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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TERRA DE PAIXÕES / Diana Palmer
TERRA DE PAIXÕES / Diana Palmer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 

Estava um calor abrasador no sul do Texas, excessivo para os princípios de Setembro. Christabel Gaines tinha vestido um top branco decotado, umas calças de ganga gastas e trazia a mala dos livros pendurada com naturalidade num ombro. O top ajustava-se aos seus seios pequenos e firmes e as calças de ganga realçavam cada curva suave do seu corpo jovem. O seu longo cabelo louro mexia-se com a brisa, enredava-se na sua bonita boca de meia-lua e caía para a frente, espesso, sobre as suas maçãs do rosto salientes. Afastou as madeixas e os seus olhos castanhos grandes e ardentes brilharam de regozijo ao ouvir o comentário de uma das suas colegas de turma sobre outro aluno. Era uma manhã longa e aborrecida de segunda-feira. Debbie, uma colega da aula de informática, dirigiu o olhar para um ponto situado atrás de Christabel, no estacionamento, e assobiou.

 

 

 

 

- Eh lá! Já sei o que quero para o Natal - disse sonoramente. Teresa, outra colega, também olhava na mesma direcção com interesse.

- Sim, senhor! - exclamou e, com um sorriso maroto, ergueu as sobrancelhas repetidamente. - Alguém sabe quem é?

Picada pela curiosidade, Christabel voltou-se e viu um homem alto, moreno e bem parecido a cruzar o relvado com passo ligeiro até elas. Usava um chapéu texano de cor creme tombado para a frente, uma camisa branca de mangas compridas abotoada no pescoço com um adorno turquesa e umas calças cinzentas que se ajustavam às suas pernas longas e poderosas. As botas, também cinzentas, eram feitas por medida. No bolso da camisa, uma estrela prateada cintilava à luz do sol. Em torno das suas ancas estreitas tinha um cinto com um coldre de couro castanho. A pistola era um revólver Ruger de calibre 45. Costumava usar uma pistola Colt 45 ACP, mas estavam a trocar a coronha por outra à medida e a talhar nela a estrela dos Rangers. Além disso, era dia de competição na Associação de Tiro a que Judd pertencia e os participantes iam vestidos de cowboy, portanto, era oportuno que usasse o revólver de seis tiros no trabalho nesse dia.

- O que é que fizeram, meninas? - brincou um dos colegas de Christabel. - Os Rangers do Texas vieram cá por causa de alguém!

Christabel ficou em silêncio. Ficou a olhar, como o resto do grupo, para a forma como Judd avançava para ela com a determinação e concentração que o faziam destacar-se no seu trabalho. Era o homem mais sexy e maravilhoso do mundo. Christabel devia-lhe tudo o que tinha, tudo o que era. Às vezes, desejava de todo o coração ter nascido bela, para que Judd olhasse para ela como ela queria que ele olhasse. Sorriu para si, imaginando o que diriam as suas colegas se conhecessem a sua verdadeira relação com aquele enérgico Ranger.

Judd Dunn tinha trinta e quatro anos. Tinha passado quase toda a sua vida a trabalhar como agente de autoridade e tinha jeito para isso. Há cinco anos que fazia parte da companhia dos Rangers do Texas. Quiseram promovê-lo a tenente, mas Judd recusou porque era uma tarefa de tipo administrativo e preferia o trabalho de campo. Mantinha em forma o seu corpo alto e flexível trabalhando no rancho, cuja propriedade dividia com Christabel.

Judd tinha ficado responsável por Christabel quando ela tinha somente dezasseis anos. Nessa altura, o rancho estava em ruínas, em queda e prestes a falir. Judd tirou-o da miséria e conseguiu que começasse a dar lucros. Investiu o seu próprio dinheiro para aumentar o número de cabeças de gado que criavam. Com o seu faro apurado para os negócios e os conhecimentos informáticos de Christabel, o rancho co meçava a ser rentável. Assim, Christabel poderia estudar para tirar um diploma em programação e Judd poderia permitir-se alguns luxos. O último, no ano anterior, tinha sido aquele chapéu Stetson de cor creme que trazia tombado para a frente. Era feito de pele de castor e custou- Lhe o salário de um mês. Mas ficava-lhe bem, na verdade. Estava perigosamente atraente. Naquele ano, infelizmente, não tinham podido permitir-se a nenhum luxo, por causa da seca e da redução dos preços da carne. Voltavam a atravessar momentos difíceis, exactamente quando começavam a erguer a cabeça.

Qualquer outro homem teria reparado com regozijo nos olhares embevecidos das bonitas colegas de Christabel. Judd dava-lhes a mesma atenção que daria a uma agulha de pinheiro. Tinha um propósito em mente e nada poderia distraí-lo até que o tivesse cumprido.

Aproximou-se de Christabel e, para total assombro dos seus colegas de turma, parou em frente dela.

- Fizeram-nos uma oferta - disse e agarrou-a pelo braço com a mesma frieza com que teria detido um delinquente. - Tenho que falar contigo.

- Judd, tenho uma aula daqui a nada - protestou.

- É só um minuto - resmungou e olhou em volta, à procura de um lugar afastado. Encontrou um debaixo de um enorme carvalho. - Vamos.

Arrastou-a até à árvore enquanto os seus colegas contemplavam a cena com perplexidade. Christabel sabia que, depois, a submeteriam a um interrogatório.

- Não é que não fique contente por te ver - disse Christabel quando Judd a soltou com brusquidão, longe de ouvidos curiosos, - mas é que só tenho cinco minutos.

- Então, não os desperdices a falar - interrompeu-a. Tinha uma voz grave e aveludada, apesar de falar com brusquidão e Christabel sentia sempre deliciosos arrepios de prazer nas costas quando o ouvia.

- Está bem - acedeu com um suspiro e levantou uma mão.

Judd reparou na aliança, a sua aliança, que brilhava no dedo anelar de Christabel. Apesar de a ter levado à joalharia para o ajustar, continuava demasiado grande para a sua mão esbelta. Mas ela insistia em usá-la.

Christabel seguiu o seu olhar e fechou a mão.

- Ninguém sabe - disse ela. - Não sou coscuvilheira.

- Não, não és - corroborou e, por um instante, um brilho afectuoso surgiu nos seus olhos negros.

- Bem, qual é o problema?

- Não é exactamente um problema - disse e apoiou relaxadamente a mão direita no coldre da sua arma. O emblema dos Rangers estava talhado na coronha de madeira de ácer. O novo cabo da sua Colt teria a mesma madeira e o mesmo emblema. - Recebemos uma oferta de uma equipa de filmagem. Têm estado a percorrer as terras dos arredores, acompanhados por um representante do Ministério da Cultura, à procura de um lugar apropriado para criar um rancho fictício. Gostam do nosso.

- Uma equipa de filmagem - Christabel mordeu o seu generoso lábio inferior. - Judd, não gosto de ter gente no rancho - começou por dizer.

- Eu sei. Mas queremos comprar outro puro-sangue, não é? E se escolhermos um bom, será caro. Ofereceram-nos trinta e cinco mil dólares para usar o rancho durante várias semanas. Seria um trampolim. Até podíamos ampliar a cerca eléctrica e comprar um tractor novo.

Christabel assobiou. Aquela quantidade de dinheiro parecia-lhe uma fortuna. Haviam sempre despesas num rancho, uma máquina estragava-se ou os ajudantes queriam um aumento, ou o regador eléctrico deixava de funcionar e não havia água. Se não fosse isso, tinha que se telefonar ao veterinário para tratar uma vaca doente, pôr as etiquetas identificadoras no gado, marcá-lo, comprar material para as cercas.

De vez em quando, perguntava-se como seria ser rica e poder comprar tudo o que lhe passasse pela cabeça. O rancho tinha pertencido em partes iguais ao tio de Judd e ao pai dela e ainda estava longe de ser próspero.

- Deixa de sonhar - disse-lhe Judd com aspereza. Preciso de uma resposta. Tenho um caso entre mãos.

Christabel abriu muito os olhos.

- Um caso? Qual?

Judd desviou o olhar.

- Agora não.

- Trata-se de um homicídio, não é? - perguntou, intrigada. - A mulher que encontraram degolada em Victoria, numa zanga, só com uma blusa vestida. Tens uma pista!

- Não penso contar-te nada.

Christabel aproximou-se.

- Escuta, comprei maçãs frescas esta manhã. Tenho paus de canela. E açúcar mascavado - inclinou-se para ele. - E manteiga e farinha de pasteleiro.

- Pára - gritou Judd.

- Não imaginas essas maçãs a borbulhar sobre a massa, a cozer, até formar uma tarte suave, crocante e deliciosa...

- Está bem! - resmungou e lançou um olhar em volta para se assegurar de que ninguém os ouvia. - Era a esposa de um rancheiro dos arredores - disse-lhe. O marido tinha uma reputação sólida e ela não tinha um único inimigo. Achamos que foi escolhida à sorte.

- Não há nenhum suspeito?

- Não. O assassino não deixou grandes pistas, a não ser um cabelo e uns filamentos de um tecido de cores berrantes que não correspondia com a blusa da vítima. E não penso contar-te mais nada - acrescentou, zangado, - haja tarte de maçã ou não.

- Está bem - disse Christabel, cedendo com desportivismo. Observou o seu rosto atraente e delgado. Queres que abramos as portas do rancho a essa companhia cinematográfica - acrescentou. Judd assentiu.

- Na próxima semana, quando tivermos feito a declaração trimestral, teremos um défice de uns mil dólares - disse-lhe em voz baixa.

- E teremos que comprar mais coisas. A inundação deitou a perder quase todo o feno e a colheita de milho, para não falar da alfafa. Reparámos o silo, mas não a tempo para esta temporada. E também vamos precisar de mais suplementos vitamínicos e minerais para o gado.

- Sim. - reconheceu e o seu olhar tornou-se sonhador. - Não seria maravilhoso ter milhões? Podíamos comprar debulhadoras, tractores novos, ceifeiras.

Judd franziu os lábios e sorriu ao ver o seu entusiasmo: Deslizou o olhar pela sua figura lindíssima, detendo-se involuntariamente nos seus seios. Pareciam bonitas maçãs sob aquele tecido cingido e sentiu uma ânsia inesperada e surpreendente. Levantou os olhos novamente.

- Não preferias umas calças de ganga novas? - perguntou e apontou para os buracos das calças que trazia vestidas. Christabel encolheu os ombros.

- Aqui ninguém se arranja muito. Bem, menos a Debbie - disse e lançou um olhar à sua colega, que tinha vestido um conjunto caro de saia e top. - Mas os pais dela são milionários.

- O que é que ela está a fazer numa escola de formação profissional?

- Quer caçar o fillho de Henry Tesler - sorriu.

- Um estudante.

Christabel negou com a cabeça.

- O professor de álgebra.

- Um crânio - comentou Judd.

- É muito inteligente - assentiu Christabel. - E muito rico. O pai de Henry tem cavalos de corridas, mas Henry não gosta de animais e por isso é professor.

- Deu uma olhadela ao relógio grande e pouco feminino que tinha no pulso. - Meu Deus! Vou perder a aula! Tenho que ir.

- Vou dizer aos senhores da empresa cinematográfica que podem vir filmar - disse Judd. Christabel virou-se para alcançar os seus colegas, que se afastavam a passo lento para a porta lateral do edifício principal. Parou e voltou a cabeça com receio.

- Quando é que eles vêm?

- Dentro de duas semanas, para tirar umas fotografias e ver que alterações precisam de fazer para instalar as suas câmaras.

- Então diz-lhes que não façam muito barulho perto do celeiro. A Bessie vai ter o seu potro.

- Irei pô-los ao corrente de tudo.

Christabel observou-o com admiração.

- Estás muito sexy, sabias? A minha colega Debbie quer-te como prenda de Natal - acrescentou com gozo. Judd lançou-lhe um olhar furibundo. - Só faltam três meses. Tenho uma ideia. Se me comprares um cinto de ligas vermelho, vou usá-lo para ti - brincou.

Judd negava-se a imaginá-la assim.

- Sou catorze anos mais velho que tu - disse. Ela indicou-lhe o anel. Judd deu quatro passos e inclinou-se sobre ela com uma atitude ameaçadora. Atreve-te a contar a alguém.

- Não sou coscuvilheira - recordou-lhe. - Mas não há motivo legal ou moral que te impeça de me ver em roupa interior vaporosa - disse, - saibam as pessoas que somos casados ou não.

- Disse-te há cinco anos e repito-te agora - disse Judd com firmeza. - A nossa relação nunca será íntima. Dentro de dois meses, vais ser maior de idade. Vais assinar um papel e eu também e seremos sócios, nada mais.

Christabel observou os seus olhos negros, presa da excitação familiar.

- Diz-me que nunca te perguntaste como é que eu serei nua - sussurrou. - Atreve-te.

Judd lançou um olhar que teria queimado o pão. Era um olhar famoso no sul do Texas. Até o tinha usado com o pai de Christabel antes de se atirar sobre ele com os punhos cerrados.

Christabel libertou um suspiro de pesar.

- Que desperdício - murmurou. - Sabes mais de mulheres do que eu alguma vez vou saber sobre os homens. Aposto que és sensacional na cama.

Judd cerrou os lábios. O seu olhar começava a parecer um míssil dirigido a ela.

- Está bem - desistiu por fim. - Vou procurar um rapaz amável que me ensine a acalmar estas ânsias que me dão de vez em quando e depois conto-te até ao último e sórdido detalhe, prometo.

- Um - disse Judd. Christabel arqueou as sobrancelhas.

- O quê?

- Dois.

Christabel fechou a mão e agarrou-se à alça da bolsa.

- Olha, não vou deixar-me intimidar por um homem que me conhece desde que usava combinação e sapatos de verniz.

- Três!

- Além disso, não me importa que sejas um.

- Quatro!

Christabel rodou sobre os calcanhares sem terminar a frase e pôs-se a andar para a porta lateral da escola. O número seguinte era o último aviso de uma humilhação pública. Lembrava-se de muitas contagens no passado, para prejuízo dela. Quando Judd metia uma coisa na cabeça.

- Só te estou a fazer a vontade para tu pensares que controlas a situação - atirou-lhe. - Não penses que estou a fugir!

Judd ocultou um sorriso até que regressou ao todo-o-terreno preto que conduzia.

Naquela mesma semana, apanharam Jack Clark, um empregado, a roubar, quando pôs na conta do rancho umas botas muito caras. Christabel tinha visto a factura e chamou Judd para lhe explicar o que era. Despediram-no na hora. Christabel não disse a Judd que Clark a tinha assediado, nem que tinha tido que o ameaçar dizendo que contaria tudo a Judd para que ele parasse.

Alguns dias depois do despedimento, o seu novo novilho Sallers apareceu morto num pasto. Pareceu a Christabel que tinha sido morto. O touro era saudável e negava-se a acreditar no que Judd dizia, que tinha ingerido ervas indigestas quando outros quatro touros do mesmo pasto continuavam vivos. No fim de contas, Jack Clark tinha jurado vingar-se. Mas Judd descartava as suspeitas e até se queixou a Maude, a governanta, de que Christabel estava a tentar chamar a atenção, porque ele não Lhe estava a ligar muito ultimamente, ocupado como estava a negociar com a empresa cinematográfica. Aquilo enfureceu-a. Contou a sua teoria ao seu capataz, Nick Bates, e pediu-lhe que vigiasse o gado. Às vezes, Judd tratava-a como uma criança. Isso não costumava chateá-la mas, ultimamente, tornava-se irritante.

Duas semanas depois, no sábado de madrugada, Judd chegou no seu todo-o-terreno preto seguido de outro todo-o-terreno enorme cheio de pessoas. Entre elas, estava o representante do Ministério da Cultura e um realizador que Christabel reconheceu de imediato. Christabel não estava à espera de ver gente famosa. O grupo incluía também um ajudante de realização e outras quatro pessoas que lhe apresentaram como parte da equipa, incluindo o director de fotografia e um técnico de som.

Christabel verificou que a estrela do filme era uma super-modelo, uma bela jovem que, por azar, nunca tinha montado a cavalo.

- Isso vai limitar as cenas com os animais - disse o director a Judd com uma gargalhada. - É claro que Tippy Moore não percebe nada de gado. Talvez a tenham visto nas capas das revistas. Chamam-na a Vénus da Geórgia. Este vai ser o seu primeiro filme, mas foi uma bomba nas audições. Possui um talento natural.

Judd franziu os lábios e iluminaram-se os olhos.

- Via-a na capa de um suplemento de fatos-de-banho - confessou. - Todos os norte-americanos com sangue na guelra sabem quem é.

Christabel sentiu-se desconfortável. Lançou um olhar a Judd, consciente do seu interesse, e sentiu vontade de gritar. Estavam casados, mas ele não olhava para ela. Tinha carinho por ela, mimava-a, mas nada mais. Nem sequer a beijou no dia do casamento. Era um balde de água fria pensar que, em dois meses, tudo estaria acabado. Christabel tentou chamar a sua atenção de mil maneiras, inclusive brincando sobre um rapaz da escola que queria casar-se com ela. Era mentira e Judd apanhou-a. Desde então, não acreditava em nada do que ela dizia. Observou o seu físico alto e sexy e perguntou-se o que diria se uma noite, enquanto revia os livros, ela entrasse no seu estúdio e tirasse a roupa toda.

Então, lembrou-se das cicatrizes horríveis que tinha nas costas, as que o seu pai, em plena bebedeira, lhe tinha infligido com um chicote aos dezasseis anos. Christabel tinha tentado salvar a sua pobre égua das chicotadas e o seu pai, em troca, enfureceu-se com ela. Recordava-se da dor. O seu pai deixou-lhe a camisa em farrapos.

Naquele sábado de manhã, Judd tinha ido ao rancho para falar de negócios com o pai de Christabel, quando ainda trabalhava no posto de Rangers de San Antonio. Grande parte do sucedido era confuso, mas Christabel lembrava-se com clareza da forma como Judd se tinha aproximado da cerca do curral com um ar tão ameaçador que o seu pai soltou o chicote e começou a recuar. Não lhe serviu de nada. Judd começou a dar-lhe murros e, segundos mais tarde, o bêbedo jazia por terra, meio inconsciente. Judd prendeu-o no alpendre dos arreios.

Depois, Judd levantou-a em braços com ternura, murmurando palavras de consolo, gritando com Maude, a governanta, com voz rouca, para que chamasse a polícia e a ambulância. Pô-la ele mesmo na ambulância e viajou com ela até ao hospital, enquanto a mãe inválida de Christabel chorava com amargura no alpendre e o seu pai era detido. Judd denunciou Tom Gaines e este foi para a prisão.

Nunca mais, disse Judd com frieza, esse homem levantaria a mão a Christabel.

Mas o mal estava feito. As feridas demoraram semanas a fechar. Não havia dinheiro para cirurgia plástica. Continuava a não haver. Por isso, Christabel tinha cicatrizes brancas paralelas nas costas, desde os ombros até à cintura. Incomodavam-na tanto que, apesar das piadas, nunca tinha tido coragem para se despir em frente de Judd ou de qualquer outro homem. De qualquer forma, Judd só queria desfazer-se dela. Não queria casar-se. Adorava o seu trabalho, a sua liberdade. Dizia isso a toda a hora.

Mas sabia quem era Tippy Moore. Quase todos os homens sabiam. Tinha um rosto de anjo e um corpo que reclamava carícias. Ao contrário da pobre Christabel, que tinha um rosto vulgar e um corpo parecido com o do Frankenstein.

Judd e o realizador, Joel Harper, estavam a falar de usar um dos cavalos numa cena e a conveniência de contar com o apoio do capataz, Nick Bates, durante a filmagem.

- Também vamos precisar de protecção - disse Harper em tom pensativo. - Gosto de contar com a polícia local, quando pode ser, mas isto fica fora dos limites do município, não é?

- Podia contratar todos os polícias de Jacobsville nas suas horas livres - sugeriu Judd. - Agora mesmo, o chefe de polícia, Chet Blake, está fora da cidade. Mas Cash Grier, o subchefe, ficará encantado em ajudá-lo. TrabaLhei com ele quando estava destacado em San António.

- É seu amigo? - perguntou Harper. Judd emitiu um som rouco e gutural.

- Grier não tem amigos, tem adversários. Christabel tinha ouvido falar muito de Cash Grier, ainda que não o conhecesse pessoalmente. Tinha-o visto de longe. Era um enigma: usava o uniforme tradicional de polícia e a sua melena negra presa. Tinha bigode e uma pêra minúscula debaixo do lábio inferior. Tinha um aspecto. ameaçador. A delinquência desceu a pique em Jacobsville desde a sua chegada. Corriam rumores sórdidos sobre o seu passado, como aquele em que diziam que, na sua juventude, tinha sido um assassino que trabalhava para o Governo.

- Fez Teny Barnett cair de uma janela abaixo - recordou Christabel em voz alta. Harper abriu muito os olhos. Christabel percebeu que os dois homens estavam a olhar para ela fixamente e corou. - Terry estava a partir pratos numa casa de crepes em Jacobsville porque a sua mulher, que trabalhava lá, estava a sair com outro homem. Agarrou em todos os pratos e começou a destruir o local. Dizem que se atirou a Grier com uma botija na mão e que Grier se limitou a mudar de posição e que Terry atravessou o vidro dajanela - assobiou. - Deram-lhe trinta pontos e acusaram-no de agressão a um agente de autoridade, mas conseguiu a liberdade condicional.

Judd olhava para ela zangado. Ela encolheu os ombros.

- Quando te dás com eles, pega-se - explicou a Harper com um sorriso tímido. - Conheço Judd há muito tempo. Ele e o meu pai eram. sócios.

- O meu tio e o pai dela eram sócios - corrigiu Judd rapidamente. - Eu herdei uma metade do rancho e ela, a outra.

- Entendo - disse Harper, com uma inclinação de cabeça, mas estava preocupado com o filme que ia dirigir e já estava a organizar as cenas na sua cabeça. E a pensar na logística. - Vamos precisar de alguém que nos arranje a comida enquanto trabalhamos - murmurou. - Também vamos ter que marcar reuniões com representantes da cidade, porque parte dos exteriores serão filmados em Jacobsville.

- O filme é sobre quê? - quis saber Christabel. Pode dizer-me?

Harper sorriu ao ver o seu interesse. Tinha duas filhas da sua idade.

- É uma comédia romântica sobre uma modelo que vem ao Oeste para filmar um anúncio num rancho de verdade e se apaixona por um rancheiro. O rancheiro detesta as modelos - acrescentou.

Christabel riu.

- Irei vê-lo.

- Espero que vários milhões de pessoas o façam - Harper virou-se para Judd. - Também iremos alugar quartos no melhor hotel da zona para as semanas que durarem as filmagens.

- Quanto a isso, não terá nenhum problema - ironizou Judd. - Isto não é propriamente um destino turístico.

Harper estava a abanar-se com um molho de papéis. Suava a jorros.

- Com este calor, não - concordou.

- Calor? - brincou Christabel, fazendo-se de inocente. - Acha que está calor? Meu Deus!

- Já chega - resmungou Judd em tom sombrio, porque o realizador começava a empalidecer. Christabel enrugou o nariz.

- Era uma brincadeira. Os polícias não têm sentido de humor, senhor Harper - disse-lhe. - Têm máscaras em vez de caras e não podem sorrir.

- Um - resmungou Judd.

- Vê? - inquiriu com insolência.

- Dois.

Christabel revirou os olhos e entrou em casa.

Christabel estava a tirar uma tarte de maçã do forno quando ouviu as portas de um carro a fechar e o ruido de um motor. Judd entrou na cozinha, cruzando-se com Maude, que se dirigia para a parte posterior da casa para meter a roupa na máquina.

- Fiz-te uma tarte de maçã - disse Christabel a Judd e passou-a sob o seu nariz. - Penitência.

Judd suspirou e serviu-se de uma chávena de café preto, puxou uma cadeira e sentou-se em frente da pequena mesa da cozinha.

- Quando pensas crescer, diabrete?

Christabel olhou para as botas empoeiradas e as suas calças de ganga manchadas. Imaginava que a sua trança se estava a desmanchar e não precisava de olhar para saber que tinha a blusa amarela de algodão terrivelmente amachucada. Judd, pelo contrário, usava umas calças de ganga sempre engomadas e limpas. Tinha as botas tão lustrosas que reflectiam a toalha. A camisa branca com a estrela prateada de sargento Ranger estava impecável e a gravata azul escura em perfeita ordem. O cinto da arma rangia quando ele cruzava as suas pernas longas e poderosas e a pistola Colt 45 ACP movia-se de forma inquietante no coldre.

Recordou que o tetravô de Judd tinha sido Ranger antes de ir para Harvard e se converter num famoso advogado em San António. Judd era o mais rápido a sacar a arma em todo o norte do Texas, assim como o seu amigo e colega Marc Brannon, de Jacobsville, era o mais rápido do sul do estado. Costumavam praticar no clube de tiro de Jacobsville, ao qual iam como convidados de um amigo comum, Ted Reagan. O cartão de sócio do clube custava centenas de dólares e os polícias não se podiam permitir esse luxo. Mas o ex-mercenário Eb Scout tinha uma escola de treino anti- terrorista em Jacobsville, e possuía um dos melhores campos de tiro dos arredores. Emprestava-o sem custo algum a qualquer polícia que quisesse usá-lo. Entre Ted e Eb, os dois amigos praticavam de vez em quando.

- Continuas a ser o mais rápido? - perguntou a Judd enquanto cortava a tarte.

- Sim, mas não o menciones a Harper - acrescentou rotundamente. Christabel voltou a cabeça.

- Não queres entrar no filme?

- Tanto como tu, miúda - respondeu, apreciando distraidamente como lhe assentavam bem as calças de ganga e a blusa justa, que acentuava a curva dos seus seios. Ela encolheu os ombros.

- Isso tinha graça: eu, actriz de cinema - ficou a olhar para a tarte, imóvel. - Podia ser a estrela de um filme de terror se me pusessem em fato-de-banho e me filmassem de costas.

Fez-se um silêncio de perplexidade. Christabel serviu uma fatia de tarte num prato, pegou num garfo e levou-a a Judd. Este agarrou na mão de Christabel e sentou-a nos seus joelhos.

- Escuta-me - disse com voz grave e terna que empregava quando via uma criatura sofrer. - Toda a gente tem cicatrizes. Podem não se ver, mas estão lá. O homem que te quiser não se importará com umas quantas linhas brancas.

Christabel inclinou a cabeça, tentando não o deixar ver o quanto a afectava a sua proximidade. Gostava do aftershave que ele usava, o cheiro a limpo da sua roupa, o leve odor do couro do seu cinto.

- Como é que sabes que são brancas? - perguntou. Judd lançou-lhe um olhar de cachorrinho abandonado e afrouxou a gravata, desapertou os primeiros botões da camisa e deixou a descoberto um peito bronzeado salpicado de pêlos encaracolados.

Christabel já o tinha visto várias vezes sem camisa, mas ficava sempre atordoada.

Judd afastou a camisa e a impecável t-shirt branca que usava por baixo e indicou um franzido de pele no ombro, do qual partiam linhas brancas.

- Uma pistola de calibre vinte e dois - disse, e pôs a mão de Christabel na cicatriz. - Toca.

Ela tinha a mão gelada. Tremeu ao pousá-la sobre aquela carne morna e musculada.

- Sobressai - disse quase ofegante.

- É desagradável? - insistiu Judd. Ela sorriu.

- Não.

- Nenhuma das tuas cicatrizes é assim tão feiaacrescentou. - Abotoa- me.

Era íntimo, excitante, realizar aquela pequena tarefa. Sorriu como uma tonta.

- Isto é novidade.

- O quê?

- Nunca me tinhas deixado sentar nos teus joelhos

- lembrou-lhe. Judd olhava-a com uma expressão insólita.

- Não deixo que ninguém se sente nos meus joelhos.

Ela franziu os lábios ao apertar os botões do pescoço.

- Tens medo que tente despir-te?

Christabel viu que o seu peito se elevava, mas quando levantou o olhar, Judd estava impassível. Brilhavam-Lhe os olhos de riso contido.

- Isso não te servia de muito. - comentou.

- Porque não?

Judd arqueou uma sobrancelha.

- Não sabias o que fazer comigo depois de me despires.

Ouviu-se o barulho de umas batatas a cair no chão, Judd e Christabel viraram a cabeça até ao umbral, onde Maude, com as mãos a agarrar as bordas do seu avental, continuava a deixar cair as batatas a seus pés.

- Pode-se saber o que é que se passa? - perguntou Judd em tom sombrio. Maude olhava para ela com os olhos esbugalhados.

- Já sei - disse Christabel, sorrindo. Pensa que eu te estou a despir. Não se passa nada, Maude - acrescentou, e mostrou-lhe o anel do dedo anelar. - Estamos casados.

Judd olhou-a com desaprovação e deixou-a cair ao chão com suavidade. Ela sorriu-lhe. Judd encostou-se na cadeira e terminou de fechar a camisa.

- Estava a mostrar-Lhe uma das minhas cicatrizes - disse Judd a Maude.

Maude tinha apanhado as batatas e tentava com todas as forças não dizer nenhuma parvoíce. Mas aquele comentário inocente provocou um ataque de riso.

- Não, Maude - gritou Christabel pondo-se de pé.

- Foi muito inocente, É verdade, ele estava a mostrar-me a cicatriz.

Maude assentiu com entusiasmo e centrou a sua atenção nas batatas. Lançou um olhar rápido de regozijo a Judd, que a observava zangado ao mesmo tempo que levava um pedaço da tarte de maçã à boca.

- Pois claro - corroborou Maude. Judd revirou os olhos.

- Estou armado - indicou.

Maude soltou a faca e a batata que estava a descascar e abriu os braços.

- Eu também - disse e arqueou as sobrancelhas várias vezes.

Judd olhou zangado, para ela e depois para Christabel, que sorria de orelha a orelha.

- Agora já sei com quem aprende as piadas - disse a Maude.

- Está com ciúmes por não saber brincar - comentou Christabel com olhar travesso.

Judd lançou-lhe um olhar ameaçador e continuou a comer a tarte.

 

Naquela noite, quando Judd regressou ao seu apartamento de Victoria, onde estava destacado, Christabel deu voltas na cama durante horas, preocupada por causa de Tippy Moore e da estranha reacção de Judd perante a notícia de que ela ia protagonizar o filme. A modelo parecia fasciná-lo só pelas fotografias e isso era suficientemente óbvio para a magoar. Apesar de ter sentado Christabel nos seus joelhos e de a ter consolado pelas suas cicatrizes, tratava-a de maneira impessoal. Nunca a tinha tocado indecorosamente, apesar dos esforços da própria Christabel.

Recordou-se daquele sábado, há cinco anos atrás, quando a sua vida mudou de forma drástica. Ainda conseguia sentir o cheiro do sangue e do couro, sentir o chicote nas costas.

Entre cada onda de dor, ouvia uma voz grave e áspera maldizendo sem parar. Era o único som audível, apesar de outros cinco rancheiros estarem de pé em volta dela com caras lúgubres e poses rígidas. O curral estava cheio de pó porque não tinha chovido e Christabel tinha fios de feno no seu cabelo louro despenteado. Estava caída de boca no chão, com a blusa feita em farrapos. O sangue emanava dos cortes profundos das suas costas. Ouviu golpes fortes e gemidos num lugar próximo, seguidos de uma porta a bater. Um minuto depois, notou que alguém se ajoelhava a seu lado.

- Christabel, consegues ouvir-me? - perguntou-lhe Judd ao ouvido asperamente.

Ela entreabriu os olhos. Custava-lhe ver com nitidez, mas lembrou-se que Judd Dunn era a única pessoa que a chamava pelo seu nome completo. Toda a gente a chamava de Crissy.

- Sim? - aquela era a sua voz? Soava débil e tensa. O sol brilhava com tanta intensidade que não conseguia abrir os olhos.

- Vou ter que te levantar e vai doer. Aperta os dentes.

Christabel engoliu em seco. Tinha as costas em carne viva. A blusa colava-se à pele lacerada e sentia como o sangue arrefecia ao empapar o tecido. Cheirava estranhamente a metal.

Judd deslizou os braços por baixo das pernas de Christabel e em torno do seu tórax com todo o cuidado que pôde. Pegou nela, tentando não tocar na carne lacerada e notou a pressão dos seus seios pequenos nos músculos quentes do seu peito. Estava a soluçar, tentando abafar o som enquanto a dor a trespassava.

- E. o papá? - perguntou num fIo de voz. Os olhos negros de Judd lançaram um brilho tão ameaçador que dois dos vaqueiros treparam a cerca do curral para se esquivarem dele.

- Está no alpendre dos arreios - disse com aspereza. - E vai lá ficar até chegarem os agentes do xerife.

- Não - gemeu Christabel. - Judd, não. Não podes fazer com que. o prendam. A mamã está doente e não pode tomar conta do rancho. E eu também não.

- Já está preso. Eu sou Ranger do Texas - lembrou-lhe - Mas disse ao capataz para avisar a polícia pelo rádio do meu carro. Já vêm para cá.

- Quem dirigirá a nossa parte do rancho? - repetiu, perplexa pelo que lhe tinha ocorrido de maneira inesperada. O seu pai tinha um historial de comportamento agressivo quando se embebedava. De facto, Ellie, a mãe de Christabel, estava inválida porque Tom Gaines a tinha empurrado de umas escadas abaixo num ataque de raiva quando estava bêbado e partira-lhe a pélvis. A cirurgia de urgência não a tinha curado por completo e, para piorar, tinha uns pulmões frágeis.

- Eu ocupar-me-ei do rancho, da tua parte e da minha - disse com aspereza. - Não te mexas, querida.

As lágrimas resvalavam pelas bochechas pálidas de Christabel. Judd olhava-a com os lábios apertados. O seu rabo-de-cavalo tinha-se desfeito e o seu longo cabelo louro estava manchado com o seu próprio sangue seco. Judd praguejou entredentes e só se interrompeu quando a ambulância se aproximou a uma velocidade vertiginosa pela estrada de acesso ao rancho.

Maude, a governanta roliça, retorcia as mãos no alpendre. Veio a correr, com o cabelo alvoroçado.

- Minha pobre menina - soluçou. - Judd, ela vai ficar bem?

- Sim. Não posso dizer o mesmo de Tom. Se ela não o denunciar, faço- o eu.

Uma mulher pequena, de cabelo louro salpicado de cabelos brancos, saiu a coxear do alpendre da frente envolta numa bata de felpa velha. Desatou a chorar ao ver a sua filha.

- Ela vai ficar bem. Volte para a cama; Ellie - disse Judd e, para ela, a sua voz era suave. - Eu vou tomar conta dela.

- Onde está Tom? - perguntou com voz trémula. O tom de Judd mudou.

- Fechado no quarto dos arreios.

A mulher fechou os olhos e encostou-se ao poste.

- Graças a Deus!

- Maude, mete-a outra vez na cama antes que desmaie e caia - gritou Judd e continuou a andar na direcção do pessoal médico que saía da ambulância. A seguir apareceu um carro patrulha com as luzes de emergência ligadas. Um polícia saiu do carro e aproximou-se de Judd.

- O que é que se passou? - perguntou o agente Carson, com o olhar cravado nas costas de Christabel.

- Tom, foi isso que se passou - respondeu Judd asperamente, enquanto esperava que o pessoal da ambulância tirasse a maca. - Estava a açoitar a égua de Christabel com um chicote. Ela tentou detê-lo.

Hayes fez uma careta. Era polícia há cinco anos e tinha visto bastantes casos de agressão. Mas aquele. Christabel não tinha mais de dezasseis anos, era magra e frágil e quase todos os vizinhos de Jacobsville gostavam dela. Estava sempre a fazer tartes para colectas de beneficência, a levar flores a idosos prostrados na cama e a ajudar a enviar comida quente aos inválidos depois das aulas. Tinha um coração tão grande como o estado do Texas. Imaginar o robusto Tom Gaines a açoitá-la com todas as suas forças bastava para provocar náuseas a um polícia veterano.

- Onde é que ele está? - perguntou Hayes com frieza. Judd indicou-lhe com a cabeça onde ficava o alpendre dos arreios, sem afastar o olhar do rosto manchado de lágrimas de Christabel. Eram ainda mais dilacerantes pela ausência de soluços.

- A chave está junto da porta - olhou Hayes. nos olhos. - Não o tires da prisão por nada deste mundo. Juro-te, se o soltas, mato-o - afirmou num tom que produziu calafrios até mesmo a Hayes.

- Vou encarregar-me de que lhe fixem uma fiança muito alta - tranquilizou-o. - Está bêbado?

- Estava - disse Judd asperamente. - Agora, chora. Lamenta muito o ocorrido, claro. Lamenta sempre.

deitou Christabel suavemente na maca. - Vou com ela

- disse aos auxiliares médicos.

Estes não se sentiam inclinados a discutir. Judd Dunn já intimidava bastante quando não estava de mau humor.

Judd voltou a olhar para Hayes.

- E se telefonasses para San Antonio, para a sede dos Rangers, e lhes dissesses que vou chegar tarde, que me arranjem um substituto?

- Vou telefonar - disse Hayes. - Espero que Crissy fique bem.

- Vai ficar - disse Judd em tom sombrio. Subiu para a ambulância e sentou-se junto de Christabel. Envolveu a sua pequena mão com a sua. - Podem dar-lhe algo para as dores? - perguntou ao ver que as lágrimas continuavam a brotar dos seus olhos.

- Pedirei instruções - o auxiliar falou pelo rádio com o hospital e explicou a condição da paciente. O doutor Jebediah Coltrain, o médico de serviço, fez-lhe algumas perguntas.

- Dê-me isso - disse Judd com aspereza e estendeu a mão para pegar no microfone. O auxiliar não protestou. - Copper? - perguntou asperamente. - Fala Judd Dunn. As costas de Christabel parecem carne viva. Dói-Lhe muito. Diz-lhes que Lhe dêem algo. Fico responsável por ela.

- Quando é que não ficas? - disse Copper com ironia. - Passa-me outra vez a Dan.

- Claro - passou o microfone ao auxiliar, que escutou, assentiu, e de imediato encheu uma agulha hipodérmica com o conteúdo de uma ampola.

Judd tirou o chapéu e secou o suor que lhe corria pela cara. Deixou o chapéu num dos lados e ficou a olhar para Christabel com olhos brilhantes.

- Judd - sussurrou Christabel com voz rouca enquanto lhe davam a injecção - Cuida da mamã.

- Claro - respondeu e fechou os dedos em volta da sua mão. Tinha o rosto petrificado, mas os seus olhos negros continuavam a arder de fúria. Ela olhou-o.

- Vou ficar com cicatrizes.

- Não importa - resmungou.

Christabel fechou os olhos, cansada. Tudo se arranjaria. Judd iria tratar de tudo.

E assim tinha sido. Cinco anos depois, Judd continuava a tratar de tudo. Christabel nunca se tinha sentido culpada por isso, mas ultimamente sim. Judd era responsável por tudo no rancho, incluindo ela. O seu pai faleceu de enfarte pouco tempo depois da sua detenção. A sua mãe morreu no ano em que Christabel acabou a escola, deixando-a sozinha com Maude. Judd visitava-as no Dia de Acção de Graças e no Natal e os três passavam bons bocados juntos, mas Judd nunca tinha querido manter uma relação física com a sua jovem esposa e tomava medidas extremas para que assim fosse.

Naquele ano, mudou-se para a sede que os Rangers do Texas tinham em Victoria, aproveitando a reforma de um colega. Foi pouco depois do seu amigo e colega Marc Brannon se ter casado com Josette Langley e de Cash Grier se mudar de San Antonio para Jacobsville para ocupar o cargo de subchefe da polícia.

De modo que Judd a tinha deixado sentar-se nos seus joelhos naquela noite. Mas isso não significava nada, nunca significaria nada. O seu pulso nem sequer se tinha acelerado, recordou. Por outro lado, quando o realizador tinha mencionado Tippy Moore, Judd tinha sorrido e Crissy tinha visto nos seus olhos um olhar puramente masculino.

Sabia que Judd não era virgem, enquanto ela era. Tinha um ar seguro e as mulheres pareciam intuí-lo, como a sua amiga Debbie tinha feito na escola. Debbie tinha comentado que Judd era, certamente, sensacional na cama e que devia ter partido corações por todo o lado.

Christabel ficou pensativa depois disso, porque recordava alguns comentários estranhos da sua mãe há um tempo atrás, sobre Judd e as companhias que tinha em San Antonio. Ao que parece, não era renitente a mulheres permissivas, mas nunca as levava ao rancho. A sua mãe tinha sorrido com sagacidade. Não queria que as suas amantes desfilassem em frente de Christabel, tinha comentado. Não quando estavam casados em segredo.

Tinha sido devastador descobrir que Judd não honrava os seus votos conjugais, apesar de ser um casamento de conveniência. Sendo realistas, não teria podido passar sem uma mulher durante vários anos, Crissy sabia disso. Mas detestava imaginá-lo na cama com uma mulher voluptuosa. Chorou durante dois dias, ocultando as lágrimas no galinheiro enquanto recolhia ovos ou enquanto percorria a cerca com os vaqueiros.

A sua natureza pouco feminina tinha inquietado a sua mãe inválida, que dizia que Christabel devia aprender a vestir-se e a pôr a mesa em vez de laçar os carneiros para os marcar ou arrear os cavalos no está bulo. Christabel não lhe prestava atenção e continuava com as suas tarefas. Sentia que devia realizar parte dos afazeres do rancho, antes e depois das aulas e aos fins-de-semana, quando dispunha de tempo. Judd reparou nisso, primeiro com regozijo, depois com indulgência afectuosa.

Tinha carinho por ela, à sua maneira. Mas não era carinho que Christabel desejava. Tinha uma terrivel premonição sobre a mudança adversa que iria acontecer na sua vida com a chegada do pessoal das filmagens.

Judd já tinha anunciado a sua intenção de efectuar a anulação em Novembro. E se perdesse a cabeça por aquela modelo mundialmente famosa que fazia todos os homens babar-se? Crissy não conseguia evitar pensar que a modelo poderia achá-lo igualmente atraente. Judd era um bombom.

Começou a dar voltas e tapou a cabeça com a almofada. Tinha tempo de sobra para se preocupar com isso depois do exame de informática do dia seguinte. O exame! Como podia ter-se esquecido? Pegou no despertador e programou-o para uma hora antes de costume. Uma revisão de última hora não fazia mal a ninguém.

Fez o exame, assistiu ao resto das aulas e regressou ao rancho para fazer as suas tarefas. Acabava de arrear a sua égua, a mesma que tinha salvo da brutalidade do seu pai quando era um potro, quando ouviu um carro a aproximar-se.

Maude estava em Jacobsville, na mercearia, e por isso saiu para ver quem era. Viu, surpreendida, que era um carro de polícia branco e preto. Um homem alto, de bom porte, vestido de uniforme e com um espesso rabo-de-cavalo negro voltou-se ao ouvi-la aproximar-se e desceu os degraus com uma mão apoiada na coronha do seu revólver de calibre 45, que partilhava o cinto com uma cartucheira, um cacete de couro, um aerossol, uma lanterna e várias facas.

Era Cash Grier, o subchefe de polícia. Crissy só o tinha visto de longe uma vez, mas já tinha ouvido falar muito dele. Era como Judd, pensou, um homem sério de rosto rígido. Levada por um impulso travesso, cobriu a cabeça com as mãos.

- Eu confesso. Fui eu! - exclamou. - Assaltei a Caixa de Aforros de Jacobsville e o dinheiro está no celeiro! Vá, prenda-me!

Grier deteve-se e arqueou as sobrancelhas. A sua boca esculpida, disciplinada entre o bigode largo e a pequena pêra, elevou-se em ambos os extremos e os seus olhos escuros brilharam no seu rosto marcado e bronzeado.

- Como queiras. Leva-me até uma árvore e enforcar-te-ei - respondeu.

Crissy sorriu. O sorriso modificava o seu rosto, tornava-o radiante. Limpou a mão direita nas calças de ganga e ofereceu-a.

- Olá, sou Christabel Gaines. Toda a gente me chama Crissy, excepto Judd.

Cash apertou-lhe a mão.

- Como é que o Judd te chama?

- Christabel - suspirou. - Tem falta de imaginação e de humor. Se não queres prender-me, porque é que vieste? Nem sequer estamos na tua jurisdição. O sinal que marca o limite da cidade está a seis quilómetros e meio daqui - assinalou.

Cash riu-se.

- Vim ver Judd. Deixou-me uma mensagem. Soube que uma empresa cinematográfica vem aqui filmar e que quer contratar polícias locais nas suas horas livres. Eu oferecia-me como voluntário - acrescentou, - mas iam chatear-me para ser o protagonista. Sou atraente, caso não tenhas notado - acrescentou com um sorriso travesso.

Crissy demorou um minuto a perceber a piada. Depois, desatou a rir.

- Tu vais entrar no filme? - perguntou Grier com um sorriso. Crissy assentiu.

- Vou fazer de lilás junto dos degraus do alpendre. Acho que a maquilhagem demora um dia inteiro.

Cash riu-se. Aquela jovem era encantadora e muito bonita. Gostava da sua personalidade. Há muito tempo que uma mulher não o atraía tanto num primeiro encontro.

- Sou Cash Grier, o subchefe de polícia - apresentou-se. - Imagino que já sabias. O que é que me denunciou? O carro-patrulha?

- Chama um pouco a atenção - comentou. - É muito bonito.

- Gostamos de pensar que temos os carros-patrulha mais sexys de todo o Texas - concordou Grier. - Favorecem-me - acrescentou.

Crissy olhou-o nos olhos.

- Vamos comprovar isso.

- Ah, não - respondeu Cash. - É uma experiência forte para algumas mulheres. Teremos que ir a pouco e pouco - arqueou as sobrancelhas. - As chávenas de café também me favorecem.

Era uma sugestão e Crissy aceitou-a.

- Muito bem. Vamos comprovar isso.

Antes de entrar em casa, apareceu Maude. Saiu do carro e tirou a bolsa de verduras do banco contíguo. Os seus olhos verdes olhavam alternativamente para o carro- patrulha e para o homem alto vestido de uniforme. Virou-se para Christabel e olhou-a zangada.

- Bem, o que é que fizeste agora?

- Este é Cash Grier, o nosso novo subchefe de polícia. Diz que as chávenas de café o favorecem - explicou a Maude. - Vou deixar que nos demonstre.

Maude lançou a Grier um olhar eloquente.

- Já ouvi falar do senhor. Dizem que brinca com cascavéis e que espanta os lobos.

- Certo - assegurou-lhe Grier com cordialidade. E gosto que o café se cole à colher - acrescentou.

- Então, aqui sentir-se- á em casa. -É assim que a Crissy faz o café.

- Dê cá - disse e tirou- lhe as compras das mãos com elegância. - De acordo com a libertação da mulher, nenhuma senhora deveria subir as escadas a carregar sacos.

Maude susteve o fôlego e levou uma mão ao coração.

- A galanteria ainda existe - exclamou.

- A galanteria é a minha especialidade - informou-a. - E faria quase qualquer coisa por uma fatia de tarte. Não tenho vergonha.

Maude e Crissy riram entredentes.

- Ainda temos uma tarte de ontem, se Judd não acabou com ela. É fanático por tartes de maçã.

- Há um pouco, porque fiz duas - informou Crissy a Maude. - Vem, senhor subchefe de polícia, e dar-te-ei de comer.

Grier desviou-se para um lado para deixar Maude passar primeiro.

- A beleza antes dos títulos - disse com um sorriso.

- E por favor, não diga ao meu superior que sou susceptível a chantagens.

- Chet Blake também o é - informou Maude. Soube que é seu primo.

Cash suspirou enquanto seguia as mulheres até ao interior da casa.

- O nepotismo levanta a sua cabeça feia - corroborou. - Mas ele estava desesperado e eu também.

- Porquê? - perguntou Crissy com curiosidade.

- Não sejas mal-educada - ralhou-Lhe Maude. Ainda agora entrou aqui em casa. Dá-lhe um pouco de tarte antes de o interrogar - acrescentou com uma gargalhada.

Na verdade, Grier comeu duas fatias de tarte e tomou duas chávenas de café.

- És boa cozinheira - disse a Crissy enquanto tomava um gole da sua segunda chávena.

- Aprendi cedo - disse-lhe, fazendo girar a chávena entre as suas mãos. - A minha mãe esteve inválida até morrer. Aprendi a cozinhar quando tinha dez anos.

Cash intuiu que aquele comentário encerrava uma longa história e perguntou-se qual seria a sua relação com Judd Dunn. Tinha ouvido rumores de todo o tipo sobre o estranho casal que partilhava o rancho

Crissy levantou o olhar e percebeu o interesse de Cash.

- Tens curiosidade em relação a nós, não é? - perguntou. - O tio de Judd e o meu pai foram sócios deste rancho durante dez anos. Por circunstâncias estranhas

- disse, reduzindo a tragédia da sua vida a uma só palavra, - deixaram- nos aos dois uma metade a cada. Eu tenho jeito para os computadores e as matemáticas e, por isso, trato de quase todas as contas. Judd tem jeito para o gado e, por isso, ocupa-se de comprar e vender e da logística.

- E o que vai acontecer quando um de vocês se casar?

- Bem, já estamos. - Crissy engoliu em seco. O seu olhar reflectia receio e auto-condenação em partes iguais. Baixou o olhar para a sua mão esquerda, na qual luzia a aliança de um homem. Grier olhou-a nos olhos. Crissy viu neles uma extrema inteligência.

- Não contarei o que sei - disse-lhe. - Cairiam governos inteiros - brincou.

Crissy sorriu.

- Não sabes nada - informou propositadamente. O olhar de Cash era especulativo.

- É de verdade ou só de conveniência?

- Tinha dezasseis anos quando nos casámos - respondeu Crissy. - É um casamento de conveniência. Judd não quer. isso.

Cash arqueou as sobrancelhas.

- Mas tu sim?

Crissy baixou o olhar.

- O que eu quero não importa. Ele salvou mais do que o rancho: salvou-me a mim. E isso é a única coisa que te vou contar - acrescentou ao ver o seu olhar penetrante. - Em Novembro, vou fazer vinte e um anos e serei uma mulher livre.

Cash franziu os lábios e olhou para a sua cara.

- Eu tenho trinta e oito. Sou demasiado velho para ti. - deixou a frase no ar, como se fosse uma pergunta.

Não passava pela cabeça de Christabel que um homem pudesse achá-la atraente. Judd tratava-a como uma dor de dentes. Maude dava-lhe ordens. Os rapazes da escola estavam interessados nas raparigas bonitas, femininas e arranjadas. Crissy era simpática, mas não provocava nem se vestia de forma sugestiva. Na realidade, sentia-se mais à vontade em casa, entre cavalos e vacas e os vaqueiros que conhecia desde sempre. Era tímida com a maioria dos homens.

Corou.

- Não. Os homens não se interessam por mimgaguejou.

Cash pousou rapidamente a chávena de café.

- O que é que disseste?

- Queres mais um pouco de café? - perguntou atordoada.

Estava fascinado. As mulheres que tinham passado pela sua vida eram tão sofisticadas e conhecedoras do mundo como ele. Chiques, cosmopolitas e sensuais. Insinuavam-se com todo o tipo de manhas sensuais; físicas e verbais. Aquela mulher estava intacta, incorrupta. Tinha uma frescura, uma energia, que o faziam desejar ser jovem outra vez, não ter vivido as terríveis experiências que o tinham tornado amargo e frio por dentro. Crissy era como um junquilho a brotar na neve, uma mancha de optimismo numa paisagem fria e cínica. Franzindo o sobrolho, continuou a observá- la. Corou ainda mais.

- Intimidas bastante quando franzes o sobrolho. Como Judd - comentou desconfortável.

- Deve-se a um passado turbulento - respondeu.

Deitou a cadeira para trás, mas ainda com o sobroLho franzido. - Diz a Judd que pus uma nota no nosso quadro de anúncios sobre o trabalho de vigilância para a filmagem. Até ao momento, recebemos cem diligências. Só temos vinte polícias - acrescentou com um suspiro. - Até a minha secretária se ofereceu para o trabalho.

- A tua secretária?

Cash assentiu enquanto punha a cadeira no sítio.

- Disse que se a contratassem para se ocupar da segurança, terão que Lhe dar uma insígnia e uma pistola e assim poderá prender-me sempre que lhe apeteça, se eu a fizer trabalhar mais do que a conta.

Crissy riu contra a sua vontade. Tinha-o notado distante durante uns minutos e tinha-se sentido desconfortável.

- És um mau chefe?

- Temperamental.

Notava-se, pensou, mas não ia dizê-lo.

- Obrigado pela tarte e pelo café - disse Grier em voz baixa.

- De nada.

Deu a volta e começou a andar pelo corredor. Tinha umas costas muito direitas e um andar peculiar, de uma suavidade vagamente inquietante. Caminhava como um caçador.

Quando chegou aos degraus do alpendre, deu a volta tão depressa que Christabel perdeu o equilíbrio e teve que se agarrar a um dos postes.

- Gostas de pizza? - perguntou Grier bruscamente. Crissy ainda se estava a recuperar daquela paragem repentina.

-Ah... Sim.

- Na sexta-feira à noite - continuou, com os olhos desviados. - Há uma banda a tocar. Danças?

- Sim.

- O que faria Judd se saísses com outro homem?

Estava nervosa.

- Bem. Não sei. Acho que não se importaria - acrescentou. - Não temos esse tipo de relação.

- Pode-se importar que saias comigo - disse rotundamente. - Sabe mais coisas sobre mim do que a maioria das pessoas de cá.

Christabel estava intrigada e surpreendida.

- És um homem mau?

Algo terrível ensombrou os seus olhos escuros.

- Já fui - respondeu. - Agora não.

O semblante de Christabel suavizou-se. Olhou-o e perguntou-se se se dava conta do quanto os seus olhos o denunciavam. Viam-se pesadelos neles.

Soltou o poste e deu um passo para ele.

- Todos temos cicatrizes - disse, compreendendo o que Judd lhe tinha dito na cozinha no outro dia. - Algumas vezes vêem-se, outras não, mas todos as temos.

Cash desviou o olhar.

- As minhas são profundas.

Ela começou a sorrir.

- As minhas também. Mas, agora, não me preocupam tanto. Já não parecem tão graves.

O peito de Cash subiu e desceu. Sentia-se aliviado.

- Tem graça. As minhas também não - sorriu.

- O único lugar que serve pizza e cerveja e que tem música ao vivo é o Shea's. Fica na estrada de Victoria

- disse-lhe. - ludd nunca lá vai, se calhar não vai achar graça que eu vá.

- Eu tomo conta de ti - disse-lhe Grier. Christabel suspirou.

- As pessoas têm tomado conta de mim a vida toda e dentro de dois meses serei maior de idade - olhou-o directamente. - Tenho que aprender a tomar conta de mim própria.

- Tem graça que menciones isso - disse e o seu olhar suavizou-se. - Sou perito em defesa pessoal.

- Não me referia a esse tipo de cuidados - murmurou.

- Eu ensino-te, de qualquer forma. Sabes disparar?

- Judd ensinou-me a atirar ao prato - disse-lhe. Sou um monstro com o calibre 28. Tenho a minha própria arma, uma Browning - não acrescentou que há anos que não disparava.

Cash sorriu, surpreendido. Muitas mulheres tinham medo das armas.

- Quem haveria de dizer! Eb Scott tem um bom campo de tiro. Deixa-nos praticar nele. Ensinar-te- ei a disparar uma pistola ao estilo do FBI.

- Sabes montar a cavalo?

Cash hesitou.

- Mais ou menos. Mas não gosto.

Era, certamente, um homem da cidade, adivinhou Christabel e não percebia muito de cavalos nem de ranchos.

- Não gosto de pistolas - confessou. Ele encolheu os ombros.

- Nem podemos gostar de tudo - olhava-a com sentimentos contraditórios. - Suponho que sou demasiado velho para ti.

Cash, que era quatro anos mais velho que Judd, considerava-a uma miúda. Quem sabe Judd também pensava o mesmo e, por isso, estava relutante em tornar-se íntimo com ela. Pensar nisso doía-lhe.

- Pelo contrário. - murmurou Grier, interpretando mal o olhar de decepção de Crissy - Que diabo. E aquela estrela de cinema que já é avó acaba de se casar com um homem de vinte e cinco anos?

Os olhos de Christabel iluminaram-se.

- Estás a declarar-te? Depois de duas fatias de tarte? Bem, imagino se te fizesse o jantar!

Cash largou uma gargalhada. Há muito tempo que não se ria assim. Tinha a impressão que todos os cantos frios e mortos da sua alma estavam a receber calor.

- Imagina só - corroborou, assentindo. - Pizza, na sexta-feira à noite - acrescentou.

- Pizza e cerveja - corrigiu Crissy.

- Cerveja para mim, sumo para ti. Ainda não és maior de idade. Tens que ter vinte e um anos para beber cerveja no Texas.

- Está bem, sou uma rapariga fácil. Conformo-me com um copo de bourbon.

Grier lançou-lhe um olhar irónico e desceu os degraus. Hesitou e olhou para ela.

- Quantas pessoas sabem que estão casados?

- Umas quantas. Mas também sabem que é um acordo de negócios. A tua reputação não será manchada se te virem comigo.

- Já não tenho reputação a manchar - replicou. Estava a pensar na tua.

Christabel sorriu de orelha a orelha.

- És muito bondoso!

- Bondoso - repetiu, movendo a cabeça enquanto abria a porta do seu carro-patrulha. - Muita gente morreria de riso se te ouvissem chamar-me isso.

- Dá-me os seus números. Vou telefonar-lhes. Cash sorriu-lhe.

- Vemo-nos na sexta-feira. Por volta das cinco?

- Por volta das cinco - assentiu Christabel. Cash despediu-se com a mão e afastou-se e Crissy regressou à cozinha. Maude estava com um semblante preocupado.

- O que é que se passa? - perguntou-Lhe Crissy.

- Ouvi o que ele te disse. Acabas de aceitar sair com ele.

- Sim e então?

- És casada, querida - recordou-Lhe Maude. - Judd não vai achar graça.

- Porque é que ele haveria de se importar? - raciocinou. - Disse muitas vezes que não ia ficar comigo para sempre. Que não temos mais do que um casamento de conveniência.

Maude não disse nada. Estava a lembrar-se do olhar de Judd quando os surpreendeu na cozinha, com Crissy sentada nos seus joelhos. Crissy não tinha notado nada de diferente, mas ela sim. Continuou com a sua tarefa. Não, Judd não iria achar graça.

 

Judd apareceu no rancho na sexta-feira à tarde, uma hora antes de Grier a ir buscar. Christabel estava nervosa. Pior, estava arranjada e Judd apercebeu-se disso.

Tinha deixado o cabelo solto e caía-lhe pelas costas até à cintura como seda dourada. Não se tinha maquilhado muito, só tinha posto pós compactos e um batom suave, mas os seus olhos pareciam maiores, um vermelho líquido dominava o seu rosto e o seu queixo. Tinha vestida uma saia preta justa e sapatos de salto alto que se fechavam com uma fivela em volta do tornozelo, deixando a descoberto o arco sugestivo do peito do pé. A blusa preta com decote em bico era mais justa do que o normal e realçava os seus seios pequenos, firmes e redondos de uma forma que fazia com que Judd sentisse arrepios nos lugares errados. Um xaile espa nhol preto com franjas largas completava a indumentária. Não era cara e era usada, mas era sexy. Judd não estava habituado a ver Christabel tão bem vestida. E, imediatamente, perguntou-lhe o que faria assim vestida e porque é que não o olhava nos olhos. Sabia por experiência que ela lhe estava a esconder algo. Pôs um pé no degrau inferior do alpendre e cravou o seu olhar no rosto de Christabel.

- Muito bem, conta lá - disse asperamente. - Porque é que estás assim vestida e porque é que saíste a correr para o alpendre assim que me ouviste chegar? Vamos sair juntos e esqueceste-te de me dizer?

Crissy levantou os olhos e olhou-o zangada. O sarcasmo doía.

- Isso nunca vai acontecer - disse com igual sarcasmo. - Para tua informação, vou sair para dançar.

Judd demorou vários segundos a raciocinar. Depois, repentinamente zangado, endureceu o seu rosto.

- Dançar? Com um homem?

Ela endireitou-se.

- Sim, com um homem - o seu sorriso era extremamente provocador. - E então, Judd, diz-me que nunca tocaste noutra mulher desde que nos casámos. Diz-me que não sais com ninguém.

A expressão do rosto de Judd era indecifrável. Subiu os degraus e inclinou-se sobre ela.

- Quem é? Um rapaz da escola?

Crissy compreendeu com sobressalto que aquilo que lhe tinha parecido divertido e inofensivo parecia agora vergonhoso. Corou.

- Não é um rapaz da escola - adivinhou Judd e afastou os olhos outra vez. - Vamos brincar aos interrogatórios? Diz-me de uma vez! - atirou-lhe.

- Cash Grier - murmurou, desconcertada pela autoridade da sua voz.

De repente, além de furioso, estava ameaçador.

- Grier é mais velho do que eu, tem um passado que eu não desejaria nem à irmã do meu pior inimigo e muito menos a ti. Não vais sair com um homem desses!

Crissy estava a perder o aprumo. Agarrou na sua pequena bolsa junto ao peito.

- Não vou fugir com ele - começou a dizer, tentando recuperar o terreno perdido. - Vamos comer pizza e beber cerveja.

- Menor de idade.

- Já sei! Eu não vou beber, só ele - resmungou. Vamos comer pizza e dançar.

Judd deslizou o olhar pela sua figura muito rapidamente. Christabel tinha a sensação de que ele a estava

a acariciar e hesitou sobre os saltos altos.

- Onde é que conheceste Grier? - insistiu.

Christabel levantou as mãos em sinal de impotência

e entrou em casa, deixando que ele a seguisse. Era evidente que não iria parar até que soubesse de tudo. Pousou a bolsa e o xaile na poltrona e sentou-se no seu braço, cruzando as pernas à altura dos tornozelos. Judd estava a olhar para eles com intensidade.

- Veio falar contigo sobre a vigilância para as filmagens - explicou-lhe. - Não estavas aqui e então convidei-o para beber café e comer tarte e ele convidou-me para sair.

Judd encostou-se à porta e ficou a olhar para ela por debaixo da aba do seu chapéu Stetson de cor creme.

Ele estava elegante e tão sexy que até doía olhar para ele. Tinha as pernas longas e fortes enfiadas numas calças de ganga justas que não conseguiam camuflar os seus músculos. A camisa branca aderia ao seu peito sólido e a sombra negra que deixava antever permitia imaginar o espesso pêlo encaracolado que o salpicava.

Tinha a estrela de Ranger presa ao bolso da camisa branca. Normalmente, usava um casaco naquela época do ano, mas estava um calor nada usual para princípios de Outubro. Christabel via um rasto de suor sobre o seu lábio superior.

- Vai levar-te ao Shea's - disse com voz tensa. Ela arqueou as sobrancelhas.

- Porque não? Judd, já tenho quase vinte e um anos.

Há anos que quase todos os meus amigos vão lá à sexta-feira à noite. Não tem nada de mal. Vendem cerveja, nada mais.

- Há escaramuças. E uma vez houve um tiroteio.

- Contrataram dois porteiros desde que Calhoun Ballenger esteve quase a destruir o local para defender a mulher, Abby, antes de se casarem. Isso foi há anos, Judd.

- O tiroteio foi no ano passado - indicou. Christabel suspirou.

- Cash é polícia. Vai armado. Se alguém tentar disparar contra mim, de certeza que ele me protegerá.

Judd sabia disso. Também sabia coisas de Grier que não se sentia bem em revelar. Protegê-la-ia, de certeza, mas Judd não achava graça ao facto de Christabel sair com outro homem. E, por outro lado, irritava-o não conseguir ser indiferente a isso.

- Não está certo.

Olhou-o nos olhos e Christabel sentiu como os anos de solidão ocupavam um pesado vazio no seu interior.

