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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TEMPO PARA AMAR / Danielle Steel
TEMPO PARA AMAR / Danielle Steel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TEMPO PARA AMAR

 

O alarme tocou pouco depois das seis. Ela agitouse, estendeu um braço para fora dos cobertores e desligou-o. Podia fingir que não o tinha ouvido. Podia voltar a dormir. Não precisava de levantar-se... não era preciso... e então o telefone tocou.

- Raios!

Kaitlin Harper sentou-se na cama. As tranças do seu cabelo castanho comprido tocavam-lhe nos ombros, pois não as desfizera quando se deitara, e o seu rosto estava bronzeado.

O telefone voltou a tocar e, com um suspiro, atendeu, reprimindo o bocejo. Tinha uma boca delicada, que sorria muito quando ela estava feliz, mas naquele dia os seus olhos verdes tinham uma expressão demasiado séria. já se encontrava desperta. Seria muito mais fácil voltar a dormir e esquecer.

- Olá, Kate.

Sorriu ao ouvir a voz familiar. já esperava que fosse Felícia. Mais ninguém sabia onde se encontrava.

- O que estás a fazer levantada a esta hora? –Ora?

- O costume.

Kate esboçou um sorriso.

- Às seis da manhã? Que lindo costume.

Felicia Norman levantava-se a custo às oito da manhã e no escritório a sua secretária tinha ordens para evitar passar-lhe chamadas até às dez. As seis da manhã eram uma hora estranha para já se encontrar levantada. Mas não por Kate. Por Kate, até ela era capaz de acordar àquela hora matutina.

- Não tens nada melhor para fazer do que ver como é que eu estou, Licia?

- Parece que não. Então, novidades?

Kate quase conseguia ouvir Felicia a esforçar-se por se manter acordada. O cabelo louro bem cortado, que caía liso sobre os ombros, estava naquele momento espalhado sobre a almofada enquanto uma mão de unhas bem tratadas cobria os olhos azul-gelo do seu rosto bem esculpido. Como Kate, tinha o rosto de um modelo, mas era doze anos mais velha.

- Não há novidades, tonta. Mas estou bem. juro.

- óptimo. Lembreime apenas que talvez gostasses que eu fosse aí hoje ter contigo.

Aí. Uma palavra anónima para um local anónimo. E Felicia estava disposta a conduzir durante duas horas só para se encontrar com a amiga «aí». E para quê? Kate tinha de fazer as coisas sozinha. Sabia-o bem. Não podia continuar a depender das pessoas. já o fizera durante demasiado tempo.

- Não, Licia, eu estou bem. Para além disso, a tua empresa manda-te à fava se continuas a desaparecer a meio da semana para vir tomar conta de mim.

Felicia Norman era directora de moda de uma das lojas mais elegantes de São Francisco, e Kate conhecera-a quando passara modelos.

- Não sejas tonta. Nem sequer dão pela minha falta.

Contudo, sabiam bem que isso era mentira. E o que Kate não sabia era que Felicia tinha de supervisionar nessa tarde o desfile de Norefl. Toda a colecção de Inverno. E dali a três dias o de HaIston. Na semana seguinte seria Blass. Era dificil imaginar tudo aquilo. Até para Felicia. Mas Kate já se afastara daquele mundo. já não pensava na estação nem nas roupas. Há meses que não o fazia.

- Como está a minha amiguinha? - perguntou Felicia numa voz meiga, provocando um ligeiro sorriso em Kate. Desta vez era a sério, e ela passou a mão pela barriga enorme. Mais três semanas... três semanas... e Tom...

- Ele está bem.

- Como podes ter a certeza de que é um rapaz? Até eu já estou convencida. - Felicia sorriu ao lembrar-se do monte de roupa de bebé que encomendara no sétimo piso da loja, a semana anterior. - E é melhor que seja!

Riram-se ambas.

- Vai ser. O Tom disse... - E depois o silêncio. As palavras tinham escapado. - Bom, querida, hoje não preciso de uma ama. Prometo. Podes ficar em São Francisco, dormir mais duas horas e ir trabalhar descansada. Se precisar de ti, telefono. Podes ficar tranquila.

- Onde é que eu já ouvi isso? - Felicia soltou uma gargalhada grave. - Se estivesse à espera que me ligasses, morria de velhice. Posso ir aí visitar-te no fim-desemana?

- Outra vez? Será que aguentas? - Nos últimos quatro meses, a amiga fora visitá-la quase todos os fins-de-semana. Mas agora era Kate quem já a esperava. A pergunta de Felicia e a resposta de Kate eram apenas uma formalidade.

- O que queres que te leve?

- Nada! Felicia Norman, se me trouxeres mais umas daquelas roupas para grávidas, eu grito! Onde é que julgas que eu as uso? Para ir ao supermercado? Menina, eu vivo numa estrebaria! Os homens usam camisolas interiores e as mulheres batas. É isso. - Kate parecia divertida.

Porém, Felicia não.

- A culpa é tua. Eu avisei-te...

- Ora, cala-te. Sou feliz aqui - afirmou Kate com um sorriso.

- És maluca. Isso é apenas a vontade de acalmar que as mulheres têm quando engravidam. Espera só até o bebé nascer. Aí voltas ao normal.

Felicia contava que isso acontecesse. Até andava à procura de um apartamento vago. já vira dois muito bons perto de Telegraph Hifi. Kate seria louca se ficasse ali. Porém, contava que isso lhe passasse. O furor inicial começara já a desvanecer-se. Mais uns meses e ela regressaria em paz.

- Escuta, Licia... - Kate olhou para o despertador. - É melhor eu ir andando. Tenho uma viagem de três horas para fazer ainda hoje. - Espreguiçou-se com cuidado, esperando não sentir nas pernas aquelas cãibras que a faziam saltar da cama - embora não conseguisse propriamente «saltar» muito.

- E isso é outra das coisas. Podias deixar de lá ir no próximo mês, pelo menos até o bebé nascer. Não há necessidade...

- Licia, gosto muito de ti. Adeus. - Kate desligou sem

bater com o auscultador. já ouvira aquela conversa antes. E sabia o que estava a fazer. Era o que tinha de fazer. E o que queria fazer. Para além disso, que alternativa lhe restava? Como podia deixar de lá ir agora?

Rolou devagar até ficar sentada na ponta da cama e respirou fundo enquanto olhava para as montanhas lá fora. Os seus pensamentos encontravam-se a anos e a muitos quilómetros dali. À distância de uma vida.

- Tom - disse ela baixinho. Apenas aquela palavra. Nem se apercebera de que a dissera. Tom... Como podia ele não estar ali? Porque não se encontrava a preparar o banho, ou a cantar no chuveiro, a provocá-la da cozinha... Teria ele desaparecido mesmo? Ainda há tão pouco tempo podia chamá-lo e ouvir a sua voz. Estivera junto de si. Sempre. Alto, louro e bonito, cheio de gargalhadas e de abraços e com o dom de proporcionar momentos maravilhosos. Tom, que ela conhecera no primeiro ano da faculdade, quando a equipa fora a São Francisco e ela por acaso assistira ao jogo... e a seguir, também por acaso, fora a uma festa, onde havia alguém que conhecia alguém da equipa... Loucura. E sorte. Nunca tinha feito nada parecido antes. Apaixonara-se por ele de imediato, com dezoito anos. Por uma vedeta do futebol? A princípio, a ideia parecera-lhe divertida. Um jogador de futebol. Mas ele não era apenas isso. Era especial. Era Tom Harper. Meigo, terno, muito atencioso. Tom, cujo pai trabalhara nas minas de carvão da Pensilvânia, e cuja mãe trabalhara num restaurante para o ajudar a pagar os estudos. Tom, que trabalhara noite e dia durante o Verão para poder ir para a faculdade, e que acabara por consegui-lo e ganhar uma bolsa de estudos para jogar futebol. Tornara-se uma vedeta. E depois um profissional. Uma espécie de herói nacional. Tom Harper. E fora nessa altura que o conhecera. Quando era uma vedeta. Tom...

- Olá, princesa. - O olhar dele percorrera-a como uma gota de chuva estival.

- Olá. - Sentira-se tão idiota. «Olá»... não lhe ocorrera dizer mais nada. Também não tinha nada para lhe dizer, embora sentisse na barriga um pequeno nó. Tivera de desviar o olhar. Os olhos azuis dele eram demasiado intensos para os fi tar, bem como a forma como ele observava o seu rosto, a forma como sorria. Enfrentar aquele olhar era como tentar fitar o Sol.

- És de São Francisco? - perguntara ele com um sorriso, lá de cima da sua enorme estatura. Era um homem grande, muito bem constituído, com o porte clássico exigido para a sua profissão. Kate perguntara a si mesma o que estaria Tom a pensar a seu respeito. Provavelmente achava-a ridícula. Uma oferecida, ou apenas uma miúda.

-           Sim, sou de São Francisco. Tu também? - Depois haviam desatado a rir, porque ela sabia que Tom não era dali. Toda a gente sabia de onde ele era. E a equipa era de Chicago.

-           - Porque és tão tímida?

- Eu... hum... raios! - Haviam voltado a rir e depois disso as coisas melhoraram. Saíram da festa e foram comer hambúrgueres.

- Os teus amigos vão ficar chateados?

- Talvez.

Sentou-se ao balcão num banco ao lado do dele, abanando uma perna comprida e sorrindo alegremente sobre o hambúrguer que pingava gordura. Fora à festa com um rapaz. Mas não tencionava voltar a vêlo. Estava ali com Tom Harper. Era dificil habituar-se à ideia. Mas ele não parecia corresponder à lenda de que Kate ouvira falar. Era apenas um homem. Gostava dele. Não por ele ser quem era, mas porque era simpático. Não... Era mais do que isso... porém, não sabia bem o quê. Sabia apenas que sentia uma impressão agradável na barriga e isso acontecia de cada vez que olhava para ele. Perguntou a si mesma se ele se aperceberia desse facto.

- Fazes isto muitas vezes, princesa? Quero dizer, abandonar os rapazes nas festas? - Fitoua com um ar sério, e em seguida tornaram a rir.

- Nunca. Prometo.

-É melhor que não mo faças. -Com certeza.

Havia sido uma noite de brincadeiras e gargalhadas, e Kate sentira-se próxima dele, mas ao mesmo tempo muito pequena. Tom fazia-a sentir-se uma rapariguinha, mas também lhe proporcionava segurança, como se tivesse esperado toda a vida que ele a protegesse. Era uma sensação estranha, mas agradava-lhe. Depois dos hambúrgueres tinham ido de carro até Carmel e passeado junto à beira-mar, mas Tom não tentara fazer amor com ela. Apenas haviam caminhado, de mãos dadas, e falado até o Sol nascer, trocando segredos da infância e da adolescência... «E espera só até ouvires esta...»

- És uma rapariga muito bonita, Kate. O que queres ser quando fores grande?

Ela rira-se com a pergunta e enfiara-lhe uma mancheia de areia dentro da camisa. Ele retaliara da mesma forma e Kate imaginou que iria beijá-la. Mas não o fez. E ela queria desesperadamente beijá-lo.

- Pára com isso. Estou a falar a sério. O que é que queres fazer?

Ela sentara-se e encolhera os ombros.

- Não sei. Ainda agora comecei a estudar. Talvez me especialize em ciências políticas, ou literatura. Ou noutra coisa igualmente útil. Quem sabe? Se calhar depois da licenciatura vou vender cosméticos para um dos grandes armazéns. «Ou fujo, ou passo a vida na praia, ou dou aulas, ou sou enfermeira ou bombeira ou ... » Caramba, como é que podia sa ber? Ele estava a ser tonto.

Tom sorria-lhe de novo, aquele sorriso que a fazia derreter-se toda.

- Que idade tens, Kate?

Tinha muitas perguntas e fitava-a insistentemente como se já a conhecesse há muitos anos. As perguntas pareciam ser apenas uma formalidade. Kate teve a sensação de que ele já sabia as respostas.

- Fiz dezoito o mês passado. E tu?

- Vinte e oito, minha querida. Tenho mais dez anos do que tu. Estou a chegar ao fim, pelo menos nesta profissão. -

O seu rosto ficou muito sério.

- E quando te retirares?

- Vou contigo vender cosméticos para o tal armazém.

Kate riu-se ao imaginar a cena. Tom devia ter pelo menos um metro e noventa. A ideia de o ver a vender algo mais pequeno do que um navio de guerra era absurda.

- O que fazem os antigos jogadores de futebol?

- Casam. Têm filhos. Bebem cerveja. Engordam. Vendem seguros. As boas coisas da vida. - Parecia meio irónico, meio assustado e muito sério.

- Que excitante - observou Kate com um sorriso meigo, olhando para o mar.

Tom pousou um braço nos ombros dela.

- Nem por isso. - Estava a pensar na parte de vender seguros. - Depois, olhou para ela. - O casamento e os filhos parecem-te excitantes, Kate?

Ela encolheu os ombros.

- Acho que sim. Mas isso ainda está muito longe.

- És nova. - Disse-o com um ar tão sério que ela desatou a rir.

- Sim, avô.

- O que queres mesmo fazer depois de acabares o curso?

- O que quero mesmo? Ir para a Europa. Quero passar lá uns anos. A curtir. A trabalhar. A fazer o que calhar. Calculo que na altura já deva estar farta da disciplina da escola. - Tudo isso, porém, ainda se encontrava muito longe.

- Então é isso que lhe chamas. Disciplina. - Sorriu, pensando no grupo rebelde de miúdos ricos com que a vira chegar à festa. Todos frequentavam Stanford. Todos possuíam dinheiro e roupas bonitas, e estacionados à porta vira um Morgan e um Conette novinho em folha. - Onde na Europa?

- Viena ou Milão. Talvez Bolonha. Talvez Munique. Ainda não decidi, mas quero uma cidade pequena.

- Hum.

- Ora, cala-te! - A vontade que tinha de o beijar era de novo avassaladora. Isso fê-la sorrir. Ali estava sentada, praticamente nos braços de Tom Harper. Metade das mulheres do país ter-se-ia babado só de pensar nisso. E ali estavam ambos, como dois miúdos, ele com o braço nos seus ombros, a falarem calmamente. Os pais dela não teriam gostado muito da ideia. Kate quase soltou uma gargalhada ao pensar nisso.

- Como é que são os teus pais?

Parecia que ele lhe lera o pensamento.

- Enfadonhos. Mas simpáticos, acho. Sou filha única e tiveram-me já tarde. Esperam muito de mim.

- E tens correspondido?

- Na maior parte das vezes. Mas não devia. Habituei-os mal. Agora esperam que eu seja sempre certinha. É em parte por isso que quero afastar-me durante uns anos. Até posso terminar o curso lá fora. Ou ir já para o ano.

- Com tudo pago pelo paizinho, calculo - salientou Tom num tom presumido, e Kate virou-se para ele, revelando fúria nos olhos verdes.

- Não necessariamente. Eu também ganho dinheiro. Por acaso, até preferia pagar a viagem. Isto se conseguir arranjar trabalho lá.

- Desculpa, princesa. Estava só a pensar. Não sei... O grupo com que chegaste à festa parecia ser constituído por pessoas bem instaladas na vida. Conheci gente parecida quando estava em Michigan. Eram todos de Grosse Pointe, ou de Scottsdale, ou de sítios parecidos. Vai tudo dar ao mesmo.

Kate assentiu. Não discordava, só não gostava de ser metida no mesmo saco com os outros miúdos. Mas percebia o que ele queria dizer. Embora nunca se tivesse rebelado, aquele tipo de vida também não a encantava muito. Toda a gente parecia possuir tudo em abundância. E nenhuma consistência, nenhuma dor, nenhumas perguntas, nenhuns receios. Tinham todos tanto. E Kate também. Mas pelo menos reconhecia-o.

- O que queres dizer com isso de ganhar o teu dinheiro? - perguntou Tom, de novo divertido.

- Faço passagens de modelos - respondeu Kate com ar aborrecido.

- A sério? Para revistas? - Aquilo era uma grande surpresa. Kate tinha corpo para isso, mas Tom julgara que ela não trabalhava. Contudo, passar modelos era uma coisa interessante. Ficou impressionado. Virou-se para ela e notou que a fúria começava a desaparecer do seu rosto.

- Para todo o tipo de coisas. Fiz um anúncio no Verão passado. A maior parte das vezes chamam-me para desfilar no Magnin, no Saks e em armazéns do género. Custa-me ir à cidade só por causa disso, mas pagam bem e dá para ter a minha independência. E por vezes também é divertido.

Tom imaginou-a a avançar pela passarela, com um andar bamboleante, alta e magra, num vestido de quinhentos dólares. Ou talvez ela não passasse essas coisas. Porém, tinha estilo para isso. E embora Tom percebesse pouco de moda, adivinhara correctamente.

- É isso que vais fazer na Europa quando terminares os estudos? Passar modelos? - perguntou, intrigado, continuando com o braço nos ombros de Kate.

Ela estava a gostar da sensação.

- Só se a alternativa for morrer à fome. Do que eu gostava mesmo era de fazer outras coisas.

- O quê? - tornou ele a insistir, aproximando-se. Parecia mais velho, mas ao mesmo tempo não. E pela primeira vez na vida, Kate quis fazer amor. Tratava-se de uma loucura. Ainda era virgem e nem sequer o conhecia bem. Pelo menos por enquanto. Todavia, Tom era o tipo de homem com quem apetecia estar. Só conseguia imaginá-lo meigo e terno. - Vá lá, Kate, que outras coisas queres fazer na Europa?

Parecia estar a provocá-la, e Kate sorriu. Sempre desejara ter um irmão mais velho parecido com Tom.

- Não sei. Talvez trabalhar para um jornal. Ou para uma revista. Ser jornalista. Talvez em Paris ou Roma. - O seu rosto iluminou-se e Tom despenteou-a.

- Ouve, miúda, porque não te contentas em passar modelos e vives como uma dama? Para que queres andar atrás de incêndios e de homicídios? Caramba, podes fazer isso aqui. Em inglês.

- O meu pai tinha um colapso - comentou ela com uma risada.

- Eu também. - Apertou-a mais um pouco, como se quisesse protegê-la de um mal invisível.

- Saíste-me cá um conservador, Tom Harper! Eu escre vo muito bem. Daria uma boa jornalista.

- Quem é que diz que escreves bem?

- Eu. E um dia tenciono escrever um livro.

Raios! já o dissera. Desviou o olhar e calou-se.

- Estás mesmo a falar a sério, não estás, Kate?

A voz de Tom era suave como a manhã e ela assentiu em silêncio.

- Então talvez um dia o faças. - Falava com cuidado, não querendo destruir os sonhos de Kate. - Eu dantes também queria escrever um livro. Mas desisti.

- Porquê? - Kate parecia horrorizada, e Tom tentou não se rir, Adorava a força dela.

- Desisti da ideia porque não sei escrever. Talvez um dia escrevas um para mim.

Continuavam sentados, a olhar para o mar, saboreando a brisa da noite no rosto. Tom emprestara a Kate uma parka. Passou algum tempo até voltarem a falar.

- O que é que os teus pais querem que faças? - inqui riu ele.

- Mais tarde? - Ele assentiu a confirmar. - Oh, qualquer coisa «agradável». Que arranje trabalho num museu, nu ma universidade, ou num colégio. Ou melhor ainda, que arranje um marido. Coisas chatas. E tu? O que tencionas fazer quando os jornais deixarem de nos dizer que és um excelente jogador? - Parecia uma miúda ali sentada na areia, mas o seu olhar era o de uma mulher, e Tom percebeu.

- Já te disse. Reformo-me e vamos escrever o tal livro.

Ela permaneceu em silêncio, e assim ficaram a ver o Sol nascer. Depois regressaram a São Francisco.

- Queres ir tomar o pequeno-almoço antes de eu te deixar em casa?

Encontravam-se em Palo Alto perto da rua onde ela morava e seguiam no carro desportivo inglês que Tom alugara durante a sua estada na cidade.

- Acho melhor ir para casa.

Se a mãe ligasse e soubesse que ela não fora dormir a casa, teria de arranjar uma boa explicação, embora as colegas de quarto devessem encobri-la. Kate fazia o mesmo em relação a elas. Duas, das quatro, já não eram virgens. E a terceira andava a fazer tudo para mudar a situação. Kate não se importava com isso - ou pelo menos não se importara, até conhecer Tom.

- E logo à noite?

Sentiu-se consternada.

- Não posso. Prometi ir jantar com os meus pais. Compraram bilhetes para um concerto. Que tal depois? - Raios, raios, raios! Depois ele ir-se-ia embora e nunca mais tornaria a vê-lo.

No seu rosto surgiu uma expressão de tristeza e Tom sentiu vontade de a beijar. Não como a uma miúda, mas sim como a uma mulher. Apetecia-lhe abraçá-la, e sentir o seu coração a bater junto do seu. Apetecia-lhe... Obrigou-se a não pensar nisso. Ela era demasiado nova.

-Depois não posso, princesa. Amanhã temos jogo. Tenho de me deitar por volta das dez. Não te preocupes. Talvez possamos encontrar-nos amanhã. Queres ir comigo ao aeroporto?

- Claro. - O desespero começou a desaparecer.

- Queres assistir ao jogo? - Soltou uma gargalhada ao ver a expressão dela. - Oh, querida, diz-me a verdade. Detestas futebol, não é?

- Claro que não - respondeu ela, mas a rir. Ele adivinhara. - Não detesto.

- Só não gostas muito, pois não? - Tom sorriU e abanou a cabeça. Era perfeito. Uma miúda, estudante, de uma família rica. Era uma loucura. Uma perfeita loucura.

- Muito bem, Mister Harper. E depois? Faz diferença se eu não for a maior fã de futebol do mundo?

Fitou-a com um grande sorriso nos lábios e abanou a cabeça.

- Não. Nenhuma. - Aliás, a ideia divertia-o. Estava farto das mulheres que andavam sempre atrás dele. Subitamente, encontravam-se em frente à casa dela, e o momento desapareceu.

-Pronto, miúda, logo telefono-te.

Kate queria obrigá-lo a prometer, queria perguntar-lhe se ele tinha mesmo a certeza de que iria telefonar, dizer-lhe que cancelaria o jantar com os pais. Mas, caramba, ele era Tom Harper, e ela apenas mais uma miúda. Tom nunca iria ligar-lhe. Kate tentou fazer um ar de indiferença, assentiu, sorriu e começou a sair do carro. Foi detida antes de os seus pés tocarem no chão. Tom segurava-lhe o braço com força.

- Então, Kate. Não te vás embora assim. Eu disse que te telefonava, e estava a falar a sério.

Ele percebera. Aliás, percebia tudo. Kate virou-se para ele com um sorriso de alívio.

- Está bem. Só pensei que... - O aperto no seu braço abrandou e ele tocou-lhe no rosto com a mão.

- Sei bem o que estavas a pensar, mas enganaste-te.

- A sério? - O olhar de ambos cruzou-se.

- sim.

Foi a palavra mais meiga que ela já ouvira.

- Agora vai dormir. Eu ligo-te mais tarde.

E ligara. Ligara duas vezes de manhã e outra vez à noite, depois de ela ter chegado a casa. Tom deitara-se, mas não conseguira dormir. Haviam combinado encontrar-se no dia seguinte, depois do jogo. Porém, o encontro foi diferente. Demasiado rápido, tenso. Tinham ganho o jogo, Tom estava todo excitado, Kate bastante nervosa. Não era a praia em Carmel, nem era de madrugada. Era o remoinho da carreira de Tom Harper, e o bar do aeroporto repleto de pessoas antes de ele seguir para Dallas, para mais um jogo. Viram outros colegas da equipa, que lhes acenaram, duas mulheres foram pedir-lhe o autógrafo, o barman passara todo tempo a olhar e a piscar o olho, e houve um constante virar de cabeças, murmúrios, acenos... Além... o Tom Harper?... Sim?... Raios, sim!... Tom Harper! Era perturbador.

- Queres vir até Dallas?

- Hum? - Ela pareceu admirada. - Quando?

- Agora.

- Agora?

Tom sorriu ao ver a expressão no rosto de Kate.

- Porque não?

- És maluco. Tenho de... tenho exames... - O seu olhar era o de uma rapariguinha assustada e Tom percebera outra coisa. O facto de ela ter ido com ele a Caririel fora um acto de coragem, de desafio. Disso, ela fora capaz. Mas ir a Dallas era completamente diferente. «Okay», pensou Tom. Tinha de avançar com cuidado. Aquela rapariga era especial.

- Descontrai-te, princesa. Estava só a brincar. E se nos encontrássemos noutro lado, depois dos teus exames? - perguntou, rezando para que ninguém aparecesse a pedir-lhe um autógrafo ou a felicitá-lo pelo jogo. Susteve a respiração.

- Sim - respondeu Kate fitando-o. - Pode ser. - Sentia-se toda a tremer, mas era uma sensação agradável. - Está bem. Depois falamos.

Não insistiu. Gracejaram e riram até ao portão de embarque. Detiveram-se um momento e Kate perguntou a si mesma se ele iria beijá-la. Então, com um sorriso meigo, ele inclinou-se e beijou-a, primeiro com suavidade, e depois, quando ela o abraçou, Tom tomou-a nos braços e beijou-a com ardor. Kate ficou sem fôlego e sentiu a cabeça a andar à roda. Em seguida, tudo terminou; ele foi-se embora, e ela ficou sozinha junto ao portão de embarque.

Tom telefonou nessa noite. E todas as noites, durante um mês. Convidou-a a ir ter com ele às cidades onde se encontrava a jogar, mas Kate não pôde ir; ou ele não tinha tempo, ou ela tinha de passar modelos, ou os pais queriam que os acompanhasse a qualquer lado, ou... Para além disso, Kate não sabia se queria «fazer aquilo» já. Achava que sim, mas... Nunca dissera nada a Tom; porém, ele entendia.

- O que estás para aí a dizer, princesa? Que não vou voltar a ver-te?

- Claro que não. Só que ainda não tive oportunidade. É tudo.

- Tretas! Vê mas é se te metes num avião para Cleveland este fim-de-semana, se não, vou aí buscar-te. - Na voz de Tom havia sempre um sorriso, sempre aquela ternura que levava Kate a sentir-se em segurança. Era o homem mais meigo que já conhecera. E começava a parecer também muito mimado. Fartava-se de insistir para ela ir ter com ele. E havia uma razão. Tom queria afastá-la do seu terreno. Afastá-la das colegas de quarto, dos pais e do sentimento de culpa. Não queria dar-lhe apenas uma noite, mas sim uma lua-de-mel.

- Para Cleveland, este fim-de-semana? - perguntou ela numa voz trémula.

- Sim, querida, Cleveland. Desculpa não ser Milão.

- Acho bem que peças desculpa.

E ela fora. Cleveland era horrível, mas Tom parecera tirado de um sonho. Estava à espera de Kate quando ela desembarcara e tinha nos lábios o sorriso mais feliz que ela já vira. Ficou imóvel, a vê-la avançar na sua direcção, tendo nas mãos uma rosa. Pedira emprestada uma casa ao primo de um colega de equipa. Não se tratava de uma casa luxuosa, mas era acolhedora. Tom também era assim, despretensioso, meigo, carinhoso. E fora assim que a tratara. Desflorou-a com tanta ternura que havia sido ela a desejar a segunda vez. Fora isso que ele quisera: que ela o desejasse. E a partir desse momento, Kate foi sua. Perceberam-no ambos.

- Amo-te, princesa.

- Também te amo. - Fitara-o com uma expressão envergonhada, o cabelo castanho húmido e macio sobre um ombro. Estava admirada por se sentir tão à vontade, desde o primeiro momento.

- Queres casar comigo, Kate?

- Estás a brincar? - Os olhos dela abriram-se muito. Encontravam-se nus, na cama, a olhar para a lareira. Eram quase três da manhã e ele tinha um jogo no dia seguinte. No entanto, era a primeira vez que para si havia algo mais importante do que um jogo.

-Não, Kate, estou a falar a sério.

- Não sei - respondeu ela, embora os seus olhos revelassem um certo interesse. Não muito, mas o suficiente. - Nunca pensei nisso. Sempre achei que o casamento ainda vinha muito longe. Só tenho dezoito anos e... - Fitou-o com uma expressão grave e maliciosa. - Os meus pais iriam ficar furiosos.

- Por causa de mim ou da tua idade? - já adivinhava a resposta. Kate hesitava, à procura das palavras certas. - Okay, já adivinhei - disse com um sorriso, embora parecesse ter ficado magoado.

Kate abraçou-o.

- Amo-te, Tom. E se nos casássemos, seria porque te amo. Amo quem és e aquilo que és... És o Tom, não as outras coisas todas a que estás ligado. Além disso, estou-me nas tintas para o que as pessoas pensam. Só que... bem, nunca pensei no assunto. Acho que sempre pensei que iria andar à deriva durante algum tempo.

-           Isso são tretas, querida. Não és nenhum barco.

-           Tinham ambos razão, mas tudo aquilo parecia uma lou cura. Deveria ser Kate a querer casar, porém ali estava ele, a declarar-se. Durante um breve momento, sentiu-se cheia de poder. já era uma mulher. E mais do que isso, era a mulher de Tom Harper.

-           - Sabes uma coisa? És maravilhoso! - exclamou Kate, encostando as costas ao peito dele, sorrindo de olhos fechados.

- Tu também és maravilhosa, Miss Kaffim - respondeu

ele sorrindo ao contemplar o rosto delicadamente esculpido de Kate.

Ela fez uma careta.

- Detesto esse nome.

Tom beijou-a e ela esqueceu tudo. Depois ele levantou-se e foi à cozinha buscar uma cerveja. Kate olhou para os seus ombros largos, as coxas estreitas e as pernas compridas, quando ele atravessou o quarto em todo o seu esplendor. Era um homem muito bonito. Kate sentiu-se corar quando ele regressou e olhou para ela. Desviou o olhar para a lareira, mas o rubor não desapareceu.

Ele sentou-se na cama e beijou-a.

- Não precisas de ter medo de olhar para mim, princesa. Não há problema.

Kate assentiu e bebeu um gole da cerveja.

- És lindo - disse baixinho.

Tom acariciou-lhe o ombro e olhou para os seus seios.

- E tu és louca. Olha, acabei de ter uma ideia estupenda. Como não queres casar-te já, que tal vivermos juntos durante algum tempo? - Parecia agradado com a ideia e Kate, a princípio admirada, sorriu.

- Sabes uma coisa? És espantoso. Tenho a sensação de que estás a oferecer-me a Lua enfeitada com um laço de cetim azul - declarou Kate, fitando-o.

- Preferes antes veludo vermelho?

Ela abanou a cabeça.

- Então, o quê?

- Não podemos esperar um pouco mais?

- Porquê? Kate, temos uma coisa muito rara, e sabemo-lo bem. Conhecemo-nos melhor do que conhecemos outras pessoas. Passámos o último mês ao telefone, a partilhar todos os pensamentos, todos os sonhos, todas as esperanças, todos os medos. Sabemos tudo o que há a saber a respeito um do outro. Não é verdade?

Ela assentiu, sentindo lágrimas nos olhos.

- E se as coisas mudarem? E se...

Então ele percebeu o que a incomodava.

- Os teus pais?

Kate assentiu. Ele acabaria por descobrir.

- Havemos de tratar disso, princesa. Não te preocupes. E se não quiseres pensar já no assunto, não penses. Porque não esperamos que acabes este semestre?

Era uma espera fácil. Só faltavam seis semanas para ela terminar o primeiro ano da faculdade. Depois vinha o Verão.

Tom sabia que estava tudo combinado. E, no seu íntimo, Kate também. Então, devagar, os lábios de Tom foram da sua boca até ao pescoço, e brincaram com os seus mamilos. A sua língua lambeu-os, provocando-lhe um enorme prazer. Tom teve medo de fazer amor com ela uma terceira vez nessa noite - não queria magoá-la. Com a ternura que mostrava em todas as coi sas, passou a língua pelo interior das coxas de Kate até a ouvir gemer baixinho. Foi uma noite que ela sempre recordou com ternura.

Kate chorou durante o voo de regresso a São Francisco. Sentia que fora arrancada dos braços de Tom, das suas raizes. Precisava dele, sentia-se sua. Quando chegou a casa, em Palo Alto, tinha um ramo de rosas à espera, enviado por Tom. Ele tomava conta de si como os seus pais nunca o haviam feito. Eram tão distantes, tão frios, tão insensíveis aos seus sentimentos. Tom era o oposto. Telefonava-lhe duas ou três vezes por dia, e falavam durante horas. Parecia estar constantemente com ela. Foi a São Francisco no fim-de-semana a seguir a Cleveland, e pediu um apartamento emprestado a outro colega de equipa. Era sempre cuidadoso e discreto. Queria proteger Kate dos jornalistas.

E quando as aulas terminaram, soube que tinha de estar com ele. Andaram pelo país durante seis semanas, mas essa forma de vida era bastante cansativa. Na semana a seguir ao fim das aulas, ele foi jogar para o clube de São Francisco. Era perfeito. Agora podia alugar um apartamento, e Kate podia acompanhá-lo sempre nas viagens. Estariam sempre juntos, ela tinha a certeza. Tom era a coisa mais importante na sua vida. Podia sempre terminar os estudos mais tarde - caramba, talvez até dali a um ano ou dois. Aquilo era apenas um interregno. Talvez até Tom deixar de jogar. A escola não era problema.

No entanto, não foi assim que os seus pais viram as coisas.

- Perdeste a cabeça, Kaitlin? - perguntou o pai, fitando-a com uma expressão de incredulidade do seu habitual pouso junto à lareira. Andara de um lado para o outro e acabara por se deter ali, desesperado. - Deixar a escola e fazer o quê? Viver com esse homem? Ter um filho sem serem casados? Ou talvez um filho de outro tipo... Tenho a certeza de que os colegas da equipa dele não se importariam de dar uma ajuda. - Os olhos do pai brilhavam de fúria, e Kate sentiu Tom ficar tenso.

- Pai, não é isso que estamos a dizer. Eu não vou ter filhos - retorquiu com voz trémula.

- Não? Como é que podes ter a certeza? Tens alguma ideia do tipo de vida que levarás com este homem? Que tipo de vida reles e dissoluta levam os atletas? O que desejas? Ficar sentada em bares a ver o jogo na televisão e ir ao bowling terça à noite?

- Por amor de Deus, pai, já te disse que vou interromper as aulas durante um semestre e que estou apaixonada pelo Tom. Como é que podes...

- É fácil. Porque não sabes o que estás a fazer - declarou num tom de condenação. A mãe de Kate assentiu, sentada muito direita no sofá.

- Dá-me licença que fale? - Era a primeira vez que Tom abria a boca desde que a discussão começara. Só fora com Kate para lhe dar apoio moral: sabia que o assunto tinha de ser tratado entre ela e os pais. Quisera incutir-lhe coragem sem interferir, mas naquele momento não podia deixar de participar na discussão. O pai de Kate começava a ficar descontrolado e a saborear a situação. Isso era visível no seu olhar.

Tom virou-se para o pai de Kate com uma expressão preocupada.

- Acho que faz uma ideia errada do que é a minha vida. É verdade que não sou advogado nem corretor, e que jogar futebol não é uma actividade muito intelectual, mas é assim. É um trabalho duro, que requer um grande empenho e esforço físico. E as pessoas que o fazem são exactamente como as outras; há pessoas boas e más, estúpidas e inteligentes. Mas a vida 'da Kate não vai ser passada com a equipa. Levo uma vida reservada e ficaria muito admirado se o senhor se opusesse...

O pai de Kate interrompeu-o com um olhar irado.

- Eu oponho-me a si, Mister Harper. É tão simples como isso. Quanto a ti, Kaitlin, se fores avante, se deixares a escola, se ousares desgraçar-nos dessa forma, estás acabada. Não quero voltar a ver-te nesta casa. Podes levar as tuas coisas agora e ir-te embora. Não quero ter mais nada a ver contigo, nem a tua mãe. Proíbo-o. - Os olhos de Kate encheram-se de lágrimas de dor e raiva. - Estás a perceber? - insistiu o pai. - Ela assentiu, sem deixar de o fitar. - E não mudas de ideias?

- Não, não mudo - respondeu Kate, respirando fundo. - Acho que estás errado. Acho que estás a ser... muito injusto - proferiu com um soluço.

- Não. Tenho é razão. E se julgas que esperei dezoito anos para expulsar a minha própria filha de casa, para deixar de ver a minha única filha, então estás muito enganada. Eu e a tua mãe fizemos tudo o que podíamos por ti. Desejámos que tivesses tudo, demos-te tudo, ensinámos-te tudo aquilo que sabíamos e aquilo em que acreditávamos. E agora vens-nos trair. Isso quer dizer apenas que tivemos entre nós uma traidora durante dezoito anos. É como se descobríssemos que não és nossa filha, mas filha de outras pessoas.

Tom escutava-o com um horror crescente, mas concordava com o pai de Kate naquele aspecto. Ela era agora sua. E tencionava amá-la e acarinhá-la ainda mais depois daquele dia. Que pais indecentes!

- Já não és nossa filha, Kaitlin. Não podíamos ter uma filha que fizesse essas coisas - proferiu ele com grande solenidade, e Kate soltou uma gargalhada quase histérica.

- Que coisas? Deixar a escola? Tens ideia da quantidade de alunos que faz isso todos os anos? O problema é só esse?

- Acho que sabemos os dois qual é o problema. - Olhou para Tom. - Quando te tiveres manchado, como tencionas, não interessa que continues ou não a ir às aulas. As aulas são apenas uma parte do problema. A questão é a tua atitude, os teus objectivos, as tuas ambições. Aquilo que vais fazer com a tua vida... e isso parece nada ter a ver connosco, Kaitlin. Acabou-se tudo. E agora - terminou, - olhando para a filha e para a mulher - se quiseres ir buscar as tuas coisas, fá-lo depressa. A tua mãe já sofreu o suficiente.

A mãe não parecia nem cansada nem abalada: olhava para a filha com uma expressão de indiferença. Tom perguntou a si mesmo se ela estaria em choque. Depois a mulher levantou-se com um ar gelado e abriu a porta da sala, que fora fechada para que a empregada não pudesse ouvir a conversa. Parou e olhou para Kate, que se levantava devagar e a custo da cadeira.

- Eu espero até teres feito as malas, Kate. Quero ver o que tencionas levar.

- Porquê? Tens medo que te roube as pratas? - retorquiu Kate, olhando estupefacta para a mãe.

- Isso seria muito dificil porque elas estão bem guardadas.

Saiu da sala e Kate começou a segui-la. Depois parou. Olhou para Tom e em seguida para o pai com uma expressão de nojo.

- Esquece.

-Esqueço o quê? - Pela primeira vez, o pai parecia ter ficado perplexo.

- Não quero nada vosso. Vou-me embora. Podem ficar com o que está no meu quarto.

- Que simpático da tua Parte.

Sem uma palavra, Kate abandonou lentamente a sala. A mãe esperava-a no vestíbulo, o rosto uma máscara de ira.

- Vens?

- Não, mãe, não vou. Acho que já me chega. - Ninguém proferiu palavra durante um longo momento. Kate deteve-se junto à porta, virou-se para olhar para os pais e disse apenas uma única palavra: - Adeus.

Saiu porta fora assim que falou, com Tom ao lado, o braço dele sobre os seus ombros. Tom tinha vontade de voltar para trás, matar o pai dela e esbofetear a mãe com tanta força até lhe partir os dentes. Bolas, o que se passava com aquelas pessoas? Seriam feitas de quê? Como podiam ter agido daquela maneira com a própria filha? Ao recordar-se do amor da mãe, as lágrimas vieram-lhe aos olhos e pensou de nov o naquilo por que Kate acabara de passar. Puxoua mais para junto de si quando chegaram ao carro e abraçou-a durante bastante tempo, com quanta força pôde, deixando que os seus braços, o seu coração e o calor do seu corpo lhe dissessem aquilo para que ele não encontrava palavras. Nunca mais permitiria que ela passasse por algo parecido.

- Está tudo bem, querida. Tudo bem. És linda e eu amo-te.

Kate, porém, não estava a chorar. Tremia apenas ligeiramente nos braços de Tom e, ao levantar a cabeça, os seus olhos exibiam uma expressão muito séria. Apesar disso, tentou sorrir.

-           Lamento que tivesses de assistir a isto, Tom.

-           - E eu lamento que tivesses de o suportar.

Kate assentiu em silêncio e afastou-se ligeiramente. Tom abriu a porta do carro e ela entrou.

- Bem, acho que isto significa que a partir de agora estamos sozinhos - concluiu ela numa voz a medo quando Tom se sentou ao volante. - O meu pai disse que não queria voltar a ver-me. Disse que eu os traí. - Respirou fundo. Traíra-os. Por amar Tom? Por ter deixado a escola? Stanford era uma tradição na família. Bem como o casamento. «Viver junta», como o pai dissera, era uma desgraça. Tal como amar um «zé- ninguém». O filho de um mineiro. Estava a esquecer-se de quem era, de quem os pais eram, de quem os avós tinham sido... todas as escolas certas, os clubes certos, os maridos certos e as mulheres certas. A mãe era presidente da associação cívica feminina local e o pai sócio maioritário da sua firma de advogados. Kate parecia atordoada.

Tom fitou-a com um ar preocupado.

- Ele há-de mudar de ideias - declarou, fazendo-lhe uma festa na mão e pondo o carro a funcionar.

- Talvez. E talvez eu não mude. Tom beijou-a e acariciou-lhe o cabelo.

- Vamos, querida. Vamos para casa.

A casa deles nessa semana foi o apartamento de outro jogador da sua nova equipa. Mas Tom fez uma surpresa a Kate no dia seguinte. Andara ocupado durante toda a semana. Alugara um apartamento numa bela casa vitoriana com vista para a baía. Parou o carro à porta, meteu-lhe a chave na mão, levou-a ao colo os três lanços de escadas e entrou com ela em casa. Kate ria e chorava ao mesmo tempo. Era como brincar às casinhas. Só que melhor. E ele foi bom para ela, mais ainda depois de ter percebido que Kate não voltaria a falar com os pais. Tom não era capaz de compreender a atitude deles nem o motivo. Para ele, a família era a família; isso significava amor e raizes que não podiam ser destruídas, laços que não podiam ser cortados, pessoas que nunca nos abandonavam, independemtemente de estarem ou não zangadas connosco. Mas Kate entendia. Os pais tinham esperado que ela fosse tudo o que eles eram, e mais ainda, que fosse como eles. Cometera o erro imperdoável de se apaixonar por uma pessoa diferente, e de ousar ser também ela diferente: de ousar infringir as regras, de ousar não se guiar pelas suas restrições e pelas suas pequenas esperanças. Magoara-os, por isso eles estavam a magoá-la. Isso justificava e dignificava as suas acções até estarem convencidos de que os pecados dela não mereciam perdão, até que não tivessem de admitir um ao outro o quanto a perda da filha os magoara. E se estivessem com dúvidas, a mãe podia falar com as amigas com quem jogava brídege, ou o pai com os sócios, e ficariam imediatamente reconfortados: «É a única maneira... fizeram a única coisa que podiam fazer.» Kate sabia. Agora Tom era tudo para si - mãe, pai, irmão, amigo - e ela desabrochou nos seus braços.

Viajava com ele, Passava modelos, escrevia poemas. Tomava conta do apartamento, estava de vez em quando com os velhos amigos, embora isso acontecesse cada vez com menor frequência, e começou a simpatizar com alguns jogadores da equipa de Tom. No entanto, ela e Tom estavam sozinhos a maior parte do tempo, e a vida de Kate centrava-se cada vez mais nele. Cerca de um ano depois de terem ido viver juntos, casaram. Dois acontecimentos insignificantes ameaçaram arruinar a ocasião. O primeiro foi o facto de os pais de Kate se recusarem a ir ao casamento, embora isso não tivesse sido surpresa. E o segundo foi devido a Tom ter-se envolvido numa discussão acesa no seu bar preferido e de ter posto um tipo a dormir. Na altura andava sob pressão constante. A equipa de São Francisco era bastante diferente da outra, e ele era um dos «velhos», O incidente do bar não teve consequências, mas

os jornais pintaram o caso muito feio. Kate achava tudo aquilo uma parvoíce. Tom ria-se; o casamento era mais importante do que tudo o resto.

Um dos colegas da equipa foi padrinho, e uma das antigas companheiras de quarto a dama de honor. O casamento teve lugar na Câmara e foi coberto pelo Sports Mustrated. Agora Kate pertencia a Tom, completamente e para sempre. E ia linda no vestido de organdi branco bordado, de decote subido e enormes mangas tufadas, à moda antiga. Fora um presente de Felicia, que gostava cada vez mais daquela modelo semelhante a uma gazela, ao lado de um dos heróis nacionais. Escolhera para Kate o melhor da colecção de Primavera da loja.

Kate parecia uma criança encantadora no casamento, com o cabelo comprido apanhado ao estilo vitoriano e enfeitado com lírios. Levava um bouquet também de lírios. Ela e Tom tinham lágrimas nos olhos quando puseram as alianças e o juiz os declarou marido e mulher.

Passaram a lua-de-mel na Europa, e ela mostrou-lhe os locais de que mais gostava. Era a primeira vez que Tom ia ao estrangeiro e a viagem foi bastante educativa para ambos. Ele estava cada vez mais sofisticado e Kate cada vez mais adulta.

O primeiro ano de casamento foi idílico. Kate acompa nhava Tom a todo o lado, fazia o mesmo que ele e passava o tempo livre a escrever poemas e um diário. O único problema é que não gostava de depender financeiramente do marido. Graças a Felicia, conseguia arranjar todo o trabalho que queria, mas as suas constantes viagens não lhe permitiam passar muitos modelos. Recebia ainda algum dinheiro que a avó lhe deixara, mas isso mal lhe chegava para os alfinetes. Era impossível retribuir os presentes caros que Tom estava sempre a dar-lhe. No primeiro aniversário de casamento, Kate anunciou que tomara uma decisão. Deixaria de viajar com ele e ficaria em São Francisco a passar modelos. Isso fazia sentido para ela, mas não para Tom. já assim lhe custava ter de viajar com a equipa, quanto mais sozinho. Precisava de Kate junto de si. Porém, ela era de opinião que ele precisava de uma mulher financeiramente independente. Tom levantou objecções, mas acabou por perder. Kate manteve-se inabalável. E três meses mais tarde, ele partiu a perna durante um jogo.

- Bem, princesa, parece que cheguei ao fim da época. - Estava de bom humor quando chegou a casa vindo do aeroporto. No entanto, tinham consciência de que aquilo podia ser o fim da sua carreira. já ultrapassara os trinta anos, o perigoso número mágico. E a fractura era grave; a perna estava em muito mau estado. Contudo, Tom começava a estar farto de jogar, ou pelo menos foi o que lhe disse. Desejava outras coisas, como filhos, estabilidade, um futuro. A transferência para a equipa de São Francisco deixara-o profissionalmente inseguro; tinha a ver com a química da equipa, ou talvez com as constantes ameaças veladas do manager, que lhe chamava «velho». A atitude do homem enfurecia Tom, mas aprendera a viver com ela e a continuar a odiar o manager.

Também não lhe agradava deixar Kate sozinha quando tinha de viajar. Ela tinha vinte anos; precisava de ter o marido em casa mais vezes do que as que ele lá podia estar. No entanto, agora ficaria em casa com ela por causa da perna, pensou. Ou pensou que ficaria. De facto, ele estava em casa, ela é que não. Passava bastantes modelos e tinha começado a frequentar uma cadeira sobre mulheres na literatura duas vezes por semana.

- E no próximo período vou ter aulas de escrita criativa.

- Bestial.

Assemelhava-se a uma colegial quando falava nas aulas. E Tom considerava-se aquilo que lhe chamavam na equipa: velho. Um velho muito aborrecido, nervoso e solitário. Sentia saudades do jogo. Sentia saudades de Kate. Achava que estava a perder a vida. Um mês depois, tinha esmurrado um tipo num bar, ido parar à prisão, e a história apareceu em todos os jornais. Tom falava constantemente daquilo, tinha pesadelos. E se o suspendessem? Porém, isso não aconteceu. A quei xa foi retirada e ele mandou ao tipo um cheque chorudo. A perna ainda não sarara e Kate continuava a passar a maior parte do tempo fora de casa. Nada mudara. E um mês mais tarde, ele tornou a bater noutra pessoa, desta vez partindo-lhe o maxilar. A queixa não foi retirada e Tom viu-se obrigado a pagar uma multa elevadíssima. O manager mantinha-se assustadoramente silencioso.

-           Talvez devas mudar para o boxe, hein, querido?

-           Kate continuava a achar que os ataques de fúria de Tom eram divertidos.

- Raios, podes achar que isto é divertido, miúda, mas eu não acho. Estou a dar em doido para aqui sentado à espera que esta maldita perna sare.

Kate percebeu. Ele estava desesperado. Talvez por causa de várias coisas, não apenas da perna. No dia seguinte, ela chegou a casa com uma prenda. Afinal de contas, era por isso que passava modelos - para poder dar-lhe prendas. Comprara dois bilhetes para Paris.

A viagem fez bastante bem a Tom. Passaram duas semanas em Paris, uma semana em Cannes, cinco dias em Dacar e um fim-de-semana em Londres. Tom amou-a muito e Kate ficou radiante por lhe ter oferecido aquela viagem. Regressaram a casa cheios de energia e com a perna dele já sarada. A vida foi ainda melhor do que antes. As brigas nos bares pararam e voltou a treinar com a equipa. Kate fez vinte e um anos e a prenda de Tom foi um carro. Um Mercedes,

No segundo aniversário do casamento, Tom levou-a a Honolulu. E acabou preso. Uma rixa no bar do Kahala Hilton resultou num artigo condenatório na Tíme e noutro ainda na Newsweek. E em notícias em todos os jornais do país. Jackpot. Só o artigo da Time explicou a Kate o motivo da briga: parece que corria o boato de que o contrato de Tom não voltaria a ser renovado. Ele tinha trinta e dois anos. jogava como profissional há dez.

- Porque não me disseste? - perguntou Kate, magoada. - Foi por causa das brigas?

Tom limitou-se a abanar a cabeça e a desviar o olhar.

- Não. Aquele palhaço que gere a equipa tem a fixação da idade. É pior do que os outros todos. As brigas não são nada de especial. Toda a gente briga. O Rasmussen dá mais pontapés lá fora do que dá no campo. O Jonas foi apanhado com droga o ano passado. O Hilbert é maricas. Toda a gente tem qualquer coisa. Mas o meu problema é a idade. Sou demasiado velho, Kate. Tenho trinta e dois anos e ainda não descobri o que vou fazer quando deixar de jogar. Caramba, não sei mais nada! - Tinha lágrimas nos olhos.

- Porque não consegues uma transferencia para outra equipa?

Fitou-a por fim com uma expressão carrancuda.

- Porque sou demasiado velho, Kate. Cheguei ao fim. E eles sabem-no e é por isso que passam a vida a chatear-me.

Sabem como me magoar.

- Então, sai. Podes fazer muitas outras coisas. Podes ser

comentador desportivo, treinador, manager...

Ele abanou a cabeça.

- Tenho afastado muitos olheiros. E estou a pagar por isso.

- Okay. Então hás-de acabar por encontrar outra coisa. Não precisas de arranjar trabalho já. Podemos ir estudar os dois.

Kate tentava mostrar-se animada. Queria que ele fosse feliz, queria partilhar a sua juventude com ele, mas os esforços dela faziam Tom sorrir, pesaroso.

- Sim, querida, amo-te! - exclamou, abraçando-a. Talvez não importasse. Talvez a única coisa que importasse fosse aquilo que tinham juntos. E o apoio dela ajudou durante algum tempo. Cerca de um ano. Porém, depois do terceiro aniversário, as coisas pioraram. O contrato de Tom estava a ser negociado e ele começou a envolver-se em brigas. Duas seguidas; daquela vez passou duas semanas na prisão e pagou uma multa de mil dólares. E cinco mil dólares ao clube. Tom processou-o por injustiça, mas perdeu, tendo sido suspenso. Kate abortou. Nem sequer soubera que estava grávida. Tom ficou como louco. No hospital chorou mais do que ela. Sentia que tinha sido o responsável pela morte do filho. Kate ficara atordoada com a sequência dos acontecimentos. A suspensão duraria um ano, e já sabia o que a esperava - rixas, multas e muito tempo na prisão. Contudo, Tom era tão bom para ela. Tão doce e meigo. Era tudo o que ela desejara num homem. Porém, Kate só vislumbrava problemas no horizonte.

- Porque não passamos este ano na Europa?

Ele encolheu os ombros com um ar desinteressado. Andou abatido durante semanas, a pensar no filho que quase liavia nascido. Porém, o que realmente o assustava era o que estava a acontecer à sua carreira. Quando a suspensão chegasse ao fim, o mesmo sucederia à carreira. Tom era demasiado velho para poder recuperar.

- Então montamos um negócio - propôs Kate. Ainda era muito nova e o seu optimismo deprimia-o ainda mais. Kate não podia imaginar o que aquilo era para ele, o pânico de ser um zé-ninguém, de ter de conduzir uma camioneta ou até de trabalhar nas minas como o pai. Não investira bem o dinheiro e não podia contar com rendimentos.

O que diabo iria fazer? Anúncios de roupa interior? Viver à custa de Kate? Pedir-lhe que o ajudasse a escrever as suas memórias? Enforcar-se? Só o amor que sentia por ela o impedia de considerar essa possibilidade. O pior de tudo era que só desejava jogar futebol. E nenhuma das universidades pensava nele como treinador. Adquirira uma péssima reputação por causa das suas rixas nos bares.

Por isso foram para a Europa. Ficaram uma semana. Tom detestou. Em seguida foram ao México. Ele também não gostou. Permaneceram em casa. A mesma coisa. E acima de tudo, odiava-se a si próprio. Começou a beber, e as rixas continuaram. Os jornalistas seguiam-no por todo o lado. Mas o que tinha ele a perder? já fora suspenso e provavelmente o seu contrato não seria renovado. A única coisa de que tinha a certeza era de que queria um filho. E que daria tudo ao filho.

Pouco antes do Natal, Kate ficou de novo grávida. Daquela vez tiveram cuidado. Interromperam tudo: a carreira de Kate, a bebida dele, as rixas nos bares. Ficaram em casa. Entre eles só havia ternura e paz, tirando algumas explosões de mau humor e alguns ataques de choro por parte de Kate. Porém, nem um nem outro os levavam muito a sério; parecia fazer parte da gravidez, e divertiam Tom. Ele deixara de se importar com a suspensão. Que se lixassem todos. Falaria com eles e obrigá-los-ia a renovarem-lhe o contrato. Implorar-lhes-ia. Queria apenas mais um bom ano a jogar, para poder pôr o dinheiro de parte e tomar conta do filho. jogaria apenas pelo filho. Comprou a Kate um casaco de víson pelo Natal.

- Tom, és maluco! Onde é que eu vou usar isto? - perguntou ela com um grande sorriso, experimentando-o sobre a camisa de dormir. Contudo, perguntava a si mesma o que estaria Tom a tentar esconder. O que não queria ele enfrentar?

O que desconheceria ela?

- Usa-lo quando fores para a maternidade ter o meu filho.

E comprara-lhe também um berço antigo de quatrocentos dólares e um anel de safiras. Era louco, estava perdidamente apaixonado por Kate, e ela sentia o mesmo por ele. No entanto, no seu íntimo sentia-se apavorada. Passaram o Natal sozinhos em São Francisco, e Tom falou em comprarem uma vivenda. Não muito grande. Uma casa boa com tamanho suficiente para poderem criar o bebé. Kate concordou, mas perguntou a si mesma se teria dinheiro para isso. Quando o fim do ano se aproximou, teve uma ideia. Iriam passar esses dias em Carmel. Faria bem a ambos.

- O fim do ano? Porque queres ir para lá, querida? Está nevoeiro e frio. Bom, poderás encomendar pizas, tacos também, e até morangos. Mas ir para Carmel em Dezembro? - Sorriu e pousou a mão no ventre ainda liso da mulher. Em breve ele cresceria... e esse pensamento inundou-o de felicidade. O bebé de ambos... o seu filho.

- Quero ir para Carmel porque foi o primeiro local onde fomos juntos. Podemos ir?

Kate parecia de novo uma rapariguinha, embora estivesse quase a fazer vinte e três anos. Conheciam-se já há cinco. E claro que ele lhe fez a vontade.

- Se a menina quer ir para Carmel, vamos para Carmel. E assim foi. Ficaram no melhor quarto do melhor hotel e até o tempo esteve bonito durante aqueles três dias. A única coisa que afligiu Kate foi Tom comprar tudo o que via para ela e para o bebé sempre que passeavam pelas lojas. No entanto, passaram bastante tempo no quarto, beberam muito champanhe e a preocupação dela foi diminuindo.

- Já lhe disse o quanto o amava, Mister Harper?

- Adoro ouvi-lo, princesa. Oh, Kate... - murmurou Tom, envolvendo-a num enorme abraço e apertando-a contra si. - Desculpa ter-te feito passar um mau bocado. Prometo que daqui em diante tudo vai ser melhor. Acabaram todos os problemas.

- Desde que te sintas feliz - retorquiu Kate.

Tinha um ar muito calmo ali nos braços dele, e Tom achoua mais bonita do que nunca.

- Nunca me senti tão feliz - disse ele, parecendo-o Mesmo.

- Então talvez seja a altura de acabar com tudo.

-O que queres dizer? - perguntou ele com um ar chocado.

- Estou a referir-me ao futebol, amor. Se calhar agora devíamos pegar no dinheiro e fugir. Chega da conversa de já estares «velho». Só nós e o bebé.

- E morremos à fome.

- Vá lá, querido. Ainda falta muito para morrermos à fome.

Kate, porém, ficou perturbada. Se ele estava tão preocupado com o dinheiro, porque lhe comprara o casaco de peles e o anel?

- Pois falta, mas ainda não temos um bom pecúlio. Não chega para os próximos cinco ou dez anos. Outro ano a jogar fará a diferença.

- Podemos investir o dinheiro que ganhei a passar modelos.

-           Esse dinheiro é teu - declarou ele com frieza. - Quiseste fazer isso, e mereces esse dinheiro. Eu olho por ti e pelo bebé. E ponto final. Não quero falar mais no assunto.

-           - Está bem.

A expressão no rosto de Tom suavizara-se e tinham feito amor à luz do crepúsculo. Kate recordou a primeira «lua-de-mel» que passaram em Cleveland. Porém, daquela vez foi Tom quem adormeceu primeiro, nos braços de Kate. Ficou a contemplá-lo durante horas, a pensar, esperando que aquele ano fosse diferente, que a equipa o tratasse bem, que a pressão não fosse tão grande. Era apenas isso que desejava naquele momento. Estava a crescer.

Um dia depois de terem regressado a São Francisco, saiu nos jornais uma notícia a dizer que Tom Harper estava «acabado». A notícia foi publicada por todos os jornais do país. Tom ficou desvairado quando a leu e depois de investigar um pouco ficou a saber que fora a sua equipa que encomendara a notícia... a equipa... o velho... E saíra de casa, batendo com a porta, sem dizer palavra a Kate, e ela só o viu às seis da tarde. Na televisão.

Tom fora a casa do dono da equipa e ameaçara-o de morte, depois envolvera-se numa briga com o manager que entretanto aparecera. Os dois homens aperceberam-se de que ele estava embriagado, e declarando o dono da equipa que Tom parecia um louco, a repetir que não podiam fazer aquilo ao seu filho. O apresentador do noticiário informou que Tom Harper não tinha filhos; não precisou de acrescentar que o jogador devia estar mesmo louco. E continuou, explicando que os dois homens haviam tentado «dominar Harper quando ele tentava agredi-los. No entanto, para surpresa de todos, Harper retirou uma arma do bolso, apontou para o dono da equipa, depois desvioua para o manager e disparou. Por milagre, falhou, mas apontou em seguida a arma para si próprio e disparou. Desta vez não falhou. O manager e o dono da equipa ficaram ilesos, mas Harper encontra-se internado em estado grave». O apresentador olhou muito sério para a câmara e acrescentou num tom grave:

- Uma tragédia para o futebol americano.

Durante um momento, Kate julgou que, se se levantasse e mudasse de canal, poderia fazer com que nada daquilo tivesse acontecido; tinha apenas de mudar de canal e ouviria alguém a dizer que aquilo não era verdade. Não podia ser verdade.

- Não o Tom... por favor, o Tom não... por favor... - murmurou ela quando se virou e olhou para a sala, perguntando a si mesma o que poderia fazer. Não tinham dito em que hospital estava Tom. O que devia fazer? Ligar para a Polícia? Para a equipa? Para a estação de televisão? Por que motivo ainda não lhe teriam dito nada? E depois lembrou-se... Tirara o telefone do descanso durante duas horas quando fora dormir a sesta. «Meu Deus... e se ele... e se ele já está morto?» A soluçar, Kate desligou a televisão e correu para o telefone. Felicia... Felicia devia saber... iria ajudá-la. Sem pensar, marcou o número directo da amiga na loja. Ela ainda lá estava.

Felicia ficou perplexa com as notícias e ordenou a Kate que se mantivesse quieta. Pediu à assistente que lhe chamasse um táxi e ligou para a Polícia, a pedir informações. Tom enCOntrava-se no São Francisco General. Ainda estava vivo mas em estado grave. Felicia saiu do escritório a correr, perguntando-se porque lhe teria ligado Kate. Com certeza devia haver outras pessoas. A mãe, uma amiga, outra pessoa? Ela e Kate tinham uma boa relação de trabalho, mas fora disso não se encontravam muito. Kate andava sempre muito entretida com Tom. A vida daquela rapariga era o homem que estava a morrer no São Francisco General.

Quando Felicia chegou a casa de Kate, esta estava bastante transtornada, mas já se vestira. O táxi aguardava-as lá em baixo.

- Vá lá, calça os sapatos.

- Os meus sapatos. - Kate tinha uma expressão vazia. - Os meus sapatos. - Os seus olhos encheram-se de lágri mas e o rosto exibia uma cor péssima. Felicia foi à procura do roupeiro e tirou de lá uns sapatos pretos rasos.

- Aqui estão.

Kate enfiou-os e saiu de casa sem casaco e sem mala. Felícia cobriu-a com o seu casaco. Kate não iria precisar da mala, pois não se encontrava em condições de ir a mais lado nenhum. E não precisou de o fazer. Felicia ficou consigo durante quatro dias, e ao fim desse tempo Tom continuava vivo. Mantinha-se em coma, e o prognóstico era pessimista. No entanto, continuava vivo, embora tivesse provocado muitos estragos quando disparara contra si próprio. Não voltaria a poder andar, e ainda desconheciam a extensão dos danos provocados no cérebro.

Quando Felicía voltou ao trabalho, Kate agiu como um autómato, movendo-se entre a cabeceira de Tom e o corredor, onde chorava. Felicia fazia-lhe companhia sempre que podia, mas não conseguia tirar Kate do hospital. Ela chorava por Tom. Ficava ali sentada a olhar para o vazio ou a chorar, embora a sua mente se encontrasse noutro lado. O médico teve medo de lhe receitar alguma coisa, por causa do bebé. Felicia ficou muito admirada ao ver que ela ainda não tinha perdido a criança.

Enquanto os jornais criticavam Tom, Kate criticava-se a si própria. Por que motivo não se teria apercebido do que iria acontecer? Porque não adivinhara? Poderia ter ajudado? Teria levado as preocupações dele - seguidas daqueles desperdícios de dinheiro - suficientemente a sério? A culpa era toda sua. Tinha de ser. Com o egoismo da dor, Kate atormentou-se dia após dia. O futebol. Havia sido a vida dele e acabara por matá-lo. Pensar que ele quase liquidara dois homens era ainda mais assustador, embora Kate não acreditasse que ele tivesse sido capaz de o fazer. Não o Tom que ela conhecia. Porém, aquilo que ele fizera fora suficientemente mau. Destruíra-se. pobre e meigo Tom, levado à loucura pela possibilidade de perder o último ano de segurança que quisera dar ao filho. Kate não se permitiu pensar no bebé. Só em Tom. Foi um pesadelo que durou sete semanas, enquanto ela andava de um lado para o outro a chorar, constantemente atormentada pelos jornalistas. E então Tom acordou.

Estava fraco, triste e cansado, mas aos poucos foi recuperando as energias. Iria sobreviver - aquilo que restava dele - tinham a certeza. Nunca voltaria a andar, mas podia mexer-se. E falar. E pensar. Tal como uma criança. As longas semanas passadas em coma tinham-no feito recuar no tempo e haviam-no deixado no passado, mantendo intactos o seu amor e a sua ternura. Voltara a ser um rapazinho. Não se lembrava do tiroteio, mas reconhecera Kate. Chorou nos seus braços enquanto ela reprimia os soluços que sacudiam o seu corpo assustadoramente magro. A única coisa que Tom entendia era que lhe pertencia. Mas não sabia bem como. Por vezes pensava que ela era sua mãe, às vezes sua amiga. Chamava-lhe Katie. Nunca mais voltaria a chamar-lhe princesa... Katie... era quem ela era agora.

- Vais abandonar-me?

Ela abanou a cabeça com uma expressão grave.

- Não, Tom.

- Nunca?

- Nunca. Amo-te de mais para te abandonar.

Os olhos de Kate encheram-se novamente de lágrimas e ela teve de obrigar o espírito a concentrar-se em coisas vulgares. Não podia permitir-se pensar nele quando dizia aquelas coisas, ou a dor acabaria por destruíla. Não podia permitir-se chorar. Não podia fazer isso a Tom.

- Também te amo. E és bonita. - Tom fitou-a com os olhos brilhantes de uma criança de sete anos e com o rosto magro, cansado e por barbear de um homem gravemente doente.

Passadas algumas semanas, voltou a parecer melhor, mais saudável, Era estranho ver aquele simulacro de Tom. Parecia que o verdadeiro Tom se tinha ido embora e que mandara no seu lugar um rapazinho parecido com ele. Seria assim para sempre. Porém, o seu estado de saúde decidiu o problema legal. Não havia caso contra ele. Tom Harper deixara de existir.

Três meses depois do que Kate e Felicia apelidavam de «acidente», Tom foi transferido para uma casa de saúde em Carmel. Os fotógrafos rodearam a ambulância quando foi levado na maca para o seu interior. Tom quisera acenar-lhes, e Kate tentara distraí-lo enquanto lhe segurava na mão. já estava habituada aos jornalistas. Alguns rostos haviam-se tornado familiares. Durante três meses tinham-na destruido nas suas notícias, feito brilhar osflashes no seu rosto, ou subido Para o telhado da sua casa a fim de conseguir ter uma melhor vista do seu apartamento. Kate não tinha ninguém para quem se virar, ninguém que a defendesse. Nem família, nem marido. E os jornalistas sabiam isso. Até publicaram histórias sobre o facto de a família a ter abandonado alguns anos antes por causa de Tom e como a consideravam morta. E Kate deitara-se na cama à noite, a soluçar, a rezar para que a imprensa se fosse embora e a deixasse em paz. Porém, as suas preces não foram ouvidas. Nem um único dia. Até ele ser transferido para Carmel. Então, como que por magia, pareceram esquecê-la. Era como se Tom tivesse deixado de existir, bem como Kate, a sua mulher. Tinham deixado ambos o círculo mágico. Finalmente.

Quando Tom saiu de São Francisco, Kate foi com ele. já tinha uma casa à espera. Felicia vira o anúncio e a casa era perfeita. O proprietário vivia na costa este; a mãe morrera, deixando-lhe uma casa de que ele não precisava e que não queria vender. Um dia, quando se reformasse, iria para lá; no entretanto, serviria de refúgio a Kate, nas montanhas a norte de Santa Barbara. Levava três horas de carro até à casa de saúde em Carmel, mas Felicia calculava que Kate regressaria a São Francisco assim que as coisas ficassem mais calmas e depois de o bebé nascer. Era uma casa bonita, rodeada de árvores e de um enorme terreno, com um pequeno riacho a pouca distância. Seria um bom lugar para recuperar. Teria sido um bom local para partilhar com Tom. Kate tentou não pensar nisso quando assinou o contrato de arrendamento.

