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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TERROR EM CORFU / Mary Stewart
TERROR EM CORFU / Mary Stewart

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TERROR EM CORFU

 

...não relação para fazer-se à mesa...

            E se for garoto — disse Phyllida alegremente — nós o cha­maremos de Próspero.

Eu ri.

Pobre garoto. Por que, em nome de Deus? Oh, naturalmente... Alguém lhe andou por acaso dizendo que Corfu foi a ilha má­gica de Shakespeare em A Tempestade?

Para dizer a verdade, sim, um dia destes. Mas, pelo amor de Deus, não me pergunte coisa alguma a esse respeito agora. Não im­porta o que você costuma fazer, eu excluo Shakespeare no café da manhã — minha irmã bocejou, estendeu um pé para o sol à beira do terraço e admirou a cara sandália de praia que usava. — Eu não quis dizer isso, de qualquer maneira. Mas nós já temos aqui uma Miranda, e um Spiro, o que talvez não seja apelido de Próspero, mas soa muito parecido.

Oh! Parece muito romântico. Quem são eles?

Um rapaz e uma moça. Gêmeos.

— Deus meu! O pai deles deve ser um agente literário.

Phyllida sorriu:

            Bem que se poderia dizer isso.

Algo na expressão dela despertou-me a curiosidade, da mesma forma que algo mais me disse que era justamente isso o que ela queria. E, por isso, eu — que posso ser tão provocante quanto ela quando me esforço — disse simplesmente:

            Bem, neste caso não é melhor mudar? Que tal Calibã para seu futuro filho? Ajusta-se como uma luva.

            Porquê — perguntou ela, indignada.

"Por grávida encontrar-se essa megera de olhos azuis foi para cá trazida" — citei. — Há mais café?

Naturalmente. Aqui. Oh, meu Deus, é bom ter você aqui, Lucy! Eu acho que não devia falar em sorte em você chegar justa­mente agora, mas estou imensamente satisfeita por que você veio. Isto é um sonho depois de Roma.

E um paraíso depois de Londres. Eu já me sinto diferente. Quando penso onde estava ontem a estas horas... e quando penso na chuva...

Estremeci, bebi o café e recostei-me na cadeira para observar as copas coroadas de ouro dos pinheiros que se estendiam até o mar faiscante, entregando-me àquela sensação de devaneio que marca o iní­cio de férias num lugar como este, quando a pessoa cansada foi trans­portada da noite para o dia do gélido abril na Inglaterra para o enso­larado de uma ilha mágica no Mar Jônico.

Talvez eu deva explicar (àqueles que não têm tanta sorte como eu) que Corfu é uma ilha ao largo da costa ocidental da Grécia. É comprida, em forma de foice, e se encaixa numa curva da costa: no ponto de maior proximidade, ao norte, fica a apenas três quilô­metros e meio da Albânia e, a partir da cidade de Corfu, situada na metade inferior da lâmina da foice, a mais ou menos dez ou doze qui­lômetros de distância das costas da Grécia. Na ponta setentrional, a ilha é larga e montanhosa, caindo através de férteis vales e colinas sempre menores para a longa e plana cauda do escorpião ao sul, da qual algumas pessoas dizem que Corfu, ou Kerkyra, ganhou o nome.

A casa de minha irmã fica a cerca de quinze quilômetros ao norte da cidade de Corfu, onde a costa começa a curvar-se em direção ao continente e onde os sopés do Monte Pantokrator proporcionam abrigo ao pequeno e rico trecho da serra que é parte das propriedades da família do seu marido há muitos anos.

Phyllida é três anos mais velha do que eu. Aos vinte anos, casou-se com um banqueiro romano, Leonardo Forli. A família estabeleceu-se em Corfu durante a ocupação veneziana e conseguiu, de alguma maneira, sobreviver às várias ocupações subseqüentes com suas pe­quenas propriedades mais ou menos intatas e pôde mesmo, como o Vigário de Bray, prosperar. Sob o protetorado britânico, o bisavô de Leo construíra o pretensioso e romântico Castelo del Fiori no bosque acima da pequena baía, de onde a propriedade desce até o mar. Plan­tou vinhedos e pomares de laranjeiras, incluindo uma pequena plan­tação (se esta for a palavra) de laranjas miniaturas japonesas cha­madas koúm koyàt pelas quais a propriedade tornou-se posteriormen­te famosa. Chegou mesmo a desmatar uma clareira no bosque para um jardim e construiu — além do braço sul da baía e justamente ao alcance da vista a partir do castelo — um ancoradouro e uma enorme garagem de barcos que (segundo Phyllida) teria capacidade para abrigar quase toda a Sexta Esquadra. E, realmente, abrigara a complicada frota de barcos em que os hóspedes costumavam visitá-lo. Acho que nos seus dias o Castelo foi cenário de uma única e ininter­rupta festa familiar: velejavam e pescavam no verão; no inverno, trinta ou mais hóspedes invadiam as terras da Grécia e Albânia para caçar aves e cabritos monteses.

Esses dias, porém, terminaram com a I Guerra Mundial. A família transferiu-se para Roma, embora sem vender o castelo, que lhes serviu nas décadas de vinte e trinta como residência de verão. Ás cam­biantes fortunas da II Guerra Mundial quase destruíram a proprie­dade, mas os Forlis reapareceram na Roma de pós-guerra com a for­tuna da família misteriosamente restaurada. O chefe da família — o pai de Leo — voltou a atenção mais uma vez para a propriedade de Corfu. Fizera alguma coisa para recuperar o lugar, mas, após sua morte três meses antes, o filho decidira que os velhos e gastos esplen­dores do castelo não o interessavam e construíram duas vilas moder­nas menores — na realidade dois bangalôs gêmeos — nas praias que envolviam a baía, no centro da qual ficava a cavaleiro o Castelo. Ele e Phyllida usavam a Villa Forli, como chamavam a casa na praia norte; a construção gêmea, a Villa Rotha, ficava ao sul da baía, acima do regato onde se localizava a garagem dos barcos. A Vila Rotha fora alugada a um inglês, Sr. Manning, que ali estava desde o outono anterior escrevendo um livro ("Você conhece o tipo" — disse minha irmã — "somente fotografias e um fio de texto em letras garrafais, mas ela são boas"). As casas eram ligadas à estrada pelo caminho de automóveis que conduzia ao Castelo e entre si por várias trilhas através do bosque e até a baía.

Nesse ano, a quente primavera de Roma, ameaçando ainda coisas Piores, forçara os Forlis a fugirem mais cedo para Corfu. Phyllida, que estava grávida, sentia-se muito mal no calor e deixara-se conven­cer a deixar os dois filhos (cujo período escolar não terminara ainda) com a avó. Leo trouxera-a alguns dias antes de minha chegada, mas tivera de voltar a Roma para tratar de negócios, com a promessa de vir de avião, se pudesse, nos fins-de-semana e trazer as crianças para a Páscoa. Phyllida, sabendo que eu andava meio desarvorada, escreve­ra-me pedindo-me que viesse a Corfu fazer-lhe companhia.

O convite não poderia ter chegado em momento mais oportuno. A peça em que eu trabalhava acabara de sair de cartaz após uma tem­porada que meramente nos poupara o orgulho, e eu estava desempre­gada. O fato de o trabalho ter sido o meu primeiro em Londres — a minha "grande oportunidade" — explicava parcialmente minha de­pressão. Nada mais havia nas cartas. As agências mostraram-se poli­das, mas evasivas. Além disso, tivéramos um inverno horrendo e eu es­tava cansada, desanimada e pensando seriamente, aos vinte e cinco, se não fora uma tola em insistir, contra todos os conselhos, em esco­lher o palco como carreira. Mas — como sabem todas as pessoas que tiverem algo com o teatro — o palco não é uma profissão, mas um vírus, e eu o contraíra. Trabalhei e esforcei-me durante todo o habitual começo até o ano passado, quando decidi, após três anos de primeiros papéis juvenis no teatro do repertório provinciano, que chegara a hora de tentar a sorte em Londres. E a sorte pareceu fi­nalmente acenar-me. Após dez meses mais ou menos de pontas na te­levisão e um ou outro comercial, conseguira arranjar um papel pro­missor, apenas para ver a peça desmoronar-se sob os meus pés, como um camelo moribundo, após uma temporada de dois meses.

Mas pelo menos podia considerar-me mais felizarda do que os milhares de outras que ainda lutavam para abrir caminho nos pri­meiros degraus da escada: enquanto elas aguardavam nos abafados escritórios dos agentes, eu me sentava no terraço da Villa Forli, tendo diante de mim tantas semanas quantas quisesse no ensolarado brilhante de Corfu.

O terraço era uma ampla plataforma de cerâmica encarapitada na extremidade do promontorio onde as escarpas arborizadas caíam abruptamente para o mar. Sob a balaustrada penduravam-se nuvens após nuvens de pinheiros, sempre cálidamente perfumados e capito­sos no sol da manhã. Atrás da casa e de cada lado descia o frio bosque onde pequenas aves voavam e chilreavam em relâmpagos coloridos. A própria baía estava escondida pelas árvores, mas o panorama em frente era maravilhoso — um trecho do calmo e faiscante golfo acon­chegado nos braços dobrados de Corfu. À distância, em direção ao norte, do outro lado do estreito azul-escuro, alteavam-se, etéreos como um nevoeiro, as neves fantasmagóricas da Albânia.

Envolvia a paisagem uma profunda e encantadora paz. Som al­gum, apenas os das aves; nada para ver, somente árvores, céus e os reflexos do sol no mar.

Suspirei.

Bem, se não fôr a ilha mágica de Próspero, deveria ser... Quem são esses seus românticos gêmeos, por falar nisso?

Spiro e Miranda? Oh, são filhos da mulher que trabalha para nós aqui, a Maria. Ela mora na cabana junto ao principal portão do Castelo você deve tê-la visto quando veio do aeroporto.

Lembro-me de ter visto uma luz... Uma casinha muito pequena, não? Então eles são naturais de Corfu... Qual é a palavra? Corfusianos ?

Ela riu.

Idiota. Corfiotas. Sim, são camponeses corfiotas. O irmão tra­balha para Gordfrey Manning o homem que mora na Villa Rotha. Miranda ajuda a mãe aqui.

Camponeses? ligeiramente confusa, dei-lhe a deixa que pensei que ela queria. Parece um pouco estranho encontrar esses homens aqui. Quem é que foi o culto pai deles? Leo?

Leo disse a carinhosa esposa segundo sei, com absoluta certeza, nada leu salvo o Financial Times romano nos últimos oito anos. Êle pensaria que "Próspero e Miranda" são nomes de um fundo de investimento. Não, é ainda mais estranho do que você pensa, meu bem...ela armou o seu pequeno sorriso de gato-e-canário, aquele que eu reconhecia como prólogo dos mais audaciosos vôos de mexeri­cos, que ela chama de "fatos interessantes que acho que você deve conhecer"... — Na verdade, Spiro oficialmente recebeu o nome em honra do santo da ilha todos Os segundos filhos são chamados de Spiridion em Corfu mas desde que o nosso ilustre locatário no Cas­telo foi responsável pelo batizado — e pelos gêmeos também, segundo se poderia pensar aposto que ele figura como Próspero no batistério, ou qualquer registro que lá tenham.

O nosso ilustre locatário? isto era obviamente o bonne bouche que ela guardara para mim, mas olhei-a com certa surpresa, lembrando-me da vívida descrição que ela me dera certa vez do Cas­telo del Fiori: "Esquálido além de qualquer descrição, uma espécie de gótico wagneriano, um cenário para uma versão musical de Drácula". Perguntei-me quem poderia ter sido convencido a pagar por esses esplendores líricos. Então alguém alugou o Valhalla? Mas que sorte a sua. Quem?

            Julian Gale.

Julian Gale? — endireitei-me abruptamente na cadeira, olhando-a fixamente. Você não quer dizer...você não quer dizer Julian Gale? O ator?

Da cabeça aos pés minha irmã pareceu satisfeita com o efei­to produzido. Eu estava inteiramente desperta agora, como certamente não estivera durante a longa récita anterior dos nossos assuntos fami­liares. Sir Julian Gale não era somente um ator. Fora um dos lumi­nares mais brilhantes do teatro inglês há mais tempo do que eu podia recordar... E, mais recentemente, um dos seus mistérios.

Bem! disse eu. Então foi para aqui que ele veio.

Eu pensei que você ficaria interessada disse Phyllida, contente.

Ora se estou! Todo mundo está ainda perguntando, incessantemente, por que ele desapareceu daquela maneira há dois anos. Claro, eu sabia que ele ficara doente depois daquele terrível acidente, mas renunciar a tudo e simplesmente desaparecer sem uma palavra... Você devia ter ouvido os boatos.

Posso imaginar. Nós temos o nosso próprio tipo aqui. Mas não fique aí de olho arregalado pensando que vai sequer aproximar-se dele, minha criança. Ele está aqui porque quer ficar sozinho, e eu quero dizer, sozinho. Não sai absolutamente isto é, socialmente — exceto para ir a casa de uns dois amigos. Eles colocaram avisos de TRANSGRESSORES! CUIDADO COM OS TIROS pintados a intervalos de um metro por todo o terreno. E o jardineiro lança os visitantes ao mar pelas escarpas.

Eu não o incomodarei. Respeito-o demais para fazer isso. Acho que você deve tê-lo encontrado, como é ele?

Oh, eu... ele parece normal. Apenas não circula muito, só isso. Encontrei-o apenas umas duas vezes. Na verdade, foi ele quem me disse que se pensava que Corfu fosse o ambiente de A Tempes­tade ela me olhou de esguelha. Eu, hum, acho que você o con­sideraria um agente literário, não?

