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TEMPO DE MATAR - p2 / John Grisham
TEMPO DE MATAR - p2 / John Grisham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TEMPO DE MATAR

Segunda Parte 

 

O salão de reuniões da igreja Springdale fora lavado e encerado e fora limpo o pó às mesas e cadeiras de dobrar colocadas em filas perfeitas em volta da sala. Era a maior igreja negra de Ford County e ficava em Clanton; por isso o reverendo Agee achou que era o lugar mais indicado. O objectivo da conferência de imprensa era tornar público o apoio ao cidadão bem sucedido e anunciar a criação do Fundo para a Defesa Legal de Carl Lee Hailey. O director nacional da Associação Nacional para o Progresso dos Homens de Cor compareceu com um cheque de cinco mil dólares e a promessa de uma soma ainda maior depois. O director-executivo da filial de Memphis pôs cinco mil na mesa, com um gesto imponente. Sentaram-se com Agee atrás das duas mesas de dobrar na frente da sala, com todos os membros do conselho sentados atrás deles e duzentos fiéis das igrejas negras no templo completamente cheio. Gwen sentou-se ao lado de Agee. Alguns repórteres e algumas câmaras, em número muito menor do que esperavam, no centro da sala, filmavam a cena.

Agee foi o primeiro a falar e sentiu-se inspirado pelas câmaras. Falou dos Hailey, da sua bondade e inocência, e de ter baptizado Tonya quando ela tinha apenas oito anos. Falou de uma família arrasada pelo racismo e pelo ódio. Assoaram-se narizes no auditório. A seguir, tornou-se áspero. Criticou acerbamente o sistema judiciário por processar um homem bom e decente que não tinha feito nada de mal; um homem que, se fosse branco, não iria a julgamento, um homem que ia ser julgado porque era negro, e isso era o que não era justo no processo e na acusação a Carl Lee Hailey. Agee encontrou o ritmo e os ouvintes acompanharam-no, e a entrevista vibrou com o fervor de uma cerimónia religiosa. Agee falou durante quarenta e cinco minutos.

Ele era difícil de igualar. Mas o director nacional não hesitou. Durante trinta minutos proferiu uma eloquente condenação do racismo. Aproveitou a oportunidade e citou as estatísticas nacionais de crimes, prisões, condenações e população carcerária, concluindo com a afirmação de que o sistema judiciário penal era controlado por brancos que perseguiam injustamente os negros. Então, numa desconcertante guinada na exposição, ele transportou as estatísticas nacionais para Ford County e declarou que o sistema não tinha competência para julgar Carl Lee Hailey. As luzes das câmaras mostraram um fio de suor acima das suas sobrancelhas e ele começou a ficar inflamado. Mais furioso do que o reverendo Agee, batia com as mãos no pódio, fazendo saltar e estremecer os microfones. Exortou os negros de Ford County e do Mississippi a doar todo o dinheiro que pudessem. Prometeu manifestações. O julgamento seria um grito de guerra para negros e oprimidos de toda a parte.

Respondeu a perguntas. Quanto dinheiro pretendiam levantar? Pelo menos cinquenta mil, esperavam. A defesa de Carl Lee Hailey ia ser muito dispendiosa, e cinquenta mil talvez não bastassem, mas eles conseguiriam tanto quanto fosse necessário. Porém, o tempo era curto. Para onde iria o dinheiro? Honorários advogados e custos processuais. Uma bateria de advogados e médicos seria mobilizada. Seriam usados advogados da associação? Sem dúvida. A equipe jurídica de Washington já estava a trabalhar no caso. A unidade de defesa de processos de pena capital se encarregaria de todos os aspectos do julgamento. Carl Lee Hailey tornara-se a sua principal prioridade e todos os recursos disponíveis seriam dirigidos para a defesa dele.

Quando terminou, o reverendo Agee voltou ao pódio e fez com a cabeça um sinal para o pianista num canto da sala. Começou a música. Todos se puseram de pé, de mãos dadas, e produziram uma arrebatadora interpretação de "We Shall Overcome".

Jake leu no jornal de terça-feira a reportagem sobre o levantamento de fundos. Já tinha ouvido alguma coisa sobre o peditório especial que seria administrado pelo conselho, mas constava que o dinheiro era para ajudar a família. Cinquenta mil para os honorários dos advogados! Ficou furioso, mas interessado. Será que ia ser despedido outra vez? E se Carl Lee recusasse os advogados da associação, o que ia acontecer ao dinheiro? Faltavam cinco semanas para o julgamento, tempo suficiente para a equipe de defesa da associação invadir Clanton. Jake lera àcerca desses advogados, uma equipa de seis especialistas em crimes puníveis com pena de morte que percorriam o sul defendendo negros acusados de crimes hediondos e famigerados. "O esquadrão da morte", como era conhecido. Eram advogados brilhantes, cheios de talento, muito cultos, que se dedicavam à tarefa de salvar das câmaras de gás e das cadeiras eléctricas, em todo o Sul, os assassinos negros. Tratavam unicamente de crimes de homicídio e eram muito bons no que faziam. A sua interferência era conduzida pela associação, que levantava fundos, organizava os negros da região, gerando publicidade. O racismo era a sua melhor e, às vezes, única táctica de defesa e embora perdessem mais do que ganhavam, os resultados finais não eram dos piores. Os processos em que trabalhavam eram todos supostamente causas perdidas. O objectivo era apresentar o réu como vítima perante os jurados, na esperança de evitar que o júri chegasse a uma decisão.

Agora vinham a Clanton.

Uma semana antes, Buckley dera entrada nos requerimentos pedindo que Carl Lee fosse examinado pelos médicos do estado. Jake solicitou que os médicos fizessem os exames em Clanton, de preferência no escritório de Jake. Noose indeferiu e mandou o xerife conduzir Carl Lee ao Hospital de Alienados do Estado do Mississippi em Whitfield. Jake requereu que lhe fosse permitido acompanhar o seu cliente e estar presente durante os exames. Noose indeferiu de novo.

Na quarta-feira, muito cedo, Jake e Ozzie tomavam café no escritório do xerife enquanto Carl Lee tomava banho e mudava de roupa. Whitfield ficava a três horas de carro de Clanton e ele devia estar no hospital às nove. Jake queria dar as últimas instruções ao seu cliente.

- Quanto tempo é que vão lá ficar? - perguntou Jake a Ozzie.

- O senhor é que é o advogado. Quanto tempo vai demorar? - Três ou quatro dias. Já lá esteve lá, não esteve?

- É claro que sim, tivemos de transportar uma porção de gente maluca. Mas nada igual a isto. Onde vai ele ficar?

- Eles têm todo o tipo de celas.

O sub-delegado Hastings entrou negligentemente no escritório, com ar de sono e a mastigar uma carcaça da véspera. - Quantos carros levamos?

- Dois - respondeu Ozzie. - Eu conduzo o meu e você o seu. Levo o Pirtle e o Carl Lee e você leva o Riley e o Nesbit.

- Armas?

- Três em cada carro. Muitas munições. Toda a gente com colete à prova de bala, incluindo o Carl Lee. Prepare os carros. Quero sair às cinco e meia. Hastings resmungou qualquer coisa e saiu.

- Está à espera de sarilhos? - perguntou Jake.

- Recebemos alguns telefonemas. Dois em especial mencionaram a viagem a Whitfield. Há muito chão daqui até lá.

- Que caminho vão fazer?

- A maioria das pessoas vai pela 22 para a interestadual, não é? Talvez seja mais seguro escolher estradas secundárias. Provavelmente, seguiremos pela 14 para o Sul até à 89.

- Ninguém vai pensar nesse caminho.

- Ainda bem. E ainda bem que você aprova. - Ele é meu cliente, sabe?

- Pelo menos por enquanto.

Carl Lee comeu rapidamente os ovos e biscoitos, enquanto Jake o informava do que o aguardava na sua estada em Whitfield. - Eu sei, Jake. Você quer que eu me arme em maluco, certo? - disse ele, a rir.

Ozzie também achou graça.

- Isto é sério, Carl Lee! Ouça o que lhe digo.

- Porquê? O senhor mesmo disse que não tem importância o que eu disser ou fizer lá. Eles não vão dizer que eu estava louco quando matei os dois. Os médicos trabalham para o estado, certo? O estado é que me está a processar, certo? Que diferença faz o que eu fizer ou disser. Eles já têm uma opinião. Não é isso, Ozzie?

- Eu não tenho nada a ver com isso. Eu trabalho para o estado.

- Você trabalha para o condado - disse Jake.

- Nome, patente e número. Isso é tudo o que eles vão conseguir de mim - disse Carl Lee, esvaziando um saquinho de papel.

- Muito engraçado - disse Jake.

- Ele está maluco, Jake - disse Ozzie.

Carl Lee enfiou dois canudinhos no nariz e começou a andar pela sala, olhando para o tecto e depois agarrando em qualquer coisa por cima da cabeça. Pegava-lhe e guardava no saco de papel. Hastings voltou e parou na porta. Com um largo sorriso e olhos furiosos, Carl Lee apanhou outra coisa imaginária no ar.

- Que diabo está ele a fazer? - perguntou Hastings. - A caçar borboletas - disse Carl Lee.

Jake pegou na pasta e encaminhou-se para a porta.

- Eu acho que você devia deixá-lo em Whitfield. - Bateu com a porta e saiu.

Noose tinha marcado para segunda-feira, 24 de Junho, em Clanton, a audiência para determinar o local do julgamento. Seria uma audiência demorada e com muita publicidade. Jake solicitara a transferência de foro e competia à defesa provar que Carl Lee não teria um julgamento justo e imparcial em Ford County. Ia precisar de testemunhas. Pessoas com credibilidade na comunidade, dispostas a testemunhar no sentido de que não era possível um julgamento justo. Atcavage disse que poderia testemunhar como um favor pessoal, mas o banco talvez não aprovasse o seu envolvimento no caso. Harry Rex ofereceu-se como voluntário. O reverendo Agee disse que teria prazer em testemunhar, mas isso fora antes de a associação anunciar que os seus advogados iriam tratar do caso. Lucien não tinha credibilidade e Jake não pensou seriamente em lhe pedir.

Buckley, por seu lado, ia apresentar uma dúzia de testemunhas com credibilidade - pessoas eleitas para cargos públicos, advogados, homens de negócios, talvez outros xerifes - todas dispostas a declarar que tinham ouvido falar vagamente de Carl Lee Hailey e garantir que ele podia ter um julgamento justo em Clanton. Pessoalmente, Jake preferia que o julgamento fosse em Clanton, no seu tribunal do outro lado da rua, em frente de toda a população. Julgamentos significavam pressão intensa e constante, noites sem dormir, experiências penosas e difíceis. Seria muito melhor passar por tudo isso numa arena conhecida, a três minutos do seu prédio. Durante os intervalos, poderia aproveitar o tempo livre para fazer pesquisas no escritório, preparar testemunhas, ou descansar. Podia comer no Coffee Shop ou no Claude's, ou ir até casa para um almoço rápido. O seu cliente podia ficar na cadeia de Ford County, perto da familia.

Além disso, é claro, a sua presença nos media seria mais constante. Os repórteres iam reunir-se em frente do seu escritório, todas as manhãs, e acompanhar o seu passo lento até o tribunal. Era uma visão que lhe agradava. Teria importância o local onde eles iam julgar Carl Lee Hailey? Lucien tinha razão. A publicidade alcançara todos os condados do Mississippi. Então, por que mudar o local? A sua culpa ou a sua inocência já tinha sido pré-julgada por cada um dos possíveis jurados do estado.

Mas era claro que importava. Alguns desses jurados eram brancos, outros negros. Pela lógica da estatística, em Ford County os brancos seriam em maior número do que nos outros condados. Jake adorava jurados negros, especialmente para casos de homicídio e especialmente quando o acusado era negro. Não tinham ânsia de condenar. Tinham a mente aberta. Jake também preferia os negros para as acções cíveis. Identificavam-se sempre com o desprivilegiado, contra as grandes firmas ou companhias de seguros, e eram mais liberais com o dinheiro dos outros. Via de regra, Jake escolhia o maior número possível de jurados negros, mas em Ford County eles eram escassos.

Era imperioso que o caso fosse julgado noutro condado, numa cidade mais negra. Um só negro podia impedir uma decisão por unanimidade. Uma maioria podia forçar, talvez, uma absolvi ção. Não era agradável a ideia de passar duas semanas num motel e num tribunal desconhecido, mas os pequenos desconfortos eram grandemente superados pela necessidade de contar com rostos negros no júri.

Lucien havia analisado minuciosamente a questão da transferência de local. Obedecendo, embora com relutância, às instruções, Jake chegou a casa de Lucien pontualmente às oito horas da manhã. Sallie serviu o pequeno-almoço na varanda. Jake bebeu sumo de laranja e café, Lucien, uísque e água. Durante três horas, estudaram todos os aspectos da transferência de foro. Lucien tinha cópias de todos os casos do Supremo Tribunal nos últimos oitenta anos e deu uma verdadeira aula. O aluno tomou notas, discutiu uma ou duas vezes, mas, durante o resto do tempo, limitou-se a ouvir.

Whitfield ficava a poucos quilómetros de Jackson, na região rural de Rankin County. Dois guardas esperavam no portão, discutindo com os repórteres. Carl Lee devia chegar às nove. Era tudo quanto sabiam. Às oito e meia, dois carros-patrulha com a insígnia de Ford County pararam em frente do " portão. Os repórteres e os seus cameramen correram para o motorista do primeiro carro. O vidro, no lado de Ozzie, estava descido.

- Onde está Carl Lee Hailey? - gritou um repórter, em pânico.

- Está no outro carro - disse Ozzie, com voz arrastada, piscando o olho a Carl Lee, sentado no banco de trás.

- Ele está no segundo carro! - gritou alguém e eles correram para o carro de Hastings.

- Onde está Hailey? - perguntaram.

Pirtle, no banco da frente, apontou para Hastings, que estava ao volante.

- Aí está ele.

- O senhor é Carl Lee Hailey? - gritou um repórter para Hastings.

- Sou eu.

- Porque vem a guiar o carro? - Porque está de uniforme?

- Porque agora sou um polícia - respondeu Hastings, com a cara mais séria do mundo.

O portão abriu-se e os dois carros entraram. Carl Lee foi identificado no edifício principal e depois conduzido, com Ozzie e os polícias, para outro edifício onde o puseram numa cela, ou quarto, como lhe chamavam. Fecharam a porta. Ozzie e os seus homens foram dispensados e voltaram para Clanton.

A seguir ao almoço, um assistente com uma prancheta e bata branca entrou no quarto e começou a fazer perguntas. Começando pelo nascimento, fez perguntas àcerca de todos os acontecimentos e de todas as pessoas importantes da sua vida. O interrogatório durou duas horas. Às quatro da tarde, dois guardas de segurança algemaram Carl Lee e levaram-no num carrinho de golfe para um edifício moderno, de tijolos, a seiscentos metros do quarto dele. Foi conduzido ao consultório do Dr. Wilbert Rodeheaver, chefe da equipa. Os guardas esperaram no corredor, ao lado da porta.

 

Billy Ray Cobb e Pete Willard estavam mortos há cinco semanas. Faltavam quatro semanas para o julgamento. Os três motéis de Clanton estavam com todas as reservas esgotadas para a semana do julgamento. O Best Westem era o maior e melhor e foi o preferido pela imprensa de Jackson e de Memphis. O Clanton Court tinha o melhor bar e restaurante e estava reservado para os repórteres de Atlanta, Washington e Nova York. No menos elegante East Side Motel o preço das diárias duplicou para o mês de Julho, mas mesmo assim todos os quartos estavam reservados.

De início, a cidade tratara cordialmente aqueles estranhos, a maioria mal-educada e com sotaques diferentes. Porém, algumas reportagens sobre Clanton foram pouco lisonjeiras e os moradores obedeciam agora a um código secreto de silêncio. Um café barulhento ficava silencioso assim que aparecia um estranho. Os comerciantes da praça não atendiam de boa vontade os desconhecidos. Os funcionários do tribunal eram surdos às perguntas, repetidas milhares de vezes, pelos intrusos barulhentos. Até os repórteres de Jackson e de Memphis tinham dificuldade em sacar alguma informação. A população da cidade estava farta de ser descrita como atrasada, parola e racista. Todos ignoravam os estranhos e tratavam da própria vida.

O bar no Clanton Court tornou-se o ponto de reunião dos repórteres. Era o único lugar na cidade onde podiam encontrar uma cara amiga e uma boa conversa. Sentavam-se nas mesas entre as divisórias baixas sob o grande ecrã de televisão, e falavam sobre a cidade e o julgamento. Comparavam notas e reportagens, leads e boatos, e bebiam até se embriagarem porque não tinham mais nada para fazer em Clanton durante a noite.

Na noite de domingo, 23 de Junho, véspera da audiência para transferência do local do julgamento, os motéis ficaram cheios. Na segunda-feira de manhã, reuniram-se no restaurante do Best Westem para tomar café e fazer conjecturas. A audiência era o primeiro confronto importante e podia ser a única ocorrência no tribunal, antes do julgamento. Correu o boato de que Noose estava doente, que não queria presidir ao julgamento e que ia pedir ao Supremo Tribunal a indicação de outro juiz. Apenas um boato, sem fonte e nada mais definido, disse um repórter de Jackson. Às oito horas, pegaram nas câmaras e nos microfones e foram para a praça. Um grupo ficou no lado de fora da cadeia, outro nas traseiras do edifício do tribunal, mas a maioria foi para a sala do tribunal. Às oito e meia, o recinto estava cheio.

Da varanda do seu escritório, Jake observava a actividade em volta do tribunal. Tinha o pulso acelerado e sentia um nó no estômago. Jake sorriu. Estava pronto para Buckley, pronto para as câmaras.

Noose olhou para baixo, para além do nariz avantajado, por cima dos óculos de leitura, e examinou a sala repleta. Toda a gente estava a postos.

- O tribunal tem diante de si - começou ele - o requerimento do acusado com vista à transferência de foro. O julgamento deste caso está marcado para 22 de Junho, segunda-feira. Quatro semanas a partir de hoje, pela minha agenda. Estabeleci um prazo fatal para a apresentação de moções e a solução das mesmas e acredito que sejam os dois únicos prazos marcados, entre o dia de hoje e o dia do julgamento.

- Exactamente, Meritíssimo - trovejou Buckley, levantando-se a meio da cadeira.

Jake revirou os olhos e abanou a cabeça.

- Muito obrigado, Dr. Buckley - disse Noose secamente. - O acusado comunicou formalmente que pretende alegar insanidade em sua defesa. Ele foi examinado em Whitfield?

- Sim, senhor, Meritíssimo, na semana passada - respondeu Jake.

- Ele vai usar o seu psiquiatra particular? - É claro, Meritíssimo.

- Ele foi examinado pelo seu psiquiatra? - Sim, Meritíssimo.

- Muito bem. Então, isto está resolvido. Que outras moções espera apresentar?

- Meritíssimo, esperamos apresentar uma moção pedindo ao oficial de justiça para citar mais do que o número habitual de possíveis jurados...

- O estado fará objecção a essa moção - gritou Buckley, levantando-se de um salto.

- Sente-se, Dr. Buckley! - disse Noose com severidade, arrancando os óculos do nariz e olhando furioso para o promotor. - Por favor, não volte a gritar comigo... É claro que se vai opôr. O senhor vai objectar contra toda e qualquer moção apresentada pela defesa. É esse o seu trabalho. Não interrompa outra vez. O senhor terá ampla oportunidade, depois de suspendermos a sessão, de apresentar a sua performance aos meios de comunicação.

Buckley sentou-se pesadamente e procurou esconder a cara vermelha. Era a primeira vez que Noose gritava com ele.

- Continue, Dr. Brigance.

Jake ficou assustado com o mau humor de Ichabod. O juiz parecia cansado e doente. Talvez fosse a pressão do caso.

- Vamos talvez apresentar por escrito algumas objecções às provas previstas.

- Moções in limine? - Sim, senhor.

- Ouviremos isso no julgamento. Mais alguma coisa? - Não, de momento.

- Agora o senhor, Dr. Buckley, o estado vai apresentar alguma moção?

- De momento não me ocorre nenhuma - respondeu Buckley, com mansidão.

- Óptimo. Quero ter certeza de que não haverá surpresas de hoje até o julgamento. Estarei na cidade uma semana antes do julgamento para ouvir e resolver qualquer pendência anterior ao julgamento. Espero que qualquer moção seja apresentada imediatamente, para que possa ser resolvida muito antes do dia 22 de Julho. Noose examinou os autos e leu a moção apresentada por Jake para transferência de local. Jake falou em voz baixa com Carl Lee, cuja presença não era exigida para aquela audiência, mas que insistira em comparecer. Gwen e os três rapazes estavam na primeira fila, atrás dele. Tonya não estava presente.

- Dr. Brigance, a sua moção parece estar em ordem. Quantas testemunhas?

- Três, Meritíssimo.

- Dr. Buckley, quantas vai chamar?

- Temos vinte e uma - disse Buckley, com orgulho. - Vinte e uma! - berrou o juiz.

Buckley encolheu-se e olhou para Musgrove.

- M-m-as provavelmente não precisaremos de todas. Na verdade, sei que não chamaremos todas.

- Escolha as cinco melhores, Dr. Buckley. Não pretendo passar o dia inteiro aqui.

- Sim, Meritíssimo.

- Dr. Brigance, o senhor pediu transferência de foro. A moção é sua. Pode prosseguir.

Jake caminhou lentamente pela sala, passou por trás de Buckley e foi até ao pódio de madeira em frente da bancada dos jurados.

- Meritíssimo, o Sr. Hailey submete à aprovação deste tribunal o seu pedido para que o local do seu julgamento seja transferido de Ford County. A razão é óbvia. A publicidade neste caso impedirá que seja feito um julgamento justo. O bom povo deste condado já pré-julgou a culpa ou a inocência de Carl Lee Hailey. Ele é acusado da morte de dois homens, ambos nascidos e com família nesta cidade. As vidas não foram famosas, mas as suas mortes foram-no, sem dúvida... Até agora, o Sr. Hailey era conhecido por poucas pessoas estranhas a esta comunidade. Agora, todos neste condado sabem quem ele é, sabem tudo sobre a família dele e sobre a filha e o que lhe aconteceu, e conhecem a maioria dos detalhes dos crimes alegados. Será impossível encontrar uma dúzia de pessoas em Ford County que não tenha pré-julgado o caso. Este julgamento deve ser feito noutro local do estado, onde a população não esteja tão familiarizada com os factos.

- O senhor poderia sugerir algum local? - interrompeu o juiz.

- Eu não recomendaria nenhum local específico, mas deveria ser o mais distante possível. Talvez a Costa do Golfo.

- Porquê?

- Por motivos óbvios, Meritíssimo. Fica a mais de seiscentos quilómetros de Ford County e tenho certeza de que a população de lá não sabe tanto sobre o caso como a daqui.

- E o senhor acha que a população do Sul do Mississippi não ouviu nada sobre o caso?

- Tenho certeza de que ouviu. Mas está muito mais distante. - Mas eles têm televisão e jornais, não têm, Dr. Brigance? - Estou certo de que sim.

- Acredita que poderá encontrar, em qualquer condado deste estado, doze pessoas que não tenham conhecimento dos detalhes deste caso?

Jake olhou para o seu bloco-notas. Ouvia os artistas a desenhar nos seus blocos, atrás dele. Com o canto dos olhos viu o sorriso sarcástico de Buckley.

- Seria difícil, Meritíssimo - disse Jake, em voz baixa. - Chame a sua primeira testemunha.

Harry Rex Vonner prestou juramento e sentou-se. A cadeira giratória de madeira estalou e rangeu sob seu peso. Ele soprou no microfone e um silvo agudo ecoou no recinto. Vonner sorriu para Jake e inclinou levemente a cabeça.

- Como se chama? - Harry Rex Vonner. - Morada?

- Cedarbush 8493, Clanton, Mississippi. - Há quanto tempo vive em Clanton?

- Dersde que nasci. Quarenta e seis anos. - Profissão?

- Sou advogado. Licenciado há vinte e dois anos. - Conhece Carl Lee Hailey?

- Vi-o uma vez.

- O que sabe a respeito dele?

- Que supostamente matou dois homens, Billy Ray Cobb e Pete Willards e feriu um polícia, DeWayne Looney.

- Conhecia algum desses homens?

- Não pessoalmente. Tinha ouvido falar de Billy Ray Cobb. - Como soube dos crimes?

- Bem, aconteceu numa segunda-feira, se não me engano. Eu estava no tribunal, no primeiro andar, a verificar o título de propriedade de umas terras na sala do escriturário, quando ouvi os tiros. Corri para o corredor e a confusão era geral. Perguntei a um polícia o que se estava a passar e ele disse-me que os homens tinham sido mortos perto da porta das traseiras do edifício do tribunal. Fiquei por ali mais algum tempo e pouco depois ouvi dizer que o assassino era o pai da menina violentada.

- Qual foi sua primeira reacção?

- Fiquei chocado, como a maior parte das pessoas. Mas também fiquei chocado quando soube do estupro.

- Quando soube que o Sr. Hailey tinha sido preso?

- Naquela mesma noite. Foi noticiado em todas as estações de televisão.

- O que viu o senhor na televisão?

- Bem, procurei ver o máximo possível. Havia noticiários sobre o crime nas estações locais, em Memphis e Tupelo. Nós temos a televisão por cabo, como o senhor sabe, e eu vi os noticiários de Nova Iorque, Chicago e Atlanta. Quase todos os canais tinham alguma notícia sobre os crimes e a prisão. Mostravam o tribunal de justiça e a cadeia. Foi um grande acontecimento. O maior em toda a história de Clanton, Mississippi.

- Qual foi sua reacção quando soube que o pai da menina era o suposto assassino dos dois homens?

- Não foi surpresa para mim. Quero dizer, nós todos, de certa forma, achámos que devia ter sido ele. Admirei-o. Tenho filhos, e simpatizo com o que ele fez. E continuo a admirá-lo.

- O que sabe sobre o estupro? Buckley levantou-se de um salto. - Protesto! O estupro é irrelevante!

Noose arrancou outra vez os óculos do nariz e olhou furioso para o promotor. Alguns segundos se passaram e Buckley olhou para a mesa. Passou o peso do corpo de um pé para o outro e sen tou-se. Noose, inclinado para a frente, continuava a olhar para ele. - Dr. Buckley, não grite comigo! Se fizer isso outra vez, juro por Deus, que o mando prender por desacato. Talvez tenha razão, o estupro é irrelevante. Mas isto não é um julgamento, ou será que é? Isto é simplesmente uma audiência, não é? Não temos um júri, ou temos? Objecção negada e inoportuna. Agora, fique sentado. Sei que é difícil, com este tipo de audiência, mas eu ordeno que fique sentado a não ser que tenha alguma coisa importante para dizer. Nesse caso, pode levantar-se e dar a sua opinião, educadamente e sem gritar.

- Obrigado, Meritíssimo - disse Jake, sorrindo para Buckley. - Agora, Dr. Vonner, como eu estava a dizer, o que sabia sobre o estupro?

- Só o que ouvi dizer. - E o que foi que ouviu?

Buckley levantou-se e inclinou o corpo para a frente como um japonês lutador de sumô.

- Se me permite, Meritíssimo - disse suavemente, em voz baixa. - Eu gostaria de fazer uma objecção, com a autorização do tribunal. A testemunha deve apenas prestar declarações sobre o que sabe em primeira mão, não sobre o que ouviu a outrém.

Noose respondeu com a mesma suavidade:

- Muito obrigado, Dr. Buckley. A sua objecção foi anotada e indeferida. Por favor, Dr. Brigance, continue.

- Obrigado, Meritíssimo. O que ouviu sobre o estupro?

- Cob e Willard apanharam a menina Hailey e levaram-na para um sítio qualquer do bosque. Estavam bêbedos. Eles amarraram-na a uma árvore, violentaram-na várias vezes e tentaram enforcá-la. Até urinaram nela.

- Eles o quê?!!! - perguntou Noose. - Urinaram nela, Sr. Dr. Juiz.

Um murmúrio percorreu o tribunal. Jake não tinha ouvido falar nisso, Buckley também não e evidentemente ninguém sabia, a não ser Harry Rex. Noose abanou a cabeça e bateu, ao de leve, com o martelo. Jake fez algumas anotações no seu bloco, admirado com esse conhecimento abstruso do amigo sobre o facto.

- Onde ouviu falar do estupro?

- Em toda a cidade. É público e notório. Na manhã seguinte, os polícias descreviam os detalhes no Coffee Shop. Todos sabem.

- É de conhecimento público em todo o condado?

- Sim. No último mês, todas as pessoas com quem falei sabiam detalhes do estupro.

- Conte o que sabe sobre a morte dos dois homens.

- Bem, como eu já disse, foi na tarde de segunda-feira. Os homens estavam no tribunal para a audiência que decidiria a fiança, se não me engano, e quando saíram do tribunal, foram algemados e conduzidos pelos polícias pela escada das traseiras. Quando estavam no fundo da escada, o Sr. Hailey saltou de dentro de um armário com uma M-16. Os dois foram mortos e DeWayne Looney foi ferido. Uma parte da perna dele teve de ser amputada.

- Exactamente, onde aconteceu isso?

- Bem mais abaixo de onde nos encontramos agora, na entrada das traseiras do edifício do tribunal. O Sr. Hailey estava escondido no armário do contínuo e saiu lá de dentro, de repente, começando a disparar.

- Acredita que isso seja verdade? - Eu sei que e.

- Onde ficou a saber todas essas coisas?

- Aqui e acolá. Na cidade. Nos jornais. Toda a gente sabe. - Onde ouviu conversas sobre o crime?

- Em toda a parte. Nos bares, nas igrejas, no banco, na lavandaria, no Tea Shoppe, nos cafés, nos bares. Em toda a parte. - Conversou com alguém que acredite que o Sr. Hailey não matou Bill Ray Cobb e Pete Willard?

- Não. Não vai encontrar uma única pessoa neste condado que acredite nisso.

- A maioria das pessoas da cidade tem opinião formada sobre a culpa ou a inocência do Sr. Hailey?

- Todos, sem excepção. Ninguém está à margem no que diz respeito a este caso. É um assunto quente e todos têm opinião formada.

- Na sua opinião, o Sr. Hailey poderia ter um julgamento justo em Ford County?

- Não, senhor. Não há três pessoas neste condado de trinta mil habitantes que não tenham opinião formada, de uma maneira ou de outra. O Sr. Hailey já foi julgado. Não é possível formar um júri imparcial.

- Muito obrigado, Dr. Vonner. Não tenho mais perguntas, Meritíssimo.

Buckley ajeitou o penteado, passando as mãos sobre as orelhas para se certificar de que todos os cabelos estavam no lugar. Caminhou com passos decididos para o pódio.

- Dr. Vonner - disse com voz sonora e imponente -, o senhor já julgou previamente o Sr. Hailey?

- Com todos os diabos, é claro que sim.

- Modere a linguagem, por favor - advertiu Noose. - E qual foi seu veredicto?

- Dr. Buckley, deixe-me que lho diga da seguinte forma. Vou explicar lenta e cuidadosamente e tenho certeza de que até o senhor vai compreender. Se eu fosse o xerife, eu não teria efectuado a prisão do Sr. Hailey. Se eu tivesse feito parte do grande júri, eu não o teria indiciado. Se eu fosse o juiz, eu não o julgaria. Se eu fosse o promotor, eu não o acusaria. Se eu fizesse parte do tribunal do júri, votaria para que lhe entregassem, a ele, a chave desta cidade, uma placa para pendurar na parede da casa dele e mandá-lo-ia de volta para a família. E, Dr. Buckley, se a minha filha for violentada algum dia, só espero ter a coragem de fazer o que ele fez.

- Compreendo. Acha que as pessoas devem possuir armas e resolver as suas disputas com tiroteios?

- Eu acho que as crianças têm o direito de não serem violentadas e que os pais têm o direito de protegê-las. Eu acho que filhas pequenas são especiais e se a minha fosse amarrada a uma árvore e violada por dois viciados, tenho a certeza de que ia ficar louco. Acho que pais bons e decentes deveriam ter o direito assegurado pela Constituição de executar qualquer pervertido que tocasse nos seus filhos. E acho que o senhor é um cobarde mentiroso quando afirma que não teria vontade de matar o homem que violentasse a sua filha.

- Dr. Vonner, por favor! - disse Noose. Com esforço Buckley manteve a calma.

- Evidentemente, este caso exerce grande impacto no senhor, não é verdade?

- O senhor é muito observador.

- E o senhor quer ver o acusado absolvido, não é? - Pagaria para isso se tivesse dinheiro.

- E acha que ele terá melhor oportunidade de ser absolvido em outro condado, não é assim?

- Acho que ele tem direito a um júri formado por pessoas que não saibam tudo sobre o caso, antes do começo do julgamento. - O senhor absolvê-lo-ia, não é?

- Foi o que eu disse.

- E, sem dúvida, falou com outras pessoas que também pensam assim?

- Falei com muitas.

- Haverá pessoas em Ford County que votassem pela condenação?

- É claro. Muita gente. Ele é negro, não é?

- Em todas as suas conversas neste condado, detectou uma maioria evidente de um lado ou de outro?

- Na verdade, não.

Buckley fez uma anotação no seu bloco. - Dr. Vonner, Jake Brigance é seu amigo? Harry Rex sorriu e revirou os olhos para Noose.

- Dr. Buckley, eu sou advogado. Os meus amigos são poucos e raros. Mas, sim, ele é um deles. Sim, senhor.

- E ele pediu-lhe para testemunhar?

- Não. Eu entrei por acaso neste recinto há alguns momentos e aterrei nesta cadeira. Nem sequer sabia que ia haver uma audiência esta manhã.

Buckley atirou o bloco-notas para cima da mesa e sentou-se. Harry Rex foi dispensado.

- Chame a sua próxima testemunha - ordenou Noose. - Reverendo Ollie Agee - disse Jake.

O reverendo foi levado da sala de espera para o banco das testemunhas. Jake tinha-o procurado na véspera, na igreja, com uma lista de perguntas. Ele queria testemunhar. Não falaram sobre os advogados da associação. O reverendo era uma excelente testemunha. A sua voz profunda e áspera não precisava de microfone para chegar até o fundo da sala. Sim, ele conhecia os detalhes do estupro e da morte dos dois homens. Os Hailey eram membros da sua igreja. Há anos que os conhecia, eram quase como parentes e ele tinha segurado nas mãos deles, sofrendo com eles, depois do estupro. Sim, tinha falado com inúmeras pessoas sobre o ocorrido e todos tinham opinião formada sobre a culpa ou a inocência de Hailey. Ele e outros vinte e dois pastores pertenciam ao conselho e todos tinham conversado sobre o caso Hailey. E, não, não havia ninguém sem opinião formada em Ford County. Na sua opinião, não seria possível um julgamento justo em Ford County.

Buckley fez uma única pergunta.

- Reverendo Agee, conversou com algum negro que votasse a favor da condenação de Carl Lee Hailey?

- Não, senhor.

O reverendo foi dispensado e foi sentar-se entre dois dos seus irmãos do conselho.

- Chame a próxima testemunha - disse Noose. Jake sorriu para o promotor e disse:

- Xerife Ozzie Walls.

Buckley e Musgrove imediatamente juntaram as cabeças e confabularam. Ozzie estava do lado deles, do lado da lei e da ordem, o lado da acusação. Não fazia parte do seu trabalho ajudar a defesa. Isto só prova que não se pode confiar num preto, pensou Buckley. Eles unem-se todos quando sabem que um deles é culpado.

Jake conduziu o interrogatório de Ozzie para o tema do estupro e o passado de Cobb e Willard. Foi monótono e repetitivo e Buckley queria objectar. Mas já fora censurado o suficiente, para um dia. Jake percebeu que Buckley ia ficar calado e tratou o estupro demoradamente, com todos os detalhes impressionantes. Finalmente, Noose perdeu a paciência.

- Por favor, Dr. Brigance, o tópico seguinte.

- Sim, Meritíssimo. Xerife Walls, o senhor efectuou a prisão de Carl Lee Hailey?

- Sim.

- Acredita que ele tenha matado Billy Ray Cobb e Pete Willard?

- Acredito.

- Conversou com alguém neste condado que ache que Hailey não os matou?

- Não, senhor.

- A crença geral é de que o Sr. Hailey os matou?

- Sim. Todos acreditam nisso. Pelo menos, todos aqueles com quem falei.

- Xerife, o senhor circula bastante pelo condado? - Sim, senhor. É meu dever saber o que se passa. - E fala com muita gente?

- Mais do que posso desejar.

- Encontrou alguém que não tenha ouvido falar do caso Hailey?

Depois de uma pausa, Ozzie respondeu, falando devagar:

- Só um surdo, mudo e cego não sabe do caso de Carl Lee Hailey.

- Encontrou alguém sem opinião formada sobre a sua culpa ou inocência?

- Essa pessoa não existe...

- Ele pode ter um julgamento justo, aqui?

- Não sei dizer. Sei apenas que não vai encontrar doze pessoas que não saibam tudo sobre o caso.

- Não tenho mais perguntas - disse Jake dirigindo-se a Noose.

- Esta é a sua última testemunha? - Sim, senhor.

- Vai interrogá-la, Dr. Buckley?

Sem se levantar, Buckley abanou negativamente a cabeça.

- Muito bem - disse o meritíssimo. - Vamos fazer um pequeno intervalo. Eu gostaria de falar com os advogados no meu gabinete.

O murmúrio de conversas encheu o recinto quando os advogados seguiram o juiz e o Sr. Pate para o gabinete. Noose fechou a porta e tirou a toga. O Sr. Pate serviu-lhe uma chávena de café puro.

- Senhores, estou a pensar proibir o acesso da imprensa ao caso, a partir de hoje, até ao fim do julgamento. Estou preocupado com a publicidade e não quero que este caso seja julgado pela imprensa. Algum comentário?

Buckley empalideceu, profundamente abalado. Abriu a boca mas não conseguiu dizer nada.

- Boa ideia, Meritíssimo - concordou Jake, engolindo em seco. - Eu tinha pensado em requerer essa ordem.

- Sim, é claro que pensou. Já notei como o senhor foge da publicidade... O que acha, Dr. Buckley?

- Bem, a quem se aplicaria a ordem?

- Ao senhor, Dr. Buckley. O senhor e o Dr. Brigance ficariam proibidos de revelar à imprensa qualquer aspecto do caso ou do julgamento. Seria aplicada a todos, pelo menos a todos sob o con trolo deste tribunal. Os advogados, os funcionários de tribunal, o xerife.

- Mas, porquê? - perguntou Buckley.

- Não me agrada a ideia de os ter, a ambos, a julgarem este caso através dos media. Ambos disputam as luzes das câmaras e já estou a imaginar como vai ser o julgamento... Um circo, e o que vai ser! Não um julgamento, mas um circo com três pistas! - Noose foi até à janela, a resmungar. Parou por um momento, depois continuou a resmungar. Jake e Buckley trocaram um olhar, depois olharam para o juiz, alto e desajeitado perto da janela.

- Vou impor a ordem de silêncio, que passa a vigorar imediatamente, até ao fim do julgamento. A violação da ordem será punida como desobediência ao tribunal. Estão proibidos de comen tar qualquer aspecto deste caso com a imprensa. Alguma pergunta? - Não, senhor - disse Jake, rapidamente.

Buckley olhou para Musgrove e meneou a cabeça.

- Agora, voltando à audiência. Dr. Buckley, disse que tem mais de vinte testemunhas. De quantas vai precisar, realmente?

- Cinco ou seis.

- Isso é muito melhor. Quem são? - Floyd Loyd.

- Quem é?

- Supervisor. Primeiro Distrito. Ford County. - Ele vai testemunhar a respeito de quê?

- Ele vive aqui há cinquenta anos, e ocupa o cargo de supervisor há uns dez, mais ou menos. Na opinião dele, é possível um julgamento justo neste condado.

- Devo supor que ele nunca ouviu falar do caso? - perguntou Noose, sarcástico.

- Não tenho a certeza... - Quem mais?

- Nathan Baker. Juiz de Paz. Terceiro Distrito. Ford County. - O mesmo testemunho?

- Bem, basicamente o mesmo. - Quem mais?

- Edgar Lee Baldwin, ex-supervisor, Ford County.

- Ele foi indiciado criminalmente há alguns anos, não foi? - perguntou Jake.

Jake nunca tinha visto Buckley tão vermelho. A boca enorme abriu-se e os olhos brilharam de fúria.

- Não foi condenado - disse Musgrove.

- Eu não disse que foi condenado. Apenas que foi indiciado. O FBI, não foi isso?

- Chega, chega - disse Noose. - Que nos vai dizer o Sr. Baldwin?

- Ele vive aqui desde que nasceu. Conhece a população de Ford County e acha que o Sr. Hailey pode ter um julgamento justo aqui - respondeu Musgrove.

Buckley continuava mudo, a olhar fixamente para Jake. - Quem mais?

- O Xerife Harry Bryant, Tyler County. - O Xerife Bryant? O que vai ele dizer? Musgrove falava agora pelo estado.

- Meritíssimo, vamos submeter duas teorias à apreciação do tribunal, em oposição à moção para transferência de foro. Em primeiro lugar, afirmamos que é possível um julgamento justo em Ford County. Segundo, se a opinião do tribunal é a de que não é possível um julgamento justo aqui, o estado contesta, afirmando que a imensa publicidade sobre o caso já alcançou qualquer jurado em potencial deste estado. Os mesmos preconceitos e opiniões, contra e a favor, que existem neste condado, existem em todos os outros condados. Sendo assim, de nada adiantará a transferência do local do julgamento. Temos testemunhas que apoiam a segunda teoria.

- É um novo conceito, Sr. Musgrove. Acho que nunca ouvi nada parecido!

- Nem eu - disse Jake. - Quem mais?

- Robert Kelly Williams, promotor do Nono Distrito. - Onde fica isso?

- No extremo sudoeste do estado.

- E ele veio de tão longe, só para testemunhar que toda a gente no seu distrito já julgou previamente o caso?

- Sim, senhor. - Quem mais? - Grady Liston, promotor, Décimo Quarto Distrito. - O mesmo testemunho?

- Sim, senhor. - E mais algum?

- Bem, Meritíssimo, temos muitos mais. Mas os depoimentos seriam mais ou menos semelhantes aos das testemunhas já citadas. - Muito bem, então podemos limitar as provas a essas seis testemunhas?

- Sim, senhor.

- Vou ouvir as provas deles. Depois, concedo a cada um dos senhores advogados cinco minutos para concluirem os seus argumentos e dentro de-duas semanas darei a decisão sobre esta

moção. Alguma pergunta?

 

Era frustrante ter de dizer não aos repórteres. Eles seguiram Jake quando ele atravessou a praça Washington. Do outro lado, Jaké pediu licença, não fez nenhum comentário e procurou refúgio no edifício do seu escritório. Um repórter mais ousado, da Newsweek, entrou atrás dele e pediu para tirar uma fotografia. Queria uma pose com um ar muito severo tendo como fundo os livros grossos com capa de couro. Jake ajeitou a gravata e levou o fotógrafo para a sala de conferências, onde posou observando a ordem de silêncio do tribunal. O fotógrafo agradeceu e saiu.

- Pode conceder-me alguns minutos? - perguntou Ethel delicadamente quando Jake se dirigia para a escada.

- Evidentemente.

- Porque não se senta? Precisamos de conversar. Finalmente, resolveu demitir-se, pensou Jake, sentando-se ao lado da janela.

- Qual é o problema? - Dinheiro.

- A senhora é a secretária de escritório de advocacia mais bem paga da cidade. Teve um aumento há três meses.

- Não se trata do meu dinheiro. Por favor, ouça. O senhor não tem dinheiro suficiente no banco para pagar as contas do mês. Junho está quase no fim e o nosso rendimento bruto foi de mil e setecentos dólares. Jake fechou os olhos e passou a mão pela testa.

- Veja estas contas - disse Ethel, empurrando sobre a mesa uma pilha de facturas. - Um total de quatro mil dólares! Como vou pagar tudo isto?

- Quanto temos no banco?

- Mil e novecentos dólares, até sexta-feira. Não entrou nada hoje.

- Nada?

- Nem um centavo.

- E o acordo do caso Liford? São três mil de honorários. Ethel abanou a cabeça.

- Dr. Brigance, aquele caso não foi encerrado. O Sr. Liford não assinou a quitação. O senhor ficou de levá-la a casa dele. Há três semanas, lembra-se?

- Não, não me lembro. E o adiantamento do caso Buck Britt? São mil dólares.

- O cheque dele não tinha cobertura. O banco devolveu-o e está na sua mesa há duas semanas.

Ethel respirou fundo.

- O senhor deixou de atender os seus clientes. Não responde aos telefonemas deles e...

- Não me venha com sermões, Ethel!

- E todo o seu trabalho está atrasado um mês! - Chega.

- Desde que aceitou o caso Hailey. Não pensa noutra coisa. Está obcecado. Esse caso vai levar-nos à falência.

- Vai levar-nos! Quantos cheques já deixou de receber, Ethel? Quantas dessas contas estão vencidas? Quantas?

- Algumas.

- Mas não mais do que de costume, certo?

- Certo, mas e o próximo mês? Faltam quatro semanas para o julgamento.

- Cale-se, Ethel. Cale-se. Se não consegue aguentar a pressão, vá-se embora. Se não pode ficar calada, então está despedida. - O senhor gostaria de me despedir, não é?

- A mim, tanto se me dá...

Ethel era uma mulher forte, sólida. Catorze anos com Lucien tinham-lhe endurecido a pele e a consciência, mas era mulher e, naquele momento, o lábio tremeu-lhe e os olhos ficaram cheios de lágrimas. Baixou a cabeça.

- Desculpe - murmurou ela. - É só que estou preocupada. - Preocupada com quê?

- Comigo e com Bud.

- O que é que aconteceu ao Bud? - Está muito doente.

- Eu sei.

- Continua com crises de pressão alta. Especialmente depois dos telefonemas. Já teve três derrames em cinco anos e está prestes a ter outro. Ele está assustado, nós dois estamos assustados.

-Quantos telefonemas?

-Vários. Ameaçam queimar e fazer explodir a nossa casa. Dizem sempre que sabem onde moramos, e que se Hailey for libertado vão queimar ou fazer explodir com dinamite a nossa casa, quando estivermos a dormir... Houve dois que ameaçaram matar-nos. Eu acho que este caso não vale isso.

- Talvez seja melhor você deixar o emprego.

- E morrer de fome? Sabe que Bud não trabalha há dez anos. Onde é que eu posso trabalhar?

- Ouça, Ethel, eu também tenho recebido ameaças, mas não as levo a sério. Prometi à Carla que abandonaria o caso se representasse perigo real para a minha família, e a senhora pode consolar-se com isso. A Ethel e o Bud podem ficar tranquilos. As ameaças não são sérias. Há uma porção de malucos por aí, à solta.

- É isso que me preocupa. Há por aí gente louca capaz de tudo!

- Não, a Ethel preocupa-se demais. Vou pedir ao Ozzie para vigiar a sua casa.

- Vai fazer isso?

- Claro. A minha também está sob vigilância. Acredite em mim, Ethel, não precisa se preocupar. Provavelmente, são só alguns garotos desordeiros.

Ela enxugou os olhos.

- Desculpe, eu não queria chorar e peço desculpa por andar tão irritada, ultimamente.

Anda irritada há quarenta anos, pensou Jake. - Está bem.

- E o que fazemos com isto? - apontou para as facturas. - Vou arranjar o dinheiro. Não se preocupe.

Willie Hastings terminou o segundo turno às dez horas da noite e marcou o ponto ao lado do escritório do xerife. Foi directamente para casa dos Hailey. Era a sua noite de dormir no sofá.

Todas as noites alguém dormia no sofá da sala de Gwen, um irmão, um primo ou um amigo. Quarta-feira, era a vez de Hastings.

Era impossível dormir com as luzes acesas. Tonya nem se aproximava da cama se todas as luzes da casa não estivessem acesas. Aqueles homens podiam estar no escuro, à sua espera. Tonya tinha-os visto muitas vezes, a rastejarem para a cama dela, à espreita dentro dos armários. Ouvia as vozes deles do lado de fora da janela e via-lhes os olhos injectados de sangue, a espreitarem quando ela ia para a cama. Ouvia ruídos no sótão, como os passos das pesadas botas de cowboy que lhe tinham dado pontapés. Sabia que estavam lá em cima, à espera de que todos estivessem a dormir, para descerem e a levarem outra vez para o bosque.        Uma vez por semana, Gwen e o seu irmão mais velho subiam a escada dobrável e examinavam o sótão com uma lanterna e um revólver.

Nenhuma divisão da casa devia ficar às escuras, quando ela ia para a cama. Certa noite, quando estava deitada, acordada, ao lado da mãe, a lâmpada do corredor fundiu-se. Tonya pôs-se a gritar freneticamente até o irmão de Gwen voltar do supermercado com mais lâmpadas. Tonya dormia com a mãe que a abraçava com força até os demónios desaparecerem na noite e a menina adormecer finalmente. No começo Gwen não conseguia dormir com as luzes acesas, mas, passado cinco semanas, passou a dormir intermitentemente durante a noite. O corpo pequenino a seu lado estremecia e agitava-se mesmo quando Tonya dormia.

Willie disse boa-noite aos rapazes e beijou Tonya. Mostrou-lhe a sua arma e prometeu ficar acordado no sofá. Examinou toda a casa e os armários. Só então Tonya se deitou ao lado da mãe, a olhar para o tecto e a chorar baixinho.

Mais ou menos à meia-noite, Willie tirou as botas e deitou-se no sofá. Tirou o cinturão com o coldre e a arma e pô-los no chão, ao seu lado. Estava quase a dormir quando ouviu o grito. Era o grito horrível e estridente de uma criança a ser torturada. Pegou na arma e correu para o quarto. Tonya estava sentada na cama, de frente para a parede, aos gritos e a tremer. Ela tinha-os visto na janela, à sua espera. Gwen abraçou-a com força. Os três rapazes correram para os pés da cama. Carl Lee Jr. foi até à janela e não viu nada. Naquelas cinco semanas tinham passado várias vezes por aquilo e sabiam que não podiam fazer nada para a ajudarem.

Gwen acalmou-a e fâ-la deitar no travesseiro.

- Está tudo bem, minha querida, a mãezinha está aqui e o tio Willie também. Ninguém te vai fazer mal. Está tudo bem, querida.

Tonya queria que o tio Willie se sentasse ao lado da janela com a arma e que os irmãos se deitassem no chão. Eles obedeceram. Tonya gemeu dolorosamente durante alguns minutos e, a seguir, ficou quieta e imóvel. Willie ficou sentado no chão, ao lado da janela, até ter a certeza de que todos dormiam. Depois, pegou nos rapazes, um por um, e levou-os para as suas camas e tapou-os carinhosamente. Sentou-se outra vez ao lado da janela e esperou pelo nascer do dia.

Jake e Atcavage encontraram-se no Claude's, na sexta-feira, para almoçar . Pediram costeletas e salada de repolho. O restaurante estava cheio como sempre e, pela primeira vez, em quatro semanas, não havia nenhum rosto estranho. Os fregueses habituais conversavam e contavam mexericos como sempre. Claude estava em grande forma - vociferando, metendo-se com os fregueses fiéis e apressando-os. Claude era uma dessas raras pessoas que podia meter-se com um homem e fazer com que este gostasse que "entrassem" com ele.

Atcavage tinha assistido à audiência para a transferência de foro e teria testemunhado se fosse preciso. O banco tinha desaconselhado o seu envolvimento e Jake não queria criar-lhe problemas. Os banqueiros têm um medo inato de tribunais e Jake admirou o amigo por conseguir dominar essa paranóia e comparecer à audiência. Ao fazer isso, Atcavage tornou-se o primeiro banqueiro na história de Ford County a aparecer voluntariamente num tribunal, sem ser intimado, durante uma sessão do tribunal. Jake estava orgulhoso dele.

Claude passou a correr e disse-lhes que tinham dez minutos e que, portanto, deviam calar a boca e comer. Jake terminou uma costeleta e limpou a boca com o guardanapo.

- A propósito, Stan, por falar em empréstimos, preciso de cinco mil a noventa dias, sem garantia.

- Quem falou em empréstimo?

- Você disse qualquer coisa sobre bancos.

- Pensei que estávamos a dizer mal de Buckley e eu estava a achar isso óptimo.

- Não se deve criticar, Stan. É um hábito fácil de adquirir e impossível de se perder. Rouba o carácter da sua alma.

- Lamento profundamente. Como é que hei-de perdoar a mim próprio?

- E o que é que me diz do empréstimo? - Certo. Para que é que precisa dele? - Isso é relevante?

- O que quer dizer com "isso é relevante"?

- Ouça, Stan, você só tem de se preocupar em saber se eu vou pagar ou não ao fim de noventa dias.

- Está bem. Pode devolver o dinheiro dentro de noventa dias?

- Boa pergunta. É claro que posso. O banqueiro sorriu.

- O caso Hailey tomou conta de si, certo?

O advogado sorriu.

- Sim - admitiu. - É difícil pensar noutra coisa. O julgamento vai ser daqui a três semanas e, até lá, não vou poder concentrar-me em mais nada.

- Quanto é que vai ganhar com esse caso? - Novecentos menos dez mil...

- Novecentos dólares!

- Isso mesmo, ele não conseguiu o empréstimo com a garantia do terreno, lembra-se?

- Barato demais.

- É claro, se tivesse emprestado o dinheiro a Carl Lee, eu não precisava agora deste empréstimo.

- Prefiro emprestar a si.

- Óptimo. Quando recebo o cheque? - Parece que está desesperado...

- Eu sei como vocês são demorados, com o vossos comités de empréstimos, auditores, vice-presidentes para cá e vice-presidentes para lá, e talvez um vice-presidente que, por fim, vá assinar o meu empréstimo daqui a um mês ou dois, se o manual disser que ele pode e se o escritório central estiver de bom humor. Eu sei como vocês funcionam.

Atcavage viu as horas.

- Às três horas, está bem? - Acho que sim.

- Sem garantia?

Jake limpou a boca com o guardanapo e inclinou-se para a frente. Disse, em voz baixa:

- A minha casa é um património histórico, com hipotecas de património histórico e você já tem a hipoteca do meu carro, lembra-se? Eu dou-lhes a primeira hipoteca sobre a minha filha, mas se você tentar executá-la, eu mato-o!... Agora, em que garantia é que está a pensar?

- Desculpe ter perguntado.

- Quando é que recebo o cheque? - Às três da tarde.

Claude apareceu e encheu os copos de ambos com chá gelado. Têm cinco minutos... - disse ele, em voz alta.

- Oito - disse Jake.

- Ouça lá, seu figurão - disse Claude com um largo sorriso. - Isto aqui não é um tribunal e a sua fotografia no jornal não vale dois centavos aqui. Eu disse cinco minutos.

- Pronto. A costeleta estava mesmo muito dura.

-Pois claro, já notei que não deixou nem um osso no prato...

-Pelo preço, a única solução é comer tudo.

-Levo mais caro a quem reclama.

-Já nos vamos embora - disse Atcavage, levantando-se e deixando três dólares em cima da mesa.

Na tarde de domingo, os Hailey fizeram seu piquenique debaixo da árvore, longe da violência, debaixo da rede de basquete. Com a primeira onda de calor, a humidade pesada e peganhenta, junto ao solo, penetrava na sombra. Gwen espantava as moscas, e as crianças e o pai comiam galinha frita e suavam. As crianças comeram rapidamente e correram para um novo baloiço instalado por Ozzie.

- O que é que eles te fizeram, em Whitfield? - perguntou Gwen.

- Nada. Fizeram uma data de perguntas, alguns testes. Uma data de parvoíces.

- Foste bem tratado?

- Com algemas e paredes acolchoadas.

- Estás a mangar... Puseram-te num quarto acolchoado? - Gwen achou graça e um sorriso, raro agora, ergueu-lhe os lábios. - Claro que puseram. Olhavam para mim como se eu fosse um animal. Disseram que sou famoso. Os meus guardas disseram que estavam orgulhosos de mim - um era branco, o outro, negro. Disseram que eu tinha feito o que devia e que esperavam que eu saísse livre. Foram bons para mim.

- E o que disseram os médicos?

- Não vão dizer nada antes do julgamento e, nessa altura, vão dizer que estou óptimo.

- Como é que sabes o que eles vão dizer?

- O Jake disse-me. Até agora, ele nunca se enganou. - Ele arranjou-te um médico?

- Arranjou, um bêbedo maluco que ele foi desencantar não sei onde... Diz que é psiquiatra. Conversámos duas vezes, no escritório de Ozzie.

- Que disse ele?

- Não muito. O Jake disse que ele vai dizer tudo o que a gente quiser que ele diga.

- Deve ser um médico muito bom.

- Ele não se devia dar mal com o pessoal internado em Whitfield...

- De onde é que ele é?

- Jackson, parece-me. Ele não tem a certeza de nada. Parecia julgar que eu também o ia matar! Juro que ele estava bêbedo das duas vezes em que conversou comigo! Fez algumas perguntas que nem eu nem ele entendemos... Tomou notas como se fosse uma pessoa muito importante. Disse que achava que me podia ajudar. Falei com o Jake e ele disse que não preciso de me preocupar, que ele vai estar sóbrio no julgamento. Mas eu acho que o Jake também está preocupado.

- Então, por que é que vamos usar esse médico?

- Porque é de graça. Deve alguns favores não sei a quem. Um psiquiatra a sério custa mais de mil dólares, só para me examinar e outros mil para testemunhar no julgamento. Um psiquiatra barato. Não é preciso dizer que não posso pagar.

O sorriso de Gwen desapareceu e ela desviou os olhos.

- Precisamos de dinheiro em casa - disse ela, sem olhar para ele.

- Quanto?

- Uns duzentos para a comida e as contas. - Quanto é que tens?

- Menos de cinquenta.

- Vou ver o que posso fazer. Gwen olhou para ele.

- O que queres dizer com isso? Pensas que consegues arranjar dinheiro, aqui na cadeia?

Carl Lee ergueu o sobrolho e apontou para ela. Gwen não devia fazer-lhe perguntas. Ainda era ele quem usava calças, mesmo estando na cadeia. Era ele quem mandava.

- Desculpa - murmurou ela.

 

O reverendo Agee espreitou através de uma racha do vitral enorme da sua igreja e, com satisfação, viu os Cadillacs e os Lincolns a chegarem, um pouco antes das cinco da tarde. Ele tinha convocado uma reunião do conselho para estudar a situação de Hailey e planear a estratégia para as últimas três semanas antes do julgamento e se preparar para a chegada dos advogados da associação. O peditório semanal fora muito bom - mais de sete mil dólares em todo o condado e quase seis mil tinham sido depositados pelo reverendo numa conta especial para a defesa legal de Carl Lee Hailey. Não tinham entregado nada à família. Agee estava à espera de instruções da associação sobre a maneira de gastar o dinheiro, e achava que a maior parte devia ir para o fundo de defesa. As irmãs da igreja podiam sustentar a família, se faltasse comida. Precisavam do dinheiro para outras coisas.

O conselho falou sobre maneiras de se obter mais dinheiro. Não era fácil conseguir dinheiro entre os pobres, mas o assunto estava na ordem do dia e o momento era propício e se não conse guissem o dinheiro agora, não teriam outra oportunidade. Concordaram em se reunir, no dia seguinte, na igreja Springdale, em Clanton. O pessoal da associação devia chegar de manhã. Nada de imprensa, ia ser uma sessão de trabalho.

Norman Reinfield, aos trinta anos, era um génio em Direito Penal, com o recorde de se ter formado na Faculdade de Direito, em Harvard, aos vinte e um anos. Logo a seguir, declinara a oferta generosa do pai e do avô para trabalhar numa grande firma de advocacia em Wall Street, preferindo aceitar um emprego na associação e passar o tempo numa luta ferrenha a fim de evitar que os negros do Sul fossem parar ao corredor da morte. Ele era muito bom no que fazia, embora, não por sua culpa, não muito bem-sucedido. A maioria dos negros do Sul ameaçados com a câmara de gás, tal como os brancos, mereciam-na. Mas Reinfield e sua equipa de especialistas na defesa de crimes de homicídio conseguiam algumas vitórias e, quando perdiam, conseguiam manter os condenados com vida por meio de uma infinidade de recursos e prorrogações. Quatro dos seus clientes tinham sido executados na câmara de gás, na cadeira eléctrica ou com injecção letal, e para Reinfield era demais. Ele vira-os morrer e, a cada execução, renovava os seus votos de violar qualquer lei, qualquer código de ética, desobedecer a qualquer tribunal, desrespeitar qualquer juiz, ignorar qualquer mandato, ou fazer tudo o que fosse possível para evitar que um ser humano matasse legalmente outro ser humano. Não se preocupava muito com o assassinato ilegal de seres humanos, como os que eram cruel e friamente perpetrados pelos seus clientes. Não lhe competia a ele pensar nesses crimes e, por isso, não pensava. Descarregava toda a sua raiva justificada e teimosa sobre os assassinatos legais.

Reinfield raramente dormia mais de três horas por noite. Era difícil dormir com trinta e um clientes no corredor da morte. Além dos dezessete que esperavam julgamento. Além dos oito advogados egocêntricos que devia supervisar. Reinfield tinha trinta anos e aparentava quarenta e cinco. Era velho, cáustico e mal-humorado. No decurso normal do seu trabalho, estaria muito ocupado para comparecer a uma reunião de ministros religiosos negros em Clanton, Mississippi. Mas aquele não era um caso normal. Era o caso Hailey.~O do justiceiro. O do pai que se vingou. O processo criminal mais famoso do país, naquele momento. No Mississippi, onde há anos que os brancos continuavam a matar negros, com ou sem razão, e ninguém ligava nenhuma. Onde os brancos violavam os negros, por desporto. Onde os negros eram enforcados por reagirem a isso. E agora, um pai negro acabava de matar dois homens brancos que tinham violentado a sua filha e estava ameaçado de ir para a câmara de gás por uma coisa que trinta anos atrás teria passado despercebida, se ele fosse branco. Esse era o caso, o seu caso, e Reinfield queria tratar dele pessoalmente.

Na segunda-feira, o reverendo Agee apresentou-o ao conselho e abriu a reunião com um longo e detalhado relato das actividades em Ford County. Reinfield foi breve. Ele e a sua equipe não podiam representar o Sr. Hailey porque não tinham sido contratados pelo Sr. Hailey, portanto era imperioso que ele pudesse falar com o acusado. De preferência, naquele mesmo dia. Na manhã seguinte, o mais tardar, porque ele ia apanhar um avião para Memphis, ao meio-dia. Tinha de comparecer a um julgamento criminal nun sítio qualquer da Geórgia. O reverendo Agee prometeu um encontro com o acusado. Ele era amigo do xerife. Muito bem, disse Reinfield, pois faça isso.

- Quanto dinheiro conseguiram? - perguntou Reinfield. - Quinze mil da nossa gente - respondeu Agee.

- Isso sei eu! Quanto, em termos locais? - Seis mil - disse Agee, com orgulho.

- Seis mil! - repetiu Reinfield. - Só isso? Eu pensei que vocês fossem organizados. Onde está todo esse grande apoio local de que falou? Seis mil! Quanto é que conseguem arranjar mais? Temos só três semanas.

Os membros do conselho ficaram calados. Aquele judeu tinha coragem. O único branco do grupo e estava em franco ataque. - De quanto precisamos? - perguntou Agee.

- Isso depende, reverendo, do tipo de defesa que querem para o Sr. Hailey. Eu tenho só oito advogados na minha equipa. Cinco estão a trabalhar em julgamentos, neste momento. Temos trinta e uma condenações por crime de homicídio sob recurso judicial. Temos dezassete julgamentos marcados em dez estados, nos próximos cinco meses. Todas as semanas temos dez pedidos para representar acusados, oito dos quais recusamos, simplesmente porque não temos pessoal suficiente nem dinheiro. Para o Sr. Hailey, duas sedes locais e o escritório central contribuíram com mil e quinhentos dólares, cada um. Agora vêm dizer-me que só conseguiram arrecadar seis mil, em termos locais! Isso dá um total de vinte e um mil. Por esse preço, podem ter a melhor defesa possível. Dois advogados, um psiquiatra pelo menos, mas nada muito especial. Vinte e um mil conseguem uma boa defesa, mas não do tipo daquela em que eu estava a pensar.

- Em que era exactamente que o senhor estava a pensar?

- Numa defesa de primeira classe. Três ou quatro advogados. Uma bateria de psiquiatras. Meia dúzia de investigadores. Um psicólogo para o júri, só para falar de alguns. Este não é um caso sem esperanças. Eu quero ganhar. Pensei que os senhores também quisessem...

- Quanto? - perguntou Agee.

- Cinquenta mil, no mínimo. Cem mil seria óptimo.

- Ouça, Dr. Reinfield, o senhor está no Mississippi. A nossa gente é pobre. Até agora foram todos muito generosos, mas de modo nenhum podemos conseguir mais trinta mil dólares.

Reinfield endireitou os óculos com aro de tartaruga e coçou a barba grisalha.

- Quanto é que podem conseguir? - Mais cinco mil, talvez.

- Isso não é muito dinheiro.

- Não para o senhor, mas é muito para os negros de Ford County.

Reinfield olhou para o chão e continuou a passar a mão na barba.

- Quanto foi que a sede de Memphis deu?

- Cinco mil - respondeu alguém de Memphis. - Atlanta?

- Cinco mil.

- E a sede estadual? - De que estado? - Mississippi.

- Nada. - Nada? - Nada. - Porque não?

- Pergunte-lhe a ele - disse Agee, apontando para o reverendo Henry Hillman, o director estadual.

- Bem, estamos agora a tentar recolher algum dinheiro - disse Hillman, timidamente. - Mas...

- Quanto é que já conseguiu, até agora? - perguntou Agee. - Bem, conseguimos...

- Nada, não foi? Não conseguiu nada, não foi, Hillman? - disse Agee, em voz alta.

- Vamos, Hillman, diga lá quanto - insistiu o reverendo Roosevelt, vice-presidente do conselho.

Confuso, Hillman não podia falar. Estava sentado calmamente na primeira fila, tratando da própria vida, quase a dormir e, de repente, eles atacavam-no.

- A sede estadual vai contribuir.