Após quatro meses, já se habituara a viver ali; era o seu lar. Acordava de madrugada quando o bebé se agitava e dava pontapés no ventre, ávido de mais espaço. Kate ficava deitada, sentindo-o agitar-se dentro de si, perguntando a si mesma o que havia de dizer-lhe. Pensara em mudar o seu nome, mas decidiu não o fazer. Era Kate Harper. Mais ninguém. Não queria o nome do seu pai. E o filho de Tom seria um Harper. Tom não percebia o que significava a barriga grande, ou talvez não se importasse com isso. As crianças não se importavam, pensou Kate, desde que para elas tudo continuasse na mesma. Nada mudara. Continuou a visitá-lo, tantas vezes como no início, só diminuindo a frequência das suas visitas à medida que a gravidez foi avançando. Ia lá duas vezes por semana. Estaria sempre junto de Tom, tal como ele estivera sempre junto dela. A sua vida era essa. já a aceitara. Entendia-a, se é que tal era possível. «Sempre», o que quer que isso significasse. De cada vez que visse Tom, ele estaria na mesma. Até um dia, em que morreria calmamente. Não podia prever esse momento. O médico dissera que poderia viver até «uma idade avançada», embora não até à idade normalmente considerada avançada. Ou poderia morrer dali a um ano, ou até menos. O seu corpo acabaria por definhar e morreria. E ele permitiria que isso acontecesse, embora de forma inconsciente. Kate manter-se-ia a seu lado, a dar-lhe o seu amor. Continuava a parecer-se com o velho Tom e de vez em quando os seus olhos iluminavam-se com aquele brilho mágico. Kate fingia que estava tudo como dantes... embora fosse um jogo fútil. Embalava-o, nos braços como ele a embalara outrora. já nem sequer chorava.

Kate levantou-se depois de ter falado com Felicia ao telefone, abriu a janela e inspirou profundamente o ar do Verão. Sorriu. Havia flores novas no jardim. Levaria algumas a Tom. Ainda podia amá-lo. Sempre o amaria. Nada mudaria esse facto.

O relógio na mesa-de-cabeceira indicava que eram seis e vinte e cinco. Tinha de despachar-se em meia hora se queria chegar à casa de saúde antes das dez. Era uma viagem cansativa. Uma estranha maneira de se tornar adulta - mas era o seu destino. O bebé agitou-se no seu ventre quando ela despiu a camisa de dormir e entrou no chuveiro. Tinha um longo dia pela frente.

 

A mudança da carrinha azul-escura entrou facilmente e Kate saiu da estrada de gravilha. O pequeno Mercedes que Tom lhe oferecera já fora vendido. Kate não precisava dele. Aquele carro era agora o mais indicado para a sua nova vida. As colinas desapareciam no horizonte; ainda se encontravam cobertas de verde embora o Verão estivesse a chegar ao fim. Nalguns locais já havia zonas castanhas, mas chovera o suficiente para amenizar o calor. O cenário exibia um ar majestoso que a fez ficar sem fôlego; montanhas atrás e colinas à frente, cobertas de flores silvestres e zonas com árvores. Avistou algum gado à distância. Era o género de paisagem que os livros descreviam, e seria o local indicado para criar uma criança. O seu filho ficaria mais forte ali, sentir-se-ia livre, brincaria com os filhos do rancheiros e dos fazendeiros. Seria saudável e activo, não cruel como os pais de Kate, ou perturbado como Tom. Correria descalço no Prado junto da casa e sentar-se-ia com os pés no riacho. Kate tencionava fazer-lhe um balouço, comprar-lhe alguns animais, talvez até um cavalo. Fora isso que Tom quisera para o filho. E se fosse uma menina, teria a mesma vida. Quando fosse mais velha, poderia ir para a cidade, embora Kate não tencionasse sair dali. Deixá-los esquecer. Nunca mais iriam tocar-lhe. Nem a im prensa, nem os pais, nem ninguém. A sua casa era agora ali. Criara um refúgio, escolhera o seu papel. Era a viúva Harper. Parecia uma expressão tirada de um velho filme de cowboys e fez Kate soltar uma gargalhada ao ligar o rádio e pegar num cigarro. Estava uma bela manhã de Verão e ela sentia-se surpreendentemente bem. A gravidez não estava a ser tão difícil. como julgara; por outro lado, havia muitas coisas em que pensar, decisões a tomar, coisas a resolver. Quem tinha tempo de preocupar-se com azias, com cãibras nas pernas e com dores? Porém, Kate quase não padecia dessas coisas. Talvez isso se devesse à vida fácil que levava agora no campo. E era de facto fácil, excluindo as longas viagens para visitar Tom. E aquilo que sentia depois.

O rádio emitia baladas alternadas com música rock e o apresentador fazia alguns comentários e dava algumas notícias. Era Verão. Todos estavam de férias, a viajar, na praia. Era difícil recordar essa vida naquele momento. A vida de Kate era visitar Tom, depois regressar a casa e escrever. Às vezes ia ao quarto do bebé e sentava-se na cadeira de balouço, perguntando a si mesma como seria tê-lo nos braços. Seria estranho, ou iria ela amá-lo instantaneamente? Era difícil imaginar-se mãe, mesmo com o bebé no ventre. Percebia isso, mas ver a criança seria diferente... tal como pegar nela... Seria o bebé parecido com Tom? Desejava que sim. Se fosse rapaz, chamar-lhe-ia Tygue, se fosse rapariga seria Blaire. Queria um nome fora do comum. Um nome bonito, especial. Tom teria... respirou fundo, apagou o cigarro e levantou o volume do rádio. já estava farta dos seus pensamentos. Abriu a janela do carro e deixou que o vento da manhã brincasse com o seu cabelo. Naquele dia não lhe apetecera fazer tranças. Tom gostara sempre de a ver de cabelo solto. O macaco de ganga já estava muito apertado, mas ele não reparava nisso. As costuras pareciam prestes a rebentar, tal como a sua pele. Porém, já não podia alargar mais a roupa. Deu uma ligeira palmada na barriga e carregou no acelerador. O bebé mexeu-se de novo; parecia que tinha um cachorrinho no regaço. Sorriu. Seguia a cento e quarenta. Queria que a viagem passasse depressa. Queria ver Tom.

Depois de mais duas horas e meia na estrada, sabia que o desvio devia estar próximo. já conhecia as tabuletas. Veria um cartaz verde a anunciar um restaurante dali a quinze quilómetros. Uma casa branca com portadas azuis. Um pequeno motel de aspecto triste e logo a seguir o desvio. Passou para a faixa da direita e abrandou. Nervosa, desligou o rádio, acendeu outro cigarro e no primeiro cruzamento esperou que os carros passassem. Dali a vinte e cinco quilómetros estaria em Carmel. Aquela zona era mais rústica, porém mais bonita. Es tava ainda longe da costa, mas já via as gaivotas, sempre em busca de alimento.

Kate tomou a carregar no acelerador e virou na primeira estrada estreita à direita. Chegou a outro caminho, mais semelhante a uma vereda, ladeada de arbustos e pequenas árvores. De vez em quando via bagas maduras e apeteceu-lhe sair do carro para apanhar algumas; fizera isso em criança. Mas naquele momento não tinha tempo para isso. Olhou para o relógio. já eram nove e meia. Tom devia estar cá fora, ou tal vez deitado na cama de rede, a pensar. Fazia isso muitas vezes. Kate perguntava a si mesma o que pensaria ele. Ele nunca lhe dizia. Limitava-se a rir quando lho perguntava, e por vezes parecia de novo o antigo Tom, como se ainda tivesse coisas em que pensar. Era estranho vê-lo assim, quase como que a provocá-la, como se a qualquer momento fosse acabar com aquele jogo. Isso fazia com que Kate o amasse ainda mais; os olhos dele brilhavam e o seu rosto tinha uma expressão de felicidade. Tom era um belo rapaz.

O edifício principal assemelhava-se a uma casa normal bem cuidada. Estava pintado de branco com um friso amarelo, tinha floreiras em quase todas as janelas e flores bonitas na orla do relvado. Um carreiro sinuoso conduzia até à porta que ostentava uma pequena placa de metal, cuidadosamente gravada. Mead Home. Apenas duas palavras. Não precisavam de dizer mais; quem ali vinha sabia onde estava. Ali perto existiam outras casas mais pequenas, todas pintadas de branco e amarelo, e, um pouco mais afastado, um conjunto de pequenas vivendas, rodeadas de flores. As vivendas eram as instalações mais exclusivas. Algumas alojavam dois ocupantes, outras apenas um. E cada vivenda tinha um enfermeiro. Tom vivia numa dessas vivendas com um enfermeiro de idade - Mister Erhard, que desaparecia discretamente sempre que Kate lá ia. Como membro da equipa de futebol, Tom possuía um bom seguro, que dava para pagar a sua permanência em Mead, e daria ainda durante os dez ou doze anos seguintes. Depois disso, Kate teria de procurar outro lugar, mas nessa altura... quem sabe... os médicos diziam que ele ainda podia viver muitos anos.

Trazia sandálias e sentiu a relva húmida nos pés quando se aproximou da vivenda de Tom. já não precisava de ir primeiro à casa principal. Os doentes eram bem vigiados, mas Kate já era conhecida. Das janelas, onde havia sempre alguém atento, viam-na chegar e podia entrar e sair conforme lhe apetecesse. Kate foi logo à procura de Tom. Era fácil encontrá-lo. Porém, naquele dia, quando chegou à vivenda, ele não se encontrava lá.

-Tom? - Ninguém lhe abriu a porta. - Mister Erhard? - O enfermeiro parecia também não estar ali.

Com cuidado, Kate abriu a porta e olhou em volta. A sala estava arrumada e limpa, tal como o resto da vivenda. Esta era uma das razões por que quisera que Tom ficasse em Mead Home. Fora ver várias outras casas de saúde perto de São Francisco, e tinha-as achado sombrias, cheias de desespero. Mead tinha uma aura de esperança. Era um local intocado pelo tempo, tal como Tom. Era seguro, isolado. E parecia mais uma escola do que uma casa de saúde. Kate estava sempre à espera de ouvir crianças a cantar, ou de as ver correr para ir jogar basebol.

- Tom? - Perguntou a si mesma para onde teria ele ido, e sentou-se numa cadeira para recuperar o fôlego. Naquele dia, sentiu-se ofegante, mais do que o costume. O bebé estava cada vez maior, e ela conduzira três horas sem parar, contrariando as ordens do médico. Porém, uma paragem roubava-lhe demasiado tempo. Achava sempre que podia esticar as pernas quando chegasse a Mead. Espreguiçou-se, saboreando a confortável cadeira de balouço. Tinha almofadas com flores vermelhas e as colchas das duas camas eram feitas do mesmo tecido. As cortinas eram brancas e na mesa junto à janela encontrava-se uma jarra com flores amarelas. Sabia que fora Tom quem as apanhara. Alguns dos seus quadros encontravam-se pendurados na parede, e as mãos dele ainda tinham a maturidade que o seu cérebro já não tinha. Havia aguarelas delicadas de flores e de pássaros. Nunca se apercebera de que ele sabia pintar até o levar para Mead. Tom nunca pintara nada. Só jogava futebol. Agora, já nem se lembrava de que jogara. Esquecera o passado. Era como se tivesse sido necessário regressar à infância para se ver livre dele. Porém, conseguira.

Aquela vivenda era perfeita para qualquer pessoa, doente ou saudável, adulto ou criança, e Kate gostava de saber que ele se sentia feliz ali. E podia deslocar-se facilmente na cadeira de rodas. Lá fora encontrava-se uma cama de rede onde Mr. Erhard ajudava Tom a deitar-se quando queria descansar e olhar para os pássaros. Às vezes até o deixava ficar ali deitado à noite durante algum tempo, envolto em cobertores, a observar as estrelas. Mr. Erhard era bom para Tom. Fora seu admirador durante muitos anos e ficara contente com o facto de o terem incumbido de olhar por ele.

Kate ouviu barulho lá fora e levantou-se. Em seguida ouviu a voz de barítono de Mr. Erhard a contar uma história a Tom. Houve uma pausa, quando o enfermeiro deve ter-se apercebido de que a porta estava aberta. Kate ouviu os seus passos no carreiro de pedra e segundos depois viu a cabeleira branca do enfermeiro junto à porta.

- Sim? - perguntou muito sério com ar de quem não tolerava disparates nem intrusões. Mas a sua expressão suavizou-se assim que viu Kate. - Ora viva! Como é que se sente?

- Bem. Muito inchada. - Riram-se ambos. - Como está o nosso amigo?

Mr. Erhard assentiu com uma expressão satisfeita.

- Muito bem. Ontem fartou-se de desenhar e esta manhã fomos apanhar flores. Ele conta-lhe tudo...

- Ei! Andy! - Era a voz de Tom vinda lá de fora. A cadeira ficara presa na relva. - Ei!

- Já vou, filho. - Erhard saiu da vivenda, seguido de perto por Kate. O sorriso estampado no seu rosto era uma loucura. Por que motivo ainda se sentiria ela assim? Parecia estar prestes a ver o velho Tom... Invadia-a sempre a mesma excitação, o mesmo prazer em olhar para ele, em tocar-lhe, em abraçá-lo, em saber que ele estava bem e que era seu.

- Katie! - exclamou Tom muito feliz quando a viu aproximar-se. Os seus olhos brilharam e esboçou um enorme sorriso quando estendeu os braços para ela.

- Olá, querido. Como estás hoje?

-           Óptimo! Espera só para veres o que encontrámos!

-           Os olhos sábios de Mr. Erhard expressavam a sua alegria quando empurrou a cadeira de Tom para a vivenda. já desaparecera quando Kate se virou.

- Os teus desenhos novos são muito bonitos, querido - declarou Kate, embora não estivesse a olhar para os desenhos, mas sim para ele. Tom estava bronzeado e tinha um ar forte e feliz. Era o Tom Sawyer de Mead Home. Aproximou a cadeira de rodas de Kate e ela inclinou-se, tomando-o nos braços. Foi um abraço terno. Era só isso que ele percebia agora, porém com aquele abraço Kate disse-lhe que ainda o amava.

- Estás muito bonita, Katie - afirmou ele com um ar atrapalhado quando se afastou e aproximou a cadeira da mesa. Pegou na jarra com as flores amarelas e voltou para junto dela. - Apanhei-as para ti.

As lágrimas surgiram nos olhos de Kate quando lhe sorriu e pegou na jarra. Eram lágrimas de alegria, não de dor.

- São muito bonitas. - Apetecia-lhe voltar a abraçá-lo, mas sabia que tinha de esperar. Ele não iria sentir-se bem se ela exagerasse. Quando lhe apetecesse, tornaria a mostrar o seu afecto. - Queres ir dar um passeio?

- Pode ser.

Kate largou a mala e empurrou a cadeira. Estava mais pesada do que esperara, ou talvez ela se sentisse excepcionalmente cansada. Naquele dia, o bebé parecia pesar muito. Tom ajudou-a e chegaram ao carreiro. Ele dirigiu as rodas com as mãos e encontraram logo uma zona macia.

- Queres ir sentar-te junto ao lago? - Ele olhou para trás e assentiu alegremente, começando em seguida a assobiar.

O lago era pequeno mas bonito, tal como tudo em Mead.

Kate trouxera-lhe um barco à vela em miniatura e ele ia ali muitas vezes. Mr. Erhard dizia que aquilo era uma das coisas que ele mais gostava de fazer. No entanto, haviam deixado o barco na vivenda. Devagar, Kate virou a cadeira e sentou-se na relva.

- Então o que fizeste durante a semana?

- Porque não vieste visitar-me esta semana?

- Porque estive demasiado ocupada a engordar. - Ainda sentia o desejo tolo de falar com ele sobre aquilo, como se conseguisse avivar-lhe a memória, como se ele fosse capaz de perceber que o bebé era seu, ou até que na barriga dela havia um bebé.

- Aposto que mal consegues correr - proferiu ele, reprimindo, a custo, uma gargalhada. Kate riu-se. Agarrou na mão dele e o som do seu riso espalhou-se sobre a água.

-           É verdade. Pareço uma galinha gorda a bambolear-se.

-           Ele riu-se e continuou a agarrar na mão dela.

Passado algum tempo ficou sério.

- Porque não posso ir para casa contigo, Katie? Sou capaz de dirigir a cadeira de rodas sozinho. Ou podíamos levar connosco Mister Erhard. Hum?

outra vez aquela conversa. Caramba!

Kate abanou a cabeça, mas continuou a segurar na enorme mão de Tom.

- Não gostas de viver aqui, Tom?

- Quero ir para casa contigo.

Parecia tão suplicante que ela teve de reprimir as lágrimas. Não podia falar daquilo com ele. Não de novo. Ele não entendia. Fazia-a sentir-se como se o tivesse abandonado.

- Neste momento isso não é fácil. Porque não deixamos as coisas ficarem como estão durante algum tempo e falamos no assunto mais tarde?

- Também não vais deixar. Prometo que me porto bem. - Já tinha lágrimas nos olhos e Kate pôs-se de joelhos, abraçando-o.

- Tu és bom e eu amo-te. E prometo, querido, que se for possível, um dia levo-te para casa. - Houve um silêncio longo e triste enquanto ambos estavam mergulhados nos seus pensamentos, tão distantes um do outro e contudo tão próximos. - E entretanto hei-de visitar-te e havemos de jogar e Mister Erhard há-de tomar conta de ti e... - Kate reprimiu as lágrimas e não foi capaz de continuar.

Tom, porém, já perdera o fio à meada.

- Okay. Oh, olha! - Muito excitado, apontou para cima e Kate deitou-se para olhar para o céu, limpando as lágrímas dos olhos. - Não é bonito? Mister Erhard disse-me ontem como é que se chamava, mas já me esqueci.

Era uma ave azul e verde com cauda amarela e asas brilhantes.

Kate sorriu a Tom e voltou a sentar-se.

- Trouxe-te um piquenique. O que achas?

- A sério?

Ela levantou a mão.

- A sério. Prometo.

Era divertido fazer coisas para ele, mesmo que fosse apenas um almoço. Trouxera sandes de salame, batatas fritas, salada de macarrão, pêssegos e uma cesta de cerejas. juntara também um termo com limonada e umas fatias de bolo de chocolate. Ele agora até comia como uma criança.

-O que é que trazes? - Os seus olhos brilhavam de novo. já se esquecera de que queria ir para casa com Kate. Por enquanto.

- Hásde ver quando tiveres fome - disse ela, brandindo um dedo na sua direcção. Tom agarrou-o. Era um jogo que jogavam desde que se tinham conhecido. Kate podia fingir, por um momento, por um instante, que tudo continuava como dantes.

- Tenho fome.

- Não tens nada. Só queres ver o que está no cesto do piquenique. - Estava deitada na relva, sentindo-se uma baleia, e sorriu.

-           Tenho fome, a sério!

-           Voltaram ambos a rir.

-Como é que podes ter fome? São dez e meia da manhã.

- Mister Erhard não me deu pequeno-almoço. - No entanto, o riso bailava nos olhos de Tom e ele não foi capaz de manter-se sério.

- Tretas. Queres enganar-me.

- Vá lá, Katie. Estou a morrer de fome.

- És de todo - retorquiu ela. Mas acabou por se sentar e pensou em ir buscar o cesto. Se ele tinha fome, porque não? - A propósito, trouxe-te uma prenda.

-           Trouxeste? O quê?

-           - Já vais ver.

- Oh, és tão má! - exclamou ele com a ira de uma criança, impaciente por ver o piquenique e a prenda. E com outro sorriso, Kate levantou-se e inclinou-se para lhe beijar a ponta do nariz. - Não faças isso! - pediu ele, afastando-a devagar.

- Porque não?

- Porque és má, ora! - Porém, pôs um braço à volta da cintura dela e ficaram assim por uns momentos, ele na cadeira e ela de pé ao lado. Daquela vez, foi Kate quem se afastou primeiro.

- Vou buscar as coisas. - Sentia-se cansada e ainda tinha o dia inteiro pela frente.

- Queres ajuda?

- Está bem. Podes trazer o cesto do piquenique.

Ele fez avançar a cadeira até ao carro e Kate caminhou devagar ao lado dele, saboreando o sol. Tom contou-lhe o que andara a fazer, falou-lhe dos desenhos, de um jogo novo que ela lhe trouxera na semana anterior, de uma enfermeira de que não gostava, e do «melhor jantar que já comi», enquanto Kate o escutava como se tudo aquilo fosse verdade, como se tivesse importância.

Quando chegaram ao carro, pousou o cesto com cuidado no regaço dele e pegou num embrulho vermelho às riscas brancas com um grande laço.

- Para ti, meu querido.

Fechou a porta do carro e empurrou a cadeira até ao carreiro.

- Despacha-te!

- Há algum problema? - perguntou Kate. Precisaria de Mr. Erhard. Tom era demasiado pesado para ela o ajudar a ir à casa de banho.

- Não, tonta, quero abrir a minha prenda! - Segurava-a junto ao peito, e já enfiara uma mão no cesto do piquenique para tirar uma mancheia de cerejas e um bocadinho de bolo.

- Tira a mão daí, Tom Harper, se não...

- Não vais fazer nada, Kate, pois gostas demasiado de mim.

- Tens razão. - Sorriram, e Kate parou a cadeira sob uma árvore junto à vivenda. A relva estava fresca e brilhante. Dali a pouco Tom iria fartar-se de estar lá fora.

- Posso abri-la agora? - Esperou a aprovação de Kate e, quando ela assentiu, rasgou rapidamente o papel de embrulho. Era uma prenda idiota, mas ela não fora capaz de resistir a comprar-lha. E comprara uma igual para o quarto do bebé.

- Oh, gosto muito! Como é que ele se chama? - Tom segurava nas mãos um grande urso castanho e apertava-o junto ao peito.

Kate ficou admirada e radiante com a alegria dele.

- Não sei. Diz-me tu. Eu acho que ele tem cara de George.

- Sim. Talvez... - hesitou Tom, olhando para o urso com ar pensativo.

- Ludus? - sugeriu Kate com um sorriso. Ainda bem que comprara aquilo. Não fazia mal que fosse uma prenda idiota. O que importava isso, desde que ele ficasse contente?

- Ludus, não! É um nome horrível. já sei! Wilhe!

- Willie?

- Willie! - Estendeu os braços para Kate, e ela abraçou-o, dando-lhe um beijo na testa. - Obrigado, Katie, ele é muito bonito.

- É parecido contigo.

Ele bateu-lhe com O urso e soltaram ambos uma gargalhada.

- Queres sentar-te na tua cama de rede? Posso pedir a Mister Erhard que venha cá.

- Não, estou bem assim. - Tom já enfiara os braços no cesto do piquenique; comeu durante meia hora, com Willie sentado no regaço.

Descansaram depois do almoço, e Kate quase adormeceu na relva. O ar estava agradavelmente quente. Uma ligeira brisa agitava-lhe um pouco o cabelo e o bebé acalmara finalmente. Passaram o cesto das cerejas um ao outro e atiraram os caroços às árvores, rindo muito.

- Um dia há-de haver aqui um cerejal e ninguém saberá porquê.

-           Nós saberemos, não é, Katie?

-           - É.

A voz de Tom era tão meiga, quase suplicante, que Kate pensou que ele devia saber. Mas de que servia ele saber? Era por isso que ela se impedia sempre de o fazer recordar-se. Se Tom voltasse a ser o que fora, teria de ser julgado por agressão ou tentativa de homicídio, ou o que quer que decidissem chamar-lhe. Estava melhor em Mead Home, naquele estado, do que numa prisão diferente. Porém, também não havia possibilidade de o fazer recuperar. O médico já explicara isso a Kate várias vezes, mas a tentação não desaparecia. Às vezes, por um instante, parecia-se tanto com o que fora antigamente, com o velho Tom, que era difícil acreditar que a bala destruíra tudo aquilo que os médicos tinham dito. Fora difícil perder a esperança, deixar de tentar.

- Katie?

- Hum? - Katie olhou para ele com um pé de cerejas na mão; tinha-se esquecido delas.

- No que é que estás a pensar?

- Oh, em nada de especial. Estou com uma grande preguiça.

- Ficas muito bonita quando pensas. - Depois o olhar de Tom desviou-se delicadamente para a barriga de Kate. Tinha pena que ela estivesse gorda, embora não se importasse muito com isso. Amava-a mesmo assim.

- Obrigada, Tom. - Encheu-lhe um copo com limonada e voltou a deitar-se na relva. Uma árvore alta ocultava-a do sol e o ar tinha a habitual calma de uma tarde de Verão. A única coisa que faltava era o ranger de uma porta de rede à distância, e depois o barulho da porta a bater quando uma criança entrasse para ir buscar um copo com água. - Isto aqui é bonito, não é?

Tom assentiu com ar feliz e atirou outro caroço de cereja para junto da vivenda.

-           Preciso de uma fisga.

-           - Ai isso é que não.

- Não é para magoar ninguém - explicou ele com ar ofendido - é só para coisas como caroços. Ou então clipes. Sabes... para atirar às árvores. - Esboçava de novo aquele sorriso travesso.

- Onde é que aprendeste essas coisas? já não se usam fisgas há muitos anos.

- Vi na televisão.

- Bestial.

-Talvez eu possa fazer uma.

Contudo, Kate já não o ouvia. O bebé dera-lhe um pontaPé forte nas costelas. Ela inspirou, soltando o ar devagar, e perguntou a si mesma se estaria na altura de regressar. Ainda tinha uma viagem longa pela frente e já eram quase duas da tarde. Estava ali há quatro horas, Não era muito tempo, mas era só o que conseguia aguentar. Viu Tom a fazer pontaria com outro caroço de cereja. Ainda tinha migalhas do bolo de chocolate na cara. Kate sentou-se e limpou-lhas, depois olhou na direcção da vivenda. Vira Mr. Erhard entrar havia quase uma hora.

- Vou lá dentro um bocadinho, querido. Queres alguma coisa?

Ele abanou a cabeça com ar satisfeito.

- Não.

Mr. Erhard estava à sua espera, a ler o jornal e a fumar cachimbo. Era um passatempo invernal para um dia tão quente e soalheiro.

- Vai já embora?

- Acho que é melhor.

- Admira-me que o seu médico ainda a deixe fazer estas viagens. - Esboçou um sorriso paternal. - Ou será que não lhe pede autorização?

- Bom, digamos que fechamos ambos os olhos.

- Ouça, podia ficar algumas semanas sem cá vir. Eu mantenho o Tom entretido. Ele pode queixar-se quando a vir, mas não reparará na sua ausência.

Era triste verificar que Mr. Erhard tinha razão.

- Não sei. Vamos ver como me sinto na próxima semana.

- Está bem.

Kate foi à casa de banho, depois voltou lá para fora e Mr. Erhard seguiu-a, aproximando-se de Tom e acenando com o cachimbo.

- Com que então és tu quem tem andado a bombardear a casa com caroços de cereja toda a manhã! - exclamou ele num tom alegre, e Tom sorriu, feliz. - Aposto que não és capaz de acertar naquela árvore. - Porém, enganou-se. Tom acertou-lhe em cheio.

- É melhor ter cuidado, Mister Erhard, pois ele quer uma fisga.

- Lembra-se? Como aquela do filme do outro dia? Aquele em que o rapaz... - A história era longa, mas Mister Erhard alinhou com Tom, e Kate observou-os durante algum tempo. Detestava ter de abandonar Tom. Detestava sempre.

Devia sentir-se aliviada, mas tal não acontecia. O seu único alívio consistia em ir vê-lo, e deixá-lo ainda lhe despedaçava o coração.

-           Bem, querido, vou andando, mas volto depressa.

-           - Está bem, Katie, adeus. - Acenou-lhe; a conversa da manhã já há muito que estava esquecida. Aquele lugar era para ele um lar. Nem sequer pestanejou quando ela lhe disse que se ia embora.

Kate inclinou-se para o beijar no rosto e apertar-lhe o ombro.

- Toma conta do Willie, querido. - Afastou-se, acenando e sorrindo, com um grande peso no coração ao vê-lo na cadeira agarrado ao urso de peluche. Continuou a vê-lo quando fez marcha atrás para sair do estacionamento. Abriu ajanela para acenar pela última vez, mas Tom já estava embrenhado numa conversa com Mr. Erhard.

- Adeus, Tom. Amo-te - murmurou Kate quando se afastou.

 

A viagem de regresso a casa pareceu mais longa do que habitualmente. Não conseguia esquecer a imagem de Tom com o urso de peluche e as coisas que ele dissera. Obrigou-se, por fim, a esquecer a visita e ligou o rádio. Tinha dores nas pernas e só lhe apetecia chegar a casa. Fora um dia bastante longo e tinha aquela sensação de exaustão que costumava dominá-la nos últimos tempos, como se não tivesse forças para dar mais um passo. Talvez Mr. Erhard tivesse razão. Talvez ela pudesse não ir visitar Tom nas semanas seguintes. O nascimento do bebé estava previsto para dali a três semanas. Kate não queria sequer permitir-se pensar nisso. Nem no bebé, nem em Tom. Só conseguia pensar na cama e em despir a roupa que parecia lutar com o seu corpo. Quando estacionou junto à casa, teve a sensação de que tinham passado mil anos. Estava tão cansada que nem viu o Alffa Romeo vermelho ali parado. Saiu do carro, deteve-se junto dele durante algum tempo a esfregar a barriga das pernas e em seguida avançou devagar e a custo até à porta.

- Não parece que estejas em grande forma. - Era a voz grave e cínica de Felicia Norman, e Kate deu um salto. - Ei, menina, tem calma. Sou uma miserável parteira.

Kate olhou então para cima e soltou uma gargalhada.

- Pregaste-me um grande susto, Licia.

- Admira-me que ainda tenhas energia para te assustares. O que julgas que andas a fazer? - Tirou o cesto das mãos da amiga e avançaram as duas Para a casa.

- Isso não interessa. Eu é que pergunto: o que estás tu a fazer aqui tão cedo?

- Decidi que precisava de umas férias e que a ti te fazia bem um hóspede.

- Férias?

- Bem, de um fim-de-semana prolongado. Meti quatro dias.

Felicia estava satisfeita por ter vindo. Kate parecia exausta, e, se era assim que ficava quando ia ver Tom, talvez fosse melhor lá não ir durante uns tempos, ou pelo menos conduzir até lá.

- Já te apercebeste de que é um milagre ainda não teres sido despedida por minha causa? - perguntou Kate, embora esboçasse um sorriso. Sabia-lhe bem ver a amiga.

- Têm mas é muita sorte por eu não me ter despedido. Se continuarmos assim durante mais um mês, tenho um esgotamento. - E a assistente dela também. Para poder estar com Kate, Felicia encarregara-a dos desfiles da semana. Isso iria custar-lhe outra mala Gucá, e um almoço no Trader Vic's, mas tivera um pressentimento.... e metera-se no carro para ver Kate. Pousou o cesto do piquenique em cima do balcão da cozinha e olhou em volta. Era de facto uma casa agradável. Kate fizera uma óptima escolha. - Então, como estava o Tom?

- Bem. Feliz. Nada de novo.

Felicia assentiu com ar solene e sentou-se numa cadeira. Kate imitou-a.

- Sabes uma coisa, Licia? Estás com pior aspecto do que eu. E a tua viagem também foi mais comprida. Queres o resto da limonada?

Felicia fez uma careta.

- Querida, gosto muito de ti, mas limonada não é comigo. Credo, que ideia horrível!

Kate fitou-a com um sorriso de desculpas.

- Não tenho mais nada para te oferecer.

- Uma ova é que não tens. - Felicia fez um ar travesso e avançou para o armário. - A semana passada deixei aqui vermute e gim. E trouxe cebolas e azeitonas. - Tirou os frascos da mala com um sorriso.

- Davas uma óptima escuteira.

- Dava, não dava? - Tirou as garrafas do armário e preparou um martini de aspecto bastante profissional enquanto Kate se endireitava na cadeira. - Estás outra vez com azia?

- Felicia conhecia aquela expressão no rosto da amiga. Estava com ela vezes suficientes para conhecer todas as suas expressões melhor até do que a própria Kate. Tudo, desde a azia à histeria. E aquilo parecia ser azia.

- Acho que comi muitas cerejas ao almoço. Parece mais indigestão do que azia. - E dores. Caramba, era só o que lhe faltava, uma dor de barriga. Pobre bebé, como podia ela ter-lhe feito aquilo? Soltou uma gargalhada. - Talvez precise é de um martíni.

Porém, ambas sabiam que ela não estava a falar a sério. já não bebia álcool há meses.

- Porque não vais deitar-te? Eu vou tomar um duche e depois preparo o jantar. - Felicia tinha um ar prático e parecia estar em casa.

- Vieste até aqui para cozinhar?

- Sim. Agora tira essa roupa e vai-te deitar.

- Sim, mãe.

Sentiu-se melhor depois de se ter despido. E ainda melhor depois de ter tomado um duche. Ouviu Felicia na cozinha e deteve-se no futuro quarto do bebé. Ali estava. Willie.

O mesmo urso que Tom tinha. Perguntou a si mesma como estaria naquele momento o Willie dele, se Tom o teria ao colo, se brincava com ele, ou se já o teria esquecido. Tocou no urso e depois saiu do quarto.

- O que estás a fazer?

- Gostas de espaguete? - Era uma das três coisas que Felicia sabia fazer. As outras duas eram ovos estrelados e bife. Kate assentiu.

- Gosto. Vou engordar mais dois quilos, mas nesta altura já não me ralo.

Comeram à luz da vela, admirando a vista, e Kate gostou de ter alguém com quem falar. Estava a ficar demasiado habituada ao silêncio e a ver apenas Tom. Precisava de Felicia pa ra acrescentar um pouco de cor à sua vida. Felicia animava-a sempre. Naquele momento, contava-lhe os mexericos da semana na loja - quem ia para a cama com quem, quem fora promovido, quem fora despedido e quem acabara por se revelar homossexual. Porém, Kate não a ouvia com a atenção do costume, nem se ria tanto.

- O que se passa, querida? Não estás com boa cara. É por causa do meu espaguete?

- Não. Acho que são outra vez aquelas malditas cerejas. - Atacara-a o mesmo mal-Estar que sentira antes de jantar, só que ainda pior.

- Cerejas uma ova. Estás mas é exausta. Porque não te deitas no sofá? Ou será que queres ir para a cama?

- Não estou muito cansada. - Aliás, sentia-se inquieta, tal como se sentira depois de ter visto Tom. Porém, acabou por se deitar no sofá e começou de novo a brincar com Felicia. - Talvez seja mesmo ào teu maldito espaguete.

- Vai-te lixar, menina! Eu faço o melhor espaguete da costa oeste.

- Mamã Felicia.

Felicia preparou outro martíní e as duas mulheres conversaram e riram. Mas a indigestão piorou em vez de melhorar.

- Afinal, talvez me vá deitar.

- Okay. Até já. - Felicia sorriu enquanto Kate ia para o quarto. Os pratos já tinham sido lavados. Kate quisera dizer que se sentia feliz pelo facto de a amiga ali estar, mas já lho dissera tantas vezes que não sabia como ser original.

Kate adormeceu antes das nove horas, e Felícia instalou-se no sofá com um livro. Não se sentia cansada, embora houvesse tido uma péssima semana no trabalho. Sabia-lhe bem estar ali sentada, descontraída, longe da cidade. A leitura do livro prendeu-a e era já quase uma da manhã quando ouviu Kate mexer-se no quarto. Prestou atenção durante um minuto, para se certificar, e depois viu luz debaixo da porta.

- Estás bem? - perguntou Felicia de sobrolho franzido.

Kate respondeu-lhe logo.

- Sim. - Porém, não soava nada bem.

- Continuas com aquela dor de barriga?

- Hum, hum.

Pouco depois, Kate abriu a porta do quarto e ficou ali parada, envergando o roupão comprido cor-de-rosa e branco. Parecia uma criança estranhamente inchada e sorria, com os olhos muito abertos.

- Acho que não é dor de barriga. Acho que talvez... sej a o bebé. - Kate quase soltou uma gargalhada. Sentia-se radiante. Era de loucos... No entanto, parecia demasiado cedo, embora sentisse uma grande excitação. O bebé! Ia nascer finalmente!

- Queres dizer que ele está a nascer? - perguntou Felicia muito pálida.

Kate assentiu.

- Talvez. Não tenho a certeza.

- Não é demasiado cedo?

Kate tornou a assentir, mas não parecia muito preocupada.

- Acho que aos oito meses já não há problema. já estou quase de oito meses e meio.

- Telefonaste ao médico?

Kate assentiu com ar solene, com uma expressão de vitória. Ia ter o bebé. Talvez naquela noite. Não tinha de esperar mais tempo. Acabara-se! Era o começo!

- Ele disse para lhe ligar daqui a uma hora, ou antes, se as dores ficarem muito fortes.

- Estás com dores? - inquiriu Felicia, apertando o livro no regaço e olhando para a amiga.

- Acho que sim. Pensei que era uma indigestão, mas as dores estão a aumentar e, de vez em quando... - Sentou-se, como se estivesse farta de falar, e pegou na mão de Felicia. Toca aqui que vais sentir.

Sem pensar, Felicia deixou que Kate pousasse a sua mão na barriga inchada. Sentiu a sua dureza. Nem sequer parecia uma barriga. Parecia antes uma parede, um chão, algo que podia partir-se.

- Meu Deus, é horrível. Dói?

Kate abanou a cabeça, animada, mas na sua testa tinham surgido já algumas gotas de suor.

- Não, não dói. Só está muito, muito dura.

- Precisas de alguma coisa, querida?

As mãos de Felicia tremiam, e Kate soltou uma gargalhada.

- Não, e se desmaias agora, dou-te uma tareia. Ainda bem que estás aqui.

-Também acho - retorquiu Felicia, embora parecesse muito pouco convencida.

Kate soltou outra gargalhada.

- Descontrai-te.

- Pois. - Felicia respirou fundo e encostou-se ao sofá. - Sou capaz de lidar com qualquer crise. Mas os bebés nunca foram a minha especialidade. Nunca fui a nenhum, quero dizer... Oh, raios! Preciso de uma bebida.

A imperturbável Felicia Norman estava de novo em polvorosa, ao passo que Kate parecia estranhamente calma. Fora por aquilo que esperara quase nove meses.

- Não precisas de bebida nenhuma, Licia. Eu é que preciso de ti.

Felicia olhou para Kate e achou que a amiga parecia não precisar de ninguem.

- Estás a falar a sério?

- Sim. - A sua voz estava de novo tensa e Felicia observou-a. Agora já sabia o que era.

- Outra contracção?

Kate assentiu, com uma expressão vaga, como se estivesse a pensar noutra coisa, e Felicia pegou-lhe na mão. Kate apertou a sua. As contracções começavam a ser muito fortes.

 

As contracções eram cada vez mais frequentes, e Kate mal conseguia respirar entre elas. Felicia encontrava-se sentada numa cadeira ao lado da cama no pequeno quarto da maternidade. Segurava a mão da amiga. O Sol acabava de surgir atrás das montanhas e tinha um halo dourado.

- Queres mais gelo? - A voz de Felicia era estridente no quarto silencioso. Kate abanou a cabeça. Não era capaz de falar. Limitava-se a respirar fundo, como aprendera nas aulas para grávidas havia dois meses. - Não estás farta de fazer isso?

Kate tornou a abanar a cabeça, fechou os olhos e, durante dez segundos, deixou de ofegar. Mal teve tempo de respirar normalmente antes de sentir outra contracção. Tinha o cabelo húmido colado à cara e, pela centésima vez, Felicia levantou-se e limpou a testa da amiga com um pano húmido. A expressão de felicidade desaparecera do rosto de Kate. A sua expressão era agora de dor.

-Aguenta, querida, já não deve tardar muito.

Kate pareceu não ter ouvido. Ofegava de novo; de súbito parou e o gemido que soltou transformou-se num pequeno grito. Felicia levantou-se de um pulo, surpreendida, e Kate começou a contorcer-se e a abanar a cabeça de um lado para o outro.

- Licia... não... não aguento... mais... - Porém, até o tempo que Kate levara a dizer aquelas palavras fora demasiado longo. As dores eram de novo lancinantes e ela soltou outro gemido, rapidamente seguido de um grito.

- Kate... então, querida, vá lá... - Deus do Céu! Não estava preparada para aquilo. Era pior do que o que já vira no cinema. Agitada, tocou a chamar a enfermeira, e Kate começou a chorar.

Menos de um minuto depois, a enfermeira abriu a porta e espreitou para o quarto.

- Que tal vai isso, meninas?

Felicia lançou-lhe um olhar furioso.

- O que é que lhe parece? - Tinha vontade de matar a mulher. Por que raio não podia a enfermeira fazer alguma coisa para ajudar Kate? A rapariga estava cheia de dores. Às vezes as pessoas morriam daquela maneira, não morriam?

- A mim parece-me tudo bem. - Os olhos da enfermeira pareceram lançar faíscas na direcção de Felicia. Aproximou-se rapidamente da cama de Kate e pegou na mão dela.

- já está quase, Kate. Esta é a parte mais difícil. Está numa fase de transição. Depois disto é tudo mais fácil e pode começar a fazer força.

Kate tornou a abanar a cabeça, num movimento frenético, e as suas lágrimas misturaram-se ao suor que lhe escorria do cabelo.

- Não consigo... não consigo... - Pareceu que ia vomitar, mas não saiu nada.

- Consegue sim senhora. Vamos lá, eu respiro consigo. - A enfermeira começou a ofegar rapidamente, segurando a mão de Kate com firmeza. - Vamos lá agora, Kate... agora. - Viu de novo o esgar de dor no rosto da rapariga. - Agora... vá lá... - Aquele ofegar estava a dar com Felicia em doida, mas Kate parecia mais calma. Afinal, talvez fosse conseguir. Era um pensamento horrível. Porque é que as mulheres tinham de passar por aquilo? Os seus pensamentos foram interrompidos por outro gemido seguido de um grito, e a enfermeira continuou a tentar tranquilizar Kate. Felicia perguntou a si mesma como é que a amiga conseguia aguentar; parecera sempre tão frágil. Nenhuma criança merecia aquilo. Nenhum homem. Ninguém. Felicia sentiu lágrimas nos olhos e virou-se para o Sol que despontava. Não suportava ver a amiga a sofrer. Ela já passara por um mau bocado, não era preciso mais aquele. Quando Felicia voltou as costas à janela, viu que a enfermeira estava a olhar para si, mas com uma expressão mais meiga.

- Porque não vai buscar um café? A cafetaria já deve es tar aberta.

- Não, eu estou bem...

- Vá lá. Aqui está tudo a correr bem. - E tinha razão. Kate parecia ter melhor aspecto. No seu olhar ainda existia aquela expressão de dor, mas voltara a lutar. E provavelmente estava demasiado ocupada para se aperceber de que Felicia saíra do quarto por alguns minutos. Começara o trabalho de parto.

- Okay. Mas volto já.

- Cá estaremos.

A enfermeira sorriu alegremente e continuou a respirar com Kate enquanto cronometrava as contracções. Pela primeira vez, Felicia sentiu-se posta de parte. Perguntou a si mesma se os pais se sentiriam assim quando viam as mulheres a contorcer-se de dores, lutando para alcançar um objectivo que eles conseguiam ver mas nunca sentir. Felicia sabia que nunca sentiria aquela dor. Nunca amaria ninguém o suficiente para isso. Como Kate amara Tom. Pensar nisso fê-la de novo sofrer. Avançou muito determinada para a cafetaria. Nem sequer lhe apetecia beber nada. A unica coisa que realmente desejava era saber que aquilo chegara ao fim, e poder ir para casa tomar banho e dormir. A longa viagem da véspera e a noite passada em claro começavam a fazer sentir os seus efeitos.

- Como está Mistress Harper? - perguntou uma enfermeira gorda atrás do balcão, olhando para Felicia. A cidade era muito pequena. Felicia perguntou a si mesma se a mulher se recordaria do nome de toda a gente.

- Não sei. Acho que não está nada bem.

- Já teve filhos?

Felicia abanou a cabeça. Era engraçado estar a responder às perguntas de uma desconhecida.

A mulher assentiu.

- Daqui a uns dias ela já se esqueceu de tudo. Poderá falar sobre o assunto durante algum tempo, mas há-de acabar por esquecer. A senhora há-de lembrar-se disto durante mais tempo do que ela.

- Talvez. - Sem razão aparente, deteve-se por um momento junto ao balcão, como se esperasse que a enfermeira dissesse mais alguma coisa. Era reconfortante falar com alguém.

- Talvez sim. Talvez não. É difícil dizer. É o primeiro bebé dela, não é?

Felicia assentiu. Isso significava mais dores, não era?

O primeiro. E talvez o último. Pobre Kate...

- Não fique tão triste. Há-de correr tudo bem com a sua amiga. Vai ver. Assim que o bebé nascer, ela há-de rir e chorar e de telefonar aos pais e a toda a gente que conhece. - o rosto da mulher ficou momentaneamente sério. Olhou para Felicia. - Ela é viúva, não é?

- Sim.

- É pena. Ainda por cima numa altura destas. De que é que ele morreu?

- Foi... um acidente. - O rosto de Felicia ficou inexpressivo. já falara de mais.

- Lamento. - A enfermeira adivinhou o que ela estava a pensar. Felicia dirigiu-lhe um sorriso mecânico e afastou-se.

O café iria fazer-lhe bem.

Esteve apenas cinco minutos na cafetaria. Teria ali ficado mais tempo, se pudesse, mas não queria deixar Kate sozinha. Bebeu o café quente o mais depressa que a sua boca conseguiu aguentar, e pensou em pedir uma torrada. Mas isso parecia excessivo. Kate estava a sofrer e ela ia comer uma torrada? Só de pensar nisso ficou doente. E então, de súbito, enquanto esperava pela conta, deu consigo a pensar em Tom. Perguntou a si mesma se Kate também estaria a pensar nele, ou se apenas na dor. Tom. Ele devia ali estar com ela. Era incrível perceber que ele nunca veria o filho. Que nunca perceberia o que tinha feito. A rapariga atrás do balcão meteu o papel com a conta debaixo da chávena de Felicia, esta olhou-o com ar ausente e deixou cinquenta cêntimos no balcão. Tinha de regressar para junto de Kate. Não dispunha de tempo para pensar naquelas coisas.

Os sapatos pretos que calçara na véspera murmuravam baixinho no corredor, e Felicia reparou que tinha a roupa toda amarrotada. O calça-Casaco preto que fora buscar ao terceiro andar no início da semana parecia ter feito as vezes de pijama, e a pesada pulseira de prata provocara-lhe um vergão vermelho no braço. Perguntou a si mesma quanto mais tempo demoraria a espera e quanto mais conseguiria Kate aguentar. A amiga encontrava-se em trabalho de parto desde a meia-noite e naquele momento passavam apenas alguns minutos das sete da manhã. Porém, quando Felicia abriu a porta do quarto, reparou que as coisas se tinham alterado. O rosto de Kate estava molhado da transpiração, e não apenas húmido - parecia ter estado debaixo do chuveiro. A bata azul da maternidade colava-se-lhe ao corpo, e a sua mão apertava com força a da enfermeira. No entanto, os olhos estavam mais brilhantes, o rosto mais expressivo, e o ritmo dos seus movimentos alterara-se; parecia que passara de um trote muito doloroso para um galope saudável. Era difícil saber se a dor já tinha abrandado, e a enfermeira não dispunha de tempo para falar com Felicia. Dizia a Kate para respirar fundo e dava-lhe ordens com uma precisão militar. Kate parecia muito concentrada nas suas ordens. E então Felicia reparou que a mão livre da enfermeira se dirigia à campainha e que carregava nela três vezes.

Ficou ali de pé, sentindo-se uma inútil, sem saber se as coisas estavam a correr mal ou bem, e temendo desconcentrar Kate se começasse a fazer perguntas. Porém, alguma coisa mudara. Tudo mudara. Havia no rosto de Kate uma luz que Felicia nunca tinha visto no rosto de ninguém. Fê-la desejar meter também mãos à obra, colaborar, correr ao lado dela e sentir-se a cortar a fita da meta ao lado dela. Kate estava agora a vencer. Isso era quase palpável no quarto. Até chegou a sorrir brevemente entre duas contracções. O sorriso desapareceu, mas a sua aura não.

A enfermeira voltou a carregar no botão da campainha e desta vez a porta abriu-se repentinamente e duas enfermeiras, envergando o que pareciam ser pijamas azuis, apareceram com uma maca.

- O médico está à nossa espera na dois. Que tal está ela? - Pareciam descontraídas e nada preocupadas, e a sua atitude tranquilizou Felicia, embora Kate parecesse não ter dado por elas. A enfermeira ao lado da cama esperou por um intervalo das contracções para olhar para as duas colegas de azul e dirigiu-lhes um sorriso.

- Estamos prontas. Muito prontas. Não é, Kate?

Kate assentiu e, pela primeira vez desde há algum tempo, os seus olhos procuraram Felicia. Encontrou-a e quis falar. Porém, teve de esperar que outra contracção passasse antes de o conseguir fazer e as duas enfermeiras aproveitaram esse intervalo para a transferir para a maca. Kate queria Felicia, e esta aproximou-se rapidamente da maca.

- Vem comigo... por favor, Licia...

- Agora?

- Preciso de ti... - Custava-lhe muito falar. Parecia incapaz de respirar entre as contracções. O suor escorria-lhe da cara para o pescoço, mas não desistiu. - Por favor... quando o bebé nascer... tu também.

Felicia percebeu. Mas, caramba, porquê ela? As enfermeiras iam acompanhá-la e sabiam o que estavam a fazer. Podiam ajudá-la mais do que ela. No entanto, não era possível dizer que não a Kate.

- Claro, querida. Continua o que estás a fazer que eu estarei ao teu lado a pegar-te na mão. - Caminhava já ao lado da maca pelo corredor. A enfermeira que as acompanhava franziu o sobrolho na direcção de Felícia.

- Tenciona ir para a sala de partos?

Ela hesitou apenas uma fracção de segundo e respondeu num tom firme.

- Sim.

Deus do Céu! Tinha o estÔmago às voltas, mas não podia decepcionar Kate.

- Então terá de se lavar e de mudar de roupa.

- Onde?

- Ali - respondeu a enfermeira, indicando uma porta. - A enfermeira de serviço irá ajudá-la. Vá ter connosco à sala de partos número dois,

- Dois?

A enfermeira assentiu com uma expressão ausente no momento em que Kate arqueava as costas devido a uma contracção. já se esquecera de Felicia.

- Aguente, Kate, estamos quase lá. Ainda não. Ainda não. Só quando a deitarmos na marquesa.

Depois de se terem afastado, Felícia entrou na porta que lhe tinham indicado para se lavar e mudar de roupa.

Saiu para o corredor menos de três minutos depois, envergando um pijama azul esterilizado e sapatos com sola de borracha, e correu pelo corredor até à sala de partos número dois. Carregou num botão e a porta abriu-se automaticamente. Teve cuidado para não tocar com as mãos e os braços em nenhuma superficie, tal como lhe tinham indicado. Na sala de partos poderia pegar na mão de Kate, porém não podia tocar em nada antes disso, ou teria de ir desinfectar-se de novo, e não desejava fazer Kate esperar tanto. Pareciam já ter passado horas. Viu a sua imagem reflectida num espelho estreito e quase sorriu. Assemelhava-se a uma personagem de uma série televisíva sobre hospitais, o cabelo firmemente amarrado e uma touca azul parecida com as toucas de banho. Até tinha uma pequena máscara. Caramba, e se alguém a confundisse com uma enfermeira? Era uma ideia assustadora. Entrou na sala de partos e percebeu que só poderiam confundi-la com um turista. Os profissionais estavam a preparar-se, e Kate já fora tapada com um lençol branco. As suas pernas estavam para cima. Felicia achou aquilo primitivo e cruel, mas Kate parecia não reparar. Tentava levantar a cabeça, como se hou vesse alguma coisa para ver. Felicia sentiu um arrepio, ao pensar que talvez houvesse mesmo. Aquilo já não era apenas uma provação. Era um acontecimento, um parto. Dali a alguns mminutos iria nascer um bebé, e o horror chegaria ao fim. No entanto, Felicia teve de admitir que aquilo não estava a ser um horror para a amiga. Pela primeira vez após muito tempo, Kate virou a cabeça na sua direcção e os seus olhos pareciam sorrir.

- Olá, querida - disse Felicia, tentando parecer descontraída.

- Ficas ridícula nessa roupa, Licia.

Conseguia falar de novo, e Felicia sentiu-se tão aliviada que teve vontade de a abraçar, embora não pudesse. Em vez disso, quis pegar-lhe na mão, mas reparou que as mãos de Kate seguravam uma das faixas que a prendiam, para poder assim fazer força. O obstetra encontrava-se aos pés da maca, com bata e máscara, e os seus olhos tinham uma expressão bondosa atrás dos óculos com armação de osso.

- Muito bem, Kate, faça agora força... aguente... pronto... é isso... mais um pouco... vá lá, menina, mais força... pronto... está bem. Descanse agora um bocadinho.

O rosto de Kate parecera transfigurado pela dor, e a palidez deu lugar a um grande rubor devido ao esforço. Ficou ofegante e pousou a cabeça na almofada, olhando para a camiza.

- Oh, Licia, não sou capaz... ajuda-me.

Felicia parecia assustada e impotente. Uma enfermeira aproximou-se rapidamente.

- Se lhe segurasse nos ombros enquanto ela faz força seria bom.

- Eu? - Foi a única palavra de que conseguiu lembrar-se. Kate parecia de novo uma criança assustada... A alegria e a expectatiVa tinham desaparecido. Estava exausta. Teve outra contracção e todos os presentes ficaram tensos quando o médico fez qualquer coisa entre as suas pernas.

- Licia...

Sem pensar, Felicia segurou os ombros de Kate e amparou-a quando ela fez força. Nunca se esforçara tanto na vida.

- Não consigo... não quer...

- Mais força, Kate! Vamos lá, agora! - exclamou o médico num tom urgente e determinado. As enfermeiras pareciam andar de um lado para o outro e Kate começou de novo a chorar.

- Não consigo... não...

Felicia sentiu o suor começar a escorrer pelo seu rosto enquanto continuava a segurar os ombros de Kate. Até esse esforço parecia ser demasiado, embora soubesse que nada era quando comparado com aquilo que Kate devia estar a sentir. Por que diabo não lhe davam qualquer coisa para apressar as coisas, ou usavam os ferros, ou qualquer coisa, raios?!

- Faça mais força! - insistiu o médico, implacável, e Felicia detestou-o quando viu o rosto de Kate contorcer-se devido ao que julgou ser uma contracção. Era mais esforço do que dor, mas Felicia não podia saber. De súbito, as enfermeiras começaram de novo a andar à volta delas.

-           Vá lá, Kate. Tu és capaz. Faz força só mais uma vez. Isso... vamos lá. - Felicia apercebeu-se subitamente de que a tensão na sala aumentara. Quando olhou para o médico, viu uma expressão diferente no seu olhar; uma das enfermeiras verificava um aparelho a que tinham ligado Kate. Então Felicia ouviu o som na outra extremidade da mesa. Rezou para que Kate estivesse demasiado concentrada para não o ouvir.

-           - As batidas cardíacas do feto, senhor doutor.

- Estão a abrandar?

- São irregulares.

Ele assentiu, e Kate teve outra contracção.

- Muito bem, Kate, está na hora. Quero que faça força. Agora! - Desta vez, Kate reagiu imediatamente à ordem e os seus ombros empurraram as mãos de Felicia. Depois, baixou a cabeça, soltando um soluço.

- Oh, Licia... Tom... Tom! Oh, Tom... por favor... -Kate. Por favor, querida. Por favor. Por nós. Pelo Tom. Só mais um bocadinho. - As lágrimas corriam já pelo rosto de Felicia, molhando-lhe a máscara. Elas cegavam-na. Enquanto segurava os débeis ombros, rezou para que aquela provação chegasse rapidamente ao fim. Tinha de chegar. Kate não poderia aguentar muito mais tempo. Felicia sabia-o. Porém, talvez por Tom... - Por favor, querida, sei que és capaz. Faz toda a força que puderes.

Seguiu-se uma série de sons, o barulho dos instrumentos cirurgicos, um gemido do médico, um gritinho da enfermeira, um estranho silêncio vindo de Kate e um longo e débil choro.

- É um rapaz! - exclamou o médico dando uma palmada no rabo do bebé.

Kate tinha lágrimas nos olhos e sorriu para a amiga.

- Conseguimos.

- Tu é que conseguiste, campeã! - Felicía também chorava. - Oh, e ele é lindo!

Era pequeno e roliço e tinha o rosto muito vermelho enquanto chorava; depois, enfiou o minúsculo polegar na boca e calou-se. Kate soltou uma gargalhada ao olhar para o filho. Felicía achou que nunca vira nada tão belo como a amiga naquele momento. Ela própria não era capaz de deixar de chorar, ao passo que Kate apenas sorria, calada e orgulhosa. As enfermeiras embrulharam o bebé e estenderam-no à mãe.

O cordão umbilical fora cortado. Ele estava livre. E era dela.

Kate ficou ali deitada com o filho nos braços, ainda de lágrimas nos olhos, e olhou de novo para Felicia. Esta percebeu. Também já reparara. Embora fosse muito pequeno, o bebé era igualzinho a Tom.

- Que nome lhe vai dar? - A enfermeira que acompanhara Kate durante mais tempo aproximou-se e fitou o rostinho rosado nos braços da mãe. Era um bebé grande, com cerca de quatro quilos.

- Tygue.

o médico sorriu e Kate soltou uma gargalhada. Parecia de novo uma rapariguinha. Levantou a cabeça e olhou em volta.

- Olhem todos, já sou mãe!

As enfermeiras e o médico riram com ela, e Felicia acompanhou-os, embora ainda tivesse lágrimas nos olhos.

 

- Tens a certeza de que ficas bem?

Kate sorriu para a amiga na outra extremidade do quarto.

- Não, vou entrar em pânico e ligar à Cruz Vermelha antes do meio-dia.

- Chica-esperta - retorquiu Felicia com um sorriso, acabando de beber o café.

Era uma bela manhã de domingo e Tygue tinha quase nove dias. Felicia fora para São Francisco e regressara ao campo no fim-de-semana. Kate dava de mamar ao bebé.

- Isso não dói?

Kate abanou a cabeça, sorrindo, e depois olhou para o filho, rosado, branco e brilhante ao fim da sua primeira semana de vida.

- Não, não dói. É piroso dizer isto, mas até parece que fui feita para ser mãe. E eu que achava que não ia gostar.

- Eu também achava o mesmo. Mas já me fizeste repensar uma série de coisas. Sempre julguei que ter um filho era uma coisa horrível. Até que este pardalito nasceu. - Felicia sorriu de novo para a criança; ainda não conseguira esquecer aquela experiência maravilhosa.

- Vou ter muitas saudades vossas.

- Vai fazer-te bem. Há tanto tempo que não vou à Europa que já me esqueci de como é que é.

Felicia iria em serviço, durante um mês.

- Queres acompanhar-me na próxima viagem?

- Com o Tygue? - perguntou Kate admirada, e a amiga sorriu.

- Claro. Seria divertido.

- Talvez. - Mas desviou os olhos e ficou muito séria.

- Kate, não estavas a falar a sério quando disseste que querias ficar aqui, pois não? - Começava a ficar preocupada com aquilo.

- Estava, sim. Acabei de renovar o contrato de arrendamento.

- Durante quanto tempo?

- Cinco anos.

Felicia ficou perplexa.

- Podes anulá-lo?

- Não faço ideia, querida. Não tenciono fazê-lo. Licia, sei que não percebes, mas agora a minha casa é esta. Acho que nunca vou querer regressar, independentemente do que acontecer. Com o Tygue, estou pronta para começar uma vida nova. Teria de o fazer em algum lado, e é aqui que quero estar. É um bom local para uma criança. Terá uma vida simples e saudável. Posso ir visitar o Tom. E numa vila como esta, o Tygue nunca precisará de saber o que aconteceu ao Tom. Harper é um nome bastante comum. Ninguém fará perguntas. Se regressarmos a São Francisco, um dia virá tudo à tona. - Respirou fundo e fitou Felicia. - Só se fosse maluca é que eu voltava. - Ainda se arrepiava quando pensava nos jornalistas.

- Está bem. Então que tal Los Angeles? Um lugar civilizado, pelo amor de Deus!

Kate sorriu perante o fervor da amiga, mas sabia que ela apenas queria o seu bem. Os laços de amizade entre as duas haviam-se reforçado ainda mais desde o nascimento de Tygue. Haviam partilhado um dos mais preciosos momentos da vida.

- Porquê Los Angeles, Licia? Não tenho lá nada. É apenas uma cidade. Olha, querida, não tenho família, nem uma casa, não sou obrigada a fazer nada. Tenho um filho que só crescerá saudável aqui, e este lugar também é óptimo para eu escrever. Sou feliz.

- Mas tencionas ir à cidade de vez em quando, não tencionas? - Houve uma grande pausa, e Felicia começou finalmente a perceber. - Não tencionas? - insistiu cheia de tristeza. Estava triste por Kate, que se afastara de vez. Aquele lugar não era para a amiga, mas quando ela o percebesse, seria demasiado tarde. Talvez isso só acontecesse quando o filho tivesse crescido e saído de casa. - Irás à cidade, não irás? - Continuava a insistir, mas o rosto de Kate tinha uma expressão determinada quando levantou o olhar do rosto adormecido de Tygue junto ao seu seio. Abotoou a blusa.

- Veremos, Licia. Não sei.

- Mas não está nos teus planos, é isso? - Raios, como podia Kate fazer aquilo a si própria?!

- Está bem. Não está nos meus planos. já estás mais sa tisfeita?

- Não, tonta, estou mais triste. Kate, não podes fazer isso a ti própria, isolar-te aqui no meio das ervas. É uma loucura. Tu és bonita, és jovem. Não faças isso!

- Na cidade já não tenho nada, Licia. Nem família, nem recordações que queira guardar, nada. Só tu, e hei-de continuar a ver-te quando conseguires cá aparecer.

- E quanto à vida e às pessoas? O teatro, a ópera, o ballet, as passagens de modelos, as festas? Bolas, Kate, vê só o que estás a desperdiçar!

- Não estou a desperdiçar nada. Afastei-me de tudo. Ficarei aqui até mudar de ideias.

- Mas tens vinte e três anos. Estás na idade de gozar tudo aquilo, de aproveitar o que a vida te oferece.

Kate sorriu ante aquelas palavras e tornou a olhar para o filho. Depois fitou Felicia. Não havia mais nada a dizer. Felicia perdera.

Esta fechou os olhos por um momento e levantou-se.

- Não sei o que dizer.

- Diz apenas que virás ver-nos quando tiveres tempo, e que vais divertir-te na Europa - disse Kate com um ligeiro sorriso que não permitia discussões.

- E tu, o que vais fazer?

-           Vou começar a escrever um livro.

-           - Um livro?

Parecia coisa de adolescentes. Kate estava a desperdiçar a vida só porque o marido perdera o juizo e vivia numa casa de saúde. Porém, a culpa não fora sua. Porque estaria a enterrar-se viva tal como ele? As pulseiras de Felicia tiniram quando pousou a chávena do café no lava-louça. Queria meter juízo na cabeça da amiga, mas teria de tentar fazê-lo quando regressasse da Europa. No entanto, algo lhe dizia que nunca seria capaz. Kate mudara bastante desde que o filho nascera. Parecia mais segura acerca de tudo. E teimosa como o diabo.

- Porque é que ficaste tão admirada por eu querer escre ver um livro?

- Porque acho uma coisa engraçada. E também muito --solitária, para falar com franqueza.

- Veremos. Agora tenho a companhia do Tygue.

- Pois. E onde vais deixá-lo quando fores visitar o Tom?

- Ainda não sei. Uma das enfermeiras disse que conhecia uma boa ama, uma senhora de idade que adora bebés. Ou talvez o leve comigo. Mas a viagem é muito grande, e... bem, : não sei.

Tom não iria entender. Seria melhor deixar o filho com uma ama.

-           Isso da ama parece-me boa ideia.

-           - Sim, mãe.

- Vá-se lixar, Mistress Harper! Sabes uma coisa? Vais-me dar mais cabelos brancos do que a loja.

- Em ti, ficam lindos!

- Que desperdício! - Porém, Felicia sorria de novo. - Lembra-te de mim num dos teus livros.

Kate soltou uma gargalhada e deitou o filho no berço azul e branco que Felícia lhe trouxera. Dali a um mês pô-lo-ia na caminha antiga que Tom comprara, que por enquanto ainda era demasiado grande. Tygue sentir-se-ia perdido nele.

Felicia aproximou-se e ficou a olhar para o bebé.

- Estás a gostar, Kate? - perguntou com ternura.

- É melhor do que aquilo que eu tinha imaginado. É perfeito. Até à mamada das quatro da manhã. - Sorriu. - Nessa altura, começo a duvidar.

- Não comeces. Aproveita. - Felícia não conseguia esconder a tristeza que se abatera sobre ela. Tinha a sensação de que estava a despedir-se de Kate para sempre.

Esta percebeu.

- Não leves as coisas tão a peito, querida.

- Continuo a achar que fazes mal em ficar aqui. Mas virei visitar-te assim que regressar. E sempre que puder.

No entanto, sabiam que isso não sucederia todos os fins-de-semana. Cada uma tinha a sua vida. As coisas não voltariam a ser as mesmas. Felicia exibia lágrimas nos olhos quando pegou no saco de viagem e Kate estava muito séria quando lhe abriu a porta. Dirigiram-se ao carro vermelho de Felícia e abraçaram-se com força.

- Desculpa, Licia - disse Kate, também com lágrimas nos olhos. - Não sou capaz de voltar.

- Eu sei. Não faz mal. - Sorriu, apesar das lágrimas, e, abraçou Kate mais uma vez. - Trata bem o meu afilhado,; miúda.

- E tu porta-te bem.

Felicia meteu o saco no carro, sentou-se ao volante e olhou para Kate. Sorriam uma à outra cheias de ternura e compreensão. Tinham de seguir os seus destinos. Acenaram , ambas enquanto o carro de Felicia desaparecia ao longe.

Kate olhou para o relógio e voltou para casa. Dispunha de duas horas e meia até Tygue voltar a acordar para a mamada seguinte. Era tempo mais do que suficiente para trabalhar no livro. já escrevera trinta páginas, mas não quisera confessá-lo a Felicia. O livro era o seu segredo. E um dia - sorriu ao pensar nisso - um dia... já sabia o que iria acontecer.

 

- Kate? Kate!

Kate deu um salto, surpreendida por ouvir o seu nome. Encontrava-se descalça sentada à secretária envergando uma camisa velha e calças de ganga desbotadas.

- Então, minha senhora, também está a ficar surda?

- Licia! - A amiga encontrava-se à porta, com o habitual aspecto elegante e moderno, e vestia um fato de camurça cor de vinho. - Porque não me avisaste que vinhas cá?

- Vim dar uma espreitadela à nossa loja em Santa Barbara e lembrei-me de passar por cá. Que linda indumentária. As coisas estão assim tão más?

Kate corou de vergonha e fechou a braguilha das calças.

- Desculpa. Estava a trabalhar. Não contava com visitas.

- Como é que isso vai andando?

- Acho que bem. É difícil dizer. - Encolheu os ombros e seguiu Felicia até à sala de estar. A amiga não a visitava desde o Natal, havia dois meses, quando ali passara uma semana a mimar Tygue.

- Não sejas tão dura para contigo. Se vendeste um, podes vender também o outro.

- Diz isso ao meu editor, Licia.

- Com muito gosto. Queres um martiní?

Kate sorriu, mas abanou a cabeça. Felicia nunca mudava. A sua roupa seguia a última moda, os homens entravam e saíam da sua vida e de tantos em tantos anos alugava um apartamento um pouco maior e mais caro; porém, no essencial, não mudara nada. Isso era tranquilizador. Os martinis, a voz rouca, o estilo, a lealdade, a sensatez, as pernas bonitas... nada disso se alterara,

- Não sei, Licia. Estou a falar a sério. O primeiro livro não prestava, embora tenha sido publicado. E não querem o último. Começo a ficar nervosa.

- Não é preciso. Três é o número mágico. E para além disso, não podes dizer que o primeiro livro «não prestava». Tanto quanto me lembro, vendeu muito bem.

- Tretas! - ripostou Kate carrancuda.

- Não sejas tão insegura. Quantas mulheres da tua idade já escreveram dois liVros?

- Provavelmente centenas. - No entanto, sabia-lhe bem ouvir aquilo; não tinha mais ninguém que a elogiasse, nem sequer ninguém com quem falar. Tinha o cuidado de não passar da fase do «Olá, como está?» com as pessoas da vila. Restava-lhe Tygue, Felicia, o seu trabalho e as visitas a Tom. E não tinha tempo para mais nada. - Começo é a perguntar a mim mesma se serei capaz de escrever um romance de sucesso.

- Talvez não queiras escrevê-lo - observou Felicia por cima do ombro enquanto vertia com destreza para o copo um martini do jarro que tinha no armário de Kate. Sempre que ali chegava, tinham ambas a sensação de que ela ainda ali estivera na véspera. Isso era uma das coisas que Kate mais gostava naquela relação. - Talvez não queiras a agitação do êxito. Isso não iria obrigar-te a fazer opções índesejadas? - Era uma pergunta que Felicia há muito se fazia.

