddur! — disse Taran, resfolegando, assim que Morda saiu às pressas.

Taran arrastou-se para perto de Gurgi e cada um ten­tou desatar os nós do outro; o esforço foi inútil, pois em poucos instantes o feiticeiro retornou, puxando uma figura que amarrou com firmeza e atirou ao chão, próximo aos companheiros. Conforme Taran receara, era mesmo o infe­liz bardo.

— Grande Belin, o que aconteceu com vocês? O que aconteceu comigo? — resmungou Fflewddur, atordoado. — Vocês não voltaram... e eu resolvi dar uma olhada... temi que vocês tivessem se prendido naqueles espinheiros.

O bardo sacudiu a cabeça, sentindo dor.

— Que golpe! Meu pescoço nunca mais será o mesmo.

— Você não deveria ter nos seguido — sussurrou Taran. — Eu não tinha como avisá-lo. E o Doli?

— Está seguro — respondeu Fflewddur. — Ao menos, mais seguro do que estamos agora.

Morda estivera observando os companheiros atentamente.

— Então, foi o Povo Formoso que mandou vocês me espionarem. Estão aliados ao anão, criatura tola que pensou que escaparia de mim. Que seja. Por acaso pensei em poupá-los? Terão o mesmo destino que ele.

— Sim, Doli do Povo Formoso é nosso amigo — excla­mou Taran. — Liberte-o do feitiço que lhe lançou. Estou avi­sando: não nos faça mal algum. Seu plano vai falhar, Morda. Sou Taran de Caer Dallben e estamos sob a proteção do próprio Dallben.

— Dallben — disse Morda com desprezo. — Velho caduco de barba grisalha! Os poderes dele de nada lhes ser­vem agora. Mesmo Dallben vai curvar-se diante de mim e fazer tudo o que eu disser. Quanto a vocês — acrescentou —, não vou matá-los. Seria uma punição insignificante. Vocês vão vi­ver... enquanto puderem, nas formas que terão em breve; viver e saber, durante cada instante de seus dias infelizes, qual é o preço de me desafiar.

Morda retirou a jóia e a corrente que estavam ao redor do pescoço e voltou-se para Fflewddur.

— Que sua coragem de procurar seus companheiros agora se transforme em covardia. Fuja ao ouvir o latido dos cães de caça ou os passos dos caçadores. Rasteje de medo ao ouvir o esvoaçar de uma folha e o movimento de qual­quer sombra.

A pedra emitiu um brilho ofuscante. Com a mão, Morda fez um gesto violento para a frente. Taran ouviu Fflewddur gritar, mas a voz do bardo desapareceu em sua garganta. Gurgi deu um grito e Taran, estarrecido, não viu mais o bardo a seu lado. Dando chutes em total desespero, achava-se na mão de Morda uma lebre castanho-acinzentada.

Com uma risada sarcástica, Morda ergueu no alto o ani­mal e olhou-o com desdém, pouco antes de atirá-lo num cesto de vime, perto da gaiola de Kaw. O feiticeiro aproxi­mou-se depressa dos companheiros e pôs-se diante de Gurgi, cujos olhos giravam de temor, e mal conseguia balbuciar.

Taran lutou para se soltar dos nós. Morda ergueu a pe­dra preciosa.

— Esta criatura meio animalesca — disse o feiticeiro — não serve para nada. Besta medíocre e servil, seja ainda mais fraca, e presa de corujas e serpentes.

Com todas as forças Taran lutou para romper as tiras que o prendiam.

— Você nos destrói, Morda! — gritou. — Mas o mal que existe em você vai destruí-lo!

Mesmo depois que Taran gritou essas palavras, a pedra brilhou mais uma vez. No local onde Gurgi estivera deitado, um rato do campo, acinzentado, apoiava-se nas patas trasei­ras, e em seguida, guinchando, correu para um canto da sala.

Morda dirigiu os olhos abertos para Taran.


 

A Mão de Morda

— E você — disse Morda —, sua sentença não será ficar perdido na floresta ou numa toca. Meu plano falhou? Pois aqui você ficará preso e assistirá a meu triunfo. Mas o que forma lhe darei? Um cachorro ganindo por migalhas à minha mesa? Uma águia engaiolada desejando ardente­mente estar livre nos céus?

A pedra de Angharad balançava nos dedos de Morda. O desespero sufocou Taran, quando este olhou fixamente para o ornamento, assim como um pássaro fascinado pela serpente. Invejava os infelizes Gurgi e Fflewddur. As garras de um falcão ou as mandíbulas de uma raposa poriam um fim misericordioso a seus dias; quanto aos dele, haveriam de se extinguir na lenta agonia da prisão, como pedra des­gastando pedra, até que Morda resolvesse extingui-los.

Os insultos do feiticeiro queimavam como gotas de veneno; mas, enquanto Morda falava, Taran sentiu um cor­po peludo fazendo pressão contra seus pulsos amarrados. Assustado, quase gritou. Seu coração saltou e bateu forte. Era o camundongo que antes havia sido Gurgi.

Indiferente à sua situação, com as pequeninas patas e sem fazer barulho, a criatura chegara comendo até o canto onde Taran estava. Sem ser visto pelo feiticeiro, o rato ati­rou-se nos nós que prendiam Taran e com os dentes afiados começou a roer depressa as correias.

Morda, parecendo indeciso, brincava com a jóia. Taran percebia que Gurgi roía desesperadamente as tiras resis­tentes; o tempo pressionava e, apesar da bravura e do esforço da criatura, as correias mantinham-se firmes. Taran procurava manter o couro esticado para ajudar o rato afli­to, mas não havia sinal algum de que as tiras estivessem cedendo e, naquele momento, o feiticeiro ergueu o ador­no brilhante.

— Espere! — gritou Taran. — Se minha sina é ser um animal, conceda-me o seguinte: deixe-me escolher.

Morda fez uma pausa.

— Escolher? — seus lábios descorados comprimiram-se num sorriso sarcástico. — O que me interessam seus dese­jos? Mesmo assim... seria conveniente que você escolhesse sua própria prisão. Fale — ordenou. — Depressa.

— Em Caer Dallben — Taran começou a dizer tão de­vagar quanto se permitia —, eu era auxiliar de guardador de porcos. Aos meus cuidados havia uma leitoa branca...

Com essas palavras uma tira rompeu-se. Mas a força de Gurgi já não era a mesma.

— O quê? — interrompeu Morda, dando uma risada desagradável. — Então você pede para ser um suíno? Espojar-se na lama e fossar à procura de comida? Sim, guardador de porcos, sua escolha é realmente apropriada.

— É meu único desejo — disse Taran —, pois ao me­nos terei lembranças de um tempo feliz.

Morda fez um aceno de cabeça.

— Sim. E por esse mesmo motivo seu desejo não será concedido. Porcariço esperto — riu-se. — Contou-me o que mais desejava. Agora terei toda a certeza de que você não terá o que pede.

— Não me dará a forma que peço? — Taran respon­deu. Outra tira cedeu, quando Gurgi, combatendo o cansaço, redobrou os esforços. De repente as correias se soltaram. As mãos de Taran ficaram livres.

— Então — Taran exclamou —, ficarei com a minha! Naquele instante Taran pôs-se de pé num salto. Desembainhou a espada e avançou para o feiticeiro que, perple­xo, dera um passo atrás. Antes que Morda conseguisse er­guer a pedra, Taran, com um grito, atravessou a espada no peito do feiticeiro. Em seguida, arrancou a arma. Mas seu grito tornou-se um lamento de horror, e ele cambaleou para trás, contra a parede.

Morda continuava ileso. Em nenhum momento seu olhar vacilou. A risada zombeteira do feiticeiro vibrou na sala.

— Porcariço idiota! Se eu temesse sua espada não a teria deixado com você!

O mago ergueu a pedra de Angharad. A cabeça de Taran girou, diante do temor renovado. Na mão de Morda o brilho da jóia era frio. Na súbita claridade do medo, Taran viu as facetas pontudas do cristal e a garra ossuda que o segurava. Agora percebia que na mão de Morda faltava o dedo mínimo; no lugar havia um coto feio, de carne cicatrizada e mimada.

— Procura minha vida? — sibilou Morda. — Então, pro­cure, guardador de porcos. Minha vida não está presa no meu corpo. Não. Está muito longe daqui, fora do alcance da própria morte!

— Mais um poder conquistei — disse o mago. — Se a minha jóia era capaz de modelar as vidas de homens mortais, então poderia proteger a minha. Prolonguei minha verdadei­ra vida, escondendo-a bem, onde ninguém jamais a encontra­rá. Você me mataria? Sua intenção é inútil como a espada que segura. Agora, porcariço, sofra por sua provocação. Cão ou águia seriam destinos muito dignos. Arraste-se na escuri­dão da terra, a mais inferior de todas as criaturas, sem espi­nha, minhoca cega e desmembrada!

A luz brilhou no centro da pedra. A espada de Taran soltou-se de sua mão e ele ergueu o braço contra o rosto. Cambaleou como se um raio o tivesse atingido. Mesmo assim não caiu. Seu corpo ainda estava inalterado, ainda era o seu.

— O que bloqueia meu feitiço? — exclamou Morda com uma voz temível.

Uma sombra de medo atravessou-lhe a face.

— É como se eu lutasse contra mim mesmo — disse Morda.

Os olhos sem pálpebras fixaram-se em Taran, incrédu­los, e a mão sem o dedo agarrou-se mais forte à pedra.

De súbito, um estranho pensamento passou pela mente de Taran. A vida do feiticeiro escondida com toda a seguran­ça? Onde ninguém pudesse encontrá-la? Taran não tirava os olhos da mão de Morda. Um dedo mínimo. O cofre no bura­co da árvore. Com toda a cautela, receoso de que qualquer demonstração de esperança o traísse, Taran pôs a mão den­tro do gibão e retirou o fragmento de osso polido.

Ao vê-lo, o rosto de Morda pareceu desintegrar-se. Seu queixo caiu, os lábios tremeram e sua voz saiu como um áspero sussurro.

— O que é que você tem na mão, porcariço? Passe para cá. Entregue-me, eu lhe ordeno.

— É uma coisa bem pequena que eu e meus compa­nheiros achamos — respondeu Taran. — Que valor pode ter para você, Morda? Com todo o poder que possui, ainda almeja uma bagatela dessas?

Gotículas de suor doentio começaram a se formar na testa do feiticeiro. Os traços fisionômicos retorceram-se, e a voz que vinha de seus lábios assumiu um tom gentil, ainda mais horripilante.

— Rapaz destemido que me enfrenta — murmurou. — Tudo o que fiz foi testar sua coragem para ver se você é digno de servir-me, digno de recompensas valiosas. Você terá ouro como prova de minha amizade. E como prova de sua amizade, você me dará... a coisa pequenina, a bagatela que tem na mão...

— Este pedaço de nada? — Taran retrucou. — Você o quer para usar como amuleto? Então vamos dividi-lo, metade para mim e metade para você.

— Não, não! Não o quebre! — gritou Morda, o rosto empalidecendo.

O feiticeiro estendeu a garra esquelética e deu um pas­so à frente na direção de Taran, que, rapidamente, retroce­deu e levantou o pedaço de osso acima da cabeça.

— É verdade, uma coisa sem valor — exclamou Taran. — Sua vida, Morda! Sua vida está em minha mão!

Os olhos de Morda reviraram-se loucamente nas órbi­tas desgastadas e um tremor violento o atingiu; seu corpo sacudiu-se como se fosse golpeado por um furacão.

— Sim, sim! — tentou gritar, mas a voz falhou, tão ater­rorizado que estava. — Minha vida! Contida em meu dedo! Cortei-o com uma faca. Dê-me! Devolva-me!

— Você situou-se acima da espécie humana — Taran replicou. — Desprezou as limitações e fraquezas dos homens, e não admitia ser um deles. Até eu mesmo, sem patrimônio hereditário ou nome próprio, sei que pertenço à raça humana.

— Não me mate! — exclamou Morda, contorcendo-se de angústia. — Minha vida depende de você; não a retire de mim!

O feiticeiro atirou-se de joelhos e estendeu os braços trêmulos. Seus lábios descorados tremiam enquanto as pala­vras saíam-lhe da boca.

— Escute-me, escute-me! Muitos segredos me perten­cem, muitos feitiços. Todos eles ensinarei a você. Todos, todos!

As mãos de Morda apertavam-se e se separavam. Os dedos prendiam-se uns aos outros, e, aos pés de Taran, ele se balançava, para a frente e para trás. Sua voz assumiu um tom lamurioso e adulador.

— Hei de servi-lo, servi-lo bem, Mestre Porcariço. Todo meu saber, todos os meus poderes às suas ordens.

A jóia de Angharad pendia da comente de prata na cin­tura de Morda e ele a pegou, segurando-a diante de Taran.

— Isto! Até mesmo isto!

— A pedra não é sua, portanto não pode oferecê-la a ninguém — respondeu Taran.

— Não é minha, não posso dá-la, Mestre Porcariço? — A voz do mago tomou-se mais suave e dissimulada. — Mas você pode tomá-la de mim. Gostaria de saber o segredo de seu funcionamento? Somente eu posso lhe dizer. Gostaria de aprender a dominá-la? Alguma vez sonhou ter um poder como este? Está aqui, à sua espera. A raça humana pronta a atender a seu sinal e chamado. Quem ousaria recusar o me­nor de seus pedidos? Quem não tremeria de medo se o de­sagradasse? Prometa-me a vida, Mestre Porcariço, e eu vou lhe prometer...

— Você negocia com o feitiço que roubou e corrom­peu! — exclamou Taran, com raiva. — Que esses segredos morram com você!

Ao ouvir essas palavras Morda urrou e jogou-se no chão. Soluços que mais pareciam latidos sacudiam seu corpo.

— Minha vida! Poupe-a! Não me dê a morte. Fique com a pedra. Pode transformar-me no que houver de mais medío­cre e rastejante, no verme mais repugnante, mas deixe-me viver!

Ao presenciar a covardia do feiticeiro, Taran sentiu re­pulsa e, por algum tempo, não conseguiu falar. Finalmente, disse:

— Não vou matá-lo, Morda.

O feiticeiro interrompeu os soluços pavorosos e ergueu a cabeça.

— Não, Mestre Porcariço?

O mago arrastou-se para a frente como se fosse abraçar os pés de Taran.

— Não vou matá-lo — repetiu Taran, afastando-se, enojado —, embora meu coração diga o contrário. Sua mal­dade é tão profunda que não cabe a mim julgá-lo. Restitua a forma de meus companheiros — ordenou. — Então nós o levaremos preso até Dallben. Somente ele é capaz de decidir o que você merece. Levante-se, feiticeiro. Pegue a jóia de Angharad.

Ainda abaixado, bem devagar e relutante, Morda puxou a corrente que estava em torno do seu pulso. Suas faces pálidas tremiam enquanto ele acariciava a jóia, murmurando algo para si mesmo. De súbito, deu um pulo para a frente. Com toda a força lançou a corrente com a pedra como se fosse um açoite no rosto de Taran.

As pontas lapidadas da pedra cortaram a testa de Taran. Com um grito ele cambaleou para trás. O sangue verteu-lhe nos olhos, cegando-o. O fragmento de osso voou de seus dedos, rodopiou e deslizou no chão. Com a força do golpe do feiticeiro, a jóia soltou-se da corrente de prata e rolou para um canto.

Logo a seguir o feiticeiro avançou nele, rosnando e ru­gindo como fera enlouquecida. Os dedos de Morda crava­ram-se na garganta de Taran. Seus dentes amarelados exi­biam-se num sorriso apavorante. Taran lutou para se livrar das garras do feiticeiro, mas a fúria do ataque de Morda dei­xou-o tonto; perdeu o equilíbrio e caiu por terra. Tentou em vão deter a garra mortal que o sufocava. Sua cabeça girava. Com os olhos repletos de sangue entreviu a face do feiticeiro retorcida de ódio e fúria.

— Sua força não vai salvá-lo — Morda sibilou. — Ela não se equipara à minha. Você é fraco, assim como todos de sua espécie. Não o avisei? Minha vida não está em meu cor­po. Sou poderoso como a morte! Então morra, guardador de porcos!

Horrorizado, Taran reconheceu que o feiticeiro dissera a verdade; os braços franzinos de Morda estavam duros como galhos retorcidos, e embora Taran lutasse desesperadamen­te, a pressão implacável do mago tomava-se mais intensa. Os pulmões de Taran estavam prestes a explodir e ele sentiu que se afogava num mar negro. As feições de Morda toma­ram-se embaçadas; somente o olhar maligno e fixo do feiti­ceiro não se alterava.

Um estrondo de madeira quebrada abalou os ouvidos de Taran. De súbito, a pressão que Morda fazia em sua gar­ganta cedeu. Com a cabeça ainda vacilando, Taran apoiou-se na parede e tentou ficar de pé. Llyan havia invadido o recinto.

Rugindo furiosamente, os olhos inflamados como cha­mas douradas, a enorme gata deu um salto para a frente. Morda virou-se para enfrentá-la.

— Llyan! Cuidado com ele! — gritou Taran.

O vigor do ataque de Llyan fez o feiticeiro cair de joe­lhos, mas Morda, com sua força inalterável, agarrou-se ao animal.

Llyan sacudia o corpo castanho-avermelhado para um lado e para o outro. Apoiada nas poderosas patas traseiras e com as garras à mostra tentou em vão atacar o feiticeiro, que se esquivou e se agarrou às costas arqueadas do animal. Mian­do e soprando, a gata imensa sacudia a cabeça furiosamente, e seus dentes afiados reluziam nas mandíbulas maciças; mes­mo assim, com todo o seu poder, não se pôde libertar do domínio do feiticeiro. Taran sabia que a força do animal logo iria declinar, assim como a dele próprio havia falhado. A gata havia lhe concedido mais um momento de vida, mas agora era ela que estava condenada.

O osso! Taran abaixou-se e começou a procurar o frag­mento. Não o via em lugar algum. Afastou banquetas de madeira, revirou vasilhas de barro, raspou as cinzas da lareira. O osso havia desaparecido.

Por trás dele ouviu-se um chiado alto e Taran virou-se para ver o camundongo equilibrando-se nas patas traseiras. A criatura segurava nas mandíbulas a lasca de osso.

Imediatamente Taran pegou o fragmento polido para quebrá-lo com as mãos. Faltou-lhe o ar. O osso não se quebrava.


 

O feitiço Desfeito

O fragmento de osso polido era inflexível como ferro. Com os dentes cerrados e os músculos tremendo devido ao esforço, Taran sentiu que lutava contra o próprio feiticeiro. Llyan, enfraquecida, caíra sobre as ancas; Morda soltou-se da gata in­consciente e investiu contra Taran mais uma vez, tentando agarrar o fragmento. Os dedos do feiticeiro firmaram-se na metade do pedaço de osso, mas Taran agarrou-se com toda a força à outra ponta. Sentiu a lasca vergar quando Morda tentava arrancá-la de sua mão.

De repente o osso quebrou-se em duas partes. Um som mais penetrante que um trovão estourou nos ouvidos de Taran. Dando um grito horripilante que atravessou a sala Morda cam­baleou para trás e, enrijecido, com as mãos tentando agarrar o ar, foi ao chão como se fosse uma pilha de gravetos quebrados.

No mesmo instante o rato desapareceu. Gurgi estava de pé ao lado de Taran.

— Bondoso mestre nos salvou! — gritou, abraçando Taran. — Sim, sim! Gurgi é Gurgi outra vez! Não é mais um camundongo cheio de guinchos e gritos!

Na mão de Taran o osso partido tinha se transformado em pó cinzento, que ele sacudiu para o lado. Estava tão exausto e desnorteado que não conseguia falar, e apenas deu uns tapinhas em Gurgi, expressando carinho e gratidão. Llyan, com o peito arfando, ergueu-se próxima à forma quebrada e sem vida de Morda. Seu pêlo ainda estava arrepiado de tanta fúria, e o rabo comprido parecia duas vezes mais grosso. Quando Gurgi comeu para soltar Kaw, que grasnava em alto volume e, agitado, batia as asas contra a gaiola, os olhos dourados de Llyan percorreram rapidamente a sala e de sua garganta veio um som ansioso e indagador.

— Grande Belin! — surgiu a voz de Fflewddur. — Estou numa situação tão difícil quanto antes!

Llyan à frente, Taran correu até o canto da sala. O cesto no qual Morda aprisionara a lebre agora continha o bardo, comprimido lá dentro com a harpa, sem poder mover as pernas compridas viradas para um lado e os braços debaten­do-se inutilmente para o outro.

Com certa dificuldade, Taran e Gurgi puseram-se a li­bertar o bardo, que não parava de balbuciar. O rosto de Fflewddur estava pálido de medo; o bardo piscou, sacudiu a cabeleira loura e deixou escapar grandes suspiros de alívio.

— Que humilhação! — explodiu. — Um Fflam! Trans­formado em coelho! Tive a sensação de estar dentro de uma sacola de lã! Grande Belin, meu nariz ainda se move! Nunca mais! Eu lhe disse que não dá certo lidar com magia. Embora, neste caso, Taran, bom amigo, tenha sido sorte você ter guar­dado aquele osso. Ai, ai! Devagar, esse vime está me espetan­do. Um coelho, ora vejam! Se eu ao menos tivesse consegui­do pôr as patas... quero dizer, mãos... naquele Morda infame!

Fora do cesto, finalmente, Fflewddur envolveu com os braços o pescoço forte de Llyan.

— E você, menina! Se não tivesse vindo à nossa procura!

Ele estremeceu e levou as mãos às orelhas.

— É verdade. Bem, é melhor não pensar nisso.

À soleira da porta encontrava-se uma pequena figura, robusta, de botas e roupa de couro avermelhado; na cabeça um capuz arredondado e justo. Polegares apoiados no cinturão, dirigiu os olhos vermelhos e brilhantes a cada um dos compa­nheiros. Ao invés do ar carrancudo de sempre, um sorriso abriu-se no rosto largo.

— Doli! — exclamou Taran, o primeiro a ver o anão. — É você de novo!

— De novo? — retrucou Doli, tentando dar à voz um tom rude. — Sempre fui eu mesmo.

A passos largos, entrou na sala. Por um momento olhou para o chão, onde estava Morda, e fez um breve movimento com a cabeça.

— Então foi assim que tudo terminou — disse ele a Taran. — Foi o que imaginei. Num momento eu era uma rã, enrolada num manto encharcado, e tinha certeza que todos vocês tinham sido mortos, e logo em seguida... voltei a ser o que estão vendo agora.

— Depois de algum tempo sua gata começou a ficar inquieta — continuou Doli, virando-se para Fflewddur. — Pegou-me com o manto e foi atrás de vocês.

— Ela não me perderia de vista — respondeu Fflewddur. — E por isso — acrescentou acariciando as orelhas de Llyan —, nós todos devemos agradecê-la.

— Mas de que maneira ela conseguiu atravessar os espi­nheiros? — perguntou Taran. — As armadilhas de Morda...

— Atravessar? — retrucou Doli. — Ela não atravessou. Passou por cima!

O anão balançou a cabeça.


— Num salto! E comigo na boca! Jamais vi uma criatura pular tão alto. Por outro lado, jamais vi uma criatura como esta. Mas e vocês? E Morda?

— Se não se importam — interrompeu Fflewddur antes que Taran terminasse de contar a Doli a atribulação por que passaram —, sugiro que deixemos o local imediatamente. Um Fflam é seguro de si mesmo, mas há algo estranho a respeito de feitiços, ou mesmo ossos quebrados, que conse­guem... hã... me abalar.

— Espere — exclamou Taran. — A jóia! Onde está? Enquanto Doli observava, intrigado, os companheiros,

às pressas, começaram a procurar o ornamento por todos os cantos do recinto. A preocupação de Taran aumentou, pois relutava em deixar a pedra, caso estivesse perdida. No entan­to, quando estava prestes a admitir que a jóia havia desapare­cido, escutou uma risada rouca acima de sua cabeça.

Kaw, empoleirado numa viga de carvalho, oscilava para a frente e para trás, cacarejando e grasnando, maravilhado consigo mesmo. A jóia reluzia em seu bico.

— Ei, ei! — gritou Fflewddur, assustado. — Dê aqui! Grande Belin, você vai nos deixar com patas e rabos outra vez!

Depois de muitas súplicas de Taran e objeções furiosas do bardo, Kaw pousou no ombro de Taran e deixou cair a pedra preciosa em sua mão.

— Agora pertence ao mestre bondoso e sábio! — ex­clamou Gurgi. — Gurgi teme a pedra que pisca e faísca, mas não quando o gentil mestre a segura.

Doli examinou a pedra quando Taran a ergueu.

— Então foi assim que Morda pretendeu escravizar-nos. Eu devia ter imaginado. Isto vem do reino do Povo Formoso — acrescentou. — Sempre honramos a Casa de Llyr e de­mos a pedra, de presente de casamento, à Princesa Regat. Ela deve tê-la entregado à sua filha; e quando Angharad desapa­receu, a jóia não foi mais encontrada.

— E agora vem para as minhas mãos — disse Taran. Segurou a pedra na palma da mão e observou o jogo de luz no interior do cristal.

— Morda deu a um objeto útil e belo uma finalidade má. Se ainda servirá a seu verdadeiro propósito, eu não sei. Para dizer a verdade, fascina-me. E também me assusta. Seu poder é vasto... talvez, tão vasto que nenhum ser humano possa controlá-lo. Mesmo que eu pudesse compreender seus segredos, não a usaria.

Sorriu para Gurgi.

— Você diz que sou sábio? Pelo menos tenho o bom senso de reconhecer que jamais terei a sabedoria necessária para usá-la.

— Mesmo assim, poderá servir a um propósito — Taran continuou. — Tendo isto para negociar, Orddu com certeza haveria de revelar a minha origem. Sim! — exclamou. — A pedra é um tesouro que ela não recusaria.

Parou de falar, subitamente, e ficou pensativo por algum tempo. A seu alcance estavam os meios para que ele alcan­çasse o conhecimento que tanto desejava. Mas seu coração arrefeceu. Embora tivesse conquistado a pedra de modo jus­to, jamais poderia alegar que era seu o direito de possuí-la. Nem Morda nem ele poderiam negociar a jóia. Se Orddu a aceitasse e Taran ficasse sabendo que ele era de origem no­bre... um manto real seria suficiente para esconder uma nego­ciação desonrosa?

Olhou para Doli.

— A pedra é minha — disse Taran. — E dela posso dispor, ao invés de guardá-la.

Devagar ele pressionou a jóia na mão de Doli.

— Pode levar. Um dia pertenceu ao Povo Formoso. Agora, mais uma vez, pertence a eles.

A cara amarrada costumeira do anão abrandou-se.