- Eu sei, Hillman. Vocês, na sede estadual, estão sempre a insistir com as sedes locais para contribuirem para esta ou para aquela, e nunca vemos o vosso dinheiro. Passam a vida a lamentar -se, a dizer que estão falidos e nós sempre a mandar dinheiro... Mas quando precisamos de ajuda, o estado não faz nada, a não ser aparecer por aqui e falar.

- Não é verdade.

- Não comece a mentir, Hillman.

Reinfield percebeu, embaraçado, que tinha atingido um ponto delicado.

- Senhores, senhores, vamos continuar - disse, diplomaticamente.

- Boa ideia - aprovou Hillman.

- Quando é que podemos falar com o Sr. Hailey? - perguntou Reinfield.

- Vou arranjar o encontro para amanhã cedo - disse Agee. - Onde?

- Eu penso que o melhor lugar é o escritório do xerife Walls, no edifício da cadeia. Ele é negro, sabe, o único xerife negro do Mississippi.

- Sim, já ouvi dizer.

- Acho que ele nos deixará falar com Hailey, no escritório dele.

- Muito bem. Quem é o advogado do Sr. Hailey? - É de Clanton. O Dr. Jake Brigance.

- Não deixe de convidá-lo. Pedir-lhe-emos para nos ajudar neste caso. Assim, não ficará muito ofendido.

A voz irritante, estridente e mal-humorada de Ethel quebrou a tranquilidade do fim da tarde e sobressaltou o seu patrão.

- Dr. Brigance, o xerife Walls na linha dois - disse ela, pelo interfone.

- Está bem.

- O senhor doutor ainda vai precisar de mim? - Não. Até amanhã.

Jake carregou no botão da linha dois. - Olá, Ozzie. O que houve?

- Ouça, Jake, temos cá um bando de figurões da associação na cidade.

- Qual é a outra novidade?

- Não, isto é diferente. Eles querem falar com o Carl Lee, amanhã de manhã.

- Porquê?

- Um fulano chamado Reinfield.

- Já ouvi falar dele. É o chefe da equipa de criminologistas. Norman Reinfield.

- Isso, esse mesmo.

- Eu estava à espera disso.

- Muito bem, ele está aqui e quer falar com o Carl Lee. - E o que tem você a ver com isso?

- O reverendo Agee telefonou-me. Pediu um favor, é claro. Pediu para lhe telefonar a si.

- A resposta é não. Decididamente não!

Passados alguns segundos de silêncio, Ozzie disse: - Jake, eles querem que esteja presente.

- Quer dizer que fui convidado?

- Sim. Agee disse que Reinfield insistiu. Ele quer que esteja presente.

- Onde?

- No meu escritório. Às nove horas da manhã. Jake respirou fundo e respondeu lentamente: - Está bem, estarei lá. Onde está o Carl Lee? - Na cela.

- Leve-o para o seu escritório. Estarei aí daqui a cinco minutos.

- Para quê?

- Para rezarmos o terço!

Os reverendos Agee, Roosevelt e Hillman sentaram-se enfileirados nas cadeiras de armar, de frente para o xerife, o acusado e Jake, que fumava um charuto barato, decidido a poluir o ar da

pequena sala. Jake soltava grandes baforadas, olhando para o chão, esforçando-se por demonstrar um desprezo absoluto por Reinfield e os reverendos. Não era fácil vencer a arrogância de Reinfield que nem sequer tentava disfarçar o seu desprezo por aquele advogado simplório e insignificante. Ele era arrogante e insolente por natureza. Jake tinha que fazer um esforço para parecer arrogante ou insolente.

- Quem convocou esta reunião? - perguntou Jake, impaciente, depois de um silêncio longo e embaraçoso.

- Bem, hum, acho que fomos nós - respondeu Agee, olhando para Reinfield.

- Muito bem, então vamos... O que querem?

- Calma Jake - disse Ozzie. - O reverendo Agee pediu para arranjar este encontro para que o Carl Lee pudesse conhecer o Dr. Reinfield.

- Óptimo. Já se conheceram. Agora, que mais, Dr. Reinfield?

- Estou aqui para oferecer ao Sr. Hailey os meus serviços e os serviços da minha equipa e de toda a associação - disse Reinfield.

- Que tipo de serviço? - perguntou Jake.

- Jurídico, é claro.

- Carl Lee, você pediu ao Dr. Reinfield para vir aqui? - perguntou Jake.

- Eu não.

- Dr. Reinfield, isto dá ares de aliciamento ilegal.

- Pode esquecer o sermão, Dr. Brigance. O senhor sabe o que eu faço e sabe por que estou aqui.

- Quer dizer que corre atrás de todos os seus casos?

- Nós não corremos atrás de coisa alguma. Somos chamados por membros da associação e outras entidades de direitos civis. Trabalhamos com casos de homicídio e somos muito bons.

- Devo supor que o senhor é o único advogado com competência para defender um caso desta amplitude?

- Já trabalhei em alguns. - E já perdeu alguns.

- A maioria dos meus casos é praticamente perdida.

- Compreendo. É essa a sua posição neste caso? Espera perder?

Reinfield levou a mão à barba e olhou furioso para Jake. - Não estou aqui para discutir consigo, Dr. Brigance.

- Eu sei. Está aqui para oferecer a sua formidável assistência jurídica a um acusado que nunca ouviu falar no senhor e que está satisfeito com o seu advogado. Está aqui para roubar o meu cliente. Eu sei exactamente por que está aqui.

- Estou aqui porque a associação me convidou. Nada mais, nada menos.

- Compreendo. Obtem todos os seus casos junto da associação?

- Eu trabalho para a associação, Dr. Brigance. Sou o chefe da equipa de criminologistas. Eu vou onde a associação me manda ir. - Quantos clientes têm?

- Algumas dúzias. Que importância tem isso?

- Todos tinham advogados antes de vocês forçarem a sua participação no caso?

- Alguns tinham, outros não. Procuramos sempre trabalhar com o advogado local.

Jake sorriu.

- Isso é maravilhoso. Está a oferecer-me a hipótese de transportar a sua pasta e de ser o seu motorista em Clanton. Posso até ir buscar-lhe uma sanduíche, no intervalo do almoço... Estou deslumbrado.

Carl Lee estava imóvel, com os braços cruzados, a olhar para o chão. Os reverendos observavam-no atentamente, à espera de que ele dissesse alguma coisa ao seu advogado, que o mandasse calar, que ele estava despedido e que os advogados da associação iam defender o caso dele. Observavam e esperavam, mas Carl Lee apenas ouvia, calmamente.

- Temos muito para oferecer, Sr. Hailey - disse Reinfield. Era melhor ficar calmo, até o acusado resolver quem ia representá-lo. Uma explosão podia estragar tudo.

- Por exemplo? - perguntou Jake.

- Pessoal, recursos, prática, advogados criminologistas experientes que só trabalham na defesa de crimes de homicídio. Além disso, temos vários médicos competentes que usamos nesses casos. Em qualquer coisa que pense, nós temos.

- Quanto dinheiro têm para gastar com este caso? - Isso não é da sua conta.

- Não é? E será da conta do Sr. Hailey? Afinal, o caso é dele. Talvez o Sr. Hailey queira saber quanto vão gastar com a defesa-dele. O senhor gostaria de saber, Sr. Hailey?

- Gostaria.

- Muito bem, Dr. Reinfield, quanto têm para gastar? Reinfield olhou constrangido para os reverendos, que olharam para Carl Lee.

- Aproximadamente vinte mil, até agora - admitiu Reinfield, timidamente.

Jake riu e abanou a cabeça, incrédulo.

- Vinte mil! Os senhores levam esta coisa a sério, não levam? Vinte mil! Eu pensei que vocês jogassem na equipa dos campeões. Conseguiram cento e cinquenta mil dólares para o assassino do polícia, em Birmingham, no ano passado. E, a propósito, ele foi condenado... Gastaram cem mil dólares com a prostituta que matou o cliente, em Shreveport. E ela também foi condenada, devo acrescentar. E acha que este caso vale só vinte mil?

- Quanto tem o senhor para gastar? - perguntou Reinfield. - Se conseguir explicar-me o que tem o senhor a ver com isso, terei muito prazer em discutir o assunto.

Reinfield começou a falar, depois inclinou-se para a frente e passou as mãos nas têmporas.

- Porque não fala com ele, reverendo Agee?

Os reverendos olharam para Carl Lee. Queriam ficar a sós com ele, sem nenhum branco por perto. Poderiam falar então como se fala com um negro. Poderiam explicar muitas coisas, dizer-lhe para despedir aquele rapazola branco e contratar advogados a sério, advogados da associação. Advogados que sabiam como lutar pelos negros. Mas não estavam sozinhos com ele e não podiam descarregar a sua fúria. Precisavam demonstrar respeito pelos brancos presentes. Agee foi o primeiro a falar.

- Ouça lá, Carl Lee, estamos a tentar ajudá-lo. Trouxemos o Dr. Reinfield e ele tem todos os seus advogados e toda a gente à sua disposição, para o ajudar. Não temos nada contra o Jake, ele é

um óptimo jovem advogado. Mas ele pode trabalhar com o Dr. Reinfield. Não queremos que você despeça o Jake, só queremos que contrate o Dr. Reinfield também. Eles podem trabalhar juntos. - Esqueça isso - disse Jake.

Agee olhou desanimado para Jake.

- Ora, vamos, Jake. Não temos nada contra si. Pode trabalhar com advogados realmente importantes. Vai ganhar experiência. Nós...

- Reverendo, deixe-me esclarecer as coisas. Se Carl Lee quiser os seus advogados, tudo bem. Mas não vou ser o ajudante de ninguém! Estou dentro ou fora. Nada no meio. O meu caso, ou o seu caso. O tribunal não tem espaço suficiente para mim, o Dr. Reinfield e Rufus Buckley.

Reinfield revirou os olhos para o tecto e abanou a cabeça com um sorriso arrogante e superior.

- Está a querer dizer que depende do Carl Lee? - perguntou o reverendo Agee.

- É claro que depende dele. Ele contratou-me. Ele pode despedir-me. Já fez isso uma vez. Não sou eu quem está ameaçado com a câmara de gás.

- Então, que diz, Carl Lee? - perguntou Agee. Carl Lee descruzou os braços e olhou para Agee. - Esses vinte mil, para que são?

- Na verdade, são trinta mil - disse Reinfield. - A população daqui já prometeu mais dez mil. O dinheiro vai ser usado para a sua defesa. Nada para os honorários dos advogados. Vamos precisar de uns dois ou três investigadores. Dois, talvez três psiquiatras experientes. Geralmente usamos psicólogos de júri para a selecção dos jurados. A nossa defesa é muito dispendiosa.

- Hum, hum. Quanto conseguiram da população daqui? -perguntou Carl Lee.

- Mais ou menos seis mil dólares - disse Reinfield. - Quem recolheu esse dinheiro?

Reinfield olhou para Agee.

- As igrejas - respondeu o reverendo.

- Quem recebeu o dinheiro das igrejas? - perguntou Carl Lee.

- Nós - respondeu Agee.

- Quer dizer, o senhor - disse Carl Lee.

- Bem, sim, quero dizer, cada uma das igrejas entregou-me o dinheiro e eu depositei-o numa conta bancária especial.

- Certo, e depositou todo o dinheiro que recebeu? - É claro que depositei.

- É claro. Deixe-me perguntar uma coisa... Quanto desse dinheiro ofereceu à minha mulher e aos meus filhos?

Agee empalideceu, tanto quanto possível, e olhou rapidamente para os outros reverendos que, naquele momento, estavam preocupados com um percevejo mal-cheiroso de jardim que cami nhava no tapete e não podiam ajudá-lo. Ambos sabiam que Agee tinha tirado a sua parte e sabiam que a família de Carl Lee não tinha recebido nada. Agee tinha tirado mais proveito do que a família. Eles sabiam e Carl Lee sabia.

- Quanto, reverendo? - repetiu Carl Lee. - Bem, nós achámos que o dinheiro...

- Quanto, reverendo?

- O dinheiro vai ser usado para os honorários dos advogados e coisas assim.

- Não foi isso que disse aos membros da sua igreja, pois não? Disse-lhes que era para ajudar a minha família. O senhor quase que chorou quando disse que a minha família podia morrer de fome se eles não dessem o máximo possível. Não é verdade, reverendo?

- O dinheiro é para si, Carl Lee. Para si e para a sua família. Neste momento, achamos que será melhor gastá-lo com a sua defesa.

- E se eu não quiser os seus advogados? O que acontece aos vinte mil?

Jake riu discretamente.

- Boa pergunta. O que acontece com o dinheiro se o Sr. Hailey não o contratar, Dr. Reinfield?

- O dinheiro não é meu - disse Reinfield. - Reverendo Agee? - perguntou Jake.

A paciência do reverendo esgotou-se. Estava agora desafiador e beligerante. Apontou para Carl Lee.

- Ouça cá, Carl Lee. Nós quase nos matámos para conseguir esse dinheiro. Seis mil dólares dos pobres deste condado, de gente que nada tinha para dar! Trabalhámos muito para conseguir esse dinheiro e foi dado por gente pobre, pela sua gente, gente que vive da caridade social, gente que não podia dar nem um centavo! Mas deram por uma única razão. Acreditam em si e no que fez e querem que saia livre daquele tribunal. Não me venha dizer que não quer o dinheiro!

- Não me venha com sermões! - replicou Carl Lee, com calma. - Diz que os pobres daqui doaram seis mil dólares?

- Isso mesmo.

- De onde veio o resto do dinheiro?

- Da associação. Cinco mil de Atlanta, cinco de Memphis e cinco da secção nacional. Unicamente para pagar a sua defesa.

- Se eu aceitasse o Dr. Reinfield? - Certo.

- E se eu não aceitar, o dinheiro desaparece? - Certo.

- E os outros seis mil?

- Boa pergunta. Ainda não resolvemos isso. Pensámos que nos ia agradecer por angariar o dinheiro e por tentar ajudá-lo. Estamos a oferecer-lhe os melhores advogados e, ao que parece, você não liga a menor importância!

O silêncio durou uma eternidade. Advogados, reverendos e o xerife esperavam uma mensagem do acusado. Carl Lee mordeu o lábio inferior e olhou para o chão. Jake acendeu outro charuto. Já fora despedido uma vez, podia aguentar mais uma.

- Precisam de uma resposta já, imediatamente? - perguntou Carl Lee, por fim.

- Não - disse Agee.

- Sim - disse Reinfield. - Faltam menos de três semanas para o julgamento e já estamos com dois meses de atraso. A minha equipa é muito valiosa para ficar à sua disposição, Sr. Hailey. Ou me contrata agora, ou pode esquecer. Tenho de ir apanhar um avião.

- Bem, vou dizer-lhe uma coisa, Dr. Reinfield. O senhor pode ir apanhar o seu avião e não precisa de se preocupar em voltar a Clanton por minha causa. Vou arriscar aqui com o meu amigo Jake.

 

O Klan de Ford County foi fundado à meia-noite de quinta-feira, em 11 de Junho, num pequeno pasto ao lado de uma estrada de terra batida, no meio da floresta, num ponto qualquer a Norte do condado. Os seis novos recrutas, de pé diante da enorme cruz em chamas, repetiram nervosamente as palavras ditas por um mago. Um dragão e vinte e quatro membros do Klan, com os seus mantos brancos, assistiam e cantavam nos momentos oportunos. Um guarda armado vigiava a estrada, observando ocasionalmente a cerimónia, mas especialmente atento a qualquer convidado indesejável. Não apareceu nenhum.

À meia-noite em ponto, os seis ajoelharam-se, fecharam os olhos e os capuzes ponteagudos foram cerimoniosamente postos nas suas cabeças. Agora eram homens do Klan, aqueles seis, Fred die Cobb, irmão do morto, Jerry Maples, Clifton Cobb, Ed Wilbum, Morris Lancaster e Terrell Grist. O grande dragão parou em frente de cada um deles entoando os votos sagrados do Klan. Ás chamas da cruz chamuscavam os rostos dos novos membros, ajoelhados, sufocados sob os mantos e os capuzes. O suor escorria das caras muito vermelhas ,e eles rezavam com fervor para que o dragão acabasse rapidamente com aquela estupidez e terminasse a cerimónia. Quando cessou a cantoria, os novos membros levantaram-se e afastaram-se rapidamente da cruz. Foram abraçados pelos novos irmãos, que os agarravam pelos ombros com força e lhes martelavam encantamentos primitivos sobre as clavículas cobertas de suor. Os capuzes pesados foram removidos e os membros do Klan, novos e antigos, caminharam solenemente até uma cabana rústica, do lado oposto da estrada de terra. O mesmo guarda sentou-se nos degraus da frente enquanto o uísque era servido e planos eram feitos para o julgamento de Carl Lee Hailey.

O sub-delegado Pirtle chefiava o último turno, das dez da noite às seis da manhã, e tinha parado para tomar um café com uma fatia de tarte no Gurdy's, que ficava aberto a noite toda, na auto estrada a Norte da cidade, quando o rádio o avisou de que estavam à sua espera na cadeia. Passavam três minutos da meia-noite, madrugada de sexta-feira.

Pirtle deixou a tarte e seguiu para o edifício da prisão, um quilómetro e meio a Sul.

- Que aconteceu? - perguntou ao operador de rádio.

- Recebemos um telefonema, há alguns minutos, anónimo, de alguém que procurava o xerife. Expliquei que ele não estava de serviço e perguntaram então quem é que estava. Eu disse que era você. Disseram que era muito importante e que voltavam a telefonar daí a um quarto de hora.

Pirtle serviu-se de café e sentou-se na cadeira grande de Ozzie. O telefone tocou.

- É para si - gritou o operador. - Está? -atendeu Pirtle.

- Quem fala? - perguntaram.

- Sub-delegado Joe Pirtle. Quem fala? - Onde está o xerife?

- A dormir, creio eu.

- Muito bem, ouça e preste bem atenção porque é importante e não vou voltar a telefonar. Conhece o tal negro Hailey? - Conheço.

- Conhece o advogado dele, Brigance? - Conheço.

- Então, ouça. A qualquer instante, a partir de agora e até às três horas, vão fazer explodir a casa dele.

- Quem? - Brigance.

- Não, estou a perguntar quem é que vai fazer explodir a casa dele.

- Não se preocupe com isso, sub-delegado, limite-se a ouvir. Isto não é nenhuma brincadeira, e se pensa que é, fique aí e espere pela explosão. Pode acontecer a qualquer momento.

A voz calou-se mas não desapareceu. Pirtle ficou à escuta. - Está a ouvir-me?

- Boa noite, sub-delegado. - Ouviu-se o clique do telefone. Pirtle deu um salto da cadeira e correu para o operador de rádio.

- Ouviu?

- - Claro que ouvi.

- Telefone para o Ozzie e diga-lhe que venha imediatamente. Estou em casa do Brigance.

Pirtle escondeu o carro da polícia na entrada de automóvel de uma casa da rua Monroe e atravessou o relvado da frente da casa de Jake. Não viu nada. Eram doze e cinquenta e cinco. Caminhou em volta da casa com a lanterna e não notou nada de estranho. Todas as casas da rua estavam às escuras e adormecidas. Desatarraxou a lâmpada do terraço da frente e sentou-se numa cadeira de vime. Esperou. O carro estrangeiro, de aparência esquisita, estava parado ao lado do Oldsmobile debaixo da varanda. Ele ia esperar e consultar Ozzie para saber se devia avisar Jake.

Faróis dianteiros surgiram no fim da rua. Pirtle baixou-se na cadeira, certo de que não podia ser visto. Uma pick-up vermelha, um bocado suspeita, dirigiu-se para casa de Brigance, mas não parou. Pirtle endireitou-se na cadeira e viu-a desaparecer, rua abaixo.

Momentos depois notou dois vultos a sairem da praça a correr. Desabotoou o coldre e tirou a arma. O primeiro vulto era muito maior do que o segundo e parecia correr com mais facilidade e elegância. Era Ozzie. O outro era Nesbit. Pirtle encontrou-se com eles na entrada de automóvel e os três refugiaram-se na escuridão do terraço da frente. Falavam baixinho e observavam a rua.

- O que foi exactamente que ele disse? - perguntou Ozzie. - Disse que alguém ia fazer explodir a casa de Jake, daqui até às três horas da manhã. Disse que não era nenhuma brincadeira. - Só isso?

- Só. Não foi nada amigável.

- Há quanto tempo é que está aqui? - Vinte minutos.

Ozzie voltou-se para Nesbit.

- Dê-me o seu rádio e vá esconder-se no fundo do quintal. Fique quieto e de olhos abertos.

Nesbit desatou a correr para a parte de trás da casa e encontrou uma pequena abertura entre os arbustos da cerca. A gatinhar, desapareceu no meio dos arbustos. Do seu esconderijo, avistava toda a parte das traseiras da casa.

- Vai avisar o Jake? - perguntou Pirtle.

- Ainda não. Talvez daqui a pouco. Se batermos à porta, eles acenderão as luzes, e não precisamos disso agora.

- É verdade, mas... e se o Jake ouvir a gente e sair de casa aos tiros? Pode pensar que somos dois negros a tentar assaltar a casa dele.

Ozzie olhou para a rua e não disse nada.

- Ouça, Ozzie, ponha-se no lugar dele. Os polícias cercam a sua casa à uma hora da manhã, à espera de que alguém atire uma bomba. Então, vai querer ficar na cama ou prefere saber o que se passa?

Ozzie olhou para as outras casas, ao longe.

- Ouça, xerife, acho melhor acordá-los. E se a gente não conseguir deter quem está a planear isto e alguém dentro de casa fica ferido?... Nós é que ficamos com as culpas, certo?

Ozzie levantou-se e tocou à campainha.

- Desatarraxe aquela lâmpada - ordenou ele, apontando para o tecto do terraço.

- Já fiz isso.

Ozzie voltou a tocar à campainha. A porta de madeira abriu-se e Jake veio até à porta de Inverno e fitou o xerife. Usava um camisão de dormir, todo amachucado, que ia até abaixo dos joelhos, e tinha na mão direita um 38 carregado. Devagarinho abriu a porta.

- O que é, Ozzie? - perguntou. - Posso entrar?

- Claro. Que se passa?

- Fique aqui no terraço - dise Ozzie a Pirtle. - É só um minuto.

Ozzie fechou a porta da frente atrás deles e apagou a luz do vestíbulo. Sentaram-se na sala de estar às escuras que dava para o terraço e o jardim da frente.

- Fale, homem! - disse Jake.

- Há coisa de meia hora, recebemos um telefonema anónimo de alguém que dizia que uma pessoa tinha planeado fazer explodir a sua casa entre a meia-noite e as três horas da manhã. Estamos a levar a coisa a sério.

- Obrigado.

- Estou com Pirtle no terraço da frente, e Nesbit no fundo do quintal.

Há uns dez minutos, Pirtle viu uma pick-up passar devagar como se alguém estivesse interessado na casa, mas foi tudo o que vimos.

- Já procuraram em volta da casa?

- Já, nada. Eles ainda cá não estiveram. Mas qualquer coisa me diz que isto é a sério.

- Porquê?

- É só um palpite.

Jake pôs o 38 a seu lado, no sofá, e passou as mãos pelas têmporas.

- O que é que sugere?

- Sentar e esperar. É tudo que podemos fazer. Tem uma espingarda?

- Tenho armas suficientes para invadir Cuba.

- Porque não agarra nessa aí e se vai vestir? Tome posição numa daquelas janelas pequeninas do segundo andar. Nós vamos esconder-nos lá fora e esperar.

- Tem homens suficientes, Ozzie?

- Tenho. Acho que os outros devem ser só um ou dois. - Quem são eles?

- Não sei. Podem ser do Klan, podem ser mercenários. Quem sabe?

Os dois homens mergulharam nos seus pensamentos, a olhar para a rua escura. Viam o alto da cabeça de Pirtle curvado na cadeira de vime, do lado de fora da janela.

- Jake, lembra-se daqueles três militantes dos direitos civis mortos pelo Klan em 64? Foram encontrados enterrados num dique perto de Filadélfia.

- Claro. Eu era pequeno mas lembro-me.

- Aqueles homens nunca teriam sido encontrados se não tivesse havido alguém que dissesse onde eles estavam. Quem o fez foi um membro do Klan. Um informador. Parece que isso acontecia sempre, no Klan. Havia sempre um informador no meio deles.

- Acha que é o Klan?

- Pelo menos parece. Se fossem apenas um ou dois mercenários, quem mais poderia saber? Quanto maior o grupo, maior a possibilidade de alguém nos avisar.

- Faz sentido, mas, por qualquer motivo, isso não me consola.

- É claro que também pode ser uma brincadeira. - Não acho graça nenhuma.

- Vai contar à sua mulher? - Vou. Acho melhor.

- Eu, no seu caso, também contava. Mas não acendam nenhuma luz. Poderia afugentá-los.

- Mas eu gostaria de afugentá-los a todos.

- E eu quero apanhá-los! Se não os apanharmos agora, vão tentar novamente e nessa altura podem esquecer-se de telefonar com antecedência.

Carla vestiu-se apressadamente, no escuro. Estava apavorada. Jake deitou Hanna no sofá da sua sala de trabalho. Hanna resmungou e continuou a dormir. Carla, com a cabeça da filha no colo viu Jake carregar a espingarda.

- Vou ficar lá em cima, no quarto de hóspedes. Não acendas a luz. Os polícias cercaram a casa, portanto não fiques preocupada. - Não ficar preocupada?! Tu estás doido?

- Tenta não adormecer.

- Adormecer! Jake, tu estás doido!

Não tiveram de esperar muito. De onde estava, escondido entre os arbustos na frente da casa, Ozzie foi o primeiro a vê-lo. Um vulto solitário a andar devagar, vindo da direcção oposta à praça. Transportava uma caixa ou mala pequena. Duas casas antes da de Jake, ele saiu do passeio e atravessou os relvados vizinhos. Ozzie empunhou o revólver e o cassetete e viu o homem caminhar directamente para ele. Jake tinha o homem na mira da sua espingarda. Pirtle deslizou como uma cobra pelo chão da varanda e escondeu-se entre os arbustos, pronto a atacar.

De repente, o homem passou a correr pelo relvado do vizinho e seguiu para um dos lados da casa de Jake. Depositou a caixa cuidadosamente debaixo da janela do quarto de Jake. Quando se voltou para fugir, um cassetete enorme e negro bateu-lhe num dos lados da cabeça, cortando-lhe a orelha em dois sítios, fazendo-a quase em bocados. O homem gritou e caiu.

- Apanhei-o! - gritou Ozzie.

Pirtle e Nesbit correram para o lado da casa. Jake desceu a escada calmamente.

- Volto num minuto - disse a Carla.

Ozzie agarrou no homem pelo pescoço e fê-lo sentar-se perto da casa. Estava consciente, mas atordoado. A mala estava a poucos centímetros.

- Nome? - perguntou Ozzie.

O homem gemeu, segurou a cabeça com as duas mãos e não disse nada.

- Eu fiz uma pergunta - disse Ozzie, de pé ao lado do homem.

Pirtle e Nesbit estavam a seu lado, com as armas na mão, assustados demais para falar ou fazer um movimento. Jake olhou para a maleta.

- Não respondo - disse o homem.

Ozzie ergueu o cassetete acima da cabeça e baixou-o com força no tornozelo direito do homem. O osso partiu-se com um estalo impressionante. Ele gritou e agarrou na perna. Ozzie deu-lhe um pontapé na cara. O homem caiu para trás e bateu com a cabeça na parede. Rolou para o lado, gemendo de dor. Jake ajoelhou-se e encostou o ouvido na maleta. Levantou-se de um salto e recuou.

- Está armada - disse, com voz fraca.

Ozzie inclinou-se para o homem e encostou o cassetete ao nariz dele.

- Tenho outra pergunta, antes de lhe partir os ossos todos do corpo. O que tem naquela maleta?

Nenhuma resposta. Ozzie ergueu o cassetete e partiu-lhe o outro tornozelo.

- O que tem naquela maleta? - berrou ele. - Dinamite! - foi a resposta trémula.

Pirtle deixou cair a arma. A pressão arterial de Nesbit subiu-lhe acima do boné e fê-lo encostar-se à parede. Jake ficou branco e os joelhos dele começaram a tremer. Correu para a porta da frente, gritando a Carla:

- Pega nas chaves do carro! Pega nas chaves do carro! - Para quê? - perguntou ela, nervosa.

- Faz o que te estou a dizer. Pega nas chaves e mete-te no carro.

Ele ergueu Hanna do sofá, atravessou a cozinha, dirigiu-se ao telheiro dos carros e deitou-a no banco de trás do Cutlass de Carla. Agarrou no braço de Carla e ajudou-a a entrar no carro.

- Vai-te embora daqui e não voltes antes de meia hora. - Jake, o que é que aconteceu? - perguntou ela.

- Explico-te mais tarde. Não temos tempo agora. Vai-te embora. Dá umas voltas durante meia hora. Fica longe desta rua. - Mas, porquê, Jake? O que é que vocês encontraram?

- Dinamite.

Carla fez marcha atrás e saiu para a rua. Quando Jake voltou para o lado da casa, a mão esquerda do homem estava algemada ao contador de gás, perto da janela. Ele gemia, resmungava e proferia insultos. Ozzie levantou a maleta cuidadosamente pela pega e colocou-a entre as pernas partidas do suspeito. Ozzie deu-lhe um pontapé nas pernas para ele as afastar. O sujeito gemeu mais alto. Ozzie, os sub-delegados e Jake recuaram lentamente, a olhar para ele. O homem começou a gritar.

- Eu não sei desarmar isto - disse, com os dentes cerrados. - É melhor aprender depressa - disse Jake, com a voz um pouco mais forte.

O suspeito fechou os olhos e baixou a cabeça. Mordeu os lábios, respirando rápida e ruidosamente. O suor pingava-lhe do queixo e das sobrancelhas. A orelha estava cortada, pendurada como uma folha prestes a cair.

- Dê-me uma lanterna.

Pirtle estendeu-lhe uma lanterna.

- Preciso das duas mãos - disse o homem. - Tente só com uma - disse Ozzie.

O homem pousou os dedos ao de leve no fecho e fechou os olhos.

- Vamos sair daqui - disse Ozzie.

Deram a volta a correr à casa e entraram no telheiro, o ponto mais afastado possível.

- Onde está a sua família? - perguntou Ozzie. - Foi-se embora. Conhece-o?

- Não - disse Ozzie.

- Nunca vi este tipo - disse Nesbit.

Pirtle abanou a cabeça. Ozzie chamou o operador de rádio, que chamou o sub-delegado Riley, o homem que aprendera sozinho a lidar com explosivos.

- E se ele desmaiar e a bomba explodir? - disse Jake. - Tem seguro, não tem, Jake? - perguntou Nesbit. - Não tem graça nenhuma.

- Vamos dar-lhe alguns minutos, depois Pirtle pode ir verificar o que aconteceu com o gajo - disse Ozzie.

- Porquê eu?

- Eu acho que o Jake é que deve ir - disse Nesbit. - A casa é dele.

- Muito engraçado - disse Jake.

Esperaram enquanto conversavam cheios de nervoso. Nesbit fez outra observação idiota sobre o seguro.

- Quieto! - disse Jake. - Ouvi qualquer coisa.

Ficaram imóveis. Alguns segundos depois o homem gritou outra vez. Eles atravessaram a correr o relvado e depois viraram muito devagar para o lado da casa. A maleta vazia tinha sido atirada para um lado. Ao lado do homem, estavam empilhados doze tubos de dinamite. Entre as pernas dele, estava um relógio grande, redondo, com uma porção de fios presos com fita adesiva prateada.

- Está desarmada? - perguntou Ozzie, ansioso. - Está - disse o homem, ofegante.

Ozzie ajoelhou-se diante dele e retirou o relógio e os fios. Não tocou na dinamite.

- Onde estão os seus amigos?

Silêncio. Ele tirou o cassetete da bainha e aproximou-se mais do homem.

- Vou começar a partir costelas, uma de cada vez. Acho melhor começar a falar. Vamos, onde estão os seus amigos?

- Vá à merda.

Ozzie levantou-se, olhou em volta rapidamente, não para Jake nem para os polícias, mas para a casa vizinha. Não viu nada e ergueu o cassetete. O braço do homem estava pendurado no conta dor de gás e o golpe atingiu-o mesmo abaixo da axila esquerda. Ele gritou e saltou para a esquerda. Jake quase teve pena dele.

- Onde estão? - perguntou Ozzie.

Silêncio. Jake virou a cara quando o xerife desfechou outro golpe nas costelas.

- Onde estão? Silêncio. Ozzie ergueu o cassetete. - Pare... por favor, pare - pediu o homem. - Onde estão?

- Daquele lado. A uns dois quarteirões. - Quantos?

- Um.

- Que carro?

- Uma pick-up vermelha.

- Chame os carros-patrulha - disse Ozzie.

Jake esperou impaciente no telheiro dos carros a volta de Carla. Às duas e um quarto, ela entrou devagar e estacionou.

- A Hanna está a dormir? - perguntou Jake, ao abrir a porta. - Está.

- Óptimo. Deixa-a onde•, está. Vamos embora daqui a minutos. - Para onde?

- Falamos nisso lá dentro.

Jake serviu o café e procurou ficar calmo. Carla estava assustada, a tremer e zangada, e era quase impossível, para ele, não perder a calma. Ele falou-lhe da bomba e do homem e explicou que Ozzie estava, naquele momento, à procura do cúmplice.

- Quero que tu e a Hanna vão para Wilmington e fiquem com os teus pais até depois do julgamento - disse ele.

Carla olhou para a chávena de café e não disse nada.

- Já telefonei ao teu pai a explicar tudo. Eles também estão assustados e insistem para que vocês fiquem lá em casa até tudo isto acabar.

- E se eu não quiser ir?

- Por favor, Carla. Como é que consegues discutir num momento destes?

- E tu?

- Não há problema... Ozzie vai arranjar-me um guarda-costas e a casa vai ser vigiada dia e noite. Uma vez por outra, durmo no escritório. Estarei seguro, prometo.

Carla não ficou convencida.

- Ouve, Carla. Tenho milhentas coisas em que pensar! Tenho um cliente que pode ir parar à câmara de gás e faltam dez dias para o julgamento. Não posso perder este caso. Vou trabalhar dia e noite, até ao último momento e, de qualquer modo, tu não me ias pôr a vista em cima enquanto durasse o julgamento. A última coisa que eu quero é ter de me preocupar contigo e com a Hanna. Por favor, vai.

- Eles iam matar-nos, Jake. Eles tentaram matar-nos. Jake não podia dizer que não.

- Tu prometeste largar o caso se houvesse qualquer perigo. - Já não é possível. Noose nunca permitiria que eu deixasse o caso agora.

- Sinto-me como se me tivesses mentido.

- Isso não é justo. Acho que subestimei a coisa toda e agora é tarde demais.

Carla foi para o quarto e começou a fazer as malas.

- O avião sai de Memphis às seis e meia. O teu pai vai esperar-vos ao aeroporto Raleigh às nove e meia.

- Sim, senhor.

Quinze minutos depois saíram de Clanton. Jake conduzia e Carla não disse uma palavra. Às cinco horas, tomaram café no aeroporto de Memphis. Hanna estava com sono, mas contente com a idéia de ver os avós. Carla falou muito pouco. Tinha muito a dizer mas nenhum deles discutia em frente de Hanna. Ela comeu calada e tomou o café olhando para o marido que lia o jornal como se nada tivesse acontecido.

Jake beijou as duas e prometeu telefonar todos os dias. O avião saiu à hora prevista. Às sete e meia, estava no escritório de Ozzie.

- Quem é ele? - perguntou Jake.

- Não fazemos idéia. Sem carteira, sem identidade, nada. E não fala.

- Ninguém o reconheceu? Ozzie pensou um momento.

- Bem, Jake, neste momento é um bocado difícil reconhecer o homem. Está com uma porção de ligaduras na cara.

Jake sorriu.

- Você quando dá, dá forte e feio, não é grandalhão?

- Só quando é preciso. Não ouvi da sua parte qualquer objecção...

- Não. Eu queria ajudar. E o amigo?

- Encontrámo-lo a dormir dentro de uma pick-up vermelha, a um quilómetro da sua casa. Terrell Grist. É de cá da região. Mora perto de Lake Village. Acho que é amigo da família Cobb. Jake repetiu o nome várias vezes.

- Nunca ouvi falar. Onde é que ele está?

- No hospital. No mesmo quarto que o outro.

- Meu Deus, Ozzie, também lhe partiu as pernas?

- Jake, meu amigo, ele resistiu à prisão. Tivemos de lutar com ele. Depois, tivemos de o interrogar. Ele não queria cooperar. - O que foi que ele disse?

- Nada de especial. Não sabe nada. Tenho certeza de que ele não conhece o homem da dinamite.

- Quer dizer que eles contrataram um profissional?

- É possível. Riley examinou os explosivos e o relógio e disse que é um trabalho muito bom. Não ia sobrar nada de si, nem da sua mulher nem da sua filha, talvez nem sequer da casa... Estava armadilhada para as duas da manhã. Sem o aviso, você estaria morto, Jake. E a sua família toda.

Aturdido, Jake sentou-se no sofá. A reacção lenta atingiu-o como um murro no estômago. Sentiu-se agoniado e com a sensação de que não ia conseguir controlar os intestinos.

- Já mandou embora a família? - Já - disse ele, com voz fraca.

- Vou designar um sub-delegado para tomar conta de si a tempo inteiro. Tem alguma preferência?

- Não.

- Pode ser o Nesbit? - Óptimo. Obrigado. - Outra coisa. Penso que queira manter isto em segredo. - Se for possível. Já alguém sabe?

- Só eu e os sub-delegados. Acho que podemos manter isto em segredo até depois do julgamento, mas não posso garantir nada. - Compreendo. Faça o possível.

- Vou fazer.

- Eu sei, Ozzie. Agradeço-lhe muito.

Jake foi para o escritório, fez café e deitou-se no sofá. Queria dormir um bocado, mas não conseguiu. Os olhos ardiam-lhe, mas não conseguia fechá-los. Olhou para o ventilador do tecto.

- Dr. Brigance - chamou Ethel pelo interfone. Jake não respondeu.

- Dr. Brigance!

Nalgum recanto do seu inconsciente, Jake percebeu que alguém o chamava. Levantou-se de um salto.

- Sim! - gritou.

- O juiz Noose ao telefone.

- Está bem, está bem - resmungou Jake, dirigindo-se para a mesa com passos incertos. Olhou para o relógio. Nove horas da manhã. Tinha conseguido uma hora de sono.

- Bom dia, Sr. Dr. Juiz - disse, alegremente, tentando parecer alerta e acordado.

- Bom dia, Jake. Como está?

- Bem, obrigado, Sr. Dr. Juiz. Com muito trabalho, a preparar o julgamento.

- Foi o que pensei. Jake, como está a sua agenda hoje?

Que dia é hoje, pensou ele. Pegou na agenda de compromissos. - Só trabalharei no escritório.

- Óptimo. Gostaria que viesse almoçar comigo, a minha casa. Digamos, lá para as onze e meia.

- Será um prazer, Sr. Dr. Juiz. Qual é a comemoração? - Quero conversar sobre o caso Hailey.

- Está bem, Sr. Dr. Juiz. Lá estarei às onze e meia.

Os Noose moravam numa majestosa casa construída antes da Guerra Civil, ao lado da praça central em Chester. A casa pertencia à família da mulher do juiz há mais de um século e embora precisasse de algumas obras e cuidados, mantinha uma aparência decente. Era a primeira vez que Jake ia a casa do juiz e não conhecia a Sra. Noose. Mas sabia que ela era uma snob de sangue azul, cuja família tivera muito dinheiro, mas tinha perdido tudo. Era tão feia como Ichabod, e Jake imaginou como seriam os filhos. A Sra. Noose recebeu Jake delicadamente, falando sobre banalidades enquanto o conduzia ao pátio, onde o meritíssimo tomava chá e examinava a correspondência. Uma empregada arrumava uma mesa pequena, ao lado dele.

- É um prazer vê-lo, Jake - disse Ichabod calorosamente. - Muito obrigado por ter vindo.

- Eu é que agradeço, Sr. Dr. Juiz. O senhor tem uma bela casa.

Discutiram o caso Hailey enquanto comiam a sopa e as sanduíches de galinha com alface. Embora não admitisse, Ichabod estava apreensivo com a proximidade do julgamento. Parecia cansado, como se o caso lhe pesasse demais nos ombros. Surpreendeu Jake ao dizer que detestava Buckley. Jake disse que também o detestava.

- Jake, estou perplexo com este pedido de transferência de foro - disse ele. - Estudei as suas razões e as de Buckley e procurei na lei. É uma questão difícil. No último fim de semana estive numa conferência de juízes, na Costa do Golfo, e bebi alguns copos com o juiz Denton, do Supremo Tribunal. Estudámos juntos na faculdade e fomos colegas no Senado. Somos muito amigos. O juiz Denton é de Dupree County, no Sul do Mississippi, e disse que todos no condado dele comentam o caso. As pessoas, na rua, perguntam-lhe qual será a decisão dele se o caso for para o Tribunal de apelação. Todos têm opinião formada e Dupree County fica a mais de seiscentos quilómetros daqui. Desse modo, se eu concordar com a transferência de foro, para onde iremos? Não podemos sair do estado e tenho a certeza de que toda a gente não só ouviu falar no seu cliente, como também já o pré-julgaram. Não concorda comigo?

- Bem, tem havido muita publicidade - disse Jake, cautelosamente.

- Fale comigo, Jake. Não estamos no tribunal. Por isso o convidei para minha casa. Quero que pense. Eu sei que tem havido muita publicidade. Se sairmos daqui, para onde podemos ir?

- Que tal o delta? Noose sorriu.

- É disso que gostaria, não é?

- Claro. Poderíamos escolher um bom júri no delta. Jurados capazes de compreender realmente o problema.

- Sim, um júri metade negro. - Eu não tinha pensado nisso. - Acredita mesmo que eles não pré-julgaram o acusado? - Suponho que sim.

- Então, para onde vamos?

- O juiz Denton fez alguma sugestão?

- Na verdade, não. Falámos sobre a tradicional recusa dos tribunais à transferência de foro, a não ser em casos de crimes hediondos. É um problema difícil com casos notórios que despertam paixões tanto contra como a favor do acusado. Com a televisão e todos os recursos dos media hoje em dia, esses crimes tornam-se imediatamente notícia e toda a gente fica a par dos detalhes muito antes do julgamento. É este caso mais do que todos... O próprio Denton admitiu que nunca viu um caso com tanta publicidade e na opinião dele é impossível encontrar um júri justo e imparcial em todo o Mississippi. Suponha que eu não autorize a transferência e ele seja condenado aqui em Ford County. Nesse caso, você apela, alegando que o foro devia ter sido transferido. Denton deu a entender que aprovaria a minha decisão de não fazer a transferência. Ele acha que terei o apoio de uma maioria do tribunal. É claro, não se pode garantir, e conversamos sobre o assunto ao longo de muitos copos. Aceita uma bebida?

- Não, obrigado.

- Eu não vejo motivo para mudar o local do julgamento. Estaríamos a enganar-nos a nós próprios, se acreditássemos que é possível encontrar doze pessoas sem opinião formada sobre a inocência ou a culpa de Hailey.

- Parece que já decidiu, Sr. Dr. juiz.

- Sim. Não vamos mudar. O julgamento será em Clanton. Não posso dizer que me agrade, mas não vejo razão para a transferência. Além disso, eu gosto de Clanton. Fica perto da minha casa e o ar-condicionado do tribunal funciona muito bem.

Noose pegou uma pasta e retirou um envelope.

- Jake, isto é uma ordem, com data de hoje, a negar o pedido de transferência de foro. Mandei uma cópia a Buckley e uma cópia para si. O original está aqui e eu gostaria que a mandasse registar nos autos, em Clanton.

- Com prazer, Sr. Dr. Juiz.

- Só espero estar a proceder correctamente. Já pensei muito no assunto.

- É um trabalho difícil - disse Jake, tentando ser agradável.

Noose chamou a criada e pediu um gin-tónico. Insistiu em mostrar o seu jardim de rosas a Jake e passaram uma hora na parte de trás da casa, a admirar as flores do meritíssimo. Jake pensou em Carla, em Hanna, na sua casa e na dinamite, mas sem deixar de demonstrar interesse pela jardinagem de Ichabod.

As tardes de sexta-feira faziam sempre Jake recordar a Faculdade de Direito quando, dependendo do tempo que fazia, ele e os amigos se reuniam -no seu bar favorito, em Oxford, para beber cerveja e debater as novas teorias sobre Direito ou criticar os professores de Direito, insolentes, arrogantes, dominadores, ou, quando um dia estava quente e ensolarado, empilhavam as latas de cerveja no velho descapotável de Jake e seguiam para a praia em Sardis Lake, onde as raparigas besuntavam o corpo de óleo e suavam ao Sol, ignorando os gracejos dos estudantes de Direito embriagados e dos marmanjos locais. Jake sentia saudades daqueles dias inocentes. Ele detestava a Faculdade de Direito - todos os alunos com um mínimo de bom senso detestavam - mas sentia a falta dos amigos e dos bons momentos, especialmente das tardes de sextafeira. Sentia saudades do estilo de vida sem pressões, embora, às vezes a pressão se tornasse insuportável, especialmente no primeiro ano, quando os professores eram mais insultuosos do que o normal. Tinha saudades de não ter dinheiro, porque quando não tinha nada, não devia nada e a maioria dos seus colegas de turma estava na mesma situação. Agora que tinha rendimentos, estava sempre preocupado com as hipotecas, com o excesso de despesas, cartões de crédito e a tentar realizar o sonho americano de ter dinheiro suficiente. Não ficar rico, mas ter o suficiente. Tinha saudades do seu Volkswagen porque fora o seu primeiro carro, presente de fim do liceu e completarnente pago, ao contrário do Saab. Uma vez por outra, tinha saudades do tempo de solteiro, embora fosse feliz no casamento. E sentia a falta da cerveja, fosse ela imperial, de lata ou de garrafa, tanto fazia. Bebia sempre socialmente, só com amigos, e passava o maior tempo possível com os amigos. Na Faculdade, não bebia todos os dias e raramente se embriagava. Mas lembrava-se de algumas ressacas memoráveis e terríveis.

Depois, aparecera Carla. Ele conheceu-a no começo do seu último semestre, e seis meses depois estavam casados. Ela era muito bonita e foi isso que primeiro lhe chamou a atenção. Era calma e, no princípio, um pouco snob, como a maioria das meninas ricas da "irmandade" de Ole Miss. Mas Jake descobriu nela grande calor humano, personalidade forte e pouca auto-confiança. Nunca compreendeu como uma pessoa tão bonita podia ser tão insegura. Ela estava no Quadro de Honra de Ciências Humanas, mas pretendia apenas lecionar durante alguns anos. A família era abastada e a mãe nunca tinha trabalhado. Isso agradou a Jake: o dinheiro da família e a ausência de ambição para fazer carreira. Ele queria uma mulher que pudesse ficar em casa, sempre bonita, que quisesse ter filhos e que não tentasse mandar nele. Foi amor à primeira vista.

Mas Carla não aprovava bebidas de qualquer tipo. Guardava lembranças penosas da infância, quando o pai bebia demais. Assim, Jake passou o último semestre da faculdade "a seco" e perdeu sete quilos e meio. Estava com óptimo aspecto, sentia-se óptimo e estava loucamente apaixonado. Mas sentia saudades da cerveja.

Havia um armazém a alguns quilómetros de Chester, com um anúncio de Coors, na janela. Coors era a sua cerveja favorita, na Faculdade, embora naquele tempo não fosse vendida a leste do rio. Era algo especial em Ole Miss e o contrabando da Coors no campus era um negócio muito lucrativo. Agora que podia ser comprada em toda a parte, toda a gente preferia a Budweiser.

Era sexta-feira e estava calor. Carla estava a mais de mil quilómetros de distância. Jake não queria ir para o escritório e tudo que tinha para fazer podia esperar até ao dia seguinte. Um doido acabara de tentar matar-lhe a família e eliminar a casa dele do Património Histórico. Faltavam dez dias para o maior julgamento da sua carreira. Ele não estava pronto e a pressão aumentava. Acabava de perder a sua moção mais importante antes do julgamento. E estava com sede. Jake parou e comprou uma caixa com seis latas . de Coors.

Levou quase duas horas para percorrer os noventa e seis quilómetros de Chester a Clanton. Aproveitou com prazer a diversão, a paisagem, a cerveja. Parou duas vezes para urinar e uma para comprar mais seis latas. Sentia-se maravilhosamente bem. Naquele estado de espírito, só podia ir para um lugar. Não para casa, nem para o escritório, certamente que não para o tribunal, para registar a ordem maldita de Ichabod. Estacionou o Saab atrás do pequeno e maltratado Porsche e deslizou para a varanda, com a cerveja gelada na mão. Como sempre, Lucien balançava-se suavemente na varanda, bebendo e lendo um tratado sobre defesa por privação momentânea de sentidos. Fechou o livro e, vendo a cerveja, sorriu para o seu antigo contratado. Jake respondeu com um largo sorriso.

- Qual é a comemoração, Jake?

- Na verdade, nenhuma. Deu-me apenas a sede... - Pois... E a sua mulher?

- Ela não manda em mim. Sou um homem independente. Sou o chefe. Se quero cerveja, bebo cerveja e ela não vai dizer nada. - Jake bebeu um longo gole.

- Ela deve estar fora da cidade. - Carolina do Norte.

- Quando partiu?

- Às seis da manhã. Partiu de Memphis com a Hanna. Vai ficar com os pais em Wilmington até ao fim do julgamento. Eles têm uma bela casa de praia onde passam o Verão.

- Ela partiu esta manhã e você está bêbado a meio da tarde...- Não estou bêbado - disse Jake - ainda. - Há quanto tempo é que está a beber?

- Há umas duas horas. Comprei seis latas quando saí da casa do Noose, mais ou menos à uma e meia. Há quanto tempo é que está a beber?

- Normalmente, eu bebo o meu café da manhã. Porque foi a casa dele?

- Falámos sobre o julgamento durante o almoço. Ele negou a transferência de foro.

- O quê?

- Ouviu muito bem. O julgamento vai ser em Clanton. Lucien bebeu um gole e sacudiu o gelo no copo.

- Sallie! - gritou. - Ele explicou porquê?

- Explicou. Disse que seria impossível encontrar jurados, fosse onde fosse, que não tivessem ouvido falar do caso.

- Eu bem lhe tinha dito... Essa é uma boa e sensata razão para negar a transferência, mas legalmente é uma razão muito fraca. O Noose não devia fazer isso.

Sallie apareceu com a bebida e levou a cerveja de Jake para o frigorífico. Lucien bebeu um bom gole de uísque e fez estalar os lábios. Enxugou a boca com a braço e bebeu outro gole.

- Sabe o que isso significa, não sabe? - perguntou. - Claro que sei. Um júri branco.

- Isso e mais a negação do recurso quando ele for condenado. - Não aposte nisso. O Noose já consultou o Supremo Tribunal. Ele acha que o Supremo ratificará a decisão se for impugnada. Acha que está em terreno firme.

- Ele é um idiota. Posso mostrar-lhe a ele vinte casos que dizem que o local deve ser mudado. Eu acho é que ele está com medo de transferir.

- Porque iria o Noose ter medo? - Está a ser pressionado.

- Por quem?

Lucien admirou o líquido dourado no copo e fez girar os cubos de gelo com o dedo. Sorriu como se soubesse alguma coisa que só revelaria se Jake pedisse.

- Por quem? - perguntou Jake, olhando furioso para o amigo com olhos brilhantes e vermelhos.

- Buckley - disse Lucien, com ar misterioso. - Buckley - disse Jake. - Não compreendo. - Eu sei que não compreende.

- Pode explicar?

- Acho que sim. Mas não vá contar a ninguém. É estritamente confidencial. As minhas fontes são muito boas.

- Quem?

- Não posso dizer-lhe.

- Quem são as suas fontes? - insistiu Jake.

- Eu disse que não posso dizer. Não quero dizer. Certo? - Como é que o Buckley pode pressionar o Noose?

- Se quiser ouvir, eu digo-lhe.

- O Buckley não tem influência sobre o Noose. O Noose detesta-o. Ele mesmo mo disse. Hoje. Ao almoço.

- Eu sei.

- Então, como é que pode dizer que o Noose está a ser pressionado pelo Buckley?

- Se se calar, eu digo-lhe.

Jake terminou uma cerveja e chamou Sallie.

- Você sabe que o Buckley é uma puta velha em política e não tem escrúpulos.

Jake fez que sim com a cabeça.

- E também sabe como ele quer ganhar este julgamento. Ele pensa que, se ganhar, estará a lançar a campanha para Secretário de Justiça.

- Governador - disse Jake.

- Seja lá o que for. Ele é ambicioso, certo? - Certo.

- Muito bem, ele tem vindo a pedir aos seus amigos políticos de todo o distrito que telefonem ao Noose a sugerir que o julgamento se realize em Ford County. Alguns chegaram a ser grossei

ros com o Noose. Tipo: transfira o julgamento e não votamos em si, nas próximas eleições. Deixe que se realize em Clanton e ajudá-lo-emos a ser reeleito.

- Não acredito nisso. - O.K. Mas é verdade. - Como é que soube? - Fontes.

- Quem é que lhe telefonou?

- Um exemplo. Lembra-se daquele assassino que era xerife em Van Buren County? Motley? O FBI apanhou-o, mas já está livre. Ainda é muito popular naquele distrito.

- Lembro-me, sim.

- Sei, de certeza absoluta, que ele foi a casa do Noose com dois bandalhos e sugeriu com muita ênfase que o Noose deixasse o julgamento em Ford County. Foram mandados pelo Buckley. - E que disse o Noose?

- Trocaram uma porção de insultos. Motley disse-lhe que ele não conseguiria nem cinquenta votos em Van Buren nas próximas eleições. Prometeram encher as urnas de votos nulos, intimidar os negros, falsificar os votos dos ausentes, tudo o que costumam fazer nas eleições em Van Buren County. E o Noose sabe que farão isso. - Porque é que ele se preocupa com isso?

- Não seja parvo, Jake. Ele é um velho que não pode fazer mais nada senão ser juiz. Consegue imaginar o Noose a tentar começar uma carreira de advogado? Ele ganha sessenta mil por ano e morreria de fome se fosse derrotado. A maioria dos juízes é assim. Ele precisa de assegurar aquele emprego. O Buckley sabe isso, e por isso mesmo conversa com os fanáticos locais dizendo que esse miserável preto pode ser inocentado se o julgamento for noutra cidade e que eles devem dar um apertão ao juiz. Por isso o Noose está sob pressão.

Beberam em silêncio durante alguns minutos, balançando-se calmamente nas cadeiras de madeira. A cerveja estava óptima.

- E há mais - disse Lucien. - Sobre quê?

- Sobre o Noose. - O que é?

- Ele recebeu algumas ameaças. Não ameaças políticas, mas ameaças de morte. Ouvi dizer que está morto de medo. Pediu à polícia para lhe vigiarem a casa. Agora anda armado.

- Eu sei como é - murmurou Jake. - Sim, eu soube.

- Soube o quê?

- Da dinamite. Quem era ele?

Jake ficou atónito. Olhou para Lucien, incapaz de dizer uma palavra.

- Não pergunte. Eu tenho contactos. Quem é ele? - Ninguém sabe.

- Parece profissional. - Obrigado.

- Você é bem-vindo se quiser ficar cá em casa. Tenho cinco quartos de dormir.

O sol tinha desaparecido às oito e um quarto, quando Ozzie parou o carro atrás do Saab, que continuava estacionado atrás do Porsche. Caminhou para os degraus da varanda. Lucien foi o primeiro a vê-lo.

- Olá, xerife - tentou dizer, com a língua pastosa. - Boa noite, Lucien. Onde está o Jake?

Lucien inclinou a cabeça na direcção da extremidade da varanda. Jake estava deitado no baloiço.

- Está a dormir uma soneca - explicou Lucien, prestimoso. Ozzie aproximou-se do baloiço e parou, a olhar para Jake, que roncava discretamente. Tocou ao de leve as costelas do advogado. Jake abriu os olhos e lutou valentemente para conseguir sentar-se.

- A Carla telefonou para o meu escritório à sua procura. Está apavorada. Telefonou durante toda a tarde e não o encontrou. Ninguém o viu hoje. Ela pensa que você está morto.

Jake esfregou os olhos, sacudindo levemente o baloiço.

- Diga-lhe que não estou morto. Diga-lhe que me viu e falou comigo e que está convencido, sem sombra de dúvida, de que não estou morto. Diga-lhe que telefono amanhã. Diga-lhe, Ozzie, por favor, diga-lhe.

- De maneira nenhuma, meu amigo. Já está crescidinho. Telefone e diga-lhe... - Ozzie saiu da varanda. Não estava a achar graça nenhuma.

Jake pôs-se em pé e cambaleou para dentro da casa.

- Onde fica o telefone? - gritou para Sallie. Enquanto marcava o número, ouvia a gargalhada incontrolável de Lucien na varanda.

A última ressaca fora há seis ou sete anos, na Faculdade, Jake já não se lembrava. A data, isso... ele não se lembrava da data, mas a cabeça latejante, a secura na boca, a respiração curta e o ardor nos olhos traziam lembranças vívidas e terríveis de longas e inesquecíveis sessões com a deliciosa bebida.

Assim que abriu o olho esquerdo, percebeu que tinha problemas. As pálpebras do olho direito estavam coladas e só podiam ser abertas com a ajuda dos dedos, mas Jake não tinha coragem de se mexer. Ficou deitado no sofá, no quarto escuro, completamente vestido, até com os sapatos, a ouvir as marteladas na cabeça e a olhar para a ventoínha que rodava lentamente no tecto. Sentia náuseas. O pescoço doía-lhe porque estava sem travesseiro. Os pés latejavam por causa dos sapatos. O estômago dava voltas e saltos, ameaçando uma erupção. A morte seria bem-vinda.

Jake tinha problemas com ressacas porque não conseguia dormir até ficar bom. Assim que abria os olhos e o cérebro acordava e começava a girar outra vez, e começavam as marteladas nas têmporas, ele não conseguia dormir mais. Os amigos dele, na Faculdade, dormiam dias seguidos quando estavam de ressaca, mas Jake não. Nunca conseguia mais do que algumas horas, depois da última lata ou da última garrafa.

Porquê? Essa era a eterna pergunta da manhã seguinte. Porque tinha feito aquilo? Uma cerveja gelada era repousante. Talvez duas ou três. Mas dez, quinze, se calhar vinte? Tinha perdido a conta. Depois da sexta, a cerveja perde o gosto e a partir daí bebia só para beber, para se embriagar. Lucien tinha ajudado muito. Antes do anoitecer mandou Sallie comprar uma caixa de Coors, que ele pagou alegremente, e depois encorajou Jake a beber. Poucas latas tinham sobrado. A culpa era de Lucien.

Jake levantou as pernas devagar, uma de cada vez, e pôs os pés no chão. Massajou as têmporas com cuidado, inutilmente. Respirou fundo, mas o coração começou a bater acelerado, enviando mais sangue para o cérebro, abastecendo os martelinhos que trabalhavam dentro da sua cabeça. Precisava de beber água. Tinha a língua tão desidratada e tão inchada que era mais fácil ficar com a boca aberta como um cão com calor. Porquê, oh, porquê?

Jake pôs-se em pé, cuidadosamente, muito devagar, e cambaleou até à cozinha. A luz por cima do fogão era fraca, sob a protecção do globo de plástico, mas mesmo assim penetrava o escuro, fazendo-lhe doer os olhos Jake esfregou os olhos, tentando limpá-los com os dedos malcheirosos. Bebeu a água quente devagar e deixou que escorresse da boca para o chão. Não fazia mal. Sallie limpava. O relógio marcava duas e meia.

Ganhando ânimo, Jake atravessou desajeitada mas silenciosamente a sala de estar, passou pelo sofá sem travesseiro e saiu para a varanda, cheia de latas e de garrafas vazias. Porquê?

Quando chegou ao escritório, Jake sentou-se debaixo do chuveiro quente durante uma hora, incapaz de se mexer. A água quente aliviou-lhe algumas dores, mas não a violência deflagrada no cére bro. Certa vez, na Faculdade, conseguira arrastar-se da cama até ao frigorífico para ir buscar uma cerveja. Bebera e sentira-se melhor. Então, bebera outra e sentira-se ainda melhor. Lembrou-se disso, ali sentado no chuveiro, e ao pensar noutra cerveja, vomitou.

Deitou-se na mesa de conferências só com a roupa de baixo e fez o possível por morrer. Tinha um monte de seguros de vida. Ninguém lhe iria ficar com a casa. O novo advogado podia conseguir um adiamento do julgamento.

Nove dias para o julgamento. O tempo era escasso, precioso, e ele acabava de desperdiçar um dia inteiro com aquela tremenda ressaca. Aí, pensou em Carla e a cabeça martelou com mais força. Tentara parecer sóbrio ao telefone. Dissera-lhe que ele e Lucien tinham passado a tarde toda a rever casos de insanidade e que teria telefonado antes, mas os telefones não funcionavam, pelo menos os de Lucien não funcionavam. Mas tinha a língua pesada e a fala arrastada e Carla percebeu que ele estava bêbedo. Ficou furiosa - uma fúria controlada. Sim, a casa ainda estava de pé. Foi a única coisa em que ela acreditou.

Às seis e meia, Jake telefonou-lhe novamente. Ela ia ficar impressionada por saber que ele estava no escritório, a trabalhar diligentemente. Carla não ficou. Com grande sofrimento e coragem ele procurou falar alegremente, até demais. Carla não ficou impressionada.

- Como é que te sentes? - insistiu ela.

- Muito bem! - respondeu ele, com os olhos fechados. - A que horas foste para a cama?

Que cama! pensou Jake.

- Logo a seguir a ter telefonado. Ela não disse nada.

- Cheguei ao escritório às três da manhã - disse ele, com orgulho.

- Três!

- Isso mesmo. Não conseguia dormir.

- Mas tu não dormiste, na noite de quinta-feira. - A sugestão de ansiedade na voz fria ãnimou-o.

- Estou bem. Talvez fique com o Lucien, esta semana e na próxima. Talvez seja mais seguro.

- E o guarda-costas?

- Sim, o sub-delegado Nesbit. Está lá fora, a dormir no carro. Carla hesitou e Jake sentiu que as linhas telefónicas começavam a descongelar.

- Estou preocupada contigo - disse ela, afectuosa.

- Vai correr tudo bem, querida. Telefono-te amanhã. Preciso de trabalhar. Jake desligou, correu para a banheira e vomitou outra vez.

Durante quinze minutos, Jake ignorou a campainha insistente, da porta da frente, mas fosse quem fosse sabia que ele estava lá e continuava a bater. Foi até à varanda do segundo andar.

- Quem é? - gritou para a rua.

A mulher saiu do passeio, debaixo da varanda, e encostou-se a um BMW preto parado perto do Saab. As mãos dela estavam enfiadas nos bolsos dos jeans desbotados e elegantes. O sol do meio-dia ofuscou-a quando olhou para cima. Iluminou-lhe também o cabelo louro-avermelhado.

- O senhor é Jake Brigance? - perguntou, protegendo os olhos com um braço.

- Sou. O que é que quer? - Preciso falar consigo. - Estou muito ocupado. - É muito importante.

- Não é minha cliente, pois não? - perguntou ele ao mesmo tempo que observava o corpo esbelto e se certificava de que não podia ser uma cliente.

- Não. Só quero cinco minutos do seu tempo.

Jake abriu a porta. Ela entrou tranquilamente, como se fosse dona do prédio. Apertou-lhe a mão com firmeza.

- Eu sou Ellen Roark.

Jack apontou para uma cadeira perto da porta. - Muito prazer. Sente-se, por favor.

Jake sentou-se na ponta da mesa de Ethel. - Uma sílaba ou duas?

- Como disse?

O sotaque era típico do nordeste, mas temperado por algum tempo passado no Sul.

- É Rork ou Row Ark?

- R-o-a-r-k. Isto dá Rork em Boston e Row Ark no Mississippi.

- Posso tratá-la por Ellen?

- Por favor, com duas sílabas. Posso tratá-lo por Jake? - Sim, claro.

- Bom, eu não tinha pensado tratá-lo por senhor. - Boston, hein?

- Sim. Nasci lá. Estudei no Boston College. O meu pai é Sheldon Roark, um famoso advogado criminologista de Boston. - Acho que não o conheci. O que a traz ao Mississippi?

- Estou na Faculdade de Direito em Ole Miss. - Ole Miss! Como veio parar aqui?

- A minha mãe é de Natchez. Ela foi uma amável integrante da irmandade estudantil de Ole Miss, depois mudou-se para Nova Iorque, onde conheceu o meu pai.

- Eu casei-me com uma amável integrante da irmandade estudantil de Ole Miss.

- Eles têm uma grande selecção. - Aceita um café?

- Não, obrigada.

- Bem, agora que nos conhecemos, o que a traz a Clanton? - Carl Lee Hailey.

- Não me surpreende.

- Acabo o curso de Direito em Dezembro e não tenho nada que fazer, em Oxford, durante este Verão. Estou a estudar Direito Processual Penal com o Guthrie, e acho muito chato.

- George Guthrie, o Louco. - Sim, continua louco.

- Ele reprovou-me em Direito Constitucional no primeiro ano. - Bem, o que acontece é que eu gostaria de o ajudar, no julgamento.

- Jake sorriu e sentou-se na cadeira rotativa, pesada e resistente de Ethel e olhou atentamente para Ellen. A camisa pólo preta de

algodão era elegantemente desbotada e muito bem passada. Os contornos externos e as sombras discretas revelavam seios firmes, sem soutien. O cabelo ondulado e farto descia perfeito até aos ombros.

- Porque pensa que preciso de ajuda?

- Sei que trabalha sozinho e sei que não tem um estagiário de Direito.

- Como sabe tudo isso?

- Newsweek.

- Ah, sim, uma revista maravilhosa. Foi uma boa fotogra

fia, não achou?

- Ficou um bocado empertigado, mas estava bem. Parece melhor em pessoa.

- Que credenciais traz consigo?