- Que opções? Se o Tygue vai ou não para a faculdade?

- Isso é um benefício, querida, não uma opção. Estou a falar do que te aconteceria se o teu livro fosse um êxito. Poderias continuar a viver aqui? Irias expor-te à publicidade? Concordarias em «ir à cidade» para dar entrevistas? As opções são estas, minha amiga.

- Preocupar-me-ei com elas na devida altura.

- Talvez isso seja em breve. - Felicia fez-lhe um brinde e Kate sorriu.

- Não desistes.

- Claro que não. - Tinham passado três anos e meio e ela continuava a querer que Kate regressasse. Concordava que Tygue era saudável e feliz, que era uma criança linda com faces rosadas e os enormes olhos azuis do pai. Ainda não sofria por causa da reclusão que a mãe escolhera, mas acabaria por sofrer. Fora esse o último argumento de Felicia, embora houvesse tido o mesmo resultado que os outros. - És a mulher mais teimosa que conheço.

- Obrigada - respondeu Kate.

- Onde está o meu afilhado? Trouxe-lhe uma prenda.

- Se não fosses tu, Licia, o meu filho não teria nada com que brincar. Mas, graças a ti - acrescentou com um sorriso - ele tem mais coisas do que todos os miúdos da vila. o comboio chegou cá na semana passada.

- Ai sim? - disse Felicia com um ar inocente. Talvez Tygue fosse demasiado novo, mas ela achava que ele devia ter Um comboio. - Afinal de contas, a viver neste fim de mundo a criança precisa de se entreter com alguma coisa. Onde está ele?

- No infantário.

- Já? Mas ainda é tão novo!

- Foi para lá logo a seguir ao Natal e está a adorar.

- Há-de apanhar os germes dos outros miúdos.

Kate sentou-se a rir e Felicia acabou o martíní. Estavam no final de Fevereiro, numa soalheira tarde de sexta-Feira e ali, onde Kate vivia, já cheirava a Primavera.

- Ele deve chegar dentro de meia hora. Vai para lá das duas às cinco, depois da sesta. Queres dar uma olhadela ao novo manuscrito enquanto esperas? - Felícia assentiu com um sorriso feliz. - Para onde estás a olhar?

- Estava a tentar lembrar-me se tive tão bom aspecto aos vinte e seis anos. Mas não tive.

- Isso é porque vivo aqui, e não numa cidade.

- Tretas. - Porém, talvez correspondesse à verdade. Fosse como fosse, Kate tinha um óptimo aspecto. Nem as visitas a Tom pareciam cansála tanto como dantes. Nada mudara ali, ela apenas se adaptara.

Tom continuava em Mead, e Mr. Erhard continuava a olhar muito bem por ele. Tom ainda brincava às mesmas coisas, lia os mesmos livros, fazia os mesmos quebra-Cabeças era como se nunca passasse da primeira classe. Agora que Kate podia compará-lo com Tygue, a estagnação de Tom era ainda mais notória; contudo, Tom continuava a ser meigo e terno. Kate ainda ia visitá-lo duas vezes por semana. Tygue pensava que ela ia trabalhar. Era apenas mais uma coisa que a sua mãe fazia.

Kate olhou para o relógio quando entregou o manuscrito a Felicia. Ainda dispunha de algum tempo antes de Tygue chegar a casa e estava ansiosa por saber o que a amiga pensava do novo livro. Passaram quase vinte minutos até Felicia interromper a leitura e levantar a cabeça com uma expressão de surpresa.

- Como é que conseguiste a cena de sexo?

- O que queres dizer com isso?

- Tens andado a divertir-te mais do que eu pensava? - perguntou Felícia com um sorriso travesso.

Kate ficou aborrecida.

- Não sejas parva. Limitei-me a escrevê-la, nada mais. É ficção.

- Espantoso. - Felicia parecia impressionada, mas o seu olhar era travesso.

- Porquê, é mau?

- Pelo contrário. É surpreendentemente bom. Admira-me que tenhas conseguido recordar tantas coisas. Com a vida bela, normal e saudável que levas, os homens que vês...

- Felicia Norman, vai-te lixar! - exclamou Kate, embora sorrisse.

Felicia continuou a ler. Kate ficara preocupada. A amiga estava sempre a gozar com ela por causa da sua vida sexual, ou da falta dela. Felicia podia nunca ter tido uma paixão avassaladora na vida, mas havia sempre alguém perto dela para lhe fazer companhia. Havia quatro anos que Kate não fazia amor. Nem sequer se permitia pensar nisso. Essas coisas já não faziam parte da sua vida. Concentrava todas as suas energias em Tygue e nos livros. Talvez isso contribuísse para que os livros fossem tão bons. Por vezes, perguntava a si mesma se seria mesmo assim. Os livros eram os seus amantes. E Tom e Tygue os seus filhos. Uma hora mais tarde, Felicia pousou o manuscrito com uma expressão séria. Kate estremeceu.

- Odiaste.

Felicia abanou a cabeça.

- Não. Adorei. No entanto, parece-me que estás a meter-te numa coisa que ignoras.

- No quê? - Devia ser o enredo. Caramba, e ela que tivera tanto cuidado.

- Podes ir a caminho do êxito, tal como eu te tinha prevenido - respondeu Felicia com uma expressão séria. Kate sorriu.

- Estás a falar a sério? - Sim. E tu estás decidida?

- Ora, não te preocupes tanto. Lidarei com isso quando chegar a altura.

- Espero que sim.

Então a conversa terminou abruptamente quando o autocarro da escola trouxe Tygue a casa. Entrou a correr em casa, envergando calças de ganga, uma camisa de flanela vermelha, botinhas à cowboy e uma parka amarela.

-Tia Licia! Tia Licia! - Saltou para o colo dela, com botas e tudo, e Kate fez uma careta ao pensar no que poderia acontecer ao fato de camurça; porém, Felicia pareceu não se importar.

-Espera só até veres o que eu te trouxe!

- Outro comboio? - perguntou ele com um ar muito feliz.

As duas mulheres soltaram uma gargalhada.

- Não. Vai ver. No carro está uma caixa grande. Consegues trazê-la sozinho?

- Claro, tia Licia. - Saiu de novo a correr e Kate observou-o. Estava a crescer tão depressa... e foi então que se apercebeu da expressão da amiga.

- Okay, é melhor avisares-me... O que é que lhe trouxeste? Uma cobra viva? Hamsters? Diz-me a verdade.

- Nada disso, Kate. A sério.

Porém, já ouviam os gritinhos de alegria lá fora. Felicia estivera nervosa por causa da prenda desde que chegara. Até levara às escondidas Para o carro uma tigela com água. Mas ele estava a dormir. Contudo, naquele momento não dormia e estava a ser apaixonadamente abraçado pelo seu dono, Tygue.

- É verdadeiro!

- Claro que é verdadeiro! - exclamou Felicia com um sorriso, ao ver a expressão de Tygue.

Kate franziu o sobrolho, e depois sorriu também.

- É teu, tia Licia?

O cão era um basset com os olhos mais tristes que Kate já vira, e teve de se rir só de olhar para ele. Tygue pousou-o no chão e as pernas do cão pareceram deslizar para o lado. As suas orelhas abriram-se em leque e olhou com um ar triste para o rapazinho, abanando a cauda.

- Gostas dele, Tygue?

Tygue assentiu com vigor e sentou-se ao lado do cachorrinho preto e branco.

- Tens tanta sorte. Eu também queria ter um. Quero um, mamã.

- Mas já tens, Tygue. - A tia Licia estava de joelhos no chão ao lado do afilhado, abraçando o rapaz e o cão.

- Já tenho um? - perguntou Tygue, confuso.

- Este cão é para ti. Só para ti - disse, beijando a cabeça loura de Tygue.

- Para mim?

- Para ti.

- Oh! Oh! - Não conseguiu dizer mais nada durante algum tempo. Depois atirou-se para cima do cão, radiante. Como é que ele se chama?

- Tu é que escolhes!

- Vou perguntar ao Willie. - O urso de peluche era o seu melhor amigo. Tom ainda tinha o dele, e era difícil perceber qual era o mais amado e o mais usado, se o de Tygue se o do pai. Tygue saiu a correr da sala e Kate baixou-se para fazer uma festa ao cachorrinho.

- Estás zangada, Kate? - perguntou Felícia, não muito preocupada.

- Como é que eu podia estar zangada, sua tonta? Só te peço que não tragas um carro à criança da próxima vez que cá vieres. Espera até ele fazer seis anos.

O cão era irresistível e ela pô-lo no colo. Tygue regressou pouco depois com Willie.

- O Willie diz que ele se chama Bert.

- Então fica Bert.

Tygue abraçou-o de novo e Bert abanou a cauda. A família estava completa. E Felicia até gostara do começo do seu novo livro. Kate teve a sensação de que a esperavam coisas boas. A amiga estava a ser tola com aqueles disparates do êxito. Caramba, bastava que o editor aceitasse o livro. Não precisava de ser um best seller. A probabilidade de isso acontecer era uma num milhão e Kate sabia que não tinha tanta sorte. Pressentia-o. A sua vida era aquela.

 

- Vais dar aulas hoje, mamã? - Kate assentiu e deu a Tygue outra torrada. - Calculei. Adivinho sempre. - Parecia satisfeito, e Kate observou o filho com um ar radiante. Era uma criança graciosa, robusta, alegre e bonita. já se parecia menos com Tom. Tinha quase seis anos.

- Como é que adivinhas sempre que eu vou dar aulas?

Costumavam conversar bastante ao pequeno-almoço. Naquele belo dia de Primavera, Kate sentia-se com vontade de brincar. Tygue era a pessoa com quem mais falava. De vez em quando, isso fazia-a responder-lhe no mesmo tom infântil, embora na maior parte das vezes optassem por um tom intermédio.

- Adivinho, porque vestes roupas mais boas.

- Ai sim? - perguntou ela com um sorriso. Nos olhos do filho havia um brilho travesso, não muito diferente do seu. - E a palavra é «melhores».

- Pois. E metes essa coisa na cara.

- Que coisa? - perguntou ela com uma gargalhada.

- Essa coisa verde.

- Não é verde, é azul. E chama-se sombra para os olhos. A tia Licia também usa. - Como se isso justificasse alguma coisa.

- Sim, mas ela usa sempre, e a dela é castanha - argumentou ele com um sorriso. - E tu só a usas quando vais dar aulas. Porquê?

- Porque tu ainda não tens idade para apreciar, borracho. - Porém, nem Tom tinha. Ela só punha sombra nos olhos e vestia as roupas «mais boas», como Tygue lhes chamava, porque achava que devia, quando ia visitar Tom a Mead. Parecia adequado. Lá, ela era «Mrs. Harper». Ali, era apenas «niarnã». E de vez em quando «minha senhora», no supermercado.

já há muito que explicara a Tygue que ensinava crianças deficientes a escrever numa escola em Carmel. Isso permitia-lhe de vez em quando falar de Tom, ou de outras pessoas que ela via. Contava-lhe muitas vezes histórias acerca de Tom, dos seus desenhos, de Mr. Erhard - as histórias eram um pouco simplificadas para que ela as pudesse contar ao filho e sentir-se um pouco aliviada. Ou por vezes, quando Tom tinha um momento de vitória, fazia um desenho espectacular, aprendia um jogo ou acabava um quebra-Cabeças que parecera muito complicado - por vezes, ela podia partilhar essa sensação de triunfo com Tygue, mesmo que não o devesse fazer. E ao dizer-lhe que dava aulas numa escola para crianças deficientes, podia permitir-se ir para o quarto e fechar a porta depois de um dia cansativo. Tygue compreendia isso. Tinha pena das crianças de que ela lhe falava. E achava que a mãe era uma pessoa bondosa por ir lá. Por vezes, Kate perguntava a si mesma se era por isso que inventara aquela história... pobre mamã... mamã boazinha... faz aquela viagem grande para trabalhar com crianças deficientes. Kate afastava esses pensamentos. Era uma loucura precisar de ser mimada por uma criança de seis anos.

- Porque é que eles nunca têm férias? - perguntou Tygue enquanto comia os cereais do pequeno-almoço. Os pensamentos de Kate já estavam com Tom.

- Hum?

- Porque é que eles nunca têm férias?

- Porque não. Queres cá trazer o Joey depois das aulas? A Tillie vai cá estar quando chegares. - Porém, não precisava de lho dizer. Ele sabia-o. - Ela pode levar-vos de carro ao rancho dos Adams para vocês verem os novos cavalos, se quiserem.

- Ná.

- Não? - repetiu Kate, admirada, fitando-o enquanto ele comia com uma expressão distante, mas com o mesmo brilho nos olhos. Estava a tramar qualquer coisa. - O que se passa contigo? Tens outros planos?

Olhou para ela com um sorriso e um ligeiro rubor, embora tenha abanado a cabeça com veemência.

- Não.

- Ouve, meu menino, vê lá se hoje és bonzinho para a Tillie. Prometes? - Tillie tinha o número de telefone de Mead; porém, como Kate passava tanto tempo na viagem, preocupava-se bastante, mesmo ao fim de todos aqueles anos. - Não faças nenhuma maluquice enquanto eu estiver fora. A sério, Tygue. - A voz era séria e o olhar dele encontrou o seu, fazendo a promessa.

- Está bem, mãe. - Como se já fosse muito velho. Ouviram a buzina do carro da mãe do colega que vinha buscá-lo. Kate viu o grande jipe amarelo parar junto à casa.

- já chegaram!

- Tenho de ir. Até logo! - Pousou a colher, deu uma última dentada na torrada, pôs na cabeça o chapéu de cowboy preferido, agarrou num livro, acenou à mãe quando ela lhe mandou um beijo e desapareceu. Enquanto bebia o resto do café, Kate perguntou a si mesma o que estaria o filho a tramar; fosse o que fosse, Tillie daria conta do recado. Era uma mulher grande, meiga e com ar de avó; porém, como já estava viúva há vários anos, não aturava os disparates de Tygue. Criara cinco filhos e uma filha, gerira um rancho sozinha durante vários anos antes de o entregar ao filho mais velho, e tomava conta de Tygue desde que ele nascera. Era forte e imaginativa, e divertiam-se imenso juntos. Tillie era uma verdadeira mulher do campo, não uma «imigrante» como Kate. Uma diferença que provavelmente nunca desapareceria. Para além disso, Kate era escritora, não uma mulher que gostasse de passar tempo na cozinha e no jardim. Gostava do ambiente campestre que a rodeava, mas ainda sabia muito pouco a seu respeito.

Kate olhou em volta antes de agarrar no casaco e na mala, interrogando-se sobre o que teria esquecido. Tinha o estra nho pressentimento de que não devia fazer aquela viagem. Contudo, já estava habituada a isso. já não dava ouvidos a esses sentimentos. Limitava-se a ir. Tillie era cem por cento de confiança. Vestiu o casaco e olhou para as calças. já tinham oito anos mas continuavam a servir-lhe. Eram muito bonitas: gabardina cor de caramelo. O casaco era de tweed e também antigo. A única coisa nova era a camisola azulpálido que comprara na vila. Kate tornou a sorrir ao pensar no que Tygue dissera acerca das suas roupas. Gostava de se pôr bonita para Tom. Talvez devesse também fazer o mesmo esforço em relação a Tygue. Mas tendo ele apenas seis anos? Era uma loucura. O que sabia o filho? Ou já teria conhecimento de alguma coisa? A ideia de se embonecar para um rapazinho de seis anos fê-la soltar uma gargalhada ao aproximar-se do carro.

A sua mente funcionou em piloto automático até Carmel, e também durante todo o dia. A estrada era monótona e já demasiado familiar. Tom mostrou-se aborrecido e apático e o dia estava enevoado. Até o almoço era parecido com centenas de outros almoços que já fizera. Alguns dos dias que passara com Tom destacavam-se pela sua preciosidade, pelas suas cores radiosas. Outros dias eram escuros e frios. E havia ainda outros dias em que ela nada sentia. Aquele era um desses dias. Apenas sentia cansaço quando se foi embora. Estava desejosa de chegar à auto-Estrada e de regressar à sua casinha no campo e a Tygue e ao basset hound de olhos tristes que se tornara já membro da família. Sentira a falta deles. Talvez devesse ter ficado em casa. O velocímetro indicava os cento e quarenta no caminho de regresso. Acontecia o mesmo muitas vezes, mas ela raramente era apanhada pela Polícia. Só o fora duas vezes em seis anos. A viagem era tão monótona que só o excesso de velocidade a tornava mais suportável. De vez em quando, um rebate de consciência a recordar-lhe Tygue fazia-a abrandar, mas isso não era frequente. O limite de noventa era intolerável. A maior parte das vezes viajava a cento e trinta.

Eram quase cinco da tarde quando se encontrou nas ruas próximas de sua casa, ainda a grande velocidade. Por que razão se teria sentido tão inquieta ao longo do dia? Entrou, com cuidado, no caminho de acesso à casa, não fosse aparecer o cão, olhando em volta à procura de Tygue. Viu-o então e sorriu, travando e desligando o carro. O filho estava todo sujo, sorridente e belo como sempre e ela fora louca em ter-se preocupado. O que raio se passaria consigo? Estava sempre a fazer aquela viagem. O que a teria levado a pensar que alguma coisa podia correr mal naquele dia, ou que surgiria algo que Tillie não conseguiria resolver? Tillie, aliás, estava tão suja como Tygue, e até Bert parecia precisar de um banho. Encontravam-se os três cobertos de lama. Tillie tinha lama na cara e Tygue no cabelo, mas pareciam radiantes.

O filho acenou-lhe e gritou qualquer coisa. Era altura de avançar. De sair do carro. De voltar a ser mamã. Tillie despia naquele momento um macacão. A roupa que tinha por baixo não era mais elegante e, como sempre quando regressava de Carmel, Kate sentiu-se demasiado bem vestida. Agarrou na mala e saiu do carro. O seu dia como Kate, mulher de Tom, chegara ao fim. Agora era a vez de Tygue. Inspirou o ar do campo e suspirou quando se baixou para fazer uma festa a Bert, que cheirava todo contente as suas calças.

- Olá, pessoal. O que têm andado a fazer?

- Espera só até veres, mãe! É bestial. Consegui! Consegui! A Tillie não fez nada.

- Não fez, hein? E depois? - Já estava a abraçá-lo, com lama e tudo, e ele tentava libertar-se.

- Anda, mãe, tens de vir ver.

- Não recebo primeiro um beijo? - já lhe dera um e não o largou. Ele fitou-a com aquele sorriso radioso.

- Se eu der, vens ver?

- Se me deres, vou ver. - Ele deu-lhe o beijo da praxe e puxou-lhe o braço com força. - Espera aí, o que é que eu vou ver? Não são de novo cobras... pois não, Tillie? - Lançou uma olhadela rápida à mulher mais velha. Tillie ainda não abrira a boca. Era uma pessoa de poucas palavras, especialmente quando falava com outras mulheres; tinha mais coisas para dizer a Tygue do que a Kate. Porém, entre ambas existia ternura e respeito. Tillie não percebia bem o que Kate fazia sentada à máquina de escrever, mas o livro que ela publicara impressionara-a e falara dele às amigas. Não fora um grande livro, mais um romance disparatado sobre uns ricaços de São Francisco, mas fora publicado, e isso era alguma coisa. Dali a um mês sairia outro. Talvez um dia fosse famosa. Era uma boa mãe e também viúva. Tinham isso em comum. Porém, havia algo de diferente nela que criava um certo distanciamento entre ambas. Kate não era snobe, não se dava ares e não tinha nada que os outros não tivessem. Era apenas uma sensação difícil de definir, aquela que as pessoas experimentavam a seu respeito. Kate era requintada. Talvez fosse isso. Era uma palavra que a mãe de Tillie utilizara. Dissera que Kate era requintada. E inteligente. E talvez bonita, embora demasiado magra. Também havia sempre aquela tristeza no seu olhar. Isso, Tillie conhecia, vira-o ao espelho depois da morte do marido. Porém, não durara tanto como em Kate. Esse olhar de dor continuava tão presente como na primeira vez em que a vira, logo a seguir ao nascimento de Tygue. Às vezes, Tillie perguntava a si mesma se a escrita manteria viva a dor de Kate. Talvez ela escrevesse sobre isso. Não sabia.

Tillie viu Kate contornar a casa, puxada pelo filho impaciente e depois pararam ambos; Tygue sorria e segurava a mão da mãe. Era ainda um rapazinho, embora de vez em quando parecesse bastante adulto, provavelmente porque a mãe lhe falava muitas vezes como se ele já fosse um homem. No entanto, isso não era prejudicial. Tillie fizera o mesmo com os filhos, depois da morte do marido. Ver a criança a olhar para a mãe junto ao pedaço de jardim no qual haviam estado a trabalhar todo o dia trouxe-lhe recordações.

- Fizemos isto para ti. Metade são flores, metade legumes. A Tillie disse que devíamos plantar legumes para poderes fazer saladas. Sabes, pimentos e coisas parecidas. E para a semana plantamos ervas aromáticas. Gostas de ervas aromáticas? - Parecia ter dúvidas. As ervas pareciam-lhe ser uma coisa de raparigas. - Quero plantar abóboras. E cocos.

Kate sorriu e baixou-se de novo para o beijar.

- É lindo, Tygue.

-           Não é. Mas há-de ser. Plantámos todo o tipo de flores. Comprámos as sementes na semana passada. E eu escondi-as.

-           Era por isso que tivera aquela expressão misteriosa de manhã. Era o seu primeiro jardim.

- Foi ele que fez o trabalho mais difícil - declarou Tillie, aproximando-se e dando-lhe uma palmadinha no ombro.

- Também vai ficar muito orgulhoso quando vir que belo jardim plantou. Não há-de tardar muito.

- Tomates também.

Durante um momento, Kate teve de reprimir as lágrimas e, logo a seguir, sentiu vontade de rir. Preocupara-se com o filho durante todo o dia, e ele estivera a fazer-lhe um jardim. Que mundo maravilhoso era aquele. Independentemente da velocidade a que ela andava na estrada.

- Sabes uma coisa, Tygue? É a prenda mais bonita que já recebi.

- A sério? Porquê?

- Porque trabalhaste muito para o conseguir, e porque é uma coisa viva. E porque haveremos de o ver crescer, de tirar dele coisas boas para comer e flores bonitas. Isso é uma grande prenda, querido.

- Pois é. - Olhou em volta, duplamente impressionado consigo próprio e, muito sério, deu um aperto de mão a Tillie, enquanto as duas mulheres tentavam não se rir. Foi um momento muito belo. Então Tillie levantou a cabeça, como se se tivesse lembrado de uma coisa.

- Recebeu um telefonema. - Devia ser de Felicia. Kate assentiu, satisfeita mas não muito interessada. - De Nova Iorque.

- Nova Iorque? - O seu coração parou por uns instantes. Nova Iorque? Não podia ser. Provavelmente era alguma coisa idiota, um telefonema da sede da sua companhia de seguros. Algo do género. Animara-se por nada. Sabia o que devia esperar. Depois de seis anos, já se habituara.

- Querem que lhes ligue.

-Agora já é tarde. - Eram cinco e meia da tarde na costa oeste, e três horas mais tarde na este. Kate não se incomodou muito.

Tillie assentiu com a sua calma habitual.

- Sim. Ele disse que podia ser tarde. Deixou um número de Los Angeles.

Kate sentiu-se de novo sobressaltada. Mais do que anteriormente. Aquilo era ridículo. Estava a tentar enganar-se. Porque se sentiria tão nervosa?

- Tomei nota do número.

- É melhor eu ir ver. - Olhou para Tygue com um sorriso meigo e a sua voz tornou a suavizar-se. - Obrigada pelo meu belo jardim, querido. Adoro-o... e adoro-te. - Baixou-se para o abraçar com força e foram para casa de mãos dadas, com Bert a correr ao lado deles o mais depressa que as suas pernitas conseguiam. - Quer um café, Tillie?

A mulher mais velha abanou a cabeça.

- Tenho de ir para casa. Os filhos do Jake vão lá jantar, e ainda há algumas coisas para preparar. - A simplicidade do costume. Jake tinha nove filhos. Teria de fazer jantar para doze pessoas. Para mais ainda, se os namorados e as namoradas também fossem, como era costume. Tillie estava sempre preparada.

Entrou na carrinha com um aceno e depois espreitou pela janela.

- Vai dar mais aulas esta semana, Kate?

Tinha graça que ela perguntasse aquilo, e Kate fitou-a com um ligeiro franzir do sobrolho. Ia sempre duas vezes, mas naquele dia fizera aquela pergunta a si mesma. Não lhe apetecia ir lá uma segunda vez naquela semana.

- Posso dizer-lhe amanhã?

Não iria alterar o que pagava a Tillie - era uma quantia fixa, paga ao mês, por tomar conta de Tygue duas vezes por semana. Achava que era mais simples passar um único cheque, e a combinação agradava a ambas. Se decidisse ir ao cinema à noite, podia deixar Tygue em casa de Tillie e ir buscá-lo no regresso. Tillie não lhe levava nada por isso, pois a criança era mais um «neto». Porém, era raro Kate fazê-lo. Passava as noites sentada à máquina de escrever. E quando saía à noite, sentia a falta de Tom. Era mais fácil ficar em casa.

- Claro, ligue-me amanhã ou no dia seguinte, se quiser, Kate. O dia é seu, seja como for.

- Obrigada. - Kate sorriu e acenou-lhe enquanto encaminhava o filho para casa. Talvez tirasse uma folga e não fosse visitar Tom no fim da semana. Podia plantar mais algumas coisas no jardim com Tygue. Tillie tivera uma ideia excelente. Porque não tinha ela ideias parecidas?

- O que é o jantar? - perguntou Tygue, atirando-se para o chão da cozinha com Bert, fazendo cair lama nos mosaicos impecavelmente limpos.

A mãe sorriu.

-Vou fazer-te uma tarte de lama, meu menino, se não fores imediatamente para a casa de banho lavar-te. E leva o Bert contigo...

- Vá lá, mãe... quero ver o...

- É melhor veres o sabonete e a água! Estou a falar a sério.

Apontou determinada para a casa de banho e foi então que viu o recado de Tillie e se recordou do telefonema de Nova Iorque. Afinal, era da delegação nova-iorquina da agência em Los Angeles que ela usava para vender os seus livros. Os editores estavam todos em Nova Iorque, pelo que o seu agente enviara.para lá os manuscritos e deixara que a delegação de lá se encarregasse de tudo. O seu agente ajudava-a bastante e ganharia muito dinheiro se ela alguma vez vendesse uma história para o cinema; porém, só a ideia de vender um argumento para cinema dava-lhe vontade de rir. Eram assim as fantasias dos escritores. Só os novatos acreditavam que tinham mesmo uma oportunidade. Ela já aprendera, e sentia-se grata por conseguir vender um livro de vez em quando, mesmo que apenas recebesse uns míseros dois mil dólares de três em três anos. Isso ajudava a engrossar o pequeno rendimento que ainda recebia dos investimentos de Tom.

Quando escrevia um livro, enviava-o para o agente de Los Angeles, que por sua vez o punha no correio para Nova Iorque. E Nova Iorque levava dois meses a dizer-lhe que sabiam que ela estava viva; em seguida - se tivesse sorte vendiam-lhe o livro. Recebia o cheque que eles lhe enviavam, e duas vezes por ano o dinheiro dos direitos pelas vendas. Era muito simples. Da primeira vez, haviam levado quase um ano a vender-lhe o livro, da segunda tinham levado o mesmo tempo para lhe dizer que o livro não prestava e que não podiam vendê-lo. Da última vez, haviam-lhe dito que estavam «esperançados». Porém, tinham levado quase dois anos a vendê-lo. Isso fora há um ano. E o livro iria sair dali a um mês. Toda essa morosidade era razoável pelos padrões editoriais. Sabia que os editores ficavam com um livro dois ou três anos antes de o publicarem. Recebera um avanço de três mil dólares, e mais nada. Isso já nem a desiludia. Uma tiragem simpática de cinco mil exemplares e Kate vê-lo-ia na livraria local se se desse ao trabalho de ir lá à procura dele. Um ano mais tarde, a edição estaria esgotada. Desaparecia tão discretamente como surgira. Porém, pelo menos ela escrevera-o. E estava satisfeita com o último livro. Era um pouco enervante pensar que ele podia vender bastante. O tema era-lhe dolorosamente familiar. Quase rezara para que ele não vendesse, não fosse alguém lembrar-se de si. Mas como poderia isso acontecer? Os editores não publicitavam o trabalho de escritores relativamente desconhecidos. E quem era Kaitlin Harper? Ninguém. Estava em segurança. O livro era um romance, mas continha muita informação acerca do futebol profissional, da pressão a que os jogadores e as suas mulheres estavam sujeitos. Escrever fizera-lhe bem. Libertara-a de alguns dos velhos fantasmas. Havia nele muito sobre Tom, o Tom que ela amara, não o Tom que vegetava numa clínica.

- Mamã, já começaste a fazer o jantar?

A voz do filho interrompeu o seu devaneio. Estivera pa rada junto ao telefone durante quase cinco minutos, a pensar no livro e a perguntar a si mesma o que quereria a agência. Talvez tivesse havido algum problema. Um atraso. Afinal, talvez não fossem publicar o livro dali a um mês. Podiam fazê-la esperar mais um ano. E depois? já recebera o avanço. E andava a pensar em escrever outro livro. Para além disso, a sua vida era ir buscar o filho à escola e ver lama no chão da cozinha. Que diferença fazia ser escritora? Nenhuma.

- Não, ainda não.

- Mas eu tenho fome - lamuriou-se ele, todo sujo. Devia estar exausto. Trabalhara muito durante o dia, e isso agora começava a notar-se. Contudo, a mãe também estava cansada.

- Tygue... - A palavra soou como um suspiro nos seus lábios. - Tygue, toma primeiro o teu banho que eu já preparo o jantar. Tenho de fazer um telefonema.

- Porquê? - Passara da meiguice à rabugice num minuto. No entanto, tinha apenas seis anos. Kate não podia esquecer-se disso.

- São coisas de trabalho. Vá lá, querido. Vê se és simpático...

- Oh... está bem - retorquiu ele, saindo da cozinha com Bert na sua peugada, a mordiscar-lhe os calcanhares. - Mas eu tenho fome!

- Eu sei. E eu também! - Bolas, não queria ralhar com ele. já eram vinte para as seis. Marcou o número da agencia em Los Angeles, perguntando a si mesma se ainda lá estaria alguém. Se não estivesse, ligaria para Nova Iorque na manhã seguinte. Porém, o telefone foi rapidamente atendido e a recepcionista passou-a para a pessoa com quem ela costumava falar: Stuart Weinberg. Kate nunca o vira, mas, como já há vários anos falavam ao telefone, sentia que já eram velhos amigos.

- Stu? É a Kate Harper. Como vai isso?

- Bem. - Tentava imaginar qual seria o aspecto dele: novo, baixo, magro, nervoso e provavelmente bonito, com cabelo escuro e as roupas caras de Los Angeles. Naquela noite parecia estar de bom humor. - E você, aí no meio do mato?

- Não estamos assim tão longe de Los Angeles. Meio do mato! É preciso lata!

Riram-se ambos. Costumavam gracejar bastante sempre que falavam.

- Escute - prosseguiu Kate. - Recebi um telefonema do Bill Parsons, de Nova Iorque. O recado já está um pouco amarrotado, mas diz para eu lhe ligar ou para ligar para si se já for demasiado tarde. Nem me apercebi de que já eram estas horas.

- Vê como trabalhamos no duro por sua causa, menina? Fazemos directas, gastamos os dedos...

- Pare com isso! Está a pôr-me maldisposta.

- Desculpe. Achei que merecia um pouco de compreensão.

- Mamã, tenho fome! - A voz vinha da casa de banho e era acompanhada por salpicos e pelos latidos de Bert.

- Bolas! -Vê se tens calma!

- O quê? - perguntou Weinberg, confuso, e Kate soltou uma gargalhada.

- Isto aqui está um pouco agitado. Parece que o meu filho está a tentar afogar o cão.

- Que boa ideia - comentou ele com uma risada. Kate procurou o tabaco. Não sabia porquê, mas o agente estava a deixá-la nervosa.

- Stu?

- Sim, minha senhora? - Havia algo estranho na voz dele. Parecia-se com a de Tygue ao pequenoalmoço, antes de plantar o jardim surpresa.

- Sabe porque é que o Parsons me disse para lhe ligar? sim.

- Então? - Porque estaria ele a manter o suspense?

- Está sentada?

- Não vão publicar o livro? - Kate sentiu um aperto no coração. Estava prestes a chorar. Voltara a estragar tudo. Nunca mais publicaria um livro. E aquele que era tão bom.

- Kate... - Houve uma pausa interminável, durante a qual ela fechou os olhos e se tentou obrigar a ouvi-lo. - Hoje foi um dia incrível, minha querida. O Parsons fechou um negócio em Nova Iorque. E eu fechei outro aqui. O seu editor vendeu os direitos de publicação em paperback do seu livro e eu vendi os direitos de adaptação ao cinema.

A boca de Kate abriu-se, os seus olhos encheram-se de lágrimas; porém, não conseguiu dizer nada. E, subitamente, tudo aconteceu ao mesmo tempo. Lágrimas, palavras, confusão, caos. O seu coração batia com toda a força e a sua cabeça latejava.

- Oh, meu Deus! - Soltou uma gargalhada. - Oh, meu Deus!

- Kate, já sei que não se vai lembrar de nada do que eu lhe disse, mas amanhã voltamos a falar. Aliás, vamos falar bastante durante os próximos meses. Por causa dos contratos, dos planos, da publicidade. Vamos falar muito. E acho que devia vir a Los Angeles para comemorarmos.

- Não podemos comemorar ao telefone? - Apesar da alegria, começava a sentir o pânico. O que estaria a acontecer?

- Falamos depois. já agora, os direitos de publicação em

paperback foram vendidos por quatrocentos e cinquenta mil dólares. E... - Outra pausa interminável. - Vendi os direitos de adaptação ao cinema por cento e vinte e cinco mil. Tem de dividir o dinheiro do livro ao meio com o seu editor, mas mesmo assim fica com bastante.

- Caramba, Stu, vou ficar com... duzentos e vinte e cinco mil? - Estava perplexa. O que quereria dizer aquilo?

- Tudo somado, vai ficar com trezentos e cinquenta mil dólares. já para não falar nos direitos pelas vendas, na publicidade e no que isto poderá significar para o futuro da sua carreira. Minha querida, isto pode ser uma rápida ascensão. Aliás, eu diria que já está lá em cima. O Parsons falou com o editor do livro em capa dura e ele já subiu a tiragem para vinte e cinco mil exemplares. Para um livro de capa dura, é excelente.

- Ai vai? Ai é?

- Mamã, preciso de uma toalha!

- Cala-te!

- Tenha calma, Kate.

- Pois, já não sei o que estou a dizer. Nunca pensei que isto pudesse acontecer.

- E é apenas o começo.

Deus do Céu, e se alguém se fosse lembrar de Tom? E se alguém estabelecesse a ligação entre ela e o que acontecera havia seis anos e meio? E se...

- Kate?

- Desculpe, Stu. Estou a tentar assimilar tudo isso.

- Não vai conseguir. Tenha calma, descontraia-se e amanhã voltamos a falar. Okay?

- Okay. E Stu... não sei o que dizer. Estou... boquiaberta... é tão...

- Parabéns, Kate.

Ela respirou fundo e sorriu para o telefone.

- Obrigada. - Desligou e levou ainda um minuto a levantar-se e a ordenar as ideias. Trezentos e cinquenta mil dólares? Bolas! E o resto? O que quisera ele dizer com «e é apenas o começo»? O que...

- Mamã! Bolas!

- Já vou!

E ali, na casa de banho, estava a realidade da sua vida. Tygue Harper encontrava-se na banheira com o cão, um chapéu de cowboy na cabeça, e a casa de banho toda cheia de água.

- O que raio estás a fazer? - Mal conseguia manter-se de pé por causa da água que havia no chão. - Por amor de Deus, Tygue! - No seu olhar surgiu uma ira enorme e a criança ficou magoada.

- Mas eu fiz-te um jardim!

- E eu vendi o livro ao cinema! Eu... Oh, Tygue... - Sentou-se no chão, molhando-se toda, sorrindo para o filho com lágrimas nos olhos. - Vendi um livro ao cinema!

- A sério? - Tygue fitou-a muito sério e ela assentiu por entre as lágrimas com um sorriso. - Porquê?

 

-           Por que motivo dizes que isto para ti faz sentido?

-           Tinham passado três dias desde que recebera a notícia e naquele momento encontrava-se ao telefone com Felicia pela enésima vez.

- Kate, por amor de Deus, estás a falar de ganhar uma fortuna. Ele não vai enviar-te os contratos pelo correio. Quer explicar-tos pessoalmente. - Felicia tentava acalmá-la, mas em vão. Estava demasiado animada para parecer outra coisa que não animada e insistente.

- Mas porquê aí? Durante estes anos tratámos de tudo pelo telefone. E... Oh, merda, Licia! Nunca devia ter escrito este maldito livro. - Parecia aflita.

- Estás maluca?

- E se alguém descobre? E se volta a repetir-se aquilo que deu comigo em doida há seis anos? Fazes ideia do que é ser-se constantemente perseguida pelos jornalistas? Eles viviam à minha porta, seguiam-me até ao carro e quase me deitavam das escadas abaixo! Por que raio achas que vim para aqui?

- Eu sei isso tudo, Kate. Mas essas coisas aconteceram há muito tempo. já não interessam a ninguém.

- Como é que sabes? Como é que alguém pode saber? Talvez aqueles malucos queiram recordar tudo. E se descobrirem onde está o Tom? Que consequências teria isso para o Tygue? Pensa um pouco, Licia! - Empalideceu ante a perspectiva. No seu gabinete de São Francisco, Felicia abanava a cabeça, impassível.

- Devias ter pensado nisso quando escreveste o livro. A verdade é que o livro é muito bom e que é um romance, Kate. Ninguém vai saber que é verdade. Queres descontrair-te, por favor? Estás para aí toda nervosa para nada.

- Não vou falar com o Weinberg.

- Estás a ser parva, caramba!

Porém Kate já desligara e marcava apressada o número da agência em Los Angeles. Talvez ele ainda não tivesse saído.

Dissera que chegaria por volta das três. Ainda não era meio-dia. No entanto, a secretária informou-a de que ele já saíra havia cerca de uma hora.

- Raios!

- Desculpe?

- Nada.

Voltou a ligar para Licia. Esta parecia aborrecida.

- É melhor dominares-te, Kate. Estás a ficar descontrolada. Eu disse-te que isto ia acontecer quando li o livro.

- Julguei que disseste aquilo só por dizer. E quem é que

fica conhecido só com um livro, hein? Quem é que vende um paperback e os direitos de adaptação ao cinema? Caramba, conheço escritores que nunca saem das prateleiras de trás.

- E estás a lamentar-te por não seres um deles? - perguntou Felicia exasperada.

Kate voltou a suspirar.

- Não, não estou a lamentar-me. Só que não sei o que fazer, Licia. Tenho visto poucas pessoas nos últimos seis anos e agora este tipo vem de Los Angeles para discutir comigo centenas de dólares. Estou tão apavorada que nem consigo ver nada.

- Vá lá, querida, vais conseguir lidar com isto. - A sua voz adquiriu um tom mais ameno quando pensou na amiga.

- És uma profissional. Uma excelente escritora, uma mulher bonita, tens vinte e nove anos e estás à beira do êxito. Caramba, podias encontrar-te com o tipo com um casaco de serapilheira e uma mochila que não terias problemas.

- E não tenho mesmo mais nada para vestir.

- A culpa é tua. já há muito que não queres que eu te mande roupa.

- Eu não visto nada dessas coisas. E seja como for, o problema não é a roupa. O problema é o que vou dizer... o que vou fazer... ele quer falar de publicidade. Credo, Licia, não vou ser capaz! - Estava à beira das lágrimas e fumava cigarro atrás de cigarro.

- O que disse ele exactamente acerca da publicidade? - perguntou Felicia intrigada.

- Nada de concreto. Referiu apenas a possibilidade de ter de a fazer. Mas não explicou.

- Pois não deve ter explicado! - A gargalhada grave e rouca de Felicia chegou aos ouvidos de Kate. - já pensaste que ele não sabe se tens três cabeças ou duas, ou se levas rolos e ténis de camurça cor-de-rosa quando vais à missa?

- Isso quer dizer que ainda disponho de duas horas e meia para arranjar rolos e ténis cor-de-rosa. Espera, tive uma ideia! - Agora Kate também já se ria. - Vou pedir à Tillie que se faça passar por mim.

Felicia soltou uma gargalhada.

- Não. Tens de enfrentar o problema. Fala com o tipo. Afinal de contas, ele é o teu agente. Não vai lançar-te aos leões e não pode obrigar-te a fazer nada.

- O que hei-de dizer-lhe? - Há mais de seis anos e meio que não estava sozinha com um homem.

- Ele não vai violar-te, Kate. A menos que tenhas muita sorte.

- Es bestial. Bolas, como é que fui meter-me nisto?

- Por causa da tua grande boca, da tua inteligência e da tua máquina de escrever. Mas é uma excelente combinação.

Kate suspirou e Felicia abanou a cabeça com um sorriso.

O terramoto estava apenas no início. E as réplicas poderiam ser sentidas durante meses, ou até mesmo anos.

- Bem, é melhor desligar e ir à procura de alguma coisa para vestir.

- Pois é. Kate?

- O quê?

- Sobe o fecho das calças.

- Oh, cala-te!

Sorria quando desligou, mas as palmas das suas mãos estavam alagadas em suor. E se ele se atirasse a ela? Se fosse um tipo chato? Se... Sentou-se lá fora ao sol durante meia hora, tentando acalmar-se e pensar. No livro, em Tom, em Felicia, em Tygue. Por que motivo o teria escrito? Porque tivera de ser. Porque a história estava a consumi-la e ela precisara de a deitar cá para fora, e deitara. Porque tivera de ser. Era um excelente livro, e Kate sabia-o. Porém, não esperava aquilo. Quisera que o livro vendesse, mas não esperava que isso afectasse a sua vida. E agora? Assim que abrisse a porta à publicidade, a sua vida recatada chegaria ao fim, e todos os seus esforços para proteger Tygue seriam em vão. No entanto, já era demasiado tarde, e ela tinha plena consciência disso.

Acabara de se vestir quando Stu Weinberg tocou à campainha. Kate respirou fundo, apagou o cigarro, olhou em volta, para a sala, e dirigiu-se à porta. Envergava calças e uma camisola pretas e uns sapatos caros italianos que tinham sobrevivido aos anos. Quando abriu a porta parecia muito alta, muito magra e muito séria.

- Kate Harper? - Ele mostrava-se um pouco inseguro e muito diferente daquilo que ela imaginara. Era mais ou menos da sua altura e tinha cabelo ruivo. Vestia umas levis e uma camisola de caxemira bege. Mas os sapatos eram Gucci, a pasta Vuítton, o relógio Carder e o blazer pendurado no braço um Bill Blass clássico. Todos os adereços necessários em Los Angeles. Todavia, possuía uma cara de miúdo cheia de sardas. Kate sorriu e teve vontade de rir ao pensar que fora naquele homem que confiara a sua carreira nos últimos seis anos. Se o tivesse visto, talvez tivesse feito o mesmo. Stu parecia ter vinte e dois anos. Kate sabia que ele tinha quarenta e um, a mesma idade de Felicia.

- Stu? - perguntou ela com um sorriso.

- Já sei, já sei, quer ver a minha carta de condução e quer rasgar imediatamente o seu contrato. Certo?

- Nem por isso. Entre. - Conduziu-o para a sala, perguntando a si mesma se a casa pareceria desarrumada, ou apenas confortável. Viu que ele a observava e que depois olhava em volta. Parecia intrigado. - Quer um café?

Ele assentiu e pousou o casaco e a pasta numa cadeira. Depois olhou pela janela.

- Tem aqui uma bela vista.

Kate não se mexeu durante um minuto, admirada por se sentir tão calma. Aquele homem não era o inimigo. Era um homem inofensivo que queria ajudá-la a ganhar dinheiro. E parecia ser boa pessoa.

- Pois tenho. E ainda bem que percorreu estes quilómetros todos para vir visitar-me.

- Também acho.

Serviu-lhe um café e sentaram-se ambos.

- Kate, posso fazer-lhe uma pergunta maluca?

O sorriso dele fez com que Kate o apreciasse ainda mais. Parecia um dos amigos de Tygue, não um agente literário.

- Claro, qual é a pergunta maluca?

- O que diabo faz num sítio destes?

- Você já respondeu a essa pergunta quando olhou pela janela. É um sítio bonito, calmo. Ideal para educar um filho.

- Tretas.

Ela riu com a frontalidade dele e bebeu um gole de café.

- Não é nada.

- Diga-me outra coisa. Teria ido a Los Angeles se eu não tivesse vindo cá? - Kate abanou a cabeça com um pequeno sorriso. - Foi o que pensei. Porquê?

- Porque sou uma eremita e gosto de o ser. Quando perdi o meu marido, deixei... deixei de ir a outros lugares.

- Porquê?

- Aqui tenho muito que fazer.

Estava a aproximar-se da verdade. De súbito, Kate voltou a sentir medo.

- O que é que faz? - Os seus olhos eram rápidos, o seu olhar intenso e inquíridor, mas não cruel.

- Escrevo, sou mãe. Dou aulas. Tenho muito que fazer, mais nada.

E tem muito medo. Deus do Céu, como tinha medo. Mas de quê? Stu não conseguia perceber. Seria dos homens? Das pessoas? Da vida? De alguma coisa era. Não podia dizer ao certo de quê, mas via-o nos olhos dela.

- Não parece corresponder a esse papel. já passou modelos ou foi actriz?

- Não. - Ela abanou a cabeça com ar nervoso, sorrindo enquanto acendia outro cigarro. Raios, ela escondia qualquer coisa. E Stu sabia que ela estava a mentir. A forma como se sentava, se mexia, falava, tudo indicava algo diferente. Boa educação. Treino. Passagens de modelos? Talvez tivesse sido hospedeira. Decerto, não vivera toda a vida naquele fim de mundo. Ele reparara nos sapatos que Kate trazia. Sapatos de oitenta dólares. Na Merdaleja, Estados Unidos. No entanto, fosse ela quem fosse, iria encantar os editores se ele conseguisse tirá-la da concha. Fora por isso que decidira lá ir, para descobrir quão vendável ela era. E já tinha a resposta. Kate era bastante vendável. Se colaborasse. Sorriu-lhe com ternura e bebeu o café, pensando que ela pareceria muito bem na televisão.

- Quantos filhos tem?

- Nove - respondeu ela, tornando a rir com nervosismo, - Não, só tenho um, mas ele é bastante irrequieto.

- Como é que se chama?

- Tygue.

- E o que pensa ele de a mãe ser um grande êxito?

- Acho que ainda não percebeu isso. Por acaso... - acrescentou com um suspiro, permitindo-se descontrair durante um segundo. - Eu também não.

- Por enquanto, não tem de se preocupar com isso, Kate. Aliás, não precisa de se preocupar com isso de todo. Nós trataremos de tudo. O que tem de fazer agora é olhar para os contratos e passar o próximo mês a comemorar. Pode mudar as cortinas, comprar uma bola nova para o seu filho, um osso para o cão... - Olhou em volta com um ar inocente e Kate riu-se. Stu percebera: ela gostava da vida simples. No entanto, também percebia que ele se recusava a levá-la a sério.

- O que vai acontecer quando o livro for publicado?

- Durante cerca de duas semanas, nada. - Stu tentava empatá-la.

- E depois?

-Depois você vai aparecer em público com o livro e responder a algumas entrevistas. Nada de muito exagerado.

- E se eu não quiser?

- As vendas do livro ressentir-se-ão. É tão simples como isso. Está estatisticamente provado. - Parecia muito sério.

- O contrato diz que eu sou obrigada a fazer isso?

Ele abanou a cabeça com ar pesaroso.

- Não. Ninguém pode obrigála a fazer nada. Mas cometeria um grande erro se não o fizesse, Kate. Se tivesse dentes podres, um grande nariz e olhos tortos eu diria que o mais aconselhável seria não aparecer, mas dadas as circunstâncias... - Fítou-a com um sorriso. - Bom... a sua aparição podia ajudar.

E quando a viu tornar a atravessar a sala, teve a certeza de que ela já fora modelo, apesar de o negar. O que o intrigava mais era o escudo impenetrável que a rodeava. Nunca o pressentira ao telefone. Agora perguntava a si mesmo por que motivo não tivera curiosidade em conhecê-la. No entanto, tinha de confessar que não esperara que ela viesse a ser um êxito até ler o seu último livro. A última Época. Não julgara que ela fosse capaz de escrever um livro daqueles.

- Podemos falar da publicidade mais tarde. Porque não examinamos primeiro alguns aspectos que eles querem ver no contrato?

- Está bem. Mais café?

- Obrigada.

Nas duas horas que levaram a analisar os contratos, Stu bebeu cinco canecas. E Kate percebeu por que motivo gostava que ele fosse o seu agente. Era tal e qual como ao telefone. Explicou-lhe todas as implicações, todas as obrigações, perigos, lucros, todas as linhas, todas as palavras, todas as nuances. Fez um excelente trabalho.

- Caramba, você podia ser advogado.

- E fui. Durante um ano. - Aquele miúdo sardento fora advogado? Quando? Kate sorriu perante a ideia. - Detestei. Isto é muito mais o meu género.

- O meu também - acrescentou Kate, voltando a pensar nos trezentos e cinquenta mil dólares.

- Já está a ficar apanhada, Kate. Não permita que isso lhe dê a volta à cabeça.

- Nem pensar, Stu, nem pensar - retorquiu segura de si com um sorriso amargo. - Isto é só para as cortinas novas e para o osso do cão.

- Ainda bem. Mas se me aparecer à porta da agência num novo Rolls Royce daqui a cerca de três meses... o que é que eu ganho por ter tido razão?

- Um pontapé no traseiro?

- Veremos - disse ele com um sorriso.

Kate ouviu o carro da mãe de um dos colegas de Tygue parar lá fora. já eram quase cinco e um quarto. Tinham trabalhado bastante.

- Quer ficar para jantar?

jantar. Rolo de carne, macarrão com queijo, cenouras e gelatina. A ideia fê-la rir, mas ele abanou a cabeça e olhou para o relógio com números romanos que parecia um quadro de Dali enrolado no seu pulso.

- Gostaria muito, Kate, mas tenho um jantar em Los Angeles às oito.

- Calculo que em Beverly Hills.

- Existe mais algum sítio?

Riram-se ambos e Kate foi à porta saudar Tygue. Stu Weinberg viu o rapaz entrar, abraçar rapidamente a mãe e parar de repente quando o viu.

- Olá, Tygue. Eu sou o Stu. - Estendeu a mão, mas o rapaz não se mexeu.

- quem é ele? - perguntou com um ar abalado.

- É o meu agente de Los Angeles, querido. Não podes ser mais simpático?

Tygue parecia tão assustado como a mãe e Stu gostou imediatamente dele. Parecia estar tão pouco habituado a ver estranhos como Kate.

Tygue aproximou-se contra vontade e apertou-lhe a mão.

- olá.

Kate sorriu e Stu pôs os contratos na mala.

-           Bom, Kate, agora só lhe resta descontrair-se.

-           Ela já assinara tudo.

- E quanto ao resto?

- O quê? - perguntou Stu, embora soubesse o que era. Deixá-la dizê-lo.

- A publicidade.

- Não se preocupe com isso.

- Stu... não vou ser capaz.

- Não vai ou não quer?

- Não quero.

- Está bem. - Ele parecia calmo. Demasiado calmo. Tygue observava-o em silêncio.

- Está a falar a sério?

- Claro. já lhe disse. Ninguém pode obrigá-la a fazer nada. Mas é tonta se não o fizer. No entanto, o livro é seu, a decisão é sua, o cheque dos direitos pelas vendas é seu e a carreira é sua. Você é que decide. Eu sou apenas um empregado.

Stu fela sentir-se pequena, de uma forma estúpida e cobarde. Se tivesse adivinhado, haveria de ter ficado satisfeito.

- Desculpe.

- Então pense nisso. E eu vou manter os directores de publicidade das duas editoras longe de si até tomar uma decisão. Okay?

- Okay.

Fê-la sentir que ganhara alguma coisa, embora Kate não soubesse bem o quê. Apertaram a mão junto à porta e ela ficou a vê-lo ir de marcha atrás até à estrada num jaguar cor de ameixa.

Acenou-lhe da porta e Tygue observou-a quando Stu sorriu a ambos do carro. Naquele momento, perceberam os três que tudo estava prestes a mudar.

 

- Sobreviveste?

Felicia telefonou depois de Tygue se ter ido deitar.

- Sim, sobrevivi. Por acaso, ele é simpático. Desconfio que por baixo do verniz é um filho da mãe muito chato, mas gostei dele.

- Podes crer que é chato. Como julgas que ele te conseguiu a fortuna que acabaste de ganhar?

Kate riu-se.

- Bem visto. Se tivesse encarado as coisas nessa perspectiva, teria ficado ainda mais nervosa. Mas sabes o que é mais espantoso, Licia?

- Sim. Tu.

- Não, a sério. Ao fim de todos estes anos, não tive medo de falar com ele. Sentámo-nos como duas pessoas normais, a beber café e a ler os contratos. Foi tudo muito civilizado.

- Estás apaixonada? - perguntou Felicia num tom divertido.

- Credo, não! Ele parece o irmão mais novo da Alice no País das Maravilhas, ainda com o cabelo ruivo. Mas é um bom agente. E não tive um ataque cardíaco por estar a falar com um homem.

Felicia sentiu-se contente pela amiga.

- Okay. E agora?

- E agora o quê?

- O que vai acontecer a seguir?

- Nada. Vou pôr o dinheiro no banco e daqui a uns anos posso mandar o Tygue para a faculdade. O Stu sugeriu que comprássemos um osso novo ao Bert - disse ela com um sorriso - e talvez compre aqueles sapatos de camurça cor-de-rosa de que falámos esta manhã.

- Estás a esquecer-te de uma coisa, minha querida. - Felicia parecia de novo sarcástica e determinada. Kate já conhecia aquele tom de voz. - E a publicidade do livro?

- Ele disse que não sou obrigada a fazer.

- Não acredito.

- Foi o que ele disse.

- Ele não te pediu que fizesses? - insistiu Felicia.

- Sim.

- E então?

- Eu disse que não.

- Sabes, és uma filha da mãe ingrata, Kate Harper, e, se eu fosse o teu agente, dava-te um chuto no traseiro.

- É por isso que não és minha agente.

- Ele largou-te assim com essa facilidade?

- Sim. - Kate parecia o filho a falar, e sorriu.

- Então é maluco. - Ou isso, ou era muito inteligente. Felicia ficou na dúvida.

- Talvez. Bom, assinei os contratos e fiquei despachada. Até ao próximo livro.

- Que seca - observou Felicia com um sorriso.

- O que queres dizer com isso?

- Precisamente isso. Escreves sem parar, ficas a pé até tarde, fumas uma data de cigarros, bebes muito caflê e nem sequer queres fazer nenhuma das coisas divertidas. Nem sequer acabas por gastar o dinheiro.

- Porque não?

- Em quê? Mercearias? Que seca! O mínimo que podes fazer por ti é ir às compras num lugar civilizado. Em Los Angeles, aqui, em Santa Barbara. Caramba, até podias ir às compras em Carmel.

- Não preciso de roupa nova.

- Claro que não. Não vais a lado nenhum.

Por que motivo a tornava isso uma fracassada? Porque teria de sair dali, de se vestir, de se produzir para não ser «uma seca»? Porque não seria suficiente ter escrito um livro, caramba? Talvez comprasse umas coisas em Carmel da próxima vez que fosse visitar Tom. Isso era outra das coisas. Tinha de lá ir no dia seguinte.

- Escuta, Licia. Não vou discutir contigo por causa disto. Bom, tenho de desligar.

- Algum problema?

- Não. Tenho de ligar à Tillie.

- Está bem, querida.

Felícia parecia calma e distante quando desligaram e perguntou a si mesma se teria falado de tudo. Talvez...

Kate combinou com Tilbe o que iriam fazer no dia seguinte; depois, tomou um banho e foi-se deitar. Terminara um dia esgotante, e não sentia nada daquilo que queria sentir. Desejava sentir-se orgulhosa de si própria; no entanto, sentia-se apenas aborrecida, como se não tivesse sido capaz de fazer qualquer coisa. Por fim, adormeceu. Até que o despertador a acordou às seis.

- Vais outra vez dar aulas, mamã? - perguntou Tygue ao pequeno-almoço num tom lamuriento que aborreceu Kate.

- Sim, querido. A Tillie vem cá ter.

- Não quero a Tillie.

- Podes ir trabalhar no jardim. Vais ver que te divertes. Come os cereais.

- Não estão estaladiços.

- Vá lá, Tygue.

- Iac! Está um bicho na minha torrada! - Afastou-a para o lado e Bert apanhou-a na ponta da mesa, todo contente.

- Bolas, Tygue!

De repente, surgiram lágrimas nos olhos do filho e ela ficou cheia de remorsos. Era uma péssima maneira de começar o dia. Voltou a sentar-se e estendeu os braços. Ele aproximou-se devagar, mas aproximou-se.

- O que foi, querido? Algum problema?

- Odeio-o.

- A quem?

- A ele.

O que seria agora?

- Quem, por amor de Deus? - Estava demasiado cansada para joguinhos.

- O homem... o que estava naquela cadeira.

- Ontem?

Ele assentiu.

- Mas é o meu agente, querido. Vende os meus livros.

- Não gosto dele.

- Estás a ser tonto. - O rapaz encolheu os ombros e ouviram a buzina do carro da mãe do colega de Tygue. -

- Não te preocupes com ele, está bem? - Ele voltou a encolher os ombros e ela abraçou-o com força. - Amo-te só a ti e a mais ninguém. Percebeste, meu menino? - No rosto dele surgiu um pequeno sorriso. - Por isso, descontrai-te e diverte-te.

- Está bem. - Pegou no casaco, fez uma festa a Bert e dirigiu-se para a porta. - Até logo, mamã.

- Até logo, querido.

No entanto, quando ele saiu, Kate percebeu que ficara aborrecida com o filho. Qual seria o problema dele? Teria ciúmes de Stu Weinberg? Isso não era de admirar. Nunca vira um homem lá em casa. já era altura de se ir habituando a uns quantos desconhecidos. No entanto, a recalcitrância do filho constrangia-a. Ele empurrava-a de um lado, os outros empurravam-na do outro. Todos queriam algo dela. E que queria ela? Não sabia ao certo. Nem sequer tinha tempo de fazer a pergunta. Devia ir andando se queria ver Tom... se queria ver Tom... se queria... Que ideia espantosa. Fê-la parar no meio da cozinha. Quereria ela ver Tom? Não pensava assim há vá rios anos. Ia ver Tom, mas será que queria vê-lo? Provavelmente. Claro. Pegou na mala, fez uma festa a Bert e saiu, sem atender o telefone.

 

Kate levantou-se e espreguiçou-se. Só estava com ele havia duas horas e já se sentia cansada. Tom mostrava-se muito maçador. Até Mr. Erhard parecia cansado.

- Vá lá, querido, porque não vamos até ao lago?

Tom já tinha alguns cabelos grisalhos, mas o seu rosto continuava liso, com a expressão feliz de uma criança. Feliz pelo menos na maior parte das vezes. Porém, de vez em quando ficava nervoso como uma criança inquieta.

- Não quero ir até ao lago. Quero o Willíe.

- Então vamos buscar o Willie.

- Não quero o Willie.

Kate rangeu os dentes e fechou os olhos por um momento. Depois tornou a abri-los com um sorriso.

- Queres deitar-te na cama de rede? - Ele abanou a cabeça e pareceu prestes a chorar. Aliás, assemelhava-se bastante a Tygue naquela manhã. No entanto, Tygue estava com ciúmes do agente. Qual seria o problema de Tom? Bolas, e ele que costumava ser tão fácil, tão meigo. Porque teria de se portar assim naquele dia? Ela já tinha aborrecimentos que chegassem.

- Desculpa, Katie - disse Tom, estendendo os braços na direcção dela. Parecia ter percebido que a incomodara, e ela sentiu remorsos quando se inclinou para o abraçar.

- Não há problema, querido. Acho que precisas de uns jogos novos. - Já há meses que não lhe levava nenhum. Começara a dar-lhe os jogos de que Tygue já se fartara. jogos e quebra-Cabeças abandonados pelo filho de Tom. No entanto, Kate não encarava as coisas por esse prisma. Era mais barato comprar um jogo do que comprar dois. Abraçou-o com força e sentiu-o apertá-la com mais vigor. De súbito, invadiu-a uma estranha vontade de o beijar. Como homem, não como menino.

-           Só preciso de ti, Katie. Não tens de trazer jogos.

-           Kate sentiu-se muito estranha ao ouvir aquilo. Afastou-se e fitou-o nos olhos. Mas ali não havia nada. Apenas Tom, a criança. Não o homem.

- Eu também te amo. - Sentou-se na relva ao lado dele pegando-lhe na mão, e a irritação que a dominara durante a primeira metade do dia começou a desvanecer-se. Sentiu vontade de lhe contar o que estava a acontecer. O livro, o filme, o que tudo isso significava...

- Queres jogar bingo? - perguntou ele com uma expressão radiante. Kate esboçou um sorriso cansado, inclinando a cabeça para o lado. Tinha vestida uma velha saia de lã cor de alfazema e uma blusa de caxemira a condizer. Fora ele que lhas comprara pouco depois de se terem casado. Gostara bastante daquela roupa. Outrora. Agora, não reparava, ou não se lembrava. Queria jogar bingo. - Queres?

- Sabes uma coisa, querido? Estou cansada. - Aliás... Respirou fundo e levantou-se. já chegava de jogos naquele dia. Com Tygue, com Tom, consigo própria. - Aliás, acho que está na hora de ir andando.

- Não está nada! - exclamou ele, tristíssimo. Bolas! Só faltava mais esta. Não queria que ele também a pressionasse.

- Não está nada na hora de ir andando!

- Está sim, querido. Mas volto daqui a uns dias.

- Não voltas, não.

- Volto sim. - Alisou a saia lilás e olhou para ele quando Mr. Erhard se aproximou. Trazia num braço Willie e alguns livros. - Oh, olha o que Mister Erhard te trouxe! - Porém, Tom parecia um menino triste e irritado. - Porta-te bem, querido. Eu volto em breve.

Abraçou-a com força e, pela primeira vez desde há muito tempo, ela sentiu o coração destroçado. Precisava de Tom naquele momento. E ele não existia.

- Amo-te - disse ela baixinho, afastando-se com um aceno e os olhos demasiado brilhantes. No entanto, Tom já agarrara em Willíe e estendia a mão para um dos livros.

Kate aproximou-se do carro de cabeça baixa e braços cruzados, como se desse a si própria o abraço de que tanto precisava. Quando entrou no carro, suspirou e olhou para as árvores. Era uma loucura. Tinha tanto. Tinha Tygue, de certa forma ainda tinha Tom, e acabara de vender um livro e os direitos de adaptação ao cinema. Acabara de ganhar trezentos e cinquenta mil dólares e sentia-se uma criança com um balão rebentado.

- É de loucos! - exclamou, soltando uma gargalhada e acendendo um cigarro enquanto ligava o carro. Teve uma ideia. Ficou imóvel durante um minuto com um sorriso ma treiro nos lábios, esquecendo-se de onde estava e por que motivo ali se encontrava. Ou melhor, recordando-se do local como não se recordava havia anos. Carmel. Durante seis anos e meio... fora ali visitar Tom e nunca percorrera os dezanove quilómetros que faltavam até à cidade. Nunca fora às lojas. Nunca almoçara ali. Nunca passeara pela avenida principal. Nunca se sentara na praia durante uma hora para descontrair. Seis anos e meio e percorrera sempre o mesmo caminho Para trás e para a frente. De súbito, sentiu uma vontade irresistível de ir à cidade. Só para dar uma olhadela. Para passear um pouco... ver as lojas... as pessoas... Olhou para o relógio. Era cedo. Abreviara a visita quase duas horas. Duas horas. Com um sorriso, destravou o carro e virou à esquerda quando chegou à estrada. À esquerda. O caminho para a cidade.

Era uma estrada bonita ladeada de palmeiras e algumas vivendazinhas em tons pastel. Estava a aproximar-se de Carmel. Ainda nada lhe era familiar, mas o seu coração batia com toda a força. Deus do Céu, o que estava ela a fazer? Porquê naquele momento? Nos últimos dois dias aventurara-se no mundo mais do que se aventurara nos últimos sete anos. Permitira que Stu Weinberg saísse de Los Angeles para a visitar, e agora ia a Carmel. Eram coisas insignificantes; no entanto, eram fendas no muro que ela havia erguido. E depois? O que viria a seguir? Uma torrente? Uma inundação? Ou um ligeiro pingar vindo do mundo exterior durante um longo período? E se as coisas se descontrolassem? E se... Kate não foi capaz de continuar. Encostou o carro à berma. Estava quase sem fôlego e a estrada parecia ameaçadora em vez de convidativa.

- Não posso. - A sua voz tremeu ao dizer estas palavras. - Não posso... - Mas queria. Bolas, se queria. Pela primeira vez em muitos anos, desejava ver como estava a cidade, aquilo que as pessoas usavam, como se penteavam. Era uma parvoíce preocupar-se com disparates desses. Na cidade que tornara sua, ainda se usavam penteados dos anos 60 e mini-saias desactualizadas em corpos demasiado velhos. Desejava ver pessoas parecidas com as que conhecera. E então as decisões que tomara, as suas opções? Estavam a ser ameaçadas.

Escrevera um livro que dizia mais do que aquilo que devia acerca de Tom, de si própria, da sua vida. E o maldito iria ser vendido em todo o país. Centenas de milhar de exemplares e um filme... e...

- Tretas! - Abriu os olhos e observou em volta enquanto regressara à estrada. Vendera um livro e os direitos de adaptação ao cinema. E tinha direito a passar uma hora em Carmel. Quando carregou no acelerador, o seu rosto era uma máscara de determinação. De súbito, as coisas tornaram-se familiares. Nada mudara muito durante os anos em que ali não fora. As vivendas estavam na mesma, as curvas da estrada, os hoteizinhos típicos e, subitamente, a avenida principal ladeada de árvores e que conduzia à praia, a uma distância de dois quarteirões. E ao longo desses dois quarteirões, dezenas de lojas. Algumas tinham recordações para turistas, mas a maior parte era bastante elegante. Um mundo que ela já não via havia seis anos. Gucci, Hermès, Jourdan, Dior, Norrell, Galanos, Givenchy... Nomes, etiquetas. Penços, perfumes, sapatos, Kate viu tudo isso enquanto avançava lentamente com o carro pela rua e estacionava. Sentia-se bem. Estava satisfeita por ter vindo. Até sorria quando saiu do carro.

A primeira coisa que despertou a sua atenção foi um belíssimo fato de seda creme numa montra. Tinham-no combinado com uma blusa cor de pêssego e sapatos cremes com uma pequena corrente dourada num dos calcanhares nus. Kate sentiu-se de novo uma adolescente. Queria a boneca vestida de noiva e o ursinho e a boneca com as meias e o soutien e... estava quase a rir quando entrou na loja. Sentiu-se satisfeita por ter levado a saia e a blusa de caxemira. Ainda estavam bem conservadas. E prendera o cabelo na nuca. Nem sequer o soltara por Tom.

- Minha senhora? - A dona da loja era francesa e olhou para Kate com uma expressão avaliadora. Era pequena, elegante, com cabelo louro a ficar já branco, e envergava um vestido cinzento de seda e um colar de pérolas com três voltas. Kate ainda se recordava desse lado de Carmel. As pessoas bem vestidas. Os lojistas, os donos dos restaurantes, os visitantes, os nativos. Só o punhado de «artistas» da cidade ostentava um ar mais descontraído. Os outros parecia irem almoçar ao Maxiin's.

- Posso ajudá-la?

- Estou só a ver.

- Com certeza - respondeu a mulher com graciosidade, voltando a olhar para o último número da L'Officiel. Kate lembrava-se de ter passado modelos para eles uma vez. Havia uma eternidade. Depois, o fato da montra prendeu a sua atenção. A mulher do vestido de seda cinzento levantou a cabeça com um sorriso. Não quisera sugeri-lo, mas pensara logo nele. O olhar de ambas cruzou-se e Kate soltou uma gargalhada. Os olhos da outra mulher também sorriam.