— Você prestou-nos um serviço — respondeu. — Pos­sivelmente o maior serviço que qualquer um de vocês, mor­tais, já prestou ao Povo Formoso. Sem sua ajuda, Morda po­deria ter destruído todos nós. Sim, a pedra deve retornar a nossos domínios; é perigosa demais em outras mãos. Você tomou a decisão certa. Por isso o Rei Eiddileg sempre se lembrará de você. Receba os agradecimentos dele... e os meus.

Satisfeito, Doli meneou a cabeça, e, com todo o cuida­do, guardou a pedra, na jaqueta.

— Fez uma longa jornada. Finalmente volta para nós.

— Sim, sim! — gritou Gurgi. — Leve-a para os guarda­dos. Se o bondoso mestre não a quer, então Gurgi não quer mais ver a pedra perversa. Fora com ela, fora! Não deixe que ela transforme, outra vez, leal Gurgi num camundongo!

Dando uma boa risada, Taran pôs a mão no ombro de Gurgi.

— Morda não poderia ter mudado o que você é na realidade, tal qual não conseguiu mudar Doli. Embora se pa­recesse com um camundongo, seu coração ainda era de um leão. Mas o que seria de mim? — murmurou, pensativo. — Na forma de águia engaiolada ou minhoca cega... poderia eu, de fato, continuar a ser eu mesmo? Poderia ainda ser Taran, se eu mal identificasse Taran?

Quando os companheiros deixaram a fortaleza do feiti­ceiro, o sol já havia começado a se elevar, prometendo um dia fresco e céu azul. O muro de espinheiros estava caído, quebrado como o poder que o ergueu, e os companheiros abriram passagem sem dificuldade. Com Melynlas e o pônei de Gurgi puseram-se a caminho, e somente depois de have­rem percorrido uma distância considerável Fflewddur con­cordou em parar para descansar. Ainda assim, o bardo não parecia estar à vontade e, enquanto Gurgi abria a mochila onde guardava a comida, Fflewddur parecia distraído; senta­do numa elevação, pensativo, passava os dedos pelas orelhas, como se quisesse se certificar de que eram mesmo as suas.

— Coelhos! — o bardo murmurou. — Nunca mais hei de caçar um deles.

Taran sentou-se perto de Doli, pois ele tinha muito a contar e Taran muito a lhe perguntar. Embora Doli tivesse reassumido a ampla expressão carrancuda e a estreita paciên­cia, de vez em quando um lampejo de sorriso deixava esca­par sua alegria de rever os companheiros. Mas, ao tomar co­nhecimento do propósito de Taran, Doli amarrou ainda mais a cara do que de costume.

— Condados Livres? — disse o anão. — Nosso relacio­namento com o Povo dos Condados é o melhor possível; eles nos respeitam e nós os respeitamos. Você não encontra­rá muitos em Prydain que se igualem a eles em termos de coragem e boa vontade, e lá nenhum homem assume o papel de lorde em relação a seus companheiros apenas porque teve a sorte de nascer no castelo de um rei e não em uma choupa­na de lavrador. O que importa nos Condados Livres é a habi­lidade que um indivíduo tem nas mãos, não o sangue que lhe come nas veias. No entanto, nada mais lhe posso dizer, pois temos poucas ligações com eles. Ah, mantemos um posto avançado aberto aqui e acolá caso eles precisem de nossa ajuda. Mas isto raramente ocorre. O Povo dos Condados prefere contar consigo mesmo e resolver os próprios proble­mas. Então estamos mais que satisfeitos, por nós e por eles, pois tomar conta do resto de Prydain já é trabalho suficiente.

— Quanto ao espelho de que você fala — continuou Do­li —, jamais ouvi falar dele. Existe um Lago de Llunet nas Monta­nhas Llawgadarn. Nada mais posso lhe dizer além disso. Mas o que você tem aí? — perguntou o anão, repentinamente, ao notar, pela primeira vez, a trompa de combate. — Onde conseguiu isso?

— Foi Eilonwy quem me deu quando saí de Mona — respondeu Taran. — Era sua garantia de que nós...

Taran sorriu tristemente.

— Parece que faz tanto tempo.

Retirou a trompa que estava presa ao ombro e entre­gou-a a Doli.

— É trabalho artesanal do Povo Formoso — disse o anão. — Não tenho dúvida.

Para surpresa de Taran, Doli olhou-a por uma extremi­dade, depois pela outra, e ergueu a trompa à luz do sol como se tentasse espreitar pelo bocal. Enquanto Taran observava, curioso, Doli deu algumas pancadas fortes na trompa com a mão fechada e bateu-a contra o joelho.

— Vazia! — resmungou o anão. — Toda gasta! Não! Espere um instante.

Apertou a campânula da trompa contra a orelha e ficou escutando atentamente.

— Resta uma e nada mais.

— Uma o quê? — exclamou Taran, mais do que nunca perplexo ao ouvir as palavras de Doli.

— Uma convocação, o que acha? — rebateu Doli. Fflewddur e Gurgi haviam-se aproximado, atraídos pelo comportamento estranho de Doli, e o anão dirigiu-se a eles.

— Este instrumento foi feito há muito tempo, quando os homens e o Povo Formoso viviam em perfeita harmonia e eram felizes por prestarem ajuda um ao outro. Na trompa há um sinal para nós.

— Não entendo... — começou Taran a dizer.

— Se me escutasse, entenderia — replicou Doli, entre­gando-lhe de volta a trompa de combate. — E quero dizer, escute. Com atenção.

Franziu os lábios e assobiou três notas longas, num tom e numa seqüência desconhecidos para Taran.

— Escutou? Toque essas notas na trompa... assim mesmo, acredite. Elas trarão até você o Povo Formoso mais próximo que fará o possível para ajudá-lo. Então, lembra-se da melodia?

Doli assobiou as notas mais uma vez. Taran disse que sim com um movimento de cabeça e sem raciocinar levou a trompa aos lábios.

— Agora não, seu idiota! — gritou Doli. — Guarde-a na sua memória. Eu lhe disse que havia apenas uma convocação. Poupe-a. Não a desperdice. Algum dia sua vida poderá de­pender dessa chamada.

Maravilhado, Taran olhou fixamente para a trompa.

— A própria Eilonwy nada sabia a respeito disso. Você me fez um favor incalculável, Doli.

— Favor? — bufou o anão. — Favor nenhum. A trompa serve a quem está com ela... neste caso, você. Não fiz nada além de mostrar-lhe como aproveitar melhor algo que já é seu. Favor? Ora! É só uma gentileza. Mas guarde-a bem. Se desperdiçá-la como um tolo ao primeiro sinal de perigo, há de se arrepender quando estiver, realmente, em apuros.

— Haham! — pigarreou Fflewddur, sussurrando para Taran. — Aceite meu conselho: confie em sua inteligência, em sua espada e em suas pernas. Feitiço é feitiço, e se você já passou pelo que eu passei, não vai querer se envolver nessas coisas.

O bardo franziu a testa ao olhar para a trompa de com­bate e virou-se para o outro lado.

— Jamais serei o mesmo, com certeza! — murmurou e, com certo nervosismo, apalpou as orelhas. — Grande Belin, sinto como se estivessem duas vezes mais compridas do que antes!


 

Dorath

Depois de comer, os companheiros deitaram-se na relva e dormiram, profundamente, o res­to do dia e durante toda a noite. De manhã, Doli despediu-se de todos. Kaw, a pedido de

Doli, já começara a voar para o reino do Povo Formoso, levando notícias de que tudo estava bem; de lá voltaria a se encontrar com Taran.

— Eu iria com vocês, se pudesse — disse o anão a Taran. — Só de pensar num Porqueiro-Assistente meio perdido nas Montanhas Llawgadarn, meu cabelo fica arre­piado. Mas não posso ir. Eiddileg precisa guardar a jóia. E quem precisa levá-la de volta? O Doli de sempre! Ora!

— Despedir-me de você deixa-me triste — disse Taran —, mas já me ajudou mais do que eu podia supor. O Lago de Llunet talvez me conduza até o Espelho que tem o mesmo nome.

— Então, adeus — disse Doli. — Você evitou que fôssemos todos transformados em rãs, ou coisa pior, e res­tituiu-nos um tesouro. Nós, do Povo Formoso, temos uma boa memória.

O anão apertou as mãos dos viajantes e ajustou o capuz de couro na cabeça. Doli acenou pela última vez, e Taran observou a figura atarracada do anão marchando com firme­za através do prado, ficando menor à distância, até desapare­cer na orla da floresta, e ele não o viu mais.

Durante todo o dia os companheiros seguiram em dire­ção ao nordeste. Taran ficaria mais satisfeito se tivesse a orien­tação de Doli, e sentia falta do anão carrancudo, mas estava mais animado do que nunca; cavalgava com entusiasmo, sen­tindo-se seguro; a trompa de combate ao seu ombro dava-lhe coragem renovada e confiança.

— O presente de Eilonwy é mais valioso do que eu ima­ginara — disse a Fflewddur. — Sou grato a Doli por ter me revelado seu poder. E ainda mais, por ter me falado do Lago de Llunet. É estranho, Fflewddur — Taran continuou —, mas, por algum motivo, sinto que estou mais perto do final da minha busca. Mais do que nunca, acredito que encontrarei o que procuro.

— Hã? Como é? — respondeu Fflewddur, piscando como se tivesse acabado de acordar.

Embora Gurgi tivesse deixado para trás tudo que lhe lem­brava Morda, o bardo ainda parecia abalado pela provação que sofrera. Quase sempre, permanecia quieto a refletir e, com um ar melancólico, passava os dedos pelas orelhas como se esperasse que elas fossem crescer a qualquer momento.

— Terrível experiência! — murmurou, afinal. — Um Fflam transformado em coelho! O que você estava dizendo? A busca, é claro.

— Sinta o cheiro, cheirando! — interrompeu Gurgi. — Alguém está cozinhando saborosos petiscos e lambiscos!

— Tem razão — concordou Fflewddur, farejando o ar. — Droga! Meu nariz está se mexendo de novo!

Taran puxou as rédeas de Melynlas e diminuiu a marcha. Llyan também havia percebido o aroma; com as orelhas vol­tadas para a frente, lambia os bigodes, faminta.

— Devemos ver de quem se trata? — perguntou Fflewddur. — Eu não recusaria uma refeição quente... desde que não seja coelho!

Taran concordou e os companheiros atravessaram com cautela a clareira. Pretendia ver os estranhos antes de ser visto; mas depois de ter dado alguns passos, dois homens mal barbeados surgiram das sombras dos arbustos. Taran assus­tou-se. Os dois que, evidentemente, estavam a postos, vi­giando, mais que depressa sacaram as espadas. Um deles as­sobiou como um pássaro e encarou os companheiros, mas não tentou impedi-los.

Na clareira Taran viu cerca de 12 homens esparramados em torno do fogo, onde fatias de carne chiavam, presas num espeto. Embora estivessem armados como guerreiros, os ho­mens não usavam nem o distintivo nem as cores de algum lorde de cantreve. Alguns mastigavam a comida, outros afiavam as lâminas ou enceravam as cordas dos arcos. Mais próximo ao fogo, sentado confortavelmente, um homem de rosto duro ti­nha um dos cotovelos apoiado no chão e brincava com um punhal comprido, que ele agitava e girava, segurando-o primeiro pelo cabo e depois pela ponta Vestia um casaco curto de couro de cavalo, cujas mangas tinham sido retiradas; suas botas enlameadas tinham solas espessas presas por pregos. Os cabelos alourados batiam nos ombros; os olhos azuis e frios pareciam medir os três companheiros com um olhar impassível.

— Bem-vindos, lordes — disse num falar arrastado. — Que bons ventos os trazem ao acampamento de Dorath?

— Não sou nenhum lorde — respondeu Taran. — Sou Taran, Porqueiro-Assistente...

— Não é um lorde? — Dorath interrompeu, fingindo surpresa, um meio sorriso em sua boca. — Se você não me dissesse eu jamais saberia.

— Estes são meus companheiros — prosseguiu Taran, aborrecido por ter permitido que Dorath o ridicularizasse. — Gurgi. Fflewddur Fflam... um bardo que anda por toda parte, mas que em sua terra é rei.

— E Dorath é rei por onde andar — respondeu rindo o homem de cabelos amarelados. — Agora, Lorde Porqueiro, quer partilhar uma refeição humilde?

Com o punhal indicou as fatias assadas.

— Comam à vontade. A Legião de Dorath nunca faltam alimentos. Depois gostaríamos de saber mais a respeito de três tipos como vocês.

— É estranho o corcel do harpista, Dorath — observou um dos homens, com o rosto cheio de cicatrizes. — Aposto que minha égua seria capaz de enfrentar a fera, de qualquer maneira, pois ela é bruta, um animal de índole ruim e nascido para matar. Não seria um duelo divertido? O que acha, Dorath? Deixaria a gata nos divertir um pouco?

— Controle sua língua, Gloff — respondeu Dorath, olhando atentamente para Llyan. — Você não passa de um idiota.

Retirou a carne do espeto e estendeu-a aos companhei­ros. Fflewddur, tendo constatado que não se tratava de coe­lho assado, comeu com vontade; Gurgi, como de costume, não tinha pressa de terminar sua refeição; e Taran deu-se por satisfeito de engolir sua parte com a ajuda de um gole de vi­nho de sabor ácido que Dorath lhe serviu de um cantil de couro. O sol estava se pondo rapidamente. Um homem do bando acrescentou mais galhos à fogueira. Dorath cravou o punhal no chão, a seu lado, e olhou bem para Taran.

— E então, lorde — disse Dorath —, não tem algumas histórias de viajantes para nos entreter? De onde vêm? Aon­de vão? E por quê? Os Cantreves do Monte são perigosos, a não ser para quem sabe o que está fazendo.

Taran não respondeu de imediato; o tom de Dorath e o olhar dos homens ao redor do fogo fizeram Taran guardar as palavras.

— Vamos para o norte... na direção das Montanhas Llawgadarn.

Dorath sorriu-lhe com ironia.

— E de lá para onde? — perguntou. — Ou considera minhas perguntas inconvenientes?

— Para o Lago de Llunet — Taran respondeu com cer­ta relutância.

— Ouvi falar de tesouros naqueles lugares — observou o homem chamado Gloff. — É o que eles estão procurando?

— Então é isso? — perguntou Dorath a Taran. — Te­souro? — Deu uma gargalhada. — É por isso que você economiza palavras!

Taran sacudiu a cabeça.

— Se eu encontrar o que procuro, para mim será mais valioso do que ouro.

— Mesmo? — Dorath abaixou-se perto dele. — Mas que tesouro seria este, lorde? Jóias? Ornamentos requintados?

— Nem uma coisa, nem outra — Taran respondeu. Hesitou e então disse:

— Estou à procura de meus pais.

Por um momento Dorath ficou em silêncio. O sorriso malicioso não abandonou seu rosto, mas quando ele voltou a falar sua voz era fria.

— Quando Dorath faz uma pergunta ele quer uma res­posta verdadeira, Lorde Porqueiro.

Taran enrubesceu de raiva.

— Dei-lhe uma resposta. Diga que não, e estará me chamando de mentiroso.

Houve um silêncio repentino entre os dois. Dorath, com o rosto carrancudo, estava quase de pé. A mão de Taran moveu-se para o cabo da espada. Mas nesse instante uma alegre explosão de música surgiu da harpa de Fflewddur e o bardo disse em voz alta:

— Calma, amigos! Ouçam uma alegre canção para que o jantar lhes caia bem.

Apoiou a harpa de belas formas curvas de encontro ao ombro e, enquanto seus dedos passavam pelas cordas, os homens ao redor da fogueira batiam palmas e pediam que ele continuasse. Dorath voltou a sentar-se na relva, mas olhou para o bardo e cuspiu no fogo.

— Já chega, harpista — disse Dorath depois de algum tempo. — Sua música soa mal nessa panela torta. Vamos descansar. Vocês podem ficar conosco, e pela manhã minha legião os guiará até o Lago de Llunet.

Taran olhou de relance para Fflewddur e percebeu sua rápida expressão de desagrado. Levantou-se.

— Nós lhe agradecemos pela cortesia — disse a Dorath —, mas o tempo urge e pretendemos viajar durante a noite.

— Ah, sim... é verdade — acrescentou Fflewddur en­quanto Gurgi concordava com entusiasmo. — Quanto ao lago... sim, bem... não gostaríamos que vocês se incomodas­sem. É uma longa jornada, muito além de seu cantreve.

— Prydain é meu cantreve — Dorath retrucou. — Não ouviu falar da Legião de Dorath? Servimos a qualquer um que nos pague: um lorde fraco que almeja um bando forte para guerrear, ou três viajantes que precisam se proteger dos pe­rigos da jornada. Inúmeros perigos, harpista — acrescentou num tom ameaçador. — Para meus homens, Llunet fica a um pulo de distância, e eu conheço bem a região. Será que vocês estarão a salvo? Tudo o que peço é uma pequena parte do tesouro que procuram, uma pequena recompensa para seus humildes servos.

— Agradecemos — disse Taran novamente. — Já anoi­teceu e precisamos seguir nosso caminho.

— Como assim? — exclamou Dorath alardeando sua indignação. — Desprezam minha pobre hospitalidade? Fe­rem meus sentimentos, lordes. Para vocês é indigno dormir ao lado de gente do nosso tipo? Ah, ah, guardador de porcos, não insulte meus homens. Eles podem levar a mal.

De fato, assim que Dorath disse essas palavras, ouviu-se um murmúrio desagradável entre o bando, e Taran viu quan­do alguns guerreiros tocaram as espadas. Ficou indeciso, em­bora ciente do mal-estar que o bardo sentia. Dorath obser­vava-o, atentamente. Dois homens afastaram-se, discretamen­te, em direção aos cavalos, e Taran podia imaginar que nas sombras estivessem desembainhando as armas.

— Que seja — disse Taran, fitando Dorath bem nos olhos. — Aceitamos sua hospitalidade por esta noite e ama­nhã os deixaremos.

Dorath sorriu de lado.

— Teremos tempo para conversar, novamente, a esse respeito. Durmam bem.

— Dormir bem! — resmungou Fflewddur, enquanto se cobriam com seus mantos e se estendiam no chão. — Gran­de Belin, não vou pregar um olho. Jamais gostei dos Cantreves do Monte e esta é uma razão para gostar menos ainda

Olhou ao redor. Dorath havia se acomodado próximo ao fogo; seguindo as ordens do líder, sem dúvida, o homem chamado Gloff deitou-se próximo aos companheiros.

— Conheço esses grupos de combate que andam por aí — continuou Fflewddur num tom sussurrante. — Arrua­ceiros e saqueadores, todos eles. O lorde de um cantreve que contratar as armas deles para lutar com os vizinhos em pouco tempo terá esses tipos agarrados a seu pescoço. Dorath vai nos proteger dos perigos? O maior perigo é o próprio Dorath!

— Ele está convencido de que estamos à procura de um tesouro — sussurrou Taran. — Pôs isso na cabeça e não aceitará o contrário. Felizmente, pode-se dizer — acrescen­tou, magoado. — Enquanto pensar que podemos mostrar-lhe ouro ou jóias, não nos matará.

— Talvez sim, talvez não — respondeu Fflewddur. — Pode ser que não corte nossas gargantas, mas poderá muito bem tentar... ah... digamos, persuadir-nos a dizer-lhe onde está o tesouro, e receio que não se limitaria a nos beliscar.

— Não sei — respondeu Taran. — Se quisesse nos torturar, por que não o teria feito antes? Ele nos encurralou e não podemos deixá-lo nos acompanhar. E mais, não creio que Dorath esteja tão seguro de si mesmo. Somos apenas três contra 12, mas não se esqueça de Llyan. Se houver uma luta, é bem provável que Dorath acabe com todos nós. No entanto, penso que, astuto como ele é, deve ter percebido que o confronto lhe sairia muito caro, custando baixas ao grupo, e talvez a dele próprio. Duvido que se arrisque, a não ser que seja obrigado.

— Espero que você tenha razão — suspirou o bardo. — Preferia não ficar para saber. Melhor seria passar a noite em um ninho de serpentes. Precisamos nos livrar desses vi­lões! Mas como?

Taran franziu a testa e mordeu o lábio.

— A trompa de Eilonwy... — começou a dizer.

— Sim, sim! — sussurrou Gurgi. — É, isso mesmo, trompa mágica tocando e soando! O socorro chega salvando! To­que-a, sábio mestre!

— A trompa de Eilonwy — disse Taran, devagar. — Sim, logo me ocorreu. Devo usá-la agora? É um presente valioso, por demais valioso para se desperdiçar. Se tudo o mais der errado...

Taran sacudiu a cabeça.

— Antes que eu a toque vamos tentar usar nossa pró­pria força. Agora, durmam — insistiu. — Descansem tanto quanto puderem. Antes da primeira luz Gurgi poderá se diri­gir, em silêncio, ao local onde os cavalos estão amarrados, e cortar as rédeas de todos os corcéis de Dorath, enquanto Fflewddur e eu tentamos atordoar os guardas. Assustamos os cavalos para que se espalhem por toda parte. Então...

— Vamos embora a todo o galope! — acrescentou Fflewddur.

O bardo meneou a cabeça.

— Bom. É a melhor opção. Se você não pretende tocar esta cometa, admito que seja nossa única chance. Dorath! — acrescentou, balançando com carinho a harpa. — Minhas músicas soam mal, ora essa! Minha harpa, uma panela torta! Aquele arruaceiro não tem ouvidos nem olhos! Um Fflam é tolerante, mas devo dizer que Dorath foi longe demais ao insultar minha harpa. Embora, infelizmente — admitiu Fflewddur —, eu tenha ouvido a mesma opinião de outras pessoas.

Enquanto Gurgi e Fflewddur cochilavam, inquietos, Taran permaneceu desperto e desconfiado. A fogueira ardia em brasas. Podia ouvir a respiração pesada dos homens de Dorath. Gloff estava estendido no chão, imóvel, roncando barbara­mente. Por algum tempo Taran fechou os olhos. Havia toma­do a decisão errada quando evitou tocar a trompa? Afligia-o pensar que três vidas estavam em jogo. Doli avisara-o que não desperdiçasse o presente que ganhara. Mas o risco seria muito grande? A trompa deveria ser usada agora, quando a necessidade era mais evidente? Esses pensamentos exerce­ram nele pressão maior que a noite sem lua.

Quando o céu negro começou a mostrar os primeiros sinais pálidos de cinza, Taran, em silêncio, acordou Gurgi e o bardo. Cautelosamente, encaminharam-se até os arbustos onde os cavalos estavam amarrados. Taran estava esperan­çoso e sentiu o coração batendo forte. Os dois guardas dor­miam profundamente, as espadas atravessadas sobre os joe­lhos. Taran virou-se para ajudar Gurgi a cortar as cordas e manteve-se à sombra de um tronco negro de carvalho.

Um pé calçando bota irrompeu, bloqueando o caminho de Taran. Dorath estava encostado na árvore, com o punhal na mão.


 

A Aposta

— Mas já vai embora, Lorde Porqueiro? — disse Dorath, com um indício de zombaria no tom de voz. O punhal girava-lhe nas mãos, e ele estalou a ponta da língua contra os dentes.

— Sem dizer adeus? Sem uma palavra de agradecimento?

Sacudiu a cabeça.

— É uma descortesia grave a mim e a meus ho­mens. Eles são sensíveis. Receio que você os feriu profundamente.

Os homens da Legião de Dorath começaram a se agitar. No instante de pânico Taran olhou, de relance, para Fflewddur e Gurgi. Gloff tinha se levantado e segurava a espada com naturalidade, quase distraído. Taran sabia que o homem poderia levantar a lâmina, instantaneamente, antes que a sua saísse da bainha. Os olhos de Taran moveram-se, depressa, para as cordas dos cavalos. Outro homem do bando de Dorath esgueirou-se para perto dos corcéis e, numa atitude indolente, começou a cutucar as unhas com um facão. Taran acenou aos companheiros indicando que não fizessem nenhum movimento.

Dorath endireitou-se. Seu olhar era frio.

— De verdade, queria se separar de nós? Mesmo tendo sido alertado sobre os perigos das colinas?

Deu de ombros.

— Que ninguém jamais diga que Dorath impõe hospi­talidade aos convidados que não a desejam. Vá, se é o que pretende. Procure seu tesouro e que sua viagem seja bem-sucedida.

— Não pretendíamos ofendê-lo, em absoluto — Taran respondeu. — Não nos queira mal, pois mal algum lhe dese­jamos. Adeus.

Mais aliviado, acenou para Gurgi e para o bardo, e virou-se.

A mão de Dorath agarrou seu ombro.

— Como assim! — exclamou Dorath. — Vão embora sem acertar o assunto entre nós?

Taran parou, surpreso, enquanto Dorath continuava a falar.

— Pois bem, há um pagamento a ser feito, Lorde Por­queiro. Vai me trapacear? Somos pobres, lorde; pobres de­mais para dar o que não recebemos.

Os guerreiros riram, caçoando. O rosto severo de Dorath passou a demonstrar um tipo de humildade dissimulada, que Taran considerou ainda mais ameaçadora, e o homem gritou num tom acusador e suplicante.

— Vocês comeram a carne e beberam o vinho que eram nossos. Durante toda a noite dormiram em segurança, sob nossa proteção. Isso nada significa para vocês?

Taran estava perplexo. Os homens de Dorath aproxi­maram-se do líder. Gurgi ficou ao lado de Taran.

— Proteção! — resmungou Fflewddur entre dentes. — Quem nos protegerá de Dorath? Proteção? Grande Belin, eu diria extorsão!

— E tem mais, Lorde Porqueiro — Dorath acrescen­tou, rapidamente. — A questão do pagamento para guiá-lo até o Lago de Llunet. Não é uma viagem fácil para minha le­gião; os caminhos são longos e áridos...

Taran encarou o homem.

— Você nos deu comida, bebida e abrigo — disse, e seus pensamentos se apressavam para escapar da cilada de Dorath. — Pagaremos o valor daquilo que utilizamos. Quanto a sua pro­teção para nossa jornada, não a pedimos, nem a desejamos.

— Meus homens querem, aguardam e estão prontos para guiá-los — respondeu Dorath. — Você é que está rom­pendo o trato.

— Não fiz trato algum com você, Dorath — Taran respondeu.

Os olhos de Dorath se estreitaram.

— Não? Mas vai cumpri-lo, mesmo assim.

Os dois se entreolharam em silêncio por um instante. Os guerreiros agitavam-se, impacientes. Pela expressão de Dorath, Taran não saberia dizer se o homem tinha, de fato, a intenção de provocar uma rixa. Se era esse seu propósito, Taran analisou friamente que os companheiros teriam pou­cas chances de escaparem ilesos. Afinal disse:

— O que quer de nós? Dorath riu, maliciosamente.