- Vou à escola, revejo as contas, supervísiono o trabalho dos vaqueiros, percorro as cercas, ajudo a marcar o gado e cuido das vacas doentes. Não saio para dançar desde o ano antes de acabar o liceu e acho que nunca tive um encontro a sério. Sinto-me sozinha, Judd. Que mal é que te faz o facto de eu sair para dançar? De qualquer forma, só estamos casados no papel. Tu não me desejas. Tu é que o disseste.

Judd sabia disso, mas para ele era igual.

Christabel levantou-se do sofá e aproximou-se dele. Mesmo de saltos altos, ele era mais alto do que ela. Ela contemplou os seus turbulentos olhos escuros.

- Só vou sair um bocado - indicou. - Não faças com que me sinta como se estivesse a cometer adultério. Conheces-me perfeitamente.

Judd inspirou profundamente. Involuntariamente, aproximou uma mão do longo cabelo louro de Christabel e segurou uma grossa madeixa entre os dedos. Sentiu a sua suavidade.

- Nunca te tinha visto assim vestida.

- Não posso sair com um homem como Grier em calças de ganga e camisola - disse com um sorriso travesso. Judd franziu o sobrolho.

- O que queres dizer com um homem como Grier?

Ela encolheu um ombro, incomodada pelo contacto dos dedos de Judd, que estava a provocar formigueiros por todo o seu corpo, apesar de o tentar dissimular. Até podia sentir o calor que irradiava do seu corpo e sentir o cheiro do aftershave almiscarado que ele gostava de usar.

- É um homem muito maduro e sofisticado. Não queria envergonhá-lo apresentando-me com roupa de trabalho.

Judd franziu o sobrolho.

- Nunca te levei a dançar - recordou. Ela ficou desconcertada.

- Salvaste-me a vida - disse Christabel. - Salvaste o rancho. Fizeste-nos seguir em frente, cuidaste de mim e da minha mãe quando ela estava viva. Ainda assumes grande parte da responsabilidade do rancho. Não tens que assumir ainda a responsabilidade de me distrair, por amor de Deus!

Judd franziu o sobrolho ao ouvir aquela descrição, como se tudo o que fazia por Christabel fosse uma tarefa, uma obrigação. Quase resplandecia quando sorria. Tinha uma figura sexy e insolente, ainda que não o soubesse. E irradiava tanto calor que se sentia sempre bem quando estava com ela. Por acaso Grier, com o seu passado obscuro e frio, estaria a corresponder da mesma maneira ao esplendor de Christabel? Estaria à procura de um lugar onde aquecer o seu coração frio?

Ela tinha aceitado sair com ele. Sentir-se-ia atraída por ele? Judd sabia melhor do que ninguém o quão inocente Christabel era. Tinha considerado vinculativos os seus votos matrimoniais, apesar de ter sido apenas uma conveniência. Duvidava que ela tivesse beijado algum rapaz ou que a tivessem beijado a ela, salvo pelo breve beijo que ele lhe tinha dado no gabinete do juiz de paz. Imaginou Grier, um autêntico con quistador, beijando-a apaixonadamente.

- Não - disse mecanicamente. - Não!

- O quê? - perguntou Christabel, perplexa. Judd moveu-se com a rapidez com que intimidava até os seus ajudantes. Segurou o rosto de Christabel entre as mãos e elevou- o para a olhar nos olhos com uma proximidade sem precedentes.

- Grier, não - disse com voz rouca, baixando o olhar para os lábios cheios e entreabertos de Christabel. - A primeira vez, não.

Enquanto tentava ganhar fôlego para lhe perguntar do que é que estava a falar, Judd baixou a cabeça, e Crissy notou o roçar lento e fluído dos seus lábios sobre os dela. Era a primeira vez que a beijava deliberadamente desde o inicio da sua turbulenta relação. Christabel susteve a respiração e ficou rígida. Ele levantou a cabeça o suficiente para ver a comoção e perplexidade reflectida nos seus olhos castanhos.

- Para que não percas a cabeça com o primeiro homem que te beijar, Christabel - sussurrou com uma insólita voz gutural. - Sou o teu marido. A primeira vez. deveria ser eu.

Crissy abriu a boca para falar, mas ele voltou a baixar a cabeça antes que ela pudesse articular palavra. Uniu os seus lábios aos dela com uma pressão que aumentou de intensidade, em exigência, segundo a segundo. Ela pendurou-se nos seus braços para não cair, tal era o cúmulo de sensações. Sentiu o aumento brusco de calor no seu ventre, juntamente com uma ânsia repentina que o fazia estremecer. Perguntou-se se ela também a sentiria.

Judd baixou as mãos para a cintura de Christabel e deslizou-as pelas suas coxas, roçando a suave redondez dos seus seios com um movimento lento e excitante que a fez desejar procurar a carícia. Pôs-se em bicos de pés, pressionou a sua boca contra a dele e abriu-a para receber a sua carícia exigente. Notou uma vibração nos lábios, algo parecido com um gemido abafado, exactamente antes de Judd a estreitar nos seus braços e a apertar contra a curva sólida do seu corpo.

Christabel rodeava-lhe o pescoço, pendurando-se nele para não se deixar cair, enquanto ele a beijava. A seguir, sentiu Judd a introduzir a língua dentro da sua boca. Tinha ouvido falar dos beijos à francesa, mas os seus conhecimentos não a tinham preparado para aquele assalto de sensações. Estava a tremer. Não sabia porquê e não conseguia evitar. Gemeu, frustrada, pela sua incapacidade de controlar as suas reacções. Inexplicavelmente, o gemido fez com que Judd ficasse rígido. Baixou uma mão até à anca de Christabel e puxou-a contra ele. Ela notava algo estranho no contacto, algo vagamente ameaçador. Apertou-a ainda mais e Christabel soltou uma exclamação ao compreender o que se estava a passar.

Judd também compreendeu no mesmo instante e afastou-se dela. Não a soltou logo. Tinha os olhos mais negros do que de costume e perfurava-a com eles.

Christabel tinha os lábios inchados, o olhar atónito, aturdido. Estava a tremer ligeiramente. Respirava com dificuldade. Judd baixou o olhar para o corpete da blusa e viu pequenas pontas duras.

Voltou a olhá-la nos olhos. Estava a segurá-la pelos braços com tanta força que quase a magoava.

- Vês como é fácil? - perguntou asperamente.

- Como é fácil. - repetiu Crissy, quase sem fôlego.

- Que um homem experiente te apanhe de surpresa e te faça renderes-te a ele - prosseguiu. - Grier sabe muito mais do que eu. Não deixes que se aproxime demasiado. Não é homem de uma só mulher. Em qualquer caso, não és livre de experimentar, seja o nosso casamento de conveniência ou não.

Crissy não entendia nada. Limitava-se a olhar para ele, completamente desorientada. Nem em sonhos tinha imaginado Judd a beijá-la assim. No passado, jurou que nunca lhe tocaria. Crissy estava a arder e a tremer de cima a baixo. Queria atirar-se para o chão com ele. Queria tocar-lhe a pele. Queria que a beijasse nos seios, como os homens beijavam as mulheres nesses filmes vergonhosos que davam de madrugada na televisão por cabo, que via em segredo quando Maude se deitava.

- Estás a ouvir-me? - perguntou Judd impaciente. Ela apoiou a cabeça no seu ombro. Pôs uma mão no peito e começou a acariciá-lo de forma involuntária.

- Sim, estou a ouvir. Este vestido está a incomodar-me. Podias ajudar-me a despi-lo. - sussurrou com malícia.

- Pára - disse Judd, olhando-a zangado. - Estou a tentar falar contigo.

Tinha os olhos semicerrados, o corpo completamente dócil. Tinha a sensação de se ter fundido com ele, de ser parte dele. Imaginou o que sentiria sob Judd numa cama. As imagens que inundaram a sua mente de forma inesperada fizeram-na corar. Judd, na cama com ela, completamente despido e ávido de desejo. Céus, era capaz de morrer para isso se tornar realidade!

Christabel reflectia a sua vontade no rosto. Judd estava surpreendido por ela se mostrar tão receptiva a ele, tão ávida. Não tinha querido tocar-lhe. A culpa era de Grier, maldito. Inquietava-o que Christabel saísse com ele e chateava-o que aquela relação repentina tivesse surgido sob o seu nariz sem que ninguém se tivesse dado conta. Chocava-o o facto de Grier se sentir atraído por uma mulher da idade de Christabel e não queria que ele a seduzisse. Tinha que falar com ele.

Observou-a, pensativo. Continuava a tremer. Sabia como se sentia, porque ele sentia o mesmo. Doía-Lhe o corpo. Aquela manifestação de paixão mútua tinha-o apanhado de surpresa. Não deveria ter-lhe tocado. Tinha sido um estúpido ao permitir que os ciúmes o provocassem. Confiava que Christabel não tivesse experiência suficiente para perceber a sua reacção física. Retrocedeu um pouco.

Ela deu um passo para ele.

- Posso dar uma escapadela à cidade e comprar um cinto de ligas vermelho - disse, quase sem fôlego. Peço um emprestado. Roubo um. Há uma cama a três metros de distância.

- Disse-te que nunca iríamos ter uma relação física de qualquer tipo - replicou Judd cortante.

- Tu é que começaste - recordou-lhe Crissy.

- Fiz de propósito. Conheço Grier - resmungou, - e não podes sair com um homem como ele sem conhecer os perigos. Era uma lição, Christabel. Nada mais!

Olhava-o fixamente, enquanto todos os seus sonhos de amar e ser amada se evaporavam. Sempre tinha pensado que Judd era muito melindroso com as mulheres. Mas a inocência podia reconhecer a experiência e soube, naquele instante exacto, que Judd estava fora do seu alcance. Só tinha querido ensinar-lhe o quão enganosa a paixão podia ser.

- Ouviste alguma palavra do que eu te disse? - perguntou, exasperado.

- Algumas, aqui e ali - respondeu Crissy, mas estava a olhar para os lábios dele. - Não sei se compreendi muito bem a lição. Podes repetir?

Judd inspirou com fúria e apertou os lábios. Sentiu neles o sabor dos lábios de Christabel e isso ainda o irritou mais.

- Não, não posso repetir! - gritou, encolerizado. Escuta-me. Em Novembro pedimos a anulação, e ponto final. Não quero casar-me nem ter uma familia. Adoro o meu trabalho e a minha liberdade, e não penso renunciar nem a uma coisa nem a outra. Está claro?

Saindo do transe, Christabel afastou-se dele. Sim, estava dolorosamente claro. Mas sorriu deliberadamente, de qualquer forma. A sua voz, tal como a sua respiração, era entrecortada.

- Está bem. Será um lapso na minha educação, mas se é isso que queres, não esperes que eu me ofereça para me despir à tua frente nunca mais. Posso fazer café, se quiseres - acrescentou. - Cash só vai chegar daqui a meia hora.

- Está bem.

Foi para a cozinha e fez café. Aquela pequena tarefa acalmou-a. Quando deixou uma chávena e um pires sobre a mesa, junto com o açúcar e o leite, as suas mãos tinham deixado de tremer.

- Queres tomar o café no estúdio? - perguntou a Judd da cozinha.

- Não, vou tomá-lo aqui - respondeu, aparecendo no umbral da porta e sentou-se à mesa. Tinha tirado o chapéu e tinha composto a camisa. Mas ainda tinha o cabelo despenteado pelas carícias inquietas e ávidas de Christabel e a sua boca, tal como a dela, estava ligeiramente inchada pela intensidade do beijo.

Grier iria dar-se conta, pensou Judd. Quem sabe se isso o faria vacilar. Perguntou-se porque se sentia tão arrogante quando olhava para ela, até mesmo possessivo, mas, logo de seguida, pôs fim àqueles pensamentos. Não queria casar-se. Não estava preparado para a vida familiar. Um caso de vez em quando bastava- lhe.

Não queria saber nada de amor, era perigoso. Viu como isso destruiu o seu pai e sabia que as mulheres não eram estáveis. A sua mãe tinha abandonado o seu pai. A única namorada séria de Judd deixara-o, há dez anos, quando ele se negou a renunciar à sua profissão arriscada por ela. O mais conveniente era evitar apegar-se. Christabel era muito jovem.

- Estás muito sério - notou Crissy.

- Não quero que fiques com uma ideia errada daquilo que se passou - disse, imobilizando-a com o olhar.

- Não sou parva - respondeu e evitou olhá-lo nos olhos. Estava demasiado afectada para ocultar as suas emoções. - Já disseste que não passou de uma lição. Não tinha pensado saltar para o banco de trás com Grier e seduzi-lo, sabias?

Judd tossiu.

- Ele conduz uma camioneta, não tem banco de trás.

- Sabes muito bem o que quero dizer!

- E não é a tua atitude que me preocupa.

Christabel arqueou as sobrancelhas.

- Porque é que não? Achas que não sei como se faz? Sei o que acontece entre um homem e uma muLher, apesar de não ser a voz da experiência.

- Eu sei - murmurou Judd ironicamente.

- Como?

Judd voltou a tossir.

- Eu pago a conta da televisão por cabo.

Ela ficou imóvel. Nunca tal lhe tinha passado pela cabeça. Judd inclinou a cabeça.

- Os títulos falam por si mesmo. Colegas de cama, Luxúria na arena, A virgem curiosa. Queres que continue?

Crissy gritou e tapou a cara com as mãos.

- Lembra-te só que o que vês é planeado e é pura fantasia. Na vida real, não é assim.

Separou dois dedos e olhou-o pela abertura, curiosa. Ele recostou-se na cadeira, consciente da sua experiência perante aquele olhar.

- Dois beijos e uma carícia e fazem amor durante horas com gemidos sensuais e expressões atormentadas, em posições que nem sequer figuram no Kamasutra - explicou-lhe.

Ela continuava a observá- lo, atenta, expectante. Judd soltou um longo suspiro.

- Christabel, uma mulher não aceita o corpo de um homem tão depressa, nem tão facilmente, sem preliminares. E a maioria dos homens não aguenta tanto tempo para conseguir percorrer todo o catálogo de posições escandalosas. Uma chega- lhes.

Tinha o rosto em brasa, mas prestava total atenção às palavras de Judd, ao mesmo tempo que tentava disfarçar. E ele estava ansioso por lhe demonstrar, mais do que lhe contar, o quão satisfatória podia ser uma união física. De seguida, sentiu coisas que não queria sentir. E pela única mulher da Terra que estava fora do seu alcance, apesar de ser a única esposa que tinha tido.

Judd acabou o café e olhou para ela zangado.

- Não me importo que saias com Grier, desde que sejas discreta - disse, detestando as palavras ao mesmo tempo que as pronunciava com indiferença deliberada. Imobilizou-a com os seus olhos negros. Mas não passes dos limites com ele.

Christabel sabia a que é que ele se referia e sentiu-se ofendida.

- Como se fosse fazê- lo, Judd!

- Até que esteja anulado, isto continua a ser um casamento - continuou. - E várias pessoas da cidade sabem disso.

- Eu percebo porque é que te preocupam tanto os mexericos. - começou a dizer e mordeu a língua; porque era um assunto que ele detestava. Ele levantou o queixo e lançou- lhe um olhar lancinante.

- O meu pai era pastor - disse asperamente. - Consegues imaginar o mal que lhe causou a ele e a mim, o facto de toda a cidade de Jacobsville falar da minha mãe e do seu caso com o vice-presidente da fábrica? Nem sequer tentaram ocultá-lo. Foi viver com ele quando ainda continuava casada com o meu pai. Toda a gente sabia. Todos os seus paroquianos e tinha que dar sermões todos os domingos. Quando o seu amante a deixou por outra mulher mais jovem, ela suplicou-lhe para a deixar voltar a casa e agiu como se nada se tivesse passado. O meu pai tentou aceitá-la de novo.

Baixou o olhar para a mesa, frio pela recordação daqueles dias, Mas o seu pai, apesar da sua fé, foi incapaz de esquecer o que a sua mulher tinha feito. No seu mundo, assim como no de Judd, os votos eram sagrados.

- No final, foram os mexericos que o impediram de esquecer. Não cessaram, nem sequer depois de a minha mãe deixar o amante. Alguns dos paroquianos recusaram-se a falar com ela. Isso afectou o meu pai, ainda que tentasse combater essa reacção. No final, pediu-lhe que se fosse embora e ela foi, sem replicar.

- Só tinhas doze anos quando isso aconteceu, não foi? - perguntou Crissy com suavidade, tentando sacar-lhe informação. Ele nunca falava dos seus pais.

Judd assentiu.

- Gostava dela. E o meu pai também, mas não conseguiu superar a traição. Era demasiado pública para que qualquer um dos dois a superasse, mesmo numa cidade pequena.

Christabel queria esticar a mão sobre a mesa para cobrir a dele, mas sabia que Judd a afastaria. Era inacessível quando falava do passádo.

- Ela escreveu-te?

- O meu pai disse-lhe que ela o podia fazer, mas ela foi para o Kansas, para casa de uma prima e, ao que parece, não voltou a olhar para trás - brincou com a asa da sua chávena de café. - Soubemos que voltou a casar e que teve um bebé alguns anos antes de morrer. A única coisa que recebemos foi uma lembrança do seu funeral e uma fotografia minha e do papá amachucada que ela trazia na carteira - tinha a voz tensa e endireitou-se na cadeira.

- Teve um menino ou uma menina? - perguntou Christabel.

- Uma menina - Judd tinha o olhar perdido. - Morreu de meningite aos seis anos e a minha mãe faleceu num acidente de carro alguns meses depois - apertou os dentes. - Era uma boa mãe - acrescentou num tom distraído, ainda que fosse uma péssima esposa.

Christabel falou em voz baixa.

- Às vezes, as pessoas apaixonam-se por quem não devem - começou a dizer. - Acho que não o conseguem evitar.

Ele perfurou-a com os seus olhos negros.

- A meu ver, se fazes uma promessa perante Deus, cumpres. Ponto final.

Christabel suspirou, pensando que era muito pouco provável que Judd tivesse mantido a promessa que lhe tinha feito ao casar-se com ela, mas não lho disse.

- Suponho que lamentava o que tinha feito ao teu pai.

- Ele disse-me que a minha mãe lhe tinha escrito uma carta. Não me contou o que dizia, mas reconheceu que o seu orgulho tinha eliminado qualquer esperança de reconciliação. Não conseguia suportar que toda a gente soubesse da sua infidelidade - sorriu com tristeza. - Foi a sua primeira mulher - acrescentou, lançando um olhar para a cara atónita de Christabel, - e a única. Suponho que há pessoas que não acreditam que um homem possa ser fiel a uma mulher durante toda a vida, mas isso não é insólito nas cidades pequenas, mesmo nos tempos que correm.

- Imagino que desejaste mais do que uma vez que o teu pai a tivesse perdoado.

- Sim - moveu a chávena nas suas mãos grandes e delgadas. - Senti-me sozinho quando a minha mãe se foi embora. Nunca podia falar com o meu pai como falava com ela, sobre os meus problemas. Acho que me fechei em mim mesmo a partir daquele momento.

Judd nunca lhe tinha falado daquela maneira, como se fosse adulta, de igual para igual. Observou o seu rosto sólido e ansiou poder sentir a sua boca sobre a dela. Sabia que nunca poderia esquecer aquele beijo.

Judd afastou-se da mesa e pôs-se de pé.

- Tenho que voltar para Victoria.

Ela também se levantou, olhando-o com curiosidade.

- Porque é que vieste cá?

- Leo Hart telefonou-me esta manhã para me falar de uns touros Salers que morreram misteriosamente. Ouviu que o nosso novilho foi envenenado. Queria falar-te disso.

- Sim, tentei explicar-te quando o novilho morreu que Jack Clark tinha sido o responsável, mas não quiseste dar-me ouvidos.

Judd fê-la calar levantando a mão.

- Sabes que os rapazes que revistaram o pasto viram que havia ervas indigestas - indicou. - Eu disse ao Leo. Já te avisei, Christabel. Não podes acusar ninguém de um delito sem ter provas.

- Judd - disse, exasperada. - Havia outros quatro touros jovens nesse pasto. Só morreu aquele.

- Eu sei. Tiveram sorte. Crissy fez uma careta.

- Eram Herefords - disse com impaciência. O novilho que perdemos era um Salers e era filho do mesmo touro do qual Fréd Brewster comprou os seus vitelos. O Leo acha que o touro do senhor Brewster foi envenenado e eu continuo a pensar que o nosso também.

Judd pegou no seu chapéu Stetson.

- Prova-o - disse-Lhe. Ela levantou as mãos, exasperada.

- Eu não guardo touros mortos - exclamou. - Não acreditaste em mim e eu não tinha dinheiro para a autópsia. Enterrámo-lo com a escavadora!

- Então desenterra-o.

- Mesmo que o fizesse, como pagaria a autópsia?

- Tens razão - suspirou. - Usei as últimas poupanças para arranjar o tractor em segunda mão com o qual tínhamos que apanhar o feno.

- Eu sei - disse Christabel, sentindo-se culpada. Ouve, no ano que vem, assim que acabar a escola e me derem o diploma, vou procurar um trabalho numa das empresas da cidade. Os programadores ganham bons salários.

- E quem fará a contabilidade? Não me importo de receber os talões para pagar as facturas, mas não penso pôr a cabeça em colunas de números nem ajustar balancetes. Isso é coisa tua.

- Eu ajustarei os balancetes e imprimo-os à noite ou aos fins-de-semana.

- Pobre Grier! - comentou Júdd com sarcasmo.

- Acabei de o conhecer - lembrou Christabel.

- Então evita os bancos de trás quando estiveres com ele - disse com uma malícia insólita.

- Ele conduz uma camioneta - recordou-lhe Crissy com insolência, devolvendo-lhe a piada que tinha dito minutos antes.

- Já sabes o que quero dizer - Judd deu a volta e dirigiu-se para a porta principal. Ela seguiu-o, indignada. Judd não a desejava, mas também não queria que saísse com outro homem.

- Faço o que me apetecer, Judd - disse altivamente. Judd virou-se para trás, no alpendre.

- Tu puseste o teu nome numa licença matrimonial

- recordou bruscamente.

- E tu também, mas isso não te impede de fazeres o que te apetece!

Judd arqueou uma sobrancelha e desceu os degraus em direcção ao seu veículo.

- O pessoal das filmagens virá no sábado instalar a equipa - acrescentou. - O director vai trazer Tippy Moore e o actor que faz de vaqueiro. Rance Wayne.

Christabel não podia ter-se importado menos com o pessoal das filmagens. Detestava ver o brilho nos olhos de Judd quando mencionava Tippy Moore. Era uma mulher mundialmente famosa pela sua beleza. Ela parecia um cacto em comparação e não achava graça nenhuma.

- Estou impaciente por conhecê-los - resmungou. Eles gostam de cobras como animais de estimação? Estava a pensar em adoptar uma preta e criava-a na sala...

- Sê amável - disse Judd com firmeza. - Precisamos do dinheiro. Sem essa ajuda, não poderemos arranjar o celeiro nem alargar a cerca eléctrica. - Está bem - suspirou Crissy. - Serei amável.

- Para variar - comentou deliberadamente.

- Estás zangado porque não me vesti nem me pus sexy para ti - replicou e fez uma pose. - Podes ir para a tua casa e sonhar comigo em lingerie vermelha, porque não poderás vê-lo sem ser em sonhos - acrescentou.

Judd emitiu um som gutural, algo parecido com o riso e continuou a caminhar. Christabel ficou a olhar para ele zangada, desejando que Cash aparecesse naquele momento para que Judd os pudesse ver juntos.

As fantasias raramente se tornam realidade, pensou com melancolia enquanto Judd se sentava atrás do volante, arrancava no seu todo-o-terreno e se ia embora com um pequeno gesto.

Tinham passado dez minutos quando Cash Grier apareceu na sua camioneta preta. Era enorme, uma pick-up nova com a caixa imaculada.

- Bem, vê-se que não transportas gado - comentou Christabel quando saiu a recebê-lo nos degraus do alpendre.

- É que gosto de a deixar reluzente - riu. Tinha bom aspecto. Tinha uma camisola preta de gola alta, um casaco informal e calças de pinças. Tinha os sapatos lustrosos e o cabelo cuidadosamente apanhado num rabo-de-cavalo. Dava gosto vê-lo.

- Estás bem, mesmo sem uniforme - indicou Christabel. Ele também estava a fazer a sua própria apreciação, com um olhar tão detalhado como o de Judd. Crissy pensou na forma como Judd a tinha beijado e corou.

- Acho-te um pouco tensa - comentou. - Alguma dúvida sobre a nossa saída?

- Nenhuma - respondeu Christabel com firmeza.

- Não te preocupa o que dirá Judd? - insistiu enquanto a ajudava a subir para a camioneta.

- Ele disse que não se importava - respondeu. - Esteve aqui há bocado.

O que explicava a agitação de Crissy e o inchaço do lábio inferior, pensou Cash. Ao que parece, Judd estava mais ciumento da sua esposa de conveniência do que Christabel pensava e tinha-se assegurado de que ela tinha uma referência para avaliar outros homens. Cash temia que Crissy não chegasse a adorá- lo a ele tanto como ao seu marido, mas ela fazia-o sentir-se bem por dentro, jovem, e não iria desistir ao primeiro obstáculo por causa de um pouco de concorrência.

 

O bar e salão de festas Shea's ficava situado a um quilómetro e meio de Jacobsville, na estrada de Victoria. Era um local barulhento aos fins-de-semana, mas não era nenhum antro de perversão, como Judd pen sava. Costumavam ter três porteiros. Um deles tinha partido um braço numa queda, e, por isso, naquela noite Tiny estava a manter a ordem sozinho. Não era difícil. Tiny era um gigante forte, de natureza doce e personalidade atenta. Mas sabia ser persuasivo quando os clientes se rebelavam e cortava pela raiz qualquer indício de distúrbio.

Christabel contou tudo aquilo a Cash quando se sentaram numa das pequenas mesas de madeira, enquanto esperavam que os atendessem.

- Distúrbio - repetiu Cash com um sorriso lento. Falas como um polícia.

- A culpa é de Judd - disse com um suspiro. - É impossível não apanhar a gíria quando te dás com agentes de autoridade.

Cash riu-se, brincando com o seu guardanapo.

- De certeza que ele não se importa que saias comigo?

Christabel franziu os lábios.

- Acho que sim, um bocadinho. É muito convencional.

Judd arqueou as sobrancelhas.

- Estamos a falar do mesmo Judd Dunn? - perguntou divertido. - Aquele que algemou juntos uma prostituta e o ex-presidente da Câmara de Jacobsville quando os surpreendeu num bordel e se encarregou de que alguém fizesse uma denúncia à imprensa?

Christabel tossiu.

- Trabalhava como polícia então.

- E aquele que perseguiu um condutor até Houston para Lhe aplicar uma multa por excesso de velocidade?

Christabel moveu uma mão com desconforto.

- E aquele que fechou a pedra e cal os bilhares de Jacobsville até o dono prometer deixar de servir cerveja a menores de idade?

- Sim - suspirou Christabel. - Suponho que antes era menos convencional do que agora. Acha que não deve envergonhar os Rangers. O número exacto vai mudando, mas acho que este ano só há cento e três Rangers em todo o mundo.

Olhou-a com regozijo.

- Eu sei. Eu também fui Ranger.

- A sério? - Christabel esbugalhou os olhos. Cash assentiu.

- Na verdade, trabalhei com Judd durante uma temporada. Ensinei-lhe aqueles golpes de artes marciais que emprega com tanta eloquência ultimamente.

- Caramba! - exclamou Crissy, claramente impressionada.

- Não faças essa cara - murmurou Cash. - Vais-me fazer corar.

Ela inclinou a cabeça ao recordar uma anedota sobre ele.

- E a ti estranha-te que Judd não seja muito convencional? Ouvi dizer que usaste a câmara do teu carro-patrulha para gravar um casal que estava no banco traseiro de um carro estacionado.

Cash riu-se.

- Não era a câmara do carro-patrulha, mas a minha. E gravei dois agentes da polícia local que eu conhecia. Fi-los prometer que se comportariam com mais decoro antes de lhes dar a única cópia da fita.

- Serias um inimigo terrível - disse Christabel. Cash assentiu, mas não sorriu.

À sua volta, a banda estava a tocar as primeiras notas. Era formada por duas guitarras, um violino e um órgão.

- Olá, o que querem tomar? - perguntou-lhes a empregada, uma mulher madura.

- Pizza e cerveja - disse Grier.

- Pizza e café - pediu Crissy.

- Não queres cerveja? - perguntou a mulher.

- Ainda não sou maior de idade. E o meu. tutor - escolheu a palavra com cuidado, - é Ranger.

- És a Crissy - disse logo a mulher e riu. - Tive uma paixoneta por Judd quando éramos jovens, mas ele andava a sair com aquela jovem de Victoria. Acabaram por causa do trabalho dele, não foi?

Crissy assentiu.

- Há mulheres que não suportam o perigo.

- A ti não te parece incomodar - disse a empregada, com atrevimento, olhando Grier com atenção. Afastou-se para pedir a comida.

Crissy riu-se ao ver o olhar curioso de Grier.

- Não, não sou medricas - corroborou. - Às vezes, preocupo-me, mas não muito. Judd sabe tomar conta dele próprio. E tu também, imagino.

- Bastante bem - assentiu Grier.

O local estava a encher quando Crissy e Grier acabaram a pizza e as suas bebidas. A música era agradável, pensou Crissy, vendo os pares a dançar danças populares na pista.

- Dão cursos de danças populares no centro cultural - comentou Crissy a Grier. - Mas eu não tenho muito jeito. - Prefiro os ritmos latinos, mas nunca conheci ninguém que soubesse dançá-los, excepto Matt Caldwell. E agora está casado.

Grier sorria de orelha a orelha.

- A modéstia impede-me de te dizer que ganhei um prémio num concurso de tango quando estava na Argentina.

Ela olhava para ele contendo a respiração.

- Sabes dançar o tango? O que é que fazes aqui sentado? Vamos! - deu-lhe a mão e arrastou-o para a pista. Aproximou-se do chefe da banda.

- Sammy, sabes tocar alguma música latina? - perguntou ao jovem, um dos seus antigos colegas de escola. Este riu-se.

- Claro! - fez sinal aos seus colegas para pararem de tocar e falou com eles durante uns segundos. O pianista sorriu de orelha a orelha e dispôs-se a afinar o seu instrumento. Começou a tocar um ritmo latino animado.

O público desimpediu a pista, prevendo algo especial.

- É melhor que sejas mesmo bom - disse Crissy a Cash com um sorriso. - Não é fácil agradar a este público. Não se importam de vaiar os pares que se acham bons bailarinos. Matt Caldwell e a sua mulher, Leslie são uma lenda.

- Não me vão vaiar - prometeu-lhe Cash. Agarrou-Lhe a cintura e a mão direita com uma leveza de profissional, marcou o ritmo com a cabeça e, depois, começou a fazê-la girar com uma facilidade devastadora.

Crissy seguiu-o com muito esforço. Um colega da escola, filho de emigrantes hispânicos, ensinou- lhe várias danças latinas e assegurou-Lhe que ela tinha jeito. Mas Grier superava-a em habilidade. Fixou-se nos seus passos e imitou-o com um talento natural. A meio da canção, Crissy já estava a incluir passos e movimentos próprios. Quando a banda foi baixando o ritmo, o público marcava-o com as palmas das mãos.

Cash fê-la dar voltas até ele e inclinou-a para trás como remate. Toda a gente aplaudiu. Voltou a endireitá-la, puxou-a para si com outra volta e os dois inclinaram-se. Crissy estava sem respiração. Cash respirava como se não fosse nada.

Conduziu-a à mesa rindo-se.

- Vamos ver se Caldwell supera isto - disse. Crissy riu, quase ofegante pelo esforço.

- Estou em baixo de forma - murmurou. - Tenho que sair de casa com mais frequência. - Bem, meninos, estavam fantásticos! - disse a empregada ao passar junto da sua mesa. - Querem outra rodada?

- Obrigado - disse Grier e passou-lhe a sua garrafa vazia.

- Eu também - acrescentou Christabel e aproximou o seu copo da borda da mesa.

- Já volto - prometeu a mulher com um sorriso.

- E Judd? Sabe dançar? - perguntou Cash.

- Só se alguém Lhe disparar para os pés.

- Nunca verei tal coisa.

- Agora que dizes isso - disse Crissy e inclinou-se para a frente. - Preciso que me aconselhes. Tenho quase a certeza de que alguém envenenou um dos nossos novilhos. Judd não acredita em mim.

Cash era todo ouvidos.

- Conta-me.

- Comprámos um touro Salers jovem no princípio de Setembro. Os Hart têm um novilho Salers de dois anos e Leo Hart ia comprar outro a Fred Brewster, um que era filho do mesmo macho que o nosso. Mas encontraram o touro de Fred morto num pasto e como Hart telefonou a Judd interessado no nosso. O nosso morreu antes do de Fred e, por isso, limitámo-nos a enterrá-lo com uma escavadora que nos emprestaram.

- Não pediram para realizarem autópsia? Crissy fez uma careta.

- Cash, o ano passado corria tudo às mil maravilhas. Mas tivemos muitas inundações na Primavera e no Verão e, para cúmulo, os preços da carne caíram. Agora, tudo o que ganhamos vai para pagar os meus estudos e para o apartamento que Judd tem em Victoria. Vendemos gado para pagar despesas extra e compramos mais quando temos forragem suficiente para o alimentar - tinha o olhar turvo. - São tempos difíceis, Sabes como é.

Cash não sabia. Tinha uma pequena fortuna guardada em bancos estrangeiros. Tinha-a juntado no iní cio da sua profissão, quando realizava missões secretas de alto risco para diversos governos. Não o divulgava aos quatro ventos, mas já se podia ter reformado há algum tempo. Ter um trabalho convencional mantinha o seu instinto afinado e permitia-lhe ocultar a sua verdadeira situação económica. E a sua verdadeira formação.

- Em qualquer caso - prosseguiu Crissy, - Judd disse que eu não verifiquei o pasto antes de levar para lá os touros e que então eles se puseram a comer trevos e deu-lhes uma cólica. Como não usámos antibiótico como prevenção e também não podemos comprar óleos vegetais para esse fim, Judd disse que o tanino dos trevos foi o que lhes provocou a cólica - suspirou com impaciência. - Sei escolher pastos tão bem quanto ele e não sou assim tão parva ao ponto de deixar os novilhos vulneráveis num pasto sem lhes dar de comer feno ou forragem. E os touros Hereford estavam lá ao mesmo tempo, os quatro. Eles não tiveram cólicas.

- Não disseste isso a Judd?

Crissy assentiu.

- Deve pensar que os Salers têm um gene especial que provoca cólicas - murmurou irritada. Cash tentou não rir mas fracassou. - De qualquer maneira, isso aconteceu logo depois de termos despedido esse tal Clark - acrescentou. - Jack Clark. Tem um irmão, John. São personagens pouco recomendáveis e, segundo o que ouvi, são despedidos com frequência. Despedimos Jack por nos roubar com os encargos de uma compra. Devia pensar que não verificávamos. Comprou umas botas de duzentos dólares na Western Shop e pô-las na nossa conta com uma ordem de compra fotocopiada. Devolveu-as, assim que o denunciámos. Mas de qualquer forma, despedimo-lo.

- Agora está a trabalhar para Duke Wright - disse Cash. - Conduz o camião do gado.

- Então o Duke que o vigie bem - comentou Crissy.

- Um dos nossos novos ajudantes disse que houve suspeitas de que os irmãos Clark tinham envenenado o gado num rancho do qual um deles tinha sido despedido há uns anos. O nosso vaqueiro trabalhava com eles naquela época.

Cash observava-a com atenção.

- Isso é sério. Tens a certeza que o Judd não acredita em ti?

- Não lhe contei esta última coisa porque só o soube há uns dias - reconheceu. - Também não lhe disse que encontrámos a vedação de arame farpado cortada no pasto.

- Eu, se fosse a ti, contava-Lhe tudo. Um homem que envenena novilhos indefesos acaba por envenenar pessoas, se lhe surgir uma oportunidade.

Crissy assentiu com um suspiro.

- Disse aos rapazes que vigiassem o gado e eu mesma percorro a cerca quando volto das aulas.

- Sozinha?

Ficou a olhar para ele sem compreender.

- Sozinha, claro - disse asperamente. - Sou uma mulher feita. Não preciso de baby-sitter.

- Não estava a dizer por isso - repôs Cash. - Não acho bem que ninguém vá para pastos longínquos desarmado e sem companhia. Não levas pistola, não?

- Deveria? - riu com nervosismo. - Às vezes tenho um pesadelo estúpido em que me dão um tiro e que tento alcançar Judd para Lhe dizer, mas ele não me consegue ouvir.

- Vai com alguém da próxima vez que conferires a vedação de arame - persuadiu-a. - Não corras riscos.

- Não correrei - prometeu- lhe, mas sem se comprometer a ir acompanhada. Tinha uma arma de calibre 28, presente de Judd. Poderia levá-la consigo quando percorresse a cerca. O que Cash dizia fazia sentido. Se um homem não hesitava em envenenar um touro indefeso, nada o deteria de tentar matar uma jovem mulher.

Por sorte, a empregada regressou com o café e a cerveja nesse momento e distraiu-o. Esperaram que se fosse embora para retomar a conversa.

- Queres que fale com Judd sobre o touro? - perguntou. Crissy negou com a cabeça.

- Não servirá de nada. Quando mete uma ideia na cabeça, não há quem a mude - tocou na sua chávena e viu que estava a ferver. Retirou os dedos. - De qualquer forma, durante estes dias anda distraído. O pessoal da companhia de cinema vem este fim-de-semana, incluindo os protagonistas - olhou para Cash. Imagino que toda a gente já deve ter ouvido falar de Tippy Moore.

- A Vénus da Geórgia - afirmou Cash. O seu rosto endureceu-se e o seu olhar ficou gelado.

- Conheces? - perguntou Crissy, perplexa.

- Não gosto de modelos - disse e deu um grande gole de cerveja. Crissy aguardou, porque não lhe queria perguntar, mas a expressão de Cash era confusa.

Este deixou a garrafa sobre a mesa, viu como ela o olhava e riu. - Nunca pressionas ninguém, pois não? Esperas e deixas que as pessoas falem, se quiserem.

Crissy sorriu com nervosismo.

- Suponho que sim.

Cash recostou-se na cadeira.

- A minha mãe morreu quando eu tinha nove anos

- contou-lhe. - Fiquei com ela no hospital todo o tempo que me deixaram. Os meus irmãos eram muito pequenos e o meu pai. - hesitou. - O meu pai - repetiu, com desprezo na voz, - estava com outra mulher e não conseguia afastar-se dela. Costumava torturar a minha mãe dizendo-lhe quão jovem e bela era a sua amante e como se ia casar com ela quando a minha mãe deixasse de ser um obstáculo. Esteve doente durante muito tempo mas, quando o meu pai começou aquele caso, ela rendeu-se. Quando morreu, ele estava demasiado ocupado com a sua amante para se preocupar. Só veio uma vez ao hospital, para autorizar que transladassem o corpo para a funerária. A sua amante era uma modelo pouco conhecida, vinte anos mais jovem do que ele, que o tinha enfeitiçado. Três dias depois do funeral, casou-se com ela e trouxe-a para casa

- pegou na cerveja e bebeu de novo. Tinha o olhar perdido.

- Ele levou-a para tua casa demasiado cedo - adivinhou Crissy.

- Seria sempre cedo demais - repôs Cash rotundamente. - A minha madrasta atirou as coisas da minha mãe para o lixo assim que pôs o pé em casa, todas as fotografias, todos os seus trabalhos manuais. até vendeu as suas jóias, rindo-se - desviou os olhos. Nesse mesmo ano, o meu pai enviou-me para uma escola militar. Nunca regressei a casa, nem sequer quando ele recuperou o juízo, com oito anos de atraso e tentou persuadir-me a voltar:

Havia homens que detestavam o contacto físico quando contavam episódios dolorosos. Crissy cobriu a mão de Cash com a sua, coisa que nunca tinha feito com Judd. Grier lançou um olhar àquela pequena mão com sobressalto mas, passados uns segundos, fechou os dedos em volta dos de Crissy. Eram dedos fortes e curtos e tê-la-iam magoado se os flectisse um centímetro mais. Crissy viu que não usava jóias, excepto um relógio de prata de aspecto caro. Nenhum anel.

- Eu perdi a minha mãe no ano em que acabei o liceu - disse-lhe. - Era mais velho do que tu, mas doeu-me o mesmo. Mas eu tinha Judd e Maudeacrescentou com um sorriso. - Veio para o rancho quando eu ainda era bebé, para ajudar a minha mãe, que estava muito frágil. Tem sido como uma segunda mãe para mim.

- Tem muito sentido de humor - disse em tom pensativo e virou a mão de Crissy ao contrário para estudar as pequenas cicatrizes. - O que é que fazes com as mãos? - perguntou com curiosidade.

- Arranjar cercas, arreios, laçar os vitelos, receber mordidelas de cavalos, subir às árvores.

Cash riu-se.

- Tinha-te imaginado uma boa menina que ia às aulas e deixava que Judd fizesse todo o trabalho duro.

- Nem pensar - respondeu Crissy. - Nenhum homem me vai sustentar enquanto eu fico de braços cru zados, a ler revistas ou a pintar as unhas. Sou uma sócia sob todos os aspectos.

- Judd não me parecia o tipo de homem que tolera trabalhar com uma mulher - murmurou com ironia.

- Porque não haveria de me tolerar? Sou boa naquilo que faço, melhor do que ele, e ele sabe. Por outro lado, eu não sei nada sobre vendas. Essa é a especialidade dele. Ah, e paga as contas. Além disso, sabe cozinhar e limpar a casa melhor do que eu. Se alguma vez se casar de verdade, a sua mulher será uma sortuda - acrescentou em tom distraído, detestando pensar que Judd iria pedir a anulação no mês seguinte, exactamente quando Tippy Moore estaria acessível.

- Acho-te preocupada.

Crissy encolheu os ombros.

- Tippy Moore é bela e famosa em todo o mundodisse sem pensar. - Judd ficou muito contente quando soube que ela ia protagonizar o filme. Nunca esteve com mulheres como ela. É filho de um pastor e bastante convencional em alguns sentidos.

- Achas que ela o vai seduzir.

Olhou-o nos olhos.

- Não sou nenhuma beleza. Fui criada no campo. Sei trabalhar com computadores e com o gado, mas não posso competir com uma modelo famosa especialista nas artes da sedução. Atrairá os homens como moscas, vais ver.

- A mim não - repôs Cash com fluidez. - Sou imune a ela.

- Judd não será - assinalou Crissy com preocupação.

- Judd é um homem feito e sabe tomar conta de si mesmo - Cash estava a lembrar-se de velhos tempos e não queria desiludir Crissy reconhecendo que Judd tinha muito poucos problemas em atrair mulheres belas. Não era um Casanova, mas tinha bom aspecto, era seguro de si um conquistador agressivo com as mulheres que desejava. Mas não o disse a Crissy, porque ela iria ficar em baixo. Perguntou-se se se dava conta do quanto reflectia o que sentia por Judd quando falava dele.

- Suponho que sim - murmurou Crissy e bebeu um gole de café. - Era bom que não precisássemos de ter a equipa de filmagens a vaguear por todo o rancho - acrescentou com impaciência. - Mas ofereceram-nos uma pequena fortuna e precisamos tanto do dinheiro que não podemos negar-nos - suspirou. - O velho ditado é verdadeiro, não é? Toda a gente tem um preço. Eu pensava que não tinha, mas quero substituir aquele touro Salers - moveu a cabeça. - Paguei cinco mil dólares por ele. Se Clark o envenenou e eu encontrar uma maneira de o provar, vou acusá-lo as vezes que forem precisas, nem que tenha que chegar ao Supremo Tribunal. Posso não recuperar os meus cinco mil dólares, mas vou dar-me esse gosto de qualquer forma.

Cash riu-se.

- Gosto do teu estilo, Crissy Gainés.

Ela sorriu por cima da chávena de café.

- Se reunir próvas, prende-lo por mim?

- Claro - pôs-se sério. - Mas não andes por aí sozinha à procura de problemas.

- Eu não. Sou muito precavida.

Cash duvidava, mas não ia discutir.

- Atreves-te a voltar à pista?

- Claro.

Cash sorriu e deu-lhe a mão para a puxar para dançar. O maestro, ao vê-los, interrompeu a balada country que estavam a interpretar e começou a tocar um chachachá. Toda a gente se riu, incluindo o par da noite.

No sábado de manhã, bem cedo, o realizador, o realizador assistente, o director de fotografia, o operador de câmara, o técnico de som, mais dois técnicos e as estrelas aproximaram-se pela estrada de acesso ao rancho num enorme Ford Expedition.

Judd tinha chegado um minuto antes. Christabel e Maude saíram para o alpendre para os receber. Maude tinha um velho vestido preto de trabalho e estava despenteada. Cristabel tinha vestido umas calças de ganga e uma camisa de algodão e tinha prendido o cabelo numa trança. Ainda assim, quando viu a ruiva a sair do veículo, caiu-lhe a alma aos pés.

Não ajudou muito o facto de Judd ir em linha recta até ela, sem sequer dirigir um último olhar a Christabel, para a ajudar a descer do alto banco traseiro, pondo as mãos na sua cintura de vespa. A modelo riu-se e parecia o tilintar de um sino de prata. Tinha um sorriso perfeito. dentes brancos e lábios vermelhos e sensuais. O seu corpo também era sensual. Tinha um longo vestido verde rodado que aderia às linhas esbeltas e elegantes do seu corpo. Judd estava a observá-la com intensa admiração, como nunca tinha olhado para a insípida e vulgar Christabel. Pior ainda, a modelo estava fascinada e brincava com ele.

- É uma actriz - comentou Maude, pondo-lhe a mão no braço como forma de consolo. - Não se adaptaria aqui, nem quereria fazê-lo, por isso não ponhas essa cara de condenada à morte.

Christabel riu com nervosismo.

- És um anjo - sussurrou.

- Além de bonita - brincou Maude com um grande sorriso. - Vou entrar para preparar café e partir umas fatias de bolo. Podem passar para tomar algo; se quiserem.

- Christabel - chamou-a Judd com aspereza. Crissy lançou um olhar de tristeza a Maude e desceu os degraus com o seu habituàl passo desinibido. Parou junto de Judd para que ele fizesse as apresentações.

- Apresento-vos Christabel Gaines. É co-proprietária do rancho. Christabel, deves lembrar-te de Joel Harper, o realizador - disse e indicou o homem de baixa estatura, óculos e boné de basebol, que sorriu e assentiu. - Este é Rance Wayne, o protagonista - disse do homem alto e bem parecido de cabelo loiro e bigode. - Gary Mays, o realizador assistente - prosseguiu, apresentando-lhe um homem mais jovem que não ocultava o seu fascínio pela modelo. - E Tippy Moore - acrescentou num tom diferente, com o olhar cravado na ruiva de olhos verdes, que deu um olhar fugaz a Christabel e, não a considerando como uma rival, pôs-se a sorrir para Judd com alegria.

- Muito prazer em conhecer- vos - disse Christabel educadamente.

- Igualmente. Estamos prontos para começar a filmar na segunda-feira - disse Harper a Judd. - Só temos que acertar alguns detalhes técnicos.

- Se quiserem saber algo sobre o gado. - começou a dizer Christabel.

- Perguntaremos a Judd - concluiu a modelo em tom rouco e altivo. - Deve saber mais do que tu - acrescentou com grosseria deliberada. Christabel deitava fogo pelos olhos.

- Fui criada aqui. - começou a dizer.

- Judd, adoraria ver esse enorme touro de que nos falaste - sugeriu a modelo. Pendurou-se no braço de Judd com as suas esbeltas mãos e afastou-se com ele.

Christabel ficou imóvel, vendo como Judd avançava obedientemente até ao enorme celeiro na compa nhia de Tippy, Joel Harper e o seu séquito. Sentiu-se ultrajada. No final de contas, era sócia de pleno direito do rancho. Claro que a consideravam demasiado jovem para tomar grandes decisões e Judd tinha ficado tão embevecido pela ruiva que não se importava que a tivessem humilhado na sua própria casa.

Ficou a olhá-lo, zangada, até que os cascos de um cavalo captaram a sua atenção. Nick Bates, o capataz, aproximou-se dela, com a sua figura alta e ágil dobrada sobre a sela.

- O que aconteceu? - perguntou-lhe Crissy.

- Estive a perseguir vacas - resmungou o capataz em tom sombrio. - Um idiota cortou a cerca, e fugiram cinco vacas. Conduzimo-las a outro pasto e vim buscar a carrinha e arame para arranjar a cerca.

- Não são as vacas prenhas! - exclamou Crissy, preocupada. O capataz assentiu.

- Mas estão bem. Disse aos rapazes para as conduzirem para o pasto ao lado do celeiro.

- Sabes quem foi? - quis saber Crissy.

- Nenhum dos meus homens - assegurou-lhe Nick, com olhos brilhantes no seu rosto queimado e delgado.

- Passei pela parcela de Hob Downey para falar com ele. Passa a vida na cadeira de baloiço no alpendre. Pensei que podia ter visto alguém.

- E o que é que te disse? - pressionou Crissy.

- Que esta manhã viu uma carrinha junto da cerca. Era velha, preta, com uma tira vermelha e tinha os lados vedados, como se a usassem para transportar gado. Pelos vistos, apearam-se dois homens, e um deles fimgiu que estava a arranjar a cerca. Hob gritou-lhes do alpendre. Hesitaram, mas, ao verem o carro-patrulha na estrada, subiram para a carrinha e afastaram-se rapidamente. Era uma abertura pequena, embora sufi cientemente larga para uma vaca passar, mas pouco visível de longe.

Crissy aproximou-se do cavalo, preocupada e pensativa.

- Quero que telefones a Duke Wright e lhe perguntes se tem uma carrinha preta com uma tira vermelha e lhe perguntes quem a conduzia esta manhã.

Nick apoiou-se na sela e olhou-a nos olhos.

- Suspeitas de alguém.

- Sim, mas não te vou dar nomes, nem contar-te o que sei. Desce daí.

Nick arqueou as sobrancelhas.

- Porquê?

- Não quero entrar no celeiro para selar o Mick. O pessoal das filmagens está lá dentro agora, e põem-me nervosa.

Nick desmontou com fluidez.

- Aonde vais?

- Ver como é que a vedação de arame farpado foi cortada.

- Já te disse.

- Não entende - disse Crissy, aproximando-se. - A cerca do pasto onde morreu o Salers também foi cortada, lembras-te? Não o mencionei a Judd e arranjámos a cerca, mas eu decorei como a tinham cortado. Não existem duas pessoas que façam as coisas da mesma maneira. Eu consigo distinguir se foi Maude ou Judd quem abriu uma lata de sumo só pela forma como deixam a lingueta. Sei como cortaram a cerca da primeira vez.

- Entendo. Queres que eu e o Denny vamos buscar o camião e te sigamos?

Crissy negou com a cabeça e montou com elegância sobre a sela.

- Não sou nenhuma criança - disse, e deu uma palmada no pescoço roliço do cavalo, sorrindo. Depois, reparou na espingarda que sobressaía da bolsa funda da sela. - Importas- te que leve isto?

- Não, de todo. Lembra-te que há que tomar medidas de precaução. Judd está lá dentro? - perguntou de improviso, apontando para o celeiro com a cabeça.

- Sim, por isso é melhor que vás directamente para o armazém das ferramentas. Olhos que não vêem, coração que não sente.

Nick começou a responder, mas ela já se estava a afastar.

Na realidade, Crissy não precisava de dar uma vista de olhos à cerca para saber que Jack Clark tinha estado no rancho a fazer das suas. Quem sabe só tinha querido soltar as reses, ou quem sabe a sua intenção tinha sido roubá-las. De qualquer forma, Crissy necessitava de se afastar de Judd e dos outros. Com um pouco de sorte, já se teriam ido embora quando voltasse. Além disso, não seria mau provar que a sua teoria estava certa. Se reunisse provas contra Clark, Cash trataria de o deter.

Recordou a expressão dos olhos negros de Judd enquanto ajudava Tippy a descer do veículo e como a conduziu ao celeiro depois de a modelo ter depreciado Christabel. Judd nem sequer se tinha dado conta do atrevimento. Crissy tinha o coração apertado. Exactamente como temia, a chegada da modelo marcava uma mudança crucial na sua vida. Desejava poder voltar atrás no tempo. Nada voltaria a ser o mesmo.

 

Como Crissy suspeitava, a cerca estava cortada no mesmo lugar que na primeira vez, muito perto dos suportes verticais do arame farpado. Desmontou e examinou os cortes com atenção. Os alicates que usaram nas duas ocasiões não estavam afiados e os cortes não eram limpos nem precisos.

Deu a volta e, conduzindo o cavalo pelas rédeas, suspirou zangada, com o olhar no horizonte. Jack Clark tinha-os roubado e tinham-no despedido com razão. Mas ele era um homem muito vingativo. Crissy temia que ele não se contentasse em envenenar touros e cortar cercas. Tinha esperança que Duke Wright tivesse notícias sobre os irmãos Clark quando Nick lhe perguntasse.

Vislumbrou Hob Downey no seu alpendre e aproximou-se para cumprimentar o idoso.

Hob tinha mais de setenta anos. Fora vaqueiro toda a vida, até que o seu chefe o obrigou a reformar-se. Sabia mais sobre cavalos do que a maioria dos rancheiros e era um homem solitário. Passava quase todo o dia sentado no seu alpendre, esperando que alguém passasse para falar com ele. Era uma mina de ouro de informação sobre qualquer aspecto da criação de gado desde a Segunda Guerra Mundial até à actualidade. Crissy ia vê-lo quando podia mas, como a maioria dos jovens, tempo era o que ela menos tinha.

- Olá, Hob - cumprimentou.

- Venha sentar-se um pouco, menina Crissy - convidou-a com um sorriso.

- Oxalá tivesse tempo, Hob. Nick disse-me que esta manhã viu uns tipos a saírem de uma carrinha junto à nossa cerca.

O idoso assentiu.

- Acho que sim. Andavam com muitos mistérios. Não tenho telefone, senão tinha-Lhe telefonado.

- Reparou se um deles era alto e careca? - perguntou Crissy com cautela. O idoso fez uma careta.

- Um tinha um chapéu e por isso não sei se era careca. Também não sei dizer a altura dele. O outro tinha uma camisa que podia cegar um homem, de tão berrante que era. Manteve-se do outro lado da camioneta e, por isso, não pude vê-lo muito bem.

Crissy suspirou.

- E o que dizes da carrinha?

- Tinha uma grande mancha de óxido no pára-choques dianteiro - respondeu. - Era preta, com uma faixa vermelha. Acho que levavam uma vaca ou duas, menina Crissy.

Teria que averiguar se os irmãos Clark tinham uma carrinha ou conduziam alguma de Wright que correspondesse àquela descrição.

- Cortaram a cerca de arame farpado, não foi? - perguntou. - Podem ser perigosos e você está aqui sozinho.

O idoso riu-se.

- Tenho uma arma.

- Não pode ficar acordado as vinte e quatro horas do dia - assinalou Crissy.

- Alguém está furioso consigo, é isso? - quis saber Hob.

- É algo assim. Obrigada, Hob. Cuide de si e feche a porta à chave de noite.

- Você também, menina Crissy. De certeza que não se quer sentar um bocado?

Crissy sorriu.

- Voltarei quando puder. Agora estou cheia de trabalho com o pessoal do cinema no rancho. Tenho que me ir embora.

- Ouvi dizer que iam gravar esse filme no seu rancho. Vai entrar?

- Eu não - riu Crissy. - Até logo, Hob.

- Adeus.

Montou o cavalo e guiou-o até à estrada de terra que levava ao rancho. Era desconcertante pensar que Jack Clark e o seu irmão John podiam ser responsáveis por duas tentativas de reduzir o seu gado. Não podiam permitir-se a muitas perdas, apesar das receitas extra que a rodagem do filme traria. Precisavam de mudar de táctica ou iriam abaixo.

A especialização, pensou, era a única resposta para o problema. Podiam fazer o mesmo que Cy Parks e criar gado de puro-sangue... ou melhor ainda, imitar outros produtores e tentar comercializar a carne de gado criado ecologicamente. Claro que isso exigiria o melhoramento dos seus métodos de produção e a procura de um comprador que quisesse carne ecológica. quem sabe um empresário estrangeiro, porque os lucros eram muito altos, segundo o que assegurava Leo Hart, que vendia carne ecológica ao Japão. Por isso, Christabel tinha posto o gado nos pastos, para os alimentar com forragem em vez de ração. e tinha perdido o seu touro Salers premiado nessa tentativa.

Mas não era a erva, ou melhor dizendo, os trevos, o que tinha matado o touro. E a cerca cortada não tinha sido uma coincidência. Os irmãos Clark tinham envenenado o animal. Crissy tinha a certeza, apesar de Judd não a querer ouvir. Cash iria ouvi-la. E iria provar-lhe!

Levou o cavalo para o celeiro e viu que o enorme Ford tinha desaparecido, bem como o todo-o-terreno de Judd. Que alívio. Pelo menos, naquele dia não teria que se preocupar com a companhia de cinema.

Mas o alívio durou pouco. Depois de selar e escovar o seu cavalo e de devolver a espingarda a Nick, recebeu uma má notícia.

- Duke Wright não tem nenhuma carrinha preta com uma tira vermelha - disse-lhe o capataz com um suspiro, tirando o chapéu do seu cabelo louro e suado. Crissy fez uma careta.

- Tinha tanta certeza.

- Podem tê-la pedido emprestada - disse. Ela arqueou as sobrancelhas.

- Achas?

- Tudo é possível - olhou-a longamente. - Judd queria saber onde estavas. Disse-Lhe que tinhas ido dar uma vista de olhos às vacas que fugiram do pasto - levantou uma mão. - Não lhe disse que tinhàm cortado a cerca. Tu contarás quando achares conveniente.

- Obrigada, Nick - sorriu-lhe. - Devo-te uma. O capataz encolheu os ombros.

- De nada. Já disse aos rapazes para estarem alerta para ver se detectam algum veículo suspeito.

- Boa ideia. E mantém o pasto para onde levaste o gado sob vigilância vinte e quatro horas por dia, mesmo que tenha que pagar horas extra - acrescentou firmemente, gritando por dentro ao pensar noutra despesa a que não se poderiam permitir. - Assegura-te de que usam espingarda.

Nick assentiu com gravidade.

- Vou fazer isso.

- E tira fotografias à cerca como está agora e guarda o arame farpado. - Se conseguirmos alguma coisa, precisaremos de provas.

- Vou guardá-lo no armazém de ferramentas.

- Obrigada, Nick.

Crissy regressou a casa em passo lento. Maude estava a guardar fatias intactas de bolo, resmungando.

- A modelo não pode comer bolo - disse. - Tem calorias - olhou zangada para Crissy, que tentava reprimir um sorriso. - E não bebe café, porque a cafeína faz mal à saúde. De qualquer forma, tinham pressa e não podiam entreter-se a tomar nada.

- Não ficarão aqui muito tempo - consolou-a.

- Isso é o que tu achas! Ouvi o realizador dizer a Judd que iam demorar alguns meses a rodar o filme e que depois, quem sabe, talvez tenham que voltar para repetir alguma cena.

Aquilo significava que ficariam até ao Natal. A perspectiva de Judd se dar com a modelo durante esse tempo todo abatia-a. Era pior do que tinha imaginado.

- Essa actriz não faz mais do que se meter com ele - resmungava Maude. - Colou-se a ele como uma lapa, sorria-lhe, brincava. Não o deixava nem ao sol nem à sombra.

- E ele também não descolava dela, não é Maude?

- perguntou Crissy em voz baixa. Maude corou.

- É casado, querida.

- Ele não vê as coisas assim - deixou-se cair na cadeira mais próxima. - Sê um anjo e passa-me uma chávena de café. Estou moída.

Crissy contou a Maude as suas suspeitas sobre a cerca cortada.

- Já disseste a Judd?

Crissy hesitou.

- Não.

- Isso é perigoso - Maude olhava-a com reprovação. - Aos fims-de-semana quando vou a casa da minha irmã, tu ficas aqui sozinha. E o barracão não está suficientemente perto para que os homens te ouçam gritar. Devias dizer a Judd.

- Não acreditou em mim quando lhe disse que o touro tinha sido envenenado, Maude - replicou, aceitando a chávena de café. - E também não acreditará que cortaram a cerca de propósito.

- Mostra-lhe.

- Mesmo que lhe mostre as provas, continuará a não acreditar em mim. Está convencido que só quero chamar a sua atenção.

Maude sorriu.

- É verdade.

- Não é segredo nenhum - Crissy encolheu os ombros. - Mas eu não minto - bebeu um gole de café. Quando é que começam a filmar?

- Amanhã bem cedo.

Engasgou-se com o café.

- Já? - perguntou surpreendida.

- Querem aproveitar que está bom tempo. Já se instalaram no Hotel Comercial, em Jacobsville. Contrataram uma empresa de catering para lhes trazer o pequeno-almoço e o almoço e os electricistas estiveram a falar com Judd sobre o que querem fazer com os seus geradores portáteis - acrescentou em tom brincalhão. Mexeu a cabeça. - O realizador disse que vão trazer camionetas enormes com toda a equipa e caravanas para que as estrelas as usem como vestiários e salas de maquilhagem. Contrataram os Autocarros Bailey's para trazer e levar os actores e o resto do pessoal todos os dias.

- Vão trazer casas de banho portáteis? - perguntou Crissy em tom esperançado.

- Judd disse-lhes que podiam usar as do barracão. Não vão haver vaqueiros aqui nas horas de trabalho, excepto os vigilantes nocturnos e nem um tornado acordaria Billy e Ted quando estão a dormir.

- Tens razão - disse Crissy e tomou um pouco de café.

- O presidente da Câmara vai entrar no filme, juntamente com o chefe de polícia. Vão filmar algumas cenas na cidade - Maude moveu a cabeça. - Será um pesadelo, querida - disse com tristeza. - E essa modelo. - enrugou o nariz. - Podia matar um asmático com tanto perfume que põe.

Crissy baixou o olhar.

- Mas é bonita.

- Pois é.

- Jamais poderei competir com uma mulher assimdisse Crissy melancolicamente. Maude voltou-se.

- Judd conhece-te desde que eras pequena. És boa, amável e sabes fazer com que um homem se sinta especial e terno. Além disso, há poucas coisas que tu não consegues fazer no rancho. És inteligente. A maioria dos homens sentem-se atraídos pela beleza, mas só se houver alguma coisa além disso que os mantenha interessados. Aquela mulher é uma cara e um corpo com maus modos. Judd aperceber-se-á disso.

- Achas que sim? - acabou o café. - Fico contente por ter aulas - disse quando deixou a chávena no lava-loiças. - Assim não terei que os ver muitas vezes.

- Também vão filmar aos fins-de-semana - disse Maude hesitante. Crissy voltou-se no umbral, com o sobrolho franzido.

- Disseste alguma coisa sobre uns geradores? Maude assentiu.

- Para ligar todos os focos de luz que usarão dentro de casa e no celeiro.

Ficou gelada. O seu rosto parecia uma caricatura do seu semblante habitual.

- Dentro de casa? Da minha casa!

Maude fez uma careta.

- Judd não te disse?

- Não!

- Só na sala e na cozinha - disse suavemente. – Vão mudar umas quantas coisas aqui e ali. pagarão mais pelo transtorno! - exclamou ao ver que Crissy começava a ficar vermelha.

- E Judd deu-lhes permissão?

- Disse que precisamos do dinheiro - disse a mulher com suavidade. - Serão apenas umas semanas, Crissy. Só umas semanas.

- E estamos a ficar arruinados, eu sei - foi a resposta aflita de Crissy. - É que não esperava nada disto. É. É como uma invasão Não teremos intimidade.