- Posso?

- Gostaria muito de o ver em si. Acabámos de recebê-lo.

- De Paris?

- De Nova Iorque. Do HaIston. - Há quanto tempo Kate não tocava em tecidos daqueles? Via aquelas roupas? E o que importava isso?... Bom, de certa forma importava, em especial naquele momento. Kate tinha de celebrar o seu êxito.

Agarrou em três vestidos e numa saia enquanto a dona da loja tirava o fato da montra com a ajuda de uma funcionária. Kate estava a adorar aquilo e, quando experimentou o fato, gostou ainda mais dele. Fora feito para si. A blusa cor de pessego fazia com que a sua pele pálida adquirisse um tom rosado, e os seus olhos verdes dançaram quando olhou para o fato. Resplandecia no seu corpo. A saia dava-lhe por baixo do joelho e caía com suavidade, o casaco era comprido, feminino e gracioso. Experimentou também os sapatos e sentiu-se uma princesa, ou talvez até uma rainha. O fato custava duzentos e oitenta e cinco dólares. Os sapatos oitenta e seis. Vergonhoso. Pecamínoso. E onde haveria ela de usá-los? Há anos que dizia isso a Felicia. Onde iria usar roupa daquela? No supermercado? Quando fosse levar Tygue e os colegas à escola? Quando desse banho a Bert?

- Vou levar tudo.

Num gesto rápido juntou uma saia de lã vermelha e o vestido preto de decote subido e mangas compridas que experimentara em primeiro lugar. Era demasiado adulto e quase excessivamente sério, mas de extrema elegância. E discretamente sexy. Sexy? Isso era outra loucura. Para quem precisava ela de se pôr sexy? Para o urso Williie? O que diabo estava ela a fazer? Ia gastar mais de quinhentos dólares em roupa que provavelmente nunca iria vestir. Talvez pudesse usar o fato de seda creme quando Tygue se formasse. Mas só se ele fosse para Princeton ou para Yale. A ideia fê-la sorrir quando passou o cheque. Estava a enlouquecer. E tudo por causa daquele dinheiro que os lunáticos de Hollywood e de Nova Iorque iam dar-lhe. No entanto, era uma loucura bastante agradável, e Kate saboreou-a. Até comprou um pequeno frasco de perfume, do género daqueles que usara havia muitos anos. Só quando regressou ao carro carregada de sacos é que reparou onde tinha estacionado. junto ao hotel onde ela e Tom haviam ficado na sua última visita a Cannel... o hotel de ambos...

- Já não é - murmurou, desviando o olhar quando meteu as coisas no porta-bagagens. Talvez as deixasse ali. Talvez as vendesse juntamente com o carro. Afinal de contas, não precisava delas. No entanto, quando voltou a pensar na roupa, não pôde impedir-se de se sentir ansiosa por experimentar de novo o fato assim que chegasse a casa. E o vestido preto. Tygue acharia que a mãe estava louca. Era melhor esperar que ele se fosse deitar.

Regressou a casa mais depressa do que nunca. Daquela vez, nem sequer se sentiu culpada. E o mais engraçado era que ninguém sabia que ela tinha feito uma coisa diferente; ninguém precisava de saber. Talvez pudesse voltar a repetir. Soltou uma gargalhada quando virou para o caminho de acesso à casa. Mesmo a tempo. Aproveitara bem as duas horas extras. Acenou a Tillie quando estacionou atrás da casa. Estavam de novo muito atarefados no jardim e Tygue parecia mais satisfeito do que de manhã. Acenoulhe, frenético, sem interromper a sua jardinagem.

- Olá, querido!

Kate deixou as compras no carro e aproximou-se para o beijar, mas ele parecia demasiado ocupado. Até Bert tinha um osso novo e estava algures sozinho. Kate dirigiu-se satisfeita para casa. Tudo corria bem. E havia um recado de Felicia a dizer que iria passar o fim-de-semana com eles.

E foi. Chegou com três garrafas de champanhe e uma mancheia de prendas. Prendas idiotas, prendas divertidas, coisas para a secretária de Kate, para a casa, para o quarto; e do fundo do saco, Felicia retirou uma pequena caixa embrulhada em papel prateado que entregou à amiga.

- Outra vez não! - exclamou Kate com uma gargalhada, mas o rosto de Felicia estava muito sério e no seu olhar havia uma grande ternura. - Meu Deus, alguma coisa me diz que desta vez é a sério.

- Talvez.

Preso ao laço da caixa estava um cartão. Kate tirou-o do sobrescrito e leu-o com os olhos cheios de lágrimas.

- «Para a senhora com o coração de ouro: só precisas de ter coragem. O Leão Cobarde descobriu que afinal sempre tivera coragem. Só precisava de uma medalha a recordar-lho. Assim, estás a ser recordada de que não só és corajosa, como também talentosa, boa, sensata e muito amada.»

E estava assinado pela «Bruxa Boa do Norte». Kate sorriu por entre as lágrimas.

- Tiraste isto d'O Feiticeiro de Oz?

- Mais ou menos.

Kate abriu o embrulho, e lá dentro, sobre um forro de veludo azul numa caixa de cetim vermelho, encontrava-se um relógio de ouro com uma corrente. Era parecido com um relógio de homem, só que tinha a forma de um coração. Quando Kate o virou, viu que havia uma inscrição gravada no verso: «Pela coragem, pela bravura, com amor.» Kate segurou o relógio com força numa mão e abraçou Licia com toda a força. Licia retribuiu o abraço. Era o abraço por que Kate há muito ansiava, vindo de alguém que lhe dizia que tudo iria correr bem.

- O que posso dizer? - perguntou ela com as lágrimas a deslizarem-lhe pela cara.

- Diz apenas que vais portar-te bem e que vais conceder a ti própria esta oportunidade. É a única coisa que quero ouvir de ti.

Kate esteve quase a falar-lhe das compras que fizera em Carmel, mas não foi capaz. Ainda não.

- Vou tentar. Caramba, com um relógio destes quase que sinto que sou obrigada a isso. Licia, sem ti estaria perdida.

- Não, senhora. Havias de estar mais descontraída, sem ninguém para te chatear. Era uma maravilha.

- Tretas!

Sorriram uma à outra e falaram sobre o livro, os contratos e a loja. O romance do êxito estava apenas no inicio para Kate. Acabaram a garrafa de champanhe pouco depois das quatro da manhã, deram-se as boas-noites muito ensonadas e foram para a cama.

Foi um fim-de-semana muito agradável. No dia seguinte, Kate prendeu o relógio novo à sua T-shírt preferida. Fizeram um piquenique e depois levaram Tygue ao rancho dos Adams. Cada um pegou no seu cavalo, indo passear para as colinas. No domingo, Licia dormiu até tarde e Kate levou Tygue à missa; depois almoçaram, sentados na relva. Só às cinco da tarde é que Licia começou a pensar em ir-se embora. Estava deitada na relva macia a olhar para o céu, de mão dada com Tygue e a tentar afastar Bert.

- Sabes, Kate, de vez em quando percebo porque é que adoras viver aqui.

- Hum. - O pensamento de Kate estava a quilómetros dali, mas ela sorriu para a amiga.

- É tão calmo!

Kate sorriu ao ver a expressão de Licia.

- Isso é uma queixa ou um elogio?

- Neste momento é um elogio. Não me apetece nada ir embora. E provavelmente só cá poderei voltar daqui a muitos meses.

Felícia reparou que Kate exibia uma expressão estranha.

- Algum problema? - perguntou, preocupada. Nunca vira aquela expressão na amiga.

- Estou só a pensar.

- No quê?

- Numas coisas que tenho no carro.

- E então? - Não estava a perceber nada.

- O que vais fazer amanhã, Licia?

- Caramba, nem perguntes! Tenho três reuniões antes de almoço, estamos a coordenar os desfiles para o Outono e a colecção de Inverno.

- E depois?

- O que queres dizer com «e depois»? - Kate começava a pô-la nervosa. Onde raio quereria chegar?

- Tens alguma coisa para fazer ao almoço?

- Não. Porquê? Precisas que te trate de alguma coisa?

- Sim - respondeu Kate com um sorriso. Que se lixasse. - Por acaso, Miss Norman, há uma coisa que podes fazer por mim.

-           O quê?

-           - Levar-me a almoçar.

- Mas eu tenho de regressar hoje, tontinha - retorquiu Felicia sentando-se. Sorria, mas sentia-se confusa. Aquele domingo estava a ser muito estranho.

- Eu sei que tens de regressar. E eu regresso contigo.

- A São Francisco? - perguntou Felicia também a sorrir, perplexa.

Kate assentiu.

- Sim. Que se lixe.

Felicia estendeu os braços para a amiga e as duas mulheres abraçaram-se, enquanto Tygue as observava de olhos muito abertos e uma expressão de pasmo.

- E quem é que fica comigo?

Kate fitou-o, admirada, e abraçou-o também.

- A Tillie, querido. E talvez um destes dias eu te leve também a São Francisco.

- Oh - fez ele, pouco impressionado.

Kate deixou-o com Licia e afastou-se. Tinha coisas a tratar. Precisava de ligar a Tillie... de tirar as coisas do carro e de fazer a mala... Coisas a tratar. São Francisco. já tinham passado seis anos e meio.

- Aleluia! - exclamou Felicia quando ela entrou em casa com um sorriso e as roupas que comprara em Carmel. Kate ia à cidade.

 

Viajavam em silêncio havia quase uma hora, depois da excitação e das tagarelices iniciais. já iam a mais de meio caminho e Kate reparara que tinham acabado de passar pelo desvio para Carmel. Felicia também reparou.

- Kate?

- Hum?

Estava escuro no carro, mas Felicia conseguia ver o perfil da amiga. Parecia a mesma de há seis anos e meio atrás quando Felicia a levara ao seu «retiro». Se tivesse adivinhado o tempo que Kate se manteria lá escondida, nunca teria concordado em ajudá-la a procurar a casa.

- O que é que te incomoda, Licia? - perguntou Kate com um sorriso.

- O que te fez mudar de ideias?

- Não sei se mudei em relação a tudo. Eu... Bolas! Não sei, Licia. Talvez esta loucura toda com o livro me tenha afectado. Estava tão feliz com a minha vida lá no campo.

O miúdo, o cão, as coisas todas.

- Tretas. Kate fitou-a.

- Não acreditas em mim?

- Não. Acho que já há algum tempo que te sentias aborrecida. Não és capaz de o admitir, mas acho que o sabias. Não podes enterrar-te viva dessa maneira. Tens uma vida de fantasia nos teus livros, mas ela não é real e tu sabe-lo. És nova, Kate. Precisas de pessoas, de lugares onde ir, de viagens, de homens, de roupas, de êxito. De tudo isto. E desististe demasiado cedo. O Tom viveu bem a vida, saboreou os bons momentos enquanto eles duraram. Acho que se ele... que se ainda fosse o mesmo detestaria ver-te fechada dessa maneira como uma velha. Não és a Tillie, por amor de Deus. Bom, já não é a primeira vez que te digo isto. Desculpa. Não era minha intenção fazer um discurso.

Kate continuava a sorrir no escuro.

- E eu acharia que já não gostavas de mim se deixasses de fazer isso. Bom, em resposta à tua pergunta, talvez tenhas razão. Talvez eu soubesse que estava aborrecida, embora aborrecida não seja o melhor termo. Eu gosto da minha vida, só que... de repente, sinto vontade de mais. Quero ver pessoas. Pessoas verdadeiras. Na sexta, quando fui visitar o Tom, o dia não correu muito bem e fui-me embora mais cedo. E sem razão aparente, apeteceu-me ir até Carmel.

- A sério? - Kate assentiu com ar satisfeito, sentindo-se culpada. - Sua marota. E não me disseste nada. O que fizeste?

- Gastei uma fortuna.

A gargalhada de Kate fez Felicia sorrir.

- Em quê? Estou desejosa de saber.

- Em coisas ridículas. Roupas. Nada de que precise. Meu Deus, nem sequer sei onde é que as vou usar. Ou melhor, não sabia até esta noite. Talvez seja por isso que decidi ir contigo para São Francisco, para usar as minhas roupas novas.

Achava que ainda não era bem por causa daquilo que decidira ir. Só que dentro de si havia agora um pequeno demónio a gritar-lhe «Vai! Mexe-te! Vive! Sonha! Gasta!» Então ocorreu-lhe um pensamento.

- Não achas que é horrível fazer isto ao Tygue? - perguntou fitando a escuridão.

Felicia olhou para ela.

- O quê, saíres daqui durante uns dias? Não sejas parva, A maior parte dos pais está sempre a fazer isso. Acho que vai ser bom para o Tygue.

- Talvez devesse tê-lo preparado com mais antecedência.

- Se assim fosse, terias desistido.

Kate assentiu em silêncio e acendeu um cigarro. Felicia olhou para ela com um sorriso.

- Estás pronta?

- Para quê? - perguntou Kate. Depois percebeu o que a amiga queria dizer. Estivera tão mergulhada nos seus Pensamentos que perdera os primeiros sinais. Estavam a aproximar-se.

Já tinham passado pelo aeroporto. Sim, Kate estava pronta. Mais três quilómetros, a auto- Estrada dava a última curva e ali estava a cidade. Kate sorriu, os seus olhos enchendo-se de lágrimas. Chegara a casa, apesar dos muitos anos que vivera fora dali. Chegara a casa. Havia mais prédios, tudo estava mais velho, mas na essência nada mudara. São Francisco era uma cidade que nunca mudava muito. Mantinha sempre intacta aquela parte integrante da sua personalidade. E a sua beleza. A ponta do edificio da TransAmerica erguia-se para o céu, na zona baixa. Kate permitiu-se então pensar em vários lugares que apagara da sua mente durante anos. Nas ruas ladeadas de árvores de Pacific Heights, nas pequenas casas vitorianas, no yacht dub numa noite de Verão, na marina num domingo de manhã, a majestade do Presidio, no arco da Ponte Golden Gate e em todos os recantos que partilhara com Tom. Ver a cidade enquanto seguia no carro com Felicia trouxe-lhe à mente milhares de recordações que mantivera à distância. Parecia que as segurava agora nas mãos, e elas emanavam um perfume familiar. Abriu a janela e deixou que o ar da noite lhe refrescasse o rosto.

- Está frio. Deve haver nevoeiro.

Felicia sorriu e ficou calada. Percebeu que Kate não tinha vontade de falar. Queria ver, ouvir e sentir. já haviam tomado o desvio para a cidade.

Encontravam-se na Rua Franklim dirigindo-se para norte, para a baía. À medida que o carro subia as colinas, podiam ver-se as luzes cintilantes do outro lado da baía. Até o trânsito parecia sofisticado. jaguares, Mercedes e Porsches ao lado de carrinhas e Volkswagens e uma moto ocasional. Tudo parecia mover-se a grande velocidade, e tudo surgia pleno de luz e de vida. Eram dez horas num domingo à noite.

Felicia virou à direita na Rua California e um quarteirão depois encontravam-se atrás de um eléctrico a subir a colina. Kate soltou uma gargalhada.

-Meu Deus, Felicia, já me tinha esquecido. Adoro esta cidade! É tudo tão bonito! - Apetecia-lhe levantar-se e gritar: «Vitória!» Estava de volta. Talvez até voltasse para sempre.

Felicia ultrapassou o eléctrico ao cimo de Nob Hill, e Kate voltou a ficar em silêncio enquanto observava a magnífica catedral, o Pacific Union Club, Fairmont e Mark; depois começaram a descer o outro lado da colina rumo à zona financeira da cidade, tendo em frente o Edificio Ferry. Kate riu-se de novo.

- Muito bem, Licia. Confessa. Fizeste isto de propósito, não fizeste?

- O quê?

- A visita guiada. Sabes bem ao que me refiro, marota.

- Eu?

- Sim, tu. Mas estou a adorar. Não pares.

- Queres ver mais alguma coisa?

- Não sei. - Havia tantas sensações novas que Kate nem sabia o que queria ver em seguida.

-           Tens fome?

-           - Mais ou menos.

- Queres ir comer qualquer coisa ao Vanessí's?

- Com esta roupa? - Kate olhou horrorizada para as calças de ganga, a camisa vermelha e os sapatos gastos.

- Quem é que vai ligar a isso num domingo? Ainda por cima já é tarde.

- Não sei, Licia. - Parecia de novo nervosa e Felicia ignorou-a com um gesto da mão e acelerou pela Kearriy até ao cruzamento com a Broadway. De súbito, viram-se catapultadas para a vulgaridade espampanante da Broadway. «Lutadoras Adolescentes Combatem em Topless» e as habituais promessas feitas pelos apregoadores: «Virgens, todas virgens», ao lado de Finnocchio's e os seus travestís. No meio da loucura, do trânsito e dos camiões que saíam da Ponte Bay encontrava-se o Café Enrico's, com a sua esplanada no passeio. Com as rosas nas mesas com tampo de mármore cor-de-rosa, o ruído agradável e os coloridos transeuntes, dava a sensação de ser a Via Veneto e não propriamente a Broadway. E para manter essa ilusão, do outro lado da rua surgia o Vanessi's, cheio de frequentadores deslumbrantes, e outros que o eram menos, clientes importantes, ou que seriam importantes no futuro... e ainda outros que não eram nem uma coisa nem outra, mas que julgavam que eram. Homens de meia-idade, matriarcas e senhoras, homens de fatos azuis, mulheres de preto carregadas de pulseiras de ouro e, ao lado, calças de ganga e cabelos frisados. Era um lugar onde as pessoas podiam perder-se, onde podiam ser encontradas. Era, simplesmente, o Vanessi's. Kate e Tom tinham-no adorado. A princípio, haviam-no achado demasiado barulhento para as noites românticas a dois, mas passado algum tempo tinham-se habituado. E Tom sentira-se ali sempre em paz. Dava alguns autógrafos, apertava mãos, acenava algumas vezes, mas ninguém o incomodava verdadeiramente. Ninguém o queria beijar ou agarrar. Vanessi's.

- Estás pronta? - perguntou Felicia parando abruptamente no parque de estacionamento mais próximo. Detestava ter de deixar Kate escolher, mas parecia-lhe o mais justo. Kate olhou em volta durante um longo momento e a sua mão pousou no relógio em forma de coração que tinha pregado à camisa. Procurava força, coragem.

- Estou. - Saiu do carro, esticou as pernas e quase se encolheu ao ouvir o barulho ambiente. Porém, até ela sabia que aquilo que agora considerava «barulho» não passava de um murmúrio.

Felicia foi buscar o ticket para meter no carro e, de braço dado, dirigiram-se ao restaurante.

- Estás com medo?

- Estou apavorada.

-A maior parte das pessoas também o está quase sempre. Não te esqueças disso.

- Essas pessoas não têm nada a esconder.

Dissera-o. Pronto. O problema sempre havia sido esse. Bolas!

Felicia estacou e virou-se para a amiga, sem lhe largar o braço.

- Tu também não tens nada a esconder, Kate. já sofreste muito no passado. Mas é isso, é o passado. E é o passado de outra pessoa, não o teu. Agora tens um filho, escreveste um livro, e levas uma bela vida no campo. É tudo.

Kate fechou os olhos, sorrindo, e respirou fundo.

- Quem me dera sentir isso, Licia.

- Então obriga-te a senti-lo.

- Sim, senhora.

- Ora, cala-te!

O momento de sobriedade já passara e Kate soltou uma gargalhada, desatando a correr sobre as suas pernas altas e elegantes.

- Vou ganhar-te!

Correram os últimos metros, a rir e a ofegar. O empregado abriu-lhes a porta e, apesar de já serem dez horas, deparou-se-lhes a habitual avalancha de sons e cheiros característica do Vanessi's. Os empregados gritavam junto ao grifi, as pessoas riam-se ao balcão, travavam-se combates políticos, começavam-se romances, tudo à mistura. Era fabuloso. Kate deteve-se e sorriu. Tinha a sensação de que aquele ruído era o de uma orquestra a tocar Bem-vínda a Casa.

- Mesa para duas, Miss Norman?

Felicia assentiu com um sorriso, o empregado observou Kate com uma expressão vaga. Era novo ali. Não a conhecia. Não conhecia Tom. Apenas Felicia. E fosse como fosse, Kate não era ninguém, apenas uma rapariga com calças de ganga e uma camisa vermelha.

Sentaram-se ao fundo da sala, a luz rosada conferindo a toda a gente um aspecto jovem e rosado. O empregado estendeu-lhes as ementas. Kate devolveu logo a sua.

- Cannelloní, salada da casa e zabaglíone para sobremesa.

- Este era uma mistura morna de rum e claras.

Felicia pediu bife, salada e um martíní enquanto Kate olhava para o relógio.

- Tens alguém à tua espera?

- Não. Perguntava a mim mesma se devo telefonar à Tillie.

- Ela já deve estar a dormir.

Kate assentiu, tentando não se sentir culpada. Estava a divertír-se demasiado para isso. O jantar foi tão bom como costumava ser. Depois, caminharam algum tempo pelas ruas estreitas e coloridas de North Beach. Lojas hippies, bancas de artistas, cafés e o cheiro da marijuana no ar. Ali também nada mudara. Depois de percorrerem alguns quarteirões, regressaram ao carro de Felicia. Era apenas meia-noite, mas Kate já começara a bocejar.

- Já pareço a Cinderela. -Amanhã podes dormir até tarde. -A que horas sais para o trabalho?

- Não perguntes. já sabes o que eu penso das manhãs.

Kate foi a bocejar até casa, exausta devido às emoções que o regresso a São Francisco a tinha feito sentir. Mal conseguiu manter os olhos abertos no caminho. Quando chegaram ao cimo de Telegraph HilI, Felicia carregou no botão do comando e a porta de uma garagem abriu-se a meio quarteirão de distância.

- Caramba, Licia, que elegante!

- É apenas seguro.

Kate olhou divertida para o prédio. Era ainda mais elegante do que aquele em que Felicia vivera quando Kate saíra da cidade. Era o prédio típico dos solteirões. Caro, bem cuidado, calmo, apartamentos de duas ou três assoalhadas com

uma vista extraordinária para o porto e para a baía. Não era um local para crianças, e tinha um ar pouco acolhedor ou cativante. Era apenas caro. o

- Não gostas? - perguntou Felicia com um sorriso, enquanto entravam na garagem.

- Claro que gosto! Porque perguntas?

- Por causa da tua expressão. Lembras-te, eu sou o rato

da cidade. Tu és o do campo.

- Está bem, está bem, estou demasiado cansada para discutir.

Kate sorriu, tentando reprimir um bocejo e pouco depois encontravam-se no elevador, a subir. Felicia destrancou a porta do apartamento ainda no elevador e entraram para um vestíbulo com papel de parede em tons rosa e carpetes beges.

i Nas paredes viam-se aguarelas, e aos cantos, grandes palmeiras e um espelho antigo. Era tudo de um excelente gosto. E combinava perfeitamente com Felicia.

- Será melhor tirar os sapatos? - perguntou Kate na brincadeira.

- Só se quiseres enfiá-los pelo rabo acima. Bolas, não sou assim tão picuinhas, Kate! Se te apetecer, podes rebolar no chão.

- Gostaria muito. - Só o vestíbulo teria dado um belo quarto.

Porém, Felicia já estava a acender as luzes da sala, decorada com sedas brancas e damascos creme e mesas orientais embutidas. A vista da janela era arrebatadora e a decoração da sala bastante marcante. A sala ao lado era do género, com chão de mármore branco e preto, vários castiçais de cristal e um pequeno candelabro. Kate tinha a certeza de que o estilo de Felicia não era tão grandioso havia seis anos. Elegante, mas não tão espectacular. E a toda a volta da casa havia uma varanda cheia de flores. Kate percebeu que eram tratadas por um jardineiro.

- Gostas?

- Estás a brincar? É maravilhosa! Quando é que a vida te começou a correr tão bem?

- Depois da minha última promoção - respondeu ela com um sorriso. Suspirou. - Tenho de fazer alguma coisa ao dinheiro. Como ainda não me deixaste comprar um carro ao Tygue, gastei-o, aqui.

- Estou a ver.

- Obrigada, querida. Vou mostrar-te o quarto. - Estava satisfeita por Kate gostar da casa, embora ela própria começasse a sentir-se um pouco farta de tudo aquilo. já estava pronta para comprar outra, ainda mais elegante, e a decorá-la de forma diferente.

O quarto de hóspedes condizia com o resto da casa com papel de parede branco e azul. A um canto havia uma pequena lareira com uma prateleira de mármore, viam-se mais plantas, uma porta para a varanda, uma pequena secretária e um sofá de dois lugares de estilo vitoriano.

- Quero que saibas que se calhar nunca mais saio daqui - declarou Kate, rindo-se com a ideia horrível que lhe ocorrera.

- Qual é a piada?

- Estou a imaginar o Tygue nesta casa. Estás a vê-lo coberto de manteiga de amendoim sentado naquele sofá?

- É uma ideia muito agradável - retorquiu Felicia com uma expressão de enfado. Depois encolheu os ombros. - Bem, talvez até seja... - E riram ambas.

Kate sentiu imensas saudades de Tygue. Desde que ele nascera, era a primeira noite que passavam afastados. E se precisasse dela? Se tivesse um pesadelo? Se não conseguisse encontrar Willie? Se...

- Kate!

- Hum?

- Já sei no que estás a pensar. Pára com isso. Falas com ele amanhã.

- Amanhã volto para casa, mas entretanto... - Atirou-se para a cama com um sorriso feliz. - Isto é o paraíso.

- Bem-Vinda a casa.

Felicia foi até ao seu quarto.

- Posso ir ver? - perguntou Kate.

Era branco e tinha um ar frio, semelhante ao da sala. Kate ficou desapontada.

- Se calhar estavas à espera de ver um espelho no tecto, não?

- No mínimo.

- Queres beber alguma coisa?

Kate sorriu e abanou a cabeça. Sabia exactamente o que queria e, depois de ter dado as boas-noites a Felicia e de a ouvir fechar a porta do quarto, conseguiu fazê-lo. Foi descalça até à varanda, em camisa de noite, e pôs-se a ver o nevoeiro sobre a baía e os barcos, a ponte e os carros a deslizarem nela. Ficou ali meia hora até começar a tremer de frio e ter de entrar. Porém, quando o fez, ainda sorria.

 

Quando Kate se levantou, encontrou um prato com croíssants, café e um bilhete de Felicia. «Vai ter comigo à loja ao meio-dia. Podes comprar lá umas coisas com desconto antes ou depois, se quiseres. Beijos, F.» Comprar umas coisas com desconto. Não era o que lhe apetecia mais fazer. Queria voltar a ver a cidade. Só a cidade. Os lugares, as recordações, os momentos. Imaginou-se com Tom no cimo de Divisadero, a brisa a mandar-lhes o cabelo para a cara, e depois a descerem de novo para a pequena praia ou a seguirem pela via rápida e a atravessarem a ponte da baía. Recordou os passeios pelas ruas estreitas na zona superior da cidade, pela Rua Union, junto aos molhes, ou comer camarão com os turistas em Fisherman's Wharf.

Espreguiçou-se descalça na cozinha, o cabelo castanho a brilhar com uns laivos vermelhos ao sol, solto sobre as costas. Até da cozinha a vista era boa. Kate contemplou-a satisfeita enquanto comia um pêssego e esperava que o café aquecesse.

O telefone tocou quando acabou o pêssego. Devia ser Licia.

- Olá.

- Ora viva! já voltaste.

O coração de Kate deixou de bater. Quem seria o homem?

- Hum... Sim. - Ficou imóvel, à espera de ouvir de novo a voz dele.

- E levantaste-te mais tarde, pelo que vejo. É um choque estar de volta?

Era agora.

- Não, é bastante agradável. - Bolas, quem seria aquele tipo? Parecia conhecê-la, mas ela não fazia ideia de quem era. Possuía uma voz grave e agradável. Porém, não era parecida com nenhuma das que ouvira. Mesmo assim, Kate sentia-se a tremer. Era como ser vista sem conseguir ver.

- Liguei para aí ontem à hora de jantar, mas ainda não tinhas chegado. Como estava a tua amiga?

Foi então que Kate respirou fundo. Então era isso. No entanto, ele não devia conhecer Felicia muito bem se confundira a voz de Kate com a dela.

- Desculpe, mas acho que há aqui um grande equívoco.

-           Ai há? - perguntou ele, confuso, e Kate riu-se.

-           - Eu sou a amiga. Quero dizer, não sou a Felícia. Lamento. Não sei por que carga de água pensei que você sabia quem eu era, mas parecia tão confiante...

- Parti do princípio que estava a falar com a Felicia - retorquiu ele, parecendo igualmente divertido, e o seu riso era tão agradável como a sua voz. - Desculpe. Você é a amiga do campo?

- O rato do campo. Às suas ordens. - Bom, não propriamente, mas era agradável falar com ele agora que sabia que não estava na berlinda. Devia ser um dos homens que Licia tinha no momento se sabia das viagens ao campo. - Lamento imenso. Não pretendi induzi-lo em erro. Quer deixar recado? Eu vou estar com a Felicia ao almoço.

- Diga-lhe então, se faz favor, que eu confirmei tudo para esta noite. Vou buscá-la às oito. O ballet é às oito e meia e reservei mesa no Trader Vic's, para o jantar depois do espectáculo. Acho que Miss Norman irá aprovar.

- Bolas, acho que sim! - exclamou Kate de novo a rir, sentindo-se em seguida um pouco atrapalhada. Talvez ele fosse uma pessoa formal.

- Eu digo-lhe que você aprovou.

- E eu digo-lhe que você ligou.

- Muito obrigado.

Desligaram e Kate percebeu, espantada, que não tinha ficado com o nome dele. Que horror! No entanto, fora tão estranho falar de novo com um homem... já era o segundo naquela semana. Calculou que Felicia devia saber quem ele era. Se não, iria ao ballet com um desconhecido. A ideia divertia-a e,soltou uma gargalhada enquanto se servia de café. Homens. Ainda gostava da vida de celibatária, mas era engraçado voltar a brincar com eles. Era divertido esconder-se atrás de um telefone, ou falar apenas de trabalho com Stu. Apeteceu-lhe voltar de novo a brincar. Não fazer «alguma coisa», apenas brincar. Ainda estava a sorrir quando se foi vestir.

Tirou os vestidos novos da mala com um olhar matreiro e animado. O preto estava fora de questão, era demasiado elegante. A saia vermelha serviria. Levara também umas calças cinzentas de flanela já antigas, uma camisa branca e uma camisola de lã cinzenta, No entanto, não lhe apetecia vestir aquilo. Apetecia-lhe vestir o fato. O fato de seda creme com a blusa cor de pêssego e os sapatinhos com a corrente dourada no calcanhar. Quase pulou com a excitação. Meia hora depois, ficou satisfeita quando se viu ao espelho. Lavada, maquilhada, perfumada e vestida com um fato divino que comprara em Carmel. Apanhara o cabelo sem o apertar muito, o que lhe dava um ar bastante feminino, e levara uns pequenos brincos de pérolas, não fosse dar-se o caso de precisar deles. Quando se olhou ao espelho, sentiu-se de novo um modelo, mas mais velha.

Tinha quase trinta anos e estava pronta para o look da alta costura. Nunca tivera nada parecido com o fato creme. Voltou a sorrir e revirou um dos pés. Quem era aquela pessoa? Seria uma escritora famosa que vinha almoçar a São Francisco? Seria uma dona de casa discreta, vinda de visita da província? Seria a mãe de um rapazinho, de um urso de peluche e de um basset hound chamado Bert? A esposa de coração desfeito de... não, isso não. já não. Porém, era todas as outras e nenhuma. Seria a mulher que ela via com a delicada blusa de seda cor de pêssego mesmo a mãe de Tygue? E ele? Existiria mesmo? Onde? Em que país? Agora, encontrava-se em São Francisco. Aquilo era real. Como podia o resto sêlo?

Pegou na mala bege de camurça que levara para dar com o fato e enfiou-a debaixo do braço. Tinha um fecho de coral e havia pertencido à sua mãe, havia muito tempo. Numa outra vida. Agora era apenas uma mala.

O dia estava lindo, a cidade era linda e Kate desejava fazer algumas coisas. Desceu Telegraph Hill e apanhou um táxi em Washington Square. Dali, foi até uma empresa de aluguer de automóveis e depois ficou por sua conta. Subiu a Broadway até Pacifie Heights, passou pelas magníficas vivendas e dirigiu-se a Presidio. Depois regressou. Passou por Divisadero, subiu a colina com um grande sorriso e travando em seguida com brusquidão. Regressou a Presídio e chegou aos penhascos que davam para o mar, com a Ponte Golden Gate parecendo estar mesmo ali ao lado, em todo o seu esplendor, e com a majestade dos penhascos de ambos os lados. Aquela vista sempre a fizera ficar sem fôlego. E soube que tinha de ali levar Tygue. Ele precisava de conhecer a cidade onde tinham vivido. Merecia-o. Merecia a animação, a beleza, os eléctricos, a ponte, as pessoas, tudo aquilo. Pensar no filho fê-la reforçar a decisão que tomara na véspera quando o deixara. Iria regressar a casa nessa noite. Respondera às suas próprias perguntas. Era capaz. Enfrentara a situação. Não havia fotógrafos à espreita nas esquinas. Ninguém sabia nem se importava com quem ela era. Encontrava-se numa nova época, cheia de novas pessoas, nos velhos locais mais amados. Queria partilhá-los com Tygue. Contar-lhe-ia tudo naquela noite.

Em paz consigo própria, entrou no carro alugado e rumou ao centro da cidade. Até isso agora a divertia. Lembrava-se de uma altura, antes de se ir embora de vez, em que essa viagem a enchera de pânico. De terror. Ficava com claustrofobia, independentemente de onde fosse. Grávida, assustada, sozinha, com a vida a desmoronar-se, só a acção de ir ao cen tro da cidade fora como que um pesadelo. Agora era engraçado. Todas aquelas pessoas atarefadas com roupas coloridas a entrar e a sair de edificios, a conduzir carros, a saltar para os eléctricos, enquanto a rainha viúva e o Hotel St. Francis olhavam com ar complacente para Union Square. Durante um momento, Kate parou e sorriu. Ali nada mudara. Mal tinha mudado desde que era criança, e muito menos mudara em seis anos. A relva da praça estava bem cuidada, a pompa dos grandes armazéns mantinha-se inalterada, os pombos continuavam em grande número, tal como os bêbedos: tudo estava bem com o mundo. Deu a curva e parou o carro em frente ao Geary. A princípio, julgou que isso mudara, mas não - o porteiro apressou-se para a ajudar a sair do carro.

- Quer deixar o carro, minha senhora?

- Obrigada.

- Vai demorar?

- Vou encontrar-me com Miss Norman.

- Com certeza. - Ele sorriu de forma agradável quando ela lhe entregou as chaves e um dólar. Era mais simples e mais barato do que ir para um parque de estacionamento. Ele iria arranjar sítio para o carro. Só Deus sabia onde. A loja devia ter um acordo com o parque subterrâneo em frente, ou com a Polícia, mas o certo é que se reavia sempre o carro.

Sentindo uma certa expectativa, Kate abriu a pesada porta de vidro e avançou no interior das paredes de mármore cor de cacau. Paredes sagradas. Malas à direita, jóias à esquerda, secção de homem na extremidade direita, só que agora estava ampliada, e cosméticos e perfumes no recanto ao fundo à esquerda. A mesma coisa, tudo a mesma coisa. As luvas já tinham desaparecido. As meias parecia terem mudado, mas nada de importante havia sido deslocado. E bolas, aquilo era muito bonito! Incrivelmente bonito. Uma amálgama de produtos a que nenhuma mulher conseguia resistir. Malas de camurça vermelhas, luvas de lagarto pretas, magníficas peças em ouro e prata, ouro e veludo misturados para se usar à cintura durante a noite, lindas capas espessas em tons pastel, lenços Lanvín, e o aroma de perfume no ar... flores de seda... camurças... cetins... uma palete de cores infinitamente abundante. Fazia com que as pessoas sentissem que não podiam ser belas sem possuir aqueles artigos. Kate sorriu ao ver as mulheres devorarem tudo aquilo em que podiam tocar. Teve vontade de fazer o mesmo, porém não sabia se ainda seria capaz e, para além disso, não queria deixar Felicia à espera; já se sentia suficientemente extravagante com o fato que trazia vestido.

O elevador levou-a lá para cima, parando por um momento no primeiro andar e depois no segundo. Ela vivera naqueles pisos, envergara os fatos, exibira as peles, vestira-se de noiva. Viu rostos novos de cada vez que as portas do elevador se abriam. Rostos frescos. Não restava ninguém do seu tempo. Agora Kate já era adulta e as outras também se haviam ido embora. Vinte e nove anos. Isso era ser-se velho?

O elevador parou no sétimo andar e ela saiu. já não sabia bem onde ficava o gabinete de Felícia, mas foi prontamente informada por um segurança. Era um gabinete de canto, evidentemente. O director de moda da cadeia de lojas na Calífórnia tinha de ter um gabinete de canto. No mínimo. Kate voltou a sorrir quando entrou na antessala e foi rapidamente interpelada por duas jovens muito elegantes e um homem de calças de camurça azul-Claras.

- Sim? - sibilou ele. Tinha dentes perfeitos e lábios delicados.

- Sou Mistress Harper. Miss Norman está à minha espera.

O jovem foi verificar e desapareceu. Dali a pouco, Felicia saiu do enorme gabinete branco. Tudo era branco, de vidro ou cromado. Possuía um aspecto frio, mas elegante. O branco parecia ser a cor preferida de Felicia.

- Caramba, vieste mesmo! - Felicia parou à porta do gabinete e olhou para a amiga. Se tivesse mandado exibir um modelo num dos seus desfiles, não teria escolhido uma indumentária diferente. Sentiu um grande orgulho na amiga e ficou satisfeita ao ver que ela prendera o seu relógio novo no fato.

- Aprovas?

Felicia revirou os olhos e arrastou-a para dentro do gabinete. Kate até andava de forma diferente, abanando ligeiramente as ancas, como se se sentisse tão bonita como parecia. Felicia ficou radiante.

- Foi isso que compraste em Carmel?

- Sim.

- É divino. Foste abordada por todos os homens da loja, não?

- Nem por isso - respondeu Kate com um sorriso. - Mas esta noite vais ao ballet com um tipo que vai buscar-te às oito e depois vais jantar com ele ao Trader Vic's.

- Hum. É o Peter.

- Então, conhece-lo.

-Mais ou menos. - O que significava que o conhecia bem fisicamente, mas pouco intelectualmente. Isso não importava. Era um assunto que só dizia respeito a Felicia. Pareceu ficar agradada com a ideia do jantar. - Queres vir connosco?

- Ele não iria achar muita graça. Bem, vim comunicar-te que vou voltar para casa.

- Vais? Porquê? - Teria acontecido alguma coisa? Felicia parecia apavorada. - já?

- Não, esta tarde. E já fiz muita coisa. Mais do que imaginas. - Porém, Felicia imaginava. Bastara-lhe ver os olhos de Kate. Parecia de novo confiante, como há muito não parecia.

- E tencionas regressar? - perguntou, sustendo o fôlego. Kate assentiu com um sorriso.

- Sim, com o Tygue. Acho que ele devia conhecer a cidade. já é suficientemente crescido para a apreciar. - Hesitou e o seu sorriso alargou-se. - E eu também. Talvez.

- Talvez, uma ova. Anda, vamos almoçar.

Levou Kate a um restaurante novo nas docas e tornaram a beber champanhe para comemorar. Agora, todos os dias pareciam uma comemoração. O restaurante serviu-lhes um festim e era frequentado pela nata das pessoas da baixa. Era à porta fechada e semelhante a um clube. «Só com reserva», e tinham muito cuidado na escolha das reservas que aceitavam. Felicia conseguia sempre. Levava as pessoas certas, era linda e tratava-se de uma cliente que lhes dava uma boa imagem. «Miss Norman» era uma pessoa estimada no Le Port. Kate começara a aperceber-se de que a amiga era uma pessoa famosa.

- Toda a gente te conhece? - Parecia que todos os homens atraentes do restaurante a conheciam.

- Só as pessoas certas, querida.

Kate abanou a cabeça e soltou uma gargalhada.

- És impossível.

No entanto, Felicia parecia também ter crescido. Andara bastante ocupada durante os anos em que Kate estivera escondida. Agora era uma pessoa importante, o que quer que isso significasse. Havia uma certa aura em redor de tudo aquilo em que tocava. Êxito. Dinheiro. E classe. Felicia possuía muita classe e juntara bastante dinheiro ao longo dos anos. Ao ver a amiga no seu meio, Kate sentiu um novo respeito por ela.

- A propósito, falaste com a Tillie? - perguntou Felicia com ar descontraído, mas o coração de Kate quase parou.

- Ela ligou?

- Claro que não. Só pensei que tinhas telefonado - respondeu Felicia, lamentando ter tocado no assunto.

- Não. Tencionava telefonar, mas o Tygue já tinha ido para as aulas quando me levantei. Falo com ele logo à noite. Vou tentar chegar a casa a horas de o ver.

- Far-lhe-ia muito bem ver-te vestida dessa maneira, Kate. Tem de conhecer coisas diferentes das calças de ganga rasgadas, miúda - disse com ar sério.

- Foi por isso que pensei em trazê-lo cá. Assim podias ensinar-lhe as coisas básicas da vida. Concordas, tia Licia?

- Podes crer que sim, querida. - Brindaram uma à outra com o resto do champanhe e Felicia olhou pesarosa para o relógio.

- Gaita, não me apetece nada ir. Quando é que cá voltas? - Tinha de insistir com Kate naquele momento, antes que ela mudasse de ideias.

- Pensei em trazê-lo cá para o mês que vem, quando começarem as férias de Verão. - E falava a sério.

Felicia ficou radiante.

-           Bolas, Kate, estou ansiosa que lhe contes!

-           - Eu também.

 

Kate chegou a casa em menos de cinco horas e sem ser multada por excesso de velocidade. Isso era quase um milagre. Cento e quarenta. Cento e cinquenta. Porém, quisera ver Tygue antes de ele ir para a cama. Queria falar-lhe de São Francisco e de o levar lá. Dos eléctricos e da ponte. Comprara-lhe chocolates em Ghirardelli Square e também iria falar-lhe disso. Tinha tanto que lhe contar. Só de pensar nisso ficou nervosa. Virou para o caminho de acesso à casa. Trazia vestidas a saia vermelha e a blusa estampada. Talvez Licia tivesse razão. Talvez fizesse bem a Tygue vê-la assim bonita. Queria partilhar as novidades com ele. A animação.

A casa parecia alegre e bem iluminada quando estacionou. Ninguém veio cumprimentá-la, não ouviu latidos embora soubesse que eles deviam estar confortavelmente instalados. Abriu a porta da rua e lá estava ele, sentado à mesa da cozinha a fazer um quebra-Cabeças com Tillie. Tinha vestido o pijama de flanela azul e o pequeno roupão amarelo que Licia lhe mandara havia não sei já quanto tempo. Parecia confortável e bem instalado, e todo seu. Kate ficou imóvel durante um instante, a observá-lo, e Tillie sorriu-lhe; Tygue continuou concentrado no quebracabeças.

- Olá, meninos.

Silêncio. Tillie franziu o sobrolho, mas não disse nada. Sabia o que Kate queria ouvir, e não era de si. Mas as palavras não vieram. Nada de «Olá, mamã». Só Bert agitou a cauda, ensonado.

- Olá, borracho. Não me dizes olá? - Aproximou-se do filho, abraçando-o, mas ele ignorou-a.

- Sim. Olá.

O olhar de Kate cruzou-se com o de Tillie. Então era isso. Estava zangado. Kate sentou-se numa das cadeiras da cozinha e ficou a olhar para ele. Tygue ainda não a fitara. Tillie levantou-se e foi buscar as suas coisas. Havia algo em Kate de que ela gostava muito: regressava sempre quando prometia. Não brincava em serviço. Tinha dito que estava em casa na segunda à noite e cumprira. Tillie apreciava isso. Também sabia que Kate tinha um problema para resolver. Tygue não parecera o mesmo desde que ela partira. «Não dormiu cá, Tillie! Ela não dormiu cá!», dissera a criança, chocada.

- Onde arranjaste esse novo quebra-Cabeças?

- Foi a Tillie. Comprámo-lo hoje.

- óptimo. A tia Licia manda beijinhos.

De novo silêncio. Bolas! Aquilo ia levar bastante tempo, a julgar pelo ritmo. Kate perguntou-se se valeria a pena. Porém, ao recordar as últimas vinte e quatro horas, soube que sim. O filho iria ter de perceber.

- Olha, adivinha uma coisa. - Tornou a apertá-lo nos braços e tentou beijar-lhe o pescoço, mas ele pôs-se muito teso e não a deixou chegar-lhe. - Tenho uma surpresa para ti.

- Ai sim? - Nunca se mostrara tão pouco entusiasmado com uma surpresa. - O que é?

- Uma viagem. - Ele fitou-a horrorizado. Mas Kate continuou. - Gostarias de ir um dia destes comigo a São Francisco visitar a tia Licia? - Esperou que o filho inspirasse e arregalasse os olhos, mas as coisas não correram como ela esperava. Tygue afastou-se com os olhos cheios de lágrimas.

- Não vou! Não vou! - Levantou-se da mesa a correr e pouco depois ela ouviu a porta do quarto fechar-se.

Tillie vestiu o casaco, sem tirar os olhos de Kate, e esta respirou fundo.

- Sabia que ia ficar zangado por eu me ter ido embora, mas não estava à espera disto.

- Há-de passar-lhe. É uma grande mudança para ele.

Tillie parecia ter pena de ambos, e isso irritou Kate.

- É uma grande mudança eu ter passado uma noite fora? - Caramba, tinha direito a isso, não tinha? Tinha, não tinha? Sabia que sim. Tygue era apenas uma criança. Não podia esperar ter todo o tempo da mãe. O problema é que sempre tivera. Isso é que era o pior.

- Quantas vezes é que já dorrMU longe dele, Kate?

É claro que Tillie já sabia a resposta.

- Nunca.

- Então é uma grande mudança para ele. Há-de habituar-se, se você tencionar continuar a fazê-lo. Creio que ele pressente a mudança. Talvez esteja confundido.

- Oh, bolas, Tillie! Eu também estou. Fiz um bom negócio com um dos meus livros na semana passada. Isso signi fica que a nossa vida vai ter coisas muito agradáveis, e outras que eu ainda não entendo. Tenho tentado perceber o que sinto a respeito de tudo isto.

- O Tygue não percebe. Sente, mas não percebe. Sabe apenas o que sempre soube. Nunca se afastou muito daqui, não é? E agora a Kate passa uma noite fora de casa e diz-lhe que o vai levar a São Francisco. Nós sabemos que isso é giro. Ele acha apenas que é uma coisa assustadora. E para lhe dizer a verdade, creio que a maior parte dos velhotes da zona acharia o mesmo.

- Eu sei. Também me senti assustada com a ideia durante vários anos. - Fossem quais fossem as razões. - Acho que espero demasiado do Tygue.

- Ele há-de ultrapassar isto. Dê-lhe tempo. Sabe - continuou ela olhando para Kate - se calhar vê-la assim vestida assusta-o um pouco. Talvez pense que está a perdê-la, ou que a senhora está a mudar. Nunca se sabe, com as crianças. Pensam as coisas mais estapafúrdias. Quando o meu marído morreu, o meu filho mais novo pensou que eu iria dá-lo para adopção. Não me pergunte porquê, mas ele pensou que iríamos mandá-lo embora. Chorou durante três semanas até que finalmente desabafou. Talvez o Tygue tenha medo de que a senhora o abandone, vendo-a assim vestida. Mas está muito bonita.

- Obrigada, Tillie.

- Tenha calma. Ah, mais uma coisa. Amanhã vai dar aulas?

- Acho que é melhor esperar alguns dias antes de sair outra vez.

- É agradável eles serem assim tão flexíveis.

- Pois. - «Bolas, Tillie, não me venha também com mais perguntas. Por favor!»

Tillie, porém, não insistiu. Despediu-se e fechou a porta. Kate sentiu-se muito sozinha naquela casa. Só Bert andava por lá querendo brincar com a corrente dourada dos seus sapatos novos.

- Nem pensar, meu menino, isto custou oitenta e seis dólares.

Afastou-o com a mão e apercebeu-se de como a casa parecia vazia ouvindo-se apenas a sua voz. Sentou-se durante um momento e em seguida levantou-se e despiu a saia. Abriu o fecho da mala que trouxera da cidade e tirou de lá as calças de ganga e a camisa vermelha, atirando a saia e a blusa novas para uma cadeira. «Adeus, por agora.» Pôs os sapatos na mala, para evitar que Bert os roesse. Depois aproximou-se descalça do quarto de Tygue e bateu à porta.

- Posso entrar?

Fez-se silêncio, até que finalmente ele respondeu.

- Sim. - Estava sentado às escuras e o seu rostinho brilhante parecia minúsculo no quarto escuro.

- Não queres acender a luz?

- Não.

- Okay. Tens aí o Willie?

- Sim.

- Aposto que isso sabe bem.

- O quê? - perguntou ele numa voz cansada e a medo.

- Aposto que sabe bem ter o Willie perto de ti. Sabes que podes contar com ele. Será sempre teu.

- Sim. - O tom de voz dele suavizou-se e Kate sentou-se na cama do filho, tentando ver-lhe o rosto.

- Sabes que me tens a mim, tal como tens o Willíe? Só que mais ainda. Tens-me para sempre. Sabes isso?

- Mais ou menos.

- O que queres dizer com mais ou menos? - Não era uma acusação, apenas uma pergunta.

- Quero dizer mais ou menos,

- Está bem. O que acontece se puseres uma fita vermelha no pescoço do Willie? Isso fá-lo parecer diferente?

- Sim. Fá-lo parecer tontinho.

- Mas ficas a gostar menos dele? - Tygue abanou a cabeça com veemência, puxando o ursinho para junto de si. - Por isso, embora possas achar que eu pareço uma tontinha por causa das roupas novas, continuo a ser a mamã do costume, não é? - Ele assentiu. - E continuo a gostar muito de ti independentemente do que estiver a fazer ou do meu aspecto, ou de onde me encontrar.

- O Willie não me abandona.

- Eu também não. Também não te abandono. Às vezes, posso viajar, mas nunca te abandonarei, querido. Nunca.

- Mas tu foste-te embora - retorquiu ele com voz trémula.

- Só por uma noite, e já estou de volta. Tal como prometi. Não é?

Ele assentiu com relutância.

- Porque é que foste?

- Porque precisei. E porque quis. Às vezes os adultos têm de ir a certos sítios sem as crianças.

- Nunca tinhas precisado de ir antes?

- Não. Mas desta vez precisei.

- Aquele homem mandou-te embora?

Ela percebeu de imediato a quem ele se referia.

- O Stu Weinberg? - Tygue assentiu. - Claro que não. Fui eu quem me quis vir embora. E custou-te assim tanto passar uma noite sozinho?

Ele encolheu os ombros e, de súbito, desatou a chorar e estendeu os braços para ela. Kate ficou perplexa.

- Tive saudades tuas! E pensei que já não gostavas de mmim!

- Oh querido... Como é que podes ter pensado uma coisa dessas? Eu gosto muito de ti. E também tive imensas saudades tuas. Só que... tive de ir. Mas hei-de sempre, sempre voltar. E para a próxima, tu vais comigo. - Queria prometer-lhe que não voltaria a afastar-se, mas sabia que estaria a mentir. Como poderia desistir de tudo, agora que voltara a recuperar o que perdera?

Tygue chorou durante quase meia hora. Por fim parou. Olhou para a mãe com um pequeno sorriso.

- Se eu torcesse a minha camisa, podíamos dar um banho ao Wilhe só com as tuas lágrimas. Sabias?

Soltou uma pequena gargalhada e Kate deu-lhe um beijo e alisou a franja loura do filho.

- Apetece-te um chocolate?

- Agora?

- Claro. - Tinha comprado uma tablete enorme e mandara-a embrulhar em papel dourado. Era do tamanho de um livro de capa dura. Trouxera-lhe também uma caixa de chupa-Chupas de chocolate e uma pistola também de chocolate. Era melhor do que na Páscoa ou na Noite das Bruxas. Quando viu a arma de chocolate embrulhada em papel dourado, a sua boca abriu-se e estendeu as mãos.

- Uau!

- Nada mau, pois não, maroto?

- Uau, mamã, é bestial!

- Tu também és. - Sentou-o ao colo enquanto ele mordia a tablete. Tencionava guardar a pistola para a mostrar aos colegas.

- E se alguém a parte?

- Compramos outra quando formos juntos a São Francisco. - Sentiu um certo temor enquanto aguardava a resposta, mas Tygue fitou-a com um enorme sorriso e uma expressão de gula.

- Está bem, deve ser um sítio porreiro.

- Pois é. - Nessa noite, Kate abraçou-o durante muito tempo.

 

- Okay, querido, agora fecha os olhos.

Tygue encontrava-se sentado muito quieto no banco ao lado do dela, de olhos fechados. Kate reconhecera a última curva da estrada antes de os prédios começarem a ver-se. Perguntou a si mesma o que pensaria ele da cidade. Nunca vira nada semelhante. Kate fez a curva com suavidade e sorriu ao ver o emaranhado de prédios à sua frente.

- Muito bem, já podes abrir.

Ele manteve-se calado. Abarcou tudo, mas não disse nada. Kate ficou admirada.

- Então, o que achas?

- O que é?

- São Francisco, tontinho. Aqueles são os edificios grandes da baixa.

Tygue nunca tinha visto um prédio com mais de três andares. Era espantoso perceber isso. Com a idade dele, Kate já tinha estado em Nova Iorque e subido ao Empire State Building.

- Pensei que tinha colinas. - Parecia desiludido. E um pouco assustado.

- E tem. Só que daqui não as vemos.

- oh...

Ela não sabia o que dizer-lhe. Tygue estava muito quieto, a olhar em frente. Queria ir para casa. E ela que queria que ele adorasse São Francisco. Tinha combinado tudo com Felicia. Iriam ali ficar uma semana. Uma semana inteira! Fisberman's Wharf, Sausalito, eléctricos, a praia, o jardim zoológico, uma viagem no ferry, andar de bicicleta em Angel Island, haviam pensado em tudo. Felícia até se informara dos locais onde decorriam filmagens a fim de que ele pudesse ver as perseguições de carros nas colinas. Como de costume, estava uma agendada para Divisadero.

- Queres ver a rua mais torta do mundo?

- Claro.

Apertava Willie com força no regaço e Kate sentiu vontade de o repreender. Estavam em São Francisco. Era excitante. Era a primeira viagem que ele fazia. Por que razão não estava feliz? Porque não sentiria o mesmo que ela? Depois sentiu-se cheia de remorsos e virou à direita na Rua Franklin, para poder parar.

- É aqui? É esta a casa da tia Licia? - Olhava para um hotel velho com um ar horrorizado e Kate soltou uma gargalhada. A viagem fora longa e só naquele momento é que ela se apercebeu de como estivera tensa com a expectativa de ver qual seria a reacção do filho.

- Não. E eu gosto muito de ti, seu tontinho. Chega aqui e dá-me um abraço.

No rostinho sardento apareceu um sorriso e ele abraçou-a sem largar o urso. Tillie tinha ficado com Bert.

-           Tygue Harper, prometo-te que vamos divertir-nos aqui. Está bem? Podes confiar em mim só um bocadinho?

-           Ele assentiu e Kate deu-lhe um beijo na cabeça.

- É tão grande - comentou ele num tom cheio de temor. - E tão... - Olhou em volta para a rua suja onde ela parara e a desilusão era visível no seu rosto.

- Sim, é grande. Maior do que aquilo a que estamos habituados. Mas estás a ver a Rua E lá na nossa cidade?

Ele assentiu. Era uma rua horrível. Ficava depois dos velhos carris do caminho-de-Ferro, perto da lixeira. Estava cheia de bêbedos e de carros abandonados. Cheirava mal e era o tipo de sítio a que nunca se queria ir. Ele estava a ver a Rua E. Toda a gente estava. Tygue olhou para a mãe de olhos muito abertos,

- Bem, esta rua é bastante parecida com a Rua E. Mas aqui há sítios muito bonitos. E nós vamos vê-los todos. Okay? Combinado? - Estendeu-lhe a mão com um sorriso e ele apertou-a com um ar muito compenetrado. - Vamos a isso?

- Vamos a isso! - repetiu ele, sentando-se a olhar para a frente, embora já segurasse Wilhe com menos força.

Kate sorriu e voltou a pôr o carro a trabalhar.

- Tens fome? - Sabia que se encontravam perto do Hippo na Van Ness, porém Tygue abanou a cabeça. - Queres um gelado? - A cabeça dele virou-se na sua direcção e nos seus olhos havia um sorriso. - Então vamos ao gelado.

- Era perfeito. Pararia no Swensen's da Rua Hyde a caminho da casa de Licia. Esta aguardava-os no apartamento. E sentia-se tão ansiosa como Kate.

Kate estacionou à porta do Swensen's e, quando saíram do carro e esticaram as pernas, dois eléctricos vinham a descer a Rua Hyde.

- Olha! - exclamou Tygue aos saltos com o urso de peluche na mão. - Olha, mamã! É um... um... - Estava excitadíssimo, e Kate sorriu. Afinal, tudo iria correr bem. E o gelado estava delicioso. Duas bolas num cone e molho de chocolate; a maior parte ficou no nariz e no queixo de Tygue. Quando saíram da gelataria, vinha outro eléctrico a descer a colina. Foi a custo que conseguiu meter o filho no carro.

- Havemos de andar num mais tarde.

Antes, porém, teve outra ideia. Aliás, duas. A colina mais íngreme. A rua mais torta. Estavam perto de ambas.

A colina mais íngreme não o impressionou; no entanto, adorou a rua mais torta enquanto percorriam lentamente o caminho estreito e sinuoso ladeado por árvores e casas vitorianas de tom pastel. Tygue gostou tanto dela que quase se esqueceu do gelado que pingava para cima do urso. Lambeu todo contente um bocado de chocolate da orelha de Wilfie. -Tygue, que horror!

- Hum, delicioso! - Estava de novo feliz. - O que é aquilo? - perguntou, apontando para Coit Tower em Telegraph H111.

- É um monumento de homenagem aos bombeiros. Chama-se Coit Tower e fica perto da casa da tia Licia.

- Podemos ir visitá-lo?

- Claro. Mas primeiro vamos ver o que a tia Licia planeou.

- Isto é divertido.

E o mesmo aconteceu ao resto da estada. Experimentaram tudo. jantaram no Hippo, fizeram piqueniques em Stinson Beach, foram ao museu de cera, a Fisherman's Wharf, andaram dez ou quinze vezes de eléctrico, foram ao aquário, ao planetário, a Chinatown e ao jardim japonês no parque. Foi divinal e, no sábado seguinte, Tygue conhecia melhor São Francisco do que a maior parte das crianças que lá vivia.

- Então, campeão? O que achas? Vais abandonar a tua mãe e vens viver para cá comigo? - perguntou Licia. Encontravam-se instalados no tapete branco da sala de Felicia a comer pipocas. Pela primeira vez, naquela semana, sentiam-se demasiado cansados para sair. Felicia concordara em encomendar pizza. A semana pertencera a Tygue e as duas mulheres estavam exaustas. Sorriram uma à outra por sobre a cabeça da criança.

- Sabes, tia Licia - disse Tygue, olhando pensativo para a Ponte Bay - quando for grande se calhar venho para cá trabalhar num eléctrico.

- Boa ideia, campeão.

- E se lhe comprares um no Natal, Licia, dou cabo de ti! - exclamou Kate com uma gargalhada, enchendo de novo a boca de pipocas.

- Quando é que pensam voltar?

Kate encolheu os ombros e olhou para Tygue.

- Não sei, Veremos. - Prestara pouca atenção a Tom nos últimos tempos e tinha algumas ideias para um livro novo. - Eu devia pensar em trabalhar. E tenho de inscrever o Tygue no grupo que vai ao rancho dos Adams montar todos os dias até ao começo das aulas.

- E o livro? - Felicia que puxasse o assunto. Ela andara a tentar não pensar nele. A publicação iria ser dali a uns dias.

- O problema agora é deles. Eu escrevi-o. Eles que o vendam.

- É assim tão simples? - perguntou Felicia franzindo o sobrolho e fitando Kate. - Escreveste-o e já está. já alguma vez te ocorreu que eles vão querer que os ajudes a vendê-lo?

- Porta a porta? - retorquiu Kate com uma gargalhada.

- Sabes bem o que eles querem. - Felicia não tencionava permitir que ela desviasse a conversa. Há semanas que esperava a ocasião propícia.

- Como é que posso saber? E a questão não é essa.

- Ai não? Então qual é? Aquilo que tu queres?

- Talvez. Não vejo por que motivo tenha de fazer uma coisa que me deixa pouco à vontade.

- Não sejas parva, Kate. - Tygue levantou-se e ligou a televisão. Estava aborrecido. Agarrou na taça das pipocas e levou-a consigo, e Kate deixou de poder esconder-se atrás dela. Olhou para Felícia e depois para a paisagem exterior. - Ouviste bem. E és louca se não promoveres o teu livro. Esta é a tua grande oportunidade. Desta vez conseguiste. Se aproveitares isso agora, o teu próximo livro venderá ainda mais. E então serás uma figura permanente no meio dos êxitos literários. Porém, esta é a prova dos nove. Se deres cabo dela, não voltarás a ter outra. Não podes dar-te ao luxo de ignorar isso.

- Como é que sabes que é isso que eles querem? O livro pode vender-se sozinho.

- És louca. Estás a desperdiçar a tua carreira. E sabes tão bem como eu que é isso que queres. Ainda por cima, está ao teu alcance. Tens tudo o que é necessário. Beleza, inteligência e talento.

- Mas nenhuma coragem.

- Tretas. Andas é tão preocupada a escondê-la de ti própria que te esqueces de que a tens. Para além disso, vê o que fizeste no mês passado. Vieste cá duas vezes. já não és uma eremita, e sabe-lo bem, Kate. Nem sequer queres sê-lo.

- Mas isto é diferente, Licia. Isto não é público. A minha cara não aparece na televisão a pedir-lhe que lhe atirem uma tarte. Ou pior, que me espetem uma faca no coração. Ou no do Tygue - disse ela baixinho, de forma a que o filho não ouvisse. Porém, ele estava concentrado no programa a que assistia na enorme televisão a cores. - Não vou correr esse risco, Licia.

- É difícil discutir contigo, bolas! Mas se fizesses o que estou a pedir-te, e se alguma coisa corresse mal, eu ficaria cheia de remorsos.

- Eu também. É por isso que não o vou fazer.

- Mas pensa só como seria divertido.

- Seria? Não tenho assim tanta certeza. Para o Tom não foi muito divertido.

- Foi, sim senhora.

- Nem por isso.

- Talvez não tivesse sido para ti. Mas para ele foi. Teve de ser. Deve ser uma das maiores alegrias do mundo.

- Sou feliz sem ela.

- E sentes-te também mais sozinha.

- Licia, minha querida, o êxito não é o antídoto para a solidão.

- Talvez não, mas será que não ficas animada ao ver a publicidade feita ao teu livro? Caramba, pá, ele vai sair daqui a três dias! Isso não te excita?

Kate sorriu com uma expressão envergonhada.

- Mais ou menos.

- Estás a ver? E pensa só no que aconteceria se aparecesses em público! - tornou Felicia a insistir; Kate levantou a mão com um sorriso e um acenar de cabeça.

- Chega! Basta!

No entanto, Felicia não iria desistir, e sabiam-no.

- Talvez o Weinberg mude de ideias.

Desta vez Kate abanou a cabeça com ar convicto.

- Nem pensar. E ele é demasiado inteligente para tentar.

Kate e Tygue foram-se embora de São Francisco no princípio da tarde de domingo. Felicia havia tirado uma semana de férias para estar com eles, mas iria regressar ao trabalho no dia seguinte e Tygue começaria as aulas de equitação também na manhã seguinte. E havia ainda Tom. Pobre Tom. já há quase duas semanas que não recebia uma visita. Kate andara demasiado ocupada antes de ir a São Francisco. Iria vê-lo na manhã seguinte. Era um bocado idiota fazer o caminho de regresso até casa e depois voltar quase tudo para trás no dia seguinte, mas não havia alternativa. Kate não podia levar Tygue a Mead.

- Mamã?

- Sim, querido? - Haviam acabado de entrar no trânsito que saía da cidade.

- Podemos voltar cá?

- Eu disse-te que sim.

- Em breve?

Ela sorriu e assentiu.

- Em breve.

Tygue soltou uma gargalhada e Kate fitou-o.

- O que foi?

- Estou desejoso de ver o Bert.

- Eu também - disse Kate.

Seria bom regressar a casa. Aquelas visitas todas eram bastante cansativas. Recordou-se das viagens que costumava fazer com Tom. Também haviam sido cansativas. Perguntou a si própria como teria sido capaz. Sempre a fazer as malas, a andar de avião, a conduzir, a dormir em hotéis. Porém, ele tornara sempre tudo divertido. Uma espécie de aventura. Uma lua-de-mel.

- No que é que estás a pensar?

- Em como me costumava divertir quando viajava com o teu pai. - Ficou admirada por ter dito aquilo. Raramente falava de Tom a Tygue. Era melhor não tocar no assunto. Ele percebia que a mãe não gostava de falar nisso. Sabia apenas que o pai tinha morrido num acidente, antes de ele nascer. Nunca perguntara sequer o que é que o pai fazia. Mas um dia iria perguntar. Kate ultrapassaria esse obstáculo quando lá chegasse. Inventaria uma mentira como as outras. Tinha de ser.

- Faziam muitas viagens?

- Algumas. - Estava de novo a ser reservada.

- Aonde? - Voltara de novo a ser um rapazinho, sentado no banco com Willie, desejoso de ouvir aventuras.

A expressão dele fê-la rir-se.

- A muitos sítios. Uma vez fomos a Cleveland. - O primeiro fim-de-semana que tinham passado juntos. Porque decidira falar-lhe disso? Porque teria pensado nisso,? Sentiu um enorme sofrimento.

- Foi fixe?

- Foi, muito fixe. Não é uma cidade bonita, mas o teu pai fê-la parecer bonita.

Tygue tinha uma expressão de tédio. «Bonita» era para raparigas.

- Alguma vez foste a Nova Iorque?

Felicia iria lá em breve e ele ouvira-as falar disso.

- Sim, com os meus pais. Não com o teu pai.

- Mamã?

- Sim, querido? - Rezou para que a pergunta não fosse difícil. Sobretudo naquele dia, e naquele momento. Sentia-se bem e queria continuar assim.

- Como é que essas pessoas já morreram todas? Os teus pais, o meu pai? Como?

O mais estranho daquilo é que nenhum deles estava morto, mas era como se estivessem.

- Não sei. Às vezes as coisas são assim. Mas tenho-te a ti - respondeu ela com um sorriso.

- E ao Willie e ao Bert e à tia Licia. Nós nunca havemos de morrer. Talvez a tia Licia morra. Mas nós não. Não é, Willie? - Olhou para o urso, muito sério, e depois para a mãe. - Ele diz que sim.

Ela sorriu a ambos e fez uma festa na cabeça do filho.

- Gosto muito de ti, borracho.

- Eu também gosto muito de ti - retribuiu ele em voz baixa, como se tivesse medo que alguém o ouvisse.

Kate riu-se e sentiu-se bem consigo própria. Viajaram em silêncio durante algum tempo e, quando tornou a olhar para o filho, viu que ele adormecera. Tinham acabado de passar por Carmel e dali a três horas estariam em casa. Foram buscar Bert a casa de Tillie e jantaram na cozinha.

A seguir ao jantar, Tygue foi para a cama, e ela imiitou-o cerca de uma hora depois. Nem sequer se incomodou a desfazer a mala ou a abrir o correio. Despiu-se e enfiou-se na cama. Parecia que passara apenas uma hora quando o telefone tocou, mas o Sol já brilhava e ela ouvia Tygue a brincar algures na casa. O telefone tocou quatro vezes antes de ela atender. Era Stu Weinberg.

- Pensei que me tinha dito que nunca saía.

- E não saio. - Kate tentava acordar e ao mesmo tempo ser simpática.

- Telefonei. Escrevi. Pensei que tivesse morrido. Eu teria feito haraquiri na minha secretária.

- Foi assim tão mau, hein? Há algum problema? - E se fossem cancelar os contratos? Sentiu-se subitamente desperta.