Desta vez, porém, ignorei-lhe a deixa.

—            A Tempestade foi o canto de cisne dele respondi. — Vi-a em Stratford, na última récita, e chorei perdidamente com aquela parte de "mas abjuro, neste momento, da magia negra". Será que foi isso que o fez escolher Corfu?

Ela riu.

            Duvido muito. Você não sabia que êle é praticamente um na­tivo? Esteve aqui durante a guerra e aparentemente continuou por um pedaço de tempo depois que tudo acabou. E, segundo me contaram, ele costumava trazer a família quase todos os anos para as férias, quan­do as crianças eram jovens. Tinham uma casa nas proximidades de Ipsos e a mantinham em condições até recentemente, mas foi ven­dida depois que a esposa e a filha morreram. Não obstante, acho que ele ainda tem... ligações... aqui e, assim, quando pensou em aposen­tar-se, lembrou-se do Castelo. Nós não pensávamos em alugar o lugar, não estava realmente em condições, mas ele estava tão ansioso para encontrar um lugar isolado e tranqüilo. E realmente parece um pre­sente dos deuses que o Castelo estivesse vazio, com Maria e a família morando ao lado. Leo alugou-o, então. Maria e os gêmeos apareceram, arrumaram alguns aposentos, e há um casal que mora na outra extremidade do laranjal. Eles cuidam do lugar, o neto deles trata do jardim e faz pequenos serviços. Assim, no caso de alguém que real­mente quer sossego e isolamento, acho que foi um excelente negó­cio. . . Bem, esta é a nossa pequena colônia. Eu não diria que é outra Saint-Tropez no auge da temporada, mas há bastante daquilo que você quer, se for apenas tranqüilidade, sol e banhos de mar.

Agrada-me — disse sonhadoramente. — Oh, como me agrada.

Quer descer esta manhã?

Eu adoraria. Aonde?

Bem, a baía, naturalmente. Fica naquela direção — ela apon­tou vagamente para as árvores.

Acho que você disse que havia avisos alertando os importunos para ficarem ao largo.

Oh, Deus, não literalmente, e não a partir da praia, de qual­quer maneira. Apenas nos terrenos. Nós jamais deixaríamos que outra pessoa ficasse com a baía. Foi para isso que viemos para aqui! Para dizer a verdade, é um bom passeio direto daqui até o lado norte da praia onde fica o nosso pequeno ancoradouro, e muito isolado... Bem, faça como quiser. Eu posso descer mais tarde, mas se quiser nadar esta manhã, pedirei a Miranda para mostrar-lhe o caminho.

            Ela está aqui agora?

Querida — disse minha irmã — você está no meio do luxo vulgar, lembra-se? Você acha que eu mesma fiz o café?

Entendo, Condessa — disse-lhe rudemente. — Lembro-me do dia...

Interrompi-me, pois entrava no terraço uma moça com uma ban­deja para tirar a louça do café. Ela me olhou curiosamente, com aque­la expressão direta dos gregos, com que a gente acaba por se acostu­mar, pois é virtualmente impossível fazê-los baixar a vista. Sorriu-me, um sorriso que se alargou quando eu tentei dizer "Bom dia" em grego — uma frase que era, até então, todo o meu vocabulário. Ela era baixa e entroncada, pescoço curto, rosto redondo e sobrancelhas gros­sas que quase se encontravam acima do nariz. Os seus brilhantes olhos escuros e a pele quente eram atraentes, tinham a atração simples e animal da mocidade e saúde. O vestido de vermelho desmaiado assentava bem nela, dando-lhe uma espécie de sombrio e suave brilho, muito diferente da fagulha elétrica dos gregos citadinos expatriados que eu conhecera. Ela parecia ter dezessete anos.

A minha tentativa de cumprimentá-la libertou uma torrente de grego deliciado que minha irmã, rindo, conseguiu finalmente repre­sar.

            Ela não entende, Miranda. Sabe apenas duas palavras. Fale inglês. Você quer, por favor, mostrar-lhe o caminho até a praia quando tiver terminado aqui?

            Naturalmente! Com muita satisfação.

Mas ela parecia muito mais do que meramente satisfeita. Deu a impressão de estar tão deliciada que sorri para mim mesmo, supondo cinicamente que, com toda probabilidade, era apenas o prazer de uma folga no meio de uma manhã de trabalho. Mas como descobri, estava enganada. Vindo tão recentemente das depressões cinzentas de Lon­dres e dos acessos temperamentais de fracassos nos bastidores do tea­tro, eu não consegui ainda compreender a satisfação simples que os gregos sentem em prestar um serviço a alguém.

Ela começou a empilhar os pratos na bandeja com um ruidoso vigor.

            Eu não me demoro. Um minuto, apenas um minuto...

            E isto significa meia hora — disse minha irmã tranqüilamente, quando a moça saía atabalhoadamente. — De qualquer modo, por que ter pressa? Você ainda tem todo o tempo do mundo.

            Tenho mesmo — respondi-lhe, profundamente contente.

O caminho para a praia era uma trilha sombreada, atapetada de agulhas de pinheiros. Serpenteava pelas árvores, desembocando su­bitamente acima da pequena clareira onde um regato que gotejava a caminho do mar fora aprisionado em uma poça ensolarada sob uma praia de madressilvas.

Nesse local o caminho se bifurcava. Uma trilha subia a colina e aprofundava-se no bosque e a outra descia abruptamente através dos pinheiros e carvalhos dourados em direção ao mar.

Miranda parou e apontou para baixo.

            É por aqui que você vai. O outro vai para o Castelo e é par­ticular. Ninguém vai por aquele caminho, dá apenas na casa, com­preende?

            Onde é que fica a outra vila, a do Sr. Manning?

Do outro lado da baía, no alto do penhasco. Você não pode vê-la da praia porque as árvores ficam no caminho, mas há um ca­minho como esse — ela esboçou no ar um íngreme ziguezague — da garagem dos barcos até o penhasco. Meu irmão trabalha lá, meu irmão Spiro. É uma ótima casa, muito bela, como a da Signora, embora, claro, não tão maravilhosa como o Castelo. Aquilo é que é lugar.

Assim ouvi dizer. O seu pai trabalha também na propriedade?

A pergunta foi meramente ociosa. Eu esquecera inteiramente las bobagens de Phyllida e não acreditava nelas de qualquer maneira. Mas, para grande embaraço meu, a moça hesitou e perguntei-me num hor­rorizado segundo se Phyllida não tivera razão. Eu não sabia nessa ocasião que os gregos aceitam normalmente as perguntas mais estri­tamente pessoais exatamente como se eles mesmos as fizessem a si mesmos, e comecei a gaguejar alguma coisa, mas Miranda já respondia.

            Meu pai nos deixou há muitos anos. Ele foi para lá.

era, no momento, uma parede de árvores entrelaçadas com moitas de murta, mas eu sabia o que se ocultava por trás delas: a sombria e fechada terra da Albânia comunista.

            Você quer dizer, como prisioneiro? — perguntei horrorizada. Ela sacudiu negativamente a cabeça.

            Não. Ele era comunista. Nós morávamos em Argyrathes, ao sul de Corfu, e naquela parte da ilha há muitos deles — ela hesitou. — Eu não sei por que isso. É diferente do norte, de onde veio minha mãe — ela falava como se a ilha tivesse 650 quilômetros de compri­mento em vez de sessenta, mas acreditei nela. No lugar onde dois gregos se reúnem estão pelo menos representados três partidos po­líticos e, provavelmente, mais.

            Nunca mais recebeu notícias dele?

            Não. No passado, minha mãe ainda tinha esperanças, mas agora, naturalmente, as fronteiras estão fechadas para todo mundo e ninguém pode entrar ou sair. Se ele ainda estiver vivo, terá de ficar lá. Mas nós não sabemos disso tampouco.

            Você quer dizer que ninguém pode viajar para a Albânia.

            Ninguém — os olhos escuros ganharam subitamente vida como se algo faiscasse por trás das plácidas órbitas. — Exceto aque­les que transgridem a lei.

            Não uma lei que eu me importasse de violar — aquelas neves estranhas haviam-me parecido altas, frias e cruéis. Disse-lhe meio de­sajeitada: — Sinto muito, Miranda. Deve ser uma situação triste para sua mãe.

Ela encolheu os ombros.

            Isto foi há muito tempo. Quatorze anos. Eu nem mesmo sei se me lembro dele. E nós temos Spiro para cuidar de nós — o brilho, novamente. — Ele trabalha para o Sr. Manning, eu já lhe disse isto — no barco, no carro, num carro maravilhoso, muito caro! — e tam­bém nas fotografias que o Sr. Manning está tirando para o livro. Ele disse que quando o livro ficar pronto — um livro de verdade, desses que são vendidos nas livrarias — ele colocará nele o nome de Spiro, impresso. Imagine só! Oh, não há nada que Spiro não possa fazer! Ele é meu irmão gêmeo, sabe?

            Ele se parece com você? Ela me pareceu surpresa.

Comigo? Ora, não, ele é um homem, e eu não acabei de lhe dizer que ele é inteligente? Eu, eu não sou inteligente, mas eu sou mulher e não há necessidade. Com os homens é diferente. Sim?

É isso o que os homens dizem — eu ri. — Bem, muito obrigada por ter-me mostrado o caminho. Quer dizer a minha irmã que voltarei a tempo para o almoço?

Comecei a descer o íngreme caminho sob os pinheiros. Ao al­cançar a primeira curva, algo me fez olhar para trás em direção à clareira.

Miranda desaparecera. Mas pensei ver um relâmpago de verme­lho desmaiado não em direção à Villa Forli e sim mais alto no bosque, no caminho proibido para o Castelo.

 

Senhor, estou irritado...

A baía era pequena e abrigada, uma foice de pura areia branca contendo o mar azul e contida, par seu lado, pela cortina altaneira de um penhasco, pinheiros e árvores verde-douradas. O caminho descia abruptamente, passando por um aglomerado de jovens carvalhos dire­tamente para a areia. Mudei rapidamente de roupa num canto abrigado e caminhei para o fulgor branco do sol.

A baía estava deserta e muito silenciosa. De cada lado, promon­tórios arborizados projetavam-se na água calma e brilhante. Além, o mar aprofundava-se em nuanças de pavão e adquiria um azulado rico e sombrio, onde as montanhas do Epiro flutuavam na clara dis­tância, menos corpórea do que um banco de nevoeiro. As neves dis­tantes da Albânia pareciam deslisar como nuvens.

Após o calor da areia, a água pareceu-me fria e sedosa.. Mergu­lhei na leitosa calma e comecei a nadar preguiçosamente ao longo da praia, em direção ao braço sul da baía. Uma leve brisa soprava de terra, como uma intoxicante mistura de flores de laranjeiras e pinhei­ros agridoce, chegando-me em quentes lufadas através do odor salga­do do mar. Logo depois aproximei-me do promontório, onde rochedos brancos desciam até a água e um bosque de pinheiros projetava-se, cobrindo de sombras uma profunda lagoa azul. Fiquei ao sol e virei-me preguiçosamente para boiar, com os olhos fechados contra o brilho do céu.

Os pinheiros respiravam e sussurravam; a água calma nenhum som emitia... uma pequena onda balançou-me, quase me virando. Espadanan­do água e tentando encontrar posição, outra onda atingiu-me, como a marola de um pequeno barco que passasse, revolvendo-me na sua esteira. Mas eu nem ouvira ruído de remos nem de motores; nada ouvia agora salvo as pancadas das marolas exaustas contra o ro­chedo.

Agitando os pés na água, olhei em volta, confusa e um pouco alarmada. Nada. O mar brilhava, vazio e calmo, até o turquesa e azul do horizonte. Procurei terra com os pés e descobri que deslizara um pouco da praia e mal conseguia tocar no fundo com a ponta dos dedos. Dirigi-me para a parte rasa.

Desta vez a marola levantou-me do fundo e, quando dei desajei­tadamente outro passo, outra se seguiu, virando-me de cabeça para baixo. Lutei desesperadamente durante um minuto, engolindo água, antes de procurar, agora realmente amedrontada, ganhar a terra.

Ao meu lado, a água subitamente rodopiou e silvou. Algo me tocou — um frio e rápido raspão na coxa — e um corpo passou por mim sob a água.

Ofeguei de puro medo e a única razão por que não gritei foi porque tinha a boca cheia de água, que acabei engolindo. Lutando aterrorizada para voltar a superfície, sacudi com um movimento de cabeça o sal dos olhos — apenas para ver a baía tão vazia como antes, embora com a superfície agora marcada pelos sulcos da criatura do mar que me tocara. A ponta da flecha afastou-se rapidamente, dei­xando uma esteira tão clara como um rastro de vapor na água calma da baía. Continuou, diretamente para mar alto e... em seguida, girou num amplo arco, iniciando a volta...

Não esperei para saber o que era. Minha mente ignorante, to­mada de pânico, gritou Tubarões! e eu comecei a espadanar violenta­mente a água em direção ao promontório.

A coisa vinha rapidamente. A trinta metros a superfície da água fez uma corcova, inchou, e rompeu-se com o empurrão de grande dorso, curvo, preto-prateado. As águas se abriram e correram pelos flancos dele como vidro líquido. Ouvi um som ofegante de respira­ção; entrevi um brilhante olho sombrio e uma barbatana dorsal cor­tada em forma de crescente. A criatura submergiu novamente, produ­zindo uma marola que me empurrou mais uns dois metros para o ro­chedo. Encontrei um apoio para as mãos, segurei-me, e levantei-me comesforço, com a respiração entrecortada, completamente apavorada.