Maude assentiu.

- Eu sei, mas iremos superar isto. Mantém-te à margem e deixa a banda passar - aconselhou. - Por outras palavras, querida, agarra no dinheiro e sai a correr. Os dias passarão a voar! A sério!

Mas não foi assim. No dia seguinte, quando Crissy regressou ao rancho depois das aulas, encontrou a estrada de acesso cortada. Havia cinco ou seis carros estacionados num dos lados do caminho de terra que conduzia ao rancho e alguns curiosos tinham estendido mantas na era e observavam com binóculos os empregados das filmagens, enquanto faziam uma merenda. Crissy avistou meia dúzia de caravanas, dois camiões de caixa aberta, dois camiões de reboque e aquilo que parecia ser um pequeno exército de pessoal.

Crissy não conseguia contornar o camião de reboque que interceptava o caminho e então teve que deixar a sua carrinha velha onde estava e percorrer a pé os oitocentos metros que a separavam de casa. Ao chegar aos degraus, suada, cansada e suja de pó, um dos homens de Cash Grier, encarregado da segurança, deteve-a.

- Sinto muito, menina Gaines - disse o agente em tom de desculpa, - mas estão a filmar uma cena na sala. Não pode entrar por aqui.

Deu a volta sem dizer palavra e entrou pelas traseiras. No interior, um técnico de som trabalhava com um gravador. Dois estranhos, um homem e uma mulher, estavam sentados na mesa da cozinha, com chávenas vazias de café e técnicos de fotografia vagueavam com fitas métricas e equipamento de luz portátil.

Maude fez-lhe sinal do corredor e conduziu-a ao seu quarto.

- Não podemos fazer barulho - sussurrou. - Estão a filmar uma cena na sala.

- Quando é que terminam? - perguntou Crissy.

- Bem, começaram esta manhã, pouco depois de saíres. Já rodaram a mesma cena dez vezes.

Crissy gemeu.

- O microfone viu-se num take. No seguinte, alguém tossiu. A modelo esqueceu-se das suas falas três vezes, porque à noite não dormiu bem por causa do comboio que passa ao pé do hotel. Depois, o protagonista tropeçou naquele velho tapete persa que não queres tirar porque a tua mãe adorava e, no take seguinte, foi-se uma luz.

- Quero mudar-me para o Alasca - disse Crissy em tom lastimoso. Pousou os livros e deixou-se cair sobre a cama.

- Mas o realizador acha que terminarão a cena antes do jantar - concluiu Maude.

- E isto é só uma cena - pensou Crissy em voz alta.

- Meu Deus!

- Correrá melhor à medida que forem avançando com a filmagem - assegurou-lhe Maude. - As coisas são sempre difíceis ao princípio - franziu o sobrolho. Mas não sei se irão deixar de discutir.

- De discutir?

- Segundo parece, o protagonista não se dá muito bem com o realizador assistente. Já trabalharam juntos antes e chatearam-se por causa de uma mulher. O actor foi quem perdeu. Por isso, agora nega-se a fazer a cena como ele quer. A menina Moore também não se dá bem com o realizador assistente e ele incomoda-a menos quando ela está com Judd. O guionista terá que vir também, porque o actor disse que não vai fazer a cena do celeiro como está escrita. Disse que o seu papel é ridículo e que Tippy Moore tem mais falas. Diz que o seu contrato lhe garante tanto diálogo como a ela.

Crissy moveu a cabeça.

- Que alterações querem fazer na minha casa?

- Uns quantos móveis novos, tapetes, cortinas e coisas assim, porque no filme a heroína redecora a casa do herói.

- E se nós não gostarmos? - quis saber Crissy.

- Gostaremos - assegurou-Lhe Maude. - O realizador disse a Judd que comprariam electrodomésticos novos para a cozinha e que poderíamos ficar com eles. Tippy Moore vai com ele e com uma câmara para os escolher. Disse que a cozinha necessita de um toque feminino.

Aquilo era desconsolante. Era a casa de Crissy, não de Tippy Moore. A sua opinião deveria contar, mas ninguém se importava com o que ela pensava. Tinha a sensação que tinha aterrado no inferno. A situação não poderia ser pior. Devia procurar pensar no dinheiro. Precisavam dele.

Maude deu-lhe uma palmadinha nas costas.

- Anima-te. Serão apenas uns dias. Ela ir-se-á embora e ele voltará a assentar os pés na terra.

No final daquela semana, Christabel já tinha arranjado maneira de tomar o pequeno-almoço antes de o autocarro chegar carregado com o pessoal das filmagens. levantando-se antes do amanhecer. Estremeceu ao vèr o número de camiões e caravanas espalhados pelo rancho e o número de trabalhadores que eram necessários para fazer um filme. Parecia uma invasão de técnicos e Christabel estava impaciente para que se fossem embora.

Pegou nos seus livros e saiu a correr pela porta lateral até à velha carrinha com que ia para a escola. Tinha pertencido ao seu pai e era uma das suas poucas posses. Estava velha e necessitava de uma pintura, mas trabalhava muito bem, graças a Nick. Exactamente quando abria a porta da camioneta, viu Judd a parar o seu veículo em frente do alpendre. O pulso de Crissy acelerou- se e ela hesitou. Judd desceu do todo-o-terreno e contornou-o para abrir a porta do passageiro. A modelo ruiva saiu do veículo, olhando-o com aquele sorriso que tinha preenchido meia dúzia de capas de revista. Christabel sorriu melancolicamente e subiu para a carrinha.

Enquanto se afastava, viu que Judd deslizava o braço pelos ombros delicados de Tippy Moore en quanto avançavam juntos até ao celeiro, onde a esperava o pessoal da filmagem. Adeus aos sonhos patéticos, pensou Crissy.

Os dias de filmagem passavam muito devagar. Por sorte, a escola ocupava quase todo o tempo de Crissy. Quando estava no rancho, trabalhava com os vaqueiros, supervisionando os vários projectos que deveriam completar antes do Inverno. Não se preocupava em vestir-se melhor ou maquilhar-se mais, nem soltava o cabelo. Era impossível competir com a beleza de Tippy Moore e não queria que Judd a surpreendesse a tentar.

Claro que Judd não lhe dava muita atenção. No trabalho, estava ocupado com a investigação do assassinato ocorrido em Victoria. Cash manteve-a informada. Achava que a mutilação do corpo e a posição em que tinha sido deixado faziam párte do ritual de uma vingança pessoal.

- Não estão a conseguir descobrir muitas coisas sobre o caso - disse a Crissy num sábado à tarde, enquanto falavam junto ao carro-patrulha, ao pé da entrada principal da casa. - Nem sequer têm um suspeito.

Dentro de casa, a cozinha estava invadida por holofotes, câmaras e centenas de cabos eléctricos grossos que se ligavam a um gerador portátil capaz de iluminar toda a cidade de Jacobsville.

- Se calhar o assassino é um dos irmãos Clarkdisse Crissy, meio a brincar. Cash não sorriu, como ela esperava. - Era uma piada!

Cash continuava sem sorrir, mas não era por causa do tema de conversa. Observava algo atrás das costas de Crissy com uma cara de ódio e desprezo que até parecia que tinham soltado todos os demónios do inferno pelo rancho.

- Vieste prender Christabel? - disse uma voz doce por trás de Crissy. - Não será por excesso de velocidade, com aquela carrinha velha com que ela anda.

Crissy virou-se para trás e viu a modelo. Tippy Moore estava impecável com uma saia branca, um corpete azul apertado e um cinto largo. Calçava saltos de agulha e o seu cabelo comprido e ondulado, de tom louro avermelhado, caía lindíssimo em volta do seu belo rosto. Sorriu a Cash com aquele esplendor que fazia com que o seu rosto chamasse à atenção pela sua vitalidade. Pôs as mãos nas ancas e atirou o cabelo para trás, confortável na presença de qualquer homem que se aproximasse.

Mas Cash não parecia estar impressionado. De facto, ficou hostil de imediato. Olhou para a mulher com autêntico desprezo.

Surpreendida com aquela reacção, Tippy riu com o seu alegre tilintar e voltou a agarrar o cabelo.

- O gato comeu-te a língua, senhor polícia? - brincou.

Cash revirou os seus olhos escuros. Olhou-a como olharia para uma vitela num concurso e voltou a con centrar a sua atenção em Crissy.

- Apetece-te um hambúrguer com batatas fritas? perguntou-lhe com um sorriso terno. - Podes vir no meu carro e assim eu deixo-te brincar com a sirene.

Crissy riu, visivelmente satisfeita por ele a ter preferido a uma modelo internacional.

- Adorava. Posso ir assim? - acrescentou, apontando para as calças de ganga gastas e manchadas, a t- shirt velha e as botas sujas. Tinha estado a ajudar os homens a levar o gado para um pasto novo. Cash encolheu os ombros.

- Eu acho que estás bem - lançou a Tippy um olhar eloquente. - Gosto das mulheres de verdade e não das que parecem bonecas pintadas e mascaradas.

Tippy ficou corada, girou sobre os calcanhares e es teve a ponto de perder o equilíbrio antes de começar a

andar para casa.

- Porque diabos uma mulher usa uns saltos tão altos quando nem sequer consegue andar com eles? - perguntou em voz alta. Tippy estugou o passo.

Crissy agarrou Cash pelo braço e foi assim com ele até ao carro-patrulha.

- Vamos antes que encontre o guarda-costas - disse com um sussurro dramático. Grier sorriu.

- Desmancha-prazeres.

Sentaram-se numa mesa reservada do café de Ja cobsville e Cash falou-lhe um pouco mais da investi gação.

- Nem fazem ideia de quem possa ter cometido o assassinato - disse, - nem porquê. Foi violada e assassinada brutalmente com uma faca, de uma forma que nem sequer te vou descrever. Mas ela não tinha inimigos nem se dava com nenhum delinquente.

- Têm a certeza que não foi o marido dela?

- A certeza absoluta - respondeu. - Estava tão chocado quando encontraram o corpo que teve que ser hospitalizado - acrescentou em voz baixa. - Nunca tinha visto um homem assim em toda a minha vida. E isso não é tudo - acrescentou entredentes. - Ela estava grávida de três meses. Era o seu primeiro filho.

- Meu Deus! - sussurrou Crissy. - É horrível.

- O marido dela nem sequer sabe se quer manter o rancho - acrescentou. - Um rancheiro chamado Handley estava a alugar as suas terras para criar touros, mas todos os animais morreram envenenados.

Crissy arqueou as sobrancelhas.

- Era ali que criavam o macho do qual provinha o nosso touro e o de Fred Brewster - murmurou em tom pensativo. - Sabes uma coisa? Cortaram a nossa cerca no pasto onde se alimentava o nosso touro e depois noutro pasto de onde fugiram algumas vacas. Examinei os cortes dos dois arames e encarreguei o capataz de tirar fotografias - disse a Cash. - Eram iguais. Estou convencida de que foi Jack Clark quem cortou as vedações de arame farpado, mas Nick telefonou a Duke Wright e este disse-lhe que não tem nenhuma carrinha preta com uma faixa vermelha.

- O que é que disseste? - perguntou Cash cautelosamente. Crissy hesitou.

- Hob Downey vive no limite norte dos nossos pastos. Viu uma carrinha preta com uma faixa vermelha nos lados e uma mancha de óxido no pára- choques dianteiro perto da minha cerca. Da carrinha desceram dois homens que se puseram a examinar a cerca. Hob não chegou a ver se a cortaram.

Cash puxou de um bloco e de uma caneta.

- Hob Downey - disse e comprovou com Crissy se tinha escrito bem o nome. - Tem telefone?

- Não. O coitado nem sequer se pode permitir a ter aquecimento. Tem um fogão a lenha. Vive da sua reforma, que não é grande coisa - deu-lhe indicações para chegar à casa de Hob. - Porque é que estás tão interessado?

Cash olhou-a e fez uma careta.

Não te posso dizer - disse por fim. - Desculpa. Não estou autorizado a falar disso.

Crissy sorriu.

- Ajudei-te a resolver um caso sem saber? Cash guardou o bloco.

- Se assim for, dir-te-ei quando puder - prometeu-lhe.

Crissy deu um gole no café.

- Foste muito grosseiro com a menina Moore - comentou. - Não gostas muito dela, não é?

- Faz-me lembrar a minha madrasta.

- A mim faz-me lembrar uma serpente ruiva - murmurou sem olhar para Cash. - Tenho a sensação de que já não vivo em minha casa. Não consigo entrar sem tropeçar num actor ou num cabo.

- Tens visto Judd ultimamente?

Crissy ficou tensa.

- Vem de Victoria todas as tardes, depois do trabalho, para buscar a menina Moore e levá-la ao hotel. Ela não gosta de ir no autocarro, como os comuns mortais

- acrescentou com um sorriso travesso.

Cash observou-a com curiosidade por cima da sua chávena de café, vendo a dor que escondia com a piada.

- Judd não é ingénuo. Tippy Moore é uma novidade. Acabará por se cansar dela.

- Achas que sim? - Crissy riu sem vontade. Nunca o vi tão animado.

- Todos os homens apreciam as mulheres bonitas.

- Tu não - murmurou e olhou-o intensamente nos olhos. - A menina Moore não conseguia acreditar como é que não caíste de joelhos assim que a viste.

- Conheci centenas de mulheres como ela ao longo dos anos - disse friamente. - São egoístas, vaidosas, egocêntricas. Deve ter vinte e seis ou vinte e sete anos e os seus dias de modelo estão contados. Se não tiver sucesso no cinema, dentro de poucos anos estará sem emprego.

- Não fiques tão contente - disse-lhe.

- A inteligência dura. A beleza não.

- Tem graça, isso foi o que Maude me disse no outro dia - recordoú enquanto acabava o seu café. - Mas não ponhas essa cara tão lúgubre - murmurou e pôs a mão no seu antebraço. - Vais assustar toda a gente.

Cash cobriu a mão dela com a sua e sorriu.

- És uma novidade na minha vida, sabes? Não me lembro de ter tido uma mulher como amiga.

Os olhos de Crissy brilharam.

- Todos precisamos de alguém com quem falar - disse a Cash. - Considera-me um homem com brincos e que gosta de roupas.

Cash arqueou uma sobrancelha.

- Conheço homens que usam brincos. Para dizer a verdade - acrescentou, - eu costumava usar um.

- Que emocionante! Porque é que o tiraste?

- O meu primo Chet não o considerava apropriado para o meu cargo de subchefe e temia que incitasse os agentes jovens a quebrar as normas do uniforme - explicou-lhe com contrariedade.

Crissy deu-lhe uma palmadinha na mão.

- Então está bem. Obrigada por me resgatares dos malucos da filmagem. Às vezes, apetece-me mudar-me para uma casa mais tranquila.

- Eles vão-se embora antes do Natal.

- Achas que sim? - suspirou. - Espero que não estejas enganado. Se tiver que fazer de Pai Natal, conheço uma modelo ruiva que vai descobrir uma cascavel no sapatinho.

Cash riu-se e ela também. De longe, pareciam falar com mais intimidade do que dois simples amigos. Judd Dunn viu-os do umbral e estacou. Dominavam-no sentimentos contraditórios, entre eles, uma urgência inexplicável de atirar Cash Grier contra a montra do café.

 

Christabel e Grier estavam tão absortos que não viram Judd até que este fez um ligeiro barulho puxando uma cadeira para a mesa e sentando- se escarranchado entre eles. Os dois olharam-no, surpreendidos.

Christabel sobressaltou-se, mas tratou de disfarçar. Estava furioso, muito furioso.

- O que é que fizeste agora? - perguntou-lhe com uma despreocupação estudada. Judd olhava-a encolerizado.

- O que é que disseste a Tippy? Estava a chorar quando lá fui.

Aquela pergunta directa deixou-a confusa e não conseguiu raciocinar. Por sua vez, os olhos de Cash deitavam faíscas.

- Crissy não Lhe disse nada. Ela aproximou-se e começou a meter-se comigo e eu cortei a conversa - disse Cash. - Não gosto de modelos. Se estava desgostosa, foi por minha causa, por isso não acuses Crissy.

Judd arqueou as sobrancelhas.

- O que tens contra ela?

- Não é nada pessoal.

Ficou a olhar para Cash com curiosidade.

- Tive que a trazer de volta ao hotel. Não conseguia trabalhar. O realizador assistente está furioso.

- Tenho pena dele - disse Cash sem emoção na voz.

- Podes dizer-lhe da minha parte que eu não encho o ego de meninas mimadas de nenhuma idade - pôs-se de pé. - Crissy, vou levar-te ao rancho. Quero investigar aquela pista.

Crissy pôs-se de pé, apanhada entre a zanga de Cash e a agitação de Judd, sem saída possível à vista. Lamentava não ter viajado para Jacobsville na sua carrinha.

- Podes voltar comigo - disse Judd, - e poupas a viagem a Cash.

Boa", pensou. Não ia ter pulmões quando chegasse. Vão ficar inundados com aquele perfume caro de Tippy, De certeza que o carro de Judd tresandava àquele perfume.

- Não me importo de a levar - insistiu Cash. Judd aproximou-se um pouco dele, sem pestanejar. Tinha um chapéu de abas largas inclinado sobre a testa e todas as linhas tensas do seu corpo reflectiam agressividade. Estava à procura de confusão.

Cash sabia disso e teve o bom senso para não permitir que a situação ficasse fora de controlo. - Está bem - disse de bom grado. - Crissy, telefono-te para a semana e alugamos um filme no meu dia de folga.

- Óptimo - disse, sorrindo-lhe. - Obrigada pelo almoço.

Cash encolheu os ombros.

- Gostei muito. Até logo, Judd.

Judd assentiu e Cash virou- se com indiferença, como se não percebesse a clara ameaça da postura de Judd.

Crissy sabia que ele estava furioso. Imaginava que se devia àquilo que Cash tinha dito à sua modelo. Pegou na sua bolsa e colocou-a ao ombro.

Judd voltou-se para ela e olhou-a com desaprovação.

- Podias ter mudado de roupa em vez de vir assim à cidade.

- Se não gostas da maneira como eu estou, então, vai tu mudar o gado de sítio, percorrer a cerca, verificar os bebedouros, limpar os estábulos, fazer.

Judd levantou uma mão e suspirou zangado.

- Sei que precisamos de mais mão-de-obra. Não gosto que tenhas que trabalhar.

- Sou filha de um rancheiro - recordou-Lhe. - Não estou a fazer nada que não tenha feito desde que o meu pai me montou num cavalo pela primeira vez.

Judd contemplou os seus grandes olhos castanhos e reparou nos círculos que os rodeavam, nas novas rugas de tensão do seu rosto.

- Estão a dar-te cabo dos nervos, não é? - perguntou-lhe. Crissy não teve que lhe perguntar a que é que ele se referia.

- Não pude mudar de roupa porque tinham a entrada do meu quarto bloqueada - disse. - Já tinha deixado o realizador assistente furioso por deixar os meus livros sobre a mesa da cozinha. Tive que os guardar na çalinha até gravarem a cena. É a minha casa e tenho que pedir permissão para usar a casa de banho. É claro que me estão a dar cabo dos nervos! - inspirou devagar. Mas precisamos do dinheiro, por isso não importa.

Judd deu a volta e saiu do café. Ela seguiu-o até ao seu todo-o- terreno preto. Esperou que ambos estivessem sentados, com o cinto posto, para arrancar e continuar a falar.

- Sim, precisamos do dinheiro - reconheceu em voz baixa. - Detesto ter que me lembrar, mas é a verdade. Quero que termines os teus estudos antes de procurares um trabalho - lançou-lhe um olhar eloquente.

- Devias estar a ir a festas, a dançar e a divertir-te, como as outras jovens da tua idade, em vez de fazeres as tarefas sujas do rancho.

- Estou a ver - assentiu. - Estás a incitar-me a cometer adultério para me poderes sacar uma pensão quando te divorciares de mim.

Judd hesitou e, depois, desatou a rir.

- Recuperarei o tempo perdido quando tivermos a anulação. Entretanto, sairei calmamente com Cash.

- A sério?

Virou a cabeça para ele.

- A sério o quê?

- Isso com o Cash. É calmo?

- Cash é meu amigo, Judd - disse-lhe. - Sei que achas que estou asquerosamente agarrada a ele, mas fiz uma promessa e penso cumpri-la até já não ser preciso.

Judd detestava o prazer que aquela afirmação produzia. Para ele, deveria ser igual que ela saísse com outros homens ou não. Ele queria a sua liberdade. Nem sequer Tippy era um risco nesse sentido. Christabel, por outro lado, era. Iluminava-o por dentro. Quando estava triste, ela animava-o com uma piada, um sorriso e com aquele humor extravagante que a caracterizava. Nunca tinha conhecido ninguém que o fizesse sentir-se completo. A ideia de perder tudo aquilo por causa de outro homem inquietava-o. Continuava a sonhar com ela em lingerie vermelha. Afastou essa ideia. Não pensava abrir essa caixa de Pandora. Recordou-se de algo que Cash tinha dito antes de ir embora.

- Que pista queria seguir Cash?

- Não faço ideia - disse Crissy com uma despreocupação resoluta. - Sacou de um bloco, anotou qualquer coisa e disse que tinha que seguir uma pista.

- Ah.

- Continuas sem acreditar que envenenaram o nosso novilho?

Judd assentiu e olhou para ela.

- Diz a Nick que arranque aqueles trevos que causaram a cólica. Se vamos alimentar o gado com erva, tem que ser só isso, erva.

- Está bem - disse Crissy e ficou em silêncio, desejando poder falar com ele como falava com Cash, sem que ele desfizesse as suas ideias como se fossem pó.

- Porque é que achas que o envenenaram? - perguntou Judd de repente.

Crissy queria contar-lhe tudo: as cercas cortadas, as vacas prenhas que quase perderam, aquilo que Hob lhe tinha contado, aquilo que ela tinha contado a Cash, o touro morto de Fred Brewster. Mas não tinha provas e não queria sentir-se vigiada cada vez que saísse a cavalo sozinha pelo rancho. Podia investigar sozinha aqueles incidentes, não era nada do outro mundo. Além disso, Judd já tinha demasiados problemas na cabeça com o assassinato brutal que estava a resolver. Sabia que ele tinha visto a vítima e isso deveria tê-lo afectado.

- Por causa de uma coisa que ouvi, nada maisdisse passado um minuto. - Certamente, não eram mais do que rumores relacionados com os irmãos Clark. Não gostam muito deles por aqui.

- A quem o dizes - corroborou, distraído. Seguiu pela estrada do rancho levantando pó. - Foram despedidos de meia dúzia de trabalhos neste último ano. Não ficam muito tempo no mesmo sítio.

- De onde é que eles são? - perguntou Crissy com curiosidade.

- Não faço ideia.

Quem sabe se não poderia comprová-lo ela mesma. Brincou com o botão da janela.

- Ainda tens aquela pistola de imitação de calibre 45 que dispara balas de calibre 22?

- Sim, porquê?

- E que tal se a limpasses e arranjasses algumas munições? Apetece- me praticar tiro ao alvo.

- Porquê?

- Hoje estás cheio de perguntas.

- E tu com poucas respostas.

- Cash ofereceu-se para me ensinar.

- Eu podia ensinar-te - replicou Judd, um pouco tenso. - Tenho mais pontaria que ele.

- Eu sei, mas ultimamente andas tão ocupado.

viu-o travar perante o enorme camião que bloqueava a entrada e contorná- lo pela erva.

- Eu não consigo fazer isso - comentou e fez uma careta ao ver a berma a que se esquivaram por apenas quatro centímetros. - Eu cairia na berma se tentasse.

- Com essa atitude, sem dúvida - disse Judd e parou a carrinha diante do alpendre da frente. Estava deserto, para variar. - Porque é que Cash odeia as modelos? - perguntou.

Crissy hesitou, mas a sua lealdade a Judd era mais forte que a sua lealdade a Cash.

- A sua madrasta era modelo - disse-lhe. - E acabou com a sua familia:

- Um duro golpe.

Crissy assentiu.

- Tão duro como ele - brincou.

Judd não sorriu. Esticou a mão e puxou uma madeixa de cabelo louro que se tinha soltado da trança de Crissy. Enrolou-a em torno do polegar e observou-a. Crissy investigou os seus olhos pretos devagar.

- A minha qualidade de vida diminuiria sem ti - disse. - Ainda mais se te casasses com uma imponente modelo de fama mundial.

Judd arqueou as sobrancelhas.

- Casar-me?

- Está bem, é uma palavra suja. Deus queira que nunca ponhas uma aliança que não esteja ligada a uma granada ou algo assim - pôs a mão no puxador da porta, com intenção de sair, mas Judd deslizou os dedos por trás da nuca de Christabel e puxou o seu rosto com suavidade, mas com firmeza, para ele.

- Eu sou casado - sussurrou e uniu ferozmente os seus lábios firmes aos dela durante um momento fugaz. Soltou-a e saiu do veículo enquanto ela ainda estava a recuperar da surpresa.

Judd abriu a porta de Crissy e pôs as mãos na cintura para a ajudar a descer. Susteve-a diante dele durante uns segundos carregados de intensidade.

- Não te afeiçoes muito a Grier. Não seremos casados muito mais tempo, mas continuarei a sentir-me responsável por ti. Grier é um homem difícil. Tem um passado difícil do qual não te pode falar. Terias mais hipóteses de domesticar um lobo.

A parte de não continuarem casados durante muito mais tempo era inquietante. Crissy tentou raciocinar. O que é que ele estava a dizer? Algo sobre Grier.

- Cash é meu amigo - disse-Lhe. Judd inspirou fundo.

- E meu. Mais ou menos. Mas. não te aproximes demasiado dele. Ele não é o que parece.

Crissy sorriu-Lhe.

- Está bem.

Judd olhou-a nos olhos, hesitante, baixou o olhar para os seus lábios e depois desviou-o. Girou-a com suavidade, antes de a soltar.

- Também me preocupa que estejas sozinha no rancho, com Maude e os rapazes como única companhia. Não era mau se Cash te ensinasse a atirar ao alvo. Ninguém sabe mais sobre armas do que ele - levantou o queixo. - Bem, excepto eu - acrescentou com uma voz grave e doce que acariciou as costas de Crissy como se fosse veludo. O seu corpo poderoso ficou ligeiramente rígido. - Christabel, de certeza que não queres que eu te ensine? - perguntou de repente.

- Não quero roubar o teu tempo livre, Judd - disse, sem lhe dar importância. - Trabalhas bastante e mereces um pouco de descanso.

- Estás a tentar dizer-me alguma coisa? - inquiriu com curiosidade.

- Na verdade, não. Excepto que gostas de passar os teus tempos livres com a menina Moore.

Ele olhou-a perplexo.

- Estás com ciúmes? - perguntou com uma voz suave, lenta, como se acabasse de considerar essa possibilidade. Christabel susteve a respiração. O seu coração parecia querer sair pela boca e não podia arriscar-se a denunciar os seus sentimentos. Não queria atrapalhá-lo fazendo-o sentir pena dela.

- É um casamento de conveniência, Judd, tu mesmo o disseste. Podes fazer o que quiseres acrescentou com franqueza. - Deixa que seja Cash a ensinar-me a usar uma pistola. Ele gosta de estar comigo.

Naquele momento, a pausa foi longa e intensa. Judd não disse mais nada, mas respirava de uma forma tão controlada que Christabel adivinhou que ele estava furioso. Não entendia porquê. Era evidente que estava caidinho por Tippy Moore. Porque é que se importava que ela tivesse aulas com Cash? Se calhar era um comportamento tipicamente masculino. Havia tantos rituais masculinos que as mulheres acabavam por nunca compreender.

- Não vou entrar - disse Judd asperamente - Vejo-te na próxima semana.

- Claro. Obrigada por me trazeres.

Crissy não voltou a cabeça enquanto subia o alpendre. Entrou directamente pela porta principal e tropeçou num cabo, caiu de cabeça contra uma cadeira e deitou a perder uma cena que estavam a gravar.

- Boa! Era o take número dezasseis! - resmungou, encolerizado, o realizador assistente, Gary Mays, enquanto a estrela, Rance Wayne e os actores secundários ficaram a olhar para ele. - Mulherzinha estúpida!

Christabel levantou-se com a ajuda de um operador de câmara e endireitou-se de seguida. Aproximou-se com passo enérgico do realizador assistente e trespassou-o com o olhar.

- Escute-me bem, tirano idiota e irascível! Esta é a minha sala! Passo os dias a andar com pés de lã, a tentar não estorvar e a culpa não é minha se esta casa parece um campo de minas com tanto cabo. Não havia nenhum letreiro a avisar que estavam a gravar! E fale educadamente quando se dirigir a mim, percebeu?

O realizador assistente proferiu uma exclamação e começou a gaguejar enquanto os actores, o técnico de som, o operador de câmara e os ajudantes riam de forma ruidosa.

Crissy ouviu uma gargalhada nas suas costas, grave, lenta e apreciativa.

- Tem calma, Gary - disse Judd ao realizador assistente. - Não convém fazer-Lhe saltar a tampa.

- Já vi - Gary riu, mas sem vontade. - Desculpe, menina Gaines - murmurou contrariado. Ela assentiu com rigidez. - Da próxima vez poremos um cartaz - acrescentou e virou-se.

Crissy olhou para Judd com curiosidade, porque surpreendia-a que ele tivesse entrado em casa. Não sabia que ele a tinha visto cair e que tinha entrado a correr para se certificar que ela não se tinha magoado. Naquele momento estava a olhar para ela com um estranho fulgor nos seus olhos negros.

- Estás bem? - perguntou Judd em voz baixa e aproximou-se para a observar. Ela assentiu, sentindo-se lisonjeada pela sua preocupação.

- Um pouco desconcertada, nada mais. Tropecei no cabo.

Judd também assentiu. Mas a maneira como ele a olhava naquele momento era diferente. Nova. Nada familiar.

Crissy ficou a pensar naquele olhar toda a noite, sem chegar a entendê-lo.

Tippy Moore continuava furiosa e não era muito diplomática. Na manhã seguinte, estava à espera de Crissy antes que ligassem os geradores.

- Diz a esse. a esse patético polícia de aldeia que irei calçar os sapatos que me apetecer - resmungou com o olhar em chamas. Crissy abriu muito os olhos.

- Desculpe?

- É claro que sei andar de saltos altos - prosseguiu Tippy, sem se afastar. - E proibo-o que me dirija a palavra a partir deste momento, nunca mais. Só estava a ser amável com ele. Não sei para quê!

Crissy continuava demasiado surpreendida para responder. A modelo estava verdadeiramente furiosa.

- E não estava a meter-me com ele! - continuou Tippy Moore a dizer. - Só estava a ser educada. Fez com que eu me sentisse como se tivesse uma doença contagiosa. Pois não estou interessada em nenhum polícia de aldeia, quando posso ter o homem que me apetecer! Diz-Lhe!

A reacção da mulher à atitude de Cash era curiosa.

- Cash não gosta muito de mulheres - disse Crissy, tentando suavizar o golpe. Não podia explicar- lhe a reacção de Cash, não lhe competia a ela fazê-lo.

- Gosta de ti - foi a resposta áspera de Tippy, seguida de um olhar que dizia claramente: Vá- se lá saber porquê.

- Sou apenas uma rancheira - disse Crissy suavemente. - Não visto roupa bonita, nem o ameaço de ne nhuma maneira. Somos amigos.

A modelo continuava zangada.

- Aposto que te habituaram mal desde pequena - resmungou distraidamente. - Estavam pendentes de ti a todas as horas e davam-te tudo o que querias. A menina do papá - acrescentou com sarcasmo.

Crissy ficou tensa.

- Num rancho ninguém se habitua mal, menina Moore - replicou friamente. - Não há tempo. Toda a gente contribui, ou o negócio vai à falência.

- Porque é que Judd passa tanto tempo aqui? - perguntou de improviso. Crissy arqueou as sobrancelhas.

- Ele é dono de metade do rancho. Dirigimo-lo entre os dois e os únicos lucros que entram são os de Judd. e o que recebemos por vos deixar gravar o filme aqui.

- Então, é por isso. - murmurou Tippy devagar e corou. - Pensava que os Rangers do Texas ganhavam muito dinheiro. São especiais.

- Mais do que se imagina - respondeu-Lhe Crissy, defendendo o seu marido. - Mas não ganham ordenados de príncipe e um rancho de gado acarreta mùitas despesas.

- E porque é que ele não vende a parte dele?

- Porque eu não a posso comprar - respondeu Crissy. - Isto pode não lhe parecer grande coisa, mas está na minha familia e na de Judd, há mais de um século. Nem ele nem eu o venderíamos a não ser que es tivéssemos a morrer de fome.

- Não passa de um pedaço de terra com um bocado de erva em cima.

Crissy olhou-a friamente.

- A família é importante. A tradição, também. O dever, a honra, e a responsabilidade. O dinheiro, não. acrescentou com um desprezo inconfundível na voz, enquanto olhava para a modelo de cima a baixo de forma ofensiva.

Tippy levantou o queixo com altivez.

- Estás apaixonada por Judd?

- É meu sócio - disse Crissy asperamente.

- Fico contente. Não tenhas ilusões com Juddacrescentou Tippy. - Tenho planos para ele.

- Para quê? Para ser seu criado? - perguntou Crissy, demasiado zangada para escolher melhor as palavras. - Ou apenas colecciona homens e os valoriza pelas prendas que Lhe dão? Suponho que uma mulher como você nunca se poderia conformar com um homem só.

Tippy ficou gelada e colocou as mãos nas ancas.

- Não sabes nada sobre mim!

- Nem a senhora sobre mim! - foi a resposta. - Não volte a dar-me avisos sobre Judd. Conhecemo-nos desde que eu usava sapatos de verniz. Não pense que o arrancará da minha vida por causa de uma amizade de algumas semanas, menina Moore. Uma cara e um corpo bonito podem distraí-lo, mas ele não é parvo. Ele consegue ver a fealdade que se esconde atrás desse esplendor.

Tippy ficou sem respiração. Depois, sorriu friamente.

- Se isto é um concurso, já o perdeste - disse-lhe com suavidade, mas lançando fogo pelos seus olhos verdes. - Judd fará o que eu quiser. Estão apertados de dinheiro, não é? Então, como pôde comprar-me isto?

A modelo levantou a mão e mostrou-Lhe um anel de esmeralda que deveria custar centenas, se não milhares, de dólares. Crissy sentiu náuseas. Judd não era dado a comprar presentes, excepto no Natal, e era sempre algo útil e não superficial. No ano passado tinha dado a Crissy um casaco de couro. Para comprar algo tão caro como aquele anel devia estar loucamente apaixonado.

Crissy não disse mais nada. Tinha o coração em fanicos. Baixou os olhos e virou-se. Regressou a casa com as costas bem direitas.

Atrás dela, a ruiva fez uma careta e cerrou os seus belos lábios. No fundo, doía-lhe ver a jovem afastar-se com o seu orgulho ferido, o que era visível pelo seu porte rígido.

Interromperam a gravação ao fim de alguns dias para transferir a equipa para a cidade e filmar lá durante uma semana. Christabel podia desfrutar da casa temporariamente. excepto pelos materiais que ti nham deixado e dos quais tinha que se desviar.

Judd não regressou até à quarta-feira seguinte e veio com Tippy. Crissy acabava de selar uma égua, e estava a tirá-la do celeiro quando pararam o carro diante do alpendre. Tinha guardado uma espingarda na bolsa que estava pendurada na sela. Estava de botas, casaco e calças de ganga e com um chapéu Stetson preto e velho no alto da sua cabeça loura.

- Onde vais? - perguntou-lhe Judd, enquanto ajudava Tippy a sair do todo-o-terreno. A modelo tinha um vestido verde de seda que parecia simples e que devia ter custado um dinheirão. Comparada com Christabel, parecia uma rainha. O vestido fazia conjunto com o anel de esmeralda e diamantes que Judd lhe tinha comprado. O brilho que o anel tinha feria o coração de Crissy.

- Vou percorrer a cerca - disse com uma voz inexpressiva. Não acrescentou que tinham cortado outra vedação de arame farpado. Nick tinha acabado de lhe telefonar para o telemóvel a contar-lhe. Estava à espera dela com dois dos vaqueiros.

- Em pleno dia? - perguntou Judd, com o sobrolho franzido. - Viemos almoçar. Faz-nos companhia.

- Podem almoçar com Maude - disse-Lhe e montou agilmente sobre a sela. - Tenho trabalho para fazer.

- Porque é que não estás nas aulas hoje? - insistiu Judd, chateado com a sua atitude sombria.

- A minha professora de matemática tem um filho doente e a de inglês cancelou a aula para ir a um funeral.

Judd reparou na espingarda e franziu o sobrolho.

- E essa arma?

Crissy tomou as rédeas com as suas mãos enluvadas e olhou-o zangada. Tippy estava de pé junto a ele, muito perto.

- Levo sempre uma espingarda. Os homens viram um lobo - mentiu.

- Não podes matá-lo - disse Judd asperamente. - É contra a lei.

- Eu sei - replicou, - mas posso assustá-lo com os tiros se ameaçar o gado.

- Comeste?

Meu Deus, como era insistente.

- Tomei o pequeno-almoço - disse-lhe. - De qualquer forma, não costumo almoçar. Tenho que me ir embora.

Fez girar a sua égua, sem cumprimentar nem olhar para Tippy e afastou-se antes que Judd pudesse dizer mais alguma coisa.

- Não me agrada - resmungou. - Passa-se alguma coisa. Ela está estranha.

A modelo pendurou-se no seu braço e forçou um sorriso.

- Adorava comer qualquer coisa, Judd - disse-lhe.

- Vamos. As adolescentes são muito volúveis. Eu era, na sua idade.

- Christabel tem vinte anos. Quase vinte e um. Aquilo foi uma surpresa. Tippy tinha-a tomado por uma miúda. Viu a sua rival com novos olhos. O anel que trazia tinha- a feito sofrer. Claro que ela não se devia importar com isso.

- Ainda é muito jovem - insistiu. - Está na idade em que se esquece facilmente - acrescentou, mais para seu próprio benefício do que dele - Vamos. Dá-me de comer.

Judd estava a ver Christabel a afastar-se no cavalo e sentia-se vazio. Não o tinha olhado nos olhos. Não lhe tinha sorrido. E porque é que precisava de uma espingarda? Porque é que ia verificar a cerca sozinha?

Queria respostas. Assim que deixasse Tippy em Jacobsville, no sítio onde estavam a gravar, regressaria para pedir explicações a Christabel.

Crissy encontrou o seu capataz, Nick, e Brad, um dos seus três homens de trabalho a tempo parcial, ajoeLhados junto a um touro no pasto onde tinham cortado a cerca. Temendo o pior, desmontou e ajoelhou-se junto do animal. Era um touro Hereford, o melhor que tinha. Estava morto.

- Maldição! - resmungou.

- Sinto muito - disse Nick. - Pensava que estes touros estariam a salvo. Devia ter adivinhado.

- A culpa não é tua, Nick. Mas desta vez, quero respostas. Quero que venha um veterinário e que se tire uma amostra de sangue. Se tiver sido envenenado, como os outros, quero provas. Deixo as aulas e vou procurar um trabalho para pagar os seus honorários, se for preciso.

- Vou chamá-lo agora mesmo - tranquilizou-a. Crissy deu uma palmadinha ao touro na cabeça, sentindo vontade de chorar. Tinha feito tantos planos para ele no seu novo programa de cruzamentos. Via-o tão indefeso, tão vulnerável.

Levantou-se e aproximou-se da vedação de arame farpado. O método com que a tinham cortado era o mesmo das duas cercas anteriores. A mesma pessoa. Suspirou com fúria e impotência. Alguém tentava retirá-los do negócio. Tinha que ser Jack Clark, mas como poderia prová-lo?

Nick guardou o telefone e aproximou-se dela.

- O veterinário disse que virá por volta das cinco. Vai telefonar-me quando sair para vir cá. Devíamos tirar fotografias da cerca cortada - acrescentou. - Guardei os outros arames, como me pediste. E devias contar a Judd ou pelo menos, à polícia local - disse com firmeza. - É perigoso cavalgares por aí sozinha, mesmo com a espingarda.

Crissy sabia que ele tinha razão, mas custava-lhe reconhecer. Além disso, não ia fazer o que Nick Lhe pedia.

- A partir de agora, vou verificar a cerca com um dos homens - mentiu com convicção.

- Muito bem - Nick acompanhou-a com a sua égua. - Trarei um rolo e usarei a máquina fotográfica do barracão para tirar fotografias do corpo.

- Ouve, Nick. Judd já tem bastantes problemas com o caso que está a resolver em Victoria. Não quero preocupá-lo com isto.

- Ele é dono de metade do rancho - recordou o capataz com firmeza. - Tem direito de saber o que se está a passar.

- Contei-lhe há várias semanas, mas ele não me quis escutar - replicou Crissy. - Pensa que eu estou a inventar para chamar a sua atenção. Além disso, está tão embevecido por essa modelo ruiva que nem sequer me ouve. - engoliu em seco. - Sinto muito. Tem muitas coisas na cabeça. Eu também.

Nick olhou-a com compaixão, mas estava preocupado e notava-se.

- Se ele me perguntar, Crissy, tenho que lhe dizer. Ela encolheu os ombros.

- Faz o que deves, Nick. Mas só se te perguntar. Combinado?

- Combinado - sorriu.

- E quero saber o que disse o veterinário.

Claro!

Cavalgou de regresso ao rancho. Mas, a meio do caminho, desmontou debaixo de uma nogueira e sentou-se ao pé da árvore. Não pensava voltar até que Judd e a sua namorada não tivessem terminado o almoço e ido embora. O dia ia de mal a pior, pensou desolada.

 

Quando Crissy voltou a casa, tirou a sela da sua égua e devolveu a espingarda ao vaqueiro que lha tinha emprestado. Judd e Tippy já se tinham ido embora.

Maude estava na cozinha, a refilar com a desordem dos materiais de filmagem no meio dos quais tinha que trabalhar. Quando Crissy entrou, encontrou-a diante dos lava- loiças.

- Estavas a esconder-te, eh? Quem me dera que tivesses tido a amabilidade de me levar contigo, em vez de me deixares aqui.

- Foi assim tão terrível?

- Terrível? - a mulher pôs- se a adoçar as coisas. Convenceu Judd que estás chateada porque ele lhe está a prestar muita atenção a ela. Acha que és muito imatura.

- E eu acho que ela é uma chata - replicou Crissy asperamente. Tirou o chapéu antes de se refastelar numa cadeira, diante da mesa.

- Judd comprou-lhe um anel de esmeralda. E se não vi mal, também tem vários diamantes.

Maude franziu o sobrolho.

- Judd comprou-Lhe um anel? Com que dinheiro?exclamou. - Não tem tanto.

- De certeza, com as suas poupanças - disse Crissy aflita. - e o que é que eu posso dizer? Não é justo que tenha que gastar o último centavo que ganha para manter este rancho de pé.

- Pequena. - disse Maude, fazendo uma careta. Sinto muito. Eu reparei no anel, mas não sabia. De certeza que foi Judd que o comprou?

- Ela disse que sim. Não vou perguntar a Judd, se é isso que estás a sugerir. Já me olhou de lado por eu querer que Cash me ensine a usar uma pistola.

Maude hesitou.

- Ele não gosta muito de Cash.

- Disse que há coisas no passado de Cash que não me pode contar - corroborou Crissy, - Mas eu não estou a pensar em casar-me com ele. É meu amigo.

- Eu acho que ele queria ser algo mais.

Crissy sorriu com tristeza.

- Sou casada. Claro que sou a única a quem isso interessa.

- Tippy Moore não sabe.

- E de que é que servia que o soubesse? - conjecturou Crissy. - As mulheres como ela não vêem obstáculos no seu caminho. Podem ter o homem que lhes apetecer, ela própria mo disse - acrescentou com um sorriso de gozo.

- Cash Grier, não - replicou Maude.

Crissy riu, mas sem vontade.

- Ainda bem que há um homem que não se deixa cativar por aquele sorriso venenoso.

Maude olhou a jovem com preocupação.

- Os homens querem sempre ver algo belo, mas quantos quereriam casar- se com um rosto cobiçado por muitos outros? Como poderia ter a certeza de que lhe seria fiel?

- Se ela gostasse dele, seria.

Maude soprou.

- Ela gosta das bugigangas e não vê nada além dos seus próprios atributos, como é que vai valorizar os de outra pessoa? Além disso, é rancorosa - acrescentou Maude com firmeza. - Afastar-te-á de Judd o mais possível.

- Judd não me ama - disse Crissy com um suspiro.

- Nunca me amou - desprezou o beijo longo e profundo. No fim de contas, não passou de uma lição. Então, recordou o estranho beijo rápido que ele lhe tinha dado no todo-o-terreno depois do almoço com Cash. Continuava sem compreender. É claro que Judd estava um pouco estranho ultimamente.

- Onde estavas?

- Fui ver o meu touro Hereford morto - foi a triste resposta de Crissy. - Tenho quase a certeza que o envenenaram, como ao nosso jovem Salers. A cèrca estava cortada, como nas outras duas ocasiões.

- E não contaste a Judd? - exclamou Maude.

- Já sabes que vai pensar que estou a inventar. Tippy Moore vai ajudá-lo a pensar que era outra táctica para eu atrair a sua atenção.

- Se o Nick te apoiasse, não.

- Diria que tinha aliciado o Nick. Não. Desta vez preciso de provas.

Maude mordeu o lábio.

- Linda, isto começa a tornar-se perigoso. Não devias cavalgar sozinha, mesmo levando uma espingarda.

-TueoNick...

- Temos razão e tu sabes. Crissy suspirou devagar.

- Contarei a Cash Grier - disse por fim. - É a única pessoa que acreditará em mim sem reservas.

Maude hesitou.

- Judd é dono de metade do rancho.

- Eu sei, Maude - respondeu Crissy. - Mas não passa de um touro morto. Ele está a investigar o assassinato de uma mulher grávida e isso já é bastante duro para ele.

Antes que Judd pudesse voltar ao rancho para interrogar Crissy, Leo Hart telefonou para saber uma certa informação sobre o pai do seu touro Salers. Disse que o homem de Victoria que os criava, Jack Handley, tinha despedido os irmãos Clark e tinha perdido o seu touro Salers campeão e quatro touros jovens filhos daquele macho em circunstâncias misteriosas. Ao saber que o touro de Christabel tinha morrido, encarregou-se de fazer a autópsia a um dos seus exemplares e encontraram veneno. Tinha feito umas investigações e descobriu um padrão de roubo de gado e vinganças dos irmãos Clark que remontava há dois anos atrás. Pelo menos quatro rancheiros tiveram problemas similares com eles. Os Clark eram suspeitos da morte dos touros de Handley, mas tinham álibis. John tinha estado em Jacobsville a visitar o irmão e tinha uma testemunha, um homem chamado Gould que jurou que eles estavam com ele num rodeo quando tiveram lugar os envenenamentos. De facto, Gould trabalhava para Handley e tinha fama de vaqueiro honrado que nunca causava problemas.

Crissy contou o sucedido a Cash durante uma das suas tardes de pesca no tanque de trutas dos arredores da cidade. Era um gosto que ambos partilhavam. e que Lhes proporcionava um bom jantar, quando pescavam alguma coisa. O tanque permanecia aberto até ao dia trinta e um de Outubro e estava quase. As tardes eram frescas, soalheiras e agradáveis naquela época do ano.

- Leo disse que tentou contar a Judd, mas que ele estava com pressa e não tinha tempo para o ouvir - disse enquanto estavam sentados com os pés pendurados no cais, vendo as suas bóias flutuar. Cash olhou-a e endireitou o seu fio de pesca.

- Tiveste mais algum problema?

Crissy negou com a cabeça.

- Sei que os Clark são culpados. Só desejava poder provar.

- Recebemos uma informação sobre uma carrinha preta com uma faixa vermelha, como a que Hob Downey viu estacionada perto da tua vedação de arame farpado, relacionada com o assassinato ocorrido em Victoria. Mas percorremos todos os ranchos de Jacobsville e não encontrámos nenhuma que correspondesse a essa descrição. Se era dos Clark, podem ter-se desfeito dela depois que Downey a viu.

O veterinário confirmou que envenenaram o touro Hereford. Crissy tinha dito a Cash, mas não a Judd.

Cash ficou a olhá-la um longo bocado, depois, voltou a pousar o olhar no lago.

- Se envenenaram os teus touros, vamos apanhá-los.

- Devíamos perguntar a Hob se voltou a ver aquela carrinha preta em algum lado desde entãocomentou Crissy. Pode ser que se tenha lembrado de algo mais.

- Falaste com ele sòbre o último touro envenenado?

- Não - confessou. - O Hereford não estava num pasto próximo da sua casa. Não pode ter visto nada.

- Que tal se passássemos a vê-lo no regresso ao rancho e falássemos com ele de qualquer forma?

Crissy sorriu.

Se apanharmos mais alguns peixes, podíamos dividi-los com ele. Ele adora truta grelhada. O meu pai e ele costumavam pescar juntos.

- Não falas muito do teu pai - comentou Cash. Crissy respirou fundo.

- Quando estava sóbrio, era um homem maravilhoso.

Mas as cicatrizes que me deixou são profundas, física e emocionalmente. Às vezes, dói-me recordar.

Cash limitou-se a assentir, mas o seu semblante dizia tudo.

Meia hora depois, guardaram as seis trutas numa geleira e dirigiram- se para a modesta casa de Hob Downey.

A sua velha carrinha continuava estacionada onde Crissy a tinha visto no dia em que se aproximou para falar com ele. Franziu o sobrolho. Costumava ir à aldeia comprar comida, pelo menos, uma vez por semana. Que estranho que a tivesse deixado no mesmo sítio! E também Lhe chamou a atenção outro detalhe. A porta principal estava fechada, mas a mosquiteira encontrava-se entreaberta. Hob tinha-a sempre fechada para poder abrir a de madeira sem que os seus gatos entrassem a correr.

- Que estranho - murmurou enquanto se apeavam da carrinha de Cash. - Ele nunca deixa a mosquiteira aberta.

Antes de terminar a frase, Cash, que a precedia, experimentou abrir a porta de madeira e esta cedeu. Deteve-se em seco e ficou rígido.

Que se passa? - perguntou Crissy.

É melhor esperares aqui.

Crissy soprou.

- Não sou nenhuma criança - murmurou e seguiu-o para o interior da casa.

Notou um cheiro, um cheiro doce e nauseabundo. Era desconhecido para ela e só lhe deu importância enquanto entrou na sala, onde se encontrava Cash.

A cena que a aguardava era tão horrenda que o seu estômago deu voltas. Virou-se e saiu a correr para o alpendre. Vomitou o pequeno- almoço e o almoço e ficou inclinada sobre a varanda, como uma boneca de trapos, enquanto as lágrimas de comoção, indignação e dor banhavam o seu rosto pálido.

Ouviu vagamente Cash a chamar uma ambulância, um médico forense e a polícia. Também o ouviu telefonar para a sede dos Rangers de Victoria.

Cash fê-la descer do alpendre e conduziu-a à sua carrinha. Abriu a porta do passageiro e sentou-a. Segundos mais tarde, passou-lhe uma garrafa prateada.

- Não cheires, não penses no que é. Limita-te a beber

- disse com firmeza e aproximou-a dos seus lábios. Crissy deu um longo gole, engasgou-se e chorou mais um pouco.

Cash aproximou a cabeça loura no seu peito e acariciou-lhe o cabelo enquanto murmurava palavras que ela nem sequer ouvia.

Chegou a ambulância, seguida por um ajudante do xerife. O médico forense apareceu cinco minutos depois. Sinalizaram o jardim com fita amarela.

- Porque é que fazem isso? - perguntou Crissy a Cash.

- Porque, até que façam a autópsia, não poderão determinar a causa de morte - disse em voz baixa. Pode ter sofrido um enfarte ou uma apoplexia, mas também pode ter sido homicídio. Havia uma barra de metal junto ao corpo e o osso hibide da garganta estava partido - acrescentou, com uma precisão profissional.

- Vão procurar impressões digitais pela casa e recolher todas as pistas que encontrarem, desde impressões digitais das mãos e dos pés até filamentos de roupa.

Crissy ficou a olhar.

- Quem iria querer matar o pobre Hob? - exclamou.

Cash deu-lhe a mão.

- Viu uma carrinha e dois homens suspeitos junto

da tua cerca.

- Mas isso não passava de uma vedação de arame farpado cortada, nem sequer roubaram nada! - exclamou. - Hob não sabia dizer quem eram e, ainda que soubesse, eles não iam matar ninguém.

Cash não disse nada. Tinha o olhar cravado na casa na qual se concentrava toda a actividade. Passado um minuto, deixou Crissy na carrinha e foi falar com o médico forense.

Minutos depois, Judd apareceu no seu todo-o-terreno, seguido de uma furgoneta da polícia.

Cash foi ao seu encontro. Judd lançou um olhar para a carrinha onde Christabel estava sentada e hesitou, mas Cash indicou-Lhe que subisse ao alpendre. Entraram na casa com os outros agentes e polícias e demoraram alguns minutos a sair.

Christabel tinha tomado três longos goles de conhaque da garrafa de Cash. O álcool tinha-a serenado, mas duvidava que pudesse voltar a fechar os olhos sem ver o que tinha restado do pobre Hob Downey. Era evidente que estava morto há vários dias, a julgar pelo estado de decomposição do corpo. Mal o reconhecia.

- Christabel.

Ouviu a voz grave de Judd como se lhe chegasse através da névoa. Judd levantou o rosto e observou-a com um olhar preocupado.

- É o choque - disse-lhe Cash em tom lúgubre. Nunca viu nada parecido. Vou levá-la ao hospital para que lhe façam um check-up.

- Nem pensar - disse Crissy com voz rouca. - Eu estou bem.

Judd fez uma careta.

- Não tinhas que ver isto - disse asperamente e olhou para Cash zangado.

- Ele tentou deter-me - defendeu-o Crissy, - mas eu não lhe fiz caso - pôs-se de pé, com uma certa hesitação e passou a garrafa a Cash.

Respirou de forma entrecortada.

- O que é que isto tem? - perguntou Judd a Cash, indicando a garrafa.

- Sumo de laranja - disse Crissy com firmeza. Não pode ser conhaque, porque sou menor de idade e Cash nunca violaria a lei por mim.

Judd sabia que Cash a tinha violado, mas as circunstâncias eram extremas. Não era o momento de ser picuinhas.

- Está bem. Cash, leva-a a casa. Eu não posso ir-me embora enquanto a polícia não terminar o seu trabalho

- parecia ficar chateado por ter que a deixar ir com Cash. Christabel ficou a olhar para ele.

- É um homicídio, não é? - perguntou em voz baixa

- Achas que alguém o matou!

Judd desviou os olhos.

- Tenho que verificar todas as possibilidades - trocou um olhar com Cash. - Assim que se perdem as provas, não se podem recuperar. Tira-a daqui, Cash.

Crissy começou a responder e Cash hesitou. Judd rodeou Crissy, levantou-a com suavidade e voltou a sentá-la no carro. Apertou-lhe o cinto de segurança. Crissy conseguia sentir o calor do seu corpo sólido. Sentia-se a salvo. Queria abraçá-lo com força. Então, lembrou-se do anel que Judd tinha comprado a Tippy. A ela nunca lhe tinha oferecido nada tão pessoal. O seu suspiro foi audível.

Judd viu a expressão do seu rosto e franziu o sobrolho com curiosidade. Agarrava-lhe os braços com firmeza.

- Fica com Maude até que eu chegue, pequena - disse com tanta ternura que Crissy teve vontade de chorar. - Não saias de casa e procura não pensar no que viste.

Sentia a dor no fundo da sua alma.

- Tu tens que ver coisas assim todos os dias, não é?

- perguntou. Judd assentiu devagar. Crissy pôs a mão nos seus lábios e pressionou-os com suavidade. Sinto muito - sussurrou. Falhou-Lhe a voz e mordeu o lábio inferior para se acalmar.

Judd respirou fundo.

- E eu - aproximou a palma da mão de Crissy dos seus lábios e beijou-a avidamente. - Cortava o meu braço para impedir que visses isto - disse.

- Não faz mal - disse Crissy com voz rouca e tentou sorrir. - Consigo superar. Tu trata de encontrar quem lhe fez isto, está bem?

Judd respirou fundo. Christabel tinha fibra. Sorriu.

- És dura de roer, Christabel Gaines - murmurou. Está bem. Apanharemos o assassino. Vai para casa!

Virou-se sem acrescentar mais nada e regressou ao alpendre.

Cash sentou-se atrás do volante e lançou um olhar rápido a Crissy enquanto apertava o cinto de segurança.

- És corajosa, Crissy Gaines - disse com orgulho. Qualquer outra mulher teria um ataque ou teria desmaiado. Tu só esvaziaste o estômago.

Crissy tentou sorrir debilmente.

- Aposto que tu nunca vomitaste.

- Perdias a aposta - arrancou e saiu para a estrada.

- O primeiro homicídio que investiguei enquanto polícia novato teve lugar numa casa fechada em pleno Verão. Havia três vítimas, dois homicídios e um suicídio e estavam ali há uma semana: Desmaiei - dirigiu-Lhe um sorriso afectuoso. - Não imaginas o que foi voltar ao trabalho no dia seguinte.

- Sim, imagino. Sei pelo Judd que os polícias têm um sentido de humor curioso.

- Certo - riu Cash. - Encontrei um esquilo morto na minha secretária, outro na bagageira do meu carro-patrulha, outro pendurado no puxador da porta do meu apartamento quando voltei para casa. Não é preciso dizer que não voltei a mostrar a minha fraqueza.

- Eu também não o farei - repôs Crissy com firmeza, abraçando-se. - A primeira vez de qualquer coisa é sempre mais difícil, não é?

- Sim - Cash olhou-a. - Mas consegue-se suportar. Consegue-se suportar muitas coisas. Só tens que te habituar.

Crissy apoiou a cabeça nas costas do assento.

- Achas que mataram Hob, não é, Cash?

Este ficou em silêncio durante um minuto.

- Agora, não acho nada. Como disse Judd, há que analisar todas as possibilidades - olhou-a. - Mas, por enquanto, não cavalgues sozinha, mesmo que vás armada.

Crissy assentiu, mas não o olhou nos olhos. Judd tê-la-ia obrigado a prometer. Cash não a conhecia suficientemente bem.

- Sentes-te melhor?

- Sim, estava a pensar no vosso trabalho - mentiu.

- Como conséguem ver coisas assim, dia após dia, ano após ano?

- São os ossos do ofício. Tentas pensar na vítima e não na tua reacção quando a vês. E em apanhar o homicida e metê-lo atrás das grades, para que não volte a matar. Com sorte, não tens que ver cenas como aquela muito frequentemente - suspirou. - Mas alguns polícias não o superam, sobretudo, os que se negam a reconhecer que isto os afecta. Acham que nem sequer deveriam sentir náuseas. Muitos deixam o trabalho. Outros convertem-se em alcoólicos ou suicidas.

Crissy assentiu. Judd já lhe tinha falado de tudo isso. Olhou para Cash.

-Tu não bebes.

- De vez em quando - disse, encolhendo os ombros. - Nunca o suficiente para perder o controlo.

- Judd também não. Cash sorriu devagar.

- Judd é um desses cabeças-duras que não querem reconhecer a fraqueza. Nunca matou um homem. De facto, duvido que tenha tido que disparar contra alguém na vida.

- Disparou sobre um homem para a perna quando este tentava esfaquear outro agente, quando trabalhava no corpo de polícia de Jacobsville. O homem sobreviveu e nem sequer ficou coxo.

- Então, Judd teve sorte.

Crissy ficou a contemplar o semblante duro de Cash.

- Ih já mataste homens.

Todo o seu corpo ficou rígido. Não olhou para ela. Crissy queria dizer mais alguma coisa, uma palavra de

consolo, mas Cash parecia ter ficado petrificado. Moveu-se incomodada, envergonhada por ter dito algo tão pessoal.

Virou a cabeça para a janela.

- Hob não tem familia.

- O condado assumirá as despesas do funeral, tenho a certeza - disse, passado um minuto. - Pelo menos, terá um enterro decente.

- Pobre homem. Não tinha nada. Achas mesmo que alguém seria capaz de o matar só porque ele viu cortar uma cerca?

- Não sei. Em qualquer caso, pelo menos, morreu depressa. Não sofreu.

Crissy suspirou.

- Assim espero. A sério.

Judd passou pelo rancho no regresso a Victoria. Christabel estava na cozinha, com Maude, sorrindo e ajudando-a a fazer pão e tartes.

- Estou bem - assegurou- lhe. - Não é preciso preocupares-te comigo.

Judd hesitou, observando o seu rosto atentamente. Continuava um pouco pálida.

- Quando viste Hob pela última vez?

- Há coisa de uma semana - disse e recordou-se porque é que não lhe podia contar a sua conversa com Hob.

- E ele estava bem?

- Como sempre - disse e lançou um olhar assassino a Maude, que estava prestes a dizer alguma coisa. Até disse a Maude que o achei melhor do que nunca, não foi, Maude? - acrescentou com ênfase. A mulher fez uma careta.

Sim. Pobre velho. Era um bom homem.

- Se estás bem, vou voltar ao trabalho - disse a Christabel. - Mas ainda estás afectada.

Christabel tentou sorrir para ele.

- Uma coisa destas afectaria qualquer uma.

- Certamente. Não te afastes de casa durante um tempo. Deixa que Nick e os rapazes se encarreguem dos pastos.

- Como tu quiséres, Judd - acedeu de bom grado. Judd olhou-a com intensidade.

- Estou a falar a sério - olhou para ela. - Promete-me - acrescentou deliberadamente.

Crissy ficou pensativa um minuto.

- Prometo não me afastar de casa.

- Está bem.

Olhou-a uma última vez, despediu-se de Maude com uma inclinação de cabeça e saiu pela porta de trás.

- Mentirosa - resmungou Maude.

- Algumas cercas ficam fora de casa - replicou. Além disso, terei que ajudar o Nick e os rapazes a verificá-las. Temos pouco pessoal desde que Larry se foi embora e Bobby só trabalha a tempo parcial. Direi a Cash - prometeu.

- Se Judd sabe. - avisou Maude.

Dois dias depois, Crissy cavalgou até ao pasto onde tinham deixado um dos quatro touros Hereford que lhes restavam. Tinham-nos separado, confiando poder prevenir outro envenenamento. Levava uma espingarda emprestada e o telemóvel de Cash numa bolsa funda do cinto. Cash tinha-a obrigado a usá-lo e tinha encarregado Nick de não se afastar dela. Mas Nick não conseguia controlá-la mais do que Cash e, naquela ocasião, Crissy esteve prestes a pagar caro.

Exactamente quando passava ao largo de um enorme carvalho perto da sua vedação de arame farpado, apareceu um homem.

Crissy tinha rrflexos. Quando o homem a interceptou, ela já tinha sacado da espingarda. Não a apontava ao recém-chegado, mas tinha-a apoiada nas pernas e dizia-lhe com os olhos que dispararia à menor provocação.

- Vais disparar contra mim, chefe? - disse Jack Clark olhando-a do caminho de terra.

- Assim que deres um passo na minha direcçãoassentiu sem pestanejar. - Vi-te a chegar desde. a estrada - disse e indicou a via que se encontrava somente a umas centenas de metros. - Quero que deixes de espalhar rumores sobre mim em Jacobsville - acrescentou com frialdade. Não te roubei nada. Comprei umas botas porque estraguei as minhas quando estava a fazer fardos com aquele vosso tractor velho. Estavam a dever-me aquelas botas.

- Se nos tivesses pedido, ter-te-iamos dado outras. replicou, assustada e enojada, mas decidida a disfarçar.

Segurou a espingarda com força. - Não fizeste isso. Compraste as botas mais caras que encontraste e puseste na conta do rancho.

- Não é razão para despedir um homem sem o ouvir primeiro.