- Claro que não. Não há problema nenhum. Está tudo bem. O livro sai daqui a três dias, ou será que já se esqueceu?

Não esquecera, mas tentava.

- Não me esqueci - disse com cautela.

-           Temos de falar numa coisa, Kate.

-           Bolas! E logo de manhã. Antes do café.

- Ai sim?

- Teve uma oferta maravilhosa.

- Outra? - Os seus olhos abriram-se muito. Deus do Céu! O que seria agora? Vendas dos direitos de adaptação ao cinema para o Japão? Sorriu.

- Sim. Outra. Recebemos um telefonema do Case Show.

- Do Jasper Case?

- Sim. Gostariam que aparecesse no programa. É uma excelente oportunidade para o livro. Estamos todos muito animados.

- Todos quem? - perguntou Kate. Parecia distante e desconfiada.

- As pessoas que se interessam pelo livro, Kate. - Enumerou os nomes dos editores. - já para não falar nos tipos do cinema. Isto podia ajudar bastante o livro. - Silêncio. - Kate?

- Sim.

-           No que é que está a pensar?

-           - Naquilo que lhe disse.

- Acho que faz mal em não o fazer. Penso que esta é uma das coisas que vai ter de fazer. Por Deus e pelo país, minha senhora. E pelo livro. - O livro, o livro, o maldito livro. - O Case é um tipo impecável. É um bom começo. De bom trato, bem-educado, muito correcto. É inglês.

- Eu sei, costumo ver o programa. - Era o melhor programa da noite e o país inteiro assistia. Jasper Case era realmente um cavalheiro. Ela nunca o vira deixar alguém pouco à vontade. E quanto aos espectadores? Se alguém a visse e se lembrasse? Deus do Céu. Quem diabo iria lembrar-se de uma rapariga alta e magra de cabelo castanho que andava sempre atrelada a Tom Harper? Quem é que sabia? Quem é que se importava? - Está bem. Eu vou lá.

- Fico muito contente, Kate - comentou ele, limpando o suor da testa. - Eles já começaram a preparar tudo. Vai aparecer de hoje a oito dias. E acharam que talvez gostasse de ficar hospedada no Hotel Beverly Hills. Reservaram um quarto para segunda. Pode fazer a viagem de manhã e descansar um pouco. Iremos almoçar com uma pessoa do programa que lhe dirá quem são os convidados daquela noite e o que poderá esperar. Assim, ficarão com uma ideia sobre aquilo de que quer falar ou não. Você é quem manda. Depois pode passar a tarde junto à piscina, ir ao cabeleireiro ou fazer o que bem lhe apetecer. O programa é gravado às sete e emitido mais tarde. Depois da gravação, às nove, está por sua conta.

Podemos ir jantar, para comemorar. E é isso. Passa lá a noite e regressa a casa no dia seguinte. Sem dor.

- Parece uma forma bastante agradável de perder a virgindade - retorquiu Kate com um sorriso. Weinberg conseguira. Ambos tinham consciência disso. Ele manipulara-a desde o princípio. Bolas!

-           Kate, confie em mim. Vai adorar.

-           - Se eu não adorar, recebo o meu dinheiro de volta?

- Claro, minha querida. Claro. Não se esqueça. De segunda a oito. Ah, a propósito, o L. A. Tímes quer uma entrevista. O que acha?

Kate hesitou.

- Não.

- E a Vogue?

- Caramba, o que raio está a acontecer, Stu?

- Mais do que você julga, minha querida. Está bem... E quanto a esta? - Disse o nome de uma revista feminina. - Nada de fotografias, só uma entrevistazinha feita durante o almoço de terça-feira.

- Está bem, está bem. Convenceu-me. A quantos mais leões me vai lançar? Diga agora a verdade! - Kate parecia estar a falar com Tygue.

- Nove revistas, cinco jornais e outros três talkshows. E um programa de rádio em Chicago. Vão gravá-lo pelo telefone. Se ler a sua correspondência, ficará a saber tudo.

- Tenho estado fora - disse ela com ar envergonhado.

- Foi a algum sítio divertido?

-A São Francisco.

-Bestial. Se quiser, arranjamos-lhe lá uma entrevista. Pode lá voltar quando quiser.

-Bolas, Stu, não estou preparada para isto!

- É para isso que aqui estou. Deixe-me ajudá-la. Neste momento só tem de preocupar-se com uma coisa: O Jasper Case Show. O resto pode esperar. Faça a experiência com o Case. Depois veremos. Acha razoável?

- Muito. Meu Deus! - Estava de novo a entrar em pânico. - O que é que vou vestir?

Stu Weinberg soltou uma gargalhada. Conseguira! Se ela estava preocupada com o que iria vestir, a batalha fora ganha.

- Minha querida, vá nua, se quiser. Só lhe peço que se divirta.

Cinco minutos mais tarde, Kate encontrava-se ao telefone com Felicia, que a escutava sentada à secretária, de boca aberta.

- Vais ser o quê?

- Entrevistada nojasper Case Show. - Kate parecia orgulhosa. O que diabo teria feito o homem Para a convencer? Felicia admirou-o. - O que é que hei-de vestir?

Porém, Felicia limitou-se a sorrir.

- Kate, querida, adoro-te.

 

O carro abrandou e estacionou em frente à entrada do hotel. O porteiro e três carregadores aproximaram-se, de imediato. Três? Para uma carrinha? Kate olhou em volta, nervosa. Trouxera apenas uma mala pequena. Sorriu, pouco à vontade, a um dos carregadores, mas a expressão dele manteve-se inalterada enquanto ela saía do carro. O homem sentou-se ao volante enquanto um dos outros carregadores lhe pegava na mala. O terceiro desapareceu e o porteiro tinha um ar imponente. Atrás do carro de Kate pararam um Rolls Royce vermelho e um jaguar preto. Do hotel saiu um grande grupo de carregadores. A actividade era grande. Malas, tacos de golfe, casacos de peles, carros anónimos que chegavam e partiam e um constante tocar de mãos com o porteiro. Enquanto Kate remexia na mala, levantou os olhos para ver quanto é que o homem mais perto dela dava ao porteiro e ficou sem fôlego ao ver uma nota de dez dólares trocar de mãos. Dez dólares? Deus do Céu, esperou que não tivesse dito aquilo em voz alta. Outra olhadela à esquerda e viu uma nota de cinco. Era uma loucura. já tinham passado dez anos desde que se ocupara daquele género de coisas quando viajava com Tom. Mas dar cinco e dez dólares ao porteiro? As coisas não podiam ter mudado tanto em sete anos. Porém, estava em Hollywood. As próprias indumentárias o indicavam. As pessoas que saíam dos carros vestiam calças de ganga colcantes, camisas igualmente justas, abertas até à cintura, enormes quantidades de ouro e muita seda de cores vivas que pendia de corpos esculturais e de homens de meia-idade. E, aqui e ali, um fato escuro entrava à pressa no hotel, presumivelmente para se metamorfosear e emergir em calças de ganga.

- Tem reserva, minha senhora?

- Hum? - perguntou Kate, sobressaltada. Apercebeu-se de que parecia deslocada. Escolhera um vestido branco de algodão do lote de «possibilidades» que Felicia lhe mandara da loja. Tinha um decote em V que ela achara muito descido, mas que ali nem sequer se notava, sandálias brancas e o cabelo apanhado na nuca. Estava bronzeada e tinha um ar descontraído, como se fosse almoçar junto aos courts de ténis em Palm Springs e não competir com os símbolos sexuais de Hollywood. O pensamento fê-la sorrir. - Desculpe. Ah, sim. Sim, tenho reserva.

O porteiro entrou rapidamente no hotel e ela seguiu-o pela entrada ladeada de pilares. Entre os Pilares, viam-se vasos de plantas exóticas postos ali nos anos 30, quando as mulheres entravam vestindo casacos de arminho e enfeitadas com diamantes, em vez de trazerem calças de ganga e vísons.

Kate atravessou quilómetros de alcatifa verde que contrastava fortemente com a fachada cor de flamingo do edifício. As pessoas passavam por ela apressadas, indo para encontros, para descobrir ou ser descobertas, discutir ou zombar, destruir uma carreira, a delas ou a de outrem. Pressentia-se que em Hollywood as decisões eram tomadas ali perto. Isso era quase palpável; o edifício pulsava de poder.

- Sim? - O concièrge fitou-a com um sorriso. Havia sete homens atrás do balcão.

- Sou Mistress Harper. Creio...

- Mas com certeza - interrompeu ele com um sorriso, desaparecendo algures. «Mas com certeza»? Como é que ele sabia quem ela era? Tornou a aparecer, fazendo sinal ao carregador e entregando-lhe uma chave. - Esperamos vê-la cá com frequência.

Ai esperavam? Kate sentiu-se como uma criança num sonho. Quem eram eles? Quem era ela? E onde estava o Chapeleiro Louco no meio daquilo tudo? De certeza que o seu lugar era ali. Porém, Kate seguia já atrás do carregador por um corredor largo cheio de lojas. Jades, esmeraldas, diamantes, roupões enfeitados com penas raras, camisas de noite em cetim, um pequeno bolero, de marta, malas Vuítton, malas de camurça, uma pasta de pele de lagarto. Apetecia-lhe parar e ficar a olhar para aquilo tudo, mas tinha de parecer pouco impressionada, uma adulta. E, acima de tudo, sentia vontade de tocar no braço de alguém e de murmurar «Olhe... ali!... e ali!» Viu três rostos conhecidos do cinema. Até ela sabia quem eram. Virou a cabeça quando os ouviu rir e quase chocou com outra pessoa, um rosto da televisão. Era fantástico!

Sorriu enquanto continuava a avançar, perguntando a si mesma se a vida de Tom teria sido assim, no meio de vedetas. Não, não podia ter sido. Aquilo era fabuloso! E único.

Passaram por uma piscina rodeada de mesas e empregados de casaco branco. Viu mulheres de biquini com peles perfeitamente bronzeadas e penteados que pareciam não ter sido afectados pela água. Kate observou-as, fascinada, até as perder de vista, e encontrou-se de súbito junto a uma pequena vivenda bem cuidada. Por breves momentos, sentiu uma enorme vontade de rir, mas não o fez, nem o podia fazer com o carregador ali junto de si, à espera de quê? De uma nota de cinquenta dólares? Se o outro ganhara dez só por abrir a porta, este podia esperar cinquenta depois de ter percorrido todos aqueles corredores com ela. Abriu a porta do bangaló, como lhe chamou, e Kate entregou-lhe uma nota de cinco e entrou, sentindo-se ridícula por lhe ter dado tanto dinheiro. A porta fechou-se suavemente atrás de si e ela olhou em volta. Era tudo realmente muito bonito. Quadros de flores, chaiseslongues que pareciam convidar ao repouso numa das camisas de noite de cetim que ela vira nas lojas. Sem dúvida com uma boquilha a acompanhar. Havia um quarto de vestir com as paredes cobertas de espelhos e um toucador onde valia a pena perder duas horas a fazer a maquilhagem. A casa de banho era de mármore cor-de-rosa e tinha uma banheira de canto. Kate sorriu de novo. E então o telefone tocou, sobressaltando-a. Encontrou-o na mesa-de-Cabeceira ao lado da enorme cama. Notou que havia outro na salinha. E havia outra entrada para o bangaló. Duas entradas? Porquê? Para permitir uma fuga rápida? Soltou uma gargalhada e pegou no auscultador.

- Estou?

- Bem- Vinda a Hollywood, Kate. Que tal vai isso? Era Stu, soando calmo COMO sempre, com um sorriso na voz.

- Acabei de chegar. Este sítio é espantoso.

- É, não é? - Stu soltou uma gargalhada. Sentiu-se aliviado por ela não ter entrado em pânico e partido de imediato. Quando lhe tinham feito a reserva no Hotel Beverly Hills, ele ficara um pouco preocupado. Para uma novata, não era dose fácil. - Que tal é o seu bangaló?

- Dá-me a sensação de que devo vestir-me como a Jean Harlow. No mínimo.

Stu riu com mais vontade. Talvez devesse vestir-se como Katherme Hepbum, mas como Harlow? Riu de novo.

- Havia de surpreender as pessoas do Case Show. Elas estão à espera de outra coisa.

- Ai estão? Do quê? - perguntou ela com nervosismo.

- De si. Tal como é.

- Essa é boa, Stu, pois eu não tenho mais nada. Bolas, apetecia-me mesmo dar um mergulho antes do almoço, mas imagino que ninguém tome banho aqui.

- Claro que tomam. Porque diz isso?

- Por causa dos penteados - respondeu ela com um sorriso travesso, recordando-se do aspecto das mulheres que vira junto à piscina.

Porém, Stu estava de novo a rir.

- Minha querida, quem me dera ter estado aí quando chegou.

- Quem me dera que tivesse estado. Faz ideia das gorjetas que se dão aqui? - Riram-se. - Porque será?

- Para serem lembrados.

- E são? - perguntou ela, fascinada.

- Não por esse motivo. Se são lembrados, é porque já são alguém. Se não são, ninguém se lembrará deles, independentemente das gorjetas que derem. A propósito, sabia que as suas preferências serão anotadas e da próxima vez que cá vier encontrará tudo ao seu gosto, mesmo sem ter de pedir nada?

- O que raio quer dizer com isso? - Kate sentiu-se subitamente pouco à vontade, como se as pessoas a observassem às escondidas.

- Quero dizer que se tivesse trazido aquele seu cão ridículo e ele só comesse gafanhotos e bebesse limonada, da próxima vez que cá viesse eles teriam um prato cheio de gafanhotos e limonada à disposição dele. Ou toalhas especiais para si, ou martínís secos, ou lençóis de cetim, ou nove almofadas na cama, ou apenas gim e scotch, ou... Basta dizer, querida, que pode ter tudo.

- Deus do Céu! As pessoas conseguem mesmo tudo isso aqui?

- Não só conseguem como estão à espera que lho dêem. Faz tudo parte de ser-se uma vedeta.

- E eu não sou - comentou ela, aliviada, e Stu tornou a sorrir.

- Ai isso é que é.

- Isso significa que tenho de encomendar gafanhotos e limonada?

-O que lhe apetecer, princesa. O palácio é seu.

Kate sentiu um aperto no coração. Princesa. Era assim que Tom lhe chamara. No seu olhar havia lágrimas que Stu não pôde ver.

- Sinto-me mais a rainha da festa.

- Limite-se a saborear. A propósito, vamos encontrar-nos com o Nick Waterman no Polo Loxinge ao meio-dia e meia. No seu hotel.

- Quem é o Nick Waterman?

- O produtor do Case Show. O próprio, minha querida. Nada de assistentes. Veio encontrar-se consigo e falar-lhe do programa.

- Vai ser assustador?

Kate parecia uma criança com medo de ir ao dentista e Stu sorriu. Queria que ela se descontraísse e apreciasse tudo. A seu tempo.

- Não, não vai ser assustador. E logo depois do programa vai haver uma festa. Querem que vá.

- Tenho de ir?

- Porque não espera para ver como se sente depois do programa?

- Está bem. A propósito, o que é que devo vestir no Polo Lounge? As pessoas por aqui parecem usar calças de ganga e vísons.

- Logo de manhã?

-           Bem, trazem a ganga vestida e o vison na mão.

-           - É isso que traz vestido?

- Eu trago um vestido de algodão.

- Parece agradável. Ao almoço pode vestir-se com mais formalidade mas é consigo. Esteja confortável, seja você mesma. O Waterman é um tipo muito agradável.

- Conhece-o?

- Já jogámos ténis algumas vezes. É uma pessoa simpática. Descontraia-se e confie em mim. - Apercebia-se do nervosismo de Kate perante tudo aquilo.

- Está bem. Acho que vou encomendar os gafanhotos e a limonada e que vou até à piscina descontrair-me.

- Força.

Pouco depois, desligaram. Stu sentiu um certo alívio ao perceber que Kate estava relativamente calma. O Case Show era importante, bastante mais do que Kate se apercebera. Estava prestes a ser lançada ao público e iria ser adorada ou detestada - ou apenas ignorada. Mas se o público decidisse que gostava dela, que ela era alguém que o fazia rir e chorar e que era humana, todos os livros que escrevesse estariam vendidos. Kate possuía talento, mas isso não bastava. O público tinha de a amar. E Stu Weinberg sabia que, se ela estivesse à vontade, isso acabaria por acontecer. Era a grande incógnita. Correra um grande risco ao combinar o encontro com Waterman. Talvez fosse louco por confiar no homem. Porém, tinha um pressentimento e esperava não se enganar. Raramente se enganava. Haviam jogado ténis na véspera e a seguir bebido alguns copos. Dissera a Waterman que por vezes Kate parecia uma eremita, muito bonita, mas mesmo assim uma eremita. E desconfiava que ela era assim desde a morte do marido. Era importante que ninguém a ferisse naquele momento, ou a assustasse ao ponto de a fazer regressar ao esconderijo. Stu não queria que Jasper Case brincasse com ela no programa, ou a sentasse ao lado de uma megera de Hollywood. A entrevista tinha de ser conduzida com cuidado, se não mais valia não ser feita. A carreira de Kate dependia disso. Waterman dissera que iria encarregar-se de tudo. Até concordara em vir pessoalmente ao almoço em vez de mandar a colega que normalmente se ocupava dessas coisas. E houvera alguma agitação quanto aos convidados para o programa. A grande vedeta cancelara e assim Kate tinha a sua oportunidade. Stu rezava para que tudo corresse bem, e contava com Waterman. Ia ser um almoço interessante, a ver Kate entrar de mansinho no mundo.

 

Ela esperou no bangaló até ao meio-dia e vinte e cinco, batendo com o pé na espessa alcatifa bege da sala, cheia de nervosismo. Deveria chegar a horas? Ou seria de bom tom atrasar-se? Deveria sair do quarto naquele momento? E se tivesse escolhido a roupa errada? Vestia um calça-Casaco de linho branco que Felicia considerara adequado para Los Angeles, sandálias brancas e as únicas Jóias eram a aliança de casamento e o relógio que Licia lhe dera. Tocou nele por um momento e fechou os olhos. Ainda sentia o cheiro das flores que lhe tinham entregado. Um grande arranjo de flores primaveris, com túlipas vermelhas e amarelas e todas as flores de que ela gostava. O arranjo viera do Case Show. E o hotel oferecera-lhe uma garrafa de bordéus Chateaux Margaux 59 e um cesto de fruta. «Com os nossos cumprimentos.» Ela preferia o vinho ao champanhe, parecia mais simples. Sorriu. Não havia nada simples num Margaux'59.

- Bom, é agora - disse ela em voz alta levantando-se com um suspiro e olhando em volta. Estava apavorada. Porém, tinha de ir. Era exactamente meio-dia e meia. E se o tipo fosse um idiota? Se não gostasse dela e não a quisesse no programa? E se a quisesse lá e os outros a tratassem mal? Oh, merda! - tornou a dizer em voz alta. Sorria quando saiu do quarto.

A caminhada de regresso ao edifício principal pareceu interminável. Kate tornou a ver a piscina e os courts de ténis e desejou estar lá. O fato era fresco e a brisa brincou com os cabelos que lhe emolduravam o rosto; tornou a perguntar a si mesma se devia ter escolhido um vestido ou talvez algo mais elegante. Felicia mandara-lhe também um vestido de alças azul-escuro, mas ela não tinha coragem de o levar ao programa. Sentia-se muito nua com ele. Não era capaz. Talvez à noite, se fosse à festa. A festa... tinha a sensação de que estava a andar no meio de uns carris, com um comboio a avançar rapidamente atrás de si.

- Minha senhora? - já lá estava, a olhar para um fosso negro. O Polo Lounge era um poço escuro onde ela nada conseguia ver. Apenas se apercebeu das toalhas cor-de-rosa, de um pequeno bar e de vários bancos vermelhos. Depois do sol forte tinha dificuldade em ver quem ali estava e em perceber o que via. Mas ouvia tudo. Pareciam estar ali centenas de pessoas, a comer, a beber, a rir e a pedir um telefone. À entrada havia uma zona com cabinas. Era evidente que nunca eram utilizadas. Ninguém sonharia em sair quando podia pedir que lhe trouxessem um telefone à mesa e impressionar os transeuntes. «Quatrocentos mil? Está louco ... » Os telefones na mesa eram mais divertidos. - Minha senhora? - perguntou de novo o homem, observando-a. Ela era bonita, mas não estonteante. Estava habituado a mulheres lindíssimas, como as actrizes e as call gírls que ela viu junto a um grupo no bar.

- Venho encontrar-me com Mister Weinberg, Stuart Weinberg. E...

Mas o empregado já estava a sorrir.

- Mistress Harper? - Ela assentiu com ar incrédulo. - Os cavalheiros estão à sua espera lá fora no terraço. Mister Waterman já está com Mister Weinberg.

Foi à frente, seguido de Kate, que ainda não conseguia ver bem. Porém, não precisava de ver as caras. Até as vozes soavam importantes. E parecia haver muito cabelo louro comprido, muitas pulseiras a tinir, camisas abertas e muito ouro ao pescoço. Kate não teve tempo de observar mais nada, pois o empregado levou-a rapidamente para o terraço com uma expressão de grande decoro. Era agradável encontrar-se de novo ao sol e tornar a ver um rosto conhecido, o de Stu Weinberg.

- Ora, ora, conseguiu! E está muito bonita!

Kate sentiu-se corar, e Stu levantou-se e envolveu-a num abraço fraternal. Olhou para o seu rosto com uma expressão aprovadora e trocaram um sorriso.

- Desculpem o atraso. - Olhou em volta, sem se permitir ver o outro homem, e depois para a cadeira que o empregado havia puxado para si. Sentou-se, e Stu indicou com a mão o homem sentado à sua direita.

- Não está atrasada. Kate, gostaria que conhecesse o Nick Waterman. Nick, Kate.

Kate sorriu com nervosismo e o seu olhar pousou no rosto de Nick enquanto lhe apertava a mão. Era uma mão grande e muito firme e os olhos eram de um azul tropical.

- Olá, Kate, estava ansioso por conhecê-la. O Stu deu-me um exemplar do seu livro. É magnífico. Melhor do que o anterior. - O seu olhar parecia ser luminoso e Kate começou a sentir-se mais descontraída.

- Leu o meu primeiro livro? - Ele assentiu e ela fitou-o, admirada. - Leu mesmo? - Ele tomou a assentir e soltou uma gargalhada, encostando-se à cadeira.

- Julgava que ninguém os lia? - perguntou com ar divertido.

- Julgava, por acaso.

Como é que ia explicar que nunca tentara descobrir que alguém a lia? Tillie lera-a, bem como Mr. Erhard, mas ela sempre julgara que fora porque lhes oferecera o livro. Era incrível conhecer um desconhecido que também lera o seu livro.

- Não diga isso no programa - aconselhou Stu com um sorriso, fazendo sinal ao empregado. - O que vai querer?

- Gafanhotos - murmurou ela com um sorriso e Stu

soltou uma gargalhada. Nick fez uma expressão intrigada enquanto o empregado tomava nota.

- Um grasshopperl para a senhora?

- Não, não! - exclamou ela a rir-se. - Não sei. Talvez um chá gelado.

- Chá gelado? - perguntou Stu, admirado. - Não bebe álcool?

- Quando estou nervosa, não. Acho que desmaiava.

Stu olhou para Waterman com um sorriso e deu uma palmadinha na mão de Kate.

- Prometo que só o deixo atacá-la durante a sobremesa. Riram os três.

- Por acaso, acho que já estou um pouco embriagada. Oh, a propósito, as flores eram lindas. - Virou-se para Nick Waterman e sentiu-se de novo corar. Não sabia bem porquê, mas ele punha-a pouco à vontade. Havia nele um certo magnetismo que fazia uma pessoa querer fitá-lo nos olhos, querer tocar-lhe, mas isso assustava-a. Era aterrador sentir-se atraída por um homem ao fim de tantos anos, mesmo que fosse só pela sua conversa. E ele era tão grande, e parecia tão presente. Era impossível evitá-lo. E Kate também não tinha vontade de o fazer. Era isso que a assustava.

- O que acha de Hollywood, Kate? - Era uma pergunta banal; porém, ela sentiu-se de novo corar e detestou-se por isso.

- Ao fim de duas horas, já estou maravilhada. É mesmo assim? Ou será o hotel uma espécie de oásis louco no meio de um mundo mais são?

- De maneira nenhuma. Isto é o normal. Quanto mais nos afastamos, mais loucas as coisas se tornam.

Os dois homens trocaram um olhar de compreensão e Kate sorriu.

- Como é que aguenta?

- Eu nasci aqui - afirmou Stu com orgulho. - Está-me na massa do sangue.

- Que horror! Pode ser operado? - perguntou Kate muito séria. Nick soltou uma gargalhada e Kate virou-se para ele, cheia de coragem. - E você?

- Eu estou de boa saúde. Nasci em Cleveland.

- Credo! - exclamou Weinberg.

O empregado pousou o chá gelado em frente a Kate. Ela sorriu.

- Fui uma vez a Cleveland. É uma cidade muito bonita - disse, olhando para o copo.

-Kate, não me agrada nada dizer-lhe isto - interveio Nick numa voz grave de barítono que mais parecia uma carícia - mas acho que não foi a Cleveland.

- Fui, sim senhor - retorquiu ela olhando com um sorriso para os olhos azuis.

- Se a achou bonita, é porque não foi lá.

- Está bem, digamos então que me diverti.

- Assim é melhor. já começo a acreditar.

Encomendaram camarão e espargos com molho vinagreta, acompanhados de baguettes quentes e deliciosas.

- Bem, Kate, vamos falar do programa? - perguntou Nick com um sorriso meigo.

- Estou a tentar não o fazer.

- Foi isso que pensei. - O sorriso alargou-se. - Não tem de preocupar-se com nada. A sério. Só precisa de fazer o que acabou de fazer.

- Comer até rebentar? - perguntou ela, e Nick sentiu uma súbita vontade de lhe fazer uma festa no cabelo bem penteado. Porém, achou melhor não fazer nada que a surpreendesse, se não, ela correria de volta para a floresta como uma gazela assustada. Ouvira atentamente o que Weinberg lhe dissera. Quando falava, Kate não era nada tímida. Aliás, era um pouco agressiva, e ele gostava disso. Porém, os seus olhos diziam outra coisa. Revelavam medo, tristeza e uma idade superior à do seu corpo e do seu rosto. Não fora feliz no seu esconderijo. Nick sentiu vontade de a abraçar. Isso teria dado cabo de tudo, com certeza. Weinberg matálo-ia. Sorriu e obrigou-se a ouvir o que ela estava a dizer acerca do programa.

- Não, Kate, estou a falar a sério. Só tem de conversar, rir-se um pouco, dizer o que lhe vier à cabeça... mas nada de palavrões, por favor! - Na noite anterior um dos convidados, um cómico que Jasper estivera ansioso por entrevistar, dissera duas vezes «merda» e uma vez «foda-se». Nick já tinha problemas de sobra. - Só tem de ser você própria. Descontraia-se. Escute. O Jasper é um excelente entrevistador. Vai sentir-se em casa.

- Não me parece; vou passar o tempo todo preocupada para ver se não desmaio ou se não vomito.

- Não vai nada. Vai adorar e não vai querer que aquilo acabe.

- Tretas.

- Não pode dizer nada mais forte do que isso, se não quem a expulsa sou eu!

- É em directo? - perguntou ela, apavorada; porém, ele abanou a cabeça.

- Não. Só tem de se mostrar muito bonita e de se divertir. Há alguma coisa em especial de que queira falar? - perguntou ele com um ar sério que Kate adorou.

Pensou durante um minuto e abanou a cabeça.

- Pense bem, Kate. Há algum aspecto do livro que signifique muito para si? Algo que o torne mais real, que o aproxime dos espectadores? Algo que os faça acorrer às livrarias para o comprar? Talvez qualquer coisa que tenha acontecido enquanto o escrevia? Aliás, por que motivo o escreveu?

- Porque quis contar uma história. Acho que era uma coisa importante para mim, por isso quis contá-la às outras pessoas. Mas isso não é nada de extraordinário. O fim de um casamento e de um romance não é uma coisa muito escaldante.

- Corte isso! - interveio Weinberg. - Não diga nada que dissuada as pessoas de comprarem o seu livro!

- A sério, Kate.

Nick observava-a de novo. Os olhos, os olhos, havia alguma coisa nos olhos dela. O que raio seria? Medo? Não, era outra coisa, algo mais profundo. Sentiu uma enorme vontade de saber o que era. Aqueles sentimentos não ajudavam nada a conversa. Kate pôs-se a olhar para as mãos, como se pressentisse que ele já vira de mais.

- Muito bem, porque é que escreveu sobre futebol?

Ela não levantou a cabeça.

- Porque achei que daria um bom pano de fundo e que os homens se identificariam com ele. Tem um bom valor comercial.

Nick não sabia por que motivo, mas não acreditava nela e, quando Kate o fitou, teve a certeza disso. Parecia que despertara alguma emoção.

- Fez algumas observações no livro bastante profundas, Kate. Foi isso que mais me entusiasmou. Você conhece bem o jogo. Conhece-o profundamente. Adorei isso.

- Jogou futebol na faculdade? - Kate tinha a sensação de que estavam os dois sozinhos. Stu Weinberg percebeu que fora esquecido, mas não se importou.

Nick assentiu em resposta à pergunta de Kate.

- Sim, durante a faculdade e depois um ano como profissional. Dei cabo dos joelhos na primeira época e tive de deixar de jogar.

- Teve sorte. É um desporto cruel.

- Acha mesmo? Não foi isso que me pareceu sentir no livro.

- Não sei. Creio que é uma forma selvagem de matar pessoas.

- Como sabe isso tudo, Kate?

A resposta dela foi rápida e fácil, dada com um sorriso à Hollywood.

- Fiz uma pesquisa cuidada.

- Deve ter sido divertido - retorquiu ele com um sorriso, continuando à procura, atento. Ela quis furtar-se de novo, mas não foi capaz. E o pior de tudo era que desejava não ter de furtar-se. Porém, não podia dar-se ao luxo de conhecer aquele homem. Ele conhecia o meio do futebol. Era perigoso. Nem sequer podia tê-lo como amigo. - Quer falar dessa pesquisa no programa?

Ela abanou a cabeça e depois encolheu os ombros.

- Acho que não teria interesse. Vi alguns jogos, falei com algumas pessoas, fiz entrevistas, li. Isso não vai ajudar em nada o livro.

- Talvez tenha razão. - Não ia insistir. - Bom, e a seu respeito? É casada? - Olhou para a aliança que ela tinha no dedo e recordou-se de Weinberg lhe ter dito que era viúva. No entanto, não queria dar a impressão de saber demasiado. Tanto quanto se apercebia, sabia muito pouco.

- Não. Sou viúva. Mas, por amor de Deus, não diga isso no programa. Vai parecer melodramático.

- Bem visto. Filhos?

O rosto dela iluminou-se e ela assentiu, embora com hesitação.

- Sim. Um. Mas também não quero falar sobre isso.

- Porque não? - perguntou Nick, admirado. - Bolas, se eu tivesse um filho não falava de mais nada. - Talvez ela possuísse uma faceta cruel, embora ele não achasse.

- Presumo que não os tenha.

- Que dedução brilhante, minha senhora - comentou ele, brindando-a com o resto do seu Bloody Mary. - Sou puro e ainda não fui tocado. Não tenho filhos, nem mulher, nem nada.

- Não? - perguntou ela, surpresa. O que faria um homem daqueles à solta? Seria homossexual? Não podia ser. Talvez gostasse de ser vedeta. Parecia a única resposta possível. - Acho que vivendo aqui isso faz sentido. Há tanto por onde escolher. - Olhou em volta com um sorriso malicioso e ele inclinou a cabeça para trás e desatou a rir.

- Apanhou-me.

Weinberg sorriu a ambos e descontraiu-se. Kate estava a sair-se lindamente. Ele não precisava de intervir.

- Então por que motivo não quer falar do seu filho? A propósito, é rapaz ou rapariga?

- Rapaz. Tem seis anos. É estupendo. Um verdadeiro pequeno cowboy. - Dava a sensação de estar a partilhar o seu maior segredo e Nick tornou a sorrir, observando-a. Kate voltou a ficar séria. - Não quero expô-lo àquilo que faço. Ele leva uma vida agradável e simples no campo. Quero que as coisas continuem assim. Não se dê o caso... não se dê o caso...

- De a mãe dele vir a tornar-se uma celebridade, hum? - Nick parecia divertido. - O que pensa ele de tudo isto?

- Pouca coisa. Mal me falava quando me vim embora.

Ele... não está habituado a que eu me ausente. Ficou furioso - disse ela, levantando a cabeça e sorrindo.

- Tem de levar-lhe uma coisa de que ele goste.

- Sim. Eu.

- Mima-o muito, não mima?

- Não. Uma pessoa amiga é que o mima. - Uma pessoa amiga. Então era isso. Havia mesmo alguém. Bolas! Porém, o rosto dela nada revelava.

- Então vamos a ver, como é que o pobre jasper fica esta noite? Não vai falar de futebol nem da sua pesquisa, e não vai falar do seu filho. E quanto a um cão? - perguntou Nick com um sorriso.

Stu fez uma careta e meteu-se na conversa.

- Não devias ter dito isso. Estragaste tudo. -Ela tem um cão?

- Tenho um Bert - afirmou Kate, empertigada. - O Bert não é um cão, é uma pessoa. É preto e branco e tem orelhas compridas.

- E o que é? Um cocker spaniel?

- Claro que não! - exclamou ela com ar ofendido. - É um basset hound.

- Bestial. Vou dizer ao jasper. Muito bem, minha senhora, agora a sério, do que é que vai falar? Do casamento? Que tal do casamento? Tem alguma opinião a esse respeito?

- Gosto muito. É bastante agradável. - Então porque não casaria com a «pessoa amiga» que mimava o filho? Seria que ainda gostava do marido? Nick ainda não percebera. Mas haveria de perceber.

- E da vida a dois? O que pensa acerca disso?

- Também é agradável. - Kate sorriu e acabou o chá gelado.

- De política?

- Não gosto de política. Mister Waterman - disse ela com uma expressão matreira - devo dizer-lhe que sou uma pessoa muito aborrecida. Escrevo. Adoro o meu filho.

- E o seu cão. Não se esqueça do seu cão.

- E o meu cão. É tudo.

- E as aulas que dá? - interveio de novo Stu com uma expressão séria. - Não dá aulas a crianças deficientes ou algo parecido? - Falara com Tillie algumas vezes ao telefone quando Kate fora visitar Tom.

- Prometi à escola que não falava disso. - Era uma mentira que Kate ainda conseguia dizer fácilmente.

Nick Waterman encostou-se à cadeira com um sorriso.

- Já sei! O tempo! Pode falar com o jasper sobre o tempo! - Gracejava, mas Kate pareceu um pouco abatida.

- É assim tão mau? Meu Deus, desculpem.

Logo a mão de Nick cobriu as dela e a sua expressão revelava quase amor. Aquilo sobressaltou-a, pois acontecera demasiado depressa.

- Estava só a brincar consigo. Vai correr tudo bem. Nunca sabemos o que vai acontecer. Podem vir ao de cima assuntos que você nem julgava que lhe interessavam. Pode ser que conduza o programa. Porém, independentemente de tudo o resto, você é suficientemente inteligente, bonita e divertida para fazer um óptimo programa. Descontraia-se. Eu estarei atrás das câmaras a acenar-lhe, a sorrir-lhe e a fazer caretas para você sorrir.

- Não vou ser capaz - declarou ela quase com um gemido.

- Acho melhor que seja, minha querida. Se não, dou-lhe uma sova - retorquiu Weinberg e riram os três.

Kate tinha de admítir que já se sentia melhor. Pelo menos sabia que existia um amigo no programa. Nick Waterman já era um amigo.

- O que vai fazer esta tarde? - perguntou Nick olhando para o relógio. já eram três e dez e ele tinha coisas para fazer no estúdio.

- Pensei em ir dar um mergulho e descontrair um bocado. Tenho de lá estar a um quarto para as sete?

- É melhor às seis e um quarto ou às seis e meia. Começamos a gravar às sete. Pode retocar a pintura, conversar com os outros convidados na Sala Vermelha, e pôr-se à vontade. Oh, e antes que me esqueça, não pode levar roupa branca. Reflecte demasiado a luz.

- Não posso? - perguntou ela, horrorizada. - E branco sujo?

Ele abanou a cabeça.

- Oh, meu Deus.

- Não trouxe mais nada? - perguntou ele tal como um marido pergunta à mulher enquanto ela se veste, e Kate sentiu-se pouco à vontade com aquela intimidade.

- Ia vestir um fato creme com uma blusa cor de pêssego.

- Acho muito bonito. Tenho de a convidar para jantar um dia destes para a ver com esse fato. Mas não no programa, Kate. Lamento.

Parecia de facto lamentar e Kate ficou aflita. Devia ter dado ouvidos a Licia e trazido mais coisas da loja, mas sentira-se demasiado segura acerca do fato. E a única peça de roupa que lhe restava era aquele vestido de chiffon azul-escuro provocante. Bolas, iriam julgá-la uma prostituta.

- Tem mais alguma coisa? Pode sempre ir às compras.

- Acho melhor. Trouxe outra coisa, mas acho que é demasiado provocante. - Weinberg aproximou-se e Waterman fitou-o. Tinham ambos temido que ela vestisse uma roupa demasiado séria.

- O que é?

- Um vestido de alças azul-escuro. Mas acho que ficava com ar de prostituta.

Os dois homens sorriram.

- Acredite, Kate, que mesmo que quisesse nunca ficaria com ar de prostituta.

- Isso é um elogio? - Pressentia que não, mas Nick olhou em volta com uma expressão de tédio para as mulheres demasiado enfeitadas nas mesas à volta.

- Nesta cidade, Kate, é um elogio. O vestido é sexy?

- Mais ou menos. Eu considerá-lo-ia elegante.

- Encantador?

Ela tornou a assentir, atrapalhada, e ele pareceu ficar radiante.

- Leve-o.

- Está a falar a sério?

- Estou. - Os dois homens trocaram um sorriso e Nick Waterman pagou a conta.

 

Kate olhou-se ao espelho quando se preparava para sair do bangaló. Tencionara chamar um táxi, para não se perder a conduzir sozinha nas ruas de Los Angeles. No entanto, a se cretária de Nick telefonara a dizer que iam mandar alguém buscá-la. Às seis. E tinham acabado de telefonar da recepção a avisar que o carro já chegara. Kate telefonara duas vezes a Felicia, em pânico. Falara com Tygue. Fora à piscina, lavara a cabeça, pintara as unhas e mudara três vezes de brincos e de sapatos. Estava pronta. Continuava a sentir-se uma prostituta com aquele vestido. Mas uma prostituta cara.

O vestido mostrava os seus ombros estreitos e elegantes e o seu pescoço comprido. Tinha uma alça no pescoço e nas costas muito pouco tecido, mas ninguém veria isso Com ela sentada. O vestido estreitava na cintura e depois voltava a cair largo. Acabara por decidir levar as sandálias azul-escuras que Licia sugerira, brincos de pérolas e o cabelo apanhado. Era o mesmo penteado que a mãe tinha quando Kate a vira pela última vez, havia muitos anos, embora ela já não se lembrasse. Aquele penteado era o que mais a favorecia. E, para além dos brincos, a única jóia que levava era a aliança. Estava linda e o espelho confirmou-o. Kate esperava que Nick fosse da mesma opinião, e corou quando pensou nisso. Não Nick como homem, mas como produtor do programa. No entanto, na sua mente confundia as funções de Nick com as de mentor, conselheiro, amigo, homem. Era estranho experimentar todos aqueles sentimentos por alguém que acabara de conhecer. Sentia-se ansiosa por vê-lo e por saber se estava bonita para o programa. Se não estivesse, pior. Não fora às compras nessa tarde. Decidira apostar no único vestido decente que tinha. Se não gostassem dele para o programa, nada poderia fazer para remediar. Porém, Felicia dissera que todos iriam adorá-lo, e ela tinha normalmente razão.

Kate tapou os ombros com um xaile azul de croché muito fino, pegou na mala e abriu a porta. «É agora.» Não conseguia tirar as palavras da cabeça: «E agora.» Não se permitiu dar ouvidos ao receio enquanto se dirigia num passo rápido ao átrio do hotel e depois saía. Parou junto ao porteiro.

- Miss Harper?

Como diabo é que ele sabia? Havia dezenas de pessoas a passar. Era espantoso. Reparou num casaco de chinchila até aos pés numa mulher muito velha e feia, seguida por três homens de meia-idade, e obrigou-se a prestar atenção ao porteiro.

- Sim, sou Miss Harper.

- O carro está à sua espera. - Fez sinal a uma limusina estacionada, e um enorme Mercedes cor de chocolate parou à sua frente. «Para mim? Pareço a Cinderela!» Apeteceu-lhe rir, mas não teve coragem.

- Obrigada. - O motorista segurou-lhe a porta, pois saíra do carro antes de o porteiro ter tido tempo de lá chegar, e os dois homens fardados ficaram a vê-la entrar. De novo, Kate sentiu uma enorme vontade de beliscar alguém, de desmaiar, de rir. Mas não havia ninguém com quem se rir. Estava desejosa de voltar a ver Nick e de lhe falar. Depois percebeu que não podia fazê-lo. Para ele, aquilo acontecia todos os dias. Para ela, era uma vez na vida.

O carro atravessou zonas que Kate não conhecia, passou por mansões com palmeiras, estradas misteriosas onde ela se teria perdido, até que se aproximou de um edifício comprido e despretensioso cor de areia. O estúdio. O carro parou, o motorista abriu-lhe a porta e ela saiu. Era difícil não sair de forma imponente. Era difícil não exibir um ar imperial. Porém, Kate recordou a si própria que Cinderela perdera um sapato de cristal e quase partira as costas nas escadas.

- Obrigada. - Sorriu ao motorista e ficou satisfeita com o facto de a sua voz continuar a soar como a de Kate, não como a de «MiSs Harper». No entanto, começava a gostar do que rodeava «Miss Harper». Era extraordinário. KaitlIn Harper. A Escritora.

junto à porta do edifício encontravam-se dois seguranças que lhe pediram a identificação, no momento de entrar. Mas antes de ela a poder mostrar, surgiu uma jovem loura que sorriu aos seguranças.

- Eu agora levo-a para cima, Miss Harper.

Os dois seguranças também sorriram e um deles olhou com uma expressão apreciativa para o rabo da rapariga. Ela envergava calças de ganga, um par de sapatos Gucci e um pequeno top branco transparente. Kate sentiu-se uma velha. A rapariga tinha provavelmente apenas vinte e dois anos e uma expressão que Kate há muitos anos não tinha, se é que alguma vez tivera. Talvez, no passado, há cerca de mil anos... era difícil recordar-se.

- Já está tudo pronto na Sala Vermelha. - A rapariga continuou a conversar durante a viagem de elevador para o primeiro andar. Podiam perfeitamente ter subido a pé, mas Kate pressentiu de imediato que não era isso que devia fazer. Estava numa cidade onde tudo o que uma pessoa fazia reflectia o seu estatuto.

Saíram para um corredor, e Kate tentou olhar para as fotografias penduradas na parede. Eram de rostos que ela conhecia do cinema, dos jornais, dos noticiários, até alguns rostos das contracapas dos livros. Perguntou a si mesma se um dia o seu rosto estaria também ali e, num momento de loucura deliciosa, desejou que sim. Kaitlin Harper... Ali! Sou eu! Estão a ver? Sou eu! Sou a Kate! Mas a rapariga já segurava uma porta para ela passar. O santuário. Um grupo de seguranças protegia o seu exterior e o seu interior, e a porta só se abria com uma chave. Seguiu-se um longo corredor com alcatifa branca. Branca? Nada prático. Porém, era evidente que ninguém se ralava. Era linda. Mais fotografias. Estas eram mais pessoais, e Jasper Case estava em todas. Nas fotografias parecia ser um homem atraente, de cabelos grisalhos e muito alto. Havia nele uma certa elegância. E, como já vira alguns programas, Kate sabia que o seu sotaque britânico contribuía para dar essa imagem distinta. Jasper Case conseguia fazer as melhores entrevistas da televisão porque nunca era pretensioso, cruel, mas sim atencioso, interessado, conseguindo cativar os espectadores. Quem estava em casa a beber um Ovomaltíne e a assistir ao programa antes de se ir deitar tinha a sensação de que os convidados de Jasper se encontravam na sua sala e o incluíam no grupo.

Kate continuava a olhar fascinada para as fotografias quando ouviu outra porta abrir-se com umas das chaves mágicas da rapariga e viu o que parecia ser a sala dos convidados. Era rosa-Velho e muito elegante. Havia um sofá, várias poltronas, uma chaise-longue, um toucador, muitas orquídeas em vasos e outras plantas deslumbrantes pendentes do tecto. Era o tipo de sala que Kate gostaria de ter como escritório, em vez do buraco escuro onde ela, como a maior parte dos escritores, trabalhava.

- Este é o seu camarim, Miss Harper. Pode mudar de roupa, ou deitar-se um pouco. O que lhe apetecer. Quando estiver pronta, toque à campainha e eu levo-a à Sala Vermelha.

«A sério? Promete? Mas tenho mesmo de fazer isso?» Kate gostava da sala cor-de-rosa. Quem precisava da vermelha?

- Obrigada. - Foi a única palavra de que conseguiu

lembrar-se. Sentia-se deslumbrada com tudo aquilo. E quando entrou na sala e a porta se fechou, reparou num delicado bouquet de rosas e gipsófila, com um pequeno cartão. Aproximou-se, perguntando a si mesma se as flores seriam para outra pessoa. Com certeza alguém mais importante. Mas no sobrescrito estava escrito o seu nome. Abriu-o cheia de curiosidade e com dedos trémulos. Seriam de Stu?

Não. Eram de Nick. «Não se esqueça do cão e do tempo. Nick.» Kate soltou uma gargalhada, sentou-se e olhou em volta. Não tinha mais nada para fazer, a não ser olhar. O xaile escorregou-lhe dos ombros quando se sentou numa das confortáveis poltronas e se sentiu ser engolida por ela. Em seguida, nervosa, levantou-se de um pulo e viu-se no espelho de corpo inteiro. Estaria bonita? Seria o vestido horrível? Estaria... seria... deveria... Uma pancada na porta interrompeu os seus devaneios e ela quase entrou em pânico.

- Kate?

Era uma voz de homem, uma voz grave, e Kate sorriu. Afinal de contas não estava sozinha. Abriu a porta e ali estava ele, alto e sorridente. Nicholas Waterman. Era mais alto do que aquilo que ela recordava do almoço, mas o seu olhar continuava o mesmo, muito meigo, o olhar de um amigo.

- O que está a fazer?

- Estou um caco. - Convidou-o a entrar e fechou a porta com um ar de conspiração. Depois lembrou-se das rosas. - Obrigada pelas flores. Que tal estou? - As Palavras saíram-lhe a custo e só lhe apetecia deitar-se no chão de barriga para baixo e esconder-se. - Oh, não aguento! - Sentou-se na poltrona e quase gemeu.

Nick riu-se.

- Está linda. E vai sair-se lindamente. Lembre-se do cão e do tempo. Percebido?

- Ora, cale-se! - Depois reparou que a observava. - O que foi?

- Solte o cabelo.

- Agora? Depois não consigo penteá-lo como estava - disse ela em pânico.

- A questão é precisamente essa, tontinha. Vá lá. Esse vestido requer cabelo comprido.

Sentou-se no sofá ao lado dela à espera, e Kate fitou-o, perplexa.

- Faz isto a todas as pessoas que vêm ao programa?

Era um pensamento pouco animador. Esperava que não.

- Claro que não. Mas nem toda a gente vem ao programa falar do cão e do tempo.

- Importa-se de parar com isso? - pediu Kate com um sorriso. Tornou a pensar que adorava os olhos dele.

- Solte o cabelo. - Nick parecia um irmão mais velho a tentar ensinar-lhe um desporto novo.

Kate teve vontade de resistir, mas decidiu deixar-se convencer.

- Está bem. Mas vou ficar horrível.

- Mesmo que quisesse, não ficava. -Você é louco.

Parecia conversa de casa de banho. Ele fazia a barba enquanto ela secava o cabelo. Ela penteava-se enquanto ele fazia o nó da gravata. Kate olhou para ele com um sorriso enquanto o seu cabelo caía em cascata até aos ombros em ondas suaves e macias. Níck sorriu. Tivera razão.

- Está linda. Veja-se ao espelho. - Ela fê-lo, mas franziu o sobrolho.

- Parece que acabei de me levantar.

Nick sentiu vontade de lhe dizer uma coisa, mas não disse. Limitou-se a sorrir.

- Está perfeita. E acabou de vender o livro a metade dos homens americanos. A outra metade é demasiado velha ou demasiado nova. Porém, se ainda estiverem acordados quando o programa for para o ar, tê-los-á convencido.

- Gosta assim?

-Adoro. - E adorava o vestido. Estava linda. Alta e delicada, elegante e sensual. Possuía um certo encanto ingénuo. Não se apercebia disso, mas era o tipo de mulher que os homens fariam tudo para conquistar. Era a subtileza, a timidez que se vislumbrava no seu humor, a reserva à mistura com um ar matreiro. Sem pensar, ele pegou-lhe na mão. - Está pronta?

Kate tinha vontade de fazer chichi, mas não podia dizer-lhe isso. Limitou-se a assentir com um sorriso.

- Estou - disse ela, ofegante.

- Então, passemos à Sala Vermelha.

Lá havia champanhe e café, sandes, um prato com patê de fole gras, revistas, aspirinas e vanos outros medicamentos para males menores, incluindo alguns para combater ressacas. Kate viu alguns rostos que nunca esperara ver na mesma sala. Um jornalista de Nova Iorque, um comediante de que ouvira falar toda a vida e que acabara de chegar de Las Vegas para o programa, uma cantora, uma actriz e um homem que passara quatro anos em África a escrever um livro sobre zebras. Kate ouvira falar de todos, vira-os a todos. Ali não havia ninguém desconhecido. Depois sorriu para si própria. A desconhecida era ela.

Nick apresentou-a a toda a gente e estendeu-lhe a ginger ale que ela pedira. Precisamente às dezoito e quarenta e cinco saiu da sala. O homem das zebras estava sentado à frente de Kate com uma conversa de chacha no seu sotaque praticamente ininteligível de Eton, e a cantora observava Kate.

- Parece que o produtor gosta muito de si, querida. É uma paixão antiga ou recente? Foi assim que conseguiu vir ao programa? - perguntou ela exibindo unhas escarlates semelhantes a garras e sorrindo para a actriz, que era sua amiga. Havia um rosto novo na cidade e isso não lhes agradava. Kate sorriu-lhes, desejando desaparecer. O que raio se respondia àquilo? Vá-se lixar? Posso pedir-lhe um autógrafo? Continuou a sorrir e cruzou as pernas, perguntando a si mesma se as outras conseguiriam ver os seus joelhos a tremer. Depois o jornalista e o comediante salvaram-na, como se tivessem caído do céu só com esse propósito. O jornalista insistiu que precisava da ajuda dela para o pâté e o comediante disse algumas piadas; ficaram os três a um canto na conversa enquanto que, no canto oposto, as outras duas mulheres ferviam. Porém, Kate não reparou. Estava demasiado nervosa e demasiado entretida a conversar. Nick tivera razão; todos os homens naquela sala teriam dado o braço direito para ir com ela para casa. Kate estava demasiado preocupada com o programa para reparar no efeito que lhes provocava.

- Que tal é?

- Como cair sobre uma cama de algodão doce - respondeu o comediante, olhandoa com um sorriso. - Gostaria de experimentar um dia destes?

Kate soltou uma gargalhada e bebeu um pouco de gínger ale. Bolas, e se aquilo a fizesse arrotar? Largou o copo e apertou o guardanapo de papel com as mãos húmidas.

- Não se preocupe, minha querida. Vai adorar - murmurou o comediante com um sorriso terno. Tinha idade suficiente para ser pai dela, mas Kate sentiu a mão dele no joelho. Não sabia se iria adorar ou detestar a experiência. E então, chegou a hora de começarem a gravar. A sala pareceu encher-se de electricidade e todos se calaram.

A cantora foi em primeiro lugar. Interpretou duas canções e veio-se embora depois de falar com Jasper durante cinco minutos, que lhe disse estar «muito grato por ela lá ter podido ir, pois sabia que tinha um programa especial para gravar». Kate ficou bastante satisfeita quando ela se foi embora cinco minutos mais tarde. O jornalista foi entrevistado a seguir e teve imensa piada. Era já um habítué no programa. Depois a actriz. O comediante. E a seguir... «Oh meu Deus... não!» Restavam apenas ela e o homem das zebras... e o homem que se encontrava à porta com auscultadores chamou Kate. «Eu? Agora? Não posso!» Mas teve de ir.

Teve a sensação de que enfrentava um vento forte, ou que se atirava de um penhasco. Sentia-se entorpecida. Não era capaz de ouvir o que ele estava a dizer. Pior ainda, não conseguia ouvir-se a si própria. Sentiu vontade de gritar, mas não o fez. Ouviu-se rir, conversar, admitiu vestir uma roupa horrível quando escrevia, falou do que sentia a viver no campo. A infância de Jasper fora passada num local que, segundo ele, era semelhante ao local que Kate descrevera. Falaram da escrita e da disciplina da profissão e até de como era engraçado vir a Los Angeles. Kate deu consigo a dizer piadas sobre as mulheres que vira junto à piscina, sobre os velhos flácidos com as suas calças de ganga e camisas justas e os fios de ouro ao pescoço. Quase fez um comentário escandaloso, mas controlou-se a tempo, o que tornou tudo ainda mais engraçado, porque o público percebeu a alusão sem ter sido necessário dizê-la. Foi fabulosa, foi Kate. E lá fora, atrás das luzes, dos fios, das câmaras, encontrava-se Nick, a fazer-lhe sinais de vitória e a sorrir cheio de orgulho. Ela conseguira! Depois foi a vez do homem das zebras e nessa altura Kate já estava completamente à vontade, a rir-se e a adorar tudo aquilo, participando nas piadas e na conversa. O jornalista e o comediante davam-lhe boas deixas e ela parecia já trabalhar com Jasper há muitos anos. Foi um daqueles programas animados do princípio ao fim, e Kate foi o diamante da tiara da noite. Ainda se sentia esfuziante quando a gravação terminou, e Jasper beijou-a na face.

- Foi maravilhosa, minha querida. Espero voltar a vê-la. -Obrigada! Oh, foi maravilhoso E tão fácil! - exclamou, corada e ofegante e a adorar. De súbito deu por si nos braços do comediante.

- Quer experimentar agora a tal cama de algodão doce, minha querida?

Kate, porém, respondeu-lhe com uma gargalhada. Adorava-os a todos. Nick aproximou-se, sorrindo-lhe, e Kate sentiu uma impressão estranha no ventre.

- Conseguiu. Foi magnífica. - A sua voz era muito meiga na agitação do estúdio.

- Esqueci-me de falar no cão e no tempo.

Trocaram um sorriso. Ela sentia-se bastante tímida junto dele. Era de novo Kate, não a mítica Miss Harper.

- Então tem de vir cá novamente.

- Obrigada por me ter descontraído.

Ele deu uma gargalhada e pousou o braço nos ombros dela. Gostou de sentir a pele de Kate junto à sua.

- Quando quiser, Kate, quando quiser. A propósito, temos ainda cerca de dez minutos antes de irmos para a tal festa.

Katejá quase se havia esquecido completamente. E quanto a Stu? Não ficara de se encontrar com ele?

- Não sei... acho... acho que o Stu...

- Ele ligou antes de você chegar. Vai lá ter connosco. É o aniversário do Jasper, sabia? Todos vão estar presentes. Era como a Cinderela no baile. Mas porque não? Ela estava desejosa de comemorar.

- Parece-me bem.

- Quer ir numa daquelas bananas castanhas, ou vamos fugir à multidão? - Assinou um papel que alguém lhe estendia e olhou para o relógio.

-           Bananas castanhas? - perguntou Kate confusa.

-           - Foi o que mandei para buscá-la. A limusina castanha. Temos duas. Vão todos para a festa nas duas limusinas, os convidados do programa e o Jasper. Mas nós podemos evitar a confusão e ir no meu carro.

Parecia mais simples, embora também perturbador. Kate deixaria de se sentir em segurança no meio de um grupo. Por outro lado, tinha a impressão de que o comediante arranjaria maneira de lhe voltar a meter a mão no joelho. Seria mais fácil ir com Nick.

- Posso levar as minhas flores?

Nick sorriu. Ela lembrara-se. Nunca ninguém se lembrava. Deixavam as flores no camarim e alguém as fazia chegar a casa. Porém, Kate lembrara-se. Era desse género.

- Claro que sim. Que importância tem molhar-me o carro?

Riram-se e levou-a de volta ao camarim. No estúdio, tudo começava a ficar mais calmo, por contraste com o ambiente de tensão que Kate sentira antes de o programa ser gravado. Que vida! Passar por aquilo todos os dias. No entanto, não deixava de ser excitante. Nunca se sentira tão bem. Ou pelo menos, há muito que não se sentia assim. Há mesmo muito tempo.

Pegou na jarra com as rosas e a gipsófila. já guardara o cartão na mala. Era uma recordação da sua noite como Cinderela.

- Obrigada pelas flores, Nick. - Teve vontade de perguntar-lhe se ele era sempre tão atencioso, mas não foi capaz. Teria sido falta de educação.

Tudo acabara. A sua actuação chegara ao fim. Eram de novo pessoas reais. Ele deixara de ser o produtor e ela a vedeta. Kate sentiu-se constrangida enquanto se dirigiam ao carro dele e depois parou e assobiou. Aquele assobio contrastava bastante com o seu aspecto.

- É seu? - Estavam junto a um Ferrari azul-escuro com estofos de cabedal creme.

- Confesso que sim. Tive de deixar de comer quando o comprei.

- Espero que tenha valido a pena.

Porém, a julgar pela maneira como ele olhava para o carro, Kate soube que valera a pena. À sua maneira, Nick era também uma criança grande. Abriu a porta para ela entrar e Kate sentou-se no banco. Até o cheiro do carro era distinto, uma mistura de bom cabedal e água-de-Colónia cara. Kate ficou satisfeita com o facto de o carro não tresandar a perfume. Isso tê-la-ia incomodado.

Sentiu-se bastante confortável ali no escuro. Nick entrou no trânsito e Kate recostou-se e começou a descontrair-se.

- Porque ficou de repente tão calada?

Ele reparara.

- Acho que estou a libertar a tensão.

- Não faça isso já. Espere pela festa.

- Vai ser parecida com um manicónio?

- Sem dúvida. Acha que vai aguentar?

- Isto é um começo e peras para uma rapariga do campo, Mister Waterman. - No entanto, estava a adorar, e Nick percebeu.

- Algo me diz, Kate, que não foi sempre uma rapariga do campo. Nada disto é novidade para si, pois não?

- Pelo contrário, é tudo novidade. Nunca tive os projectores virados para mim.

- Mas já os viu virados para pessoas perto de si, não viu?

Kate quase deu um salto no banco, com o susto. O que dissera ele? Ela desviou o olhar e abanou a cabeça.

- Não. Tive uma vida bastante diferente desta.

Nick percebeu que quase a perdera. Kate voltara a recolher-se no casulo. Porém, de forma inesperada, ela fitou-o com um sorriso meigo e um brilho nos olhos.

- E nunca tinha andado num Ferrari.

- Onde é que viveu antes de ir para o campo?

- Em São Francisco - respondeu ela depois de hesitar uma fracção de segundo.

- Gostou?

- Adorei. Estive muitos anos sem lá ir até que, há cerca de um mês, levei lá o meu filho, e ele também adorou. É uma bela cidade.

- Está a pensar em voltar a viver lá? - perguntou ele, interessado.

Kate encolheu os ombros.

- Nem por isso.

- é pena. Estamos a pensar em mudar o programa para lá.

Ficou admirada.

- Vai sair de Hollywood? Porquê?

- O Jasper não gosta disto. Quer viver num sítio mais «civilizado». Sugerimos-lhe Nova Iorque. No entanto, ele também está farto da cidade. Viveu lá dez anos. Quer São Francisco. E desconfio - acrescentou ele com um sorriso pesaroso - que se o desejar com muita força acabará por conseguir.

- E o que é que você acha?

- Por mim tudo bem. já me diverti aqui o que tinha a divertir. Isto começa logo a cansar.

- Rápido, tragam as virgens vestais! - exclamou Kate com uma gargalhada e Nick fez-lhe uma festa no cabelo.

- As vestais, hein? Deve julgar que tenho uma dúzia delas por dia.

- E não tem?

- Bolas, não. já não! Embora tente, não sou capaz de despachar mais de oito ou nove mulheres por dia. Deve ser da idade.

- Pois deve.

Brincavam e tentavam conhecer-se. Quem és tu? O que queres? Do que é que precisas? Onde vais? Mas o que importava isso? Kate lembrou-se, com uma certa tristeza, que provavelmente não voltaria a vê-lo depois daquela noite. Talvez dali a cinco anos, se escrevesse outro best seller, e se ele ainda trabalhasse no programa, se houvesse ainda programa... se. - Está com medo?

- Hum?

- Tem um ar tão sério. Será que está nervosa por causa da festa?

- Acho que sim, um bocadinho. Mas não importa. Sou uma desconhecida. Posso ficar invisível.

-Duvido muito, minha querida. Acho que nunca seria capaz de ficar invisível.

- Tretas!

Riram e ele estacionou numa rua ladeada de palmeiras em Beverly Hills. já há dez minutos que se encontravam numa zona de enormes vivendas.

- Deus do Céu! É esta a casa do jasper?

Parecia tão grande como o Palácio de Buckingam. Nick abanou a cabeça.

- E do Hilly Winters. -O produtor de cinema?

- Sim, minha senhora. Vamos?

Três empregados de fato de treino branco aguardavam para arrumar os carros, e a porta da casa era aberta por um mordomo e por uma empregada. Puderam ver o vestíbulo brilhantemente iluminado antes de a porta voltar a fechar-se. Kate não sabia se havia de olhar lá para dentro se para o número interminável de Rolls Royces e de Betitleys que estavam a chegar. Era fácil perceber por que motivo Nick comprara o Ferrarí. Vivia num mundo completamente diferente de todos os outros.

A porta voltou a abrir-se e foram imediatamente sugados para o centro da tempestade. Deviam estar ali cerca de trezentas Pessoas, e Kate viu uma mistura de candelabros, velas, lantejoilas, diamantes, rubis, peles e seda. Avistou vedetas de todos os filmes que vira, e outras de que apenas ouvira falar.

-As pessoas vivem mesmo assim? - murmurou Kate. A casa tinha um salão de baile completamente espelhado que fora trazido peça por peça de um dos castelos do Loire. Como podia aquilo ser real?

- Algumas pessoas vivem, Kate. Algumas durante algum tempo, outras para sempre. A maior parte não se aguenta muito. Ganha uma fortuna no cinema, gasta-a, desperdiça-a. - Olhou para um grupo de estrelas de rock do outro lado do salão. Vestiam roupas de cetim muito justas e a mulher do vocalista envergava um vestido cor de carne bastante reduzido e um casaco de zibelina até ao chão, com capuz. Era um bocado quente para o local, mas ela parecia não se importar.

- Aquele tipo de pessoas vem e vai rapidamente. As pessoas como o Hilly hão-de ficar cá para sempre.

- Deve ser divertido. - Kate parecia uma criança a espreitar da balaustrada um baile de Carnaval.

- É isso que quer? - No entanto, já sabia a resposta.

- Não. Acho que não quero nada diferente daquilo que já tenho.

Pois. «A pessoa amiga que mima o seu filho.» Nick lembrou-se disso e sentiu-se amargurado. Ela possuía mais do que qualquer pessoa naquele salão. E muito mais do que aquilo que ele possuía. Cadela sortuda. Mas ela não era uma cadela. Era isso que o incomodava. Gostava de Kate. Demasiado. E ela era tão ingénua. Perguntou a si mesmo o que aconteceria se a agarrasse e a beijasse. Provavelmente ela dava-lhe um estalo. Que gesto tão maravilhosamente antiquado. O pensamento fê-lo rir-se quando pousou a taça de champanhe vazia num tabuleiro. Então reparou que ela desaparecera. Fora levada pela corrente de pessoas, e Nick avistou-a a cerca de seis metros, a ser abordada por um tipo com um casaco de veludo castanho-avermelhado. Era um dos habitués. Cabeleireiro de alguém, namorado de alguém, filho de alguém. Havia muitos tipos como ele em Hollywood. Nick começou a avançar lentamente pela multidão, a fim de ir buscá-la. Não conseguia ouvir a conversa, mas percebeu que Kate não estava a gostar.

- Harper? Ah, sim. A escritora que foi hoje ao programa do jasper. Vimo-la.

- Que simpático. - Esforçava-se por ser bem-educada, mas não era fácil. Para começar, o homem estava bêbedo.

Kate ainda não tinha percebido como pudera ter sido tão afastada de Nick; porém, havia muita gente e o salão de baile estava a tornar-se a atracção principal. A banda começava a tocar música rock.

- Como é que uma rapariga como você escreveu um livro sobre futebol?

- E porque não? - Olhou para Nick. Era escusado tentar chegar junto dele. Ele já vinha a caminho. Talvez demo rasse mais dois minutos.

- Sabe, houve um jogador de futebol aqui há uns anos

que tinha o seu nome. Harper. Bill Harper. Joe Harper. Qualquer coisa do género. Enlouqueceu. Tentou matar uma

pessoa mas acabou por dar um tiro nele. Loucos. São todos loucos. Assassinos. É da família dele? - perguntou, olhando para Kate e arrotando.

Teria tido piada, só que de repente o relógio deu as doze badaladas da meia-noite. Acabara. Acontecera. Alguém recordara. Alguém. Não era preciso mais nada.

Do local onde se encontrava, Nick viu o pânico assomar ao rosto de Kate.

- É da família dele? - O tipo era persistente e exibia um sorriso diabólico.

- Eu... o quê? Não. Claro que não!

- Foi o que pensei.

Porém, Kate já não escutou as suas últimas palavras. Dirigiu-se para Nick, que acabara de transpor a última barreira de corpos entre ambos e a alcançara finalmente.

-Você está bem? Aquele tipo disse-lhe alguma coisa desagradável?

- Eu... não... não, nada disso. - Nos seus olhos havia lágrimas e ela virou a cabeça noutra direcção. - Desculpe Nick, não estou a sentir-me bem. Deve ser da excitação toda. Do champanhe. Vou... vou chamar um táxi. - Apertava a mala e olhava em volta enquanto falava.

- Uma ova é que vai. Tem a certeza de que aquele tipo não foi incorrecto? - Era capaz de o matar se tivesse sido esse o caso. O que diabo lhe teria feito?

- Não, a sério. - Nick sabia que ela não iria contar-lhe a verdade e isso enfurecia-o ainda mais. - Só quero ir para casa - disse ela, tal como uma criança e, sem dizer palavra, Nick pôs um braço sobre os ombros dela e conduziu-a até ao vestíbulo e depois para a rua, após ter ido buscar o xaile dela.

- Kate, por favor, conte-me o que aconteceu - pediu ele fitando-a, enquanto esperavam pelo carro.

- Não aconteceu nada, Nick. Nada. A sério.

Levantou a cabeça dela sem dizer palavra e viu duas lágrimas escorrerem pelo rosto de Kate.

- Assustei-me apenas, nada mais. Há muito tempo... há muito tempo que não estou ao pé de outra pessoa.

- Desculpe, minha querida. - Abraçou-a e ficaram assim até o carro chegar. Kate manteve-se imóvel, sentindo o casaco dele na sua pele e o seu cheiro. Nick cheirava a especiarias e a limão e a sua presença era protectora. Quando o carro Chegou, ela afastou-se devagar, respirou fundo e sorriu. - Desculpe ter sido tão idiota.

- Não foi. E eu peço desculpa pelo que aconteceu. Esta devia ter sido a sua grande noite.

- E foi - afirmou Kate, fitando-o. Entrou no carro. Pelo menos fora ao programa. Fora à festa. Ninguém tinha culpa de alguém se ter recordado de Tom. No entanto, perturbava-a saber que ainda não o haviam esquecido. Por que motivo não se lembravam dos bons anos? Dos tempos felizes? Por que motivo se lembravam só do fim? Kate levantou a cabeça e apercebeu-se de que Nick a observava. Ainda não pusera o carro a trabalhar. Queria levá-la para sua casa, mas não podia, e tinha consciência disso.

- Quer parar nalgum lado para tomar qualquer coisa?