- A inteligência é uma característica da minha família. Concluí summa cum laude no Boston College e sou a segunda da turma na Faculdade de Direito. No último Verão, passei três meses com a Liga de Defesa dos Presos do Sul em Birmingham, e fui assistente em sete julgamentos de homicídio. Vi Elmer Wayne Doss morrer na cadeira eléctrica, na Florida, e Willie Ray Ash levar a injecção letal, no Texas. Nas horas livres, em Ole Miss, escrevo recensões para a União Americana em prol das Liberdades Civis e estou a trabalhar em dois recursos de pena de morte para um escritório de Spartanburg, Carolina do Sul. Cresci no escritório do meu pai e era versada em investigação judiciária antes de saber guiar. Vi-o defender criminosos de delito comum, violadores, defraudadores, extorsionários, terroristas, assassinos profissionais, molestadores de crianças, corruptores de menores, assassinos de crianças e crianças que matam os próprios pais. Trabalhava quarenta horas por semana no escritório dele quando estava no liceu e cinquenta quando estava na Faculdade. Ele tem dezoito advogados na firma dele, todos muito brilhantes, muito cheios de talento. É um grande campo de treino para criminologistas e eu andei lá durante catorze anos. Tenho vinte e cinco anos e quando crescer quero ser uma criminologista radical como o meu pai e viver uma carreira gloriosa a reprimir a pena de morte.

- Mais nada?

- O meu pai é podre de rico e apesar de sermos irlandeses católicos, sou filha única. Tenho mais dinheiro do que o Jake e por isso trabalho de graça. Sem encargos. Uma estagiária não remunerada durante três semanas. Farei todo o trabalho de investigação, dactilografia, ligações telefónicas. Prometo até transportar-lhe a pasta e fazer-lhe café.

- Eu estava com medo que quisesse ser minha sócia.

- Não. Sou mulher e estou no Sul. Conheço o meu lugar. - Porque está tão interessada neste caso?

- Quero estar no tribunal. Adoro processos penais, grandes julgamentos onde uma vida está em jogo e a pressão é tão forte que pode ser vista no ar. Onde a sala do tribunal fica cheia e a segurança é rígida. Onde metade das pessoas odeia o acusado e a outra metade reza para que ele seja absolvido. Adoro isso. E este é o julgamento de todos os julgamentos. Eu não sou Sulista e, de um modo geral, acho esta região incrível, mas desenvolvi um amor perverso por ela. Nunca fará sentido para mim, mas é fascinante. As implicações raciais são enormes. O julgamento de um pai negro que matou dois brancos que lhe violaram a filha... o meu pai disse que aceitaria o caso de graça.

- Diga-lhe que continue em Boston.

- É o sonho de qualquer advogado criminologista. Eu apenas quero estar lá. Não vou atrapalhar, prometo. Basta deixar-me trabalhar nos bastidores e assistir ao julgamento.

- O juiz Noose odeia advogadas.

- Todos os advogados do Sul também. Além disso, não sou advogada, sou uma estudante de Direito.

- Dar-lhe-ei a honra de lho explicar... - Então consegui o lugar.

Jake parou de olhar fixamente para ela e respirou fundo. Uma leve onda de náusea sacudiu-lhe o estômago e os pulmões e cortou-lhe a respiração. As marteladas tinham voltado com fúria e ele precisava de estar perto da casa-de-banho.

- Sim, conseguiu o lugar. Eu sou capaz de usar alguma investigação independente. Esses casos são complicados, como muito bem sabe.

Ela sorriu com graça e confiança. - Quando começo?

- Já.

Jake mostrou-lhe todo o escritório rapidamente e instalou-a na sala de guerra, no andar de cima. Puseram o arquivo de Hailey sobre a mesa de conferências e ela passou uma hora a tirar cópias.

Às duas e meia, Jake acordou de uma soneca no sofá e desceu para a sala de conferências. Metade dos livros das estantes estava espalhada sobre a mesa com marcadores que apareciam mais ou menos de cinquenta em cinquenta páginas. Ellen estava concentrada, a tomar notas.

- Uma biblioteca razoável - disse ela.

- Alguns desses livros não são usados há vinte anos. - Dei pelo pó.

- Está com fome? - Estou. Faminta.

- Há um pequeno café na esquina cuja especialidade é toucinho e broa de milho. O meu organismo está a precisar de uma injecção de gordura.

- Que delícia!

Rodearam a praça e entraram no Claude's, onde a freguesia era pouca para uma tarde de sábado. Não havia outros brancos no local, Claude estava fora e o silêncio era ensurdecedor. Jake pediu um cheese-burger, rodelas de cebola e três envelopes de analgésico em pó para as dores de cabeça.

- Dói-lhe a cabeça? - perguntou Ellen. - Tenho uma dor de cabeça colossal. - Stress?

- Ressaca.

- Ressaca? Pensei que fosse abstémio. - E onde ouviu falar nisso?

- Newsweek. O artigo dizia que você era um típico homem de família, workaholic, presbiteriano devoto, que não bebia e fumava charutos baratos. Não se lembra? Como é que podia esquecer, certo?

- Acredita em tudo que lê? - Não.

- Óptimo, porque ontem à noite eu apanhei um pifo e passei a manhã inteira a vomitar.

A estagiária achou graça.

- O que é que costuma beber?

- Eu não bebo... lembra-se? Pelo menos não bebia até à noite passada. Esta é a minha primeira ressaca desde a Faculdade e espero que seja a última. Eu tinha-me esquecido de como estas coisas são horríveis.

- Porque bebem tanto os advogados?

- Aprendem na Faculdade. O seu pai bebe?

- Está a brincar? Somos católicos. Mas ele é cuidadoso. - A Ellen bebe?

- Claro, sempre - disse ela com orgulho. - Então vai ser uma grande advogada.

Jake misturou cuidadosamente o pó dos três envelopes num copo de água gelada e bebeu de um trago. Fez uma careta e passou o guardanapo pela boca. Ellen observava-o atentamente com um sorriso divertido.

- O que foi que a sua mulher lhe disse? - Sobre quê?

- Sobre a ressaca de um homem tão de família e tão devoto. - Ela não sabe. Ela deixou-me ontem, de manhã cedo.

- Lamento.

- Vai ficar com os pais até terminar o julgamento. Há dois meses que andamos a receber telefonemas anónimos e ameaças de morte e, ontem de manhã, puseram dinamite do lado de fora da janela do nosso quarto. A polícia encontrou-a a tempo e apanhou os homens, provavelmente do Klan. Dinamite suficiente para arrasar a casa e nos matar a todos. Foi um bom pretexto para apanhar um pifo.

- Lamento saber isso.

- O trabalho que acaba de conseguir pode ser muito perigoso. Quero que saiba isso desde já.

- Já fui ameaçada de outras vezes. No Verão passado, em Dothan, Alabama, defendemos dois adolescentes negros que tinham sodomizado e estrangulado uma mulher de oitenta anos. Nenhum advogado do estado quis aceitar o caso. Aí, chamaram a Liga de Defesa. Entrámos na cidade montados em cavalos negros e, assim que aparecemos, formaram-se grupos de linchamento em todas as esquinas. Nunca me senti tão odiada em toda a minha vida. Escondemo-nos num motel, noutra cidade, e achámos que estávamos a salvo, até à noite em que dois homens me cercaram no átrio do motel e tentaram sequestrar-me.

- Que aconteceu?

- Eu ando sempre com um 38 cano curto na bolsa e convenci-os de que sabia usá-lo.

- Um 38 cano curto?

- Um presente do meu pai quando fiz quinze anos. Tenho porte de arma.

- Ele deve ser cá uma destas pessoas...

- Dispararam sobre ele uma data de vezes. Ele aceita casos muito controversos, do tipo que aparece nos jornais, quando o público fica furioso e ofendido e exige que o acusado seja enforcado sem julgamento e sem advogado. São os casos de que o meu pai mais gosta. Ele tem um guarda-costas permanente.

- Grande coisa! Eu também tenho! O nome dele é sub-dele

gado Nesbit e não é capaz de acertar na parede de um celeiro com uma espingarda. Ontem, foi destacado para me proteger.

O almoço chegou. Ellen tirou a cebola e o tomate do seu claude-burger e ofereceu a Jake as batatas fritas. Partiu a sanduíche ao meio e começou a comer com pequenas dentadas em volta do pão, como um passarinho. A gordura quente pingou para o prato. A cada dentada ela limpava a boca cuidadosamente.

O rosto dela era suave e agradável, com um sorriso fácil que desmentia as ligas feministas, as palavras de ordem do tipo queimem-o-soutien, eu-posso-ser-mais-agressiva-do-que-tu, que, Jake sabia, estarem à espreita próximo da superfície. Não havia vestígios de maquilhagem em parte alguma do rosto. Não precisava. Ela não era bela, nem engraçadinha, e evidentemente estava decidida a não ser. Tinha a pele pálida de uma ruiva, mas saudável, com sete ou oito sardas espalhadas no nariz pequeno e ponteagudo. A cada sorriso, frequente, os lábios alargavam-se maravilhosamente, formando simples e breves covinhas em cada lado do rosto. Os sorrisos eram confiantes, desafiadores e misteriosos. Os olhos verdes metálicos irradiavam uma fúria mansa e não piscavam quando ela falava.

Era um rosto inteligente, atraente como o diabo.

Enquanto mastigava a sanduíche, Jake tentava com forçada indiferença ignorar os olhos dela. A comida pesada aconchegou-lhe o estômago e, pela primeira vez em dez horas, começou a pensar que iria viver.

- Falando a sério, porque escolheu Ole Miss? - perguntou ele. - É uma boa escola de Direito.

- É a minha escola. Mas normalmente não atraímos os mais brilhantes alunos do nordeste. É lá que estão as escolas de maior prestígio académico e social. É para lá que mandamos os nossos melhores alunos.

- O meu pai detesta todos os advogados formados naquelas bandas. Ele era um pobretão e fez o curso de Direito numa escola nocturna. Aguentou a vida inteira as afrontas dos advogados ricos, bem-criados e incompetentes. Agora troça deles. Disse que eu podia estudar Direito em qualquer lugar do país, mas que se eu escolhesse uma escola famosa do leste, ele não custearia as despesas. Mas há também a minha mãe. Fui criada a ouvir aquelas deliciosas histórias da vida nas profundezas do Sul e queria ver isto de perto. Além disso, os estados do Sul pareciam decididos a aplicar a pena de morte. Portanto acho que acabarei por vir para cá.

- Porque se opõe tanto à pena de morte?

- E o Jake, não?

- Não. Sou totalmente a favor dela.

- Isso é incrível! Vindo da parte de um advogado de defesa. - Eu gostaria de voltar ao tempo dos enforcamentos públicos no jardim do tribunal.

- Está a brincar, não está? Diga que está. - Não estou.

Ela parou de mastigar e de sorrir. Os olhos faiscaram furiosos, procurando um sinal de fraqueza nele.

- Está a falar a sério!...

- Muito a sério! O problema com a pena de morte é que não a usamos com muita frequência.

- Já explicou isso ao Sr. Hailey?

- O Sr. Hailey não merece a pena de morte. Mas os dois homens que violaram a filha dele sem dúvida que mereciam.

- Compreendo. Como é que determina quem merece e quem não merece?

- É muito simples. Você olha para o crime e olha para o criminoso. Se é um traficante que abate a tiro um policia à paisana da secção de narcóticos, merece a câmara de gás. Se é um vagabundo que viola uma menina de três anos e depois a afoga segurando-lhe na cabeça dentro da água lamacenta, e depois atira o corpo do alto de uma ponte, você mesma o mata e dá graças a Deus por ele estar morto. Se é um fugitivo da prisão que assalta uma propriedade, a altas horas da noite, e espanca e tortura um casal de velhinhos antes de os queimar juntamente com a casa, amarra-o a uma cadeira, prende-lhe alguns fios, reza-lhe por alma e liga a chave. E se são dois drogados que se revezam no estupro de uma menina de dez anos e lhe dão pontapés no corpo todo com botas bicudas de cow-boy até lhe partirem os maxilares, então você sente-se feliz, contente, agradecida quando os fecha numa câmara de gás e ouve os gritos que eles dão. É muito simples.

- É coisa de selvagens.

- Os crimes deles foram selvagens. Morrer é bom demais para eles, bom demais.

- E se o Sr. Hailey for condenado à morte?

- Se isso acontecer, tenho certeza de que vou passar os próximos dez anos a entrar com recursos e a lutar furiosamente pela vida dele. E se eles o amarrarem na cadeira, tenho certeza de que estarei do lado de fora da prisão consigo, os jesuítas e mais uma centena de outras almas caridosas a protestar, com velas acesas e a cantar hinos. E depois vou ficar de pé, ao lado do túmulo dele, ao fundo da igreja dele, com a viúva e os filhos e a desejar nunca tê-lo conhecido.

- Já assistiu a alguma execução?

- Não que eu me lembre.

- Eu já assisti a duas. Se assistir, vai mudar de ideias. - Óptimo. Não verei nem uma.

- É uma coisa horrível.

- As famílias das vítimas estavam presentes? - Sim, nos dois casos.

- Ficaram horrorizadas? Mudaram de opinião? É claro que não. Os pesadelos deles tinham acabado!

- Surpreende-me.

- E gente como a Ellen deixa-me perplexo. Como pode ser tão fanática e dedicada ao trabalho de salvar pessoas que pediram a pena de morte e que, de acordo com a lei, vão tê-la?

- A lei de quem? Não é a lei de Massachusetts.

- Não me diga. O que espera do único estado em que McGovern venceu as eleições de 1972? Vocês lá estão sempre muito sintonizados com o resto do país.

Os claude-burgers tinham ficado esquecidos e ambos estavam a falar alto demais. Jake olhou em volta e percebeu alguns olhares intrigados. Ellen sorriu outra vez e pegou numa rodela de cebola da sanduíche dele.

- O que é que pensa da União Americana pelas Liberdades Civis? - perguntou ela, a mastigar.

- Suponho que tenha um cartão de sócia na carteira... - Tenho.

- Então está despedida.     . - Fiz-me sócia quando tinha dezasseis anos.

- Porquê tão tarde? Você deve ter sido a última no seu grupo de bandeirantes a tornar-se sócia.

- Tem algum respeito pela Carta de Direitos?

- Eu adoro a Carta de Direitos. Desprezo os juizes que os interpretam. Coma!

Terminaram os claude-burgers em silêncio, estudando-se um ao outro, cuidadosamente. Jake pediu café e mais dois envelopes para as dores de cabeça.

- Então, como é que planeamos ganhar este caso? - perguntou ela.

- Nós?

- Ainda tenho o lugar, não tenho?

- Tem. Mas lembre-se de que eu sou o patrão e a Ellen a estagiária.

- Certo, patrão. Qual é a sua estratégia?

- Como conduziria as coisas?

- Bem, pelo que sei, o nosso cliente planeou cuidadosamente as mortes e disparou sobre eles a sangue-frio, seis dias depois do estupro. Tudo indica que ele sabia exactamente o que estava a fazer.

- Sabia.

- Então não temos defesa e acho que deve declará-lo culpado visando uma sentença de prisão perpétua e evitando assim a câmara de gás.

- Saiu-me cá uma lutadora de primeira!...

- Estou só a brincar. Insanidade é a nossa única defesa. E parece impossível provar.

- Conhece o Regulamento M'Naghten? - perguntou Jake. - Sim. Temos um psiquiatra?

- Digamos que sim. Ele dirá tudo quanto nós quisermos que diga; isto é, se estiver sóbrio no julgamento. Uma das suas tarefas mais difíceis, como minha nova estagiária de Direito, será garantir que ele esteja sóbrio no julgamento. Não vai ser fácil, acredite.

- Eu vivo para novos desafios no tribunal.

- Óptimo, Row Ark, pegue numa caneta. Aqui está um guardanapo. O seu patrão vai dar-lhe algumas instruções.

Ela começou a tomar notas num guardanapo de papel.

- Quero um apanhado das decisões do Supremo Tribunal do Mississippi sobre o M'Naghten, nos últimos cinquenta anos. Deve haver umas cem. Há um caso importante de 1976, o estado contra

Hill, onde o tribunal ficou dividida, cinco a quatro, com os dissidentes a optarem por uma definição mais liberal de insanidade. Faça uma coisa curta, menos de vinte páginas. Sabe escrever à máquina?

- Noventa palavras por minuto.

- Já devia adivinhar... Quero tudo na quarta-feira. - E tê-lo-á.

- Há alguns pontos comprovatórios que eu quero que sejam investigados. Viu aquelas fotografias impressionantes dos dois corpos. O Noose geralmente permite que o júri veja o sangue e a carnificina, mas eu gostaria de que essas fotografias não fossem vistas pelo júri. Veja se há uma maneira.

- Não vai ser fácil.

- O estupro é decisivo para a defesa do réu. Quero que o júri conheça os detalhes. Isso precisa de ser investigado a fundo. Pode começar por dois ou três casos que já separei e acho que podemos provar ao Noose que o estupro é extremamente relevante.

- Correcto. Que mais?

- Não sei. Quando o meu cérebro estiver vivo novamente, pensarei em mais qualquer coisa, mas isso chega por ora.

- Apresento-me na segunda-feira de manhã?

- Sim, mas não antes das nove. Eu gosto do meu tempo de paz.

- Qual é o código indumentário? - Parece-me bem assim...

- Jeans e sem meias?

- Tenho outra funcionária, uma secretária chamada Ethel. Tem sessenta e quatro anos,_ é forte e graças a Deus usa soutien. Não seria uma má ideia para si.

- Vou pensar nisso.

- Eu não necessito desse tipo de distracção.

 

Segunda-feira, 15 de Julho. Uma semana para o julgamento. No fim de semana, espalhou-se a notícia de que o julgamento seria em Clanton e a cidadezinha preparou-se para o espectáculo. Os telefones dos motéis tocaram sem parar, atendendo os jornalistas que queriam confirmar as suas reservas. Os cafés fervilhavam de expectativa. Uma equipa municipal de manutenção cercou o edifício do tribunal a seguir ao café da manhã e começou a pintá-lo e a retocá-lo. Ozzie mandou os faxineiros da cadeia com os seus cortadores de relva e erradicadores de ervas daninhas. Os velhos, sob o monumento do Vietname, afiavam os seus bocados de madeira cuidadosamente e observavam toda aquela actividade. O preso de confiança, que supervisava o trabalho da limpeza, pediu-lhes que cuspissem o tabaco que mascavam na relva, não no passeio. Eles mandaram-no para o inferno. A relva das Bermudas, espessa e escura, recebeu uma camada extra de fertilizante, e uma dúzia de borrifadores de relvado estavam a assobiar e a salpicá-la, às nove da manhã.

Às dez horas, a temperatura era de trinta e três graus. Os donos das lojinhas em volta da praça abriram as portas e ligaram as ventoínhas do tecto. Telefonaram para Memphis, Jackson e Chicago para fazerem as suas encomendas para a semana seguinte.

Noose telefonara a Jean Gillespie, a escrivã do Tribunal Itinerante, na tarde de sexta-feira, informando-a de que o julgamento seria na sala do tribunal da alçada dela. Instruiu-a para que convo casse cento e cinquenta possíveis jurados. A defesa havia solicitado uma lista ampliada da qual seriam seleccionados os doze, e Noose concordara. Jean e dois auxiliares passaram o sábado a esquadrinhar os livros de registo dos eleitores e a escolher aleatoriamente os nomes dos jurados potenciais. Seguindo as instruções específicas de Noose, seleccionaram os que tinham mais de sessenta e cinco anos. Mil nomes foram escolhidos, e cada nome com o respectivo endereço foi escrito numa pequena ficha e atirado para dentro de uma caixa de papelão. Em seguida, os dois auxiliares revezaram-se retirando as fichas da caixa, ao acaso. Um auxiliar era branco, o outro negro. Cada um deles tirava, às cegas, uma ficha da caixa e colocava-a por ordem sobre uma mesa de dobrar com as outras fichas. Quando a contagem chegou a cento e cinquenta, cessou o sorteio e uma lista-mestra foi dactilografada. Esses eram os jurados do estado contra Hailey. Cada passo da selecção fora cuidadosamente ditado pelo Meritíssimo Ornar Noose, que sabia exactamente o que estava a fazer. Se houvesse um júri só de brancos, e uma condenação, e uma sentença de morte, cada passo isolado e elementar do procedimento de selecção do júri seria impugnado na apelação. Ele já tinha passado por isso, em tempos, e a sua decisão fora anulada. Mas desta vez não.

Da lista-mestra o nome e o endereço de cada jurado eram dactilografados numa carta separada de convocação do júri. A pilha de convocações foi guardada a sete chaves, no escritório de Jean, até às oito horas da manhã de segunda-feira quando o xerife Ozzie Walls chegou. Este tomou café com Jean e recebeu as instruções dela.

- O juiz Noose quer que sejam entregues entre as quatro horas da tarde e a meia-noite de hoje - disse ela.

- Certo.

- Os jurados devem apresentar-se na sala do tribunal, na próxima segunda-feira, às nove horas em ponto.

- Certo.

- A convocação não indica o nome nem a natureza do julgamento, e aos jurados não se deve dizer coisa alguma.

- Eu penso que eles sabem.

- É provável, mas o Noose foi muito claro. Os seus homens não devem dizer uma palavra sobre o caso quando entregarem as convocações. Os nomes dos jurados são estritamente confidenciais, pelo menos até quarta-feira. Não pergunte porquê. São ordens do Noose. Ozzie examinou a pilha.

- Quantos temos aqui? - Cento e cinquenta.

- Cento e cinquenta! Porquê tantos? - É um grande caso. Ordens do Noose.

- Vou precisar de todos os meus homens para entregar estes papéis.

- Lamento mas tem que ser.

- Ah, tudo bem. Se é isso que o meritíssimo quer.

Ozzie saiu e, segundos depois, Jake estava de pé junto ao balcão, a brincar com as secretárias e a sorrir para Jean Gillespie. Seguiu-a quando ela se dirigiu para o escritório dela. Jake fechou a porta. Ela refugiou-se atrás da sua mesa e apontou para ele. Jake continuou a sorrir.

- Eu sei por que está aqui - disse ela séria -- e não vai conseguir.

- Dê-me a lista, Jean.

- Não antes da quarta-feira. Ordens do Noose. - Quarta-feira? Porquê.quarta-feira?

- Não sei. Mas o Ornar foi muito claro. - Dê-me a lista, Jean.

- Jake, não posso. Quer que eu me meta em sarilhos?

- Não se vai meter em sarilhos porque ninguém saberá. Sabe muito bem que eu sei guardar segredo - Jake estava agora sério. - Jean, dê-me essa maldita lista.

- Jake, não posso.

- Eu preciso dela, e preciso dela já. Não posso esperar até quarta-feira. Tenho muito que fazer.

- Não seria justo para o Buckley - disse ela, com voz fraca. - Quero que o Buckley se lixe. Se calhar pensa que ele joga limpo? Ele é uma cobra e a Jean detesta-o tanto como eu.

- Talvez até mais... - Dê-me a lista, Jean.

- Ouça, Jake, nós sempre fomos amigos. Tenho por si mais respeito do que por qualquer outro advogado que conheço. Quando o meu filho esteve em dificuldades, eu chamei-o a si, não foi? Con fio em si e quero que ganhe este caso. Mas não posso desobedecer às ordens de um juiz.

- Quem a ajudou a ser eleita da última vez? Eu ou o Buckley?

- Ora, vamos, Jake.

- Quem impediu que o seu filho fosse para a cadeia, eu ou o Buckley?

- Por favor.

- Quem procurou meter o seu filho na cadeia, eu ou o Buckley?

- Isso não é justo, Jake.

- Quem ficou do lado do seu marido quando toda a gente, e foi toda a gente mesmo, na igreja, queria despedi-lo quando o balanço não fechava?

- Não é uma questão de lealdade, Jake. Eu gosto de si, da Carla e da Hanna, mas não posso fazer uma coisa dessas.

Jake bateu com a porta e saiu furioso do escritório. Jean sentou-se à sua mesa e enxugou as lágrimas que lhe escorriam pela cara abaixo.

 

Às dez da manhã, Harry Rex entrou como um furacão no escritório de Jake e atirou para cima da mesa uma cópia da lista de jurados.

- Não faças perguntas - disse.

Ao lado de cada nome, tinha feito anotações, tais como "Não conheço", ou "Antigo cliente - odeia negros", ou "Trabalha na fábrica de calçado, poderia ser favorável".

Jake leu cada um dos nomes lentamente, tentando associá-lo a uma cara ou a uma reputação. Havia somente nomes. Sem endereço, idade, profissão. Nada além dos nomes. O seu professor da quarta clase em Karaway. Uma das amigas da mãe, no Clube de Jardinagem. Um antigo cliente, desleixado, pensou. Um nome de uma pessoa da igreja. Um frequentador do Coffee Shop. Um fazendeiro importante. A maioria parecia nome de brancos. Havia um Willie Mae Jones, Leroy Washington, Roosevelt Tucker, Bessie Lou Bean e outros nomes de negros. Mas a lista parecia terrivelmente incolor. Jake reconheceu trinta nomes no máximo.

- O que é que achas? - perguntou Harry Rex.

- É difícil dizer. A maioria é branca, mas isso era de se esperar. Onde conseguiste isto?

- Não perguntes. Fiz anotações em vinte e seis nomes. É o máximo que posso fazer. O resto, não conheço...

- Es um grande amigo, Harry Rex.

- Sou um príncipe. Estás pronto para o julgamento? - Ainda não. Mas descobri uma arma secreta.

- O quê?

- Vais conhecê-la mais tarde. - Ela?

- Isso mesmo. Tens que fazer, na quarta-feira à noite? - Acho que não. Porquê?

- Óptimo. Vem ter comigo aqui, às oito. O Lucien também vai cá estar. Talvez mais uma ou duas pessoas. Quero ter umas duas horas para conversar a respeito do júri. Quem é que nós queremos? Faremos o perfil do jurado ideal e partiremos daí. Vamos examinar cada um dos nomes e, espero, identificar a maior parte deles.

- Parece divertido. Cá estarei. Como é o teu jurado ideal?

- Não sei ao certo. Penso que o justiceiro agrada aos lavradores brancos. Armas, violência, protecção das mulheres. Os agricultores adoram isso. Mas o meu cliente é negro e uma data de proprietários brancos gostariam de fritá-lo vivo. Ele matou dois deles. - Concordo. Eu evitaria escolher mulheres. Elas não têm simpatia pelos violadores, mas dão mais valor à vida. Pegar numa M-16 e rebentar com a cabeça de alguém é uma coisa que as mulheres não compreendem. Tu e eu compreendemos, porque somos pais. Gostamos da ideia. Violência e sangue não nos impressionam. Nós admiramos o tipo. Tens que contar com alguns admiradores neste júri. Pais jovens com alguma instrução.

- Isso é interessante. O Lucien disse que escolheria mulheres porque são mais compassivas.

- Eu não acho. Conheço algumas mulheres que te cortariam o pescoço se tu as contrariasses.

- Alguma das tuas clientes?

- Sim, e uma delas está nessa lista. Frances Burdeen. Escolhe-a e eu digo-lhe como deve votar.

- Estás a falar a sério?

- Estou. Ela faz tudo o que eu mandar.

- Tu podes estar no tribunal, na segunda-feira? Quero que vejas o júri durante o processo de selecção, depois quero que me ajudes a escolher os doze.

- Não perdia isso, por nada deste mundo.

Jake ouviu vozes no andar de baixo e levou o dedo aos lábios. Escutou, depois fez sinal a Harry Rex para o seguir. Foram em bicos de pés até ao cimo da escada e ficaram a ouvir a conversa acalorada. - Você certamente não trabalha aqui - insistia Ethel.

- É claro que trabalho. Fui contratada no sábado pelo Dr. Jake Brigance, que, creio, é o seu patrão.

- Contratada como quê? - quis saber Ethel. - Estagiária.

- Bem, ele não me disse nada.

- Conversou comigo e deu-me o emprego. - Quanto é que ele lhe vai pagar?

- Cem dólares à hora.

- Ai, meu Deus! Tenho que falar com ele primeiro. - Eu já falei com ele, Ethel.

- Sra. Twitty, se faz favor. - Ethel examinou-a dos pés à cabeça. Jeans lavadas com ácido, ténis baratos, sem meias, uma camisa larga demais de algodão branco, abotoada à frente, evidentemente sem nada por baixo.

- A menina não está vestida apropriadamente para este escritório. Está... está indecente!

Harry Rex ergueu o sobrolho e sorriu para Jake. Eles continuaram no alto da escada, à escuta.

- O meu patrão, que acontece ser o seu patrão, disse-me que eu podia vestir-me assim.

- Mas esqueceu-se de qualquer coisa, não se esqueceu?

- O Jake disse que eu me podia esquecer... Ele disse-me que a senhora tinha passado vinte anos sem usar soutien. Disse que a maioria das mulheres de Clanton não usa. Por isso deixei o meu em casa.

- Ele o quê? - gritou Ethel, cruzando os braços no peito. - Ele está lá em cima? - perguntou Ellen friamente.

- Está. Vou chamá-lo. - Não é preciso.

Jake e Harry Rex voltaram para o escritório, à espera da estagiária. Ela entrou com uma enorme pasta executiva.

- Bom dia, Row Ark - disse Jake. - Quero apresentar-lhe um grande amigo meu, Harry Rex Vonner.

Harry Rex apertou-lhe a mão e olhou para a blusa dela. - Muito prazer. Como se chama?

- Ellen.

- Podes tratá-la por Row Ark - disse Jake. - Ela vai ser estagiária aqui até ao fim do julgamento.

- Isso é óptimo - disse Harry Rex, sem tirar os olhos da blusa de Ellen.

- O Harry Rex é um advogado local, Row Ark, e um dos muitos em quem não pode confiar.

- Porque contrataste uma mulher como estagiária, Jake? - perguntou Harry Rex, sem rodeios.

- Row Ark é um génio em Direito Penal, como a maioria dos estudantes do terceiro ano. E trabalha a troco de um salário muito baixo.

- O senhor tem alguma coisa contra as mulheres? - perguntou Ellen.

- Não, minha senhora, eu adoro mulheres. Já casei com quatro.

- O Harry Rex é o mais hábil advogado em processos de divórcio de Ford County - explicou Jake. - Na verdade, ele é o mais hábil dos advogados, ponto final. E pensando bem, é o homem mais hábil que eu conheço.

- Muito obrigado - disse Harry Rex.

- Ele tinha deixado de olhar para ela. Ela olhou para os sapatos enormes, sujos, gastos, de bico largo, as meias de nylon caneladas que caíam em grossos chumaços em volta dos tornozelos, as calças de cáqui surradas e manchadas, o blazer azul-marinho puído, a gravata brilhante de lã cor-de-rosa que ficava quinze centímetros acima do cinto, e disse:

- Acho-o uma delícia.

- Eu bem podia fazer de si a minha mulher número cinco - disse Harry Rex.

- A atracção é puramente física - respondeu Ellen.

- Alto lá - disse Jake. - Desde que o Lucien se foi embora, nunca houve sexo neste escritório.

- Muita coisa se foi embora com o Lucien - disse Harry

Rex.

- Quem é o Lucien?

Jake e Harry Rex entreolharam-se.

- Vai conhecê-lo muito em breve - disse Jake. - A sua secretária é uma graça - disse Ellen.

- Eu já sabia que vocês se iam dar bem. Ela é de facto um amor depois de a gente a conhecer.

- Isso leva quanto tempo?

- Eu conheço-a há vinte anos - disse Harry Rex - e ainda estou à espera.

- Como vai a investigação? - perguntou Jake.

- Devagar. Há dezenas de casos M'Naghten e todos muito compridos. Estou mais ou menos a meio. Estava a pensar trabalhar nisto o dia todo, aqui, isto é, se aquele touro bravo lá em baixo não me atacar.

- Eu trato da Ethel - disse Jake. Harry Rex encaminhou-se para a porta. - Foi um prazer, Row Ark. A gente vê-se.

- Obrigado, Harry Rex - disse Jake. - Vêmo-nos na quarta, à noite.

O estacionamento de terra e cascalho do Tank's estava cheio quando Jake, finalmente, conseguiu dar com ele, à noite. Nunca tinha tido motivo, anteriormente, para visitar o Tank's e não estava exactamente entusiasmado. Ficava bem escondido, afastado da estrada de terra, a dez quilómetros de Clanton. Jake estacionou longe do prédio de cimento de cinzas e pensou em deixar o motor ligado para o caso de Tank não estar e ter de sair a toda a pressa. Mas desistiu da idiotice porque gostava do seu carro e a probabilidade de ser roubado era muito grande naquele sítio. Jake trancou o Saab, verificou duas vezes as portas e os vidros, quase com a certeza de que o carro todo, ou parte dele, teria desaparecido quando voltasse.

A música do juke-box, no máximo, saía pelas janelas abertas e Jake teve a impressão de ouvir o barulho de uma garrafa a partir-se no chão, na mesa ou na cabeça de alguém. Ficou parado perto do carro, a pensar ir-se embora. Não, era importante. Encolheu a barriga, respirou fundo e abriu a porta de madeira arranhada. Quarenta pares de olhos negros fixaram-se imediatamente no pobre homem branco perdido, de fato e gravata, que tentava habituar a vista à imensa escuridão da taberna. Jake ficou parado, embaraçado, à procura desesperadamente de um amigo. Não viu nenhum. Michael Jackson terminou a canção no juke-box e o silêncio durou uma eternidade. Jake ficou perto da porta, cumprimentando com uma inclinação de cabeça, sorrindo, tentando agir como se pertencesse ao grupo. Não viu nenhum sorriso.

De repente percebeu um movimento no bar e os joelhos vibraram.

- Jake! Jake! - gritou alguém, as duas palavras mais doces de toda a sua vida. Viu Tank atrás do bar, a tirar o avental e a dirigir-se a ele. Trocaram um caloroso aperto de mãos.

- O que o traz por cá?

- Preciso de falar consigo um minuto. Podemos ir lá para fora?

- Claro! O que há? - Só negócios.

Tank baixou um interruptor, ao lado da porta.

- Eh, pessoal, este aqui é o advogado de Carl Lee Hailey, o Dr. Jake Brigance. Meu amigo. Uma salva de palmas para ele.

A pequena sala explodiu em aplausos e bravos. Vários homens que estavam no bar apertaram a mão a Jake.

Tank tirou da prateleira do bar uma porção de cartões de visita de Jake e distribuiu-os como se fossem rebuçados. Jake respirava de novo e a cor voltara-lhe à cara.

Lá fora, encostaram-se ao capot do Cadillac amarelo de Tank. A voz de Lionel Richie soava através das janelas e tudo voltou ao normal. Jake entregou a Tank uma cópia da lista.

- Leia esses nomes e veja quais é que conhece. Mostre-os aos seus amigos e descubra tudo o que puder.

Tank aproximou o papel dos olhos. A luz do letreiro luminoso brilhava acima do seu ombro:

- Quantos são negros?

- Isso é o que você me vai dizer... Esse é um dos motivos por que quero que você verifique. Faça um círculo em volta dos nomes de negros. Se não tiver a certeza, descubra. Se alguém conhecer algum dos brancos, que faça uma anotação.

- É um prazer ajudá-lo, Jake. Isto não é ilegal, pois não?

- Não, mas não diga a ninguém. Quero a resposta na quarta-feira de manhã.

- O doutor manda.

Tank guardou a lista e Jake foi para o escritório. Eram quase . dez horas. Ethel tinha dactilografado cópias da lista de Harry Rex, que foram entregues em mãos a amigos escolhidos e de confiança.

Lucien, Stan Atcavage, Tank, Dell, no Coffee Shop, um advogado de Karaway, chamado Roland Isom, e mais alguns. Até Ozzie recebeu uma cópia.

A menos de cinco quilómetros da taberna ficava a casa de madeira onde Ethel e Bud Ttwitty moravam, há quase quarenta anos. Era uma casa agradável com lembranças agradáveis dos filhos que estavam agora espalhados pelo Norte. O filho atrasado, o que se parecia muito com Lucien, morava em Miami. A casa estava mais sossegada agora. Há anos que Bud não trabalhava, desde o primeiro derrame em 1975. Depois tivera um enfarte, seguido de mais dois derrames sérios e de vários outros mais pequenos. Tinha os dias contados e há muito que aceitava o facto de que a qualquer momento poderia sofrer o derrame final e morrer na varanda da frente, enquanto descascava feijão. Pelo menos era o que ele esperava.

Na noite de segunda-feira, estava na varanda, a debulhar feijão e a ouvir o jogo dos Cardinals, na rádio. Ethel estava na cozinha. No final do oitavo tempo, com os Cardinais prestes a fazerem um lançamento e a ganharem por dois pontos, ouviu um barulfio ao lado da casa. Baixou o volume do rádio. Provavelmente um cão. Ouviu novamento o ruído. Levantou-se e foi até ao fim da varanda. De repente, um vulto enorme, vestido de preto, com tinta de guerra vermelha, branca e preta, com a cara tapada, saltou dos arbustos, agarrou Bud e arrastou-o para fora da varanda. O grito angustiado de Bud não foi ouvido na cozinha. Outro homem apareceu e os dois arrastaram o pobre velho até ao pé dos degraus da varanda. Um deles imobilizou-o agarrando-o pelo pescoço, enquanto o outro lhe esmurrava a barriga flácida e lhe ensanguentava a cara. Em poucos minutos Bud estava inconsciente.

Ethel ouviu o barulho e correu para a porta da frente. Foi agarrada por um terceiro membro do bando, que lhe torceu o braço para cima, nas costas, e lhe pôs o braço dele à volta do pescoço. Ethel não podia gritar, nem falar, nem mexer-se e ficou ali na varanda, apavorada, vendo os bandidos revezarem-se no espancamento do marido. No passeio, a um metro da cena de violência, estavam mais três homens com mantos brancos debruados a vermelho e capuzes altos e ponteagudos, com máscaras vermelhas e brancas. Saíram do escuro e observaram a cena como três reis magos ao lado da manjedoura.

Ao fim de um longo e terrível minuto, o espancamento tornou-se monótono.

- Chega - disse o homem de branco que estava no meio. Os três terroristas vestidos de negro fugiram. Ethel desceu os degraus e ajoelhou-se ao lado do marido espancado. Os três homens de branco desapareceram.

Jake saiu do hospital depois da meia-noite. Bud ainda estava vivo, mas os prognósticos não eram bons. Além das fracturas, tivera outro ataque cardíaco. Ethel fez uma cena, atirando as culpas para cima de Jake.

- Disse que não havia perigo! - gritou ela. - Vá dizer isso ao meu marido! A culpa é toda sua!

Jake ouviu-a gritar e esbravejar, e o embaraço transformou-se em raiva. Olhou em volta, na pequena sala de espera, para os amigos e parentes. Todos olhavam para ele. Sim, pareciam dizer, a culpa é toda tua.

 

Na terça-feira, muito*cedo, Gwen telefonou para o escritório de Jake e Ellen Roark, a nova secretária, atendeu. Lutou com o interfone até o estragar e depois foi até à escada e gritou:

- Jake, a mulher do Sr. Hailey.

Jake fechou com força o livro que estava a ler e pegou no telefone, irritado.

- Sim.

- Jake, está ocupado?

- Muito. Qual é o problema? Ela começou a chorar.

- Jake, precisamos de dinheiro. Estamos sem nenhum e as contas todas vencidas. Há dois meses que não pago a hipoteca da casa e o banco telefona todos os dias. Não sei a quem mais é que hei-de recorrer.

- E a sua família?

- A minha família é pobre, Jake, o senhor sabe... Eles dão-nos comida e fazem o que podem, mas não podem pagar a hipoteca e as contas da casa.

- Falou com o Carl Lee?

- Não sobre dinheiro. Não ultimamente. Ele não pode fazer nada, a não ser ficar preocupado, e Deus sabe que já tem muito com que se preocupar.

- E as igrejas?

- Não vi um centavo.

- De quanto é que precisa?

- Pelo menos de quinhentos dólares, só para pôr as contas em dia. Não sei como vai ser no mês que vem. Mas só vou pensar nisso quando lá chegar. Novecentos, menos quinhentos, deixavam para Jake quatrocentos pela defesa de um crime de homicídio.

Devia ser um recorde. Quatrocentos dólares! Então, teve uma ideia.

- Pode vir ao meu escritório às duas horas da tarde, hoje? - Tenho de levar as crianças.

- Está bem. Venha cá. - Lá irei.

Jake desligou e procurou na lista o número do reverendo Ollie Agee. O reverendo estava na igreja. Jake inventou uma história dizendo que queria falar com ele sobre o julgamento de Hailey e sobre o testemunho que ele ia prestar. Disse que o reverendo seria uma testemunha muito importante. Agee prometeu estar no escritório de Jake às duas horas.

O clã dos Hailey chegou mais cedo e Jake fê-los sentar em volta da mesa de conferências. Os rapazes lembravam-se da sala, no dia da conferência de imprensa, e olhavam encantados para a mesa comprida, as cadeiras giratórias, as filas de livros nas estantes. O reverendo chegou, abraçou Gwen e acariciou as crianças, especialmente Tonya.

- Serei muito breve, reverendo - disse. - Precisamos conversar sobre certas coisas. Durante várias semanas, o senhor e os outros religiosos negros têm angariado dinheiro para os Hailey. E conseguiram uma boa quantia. Mais de seis mil, se não me engano. Não sei onde está o dinheiro e nem quero saber. Os senhores ofereceram dinheiro aos advogados da associação para defender Carl Lee, mas, como sabemos, esses advogados não vão trabalhar neste caso. Eu sou o advogado, o único advogado e, até agora, nenhuma parte desse dinheiro me foi oferecida. Eu não espero que me ofereçam. Evidentemente, os senhores não se importam com o tipo de defesa que ele vai ter, já que não podem escolher o advogado. Está tudo bem. Posso passar por cima disso. O que me incomoda realmente, reverendo, é o facto de -que nenhum, repito, nenhum dinheiro foi entregue aos Hailey. Certo, Gwen?

O olhar vazio de Gwen foi substituído primeiro por espanto, incredulidade e, finalmente, fúria contra o reverendo.

- Seis mil dólares - disse ela.

- Mais de seis mil, segundo a última informação - disse Jake. - E o dinheiro está num banco, parado, enquanto o Carl Lee está na cadeia, a Gwen sem emprego, as contas vencidas, a comida dada exclusivamente pelos amigos e a execução da hipoteca da casa marcada para daqui a poucos dias. Agora diga-nos, reverendo, o que pretende fazer com o dinheiro?

Agee sorriu e disse com voz melosa:

- Não é da sua conta.

- Mas é da minha conta! - disse Gwen, em voz alta. - Usou o meu nome e o da minha familia para levantar esse dinheiro, não usou, reverendo? Eu mesma o ouvi. Disse a todos, na igreja, que essa oferenda de amor, como lhe chamou, era para a minha família. Eu pensei que tinham gasto tudo para pagar aos advogados, ou qualquer coisa assim. E agora, hoje, venho a saber que o dinheiro está enfiado no banco. Acho que o senhor pretende ficar com ele.

Agee não se abalou.

- Espere um pouco, Gwen. Achámos que seria melhor gastar o dinheiro com o Carl Lee. Ele recusou o dinheiro quando não quis contratar os advogados da associação. Então, perguntei ao Dr. Reinfield, o chefe da equipa, o que devia fazer ao dinheiro. Ele disse-me que o guardasse porque o Carl Lee iria precisar dele para entrar com o recurso em caso de condenação.

Jake inclinou a cabeça para o lado e cerrou os dentes. Ia começar a disparatar com aquele tolo ignorante, mas compreendeu que Agee não sabia o que dizia. Jake mordeu os lábios.

- Eu não compreendo - disse Gwen.

- É simples - explicou o reverendo com um sorriso superior. - O Dr. Reinfield disse que o Carl Lee vai ser condenado porque não o contratou. Então, vamos ter de apelar da sentença,

certo? E depois de Jake perder o julgamento, você e o Carl Lee naturalmente vão procurar outro advogado que possa salvar a vida dele. É quando vão precisar de Reinfield e é para isso que precisamos do dinheiro. Assim, como está a ver, o dinheiro é para o Carl Lee.

Jake baloiçou a cabeça e praguejou mentalmente. Amaldiçoou Reinfield mais do que Agee. Os olhos de Gwen encheram-se de lágrimas e ela fechou os punhos com força.

- Eu não compreendo nada disso, e não quero compreender. Só sei que estou farta de pedir de comer, farta de depender dos outros e farta de ter medo de perder a casa.

Agee olhou tristemente para ela. - Eu compreendo, Gwen, mas...

- E se o senhor tem seis mil dólares do nosso dinheiro no banco, faz mal em não nos entregar esse dinheiro a nós. Somos capazes de usar o dinheiro do modo certo.

Carl Lee Jr. e Jarvis estavam ao lado da mãe, procurando reconfortá-la. Olharam para Agee.

- Mas é para o Carl Lee - disse o reverendo.

- Muito bem - disse Jake. - Já perguntou ao Carl Lee como é que ele quer que esse dinheiro seja usado?

O sorriso safado desapareceu dos lábios de Agee e este remexeu-se nervoso na cadeira.

- O Carl Lee compreende o que estamos a fazer - disse, sem muita convicção.

- Muito obrigado. Não foi isso que perguntei. Ouça com atenção. Já perguntou ao Carl Lee como ele quer que esse dinheiro seja usado?

-Acho que já foi discutido com ele - mentiu Agee.

- É o que vamos ver. - Jake levantou-se e foi até à porta da pequena sala de conferências ao lado do escritório.

O reverendo observava-o nervoso, quase em pânico. Jake abriu a porta e fez um sinal a alguém. Carl Lee e Ozzie entraram calmamente no escritório. As crianças gritaram de alegria e correram para o pai. Agee ficou arrasado. Ao fim de alguns minutos de beijos e abraços, Jake preparou-se para o golpe de misericórdia. - Vamos, reverendo, porque não pergunta ao Carl Lee como é que ele quer que sejam usados os seis mil dólares?

- Não lhe pertencem exactamente a ele - disse Agee. - E não lhe pertencem exactamente a si! - disse Ozzie. Carl Lee tirou Tonya dos joelhos e aproximou-se da cadeira de Agee. Sentou-se na ponta da mesa, ficando mais alto do que o reverendo, pronto para o ataque, se fosse necessário.

- Deixe que eu explique tudo do modo mais simples, reverendo, para que o senhor possa entender. O senhor levantou aquele dinheiro em meu nome, em benefício da minha família. Tirou-o aos negros desta cidade, e tirou-o com a promessa de que iam ajudar-me a mim e à minha família. O senhor mentiu. Angariou o dinheiro para impressionar a associação, não para ajudar a minha família. Mentiu na igreja, mentiu nos jornais, mentiu em toda a parte.

Agee olhou em volta e viu que todos olhavam para ele, até as crianças, sacudindo a cabeça para cima e para baixo, concordando com Carl Lee. Carl Lee pôs o pé na cadeira de Agee e, inclinando-se para a frente, ficou muito perto do reverendo.

- Se não nos der esse dinheiro, vou dizer a todos os negros que conheço que o reverendo é um mentiroso e um ladrão! Vou telefonar para cada um dos membros da sua igreja, e eu sou um deles, lembre-se, e dizer que não recebemos um centavo e, quando eu acabar, o senhor não vai conseguir nem dois dólares no peditório de domingo. Vai perder os seus Cadillacs e os seus fatos de luxo. Pode até perder a sua igreja, porque vou pedir para todos se irem embora.

- Já terminou? - perguntou Agee. - Se terminou, quero apenas dizer que estou magoado. Muito magoado por você e a Gwen pensarem assim.

- É exactamente o que pensamos e pouco me importa que esteja magoado.

Ozzie adiantou-se.

- Concordo com eles. Reverendo Agee, o senhor não agiu correctamente, e sabe isso muito bem.

- Isso dói, Ozzie, vindo de si. Dói de verdade.

- Deixe-me dizer-lhe o que vai doer muito mais... No próximo domingo, eu e Carl Lee estaremos na sua igreja. Vou tirá-lo às escondidas da cadeia, muito cedo, para um pequeno passeio. Quando for começar o seu sermão, entraremos pela porta da frente, seguiremos pela passagem central até ao púlpito... Se me quiser impedir, eu algemo-o! O Carl Lee vai fazer o sermão. Vai dizer à sua gente que o dinheiro que deram com tanta generosidade até agora não saiu do seu bolso, que a Gwen e os filhos estão prestes a perder a casa porque o senhor está armado em importante com a associação. Vai dizer-lhes que o senhor mentiu. O Carl Lee pode falar durante uma hora, ou mais. E quando ele terminar, eu acrescentarei algumas palavrinhas. Vou dizer-lhes que o senhor é um preto mentiroso e salafrário. Vou contar-lhes a do Lincoln roubado que o senhor comprou em Memphis por cem dólares e que por pouco era indiciado por isso. Vou falar-lhes àcerca dos pagamentos que recebe da agência funerária. Vou contar-lhes a da acusação de falsificação de cheques que eu consegui retirar em Jackson, há dois anos. E, reverendo, vou contar...

- Não faça isso, Ozzie - pediu o reverendo.

- Vou contar um segredinho sujo que só nós dois e uma certa mulher de má reputação conhecemos...

- Quando é que querem o dinheiro?

- Quando é que pode levantá-lo? - perguntou Carl Lee. - Rapidamente.

Jake e Ozzie deixaram os Hailey e subiram para o escritório, onde Ellen trabalhava no meio aos livros de Direito. Jake apresentou Ozzie à sua estagiária e os três sentaram-se em volta da grande mesa. - Como vão os meus amigos? - perguntou Jake.

- Os rapazes da dinamite? Estão a recuperar muito bem. Vão ficar no hospital até ao fim do julgamento. Instalámos uma fechadura na porta e tenho um polícia no corredor. Não vão a parte alguma.

- Quem é o líder?

- Ainda não sabemos. O resultado das impressões digitais não chegou ainda. Talvez não tenham a ficha das impressões dele. O homem não diz nada.

- O outro é um homem de cá mesmo, não é? – perguntou Ellen.

- É. Terrell Grist. Ele quer processar-nos porque foi ferido durante a prisão. Imagine!

- Nem acredito que o caso ainda seja segredo - disse Jake. - Nem eu. É claro que Grist e o Sr. X não falam com ninguém. Os meus homens estão calados. Portanto, só o Jake e a sua assistente é que sabem.

- E o Lucien, mas não soube por mim. - Era de esperar.

- Quando vão processá-los?

- Depois do julgamento vamos levá-los para a cadeia e começar a dar entrada com a papelada. Só depende de nós.

- Como está o Bud? - perguntou Jake.

- Passei pelo hospital esta manhã para ver os outros dois e desci para ver a Ethel. O estado dele continua crítico. Nenhuma alteração.

- Algum suspeito?

- Tem de ser o Klan. Com os mantos brancos e tudo o mais. Tudo combina. Primeiro a cruz de fogo no seu jardim, depois a dinamite, e agora o Bud. Além das ameaças de morte. E temos um informador.

- Têm o quê?

- Ouviu bem. Ele diz que se chama Mickey Mouse. Telefonou para minha casa no domingo e disse que lhe tinha salvado a vida. "O advogado do preto", foi como ele lhe chamou. Disse que o Klan chegou oficialmente a Ford County. Fundaram uma Klavern, ou lá que raio é!

- Quem são eles?

- Ele não sabe os pormenores. Prometeu telefonar-me apenas se alguém estiver para ser atacado.

- Mas que simpático! Podemos confiar nele? - Ele salvou-lhe a vida.

-Tem razão. É membro do Klan?

- Não disse. Eles programaram um grande desfile para quinta-feira.

- O Klan?

- Sim. A associação vai fazer um comício amanhã, em frente do tribunal. E, a seguir, vão marchar durante algum tempo. O Klan vai aparecer na quinta-feira para um desfile pacífico.

- Quantos?

- O Mickey Mouse não disse. Como eu já lhe disse ele não entra em detalhes.

- O Klan a desfilar em Clanton. Nem quero acreditar!

- Acontecimento de peso - disse Ellen.

- As coisas vão piorar - observou Ozzie. - Pedi ao governador para manter a patrulha de trânsito em alerta. Pode ser uma semana difícil.

- Dá para acreditar que o Noose está disposto a julgar este caso na sua cidade? - perguntou Jake.

- É grande demais para tirar daqui, Jake. Em qualquer lugar íamos ter desfiles, protestos e o Klan.

- Talvez tenha razão. Como vai a sua lista de jurados? - Amanhã, está pronta.

Na terça-feira, depois do jantar, Joe Frank Perryman estava sentado na varanda da frente com o jornal e um bocado de tabaco Red Man na boca. Mascava e cuspia com cuidado num buraco feito à mão no chão da varanda. Esse era o seu ritual de todas as noites. Quando acabava de lavar os pratos, Leia fazia dois copos de chá gelado e os ambos, sentados na varanda, conversavam até tarde sobre a colheita, os netos, a humidade. Moravam perto da cidade de Karaway, em três hectares de terra cultivada, roubada pelo pai de Frank durante a depressão. Era um casal pacífico, trabalhador e cristão.

Ao fim de algumas cuspidelas no buraco no chão, uma pick-up diminuiu a marcha na estrada e entrou na passagem de terra que levava à casa dos Perryman. Parou ao lado do relvado e apareceu uma cara conhecida. Era Will Tierce, ex-presidente do Conselho Supervisor de Ford County. Will trabalhara para o seu distrito durante vinte e quatro anos, seis mandatos consecutivos, mas perdera a última eleição, em 1983, por sete votos. Os Perryman votavam sempre em Tierce porque este sempre os presenteava, ora com um carregamento de cascalho, ora com alguns metros de tubos para canalizações.

- Boa noite, Will - disse Joe Frank, quando o ex-supervisor atravessou o relvado e se aproximou da varanda.

- Boa noite, Joe Frank. Depois do aperto de mãos, sentaram-se calmamente.

- Dê-me um pouco de tabaco de mascar - disse Tierce. - Claro. O que o traz por cá?

- Estou apenas de passagem. Pensei no chá gelado de Lela e fiquei com uma sede danada. Já há tempos que os não via. Conversaram, mascaram, cuspiram e beberam chá gelado até escurecer e chegar a hora dos mosquitos. A estiagem exigia trabalho constante e Joe Frank falou longamente sobre a pior seca dos últimos anos. Não chovia nem uma gota desde a terceira semana de Junho. Se não chovesse, podia dizer adeus à colheita de algodão. O feijão era capaz de resistir, estava preocupado era com o algodão. - Ouça, Joe Frank, ouvi dizer que você recebeu uma daquelas intimações para ser jurado do julgamento da semana que vem. - Sim, infelizmente recebi. Quem lhe disse?

- Não sei. Ouvi dizer.

- Não sabia que era do domínio público.

- Bem, penso que devo ter ouvido em Clanton, hoje. Fui tratar de uns assuntos ao edifício do tribunal. Foi lá que ouvi. É o julgamento daquele negro, sabe.

- Foi o que imaginei. - O que acha de o negro ter matado os homens daquela maneira?

- Eu não o culpo - disse Leia.

- Pois, mas uma pessoa não pode fazer justiça pelas próprias mãos - explicou Joe Frank à velhota. - Para isso é que existe o sistema judiciário.

- Vou dizer-lhes o que me preocupa - disse Tierce. - É essa história de insanidade. Eles vão dizer que o preto estava louco e vão soltá-lo alegando loucura. Como aquele maluco que atirou no Reagan. É um modo pouco honesto de se conseguir uma absolvição. Além disso, é uma mentira. Aquele negro planeou matar os homens e ficou sentado, à espera. Foi assassínio a sangue-frio.

- E se fosse a sua filha, Will? - perguntou Leia.

- Eu entregaria o caso nas mãos da justiça. Quando a gente apanha um violador por estes sítios, especialmente um negro, em geral, prendêmo-lo. A Parchman está cheia de violadores que nun ca mais vão sair de lá. Isto não é a Califórnia, ou Nova Iorque, ou outro sítio qualquer de gente doida, onde os criminosos podem andar à solta. Temos um bom sistema, e o velho juiz Noose dá sentenças bem duras. Você tem de deixar que a justiça trate do assunto. O nosso sistema não poderá sobreviver se deixarmos que a população, especialmente os negros, faça justiça pelas próprias mãos. É isso que me assusta. Suponham que esse negro saia livre do julgamento. Toda a gente vai ficar a saber e os negros vão ficar doidos. Sempre que alguém irritar um negro, ele vai matar e depois dizer que estava louco. É esse o perigo deste julgamento.

- A gente tem de manter os negros sob controlo - concordou Joe Frank.

- Pode acreditar. E se Hailey se livrar desta, nenhum de nós está seguro. Cada negro deste distrito vai andar armado e à procura de sarilhos.

- Eu não tinha pensado nisso - admitiu Joe Frank.

- Espero que faça o que é correcto, Joe Frank. Espero que o ponham no júri. Precisamos de gente com juízo.

- Gostaria de saber por que me escolheram.

- Ouvi dizer que distribuíram cento e vinte intimações. Esperam que compareçam pelo menos cem.

- Quais são as minhas hipóteses de ser escolhido? - Uma em cem - disse Leia.

- Já me sinto melhor. Na verdade, eu não tenho tempo para servir no júri, com o trabalho da fazenda e tudo o resto.

- Precisamos de si naquele júri - disse Tierce.

A conversa passou para a polícia local, o novo supervisor e o péssimo trabalho que ele estava a fazer nas estradas. O escuro da noite significava cama para os Perryman. Tierce disse boa-noite e foi-se embora. Sentou-se na mesa da cozinha de sua casa com uma chávena de café e examinou novamente a lista dos jurados. O seu amigo Rufus iria ficar orgulhoso. Seis nomes da lista de Will estavam dentro de um círculo e ele já tinha falado com os seis. Marcou um OK na frente de cada um. Seriam bons jurados, gente com quem Rufus podia contar para manter a lei e a ordem em Ford County. Dois estavam indecisos, a princípio, mas o seu bom amigo Will Tierce, em quem podiam confiar, explicara-lhes a justiça e agora estavam prontos a condenar.

Rufus ia ficar orgulhoso. E tinha prometido que o jovem Jason Tierce, seu sobrinho, não seria julgado por aquelas acusações de posse de drogas...

Jake comia sem vontade as gordas costeletas de porco com feijão branco, olhando para Ellen, que fazia o mesmo à sua frente. Lucien, na cabeceira da mesa, ignorava a comida, acariciando com a mão o copo de bebida, enquanto examinava a lista de jurados, comentando todos os nomes que conhecia. Estava mais bêb-edo do que habitualmente. Não conhecia a maior parte, mas comentava do mesmo modo. Ellen, divertindo-se, piscava o olho uma vez por outra ao patrão. Lucien deixou cair a lista e deixou cair o garfo no chão.

- Sallie! - gritou. - Sabe quantos activistas da União Americana para as Liberdades Civis há em Ford County? - perguntou Lucien a Ellen.

- Pelo menos oitenta por cento da população - respondeu ela.

- Um. Eu. Fui o primeiro na história e provavelmente o último. Esta gente daqui é muito tola, Row Ark. Não aprecia as liberdades civis. São um bando de republicanos conservadores, de direita, bajuladores e fanáticos, como o nosso amigo Jake, aqui.

- Não é verdade. Eu almoço no Claude's pelo menos uma vez por semana.

- E isso faz de si um progressista? - perguntou Lucien. - Faz de mim um radical.

- Pois continuo a achar que o Jake é republicano!

- Ouça, Lucien, pode falar da minha mulher, dos meus pais ou dos meus antepassados, mas não me chame republicano!

- Parece um republicano - disse Ellen.

- E ele parece um democrata? - perguntou Jake, apontando para Lucien.

- Claro que parece! Assim que o vi, adivinhei que ele era democrata.

- Então eu sou republicano, pronto!

- Está a ver? Está a ver? - gritou Lucien. Fez cair no chão o copo que se partiu. - Sallie! - Row Ark, adivinhe quem foi o terceiro homem no Mississippi a entrar para a associação dos negros?

- O Rufus Buckley - disse Jake.

- Eu. Lucien Wilbanks. Entrei em 1967. Os brancos pensaram que eu estava louco.

- Imagine! - disse Jake.

- É claro que os negros, ou os homens de cor, como nós lhes chamávamos nesse tempo, também pensaram que eu estivesse maluco. Ora, que diabo, naquele tempo, toda a gente pensava que eu era doido.

- Chegou a fazer essa gente toda mudar de ideias? - perguntou Jake.

- Cale-se, seu republicano! Row Ark, por que não vem viver para Clanton e abrimos uma firma de advocacia só para os processos da União Americana para as Liberdades Civis? Que diabo, traga o seu velho de Boston e a gente faz dele nosso sócio.

- Porque não vai simplesmente para Boston? – perguntou Jake.

- Porque é que simplesmente você não vai para o inferno?

- Que nome daremos à firma? - perguntou Ellen. - A casa de doidos - disse Jake.

Wilbanks, Row e Ark, Advogados.

- Nenhum dos quais com licença para advogar... - disse Jake.

As pálpebras de Lucien pareciam pesar uma tonelada cada uma. A cabeça balançava para a frente. Ele deu uma palmada no rabo de Sallie quando ela começou a varrer os bocados do copo. - Foi um golpe baixo, Jake - disse ele, muito sério.

- Row Ark - disse Jake, imitando Lucien. - Adivinhe quem foi o último advogado expulso da Ordem pela Supremo Tribunal do Mississippi?

Ellen sorriu graciosamente para os dois e não disse nada.

- Row Ark - disse Lucien, em voz alta. - Adivinhe quem vai ser o próximo advogado deste distrito a ser expulso do seu escritório? - Começou a rir à gargalhada, aos gritos e a oscilar na cadeira. Jake piscou o olho a Ellen.

Quando Lucien se acalmou, perguntou: - Para que é a reunião amanhã à noite?

- Quero estudar a lista de jurados consigo e com. mais algumas pessoas.

- Quem?

- Harry Rex, Stan Atcavage, talvez mais uma pessoa. - Onde?

- Oito horas. No meu escritório. Nada de álcool!

- O escritório é meu e eu levo uma caixa de uísque, se quiser. O meu avô construiu o prédio, lembra-se?

- Como é que me havia de esquecer? - Row Ark, vamos embebedar-nos.

- Não, obrigada, Lucien. Gostei muito do jantar e da conversa, mas tenho de voltar para Oxford.

Jake e Ellen levantaram. Jake declinou o convite habitual para se sentar na varanda. Ellen saiu e ele foi para seu quarto no segundo andar. Tinha prometido a Carla que não ia dormir a casa.

Telefonou-lhe. Carla e Hanna estavam bem. Preocupada, mas bem. Jake não mencionou Bud Tvitty.

 

Uma caravana de autocarros escolares adaptados, com a pintura original, branco e vermelho, ou verde e preto, ou uma centena de combinações, cada um deles com o nome de uma igreja em fai xas laterais, debaixo das janelas, entrou lentamente na praça de Clanton, na quarta-feira depois do almoço. Eram trinta e um ao todo, a abarrotar de negros idosos que abanavam leques de papel e lenços, tentando inutilmente aliviar o calor abafado. Depois de rodearem três vezes o edifício do tribunal, o primeiro autocarro parou em frente dos correios e trinta e uma portas abriram-se. Os passageiros desembarcaram apressadamente. Foram todos para o coreto no relvado do tribunal, onde o reverendo Ollie Agee gritava ordens e entregava cartazes azuis e brancos com os dizeres LIBERTEM CARL LEE.

O trânsito nas ruas que levavam à praça ficou congestionado. Os carros seguiam devagar e por fim estacionaram. Centenas de negros saíram deles e caminharam solenemente até à praça. Juntaram-se aos outros no coreto e esperaram pelos seus cartazes e espalhando-se em seguida por entre os carvalhos e magnólias, à procura de sombra e cumprimentando amigos. Chegaram mais autocarros das igrejas e não conseguiram dar a volta à praça por causa do movimento. Desceram perto do Coffee Shop.

Pela primeira vez, naquele ano, a temperatura chegou aos trinta e sete graus e prometia subir ainda mais. Não havia nenhuma nuvem no céu para proteger do calor, nem um vento, nem uma bri

sa para minimizar a força do sol ou absorver a humidade. Ao fim de um quarto de hora à sombra das árvores, as camisas ficavam molhadas de suor e colavam-se à pele dos homens, depois de cinco minutos fora da sombra. Os mais velhos e mais fracos refugiaram-se dentro do edifício do tribunal.

A multidão aumentava cada vez mais. A maioria era de pessoas idosas, mas havia muitos jovens negros, militantes e decididos que tinham perdido as grandes marchas pelos Direitos civis dos anos 60 e compreendiam que esta podia ser uma oportunidade rara para gritar, protestar e cantar "We Shall Overcome", e comemorar de um modo geral o facto de serem negros e oprimidos num mundo de brancos. Vagueavam pela praça, esperando que alguém os organizasse. Finalmente, três estudantes marcharam para os degraus do edifício do tribunal, ergueram os seus cartazes e gritaram "Libertem Carl Lee. Libertem Carl Lee."

Imediatamente a multidão repetiu o grito de guerra: Libertem Carl Lee!

Libertem Carl Lee! Libertem Carl Lee!

Deixaram a sombra das árvores e o abrigo do edifício do tribunal e aproximaram-se dos degraus onde tinham improvisado um palanque e um sistema de som. Gritavam em uníssono para ninguém, para nenhum sítio em particular, apenas gritavam o novo grito de guerra num coro perfeito.

Libertem Carl Lee! Libertem Carl Lee!

As janelas abriram-se e os funcionários do tribunal olharam boquiabertos para o movimento. Os gritos podiam ser ouvidos de longe e as lojas e escritórios em volta da praça ficaram vazios.

Lojistas e fregueses saíram para o passeio e olhavam atónitos. Os manifestantes, ao verificarem que tinham auditório, intensificaram o canto em ritmo e em volume. Os abutres que estavam por perto, à espera e a observar, ficaram entusiasmados com o barulho e desceram para a praça com as câmaras e microfones.

Ozzie e os seus homens orientaram o tráfego até a estrada e as ruas ficarem completamente engarrafadas. Ficaram na praça, embora, evidentemente, a sua presença não fosse necessária. Agee e todos os pregadores negros, a tempo inteiro, em part-time, aposentados e futuros, de três condados, desfilaram entre a massa densa de rostos negros que gritavam e se dirigiram ao palanque. A presença dos pregadores serviu de alento à multidão e o canto reverberou na praça, nas ruas próximas, nos sonolentos bairros residenciais e no campo. Milhares de negros agitavam cartazes e gritavam a plenos pulmões. Agee balançava com a multidão. Dançava no pequeno palanque. Batia com a palma da mão nas palmas das mãos dos outros pregadores. Conduzia o barulho ritmado como um regente de coro. Era um espetáculo.