O olhar de Jack Clark gelava-lhe o sangue. Era o mesmo olhar que Lhe tinha dirigido durante o breve espaço de tempo em que esteve a trabalhar no rancho. Ele gostava de mulheres, mas nenhuma lhe prestava atenção. Tinha os dentes podres e uma atitude desagradável. para não falar da vulgaridade com que falava com uma mulher. Era um tipo feio, com pouco cabelo, magro e com um aspecto repugnante. Andava sempre com a roupa amachucada e o cabelo sujo. Era a pessoa mais repulsiva que Crissy já tinha visto. Usava uma camisa de flanela com tons negros, amarelos e verdes que a tornava tão asquerosa como ele.

- Já disseste o que querias - disse Crissy asperamente. - Levantou a arma, premiu a tecla do telemóvel que tinha gravado o número de Cash e ficou a olhar com uma fria deliberação. - Ultrapassaste os limites da minha propriedade. Quero que te vás embora agora mesmo. Acabo de marcar o número do subchefe da polícia. Só tenho que carregar num botão e ele saberá onde estou e porque lhe estou a telefonar.

Clark hesitou. Media a distância que os separava. Sabia que, mesmo que ela marcasse o número, não atenderiam logo. Fechou os punhos e sorriu maliciosamente. Deu um passo rápido em frente.

Naquela fracção de segundo, Crissy apoiou a espingarda no ombro e apontou.

- Tirei a patilha de segurança - disse com calma. Tu decides.

Clark deteve-se em seco quando ela levantou a espingarda. Voltou a hesitar, como se estivesse a medir a distância pela segunda vez e calculando com que rapidez ela poderia disparar. Mas bastou olhá-la nos olhos para saber que Crissy apertaria o gatilho se ele desse mais um passo. A sua atitude ameaçadora mudou.

- Não é justo que tentes disparar contra um homem só porque ele te fez uma pergunta civilizada - disse furioso.

- O braço começa a cansar-me - replicou Crissy.

Clark praguejou. Foi uma palavra vulgar acompanhada da careta lasciva mais asquerosa que Crissy já tinha ouvido.

- De qualquer forma, não vale a pena. És mais rapaz do que rapariga, apesar de seres loura. Prefiro algo bonito.

- Tens cá uma sorte - resmungou Crissy.

- Uma vez tive uma mulher loura e bonita - atirou-lhe e corou. Rodou sobre os calcanhares e regressou à estrada pela zona arborizada. - Vais pagar-mas!

- gritou-Lhe. Lamentarás ter aberto a boca.

Tremiam-lhe as mãos quando Crissy pôs a patilha de segurança na espingarda. Ouviu o ruído de um motor e avistou uma carrinha de cor vermelha. Clark passou de longe, buzinando com uma atitude provocatória enquanto se afastava.

Não era uma carrinha preta com uma faixa vermelha.

Retomou o ar que estava a conter. Guardou a espingarda e regressou a casa. Não a surpreendia que o seu coração estivesse a bater no seu peito como um tambor.

Queria pedir conselho a Maude. Tinham sido uns minutos aterradores e não sabia o que fazer.

Mas Maude não estava em casa quando ela voltou. Preparou uma chávena de café e decidiu que, naquele momento, não podia enfrentar o problema sozinha. Tirou o telemóvel de Cash da bolsa, marcou o número do seu escritório e esperou que alguém atendesse.

Atendeu ele mesmo.

- Cash, podes vir ao rancho por uns minutos? - pediu-lhe com a voz trémula.

- Estás bem? - perguntou Cash de seguida.

- Sim. Jack Clark esteve aqui. Tive que o ameaçar com a espingarda.

Notou que Cash hesitava.

- Eu sei - disse passado um minuto. - Está aqui, no meu escritório, a formalizar uma denúncia. Diz que lhe apontaste uma espingarda sem provocação prévia. Quer que eu te detenha.

 

Crissy não sabia o que dizer nem o que fazer. Imaginava-se a ser algemada e presa. Isso iria alegrar o dia de Jack Clark, pensou com tristeza:

Respirou de forma entrecortada.

- Queres que me vá entregar? - perguntou, meio a brincar. Cash falava com frieza.

- Não. Eu ocupo-me disto. Vejo-te dentro de alguns minutos - disse e desligou.

Crissy olhou em volta. Contemplou os aparelhos e cabos deixados pelo pessoal das filmagens e sentiu-se impotente. Judd estava extasiado com a modelo. O rancho iria cair a pique por falta de capital e de touros. Ela iria para a prisão. Deu uma gargalhada quase histérica e perguntou-se se poderia vender a sua história ao produtor. Seria um filme muito mais emocionante do que aquela comédia romântica.

Cash parecia sentir-se satisfeito consigo mesmo quando entrou na sala. Vinha fardado, estava bem arranjado e a visita de Clark não o tinha afectado minimamente:

Crissy, pelo contrário, estava pálida e preocupada.

- Queres algemar-me? - perguntou-lhe. Cash riu-se.

- Não, quero café.

Crissy entrou na cozinha e deixou que ele a seguisse.

- Não vais prender-me?

- Não - sentou-se e esperou que ela servisse café em duas chávenas. - Esqueceste-te? O teu rancho fica fora dos limites da cidade, não estás na minha jurisdição. Clark sabe disso, só queria dar-te um susto.

- Não me vai deixar em paz - disse preocupada enquanto se sentava junto a ele. Cash colocou os seus dedos frios na mão dela.

- Disse-lhe que qualquer mulher sozinha, perante um homem ameaçador, tinha direito de se defender. Além disso, estava numa propriedade privada sem autorização. Ele é que tinha tudo a perder. Não quis abusar da sorte.

Crissy suspirou, aliviada. Cash observou-a em silêncio.

- Ele mete-te medo - disse.

- É vulgar e ofensivo. Fazia-me claras insinuações quando trabalhava no rancho.

- Contaste isso a Judd?

Crissy mexeu a chávena nas mãos.

- Claro que não, eram desvarios. Pensei que podia controlá-los. Disse a Clark que não gostava das insinuações e que perderia o emprego se continuasse assim.

- Funcionou?

- Não sei, porque foi antes de pôr na nossa conta aquelas botas caras e o despedirmos.

- Ele tem antecedentes.

Crissy ficou a olhar para ele.

- De que tipo?

- Agressão sexual e física contra uma adolescente, quando ele tinha pouco mais de vinte e um anos - respondeu. - A rapariga esteve quase a morrer por causa dos ferimentos. Denunciou-o à polícia e testemunhou contra ele. Cumpriu seis anos de pena.

- O que aconteceu à rapariga? - perguntou Crissy com curiosidade.

- A sua família trocou de nome e mudou-se. Ninguém sabe para onde foram.

- E o irmão, John? - quis saber Crissy.

- John nunca fez nada que o tenha levado à prisão. Foi acusado de envenenar gado algumas ocasiões, mas não consta que tenha feito mal a nenhum ser humano. Desde que Jack saiu da prisão, têm apresentado denún cias contra eles, mas nunca os prenderam.

Crissy sentia calafrios nas costas. Tinha as mãos geladas.

- Foi Judd quem te deu essa pistola? - perguntoú Cash de improviso. Crissy pestanejou. Estava a pensar noutra coisa.

- Trouxe-ma e deixou-a com Maude.

- Vai buscá-la. É melhor arma do que uma espingarda de curto alcance.

Tirou a pistola de debaixo do lava-loiças e deixou-a sobre a mesa. Cash arqueou as sobrancelhas.

- Bem, não é o primeiro lugar onde um ladrão procuraria - disse.

Cash riu-se. Abriu o coldre e tirou a arma. Tinha a forma de uma Colt de calibre 45, mas disparava balas de uma espingarda de calibre 22. O estojo também tinha uma caixa de munições.

- Muito bem, vamos.

- Onde? - perguntou Crissy e pôs-se de pé.

- Ao campo de tiro. Antes que anoiteça, saberás manejar essa pistola e eu ficarei mais tranquilo. Maude e tu estão sozinhas neste rancho.

- Irei, mas a partir da próxima segunda-feira já não estaremos sozinhas. Volta o pessoal das filmagens - suspirou.

- Ao contrário de ti, eu fico contente por eles estarem aqui - replicou Cash com serenidade. - Clark não virá chatear-te com o rancho cheio de gente.

- Espero que não - Crissy seguiu-o ao alpendre. Vais contar a Judd?

- Tenho que o fazer - disse Cash asperamente.

-Mas...

Voltou-se para ela, com um olhar sombrio e preocupado.

- A polícia emitiu um relatório preliminar sobre a morte de Hob Downey. Atingiram-no na garganta com um objecto pesado, decerto, a barra que encontrámos junto ao corpo.

Crissy empalideceu.

- Não posso acreditar que Hob tenha sido assassinado só porque viu que estavam a cortar a minha vedação de arame farpado.

Cash ajudou-a a subir para a carrinha.

- Não é assim tão simples.

- O que é que me dizes de Jack Clark? - insistiu. É o principal suspeito, não é?

- Sim. Mas tem um álibi muito sólido durante o intervalo em que morreu Downey. De facto, tem um álibi muito sólido durante todo esse dia.

Crissy esperou. Cash subiu para a carrinha e apertou o cinto de segurança.

- Estava com uma vizinha conhecida de Victoria.

- É uma testemunha fiável?

- Sim, por azar. Disse aos investigadores que Clark passou pelo seu escritório e a convidou para almoçar. Disse que queria falar com ela sobre a compra de umas terras. ela tem negócios imobiliários. Levou-o a ver duas propriedades diferentes. É estranho, mas não ilegal. Por isso, Jack Clark não é um suspeito - disse com um suspiro. - Mas não te preocupes, encontraremos o assassino.

- E o seu irmão John? - perguntou Crissy. - Tem álibi?

- Estava com um colega daquele rancho de Victoria onde trabalha.

- Não posso acreditar que Clark quisesse que tu me prendesses - disse e esfregou os braços.

- Precisas de úma camisola - disse Cash, fixando-se na camisa de manga comprida que Crissy usava por cima da t-shirt.

- Não tenho frio. Pensar no que podia ter acontecido se não tivesse levado a espingarda é que me põe com pele de galinha.

Cash não disse nada. Dirigiram-se ao campo de tiro e passaram duas horas a apertar o gatilho. Crissy parecia ter um talento natural. Era capaz de disparar sempre num raio aproximado do torso de um homem, mas a ideia de disparar contra um ser humano provocava-lhe náuseas.

- Por isso é que estás a aprender a disparar como deve ser - disse Cash. - Assim podes escolher onde o ferir - E se falhar?

Virou-se para ela.

- E se não disparares?

Pensou em Clark e em como ele a tinha olhado, nas coisas que tinha dito. Engoliu o seu orgulho.

- Está bem. Vamos tentar outra vez.

Doíam-lhe as mãos quando terminaram, mas mane java a pistola com mais à vontade. Cash prometeu

levá-la pelo menos uma vez por semana para que exercitasse a sua pontaria. E, no final do dia, Crissy esqueceu que Cash não lhe tinha prometido não contar a Judd o que estava a acontecer.

A equipa de filmagens regressou ao rancho e o caos voltou a ser a tónica geral. Judd aproximou-se dela por trás exactamente quando Crissy descia da carrinha. Não sorria e olhava-a com um semblante homicida.

- Cash contou-te tudo - murmurou Crissy resignada.

- Sim. Coisa que tu deverias ter feito, há muito tempo - resmungou. - Este rancho também é meu. Tenho direito de saber se corre perigo. se tu corres perigo.

- Não corro perigo nenhum. Sei disparar uma pistola...

- Clark ultrapassou os limites do rancho e tu não te deste conta até que ele te apareceu no caminho - interrompeu-a, furioso. E se ele também estivesse armado?

- Não tinha pistola.

- Isso é o menos. Deverias ter-me dito!

- Não terias acreditado em mim! - atirou-lhe Crissy. Começava a deitar faíscas pelos olhos e tinha o cabelo louro despenteado pelo vento. - Não quiseste acreditar em mim quando te disse que o touro tinha sido envenenado. Dizias que estava ciumenta por causa da atenção que estavas a dar ao pessoal do filme. E também terias tido motivos para me acusar de mentir agora. Terias dito que estava com ciúmes da modelo.

Judd inspirou devagar.

- Teria acreditado nas análises ao sangue do veterinário - declarou.

- Claro, enquanto não tinhas acreditado em nada do que eu te contasse.

- Cash sabia de tudo - disse em tom acusador.

- Sim. Não anda a suspirar por Tippy Moore, e acredita naquilo que eu lhe conto sobre qualquer coisa, a qualquer hora - acrescentou com puro veneno.

Judd revirou os olhos perigosamente e ficou rígido.

- Tippy não é assunto teu. Não tem nada a ver com o rancho.

Crissy quis perguntar se tinha a certeza disso, visto que tinha gasto dinheiro que não tinha para lhe comprar jóias caras. Mas não o fez. Olhou-o asperamente antes de lhe virar as costas.

- Clark não voltará a surpreender-me.

- Isso tu não sabes. Maude nem sempre está aqui e tu ausentas-te do rancho durante as tuas aulas.

- Cash deu-me o seu telemóvel - acrescentou e tirou-o do bolso para Lhe mostrar. - Posso telefonar-lhe a qualquer momento e ele virá.

O olhar de Judd era difícil de decifrar.

- Assegura-te que um dos homens te acompanha quando verificares a cerca e leva sempre a pistola que Cash te está a ensinar a usar.

Crissy deteve-se e virou-se.

- Que homem me acompanhará? Excepto Nick, só sobram três e todos trabalham a tempo parcial - disse rotundamente. - Economizar começa a ser uma religião neste rancho. Quando acabar o semestre - acrescentou, - deixo a escola e vou procurar trabalho. Estou cansada de usar as mesmas calças de ganga durante três anos seguidos e de não ter dinheiro suficiente para comprar um vestido novo.

Crissy viu o rubor que tinham as maçãs do rosto de Judd. Pensava que ela não sabia do anel de Tippy e sentia-se culpado porque Crissy economizava em tudo e ele estava a gastar as suas poupanças a comprar anéis caros à sua nova miúda.

- A educação é. - começou a dizer.

- Um luxo, dadas as circunstâncias - replicou Crissy e começou a andar. - O que eu sinto agora é que podíamos pôr o rancho à venda e deixarmos de tentar fazer milagres. Estou farta de apertar o cinto!

Entrou em casa num remoinho de fúria. Tippy Moore tinha aberto a boca para falar mas fechou-a logo ao ver o olhar furibundo de Christabel. Tinha ouvido a conversa e queria saber mais. Mas Christabel entrou no seu quarto e fechou a porta. Judd subiu para o seu todo-o- terreno e saiu disparado. Maude, entre os dois, limitou-se a suspirar e a preparar mais café. Ninguém queria, mas ela tinha que fazer qualquer coisa.

Como era natural, Crissy não podia ficar eternamente no quarto. Saiu para jantar. Surpreendeu-se ao ver que o pessoal das filmagens continuava lá, apesar de estarem prestes a ir embora.

Tippy Moore dirigiu-lhe um olhar estranho, como se reparasse como eram velhas e gastas as suas calças de ganga e a sua camisa. Fixou-se na pintura descascada das portas e nas manchas amarelas no tecto do corredor, vestígios de uma goteira.

- Precisa de alguma coisa, menina Moore? - perguntou Crissy bruscamente. Tippy suspirou.

- Não sabia que as coisas estavam tão mal - começou a dizer.

- O meu rancho não é um assunto seu - respondeu-lhe Crissy.

- Por enquanto não - foi a suave réplica. Para enfatizar a sua afirmação, fez girar o anel de esmeralda e diamantes. Usava-o no dedo anelar da mão esquerda, o indicado para os anéis de noivado.

Crissy quase morreu. Judd estava a pensar casar-se. Então era melhor solicitar primeiro a anulação, pensou com um humor negro.

- Os seus colegas foram- se embora - advertiu Crissy à modelo.

- Ah. Judd costuma levar- me à cidade - replicou Tippy, quase num murmúrio de prazer.

Enquanto o dizia, Crissy ouviu o som familiar do todo-o-terreno de Judd. Não disse mais nada. Entrou na cozinha e entreteve-se a ajudar Maude a descascar batatas, para não ter que voltar a ver Judd.

Tippy saiu para cumprimentar Judd e rodeou o seu braço com as mãos perfeitamente cuidadas.

- Começáva a pensar que não vinhas. Christabel passou toda a tarde no quarto, depois da vossa discussão - acrescentou em tom frívolo. Céus, é extremamente imatura, não é?

Judd hesitou, mas só por um segundo. Saiu com Tippy, subiu para a carrinha com ela e afastou-se.

A partir daquele momento, as visitas de Judd coincidiram com o horário das aulas de Crissy e não foi por acaso. Era a segunda semana de Novembro e Crissy faria vinte e um anos na sexta-feira. Desde que se tinha casado com Judd, este sempre a tinha convidado para jantar no seu dia de aniversário e sempre lhe tinha dado um pequeno presente. geralmente, algo prático, como um programa de computador ou um CD de música que ela gostasse.

Tinham discutido, mas Crissy não esperava que ele se esquecesse do seu aniversário, apesar das circunstâncias. Tinha um pouco de dinheiro de parte para uma emergência e usou-o para ir aos armazéns de Jacobs ville. Se Judd podia comprar um anel de esmeralda e diamantes à sua namorada, Crissy tinha direito de comprar um vestido novo em cada dois anos. Escolheu um de cor azul pálido que lhe caía com airosas pregas até aos tornozelos. Era cintado e decotado e tinha mangas curtas em balão e um enorme lenço a condizer. Deixaria o cabelo solto, pensou, e iria ondulá-lo para que ficasse perfeito na sua única noite do ano com Judd.

Mas chegou a sexta-feira e continuava sem notícias dele. Saiu mais cedo das aulas para poder lembrá-lo de que era o seu aniversário, se por acaso se tivesse esquecido, mas Judd não apareceu no rancho naquele dia. Tippy Moore também não.

Era demasiada coincidência. Com Maude a olhá-la com preocupação a curta distância, Crissy aproximou- se de Gary Mays, o realizador assistente, e perguntou-lhe directamente onde estava Tippy.

- Em Victoria, com Judd - disse com sarcasmo. Vai comemorar a reforma de um colega Ranger e Tippy ofereceu-se para o acompanhar. Segundo ouvi, os solteiros do corpo dos Rangers não cabiam em si de contentes - acrescentou. - Ao que parece, Judd estava encantado por Tippy o querer acompanhar.

- Obrigada - disse Crissy com um sorriso amarelo.

- Judd não disse nada sobre Crissy? - perguntou Maude. Gary estava a estudar o guião com o argumen tista. Franziu o sobrolho.

- Porque haveria de o fazer? - perguntou em tom distraído. Crissy afastou-se.

- Por nada.

- Crissy... - começou a dizer Maude, cheia de compaixão calada.

- Estou bem, Maude - assegurou e forçou um sorriso. - Vai enviar-me um postal ou qualquer coisa assim.

Percorreu o corredor até ao seu quarto sem dizer mais nada. Estava furiosa e quase a chorar. Aquela modelo estava a dar cabo da sua vida, do seu futuro, de todas as suas esperanças. Queria partir qualquer coisa, mas de que serviria? Se Judd se importava assim tanto com Tippy a ponto de se esquecer que Crissy fazia vinte e um anos, não lhe restava nenhuma esperança.

E não tardou a compreender que Judd não tinha intenção de convidá-la para jantar. Nem sequer Lhe telefonou para a felicitar, nem para lhe perguntar que planos tinha para o seu aniversário.

Grier aproximou-se na sua enorme carrinha preta ao princípio da tarde, quando o pessoal das filmagens já se tinha despedido até à segunda-feira seguinte.

Notava-se que estava consternado e fez uma careta ao ver Crissy sair ao alpendre para o receber.

Crissy lia as más notícias espelhadas no seu rosto.

- Vá, conta - disse com um sorriso forçado. - Já vi que não estás muito ansioso por me contar.

- Tens café? - perguntou Cash.

- Isso de pouco servirá, mas sim, tenho café. Entra

- conduziu-o ao interior da casa, pelo corredor, até à cozinha. - Maude vai passar a noite com a sua irmã e por isso estava a fazer o almoço. Nada do outro mundo, só uma tortilha. Queres dividi-la?

- Não como nada desde as onze da manhã - murmurou Cash e sentou-se escarranchado numa cadeira.

- Se a companhia não te chatear, adoraria.

Crissy sorriu e, naquela ocasião, foi um sorriso sincero.

- Farei umas tostas de canela para acompanhar a tortilha.

Cash esperou que tivessem terminado de comer para falar. Crissy acabava de encher as chávenas de café e de acrescentar leite na dele. Demorava demasiado tempo a mexer o café. Crissy apoiou o queixo nas mãos e ficou a olhá-lo de maneira significativa. Cash franziu o sobrolho.

- Está bem, aqui vai. Judd vai levar Tippy a uma festa de reforma esta noite, em Victoria. - Pensei que devias saber por mim antes que outra pessoa te dissesse.

- Eu já sabia, Cash - disse Crissy. - Disse-me o realizador assistente.

- Sinto muito, pequena - suspirou.

- É a primeira vez em cinco anos que se esquece do meu aniversário. Comprei um vestido novo, só para o vestir esta noite. Hoje faço vinte e um anos - disse devagar.

- A sério? - perguntou, surpreendido. - E Judd saiu com Tippy?

- Suponho que se tenha esquecido - riu Crissy. Ultimamente, tem estado muito tempo com ela. Ninguém diria que é um homem casado, não é? É normal que não queira levar-me a nenhuma festa - raciocinou.

- Ainda sou muito nova, como tu mesmo disseste. Irá preferir ir com uma mulher bonita, sofisticada e famosa, para exibir diante dos seus amigos e não com uma menina da aldeia pouco feminina que não sabe usar talheres.

- Não és nenhuma menina da aldeia - disse Grier com firmeza. - Ouve, não leves isto como uma coisa pessoal - cruzou as suas pernas compridas e apoiou-se nas costas da cadeira, com o café na mão. - Não devia ter-to dito. Podias não ter sabido de outra maneira.

- Se não tivesse perguntado a Mays, queres tu dizer? Achas que Tippy não iria esfregar isso na minha cara na segunda-feira, quando voltasse ao rancho para a filmagem? - perguntou. - Pelo menos, agora não me apanhará de surpresa.

- Se quiseres ir à festa, posso levar-te - disse Cash com um sorriso travesso. - Eu costumava trabalhar com o colega que se reformou e também fui convidado.

Crissy devolveu-Lhe o sorriso. A ideia era tentadora. Mas, apesar de Judd brincar com o seu coração, Crissy seria incapaz de o envergonhar daquela maneira, depois de tudo o que tinha feito por ela ao longo dos anos.

- Não - disse e moveu a cabeça. - Não entro nesse tipo de jogos. Não sou uma pessoa vingativa.

- Eu sei - disse Cash asperamente. - Por isso é que te custa fazeres mal a alguém.

Crissy observou o seu belo rosto com um sorriso.

- És um bom homem, Cash Grier - disse com suavidade. Ele arqueou as sobrancelhas e Crissy viu um brilho nos seus olhos.

- Engraçado. Acho que já me chamaram tudo menos isso.

- Bem. - suspirou Crissy. - Agora tenho vinte e um anos, Judd e eu podemos pedir discretamente a anulação e nunca ninguém saberá que fomos casados. Eu ficarei com metade do rancho e ele com a sua liberdade. Assim poderá casar-se com a mulher ideal, a ruiva.

Grier observou-a dissimuladamente e pensou que, se estivesse no lugar de Judd, a liberdade seria a última coisa que desejaria. Aquela jovem miúda tinha um coração enorme e não tinha ar de recorrer a manhas de qualquer espécie. Era sincera, corajosa e atenciosa. Lamentava que houvesse tanta diferença de idade entre ambos:

- Porque estás tão taciturno? - perguntou-lhe. Cash observou-a com um olhar penetrante.

- Queria ser mais novo.

Crissy sorriu astutamente.

- Ah, sim? Porquê?

Cash riu. Crissy não tinha consciência do quanto o atraía.

- Por nada. Não passou de um pensamento fugaz - deu uma vista de olhos ao relógio que usava no pulso esquerdo. - Tenho algumas coisas para fazer antes de acabar o meu turno às cinco - franziu o sobrolho. Disseste que Maude foi para casa da sua irmã. Quem ficará aqui contigo?

- Ninguém, claro. Mas Maude regressará amanhã bem cedo.

Cash não achava muita graça. Judd estava a ser descuidado, principalmente depois das ameaças de Jack Clark.

- Estás preocupado - disse Crissy. - Porquê? Sentiu-se relutante em contar-lhe e notava-se.

- Jack Clark jurou diante de, pelo menos, uma testemunha, que pensa fazer-te pagar caro o facto de o teres ameaçado com uma espingarda.

- Não se conformou em denunciar-me? - brincou.

- Não tem graça, Crissy - disse Cash.

- Não, mas isso não é mais do que outra gota no charco da minha miséria - disse-Lhe. - Ultimamente, a minha vida não tem sido um mar de rosas.

- Quero que te tornes obcecada com a segurança, que feches portas e janelas à noite, mesmo que Maude esteja aqui. Se algum veículo estranho se aproximar da porta, assegura-te que sabes quem é antes de abrir. Não te separes dessa pistola. Tens ajudantes no rancho, não tens?

Crissy sentia os joelhos fracos. Nunca tinha tido que se preocupar com os intrusos. Vivia numa velha casa vitoriana com janelas grandes e pouca segurança. Contemplou a pistola que estava sobre a mesa.

- Agora temos três vaqueiros a tempo parcialmurmurou. - E Nick, o nosso capataz. Judd contratou-o - levantou o olhar. - Trabalhou como polícia na Geórgia quando saiu da academia, antes de se mudar para o Texas e tem boa pontaria.

- Fico contente. Isso tranquiliza-me um pouco. Estarão cá este fim-de-semana?

Crissy pestanejou.

- Alguns. Nick. Não costuma sair muito.

Cash não parecia muito convencido. Acabou o seu café e pôs-se de pé. Tirou um cartão, deu a volta à mesa, pegou numa caneta do bolso da camisa e anotou um número nas costas. Passou-o a Crissy.

- É o número do meu outro telemóvel. Tenho-o sempre comigo e nunca está desligado - acrescentou com solenidade. - Se precisares de mim, seja de dia ou de noite, telefona-me. Mesmo que esteja fora de serviço, pelo menos, posso fazer com que a polícia de Jacobsville venha cá num tempo recorde de três minutos, se eu me demorar mais um pouco, entendido?

Comoveu-se com aquele gesto. Sabia que Grier tinha fama de não fazer amizades facilmente. No seu novo cargo de subchefe de polícia, já estava a fazer inimigos no concelho pela sua atitude firme com os delinquentes. Mas Crissy adorava-o. Era como se fosse da familia. Tinha feito mais por ela do que qualquer outra pessoa, excepto Judd. Sorriu-lhe com afecto.

- Obrigada, Cash - disse em voz baixa. - A sério. Cash começou a andar para a porta com ela atrás. Abriu-a e virou-se e a sua silhueta ficou recortada contra o entardecer.

- Feliz aniversário, Crissy - disse com suavidade e inclinou-se para a beijar na bochecha - Sinto muito que não seja mais feliz.

Crissy sorriu-lhe.

- Há uns filmes novos que quero ver já há algum tempo. Acho que me vou oferecer uma ida ao cinema.

- Sozinha? De noite? - Cash hesitou. - Ouve, há anos que não vou ao ballet - disse de improviso. - Há um em Houston e posso arranjar bilhetes com pouca antecedência. Leva-me contigo à tua festa de aniversário. Convido-te para jantar.

O rosto de Crissy iluminou-se.

- A sério? Não tens planos para esta noite? Cash desatou-se a rir.

- Não tenho planos para nenhuma noite - confessou. - Ultimamente, tenho problemas com. as mulheres. Sou demasiado brusco para a maioria.

- Não é verdade - o olhar de Crissy suavizou-se. Adoro sair contigo, mesmo que seja para pescar ou para comer um hambúrguer.

A mudança que se operou nele foi surpreendente. Praticamente, corou. Tossiu.

- Bem, então, está decidido. Vamos ao ballet e assim poderás vestir o teu vestido novo. Venho buscar-te às cinco e meia.

Crissy sorriu de orelha a orelha.

- Estarei pronta! Obrigada, Cash!

Este encolheu os ombros.

- Não podemos permitir que uma jovem como tu faça vinte e um anos e não os celebre, pois não?disse e foi-se embora.

E então, em vez de ficar em casa a lamentar-se porque Judd não quisera levá-la a jantar no seu dia de aniversário, Crissy vestiu-se para Grier. Quando se olhou ao espelho, teve que reconhecer que não tinha mau aspecto. O suave vestido azul realçava a sua figura e bem como as mangas em balão que sustinham o corpete decotado com o vaporoso lenço a condizer. Os saltos altos arqueavam os seus bonitos pés de forma sugestiva e gostava que o vestido lhe chegasse aos calcanhares. Era perfeito para o ballet. Como toque final, fez um penteado sofisticado.

O que mais a entristecia era que Judd nem sequer lhe tinha telefonado para a felicitar. A cada cinco minutos, ia ver se a luz do atendedor estava a piscar, para o caso de não ter ouvido o telefone. Pensou em levantar o auscultador e comprovar se dava sinal, mas pareceu-lhe demasiado infantil. Se Judd não queria felicitá-la pelo aniversário mais importante da sua vida, era com ele. Sairia com Grier e iria divertir-se muito.

Achava graça e ficava satisfeita, por um homem como Grier querer passar uma tarde aborrecida com uma rapariga como ela quando poderia ter saído com qualquer mulher que escolhesse. Era muito atraente e, se não se enganava, muito experiente com as mulheres.

Apareceu à hora combinada, com um fato escuro e com o cabelo ondulado solto, em vez de apanhado no habitual rabo-de-cavalo, com o bigode e a pêra perfeitamente barbeados. O cabelo caía à altura do pescoço e realçava a sua garganta musculosa. Tinha um ar europeu e a camisa branca e a gravata azul discreta que trazia contrastavam com a sua tez. Os sapatos pretos estavam tão brilhantes que reflectiam o tecto do alpendre.

- Estás muito bem - disse Crissy suavemente, porque nunca o tinha visto tão elegante. Ele sorriu timidamente.

- Obrigada. Tu também não estás nada mal - enfatizou o elogio com o olhar, que deslizou pelo seu corpo como uma pincelada de artista.

- Estás pronta?

- Só tenho que fechar a porta à chave - fechou-a e juntou-se a ele nos degraus.

- E asjanelas?

- Estão bem fechadas - assegurou-lhe. E, por falar de segurança, espero que venhas armado, porque não tenho onde levar a pistola.

- Não encontrarás um único polícia no país que não viaje armado. Nos tempos que correm, não.

- Já imaginava.

- Judd telefonou-te? - perguntou Cash enquanto a ajudava a subir para a carrinha.

- Não - disse Crissy rotundamente. - Mas não importa.

Claro que lhe importava, pensou Cash. Não conseguia disfarçar a sua decepção. Pôs em andamento a enorme carrinha preta.

- Vai ser um serão memorável - disse-Lhe. - Esta noite interpretam O Pássaro de Fogo. Tenho bons lugares, apesar de os ter reservado à última da hora.

- O Pássaro de Fogo?

- De Stravinski - respondeu Cash, - um compositor moderno. Compôs a música do ballet. Queres que te fale dele no caminho para Houston?

- Fazias isso? - perguntou-lhe Crissy, sinceramente curiosa. Cash riu-se.

- Adoraria.

O tema ocupou-os durante todo o trajecto até ao teatro onde o ballet estava em cena.

O público trazia mil fatos diferentes, desde fatos de gala a calças de ganga e t-shirts e, por isso, Crissy sentiu-se confortável com o seu vestido. Grier e ela tinham lugares nas primeiras filas e a beleza da obra encantou-a, bem como a música que a orquestra interpretava.

Surpreendeu Grier a olhá- la numa dada ocasião e sorriu-lhe. Ele devolveu o sorriso, satisfeito por ela estar a gostar do ballet.

Crissy contemplou as bailarinas a deslizar pelo cenário com os seus vestidos delicados, dando saltos e fazendo piruetas nas pontas dos pés, sob a luz dos holofotes. Era admirável. Nunca tinha visto nada igual. Como lhe diria Grier mais tarde, parecia-lhe estar a ver um quadro de Degas a ganhar vida.

 

A casa tinha as luzes todas acesas quando regressarám ao rancho e Maude saiu para o alpendre para os receber.

- É a tua noite de folga! - exclamou Crissy. Maude parecia preocupada.

- Sim, mas não estavas aqui e o telefone não funcionava. Judd não conseguiu encontrar-te e então telefonou-me e pediu-me para eu passar aqui para ver como estavas. Acabo de chegar.

Crissy perguntou-se distraidamente porque é que o telefone não funcionava.

- Cash levou-me a um ballet em Houston para celebrar o facto de eu ser maior de idade - explicou Crissy, que caminhava, sorridente, de braço dado com Grier. Brindámos com champanhe e jantámos num restaurante de quatro estrelas. Bebi álcool, Maude!

Maude riu-se.

- Está bem, está bem. Foi muito amável, senhor Grier.

- Sou a amabilidade em pessoa. Pergunte à Crissyacrescentou, brincando. Maude sorriu.

- Vou comprovar mais uma vez se o telefone funciona antes de voltar para a casa da minha irmã. Crissy podes deixar a luz do alpendre acesa quando entrares - acrescentou com um sorriso travesso. - Não há pressa!

Crissy animou-se. Pelo menos, Judd estava preocupado com ela, apesar de não ser o suficiente para ir ao rancho pessoalmente. Como iria decepcionar Tippy, pensou irritada, e deixar plantada a exuberante modelo para vir ver se a sua futura ex-mulher se encontrava bem?

- Não penses mais nisso - ralhou-lhe Grier e deu-lhe umas palmadinhas na cara com o dedo anelar.

- Sabes que se preocupa contigo. Senão, nem sequer se tinha dado ao trabalho de telefonar.

- É o costume. Isso passa- lhe quando nos separarmos - suspirou e olhou-o com um sorriso curioso. Dentro em pouco serei uma mulher livre. Não vais dar-me um beijo de boas noites?

Cash franziu os lábios.

- Estava a pensar nisso, mas não sei se é boa ideia. E se for viciante?

Os olhos de Crissy brilhavam como estrelas no seu rosto radiante.

- Adoro correr riscos. Vá lá, sê ousado.

Cash tinha a certeza que Judd já a tinha beijado. Mas, a não ser que se devesse aos efeitos do álcool, Crissy parecia pensar que os beijos eram uma brincadeira. Contemplou os seus lábios e pesou as vantagens e desvantagens. Ela, que ainda estava casada com Judd, não hesitava.

Por fim, atraiu-a para ele suavemente, inclinou-se e uniu os seus lábios firmes aos dela sem paixão. O seu pulso acelerou-se. Crissy sabia deliciosamente. Mas notou a sua impassibilidade. Ela não sentia nenhuma faísca, nem ouvia campainhas. Sentiu-se vagamente decepcionado enquanto levantava a cabeça e via a realidade da sua reacção no seu sorriso. Nem sequer estava afectada.

- Obrigada por me dares um aniversário especial, Cash - disse-lhe com suavidade. Cash recuperou de pressa.

- Para que é que servem os amigos? - brincou.

Dorme bem. Se precisares de mim, já sabes como me localizar, não é?

- Sim.

Olhou-a nos olhos e sorriu.

- Gostei muito. Fico contente que tenhas gostado. Boa noite.

- Boa noite - Crissy ficou de pé no alpendre e viu-o afastar-se antes de entrar, fechar a porta à chave e apagar a luz do alpendre.

Maude apareceu na sala de jantar, sombria e calada.

- Judd devia ter-te convidado para jantar num dia como hoje. Fazes vinte e um anos!

- Nem sequer telefonou para me felicitar, Maude - disse Crissy com franqueza.

- Não se lembrava que hoje era o teu aniversário e eu não tive coragem para lho dizer quando falei com ele. Estava muito preocupado porque não conseguia localizar-te no telemóvel. Telefonei-lhe há bocado e disse-lhe que estavas bem - sorriu. - Não achou graça a teres saído outra vez com Grier - acrescentou com um olhar satisfeito.

- Como se me importasse. Pelo menos, tive alguém com quem comemorar o meu aniversário - replicou, com o olhar zangado. - Gostas do meu vestido?deu uma volta. - Comprei-o para o vestir hoje, quando saísse com Judd.

- Minha pobre menina - Maude olhava-a com compaixão. Crissy levantou o queixo com orgulho.

- Não sou uma menina. Já não. Sou uma mulher feita e começarei a comportar-me como tal. Vou deixar de suspirar por um homem que jamais me desejará. Sobretudo quando há um que quer estar comigo!

Maude não fez nenhum comentário. Limitou-se a sorrir com tristeza.

Na manhã seguinte, Christabel estava a dar de comer a um potro no celeiro quando ouviu que um veículo parava diante da casa. Lançou um olhar para a entrada e ouviu uma porta a bater. Judd avançava para ela.

O coração deu um salto e começou a bater desenfreadamente. Dava gosto olhar para ele. Não se lembrava em que momento aquele andar gingão lhe tinha acelerado o pulso. Trazia o seu uniforme de Ranger, incluindo a estrela e a Colt 45 no coldre feito por medida. O chapéu Stetson de cor creme caía-Lhe sobre os olhos, deixando a descoberto apenas o seu rosto delgado, o nariz direito, os lábios finos e os maxilares quadrados.

Crissy apercebeu-se imediatamente de que tinha umas calças de ganga rotas, botas enlameadas e uma blusa de quadrados verdes gasta, à qual faltava um botão. Tinha o cabelo meio saído da trança e nem sequer tinha pintado os lábios. Como se fosse de propósito, Judd aparecia sempre nos seus momentos de maior desalinho, apesar de não se dever importar. Ainda Lhe doía que se tivesse esquecido do seu aniversário e que tivesse saído com outra mulher.

Adoptou um semblante inexpressivo quando ele se aproximou e voltou a prestar atenção ao potro.

- A apanhar os maus, senhor Ranger? - brincou.

Judd deitou o chapéu para trás e olhou-a com os seus olhos negros brilhantes.

- O que é isso de teres estado em Houston com Grier?

Crissy arqueou as sobrancelhas e ficou a olhar para ele como se tivesse ficado louco.

- Há semanas que saio com Cash, não te tinhas dado conta?

- Por Jacobsville, mas não por lugares elegantes como Houston - replicou. - Maude contou-me do ballet - apertou os lábios no rosto bronzeado. - Esta manhã, passei para ver Grier e ele disse-me.

- Gosto de Cash - disse com um olhar desafiante. Era uma declaração de guerra e Judd entendeu-a assim.

- Grier tem trinta e oito anos - assinalou, - e um passado obscuro. É demasiado velho para uma miúda como tù.

- Já te disse que gosto dele - repetiu Crissy com calma. Acabou de dar o biberão ao potro, deu-lhe umas palmadinhas e saiu do estábulo.

- E tu já ouviste o que eu disse.

Crissy olhou-o nos olhos. Tinha sido um erro fatal e tinha que conservar a sua determinação.

- Há cinco anos que tomas conta de mim e eu agradeço-te por tudo o que tens feito. Sei que tem sido um grande sacrifício para ti em muitos sentidos - prosseguiu, enquanto limpava o biberão no tanque e o guardava numa estante. - Mas já tenho os estudos quase acabados e até tu tens que reconhecer que sei tomar conta do rancho. Posso comprar e vender gado tão bem como tu, até mesmo contratar os nossos ajudantes

- virou-se para ele e obrigou-se a olhar para ele: era um esforço. - Já é hora de assumir totalmente a responsabilidade pela minha parte do rancho. Tenho que começar a valer-me a mim mesma e tu tens que me deixar.

- Quando fizeres vinte e um anos - começou Judd a dizer obstinadamente.

Crissy tirou a aliança que Judd lhe tinha posto no dedo há cinco anos, agarrou a sua mão grande e delgada, pô-la na palma da mão e fechou-a.

- Já não é preciso. Fiz vinte e um anos ontem - disse com toda a dignidade que era capaz. A expressão de Judd não tinha preço.

- O quê?

- Fiz vinte e um anos ontem - repetiu, lançando faíscas pelos olhos. - Enquanto tu estavas com a super modelo na tua festa em Victoria, esse homem que é demasiado velho para mim convidou-me para jantar e beber champanhe e brindámos ao meu aniversário. Até me levou a ver O Pássaro de Fogo a Houston.

Judd tinha o rosto petrificado. Fez uma careta.

- Christabel. - disse suavemente. - Desculpa! Crissy encolheu os ombros e baixou o olhar, fin gindo que o seu coração não se estava a partir.

- Não te preocupes. Diverti-me muito. Mas já podes solicitar a anulação. E não esperes que vá ficar em casa sentada entretanto - olhou-o nos olhos. - Se te podes divertir estando casado, eu também.

Começou a andar em direcção à porta do celeiro, com o cabelo louro revolto, as costas direitas.

Judd viu-a afastar-se roído de remorsos. Como podia ter-se esquecido de uma data tão importante das suas vidas? Contemplou a aliança que Christabel tinha usado fielmente durante os últimos cinco anos e sentiu-se culpado. Sempre a tinha convidado para jantar no dia do seu aniversário e tinha- lhe oferecido presentes.

Lembrou-se do anel que Tippy o tinha persuadido a comprar e sentiu-se doente. Pelo menos, Christabel não sabia disso, pensou, para se consolar.

Pôs a aliança no dedo mindinho e ficou a olhá-la. Christabel tinha-lhe dado luz verde para pedir a anulação. Seria porque tinha alguma coisa com Cash Grier? Revirou os olhos, furioso. Pois teria que esperar que ele estivesse preparado para se separar. E ele não estava. Ainda não.

Os seus colegas de Victoria sabiam que ele conhecia Tippy Moore e tinham-lhe pedido como favor es pecial que a levasse à festa. Tinha-o feito sem pensar. Tippy não se afastava dele e Judd sentia-se lisonjeado por uma mulher tão bonita e tão famosa, o achar atraente. Mas era um enigma. Tocava-lhe, de vez em quando, mas não gostava que Lhe tocassem. Transformava-se em gelo com os homens que demonstravam o seu entusiasmo pela sua cara e o seu corpo. Adorava os polícias e arranjava sempre tempo para falar com eles, fosse qual fosse o motivo. Mas, em geral, sentia-se desconfortável na companhia de outros homens e agarrava-se a ele quando estavam acompanhados por outras pessoas, sobretudo quando aquele realizador assistente, Gary Mays, se aproximava dela.

Era uma mulher completa. A sua companhia agradava-lhe e envaidecia-o. Mas não tinha parado para pensar no que Christabel, que era legalmente sua mulher, pensaria da sua relação. Ao sair com Tippy, estava a incitar Christabel a fazer o mesmo com Grier.

Tinha aberto uma porta que já não poderia fechar e isso inquietava-o. Detestava imaginar Christabel com Cash Grier, cujo passado era, na melhor das hipóteses, dez graus abaixo do normal. Era perigoso e, só por estar com ele, Christabel estava a correr riscos. Cash tinha inimigos.

Por outro lado, a própria Christabel corria perigo. Grier tinha-lhe dado um sermão naquela mesma manhã por a ter deixado sozinha no rancho depois do seu encontro com Jack Clark, com as ameaças que este lhe tinha dirigido. Tinha sido negligente em todos os aspectos, incluindo no facto de ter comprado á Tippy aquele luxuoso anel a que não se podia permitir. Estava habituada a dar-se com homens ricos que a cobriam de presentes e ele não o era.

Contemplou o anel com tristeza. Tinha ferido os sentimentos de Christabel, que tinha passado toda a sua vida de casada a cuidar dele e a tratar do rancho quando ele não podia. Tinha correspondido a essa lealdade fazendo-a sentir-se insegura e insignificante. E ela queria já a anulação, quando ele começava a sentir...

Desfez aquele pensamento com força. Não havia futuro para ele e Christabel. Deveria tratar da anulação. De seguida, pensou que Cash Grier queria assentar e que estava muito interessado em Christabel.

Apertou os dentes. Se Cash queria casar-se com ela, podia esperar sentado. Não havia pressa para a anulação. Pressa nenhuma.

Tippy Moore regressou ao trabalho na segunda-feira de manhã e a primeira coisa que disse a Crissy foi como se tinha divertido com Judd na festa em Victoria.

- Fico contente - disse Crissy com um sorriso rasgado, - porque eu fui ao ballet com Cash e jantámos e bebemos champanhe num restaurante de quatro estrelas de Houston. Foi um serão memorável.

O triunfo de Tippy parecia insípido. Ignorava que Cash Grier fosse tão culto e que tivesse dinheiro suficiente para ir ao ballet. Ao que parece, a jovem não sabia o quão caro tudo aquilo era. A ideia que Judd tinha da alta cozinha era um hambúrguer com batatas fritas. Tinha carinho por ele, claro, e, no seu mundo, no seu trabalho, ele era uma raridade, um artigo de colecção. Mas Tippy não tinha tardado a dar-se conta de que ele não era rico. Bem, não era o seu dinheiro ou a falta dele que a impressionava, disse para si, mas sim a sua profissão. Sentia-se a salvo com ele, a salvo de outros homens. homens como Cash Grier, que eram uma ameaça real.

- Não sabia que um polícia de aldeia sabia o que é um ballet - resmungou Tippy.

- Cash tem um percurso interessante - comentou Crissy. - Também foi Ranger do Texas e trabalhou para o Governo.

Tippy parecia incomodada.

- Sabes que garfo se utiliza em cada prato? - perguntou sarcasticamente.

- Ele ensinou-me - disse Crissy. - Isso e muitas outras coisas. Foi uma bela comemoração. Na sexta-feira fiz vinte e um anos - acrescentou com fria deliberação. Sentia-se melhor, apesar de ainda Lhe doer o esquecimento de Judd.

Tippy baixou o olhar. Ignorava que tivesse sido o seu aniversário. Sentia-se culpada e não entendia porquê. Era evidente que a jovem estava apaixonada por Judd e que tinha querido celebrar com ele o aconteci mento, mas ela não tinha nada a ver com isso! Voltou-se devagar e retomou o seu trabalho.

O baile anual de criadores de gado celebrava-se no sábado antes do Dia de Acção de Graças e Cash tinha pedido a Christabel que o acompanhasse. Crissy estava encantada de não ter que ficar em casa naquela noite, enquanto Judd ia com a super modelo ao baile. Sabia que Judd não a iria convidar. Mal dirigiram a palavra um ao outro, para desgosto de Maude.

Grier, com o seu cabelo negro solto e levemente ondulado, a barba acabada de fazer e bem vestido, estava imponente. Christabel sentia-se orgulhosa de que a vissem com ele. Pelo menos, pensou com o coração apertado, ela levava o seu bonito vestido azul, que ainda não tinha estreado em Jacobsville. Não se sentia tão mal vestida e antiquada como no ano anterior.

Judd nem sequer olhou para ela. Chegou tarde, acompanhado pela ruiva, a tempo de ver Christabel e Grier na pista de dança. Ainda bem que quase ninguém sabia que continuavam casados, pensou Crissy, porque teria causado estranheza às pessoas o facto de cada um vir com um par diferente. Crissy não afastava os olhos de Grier e sorria com total despreocupação.

Cash arqueou uma sobrancelha quando a orquestra acabou de tocar a balada e viu que Matt Caldwell falava com o maestro entre sussurros. Não tardaram a começar a tocar um ritmo latino.

- Atreves-te? - perguntou-lhe Grier. Ela arregalou os olhos.

- Claro! - riu, lembrando-se do quanto se tinham divertido no Shea's.

Cash riu-se enquanto a levava para a pista de dança, na qual Matt e a sua esposa eram os únicos ocupantes até ao momento.

- Está bem - murmurou Cash, marcando o ritmo. Vamos ensinar-lhes como é que se dança!

Ajudou-a a seguir os passos e o resto foi magia. Até Matt Caldwell arqueou as sobrancelhas enquanto o par atravessava a pista de dança dando voltas ao ritmo pal pitante dos tambores e da rápida melodia.

Christabel ria de puro gozo. Nunca tinha tido um par que soubesse dançar assim. Estava sempre à espera que Judd a levasse a um baile, um qualquer, para poder brilhar. Pois naquele momento estava a brilhar e a divertir-se à grande. O seu coração partido sucumbiu ao delicioso ritmo do fogo musical latino.

Quando terminaram, Crissy mal conseguia respirar. Apoiou-se em Grier, que nem sequer estava ofegante, e riu com deleite ao ouvir os aplausos dos outros con vidados. incluindo os Caldwell.

Judd Dunn lançava-lhes olhares assassinos. Tippy, de pé junto a ele, também.

- A tua amiga gosta de brilhar, não é? - disse com malícia. - Suponho que ele também.

Por nada deste mundo Judd diria que aquela era a primeira vez que via Grier dançar. Também não o via sorrir muito frequentemente e irritava-o ele estar a fazer ambas as coisas com Christabel.

- Olha para a figura ridícula que fazem em frente de toda a gente! - continuou Tippy. Judd olhou-a com uma expressão sombria.

- Sabes dançar ritmos latinos?

Tippy baixou os olhos.

- O que é que isso tem a ver?

Christabel e Grier estavam junto da mesa do ponche e Judd advertiu a Christabel que não se aproximasse muito dele. Viu o semblante de Grier ao olhar para ela e algo estalou no seu interior. Grier era um bom agente da lei, fiável e sereno perante o perigo, mas também era um homem, e Christabel continuava a ser inocente. Judd sentia-se responsável por ela. Não queria que Grier se aproveitasse dela.

- Desculpa um momento - disse a Tippy e aproximou-se deles.

- Não danças? - perguntou-lhe Grier com ironia e, de seguida, Judd viu-o apertar a mão de Christabel com força. Abriu os seus olhos negros. Não sorria.

- Pensava que tinhas que estar em Dallas na segunda-feira logo de manhã.

- Sim. Vou de avião amanhã à tarde - Grier sorriu devagar. - Isso chateia-te? - acrescentou num murmúrio e com visível ameaça no olhar.

Era um desafio. Judd esbugalhou os olhos.

- Se calhar - disse naquele tom frio e lento com que paralisava os seus ajudantes do rancho.

Christabel não entendia o que se estava a passar, mas sabia que era explosivo. Soltou a mão de Grier e puxou a manga de Judd.

- Quero falar contigo um minuto - disse com firmeza e pôs-se a andar até à porta lateral que dava para o pátio no preciso momento em que as notas de uma valsa invadiam a sala e Harley Fowler e Janie Brewster iam para a pista.

A insólita firmeza de Christabel fez com que Judd lhe obedecesse. Não reparou no olhar de carneiro mal morto de Tippy quando saíram.

À luz ténue que as janelas derramavam, Christabel voltou-se para Judd.

- Pode-se saber o que é que se passa? - perguntou asperamente. - Vamos pedir a anulação, Judd. Tenho todo o direito do mundo de sair com Cash. Eu não te recriminei por causa de Tippy Moore, pois não?

Não, não o tinha feito. E isso chateava-o. Durante anos, Christabel tinha sido possessiva com ele, tinha-o picado, provocado, tinha-lhe feito insinuações sobre lingeries vermelhas. De repente, estava a um mundo de distância e com Grier, ainda por cima.

- Grier toma miúdas como tu ao pequeno-almoço todas as manhãs - disse bruscamente. - Viveu na sombra grande parte da sua vida, a trabalhar para agências secretas do governo.

- Que emocionante! - exclamou Christabel.

- Escuta-me! - resmungou. - Matou homens. Christabel arqueou as sobrancelhas.

- E?

Judd apertou os lábios e soltou um curto suspiro.

- Não é uma mascote que possas guardar em casa e dar de comer - prosseguiu obstinadamente. - É um renegado. Não está domesticado.

Christabel arqueou as sobrancelhas.

- Mas o que é que te faz pensar que eu quero ter um homem como mascote? - perguntou com um sorriso. Agora que tenho vinte e um anos, sou livre pela primeira vez na vida. para sair e fazer o que me apetecer - observou o seu semblante exasperado com um prazer doloroso. - Nunca pude experimentar. Até agora - acrescentou com voz rouca, levando as mãos às suas ancas de mulher deliberadamente, entreabrindo os lábios com um olhar sedutor.

Aquelas duas palavras provocaram-no de forma inesperada. Agarrou-a pela cintura, arrastou-a para o escuro e apertou o seu corpo suave contra o seu, alto e poderoso.

- Endiabrada! - resmungou junto aos seus lábios.

O beijo foi eléctrico. Judd tinha-a tocado em muito poucas ocasiões e, quando o tinha feito, tinha sido com ternura, com afecto distante. O único beijo de verdade que tinha dado a Crissy tinha sido antes da sua primeira saída com Grier. Aquilo era diferente. Tratava-a bruscamente, como se tivesse perdido o controlo. Uma mão grande e delgada percorria as suas costas enquanto a devorava com a boca. Apertava-a contra o seu corpo sólido e Crissy voltou a sentir aquela pressão dura e insistente no ventre; uma pressão que só tinha sentido uma vez, quando Judd lhe ensinou como ela podia ser uma presa fácil para Cash.

Crissy proferiu uma exclamação, dando-lhe o acesso que ele queria. Judd introduziu a língua entre os lábios de Crissy. Nunca tinha feito isso! Crissy cravou-lhe as unhas nos braços enquanto umas estranhas palpitações percorriam o seu baixo-ventre. Nunca tinha sentido nada igual. Estremeceu, impotente, enquanto uma tensão ardente contraía os músculos do seu sexo e a fazia sentir-se inchada por todo o lado. Não havia pausa entre os beijos de Judd nem na maneira como a abraçava. Era a sério e ela estava demasiado faminta por ele para lhe negar alguma coisa. Entregou-se por completo, tremendo enquanto aceitava a sua paixão experiente com entusiasmo feroz.

Quando, por fim, retirou a sua boca da dela, olhou-a com os olhos semicerrados e um rosto duro como pedra.

Crissy mal o conseguia ver. Tinha o olhar turvo.

Sentia-se atordoada, emocionada, indisposta. Soltou os seus braços e pôs as mãos sobre o algodão branco da camisa, alisando-a com impotência, sentindo a sua força.

Judd também estava atordoado, mas decidido a não o reflectir. Afastou-a empurrando-a suavemente e ficou a olhá-la com arrogância. Estava a vibrar de paixão, mas ocultava isso com cuidado. Salvo pelo seu pulso acelerado, nada o denunciava exteriormente.

- Diabos, não, não és livre de experimentar - disse rotundamente, num tom mais grave do que o normal, mas igualmente áspero. - Nem sequer pus em marcha os trâmites da anulação. Lembra-te disso. Se experimentares, com Grier, estarás a cometer adultério!

Crissy levou os dedos aos seus lábios inchados. A cabeça estava às voltas.

- Disseste que ias solicitar a anulação assim que eu fosse maior de idade.

- Mas não o fiz - repôs Judd com voz gélida. - Não me ocorreu pensar que estarias tão ansiosa por te rebolares com um dos meus amigos: e, menos ainda, com um homem da idade de Grier!

- Só tem mais quatro anos que tu - acusou-o com a voz abafada.

- Se eu sou demasiado velho para ti, ele também é - replicou de seguida. - Logo te digo quando é que nos concedem a anulação. Até esse momento - acrescentou num tom curiosamente possessivo, com olhos que devoravam o seu corpo esbelto, - és minha.

Os joelhos de Crissy fraquejaram ao ouvir aquilo. Detestava a sua incapacidade de imaginar uma resposta engenhosa. Nem sequer conseguia fingir que achava graça. Tinha os lábios inchados e ardentes, como o seu jovem corpo. Ansiava por algo. Estava faminta, vazia. Nos lábios, chegava-lhe o sabor de Judd, masculino, almiscarado, com um travo a uísque.

Sentia o cheiro do aftershave no seu próprio rosto. Estava a afogar-se em ânsias desconhecidas. Queria aproximar-se dele e sentir como o corpo de Judd reagia ao dela quando se beijaram. Queria voltar a sentir os seus lábios. Queria sentir a pele dele junto à sua.

- Legalmente - acrescentou quando o silêncio o deixou desconfortável. - Quando a anulação for aprovada, o que fizeres não será assunto meu. Nunca mais.

Rodou sobre os calcanhares e regressou ao salão, deixando Christabel de pé sozinha no escuro, com a alma no chão.

Estava a regressar à sala de baile quando viu Judd sair pela porta principal com Cash. Ao que parece, também havia algum problema entre Leo Hart e Janie Brewster, porque saíam pela mesma porta lateral pela qual Christabel e Judd acabavam de regressar: Mais tarde ouviu que Janie e Harley Fowler tinham fascinado os presentes com uma valsa improvisada.

Grier e Judd regressaram ao salão de baile e, pouco depois, Judd levou Tippy ao seu hotel. Ela pareceu arreliada, mas ele estava decidido. Grier não quis contar a Christabel o que tinha falado com Judd, mas sorria quando, à meia-noite, deixaram a festa.

 

Após o baile dos criadores de gado reinava a tranquilidade no rancho, porque Judd e Christabel não dirigiam a palavra um ao outro. O pessoal das filmagens foi-se embora na quarta-feira à tarde para que toda a gente pudesse comemorar o Dia de Acção de Graças nas suas casas. Até a famosa modelo tinha família na Costa Leste e, por isso, foi-se embora. Christabel tinha receado que ela se colasse a Judd durante aqueles dias festivos.

Como não falava com ele, pensou que ela e Maude teriam a casa só para elas. Mas Judd apareceu no rancho na manhã do Dia de Acção de Graças, silencioso e taciturno. Tinha saudades de Tippy, pensou Christabel maliciosamente. Tratava-o educadamente, mas nada mais. Maude olhava para os dois, claramente zangada.

Comeram em silêncio. Judd continuava com a cabeça às voltas com o caso da mulher assassinada e a ausência de suspeitos. Estava preocupádo com Christabel, sobretudo desde que Jack Clark tinha aparecido no rancho e a tinha abordado. Judd tinha falado com Nick e o capataz tinha-lhe contado a história das cercas cortadas. Apesar de ser com atraso, acreditava na teoria de Christabel de que o touro tinha sido envenenado. Deveria tê-la ouvido, em vez de ignorar as suas preocupações, pensando que eram meras fantasias infantis. Agora, tinham dois touros envenenados e um vizinho assassinado.

Também o preocupava não ter homens suficientes no rancho para se ocuparem das tarefas. O seu capataz, Nick, era bom, mas já há muitos anos que não era polícia e os seus sentidos não estavam tão apurados como os de Judd. Christabel sabia disparar mas e se Clark irrompesse em casa a meio da noite, enquanto ela e Maude dormiam?

- Podiam esforçar-se um bocadinho mais para me estragarem o Dia de Acção de Graças? - perguntou Maude a ambos após um silêncio especialmente longo.

- Já que se propuseram a isto, pelo menos, façam-no como deve ser.

Os dois pareciam envergonhados.

- O peru está no ponto - disse Christabel.

- E o molho é uma coisa fora de série - corroborou Judd. Maude mostrou-se vagamente mais calma enquanto servia o puré de batata.

- Têm alguma pista sobre o assassino de Hob Downey? - perguntou Christabel de repente. Judd olhou para ela e negou com a cabeça.

- Jack Clark era o melhor suspeito. Tem um álibi à prova de bala.

- Foi o que Cash disse.

Judd pousou o garfo ruidosamente. Lançava faíscas pelos olhos.

- Consegues aguentar mais do que cinco minutos sem mencionar Grier?

Christabel pousou o seu próprio garfo e olhou-o zangada.

- É meu amigo.

- Escutem-me. - começou a dizer Maude.

- É um sobrevivente de missões secretas e tem a constância que uma lebre! Nunca será capaz de assentar numa pequena cidade!

- Quando se quer, consegue-se... - prosseguiu Maude.

- E o que é que tu sabes sobre assentar? - inquiriu Christabel furiosa. - Quanto tempo é que achas que a tua sofisticada namorada aguenta aqui? Ou estás a imaginá-la a empurrar um carrinho de supermercado na vila? - acrescentou.

- Basta! - interrompeu Maude. - Parem com isso! Não vou arbitrar uma briga durante o jantar de Acção de Graças.

Calaram-se a meio da frase e ficaram a olhar para ela. Tinha-se posto de pé, tinha os braços cruzados e os lábios apertados. Judd e Crissy olharam-se e voltaram a pegar no garfo com resignação. Maude sentou-se.

- Porque é que haveria de esperar que ela assentasse aqui? - resmungou Judd em voz baixa. Christa bel mastigou um pedacinho de peru.

- Porque usa aquele anel de esmeralda e diamante que tu lhe compraste no anelar e disse que os nossos assuntos também são assuntos dela. É por isso - disse a Judd entredentes. - Por isso, diz-me, quando será o casamento? - acrescentou sarcasticamente.

Judd não disse nada. Maude estava a olhar para ele como se Lhe tivessem nascido cornos. Christabel continuava a mastigar, sem levantar o olhar. Infelizmente, o seu olhar denunciava a sua culpa.

Judd deixou o garfo no prato e pôs-se de pé. Limpou a boca com o guardanapo e pousou-o na mesa com suavidade.

- Tenho que voltar a Victoria. Feliz Dia de Acção de Graças - a sua voz era tão dócil quanto o olhar que lançou a Christabel era pesaroso. Ela continuava com a cabeça baixa, sem olhar para ele. Fez uma careta e olhou para Maude, que o observava com recriminação e saiu sem comer a sobremesa.

Enquanto não o ouviu afastar-se no seu todo-o-terreno, Crissy não olhou para Maude.

- Não sabia que era um anel de noivado - murmurou Maude.

- Tippy não te disse porque era a mim que ela queria magoar - disse Crissy friamente.

- Judd achava que tu não sabias do anel, não era?adivinhou Maude.

- Agora já sabe - atirou Crissy. Levantou-se e começou a colocar travessas vazias e papel de alumínio sobre a mesa. - Cash não quis partilhar connosco a comida do Dia de Acção de Graças. Por isso, vou le var-lhe o jantar.

Maude queria dizer qualquer coisa, mas não sabia se seria apropriado. Crissy estava a sofrer e, certamente, Judd também. Não sabia porque é que ele tinha comprado àquela modelo aquele anel tão caro, mas estava convencida de que ele o lamentava, que não tinha querido que Crissy soubesse. Se calhar pensava que Tippy não lhe contaria. Os homens são assim, pensou Maude com tristeza, cegos à verdadeira natureza das mulheres quando estas reconhecem uma rival.

- Se não solicitar logo a anulação, fá-lo-ei euacrescentou Crissy enquanto enchia uma travessa. Depois, que se case com Tippy. Não tardará a descobrir que a sua super modelo não esperará cinco anos até que ele case com ela.

Maude fez uma careta.

- Linda, Grier é um lobo solitário. Não foi feito para o casamento.

Crissy olhou a mulher com curiosidade.

- Cash é meu amigo. Dou-me bem com ele, mas não quero casar com ele nem nada disso.

- Judd acha que te casarias com ele - suspirou. - E Grier espera que tu o faças.

Crissy abriu os olhos, surpreendida.

- É uma piada!

Maude negou com a cabeça.

- Não vês como ele te olha. Judd vê. Por isso, começou a ser hostil com um homem que ele costumava considerar seu amigo. Está com ciúmes, Crissy.

Crissy sentiu as faces a arder, mas retomou a sua tarefa.

- Claro. Por isso comprou a Tippy um anel de noivado e levou-a a uma festa no dia do meu aniversário, ele que nem sequer me deu um miserável postal.

Maude queria poder explicar-Lhe, mas não podia.