Não era certamente um tubarão. Centenas de histórias de aven­tura lembraram-me que se conhece o tubarão pela grande barbatana triangular e eu vira fotografias das terríveis mandíbulas e dos olhos pequeninos e brutais. Essa criatura respirara ar e os olhos eram grandes e escuros, como os olhos de um cão... talvez uma foca? Mas não havia focas nessas águas mornas e, além disso, focas não tinham barba­tanas dorsais. Uma toninha, então? Grande demais...

Soube, então, e o conhecimento me veio com uma onda de alívio e deleite. Era a criatura querida do Egeu, "o moço que corre à frente do vento", o amado de Apolo, "o desejo do mar", o golfinho... os nomes amados deslizaram em ondas por ele enquanto eu subia no rochedo quente à sombra dos pinheiros, juntava os joelhos, e acomodava-me para observá-lo.

Lá veio ele novamente, em uma grande curva, macio e brilhante, dorso escuro e ventre claro, tão gracioso como um iate de corrida. Desta vez saiu das águas e ficou na superfície a observar-me.

Ele era grande, tão grande como costumam ser os de sua espécie, de mais ou menos dois metros e quarenta de comprimento. Balouçava-se suavemente, com os poderosos flancos curvados, prontos para o mergulho, com a cauda — em forma de crescente e inteiramente diferente do leme vertical dos peixes — pousada horizontalmente na água, sustentando o corpo à superfície. Os olhos orlados de escuro observavam-me firmemente com o que eu teria jurado ser um brilho cordial e interessado. O focinho macio estava inclinado no sorriso per­pétuo dos golfinhos.

A excitação e o prazer tornaram-me estouvada.

Oh, querido! — disse-lhe eu tolamente e estendi-lhe a mão, como a gente faz para os pombos em Trafalgar Square.

O golfinho, naturalmente, ignorou-a, mas ficou ali a sorrir plá­cidamente, balouçando-se mais para a praia, a observar-me sem medo algum.

Então eram verdadeiras aquelas histórias... Eu conhecia as len­das, naturalmente. A literatura antiga transbordava de histórias de golfinhos amigos do homem. E conquanto não pudéssemos aceitar inteiramente as criaturas da lenda havia também relatos muito mais re­centes, confirmados por todos os tipos de provas modernas. Houve um golfinho chamado Pelorus Jack, há cinqüenta anos na Nova Ze­lândia que guiou os navios pelo Estreito de Cook durante vinte anos; o golfinho Opononi na década de cinqüenta, que divertia os veranis­tas na baía; outro, mais recentemente na Itália, que brincava com as crianças nas proximidades da praia, atraindo multidões tão numerosas que, finalmente, um pequeno grupo de comerciantes de um local de veraneio próximo, vendo fugir a freguesia, emboscaram-no e mataram-no quando ele veio brincar. Estas e outras histórias conferiam às velhas lendas muito mais do que o simples benefício da dúvida.

E ali estava realmente a prova viva. Ali estava eu, Lucy Waring, convidada a entrar na água para brincar. O golfinho não poderia ser mais claro a não ser que carregasse um convite naquela bela cauda em forma de meia-lua. Ele se balançou, observando-me, deu meia volta, aproximou-se novamente, jamais quieto...

Uma brisa inesperada soprou pelos pinheiros e eu ouvi uma abe­lha passar pelo meu rosto com a velocidade de uma bala. O golfinho curvou-se e subitamente deu um profundo mergulho. O mar arfou, turbilhonou e voltou trêmulo ao nada.

E foi assim. Com uma decepção tão aguda como se tivesse perdido luma pessoa amiga, virei a cabeça para olhá-lo tomar a direção do mar alto. Subitamente, não muito longe de meu rochedo, o mar se abriu numa explosão como se tivesse recebido um canhonaço. O gol­finho saltou da água num mergulho inclinado que o levou quase a um metro de altura e mergulhou novamente com uma batida de cauda tão tonitruante como um tiro de canhão. Deslizou como um torpedo le­vantou-se verticalmente a vinte metros da minha rocha e fixou-me novamente com olhos brilhantes e divertidos.

Fora uma encantadora peça de exibição. Conseguiu convencer-me.

— Muito bem — disse-lhe suavemente. — Vou entrar na água. Mas se me der um encontrão novamente, eu vou afogá-lo, meu rapaz, preste atenção a isso!

Coloquei as pernas na água, pronta para deslizar do rochedo. Outra abelha passou como uma bala por mim em direção ao mar com um zumbido curiosamente alto. Alguma coisa — algum pequeno peixe, acho — levantou um jato de água branca logo atrás do golfinho. En­quanto me perguntava vagamente o que seria aquilo, o zumbido fez-se ouvir novamente, mais próximo. . . e, em seguida, outro jato branco de água, seguido de assobio curiosamente agudo, como produzido por um fio cantante.

Compreendi então. Eu ouvira aquele som antes. Não eram nem abelhas nem peixes. Eram balas, presumivelmente de um rifle com si­lenciador e um deles ricocheteara sobre a superfície do mar. Alguém no bosque acima da baía atirava no golfinho.

Não me passou imediatamente pela cabeça que eu corria certo perigo com os tiros de ricochete. Fiquei simplesmente furiosa e resol­vida a fazer alguma coisa rapidamente. Lá estava ele, sorrindo-me na água, enquanto algum cruel esportista fazia, sem dúvida, pontaria no­vamente.

Provavelmente ele não me vira à sombra dos pinheiros. Gritei a plenos pulmões:

— Acabe com esses tiros! Acabe imediatamente! — e mergulhei na água.

Ninguém, certamente, atiraria no animal havendo possibilidade de atingir-me. Mergulhei e saí para o sol, cortando desajeitadamente a água, com a esperança de que a minha atabalhoada aproximação amedrontasse o golfinho e o fizesse fugir do perigo.

Consegui. Ele permitiu que eu chegasse a alguns centímetros, mas, ao aproximar-me, com a mão estendida como para tocá-lo, ele afas­tou-se suavemente de mim, mergulhou e desapareceu.

Com água pelo peito fiquei a observar o mar. Nada. O mar estendia-se silencioso e vazio em direção às tranqüilas colinas flutuantes do continente. As marolas voltaram à praia e se espraiaram com um murmúrio. O golfinho desaparecera. E a magia se fora com ele. Eu estava numa pequena — e solitária — praia, sobre a qual se emboscava, armado, algum tipo desagradável e frustrado.

Levantei os olhos para os penhascos em volta.

A primeira coisa que vi, muito acima do centro da baía, foi o que deviam ser os andares superiores do Castelo del Fiori, com suas tor­rinhas absurdamente belicosas contra um fundo de carvalhos, cedros e ciprestes do Mediterrâneo. A casa ficava muito para trás e eu não podia ver nem mesmo as janelas do primeiro andar. Um largo balcão, ou terraço, cercado por uma balaustrada de pedra, porém, projetava-se para a frente até a borda do penhasco a cavaleiro da baía. Da praia diretamente abaixo nada seria visível através do emaranhado de ar­bustos em flor que recobriam o penhasco íngreme e alcantilado. Do lugar onde eu estava, porém, via todo o comprimento da balaustrada com as estátuas cobertas de musgo nos cantos, um ou dois jarros de pedra cheios de flores, destacando-se brilhantemente contra o pano de fundo escuro dos ciprestes. Um pouco afastada da balaustrada vi uma mesa e cadeiras à sombra dos pinheiros.

Um homem em pé, meio invisível à sombra do pinheiro, obser­vava-me.

Um momento de estudo convenceu-me de que ele não podia ser Julian Gale. Era demasiado moreno e, mesmo a distância, parecia-­me inteiramente estranho — demasiado à vontade, talvez, e, por certo, jovem demais. O jardineiro, provavelmente: o indivíduo que lançava os intrusos por sobre o penhasco. Bem, se o jardineiro de Sir Tulian tinha o hábito de divertir-se praticando tiro ao alvo, era mais do que tempo que alguém pusesse um paradeiro naquilo.

Saí da água mesmo antes de o golfinho ter mergulhado a segunda vez, apanhei rapidamente os sapatos e uma toalha e dirigi-me para a escadaria arruinada próxima do penhasco, supondo que conduzisse do terraço.

Ouvi um grito lá de cima e levantei os olhos. Ele aproximara-se da balaustrada e inclinava-se para baixo. Mas pude distingui-lo atra­vés da espessa tela de hibiscos e arbustos espinhosos, mas notei que ele não parecia grego. Quando parei, ele gritou em inglês:

— Por ali, por favor! — e com um gesto do braço indicou a extremidade sul da baía.

Ignorei-o. Quem quer que fosse — algum convidado de Julian Gale, provavelmente — eu ia topar a parada com ele ali, e naquele momento, furiosa, e não esperar até que pudesse encontrá-lo em alguma recepção social de Phyllida... "Mas, realmente, o senhor não deve atirar nos golfinhos Sr. Fulano eles não fazem mal algum..." A mes­ma polida conversa, repetida mil vezes, com algum estúpido amante do gatilho que matava ou aprisionava em armadilhas texugos, lontras, francelhos... criaturas inofensivas, assassinadas porque algum indiví­duo queria passear com o cachorro em um belo dia de sol. Não, desta vez eu estava furiosa e, com a coragem da ira, iria dizer o que pen­sava.

Subi os degraus como um foguete ao deixar a plataforma de lan­çamento.

Eles eram íngremes e tortos e serpenteavam pela parte mais densa do bosque. Coleavam pela base do penhasco, subiam e contor­navam moitas de mirto e jasmim de verão e emergiam numa clareira inclinada salpicada de manchas de sol.

Encontrei-o lá, com expressão aborrecida, tendo aparentemente descido do terraço para interceptar-me. Somente compreendi em que desvantagem eu estava quando parei para fitá-lo. Ele descera uns quinze metros; eu subira como uma bala uns trinta. Ele, provavel­mente, tinha o direito de estar ali; eu, nenhum. Ele também estava cuidando de seus próprios negócios, com os quais eu nada tinha absolutamente. Além disso, ele estava completamente vestido e eu de maio de banho com uma toalha molhada envolvendo-me frouxamente. Apertei-a contra o corpo e procurei recuperar o fôlego, sentindo-me mais furiosa do que nunca. Mas isto não ajudou em coisa nenhuma, pois não consegui articular sequer uma frase.

Ele tomou a palavra, não agressiva, mas também não polidamente.

            Estes terrenos são particulares, como talvez saiba. Talvez te­nha a gentileza de voltar por onde veio? Este caminho a levará so­mente até o terraço e, depois, mais ou menos pela casa.

Consegui fôlego suficiente para falar. Não desperdicei nem tempo nem palavras.

            Por que é que o senhor estava atirando no golfinho?

Ele me olhou com uma expressão vazia como se eu lhe tivesse dado uma inesperada bofetada.

Eu estava o quê?

Não era o senhor que estava ainda há pouco atirando no gol­finho lá na baía?

Minha querida moça... — ele se controlou como alguém que trata com um lunático. — De que é que a senhora está falando?

Não finja que não sabe! Tem que ter sido o senhor! Se o senhor é tão cruel para os importunos, quem mais poderia ser? — eu falava com voz entrecortada e os dedos me tremiam quando eu puxava, desajeitada, a toalha contra o corpo. — Alguém deu dois tiros no gol­finho, há alguns minutos. Eu estava lá embaixo e o vi no terraço.

Eu certamente vi um golfinho. Não a vi até que a senhora gri­tou e saiu saltando de baixo das árvores. Mas a senhora deve ter-se enganado. Não houve tiro algum. Eu teria forçosamente ouvido se tivesse havido.

Foi com uma arma com silenciador, naturalmente — disse-lhe com impaciência. — Vou-lhe dizer uma coisa. Eu estava lá quando os tiros começaram! O senhor acha que eu subi correndo até aqui só pelo prazer da brincadeira? Eram balas, sim senhor? Eu conheço um tiro de ricochete quando o ouço.

Ele contraiu as sobrancelhas ao ouvir minhas palavras e olhou-me fixamente, carrancudo, como se me visse pela primeira vez como uma pessoa e não como uma importuna a ser lançada do penhasco com tanta rapidez quanto possível.

Então foi por isso que a senhora mergulhou na água junto do golfinho?

Naturalmente! Eu queria espantá-lo antes que ele fosse ferido.

Mas a senhora poderia ter-se ferido seriamente. Não sabia que uma bala ricocheteia na água da mesma maneira que em uma rocha?

Naturalmente que sei! Mas eu tinha de fazer alguma coisa, não tinha?

Moça corajosa — havia uma secura na sua voz que fez o meu temperamento, já mais frio, ferver novamente. Disse-lhe furiosa:

O senhor não acredita, não é? Pois foi verdade! Houve tiros e eu naturalmente mergulhei para detê-lo! Eu sabia que o senhor teria de parar se houvesse alguém lá.

Sabe de uma coisa — disse ele — a senhora não pode ter a coisa de ambas as maneiras. Ou eu atirei ou lhe digo que não houve tiro algum. Não ambas as coisas. Pode escolher. Se eu fosse a senhora, escolheria a segunda alternativa. Quero dizer, simplesmente não é crível, não é? Mesmo se supondo que alguém quisesse atirar num golfinho, por que usar um silenciador?

            É isto o que eu lhe estou perguntando — respondi-lhe. Durante um momento pensei que tinha ido longe demais. Ele

contraiu os lábios e vi uma expressão de raiva nos olhos dele. Caiu um curto silêncio enquanto ele me encarava de cara fechada e nos obser­vávamos mutuamente.