Libertem Carl Lee! Libertem Carl Lee!

Durante quinze minutos, Agee transformou a multidão esparsa numa massa frenética e unida. Então, quando o seu ouvido apurado detectou os primeiros sinais de fadiga, foi até aos microfones e pediu silêncio. Os rostos ofegantes e suados continuaram o canto, porém mais baixo. Os cantos de liberdade cessaram rapidamente. Agee pediu para abrirem um espaço, em frente do palanque, para que a imprensa pudesse trabalhar. Pediu que se acalmassem para erguerem as suas preces ao Senhor. O reverendo Roosevelt ofereceu uma maratona a Deus, uma festa eloquente, aliterativa, retórica, que provocou lágrimas em muitos olhos.

Quando, finalmente, disse "amen", uma negra enorme com peruca vermelha brilhante aproximou-se do microfone e abriu a sua enorme boca. A primeira estrofe de "We Shall Overcome" jorrou num rio profundo, rico, melodioso de um glorioso coro de capela. Os pregadores, atrás dela, deram as mãos e começaram a ondular. A espontaneidade tomou conta da multidão e duas mil vozes juntaram-se à dela numa harmonia surpreendente. O hino triste e cheio de promessas ergueu-se acima da pequena cidade.

Quando terminaram, alguém gritou: "Libertem Carl Lee", acendendo outra rodada de canto. Agee pediu silêncio outra vez e aproximou-se dos microfones. Tirou uma ficha do bolso e começou o sermão.

Como era de esperar, Lucien chegou atrasado e meio tocado. Trazia uma garrafa e ofereceu um copo a Jake, Atcavage e Harry Rex. Ninguém aceitou.

- Falta um quarto para as nove, Lucien - disse Jake. - Estamos à espera há quase uma hora.

- Por acaso, alguém me paga para fazer isto? - perguntou - Não. Mas eu pedi-lhe que estivesse cá, às oito em ponto. - E disse-me também para não trazer uma garrafa. E eu informei-o de que este prédio é meu, construído pelo meu avô, alugado por si, meu inquilino, e onde eu entro e saio quando quero, com ou sem uma garrafa.

- Esqueça. Você...

- O que estão a fazer aqueles negros do outro lado da rua, às voltas ao tribunal, às escuras?

- Chama-se vigília - explicou Harry Rex. - Fizeram voto de andar em volta do tribunal com velas, mantendo a vigília até o homem ser libertado.

- Pode ser uma vigília tremendamente longa. Quero dizer, aquela pobre gente pode ficar ali a andar até morrer. Quero dizer, esta pode ser uma vigília de doze, quinze anos. Talvez estabeleçam um recorde. Podem encher o rabo com a cera das velas... Boa noite, Row Ark.

Ellen estava sentada à frente da escrivaninha de tampo corrediço, debaixo do retrato de William Faulkner, a ler uma cópia da lista de jurados, cheia de sinais e de anotações. Inclinou a cabeça e sorriu para Lucien.

- Row Ark - disse ele -, tenho o maior respeito do mundo por si. Considero-a como uma igual. Acredito no seu direito de remuneração igual para trabalho igual. Acredito no seu direito de escolher ter um filho ou abortar. Acredito em todas essas baboseiras. É mulher e não tem direito a nenhum privilégio por causa do seu sexo! Deve ser tratada exactamente como um homem - Lucien meteu a mão no bolso e tirou um maço de notas presas por um clipe de papel. - E uma vez que é estagiária, sem género definido aos meus olhos, acho que é quem deve ir comprar uma caixa de Coors.

- Não, Lucien - disse Jake. - Cale-se, Jake.

Ellen pôs-se em pé e olhou para Lucien. - Certo, Lucien. Mas eu pago a cerveja.

Ela saiu do escritório. Jake abanou a cabeça e olhou furioso para Lucien.

- Esta pode ser uma noite longa.

Harry Rex mudou de ideias e serviu-se de uma dose de uísque na chávena de café.

- Por favor, não fiquem bêbedos - pediu Jake. - Temos muito trabalho.

- Eu trabalho melhor quando-estou bêbedo - disse Lucien. - Eu também - disse Harry Rex.

- Isto pode vir a ser interessante - observou Atcavage. Jake pôs os pés em cima da mesa e expeliu uma baforada do charuto.

- Muito bem, a primeira coisa que quero fazer é resolver qual é o tipo de jurado ideal.

- Negro - disse Lucien.

- Negro como o rabo do velho Coaly - disse Harry Rex. - De acordo - disse Jake. - Mas não vamos ter essa sorte. O Buckley vai reservar as maiores objeções para os negros. Precisamos de nos concentrar nos brancos.

- Mulheres - disse Lucien. - Escolha sempre mulheres para homicídio. Elas são mais compreensivas. Escolha sempre mulheres.

- Não - disse Harry Rex. - Não neste caso. As mulheres não compreendem coisas como pegar numa arma e rebentar os miolos a alguém. Tu precisas de pais, de pais jovens que gostariam de fazer o mesmo que o Hailey fez. Pais com filhas pequenas.

- Desde quando é que você se tornou um especialista na escolha de jurados? - perguntou Lucien. - Pensei que fosse só um espalhafatoso advogado de divórcio.

- Sou um espalhafatoso advogado de divórcio, mas sei escolher jurados.

- E escutá-los através das paredes... - Não me provoque!

Jake ergueu os braços.

- Amigos, por favor. O que me dizem de Victor Onzell? Conhece-o, Stan?

- Conheço. É nosso cliente. À volta dos quarenta, casado, três ou quatro filhos. Branco. De algures no Norte. Dirige a a estação de paragem de camiões, na estrada ao Norte da cidade. Está aqui há cerca de cinco anos.

- Eu cá não o escolhia... - disse Lucien. - Se é do Norte, não pensa como nós. Provavelmente, é a favor do controlo de armamento e dessa parvoíce toda. Os ianques apavoram -me sempre em casos de homicídio. Considerei sempre que devíamos ter uma lei no Mississippi a proibir os ianques de serem jurados, independentemente da quantidade de anos de residência aqui.

- Muito obrigado - disse Jake.

- Eu escolhê-lo-ia - disse Harry Rex. - Porquê?

- Tem filhos, provavelmente uma filha. Se é do Norte, não deve ter preconceito. A mim, ele parece-me bom.

- John Tate Aston.

- Morreu - disse Lucien. - O quê?

- Eu disse que morreu. Morreu há três anos.

- Porque está na lista? - perguntou Atcavage, o único que não era advogado.

- Eles não actualizam a lista dos eleitores - explicou Harry Rex, entre dois goles. - Alguns morrem, outros mudam de cidade ou de estado e é impossível manter a lista em dia. Distribuíram cento e cinquenta intimações e podemos esperar que apareçam uns cento e vinte. O resto morreu ou mudou-se.

- Caroline Baxter. Ozzie diz que ela é negra - disse Jake, examinando as anotações. - Trabalha numa fábrica de carburadores em Karaway.

- Fique com ela - disse Lucien.

- Se dependesse só de mim... - disse Jake.

Ellen voltou com a cerveja. Pôs a caixa no colo de Lucien e pegou numa lata. Abriu-a e voltou para a escrivaninha. Jake não aceitou, mas Atcavage resolveu que estava com sede. Jake era o único que não estava a beber.

- Joe Kitt Shepherd.

- Parece ser camponês branco - disse Lucien. - Porquê? - perguntou Harry Rex.

- Dois nomes - explicou Lucien. - A maioria dos camponeses tem dois nomes. Como Billy Ray, Johnny Ray, Bobby Lee, Harry Lee, Jesse Earl, Billy Wayne, Jerry Wayne, Eddie Mack. Até as mulheres têm dois nomes. Bobbie Sue, Betty Pearl, Mary Belle, Thelma Lou, Sally Faye.

- E que me diz de Harry Rex? - perguntou Harry Rex. - Não conheço nenhuma mulher chamada Harry Rex. - Estou a falar de um camponês homem.

- Acho que serve. Jake interrompeu.

- Dell Perry disse que este tinha uma loja de iscos, perto do lago. Suponho que ninguém o conhece...

- Não, mas aposto que é um camponês - disse Lucien. - Por causa do nome. Eu não o escolheria.

- Vocês não têm morada, idade, profissão, informações básicas? - perguntou Atcavage.

- Não, até ao dia do julgamento. Na segunda-feira, cada um dos possíveis jurados preenche um questionário no tribunal. Mas até lá temos só os nomes.

- De que tipo de jurado é que estamos à procura, Jake? - perguntou Ellen.

- Homens jovens ou de meia-idade, com família. Eu preferia não ter nenhum com mais de cinquenta anos.

- Porquê? - perguntou Lucien agressivamente.

- Os brancos jovens são mais tolerantes com os negros. - Como o Cobb e o Willard - disse Lucien.

- A maioria das pessoas idosas sempre será contra os negros, mas a nova geração aceita uma sociedade integrada. De um modo geral, os jovens são menos intolerantes.

- Concordo - disse Harry Rex - e evitaria mulheres e campónios brancos.

- É o meu plano.

- Acho que o Jake faz mal - disse Lucien. - As mulheres são mais compreensivas. Veja Row Ark. Ela simpatiza com toda a gente. Não é, Row Ark?

- Certo, Lucien.

- Ela simpatiza com criminosos, corruptores de menores, ateus, imigrantes ilegais, pederastas. Não é verdade, Row Ark?

- Certo, Lucien.

- Ela e eu temos os únicos cartõezinhos de sócios da união que existem neste momento em Ford County, Mississippi.

- Isto é intolerável! - disse Atcavage, o banqueiro.

- Clyde Sisco - disse Jake, em voz alta, tentando minimizar a controvérsia.

- Esse pode ser comprado - disse Lucien com ar de quem sabe das coisas.

- Que quer dizer com "esse pode ser comprado"? - quis saber Jake.

- Exactamente o que disse. Pode ser comprado. - Como sabe? - perguntou Harry Rex.

- Está a brincar? Ele é um Sisco. O maior bando de malandros da parte leste do distrito. Todos eles vivem em torno da comunidade Mays. São ladrões profissionais e peritos em fraudes de seguros. Queimam as próprias casas de três em três anos. Nunca ouviu falar neles? - perguntou aos gritos a Harry Rex.

- Não. Como sabe que pode ser comprado?

- Porque já o comprei uma vez!... uma acção cível, há dez anos. Ele estava na lista de jurados e eu mandei-lhe um recado a dizer que lhe daria dez por cento do veredicto do júri. Esse é fácil de persuadir.

Jake largou a lista de jurados e esfregou os olhos. Sabia que isso provavelmente era verdade, mas não queria acreditar.

- E então? - perguntou Harry Rex.

- Ele foi escolhido para o júri e eu consegui o maior veredicto da história de Ford County. Ainda é o recorde.

- Stubblefield? - perguntou Jake, incrédulo.

- Isso mesmo, rapazinho. Stubblefield contra North Texas Pipeline. Setembro de 1974. Oitocentos mil dólares. Houve apelação e foi confirmado pelo Supremo Tribunal.

- E pagou-lhe?... - perguntou Harry Rex. Lucien bebeu um longo gole e fez estalar os lábios.

- Oitenta mil em dinheiro vivo, em notas de cem dólares _ disse, com orgulho. - Construiu uma nova casa e depois incendiou-a.

- Qual foi a sua parte? - perguntou Atcavage. - Quarenta por cento, menos oitenta mil.

No silêncio que se seguiu, todos, menos Lucien, fizeram os cálculos.

- Irra! - murmurou Atcavage.

- Está a brincar, não está, Lucien? - perguntou Jake, sem muita convicção.

- Sabe muito bem que estou a falar a sério, Jake. Sabe que sou um mentiroso compulsivo, mas nunca sobre coisas como esta... Estou a dizer a verdade e estou a dizer que esse tipo pode ser comprado.

- Quanto? - perguntou Harry Rex. - Esqueça!-disse Jake.

- Cinco mil em dinheiro, um mero palpite. - Esqueça!

Fez-se uma pausa e todos olharam para Jake para se certificarem de que ele não estava interessado em Clyde Sisco, e quando se tornou evidente que não estava, cada um bebeu um copo e espe rou o nome seguinte. por volta das dez e meia, Jake bebeu a primeira cerveja e uma hora depois a caixa estava vazia e faltavam quarenta nomes. Lucien cambaleou até à varanda e ficou a olhar para os negros com as suas velas nos passeios próximos em torno do edifício do tribunal.

- Jake, por que está ali um polícia sentado no carro em frente do meu escritório? - perguntou ele.

- É o meu guarda-costas. - Como é que ele se chama? - Nesbit.

- Ele está acordado? - Provavelmente não. Lucien inclinou-se perigosamente para fora. - Ei, Nesbit! - gritou.

Nesbit abriu a porta do carro de polícia. - Sim, o que é?

- O Jake quer que vá ao armazém comprar mais cerveja. Ele está com muita sede. Aqui estão vinte dólares. Ele quer uma caixa de Coors.

- Não posso fazer compras quando estou de serviço - protestou Nesbit.

- Desde quando? - riu-se Lucien. - Não posso.

- Não é para você, Nesbit. É para o Dr. Brigance, e ele está mesmo muito necessitado. Ele já telefonou ao xerife e está tudo bem.

- Quem telefonou ao xerife?

- O Dr. Brigance - mentiu Lucien. - O xerife disse que não lhe interessa o que faça, contanto que você não beba.

Nesbit encolheu os ombros e pareceu satisfeito. Lucien atirou-lhe os vinte dólares. Passados poucos minutos, Nesbit estava de volta com uma caixa, menos uma lata que estava aberta sobre o seu controlo de radar. Lucien pediu a Atcavage que descesse a buscar a cerveja e distribuisse o primeiro pacote de seis latas.

Uma hora depois, a lista estava concluída e a reunião encerrada. Nesbit acomodou Harry Rex, Lucien e Atcavage no seu carro e levou-os para casa. Jake e a estagiária sentaram-se na varanda, a bebericar e a ver o tremeluzir das velas que desfilavam lentamente em volta do edifício do tribunal. Vários carros estavam estacionados no lado oeste da praça, e um pequeno grupo de negros sentados por perto, em cadeiras de dobrar, esperava a sua vez de conduzir as velas.

- Acho que fizemos um bom trabalho - disse Jake, contemplando o desfile. - Dos cento e cinquenta só não obtivemos informações sobre vinte.

- E agora, que fazemos?

- Vou tentar descobrir alguma coisa sobre esses vinte, depois faremos uma ficha para cada jurado. Na segunda-feira, vamos conhecê-los como se fossem da família.

Nesbit voltou à praça e rodeou-a duas vezes observando os negros. Estacionou entre o Saab e o BMW.

- O relatório sobre M'Naghten é uma obra-prima. O nosso psiquiatra, o Dr. Bass, vem cá amanhã e gostava que revisse esse relatório com ele. A Ellen precisa de preparar detalhadamente as perguntas que terão de lhe ser feitas no julgamento e estudá-las, uma por uma, com ele. O Dr. Bass preocupa-me. Eu não o conheço e não confio no Lucien. Veja se consegue o currículo dele e investigue os antecedentes. Faça os telefonemas que forem necessários. Verifique junto da Associação de Medicina do Mississippi se ele não tem nenhum problema de ordem disciplinar. Ele é muito importante para o nosso caso e não quero surpresas desagradáveis...

- Às suas ordens, chefe!

Jake acabou a sua última cerveja.

- Ouça, Row Ark, isto é uma cidade muito pequena. A minha mulher foi-se embora há cinco dias e tenho a certeza de que toda a gente sabe isso. Para esta gente parece suspeita. As pessoas gostam de falar, portanto, seja discreta. Fique no escritório e faça a sua investigação e diga a quem lhe perguntar que é a substituta da Ethel.

- É um soutien grande pra preencher. - Podia fazê-lo se quisesse...

- Espero que saiba que não sou nada boazinha como sou obrigada a parecer.

- Já percebi.

Viram os negros revezarem-se e outro grupo empunhar as velas. Nesbit atirou uma lata de cerveja vazia para o passeio.

- Não vai a guiar para casa, pois não? - perguntou.

- Não seria boa ideia. Registaria pelo menos 20 pontos na maquineta...

- Pode dormir no sofá do meu escritório. - Obrigada. Assim farei.

Jake disse boa-noite, fechou o escritório e falou rapidamente com Nesbit. Depois colocou-se cuidadosamente atrás do volante do Saab. Nesbit seguiu-o até à sua casa, na rua Adams. Jake estacionou debaixo do telheiro, perto do carro de Carla, e Nesbit parou na entrada dos automóveis. Era uma hora da manhã de quinta-feira 18 de Julho.

 

Eles chegaram em grupos de dois e três, vindos de todas as partes do estado. Estacionaram os carros, na estrada de cascalho, ao lado da cabana no bosque. Entraram com a roupa normal de trabalho mas, uma vez lá dentro, envergaram os mantos e os capuzes brancos, limpos e bem passados. Ao mesmo tempo que iam admirando os uniformes, ajudavam-se mutuamente a vesti-los. Grande parte já se conhecia, mas foram necessárias algumas apresentações. Eram quarenta, uma boa participação.

Stump Sisson estava satisfeito. Bebendo uísque, andava pela sala como um treinador desportivo a tranquilizar os jogadores antes do jogo. Inspeccionava os uniformes e fazia os ajustamentos necessários. Tinha orgulho nos seus homens e dizia-lhes isso. Era a maior reunião em muitos anos, disse Sisson. Admirava-os e compreendia o sacrifício que estavam a fazer. Sabia que tinham empregos e família, mas isto era importante. Falou sobre os dias gloriosos quando eram temidos e tinham poder. Esses tempos tinham de voltar e competia àquele grupo de homens dedicados tomar posição definida em defesa do homem branco. O desfile podia ser perigoso, advertiu. Os negros têm direito a fazer desfiles e comícios o dia inteiro, que ninguém se importa. Mas se os brancos resolvem fazer o mesmo, correm perigo. Tinham autorização formal do condado, e o xerife negro tinha prometido que haveria ordem, mas quase todas as desfiles do Klan, nos dias de hoje, eram atacadas por bandos de jovens marginais negros. Portanto, tenham cuidado e cerrem fileiras. Ele, Stump, se encarregaria dos discursos.

Ouviram atentamente a palavra de incentivo de Stump e, quando este terminou, entraram nos carros e seguiram-no até à cidade.

Em Clanton, poucas eram as pessoas, talvez nenhuma, que já tivessem visto um desfile do Ku Klux Klan e, um pouco antes das duas horas, uma onda de excitação percorreu a praça. Os lojistas e os respectivos fregueses inventavam pretextos para sair para o passeio. Andavam de um lado para o outro lentamente, olhando para as ruas transversais. Os abutres, em grande número, reuniram-se perto do coreto, no relvado na frente do tribunal. Um grupo de jovens negros parou perto, debaixo de um imenso carvalho. Ozzie farejou sarilhos. Eles tinham garantido que só estavam ali para ver e ouvir. Ozzie ameaçou levar todos para a cadeia se começassem qualquer conflito. Os polícias estavam a postos em volta do edifício.

"Aí vêm eles!" gritou alguém e os espectadores esticaram os pescoços para ver os homens do Klan que surgiram, marchando imponentemente de uma pequena rua e entraram na rua Washing

ton, na extremidade Norte da praça. Caminhavam cautelosos, mas arrogantemente, com as caras escondidas pelas sinistras máscaras brancas e vermelhas na frente do capuz. As pessoas olhavam boquiabertas para os vultos sem cara e a procissão seguiu lentamente pela rua Washington, virou para Sul na rua Caffey, depois para Leste, na rua Jefferson. Stump marchava orgulhoso à frente dos seus homens. Quando se aproximaram do edifício do tribunal, virou bruscamente para a esquerda e conduziu os homens para o longo passeio no centro do relvado. Cerraram fileiras formando um semicírculo em volta do palanque, nos degraus do tribunal.

Os abutres corriam e empurravam-se uns aos outros a fim de acompanharem o desfile e quando Stump parou com os seus homens no palanque foi imediatamente assediado por uma dúzia de microfones, com os longos fios estendidos pelo chão até onde estavam as câmaras e os gravadores. Cresceu o número de negros jovens agrupados debaixo da árvore" e alguns deles adiantaram-se, parando a poucos metros do semicírculo. Os passeios esvaziaram-se quando os comerciantes, lojistas, fregueses e outros curiosos correram para o relvado para ouvir o que o líder, o homenzinho baixo e gordo, iria dizer. Os polícias caminhavam devagar no meio das pessoas, sem prestar atenção especial ao grupo de negros. Ozzie parou debaixo do carvalho; rodeado pelos seus agentes.

Jake observava atentamente da janela do escritório de Jean Gillespie, no segundo andar do edifício do tribunal. Com uma sensação quase de náusea, Jake via os homens do Klan, com os seus uniformes de gala e as caras cobardemente ocultas sob as máscaras sinistras. O capuz branco, que durante décadas fora um símbolo de ódio e violência no Sul, estava de volta. Qual daqueles homens teria posto a cruz de fogo no jardim dele? Teriam todos eles tomado parte activa no plano de fazer explodir a sua casa? Qual deles iria tentar outra coisa? Do segundo andar, via perfeitamente os negros.

- Vocês, negros, não foram convidados para este comício! . berrou Stump pelo microfone, apontando para os negros. - Esta é uma reunião do Klan, não de um bando de pretos!

Das ruas transversais e pequenas passagens atrás da fila de prédios de tijolos vermelhos, um grupo compacto de negros caminhou na direcção do tribunal, juntando-se aos outros. Num segun do, Stump e seus homens estavam suplantados em número, uma média de dez para um. Ozzie pediu reforços pelo rádio.

- Chamo-me Stump Sisson - disse ele, retirando a máscara. - Tenho orgulho em dizer que sou o mago soberano do império invisível do Ku Klux Klan do Mississippi. Estou aqui para dizer que a população cumpridora da lei do Mississippi está cansada de ver negros a roubar, a violar e a assassinar impunemente. Exigimos justiça e exigimos que esse negro Hailey seja condenado e mandado para a câmara de gás.

"Libertem Carl Lee!" gritou um negro. "Libertem Carl Lee!" repetiram em uníssono. "Libertem Carl Lee!"

- Calem a boca, seus negros selvagens! - berrou Stump. - Calem a boca, seus animais!

Os homens do Klan. estavam imóveis, de frente para ele, de costas voltadas para a multidão que gritava. Ozzie e seis polícias entraram no meio dos dois grupos.

"Libertem Carl Lee!" "Libertem Carl Lee!"

A cara naturalmente corada de Stump ficou rubra. Os dentes quase tocavam os microfones.

- Calem a boca, negros selvagens! Tiveram o vosso comício ontem e nós não os perturbámos. Temos direito a reunir-nos em paz, exactamente como vocês. Agora, calem-se!

O canto ficou mais forte. "Libertem Carl Lee! "Libertem Carl Lee!"

- Onde está o xerife? O seu dever é manter a lei e a ordem. Xerife, faça o seu trabalho. Cale-me esses negros para que possamos reunir-nos em paz. Não é capaz de fazer o seu trabalho, xerife?

Não pode controlar a sua própria gente? Estão a ver, amigos, é isto que acontece quando se elegem negros para cargos públicos.

Os gritos continuaram e Stump afastou-se dos microfones e olhou para os negros. Os fotógrafos e as equipas de televisão giravam em volta da multidão, a tentar gravar tudo. Ninguém notou uma pequena janela no terceiro andar do edifício do tribunal. Foi aberta lentamente e do escuro alguém atirou uma bomba de fabricação caseira para o centro do palanque. A bomba caiu perto dos pés de Stump e explodiu, envolvendo o mago em chamas.

A desordem começou. Stump gritou e rolou pelos degraus da frente do edifício. Três dos seus homens tiraram os mantos e as máscaras e cobriram-no com eles, tentando apagar o fogo. O palan que de madeira e a plataforma incendiaram-se, com o cheiro forte de gasolina. Os negros avançaram, atacando com paus e facas todos os que tivessem caras ou mantos brancos. Debaixo de cada manto havia um cassetete e os homens do Klan demonstraram que estavam preparados para as agressões. Segundos depois da explosão, o relvado na frente do Tribunal de Justiça de Ford County era um campo de batalha com homens aos berros, a praguejar e a gritar de dor no meio do fumo espesso e pesado. Pedras e cassetetes subiam no ar e os dois grupos defrontavam-se num combate corpo-a-corpo.

Começaram a cair corpos na relva verde e viçosa. Ozzie foi o primeiro a cair, vítima de um golpe na nuca com uma marreta de demolição. Nesbit, Prather, Hastings, Pirtle, Tatum e outros polici ais tentavam inutilmente separar vários manifestantes antes que se matassem. Ao invés de procurar abrigo, os abutres corriam de um lado para o outro no meio do fumo e da violência, a tentar corajosamente captar as melhores cenas da carnificina. Eles eram alvos indefesos. Um cameraman com o olho direito encostado à câmara foi atingido no olho esquerdo por um bocado de tijolo.

Ele e a câmara caíram no passeio e imediatamente apareceu outro cameraman para filmar o companheiro caído. Uma repórter destemida de uma televisão de Memphis saltou para o meio da luta com o microfone na mão e com o seu cameraman atrás dela. Desviou-se de um tijolo, depois conseguiu chegar perto de um homenzinho do Klan que agredia dois negros adolescentes. De repente, com um grito agudo, o homem acertou na bela cabeça da repórter com o seu cassetete, desatando aos pontapés ao corpo quando ela caiu, e em seguida atacou brutalmente o cameraman.

Chegaram os reforços da Polícia Municipal de Clanton. No centro da batalha, Nesbit, Prather e Hastings juntaram-se, costas contra costas, e começaram a atirar para o ar com os revólveres Magnum e Smith & Wesson. Os tiros acabaram com a desordem.. Os manifestantes ficaram imóveis procurando a origem dos tiros, separando-se rapidamente, com olhares furiosos. Recuaram devagar para os seus respectivos grupos. Os oficiais formavam uma linha divisória entre os negros e os homens do Klan, dando todos graças a Deus pelas tréguas.

Uma dezena de feridos não conseguiu recuar. Ozzie sentou-se, atordoado, passando a mão na nuca. A repórter de Memphis estava inconsciente, a sangrar profundamente na cabeça. Alguns homens do Klan, com os mantos brancos sujos e ensanguentados, estavam caídos perto do passeio. O palanque continuava a arder. As sirenes aproximaram-se e, finalmente, os carros de bombeiros e as ambulâncias chegaram ao campo de batalha. Bombeiros e médicos socorreram os feridos. Nenhum morto. Stump Sisson foi levado primeiro. Ozzie foi meio arrastado e meio puxado para dentro de um carro-patrulha. Outros polícias chegaram e dispersaram a multidão.

Jake, Harry Rex e Ellen comiam uma pizza morna na frente da pequena televisão, na sala de conferências, ao mesmo tempo que viam com atenção o noticiário sobre a ocorrência daquele dia e Clanton, Mississippi. A CBS usou metade do noticiário para mostrar a batalha campal. Aparentemente o seu repórter tinha escapado incólume e fazia o relato enquanto mostravam a gravação do desfile, dos gritos, da explosão da bomba e dos conflitos. "Até ao fim desta tarde", disse ele, "não era conhecido o número exacto de feridos. Os ferimentos mais graves são, sem dúvida, as queimaduras sofridas pelo Sr. Sisson, que se identificou como um mago imperial da Ku Klux Klan. Está internado no Hospital de Queimados de Mid South, em Memphis, e o seu estado é grave." A gravação mostrou um plano aproximado de Stump em chamas e o começo do conflito. O repórter continuou. "O julgamento de Carl Lee Hailey está marcado para segunda-feira, aqui em Clanton. Por enquanto não se sabe qual será o efeito desta ocorrência na decisão do julgamento. Há rumores de que o julgamento vai ser adiado e/ou realizado noutro condado.

- Isso é novidade para mim - disse Jake.

- Não ouviste dizer nada? - perguntou Harry Rex.

- Nem uma palavra. E acredito que eu seria notificado antes da CBS...

O repórter desapareceu e Dan Rather disse que ele voltaria dentro de alguns minutos.

- O que significa isto? - perguntou Ellen.

- Significa que o Noose é bastante estúpido para não mudar o local do julgamento.

- Deves ficar satisfeito com isso - disse Harry Rex. - É mais um argumento para a apelação.

- Obrigado, Harry Rex. Aprecio a tua confiança na minha habilidade de advogado criminologista.

O telefone tocou. Harry Rex atendeu e disse olá a Carla. Passou o auscultador a Jake.

- É a tua mulher. Podemos ouvir?

- Não! Vai buscar outra pizza. Olá, querida. - Jake. Estás bem?

- É claro que estou.

- Acabo de ver o noticiário. Foi horrível! Onde é que estavas? - Vestido com um daqueles mantos brancos.

- Jake, por favor. Não tem graça nenhuma.

- Estava no escritório de Jean Gillespie, no segundo andar. Um lugar maravilhoso. Vi tudo! Foi muito interessante.

- Quem é aquela gente?

- Os mesmos que puseram a cruz a arder no nosso jardim e tentaram fazer explodir a nossa casa.

- De onde são eles?

- De toda a parte. Cinco estão no, hospital e as moradas deles estão espalhadas por todo o estado. Um até é de cá! Como está a Hanna?

- Muito bem. Ela quer voltar para casa. O julgamento vai ser adiado?

- Duvido.

- Não corres perigo?

- Claro que não! Tenho um guarda-costas a tempo inteiro e ando com um 38 na minha pasta. Não te preocupes.

- Mas estou preocupada, Jake. Preciso de estar em casa contigo. - Não.

- A Hanna pode ficar aqui até tudo acabar, mas eu quero voltar para casa.

- Não, Carla. Eu sei que aí não corres perigo. E em Clanton corres.

- Então, tu também corres...

- Estou tão seguro quanto possível... Mas não quero correr riscos contigo e com a Hanna. Não se fala mais nisso. Ponto final. Como estão os teus pais?

- Não te telefonei para falar dos meus pais. Telefonei-te porque estou com medo e quero estar ao pé de ti.

- E eu quero estar ao pé de ti, mas não agora. Por favor, vê se entendes.

- Ela hesitou.

- Onde estás hospedado?

- Quase sempre na casa do Lucien. Uma vez por outra, vou para casa, com o meu guarda-costas à entrada.

- Como está a minha casa?

- No mesmo sítio. Suja, mas no mesmo sítio. - Estou com saudades dela.

- E ela tem saudades tuas, podes ter a certeza. - Amo-te, Jake, e estou assustada.

- E eu também te amo e não estou assustado. Tenta distrair-te e toma conta da Hanna.

- Até logo. - Até logo.

Jake estendeu o auscultador a Olen para que o desligasse. - Onde é que ela está?

- Em Wilmington, na Carolina do Norte, onde os pais passam o Verão.

Harry Rex tinha saído para comprar mais uma pizza. - Tem saudades dela, não tem? - perguntou Ellen. - Mais do que pode imaginar.

- Oh, eu posso imaginar.

À meia-noite, estavam na cabana a beber uísque, a insultar os negros e a comparar ferimentos. Alguns já tinham regressado do hospital de Memphis, onde tinham conversado brevemente com Stump

Sisson. Ele mandara-os continuar de acordo com o plano. Onze tiveram alta do Hospital de Ford County com vários golpes e equimoses e os outros contemplavam os ferimentos e cada um deles descrevia com detalhes a sua luta corajosa contra vários negros, antes de serem feridos, geralmente pelas costas ou pelo lado. Eles eram os heróis, os homens com ligaduras. A seguir, os outros contaram as suas histórias e o uisque foi livremente consumido.

Encheram de elogios o maior de todos, quando ele descreveu o seu ataque à bela repórter da televisão e ao seu cameraman negro. Depois de terem bebido e contado histórias durante duas horas, a conversa passou para o que tinham de fazer. Os membros locais apontaram num mapa do condado os pontos exactos dos alvos. Vinte casas estavam programadas para aquela noite - vinte nomes tirados da lista dos jurados convocados, fornecidos por alguém. Cinco grupos, de quatro homens cada um, sairam da cabana nas suas pick-up para continuarem a sua obra de violência. Em cada uma das pick-up levavam quatro cruzes de madeira de tamanho pequeno, 2,5m X 1,5m, embebidas em querosene. Passaram ao largo de Clanton e das pequenas cidades, seguindo pelo campo escuro. Os alvos ficavam em áreas isoladas, longe do tráfego e de vizinhos, no meio do campo, onde as coisas passam despercebidas e todos vão para a cama cedo e dormem profundamente.

O plano de ataque era simples. Uma pick-up parava a alguns metros da casa, na estrada, onde não podia ser vista, com as luzes apagadas, e o motorista ficava à espera, com o motor ligado, enquanto os outros três transportavam a cruz até ao jardim, a enfiavam no chão e atiravam a tocha acesa. A pick-up ia então ao encontro deles, em frente da casa, para a fuga silenciosa e a viagem alegre para o próximo alvo.

O plano funcionou sem complicações em dezanove dos vinte alvos. Mas Luther Picket, o vigésimo, tinha acordado um pouco antes com um ruído estranho e estava sentado no escuro, na varanda da frente, quando viu uma pick-up entrar na passagem de cascalho, um pouco além da sua amendoeira. Luther empunhou a espingarda e ouviu a pick-up dar a volta e parar na estrada. Ouviu vozes e viu, então, os três vultos a transportar um poste ou coisa parecida para o seu jardim, ao lado da estradinha de cascalho. Agachado atrás de um arbusto, perto da varanda, Luther fez pontaria.

O motorista bebeu um gole de cerveja gelada e olhou pela janela para ver as chamas da cruz a subirem para o céu. Mas em vez disso, ouviu um tiro. Os companheiros abandonaram a cruz, a tocha e o jardim e saltaram para uma pequena vala, ao lado da estrada. Outro tiro! O homem dentro da pick-up ouvia os gritos e os palavrões. Tinha de salvá-los! Atirou para longe com a lata de cerveja e carregou no acelerador.

O velho Luther atirou uma vez mais, saindo da varanda, e mais outra, quando a pick-up apareceu e parou ao lado da vala rasa. Os três saltaram desesperadamente pelo meio da lama, tropeçando e escorregando, praguejando e gritando, esforçando-se furiosamente por treparem para a parte de trás da camionete.

- Segurem-se bem! - gritou o homem ao volante, no momento exacto em que o velho Luther atirou de novo, acertando no carro. Com um sorriso, ele viu a pick-up afastar-se a toda velocidade, espalhando cascalho e derrapando, de vala em vala. Um grupo de garotos bêbedos, pensou ele.

Um homem do Klan entrou numa cabine telefónica, com uma lista de vinte nomes e vinte números de telefone. Telefonou para todos, simplesmente a pedir que dessem uma olhadela aos seus jardins.

 

Na sexta-feira de manhã Jake telefonou para a casa de Noose e a Sra. lchabod informou que o meritíssimo estava a presidir a um julgamento em Polk County. Jake deixou instruções a Ellen e seguiu de carro para Smithfield, a uma hora de Clanton. Cumprimentou Sua Excelência com uma inclinação de cabeça ao entrar no tribunal vazio e sentou-se na primeira fila. A não ser os jurados, não havia nenhum espectador. Noose estava aborrecido, os jurados estavam aborrecidos, os advogados estavam aborrecidos e, ao fim de dois minutos, Jake estava a morrer de tédio. Quando a testemunha terminou de depor, Noose determinou um curto intervalo e Jake foi ao gabinete do juiz. - Como está, Jake? Que faz por aqui?

- O senhor soube do que aconteceu ontem? - Vi no noticiário da noite.

- Soube o que aconteceu esta manhã? - Não.

- É evidente que alguém deu ao Klan uma lista das pessoas que foram convocadas para o júri. A noite passada, queimaram cruzes nos jardins de vinte desses possíveis jurados.

Noose ficou chocado. - Os nossos jurados! - Sim, senhor.

- Prenderam alguém?

- É claro que não. Estavam ocupados a apagar o fogo. Além disso, ninguém consegue apanhar essa gente.

- Vinte dos nossos jurados - repetiu Noose. - Sim, senhor.

Noose passou a mão ao de leve pelo cabelo branco e brilhante e começou a andar lentamente pela salinha, abanando a cabeça e ocasionalmente coçando o sexo.

- A mim, isso parece-me intimidação - resmungou ele. Que cérebro brilhante, pensou Jake. Um verdadeiro génio. - Eu diria que é.

- E o que é que eu devo fazer? - perguntou Noose, frustrado.

- Transferir o local do julgamento. - Para onde?

- Para o Sul do estado.

- Compreendo. Talvez Carey County. Se não me engano, é sessenta por cento negro. Isso significaria pelo menos um júri indeciso, não acha? Ou talvez o Jake prefira Brower County. Acho que

é ainda mais negro. Provavelmente, lá conseguiria uma absolvição, não é isso?

- Não me importa para onde vá transferir. Não é justo julgar Hailey em Ford County. As coisas já estavam suficientemente difíceis antes do que aconteceu ontem. Agora os brancos estão prontos para o linchamento e o meu cliente é o pescoço mais acessível de momento. A situação era péssima antes do Klan começar a decorar todo o condado com árvores de Natal. Quem sabe que mais é que vão fazer antes de segunda-feira? Não é possível escolher um júri justo e imparcial em Ford County.

- O Jake quer dizer um júri negro?

- Não, Sr. Dr. Juiz! Quero dizer um júri que não tenha julgado previamente o caso! O Carl Lee Hailey tem direito a doze pessoas que ainda não resolveram se ele é culpado ou inocente!

Noose dirigiu-se devagar para a cadeira e sentou-se pesadamente. Tirou os óculos e encostou o dedo à ponta do enorme nariz. - Podemos prescindir desses vinte - pensou, em voz alta. - Isso não vai adiantar nada. Toda a gente sabe tudo o que aconteceu ou vai ficar a saber dentro de poucas horas. O senhor sabe como as notícias correm. O júri inteiro vai sentir-se ameaçado. - Nesse caso, podemos prescindir de todos e fazer uma nova lista.

- Isso também não vai dar resultado - disse Jake, secamente, frustrado com a teimosia de Noose. - Todos os jurados serão de Ford County e todos no distrito sabem das ameaças. E como é que o senhor vai conseguir evitar que o Klan intimide os novos escolhidos? Não resulta.

- Porque tem tanta certeza de que o Klan não vai acompanhar o caso se transferirmos o local? - O sarcasmo soava em cada palavra.

- Acho que vão acompanhar - admitiu Jake. - Mas não

- temos certeza. O que sabemos é que o Klan já está em Ford County, bastante actuante agora, e que já intimidou alguns possíveis jurados. Esta é a questão. A pergunta é:,o que é que o senhor vai fazer a esse respeito?

- Nada - disse Noose, secamente. - Sr. Dr. M

- Nada. Não vou fazer nada além de dispensar os tais vinte. Interrogarei cuidadosamente os convocados, na próxima segunda-feira, que é quando começa o julgamento, em Clanton.

Jake olhou incrédulo para o juiz. Noose tinha uma razão, um motivo, um receio, alguma coisa que não queria dizer. Lucien estava certo: alguém o estava a intimidar.

- Posso perguntar porquê?

- Eu acho que não interessa onde Carl Lee Hailey seja julgado. Acho que não interessa quem seja escolhido para o júri. Acho que não interessa a cor dos jurados. A decisão deles está tomada. Todos têm opinião formada, seja quem for, venha de onde vier. Já decidiram, Jake, e compete-lhe a si escolher aqueles para quem o seu cliente é um herói.

Talvez seja verdade, pensou Jake, mas não ia admiti-lo. Continuou a olhar para as árvores lá fora.

- Porque tem o senhor medo de o transferir?

Ichabod olhou furioso para Jake, com os olhos semicerrados. - Medo? Não tenho medo de nenhuma das minhas decisões. Porque razão tem o Jake medo de fazer o julgamento em Ford County?

- Penso que acabei de lhe explicar.

- O Sr. Hailey vai ser julgado em Ford County a partir de segunda-feira. Faltam três dias. E vai ser julgado em Ford County, não porque estou com medo de transferir o foro, mas porque não adiantaria nada transferi-lo. Já ponderei tudo isso cuidadosamente, Dr. Brigance, por diversas vezes, e sinto-me perfeitamente à vontade com o julgamento em Clanton. Não será mudado. Mais alguma coisa?

- Não, Sr. Dr. Juiz.

- Óptimo. Até segunda-feira.

Jake entrou no escritório pela porta das traseiras. Há uma semana que tinha trancado a porta da frente e havia sempre alguém a bater e a gritar por ele. A maior parte eram repórteres, mas alguns eram amigos à procura de notícias sobre o julgamento. Clientes eram coisas do passado. O telefone não parava de tocar. Jake nem lhe pegava e Ellen atendia quando estava por perto.

Foi encontrá-la na sala de conferências rodeada de livros de Direito. O relatório M'Naghten era uma obra-prima. Jake pedira-lhe não mais de vinte páginas. Ellen entregou setenta e cinco, dactilografadas com perfeição e redigidas com clareza, explicando que de modo nenhum era possível resumir em menor número de palavras a versão Mississippi do M'Naghten original, em Inglaterra, na década de 1800, e fez a cobertura de cento e cinquenta anos da lei sobre insanidade do Mississippi. Ignorou os processos insignificantes ou confusos e explicou com maravilhosa simplicidade os mais importantes e complicados. O relatório terminava com o resumo da lei actual, e aplicava-a ao caso de Carl Lee Hailey.

Num dossier mais pequeno, de catorze páginas, Ellen chegava à conclusão de que o júri veria as fotografias de Cobb e Willard com os miolos espalhados pela escada e pela parede. No Mississip pi admitia-se esse tipo de prova sensacionalista, e Ellen não descobriu nenhum meio de contornar a questão.

Ela dactilografara trinta e uma páginas que descreviam as pesquisas sobre a defesa de homicídio justificável, algo em que Jake pensara, superficialmente, logo a seguir aos crimes. Ellen che gou à mesma conclusão: não iria dar resultado. Descobrira um antigo processo, no Mississippi, de um homem que encontrou e matou um preso fugido que estava armado. O homem tinha sido absolvido, mas as diferenças entre esse caso e o de Carl Lee Hailey eram muito grandes. Jake não tinha pedido essa pesquisa e ficou irritado com a perda de tempo. Mas não disse nada, uma vez que Ellen tinha apresentado tudo o que ele pedira.

A surpresa mais agradável foi o trabalho dela com o Dr. W. T. Bass. Ellen estivera com ele duas vezes, naquela semana, e ambos tinham estudado minuciosamente o caso M'Naghten. Preparara vinte e cinco páginas com as perguntas que Jake deveria fazer ao médico e as respostas que o Dr. Bass deveria dar. Era um diálogo elaborado com perfeição e Jake admirou o conhecimento que ela revelava. Quando tinha a idade dela, Jake era um estudante banal, mais preocupado com namoros do que com pesquisas. Ellen, no terceiro ano da Faculdade de Direito, redigia relatórios que eram verdadeiros tratados.

- Como foi? - perguntou ela.

- Como era de esperar. Ele não cedeu. O julgamento vai começar aqui, na segunda-feira, com os mesmos jurados convocados, menos os vinte que foram ameaçados tão subtilmente.

- Ele é doido.

- O que é que está a fazer?

- A acabar o relatório para reforçar a nossa posição de que os detalhes da violação devem ser discutidos na frente do júri. Até aqui, parece-me bem.

- Quando pensa ter terminado? - Há alguma pressa?

- Para domingo, se for possível. Tenho outro trabalho para si, um pouco diferente.

Ellen afastou o bloco-notas e prestou atenção.

- O psiquiatra do estado vai ser o Dr. Wilbert Rodeheaver, chefe da equipa de Whitfield. Ele está lá há séculos e já testemunhou em centenas de casos. Gostaria que procurasse descobrir quantas vezes o nome dele aparece nas decisões do tribunal.

- Já vi o nome dele.

- Muito bem. Como sabe, os únicos processos que lemos do Supremo Tribunal são aqueles em que o réu foi condenado e apelou. As absolvições não estão registadas. Estou mais interessado nessas.

- Em que é que está a pensar?

-Tenho um palpite de que Rodeheaver não gosta de dizer que um réu estava legalmente insano. É possível que nunca o tenha dito. Mesmo nos casos em que o réu era evidentemente louco e não sabia o que estava a fazer. Eu gostaria de perguntar a Rodeheaver, na reinquirição, alguma coisa sobre os casos em que ele testemunhou estar tudo bem quando um homem era obviamente doente e o júri o absolveu.

- Não vai ser fácil encontrar esses processos.

- Eu sei, mas a Row Ark é capaz de o fazer. Há uma semana que observo o seu trabalho e sei que é capaz...

- Sinto-me lisonjeada, chefe.

- Talvez tenha de dar uns telefonemas a certos advogados de todo o estado que se cruzaram com Rodeheaver anteriormente. Será difícil, Row Ark, mas faça-me isso.

- Sim, chefe, tenho a certeza de que quer isso para ontem. - Na verdade, não. Duvido que tenhamos Rodeheaver na próxima semana. Portanto, disporá de algum tempo.

- Não sei como agir. Quer dizer que isso não é urgente? - Sim, mas o resumo sobre o estupro é.

- Sim, chefe. - Já almoçou? - Não estou com fome.

- Óptimo. Não faça planos para o jantar. - O que está a querer dizer?

- Quero dizer que tive uma ideia.

- Uma coisa assim como um encontro?

- Não, uma coisa assim como um jantar de negócios com dois profissionais.

Jake arrumou dois dossiers e saiu.

- Estou em casa do Lucien - disse - mas não telefone a não ser numa emergência. Não diga a ninguém onde estou.

- Em que está a trabalhar? - No júri.

Lucien estava a dormir, bêbedo, no baloiço da varanda e Sallie não andava por ali. Jake subiu para a sala de trabalho espaçosa no segundo andar. Lucien tinha mais livros de Direito em casa do que a maioria dos advogados tem no escritório. Jake pôs o conteúdo de um dos dossiers numa cadeira, e em cima da mesa uma lista dos jurados, por ordem alfabética, uma pilha de fichas de 7,5 cm X 12,Scm e várias canetas de feltro.

O primeiro nome era Acker, Barry Acker. O último estava escrito com letra de forma no alto de uma ficha com marcador azul. Azul para os homens, vermelho para mulheres, negro para os negros, independente do sexo. Sob o nome de Acker fez algumas anotações a lápis. Idade, mais ou menos quarenta. Casado pela segunda vez, três filhos, duas filhas. Tem uma pequena loja de ferragens pouco lucrativa na estrada, em Clanton. A mulher é secretária num banco. Conduz uma pick-up. Gosta de caçar. Usa botas de cow-boy. Um homem bastante agradável. Atcavage fora à loja de ferragens na quinta-feira para dar uma olhadela a Barry Acker. Disse que o homem tinha boa aparência, falava como se tivesse alguma instrução. Jake escreveu o número 9 ao lado do nome de Acker.

Jake estava impressionado com a sua própria pesquisa. Certamente Buckley não estava a ser tão minucioso.

O nome seguinte era Bill Andrews. Que nome! Havia cinco ou seis na lista telefónica. Jake conhecia um. Harry Rex conhecia outro e Ozzie conhecia outro, negro, mas ninguém sabia qual deles fora convocado. Pôs um ponto de interrogação à frente do nome.

Gerald Ault. Jake sorriu quando escreveu o nome na ficha. Ault tinha passado pelo seu escritório, alguns anos antes, quando o banco executara a hipoteca da sua casa, em Clanton. A mulher tivera uma complicação renal e as contas dos médicos levaram-nos à falência. Ault era um intelectual, estudara em Princeton, onde conhecera a mulher. Ela era de Ford County, filha única de uma família proeminente que tinha investido todo o dinheiro em caminhos de ferro. Gerald Ault chegara a Ford County justamente no momento em que a família da mulher tinha ido à falência e a vida fácil com a qual casara transformou-se numa vida de luta. Ault leccionou durante algum tempo, depois tomou conta da biblioteca, depois trabalhou como auxiliar de escritório no tribunal. Adquiriu aversão a trabalhos pesados. Foi então que a mulher ficou doente e eles perderam a modesta casa. Agora, trabalhava numa loja de louças sanitárias.

Jake sabia uma coisa sobre George Ault que ninguém mais sabia. Quando ele era pequeno, na Pensilvânia, a família vivia numa casa de quinta, perto da estrada. Uma noite, quando toda a gente estava a dormir, a casa incendiou-se. Um motorista que passava abriu a porta da frente com um pontapé e começou a salvar os Ault. O fogo espalhou-se rapidamente e quando Gerald e o irmão acordaram, estavam presos, no quarto, no segundo andar. Correram para a janela e gritaram por socorro. Os pais e irmãos gritavam também, no jardim, sem poder fazer nada. As chamas saltavam de todas as janelas, menos do quarto onde eles estavam. De repente, o motorista salvador molhou o corpo todo com a mangueira do jardim, entrou a correr na casa em chamas, subiu para o segundo andar e entrou no quarto. Partiu os vidros da janela aos pontapés, agarrou Gerald e o irmão e saltou para o chão. Miraculosamente, ninguém se feriu. Eles agradeceram com lágrimas e abraços. Agradeceram comovidamente ao estranho, que era negro. O primeiro negro que as crianças tinham visto na sua vida.

Gerald Ault era um dos poucos brancos de Ford County que realmente gostava de negros. Jake escreveu o número 10 à frente do nome dele.

Jake trabalhou durante seis horas com a lista dos jurados, anotando nas fichas, concentrando-se em cada nome, vendo mentalmente cada um dos jurados na bancada do júri e na sala dos jurados, a deliberar, a conversar sobre o caso. Jake avaliou-os. Todos os negros receberam automaticamente a nota 10. Com os brancos não foi tão fácil. Os homens tiveram notas mais altas do que as mulheres, os jovens mais do que os velhos, para os que tinham instrução a nota era um pouco mais alta do que para os sem instrução; os liberais, dos dois tipos, receberam as notas mais altas.

Jake eliminou os vinte que Noose iria excluir. Sabia alguma coisa sobre cento e onze dos possíveis jurados. Certamente que Buckley não podia saber tanto...

Ellen estava a dactilografar na máquina de Ethel quando Jake voltou de casa de Lucien. Desligou a máquina, fechou o livro de Direito e olhou para ele.

- Onde é o jantar? - perguntou com um sorriso malicioso. - Vamos fazer uma viagem.

- Muito bem. Para onde?

- Já esteve em Robinsonville, Mississippi? - Não, mas estou pronta. O que é que lá há?

- Nada além de algodão, soja e de um excelente restaurantezinho.

- Qual é o código indumentário?

Jake olhou para ela. Ellen estava vestida como sempre: jeans, engomada e desbotada, sem meias, uma camisa azul-marinho, grande demais para ela, abotoada à frente, e enfiada por dentro das calças, delineando-lhe perfeitamente a cintura.

- Parece-me bem - respondeu.

Desligaram a fotocopiadora, apagaram as luzes e saíram de Clanton no Saab. Jake parou numa loja de bebidas e comprou uma caixa com seis latas de Coors e uma garrafa de Chablis gelado.

- É preciso levar as bebidas para esse restaurante - explicou, quando saíam da cidade. O sol estava a pôr-se à frente deles, e Jake desceu as palas. Ellen fez o papel de bartender e abriu duas latas.

- A que distância fica esse sítio? - perguntou ela. - Uma hora e meia.

- Uma hora e meia! Estou a morrer de fome.

- Pois então encharque-se de cerveja. Acredite, vale a pena. - Qual é a ementa?

- Camarão assado, sauté, pernas de rã e peixe grelhado. Ela bebeu um gole de cerveja.

- Veremos.

Jake carregou no acelerador a fundo e o Saab seguiu velozmente, atravessando as inúmeras pontes sobre os afluentes do lago Chatulla. Subiram colinas íngremes cobertas com espessas camadas de mato verde-escuro. Fizeram curvas a alta velocidade e ultrapassaram camiões enormes carregados de troncos de madeira, que faziam a sua última viagem do dia. Jake abriu o tecto, baixou os vidros e deixou entrar o vento. Ellen recostou-se no banco e fechou os olhos. O cabelo farto e brilhante esvoaçava-lhe em volta da cara. - Ouça, Row Ark, este jantar é estritamente de negócios.

- Claro, claro...

- Falo a sério. Eu sou o patrão, você a secretária e é um jantar de negócios. Nada mais e nada menos. Portanto, não comece a ter ideias malucas nessa sua cabeça feminista, de mulher sexualmente emancipada.

- Eu é que estou a achar que o Jake é que está com ideias... - Não é nada disso. Só que eu sei o que está a pensar.

- Como sabe o que estou a pensar? Porque se considera irresistível e pensa que estou a querer seduzi-lo?

- Veja se fica quietinha! Sou maravilhosamente feliz no meu casamento e tenho uma mulher belíssima que é capaz até de matar, se pensar que estou a sair da linha.

- Muito bem, vamos fingir que somos amigos. Apenas dois amigos que saem para jantar.

- Isso não funciona no Sul. Um homem não pode jantar com uma amiga se for casado. Pura e simplesmente não funciona cá pelas bandas...

- Porque não?

- Porque homens não têm amigas. De maneira nenhuma. Não conheço um único homem em todo o Sul que tenha uma amiga. Acho que isso já vem do tempo da Guerra Civil.

- Acho que vem é da Idade das Trevas! Porque é que as mulheres Sulistas são tão ciumentas?

- Porque é assim que nós as treinamos. Aprenderam connosco. Se a minha mulher almoçar ou jantar com um amigo, eu corto-lhe a cabeça a ele e peço o divórcio. Ela aprendeu comigo. - Isso não faz sentido.

- É claro que não.

- A sua mulher não tem amigos?

- Não que eu saiba. Se souber de um avise-me. - E o Jake não tem amigas?

- Para que é que eu queria uma amiga? As mulheres não sabem falar de futebol, de caçar patos, de política, de processos legais, de nada do que eu gosto. Falam de filhos, vestidos, receitas,

móveis, de coisas que eu não entendo. Não, eu não tenho amigas. Não quero.

- É disso que eu gosto no Sul. São todos tão tolerantes... - Muito obrigado.

- Tem algum amigo judeu?

- Não conheço nenhum em Ford County. Conheci um que era muito meu amigo, na Faculdade. Ira Tauber, de Nova Jersey. Éramos muito amigos. Adoro judeus. Jesus era judeu, como sabe. Nunca compreendi o anti-semitismo.

- Meu Deus, é um liberal! E quanto a, ah, homossexuais? - Tenho pena deles. Não sabem o que perdem. Mas o problema é deles.

- Era capaz de ter um amigo homossexual?

- Acho que sim, desde que ele não me contasse. - Não, é republicano!

Agarrou na lata de cerveja vazia de Jake e atirou-a para o banco de trás. Depois, abriu mais duas. O sol tinha desaparecido e o ar pesado e húmido estava fresco a 145 quilómetros à hora.

- Então não podemos ser amigos? - perguntou ela. - Não.

- Nem amantes.

- Por favor, estou a tentar conduzir. - Então, o que somos nós?

- Eu sou o advogado, a Ellen a estagiária. Eu sou o patrão, a Ellen a empregada. Eu sou o chefe, a Ellen é pau para toda obra. - O Jake é o homem, eu sou a mulher.

Jake olhou para os jeans e para a camisa larga. - Não há muita dúvida quanto a isso.

Ellen meneou a cabeça e olhou para as montanhas cobertas de mato verde que passavam rapidamente por eles. Jake sorriu, aumentou a velocidade e bebeu um gole de cerveja. Passou por vários cruzamentos nas estradas rurais desertas e, de repente, as montanhas desapareceram e a terra ficou plana.

- Como se chama o restaurante? - perguntou ela. - O Hollywood.

- O quê?

- O Hollywood.

- Porque é que se chama assim?

- Dantes, ficava numa pequena cidade do Mississippi, a poucos quilómetros daqui, chamada Hollywood. Ardeu e eles vieram para Robinsonville e continuaram a chamar-lhe Hollywood.

- O que é que ele tem de especial?

- Boa comida, boa música, boa atmosfera e fica a cento e sessenta quilómetros de Clanton e ninguém me verá a jantar com uma mulher estranha e bonita!

- Não sou mulher, sou pau para toda obra. - Um estranho e bonito pau para toda obra...

Ellen sorriu e passou os dedos pelo cabelo. Noutro cruzamento, ele virou à esquerda e seguiu para o oeste, até chegar a uma pequena povoação perto da estação de comboio. De um lado da rua, enfileiravam-se construções de madeira vazias e do outro lado, isolado, estava um velho armazém com uma dúzia de carros parados em volta e música suave que se espalhava no ar, através das janelas. Jake pegou na garrafa de Chablis e conduziu a sua assistente para os degraus de entrada, passaram pela varanda e entraram. Ao lado da porta, ficava um pequeno palco, onde uma bela e velha mulher negra, Merle, sentada ao piano, cantava "Rainy Night in Georgia". Três compridas filas de mesas começavam na porta e terminavam ao lado do palco. Metade das mesas estava ocupada e uma empregada, na parte de trás, que servia uma cerveja de garrafa, fez-lhes um sinal, chamando-os. Sentaram-se a uma mesa pequena com toalha vermelha de xadrez.

- Vão querer picles fritos, simpático? - perguntou a Jake. - Sim! Para dois.

Ellen franziu a testa e olhou para Jake. - Picles fritos?

- Sim, é claro. Não servem disso em Boston? - Vocês do Sul fritam tudo?

- Tudo o que vale a pena comer. Se não gostar, pode deixar que eu como.

Um grupo, na mesa do outro lado da passagem, gritou alegremente. Quatro casais brindaram a alguma coisa ou a alguém, depois começaram a rir alto. A gritaria e a vozearia eram constantes.

- A coisa boa aqui no Hollywood - explicou Jake - é que se pode fazer o barulho que se quiser e ficar o tempo que se quiser, que ninguém se incomoda. Quando uma pessoa consegue uma mesa, é para o resto da noite. Daqui a pouco, vão começar a cantar e a dançar.

Jake pediu camarão sauté e peixe grelhado para ambos.

Ellen dispensou as pernas de rã. A empregada voltou imediatamente com o Chablis e dois copos frios. Brindaram a Carl Lee Hailey e ao seu cérebro insano.

- O que pensa de Bass? - perguntou Jake.

- A testemunha perfeita. Vai dizer o que quisermos que diga.

- Isso preocupa-a?

- Preocupar-me-ia se fosse testemunhar sobre o facto. Mas é um especialista e pode convencer com as próprias opiniões. Quem vai interrogá-lo?

- É possível acreditar nele?

- Se estiver sóbrio. Conversámos duas vezes, esta semana. Na terça-feira, ele estava lúcido e disposto a ajudar. Na quarta, estava bêbedo e indiferente. Acho que vai ser tão bom como qual quer outro psiquiatra. Ele está-se nas tintas para a verdade e diz o que queremos ouvir.

- Ele acha que Carl Lee estava legalmente louco? - Não. E você?

- Não. Row Ark, cinco dias antes do crime, Carl Lee disse-me o que ia fazer. Mostrou-me o lugar exacto da emboscada, embora, naquele momento, eu não tivesse compreendido. O nosso cliente sabia exactamente o que estava a fazer.

- Porque não o impediu?

- Porque não acreditei. A filha dele acabara de ser violentada e estava ainda a lutar contra a morte.

- Tê-lo-ia impedido, se pudesse, Jake?

- Eu falei com o Ozzie. Mas, naquele momento, nenhum de nós imaginou que pudesse acontecer. Não, eu não o teria impedido se tivesse a certeza. Eu teria feito a mesma coisa.

- Como?

- Exactamente como ele fez. Foi muito fácil.

Ellen espetou os picles fritos e fez girar o garfo, examinando-os desconfiada. Cortou-os pelo meio, espetou um bocado e cheirou. Meteu-o na boca e mastigou devagar. Engoliu e empurrou os picles para o lado de Jake.

- Ianque típica... - disse ele. - Não a compreendo, Row Ark. Não gosta de picles fritos, é atraente, muito inteligente, podia trabalhar em qualquer das melhores firmas do país, ganhar mega dólares, mas prefere passar o tempo a perder o sono por causa de assassinos que estão no corredor da morte e prestes a receber o que merecem. Qual é a sua motivação, Row Ark?

- O Jake perde o sono por causa dessa mesma gente. Agora Carl Lee Hailey. O próximo vai ser outro assassino odiado por todos, mas o Jake vai perder o sono para o pôr em liberdade porque ele é seu cliente. Um desses dias, Dr. Brigance, vai ter um cliente no corredor da morte e vai ficar a saber como é terrível. Quando eles o prenderem na cadeira e ele olhar para si pela última vez, o senhor vai ser outro homem. Vai saber como este sistema é selvagem e vai lembrar-se de Row Ark.

- Nessa altura, deixo crescer a barba e entro para a união. - Provavelmente, se eles o aceitarem.

O camarão sauté foi servido numa pequena frigideira preta, ainda a ferver na manteiga e no alho, e no molho de churrasco. Ellen serviu-se generosamente e comeu como um refugiado. Merle começou a cantar "Dixie" animadamente e todos acompanharam, batendo palmas. A empregada, sempre a correr, atirou praticamente com uma travessa de pernas de rãs para cima da mesa. Jake esvaziou o copo de vinho e serviu-se de algumas. Ellen tentou ignorá-las. Quando terminaram a entrada, foi servido o peixe. A gordura fervia, sibilando, e eles não tocaram na louça. O peixe grelhado tinha, dos dois lados, as marcas escuras da grelha. Comeram e beberam devagar, entreolhando-se e saboreando a comida deliciosa.

À meia-noite a garrafa estava vazia e as luzes estavam quase apagadas. Despediram-se da empregada e de Merle. Desceram cautelosamente os degraus e foram para o carro. Jake afivelou o cinto de segurança e disse:

- Estou bêbedo demais para conduzir.

- Eu também. Vi um pequeno motel perto daqui na estrada. - Eu também vi e estava cheio. Boa tentativa, Row Ark. Primeiro embebeda-me e depois aproveita-se de mim.

- Fá-lo-ia se pudesse, Dr. Brigance.

Os olhos deles encontraram-se por um momento. A cara de Ellen reflectia a luz vermelha lançada pelo letreiro luminoso que fazia cintilar HOLLYWOOD no alto do restaurante.

O momento prolongou-se e a seguir o letreiro luminoso foi desligado. O restaurante tinha fechado.

Jake ligou o motor do Saab, esperou que ele aquecesse e avançou para a escuridão.

Mickey Mouse telefonou para a casa de Ozzie, muito cedo, no sábado e prometeu mais tumulto por parte do Klan. O distúrbio da quinta-feira não tinha sido por culpa deles, explicou, mas estavam a ser responsabilizados por ele. Tinham chegado em boa paz, e agora o líder deles estava quase à morte com queimaduras de terceiro grau em setenta por cento do corpo. Ia haver retaliação; eram ordens vindas de cima. Reforços estavam a caminho, vindos de outros estados, e ia haver violência. Nenhum detalhe específico por enquanto, mas telefonaria quando soubesse de mais alguma coisa.

Ozzie, sentado na beira da cama, passou a mão na nuca ainda dorida e telefonou para o prefeito. Depois, para Jake. Uma hora depois, encontraram-se os três, no escritório de Ozzie.

- A situação pode fugir a qualquer controle - disse Ozzie, a segurar numa bolsa de gelo na nuca e a fazer uma careta a cada palavra.

- Fui informado, por fonte de confiança, que o Klan planeava retaliar por causa do que aconteceu na quinta-feira. Estão a trazer reforços de outros estados.

- Acredita nisso? - perguntou o prefeito. - Tenho medo de não acreditar.

- O mesmo informador? - perguntou Jake. - Sim.

Então eu acredito.

- Alguém disse que se falava em mudar de foro ou adiar o julgamento - disse Ozzie. - Alguma hipótese?

- Não. Estive com o juiz Noose, ontem. Não será transferido e começará na segunda-feira.

- Falou-lhe das cruzes de fogo? - Contei tudo.

- Ele é doido? - perguntou o prefeito.

- Sim, e muito estúpido. Mas não contem a ninguém que eu disse isto.

- A decisão dele tem base legal sólida? - perguntou Ozzie. Jake negou com a cabeça.

- Uma base mais de areia movediça.

- Que pretende você fazer? - perguntou o prefeito.

Ozzie trocou de bolsa de gelo, e esfregou cuidadosamente a nuca. Fez uma careta de dor ao falar:

- Eu gostava muito de impedir outra desordem. O nosso hospital não tem capacidade para permitirmos que esta cretinice continue. Precisamos de fazer qualquer coisa. Os negros estão zangados e em pé de guerra, e não é preciso muito para se atiçar o fogo... Alguns deles estão só à espera de um motivo para começarem aos tiros e esses mantos brancos são bons alvos. Tenho cá um palpite de que o Klan. vai fazer uma estupidez qualquer, como tentar matar alguém. Estão a ter mais atenção nacional do que tiveram nos últimos dez anos. O informador disse que, desde quinta-feira, têm recebido telefonemas de voluntários de todo o país, dispostos a virem a Clanton para entrar na brincadeira.

Ozzie girou lentamente a cabeça para um lado e para o outro, ergueu e encolheu os ombros e mudou novarnente de bolsa de gelo. - Detesto ter de dizer isto, Mr. Mayor, mas acho que deve telefonar para o governador e pedir a ajuda da guarda nacional. Sei que é uma providência drástica, mas não quero que ninguém seja morto.

- A guarda nacional! - repetiu o Prefeito, incrédulo. - Foi isso que eu disse.

- A ocupar Clanton?

- Sim. A proteger a sua população. - A patrulhar as ruas?

- Sim. Com armas e o resto...

- Meu Deus, isto é drástico. Não acha que está a exagerar um bocado?

- Não. É evidente que não tenho homens suficientes para manter a paz. Não conseguimos nem mesmo evitar a desordem de outro dia. As cruzes de fogo do Klan estão por toda a parte e não podemos fazer nada. O que vamos fazer, se os negros criarem algum problema? Não tenho homens suficientes, Mr. Mayor. Preciso de ajuda.