E o homem que conduzia até Victoria como se fosse entregar a alma ao diabo também não Lhe podia explicar. Estava envergonhado. Não imaginou que Tippy anunciaria aos quatro ventos que ele tinha empregue as suas poupanças contadas para Lhe comprar um anel. É claro que não quis que Christabel soubesse. Há muito tempo que prescindia de luxos para que o rancho não fosse ao fundo. Tinha sacrificado a juventude pelo rancho e ele retribuía-lhe o sacrifício comprando presentes caros a uma mulher que era apenas uma conhecida e esquecendo-se do aniversário mais importante de Christabel. Estava amargurada e magoada e não a podia culpar. Pensando bem, o seu próprio comportamento deixava-o atónito. Não estranhava que Christabel se apoiasse em Grier. Maldito, tinha tudo a seu favor quando se tratava de atrair uma mulher. Sabia dançar ritmos latinos complicados e era um homem culto. Como conquistador, não tinha rival, coisa que Christabel não sabia. Ou saberia?

Deu um murro no volante, furioso pela sua incapacidade de explicar os seus sentimentos turbulentos. Passear com Tippy era uma massagem ao seu ego. Tinha atraído uma mulher que qualquer solteiro morreria por ter como acompanhante, mas a sua relação estava a causar estragos na sua vida pessoal e profissional. Sabia que Tippy não era uma mulher capaz de aguentar o risco do seu trabalho e do seu estilo de vida, ainda que se sentisse fisicamente atraída por ele. enquanto ele não. Estava habituada aos luxos e à vida sofisticada. Tinha graça que ela tivesse aborrecido Cash Grier quando seriam feitos um para o outro.

Mas Grier desejava Christabel. Via-o nos seus olhos cada vez que Grier olhava para ela. Estava fascinado. Casaria com ela num abrir e fechar de olhos se Christabel estivesse livre. Ela não parecia dar-se conta, mas Judd sim. Apertou os lábios ao considerar o que Christabel faria assim que assinassem os papéis da anulação. A sua consciência não a travaria quando não se sentisse impedida por um casamento legal.

Pois não lhe daria a anulação! Pelo menos, por enquanto. Depois do Ano Novo, quando os ânimos estivessem mais calmos, reavaliariam as suas posições. De momento, ele ainda tinha dois assassinatos por resolver na zona e nenhum suspeito viável. Apesar disso, sabia que o homicídio da mulher de Victoria e o brutal assassinato de Hob Downey estavam relacionados. Os irmãos Clark tinham estado metidos em envenenamentos de gado noutras ocasiões e, por isso, apesar dos álibis sólidos, não podia descartá-los como principais suspeitos. Se ao menos contassem com uma prova física que apontasse para eles. Mas, até à data, não havia nenhuma.

Voltou a pensar na refeição de Acção de Graças e sentiu-se infeliz por ter gritado com Christabel. Era a menção a Grier. Não conseguia dizer duas frases seguidas sem dizer o seu nome. Se houvesse alguma ma neira de tirar Grier de Jacobsville para sempre. Mas não sabia como o conseguir. Nem compreendia, naquele momento, porque desejava afastar Grier das suas vidas.

Crissy jantou com Grier no dia de Acção de Graças e, depois, voltou para casa e telefonou aos Hart. Leo não estava em casa e, por isso, experimentou falar com Rey Hart. Tinha curiosidade pelos contactos japoneses dos dois irmãos e o seu interesse pelo mercado internacional. Rey era responsável pela comercialização do gado e ninguém sabia melhor do que ele como encontrar novos negócios.

- Tinha-me perguntado se tu e Judd não estariam interessados nesta oportunidade - respondeu Rey quando Crissy lhe perguntou pelos empresários japoneses que iam visitá- lo. Telefonei a Cy Parks, mas ele já tinha o seu gado comprometido para o ano que vem, bem como os Tremayne. Os vossos novilhos seriam perfeitos, se estiverem interessados. Fazem o mesmo que nós, criam carne ecológica. É isso que os nossos contactos procuram para a sua cadeia de restaurantes de Osaka e Tóquio.

O coração de Crissy deu um pequeno salto.

- E pagam bem?

- Muito bem - riu Rey. - Sobretudo, agora. No ano passado, o Japão sofreu perdas no seu próprio mercado de carne. Agora têm que recomeçar. Estão à procura de machos e de reses de primeira qualidade. Este é o melhor momento para formar alianças - Rey disse-lhe um valor e Crissy teve que se sentar.

- Isso seria fenomenal. Estamos em baixo há tanto tempo.

- Podes contar comigo - repôs Rey. - Interessa- te?

- Sim! E a Judd também, assim que lhe contar.

- Que tal se vieres ter comigo amanhã por volta da uma e conheceres os nossos convidados? Vão instalar-se com Corrigan e Dorie.

- Podemos ir no sábado? Eu não tenho aulas amanhã, mas Judd tem que trabalhar.

- Desculpa, tinha-me esquecido. Claro, no sábado à uma. Parece-te bem?

- Perfeito. Rey, não sabes o quanto te agradeço.

- Toda a gente está a passar um mau bocado neste momento - interrompeu. - Entre todos, temos que nos ajudar. É o que fazem os criadores de gado. e as criadoras, não é?

Crissy sorriu.

- Sim. Espero poder retribuir a tua ajuda.

- Bem, podias.

- Como? - perguntou com fervor.

- Traz Cash Grier. Ele fala japonês fluentemente e gostaria de poder contar com alguém que traduzisse bem tudo o que nós dizemos para nos assegurarmos que não há mal entendidos.

Crissy riu-se.

- Cash ficará encantado.

- Óptimo! Então, até sábado.

Rey Hart desligou e Crissy apertou os lábios. Sabia que Cash iria ao encontro se ela Lhe pedisse, mas Judd não acharia graça. Mesmo assim, se queriam salvar o rancho da falência, aquela era a oportunidade deles. Parecia um presente caído do céu.

Marcou o número de Judd antes de se poder arrepender. Tocou várias vezes e estava quase a desligar quando ouviu a sua voz grave.

- Temos uma oportunidade de venda - apressou-se a dizer.

Fez-se silêncio.

- De que tipo?

Descreveu resumidamente o acordo dos Hart e os lucros que tirariam e esperou ouvir a sua reacção.

- Não falo japonês - começou por dizer Judd.

- Nem eu. Mas têm tradutores - acrescentou, rezando que não tivesse que mencionar Cash e Judd se comportasse como um energúmeno.

Judd proferiu um som rouco.

- Grier fala bem japonês. Podia acompanhar-nos como tradutor. Se achas que consegues convencê-lo, claro - acrescentou sarcasticamente.

Os Hart já o fizeram - mentiu Crissy. - Querem assegurar-se de que compreendem todos os detalhes da negociação.

Ah - Judd pareceu relaxar e fez-se novamente silêncio. - Ouve, quanto ao almoço de hoje - disse devagar. Não era minha intenção gritar contigo daquela maneira.

Judd nunca se desculpava, aquela era a sua maneira de pedir desculpa. Crissy sorriu para si.

- Nem minha - disse com rigidez. - Feliz Dia de Acção de Graças, Judd.

- Sim - fez-se novamente silêncio. - Casarias com Grier?

O coração dela deu um salto.

- Como?

- Se ele te pedisse.

Crissy não estava a conseguir raciocinar. A pergunta era despropositada.

- Esquece - disse Judd bruscamente, ao ver que ela hesitava. - Assim que nos derem a anulação, deixará de ser assunto meu. Vejo-te no sábado por volta do meio-dia e meia.

- Está bem. Estarei.

Judd não lhe deu tempo de terminar a frase. Crissy ficou a olhar para o auscultador e desligou. Era o homem mais exasperante que já tinha conhecido. Mas, pelo menos, estavam a falar outra vez.

Grier acedeu de bom grado acompanhá-los, i foi ao rancho dos Hart no seu próprio veículo.

levou Christabel no seu todo-o-terreno. Para surpresa de Christabel, ia de uniforme.

- Estou a trabalhar num caso - disse-lhe. - Pedi dispensa por um bocado para a reunião, mas tenho que voltar a seguir.

- Outro assassinato? - perguntou Christabel.

- O mesmo - disse Judd. - Temos uma pista. Houve uma testemunha que viu uma carrinha suspeita perto da casa da mulher.

- Não vivia em Victoria, pois não?

Judd negou com a cabeça.

- Ela e o marido tinham um pequeno rancho fora dos limites da cidade. Estamos a tentar averiguar se os irmãos Clark alguma vez trabalharam para eles.

- Não me surpreenderia se estivessem implicados de alguma forma - disse. Judd franziu o sobrolho.

- Não menciones este novo dado a ninguém. Queria contar a Grier, mas o olhar de Judd era ameaçador.

- Está bem, não direi a ninguém.

Judd voltou a centrar a sua atenção na estrada.

- Parece que a sorte nos sorriu.

- Se conseguirmos fechar este contrato, claro - repôs Crissy. - Imagina ganhar todo aquele dinheiro por exportar a nossa carne para outro país, quando nem sequer conseguimos oferecê-la aqui.

- É um pequeno milagre e bem precisamos de um. Crissy esteve quase a morder o lábio inferior na sua tentativa de não provocar uma discussão. O anel que Judd tinha comprado a Tippy estava a comê-la viva. A falta de capital disponível era uma ameaça real e Judd tinha posto o rancho em perigo com esse presente luxuoso. Devia saber disso, sem que ninguém lhe dissesse.

- Rey disse que esses senhores são muito simpáticos e homens de negócios honrados - acrescentou antes que ele estranhasse o seu silêncio.

- Os Hart são grandes negociantes. Reconhecem um bom contrato assim que vêem um - olhou-a com curiosidade. - Como é que isto te ocorreu? O Rey telefonou-te?

Crissy negou com a cabeça.

- Tinha ouvido que eles iam receber a visita de uns empresários japoneses que estavam interessados em comprar gado de criação ecológica e pareceu-me boa ideia telefonar-lhes para perguntar se poderíamos entrar no contrato - corou. - Não me tinha dado conta até agora de que ele me deve ter achado atrevida.

- Pelo contrário, agiste como uma profissional competente. Se tivesse menos assassinatos por resolver, até a mim me teria ocorrido a ideia - mudou de conversa. - Tens tido notícias de Joel Harper?

- Sim. Disse que voltam para gravar a quatro de Novembro - respondeu. Os seus olhares cruzaram- se antes de Judd voltar a olhar para a estrada.

- O Natal está aí à porta - comentou Judd, pensando no bonito colar de pérolas e brincos a condizer que tinha comprado a Christabel como presente de aniversário e de Natal. Eram de ouro de lei e pérolas rosadas, as preferidas de Christabel. Ela iria adorar.

Christabel contemplava a paisagem pela janela.

- Pois é - disse. Ela estava a perguntar-se se a bela super modelo teria planos para Judd naquelas datas festivas. Mas não podia revelar-lhe as suas preocupações. Judd não a desejava, não iria rastejar nos seus braços.

Judd parou o carro diante dos escritórios do rancho dos Hart e desligou o motor. Crissy saltou para o chão exactamente quando Cash parava a sua carrinha. Vinha de uniforme. Também ele estava a trabalhar nesse dia.

- Ouvi dizer que precisam das minhas habilidades de tradutor - disse a Crissy em tom zombeteiro. Ela sorriu.

- Traduz bem e recomendar-te-ei a quem quiseres. Cash riu-se. Judd virou-lhes as costas e começou a caminhar para o escritório.

Os empresários japoneses eram encantadores e muito inteligentes. Falavam ambos inglês, mas o sotaque deles e o sotaque texano eram grandes obstáculos para a compreensão.

Cash falava japonês com uma fluidez que arrancou sorrisos de deleite aos japoneses, inclusive aos seus dois tradutores. Parecia estar em casa e cumprimentou-os com inclinações de cabeça em vez de lhes apertar a mão. Além disso, sabia formular as perguntas sem que fossem ofensivas.

- O senhor Kosugi quer convidar-vos para visitarem Osaka em Janeiro - disse Cash a Christabel e a Judd. - Se aceitarem, encarregará um dos seus empregados de vos ajudar a organizar a viagem, de vos ir receber ao aeroporto e de vos mostrar Osaka. Quando virem as instalações do seu rancho e conhecerem a sua família e empregados, assinarão um acordo formal.

Judd franziu o sobrolho.

- É uma viagem cara, Cash - começou a dizer.

- Será um presente nosso - disse-lhes o senhor Kosugi com um sorriso. - É a nossa maneira de fazer negócios no Japão.

Judd continuava a franzir o sobrolho.

- Sou agente de autoridade, não posso aceitar presentes.

- Mas podes dar-me a mim dois bilhetes de avião como presente - disse Christabel com fluidez. - E virás comigo ao Japão.

- Christabel. - começou Judd a replicar. Ela afastou-o do grupo e olhou-o zangada.

- Por enquanto, continuamos casados - disse com decisão. - O que é meu, é teu. Se tenho dois bilhetes de avião, posso dar um a quem eu quiser, inclusive a ti. Nem sequer o teu chefe poderá protestar por a tua esposa te dar um presente. A única coisa que tens que fazer é pedir uns dias livres para me poderes acompanhar.

Judd hesitou. Lançou um olhar a Grier, que os observava com grande interesse. Ocorreu-lhe pensar que Grier seria um melhor companheiro de viagem para Christabel porque ele falava japonês. Começaram a arder -lhe os olhos e olhou para ela.

- Está bem. Não me agrada, mas eu vou.

- Não é como se o senhor Kosugi te estivesse a pedir para assaltares um banco ou Lhe fazeres um favor pessoal - insistiu Crissy. - São acordos entre rancheiros, Judd. E se não formos, não tarda, ficaremos sem rancho.

Judd tinha ficado sem argumentos. Christabel tinha razão e não queria renunciar ao legado do seu tio por causa de um orgulho parvo. Também não podia reconhecer que o seu esbanjamento os tinha prejudicado tanto.

- Eu vou - disse com um suspiro. - Mas terei que explicar ao meu chefe todos os detalhes.

Christabel sorriu com suavidade.

- Não te imagino a não seres sincero com alguém. Judd franziu o sobrolho.

- Não fui sincero contigo - disse devagar. Ela corou. Baixou o olhar e sentiu uma amargura profunda.

- A tua vida privada não é um assunto meu, Judd. Concentremo-nos no rancho.

Virou-se e reuniu-se com o grupo antes que ele pudesse acrescentar álgo.

Passou-se o fIm-de- semana e, na semana seguinte, antes que se dessem conta, o pessoal das filmagens estava outra vez de volta. Crissy lançou olhares assassinos a Tippy Moore quando regressou da escola, sobretudo quando Judd apareceu no final do primeiro dia de gravação para levar Tippy de carro ao seu hotel. O pesadelo repetia-se exactamente quando Crissy e Judd começavam a entender- se de novo com o acordo dos japoneses. Era pedir muito, com a Vénus da Geórgia pelo meio. Ainda usava o maldito anel.

Crissy virou-se para os estudos e tentou não ligar ao que se passava à sua volta. Começava a acreditar que o pessoal das filmagens ficaria a viver no rancho e tinha os nervos em franja.

Cash passou para a ver na segunda-feira logo de manhã, quando já tinham passado quinze dias de gravação e os empregados estavam a fazer a pausa para o café. Vinha de uniforme e tinha o semblante solene. Tinham cancelado as aulas desse dia e, por isso, Crissy estava em casa, a tentar não estorvar. Saiu para o receber. Estava de calças de ganga e camisola e tinha o cabelo impecavelmente preso numa trança, nas costas.

- Que boa surprésa - disse com um sorriso. - O que se passa?

- Nada do outro mundo, mas preciso de falar contigo - puxou-a à parte. - Já sabes o que aconteceu no sábado à noite?

- Não - disse, surpreendida. - Hoje não fui à aula porque a minha professora está doente e então não estou a par de nada.

- Ao que parece, Jack Clark passou dos limites com Janie Brewster no Shea's e bateu-lhe. Chegou a ameaçá-la com uma faca. Agora está na prisão.

- Pobre Janie - disse, atónita. - Mas tem sorte por Clark estar atrás das grades. Eu também - acrescentou.

- Quem o prendeu?

- Eu - confessou Cash. - Depois de Leo Hart e Harley Fowler tentarem a sorte com ele. É perito em artes marciais e muito competente. Empreguei truques de que já me tinha esquecido.

Crissy ainda estava a digerir a notícia. Jack Clark tinha-Lhe metido medo. Finalmente, estava a salvo, como a pobre Janie.

O seu irmão John veio ontem ao fim da noite fazer-lhe uma visita à prisão. Prometeu conseguir- lhe um bom advogado - Cash suspirou. - Vai ser difícil. Se calhar vai perder o emprego que tem em Victoria. Não sei onde é que ele acha que vai arranjar dinheiro para um bom advogado de defesa.

- Acho-te muito preocupado. - assinalou Crissy e aproximou-se, consciente de que a super modelo ruiva não andava muito longe. - O que se passa, Cash?

Cash apoiou a mão no cabo do seu revólver de calibre 45. - Crissy, John Clark tem um amigo que conduz uma carrinha preta com uma faixa vermelha.

 

Crissy demorou um minuto a digerir a notícia. Soltou um suspiro rouco.

- É a carrinha que o velho Hob viu junto da minha cerca - recordou. Cash assentiu.

- Acabei de contar a Judd. Aquela carrinha era o elo que faltava. Sabíamos que os dois casos estavam relacionados, mas não conseguíamos provar. Ao que parece, a carrinha não é de John Clark, mas de um colega do rancho dos arredores de Victoria onde trabalha, de um homem chamado Gould.

- Podes prendê-lo? O Judd pode? - perguntou. Cash fez uma careta.

- Não é assim tão simples. Não podemos detê-lo sem provas. A carrinha é a única pista que temos, por enquanto.

- Hob descreveu-me a carrinha - replicou Crissy.

- Sim, mas isso é uma coisa que só sabes de ouvir. Não é prova suficiente para deter um homem por assassinato. Devemos agir devagar, ver se conseguimos reunir provas suficientes para pedir um mandato de busca - explicou-Lhe. - Se ele suspeitar de alguma coisa, pode fugir, mesmo com o irmão na prisão.

Franziu o sobrolho e esfregou o braço com desconforto.

- Bem, pelo menos, um dos irmãos Clark está na cadeia por uma boa temporada, não é?

- Janie denunciou-o por agressão com danos físicos graves - disse Cash. - Harley Fowler e Leo Hart também o denunciaram por agressão e eu por resistência e agressão a um agente policial. Mas se o irmão conseguir um bom advogado e este chegar a um acordo. Enfim, é um risco:

- Para quem tenha visto essa carrinha ou saiba algo sobre ela - adivinhou Crissy com preocupação.

- Não fiques com essa cara - disse Cash com voz rouca. - Eu nunca deixaria que te acontecesse uma coisa dessas!

Olharam-se nos olhos e Crissy percebeu, pela primeira vez, o sentimento que ele mal podia ocultar.

- Outra vez o polícia! - exclamou Tippy Moore a curta distância, deitando para trás a sua longa cabeleira avermelhada para satisfação de qualquer homem que estivesse a olhar para ela. Sorria a Grier com sarcasmo. - Praticamente vives aqui, não? Vieste prender alguém ou é Christabel que não pode passar um dia sem ti? - acrescentou com grosseria.

Cash desviou os olhos para a bela mulher que acabava de chegar.

- Estou a reunir informação para a investigação de um homicídio. A não ser que aches que podes resolver o caso, és dispensável - disse asperamente. Tippy arqueou as suas sobrancelhas perfeitas.

- Quem é que mataram? - lançou um olhar a Crissy, levantando deliberadamente a mão esquerda para que a luz reflectisse nos diamantes do anel. - Algum conhecido da menina Gaines?

- Ninguém que tu conheças - respondeu Cash asperamente: - Tenho pressa.

- Por favor, não penses que tenciono impedir-te - zombou Tippy. Olhou-o de cima a baixo de forma insultuosa. - Já disse a Christabel que não és o meu tipo.

Cash revirou os olhos. Crissy pensou que nunca tinha visto um olhar tão gélido.

- Óptimo, sem dúvida - repôs Cash com suavidade e até sorriu. - As mulheres como tu não me agradam. Não tenho que pagar a ninguém para sair comigo.

Tippy Moore ficou vermelha como um tomate. Olhou-o perfeitamente aborrecida.

- Não sou uma rapariga de aluguer, mas se fosse, meu amigo, não haveria dinheiro no mundo para te meteres na minha cama!

- Nisso tens razão - atirou-lhe Cash friamente. Tippy fechou as suas pequenas mãos nas ancas. O seu cabelo parecia resplandecer. - Rejeitei estrelas de cinema, milionários e até príncipes. O que é que te leva a pensar que eu ia olhar para um polícia da aldeia como tu? Já tenho tudo.

Cash arqueou as sobrancelhas e lançou um olhar que teria corroído o metal.

- A única coisa que tens é uma cara bonita e um corpo aceitável. Dentro de cinco ou seis anos, não haverá nenhuma revista de moda que queira publicar a tua foto, nem sequer nos anúncios. E que farás então, quando os homens que suspiravam por ti não fizerem mais nada senão arranjar desculpas para te evitarem?

Era evidente que Tippy tinha pensado nisso, porque empalideceu.

- É evidente que não tens educação, nem modos, nem cultura, nem consideração pelas outras pessoasprosseguiu Cash. - E achas que um rosto bonito compensa a falta desses atributos? Porque é que não te olhas ao espelho? És muito menos atraente do que pensas. Ainda que tenhas conseguido enganar Judd Dunn.

- Ofereceu-me um anel - resmungou. - Está louco por mim.

- Sim, está louco - atirou-Lhe. - Irias arruiná-lo em menos de duas semanas e ir-te-ias embora deixando-o a sangrar enquanto irias procurar uma carteira mais recheada. Nem sequer voltarias a cabeça para ver se tinha morrido.

- Tu não sabes nada sobre mim - gritou Tippy com a voz embargada.

- Reconheço o lixo quando o vejo - replicou Cash com um olhar frio.

O lábio inferior de Tippy tremia. Estava abatida. Nem sequer conseguia pensar no que tinha acontecido. Virou-se e afastou-se com passo trémulo e as costas rígidas até ao cenário onde a esperava o realizador. Mas quando se aproximou de Joel Harper, deixou-se cair nos seus braços e chorou como uma miúda.

Cash cerrou os dentes.

- Puro teatro - disse asperamente. - Essa mulher é uma manipuladora de primeira ordem. Judd está louco se acha que ela sente alguma coisa por ele.

- Eu sei - disse Crissy com tristeza, mas sentia uma estranha pena de Tippy. Nunca tinha visto aquela mulher sofisticada e elegante naquele estado. Tinha ficado chateada da primeira vez que Cash tinha sido grosseiro com ela, mas desta vez, estava sinceramente abatida. Cash parecia odiá-la e Crissy perguntou-se porque é que Tippy se importava tanto com a opinião dele se parecia ter uma antipatia mútua por ele.

- Tenho que voltar à penitenciária - disse Cash suavemente. - Olhos bem abertos. Asseguraram- me que Nick está alerta. Não penses que Clark agora é menos perigoso porque está na prisão. Já vi homens a combinarem coisas em piores circunstâncias.

Crissy suspirou.

- Terei a pistola à mão. Tem cuidado tu tambémacrescentou com preocupação genuína. Cash encolheu os ombros.

- Sobrevivi a coisas piores que os irmãos Clarkdisse, e sorriu. - Até logo.

- Adeus.

Afastou-se sem votar um só olhar a Tippy. Mas, apesar de ter que competir com ela pela atenção de Judd, Crissy não conseguia evitar sentir pena dela. Cash tinha sido cruel e era evidente que a opinião dele era importante para a bela super modelo. As lágrimas tinham sido reais, apesar de Cash não acreditar.

Enquanto a equipa fazia uma pausa, para dar tempo de a maquilhadora reparar o estrago causado pelas lágrimas no rosto de Tippy, Crissy esperou na entrada da caravana até a modelo aparecer.

- O que queres, divertir-te? - perguntou com mordacidade.

- Uma modelo separou os pais dele - disse Crissy em voz baixa. - Não é desculpa para que se comporte assim, mas ajuda a compreendê-lo. Cash não passava de uma criança e gostava muito da sua mãe.

Começou a afastar-se, mas uma mão suave tocou-lhe ligeiramente no ombro para a deter.

- Tenho sido muito má contigo - disse a modelo solenemente. - Porque é que te importas que ele me insulte? Além disso, que sabes tu da vida real, com a vida resguardada que tens levado? - acrescentou com amargura.

Crissy contemplou os seus belos olhos verdes com serenidade.

- Pensas que vivo num mundo de conto de fadas, finais felizes e perfeita harmonia? O meu pai embebedava-se e quase me matou. A minha mãe morreu. Judd e Maude são tudo o que tenho no mundo.

Virou-se e, dessa vez, Tippy não a deteve. Certamente, não deveria ter dado nenhuma explicação à modelo, mas Cash tinha sido cruel. Tinha graça, pensou, que a preocupasse ver a modelo chorar. Tippy Moore tinha transformado a sua vida num inferno e tinha arrebatado Judd. Mas Judd sentia algo por ela e Crissy era incapaz de fazer mal a uma pessoa querida por ele.

Atrás de Crissy, a modelo permanecia imóvel, gelada, detestando a compaixão daquela voz suave, a compreensão que escondia. Pensava que a pequena Christabel Gaines tinha tido uma infância perfeita. A verdade surpreendia-a e fazia-a sentir-se culpada. Olhou para o luxuoso anel do dedo e comparou-o com as calças de ganga rotas de Christabel e as botas gastas. Regressou ao cenário com o orgulho no chão. Nunca se tinha considerado uma mulher cruel. Judd fazia-a sentir-se segura, nada mais, mas o seu instinto protector para com Christabel era um estorvo e Tippy não podia renunciar a ele, não podia! Era o único que estava entre ela e os homens ameaçadores. Homens como Gary Mays, o realizador assistente e, em especial, Cash Grier. Apesar da compaixão de Crissy, estavam a competir pelo mesmo homem. E, no amor e na guerra, valia tudo.

As duas últimas semanas antes do Natal decorreram atribuladamente. Crissy estava em exames e dividia os estudos com os intermináveis trabalhos do rancho. O caos criado pela filmagem ainda tornavam a vida mais difícil e a sua impaciência crescia. Maude procurava não estorvar e Judd não se aproximava do rancho a não ser para levar e trazer Tippy. Era educado com Crissy, mas a sua antiga cordialidade parecia ter desaparecido para sempre.

Num dos seus dias livres, Crissy viajou até Victoria para comprar um alfinete de gravata de prata de lei que Judd tinha visto. Demorou meio dia a encontrá-lo, mas, finalmente, viu-o numa pequena joalharia. Levou-o para o rancho com ar triunfante e embrulhou-o. Quando, com a ajuda de Maude, armou a árvore de Natal na sala, colocou-o entre os ramos, para que não se visse demasiado. Comprou a Cash uma bonita carteira nova, porque tinha visto como a que ele usava estava gasta.

As visitas de Cash tinham-se multiplicado desde a detenção de Clark. Crissy notou que Tippy Moore já não o provocava. Mostrava-se estranhamente calada quando Cash andava pelo rancho. Afastava-se do seu caminho e ele não fazia o menor caso.

- Neste fumo há fogo - comentou Maude uma tarde quando Cash foi embora.

- Que fumo? - murmurou Crissy com a cabeça metida no seu livro.

- Entre essa modelo e Cash Grier - respondeu. Agora estão no rescaldo, porque estão afastados, mas, se os juntares, saem chamas.

- Odeiam-se - exclamou Crissy, surpreendida.

- Talvez. Ou talvez não - Maude inclinou a cabeça e olhou para Crissy sem deixar de limpar o prato. - Tu e o Judd vão ao Japão?

- No ano que vem, apesar de ainda não termos marcado a data. Mas é a melhor notícia que temos há muito tempo - virou a folha do livro. - Eu e Judd já tínhamos decidido usar parte do dinheiro que nos vão dar por causa da filmagem na substituição do touro Salers, mas Nick consultou um perito em inseminação artificial. Já cruzámos algumas das nossas vacas com o Salers e com aquele touro Hereford que perdemos. Quando averiguarmos quantas estão prenhas, compramos esperma de um touro Salers campeão e inseminamos as restantes vacas. Assim, na próxima Primavera teremos uma remessa de vitelos campeões. É isso que interessa aos japoneses. Nada de aditivos, nem de antibióticos desnecessários. Querem que se alimentem apenas de erva, excepto por um complemento mínimo de vitaminas e minerais, de proveniência não-animal.

- Se não me falha a memória - sorriu Maude, - tiveste que convencer o Judd para que aceitasse essa vertente ecológica.

- Sabia que eu já tinha estudado o assunto quando o sugeri. Agora que vamos fazer este acordo com os japoneses, está contente.

Maude sorriu-lhe com afecto.

- Linda, nasceste para ser criadora de gado.

- Como a minha tia Sarah, que dirigiu o seu próprio rancho quando ainda não haviam mulheres que o fizessem. Ouve, Maude - disse Crissy, lembrando-se de repente da sua conversa com Cash. - Tem sempre a porta de trás fechada à chave quando estivermos sozinhas. Um dos Clark está na prisão, mas o outro, não.

- Não me esqueci.

- Não podemos baixar a guarda nem um minuto - acrescentou. - Eu ando com a pistola na carrinha, de baixo do banco - suspirou com preocupação. - Foi um dia triste para esta região quando os irmãos Clark se mudaram para cá.

- Talvez não fiquem muito mais tempo - disse Maude.

Aquelas palavras acabaram por ser proféticas. Quatro dias depois dos actores e o pessoal das filmagens terem regressado às suas casas para passar as férias de Natal, John Clark ficou sem trabalho e sem recursos para procurar um advogado para o seu irmão.

Pensando em conseguir dinheiro fácil, na véspera de Natal, pôs uma meia na cabeça e entrou no Banco Comercial de Victoria empunhando uma espingarda, pouco antes do meio-dia, hora a que fechava o banco naquele dia. Teve azar, porque o segurança teve tempo de chamar reforços e, além disso, o reforço foi o Ranger destacado naquele condado, Judd Dunn.

Clark disparou a espingarda contra os homens fardados e feriu o segurança, mas não antes de este e Judd Dunn terem disparado as suas pistolas. Nenhum dos dois falhou o tiro. Clark caiu e não voltou a levantar-se.

Judd parou o seu todo-o-terreno em frente do rancho pouco antes do entardecer. No telejornal das seis tinham difundido a notícia da tentativa de roubo e do tiroteio resultante. Emitiram imagens do corpo ensanguentado de John Clark no átrio do banco.

Maude viu as notícias com Christabel, mas a irmã dela telefonou-lhe e pediu-lhe que passasse a noite com ela, porque não queria estar sozinha no Natal. Maude sentia-se mal por ter que se ir embora, dadas as circunstâncias, mas a sua irmã não se encontrava bem. Crissy convenceu-a a ir. Depois, esperou, confiando que Judd viesse vê-la em busca de consolo.

Por incrível que pareça, Judd apareceu no rancho. Christabel aproximou-se do todo-o-terreno e esperou que Judd desligasse o motor e saísse. Demorou um minuto a fazê-lo. Ficou a olhar para ela através da janela empoeirada e mal a via. Christabel abriu a porta e puxou a manga comprida da sua camisa branca.

- Fiz café, pão e massa com queijo. Há tarte de maçã para a sobremesa. Anda.

Judd desligou o motor e saiu do veículo como um zombie. Crissy reparou na sua palidez. Impulsivamente, deu-lhe a mão e conduziu-o ao interior da casa, à cozinha.

- Senta-te - disse-lhe com suavidade e obrigou-o a ocupar uma cadeira diante da pequena mesa de madeira, que já tinha a toalha posta.

- Já soubeste - murmurou e deixou o chapéu numa cadeira vazia.

Crissy assentiu. Levou para a mesa verduras guisadas e pãezinhos acabados de fazer, juntamente com a caçarola de massa com queijo. Serviu café em duas chávenas, passou-Lhe uma e sentou-se.

- Dá as graças, Judd - disse com suavidade. Fê-lo, mas com uma voz áspera. Não falou enquanto comiam. Crissy não esperava que o fizesse. O tiroteio ainda era demasiado recente, demasiado traumático, para que pudesse falar dele.

Quando chegaram à tarte, estava mais sereno e menos rígido. Sorriu ligeiramente a Crissy.

- Sabes como tratar de mim, não é? - perguntou, olhando para ela.

- Conheço-te - limitou-se a dizer Crissy. Judd respirou fundo e terminou a fatia de tarte. Tomou outro café e olhou-a por cima do bordo da chávena.

- Nenhuma pergunta?

- Seria cruel - respondeu Crissy, ao ver a dor e a agitação no seu olhar.

Judd fez uma careta e pousou a chávena com força sobre a mesa. Cerrou os lábios. Queria falar, necessitava de o fazer. Mas aquela virilidade rígida que fazia parte dele tanto quanto a sua camisa branca e a insígnia prateada de Ranger, travava-o. Detestava a fraqueza, não queria reconhecê-la.

- Como está o segurança? - perguntou Crissy, para o fazer falar.

- Fora de perigo - respondeu Judd. - Ainda está em observação, mas vai recuperar. Pode não vir a mexer o braço tão bem como dantes. Teve azar, viu o tipo e pediu reforços, confiante de que poderíamos imobilizá-lo sem derramamento de sangue.

Tomou outro gole de café e continuou a falar com o olhar baixo.

- Eu estava a investigar um caso perto do banco. Fui a correr e cheguei à porta principal exactamente quando Clark estava a ameaçar uma mulher com a espingarda:

O guarda viu-me a tentar aproximar-me com a pistola na mão e sacou a dele. Clark virou-se. O guarda e eu disparámos ao mesmo tempo, mas Clark já tinha aberto fogo com a sua espingarda. O guarda acabou ferido.

Naquele momento, Judd olhou-a com uma expressão atormentada.

- Clark caiu como um saco de areia - disse e franziu o sobrolho. - As pessoas ficam tão indefesas quando morrem, Christabel. - sussurrou. - Parecem bonecos grandes. Estão ali caídos, rodeados de gente que invade a sua intimidade, que os olha fixamente. e não podem fazer nada para se resguardarem desses olhares curiosos.

- Clark tentou matar uma pessoa - recordou-Lhe Crissy. - Consegues imaginar o que poderia ter acontecido se não chegasses a tempo? Se for como o irmão, não hesitaria em disparar para matar.

- Foi isso que temi que ele fizesse - confessou. - A mulher do banco entreteve-o falando, enquanto ele resistia. Ao que parece, John Clark disse que era igual se o enforcassem por uma ovelha ou por um cordeiro. Depois, perguntámo-nos se ele teria querido dizer que já tinha assassinado antes.

Crissy assentiu.

- Se calhar matou o pobre Hob Downey, não achas?

- Sim - brincou com a sua chávena de café. - Os meios de comunicação lançaram-se como abutres sobre este caso. Coitado, o irmão na cadeia, sem di nheiro, nem trabalho. E os polícias maus mataram-no quando tentava conseguir algum dinheiro.

- Christabel sorriu com tristeza.

- São tempos terríveis, Judd - disse em voz baixa. - Às vezes, o mundo inteiro está de pés para o ar.

- Falei com um advogado para que me aconselhe. Tem graça, estou há anos nos Rangers e nunca me ti nha visto envolvido num tiroteio mortal.

- Tiveste sorte.

Judd levantou o olhar.

- Suponho que sim. Ainda não sabem qual de nós disparou a bala que matou Clark - acrescentou de imediato. - Um dos disparos era baixo, o outro alto. Vai fazer-se um exame de balística para o determinar, porque tanto o guarda como eu úsamos armas de calibre quarenta e cinco. É véspera de Natal e, por isso, o laboratório está fechado. Não poderão fazer o exame até segunda- feira. E a autópsia de Clark também terá que esperar até então, imagino.

- Tu não disparas a matar - recordou-Lhe Crissy.

- Apontei para as ancas, para o abater da maneira mais rápida possível - disse bruscamente. - Mas emanava um rio de sangue dessa zona, sangue arterialpassou uma mão pelo seu grosso cabelo negro. Se aquele foi o meu disparo, rompeu-lhe a artéria femoral.

Crissy queria consolá-lo, mas ele estava perdido no inferno dos seus pensamentos.

- O outro disparo atravessou o coração - murmurou. - Suponho que não importa muito qual foi o meu, teria morrido de qualquer forma. Vai haver um inquérito. Prestei declarações e agora estou de baixa administrativa.

- O que significa que tens demasiado tempo livre para te torturares - disse Crissy suavemente. - Precisas de te manter ocupado. Amanhã podemos cavar buracos para postes e ampliar a vedação de arame farpado.

- No dia de Natal? - perguntou com as sobrancelhas levantadas.

- Se preferires ver uma e outra vez aquele filme a preto e branco que passam sempre na televisão. - começou a dizer e viu um brilho de humor nos seus olhos negros, pela primeira vez naquele dia.

- Sempre podemos ver um daqueles filmes da televisão por cabo que tu tanto gostas - sugeriu. Crissy sorriu.

- Já çhega. Tenho que aprender como posso.

- Já te disse que esses filmes não são a vida real.

Crissy tossiu.

- Mais café?

Judd deixou passar.

- Não, já tomei bastante. Ainda há alguma cerveja?

- Umas seis garrafas do Dia de Acção de Graças. Estão no frigorífico. Queres uma?

- Não costumo beber, mas hoje farei uma excepção

- submeteu-a a uma observação longa e penetrante. Nunca me embebedaria a ponto de te pôr em perigo. Tu sabes.

Crissy relaxou. Tinha mais razões do que a maioria das mulheres para recear o álcool e Judd sabia disso. Sorriu com nervosismo.

- Não é estranho que a infância nos afecte durante toda a nossa vida?

Judd riu-se.

- Pensei em passar a noite em Victoria, no apartamento. Fico contente por não o ter feito.

Crissy aceitou o elogio subtil com um sorriso.

- Muito esperto - brincou. - A minha tarte de maçã é melhor que a tua.

- A massa queimada e as maçãs duras não têm nada de mal - replicou Judd.

- Vou buscar-te a tal cerveja - disse Crissy e afastou-se.

Viram televisão na sala, perto da árvore de Natal iluminada, evitando as notícias. Judd estava refastelado no sofá, de meias, t-shirt preta e calças de ganga e bebeu três cervejas seguidas. A experiência traumática daquela manhã tinha-o afectado muito. Tinha tirado uma vida humana e isso já não tinha remédio. O que não sabia era como viveria com esse peso na consciência.

- Estás a torturar-te outra vez - disse Christabel da sua poltrona, situada ao lado do sofá. - É um filme muito bom. Devias estar a prestar atenção.

Judd virou a cabeça do encosto e ficou a olhá-la abertamente. Estava sentada com as pernas flectidas para o lado, na poltrona. A camisola branca decotada realçava os seus seios pequenos e insolentes e a curva subtil das suas ancas. A cabeleira loura caía-lhe sobre os ombros e as costas. Estava sexy, muito sexy. Normalmente, Judd tentava não se aperceber, mas o álcool tinha-o feito baixar a guarda.

Aquele olhar era atordoante, pensou Crissy. Ultimamente, Judd observava-a de uma maneira que provocava formigueiros por todo o seu corpo. Percorreu com os olhos o corpo magro e forte de Judd, enfiado numas calças de ganga justas e numa t-shirt preta que realçava o seu peito largo e os músculos dos seus braços. Fisicamente, era devastador. Também não era feio, com aquele rosto delgado, testa larga e nariz recto. Tinha uma boca sensual e masculina e um queixo quadrado que denunciava a sua obstinação, tão característica dele como o cabelo negro caído sobre a testa, as sobrancelhas grossas que marcavam os seus olhos fundos, as maçãs do seu rosto bronzeado.

- Estás a olhar para mim - acusou-a.

- Tu também - atirou-lhe Crissy.

Judd levantou o olhar devagar. Percorreu com eles a figura de Christabel, como se a estivesse a acariciar fisicamente. Parecia um momento parado no tempo, com o mundo muito longe e só eles dois na sala na penumbra, com a televisão com o volume no máximo, esquecida.

- Suponho que já te disseram - declarou com voz firme, - que um divórcio não custa muito mais que uma anulação.

Crissy corou. Sabia o que Judd queria dizer. Precisava de submergir no esquecimento e ela estava no lugar e tempo ideal para ele a procurar. Mas Judd andava a fazer companhia a uma modelo internacional para quem o sexo era um aperitivo e não queria ser a substituta de Tippy.

- Suponho que já te disseram - replicou - que Tippy Moore é uma fasquia muito alta para uma mulher experiente e muito mais para uma novata.

Parecia surpreendido.

- Achas que ando a dormir com ela?

Crissy baixou o olhar.

- Não tenta esconder que é uma mulher do mundo. Judd demorou um momento a responder. Parecia estar a dar voltas com ideias que não sabia como exprimir.

- Por amor de Deus! - exclamou suavemente. - De certeza que não és a única pessoa que pensa assim, pois não?

- São os rumores que correm - reconheceu Crissy.

- E há quem saiba que somos casados. Não me tinha ocorrido pensar no que iria parecer, nem que terias que suportar os mexericos.

Crissy encolheu os ombros e ficou a olhar para o ecrã da televisão.

- Eu saio com Cash - disse. - Suponho que os dois demos motivos suficientes para que façam intrigas sobre nós.

- Eu não preciso de te perguntar se andas a dormir com Grier - disse Judd. - Conheço-te demasiado bem. Parecia ressentido. Crissy ficou tensa. Esteve a

ponto de se enfurecer, até que recordou o que tinha acontecido nesse dia. Não tinha coração para o torturar mais do que já estava.

- Tippy usa o teu anel de noivado, Judd - repôs num tom dócil. - Sei que pensas casar-te com ela. De qualquer forma, o nosso casamento não passa de uma formalidade e, dentro em breve, já não seremos casados. Não te culpo por desejares uma mulher bonita, famosa e sofisticada. Eu não posso competir com mulheres assim, sempre soube disso.

Judd franziu o sobrolho e ficou a olhar para ela, atónito. Teria mesmo uma ideia tão baixa de si própria? Seria culpa dele? Tinha tido tanto cuidado em manter a distância entre eles, para não incentivar uma relação íntima quando Christabel ainda não tinha saído com outros rapazes. Não quis aproveitar-se da relação peculiar que tinham, nem usar Christabel como muitos outros homens não teriam hesitado em fazer se estivessem no lugar dele.

Mas ela tinha dito que ele pensava casar-se com Tippy.

- Porque pensas que quero casar-me com ela?perguntou devagar.

Christabel voltou a cabeça para o olhar nos olhos.

- Usa o teu anel de esmeralda e diamantes. Porque é que um homem iria oferecer a uma mulher um anel tão caro se não tivesse intenções sérias? - perguntou num tom prático.

Judd respirou fundo e recostou-se no sofá. Queria dizer: Porque me deixei levar pelo meu orgulho numa joalharia quando ela o experimentou e se negou a tirá-lo. Fui incapaz de lhe dizer que não podia comprar aquilo que ela considerava uma pechincha, Mas também não podia reconhecer perante Christabel que tinha sido um idiota. E por sua culpa, Christabel pensava que ele estava comprometido com Tippy e a contar os dias para se poder desfazer dela.

 

- Por isso, o melhor será pedirmos a anulação rapidamente - acrescentou Christabel, tentando abordar aquele tema doloroso com uma atitude prática.

- Pedimos a anulação quando eu disser - atirou-Lhe Judd, furioso. - Além disso, agora, não podemos permitir-nos isso.

- Vamos receber bastante dinheiro pela gravação do filme. Haverá dinheiro de sobra para pagar a um advogado - replicou, perplexa.

- Então, digamos que é conveniente continuarmos casados durante um tempo - replicou, com um olhar taciturno enquanto a observava.

- Se calhar Tippy Moore não acha o mesmo - repôs Crissy com mais amargura do que queria. - Não é nenhum segredo que está louca por ti. Não tenta ocultar.

Judd não contou o que sabia de Tippy. Gostava dos ciúmes que detectava na voz suave de Christabel. Gostava de saber que ela o desejava. Era bonita e sexy e Judd começou a ceder ao desejo ao contemplar aqueles seios pequenos e perfeitos ocultos pela camisola.

- Tippy não sabe que somos casados - disse-lhe. Acha que somos apenas sócios.

- E tem razão - replicou Crissy.

O olhar de Judd era sombrio e sereno.

- Não. Tu e eu somos mais do que isso. Sempre fomos

- baixou os olhos para o corpo de Christabel. Tens os mamilos duros como pedras. Desejas-me. Achavas que não se notava? - atormentou-a com suavidade quando ela proferiu uma exclamação ao ouvir aquele comentário franco. Crissy levantou-se da poltrona.

- Não devias ter bebido tantas cervejas - disse, insegura por ele estar naquele estado de ânimo. Não queria que Judd fizesse nada que pudesse lamentar mais tarde, apesar de arder de vontade de estar com ele.

- Não estou bêbedo. Podes dormir comigo, se quiseres - sugeriu-lhe sem rodeios. Crissy arqueou as sobrancelhas com eloquência e riu com nervosismo.

- Imagina! Nem sequer tenho uma lingerie vermeLha!

- Cuidado. Não estou a brincar - entrelaçou as mãos atrás da nuca e submeteu-a a um olhar abrasador.

- Achas que sou um leviano - disse. - Que quebrei os meus votos matrimoniais, apesar de ter sido apenas um acordo legal e que tive aventuras com outras mulheres. Meu Deus, não me conheces, Christabel.

Crissy tremia com nervosismo enquanto o olhava a uns quantos passos de distância.

- Não sou virgem - confessou em tom sombrio, mas levo as minhas promessas tão a sério como tu levas as tuas. Não estou com uma mulher desde que me casei contigo.

Crissy não conseguia articular palavra. Porque é que não lhe tinha ocorrido pensar que Judd era tão rígido e convencional como ela e profundamente religioso?

- Não tiveste uma aventura? Passaram-se cinco anos - disse por fim com a voz entrecortada.

- Eu sei - respondeu, num tom que quase a fez sorrir.

- Mas. como?

- Emitem filmes pouco decentes na televisão por cabo - começou a dizer com um sornso malandro. - E há outras maneiras de conseguir satisfação.

Ficou vermelha. Era uma descoberta demasiado íntima. Mas claro, ele conhecia todos os seus segredos. pelo menos, os que importavam. Judd não andava a dormir com Tippy Moore. Era a ideia que prevalecia na sua cabeça e sentia-se exultante.

- Ficaste muda? - perguntou olhando-a com atenção. - Atónita?

Crissy assentiu. Judd respirou fundo.

- Tive um dia muito duro. Não tenho sono, apesar das três cervejas e quero uma mulher esta noite. Tendo em conta a situação, a única mulher disponível és tu.

Continuava ali de pé, rígida, imóvel, com o coração a sair pela boca. Judd baixou o olhar para os seus seios, de onde pequenas pontas duras sobressaíam por debaixo da camisola branca.

- Estás pronta para um homem e morrerias para me ter - captou o brilho no olhar de Christabel e o seu sorriso cresceu. Acariciou-a com os olhos. - Desejo-te, Christabel. Agora mesmo.

Ela hesitou, não porque não quisesse, mas porque continuava a temer que Judd estivesse a brincar, pondo-a à prova. Duvidava que falasse a sério.

Judd apercebeu-se disso. Os seus olhos negros em brasa começaram a derretê-la.

- Sabes que me desejas. O coração vai sair-te do peito. Vejo-o daqui. Apaga a televisão e vem comigo, anjodisse com uma voz grave e sensual. - Tornarei realidade todas as tuas pequenas fantasias inconfessáveis.

Como um robô, controlada por uma parte do seu ser que não conhecia, Crissy aproximou-se da televisão e apagou-a. Depois, colocou-se em frente a ele, excitada, faminta, curiosa, contemplando todos aqueles músculos firmes.

- Não te atrevas a gozar comigo - disse com voz rouca. - Não quero jogos.

- Não estou a gozar - Judd esticou o braço, deu-lhe a mão e puxou Christabel até a fazer cair pesadamente sobre o seu corpo grande e poderoso. Era uma sensação nova e embriagadora, sentir-se tão intimamente perto depois de tantos anos de ânsia reprimida. Durante os primeiros segundos, teve a sensação de estar com um desconhecido. Judd tinha as pernas compridas e fortes e notou o movimento dos seus músculos quando as entrelaçou nas dela. Notou algo mais, algo que Judd raras vezes a tinha deixado perceber. Desejava-a. Era excitante sabê-lo, ainda que a intimidasse um pouco, porque não tinha nem ideia do que iria sentir. Tinha ouvido histórias.

Judd achava-a tensa. Colocou-a meio sob o seu corpo e olhou-a nos olhos a uma curta distância.

- Sei que és virgem - disse com voz rouca. - Isso excita-me e tu notas, não é? Mas eu terei cuidado. Muito, muito cuidado. A última coisa que desejaria era assustar-te ou magoar-te.

Crissy relaxou e rodeou-o com os braços, consciente da leve inflamação do seu corpo, uma nova e excitante sensação de prazer que se apoderava dos seus lugares mais secretos. Ansiava que Judd a tocasse, a beijasse. Surpreendia-a que tivesse ocorrido de forma tão inesperada.

- Se calhar, depois, vais lamentar - sussurrou.

- Não o vou lamentar. E tu também não, garanto- te

- acrescentou Judd com segurança.

Crissy ficou a olhar para os seus lábios firmes com verdadeira ânsia. Quase não podia respirar. Judd cheirava a perfume, aftershave e sabão. Parecia um paraíso doce àquela distância. Tinha o corpo quente e firme e sentia-se envolvida por ele.

- Se calhar estou a sonhar - sussurrou e deslizou as mãos pelo seu corpo masculino. - Tantos anos reprimida, sem poder experimentar, fizeram-me perder a razão.

Judd riu suavemente.

- Achas mesmo? Se queres experimentar - murmurou e pôs a mão no seu cabelo para manter o seu rosto suavemente sob o seu, - podes fazê-lo com o teu marido. Abre a boca, pequena.

Abriu a boca para proferir uma exclamação e Judd tapou-a com a sua. Foi como no baile mas, desta vez, era lento e terno com ela. Os seus lábios brincaram com os de Crissy suavemente, num silêncio ofegante que a fazia ter consciência do corpo firme que se apertava contra o dela, do calor das mãos de Judd nas suas costas, da perícia sensual dos seus lábios firmes. Os beijos que tinham partilhado antes pareciam inocentes em comparação. Naquela ocasião, Judd fazia as coisas a sério e notava-se.

Crissy deslizou os braços em volta do pescoço de Judd e entregou-se aos seus beijos com um abandono ávido. Reparou que ele lhe estava a desprender a camisola da cintura das calças de ganga. Segundos mais tarde, sentiu as suas mãos ardentes sobre a sua pele nua, sobre as odiosas cicatrizes que o seu pai lhe tinha feito anos atrás.

Deitou-se para trás.

Judd interrompeu a retirada instintiva de Crissy colocando-a completamente debaixo dele e olhou-a nos olhos.

- Eu também tenho cicatrizes, lembras-te? - disse em voz baixa. - Aqui.

Levantou a t-shirt preta e aproximou a mão de Crissy do seu tórax.

- Sentes - perguntou-lhe. - Feriram-me com uma arma quando era um polícia novato. Por sorte minha, a bala era pequena e não penetrou muito. Mas deixou um alto, assim como a do ombro deixou uma cavidade.

Crissy acariciou-a devagar.

- Tinha-me esquecido.

Ele sorriu devagar.

- Eu não - acariciou-Lhe o cabelo, suave e fino. - O teu cabelo é um dos teus melhores atributos - murmurou, enquanto os seus dedos começavam a desapertar os botões da camisola. - Junto destes.

- Eh. Judd, espera. Não me podes tirar a camisola! - protestou ao lembrar-se que tinha um soutien almofadado.

- Claro que posso - continuou a desapertá-la, até que a abriu e o seu soutien ficou a descoberto. Então, compreendeu porque queria ocultá-lo. Franziu o so brolho. - Porque diabos usas um soutien almofadado?

Crissy suspirou.

- Não queria que visses. Pensei que, se parecesse maior, interessava-te mais olhar - confessou. - Vocês homens não gostam das mulheres grandes?

- Os gostos são algo individual, querida - murmurou enquanto procurava o botão. Levantou-a com um braço enquanto soltava o fecho com dedos experientes. - As mulheres grandes não me atraem. Nunca me atraíram.

Enquanto Crissy se habituava à ideia, Judd moveu-a para poder tirar-lhe toda a roupa e despi-la da cintura para cima. Para Crissy, deu-se o mesmo impacto que um raio. Os seus sonhos com ele não tinham sido tão explícitos. Estava a flutuar.

Judd sorriu devagar ao olhar para ela. Era embriagante pensar que não tinha feito amor com ninguém. Queria que a primeira vez fosse com ele. Nunca tinha desejado nada como aquilo.

Christabel tentou falar, mas Judd já estava a baixar a cabeça e abriu a boca sobre um mamilo para ter grande parte do seu suave e pequeno seio dentro dele. Acariciou com a língua a ponta sensível enquanto a saboreava num silêncio interrompido unicamente pelos gemidos frenéticos de Christabel e pelos seus suaves soluços de prazer. Fundiu os dedos nos músculos firmes dos bíceps de Judd enquanto este explorava o seu corpo com a boca.

Judd deslizou a mão pelas costas de Christabel e atraiu-a para ele avidamente. Soltou o seu seio para procurar a sua boca e fê-la deslizar pelo seu peito para poder sentir os seus seios contra o seu torso nu e salpicado de pêlos.

- Judd - gemeu Christabel junto aos seus lábios. Nunca pensei que seria assim.

- Nem eu - sussurrou. - Não sabes o quanto te desejo. Continuas a tomar a pilula ou tenho que pôr alguma coisa?

O cérebro não respondia a Crissy. Não conseguia pensar.

- Como sabes.

- Vi-as na tua mesa-de-cabeceira da última vez que estive aqui - levantou a cabeça e imobilizou-a com o olhar. - Estavas a tomá-las para Grier, por acaso? - inquiriu de repente, zangado.

- Não! - ofegou. - Nem pensar!

- Então, porquê? - insistiu com ardor.

Christabel estava quase a tremer por causa do contacto íntimo. Judd estava excitado: desejava-a. Ela não conseguia pensar. O seu corpo jovem estava aceso de ânsia, de fome, de sede. Se Judd parasse, morria. O que é que Lhe tinha perguntado?

- Tinha. períodos irregulares e o médico recei tou-me a pílula. só para alguns meses, até que ficassem regulares - não acrescentou que isso tinha sido há seis meses que tinha deixado de tomá-las ao segundo

mês, sem sequer terminar a receita. Nunca tomava nada se Maude não a obrigasse. Tinha deixado a caixa de pílulas sobre a cómoda para ir buscar uma caneta à gaveta e não a tinha posto no sítio. - Não pares - suplicou quando Judd hesitou. - Por favor, não pares, Judd!

Judd franziu o sobrolho enquanto ela agarrava a sua mão e a aproximava dos seus seios, numa tentativa de o persuadir a continuar a tocá-la.

- A pílula não é perigosa? - sussurrou Judd.

- O médico diz que, na minha idade, não, porque não fumo nem costumo ter dores de cabeça - arqueou as costas para os dedos que a acariciavam e fechou os olhos delirante. - Que delícia. Não pensei que fosse tão maravilhoso quando via naqueles filmes.

Judd abriu os olhos. Sorriu devagar, com os olhos negros reluzentes enquanto baixava o olhar para o seio pequeno e suave que estava a acariciar.

- Se é seguro, posso ter- te como eu quero - disse com voz rouca, - sem nada entre nós, excepto a pele.

- Sim. Como quiseres, Judd, aqui mesmo, agora mesmo. - quebrou-se-lhe a voz com um gemido de prazer e procurou a sua boca, agarrando-se a ele, ansiando mais. - Por favor, não pares. Por favor.

- Não vou parar - disse Judd junto aos lábios inchados de Christabel. - Estou sedento de ti. Tenho que tornar-te minha, pequena! - acrescentou com aspereza.

- Minha!

Christabel mal o ouvia. Estava a mergulhar numa verdadeira onda de paixão. As carícias experientes do Judd faziam-na perder o controlo. Arqueava as costas, mexia-se com dificuldade sob o peso das ancas de Judd, abria a boca aos beijos devoradores que faziam o seu jovem corpo ansiar ainda mais.

Entre carícias, Judd despojou-a das calças de ganga e das cuecas e assaltou os seus seios e o seu ventre com a sua boca quente e resoluta. Christabel estava a arquejar, agarrando-se a ele, afogando-se em sensações novas enquanto ele atormentava todo o seu corpo: Tocou-a como nunca tinha esperado que um homem lhe tocasse, mas ele cobriu com a boca o seu pequeno grito envergonhado. Deslizava a língua entre os lábios de Crissy para realizar explorações lentas e sensuais que complementavam as carícias experientes das suas mãos.

A certa altura, a t-shirt de Judd caiu no tapete, seguida das suas calças de ganga e ficou em cuecas. Não camuflavam o volume potente no seu corpo.

Judd parou para olhar para a cara dela e viu a falta de compreensão, a falta de juízo que reflectia. Christabel rodeou o pescoço com os braços e arqueou o corpo para ele, como se se oferecesse em sacrifício. Tinha as pálpebras semicerradas e gemia suavemente, movendo-se contra ele com impotência e delírio.

Fazia-o sentir-se como um gigante, como o melhor amante do mundo.

O atrevimento do olhar de Judd captou a sua atenção. Reparou na forma bela como olhava para ela e começou a sentir-se desconfortável com a sua nudez.

- Não tenhas vergonha - disse Judd. - És minha. Somos casados, Christabel. Não há nada de que te envergonhares.

- Não, não tenho vergonha, a sério - disse com voz rouca. - Mas é que estão as luzes todas acesas - acrescentou com uma gargalhada tímida. - É a primeira vez que faço isto.

- Queres fazê-lo com as luzes apagadas na primeira vez? - perguntou com suavidade. Ela assentiu. - Está bem - não acrescentou que para ele também seria mais difícil com as luzes acesas. Tal como Christabel, tinha inibições que não gostava de reconhecer.

Pôs-se de pé e levantou-a suavemente pelos braços. Procurou seu olhar aturdido um segundo antes de voltar a beijá-la com ternura e passou ao lado da árvore de Natal iluminada para se dirigir pelo corredor ao quarto que usava quando dormia no rancho.

Não acendeu a luz. Deixou-a de pé no chão o tempo exacto para fechar a porta à chave antes de a levar para a cama. Ela sentia a boca de Judd sobre o seu corpo na morna escuridão do quarto, os suaves toques de pele contra pele e os gemidos breves. Era mais íntimo do que tinha imaginado, sobretudo quando Judd tirou as cuecas e o sentiu de verdade, completamente em contacto com ela.

- Calma - sussurrou Judd ao ver que ela ficava involuntariamente rígida. - Não vai ser como pensas. Temos todo o tempo do mundo. Desliza as tuas pernas entre as minhas, querida.

Aquele nome carinhoso deixou-a perplexa, mas fez o que ele Lhe pedia e, imediatamente, sentiu o seu corpo fortemente musculado ainda mais em contacto com o dela e experimentou um intenso relâmpago de prazer.

Judd notou o seu movimento sensual e riu com voz rouca.

- Não estavas à espera? Apesar de todos esses filmes tão explícitos?

- Não são tão explícitos quanto isso - sussurrou Crissy com uma gargalhada rouca e arqueou-se quando ele voltou a mover-se. - Não pensei que. que pudesse ser tão bom. Nem tão íntimo!

Judd também se riu. Apoderou-se do lábio superiór de Christabel entre os dentes e lambeu-o enquanto acariciava a sua feminilidade. Christabel voltou a mover-se, de forma convulsiva daquela vez, arqueando as costas para o incitar a aproximar-se.

Christabel sentiu como Judd deslizava as mãos por debaixo das suas costas enquanto unia a sua boca à dela para a explorar com a língua. Ao mesmo tempo, penetrou-a com ternura e sentiu o estremecimento do seu corpo jovem. Repetiu o movimento. Christabel proferiu uma suave exclamação e ele notou como movia as pernas entre as dele. À terceira vez, Christabel emitiu um gemido que Judd nunca tinha ouvido sair dos seus lábios e ela cravou as unhas nos seus bíceps antes de as deslizar avidamente pelo pêlo do seu peito.

Judd levantou a cabeça enquanto movia as ancas com suavidade e Christabel soluçava e arqueava as costas. Fosse o que fosse que ela estava a sentir, não era dor. Puxava-o para si, em vez de o empurrar.

Judd acariciou-lhe as pálpebras e as bochechas com os lábios e beijou-a profundamente enquanto a penetrava muito devagar, com total sensualidade. Christabel não estava a reagir como se lhe doesse. Fechou ainda mais as suas poderosas pernas em volta das dela ao mesmo tempo que a penetrava e Christabel gemeu mais. Judd sentiu o eco de um pequeno estremecimento de prazer quando ela continuou o movimento rápido e cuidadoso com o seu próprio corpo.

- Dói-te? - sussurrou Judd junto aos seus lábios.

- Não - disse com a voz abafada. - Não me dói! É. maravilhoso!

Judd mordiscou-Lhe o lábio inferior enquanto voltava a mover-se.

- Consegues sentir-me dentro de ti? - sussurrou.

- Que pergunta! - ofegou Christabel.

Ele mordeu-lhe o lábio superior com ternura. - Isto não é um ritual de silêncio, querida - disse

com voz rouca. - Gosto de ouvir a tua voz sensual quando me movo dentro de ti. Diz-me o que sentes. Fala comigo.

- Não. Não consigo falar.

- Porque não?

Christabel deslizou as mãos sobre os poderosos músculos das costas de Judd e arqueou o corpo de forma sinuosa, a tremer.

- Estou em chamas - disse com voz abafada, com os olhos fechados enquanto procurava algum longínquo e elevado destino de prazer, - a agonizar por todo o lado. E é uma agonia tão doce. sim, continua assim. É delicioso. delicioso. - a sua voz foi-se tornando mais aguda enquanto começava a tremer ao ritmo das investidas lentas de Judd. - Nunca desejei nada tanto como. como te desejei a ti Durante tanto tempo, Judd. - ofegou e juntou-se a ele ansiosamente. - Estou a fazer bem?

- Sim. Muito bem - o prazer de Christabel aumentava o dele. Não esperava que ela gostasse tanto, so bretudo, na sua primeira vez. Sentia-se orgulhoso da sua própria destreza enquanto ela se movia ao mesmo compasso que ele e os seus pequenos gemidos eram música para os seus ouvidos.

- Ai! - ficou rígida de repente, mordendo o lábio inferior, quando o prazer se transformou de repente numa dor intensa. - Desculpa. Dói-me Judd - soluçou, decepcionada.

- Sim e já percebi porquê - disse suavemente, hesitando. Respirava com dificuldade. Não iria aguentar muito mais tempo, mas não queria magoá-la demasiado. Teve uma ideia e inclinou-se sobre o ombro de Christabel para mordê-lo.

- Judd, o que estás a fazer? Ai! - exclamou de dor. Mas, segundos mais tarde, sentiu-o completamente dentro do seu corpo, possuindo-a por inteiro. Enquanto ela se preocupava com o seu ombro, ele tinha rompido a minúscula barreira que os separava. Tremeu uma vez e relaxou enquanto ele se movia com firmeza e ritmo contra ela. O prazer substituiu a dor com uma rapidez surpreendente. Christabel começou a mover-se contra ele, com frenesim, e as pequenas ondas de prazer foram crescendo segundo a segundo, prolongando-se e prometendo algo próximo do céu à medida que se in tensificava a urgência.

- Isto não dói - sussurrou e riu-se quando o prazer cresceu de forma inesperada. Procurou o pescoço de Judd com os lábios e beijou-o ansiosamente. O seu pequeno corpo movia-se febrilmente enquanto ele a penetrava com paixão. - Sim. É tão doce. - gemeu, procurando o prazer. - Não pares. Não pares! - soluçou.