Notei que ele era um homem robusto, de mais ou menos trinta anos, vestido descuidadamente de calça esporte e camisa sem mangas que exibia um peito e braços que poderiam ter pertencido aos gregos que eu veria mais tarde construindo estradas com as mãos nuas e pouco mais do que isso. Como eles, também, tinha cabelos e olhos muito escuros. Algo simultaneamente sensual e sensível na boca, porém, desmentia a impressão de uma personalidade puramente física. Tinha-se a impressão de que ali estava um homem de impulsos agressivos, mas que pagava por eles na sua própria moeda.

Eu não queria nem pensar na impressão que ele formava de mim — cabelo úmido, rosto ruborizado, uma fúria meio desajeitada e uma miserável toalha que continuava a escorregar — mas de uma coisa eu estava bem certa: naquele exato momento ele estava sentindo um daqueles impulsos agressivos. Felizmente, não era físico... ainda.

Muito bem — disse ele secamente. — Acho que tem de aceitar a minha palavra. Não atirei no animal, com um rifle, uma catapulta ou qualquer outra coisa. Basta isso? Agora, se me desculpar, eu lhe ficaria grato se...

Se eu voltasse pelo caminho por onde vim? Muito bem. Entendi. Sinto muito. Talvez eu estivesse enganada. Mas eu certamente não me enganei a respeito dos tiros. Não entendo mais do que o se­nhor por que alguém pôde fazer isso, mas permanece o fato do que fizeram — hesitei, vacilando agora sob os seus olhos indiferentes. — Ouça, eu não quero continuar a ser um trambolho, mas não posso simplesmente deixar isto assim... Poderia acontecer novamente... Desde que não foi o senhor, tem alguma idéia de quem poderia ter sido?

— Não.

— E o jardineiro?

Não.

Ou o locatário da Villa Rotha?

Manning? Ao contrário. Se quiser ajuda na sua campanha de proteção, sugiro que vá imediatamente à Vila Rotha. Manning está fotografando aquele animal há semanas. Para começar, foi ele quem o domou, ele e aquele garoto grego que trabalha para ele.

Domou-o? Oh... compreendo agora. Bem, então — disse miseravelmente — não seria ele, obviamente.

Ele nada respondeu. Ficou esperando, pareceu-me, com uma es­pécie de paciência neutra, que eu me fosse. Mordi os lábios, hesi­tando miseravelmente, sentindo-me uma perfeita idiota. (Por que a pessoa sempre se sente como uma tola quando pratica um ato de Bondade — aquilo que os mais sofisticados consideram mero gesto de sentimentalismo?) Descobri que começava a tremer. A fúria e a energia abandonaram-me completamente. A sombria clareira começava a esfriar.

Bem — disse eu — acho que vou visitar o Sr. Manning laço que for possível e se ele não puder ajudar, tenho certeza que meu cunhado o fará. O que eu quero dizer é que se tudo aqui é terra particular, e também a praia, então deveremos deter aquele tipo de importuno, não acha?

Nós? — perguntou ele rapidamente.

Os proprietários do lugar. Eu sou Lucy Waring, irmã de Phyllida Forli. Acredito que o senhor esteja passando uns tempos com Sir Julian?

Sou filho dele. Então é a Srta. Waring? Não sabia que já chegara — ele pareceu hesitar e estar prestes a pedir desculpas, mas, em vez disso, perguntou: — Forli chegou?

Não — respondi secamente e voltei-me para ir embora. Uma liana prendera-me o pé e curvei-me para soltá-la.

Sinto muito se fui um pouco rude — a voz dele não amaciara de nenhuma forma notável, mas isso talvez fosse devido ao embaraço. — Nós tivemos um bocado de aborrecimentos com pessoas que an­daram por aqui ultimamente e meu pai... Ele esteve doente e veio aqui para convalescer. De modo que acho que a senhora pode compreender que ele prefere ser deixado sozinho.

            Eu lhe dei a impressão de uma caçadora de autógrafos? Pela primeira vez notei uma contração de divertimento no seu rosto.

Bem, de fato, não. Mas o seu golfinho tem sido atração ainda maior do que meu pai: de alguma maneira espalhou-se que ele es­tava sendo fotografado por aqui e, naturalmente, começou o boato de que estava sendo feito um filme. E por isso apareceram alguns botes cheios de pessoas aqui pela baía, para não mencionar grupos iso­lados no bosque. Tem sido tudo muito cansativo. Eu não me impor­taria, pessoalmente, se as pessoas quisessem usar a praia, se não fosse o fato de elas aparecerem sempre armadas de rádios transistores e isso eu não posso suportar. Eu sou músico profissional e estou aqui para trabalhar — acrescentou ele secamente. — E se a senhora pensa que isso me dá a melhor das razões para querer livrar-me do gol-filho, posso apenas garantir-lhe que esse pensamento não me ocorreu.

Bem — disse eu — parece que não há mais nada a dizer, não? Sinto muito por ter interrompido seu trabalho. Vou embora agora e o senhor pode voltar a trabalhar. Adeus, Sr. Gale.

A minha saída da clareira foi arruinada pelo fato de a toalha, presa num espinheiro, ter caído inteiramente. Levei três horríveis minutos para desembaraçá-la e partir.

Mas eu não precisaria ter-me preocupado com a ameaça a minha dignidade. Ele já se fora. De algum lugar lá em cima, e apavorante­mente próximo, ouvi vozes, perguntas e respostas, tão curtas e indo­lentes que chegavam a ser um insulto em si mesmas. Em seguida, mú­sica, como se um rádio ou uma vitrola lançassem no ar parado uma torrente de música atonal.

Tive a certeza de que já fora esquecida.

 

Esse mancebo que ali vês é um dos náufragos. Não fosse ora achar-se algum tanto maculado pela tristeza — verme da beleza — poderias cha­mar-lhe um homem belo.

Depois de um banho de chuveiro e de trocar de roupa senti-me mais calma e em condições de contar tudo a Phyllida e, possivel­mente, ouvir alguns comentários acres sobre os aborrecimentos que causara ao Sr. Gale. Mas, quando entrei no terraço ela não estava à vista. Vi apenas a mesa preparada para o almoço, com a prataria lançada no centro da toalha, como se posta ali apressadamente. Nenhum sinal de Miranda ou da mãe.

Ouvi, então, o ruído da porta da cozinha abrindo e fechando e as batidas secas dos saltos de minha irmã cruzando o saguão e en­trando na grande sala de estar que ela chamava de salloto.

            Lucy? Foi você que eu ouvi?

            Estou aqui fora — dirigi-me para as janelas francesas enquanto falava, mas ela já vinha apressadamente ao meu encontro. Um olhar ao seu rosto afastou de minha cabeça todos os pensamentos da aventura daquela manhã.

            Phyl! O que é que houve? Você parece um cadáver. É Calibã ?

Ela sacudiu a cabeça.

Nada tão simples assim. Recebemos más notícias, uma coisa horrenda. O filho da pobre Maria afogou-se. Spiro, o rapaz de quem lhe falei esta manhã no café.

Phyl! Oh, meu Deus, que coisa horrível! Mas... Como? Quando?

Na noite passada. Ele saíra com Godfrey no barco — Godfrey Manning — e houve um acidente. Godfrey veio trazer a notícia e eu estive preparando Maria e Miranda. Mandei-as para casa — ela levou as mãos à cabeça. — Lucy, foi horrível! Eu simplesmente não lhe posso contar. Se Maria tivesse dito alguma coisa, mas não disse, não pronunciou uma única palavra... Oh, bem, entre. Godfrey está ainda aqui. É melhor vir conhecê-lo.

Recuei.

Não, não se incomode comigo. Vou para o meu quarto ou farei qualquer outra coisa. O Sr. Manning não vai querer trocar gen­tilezas agora. Pobre Phyl. Sinto muito... Ouça aqui, você gostaria que eu saísse pelo resto do dia? Posso ir almoçar em algum lugar e então.

Não, por favor. Eu preferia que você ficasse — disse ela e, baixando a voz: — Ele está muito abalado e eu penso honestamente que talvez seja bom para ele falar sobre o assunto. Venha comigo... Oh, Deus! Eu bem que podia tomar uma bebida! Calibã terá de agüentar, pelo menos por uma vez. — Ela sorriu débilmente, e tomou a frente através da comprida janela.

O salotto era um aposento longo e frio, com três grandes janelas abertas para a vista maravilhosa do terraço. O ardor do sol era que­brado pelas trepadeiras que cobriam o terraço. A sala, fresca e venti­lada, com paredes azuis e brancas destacando à perfeição o dourado dos espelhos italianos e a madeira cor de ouro pálido do assoalho. Uma sala sossegada, com o tipo de graciosa simplicidade que o dinheiro e o bom gosto podem comprar. Phyllida sempre teve gosto excelente. E fora bom, pensava eu ocasionalmente, que ela, e não eu, tivesse ca­sado com um homem rico. O meu próprio gosto — desde que eu su­perara a fase do abajur, da garrafa de gim e Chianti — fora profun­damente condicionado por eu ter vivido durante tempo longo demais na confusão eterna de adereços teatrais comprados por pouco dinheiro em lojas de quinquilharias e postos no palco para o espetáculo em cartaz. Na melhor das hipóteses, o efeito era o de um Cecil Beatón de segunda classe; na pior, um cruzamento entre cenários desenha­dos por Emmett e Ronald Seare para a versão teatral de Watt, de Samuel Beckett. O fato de eu gostar dessa vida não me impedia de reconhecer o inegável talento de minha irmã para as coisas elegantes.

Ao fundo do aposento, uma mesa repleta de garrafas, Um homem, de costa para nós, enchia um copo de borbulhante soda. Ele se voltou quando entramos.

A minha primeira rápida impressão foi a de uma máscara de frio controle enfiada à força no rosto para disfarçar alguma forte emoção. A impressão, porém, desvaneceu-se e vi que estava enganada: o controle não era uma máscara; era parte do homem e criado pela própria emoção, como se um freio Westinghouse tivesse sido aciona­do automaticamente. Ele era inteiramente diferente do Sr. Gale. Olhei-o com algum interesse e certa piedade.

Era alto e de aparência rude, de cabelo castanho desbotado pelo sol, um rosto fino e inteligente e olhos cinzentos cansados e repuxa­dos nos cantos como se não tivesse dormido. Calculei-lhe a idade em trinta e tantos anos.

Phyllida apresentou-nos e ele cumprimentou-me cortesmente, mas tinha a atenção posta em minha irmã.

            Então lhes contou? Foi muito difícil?

Pior do que isso. Arranje-me uma bebida pelo amor de Deus, sim? — ela derreou-se numa cadeira. — O quê?... Oh, uísque, por favor. O que é que vai tomar, Lucy.

Se houver suco de frutas no jarro, eu gostaria, por favor? Há gelo?

Naturalmente — ele preparou as bebidas. — Olhe aqui, Phyl, você acha que eu devo ir falar com elas agora? Deve haver coisas que elas querem saber.

Ela tomou um gole, suspirou e pareceu relaxar-se um pouco.

            Eu deixaria as coisas como estão, se fosse você. Eu lhes disse que podiam ir para casa e elas não pronunciaram uma única pala­vra, simplesmente levaram as coisas delas. Acho que a Polícia irá pro­curá-las logo depois... Mais tarde elas quererão saber todos os deta­lhes de você, mas, no momento, duvido que Maria esteja em condi­ções de compreender qualquer coisa, nem mesmo que ele está morto. Por falar nisso, eu nem mesmo penso que ela compreendeu aquilo. Acho que ela ainda não acredita — disse, levantando os olhos para ele. — perguntar se ele não era mais velho do que pensara.

Ele hesitou, revolvendo o uísque no copo, olhando-o carrancudo. Rugas de fadiga marcavam-lhe profundamente o rosto e fizeram-me perguntar se ele não era mais velho do que eu pensava.

            Bem, sim. Aí é que está a confusão dos diabos, não percebe? Foi por isso que não vim aqui até agora... Estive telefonando para toda parte, procurando saber se ele não poderia ter chegado à praia, aqui ou no continente, ou se ele tinha... bem, sido encontrado. Isto é, se o corpo dera à praia — ele levantou a vista da bebida. — Mas estou intimamente convencido de que não houve chance. Quero dizer, vi quando ele desapareceu.

A que distância estava você?

Mais ou menos no centro exato — disse ele com uma careta.

A partir daqui?

Mais ao norte, em frente a Kouloura, exatamente ao estreito. Mas havia ainda um quilômetro e meio de cada lado.

O que é que aconteceu? — perguntei.

Ambos se surpreenderam, como se tivessem esquecido inteira­mente da minha presença. Godfrey Manning endireitou os ombros e alisou o cabelo para trás com a mão, num gesto que eu viria a conhe­cer bem.

            Sabe de uma coisa, eu ainda não estou bem seguro. Isto não parece inteiramente estúpido? É a pura verdade. Estive lá mentalmen­te diversas vezes desde que aconteceu e começo a perguntar-me de quanto eu realmente me lembro. E, naturalmente, uma noite acordado não ajuda em coisa alguma. — Dirigiu-se para a mesa para servir-se de outra bebida, dizendo por cima do ombro. — O pior é que não consigo livrar-me da sensação de que devia ter havido alguma coisa •que eu poderia ter feito para impedir aquilo.

Phyllida soltou uma exclamação diante dessas palavras e eu intervi rapidamente:

Tenho certeza de que isso não é verdade. Sinto muito. Eu não devia ter perguntado. O senhor não precisa falar mais nisso.

Não tem importância — disse ele voltando e sentando-se numa cadeira. Na verdade, não se sentou, apenas apoiou-se inquieto sobre um dos braços. — Eu já acabei com a Polícia e dei a Phyl uma ligeira descrição. Você poderia dizer que passou o pior... exceto, valha-me Deus, que eu terei de falar com a mãe do rapaz. Ela desejará saber muito mais do que a Polícia... Na verdade, acho que seria um grande alívio despejar tudo isso — deu um gole no uísque como se precisasse da bebida e olhou-me diretamente pela primeira vez. — Você não conheceu Spiro, conheceu?