Jake achou a ideia maravilhosa. Como escolher um júri justo e imparcial com o tribunal cercado pela guarda nacional? Pensou nos jurados a chegarem, na segunda-feira, e a passarem pelos soldados armados, pelos jipes, talvez até por um ou dois tanques parados em frente do edifício. Como podiam ser justos e imparciais? Como é que Noose podia insistir em fazer o julgamento em Clanton? Como é que o Supremo Tribunal se podia recusar a revogar a decisão do juiz se, que Deus não permitisse, o acusado fosse condenado? Era uma grande ideia.

- O que acha, Jake? - perguntou o Mayor, à procura de ajuda.

- Acho que não tem escolha, Mr. Mayor. Não podemos ter outra luta nas ruas. Pode ser politicamente prejudicial para si.

- Não estou preocupado com política - disse o Mayor, zangado, sabendo que Jake e Ozzie não iam acreditar nisso.

Nas últimas eleições, o Prefeito tinha conseguido a reeleição por menos de cinquenta votos e não fazia nada sem antes consultar a direcção dos ventos da política. Ozzie surpreendeu um sorriso de Jake quando o mayor se viu às voltas com a ideia de ter a sua tranquila cidadezinha ocupada pelo exército.

No sábado, depois do anoitecer, Ozzie e Hastings, escoltando Carl Lee, saíram pela porta das traseiras da cadeia e entraram no carro de polícia. Conversavam e riam enquanto Hastings, em marcha lenta, conduzia o carro para fora da cidade. Passaram pelo armazém de Bates e entraram na Craft Road. O jardim da casa dos Hailey estava repleto de carros quando eles chegaram, por isso Hastings estacionou na rua. Carl Lee entrou em casa como um homem livre e foi imediatamente abraçado por uma multidão de parentes, amigos e pelos filhos. Não sabiam que ele ia aparecer. Carl Lee envolveu os quatro filhos de uma vez num abraço apertado como se soubesse que não ia poder abraçá-los durante muito tempo. Toda a gente contemplou, em silêncio, o homem enorme ajoelhado no chão, com a cabeça enterrada no meio das crianças que choravam. Quase toda gente começou também a chorar.

Havia muita comida na cozinha e o hóspede de honra sentou-se como sempre à cabeceira da mesa com a mulher e os filhos em volta. O reverendo Agee fez uma breve prece de agradecimento, de esperança e de boas-vindas. Centenas de amigos serviam a família. Ozzie e Hastings serviram-se e foram para a varanda onde, espantando os mosquitos, delinearam a estratégia para o julgamento. Ozzie estava muito preocupado com a segurança de Carl Lee durante a deslocação da cadeia para o tribunal e do tribunal para a cadeia. O próprio Carl Lee havia provado que essas viagens não eram seguras.

Depois do jantar, os visitantes espalharam-se pelo jardim. As crianças brincavam, enquanto os adultos permaneciam na varanda, o mais perto possível de Carl Lee. Ele era um herói, o homem mais famoso que a maioria jamais veria e eles conheciam-no pessoalmente. Para a sua gente, Carl Lee ia ser julgado por um único motivo. Sim, ele matou os dois homens, mas não era essa a questão. Se fosse branco, seria premiado e homenageado. Processá-lo-iam apenas pro forma e com um júri branco o julgamento seria uma brincadeira. Carl Lee ia ser julgado porque era negro. E se o condenassem, seria por ser negro. Nada mais. Todos acreditavam nisso. Ouviam atentamente o que ele dizia sobre o julgamento. Carl Lee queria as orações e o apoio de todos e queria que todos estivessem presentes para assistir e proteger a sua famllia.

Passaram horas sentados no ar húmido da noite; Carl Lee e Gwen no baloiço da varanda, rodeados pelos admiradores que queriam estar perto do grande homem. Quando começaram a retirar-se, abraçaram o herói e prometeram estar no tribunal na segunda-feira. Perguntavam a si mesmos se o veriam novamente sentado na varanda de sua casa.

À meia-noite, Ozzie disse que eram horas de partirem. Carl Lee abraçou Gwen e os filhos pela última vez e entrou no carro de Ozzie.

Bud Twitty morreu durante a noite. O operador de rádio da polícia avisou Nesbit, que contou a Jake. Jake tomou nota para mandar flores.

 

Domingo. Um dia antes do julgamento. Jake acordou às cinco horas com um nó no estômago, que atribuiu ao julgamento, e uma dor de cabeça, que atribuiu ao julgamento e à sessão, na noite de sábado, na varanda de Lucien, com a sua estagiária e o seu ex-patrão. Ellen resolvera dormir num quarto de hóspedes na casa de Lucien, por isso Jake passou a noite no sofá do seu escritório.

Deitado no sofá ouviu vozes na rua. Sonolento ainda, foi até a varanda e ficou atónito com a cena. Dia D! Estavam em guerra! Patton acabava de chegar! As ruas em volta da praça estavam cheias de camiões de transporte e jipes, e os soldados corriam de um lado para outro procurando organizar-se estrategicamente. Os rádios estalavam e comandantes barrigudos gritavam ordens. Um posto de comando foi instalado perto do coreto, no relvado. Três esquadrões de soldados pregavam estacas, esticavam cordas e erguiam três enormes pavilhões de lona de camuflagem. Barricadas foram erguidas nos quatro cantos da praça e os sentinelas tomaram as suas posições, fumando, encostados aos postes de luz.

Nesbit, encostado à tampa da mala do seu carro, observava a fortificação do centro da cidade de Clanton, conversando com alguns dos sentinelas. Jake fez café e levou uma chávena ao seu guarda-costas. Estava acordado agora, a salvo e em segurança e Nesbit podia ir para casa e descansar até à noite. Jake voltou para a varanda do segundo andar e observou a actividade até o nascer do dia. Depois de desembarcar os homens, os camiões seguiram para o arsenal da guarda nacional, ao Norte da cidade, onde os homens iam dormir. Jake calculou uns duzentos homens. Circulavam em volta do edifício do tribunal e na praça, olhando para as vitrinas, à espera de que o dia nascesse e ansiosos para entrar em acção.

Noose ia ficar furioso. Como é que tinham ousado chamar a guarda nacional sem o consultarem? O julgamento pertencia-lhe. O Mayor tinha mencionado isso e Jake explicara que a segurança de Clanton era responsabilidade do Mayor e não do juiz do julgamento. Ozzie concordou e não telefonaram para Noose.

O xerife e Moss Junior Tatum chegaram e foram falar com o coronel, no coreto. Andaram em volta do edifício, inspeccionando as tropas e os pavilhões. Ozzie apontou em diversas direcções e o coronel aparentemente concordou com o que ele queria. Moss Junior abriu o edifício do tribunal para que os soldados pudessem beber água e ir à casa-de-banho. Passava das nove quando os abutres se deram conta da ocupação do centro de Clanton. Em menos de uma hora, corriam por toda a parte com câmaras e microfones, recolhendo palavras importantes de um sargento ou de um cabo.

- Como se chama o senhor? - Sargento Drumwright. - De onde é?

- Booneville.

- Onde fica isso?

- A mais de cento e cinquenta quilómetros daqui. - Porque está aqui?

- O governador chamou-nos. - Porque os chamou ele?

- Para manter tudo sob controlo. - Esperam problemas?

- Não.

- Quanto tempo pensam ficar? - Não sei.

- Vão ficar até ao final do julgamento? - Não sei.

- Quem sabe?

- O governador, penso eu. E assim por diante.

A notícia da invasão espalhou-se rapidamente na tranquila manhã de domingo e, depois da ida à igreja, a população acorreu à praça para se certificar de que o exército tinha de facto ocupado o edifício do tribunal. As sentinelas retiraram as barricadas e permitiram que os curiosos entrassem com os carros na praça, a olhar boquiabertos para os soldados de verdade com as suas espingardas e jipes. Sentado na varanda do segundo andar, Jake tomava café e memorizava as fichas dos jurados.

Telefonou para Carla e explicou-lhe que a guarda nacional estava a postos na praça, mas que ele estava seguro. Na verdade, nunca se sentira mais seguro. Contou que havia centenas de militares armados no outro lado da rua, prontos a protegê-lo. Sim, ainda tinha o guarda-costas. Sim, a casa ainda estava de pé. Jake duvidava que a imprensa já soubesse da morte de Bud Twitty e não disse nada a Carla. Talvez ela não chegasse a saber. Carla e Hanna iam sair para pescar no barco do pai dela e Hanna queria que o pai fosse também. Jake despediu-se e mais do que nunca sentiu a falta das duas mulheres da sua vida.

Ellen Roark abriu a porta das traseiras do escritório e pôs o pacote com mantimentos na mesa da cozinha. Tirou alguns papéis da pasta e saiu à procura do seu chefe. Ele estava na varanda, a ler fichas e a olhar o movimento em volta do tribunal.

- Boa noite, Row Ark.

- Boa noite, chefe. - Entregou-lhe um relatório com dois centímetros de espessura. - A pesquisa que pediu sobre a admissibilidade do estupro. É um assunto difícil e um bocado complicado. Peço desculpa pelo tamanho do relatório.

Era perfeito como todos os outros feitos por ela, completo, com sumário, bibliografia e páginas numeradas.

- Que diabo, Row Ark. Eu não pedi um livro...

- Eu sei que o senhor se sente intimidado com o trabalho académico, por isso fiz o possível para usar só palavras com menos de três sílabas.

- Ora, ora, como estamos atrevidos hoje.... Não podia fazer um resumo, digamos, de trinta páginas, mais ou menos?

- Ouça, é um estudo completo da lei feito por uma estudante de Direito talentosa, com uma habilidade notável para pensar e escrever claramente. É o trabalho de um génio, é todo seu e completamente de graça. Portanto, pare de refilar.

- Sim, senhora. Está com dor de cabeça?

- Estou. Desde que acordei, esta manhã. Dactilografei este trabalho durante dez horas e preciso de um copo. Tem um liquidificador?

- Um quê?

- Liquidificador. Uma nova invenção que temos lá no Norte. Um aparelho de utilidade doméstica.

- Há um na prateleira, ao lado do micro-ondas. Ellen desceu para a cozinha.

Era quase noite e o tráfego menos intenso na praça. Estava na hora de terminar o passeio de domingo e a população, farta de ver os soldados que guardavam o tribunal, começava a ir-se embora. Ao fim de doze horas de calor sufocante e de humidade, que era quase uma névoa no centro de Clanton, os soldados estavam cansados e a desejar voltar para casa. Sentados na sombra das árvores em cadeiras de lona, amaldiçoavam o governador. Quando começou a escurecer, estenderam fios eléctricos do interior do edifício do tribunal e acenderam holofotes em volta dos pavilhões. Um carro cheio de negros parou em frente dos correios, munidos de cadeiras e velas, para começar a vigília. Começaram a andar no passeio da rua Jackson, sob o olhar agora alerta de duzentos homens fortemente armados. A líder era Rosia Alfie Gatewood, uma viúva de cem quilos, que tinha criado doze filhos e mandado nove para a universidade. Fora a primeira mulher negra a beber água na fonte pública da praça e a viver para contar isso. Olhou carrancuda para os soldados. Estes ficaram calados.

Ellen voltou com duas canecas do Boston College cheias de um líquido verde-claro. Pôs as canecas na mesa e sentou-se.

- O que é isso?

- Beba. Vai ajudá-lo a relaxar.

- Bebo. Mas gostaria de saber o que é. - Margaritas.

Jake olhou para a borda da sua caneca. - Onde está o sal?

- Eu não gosto com sal.

- Bem, então, eu também não gosto. Porquê margaritas? - Porque não?

Jake fechou os olhos e bebeu um longo gole. Depois outro. - Row Ark, é uma mulher talentosa.

- Um pau para toda obra... Ele bebeu outro gole.

- Há oito anos que eu não bebia uma margarita. - É pena. - A caneca de Ellen estava meio-vazia. - Que tipo de rum?

- A minha vontade era chamar-lhe idiota, se não fosse meu patrão...

- Muito obrigado.

- Não é rum. É tequila,. com sumo de lima e Cointreau. Pensei que qualquer estudante de Direito soubesse isso...

- Espero que me perdoe. Tenho a certeza de que sabia quando fui estudante de Direito.

Ellen olhou para a praça.

- Isto é incrível! Parece uma praça de guerra.

Jake esvaziou a caneca e passou a língua pelos lábios. Dentro das barracas, os homens jogavam cartas e riam. Outros estavam dentro do edifício do tribunal para fugir aos mosquitos. As velas dobraram a esquina e passaram pela rua Washington.

- Sim - disse Jake, com um sorriso. - É maravilhoso, não é? Pense nos nossos jurados justos e imparciais a chegarem de manhã e a encontrarem isto. Vou renovar o pedido de transferência de foro.

O Noose vai negar. Vou pedir a anulação do julgamento. O Noose vai dizer que não. E, nessa altura, faço questão que conste dos autos que o julgamento está a ser realizado no meio de um circo com três pistas! - Porque estão eles aqui?

O xerife e o Mayor telefonaram para o governador e convenceram-no de que precisavam da guarda nacional para garantir a paz em Ford County. Disseram-lhe que nosso hospital não é bastante espaçoso para este julgamento.

- De onde são eles?

- De Booneville e de Columbus. Contei duzentos e vinte à hora do almoço.

- Passaram o dia todo aqui?

- Acordaram-me às cinco da manhã! Segui-lhes os movimentos o dia todo. O número diminuiu uma ou duas vezes, mas logo a seguir chegaram reforços. Há poucos minutos encontraram o inimigo, quando a senhora Gatewood e os amigos chegaram com as suas velas. Ela intimidou-os com um olhar, por isso agora estão a jogar às cartas.

Ellen terminou a sua bebida e saiu para ir buscar mais. Jake pegou nas fichas pela centésima vez e espalhou-as em cima da mesa. Nome, idade, profissão, pais, raça, educação; lia e decorava as informações desde o amanhecer. A Segunda Rodada depressa chegou, e Ellen pegou numa das fichas.

- Correen Hagan - disse ela, enquanto bebia. Jake pensou um segundo.

- Idade, mais ou menos cinquenta e cinco. Secretária de um corretor de seguros. Divorciada, dois filhos crescidos. Educação: provavelmente liceu, nada mais. Natural da Florida, se é que isso tem importancia.

- Nota?

- Acho que lhe dei um seis. - Muito bem. Millard Sills.

- Tem uma plantação de nogueira-pecã perto de Mays. Cerca de setenta anos. O sobrinho foi morto com um tiro na cabeça, por dois negros, durante um assalto em Little Rock, há alguns anos. Odeia os negros. Não estará no júri.

- Nota?

- Zero, acho. - Clay Bailey.

- Idade, por volta dos trinta. Seis filhos. Pentecostal fervoroso. Trabalha na fábrica de móveis a oeste da cidade.

- Deu-lhe um dez!

- Isso mesmo. Tenho a certeza de que ele leu aquela parte da Bíblia que diz olho por olho, etc. Além disso, dos seus seis filhos, calculo que haja pelo menos duas meninas.

- Conhece-os a todos de cor?

Jake fez que sim com a cabeça e bebeu um gole.

- Tenho a impressão de os conhecer a todos, há anos... - Quantos é capaz de reconhecer?

- Pouquíssimos. Mas sei mais sobre eles do que o Buckley. - Estou impressionada.

- O quê! O que foi que disse? Consegui impressioná-la com o meu intelecto!

- Entre outras coisas.

- Sinto-me muito honrado! Impressionei um génio do Direito penal! A filha de Sheldon Roark, seja ele lá quem for. Uma summa cum laude em carne e osso. Vai ver quando eu disser ao Harry Rex...

- Onde está esse elefante? Tenho saudades dele. Acho-o um amor.

- Vá chamá-lo. Convide-o a juntar-se à nossa festinha na varanda, enquanto observamos as tropas a prepararem-se para a Terceira Batalha de Bull Run.

Ellen foi até à mesa de Jake onde estava o telefone. - E o Lucien?

- Não! Estou farto do Lucien.

Harry Rex chegou com uma garrafa de tequila que encontrou no fundo do seu armário de bebidas. Ele e a estagiária discutiram acaloradamente àcerca dos ingredientes adequados de uma boa margarita. Jake apoiou a sua estagiária.

Ficaram sentados na varanda, a sortear nomes da colecção de fichas, a beber aquela mistura com um forte travo, a gritar para os soldados e a cantar músicas de Jimmy Buffet. À meia-noite, Nesbit levou Ellen para casa de Lucien. Harry Rex voltou a pé para casa. Jake adormeceu no sofá.

 

Segunda-feira, 22 de Julho. Pouco depois da última margarita, Jake levantou-se de um salto e olhou para o relógio da sua mesa. Tinha dormido três horas. Um enxame de borboletas bravas lutava violentamente dentro do estômago dele. Uma dor nervosa percorreu-lhe a virilha. Não tinha tempo para uma ressaca.

Nesbit dormia como uma criança atrás do volante. Jake acordou-o e com um salto enfiou-se no banco de trás. Acenou para os sentinelas que observavam, curiosos, do outro lado da rua. Nesbit passou dois quarteirões, chegou à rua Adams, deixou o seu passageiro e esperou na entrada de automóvel, seguindo as instruções. Jake tomou um banho de chuveiro e fez a barba rapidamente. Escolheu, por segurança, um fato de lã cinzento-escuro, camisa branca social e uma neutra, discreta e inexpressiva gravata de seda cor-de-vinho com riscas azulmarinho. As calças pregueadas caíam perfeitamente, a partir da cintura. Estava formidável, muito mais elegante do que o inimigo...

Nesbit estava outra vez a dormir quando Jake soltou o cão e se sentou no banco de trás do carro.

- Tudo em ordem lá dentro? - perguntou Nesbit, enxugando a saliva do queixo.

- Não encontrei nenhuma bomba, se é isso que quer saber. Nesbit deu uma gargalhada, a mesma gargalhada irritante com que reagia a tudo. Deram a volta à praça e Jake desceu em frente do seu escritório. Trinta minutos depois de ter saído, acendeu as luzes da frente e fez café. Jake tomou quatro aspirinas e bebeu quase um litro de sumo de laranja. Os olhos ardiam-lhe e a cabeça doía-lhe por causa da bebida e do cansaço, e a parte mais cansativa ainda nem sequer tinha começado. Espalhou na mesa de conferências o dossier do caso Carl Lee Hailey, organizado e indexado pela sua estagiária, mas Jake queria modificar a ordem. Se um documento ou um processo não pode ser encontrado em trinta segundos, não serve para nada. Jake sorriu, ao notar o talento organizativo de Ellen. Tinha títulos e referências para tudo, cada um deles a dez segundos do seguinte, na ponta dos dedos. Num caderno de anotações com três espirais estava o resumo das qualificações do Dr. Bass e um relatório do seu testemunho. Havia notas sobre possíveis objecções de Buckley e indicações de uma contra-argumentação a tais objecções. Jake orgulhava-se dos seus preparativos para os julgamentos, mas era humilhante aprender tanto com uma estudante do terceiro ano de Direito.

Pôs os papéis outra vez na pasta pesada de couro negro, com as suas iniciais de ouro, de um dos lados. A natureza chamou-o e, sentado na retrete, examinou outra vez as fichas dos jurados. Conhecia-os a todos. Estava pronto.

Alguns minutos depois das cinco, Harry Rex bateu à porta. Estava escuro e ele parecia um assaltante.

- O que estás a fazer a pé tão cedo? - perguntou Jake.

- Não consegui dormir. Estou um bocado nervoso. - Estendeu a Jake um saco de papel com manchas de gordura. - Dell mandou isto. Tudo fresco e quente. Folhados de salsicha, folhados de bacon e queijo, folhados de frango e queijo, é só escolher. Ela está preocupada contigo.

- Obrigado, Harry Rex, mas não tenho fome. O meu organismo está em plena revolução.

- Nervoso?

- Como uma prostituta na igreja! - Pareces um bocado abatido. - Obrigado.

- Mas o fato é bonito. - Escolha da Carla.

Harry Rex tirou do saco de papel uma mão-cheia de folhados enrolados em papel de alumínio, empilhou tudo na mesa e serviuse de café. Sentado do outro lado da mesa, Jake examinava rapidamente o relatório de Ellen sobre o caso M'Naghten.

- Ela escreveu isso? - perguntou Harry Rex, mastigando rapidamente, com a boca cheia.

- Escreveu, é um resumo de setenta e cinco páginas da defesa por insanidade, no Mississippi. Trabalhou durante três dias. - Ela parece ser brilhante.

-Tem uma cabeça do outro mundo e redige fluentemente. O intelecto está ali, mas tem dificuldade em aplicar o que sabe ao mundo real...

- O que sabes tu a respeito dela? - Cairam-lhe da boca algumas migalhas sobre a mesa. Harry Rex varreu-as para o chão com a manga do casaco.

- Ela é brilhante. Segunda da aula em Ole Miss. Telefonei para Nelson Bates, vice-decano da Faculdade de Direito, e ele confirmou tudo. Tem boas hipóteses de terminar em primeiro lugar.

- Eu fiquei em nonagésimo terceiro lugar numa turma de noventa e oito. Poderia ter sido o nonagésimo segundo mas apanharam-me a copiar num exame. Comecei a protestar, mas acabei por achar que nonagésimo terceiro era muito bom. Que diabo, pensei, quem é que se vai importar com isso, em Clanton? Todos ficaram felizes porque voltei para advogar aqui, em vez de ir para Wall Street ou para outro sítio parecido.

Jake sorriu. Já tinha ouvido aquela história umas cem vezes. Harry Rex desembrulhou um pacote de folhado de frango e queijo. - Pareces nervoso, homem...

- Estou bem. O primeiro dia é sempre o mais difícil. Está tudo preparado. Estou pronto. Agora é só esperar.

- A que horas é que a Row Ark faz a sua entrada? - Não sei.

- Meu Deus, estou a imaginar o que ela irá vestir...

- Ou não vestir. Só espero que esteja decente. Sabes como o Noose é puritano.

- Não vais deixar que ela se sente na mesa da defesa, pois não?

- Acho que não. Ela vai ficar em segundo plano, como tu. A presença dela pode ofender algumas das mulheres do júri.

- Isso mesmo, deixa-a estar presente, mas sem ser vista. Harry Rex limpou a boca com a mão enorme.

- Andas a dormir com ela?

- Não! Não sou louco, Harry Rex!

- És louco é se não dormires. Aquela mulher é conquistável. - Pois então fica com ela. Tenho mais em que pensar!

- Ela acha-me um amor, não é? - É o que ela diz.

- Acho que vou tentar - disse ele, muito sério, depois sorriu, e deu uma gargalhada, espirrando migalhas nas estantes de livros.

O telefone tocou. Jake meneou a cabeça e Harry Rex atendeu. - Não está, mas terei muito gosto em dar-lhe o recado - Piscou o olho a Jake. - Sim senhor, sim senhor, ah ah, sim senhor. Uma coisa horrível, não é? Pode acreditar que um homem faça uma coisa dessas? Sim, senhor, sim, senhor, concordo cem por cento. Sim, senhor, e qual é o seu nome, senhor? Senhor? - Harry Rex sorriu e desligou o telefone.

- Que queria esse?

- Disse que tu és uma vergonha para a raça branca por defenderes um negro, e que ele não compreende como é que um advogado pode defender um negro como Hailey. E espera que o Klan se encarregue de ti, e se não o conseguir, ele espera que a Ordem dos Advogados tome conhecimento disto e te retire a licença por ajudares os negros. Disse que sabia que tu não valias nada porque foste treinado pelo Lucien Wilbanks, que vive com uma mulher negra.

- E tu concordaste com ele!

- Porque não? O homem estava a ser sincero, não cheio de ódio e agora que descarregou tudo o que pensa, já se sente melhor. O telefone tocou outra vez. Harry Rex atendeu rapidamente. - Jake Brigance, advogado, conselheiro, consultor e guru de Direito.

Jake foi para a casa-de-banho.

- Jake, é um repórter! - gritou Harry Rex. - Estou na casa-de-banho.

- Ele está com diarreia... - disse Harry Rex ao repórter. Às seis horas - sete em Wilmington - Jake telefonou a Carla. Ela estava acordada, a ler o jornal e a tomar café. Contou-lhe àcerca de Bud Twitty, Mickey Mouse e a promessa de mais violência. Não, ele não tinha medo. Isso não o preocupava. Estava era com medo do júri, dos doze que iam ser escolhidos, e de como iam reagir a ele e ao seu cliente. O seu único receio, de momento, era o que o júri ia fazer ao seu cliente. Tudo o resto era irrelevante. Pela primeira vez, Carla não falou em voltar para casa. Jake prometeu telefonar-lhe à noite.

Quando desligou, ouviu uma balbúrdia no primeiro andar. Ellen tinha chegado e Harry Rex falava em voz alta. Ela trás uma blusa transparente e mini-saia, pensou Jake, descendo a escada. Não estava. Harry Rex congratulava-se com ela por estar vestida como uma Sulista com todos os acessórios. Um vestido de saia e casaco cinzento, o casaco com decote em V e a saia curta e justa. A blusa de seda era preta e aparentemente estava com a peça necessária por baixo. O cabelo, penteado para trás, terminava numa espécie de trança. Por mais incrível que fosse, viam-se traços de rímel, lápis de olhos e baton. Segundo Harry Rex, ela parecia o mais possível uma advogada.

- Obrigada, Harry Rex - disse ela. - Gostaria de ter o seu gosto para me vestir.

- Parece bem, Row Ark - disse Jake.

- O senhor também - respondeu ela. Olhou para Harry Rex, mas não disse nada.

- Por favor, perdoe-nos, Row Ark - disse Harry Rex. -Estamos impressionados porque não imaginávamos que você tivesse esse tipo de roupa. Pedimos desculpas pelos elogios e sabemos como isso enfurece o seu emancipado coração. Sim, somos porcos sexistas. Mas como resolveu vir para o Sul... E no Sul, nós, via de regra, começamos a babar-nos -quando vemos mulheres atraentes e bem-vestidas, emancipadas ou não.

- O que tem dentro desse saco? - perguntou ela. - O pequeno-almoço.

Ela abriu e desembrulhou um folhado de salsicha. - Não tem bagel? - perguntou.

- O que é isso? - perguntou Harry Rex. - Deixe lá.

Jake esfregou as mãos e tentou parecer entusiasmado.

- Muito bem, agora que estamos aqui os três, três horas antes do julgamento, o que é que gostariam de fazer?

- Vamos fazer umas margaritas! - disse Harry Rex. - Não! - disse Jake.

- É bom para acalmar os nervos.

- Para mim, não-disse Ellen. - Isto é sério.

Harry Rex desembrulhou o último pacote de folhados. - O que acontece primeiro, hoje?

- Depois de o sol se levantar, começamos o julgamento. Às nove, o Noose dirá algumas palavras aos jurados e iniciamos o processo de selecção.

- Quanto tempo vai levar isso? - perguntou Ellen.

- Dois ou três dias. No Mississippi temos o direito de interrogar cada jurado individualmente, na sala de audiências. Isso leva tempo.

- Onde é que me sento e o que é que faço?

- Ela parece, indubitavelmente, experiente - observou Harry Rex. - Ela sabe onde fica o tribunal?

- A Ellen não fica na mesa da defesa - disse Jake. - Só eu e o Carl Lee.

Ellen limpou a boca.

- Compreendo. Só o Jake e o acusado, sozinhos, rodeados pelas forças do mal, enfrentando sozinhos a morte.

- Mais ou menos isso.

- O meu pai usa essa táctica de vez em quando. .

- Ainda bem que aprova. Fica sentada atrás de mim, logo a seguir à grade divisória. Vou pedir ao Noose que autorize a sua entrada na sala de audiências para as conversas particulares.

- E quanto a mim? - perguntou Harry Rex.

- O Noose não gosta de ti, Harry Rex. Nunca gostou. Vai ter um ataque se eu pedir para tu entrares na sala de audiência. Seria melhor fingires que não nos conheces.

- Obrigado.

- Mas nós agradecemos a sua assistência - disse Ellen. - Não brinque, menina.

- E pode continuar a beber connosco - acrescentou ela. - Não quero nenhuma bebida alcoólica neste escritório - disse Jake. - Até ao intervalo do meio-dia - acrescentou Harry Rex.

- Quero que fiques por detrás da mesa da escrivã, para trás e para diante, como costumas fazer, e tomes notas sobre o júri. Procura ligar as caras aos nomes das fichas. Provavelmente, vão aparecer cento e vinte.

- Como queiras.

Com o nascer do dia o exército apareceu com toda a sua força. As barricadas foram erguidas novamente e em cada canto da praça os soldados tomaram posição em volta dos barris laranja e brancos que bloqueavam as ruas. Todos alerta e ansiosos, examinando atentamente cada carro, à espera do ataque do inimigo, ávidos de entrarem em acção. As coisas ficaram mais animadas quando alguns abutres apareceram, às sete e meia, com as suas carrinhas compactas e mini-carrinhas com logotipos nas portas. Os soldados cercaram os veículos e informaram que não podiam estacionar em volta do edifício do tribunal durante o julgamento. Os abutres desapareceram numa das ruas transversais para reaparecerem logo a seguir, a pé, com as câmaras e os outros equipamentos. Alguns instalaram-se nos degraus em frente do tribunal, outros na porta das traseiras e outro grupo na antecâmara, na frente da porta da sala do tribunal, no segundo andar.

Murphy, o zelador, a única testemunha ocular da morte de Cobb e Willard, informou a imprensa, da melhor maneira possível, que a sala do tribunal seria aberta às oito horas em ponto, nem um minuto antes. Imediatamente se formou uma fila que dava inúmeras voltas.

Os autocarros das igrejas estacionaram nas ruas que davam para a praça, e os seus ocupantes foram conduzidos através da rua Jackson pelos pregadores. Levavam cartazes com o brado de guerra LIBERTEM CARL LEE-e cantavam "We Shall Overcome", num coro perfeito. Quando se aproximaram da praça, os soldados ouviram-nos e os rádios começaram a estalar. Ozzie e o coronel confabularam rapidamente e os soldados acalmaram-se. Ozzie conduziu o grupo a uma parte do relvado onde ficaram à espera sob os olhos vigilantes da guarda nacional do Mississippi.

Às oito horas, foi instalado um detector de metais na porta do edifício e três polícias fortemente armados começaram a revistar e admitir no edifício os espectadores que agora enchiam a antecâ mara e os corredores. Prather orientava o tráfego no recinto do tribunal, a fazer os populares sentarem-se num dos lados da sala, reservando o outro lado para os jurados. A primeira fila era reservada à família e a segunda já estava cheia de artistas que começaram imediatamente a desenhar a cadeira do juiz e os retratos dos heróis confederados.

O Klan viu-se obrigado a fazer sentir a sua presença no primeiro dia, especialmente para os jurados. Duas dúzias de homens do Klan com o uniforme de gala completo entraram a pé na rua Washington. Foram imediatamente cercados por soldados. O coronel barrigudo atravessou a praça com o seu passo gingado e, pela primeira vez na vida, viu-se cara a cara com um membro do Ku Klux Klan de manto branco, capuz e máscara, e ainda por cima, trinta centímetros mais alto do que ele. Só então reparou nas câmaras assestadas sobre ambos e toda a sua agressividade desapareceu. A voz habitualmente autoritária e dominadora foi substituída por um gaguejar estridente, nervoso e trémulo que nem ele mesmo podia entender. Ozzie salvou-o com sua chegada.

- Bom dia, rapazes - disse friamente, ao posicionar-se ao lado do combalido coronel. - Estão cercados e somos mais numerosos. Sabemos também que não podemos impedi-los de estar aqui. - Tem razão - disse o líder.

- Se me seguirem e fizerem o que eu disser, não teremos nenhum problema.

Eles seguiram Ozzie e o coronel até uma pequena área no relvado, onde foi explicado que aquele era o lugar que deviam ocupar durante o julgamento. Fiquem aqui e fiquem quietos, que o coronel pessoalmente irá manter as suas tropas à distancia. Eles concordaram.

Como era de esperar, os mantos brancos provocaram uma agitação entre os negros, agrupados a uns sessenta metros dos homens do Klan. Começaram a gritar: "Libertem Carl Lee! Libertem Carl Lee! Libertem Carl Lee!"

Os homens do Klan ergueram os punhos fechados e responderam aos gritos de:

"Fritem Carl Lee!" "Fritem Carl Lee!" "Fritem Carl Lee!"

Duas filas de soldados postaram-se no passeio principal que dividia o relvado e levava aos degraus do edifício. Outra fila estava entre o passeio e os homens do klan, e uma terceira, entre o passeio e os negros.

Os jurados começaram a chegar, passando rapidamente entre duas filas de soldados. Tinham nas mãos as intimações judiciais e ouviam, incrédulos, os gritos dos dois grupos.

O ilustríssimo Dr. Rufus Buckley chegou a Clanton e educadamente informou os sentinelas de quem era e o que isso significava, e obteve autorização para estacionar na vaga marcada com os dizeres RESERVADO PARA O PROMOTOR ao lado do edifício do tribunal. Os repórteres enlouqueceram. Aquilo devia ser importante, alguém acabava de passar pela barricada. Buckley ficou sentado no seu velho Cadillac durante um momento, para dar a oportunidade aos repórteres de o alcançarem. Quando desceu e bateu com a porta, eles cercaram-no. Buckley sorriu e caminhou lentamente para a porta da frente do tribunal. O fogo cerrado de perguntas foi demais para ele e Buckley violou o segredo de justiça pelo menos oito vezes, sorrindo e explicando que não podia responder à pergunta a que acabava de responder. Musgrove ia atrás dele, transportando a pasta do grande homem.

Nervoso, Jake andava de um lado para o outro no escritório. A porta estava fechada à chave. No primeiro andar, Ellen trabalhava noutro relatório. Harry Rex estava no Coffee Shop a comer outra vez e a contar mexericos. As fichas estavam espalhadas sobre a mesa e Jake estava farto delas. Folheou um relatório, depois foi até às portas de vidro. Os gritos subiam da praça, entrando pelas janelas abertas. Jake voltou para a mesa e estudou o resumo do seu comentário inicial para os jurados. A primeira impressão era importante.

Deitou-se no sofá, fechou os olhos e pensou em milhares de coisas que gostaria de estar a fazer. De um modo geral, Jake gostava do seu trabalho. Mas havia momentos, momentos assustadores como aquele, em que desejava ser um corretor de seguros ou da bolsa. Ou talvez até um cobrador de impostos. Sem dúvida, esses tipos não sofriam crises regulares de náusea e diarreia nos momentos críticos da sua carreira.

Lucien tinha-lhe ensinado que o medo era bom, o medo era um aliado, todos os advogados sentiam medo quando se viam diante do júri a defender a sua causa. Não havia nada de mal em ter medo; só que não se devia mostrar. Os jurados não seguiam o advogado mais fluente ou o que usava as palavras mais bonitas. Não seguiam o mais elegantemente vestido. Não seguiam um palhaço ou um bobo do tribunal. Não seguiam o advogado- que pregava com voz mais forte ou que lutava com mais ardor. Lucien tinha-o convencido de que os jurados seguiam o advogado que dizia a verdade, independentemente da sua aparência, das suas palavras, das suas habilidades superficiais. O advogado tinha de ser ele mesmo no tribunal, e se estivesse com medo, que assim fosse. Os jurados também estavam.

Trave amizade com o medo, costumava dizer Lucien, porque ele não se vai embora e destrui-lo-á se não for controlado.

O medo atacava-lhe o fundo das entranhas, e ele desceu cautelosamente para a casa-de-banho.

- Como é que se sente, chefe? - perguntou Ellen, quando Jake a foi buscar.

- Pronto, penso eu. Saímos daqui a um minuto.

- Estão uns repórteres à espera lá fora. Eu disse-lhes que se tinha retirado do caso e deixado a cidade...

- Neste momento gostava de que isso fosse verdade. - Já ouviu falar em Wendall Solomon?

- Não que me lembre.

- Ele trabalha para o Fundo de Defesa dos Presidiários Sulistas. Trabalhei com ele, no Verão passado. Ele defendeu mais de cem casos de crimes de homicídio em todo o Sul. Fica tão nervoso antes do julgamento que não consegue comer nem dormir. O médico receita-lhe sedativos, mas mesmo assim, ninguém é capaz de falar com ele, no primeiro dia de um julgamento-E isso ao fim de mais de cem julgamentos.

- E o seu pai?

- Toma uns dois martinis com um comprimido de Valium. Depois deita-se apoiado na mesa com a porta fechada e as luzes apagadas até à hora de ir para o tribunal. Fica com os nervos à flor da pele e mal-humorado. É claro que uma boa parte é natural nele. - Então a Ellen conhece a sensação?

- Conheço-a bem. - Pareço nervoso? - Parece cansado. Mas vai sair-se bem. Jake consultou o relógio.

- Vamos.

Os repórteres saltaram sobre a presa.

- Sem comentários - insistiu Jake, andando vagarosamente para o edifício do tribunal. A barragem continuou.

- É verdade que pretende pedir a anulação do julgamento? - Não posso fazer isso antes do julgamento começar.

- É verdade que o Klan o ameaçou? - Sem comentários.

- É verdade que a sua família vai ficar fora da cidade, até o fim do julgamento?

Jake hesitou e olhou para o repórter. - Sem comentários.

- O que acha da guarda nacional? - Orgulho-me dela.

- O seu cliente pode ter um julgamento justo em Ford County?

Jake abanou a cabeça e disse: - Sem comentários.

Um sub-delegado montava guarda a poucos metros de onde os corpos tinham caído.

- Quem é ela, Jake? - perguntou, apontando para Ellen. - É inofensiva. Está comigo.

Subiram rapidamente a escada das traseiras. Carl Lee estava sozinho à mesa da defesa, de costas para os espectadores que enchiam o recinto. Jean Gillespie recebia os jurados e os polícias percorriam as passagens, atentos a qualquer coisa ou pessoa suspeita. Jake cumprimentou calorosamente o seu cliente, fazendo questão de apertar a mão dele, com um largo sorriso, e depois apoiou a mão no ombro de Carl Lee. Ellen tirou os papéis dos dossiers e arrumou as pastas de cartolina sobre a mesa.

Jake conversou em voz baixa com o cliente e olhou em volta. Todos olhavam para ele. O clã dos Hailey estava sentado comportadamente na primeira fila. Jake-sorriu para eles e cumprimentou Lester com uma inclinação de cabeça. Tonya e os rapazess estavam com as roupas de domingo, sentados entre Lester e Gwen, como quatro estátuas. Os jurados estavam de um dos lados da sala, a observar minuciosamente o advogado de Hailey. Jake achou que aquele era um bom momento para todos verem a família e foi até à balaustrada baixa. Bateu amigavelmente no ombro de Gwen, apertou a mão de Lester, beliscou a cara de cada um dos rapazes e, finalmente, abraçou Tonya, a pequenina Hailey, que tinha sido violada pelos dois brancos que tinham recebido o que mereciam.

Os jurados observaram cada um dos movimentos dessa encenação e prestaram atenção especial à menina.

- O Noose mandou chamar-nos ao gabinete dele - murmurou Musgrove a Jake, quando ele voltou para a mesa da defesa. Ichabod, Buckley e a taquígrafa conversavam quando Jake e Ellen entraram. Jake apresentou a sua estagiária ao juiz, a Buckley e Musgrove e a Norma Gallo, a taquígrafa. Explicou que Ellen Roarke era uma terceiranista de Direito da Ole Miss que estava a estagiar no escritório dele e pediu autorização para ela se sentar perto da mesa da defesa e participasse nas reuniões na sala de audiências. Buckley não tinha objecções. Era uma prática comum, explicou Nosse, e deu-lhe as boas-vindas.

- Questões preliminares, meus senhores? - perguntou Noose.

- Nenhuma - disse o promotor.

- Várias - disse Jake, abrindo uma pasta. - Quero que isto conste dos autos.

Norma Gallo começou a tomar notas.

- Em primeiro lugar, quero renovar a moção para transferência de foro...

- Nós objectamos - interrompeu Buckley.

- Cale-se, governador! - gritou Jake. - Ainda não acabei e não me interrompa mais!

A explosão sobressaltou todos. Tudo por causa daquelas margaritas, pensou Ellen.

- Peço desculpa, Dr. Brigance - disse Buckley, com calma. - Por favor, não me trate por governador.

- Deixem-me dizer uma coisa - começou Noose. - Este julgamento será longo e difícil. Compreendo que estejam todos sob grande pressão. Já estive muitas vezes onde estão agora e sei o que estão a sentir. Ambos são excelentes advogados e fico satisfeito por ter dois bons advogados num julgamento desta importância. Noto também uma certa hostilidade entre os dois. Isso é comum e não vou pedir que apertem as mãos e ajam como bons amigos. Mas faço questão absoluta de que, no meu tribunal ou no meu gabinete, não se interrompam um ao outro e que os gritos sejam limitados ao mínimo possível. Devem tratar-se por Dr. Brigance e Dr. Buckley e Dr. Musgrove. Bem, todos compreendem o que quero dizer?

- Sim, senhor. - Sim, senhor - Bom. Então continue, Dr. Brigance.

- Obrigado, Meritíssimo, muito agradecido. Como eu estava a dizer, o acusado renova a moção para transferência de foro. Quero que conste dos autos que, neste momento, às nove e quinze do dia vinte e dois de Julho, quando nos preparamos neste gabinete para a escolha do júri, o Tribunal de Justiça de Ford County está cercado pela guarda nacional do Mississippi. Em frente do edifício um grupo de homens do Ku Klux Klan, com mantos brancos, neste preciso momento gritam para o grupo de negros que, naturalmente, lhes gritam em resposta. Os dois grupos estão separados por soldados armados da guarda nacional. Quando os jurados chegaram ao tribunal, esta manhã, viram o circo armado na frente do palácio da justiça. Vai ser impossível escolher um júri justo e imparcial.

Buckley escutou com um sorriso de superioridade e, quando Jake terminou, disse:

- Posso responder, Meritíssimo?

- Não - disse Noose secamente. - A moção é indeferida. O que mais o tem senhor...

- A defesa requer que todos os jurados convocados sejam dispensados.

- Com que fundamento?

- Com fundamento no facto de o Klan ter ameaçado abertamente esse grupo de jurados. Sabemos de pelo menos vinte cruzes de fogo. - Pretendo dispensar esses vinte, se se apresentarem - disse Noose.

- Óptimo - disse Jake com ironia. - E as ameaças das quais não tivemos conhecimento? E os jurados que ouviram falar das cruzes de fogo?

Noose enxugou os olhos e não disse nada. Buckley tinha um discurso preparado mas não quis interromper.

- Eu tenho aqui uma lista-disse Jake, abrindo uma pasta - dos vinte jurados que receberam visitas. Tenho também cópias de relatórios da polícia e depoimentos juramentados do xerife

Walls, onde ele descreve com detalhes os actos de intimidação. Estou a submeter estes documentos à apreciação do tribunal, como reforço da minha moção para a dispensa de todos os jurados convocados. Quero que isto conste dos autos para que o Supremo Tribunal possa vê-lo preto no branco.

- À espera de uma apelação, Dr. Brigance? - perguntou o Dr. Buckley.

 

Ellen acabava de conhecer Rufus Buckley e já compreendia por que Jake e Harry Rex o detestavam.

- Não, governador, não estou à espera de uma apelação. Estou a tentar garantir ao meu cliente um julgamento justo por um júri imparcial. O senhor deve compreender isto.

- Não vou dispensar estes jurados. Isso custar-nos-ia uma semana - disse Noose.

- O que é o tempo quando a vida de um homem está em jogo? Estamos a falar de justiça. O direito a um julgamento justo, lembrem-se, um Direito constitucional dos mais básicos. O julgamento será uma farsa se não houver a dispensa destes jurados, pois sabemos que alguns deles foram intimidados por um bando de assassinos vestidos com mantos brancos que querem ver o meu cliente enforcado.

- Moção indeferida - disse Noose. - Que mais tem o senhor?

- Na verdade, nada mais. Apenas peço que, quando dispensar os vinte, o faça de modo a que os outros não fiquem a saber o verdadeiro motivo da dispensa.

- Eu posso tratar disso, Dr. Brigance.

O juiz mandou o Dr. Pate procurar Jean Gillespie e entregou-lhe a lista dos vinte nomes. Jean voltou para a sala do tribunal e leu a lista. Eles não eram necessários para o júri e podiam retirar-se. Ela voltou ao gabinete do juiz.

- Quantos jurados temos? - perguntou Noose. - Noventa e quatro.

- Isso é suficiente. Estou certo de que podemos encontrar doze para o nosso júri.

- Não vai encontrar dois - sussurrou Jake ao ouvido de Ellen, em voz bastante alta para que Noose ouvisse e Norma Gallo registasse.

Sua Excelência dispensou-os e eles voltaram para a sala do tribunal. Noventa e quatro nomes escritos em pequenas tiras de papel foram colocados num pequeno cilindro de madeira. Jean Gil lespie girou o cilindro, parou-o e tirou um nome ao acaso. Entregou a tira de papel a Noose, que estava sentado acima dela, e de toda a gente da sala, no seu trono. Todos observavam em silêncio. Noose semicerrou os olhos e olhou para o primeiro nome.

- Carlene Malone, jurado número um - gritou ele com sua voz estridente.

A primeira fila estava vazia e a Sra. Malone sentou-se na cadeira, ao lado da passagem. Cada banco dava para dez pessoas e havia dez bancos, todos para os jurados. Os dez bancos, do outro lado da passagem, estavam cheios com pessoas da família, amigos, espectadores, mas especialmente repórteres, que imediatamente anotaram o nome de Carlene Malone. Jake também anotou. Ela era branca, gorda, divorciada, de baixos rendimentos. A nota dela, na escala Brigance, era 2. Zero para a primeira, pensou ele.

Jean girou novamente o cilindro.

- Marcia Dickens, jurado número dois - berrou Noose. Branca, gorda, mais de sessenta anos, de aparência implacável. Zero para a segunda.

- Jo Beth Mills, número três.

Jake afundou-se um pouco na cadeira. Era branca, cinquenta anos, e ganhava o salário mínimo numa fábrica de camisas em Karaway. Graças à acção afirmativa, tinha um patrão negro que era ignorante e corrupto. Na ficha de Brigance havia um zero na frente do nome. Zero para a terceira. Jake olhou desesperadamente para Jean quando ela girou outra vez o cilindro.

- Reba Betts, número quatro.

Jake afundou mais na cadeira, e apertou com força a testa. Zero para a quarta.

- Isto é incrível - resmungou ele, na direcção de Ellen. Harry Rex abanou a cabeça.

- Gerald Ault, número cinco.

Jake sorriu quando o seu jurado número um se sentou ao lado de Reba Betts. Buckley fez uma marca preta ao lado do nome dele.

- Alex Summers, número seis.

Carl Lee sorriu levemente quando o primeiro negro saiu de trás do grupo e se sentou ao lado de Gerald Ault. Buckley sorriu também ao fazer um círculo em volta do nome do primeiro negro.

Os quatro jurados seguintes eram mulheres brancas, nenhuma delas com mais de três pontos na escala de Brigance. Jake olhou preocupado para o primeiro banco, cheio. A lei permitia-lhe doze impugnações peremptórias, doze dispensas sem precisar explicar o motivo. O resultado do sorteio iria obrigá-lo a usar pelo menos metade das suas peremptórias no primeiro banco.

- Walter Godsey, número onze - anunciou Noose, em voz bastante mais baixa.

Godsey era um homem de meia-idade, sem compaixão e sem potencial.

Quando Noose concluiu a segunda fila, esta continha sete mulheres brancas, dois homens negros e Godsey. Jake pressentiu um desastre. Só sentiu algum alívio na quarta fila, quando Jean acertou a mão e tirou os nomes de sete homens, quatro deles negros.

Levou quase uma hora a chamada de todo o corpo de jurados. Noose determinou um intervalo de quinze minutos para que Jean pudesse dactilografar uma lista numérica dos jurados. Jake e

Ellen aproveitaram o intervalo para rever as suas anotações e ligar os nomes às pessoas. Harry Rex, sentado atrás dos livros vermelhos de registo de processos havia tomado notas febrilmente enquanto Noose proclamava os nomes. Aproximou-se de Jake e concordou que as coisas não iam bem.

Às onze horas Noose voltou e a sala ficou em silêncio. Alguém sugeriu que usasse o microfone, e Noose ajeitou-o a poucos centímetros do nariz. Começou a falar alto e a sua voz fraca e desagradável matraqueava violentamente dentro da sala, à medida que ele fazia uma longa série de perguntas exigidas por lei. Apresentou Carl Lee e perguntou se algum jurado era parente dele ou o conhecia. Todos o conheciam, e Noose esperava isso, mas apenas dois admitiram conhecê-lo antes do mês de Maio. Noose apresentou os advogados, depois explicou em breves palavras a natureza das acusações. Nenhum jurado admitiu não ter conhecimento do caso Hailey. Noose continuou a falar e, misericordiosamente, terminou ao meiodia e meia. Determinou um intervalo até às duas horas.

Dell levou sanduíches quentes e chá gelado à sala de conferências. Jake agradeceu com um abraço e disse-lhe que lhe mandasse a conta. Sem tocar na comida, arrumou as fichas sobre a mesa pela ordem em que os jurados estavam sentados. Harry Rex atacou uma sanduíche de rosbife e queijo.

- Um péssimo sorteio - repetia ele. - Um péssimo sorteio. Quando pôs no lugar a nonagésima quarta ficha, Jake recuou e examinou-as. Ellen, ao lado dele, mordiscava uma batata frita. Estudou as fichas.

- Um péssimo sorteio - disse Harry Rex, bebendo um copo de chá.

- Queres calar a boca? - disse Jake.

- Nos primeiros cinquenta temos oito homens negros, três mulheres negras e trinta mulheres brancas. Sobram nove brancos e a maior parte pouco atraente. Parece um júri de mulheres brancas - observou Ellen.

- Mulheres brancas, mulheres brancas - disse Harry Rex. - Os piores jurados do mundo. Mulheres brancas!

Ellen encarou-o.

- Acho que homens brancos gordos são os piores jurados. - Não me leve a mal, Row Ark. Adoro mulheres brancas. Casei com quatro delas, lembre-se. Apenas detesto juradas brancas. - Eu não votaria pela condenação dele.

- Row Ark, você é uma comunista da União das Liberdades Civis. Não votaria pela condenação de ninguém por nada deste mundo. Na sua cabecinha insana você acredita que os corruptores de menores e os terroristas da OLP são pessoas muitíssimo boas que foram maltratadas pelo sistema e merecem ter uma oportunidade.

- E na sua mente racional, civilizada e compassiva, o que acha que devemos fazer com eles?

- Dependurá-los pelos dedos dos pés, castrá-los e deixar sangrar até a morte. Sem julgamento.

- E do modo como compreende a lei, isso seria constitucional?

- Talvez não, mas ia diminuir a incidência de estupros de crianças e de terrorismo. Jake, vais comer essa sanduíche?

- Não.

Harry Rex desembrulhou a sanduíche de presunto e queijo. - Mantem-te afastado da número um, Carlene Malone. É parenta dos Malone de Lake Village. Lixo branco e má como o demónio.

- Eu gostaria de me manter afastado de todos eles - disse Jake, a olhar para a mesa.

- Um péssimo sorteio.

- O que é que acha, Row Ark? - perguntou Jake. Harry Rex engoliu rapidamente.

- Acho que devíamos declará-lo culpado e sair logo daqui. Fugir como gato escaldado.

Ellen olhou para as fichas. - Podia ser pior.

Harry Rex deu uma gargalhada forçada.

- Pior! A única coisa pior seria se os primeiros trinta usassem mantos brancos com capuzes ponteagudos e pequenas máscaras.

- Harry Rex, queres calar a boca? - disse Jake.

- Só estou a tentar ajudar. Queres as tuas batatas fritas?

- Não. Porque não as metes todas na boca e as mastigas muito lentamente?

-Acho que não tem razão a respeito de algumas dessas mulheres - disse Ellen. - Estou inclinada a concordar com o Lucien. As mulheres, de um modo geral, terão mais simpatia pelo acusado. Somos nós que costumamos ser violentadas, lembra-se? - Não tenho resposta para isso - disse Harry Rex.

- Obrigado - disse Jake.

- Qual destas é a sua antiga cliente que supostamente faz qualquer coisa que lhe mande?

Ellen riu com desprezo.

- Deve ser a número vinte e nove. Tem um metro e cinquenta e dois de altura e pesa duzentos quilos.

Harry Rex limpou a boca com um guardanapo de papel.

- Muito engraçado. Número setenta e quatro. Está muito atrás. Esqueça.

Noose bateu com o martelo, às duas horas, e estabeleceu-se a ordem no tribunal.

- O estado pode examinar o corpo de jurados - disse.

O ilustre promotor levantou-se lentamente e caminhou com imponência para a balaustrada, onde parou, olhando pensativamente para os jurados e os espectadores. Parecia estar a posar, por um momento, para os desenhistas. Voltou-se para os jurados com um sorriso sincero e apresentou-se. Explicou que era o advogado do povo, o estado do Mississippi era o seu cliente. Há nove anos que servia como seu promotor e era uma honra pela qual estaria eternamente grato ao maravilhoso povo de Ford County. Apontou para o público e disse-lhes que eles, ali sentados, eram o povo que o elegera para os representar. Agradeceu e disse que esperava não os desapontar.

Sim, estava nervoso e assustado. Tinha acusado milhares de criminosos, mas continuava a ficar assustado a cada novo julgamento. Sim! Estava com medo e não tinha vergonha de admiti-lo. Com medo por causa da enorme responsabilidade com que o povo o investira, de mandar para a prisão os criminosos e de proteger as pessoas. Com medo porque podia não representar devidamente o seu cliente, o povo desse grande estado.

Jake já ouvira aquelas baboseiras muitas vezes. Já as sabia de cor. Buckley, o homem bom, o advogado do estado, de mãos dadas com o povo à procura de justiça, para salvar a sociedade.

Buckley era um orador suave e talentoso que podia, num momento, conversar mansamente com o júri, como um avô a aconselhar os netos. No momento seguinte, podia começar um discurso inflamado, um sermão que faria inveja a qualquer pregador negro. Um segundo depois, numa fluida explosão de eloquência, podia convencer o júri de que a estabilidade da nossa sociedade, sim, até mesmo o futuro da raça humana, dependia de um veredicto de culpa. Ele sobressaía nos grandes julgamentos e aquele era o maior de todos. Buckley falava sem consultar notas e mantinha a sala toda presa às suas palavras, enquanto se descrevia como um desprivilegiado, o amigo e parceiro do júri, que, junto com ele, encontraria a verdade e puniria aquele homem pelo seu acto monstruoso.

Ao fim de dez minutos, Jake estava farto. Levantou-se com ar de frustração.

- Meritíssimo, eu levanto objecção a isto. O Dr. Buckley não está a escolher um júri. Não percebo bem o que ele está a fazer, mas não está a interrogar os jurados.

- Concedida! - gritou Noose pelo microfone. - Se não tem nenhuma pergunta a fazer aos jurados, Dr. Buckley, por favor sente-se.

- Peço desculpa, Meritíssimo - disse Buckley, embaraçado, fingindo-se ofendido.

Jake acabava de desferir o primeiro golpe.

Buckley pegou num bloco-notas e fez a primeira de uma lista de mil perguntas. Perguntou se algum deles ali presente já tinha feito parte de um júri. Várias mãos se ergueram. Civil ou criminal? Votou pela absolvição ou condenação? Há quanto tempo? O acusado era negro ou branco? A vítima, negra ou branca? Algum deles já fora vítima de crime violento? Duas mãos. Quando? Onde? O assaltante foi apanhado? Condenado? Negro ou branco? Jake, Harry Rex e Ellen enchiam páginas de anotações. Algum membro da sua família foi vítima de crime violento? Mais algumas mãos. Quando? Onde? O que aconteceu ao criminoso? Algum membro da sua família já foi acusado de crime? Indiciado? Julgado? Condenado? Algum amigo ou parente policial? Quem? Onde?

Durante três horas a fio, Buckley explorou e examinou como um cirurgião. Foi magistral. Era óbvio que estava bem preparado. Fez perguntas que nem sequer tinham ocorrido a Jake. E perguntou praticamente tudo o que Jake pretendia perguntar. Delicadamente, conseguia detalhes de sentimentos e opiniões pessoais. E no momento certo dizia uma coisa engraçada e todos riam, aliviando a tensão. Buckley tinha o tribunal todo na palma da mão e quando Noose o mandou parar, às cinco horas, ele estava a todo vapor. Terminaria no dia seguinte, de manhã.

Sua Excelência determinou a suspensão até às nove da manhã seguinte. Jake conversou com o seu cliente durante alguns momentos enquanto a multidão saía da sala. Ozzie estava por perto com as algemas. Quando Jake terminou, Carl Lee ajoelhou-se diante da família, na primeira fila, e abraçou-os a todos. Iria vê-los no dia seguinte, disse. Ozzie introduziu-o na sala de espera e com ele desceu a escada, onde um enxame de polícias estava à sua espera para o levar de volta à cadeia.

 

No segundo dia, o sol elevou-se rapidamente a leste e, em poucos segundos, secou o orvalho da espessa relva das Bermudas em volta do tribunal de justiça de Ford County. Uma névoa viscosa e invisível subia da relva e colava-se às botas pesadas e às calças largas dos soldados. O sol queimava-os enquanto eles caminhavam despreocupadamente pelos passeios do centro de Clanton. Procuravam a sombra das árvores e os toldos das lojas pequenas. Quando o café foi servido nas grandes barracas, os soldados estavam sem as túnicas e com as camisas verde-claras encharcadas de suor.

Os pregadores negros e os seus seguidores dirigiram-se para o seu lugar e acamparam. Abriram as cadeiras dobráveis sob os carvalhos e puseram os recipientes-congeladores em cima das mesas de armar. Cartazes brancos e azuis com as palavras LIBERTEM CARL LEE, pregados em estacas de tomateiros, foram enfiados no chão como espantalhos. Agee mandara imprimir alguns cartazes novos, com fotografia ampliada de Carl Lee no centro e as margens a branco, azul e vermelho. Era um trabalho bonito, feito por profissional.

Os homens da Klan foram obedientemente para o lugar designado pelo xerife. Tinham também cartazes - fundo branco com letras enormes a vermelho - gritando FRITEM CARL LEE, FRITEM CARL LEE. Agitavam os cartazes na direcção dos negros, do outro lado da passagem, e os dois grupos começaram a gritar. Os soldados enfileiraram-se no passeio, armados, mas fingindo ignorar as obscenidades que voavam sobre as suas cabeças. Eram oito horas da manhã, do segundo dia.

Os repórteres estavam atordoados com tantas manifestações. Correram para o relvado da frente quando a gritaria começou. Ozzie e o coronel davam voltas e voltas em redor do tribunal, vendo tudo e berrando para dentro dos seus rádios.

Às nove horas, Ichabod disse bom-dia à multidão que enchia por completo a sala do tribunal. Buckley levantou-se devagar e com grande animação informou Sua Excelência que não tinha mais perguntas a fazer aos jurados.

O advogado Brigance levantou-se com as pernas bambas e uma turbulência na barriga. Foi até à barra e fitou os olhos ansiosos dos noventa e quatro jurados. Todos ouviram atentamente aquele jovem e atrevido defensor que um dia se gabara de nunca ter perdido uma causa criminal. Parecia tranquilo e confiante. A voz dele era forte, mas calorosa. As palavras eram cultas, mas coloquiais. Apresentou-se outra vez e apresentou o seu cliente, depois a família deste, deixando Tonya para o fim. Cumprimentou o promotor pelo exaustivo interrogatório do dia anterior e confessou que a maioria das suas perguntas já tinham sido feitas. Consultou as suas notas. A primeira pergunta foi uma bomba.

- Senhoras e senhores, alguém aqui acredita que a defesa não deve, em circunstância alguma, apoiar-se na alegação de insanidade mental?

Os jurados mexeram-se um pouco nas cadeiras, mas ninguém levantou a mão. Ele tinha-os apanhado desprevenidos. Insanidade! Insanidade! A semente estava plantada.

- Se provarmos que Carl Lee estava legalmente insano quando atirou em Billy Ray Cobb e Pete Willard, haverá uma só pessoa neste júri que não possa achar que ele não é culpado?

A pergunta era um tanto rebuscada, deliberadamente. Ninguém levantou a mão. Alguns queriam responder, mas não estavam certos da resposta apropriada. Jake observou-os cuidadosamente, sabendo que a maioria estava confusa, mas sabendo também que, naquele momento, cada um dos membros do corpo de jurados pensava na possibilidade de seu cliente estar insano. Era exactamente aí que ele os deixaria.

- Muito obrigado - disse Jake, com todo o charme que tinha conseguido durante toda a vida. - Não tenho mais nada a declarar, Meritíssimo.

Buckley ficou confuso. Olhou para o juiz que também estava perplexo.

- É tudo? - perguntou Noose, incrédulo. - É tudo, Dr. Brigance?

- Sim, senhor, Meritíssimo, o júri parece-me plenamente satisfatório - disse Jake, com ar confiante, ao contrário de Buckley, que os havia interrogado durante três horas. O júri estava lon ge de ser aceitável para Jake, mas não adiantava repetir as mesmas perguntas que Buckley tinha feito.

- Muito bem. Quero falar com os advogados no meu gabinete.

Buckley, Musgrove, Jake, Ellen e o Sr. Pate seguiram Ichabod e sentaram-se em volta da mesa no gabinete do juiz. Noose disse:

- Suponho, meus senhores, que desejem inquirir cada um dos jurados pessoalmente sobre a pena de morte.

- Sim, senhor - disse Jake.

- Exactamente, Meritíssimo - disse Buckley.

- Muito bem. Sr. Meirinho, queira trazer o jurado número um, Carlene Malone.

O Sr. Pate foi até à sala do tribunal e chamou Carlene Malone. Daí a momentos, ela entrou no gabinete do juiz. Estava apavorada. Os advogados sorriram mas não disseram nada: instruções de Noose.

- Sente-se, por favor - disse Noose, tirando a toga. - Isto não vai demorar mais de um minuto, Sra. Malone. A senhora tem alguma opinião formada a favor ou contra a pena de morte? - perguntou ele.

A mulher abanou a cabeça nervosamente e olhou para Ichabod.

- Ah, não, senhor.

- Compreende que se for escolhida para este júri e o Sr. Hailey for condenado, a senhora será chamada para sentenciá-lo à morte?

- Sim, senhor.

- Se o estado provar, além de qualquer dúvida razoável, que os crimes foram premeditados, e se a senhora acreditar que o Sr. Hailey não estava legalmente insano no momento dos crimes, a senhora considerará a imposição da pena de morte?

- Certamente. Eu acho que ela deve ser sempre usada. É susceptível de pôr um fim a este tipo de acções. Sou totalmente favorável. Jake continuou a sorrir, meneando a cabeça afirmativa e educadamente para a jurada número um. Buckley sorriu também e piscou o olho a Musgrove.

- Muito obrigado, Sra. Malone. Pode voltar para o seu lugar, na sala do tribunal - disse Noose. - Traga o número dois - odenou Noose ao Sr. Pate.

Marcia Dickens, uma mulher branca, idosa, de testa franzida, entrou no gabinete. Sim, senhor, disse ela, era a favor da pena de morte. Não teria problemas em votar a favor. Jake sorriu. Buckley piscou o olho outra vez. Noose agradeceu e chamou a número três.

Três e quatro demonstraram a mesma disposição. Estariam prontas a matar se as provas fossem suficientes. Então o número cinco, Gerald Ault, a arma secreta de Jake, entrou no gabinete e sentou-se.

- Muito obrigado, Sr. Ault, isso não vai demorar mais de um minuto - repetiu Noose. - Em primeiro lugar, o senhor tem opinião formada a favor ou contra a pena de morte?

- Ah, sim, senhor - respondeu Ault, a voz e o rosto irradiando compaixão. - Sou decididamente contra. É cruel e insólita. Tenho vergonha de viver numa sociedade que permite o assassinato legal de um ser humano.

- Compreendo. Poderia o senhor, em quaisquer circunstâncias, se fosse jurado, votar pela imposição da pena de morte?

- Ah, não, senhor. Em nenhuma circunstância. Independentemente do crime. Não, senhor.

Buckley pigarreou e anunciou sombriamente:

- Meritíssimo, o estado impugna o Sr. Ault e requer que ele seja dispensado de acordo com o precedente do estado contra Witherspoon.

- Moção aceite. Sr. Ault, o senhor está dispensado de servir no júri - disse Noose. - Pode abandonar o tribunal, se quiser. Se preferir permanecer no recinto do tribunal, peço-lhe que não se sente com os outros jurados.

Confuso, Ault olhou para o seu amigo Jake que, naquele momento, olhava para o chão com os lábios apertados.

- Posso perguntar porquê? - perguntou Gerald. Noose tirou os óculos, transformando-se no professor.

- De acordo com a lei, Sr. Ault, o tribunal deve dispensar qualquer jurado em potencial que admita que não é capaz de considerar, e a palavra-chave é considerar, a pena de morte. O senhor compreende, goste ou não, a pena de morte é um método punitivo legal no Mississippi e na maioria dos estados. Sendo assim, não é justo escolher jurados incapazes de obedecer à lei.

Toda a gente ficou curiosa quando Gerald Ault apareceu atrás da cadeira do juiz, passou pelo portãozinho da barra e saiu da sala do tribunal. O meirinho chamou o número seis, Alex Sum mers, e conduziu-o ao gabinete do juiz. Voltou logo a seguir e sentou-se na primeira fila. Tinha mentido sobre a pena de morte. Era contra, como a maioria dos negros, mas dissera a Noose que não tinha objecção. Nenhuma. Mais tarde, durante o intervalo, procurou outros jurados negros e explicou-lhes como deviam responder às perguntas, na sala do juiz.

 

O processo lento continuou até meio da tarde, quando o último jurado saiu do gabinete do juiz. Onze tinham sido dispensados devido à atitude em relação à pena de morte. O tribunal entrou em descanso às três e meia e Noose deu aos advogados até às quatro para reverem as suas notas.

Na biblioteca do terceiro andar, Jake e a sua equipa examinaram as listas e fichas do júri. Estava na hora da decisão. Ele tinha sonhado com nomes escritos a azul, vermelho e preto, com núme ros ao lado. Tinha-os observado no tribunal durante dois dias. Conhecia-os. Ellen queria mulheres. Harry Rex queria homens. Noose examinou a sua lista-mestra, com os jurados renumerados para reflectir as dispensas justificadas, e olhou para os advogados.