— Agora você está falando com sensatez. Quantias pe­quenas logo se acertam. Somos homens humildes, lorde. Pe­dimos pouco, muito menos do que deveríamos. Mas, para o bem de nossa amizade, Dorath será generoso. O que você deve me dar?

Seus olhos voltaram-se para o cinto de Taran.

— É uma bela espada a sua — disse. — Será minha. A mão de Taran apertou o cabo da espada.

— Isso você não terá — respondeu depressa. — Ofere­ço-lhe arreios e armaduras do nosso equipamento, e mesmo esses vão nos fazer falta. Dallben, meu mestre, deu-me esta arma, a primeira lâmina que tive e que marcou o início da minha vida adulta. A jovem que amo, com suas mãos, cingiu esta espada. Não, Dorath, minha arma não será negociada.

Dorath inclinou a cabeça para trás e riu.

— Você faz tanto barulho por um pedaço de ferro. Sua queridinha cingiu-a! Sua primeira lâmina! Isto não acrescenta valor algum. É uma bela arma, apenas. Já joguei fora algumas melhores. Mas a aparência desta me agrada bastante. Dê-me a espada e estamos entendidos.

O rosto de Dorath encheu-se de prazer cruel, quando ele estendeu as mãos. Uma raiva repentina atingiu Taran. Es­quecida a precaução, ele desembainhou a espada e deu um passo atrás.

— Tome cuidado, Dorath! — exclamou Taran. — Quer minha espada? Vai ter de pagar caro. Pode ser que você não viva para reclamá-la.

— Nem você viverá para ficar com ela — respondeu Dorath, imperturbável. — Você conhece meus pensamentos e eu os seus, porqueiro. Sou tolo ao ponto de arriscar vidas por uma quinquilharia? Você é tolo a ponto de me impedir?

— Podemos decidir isso facilmente — acrescentou Dorath. — Para sua tristeza ou minha. Vai me enfrentar? Mi­nha legião contra a sua?

Sem resposta de Taran, Dorath continuou:

— Meu negócio é derramar o sangue do outro, não o meu. E neste caso a questão resolve-se com facilidade. Ponha um dos seus contra um dos meus. Uma aposta amigável, porqueiro. Arrisca-se? O prêmio? Sua espada!

Enquanto isso Gloff ficara escutando; o rosto mal-enca­rado iluminou-se e ele esfregou as mãos.

— Falou bem, Dorath! Afinal, vamos nos divertir!

— A escolha é sua, porqueiro — disse Dorath a Taran. — Quem é seu campeão? Aquele ser animalesco e peludo que você chama de companheiro enfrentará Gloff? Os dois são bem feios e fazem uma dupla equilibrada. Ou o harpista...

— O assunto é entre mim e você, Dorath — Taran respondeu —, e ninguém mais.

— Tanto melhor — respondeu Dorath. — Então aceita a aposta? Os dois desarmados, para ganhar ou perder, e ficar com o prêmio.

— Sua palavra é tão honesta quanto sua reivindicação? — retrucou Taran. — Não confio em nenhum acordo com você.

Dorath deu de ombros.

— Meus homens vão ficar afastados, onde estão as ár­vores, e não poderão me ajudar, se é o que você receia. E os seus também. O que diz agora? Sim ou não?

— Não, não! — gritou Gurgi. — Gentil mestre, cuidado! Taran olhou bem para a espada. A lâmina era lisa, o cabo sem enfeites, mesmo assim Dorath tinha percebido como era bem-feita. O dia em que Dallben a pusera em suas mãos brilhava na memória de Taran assim como o próprio metal; e Eilonwy... as palavras ásperas não esconderam o rubor de seu rosto ao se sentir orgulhosa. Mesmo assim, apesar de ser um tesouro, Taran obrigou-se a ver a lâmina, friamente, como se não passasse de um pedaço de metal. Em seu coração surgiu a dúvida. Caso ganhasse ou perdesse, não tinha certeza se Dorath deixaria os companheiros seguirem livres sem que houvesse uma luta acirrada.

— Que seja.

Dorath fez sinais ao grupo e Taran ficou observando, até que todos se dirigissem ao bosque, mantendo uma boa distância. Sob as ordens de Taran, Fflewddur e Gurgi solta­ram Llyan e os dois corcéis e, relutantes, seguiram na direção oposta. Taran atirou o manto no chão e ao lado deixou cair a trompa de Eilonwy. Dorath aguardava, com um brilho ma­treiro nos olhos, enquanto Taran retirava a bainha e cravava a espada no solo.

Taran deu alguns passos para trás. Nesse instante Dorath pulou nele sem aviso. A pressão do corpo pesado do guerreiro arrancou o ar dos pulmões de Taran e quase o derrubou. Dorath agarrou-se a ele, e Taran percebeu que o homem tentava segurá-lo pelo cinto e atirá-lo ao chão. Taran levantou os bra­ços e abaixou-se para se desvencilhar do aperto de Dorath. Praguejando, Dorath golpeou-o com o punho cerrado e, em­bora Taran escapasse do impacto maior do golpe, foi atingido na têmpora. Com os ouvidos tinindo, procurava esquivar-se e recuperar o equilíbrio, mas Dorath atacava sem interrupção.

Taran entendeu que não poderia se deixar agarrar pelo oponente, que era mais pesado, pois os braços poderosos de Dorath poderiam quebrá-lo ao meio; quando o guerreiro in­vestiu mais uma vez contra ele, Taran segurou-lhe o braço e, com toda a força, girou-o até que ele caísse no chão, de pernas para o ar.

Dorath levantou-se, rápido como um relâmpago. Taran abaixou-se para enfrentar nova investida do guerreiro. Mes­mo com todo seu peso, Dorath movia-se com a agilidade de um gato; caiu para um lado, girou depressa e, de repen­te, Taran viu os dedos grossos do homem tentando agarrar seus olhos. Enquanto Taran lutava para escapar do golpe que o cegaria, Dorath prendeu-o pelos cabelos e puxou sua cabeça para trás. O punho do guerreiro estava erguido para bater. Taran, arfando após o doloroso impacto, esmurrou a cara sorridente do homem. A pressão que Dorath fazia di­minuiu; Taran soltou-se. Por um instante o guerreiro pare­ceu aturdido com a chuva de socos, e Taran aproveitou a pequena vantagem para movimentar-se de um lado para o outro, sem dar a Dorath a chance de recuperar o controle.

De repente, Dorath caiu apoiado num dos joelhos, es­tendeu o braço e agarrou Taran. Quando tentava se desven­cilhar, Taran sentiu um golpe rápido e lancinante desferido no lado do corpo. Caiu para trás, comprimindo o ferimento com a mão. Dorath ergueu-se. Segurava uma faca de lâmina curta que retirara da bota.

— Desarme-se! — gritou Taran. — Lutamos sem ar­mas! Isso é traição, Dorath!

O guerreiro olhou-o com desdém.

— Já sabe qual de nós é o imbecil, Lorde Porqueiro? A corneta de Eilonwy estava ao alcance de Taran e seus dedos tentaram pegá-la. Quanto tempo, pensou ele rapida­mente, quanto tempo levaria até que o Povo Formoso aten­desse a seu chamado? Teria chances de manter Dorath na defensiva, ou, em último caso, fugir? Desesperado, desejou tocar as notas, mas com um grito de raiva atirou para o lado a trompa de combate, apanhou o manto para lhe servir de escudo e avançou em Dorath.

A faca do guerreiro prendeu-se nas dobras da capa. De tanta raiva, Taran reuniu forças e arrancou a lâmina da mão de Dorath, que cambaleou em conseqüência do ataque furio­so, caindo no chão. Taran seguiu-o, segurou Dorath pelos ombros e apoiou o joelho contra o peito do guerreiro.

— Sanguinário! — gritou Taran através de dentes trinca­dos. — Teria acabado com minha vida por um pedaço de ferro.

Os dedos de Dorath esfregavam-se na terra. O braço ergueu-se rapidamente. Um punhado de terra e pedriscos foi arremessado contra o rosto de Taran.

— Tente me achar agora! — exclamou Dorath, dando-lhe um forte empurrão. Taran levou as mãos aos olhos dolo­ridos; lágrimas corriam-lhe pela face; tateou à procura do guer­reiro, que num instante saltara para longe.

Taran cambaleou e caiu para a frente sobre as mãos e os joelhos. A bota pesada de Dorath acertou suas costelas. Taran deu um grito, e foi ao chão contorcendo-se e arque­jando. Fez todo o esforço possível para se levantar, mas nem mesmo o poder da raiva que sentia podia erguê-lo. Prostrou-se, o rosto contra o chão.

Dorath, mais que depressa, alcançou a espada, erguen­do-a da relva. Virou-se para Taran.

— Poupo sua vida, porqueiro! — exclamou com escár­nio. — Nada significa para mim. Caso a gente se encontre novamente, pode ser que você não se saia tão bem.

Taran ergueu a cabeça. Nos olhos de Dorath via apenas ódio implacável, capaz de contaminar e destruir tudo que tocasse.

— Nada você conquistou — sussurrou Taran. — O que você ganhou tem mais valor para você ou para mim?

— Estou satisfeito com o ganho, porqueiro. A conquista satisfaz-me mais ainda.

Dorath girou a espada no ar, pegou-a de novo, então atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada estridente. Girou sobre os calcanhares e seguiu para a floresta.

Mesmo depois que suas forças voltaram e a dor aguda que sentia do lado tornou-se mais suportável, Taran ficou sentado no chão, por algum tempo, antes de reunir seus per­tences... o manto rasgado, a trompa de combate, a bainha sem a espada... e de ir ao encontro de Fflewddur e Gurgi. Dorath já se fora. Não havia mais sinal dele, mas a gargalhada ainda repercutia nos ouvidos de Taran.


 

O Cordeiro Perdido

Sob céus claros e temperatura amena, os compa­nheiros avançaram pelo interior dos Cantreves do Monte. Gurgi aplicara bandagens em Taran, que já não sentia tanto a dor do ferimento quan­to a mágoa por ter perdido a espada. O bardo, após o encontro com Dorath, havia afastado o temor em rela­ção ao comprimento de suas orelhas; raramente mencio­nava a palavra “coelho”, e passou a concordar com Taran quando este afirmava que uma viagem difícil pode termi­nar bem. Gurgi ainda murmurava palavras amargas sobre os malfeitores e virava-se para trás várias vezes para bran­dir o punho zangado. Felizmente, os companheiros não avistaram mais o bando e, com toda a certeza, as caretas furiosas de Gurgi serviam para afastar todo tipo de sa­queador.

— Ladrões infames! — resmungou Gurgi. — Ah, bon­doso mestre, por que não tocou a trompa que poderia ter evitado pancadas e ciladas?

— A lâmina significava muito para mim — Taran res­pondeu —, mas hei de encontrar outra que me sirva. Quan­to à trompa de Eilonwy, uma vez usada, o poder terminará e não será recuperado.

— Ah, verdade! — exclamou Gurgi, piscando de admi­ração, como se tal idéia ainda não tivesse entrado em sua cabeça peluda. — Ah, sabedoria do gentil mestre! A inteli­gência do humilde Gurgi não se desenvolverá jamais?

— Temos inteligência suficiente para reconhecer que Taran fez a escolha certa — interveio Fflewddur. — Em seu lugar eu teria feito o mesmo... ah, não quis dizer que — acres­centou rapidamente, dando uma olhada para a harpa — teria tocado aquela cometa até ficar roxo.

— Ei! Calma, menina! — exclamou o bardo, assim que Llyan deu um salto à frente. — Então, procurando o que agora?

No mesmo instante Taran ouviu um balido triste vindo do espinheiro. Llyan já estava lá, agachada, o rabo movendo-se no ar e uma das patas esticada para puxar um galho.

Um cordeiro branco estava preso no espinheiro e, ao ver a gata imensa, balia desesperadamente e debatia-se em vão. Enquanto Fflewddur tocava a harpa e atraía a gata, Taran desmontou rapidamente. Com a ajuda de Gurgi curvou-se no meio do espinheiro e apanhou o animal aterrorizado.

— A pobre criatura perdeu-se... de onde? — disse Taran. — Não vi nenhuma fazenda perto daqui.

— Bem, suponho que conheça sua casa melhor do que nós — respondeu Fflewddur, enquanto Gurgi observava o animal perdido e deliciava-se em acariciar aquela cabeça fel­puda. — Tudo o que temos a fazer é deixá-lo encontrar o próprio caminho.

— O cordeiro é meu! — bradou alguém com uma voz firme.

Surpreso, Taran virou-se e viu um homem alto, de om­bros largos, descendo com muita dificuldade o declive pedre­goso. A cor cinza riscava seus cabelos e sua barba, cicatrizes enrugavam-lhe as sobrancelhas largas, e os olhos escuros ob­servavam atentamente os companheiros enquanto tentava passar pelas pedras salientes. Estava desarmado, com exceção de um longo facão de caça preso ao cinto de couro, e usava roupas rústicas de pastor; atirado sobre as costas trazia um manto enrolado; a jaqueta estava rasgada nas pontas, enegrecida e surrada. O que Taran, a princípio, julgara tratar-se de uma vara ou um cajado de pastor era, na verdade, um tipo de mu­leta mal talhada. O homem mancava da perna direita.

— O cordeiro é meu — disse o pastor novamente.

— Então é seu o direito de reclamá-lo — respondeu Taran, entregando-lhe o animal.

O cordeiro parou de balir e aconchegou-se ao ombro do pastor, cuja expressão carregada de desconfiança passou a demonstrar surpresa, pois, provavelmente, pensara que te­ria de lutar para recuperar o animal desgarrado.

— Meus agradecimentos a você — disse após um mo­mento, e então acrescentou:

— Meu nome é Craddoc, filho de Custennin.

— Prazer em conhecê-lo — disse Taran —, e então, adeus. Seu cordeiro está a salvo e nós temos um longo cami­nho a percorrer.

Craddoc, segurando a muleta com firmeza, virou-se para subir a encosta, e havia percorrido uma pequena distância quando Taran o viu tropeçar e escorregar. Devido ao pró­prio peso, Craddoc vacilou e caiu sobre um joelho. Taran alcançou-o rapidamente e estendeu-lhe as mãos.

— Se o caminho para o redil é tão difícil quanto aqueles por onde passamos — disse Taran —, deixe-nos ajudá-lo.

— Não precisa! — disse o pastor, num tom áspero. — Pensa que sou tão aleijado que preciso tomar emprestada a força de estranhos?

Quando percebeu que Taran ainda lhe oferecia as mãos, a fisionomia de Craddoc abrandou-se.

— Perdoe-me — disse o pastor. — Você teve boa von­tade. Eu é que levei a mal suas palavras. Estou desacostuma­do à companhia e cortesia nestas colinas. Você me fez um favor — continuou a dizer, enquanto Taran o ajudava a se levantar. — Agora faça-me outro: aceite minha hospitalidade.

Sorriu.

— Embora seja uma pequena retribuição por salvar meu cordeiro.

Fflewddur conduziu as montarias enquanto Gurgi, todo feliz, levava o cordeiro nos braços. Taran caminhava bem pró­ximo ao pastor que, após a relutância inicial, apoiava-se, es­pontaneamente, no ombro de Taran, agora que o caminho se tornava mais íngreme e sinuoso até chegar a um vale profundo.

A casa de fazenda que Taran avistou era um chalé pres­tes a ruir, e parte das paredes feitas de pedras da própria região já havia caído. Meia dúzia de carneiros mal tosquiados pastava o capim escasso. Um arado cheio de ferrugem, uma enxada de cabo quebrado e outras poucas ferramentas en­contravam-se num galpão aberto na frente. No meio dos cumes elevados, cercada por espinheiros e moitas, situava-se a fazenda abandonada, a única daquela área, mas, mesmo assim, agarrada a seu pedaço de chão nu, como se fosse uma guerreira sobrevivente lançando seu último desafio contra um círculo esmagador de inimigos.

Com certa timidez e constrangimento, Craddoc fez um gesto para que os companheiros entrassem. No interior, o chalé era pouco mais acolhedor do que a terra árida ao re­dor. Havia sinais de que Craddoc tentara reformar a lareira e o respectivo piso quebrado, e também consertar o telhado e as rachaduras das paredes, mas Taran percebeu que o tra­balho do pastor ficara inacabado. Num canto, uma roca suge­ria trabalho de mulher, mas fazia tempo que a mão de tal pessoa abandonara o trabalho.

— Bem, amigo pastor — comentou Fflewddur com amabilidade, sentando-se num dos bancos de madeira próxi­mo à mesa estreita, apoiada em cavaletes —, você é um ho­mem corajoso por viver nessa região erma. Agradável, não deixa de ser — acrescentou rapidamente —, muito agradá­vel, mas... hã, bem... muito isolada.

— É minha — Craddoc respondeu, e seus olhos enche­ram-se de orgulho. As palavras de Fflewddur pareciam agitá-lo e ele inclinou-se para a frente, uma das mãos agarrando a mu­leta e a outra firme na mesa. — Lutei contra aqueles que ten­taram tirá-la de mim; e se precisar, farei o mesmo outra vez.

— Ora, sim, sem dúvida — respondeu Fflewddur. — Sem querer ofendê-lo, amigo, mas, antes de mais nada, fico um pouco surpreso em saber que alguém pensou em tirá-la de você.

Por algum tempo, Craddoc não respondeu. Então falou:

— A terra era melhor do que vocês a vêem agora. Aqui vivíamos em paz e sem preocupações, até que certos lordes tentaram reclamar nossas propriedades para seu próprio be­nefício. Mas aqueles entre nós que valorizavam a liberdade uniram-se contra eles. A batalha foi acirrada e houve muita destruição. Mas nós os rechaçamos.

O rosto de Craddoc entristeceu-se.

— Custou-nos caro. Foram muitos os nossos mortos e, entre eles, meus melhores amigos. E eu — olhou para a mu­leta — ganhei isto.

— E os outros? — perguntou Taran.

— Aos poucos, um por um, deixaram suas casas — respondeu Craddoc. — Não valia mais a pena manter nem possuir a terra. Foram-se para outros cantreves. No desespe­ro, aceitaram trabalhar como mercenários ou então sufoca­ram o orgulho e a esperança, servindo a qualquer um que lhes desse cama e sustento.

— Mas você ficou — disse Taran — na terra devastada? Por quê?

Craddoc ergueu a cabeça.

— Para ser livre — respondeu brevemente. — Para ser o homem que sou. Liberdade era o que eu procurava. En­contrei-a aqui e a conquistei.

— Você tem mais sorte do que eu, amigo pastor — Taran respondeu. — Ainda não encontrei o que procuro.

Quando Craddoc voltou-lhe um olhar questionador, Taran falou-lhe da procura. O pastor escutou, com atenção, sem dizer uma palavra. Mas, à medida que Taran falava, uma expressão estranha surgiu no rosto de Craddoc, como se lutasse contra a incredulidade e procurasse dominar o pró­prio espanto.

Quando Taran terminou, parecia que Craddoc estava prestes a falar. Mas ele hesitou, posicionou a muleta debaixo do braço e levantou-se, repentinamente, murmurando que precisava ver o rebanho. Ao sair, mancando, Gurgi seguiu-o, trotando, para admirar os animais mansos.

O dia tornara-se mais sombrio. Taran e Fflewddur sen­taram-se quietos à mesa.

— Lamento pelo pastor e, ao mesmo tempo, admiro-o — disse Taran. — Lutou para ganhar uma batalha e acabou perdendo outra. Sua própria terra é agora seu pior inimigo, e contra isso não há quase nada a fazer.

— Você tem razão — concordou o bardo. — Se o mato e os espinheiros o pressionarem mais — acrescentou torcendo o rosto —, ele vai acabar pastoreando suas ovelhas na palha do telhado.

— Eu o ajudaria, se pudesse — replicou Taran. — Infe­lizmente, ele precisa mais do que posso lhe oferecer.

Quando o pastor retornou, Taran preparou-se para sair. No entanto, Craddoc insistiu para que os companheiros fi­cassem. Taran vacilou. Embora estivesse ansioso para ir em­bora, sabia que Fflewddur não gostava de viajar à noite; quan­to ao pastor, seus olhos, mais do que palavras, revelavam ansiedade e, afinal, Taran aceitou.

Sendo escassas as provisões de Craddoc, os companhei­ros repartiram a comida da sacola de Gurgi. O pastor comeu em silêncio. Quando terminou, atirou alguns galhos secos e espinhosos na pequena lareira e observou-os inflamar e esta­lar. Em seguida voltou o olhar a Taran.

— Um cordeiro de meu rebanho extraviou-se e foi en­contrado — disse Craddoc. — No entanto, certa vez, outro se perdeu e jamais foi achado.

O pastor falava devagar e com grande esforço, como se as palavras viessem aos lábios com muita dificuldade.

— Muito tempo atrás, quando todos haviam deixado o vale, minha esposa insistiu que nós também deveríamos fazer o mesmo. Ela estava para dar à luz nosso filho; nada mais esperava deste lugar, e sua súplica era para o bem da criança que estava para nascer.

Craddoc baixou a cabeça.

— Mas isto eu não faria. Várias vezes implorou-me, vá­rias vezes recusei. E a criança nasceu. Nosso filho. O bebê sobreviveu; a mãe morreu. Meu coração partiu-se, pois era como se eu mesmo a tivesse matado.

— Seu último desejo — disse Craddoc, a voz carregada de tristeza — foi que eu levasse a criança daqui.

As feições do pastor, gastas pelas intempéries, contraíram-se.

— Nem mesmo esse desejo eu realizei. Não — acres­centou —, no meu entender, eu havia pagado com sangue, e mais do que sangue, pela minha liberdade. Não desistiria.

O pastor ficou em silêncio por algum tempo. Então, disse:

— Sozinho procurei criar meu filho. Mas isso estava além de minha capacidade. Era um menino saudável. No entanto, antes de completar um ano adoeceu. Foi quando compreen­di que a mãe havia falado com sensatez, e eu, tolo e orgulho­so, não lhe dera ouvidos. Finalmente, decidi deixar este vale.

— Foi tardia minha decisão — disse Craddoc. — Sabia que o bebê não sobreviveria à viagem. Nem poderia supor­tar outro inverno aqui. Era o cordeiro que eu mais amava, e já estava entregue à morte.

— Mas, certo dia — Craddoc prosseguiu —, um viajan­te, por acaso, chegou à minha porta. Era um homem de pro­fundo saber e dominava as artes secretas, curativas. Em suas mãos a criança viveria. Foi o que me disse, e eu sabia que estava dizendo a verdade. Teve pena do bebê e ofereceu-se para criá-lo. Fiquei agradecido por sua generosidade e entre­guei-lhe a criança.

“Foi-se embora, e com ele meu filho. Com o passar dos anos, nunca mais vi ou ouvi falar deles, e muitas vezes temi que os dois tivessem perecido nas colinas. Mesmo assim, con­tinuava a ter esperança, pois o estranho fez-me um juramen­to solene de que meu filho um dia voltaria para mim.”

O pastor dirigiu um olhar intenso para Taran.

— O nome do viajante era Dallben.

Na lareira, um galho espinhoso rachou e partiu-se. Craddoc nada mais disse, mas seus olhos não mais se afasta­ram do rosto de Taran. Fflewddur e Gurgi estavam de olhos arregalados, sem palavras. Devagar, Taran levantou-se. Sentiu que estava tremendo e, por um instante, receando que suas pernas fossem falhar, apoiou uma das mãos na ponta da mesa de cavaletes. Não conseguia nem pensar, nem falar. Apenas olhou em silêncio para Craddoc, o estranho que havia en­contrado e que agora não lhe parecia mais um estranho. Os lábios de Taran moveram-se sem produzir som, até que, afi­nal, as palavras surgiram aos pedaços e ele ouviu a própria voz como se fosse de outra pessoa.

— Você está dizendo — Taran sussurrou —, então está dizendo que é meu pai?

— A promessa foi mantida — Craddoc respondeu cal­mamente. — Meu filho voltou.


 

O final do Verão

O alvorecer estava próximo. O fogo na lareira já havia se extinguido há muito tempo. Taran le­vantou-se em silêncio. Tivera um sono intermi­tente, a cabeça abarrotada de pensamentos que ele não conseguira discernir uns dos outros: o grito de es­panto de Fflewddur, os uivos de alegria de Gurgi, o abraço de boas-vindas de Craddoc no filho que ele quase não conheceu e o abraço desnorteado de Taran no pai que ele jamais conhecera. Escutara-se música de harpa e canto. A voz e o humor de Fflewddur jamais estiveram tão bons e o chalé do pastor, decerto, jamais vibrara de tanta alegria; no entanto, Taran e Craddoc estiveram mais quietos do que alegres, como se tentassem sondar a mente e o coração um do outro. Afinal, todos dormiram.

Taran foi até a porta. Os carneiros estavam quietos no redil. O ar da montanha era frio. O orvalho brilhava formando uma rede prateada e gelada sobre a pastagem esparsa, e as pedras cintilavam qual estrelas caídas na terra. Taran sentiu um arrepio e atirou o manto por cima dos ombros. Durante algum tempo permaneceu no pátio da entrada até perceber que não estava sozinho. Fflewddur ha­via se aproximado.

— Não conseguiu dormir, hein? — disse Fflewddur, ale­gremente. — Nem eu. Muito agitado. Não fechei os olhos mais do que três vezes... ah, sim, bem... talvez um pouco mais. Grande Belin, valeu por um dia e meio! Não é todo mundo que encontra o pai há muito desaparecido, sentado no fim do mundo. Taran, meu amigo, sua busca terminou; e termi­nou bem. Poupamos uma viagem ao Lago de Llunet... e, para ser sincero, estou bem contente. Agora precisamos definir nossos planos. Na minha opinião, deveríamos cavalgar para o norte, onde se encontra o reino do Povo Formoso, e nos reunirmos ao nosso querido Doli; em seguida, direto a meu reino para algumas festanças e banquetes. E suponho que você queira navegar até Mona e contar a Eilonwy as boas notícias. Então! Agora sua busca terminou, você está livre como um pássaro!

— Livre como a águia enjaulada na qual Morda teria me transformado! — exclamou Taran. — Este vale des­truirá Craddoc, se ele permanecer aqui sozinho um pouco mais. Sua carga é muito pesada. Eu o admiro por tentar sustentá-la. É verdade, admiro-o por isso e nada mais. Sua atitude custou a vida de minha mãe e quase custou a mi­nha. Pode um filho amar um pai desses? No entanto, en­quanto Craddoc viver, estarei ligado a ele por laços de sangue... se é, realmente, seu sangue que corre em minhas veias.

— Se? — respondeu Fflewddur.

O bardo franziu a testa e olhou bem para Taran.

— Você diz se como se duvidasse...

— Craddoc é verdadeiro quando diz que é meu pai — respondeu Taran. — Eu é que não acredito nele.