Eu cheguei apenas ontem à noite.

Que começo para sua visita — disse ele, com os lábios caídos nos cantos. — Bem, ele era irmão gêmeo de Miranda — acho que a conhece e a mãe — e trabalha, ou melhor, trabalhava para mim.

Phyl contou-me.

Eu tive sorte em consegui-lo. Ele era um mecânico hábil, e isto não é coisa fácil de encontrar-se por aqui. Na maioria das aldeias, as únicas máquinas são jumentos e mulas e não há trabalho para um rapaz com inclinações para a mecânica. Eles se mudam para as cida­des. Mas Spiro, naturalmente, queria trabalhar perto de casa; o pai morreu e ele queria morar com a mãe e a irmã. Vim para cá no ano passado e ele trabalhou para mim durante todo esse tempo. O que ele não sabia a respeito de barcos não valia a pena saber e quando eu lhes disser que cheguei a deixá-lo guiar meu carro, vocês compreen­derão como ele era competente — ele inclinou a cabeça para a janela, e eu vi uma grande pasta sobre a mesa. — Não sei se Phyl lhe contou, mas estou trabalhando num livro, principalmente de fotografias e mes­mo aí Spiro era inestimável. Ele não apenas aprendeu o suficiente para ajudar-me tecnicamente — com a revelação, e assim por diante — mas eu realmente o usei como modelo em algumas delas.

As fotografias são maravilhosas, também — disse-me Phyllida entusiasmada.

Ele abriu os lábios num sorriso forçado e sem alegria.

            São boas, não? Bem, foram tiradas por Spiro. Não era um campeão mundial, o que quer que a pobre Miranda dissesse dele. O cérebro que porventura tivesse estava concentrado nas mãos e ele era lento e teimoso como um mula cega — mas era duro e podia-se con­fiar nele. E possuía aquela qualidade extra, inapreciável, que para mim valia a terra — ele fotografava como um sonho. Ele era uma coisa natural para a câmara... simplesmente não se podia errar — engoliu o resto do uísque e inclinou-se para pôr o copo na mesa. O som do vidro na madeira soou com estranha finalidade, como um ponto final após um adeus. — O que me leva à noite passada.

Caiu uma pequena pausa. Os olhos cansados voltaram-se para

mim.

            Eu estive fazendo alguns experimentos com fotografias no­turnas — barcos de pesca à noite, paisagens noturnas, esse tipo de coi­sas — e eu queria tentar o amanhecer no continente enquanto hou­vesse ainda neve nas montanhas. Spiro e eu saímos no meu barco na noite passada. Havia uma brisa forte, mas nada para preocupar. Su­bimos a costa. Sabe, talvez, que o Monte Pantekrator fica ao norte daqui? Bem, a costa curva-se para a direita, correndo quase direta­mente para leste sob o abrigo da montanha. Somente quando che­gamos ao fim e viramos para o norte e entramos no estreito aberto é que sentimos o tempo. Chegamos lá cerca de meia hora antes do ama­nhecer e ficamos mais ou menos em frente a Kouloura — isto é, a parte mais estreita entre a ilha e o continente. O mar estava picado, mas nada que um marinheiro pudesse chamar de violento, embora o vento estivesse ainda soprando do norte...Bem, eu estava na ca­bina, ocupado com a câmara, e Spiro na ré, quando o motor parou subitamente. Gritei perguntando o que era e ele gritou de volta dizen­do que pensava que alguma coisa estava embaraçando a hélice e que ele a soltaria num minuto. Continuei com o meu trabalho e somente então descobri que êle deixara o barco à garra, que o barco dava os bordos para o vento e que jogava demais. Saí para ver o que acontecia. Ele levantou a mão num gesto leve, mas curiosamente final.

            Então aconteceu. Vi Spiro na popa, inclinado. O barco jogava muito e penso não tenho certeza que lhe gritei que tomas­se cuidado. Então, uma lufada, uma onda ou alguma coisa colheu o barco a meia nau e êle corcoveou como uma mula. Spiro estava segu­rando na balaustrada, mas ela estava escorregadia e êle perdeu a mão. Vi-o tentar segurar-se novamente quando caiu, mas errou. Simples­mente desapareceu. Quando cheguei à popa não o vi mais.

            Ele não sabia nadar?

            Claro, mas estava muito escuro. O barco afastou-se rapidamente, com o mar já picado naquela ocasião. O vento devia ter au­mentado mais do que eu pensara enquanto trabalhava na cabina. Nós devemos ter ficado metros distantes um do outro em questão de se­gundos. Mesmo que ele continuasse boiando teria sido difícil encon­trá-lo...e eu acho que ele não boiou, pois de outra forma teria gri­tado e eu certamente teria ouvido alguma coisa. Gritei até ficar rouco e não ouvi resposta alguma...

Ele se levantou novamente, inquieto, e dirigiu-se até a janela.

            Bem, isto foi tudo. Lancei um salva-vidas na água, mas fui levado para longe a uma boa velocidade e quando consegui ligar no­vamente o motor e voltar para o lugar onde pensava que ele tinha caído, não vi sinal algum dele. Eu devo ter chegado bem perto do lugar, porque encontrei o salva-vidas. Fiquei rodando por ali umas duas horas acho que estupidamente, mas eu não podia simples­mente desistir e ir embora. Um barco de pesca chegou ao alcance de grito e ajudou, mas de nada serviu.

Houve uma pausa. De costas para nós, êle olhava para fora.

            É uma coisa horrível de acontecer. Horrível disse Phyllida cansadamente.

            E a hélice estava presa, afinal de contas? perguntei. Ele se voltou.

            O quê? Não, não etava. Pelo menos, nada vi. Era um conduto entupido. Bastou alguns segundos para endireitá-lo. Se ele tivesse olhado ali em primeiro lugar... — ele encolheu os ombros e deixou a frase pendurada no ar.

— Bem — disse Phyl numa tentativa de animação — eu não vejo honestamente por que você deva culpar-se. O que é mais que você podia ter feito?            

            Oh, não é que eu me culpe pelo que aconteceu. Sei que é absurdo. O que eu acho difícil de engolir é não ter podido encontrá-lo. Ficar dando voltas por ali durante duas horas naquele mar escuro e ventoso, sabendo todo o tempo que, em qualquer ocasião, seria demasiado tarde... Não me compreenda mal, mas teria sido muito mais fácil se eu tivesse podido trazer o corpo do rapaz para casa.

            Por que a mãe não pode acreditar que ele tenha morrido? Ele inclinou a cabeça.

Da forma em que estão as coisas, ela provavelmente ficará cheia de esperanças e se sentará em algum canto esperando que ele apareça. E então... se... o corpo der à praia, tudo isto vai ter que se repetir.

Então tudo o que podemos fazer é esperar que o corpo do rapaz apareça logo — disse Phyllida.

Eu duvido que apareça. O vento e a maré estavam indo em outra direção. E se ele der à praia na costa albanesa, talvez jamais saibamos de coisa alguma. Ela pode ter de esperar durante anos.

Da mesma forma que o fez com o pai dele — disse eu.

Ele me olhou fixamente, como se durante alguns segundos mal me notasse.

            O pai dele? Oh, Deus. sim, eu esqueci disso. Phyllida mexeu-se na cadeira.

            Então continue a esquecer, em nome de Deus, Godfrey! Não se martirize mais por causa disso. A situação já é horrível sem você tentar se culpar por algo que não podia ter evitado!

           Seamãe e a irmã compreenderem isso...

            Claro que compreenderão! E logo que o choque passar você pode ir falar-lhes. Você terá de contar-lhes toda a história, exatamen­te como nos contou. Você verá que elas a aceitarão, sem pensar mes­mo em louvar ou censurar... Elas aceitarão qualquer coisa que o des­tino resolveu por elas. Essas pessoas são assim. Elas são tão fortes como suas próprias rochas e a delas é do mesmo tipo.

Ele a olhou algo surpreso. Pessoas que conhecem apenas o lado rotineiro de Phyllida — o lado fútil, de borboleta — ficam sempre surpresas quando lhe encontram o núcleo de sólido calor maternal. Ele me pareceu também grato e aliviado como se ela... o tivesse, de alguma maneira, desculpado e isto fosse importante.

Ela lhe sorriu.

—- O seu problema é que, não apenas teve uma experiência hor­renda e sofreu um profundo choque, mas agora teme encontrar-se face a face com Maria e suportar a cena. Eu não o censuro nem um pou­quinho — a franqueza dela era tão tranqüilizante como devastadora. — Você não precisa preocupar-se. Não haverá cenas e nem mesmo ocor­rerá a elas fazer-lhe perguntas.

Você não entendeu bem. Spiro não devia ter ido comigo na noite passada... ele tinha algum encontro na cidade. Convenci-o a romper o compromisso. A mãe só soube no último minuto.

E daí? Sem dúvida você lhe estava pagando pelo serviço extra, como sempre fez não?... Achei que sim. Oh, sim, eu sabia, Maria contou-me. Pode acreditar-me, ou elas estavam profundamente gratas pelo trabalho que você arranjava para ele e pela maneira como você lhe pagava, sempre generosamente. Spiro adorava-o e o mesmo acontece com Maria. Meu Deus, e você se preocupa com o que elas poderão dizer-lhe!

Acha que eu poderia oferecer alguma coisa a elas?

Dinheiro? — ela franziu as sobrancelhas. — Não sei. Terei de pensar. Não sei ao certo o que elas farão agora... Mas não vamos ainda preocupar-nos com isso. Eu farei uma ou duas perguntas jei­tosas e lhe direi. Certo? Mas digo-lhe uma coisa. É melhor levar aquelas fotos para casa quando se for. Eu não as examinei devida­mente, mas seria uma pena se Maria as visse justamente agora.

Oh, sim, naturalmente. Eu as levarei.

Ele apanhou a pasta e ficou ali irresoluto, como se não soubesse exatamente o que fazer em seguida. Um dos hábitos que minha pro­fissão ensinou-me foi a de observar rostos e escutar vozes e, se as pes­soas estão sob algum tipo de tensão, melhor ainda. Como atriz jamais chegarei à primeira classe, mas sou muito competente em interpretar pessoas. Senti ali, na hesitação e ânsia de tranqüilização de Godfrey Manning, algo que não era inteiramente apropriado: o contraste entre o homem que se pensava que êle devia ser e o que o choque dele fizera era obscuramente inquietante, tal como quando se observa um ator mal escolhido para o papel. E isto me fez dizer apressadamente, e não com muito tato — como se qualquer desvio fosse melhor do que nada.

Essas fotografias são para o seu livro?

Algumas delas. Fotos que trouxe aqui no outro dia para mos­trar a Phyl. Gostaria de vê-las?

Ele atravessou rapidamente a sala e colocou a pasta numa mesinha baixa junto da minha cadeira. Eu não tinha certeza de que queria, naquele momento, examinar as fotos, entre as quais havia presumi­velmente algumas do garoto falecido, mas Phyl nada disse e para Godfrey Manning, isto era evidente, constituía uma espécie de alívio. Nada disse, portanto, quando ele tirou as grandes fotos de dentro das folhas protetoras e começou a mostrá-las.

As primeiras que me mostrou eram principalmente paisagens: ousadas peças de penhascos e mar brilhante, vivas flores emaranhadas cascateando sobre a pedra iluminada e fotos de camponeses com suas cabras e jumentos passando por cercas de macieiras e giesteiras escu­ras, ou curvadas sobre uma cisterna de pedra ao lado de suas trouxas de roupas coloridas. E o mar: o mar estava presente na maioria das fotos: às vezes, apenas um recanto de uma poça cheia de sargaços, a parte interior da curva de uma onda, um desenho de espuma que recuava da praia molhada e uma maravilha de pequena ilha rochosa, de onde, sorrindo, de olhos brilhantes e inteligentes, o golfinho obser­vava a câmara.

            Olhe, veja o golfinho! — exclamei pela primeira vez lembrando-me das aventuras da manhã. Godfrey olhou-me curiosamente, más, antes que eu pudesse acrescentar outra coisa, Phyllida puxou a foto para o lado e encontrei-me olhando para o retrato do garoto falecido.

Ele se parecia muito com a irmã: a mesma face redonda e amplo sorriso, a pele queimada de sol, o cabelo preto abundante, tão duro como urzes. Percebi imediatamente o que Godfrey tivera em mente quando o chamara de um "modelo natural": o corpo robusto e pes­coço grosso que davam a Miranda a pesada aparência de camponesa traduziam-se no rapaz numa espécie de força clássica, nas linhas co­nhecidas e deliberadamente exageradas da escultura. Ele se ajustava ao fundo de rochedos e mar com tanta inevitabilidade como os pilares do templo de Sunium.

Exatamente no momento em que eu me perguntava de que modo iria romper o silêncio, minha irmã quebrou-o com a maior facilidade.

Sabe de uma coisa, Godfrey, tenho certeza de que, mais tarde, quando as coisas se acalmarem um pouco, Maria adoraria ter uma dessas fotos. Por que não faz uma cópia para ela?

Se você acha que ela gostaria... Bem é uma idéia. Sim, e eu poderia colocá-la numa moldura para ela — ele começou a colocar novamente as fotos na pasta. — Talvez mais tarde você me ajude a escolher a que pensa que ela gostaria, sim?

Oh, sem dúvida alguma — disse Phyllida e puxou uma delas da pilha. — Esta. É a melhor que vi em anos e exatamente igual a ele.