Ela abanou a cabeça. Nick já estava à espera daquela resposta. Também não lhe apetecia ir beber nada. E não sabia o que havia de sugerir. Um passeio? Um mergulho? Não sabia. Queria fazer com ela algo simples, não algo à Hollywood. Por vezes, odiava aquela cidade, tal como naquele momento.

- Então, quer ir para o hotel?

Ela assentiu, esboçando um sorriso de gratidão.

- Você foi maravilhoso, Nick.

Estava a correr com ele. Nick sentiu vontade de bater em alguém. Kate não percebeu o silêncio dele durante o caminho de regresso. Tinha medo de que ele estivesse zangado. No entanto, ele parecia apenas triste. Ou talvez magoado. Sentia-se impotente.

- De certeza que não consigo convencê-la a fazer alguma coisa agradável, como ir comer um gelado?

- As pessoas daqui têm esses prazeres simples?

- Não, mas por si eu haveria de descobrir uma gelataria.

- Tenho a certeza de que sim - disse ela com ternura, sentindo uma enorme vontade de tocar no rosto dele quando pararam junto ao hotel. - A Cinderela teve o seu grande baile. E, se eu fosse a si, ia-me embora antes que este carro se transforme numa abóbora. - Riram-se e ela pegou no bouquet de rosas. - Está a ver, não lhe molhei o carro. - Nick continuava a observá-la e ela obrigou-se a olhá-lo nos olhos.

- Obrigada, Nick. Por tudo.

Ele não se mexeu, e ela também não. Hesitava. Queria tocar-lhe. Na mão. No rosto. Estender os braços e deixar que ele a abraçasse. Mas agora era diferente. Kate sabia que não podia fazer isso. E sabia também que não voltaria a vê-lo.

- Obrigado eu, Kate - agradeceu ele. Parecia estar a fa lar a sério, embora Kate não percebesse por que haveria ele de lhe estar grato.

- Boa noite. - Tocou-lhe ao de leve na mão, abriu a porta do carro e saiu. O porteiro fechou a porta do Ferrarí e Nick ficou a vê-la afastar-se. Não saiu, não a chamou, nem se moveu. Limitou-se a ficar ali sentado durante bastante tempo. E quando lhe telefonou na manhã seguinte, ela já se tinha ido embora. Serviu-se de todos os seus conhecimentos para saber pelo gerente que ela partira pouco depois da uma da manhã. Logo a seguir a ele a ter deixado no hotel. Não fazia grande diferença, mas mesmo assim ele quis saber. Fora aquela maldita festa. Raios! E nem sequer sabia onde ela vivia. Perguntou a si mesmo se Weinberg lhe diria.

 

- Tygue, já disse que não!

- Dizes sempre que não. Não me interessa o que dizes! -Vai para o teu quarto! - Olharam um para o outro durante um momento e Tygue foi o primeiro a ceder. Ainda bem porque a mãe não estava com disposição para brincadeiras. Chegara a casa pouco depois das quatro da manhã. Tillie fora-se embora às seis e meia. Naquele momento, eram apenas sete. Kate dormira duas horas e meia. Tygue escolhera uma má altura para dar banho a Bert antes de ir para a escola, e ainda por cima com o melhor sabonete que Licia oferecera a Kate. Noutro dia qualquer, ela ter-se-ia rido. Porém, naquele dia não tinha a mínima vontade de o fazer. Ainda só conseguia pensar no que acontecera em Los Angeles. Voltou a chamar Tygue quando o pequeno-almoço ficou pronto. -Agora vais ter juízo? - perguntou.

O filho não disse nada e sentou-se, começando a comer os cereais. Kate bebeu o café em silêncio e, de repente, lembrou-se de algo. Estava na mala.

- Volto Já.

Não era a melhor altura para ceder, mas talvez estivessem ambos a precisar disso. De um momento mais leve. Talvez ela precisasse de o mimar e ele precisasse de se sentir amado, Kate sentira-se tão sozinha durante a viagem. Invadira-a uma sensação de perda. Mas obrigara-se a não pensar. Ninguém a mandara embora. Aquilo era tudo uma parvoíce. Que mal tinha o homem ter-se recordado de um jogador chamado Har per? Por que motivo tivera ela se de vir embora? Sabia que Stu iria ficar aborrecido. Pedira ao hotel que lhe desse um recado na manhã seguinte. «Recebi um telefonema e tive de voltar para casa. Cancele a entrevista. Lamento. Obrigada por tudo. Beijos, Kate.» No entanto, ele ficaria zangado na mesma. Ela sabia-o. E estava zangada consigo própria. Suspirou de prazer ao recordar-se do toque da mão de Nick quando se despedira dele no carro.

- No que é que estás a pensar? Pareces uma tonta.

Tygue entrara no quarto e observava-a da porta, com a tigela dos cereais inclinada num ângulo perigoso.

- Não andes pela casa com o pequeno-almoço na mão. E o que queres dizer com isso de eu parecer uma tonta? Não é nada simpático dizeres uma coisa dessas - ralhou ela, parecendo magoada.

Tygue olhou para a tigela.

- Desculpa. - Ainda estava zangado por ela se ter ido embora.

-Vai pôr isso no lava-louça e depois anda cá.

Ele levantou a cabeça e em seguida desapareceu, batendo com os pés. Regressou passados alguns segundos com uma expressão expectante no rosto sardento.

- Espera só até veres o que eu te trouxe.

Era escandaloso. Kate vira aquilo na loja do hotel e não resistira. Pagara uma barbaridade, mas porque não? Não tinha mais nenhum filho e ele nunca mais teria roupa assim.

- O que é? - perguntou Tygue com uma expressão de desconfiança ao ver o embrulho, ficando desanimado ao ver a fita azul.

- Vá, isto não morde.

Kate sorriu ao pensar no fato de veludo azul-Pálido que vira na loja. Ao imaginar o filho com aquela roupa desatara a rir-se, para horror da vendedora. Era de mais imaginar uma criança de seis anos com veludo azul. Nem com dois anos Tygue teria vestido uma coisa daquelas. Viu-o puxar a fita a medo, depois olhar para a caixa antes de a abrir, desviar o papel de seda e ficar sem fôlego ao ver o conteúdo.

- Oh, mãe! Oh... mãe!

Não havia palavras para descrever o que ele sentia, e Kate sentiu lágrimas nos olhos. Eram lágrimas de cansaço e de excitação, mas também de alegria. Ele tirou o fato da caixa e levantou-o. Um fato à cowboy em miniatura, de cabedal e camurça. Tinha um colete com franjas e meias calças de couro. Uma camisa à cowboy, um cinto e um casaco. E quando se despiu e o experimentou, servia-lhe às mil maravilhas.

- Então, borracho? Estás lindo! - exclamou Kate, sentada na cama.

- Oh, mamã! - Ela já não ouvia aquela palavra há algum tempo. Só «mãe». Agora o «mamã» estava reservado para ocasiões especiais, quando ninguém se encontrava por perto para ouvir. Tygue correu para ela no seu fatinho de cowboy, abraçando-a e dando-lhe um beijo molhado.

- Estou perdoada? - perguntou ela abraçando-o.

- Pelo quê?

- Por me ter ido embora. - Não lhe agradava o precedente que estava a abrir, mas o filho foi mais esperto.

- Não - disse ele com um ar muito natural e um grande sorriso. - Mas adoro o fato. E adoro-te ainda mais.

- Eu também te adoro. - Tygue sentou-se ao seu colo. - Devias tirar isso. É muito chique para a escola, não achas?

- Oh, mãe... por favor...

- Okay, okay. - Kate estava demasiado cansada para discutir.

Inesperadamente, ele fitou-a.

- Divertiste-te?

- Sim, diverti. Apareci na televisão, fiquei num grande hotel, almocei com umas pessoas e fui a uma festa com outras pessoas.

- Que horror.

Ela riu-se e olhou para Tygue. Talvez ele tivesse razão. Talvez tivesse sido um horror. Porém, não conseguia obrigar-se a pensar isso.

- Quando é que voltamos a São Francisco?

-Em breve. Havemos de ver. Queres que a Tillie te leve hoje ao rancho dos Adams, para poderes andar a cavalo com o teu fato novo? - Ele assentiu com veemência, olhando deliciado para o colete. - Vou deixar um bilhete à Tillie.

A criança fitou-a com uma expressão horrorizada.

- Vais-te embora outra vez?

- Oh, Tygue... - Abraçou-o. - Não, querido. Vou só ver... dar aulas. - Bolas, quase dissera que ia ver Tom. Estava exausta. Demasiado cansada, aliás, para ir a conduzir até lá. No entanto, sentia-se na obrigação de ir. Já tinham passado muitos dias. - Vou tentar voltar para casa mais cedo para preparar o nosso jantar. Só para nós os dois. Combinado?

Ele assentiu, contrariado, mas o pânico já desaparecera do seu olhar.

- já te tinha dito, tontinho, que não vou fugir e abandonar-te. Só porque tive de viajar por um dia, ou por vários dias, não quer dizer que vá abandonar-te. Percebido? - Ele tornou a assentir em silêncio, de olhos muito abertos.

- Óptimo.

Então a buzina do carro da mãe do colega que vinha buscar Tygue fê-los meter rapidamente mãos à obra. Almoço. Livros, chapéu, beijo, abraço, adeus, até logo. Kate sentou-se na cozinha durante um momento, tentando reunir forças para pegar no casaco e arrancar. Era uma loucura fazer a viagem tendo dormido apenas duas horas. Porém, estava sempre a arranjar desculpas para não ir a Carmel. Havia sempre outra coisa para fazer. Pegou na mala e no casaco, deixou um bilhete a Tillie e saiu de casa quando começou a chover.

Choveu durante toda a viagem e as gotas de água batiam suavemente no telhado da vivenda onde Tom se encontrava. Era o gênero de chuva de Verão que a fazia ter vontade de virar o rosto para o céu e correr descalça sobre a relva, sentindo as folhas a fazer-lhe cócegas nos pés. No entanto, não quis fazer isso. Estava demasiado cansada, pelo que se limitou a sentar-se. Tinha pouca coisa a dizer a Tom. Não podia falar-lhe de Los Angeles, pois ele não iria perceber. Tom estava bem-Disposto. A chuva parecia acalmá-lo e sentaram-se de mão dada, lado a lado, ele na cadeira de rodas, ela noutra de balouço, a contar-lhe histórias. Eram histórias que aprendera na infancia, as mesmas que contara a Tygue durante vários anos. Tom também gostava de as ouvir. E, pouco depois do almoço, adormeceu. O barulho ritmado da chuva provocava uma grande sonolência, e Kate só a custo se impediu de dormir. Assim que Tom adormeceu, ela ficou sentada durante um momento a observar o seu rosto tranquilo, deixando-se invadir pelas recordações... as muitas vezes que vira aquele rosto adormecido noutros locais, noutros dias. Fê-la pensar em Cleveland, havia tanto tempo, e também de forma inesperada, em Nick Waterman. Não queria pensar nele ali. Aquele local não lhe pertencia, pertencia a Tom. Deu-lhe um beijo na testa, fez-lhe uma festa no cabelo, encostou um dedo aos lábios ao olhar para Mr. Erhard e saiu da sala em bicos de pés.

A viagem de regresso pareceu muito longa. Havia pouco trânsito e estava ansiosa por chegar a casa, mas não teve coragem de conduzir tão depressa como das outras vezes. Viu-se obrigada a abrir as janelas, ligar o rádio e parar duas vezes para não adormecer. Estava a correr um grande risco e tinha consciência disso. Sentiu-se tentada a passar pelas brasas, mas sabia que Tillie queria ir para casa. Era sexta-Feira e às sextas vinha sempre alguém da família jantar ou passar o fim-de-semana. Só lhe faltavam mais oitenta quilómetros, pelo que Kate decidiu continuar viagem no meio da trovoada. A chuva entrava pela janela e salpicava-lhe o rosto. Ela sorriu. Era agradável estar de novo no seu canto. O seu lugar não era Los Angeles, mas sentira-se lá bem. Contudo, não tencionava voltar. As pessoas eram completamente loucas. Tornou a pensar no camarim cor-de-rosa, na tensão da Sala Vermelha, e na opulência da festa em Beverly HilIs... e no que sentira quando Nick Waterman a abraçara enquanto esperavam pelo carro. Afastou esse pensamento e aumentou o volume do rádio. Los Angeles era o mundo dos outros, não o seu.

Virou para a saída habitual e aproximou-se de casa. Sobre as colinas havia um arco-íris e junto à sua porta encontrava-se estacionado um carro. Ao vê-lo, Kate travou a fundo. Como... não era possível... era um Ferrarí azul-escuro e Nick Waterman encontrava-se junto dele com Tygue. Tillie acenou-lhe da porta. Com o coração aos pulos, Kate parou o carro. Só nessa altura Nick e Tygue se aperceberam da sua chegada. Tygue correu para o carro da mãe, a acenar, com um grande sorriso de excitação, e Nick não se mexeu, limitando-se a observá-la com um sorriso. Kate desligou o carro e ficou a olhar para ele. O que poderia dizer? Como é que ele a tinha encontrado? Devia ter sido por intermédio de Wemberg, claro. Devia zangar-se com Stu, e normalmente seria essa a sua reacção, mas daquela vez não foi. Só lhe apetecia rir. Estava tão cansada que só era capaz de rir. Tygue aproximou-se da janela a falar pelos cotovelos.

- Ei, menino, tem calma. Espera até eu sair do carro.

O filho parecia radiante.

- Sabias que o Nick foi um grande jogador de futebol? E que trabalhou num rodeo?

- Ai sim? - O que lhe teria acontecido?

Quando Wemberg ali estivera, Tygue detestara-o de imediato. Porém, Nick fora um grande jogador de futebol e uma estrela dos rodeos. Parecia ter jeito para crianças. Ela baixou-se para beijar Tygue e olhou para Nick. Ele não se mexera. Kate aproximou-se dele com um sorriso. Notava-se que estava cansada, mas parecia feliz e o sorriso era de novo travesso, como ele recordava.

- Como correram as aulas?

- Bem. Posso perguntar-lhe o que veio cá fazer?

- Se o desejar. Vim vê-la. E ao Tygue.

Estavam frente a frente e Nick baixou o olhar na direcção dela, como se a quisesse beijar, mas Tygue e Bert andavam de volta deles.

- Saiu-me um grande detective.

- Você não é difícil de encontrar. Ficou zangada? - perguntou ele, preocupado.

- Acho que devia ter ficado. Com o Stu, não consigo. Porém - acrescentou ela encolhendo os ombros - estou tão cansada que não seria capaz de zangar-me com ninguém, mesmo que a minha sobrevivência dependesse disso.

Pousou um braço nos ombros dela e puxou-a para si.

- Não deve ter dormido muito, Mistress Harper. A que horas chegou a casa?

- Por volta das quatro. - Kate adorou sentir o braço dele nos seus ombros quando caminharam para casa. Ficou preocupada com a reacção de Tygue, mas ele pareceu não reparar. Kate não percebia como é que Nick conseguira pôr o seu filho tão à vontade.

- Porque se foi embora daquela maneira?

- Queria vir para casa.

- Tinha assim tanta vontade? - perguntou ele com ar incrédulo.

- A festa tinha terminado. A Cinderela já havia ido ao baile. E que valia passar a noite num hotel estranho, se podia vir para casa?

Ele olhou em volta e assentiu.

- Percebo onde quer chegar. Mas não o percebi quando lhe liguei esta manhã e me disseram que se tinha ido embora. Tive um medo horrível... de não voltar a vê-la - salientou ele, muito sério. - O Weinberg é muito discreto a seu respeito.

- O que fez ele mudar de ideias? - Perguntou Kate tirando a gabardina. Vestia calças de ganga e uma camisa azul de algodão. Nada tinha a ver com a mulher do vestido comprido azul-escuro da noite anterior. Cinderela voltara a ser apenas a Gata Borralheira.

- Mudou de ideias porque ameacei nunca mais voltar a jogar ténis com ele.

- Agora já sei a quem é que ele é leal e quais as suas prioridades - retorquiu Kate com uma gargalhada. Aquilo era de loucos. Conhecera aquele homem na véspera e ele já estava ali? Na sua casa? Com Tygue a saltar-lhe aos pés? Parecia ridículo. Kate sentou-se e riu-se até às lágrimas.

- Onde está a piada? - perguntou Nick, sem perceber.

- Em tudo. Em si, no Weinberg, em mim, naquela mal dita festa a que me levou ontem à noite. Não consigo perceber o que é real e o que não é.

Nick riu-se também, mas foi buscar a sua pasta com uma expressão matreira. Esperava não se ter enganado.

- O que veio cá fazer, Waterman?

- Bem, Kate - disse ele de costas voltadas para ela, mas com humor na voz, enquanto Tillie sorria ao assistir à cena - percebo perfeitamente quando diz que não consegue perceber o que é real e o que não é, por isso... para claríficar as coisas - Kate sorria ao ouvi-lo. - Bom, achei que devia vir aqui tentar descobrir se você é mesmo a Cinderela ou apenas uma das meias-irmãs dela.

Virou-se, tendo na mão um sapato de cristal sobre uma almofada de veludo vermelho com um rebordo dourado. O sapato era de tamanho real e a sua secretária demorara três horas a descobri-lo no departamento de adereços da Paramotint. Kate desatou a rir.

- Então, Cinderela, vamos experimentar? - perguntou Nick aproximando-se, e só nessa altura Kate viu que o sapato era bicudo e de salto alto, com uma roseta de vidro. Ele ajoelhou-se à sua frente enquanto ela continuava a dar gargalhadas e descalçava a «delicada» bota de borracha vermelha.

- Nick Waterman, você é louco!

Porém, os outros estavam a adorar. Tillie não conseguia parar de rir, Tygue andava aos saltos como uma pulga e até Bert corria e ladrava como se percebesse o que estava a passar-se. A bota foi descalçada, o sapato calçado e Nick inclinou-se para trás com um sorriso.

- Presumo que seja a Cinderela - afirmou com ar vitorioso. Acertara no número dela.

Kate levantou-se e tornou a rir.

- Como é que adivinhou o meu número? - Devia ser da prática, claro. No entanto, não devia fazer aquilo todos os dias. - E onde é que o foi descobrir? - Tornou a sentar-se e olhou para os mágicos olhos azuis dele.

- Deus abençoe Hollywood, Kate. Mas demorámos algum tempo.

- A que horas cá chegou?

- Por volta das três. Porquê? Cheguei atrasado? - perguntou ele a rir, sentando-se no chão, por pouco não atingindo Bert, que lhe saltou para o colo, deixando duas marcas enlameadas nas suas calças de linho bege. No entanto, Nick pareceu não se importar. Estava mais interessado em Kate, que o olhava com uma expressão de perplexidade.

- Chegou aqui às três? E o que esteve a fazer durante todo este tempo? - já passava das cinco.

- O Tygue levou-me a ver os cavalos. Com a Tillie, claro. - Sorriu na direcção de Tillie e ela corou. Nick era tão aberto, tão directo; não era possível fugir-lhe. - Depois demos um passeio junto ao rio. jogámos às cartas. E então você chegou.

- Como a Cinderela. - Kate tornou a olhar para o pé, perguntando a si mesma se poderia ficar com o sapato. - Veio cá só por causa disto? - Não era capaz de perceber, porém Nick desviou o olhar.

- - Por acaso, tinha de vir para estes lados. De vez em quando alugo uma casa em Santa Barbara. Tenho-a para este fim-de-semana. - Algo fez Kate duvidar daquelas palavras, embora não tivesse a certeza do quê. Porque haveria ele de lhe mentir? - Posso convidar-vos para irem visitar-me amanhã? - perguntou com ar esperançado, mas Tygue interveio de imediato com um forte acenar de cabeça.

- Não!

- Tygue! - O que seria agora? O homem viera de Los Angeles com um sapato de cristal e Tygue tencionava impedi-la de vê-lo? Ela queria ir vê-lo! Tygue que se lixasse.

- A mãe do Joey convidou-me para ir lá passar o fim-de-semana! Eles têm duas cabras novas e o pai dele disse que se calhar amanhã iam comprar um pónei!

Foram as melhores notícias que Kate podia ter recebido naquele dia.

- Ei, isso parece bestial! - exclamou Nick com ar impressionado, e Tygue olhou para ele com uma expressão que parecia dizer que eram as únicas pessoas com juizo naquela sala.

- Posso ir? - suplicou ele à mãe.

- Porque não? Está bem. E diz ao Joey para cá vir passar o próximo fim-de-semana. Posso vir a arrepender-me, mas decidi arriscar.

- Posso telefonar ao Joey a dizer-lhe isso?

- Força.

Tillie foi-se embora e Tygue correu para a cozinha, a fim de utilizar o telefone. Kate estendeu uma mão a Nick e ele tomou-a na sua, enquanto se sentava junto dela.

- Gostaria de saber como é que conseguiu conquistá-lo. Se calhar custou-lhe uma fortuna.

- Não. Pelo menos ainda não.

-O que quer dizer com isso? Nicholas Waterman, o que é que tem andado a tramar? Um homem que aparece aqui com um sapato de cristal, e ainda por cima do tamanho correcto, é um homem de peso.

- Tomo isso como um elogio. Não, a sério, não fiz nada. Só prometi levar-vos os dois à Disneylândia.

- A sério? - perguntou ela, admirada.

Nick descalçou-lhe o sapato com cuidado e ela mexeu os dedos dos pés.

- Sim. E o seu filho aceitou. Achou uma óptima ideia. E ele convidou-me a ir a São Francisco conhecer a tia Licia. Espero que não se importe.

- De maneira nenhuma. A «tia Licia» vai adorá-lo. A propósito, quer um martini?

- Ai ele é isso? Um martíni? - disse ele com uma gargalhada. - É tudo ou nada, hein?

- Pode beber café. Mas o único álcool que tenho em casa é o que a Licia traz.

-           A sua irmã? - Nick ainda estava um pouco confuso, mas gostava da cena familiar caótica que via. E adorava o rapaz.

-           - A Felicia é a minha melhor amiga, a minha consciência e o meu alter ego, E mima muito o Tygue. - Aquilo soou familiar a Nick, embora ele não tenha percebido porquê. - Bom, quer então um martíní?

- Acho que prefiro o café. A propósito, vim perturbar a sua vida?

- Sim.

- óptimo. - O seu rosto ficou sisudo. - Estou a falar a sério. Perguntei ao Weinberg se ele achava que eu ia ser esmurrado por um lutador de sumo com dois metros de altura quando aqui chegasse, e ele disse-me que achava que não, mas que não sabia. Sugeriu que eu arriscasse e viesse por minha conta e risco. Foi o que fiz. Agora a sério, não lhe causo problemas por ter vindo? - Ela parecera tão triste na festa da véspera que ele não queria vê-la assim novamente. No entanto, sentira que tinha de voltar a vê-la, nem que fosse só mais

uma vez.

- Claro que não me causa problemas! Porque haveria de causar? O Tygue parece gostar de si. Ele é o único lutador de sumo por estas bandas. - Kate percebera a intenção de Nick e ficou satisfeita pelo interesse mostrado por ele. Quando se levantou para lhe preparar o café, tinha um pé descalço e o cabelo solto, tal como ele gostava. Nick achou-a ainda mais bonita do que durante o programa.

- Deixe-me só esclarecer isto. O Tygue é a única pessoa que pode objectar? - perguntou ele devagar, como se ela pudesse não perceber.

- Exacto.

- Parece-me que disse qualquer coisa a respeito de uma pessoa amiga. - Ela fitou-o com ar interrogador e encolheu os ombros. - Alguém que mimava o seu filho. Disse-o ontem durante o almoço.

Depois sorriram.

- A tia Licia - proferiram ao mesmo tempo.

Ele sorriu e seguiu-a até à cozinha, onde Tygue acabara de desligar o telefone.

- Okay, mãe. Está tudo combinado. O pai dele vem buscar-me amanhã de manhã e traz-me no domingo à tarde. - Olhou para ambos com um ar descontraído, como se conhecesse Nick há muito. - O que é o jantar? Sabias que o Nick nos vai levar à Disneylândia? Não vai, Bert? - Bert abanou a cauda e Tygue saiu da cozinha, para ir à procura de Willie, sem esperar para ouvir a resposta da mãe.

-Ele é terrível.

- Às vezes - disse Kate com um sorriso, olhando para Nick. - Mas é um óptimo miúdo. E eu adoro-o.

- Você é uma boa mãe. A propósito, o que é o jantar?

- Isso quer dizer que quer ficar para jantar?

- Se não for muita maçada.

Era espantoso. Mal o conhecia, e ali estava ele na sua cozinha a perguntar se podia ficar para jantar. Era uma sensação agradável. As suas defesas não estavam como de costume; sentia-se demasiado cansada.

- Não é maçada nenhuma. E chegou a tempo de provar o prato preferido de Tygue.

- O quê?

- Tacos.

- Também é o meu preferido.

Kate estendeu-lhe a caneca do café e sentou-se à mesa da cozinha. Naquele momento estava muito longe de Carmel. Muito longe de Tom.

- No que é que estava a pensar?

- Quando?

-Ainda agora. -Em nada.

- Está a mentir. - Fitou-a com uma expressão muito intensa e pegou-lhe na mão. - É feliz aqui, Kate?

Ela fitouo e assentiu.

- Sim. Muito.

Então o que era aquela sombra no seu olhar? Aquela dor fugaz?

- Há pessoas boas na sua vida? - perguntou Nick. Era importante sabê-lo.

- Sim. Muitas. já as conheceu todas, menos a Licia. - É isso? - perguntou ele com ar chocado. - Só o rapaz?

- E a Tillie, a senhora que estava aqui com o Tygue quando você chegou. E o Bert, claro - acrescentou ela com um sorriso, lembrando-se de que quisera falar dele no programa.

- Claro. Mas está a falar a sério? É só isso?

- Já lhe disse que sou uma eremita. - Não admirava

portanto, que tivesse entrado em pânico na festa. - Gosto de ser assim.

- Era assim quando estava casada?

Ela abanou a cabeça, mas o seu olhar nada disse.

- Não, era diferente.

- O Tygue lembra-se do pai? - perguntou ele com ternura.

Ela tornou a abanar a cabeça.

- Não pode. O pai morreu antes de ele nascer.

-           Deus do Céu, deve ter sido terrível para si, Kate! - exclamou ele com uma expressão que indicava que percebia perfeitamente. Kate não pensava naquilo havia séculos.

-           - Foi há muito tempo.

- E esteve sozinha?

- Não. Tive a Licia, ela veio para aqui comigo.

Talvez fosse isso, toda aquela incrível solidão. Talvez fosse essa a dor que ele via.

- Não tem família, Kate?

- Só a que já conhece. É tudo. É mais do que muitas pessoas têm.

E mais do que ele tinha. Kate quase acertara no seu ponto fraco, embora de forma inconsciente. Todas aquelas raparigas de seios grandes com quem ele tinha saído durante vinte anos de nada lhe tinham servido. Tinha trinta e sete anos, e mais nada.

- Tem razão. Kate?

- Sim.

-           Vai amanhã a Santa Barbara passar o dia comigo?

-           Kate era o tipo de mulher a quem ele tinha de dizer aquilo. «Passar o dia.» Se sugerisse mais, ela poderia não ir.

Kate assentiu devagar, observando-o, como se estivesse a pesar algo, a considerar.

- Okay.

 

Ela encontrou fácilmente a casa graças ao croquis que Nick lhe dera. Não quisera que ele a fosse buscar, tendo preferido conduzir até lá. A viagem durou apenas meia hora, mas deu-lhe tempo para pensar. Não sabia bem por que motivo ali ia, a não ser porque gostava de Nick. E ele era uma pessoa com quem era fácil falar. Na véspera, ficara lá em casa quase até às onze e meia da noite, altura em que ela começara a adormecer no sofá. Estava exausta e ele dera-lhe um beijo casto na face e partira. Fora uma noite bastante agradável. Tinham acendido a lareira, Nick fizera pipocas para Tygue e a criança mostrara-lhe o novo fato à cowboy. Nick ficou espantado.

- Onde é que o encontrou?

- No hotel. - Outras pessoas compravam jade e casacos com plumas, mas ela comprara ao filho a roupa com que todas as crianças sonham.

- Quem me dera ter sido seu filho.

- Ainda bem que não foi. Eu sou um monstro. Pergunte

ao Tygue. No entanto, Tygue limitou-se a rir e a enfiar outra mancheia de pipocas amanteigadas na boca.

- Deve ser um grande monstro.

Nessa altura tivera vontade de a beijar. Porém, não podia fazê-lo em frente da criança, nem o desejava. Queria muito daquela mulher. O seu amor, o seu corpo e mais ainda. Queria o seu tempo, a sua vida, os seus filhos, a sua sabedoria, a sua ternura, a sua compaixão. Via tudo o que ela possuía. E Kate via também muita coisa. Percebera que gostava dela o suficiente para a ter vindo procurar com o sapato de cristal. Que fora bondoso para Tygue, que se apercebera daquilo que os seus olhos revelavam, de ouvir aquilo que ela não dizia. Tinha de ter cuidado com isso, pensou Kate ao parar no endereço que ele lhe dera de Santa Barbara. Nick Waterman via demasiado.

Era uma casa branca, com cercaduras pretas nas janelas e na porta. Sobre a porta encontrava-se uma lanterna e o batente era uma enorme gaivota. Kate pegou-lhe nas asas, bateu e depois recuou. A casa ficava numa pequena colina sobranceira ao mar, e ali perto viam-se três salgueiros. Contrastava fortemente com a simplicidade da sua casa. Porém, esta tinha menos afecto, apenas beleza.

Foi abrir a porta descalço com uns calções de ganga e uma T-shirt desbotada da cor dos seus olhos.

- Cinderela! - exclamou ele, radiante, apesar da provocação do nome.

- Será que eu devia ter trazido o sapato de cristal para ter a certeza de ser reconhecida?

- Eu acredito em si. Entre. Estava lá fora a pintar a varanda.

- Estou a ver que se farta de trabalhar para pagar o aluguer. - Kate seguiu-o, reparando na decoração sóbria. Era tal como ela imaginara, bonita mas sem afecto, o que era uma pena, pois a casa estava cheia de belos objectos.

- Gosto de me entreter. O dono da casa nunca sai de Los Angeles. Por isso trato de algumas coisas quando tenho tempo.

Estava a pintar a varanda de azul- Celeste e a um canto desenhara duas gaivotas em voo.

- Precisa de nuvens - declarou ela num tom Profissional ao olhar para a varanda.

- Hum?

- Nuvens. Precisa de nuvens. Tem tinta branca?

- Sim. Além - indicou ele com um sorriso que ela retribuiu enquanto arregaçava as mangas da camisa e depois as pernas das calças. - Quer vestir alguma da minha roupa velha, Kate? Escusa de estragar a sua - sugeriu Nick muito sério, mas ela límitou-se a rir. Trouxera roupa velha confortável para se deitar na praia. E por baixo um biquini cor de laranja. Para mais tarde. Talvez. Ainda não sabia.

- Como está o Tygue?

- Bem. Mandou-lhe cumprimentos. Saiu ao romper do dia para ver aquelas cabras. Agora diz que também quer uma.

- O Tygue devia era ter um cavalo - disse Nick, enquanto pintava outra gaivota a um canto.

- É o que ele está sempre a dizer-me. Talvez você gostasse de lhe comprar um - disse ela na brincadeira, tendo-se arrependido de imediato ao ver a expressão dele. - Nick, estava a brincar. A sério, nem pense numa coisa dessas. já há dois anos que tento dissuadir a Licia de comprar-lho.

- Ela parece ser uma mulher bastante sensível. Tenho de a conhecer. Há quanto tempo são amigas?

- Oh, há muitos anos. Conheci-a quando passei modelos para... - Então olhou para cima como se tivesse dito algo que não devia.

- Acha que eu não sabia? - perguntou ele com um sorriso. - Ora, minha querida, sou produtor. Sei perfeitamente ver quando as pessoas passaram modelos, fizeram ballet ou levantaram Pesos.

- Eu levantei pesos - proferiu ela com um sorriso, flectindo um braço.

- Está a pintar umas belas nuvens, Cinderela.

- Gosta? - perguntou ela, satisfeita.

- Claro. Especialmente da que tem na ponta do nariz.

- Patife! Eu menti ao Weinberg, sabe? Disse-lhe que nunca passei modelos. julguei que se o admitisse ele venderia o meu corpo a quem fizesse a oferta mais alta e me obrigaria a fazer imensa publicidade.

- Linda menina. Parece um pinto envergonhado - comentou ele, piando, e Kate ameaçou atirar-lhe com tinta. - É capaz de me culpar por não ter querido fazer isso?

Sou feliz aqui, longe daquela loucura toda. Nick, o meu lugar não é lá.

- Nem o de ninguém - disse ele, sentando-se no parapeito e olhando para ela. - Mas vou dizer-lhe uma coisa: o seu lugar também não é aqui. Está a desperdiçar-se. Um destes dias vai ter de ganhar coragem e voltar lá, pelo menos durante algum tempo.

Ela assentiu muito séria.

- Eu sei. Tenho tentado. Mas é difícil.

- Mas não tanto como julgara, pois não?

Ela abanou a cabeça, perguntando a si mesma como teria ele adivinhado. Parecia perceber tanto a seu respeito. Kate tinha a sensação de que Nick já a conhecia.

- E quando voltamos ao mundo civilizado há compensações.

Ela soltou uma gargalhada.

- Lá isso é verdade.

- Tem fome?

- Nem por isso. E você? Se quiser posso ir preparar-lhe qualquer coisa. - Tinham acabado de pintar a varanda e concordado que estava uma obra-Prima. - Espero que o dono disto dê valor aos seus melhoramentos. Ele devia pagar-lhe para você se hospedar aqui.

- Vou dizer-lhe que você sugeriu isso. - Pousou o braço sobre os ombros dela e dirigiram-se ambos à cozinha, descalços e bronzeados. Nessa manhã, Nick tinha comprado presunto, melão e frango assado. E outro saco continha pêssegos, morangos e melancia. Havia ainda uma baguette comprida e uma grande fatia de fiambre.

- Isto não é um almoço, é um festim.

- Bem, Cinderela, para si só o melhor. - Fez uma vê nia e quando se endireitou encontrava-se muito perto dela. Estendeu os braços. Kate sentiu-se impelida para ele e, devagar, abraçou-o. Não teria sido capaz de resistir mesmo que quisesse, e não quisera resistir. Queria apenas estar ali, perto dele, a sentir o calor da sua pele e a força dos seus braços, a cheirar o aroma a limão e a especiarias que já lhe era familiar. Nick.

Então, com meiguice, levou uma mão ao queixo de Kate, levantando-o na direcção do seu, e beijou-a, primeiro devagar, e depois com mais força, os braços envolvendo-a, a boca firmemente colada à dela.

- Amo-te, Kate - declarou ofegante, cheio de desejo e observando-a. Estava a dizer a verdade.

Kate não disse nada, pois não sabia o que dizer. Ele não podia amá-la. Não a conhecia. Era demasiado cedo. Devia dizer isso a todas as mulheres. Ela não podia fazer aquilo, nem permitir que aqilo lhe acontecesse.

- Amo-te. É tudo. Não faço perguntas, nem exijo nada. Apenas te amo.

E daquela vez foi Kate quem o beijou.

- Também te amo - disse ela quando o largou, com um sorriso. - É uma loucura. Mal te conheço. Mas acho que te amo, Nick Waterman.

Olhou para os pés. Sete anos. Sete anos. E agora dissera aquelas palavras a um desconhecido. «Amo-te.» Porém, ele não era um desconhecido. Era Nick. Assim que o conhecera vira nele algo de infinitamente especial. Como se ele tivesse estado à sua espera. Como se ambos soubessem que ele viera para ficar. Será que estava maluca? Que só queria pensar naquilo? Fitou-o com um olhar interrogador e ele sorriu com ternura, levando as coisas para a brincadeira, a fim de desanuviar.

- Com que então «achas», hum? Caramba, essa é boa. «Achas» que me amas. - A expressão dos seus olhos era travessa e ele deu-lhe uma palmada no rabo enquanto punha o almoço num cesto. - Vamos comer na praia. - Ela assentiu e sairam, de mão dada, ele levando o cesto. Tinha a mesma constituição física que Tom tivera havia muitos anos. já a perdera. Encolhera devido a ter passado tantos anos sentado numa cadeira de rodas. Mas aquele homem nunca encolhera. Pulsava de vida. - Queres ir tomar banho, Cinderela?

Kate sorriu. O nome ia pegar.

- Gostaria muito. - Decidira confiar nele.

- Eu também. - Olhava descaradamente para o minúsculo biquini cor de laranja que ela revelara ao tirar a camisa e as calças de ganga. Mas o seu olhar era tão aberto e amigável que Kate se limitou a sorrir. - julgas que eu vou conseguir nadar depois de te ver assim? Vou mas é ao fundo!

- Cala-te! Vamos fazer uma corrida.

Desatou a correr, as suas longas pernas graciosas impelindo-a para a água. Nick seguiu-a com um olhar apreciativo e depois passou-lhe à frente, mergulhando na primeira onda. No entanto, Kate seguia-o de perto e emergiram já a uma boa distância da costa. O toque da água era delicioso.

- Isto é muito melhor do que a piscina do hotel, não achas?

Nick soltou uma gargalhada e tentou fazê-la mergulhar, porém Kate foi demasiado rápida. Mergulhou e passou por entre as pernas dele. Quando tentou agarrá-la, Nick quase lhe arrancou a parte de cima do biquini, e Kate emergiu a rir.

- Sua espertinha! - exclamou Nick. - Ainda vais perder essa coisa minúscula que trazes vestida se não tiveres cuidado.

Era quase indecente, e Kate tinha consciência disso. Mas os biquínis eram todos assim. Fora Felicia quem lhos mandara, e a única pessoa que a vira com eles fora Tygue. «Exibicionista», dissera ele.

- És impossível.

- Não, mas vou ficar se tiver de olhar para ti durante muito mais tempo.

Ela riu-se e dirigiram-se para a costa, nadando lado a lado. já há muito tempo que ninguém lhe falava assim. E Nicholas fazia-o de uma forma que a divertia.

- Estou a morrer de fome - disse Kate, atirando-se para a toalha e dirigindo ao cesto um olhar faminto.

- Força, tontinha, come à vontade. Escusas de ser tão bem-educada. - Sentou-se ao lado dela e deu-lhe um beijo salgado. - A tua família deve ter sido muito rígida. És uma rapariga muito bem-Comportada.

- Já não.

- Kate, os teus pais também morreram?

Olhou para ele durante um minuto antes de responder e depois decidiu contar-lhe a verdade. Pelo menos a respeito daquilo.

- Eles correram comigo de casa.

Nick deixou de desembrulhar o almoço e olhou para ela.

- Estás a falar a sério? - Parecia tão chocado que Kate sentiu vontade de rir. Aquilo já não a incomodava. Acontecera havia muito tempo.

- Sim, estou. Eu desiludi-os, por isso riscaram-me da sua lista. Acho que será mais correcto dizer que acharam que eu os traí.

- Tens irmãos?

- Não, sou filha única.

- E os teus pais fizeram-te uma coisa dessas? Que tipo de pessoas são? Eras filha única e expulsaram-te de casa? O que diabo fizeste?

- Casei com uma pessoa de que eles não gostavam.

- Só isso?

- Só isso. Deixei a faculdade no fim do primeiro ano e fui viver com ele. Depois casámo-nos. Eles não foram ao casamento. Nunca mais voltámos a falar. Excluíram-me da árvore genealógica quando fomos viver os dois. Acharam que ele não era suficientemente bom.

- Pagaste um preço muito elevado por esse homem.

- Ele merecia-o - disse ela baixinho, sem o mínimo arrependimento.

- É agradável poder dizer isso acerca de alguém. Ele deve ter sido um homem muito especial.

- E era - confirmou ela com outro sorriso. Ficaram em silêncio durante alguns minutos e ela ajudou-o a tirar o almoço. Depois viu qualquer coisa no rosto de Nick. Uma expressão de dor, e de exclusão. - Nick?

- Sim? - perguntou ele, surpreendido. Estivera perdido nos seus pensamentos.

Ela pegou na mão dele.

- Tudo isso se passou há muito tempo. Há coisas que ainda doem, outras que já não. Na altura, tudo era importante. Muito. Mas já tudo passou. Tudo. E... - Não tinha forças para dizer aquilo, mas teve de as arranjar. Por muito que lhe custasse. - E ele também. já passou.

Nos seus olhos surgiram algumas lágrimas e Nick puxou-a para si.

- Lamento, Kate.

- Não é preciso lamentares. Houve também momentos maravilhosos. O Tygue. Os livros. A Licia. Tu... - disse ela a medo e ele fitou-a com um sorriso meigo.

- Minha menina, um dia destes... - Mas não teve coragem de continuar. Limitou-se a ficar ali sentado a olhar para ela.

- O quê?

- Nada... apenas...

- Nicholas, diz-me! - exclamou Kate, erguendo-se sobre um cotovelo.

- Um dia destes, Cinderela, vou transformar-te na Senhora Encantada.

- A mulher do Príncipe Encantado? - perguntou ela de olhos muito abertos. Ele assentiu. - És louco, Nick. Nem sequer me conheces.

Quem era aquele homem? Por que motivo dizia ele aquelas coisas?

- Conheço sim, Cinderela. Conheço o fundo da tua al ma, e vou conhecer-te ainda melhor. Se o permitires, é claro. - Estendeu-lhe o pão e beijou-a. Ela estava com uma expressão demasiado séria para o seu gosto. - Ficaste incomodada?

- Não, pelo contrário. Mas Nick... nunca voltarei a casar-me. Estou a falar a sério.

- Pois, pois - disse ele, tentando aligeirar a conversa. já se arrependera de ter dito aquilo. Era demasiado cedo.

- A sério. Não seria capaz.

- Porque não?

«Porque o meu marido ainda não morreu. Credo!»

- Porque não seria. Casei uma vez, e não volto a casar outra. Até há dois dias, não me imaginava sequer capaz de amar outro homem, embora agora imagine, mas não a casar-me.

Afinal de contas, sempre havia esperança.

- Então avancemos um passo de cada vez. - Kate reparou que ele não queria levá-la a sério, mas não sabia o que mais lhe dizer. - Presunto, melão?

- Não estás a ouvir-me - queixou-se ela.

- Tens toda a razão. Para além do mais, sou um optimista e amo-te. Recuso-me a ouvir um não.

- És um lunático.

- Absolutamente. - Nick endireitou-se com uma fatia de queijo e outra de pão na mão. - E tu és uma princesa. Queres um pouco de fiambre? Está uma delícia.

- Desisto.

- óptimo. - E então até ele foi obrigado a sorrir quando pensou nas muitas mulheres que teriam dado tudo para o ouvirem propor-lhes casamento, e ainda por cima logo no terceiro encontro.

Comeram quase tudo e depois deitaram-se ao sol, lado a lado, durante algum tempo, antes de voltarem a ir à água. já eram quase quatro da tarde.

- Já chega de praia, Kate?

- Hum... - Encontrava-se de novo deitada, e sentia-se cansada dos banhos. A água salgada corria em pequenos rios no pescoço e ele inclinou-se, lambendo-os. Ela abriu os olhos.

- Vamos para casa - sugeriu ele. - Podemos livrar-nos de toda esta areia. E do óleo, do sal, das migalhas e das sementes de melancia.

Kate riu-se e levantou-se, olhando para a barafunda de coisas que tinham sobre as toalhas.

- Parece que foi uma festa de arromba.

Ela dobrou as toalhas, Nick pegou no cesto e regressaram devagar a casa.

- É melhor entrarmos pelas traseiras. Ele vai ter um ataque cardíaco se lhe enchermos a casa de areia.

Parecia inconcebível pensar-se nisso quando se tinha uma casa na praia, mas as pessoas de Los Angeles eram loucas.

- Sim, senhor. - Ela seguiu-o e entraram numa salinha

pintada de amarelo. Tinha um toldo de circo às riscas, três cabinas de duche, meia dúzia de cadeiras de realizador e uma maravilhosa chaíse-longue de verga com um enorme chapéu-de-Sol.

- Os camarins, Miss Harper. Normalmente não são mistos, mas se confiar em mim...

- Não confio.

Ele sorriu.

- Tens razão. já sei. Não é preciso despires o biquini.

E rindo com ele, Kate obedeceu e entraram ambos no duche. Continuou a rir-se enquanto ele lhe contava histórias divertidas acerca do programa e lhe tirava a areia das costas. De repente, a conversa parou e Nick virou-a devagar para si. Depois, beijaram-se devagar sob os salpicos de água quente. Kate sentiu os braços dele a envolvê-la, o corpo dele contra o seu e desejou-o tanto quanto ele a desejava.

- Espera, estou a afogar-me! - exclamou ela com uma gargalhada, e ele desviou-se, fazendo com que a água lhe batesse em cheio na cara.

Com uma gargalhada, Nick fechou a torneira.

- Estás melhor?

Ela assentiu. O silêncio era enorme sem a água a correr, e a cabina do duche encontrava-se cheia de vapor. O cabelo de ambos escorria e nas pestanas de Kate havia contas de água que Nick beijou com suavidade enquanto lhe despia a parte de cima do biquini.

- Acabaste de perder a parte de cima, Cinderela - mur murou enquanto ela lhe acariciava o peito.

Kate sorriu, mas os seus olhos não se abriram e continuou a beijá-lo. Nick inclinou-se e beijoulhe os seios. Fê-lo com tanta ternura que todo o corpo dela gritou pelo dele.

- Amo-te, príncipe encantado.

- Tens a certeza? - perguntou ele, muito sério, endireitando-se. Ela abriu os olhos. - Tens a certeza, Kate?

- Sim, tenho. Amo-te.

- A última vez foi há muito tempo, não foi? - Precisava de saber, embora no seu íntimo adivinhasse já a resposta. Kate assentiu. Nick já o havia pressentido assim que soubera o quanto ela se fechara na sua concha. De certa forma, isso agradava-lhe. Tornava-o especial, e fêlo saber o quanto ela também era especial.

- Foi há muito, querida?

Ela tornou a assentir, e ele amou-a ainda mais.

- Antes do Tygue nascer.

- Oh, meu amor... - Então puxou-a para si e abraçou-a durante muito tempo. Queria compensar todos aqueles anos sem amor, sem um homem. Mas não podia devolver -lhos, só dar-lhe amor naquele momento. Com ternura, embrulhou-a numa enorme toalha cor-de-rosa e levou-a ao colo para o quarto onde dormia no primeiro andar. Era um quarto cheio de luz que parecia entrar pelo mar adentro. As janelas eram enormes, a mobília antiga e a cama de latão. Não era o quarto que teria escolhido para ela, mas foi o quarto onde a amou pela primeira vez, a amou com toda a força do seu ser, uma e outra vez, até que por fim ela adormeceu nos seus braços enquanto ele ficou a observá-la. Quando Kate acordou, já chegara a noite.

- Nick? - Lembrava-se do que acontecera, mas não onde estava.

- Estou aqui, querida. Nem imaginas o quanto te amo.

Era uma maneira maravilhosa de acordar e Kate sorriu, aninhando-se nos braços dele. De repente, ficou tensa.

- Oh, meu Deus.

- O que foi? - Ter-se-ia ela recordado de alguma coisa desagradável? De súbito, ele teve medo.

- E se eu engravidar?

Ele sorriu e beijou-lhe a ponta do nariz.

- Nesse caso, o Tygue vai ter um irmãozinho. Ou uma irmãzinha.

- Não brinques.

- Não estou a brincar. Nada me agradaria mais.

- Bolas, Nick, eu nunca tinha pensado em ter mais filhos! - Parecia tão abatida que ele a abraçou com mais força.

- Há muitas outras coisas em que também nunca tinhas

pensado. Havemos de tratar disso na semana que vem. Porém, este fim-de-semana vamos arriscar. E se acontecer alguma coisa... havemos de sobreviver. - Lembrou-se de uma coisa. - Ou será que isso não te agradaria? - Talvez Kate não quisesse ter um filho seu. Isso não lhe ocorrera. Olhou para ela no escuro. Conseguia ver perfeitamente o seu rosto e os seus olhos.

- Não, isso agradar-me-ia muito. Amo-te, Nick.

Nick não queria saber de mais nada e Kate tornou a beijá-lo. Ele destapou-a e percorreu o corpo dela com as mãos enquanto Kate esboçava um sorriso de mulher.

 

Parecia que sempre haviam estado juntos. Levantaram-se às sete e foram à cidade comprar o jornal, deram um passeio na praia e comeram um enorme pequeno-almoço preparado por ambos. Até isso correu bem, como se alguém tivesse ca talogado as capacidades de cada um e percebido que elas se completavam. Estavam tão à vontade um com o outro que Kate sentiu um certo receio. Após anos de celibato, nem se quer se sentia envergonhada por andar nua sob a T-shirt dele. Estavam ambos nus deitados sobre uma toalha atrás da duna mais próxima da casa, longe de olhares estranhos. Kate admirou de novo o corpo magnífico dele e ergueu-se sobre um cotovelo, fitando-o.

- Fazes ideia de como isto é extraordinário? Ou será que costumas fazer este tipo de coisa? - Arrependeu-se da pergunta assim que a fez. Nada tinha a ver com o que ele costu mava fazer. Mas queria saber.

A expressão de sofrimento de Nick quando se endireitou deu-lhe a resposta.

- O que queres dizer com isso, Kate?

- Desculpa. Só que... vives num mundo diferente, Nick. É só. As coisas são muito diferentes para ti - disse ela baixinho. Talvez não quisesse saber mais nada. Ele cobriu-lhe os ombros com as mãos e não desviou o olhar.

- Tens razão. As coisas são diferentes, Kate. Ou têm sido, pelo menos em alguns aspectos. Quando eu era mais novo, andei atrás de todas as mulheres que me excitavam, e mesmo de algumas que não me excitavam. Corri, corri e corri e sabes uma coisa? Fiquei exausto. Acabei por perceber que não valia a pena correr atrás de nada. As coisas acalmaram bastante depois disso, tornei-me mais sensato, mas bastante mais solitário. Lá não há muitas mulheres por que valha a pena lutar. Hollywood parece ser a Meca da estupidez, do egoísmo e da futilidade. As mulheres vão para a cama connosco por causa das suas carreiras, para se aproximarem do Jasper Case, para serem vistas no Polo Lourige na hora certa, para irem às melhores festas ou talvez só para comerem à borla e darem uma queca. Sabes o que ganhei com tudo isso? Nada. Então porquê incomodar-me? Na maior parte das vezes não me incomodo. De certa forma, tenho estado tão sozinho como tu. E sabes o que me resta? Um apartamento elegante, algumas assoalhadas cheias de móveis caros, alguns quadros bons, um bom carro. E tudo isto somado, minha querida, não vale um chavo. E então, uma vez na vida, um momento, um rosto, uma fracção de segundo e sabemos que vimos todos os sonhos que havemos de ter. É como aquela sensação de acordarmos meio atordoados e, de repente, sem sabermos porquê, lembrarmo-nos de um sonho enquanto bebemos o café. Primeiro uma imagem, depois um excerto, e por fim todo o sonho. E conhecemos a história e o local e as pessoas com quem sonhámos. Conhecemos tudo, e só nos apetece lá voltar. Mas não podemos. Por muito que tentemos, não somos capazes. Por vezes o sonho atormenta-nos. Talvez durante um dia, talvez durante a vida inteira. Eu podia deixar que isso me acontecesse, Kate. Podia deixar que me atormentasses o resto da vida. Mas não quis fazer isso. Decidi correr com todas as forças e regressar ao sonho antes que fosse tarde de mais para ambos. Foi por isso que te vim ver. Não podia perder-te ao fim de todos estes anos de espera. Nem sequer sabia que estava à tua espera, mas percebi-o na quinta à noite. E tu também.

Nick tinha razão. Ela também, embora tivesse tentado percebê-lo. Dissera a si própria que não voltaria a ver Nick, embora no seu íntimo sentisse que isso não era verdade.

- Amo-te, Kate. Não consigo explicar porquê. Sei que passaram apenas alguns dias, mas tenho a certeza de que tomei a decisão acertada. Casava contigo hoje, se me deixasses.

Ela sorriu e pousou a cabeça no ombro dele, beijando-lhe o pescoço.

- Eu sei. Mas é incrível, não é? - Estava deitada no cobertor a fitá-lo, enquanto ele a observava com aqueles belos olhos azuis. O céu da manhã tinha exactamente a mesma cor.

- Está tudo a avançar tão depressa. Não sei o que hei-de pensar. Acho que não devia estar a sentir-me assim. Acho... achava... - corrigiu ela - que estavas sempre a fazer isto. No entanto, isso não explicava os meus sentimentos. Como é que pude apaixonar-me tão depressa? Ao fim de todos estes anos... não me entendo.

Contudo, não parecia triste. Aliás, era a primeira vez que ele a via sem aquela sombra de tristeza no olhar. A dor desaparecera quando acordaram naquela manhã. Kate parecia uma pessoa nova. E sentia-se renascida.

- Talvez seja assim que as coisas acontecem. Tenho ouvido histórias de pessoas que viveram juntas durante cinco ou dez anos e, de repente, zás, uma delas conhece outra pessoa e casa-se ao fim de duas semanas. Se calhar, quando temos de esperar todo esse tempo para ter a certeza, sabemos que não vale a pena. Talvez quando isso acontece, quando acertamos, quando vemos a pessoa a quem estamos destinados as coisas aconteçam de repente, bang, e nós saibamos. Foi isso que me aconteceu.

Encontrava-se deitado ao lado dela, de barriga para baixo, e deu-lhe um beijo na boca.

- Kate?

- O que é, querido?

- Estavas mesmo a falar a sério quando disseste que não querias voltar a casar?

Ela assentiu e fitou-o antes de responder.

- Sim.

Nick quase não ouviu a palavra, mas teve pena de a ter percebido.

- Porquê?

- Não sei explicar. Só sei que não posso.

- Isso não é justo. E não faz sentido.

Talvez fosse demasiado cedo para a pressionar. Olhou para o rosto dela e viu de novo a dor nos seus olhos. Arrependeu-se de ter tocado no assunto.

- Talvez não me devas nenhuma explicação.

- Não há nenhuma para dar - retorquiu ela, fazendo-lhe uma festa nas costas e olhando-o, de uma maneira que o fez arrepiar. - Só te posso dizer que farei tudo o que quiseres, menos casar.

Ele fitou-a com um sorriso lascivo.

- Dado o que estou a pensar neste momento, Cinderela, não me importo. - Não voltou a falar em casamento. Fizeram amor na toalha, ali na praia, e depois nas ondas em frente à casa.

- Nick, és indecente! - exclamou ela sem fôlego, correndo até à toalha e deitando-se. Nick deitou-se com cuidado em cima dela, sustendo o seu peso nos braços.

- Olha quem fala. Eu não fiz nada sozinho, sabes?

- Nicholas... Nick... N... - Ele beijou-a de novo e abriu as pernas dela com as suas na areia quente. A tarde já ia adiantada quando regressaram a casa, cansados, bronzeados e felizes, como se fossem amantes há anos.

- Oh, meu Deus! - exclamou Kate, olhando chocada para o relógio da cozinha.

- O que foi? - perguntou ele, olhando-a por cima do ombro com a boca cheia de uvas.

- O Tygue. Chega a casa às quatro. Esqueci-me completamente!

Era a primeira vez em seis anos que isso acontecia. Até se esquecera de Bert, mas pelo menos tinha-lhe dado de comer antes de sair de casa na véspera. O cão comia apenas uma vez por dia, e podia entrar e sair de casa através da sua porta especial.

- Descontrai-te, querida, são só três da tarde.

- Mas... - Ele calou-a com um beijo e passou uma das uvas para a boca dela. - Importas-te de parar com isso? Tenho de... - argumentou Kate a rir. - A sério.

- Eu também estou a falar a sério. Fiz esta manhã a mala. Só tenho de tomar duche e tirar a roupa da cama. Temos muito tempo. Queres telefonar aos pais do Joey?

- Talvez seja melhor. Bolas, devia ter feito isso ontem à noite. Se lhe aconteceu alguma coisa, ou...

Tornou a beijá-la e pegou no telefone, estendendo-lho com um sorriso.

- Não é pecado divertires-te um pouco, para variar - salientou, beijando-a. - Liga então. Eu vou tomar duche.

Ela juntou-se-lhe cinco minutos depois.

- Está tudo bem?

- Sim - respondeu ela com ar envergonhado. - Parece nem ter dado pela minha falta.

- Claro que não deu, com as duas cabras novas a distraí-lo. O pai do Joey comprou o pónei? - perguntou ele, ensaboando-se e estendendo-lhe depois o sabonete. Cheirava a cravos.

- Comprou dois. Um é para a irmã do Joey.

- Parece ser um bom homem.

- Tu também. - Beijaram-se de novo sob o duche, envoltos no perfume dos cravos.

- Nada de brincadeiras, minha menina. Temos de ir embora.

- Olha, olha - disse ela. Mas estava divertida. Ele parecia ser bom em tudo. Era bom amante, bom amigo e parecia ser bom pai. Tinha razão em querer casar. Daria um marido maravilhoso... Teria dado... pensou ela cheia de pesar quando lhe devolveu o sabonete, deixando que a água lhe tirasse a espuma do corpo.

Vinte minutos mais tarde, estavam vestidos e já tinham fechado a casa. Kate arrumara a cozinha enquanto Nick acabava de se vestir e encontrava-se ao pé dele com uma expressão de pesar quando ele trancou a porta da frente. Nick virou-se, vendo a expressão dela, e abraçou-a com um sorriso.

- Ora, querida, vá lá. Isto não acabou. É apenas o começo.

Era uma loucura, mas Kate tinha lágrimas nos olhos.

O fim-de-semana fora tão bom que ela não queria que ele terminasse. Desejava que continuasse para sempre. E agora tinha de voltar a ser a mãe de Tygue e de ir visitar Tom. Apetecia-lhe ficar para sempre em Santa Barbara com Nick. Porém, ele tinha de regressar igualmente ao mundo real.

- O que vai acontecer? - perguntou ela encostando-se ao muro do alpendre e olhando para os olhos dele. Não viu nada que a assustasse, apenas muito amor.

- Porque não esperamos para ver? Eu posso vir cá passar todos os fins-de-semana que quiser. O dono da casa nunca cá vem. Não a acha suficientemente vistosa, por isso prefere alugá-la. É toda nossa, se assim o desejarmos. Eu posso vir de Los Angeles todas as noites, se quiseres. Depois do programa. Chegaria por volta da meia-noite e ia-me embora antes de o Tygue acordar.

- Nick, isso é uma loucura. Não aguentavas muito tempo. - Porém, tinha de admitir que a ideia lhe agradava.

- Podíamos experimentar, e tu podias ir a Los Angeles para te ambientares. Há muita coisa que podemos fazer, Cinderela. já te disse que isto é apenas o começo. O sapato de cristal serviu-te, não serviu? - Inclinou-se e beijou-a, tirando-lhe o cabelo dos olhos. - Amo-te. É tudo. - Era tudo. Simples, claro. E tudo o que ele dizia soava maravilhosamente... só que ela tinha de tomar as suas próprias decisões. Tinha de avançar ao seu ritmo e não podia esquecer Tygue.

- O que fazemos em relação ao Tygue?

- Deixa-o habituar-se às coisas. Confia em mim. Acho que sou capaz de tratar de tudo.

- Também acho que és.

- Então está combinado. Satisfeita?

Ela assentiu alegremente enfiando a mão no braço dele e descendo até ao carro. Nada fora combinado, mas soava tudo muito bem.

- Queres vir atrás de mim? - Era natural que ele a acompanhasse a casa, mas Nick abanou a cabeça e abriu a porta do carro. Ela observou-o admirada.

- Não. Acho que precisas de estar um bocado sozinha com o Tygue. E se eu lá aparecer por volta das seis? Dava-me jeito tratar de uns assuntos aqui em Santa Barbara.

- Durante duas horas?

Ele assentiu e Kate ficou cheia de ciúmes. E se ele tivesse .outra mulher na cidade? E se era por isso que ali ia com regularidade? E se era por isso que alugava a casa? E se...

Nick viu a expressão dela e desatou a rir.

- Minha querida, és perfeita e eu adoro-te! - exclamou, abraçando-a. - Estavas com cara de quem queria matar alguém.

- E queria - afirmou ela com um sorriso envergonhado.

- Espero que não fosse eu.

- Não. Era a mulher com quem eu imaginei que ias encontrar-te.

- Kate, minha querida, garanto-te que não tenho nenhuma amiga nesta cidade. Normalmente venho até aqui para fugir disso tudo. Quanto às outras, estou disposto a queimar a minha agenda em público na segunda-Feira ao meio-Dia, em frente à câmara municipal.

- Porquê esperar tanto tempo? Eu tenho aqui fósforos - disse Kate, remexendo nos bolsos da camisa.

Ele beliscou-lhe o nariz.

- Pois deves ter. Usamo-los mais tarde. Agora vai ter com o teu filho, sua ciumenta de um raio, antes que eu te viole já aqui.

- Ao pé da minha carrinha?

- Quando quiseres. - Nick abriu-lhe a porta e ela entrou. Depois fechou-a e inclinou-se para um último beijo. - Vai com cuidado, por favor.

- Sim senhor. Então até às seis. -Em ponto.

Esperou até que ela se afastasse, depois meteu-se no Ferrarí e dírigiu-se à cidade.

 

- Olha, mãe! É o Nick! - exclamou Tygue. A sua alegria era idêntica à de Kate e correram ambos lá para fora com Bert atrás quando o Ferrari azul se deteve, Os dois adultos trocaram um olhar e depois a atenção de Nick virou-se para Tygue. Saiu do carro e pegou na criança ao colo com um grande à-vontade.

- Como estavam as cabras?

- óptimas! E o Joey tem dois póneis. Bom, um é para a irmã dele. Mas não é bem. Ela é parva e tem medo dele. Que miúda parva, o pónei é bestial!

- Deve ser. - Nick pousou Tygue no chão e enfiou uma mão dentro do carro. - Tygue, quando fores grande e visitares uma senhora, é sempre boa ideia levares-lhe flores e chocolates. - Tirou do carro um ramo de lilases e de túlipas e entregou a Tygue uma enorme caixa embrulhada em papel dourado. - A tua mãe fica com as flores, tu com os chocolates. - A criança ficou radiante e a mãe também.

- Tu mimas-nos de mais, Nicholas.

- Com muito gosto, Cinderela. - Pôs o braço nos om bros dela, deu a mão a Tygue e entraram em casa. Estava uma agradável noite de Verão e corria uma ligeira brisa que refrescava um pouco. Fazia demasiado calor para acenderem a lareira. Em vez disso, sentaram-se no chão, cantaram, comeram cachorros quentes e salada de batata até serem horas de Tygue se ir deitar. Ele já ia meio a dormir quando chegou à cama, nos braços de Nick, e a mãe aconchegou-lhe a roupa. Quando os dois saíram do quarto, ele dormia profundamente. Nick tomou-a nos braços assim que fecharam a porta.

- Okay, borracho, onde é que fica o teu quarto? - perguntou ele, pegando-lhe depois ao colo, para espanto dela.

- Na porta ao lado - murmurou Kate a rir.

Pousou-a na cama. O quarto era alegre e cheio de flores. Licia oferecera-lhe uma colcha, cortinados e cadeiras forradas a condizer havia seis anos, mas continuavam bonitos como nessa altura.

- Parece um jardim - observou Nick, admirado e agradado. Havia flores e plantas por todo o lado, e muita verg branca.

- Estavas à espera de quê? De cetim preto?

- Credo! Se assim fosse, tinha-te atirado logo ao chão:

- Ai sim? - perguntou ela com um sorriso, desapertando-lhe a camisa. - E o que é que andaste a fazer em Santa Barbara, meu menino?

- Fui às compras, dei um passeio e tive imensas saudades tuas - respondeu ele, sentando-se na cama e tomando-a nos braços.

Kate nunca mais pensou no que ele lhe dissera que tinha feito em Santa Barbara. Até ao dia seguinte, quando recebeu um recado. Nick telefonara-lhe três vezes nessa manhã, depois de ter regressado a Los Angeles. Saíra às seis e meia, meia hora antes de ela acordar Tygue. Até ali tudo bem, o plano funcionara; porém, Kate perguntou a si mesma quanto tempo ele conseguiria aguentar. Era uma viagem de três horas para Los Angeles. Ele parecera animado ao telefone e nada dissera que a fizesse prever a chegada do recado pouco depois das três da tarde, a seguir a Tygue ter chegado das aulas. O recado dizia que havia um embrulho para Tygue Harper nos correios de Santa Barbara. Trazia o endereço de uma estação que Kate não conhecia e dizia que ele tinha de a levantar pessoalmente. Kate desconfiou novamente de Licia. O que seria agora? Talvez um carro. Ela prometera na brincadeira que ia esperar até ele ter seis anos. Kate sorriu e pôs o carro a trabalhar. Tygue insistira em ir de imediato aos correios e ninguém seria capaz de o aturar se não lhe fizessem a vontade.

Levaram meia hora a chegar à morada indicada; porém, quando lá chegaram, Kate percebeu que devia haver algum engano. Não estavam perante nenhum posto dos correios, mas sim uma casa, com um celeiro branco nas traseiras e algumas cavalariças. Kate estava prestes a ir-se embora quando viu um homem de chapéu à cowboy a acenar-lhe. Tygue acenou-lhe também e o homem avançou na direcção deles. Kate suspirou. Queria despachar-se. Ainda tinham de ir aos correios antes de eles fecharem. Porém, o homem já estava junto ao carro e olhava-os com um grande sorriso.

- Tygue Harper?

- Sim! - gritou ele.

- Temos uma encomenda para ti - disse o homem, piscando o olho a Kate, que não estava a perceber nada.

- Isto são os correios? - perguntou Tygue, muito animado.

- Não, mas temos uma encomenda para ti.

Foi nessa altura que Kate percebeu tudo. Apeteceu-lhe gemer, mas não teve coragem. Fora Nick. Escondeu o rosto nas mãos e começou a rir quando Tygue saiu do carro, muito animado, e correu ao lado do homem. Kate imitou-o com mais calma e seguiu-os até uma das cavalariças, Viu o homem abrir o portão, sem largar a mão de Tygue e levá-lo até junto de um magnífico pónei castanho-escuro e castanho-Claro. - Estás a vê-lo?

Tygue assentiu boquiaberto enquanto a mãe e o homem do chapéu o observavam.

- É esta a tua encomenda, Tygue. O pónei é teu.

- Oh... Oh!... Oh, mãe! - Correu para o pónei e lançou os braços ao pescoço dele. O animal tinha arreios vermelhos e uma sela nova. kate observou o rosto do filho, desejando que Nick pudesse também vê-lo. Então o homem do chapéu tirou do bolso duas cartas, uma para Tygue e outra para a mãe.

- Queres que eu ta leia, querido? - perguntou Kate, sabendo que ele estava demasiado excitado para sequer conseguir ler o seu próprio nome. Tygue fazia festas ao pónei, que parecia encantado com a atenção de que era alvo.

- O que é que diz?

- Diz... - Abriu a carta com cuidado e sorriu ao lê-la. - Diz o seguinte: «Achei que o pónei ficava bem com o fato à cowboy que a tua mãe te comprou em Los Angeles. É todo teu. Põe-lhe um nome bonito e daqui a uns tempos hei-de ver-te num rodeo. Nick.»

- Uau! Posso ficar com ele? - implorou Tygue.

Kate assentiu.

- Acho que sim. O Nick disse que ele era para ti, não disse?

Tygue assentiu com vigor.

- Então podes ficar com ele. Que nome lhe vais dar?

Kate sentiu um aperto no coração. A prenda era demasiado valiosa. Qual seria o seu significado?

- Vai chamar-se Brownie. - Daquela vez ele não teve de perguntar a Willie.

Ela abriu a carta que lhe era destinada. «Quinze minutos para comprar flores. Dez minutos para comprar chocolates. Cinco minutos a olhar para a lista telefónica à procura de cavalariças. Vinte minutos para chegar aqui. Sessenta e cinco minutos para escolher o pónei e tratar de tudo. Cinco minutos a sonhar contigo. Tudo junto, faz duas horas. Amo-te, querida. Até logo. Beijos, Nick.» Depois acrescentara um «P.S.» a dizer que tratara de tudo para que o pónei pudesse ali ficar, a menos que ela desejasse levá-lo para o rancho dos Adams; no entanto, podiam falar disso mais tarde - «e de outras coisas».

As «outras coisas» tiveram prioridade quando ele chegou a sua casa à meia-noite. Foram direitos ao quarto e Nick deitou-se cansado na cama, com um suspiro e um sorriso.