- Meus senhores, estão prontos? Óptimo. Como sabem, este é um caso de homicídio, portanto cada um dos senhores tem direito a doze impugnações peremptórias. Dr. Buckley, o senhor deve apre sentar à defesa a sua lista de doze jurados. Por favor, comece com o número do jurado e refira-se a cada um somente pelo número.

- Sim, senhor. Meritíssimo, o estado aceita os jurados número um, dois, três, quatro, usa a primeira impugnação para o número cinco, aceita os números seis, sete, oito, nove, usa a segun da impugnação para o número dez, aceita os números onze, doze, treze, usa a terceira impugnação para o número catorze e aceita o número quinze. Aí estão doze, suponho.

Jake e Ellen fizeram círculos e anotações nas suas listas. Noose voltou a contar metodicamente.

- Sim, doze. Dr. Buckley.

Buckley propusera doze mulheres brancas. Dois homens negros e um branco tinham sido eliminados.

Jake estudou a sua lista e riscou nomes.

- A defesa dispensa os jurados número um, dois, três, aceita quatro, seis e sete, dispensa oito, nove, onze, doze, aceita treze, dispensa quinze. Julgo que usámos oito das nossas impugnações.

Sua Excelência fez linhas e marcas na sua lista, calculando lentamente.

- Ambos aceitaram os jurados número quatro, seis, sete e treze. Dr. Buckley, é o senhor novamente. Dê-nos mais oito jurados.

- O estado aceita dezesseis, usa a quarta impugnação para o dezassete, aceita dezoito, dezanove, vinte, impugna vinte e um, aceita vinte e dois, impugna vinte e três, aceita vinte e quatro, dispensa vinte e cinco e vinte e seis e aceita vinte e sete e vinte e oito, um total de doze com direito a mais quatro impugnações.

Jake estava perplexo. Buckley mais uma vez tinha eliminado todos os negros e todos os homens. Estava a ler o pensamento de Jake.

- Dr. Brigance, é o senhor agora.

- Posso ter um momento para conferenciar, Meritíssimo? - Cinco minutos - respondeu Noose.

Jake e a sua assistente passaram para a sala de café, onde Harry Rex esperava.

- Vê isto - disse Jake, pondo a lista na mesa, e inclinaram-se os três sobre ela. - Chegámos ao vinte e nove. Tenho quatro impugnações e Buckley também. Ele eliminou todos os negros e todos os homens. De momento, temos um júri só de mulheres brancas. Os dois seguintes são mulheres brancas, trinta e um é Clyde Sisco e trinta e dois é Barry Acker.

- Então quatro dos próximos seis são negros - disse Ellen. - Sim, mas Buckley não vai chegar tão longe. Na verdade, estou surpreendido por nos ter deixado chegar tão perto da quarta fila. - Eu sei que tu queres o Acker. E o Sisco? - perguntou Harry Rex.

- Tenho medo dele. O Lucien diz que é um vigarista que pode ser comprado.

- Fixe! Vamos pôr o homem no júri e depois compramo-lo. - Muito engraçado. Como é que sabes se Buckley não o comprou já?

- Eu ficaria com ele.

Jake estudou a lista, contando e voltando a contar. Ellen queria eliminar os dois homens, Acker e Sisco. Voltaram para a sala do juiz e sentaram-se. A taquígrafa estava a postos.

- Meritíssimo, queremos eliminar o número vinte e dois e o número vinte e oito, restam duas impugnações.

- Dr. Buckley, a sua vez. Vinte e nove e trinta.

- O estado aceita os dois. São doze, com direito ainda a quatro impugnações.

- Dr. Brigance.

- Eliminaremos vinte e nove e trinta.

- E não tem mais nenhuma impugnação, certo? - perguntou Noose.

- Certo.

- Muito bem. Dr. Buckley, trinta e um e trinta e dois.

- O estado aceita os dois - disse Buckley rapidamente, olhando para os nomes dos negros que vinham logo depois de Clyde Sisco.

- Óptimo. Doze. Vamos escolher dois suplentes. Ambos têm duas impugnações para os suplentes. Dr. Buckley, trinta e três e trinta e quatro.

O jurado trinta e três era um negro. Trinta e quatro era uma mulher branca que Jake queria. Os dois seguintes eram homens negros.

- Nós eliminamos trinta e três, aceitamos trinta e quatro e trinta e cinco.

- A defesa aceita os dois - disse Jake.

O Sr. Pate restabeleceu a ordem no tribunal quando Noose e os advogados tomaram os seus lugares. Sua Excelência anunciou os nomes dos doze e eles lenta e nervosamente dirigiram-se para a bancada do júri, onde se sentaram de acordo com a orientação de Jean Gillespie. Dez mulheres, dois homens, todos brancos. Os negros presentes na sala resmungaram e entreolharam-se incrédulos.

- Você escolheu esse júri? - murmurou Carl Lee a Jake. - Explico depois - disse Jake.

Os dois suplentes foram chamados e sentaram-se perto da bancada do júri.

- Para que é o tipo negro? - murmurou Carl Lee, indicando o suplente com um movimento da cabeça.

- Explico depois - disse Jake.

Noose pigarreou e olhou para o seu novo júri.

- Senhoras e senhores, os senhores foram cuidadosamente seleccionados para jurados deste caso. Juraram julgar com justiça todos os assuntos que lhes forem apresentados e seguir a lei de acordo com minhas instruções. Agora, de acordo com a lei do Mississippi, ficarão isolados até ao fim do julgamento. Isso significa que ficarão hospedados num motel e não podem voltar para casa antes do fim do julgamento. Sei que é extremamente incómodo, mas é o que exige a lei. Dentro de alguns momentos, vamos entrar em descanso até amanhã de manhã, e terão oportunidade de telefonar para casa e pedir as vossas roupas, objectos de toilette e tudo o mais que for preciso. Passarão as noites num motel, cujo nome não será revelado, fora de Clanton. Alguma pergunta?

Os doze pareciam atordoados com a ideia de passar vários dias fora de casa. Pensavam nas famílias, nos empregos, na roupa para lavar. Porquê eles? De toda aquela gente que estava no tribunal, porquê eles?

Como ninguém respondeu, Noose bateu com o martelo e a sala começou a esvaziar-se. Jean Gillespie acompanhou o primeiro jurado até à sala do juiz, onde ela telefonou e pediu roupas e a escova de dentes.

- Para onde vamos? - perguntou a Jean. - É confidencial.

- É confidencial - repetiu pelo telefone ao marido.

Às sete horas, as famílias tinham respondido com uma quantidade enorme de malas e caixas. Os escolhidos saíram pela porta das traseiras do tribunal e embarcaram num autocarro Greyhound, alugado. Precedido por dois carros-patrulha e um jipe do exército, e seguido por três soldados da força pública estadual, o autocarro deu a volta à praça e saiu de Clanton.

Stump Sisson morreu na noite de terça-feira no hospital de queimados de Memphis. O corpo pequeno e gordo, mal tratado ao longo de anos, não resistiu às complicações provocadas pelas quei maduras graves. A sua morte elevou para quatro o número de vítimas fatais ligadas ao estupro de Tonya Hailey. Cobb, Willard, Bud Witty e agora Sisson.

A notícia da morte chegou imediatamente à cabana no meio do bosque, onde os patriotas se reuniam, comiam e bebiam todas as noites depois do julgamento. Juraram vingança, olho por olho e assim por diante. Havia novos recrutas de Ford County - cinco ao todo - para fazer um total de onze rapazes locais. Estes estavam impacientes e ansiosos, e queriam acção. O julgamento estava muito pacato. Era chegada a hora de movimentar as coisas.

Andando de um lado para o outro diante do sofá, Jake ensaiou pela centésima vez a sua declaração de abertura. Ellen ouvia atentamente. Durante duas horas ela ouviu, interrompeu, fez objec ções, criticou e argumentou. Agora estava cansada. Jake atingira a perfeição. As margaritas tinham-no acalmado e dado um banho de prata à sua língua. As palavras fluíam com desembaraço. Jake tinha o dom da palavra. Especialmente, depois de um ou dois copos.

Quando ele terminou, sentaram-se ambos na varanda e contemplaram as velas que se moviam lentamente, no escuro, em volta da praça. As gargalhadas dos soldados que jogavam poquer nas barracas ecoavam suavemente na noite. Não havia lua. Ellen entrou para preparar a última rodada. Voltou com as canecas de cerveja cheias de gelo e margaritas. Pôs as canecas na mesa e ficou de pé atrás do patrão. Colocou as mãos nos ombros dele e começou a esfregar-lhe a nuca com os polegares. Jake descontraiu-se e moveu a cabeça de um lado para o outro. Ela massajou-lhe os ombros e a parte superior das costas e comprimiu o corpo contra o dele.

- Ellen, são dez e meia e estou com sono. Onde vai passar a noite?

- Onde acha que devo passá-la?

- Acho que no seu apartamento em Ole Miss. - Estou pifa demais para guiar.

- O Nesbit irá levá-la.

- Onde, se me permite perguntar, é que vai dormir?

- Na casa que eu e a minha mulher possuímos, na rua Adams.

Ela parou com a massagem e pegou na caneca. Jake levantou-se, debruçou-se sobre a grade da varanda e gritou:

- Nesbit! Acorde! Você vai até Oxford!

Carla encontrou a reportagem na segunda página do primeiro caderno. "Júri de brancos escolhido para Hailey". Jake não tinha telefonado na noite de terça-feira. Carla leu e até se esqueceu do café. A casa dos pais era isolada, numa parte deserta da praia. O vizinho mais próximo ficava a duzentos metros. Todo o terreno entre as duas casas pertencia ao pai e ele não pretendia vendê-lo. Tinha construído a casa há dez anos, quando vendera a empresa de Knoxville e se reformara como um homem rico. Carla era filha única e agora Hanna seria a única neta. A casa - com quatro quartos e quatro casas-de-banho, construída em três planos - tinha espaço para uma dúzia de netos.

Acabou de ler a reportagem e foi até às janelas da sala de refeições, que dava para a praia e o mar. A massa brilhante, alaranjada do sol acabava de surgir no horizonte. Carla preferia o calor da cama até bastante depois do nascer do sol, mas a vida com Jake trouxera uma nova aventura para as primeiras sete horas do dia. O corpo dela estava condicionado para acordar, pelo menos, às cinco e meia. Certa vez, Jake dissera que seu objectivo era sair para o trabalho enquanto estava escuro e voltar do trabalho quando já estava escuro. Geralmente conseguia... Jake orgulhava-se muito de trabalhar mais horas por dia do que qualquer outro advogado de Ford County. Ele era diferente, mas Carla amava-o.

Noventa e três quilómetros a nordeste de Clanton, Temple, a sede do condado de Milburn, estendia-se tranquilamente ao lado do rio Tippah. Tinha três mil habitantes e dois motéis. O Temple Inn estava deserto não havendo nenhuma razão moral para ter algum hóspede naquela época do ano. Na extremidade de uma das suas alas, oito quartos estavam ocupados e guardados por soldados e dois homens da força pública estadual. As dez mulheres estavam a dar-se muito bem, assim como Barry Acker e Clyde Sisco. O suplente negro, Ben Lester Newton, ficou sozinho num quarto, bem como o outro suplente, Francie Pitts. A televisão fora desligada e nenhum jornal era permitido.

Na terça-feira, o jantar foi servido nos quartos e o café da manhã, na quarta-feira, chegou pontualmente às sete e meia, enquanto era aquecido o motor do Greyhound, enchendo de fumo de óleo diesel todo o estacionamento. Trinta minutos depois, os catorze embarcaram e seguiram para Clanton.

No autocarro, falaram sobre as suas famílias e os seus empregos. Dois ou três já se conheciam, os outros eram estranhos. Um tanto embaraçados, evitavam falar no motivo de estarem juntos e na tarefa que iam executar. O juiz Noose fora muito claro nesse ponto. Nenhuma conversa sobre o caso. Eles queriam falar sobre muitas coisas, o estupro, os violadores, Carl Lee, Jake, Buckley, Noose, o Klan, muitas e muitas coisas. Todos sabiam das cruzes de fogo, mas ninguém falou nesse assunto, pelo menos não no autocarro. Tinham conversado muito nos quartos do motel.

Os jurados chegaram ao tribunal quando faltavam cinco minutos para as nove e, através dos vidros escuros, tentavam calcular o número de negros, homens do Klan e curiosos, separados pelas filas de soldados. O autocarro passou pela barricada e parou na parte de trás do edifício, onde os policias estavam a postos para os escoltarem para cima, o mais rapidamente possível. Subiram para a sala do júri, onde os esperavam café e donuts. O meirinho informou-os de que eram nove horas e o meritíssimo estava pronto para começar o julgamento. Conduziu-os para a sala cheia, até à bancada do júri.

- Todos de pé - gritou o Sr. Pate.

- Sentem-se, por favor - disse Noose, sentando-se pesadamente na cadeira de couro. - Bom dia, senhoras e senhores - disse, com amabilidade, para os jurados. - Espero que estejam todos bem esta manhã e prontos para recomeçar.

Todos inclinaram a cabeça afirmativamente.

- Muito bem. Vou fazer a pergunta que vos farei todas as manhãs. Alguém tentou comunicar com os senhores, conversar ou influenciá-los de qualquer modo, na noite passada?

Todos negaram com a cabeça.

- Muito bem. Os senhores discutiram o caso entre vós? Todos mentiram, movendo a cabeça de um lado para o outro. - Muito bem. Se alguém tentar entrar em contacto com os senhores e falar sobre o caso ou influenciá-los de qualquer modo, espero que me informem o mais depressa possível. Compreenderam?

Todos fizeram que sim com a cabeça.

- Agora estamos prontos para dar início ao julgamento. A primeira ordem de serviço é permitir que os advogados façam as suas declarações iniciais. Quero avisar que nada do que os advogados disserem é considerado testemunho e não deve ser visto como prova. Dr. Buckley, deseja fazer uma declaração inicial? Buckley levantou-se e abotoou o casaco de poliester brilhante.

- Sim, Meritíssimo.

- Foi o que pensei. Prossiga.

Buckley ergueu o pequeno pódio de madeira e levou-o para a frente da bancada do júri. De pé, atrás dele, respirou fundo e examinou lentamente as suas notas. Buckley gostava daquele breve momento de silêncio, com todos os olhos pregados nele, todos os ouvidos ansiosos pelas suas palavras. Começou por agradecer ao júri por estar ali, pelos seus sacrifícios, pelo seu espírito cívico (como se eles tivessem escolha, pensou Jake). Disse que se orgulhava deles e se sentia honrado por colaborar com eles naquele caso. Voltou a dizer que era o advogado do povo. O seu cliente, o estado do Mississippi. Disse que temia a responsabilidade que eles, o povo, lhe conferiam. Rufus Buckley, um simples advogado de Smithfield. Falou de si mesmo e sobre o que pensava do julgamento, dos seus votos e esperanças de poder fazer um bom trabalho ao povo desse estado.

Repetiu mais ou menos o que costumava dizer em todas as suas declarações iniciais, mas com um desempenho muito melhor. Era lixo refinado e polido, e bastante questionável. Jake queria desfazer aquele efeito, mas sabia que Ichabod não ia permitir nenhuma objecção durante a declaração inicial, a não ser que se tratasse de ofensa evidente, e a retórica de Buckley não estava a esse nível, por enquanto. Toda aquela sinceridade fingida e sentimentalóide irritava Jake, especialmente porque o júri ouvia e, na maioria das vezes, se deixava levar por ela. O promotor era sempre o menino que procurava corrigir uma injustiça e punir o criminoso por algum crime hediondo, encarcerá-lo para sempre para não pecar nunca mais. Buckley era um mestre na arte de convencer o júri, já na sua declaração inicial, de que dependia deles, de que Ele e os Doze Escolhidos iriam procurar diligentemente a verdade, todos juntos, como uma equipe, unidos contra as forças do mal. O que procuravam era a verdade, nada além da verdade. Encontrem a verdade e a justiça será vitoriosa. Sigam o promotor, Rufus Buckley, o advogado do povo, e encontrarão a verdade.

O estupro foi um acto hediondo. Ele também era pai. Na verdade, tinha uma filha da idade de Tonya Hailey e quando soube do estupro ficou extremamente chocado. Sofreu por Carl Lee e sua mulher. Sim, pensou nas próprias filhas pequenas e pensou em vingança.

Jake sorriu para Ellen. Aquilo era interessante. Buckley preferia enfrentar o assunto do estupro, em vez de o ocultar ao júri. Jake tinha esperado um confronto difícil sobre a menção do estupro por qualquer testemunha. A pesquisa feita por Ellen mostrava claramente que não eram admissíveis os detalhes sensacionalistas, mas não era tão clara a respeito de poder ou não ser mencionado durante o julgamento. Evidentemente, Buckley achou que seria melhor reconhecer o estupro do que procurar escondê-lo. Boa jogada, pensou Jake, uma vez que os doze jurados, tal como toda a gente, conheciam todos os detalhes.

Ellen retribuiu o sorriso. O estupro de Tonya Hailey estava prestes a ser julgado pela primeira vez. Buckley explicou que era natural a qualquer pai pensar em vingança. Ele também pensaria, admitiu. Mas, continuou, com a voz mais pesada, existe uma grande diferença entre desejar vingança e vingar-se.

Buckley começava a aquecer e andava agora de um lado para o outro, ignorando o pódio, entrando no ritmo. Lançou-se num discurso de vinte minutos sobre o sistema penal e de como ele era praticado no Mississippi, e sobre o número de violadores que ele, Rufus Buckley, tinha mandado para a penitenciária Parchman, quase todos condenados a prisão perpétua. O sistema funcionava porque a população do Mississippi era bastante sensata para fazer com que funcionasse e entraria em colapso se permitissem que pessoas como Carl Lee Hailey, ignorando o sistema, fizessem justiça pelas próprias mãos. Imaginem! Uma sociedade sem lei, onde os justiceiros agiam à vontade. Sem polícia, sem prisões, sem tribunais de justiça, sem julgamentos, sem júris. Cada um por si.

Não deixava de ser uma ironia, disse ele, aliviando, por um momento, o ardor oratório. Carl Lee estava agora diante deles, pedindo um processo e um julgamento justo, mas não acreditava em nada disso. Perguntem às mães de Billy Ray Cobb e Pete Willard. Perguntem-lhes a elas que tipo de julgamento seus filhos tiveram.

Fez uma pausa para que o júri e todos os presentes pudessem absorver esse último pensamento e meditar sobre ele. O silêncio caiu pesadamente e todo o júri olhou para Carl Lee Hailey. Não eram olhares de compaixão. Jake limpou as unhas com um pequeno canivete, com uma expressão de tédio. Buckley fingiu rever as suas anotações no pódio, depois olhou para o relógio. Recomeçou a falar, desta vez com um tom de voz mais confiante e menos declamatório.

O estado ia provar que Carl Lee Hailey planeara cuidadosamente os crimes. Esperou, durante quase uma hora, no quarto perto da escada pela qual sabia que os prisioneiros iriam passar a cami nho da cadeia. Conseguiu levar, às escondidas, uma M-16 para dentro do edifício do tribunal.

Buckley foi até à mesinha perto da taquígrafa e ergueu a M16. "Esta é a M-16", anunciou ao júri, sacudindo a arma no ar. Pôs a arma no pódio e explicou como fora cuidadosamente escolhida por Carl Lee Hailey porque ele tinha usado uma igual em combate e sabia matar com ela. Carl Lee Hailey fora treinado para usar uma M-16. Uma arma ilegal. Que não se pode comprar no Western Auto. Ele teve que procurá-la noutro sítio. Ele planeou tudo.

A prova seria clara: assassinato a sangue-frio, premeditado, cuidadosamente planeado.

E havia também o sub-delegado DeWayne Looney. Um veterano, há catorze anos no departamento do xerife. Um homem de família, um dos melhores polícias que Buckley conhecia. Ferido no cumprimento do dever por Carl Lee Hailey. A perna foi-lhe parcialmente amputada. Qual o seu crime? Talvez a defesa diga que foi acidental, que não deve ser levado em conta. Essa defesa não é válida no Mississippi.

- Senhoras e senhores, não há nenhuma desculpa para toda esta violência. O veredicto deve ser culpado.

Cada advogado dispunha de uma hora para a sua declaração inicial, e a sedução dessa abundância de tempo mostrou-se irresistível para o promotor, cujas observações se tornaram repetitivas.

Perdeu-se duas vezes numa digressão, ao condenar o recurso da alegação de insanidade mental. Os jurados agora pareciam cansados e procuravam outros pontos de interesse na sala. Os artistas pararam de desenhar e Noose limpou os óculos sete ou oito vezes. Todos sabiam que Noose limpava os óculos para se manter acordado e lutar contra o aborrecimento e geralmente fazia isso durante todo o julgamento. Jake já o vira limpar as lentes com um lenço, a ponta da gravata ou da camisa, enquanto as testemunhas perdiam o controlo e choravam e os advogados agitavam os braços um para o outro em acalorada discussão. Noose não perdia uma palavra, uma objecção, um artifício, apenas estava farto de tudo aquilo, mesmo num caso dessa amplitude. Ele não dormia nunca no tribunal, embora às vezes a tentação fosse grande. Em vez disso, tirava os óculos, erguia-os contra a luz, bafejava as lentes e esfregava-as como se estivessem cobertas de graxa seca, depois ajeitava os óculos no nariz, imediatamente acima da verruga. Menos de cinco minutos depois, estavam sujos outra vez. Quanto mais se estendia a ladainha de Buckley, mais as lentes precisavam ser limpas.

Finalmente, depois de uma longa hora, Buckley calou-se e todo o tribunal suspirou aliviado.

- Intervalo de dez minutos - anunciou Noose e levantou-se da cadeira, passou pela porta, pelo gabinete do juiz, e entrou na casa-de-banho.

Jake tinha planeado uma breve exposição e depois da maratona de Buckley resolveu que seria mais curta ainda. Para começar, a maioria das pessoas não gosta de advogados, especialmente advogados enfadonhos, prolixos, que acham necessário repetir duas ou três vezes cada ponto insignificante da sua peroração e que martelam e explicam os mais importantes com uma repetição constante. Os jurados, em especial, detestam advogados que desperdiçam tempo, por dois motivos. Primeiro, não podem mandá-los calar. São uma audiência cativa. Fora do recinto do tribunal, qualquer um pode insultar um advogado e mandá-lo calar, mas na bancada do júri, todos são obrigados a ouvir e proibidos de falar. Por isso, dormem, ressonam, ficam com os olhos parados, remexem-se na cadeira, consultam o relógio, qualquer um desses sinais que os advogados enfadonhos nunca reconhecem. Segundo, os jurados não gostam de julgamentos longos. Ponha de lado as baboseiras e vamos ao assunto. Dê-nos os factos que nós daremos o veredicto. Explicou isso ao seu cliente durante o intervalo.

- Concordo. Seja breve - disse Carl Lee.

Jake obedeceu. Uma exposição de catorze minutos e o júri ouviu cada uma das palavras. Jake começou por falar de filhas e de como elas são especiais. De como são diferentes dos meninos e precisam de protecção especial. Falou da sua filha e do sentimento que existia entre pai e filha, um elo que não pode ser explicado e que não deve ser violado. Admitiu que admirava o Dr. Buckley e a sua suposta capacidade de perdoar e sentir compaixão por qualquer pervertido bêbedo que violentasse a sua filha. Sem dúvida, ele era um grande coração. Mas, na verdade, podiam eles, como jurados e como pais, reagir com tanta indulgência e mansidão se a sua filha fosse violentada, por dois animais brutais, bêbedos e drogados que a amarraram numa árvore e...

- Protesto! - gritou Buckley. - Deferido! - gritou Noose.

Jake ignorou os gritos e continuou suavemente. Pediu aos jurados para imaginarem, durante o julgamento, o que sentiriam se fosse a sua filha. Pediu que não condenassem Carl Lee, mas que o mandassem de regresso à sua família. Não mencionou insanidade. Todos sabiam que ia ser mencionada. Jake terminou em pouco tempo, apresentando ao júri um contraste marcante entre os dois estilos.

- É tudo? - perguntou Noose, perplexo.

Jake fez um gesto afirmativo e sentou-se ao lado do seu cliente.

- Muito bem, Dr. Buckley, pode chamar a sua primeira testemunha.

- O estado chama Cora Cobb.

O meirinho foi até a sala das testemunhas e voltou com a Sra. Cobb, que depois de prestar juramento diante de Jean Gillespie, se sentou no banco das testemunhas.

- Fale pelo microfone - disse o meirinho.

- A senhora é Cora Cobb? - perguntou Buckley em voz alta, atrás do pódio que estava agora ao lado da grade divisória.

- Sim, senhor. - Onde mora? - N4 3, Lake Village, Ford County.

- É a mãe do falecido Billy Ray Cobb?

- Sim, senhor - disse ela com lágrimas nos olhos.

Cora era uma mulher do campo, abandonada pelo marido quando os filhos eram pequenos. Estes tinham-se criado sozinhos, enquanto ela trabalhava dois períodos numa fábrica de móveis, entre Karaway e Lake Village. Muito cedo, perdera o controlo sobre os filhos. Tinha uns cinquenta anos, procurava aparentar quarenta com o cabelo pintado e a maquilhagem, mas podia facilmente passar por sessenta e poucos.

- Que idade tinha o seu filho quando foi morto? - Vinte e três.

- Quando o viu com vida pela última vez? - Alguns segundos antes de ser morto. - Onde o viu?

- Aqui, neste tribunal. - Onde foi ele morto? - No primeiro andar.

- A senhora ouviu os tiros que mataram o seu filho? Ela começou a chorar.

- Sim, senhor.

- Onde o viu pela última vez? - Na casa funerária.

- Como estava ele? - Morto.

- Não tenho mais perguntas - disse Buckley. - Deseja interrogar a testemunha, Dr. Brigance?

Cora era uma testemunha inofensiva, chamada apenas para estabelecer o facto de que a vítima estava realmente morta e para provocar alguma empatia no júri. Jake não tinha nada a ganhar com uma reinquirição e normalmente a defesa não fazia perguntas. Mas Jake viu uma oportunidade que não podia perder. Viu a oportunidade de mudar o tom do julgamento, de acordar Noose e Buckley e o júri. De despertar a atenção de todos. O sofrimento de Cora não era real. Grande parte era fingimento. Provavelmente Buckley tinha-a instruído para chorar bastante.

- Apenas umas perguntas - disse Jake passando por trás de Buckley e Musgrove e chegando ao pódio.

O promotor suspeitou imediatamente de alguma artimanha. - Sra. Cobb, é verdade que o seu filho foi condenado por vender droga?

- Protesto! - rugiu Buckley, levantando-se de um salto. - O passado criminal da vítima é inadmissível!

- Deferido!

- Obrigado, Meritíssimo - disse Jake formalmente, como se Noose lhe estivesse a fazer um favor.

Ela enxugou os olhos e chorou com mais força.

- A senhora disse que o seu filho tinha vinte e três anos quando morreu?

- Sim.

- Nos seus vinte e três anos de vida, quantas outras crianças violentou ele?

- Protesto! Protesto! - berrou Buckley, sacudindo os braços no ar e olhando desesperado para Noose, que bocejava.

- Deferido! O senhor extrapolou, Dr. Brigance! Extrapolou! A Sra. Cobb caiu no choro e soloçou incontrolavelmente no meio da gritaria. Teve o cuidado de manter o microfone junto ao rosto, e os seus lamentos ecoavam pela sala.

- Ele deve ser admoestado, Meritíssimo! - exigiu Buckley, os olhos e o rosto a brilhar de fúria e o pescoço muito vermelho. - Retiro a pergunta - disse Jake em voz alta, voltando ao seu lugar.

- Golpe baixo, Brigance - resmungou Musgrove.

- Por favor, advirta-o - pediu Buckley - e dê instruções ao júri para não considerar a pergunta.

- Mais alguma pergunta? ,- indagou Noose.

- Não - respondeu Buckley, correndo para o banco das testemunhas com um lenço na mão para ocorrer a Sra. Cobb, que soluçava e se sacudia violentamente, o rosto enterrado nas mãos.

- Está dispensada, Sra. Cobb - disse Noose.-- Meirinho, por favor, ajude a testemunha.

O meirinho segurou-lhe no braço e, ajudado pelo Dr. Buckley, fê-la descer do banco das -testemunhas, passar pela frente dos jurados, pela barra do tribunal e caminhar pela passagem central.

Durante todo o trajecto ela soluçava alto e gemia e o volume foi aumentando, de modo que quando chegou à porta do tribunal gritava a plenos pulmões.

Noose olhou furioso para Jake até ela sair e a sala ficar silenciosa. Voltou-se então para o júri e disse:

- Por favor, não considerem a última pergunta do Dr. Brigance.

- Para que fez isto? - perguntou Carl Lee. - Explico depois.

- O estado chama Eamestine Willard - anunciou Buckley, em voz mais baixa e hesitante.

A Sra. Willard foi conduzida da sala das testemunhas para o recinto do tribunal. Prestou juramento e sentou-se.

- A senhora é Eamestine Willard? - perguntou Buckley. - Sim, senhor - respondeu ela, com voz sumida.

A Sra. Willard também fora maltratada pela vida, mas tinha uma certa dignidade que a tornava mais patética e mais fiável do que a Sra. Cobb. Estava vestida com roupas baratas, mas limpas e bem passadas. O cabelo tinha a cor natural, sem a tinta preta e vulgar do cabelo da Sra. Cobb. Não usava maquilhagem. Quando começou a chorar, chorou discretamente.

- E onde mora?

- Perto de Lake Village.

- Pete Willard era seu filho? - Sim, senhor.

- Quando o viu com vida pela última vez?

- Bem aqui nesta sala, um pouco antes dele ser morto. - Ouviu os tiros que o mataram?

- Sim, senhor.

- Onde o viu pela última vez?

- Na casa funerária. - Como estava ele?

- Estava morto - disse ela, enxugando as lágrimas com um lenço de papel.

- Lamento - disse Buckley. - Não tenho mais perguntas - acrescentou, olhando atentamente para Jake.

- Deseja interrogar a testemunha, Dr. Brigance? - Apenas duas perguntas - disse Jake.

- Sra. Willard, eu sou Jake Brigance. - De pé, atrás do pódio, olhou para ela sem compaixão. Ela fez um gesto afirmativo. - Que idade tinha o seu filho quando morreu?

- Vinte e sete.

Buckley empurrou a cadeira e sentou-se na ponta, pronto para o salto. Noose tirou os óculos e inclinou-se para a frente. Carl Lee baixou a cabeça.

- Nos seus vinte e sete anos de vida, quantas outras crianças violentou ele?

Buckley levantou-se de um salto. - Protesto! Protesto! Protesto! - Deferido! Deferido! Deferido! A gritaria assustou a Sra. Willard e ela chorou mais alto. - Advirta-o, Sr. Dr. Juiz! Ele deve ser admoestado!

- Retiro a pergunta - disse Jake, voltando para seu lugar. Buckley agitou as mãos no ar.

- Mas isso não basta, Sr. Juiz! Ele deve ser advertido!

- Todos no meu gabinete - ordenou Noose. Dispensou a testemunha e determinou que a sessão estava suspensa até à uma da tarde. Harry Rex esperava na varanda do segundo andar no escritório de Jake com sanduíches e uma garrafa de margaritas. Jake preferiu sumo de toranja. Ellen bebeu só uma, pequenina, para acalmar os nervos, disse ela. Pela terceira vez o almoço fora preparado por Dell, que o entregou pessoalmente no escritório de Jake. Cortesia do Coffee Shop.

Comeram e descansaram na varanda, a observar o carnaval em volta do tribunal.

- Que aconteceu no gabinete do juiz? - quis saber Harry Rex. Jake deu uma dentada na sanduíche e disse que não queria falar sobre o julgamento.

- Que diabo, que aconteceu no gabinete do juiz?

- Os Cardinais estão à frente com três pontos, sabia, Row Ark? - Pensei que fossem quatro.

- Que aconteceu no gabinete do juiz?

- Queres mesmo saber? - Sim, quero!

- Muito bem, pá! Tenho de ir à casa-de-banho. Eu digo quando voltar.

Jake saiu.

- Row Ark, o que foi que aconteceu no gabinete do juiz?

- Nada de especial. O Noose deu uma descasca ao Jake, sem nenhum dano permanente. O Buckley queria sangue, e o Jake disse que tinha a certeza de que todos iam ver sangue se o rosto do Buckley ficasse mais vermelho. O Buckley gritou e esbravejou, acusando o Jake de inflamar deliberadamente o júri, foram estas as palavras dele. O Jake limitou-se a sorrir e disse que tinha muita pena, governador... Cada vez que ele dizia governador, o Buckley desatava a gritar para o Noose, "ele está a chamar-me governador, Sr. Dr. juiz, faça alguma coisa", e o Noose dizia, "por favor, meus senhores, espero que ajam como profissionais", e o Jake dizia, "muito obrigado, Meritíssimo, obrigado, Meritíssimo". Depois, esperava alguns minutos e tratava o Buckley outra vez por governador.

- Porque fez ele chorar aquelas duas mulheres de idade?

- Foi uma jogada brilhante, Harry Rex. Ele mostrou ao júri, ao Noose, ao Buckley, a todos, que aquela sala de tribunal é dele e que não tem medo de ninguém ali dentro. Fez o primeiro ataque dele. Deixou o Buckley tão nervoso que nunca mais ele vai conseguir acalmar-se. O Noose respeita-o por ele não se deixar intimidar. O júri ficou chocado, mas isso acordou-os, alertando-os para o facto de que estão numa guerra. Uma jogada brilhante.

- Sim, também achei.

- Não nos prejudicou. Aquelas mulheres queriam simpatia, mas o Jake lembrou ao júri o que doces filhinhos delas tinham feito antes de morrerem.

- Aqueles estupores!

- Se o júri tiver algum ressentimento, estará esquecido quando a última testemunha for interrogada.

- O Jake é bastante hábil, não é?

- Ele é bom. Muito bom. O melhor que já vi com a idade dele.

- Espere até ouvir a argumentação final. Já ouvi umas duas vezes. Ele é capaz de fazer chorar um sargento instrutor.

Jake voltou e bebeu uma pequena dose de margarita. Apenas para acalmar os nervos. Harry Rex bebeu como uma esponja.

Depois do almoço, Ozzie foi a primeira testemunha do estado. Buckley mostrou plantas grandes e coloridas do primeiro e do segundo andar do prédio do tribunal e os dois juntos reconstituíram com precisão os últimos movimentos de Cobb e Willard.

Depois, Buckley mostrou uma colecção de fotografias 40 x 60 dos corpos de Cobb e Willard na escada. Eram horripilantes. Jake já vira muitas fotos de pessoas mortas, e embora nenhuma fosse especialmente agradável, dada a sua natureza, umas eram piores do que outras. Num dos seus casos a vítima recebera um tiro de uma 357 no coração e caíra simplesmente na varanda. Era um homem grande e musculoso e a bala não atravessou o corpo. Assim, não havia sangue, apenas um pequeno orifício no fato-macaco e outro, fechado, no peito. Era como se, ao curtir a bebedeira, tivesse escorregado da cadeira e caído no chão, como acontecia com Lucien. Não era nada espectacular e Buckley não as mostrara com orgulho. Nem estavam ampliadas. Ele apenas as entregou ao júri, visivelmente aborrecido com o facto de serem tão limpas.

Mas a maioria das fotos de assassinatos eram feias e impressionantes, com sangue nas paredes e no tecto, e pedaços dos corpos espalhados por toda a parte. Essas, o promotor mandava sempre ampliá-las e apresentava-as como prova com muita encenação, depois acenava com elas para os espectadores, enquanto ele e a testemunha descreviam a cena. Finalmente, com o júri a vibrar de curiosidade, Buckley delicadamente pedia ao juiz autorização para mostrar as fotografias ao júri e o juiz consentia sempre. Buckley e toda a gente na sala observava, então, a reacção do júri, de choque, horror e até mesmo de náusea. Jake tinha visto dois jurados vomitarem quando viram a fotografia de um corpo esfaqueado.

Essas fotografias eram extremamente prejudiciais e provocatórias, e também extremamente admissíveis. "Probatórias", era a palavra usada pelo Supremo Tribunal. De acordo com noventa anos de decisões do tribunal, podiam ajudar o júri. Era ponto pacífico no Mississippi que, independentemente do seu impacto, essas fotografias eram sempre admissíveis no julgamento.

Jake vira as fotografias de Cobb e Willard algumas semanas antes, apresentara a objecção de praxe e recebera o indeferimento da praxe.

As fotografias apresentadas agora por Buckley foram profissionalmente montadas como posters, coisa que o promotor nunca tinha feito antes. Passou a primeira à jurada Reba Betts. Era a fotografia da cabeça e do cérebro de Willard tirada de muito perto.

- Meu Deus! - arquejou ela, mostrando-a a outro jurado, que olhou horrorizado e a passou adiante. Foram-na passando de mão em mão e depois aos suplentes. Buckley recolheu-a e deu outra a Reba. O ritual continuou, durante trinta minutos, até que todas as fotografias foram devolvidas ao promotor.

Seguidamente, ele pegou na M-16 e empurrou-a na direcção de Ozzie.

- Pode identificar isto?

- Sim, é a arma encontrada na cena do crime. - Quem a encontrou na cena do crime?

- Fui eu.

- E que fez com ela?

- Embrulhei-a num saco plástico e guardei-a no cofre da cadeia. Tive-a fechada até a entregar ao Sr. Laird, do laboratório criminal de Jackson.

- Meritíssimo, o estado gostaria de apresentar esta arma como o elemento material de prova S-13 - disse Buckley, brandindo-a freneticamente.

- Nenhuma objecção - disse Jake.

- Não temos nada mais a perguntar a esta testemunha - disse Buckley.

- Deseja interrogar a testemunha, Dr. Brigance?

Jake consultou as suas anotações, enquanto se aproximava com passos lentos do pódio. Tinha algumas perguntas para o seu amigo. - Xerife, o senhor efectuou a prisão de Billy Ray Cobb e Pete Willard?

Buckley empurrou a cadeira para trás e sentou-se na ponta, pronto para saltar e gritar, se fosse necessário.

- Sim - disse o xerife. - Porquê?

- Pelo estupro de Tonya Hailey - respondeu Ozzie claramente.

- E que idade tinha ela quando foi violada por Cobb e Willard? - Dez anos.

- É verdade que Pete Willard assinou uma confissão escrita em...

- Protesto! Protesto! Meritíssimo! Isto é inadmissível e o Dr. Brigance sabe-o muito bem.

Ozzie meneou afirmativamente a cabeça durante a objecção. - Deferido.

Buckley tremia.

- Peço que a pergunta seja riscada do registo e que o júri seja instruído para a não levar em conta.

- Retiro a pergunta - disse Jake a Buckley com um sor

riso.

- Por favor, ignorem a última pergunta do Dr. Brigance - ordenou Noose ao júri.

- Não tenho mais perguntas - disse Jake.

- Vai contra-interrogar a testemunha, Dr. Buckley? - Não, senhor.

- Muito bem, Xerife, pode descer.

A testemunha seguinte de Buckley foi um técnico em impressões digitais, de Washington, que passou uma hora a dizer aos jurados o que eles sabiam há semanas. A dramática conclusão final dele ligava de maneira inequivoca as impressões encontradas na M-16 com as de Carl Lee Hailey. Depois, foi a vez do especialista em balística, do laboratório criminal do estado, cujo depoimento foi tão maçador e tão pouco informativo como o de seu predecessor. Sim, sem dúvida, os fragmentos recolhidos na cena do crime foram disparados pela M-16 que estava ali em cima da mesa. Essa era a sua opinião definitiva, e com os gráficos e diagramas, exigiu de Buckley uma hora para transmiti-la ao júri. Demasias promotoriais, como Jake dizia; uma debilidade de que padeciam todos os promotores.

A defesa não tinha perguntas a fazer a nenhum dos especialistas e, às cinco e quinze, Noose despediu-se dos jurados com instruções rigorosas para não discutirem o caso. Todos inclinaram a cabeça delicadamente enquanto saíam da sala. Depois, Noose bateu com o martelo e anunciou a interrupção até às nove da manhã.

 

O importante dever cívico de servir no júri deixou rapidamente de ser uma novidade. Na segunda noite, os telefones foram retirados do Temple Inn - ordens do juiz. Algumas revistas velhas doadas pela biblioteca de Clanton circularam entre os jurados e foram postas de lado. Ninguém estava muito interessado nos artigos de The New Yorker, The Smithsonian e Architectural Digest.

- Não tem nenhuma Penthouse? - perguntou baixinho Clyde Sisco ao meirinho, quando ele distribuiu as revistas.

O meirinho disse que não, mas ia ver se podia arranjar. Confinados nos quartos, sem televisão, jornais ou telefones, pouco faziam além de jogar cartas e conversar sobre o julgamento. Uma ida ao final do corredor para buscar gelo e um refrigerante tornou-se uma ocasião especial, coisa que os companheiros de quarto planeavam e faziam rotativamente. O tédio envolvia-os pesadamente.

Em cada extremidade do corredor, dois soldados guardavam o escuro e a solidão, o silêncio interrompido apenas pelo aparecimento sistemático dos jurados com moedas para a máquina de refrigerantes. O sono chegava cedo e quando as sentinelas batiam à porta, às 6 da manhã, todos os jurados estavam acordados, alguns até já vestidos.

Devoraram o café da manhã de quinta-feira, panquecas e salsichas, e embarcaram rapidamente no autocarro às oito horas, para a viagem de volta a Clanton.

Pelo quarto dia consecutivo, a antecâmara do tribunal estava cheia de gente, às oito horas. Os espectadores tinham aprendido que às oito e meia todos os lugares estavam ocupados. Prather abriu a porta e as pessoas entraram em fila, passando pelo detector de metais e pelos olhares atentos dos polícias, antes de entrar na sala do tribunal, onde os negros ocupavam o lado esquerdo e os brancos o lado direito. Hastings tinha reservado, novamente, a primeira fila para Gwen, Lester, as crianças e outros parentes. Agee e outros membros do conselho estavam na segunda fila com os parentes que não encontraram lugar na primeira. Agee alternava sua presença na sala do julgamento com suas actividades fora do edifício, ao lado dos outros pastores. Pessoalmente, preferia a sala do tribunal, onde estava mais seguro, mas sentia a falta das câmaras e dos repórteres, tão numerosos no relvado lá de fora. À sua direita, no outro lado da passagem, estavam as famílias e amigos das vítimas. Até então, estavam todos a portar-se muito bem.

Alguns minutos antes das nove, Carl Lee foi escoltado para fora da pequena sala de espera. As algemas foram retiradas. Com um largo sorriso para a família, sentou-se na sua cadeira. Os advogados tomaram os seus lugares e a sala ficou silenciosa. O meirinho enfiou a cabeça na porta ao lado da bancada do júri e, satisfeito com o que viu, abriu a porta e deixou passar os jurados. O Sr. Pate observava todo o movimento da porta que dava para o gabinete do juiz e, quando tudo estava em ordem, deu um passo em frente e gritou:

- Todos de pé!

Ichabod, com sua toga favorita, amarrotada e desbotada, subiu ao estrado, sentou-se na cadeira e mandou que toda a gente se sentasse. Cumprimentou o júri e quis saber o que tinha aconteci do ou não tinha acontecido desde a véspera. Olhou para os advogados.

- Onde está o Dr. Musgrove?

- Vai chegar um pouco atrasado, Meritíssimo. Estamos prontos para prosseguir - disse Buckley.

- Chame a sua próxima testemunha - ordenou Noose a Buckley.

O patologista do laboratório criminal do estado foi chamado na antecâmara e entrou na sala. Normalmente, estaria demasiado ocupado para um simples julgamento e teria mandado um dos seus assistentes para explicar ao júri exactamente o que tinha provocado a morte de Cobb e de Willard. Mas este era o caso Hailey e ele achou que devia comparecer pessoalmente. Na verdade, era o caso mais simples que tinha visto nos últimos tempos. Os corpos tinham sido encontrados ainda com vida, a arma estava ao lado dos corpos, e havia perfurações em número suficiente nos dois homens para os matar uma dezena de vezes. Toda a gente sabia como aqueles homens tinham morrido. Mas o promotor insistiu numa descrição patológica minuciosa; assim, o médico sentou-se no banco das testemunhas, na quinta-feira de manhã, munido de uma infinidade de fotografias das autópsias e de gráficos anatómicos a cores.

Um pouco antes, no gabinete do juiz, Jake propusera que fossem eliminados os testemunhos sobre as causas das mortes, mas Buckley não concordara. Não, senhor, ele queria que o júri ouvisse e soubesse como os homens tinham morrido.

- Admitiremos que morreram devido aos ferimentos múltiplos provocados pelas balas de M-16 - disse Jake.

- Não, senhor. Tenho o. direito de provar isso - disse Buckley, teimoso.

- Mas ele está a oferecer-se para concordar quanto às causas da morte - disse Noose, incrédulo.

- Eu tenho o direito de provar - insistiu Buckley.

E assim fez. Num caso clássico de demasias promotoriais, Buckley provou tudo. Ao longo de três horas, o patologista disse quantas balas tinham atingido Cobb e quantas tinham atingido Wil lard e o que cada bala provocara ao penetrar e o terrível dano daí resultante. Os gráficos anatómicos foram expostos em cavaletes diante do júri, e o perito pegou numa bolinha de plástico numerada que representava uma bala e movimentou-a, devagarinho, através do corpo. Catorze bolinhas para Cobb e onze para Willard. Buckley fazia uma pergunta, obtinha uma resposta e interrompia para se alongar sobre um ponto.

- Meritíssimo, estamos dispostos a concordar quanto às causas da morte - anunciava Jake, inteiramente frustrado, a cada meia hora que passava.

- Não senhor - respondia Buckley muito sério, e passava para outra bolinha. Jake afundava-se na cadeira, meneava a cabeça e olhava para os jurados, para aqueles que estavam acordados.

O médico terminou ao meio-dia e Noose, cansado e morto de tédio, concedeu duas horas de intervalo para o almoço. Os jurados foram despertados pelo meirinho e conduzidos à sala do júri onde comeram churrasco especial em pratos de plástico, jogando depois às cartas. Estavam proibidos de sair do edifício do tribunal.

Em qualquer cidadezinha do sul há sempre um garoto que nasceu com vontade de ganhar dinheiro rapidamente. Era o miúdo que, aos cinco anos, montava a primeira barraca de limonada na sua rua e cobrava vinte e cinco cêntimos por um copo de água com sabor artificial de limão. Sabia que o gosto era horrível, mas sabia que os adultos achavam que o pequeno comerciante era adorável. Ele era o primeiro garoto da rua a comprar um cortador de relva a prestações, na Western Auto, e a bater às portas em Fevereiro, a fim de arranjar trabalho de jardinagem para o Verão. Era o primeiro garoto a pagar a própria bicicleta, que usava de manhã e de tarde para entregar jornais. Vendia cartões de Natal às velhinhas em Agosto. Vendia bolos de frutas, de porta em porta, em Novembro. Nas manhãs de sábado, quando os amigos viam desenhos animados na televisão, ele estava nas feiras a vender amendoins torrados e cachorros-quentes. Aos doze anos recebia a sua primeira caderneta bancária. Tinha o seu próprio banqueiro. Aos quinze, pagava à vista a pick-up, no mesmo dia em que passava no exame de condução de pesados. Comprava um trailer para acoplar na camionete e enchia-a de equipamento de jardinagem. Vendia t-shirts nos jogos de futebol do liceu. Era um furão; um futuro milionário.

Em Clanton, chamava-se Hinky Myrick. Dezasseis anos. Ele aguardou nervosamente, na antecâmara, até ao intervalo para o almoço. Depois passou pelos polícias e entrou na sala do tribunal. Os lugares eram tão preciosos que poucos espectadores saíam para almoçar. Alguns ficavam de pé, olhavam sisudos para os vizinhos, apontavam para a própria cadeira, informando todos que o lugar era seu e que só saíam para irem à casa-de-banho. Mas a maior parte ficava sentada, a guardar o seu espaço precioso durante todo o tempo do intervalo.

Hinky pressentiu uma oportunidade. Ele sabia reconhecer as necessidades das pessoas. Na quinta-feira, tal como fizera na quarta, entrou na sala do tribunal empurrando um carrinho com sanduí ches variadas e refeições em recipientes de plástico. Começou a gritar, a anunciar os seus produtos para os que estavam na outra extremidade dos bancos e o pedido passava de mão em mão. Foi empurrando o carrinho até a parte de trás da sala. Hinky era um tubarão. Uma sanduíche de atum em pão de forma custava dois dólares aos fregueses. A ele saía-lhe por um dólar e vinte e cinco. Um refrigerante em lata custava um dólar e meio. Mas todos estavam dispostos a pagar os preços dele para garantir os lugares. O carrinho esvaziava-se antes de chegar à quarta fila, a partir da frente, e Hinky começou a anotar os pedidos. Hinky era o homem providencial.

Com uma mão-cheia de pedidos, saiu a correr do edifício, atravessou o relvado, abriu caminho por entre o grupo de negros, atravessou a rua Caffey e entrou no Claude's. Correu para a cozi nha, deu vinte dólares ao cozinheiro e os pedidos. Esperou, olhando para o relógio. O cozinheiro trabalhava muito devagar. Hinky deu-lhe mais vinte dólares.

Claude nunca seria capaz de imaginar a onda de prosperidade provocada pelo julgamento. O pequeno-almoço e o almoço no seu pequeno restaurante eram agora verdadeiros happenings, com o número de fregueses sempre maior do que o número de cadeiras e a fila no passeio à espera de uma mesa sob o sol escaldante. A seguir à interrupção para almoço, na segunda-feira, Claude percorreu o centro de Clanton e comprou todas as mesas de jogo e cadeiras que encontrou. À hora do almoço, as passagens entre as mesas desapareciam e as empregadas eram obrigadas a difíceis manobras no meio das pessoas, negros na sua grande maioria.

O julgamento era o único tema das conversas. Na quarta-feira, a composição do júri foi criticada acerbamente. Na quinta-feira, todos falavam da crescente antipatia que sentiam pelo promotor.

- Ouvi dizer que ele quer ser candidato a governador. - Ele é democrata ou republicano?

- Democrata.

- Não pode vencer sem o voto dos negros, não neste estado. - Pois não, e não vai ter muitos depois deste julgamento. - Espero que seja candidato.

- Ele parece antes um republicano.

Antes do julgamento, a hora do almoço, em Clanton, começava ao meio-dia menos dez, quando as secretárias jovens, bronzeadas, bonitinhas e bem vestidas dos bancos, firmas de advocacia, companhias de seguros e do tribunal deixavam as suas mesas de trabalho e saíam para a rua. À hora do almoço, elas tratavam de várias coisas na praça. Iam ao correio. Aos bancos. Faziam compras. A maioria comprava o almoço na Casa Chinesa e comia nos bancos do parque à sombra das árvores, em volta do edifício do tribunal. Encontravam amigos e conversavam. Ao meio-dia, o coreto, em frente do tribunal, atraía mais mulheres bonitas do que um concurso de Miss Mississippi. Era uma tradição, em Clanton, as raparigas chegarem primeiro à praça e só voltarem para o trabalho à uma hora. Os homens chegavam ao meio-dia e ficavam a contemplá-las.

Mas o julgamento mudou tudo. As sombras das árvores, em volta do tribunal, eram agora zona de combate. Os cafés, das onze da manhã à uma da tarde, abarrotavam de soldados e de estranhos, que não encontravam lugar na sala do tribunal. A Casa Chinesa enchia-se de estranhos. As raparigas dos escritórios faziam o que tinham de fazer e comiam nas suas secretárias.

No Tea Shop, os banqueiros e outros profissionais liberais falavam sobre o julgamento, mais em termos de publicidade e do modo como a cidade estava a ser vista. Nenhum deles conhecia alguém ligado ao Klan, há muito tempo esquecido no norte do Mississippi. Mas os abutres adoravam os mantos brancos, e para o mundo lá fora, Clanton, Mississippi, era o centro do Ku Klux Klan. Detestavam o Klan por este ali estar. Criticavam a imprensa por mantê-los na cidade.

Ao almoço das quintas-feiras, o prato especial do dia, na Coffee Shop, era costeletas de porco fritas, nabiças e batata-doce caramelizada, creme de milho ou quiabo frito. Dell serviu o prato especial ao restaurante à cunha e perfeitamente dividido entre locais, estranhos e soldados. A lei, não escrita mas estabelecida, de não falar com ninguém que usasse barba ou que tivesse um sotaque diferente, era observada à risca e, para aquela gente amigável, era difícil não sorrir e conversar com as pessoas de fora. Uma arrogância silenciosa substituía agora o acolhimento caloroso dos primeiros dias depois dos crimes. Vários profissionais da imprensa tinham traído os seus anfitriões, com palavras ofensivas e injustas, nos artigos sobre a cidade e os seus habitantes. Era espantoso como eles podiam chegar de todos os cantos do país e, em menos de vinte e quatro horas, se tornarem especialistas em tudo o que dizia respeito a um lugar do qual nunca tinham ouvido falar e de uma gente que não conheciam.

As pessoas de Ford County viam-nos correr como idiotas atrás do xerife, do promotor, do advogado de defesa, ou de qualquer pessoa que pudesse saber qualquer coisa. Viam-nos nas trasei ras do edifício do tribunal como lobos famintos, prontos a lançarem-se sobre o acusado, invariavelmente cercado por polícias e que invariavelmente ignorava as perguntas ridículas gritadas à sua volta. A população olhava com desagrado para as câmaras assestadas sobre os homens do Klan e do grupo de negros, sempre à procura dos elementos mais radicais e depois mostrando-os como padrões. Observavam-nos e odiavam-nos.

- O que é aquela porcaria cor-de-laranja na cara dela? - perguntou Tim Nunley, olhando para a repórter sentada a uma mesa perto da janela.

Jack Jones mastigou o quiabo e estudou a cara cor-de-laranja. - Acho que é qualquer coisa que usam para as câmaras. Faz a cara dela parecer branca na televisão.

- Mas já é branca.

- Eu sei, mas não aparece branco na televisão se não estiver pintado de laranja.

Nunley não ficou convencido.

- Então, o que usam os negros na TV? - perguntou. Ninguém soube responder.

- Você viu-a na TV, a noite passada? - perguntou Jack.

- Não. De onde é ela?

- De Memphis. Ontem à noite, entrevistou a mãe de Cobb, e é claro que tanto fez que a mulher acabou em lágrimas. Tudo quanto mostraram foi o choro dela. Uma chatice! Na noite anterior, entrevistou um homem do Klan, de Ohio, a falar do que nós precisamos cá, no Mississippi. Ela é a pior de todas.

 

A promotoria encerrou o seu caso contra Carl Lee Hailey, na tarde da quinta-feira. Depois do almoço, Buckley pôs Murphy no banco das testemunhas. Foi um testemunho irritante e cansativo. O pobre homem gaguejou incontrolavelmente durante uma hora.

- Acalme-se, Sr. Murphy - disse Buckley umas cem vezes. Murphy fazia um gesto afirmativo e bebia um gole de água. Abanava a cabeça afirmativa ou negativamente, sempre que era possível, mas a taquígrafa tinha dificuldade em ver os seus movimentos de cabeça.

- Não entendi - dizia ela, de costas para a testemunha. Murphy tentava responder e ficava engasgado, geralmente num "p" ou num "t". De repente dizia algumas palavras, depois gaguejava incoerentemente.

- Não entendi - dizia ela, desanimada, quando ele parava de falar.

Buckley suspirava. Os jurados remexiam-se furiosamente nas cadeiras. Metade dos espectadores roía as unhas.

- Quer repetir? - dizia Buckley, com toda a paciência de que era capaz.

- Desh-sh-sh-sh-culpe - dizia Murphy constantemente. Era patético. Por fim, ficou estabelecido que ele estava a beber uma Coca-Cola na escada das traseiras, de frente para a escada onde os homens tinham sido mortos. Ele viu um homem negro espreitando pela porta de um pequeno armário a uns doze metros de onde ele estava. Mas não ligou importância. Então, quando os homens desceram a escada, o homem negro saiu do armário e abriu fogo, aos berros e a rir. Quando acabou de disparar, atirou a arma para longe e desapareceu. Sim, era ele, sentado ali. O negro. Noose fez buracos nas lentes dos óculos de tanto os esfregar, durante o depoimento de Murphy. Quando Buckley se sentou, o juiz olhou desesperado para Jake.

- Vai interrogar a testemunha? - perguntou desanimadamente.

Jake ficou de pé com um bloco-notas na mão. A taquígrafa olhou furiosa para ele. Harry Rex cochichou qualquer coisa. Ellen fechou os olhos. Os jurados torceram as mãos, olhando atentamente para ele.

- Não faça isso - murmurou Carl Lee, com voz firme. - Não, Meritíssimo, não temos nenhuma pergunta.

- Muito obrigado, Dr. Brigance - disse Noose, voltando a respirar.

A testemunha seguinte foi o polícia Rady, investigador do departamento do xerife. Informou o júri que tinha encontrado uma lata de Royal Crown Cola no armário perto da escada, com as impressões digitais de Carl Lee Hailey.

- Estava vazia ou cheia? - perguntou Buckley, dramaticamente.

- Completamente vazia.

Grande coisa, pensou Jake. Tinha sede. Lee Oswald comeu um frango enquanto esperava a passagem do carro de Kennedy. Não, não tinha nenhuma pergunta.

- Temos só mais uma testemunha, Meritíssimo - disse Buckley com voz decidida, às quatro horas da tarde. - O polícia DeWayne Looney.

Looney entrou na sala a coxear e apoiado numa bengala, e foi para o banco das testemunhas. Tirou o revólver do coldre e entregou-o ao Sr. Pate. Buckley olhou-o com orgulho. - Quer fazer o favor de dizer o seu nome, por favor?

- DeWayne Looney. - Endereço?

- Rua Bennington 1468, Clanton, Mississippi. - Quantos anos tem?

- Trinta e nove. - Onde trabalha? - No Departamento de Polícia de Ford County. - O que faz o senhor no departamento?

- Sou operador de rádio.

- Onde trabalhava na segunda-feira, 20 de Maio? - Era um sub-delegado.

- Estava de serviço?

- - Sim. Fui designado para escoltar dois elementos da cadeia para o tribunal e de volta para a cadeia.

- - Quem eram os dois elementos? - Billy Ray Cobb e Pete Willard. - A que horas saiu do tribunal com eles? - Mais ou menos, à uma e meia, penso eu. - Quem estava de serviço consigo?

- O agente Prather. Ele e eu estávamos encarregados dos dois elementos. Havia mais alguns sub-delegados no tribunal que nos ajudavam e dois ou três do lado de fora à nossa espera. Mas eu e o Prather estávamos encarregados dos dois.

- O que aconteceu quando terminou a audiência?

- Algemámos imediatamente Cobb e Willard e saímos da sala. Levámo-los para a sala e esperamos um ou dois segundos, e Prather desceu a escada.

- Que aconteceu depois?

- Começámos a descer a escada. Cobb na frente, depois Willard e depois eu. Como eu disse, Prather já tinha descido. Ele estava do lado de fora da porta.

- Sim, senhor. Depois o que é que aconteceu?

- Quando Cobb estava quase no fim da escada começaram os disparos. Eu estava no patamar, pronto para descer. A princípio, por um segundo, não vi ninguém, e aí vi o Sr. Hailey a disparar com a metralhadora. Cobb foi projectado para trás, em cima de Willard, e gritaram os dois e caíram um em cima do outro, a tentarem subir para onde eu estava.

- Sim, senhor. Descreva o que viu.

- Ouvi as balas a fazerem ricochete nas paredes, por todos os lados. A arma mais barulhenta que já ouvi e tive a impressão de que ele não ia parar de atirar. Os homens contorciam-se e debati am-se, sem parar de gritar. Estavam algemados, como o senhor doutor sabe.

- Sim, senhor. Que se passou consigo?

- Como eu disse, não cheguei a sair do patamar. Acho que uma das balas fez ricochete na parede e acertou-me na perna. Eu estava a tentar subir a escada quando senti a queimadura na perna. - E o que aconteceu à sua perna?

- Teve de ser cortada - disse Looney, calmamente, como se uma amputação fizesse parte da rotina. - Logo abaixo do joelho.

- O senhor viu bem o homem com a arma? - Vi, sim, senhor.

- Pode identificá-lo para o júri?

- Sim, senhor doutor. É o Sr. Hailey, aquele que está ali sentado.

Seria lógico que com esta resposta se desse por concluído o depoimento de Looney. O sub-delegado foi breve, directo, sincero e positivo na identificação. Até ali o júri tinha ouvido cada uma das palavras. Mas Buckley e Musgrove foram buscar os diagramas do edifício do tribunal e puseram-nos na frente do júri para que Looney pudesse coxear um pouco pela sala. Orientado por Buckley, ele reconstruiu os movimentos exactos de cada um, antes dos assassinatos.

Jake passou a mão pela testa e apertou o nariz. Noose limpou e tornou a limpar os óculos. Os jurados ficaram irrequietos. - Deseja interrogar a testemunha, Dr. Brigance? - perguntou Noose, finalmente.

- Apenas algumas perguntas - disse Jake enquanto Musgrove retirava o entulho da sala.

- Agente Looney, para quem olhava Carl Lee enquanto disparava?

- Para os homens, pelo que eu pude ver. - Alguma vez ele olhou para o senhor?

- Bem, para dizer a verdade, eu também não passei muito tempo a tentar olhá-lo nos olhos. Na verdade, eu ia em sentido contrário. - Então, ele não apontou para si?

- Ah, não, senhor. Ele só apontou para os homens. E acertou. - Que fazia ele enquanto disparava?

- Ele gritava e ria como um doido. Foi a coisa mais impressionante que já ouvi, como se ele estivesse louco ou coisa assim. E o senhor sabe? O que eu nunca vou esquecer é que, com todo aquele barulho, os tiros, as balas a assobiar, os homens a gritar, acima de todo aquele barulho eu ouvia o riso dele, aquele riso de louco. A resposta foi tão perfeita que Jake teve de reprimir um sorriso. Ele e Looney tinham ensaiado uma centena de vezes e era uma obra de arte. Cada palavra era perfeita. Jake consultou as suas anotações e lançou um olhar aos jurados. Todos fitavam Looney, fascinados com a resposta. Jake rabiscou qualquer coisa, nada, só para ganhar mais alguns segundos antes das perguntas mais importantes do julgamento.

- Agora, agente Looney, Carl Lee Hailey atingiu-o na perna?

- Sim, senhor doutor, atingiu.

- O senhor acha que foi intencional? - Oh, não, senhor. Foi um acidente.

- O senhor quer que ele seja punido por tê-lo atingido?

- Não, senhor, não tenho nada contra o homem. Ele fez o que eu teria feito.

Buckley deixou cair a caneta e afundou-se na cadeira. Olhou tristemente para a sua testemunha principal.

- O que quer dizer com isso?

- Quero dizer que não o culpo pelo que fez. Aqueles homens violaram a filhinha dele. Eu tenho uma filhinha. Alguém viola a minha filha e é um cão morto. Eu rebento com ele, como fez o Carl Lee. A gente devia dar-lhe um prémio!

- Quer que o júri condene o Carl Lee? Buckley deu um pulo e rugiu.

- Protesto! Protesto! Pergunta inadequada!

- Não! - bradou Looney. - Não quero que seja condenado. Ele é um herói. Ele...

- Não responda, Sr. Looney - disse Noose, em voz alta. - Não responda!

- Protesto! Protesto! - continuava Buckley a gritar, em bicos de pés.

- Ele é um herói! Soltem-no! - berrou Looney para Buckley. - Ordem! Ordem! - Noose bateu com o martelo.

Buckley aquietou-se. Looney aquietou-se. Jake caminhou para sua cadeira e disse:

- Retiro a pergunta.

- Por favor, desconsiderem a pergunta - instruiu Noose dirigindo-se ao júri.

Looney sorriu para os jurados e saiu a coxear da sala do tribunal.

- Chame a próxima testemunha - disse Noose tirando os óculos.

Buckley levantou-se devagar e, esforçando-se por manter a pose teatral, disse:

- Meritíssimo, o estado dá por encerrada a inquirição de testemunhas.

- Óptimo - disse Noose, olhando para Jake. - Suponho que tenha uma ou duas moções, Dr. Brigance.

- Tenho, Meritíssimo.

- Muito bem, trataremos disso no meu gabinete.

Noose dispensou o júri com as mesmas instruções dos outros dias e o tribunal entrou em descanso até às nove horas de sexta-feira.

 

Jake acordou no escuro com uma leve ressaca, uma dor de cabeça provocada pelo cansaço e pela cerveja e com o som distante da campainha tocada com insistência, como se alguém se tivesse esquecido do dedo em cima do botão. Abriu a porta da frente, metido na sua enorme camisa de dormir, e tentou concentrar-se nos dois vultos parados na varanda. Ozzie e Nesbit, reconheceu por fim.

- Posso ajudá-los? - perguntou Jake, abrindo a porta. Os dois polícias seguiram-no até à sua sala de trabalho. - Eles vão matá-lo hoje - disse Ozzie.

Jake sentou-se no sofá e massajou as têmporas. - Talvez consigam.

- Jake, isto é sério. Planeiam matá-lo. - Quem?

- O Klan.

- Mickey Mouse?

- Isso mesmo. Telefonou ontem e disse que andavam a planear qualquer coisa. Telefonou outra vez, há duas horas, e disse que o felizardo é o doutor!... Hoje é o grande dia. É a hora do barulho. Vão enterrar Stump Sisson hoje de manhã em Loydsville e chegou a hora do olho por olho, dente por dente.

- Porquê eu? Porque não matam o Buckley, o Noose, ou alguém mais merecedor?

- Não tivemos oportunidade de discutir isso.

- Qual é o método da execução? - perguntou Jake, de repente embaraçado com a sua grande camisa de dormir.

- Ele não disse. - Ele sabe?

- Não entrou muito em detalhes. Disse só que tentariam fazer a coisa hoje, numa determinada altura.

- E o que é que eu devo fazer? Render-me? - A que horas vai para o escritório?

- Que horas são? - Quase cinco.

- Assim que tomar banho e me vestir. - Nós esperamos.

Às cinco e meia, os dois polícias fizeram-no entrar rapidamente no escritório e fecharam a porta. Às oito, um pelotão de soldados reuniu-se no passeio, debaixo da sacada, e esperou pelo alvo.