Ele olhou rapidamente a foto.

            Oh, sim. Foi uma foto de sorte — a voz dele pareceu-me absolutamente inexpressiva.

Eu nada disse. Fiquei simplesmente a olhar, a olhar.

Vi o golfinho, com o dorso curvado suavemente num mar de turquesa, as costas pontilhadas de gotas prateadas. De pé, com água pelas coxas junto do animal, rindo com a mão estendida para tocá-lo, o rapaz, bronzeado e nu, com o corpo reto como uma flecha cortando o arco feito pelo golfinho no ponto exato conhecido pelos pintores como a seção dourada. Era um desses milagres da fotografia em que a habi­lidade e a chance combinam-se para juntar cor, luz e massa em um momento impecável, captado e conservado para todo o sempre.

            É maravilhoso! disse eu. — Não há outra palavra para des­crevê-la! É um mito que se transformou em realidade. Se eu mesma não tivesse visto o golfinho, teria pensado que era uma montagem!

Ele olhava as fotos sem expressão alguma no rosto. Sorriu, então.

Oh, é realmente autêntico. Spiro domou-o para mim e o gol­finho vinha brincar todas as vezes que ele ia nadar. O golfinho era uma criatura muito prestativa, com um bocado de encanto pessoal. Você disse que o viu?

Sim. Fui até lá embaixo há pouco para nadar e ele apareceu para olhar-me. E o que é mais, devo dizer-lhe, esta manhã o senhor quase perdeu para sempre o seu golfinho.

Perdeu o golfinho? — perguntou Phyl. — O que, em nome de Deus, quer você dizer com isso?

Alguém andou dando tiros nele — disse eu vivamente. — Eu subi até aqui quase sem fôlego para contar-lhe, mas as notícias que você tinha fizeram-me esquecer o caso até agora. — Olhei de esguelha para Godfrey. — Quando eu estava na baía, havia alguém no bosque lá em cima com um rifle dando tiros. Se eu não estivesse lá e não ti­vesse espantado o golfinho, ele provavelmente o teria atingido.

Mas... isto é incrível! — a história, pelo menos, conseguiu dissipar um pouco a sua preocupação com a morte de Spiro. Ele me olhou fixamente, sério. — Alguém lá em cima no bosque, dando ti­ros? Tem certeza?

Absoluta. E o que é pior, o rifle tinha um silenciador... Por­tanto, não era apenas um esportista atrás de lebres ou de outra coisa, divertindo-se em dar uns tiros furtivos no golfinho. Foi uma tentati­va deliberada para matá-lo. Eu estava sentada sob as árvores e acho que ele não me viu. Mas logo que gritei e mergulhei ao lado do golfi­nho os tiros pararam.

Mas, Lucy! — disse Phyllida, horrorizada. — Você podia ter sido ferida.

Eu não pensei nisso — confessei. — Eu estava apenas tão fu­riosa que tive de fazer alguma coisa para detê-lo.

Você não pensa nunca! Um destes dias você vai arrepender-se! — ela se voltou, com um gesto meio de desespero e meio de di­vertimento para Godfrey. — Ela sempre foi assim. São as únicas coi­sas que a fazem ficar realmente fula de raiva... animais. Ela chega mes­mo a tirar vespas semi-afogadas e aranhas da banheira e vermes que aparecem quando chove e ficam presos ao atravessarem a estrada. O curioso é que eles a vêem chegando. Ela uma vez pôs a mão sobre uma víbora e ela nem mesmo a picou.

Ela estava provavelmente dura de frio — disse eu secamente, tão embaraçada sob o olhar divertido de Godfrey como se estivesse sendo acusada de alguma estranha perversão. E acrescentei em tom de desafio: — Eu simplesmente não posso ver animal algum ser fe­rido, só isso. Assim, de agora em diante, vou manter o golfinho de olho, mesmo que eu tenha de tomar banho de mar todos os dias. Aquele seu golfinho arranjou uma guarda, Sr. Manning.

Fico satisfeitíssimo em saber disso.

Eu ainda não posso acreditar — interrompeu Phyl. — Quem poderia ter estado lá no bosque com uma arma?

Pensei por um momento que Godfrey ia responder, mas ele voltou à tarefa de arrumar as fotografias, fechando a pasta sobre a última delas com um estalido.

Não tenho a mínima idéia — disse ele e, em seguida, para mim. — Viu alguma coisa?

Oh, sim.

Isto produziu um satisfatório volume de sensação. Phyllida deu um pequeno grito e pôs a mão onde, aproximadamente, imaginava que Calibã pudesse estar.

Viu? — perguntou rapidamente Godfrey Manning. — Onde? Acho que não chegou suficientemente perto para identificar a pessoa.

Eu o fiz, realmente, no bosque sob o terraço do Castelo e êle foi absolutamente bestial! — disse-lhe, esquentada. — Ele disse que era o filho de Julian Gale e...

Max Gale! — disse Phyllida, incrédula. — Lucy, você não me está querendo dizer que Max Gale estava correndo pelo bosque com um rifle, dando tiros e tudo mais. Não seja tola!

Bem, ele não disse que tinha sido ele — reconheci — e deve ter-se livrado da arma, de modo que não pude provar que foi ele, mas não acreditei. Ele parecia capaz de tudo e, de qualquer maneira foi muito grosseiro, e isto não foi absolutamente necessário!

Mas você estava invadindo a propriedade alheia — disse God­frey secamente.

Ainda assim, não poderia ter sido ele! — disse minha irmã positivamente.

Provavelmente não — respondeu Godfrey.

Ela levantou rapidamente os olhos para ele.

O que é que você disse?

Nada.

Mas ela entendera obviamente o que quer que êle não dissera. Arregalou os olhos.

Mas, por que, em nome de Deus... — prendeu a respiração e eu pensei que empalidecera. Oh, meu Deus, acha que poderia ser...! Mas, Godfrey, isto é, apavorante! Se ele arranjou uma arma...

Exato. E se arranjou, naturalmente Gale o protegeria.

Muito bem, mas o que é que podemos fazer? Quero dizer, se houver algum perigo...

Não haverá mais agora — respondeu ele, calmamente. — Ouça, Phyl, tudo vai dar certo. Se Max Gale não sabia antes, sabe agora, e terá o bom-senso de manter uma coisa dessas longe das mãos do velho.

De que modo? — indagou ela. — Diga-me, de que modo? Você já esteve alguma vez naquele apavorante museu?

Não. Por quê? Há armas ou coisas assim?

Uma sala de armas! — disse Phyllida. — Valha-me Deus. Uma sala cheia de armas! Os muros do castelo estão praticamente cobertos com essas coisas! Armas de fogo, adegas, lanças, azagaias, tudo. Juro que há, tem de tudo de carabinas e soqueiras. Há até mesmo um canhão na porta principal! Meu Deus, o avô de Leo colecionava aquelas coisas! Ninguém descobrirá coisa alguma se uma dúzia de rifles desaparecer.

Mas isto não é uma beleza? — disse Godfrey.

Ouçam aqui — disse eu irritada — um minuto mais dessa conversa, e eu abro um berreiro. Que mistério é esse? Vocês dois estão falando de Julian Gale? Porque, se estão, eu jamais ouvi coisa tão idiota em toda minha vida. Por que, em nome de Deus, deveria ele andar por aí com uma arma bancando o selvagem? Ele podia ati­rar em alguns críticos teatrais — e eu me lembro de um deles que está pedindo isso há alguns anos — mas naquele golfinho! Simplesmente não é possível.

— Você o conhece? — perguntou Godfrey Manning em voz brusca e espantada.

            Nunca fui apresentada a ele. Ele não anda na minha roda. Mas conheci dezenas de pessoas que trabalharam com ele, e todos o adoraram. Eu lhes digo uma coisa: não combina com o tipo. E se vocês querem saber como eu sei disso, bem, eu vi todas as peças em que ele apareceu nos últimos dez anos e se há um tipo de pessoa que não pode ocultar que tipo de homem é, sobretudo aquilo que faz e diz, é o ator. Aí é que está o paradoxo, acho, mas é verdade. E que Tulian Gale pudesse matar uma criatura viva, saída diretamente de um mito grego... bem, simplesmente não combina. A menos que ele estivesse bêbado, ou doido varrido...

Parei. O olhar que eles trocaram teria quebrado um contador Geiger. O silêncio fez-se tão pesado que podia ser sentido.

            Bem? — perguntei.

Godfrey limpou a garganta, embaraçado. Parecia não saber como começar.

Oh, Deus, se ela vai ficar aqui durante semanas, é melhor que saiba — disse minha irmã. — É quase certo que ela vai encontrá-lo mais cedo ou mais tarde. Sei que ele vai apenas a casa dos Karithis e que joga xadrez com alguém em Corfu e que jamais fica sozinho o resto do tempo, mas eu o encontrei na casa dos Karithis e ela pode topar acidentalmente com ele por aí um destes dias.

Acho que sim.

Ela se voltou para mim.

Você disse esta manhã que não compreendia por que ele desapareceu daquela maneira depois de aposentar-se. Ouviu falar do acidente de automóvel há três ou quatro anos, quando a mulher e a filha dele morreram?

Oh, Deus, sim. Aconteceu exatamente uma semana depois de ele aparecer em Tiger. Tiger. Vi a peça depois de estar um mês em cartaz. Sorte dele que o papel exigia que ele destruísse um gato e por isso ele representou melhor do que nunca, se possível, mas tinha per­dido um bocado do peso. Soube que ele ficou doente depois de deixar o elenco e começaram a circular boatos de que ele pensava em aposen­tar-se, mas, naturalmente, ninguém acreditou nisso. E ele se apresen­tou muito bem na temporada de Stratford. Finalmente, anunciaram que A Tempestade seria a sua última apresentação no palco. O que é que aconteceu depois? Ficou doente depois de encerrada a tempo­rada?

De certa maneira, sim. Acabou numa clínica de repouso com um colapso nervoso e ficou lá mais de um ano.

Olhei-a, profundamente chocada.

            Eu não sabia disso.

Ninguém sabia — respondeu minha irmã. — Não é o tipo de coisa que se anuncie por aí, especialmente se o indivíduo é uma personalidade conhecida como Julian Gale. Soube apenas parque Max Gale disse alguma coisa a Leo quando eles alugaram a casa e uma amiga minha contou-me o resto. Pensa-se que ele está melhor e ele sai às vezes para visitar amigos, mas sempre acompanhado.

Você quer dizer que ele tem de ser vigiado? — perguntei, sem meias palavras. — Você está querendo dizer-me que Julian Gale está... — parei. Por que todas as palavras eram tão horrendas? Se não conjurassem imagens grotescas de um asilo, seriam ainda piores, sinônimos delicados para a mais trágica de todas as doenças. — ...de­sequilibrado? — terminei.

Não sei! — Phyllida pareceu-me desalentada. — Somente Deus sabe, ninguém quer dar muita importância a isso e o próprio fato de ele ter tido alta — se esta é a palavra — da clínica de repou­so deve significar que ele está bom, não?

Mas ele deve estar bem! De qualquer modo, você mesmo disse que o encontrou um dias destes. Que impressão teve dele na ocasião?

Perfeitamente normal. Na verdade, eu caí por ele como uma tonelada de tijolos. Ele é profundamente encantador — ela olhou abor­recida para Godfrey. — Mas será que essas coisas voltam? Eu nunca pensei... a idéia nem mesmo foi abordada..., mas se eu tivesse pen­sado, com as crianças vindo aqui para as férias e tudo mais...

Ouça — disse Godfrey vivamente — você está dando impor­tância demais à coisa, e você sabe disso. A simples menção de uma arma parece ter tirado tudo das devidas proporções. O homem não é maníaco homicida ou coisa parecida... e nunca foi, ou não estaria absolutamente aqui.

Sim, acho que você tem razão. Tolice a minha entrar em pâ­nico — ela suspirou e afundou-se na cadeira. — De qualquer modo, Lucy provavelmente sonhou essa história! Se ela não viu arma algu­ma e nem mesmo a ouviu, ou...! Oh, vamos esquecer tudo isso. Certo?

Não perdi tempo em insistir. Não importava mais. O que acabara de saber era novo e triste demais.

            Eu devia ter sido mais delicada com o Sr. Gales, só isso — disse eu angustiada. — Ele deve ter tido um tempo horroroso. Já é horrível para outras pessoas, mas para o filho...

Oh, queridinha, não fique assim tão abalada! disse Phyl. Com a preocupação aparentemente dissipada, ela reassumiu o papel de consoladora. Com toda probabilidade, nós estamos inteiramente enganadas, e o assunto não tem importância alguma. Exceto que o velho precisa de um pouco de paz e sossego para recuperar-se e Max está providenciando para que ele os obtenha! Se fôr isso, eu não ficaria surpresa se Max insistisse na quarentena em seu próprio bene­fício. Ele está escrevendo a partitura para algum filme ou coisa assim, segundo se diz por aí, e ele jamais aparece. Daí a história dos "intru­sos serão baleados" e do jovem Adônis bancando o guarda-costas.

Jovem quem?

Adônis. O jardineiro.

            Meu Deus! Será que uma pessoa pode viver com um nome destes, mesmo na Grécia ?

            Oh, ele vive, pode acreditar! disse ela com uma risada. Voltou-se para Godfrey, dizendo-lhe alguma coisa sobre Adônis,

que fora aparentemente bom amigo de Spiro. Ouvi novamente o nome de Miranda e algo a respeito de um dote e das dificuldades que sur­giriam agora com a morte do irmão. Mas eu não estava realmente es­cutando. Estava ainda tristemente chocada com que acabara de ouvir. Ninguém suporta facilmente a derrubada dos seus ídolos. Era como se a gente fizesse uma longa e difícil viagem para ver o David de Miguel Ângelo e nada lá encontrasse, senão apenas um pedestal ar­ruinado.