- Como se pudesse! - disse-Lhe Judd ao ouvido. O prazer tinha-o subjugado e estava à procura da satisfação com total desconsideração pela virgindade de Christabel. Mas isso não parecia importar-lhe. Ela estava a emitir pequenos gemidos rítmicos que coincidiam com as suas profundas investidas e procurava-o. Sussurrava-lhe ao ouvido palavras excitantes que, depois, à luz do dia, a envergonhariam. Continuava até ao final, movendo-se, elevando-se, enquanto o prazer crescia em ondas de urgência que procuravam uma meta distante e difusa que não conseguia alcançar.

De repente, quando estava frenética e delirante, viu-se ali, presa numa loucura que arrancou um pequeno gemido da sua garganta. Desejava poder ver Judd. Desejava que ele a pudesse ver. Ouviu como as molas se moviam como êmbolos enquanto ele a penetrava com toda a sua força em busca da satisfação. Ouviu os arquejos desesperados de Judd exactamente antes de surgirem umas luzes intensas apesar de ter as pálpebras fechadas e arqueou-se de forma convulsiva. Soluçou durante aquele êxtase de completa satisfação ao ouvido de Judd.

Crissy não conseguia parar. Não conseguia deixar de se mover debaixo de Judd, nem sequer quando ele ficou rígido e estremeceu sobre ela. Judd tinha a pele empapada em suor. Respirava com dificuldade. Todo o corpo de Crissy tremia, com total gozo físico. Era Judd. Sentiu-o inchár e explodir dentro dela. Abraçou-o, sentindo o seu peso, enquanto estremecia no eco do prazer mais explosivo que tinha experimentado na sua curta vida.

Crissy deslizou as pernas em volta das dele e fechou os braços em redor das suas costas. Beijou-o no peito, na garganta, no queixo, com lábios suaves e atordoados pelo deleite, pelo amor.

Judd exalou um suspiro trémulo e Crissy sentiu ainda mais o peso do seu corpo, mas somente durante uns segundos, porque ele se afastou respirando fundo e deitou-se sobre o colchão.

Judd sentia o corpo como se fosse borracha e estava repentinamente consciente do que acabara de fazer. Não o consolava estar saciado até à medula, nem saber que Christabel tinha tido tanta satisfação como ele. Nem que ela fosse virgem e que a tivesse feito atingir o clímax pela primeira vez. Tinha- se aproveitado dela e não tinha o direito, apesar de serem casados.

- Maldição! - resmungou.

- E agora vais querer flagelar-te - disse Christabel com um suspiro. - Vais ficar aí deitado, sentindo-te culpado, depois de me teres dado um orgasmo pela primeira vez.

Judd pestanejou. Não podia ter ouvido bem.

- Como sabes o que é um orgasmo?

- Como não iria sabê-lo, se falam disso em todos os programas de televisão e em todas as revistas das bancas? - virou-se e apoiou a cabeça no ombro húmido de Judd, para se aninhar contra ele com a mesma naturalidade de alguém que o tivesse feito toda a vida. - Pressupõe-se que as virgens devem sofrer e sangrar muito e chorar depois. Eu sei, porque as raparigas da minha turma de informática vivem com homens e contaram-me. Pensavam que eu era louca, porque na minha idade ainda não tinha dormido com ninguém.

Judd acariciou-lhe o cabelo, tentando sentir-se orgulhoso de si mesmo.

- Não leio revistas.

Christabel enredou os dedos no pêlo negro que cobria os músculos poderosos do seu peito. Judd arqueou as costas involuntariamente por causa do prazer da carícia.

- Sentes-te culpado, não é? - insistiu. Ele suspirou.

- Sim, sinto-me culpado. Bebi demasiado e as minhas defesas derrubaram-me.

- Tinha que acontecer alguma vez - apontou Christabel com suavidade. - E tu mesmo o disseste, somos casados. Não podia fazê-lo com mais ninguém.

Principalmente com o maldito Grier, pensou Judd, e sentiu um prazer primitivo por a primeira vez de Christabel ter sido com ele.

- Estou contente por ter esperado, Judd - sussurrou com voz rouca. - Nunca pensei que seria tão maravilhoso. Foi incrível! Incrível!

Ele também estava contente, mas não sabia como o reconhecer. Christabel fechou a mão sobre a sua pele.

- Está a dar-me sono e tenho estremecimentos de cada vez que respiro, juntamente com estremecimentos fantásticos de prazer - sussurrou. - É normal?

Depois daquele terramoto de paixão, pensou Judd com regozijo, tinha que ser assim. Ele também tinha sono.

- É normal - respondeu.

- Posso dormir contigo?

Judd falava com voz sonolenta e satisfeita.

- Acabaste de o fazer.

Christabel deu-Lhe um murro suave no peito.

- Toda a noite - explicou-Lhe.

Judd respirou fundo. Não queria estar sozinho na quela noite. Ficaria acordado e iria torturar-se pelo

ocorrido naquele dia. Além disso, o mal já estava feito. O que é que tinha se ela ficasse a dormir nos seus braços? Estava tão relaxado, tão satisfeito, que mal conseguia manter os olhos abertos. Também sentia estre mecimentos de saciedade. Nenhuma mulher Lhe tinha provocado um prazer tão desenfreado como Christabel.

- Podes ficar - disse Judd.

Ela sorriu junto do seu ombro. Nem sequer deu a entender que quisesse ir buscar uma camisa de dormir ou algo com que se tapar e adormeceu quase de seguida, alheia ao rosto tenso e taciturno do homem que estava ao seu lado.

Christabel pestanejou ao sentir a luz. Moveu-se e gemeu ao sentir umas pontadas nada familiares. Abriu os olhos e viu Judd de pé, vestido com as calças de ganga e a t- shirt preta, imóvel.

- Olá - disse com leve nervosismo.

- Olá - cumprimentou. Não estava a sorrir.

- O que estás a fazer?

Judd franziu o sobrolho.

- Estou a ver-te dormir - disse bruscamente. - Preparei o pequeno-almoço.

- O café também? - murmurou, sonolenta.

- O café também. Vem quando estiveres pronta.

Virou-se com um certo tédio e saiu do quarto. Christabel afastou o lençol e percebeu que estava nua. Havia uma mancha eloquente nos lençóis brancos. Maude iria ver Fez uma careta. Era um segredo e não queria partilhá-lo com ninguém, nem sequer com Maude.

Tomou um duche rápido, vestiu roupa lavada e tirou os lençóis da cama para os meter na máquina de lavar antes de percorrer o corredor até à cozinha. Os deliciosos aromas do toucinho frito impregnavam a casa. Inspirou e sorriu.

- Fazes isso cada vez melhor - comentou, ao ver a fornada de pãezinhos dourados quando se sentou junto a ele na mesa.

- Queimei os pãezinhos todos os dias durante um mês e, finalmente, aprendi - repôs Judd despreocupadamente. Viu-a servir café, observando intensamente o seu rosto. Sorriu de forma involuntária ao vê-la acabada de tomar banho, sem maquilhagem, com o cabelo comprido, lavado e solto. Parecia mais velha aquela manhã, mais madura. Mais sexy. Aquilo fê-lo sentir-se culpado e virou a cabeça.

Crissy olhou para ele e percebeu o que ia no seu pensamento. Levou a mão ao cabelo.

- Não me pintei - disse, interpretando mal o olhar

- Estava a pensar no quanto estás natural - murmurou.

- Obrigada - sorriu Crissy.

Judd não lhe devolveu o sorriso. Sentia-o mais desconfortável que nunca. O olhar dos seus olhos negros não era definível.

- Bem, adeus à anulação, senhora Dunn - reflectiu Judd em voz alta, empregando o seu nome de casada pela primeira vez em cinco anos.

Christabel baixou o olhar para a chávena de café e deitou-lhe açúcar.

- Não faz mal - repôs com voz rouca. - Valeu a pena.

Fez-se uma longa pausa. Crissy levantou o olhar e contemplou o rosto de Judd intensamente, desejando que ele correspondesse àquele sentimento. Mas não o fez. Via-o confuso. Nos seus olhos brilhava algo estranho que Crissy nunca tinha visto neles. Não era afecto era. algo mais. Algo que não sabia interpretar.

- Maude vem almoçar?

- Sim. Mas quer levar uma travessa de comida para a sua irmã jantar.

Judd assentiu devagar. Depois, olhou-a com olhar possessivo.

- Não convidaste Grier? - perguntou sarcasticamente.

Christabel corou.

- Não.

- Vais levar-Lhe o jantar? - insistiu.

- Maude disse que lhe levaria uma travessa a caminho de casa da sua irmã - respondeu, confusa pelo olhar intenso de Judd. Este baixou os olhos. Não disse nada, mas sorriu ligeiramente.

Christabel mexeu o café durante mais tempo do que o necessário. Continuaria a ter ciúmes de Grier, apesar do que tinha acontecido?, perguntou-se. Será que a queria só para ele e por isso lhe estava a fazer aquelas perguntas explícitas? Ela só queria estar com ele. Prometia ser um dia mágico e tentava penetrar na repentina reserva que envolvia Judd naquela manhã.

Judd comeu sem fazer mais comentários e Crissy imitou-o. Quando terminaram, ela lavou os pratos e ele, por sua vez, passou-os por água e secou-os.

- Se pudéssemos permitir- nos, comprava-te uma máquina de lavar loiça - comentou Judd. Ela sorriu.

- Não me importo de lavar à mão. Os electrodomésticos modernos iam transformar-me numa preguiçosa.

Judd riu-se e deu-lhe um empurrão brincalhão com a anca. Era a primeira vez que o fazia e Crissy sentiu um formigueiro de prazer por todo o corpo.

- Está bem. Então, compramos-te umas botas novas - disse Judd e lançou um olhar às que ela trazia, descoladas por se terem molhado em mais de uma tempestade.

- Logo quando estas começam a adaptar-se ao meu pé? Nem pensar! - exclamou Christabel. Judd observou o seu rosto radiante com um olhar tão terno que o coração de Crissy se apertou.

- Nunca me pedes nada - disse-lhe com suavidade.

- Senti-me tão culpado pelo maldito anel que comprei a Tippy. Não queria que ficasses a saber. Diamantes e esmeraldas para ela quando tu nem sequer tens um casaco decente.

- Eu ficava horrível com diamantes e esmeraldascomentou Christabel, tentando evitar uma discussão potencialmente explosiva. Apesar de Judd não ter dormido com Tippy, tinha-lhe dado um anel. Tinha demasiados princípios para se deitar com outra mulher quando ainda era casado, mas a ela nem sequer lhe tinha dado uma prenda de anos e também não tinha visto nenhum pacote debaixo da árvore de Natal. Aquilo doía. Além disso, Judd sentia-se culpado pelo ocorrido na noite anterior e notava-se.

- Estás a evitar o problema. Não é costume teu. Crissy olhou-o com o coração nas mãos.

- Não quero discutir - disse, tentando exprimir a turbulência das suas emoções. - Depois da noite de ontem, não.

Judd hesitou. O seu rosto tornava-se mais grave a cada segundo que passava.

- Escuta, Christabel - começou a dizer, devagar. Quanto à noite de ontem.

Crissy levantou o olhar e pôs-se em bicos de pés. Mordiscou com suavidade os seus lábios e, depois, com sensualidade propositada, abriu a boca e uniu-a à dele com repentino atrevimento. Judd susteve a respiração. Ela susteve a sua, imaginando que ele a afastaria com firmeza, mas a reacção de Judd foi chocante.

Largou o pano que tinha nas mãos e apertou-a contra ele com as mãos ensaboadas. Abraçou-a com força e beijou-a apaixonadamente, avidamente, até que ela ficou sem ar.

O corpo poderoso de Judd tremeu uma vez, debilmente, e Crissy soube de imediato que a desejava. Nem sequer tentava escondê-lo. Ao que parece, estava tão vulnerável como ela e orgulhou-se disso. Os seus olhos negros lançavam faíscas de desejo enquanto olhava para ela.

Christabel voltou a procurar os seus lábios e beijaram-se. Gemeu ao sentir a pressão furiosa e firme dos lábios de Judd e o seu abraço forte, com o qual a levantou do chão.

Morria por ele. Não haviam reservas, nem inibições, nem timidez. Ela rodeou-lhe o pescoço com uma vontade febril. Judd levantou a cabeça a tempo de ver o rosto corado e dócil de Christabel e o seu semblante contraiu-se de ansiedade.

- Desejo-te - sussurrou Christabel com voz rouca a tremer. - Vamos voltar para a cama. Desejo-te tanto, Judd! Quero despir-me e deixar-te fazer o que quiseres comigo, agora mesmo, em plena luz do dia.

Judd gemeu. Imagens de indizível deleite esvoaçavam pela sua cabeça só de pensar. Mas antes de poder ceder àquele prazer, o barulho de um carro paralisou-o.

- Maude? - murmurou com voz rouca.

- Tão cedo, não pode ser - disse Christabel. Judd arqueou uma sobrancelha.

- Não viste as horas, não?

- Acabámos de tomar o pequeno-almoço. Judd indicou-Lhe com a cabeça o relógio do forno. Eram dez da manhã. Christabel proferiu uma exclamação.

- Céus E nem sequer comecei a assar o frango nem a preparar o recheio nem a massa de pão.

- Ainda bem que Maude chegou cedo - disse Judd bruscamente e afastou-a com firmeza. Estava a sorrir, mas a sua expressão era de desejo sensual contido.

- Que pensará quando vir que acabámos de tomar o pequeno-almoço?

Lançou a Christabel um olhar grave e a angústia do dia anterior envolveu-o.

- Podemos dizer-lhe que ficámos a falar até muito tarde por causa do que aconteceu em Victoria - sugeriu.

Crissy fez uma careta. Tinha esquecido os aconteçimentos do dia anterior, a perda de controlo que os tinha lançado a ambos num abraço mútuo. Como poderia ter-se esquecido?

- Vive um dia de cada vez, Judd - sugeriu, devagar.

- Vais superar.

Judd não respondeu. Ouviram a porta a bater. Quando Maude entrou pela porta de trás, estavam a acabar de secar os pratos num silêncio desconfortável.

Maude parou no umbral, sentindo-se uma intrusa sem saber porquê. Franziu o sobrolho. Judd não parecia abatido, mas sabia que era suposto estar.

- Estás bem? - perguntou-lhe com suavidade. Judd sorriu ligeiramente.

- Vivo. Acabámos de tomar o pequeno-almoço. Deitámo-nos tarde.

- Ficaram a falar, imagino - corroborou Maude enquanto se dirigia ao frigorífico, de modo que não viu a expressão de culpa nos seus rostos. - Fico contente que não tenhas ficado em Victoria. Não tens que estar sozinho.

- Isso pensei eu - afirmou Judd.

Maude olhou-os com curiosidade, mas não disse nem uma palavra. Havia tanta tensão no ambiente que quase se podia tocar. Limitou-se a assentir e começou a tirar alimentos do frigorífico e a dispô-los sobre a mesa da cozinha.

Quatro horas mais tarde, saboreada a comida de Natal, apesar de não com muito prazer por parte dos dorminhocos, Maude estava a encher uma travessa para levar á irmã.

- Volto assim que lhe entregar isto - disse e pergun tou-se porque é que Judd parecia aliviado e Christabel

decepcionada.

- Bem - disse Judd bruscamente. - Christabel não deve ficar sozinha, apesar de Jack Clark continuar na prisão. Lembrem-se que devem fechar bem portas e ja nelas. Vou falar com Nick antes de me ir embora.

- Já vais? - perguntou Christabel, tentando não dar a impressão de que o seu mundo estava a vir abaixo. Porque assim era.

- Vou - disse sem a olhar nos olhos. - Não devia ter vindo.

- Queres que prepare uma travessa a Cash Grier?perguntou Maude de repente.

- Não te incomodes - disse Christabel com ânimo.

- Pode jantar connosco.

Os olhos de Judd arderam de fúria, mas cerrou os lábios e não disse mais nada. Saiu da cozinha para se vestir.

- O que é que se passa? - perguntou Maude, atónita. Christabel levantou o queixo com orgulho.

- Nada. Está abatido e custa-lhe digerir o que aconteceu. Terá que o superar à sua maneira.

- Se tu dizes, querida. - suspirou Maude. Maude esperou que Judd se fosse embora. Dez minutos depois, as duas mulheres viram-no sáir pela porta. Dirigiu a Christabel um último olhar e fez uma careta ao ver o seu semblante magoado. Mas não se deteve. Desejou-lhes um feliz Natal e foi-se embora.

Judd-já estava a meio caminho de Victoria qúando se lembrou que nem sequer tinha dito a Christabel que lhe tinha comprado um colar de pérolas e uns brincos a condizer para o Natal. Tendo em conta as circunstâncias, talvez fosse melhor assim. Tinha perdido a cabeça e tinha dormido com ela. Christabel estava à espera do viveram felizes para sempre, e ele estava mais confuso do que nunca sobre aquilo que queria na vida. Precisava de tempo para pôr as suas ideias em ordem. De momento, era incapaz de tomar decisões.

 

Na véspera de Ano Novo, com o teste de balística e a autópsia de John Clark realizados, Judd passou pelo rancho à hora de almoço, pensativo.

Christabel estava a ver as notícias na sala quando ele apareceu. Maude tinha saído para comprar comida. Judd percebeu logo que tinham tirado a árvore de Natal. Era uma dolorosa prova do quanto Christabel estava abatida naquele Natal, porque ela gostava de a conservar até ao Ano Novo. A prenda que Judd não lhe tinha dado fê-lo sentir-se desconfortável. Ainda a tinha no seu apartamento, mas naquela altura sentia-se demasiado envergonhado para lha dar.

Sentou-se na poltrona e deixou o chapéu num dos lados enquanto Christabel esperava em silêncio para ouvir o que ele lhe queria contar. A televisão destoava no silêncio. Judd encolheu os ombros.

- Tinha razão. A minha bala rasgou a artéria femoral de Clark. Podia ter sobrevivido, mas só com assistência médica imediata - sorriu com o semblante taciturno. - Não me sinto muito melhor, mas disseram-me que a bala do segurança foi a que o matou e é isso que irá constar no relatório.

Crissy sentia-se desconfortável com ele depois da sua despedida fria no dia de Natal. Mas gostava demasiado dele para fingir que o seu problema não Lhe interessava.

- A intenção é o que importa perante a lei, Judd, e tu sabes - recordou-Lhe com suavidade. - Não tiveste intenção de o matar. De certeza que o segurança também não.

Judd tinha o olhar atormentado.

- Não, o guarda também não o queria matar. Mas está muito mal. John Clark morreu e os jornais culpam-nos aos dois, apesar daquilo que se descobriu com a autópsia.

Crissy queria sentar-se nos seus joelhos e abraçá-lo, consolá-lo. Mas existia uma tremenda distância entre eles. Sentia-o tão inacessível como se nunca lhe tivesse tocado.

Estava confusa e sentia- se rejeitada. Não tinha parado para pensar como seria ter uma relação íntima com um homem. Era pura agonia estar longe dele, nem que fosse durante uma hora. Mas Judd não a queria a seu lado de forma permanente. Tinha bebido demasiado, tinha sofrido um trauma e tinha-se consolado com Christabel na noite de Natal. Não passava disso, na realidade. Para ele, tudo tinha acabado. A morte de Clark não era culpa dele. Voltaria a trabalhar assim que terminassem as burocracias e as consultas psicológicas e, a pouco e pouco, iria esquecer o que aconteceu, in cluindo a noite com ela. De facto, ao olhar para ele, Crissy dava-se conta de que já se tinha esquecido.

- Estás muito calada - comentou. Ela olhou-o nos olhos.

- Desculpa. Disseste que já fizeram a autópsia?

- Sim. Enterram-no amanhã de manhã. Um polícia irá levar Jack Clark a Victoria para que possa assistir ao funeral. Os jornalistas vão ficar em pulgas com isso.

- São os tempos que correm - repôs Crissy e olhou-o com tristeza. - Mas, como costumavas di zer-me, até a vida é uma situação temporária. Vais su perar.

- Claro - disse e Crissy viu como o seu peito subia e descia devagar. Susteve o seu olhar demorada e sombriamente. - Estive a adiar este tema porque não sabia como o abordar. Mas temos que falar sobre o futuro, Christabel - anunciou por fim.

- Que futuro? - perguntou Crissy com um sorriso forçado. Ele inspirou.

- Temos que resolver o divórcio.

Crissy não reagiu: Custou-lhe, mas disfarçou.

- Sim.

Judd relaxou. Christabel estava a reagir melhor do que esperava. Ainda não tinha a certeza do que sentia, mas devia fazer alguma coisa.

- Vou pedi-lo o mais depressa possível. Neste momento, há demasiada confusão. Estão atrasados com outras investigações e, por isso, a minha terá que esperar até depois do Ano Novo. Ainda tenho que responder a umas perguntas e consultar um psicólogo. Ele terá que emitir relatórios, declarações e levar a cabo todos os trâmites oficiais posteriores ao tiroteio.

Christabel observou os seus lábios firmes com uma inquietação crescente.

- Estás arrependido do que fizemos, não é Judd?

Não respondeu logo.

- Sim - resmungou finalmente. - Tinha bebido muito e tu estavas à mão - disse. - Não tinha direito de te usar para esquecer os meus problemas.

A alma de Crissy caiu-Lhe aos pés. Com franqueza!

- Somos casados. - começou a dizer.

- Isso não é desculpa! Christabel, nunca quis que houvesse intimidade entre nós. Insisti nisso e tu sabes. Sabes porquê!

Parecia muito desconfortável e todas as esperanças de Crissy se evaporaram perante a certeza daquilo que estava a ouvir. Não lhe tinha ocorrido pensar que duas pessoas que tinham estado tão unidas fisicamente se pudessem transformar em desconhecidos da noite para o dia. Mas Judd mostrava-se distante, sentia-se encurralado. A liberdade era uma religião sagrada para ele. Não queria estar com Crissy.

- Não queres continuar casado comigo - disse com um suspiro suave. - Eu sei.

Judd não sabia o que queria. Estava inquieto, confuso. Depois do tiroteio, tinha procurado consolo, tinha necessitado de uma mulher. Tinha usado o álcool como uma desculpa para possuir Christabel, por quem tinha agonizado lentamente. Mas sentia-se culpado por a ter forçado a uma relação para a qual não estava preparada. Nunca tinha saído com nenhum rapaz. Ele tinha-lhe arrebatado o direito de escolher. O amor idílico que sentia por ele tinha chegado ao desenlace inevitável e ele estava preocupado com a perda de liberdade e pelo seu desconforto com a vida de familia. Sentia- se asfixiado. Precisava de espaço apesar de, ao mesmo tempo, não poder esquecer a experiência vivida naquele quarto às escuras. Nunca tinha acreditado que Christabel fosse capaz de sentir uma paixão tão desen freada. De facto, era a primeira vez que ele a sentia.

- Não, não quero continuar casado - disse obstinadamente, mais para si do que para ela.

- Entendo - assentiu Crissy.

- Não entendes - replicou Judd. - Mas quando parares um tempo para pensar, compreenderás que tenho razão - acrescentou friamente. - Foi uma noite isolada no tempo, Christabel. Eu passei dos limites e tu deixaste. Agora, teremos que pôr isso para trás das costas - inclinou-se para a frente com os braços cruzados sobre as pernas. - Pelo menos, não haverá nenhuma consequência.

Referia-se à pílula que Christabel estava, supostamente, a tomar. Ela não se atrevia a contar- lhe a verdade. Ficou a olhar para o chão.

- E, como não há, está tudo bem com Tippy Moore

- apontou Crissy com suavidade. Ele franziu o sobrolho. - A tua noiva - recordou-o e forçou um sorriso.

Christabel tinha mencionado isso numa ocasião e ele não a tinha contrariado. Começou a negar, mas conteve-se. Se Christabel pensasse que ele desejava Tippy, iria custar-lhe menos esquecê-lo. Também tornaria a vida mais fácil a Tippy que, apesar de Christabel não saber, estava a passar um mau bocado a tentar manter Gary Mays, o realizador assistente, dentro dos limites. Pelo menos, a sua relação com Judd tinha servido para isso.

Christabel reparou no seu silêncio repentino e respirou fundo.

- Então, era um anel de noivado, não era? Judd assentiu, afirmando a mentira com uma inclinação de cabeça que parecia uma traição. Christabel estava destroçada. Não queria fazê-la sofrer, mas o seu trabalho era a sua vida. Não queria formar uma família, parecia-lhe uma armadilha mortal. Ainda bem que Christabel tomava a pílula ou poderia ter ficado preso para sempre.

Christabel tentava assimilar aquela confusão, mas fracassava miseravelmente. Custava-Lhe não ceder ao pranto quando tinha um nó na garganta como se tivesse engolido uma bola. Pestanejou rapidamente para reprimir as lágrimas.

- Está bem - disse com voz rouca. - Não te vou causar problemas, Judd. Espero que sejas feliz com

Tippy - entrelaçou as mãos com força no colo e forçou um sorriso. - Sabia que tinhas intenções sérias com

ela, para Lhe comprares um anel como aquele, quando nos custa pagar as contas do rancho. Não tens que te preocupar com isso - acrescentou depressa, levantando uma mão. - Tinhas razão sobre a escola. Só me

falta um semestre e duas disciplinas para que me dêem o diploma. Entretanto, posso trabalhar entre as aulas, num supermercado ou algo assim - disse rapidamente, fazendo planos. - Depois, quando acabar o curso, vou procurar trabalho numa empresa. Com o dinheiro extra podemos contratar outra pessoa a tempo inteiro, como tínhamos planeado.

Judd fez uma careta.

- Christabel. - começou a dizer, detestando a dor que ouvia na sua suave voz de mulher. Ele engoliu em seco.

- Podes ir sozinho ao Japão. Falas com estrangeiros todos os dias.

- Tu és co-proprietária do rancho - interrompeu-a.

- Por enquanto - disse, sem olhar para ele. Quando consolidarmos o contrato com os japoneses, tomaremos decisões. Não quero continuar a viver aqui e ser uma pessoa a mais quando casares.

- Por Deus! - explodiu, horrorizado com o que ouvia. Não se tinha dado conta da mudança drástica que a mentira podia provocar. Ela pôs-se de pé.

- Não faz mal - disse. - A sério - forçou outro sorriso. - Pode ser que eu também tenha perspectivas de me casar - acrescentou, pensando em Cash.

Judd também pensou nele. Estava de rastos. Os seus raciocínios confusos tinham-no lançado naquela manhã em futuros impensáveis. Pôs-se de pé.

- Não há motivo para decidir alguma coisa hoje! exclamou.

- É o melhor - Crissy avançou até ao umbral. - Desejo que tudo te corra bem em Victoria - acrescentou e voltou a cabeça sem chegar a olhá-lo nos olhos. Continuava a sorrir. - Feliz Ano Novo, Judd. Espero que o próximo ano seja mais feliz. para os dois.

Saiu da sala. Judd ficou a olhar como ela se afastava com o coração abatido, sentindo-se como se acabasse de cair num poço do qual não conseguia sair.

Tinha visto tanta dor naqueles olhos castanhos, tanto tormento. Christabel iria refugiar-se em Grier, máldito, e ele iria casar-se com ela num abrir e fechar de olhos à menor oportunidade. Mas Grier não poderia fazê-la feliz. Ela nunca o entenderia, nem iria encaixar no seu mundo. Não mais do que Judd iria encaixar nos círculos sociais de Tippy Moore.

Recordou o forte abraço de Christabel, os seus lábios ávidos unidos aos dele, o seu corpo movendo-se com agoniante deleite debaixo do seu sob os lençóis frescos e brancos na escuridão. Ela tinha sido o seu sonho de perfeição. Mas o desejo não era suficiente

para ela. Queria tê-lo a seu lado todos os dias, queria ter filhos. Judd estremecia só de pensar nessas amarras.

Mas Christabel já era maior de idade e queria ser livre. Livre do rancho, livre do casamento, livre dele. Isso era o que Judd também queria. Ou não? Tentou imaginar o que seria não voltar a estar sozinho com ela, não percorrer a cerca com ela, não desfrutar do seu doce consolo. Christabel sabia sempre quando ele estava triste ou abatido e o que dizer para o animar. Às vezes, quase lia o seu pensamento. Fazia-o sentir-se quente por dentro com a sua presença. E, naquele mo mento, ao recordar a reacção febril do seu corpo na intimidade, Judd sentiu-se ainda mais próximo dela. Mas, agora, estava. vazio. Só.

Pegou no chapéu e pô-lo na testa, franzindo o sobrolho. Iria habituar-se a estar sem ela. Não seria assim tão difícil. Era o melhor. Era demasiado nova para ele e não tinha experiência suficiente com os homens para assentar. Então, o seu cérebro recordou que Grier a arrebataria como um troféu de pesca assim que se divorciassem. Christabel, magoada e rejeitada, casaria com ele.

Começou a andar até à porta numa névoa de indecisão, exactamente quando Maude a abria e entrava com um saco de comida.

- Olá, Judd. Como vai tudo? - perguntou com um suave sorriso.

- Vou andando, como sempre - respondeu. Olhou para a cozinha, onde ouvia a água a correr. - Toma conta dela, está bem? - acrescentou Judd. - Está triste.

Maude olhou para ele com perspicácia.

- Não preciso de perguntar porquê. Não te preocupes com Crissy - acrescentou com um sorriso. - Tenho notícias que a vão animar. Cash vai levá-la à festa de fim de ano de Jacobsville. Tem bilhetes e haverá uma banda.

Judd franziu o sobrolho.

- É demasiado velho para ela - resmungou antes de poder escolher melhor as palavras. Maude limitou-se a sorrir.

- Não dirias se os visses juntos. Crissy fá-lo rejuvenescer. E não é preciso ser-se muito esperto para se dar conta de que Cash está caidinho por ela. Se fosse livre, casaria com Crissy num abrir e fechar de olhos.

- Tenho que me ir embora - disse Judd friamente. Feliz Ano Novo.

- Igualmente. Não levaste os teus presentes de Natal - disse Maude. - Queres que tos traga? Eu fiz-te umas meias. Crissy comprou-te um alfinete de gravata. uma estrela de prata. Lembras-te que lhe disseste que adoravas ter um assim? Foi a Victoria e passou um dia inteiro à procura dele. Já te vais mesmo embora? - acrescentou quando ele se preparava para atravessar a porta.

- Sim - disse com a voz entrecortada. Não suportava recordar que não tinha oferecido nada a Christabel. Um anel caro para Tippy, que não era mais do que um elemento superficial da sua vida e nada para a mulher que tinha sacrificado tanta coisa para manter de pé aquele rancho enquanto ele trabalhava.

- Bem, conduz com cuidado - disse-Lhe Maude. Não te vais despedir de Crissy?

Judd não respondeu. Começou a andar até ao seu veículo, entrou e saiu disparado como um foguete.

Maude encontrou Crissy diante do lava-loiças, a chorar em silêncio. Hesitou no umbral.

- Precisas de mim para alguma coisa?

Crissy sorriu entre lágrimas e negou com a cabeça.

- Cash disse que ia passar cá por volta das seis para te levar à festa de fim de ano - acrescentou Maude. Isso vai animar-te!

Crissy fechou os olhos. Graças a Deus tinha Cash.

- Sim - disse com voz rouca. - E acredita, eu preciso. Maude, Judd e eu vamos divorciar-nos para que ele possa casar-se com Tippy. Não é maravilhoso?

Maude não sabia o que dizer.

- Pode ser que me case com Cash - continuou.

- Não faças isso, linda - disse Maude suavemente.

- Dois erros não tornam uma coisa certa. Além disso, lembra-te que Judd está a atravessar momentos muito difíceis. Eu, se fosse a ti, não faria muito caso daquilo que ele te disse agora mesmo. Não está a pensar com clareza. Espera que ele esqueça o tiroteio antes de tomares alguma decisão concreta, de acordo?

Maude não sabia o que se estava a passar e Crissy não lhe queria contar. Respirou fundo e deitou detergente na água do lava-loiças.

- Nem sequer me comprou um programa de computador pelo Natal, Maude - disse à mulher. - A ela ofereceu-lhe aquele anel tão caro. Confirmou que se trata de um anel de noivado, como Tippy nos contou. Suponho que está apaixonado por ela. Por isso, não há mais nada para falar. Desejo que Judd seja feliz.

Maude também, mas, naquele momento, tinha vontade de o estrangular. Deixou sobre a mesa da cozinha o saco que ainda segurava na mão.

- Há mais no carro - murmurou e saiu em busca do resto das compras. Crissy nem sequer olhou. De qualquer forma, as lágrimas não lhe permitiam ver grande coisa.

A festa de fim de ano foi sensacional. Foi celebrada no Centro Cultural de Jacobsville, situado junto à praça municipal, e a ela assistiram a maioria das famílias fundadoras de Jacobsville. Janie Brewster Hart e o seu marido, Leo, tinham-se casado pouco antes do Natal e abraçaram-se quando uns inesperados flocos de neve caíram sobre os grupos que se concentravam na praça para escutar as doze badaladas. Toda a gente sorriu com indulgência ao ver aquilo.

Cash inclinou-se e beijou Crissy suavemente nos lábios. Ela rodeou-lhe o pescoço com as mãos e devolveu-Lhe o beijo com um entusiasmo repentino que o fez estremecer dos pés à cabeça. Cash devolveu-lhe o beijo com fervor e com toda a sua destreza. Crissy sorriu sob a pressão dos seus lábios, desfrutando da novidade de estar nos seus braços. Não era Judd, mas, de qualquer forma, era agradável beijá-lo. Não era preciso perguntar a experiência que tinha, porque se notava. Nenhum dos dois reparou nos olhares de regozijo dos seus concidadãos.

A notícia do beijo ardente de Crissy e Cash propagou-se por toda a cidade e chegou aos ouvidos de Judd, que já tinha voltado ao seu posto. Não gostou nada, principalmente porque a cada dia que passava lamentava mais a conversa que tinha tido com Christabel sobre o divórcio.

Jack Clark foi transportado para Victoria para assistir ao funeral do irmão alguns dias depois da autópsia. De regresso a Jacobsville, Jack mostrou-se tão dócil e educado que o amável agente do xerife que o transportava quebrou o protocolo e deixou-o algemado em vez de ir preso a um cadeado. No decorrer de uma paragem em que Clark pediu para ir à casa de banho, o amável agente foi recompensado com dois golpes na cabeça com a coronha do seu próprio revólver de calibre 28. Clark deu-o como morto e abandonou-o sob uma forte chuvada na berma da auto-estrada. Horas mais tarde, encontraram o carro-patrulha vazio nos arredores de Victoria.

Incapaz de viajar até Jacobsville, Judd telefonou a Cash Grier e contou-lhe o sucedido. Também tinha que lhe pedir para estar atento a Christabel, já que temia que Jack Clark quisesse ajustar contas com todos eles, especialmente, com ela.

A equipa de filmagens regressou para realizar as últimas semanas de trabalho e Christabel estava tão abatida que mal olhou para Tippy. Tinha passado todas as disciplinas de Outono e tinha-se matriculado para o semestre seguinte.

Judd apareceu no primeiro domingo da gravação, logo de manhã. Estava um dia frio, mas soalheiro. Cash já lá estava, a falar com um dos seus homens sobre a vigilância e à espera que Christabel estivesse pronta para poder sair com ela.

Christabel não esperava ver Judd e reagiu com desconforto. Judd fez o mesmo. Falaram com a educação gélida de dois desconhecidos. Christabel nem sequer lhe sorriu. Tippy viu aquela nova tensão e desconforto e formulou uma desagradável hipótese. Gary estava a assediá-la mais do que nunca e aterrava-a ficar sozinha com ele, apesar de haver mais pessoas. Não podia permitir que Judd a abandonasse precisamente naquele momento

De modo que, enquanto Judd falava brevemente com o realizador assistente e o pessoal montava os aparelhos, Tippy parou junto da silenciosa Christabel.

- É o que acontece quando se reflecte na cara aquilo que se sente - disse Tippy frivolamente. - Se queres algo de um homem, não deverias rastejar para os seus braços. De qualquer forma, o sexo é uma péssima maneira de reter um tipo como Judd. Está demasiado envergonhado para falar contigo, não te dás conta? Disse- me que o envergonhas com o teu comportamento. A única coisa que quer é esquecer o sucedido. Diz que te rastejaste para os seus braços e que não conseguiu evitar.

Christabel olhou a mulher com o semblante horrorizado. Tippy sentiu-se fugazmente culpada pela mentira. Mas tinha acertado em cheio.

- Enojado - repetiu Crissy com voz inexpressiva, sentindo náuseas. Judd não esteve com meias medidas. A sua inexperiência e a sua paixão desinibida tinham-no envergonhado e não suportava sequer vê-la. Tinha dito a Tippy que ela se tinha entregue a ele e que a única coisa que queria era esquecer tudo. Bem, não era nenhuma surpresa. Não o tinha já dito a ela? Mas não tinha sido tão cruel, nem sequer ao mencionar o divórcio.

Virou-se e foi buscar a sua mala. Nem lhe ocorreu vestir uma camisola, apesar de estar frio. Quando voltou a sair, Judd estava no alpendre.

Não o olhou nos olhos. Estava terrivelmente magoada. Pendurou a mala ao ombro com movimentos rígidos.

- Estás bem? - perguntou Judd vacilante. Ela cerrou os lábios.

- Já percebi que ver-me te enoja e que te envergonho com a minha mera presença. Neste momento, não posso evitá-lo, mas prometo afastar-me de ti o máximo possível quando vieres cá. Diz a Tippy que não tem por que continuar a atormentar-me. Terás o divórcio assim que o pedires - elevou o olhar, magoada e furiosa. - Como foste capaz de Lhe dizer que dormimos juntos, que rastejei para os teus braços? Como pudeste, Judd?

Judd franziu o sobrolho e começou a falar, mas ela afastou-se para uma pradaria próxima até uma das construções do rancho, para esperar ali que Cash terminasse de falar com um dos seus homens. Judd ficou encolerizado. Como é que Tippy podia ter contado aquela mentira a Christabel, quando ele já lhe tinha destroçado o coração?

Avançou até à modelo com os olhos injectados de sangue e encurralou-a a uns metros de distância de onde Christabel aguardava Cash, perto do edifício.

- Porque é que disseste a Christabel que ela me envergonhava? - perguntou a Tippy com asco. – Porque é que lhe mentiste?

Tippy estava demasiado atordoada para responder.

Não Lhe tinha ocorrido que a jovem iria repetir as suas palavras no momento seguinte. Começou a falar, quando avistou um movimento atrás de Judd que captou a sua atenção.

Christabel afastava-se um pouco mais da visão dolorosa de Judd a falar com Tippy Moore. De repente, viu um homem magro e meio careca a apontar uma pistola às costas de Judd.

Não havia tempo. Judd era capaz de reagir numa fracção de segundos, mas na fracção de segundos que ela demoraria a chamá-lo, cairia morto. Era a única decisão possível e, por isso, Christabel tomou-a. Interpôs-se entre a trajectória da bala exactamente quando Clark disparava.

Por estranho que pareça, não sentiu dor. Notou o impacto de um objecto duro e, depois, a dificuldade de respirar. Ficou a olhar para o homem que acabava de premir o gatilho e, com um pequeno gemido, caiu para o chão, a sangrar, inconsciente.

Tippy viu o que aconteceu com autêntico horror.

- Judd! - gritou no momento em que se produziu a detonação.

Com o instinto de muitos anos de profissão e com um único movimento fluido, Judd sacou do seu revólver automático Colt de calibre 45, voltou-se e disparou, ferindo Clark numa mão. O homem soltou a arma e caiu de joelhos.

Judd avançou para ele sem hesitação, pensando distraidamente que Christabel tinha desmaiado. Cash Grier aproximou-se a correr, empunhando o seu revólver.

- Vou algemá-lo - disse Judd. - Tu ocupa-te de Christabel. Acho que desmaiou.

Imobilizou Clark e algemou-o nas costas, ignorando os gritos de dor do homem e as suas ameaças furiosas.

- Barnes, chama uma ambulância! - gritou Grier ao seu subalterno, que fez um sinal e começou a falar pelo rádio-transmissor que trazia na lapela do uniforme.

- Judd!

A voz de Cash soava estranhamente entrecortada. Aquilo inquietou-o. Deixou Clark algemado, de joelhos, retirou-lhe o revólver que trazia e guardou-o no cinto. Reuniu-se a Cash junto ao corpo imóvel de Christabel. Tippy tinha ficado petrificada, mas também se aproximou, juntamente com o resto do pessoal da filmagem.

A mão de Cash saiu de debaixo do peito de Christabel coberta de sangue.

Judd deixou de respirar, deixou de pensar. Christabel não tinha desmaiado: jazia imóvel e rígida. Estava morta. Clark tinha-a matado. Virou-se maldizendo o homem algemado e atirou-se contra ele com movimentos terríveis.

- Judd, não! Detenham-no - gritou Cash aos membros da filmagem.

Três homens, dois engenheiros e o realizador assistente, travaram Judd exactamente quando alcançava Clark e afastaram-no dele. Judd praguejava profusamente, com voz entrecortada, enquanto a realidade co meçava a penetrar no seu espírito atordoado.

- Solta-me, maldito seja! - arquejava medindo forças com os que o seguravam.

- Judd, está viva! - gritou Cash. - Ouves-me? Vem cá! Não consigo fazer isto sozinho!

Judd desfez-se dos homens que o retinham e juntou-se a Cash quando este dava a volta ao corpo com mãos trémulas e suaves. Judd estava pálido e respirava com dificuldade.

O sangue saía da frente da sua blusa, empapando-a e manchando a erva sobre a qual Christabel jazia. Estava tanto frio que o sangue coagulava. Christabel estava inconsciente e respirava de forma ruidosa.

- Colapso pulmonar - disse Cash. - Feriram-na em algum ponto da caixa torácica - olhou Judd com ar frenético. - Precisamos de cobertores; algo com que lhe levantar os pés, pressionar a ferida.

Judd ficou rígido, contemplando a palidez e imobilidade de Christabel e reflectindo horror em cada linha do seu rosto. Pela primeira vez na sua vida, era incapaz de raciocinar. Havia tanto sangue. pensou alucinado. Tanto! Cash também não estava a reagir muito bem. Sentia-se impotente ao ver Crissy assim.

Tippy aproximou-se depressa, recordando o que tinha dito a Christabel há escassos minutos, a mentira que tinha inventado. Odiava-se a si mesma. O sangue punha-a mal disposta, mas estava habituada às emergências. Tirou o casaco luxuoso que trazia e cobriu com ele a ferida, pressionando com força para tentar deter a hemorragia. Grier olhou para ela, surpreendido.

- Está a entrar em estado de choque - disse Tippy serenamente. - Precisamos de cobertores.

- Cobertores! - gritou Cash.

Os homens começaram a correr. Maude ouviu o rebuliço e saiu a correr de casa, mas regressou ao interior assim que lhe contaram o sucedido e o que era preciso. Saiu de novo carregando cobertores do quarto das visitas e um edredão enorme. Passou-os a Cash, que cobriu Christabel enquanto Tippy continuava a pressionar a ferida. Maude enrolou uma das mantas e usou-a para levantar as pernas de Christabel. As lágrimas resvalavam pelas suas faces. Soluçava enquanto retorcia as mãos e a observava.

- Que se passa com a ambulância? - gritou Grier ao seu agente.

Naquele momento, o som das sirenes quebrou o murmúrio das conversas. Judd agarrava uma das mãos de Christabel com tanta força que tinha os nós dos dedos brancos. Tinha os olhos vidrados e nem sequer parecia ver as pessoas que o rodeavam.

Christabel estava a começar a tremer dos pés à cabeça e um gemido áspero brotou dos seus lábios. O som arrancou Judd do seu torpor. Tirou-lhe o cabelo da cara.

- Não te mexas, querida - disse com voz rouca. Não te preocupes, estou aqui. Vais ficar bem. Onde diabos está essa maldita ambulância? - gritou com a voz impregnada de pânico.

- Aqui, senhor - disse o colega de Cash, que estava a afastar os curiosos e a fazer sinais à ambulância para que se aproximasse. A seguir à ambulância vinha um carro da polícia de Jacobsville com outros dois homens de Grier.

Judd continuava a apertar a mão de Christabel com força. Tentou manter-se desperto o tempo suficiente para lançar um olhar a Clark, que estava de joelhos sobre a erva, gemendo por causa do seu ferimento.

- Metam na prisão esse filho da mãe - resmungou, - antes que eu acabe com ele.

O olhar de Judd denunciava as suas intenções. Tinha esquecido a lei, o dever, a honra, tudo, dominado pelo pior receio que já tinha experimentado na vida, Se Christabel morresse, seria um homem sem lei. Já não lhe iria importar nada no mundo, nunca, excepto a vingança. Sentia-se frio, doente e horrorizado e não conseguia tirar os olhos do rosto de Christabel contraído pela dor. Vê-la assim estava a matá-lo. E o sangue continuava a jorrar como água de um aspersor, apesar dos esforços febris de Tippy para cortar o fluxo.

O pessoal da ambulância actuou com rapidez e eficiência. Judd não queria soltar a mão de Christabel. Tiveram que contorná-lo para a transportar, porque Judd subiu à ambulância com ela, sustendo-Lhe a mão.

- Não a deixem morrer - disse Cash a um membro do pessoal médico. - Vou desarmar Judd antes que a levem - acrescentou num murmúrio.

Subiu à ambulância, falou em voz baixa com Judd, que mal olhou para ele e tirou-Lhe as duas armas, a Colt automática e o revólver com que Clark tinha disparado. Quando desceu, fecharam as portas da ambulância. A última imagem que teve de Crissy foi com a cabeça morna de Judd inclinada sobre ela numa agonia de dor.

- Vai sobreviver? - perguntou Tippy a Grier. Cash olhou para ela, compreendendo com algum atraso que ela lhe estava a dirigir a palavra.

- Não sei - disse com voz inexpressiva. Estava tão assustado como Judd, só que escondia melhor. A modelo respirou de forma trémula.

- Nunca tinha visto uma ferida de bala.

Grier não estava a ouvir. Um dos seus homens aproximou-se dele.

- Algema-lhe os tornozelos e transporta-o ao hospital - ordenou Grier asperamente.

- Preciso de um médico - rugia Clark. - Estou ferido. A minha mão está a sangrar!

Grier ficou a olhar para ele.

- Se fizeres um movimento que não me agrade, vais precisar de um coveiro - disse com ira e fez girar a Colt na mão com uma destreza que fez Clark recuar.

- Desta vez avisei, mas não voltarei a fazê-lo! - rugiu Clark. - Matou o meu irmão. Eu vou matá- lo a ele. Juro!

Grier ignorou-o e entregou ao polícia as duas armas que tinha tirado a Judd.

- A Colt é de Judd Dunn. A Smith&Wesson é a arma com que Clark disparou contra Christabel Gaines. Guarda-as à chave no meu escritório.

- Tomaremos conta delas, senhor - assegurou o agente. - Espero que a menina Gaines fique boa.

- Eu também - disse Grier com voz rouca, com a voz tão rígida como os seus traços. Estava a matá- lo não poder ir na ambulância com ela. Mas era Judd quem tinha direito a acompanhá-la, por muito que detestasse reconhecê-lo.

Tippy Moore viu a ambulância afastar-se. Lançou um olhar a Maude, que chorava amargamente num canto. Imaginava como estava afectada a mulher, que era o mais parecido com uma mãe que Christabel tinha. Aproximou-se dela e passou- lhe um braço pelos ombros para a consolar.

- Vamos - disse suavemente. - Vou acompanhá-la a

casa.

- Tenho que ir ao hospital - gemeu Maude. - Mas não consigo conduzir de tanto que estou a tremer

- Pedirei a alguém que nos leve - disse Tippy. - Eu também vou - acrescentou obstinadamente, lançando um olhar ao realizador assistente, que parecia estar prestes a replicar. - Hoje não contem comigo - disse-lhe. - Vou ao hospital fazer companhia a Judd.

Gary Mays levantou as mãos em sinal de protesto mas, ao receber um olhar frio de Grier, afastou-se sem dizer palavra.

- Podem vir comigo - disse às mulheres sem olhar para elas. - Dêem- me um minuto para telefonar para a penitenciária e aos Rangers - tirou o telemóvel da bolsa e começou a marcar os números.

- Precisa de um casaco - disse Tippy a Maude e conduziu-a até casa. - Eu terei que Lhe pedir um emprestado. Usei o meu para tapar Christabel.

Maude tinha-se apercebido, apesar da agonia do momento. Tentou sorrir entre as lágrimas, surpreendida e satisfeita por encontrar um aliado onde pensava ter um inimigo. Todos os maus sentimentos que tinha tido pela bela modelo se evaporaram.

- Vou buscar algo que possa vestir.

 

Judd estava sentado na sala de espera das urgências quando Cash Grier entrou acompanhado por Maude e Tippy. Judd tinha tirado o chapéu e tinha o cabelo despenteado. Parecia que tinha estado a lutar contra a morte. Tinha a camisa branca e as calças manchadas de sangue. Sangue de Christabel.

Levantou o olhar quando se aproximaram.

- Estão a operá-la - disse-lhes. - O cirurgião é Cooper Coltrain.

- É o melhor de todos - comentou Maude em voz baixa.

- Na ambulância, não parava de gemer - prosseguiu Judd, quase como se estivesse a falar sozinho. Não conseguia respirar. Duvidei que fosse chegar aqui com vida - fechou os olhos ao sentir a vaga de dor.

- Os ferimentos no peito são terríveis - disse Cash em voz baixa. - Mas a bala feriu-a na parte inferior da caixa torácica, acima dos intestinos.

Os olhos negros de Judd procuraram consolo nos do outro homem. Relaxou, mas não muito.

- Imagino que a operação vai demorar bastante.

- Terão que tirar a bala - gemeu Maude.

- Podem não tentar, se for menos traumático deixá-la lá dentro - disse Cash. - Estagnarão a hemorragia e tratarão os pulmões. Depois, tudo dependerá dos antibióticos e do descanso.

Maude lançou um olhar a Judd. Estava desconsolada.

- Não cheguei a dar-te o alfinete de gravata que Crissy te comprou para o Natal - balbuciou e as lágrimas começaram a resvalar pelo seu rosto.

Judd pôs-se de pé, com o coração partido e começou a dar voltas pela sala de espera com as mãos nos bolsos.

- Ele não comprou nenhum presente a Crissy - Maude tratou de Lhes explicar o afastamento repentino de Judd. - Não deveria tê-lo mencionado, suponho. Feriu muito os sentimentos de Crissy, principalmente, porque à menina Moore lhe tinha comprado um anel de noivado.

Cash lançou um olhar de despeito à modelo ruiva, que já estava a atrair olhares de interesse de outros homens que se encontravam na sala de espera. Parecia incomodada por ser o centro das atenções. lançou um olhar ao anel que trazia no dedo e fez uma careta.

- Não é um anel de noivado - disse desconfortavelmente.

- Judd disse a Crissy que era - replicou Maude sem olhar para ela.

Tippy arqueou as sobrancelhas. Aquilo era uma novidade. Porque teria Judd mentido sobre uma coisa daquelas? Então, recordou a patranha que tinha contado a Crissy para tentar desfazer-se da sua rival. Não tinha sido intenção sua causar tanta dor. A angústia de Judd

era quase tangível e doía-lhe pensar que tinha feito Crissy infeliz. Se a jovem morresse, teria que viver com aquele remorso. Não seria fácil. Sentia-se tão cobarde! Não valia nada.

- Como pode estar comprometido contigo? - perguntou Cash asperamente, olhando Tippy com o sobrolho franzido. - Crissy e Judd ainda são casados, não são? - perguntou a Maude.

- Vão divorciar-se - disse Maude. - Crissy não te disse? Imagino que já puseram os trâmites em andamento.

- São casados? - exclamou Tippy, empalidecendo.

- Christabel é esposa de Judd?

- São casados há cinco anos - confirmou Maude

com tristeza. - Para ele nunca significou nada. Só uma formalidade, para poder tomar conta do rancho e de Crissy quando o pai dela foi para a prisão.

- Não fazia ideia - disse Tippy com aflição.

- Como se te tivesses importado - repôs Cash, destilando sarcasmo. A modelo olhou-o zangada.

- Claro que me teria importado - replicou com frieza. - Não saio com homens casados. Nunca.

Cash arqueou as sobrancelhas. Aquilo era uma novidade.

Um cirurgião alto e ruivo entrou pelas portas giratórias que conduziam à sala de espera e olhou em volta até que viu Judd. Começou a andar na direcção dele com semblante sombrio e grave.

- Como está ela? - perguntou Judd de seguida.

Cooper Coltrain encolheu os ombros.

- Controlámos a hemorragia e tratámos os pulmões. Mas perdeu muito sangue e a zona estava afectada pela bronquite. Isso vai complicar a sua recuperação.

- Bronquite? - repetiu Judd.

- Notava-se que estava rouca - afirmou Maude, mas Crissy dizia que não passava de uma constipação e que não queria ir ao médico - fez uma careta. – Disse que não se podia permitir. O seguro dela não cobre as consultas de rotina.

Assim que pronunciou as palavras, desejou poder retirá-las. Judd fechou os olhos. Parecia atormentado.

Tippy contemplou o odioso anel que trazia no dedo e maldisse-se por ter convencido Judd a comprá-lo. Cash Grier suspirou, consumido pela tristeza.

- O que fazemos agora? - perguntou Judd em tom submisso.

- Rezar - respondeu Coltrain. - Não faço promessas que não posso cumprir. Agora, é cara ou coroa. Sinto muito. Fiz o que pude.

- Eu sei, obrigado - disse Judd, abstraído. - Posso vê-la?

- Neste momento está na reanimação - respondeu.

- Convém esperar que a levemos para os cuidados intensivos.

- Eu ficarei com ela - interrompeu Maude, exactamente antes que Grier pudesse dizer o mesmo.

- Não é possível. Nos cuidados intensivos, não. Podem vê-la três vezes ao dia, durante não mais do que dez minutos por visita - acrescentou com firmeza e olhou para Judd. - Vou vigiá-la de perto. Tenta não te preocupar - despediu-se com uma inclinação de cabeça e afastou-se por onde tinha entrado.

Judd olhou as três pessoas que o acompanhavam.

- Fico contente que estejam aqui, mas se alguém entrar naquele quarto, nem que seja só por um minuto, serei eu - declarou bruscamente. Cash parecia disposto a replicar, mas o semblante de Judd dissuadiu-o.

- Se quiseres que fiquemos aqui fora contigo, eu não me importo - ofereceu-se Tippy.

- Nem eu - acrescentou Maude.

- Preferia que fossem para casa - disse Judd. - Não me vou embora daqui até saber alguma coisa, seja o que for.

- Eu levo-as - disse Cash. - Depois, voltarei ao hospital.

Judd olhou o seu amigo nos olhos. Não replicou. Nem sequer falou. Limitou-se a assentir. Depois, virou as costas e afastou-se rumo à unidade de cuidados intensivos.

- Tiraste-lhe as pistolas, não tiraste? - perguntou Maude a Cash quando este parou o carro no rancho, em frente da casa. Cash assentiu.

- Estão no meu escritório, fechadas à chave - disse com expressão lúgubre. - Mas ainda há uma pistola e uma outra arma na casa, em algum lado. Ouvi-o dizer a Crissy. Será melhor que as procures e as escondas em qualquer lado.

- Assim que entrar - prometeu Maude.

Tippy olhava para eles incrédula.

- Não estão a falar a sério - comentou. Cash olhou-a nos olhos.

- Se Crissy fosse minha esposa, era isso que Maude estaria a fazer por mim - disse com voz inexpressiva.

- E, sim, estou a falar a sério. Judd pode ainda não se ter apercebido, mas não lhe restará ânimo para viver se ela morrer. Não tem lógica, mas é o que fazem alguns homens quando enlouquecem de dor. Não queremos que aconteça outra tragédia.

- Claro que não - disse Maude e esfregou os olhos.

- Bem, já podes levar a menina Moore ao hotel - disse a Cash. - Estarei atenta ao telefone.

- Telefono-te quando souber de alguma coisa, prometo - assegurou-lhe Cash.

- Obrigada - disse Maude e sorriu a Tippy com suavidade. - Fique com esse casaco. Devolverei o seu lavado e engomado.

- É muito amável - repôs Tippy em voz baixa e sorriu.

Cash levou-a de volta à cidade. Nenhum dos dois falou durante o trajecto. De facto, ela estava sentada com os braços firmemente cruzados contra o peito, com um ar incomodado.

- Para quem tem fama de devoradora de homens, és surpreendentemente mansa - comentou Cash quando parou o veículo em frente do hotel. Ela olhou-o friamente.

- Cometi algumas tolices. Não gosto muito desses episódios - encolheu os ombros. - Viste o que fez Christabel? Colocou-se em frente da pistola. Viu-o a chegar e nem sequer hesitou. Deve. deve gostar muito dele - acrescentou, quase engasgada com as palàvras.

- Sim - corroborou Cash, detestando a sua própria sinceridade. Tippy olhou-o intrigada.

- Estás apaixonado por ela, não estás?

- Se estou, é assunto meu e de mais ninguém - atirou-lhe Cash. Tippy suspirou.

- Voltaste a ser hostil. Ouve, tenho problemas com os homens, problemas muito graves. Gary Mays, o realizador assistente, está sempre a assediar-me para ver se eu durmo com ele. Judd fingia estar interessado em mim para o manter na linha e eu tornei-me um pouco possessiva, nada mais - olhou para ele zangada.

- Não quereria um homem para toda a vida nem que mo oferecessem embrulhado com um laço.

Ele arqueou as sobrancelhas e olhou-a com intensidade.

- É o que se passa comigo em relação às mulheres. Tippy relaxou um pouco. Deslizou o olhar por ele cautelosamente.

- Confio nos homens que usam uniforme - disse. A polícia tirou-me de alguns dos piores apuros da minha vida.

Começava a fazer uma ideia um pouco confusa sobre ela. Em vez de uma Mata-Hari, era tímida e introvertida e tinha medo dele quando estavam os dois sozinhos.

- Vou-me embora - disse Tippy. - Espero que Christabel fique bem. E Judd.

- Porque é que não olhas para Gary Mays na cara e Lhe dizes que o denunciarás por assédio sexual se não te deixar em paz? - perguntou-lhe de repente. Ela olhou para ele com surpresa.

- Não iria funcionar.

- Sim. Se conseguires parar um homem, consegues dominá-lo.

- Uma filosofia interessante.

- Não é minha. Li na autobiografia de Juan Belmonte. Foi um toureiro famoso de princípios do século XX. Dizia que com os homens funcionava como com os touros. E é verdade.

- Se tu o dizes.

- Digo.

Tippy saiu do veículo devagar de uma maneira estranha.

- Obrigada por me trazeres.

Cash franziu o sobrolho e olhou-a com atenção.

- Consegues ver-me? - perguntou de forma inesperada. Ela ficou surpreendida com a pergunta.

- Mais ou menos.

- Tens hipermetropia e não queres usar óculosadivinhou. Tippy riu. Parecia o tilintar de uma campainha de prata.

- E não posso usar lentes de contacto.

Cash observou-a. Apesar da tragédia do dia, sentia curiosidade por ela.

- És um enigma. Disse-te algumas coisas que não merecias. Não és como eu pensava.

Ela estava a olhar para ele com um novo respeito.

- Tu também não.

- Pensa no que te disse - recordou enquanto arrancava. - Não tens que aguentar que esse realizador assistente passe dos limites contigo. Se não conseguires pará-lo, diz-me. Faço-o por ti.

Ela encolheu os ombros e conseguiu sorrir.

- Estarei em contacto com Maude.

Cash assentiu. Não disse mais nada. Segundos mais tarde, empreendia o caminho de regresso ao hospital.

Judd estava sentado na capela, sozinho. Tinham-lhe permitido passar alguns minutos na UCI para contemplar o rosto pálido e tenso de Christabel. Se tivesse conseguido ir a um bar, teria bebido uma garrafa inteira de uísque. Era chocante vê-la assim. Estava ligada a meia dúzia de monitores e tinha um tubo no braço que Lhe fornecia nutrientes e analgésicos. Das costas saía-lhe um tubo de drenagem. Se calhar era o mesmo que tinham usado para voltar a encher os pulmões.

Judd tinha-lhe tocado na mão e tinha recordado as suas últimas palavras antes do aparecimento de Clark. Pensava que ele estava envergonhado por ela, que não queria vê-la, nem que corresse atrás dele com o coração na mão. Se não sobrevivesse, a última recordação dele seria de dor e traição.

Não era verdade. Não estava envergonhado. Ficava acordado todas as noites a reviver a paixão que tinham partilhado. Tinha saudades dela. Era como estar sem uma perna ou um braço. Tinha dito a Christabel que não queria nada permanente e, agora, talvez a sua escolha não fosse essa. No final, podia ficar sozinho, como pensava que queria quando tinha dito a Christabel que ia pedir o divórcio.

Recordou um velho provérbio. Cuidado com o que desejas; pode tornar-se realidade, Contemplou o corpo imóvel de Christabel e viu o fim de tudo o que amava.

Um ruído captou a sua atenção. Grier tinha voltado. Sentou-se no banco, ao lado de Judd, desconfortável.

- Deus está chateado comigo - disse Cash com um suspiro, olhando à sua volta. Posso dar azar a Christabel por ter entrado numa capela.

- Deus não é vingativo - repôs Judd. - Costuma dar-nos mais margem do que merecemos.

- Crissy disse-me que o teu pai era pastor - comentou Cash. Judd assentiu. - Disparar contra John Clark foi mais duro do que imaginavas - acrescentou em voz baixa.

Judd olhou para ele com curiosidade.

- Porque o meu pai era pastor?

- Porque te ensinaram a acreditar que matar é sempre mau - Grier olhou para o altar. - A mim, não. A primeira coisa que aprendes no exército é que matar é necessário e ensinam-te a fazê-lo com a máxima eficácia. Os homens não matam outros de perto a não ser que para eles seja um acto reflexo. Depois de várias semanas de treino, matar é instintivo. Eu era um bom aluno - acrescentou com voz fria.

Judd abriu muito os olhos.

- E não te incomoda?

- Dantes, não. Até conhecer Crissy - acrescentou, sorrindo ligeiramente. - Foi a primeira mulher em muitos anos que quando olhou para mim não viu um assassino. Tem uma maneira de fazer com que te sintas importante, necessário, útil. Fez com que me sentisse bem só de olhar para mim.

Judd detestava ouvir aquilo do seu rival.

- Sempre foi assim - comentou passado um minuto. - Por muitos problemas que haja, sorri sempre.

- Fez-me pensar que podia encaixar aqui, em Jacobsville, se tentasse - repôs Grier. - É a primeira vez na minha vida que quero criar raízes num lugar.

Judd ficou a olhar com os olhos bem abertos.

- Agradeço a tua companhia, mas será melhor que saibas que, se ela sobreviver, nunca lhe darei o divórcio - disse bruscamente.

Cash ficou a olhar para ele.

- Não a enganarás com compaixão - replicou. - Vai aperceber-se.

Judd baixou o olhar. Não iria revelar os seus sentimentos mais profundos ao seu único rival.

- A única pessoa de quem sinto pena neste momento sou eu. Sou o idiota que devia estar a protegê-la. Como diabos levou aquele tiro? - perguntou de repente. - Sei que Clark não a pretendia matar a ela. Não foi Christabel que disparou contra o seu maldito irmão.

Cash hesitou, olhando para as mãos. Não podia contar a Judd o que sabia. Ainda não. Não até que tivesse a certeza que Crissy iria sobreviver.

- Com o tempo, irá saber-se - disse, sem se comprometer.

Judd enterrou o rosto entre as mãos com um longo suspiro trémulo.

- Daria tudo o que tenho para voltar atrás e mudar as coisas.

- Tu e todos nós - filosofou Cash.

Foi uma noite longa. Na manhã seguinte, Judd, com semblante esgotado, entrou na UCI com o coração apertado. Christabel jazia na cama com o mesmo aspecto do dia anterior. Dava a impressão de estar morta.