— Como é? — perguntou Fflewddur. — Você sabe que ele é seu pai e tem dúvidas ao mesmo tempo? Agora, de fato, você me confundiu.

— Não entende, Fflewddur? — Taran falou devagar e com dificuldade. — Não acredito nele porque não quero acreditar. No meu coração, em segredo, sempre sonhei, des­de criança, que... que eu fosse de origem nobre.

Fflewddur meneou a cabeça.

— Sim, percebo o que quer dizer. Suspirou.

— Infelizmente, não podemos escolher nossos pais.

— Agora — disse Taran —, meu sonho não passa de um sonho, e preciso desistir dele.

— A história dele parece verdadeira — respondeu o bardo. — Mas, se existe dúvida em seu coração, o que pre­tende fazer? Ah, Kaw, aquele malandro! Se estivesse aqui po­deríamos mandá-lo levar notícias a Dallben. Mas duvido que ele nos encontre nesse descampado.

— Descampado? — disse a voz de Craddoc.

O pastor estava parado à porta. Taran virou-se rapida­mente, envergonhado das próprias palavras, sem saber o quan­to Craddoc havia escutado. Mas, se o homem estivera lá por algum tempo, não o demonstrou. Ao contrário, seu rosto castigado pelo clima sorria enquanto mancava em direção aos companheiros. Gurgi veio atrás dele.

— Descampado é o que você vê agora — Craddoc fa­lou —, mas em breve a tema será tão fértil como sempre foi.

Orgulhosamente, pousou a mão no ombro de Taran.

— Meu filho e eu. Nós conseguiremos.

— Estive pensando — começou Taran a dizer, lentamen­te —, e minha expectativa é que você volte conosco para Caer Dallben. Coll e Dallben vão recebê-lo bem. A fazenda é rica e será ainda melhor se você nos ajudar com seu trabalho. Aqui, a terra não tem mais chances de ser recuperada.

— O quê? — replicou Craddoc, as feições tornando-se austeras. — Deixar minha terra? Ser empregado de alguém? Agora? Quando haverá esperança para nós, afinal?

Seus olhos encheram-se de angústia quando ele se diri­giu a Taran.

— Meu filho — disse com toda a calma —, você não revela tudo que está em seu coração. Nem eu revelei tudo que está contido no meu. Minha felicidade não me deixou enxergar a verdade. Muito tempo da sua vida já transcorreu longe de mim. Caer Dallben é seu lar, mais do que este algum dia há de ser, este descampado, este solo árido... cujo dono é um aleijado.

O pastor não erguera o tom de voz, mas suas palavras ecoaram nos ouvidos de Taran. O rosto de Craddoc endure­cera como pedra e um orgulho terrível inflamou-se em seus olhos.

— Não posso lhe pedir que compartilhe isto, nem im­plorar o dever de um filho que para mim é um estranho. Nós nos encontramos. Devemos nos separar se é o que deseja. Siga seu próprio caminho. Eu não o impedirei.

Antes que Taran pudesse responder, Craddoc virou-se e foi até o redil.

— O que devo fazer? — exclamou Taran, consternado, dirigindo-se ao bardo.

Fflewddur sacudiu a cabeça.

— Ele não deixará este local, com toda a certeza. É bem fácil perceber de onde você herdou o traço da teimosia. Não, ele não vai sair daqui. Mas, se você quiser ficar tranqüilo, deve voltar a Caer Dallben. E saber de Dallben a verdade. Somen­te ele pode lhe dizer.

— O inverno chegaria antes que eu regressasse. Fitou a terra árida e o chalé desolado.

— Meu... meu pai chegou ao final de suas forças. As tarefas são demoradas. É preciso começar agora para que tudo esteja concluído antes da primeira nevada.

Nada mais disse por algum tempo. Fflewddur aguardava em silêncio; Gurgi estava quieto, a testa enrugada de preocu­pação. Taran olhou para os dois e seu coração doeu.

— Escutem-me bem, amigos — disse pausadamente. — Fflewddur, se você quiser, vá a Caer Dallben. Diga que minha procura terminou e conte o que aconteceu. Quanto a mim, meu lugar é aqui.

— Grande Belin, pretende ficar neste deserto? — excla­mou Fflewddur. — Mesmo duvidando... ?

Taran balançou a cabeça em sinal afirmativo.

— Minhas dúvidas talvez sejam criadas por mim mesmo. De um jeito ou de outro, rogo que me mande notícias o mais depressa possível. Mas Eilonwy não deve saber nada disso, a não ser que minha busca terminou e meu pai foi encontrado.

A voz de Taran falhou.

— Craddoc precisa de minha ajuda; seu sustento e sua vida dependem disso e não deixarei de atendê-lo. Mas deixar que Eilonwy saiba que sou filho de um pastor... não! — disse exaltado. — Não poderia suportar tanto. Despeça-se dela por mim. Ela e eu não devemos nos encontrar jamais. Seria melhor que a princesa esquecesse o rapaz que é pastor. É melhor que vocês todos me esqueçam.

Voltou-se para Gurgi.

— E você, o melhor amigo, siga a jornada com Fflewddur. Se meu lugar é aqui, vocês devem ter um mais feliz.

— Bondoso mestre! — gritou Gurgi, desesperado, abra­çando Taran. — Gurgi fica! Foi a promessa que fez!

— Não me chame mais de mestre! — Taran rebateu num tom amargo. — Não sou mestre algum, apenas um matuto de origem humilde. Você procura a sabedoria? Não há de encontrá-la aqui; não comigo. Aproveite sua liberdade. Este vale não é um começo, mas um fim.

— Não, não! Gurgi não escuta! — gritou Gurgi, tapando os ouvidos com as mãos.

Atirou-se no chão e ficou imóvel como uma rocha.

— Não sai de perto do gentil mestre. Não, não! Nem com empurrões e puxões! Nem com reclamações e safanões!

— Então, que seja — disse Taran, finalmente, com­preendendo que nada mais poderia dissuadir a criatura.

Quando Craddoc retornou, Taran disse-lhe apenas que ele e seu companheiro ficariam, e que Fflewddur não poderia mais retardar sua própria jornada.

Quando Llyan estava preparada para viajar, Taran en­volveu com os braços as poderosas espáduas da gata e pres­sionou os dedos no pêlo fofo de suas bochechas enquanto ela miava de tristeza. Em silêncio, ele e Fflewddur trocaram um aperto de mão, e Taran ficou observando o bardo, que olhava várias vezes para trás, e se afastava, lentamente, do vale.

Deixando Melynlas e o pônei amarrados no balcão, Taran e Gurgi levaram seus poucos pertences para o interior do chalé em ruínas. Taran deteve-se por um momento, olhando as paredes despedaçadas da sala estreita, o fogo apagado e a lareira quebrada. Do pasto, Craddoc chamava-o.

— E então — murmurou Taran —, então chegamos em casa.

Nas semanas seguintes, Taran convenceu-se de que se Morda tivesse cumprido a ameaça, sua situação não teria sido pior do que aquela em que se encontrava. Penhascos altos e acinzentados erguiam-se à sua volta fazendo lembrar grades intransponíveis de uma jaula. Prisioneiro, procurava a liberda­de em suas recordações, enquanto fazia o trabalho árduo dos dias longos. Havia muito a fazer. Na verdade, tudo estava por fazer roçar o terreno, consertar o chalé, cuidar do reba­nho. No começo temera as alvoradas que o tiravam exaus­to... como se não tivesse dormido... do leito de palha próxi­mo à lareira e o levavam às tarefas aparentemente interminá­veis que o aguardavam; mas logo redescobriu, assim como Coll lhe dissera há muito tempo, que devia mergulhar no trabalho como se este fosse uma correnteza gelada onde poderia se refrescar apesar da exaustão.

Com Gurgi e Craddoc, suou para arrancar pedregulhos do solo e arrastá-los até o chalé, onde serviriam para conser­tar as paredes. A nascente onde os carneiros saciavam a sede havia se reduzido a um gotejar lento. Taran descobriu um meio de desbloqueá-la, represando o terreno úmido e ca­vando um canal que revestiu com pedras planas. Quando o riacho brilhante precipitou-se no novo curso, Taran, esque­cendo-se de tudo o mais, ajoelhou-se e bebeu a água nas mãos em formato de concha. A água fria maravilhou-o como se até aquele momento jamais a tivesse provado.

Um dia, os três começaram a queimar o mato e os espi­nheiros. A parte do terreno que cabia a Taran demorava a se incendiar e ele avançou para impelir sua tocha no fundo do mato trançado. Logo, uma súbita rajada de vento fez o fogo voltar-se contra ele. Afastou-se rapidamente, mas os espi­nhos prenderam-se à sua jaqueta; Taran tropeçou e caiu, gri­tando, enquanto as chamas erguiam-se numa onda escarlate.

A certa distância, Gurgi ouviu o grito. Craddoc, perce­bendo a situação de Taran, pôs-se a caminho apoiado na muleta e, mesmo antes que Gurgi pudesse alcançá-lo, atirou­-se ao lado de Taran. No chão, usando o próprio corpo para pro­tegê-lo, o pastor agarrou-o pelo cinto e arrastou-o para lon­ge. No local em que Taran estivera preso, os espinheiros em chamas rugiam e estalavam.

O pastor ergueu-se com dificuldade e ofegando, devido ao esforço.

Embora Taran estivesse ileso, o fogo chamuscara a testa e as mãos de Craddoc. No entanto, ele sorriu, bateu no om­bro de Taran, e disse de um modo afetuoso e, ao mesmo tempo, rude:

— Agora que encontrei um filho, não vou perdê-lo. — E sem mais alvoroço voltou ao trabalho.

— Meus agradecimentos! — exclamou Taran.

Mas na sua voz havia tanta amargura quanto gratidão, pois o homem que salvara sua vida era o mesmo que a interrompera.

E assim passaram os dias. Quando um carneiro adoecia, Craddoc cuidava do animal com uma ternura inesperada que fazia Taran se emocionar. Mas foi Craddoc que rasgou em pedaços o sonho que ele tinha de ter um berço nobre e des­truiu toda sua esperança em relação a Eilonwy. Quando o pe­rigo ameaçava o rebanho, Craddoc tomava-se cruel como um lobo, indiferente à sua própria segurança, com uma coragem que Taran não deixava de admirar. Assim mesmo, este era o homem que o aprisionara nos grilhões do direito consangüí­neo. Craddoc não tocaria na comida até que Taran e Gurgi se servissem, e, freqüentemente, ficava com fome, embora tei­masse em dizer que não tinha apetite. Mesmo assim, o gesto desprendido ficava preso na garganta de Taran, e ele repudiava a generosidade que teria honrado em qualquer outro homem.

— Há dois pastores neste vale? — exclamou Taran para si mesmo. — Aquele que amo e aquele que odeio?

Assim passou o verão. Para esquecer a angústia de ter um coração dividido, Taran trabalhou em função do próprio trabalho. Havia muito ainda por fazer e o rebanho sempre necessitava cuidados. Até esse momento Craddoc fizera todo o possível para evitar que os animais novos se perdessem e, quando o rebanho se afastava muito, à procura de melhores pastagens, trazia-os para o redil ao entardecer. Gurgi fazia questão de cuidar deles, e o rebanho parecia tão satisfeito quanto ele. Ele pulava de alegria com os cordeiros, fazia uma algazarra com as ovelhas, e até mesmo o velho carneiro, mal-humorado, tornava-se dócil na presença dele. Assim que os dias ficaram mais frios, Craddoc deu-lhe uma jaqueta de lã de carneiro, e quando Gurgi estava às voltas com os afazeres, Taran mal podia distinguir a criatura peluda do resto do reba­nho. Várias vezes Taran surpreendeu-o sentado numa pedra, os carneiros em círculo admirando o guardião. Acompanha­vam-no por toda parte e, se pudessem, o seguiriam trotando para o interior do chalé. Marchando à frente do rebanho, Gurgi parecia mais orgulhoso que o líder de um batalhão.

— Veja com olhadelas! — Gurgi gritou. — Veja-os balindo e prestando a atenção em Gurgi! O bondoso mestre é Porqueiro-Assistente? Então Gurgi, corajoso e esperto, ago­ra é Cordeiro-Assistente!

Mas os olhos de Taran ainda se voltavam para além da bar­reira de colinas. Ao término de cada dia examinava os caminhos, à procura de um vestígio de Fflewddur, e as nuvens, por um sinal de Kaw. Temia que o corvo tivesse voado até o Lago de Llunet; não tendo encontrado os companheiros, talvez estivesse à espera ou impaciente, à procura deles em outro lugar. Quanto ao bardo, Taran sentia, mais do que nunca, que ele não haveria de voltar e à medida que os dias se tomavam mais curtos e o outono se apro­ximava, desistiu de fazer a vigília e não olhou mais para o céu.


 

A Jaula Aberta

Durante o verão e o outono os três trabalharam, incansavelmente, para terminar os reparos do chalé, único refúgio contra o inverno que se aproximava. Agora o trabalho estava concluído,

e a primeira nevada desceu aos rodopios do céu carrega­do e pulverizou os rochedos com flocos brancos e secos. As paredes de pedras novas erguiam-se eretas e sólidas; o telhado recebeu colmo novo e cuidadosa vedação contra o vento e os temporais. Dentro do chalé, um fogo acolhe­dor ardia na lareira nova. Os bancos de madeira haviam sido consertados; a porta já não oscilava em dobradiças quebradas. Embora Craddoc tivesse se dedicado sem tré­gua à lida, a maior parte do trabalho realizado no chalé era de Taran. As ferramentas enferrujadas, depois de afiadas e reformadas, serviram-lhe para fazer outras ferramentas ne­cessárias. Não só o planejamento mas a execução tinham sido dele e, quando se deteve no pátio da entrada, com a neve delicada agarrando-se como farelo a seu cabelo sem corte, sentiu orgulho ao observar a fumaça surgindo da chaminé recém-construída.

Craddoc aproximara-se e, carinhosamente, pôs a mão no ombro de Taran. Por um momento nenhum dos dois falou, mas, finalmente, Craddoc disse:

— Aquilo que durante anos me esforcei por manter agora não me pertence mais.

Seu rosto barbudo enrugou para expressar um sorriso.

— É nosso — disse ele.

Taran concordou com um gesto de cabeça, mas nada respondeu.

Durante o inverno as tarefas eram poucas e, por isso, os dias, normalmente curtos, pareciam mais longos. Nas noites ao pé da lareira, para passar o tempo, Craddoc falava do tempo de juventude, de como se estabeleceu no vale. En­quanto o pastor falava de suas esperanças e apuros, a admira­ção de Taran crescia e, pela primeira vez, viu Craddoc como um homem que não lhe parecia estranho.

Em seguida, por insistência de Craddoc, Taran teve von­tade de falar dos dias passados em Caer Dallben e tudo que lhe sucedera. O rosto do pastor brilhou de orgulho paterno ao saber de tais aventuras. Contudo, muitas vezes Taran in­terrompia o relato quando lembranças de Eilonwy e de toda a sua vida que ficara para trás surgiam de repente, quebran­do-se nele tal e qual uma onda. Então calava-se, virava o ros­to e olhava fixamente para o fogo. Nesses momentos Craddoc não mais o incentivava a falar.

Laços afetivos nascidos do trabalho em comum firma­vam-se entre os três. Craddoc sempre tratara Gurgi com muita bondade e gentileza, e a criatura sentia-se feliz como nunca ao desempenhar as funções de pastor. No entanto, certa vez, no começo do inverno, numa conversa particular com Taran, Craddoc disse o seguinte:

— Desde o primeiro dia em que você veio morar aqui chamei-o de meu filho, entretanto você jamais me chamou de pai.

Taran mordeu os lábios. Houve tempo em que ele teve vontade de gritar e, com toda a raiva, atirar sua amargura na cara do pastor. Ainda se sentia atormentado, mas agora não poderia magoar os sentimentos de quem desprezava no pa­pel de pai, mas honrava no papel de homem.

Percebendo a inquietação de Taran, Craddoc fez um rápido sinal com a cabeça.

— Talvez — disse —, talvez um dia você o faça.

Cobertos de neve, os cumes cinzentos agora eram bran­cos e luminosos, e os picos altos, que um dia Taran viu como se fossem barreiras, agora protegiam o vale da violência das tempestades; o chalé mantinha-se firme diante do vento, ui­vando qual um lobo através dos desfiladeiros enregelados. No final de uma tarde, quando Craddoc e Gurgi tinham saído para vigiar o rebanho, a ventania aumentou e Taran decidiu estender sobre a janela estreita uma pele de carneiro mais pesada.

Mal tinha começado, quando a porta abriu-se de súbito, como se fosse desprender das dobradiças. Gritando deses­peradamente, Gurgi irrompeu no chalé.

— Socorro, oh, socorro! Gentil mestre, venha apressado! O rosto de Gurgi estava pálido como um punhado de cinzas, as mãos tremiam, incontroláveis, quando se apoiou no braço de Taran.

— Mestre, mestre, venha com Gurgi! Rápido, oh, rápido! Taran deixou cair a pele de carneiro, vestiu rapidamente um gibão de lã crua e, enquanto Gurgi choramingava e esfre­gava as mãos, apanhou o manto e saiu porta afora.

Assim que deixou o chalé, o vento bateu forte e quase o derrubou. Gurgi apressava-o, agitando os braços. Curvado para a frente, de encontro ao temporal, Taran comeu ao lado do companheiro desesperado, tropeçando pelo campo co­berto de neve. Na extremidade da pastagem que eles haviam roçado durante o verão havia uma queda acentuada com declives pedregosos. Taran seguia Gurgi de perto, quando a criatura escalou uma plataforma rochosa, percorreu uma tri­lha cheia de curvas e, em seguida, parou.

Taran sentiu-se sufocar de pavor no momento em que Gurgi, chorando de medo, apontou para baixo. Uma bor­da estreita projetava-se no flanco do desfiladeiro. Uma figura imóvel, com os braços estendidos e uma perna retorcida por baixo do corpo, estava parcialmente coberta de pedras. Era Craddoc.

— Foi-se aos tropeções! — Gurgi lamentou-se. — Oh, infeliz Gurgi não pôde salvá-lo de escorregões!

Bateu as mãos na cabeça.

— Tarde demais! Tarde demais para salvamentos! Com o choque, Taran sentiu a cabeça girar; a tristeza atingiu-o como uma espada. Mas nesse instante, além da pró­pria vontade que investia contra ele aterrorizando-o, um sen­timento descontrolado de liberdade inundou-o, como se sur­gisse dos mais recônditos abismos de seu coração. Numa visão súbita e perturbadora, pensou ter visto sua jaula de pe­dra despedaçar-se.

A forma inerte na borda do rochedo moveu-se com dificuldade e ergueu um braço.

— Está vivo! — gritou Taran.

— Ó mestre! Como podemos salvá-lo? — lamentou-se Gurgi. — Penhascos terríveis, íngremes! Mesmo o corajoso Gurgi teme descer!

— Deve haver um jeito! — exclamou Taran. — Está muito ferido, talvez à morte. Não podemos abandoná-lo.

Pressionou os pulsos à cabeça, que parecia rodar.

— Mesmo que pudéssemos chegar até ele, como po­deríamos trazê-lo para cima? E se falharmos... não será apenas uma vida perdida, mas três.

Suas mãos tremiam. Não era desespero que o domina­va, mas temor, terror negro diante dos pensamentos que lhe chegavam à mente, sussurrando. Haveria a mínima esperança de salvar o pastor ferido? Caso não houvesse, nem o Príncipe Gwydion reprovaria a decisão de Taran. Nem homem algum. Ao contrário, lamentariam a perda que sofrera. Livre do far­do, livre do vale, a porta da jaula totalmente aberta e toda a sua vida esperando por ele: Eilonwy, Caer Dallben. Parecia-lhe a própria voz a dizer essas palavras, que ouviu com vergo­nha e horror.

Então, como se o coração fosse estourar, gritou impeli­do por uma raiva temível:

— Que espécie de homem sou eu?

Cego pela fúria contra si mesmo, saltou para baixo no declive e procurou agarrar-se a uma saliência entre as pedras cobertas de gelo, enquanto Gurgi, arfando de medo, descia atrás dele. Os dedos entorpecidos de Taran seguraram-se em vão a um ressalto, quando uma pedra cedeu sob seus pés. Atirou-se para baixo e deu um grito no momento em que uma pedra pontiaguda bateu-lhe contra o peito. Sóis negros eclodiram em sua cabeça e a dor sufocou-o. Mais acima, Gurgi escorregava numa chuva de gelo e pedriscos. O coração de Taran disparou. Tinha chegado à borda do roche­do. Craddoc estava a seu alcance.

Taran arrastou-se para perto dele. O sangue escorria pela testa de Craddoc, quando este tentou erguer a cabeça.

— Filho, filho — disse, ofegando —, você renunciou à sua vida por mim.

— Não foi bem assim — respondeu Taran. — Não se mexa. Daremos um jeito de levá-lo daqui.

Taran ergueu-se, pondo-se de joelhos. Craddoc estava muito mais ferido do que ele pensara. Cuidadosamente, afas­tou pedras pesadas e xisto que pressionavam o pastor, e aos poucos arrastou-o para o lado mais seguro do penhasco.

Gurgi descera até a borda e andou depressa para se reunir a Taran.

— Mestre, mestre! — exclamou. — Gurgi vê uma pas­sagem mais acima. Mas é inclinada, oh, inclinada, com os pe­rigos de escorregões e tropeções dolorosos!

Taran viu o local que a criatura indicava. Entre as pedras e fendas repletas de neve ele podia distinguir um atalho es­treito, sem gelo. Ainda assim, conforme Gurgi avisara, a pas­sagem era quase vertical. Um homem de cada vez poderia escalar a pedra; mas o que seria de dois homens carregando um terceiro? Taran rangeu os dentes. A pedra afiada, tal qual uma lâmina, tinha-lhe causado um ferimento dolorido e, cada vez que ele respirava, sentia os pulmões incendiarem. Fez um gesto a Gurgi, para que segurasse as pernas de Craddoc en­quanto margeava o precipício íngreme, e escorregou as mãos por baixo dos ombros do pastor. Por mais cuidado que os companheiros tivessem ao levantá-lo, Craddoc deu um grito de agonia e eles foram forçados a parar, temendo que o esta­do do pastor ainda se agravasse.

Um vento surgira, esbravejando através do vale, açoi­tando os companheiros e quase os arrancando da borda do penhasco. Mais uma vez fizeram todo o esforço para carregar Craddoc até a passagem acima, e mais uma vez caíram para trás ao serem atingidos pela ventania. O crepúsculo antecipa­do começara a se aprofundar e sombras encheram o desfila­deiro. Aos olhos de Taran a superfície do penhasco oscilava. Suas pernas tremiam no instante em que ele se obrigou no­vamente a levantar o pastor.

— Deixem-me — murmurou Craddoc com a voz rouca. — Deixem-me. Estão desperdiçando sua força.

— Deixá-lo? — Taran explodiu. — Qual é o filho que abandona a própria carne e sangue?

Ao ouvir essas palavras, Craddoc sorriu por um instante e, em seguida, seu rosto contraiu-se de angústia.

— Vocês dois, salvem-se — sussurrou.

— Você é meu pai — replicou Taran. — Eu fico.

— Não! — exclamou o pastor com toda a sua força. — Faça o que lhe peço. Atenda-me agora, ou será tarde demais. Dever de parentesco? Isto você não me deve. Nenhum laço de sangue o prende.

— Como assim? — disse Taran, quase sem fôlego e fixando o olhar perturbado no pastor. Sua cabeça girava e ele agarrou-se à borda do penhasco.

— Como assim? Está me dizendo que não sou seu filho? Craddoc olhou-o por um momento, os olhos vacilantes.

— Jamais fui falso com qualquer pessoa. Exceto uma vez. Com você.

— Uma mentira? — balbuciou Taran, perplexo. — Men­tiu para mim antes... ou está mentindo agora?

— Dizer meia verdade é pior que mentir — Craddoc respondeu, com intervalos. — Ouça-me. Escute esta parte que é verdadeira. Sim, há muito tempo, quando viajava por Prydain, Dallben esteve em minha casa. Mas jamais falou a respeito do que procurava.

— A criança — exclamou Taran. — Não havia nenhuma?

— Havia — respondeu Craddoc. — Um filho. Nosso primogênito, como eu lhe disse. Não viveu além do dia do nascimento. Sua mãe morreu com ele — murmurou. — E você... eu precisava de sua força para manter o que me resta­ra. Não vi outro jeito. Depois que disse a mentira, senti ver­gonha e em seguida tive mais vergonha de dizer a verdade. Quando seu companheiro se foi, imaginei que você o seguiria e dei-lhe a liberdade de fazê-lo. Você decidiu ficar.

— Mas o que vou dizer também é verdade — disse Craddoc, apressando-se. — No início apoiei-me em você como se fosse minha muleta porque você atendeu às minhas necessidades, mas nenhum pai chegou a amar tanto um filho como eu amei você.

A cabeça de Taran afundou em seu tórax. Não podia falar, e suas lágrimas cegavam-no.

Craddoc, que se havia levantado parcialmente, caiu para trás na superfície de pedra.

— Vá-se embora daqui — sussurrou.

A mão de Taran caiu para o lado. Seus dedos tocaram a ponta da trompa de combate. Com um grito súbito ele reergueu-se. A trompa de Eilonwy! Sem raciocinar, ele a pen­durara no ombro ao sair às pressas do chalé. Rapidamente retirou-a de baixo do manto. A mensagem de convocação para o Povo Formoso, o chamado que ele guardara como se fosse um tesouro! Seria o suficiente para salvar Craddoc. Le­vantou-se, cambaleando. A borda do penhasco parecia ba­lançar por baixo dele. As notas que Doli lhe havia ensinado estavam confusas em sua mente e ele esforçou-se desespera­damente para lembrá-las. De repente ressoaram mais uma vez em sua memória.

Levou a trompa aos lábios. As notas surgiram fortes e claras e, mesmo depois que o sinal enfraqueceu, o vento apa­nhou-as e pareceu levar o apelo através do vale de onde retornou ecoando. Em seguida, sombras aos turbilhões engo­liram Taran e ele caiu sobre o rebordo.

Não saberia dizer por quanto tempo ficaram lá, se por alguns instantes, ou horas; mas percebeu, vagamente, que mãos fortes o ergueram, e que havia uma corda amarrada à sua cintura. Como se fosse em meio ao tremular de uma chama negra, vislumbrou os rostos largos de anões montanhistas, cujo número não poderia avaliar.

Quando reabriu os olhos estava no chalé, o fogo arden­do, Gurgi a seu lado. Taran tomou um susto. A dor queima­va-lhe o tórax, que havia sido cuidadosamente enfaixado.

— O sinal! — murmurou quase sem forças. — Foi atendido...