- Muito trabalho? - perguntou Kate com um sorriso, ainda a estranhar a novidade de ver um homem na sua cama.

- Nem por isso. Estive o dia todo ansioso por aqui chegar. O programa pareceu arrastar-se durante horas e tive a sensação de que nunca mais cá chegava.

- É uma viagem bastante grande, Mister Waterman.

- Acho que a senhora merece, Mistress Harper - retorquiu Nick sentando-se e estendendo os braços. Depois de ficar a olhar para ele durante uns segundos, Kate aproximou-se e sentou-se junto dele, - Estás a sentir-te tímida?

- Talvez um bocadinho.

Sorriram de novo e ele encostou suavemente os lábios aos dela. Kate perdeu a timidez quando ele enfiou a mão dentro da sua camisa e acariciou o seu seio até o mamilo ficar duro. Desejou-o ainda mais quando a boca dele pressionou mais a sua e a outra mão lhe acariciou o outro seio. Os anos de celibato foram esquecidos quando as mãos de Nick procuraram o toque sedoso da sua pele e deslizaram para baixo até ele encontrar o que procurava.

Passaram horas até se saciarem um do outro e ficarem deitados lado a lado nos lençóis amachucados. Nick acendeu um cigarro e Kate desenhou círculos no peito dele com um dedo. Então virou-se para ela e, pela primeira vez ao fim de muitas horas, lembrou-se de Tygue.

- E o pónei? O Tygue gostou dele?

- Estás a brincar? Quase morreu de felicidade. - Houve um momento de silêncio e Nick fitou-a com um sorriso. - E depois?... Noto que há aí mais qualquer coisa. Ficaste zangada comigo?

- Zangada? Como é que podia ter ficado zangada? Não... - Porém, Nick tinha razão. Havia mais qualquer coisa. Kate fitou-o e o seu sobrolho franziu-se. - Não sei como dizer isto, Nick, pois vai parecer ingratidão. Ele ficou maravilhado com o pónei, e é de facto uma prenda incrível para uma criança. Parece um sonho tornado realidade. Tu és um sonho tornado realidade. Talvez seja isso que me incomoda. O que eu quero dizer... é que não quero que tudo isto seja um sonho. Não quero que tu sejas um sonho. Quero que isto tudo seja real. E talvez... talvez se...

- Talvez se eu desaparecer, como é que vocês os dois irão sentir-se? É isso, Kate?

Nick parecia perceber o que ela sentia, e Kate ficou aliviada por ele não se ter zangado.

- Acho que sim, Nick. O que aconteceria se de repente desaparecesses? Agora há póneis e prendas e promessas de uma viagem à Disneylândia, mas depois... - Não acabou a frase; parecia de facto preocupada. E aqueles mimos todos que Tygue recebia também a incomodavam. Assemelhavam-se à enorme generosidade de Tom... perto do fim.

- Eu vou estar por aqui, Kate. Durante muito, muito tempo. Enquanto me quiseres. Não vou a lado nenhum.

Fora também o que Tom havia dito. Mas a vida não era assim, Kate sabia-o bem.

- Não sabes. É uma coisa que não podes controlar. Podes querer estar aqui, mas não sabes o que o destino te reserva.

- Querida... - Nick debruçou-se sobre Kate e tomou o rosto dela nas suas mãos. - Aquilo de que mais gosto em ti é do teu optimismo.

Ela esboçou um sorriso envergonhado e encolheu os ombros.

- Acho que vou levar algum tempo a habituar-me a todas as coisas boas que estão a acontecer comigo.

- E o mesmo pode acontecer com o Tygue. Não te iludas, pois até aqueles que oferecem póneis e prometem viagens à Disneylândia podem ser encarados com desconfiança.

- Acho que te saíste lindamente. Eu estava à espera que ele tivesse ciúmes de ti, mas não. - Isso ainda a surpreendia.

- Provavelmente vai ter quando perceber que eu vim

para ficar. - Estava sempre a dizer aquilo: «para ficar». Como é que podia saber? Como podia ter tanta certeza? E se as coisas não corressem bem? De certa forma, Kate ficava apavorada ao vê-lo tão seguro de si.

- Vá lá, Kate, estás com um ar cansado. já chega de preocupações. Amo-te e acho o Tygue bestial e não vou fugir de vocês. E se quiseres, não o mimo mais. Acabaram-se os póneis - disse ele com um sorriso, puxando um caracol de Kate. - Pelo menos por esta semana.

- Já pareces a Licia.

- Bolas, espero não ser parecido com ela.

- Nem por sombras, meu amor. - E com um sorriso de felicidade, Kate esqueceu o filho e estendeu de novo os braços para o seu amante. Eram quase quatro da manhã quando deixaram de fazer amor e Kate acendeu um cigarro com um suspiro de felicidade. Olhou para o despertador e fez uma careta.

- Amanhã vais estar de rastos.

- E tu? Podes voltar para a cama depois de o Tygue ter ido para a escola? - perguntou Nick, preocupado. Ela também tinha muito que fazer. Ele podia sempre dormir quando chegasse a Los Angeles; salvo raras excepções, só tinha de estar nos estúdios às três. A maior parte das coisas já estava feita, pelo que ele poucas vezes precisava de sair de casa antes das duas, a não ser que tivesse algum almoço combinado.

Kate suspirou em resposta à sua pergunta.

- Não. Amanhã vou a Carmel.

- Dar aulas?

Ela assentiu. Detestou ter de lhe mentir.

- Um dia destes posso ir contigo? Gostava de ver o que fazes.

Ela desviou o olhar e apagou o cigarro antes de responder. Nick não conseguia ver-lhe a cara e, quando viu, não percebeu bem a expressão de Kate. Pareceu-lhe ser de distanciamento. Isso admirou-o. E viu algo oculto no seu olhar, o que o perturbou ainda mais.

- Eles não me autorizam a levar ninguém. É um lugar um pouco complicado.

- Gostas de lá ir? - perguntou ele, procurando algo nela, embora não soubesse bem o quê.

Ela fechou os olhos.

- Dentro do género, não é mau de todo. - Deus do Céu, queria tanto mudar de assunto, mas tinha de soar convincente. Devia falar como se falasse de um emprego. Não podia contar-lhe nada a respeito de Tom. Ainda não. Nem sequer a Nick.

- Não podias arranjar uma coisa mais perto de casa?

Ela abanou a cabeça. Nick não quis fazer-lhe mais perguntas e, para além do mais, estavam ambos muito cansados. Fez-lhe uma festa na perna e ela fitou-o, admirada. Sentiu-se satisfeita por ele não insistir em querer saber o que ela fazia em Carmel. A mão no interior da sua coxa subiu mais um pouco.

- Outra vez?

- Estás a queixar-te? - perguntou ele com um sorriso. Entre os seus corpos acontecia algo que nunca lhe tinha acontecido com mais ninguém. Era uma espécie de êxtase que nenhum deles havia conhecido antes. E quando o despertador tocou às seis da manhã, nenhum se arrependeu da noite sem dormir.

 

- Deste aulas hoje? - perguntou ele com cautela quando se sentou no cadeirão ao pé da lareira. Acabara de chegar e, sorrindo para Kate, alargou o nó da gravata.

- Sim. - Hesitou. - Como correu o programa? -

O seu dia com Tom também não fora fácil. Ele estava constipado, tinha a garganta inflamada e chorara duas vezes.

- Foi de arrasar. - Disse o nome de três grandes vedetas de Hoflywood, duas delas mulheres conhecidas pela rivalidade existente entre ambas. Porém, Nick não queria falar do programa. Queria falar da única coisa que ela não lhe contava. E desejava saber porquê. Havia semanas que algo o incomodava. Discrepâncias, pequenas coisas. Algo. Fora durante todo o caminho para Los Angeles a pensar nisso e o assunto não lhe saía da cabeça desde que conhecera Kate. Havia pequenas peças do quebra-|Cabeças que ficavam sempre de fora. Coisas que ela não dizia, anos que nunca referia. E até algumas das que ela dissera o perturbavam. A forma como os pais a tinham abandonado, o seu desencanto com o «destino», os anos que vivera sozinha com Tygue e o «emprego» onde não podia levar ninguém. Estava na sua varanda de Los Angeles a beber a terceira caneca de café quando sentira uma necessidade súbita de saber as respostas. Tinha muitas formas de as procurar. Se calhar aquela segunda noite sem dormir começava a fazê-lo ter ideias estranhas, mas que se lixasse, não tinha nada a perder em procurar uma explicação e, para além do mais, Kate não precisava de saber. Nick não sabia ao certo o que procurava, embora soubesse que havia qualquer coisa. E a primeira pergunta tinha a ver com o nome dela e com o livro. Fora a primeira coincidência estranha. Kate sabia demasiado sobre futebol, sobre... As perguntas que tinham surgido ao longo de vários dias e haviam por fim formado uma história coerente certa tarde, pouco antes das cinco, quando se encontrava no escritório do estádio. A resposta não o surpreendeu nada. O homem que fazia as investigações para o programa era seu amigo e Nick dissera-lhe que a investigação era confidencial e pessoal. Não estava preocupado com uma possível fuga. Porém, não gostou do que ouviu, por causa de Kate.

- Acabei de descobrir tudo o que era possível acerca da rapariga de que me falaste. Mas, primeiro, deixa-me dizer-te o que descobri mais.

«Por estranho que pareça, não me lembrei do tipo até termos visto algumas fotografias do programa. Depois liguei para os jornais e para o arquivo da estação de televisão. O Tom Harper foi uma grande estrela de futebol há cerca de dez anos. Veio ao programa três ou quatro vezes, quando ojasper ainda trabalhava em Nova Iorque. Antes de tu trabalhares connosco, Nick. Bem, ele era um tipo simpático, segundo creio. O grande herói americano. Não sei por que motivo o nome não me disse nada quando mo referiste esta manhã. Ele jogou como profissional durante oito ou nove anos até a carreira começar a descambar. Não me recordo dos pormenores, mas sei que ele começou a meter-se em sarilhos quando ficou demasiado velho para o futebol profissional. Acho que cometeu a loucura de tentar alvejar o dono da equipa, ou o manager, ou outra pessoa qualquer, só que em vez disso deu um tiro nele próprio.

- Matou-se? - Níck recordava-se vagamente da história. Até chegara a encontrar Tom Harper uma ou duas vezes quando iniciara a sua carreira no futebol. Como as pessoas se esqueciam depressa das coisas! Há cerca de seis, sete ou talvez oito anos a notícia correra mundo, e agora fora preciso uma investigação para que o nome lhe voltasse a ocorrer. Kate gostaria de saber isso.

- Acho que ele não morreu, pelo menos de imediato. Não consegui saber todos os pormenores, mas parece que ficou paralisado, ou qualquer coisa do género. Acabaram por transferi-lo para uma casa de saúde elegante em Carmel, e creio que depois disso toda a gente o esqueceu. Ninguém parece saber se ele ainda está vivo ou não, e não consegui saber o nome da casa de saúde, se não, teria telefonado para lá. Um dos jornalistas escreveu uma história que explicava que o Tom Harper estava paralisado da cintura para baixo e com perturbações mentais quando o levaram para Carmel, mas mais nada. Quanto à rapariga, era mulher dele. Há pouca coisa acerca dela. Só algumas imagens dela a entrar e a sair do hospital. Mandaram-Mas e eu fiquei doente só de as ver. Ela tem o ar de quem está a viver um pesadelo, e há outra imagem dele a ser metido na ambulância para a viagem rumo a Carmel. Parece que não sabia o que estava a acontecer, tinha um ar acriançado e idiota. Depois disso, não se soube mais nada. Descobri umas coisas acerca do passado dela. Frequentou Stanford durante alguns meses, foi viver com o Tom Harper no fim do primeiro ano, viajou com ele para todo o lado, mas manteve-se sempre longe das luzes da ribalta. Durante algum tempo passou modelos. Na altura era muito bonita, mas isso já foi há bastante tempo. O único escândalo da sua vida é o facto de os pais a terem expulso de casa por ela querer casar com ele. Eram uns snobes da classe média alta que não suportaram a ideia de ver a sua princesa casar com um plebeu. Por isso, correram com ela de casa.

«Não sei mais nada, Nick, sobre o que aconteceu ao Tom Harper, se ainda é vivo, ou sobre o que aconteceu à rapariga. Não há mais nada na imprensa depois disso. Se conseguires descobrir o nome da casa de saúde em Carmel, poderei saber se ele ainda é vivo, mas se calhar o nome nunca veio nos jornais. Queres que tente descobrir?

- Não, eu posso tratar disso. Olha, muitíssimo obrigado. Disseste-me tudo o que eu queria saber. - Mais até. Agora sabia tudo. Podia imaginar o resto. Era evidente que Tom estava vivo e que continuava em Carmel. Era essa a «escola» misteriosa onde ela dava aulas. Tudo aquilo acontecera havia sete anos. E Tygue... Tygue tinha seis. Kate devia estar grávida quando Tom dera um tiro em si próprio. Vivera demasiado tempo sozinha. Durante o resto da tarde, Nick sentiu-se abatido ao pensar no que acontecera. Queria falar-lhe daquilo, deitar tudo cá para fora, abraçá-la e deixá-la chorar se ela ainda o quisesse fazer ao fim de todos aqueles anos. Porém, sabia que não podia dizer nada antes dela. Perguntou a si próprio quanto tempo isso levaria.

Agora sentado à frente de Kate, viu-a observá-lo e notou as suas olheiras. Kate também estava a pagar pela felicidade de ambos e pela sua vida dupla.

- Como correram hoje as coisas em Carmel, Kate? Foram dificeis? - Detestou ver a dor espelhada nos olhos dela. isso contava-lhe o resto da história que o seu amigo não conseguira descobrir. Perguntou a si mesmo como estaria Tom Harper. Soubera já que os danos mentais eram irreparáveis. Tinha de ser um grande esforço. Porém, Nick não podia imaginar como seria realmente lidar com uma pessoa assim durante um longo período de tempo. Uma pessoa que se amava.

- Sim, foi difícil - respondeu ela com um sorriso, tentando não desenvolver muito, mas Nick não permitiu.

- Eles são muito exigentes? - Referia-se a Tom, não a «eles», mas esperava que ao menos ela lhe dissesse a verdade. Uma espécie de verdade.

- Às vezes. As pessoas assim podem ser muito queridas e muito infantis, ou muito difíceis, como algumas crianças. Bem, mas isso não interessa, fala-me mas é do teu programa.

O assunto estava encerrado. Nick percebeu isso ao olhar para o rosto de Kate.

- As pessoas do programa também podem ser «muito queridas e muito infantis», ou completamente idiotas e igualmente infantis. Talvez a maior parte dos actores e das vedetas seja atrasada mental - declarou ele com um sorriso e um suspiro.

- A propósito, alugaste a casa para este fim-de-semana? - perguntou Kate desabotoando-lhe a camisa.

Nick assentiu.

- Sim. Sabes uma coisa? Estive a pensar. E se formos os três para lá?

Ela pensou um pouco e olhou para ele.

- Porque não aqui?

- Ainda não - respondeu Nick abanando a cabeça. Este é o território do Tygue. Não quero impor-lhe a minha presença.

Ele pensava em tudo, preocupava-se com tudo. Tal como ela se preocupava com ele. O suficiente para ficar aflita com o seu aspecto. Exausto.

- Nick?

- O que foi, querida? - Estava deitado no sofá, de olhos fechados, a segurar a mão dela. Tentava não se mostrar magoado com o facto de Kate não lhe falar de Tom. Sabia que teria de esperar até ela estar pronta a fazê-lo.

- O que é que vamos fazer?

- Acerca do quê? - perguntou, sabendo no entanto a que é que ela se referia. Estava a pensar na mesma coisa. já há três semanas que nenhum deles dormia a noite toda.

- Não podes andar a correr de um lado para o outro para sempre.

- Estás a dizer que já estou velho? - Nick abriu um dos olhos e Kate sorriu.

- Não. Eu é que estou. E se isto está a dar cabo de mim, imagino o que não estará a fazer-te a ti, a ir todos os dias para Los Angeles.

- Não te preocupes. Porque não deixamos passar o Verão? Depois logo se vê.

- Depois logo se vê o quê? - Pensara nisso durante o regresso a Carmel. A viagem dera-lhe uma ideia da distância que Nick percorria todas as manhãs e todas as noites. A distância era a mesma. - O que raio vamos fazer depois do Verão?

- Eu podia comprar um avião. Talvez um helicóptero - sugeriu ele a brincar e Kate deu-lhe um beijo na cara. Aculpa também era sua. Mas havia Tygue e ela não podia simplesmente... - Descontrai-te, querida. Depois logo se vê. Estou à espera de ver o que é que o Jasper vai decidir em relação ao programa. Isso poderá mudar tudo. Ele tem de tomar uma decisão durante as próximas duas semanas.

- Pode mudar tudo como? - inquiriu Kate, cada vez mais preocupada.

- Não ligues. Não penses mais nisso. É uma ordem.

- Mas...

- Chiu! - Nick encostou os lábios aos dela e respondeu a todas as objecções com beijos até ela ter desatado a rir. Depois foram para a cama. Porém, naquela noite nem sequer fizeram amor. Limitaram-se a dormir, enroscados um no outro, exaustos. E quando Kate acordou na manhã seguinte, Nick já tinha partido.

- Onde é que arranjaste isto? - perguntou Tygue, pegando numa T-shirt branca enorme com um olhar desconfiado enquanto a mãe se tapava com o lençol. Era a primeira vez que Tygue aparecia no quarto de Kate antes de ela ter tempo de vestir um roupão, e Kate pôs-se à defesa. Tinham estado tão cansados que Nick se esquecera da camisola interior debaixo da cama.

- Vesti-a ontem para tratar do jardim.

- Tem o cheiro do Nick - insistiu ele, fitando-a muito sério. Começava a sentir ciúmes. Nick tinha razão. A alegria inicial fora demasiado boa para ser verdade, ou para poder durar.

- Foi o Nick quem ma deu. O que queres comer ao pequeno-almoço? Cereais ou ovos? - E por que raio devia ela dar-lhe explicações? Tinha direito a ter debaixo da cama todas as camisolas interiores que lhe apetecesse.

- Quero fatias douradas ou panquecas - respondeu ele com vontade de discutir.

- Isso não faz parte da ementa - retorquiu Kate muito séria.

- Oh, está bem. Ovos. Quando é que o Nick vem ver o Brownie outra vez? - O mais engraçado é que ele parecia ansioso por voltar a ver Nick e também zangado, como se quisesse discutir com a mãe.

- Ele disse que aparecia cá no fim-de-semana. Aliás - Kate susteve a respiração - ele convidou-nos para passar uns dias na casa de Santa Barbara. O que te parece?

- Okay. Talvez. Tu também vais?

- Claro. Alguma objecção?

- O Nick não gosta de falar de cavalos quando estás ao pé. Quando estamos sozinhos, ele fala sobre coisas mais interessantes.

- Bem, talvez vocês pudessem ir os dois à cavalariça, ou passear na praia, ou qualquer coisa parecida. O que achas?

- Pode ser. - No seu olhar surgira um sorriso. - Posso levar o Joey?

Ela nem sequer tinha pensado nisso, mas parecia-lhe uma boa ideia. Assim Tygue estaria mais ocupado, e ela e Nick teriam mais tempo para estar sozinhos.

- Vou perguntar, mas desconfio que o Nick vai dizer que sim.

Nick dizia que sim a tudo o que Tygue queria. Por vezes isso incomodava-a. Ele mantivera a promessa de não o mimar demasiado, porém continuava a fazer todas as vontades à criança e Kate sentía-se irritada, pois isso tornava-lhe mais difícil Controlar o filho. Fazia também com que Nick fosse sempre o bonzinho e ela a má da fita, quando tentava discipliná-lo. Para além do mais, era uma novidade para Kate ter outra pessoa a mimar Tygue. Durante muito tempo Tygue só pudera contar com ela para tudo e era difícil partilhar a glóría com outra pessoa. Não gostava de admiti-lo, mas sabia que era verdade. Claro que também havia Felicia, mas as visitas dela eram raras, as de Nick cada vez mais frequentes e com a familiaridade surgia também o direito a uma certa autoridade que era difícil de aceitar. Tygue não era o único a ter de adaptar-se. Kate tinha de aceitar algumas coisas novas na sua vida, mas valia a pena por causa de Nick.

- Não te esqueças de perguntar ao Nick se o joey pode ir - disse Tygue por cima do ombro saindo do quarto.

- Está descansado. Agora vai-te vestir.

Tygue desapareceu no seu quarto e Kate enfiou a camisola interior numa gaveta, mas não sem antes a cheirar, Tinha o cheiro dele, a limão e a especiarias. Isso fê-la desejálo.

Porém, Nick não telefonou naquela manhã. Quem o fez foi Stu Weinberg.

- Tenho uma surpresa para si, Kate. - Parecia muito satisfeito.

- Boa ou má?

- Só tenho boas surpresas - retorquiu ele, tentando parecer ofendido, sem contudo o conseguir.

- Muito bem, diga lá.

- Bom, minha querida, acabaram de me pedir que a convidasse a passar oito dias no Hotel Regency em Nova Iorque, três dias em Washington, dois dias em Bóston e um dia em Chicago no regresso. É uma viagem promocional ao seu livro, e nas quatro cidades você irá aparecer nos melhores programas possíveis. Ficará sempre instalada em hotéis de cinco estrelas. Miss Harper, conseguiu!

- Deus do Céu! - Outra dificuldade a ser ultrapassada. E ela que se sentia tão satisfeita com o planalto onde chegara. Porque tinha de subir ainda mais? - Tem mesmo de ser?

- Está a brincar? - retorquiu ele, horrorizado. - Olhe Kate, para falar com franqueza, quer um best seller ou uma bomba? Se quer receber o dinheiro dos direitos também tem de fazer alguma coisa.

- Por outras palavras, tenho de tocar para comer. - Não ficara nada satisfeita. - Quantos dias é que são ao todo?

- Precisamente duas semanas. Não é tão mau como isso, pois não?

Ela suspirou.

- Acho que não. Mas posso dar-lhe uma resposta depois? Tenho de ver se arranjo alguém para ficar a tomar conta do Tygue.

- Claro, minha querida. Eu ligo-lhe mais tarde.

- Quando é que eu teria de partir?

- Na segunda - respondeu ele abruptamente.

- Daqui a quatro dias? - já era quinta-Feira.

- Ele não me avisou com muita antecedência, bolas! - exclamou Stu, calando-se. já falara de mais.

- Quem é que não o avisou?

- O tipo do departamento de publicidade da sua editora.

- Ali. Bom, eu ligo-lhe mais tarde. - Kate queria telefonar a Nick e Stu respirou fundo. Bolas, quase dera cabo de tudo. E prometera a Nick que não o faria. Devia estar a passar-se algo muito estranho para Nick lhe telefonar a fazer um pedido daqueles. Porque não a tinha convidado directamente? Stu sabia a resposta. Se Nick a tivesse convidado, ela não teria ido. Talvez assim fosse,

Kate apanhou Nick em casa, e ele parecia um pouco ensonado.

- Acordei-te?

- Não, estava só a pensar. O que se passa, querida?

Kate ouviu-o bocejar e imaginouo a espreguiçar-se.

- Esqueceste-te da camisola interior.

-Espero que não tenha sido num sítio muito mau.

Nick sorriu ao recordar-se do aspecto dela naquela manhã, profundamente adormecida.

- Foi debaixo da cama. O Tygue encontrou-a.

- Uops! Houve algum problema?

-- Com o Tygue parece que não.

Foi então que ele se apercebeu de que ela parecia preocupada. Sentou-se na cama e franziu o sobrolho.

- O Stu acabou de me ligar.

Nick franziu ainda mais o sobrolho. E ficou à espera.

- Programou-me uma viagem de duas semanas para promover o livro. Nova Iorque, Bóston, Washington e Chicago. Oito dias são passados em Nova Iorque. Meu Deus, Nick, não sei o que fazer! Estou apavorada. - Parecia estar prestes a chorar e Nick perguntou a si mesmo se teria feito bem. Talvez não tivesse o direito de interferir.

- Não te preocupes muito com isso, querida. Havemos de falar do assunto. Onde é que vais ficar instalada?

- Não sei. Esqueci-me de perguntar. E é para partir já na segunda-Feira. E... oh, Nick, o que é que eu faço? -Tive uma ideia. - Obrigou-se a soar animado enquanto fechava os olhos, sentindo que estava a empurrá-la de um precipício.

- O quê?

- Porque não vais outra vez ao programa do Jasper?

- Não posso, bolas! Acabei de te explicar. O Stu quer que eu vá a Nova Iorque - respondeu ela nervosa e exasperada.

- É precisamente onde o Jasper vai fazer o programa nas próximas duas semanas. - Abriu os olhos e aguardou. Não ouviu nada. - Queres ir a Nova Iorque comigo, Kate? Sei que não vai ser fácil, mas vou estar ao teu lado. Prometo. Vou estar junto de ti.

- Pediste ao Stu para fazer isto? - perguntou ela com incredulidade.

- Eu... - Gaita! já estragara tudo. Não valia a pena mentir-lhe. Tinha era de prometer não voltar a interferir. - Sim. Desculpa, sei que não devia, mas... - Ela desatara a rir.

- Kate?

- Seu patife! Fizeste mesmo isso? E eu a pensar que era a sério. A pensar que o meu editor iria obrigar-me a promover o livro... se não, nunca mais publicaria nada meu. A pensar...

- E pensaste bem. Só que eles não te disseram nada até eu comentar com o Stu que achava que eras capaz de aceitar. Podes ir de avião a Bóston e a Washington, indo de manhã e vindo à noite, e ficar comigo em Nova Iorque.

- E em relação a Chicago?

Kate continuava a rir-se, felizmente.

- Também querem que lá vás? - perguntou Nick num tom de estupefacção.

- Sim senhor.

- São muito zelosos, não achas?

- Sabes uma coisa? És maluco, completamente maluco. já sabias disto tudo quando cá estiveste ontem? - A casa dela era agora a casa de ambos.

- Sim, confesso.

-Há quanto tempo é que sabes?

- Desde segunda. O jasper informou-nos de repente.

- Bestial.

- O que é que vais fazer agora? - Nick estava cheio de curiosidade. - Quero dizer, para além de me dares um murro no olho quando eu chegar logo a casa?

- Tens a certeza que queres que eu te diga pelo telefone? - retorquiu ela num tom misterioso, e Nick desatou também a rir.

- Esquece isso. Vais comigo?

- Será que tenho alternativa?

Nick hesitou, sem saber o que dizer, e decidiu arriscar.

- Não, não tens. Eu preciso muito de ti. Pede à Tillie que fique com o Tygue e depois compramos-lhe todos os brinquedos que virmos.

- A propósito, ele aceitou o teu convite para o fim-de-semana, e quer levar o joey.

- Óptimo. Até pode levar o King Kong. Quero é saber se vais comigo para Nova Iorque.

- Sim, raios, sim! Vou! Estás contente?

- Muito.

Sorriram os dois.

- Sempre tenho de promover o livro?

- Claro que sim - respondeu Nick, chocado. - E eu estava a falar a sério. Vou pôr-te no programa com o jasper.

- Tem mesmo de ser? - perguntou ela deitada na cama e a sorrir para o telefone.

- Sim, tem.

- Nick?

- Sim, querida? - disse ele muito terno. - Será que podias vir para casa?

- Quando, agora?

- Sim.

Nick tinha uma montanha de coisas para fazer, mil assuntos a tratar ... e uma mulher que adorava.

- Já estou a caminho.

E estava mesmo.

 

- Kate?

- Hum?

Estava a dormir no avião, no banco ao lado do dele. já há vários dias que andava numa grande agitação. Insistira em «dar aulas» na sexta; porém, a viagem a Carmel dera-lhe a oportunidade de fazer compras. Haviam passado o fim-de-semana na casa de Santa Barbara, Joey também, e no domingo à noite ela e Nick tinham seguido para Los Angeles, a fim de poderem arrancar juntos na segunda de manhã. Era a primeira vez que ele não fazia a viagem com Jasper. Queria estar sozinho com Kate. Uma olhadela ao relógio informou-o de que iriam aterrar em Nova Iorque dali a uma hora. Beijou-a ao de leve na cabeça e prendeu a mão dela nas suas.

- Miss Harper, amo-a. - Nick disse as palavras mais para si próprio do que para Kate, mas ela surpreendeu-o abrindo um olho e esboçando um bocejo que se transformou num sorriso.

- Também te amo. Que horas são?

- Na nossa hora são duas da tarde. Aqui são cinco. Aterramos às seis.

- E depois? - Kate ainda nem se lembrara de lhe perguntar. Esticou as pernas sob o banco da frente e olhou para o seu fato creme. já o vestira mais vezes do que esperara quando o comprara, - Oh, meu Deus!

- O que foi?

Kate olhava para ele com o terror estampado nos olhos verdes que ele adorava.

- É o Tygue? Esqueceste-te de alguma coisa?

- Não. É a Licia. Esqueci-me de lhe dizer que ia viajar. Se ela telefonar e a Tillie lhe disser que fui para Nova Iorque, ela tem um ataque.

- Achas que não vai gostar? - Nick tinha curiosidade em conhecer esta pessoa que era tão importante na vida de Kate. Talvez ela o detestasse, talvez tivesse ciúmes do papel dele na vida de Kate. Fitou-a com curiosidade.

- A Licia? Não gostar? - Kate encostou-se a ele com uma gargalhada. - Ela era capaz de te dar uma medalha por me teres tirado do meu buraco.

- Já lhe falaste de mim?

Kate abanou a cabeça. Ainda não. E não sabia bem porquê. Talvez tivesse medo que a magia desaparecesse e depois de contar a Licia seria mais difícil suportar a perda de Nick se ele se afastasse.

- Não, ainda não.

- Gostava de a conhecer. Deve ser uma grande mulher. Achas que iria simpatizar com ela?

- Acho que sim. - E se não simpatizasse? Ela adorava Felícia, sempre adoraria. Porém, já se sentia cada vez mais pertença do mundo de Nick. Este ocupava um lugar especial na sua vida.

Nick reparou na expressão séria do seu olhar e puxou-a para si.

- Às vezes ficas tão pensativa, querida. Um dia vais deixar de ficar. - Quando Kate se punha assim, Nick sabia que ela estava a pensar em Tom.

- Vou deixar de ficar como?

- Como se o teu único amigo te fosse abandonar. -Tens a certeza de que não vai?

- A certeza absoluta.

Kate percebeu que ele falava verdade e sentiu-se em paz quando fechou os olhos. Era tão feliz com ele. Porém, isso não podia durar para sempre. Nada durava, independente mente do que ele pudesse dizer. Tom também fizera promessas, mas na altura ela não tinha as mesmas preocupações. Não percebera ainda que as coisas podiam chegar ao fim muito depressa.

- Estás com medo de Nova Iorque?

Nick obrigou-a a voltar de novo ao presente, erguendo o rosto dela na direcção do seu. Sorria-lhe e ela retribuiu o sorriso.

- Às vezes. De vez em quando entro em pânico e apetece-me esconder na casa de banho das senhoras, mas depois esqueço-me e fico cheia de curiosidade. já passou tanto tempo que mal me lembro.

- Óptimo. Quero que encares tudo como se fosse a primeira vez - respondeu Nick com ar satisfeito. Iam ficar instalados no Regency, a três quarteirões do hotel de Jasper. Este era fa do Pierre. Nick desejava ficar noutro lado para que Kate não se sentisse pouco à vontade. - A propósito, reservei quartos separados.

- Reservaste? - perguntou ela, desapontada, e Nick soltou uma gargalhada.

- Não faças essa cara, tontinha. Ficam ao lado um do outro, e podemos usar um como escritório. Achei que era melhor, não fosse um jornalista metediço descobrir que estamos juntos. Assim, encontramo-nos apenas no mesmo hotel. Uma coincidência agradável.

- Como é que consegues pensar em tudo? - perguntou ela mais animada. - Em sapatos de cristal, em quartos separados para proteger a minha boa reputação... Há alguma coisa em que não penses?

- É por isso que sou o produtor do programa do Jasper já há tantos anos, querida. Faz tudo parte do meu trabalho. - Porém, Kate sabia que fazia parte da natureza dele. Trocaram outro sorriso e olharam para a cidade. Lá fora o dia ainda estava claro, e estaria ainda durante várias horas, embora já se notasse que a tarde ia adiantada. - A propósito, vai estar um calor terrível. Trouxeste muita roupa reduzida?

Kate soltou uma gargalhada ao aceitar o copo de champanhe que ele lhe estendia. Era maravilhoso viajar em primeira classe e beber champanhe de costa a costa.

- Fiz o que pude. Não tive muito tempo para fazer compras. - E Carmel não era São Francisco, mas mesmo assim ela não se saíra mal. Quando abandonaram o avião em Nova Iorque percebeu o que Nick queria dizer em relação ao calor. Nunca ali tinha ido no pino do Verão e a temperatura era elevadíssima, mesmo às seis da tarde.

Nick providenciara para que o atendimento a clientes especiais da companhia aérea se ocupasse deles à chegada, e foram ambos imediatamente conduzidos à porta do terminal. As malas seriam separadas das dos outros passageiros e levadas para o carro. O pequeno carro eléctrico zumbia, abrindo caminho entre a multidão. Toda a gente parecia estar cheia de calor, de cansaço e muito pálida, contrariamente ao aspecto bronzeado e saudável dos californianos. já há muito que Kate não via pessoas assim, e ainda por cima em tão grande número. Sentiu-se sem fôlego enquanto abriam caminho por entre a multidão no terminal gelado. O ar condicionado estava a trabalhar no máximo, refrescando as pessoas quentes, cansadas e transpiradas.

- Admíra-me que não morram de pneumonia - observou Kate apertando com força a mão de Nick no carro eléctrico e olhando em volta. Em seu redor havia muito movimento e barulho. Era simultaneamente medonho e fascinante. Como visitar outro planeta.

- Admira é que não morram com falta de ar, queres tu dizer. já tinhas visto tanta gente?

Kate abanou a cabeça. Nick tratara de tudo com muito cuidado, para que ela não se sentisse intimidada logo à chegada. já se encontravam na porta do terminal e o motorista aguardava-os na berma.

Passaram pela porta giratória e Kate sentiu a multidão empurrá-la para o exterior, para o que parecia ser o vácuo.

O tempo estava tórrido e húmido e não corria uma aragem.

- Meu Deus! - Assemelhava-se a ter entrado no estômago de um elefante.

- Muito agradável, não é? - perguntou Nick com um sorriso e Kate fez uma careta. O motorista abriu a porta do carro, que estava fresco devido ao ar condicionado, e Nick incitou-a a entrar. Cinco minutos depois, o motorista tinha as malas deles e iam a caminho da cidade. Kate olhou por cima do ombro através do vidro fumado da limusina e viu a fila de pessoas que aguardava táxi. Reparou num taxista baixo e gordo que abanava um charuto junto à cara de outro homem, e quando a limusina se afastou ela soltou uma gargalhada. - Não é de loucos?

- Parece um circo. - Não se recordava de que a cidade fosse tão intensa. Tudo parecera mais calmo na altura em que ali estivera nas férias da Páscoa com os pais, quando tinha dezassete anos. Haviam ficado instalados no Plaza e lanchado no PaIm Court e num sítio chamado Rose- Marie. Tudo isso parecia já ter acontecido há mil anos. Tom nunca a deixara ir a Nova Iorque consigo. Odiava a cidade e normalmente ficava instalado nos arredores em casa de amigos. Kate percebia agora porquê. Aquele lugar não era para Tom, nem para Nick, embora este parecesse sentir-se completamente à vontade. Protegera-a de todas as coisas desagradáveis, até do calor.

Kate observou o tráfego intenso enquanto iam a caminho do hotel. Mesmo em Park Avenue os carros avançavam como se estivessem zangados. Solavanco, paragem, travadela, buzinadela, grito e novo solavanco. O barulho era ensurdecedor, mesmo no habitáculo da limusina.

- Como é que as pessoas aguentam?

- Não sei. Ou não reparam, ou adoram.

Mas o mais louco era que Kate também adorava. Adorava a vivacidade de tudo aquilo. A agitação e o brilho, o crepitar das coisas à medida que tudo se movia a grande velocidade. Apeteceu-lhe sair do carro protector e caminhar. Mas teve receio que Nick pensasse que era doida. E ingrata. Ele que fizera o possível e o impossível para a proteger dos seus medos. Contudo, ali estava ela, desejosa de abrir caminho entre a multidão.

Chegaram ao Regency e o motorista entregou-a nas mãos protectoras do porteiro, de onde Nick a tirou, conduzindo-a lá para dentro. Era conhecido no hotel. Assinou o impresso na recepção e foram de imediato conduzidos aos quartos.

O de Kate era uma suite, o dele um enorme quarto com uma porta que dava para a sala dela. Decidiram usar o quarto dele como escritório e o dela como «lar». As malas foram postas em prateleiras douradas e brancas, e Kate olhou em volta enquanto os seus pés se afundavam na alcatifa espessa; depois, com um suspiro, sentou-se no sofá de seda cor-de-rosa. Tudo era muito discreto e bonito. Parecia uma aguarela inglesa e tinham uma bonita vista da cidade da janela voltada para sul. Kate tornou a olhar em volta e depois para Nick, com um sorriso e um suspiro. Sentia-se como a pobre menina rica, protegida de tudo o que era divertido como a terra e o barulho e todas as pessoas loucas que ela desejava ver e de quem desejava correr ao lado. Nick tivera as melhores intenções quando a protegera de tudo isso, mas ela tinha a sensação de que assim as coisas mais divertidas ficavam fora do seu alcance. Talvez fosse uma parvoíce sentir-se assim, mas o certo é que sentia. De súbito, apeteceu-lhe libertar-se da carapaça, e até de Nick... do passado... de Tom... de Tygue... de todos eles. Apeteceu-lhe ser livre.

- Queres beber alguma coisa? - perguntou ele alargando o nó da gravata e sorrindo. Reservara mesa no Caravelle. Pedira à secretária que o fizesse de Los Angeles nessa manhã. A reserva era para as nove, pois Nick achava que não iriam ter fome até essa hora. Assim ficariam com tempo para beber qualquer coisa e descansar, se calhar de ir ainda até ao bar do hotel e depois para um jantar calmo.

Kate abanou a cabeça em resposta.

- O que se passa, Cinderela? Pareces nervosa. Queres telefonar agora à Licia?

- Não - respondeu Kate. E também não queria telefonar a Tygue. Ainda não.

- Então o que te apetece fazer? - Nick sentou-se ao lado dela no sofá e pôs um braço por cima dos seus ombros. Kate soltou uma gargalhada. Gostou de ver o brilho nos olhos dela. Nova Iorque já estava a fazer-lhe bem. Parecia que ela ganhara vida. - Os teus desejos são ordens.

- A sério?

- Claro que é a sério.

- Está bem. Quero ir dar uma volta.

- Agora? - perguntou Nick, perplexo. Às sete da tarde ainda estavam trinta e cinco graus e a humidade era quase de cem por cento. - Com este calor? - Ela assentiu alegremente e ele riu-se. Compreendia. Kate, que vivera escondida durante anos, quase desde que saíra da adolescência, era de novo jovem e tinha fome de viver. - Okay, Cinderela, tu mandas. Queres mudar de roupa primeiro? - Ela abanou a cabeça com um sorriso igual ao do filho. - Nesse caso - disse Nick, dando-lhe o braço quando se levantaram - vamos andando.

Era mesmo aquilo que ela queria. Subiram Madison Avenue e viram todas as montras, depois foram ao Central Park, onde ainda havia pessoas a brincar na relva. Atiravam-se bolas, ouviam-se rádios, os autocarros passavam e os flacres rodavam atrás de cavalos cansados e cobertos de flores. Parecia que alguém pegara em todas as partes, em todos os rostos, em todos os carros, em todos os cheiros, em todas as cores e os tivesse reunido numa cidade, dando-lhe o nome de Nova Iorque.

- Caramba, adoro isto! - exclamou Kate, inspirando profundamente o ar poluído e suspirando de prazer.

- Acho que criei um monstro - observou Nick a rir.

Adorava vê-la tão animada. Parecia tão viva. Devia ter tido aquilo já há muitos anos. O fogo, a animação e o êxito. Estava satisfeito por poder partilhá-los com ela, Nick olhou para o relógio. já passava das oito e encontravam-se perto da Rua

61 e da Quinta Avenida, a dois quarteirões do hotel. já tinham andado pelo menos vinte, absorvendo tudo: Kate a admirar a cidade com paixão e ele a observá-la, deliciado. Queres ir agora mudar de roupa?

- Onde é que vamos?

- Ao melhor restaurante da cidade. Tudo por ti, Cinderela - proferiu, abarcando com uma mão a cidade.

Kate foi a sorrir até ao hotel e quando Nick fechou a porta do quarto, avançou para ele com um brilho nos olhos.

- Isso quer dizer aquilo que eu penso? - perguntou ele a sorrir da porta da casa de banho.

Kate estendeu as mãos e abriu-lhe o fecho das calças.

- Quer sim senhor.

- Minha senhora, não sei o que é que esta cidade está a fazer consigo, mas agrada-me.

Não chegaram ao quarto; fizeram amor na alcatifa da sala. A língua de Kate e as suas mãos delicadas fizeram Nick gemer de prazer. Desta vez foi ela quem tomou as iniciativas. No fim, Kate esboçou um sorriso de vitória na penumbra da sala, feliz com a sua vida.

 

- Miss Harper? - A mulher com o vestido preto caro e o cabelo muito bem penteado entrou na sala e estendeu-lhe a mão. Kate apertou-a com nervosismo e alisou o seu vestido.

- Vai para o ar daqui a uni minuto.

Era a primeira vez que iria aparecer na televisão em Nova Iorque e sentía-se apavorada, mas preparada. Revira com Nick naquela manhã o que iria dizer. Envergava o vestido novo que comprara em Carmel. Era de linho cor de coral e realçava o seu bronzeado. Tinha posto as jóias da mesma cor que Licia lhe trouxera da Europa no ano anterior, apesar dos seus protestos. Agora sentia-se satisfeita por Licia ter insistido em que ficasse com elas. «Nunca se sabe.» Kate recordou as palavras com um sorriso. Tinha o cabelo apanhado e esperava parecer uma escritora. Pelo menos sentia-se uma escritora.

- Tenho estado a admirar a vista. - Era arrebatadora. Encontravam-se na extremidade sudoeste do edifício de trinta andares da General Motors, com vista para o Central Park se olhassem para a parte alta da cidade, e de Wall Strect se olhassem para a baixa. - Deve ser fabuloso viver nesta cidade.

A mulher do vestido preto soltou uma gargalhada, abanando a cabeça e revelando um enorme anel de esmeralda. - Eu dava o braço direito para viver na costa oeste. Porém, é aqui que a Atidrey faz o programa, por isso... - Levantou as mãos.

Aquela mulher era a melhor produtora da televisão, e o seu trabalho era muito semelhante ao de Nick. Kate percebia agora no que ele consistia.

- Está pronta?

- Acho que sim.

Segurou uma porta e Kate avançou. A porta do estúdio tinha por cima um letreiro iluminado onde se lia «No, Ar». Kate participou no programa durante quase uma hora, juntamente com três outras mulheres: uma representante das Nações Unidas, uma advogada famosa e uma mulher que ganhara o Nobel de bioquímica no ano anterior. Deus do Céu! Kate sentiu-se ficar sem fôlego ao fitá-las. O que estaria ela ali a fazer? Mas quando as mulheres a observaram, percebeu que estavam a pensar a mesma coisa. Ninguém a conhecia.

- Qual é a sensação de escrever o primeiro best seller? - perguntou Atidrey Bradford, a apresentadora do programa, com um sorriso, e as outras mulheres pareceram interessadas, mas não fascinadas.

- Ainda não chegou tão longe, mas devo admitir que é uma sensação muito agradável - respondeu com uma gargalhada e Audrey sorriu-lhe. Aquela era a melhor droga do mundo, a melhor coisa para o ego. O êxito. O êxito público.

Na televisão nacional. Mesmo assim, Kate continuava a sentir um certo antagonismo por parte das outras convidadas. Inveja? Desconfiança?

- A nossa pesquisa revelou que o livro vai na terceira reimpressão e que vendeu cinquenta mil exemplares em cinco semanas. Eu diria que é um best seller, não acha? Aliás, já começou a aparecer nas tabelas nacionais.

Ai já? Porque seria que ninguém lho tinha dito? Bolas! Cinquenta mil exemplares? Ficou sem fôlego, mas em vez de o mostrar sorriu.

- Nesse caso, dou a mão à palmatória. - Após alguns minutos de nervosismo, Kate ficou admirada ao ver como o programa estava a correr bem. As outras mulheres eram fascínantes e Audrey uma excelente apresentadora. Era capaz de transformar uma situação embaraçosa noutra muito agradável.

Kate ainda se sentia nas nuvens quando foi ter com Nick ao Lutèce para alrnoar. Sentou-se com ar radiante na mesa instalada no jardim.

- Olá, querido. Caramba, tive tanto medo. - Desatou a

contar-lhe como estivera tensa, como as outras mulheres eram famosas, como Audrey era espantosa, como a produtora era muitíssimo elegante, como...

- Então, tem calma. Mais devagar, Descontrai-te - disse Nick, divertido com o entusiasmo dela. Kate estava tão eléctrica como todas as outras pessoas de Nova Iorque.

Ela sentou-se com um sorriso envergonhado e respirou fundo.

- Já me acalmei.

- Ainda bem. Então, disseste alguma coisa de jeito no programa?

- Não estiveste a ver? - perguntou ela perplexa.

- Minha querida, já vais ver como é a minha vida em Nova Iorque. Estava confortavelmente instalado na suite do Jasper para te ver no programa quando os três telefones começaram a tocar ao mesmo tempo. Ele mandou instalar mais duas linhas. A secretária dele entrou a correr, aflitíssima: o nosso principal convidado do programa de logo à noite aqui encontra-se no hospital, devido a um ataque cardíaco. A secretária temporária que ele contratou aqui entrou na suí .te e demitiu-se. O filho mais velho do Jasper telefonou de Londres a dizer que tinha atropelado um miúdo e que estava preso. E entretanto fiz chamadas para nove pessoas a fim de ver se arranjava um substituto para o programa de logo. Não, minha querida, não estive a ver, mas tenho a certeza de que te portaste à altura.

Nick olhou para Kate com um sorriso e ela tentou esconder a sua desilusão. Às vezes esquecia-se do quanto ele tinha para fazer.

- A propósito, o Jasper acha que talvez gostasses de voltar ao programa. Talvez no final da semana.

- Já? Ainda há pouco lá estive.

- Não faz mal. Agora estás na berra, porque o livro continua a vender muito bem, e, como apareces nos programas do dia, o público feminino iria gostar de te ver também no nosso. - Durante um momento, ele deixara de ser Níck, era apenas um produtor, um desconhecido, um homem nervoso que tinha de coordenar o talk show mais importante do país. Nem sequer tivera tempo de a ver a primeira vez que aparecia num programa de Nova Iorque. - Vou pedir ao Stu que fale com o teu editor a respeito da tua ida ao programa. Ojasper quer mesmo ter-te lá. - Puxou de uma pequena agenda, escreveu qualquer coisa e levantou a cabeça, admirado, quando o empregado lhe trouxe um telefone.

- Uma chamada para si, Mister Waterman. - Seguiram-se dez minutos de uma conversa ininteligível com alguém da equipa de produção durante os quais Kate olhou para as mesas à volta. Estava a almoçar num dos restaurantes mais caros de Nova Iorque, rodeada de pessoas ilustres e poderosas. Nick fez sinal ao empregado e apontou para o relógio. O empregado assentiu e apressou-se a levar uma ementa a Kate. Só cinco minutos mais tarde é que Nick desligou o telefone.

- Desculpa, querida. Há muitos dias assim. - Mais até do que ele deixava transparecer. Kate nunca se apercebera do trabalho que ele tinha para fazer, embora começasse a ter uma noção. Nick voltou a olhar para o relógio. - Bolas!

- Algum problema?

- Não. Só tenho de te deixar daqui a vinte minutos. Preciso de discutir trinta e sete coisas com o Jasper antes do programa de logo à noite.

- O sortudo... parece que vai ver-te mais vezes do que eu - observou Kate um pouco amuada. Porém, tentou logo animar-se; não tinha o direito de ser tão exigente; haviam ido ali para trabalhar, não para se divertir.

- Lamento não ter visto o teu programa, Kate. Lamento mesmo. Para a próxima vou ver, aconteça o que acontecer. Prometo. Nem que tenha de trancar as portas e tirar os telefones do descanso.

- Okay, estás perdoado. - Beijaram-se quando a garrafa de Louis Roederer chegou. Era um excelente champanhe de 1955.

Comeram caviar em torradas finas como papel, croquetes, salada de endívias, framboesas com natas, e empurraram tudo com a garrafa de champanhe em menos de meia hora. O resultado foi Kate encostar-se às costas da cadeira, ligeiramente embriagada.

- Sabes... - Olhou para Nick com uma expressão filosófica e este sorriu ao pagar a conta. Ainda bem que tinha despesas de representação. - Sabes... - recomeçou Kate - às vezes é difícil lembrarmo-nos que todo este divertimento pode conduzir à desgraça.

- O que queres dizer com isso? - perguntou Nick quase a soltar uma gargalhada, mas lembrando-se subitamente de Tom. - Só se deixares que as coisas te subam à cabeça, Kate. É possível atingir o êxito sem se ficar louco.

- Tens a certeza? - inquiriu ela preocupada. Não se esquecera do que tudo aquilo fizera a Tom... - e a si própria.

- Já vi pessoas lidarem muito bem com a situação. Não podemos é perder a noção da realidade nem esquecermo-nos do que é realmente importante. E talvez saibamos que é bom enquanto dura, mas que não é tudo. Tens sorte Kate. Tens um lar a que podes regressar. Tens o Tygue...

-           Esqueceste-te de uma coisa - interveio Kate.

-           - Do quê?

-           Esqueceste-te de que te tenho ainda a ti.

-           - É verdade. Não te esqueças disso.

Ela não esqueceu. Aliás, não pensou noutra coisa quando regressou ao hotel, ainda sob os efeitos do champanhe. Era tão fácil embriagar-se com o êxito, com as refeições caras nos restaurantes elegantes, com a adulação e a atenção e os aplausos. Tinha de admitir que estava a gostar daquilo, embora também se sentisse amedrontada. De súbito, e pela primeira vez., percebeu que todas aquelas coisas tinham tentado Tom. Principalmente porque a vida dele fora muito simples antes do êxito. Fora-lhe impossível resistir. Seria ela tão diferente dele? Estaria a portar-se melhor? Não sabia.

Regressou ao hotel, adormeceu e foi acordada pelo telefone às quatro. Pedira ao recepcionista que a acordasse. Tinha de estar numa estação de rádio em West Side às seis da tarde. Daquela vez a entrevista correu mal. O entrevistador fez-lhe as perguntas erradas, e fartou-se de indagar como é que uma mulher podia saber tanto de futebol; foi agressivo, e Kate odiou todos os minutos, embora tenha dito a si própria que a publicidade seria boa para o livro. O editor prometera mandar-lhe um carro com motorista para a levar ao hotel, mas nem um nem outro apareceram e Kate deu por si a percorrer algumas das ruas mais perigosas de Manhattan e a rezar por um táxi. Eram nove quando chegou ao estúdio para se encontrar com Nick. A tarde dele fora bastante agitada, e já haviam surgido problemas para o programa da noite seguinte. Eram dez e meia quando, cheios de calor e sujos, saíram para comer qualquer coisa ao La Grenouille que, apesar da sua ele gância, não agradou a Kate. Sentia-se transpirada e exausta e só lhe apetecia ir para a cama, À saída, um fotógrafo do Women's Wear Daily apanhou-a e Kate quase lhe rosnou quando o flash disparou junto à sua cara.

- Então, tem calma, Kate. Não te esqueças de que isto é trabalho.

Ela suspirou e sorriu.

- Não sei. Começo a pensar que correr atrás do Tygue e do Bert não era assim tão mau.

- Eu bem te disse.

Subiram a Quinta Avenida de braço dado, e Kate estava de rastos quando se deitaram à uma da manhã. Ao acordar no dia seguinte, o cansaço ainda não desaparecera. Nick deu-lhe um exemplar do WÓmen's Wear e Kate franziu logo o sobrolho ao ver a fotografia de arribos à saída do restaurante, ao ler a legenda que dizia quem eles eram, referia o livro e fazia um comentário maldoso ao vestido dela.

- Bolas, estavam quarenta graus e eu ainda não parara. Afinal, o que é que eles querem de mim?

Nick, que estava a beber café, ríu-se e encolheu os ombros.

- Estás na berlinda, querida. Em Nova Iorque não perdoam nada.

- Então podem ir para o raio que os parta! Não gosto de aparecer nos jornais, - Estava muito nervosa e acendeu um cigarro. Era uma péssima forma de começar o dia.

- Como é que sabes? já alguma vez tinhas experimentado? - Ela fitou-o, calada. - O que se passa, querída? - Nick sentou-se na cama e pegou-lhe na mão. - É só uma fotografia no jornal, não o fim do mundo.

- Odeio estas coisas. Eles não têm nada a ver com a minha vida.

- Estão interessados em ti. És nova, és inteligente, bonita. O teu livro é um êxito. Isto faz parte.

- Não me interessa. - Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Ia começar tudo outra vez e eles iriam destruir o que tinham. Kate queria ir para casa.

- Então... vá lá, querida... já passou - disse Nick abraçando-a. - E se te incomoda assim tanto aparecer nos jornais, iremos ter mais cuidado. Vamos almoçar a um sitio mais discreto. - Num Papel, escreveu o nome de um restaurante francês na Rua 53 onde passariam despercebidos, deu-lhe um beijo e foi para uma reunião com Jasper. No entanto, quando se encontraram ao almoço, Kate ainda sentia um certo receio à mistura com a excitação. Tinha um ar cansado e Nick era bom observador.

- O que se passa?

- Nada.

- Estás outra vez preocupada com os paparazzí?

- Mais ou menos.

- Então não te preocupes. Nem mortos eles apareciam aqui. E as pessoas que comem aqui não merecem a atenção do Women's Wear.

- óptimo - disse Kate com ar aliviado, pegando na mão dele. - Detesto essas coisas.

- Porquê? - Por que motivo não lhe contava ela? Será que ainda não confiava nele? Nem agora?

- É uma espécie de violação. Arrancam-nos a roupa, olham para o nosso corpo e apoderam-se do que lhes apetece - respondeu ela com um ar triste.

Nick riu-se e inclinou-se para a frente.

- Posso ser o primeiro?

- Oh, pára com isso.

- Então, não penses mais no assunto. Faz tudo parte do pacote. Todos nos habituamos. já me chamaram desde ninfomaníaco a maricas. E depois?

Kate sorriu.

- A sério?

- Sim. Especialmente ninfomaníaco. - Mas não parecia orgulhoso. Tudo aquilo ficara para trás. Não olhava para outra mulher desde que conhecera Kate, fazia naquele dia seis semanas. - Olha, hoje é o nosso aniversário!

- Eu sei. A sexta semana - disse ela radiante, esquecendo os jornais. Que se lixassem. Aquilo é que era importante. Nessa noite, jantaram no 21 com Jasper e um conhecido produtor de teatro. Era agradável conhecer melhor Jasper e ela não se importava que ele tivesse conhecimento da sua relação com Nick. Jasper parecia aprovar e tratava-a como se ela fosse uma pessoa muito especial.

No dia seguinte encontraram-se para almoçar na suite dele no Hotel Pierre, e nessa noite ela e Nick foram comprar brinquedos para Tygue no FAO Schwarz.

- Queres experimentar o barco?

- Agora? - perguntou Kate com uma gargalhada quando saíram da loja. Era a única coisa que levavam; tinha mandado entregar o resto no hotel. Roupas de cowboy, uma bicicleta. Kate tivera de se zangar com Nick para que ele não comprasse uma casa de madeira em ponto pequeno. Queria comprar tudo. Ela não queria isso, e ele sabia. Ainda pensou em levar qualquer coisa para Tom, mas isso não era possível sem Nick se aperceber. Ele observava-a, segurando o barco teleguiado. Tygue iria experimentá-lo no lago.

-Olha, há um pequeno lago aqui no Central Park. Vêem-se lá muitos velhotes com veleiros e escunas. Vamos parecer uns pelintras, mas não faz mal.

Foi magnífico. Passaram ali duas horas, a falar com os velhotes, a ver os barcos, a sorrir para as amas que empurravam os carrinhos cheios de rendas. Em Nova Iorque, todas as pessoas aparentavam ser muito ricas ou muito pobres e a classe média parecia ter sido expulsa para outro lado. Talvez para Nova Jérsia. Ou para o Brorix.

A caminho da saída do parque passaram pelo jardim zoológico e Kate deteve-se junto aos póneis.

- Gostava que o Tygue aqui estivesse. Ele iria adorar.

- Talvez para a próxima. - Apertou a mão dela no seu braço pensando na criança e depois olhou para ela. - Queres andar de pónei, Cinderela?

- Estás a brincar? - retorquiu ela a rir. - Partia logo o flacre ou matava o cavalo. - O flacre era feito à medida das crianças.

- Responde.

- O que é que estás a tramar? - Já vais ver.

Saíram do parque e foram direitos aos fiacres alinhados na Rua 59. Ali, Nick deteve-se por um momento, falou com um dos condutores de chapéu alto e depois virou-se e ajudou-a a subir.

- Isto é mais o nosso tipo de velocidade.

O calor ainda era intenso; porém, Kate já se habituara à temperatura. Às cinco da tarde passeavam calmamente pelo parque no fiacre. As pessoas olhavam para eles e sorriam, as crianças acenavam-lhes. Era como se estivessem a viver um conto de fadas. Nick comprou gelados aproveitando um semáforo vermelho. Uma hora mais tarde, o condutor deixava-os à porta do hotel.

- Cheiro a cavalo - murmurou Kate com uma gargalhada quando atravessaram o átrio.

- Eu gosto - disse ele, sorrindo ao ver o bocadinho de gelado que ela tinha no queixo. - Estás toda suja. - Porém, sentia-se ansioso por se apanhar no quarto com ela. Passaram uma hora na cama e depois tiveram de se apressar. Ele foi fazer o programa de Jasper e ela ia aparecer no talk show rival de outro canal.

Correu muito bem, tal como o primeiro dos dois programas de rádio onde esteve no dia seguinte. No segundo, ninguém parecia saber quem ela era ou porque se encontrava ali. Nos jornais não apareceu mais nenhuma referência a Kate. Ela estava a gostar da viagem, apesar do seu ritmo frenético, e ficou admirada ao ver a facilidade com que se acostumava às entrevistas e às câmaras. Quando foi ao programa de Jasper, estava muito menos nervosa do que da primeira vez. Deixou que Nick lhe escolhesse o vestido, um HaIston colcante pérola-Acinzentado. Era o vestido mais sexy que ela vira, embora também bastante discreto. Ficava-lhe lindamente. Até Jasper ficou um pouco admirado quando Kate apareceu. Ela era uma mulher muito bonita. A sua ida ao programa foi o ponto alto da viagem.

- Então, Mister Waterman, qual é o programa das festas para amanhã? - O dia seguinte era sábado.

- Não sei. Queres ir à praia? Vai ser agradável voltar a ver um pouco de areia.

- Há alguma praia aqui perto? Pensei que os novaIorquinos não gostavam dessas coisas.

- Em Southhampton. - indicou Nick, deitado na cama, a olhar para a mulher que amava. Nesse momento o telefone tocou. - Atende tu. O quarto é teu, lembras-te? - Pensava em tudo.

- Sim? - Calculava que fosse Licia, ou talvez Jasper, para falar com Nick. Quem mais poderia ligar. Mas era Tillie.

- Ele o quê? A sério? O que- Deus do Céu. Mas ele está bem? - Kate pôs-se muito direita e Nick franziu o sobrolho.

- Agora? Porque é que ele lá ficou? Não pode ir para casa?

Nick estava a dar em doido por ouvir só um lado da conversa e começou a fazer perguntas, mas ela mandou-o calar.

- Esta tarde? Está bem. Vou ver o que posso fazer.

Desligou de sobrolho franzido, olhou para Nick e depois para o regaço com um suspiro. - Bolas!

- O que aconteceu, por amor de Deus?

- O Tygue caiu do portão no rancho dos Adams e partiu o braço. A Tillie disse que ele estava pendurado nele com o Joey e que caiu de costas. Pensaram que poderia ter uma concussão, por isso mantiveram-no esta noite no hospital. Ela disse que tentou ligar-nos ontem à noite, mas não nos encontrou e teve receio de deixar recado, não fosse eu entrar em

pânico. Bolas!

- Coitadinho. já sabem se ele não tem nenhuma concussão? E para que hospital é que a Tillie o levou? - perguntou 1 Nick, muito preocupado.

Kate sorriu.

- Para o de Santa Barbara. Ele já está bem. Tem alta esta

tarde. Vai é andar com gesso algumas semanas.

Nick olhou para o relógio.

- Se eu te puser no avião daqui a uma hora, chegas à Califórnia ao meio-Dia, apanhas um voo para Santa Barbara... e podes lá chegar às duas da tarde - sugeriu ele com um sorriso.

- Sim, eu sei - respondeu Kate sentando-se.

- O que se passa contigo? - perguntou Nick, admirado. - Vais para lá, não vais?

- Acho que não tenho alternativa - disse Kate, contrariada.

- O que quer isso dizer?

Era a primeira vez que Kate o via com aquele ar contrariado. Aliás, ele parecia ter ficado chocado.

- Quer dizer que sei que devo ir, mas que não me apetece. Estava a divertir-me tanto! A Tillie disse que ele está bem, porém, se eu não voltar já para casa, vou ficar cheia de  remorsos e o Tygue vai ficar muito sentido. oh, Nick! Há sete anos que não fazia nada sozinha e isto tem sido tão divertido!

- Ele não tem culpa que tenhas ficado trancada em casa durante sete anos, por amor de Deus! És mãe dele! - retorquiu ele aos gritos.

Isso chocou Kate.

- Okay. Eu sei isso. Mas não deixei de ser eu. Sou a Kate, não sou apenas a «mãe», Tenho quase trinta anos e há seis que sou mãe a tempo inteiro. Não achas que tenho direito a mais qualquer coisa?

- Sim, mas não à custa dele, menina. Nunca à custa dele. - Andava de um lado para o outro, furioso. - Deixa-me dizer-te uma coisa. já vi muitas idiotas. Deram cabo das suas vidas, das dos filhos, enganaram os maridos, destruíram os seus casamentos e sabes porquê? Porque estavam tão cegas consigo próprias que não eram capazes de ver com clareza. Adoram o barulho e as luzes, as apresentações e os aplausos, as câmaras e os microfones e sabes que mais? Estou a ver-te a fazer o mesmo. Bom, então faz um grande favor ao Tygue e a mim próprio: não vás por aí. Não hás-de encontrar nada. A fama é uma coisa agradável para visitar, mas mais nada. E agora, o teu filho partiu o braço, tu vais para casa e ponto final. Passou por ela, pegou no telefone e pediu à telefonista que lhe ligasse para a TWA; porém, antes de acabar a frase, Kate desligou-lhe o telefone. Nick fitou-a, abismado. Os olhos dela brilhavam de fúria, mas quando falou a sua voz era calma.

- Não voltes a fazer isso. Quando eu quiser ligar para a companhia de aviação, fá-lo-ei. Quando decidir voltar para casa, informo-te. E quando precisar dos teus conselhos a respeito das minhas responsabilidades de mãe, Peço-tos. Entretanto, meu menino, guarda para ti as tuas ideias, as tuas ameaças e a tua indignação. - Levantou-se e atravessou o quarto de costas para ele. Quando chegou à janela, virou-se, e Nick nunca vira tamanha ira no rosto de uma mulher. - Durante anos, dei tudo àquela criança. Tudo o que tenho, tudo o que sou, tudo o que sei dar... foram para ele. Mas agora é a minha vez. E sei melhor do que ninguém o preço que se paga. Vi uma pessoa que amava ficar contaminada com o vírus da fama. Sei tudo o que há a saber. E estou apavorada. No entanto, isso não quer dizer que desejo ser enterrada viva. Tenho direito a isto. Tenho direito a estar contigo, à minha carreira, à minha própria vida e, se fiquei triste por ter de voltar à realidade, tenho direito a isso, Mas não voltes a tentar fazer-me sentir culpada nem a dizer-me quais as minhas obrigações de mãe. Eu sei muito bem quais são e paguei caro. E não voltes a dizer-me o que devo fazer. Já passei por isso. Confiei num homem ao ponto de me apagar completamente, Deixei que ele tomasse as decisões por mim, adorava a situação e adorava-o, e quase morri quando ele deixou de ser capaz de decidir. Por isso cresci. Tomo as minhas próprias decisões e isso agrada-me. Amo-te, Nick, mas nunca mais voltas a dizer-me quando é que devo voltar para casa. Quem toma essa decisão sou eu. Estamos entendidos? - Ele assentiu em silêncio e ela aproximou-se de Nick de cabeça baixa. Parou quando chegou junto dele. - Desculpa se falei de mais, mas a minha vida não foi fácil e paguei muito caro para ter aquilo que tenho. Não sei como reagir se alguém quiser estragar isso. Nem sei como reagir quando alguém me quer ajudar. Estão neste momento a acontecer muitas coisas na minha vida. Preciso de tempo

para as assimilar... Talvez regressar a casa não seja afinal uma ideia assim tão má.

Estava quase a chorar quando se calou e estendeu a mão para o telefone. Pediu a ligação para a companhia. Nick estava calado; ouviu-a fazer a reserva para o voo seguinte, Levantou-se quando ela desligou e ficaram imóveis durante algum tempo, sem falar, sem saber o que dizer, abalados pelo que tinham sentido e dito. Foi Kate quem falou primeiro.

- Desculpa, Nick. , ;

- Não tens de pedir desculpa. Eu não tinha o direito... - Abraçou-a e suspirou. Queria fazer-lhe tudo, porque sabia que já há muito ninguém o fazia; no entanto, sabia que ela tinha de habituar-se sozinha àquela nova vida. Desejava poupá-la à dor e ao preço a pagar, mas não podia. Abraçou-a com

força, depois deu-lhe uma palmada no rabo e soltou-a.

- É melhor despachares-te, senão perdes o avião.

- Não perco nada - retorquiu ela com um sorriso. Era um sorriso a medo, muito feminino, e ele retribuiu-lho.

- Olha...

- Cala-te. - Puxou-o pela mão até ao quarto que tinham partilhado durante a estada em Nova Iorque, empurrou-o para cima da cama e começou a rir. - Não sejas tão sisudo, Nick. O mundo não chegou ao fim. - Aliás, parecia-lhe que estava ainda no começo. E quando ele lhe despiu a camisa, ela puxou-o, para si com um desejo quase incontrolável. A sua boca e o seu corpo ansiavam pelos dele.

 

- Tillie, pode ficar umas horas com o Tygue?

- Com certeza. Vou já para aí.

Kate sorriu ao desligar. Nick estava quase a chegar de Nova Iorque. Passara apenas uma semana, mas pareciam ter passado anos. O gesso dava muita comichão a Tygue e não parava quieto. Kate fora visitar Tom duas vezes e encontrara-o em baixo de forma. Parecia cansado e pálido e ela notou que ele perdera peso. Tom chorara na segunda visita, quando ela se fora embora. Todos estavam a pressioná-la, tal como sempre haviam feito. Só que ela era uma pessoa diferente. A semana anterior fizera-a recordar o que havia sido a sua vida antes de Nick. Mas agora ele ia regressar a casa. Ela tinha dois capítulos de um novo livro para lhe mostrar.

- Onde é que vais? - perguntou Tygue, preocupado quando a viu vestir o vestido cor de coral que ela usara em Nova Iorque.

- Buscar o Nick e fazer-lhe uma surpresa. - Sabia que não lhe devia ter dito, pois ele haveria de querer ir com ela.

O rosto de Tygue iluminou-se.

- Posso ir contigo?

Ela hesitou e suspirou.

- Está bem, matulão, ganhaste.

O que custava às vezes ser mãe! Apetecia-lhe tanto estar sozinha! Contudo, sabia que Nick iria ficar satisfeito por vê-lo. Ligou a Tillie a dizer-lhe que já não era preciso vir e disse ao filho para mudar de roupa. Ele já se habituara a mexer o braço engessado.

Meia hora depois estavam no carro. Tygue calçara as botas à cowboy novas e pusera o seu chapéu preferido. Kate sentia-se bonita com o vestido coral. Era agradável vestir roupas boas. Estava farta das calças de ganga e das camisas velhas.