Harry Rex e Ellen observavam do segundo andar do tribunal. Jake deixou-se espremer entre Ozzie e Nesbit, e agacharam-se os três no centro de uma formação cerrada. Dali partiram para o outro lado da rua Washington na direcção do tribunal. Os abutres farejaram alguma coisa e rodearam a comitiva.

O moinho abandonado ficava perto dos carris do caminho-de-ferro abandonado, a meio caminho da colina mais alta de Clanton, dois quarteirões a norte e leste da praça. Ao lado, havia uma rua esquecida, de asfalto e cascalho, que descia a colina e atravessava a rua Cedar, tornando-se depois muito mais lisa e mais larga e continuava a descer, até finalmente desembocar na rua Quincy, o limite leste da praça de Clanton.

Da sua posição no interior do silo abandonado, o atirador , tinha uma visão clara mas distante das traseiras do edifício do tribunal. Agachado no escuro e a fazer pontaria através de uma pequena abertura, acreditava que ninguém no mundo o podia ver. O uísque favorecia a confiança e a pontaria, que ele ajustou mil vezes das sete e meia até às oito, quando notou movimento em volta do escritório do advogado do preto.

Um companheiro esperava numa pick-up escondida num armazém em ruínas perto do silo. O motor estava ligado e o motorista acendia um cigarro atrás do outro, esperando ansiosamente ouvir os estampidos da espingarda de caçar veados.

Quando o grupo armado começou a atravessar a rua Washington, o atirador entrou em pânico. Pela mira telescópica, mal avistava a cabeça do advogado do negro quando ela subia e descia no meio de um mar de verde, que era cercado e perseguido por uma dúzia de repórteres. Vá em frente, disse o uísque, arme alguma confusão. Calculou o melhor que pôde a duração de cada movimento da cabeça e apertou o gatilho quando o alvo se aproximou da porta das traseiras do tribunal.

O estampido da espingarda soou claro e inequívoco.

Metade dos soldados atirou-se ao chão, a rebolar, e a outra metade agarrou em Jake e atirou-o violentamente para debaixo da varanda. Um soldado gritou de dor. Os repórteres e o pessoal da televisão agacharam-se e tropeçaram, caindo no chão, mas valentemente mantiveram as câmaras a filmar para registar a chacina. O soldado levou a mão à garganta e tornou a gritar. Outro tiro. E depois outro.

- Ele está ferido! - gritou alguém.

Os soldados por terra deslocaram-se de gatas até onde estava o caído. Jake escapuliu-se pelas portas para a segurança do tribunal. Deitou-se no chão da entrada das traseiras e enterrou a cabeça

nas mãos. Ozzie estava ao lado dele, a observar os soldados através da porta.

O atirador saltou do silo, atirou a arma para trás do assento traseiro e desapareceu com o camarada na zona rural. Tinham de ir a um enterro no sul do Mississippi.

- Ele está ferido na garganta! - gritou alguém, enquanto os seus companheiros abriam caminho por entre os repórteres. Ergueram-no do chão e puseram-no num jipe.

- Quem foi ferido? - perguntou Jake, sem tirar as mãos dos olhos.

- Um dos soldados - disse Ozzie - Está bem, Jake?

- Acho que sim. - Jake cruzou as mãos na nuca e olhou para o chão. - Onde está a minha pasta?

- Lá fora, na entrada. Vamos buscá-la num minuto. - Ozzie tirou o rádio do cinto e deu algumas ordens ao operador, qualquer coisa sobre polícias no tribunal.

Quando parecia que o tiroteio tinha acabado, Ozzie aproximou-se dos soldados, na rua. Nesbit ficou ao lado de Jake.

- O doutor está bem? - perguntou ele.

O coronel apareceu na esquina, a gritar e a esbracejar.

- Que diabo é que aconteceu? - perguntou. - Ouvi uns tiros.

- Mackenvale foi ferido. - Onde está ele?

- A caminho do hospital - respondeu um sargento, apontando para um jipe que desaparecia ao longe.

- O ferimento é grave?

- Parece que sim. Acertou na garganta. - Na garganta! Porque o removeram? Ninguém respondeu.

- Alguém viu alguma coisa? - perguntou o coronel.

- Pelo som, parece ter vindo daquela encosta - disse Ozzie, olhando para além da rua Cedar. - Porque não manda um jipe investigar?

- Boa ideia.

O coronel deu algumas ordens, pontuadas por muitos palavrões. Os soldados espalharam-se em todas as direcções, empunhando as armas e prontos para combate, à procura de um assassi no que não podiam identificar e que, na verdade, já estava noutro condado quando a patrulha de infantaria começou a revistar o moinho abandonado.

Ozzie pôs a pasta no chão, ao lado de Jake.

- Jake está bem? - perguntou a Nesbit, em voz baixa. Harry Rex e Ellen estavam na escada onde Cobb e Willard tinham sido mortos.

- Não sei. Há dez minutos que não se mexe - disse Nesbit. - Jake, como é que se sente? - perguntou o xerife.

- Estou bem- disse Jake, sem abrir os olhos.

O soldado estava encostado ao seu ombro esquerdo. Tinha acabado de dizer a Jake, "isto é um bocado idiota, não é?", quando a bala lhe atravessara a garganta. Caíra em cima de Jake, com a mão no pescoço, gorgolejando sangue e a gritar. Jake caíra e fora empurrado para a varanda.

- Ele está morto, não está? - perguntou Jake, em voz baixa. - Não sabemos ainda - respondeu Ozzie. - Está no hospital.

- Está morto. Eu sei que está. Ouvi quando o pescoço dele estalou.

Ozzie olhou para Nesbit, depois para Harry Rex. No fato cinzento-claro de Jake havia quatro ou cinco manchas de sangue. Só ele não as tinha ainda visto.

- Jake, o seu fato está manchado de sangue - disse Ozzie, finalmente. - Vamos voltar ao seu escritório para que possa mudar de roupa.

- Que importância é que isso tem? - resmungou Jake, a olhar para o chão. Entreolharam-se.

Dell e os outros do Coffee Shop, de pé no passeio, viram os polícias escoltar Jake do tribunal para o escritório, ignorando as perguntas absurdas dos repórteres. Harry Rex fechou a porta da frente à chave, deixando os guarda-costas no passeio. Jake subiu e tirou o casaco.

- Row Ark, por que não prepara umas margaritas? - disse Harry Rex. - Vou subir e ficar com ele.

- Sr. Dr. Juiz, tivemos alguns problemas - disse Ozzie, enquanto Noose tirava os papéis da pasta e depois o casaco.

- O que foi? - indagou Buckley.

- Tentaram matar o Dr. Jake, esta manhã. - O quê? Quando? - perguntou Buckley.

- Há uma hora, mais ou menos. Alguém disparou sobre o Sr. Jake quando ele ia entrar no tribunal. Foi uma espingarda de longo alcance. Não sabemos quem foi. Erraram o alvo e atingiram um soldado. Ele está a ser operado agora.

- Onde está o Jake? - perguntou o meritíssimo. - No escritório dele. Está muito abalado.

- Eu também estaria - disse Noose.

- Ele pediu para o senhor lhe telefonar quando chegasse. - Claro.

Ozzie discou o número e estendeu o auscultador ao juiz.

- É o Noose - disse Harry Rex, entregando o auscultador a Jake.

- Está.

- Você está bem, Jake?

- Na verdade, não. Não vou aí hoje. Noose não sabia o que dizer.

- Vai fazer o quê?

- Eu disse que não vou ao tribunal hoje. Não estou disposto. - Bem, Jake, e nós, o que vamos fazer, então?

- Não quero nem saber - disse Jake, bebericando a sua segunda margarita.

- Que foi que disse?

- Eu disse que não quero nem saber, Sr. Dr. Juiz. Não quero saber o que o senhor vai fazer, eu não estarei aí.

Noose abanou a cabeça e olhou para o auscultador. - Está ferido, Jake? - perguntou, preocupado. - Já alguém disparou sobre si, Sr. Dr. Juiz?

- Não, Jake.

- Já viu um homem receber um tiro, ouviu o grito dele? - Não, Jake.

- Já teve o sangue de alguém a espirrar para cima do seu fato? - Não, Jake.

- Não vou estar presente.

Noose fez uma pausa e pensou por um momento. - Venha cá, Jake, e vamos conversar sobre isso.

- Não. Não vou sair do meu escritório. É muito perigoso aí fora.

- Que tal suspendermos a sessão até à uma hora. Vai sentir-se melhor nessa altura?

- À uma hora, vou estar bêbedo. - O quê?!

- Eu disse que, à uma hora, vou estar bêbedo.

Harry Rex cobriu os olhos com a mão. Ellen foi para a cozinha.

- Quando é que acha que poderá estar sóbrio? - perguntou Noose, secamente.

Ozzie e Buckley entreolharam-se. - Na segunda-feira.

- Que tal amanhã? - Amanhã é sábado.

- Sim, eu sei, e tinha planeado continuar o julgamento amanhã. Temos um júri de quarentena, lembra-se?

- Muito bem, pronto! Estarei pronto amanhã, de manhã.

- É bom ouvir isso. Que digo ao júri agora? Eles estão na sala dos jurados à nossa espera. O tribunal está cheio. O seu cliente está sentado sozinho, à sua espera. Que digo eu a essa gente?

- Pense numa coisa qualquer, Sr. Dr. Juiz. Confio em si. - Jake desligou.

Noose ficou a ouvir, incrédulo, até não haver dúvidas de que Jake tinha mesmo desligado na sua cara. Entregou o auscultador a Ozzie. O meritíssimo olhou pela janela e tirou os óculos.

- Ele disse que não vem ao tribunal hoje. Incaracteristicamente, Buckley ficou em silêncio. Ozzie mantinha-se na defensiva.

- Ele ficou muito abalado, Sr. Dr. Juiz. - Ele anda a beber?

- Não, não o Jake - respondeu Ozzie. - Só ficou abalado com o soldado que levou o tiro. Ele estava ao lado de Jake e foi atingido pela bala que lhe era destinada a ele. Isso transtornaria qualquer um, Sr. Dr. Juiz.

- Ele quer que fiquemos em interrupção até amanhã, de manhã - disse Noose a Buckley, que encolheu os ombros e novamente não disse nada.

Quando a notícia se espalhou, um verdadeiro carnaval instalou-se no passeio em frente do escritório de Jake. A imprensa acampou perto da porta, a espreitar pelas janelas, na esperança de avistar alguém que pudesse ser notícia. Amigos paravam para saber de Jake, mas os repórteres informavam que ele estava fechado lá dentro e não queria sair. Não, ele não estava ferido.

O Dr. Bass estava programado para testemunhar nessa manhã. Ele e Lucien entraram no escritório pela porta das traseiras, alguns minutos depois das dez, e Harry Rex saiu para a loja de bebidas.

Com o choro todo, foi difícil a conversa com Carla. Jake telefonou-lhe depois da terceira bebida e as coisas não correram bem. Jake falou com o pai de Carla, disse que estava seguro, incólume, e que metade da guarda nacional do Mississippi estava incumbida de o proteger. Tranquilize-a, disse; mais tarde voltaria a ligar.

Lucien estava furioso. Tinha lutado com Bass para o conseguir manter sóbrio, na noite de quinta-feira, a fim de que pudesse depor na sexta-feira. Agora que ele iria depor no sábado, não tinha maneira de o manter sóbrio dois dias seguidos. Pensou em todos os copos que perdera na quinta-feira e ficou furioso.

Harry Rex voltou com bastante álcool. Ele e Ellen prepararam as bebidas, discutindo sobre os ingredientes. Ela lavou o bule de café, encheu-o de Bloody Mary e uma quantidade absurda de vodka sueca. Harry Rex acrescentou uma dose generosa de Tabasco e serviu as bebidas na sala de conferências, enchendo os copos assim que estes se esvaziavam.

O Dr. Bass bebeu freneticamente e pediu mais. Lucien e Harry Rex falavam da provável identidade do atirador. Ellen, em silêncio, observava Jake que, sentado num canto, olhava fixamente para a estante dos livros. O telefone tocou. Harry Rex atendeu e ouviu com atenção. Desligou e disse:

- Era o Ozzie. O soldado já saiu da sala de cirurgia. A bala está alojada na espinha. Acham que vai ficar paralítico.

Todos beberam sem dizer nada, esforçando-se por ignorar Jake que passava uma das mãos pela testa, segurando a bebida com a outra. Ouviram bater ao de leve na porta das traseiras.

- Vá ver quem e - ordenou Lucien a Ellen, que saiu para ver quem batia.

- É Lester Hailey - disse ela reaparecendo na sala de conferências.

- Deixe-o entrar - resmungou Jake, quase incoerentemente. Lester foi apresentado a todos, e convidado a tomar um Bloody Mary. Recusou e pediu alguma coisa com uísque.

- Boa ideia - disse Lucien. - Estou farto de coisas leves. Vamos beber um Jack Daniel's.

- Boa ideia - disse Bass, esvaziando a chávena que tinha na mão.

Jake sorriu palidamente para Lester e voltou a olhar para a estante. Lucien pôs uma nota de cem dólares na mesa e Harry Rex saiu para a loja de bebidas.

Quando acordou horas mais tarde, Ellen estava no sofá do escritório de Jake. A sala estava escura e vazia, com um forte cheiro a álcool no ar. Andando com cuidado, chegou à sala de guerra, onde o seu chefe ressonava, deitado no chão, com uma parte do corpo debaixo da mesa. Todas as luzes estavam apagadas, e Ellen desceu a escada cautelosamente. A sala de conferências estava cheia de garrafas vazias, latas de cerveja, copos de plástico e caixas de galinha frita. Eram nove e trinta da noite. Tinha dormido cinco horas.

Ellen podia ficar em casa de Lucien, mas precisava de mudar de roupa. O seu amigo Nesbit podia levá-la a Oxford, mas ela estava sóbria. Além disso, Jake precisava da maior protecção possível. Fechou a porta da frente e foi para o seu carro. Estava quase em Oxford quando viu as luzes azuis atrás dela. Como habitualmente, conduzia a cento e vinte à hora. Estacionou na berma, e encaminhou-se para as lanternas traseiras do seu carro, onde procurou qualquer coisa na bolsa e ficou à espera da polícia. Dois homens à paisana aproximaram-se, vindos das luzes azuis.

- Está embriagada, minha senhora? - perguntou um deles, cuspindo tabaco de mascar.

- Não, senhor. Estou à procura da minha carteira. Ela inclinou-se em frente das luzes e tratou de pegar na carteira dentro da bolsa. De repente, foi golpeada e caiu no chão. Os homens cobri ram-na com um cobertor e passaram-lhe uma corda à volta da cintura e do peito. Ela esperneou e esbracejou, mas não pôde oferecer muita resistência. O cobertor cobria-lhe a cabeça e prendia-lhe os braços. Os homens puxaram a corda com força, apertando-a.

- Quieta, sua ordinária. Esteja quieta!

Um deles tirou as chaves da ignição e abriu a mala do carro. Atiraram-na lá para dentro e fecharam a mala. Retiraram as luzes azuis da capota do velho Lincoln e arrancaram a toda velocidade com os dois carros. Encontraram uma estrada de cascalho e, seguindo por ela, o Lincoln e o BMW entraram no bosque, que deu lugar a uma estrada de terra levando a uma pequena pastagem onde uma cruz enorme estava a ser incendiada por um punhado de homens do Klan.

Os dois assaltantes vestiram rapidamente os mantos brancos e as máscaras e tiraram Ellen da mala do carro, atiraram-na ao chão e retiraram o cobertor que a cobria. Amarraram-na, amordaçaram-na, depois arrastaram-na para uma grande estaca a poucos passos da cruz onde foi atada, de costas voltadas para os homens do Klan, o rosto para a estaca.

Ela viu os mantos brancos e os capuzes pontagudos e tentou desesperadamente cuspir o trapo de algodão oleoso enfiado na boca. Conseguiu apenas engasgar-se e tossir.

A cruz em chamas iluminava a pequena pastagem, libertando uma onda ardente de calor que começou a assá-la enquanto ela lutava com a estaca e emitia estranhos ruídos guturais.

Um vulto encapuçado destacou-se dos outros e aproximou-se dela. Ellen ouvia-o caminhar e respirar.

- Sua ordinária, amiga de pretos - disse ele com o sotaque áspero do middlewest. Agarrou na parte de trás da gola e rasgoulhe a blusa branca até a deixar em tiras em volta do pescoço e dos ombros. As mãos de Ellen estavam amarradas fortemente à estaca. O homem sacou do manto uma faca do mato e começou a cortar o que restava da blusa.

- Sua ordinária, amiga de pretos. Sua ordinária, amiga de pretos.

Ellen insultou o homem, mas as suas palavras eram gemidos abafados. Ele abriu o fecho-éclair do lado direito da saia de linho azul-marinho. Ela tentou defender-se com pontapés, mas os tornozelos estavam presos com corda à estaca. O homem pôs a ponta da faca na parte superior do fecho, e cortou até abaixo seguindo a bainha. Segurou a saia pela cintura e puxou-a, como um mágico. Os homens do Klan deram um passo à frente. O homem deu uma palmada na nádega dela e disse:

- Bonita, muito bonita. - Recuou para admirar o seu trabalho. Ela grunhia e contorcia-se, mas não podia resistir. A combinação escorregou para o meio das coxas. Com grande cerimónia ele cortou as alças, depois retalhou-a cuidadosamente nas costas. Arrancou-a com um puxão e atirou-a aos pés da cruz em chamas. Cortou as alças do soutien e retirou-o. Ela contraiu-se e os gemidos tornaram-se mais audíveis. O semicírculo silencioso avançou um pouco e parou a cerca de três metros.

O fogo estava agora muito quente. O suor gotejava nas costas e nas pernas nuas de Ellen. O cabelo louro-avermelhado estava encharcado em volta do pescoço e dos ombros. O homem enfiou a mão sob o manto e puxou por um chicote. Fê-lo estalar com força perto dela, e ela encolheu-se. Ele recuou alguns passos, medindo cuidadosamente a distância que o separava da estaca.

Ele ergueu o chicote e visou as costas nuas. O mais alto do grupo adiantou-se, de costas para ela, e meneou a cabeça. Nada foi dito, mas o chicote desapareceu.

Aproximou-se dela e segurou-lhe a cabeça. Com a faca cortou-lhe o cabelo. Agarrava as mechas e cortava-as até o couro cabeludo ficar à mostra. O cabelo cortado empilhava-se a seus pés. Ela gemia e não se mexia.

Os homens dirigiram-se para os seus carros. Esvaziaram um galão de gasolina dentro do BMW com placas de Massachusetts e alguém atirou um fósforo aceso.

Quando teve a certeza de que todos tinham partido, Mickey Mouse saiu do meio das moitas. Desamarrou Ellen e levou-a para uma pequena clareira, longe da pastagem. Recolheu o que restava das roupas dela e procurou tapá-la. Quando o carro dela acabou de arder, ao lado da estrada de terra, ele deixou-a. Pegou no seu próprio carro e, ao chegar a Oxford, foi até um telefone público e ligou para o xerife de Lafayette County.

 

Sessões de tribunal ao sábado eram raras, mas não inauditas, especialmente nos casos de crime de morte, quando o júri ficava isolado. Os participantes não reclamavam porque o sábado encurtava um dia ao fim do julgamento.

As pessoas da cidade também não se importavam. Ninguém trabalhava ao sábado e para muitos era a única oportunidade de assistir ao julgamento, ou, se não conseguissem um lugar na sala do tribunal, pelo menos andar pela praça e saber das notícias em primeira mão. Quem sabe, até podia haver mais tiroteios.

Às sete horas, os cafés do centro da cidade estavam cheios, a abarrotar de estranhos. Para cada freguês que conseguia um lugar, dois eram recusados e tinham de se contentar em andar pela praça, ou tentar uma vaga na sala do tribunal. Muitos paravam por alguns instantes na frente do escritório do advogado, esperando ver o homem que sofrera um atentado. Vários se gabavam de serem clientes daquele homem famoso.

No segundo andar, o alvo, sentado à mesa de trabalho, tomava a mistura vermelha que tinha sobrado da noite anterior. Fumou um charuto, tomou analgésicos para a dor de cabeça e tentou tirar as teias de aranha do cérebro. Esquece o soldado, repetia mentalmente, há três horas. Esquece o Klan, as ameaças, esquece tudo, menos o julgamento, e especialmente o Dr. W T. Bass. Resmungou uma breve oração, pedindo para o Dr. Bass estar sóbrio quando se sentasse no banco das testemunhas. O médico e Lucien tinham passado a tarde toda a beber e a discutir, acusando-se um ao outro de alcoolismo e de terem sido excluídos desonrosamente das respectivas profissões. Quando estavam de saída, quase se engalfinharam perto da secretária de Ethel. Nesbit interveio e conduziu-os até ao carro e depois a casa. Os repórteres ferveram de curiosidade quando os dois homens completamente embriagados saíram do escritório de Jake e entraram no carro da polícia, onde continuaram a discutir e a trocar impropérios, Lucien no banco de trás, Bass ao lado de Nesbit.

Jake releu a obra-prima de Ellen sobre a defesa baseada na alegação de insanidade mental. Fez pequenas modificações na lista de perguntas que devia fazer ao Dr. Bass. Estudou o currículo do médico. Nada de importante, mas o suficiente para Ford County. O psiquiatra mais próximo estava a cento e trinta quilómetros de Clanton.

O juiz Noose viu de relance o promotor e olhou compassivo para Jake, que sentado perto da porta contemplava o retrato desbotado de algum juiz morto, dependurado por cima do ombro de Buckley.

- Como se sente hoje, Jake? - perguntou Noose calorosamente.

- Estou óptimo.

- Como está o soldado? - perguntou Buckley. - Paralítico.

Noose, Buckley, Musgrove e o Sr. Pate olharam para o mesmo ponto no tapete e abanaram as cabeças soturnamente em sinal de respeito.

- Onde está a sua estagiária? - perguntou Noose, olhando para o relógio na parede. Jake consultou o seu relógio de pulso. - Não sei. Contava que já tivesse chegado.

- Está pronto? - Claro.

- A sala do tribunal está pronta, Sr. Pate? - Sim, senhor.

- Muito bem. Então vamos.

Noose mandou sentar toda a gente e durante dez minutos apresentou aos jurados uma justificação desconexa pelo adiamento do dia anterior. Eles eram os únicos catorze moradores do condado que não sabiam o que tinha acontecido na sexta-feira de manhã, e podia ser prejudicial contar-lhes. Noose alargou-se monotonamente sobre emergências e em como, às vezes, durante os julgamentos as coisas conspiram para provocar protelações. Quando conseguiu terminar, os jurados, completamente atordoados, pediam a Deus para que alguém chamasse uma testemunha.

- Pode chamar a sua primeira testemunha - disse Noose a Jake.

- Dr. W T Bass - anunciou Jake, caminhando para o pódio. Buckley e Musgrove trocaram olhares e sorrisos idiotas. Bass estava sentado junto a Lucien na segunda fila, no meio da família. Levantou-se atabalhoadamente e andou na direcção da passagem central, pisando pés e agredindo pessoas com a sua pesada pasta de couro vazia. Jake ouviu a agitação nas suas costas e continuou a sorrir para o júri.

- Eu juro, eu juro - Bass disse rapidamente quando Jean Gillespie começou a ler o juramento.

O Sr. Pate conduziu-o ao banco das testemunhas, e deu a ordem habitual de falar alto e usar o microfone. Embora acanhado e com uma tremenda ressaca, o perito mantinha uma pose arrogante e sóbria. Estava com seu melhor fato cinzento, de lã tecida à mão, camisa social branca, muito limpa e engomada, e um laço de lã escocesa estampado de vermelho que lhe dava um ar muito intelectual. Parecia mesmo um perito. Apesar das objecções de Jake, calçava botas de cow-boy de pele de avestruz cinzenta, pelas quais tinha pago mais de mil dólares e tinha usado menos de uma dúzia de vezes. Lucien insistira nas botas onze anos antes, no primeiro processo envolvendo insanidade mental. Bass usou-as e o réu, perfeitamente são de espírito, foi parar à penitenciária de Parchman. Usou-as no segundo processo de insanidade, novamente a pedido de Lucien; novamente, Parchman. Lucien passou a chamá-las o amuleto da sorte de Bass.

Jake não queria saber das malditas botas. Mas o júri podia gostar delas, argumentou Lucien. Não de botas caras de pele de avestruz, contrapôs Jake. Eles são muito ignorantes para perceberem a diferença, retrucou Lucien. Jake não ficou convencido. Os parolos brancos confiam em alguém que usa botas, explicou Lucien. Pois então, disse Jake, que use um par de botas camufladas de caçar esquilos, com um bocado de lama nos calcanhares e nas solas, botas com que pudessem, realmente, identificar-se. Essas não completavam o fato dele, tinha dito Bass.

Cruzou as pernas, pondo a bota direita sobre o joelho esquerdo para que fosse vista. Sorriu para ela, depois sorriu para o júri. A avestruz teria ficado orgulhosa. Jake ergueu os olhos das suas anotações para o pódio e viu a bota, perfeitamente visível acima da grade do banco das testemunhas. Bass contemplava-a, os jurados examinavam-na. Jake engasgou-se e voltou às suas anotações.

- Diga o seu nome, por favor.

- Dr. W T. Bass - respondeu ele, desviando os olhos da bota e olhando para Jake, muito sério.

- Qual é o seu endereço?

- West Canterbury 908, Jackson, Mississippi. - Qual é sua profissão?

- Sou médico.

- Tem licença para praticar a medicina no Mississippi? - Tenho.

- Quando tirou a licença?

- A oito de Fevereiro de 1963.

- Tem licença para praticar a medicina em qualquer outro estado?

- Sim. - Onde? - No Texas.

- Quando obteve essa licença? - A três de Novembro de 1962. - Onde fez a faculdade?

- Recebi o meu diploma de bacharel no Millsaps College em 1956, e o título de doutor em medicina no Health Science Center da Universidade do Texas, em Dallas, em 1960.

- É uma faculdade de medicina reconhecida?

- Sim.

- Por quem?

- Pelo Conselho de Educação Médica e de Hospitais da Associação Médica Americana, o órgão regulamentador da nossa profissão, e pelo departamento de educação do estado do Texas.

Bass descontraiu-se um pouco, descruzou e cruzou de novo as pernas, exibindo a bota do pé esquerdo. Balançou-se levemente e virou parcialmente para o lado do júri a confortável cadeira giratória.

- Onde foi interno e por quanto tempo?

- Depois de me formar na faculdade de medicina, passei doze meses como interno, no Centro Médico de Rocky Mountain, em Denver.

- Qual é a sua especialidade? - Psiquiatria.

- Explique-nos o que isso significa.

- A psiquiatria é o ramo da medicina que se ocupa do tratamento dos distúrbios da mente. De um modo geral, mas nem sempre, lida com a disfunção mental, cuja base orgânica é desconhecida.

Jake respirou pela primeira vez desde que Bass se tinha sentado no banco. O seu médico estava a causar boa impressão.

- Agora, doutor - disse Jake, aproximando-se calmamente do júri -, descreva ao júri o treino especializado que recebeu no campo da psiquiatria.

- O meu treino especializado em psiquiatria consistiu em dois anos como residente em psiquiatria do Hospital Psiquiátrico do Estado do Texas, um centro de estudos reconhecido. Participei de trabalho clínico com pacientes psico-neuróticos e psicóticos. Estudei psicologia, psicopatologia, psicoterapia e as terapias fisiológicas. Esse treino, supervisado por competentes professores de psiquiatria, incluía instrução nos aspectos psiquiátricos da medicina geral, nos aspectos comportamentais de crianças, adolescentes e adultos.

Era duvidoso que uma só pessoa na sala do tribunal compreendesse uma palavra do que Bass acabava de dizer, mas ela vinha da boca de um homem que, de repente, parecia ser um génio, um perito, pois tinha de ser um homem de grande sabedoria e inteligência para pronunciar aquelas palavras. Com o laço e o vocabulário, e a despeito das botas, Bass ganhava credibilidade a cada resposta.

- O senhor é diplomado pelo Conselho Americano de Psiquiatria?

- É claro - respondeu Bass, confiante. - Em que ramo é diplomado?

- Sou diplomado em psiquiatria. - E quando obteve o diploma? - Em Abril de 1967.

- O que é preciso fazer para ser diplomado pelo Conselho Americano de Psiquiatria?

- O candidato deve passar nos exames oral e prático, bem como num teste escrito na sede do Conselho.

Jake consultou as suas notas e viu Musgrove piscar o olho a Buckley.

- Doutor, o senhor pertence a algum grupo de profissio

nais?

- Sim.

- Diga os nomes, por favor.

- Sou membro da Associação Americana de Medicina, da Associação Americana de Psiquiatria e da Associação de Medicina do Mississippi.

- Há quanto tempo pratica a psiquiatria? - Vinte e dois anos.

Jake deu três passos na direcção do juiz e encarou Noose, que observava com atenção.

- Meritíssimo, a defesa apresenta o Dr. Bass como perito no campo da psiquiatria.

- Muito bem - respondeu Noose. - Quer interrogar a testemunha, Dr. Buckley?

O promotor levantou-se com seu bloco-notas na mão. - Sim, Meritíssimo, tenho algumas perguntas. Surpreeendido mas não preocupado, Jake ocupou o seu lugar junto a Carl Lee. Ellen ainda não estava no tribunal.

- Dr. Bass, em sua opinião o senhor é um perito no campo da psiquiatria? - perguntou Buckley.

- Sim.

- Já lecionou psiquiatria? - Não.

- Já publicou algum artigo sobre psiquiatria? - Não.

- Já publicou algum livro de psiquiatria? - Não.

- Ora, creio que o senhor afirmou que é membro da Associação Americana de Medicina, da Associação de Medicina do Mississippi e da Associação Americana de Psiquiatria.

- Sim.

- Alguma vez ocupou algum posto em qualquer dessas organizações?

- Não.

- Que postos hospitalares ocupa o senhor, actualmente? - Nenhum.

- A sua experiência em psiquiatria incluiu algum trabalho sob os auspícios do governo federal ou de qualquer governo estadual?

- Não.

A arrogância começava a desaparecer do rosto de Bass, e a confiança sumia-se da sua voz. Lançou um rápido olhar a Jake, que estava a mexer numa pasta.

- Dr. Bass, o senhor está empenhado, agora, na prática da psiquiatria a tempo integral?

O perito hesitou e lançou um breve olhar a Lucien, na segunda fila.

- Atendo pacientes regularmente.

- Quantos pacientes e com que regularidade? - retorquiu Buckley com enorme ar de confiança.

- Atendo entre cinco a dez pacientes por semana. - Um ou dois por dia?

- Mais ou menos isso.

- E o senhor considera isso tempo integral? - Estou tão ocupado quanto desejo estar.

Buckley atirou com o seu bloco-notas para cima da mesa e olhou para Noose.

- Meritíssimo, o estado opõe objecção a que este homem deponha como perito em psiquiatria. É óbvio que ele não está habi

litado.

Jake estava de pé, com a boca aberta.

- Indeferida, Dr. Buckley. Pode prosseguir, Dr. Brigance. Jake pegou nas suas anotações e voltou para o pódio, bem consciente da suspeita que o promotor astutamente acabava de lançar sobre a sua testemunha-chave. Bass mudou a posição das botas. - Agora, Dr. Bass, o senhor examinou o acusado, Carl Lee Hailey?

- Sim.

- Quantas vezes? - Três.

- Quando foi o primeiro exame?

- No dia 10 de Junho.

- Qual o objectivo desse exame?

- Examinei-o para determinar as suas condições mentais actuais, bem como as suas condições mentais no dia 20 de Maio, quando ele, presumivelmente, atirou no Sr. Cobb e no Sr. Willard. - Onde foi feito o exame?

- Na cadeia de Ford County.

- O senhor fez o exame sozinho? - Sim, só o Sr. Hailey e eu.

- Quanto tempo durou o exame? - Três horas.

- O senhor examinou o historial clínico do réu?

- De modo indirecto, pode-se dizer. Falámos bastante sobre o passado dele.

- O que foi que o senhor descobriu?

- Nada de especial, excepto o Vietname. - O que tem o Vietname?

Bass cruzou as mãos sobre a barriga ligeiramente protuberante e franziu a testa com ar inteligente para o advogado de defesa.

- Bem, Dr. Brigance, como muitos veteranos do Vietname a que atendi, o Sr. Hailey passou ali por algumas experiências traumatizantes.

A guerra é um inferno, pensou Carl Lee, ouvindo atentamente. Sim, o Vietname foi horrível. Ele fora ferido. Perdera amigos. Matara gente, muita gente. Matara crianças, crianças vietnamitas que empunhavam armas e granadas. Foi horrível. Queria nunca ter lá posto os pés. Sonhava com ele, ocasionalmente revia cenas, tinha pesadelos. Mas não se sentia deformado ou insano por causa disso. Não se sentia deformado ou insano por causa de Cobb e Willard. Na verdade, sentia-se satisfeito por estarem mortos. Como os do Vietname.

Tinha explicado tudo isso a Bass uma vez na cadeia, e Bass não parecera impressionado. E tinham conversado apenas duas vezes, e nunca mais de uma hora.

Carl Lee observava o júri e ouvia desconfiado o perito, que falava demoradamente das terríveis experiências de Carl Lee na guerra. O vocabulário de Bass subia várias oitavas enquanto ele explicava aos leigos, em termos não-leigos, os efeitos do Vietname sobre Carl Lee. A coisa soava bem. Tinha havido pesadelos ao longo dos anos, sonhos com os quais Carl Lee nunca se tinha preocupado muito, mas ao ouvir Bass explicar tudo, descobria que eram eventos da máxima importância.

- Ele falou livremente do Vietname?

- Na verdade, não - respondeu Bass, explicando com muitos detalhes a tremenda tarefa que tinha sido desentranhar a guerra daquela mente complexa, sobrecarregada, provavelmente instável. Carl Lee não se lembrava disso daquele modo. Mas ouvia, obedientemente, com expressão sofrida, a perguntar-se pela primeira vez na vida, se não seria talvez um pouco maluco.

Ao fim de uma hora, a guerra fora revivida e seus efeitos fustigados completamente. Jake resolveu passar adiante.

- Agora, Dr. Bass - disse Jake, coçando a cabeça. - Além do Vietname, que outros eventos importantes o senhor notou a respeito da história mental do réu?

- Nenhum, a não ser o estupro da filha.

- O senhor abordou o estupro com Carl Lee?

- Longamente, durante cada um dos três exames.

- Explique ao júri o que o estupro causou em Carl Lee Hailey.

Bass passou a mão pelo queixo e pareceu perplexo.

- Francamente, Dr. Brigance, eu iria precisar de muito tempo para explicar o que o estupro causou ao Sr. Hailey.

Jake pensou um momento, e pareceu analisar com cuidado esta última declaração.

- Bem, o senhor não poderia fazer um resumo para o júri?

Bass assentiu gravemente. - Tentarei.

Cansado de ouvir Bass, Lucien começou a observar o júri na esperança de pôr os olhos em Clyde Sisco, que também tinha perdido o interesse e admirava as botas. Lucien observava atentamente pelo canto do olho, à espera de que Sisco passasse o olhar pela sala do tribunal. Finalmente, enquanto Bass divagava, Sisco deixou o depoimento e olhou para Carl Lee, depois para Buckley, depois para um dos repórteres da primeira fila. Então, o seu campo de visão concentrou-se num velho de barba, de olhar feroz, que certa vez lhe dera oitenta mil dólares em dinheiro para cumprir o seu dever cívico e proferir um veredicto justo. Os olhos dos dois encontraram-se e ambos esboçaram um sorriso. Quanto? perguntava o olhar de Lucien. Sisco regressou ao depoimento, mas segundos depois estava a fitar Lucien. Quanto? perguntou Lucien, movendo os lábios, mas sem emitir som algum.

Sisco desviou a vista e olhou para Bass, pensando num preço justo. Olhou na direcção de Lucien, coçou a barba e aí, de repente, enquanto fitava Bass, abriu os cinco dedos sobre a cara e tossiu. Tornou a tossir e examinou o perito.

Quinhentos ou cinco mil? perguntou Lucien a si mesmo. Conhecendo Sisco, eram cinco mil, talvez cinquenta mil. Não fazia diferença; Lucien pagaria. Ele valia o seu peso em ouro. Às dez e meia, Noose já tinha limpado os óculos uma centena de vezes e consumido umas dez chávenas de café. A bexiga estava a ponto de lhe estoirar.

- Está na hora do intervalo da manhã. Recomeçaremos às onze. - Noose bateu com o martelo e desapareceu.

- Como é que me tenho saído? - perguntou Bass, nervoso, entrando com Jake e Lucien na biblioteca do terceiro andar.

- Tem-se saído bem - disse Jake. - Basta só esconder essas botas.

- As botas são decisivas - protestou Lucien.

- Preciso de um copo - disse Bass, desesperado. - Nem pense nisso - disse Jake.

- Eu também preciso - disse Lucien. - Vamos até ao seu escritório para um copo rápido.

- Grande ideia! - aprovou Bass.

- Nem pense - repetiu Jake. - O doutor está sóbrio e está a sair-se muito bem.

- Temos trinta minutos - disse Bass, saindo atrás de Lucien e caminhando para a escada.

- Não! Não faça isso, Lucien! - ordenou Jake.

- Só um - respondeu Lucien, levantando um dedo para Jake. - Um só.

- Vocês nunca bebem um só.

- Venha conosco, Jake. Isto vai acalmar-lhe os nervos. - Só um - gritou Bass, descendo a escada.

Às onze, Bass sentou-se na cadeira da testemunha e olhou para o júri com olhos vidrados. Sorriu, e por pouco dava uma gargalhadinha. Viu os artistas na primeira fila, e procurou parecer o mais profissional possível. Os nervos estavam realmente no lugar. - Dr. Bass, o senhor conhece o teste de responsabilidade criminal relativo ao precedente M'Naghten? - perguntou Jake. - Certamente! - respondeu o Dr. Bass com repentino ar de superioridade.

- Pode explicá-lo ao júri?

- É claro. O precedente M'Naghten é o padrão para a responsabilidade criminal no Mississippi, como noutros quinze estados. Remonta à Inglaterra, no ano de 1843, quando um homem chamado Daniel M'Naghten tentou assassinar o Primeiro-ministro, Sir Robert Peel. Ele errou a pontaria e matou com um tiro o secretário do Primeiro-ministro, Edward Drummond. Durante o seu julgamento, ficou definitivamente provado que M'Naghten sofria daquilo a que chamaríamos esquizofrenia paranóide. O júri deu um veredicto de inocente, considerando-o insano. Firmou-se desde então o precedente M'Naghten. Ainda é seguido na Inglaterra e em dezasseis estados.

- O que significa o precedente M'Naghten?

- O precedente M'Naghten é muito simples. Todo o homem é presumivelmente são, e para estabelecer uma defesa baseada em insanidade, deve ficar claramente provado que quando o réu fez o que fez actuava sob o peso de tamanha deficiência da razão, em virtude de um distúrbio mental, que não tinha a noção da natureza e da qualidade do acto que praticava, ou se sabia o que estava a fazer, não sabia que isso era um erro.

- Poderia simplificar isso?

- Sim. Se um réu não pode distinguir o certo do errado, está legalmente insano.

- Defina a insanidade, por favor.

- Não tem significação alguma, do ponto de vista médico. É rigorosamente um padrão judiciário para o estado ou condição mental de uma pessoa.

Jake respirou fundo e prosseguiu.

- Agora, doutor, baseado no seu exame do acusado, o senhor tem uma opinião sobre as condições mentais de Carl Lee Hailey, no dia 20 de Maio deste ano, por ocasião dos disparos?

- Tenho, sim. - E qual é?

- É minha opinião - Bass falava devagar - que o acusado sofreu uma total ruptura de relações com a realidade quando a filha foi violada. Quando ele a viu logo depois do estupro, não a reconheceu, e quando lhe disseram que ela fora violada, espancada e quase enforcada, alguma coisa se partiu na mente de Carl Lee. É um modo bastante elementar de dizer, mas foi isso que aconteceu. Alguma coisa se partiu. Ele rompeu com a realidade. Eles tinham de morrer. Ele disse-me, de uma das vezes, que quando os viu pela primeira vez no tribunal não pôde compreender por que razão os polícias os protegiam. Ficou à espera de que um dos polícias sacasse de uma arma e lhes fizesse estoirar os miolos a ambos. Passaram-se alguns dias e ninguém os matou; ele achou, então, que era sua obrigação. Quero dizer, ele achava que alguém, dentro do sistema, devia executar os dois por terem violado a filha dele. O que estou a dizer, Dr. Brigance, é que, mentalmente, ele deixou-nos. Estava noutro mundo. E sofria de delírios. Sucumbiu.

Bass sabia que parecia convincente. Falava para o júri agora, não para o advogado.

- No dia seguinte ao estupro ele falou com a filha no hospital. Ela mal podia falar, com os maxilares partidos e tudo o resto, mas disse que o tinha visto no bosque a correr para a salvar e perguntou-lhe porque é que ele tinha desaparecido. Muito bem. Pode imaginar o que isso significaria para um pai? Mais tarde ela contou-lhe que tinha chamado pelo paizinho e que os dois homens riram e disseram que ela não tinha pai.

Jake deixou que essas palavras fossem bem absorvidas. Examinou as anotações de Ellen e viu só mais duas perguntas.

- Agora, Dr. Bass, baseado nas suas observações de Carl Lee Hailey, e no seu diagnóstico das condições mentais do acusado, por ocasião dos disparos, o senhor tem uma opinião, um grau razoável de certeza médica, quanto à possibilidade de Carl Lee Hailey ser capaz de saber a diferença entre o certo e o errado quando atirou naqueles homens?

- Tenho.

- E qual é essa opinião?

- Que em virtude de suas condições mentais, ele estava totalmente incapaz de distinguir o certo do errado.

- Baseado nos mesmos factores, o senhor tem uma opinião sobre a capacidade de Carl Lee Hailey em compreender e avaliar a natureza e a qualidade das suas acções?

- Tenho.

- E qual é essa opinião?

- Na minha opinião, como perito no campo da psiquiatria, o Sr. Hailey estava totalmente incapaz de compreender e avaliar a natureza e a qualidade do que estava a fazer.

- Muito obrigado, doutor. Não tenho mais perguntas à testemunha.

Jake pegou no seu bloco-notas e caminhou confiante para o seu lugar. Olhou para Lucien que sorria e aprovava com a cabeça. Olhou para o júri. Os jurados observavam Bass e pensavam no seu depoimento. Wanda Wormack, uma mulher jovem de expressão compreensiva, olhou para Jake e fez-lhe um sorriso quase imperceptível. Foi o primeiro sinal positivo que recebeu do júri, desde o início do julgamento.

- Até aqui tudo bem - murmurou Carl Lee. Jake sorriu para seu cliente.

- Você é um verdadeiro psicótico, homem!

- O promotor deseja interrogar a testemunha? - perguntou Noose a Buckley.

- Só algumas perguntas - disse Buckley, segurando o pódio.

Jake não conseguia imaginar Buckley a discutir psiquiatria com um especialista, mesmo que fosse W T. Bass. Mas Buckley não tinha nenhuma intenção de discutir psiquiatria.

- Dr. Bass, como é seu nome completo?

Jake ficou gelado. A pergunta estava carregada de mau agouro. Buckley envolveu-a em muita desconfiança.

William Tyler Bass.

- Como é tratado habitualmente? - W T. Bass.

- Alguma vez foi conhecido como Tyler Bass? O perito hesitou.

- Não - disse ele humildemente.

Uma enorme sensação de ansiedade atingiu Jake; era como uma lança em brasa a perfurar-lhe seu estômago. A pergunta só podia significar sarilhos.

- Tem a certeza? - perguntou Buckley, erguendo as sobrancelhas, num tom de extrema incredulidade.

Bass encolheu os ombros.

- Talvez quando era mais novo.

- Compreendo. Agora, se não me engano, o senhor declarou que estudou medicina no Centro de Ciência da Saúde da Universidade do Texas.

- Certo.

- E onde fica isso? - Em Dallas.

- E quando estudou lá? - De 1956 a 1960.

- E com que nome estava registado? - William T. Bass.

Jake morria de medo. Buckley estava de posse de alguma coisa, de algum segredo obscuro do passado, que só ele e Bass conheciam.

- Alguma vez usou o nome de Tyler Bass quando estudava medicina?

- Não.

- Tem a certeza? - Claro que tenho. - Qual é o seu número de segurança social? - 410-96-8585.

Buckley marcou qualquer coisa nos seus apontamentos.

- E a sua data de nascimento? - perguntou, cuidadosamente. - Catorze de Setembro de 1934.

- E qual era o nome de sua mãe? - Jonnie Elizabeth Bass.

- E o apelido de solteira? - Skidmore.

Outra marca nas anotações. Bass olhou nervoso para Jake. - E o local do seu nascimento?

- Carbondale, Illinois.

Outro risco. Uma objecção à pertinência dessas perguntas era cabível e sustentável, mas os joelhos de Jake pareciam geleia e os seus intestinos eram fluido de repente. Tinha medo de se sentir embaraçado se se levantasse e tentasse falar.

Buckley estudou os riscos feitos nas suas anotações e deixou passar alguns segundos. Todos na sala esperavam a pergunta seguinte, sabendo que seria brutal. Bass olhava para o promotor como um prisioneiro olha para o pelotão de fuzilamento, esperando e rezando para que os fuzis negassem fogo.

Finalmente, Buckley sorriu para o perito.

- Dr. Bass, alguma vez foi condenado por delito grave?

A pergunta ecoou no silêncio e, vinda de todas as direcções, Pousou nos ombros de TYler Bass. Uma breve olhadela ao seu rosto revelava a resposta. Carl Lee apertou os olhos e encarou o seu advogado.

- É claro que não! - respondeu Bass em voz alta e em desespero.

Buckley limitou-se a baixar a cabeça e caminhar lentamente para a mesa, onde Musgrove, com muita cerimónia, lhe entregou alguns documentos que pareciam muito importantes.

- Tem a certeza? - trovejou Buckley.

- É claro que tenho - protestou Bass, olhando para os documentos que pareciam importantes.

Jake sabia que precisava de se levantar e dizer ou fazer alguma coisa para impedir a carnificina iminente, mas o seu cérebro estava paralisado.

- Tem a certeza? - perguntou Buckley.

- Tenho - respondeu Bass com os dentes cerrados. - Nunca foi condenado por delito grave?

- É claro que não.

- Tem tanta certeza disso como do resto do seu depoimento perante este júri?

Era essa a armadilha, o golpe mortal, a pergunta mais letal de todas, uma pergunta que Jake tinha usado muitas vezes, e quando a ouviu, compreendeu que Bass estava liquidado. E com ele Carl Lee. - É claro - respondeu Bass, com fingida arrogância.

Buckley avançou para o xeque-mate.

- Está a dizer a este júri que, em 17 de Outubro de 1956, em Dallas, Texas, não foi condenado por delito grave sob o nome de Tyler Bass? - Buckley fez a pergunta, a olhar para o júri e a ler os documentos aparentemente importantes.

- Isso é mentira - disse Bass, em voz baixa e pouco convincente.

- Tem a certeza de que é mentira? - perguntou Buckley. - Uma mentira descarada.

- O senhor sabe distinguir entre uma mentira e a verdade, Dr. Bass?

- Pode estar certo de que sei.

Noose pôs os óculos no nariz e inclinou-se para a frente. Os jurados pararam de se mexer nas cadeiras. Os repórteres pararam de escrever. Os polícias no fundo da sala ficaram imóveis, a escutar. Buckley pegou num dos documentos e examinou-o.

- Está a dizer a este júri que, no dia 17 de Outubro de 1956, não foi condenado por estupro de menor?

Jake sabia que, em qualquer crise no tribunal, era importante manter o rosto inexpressivo. Era importante que os jurados, que não perdiam nada, vissem uma expressão positiva no rosto do advogado de defesa. Jake tinha praticado essa aparência positiva, de tudo-está-maravilhosamente bem, tudo-sob-controlo, em muitos julgamentos e durante muitas surpresas, mas com o "estupro de menor" a aparência positiva, confiante e segura foi imediatamente substituída por uma expressão doentia, pálida e dolorosa, atentamente examinada pelo menos por metade dos jurados. A outra metade olhava carrancuda para a testemunha.

- O senhor foi condenado por estupro de menor, doutor? - perguntou Buckley, depois de um longo silêncio.

Nenhuma resposta. Noosé, que se tinha encolhido na cadeira, inclinou-se na direcção da testemunha.

- Por favor, responda à pergunta, Dr. Bass.

Bass ignorou o meritíssimo e encarou o promotor; disse: - O senhor está enganado.

Com um sorriso de desprezo, Buckley foi até à mesa onde Musgrove lhe estendeu outros documentos que pareciam importantes. Abriu um envelope grande e branco e retirou o que parecia ser uma fotografia 20 X 25.

- Bem, Dr. Bass, eu tenho algumas fotografias suas tiradas pelo Departamento de Polícia de Dallas, no dia 11 de Setembro de 1956. O senhor gostaria de vê-las?

Nenhuma resposta. Buckley estendeu as fotografias à testemunha.

- Gostaria de ver estas aqui, Dr. Bass? Talvez elas pudessem refrescar-lhe a memória.

Bass abanou a cabeça devagar, depois baixou-a e olhou para as botas.

- Meritíssimo, o estado deseja juntar ao depoimento estas cópias, autenticadas conforme as Leis do Congresso, do julgamento final e da ordem de sentença no processo denominado Estado do Texas contra TY1er Bass, documentos obtidos pelo estado das autoridades competentes de Dallas, Texas, segundo os quais, em 17 de Outubro de 1956, um certo TYler Bass se declarou culpado da acusação de estupro de um menor, um delito grave de acordo com as leis do Estado do Texas. Podemos provar que TYler Bass e esta testemunha, Dr. W T. Bass, são uma só e a mesma pessoa.

Musgrove educadamente entregou a Jake uma cópia de tudo ó que Buckley agitava no ar.

- Alguma objecção à inclusão disso no depoimento? - perguntou Noose na direção de Jake.

Um discurso era imprescindível. Uma explicação brilhante e cheia de emoção, que tocasse os corações do jurados e os fizessem chorar de pena de Bass e do seu paciente. Mas as normas de procedimento não permitiam isso naquele momento. Obviamente a prova era admissível. Incapaz de se pôr de pé, Jake meneou negativamente a cabeça. Nenhuma objecção.

- Não temos mais perguntas - disse Buckley.

- Deseja reinquirir a testemunha, Dr. Brigance? - perguntou Noose.

Naquela fracção de segundo de que dispunha, Jake não conseguiu pensar numa única coisa que pudesse perguntar a Bass para melhorar a situação. O júri tinha ouvido bastante a respeito do perito da defesa.

- Não - disse Jake calmamente.

- Muito bem, Dr. Bass, o senhor está dispensado.

Bass atravessou rapidamente o portãozinho da barra, enveredou pela passagem central e saiu da sala do tribunal. Jake observou atentamente a saída de Bass, deixando perceber todo o seu ódio. Era importante que o júri visse até que ponto o réu e o advogado estavam chocados. O júri tinha de acreditar que um réu convicto não fora deliberadamente levado ao banco das testemunhas.

Quando a porta se fechou e Bass desapareceu, Jake olhou em volta, na esperança de encontrar um rosto encorajador. Não havia nenhum. Lucien cofiava a barba e olhava para o chão. Lester, com os braços cruzados, estava com um ar enojado. Gwen chorava.

- Chame a sua próxima testemunha - disse Noose.

Jake continuou à procura. Na terceira fila, entre o reverendo Ollie Agee e o reverendo Luther Roosevelt, estava Norman Reinfeld. Quando os olhos dele encontraram os de Jake, ele franziu a testa e abanou a cabeça como se dissesse: "Eu avisei-o". Do outro lado da sala, a maioria dos brancos parecia aliviada e alguns até sorriam para Jake.

- Dr. Brigance, pode chamar sua próxima testemunha. Contra a própria avaliação, Jake tentou levantar-se. Os joelhos vergaram e ele inclinou-se para a frente com as palmas das mãos espalmadas de encontro à mesa.

- Meritíssimo - disse ele, com voz estridente, descontrolada, derrotada -, poderíamos suspender a sessão até à uma hora? - Mas, Dr. Brigance, são só onze e meia.

Uma mentira pareceu oportuna.

- Sim, Meritíssimo, mas a nossa próxima testemunha não está aqui e só chegará à uma hora.

- Muito bem. A sessão fica suspensa até à uma hora. Quero ver os advogados no meu gabinete.

Ao lado da sala do juiz, havia uma sala de café onde os advogados se reuniam para conversar. Perto dela, havia uma pequena casa-de-banho. Jake fechou-se na casa-de-banho, tirou o casaco e atirou-o ao chão. Ajoelhou-se ao lado da retrete, esperou um momento, depois vomitou.

Ozzie estava de pé diante do juiz e tentava conversar enquanto Musgrove e o promotor sorriam um para o outro. Estavam à espera de Jake. Finalmente, este entrou na sala e pediu desculpas.

- Jake, tenho más notícias - disse Ozzie. - Deixe-me sentar primeiro.

- Recebi há uma hora um telefonema do xerife de Lafayette County. A sua estagiária, Ellen Roark, está no hospital.

- Que aconteceu?

- O Klan apanhou-a, a noite passada. Algures entre Clanton e Oxford. Amarraram-na numa árvore e espancaram-na.

- Como é que ela está?

- Estável, mas o estado é grave.

- Que aconteceu? - perguntou Buckley.

- Não temos a certeza. Eles arranjaram uma maneira de ela parar o carro e levaram-na para o bosque. Cortaram-lhe a roupa toda e o cabelo também. Ela sofreu comoção cerebral e golpes na cabeça. Por isso julgam que foi espancada.

Jake precisava de vomitar outra vez. Não conseguia falar. Massajou as têmporas e pensou em como seria bom amarrar Bass numa árvore e espancá-lo. Noose olhou para o advogado de defesa e teve pena dele.

- Dr. Brigance, o senhor está bem? Não obteve resposta.

- Vamos fazer um intervalo até às duas horas. Acho que nós todos precisamos de um intervalo destes - disse Noose.

Jake caminhou devagarinho para os degraus da frente com uma garrafa vazia de cerveja e, por um momento, pensou seriamente em despedaçá-la na cabeça de Lucien. Mas compreendeu que o outro nem sequer sentiria.

Lucien sacudiu os cubos de gelo no copo, olhando para longe, na direcção da praça, que há muito tempo estaria deserta não fossem os soldados e a multidão costumeira de adolescentes que se dirigiam para o cinema para ver o programa duplo dos sábados.

Não diziam nada. Lucien olhava para longe. Jake olhava ferozmente para ele, com a garrafa vazia na mão. Bass estava a centenas de quilómetros de distância.

Cerca de um minuto depois, Jake perguntou: - Onde está o Bass?

- Foi-se embora. - Para onde? - Para casa.

- Onde é que ele vive? - Porque quer saber?

- Eu gostava de ver a casa dele. Gostaria de vê-lo em casa. Gostaria de espancá-lo até o matar com um bastão de beisebol, dentro da casa dele.

Lucien sacudiu os cubos de gelo. - Eu não o culpo a si, Jake.

- O Lucien sabia? - Sabia de quê? - Da condenação. - Que diabo, não! Ninguém sabia. O registo foi cancelado. - Não estou a entender.

- O Bass disse-me que o registo da condenação no Texas foi cancelado três anos depois de ter sido feito.

Jake pôs a garrafa vazia no chão, ao lado da cadeira. Pegou num copo sujo, soprou para dentro dele, encheu-o de gelo e serviu-se de uma dose de Jack Daniel's.

- Lucien, é capaz de me explicar?

- Segundo o Bass, a rapariga tinha dezassete anos e era filha de um juiz eminente de Dallas. Eles estavam no cio e o juiz apanhou-os a ambos ambrulhados no sofá da sala. Iniciou um pro cesso e o Bass não teve a menor hipótese. Declarou-se culpado de violação de menor. Mas a miúda estava apaixonada. Eles continuaram a encontrar-se e ela apareceu grávida. O Bass casou com ela e deu ao juiz um bebé perfeito como primeiro neto. O velho mudou de opinião e a queixa foi cancelada.

Lucien bebeu e contemplou as luzes da praça. - O que aconteceu à rapariga?

- Diz o Bass que uma semana antes de ele se formar em medicina, a mulher, que estava grávida outra vez, e o menino morreram num desastre de comboio em Fort Worth. Foi quando ele começou a beber e parou de viver.

- E ele nunca lhe tinha contado isso a si?

- Não me interrogue. Eu já lhe disse que não sabia de nada.

Lembre-se, eu mesmo o chamei para testemunhar por duas vezes. Se eu soubesse isto, ele nunca teria deposto.

- Porque é que ele nunca lhe contou nada?

- Penso que porque ele julgava que o registo tinha sido apagado. Não sei. Tecnicamente ele tem razão. Não há registo depois do cancelamento. Mas ele foi condenado.

Jake bebeu um gole longo e amargo de uísque. Era horrível. Ficaram sentados em silêncio durante dez minutos. Estava escuro e os grilos cantavam em coro animado. Sallie chegou à porta de rede e perguntou a Jake se queria jantar. Não, obrigado.

- Que aconteceu esta tarde? - perguntou Lucien.

- O Carl Lee fez o seu depoimento e encerrámos às quatro horas. O psiquiatra de Buckley não está pronto. Vai testemunhar na segunda-feira.

- Como é que ele se saiu?

- Mais ou menos. Veio logo depois de Bass e a gente podia sentir o ódio dos jurados. Ele estava pouco à vontade e parecia ensaiado. Acho que não ganhou muitos pontos.

- Que é que o Buckley fez?

- Perdeu a cabeça. Berrou com o Carl Lee durante uma hora. Carl Lee estava decidido a enfrentá-lo, e os dois degladiaram-se o tempo todo. Acho que ambos saíram feridos. Na contra-inter rogação, animei-o um bocado e ele ficou quase patético. Quase que chorou no fim.

- Isso é bom.

- É, muito bom. Mas eles vão condená-lo, não vão? - Imagino que sim.

- Depois do intervalo, tentou despedir-me. Disse-me que eu tinha perdido a causa e que queria outro advogado.

Lucien foi até à frente da varanda e abriu o fecho das calças. Encostou-se a uma coluna e regou os arbustos. Estava descalço e parecia uma vítima de cheias. Sallie trouxe-lhe outra bebida.

- Como está a Row Ark? - perguntou Lucien.

- Estável, dizem. Telefonei para o quarto dela e uma enfermeira disse-me que ela não pode falar. Vou lá amanhã.

- Espero que esteja bem. É uma boa rapariga.

- É uma miúda radical, mas muito inteligente. Eu acho que a culpa é minha, Lucien.

- Não é nada culpa sua. É um mundo louco, Jake. Cheio de gente louca. Neste momento, penso que metade dessa gente está em Ford County.

- Há duas semanas puseram dinamite debaixo da janela do meu quarto. Depois mataram o marido da minha secretária. Ontem, dispararam sobre mim e acertaram num soldado. Agora apanham a minha estagiária, amarram-na a uma estaca, arrancam-lhe a roupa, cortam-lhe cabelo e ela está no hospital em estado de choque. Só penso no que virá a seguir.

- Acho que se deve render, Jake.

- Cá por mim, fazia-o... Por mim, ia ao tribunal agora mesmo e entregava a minha pasta, depositava as minhas armas, desistia. Mas render-me a quem? O inimigo é invisível.

- Não pode desistir, Jake. O seu cliente precisa de si.

- Para o inferno com o meu cliente! Ele tentou despedir-me hoje.

- Ele precisa de si. Esta coisa só vai acabar quando chegar ao fim.

A cabeça de Nesbit pendia metade para fora da janela e a saliva escorria pelo lado esquerdo do queixo, descia pela porta e formava uma pequena poça em cima do "O" do Ford da insígnia do Departamento de Polícia na lateral do carro. Uma lata vazia de cerveja humedecia-lhe a braguilha. Ao fim de duas semanas como guarda-costas, já se tinha habituado a dormir com os mosquitos no carro-patrulha enquanto protegia o advogado do negro.

Momentos depois do sábado passar a domingo, o rádio veio perturbar-lhe o descanso. Agarrou no microfone enquanto enxugava o queixo na manga esquerda.

- S.0.8 - atendeu.

- Qual é o seu 10-20? .

- O mesmo sítio de há duas horas. - A casa de Wilbanks?

-10-4.

- Brigance ainda está lá? -10-4.

Vá buscá-lo e levá-lo a casa, na rua Adams. É uma emergência.

Nesbit passou pelas garrafas vazias da varanda, pela porta que não estava fechada e encontrou Jake esparramado no sofá na sala da frente.

- Levante-se, Jake! Tem que ir para casa! É uma emergên

cia!

Jake levantou-se de um salto e acompanhou Nesbit. Pararam nos degraus da frente e olharam para além da cúpula do edifício do tribunal. Ao longe, uma chaminé incandescente, a expelir fumo negro, erguia-se acima de um clarão alaranjado e era arrastada tranquilamente pelo vento à meia-lua. A rua Adams estava bloqueada por um grande número de veículos de voluntários, quase todos pick-ups. Cada um tinha diversas luzes vermelhas e amarelas de emergência, pelo menos mil ao todo. Elas giravam e clareavam e cortavam a escuridão num coro silencioso, iluminando a rua.

Os carros dos bombeiros estavam parados desordenadamente na frente da casa. Os bombeiros e voluntários trabalhavam freneticamente, estendendo as mangueiras, começando a organizar-se, respondendo ocasionalmente às ordens do chefe. Ozzie, Prather e Hastings estavam perto de um carro de bombeiros. Alguns soldados assistiam calmamente, encõstados a um jipe.

O fogo brilhava intensamente. As chamas saíam de todas as janelas da frente da casa, em cima e em baixo. A garagem estava completamente em chamas. O Cutlass de Carla ardia por dentro e por fora, os quatro pneus emitindo um clarão próprio, mais escuro. Curiosamente, um outro carro, menor, não o Saab, ardia perto do Cudass. O crepitar e assobiar do fogo, mais o barulho surdo dos motores dos carros dos bombeiros, mais as vozes altas dos homens que trabalhavam atraíam curiosos de vários quarteirões. Do relvado, do outro lado da rua, olhavam para o incêndio.

Jake e Nesbit desceram a rua a correr. O chefe dos bombeiros, ao vê-los, veio ter com eles a correr:

- Jake, há alguém dentro de casa? - Não!

- Óptimo! Eu pensava que havia... - Só um cão.

- Um cão?!

Jake confirmou com a cabeça e olhou para a casa. - Lamento imenso - disse o chefe.

Reuniram-se junto do carro de Ozzie, em frente da casa da Sra. Pickle. Jake respondia às perguntas.

- Aquele Volkswagen ali debaixo, não é seu, pois não, Jake? Jake olhou num silêncio atónito para o marco histórico de Carla. Abanou a cabeça.

- Calculei que não fosse. Parece que foi ali que o fogo começou.

- Não compreendo - disse Jake.

- Se não é o seu carro, então alguém o estacionou ali, certo? Está a ver como o chão da garagem está a arder? É gasolina. Alguém encheu o carrinho de gasolina, estacionou ali e foi-se embora. Provavelmente, tinha algum dispositivo para atear o fogo.

Prather e dois voluntários concordaram.

- Há quanto tempo está tudo a arder? - perguntou Jake. Chegámos aqui há dez minutos - disse o chefe - e já estava tudo a arder. Diria uma meia-hora. É um belo incêndio. Sabiam o que estavam a fazer.

- Suponho que não se possa tirar nada lá de dentro, pois não? - perguntou Jake, já sabendo a resposta.

- Não há maneira, Jake. Está muito espalhado. Os meus homens não conseguiriam entrar mesmo que houvesse alguém lá dentro... É um belo incêndio!

- Por que diz isso?

- Bem, olhe para aquilo! Está a arder por igual pela casa toda. Vê chamas em todas as janelas. Em cima e em baixo. Isso é raríssimo! Mais um minuto e vai arder o telhado!...

Dois grupos avançaram alguns passos com as mangueiras, atirando água na direcção das janelas pelo alpendre da frente. Uma mangueira mais pequena estava assestada a uma janela do segundo andar. Depois de observar durante um ou dois minutos a água que desaparecia no meio das chamas, sem qualquer efeito, o chefe cuspiu e disse:

- Vai arder totalmente. - Disse isto e desapareceu no meio dos carros de bombeiros e começou a gritar ordens.

Jake olhou para Nesbit.

- Pode fazer-me um favor? - Claro, Jake.

- Vá a casa do Harry Rex e traga-o cá. Não quero que ele perca isto.

- Com certeza.

Durante duas horas, Jake, Ozzie, Harry Rex e Nesbit, sentados no carro da polícia, viram o fogo cumprir a profecia do chefe dos bombeiros. De vez em quando um vizinho aproximava-se, expressava a sua simpatia e perguntava pela família. A Sra. Pickle, a doce velhinha da casa vizinha, chorou ruidosamente quando Jake lhe disse que Max tinha sido consumido pelo fogo.

Às três horas os polícias e outros curiosos tinham desaparecido e às quatro a graciosa casinha vitoriana estava reduzida a um monte de escombros fumegantes. Os últimos bombeiros abafaram todos os sinais de fumo das ruínas. Só a chaminé e as carroçarias queimadas de dois carros se erguiam acima dos escombros quando as pesadas botas de borracha avançavam aos tropeções pelos destroços à procura de fagulhas ou de chamas ocultas que pudessem de algum modo saltar da caliça e incendiar o resto do entulho.

As últimas mangueiras foram enroladas quando o sol começava a aparecer. Jake agradeceu aos bombeiros quando eles partiram. Ele e Harry Rex foram andando até ao quintal e inspecionaram a extensão da perda.

- Ora, ora - disse Harry Rex. - É só uma casa. - És capaz de telefonar à Carla e dizeres-lhe isso? - Não. Acho que tu é que deves telefonar.

- Acho que vou esperar... Harry Rex consultou o relógio. - Está quase na hora do café, não está?

- Hoje é domingo, Harry Rex. Não há nada aberto.

- Ah, Jake, tu és um amador, e eu um profissional. Arranjo comida quente a qualquer hora de qualquer dia.

- No estacionamento de camiões? - No estacionamento de camiões!