— Sim, sim! — exclamou Gurgi. — O Povo Formoso salva-nos com trações e puxões fortes! Põe ataduras nos ferimentos doloridos do bondoso mestre e deixam ervas curativas para o que for necessário!

— O sinal de convocação — Taran começou a dizer. — Doli, querido amigo. Avisou-me que não o desperdiçasse. Para o bem de Craddoc... onde está ele? Como está?

Parou repentinamente.

Gurgi olhava-o em silêncio. O rosto da criatura enru­gou-se de tristeza e vieram-lhe lágrimas aos olhos quando ele baixou a cabeça peluda.

Taran caiu para trás. O próprio grito de angústia ecoou-lhe nos ouvidos. Depois disso, houve apenas escuridão.


 

Taran Errante

A febre chegou arrebatando-o, uma floresta em chamas por onde ele cambaleava sem cessar; agitando-se no leito de palha, não distinguia nem o dia nem a noite. Quase sempre surgiam rostos ilusórios, meio perceptíveis, meio reconhecíveis, de Eilonwy, dos companheiros, de todos que amara; entre­tanto, escapavam-lhe, alterando-se e movendo-se como nuvens carregadas pelo vento, ou então engolidas por pe­sadelos que o faziam gritar de terror. Mais tarde, parecia estar diante de Fflewddur, mas o bardo emagrecera, tinha os olhos fundos e o cabelo louro embaraçado sobre a tes­ta, a boca enrugada e o nariz longo e fino como uma lâmi­na. Suas roupas estavam maltrapilhas e manchadas. Kaw, empoleirado em seu ombro, grasnou:

— Taran, Taran!

— Sim, bem, de fato já era hora de você acordar — disse Fflewddur, sorrindo-lhe.

Ao lado do bardo, estava Gurgi, agachado num ban­co de madeira olhando-o com ansiedade.

Taran esfregou os olhos, sem saber, ao certo, se estava adormecido ou desperto. Desta vez os rostos não desapare­ceram. Piscou. A pele de carneiro havia sido retirada da janela e a luz do sol banhava-o.

— Gurgi? Kaw? — murmurou Taran. — Fflewddur! O que lhe aconteceu? Você está irreconhecível.

— Quem é você para falar sobre aparências, amigão? — disse o bardo dando uma boa risada. — Se pudesse ver a si mesmo, tenho certeza de que admitiria que está pior do que eu.

Ainda atordoado, Taran virou-se para Gurgi, que dera um pulo de alegria e batia palmas.

— Gentil mestre está bom outra vez! — gritou Gurgi.

— Está bem, sem aflições e lamentações, sem tremores e ardores! E é o Gurgi leal e esperto que zela por ele!

— É verdade — concordou Fflewddur. — Nas duas últimas semanas ele cuidou de você como uma galinha-mãe, e deu mais atenção a você do que teria dado aos cordeiros mais queridos do rebanho.

— Fui direto como uma flecha para Caer Dallben — continuou o bardo. — Ah... bem... a verdade é que fiquei perdido por algum tempo; então começou a nevar. A custo Llyan abriu caminho em montes de neve à altura de suas orelhas até que ela mesma, finalmente, parou. Por algum tem­po estivemos abrigados numa caverna... Grande Belin, pensei que jamais veria a luz do dia outra vez.

Fflewddur mostrou suas roupas esfarrapadas.

— O tipo de viagem que deixa uma pessoa bem desar­rumada. E bastante faminta, diga-se de passagem. Então Kaw nos encontrou e nos guiou por trilhas mais livres.

— Quanto a Dallben — Fflewddur prosseguiu —, ficou aborrecido, muito mais do que pretendia demonstrar. No entanto, tudo o que disse foi “Taran não é o filho do pastor, mas quanto a ficar por lá ou não, a escolha é inteiramente sua”.

— Então voltei o mais rápido que pude — concluiu o bardo. — Infelizmente não o alcancei mais cedo.

Sacudiu a cabeça.

— Gurgi contou-me o que aconteceu.

— Craddoc precisava de um filho — Taran respondeu devagar —, da mesma forma que eu precisava de pais. Quem sabe eu teria sido mais feliz se tivesse acreditado nele? Apesar de que, no final, penso que acreditei. Gurgi e eu poderíamos ter feito a escalada para nos salvarmos. Foi para salvar Craddoc que toquei a trompa de Eilonwy. Se o tivesse feito antes, talvez todos nós tivéssemos sobrevivido. Era um homem de coragem e bom coração, um homem de brio. Agora está morto. Poupei o sinal para usá-lo por uma causa digna e quan­do encontrei essa causa desperdicei-o.

— Desperdiçou? — retrucou Fflewddur. — Acho que não. Se você fez o melhor possível e não hesitou em usá-lo, eu não diria que o desperdiçou, de jeito nenhum.

— Há coisas que você não sabe — disse Taran. Olhou diretamente para o bardo.

— O melhor possível? De início pensei em deixar Craddoc na borda do penhasco.

— Ora, vamos — replicou o bardo —, todo homem tem seu momento de temor. Se agíssemos sempre conforme nossos desejos, haveriam atos lamentáveis em Prydain. Con­sidere o feito e não a intenção.

— Neste caso, considero muito o que pensei — disse Taran com uma voz fria. — Não foi o medo que me deteve. Quer saber a verdade? Tinha vergonha da minha origem hu­milde, tanta vergonha que me revoltava. Teria deixado Craddoc entregue à morte. Sim, deixado que ele morresse! — explodiu. — Porque acreditava que desse modo ficaria livre dele. Tinha vergonha de ser filho de um pastor. Mas não tenho mais. Agora, a vergonha que sinto é de mim mesmo. Virou o rosto e nada mais disse.

Os companheiros passaram o inverno no chalé, e aos poucos Taran recuperou a força. Ao primeiro sinal de dege­lo, quando a neve derretida fez o vale resplandecer e os rios irromperam de seus cursos congelados, Taran deteve-se em silêncio no pátio da entrada e olhou para as colinas verdes, refletindo a respeito do que há muito abrigara no coração.

— Logo estaremos prontos — disse Fflewddur, que chegara para ver Llyan e os cavalos. — Os caminhos estarão livres. O Lago de Llunet não deve ser muito distante daqui e, com a ajuda de Kaw, chegaremos lá em pouco tempo.

— Pensei bem a respeito disso — respondeu Taran. — Durante todo o inverno tentei decidir o que deveria fazer, mas não cheguei a encontrar a resposta. No entanto, uma coisa está clara, e tomei a decisão. Não vou procurar o Espelho.

— Como é? — exclamou Fflewddur. — Será que o estou escutando bem? Desistir da busca? Logo agora? Depois de tudo que enfrentou? Taran, meu garoto, você recuperou a saúde, mas não o juízo!

Taran sacudiu a cabeça.

— Desisti. Minha busca só trouxe tristeza a todos vocês. E quanto a mim, não me levou à honra, mas à vergonha. Taran? Taran revolta-me. Eu queria ter um berço nobre, que­ria tanto que cheguei a acreditar que fosse verdade. Uma origem grandiosa era tudo o que me interessava. Aqueles que não a possuíam... mesmo que eu os admirasse, como admirava Aeddan e passei a admirar Craddoc... eram para mim inferiores por causa disso. Sem conhecê-los, julguei-os inferiores ao que eram. Agora vejo que eram homens verda­deiros. Nobres? São muito mais nobres do que eu.

— Não tenho orgulho de mim mesmo — Taran conti­nuou. — Talvez jamais o tenha. Se, de fato, sentir orgulho, não será em relação ao que fui ou ao que sou, mas sim ao que poderei ser. Não será quanto a meu nascimento, e sim à minha pessoa.

— Então, considerando tudo isso — respondeu o bar­do —, o melhor a fazer é reunir o equipamento e dar início à nossa viagem para Caer Dallben.

Taran sacudiu a cabeça.

— Não posso encarar Dallben ou Coll. Um dia, talvez. Agora não. Preciso trilhar meu próprio caminho, ganhar meu próprio sustento. Seja lá como for, o sabiá precisa ciscar o chão à procura de suas próprias minhocas.

Parou de repente e olhou, admirado, para o bardo.

— Orddu... palavras dela. Eu as escutei com meus ouvi­dos, somente. Até este momento, não havia entendido com o coração.

— Ciscar à procura de minhocas pode não ser apetito­so, para resumir — Fflewddur respondeu. — Mas, é verdade, cada pessoa deve ter um talento. Olhe para mim, por exem­plo. Embora seja rei, ninguém encontrará melhor bardo do que eu...

Uma corda da harpa arrebentou, e por um instante pa­recia que muitas outras iriam ceder.

— Sim, bem, fora tudo isso — disse Fflewddur, depres­sa —, se você não pretende voltar para casa, então sugiro os Condados Livres. Lá, os artesãos vão acolher um aprendiz entusiasmado.

Taran pensou por alguns instantes e então concordou.

— É o que vou fazer. De agora em diante não mais desprezarei a acolhida de alguém.

O rosto do bardo entristeceu-se.

— Receio... receio que não posso ir com você, querido amigo. Meu reino espera por mim. Verdade é que sou mais feliz andando sem rumo como um bardo do que sentado como um rei. Mas já estive ausente por muito tempo.

— Então nossos caminhos vão se separar outra vez — respondeu Taran. — Há de chegar o dia em que não mais diremos adeus?

— Mas Gurgi não diz adeus ao bondoso mestre! — exclamou Gurgi, assim que Fflewddur se afastou para buscar seu equipamento. — Não, não, humilde Gurgi trabalha ao lado do mestre!

Taran baixou a cabeça e virou-se para o outro lado.

— Se algum dia eu merecer sua lealdade, então terei ganho um grande prêmio.

— Não, não! — protestou Gurgi. — Prêmios não! Gurgi doa o coração apenas por doar! Ele fica e nada mais exige. Uma vez você confortou Gurgi solitário. Agora deixe Gurgi apoiar mestre inconsolável!

Taran sentiu a mão da criatura no seu ombro.

— Dallben disse a verdade, amigo — murmurou. — Lealdade e bom senso? Tudo isso e mais. Seu apoio é mais útil para mim do que toda a sabedoria de Prydain.

Na manhã seguinte, Taran e Fflewddur despediram-se pela segunda vez. Apesar do protesto do bardo ao afirmar que um Fflam sempre encontra o caminho, Taran insistiu pa­ra que Kaw o acompanhasse. Depois que concluísse essa ta­refa, o corvo poderia voltar a Caer Dallben ou, caso preferis­se, voar livremente.

— Não vou prendê-lo à minha jornada — disse Taran a Kaw —, pois nem eu mesmo sei onde terminará.

— Então, para onde vamos? — perguntou Gurgi. — Leal Gurgi acompanha, oh, sim! Mas por onde gentil mestre pretende?

O vale, de repente, pareceu vazio durante os instantes em que Taran ficou parado, sem responder, olhando o chalé silencioso e o pequeno monte de pedras que marcava a se­pultura de Craddoc.

— Houve tempo — disse Taran, quase para si mesmo — em que julguei estar construindo minha própria prisão com minhas próprias mãos. Agora pergunto a mim mesmo se algum dia hei de trabalhar tão bem e ganhar tanto.

Voltou-se para Gurgi, que aguardava.

— Onde?

Ajoelhou, arrancou do chão um punhado de mato seco e ergueu-o no ar. O vento fresco empurrou as folhas para o leste, na direção dos Condados Livres.

— Por ali — disse Taran. — Seguindo a direção do vento.

Uma vez que nem Taran nem Gurgi queriam deixar os carneiros para trás, os viajantes partiram do vale seguidos pelo pequeno rebanho. Taran pretendia oferecer os animais ao primeiro fazendeiro que tivesse uma terra com boa pasta­gem, mas vários dias se passaram sem que avistassem qual­quer lugar habitado. Os companheiros tinham tomado a di­reção sudeste, mas Taran logo soltou as rédeas e, embora consciente de que Melynlas estivesse seguindo mais para les­te do que para o sul, não lhe prestou muita atenção até se aproximarem das margens de um rio largo e caudaloso.

Nesse local, o pasto era vasto e bom. A frente ele viu um redil vazio; notou que não havia rebanho, mas o portão do cercado estava aberto como se estivesse esperando que os animais retornassem a qualquer momento. O chalé de telhado baixo e os galpões estavam limpos e bem-cuidados. Um par de bodes peludos pastava no pátio da entrada. Sur­preso, Taran piscou, pois ao redor do chalé havia todo tipo de cestos, alguns grandes, outros pequenos, alguns erguidos em estacas e outros que pareciam jogados a esmo. Várias árvores próximas ao rio sustentavam plataformas de madeira e, ao longo do próprio rio, Taran avistou o que parecia ser uma represa feita de varas cuidadosamente trançadas. Esta­cas de madeira prendiam várias redes e linhas de pescar que estavam ao sabor da correnteza.

Intrigado com essa fazenda que, decerto, era a mais es­tranha que ele conhecera, Taran aproximou-se, apeou, e ao fazê-lo uma figura alta saiu devagar do galpão e dirigiu-se aos companheiros. Taran viu a mulher do fazendeiro espiando pela janela do chalé. Ao mesmo tempo, como se surgissem do nada, meia dúzia de crianças de idades diferentes aproxi­mou-se e começou a correr e saltar no meio do rebanho, rindo e gritando umas para as outras:

— Chegaram! Chegaram!

Ao ver Gurgi, deixaram de prestar atenção aos carnei­ros e reuniram-se em torno dele, batendo palmas, encanta­das, e fazendo saudações tão efusivas que a criatura atônita, por sua vez, só conseguia rir e bater palmas também.

O homem que estava diante de Taran era magro como uma vareta, com os cabelos lisos caindo sobre a testa e olhos azuis, brilhantes como os de um pássaro. Pode-se dizer que seus ombros estreitos e pernas compridas faziam-no lembrar uma garça ou cegonha. Sua jaqueta era curta demais nos bra­ços e longa demais no tronco, feita de recortes de tecidos de todos os tamanhos, formatos e cores.

— Eu me chamo Llonio, filho de Llonwen — disse com um sorriso amável e um aceno. — Boas-vindas, seja você quem for.

Taran fez uma reverência.

— Meu nome... meu nome é Taran.

— Nada mais? — disse Llonio. — Em se tratando de nome, meu amigo, está muito curto.

E deu uma risada agradável.

— Devo chamá-lo Taran, filho de Ninguém? Taran de Nenhum Lugar? Se você está vivo e respirando, obviamente tem pais. E decerto veio de algum lugar até chegar aqui.

— Chame-me, então, errante — Taran respondeu.

— Taran Errante? Que seja, se isso lhe agrada.

O olhar de Llonio era de curiosidade, mas ele não fez mais perguntas.

Quando Taran disse que estava à procura de pasto para os carneiros, Llonio concordou rapidamente com um aceno de cabeça.

— Ora, podem ficar aqui, e aceite minha gratidão! — exclamou. — Não há pasto mais fresco e doce, nem redil mais seguro. Era o nosso propósito, e para isso trabalhamos desde o início do degelo.

— Mas receio que eles deixem seu rebanho com pouco espaço — disse Taran, apesar de admirar a pastagem de Llonio e o cercado bem construído, e de pensar que estaria mais do que satisfeito em deixar os carneiros com ele.

— Meu rebanho? — respondeu Llonio, rindo. — Até esse momento eu não possuía nenhum! Mas queríamos um rebanho e estávamos esperando; as crianças não tinham ou­tro assunto, praticamente. Foi um vento feliz que trouxe você até aqui. Goewin, minha mulher, precisava de lã para vestir nossos filhos mais novos. Agora teremos lã de sobra.

— Espere, espere um pouco — interveio Taran, inteira­mente confuso —, você quer dizer que preparou o pasto e construiu o redil sem possuir nenhum cordeiro? Não enten­do. Foi trabalho inútil...

— Foi mesmo? — perguntou Llonio, dando uma pisca­dela esperta. — Se eu não tivesse feito o que fiz, estaria você, em primeiro lugar, oferecendo a mim um rebanho de quali­dade; e em segundo lugar, teria eu lugar para mantê-lo? Concorda?

— Mas você não poderia saber — Taran começou a dizer.

— Ora, convenhamos — disse Llonio, dando uma risa­da —, eu sabia que me bastava um pouco de sorte e um rebanho de carneiros haveria de chegar algum dia. Tudo é assim! Agora dê-nos a honra de ficar aqui por algum tempo. Nossa comida não corresponde à nossa gratidão, mas vamos hospedá-lo da melhor maneira possível.

Antes que Taran respondesse, Llonio abaixou-se para falar com uma das meninas que estava com os olhos fixos em Gurgi.

— Agora, Gwenlliant, vá ver se hoje a galinha castanha resolveu pôr um ovo para nós.

Virou-se para Taran.

— A galinha marrom é temperamental — disse. — Mas, quando quer, dá-nos um belo ovo.

Em seguida determinou que as demais crianças corres­sem para desempenhar outras tarefas enquanto Taran e Gurgi, perplexos, observavam o corre-corre daquela fazenda excên­trica. Llonio levou os dois ao chalé, onde Goewin deu-lhes boas-vindas e convidou-os a sentar perto da lareira. Em pou­co tempo Gwenlliant estava de volta, segurando um ovo nas mãos estendidas.

— Um ovo! — exclamou Llonio, pegando o ovo, er­guendo-o no alto e examinando-o como se jamais tivesse visto um deles. — É um ovo, veja só! O melhor que a galinha castanha já nos deu! Olhe o tamanho! A forma! Liso como vidro e sem uma rachadura. Vamos nos banquetear, meus amigos.

De início Taran não viu nada de extraordinário no ovo que Llonio tanto elogiava; mas, influenciado pelo bom humor do homem, surpreendeu-se olhando para o ovo como se ele próprio jamais tivesse visto um. Nas mãos de Llonio a casca parecia brilhar tanto e formar uma curva tão graciosa que até Gurgi maravilhou-se, e foi quase com indignação que Taran observou Goewin quebrar o ovo tão precioso numa grande tigela de barro. Não obstante, se Llonio pretendia compartilhá-lo com a numerosa família, disse Taran a si mesmo, a comida seria exígua, com certeza.

Mas, enquanto Goewin misturava o conteúdo na tigela, as crianças, uma por uma, entraram e se aglomeraram no chalé, todas trazendo alguma coisa que suscitava comentá­rios entusiásticos de Llonio.

— Ervas aromáticas! — exclamou. — Isso é maravilhoso! Corte bem miudinho. E aqui... temos um punhado de farinha? Está melhorando! Vamos precisar também daquele balde de leite de cabra. Um pouco de queijo? Era o que faltava!

Em seguida, embevecido, bateu palmas quando a última e menor criança entregou-lhe um pedaço de favo de mel.

— Que sorte! As abelhas deixaram-nos mel de seu es­toque de inverno.

Nesse ínterim, Goewin estava ocupada adicionando to­dos esses achados na tigela e, diante dos olhos de Taran, o conteúdo quase chegou até a borda. Mas sua surpresa não terminou. Com habilidade, Goewin derramou a mistura numa chapa de metal e colocou-a por cima das brasas brilhantes. A chapa, Taran tinha quase certeza, não era nada mais nada menos que um escudo de guerreiro que fora martelado até ficar plano. Em instantes, o aroma da comida encheu o chalé, a boca de Gurgi encheu-se de água e, em pouco tempo, a esposa do fazendeiro retirou da lareira um bolo dourado quase tão grande quanto uma roda de carroça.

Rapidamente, Llonio cortou-o em pedaços e, para ad­miração de Taran, havia o suficiente para todos e ainda so­brava. Ele comeu sua porção do ovo mais delicioso que tinha provado... se é que se podia chamar de ovo... e nem mesmo Gurgi conseguia comer mais.

— Agora — disse Llonio, quando haviam terminado — vou ver minhas redes. Venham comigo, se quiserem.


 

A Represa

Gurgi ficou no chalé enquanto Taran foi até a margem do rio com Llonio. No caminho, ale­gre e assobiando, Llonio parou para olhar den­tro dos cestos e Taran percebeu que um deles continha uma grande colmeia de abelhas, sem dúvida a origem do mel que adoçara o bolo de Goewin. Os demais, entretanto, estavam vazios. Llonio apenas deu de ombros.

— Não importa — disse. — Alguma coisa vai enchê-los mais tarde. Da última vez, um bando de gansos selva­gens desceu para descansar. Você precisava ter visto a quan­tidade de penas que eles deixaram. O bastante para en­cher almofadas para todos nós!

A essa altura já se aproximavam do rio, que Llonio chamava de Pequeno Avren, porque mais ao sul desem­bocava no Grande Avren.

— Pequeno ele é — disse —, no entanto, mais cedo ou mais tarde, o que você desejar chegará boiando.

Como se quisesse dar provas do que dizia, come­çou a puxar com vigor a rede fixada ao longo da mar­gem. Chegou vazia, e, do mesmo modo, as linhas de pescar. Sem se deixar abater, Llonio deu de ombros novamente.

— Amanhã, provavelmente.

— Mas, então — exclamou Taran, perplexo como nun­ca —, você confia em cestos e redes para conseguir o que precisa?

Olhou atônito para o homem.

— Isso mesmo — respondeu Llonio, dando uma boa risada. — Minha propriedade é pequena; faço o melhor tra­balho possível. O resto... ora, veja, de uma coisa estou certo: vida é uma questão de sorte. Confie e encontrará o que pro­cura, seja amanhã ou depois.

— Talvez — admitiu Taran —, mas e se demorar mais? Ou se jamais acontecer?

— Seja o que for — respondeu Llonio, sorrindo. — Se eu me preocupar com o amanhã, pouca alegria terei hoje.

Assim dizendo, subiu com agilidade até a represa que, segundo Taran podia ver agora, não servia para barrar o cur­so de água, mas para estreitar e drenar a correnteza. Oscilan­do no topo daquela construção estranha e fazendo lembrar, mais do que nunca, uma grua, à medida que se movimentava para cima e para baixo, inclinando-se para cutucar e espreitar entre as varas de junco, Llonio não demorou a dar um grito e acenou, animado.

Taran subiu depressa até a represa para encontrá-lo. No entanto seu rosto não escondeu a decepção quando chegou perto de Llonio. O que havia causado o grito de alegria do homem era apenas uma rédea de cavalo abandonada.

— Infelizmente — disse Taran, desanimado —, isso tem pouca utilidade. Falta o freio e a rédea está muito gasta.

— Que seja, que seja — replicou Llonio. — Foi o que o Pequeno Avren trouxe para nós hoje, e servirá para alguma coisa.

Llonio pôs a rédea molhada por cima do ombro, desceu da represa, arrastando-se, e, seguido por Taran, caminhou rápido entre as árvores que margeavam o rio.

Pouco depois, Llonio, cujo olhar aguçado se movia para todos os lados, gritou outra vez e parou ao pé de um olmo retorcido. No meio das raízes e espalhados ao redor, uma grande quantidade de cogumelos desabrochara.

— Pode apanhá-los, Errante! — exclamou Llonio. — Serão nosso jantar. Os melhores cogumelos que já vi! Macios e saborosos! Hoje estamos com sorte!

Juntando rapidamente seus achados, Llonio colocou-os numa sacola presa ao cinturão e continuou a caminhar.

Acompanhando as perambulações de Llonio, parando aqui e ali para colher algumas ervas e raízes, Taran achou que o dia mal começara, embora já tivesse quase terminado. Com a sacola cheia, os dois voltaram ao chalé, por um caminho diferente daquele que percorreram na ida. Andando lenta­mente, Taran tropeçou na ponta de uma pedra e foi ao chão.

— Sua sorte é melhor que a minha — disse Taran com um riso triste. — Conseguiu cogumelos e eu apenas um par de canelas machucadas!

— Não é bem assim, não! — protestou Llonio, afastan­do depressa o barro que cobria a pedra parcialmente. — Vamos, olhe agora! Alguma vez tinha visto uma pedra tão bem formada? Arredondada como uma roda e lisa como um ovo. Uma sorte incrível que precisa apenas ser aproveitada!

Se era mesmo uma sorte incrível, pensou Taran, era a mais dura e mais pesada na qual ele já havia tropeçado, pois Llonio agora insistia em desenterrar a pedra achatada. Afinal conseguiram retirá-la, depois de muito cavar e puxar, e os dois, revezando-se, levaram-na para casa, onde Llonio girou-a até o galpão já abarrotado com uma estranha mistura de manivelas, tiras de tecido, arreios de cavalo, correias, rolos de cordas e toda a colheita da represa, redes e cestos.

Ao fogo, os cogumelos, acrescidos da sobra do bolo feito na chapa e mais um punhado de legumes que as crian­ças encontraram, pareciam tão deliciosos que não foi preciso insistir para que Taran e Gurgi ficassem para a refeição. Ao cair da noite Taran aceitou o convite da família para descan­sarem ao lado da lareira. Gurgi, bem alimentado e satisfeito, começou logo a roncar. E Taran, pela primeira vez em muitos dias, dormiu profundamente, sem sonhos.

Na manhã seguinte o tempo estava claro e fresco. Quan­do Taran se levantou, o sol já estava alto e, embora tivesse a intenção de arrear Melynlas e partir, não o fez. Se a represa havia rendido pouco no dia anterior, o resultado da corrente­za da noite tinha sido mais do que compensador. Não se sabe como, uma grande saca de grãos de trigo prendeu-se em alguns troncos que serviram de balsa e assim flutuara rio abaixo sem se molhar. Goewin, mais do que depressa, trou­xe para fora um grande moinho de pedra para moer o trigo. Todos deram uma ajuda, as crianças, da mais velha à mais nova, e até mesmo Llonio; Taran fez sua parte, de bom gra­do, embora ele e Gurgi achassem que o moinho era pesado e desajeitado.

— Oh, moenda cansativa! — exclamou Gurgi. — Os dedos de Gurgi estão doloridos e os braços extenuados e magoados!

No entanto, ele completou a tarefa. Embora uma quan­tidade suficiente de farinha já estivesse pronta, outro dia ha­via decorrido depressa e, mais uma vez, Llonio ofereceu sua hospitalidade aos viajantes. Taran não recusou. Na verdade, quando se deitou perto do fogo, admitiu, em segredo, que esperara que Llonio o convidasse a ficar.

Nos dias que se sucederam, o coração de Taran parecia mais aliviado desde o momento em que abandonara sua bus­ca. As crianças, inicialmente tímidas, agora eram amigas cons­tantes, e brincavam tanto com ele quanto com Gurgi. Todos os dias ia com Llonio ver as redes, os cestos e a represa, voltando às vezes com as mãos vazias e outras vezes carrega­do da mais estranha variedade que o vento ou a correnteza trazia. A princípio não dera valor algum àquelas quinquilha­rias, mas Llonio encontrava utilidade para quase todas. Uma roda de carruagem foi transformada numa roca, peças de arreios de cavalos serviram para se fazerem cintos para as crianças, um alforje veio a ser um par de botas; e Taran logo percebeu que quase tudo o que a família necessitava cedo ou tarde haveria de surgir do nada; e não havia nada — ovo, cogumelo, um punhado de penas — que não fosse guardado como um tesouro.