Dispunham de três horas e meia para chegar ao aeroporto, e conseguiram mesmo à tangente. Correram para a porta de desembarque no preciso momento em que Nick ia a sair do avião. Tygue chamou-o e Kate ficou calada, ofegante. Tinham corrido que nem uns loucos.

- Olá, Tigre! - exclamou Nick, olhando admirado para o rapaz e depois para a mãe. Há anos que ninguém ia esperá-lo ao avião. Abraçou Tygue com ar radiante e depois Kate.

- Trouxemos-te uma prenda! - exclamou Tygue. Estavam os três contentes, e nem repararam que se encontravam no meio do caminho.

- Ai sim?

- SIM. Uma fotografia onde eu estou a montar o Brownie. A mãe mandou-a emoldurar e é para pores na tua secretária.

- Que boa ideia. - Nick colocou um braço sobre os ombros de Kate e começaram a andar devagar. - Olá, querida - disse baixinho; e ela voltou a beijá-lo.

- Tive muitas saudades tuas.

Ele revirou os olhos em resposta, puxou-a mais para si e voltou a sua atenção para Tygue.

- Eu também tive saudades tuas, Nick. E posso montar o Browníe mesmo com o gesso!

- Será boa ideia? - perguntou Nick olhando para Kate.

- O médico disse que não lhe fazia mal, desde que ele não andasse a galope. Andam sempre a passo.

- Okay.

Foram buscar as malas e em seguida dirigiram-se ao carro. Conversaram durante toda a viagem, e até Bert parecia contente por voltar a ver Nick.

- Agora a família está outra vez toda junta! - exclamou Tygue com um fervor que fez Kate esboçar um sorriso. O filho estava a ficar tão apegado a Nick! Porém, os seus sentimentos eram retribuídos; Nick estava ansioso por brincar com Tygue. Experimentaram todos os brinquedos novos antes de jantar.

- E espera só até veres o barco a funcionar! A tua mãe e eu experimentámo-lo em Nova Iorque. - Os adultos trocaram um sorriso.

- Há lá algum lago?

- SIM, para os barcos. E um jardim zoológico. E passeios de pónei. Havemos de te levar lá um destes dias. Aliás, meu menino, estou a pensar em levar-te a viajar.

- Ai estás? - perguntou Tygue de olhos muito abertos.

Nick tinha sempre muitas surpresas, e Kate estava à espera que ele sugerisse um fim-de-semana em Santa Barbara. Contudo, desta vez ela também foi surpreendida.

- Sabes o que vamos fazer amanhã? Tygue abanou a cabeça.

- Vamos à Disneylândia!

- Vamos? - perguntou Tygue, muito espantado, e Kate e Nick desataram a rir.

- Sim. Nós os três.

- Como é que conseguiste isso? - inquiriu Kate, aproximando-se e abraçando-o.

- O Jasper foi passar uma semana ao Sul da França. Por isso sou todo vosso, se conseguirem aguentar-me. - Depois de uma semana em Nova Iorque a trabalhar que nem um mouro ainda tinha energia para os levar à Disneylândia. Kate estava espantada.

-Mister Waterman, devo ser a mulher mais feliz do mundo.

- E eu o homem mais feliz.

A viagem à Disneylândia correu às mil maravilhas. Regressaram a casa três dias mais tarde, cansados e felizes, ficaram um dia em casa de Kate e depois foram passar o fim-de-semana a Santa Barbara. Há já uma semana que ela não ia a Carmel, mas não se importava. Sentia-se feliz onde estava. E Tom podia contar com Mr. Erhard. Por agora isso tinha de bastar. Ela precisava de viver a sua vida.

Tygue ficou muito triste quando o fim-de-semana chegou ao fim.

- Vemo-nos no próximo fim-de-semana, Tigre.

- Eu gostava de te ver antes disso.

Nick iria lá dormir todas as noites, mas Tygue não sabia.

- Talvez vejas.

Nick só soube que conseguiria cumprir o prometido no dia seguinte. Arrancou às quatro da tarde e chegou a casa de Kate às sete. A princípio, ela ficou admirada ao vê-lo, e depois a admiração deu lugar à preocupação. Ele parecia muito triste, mas só quis falar depois de Tygue ter ido para a cama.

- Então, conta lá. Não aguento mais.

Tinham acabado de fechar a porta do quarto de Tygue.

- Falei hoje com o Jasper, Kate. E... ele tomou uma decisão.

Tê-lo-ia despedido? Ele estava com um péssimo aspecto. Kate pegou-lhe na mão.

- Acerca do quê?

- O programa vai passar a ser feito em São Francisco.

- Quando?

- Daqui a seis semanas.

- E isso é mau? - perguntou ela sem perceber.

- Eu acho que sim. Tu não? São cinco horas de viagem, na melhor das hipóteses. Às vezes seis. Não posso ir e vir todos os dias. Nem sequer por ti.

Que tempo iriam ter juntos agora? Os fins-de-semana? No entanto, Kate sorria ao abraçá-lo.

- É só por causa disso que estás chateado? Pensei que tinhas sido despedido.

- E quase a mesma coisa. - Durante todo o dia pensara em despedirse. Qualquer um dos programas feitos em Los Angeles gostaria de poder contar com ele.

Kate fitava-o, espantada.

- Estás maluco? Qual é o problema?

-Vou ver-te muito pouco. Isso não te incomoda? perguntou ele quase a chorar.

Kate sorriu.

- Eu mudo-me para São Francisco. Há algum problema? - retorquiu ela como se ele estivesse a dizer disparates. Nick fechou os olhos e abriu-os com um sorriso cansado.

- Fazias isso por mim, Kate?

- Claro. Ou achas que isso iria dificultar-te a vida? Talvez ele não desejasse isso. Talvez continuasse a querer a sua liberdade. Tal como ela. Porém, continuariam a tê-la mesmo juntos.

- Dificultar? Kate, és espantosa! - Depois lembrou-se de uma coisa. - E o que vais fazer à casa?

- Posso cá vir aos fins-de-semana. E agora é a altura ideal por causa do ano lectivo. Podemos inscrever o Tygue numa escola e daqui a um mês as aulas começam e não haverá problema.

Tinha pensado no assunto quando ele falara na possibilidade da mudança para São Francisco, mas não lhe dissera nada e ele ralara-se em vão.

- Tens a certeza de que queres fazer isso, Kate? - perguntou incrédulo. Não sabia se havia de rir, chorar ou dançar.

- Claro que tenho a certeza, Príncipe Encantado.

- Oh, Kate...

Teve-a nos braços durante horas. Escusava de se ter preocupado. Iriam começar uma nova vida. juntos.

 

Os saltos dela ecoaram na sala vazia. Era uma sala enorme que tinha portas de vidro com vista para a baía. O chão era de madeira escura e nas paredes havia castiçais de bronze. À esquerda viam a Ponte Golden Gate, à direita Alcatraz e Angel Island mesmo em frente.

- A vista é líndíssima.

Kate assentiu, mas não disse nada. A vista era bonita... linda... mas fazia-lhe recordar a casa que partilhara com Tom. No entanto, isso era uma parvoíce. Essa casa não passara de um apartamento. Esta era uma vivenda encantadora. Nick quisera uma vivenda.

Kate foi até à sala de jantar, que tinha a mesma vista da baía, e pôs-se de costas para a lareira. A sala tinha vigas de madeira no tecto e janelas de sacada. Semicerrou os olhos, imaginando cortinas de organdi brancas e flores, almofadas convidativas nos bancos das janelas, um tapete branco macio e uma enorme mesa de madeira escura... Sorriu ao imaginar tudo aquilo.

- Vou voltar a ver o andar de cima.

A agente imobiliária assentiu em silêncio. Estava cansada. Há três dias que andava a mostrar-lhe casas, e já não tinha mais nenhuma. Kate vira de tudo. Salas pequenas, vistas arrebatadoras, casas com sete quartos, outras só com três, painéis de madeira, chão de mármore, vivendas vitorianas a precisar de obras. Vira de tudo, desde o mais decrépito ao mais espectacular. No entanto, parecia saber exactamente aquilo que queria e aparentemente ainda não o encontrara. Aquelas clientes eram as mais difíceis. Kate não iria comprar uma casa que não fosse idêntica à que tinha na cabeça. A agente sentou-se pesadamente no banco dajanela e folheou o livro pela trigésima vez em três dias. Não tinha mais nenhuma casa daquelas para alugar. Ouviu os passos de Kate no primeiro andar e depois notou que eles se tinham detido.

Lá em cima, Kate olhava para a vista do quarto maior. De novo a baía, os mesmos bancos acolhedores junto à janela, uma pequena lareira com a cornija em mármore e um quarto de vestir minúsculo. No entanto, a casa era acolhedora. Imaginou Nick a cruzar-se consigo no vestíbulo, a roçar nela no quarto de vestir e a beijá-la quando se dirigia ao seu roupeiro. Imaginou-se sentada à janela com Tygue, a olhar para a baía ao pôr do Sol e a conversar sobre um assunto importante, como basebol ou cobras. Até imaginou Bert ali, a passear por toda a casa. Havia mais dois quartos no primeiro andar. Um deles era bastante grande e a janela de alto a baixo dava para o jardim à frente da casa; era muito soalheiro. Esse quar to seria o de Tygue. O outro, que era igualmente bonito, seria para os hóspedes. Não precisavam de um, mas era sempre bom terem um quarto livre. Havia ainda um quartinho para a empregada ao pé da cozinha, que ela podia transformar em escritório. Não era bonito, mas pelo menos teria um local onde escrever.

A cozinha que vira lá em baixo era grande e com um balcão que dava para uma salinha onde poderiam comer quando não tivessem visitas. Duas das paredes eram de tijolo, com um churrasco encastrado, e a outra amarela; os mosaicos do chão também eram amarelos. Os azulejos tinham sido trazidos de Portugal pelos últimos inquilinos. A cozinha era perfeita... só precisava de vasos e de um gancho de ferro foado para pendurar chouriços e pimentões secos... frascos de vidro com especiarias... cortinas e a tábua de açougueiro que Nick tinha na sua cozinha. Kate tencionava levar pouca coisa da sua casa, só aquilo de que mais gostava. Nick dissera que comprariam as coisas mais funcionais. Era estranho estar a montar casa com ele sem serem casados. Quem ficaria com o quê? E quem é que decidia o que se comprava? No entanto, Nick parecia não se preocupar com isso e dera-lhe carta branca.

Kate tornou a olhar em volta para o quarto que seria de Tygue, e depois para o jardim bem tratado. Tinha à volta uma sebe alta, para que pudessem ter privacidade, e um portão; assim Bert não se perderia. A casa parecia ter tudo aquilo de que precisavam. Nick considerava indispensáveis a vista bonita, as lareiras e os tectos altos, a escadaria para o primeiro andar e os três quartos. Ela achava os quartos um pouco pequenos, mas o resto parecia ser exactamente o que haviam sonhado. Sentou-se no último degrau e olhou para cima. Sobre a sua cabeça havia uma clarabóia e à sua direita uma porta entreaberta. Talvez mais roupeiros. Kate espreitou, inclinando-se para trás. Parecia serem escadas. Franziu o sobrolho e levantou-se.

- Há mais alguma coisa lá em cima? - perguntou ela à agente.

Ouviu-a folhear o livro.

- Não tenho a certeza - respondeu.

Quando Kate se dirigia à porta, a agente apareceu ao fundo das escadas.

- Se calhar é um sótão. Mas não vem referido aqui no livro. Aqui só diz: «três quartos, escritório e quarto da empregada».

- Escritório? - Kate não vira nenhum.

A escada era estreita mas forrada a alcatifa e as paredes encontravam-se cobertas com seda bege ainda de aspecto novo. Não parecia ser o tipo de coisa que se pusesse nas escadas que iam dar ao sótão e quando Kate chegou lá acima compreendeu porquê. Não estava num sótão, nem sequer num escritório, era um oásis, um sonho. Uma sala pequena, de proporções agradáveis e painéis de madeira na parede com uma lareira e uma vista de 360 graus de São Francisco. A baía, o Presídio, a baixa, e as colinas que levavam ao Sul. A sala era alcatifada, tinha as habituais janelas de sacada e possuía ainda um pequeno anexo, uma espécie de solário que seria paradisíaco quando estivesse cheio de flores. Continuaria ainda a haver espaço para uma secretária e para algumas estantes.

O anexo tinha duas discretas portas envidraçadas que não tapavam a vista, mas ainda assim permitiam que uma pessoa se isolasse... o escritório perfeito. E um espaço muito agradável para estar com Nick depois do programa. Podiam acender a lareira e olhar para a cidade. Seria um esconderijo, uma sala para encher de beleza, de crianças e de amor. Toda a casa era assim; exactamente aquilo que Kate procurava, aliás, melhor ainda. Aquilo com que sonhara e julgara que nunca iria en contrar. Beleza, elegância, simplicidade, acolhimento, privacidade e funcionalidade. A agente imobiliária pensara que ela era maluca quando lhe dissera que procurava todas aquelas qualidades. E agora fora encontrá-las numa única casa, que ainda por cima não era nada parecida com a que partilhara com Tom.

- Ficamos com ela - anunciou Kate virando-se para a agente imobiliária, que entretanto subira também as escadas.

- É uma casa extraordinária - concordou a mulher. Kate assentiu com uma expressão de vitória.

- É perfeita. - Estava radiante e mal podia esperar por mostrá-la a Nick. - Quando é que pode dar-nos a chave?

- Amanhã - respondeu a mulher. Afinal tinham conseguido. julgara que não iriam fazer negócio. A mulher queria tudo e não se contentava com menos. Porém, a sala lá de cima transformara a casa num verdadeiro achado. Por que diabo ainda ninguém a tinha comprado? Porque se calhar ninguém reparara na sala. Não constava da planta. - Tenho indicação de que ela está disponível imediatamente. Podemos tratar já da papelada e a casa é sua.

- Na verdade, eu devia mostrá-la ao... ao meu marido. No entanto, tenho a certeza absoluta. É esta. Aliás, só para ter a certeza, quanto é que pedem de sinal? - A agente imobiliária deu uma olhadela aos seus apontamentos e disse-lhe um valor muito baixo. Kate teve vontade de gritar: «Só isso?», mas ficou calada. Aquilo era demasiado bom para ser desperdiçado. Passou o cheque à pressa e entregou-o à mulher. - Eu venho cá com ele logo à noite.

Assim fez, e Nick também se apaixonou pela casa.

- Não é estupenda? - Com ele podia ser exuberante.

- Oh, Nick, adoro-a! - exclamou, sentando-se no banco de uma das janelas de sacada.

- E eu adoro-te - retorquiu ele, aproximando-se com um sorriso e olhando depois para a vista da baía. - Mas tam bém adoro a casa. Vai ficar muito bem contigo nela e com o Tygue a correr de um lado para o outro,

- E o Bert - corrigiu ela com uma expressão muito séria.

- Sim, desculpa, e o Bert. - Mas o Browníe não, se não te importas. já telefonei para as cavalariças do parque. O Brownie vai ficar muito bem instalado, e pelo mesmo preço que vamos pagar para alugar esta casa.

- Meu Deus, que horror! Talvez devêssemos deixá-lo em Santa Barbara.

- Nem pensar! Não podes fazer uma coisa dessas ao Tygue. Para além disso, acho que havemos de nos safar - disse, olhando em volta para aquilo a que Kate já chamava «a torre de marfim»: a sala com painéis de madeira no último andar. Imaginou as noites em frente à lareira, com Kate nos braços, as luzes da baía a cintilarem até depois de Angel Island, e Tygue a dormir profundamente lá em baixo. Também imaginou Kate muito atarefada na sua secretária do outro lado das portas de vidro, ignorando tudo menos o seu trabalho, escrevendo um novo livro à máquina e tendo no cabelo três lápis e uma caneta. Níck adorava o que via na sua imaginação e à sua volta.

- Achas que devemos ficar com ela? - perguntou Kate a sorrir como uma criança, ansiosa, animada e orgulhosa. Ele riu-se.

- Estás a pedir a minha opinião? Pensei que já estavas decidida, Cinderela. A propósito, devo-te o dinheiro do sinal.

- Uma ova. Aquilo foi a minha parte.

- Que parte? - perguntou ele admirado.

- Não estás a pensar sustentar-me, pois não? Vamos dividir tudo a meias. Não vamos? - perguntou ela, atrapalhada. Ainda não haviam falado acerca do lado financeiro da mudança.

- Estás a falar a sério? - perguntou Nick com uma expressão ofendida. - Claro que estou a pensar sustentar-te.

- Mas não somos casados! Só vivemos juntos.

- A decisão foi tua, não minha. És responsável pelo Tygue, se quiseres, mas eu sou responsável por ti. Não vou permitir que pagues renda para viver aqui.

- Não acho justo.

- Então mete-te na tua vida. Eu também teria muito gosto em sustentar o Tygue, se concordasses.

Fitou-a muito sério, mas ela abanou a cabeça.

- Nick... - Kate aproximou-se com uma expressão meiga. Só tinham passado dois meses, mas ele já estava a oferecer-lhe tudo. Oferecia a sua ajuda, e oferecia-se ainda para a distrair e para tomar conta dela e do filho. Parecia um sonho. - Porque é que és sempre tão bom para Mim?

- Porque mereces e porque te amo. - Sentou-se ao lado dela à janela. - E ainda fazia mais, se me deixasses.

- Que mais seria possível? - perguntou ela com um sorriso travesso, mas ele continuou muito sério.

- Casamento - respondeu Nick, e Kate desviou o olhar. - Nem sequer consideras essa possibilidade, pois não? - Haviam decorrido apenas dois meses e, para além disso, ela ainda não lhe falara de Tom. Tinha de dar tempo ao tempo... pelo menos era isso que julgava. E gostou da ideia de um quarto de hóspedes ao lado do de Tygue. já tinha ideias para o ocupar, e não era com amigos de Los Angeles ou de Nova Iorque.

Nick continuava a fitá-la muito sério ao pôr do Sol e Kate levantou por fim a cabeça. Depois abraçou-o e apertou-o com força.

- Desculpa, Nick, mas não posso pensar em casamento... não posso - murmurou, cheia de sofrimento.

- Continuas dependente do teu marido? - Nick não queria insistir, mas não podia deixar passar aquela oportunidade.

- Não da maneira que julgas. Eu aceito o que aconteceu, como aliás já te disse. Ele desapareceu. Faz parte de outra vida, de outro século. E o mais engraçado é que tu já me conheces melhor do que ele alguma vez chegou a conhecer. - Sentiu-se uma traidora ao dizer aquelas palavras. Tom conhecera-a muito bem, mas na altura Kate era ainda uma criança. Nem ela própria se conhecia na altura. Porém, agora conhecia, e Nick também. Era uma relação completamente diferente.

- Mas ainda continuas ligada a ele, não é?

Ela abanou a cabeça, mas depois reconsiderou.

- De certa forma.

- Porquê?

- Talvez por uma questão de lealdade. Por aquilo que tivemos. - Era uma conversa com duplo sentido. Kate estava a responder às perguntas de Nick com sinceridade, embora julgasse que ele não percebia.

- Não podes viver assim para sempre, Kate.

- Eu sei. Só que sempre soube que nunca iria voltar a casar.

- Isso é ridículo. - Nick suspirou e levantou-se. - Podemos falar disso mais tarde. Entretanto, Cinderela - acrescentou com o sorriso que derretia sempre Kate - bem-Vinda a casa. - Envolveu o rosto dela com as mãos e beijou-a com meiguice.

Mudaram-se três semanas mais tarde, no meio do caos, dos risos e da ternura. Tygue instalou-se no seu quarto, Bert apoderou-se de toda a casa, a cozinha transformou-se no ponto de encontro preferido por todos e o quarto da criada foi convertido em arrecadação: encheu-se de patins, de bicicletas e de esquis. Nick andava a ensinar Tygue a patinar e ia levá-los a esquiar assim que caisse a primeira neve. A sala ficou tal como ela a imaginara, com uma mesa comprada num leilão, oito cadeiras rústicas com encosto de cabedal e cortinas de organdi branco. A sala era demasiado elegante para o dia-a-Dia, com veludos castanhos e sedas beges, mas seria perfeita para receber os amigos de Nick ou os convidados do programa. E a sala do andar superior tornou-se precisamente naquilo que haviam sonhado. Um ninho de amor. Quando não estavam no quarto mobilado ao estilo vitoriano e em tons de azul e branco, podiam ser encontrados na sala do último andar. Kate decorou-a com plantas e livros, com alguns quadros de que gostava muito, com os cadeirões de cabedal que Nick trouxera do seu apartamento e com as coisas de que ele mais gostava - os troféus da infância, as fotografias preferidas e a cabeça empalhada de um leão a fumar um charuto enorme e a piscar um olho. Numa das paredes havia ainda uma tuba, recordando um passado ainda mais distante do que aquele comemorado pelos troféus e pelo leão, e inúmeras fotografias de Tygue em bebé. O passado de Kate parecia não recuar mais do que isso. Porém, antes de Tygue tinham existido os pais dela e Tom, e essas duas eras encontravam-se agora encerradas. Tinha uma vida nova, iniciada com a vinda para a cidade. Tal como iniciara outra quando fora viver para o campo. Fechava uma porta atrás de si de cada vez que mudava de casa.

Tygue adorou a escola nova e o programa estava a correr bem. Até o novo livro de Kate estava a avançar com rapidez. Ela tinha a certeza de que iria conseguir acabá-lo antes do Natal. E A última Época já ia na quinta reimpressão.

- Sabes, ainda não consigo acreditar nesta casa. - Felicia era a primeira convidada que tiveram para jantar. Estava sentada na sala de estar depois de terem comido e olhava em volta. - Há quem tenha sorte logo à primeira. - «Ou à segunda», pensou, embora não o dissesse. Olhou com ternura para Nick. - Conseguiste em dois meses aquilo que eu não consegui em sete anos, Nick. Tenho de te tirar o chapéu. - Sorriu, fazendo uma vénia. Simpatizavam um com o outro. Ele gostava do que ela fizera por Kate, da forma como a apoiara ao longo dos anos.

- Acho que ela estava pronta para sair da casca - retorquiu ele.

- Sair? Fui arrancada de lá! - exclamou Kate.

Felícia escondeu um sorriso na chávena de café. Até as coisas de ambos se tinham combinado bem para formarem um lar. Olhou em volta e trocou outro sorriso com Nick, que depois olhou para o relógio.

- Minhas senhoras, é com grande pesar que vos deixo. - Tinham jantado cedo para ele poder chegar a tempo às gravações, Kate e Licia iriam ficar em casa na conversa. - Volto depois das nove. Não te vás embora, Licia. Podemos jogar póquer ou outra coisa qualquer quando eu chegar. Ou então podemos ir beber um copo a qualquer lado.

- Fica para a próxima, pá. Amanhã de manhã tenho várias reuniões. Vai ser um dia lixado. Eu não fico na cama até ao meio-Dia como vocês os dois.

- Eu também não. Aqui passo metade do tempo a levar o Tygue e os colegas de casa para a escola e da escola para casa.

- Não me digas - disse Nick, franzindo o sobrolho. Kate riu-se com ar culpado.

- Está bem, está bem. juro-te que para a semana o levo eu.

, - Kate Harper, estás cheia de mimo - comentou Felícia, espantada. - O Nick leva o Tygue para a escola? - Kate assentiu a sorrir. - Meu Deus! Não mereces a mina de ouro que tens - acrescentou, fingindo-se horrorizada. Durante sete anos esperara ver a amiga feliz, como ela estava agora. Viver com Nick era a situação ideal.

Nick abraçou Felicia e beijou Kate e, depois de ele ter ido lá acima dar as boas-noites a Tygue, que estava no quarto de hóspedes a brincar com o comboio que Felicia lhe dera, ouviram o Ferrarí arrancar.

- Há alguma coisa que este homem não faça por ti? perguntou Felicia olhando para a amiga, sentada na outra ponta do sofá de veludo castanho.

- Nada que me lembre. - Parecia feliz. - Eu sei, ele mima-me demasiado. - Mas nem tudo eram rosas. Também tinham as suas discussões, embora Kate não se importasse.

-           Tu mereces, querida. Ele é de facto um homem extraordinário. - Fez uma pausa, olhou para a amiga com ar interrogativo e esta desviou o olhar. - Ele ainda não sabe nada a respeito do Tom, pois não? - Kate abanou a cabeça com uma expressão de dor. - Já deixaste de ir visitá-lo?

-           Esperava que sim, mas Kate tornou a abanar a cabeça e suspirou.

- Claro que não. Não posso deixar de lá ir. Como é que podia? O que iria dizer? «Agora, vou-te deixar. Conheci outra pessoa.» Não se diz uma coisa dessas a uma criança de sete anos. Não podemos abandoná-lo. Não se pode acabar tudo, Licia. Não se pode. Nunca deixarei de lá ir enquanto ele for vivo.

-Vais contar ao Nick?

- Não sei. - Fechou os olhos e depois olhou para a amiga. - Não sei. Acho que devia, mas não sei como. Talvez daqui a algum tempo.

- Vais ter de o fazer se continuares a viver com o Nick. Onde é que ele julga que vais?

- Dar aulas.

- Ele não desconfia? Quero dizer, fazer o caminho todo até Carmel só para dar aulas é um bocado exagerado, não achas?

Kate assentiu.

- Não tenho alternativa.

- Não queres ter alternativa. Eu acho que ele iria compreender.

- E se não compreendesse, Felicia? Ele quer casar, ter filhos, ter uma vida normal. Como é que se pode ter uma vida normal quando se vive com uma mulher casada? Uma mulher casada com um deficiente motor que mentalmente parece ter sete anos de idade? E se eu lhe contar e ele achar que é demasiado? - Fechou os olhos ante a perspectiva.

- E achas que se não lhe contares alteras isso, Kate? E se ele acabar por descobrir? E se ele te pressionar para casar? E se lhe contares daqui a cinco anos, ou dois anos, ou dez anos? O que achas que ele dirá nessa altura? Ele tem direito a saber a verdade. - E Tygue também. já há vários anos que Kate andava a pensar nisso. De vez em quando parecia acreditar que a amiga fizera o correcto quando decidira não contar a Tygue, mas sempre achara que a criança estaria melhor se soubesse. Contudo, decidiu não insistir. E se Nick soubesse, poderia ajudá-la a contar a verdade a Tygue. - Acho que brincas com o fogo se não lhe contares. Não demonstras confiar o suficiente nele e revelas pouca coragem.

- Bolas, que grande discurso, Licia.

- Desculpa, Kate, mas acho que tens de dizer a verdade antes que cometas um erro.

- Está bem. Vou pensar.

- Ele não te faz perguntas sobre Carmel?

- Às vezes. Mas eu mudo de assunto.

- Não podes mudar de assunto para sempre, Kate. E porque haverias de o fazer? Não é justo. Pensa no que ele está a fazer por ti, naquilo que te dá, no quanto te ama. Deves-lhe a verdade.

- Está bem, Licia, está bem, mas deixa-me esperar pelo momento indicado. - Levantou-se e dirigiu-se à lareira, de costas para a amiga. Não queria continuar a conversa. Sabia que Licia tinha razão; precisava de contar a Nick. Um dia, mas ainda não. E Licia também estava certa ao dizer que ela não poderia continuar a mudar de assunto. Kate já começara a sentir-se nervosa nos dias em que tinha de viajar. Três dias antes, descera as escadas em bicos de pés, rezando para que ele ainda não se tivesse levantado. Mas tinha. E ela detestara ter de lhe mentir.

- Quantas vezes lá vais? - Felicia, como de costume, não desistia.

- As do costume. Duas por semana. - E, com um suspiro, lembrou-se de que no dia seguinte era dia de viajar. Talvez Nick dormisse até mais tarde.

 

Fechou a porta quando o carro da mãe de um dos colegas de Tygue dobrou a esquina para ir levar as crianças à escola. Um último aceno antes de a pequena cabeça loura que seguia no banco de trás desaparecer de vista e ir à sua vida. Ela iria à dela. Dirigiu-se de mansinho à cozinha para acabar o café. Não queria acordar Nick.

- Estás muito bem vestida para uma terça-Feira enevoada - disse ele da mesa, e ela deu um salto.

- Olá, querido, não sabia que já estavas a pé. - Tentou parecer animada quando se inclinou para o beijar. - Queres café? - Ele assentiu. - Ovos?

- Não, obrigado. Eu já os faço quando conseguir abrir os olhos. Vais dar aulas?

Ela assentiu sem desviar os olhos do café.

- O teu horário varia muito. - Havia algo de estranho na voz dele. Uma acusação. Uma desconfiança. Algo que não agradou a Kate. Olhou para Nick, mas não conseguiu perceber o que era. - A semana passada foste na segunda e na quinta, não foi?

- Acho que sim, não sei. - Pôs dois cubos de açúcar na caneca, tal como ele gostava, e começou a lavar a louça.

- Anda cá.

O coração de Kate batia com toda a força, e ela tentou pensar em banalidades quando se virou para ele. Não queria que ele percebesse, que soubesse... que soubesse que ela estava a mentir. Fitou Nick, mas os olhos dele não sorriam.

- Porque não me dizes o que vais realmente lá fazer?

- Estás a falar a sério?

- Muito a sério.

O coração de Kate bateu com mais força, e ela parecia não ser capaz de ouvir mais nada.

- Já te disse. Ensino crianças e adultos deficientes.

- Não podes arranjar nada parecido aqui? De certeza que em São Francisco há imensas crianças deficientes que iriam adorar-te. Porquê Carmel? - E porque não a verdade, raios? Porquê?

- Já há anos que lá vou.

Isso ele também sabia.

- Até quando eras casada?

- Não. - Fez-se um silêncio estranho e ela fitou-o determinada. - Que diferença faz isso?

- Não sei, Kate. Talvez eu deva fazer-te essa pergunta.

- Que diferença faz isso, bolas? Não te incomodo. Saio às oito e volto às cinco. Por vezes até às quatro e meia. Não és prejudicado em nada.

Estava zangada e cheia de medo. Nunca o vira tão sério.

- Ai isso é que sou - retorquiu ele, dirigindo-lhe um olhar que a apavorou. Era um olhar frio e zangado. - Fico sem ti.

- Durante meia dúzia de horas? - Caramba, devia isso a Tom. Nick não tinha o direito de...

- Já alguma vez te viste ao espelho depois de regressares? - Ela não respondeu. - Pareces um fantasma. Vens atormentada, magoada, cansada e triste. Porque fazes isso a ti própria? - Ela continuou sem responder. - Deixa estar. Isso não me diz respeito.

Kate saiu da cozinha em silêncio. Sabia que devia ter ido abraçá-lo, beijá-lo. Teria sido mais inteligente; porém, ela não queria ser inteligente. E não queria ser pressionada. Só iria contar-lhe quando estivesse preparada, se é que alguma vez estaria. E nunca iria permitir que ele a impedisse de ir. Aqueles dois dias da semana eram sagrados. Pertenciam a Tom.

- Vemo-nos às cinco - disse ela da porta da rua, de olhos fechados, desejosa de ir ter com Nick, mas com medo de que ele fizesse algo para a impedir de ir ou, pior ainda, para a obrigar a dizer a verdade. Por que diabo tinha ele de acordar cedo? Era tão fácil quando ele estava na cama. Kate hesitou um momento e voltou a falar.

- Amo-te.

Ouvíu-o ir da cozinha para a sala de jantar. Nick colocou-se junto à janela, de costas para a baía, e fitou-a durante o que pareceu ser uma eternidade.

- Amas mesmo, Kate?

- Sabes bem que sim. - Aproximou-se dele e abraçou-o. - Querido, amo-te tanto.

Ele abraçou-a também; depois, afastou-se um pouco.

- Então fala-me de Carmel. - Rezava para que ela acedesse. Não sabia durante quanto mais tempo poderia continuar a fingir nada saber.

Kate limitou-se a olhar para ele com uns olhos muito tristes.

- Já falámos de Carmel, Nick.

- Já? Então porque é que não me agrada que lá vás? -

O que mais podia ele dizer? Se ao menos ela lhe desse uma oportunidade.

- Não precisas de te preocupar com nada.

- Ai não, Kate? Não ficarias também preocupada se eu fosse todas as semanas a um sítio e não te dissesse mais acerca dele do que aquilo que tu me dizes?

Ela ficou em silêncio durante um momento e depois desviou o olhar.

- Mas eu digo muita coisa. Sabes perfeitamente por que motivo lá vou - disse, tentando acalmá-lo.

Kate não percebeu o que viu no olhar de Nick. Ele queria dizer-lhe que sabia tudo, mas não podia. Tinha de o ouvir dos lábios dela. Quando Kate quisesse contar-lhe.

- Não interessa, esquece. Até logo. - Nick deu meia volta, regressando à cozinha, e Kate ficou sem saber se havia de ir atrás dele. Porém, não podia. Nick queria respostas e ela ainda não estava preparada para lhas dar.

Saiu e dirigiu-se ao carro, mas parecia que tinha correntes a prender-lhe os pés. Deveria ir? Deveria ficar? Dar uma explicação a Nick? Dizer-lhe a verdade? E se ele a abandonasse? E se... Então, enquanto olhava para o carro, obrigou-se a não pensar em mais nada. Devia a viagem a Tom, devía-lhe aquelas visitas, aqueles dias... mas, por causa disso, deveria também perder Nick? Pensar nessa possibilidade fê-la carregar nos travões e meditar. Quereria assim tanto? Teria Felicia razão? Poderia perder Nick se não lhe contasse e ele acabasse por descobrir?

- Merda - murmurou enquanto entrava na estrada. Ainda não podia contar-lhe. Ainda não... mas talvez em breve.

 

Chovia a cântaros quando regressou a São Francisco. Onde estava o maravilhoso clima de Outubro de que Felicia andava sempre a falar? Bolas, chovia sem parar já há alguns dias. Chovera nas últimas três vezes em que fora a Carmel. Até chovera em Carmel. E Tom não gostava de chuva. Estava muito pálido e comia pouco. Parecia uma criança a chocar uma doença grave. Agarrava na mão dela durante horas e implorava-lhe que lhe contasse histórias, fitando-a com aqueles olhos que pareciam vê-la, vê-la realmente, mas que nunca viam, Aqueles olhos continuavam sem lembrar-se de nada. E os seus braços continuavam a estender-se para ela quando lhe chamava «Katie» tal como Tygue lhe chamava «mãe». Ultimamente parecia tão debilitado! Há muito que estava assim, mas parecia piorar a olhos vistos. Deixara de brincar. Deixara de rir. Mr. Erhard também andava preocupado. Porém, o director de Mead disse que era «normal». Normal... o que raio era normal num homem que pensava como uma criança? Um homem que outrora tivera tanta energia e agora vivia numa cadeira de rodas e brincava com aviões de papel como se tivesse sete anos? O médico insistia que as pessoas na situação de Tom pareciam «apagarse» de tempos a tempos, até que um dia... Porém, esse dia poderia ainda encontrar-se muito longe. Entretanto, ele podia ter aquelas «crises» e contínuar a lutar desde que uma pessoa cativasse a sua atenção e o «desafiasse». Contudo, admitia o director, isso muitas vezes não alterava nada. Admitia também que as crises poderiam ser cada vez mais frequentes até terminarem por completo. Era uma coisa neurológica, inevitável, mas um pouco grave. Kate não percebia, tal como não percebia o que acontecera durante os últimos sete anos. Fosse o que fosse, Tom andava estranho há quase um mês. E pressentia que Nick desejava que ela deixasse de ir a Carmel. «Bolas!», pensou Kate com um suspi ro enquanto saía da via rápida e entrava na Rua Franl-Jin, Ia saber-lhe bem chegar a casa. Estava tão cansada. Ainda bem que Nick não estivera a pé quando ela partira naquela manhã.

Kate levantara-se mais cedo nas últimas duas semanas para não ter de falar com ele e fazia tudo para que ele não pensasse nas suas visitas a Carmel.

Virou à esquerda na Rua Green, seguiu para oeste quase até chegar a Presídio e virou subitamente para um caminho estreito e curvo pavimentado a tijolo. Ali, escondida entre a vegetação, pelas sebes, árvores e arbustos, encontrava-se a sua casa. Embora vivesse ali há pouco mais de um mês, gostava mais dela do que de todas as outras casas onde vivera; talvez porque ali fosse tão feliz.

Entrou em casa com um suspiro de alívio. Eram apenas quatro e vinte. Tygue encontrava-se na aula de Arte e chegaria a casa às cinco menos um quarto. Chegara mesmo a tempo. E o Ferrari não estava à vista. óptimo. Assim não eram necessárias explicações, desculpas, conversas que encobrissem a sua preocupação e o seu sofrimento. Era sempre tão difícil enfrentar Nick depois da viagem! Ele também não gostava; via sempre demasiado. Kate descalçou os sapatos molhados e deixou-os no tapete do vestíbulo. Pendurou o chapéu-de-Chuva na cozinha e, com outro suspiro, sentou-se à mesa e pousou a cabeça nos braços.

- Olá, Kate. - A voz encontrava-se apenas a alguns centímetros, e ela deu um salto com uma expressão de terror no olhar. - Oh, querida, desculpa! - exclamou Nick, abraçando-a ao vê-la tremer. Kate não disse nada; não lhe apetecia entrar no jogo habitual. julgara que ele não estava em casa. Contudo, Nick estivera ali sentado, a observá-la do canto, e ela nem sequer reparara.

- Pregaste-me um grande susto - disse Kate com um sorriso trémulo. - Não sabia que estavas em casa. Que tal correu o teu dia? - O seu esforço foi em vão, porque Nick não se deixou distrair. Parecia estranhamente sério e foi até ao fogão sem se incomodar a responder-lhe.

- Queres chá?

- Boa ideia. Há algum problema? - perguntou Kate. Detestava vê-lo assim. Fazia-lhe lembrar a forma como o pai a olhava quando chegava o boletim da escola com as notas.

O seu coração bateu com força, tal como havia batido durante a última discussão sobre Carmel. Mas desta vez era pior. Kate não sabia porquê, mas pressentia que era. Há algum problema? - insistiu.

- Não, não há - respondeu Nick. - Senti a tua falta - acrescentou, virando-se para ela já com a chávena de chá na mão. A água já estava a ferver quando Kate entrara na cozinha e ela nem reparara no vapor, de tão cansada que estava. Agora sentia-se apavorada e continuava sem saber porquê.

- Eu também senti a tua falta.

Ele assentiu e pegou noutra chávena.

- Vamos lá para cima.

- Está bem. - O sorriso de Kate não foi correspondido. Pegou na chávena e seguiu-o até ao escritório no segundo andar. Nick instalou-se na sua poltrona preferida, de cabedal vermelho, macio como cetim e muito confortável, que exalava o cheiro do bom cabedal. Tinha uma otomana a condizer, mas ele desviou-a para o lado com o pé. Não se sentara ali para descontrair. Depois, fez uma coisa inesperada: pousou a chávena e estendeu os braços para Kate. Ela aproximou-se e ajoelhou-se no chão. - Amo-te, Nick.

- Eu sei. também te amo, mais do que alguma vez amei alguém. - Olhou para ela, esboçando um sorriso cansado, e suspirou. - Precisamos de ter uma conversa. Tenho muito para te dizer. Não sei por onde começar, mas talvez tenhamos começado bem. Amo-te, Kate, já há muito que estou à espera que sejas franca comigo, mas ainda não foste. Por isso acho que chegou a altura de termos uma conversa. O que mais me incomoda é o facto de não confiares em mim.

- Isso não é verdade - retorquiu ela, parecendo magoada, embora por dentro estivesse em pânico. O que queria ele dizer? Saberia? Como? Quem lhe contara?

- É verdade. Se confiasses em mim, ter-me-ias falado de Carmel. E do Tom.

Fez-se um silêncio interminável e Kate olhou para ele.

- O que tem o Tom? - perguntou ela, tentando empatar a conversa e pousando a chávena no chão com uma mão trémula.

- Sei pouca coisa, Kate. Desde o início que desconfiei. No teu livro revelavas saber muito de futebol, do que se passava nos bastidores. Investiguei. Não muito, mas foi o suficiente para descobrir que tinhas sido casada com Tom Harper, o famoso Tom Harper, que ele dera um tiro nele próprio, ficara paralisado, e que mentalmente... bem, não sei o termo exacto. Sei que ele foi transferido para uma casa de saúde em Carmel depois de ter estado bastante tempo internado num hospital, mas não consegui saber o nome dela. Fiquei a saber que ele não morrera, e creio que ainda deve ser vivo. Acho que é isso que vais fazer a Carmel. Visitá-lo e não ensinar crianças deficientes. Eu posso entender isso, Kate, posso até aceitá-lo, posso entender uma série de coisas. O que não entendo é por que motivo não me contaste, por que motivo não me disseste a verdade. Isso é que me magoa. - Tinha lágrimas nos olhos e, quando se calou, Kate soltou um suspiro trémulo.

- Porque não me disseste que sabias? Tenho andado a fazer figura de parva, não tenho?

- É isso que te incomoda? Que tenhas feito figura de parva? - perguntou ele, irritado.

Ela abanou a cabeça e desviou o olhar.

- Não. Só que... não sei o que dizer.

- Diz-me a verdade, Kate. Diz-me como é. Em que estado é que ele está, se o amas, se gostas de viver assim, como é que fica a nossa relação... Não sei se posso ter esperança, ou se ele vai recuperar. Tenho direito a saber... tinha esse direito logo de início. Não te disse nada porque esperava que tu confiasses em mim o suficiente para me contares. Mas não chegaste a contar, tive de ser eu a intervir.

- Acho que queria proteger-vos aos dois.

- E talvez a ti própria - retorquiu ele, olhando para a baía.

- Sim - anuiu ela baixinho. - E talvez a mim própria. Amo-te, Nick. Não quero perder-te. Nunca tive com ninguém aquilo que tenho contigo. O Tom conheceu-me quando eu era criança. E fui uma criança até... até ao acidente. Agora a criança é ele. Parece um rapazinho, Nick. Brinca, faz desenhos, é menos desenvolvido do que o Tygue. Farta-se de chorar... e precisa de mim. E há-de ter-me até querer. Não posso tirar-lhe isso, não posso abandoná-lo!

- Ninguém te pede que o faças, Kate. Eu nunca te pediria uma coisa dessas. Mas só queria saber. Queria ouvi-lo da tua boca. Ele ficará assim durante muito mais tempo?

- Até ao fim, venha ele quando vier. Poderá levar dias, meses ou anos. Ninguém sabe. E entretanto eu vou indo lá visitá-lo.

- Como é que aguentas? - perguntou Nick virando-se para ela, e nos seus olhos havia dor e compaixão.

Kate esboçou um sorriso tríste.

- Devo-lhe isso, Nick. Ele já foi tudo para mim. Era tudo o que eu tinha quando os meus pais me fecharam a porta. Ele deu-me tudo. Agora só posso dar-lhe algumas horas por semana. Tenho de lhas dar - acrescentou em tom de desafio.

- Compreendo - disse Nick, aproximando-se e abraçando-a com um suspiro. - É uma coisa que tens de fazer. Respeito isso. Mas gostava que não fosse tão difícil para ti.

- Já não é tão difícil como dantes. Habituei-me há mui to, muito tempo, se é que é possível habituarmo-nos a uma coisa destas. Pelo menos já não me choco... nem fico tão destroçada como dantes.

- A Felicia ajudou-te na altura, querida? - perguntou ele, apertando-a nos braços.

Kate sorriu. Era um alívio contar-lhe, e detestou-se por não o ter feito antes.

- Sim, ajudou-me sempre. Foi maravilhosa. Até esteve na sala de parto quando o Tygue nasceu.

- Quem me dera ter lá estado.

Kate esboçou um sorriso cansado. Sentia-se em paz como já não se sentia há anos. Agora Nick sabia tudo, já não havia mais segredos. Não precisava de temer que ele descobrisse.

- Tive tanto medo da tua reacção.

- Porquê?

- Porque sou casada. Porque não sou livre. Isso não é justo para ti.

- Não faz diferença nenhuma. Um dia hás-de deixar de ser casada. Temos tempo, Kate. Temos a vida toda à nossa frente.

- És um homem incrível, Nicholas Waterman.

- Tretas. No meu lugar farias o mesmo. Kate?

- Hum?

- Os teus pais nunca te contactaram depois de ele... depois do acidente? - já percebera que era o eufemismo que ela usava para se referir ao tiroteio.

- Nunca. Tomaram uma decisão quando fui viver com o Tom, e ponto final. O que o Tom fez depois veio confirmar aquilo que eles pensavam a seu respeito, e creio que não me consideravam melhor do que ele. Havia pessoas aceitáveis e pessoas inaceitáveis... Eu deixara de ser aceitável por causa do Tom, pelo que eles se sentiram justificados ao expulsar-me das suas vidas.

- Não sei como é que puderam estar bem consigo próprios.

- Eu também não, mas o problema já não é meu. Deixou de o ser há bastante tempo. Passou-se tudo há uma eternidade. Ainda bem. Acabou. A única coisa que ainda continua, e que continuará, é a minha obrigação em relação ao Tom.

- O Tygue não sabe, pois não? - Nick tinha quase a certeza, mas havia sempre a possibilidade de a criança lho ter escondido.

- Não. A Felicia diz que um dia vou ter de lhe contar, mas ainda não fui capaz. E ainda é demasiado cedo.

Nick assentiu e depois olhou para ela com uma expressão estranha.

- Posso fazer-te uma pergunta pessoal?

- Claro.

- Ainda... ainda amas o Tom? - obrigou-se a perguntar. Tinha de saber.

- Achas que podia amá-lo como te amo, que podia viver contigo e ser tua se o amasse? - retorquiu Kate espantada. - Sim, amo-o, mas como a uma criança, tal como amo o Tygue. Ele não é um homem, Nick. É o meu passado... apenas um fantasma... o fantasma de uma criança.

- Desculpa ter perguntado.

- Não peças desculpa. Tens direito a todas as respostas. E creio que é difícil perceber. Ali não existe nenhum homem que eu possa amar. Oh, antes de tu apareceres, eu fingia de vez em quando que ainda restava qualquer coisa. Mas era mentira. Deixou de haver há já sete anos. Vou vê-lo porque lho devo. Porque ele já foi bom para mim, porque há muito tempo o amei mais do que a qualquer outra pessoa e porque o Tygue é filho dele. - Começou a chorar e as lágrimas deslizaram-lhe pelo rosto. - Mas amo-te, Nick, amo-te... como... nunca o amei. Esperei tanto tempo por ti!

Nick puxou-a para si e apertou-a com tanta força que ficaram ambos admirados com a intensidade desse abraço. Ele também precisava desesperadamente de Kate. Precisava dela há muito tempo.

- Oh, querida, lamento imenso. Ela afastou-se com um suspiro.

- Desde que o livro se transformou num êxito, tenho muito medo que alguém descubra. Que alguém desenterre toda aquela porcaria e ma atire à cara. - Níck compreendia perfeitamente o que ela sentira e aquilo por que passara. Era de admirar que tivesse ido a Los Angeles. - E quando disseste que tinhas jogado futebol, pensei que morria! - exclamou com uma gargalhada.

Nick estava muito pálido.

- O mais engraçado é que o conheci, embora não muito bem. Não joguei durante muito tempo, e quando entrei no mundo do futebol ele já estava no topo. Mas pareceu-me ser um tipo porreiro.

- Era. - Kate pareceu triste ao dizer aquela palavra. «Era.»

- Porque é que ele fez aquilo? - Os jornais não haviam esclarecido nada. E os jornalistas tinham ignorado, pura e simplesmente os motivos de Tom.

- Por causa da pressão. Do medo. Começara a ser posto de parte e isso estava a dar cabo dele. Não tinha mais nada na vida, só o futebol. Não sabia fazer mais nada. Para além disso, investira muito mal o dinheiro e queria tudo para o Tygue. Era só nele que conseguia pensar. «O seu filho.» Queria jogar mais uma época para poder amealhar uma fortuna para o Tygue. E correram com ele. Leste os jornais, sabes o resto.

Nick assentiu.

-Ele sabe que o Tygue existe?

- Não iria perceber. Visiteio durante a gravidez. Não mostrou nem curiosidade nem interesse na minha barriga, tal como as crianças daquela idade. Acho que pensou apenas que eu estava gorda.

- Houve alguma mudança ao longo dos anos? - perguntou ele com um certo embaraço.

Ela abanou a cabeça.

- Não, salvo nas últimas semanas. Ele está estranho, mas o médico diz que é normal.

- O sítio é bom?

- Sim, bastante. - Estendeu a mão para Nick e ele sentou-se no chão ao lado dela. - Amo-te, Nick, embora me tenhas pregado um grande susto. Pensei que ias dizer-me que estava tudo acabado entre nós.

- O que queres dizer com isso, sua maluca? Achas mesmo que eu iria deixar-te partir?

- Sou uma mulher casada, Nick - salientou Kate num tom de desespero. Sabia o quanto Nick queria casar, e isso era impossível, pelo menos enquanto Tom fosse vivo.

- E depois? Incomoda-te o facto de seres casada, Kate?

Ela abanou a cabeça.

- Pensei muito nisso antes de ir ter contigo este Verão a Santa Barbara. No meu coração, já não sou casada.

- Isso é que importa. O resto só diz respeito a nós. Foi apenas por causa disso que não quiseste contar-me, Kate?

- Não... bem... em parte, sim. E também por cobardia.

Ocultara a história durante tanto tempo que não me imaginava a contar a verdade. E quando pensei contar-Ta, parecia impossível começar pelo princípio e admitir que mentira. Como é que podemos dizer a alguém: «Ah, lembras-te quando te disse que era viúva? Bem, estava a mentir. O meu marido encontra-se numa casa de saúde em Carmel e eu vou visitá-lo algumas vezes por semana.» Não sei, Nick, pareceu-me uma coisa de loucos e o facto de ter de admitir o que aconteceu, de ter de falar no assunto é quase o mesmo que reviVer tudo. Que sentir tudo outra vez.

- Lamento - disse ele, apertando-a contra si.

- Eu se calhar não lamento. Talvez tivesse já chegado a altura de dizer a verdade. Mas sabes do que também tive medo? De que assim que soubesses me quisesses impedir de ir visitar o Tom. Eu não podia fazer isso, Nick, ele significa muito para mim. Devo-lhe isso.

- É só por isso que o visitas? Porque estás em dívida para com ele?

Kate abanou a cabeça.

- Não. É por várias razões. Porque o amei, por causa da força que ele me deu em certas alturas, por causa daquilo que partilhámos... por causa do Tygue... Nunca seria capaz de deixar de lá ir, e achei que ninguém poderia compreender a situação. Nem sequer tu. Faz sentido?

- Muito, Kate, mas não tenho o direito de te tirar isso. Ninguém tem.

- E consegues viver assim?

- Agora que já tudo se esclareceu entre nós, consigo. Respeito o que estás a fazer, Kate. Meu Deus, se algum dia me acontecesse uma coisa parecida... Seria incrível perceber que havia alguém que se importava o suficiente para conti nuar a visitar-me até ao fim da vida.

Ela suspirou.

- Não é assim tão nobre como queres dar a entender. Às vezes é até muito difícil. E extenuante e detesto.

- Mas o importante é que não desistes.

- Talvez seja. E não posso desistir, Nick.

- Compreendo. - Aquele momento de sobriedade e de paz selou entre ambos um pacto de compreensão. Nick bebeu um gole de chá e voltou a olhar para ela. - Mas o que vais fazer se alguém descobrir? Se alguém desenterrar o passado? Calculo que tenhas pensado na possibilidade.

- Sim e não. Só consigo expor-me publicamente se pensar que isso nunca vai acontecer. Se achasse que podia acontecer, não voltava a sair de casa.

- Isso seria muito agradável. - Trocaram o primeiro sorriso sentido da última hora. - Mas agora a sério.

- Não sei, querido - disse Kate com um suspiro, deitando-se no tapete. - Não sei o que faria. Talvez fugir, entrar em pânico, sei lá. Mas já não faz tanta diferença agora que sabes tudo. Claro que ainda há o Tygue. - Suspirou e depois acudiu-lhe uma recordação. - Recordas-te da festa a que me levaste em Los Angeles, depois de eu ter ido ao programa do Jasper?

Ele assentiu.

- Aquele tipo que disse uma coisa que te perturbou? Ele sabia? - Caramba, não admirava que ela se tivesse assustado.

- Nem por isso. Lembrou-se de pegar no meu nome. Harper. E contou-me tudo acerca de um jogador de futebol chamado «Joe, ou Jim, ou qualquer coisa do género» que enlouqueceu e, bem... ele conhecia mais ou menos a história. Perguntou-me se eu era da família do jogador como se estivesse a dizer uma coisa muito engraçada. E é claro que eu entrei em pânico.

- Pobre querida. Não admira. Mas por que motivo não mudaste o apelido depois de aquilo acontecer?

- Achei que não era justo para o Tygue. O Tygue era filho dele, tinha de se chamar Harper. Mudar o meu nome parecia-me uma grande desfeita para o Tom. Não que ele tivesse dado por isso. Mas não sei. Decidi manter-me fiel aos meus princípios.

- E em relação ao Tygue, agora? Não podes esconder isto dele para sempre. E se alguém um dia lhe disser que o pai quase matou dois homens e arruinou a própria vida? Não vai ser muito agradável. Deves-lhe a verdade, Kate. Pelo menos uma par-te que ele possa compreender nesta idade. Vais levá-lo a ver o pai?

- Nunca. Isso seria impossível. O Tom não perceberia e o Tygue ficaria tristíssimo. O Tom não é um pai. É uma criança indefesa no corpo arruinado de um homem. O Tygue teria de ser adulto para aguentar a situação. E porque terá isso de acontecer? Não o conhece. É melhor assim. E quando o Tygue for suficientemente crescido para compreender... - Hesitou com um soluço. Olhou para Nick, mas o seu rosto ostentava uma expressão grave. - O que foi aquilo? - perguntou ela, imóvel.

Nick inclinou a cabeça.

- Nada. Porquê?

- Ouvi... Oh, meu Deus... - Só então percebeu. Tinham-se ambos esquecido de que já eram horas de Tygue estar em casa. O relógio atrás de Nick marcava cinco e um quarto. Ele já estava em casa há meia hora. Há tempo suficiente para... Então, sem pensar, Kate virou-se e viu-o ali, em silêncio, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara. Tygue. Avançaram para ele ao mesmo tempo e ele desceu as escadas a correr, a soluçar, enquanto lhes gritava:

- Deixem-me em paz ... deixem-me em paz ...

 

- Ele está bem? - perguntou Nick a Kate quando ela saiu do quarto de Tygue. Eram seis e meia, e aquela hora havia custado bastante a passar. Tygue escondera-se deles no jardim e estava ensopado quando o levaram para dentro, agarrado a um Willie igualmente ensopado. Kate pusera-o na banheira cheia de água quente enquanto Nick preparara leite com chocolate, e depois ela ficara bastante tempo no quarto do filho.

- Acho que ele está bem. É difícil dizer. já adormeceu - respondeu Kate com ar exausto.

- O que lhe disseste?

-A verdade. Que alternativa tinha? Ele já ouvira a maior parte. Não creio que tivesse querido bisbilhotar. Disse-me que subiu as escadas para me dizer que já estava em casa e ouviu-nos falar do Tom. - Kate indicou a porta do quarto de ambos, e Nick assentiu, seguindo-a. Fecharam a porta e Kate sentou-se pesadamente na cama. Ele estendeu-lhe um cigarro, embora ela parecesse precisar mais de um brande e de um banho bem quente.

- Fui mexer num ninho de vespas quando te obriguei a falar-me do Tom. - Fora este o seu único pensamento enquanto a esperara nas escadas.

Porém, Kate abanou a cabeça no meio de uma nuvem de fumo.

- Não digas isso. Embora custe, acho que foi benéfico, Sinto-me aliviada. E o Tygue há-de sobreviver. Assim posso também contar-lhe as coisas boas. O Tom Harper era um ser humano maravilhoso. O Tygue tem o direito de saber isso, e não o poderia saber se não conhecesse o resto da história. Parece-me justo. - Hesitou, soltando um suspiro. - já tinha perguntado a mim própria se teria agido correctamente ao fazer o papel de Deus, Escondi do Tygue uma parte bastante importante dele próprio. Impedi-o de saber aquilo que o pai foi, pensando que assim seria mais fácil para ele. - Sentou-se devagar e olhou para Nick. - Mas houve também outras razões.

- Não devem ter sido razões más.

- Talvez tenham sido. Queria que ele fosse meu. Queria que ele estivesse livre de tudo aquilo. Não queria que ele fosse como... o Tom. - Nick esperou em silêncio que ela continuasse. - Não quis que ele se apaixonasse pela imagem do Tom Harper, pela glória dos álbuns, dos recortes e da adulação. O Tom adorava essas coisas. Que homem não adoraria? Creio que sempre receei que o Tygue também quisesse isso, nem que fosse para provar alguma coisa ao pai. Para limpar o nome Harper. Só Deus sabe que ideias malucas podiam ter-lhe passado pela cabeça... Tive medo de todas essas possibili dades. Assim era muito mais fácil. - Então, tornando a lembrar-se de Nick, sorriu. - Mas não era justo, Nick. É bom que ele saiba a verdade. Um dia também vou ter de lhe falar dos meus pais. Deixei que ele pensasse que a família morrera toda e que só sobrara eu. Mas a verdade não é essa. Acho que toda a gente tem o direito de saber a verdade. - Nick tam bém. Durante um momento, Kate teve a sensação de que os tinha traído, e sentiu-se exausta. - Bem, querido, as coisas resolveram-se pelo melhor. - Estendeu a mão para Nick, mas ele não a agarrou, e ela ficou magoada.

- Será que o Tygue é dessa opinião? - perguntou Nick com amargura, olhando para ela e depois para a baía. Não devia ter-se metido onde não era chamado.

- Está confuso. Não sabe o que pensar. A única coisa de que tem a certeza é que quer ver o pai. Eu disse-lhe que não podia. - Suspirou. - Neste momento, detesta-me porque lhe disse que não, mas há-de ultrapassar a situação. Tem-te a ti. - Sorriu para as costas de Nick, depois aproximou-se e abraçou-o pela cintura.

- Mas eu não sou pai dele, Kate.

- Não faz mal. Dás-lhe mais do que a maioria dos pais... a nível emocional e não só. E não sei, Nick, a nossa realidade é esta. O Tom era o que era e fez o que fez, fosse por que razões fossem. Talvez tenha chegado a altura de encararmos a verdade. Isso não vai matar-nos. Por isso livra-te dessa cara de enterro.

Nick virou-se e tentou sorrir, embora sem grande êxito. Parecia que o mundo tinha desabado nas suas costas e não sabia o que fazer para ajudá-los.

- A propósito, não vais trabalhar esta noite? - perguntou Kate, olhando admirada para o relógio.

- Telefonei a dizer que não me sentia bem quando estavas no quarto com o Tygue.

- Ainda bem. - Kate sorriu e estendeu-se na cama. - Estou tão cansada!

- Não percebo porquê, Cinderela. - Nick sentou-se e começou a massajar-lhe os pés e depois as pernas. - Quero dizer, afinal só fizeste quinhentos quilómetros, depois tiveste de me enfrentar e revelar todos os teus segredos e, em seguida, o teu filho ficou destroçado e tiveste de o salvar do dilúvio, dar-lhe banho e consolá-lo. Por que raio estás cansada?

Kate sorriu.

-Será que vou receber uma medalha? Parece ser muita coisa.

- Devias mesmo. E eu devia receber um pontapé no traseiro.

- Contentavas-te com outra coisa? - inquiriu ela endireitando-se e pondo os braços à volta do pescoço dele.

- Não mereço - respondeu Nick baixando a cabeça. Ela soltou uma gargalhada.

- Cala a boca e descontrai-te. - Assim fizeram e eram já nove horas quando Kate decidiu encher a banheira para tomar um banho de imersão. - Ficas de olho aqui na água? Quero ir ver como está o Tygue.

- Claro - anuiu Nick dando-lhe um longo beijo. Naquela noite, Kate dera-lhe tudo: o seu corpo, a sua alma, o seu coração. Dera-lhe tudo o que tinha para dar, como se para diminuir a sua dor por causa do que fizera. - Amo-te, Cinderela, mais do que possas imaginar. A propósito... - Olhou-a com ternura e tirou-lhe uma madeixa da cara. - Longe de mim querer meter-me na tua vida ou pôr em causa os teus motivos, mas parece-me que te esqueceste de qualquer coisa.

Kate sorriu, um pouco confusa. Sabia que Nick estava a brincar e não percebia onde ele queria chegar.

- Esqueci? - Depois fez-se luz. - Ora bolas! O jantar. Oh, querido, desculpa! Deves estar cheio de fome.

- Nem por isso. Acho que não seria capaz de comer. Estava a referir-me a outra coisa. - Puxou-a para si e sentiu o seu corpo ganhar vida em contacto com o dela. Sorriam e beijaram-se. - Esqueceste-te do disco voador... do apanhador de bebés. - Olhoua com um sorriso. Também ele se esquecera. Até ser tarde de mais. Naquela noite tudo fora bastante confuso.

Kate exibia uma expressão irritada, mas não de pânico.

- Gaita, o meu diafragma! - Deixara-o em cima da cómoda.

- É uma catástrofe? - Nick sentiu-se na obrigação de perguntar, embora para ele fosse tudo menos uma catástrofe. Continuava a querer um filho dela. já tinha Tygue, mas queria também um seu. - Entravas em parafuso?

- Não. Mas não vou engravidar. Estamos na altura errada do mês.

- Como é que sabes? - Ele não percebia nada daquelas coisas.

- Fui ontem ao cabeleireiro.

- Hum? És maluca. Não respondeste à minha pergunta.

- Qual pergunta? - insistiu ela a provocá-lo.

- A pergunta foi... Oh, vai-te lixar! Engravida a ver se me importo. Abandono-te no lar para mães solteiras e vou para o Taiti com o Tygue.

- Não te esqueças de me mandar um postal. E não é preciso veres se a banheira já está cheia. - Sorriu, fechou a torneira e embrulhou-se no roupão branco. - Volto já.

- Não te esqueças - disse ele com um sorriso.

Ela assim fez, mas voltou logo de seguida, com o roupão a esvoaçar, revelando o seu corpo nu. Estava pálida de morte.

- O Tygue desapareceu.

Nick sentiu o chão a fugir-lhe. Kate estendeu-lhe um bilhete em silêncio e, enquanto ele o lia, ela dobrou-se sobre a sanita e vomitou.

 

- Não, não sabemos para onde é que ele foi. Sabemos apenas o que ele nos diz neste bilhete - informou Nick olhando para Kate. Tinham discutido o assunto antes de a Polícia chegar. Não iriam dizer uma palavra a respeito de Tom, pois de nada serviria.

- Deixe-me ver de novo esse bilhete.

O bilhete era dolorosamente simples.

«Vou procurar o meu pai.» O agente à paisana olhou para Nick e Kate.

- O senhor não é pai dele, Mister... Waterman?

- Não. O Tygue é filho de Mistress Harper. Mas somos muito chegados. - Sentiu-se um idiota a dizer aquilo. Mas quem é que conseguia raciocinar numa situação daquelas? Kate começava a ficar estranhamente pálida. Mal falara com os polícias, e Nick receava que ela estivesse em choque.

- Sabe onde está o pai dele? Não custava nada telefonarmos-lhe.

Kate pareceu ir desfalecer e Nick abanou a cabeça.

- Custava. O pai de Tygue morreu antes de ele nascer.

- Então ele zangou-se consigo? - perguntou rapidamente o polícia, e Kate interveio.

- Não. Creio que, quando muito, estava zangado comigo. O Tygue está sujeito a várias pressões novas. Acabámos de nos mudar para São Francisco, frequenta uma escola nova e... - Teve de se calar e Nick apertou-lhe a mão.

-           Ele tem algum dinheiro?

-           Kate abanou a cabeça.

-           - Acho que não.

-           - Levou alguma coisa?

- Sim. O urso de peluche - respondeu ela com os olhos cheios de lágrimas. - É grande, castanho e tem uma gravata vermelha. - Olhou para Bert, que abanou a cauda e se aproximou, o que serviu para ela chorar ainda mais.

- O que é que o menino tinha vestido?

Kate não sabia. Porém, foi ao armário do vestíbulo e reparou que o impermeável dele desaparecera.

- Um impermeável amarelo. E talvez calças de ganga e botas à cowboy.

- Ele poderia ir ter com alguém aqui na cidade?

- Com a Felicia! - Correu para o telefone, mas ninguém atendeu. Com ar pesaroso, deu ao agente o número de Licia. - O de Tillie também, bem como o de Joey. - E... acho que ele pode ter tentado ir para Carmel - acrescentou, olhando para Nick.

-Ele conhece lá alguém? - inquiriu o agente.

- Não, mas gosta muito de lá ir. - Raios! O que poderia dizer-lhe? Que ele tinha ido à procura do pai, um homem outrora famoso e que agora era atrasado e aleijado? Que só naquela tarde soubera que ele estava vivo? - O que vão fazer? - Apertou a mão de Nick enquanto os agentes fechavam os seus caderninhos castanhos. - Passar a área a pente fino até o encontrarmos. Agora precisamos de algumas fotografias.

Deram-lhes dezenas. A cores, retratos, ao longe, com todas as roupas possíveis, no pónei, com o cão, na Disneylândia, num eléctrico com Licia.

- Só precisamos de uma ou duas.

Kate assentiu quando eles saíram para a chuva.

- Vamos ligar-vos de hora a hora.

- Obrigada.

- Tenham calma. - Olharam encorajadoramente para Nick quando partiram. Era uma casa cara e a criança parecia feliz nas fotografias. Era evidente que não o tratavam mal. Talvez ele fosse apenas um daqueles miúdos estranhos que precisava de fugir. já haviam encontrado alguns. As raparigas tinham a tendência para parar dramaticamente à porta, dando aos pais a oportunidade de lhes implorar que ficassem em casa. Os rapazes faziam as malas e arrancavam.

- Credo, Nick, o que vamos fazer?

- O que eles disseram, querida. Ter calma.

- Não sou capaz... meu Deus... Nick, não sou capaz. Ele pode ser raptado. Atropelado. Pode...

- Pára com isso! - Nick agarrou-a pelos ombros e puxou-a para si, abraçando-a. - Pára com isso, Kate. Não podemos ficar assim. Temos de acreditar que ele está bem. -

Kate assentiu, continuando a chorar, e depois agarrou-se a Nick. A expressão do olhar de Kate deixou-o angustiado e quando ela começou a soluçar, ele compreendeu. Não era apenas medo e preocupação.

-           A culpa é minha, Nick... a culpa é toda minha.

-           - Já disse para parares com isso, Kate. A culpa não é tua. - Queria dizer-lhe que era sua por ter puxado a conversa nessa tarde, mas isso não adiantaria nada. Precisavam era de o ter de novo em casa para lhe poderem falar do pai, do passado e fazê-lo compreender por que razão a mãe não lhe contara antes. E amá-lo-iam ainda mais do que antes. Ele sentia-se carente, como se podia ver. Porém, não valia a pena estarem a autoflagelar-se. Nick abraçou Kate e levantou-lhe o queixo, até os olhos lacrimejantes dela fitarem os seus. A culpa não é de ninguém, querida. Podemos atormentar-nos com isso durante os próximos cem anos, mas talvez o destino quisesse assim. Talvez ele devesse mesmo saber.

- Eu sei que sim. Se lhe tivesse contado há mais tempo, isto nunca teria acontecido.

- Mas não contaste e agora não podes saber se isso teria feito alguma diferença. Talvez só agora é que ele possa entender. Só tens é de enterrar o passado. Não lhe contaste. Agora ele já sabe. Nada mais.

- E se lhe acontece alguma coisa horrível? - perguntou ela a chorar.

- Não vai acontecer nada. Temos de acreditar nisso, Kate.

- Quem me dera poder - retorquiu Kate, assoando-se e fechando os olhos.

Os agentes ligaram de hora a hora, tal como haviam prometido, embora não tivessem novidades. já passava da meia-noite quando Kate e Nick conseguiram apanhar Felicia.

- Deus do Céu! - exclamou Felicia sentando-se enquanto Nick a punha ao corrente pelo telefone. Kate não se encontrava em condições de falar. Deixara de chorar, mas parecia apática e passava o tempo a olhar para as fotografias. Nick já desistira de lhas querer tirar. - Queres que eu vá para aí?

- É capaz de ser boa ideia. Já a ajudaste em situações piores.

- É verdade. E, Nick... - Felicia hesitou, depois decidiu-se - Ainda bem que sabes. Ela tem de libertar-se daquilo tudo. Não pode continuar a esconder-se.

- Eu sei. Mas n&a