- Está bem. E quando terminarmos, vamos a Oxford ver como está a Row Ark.

- Óptimo. Mal consigo esperar até a ver com um corte de cabelo à machão!

Sallie pegou o telefone e o atirou-o a Lucien, que só depois de algumas tentativas conseguiu pô-lo na posição certa.

- Sim, quem fala? - perguntou ele, olhando pela janela para a escuridão lá fora.

- É Lucien Wilbanks? - Sim, quem fala?

- Conhece Clyde Sisco? - Conheço.

- São cinquenta mil.

- Volte a telefonar-me de manhã.

Sheldon Roark, sentado na janela com os pés nas costas de uma cadeira, lia no jornal de domingo de Memphis a reportagem sobre o julgamento de Hailey. No fim da primeira página estava uma fotografia da sua filha e a história do seu encontro com o Klan. Ela repousava confortavelmente na cama a alguns passos dali. O lado esquerdo da cabeça estava rapado e coberto com uma ligadura grossa. A orelha esquerda tinha levado vinte e oito pontos. A comoção cerebral, julgada séria a princípio, não tinha maior gravidade, e os médicos tinham prometido que ela teria alta na quarta-feira.

Ela não fora violada nem chicoteada. Os médicos que telefonaram para Boston não deram muitos detalhes. Sheldon Roark passou sete horas num avião sem saber o que lhe tinham feito à filha, mas à espera do pior. No sábado, a altas horas da noite, os médicos fizeram novas radiografias e disseram-lhe que podia ficar descansado. As cicatrizes desapareceriam e o cabelo voltaria a crescer. Ela fora aterrorizada e maltratada, mas podia ter sido muito pior.

Ele ouviu um alarido no corredor. Alguém discutia com uma enfermeira. Sheldon pôs o jornal sobre a cama da filha e abriu a porta. Uma enfermeira tinha surpreendido Jake e Harry Rex no corredor. Explicou-lhes que o horário das visitas começava às duas da tarde e que já eram oito horas; que só pessoas da família podiam visitar os pacientes e que ia chamar a segurança se eles não se fossem embora. Harry Rex explicou que se estava nas tintas para o horário de visitas ou para qualquer outro regulamento idiota do hospital; que a paciente era sua noiva, e que ele a ia ver pela última vez antes que ela expirasse; e que se a enfermeira não se calasse, a processaria por tê-lo molestado porque era advogado e há uma semana que não processava ninguém e estava a ficar impaciente.

- O que é que se passa aqui? - perguntou Sheldon.

Jake olhou para o homenzinho ruivo, de olhos verdes, e disse: - O senhor deve ser Sheldon Roark.

- Sou.

- Eu sou Jake Brigance, o que...

- Sim, tenho estado a ler umas coisas a seu respeito. Está tudo bem, enfermeira, eles estão comigo.

- Isso mesmo - disse Harry Rex. - Está tudo bem. Nós estamos com ele. Agora, quer fazer o favor de nos deixar a sós, antes que eu penhore o seu salário?

Ela jurou que ia chamar a segurança e afastou-se furiosa.

- Eu sou Harry Rex Vonner - disse ele, apertando a mão de Sheldon Roark.

- Entrem - disse ele.

Seguiram-no, entraram no pequeno quarto e avistaram Ellen, que ainda dormia.

- Como está ela? - perguntou Jake.

- Uma comoção cerebral leve. Vinte e oito pontos na orelha e onze na cabeça. Vai ficar boa. O médico disse que ela poderia ter alta na quarta-feira. Ontem à noite ela estava acordada e conversámos um grande bocado.

- O cabelo dela está horrível - observou Harry Rex.

- Eles puxaram-no e cortaram à faca, disse-me ela. Também lhe fizeram a roupa em bocados e ameaçaram açoitá-la. Os ferimentos na cabeça foram feitos por ela mesma. Ela pensou que ia ser morta ou violada; por isso bateu com a cabeça na estaca em que estava amarrada. Deve ter assustado os homens.

- Quer dizer que não a espancaram?

- Não. Eles não lhe fizeram mal. Só a deixaram morta de medo. - O que foi que ela viu?

- Não muita coisa. Uma cruz em chamas, mantos brancos, uns doze homens.

O xerife disse que foi numa pastagem, dezoito quilómetros a leste daqui. Propriedade de uma fábrica de papel.

- Quem a encontrou? - perguntou Harry Rex.

- O xerife recebeu um telefonema anónimo de um tipo chamado Mickey Mouse.

- Ah, sim. O meu velho amigo... Ellen gemeu baixinho e espreguiçou-se. - Vamos lá para fora - disse Sheldon.

- Este sítio tem um bar? - perguntou Harry Rex. - Fico cheio de fome quando entro num hospital.

- Claro. Vamos tomar um café.

O bar no primeiro andar estava vazio. Jake e Sheldon Roark beberam café puro. Harry Rex começou por três donuts doces e uma garrafa de leite.

- Pelo que diz o jornal, as coisas não vão muito bem - disse Sheldon.

- O jornal é muito bondoso - disse Harry Rex com a boca cheia. - O nosso Jake aqui está a receber pontapés no rabo de toda a sala do tribunal. E a vida não está fácil do lado de fora também. Quando não estão a disparar-lhe em cima, ou a sequestrar-lhe a estagiária, estão a incendiar-lhe a casa.

- Incendiaram a sua casa!? Jake confirmou com a cabeça. - A noite passada. Ainda está a deitar fumo. - Tive a impressão de sentir cheiro a fumo...

- Nós vimo-la arder completamente. Levou quatro horas. - Lamento imenso. Já me ameaçaram com isso, mas o pior que me fizeram foi cortarem-me os pneus ao carro. Também nunca dispararam sobre mim.

- Em mim já foram duas vezes...

- Também têm o Klan em Boston? - perguntou Harry Rex. - Não que eu saiba.

- É uma pena... Estes tipos acrescentam uma dimensão real à prática do Direito.

- É o que parece... Vimos na televisão o tumulto do lado de fora do tribunal na semana passada. Tenho acompanhado isto muito de perto desde que a Ellen se envolveu. É um caso famoso. Mesmo no norte. Gostava que fosse meu.

- É todo seu - disse Jake. - Acho que o meu cliente está à procura de um novo advogado.

- Quantos psiquiatras é que o estado vai chamar a depor? - Só um. Vai testemunhar amanhã de manhã e depois teremos a nossa argumentação final. Devemos entregar o caso ao júri amanhã, ao fim da tarde.

- É uma pena que Ellen não possa estar presente. Ela telefonava-me todos os dias para falar sobre o caso.

- Onde foi que o Jake errou? - perguntou Harry Rex. - Não fales com a boca cheia - disse Jake.

- Eu penso que o Jake fez um bom trabalho. Para começo de conversa, é um conjunto de factos desagradáveis. Hailey cometeu os crimes, planeou-os cuidadosamente e depende de uma alega

ção bastante fraca de insanidade. Os júris de Boston não teriam muita simpatia por ele.

- Nem de Ford County - disse Harry Rex.

- Espero que tenha um trunfo final emocionante escondido na manga - disse Sheldon.

- Ele não tem nem mangas... - disse Harry Rex. - Foram todas incineradas! Juntamente com as calças e as cuecas.

- Porque não vem assistir ao julgamento amanhã? - perguntou Jake. - Eu apresento-o ao juiz e peço que autorize a sua presença no gabinete.

- Ele não faria isso por mim - disse Harry Rex.

- Percebo porquê... - disse Sheldon com um sorriso. - Talvez vá. De qualquer forma, já tinha planeado ficar até terça-feira. É seguro aquilo lá?

- Não muito.

A mulher de Woody Mackenvale, sentada num banco de plástico no corredor junto ao quarto do marido, chorava mansamente, procurando parecer corajosa para os dois filhos pequenos sentados a seu lado. Cada uma das crianças segurava uma caixa de lenços e uma vez ou outra enxugava a cara e assoava o nariz.

Jake ajoelhou-se diante dela e ouviu com atenção o que ela lhe contou que os médicos haviam dito. A bala tinha-se alojado na coluna vertebral; a paralisia era grave e irreversível. Ele era chefe de secção numa fábrica de Booneville. Bom emprego. Uma boa vida. Ela não trabalhava, pelo menos até agora. Haviam de encontrar maneira de se arranjarem, mas ela não sabia como. Ele era treinador da equipa de beisebol onde os filhos jogavam. Era um homem muito activo.

Ela pôs-se a chorar mais alto e as crianças enxugaram o rosto. - Ele salvou-me a vida - disse-lhe Jake, olhando para as crianças.

Ela fechou os olhos e meneou a cabeça afirmativamente.

- Estava a fazer o seu trabalho. Cá nos havemos de arranjar. Jake tirou um lenço de papel da caixa e enxugou os olhos. Um grupo de parentes de pé nas imediações estava a observá-los. Harry Rex, nervoso, andava de um lado para o outro, no fim do corredor. Jake abraçou-a e afagou a cabeça dos meninos. Deu-lhe o número do seu telefone - do escritório - e disse-lhe que telefonasse se ele pudesse fazer alguma coisa. Prometeu visitar Woody depois do julgamento.

Ao domingo, as lojas que vendiam cerveja abriam ao meio-dia como se os fiéis precisassem disso, nessa altura, e, a caminho de casa, ao saírem da casa do Senhor, tivessem de fazer uma para gem para levarem duas caixas de seis latas, antes de irem para o almoço dominical em casa da avó e passar a tarde como o diabo gosta. O estranho era que elas fechavam de novo às seis da tarde, como se devessem negar cerveja aos mesmos fiéis que retornavam à igreja para os ofícios da noite de domingo. Nos outros seis dias, a cerveja era vendida das seis da manhã até à meia-noite. Mas ao domingo, a venda era encurtada em homenagem ao Todo-Poderoso.

Jake comprou uma caixa de seis, no Armazém Bates, e mandou o motorista ir em direcção ao lago. O velho Bronco de Harry Rex tinha mais de cinco centímetros de lama seca nas portas e nos pára-lamas. Os pneus nem apareciam. O pára-brisas, perigosamente rachado, estava cheio de insectos mortos, colados nas bordas. O certificado de revisão tinha quatro anos e não se via do lado de fora. Dezenas de latas de cerveja vazias e de garrafas partidas espalhavam-se pelo chão. O ar-condicionado não funcionava há seis anos. Jake tinha sugerido o Saab. Harry Rex praguejou a dizer que não compreendia tanta estupidez. O Saab vermelho era um alvo fácil para franco-atiradores. Ninguém iria suspeitar daquela lata velha.

Saíram devagarinho na direcção geral do lago, para nenhum lugar definido. O lamento de Willie Nelson vibrava no leitor de cassettes. Ao mesmo tempo que marcava o ritmo no volante, Harry Rex cantava. A sua voz normal era áspera e rude. A cantar, era medonha. Jake bebia a sua cerveja, à procura da luz do dia através do pára-brisas.

A vaga de calor estava prestes a ser quebrada. Nuvens escuras apareciam a sudoeste, e quando eles passaram pelo Huey's, a chuva começou a cair, regando a terra ressequida e limpando as tre padeiras que ladeavam o leito da estrada e pendiam das árvores como barbas-de-velho. Esfriou o asfalto e formou uma névoa pegajosa, que se erguia a um metro do chão. As ravinas na terra vermelha absorviam a água e, quando cheias, formavam pequenos regatos que desciam para as valas irrigando os campos e as laterais da estrada. A chuva encharcou o algodão e a soja e castigou as fileiras das plantações, até formar pequenas poças entre uma planta e outra.

Surpreendentemente, os limpa-pára-brisas funcionavam. Dançavam furiosamente de um lado para o outro, removendo a lama e a colecção de insectos. A tempestade cresceu. Harry Rex aumentou o volume do estéreo.

Os negros com as suas canas de pesca e chapéus de palha abrigaram-se debaixo das pontes, à espera de que a chuva passasse. Lá em baixo, os regatos secos voltavam à vida. Água barrenta descia dos campos e das ravinas, alimentando os riachos. A água subia e avançava. Os negros comiam queijo e biscoitos e contavam histórias de pescarias.

Harry Rex estava com fome. Parou no Armazém Treadway's, perto do lago, e comprou mais cerveja, dois pratos feitos de peixe frito e um saco grande de torresmos com molho de pimenta. Atirou os torresmos a Jake.

Atravessaram a represa sob a cortina cerrada de chuva. Harry Rex parou ao lado de um pequeno pavilhão na área para piqueniques. Sentaram-se à mesa e ficaram a ver a chuva sobre o lago Chatulla. Jake bebia cerveja enquanto Harry Rex comia os dois pratos de peixe frito.

- Quando é que vais dizer à Carla? - perguntou ele, bebendo um gole de cerveja. A chuva batia ruidosamente no tecto de zinco.

- Dizer o quê? - Da casa.

- Não lhe vou dizer. Acho que a posso mandar reconstruir antes que ela volte.

- Queres dizer, até ao fim da semana? - Isso mesmo.

- Estás a ficar maluco ou quê, Jake? Andas a beber demais e estás a perder a noção das realidades.

- É o que mereço. Trabalhei para isso. Estou a duas semanas da falência. Estou à beira de perder o maior caso da minha carreira, pelo qual recebi novecentos dólares. A minha bela casa, que toda a gente gostava de fotografar e que as velhas senhoras do Clube de Jardinagem queriam que aparecesse na Southern Living, está reduzida a escombros. A minha mulher deixou-me e quando souber do incêndio, vai pedir o divórcio. Não tenho a menor dúvida. Assim, vou perder a minha mulher. E quando a minha filha souber que o maldito cão dela morreu no incêndio, vai odiar-me para sempre. Há uma conspiração para me matarem. Os assassinos do Klan estão atrás de mim. Atiradores disparam contra mim. Há um soldado que está no hospital com uma bala na espinha, a bala que era para mim. Está condenado a ser um vegetal e vou pensar nele dia e noite enquanto eu for vivo. O marido da minha secretária foi morto por minha causa. A minha última funcionária está no hospital com um corte de cabelo à punk e uma comoção cerebral porque trabalhava para mim. O júri pensa que sou um salafrário mentiroso por causa do perito que escolhi para testemunhar. O meu cliente quer despedir-me. Quando ele for condenado, toda agente vai deitar as culpas para cima de mim. Ele vai contratar outro advogado para a apelação, um daqueles sujeitinhos da associação, e vão-me processar por ter sido inepto como advogado de defesa. E com razão. Assim, vou ser acusado de imperícia. Ficarei sem mulher, sem filha, sem casa, sem profissão, sem dinheiro, sem nada.

- Tu estás a precisar da ajuda de um psiquiatra, Jake... Acho que deves marcar uma hora com o Dr. Bass. Toma, bebe uma cerveja. - Acho que vou viver com o Lucien e ficar sentado na varanda o dia inteiro.

- Posso ficar com o teu escritório?

- Tu achas que ela vai pedir o divórcio?

- Provavelmente. Eu já passei por quatro, e elas pedem o divórcio por qualquer ninharia.

- A Carla não. Eu adoro o chão que ela pisa e ela sabe isso. - No chão, vai ela dormir quando voltar para Clanton.

- Nada disso, vamos comprar uma caravana bonitinha e confortável. Vai servir até terminar o processo da minha falência. Depois, procuramos outra casa e recomeçamos a vida.

- Provavelmente, vais ter de arranjar outra mulher para recomeçares. Por que há-de a Carla deixar uma casa elegante na praia para passar a viver numa caravana em Clanton?

- Porque eu vou estar na caravana.

- Não vai dar certo, Jake. Vais ser um advogado bêbedo, proibido de exercer, falido, a viver numa caravana! Publicamente desonrado, esquecido por todos os amigos, menos eu e o Lucien. A Carla nunca mais volta. É o fim, Jake. Como teu amigo e advogado, aconselho-te a entrar com o pedido de divórcio antes dela. Pede o divórcio já amanhã, assim ela não vai ter tempo de saber o que aconteceu.

- Porque é que eu hei-de pedir divórcio?

- Porque ela te vai processar. Nós entramos com o pedido antes, alegando que ela te abandonou quando tu mais precisavas do apoio dela.

- Isso é motivo para divórcio?

- Não. Mas diremos também que tu estás louco, insanidade momentânea... Deixa isso por minha conta. O precedente M'Naghten. Não te esqueças de que eu sou o advogado especialista em divórcios?

- Como é que me havia de esquecer?

Jake deitou no copo o resto da cerveja quente e abriu outra garrafa. A chuva diminuiu e as nuvens ficaram mais claras. Um vento frio começou a soprar do lago.

- Vão condená-lo, não vão, Harry Rex? - perguntou Jake, a olhar para o lago.

Harry Rex parou de mastigar e limpou a boca. Pousou o prato de papelão na mesa e bebeu um longo gole de cerveja. Gotas de chuva, trazidas pelo vento, molharam-lhe a cara. Enxugou-as com a manga.

- Vão, Jake. O teu homem está para ir desta para melhor... Vejo isso nos olhos deles. Aquela coisa da insanidade não colheu. Eles, logo à partida, não queriam acreditar no Bass e depois de o Buckley lhe ter baixado as calças em público, resolveram definitivamente. O Carl Lee também não ajudou muito. Parecia ensaiado e sincero demais. Como se implorasse compaixão. Fez um depoimento repugnante. Observei o júri enquanto ele testemunhava. Não vi nenhum sinal de simpatia. Eles vão condenar, Jake. E rapidamente.

- Obrigado por seres tão franco.

- Sou teu amigo e acho que te deves preparar para a condenação e para um longo recurso.

- Sabes uma coisa, Harry Rex, eu queria nunca ter ouvido falar em Carl Lee Hailey.

- Acho que é tarde demais para isso, Jake.

Sallie abriu a porta e disse a Jake que lamentava o que acontecera à casa. Lucien estava lá em cima, no escritório, sóbrio e a trabalhar. Apontou para uma cadeira e mandou Jake sentar-se. A secretária estava cheia de bloco-notas.

- Passei a tarde toda a trabalhar numa argumentação final - disse ele, mostrando a papelada à sua frente. - A sua única esperança de salvar Hailey é com um desempenho arrebatador nas alegações finais. Repare, estamos a falar da maior alegação final da história da jurisprudência. É o que ela vai ser.

- E presumo que tenha criado essa obra-prima.

- Para ser franco, sim. É melhor do que qualquer coisa que pudesse produzir, Jake. E calculei, correctamente, que o Jake ia passar a tarde de domingo a lamentar a perda da sua casa e a afogar as mágoas em cerveja. Eu sabia que não ia ter nada preparado. Por isso, preparei isto para si.

- Gostava de conseguir ficar tão sóbrio como o senhor, Lucien.

- Eu bêbedo era melhor advogado do que você sóbrio.

- Pelo menos sou um advogado.

Lucien atirou um bloco-notas para o lado de Jake.

- Aí está! Uma compilação das minhas maiores alegações finais. Lucien Wilbanks na sua melhor forma, tudo condensado numa só alegação para si e para o seu cliente. Sugiro que decore e use palavra por palavra. Vale a pena. Não tente modificar nem improvisar. Só iria estragar tudo.

- Vou pensar nisso. Já uma vez fiz isso, não se lembra? - Pois não parece.

- Que diabo, Lucien! Não me chateie!

- Calma, Jake. Vamos tomar alguma coisa. Sallie! Sallie! Jake atirou a obra-prima para o sofá e foi até à janela que dava para a parte de trás da casa. Sallie subiu a correr a escada. Lucien pediu uísque e cerveja.

- Passou a noite toda em claro? - perguntou Lucien. - Não. Dormi das onze ao meio-dia!

- Você está horrível! Precisa de uma boa noite de sono.

- Sinto-me péssimo, e o sono não vai adiantar. Nada vai

adiantar, excepto o fim deste julgamento. Eu não compreendo, Lucien. Não compreendo por que tudo saiu mal. Deus sabe que mereço um pouco de sorte. O caso nem devia ser julgado em Clanton. Deram-nos o pior júri possível, um júri corrupto. Mas eu não posso provar isso. A nossa testemunha-chave foi completamente destruída. O réu prestou um depoimento horroroso. E o júri não confia em mim. Não sei que mais me podia acontecer!

- Ainda pode ganhar o caso, Jake. Vai precisar de um milagre, mas essas coisas às vezes acontecem. Eu arranquei a vitória das garras da derrota muitas vezes com uma alegação final eficien

  1. Concentre a atenção num ou dois jurados. Represente para eles. Fale com eles. Lembre-se, basta um para impedir que o veredicto seja alcançado por unanimidade.

- Devo fazer chorar o júri?

- Se puder. Não é fácil. Mas eu acredito em lágrimas por parte dos jurados. É muito eficaz.

Sallie voltou com as bebidas e eles desceram para a varanda. Quando anoiteceu, Sallie serviu sanduíches e batatas fritas. Às dez horas, Jake foi para o quarto. Telefonou a Carla e conversaram durante uma hora. Não disse nada sobre a casa. O estômago apertou-se-lhe quando ouviu a voz dela e compreendeu que depressa ia ter de lhe dizer que a casa, a casa dela, já não existia. Jake desligou, rezando para que Carla não soubesse pelos jornais.

 

Na segunda-feira de manhã, Clanton voltou ao normal com as barricadas em volta da praça e o número de soldados reforçado, para garantir a ordem pública. Eles andavam pela praça tranquila mente, a observar os homens do Klan e o grupo de negros, que voltavam aos seus lugares, um de cada lado da passagem central. Depois do dia de descanso, todos voltaram com renovada energia e, às oito e meia, ambos os coros estavam animados. Com a notícia do fracasso do Dr. Bass, o Klan farejou a vitória. Além disso, tinham marcado um ponto na rua Adams. Pareciam mais barulhentos do que nunca.

Às nove, Noose convocou os advogados ao seu gabinete.

- Só queria ter a certeza de que estavam todos vivos e de perfeita saúde - disse com um largo sorriso dirigido a Jake.

- Sr. Dr. Juiz, porque não vai plantar batatas? - disse Jake em voz baixa, mas de modo que todos pudessem ouvir.

Os promotores ficaram gelados. O Sr. Pate pigarreou alto. Noose inclinou a cabeça para o lado, como se fosse meio surdo. - O que foi que disse, Dr. Brigance?

- Eu disse, porque não começamos logo, Sr. Dr. Juiz?

- Sim, foi o que eu pensei que tinha dito. Como está a sua estagiária, Miss Roark?

- Vai ficar boa. - Foi o Klan?

- Foi, Sr. Dr. Juiz. O mesmo Klan que me tentou matar. O mesmo Klan que iluminou todo o distrito com as cruzes de fogo e que fez só Deus sabe o quê visando o nosso rol de jurados. O mes mo Klan que provavelmente intimidou a maioria dos jurados que estão sentados lá fora. Sim, senhor, o mesmo Klan.

Noose tirou os óculos com um gesto brusco.

- Pode provar isso?

- Quer dizer, se eu tenho confissões escritas, assinadas, autenticadas em cartório, dos homens do Klan? Não, senhor. Eles recusam-se a cooperar.

- Se não pode provar, Dr. Brigance, então esqueça. - Sim, Meritíssimo.

Jake saiu da sala e bateu com a porta. Segundos depois, o Sr. Pate pediu ordem no tribunal e todos se levantaram. Noose deu as boas-vindas ao seu júri e garantiu que o sacrifício estava quase no fim. Ninguém sorriu para ele. Fora um fim de semana solitário no Temple Inn.

- O estado oferece alguma refutação? - perguntou ele a Buckley.

- Uma testemunha, Meritíssimo.

O Dr. Rodeheaver foi trazido da sala das testemunhas. Sentou-se cuidadosamente na cadeira da testemunha e cumprimentou o júri com uma demorada inclinação da cabeça. Parecia um psiquiatra. Fato escuro, sem botas. Buckley assumiu o pódio e sorriu para o júri.

- O senhor é Dr. Wilbert Rodeheaver? - trovejou ele, olhando para o júri como se dissesse: "Agora vocês vão ver o que é um verdadeiro psiquiatra".

- Sim, senhor.

Buckley fez perguntas, milhões de perguntas, sobre o seu currículo académico e profissional. Rodeheaver parecia confiante, calmo, preparado e habituado ao banco de testemunhas. Falou lon gamente da sua vasta preparação profissional, da sua vasta experiência clínica e da enorme magnitude do seu trabalho mais recente como chefe de equipa do hospital estadual de doentes mentais. Buckley perguntou-lhe se tinha escrito artigos sobre psiquiatria. Ele disse que sim e, durante trinta minutos, comentaram os artigos daquele homem tão culto. Tinha recebido subsídio do governo federal e de vários estados para as suas pesquisas. Era membro de todas as instituições citadas por Bass e de mais algumas. Era reconhecido por todas as associações que tinham alguma relação, por mais remota que fosse, com o estudo da mente humana. Era um homem educado e discreto. Buckley apresentou-o como perito e Jake não fez perguntas. Buckley continuou:

- Dr. Rodeheaver, quando examinou pela primeira vez Carl Lee Hailey?

O perito consultou suas anotações. - A dezanove de Junho.

- Onde foi feito o exame?

- No meu consultório em Whitfield. - Durante quanto tempo o examinou? - Umas duas horas.

- Qual o objectivo desse exame?

- Determinar as suas condições mentais naquela ocasião e também na ocasião em que matou o Sr. Cobb e o Sr. Willard.

- O senhor obteve o seu historial clínico?

- A maior parte da informação foi conseguida por um médico da equipa do hospital. Eu fiz a revisão com o Sr. Hailey.

- O que revelou o historial?

- Nada de importante. Ele falou muito sobre o Vietname, mas nada de importante.

- Ele falou voluntariamente sobre o Vietname?

-Ah, sim. Ele queria falar no assunto. Era quase como se o tivessem aconselhado a falar nisso tanto quanto possível.

- Sobre que mais falaram nesse primeiro exame?

- De várias coisas. Da infância, família, estudos, vários empregos, praticamente de tudo.

- Ele falou do estupro da filha?

- Sim, detalhadamente. Foi doloroso para ele falar no assunto, como seria para mim se se tratasse da minha filha.

- Ele falou sobre os eventos que provocaram a morte de Cobb e Willard?

- Sim, conversámos longamente sobre isso. Tentei determinar o seu grau de conhecimento e compreensão desses acontecimentos.

- Que foi que ele disse?

- No começo, não muita coisa. Mas aos poucos ele abriu-se e contou que tinha examinado o edifício três dias antes e escolhido o melhor lugar para agir.

- E sobre os tiros?

- Não falou muito sobre isso. Disse que não se lembrava, mas eu suspeito que não é verdade.

Jake levantou-se de um salto.

- Protesto! A testemunha só pode falar sobre o que sabe com certeza. Não pode fazer insinuações.

- Deferido. Por favor, continue, Dr. Buckley.

- O que mais observou a respeito do seu estado de espírito, atitude e modo de falar?

Rodeheaver cruzou as pernas e mexeu-se levemente na cadeira. Franziu a testa, pensando profundamente.

- Inicialmente, não confiou em mim e evitava olhar-me nos olhos. As respostas eram muito breves. Estava ressentido por ser mantido sob escolta e algemado durante o tempo que permaneceu na nossa instituição. Questionou as paredes acolchoadas. Mas, ao fim de algum tempo, começou a falar livremente. Recusou-se terminantemente a responder a certas perguntas, mas de um modo geral cooperou bastante.

- Quando e onde o senhor o voltou a examinar? - No dia seguinte, no mesmo sítio.

- Qual era o seu estado de espírito, a atitude dele?

- Mais ou menos idênticos aos da véspera. Distante, a princípio, abrindo-se mais, aos poucos. Falámos praticamente sobre as mesmas coisas do dia anterior.

- Quanto tempo durou esse exame? - Aproximadamente quatro horas.

Buckley consultou as suas notas e conversou em voz baixa com Musgrove.

- Agora, Dr. Rodeheaver, como resultado do exame do Sr. Hailey, aos dias 19 e 20 de Junho, o senhor chegou a um diagnóstico da condição psiquiátrica do acusado nesses dias?

- Sim, senhor.

- E qual é esse diagnóstico?

- Nos dias 19 e 20 de Junho o Sr. Hailey demonstrou estar mentalmente são. Perfeitamente normal, diria eu.

- Muito obrigado. Com base nos seus exames, o senhor chegou a um diagnóstico das condições mentais do Sr. Hailey no dia em que matou Billy Ray Cobb e Pete Willard?

- Sim.

- E qual é esse diagnóstico?

- Naquela ocasião, as condições mentais dele eram perfeitas, sem alteração de qualquer natureza.

- Em que factores se baseia o senhor para afirmar isso? Rodeheaver voltou-se para o júri e começou a aula.

- Deve-se considerar o nível de premeditação envolvido neste crime. O motivo é um elemento de premeditação. Ele tinha certamente um motivo para fazer o que fez e as condições mentais dele, na ocasião, não o impediam de alimentar a necessária premeditação. Francamente, o Sr. Hailey planeou cuidadosamente o que fez.

- Doutor, o senhor conhece o precedente M'Naghten como teste de responsabilidade criminal?

- Certamente.

- E está ciente de que outro psiquiatra, um tal Dr. W. T. Bass, disse a este júri que o Sr. Hailey era incapaz de distinguir entre o certo e o errado e, mais, que não era capaz de compreender e avaliar a natureza e a qualidade das suas acções?

- Sim, estou ciente disso.

- O senhor concorda com essas declarações?

- Não. Considero-as absurdas e sinto-me pessoalmente ofendido por elas. O próprio Sr. Hailey afirmou que planeou os crimes. Na verdade, admitiu que as suasndições mentais, na oca sião, não o impediram de os planear cuidadosamente. A isso chama-se premeditação em qualquer livro de Direito ou de Medicina. Eu nunca soube de ninguém que, tendo admitido que planeou um crime, diga depois que não sabia o que estava a fazer. Isso é absurdo.

Naquele momento Jake achou que era absurdo também e, quando as palavras ecoaram pela sala, pareceu extremamente absurdo. Rodeheaver parecia correcto e infinitamente digno de confiança. Jake pensou em Bass e praguejou mentalmente contra si mesmo.

Lucien, sentado no meio dos negros, concordava com cada palavra de Rodeheaver. Quando comparado com Bass, o médico do estado era extremamente digno de confiança. Lucien ignorou o júri. De vez em quando, sem mover a cabeça, mexia os olhos e surpreendia Clyde Sisco a olhar acintosamente para ele. Mas Lucien não permitia que os seus olhos se encontrassem. O mensageiro não tinha telefonado na manhã de segunda-feira, conforme as instruções. Um aceno afirmativo com a cabeça ou uma piscadela de Lucien consumaria o contrato, com pagamento a ser combinado mais tarde, depois do veredicto. Sisco conhecia as regras e aguardava a resposta dele. Que não veio. Lucien queria conversar primeiro com Jake.

- Agora, doutor, com base nesses factores e no seu diagnóstico das condições mentais do acusado no dia 20 de Maio, o senhor tem uma opinião, com um grau razoável de certeza médica, quanto à capacidade do Sr. Hailey de reconhecer a diferença entre o certo e o errado quando disparou sobre Billy Ray Cobb, Pete Wiilard, e o subdelegado DeWayne Looney?

- Tenho.

- E qual é essa opinião?

- As suas condições mentais eram boas e ele era perfeitamente capaz de distinguir entre o certo e o errado.

- E o senhor tem uma opinião pessoal, baseada nos mesmos factores, quanto à capacidade do Sr. Hailey em compreender e avaliar a natureza e a qualidade das suas acções?

- Tenho.

- E qual é essa opinião?

- Que ele sabia exactamente o que estava a fazer.

Buckley pegou no seu bloco-notas e curvou-se educadamente. - Muito obrigado, doutor. Não tenho mais perguntas.

- Deseja interrogar a testemunha, Dr. Brigance? - perguntou Noose.

- Apenas algumas perguntas.

- Foi o que pensei. Faremos um intervalo de quinze minutos.

Ignorando Carl Lee, Jake saiu rapidamente da sala, subiu a escada e entrou na biblioteca do terceiro andar. Harry Rex esperava-o com um sorriso.

- Acalma-te, Jake. Telefonei para todos os jornais da Carolina do Norte e não saiu nada sobre a casa, nada àcerca da Row Ark. O matutino de Raleigh traz uma reportagem sobre o julgamen to, mas em termos muito gerais. Nada mais. A Carla não sabe nada sobre a casa, Jake. Por agora, o seu lindo marco histórico continua de pé. Não é óptimo?

- Maravilhoso. Simplesmente maravilhoso. Obrigado, Harry Rex.

- Não tens de quê. Escuta, Jake. Eu detesto ter de falar nisto. - Mal posso esperar.

- Tu sabes que eu detesto o Buckley. Eu odeio-o mais do que tu. Mas eu e o Musgrove damo-nos bem. Eu posso falar com o Musgrove. Ontem à noite, estive a pensar se não seria uma boa ideia contactá-los, eu através de Musgrove, e ver se há possibilidade de um entendimento.

- Não!

- Ouve, Jake. Que mal pode fazer? Nenhum! Se tu puderes fazer com que ele se confesse culpado de homicídio, sem câmara de gás, saberás então que lhe salvaste a vida.

- Não!

- Presta atenção, Jake, o teu cliente está a quarenta e oito horas de uma condenação à pena de morte. Se tu não acreditas nisso, estás cego, Jake. Meu amigo cego.

- Por que razão iria o Buckley querer negociar? Ele levou-nos às cordas!

- Talvez ele não queira. Mas deixa-me pelo menos descobrir.

- Não, Harry Rex. Nem penses!

Rodeheaver voltou para o seu lugar, após o intervalo, e Jake, por trás do pódio, olhou para ele. Na sua curta carreira forense jamais tinha ganho uma discussão, no tribunal ou fora dele, com um perito. E da maneira que estava a sua sorte, resolveu não discutir com este.

- Dr. Rodeheaver, a psiquiatria é o estudo da mente humana, não é?

- É.

- E é, na melhor das hipóteses, uma ciência inexacta, não é? - Isso é correto.

- O senhor poderia examinar uma pessoa e fazer um diagnóstico, e outro psiquiatra poderia chegar a um diagnóstico completamente diferente?

- Isso é possível, sim.

- Na verdade, dez psiquiatras podem examinar um paciente com problemas mentais e chegar a dez opiniões diferentes acerca do que não está bem nesse paciente?

- Isso é pouco provável.

- Mas poderia acontecer, não poderia, doutor?

- Poderia, sim. Da mesma forma que as opiniões jurídicas, calculo eu.

- Mas não estamos a tratar de opiniões jurídicas neste caso, pois não, doutor?

- Não.

- Na verdade, doutor, em muitos casos a psiquiatria não pode dizer o que está mal no cérebro de uma pessoa?

- Isso é verdade.

- E os psiquiatras passam a vida a discordar uns dos outros, não é verdade, doutor?

- É claro.

- Agora, para quem trabalha o senhor, doutor? - Para o estado do Mississippi.

- E há quanto tempo? - Onze anos.

- E quem é que está a processar o Sr. Hailey? - O estado do Mississippi.

- Durante os seus onze anos de carreira no estado, quantas vezes é que o senhor depôs em julgamentos onde a alegação de insanidade foi usada pela defesa?

Rodeheaver pensou um momento.

- Penso que este é o meu quadragésimo terceiro julgamento. Jake consultou alguns papéis numa pasta e olhou para o médico com um sorrisinho maldoso.

- Tem a certeza de que não é o seu quadragésimo sexto? - Pode ser, sim. Não tenho a certeza.

Toda a sala ficou imóvel. Buckley e Musgrove consultaram as suas anotações avidamente, sem deixar de observar com atenção a testemunha.

- Quarenta e seis vezes o senhor foi testemunha do estado em julgamentos de insanidade?

- Se é o que o senhor diz.

- E quarenta e seis vezes o senhor testemunhou que o réu não era legalmente insano. Correcto, doutor?

- Não tenho a certeza.

- Bem, deixe-me simplificar. O senhor testemunhou quarenta e seis vezes, e quarenta e seis vezes emitiu a opinião de que o réu não era legalmente insano. Correcto?

Rodeheaver remexeu-se levemente, e um indício de desconforto apareceu nos seus olhos.

- Não tenho a certeza.

- O senhor nunca viu um réu criminal legalmente insano, doutor?

- É claro que sim.

- Óptimo. O senhor poderá então, por favor, dizer-nos o nome do acusado e onde foi julgado?

Buckley levantou-se e abotoou o casaco.

- Meritíssimo, o estado faz objecção a estas perguntas. O Dr. Rodeheaver não é obrigado a lembrar-se dos nomes e dos lugares dos julgamentos nos quais testemunhou.

- Indeferida. Sente-se. Responda à pergunta, doutor. Rodeheaver respirou fundo e olhou para o tecto. Jake olhou para os jurados. Estavam acordados e à espera de uma resposta. - Não me lembro - acabou ele por dizer.

Jake levantou uma grossa pilha de papéis e brandiu-a à frente da testemunha.

- É possível, doutor, que a razão pela qual o senhor não se lembra é que em onze anos, quarenta e seis julgamentos, o senhor nunca testemunhou em favor do réu?

- Sinceramente, não sou capaz de me lembrar.

- O senhor pode sinceramente citar um único julgamento em que verificou que o réu era legalmente insano?

- Estou certo de que há alguns.

- Sim ou não, doutor. Um único julgamento? O perito olhou rapidamente para o promotor.

- Não. A memória não me ajuda. Neste momento não posso.

Jake caminhou vagarosamente para a mesa da defesa e pegou numa pasta volumosa.

- Dr. Rodeheaver, o senhor lembra-se de ter testemunhado no julgamento de um homem chamado Danny Booker, em McMurphy County, em Dezembro de 1975? Um caso bastante sinistro de duplo homicídio?

- Sim, lembro-me desse julgamento.

- E o senhor testemunhou a dizer que ele não era legalmente insano, não foi?

- Isso é correcto.

- Lembra-se de quantos psiquiatras testemunharam em favor do acusado?

- Não exactamente. Houve vários.

- Os nomes dos doutores Noel McClacky, O. G. McGuire e Lou Watson lhe dizem alguma coisa?

- Sim.

- São todos psiquiatras, não são?

- Sim.

- São todos qualificados, não são?

- Sim.

- E todos examinaram o Sr. Booker e, no julgamento, testemunharam que na opinião deles o desgraçado era legalmente insano? - Correcto.

- E o senhor testemunhou que ele não era legalmente insano? - Correcto.

- Quantos outros médicos endossaram o seu parecer? - Nenhum, que eu me lembre.

- Então, foram três contra um?

- Sim, mas continuo convencido de que eu tinha razão. - Compreendo. O que foi que o júri fez, doutor?

- O réu, ahh, foi julgado inocente em virtude de insanidade mental.

- Muito obrigado. Agora, Dr. Rodeheaver, o senhor é o médico-chefe de Whitfield, não é?

- Sim, por assim dizer.

- O senhor é directa e indirectamente responsável pelo tratamento de todos os pacientes de Whitfield?

- Sou directamente responsável, Dr. Brigance. Posso não tratar pessoalmente de cada um dos pacientes, mas os médicos deles estão sob a minha supervisão.

- Muito obrigado. Doutor, onde está Danny Booker hoje? Rodeheaver lançou um olhar desesperado a Buckley, e logo o encobriu com um sorriso cálido e descontraído para o júri. Hesitou alguns segundos, depois hesitou durante um segundo longo demais. - Ele está em Whitfield, não está? - perguntou Jake num tom de voz que informava toda a gente que a resposta era sim.

- Creio que sim - disse Rodeheaver.

- E está directamente sob os seus cuidados, nesse caso, doutor?

- Suponho que sim.

- E qual é o diagnóstico de Danny Booker, doutor? - Realmente não sei. Tenho muitos pacientes e... - Esquizofrénico paranóide?

- É possível, sim.

Jake deu alguns passos para trás e sentou-se na barra do tribunal. Subiu o tom de voz.

- Agora, doutor, quero deixar isto claro para o júri. Em 1975, o senhor testemunhou que Danny Booker era legalmente são e entendia exactamente o que fazia quando cometeu o crime, e o júri discordou de si e julgou-o inocente, e desde aquela época ele é um paciente no seu hospital, sob a sua supervisão e é tratado pelo senhor como um esquizofrénico paranóide. Está correcto?

O sorriso afectado na cara de Rodeheaver informou o júri que a afirmação era de facto correcta. Jake pegou noutra folha de papel e pareceu examiná-la.

- Lembra-se de testemunhar no julgamento de um homem chamado Adam Couch, em Dupree County, em Maio de 1977?

- Lembro-me desse caso.

- Foi um caso de estupro, não foi? - Sim.

- E o senhor testemunhou em nome do estado, contra o Sr. Couch?

- Isso é correcto.

- E o senhor disse ao júri que ele não era legalmente insano? - Foi esse o meu depoimento.

- O senhor lembra-se de quantos médicos testemunharam em favor do acusado e disseram ao júri que ele era um homem muito doente, que era legalmente insano?

- Houve vários.

- Já ouviu falar nos seguintes médicos: Felix Perry, Gene Shumate e Hobny Wicker?

- Sim.

- São todos eles psiquiatras qualificados? - São.

E todos eles testemunharam em favor do Sr. Couch, não foi?

- Sim.

- E todos eles disseram que ele era legalmente insano, não disseram?

- Disseram.

- E o senhor foi o único médico no julgamento a dizer que ele não era legalmente insano?

- Ao que me lembro, sim. - E o que fez o júri, doutor? - O réu foi julgado inocente. - Por motivo de insanidade? - Sim.

- E onde está o Sr. Couch hoje, doutor? - Julgo que está em Whitfield.

- E há quanto tempo está lá? - Desde o julgamento, creio eu.

- Compreendo. O senhor normalmente admite pacientes e mantém-nos lá durante vários anos ainda que eles sejam perfeitamente sãos?

Rodeheaver mudou de posição na cadeira e começou a ferver. Olhou para o seu advogado, o advogado do povo, como se dissesse que estava farto daquilo, e pedisse que pusesse um fim àquilo tudo. Jake pegou noutros papéis.

- Doutor, o senhor lembra-se do julgamento de um homem chamado Buddy Wooddall, em Cleburne County, em Maio de 1979?

- Sim, certamente.

- Assassinato, não foi? - Sim.

-E o senhor testemunhou como perito no campo da psiquiatria e disse ao júri que o Sr. Wooddall não era insano?

- Sim.

- Lembra-se de quantos psiquiatras testemunharam em favor do acusado e disseram ao júri que o pobre homem estava legalmente insano?

- Acredito que foram cinco, Dr. Brigance.

- Isso é correcto, doutor. Cinco contra um. O senhor lembra-se do que fez o júri?

A raiva e a frustração cresciam visivelmente no banco das testemunhas. O sábio e velho avô/professor com todas as respostas certas começava a ficar perturbado.

- Sim, lembro-me. Foi inocentado por insanidade.

- Como é que o senhor explica isso, Dr. Rodeheaver? Cinco contra um e o júri decide contra o senhor?

- Não se pode confiar nos júris! - explodiu ele, e logo se conteve. Inquieto, sorriu amarelo para os jurados.

Jake fitou-o com um sorriso malicioso, depois olhou incrédulo para o júri. Cruzou os braços e deixou que as últimas palavras calassem fundo. Esperou, a olhar e a rir para a testemunha.

- Pode prosseguir, Dr. Brigance - disse Noose por fim. Com movimentos lentos e muito animado, Jake arrumou as suas pastas e anotações sem tirar os olhos de Rodeheaver.

- Acho que já ouvimos bastante esta testemunha, Meritíssimo. - Alguma pergunta, Dr. Buckley?

- Não, senhor. O estado dá por finda a inquirição da testemunha.

Noose dirigiu-se ao júri.

- Senhoras e senhores, este julgamento está quase terminado. Não haverá mais testemunhas. Agora vou reunir com os advogados para resolvermos alguns problemas de ordem técnica, segui damente, eles poderão apresentar as suas alegações finais. Isso começará às duas horas e levará umas duas horas. Os senhores terão finalmente o caso por volta das quatro e eu conceder-lhes-ei o prazo para deliberar até às seis. Se não chegarem a um veredicto hoje, serão conduzidos de volta aos seus quartos até amanhã. São quase onze horas, e a sessão fica suspensa até às duas. Quero falar com os advogados no meu gabinete.

Carl Lee inclinou-se e falou com o seu advogado pela primeira vez desde sábado.

- Desmontou-o que foi uma beleza, Jake. - Espere até ouvir as alegações finais.

Jake evitou Harry Rex e seguiu de carro para Karaway. A casa da sua infância era uma antiga casa de campo no centro da cidade, cercada de velhos carvalhos, bordos e álamos que manti nham o ar fresco apesar do Verão escaldante. Atrás da casa, passadas as árvores, um longo campo aberto estendia-se ao longo de duzentos metros e desaparecia depois de uma pequena colina. Uma tela de arame erguia-se num canto. Ali, Jake dera os primeiros passos, andara na sua primeira bicicleta, atirara as primeiras bolas de futebol e beisebol. Debaixo de um carvalho ao lado do campo tinha enterrado três cães, um guaxinim, um coelho e alguns patos. Um pneu de um Buick 54 oscilava dependurado não muito longe do pequeno cemitério.

A casa estava fechada e vazia há dois meses. Um garoto da vizinhança cortava a relva e cuidava do jardim. Jake vinha abri-la uma vez por semana. Os pais estavam no Canadá numa roulotte: o ritual do Verão. Jake desejou estar com eles.

Abriu a porta e subiu para o seu quarto. Continuaria a ser sempre o mesmo. Retratos de futebol nas paredes, troféus, bonés de beisebol, posteres de Pete Rose, Archie Manning e Hank Aaron. Uma porção de luvas de beisebol pendiam por cima da porta do armário. Um retrato da formatura, com toga e capelo, estava em cima da cómoda. A mãe continuava a limpar o quarto todas as semanas. Certa vez, ela tinha dito que entrava muitas vezes no quarto à espera de encontrar Jake sentado, a fazer os deveres ou a separar figurinhas de beisebol. Folheava os álbuns de recortes dele e ficava com os olhos cheios de lágrimas.

Jake pensou no quarto de Hanna, com os bichos de pelúcia e o papel de parede com figuras dos contos de fadas. Sentiu um nó na garganta.

Olhou pela janela, para além das árvores, e viu-se a si mesmo a andar de baloiço no pneu perto das três cruzes brancas onde estavam enterrados os seus cães. Lembrou-se de cada um dos enterros, das promessas do pai de arranjar outro cão. Pensou em Hanna e no seu cão, e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. A cama era muito mais pequena agora.

Jake tirou os sapatos e deitou-se. Um capacete de futebol pendia do tecto. Oitava série, Mustangs de Karaway. Jake tinha marcado sete touchdowns em cinco games. Estava tudo no filme guardado na estante lá em baixo. Tinha o estômago a arder.

Cuidadosamente arrumou as suas notas - as suas, não as de Lucien - na cómoda. Estudou demoradamente a sua imagem no espelho.

Jake dirigiu-se ao júri. Começou por enfrentar o seu maior problema, Dr. W. T. Bass. Pediu desculpa. Um advogado entra no tribunal, enfrenta um júri estranho e nada tem a oferecer além de sua credibilidade. E se ele faz qualquer coisa que prejudique essa credibilidade, está a prejudicar a sua causa, o seu cliente. Pediu que acreditassem que ele não chamaria nunca a depor, como perito, em qualquer julgamento, um réu convicto. Não sabia da condenação; levantou a mão e jurou. O mundo está cheio de psiquiatras, e poderia ter encontrado outro facilmente se soubesse que o Dr. Bass tinha um problema, mas simplesmente não sabia. E pedia desculpa.

Mas, e o depoimento de Bass? Há trinta anos ele fizera sexo com uma menor de menos de 18 anos no Texas. Isso significa que está a mentir agora neste julgamento? Significa que não se pode confiar na sua opinião de profissional? Por favor, sejam justos com Bass, o médico, esqueçam Bass, o indivíduo. Por favor, sejam justos com o paciente dele, Carl Lee Hailey. Ele nada sabia do passado do médico.

Havia uma coisa sobre o Dr. Bass que eles gostariam de saber. Uma coisa que não tinha sido mencionada pelo Dr. Buckley quando estava a estraçalhar o médico. A menina com quem ele tinha feito sexo tinha dezassete anos. Mais tarde ela tornara-se sua mulher, dera-lhe um filho varão, e estava grávida quando ela e o filho foram mortos num desastre de comboio...

- Protesto! - gritou Buckley. - Protesto, Meritíssimo. Essa prova não consta dos autos!

- Deferido. Dr. Brigance, o senhor não deve referir-se a factos que não constam do depoimento. O júri deve ignorar as últimas afirmações do Dr. Brigance.

Jake ignorou Noose e Buckley, e fitou sofridamente o júri. Quando a gritaria acabou, ele prosseguiu. E Rodeheaver? Ele perguntava a si próprio se o médico do estado alguma vez fizera sexo com uma menor de dezoito anos. Parecia tolice pensar numa coisa dessas, não parecia? Bass e Rodeheaver nos seus dias de juventude... isso parecia tão sem importância agora, neste tribunal, quase trinta anos depois. O médico do estado é um homem com um preconceito óbvio. Um especialista muito preparado, que cuida de milhares de pessoas com todos os tipos de doenças mentais, porém, quando se trata de crimes, não é capaz de reconhecer os sintomas de insanidade. O seu testemunho deve ser ponderado cuidadosamente.

Os jurados olhavam para ele, ouvindo cada palavra. Jake não era um orador de tribunal, como o seu opositor. Era calmo, sincero. Parecia cansado, quase abatido.

Lucien, sóbrio, com os braços cruzados, observava os jurados, todos menos Sisco. Não era o seu texto, mas era bom. Vinha do coração. Jake pediu desculpa pela sua inexperiência. Não tinha estado em muitos julgamentos, não em tantos quanto o Sr. Buckley. E se parecia um pouco verde ou se cometia erros, por favor, não usassem isso contra Carl Lee. Não era culpa dele. Jake era apenas um principiante tentando fazer o possível contra um adversário experiente, que actuava em processos criminais todos os meses. Jake tinha cometido um erro com Bass, e tinha cometido outros erros, e pedia ao júri que lhos perdoasse.

Ele tinha uma filha, a única que teria em toda a sua vida. Ela tinha quatro anos, quase cinco, e o mundo dele girava em volta dela. Ela era especial, era uma menina e competia-lhe a ele protegê-la. Havia ali um elo, alguma coisa que não sabia explicar. Falou de filhas pequenas. Carl Lee tinha uma filha. Chamava-se Tonya. Apontou para ela, na primeira fila, ao lado da mãe e dos irmãos. É uma bonita menina de. dez anos. E ela nunca poderá vir a ter filhos. Nunca poderá ter uma filha porque...

- Protesto! - disse Buckley, sem gritar. - Deferido - disse Noose.

Jake ignorou o alvoroço. Falou sobre estupro durante algum tempo e explicou por que razão o estupro é muito pior do que o assassinato. No caso de assassinato, a vítima desaparece e não é obrigada a lidar com o que lhe aconteceu. A família sim, mas não a vítima. Mas o estupro é muito pior. A vítima tem uma vida inteira para se afligir, para tentar entender, fazer perguntas e, a pior parte, saber que o violador ainda está vivo e pode algum dia fugir ou ser solto. A todas as horas do dia, a vítima pensa na violação e faz a si mesma milhares de perguntas. Revive-o passo a passo, minuto a minuto, e a dor é sempre insuportável.

Talvez o crime mais hediondo de todos seja o estupro violento de uma menina. Uma mulher violada tem uma ideia razoável da razão por que isso aconteceu. Algum animal estava cheio de ódio, raiva e violência. Mas e uma menina? Uma menina de dez anos? Suponha que é um pai ou uma mãe. Imagine-se a tentar explicar por que razão ela não pode ter filhos.

- Protesto.

- Deferido. Por favor, senhoras e senhores, não considerem a última frase.

Jake não perdeu o ritmo. Suponha, disse ele, que a sua filha de dez anos seja violada, que o senhor seja um veterano do Vietname, inteiramente familiarizado com uma M-16, e que consegue pôr as mãos numa enquanto sua filha está no hospital a lutar para sobreviver. Suponha que o violador seja apanhado, e que seis dias depois consegue chegar muito perto dele quando ele vai a sair do tribunal. E tem a M-16.

O que é que faz?

O Dr. Buckley disse-lhes o que faria. Depois de chorar a morte da filha, ofereceria a outra face e esperaria que o sistema judiciário funcionasse. Esperaria que o violador recebesse a senten ça, fosse mandado para Parchman e nunca conseguisse a liberdade condicional. É isto que ele faria, e devem admirá-lo por ser uma alma tão bondosa, compassiva e misericordiosa. Mas o que faria um pai normal?

O que faria Jake? Se tivesse a M-16? Estoiraria os miolos ao patife. Era simples. Era justo.

Jake parou para beber água, depois mudou de ritmo. A expressão sofredora e humilde desapareceu, substituída pela indignação. Falemos de Cobb e Willard. Foram eles que começaram esta confusão. Era a vida deles que o estado estava a tentar justificar. Quem sentiria a falta deles, além das mães? Violadores de crianças. Traficantes de drogas. A sociedade sentiria falta de cidadãos tão produtivos? Ford County não estava mais seguro sem eles? As outras crianças do condado não estavam em melhor situação, agora que dois estupradores e traficantes tinham sido eliminados? Todos os pais se deviam sentir mais seguros. Carl Lee merece uma medalha, ou pelo menos aplausos. Ele era um herói. Exactamente aquilo que Looney disse. Dêem ao homem um troféu. Mandem-no de volta para o seio da sua família.

Falou de Looney. Looney tinha uma filha. Também tinha só uma perna, graças a Carl Lee Hailey. Se alguém tinha direito de estar revoltado, de querer sangue, era DeWayne Looney. E ele tinha dito que Carl Lee devia ser mandado para casa, para junto da sua família.

Jake incitou-os a perdoar como Looney perdoara. Pediu-lhes que atendessem ao desejo de Looney.

Já bem mais sereno, declarou que estava quase a concluir. Queria deixá-los com um único pensamento. Imaginassem isto, se pudessem. Quando estava lá deitada, espancada, ensanguentada, com as pernas abertas e amarradas às árvores, ela olhou para a mata que a rodeava. Semi-consciente e desvairada, viu alguém a correr na sua direcção. Era o seu pai, a correr desesperadamente para a salvar. Em sonhos, ela viu-o quando mais precisava dele. Gritou por ele, e ele desapareceu. Tinha sido levado. Ela precisa do pai agora, tanto quanto precisava naquele momento. Por favor, não o levem. Ela espera na primeira fila pelo seu pai. Deixem que ele volte para casa e para a sua família.

O tribunal estava em silêncio quando Jake se sentou ao lado do seu cliente. Ele olhou para o júri e viu Wanda Womack enxugar uma lágrima com o dedo. Pela primeira vez em dois dias ele sentiu uma centelha de esperança.

Às quatro horas, Noose despediu-se do seu júri. Disse-lhes que elegessem um primeiro-jurado, que se organizassem e começassem a trabalhar. Disse-lhes que podiam deliberar até às seis, tal vez sete, e se não chegassem a um veredicto, determinaria uma suspensão até às nove da manhã de terça-feira. Eles levantaram-se e, em fila, saíram lentamente da sala do tribunal. Longe deles, Noose suspendeu as actividades até às seis horas e recomendou aos advogados que permanecessem perto da sala do tribunal ou deixassem um número de telefone ao meirinho.

Os espectadores ficaram sentados, conversando em voz baixa. Carl Lee teve autorização para se sentar, na primeira fila, com a família. Buckley e Musgrove esperavam no gabinete do juiz, com Noose- Harry Rex, Lucien e Jake foram para o escritório a fim de comerem e beberem qualquer coisa. Ninguém esperava um veredicto rápido.

O meirinho fechou os jurados na sala do júri e ordenou aos dois suplentes que ficassem sentados no corredor estreito. Lá dentro, Barry Acker foi eleito primeiro-jurado por aclamação. Ele pôs as instruções do júri e as provas numa mesinha de canto. Sentaram`         -se ansiosos em volta de duas mesas dobráveis unidas pelas extremidades.

- Sugiro que façamos uma votação informal - disse ele. - Só para nos situarmos. Alguma objecção?

Nenhuma. Ele tinha uma lista com os doze nomes.

- Votem culpado, inocente ou indeciso. Ou podem passar, por enquanto.

- Reba Betts. - Indecisa.

- Bernice Toole. - Culpado.

- Carol Corman. - Culpado.

- Donna Lou Peck. - Indecisa.

- Sue Williams. - Passo.

- Jo Ann Gates. - Culpado.

- Rita Mae Plunk. - Culpado.

- Frances McGowan. - Culpado.

- Wanda Womack. - Indecisa.

- Eula Dell Yates.

- Indecisa, por enquanto. Quero conversar primeiro.

- Conversaremos. Clyde Sisco. - Indeciso.

- São onze. Eu sou Barry Acker, e voto inocente. Fez as contas durante alguns segundos e disse:

- Temos cinco culpados, cinco indecisos, um passou e um inocente. Parece que temos de trabalhar agora. Examinaram as provas, as fotografias, as impressões digitais e os relatórios de balística.

Às seis horas informaram o juiz que não tinham chegado a um veredicto. Estavam com fome e queriam ir-se embora. Noose determinou uma suspensão até à manhã de terça-feira.

 

Ficaram horas sentados na varanda, falando pouco, a ver a noite envolver a cidade lá em baixo e trazer os mosquitos. O ar húmido colava-se à pele e humedecia as camisas. Os ruídos de uma noite quente de Verão ecoavam suavemente no jardim. Sallie ofereceu-se para fazer o jantar. Lucien recusou a oferta e pediu uisque. Jake não tinha apetite para comer, mas a cerveja satisfazia qualquer tipo de fome que por acaso tivesse. Quando ficou muito escuro, Nesbit saiu do carro, atravessou a varanda e entrou na casa. Logo a seguir saiu, bateu a porta, passou por eles com uma cerveja gelada na mão e desapareceu na direcção do carro. Não disse uma palavra.

Sallie abriu um pouco a porta e pela última vez ofereceu comida. Ambos recusaram.

- Jake, recebi um telefonema esta tarde. Clyde. Sisco quer vinte e cinco mil dólares para impedir que o júri chegue unânime a um veredicto e cinquenta mil por uma absolvição.

Jake começou a abanar a cabeça.

- Antes de dizer não, ouça o que eu tenho a dizer. Ele sabe que não pode garantir uma absolvição, mas sabe que pode impedir a unanimidade da decisão. Para isso basta um só jurado. Isso custa vinte e cinco mil. Eu sei que é muito dinheiro, mas você sabe que eu tenho dinheiro. Eu pago e reembolsa-me aos poucos durante anos. Quando, não interessa. Se não pagar, também não interessa. Tenho um montão de certificados de aforro. Sabe muito bem que o dinheiro não significa nada pra mim. Se eu fosse a si, fazia isso já. - Você é louco, Lucien.

- É claro que sou louco. O Jake também não tem agido sensatamente ultimamente. O trabalho no tribunal enlouquece qualquer um. Repare bem no que esse processo lhe fez. Não dorme, não come, não tem horas para nada, não tem casa. Mas está armado em importante!

- Mas ainda tenho ética.

- Pois eu não tenho nenhuma! Nem ética, nem moral, nem consciência. Mas ganhei todas, meu amigo. Ganhei mais do que qualquer um nestas redondezas, e o Jake sabe isso muito bem.

- Isso é corrupção, Lucien.

- E vai dizer-me que o Buckley não é corrupto? Ele está disposto a mentir, enganar, subornar e roubar para ganhar este caso. Não está preocupado com ética, normas ou opiniões. Não se preo cupa com moralidade. Só está preocupado com uma coisa: ganhar! E você tem uma oportunidade de ouro de vencê-lo no seu próprio jogo. Eu fá-lo-ia, Jake.

- Nem pense, Lucien. Por favor, esqueça.

Passaram uma hora em silêncio. Lá em baixo, as luzes da cidade foram-se apagando a pouco e pouco. Na escuridão, ouviam o ressonar de Nesbit. Sallie serviu a última rodada de copos e deu as boas-noites.

- Esta é a parte pior - disse Lucien. - Esperar que doze pessoas medianas, vulgares, dêem algum sentido a tudo isto.

- É um sistema um bocado doido, não é?

- É, sim. Mas geralmente funciona. Os júris acertam em noventa por cento dos casos.

- Não me sinto com sorte. Estou à espera do milagre. - Jake, meu rapaz, o milagre acontece amanhã.

- Amanhã?

- Sim, amanhã cedo. - Pode explicar?

- Amanhã, por volta do meio-dia, Jake, haverá dez mil negros raivosos reunidos como um bando de formigas em torno do edifício do tribunal de Ford County. Talvez mais.

- Dez mil! Porquê?

- Para gritar e berrar e entoar "Libertem Carl Lee, Libertem Carl Lee". Para fazer um barulho dos diabos, assustar toda a gente, intimidar o júri. Só para abalar tudo. Haverá tantos, mas tantos negros, que os brancos vão pôr-se a milhas... O governador irá mandar mais soldados.

- E como é que o Lucien sabe tudo isso? - Porque foi o que eu planeei, Jake.

- Você?

- Ouça, Jake, quando eu estava no apogeu, eu conhecia todos os pregadores negros de quinze condados em redor. Estive nas igrejas de todos eles. Rezei com eles, marchei com eles, cantei com eles. Eles mandavam-me clientes, e eu mandava-lhes dinheiro.

Eu fui o único advogado radical branco da associação a norte do Mississippi. Promovi mais acções contra a discriminação racial do que dez firmas de Washington. Eles eram a minha gente. Limitei-me a dar alguns telefonemas. Começarão a chegar de manhã e, ao meio-dia, ninguém vai poder passar entre os negros no centro de Clanton.

- De onde vêm eles?

- De toda a parte. Você sabe como os negros adoram desfiles e protestos. Isto vai ser uma beleza para eles. Estão ansiosos que chegue a hora.

- Você é louco, Lucien. Meu amigo louco. - Eu ganho todas, meu amigo!

No quarto 163, Barry Acker e Clyde Sisco terminaram o jogo de cartas e começaram a preparar-se para dormir. Acker pegou nalgumas moedas e disse que ia buscar um refrigerante. Sisco disse que não estava com sede.

Acker passou em bicos dos pés por um guarda no corredor. A máquina informou-o de que estava avariada, e ele então abriu a porta de saída e subiu a escada para o segundo andar, onde encon trou outra máquina perto de um aparelho de fazer gelo. Colocou as moedas na abertura. A máquina respondeu com uma diet Coke. Acker baixou-se para lhe pegar. Dois vultos surgiram do escuro. Derrubaram Acker, deram-lhe pontapés e empurraram-no para um canto perto da máquina de fazer gelo, ao lado de uma porta com corrente e cadeado. O mais alto agarrou-o pelo colarinho e atirou-o contra a parede. O mais baixo ficou ao lado da máquina de CocaCola, a vigiar o corredor escuro.

- Você é Barry Acker! - disse o mais alto com os dentes cerrados.

- Sim. Largue-me! - Acker tentou soltar-se, mas o assaltante ergueu-o pelo pescoço e manteve-o contra a parede com uma só mão. Usou a outra mão para desembainhar uma reluzente faca de caça que aproximou do nariz de Acker, deixando-o estatelado.

- Agora ouça - disse o homem num murmúrio audível - e ouça bem. Sabemos que você é casado e que mora em Forrest Drive. Sabemos que tem três filhos e sabemos onde eles brincam e em que escola estudam. A sua mulher trabalha no banco. Acker sentiu-se desfalecer.

- Se aquele preto for solto, você vai arrepender-se. A sua família vai arrepender-se. Pode levar anos, mas você vai arrepender-se.

Deixou-o cair no chão e segurou-o pelos cabelos.

- Se você disser uma só palavra sobre isto, perde um filho. Compreendeu?

Os homens desapareceram. Acker respirou fundo, quase sem fôlego. Massajou a garganta e a nuca. Sentou-se no escuro, apavorado demais para se mexer.

 

Em centenas de igrejinhas negras no norte do Mississippi os fiéis reuniram-se antes do nascer do dia e encheram os autocarros escolares e as carrinhas da igreja com cestas de piquenique, caixas térmicas e garrafas de água. Cumprimentavam os amigos e conversavam nervosamente sobre o julgamento. Durante semanas tinham lido e trocado ideias sobre Carl Lee Hailey. Agora preparavam-se para ajudá-lo. Muitos eram velhos e reformados, mas havia famílias inteiras, com filhos pequenos e parques para os mais novos. Quando os autocarros estavam cheios, amontoaram-se nos carros e seguiram os seus pregadores. Cantavam e rezavam. Os pregadores encontraram-se com outros pregadores em pequenas cidades e sedes de condados e em grande número rumavam para as escuras estradas. Quando amanheceu, as estradas e auto-estradas que levavam a Ford County estavam cheias de caravanas de peregrinos.

Engarrafaram as ruas laterais ao longo de muitos quarteirões em torno da praça. Estacionavam onde os carros paravam e descarregavam tudo o que traziam.

O coronel gordo tinha acabado de tomar café e estava no coreto a observar atentamente. Autocarros e carros, muitos a buzinar, chegavam de todas as direcções. As barricadas continuavam firmes. Gritou algumas ordens de comando e os soldados puseramse em movimento. Mais confusão. Às sete e trinta, o coronel telefonou para Ozzie e informou-o da invasão. Ozzie chegou imediatamente e encontrou Agee, que lhe assegurou que era uma manifestação pacífica. Mais ou menos como uma greve branca. Quantos iam chegar? perguntou Ozzie. Milhares, disse Agee. Milhares.

Acamparam à sombra dos carvalhos imponentes e começaram a andar pelo relvado, a inspeccionar as coisas. Arrumaram as mesas, as cadeiras e os pequenos parques das crianças. Agiam de facto pacificamente, até que um grupo começou a gritar "Libertem Carl Lee". Todos temperaram a garganta e se uniram ao coro. Ainda não eram oito horas.

Logo de manhã cedo, naquela terça-feira, uma estação de rádio negra de Memphis inundou os receptores com um pedido de ajuda. Precisavam de negros para uma manifestação em Clanton, Mississippi, a uma hora de distância. Centenas de carros afluíram a uma das avenidas e rumaram para o sul. Todos os políticos negros e activistas dos direitos civis da cidade fizeram a viagem.