— De certa maneira — disse Taran a Gurgi —, Llonio é, e sempre será, mais rico do que Lorde Gast. E não é apenas isso, é o homem de mais sorte de Prydain! Não invejo a ri­queza de homem algum — acrescentou Taran.

Então suspirou e sacudiu a cabeça.

— Mas queria ter a sorte de Llonio.

Quando repetiu o que disse a Llonio, este limitou-se a sorrir e piscar para ele.

— Sorte, Errante? Um dia, se você tiver sorte, eu lhe contarei o segredo.

Além disso, Llonio nada mais disse. Nessa ocasião um pensamento começou a se formar na mente de Taran. Todos os achados de Llonio tinham servido a uma ou outra finalidade... a não ser a pedra achatada que ainda estava no galpão.

— Mas, pergunto-me — disse a Llonio —, pergunto-me se não teria servido melhor para moer o trigo do que o moinho manual...

— Pois bem! — exclamou Llonio, satisfeito. — Se pensa que a pedra pode ser útil, faça o que lhe parece melhor.

Ainda avaliando sua idéia, Taran foi caminhar pelo bos­que, até que encontrou uma pedra quase do mesmo tama­nho da primeira.

— Foi um golpe de sorte — disse, dando uma risada, enquanto Llonio o ajudava a arrastá-la para casa.

Llonio sorriu e disse:

— É assim mesmo, é assim mesmo.

Durante os vários dias que se seguiram, Taran trabalhou sem descanso, tendo Gurgi a seu lado, ansioso por ajudar. Num canto do galpão colocou uma das pedras bem firme no chão e a outra por cima. Nesta, com muito esforço, abriu um buraco e, com as tiras de couro que haviam sobrado dos arreios, fixou nele uma longa estaca que alcançava uma aber­tura no telhado. Na parte mais alta da estaca prendeu arma­ções de madeira nas quais esticou tecidos cortados em qua­drados grandes.

— Mas isto não é um moinho — exclamou Gurgi quan­do o trabalho, finalmente, ficou pronto —, é um navio para navegar e boiar! Mas não existe navio, apenas mastro com velas!

— Veremos — respondeu Taran, chamando Llonio para avaliar seu trabalho manual.

Por um instante a família ficou pensativa diante da es­trutura curiosa feita por Taran. Em seguida, quando bateu o vento, as velas cortadas toscamente captaram a corrente de ar. A estaca que se parecia com um mastro estremeceu e estalou e, por um momento, Taran receou que todo o seu trabalho desmoronasse. Mas a estrutura agüentou fir­me; as velas estufaram-se e começaram a se movimentar, lentamente, no começo, e em seguida cada vez mais de­pressa, enquanto mais abaixo, no galpão, a pedra de cima girava alegremente. Em seguida Goewin jogou alguns grãos no moinho improvisado por Taran. Em pouco tempo, obte­ve-se a farinha mais fina que algum moinho já produzira. As crianças bateram palmas e gritaram de alegria; Gurgi uivou de admiração; e Llonio riu tanto que as lágrimas desceram-lhe pelas bochechas.

— Errante — exclamou —, com muito pouco você fez tanta coisa, e fez melhor do que eu!

Nos dias seguintes o moinho não serviu apenas para moer o trigo da família; Taran também usou-o como pedra de amolar para as ferramentas de Llonio. Olhando para seu artefato, Taran vibrou de orgulho pela primeira vez desde que deixara o vale de Craddoc. Ao mesmo tempo teve uma sensação de inquietude.

— A rigor — disse a Gurgi —, eu deveria me considerar mais do que feliz por morar aqui para o resto de minha vida. Encontrei paz e amizade... e também um tipo de esperança. Este lugar aquietou meu coração como se fosse um bálsamo no ferimento.

Hesitou.

— Mesmo assim, o caminho de Llonio não é o meu. Algo me instiga a procurar mais do que o Pequeno Avren traz. O que procuro não sei o que é. Mas, infelizmente, sei que não está aqui.

Então falou com Llonio e lamentou dizer-lhe que preci­sava prosseguir viagem. Desta vez, percebendo a decisão fir­me que Taran havia tomado, Llonio não insistiu para que ele ficasse e os dois se despediram.

— E afinal — disse Taran, enquanto deslizava na sela de Melynlas —, infelizmente, você jamais me contou o segredo de sua sorte.

— Segredo? — respondeu Llonio. — Ainda não adivi­nhou? Ora, minha sorte não é maior que a sua nem a de outro homem qualquer. Você precisa apenas aguçar os olhos quando sua sorte chegar, e aguçar a inteligência para usar o que lhe cai nas mãos.

Taran soltou as rédeas e, com Gurgi, cavalgou devagar, afastando-se das margens do Pequeno Avren. Quando se voltou para acenar, ouviu Llonio gritando-lhe:

— Confie em sua sorte, Taran Errante. Mas não se es­queça de estender as redes!


 

Os Condados Livres

Do Pequeno Avren seguiram na direção leste mantendo um ritmo tranqüilo, parando à von­tade, dormindo no gramado ou abrigados em alguma das muitas fazendas daqueles vales fér­teis e verdejantes. Era a região dos Condados Livres, dos chalés agrupados em grandes círculos, tendo a sua volta campos cultivados e pastos. Taran considerava o povo dos Condados gentil e hospitaleiro. Embora dissesse que seu nome era Taran Errante, os habitantes desses povoados e vilarejos respeitavam-lhe a privacidade e nada pergunta­vam a respeito de seu local de nascimento, sua classe social ou destinação.

Os dois viajantes já haviam ultrapassado os limites do Condado Cenarth, quando Taran fez Melynlas parar diante de um galpão de telhado baixo, de onde se ouvia o som de martelo batendo em bigorna. Lá dentro encontrou o fer­reiro, homem de tórax largo, usando avental de couro, com a barba espetada e negra e os cabelos fartos e escu­ros, eriçados como uma escova. Tinha os cílios chamusca­dos, sujos, e o rosto manchado de fuligem; sobre os om­bros nus choviam-lhe faíscas, mas para ele, aparentemente, não passavam de vaga-lumes. Numa voz semelhante a pe­dras retumbando num escudo de bronze, berrava uma can­ção ao compasso das marteladas, e o som era tão alto que Taran supôs que os pulmões do homem fossem de couro, tal e qual seus foles. Enquanto Gurgi, cauteloso, afastava-se da chuva de faíscas, Taran gritou uma saudação quase sem po­der ouvir a própria voz no meio do estrondo.

— Mestre Ferreiro — disse, fazendo profunda reverên­cia quando, finalmente, o homem o avistou e deixou de lado o martelo. — Chamo-me Taran Errante e viajo à procura de um artífice que me ajude a ganhar o pão. Conheço um pouco da sua arte e peço-lhe que me ensine mais. Não tenho ouro nem prata para lhe pagar, mas mencione qualquer tipo de trabalho e eu o farei.

— Dê o fora! — gritou o ferreiro. — Trabalho tenho de sobra, mas tempo para ensinar, nenhum.

— É tempo que lhe falta? — perguntou Taran, lançando um olhar astuto para o ferreiro. — Ouvi dizer que um ho­mem deve ser um verdadeiro mestre de seu ofício se quiser ensiná-lo a alguém.

— Espere aí! — berrou o ferreiro quando Taran estava prestes a dar as costas, e segurou o martelo como se preten­desse jogá-lo em sua cabeça. — Duvida do meu talento? Por muito menos já achatei muitos homens na minha bigorna! Talento? Nos Condados Livres ninguém é mais talentoso que Hevydd, filho de Hirwas!

Com essas palavras pegou a pinça, retirou da fornalha crepitante uma barra de ferro vermelho-fogo, atirou-a na bi­gorna e começou a golpeá-la com tal rapidez que Taran mal conseguia acompanhar o movimento do braço musculoso de Hevydd; e, de repente, formou-se na extremidade da barra uma flor de espinheiro, perfeita em cada curva de folha e pétala.

Cheio de admiração e espanto, Taran examinou a peça.

— Jamais vi um trabalho feito com tanta perícia.

— E jamais verá em qualquer outro lugar — respondeu Hevydd, controlando-se para reprimir um sorriso orgulhoso. — Mas que história é essa que você está me contando? Sabe moldar metal? Não são muitos que conhecem os segredos da arte. Nem eu mesmo conheço todos eles.

Sacudiu a cabeça com raiva.

— Os segredos mais profundos? Estão escondidos em Annuvin, roubados por Arawn, Lorde da Morte. Perdidos. Para Prydain, perdidos para sempre.

— Mas, vamos lá, segure — ordenou o ferreiro, pondo a pinça e o martelo nas mãos de Taran. — Bata na barra até que ela fique lisa como antes, e depressa, antes que esfrie. Mostre-me a força que você tem nessas asas de galinha.

Taran foi direto para a bigorna e, conforme Coll o havia ensinado há muito tempo, fez o melhor possível para achatar o ferro, que esfriava rapidamente. O ferreiro, cruzando os braços avantajados, lançou-lhe um olhar crítico por algum tempo, e em seguida explodiu numa risada.

— Basta, basta! — exclamou Hevydd. — Você está di­zendo a verdade. De arte, realmente, conhece pouco. Mes­mo assim — acrescentou esfregando o queixo com o pole­gar desgastado e grosso como um punho —, mesmo assim você tem sensibilidade.

Olhou bem para Taran.

— Mas tem coragem de enfrentar o fogo? Malhar ferro quente usando apenas martelo e pinça?

— Ensine-me a arte — Taran respondeu. — Não vai precisar ensinar-me a ter coragem.

— Disse-o com bravura! — exclamou Hevydd, dando um tapa afetuoso no ombro de Taran. — Em minha fornalha vou lhe dar consistência! Dê-me provas do que você é, e prometo que vou fazer de você um ferreiro. Agora, para começar...

Seu olhar pousou na bainha da espada de Taran.

— Ao que parece, você costumava levar uma espada.

— Costumava, sim — respondeu Taran. — Mas faz tem­po que fiquei sem ela, e agora viajo desarmado.

— Então precisa fazer uma espada — ordenou Hevydd. — E quando tiver terminado, vai me dizer o que é mais difícil: bater-se com o inimigo ou bater o ferro!

Taran não demorou a saber a resposta. Jamais trabalha­ra tanto como naqueles dias que se seguiram. De início, pen­sou que o ferreiro o mandaria moldar uma das barras que já estavam na fornalha. Mas não era essa a intenção de Hevydd.

— O quê? Pegar um trabalho que já está feito pela me­tade? — disse Hevydd, bufando. — Não, não, meu jovem. Vai forjar uma espada do começo ao fim.

Por conseguinte, o primeiro serviço que Hevydd deu a Taran foi reunir combustível para a fornalha e, do amanhecer ao entardecer, Taran alimentou o fogo até ver a fornalha rugir qual um monstro insaciável com línguas de fogo. Mesmo assim, o trabalho apenas começara, pois, em seguida, Hevydd determinou que ele escavasse um monte de pedras, para depois fundir o metal retirado. Quando o lingote ficou pron­to, o rosto e os braços de Taran estavam chamuscados e enegrecidos, e as mãos cheias de calos. As costas doíam; os ouvidos zumbiam com o tinir e retinir e a voz de Hevydd a gritar ordens e instruções. Gurgi, que se ofereceu a bombear o fole, não vacilou, nem mesmo quando uma nuvem de faís­cas irrompeu e queimou algumas partes de seu pêlo, dando a impressão de que um bando de pássaros o tivesse despelado para fazer ninhos.

— A vida é uma fornalha! — exclamou o ferreiro, no momento em que Taran, a testa vertendo suor, batia na barra de metal. — Sim, e martelo e bigorna também! Pode-se ficar tostado, fundido e martelado sem ao menos perceber o que está acontecendo. Mas é preciso manter-se firme, com bravu­ra! O metal não vale nada antes de ser moldado e temperado!

Apesar da fadiga que, ao término do dia, dava-lhe a sensa­ção de merecimento, quando se atirava no leito de palha do alpendre, Taran sentia o coração acelerar e ficava mais animado ao ver a lâmina amoldando-se na bigorna. O martelo parecia ainda mais pesado cada vez que ele o levantava; mas, finalmente, com um grito de felicidade, baixou-o e ergueu a espada pronta, bem forjada e equilibrada, resplandecendo à luz da fornalha.

— Bela arma, mestre ferreiro! — exclamou Taran. — Tão bonita quanto a que eu possuía!

— Como assim? — exclamou Hevydd. — Já terminou seu trabalho? Confiaria sua vida a uma lâmina que não foi testada?

Estendeu o braço vigoroso na direção de um bloco de madeira no canto da lareira.

— Golpeie com força — ordenou. — De lado, de gume e de ponta.

Todo orgulhoso Taran ergueu a espada no alto e bai­xou-a de encontro ao bloco. Com a força da pancada a arma estremeceu, uma rachadura ruidosa e um tinido bateram nos seus ouvidos quando a lâmina se quebrou e os estilhaços voaram para todos os lados.

Inconformado, Taran gritou e por pouco não chorou ao ver, incrédulo, o cabo quebrado que ainda segurava na mão. Virou-se com um olhar desesperado para Hevydd.

— Está vendo? — exclamou o ferreiro, nada aflito dian­te da expressão infeliz e pesarosa no rosto de Taran. — Che­gou a pensar que conseguiria uma lâmina de qualidade na primeira tentativa?

Deu uma risada estridente e sacudiu a cabeça.

— Então, o que devo fazer? — exclamou Taran, estar­recido diante das palavras de Hevydd.

— O que deve fazer? — retrucou o ferreiro. — O que mais, além de começar a fazer uma nova espada?

E assim fizeram. Mas, desta vez, para Taran, pouco resta­ra de suas alegres esperanças. Trabalhou com afinco e obsti­nação, mas perdeu o ânimo quando Hevydd, considerando imperfeitas duas lâminas novas, mandou-o deixá-las de lado antes mesmo de serem temperadas. O cheiro forte do metal quente fixava-se em suas narinas e interferia até no sabor da comida que ele engolia depressa; as ondas de vapor da tina sufocavam-no, como se ele respirasse no meio de um ne­voeiro escaldante; a barulheira incessante quase o enlouque­cia; até que percebeu que era ele mesmo, não a lâmina, que estava sendo martelado.

A lâmina seguinte que moldou lhe parecia feia, defor­mada e arranhada, sem as belas proporções da primeira, e esta ele também teria deixado de lado se o ferreiro não tives­se determinado que ele a concluísse.

— Pode ser que esta sirva — disse-lhe Hevydd, con­fidencialmente, apesar do olhar duvidoso que Taran lhe dirigiu.

De novo Taran avançou para o bloco e ergueu a espa­da. Fazendo o possível para despedaçar a arma deselegante, baixou-a com toda a força. A lâmina ressoou como se fos­se um sino. Desta vez foi o bloco que se partiu em duas partes.

— Agora sim — disse Hevydd com toda a calma. — Aí está uma lâmina digna de se usar.

Então bateu palmas e segurou o braço de Taran.

— Afinal, essas asas de galinha estão fortalecidas. Você testou-se assim como testou a lâmina. Fique, rapaz, e eu lhe ensinarei tudo o que sei.

Taran manteve-se em silêncio por algum tempo, mas olhou, sem orgulho, para a lâmina recém-forjada.

— Você já me ensinou muito — disse a Hevydd, afi­nal —, embora eu tenha perdido o que esperara conseguir. Pois pensei que eu fosse um espadeiro. Cheguei à conclusão que não o sou.

— Como assim? — indagou Hevydd. — Você tem as qualidades essenciais de um legítimo espadeiro, tão bom quan­to qualquer outro de Prydain.

— Fico feliz de pensar que isso possa ser verdadeiro — respondeu Taran. — Mas, sinceramente, reconheço que a sua arte não é a minha. Um impulso fez-me deixar o Peque­no Avren e agora acontece o mesmo. E então preciso seguir viagem, mesmo desejando ficar.

O ferreiro assentiu, balançando a cabeça.

— Seu nome é muito apropriado, Errante. Então, que seja. Não peço a ninguém que vá de encontro ao coração. Aceite a espada como símbolo de amizade. É sua, mais do que qualquer outra, porque a forjou com suas mãos.

— Não é uma espada nobre e por isso mesmo combina mais comigo — riu-se Taran, olhando de relance para a arma desajeitada. — Sorte minha que antes desta não precisei fa­zer uma dúzia.

— Sorte? — disse Hevydd, bufando, quando Taran e Gurgi se despediam dele. — Nada disso! Mais trabalho do que sorte. A vida é uma fornalha, é o que digo! Encare as pancadas; não receie a prova; e você enfrentará qualquer martelo e bigorna!

Hevydd, o ferreiro, acenou-lhes com a mão coberta de fuligem, e os companheiros seguiram viagem rumo ao norte, passando pelo rico vale do Grande Avren. Após alguns dias de cavalgada tranqüila pela região rural, aproximaram-se do Condado de Gwenith. Naquele local, uma chuva repentina caiu sobre eles, e os viajantes galoparam até o primeiro abri­go que avistaram.

Era um conjunto de galpões, estábulos, galinheiros e despensas esparramadas, mas, assim que Taran desmontou e correu até o chalé situado no meio do labirinto, percebeu que as construções estavam interligadas por calçadas cober­tas ou caminhos pavimentados de pedra, e qualquer uma das passagens que escolhesse haveria de levá-lo à porta de entra­da, que se abriu antes mesmo que ele batesse.

— Entre e seja bem-vindo! — estalou a voz, tal qual gravetos no fogo.

Assim que Gurgi entrou, rapidamente, para escapar da chuva torrencial, Taran viu a mulher idosa, de costas curva­das, vestindo um manto cinza, acenando-lhe para se aproxi­mar da lareira. O cabelo longo e branco assemelhava-se à lã, que lhe pendia do cinto de cordas trançadas. Logo abaixo do vestido curto, as canelas ossudas pareciam finas e duras como fusos. O rosto estava coberto por uma teia de rugas, as faces eram encovadas, porém, apesar da idade, não mostrava sinais de fraqueza, como se o tempo tivesse lhe dado solidez e experiência, e os olhos acinzentados eram aguçados e relu­zentes como um par de agulhas novas.

— Sou Dwyvach Tecelã — disse, assim que Taran fez a reverência e lhe disse o nome.

— Taran Errante? — repetiu com um sorriso mordaz. — Pelo seu aspecto, diria que, de fato, você tem andado sem rumo. E pouco tem se lavado. E isto é tão visível quanto a trama no meu tear.

— Sim, sim! — exclamou Gurgi. — Vejo tear de tecela­gem! Vejo laçadas e trançadas! Tantas, que fazem a cabeça mimosa de Gurgi girar com voltas e reviravoltas!

Pela primeira vez Taran notou num canto do chalé o tear alto, erguido como uma harpa gigantesca com milhares de cordas. Ao redor da peça empilhavam-se bobinas com fios de todas as cores; das vigas do teto pendiam meadas e novelos de lã e linho; nas paredes estavam afixados pedaços de tecidos prontos, alguns de tons vivos e motivos simples e outros confeccionados com mais refinamento, exibindo pa­drões intrincados. Taran olhou atentamente, maravilhado com a variedade infinita, e então dirigiu-se à tecelã de Gwenith.

— Este talento supera tudo o que conheço — disse com admiração. — Como é feito este trabalho?

— Como é feito? — disse a tecelã dando uma risada. — Exigiria de mim muito fôlego para contar, e você não teria ouvidos suficientes para escutar. Mas, se olhar, verá.

Assim dizendo, foi mancando até o tear, sentou-se dian­te dele e, com um vigor surpreendente, começou a manejar a lançadeira para trás e para a frente ao mesmo tempo em que movimentava os pedais com os pés, mal se detendo para olhar de relance o trabalho. Afinal parou, ergueu a cabeça na direção de Taran, olhou-o com os olhos acinzentados e vivos e disse:

— E está pronto, Errante. Assim mesmo; cada coisa a seu modo, ponto por ponto.

Taran estava cada vez mais impressionado.

— Gostaria muito de aprender — disse com ansiedade. — O ofício de espadeiro não era para mim. A arte da tecela­gem talvez o seja. Por favor, a senhora poderia me ensinar?

— Sim, eu o farei, desde que você me pede — respon­deu Dwyvach. — Mas preste atenção: olhar um pedaço de tecido não é o mesmo que se sentar diante do tear.

— Muito obrigado! — exclamou Taran. — Não terei o menor receio de trabalhar em seu tear. Quando estive com Hevydd, o Ferreiro, nem o ferro incandescente nem as laba­redas da fornalha conseguiram me derreter; e a lançadeira de uma tecelã é uma carga mais leve que o martelo de um ferreiro.

— Você acha? — perguntou Dwyvach, dando uma risa­da seca, fazendo lembrar agulhas de tricô batendo umas nas outras. — Então, para começar, o que você deveria tecer? — prosseguiu lançando-lhe um olhar penetrante. — Taran Er­rante é como se chama? Taran Maltrapilho seria mais apropria­do! Que tal tecer um manto novo? Assim terá alguma coisa para pôr sobre os ombros, e verei que tipo de habilidade você tem nos dedos.

Taran concordou, satisfeito; mas, no dia seguinte, em vez de ensiná-lo a tecer, Dwyvach levou os companheiros a um dos vários aposentos do chalé, e Taran viu que estava abarrotado de pilhas de lã.

— Cate os espinhos, retire os cardos — ordenou a te­celã. — Penteie com cuidado, Errante, ou então, quando seu manto estiver pronto, você sentirá que é feito de cardos ao invés de lã!

O volume do trabalho à sua frente fez Taran pensar que jamais chegaria ao fim, mas ele e Gurgi deram início à tarefa árdua, contando com a ajuda da própria Dwyvach. Taran logo percebeu que a tecelã idosa, além de ter uma língua afiada, tinha um olhar perspicaz. Nada lhe escapava; descobria qual­quer nó ou falha, e chamava a atenção de Taran, batendo com o fuso nas juntas de seus dedos. Mas o que magoava Taran ainda mais que as pancadas era reconhecer que Dwyvach, apesar da idade, trabalhava com mais rapidez, por mais tempo e mais intensamente do que ele. No final do dia, a visão de Taran estava turva, os dedos esfolados e a cabeça pendia de cansaço; a velha tecelã ainda estava esperta e ágil, como se o dia mal tivesse começado.

Contudo, o trabalho, afinal, ficou pronto. Foi então que Dwyvach posicionou Taran diante de uma imensa roca.

— A mais fina lã de nada serve antes de ser fiada — disse-lhe a tecelã. — Portanto, é melhor que você comece a aprender isso também.

— Mas ser fiandeira é coisa de mulher trabalhadeira! — protestou Gurgi. — Não, não, fiar não condiz a tecelões co­rajosos e inteligentes!

— Realmente! — disse Dwyvach, bufando. — Então fi­quem sentados e tentem aprender de outro modo. Já ouvi homens queixarem-se de fazer trabalho de mulher, e mulheres queixarem-se de fazer trabalho de homem — acrescentou, apertando o polegar ossudo e o indicador na orelha de Gurgi e fazendo-o caminhar até uma banqueta ao lado de Taran —, mas o trabalho, uma vez feito, jamais reclamou de quem o fez.

E então, sob o olhar vigilante de Dwyvach, Taran e Gurgi fiaram e encheram as bobinas durante os dias que se segui­ram. Disciplinado pelas palavras de Dwyvach, Gurgi fez o melhor que pôde para ajudar, embora na maioria das vezes a criatura desventurada acabasse se embaraçando nos fios mais longos. Em seguida, Dwyvach levou os companheiros a um galpão onde caldeirões repletos de tintura borbulhavam ao fogo. Nessa etapa, Taran não se saiu melhor do que Gurgi, pois, quando o fio de lã estava finalmente tingido, Taran esta­va respingado de tinta da cabeça aos pés, e o próprio Gurgi parecia um arco-íris peludo.

Somente depois que todas essas tarefas estavam con­cluídas e a contento de Dwyvach, a tecelã levou Taran ao quarto de fiar, lá chegando, ele perdeu o ânimo ao constatar que o tear estava vazio e rígido como uma árvore sem folhas.

— Então? — disse a tecelã demonstrando interesse quan­do Taran dirigiu-lhe um olhar tristonho. — O tear precisa de fios. Eu não lhe disse? Tudo é feito passo a passo, ponto por ponto.

— De acordo com o Ferreiro Hevydd, a vida é uma fornalha — disse Taran suspirando, enquanto tentava calcular a quantidade de fios de que precisaria —, e acho que antes mesmo de terminar meu manto estarei resistente como ferro.

— A vida é uma fornalha? — disse a tecelã. — Melhor dizendo, um tear no qual vidas e dias se entrelaçam; sábio é aquele que aprende a ver o padrão. Mas, se você pretende ter um manto novo, é melhor trabalhar mais e conversar menos. Ou espera que um bando de aranhas venha trabalhar para você?

Mesmo depois de escolher o padrão e preparar o tear, Taran só conseguia ver uma confusão interminável de fios. Com muito custo e lentidão o tecido começou a se formar e, no final de um longo dia, ele conseguira pouco mais que um pal­mo de pano para servir de amostra de todo o seu trabalho.

— Algum dia pensei que a lançadeira de um tecelão fosse uma carga leve? — disse Taran, suspirando. — Parece mais pesada do que martelo, pinças e bigorna, todos juntos!

— Não é a lançadeira que lhe pesa — respondeu Dwyvach —, e sim a falta de habilidade, um fardo pesado, Errante, que só uma coisa pode erguer.

— Que segredo é esse? — indagou Taran. — Ensine-me agora senão meu manto jamais ficará pronto.

Mas Dwyvach limitou-se a sorrir.

— É a paciência, Errante. Mas isso não posso ensinar. É, ao mesmo tempo, a primeira e a última coisa que você preci­sa aprender por si mesmo.

Desanimado, Taran voltou ao trabalho, certo de que antes mesmo de terminar a peça do vestuário estaria tão velho quanto Dwyvach. No entanto, à medida que suas mãos se acostumaram à atividade, a lançadeira movia-se rapida­mente para a frente e para trás como um peixe no meio dos bambus, e o tecido aumentava com regularidade no tear; embora Dwyvach estivesse satisfeita com o progresso de Taran, ele mesmo, para sua surpresa, não estava.

— O padrão — murmurou, franzindo a testa. — O padrão... não sei, de certo modo, não me agrada.

— Ora, Errante — retrucou Dwyvach —, ninguém encos­tou uma espada na sua garganta; a escolha do padrão foi sua.