Descobri que estava revivendo, tão claramente como se tivesse sido ontem, a "última representação" em A Tempestade; os suaves e disciplinados versos em que Próspero renunciava aos seus poderes mágicos e com eles, se esta história fosse verdade, a tanta coisa mais:

... Mas abjuro, neste momento, da magia negra; uma vez conjurado mais um pouco de música celeste — que ora faço — para que nos sentidos lhes atue — tal é o poder do encantamento aéreo — quebrarei a varinha; a muitas braças do solo a enterrarei e em lugar fundo, jamais tocado por nenhuma sonda, afogarei meu livro.

Mexi-me na cadeira, afastei com um esforço de vontade a própria tristeza e voltei ao salloto, onde Godfrey Manning despedia-se.

E melhor eu ir agora. Eu queria perguntar-lhe, Phyl, quando é que Leo vem?

Ele talvez dê um jeito no próximo fim-de-semana. Não tenho certeza. Mas, certamente, para a Páscoa, com as crianças. Você tem mesmo que ir? Fique para o almoço, se quiser, Maria preparou as verduras, graças a Deus — ah, como eu odeio batatas cruas! — e o resto é frio. Não quer mesmo ficar?

Eu gostaria, mas tenho de dar ainda alguns telefonemas. Tal­vez haja notícias.

Sim, naturalmente. Telefone-me logo se descobrir alguma coi­sa, sim?

Claro — ele apanhou a pasta. — E informe-me logo que achar que Maria gostaria de falar comigo.

Despediu-se e saiu. Sentamo-nos em silêncio até que o ruído do motor do carro morreu entre as árvores.

Bem — disse minha irmã. — Acho melhor procurarmos algu­ma coisa para comer. Pobre Godfrey, ele está muito abalado. É uma coisa um tanto surpreendente. Nunca pensei que ele ficasse tão ar­rasado assim. Ele deve ter gostado mais de Spiro do que quer ad­mitir.

Phyl — disse eu bruscamente.

Hummm?

Aquilo foi verdade, ou foi apenas outra de suas histórias, quando você disse que Julian Gale era provavelmente pai de Mi­randa ?

Ela olhou-me de esguelha.

Bem... Oh, diabo a carregue, Lucy, você não tem de aceitar as coisas tão literalmente. Somente Deus sabe... mas há algo. Apenas eu não sei o que é. Ele batizou a moça como Miranda e você pode imaginar um corfiota inventando um nome desses ? Em seguida o marido de Maria abandonou-a. E o que é mais, juro que Julian Gale vem sustentando a família. Maria jamais disse uma palavra, mas Mi­randa solta algumas coisas vez por outra e tenho certeza de que ele as sustenta. E por que, diga-me? Não simplesmente porque ele conhe­ceu por acaso o marido dela durante a guerra!

Então, se Miranda e Spiro são gêmeos, então ele é também pai de Spiro.

Sendo os fatos da vida como são, você bem poderia ter até mesmo razão. Oh — ela ficou tensa na cadeira e virou os grandes olhos para mim. — Você quer dizer... você quer dizer que alguém deve dar a notícia a ele? — subitamente, ficou muito incerta e rubori­zada. — Mas, Lucy, é apenas um boato, e ninguém podia realmente supor isso, podia? Quero dizer, penso, se alguém fosse lá e. ..

— Eu não quis dizer isso — respondi. — De qualquer maneira, não é nossa obrigação contar a ele. A própria Maria contará. Ele ou­virá as notícias logo. Esqueça-se disso. Onde é que está esse almoço de que você falava? Estou morrendo de fome.

Seguindo-a até a cozinha, pensei que era quase certo que Julian Gale já tivesse ouvido as notícias. De minha cadeira em frente às janelas do salotto eu vira Maria e a filha deixarem juntas a casa. E não pelo caminho de automóveis, que as levaria diretamente à ca­bana onde moravam. Tomaram a pequena trilha que Miranda me mos­trara naquela manhã, o caminho que conduzia apenas à baía ou ao Castelo del Fiori.

 

Lá não vive quem tanto procuramos; afogou-se, rindo-se o mar de nosso afã na terra. Pois que se vá!

Passaram-se os dias; dias belos, tranqüilos. Cumpri a minha palavra e desci diariamente até a baía. Algumas vezes o golfinho apa­recia, embora jamais suficientemente próximo para que eu pudesse tocá-lo. E ainda que soubesse que no próprio benefício dele eu devia tentar amedrontá-lo e afugentá-lo, a sua presença amiga deliciava-me tanto que eu não podia forçar-me a cometer o que pareceria um ato de traição.

Mantive um olho alerta sobre o terraço do Castelo, mas não houve mais tiros nem qualquer boato de que um morador local, arma­do, andasse invadindo propriedades alheias. Eu nadava e observava dia após dia e jamais deixava a baía até que o golfinho finalmente sub­mergisse a caminho do mar alto.

Nada mais se ouviu de Spiro. Maria e a filha voltaram à Villa Forli na manhã seguinte à morte do irmão e continuaram estoica­mente a trabalhar. Miranda perdera a vivacidade gordota que a carac­terizava, parecia que chorava muito e sua voz e movimentos eram con­trolados. Pouco via Maria, que se conservava principalmente na cozi­nha, trabalhando silenciosamente com um lenço preto puxado sobre o rosto.

O tempo apresentava-se luminoso e quente mesmo na sombra, phyllida parecia bastante inquieta. Uma ou duas vezes acompanhou-me nos meus passeios exploratórios ou à cidade de Corfu. Certa noite, Godfrey Manning levou-nos ambas para jantar no Corfu Palace Ho­tel. De modo geral a semana passou tranqüilamente, enquanto eu me banhava no mar, sentava-me no terraço com Phyllida, ou tomava o pequeno carro e saía sozinha à tarde para explorar as vizinhanças.

Leo, o marido de Phyllida. não conseguira folga no fim-de-semana e o Domingo de Ramos passou sem visita dele. Phyllida acon­selhou-me a ir à cidade naquela manhã espiar a procissão de Domin­go de Ramos, que é uma das quatro ocasiões no ano em que o santo padroeiro da ilha, Spiridion, é retirado da igreja onde permanece todo o ano em um sacrário sombrio e esfumaçado pelas chamas dos círios, e conduzido pelas ruas num andor dourado. Não se trata da imagem do Santo, mas do seu corpo real, mumificado, levado em procissão. E isto, de alguma maneira, torna-o um tipo muito pessoal e caseiro de patro­no: os ilhéus acreditam que ele mantém Corfu e todos os seus habitan­tes sob sua guarda pessoal e sempre benevolente e que nada mais faz do que preocupar-se seriamente com os problemas dos moradores, por mais triviais que sejam — o que talvez explique por que, nos dias de procissão, mais ou menos toda a população da ilha congestione as ruas para vê-lo.

E o que é mais — disse-me minha irmã — é uma linda procissão e não apenas motivo para tagarelice das personalidades locais. E o trono dourado de São Spiro é realmente belo. Pode-se ver-lhe claramente o rosto através do vidro. Você pensaria que é alguma coisa de causar calafrios, mas não é, nem um pouco. Ele é tão pequeno e tão... bem, ele é uma espécie de santo muito familiar! — disse ela com uma risada. — Se você ficar muito tempo em Corfu vai acabar sentindo que o conhece pessoalmente. Ele toma conta muito bem da ilha: cuida da pesca, sopra o vento, observa o estado do tempo na época das colheitas, traz são e salvo os rapazes do mar. . . — ela parou e suspirou. — Pobre Maria. Não sei se ela vai hoje. Ela habitual­mente não a perde.

E você? — perguntei-lhe. — Tem certeza de que não quer vir comigo?

Ela sacudiu a cabeça.

            Ficarei em casa. Temos de ficar em pé durante muito tempo enquanto passa a procissão e há um bocado de empurrões. Calibã e eu ocupamos espaço demais. Volta para almoçar? Bem... divirta-se.

A pequena cidade de Corfú estava congestionada com a multidão dos feriados. Os sinos repicavam, altos, no ar. Colhida no rio de pes­soas que corria pelas ruas estreitas, vagueei feliz ao som dos sinos, a competir com o rugido contido das vozes e as explosões ocasionais de roucas cornetas de alguma janela de andar superior, onde a banda da aldeia fazia os afinamentos dos últimos instantes. As lojas estavam abertas, vendendo alimentos, doces e brinquedos, com vitrinas repletas de aves vermelhas de Páscoa, frangos, bonecas, cestas de minúsculas laranjas cristalizadas, ou coelhos enormes cheios de ovos de Páscoa. Alguém tentou vender-me uma esponja do tamanho de uma bola de futebol e outro convencer-me de que eu forçosamente precisaria de uma réstea de cebolas de um lustroso jumento avermelhado. Conse­gui, porém, continuar leve e logo depois cheguei à Esplanada, a prin­cipal praça de Corfu. As calçadas já estavatn cheias. Logo que tentei acomodar-me na parte de trás, porém, os camponeses que deviam ter vindo à cidade no princípio da manhã e esperado horas ali abriram lugar para mim com gestos insistentes, quase me empurrando para a posição de honra.

Logo depois, em alguma parte, soou um grande sino e ouvi em seguida o som distante de bandas de músicas. A enorme multidão iicou quase silenciosa, todos os olhos voltados para a boca estreita da Rua Nikephoros onde brilhavam as primeiras bandeiras, lenta­mente subindo a rua ensolarada em direção à praça. Começara a pro­cissão.

Eu não sabia bem o que esperar um espetáculo simultaneamente estranho e interessante, pois estrangeiro algo para fotogra­far e, em seguida, esquecer até que, numa noite em casa, reexaminás­semos as fotografias. Na verdade, julguei-a profundamente comovente.

As bandas quatro delas, todas ricamente uniformizadas to­cavam mal e solenemente, cada uma delas uma música diferente. As bandeiras das aldeias, com legendas piedosas, eram toscamente pinta­das, enormes, e cruelmente pesadas. Os homens que as conduziam suavam e tremiam sob o peso. Os rostos dos garotos que os ajudavam tinham uma expressão de feroz e devotada seriedade. Havia variações nos uniformes dos escolares, que pouco tinham de convencionais, mas o padrão de beleza pessoal era tão alto que mal se notavam os casa­cos coçados dos garotos ou os sapatos baratos usados pelas moças. Os jovens soldados, nos seus uniformes de deixa-cair, com visível au­sência de limpeza e sincronização irregular, ainda assim exibiam, visivelmente, o encanto das duas Termopilas.

E jamais houve a menor dúvida de que tudo isso era feito em honra do Santo. Com todo o calor, nas congestionadas calçadas, a mul­tidão olhava em silêncio, sem se mover ou empurrar. Não havia po­liciais, como teria havido em Atenas: este era o próprio Spiridion deles, o patrono da ilha onde moravam, que saíra à luz do sol para abençoá-los.

E lá veio ele. O Arcebispo, um barba-branca de noventa e dois anos, caminhava a frente, seguido por dignatários da Igreja embru­lhados em mantos de cor de açafrão, brancos e rosados que brilhavam esplendidamente ao sol até que, ao passarem mais perto, viam-se os remendos, esfregados e desmaiados, e os cerzidos. Em seguida, apro­ximou-se a floresta de altas velas brancas, todas com sua coroa dou­rada e guirlandas de flores, de onde pendiam e flutuavam lanternas

douradas e, abrigado do sol pelo pálio, o andor dourado, com o próprio Santo sentado para que todos o vissem; uma pequena e murcha mú­mia, a cabeça inclinada para o lado esquerdo, as feições mortas lisas e informes, uma configuração de sombras por trás do vidro brilhante. Em torno de mim, mulheres fizeram o sinal da cruz e moveram oslábios. O santo e os acompanhantes pararam para as orações e a música emudeceu. No Velho Forte um canhão troou em saudação e, enquanto morria o eco, uma revoada de pombos passou, com as asas farfalhando no silêncio da manhã.

Fiquei olhando as fitas coloridas a brilhar no sol, as guirlandas de flores que começavam já a murchar, tortas e penduradas das velas coroadas, a velha mão levantada do Arcebispo e os rostos dos campo­neses junto a mim, extasiados e brilhantes sob as coifas brancas. Sur­presa, senti um aperto na garganta como se fosse chorar.

Uma mulher soluçou em súbita e incontrolável infelicidade. O som subiu no silêncio e eu olhei de esguelha antes de poder controlar-me. Era Miranda. Ela estava a alguns metros de mim, atrás da mul­tidão, com os olhos febris no andor, os lábios se movendo enquanto ela se benzia repetidamente. Havia emoção e sofrimento no seu rosto, com se ela estivesse repreendendo o santo pela negligência. Nada ha­via de irreverente em tal pensamento: a religião grega baseia-se em coisas simples assim. Acho que a velha Igreja conhecia a grande sa­tisfação emocional de se pôr a culpa direta e pessoalmente onde ela devia estar.

Passou a procissão e a multidão começou a dissolver-se. Vi Mi­randa recuar como se envergonhada das lágrimas e afastar-se rapi­damente. A multidão começou a desfilar novamente pelas ruas prin­cipais. Eu me deixei levar até a Rua Nikephoros, em direção ao es­paço aberto nas proximidades do porto, onde estacionara o carro.

À meio caminho, a rua abre-se numa pequena praça. Por acaso vi novamente Miranda, sob uma árvore, de costas para mim, com as mãos no rosto. Pensei que ela chorava.