Judd inclinou-se e tirou-lhe o cabelo da cara. Doía-Lhe vê-la assim.

- Desculpa - sussurrou. - Desculpa, querida. Christabel pestanejou e abriu os seus olhos castanhos. Ainda respirava ruidosamente e tinha um ar cadavérico. Mas parecia vê-lo.

- Christabel? - sussurrou. Ela tinha os olhos cravados no seu rosto, mas não raciocinava. - Ouves-me, meu anjo? - perguntou suavemente.

Ela franziu o sobrolho e fez uma careta.

- Dói-me - sussurrou com voz áspera. Judd acariciou-lhe o cabelo, a cara, com dedos trémulos.

- Graças a Deus, estás viva - disse, falhando-Lhe a voz apesar do seu controlo. Inclinou-se e beijou com suavidade os seus lábios ressequidos. - Graças a Deus - gemeu.

Christabel pestanejou. Não tinha consciência de mais nada a não ser a dor.

- Dói muito - sussurrou e voltou a fechar os olhos. Judd soltou-a e telefonou à enfermeira pelo telefone interno para lhe dizer que Christabel estava acordada e a queixar-se de dores. Segundos mais tarde, entrou na sala de exames seguida por um especialista e sorriram-lhe tranquilizadores. Christabel iria sobreviver. Era a esperança pela qual tinha estado a rezar.

Coltrain cumprimentou-o com uma inclinação de cabeça quando entrou para a ver. Saiu poucos minutos depois, a sorrir.

- Ficará bem - disse a Judd e deu-Lhe uma palmadinha no ombro. - É apenas uma questão de tempo. Podes deixar de conter a respiração.

Judd agradeceu-lhe, afastou-se pelo corredor e encostou-se à parede, tentando recompor-se. Tinha vivido um inferno durante tantas horas que o alívio era devastador. Christabel iria sobreviver. Iria sobreviver. Limpou os olhos humedecidos.

Cash aproximou-se dele com olhar interrogador.

- Ficará bem - disse Judd com voz rouca.

- Graças a Deus! - exclamou Judd com alívio sentido.

- Que terá acontecido a Clark? - perguntou, de repente, porque acabava de se lembrar dele.

- Trataram dele e está na prisão. É possível que passe o resto da vida atrás das grades, depois do julgamento - assegurou-lhe. Estava a observar Judd com atenção. Acho que devias saber o que Tippy me contou - acrescentou, detestando ter que lhe revelar aquilo que sabia. Isso pressupunha o fin das suas esperanças com Crissy.

- O quê? - apressou-o Judd.

- Viu Clark chegar e apontar-te a arma. Não teve tempo de raciocinar e nem Crissy. Disse que Crissy percebeu que não irias conseguir salvar- te e interpôs-se deliberadamente na trajectória da bala.

Judd inspirou bruscamente.

- Tippy ficou muito abatida quando viu aquilo - prosseguiu. - Disse que se sentia muito mal por todos os problemas que causou entre vocês ao dar-se conta do quanto Christabel gostava de ti - moveu a cabeça. Não to diria se Crissy tivesse morrido, mas agora acho que devias sabê-lo. Vou telefonar a Maude para lhe dar a boa notícia.

Virou-se de costas e afastou-se. Judd permaneceu imóvel, como uma estátua, absorvendo a afirmação com uma sensação total de humildade. Christabel tinha recebido um tiro dirigido a ele. Tinha estado disposta a dar a sua própria vida para o salvar. Nunca imaginou que ela pudesse amá-lo tanto.

Teria que salvar o abismo que ele próprio tinha criado entre eles e sabia que não iria ser fácil.

Christabel esteve a perder e a recuperar a consciência de forma intermitente durante os primeiros dias, enquanto o seu corpo iniciava o lento processo de recuperação do ferimento, que Lhe tinha custado parte da região inferior do pulmão e um bocado do baço. Por sorte, a bala tinha ficado alojada no tecido danificado que tinham tido que tirar para controlar a hemorragia.

Foi transferida para um quarto privado ao quarto dia. Desde então, Judd não se afastava nem um momento do seu lado. O seu segundo tiroteio num espaço de duas semanas tinha voltado a merecer-lhe uma licença administrativa, mas era oportuno. O seu capitão e o seu tenente tinham-lhe telefonado duas vezes para saberem do estado de saúde de Christabel. Tinha bons colegas de trabalho. Um deles, o de San Antonio, estava a substituí-lo temporariamente em Victoria. Também tinha que tomar conta do rancho, apesar de Judd detestar o tempo que tinha que ficar separado de Christabel. Delegava a Nick, o capataz, o máximo que podia.

Grier também era um visitante fiel, mas mostrava-se estranhamente submisso e mantinha-se em segundo plano. Tippy Moore passava pelo hospital depois da gravação para ver como estava a paciente e levava Maude com ela. A actriz tinha surpreendido muitas pessoas com a sua compaixão, principalmente Grier. Este ouviu acidentalmente uma conversa que a modelo teve ao telemóvel. Ao princípio, pensava que estava a conversar com um homem, porque tinha a voz suave e cheia de afecto. Depois, ouviu-a falar de exames e notas e de não lutar com os outros rapazes e percebeu que o seu interlocutor era uma criança. Era o seu irmão mais novo, que estava a estudar numa escola militar. Tippy confessou-o com uma reserva estranha e depois afastou-se, antes que Grier pudesse perguntar-lhe mais alguma coisa.

Quando não tinha visitas, Christabel comportava-se com Judd com um certo receio. Nunca o olhava nos olhos. Sorria quando Grier e Maude entravam e esforçava-se por conversar com eles, apesar de ainda estar muito fraca. Com Tippy era educada, apesar de distante. Mas com Judd mostrava-se visivelmente desconfortável.

- Devias voltar ao trabalho - disse-Lhe uma manhã quando a auxiliar a ajudou a sentar-se numa cadeira para lhe poder fazer a cama. - Só ficarei internada mais uns dias. Nick pode tomar conta do rancho. Já estou fora de perigo.

Judd, silencioso, não respondeu. Observou como faziam a cama e voltavam a deitá-la, mas manteve-se calado. Por fim, aproximou-se dela e olhou-a com ar taciturno. Tinha o cabelo sujo e embaraçado. Estava esgotada pelo simples esforço de se sentar numa cadeira e voltar para a cama mas, para Judd, que a tinha observado com angústia desde que tinha saído da anestesia geral até àquele momento, estava bela.

- Vais perder o teu trabalho por minha causa - insistiu Christabel.

- Não. Tenho autorização para estar aqui - levantou-lhe a mão esquerda e acariciou com o polegar o anel que ela Lhe tinha devolvido há uns meses. Judd tinha voltado a colocar-lho no dedo anelar quando Christabel estava inconsciente. - Deste-nos um susto de morte - acrescentou com solenidade.

Crissy experimentou mexer o dedo, percebendo naquele momento que tinha outra vez o anel.

- Como é que isto veio aqui parar? - perguntou com voz sonolenta.

- Fui eu que o pus - disse Judd com voz calma. Continuamos casados. Tive que te internar com o teu nome de casada.

Crissy baixou o olhar e tirou a mão.

- Tippy deve ter ficado furiosa - disse com voz inexpressiva. - Espero que não se importe de esperar que nos divorciemos.

Judd respirou fundo e pôs as mãos nos bolsos.

- Falaremos disso quando estiveres recuperada. Crissy arqueou uma sobrancelha.

- Porque temos que esperar? Já te estraguei bastante a vida.

Judd beijou-lhe a palma da mão com fervor.

- Não entendes.

Crissy olhou-o nos olhos.

- Claro que entendo - sussurrou com voz cansada. Sentes-te culpado por causa do que disseste a Tippy, de que eu te envergonhava. Depois, deram-me um tiro e tencionas sacrificar a tua vida para fazer as pazes. Não é preciso. Podes ficar com este anel. Irei dar-te o divórcio.

Judd agarrou a mão de Christabel para impedir que tirasse o anel. Não ia ser fácil convencê-la daquilo que sentia. Pensava que estaria a mentir por culpa e pena dela.

- Vais perdê-la se esperares demasiado - insistiu Christabel, perdendo força na voz, sonolenta.

- Já esperei demasiado - resmungou Judd, detestando o nó que sentia na garganta e que não conseguia desfazer. Contemplava o semblante pálido de Christabel com um olhar intenso e torturado.

Mas ela não o escutava. Tinha adormecido.

Poucos dias depois, levaram-na para casa e Christabel não tardou a querer ajudar na cozinha. Maude acompanhou-a de novo à cama. No dia seguinte, foi Judd quem a deitou, com os lábios cerrados, ignorando os seus protestos.

- Não posso estar deitada sem fazer nada! Assim não vou recuperar - protestou quando ele começou a metê-la na cama. - Cooper disse que me convinha fazer exercício.

- Pouco a pouco e não de repente, como tu queres - replicou Judd asperamente. Acomodou-a sobre as almofadas e olhou para ela com reprovação. Tinha tomado duche e lavado o cabelo com a ajuda de Maude e estava infinitamente com melhor aspecto do que nos dias anteriores.

- Está bem, vou ficar quieta - murmurou, evitando o seu olhar. - Devias estar com Tippy. Sexta-feira vão dar os últimos toques à filmagem e depois vão-se embora.

Judd não tinha conseguido fazê-la entender nada do que lhe tinha contado sobre a sua relação com Tippy. Christabel interrompia-o cada vez que tentava explicar-lhe pela enésima vez. Tippy tinha-Lhe devolvido o anel de esmeralda e diamantes com todo o tipo de desculpas e na joalharia tinham-lhe reembolsado o dinheiro na sua quase totalidade. Judd tinha querido contar a Christabel, mas ela não queria escutar. Também não tinha aceite o presente de Natal de Judd, convencida de que era uma compensação tardia por não lhe ter comprado um na altura. Judd já não sabia o que fazer para a convencer da sua sinceridade.

Grier aparecia no rancho com mais frequência ultimamente e era outra fonte de preocupação, porque Christabel animava-se assim que o via. Ria com ele como já não fazia com Judd.

- Não queres escutar-me - disse em tom de derrota. Ela olhou-o com olhos turbulentos.

- Nem tu a mim. Já te disse que te daria o divórcio quando mo pedisses. Agora que temos o recibo da empresa cinematográfica no banco, podemos permitir-nos a isso.

Judd contraiu o maxilar.

- Não quero o maldito divórcio! - atirou-lhe. - Não quero casar-me com Tippy Moore! Nunca quis!

Christabel tentou recompor-se e, sem querer, entornou o copo de sumo de laranja que tinha na mesinha de cabeceira e sujou-se.

- Olha o que fiz por tua causa! - gritou a Judd.

- Nem te toquei! - atirou-lhe Judd, furioso. Tippy Moore ouviu os gritos e assomou à porta.

- Por amor de Deus - murmurou e voltou a sair.

Regressou momentos mais tarde com um pano e uma toalha húmida. - Sai - disse a Judd, sustendo a porta aberta de par em par. Ele começou a protestar.

- Já ouviste - insistiu Christabel. - Fora!

Judd levantou as mãos em sinal de impotência e saiu a bater com a porta. Tippy riu-se.

- Não são insuportáveis os homens? - pensou em voz alta. Limpou o sumo de laranja com o pano. Onde tens as camisas de dormir? - perguntou em tom prático.

Crissy disse-lhe, surpreendida pela eficiência da modelo. Limpou-a com a toalha húmida, tirou-lhe a camisa de dormir suja e vestiu-Lhe uma lavada.

- Passei muitos anos a tomar conta do meu irmão mais novo e, depois, de um homem por quem sentia. um grande afecto - disse Tippy. - O meu irmão tem nove anos e está numa escola militar - tinha um olhar atormentado. - Gastei uma fortuna a arrebatar a custódia dele à minha mãe e ao seu último amante, mas não estranhava que tentassem sequestrá-lo para conseguirem mais dinheiro. Ninguém sabe onde ele está excepto eu.

Crissy estava fascinada por aquela faceta desconhecida da vida pessoal da modelo.

- Deves gostar muito dele.

- É a minha vida - assentiu. Pegou na toalha e no pano e olhou para ela com tristeza. - Causei muitos problemas entre ti e Judd. Quero que saibas que lamento muito. Sentia-me a salvo com ele. É o melhor homem que conheci na minha vida e tornei-me possessiva. Mas, acredita em mim, se soubesse que eram casados, nunca.

- Não importa - interrompeu Crissy, envergonhada.

- Não se pode evitar o que se sente por outra pessoa. Tippy suspirou.

- Que grande verdade - murmurou, pensando em Cash Grier e na sua frieza, apesar das suas tentativas de o fazer rever a opinião que tinha dela.

Crissy pensou que o dizia por Judd e deprimiu-se ainda mais.

- Devolvi a Judd o anel - acrescentou Tippy com firmeza. - E estou arrependida de o ter convencido a comprar-mo. Não sabia que estavam tão apertados.

- Não estaremos muito mais tempo - disse Crissy.

- Estamos a negociar um acordo com uma empresa estrangeira. Se correr bem, vou-me embora daqui assim que nos divorciarmos e assim Judd poderá ter o que quiser.

- Sem ti? - perguntou Tippy, atónita. - Não vês o que ele sente?

- Sente-se culpado - disse Crissy abertamente. Passa-lhe com o tempo - deitou-se e fechou os olhos.

- Estou farta de estar casada com um homem que me considera um fardo. Quero o divórcio.

Tippy não sabia o que dizer. Ficou de pé, roída de remorsos. Por fim, saiu do quarto e fechou a porta. Já tinha causado bastantes problemas por um dia, apesar de a sua intenção ser boa.

 

Apesar de contrariado, Judd regressou ao seu apartamento de Victoria quando Christabel pôde valer-se a si mesma no rancho. Estava outra vez a trabalhar, já que a comissão que tinha investigado o tiroteio tinha julgado correcto o seu procedimento durante o mesmo. Com a ajuda de Nick, tinha delineado novos planos para o rancho, tinha comprado materiais. Tinha contratado um trabalhador a tempo inteiro e organizado os horários de trabalho com a máxima eficácia.

O rancho estava a progredir, graças à injecção de dinheiro que as filmagens tinham permitido. Outra empresa cinematográfica fez-Lhes uma oferta para uma nova filmagem no ano seguinte. Christabel refilou, mas Judd fez promessas de construir um celeiro novo e de fazer melhorias na casa e acabou por ceder. Além disso, era só no próximo Outono. Poderiam acontecer muitas coisas nesse intervalo de tempo, disse Crissy para si mesma, talvez ela nem estivesse por ali na altura.

Entretanto, a empresa japonesa tinha entrado em contacto com Christabel e com Judd para organizar a viagem deles a Osaka. Crissy tentou evitar o compromisso, alegando que tinha muito trabalho no rancho, mas Judd assegurou-lhe que Nick era perfeitamente capaz de supervisionar as tarefas e que ainda faltavam algumas semanas para que nascessem os vitelos. Não tinha desculpa, atirou-lhe; a não ser que se sentisse reticente em separar-se de Cash Grier, acrescentou com amargura.

Cash tinha-se convertido na bóia de salvação de Crissy. Mantinha-o entre Judd e ela, porque não queria que Judd se comprometesse a continuar casado por gratidão ou culpa. Sabia que ele queria fazê-lo, conhecia-o muito bem. Judd estava admirado por ela ter sacrificado a sua vida para o salvar. Não conseguia esquecê-lo, por muito que tentasse, e mencionava-o com frequência.

Mas Crissy não conseguiu evitar a viagem ao Japão. Até Maude ajudou Judd e insistiu para que ela o acompanhasse.

- Ainda estou debilitada pela convalescença - protestou Crissy na véspera da viagem. Judd observava-a com um semblante quase doloroso e taciturno que começava a ser familiar.

- Eu sei - disse com suavidade. - Mas será uma experiência nova para ti. Precisas de mudar de ares, de te afastares do rancho.

- Afastar-me de Cash, queres tu dizer - repôs Crissy com um olhar demorado. Ele cerrou os dentes. Ouvir o seu nome era uma provocação.

- Não te separas dele desde que voltaste para casa - assinalou.

Crissy virou-lhe as costas, cansada da discussão. Cash e ela eram amigos, nada mais. Mas a sua relação com ele impedia que Judd tivesse dúvidas relativamente ao divórcio.

- Nas mesmas circunstâncias, terias feito o mesmo que eu e tu sabes - disse Crissy em voz baixa, contemplando o pasto pela janela. - Estás a exagerar o sucedido, Judd, e não é necessário.

Sentiu o calor que o seu corpo libertava atrás dela e a sua respiração na nuca.

- Aceitaste uma bala que era dirigida a mim - disse Judd asperamente. - Como queres que eu reaja? - as suas mãos grandes agarraram-na pelos ombros e fizeram- na virar-se com muita suavidade para ele a olhar nos olhos. - Eu dou um passo, para ti e tu retrocedes dois - reflectiu em voz alta. - És a mesma mulher que não conseguia aproximar- se de mim o suficiente na noite de Natal?

Crissy corou.

- Como te atreves a mencionar isso! - atirou-lhe.

- E nem sequer tinhas bebido - acrescentou com um regozijo indulgente.

Crissy olhava para todo o lado menos para os olhos dele.

- Foi um erro, tu mesmo o disseste.

- Disse muitas coisas - replicou Judd.

- Sim, e agora estás a dizer muito mais do que devias

- soltou-se para se explicar melhor. - Olha, queres o divórcio. Não há problema. Poderás casar-te com Tippy Moore e eu continuarei com Cash até que ele decida se quer ou não viver em Jacobsville o resto da vida. Judd perguntou-se se Christabel sabia o quanto lhe doía ouvir afirmações como aquela. Não estava interessado em Tippy Moore, mas o fascínio dela por Cash

tinha-o impulsionado a fingir interesse, por orgulho ferido. Cash era tudo o que a maioria dos homens desejavam ser: bem parecido, encantador, culto e corajoso. Não havia um juiz de paz em todo o Texas que não reconhecesse o seu nome. Ele, por sua vez, tinha uma educação normal e alguns estudos universitários, mas não estava à altura de Cash intelectualmente e sabia disso. Também não era culto, nem falava meia dúzia de idiomas.

Pior ainda, sabia o que Cash sentia por Christabel e que, à menor oportunidade, casaria com ela sem pestanejar.

Judd começava a aperceber-se de que a indiferença e a rejeição com que tinha tratado Christabel para a manter à distância tinham-na feito criar um fosso. Tinha-se convencido de que o fazia para seu bem, para que fosse livre e inocente e pudesse tomar as rédeas da sua vida assim que anulassem o casamento. Mas fez mal. Não tinha querido amarras. Não conseguia evitar lembrar-se que a sua mãe tinha abandonado o seu pai por outro homem. Ela tinha sido como Christabel, inocente, tinha-se casado muito jovem e não tinha tido experiência do mundo nem de outros homens a não ser pelo seu marido. Não o surpreendia, pensando como um adulto, que outros homens a tivessem tentado.

Tinha albergado visões de Christabel a fazer o mesmo que a sua mãe, correndo para os braços de outro por curiosidade após anos de casamento e isso tinha-o assustado. Tinha virado as costas aos olhos ávidos de Christabel, aos seus sonhos de uma vida com ele. Agora, ele queria recuperar tudo aquilo, mas ela não. Mostrava-se mais distante e reservada que nunca. Começava a temer que fosse demasiado tarde. Até ele, com a enorme confiança que tinha em si próprio, se sentia inseguro perante a ameaça que Cash Grier representava.

- Já te disse até à exaustão que nunca quis casar-me com Tippy - resmungou. Mas porque é que não queres escutar-me?

Porque não tinha parado de dizer que se casaria com Tippy até terem disparado contra ela, pensou Crissy, mas estava farta de discutir.

- Se não me posso livrar da viagem, é melhor fazer as malas - disse com um suspiro fundo. - Treze horas de avião. Vou deitar espuma pela boca ainda antes de chegarmos à Califórnia.

Judd olhou-a com um ar atrevido.

- Irá ocorrer-nos alguma maneira de matar o tempo. Como ir juntos à casa de banho.

Crissy demorou um momento a compreender o que ele estava a dizer. Olhou-o furiosa.

- Não penso fazer amor contigo na casa de banho de um avião!

- Nem sequer se te comprar uma lingerie vermelha? - perguntou Judd suavemente.

Maude deteve-se no umbral com um pé no ar. Tossiu, baixou o pé e esteve prestes a sair a correr para a cozinha.

Judd não disse nada. Estava a rir com vontade. Christabel emitiu um som rouco e gutural e refugiou- se o quanto antes no seu quarto.

A viagem foi longa, e Christabel teve um pouco de medo, porque nunca tinha viajado de avião. A classe turística era ruidosa, mas Judd e Crissy tinham-se negado a permitir que a empresa japonesa lhes comprasse bilhetes de primeira classe. Já se sentiam bastante mal por terem aceite o convite. O avião estava cheio e era difícil relaxar, mas a perspectiva de visitar um país estrangeiro fascinava Christabel.

Almoçaram no avião e, pouco depois, as noites de insónia pesaram e Christabel adormeceu. Quando se

deu conta, Judd estava a acordá-la com um beijo. O contacto dos seus lábios foi electrizante, tanto

que Crissy teve que se conter para não lhe devolver aquela terna carícia.

- Já chegámos? - sussurrou. Judd sorriu.

- Olha pelo vidro, anjo.

Crissy levantou a cortina. Sabia que durante o resto da sua vida recordaria aquela primeira e incrível imagem da costa japonesa: montanhas verdes perdidas entre as nuvens, rochas afiadas erguidas contra o oceano. Parecia um pedaço do paraíso.

- Caramba - sussurrou, deslumbrada.

- Eu também me senti assim a primeira vez que vidisse-lhe Judd em voz baixa. Tinha viajado para o Japão por motivos de trabalho há uns anos, quando os Rangers do Texas colaboraram com a Interpol. - Não se consegue descrever; há que ver.

- Sim - suspirou Crissy com prazer. - É muito bonito. Judd estava a observar o perfil de Christabel, gravando a sua imagem.

- Muito - sussurrou.

O aeroporto de Kansai era enorme, uma sinfonia de metal e cristal e era difícil orientar-se nele. Christabel ficou um pouco nervosa quando passaram o controlo de passaportes. Era tudo tão diferente.

Mas as suas preocupações não tardaram a desaparecer. Na alfândega esperava-os o senhor Kosugi e o seu sócio, o senhor Nasagi, juntamente com vários colegas.

- Espero que tenham tido um voo agradável - disse o senhor Kosugi, todo sorrisos, e fez um sinal a um colega para que Lhes levasse as malas.

- Maravilhoso. Nunca esquecerei a primeira visão do seu belo país - disse com voz rouca, devolvendo-lhe o sorriso.

- A sua esposa é muito diplomática, senhor Dunn - riu o senhor Kosugi. Judd passou-lhe uma mão pelos ombros e apertou-a contra si.

- É o meu braço direito - sussurrou e sorriu. Conduziram-nos a um hotel de Osaka, que tinha uma lindíssima vista do rio e da cidade, e passaram para os buscar às seis horas para os levar a jantar a um restaurante célebre. Sorriram com tolerância ao ver Christabel debater- se com os pauzinhos. Ela não queria dizer-Lhes que Cash tinha tentado ensiná-la, mas que tinha fracassado redondamente. Judd usava-os como um nativo e aproveitou a oportunidade para ensinar Christabel.

- Vês? - disse com suavidade. - Não é difícil.

- Obrigada.

Judd manteve o olhar no seu rosto enquanto ela agarrava uma enguia na chapa e a metia na boca. Usava um vestido novo, prateado de alças finas, que Judd tinha insistido em comprar-lhe antes da viagem. A cabeleira loura caía-lhe suavemente sobre os ombros e calçava uns sapatos brancos de salto alto minúsculos com uma tira no tornozelo. Judd achava-a bonita e mal conseguia afastar os olhos dela.

- Amanhã vamos levar-vos a Quioto, a um dos restaurantes da nossa cadeia - disse o senhor Kosugi, - e à exploração agrícola onde criamos o gado, para vos mostrar as instalações. E de passagem, apetecia-vos ver um castelo?

Christabel soltou os pauzinhos.

- Um forte samurai autêntico? - perguntou. - Com o chão do rouxinol"?

Foi a vez de o senhor Kosugi se mostrar surpreendido.

- Ouviu falar do chão dos rouxinóis, senhora Dunn? - perguntou. Ela adorava que a chamassem pelo seu nome de casada. Sorriu.

- Adoro filmes estrangeiros. Vi todos os filmes de samurais que há no mercado. Adoraria ver o forte!

O senhor Kosugi estava impressionado.

- Então, iremos visitar o castelo de Nijo, que data de 1603. Virei buscá-los amanhã depois do pequeno-almoço. Digamos, às nove em ponto?

- Perfeito - disse Crissy com um suspiro e Judd sorriu ao ver o seu entusiasmo.

Judd e Christabel partilhavam o mesmo quarto de hotel, mas Crissy nem reparou na intimidade que aquilo representava. Estava tão esgotada que, mal vestiu a camisa de dormir de algodão, adormeceu. Na manhã seguinte, Judd, completamente vestido, acordou-a e esperou que ela se vestisse para poder descer e tomar o pequeno-almoço.

O senhor Kosugi e o seu grupo apareceram pontualmente para os buscarem. Christabel surpreendia-se com a sua própria vitalidade, apesar do calor inusitado que estava. Deslocar-se-iam até Quioto no famoso TGV e a estação de Osaka onde o apanharam fascinou-a. Tinha vários níveis e incluía o centro comercial no qual tinham gravado uma cena de Black Rain. Divertia-se com cada nova experiência, apreciava o trato caloroso dos japoneses e o costume jovial de sorrir.

Quando chegaram a Quioto, Christabel observou Judd dissimuladamente. Via-o mais relaxado que nunca. Caminhava entre os japoneses com passos largos e as suas botas chamavam à atenção, bem como o seu chapéu Stetson.

Saíram da estação e seguiram num monovolume para a quinta dos Kosugi. Ali, mostraram-lhes as instalações e familiarizaram-nos com os métodos modernos de criação que usavam. Christabel e Judd gostaram do que viram e disseram-no. Quando regressaram ao monovolume, deram-lhes umas toalhas brancas enroladas em plástico para refrescarem a cara. Estava um calor asfixiante.

O condutor levou-os ao castelo de Nijo, residência dos Tokugawa, e atravessaram o fosso e os deliciosos jardins até chegarem ao castelo propriamente dito. Era composto por vários quartos num único andar, separados por portas de correr e cercadas por um corredor de madeira. O corredor emitia um som parecido com o canto de um pássaro quando se caminhava sobre ele. Mostraram-Lhes a estrutura inferior do andar e viram os pregos e peças de metal que, colocados estrategicamente, cantavam, ao entrar em contacto com eles em cada passo. O chão do rouxinol", como se chamava, era uma forma melódica de impedir que um ninja ou soldado inimigo surpreendesse os samurais. Christabel levava uma máquina fotográfica e a senhora Kosugi tirou fotografias dela com Judd. Christabel estava contente... Podia ser a última vez antes do divórcio!

Após a visita ao castelo, levaram-nos ao restaurante do senhor Kosugi para um almoço tardio. A comida estava deliciosa, principalmente a carne, que rivalizava com a famosa vitela Kobe do Japão. O senhor Kosugi empregava técnicas similares de criação, como a de massajar o gado. O gado importado dos Dunn seria criado da mesma maneira. Comeram um prato de carne de vitela com massa que estava delicioso.

Christabel começava a sair-se melhor com os pauzinhos desde que Judd a tinha ensinado. Não tinha conseguido entender-se com eles quando Cash a tentou ensinar. Cometeu o erro de mencionar isso enquanto levantava a massa com perícia e a levava à boca.

Judd tinha estado extrovertido e sorridente todo o dia. Mas, à menção de Cash, arrefeceu. Até o seu apetite pareceu diminuir. Fez um esforço para ser educado com os seus anfitriões mas, depois da sobremesa, da viagem de comboio no regresso a Osaka e o trajecto no ferry até ao hotel, a sua amabilidade desceu a pique. Assim que ficou sozinho com Christabel no quarto de hotel, explodiu.

- Devia ter ficado em casa e ter deixado que Cash te acompanhasse - disse com uma fúria que mal conseguia conter. - Até sabe falar japonês, não é?

Crissy ficou rígida.

- Sim, fluentemente - replicou, lançando fogo com o olhar. Deitou para trás a cabeleira, que estava alvoroçada pelo vento. Com calças de pinças de cor bege e uma blusa estampada de flores, estava esbelta, simples e muito bonita.

Judd virou-se e avançou para ela de forma tão repentina que o coração de Crissy parou. Ele trazia as calças azuis de todos os dias, mas tinha tirado o casaco, a gravata e o chapéu e tinha desapertado os primeiros botões da camisa. O pêlo escuro que cobria o seu peito musculado ficava claramente exposto e Crissy estava a recordar-se do que tinha sentido quando estava abraçada a ele na escuridão.

- Mas Cash não fez amor contigo - exclamou Judd bruscamente, inclinando-se sobre ela. - E não vai fazer!

Crissy ficou a olhar para ele com perplexidade.

- Tu não me desejas. - começou a dizer. Judd esticou as mãos e atraiu-a para ele com suavidade, envolvendo-a com a sua figura musculada.

- Estamos cegos, surdos, mudos e insensíveis do pescoço para baixo, é? - perguntou com sarcasmo enquanto apertava as suas ancas contra as dela.

Ela percebeu a ironia daquela afirmação. Judd estava completamente excitado e mal lhe tinha tocado. Crissy engoliu em seco. Estava a recordar um prazer tão intenso que era quase uma agonia e os sons quase desumanos que tinham emergido da sua garganta.

Empurrou-o suavemente.

- Não, Judd - disse com voz rouca. - Estás descontente por tudo o que se passou, nada mais. Isso passa-te.

- Fui um cavalheiro desde que te levaram para o hospital - resmungou. - Estou farto. Não como, não durmo, nem sequer consigo trabalhar. Lembro-me de ti a gemer no meu ouvido enquanto te tornava minha - inclinou- se sobre a sua boca. - Não conseguias saciar-te de mim, não conseguias aproximar-te o bastante de mim. A expressão da tua cara quando te preen chi. Agonizo de cada vez que revivo essas imagens. E achas que me vai passar?

Crissy estava a perder terreno. O seu corpo começava a reagir à proximidade de Judd: os seus seios já estavam a pressionar o tórax de Judd, as suas pernas estavam a rodear a sua magnífica virilidade. Sentia-o junto dela e desejava-o com loucura.

Crissy observou com uma sensação de horror como deslizava as suas próprias mãos por dentro da camisa de Judd, mas não tinha poder para as deter. Levantou o seu rosto para ele e viu nos seus olhos negros o mesmo desejo incontrolável e desesperado.

- Desta vez, não penso apagar a luz, Christabel disse enquanto se inclinava e a levantava do chão. – E vais adorar o que eu vou fazer.

Judd abriu a boca sobre os lábios entreabertos de Crissy. Foi como uma explosão de gozo dentro dela.

Para sua vergonha, não articulou o menor protesto.

Agarrou-se a ele, respondendo à ânsia feroz da boca de Judd com uma paixão frenética, esfregando o seu corpo contra o dele e gemendo.

Quando acabaram deitados na cama, já não lhe restavam palavras. Estava tão impaciente por eliminar obstáculos quanto ele e respirava com dificuldade, ofegava, no silêncio absoluto do quarto.

- Vamos jantar... com os Kosugi - disse Crissy com a voz entrecortada enquanto Judd a despojava das calças e lhe tirava a blusa pela cabeça.

- Dentro de duas horas - sussurrou ele, deslizando as mãos pela sua roupa interior com uma eficiência mortal. - Com um pouco de sorte, ainda poderemos ir...

Crissy gemeu sob a forte pressão dos lábios de Judd. Este abria caminho pelo seu corpo, eliminando obstáculos com pouca delicadeza e muita impaciência.

Finalmente, ficaram entrelaçados sobre os lençóis num enredo de membros despidos.

- Devagar - sussurrou Judd com voz rouca enquanto ela se retorcia sob a carícia dos lábios dele nos seus seios. - Calma, querida. Não há pressa. Não é preciso.

Ela soluçou e a sua voz ressoou na quietude perturbada apenas pelo suave zumbido do ar condicionado.

- O serviço de quartos - arquejou Crissy.

- Fechei a porta à chave.

Crissy ia mencionar que tinham uma chave-mestra, mas Judd estava a beijá-la na parte interior das coxas e ela estava a enlouquecer de prazer. Não conseguia acreditar que estava a ferver de desejo só de sentir a carícia de Judd.

- Se calhar eu. não sou normal - sussurrou, agarrando-se a ele.

- Porquê?

- Estou em chamas - riu de forma entrecortada. Morro por te ter. Faria qualquer coisa, qualquer coisa.

- Eu também. Qualquer coisa para te dar prazer - deitou-se ao lado dela e segurou o seu rosto entre as mãos para assaltar ternamente o seu rosto com carícias. - Passou-se tanto tempo, querida. Tanto!

A sua exclamação desembocou num suspiro quando Crissy deslizou as mãos pelo pêlo do seu peito. Perguntou-se se os homens sentiriam o mesmo que as mulheres com as carícias íntimas. Decidida a averiguar, inclinou- se sobre o peito de Judd e explorou-o com a boca, lambendo os mamilos dele.

Judd arqueou as costas, a tremer.

- Gostas? - sussurrou Crissy junto da sua clavícula.

- Adoro - disse. - Faz outra vez.

Crissy fez de novo, mas quando deslizou a língua por debaixo do umbigo de Judd, este estremeceu da cabeça aos pés e, imediatamente, colocou-a debaixo do seu corpo e enredou as suas pernas com as dela ao mesmo tempo que procurava a sua boca.

As mãos de Judd estavam entre eles, a espalhar a sua magia pelo corpo tenso de Crissy, fazendo-a retorcer-se e gemer com sensações deliciosas. Abriu as pernas para deixar que ele a tocasse de forma ainda mais íntima.

Judd levantou a cabeça e olhou-a nos olhos enquanto a acariciava por inteiro com explorações lentas e ternas que a punham frenética de prazer.

- Nunca tinha desejado tanto ninguém - disse. Deslizou uma perna entre as de Crissy e moveu-a, muito devagar, até obter a intimidade total. - Não, não levantes a perna - sussurrou. - Move esta. Assim - estremeceu e olhou-a nos olhos. - Agora, aproxima-te. Sente como te penetro. Devagar, querida. Devagar. Gostas, não é verdade?

- Sim - sussurrou Crissy. Pôs-Lhe os dedos nos ombros e olhou para ele, sentindo como o seu corpo se fundia lentamente com o dele. Pensou que sentiria algum desconforto, ou até dor. Mas já não existia nenhuma barreira, nenhum impedimento. Os seus olhos castanhos reflectiam surpresa e prazer pela facilidade com que ele a tinha penetrado.

- Excitas-me - disse Judd, observando-a enquanto se movia. - Tudo em ti me excita. Não gostei de ter que apagar a luz na primeira vez. Queria ver a tua cara, os teus olhos, enquanto fazia amor.

Era uma confissão inesperada. Crissy ficou sem fôlego e, depois, expirou com um som gutural quando Judd se moveu e ela pôs as suas pernas entre as dele.

- Lembras-te do que sentiste da outra vez quando fizemos isto? - perguntou com voz grave e sensual, enquanto voltava a penetrá-la.

- Sim - respondeu. Tocou- lhe na cara com as mãos, seguiu o contorno do seu nariz direito, da sua boca sexy, do queixo proeminente. Arquejou quando o pra zer a fez elevar-se para ele.

- Assim? - sussurrou e voltou a penetrá-la, com mais segurança ao ver a sua expressão. - Gostas, não é verdade? - levantava e deixava cair as ancas e, a cada movimento lento, arquejava e ficava rígido.

Crissy cravava-lhe as unhas nos bíceps, dominada por um êxtase crescente tão agoniante como aprazível.

- Judd! - a sua voz explodiu com a tensão e o seu corpo ficou repentinamente rígido. Olhou-o nos olhos próxima do pânico. - Por favor, não pares - suplicou com voz rasgada.

- Assim? - perguntou Judd com impaciência e penetrou-a com mais força. Cerrou os dentes e fechou os olhos. - Sim, sim! Assim.

Christabel estava a mover-se com ele, como se estivesse unida a Judd por cordas invisíveis. Esqueceu o passado, o futuro, a dor, a incerteza. Só conhecia uma coisa, a desesperada busca de um prazer que estava praticamente ao seu alcance. Concentrou-se nele com todas as suas forças. Ofegava, tal como ele. O seu corpo tremia a cada investida. Tinha o olhar cravado nos olhos negros de Judd enquanto o seu corpo procurava com frenesim a consumação.

- Nunca tinha sentido nada igual - sussurrou Judd com voz rouca, enquanto começava a ser brusco com o dela. Gemeu, apertou as suas mãos enormes de encontro ao lençol em cada lado da cabeça de Crissy. - Não vou conseguir aguentar muito mais.

- Não faz mal - sussurrou Crissy com voz aguda. Judd. Judd!

Judd mordia-lhe a boca à medida que o ritmo se tornava caótico e áspero.

- Segue-me, querida - sussurrou dentro da sua boca aberta. - Segue-me.

O clímax tomou-a de surpresa. De repente, estava a alcançar um cume impossível. Soluçou como uma criança, agarrando-se a ele, sentindo que o seu corpo explodia de prazer enquanto se convulsionava uma e outra vez.

Mal o conseguia ver no eco daquela loucura. Tinha os olhos muito abertos, assim como os lábios, e estremecia num deleite que sacudia o seu corpo com intensidade.

Judd investiu nela com violência e ficou imóvel, rígido, e gritou no calor interminável da explosão da paixão.

- Meu Deus. Meu Deus - disse com a voz entrecortada, tremendo. - Nunca foi assim. Nunca!

Crissy abraçou-o, acariciou-o, consolou-o enquanto ele estremecia de forma incontrolável nos seus braços. Muito tempo depois, Judd sofreu uma convulsão e deixou- se cair sobre ela, suado e exausto.

Crissy sentia o seu peso na intimidade da satisfação. Tocou-lhe no ombro, no pescoço, com os lábios. Deslizou as mãos pelas suas costas húmidas, sentindo o movimento dos seus músculos, notando como estremecia enquanto cada pequeno movimento do seu corpo desencadeava novos ecos de prazer.

Crissy sentiu os lábios de Judd junto aos ouvidos, quentes, enquanto Lhe acariciava a cara com a bochecha.

Era o desenlace mais terno que podia ter imaginado depois daquela torrente de paixão. Agarrou-se a Judd, tentando respirar normalmente, ainda intimamente unida a ele, com as pernas entrelaçadas, os dois fracos de esgotamento.

Judd levantou a cabeça e olhou-a nos olhos. Observava-a como se não a visse há séculos. Acariciou o cabelo húmido e despenteado de Crissy e, depois, deslizou um dedo pelos seus lábios inchados.

- Sou parte de ti - sussurrou e parecia aturdido. - Sinto-te a envolver-me como seda suave e quente.

Crissy corou e fundiu o seu rosto no pescoço húmido de Judd, envergonhada. Ele enredou os dedos suavemente no seu cabelo. Deitou-se de costas, deitando-a com ele. Respirou fundo.

- Magoei-te?

- Claro que não.

Judd deslizou uma mão pelo lado em que Christabel tinha recebido o tiro e pelo ligeiro alto que se tinha formado ali.

- De certeza?

- O médico disse que podia voltar à rotina normal - reflectiu. - Suponho que se referia a. qualquer actividade.

Judd riu-se junto ao seu seio.

- Isto não é rotineiro - murmurou e beijou-a nos lábios.

Crissy deslizou as mãos pelo pescoço de Judd e apoiou a cabeça no seu ombro húmido com um suspiro trémulo.

- Fico com medo de me sentir assim.

- Sim - Judd não precisava de lhe perguntar a que é que ela se referia. Acariciou-lhe o cabelo que Lhe caía pelas costas enquanto pensava que tinha estado a ponto de perdê-la para sempre. Tinha sido um idiota. Mas, talvez, ainda tivesse uma oportunidade.

- Não voltaste a dizer nada sobre o divórcio - sussurrou Crissy, detestando ter que puxar o assunto. Mas ainda se sentia muito insegura e vulnerável em relação a ele.

- Diz ao teu amigo Cash que as vacas voariam antes de eu to dar - disse suavemente. Ela ficou rígida.

- O quê?

Judd acariciou-lhe as costas, com as suas delicadas cicatrizes, até às ancas e aproximou-a dele. Estremeceu ao sentir aquele delicioso contacto íntimo e começou a mover-se de forma involuntária.

- Se estiveres dorida, é melhor que mo digas agora

- disse num tom que mal conseguia controlar. - Antes que perca o juízo outra vez.

Crissy reparou na sua própria reacção instantânea à intimidade que estavam a partilhar. Era delicioso sentir como o seu corpo se abria a ele sem reservas. Levantou uma perna devagar para aprofundar a posse de Judd e ouviu-o proferir uma exclamação.

- Não te diria mesmo que estivesse dorida - sussurrou com voz rouca. - Quero fazê-lo outra vez. Desejo-te outra vez. Quero. formar parte. de ti.

Judd emitiu um ruído estranho e gutural. Segundos mais tarde, estava a beijar Crissy profundamente, movendo o seu corpo contra o dela, empurrando-a avida mente contra o colchão. Nunca tinha acreditado que fosse possível um homem e uma mulher partilharem um só corpo, mas isso era o que estavam a fazer. Esse foi o último pensamento que pôde formular antes de voltar a perder-se em chamas.

Levou-a para o duche com ele, sombrio e silencioso e deu-lhe banho com uma naturalidade como se o tivesse feito toda a vida.

Crissy estava atónita perante aquela intimidade repentina. Mal se tinham tocado desde o Natal e, de repente, eram amantes. Amantes a sério.

Judd beijava-a com ternura enquanto a ensaboava e passava por água o seu corpo puro. Acariciou os seus seios com uma admiração esmagadora e beijou-os antes de lhe passar a esponja e a persuadir a utilizá-la.

Eram como crianças, exploravam-se um ao outro em silêncio, tremendo de prazer.

Secou-a, envolveu-a numa toalha e cobriu-se com outra. Depois, conduziu-a ao secador que estava pendurado na parede e usou-o para lhe secar o cabelo.

Era como se o tempo tivesse parado para eles. Crissy não se lembrava de se sentir tão unida a um ser humano em toda a sua vida. Olhava-o nos olhos avidamente, esperando ver algo mais do que o delicioso prazer que tinha visto neles um tempo antes.

- O que procuras, Christabel? - perguntou Judd suavemente. Ela baixou o olhar com um sorriso rápido.

- Nada.

Judd baixou o secador e levantou-lhe o queixo. O seu escrutínio era intenso e os seus olhos negros brilhavam solenemente.

- Não existe amanhã, somente hoje. Viveremos dia a dia até voltarmos a casa, de acordo?

Crissy engoliu em seco e olhou-o nos olhos.

- Está bem, Judd - sussurrou. Judd inclinou-se e roçou-lhe os lábios devagar com os seus. Depois, conduziu-a ao quarto e vestiu-a ele próprio, com uma ternura nova que fazia com que o coração de Crissy se encolhesse.

Depois, não houve marcha-atrás. Davam a mão quando passeavam juntos. Judd sorria a Christabel como se nunca tivesse olhado para outra mulher. Abria-lhe a porta, caminhava na rua pelo lado da estrada, puxava-lhe a cadeira para que se sentasse. Ofereceu-Lhe a lingerie vermelha mais sexy que Crissy já tinha visto e convenceu-a a vesti-la para ele. O resultado era previsível. Todas as noites, Crissy dormia nos braços dele, após uma paixão terna que se tornava mais emocionante a cada dia que passava. Temia regressar ao rancho mas, como tinha que ser, a viagem terminou. Embarcaram num avião com destino a Dallas e o medo de perder o que tinha com Judd manteve-a calada e distante durante todo o voo.

Judd apercebeu-se disso e a sua conclusão foi que Christabel se estava a arrepender da intimidade com ele. Fechou-se em si mesmo para lhe dar espaço. E isso convenceu Crissy de que Judd começava a lamentar o sucedido.

 

Pouco depois do regresso do Japão, Crissy começou a vomitar o pequeno-almoço. Da primeira vez que isso aconteceu, Maude não estava em casa. À segunda, fimgiu ter esquecido qualquer coisa no quarto e chegou à casa de banho por um triz. Deu uma escapadela à cidade, comprou um teste de gravidez e, aproveitando que Maude passava o fim-de-semana em casa da irmã, fez o teste.

O resultado surpreendeu- a. Era culpa sua. Tinha deixado Judd acreditar que estava a tomar a pílula e ele deu como dado adquirido que ela a continuava a tomar quando estavam no Japão. De repente, estava grávida e Judd não deixava de a evitar. Apesar de ele o negar, Crissy sabia que ele casar-se-ia com Tippy. O pessoal da filmagem tinha regressado ao rancho para repetir uns takes e Judd aparecia todas as tardes para levar a modelo ao hotel. Custava-lhe olhar Christabel nos olhos, apesar de tantas noites maravilhosas e deliciosas que tinha passado nos seus braços. Mas, e se soubesse do bebé? Iria sentir-se obrigado a continuar casado com ela. Christabel iria arruinar-lhe a vida, a ele e a Tippy.

Sentou-se na borda da banheira desejando que fosse novamente noite de Natal para lhe dizer a verdade. Já era demasiado tarde. Além disso, com o pessoal da fil magem de novo no rancho, não tinham intimidade.

Maude deu-se conta de que ela estava grávida claro. Era impossível ocultar-lhe alguma coisa. Na manhã seguinte, quando Crissy vomitou o pequeno-almoço e teve que se deitar na cama, Maude confessou-lhe que sabia. O que não confessou foi que tinha revelado os seus temores a Cash.

Lançou um olhar furibundo a Crissy com os braços cruzados.

- Judd está no celeiro, com os da filmagem. Vai-lhe dizer agora mesmo ou vou eu fazê-lo.

- Não lhe vais dizer nada! - exclamou Crissy furiosa, secando a cara com uma toalha húmida. - Tenho que pensar.

- E ele também - foi a brusca resposta. - É um filho dele. Quererá tê- lo.

Crissy não tinha muita certeza disso. Judd não tinha feito mais do que evitá-la desde o regresso do Japão. De facto, só aparecia no rancho para acompanhar Tippy. Não lhe ocorria pensar que Cash também passava por lá e que Judd poderia estar com ciúmes.

- Está quase sempre com Tippy - disse com um suspiro. - Além disso, qualquer dia destes pedirá o divórcio. Não é justo roubar-lhe a pequena oportunidade que tem de ser feliz.

- Ai, pequena - soprou Maude. - Não tenho nada contra Tippy, foi amável connosco, mas iria arruinar a vida de Judd. Ele nunca encaixaria no seu mundo. Nem tu no de Cash - acrescentou.

- A decisão é de Judd e não minha.

Maude suspirou.

- Não consigo discutir contigo, não é?

- Não serve de muito - sorriu suavemente. - Mas suponho que tens razão. Não é algo que possa ocultar-lhe durante muito tempo.

- Certo - assinalou Maude e olhou pela janela. Está de pé em frente do celeiro, com Gary e com Tippy. Consegues alcançá-lo antes que se vá embora.

- Iria custar-me menos alcançar a lua - balbuciou Crissy. - Está bem, está bem, eu vou! - levantou-se da cama e seguiu Maude pelo corredor.

Maude abriu-lhe a porta de trás com um brilho travesso no olhar.

- Não tenhas demasiadas ilusões - disse-lhe Crissy enquanto saía. - Já sabes que Judd não é um homem de família.

- Espera que ele tenha esse bebé nos braços. Crissy esperava que Maude estivesse certa. Mas ti nha um mau pressentimento e agravou-se à medida que se aproximava do celeiro. E se Judd não acreditasse nela? Pior ainda: e se pensasse que o bebé era de Grier?

Ainda assim, seria impossível ocultar a sua gravidez em Jacobsville, Texas, onde toda a gente se conhecia. Seria melhor resolver aquele assunto de uma vez por todas. No fim de contas, não tinha muitas alternativas.

Ao dobrar a esquina do celeiro, ficou gelada. Gary, o realizador assistente, estava a resmungar impertinências aos seus operadores de câmara e técnicos de som. Viu-o lançar um olhar assassino ao celeiro e dar a volta, zangado. Crissy estranhou aquela reacção, até que distinguiu o interior na penumbra. Judd estava encostado a um dos estábulos e Tippy inclinava-se para ele, com o seu bonito corpo praticamente unido ao de Judd, enquanto se beijavam com algo parecido com o desespero.

Crissy sentiu náuseas. De forma alguma entraria ali para dizer a Judd que não podia divorciar-se dela por que estava grávida. não quando era evidente que tinha uma relação física com Tippy. Era impossível jogar com um beijo como aquele! E Judd tinha-lhe assegurado que não desejava Tippy!

Deu a volta e regressou por onde tinha chegado sem fazer ruído. As lágrimas cegavam-na enquanto avançava com passo rígido até à sua velha carrinha e se sentava atrás do volante. Pegou na chave extra que guardava debaixo do tapete e arrancou. Afastou-se sem se preocupar com a carta de condução nem com os documentos do seguro, nem sequer com a sua mala.

Pouco a pouco, foi recuperando a razão. A dor era esmagadora. Via aquele beijo ávido uma e outra vez. E não era Tippy quem o beijava, era uma carícia mútua. Ao que parece, Judd tinha tanta certeza de que iria obter o divórcio que já estava a fazer planos com a super modelo. Era difícil ver Tippy a tentar viver do salário de um Ranger, apesar dos lucros que o rancho começava a dar. Era uma mulher bela e muito cotada. Viajava por todo o mundo para participar em desfiles de moda com os estilistas mais famosos. Deveria estar apaixonada por Judd se estava disposta a renunciar a toda a sua fama e dinheiro por ele. Claro que não a surpreendia. Judd era bem parecido, sexy e muito masculino. Tippy não seria a primeira mulher a achá-lo irresistível.

Não havia muito trânsito na estrada. Já tinha passado da hora de almoço e ainda faltava um bocado para que circulassem os autocarros da escola. Agarrou o volante com força. Não tardaria a ter um filho que iria à escola. Judd teria que saber. Não havia forma de ocultar-lhe esse segredo. O bebé deitaria a perder a sua vida, as suas esperanças para o futuro. Isso iria chateá-lo e a Crissy também.

Saiu da estrada principal e tomou um caminho estreito de terra paralelo à margem do rio. A cabeça andava às voltas. Não sabia o que fazer. Mesmo que se fosse embora, Judd iria saber algum dia. Não pensava ir a uma clínica fazer um aborto. Não suportaria essa decisão, fosse qual fosse o preço. Cegamente, pisou com força o acelerador. Conseguia ver Judd a beijar Tippy, sentia a agonia que aquela imagem tinha causado, como uma ferida. Judd estava apaixonado por Tippy. Amava Tippy.

Gemeu. Não podia dizer- lhe que estava grávida, não podia! Tinha sido culpa dela. Não tinha tido cuidado, não tinha tomado precauções e devia ser ela a pagar as consequências, não Judd.

Apertou os dentes e fechou os olhos enquanto voltava a ver o beijo. Não estava a prestar atenção ao caminho. O rio não era muito profundo, mas a margem ficava três metros acima do nível da água. Quando abriu os olhos, tinha saído do caminho e precipitava-se para a margem.

Proferiu uma imprecação e guinou o volante. Pisou no travão a fundo, a escassos centímetros de uma morte certa. A carrinha deteve-se com os pneus dianteiros a apenas trinta centímetros da beira da margem.

Crissy apoiou a cabeça no volante, tremendo de alívio. As lágrimas resvalavam pelas suas mãos. Judd sempre lhe tinha dito que não conduzisse se estivesse alterada. Se não tivesse aberto os olhos naquele preciso instante, teria caído à água. Teria morrido, ela e o bebé. Deslizou a mão com um gesto protector no seu ventre levemente arredondado.

Saiu como pôde do habitáculo e aproximou-se do pára-choques dianteiro. Apoiando-se no lado da carrinha, contemplou a corrente rápida do rio. Tirou um lenço de papel do bolso, o mesmo que tinha usado para fixar a pintura dos lábios essa manhã, e secou o rosto suado. Tremiam-lhe as mãos. Bem, não pensava subir para a carrinha até estar suficientemente serena para conduzir sem perigo.

Ouviu passar um carro pela estrada principal: era um veículo da polícia. Crissy viu que reduzia a velocidade uns segundos antes de sair disparado. Certa mente, aquele agente estaria a perguntar-se o que fazia ali sozinha com a carrinha parada sobre o rio. Pois que continuasse a perguntar-se. Não pensava voltar ao rancho ainda. Daria tempo de sobra para Judd ir-se embora. Não queria vê-lo quando a lembrança daquele beijo ainda lhe estava a doer.

Judd regressava ao seu todo-o-terreno quando viu Maude sair do alpendre das traseiras, com um ar preocupado. Virou-se para ela e aproximou-se sorrindo suavemente.

- Passa-se alguma coisa? - perguntou.

- Crissy. não te contou?

- O que tinha para me contar? - Maude hesitou.

- Viste-a?

- Não. Deveria? - perguntou com impaciência.

- Ia falar contigo - disse Maude. - E não vejo a carrinha dela.

Judd ficou tenso. Se Christabel tivesse ido ao celeiro, devia tê-lo visto com Tippy. Tinha-a beijado para que o realizador assistente, Gary, deixasse de a assediar outra vez. Começava a ser um chato. Tinha sido um beijo inocente, fingido. Mas se Christabel os tivesse visto...

- O que é que vinha falar comigo? - perguntou, pensando na frequência com que tropeçava com Grier quando passava pelo rancho. Tinha chegado ao ponto em que raras vezes falava com Christabel. Tinha tantos ciúmes que já não conseguia disfarçar.

Maude tossiu.

- Não sei, não me disse - mentiu e respirou fundo.

- Deve ter ido buscar o correio ou qualquer coisa assim. Não te preocupes.

Maude entrou de novo em casa. Judd hesitou. Tinha notado que ela estava estranha. Perguntou-se porque é que Christabel não tinha dado a entender a sua presença.

Não era próprio dela passar por cima daquilo que consideraria uma traição. A Christabel que conhecia haveria de se pôr aos gritos no celeiro e teria procurado o confronto directo. Preocupava-o que se tivesse ido embora sem dizer nada.

Subiu para o todo-o- terreno com intenção de ir à cidade e ver se a encontrava no posto dos correios. Mas, enquanto arrancava, ouviu um telefonema na onda de frequência da polícia.

- Cash está por aí? - perguntou um jovem.

- Está reunido com o chefe Blake e o secretário do Concelho. Porquê?

- Quando sair, diz-lhe que a rapariga dele está de pé na margem do rio, junto ao seu veículo, na estrada de J. Davis, está bem?

- Porque é que precisa de saber? - perguntou o operador.

- Porque as rodas dianteiras do carro estão na borda da margem e ela também - disse o jovem. - Eu, no lugar dele, iria logo para lá.

- Digo-Lhe assim que sair. Não vai demorar muito.

- Obrigado - o jovem deu à chave do seu veículo e deixou de transmitir.

Judd queimou os pneus ao sair para a estrada. Christabel ouviu que se aproximava um veículo e ficou tensa. Era um lugar solitário e, portanto, peri goso. Talvez fosse o polícia que tinha passado alguns

minutos antes, resolvido a investigar o que se passava ali.

Ficou rígida quando o enorme todo-o-terreno preto apareceu diante dos seus olhos. A última pessoa que desejava ver naquele momento era Judd Dunn. Os seus olhos escuros trespassavam-na como punhais en quanto travava atrás da carrinha e se apeava com assombrosa economia de movimentos.

Crissy estava de chinelos, que Lhe tiravam altura.

Judd estava imponente com as suas botas de couro e o chapéu Stetson de cor creme e a Colt automática de calibre 45 no coldre do cinto. A insígnia prateada dos Rangers cintilava à luz do sol, bem como os seus olhos negros enquanto se aproximava.

- Estás muito perto da margem - disse sem preâmbulos. Crissy cruzou os braços sobre o peito e voltou a observar a corrente.

- Não - replicou.

Judd parou atrás dela, à espera que falasse, que o acusasse, que se explicasse. Mas não o fez.

- O que fazes aqui sozinha? - insistiu.

- Precisava de pensar - respondeu Christabel com uma voz estranha. Judd hesitou. Não sabia como perguntar se ela o tinha visto com Tippy no celeiro.

- Sobre o quê?

Respirou fundo e virou-se para ele. Tinha os olhos um pouco avermelhados, mas estava serena e resoluta.

- Quero que me compres a minha metade do rancho.

Era a última coisa que Judd tinha esperado ouvir. Ficou mudo durante vários segundos.

- O quê?

- Decidi que não quero passar o resto da minha vida a criar vacas, apesar do contrato com os japoneses - disse com calma. - Tenho um pouco de dinheiro guardado. Não quero voltar à escola de formação profissional, quero ir para a universidade.

- Está bem - disse Judd. - Falarei com Murchison, o gestor do banco. Podes viver no rancho enquanto vais às aulas...

- Não me entendeste - interrompeu-o. - Vou estudar em San António, não aqui.

Christabel pensava ir embora. Não voltaria a vê-la. O rancho, que tinha sido o seu ponto de união, passaria a ser todo seu. Ela viveria noutra cidade, trabalharia noutro lugar. Não estaria em casa quando ele voltasse

para verificar o celeiro ou limpar os estábulos. Não a veria, nem sequer com Grier. A ideia paralisou-o.

- Gostava de ir-me embora no fim do mês - acrescentou Crissy. - Se não tiveres tudo resolvido na altura, não faz mal. Organiza as coisas como mais te convier. Assinarei o que quer que seja.

Judd franzia o sobrolho com ferocidade. Passava-se algo muito grave. Christabel adorava o rancho. Tinha pertencido à sua família durante três gerações. De repente, queria ir-se embora para sempre. Porquê?

- Maude disse que tinhas qualquer coisa para me dizer - disse-Lhe. - Era isto?

- Sim - respondeu Crissy, agradecendo a descrição de Maude. San António não era muito longe, mas era um bom ponto de partida. Iria mudar-se para lá e depois procuraria outro lugar mais longe para onde pudesse fugir, antes que se começasse a notar a gravidez.

- Christabel... - começou a dizer Judd. Mas antes de poder organizar os seus pensamentos, ouviu uma sirene e um motor muito potente. Os dois viraram-se e viram um carro de polícia de Jacobsville a aproximar-se a toda a velocidade pelo caminho de terra, levantando uma poeirada. Grier, maldito!

Grier travou em seco, desligou a sirene e as luzes num segundo e foi direito a Christabel.

- Estás bem? - perguntou-lhe bruscamente, sem prestar atenção a Judd. Crissy sentiu uma vaga de alivio. Com Cash presente, Judd não tentaria sacar-lhe informação.

- Sim - respondeu. - Só precisava de um lugar tranquilo onde pudesse pensar.

Grier não engoliu a desculpa e olhou para ela com os olhos muito abertos.

- Eu sigo-te em direcção ao rancho - disse e Christabel exalou um suspiro zangado.

- Não preciso de guarda-costas.

- Eu acho que sim - resmungou Grier. - Olha onde paraste.

- Estou a mais de trinta centímetros da borda - protestou. Grier estendeu a palma da mão. Ela olhou para ele zangada, mas deu-lhe a chave da carrinha.

- Vou tirá-la daqui. O que fazes aqui? - perguntou a Judd.

- Estou a falar com a minha mulher - repôs com arrogância.

- Não sou a tua mulher - replicou Christabel com a voz entrecortada. - Sou apenas uma utilidade.

Grier teve o bom senso de os deixar sozinhos e dispôs-se a remover o veículo.

- Que diabos significa isso? - perguntou Judd. Ela não conseguia olhar para ele. Cruzou os braços com força.

- Tenho frio.

Viu que tinha os braços nus e a sua voz suavizou-se.

- Não é de estranhar. Não trazes casaco.

Christabel não lhe fez caso. Ficou a olhar para Grier a dar a volta ao carro com perícia. O suspiro de Judd foi audível.

- Temos que nos sentar a conversar tranquilamente. Ela olhou-o nos olhos.

- Não tenho nada para falar contigo - disse solenemente. - As palavras não significam nada.

Judd cerrou o maxilar.

- Viste-me com Tippy - resmungou. Posso explicar-te.

- E o que é que te interessa o que eu penso? - atirou-lhe. - Não sou parte da tua vida. Nunca fui.

Judd fez uma careta.

- Christabel.

- Crissy, vamos! Vais constipar-te se ficares aqui.

disse Grier asperamente. Ela forçou um sorriso para ele.

- Olha quem fala. Tu também não tens casaco.

Grier teve que se conter para não replicar. Ela encolheu os ombros.

- Está bem, já vou.

Judd tinha os punhos fechados nas costas.

- Espera um momento.

Ela olhou-o nos olhos.

- A partir de agora, a tua vida é assunto teu. Não penso interferir. Espero receber a mesma amabilidade da tua parte.

- Maldição!

- Salvaste o rancho, Judd - disse Crissy em voz baixa. - Salvaste-me a mim também. Sacrificaste cinco anos da tua vida sustentando-me financeiramente. Nunca esquecerei o que te devo, mas não espero que continues a fazer sacrifícios por mim - acrescentou com voz rouca. - Se alguém merece um pouco de felicidade és tu. Fico contente que tenhas Tippy.

Não penso intrometer-me.

Afastou-se dele e centrou a sua atenção em Grier, que segurava a porta da carrinha. Cash passou-lhe a chave.

- Não vás muito depressa.

- Nunca vou muito depressa - replicou Christabel.

- Está bem!

Crissy subiu para a carrinha e afastou-se. Não olhou para Judd quando passou junto a ele.

Judd aproximou-se de Grier, que estava a entrar no seu carro-patrulha.

- Ela ainda não está divorciada - disse com patente desafio. Grier olhou-o com frieza.

- Pode ser que esteja, com a pouca atenção que lhe prestas ultimamente.

- Como posso prestar-lhe atenção quando não consigo ir ao meu próprio rancho sem tropeçar contigo? Além disso, a minha relação com Christabel não é assunto teu.

Grier limitou-se a sorrir.

- Veremos - arrancou com o carro-patrulha.

- O que é que sabes que eu não sei? - perguntou Judd bruscamente. Grier hesitou, algo pouco próprio nele.

- Pergunta-lhe a ela. Melhor ainda, pergunta a Maude. Foi assim que eu soube.

Antes que Judd pudesse insistir, Grier afastou-se.

Mas Judd não estava disposto a desistir. Sabia que se passava alguma coisa e tinha a sensação desconfortável de que ele estava implicado. Seguiu Grier até à cidade e à polícia.

Entrou pela porta, furioso como um demónio, decidido a chegar ao fundo de um mistério que não lhe agradava.

Grier sabia que não podia salvar a situação com palavras. Dunn era muito parecido com ele. Tinham trajectórias que deveriam tê-los transformado rapidamente em amigos e, afinal, estavam sempre a competir.

Judd fechou a porta atrás de si e fechou os estores que o antigo subchefe da polícia tinha usado para se resguardar dos olhares curiosos à hora de almoço, quando aproveitava para fazer exercício físico. Grier usava os estores muito raramente. Judd estava a baixá- los para impedir que os homens dele farejassem um conflito pessoal.

Com um suspiro de resignação, Grier pôs-se de pé e começou a desapertar a camisa do uniforme e a afrouxar a gravata.

- Não podes lutar vestido? - perguntou Judd com sarcasmo. Grier esboçou um sorriso e continuou a desapertar a gravata.

- Não tenho uma muda limpa e não quero sujar-me de sangue.

- Do teu, ou do meu?