— Foi mesmo — admitiu Taran. — Mas agora que o vejo de perto, penso que deveria ter escolhido outro.

— Ah, ah! — Dwyvach deu uma risada seca. — Nesse caso, precisa se decidir entre duas coisas: terminar o manto que não terá prazer em usar, ou desfazer o trabalho e reco­meçá-lo. Pois o tear tece apenas o padrão escolhido.

Taran olhou seu trabalho demoradamente. Depois res­pirou fundo, suspirou e sacudiu a cabeça.

— Que seja. Vou recomeçar.

Nos dias seguintes empenhou-se na triste tarefa de re­tirar os fios e recarregar o tear. Mas, quando essa etapa foi concluída e ele recomeçou a tecer, deliciou-se ao constatar que o tecido se desenvolvia mais depressa que nunca; e sentiu-se reanimado diante do talento recém-descoberto.

— Este é bem melhor do que o outro — exclamou. — Mas nunca mais poderei usar um manto sem me lembrar de cada fio que o compõe!

Gurgi gritou triunfante e Dwyvach balançou a cabeça em sinal de aprovação.

— Bem tecido — disse. Sua expressão facial já não era tão sarcástica e ela olhou com afeição para Taran, esconden­do o sorriso.

— Suas mãos são habilidosas, Errante — disse, demons­trando que não estava acostumada a ser gentil. — O suficien­te para que se torne um dos melhores tecelões de Prydain. E se meu fuso e os nós dos seus dedos “encontraram-se” com mais freqüência do que você gostaria, foi porque julguei que você merecesse a repreensão. Se quiser, fique na minha casa, trabalhe no meu tear, e lhe ensinarei tudo que eu souber.

Taran não respondeu de imediato e, enquanto hesitava, a tecelã sorriu e falou novamente:

— Sei o que se passa no seu coração, Errante — disse. — O caminho de um jovem é agitado; e de uma jovem também... não sou tão idosa assim a ponto de ter esquecido. Seu rosto está me dizendo que não deseja ficar no Condado de Gwenith.

Taran balançou a cabeça, concordando.

— Queria tanto ser espadeiro e, da mesma forma, que­ria ser tecelão. Mas a senhora diz a verdade. Não é o cami­nho que pretendo seguir.

— Então precisamos dizer adeus — respondeu a tecelã. — Mas veja bem — acrescentou com o usual tom de voz rude —, se á vida é um tear, desfazer o padrão que se tece não é tarefa muito fácil.

Taran e Gurgi partiram outra vez, ainda em direção ao norte, e em pouco tempo o Condado de Gwenith já se dis­tanciara bastante. Embora Taran tivesse sobre os ombros o manto novo, e na bainha a espada nova, o prazer que sentia em pouco tempo deu lugar à inquietação. As palavras de Dwyvach não lhe saíam da cabeça e os pensamentos dele voltaram-se a um tear nos distantes Pântanos de Morva.

— E Orddu? — disse. — Além de fios, será que ela usa mais alguma coisa para tecer? De fato, o sabiá tem ciscado em busca de suas próprias minhocas. Mas será que tenho meu próprio padrão ou não passo de um fio no tear de Orddu? Se é assim, então receio que eu seja um fio de pouca utilida­de. De qualquer maneira — acrescentou, dando uma risada triste —, é um fio longo e embaraçado.

Mas essas idéias sombrias afastaram-se de sua mente quando, alguns dias mais tarde, Melynlas levou-o para o topo de uma elevação e, ao olhar para baixo, Taran deparou-se com o condado mais lindo que já havia visto. Uma grande extensão de pinheiros circundava os campos largos e bem cuidados, verdes e fartos. Raios de sol faziam brilhar os chalés brancos com telhados de colmo. Até mesmo o ar parecia-lhe diferente, fresco, com um toque da essência penetrante das folhagens sempre-vivas. Enquanto observava, seu coração acelerou e um estranho entusiasmo dominou-o.

Gurgi aproximou-se dele, cavalgando.

— Gentil mestre, podemos parar aqui?

— Sim — murmurou Taran, sem conseguir afastar os olhos dos campos e chalés. — Sim. Aqui podemos descansar.

Guiou Melynlas morro abaixo; logo atrás seguia Gurgi a meio galope. Após cruzarem um riacho, Taran freou o cava­lo, quando avistou um homem robusto e idoso que cavava a terra próxima à beira d’água. Ao lado dele havia dois baldes de madeira presos a uma canga, e nesses baldes o homem despejava, cuidadosamente, pás cheias de barro marrom-cla­ro. Os cabelos e a barba cinza-escuros estavam recém-corta­dos; apesar da idade, seus braços pareciam tão vigorosos quanto os do Ferreiro Hevydd.

— Saudações, mestre cavador — cumprimentou Taran. — Que lugar é este?

O homem virou-se, enxugou com o braço a testa cheia de rugas acentuadas e dirigiu a Taran os olhos azuis e intensos.

— A água na qual seu cavalo está pisando... e, a propó­sito, fazendo lama... é o Córrego Fernbrake. O condado? Aqui é o Condado Merin.


 

A Roda do Ceramista

— Já lhe disse onde você está — prosseguiu o homem numa atitude amigável, assim que Taran desmontou à margem do córrego. — Agora importa-se de me dizer quem você é, e o que o traz a um lugar cujo nome desconhecia? Perdeu-se e encontrou Merin, quando procurava outro condado?

— Chamo-me Errante — respondeu Taran. — Quan­to a ter perdido o caminho — acrescentou com uma risa­da —, não posso dizer que sim, pois nem eu mesmo sei aonde vou.

— Então Merin é um lugar tão bom quanto qualquer outro para você interromper sua jornada — disse o ho­mem. — Venha comigo, se quer saber que tipo de hospi­talidade posso oferecer-lhe.

Assim que o homem despejou a última pá de barro nos baldes de madeira, Taran aproximou-se e se ofereceu para carregá-las; desde que o homem estava de acordo, acomodou os ombros por baixo da canga. Mas os baldes estavam mais pesados do que Taran imaginara. Sua testa logo verteu suor; mal conseguia cambalear sob o peso que parecia redobrar a cada passo, e a cabana que o homem indicava parecia se distanciar cada vez mais, em vez de se aproximar.

— Se procurava argila para consertar sua chaminé — disse Taran, quase sem fôlego —, encontrou-a muito longe!

— Você não descobriu o truque dessa canga — disse o homem, com um sorriso largo diante do esforço de Taran.

Nos ombros apoiou os baldes que Taran devolvera de boa vontade, e caminhou tão depressa, apesar do peso da carga, que por pouco não se distanciou dos companheiros. Ao chegar a um galpão comprido, despejou a argila numa tina grande, de madeira, e então fez um gesto para que os viajantes entrassem na cabana.

Lá dentro Taran viu mesas de cavaletes e prateleiras e, sobre elas, todo tipo de vasilhame, taças de barro cozido, jarros graciosos e, entre esses, ao acaso, peças cuja arte e beleza deixaram Taran sem palavras. Apenas uma vez, no tesouro de Lorde Gast, tinha visto trabalho artesanal da­quela qualidade. Voltou-se, atônito, ao homem idoso que começara a dispor travessas e tigelas sobre uma mesa de carvalho.

— Ao lhe perguntar se procurava argila para consertar a chaminé, falei como um tolo — disse Taran, fazendo uma reverência em sinal de humildade. — Se este é seu trabalho, já o vi antes e conheço o senhor, Annlaw Modelador-de-Barro.

O ceramista concordou, balançando a cabeça.

— É mesmo o meu trabalho. Se você o viu, é possível que, de fato, me conheça. Pois há tantos anos dedico-me à minha arte, Errante, que não sei dizer onde o barro termina e Annlaw começa... ou se, na realidade, são a mesma coisa.

Taran olhou de perto o vasilhame que abarrotava a cabana, a taça de vinho recém-concluída, moldada com mais requinte do que aquela que Taran havia visto entre os te­souros de Lorde Gast, as mesas longas respingadas de argila e cobertas de frascos de tintas, corantes e esmaltes. O con­junto de peças que julgara ser louça de cozinha, agora per­cebia, maravilhado, era tão belo quanto as taças de vinho. Tudo se originava das mãos de um mestre. Virou-se para Annlaw.

— Disseram-me — falou Taran — que uma peça feita pelo senhor vale mais que todo o tesouro de um lorde de cantreve, e estou de pleno acordo. E tudo isto — sacudiu a cabeça admirado — é um tesouro em si mesmo.

— Sim, sim! — exclamou Gurgi. — Oh, talentoso cera­mista ganha riquezas e fortunas com suas formas criativas!

— Riquezas e fortunas? — retrucou Annlaw, sorrindo. — Pão para minha mesa, melhor dizendo. A maioria dessas caçarolas e tigelas segue para os condados menores, que não contam com seus próprios ceramistas. Assim como eu lhes dou o que precisam, eles me dão o que necessito; e tesouro é o que menos preciso. Minha alegria está na arte e não no lucro. Por acaso todas as fortunas de Prydain ajudariam meus dedos a moldar uma tigela de melhor qualidade?

— Há quem diga — disse Taran, um tanto cauteloso ao olhar de relance a roda de ceramista — que trabalho como o seu é encantado.

Ao ouvir essas palavras, Annlaw inclinou a cabeça para trás e deu uma boa risada.

— Quem me dera, pois haveria de me poupar muito trabalho. Não, não, Errante, minha roda, infelizmente, é como outra qualquer. Mas é verdade que — acrescentou — muito tempo atrás, Govannion, o Manco, artesão-mestre de Prydain, manufaturou diversas ferramentas enfeitiçadas. Entregou-as àqueles que, segundo ele, haveriam de usá-las com destreza e sensatez, mas, uma por uma, caíram nas garras de Arawn, Lorde da Morte. Agora não há mais nenhuma.

— Mas Govannion também descobriu e registrou os segredos supremos de todas as artes — prosseguiu Annlaw.

— Estes também foram roubados por Arawn, que os es­conde em Annuvin, onde ninguém, jamais, poderá deles se beneficiar.

O rosto do ceramista ficou sério.

— Durante toda a vida fiz o possível para redescobri-los, desvendar-lhes a essência. Muito aprendi... aprendi com a prá­tica, assim como uma criança aprende a caminhar. Mas meus passos falsearam. O saber mais profundo encontra-se fora do meu alcance. Há de ser sempre assim, é o que parece.

— Dê-me a chance de conquistar esta sabedoria — disse Annlaw — e não sentirei falta de ferramentas mágicas. Dê-me a chance de encontrar o conhecimento. E além des­tas aqui — acrescentou, erguendo as mãos cobertas com uma crosta de argila —, nada mais precisarei.

— Mas o senhor sabe o que procura — respondeu Taran.

— Eu, infelizmente, procuro sem ao menos saber onde procurar.

Então contou a Annlaw a respeito de Hevydd, o Ferreiro, de Dwyvach, a Tecelã, da espada e do manto feitos por ele.

— Sentia orgulho do meu trabalho — continuou Taran.

— Entretanto, no final, nem a bigorna nem o tear me satisfizeram.

— Que tal a roda de ceramista? — perguntou Annlaw. Quando Taran reconheceu que nada sabia a respeito dessa arte, e pediu a Annlaw que o deixasse ver como se moldava o barro, o velho ceramista concordou, de boa vontade.

Annlaw arregaçou a veste rude e sentou-se próximo à roda que ele, rapidamente, fez girar, e sobre ela jogou um punhado de argila. O ceramista debruçou-se com certa hu­mildade sobre seu trabalho e estendeu as mãos com a suavi­dade de quem ergue um pássaro sem penas. Diante dos olhos de Taran, Annlaw começou a moldar um recipiente alto e estreito. Enquanto Taran olhava abismado, a argila parecia tremeluzir e mudar a cada momento sobre a roda, que girava depressa. Agora Taran compreendia as palavras de Annlaw, pois não via a diferença entre os dedos hábeis do ceramista e a argila, como se as mãos de Annlaw desli­zassem no barro e lhe dessem vida. Annlaw estava quieto e concentrado; seu rosto cheio de rugas tinha se iluminado; nele não se percebia mais a idade. Taran sentiu o coração encher-se de um contentamento que parecia emanar do pró­prio ceramista e, nesse instante, compreendeu que estava na presença de um verdadeiro mestre-artesão, maior do que todos que conhecera.

— Fflewddur estava enganado — murmurou Taran. — Se existe feitiço, não está na roda do ceramista, e sim no próprio ceramista.

— Não há feitiço algum — respondeu Annlaw, sem se desviar do trabalho. — Um dom, talvez, mas um dom que resulta de muito trabalho.

— Se eu conseguisse fazer algo tão belo, haveria de atribuir ao trabalho — disse Taran.

— Então, sente-se — disse, cedendo o lugar a Taran. — Modele a argila.

Quando Taran argumentou que estragaria a vasilha que estava quase pronta, o ceramista limitou-se a rir.

— Você vai estragá-la, com toda a certeza. Vou jogá-la na gamela, misturá-la com outra argila e, mais dia menos dia, será útil outra vez. Não se perderá. Na verdade, nada se per­de, mas retorna sob uma ou outra forma.

— Mas quanto ao senhor — observou Taran —, o ta­lento que lhe dedicou será desperdiçado.

O ceramista sacudiu a cabeça.

— Não é bem assim. Talento não é como água que se retira de um pote de barro até que este esvazie. Não. Quan­to mais se retira, mais sobra. O coração se renova, Errante, e o talento acompanha-o e cresce. Então, escute. As mãos... assim. Os polegares... assim.

Desde o primeiro instante em que Taran sentiu a argila rodopiando sob os dedos, seu coração pulou de alegria, a mesma alegria que havia visto no rosto do ceramista. O orgu­lho de forjar a própria espada e tecer o próprio manto de­cresceu diante dessa nova descoberta que o fazia exultar. Mas suas mãos hesitaram e a argila deformou-se. Annlaw in­terrompeu a roda. A primeira tigela de Taran estava tão assimétrica e disforme que, apesar da decepção, ele inclinou a cabeça para trás e riu.

Annlaw bateu-lhe no ombro, afetuosamente.

— Boa tentativa, Errante. A primeira tigela que mol­dei ficou tão malfeita... ou pior que a sua. Você tem talen­to. Mas antes de aprender o ofício é preciso conhecer o barro. Cavar, peneirar e amassar, conhecer melhor a natu­reza da argila do que a de seu melhor amigo. E então tritu­rar pigmentos para os esmaltes, entender como o forno atua neles.

— Annlaw Modelador-de-Barro — disse Taran, e sua voz baixa não escondia a ansiedade —, ensina-me sua arte? De tudo que existe é o que mais quero fazer.

Por alguns instantes Annlaw parecia hesitar. Então diri­giu um profundo olhar a Taran.

— Só conseguirei lhe ensinar o que você puder apren­der — disse o ceramista. — Quanto, só o tempo dirá. Fique, se é sua vontade. Amanhã começaremos.

Os dois viajantes acomodaram-se num canto confor­tável do galpão do ceramista. Gurgi enroscou-se no leito de palha, mas Taran sentou-se abraçando os joelhos dobrados.

— É estranho — sussurrou. — A medida que conheço melhor o povo dos condados, mais me afeiçôo a eles. E o Condado de Merin, comparado aos outros, foi, à primeira vista, o que mais me atraiu.

Era uma noite tranqüila e silenciosa. No escuro, Taran sorriu, saudoso.

— No instante em que vi este lugar pensei que fosse o único lugar onde gostaria de viver. E que... que mesmo Eilonwy poderia ser feliz aqui.

— E na roda de Annlaw — prosseguiu —, quando mi­nhas mãos tocaram a argila, percebi que poderia me conside­rar feliz por ser um ceramista. Mais do que ferreiro, mais do que tecelão... é como se eu pudesse falar através dos meus dedos, como se pudesse dar forma ao que estava no meu co­ração. Entendo o que Annlaw quis dizer. Não há diferença entre ele e seu trabalho. De fato, Annlaw entrega-se à argila e lhe dá a própria vida. Se eu também aprender a fazer isso...

Gurgi não respondeu. A criatura exausta dormia pro­fundamente. Taran sorriu e cobriu os ombros de Gurgi com o manto.

— Durma bem — disse. — Parece que chegamos ao fim da nossa jornada.

Annlaw manteve a palavra. Nos dias que se seguiram, o ceramista expôs Taran a tarefas tão importantes quanto o manuseio da argila: encontrar os tipos de solo apropriados, levando-se em consideração textura e qualidade, peneirar, mis­turar e dar consistência ao barro. Gurgi participava de todas as atividades e logo seu pêlo cobriu-se de camadas de poeira, lama e pó de esmalte, fazendo-o parecer uma tigela de barro ainda não cozida apoiada num par de pernas magricelas.

O alegre verão passava depressa, e quanto mais Taran observava o ceramista em atividade, maior era sua admira­ção. Na amassadeira socava a argila com tanto vigor quanto Hevydd trabalhava na bigorna; e na roda o trabalho comple­xo era feito com tal destreza que superava Dwyvach, a Tece­lã. Mesmo acordando bem cedo, Taran sempre encontrava o ceramista de pé, trabalhando. Annlaw era incansável e, mui­tas vezes, passava noites sem dormir e dias sem comer, con­centrado no trabalho que estava na sua roda. Não lhe agra­dava repetir um modelo, portanto fazia o possível para me­lhorar o que ele mesmo tinha criado.

— Água parada não é boa bebida — disse Annlaw. — Talento estagnado é pior. E aquele que caminha sobre as próprias pegadas acaba voltando ao ponto de partida.

Somente com a chegada do outono, Annlaw deixou Taran fazer nova tentativa na roda. Desta vez, a tigela que Ta­ran modelou não ficou tão deformada quanto a anterior.

Analisando a peça cuidadosamente, Annlaw balançou a cabeça em sinal afirmativo e lhe disse:

— Você já aprendeu um pouco, Errante.

Contudo, para desânimo de Taran, Annlaw jogou a va­silha na amassadeira.

— Não se preocupe — disse o ceramista — Quando você moldar uma que valha a pena guardar, será queimada no forno.

Embora Taran receasse que esse tempo jamais chegaria, não demorou muito para que Annlaw considerasse bem pro­porcionada e pronta para ir ao forno uma tigela rasa de for­mato simples. Colocou-a no meio de caçarolas e tigelas que moldara para o povo do Condado de Isav, num forno mais alto e mais profundo que a fornalha de Hevydd. Enquanto Annlaw, com toda a calma, terminava outras vasilhas para os habitantes do condado, a ansiedade de Taran era tão grande que lhe parecia estar, ele próprio, cozinhando nas labaredas. Mas, finalmente, quando o processo terminou e as peças es­friaram, o ceramista retirou a tigela, girou-a nas mãos, en­quanto Taran aguardava com a respiração suspensa, e deu-lhe uma batida com a ponta do dedo coberta de argila. Virou-se para Taran e sorriu.

— Soa bem. Trabalho de principiante, mas não se envergonhe.

O coração de Taran encheu-se de emoção, como se tivesse feito uma tigela de vinho muito mais bonita do que todas que Lorde Gast tinha visto.

Mas sua alegria logo se transformou em desespero. Du­rante o outono Taran moldou outras vasilhas; no entanto, para sua decepção cada vez maior, nenhuma o satisfazia, ne­nhuma correspondia às suas expectativas, apesar de sua dedi­cação ao trabalho.

— O que está faltando? — perguntou admirado a Annlaw. — Fui capaz de forjar bem uma espada e, da mesma forma, teci um manto. Mas, desta vez, o que mais queria do­minar está fora de meu alcance. Será que me foi negada a arte que mais almejei?

Baixou a cabeça e seu coração congelou depois que pronunciou essas palavras, pois, no íntimo, sabia que atingira a verdade.

Annlaw não o contradisse, mas olhou para ele por al­gum tempo, sentindo uma tristeza profunda.

— Por quê? — sussurrou Taran. — Por que é assim?

— É uma pergunta séria — finalmente Annlaw respon­deu. E apoiou a mão no ombro de Taran. — Na verdade, ninguém sabe a resposta. Há aqueles que trabalharam duran­te toda a vida para adquirir o dom, fazendo o máximo de esforço para afinal concluir que se enganaram; e aqueles que possuíam o talento inato, mas jamais se deram conta; aqueles que desistiram muito cedo; e aqueles que jamais deviam ter começado.

— Considere-se feliz — prosseguiu o ceramista — por ter compreendido agora; não há de passar anos de sua vida a esperar em vão. Ao menos isso você aprendeu, e nenhum aprendizado é inútil.

— Então, o que me resta fazer? — Taran perguntou. A tristeza e a amargura que conhecera no vale de Craddoc agora o inundavam.

— Além de se moldar um pote, há outros caminhos que levam à felicidade — respondeu Annlaw. — Você tem sido feliz em Merin. E pode continuar a ser. Trabalho não há de faltar. A ajuda que você pode prestar como amigo e apren­diz é necessária e valiosa para mim. Sem dúvida! Veja, por exemplo — continuou a dizer num tom animado —, amanhã pretendo mandar a louça para o Condado de Isav. Mas, na minha idade, um dia de viagem é muito longo. Por amizade, levaria essa carga para mim?

Taran concordou.

— Levarei sua louça para Isav.

Dizendo isso, afastou-se, sabendo que sua felicidade havia terminado, assim como uma tigela imperfeita despedaçada no fogo.


 

Os Saqueadores

Na manhã seguinte, conforme prometera, Taran carregou Melynlas e o pônei com a louça do ceramista e, acompanhado de Gurgi, partiu para o Condado de Isav. Taran sabia que

Annlaw poderia ter mandado dizer ao povo do condado que viesse buscar o próprio vasilhame.

— Não sou eu que lhe presto um serviço, e sim ele que me faz uma gentileza — disse Taran a Gurgi. — Parece que pretendia me dar tempo para que eu pudesse encon­trar minhas próprias idéias. Quanto a isso — acrescentou com pesar —, nada consegui. Queria ficar em Merin, mas o que me prende aqui não é suficiente. Considero Annlaw um amigo e mestre de sua arte. Mas jamais dominarei a sua arte.

Ainda pensativo, e com o coração perturbado, Taran chegou a Isav um pouco antes do anoitecer. Era o menor condado que até agora conhecera, com pouco mais de meia dúzia de chalés e um pequeno pasto para um punha­do de carneiros e gado. Um grupo de homens estava reu­nido próximo ao curral. Quando Taran se aproximou, a cavalo, pôde observar os rostos tensos e tristes.

Perplexo diante do que via, disse em voz alta o seu nome e que trazia a cerâmica de Annlaw Modelador-de-Barro.

— Saudações — disse-lhe um homem que se chamava Drudwas Filho de Pebyr — e, ao mesmo tempo, adeus. Nos­sa gratidão a Annlaw e a você. Mas, se aceitar nossa hospita­lidade, talvez veja o seu sangue verter.

— Bandidos vagueiam pelas colinas — prosseguiu Drudwas, rapidamente, em resposta à expressão contraída de Taran. — Um bando, talvez 12 homens. Soubemos que já saquearam dois condados e, não satisfeitos com uma ovelha ou vaca para se alimentarem, mataram todo o rebanho ape­nas por divertimento. Hoje, há pouco tempo, vi cavaleiros no alto da colina e à sua frente um homem mal-encarado, alourado, numa égua castanho-avermelhada.

— Dorath! — exclamou Taran.

— Como assim? — perguntaram-lhe os habitantes do condado. — Conhece essa gente?

— Se é a Legião de Dorath, conheço-os muito bem — respondeu Taran. — São guerreiros mercenários; e se ninguém os contrata, suponho, dão-se por satisfeitos quando matam mesmo sem remuneração. São brutos, já constatei, e cruéis como os Caçadores de Annuvin.

Sério, Drudwas concordou, com um aceno de cabeça.

— É o que dizem. Pode ser que nos poupem — conti­nuou —, mas duvido. O Condado de Isav é peixe pequeno, no entanto, onde há poucos defensores, os motivos para ata­car são muitos.

Taran olhou para os homens. A julgar pelos seus rostos e por sua atitude sabia que coragem não lhes faltaria; mas ouviu outra vez a gargalhada de Dorath e lembrou-se da es­perteza e perversidade do homem.

— E se eles atacarem — perguntou —, o que farão vocês?

— O que espera que a gente faça? — Drudwas desaba­fou, furioso. — Pagar-lhes tributo e implorar que nos poupe? Entregar nossos animais às suas espadas e nossos lares às suas tochas? O Condado de Isav sempre foi pacífico; a agricultura e a pecuária são motivos de orgulho para nós; a guerra, não. Mas pretendemos enfrentá-los. Temos outra saída?

— Posso voltar a Merin — respondeu Taran — e tra­zer-lhes ajuda.

— Seria longe demais e muito demorado — respondeu Drudwas. — Mesmo que fosse possível, eu não o faria, pois Merin ficaria sem defesa. Não. Preferimos assim. Somos sete contra 12. Meu filho Llassar... — começou a dizer, apontando um rapaz alto, que no rosto deixava transparecer ansiedade, e era pouco mais velho do que Taran quando Coll nomeou-o Porqueiro-Assistente.

— Sua conta está errada — interrompeu Taran. — Vocês não são sete; são nove. Gurgi e eu vamos ficar aqui.

Drudwas sacudiu a cabeça, negativamente.

— Você não nos deve serviço algum ou obrigação, Er­rante. Suas espadas são bem-vindas, mas não as pediremos.

— No entanto, são suas — retrucou Taran, e Gurgi concordou. — Podem prestar-me a atenção? Nove homens têm condições de enfrentar uma dúzia e vencer. Mas, no que se refere a Dorath, número importa menos do que habilida­de. Mesmo que ele estivesse só, eu o temeria tanto quanto receio os 12. Há de lutar com astúcia e fazer o possível para obter o máximo com o mínimo custo. Precisamos respon­der-lhe à altura.

Os habitantes do condado ouviam atentamente, enquan­to Taran falava de um ardil para convencer os cavaleiros de que eles próprios estavam em minoria, e atacá-los quando Dorath não estivesse esperando nada além de uma defesa fraca.

— Se dois homens ficarem de guarda no redil e dois no curral, preparados para agir no momento certo — disse Ta­ran —, pegarão o bando desprevenido, detendo-os por al­guns instantes até que nós ataquemos de emboscada, por trás. Ao mesmo tempo, se as mulheres que ficarem em casa fizerem uma barulheira com ancinhos e pás, haverá de pare­cer que outros espadachins chegaram, apressados, para se juntarem a nós.

Drudwas ficou pensativo por algum tempo, e afinal concordou.

— Seu plano pode ser bom, Errante. Mas receio por aqueles que ficarem nos currais, pois terão de repelir o ata­que por todos nós. Se algo der errado, terão poucas chances de escapar.

— Serei um dos que ficarão de vigia no redil — afirmou Taran.