- É igual. Tu trazes uma camisa branca - assinalou. Judd não respondeu daquela vez. Tirou o cinto da arma e deixou-o em cima da secretária. Esperou.

- Não temos que fazer isto - disse-lhe Grier.

- Não - corroborou Judd num tom enganadoramente amável. - Diz-me o que Christabel esconde e regressarei ao meu gabinete.

- Isso eu não posso fazer - repôs Grier. - Dei a minha palavra.

Judd encolheu os ombros.

- Então, vamos fazer à minha maneira - disse e, enquanto falava, deu um passo em frente e deu- lhe um murro vertiginoso.

Grier tinha uma reputação merecida. Baixou a cabeça a tempo, deu uma volta e golpeou Judd com o calcanhar, com um pontapé digno de Chuck Norris.

Judd recebeu o impacto, mas recompôs-se no mesmo instante, secou o sangue do lábio e sorriu. Aquele sorriso era bem conhecido entre os Rangers. Grier tinha um igual.

Cash esteve a ponto de se esquivar do pontapé, mas Judd acertou-lhe no estômago e o seguinte, um pomtapé com o peito do pé, lançou-o sobre uma cadeira. O estrondo chamou a atenção dos agentes. A porta do escritório abriu-se exactamente quando Grier se atirava sobre Judd e o fazia cair para o chão, para o outro lado da secretária.

Alguém gritou: Luta! e, de repente, apareceram uniformes azuis por todos os lados, ocupando posições à volta do ringue. Grier pensou ter ouvido apostas, mas os seus ouvidus zumbiam por causa do último murro de Judd. Maldição, aquele homem era duro!

Igualou o golpe seguinte de Judd com um salto que arrastou o seu rival contra a parede. Enquanto Judd tentava recompor-se, Grier deu a volta e atingiu-o num dos lados da cabeça com um pontapé alto.

Judd aterrou com desenvoltura idêntica e voltou a recompor-se. Os dois homens, igualados em altura e perícia, observavam-se mutuamente. Os socos eram esquivados ou atenuados, os pontapés, também. Os impactos eram duros. Ambos estavam feridos e sangravam.

Grier conseguiu dar-Lhe um pontapé inesperado quando o ameaçava com um murro. Judd recebeu o golpe, mas voltou-se e, com outro pontapé com o peito do pé, lançou Grier contra a sua secretária.

As testemunhas aumentavam. Grier lançou um olhar ao público com uns olhos turvos, quase tão pretos como os de Judd.

- Vais conseguir que me despeçam - resmungou.

- Duvido. Chet é teu primo em segundo grau - Judd lançou um pontapé com o calcanhar que desequilibrou Grier e o fez cair junto à mesa. - Levanta-te - resmungou ao ver que o seu adversário hesitava.

Grier levantou-se, mas com um poderoso movimento de perna que fez Judd cambalear. Este recuperou depressa, levantou-o agarrando-o pelo braço e deu-lhe uma pancada nas ancas que o fez cair na única cadeira decente do escritório.

Ia ser um empate, fosse qual fosse o desenlace, concluiu Grier. Judd e ele estavam demasiado equilibrados para se derrotarem. Pior ainda, o próprio Grier tinha ensinado a Dunn alguns daqueles movimentos relâmpago que Judd usava. Ficou na cadeira, a esfregar o maxilar.

- Não pares - disse Judd num tom suave e zangado, com olhos negros brilhantes. - Levanta-te e acabemos com isto.

- Não, obrigado - disse Grier com regozijo. Riu-se, movendo a cabeça. - Sei quando parar.

Judd estava furioso. Não queria desistir tão facilmente. Não tinha averiguado nada.

- Christabel disse que quer vender-me a sua metade do rancho e mudar-se para San Antonio. Não penso ir-me embora até que me contes o que se passa - insistiu. - De uma forma ou de outra.

Grier sabia que, se não lhe dissesse, Judd voltaria ao rancho e iria pressionar Crissy. Podia ser perigoso.

Era evidente que já estava muito alterada. Conhecendo-a, supunha que estava a fazer todo o tipo de planos loucos para fugir de Jacobsville.

- Está bem - disse Grier finalmente, com um fundo suspiro. - Vou falar. Mas não diante de testemunhas acrescentou, lançando um olhar furioso aos espectadores. - Fora, ou vão fazer turnos duplos durante um mês!

Os seus homens deixaram um rasto de reclamações ao saírem pelas portas e janelas. Grier levantou-se devagar, sentindo as feridas que o cobriam. A cara de Judd Dunn parecia um mapa em relevo do Oeste do Texas. Juntamente com os cortes, havia tons de púrpura interessantes.

Vestiu a camisa do uniforme, abotoou-a, pôs a gravata e fez-lhe o nó.

- Imagino que Christabel quér ir para San António porque é uma cidade grande e dali pode tomar um autocarro ou um comboio para qualquer outra parte, sem

que ninguém a descubra até já ser tarde demais.

Judd franziu o sobrolho enquanto apertava o cinto da pistola.

- Disse que queria ir para a universidade.

Grier sentou-se na esquina da mesa e olhou para Judd com paciência.

- Pensa que amas Tippy - disse. - Vai-se embora para não interferir na tua felicidade.

- Nunca disse que queria casar-me com Tippy - replicou Judd em atitude defensiva.

- Não é assunto meu, claro. Mas adoraria que te casasses com ela e saísses da vida de Crissy. Eu vou casar-me com Crissy e cobri-la de caprichos.

Oorgulho estava a asfixiar Judd. Não suportava

imaginar Christabel com aquele homem, nem sequer da maneira mais inocente.

- É minha esposa - resmungou. - Até que isso mude, é minha.

- Ela disse-me que pediste o divórcio.

- Ainda não - resmungou.

- Imagino que será uma questão de tempo, não é?

Foste tu quem insistiu no divórcio desde o princípio.

Era verdade. Tinha cometido muitos erros estúpidos. Era incrível que um homem com a sua experiência não conseguisse decidir o que sentia por uma rapariga que tinha conhecido toda a vida.

- Estamos a afastar-nos do tema - disse Judd. Porque quer ela ir-se embora?

- Não adivinhas, claro - suspirou Grier.

- Não pode ser por ti - disse em tom sarcástico, ou estaria a lutar por conservar a sua metade do rancho.

- Não - corroborou Grier em voz baixa. - é uma jovem maravilhosa. Daria muito para ser o homem da sua vida, mas não pode ser. Nem sequer estava na grelha de partida.

Durante um longo momento de horror, Judd perguntou-se se haveria outro homem. Não, não era possível. Mas, se não era Grier, e Christabel estava a fugir...

- Não sabes contar, pois não? - disse Grier em tom irónico. Voltaram do Japão há dois meses. Chegou a casa esperançada e sonhadora e, depois, caiu numa depressão da qual ainda não saiu, porque tu a evitas como se ela fosse a peste. Agora, de repente, ela afasta-se de ti.

- Já me apercebi - disse Judd. - Não me estás a contar nada que eu não saiba!

- Sim, se me escutares. Pensa. Porque quer ela ir-se embora? Porque é tão importante mudar-se para um sítio onde não possas vê-la?

Deveria ter-se apercebido muito antes. Foi como receber o impacto de um taco de basebol entre os olhos. Christabel tentava esconder-se porque o seu corpo estava a mudar, porque estava.

- Está grávida? - a pergunta asfixiava-o. Grier limitou-se a assentir.

- Foi o que disse Maude. Tinha enjoos matinais há quinze dias e a roupa já não lhe serve.

Judd empalideceu. Christabel não estava a tomar a pilula naquela altura e sentia-se culpada. Tinha-o visto com Tippy no celeiro, como não sabia que tinha sido um beijo fingido, estava decidida a não se interpor na sua felicidade, a não deitar a perder as suas possibilidades com um bebé de que ele não sabia. Se calhar pensava que também não quereria responsabilizar-se pela criança.

Deixou-se cair no sofá e ficou sentado, atónito, taciturno.

- Eu gosto de bebés - disse Grier. - Estou naquela idade em que penso muito nisso. Posso viver em qualquer lado. Se quiseres que Crissy se vá embora, eu vou com ela. Pode ser que algum dia se case comigo. Adopto a criança e crio- a como se fosse minha.

As portas estavam a fechar-se. Em algum mo mento, Judd tinha perdido Christabel e o bebé e diante dele abria-se um futuro lúgubre. Olhou para Grier com horror nos olhos. Tinha adorado a liberdade. A ideia de passar a sua vida com uma mulher, de ter uma familia, tinham-no aterrado. Tinha vivido e trabalhado sozinho quase toda a sua vida. Não tinha querido amarras nem responsabilidades. Mas quando Christabel aceitou uma bala que Lhe era dirigida, a sua atitude mudou por completo. Tinha feito tudo o que estava nas suas mãos para demonstrar a Christabel que a amava, mas ela tinha-se distanciado dele e tinha começado a agarrar-se a Grier. Magoava-o. Como podia acreditar que ele preferisse Tippy?

Que tipo de vida teria se deixasse que Christabel se fosse embora da cidade e Grier fosse com ela?

- Eu se fosse a ti, e ainda bem que não sou, ia para casa e pensava seriamente no que eu te disse - disse-lhe Grier com leve regozijo. - Não dispões de muito tempo.

Judd não replicou. Olhou para Grier como se não o visse. Pôs-se em pé, vagamente consciente das feridas e dos cortes que sangravam na cara.

- Também não era mau se pusesses uns pensosdisse Grier.

- Olha-te ao espelho, Grier - atirou-lhe Judd.

- Não o suportaria. Se estiver com metade do teu aspecto, amanhã venho trabalhar com um saco de papel na cabeça.

- Terás sorte se conservares o teu trabalho depois de Chet Blake vir este escritório - resmungou Judd enquanto se dirigia para a porta.

- Bem, digo que foi obra tua - assegurou-lhe com um sorriso.

- Experimenta. - A primeira coisa que tens que corrigir é o teu sentido de humor - assinalou Grier. - Para não falar da tua falta de diplomacia.

- A tua ideia de diplomacia é uma pistola - assinalou Judd.

- Só com cabeças duras como tu.

Judd tinha a mão fechada quando parou e virou a cabeça para Grier.

- Não digas a Christabel que eu sei da gravidez.

- Não te preocupes. As pessoas também não sabem o que eu fiz de verdade no Iraque.

Judd franziu o sobrolho.

- Não sabia que tinhas estado no Iraque.

- Vês? - sorriu Grier. Judd abriu a porta. - Mais uma coisa - disse-lhe.

- O quê?

- Na próxima vez que deres aquele pontapé com o peito do pé, mantém o eixo estável. Perderás o equilíbrio se inclinares a parte superior do corpo quando atacas.

Judd revirou os olhos e saiu a abanar a cabeça.

 

Christabel estava a passar a ferro quando Judd parou o seu todo-o-terreno em frente da casa, mas ela estava demasiado afectada pelo seu quase acidente para se aperceber daquilo que acontecia à sua volta. Além disso, o zumbido sonoro da velha máquina de lavar abafava qualquer som.

Maude estava na cozinha, a terminar o pão, quando Judd entrou. Ficou a olhar para ele com as mãos sujas de massa. Tinha a cara cheia de cortes e feridas e sangrava de um corte do lábio. A camisa branca estava salpicada de sangue.

- Grier está pior - disse Judd e encolheu os ombros.

- Onde está Christabel?

- A passar a ferro - conseguiu dizer Maude. Estava estupefacta. Não o tinha visto lutar desde o dia em que Tom Gaines dera uma tareia à filha e isso já tinha sido há muito tempo.

Judd virou-se e foi à procura de Christabel. Estava de costas para ele. Deteve-se no umbral do quarto da roupa para a observar, com os olhos semicerrados, como se estivesse a espremer o cérebro.

Crissy sentiu o seu olhar e voltou a cabeça. Recompôs-se devagar, olhando para ele, boquiaberta.

- Pode-se saber o que é que te aconteceu? - exclamou.

- Grier não conta nada sem um pouco de persuasão

- disse em tom lúgubre, enquanto avançava para ela com semblante inescrutável.

- Que informação é que procuravas? - perguntou, sem compreender. Não podia ser do bebé, porque Cash não sabia que ela estava grávida.

- Não interessa - murmurou. - Recebi um monte de golpes para não conseguir nada em concreto - mentiu e abriu os olhos. - Não gosto que venha tantas vezes aqui e disse-lhe. Agora digo-te a ti. Somos casados.

Ela olhou para ele zangada por cima de uma toalha que tinha tirado da máquina de secar.

- Vi-te beijar Tippy Moore.

- Sim, beijei-a - resmungou. - O realizador assistente não faz mais nada se não assediá-la e ela tem medo. Era um beijo a fingir.

- Sim, claro - atirou- Lhe. - Tippy Moore, modelo internacional, deixa-se assustar por um insignificante realizador assistente. Gostava de conhecer o homem que a intimida!

Judd aproximou-se e tirou-lhe a toalha das mãos. Arrastou-a sobre a máquina de secar.

- Tem um passado do qual não te posso falar - disse com franqueza. - Basta dizer que os homens a aterram. Por isso esteve colada a mim. Eu não lhe toquei isso fê-la sentir-se a salvo comigo. assim como com qualquer agente fardado.

Christabel olhava para ele de boca aberta. Tinha invejado Tippy, tinha-a detestado por aquela rara beleza que Judd e outros homens cobiçavam. De repente, sentia pena dela. As peças daquele quebra-cabeças começavam a encaixar. Devia ter acontecido algo terrivel para que ela sentisse aquele pânico.

- Não consigo vir aqui sem tropeçar nesse maldito Grier - insistiu Judd, lançando fogo pelo olhar.

queres que te diga a verdade, era a minha maneira de me desforrar.

Crissy ficou estupefacta. Era a última coisa que esperava ouvir. Judd estava com ciúmes. dela? O seu coração batia desenfreadamente.

- Só... só saía com Cash, porque me magoava ver-te com Tippy a toda a hora - confessou sem levantar os olhos.

O coração de Judd subiu-lhe à garganta. Tantos malentendidos e todos por falta de sinceridade. Christabel não estava apaixonada por Cash. Deu uma gargalhada sonora.

- Tippy está interessada em Cash, mas não lhe podes dizer - murmurou e levantou a mão para acariciar o seu suave cabelo louro com os dedos.

- Porque não?

Judd encolheu os ombros.

- Cash pensa que ela é frívola. Diz que os homens como ele conhecem melhor a maioria das mulheres do que a si mesmos.

Christabel olhou-o nos olhos com atenção.

- A sério que não te deitaste com ela?

- Sou casado, Christabel - sússurrou e entrelaçou as mãos atrás da cintura de Crissy.

- E? - perguntou ela, corando. Ele baixou a cabeça.

- Não me deito com outras mulheres, querida. Só contigo. E, ultimamente - gemeu junto aos seus lábios suaves, - a minha cama esteve muito vazia.

Deixou que ele a beijasse. Poucos segundos depois, Christabel esqueceu o que estava a fazer e procurou o contacto do seu corpo poderoso com um som gutural.

- Espera. Espera um minuto - disse Judd com pressa. Afastou-se dela o tempo necessário para fechar a porta e correr o ferrolho. Ainda bem que tinha ferrolho, pensou.

Encurralou-a contra a máquina de secar e voltou a beijá-la avidamente. De certeza que usava um vestido, porque as calças de ganga não lhe serviam. Sorriu junto aos lábios dela enquanto deslizava as mãos por debaixo da roupa e a despojava da sua roupa interior.

- Judd, não podemos - sussurrou ela.

Mordiscou-lhe o lábio superior enquanto tirava o cinto, o deixava de lado e soltava o anel da correia.

- Não te preocupes, anjo. Podemos fazer amor sem a lingerie vermelha - brincou com voz rouca. - Além disso, somos casados. Voltarei a mostrar-te o livro de família - levantou-a e uniu a sua boca à dela enquanto a colocava sobre o seu membro. - Vamos buscá-lo. depois - gemeu enquanto a penetrava.

Ela deixou de protestar, de pensar, de respirar. Agarrou-se a ele, gemendo dentro da sua boca en quanto ele investia contra ela e a máquina de lavar camuflava os ruídos que estavam a fazer. Queria arrancar-lhe a roupa, deitá-lo no chão, devorá-lo.

Não se deu conta de que estava a dar voz aos seus pensamentos até que acabaram num emaranhado de braços e pernas sobre o linóleo. Crissy sentia o peso do corpo de Judd enquanto se abraçavam, possuídos por uma febre crescente de desejo.

Crissy nunca tinha experimentado uma paixão instantânea como aquela. No último momento de lucidez, Judd levantou a cabeça e olhou para a cara dela enquanto a catapultava para o êxtase. Crissy estremeceu uma e outra vez com gemidos quase desumanos, cravando-lhe as unhas nas ancas. Segundos mais tarde, Judd ficou rígido e arqueou as costas. Emitiu um gemido rouco e áspero e o seu rosto contraiu-se.

Crissy observou-o, tão excitada que ardia com o calor esmagador da satisfação. Nem sequer no Japão tinha sido tão intenso. Não conseguia parar de tremer. As lágrimas corriam pelas suas faces enquanto ele se movia sobre ela no eco palpitante do amor.

Exactamente quando Judd caiu sem forças sobre ela, a máquina de lavar fez uma pausa entre um ciclo e outro da lavagem. Crissy notou que Judd tinha o corpo a tremer. Até que este levantou a cabeça e ela pôde ver os seus olhos negros reluzentes, não compreendendo porquê. Estava a rir-se.

- Que alívio! Aquele maldito técnico de som ouve uma formiga a andar a cinco metros de distância e gosta de gravar as pessoas sem que elas saibam - ofegou. - Se a máquina de lavar tivesse terminado uns segundos antes.

Crissy também se riu ao imaginar a vergonha. A máquina de lavar reiniciou o ciclo com estrondo e Judd moveu-se sobre ela, deslizando os lábios pelas suas maçãs do rosto, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha. Ela beijou-o na bochecha e arrancou-lhe um gemido.

- Desculpa - murmurou, ao perceber que tinha beijado uma ferida. Tocou-Lhe na cara machucada com delicadeza. - Dói-te o maxilar?

- Grier não brinca.

- O que querias que ele te dissesse? - quis saber Crissy.

- Que se mantivesse afastado de ti - mentiu. Franziu os lábios e moveu-se deliberadamente, para que ela pudesse notar o lento e delicioso despertar do seu corpo. - Mas duvido que isso vá ser um problema, não achas? - e voltou a mover-se.

Crissy apanhou ar. Ainda estava sensível e aqueles movimentos eram tão doces que começou a deixar-se levar outra vez.

- Maude.

- O ciclo dura mais quinze minutos - recordou-lhe Judd e inclinou-se sobre ela. - Apesar de eu duvidar que aguente tanto.

- Vamos ver - sussurrou Crissy com ousadia e atraiu-o para ela.

Estavam outra vez de pé quando a máquina de lavar se deteve pela segunda vez. Crissy acabava de vestir a roupa interior e ele tinha abotoado as calças de ganga. Judd olhou para a camisa e suspirou.

- Grier tirou a camisa antes de lutar. Deveria ter feito o mesmo. Tenho alguma lavada? Não posso voltar assim ao trabalho.

Crissy sorriu feliz e assentiu. Aproximou-se dos cabides e tirou uma camisa branca engomada. Judd tirou a que trazia, deixando a descoberto uma t-shirt também salpicada de sangue.

- Maldição - resmungou.

- Também tens uma t- shirt lavada - disse e voltou-se para tirar uma de uma cesta onde guardava a roupa acabada de sair da máquina de secar. - Toma.

Judd despojou-se da t- shirt, consciente de que ela o estava a comer com os olhos. Atirou a camisa e a t-shirt para o cesto da roupa suja e aproximou-se para pôr as mãos de Christabel sobre o seu peito peludo.

- Desejava-te tanto que nem sequer perdi tempo a despir-me - reflectiu com um sorriso. - A partir de agora, venho dormir ao rancho, contigo na minha cama.

- Vais dormir comigo? - perguntou, fascinada.

- Claro - percorreu o contorno dos seus lábios com os dedos. - A não ser que prefiras que eu fique no meu antigo quarto. Seria interessante. Vestias aquela lingerie vermelha e vinhas seduzir-me à noite. Christabel deu-lhe um murro suave e disse que não.

- Vou dormir contigo e seduzir-te comodamente. És o meu marido - sussurrou, sentindo cada palavra.

- E tu a minha mulher - inclinou-se e beijou-a levemente, fazendo-a deslizar os dedos pelo seu peito. Lamento que não tenhas aberto o teu presente de Natal.

- Porquê? - perguntou distraidamente.

- Eram umas pérolas rosadas, as tuas preferidas. Mas também havia outro presente. Tippy devolveu-me o anel. Tinha-me persuadido a comprá- lo e só o fiz para conservar o meu orgulho. Quando o devolvi à joálharia - acrescentou suavemente, - comprei dois anéis a combinar. Um para ti, outro para mim. Alianças. E assim tens dois presentes e não um.

Ela limitou-se a olhar para ele. Ele encolheu os ombros.

- Nunca quis divorciar-me - confessou. - No fundo, não. A minha mãe era muito jovem, como tu, e não estava preparada para o casamento. Vi como o meu pai morreu por dentro quando ela o deixou. Nunca superou o divórcio e chorou o seu destino até ao fim. Eu não queria acabar como ele. Tinha medo de me comprometer. Sabia que te interessavas por mim, mas temia que fosse uma paixão passageira.

- Paixão passageira?? - replicou Crissy com um sorriso. - Durante cinco anos?

- Compreendi isso quando levaste o tiro no meu lugar - disse em voz baixa. - Então, soube que me amavas de verdade. Mas Grier não se separava de ti e homens melhores do que eu já se sentiram inferiores ao lado dele.

- Cash é uma pessoa triste e solitária - disse Crissy.

- Fazia-me pena. Sei coisas dele que tu ignoras, Judd. Esteve casado muito pouco tempo, iam ter um filho. Não sei o que aconteceu, mas divorciaram-se com amargura - suspirou. - Não era mais do que um amigo, Judd.

- Não sabia. Estava louco de ciúmes. Por fim, compreendi que não irias esperar eternamente que eu aceitasse o que sentia por ti. Foi então que soube que teria que lutar para te reter. Mas Grier fez-me passar um mau bocado, desde que regressámos do Japão.

Ela sorriu devagar.

- Tippy também me fez passar um mau bocado a mim. É bonita e sofisticada.

- Sofisticada, como Grier - acariciou-lhe a orelha.

- Que se consolem um ao outro - disse com um sorriso malandro.

- De certeza?

Judd arqueou as suas sobrancelhas escuras.

- Quantas mulheres achas que tive no chão do quarto das máquinas?

- É melhor que eu tenha sido a única - respondeu Crissy fingindo que estava zangada. Judd riu- se.

- Já começas a ser tu mesma - deitou a mão à t-shirt lavada. - Tenho que voltar ao trabalho. Estou a encaixar as últimas peças dos casos Clark - olhou para ela. - Não te tinha dito. Já sabes quem nos envenenou os touros?

- Jack Clark, não? - adivinhou Crissy.

- Não. O seu irmão John era quem envenenava e ele matou o velho Hob. Tinha um amigo e colega de trabalho, o mesmo homem que lhe emprestou a carrinha preta, que lhe deu um álibi durante o intervalo da morte do velho Hob, porque John o fez acreditar que uma namorada ciumenta o queria obrigar a comprometer-se. Além disso, foi Jack Clark quem violou e matou a mulher de Victoria. Jack era o nosso principal suspeito dos envenenamentos porque vivia em Jacobsville e ele sabia disso.

- Continua - pressionou Crissy.

- A consultora que mostrou a Jack as propriedades ignorava que ele estivesse a criar um álibi enquanto o seu irmão estava aqui, a envenenar os touros. Envenenaram o touro de Brewster porque era filho do touro Salers do Handley e o nosso, como vingança por eu ter despedido Jack. Mas, se não fosses tu, talvez nunca tivesse resolvido o caso do assassinato de Victoria.

- Se não fosse eu?

Vestiu a camisa, abotoou-a e voltou a prender a estrela no bolso.

- Contaste-me como tinham cortado a cerca - explicou-lhe Judd. - Tínhamos uma vedação de arame farpado cortada no local do último crime. Comparei-a com a fotografia que Nick tirou do arame cortado e coincidia na perfeição. O bocado de arame que guardaste é uma das provas principais. Para não falar da carrinha preta com a faixa vermelha do amigo de John Clark, Gould. Por último, os filamentos de tecido que encontraram no local do crime pertenciam a uma camisa de flanela que te lembravas de ver Jack a usar quando te enfrentou no rancho. Encontrava- se na caixa de pertences que John Clark levou consigo para Victoria. Também há outra prova crucial.

- Não me deixes em suspenso - disse Crissy entusiasmada.

- Além do cabelo que se encontrou na blusa da vítima, a polícia forense reparou numas marcas de dentes no peito da mulher. Não estava morta há muito tempo e o seu corpo ainda estava morno quando o en contraram. Um dos especialistas teve um pressentimento. Humedeceu um lenço com água destilada e esfregou com ele o peito da mulher. Obteve uma prova de ADN que relaciona Jack Clark com o assassinato. O cabelo da camisa coincide na perfeição com o de Clark. Todas essas provas são admissíveis perante um tribunal.

- Não sabia que se pudesse fazer tudo isso - exclamou. Judd riu- se.

- Terei que te pôr a par dos avanços científicos na obtenção de provas.

- Mas porque é que ele a matou? Sabes?

- Era a jovem que testemunhou contra ele por agressão sexual e que desapareceu. Jack passou seis anos na prisão por causa do testemunho dela. Quando o soltaram, os dois irmãos puseram-se a trabalhar para Handley, o criador dos touros Salers puro-sangue. Handley era o melhor amigo do marido da vítima. Handley despediu-os quando Jack já tinha reconhecido a jovem e tinha decidido vingar-se. John Clark envenenou os touros dele, Jack violou e assassinou a mulher.

- Santo Deus! E o que me dizes do pobre Hob?

- Quando dissemos a Jack Clark que tínhamos provas que o incriminavam, cedeu e confessou tudo diante do advogado oficioso. Disse que o irmão foi ver Hob só para o ameaçar, para que não falasse. Hob negou-se a deixar-se intimidar. Ia chamar a polícia e dizer que os irmãos Clark tinham cortado a cerca. John atingiu-o na garganta com um atiçador. Não lhe importavam os touros, mas não podia viver com o assassinato de um homem nas suas costas. Disse a Jack que ia assaltar um banco e que não se importava se o matassem.

- Pobre Hob - disse Crissy com aflição. - Que maneira mais triste de morrer.

- Concluindo, Jack vai estar atrás das grades por muito tempo. Fico contente, porque o psicólogo que o avaliou disse que poderia matar novamente. Clark ainda me odiava, claro, por ter disparado contra o seu irmão e por ter contribuído para reunir as provas que o vão condenar por assassinato - sorriu a Christabel. Como se isso me importasse!

Ela abraçou-o com força, segura, pela primeira vez, no seu casamento.

- E tu que não querias acreditar que tinham envenenado o touro.

Atraiu-a para ele.

- Não, e devia ter vergonha. Isso teria tido consequências fatais se Clark se tivesse sentido um pouco mais seguro de si mesmo. Sinto muito. Mas isso já passou. A partir de agora, se me disseres que o preto é branco, eu acredito - levantou a cabeça, contemplou o olhar feliz e sonhador de Christabel e sorriu. Beija-me. Tenho que voltar ao trabalho.

Christabel rodeou-lhe o pescoço com os braços e beijou-o com ânsia.

- Leva-me contigo - sussurrou.

- Depois não fazia mais nada - replicou Judd. Afastou-a desgostoso e apertou o cinto. - Voltarei às seis.

Christabel tinha a sensação de que o seu mundo tinha mudado drasticamente no espaço de umas horas. Não conseguia parar de sorrir.

- Está bem. Terei a lingerie vermelha preparada.

Judd riu com vontade.

- Está combinado.

Saíram da casa das máquinas e caminharam de mão dada até à porta principal. Judd olhou para ela, desejando poder dizer-Lhe que sabia que ela estava grávida. Nunca se tinha sentido tão unido a ela, nem a tinha amado tanto. Mas devia esperar, procurar o momento oportuno. Se Christabel descobrisse que ele sabia, podia pensar que continuava com ela pelas razões erradas. Beijou-a uma última vez e foi-se embora.

Maude viu-os e não disse nada, mas ele também não parava de sorrir.

Na manhã seguinte, o pessoal da filmagem estava outra vez a trabalhar. Mas aquele dia era diferente, porque toda a gente conseguia perceber que a relação entre Judd e a sua jovem esposa tinha mudado. Tippy tinha a sensação de que se tinha levantado o véu. Os predadores vigiavam-na, especialmente o realizador

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assistente. Após uma cena especialmente difícil no celeiro, Gary Mays gritou: Corta! " e entrou no cenário, de costas para a porta do celeiro, para passar um braço pelos ombros de Tippy e a apertar contra o seu corpo. Gary voltava a ser o pior pesadelo de Tippy.

- Ouve, boneca - disse Gary em tom persuasivo - Faz a cena como está escrita e não tentes representar a sério, está bem? A única coisa que eu quero é que fiques bonita e que balances as tuas ancas sensuais para mim - passou-Lhe uma mão pelo rabo com uma lascívia digna de um presidiário.

Segundos mais tarde, a mão estava no ar, dobrada para trás, com Cash Grier a olhar friamente para ele.

- Não querias fazer isso, pois não, Gary? - perguntou num tom satisfeito e dobrou-lhe a mão um pouco mais. o suficiente para que Gary fizesse uma careta de dor. - O assédio sexual é um termo muito desagradável. Pensa no que a imprensa diria na nossa sociedade politicamente correcta. Percebes o que te quero dizer? - acrescentou suavemente, e aumentou a pressão.

- Percebo. perfeitamente - exclamou Gary e virou-se para ele para evitar que lhe arrancasse a mão.

- E apesar de não te poder prender por assédio, já que estás fora da minha jurisdição, posso chamar um dos meus colegas do departamento do xerife para te prenderem. Por isso, não voltes a tocá-la assim. Entendido, Gary? - insistiu Cash com um sorriso. O sorriso provocava calafrios a Tippy.

- Nunca mais, juro! - gemeu Gary. Cash soltou- lhe a mão, ainda a sorrir.

- Era conveniente que anunciasses uma pausa de dez minutos - acrescentou. - Gostava de falar um momento com a menina Moore.

- Adiante - resmungou Gary e lançou a Tippy um olhar de puro ódio. - Dez minutos para todos – exclamou e afastou-se de Cash o mais depressa que pôde, sustendo a claquete na outra mão.

Cash fez um sinal a Tippy com a cabeça. Ela aproximou-se como um cordeirinho, sem emitir o mais leve protesto, olhando para ele com os seus olhos verdes cheios de perplexidade.

- Porque deixas que ele te trate assim? - perguntou Cash em voz baixa.

Estava afectada. Envolveu-se com os braços.

- Tenho vinte e seis anos - disse. - E um irmão de nove que tenho que sustentar. As portas da moda estão a fechar-se para mim. Tenho que triunfar no cinema ou ficarei sem fonte de receitas.

- E achas que por dinheiro vale a pena permitir a essa tarântula humana que suba pelo teu corpo como uma trepadeira? - insistiu. - O que é que eu te disse no hospital? Que o olhasses nos olhos e lhe dissesses que não.

- É mais fácil dizê-lo do que fazê-lo - repôs Tippy com um ar torturado.

Cash levantou-Lhe o queixo devagar. Olhava para ela com o olhar firme.

- Mas vais tentar, não vais?

- Ela assentiu, porque Cash produzia esse efeito nas pessoas.

- Podias tê-lo magoado - disse Tippy vacilante.

- Podia ter-lhe partido a mão com a mesma facilidade com que o magoei. Há alguns anos, nem sequer teria hesitado - Cash estava a pensar, analisando dados e tirando conclusões. - O teu corpo diz vem e come-me, até que um homem se aproxima a dois passos de ti. Então, convertes-te numa estátua de gelo. Mas, debaixo do gelo, há medo. Aquele tipo causa- te pânico - murmurou, apontando para o realizador assistente com o queixo. - Apesar de não tanto como euacrescentou suavemente.

Tippy engoliu em seco. Detestava ser tão transparente, mas a ousadia de Gary tinha-a perturbado. Cash fixou-se na sua postura, na pose defensiva.

- Não tinhas medo de Judd - recordou Cash. - Mas ele não te tocava, pois não?

O rosto de Tippy deu-Lhe a resposta imediata. Cash assentiu devagar.

- Então, era isso.

Ela olhou-o nos olhos, cheia de curiosidade e de surpresa. Cash deu um passo para Tippy, medindo forças com emoções conflituosas e viu como a dor surgia no seu belo rosto. Parecia um veado assustado, apesar de não se ter afastado. Ele fascinava-a. Desde que era criança, nenhum homem tinha vindo em sua defesa, como Cash tinha feito na presença de Gary, à excepção de Judd. Os polícias sempre tinham sido amáveis com ela. E Cash usava um uniforme.

Cash aproximou-se deliberadamente, inclinando-se sobre ela. Tippy conseguia ver as sardas negras que salpicavam a ponta do seu nariz direito, o grosso bigode sobre aquela boca sensual, a minúscula pêra triangular sob o lábio inferior, as ondas leves do volumoso cabelo preto apanhado no rabo-de- cavalo. Cash cheirava a lavado e a homem. Gostava de estar perto dele. Era uma surpresa e isso reflectiu-se no seu rosto. Mas a proximidade também a punha nervosa e deu um rápido passo atrás.

O comportamento de Tippy deixava-o perplexo. Era um rumor generalizado na imprensa cor-de-rosa que Tippy tinha vivido com um homem durante seis anos, uma estrela de cinema com o dobro da sua idade e que tinha uma reputação quase obscena pelas suas descaradas aventuras amorosas. Ela tinha fama de ser sexualmente agressiva. Mas como poderia ser uma mulher experiente e afastar-se de qualquer um que se aproximasse demasiado? Não fazia sentido.

Olhou para ela com os olhos semicerrados.

- Ele não voltará a incomodar-te porque tu não o vais permitir, certo?

Tippy engoliu em seco. Gary punha-lhe os cabelos em pé, mas nunca o tinha enfrentado. Normalmente, limitava-se a travar os seus admiradores com indelicadeza, para que se sentissem incomodados e achassem que não encaixavam no seu ideal. Mas Gary era asqueroso e recordava-lhe muito o homem horrível da sua adolescência. Não conseguia usar estratagemas com ele. Tinha medo dele.

- Certo? - insistiu Cash. Ela assentiu, como se Cash lhe tivesse tirado uma corda que tinha atada ao pescoço. - Tippy - Cash disse o seu nome com o sobrolho franzido. - É diminutivo de quê?

- De Tristina - respondeu com amargura. Afastou o cabelo dos olhos. - Significa tristeza". A minha mãe sentiu-se assim ao ter-me, pelo menos, é o que contam - acrescentou. - Não queria ter filhos, mas deitar-se com homens. Quantos mais, melhor - hesitou. - Disse-me que não tinha a certeza de quem era o meu pai.

Cash não parecia importar-se. Observava-a em silêncio.

- Tinha que ser um homem bem parecido. Tippy fez uma careta.

- A minha mãe é uma mulher imponente, ainda hoje. Tem olhos verdes e uma cabeleira acobreada, como eu, e um corpo à prova de fogo. E não é idiota. Custou-me muito tirar-Lhe Rory, mas o dinheiro é persuasivo. Agora tenho a custódia total e não penso renunciar a ela.

- Rory?

- O meu irmão.

Cash esticou o braço e tirou uma madeixa de cabelo avermelhado da boca.

- Porque tens a custódia?

- Porque o novo namorado dela o odiava e lhe batia, até ao ponto em que teve que ser hospitalizado aos quatro anos. Um polícia amigo meu telefonou-me e disse-me.

- E que diabos fazia a tua mãe entretanto? - exclamou.

Tippy engoliu em seco.

- Segurava-o.

O suspiro de Cash foi audível. Ao olhar para ela, começou a ter visões perturbadoras dela, quase como se estivessem a passar da mente de Tippy para a dele. Semicerrou os olhos. Juntou a postura defensiva de Tippy ao seu medo dos homens e à reputação perniciosa daquele que tinha sido o seu parceiro durante seis anos. O resultado era inquietante.

- Não vou permitir que me tire Rory - disse Tippy friamente. - Custe o que custar.

- Mesmo que tenhas que suportar lábios de lagarto?

- disse, apontando para Gary com a cabeça. Ela levantou o olhar, surpreendida, e dos seus lábios nasceu um suave tilintar. - Enquanto lhe doer a mão, pensará em mim. Vamos.

Cash regressou com ela ao cenário, mantendo a distância para não a pôr nervosa. Até sorriu a Gary.

Tippy caminhou em linha recta até ao realizador assistente, sentindo-se insolitamente segura de si.

- Cash disse que, se voltares a tocar-me, posso fazer com que te prendam e acusar-te de assédio - sorriu com encanto. - Tens seguro, não tens, anjo?

Gary empalideceu. Lançou um olhar a Cash e tossiu.

- Muito bem, oiçam-me todos. Já perdemos bastante tempo. Vá, vamos trabalhar.

Tippy dirigiu a Cash um olhar rápido e um sorriso tímido e continuou a trabalhar.

A resolução de Judd de não deixar que Christabel suspeitasse que ele sabia que ela estava grávida durou exactamente quatro dias, até à tarde em que voltou mais cedo do trabalho e encontrou Christabel na parte de trás de uma carrinha com Nick, a atirar fardos de feno do celeiro para um dos pastos.

Judd ficou furibundo. Tirou-a da carrinha em braços, levou-a para o seu todo-o-terreno, sentou-a e levou-a, sem dizer nada, à consulta do doutor Jebediah Coltrain. Entrou com Christabel no local e disse à recepcionista que queria que os recebessem imediatamente. A sala de espera estava vazia.

- Copper não está cá - balbuciou a jovem, - e Lou está quase a ir- se embora.

- Não, não está - arrastou Christabel pela porta que dava para o corredor. - Lou - gritou.

A doutora Lou Coltrain saiu para o corredor, primeiro atónita e depois regozijada ao ver os recém-chegados.

- Em que posso ajudar? - perguntou a Judd. Este cerrou os lábios.

- Quero fazer um teste de gravidez agora mesmo.

- Muito bem - repôs Lou, tentando não rir. Data do último período.

- Não é para mim, é para ela - resmungou, lançando um olhar colérico a Christabel, que estava atónita. - Estava a atirar fardos de fenos de uma carrinha, pelo amor de Deus.

O sorriso de Lou evaporou-se.

- Isso não é muito inteligente se estiveres grávida, Crissy - disse suavemente. Christabel começou a chorar.

- Não podes saber! - gemeu ao seu marido. Como sabes?

- Não sou cego, pois não? - resmungou. - Não consegues apertar as calças nem manter o pequeno-almoço no estômago - aborrecia-se por não dizer a verdade.

- Maude disse-te - acusou-o.

- Maude não me disse nada - defendeu-se.

- Vamos tirar uma amostra de sangue, Crissy - in terveio Lou. - Quando tiveste o período pela última vez?

Teve que responder com Judd a escutar cada palavra. Lou chamou Betty e fizeram o teste. Deu positivo. Lou marcou uma consulta para que Christabel visitasse um ginecologista de Victoria, que também trabalhava no Hospital Geral de Jacobsville. Depois, recei tou-lhe vitaminas.

- Nada de levantar pesos - preveniu. - E come como deve ser.

Christabel acedeu docilmente. Estava aliviada pela forma com que Judd estava a receber a notícia da sua paternidade eminente. Nem sequer estava chateado. Relaxou.

De volta à carrinha, Judd não parava de sorrir. En trelaçou a sua mão à de Christabel. Ela olhava para ele com atenção.

- Não estás chateado?

- Encantado. E aliviado - replicou. - Agora posso dormir tranquilo sem me preocupar que saias a correr com Grier.

- Ele gosta de crianças - replicou.

- Encontrará outra mulher que lhe dê uma. Esta é minha - respirou fundo. - Que presente de Natal vou ter este ano!

De facto, o bebé iria nascer nessa altura. Crissy estava fascinada ao ver o desenrolar de emoções no rosto moreno e delgado de Judd. Não podia estar a fingir tanto prazer. Perguntou-se se uma mulher podia desmaiar de felicidade. Nunca se tinha sentido tão segura nem protegida em toda a sua vida. Judd gostava dela e queria o bebé. Talvez, com o tempo, até chegasse a amá-la. Tinha tantos motivos para sonhar, tantos!

A equipa de filmagens despediu-se antes de partir para o aeroporto. Tippy fez um pedido de desculpas exaustivo a Christabel e a Judd por todos os problemas que tinha causado e convidou-os a assistir à estreia do filme, que teria lugar em Nova Iorque ao fim de sete meses. Seria em Novembro e Christabel estaria prestes a dar à luz.

Cash Grier apareceu no aeroporto exactamente quando Tippy acabava de registar a bagagem e se dirigia para os detectores de metal.

- Espera um minuto - disse em voz baixa, chamando-a à parte. Deu- lhe um cartão com o seu nome e número de telefone. - Para o caso de teres algum problema com a custódia do teu irmão mais novo - explicou- Lhe. - Anotei o meu número particular nas costas. Se precisares de ajuda, telefona-me.

Tippy espantou-se.

- Porque quererias ajudar-me? - perguntou, atónita.

- Se me odeias!

Os seus olhos escuros contemplaram os olhos verdes de Tippy com serenidade.

- Diabos, não sei porquê! Tens que questionar tudo?

Tippy esticou o braço vacilante e tocou-Lhe na manga, se bem que baixou a mão assim que estabeleceu o contacto. Cash estava de uniforme e estava muito limpo.

- Obrigada pelo que fizeste com Gary. Pelo que me obrigaste a fazer. Tinha medo de perder o meu trabalho

- sorriu com timidez. - Ultimamente, não recebi muitas ofertas. Mas tinhas razão. Ninguém deveria aguentar um tratamento inadmissível só para poder continuar a trabalhar.

- Então não te esqueças - repôs Cash com serenidade.

Tippy contemplou o rosto dele, com verdadeiro interesse.

- Podes vir com Judd e Christabel à estreia do filme. Eu mando-te o bilhete, se quiseres.

Cash inclinou a cabeça.

- Eu vou - disse de repente.

Tippy corou e os seus olhos iluminaram-se. Riu como uma tonta. À sua volta, tanto homens como mulheres ficavam a admirar a sua surpreendente beleza. Tippy não parecia dar-se conta da atenção que atraía: só tinha olhos para o homem que se erguia diante dela.

- Eu gostaria muito - disse com voz rouca. - Obrigada, Grier.

- Só tenho mais doze anos do que tu - assinalou. Podes chamar-me Cash.

O sorriso prolongou-se.

- É diminutivo de quê?

- De Cassius - suspirou.

- A sério?

Cash assentiu.

- A minha mãe adorava os clássicos.

Tippy reparou no cabelo preto e no rabo-de-cavalo lavado, no bigode e no pequeno triângulo de pêlo que demarcava a sua boca sensual.

- Gostavas dela.

- Muito.

Tippy suspirou e as lembranças amargas roubaram-lhe o sorriso.

- É melhor ir-me embora - guardou o cartão no bolso. - Obrigada mais uma vez.

Cash encolheu os ombros.

- Gosto das estrelas de cinema - murmurou com fluidez e sorriu-lhe. Aquele sorriso entrou directamente no coração de Tippy, que voltou a sorrir.

- E eu gosto dos polícias.

Tippy desviou o olhar, virou-se e atravessou rapidamente o detector de metais. Exactamente antes de entrar na área restrita, voltou a cabeça. Nunca se tinha sentido tão sozinha em toda a sua vida. Ele também continuava a olhar para ela.

Olhou para ela até que a perdeu de vista, por motivos que não conseguia compreender.

 

Por surpreendente que pareça, Cash Grier decidiu acompanhar Judd a Nova Iorque. Christabel e Maude despediram-se de Judd no alpendre dianteiro. A gravidez estava muito avançada e Crissy tinha decidido não ir à estreia. Também não queria que Judd fosse sem ela, mas tinha esgotado todas as desculpas para o reter. Ainda não tinha ouvido nenhuma declaração de amor dos seus lábios e continuava a temer que ele estivesse com ela por causa do bebé. E se ao viajar para Nova Iorque descobrisse que quem amava realmente era Tippy?

- Volto depois de amanhã - sussurrou Judd e inclinou-se para a beijar com ternura. - Não tenhas o bebé enquanto eu não voltar - acrescentou com humor terno.

- Farei o que puder. Não voltes a. enrolar-te com Tippy - balbuciou e corou.

Judd franziu o sobrolho. Será que Crissy ainda não sabia o que ele sentia por ela?

- Vais perder o avião - disse Maude num tom preocupado. - Não corras.

- Sim, mamã - brincou Judd. Deu um último beijo a Christabel e entrou na carrinha. Arrancou e saiu disparado.

- Nunca me escuta - resmungou Maude.

- Não vai correr - consolou-a Crissy e sorriu. - Vem. Vamos beber um pouco de leite quente e falar de partos.

- Está bem, querida - disse Maude. - Se não há outro remédio.

A estreia foi uma noite de gala. Tippy Moore honrou a sua fama e apareceu resplandecente, exibindo um vestido de veludo preto e um colar e brincos de diamante. Entrou no teatro pelo braço do actor principal, Rance Wayne, com o realizador, Joel, e a esposa deste.

Cash e Judd tinham lugares perto da primeira fila e viram o filme com um interesse sincero. Os risos ouviam-se das cadeiras com as respostas irónicas de Tippy e do vaqueiro, que acabaram abraçados num charco de lama ao descobrir que os seus dois mundos se podiam juntar.

O público aplaudiu o realizador e os actores. Tippy tinha lágrimas nos olhos. O seu futuro profissional no cinema estava quase assegurado.

Juntou-se a Judd e a Cash quando saíam do teatro, abraçou Judd afectuosamente, mas mostrou-se reticente e nervosa com Cash.

- Estiveste sensacional - disse-lhe Judd com um sorriso. - Vai ser uma bomba.

- Achas? - perguntou num tom esperançado.

- O teu irmão está cá? - perguntou Cash de repente.

- O meu irmão? Pois. sim - balbuciou Tippy. Virou-se e fez um sinal a um miúdo de aspecto agradável e cabelo moreno. Vinha fardado. Tinha um corte de cabelo muito convencional e parecia o típico aluno de uma escola militar até que, de perto, se apreciava a vivacidade dos seus olhos verdes escuros.

- Estiveste muito bem, maninha - disse, e deu-lhe uma pancadinha na anca brincalhão. - Não gaguejaste

em nenhuma frase!

- Cuidado com o que dizes, amiguinho - ralhou- lhe e riu com vontade enquanto o abraçava. - Rory, apresento-te Judd Dunn. É um Ranger do Texas amigo meu. Ele e a mulher dele vão ter o primeiro filho dentro de muito pouco tempo - acrescentou, para se assegurar que Rory compreendia a natureza da relação.

- Muito prazer em conhecê-lo - disse Rory e apertou a mão de Judd. - Li muito sobre os Rangers do Texas desde que Tippy me falou de si - acrescentou com entusiasmo. - Até há várias páginas dos Rangers na Internet.

- Sim, são muito instrutivas - riu Judd. - Eu também estou contente por te conhecer.

- E este é. Cash Grier - disse Tippy, apontando para Cash com a cabeça. - É subchefe da polícia de Jacobsville, Texas, onde foi gravado o filme.

Rory ficou a olhar para o homem do rabo-de-cavalo durante um longo momento. Parecia oprimido. - Tippy falou-me muito de si. Eh. Mencionei o seu

nome ao nosso comandante na escola. Ele conhece-o. Diz que estiveram juntos no Iraque - susteve a respira ção. - Disse que o senhor é o homem mais corajoso que conhece, que o apanharam e o torturaram.

- Rory! - exclamou Tippy, horrorizada. O rosto de Cash tinha-se endurecido. Os seus olhos brilhavam como diamantes negros.

- Sinto muito - disse Rory. Aproximou-se, outra vez inquieto. - Transformou-se numa espécie de herói para mim. Estou a metèr a pata na poça porque não meço as palavras. Acho que é um homem fantástico, senhor. Um soldado a sério.

Cash inspirou bruscamente e baixou o olhar. Não gostava de recordar o seu cumprimento do dever no Médio Oriente, nem o que tinha feito lá. O rapaz estava a andar em telhados de vidro e nem sequer se dava conta.

- Rory, porque não vais ao restaurante com Joel e com a sua esposa? Eu vou a seguir - apressou-se a dizer Tippy, tentando aliviar a tensão.

- Sim - disse Rory, magoado e envergonhado. Mas exactamente quando se virava, uma mão grande e forte pousou sobre o seu ombro e reteve-o.

- A sinceridade é uma virtude pouco valorizada - disse Cash ao rapaz. - Dizes o que pensas. Eu também não tenho rodeios. Não gosto de recordar a Tempestade do Deserto - acrescentou em voz baixa. - Sobrevivi. Os sete homens que me acompanhavam, não. E também eram bons soldados.

Rory inspirou bruscamente.

- Fico contente por não ter ficado chateado, senhor.

- Cash - corrigiu-o, e sorriu ao rapaz. E eu fico contente por termos falado.

- E eu - sorriu Rory, novamente um miúdo e corou um pouco antes de lançar um olhar a Judd e à irmã e começar a andar em direcção a Joel Harper.

- Às vezes é um bocado desbocado - murmurou Tippy, preocupada pelo olhar que tinha visto em Cash. Espero que não te tenha ofendido. - Cash encolheu os ombros.

- Toda a gente me ofende, por norma, mas gosto das crianças com garra. Será um bom soldado - acrescentou em voz baixa. Tippy forçou um sorriso.

- Obrigada.

Cash levantou o queixo e a expressão do seu olhar mudou de repente.

- Então falaste-lhe de mim, eh?

Tippy ficou encarnada. Era uma reacção tão insólita numa modelo internacional e recente estrela de cinema que Judd arqueou as sobrancelhas. Os olhos de Cash começavam a cintilar. Até se riu.

Tippy emitiu um gemido de impaciência e virou a cabeça para o passeio.

- Há uma festa organizada para a equipa num restaurante próximo, mas podem ficar e vir para casa connosco, se quiserem - acrescentou, falando deliberadamente com Judd.

- Bem. - começou a dizer, ao mesmo tempo que o telemóvel de Grier começava a vibrar incontrolavelmente no seu bolso. Este franziu o sobrolho, tirou-o e abriu-o. Parecia custar-lhe ouvir o seu interlocutor. Virou-se e tapou o ouvido que não estava colado ao aparelho.

- Está bem, acalma-te - disse suavemente. - Agora, conta-me o que é que se passou.

Cash assentiu, olhou para Judd, fez uma careta e disse qualquer coisa num murmúrio.

- É Maude - anunciou. - Esteve a tentar localizar-te no teu telemóvel, mas deves ter ficado sem bateria. Por isso telefonou-me a mim. Crissy caiu. Levaram-na para o hospital.

Estava a falar sozinho. Judd já estava no passeio, a chamar um táxi. Cash olhou para Tippy.

- Sinto muito, temos que ir embora - disse em tom de desculpa. - Posso vir visitar-te noutra altura?acrescentou para surpresa de Tippy. O rosto dela iluminou-se.

- Sim! Quando quiseres - balbuciou. Cash sorriu sinceramente.

- Então, até breve. Despede-te de Rory por mim.

Tippy assentiu. Cash juntou-se a Judd, a quem via gesticular com impaciência, e entrou no táxi pouco antes de o veículo sair disparado. Judd estava demasiado preocupado para se despedir de Tippy com a mão. Estava aterrado. Christabel tinha sofrido um acidente.

- E o bebé? - perguntou.

- Maude ainda não sabia de nada - disse- lhe Cash, que também estava preocupado. - Vamos directamente para o hospital. Ouve, os bebés estão envolvidos por líquido amniótico - acrescentou com suavidade. - Não se magoam facilmente.

- E o que sabes tu de bebés? - atirou-lhe Judd. Cash virou a cara.

- Há anos, estive a ponto de ter um - resmungou. Não te incomodes em perguntar-me mais nada - acrescentou ao ver que Judd abria a boca. - Não falo disso com ninguém.

Judd não sabia o que dizer e, por isso, calou-se. Mas aquela revelação dava-lhe que pensar.

A viagem de volta foi interminável. Quando chegaram ao hospital, Judd no seu todo-o-terreno e Cash na sua carrinha, deixaram os veículos de qualquer maneira e entraram a correr nas urgências.

- Christabel Gaines... Dunn - balbuciou Judd diante do balcão, com um olhar aterrado. - Foi internada por causa de uma queda. Está grávida. Sou o marido dela.

- Ah. senhor Dunn - a recepcionista ficou a olhar para ele por um momento e ele susteve a respiração, aterrorizado. Depois, a jovem sorriu.

- Já a levaram para um quarto. Um segundo.

marcou uns números e falou com outra pessoa. Quarto 211- acrescentou. - É por aí... Parabéns!

O pânico impediu-o de ouvir a última palavra. Os dois estavam a correr, contrariando as normas do hospital. Quando chegaram ao quarto, empurraram a porta ao mesmo tempo e detiveram-se em seco ao ver a cena que os aguardava.

Christabel estava deitada na cama com uma criatura minúscula nos braços, dando-lhe de mamar. Olhou para Judd com o coração nas mãos.

- Querido!

Judd mal a conseguia ver através da névoa dos seus olhos. Avançou, estupefacto, sem reparar em Maude, nem em nenhum dos irmãos Hart, uma mulher que não reconhecia naquela altura e uma enfermeira. Tocou na carinha tão próxima da pele suave de Christabel e contemplou os seus grandes olhos escuros. Tocou-lhe no rosto com uma mão um pouco trémula.

- A única coisa que sabíamos era que tinhas caído - sussurrou. - Tinha tanto medo.

- Eu estou bem, o bebé também.

Estava a beijá-la ansiosamente e um gemido entrecortado brotou dos seus lábios antes de levantar a cabeça.

- Eu amo-te - sussurrou Judd. - Se te tivesse acontecido alguma coisa.

- Não me aconteceu nada - replicou Crissy, esmagada pelo olhar dele, pelas suas palavras. - Nunca me tinhas dito que me amavas - murmurou.

- Sempre o quis fazer - repôs Judd, mais calmo e sorriu. - A sério que estás bem?

- Na verdade, não foi uma queda. Eu estava a pendurar as cortinas no quarto do bebé e torci as costas. Pensei que me tinha matado e afinal estava em trabalho de parto - apontou para a criatura diminuta que tinha nos braços. - Queres conhecer o teu filho?

Judd susteve a respiração.

- Um menino.

Christabel assentiu.

- E uma menina - disse uma voz grave junto da janela. Cash estava inclinado sobre um berço e movia o dedo mindinho com um sorriso de orelha a orelha.

- O quê? - exclamou Judd.

Christabel franziu os lábios com malícia.

- Estavas tão preocupado comigo que tinha medo de te dizer que eram gémeos - confessou, sorrindo. Queria fazer-te uma surpresa - fez uma careta. - Surpresa!

- Gémeos. Um menino e uma menina - Judd estava atónito. Os seus olhos enevoaram-se e teve que secar as lágrimas antes que pudesse ver qualquer um dos dois.

Cash segurava a menina nos seus braços fortes e emitia sons carinhosos enquanto falava com ela.

- Eh, devolve-me a minha filha - disse-lhe Judd com um ar brincalhão. Cash parecia abatido.

- Não posso ficar com esta? - perguntou. - Eu não tenho nenhum bebé e tu tens dois. Parece-te justo?

Judd desatou a rir, assim como Christabel ao ver o semblante de Cash. Este aproximou-se e passou a menina a Judd suavemente, contemplando-a com ternura.

- É parecida com a mãe - disse a Judd e, fugazmente, a tristeza reflectiu-se nos seus traços, mas apagou-se de seguida.

- Sim, é parecida com ela - disse Judd com voz rouca e inclinou-se para beijar a cara minúscula. Dois! Christabel estava enorme, mas não me ocorreu pensar...

Christabel ria de puro prazer enquanto contemplava aqueles dois homens grandes e fortes a fazerem parvoíces com uma menina minúscula. Não era preciso perguntar-lhes se a iriam mimar. E diziam que os homens só queriam filhos. sim!

- Nomes? - perguntou uma voz do fundo do quarto. Era Leo Hart, com a sua esposa Janie, ambos sorridentes. - Já escolheram algum?

- Jessamina para a menina - disse Christabel com orgulho. - Depois chamamos-lhe Jessie. E.

- E Jared para o nosso filho - interrompeu-a Judd suavemente. - Como o meu tetravô, Jared Dunn, que foi Ranger e um famoso advogado de San Antonio nos princípios do século vinte.

- Bem, parabéns outra vez. E agora, é melhor irmo-nos embora - disse Leo. - Temos que passar para ver Rey e Meredith. Tiveram uma menina, Celina, ao mesmo tempo que vocês.

Felicita-os da nossa parte - disse-lhes Christabel. O casal assentiu, sorriu e saiu do quarto.

Cash continuava a contemplar a menina que Judd segurava nos braços. Judd fez uma careta e passou-lha.

- Podes segurá-la, acho eu - disse com um suspiro.

- Mas lembra-te de quem é que ela é.

Cash sorriu-lhe, brincalhão.

- Pode viver contigo, mas eu serei o padrinho - disse e começou a fazer caretas à pequenina. - O papá Cash vai ensinar-te a lutar com os punhos e a usar golpes relâmpago em assaltos de operações especiais.

Maude emitiu um gemido de puro horror. Christabel desatou a rir.

- Ele está a brincar, Maude.

- Não, não está a brincar - murmurou Judd ironicamente.

Cash não lhes prestava atenção, cativado como estava pela alegria de ser padrinho pela primeira vez.

Quando ficaram sozinhos, Judd sentou-se ao lado da cama e pegou na mão de Christabel.

- Dois bebés - disse, ainda estupefacto. - Não consigo acreditar. Maude não me tinha dito nada.

- Fi-la jurar que guardaria segredo. A ela e ao ginecologista - acrescentou com um sorriso. - Já tinhas bastantes preocupações com o julgamento de Clark e as mudanças nas nossas vidas. Além disso, sou saudável e não corria perigo. Ter-te-ia dito se corresse algum risco, a sério.

O caso Clark tinha saído na imprensa nacional, em particular, porque Clark tinha sido julgado e condenado a prisão perpétua, sem esperança de liberdade condicional, por assassinato. Judd, Christabel e Cash tinham testemunhado contra.

- Que tal foi a estreia?

Judd riu-se.

- A estreia não foi tão interessante como o que se passou depois - disse-lhe. - Tippy e Cash causaram surpresa.

- Ah, sim? - perguntou, felizmente esquecida do seu recente medo secreto de que a modelo Lhe roubasse Judd.

- Ao que parece, ela falou muito mais de Cash do que de mim ao irmão e o rapaz disse-lho - sorriu. Cash não cabia em si de satisfação quando recebemos a chamada de Maude.

- Fala a sério.

Judd deu a volta à mão da sua esposa e olhou-a.

- Crissy - disse, usando o diminutivo pela primeira vez nas suas vidas. - Cash estava apaixonado por ti.

Ela fechou os dedos dentro da mão dele.

- Ia dar ao mesmo, porque eu estou apaixonada por ti desde quase toda a minha vida.

Judd corou.

- Eu estou apaixonado por ti desde que nos casámos. Mas eras tão jovem que tinha medo.

Crissy deu-lhe um apertão.

- Temias que acabasse como a tua mãe. Mas, querido, ela gostava de aventuras e de festas - lembrou-Lhe. - Eu gosto do gado do rancho. Nada do que o mundo me pode oferecer poderia comparar-se àquilo que tenho contigo. E agora, os nossos filhos. O contrato com os japoneses está a dar-nos números de seis zeros, o rancho está a prosperar. Nick está a assumir a função de gerente e a melhorar os nossos materiais e instalações. e a ti ofereceram-te a promoção a tenerite! E tudo isto num ano apenas.

- É fantástico, suponho. Mas não quereria trabalhar em San Antonio - acrescentou em voz baixa. Olhou para ela. - Que achas?

- Acho que deves fazer o que quiseres - sorriu Crissy. Judd franziu o sobrolho.

- Mesmo que tenha que continuar a ser sargento?

- Mesmo assim - respondeu com suavidade. Judd franziu os lábios.

- Existe outra alternativa.

- Qual?

- Ofereceram a Chet Blake um trabalho em El Paso. Tem família lá e quer aceitar - levantou o olhar.

- Cash ocuparia o seu posto e deixaria uma vaga. Crissy susteve a respiração.

- Estás a pensar ocupá- la!

- Sim. - É um pouco mais tranquilo que o trabalho de Ranger, mas eu gostava de estar em casa o máximo de tempo possível, contigo e com os miúdos. Além disso, conheço quase todos os homens do corpo - encolheu os ombros. - Cash vai ser o padrinho dos nossos filhos e já não tenho ciúmes dele. Bem, não muitos

- disse. - O que achas?

O olhar de Crissy suavizou-se.

- Daria qualquer coisa para te ter por perto a toda a hora - sussurrou, - mas nunca te teria pedido.

Judd levantou-se, inclinou-se e beijou-a com paixão, desfrutando da força com que ela lhe rodeava o pescoço. Crissy devolveu-lhe o beijo com a mesma entrega, com lágrimas a resvalar pelas suas faces. Parecia um sonho tornado realidade. Jacobsville era uma cidade óptima para trabalhar como polícia. Continuaria a gozar do desafio que constituía ser agente da autoridade, mas correria menos riscos. Isso era importante desde que tinham filhos.

Uma tosse interrompeu o beijo. Levantaram a cabeça ao mesmo tempo e voltaram-na para a porta. No umbral estava uma enfermeira com dois bebés nos braços.

- Sinto muito, senhor Dunn, mas está a atrasar o jantar dos pequenos e eles têm fome.

Judd riu-se e afastou-se.

- É pena que não possas ajudar - brincou Christabel enquanto se recompunha e desapertava a camisa de dormir do hospital.

- Sou demasiado liso - assinalou com um sorriso. A enfermeira riu enquanto depositava Jessamina nos braços de Crissy e Jared nos de Judd. Este balançou o filho enquanto Christabel dava de mamar à menina. A enfermeira deixou-os sozinhos, sorrindo melancolicamente enquanto saía e fechava a porta.

- Gémeos à primeira tentativa. Não sei - disse Judd pensativo passado um momento.

- O que é que não sabes, querido? - perguntou Crissy, sorrindo.

- Se terá sido da lingerie vermelha - respondeu com ironia. Ela riu porque, efectivamente, tinha ficado grávida no Japão.

- Se calhar foi do chá verde - replicou, brincalhona.

Judd contemplou o seu fillho com um olhar sereno e terno.

- Fosse o que fosse, dou graças a Deus - murmurou e tocou na bochecha do pequeno com o dedo.

Crissy repetiu aquelas palavras em silêncio, observando a expressão do seu marido com um deleite quase doloroso. Nunca tinha imaginado Judd a fazer de pai. Agora, era impossível vê-lo de outra maneira. Era algo inato nele.

Crissy estava a fazer uma revisão da sua vida, a recordar a horrível tareia que tinha proporcionado o seu casamento com Judd, os longos anos de ânsia não correspondida, as más acções dos irmãos Clark, a maravi lhosa paixão de Judd no Natal, a angústia dos meses seguintes, a ferida de bala que esteve quase a matá-la, a viagem ao Japão, os ciúmes e, por fim, a união das suas vidas. A dor tinha sido quase insuportável em alguns momentos. Mas, enquanto contemplava alternadamente os seus filhos e o seu marido, ocorreu-lhe pensar que a felicidade tinha sempre um preço. Para quem se atrevia a pagá-lo, a recompensa era formidável.