— E eu serei o outro — interveio Llassar, rapidamente. Drudwas franziu a testa.

— Não é por você ser meu filho que eu o dispensaria. Você é um bom rapaz e gentil com o rebanho. Penso na idade que você tem...

— Do rebanho me encarrego — exclamou Llassar. — Por direito meu lugar é ao lado do Errante.

A conversa foi rápida, e logo todos concordaram que Llassar ficasse vigiando com Taran, enquanto Drudwas esta­ria junto ao rebanho, montando guarda com Gurgi, que, as­sustado, recusava-se a ficar longe de Taran. Quando os pla­nos se definiram e os homens do condado posicionaram-se nas árvores um pouco além do redil, uma lua cheia havia surgido acima das nuvens finas. A luz fria marcava as extremi­dades das sombras e os contornos do mato e dos galhos. No redil, Taran e Llassar estavam agachados no meio do rebanho inquieto.

Por algum tempo nenhum deles falou. À luz intensa da lua, o rosto de Llassar parecia a Taran ainda mais infantil do que antes; percebeu que o jovem estava com medo, mas fazendo o maior esforço para não o demonstrar. Embora Taran tam­bém se sentisse inseguro, sorriu para Llassar, demonstrando confiança. Drudwas estava certo. O menino era novo, inex­periente. E no entanto... Taran sorriu, pois sabia que ele pró­prio, na idade de Llassar, teria exigido o mesmo direito.

— Seu plano é bom, Errante — finalmente disse Llassar, com a voz sussurrante.

Taran sabia que ele falava mais para aliviar a própria inquietação do que por qualquer outro motivo.

— Melhor do que teríamos feito. Não pode falhar.

— Todos os planos podem falhar — disse Taran, talvez ríspido.

Em seguida silenciou. Temores, fazendo lembrar folhas ao vento frio, começaram a se agitar dentro dele. O suor encharcou seu corpo sob a jaqueta de lã. Quando chegara a Isav era um desconhecido, no entanto os habitantes do con­dado deram-lhe atenção e logo lhe entregaram seu destino. Aceitaram seu plano quando outro talvez fosse melhor; se algo falhasse e vidas se perdessem, a culpa seria somente dele. Agarrou o cabo da espada e estreitou os olhos para ver melhor no escuro. Nada se movia e até as sombras pareciam estáticas.

— Você se chama Errante — continuou Llassar em voz baixa, um pouco acanhado. — No meu entender, se alguém vagueia é porque procura. É verdade?

Taran sacudiu a cabeça.

— Certa vez quis ser ferreiro e outra, tecelão. Mais tar­de quis ser um ceramista. Mas acabou. Talvez agora eu deva vaguear sem procurar obter coisa alguma.

— Se você não está à procura de nada — disse Llassar, dando uma risada simpática —, então sua chance de encon­trar é mínima. Nossa vida aqui não é fácil — continuou a dizer. — Não é boa vontade que nos falta, mas conheci­mento. Os Filhos de Don há muito tempo apóiam Prydain contra o Lorde de Annuvin, e somos gratos à sua proteção; no entanto, os segredos que Arawn, Lorde da Morte, nos roubou... se pudéssemos recuperá-los, diz o meu pai, tería­mos escudos e espadas mais resistentes que o exército do próprio Príncipe Gwydion. Mas, apesar disso, Isav é meu lar e sou feliz aqui.

Llassar sorriu de lado.

— Não o invejo, Errante.

Por um momento Taran não respondeu. Então murmurou:

— Eu é que o invejo.

Nada mais disseram e ficaram atentos a qualquer ruído. A medida que a noite avançava, a lua, esmaecendo por trás de nuvens espessas, perdeu o formato e sua luz espalhou-se como uma névoa pálida. Pouco depois, Llassar soltou a respi­ração, aliviado.

— Eles não virão — disse. — Já se foram.

Mal acabara de falar e a escuridão estilhaçou-se, formando figuras de guerreiros armados. Taran pôs-se de pé num salto, assim que o portão foi escancarado.

Taran tocou a trompa de combate e em seguida inves­tiu contra o guerreiro que, aterrorizado, deu um grito e cam­baleou para trás. Llassar levantara-se no mesmo instante que Taran e lançou-se contra a turba de assaltantes próximos ao portão, golpeando-lhes com a lança. Taran atacava às cegas, lutando não apenas contra os invasores, mas contra o súbito pavor de que seu plano pudesse falhar, pois os bandidos ha­viam chegado sorrateiramente, sem fazer ruído. Pouco de­pois, em meio ao balir dos animais assustados, ouviu-se o grito dos homens do condado surgindo das copas das árvo­res; ao mesmo tempo, vinha das cabanas o estrondo de ferro batendo contra ferro.

Próximos ao redil os bandidos ficaram indecisos. Os oponentes de Llassar tinham tombado. Taran viu de relance o rapaz passar por ele e dar mais um golpe com a lança. No portão, a investida esmoreceu quando os invasores voltaram suas armas para os homens do condado. Um guerreiro, ru­gindo como uma fera, erguendo o longo punhal, invadiu o cercado dos animais como se pretendesse destruir tudo à sua frente; Taran agarrou-o, mas o homem se desvencilhou e o golpeou. Era Gloff.

O guerreiro reconheceu Taran; de início Gloff assustou-se, mas, em seguida, ao mover o punhal na mão, expressou um sorriso feio que denotava prazer e ansiedade. Gloff deu o bote e Taran arremessou sua arma para defender-se. Mas o guerreiro adiantou-se e, com a mão livre, cobriu os olhos de Taran, enquanto a lâmina tremulava, movendo-se rapida­mente para desferir o golpe mortal. Um corpo jogou-se en­tre eles. Era Llassar. Taran gritou para alertar o rapaz, que, por sua vez, tentava aplacar o golpe com o cabo da lança. Rosnando, Gloff desviou o ataque e, cruelmente, atingiu Llassar. O pastor caiu. Com um grito de raiva, Taran ergueu a espada. De súbito, Drudwas surgiu a seu lado. Gloff deu um grito lancinante quando a lâmina do agricultor abateu-o.

Diante do ataque violento do povo do condado, os guer­reiros de Dorath retrocederam. No meio do tumulto de ho­mens correndo, Taran percebeu que havia se afastado do redil. Arriscando um rápido olhar para trás não viu nem Drudwas nem Llassar, num ímpeto, forçou a passagem. Tochas ardiam, e ele viu que as mulheres e as meninas de Isav haviam se unido aos homens, agredindo os invasores com pás, anci­nhos e forcados. Taran olhou em volta à procura de Gurgi e gritou seu nome, mas sua voz foi sufocada pelo alarido.

No curral ouviu-se um mugido assustador ao mesmo tempo que uma forma escura irrompeu através das estacas. Taran, quase sem fôlego, viu um touro negro, furioso, dando chifradas e atacando os invasores. Gurgi, aos berros, agarrado ao lombo do animal, batendo com os calcanhares nos flancos poderosos, impelia-o contra os restantes do bando de Dorath.

— Estão fugindo! — gritou um dos homens do condado. Taran foi à frente, correndo. Os atacantes, que haviam deixado as montarias à margem do bosque, agora corriam para alcançá-las, mas foram cercados pela gente do condado e pelos chifres cortantes do touro enfurecido. Taran viu, de relance, Dorath montado na égua castanha e correu até lá. Mas Dorath bateu as esporas e saiu a galope em direção ao bosque.

Taran virou-se e correu até os estábulos, chamando Melynlas com um assobio. Um homem do condado agarrou-o pelo braço e gritou:

— A vitória é nossa, Errante!

Foi então que Taran percebeu que o barulho do com­bate havia cessado. Dorath desaparecera. Taran dirigiu-se ra­pidamente ao redil, onde a mulher de Drudwas estava ajoe­lhada, apoiando o filho nos braços.

— Llassar! — gritou Taran, inconformado, abaixando-se ao lado do pastor. Os olhos do rapaz abriram-se e ele tentou sorrir para Taran.

— O ferimento não é muito profundo — disse Drudwas.

— Ele vai viver para cuidar do rebanho.

— Sim, é verdade — disse Llassar a Taran —, e graças a você terei um rebanho para cuidar.

Taran apoiou a mão no ombro do rapaz.

— E a você — respondeu —, a você devo muito mais do que carneiros.

— Uma boa metade do bando não fará mais pilhagens — disse Drudwas —, seja no Condado de Isav, seja em qual­quer outro condado. Os demais já se dispersaram e vai de­morar muito até que os ferimentos cicatrizem. Você foi mui­to útil a nós, Errante, você e seu companheiro. Eram desco­nhecidos quando chegaram aqui. Agora não mais os conside­ramos estranhos e sim amigos.


 

O Espelho

Embora o povo de Isav insistisse para ele ficar, Taran despediu-se de todos e, sem pressa, retomou a Merin. Não chegou a saborear a derrota da Legião de Dorath, pois suas idéias ainda o inquietavam; suas perguntas ainda não tinham en­contrado respostas; e ele estava mais desanimado do que nunca. A Annlaw revelou pouco sobre seus feitos em Isav; foi Gurgi quem, estourando de orgulho, contou o que lhes acontecera.

— Sim, sim! — exclamou Gurgi. — Ladrões perver­sos fugiram gritando! Oh, assustaram o gentil mestre. E as­sustaram o corajoso Gurgi também! E touro enorme deu passadas pesadas, e com chifres afiados deu espetadas e estocadas!

— Você deveria estar satisfeito, Errante — disse Annlaw a Taran, que permanecera em silêncio por algum tempo. — Salvou a vida e as moradias de um povo honesto.

— Drudwas disse-me que não sou um estranho e sim um amigo. Isso me alegra — respondeu Taran. — Mas gostaria — acrescentou — de não ser um estranho para mim mesmo. A quem sou útil? — desabafou. — A mim mes­mo, a alguém? Aparentemente, a ninguém.

— Os habitantes de Isav haveriam de contradizê-lo — respondeu o ceramista. — E deve haver outros que receberiam com satisfação uma lâmina forte e um coração destemido.

— Uma espada sob contrato? — retrucou Taran com amargura. — E seguir o mesmo caminho de Dorath?

Sacudiu a cabeça.

— Quando menino, sonhava com aventura, glória, hon­radas no campo de batalha. Agora penso que essas coisas são sombras.

— Se você as considera sombras, então as vê do modo que são — concordou Annlaw. — Muitos são aqueles que perseguiram a honra, e nessa perseguição perderam mais do que podiam conquistar. Mas eu não estava falando de espada sob contrato...

De súbito Annlaw interrompeu-se e, por um instante, ficou pensativo.

— Vê-los do modo que são — murmurou, voltando às palavras que dissera antes. — Talvez... talvez...

O ceramista fixou o olhar em Taran.

— A sabedoria antiga do condado revela como alguém pode se ver como é na realidade. Se é mesmo verdade, ou não passa de um conto da carochinha, não posso julgar — continuou o ceramista, pausadamente. — Mas a lenda afirma que aquele que procura o conhecimento de si mesmo preci­sa apenas se mirar no Espelho de Llunet.

Embora Annlaw falasse em voz baixa, Taran ouviu as palavras do ceramista como se fossem um trovão.

— O Espelho de Llunet? — exclamou Taran.

Desde que saíra do vale de Craddoc, afastara todo e qualquer pensamento a respeito do Espelho. A idéia ficara escondida, esquecida, e os dias cobriram-na como folhas mortas sobre uma sepultura.

— O Espelho — repetiu com a voz abafada —, desde o início, o objetivo da minha busca. Havia desistido. Agora en­contro-o quando menos o procuro?

— Sua busca? — disse Annlaw, perplexo.

Tinha ficado de pé e, preocupado, olhava fixamente para Taran.

— Disso você não havia me falado, Errante.

— Falar sobre isso não seria motivo de orgulho pa­ra mim.

Mas agora que Annlaw, com um olhar amável no rosto, ouvia em silêncio, Taran, aos poucos, conseguiu falar de Caer Dallben, de Orddu, dos locais aonde a busca o conduzira, da morte de Craddoc e de seu próprio desespero.

— Houve tempo em que tudo o que eu queria era encontrar o Espelho. Agora, mesmo que o tivesse em minhas mãos, teria pavor de olhar-me nele.

— Entendo seus temores — respondeu o ceramista, calmamente. — É possível que o Espelho abale seu coração... ou lhe deixe ainda mais confuso. Este é o risco. A escolha é sua.

— Mas saiba de uma coisa, Errante — prosseguiu Annlaw, enquanto Taran, em silêncio, pressionava os lábios. — O es­pelho não é como você imagina. Encontra-se próximo daqui, nas Montanhas Llawgadarn, a apenas dois dias de distância, numa gruta, na parte mais alta do Lago de Llunet. O Espelho de Llunet é uma poça d’água.

— Uma poça? — perguntou Taran, admirado. — Que tipo de feitiço lhe dá esse poder? Deve ser enfeitiçada.

— É sim — respondeu o ceramista —, para aqueles que pensam assim.

— E o senhor? — perguntou Taran em voz baixa. — Já tentou olhar-se nele?

— Não, isso não fiz — respondeu Annlaw. — Porque sei muito bem o que sou: Annlaw Modelador-de-Barro. Acon­teça o que acontecer, esse entendimento será útil a mim pela vida afora.

— E quanto a mim — murmurou Taran —, que tipo de conhecimento servirá para minha vida?

Taran não disse nada por algum tempo. Finalmente er­gueu a cabeça.

— É verdade. Tenho medo de olhar-me no Espelho e saber o que tem a me dizer. Mas a vergonha já conheço! — exclamou de súbito, num tom amargo. — Devo também conhecer a covardia?

A decisão que tomara deu-lhe pouco alento. À primeira luz, enquanto ele e Gurgi selavam as montarias, suas dúvidas esfriaram-no mais do que a névoa do outono tardio. Não obstante, uma vez feita a escolha, deixou Merin em ritmo ligeiro cavalgando para o norte, na direção das Montanhas Llawgadarn, orientando-se pelo pico do Monte Meledin, pois, segundo Annlaw dissera, seria ao sopé daquele monte que encontraria a gruta. Os companheiros cavalgaram em silêncio num galope constante, parando apenas quando o dia já escu­recera e não podiam mais guiar os cavalos ao longo das tri­lhas. Acamparam no tapete macio de folhas de pinheiros, mas uma profunda inquietude dominou os dois viajantes, e pouco dormiram.

No dia seguinte, ao alvorecer, juntaram o equipamento e cavalgaram num bom ritmo ao longo da crista de uma cor­dilheira. Pouco depois Taran gritou e apontou para baixo. O Lago de Llunet tinha a forma de um ovo alongado e brilhava ao sol da manhã. As águas eram calmas, azuis, e o próprio lago parecia um espelho perfeito contido pelas árvores ali­nhadas. A certa distância erguia-se o Monte Meledin, alto mas aparentemente leve, envolto na neblina que ainda se prendia aos longos flancos.

O coração de Taran batia mais rápido à medida que desciam em direção às margens do lago. Perto do Meledin, o terreno apresentava declives pronunciados; trechos curtos de prados terminavam em desfiladeiros não muito profundos. Junto de um riacho que vinha do alto da montanha, os com­panheiros amarraram suas montarias. Taran já avistara a ca­verna e para lá se dirigiu rapidamente; atrás dele vinha Gurgi, correndo.

— Veja! — gritou Taran. — Veja! O Espelho!

Ao sopé do Meledin, o vento e as intempéries esculpi­ram uma gruta arqueada com alguns passos de profundidade. Regatos escoavam pelas pedras cobertas de limo. Taran cor­reu naquela direção. Seu coração batia forte; sentia os pulsos arderem. Mesmo assim, ao se aproximar, seu ritmo tornou-se mais lento e o medo pesou-lhe como uma corrente presa às pernas. À entrada da caverna parou durante algum tempo. Gurgi olhava-o ansiosamente.

— É aqui — murmurou Taran. Entrou.

Lá dentro, uma depressão rasa, cavada no solo de pe­dras lisas; o Espelho de Llunet fazia lembrar um escudo de prata polida, com brilho próprio, apesar das sombras. Lenta­mente, Taran ajoelhou-se na borda. Um dedo de água preen­chia a depressão, alimentada gota a gota por um fio de umi­dade que descia pela parede de pedra. O passar de anos incontáveis não a enchera até a borda. Mas, apesar de rasa, a água parecia um cristal sem fundo cujas facetas se voltavam umas para as outras, cada qual captando raios brancos e resplandecentes.

Quase sem respirar, com receio de perturbar a super­fície brilhante, Taran abaixou-se mais. A gruta estava total­mente silenciosa e parecia que a queda de uma partícula de musgo poderia perturbar o reflexo. Suas mãos tremeram quando viu o próprio rosto, gasto pela viagem e queimado de sol. Teve muita vontade de virar-se, mas obrigou-se a olhar mais profundamente. Será que estava imaginando coi­sas? Ajoelhou-se mais para perto. Viu algo que o fez gritar de incredulidade.

No mesmo instante Gurgi deu um guincho, aterroriza­do. De um salto Taran pôs-se de pé e virou-se, ao mesmo tempo que Gurgi correu e escondeu-se atrás dele. Diante dele estava Dorath.

No rosto do homem a barba desalinhada, os cabelos amarelados caindo nos olhos. A jaqueta de couro de cavalo pendia para um lado e as botas estavam cobertas de lama. Numa das mãos segurava comida que pegava com os dedos e empurrava na boca. Sorriu com ironia para Taran.

— Feliz encontro, Lorde Porqueiro — disse Dorath an­tes de encher a boca outra vez.

— Infeliz encontro, Dorath! — exclamou Taran, sacan­do a espada. — Vai chamar sua legião para nos atacar? Cha­me-os então, todos que fugiram de nós no Condado de Isav!

Taran ergueu a arma e avançou. Dorath deu uma risada grosseira.

— Vai golpear-me antes que eu saque a minha lâmina?

— Então retire-a — rebateu Taran.

— É o que farei, quando tiver terminado minha refeição — disse Dorath, soltando um grunhido desdenhoso.

— Sua lâmina é malfeita, porqueiro, mais feia do que a cara de Gloff.

E sorriu com malícia.

— A minha é bem melhor, mesmo assim não custou nada. Minha legião? — acrescentou. — Quer que eu os cha­me? Estão surdos, metade deles; a terra de suas sepulturas bloqueia seus ouvidos. Eu o vi em Isav e calculei que você é que havia reunido os matutos do condado. Infelizmente não tive tempo de ficar e felicitá-lo.

Dorath limpou a boca com as costas da mão.

— Dos que saíram de Isav, a cavalo, dois covardes fugi­ram e não encontrei nenhum deles. Dois estavam gravemen­te feridos. Estes, eu encaminhei aos abutres e já não me inco­modam mais.

— Enquanto isso, tanto melhor — prosseguiu. — Não terei que dividir o seu tesouro com ninguém mais, a não ser comigo mesmo.

— Tesouro? — indagou Taran. — Não existe tesouro algum! Saque sua lâmina, Dorath, ou eu o matarei assim mes­mo, que é o que você faria comigo.

— Chega de mentir, porqueiro! — vociferou Dorath. — Pensa que sou idiota? Tomei conhecimento das suas via­gens e o desvio que você tomou até chegar aqui não me enganou. Seus alforjes não contêm coisa que preste; isso já constatei. Então o prêmio ainda está por ser exigido.

Taran deu um grito, mas antes que pudesse se atirar contra Dorath, o guerreiro pisou na poça com a bota pesada e, amaldiçoando, fez a água espirrar para fora.

— Aqui não tem nada! — explodiu Dorath, seu rosto contorcendo-se de raiva.

Arquejando, Taran avançou, hesitante. Dorath sacou a espada.

— Terminei a refeição, porcariço! — gritou Dorath.

O guerreiro golpeou-o violentamente e, com o impac­to, Taran foi atirado para fora da gruta. Enraivecido, Gurgi gritou e agarrou-se ao guerreiro, que o segurou com toda a força, atirando-o contra a parede de pedra. Rosnando, Dorath avançou para Taran.

Erguendo-se com dificuldade, Taran levantou sua lâmina para enfrentar o ataque do guerreiro. Dorath cuspiu e deu outra estocada, empurrando Taran na direção do declive. Quando o guerreiro se aproximou dele, Taran tropeçou, cam­baleou para trás e caiu sobre um dos joelhos.

Com uma risada sarcástica, Dorath ergueu a espada e Taran viu a lâmina, que uma vez lhe pertencera, brilhar inten­samente no momento em que Dorath baixou-a com toda a força. Taran viu a morte diante dele e levantou sua espada na última tentativa de repelir o golpe.

As lâminas colidiram num choque estridente. A arma de Taran estremeceu em sua mão, o impacto atirou-o por terra. Mas a lâmina resistiu. A espada de Dorath despedaçara-se.

Praguejando, Dorath atirou o cabo inútil no rosto de Taran, virou-se e correu na direção dos pinheiros próximos à margem do lago. Ouvindo o assobio do dono, a égua casta­nha de Dorath saiu correndo dentre as árvores. Taran saiu em perseguição do guerreiro.

— Socorro, socorro! — gritou Gurgi ainda na gruta. — Bondoso mestre! Oh, ajude Gurgi ferido!

Ao ouvir os gritos de Gurgi, Taran parou e viu Dorath pular na montaria e partir a galope. Taran correu até a gruta. Lá dentro, Gurgi gemia e tentava sentar-se. Taran ajoelhou e viu que a testa da criatura tinha um corte profundo, mas a dor de Gurgi devia-se mais ao pavor do que ao ferimento propriamente dito. Taran levou-o para fora da gruta e aco­modou-o numa pedra arredondada.

Taran não voltou ao Espelho de Llunet. Já o tinha visto vazio, a água respingada nas pedras, e no fundo apenas a pegada lamacenta da bota de Dorath. Abaixou-se ao lado de Gurgi e apoiou nas suas mãos a cabeça da criatura. Por muito tempo Taran não se moveu nem falou.

— Vamos — disse, afinal, ajudando Gurgi a se levantar. — Vamos. Temos uma longa jornada à frente.

Uma luz brilhava na cabana de Annlaw. A noite havia quase terminado, mas Taran encontrou o ceramista ainda debruçado sobre a sua roda.

Annlaw levantou-se quando Taran atravessou, devagar, a soleira da porta. Por algum tempo, nenhum dos dois falou. Ansioso, o ceramista observou o rosto de Taran e, afinal, perguntou:

— Você se olhou no Espelho, Errante? Taran balançou a cabeça, dizendo que sim.

— Por alguns instantes. Mas ninguém mais poderá se ver nele outra vez. Foi destruído.

Contou-lhe a respeito de Dorath e dos episódios no Lago de Llunet. Quando Taran terminou, o ceramista sacudiu tristemente a cabeça.

— Então você não viu nada? — perguntou Annlaw.

— Descobri o que procurava — respondeu Taran.

— Não vou lhe fazer perguntas, Errante — disse Annlaw. — Mas se seu coração lhe diz que deve me contar, escutarei.

— Vi aquilo que sou — respondeu Taran. — No instan­te em que observei, vi força... e fragilidade. Orgulho e vaida­de, coragem e medo. De sabedoria, um pouco. De insensa­tez, muito. Quanto às intenções, muitas eram boas; mas ou­tras tantas foram deixadas de lado. Nisso tudo, infelizmente, vi a mim mesmo como se fosse outro homem qualquer.

— Mas também pude ver que — prosseguiu —, por mais que os homens se pareçam, cada qual é diferente, e assim como os flocos de neve, não há dois iguais. O senhor me disse que não precisa procurar o Espelho porque sabe que é Annlaw Modelador-de-Barro. Agora sei quem eu sou: eu mesmo e ninguém mais. Sou Taran.

Annlaw não respondeu imediatamente. Então disse:

— Se foi isso que você descobriu, então aprendeu o segredo mais profundo que o Espelho poderia lhe transmitir. Talvez fosse mesmo enfeitiçado.

— Não havia feitiço — retrucou Taran. Sorriu. — Era uma poça d’água; de todas que eu vi, a mais bonita. Mas uma poça d’água, nada mais.

— De início — continuou —, pensei que Orddu dera a um tolo uma incumbência tola. Não foi isso que ela fez. Queria que eu visse o que o Espelho me mostrou. Qual­quer riacho, qualquer rio teria me mostrado o mesmo refle­xo, mas eu não teria entendido como sou capaz de enten­der agora.

— Quanto à minha ascendência — acrescentou —, pouca diferença faz. Parentesco verdadeiro nada tem a ver com laços de sangue, por mais fortes que sejam. Acredito que sejamos todos parentes, irmãos e irmãs, todos filhos dos mesmos pais. E o patrimônio hereditário que uma vez procurei não me interessa mais. A gente dos Condados Li­vres ensinou-me muito bem que o sentimento de humani­dade não é dado e sim adquirido. Isso até mesmo o Rei Smoit, no Cantreve de Cadiffor, me disse, mas não lhe dei atenção.

— Llonio disse que a vida era uma rede para se apanhar a sorte; para Hevydd, o Ferreiro, a vida é uma fornalha; e para Dwyvach, a Tecelã, um tear. Disseram a verdade, pois a vida é tudo isso. Mas o senhor — disse Taran, os olhos encontran­do-se com os do ceramista —, o senhor mostrou-me que a vida é algo mais. É barro para ser moldado, é pura argila numa roda de ceramista.

Annlaw meneou a cabeça em sinal afirmativo.

— E você, Errante, que forma dará à sua argila?

— Não posso ficar em Merin — respondeu Taran —, por mais que goste daqui. Caer Dallben me espera como sempre. Minha vida é lá e é para lá que retorno, de bom grado, pois já me ausentei por muito tempo.

Então sentaram-se em silêncio: Taran, Gurgi e Annlaw Modelador-de-Barro. Quando alvoreceu, Taran trocou um aperto de mão com o ceramista e se despediu.

— Boa viagem, Errante — gritou Annlaw, quando Taran montou em Melynlas. — Não se esqueça de nós, pois não nos esqueceremos de você.

— Tenho a espada que forjei — gritou Taran, com or­gulho —, o manto que teci e a tigela que moldei. E a amizade daqueles que habitam a região mais bonita de Prydain. Ho­mem algum poderá encontrar tesouro maior que esse.

Melynlas, impaciente, bateu no chão com as patas e Taran soltou as rédeas.

Assim, Taran saiu de Merin, cavalgando com Gurgi a seu lado.

E à medida que se afastava, tinha a impressão de ouvir vozes chamando-o.

— Lembre-se de nós! Lembre-se de nós!

Voltou-se uma vez, mas Merin estava muito distante e fora do alcance de seu olhar. Das colinas surgira um vento empurrando folhas dispersas na direção de casa, de Caer Dallben. Taran seguiu-o.

 

                                                                                            Lloyd Alexander  

 

                      

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