Hesitei. Um homem, porém, que estivera vagueando por ali, ob­servando-a, atravessou a praça e falou-lhe. Ela nem se moveu nem deu sinal de que o ouvira. Ficou parada, com as costas para ele a cabeça baixa. Não lhe pude ver o rosto, mas notei que era moço, de aparência forte e graciosa que o azul-marinho da roupa domingueira barata não conseguia macular.

Ele se aproximou mais por trás da moça, falou-lhe e, pareceu-me, com uma espécie de insistência persuasiva. Pelos seus gestos fi­quei com a impressão de que ele queria que ela o acompanhasse por uma das ruas laterais, afastando-se da multidão. Mas, a essa suges­tão ela sacudiu a cabeça e vi-a puxar rapidamente a ponta do lenço e procurar esconder o rosto, numa atitude de tímido desvalimento, quase de covardia.

Dirigi-me rapidamente para eles.

            Miranda? Srta. Lucy. Eu tenho o carro aqui e vou voltar. Gostaria que eu a levasse para casa?

Ela se voltou. Sobre o lenço, os olhos pareciam inchados de lá­grimas. Ela inclinou a cabeça sem falar.

Eu não olhava para o jovem, supondo que ele agora deixaria de incomodá-la e desapareceria na multidão. Ele, porém, voltou-se, ex­clamando como que aliviado.

            Oh, muito obrigado! É muito gentil de sua parte. Ela não devia ter vindo, naturalmente... e agora não haverá ônibus durante uma hora! É claro que ela tem de ir para casa.

Olhei-o fixamente, não por ter ele assumido, com tanta calma, responsabilidade pela moça, e nem mesmo pelo seu inglês quase per­feito, mas simplesmente pela sua aparência.

Num país onde a beleza entre os jovens é comum, ele era notá­vel. Possuía as belas feições bizantinas, a pele clara e os grandes olhos sombreados por longas pestanas que nos encaram das paredes de todas as igrejas da Grécia. O tipo que El Greco imortalizara e que ain­da hoje, reconhecivelmente, anda pelas ruas. Não que esse jovem me conformasse em tudo, com exceção dos olhos brilhantes e da estrutu­ra inesquecivelmente perfeita do rosto: nada havia ali da melancolia e fraqueza que (compreensivelmente) tende a afligir as pessoas san­tas que passam os dias a olhar-nos do reboco das paredes das igrejas — as bocas de lábios finos, as cabeças humildemente inclinadas, o ar de resignação e surpresa com que o santo bizantino corretamente olha este pecaminoso mundo. O jovem tinha, realmente, o ar de quem en­frentara o mundo pecador durante alguns anos, mas, evidentemente, havia-o apreciado imensamente e provado alegremente de grande parte do que ele tinha a oferecer. Não um santo de gesso da igreja, esse rapaz. E nem um dia mais, pareceu-me, além dos dezenove anos.

Os belos olhos examinavam-me com a franca avaliação dos gregos.

            A senhorita deve ser Lucy Waring?

Oh, sim — respondi surpresa e, subitamente, compreendi quem ele teria inevitavelmente de ser. — Você é... o Adônis?

Não pude, por mais que me esforçasse, pronunciar o nome sem o embaraço que sentira ao chamar um de meus compatriotas de Vênus ou Cupido. O fato de na Grécia encontrarmos diariamente um Péricles, uma Aspázia, uma Elétra ou mesmo um Alcebíades, não ajudou em absoluto. Foi a expressão que o fez.

Ele sorriu. Possuía dentes muito brancos e pestanas de uns dois centímetros e meio de comprimento.

É demais não é? Na Grécia nós pronunciamos Adoni. (Ele pronunciou a palavra como À-thoni.) — Talvez lhe fosse mais fácil dizer assim, não? Não pareceria tão tolo.

Você sabe demais pela metade! — disse-lhe involuntariamente e com ar bastante natural. Ele riu e calou-se imediatamente.

Onde está o seu carro, Srta. Waring?

            Lá embaixo, perto do porto. — Olhei duvidosamente para a rua congestionada e logo para a cabeça curvada da moça. — Não está longe, mas há essa horrível multidão.

— Podemos ir até lá por uma rua secundária — ele indicou uma estreita abertura num dos cantos da praça, onde degraus desciam para uma sombra entre duas altas casas.

Olhei novamente de relance para a moça silenciosa, a esperar pas­sivamente.

— Ela virá — disse Adoni e falou-lhe rapidamente em grego. Voltou-se então para mim e começou a conduzir-nos através da praça e até os degraus. Miranda seguiu-nos, mantendo-se um pouco atrás.

            Foi um erro dela vir — sussurrou-me ele no ouvido — mas ela é muito religiosa. Ela devia ter esperado. Mal passou uma semana desde que ele morreu.

            Você o conhecia bem, não?

            Ele era meu amigo — ele ficou sério como tivesse dito tudo o que devia. Como eu pensei que disse.

            Sinto muito — disse-lhe.

Caminhamos durante algum tempo em silêncio. As ruelas esta­vam desertas salvo pelos gatos magros e aves em gaiolas penduradas nas paredes. Aqui e ali, onde uma abertura nas casas deixava cair uma brilhante réstea de luz sobre as lajes, gatos empoeirados esquentavam-se em canteiros de malmequeres ou uma velha espiava de portas escuras. O cheiro de cozinha a carvão flutuava no ar quente. Nossas passadas ecoavam contra as paredes, enquanto das ruas principais nos chegavam em ondas o som de conversas e gargalhadas, abafadas em­bora, como o rugido de um rio numa distante garganta. Finalmente, nosso caminho abriu-se numa alameda mais larga e uma longa escada­ria de degraus rasos que descia pelo lado de uma igreja diretamente até o porto, onde eu deixara o pequeno Fiat de Phyl.

Havia ali também grupos, mas desta vez magotes de pessoas, andando intencionalmente em busca de transporte para casa ou da refeição do meio-dia. Ninguém nos prestou atenção.

Adoni, que aparentemente conhecia o carro, abriu caminho com os ombros pelos grupos e estendeu-me a mão para as chaves.

Quase tão humildemente como Miranda (que não pronunciara ainda uma só palavra) entreguei-as. O nosso acompanhante abriu as portas e ajudou-a a entrar no compartimento traseiro. Ela entrou de cabeça baixa e acomodou-se no fundo do assento. Perguntei-me, algo divertida, se esse jovem dominador tencionava levar-nos guiando até em casa e se Phyl se aborreceria mas ele nenhuma tentativa fez. Fechou a porta do motorista quando entrei e sentou-se ao meu lado.

            A senhora já está acostumada ao nosso tráfego?

Oh, sim se êle queria saber se eu me acostumara a guiar do lado direito da estrada, eu estava. Quanto ao tráfego, nada havia em Corfu que valesse a pena mencionar: se eu encontrasse um cami­nhão e meia dúzia de jumentos numa excursão típica vespertina, isto seria o máximo. Mas naquele dia havia o congestionado e borbulhante quarteirão do porto e, possivelmente por esse motivo, Adoni nada mais disse enquanto serpenteamos pelos grupos e ganhamos a estrada em direção ao norte. Subimos uma íngreme ladeira em curva fechada e entramos na estrada aberta entre altas olaias e asfódelos. A super­fície da estrada apresentava-se em certos trechos cheia de buracos oca­sionados pelas chuvas e eu tive de guiar com cuidado. A terceira mar­cha era barulhenta. Sob a proteção desse ruído, disse tranqüilamente a Adoni:

Será que Miranda e a mãe poderão sustentar-se agora que Spiro morreu?

Alguém tomará conta delas disse ele impassível e com completa confiança.

Fiquei surpresa e também curiosa. Se Godfrey Manning tivesse feito uma oferta, êle teria certamente contado a Phyllida. Além disso, o que quer que resolvesse dar a Maria agora, ele dificilmente pensaria que lhe devia esse tipo de indenização. Mas se Julian Gale as sus­tentasse, como alegara Phyllida, isto talvez significasse que era verda­deira a história sobre a paternidade dos gêmeos. Eu teria sido menos, do que humana se não sentisse um desejo irresistível de saber. Fiz uma sondagem cautelosa.

Fico muito satisfeita em saber disso. Eu não sabia que elas tinham outros parentes.

Bem — disse ele — há Sir Gale, de certa maneira, mas não estou falando dele ou de Max. Quero dizer, eu mesmo cuidarei delas.

            Você?

Ele inclinou a cabeça e eu notei que ele olhava de esguelha sobre o ombro para Miranda. Observei-a pelo espelho; ela nenhuma aten­ção prestava à nossa baixa conversa em inglês, que, de qualquer ma­neira, era rápida demais para que ela a acompanhasse. Olhava sim­plesmente, embotada, para fora da janela, evidentemente a quilôme­tros de distância. Adoni inclinou-se e pôs um dedo no botão do rádio, um aparelho sem o qual nenhum carro grego ou italiano parece jamais em condição de estrada.

Dá licença?

Naturalmente.

Algum cantor popular da Rádio Atenas mugiu debaixo do painel. Adoni disse-me tranqüilamente:

            Vou casar com ela. Não haverá dote, mas isto não importa. Spiro era meu amigo, e a pessoa tem obrigações. Ele economizava para dar-lhe um dote, mas agora que morreu, é a mãe que deve guardá-lo. Eu não posso aceitá-lo.

Eu sabia que segundo os velhos contratos nupciais gregos a moça trazia bens e terras e o rapaz nada mais senão a virilidade. E consi­derava-se isso uma boa troca; famílias com uma boa safra de filhas casadouras, porém, haviam sido reduzidas ao pauperismo antes, e Mi­randa, nas circunstâncias em que se encontrava, dificilmente poderia ter esperança de casamento. E agora esse belo rapaz calmamente ofe­recia-lhe um contrato que qualquer família teria aceito com prazer e em que, além disso, ele fornecia todo o capital: quanto à virilidade certamente não haveria dúvida e, além disso, possuía um bom em­prego num país de trabalho escasso. E se eu fosse uma boa juíza de caráter, ele a manteria. O belo Adoni teria sido uma pechincha qual­quer que fosse o critério. Ele sabia disso, naturalmente, e teria sido um tolo se não soubesse. Aparentemente, porém, ele sentia que tinha um dever a cumprir para com o amigo morto e, pelo que eu vira dele, ele o cumpriria inteira e eficientemente para satisfação de todos os interessados — e não no mínimo de Miranda. Além disso, (pensei pro­saicamente) Leo provavelmente lhes daria um belo presente de casa­mento.

Naturalmente — acrescentou Adoni Sir Gale pode dar-lhe um dote. Não sei. Mas não faria diferença. Eu a aceitarei. Eu não lhe disse ainda. Mais tarde, quando for mais apropriado, direi a Sir Gale e ele arranjará as coisas.

Eu... sim, naturalmente. Espero que vocês dois sejam muito felizes.

            Muito agradecido.

Sir Julian é... — disse eu. — Ele então se considera responsável por eles?

Ele foi padrinho dos gêmeos — ele me olhou de esguelha. — Acho que vocês têm o mesmo costume na Inglaterra, não? Mas um pouco diferente? Aqui na Grécia, o padrinho, o koumbàrous, é pessoa muito importante na vida da criança, freqüentemente tão importante como o pai real. E é ele quem negocia o contrato nupcial.

Compreendo — simples assim. — Eu sabia que Sir Julian conhecera a família durante anos e batizara os gêmeos, mas não sabia que ele... bem, tinha responsabilidade. O acidente deve ter sido tam­bém um choque terrível para ele — e acrescentei embaraçada: — Como está ele?

Está bem. Já foi apresentada a ele, Srta. Waring?

Não. Pelo que sei ele não quer contatos com pessoa alguma.

Ele não sai muito, é verdade, mas desde o verão tem recebido visitas. Mas a senhora conheceu Max, não?

Sim — nada havia na voz de Adoni a sugerir que ele sabia algo a respeito daquele encontro, mas desde que o chamara de Max, sem o tratamento de senhor, podia-se presumir relações bastante infor­mais para que Max lhe tivesse contado o ocorrido. De qualquer modo, ele era o fiel mastim que atirava intrusos pelo penhasco. Sem dúvida ele ouvira falar no caso... e poderia mesmo ter recebido ordens a respeito de futuras invasões da Srta. Lucy Waring.

Acho que ele também não gosta de contatos com pessoa alguma — acrescentei com cara de pau.

Bem, depende — disse Adoni alegremente. Tirou um pano de alguma parte sob o painel e começou a polir a parte interna do vidro. — Não que isto ajude muito. Os insetos são esmagados do lado de fora. Estamos quase chegando. Se quiser, pode parar e eu guiarei até lá.

            Não é preciso. Muito obrigado.

Foi essa a altura máxima a que cheguei. Miranda parecia, de qualquer maneira, estar ressuscitando. O assento traseiro rangeu quan­do ela se moveu. Pelo retrovisor notei que puxara o lenço para trás e observava a nuca de Adoni. Algo em sua expressão, tornada indis­tinta embora pelas lágrimas, indicava que eu tivera razão a respeito do provável sucesso do casamento.

            Você algumas vezes atira ao alvo, Adoni? — perguntei no torn alegre de quem muda o assunto para um terreno neutro.

Ele riu, sem se deixar enganar.

            A senhora está ainda procurando pelo criminoso? Acho que a senhora deve ter-se enganado... Não há grego que atire num gol­finho. Eu também sou marinheiro... todos os corfiotas são marinhei­ros... e o golfinho é a criatura que anuncia o bom tempo. Nós cha­mamos o verão de "tempo do golfinho", a época em que eles acompa­nham os barcos. Eu, não. Atiro apenas em gente.

—            Gente?

            Isto foi piada — explicou Adoni. — Chegamos. Muito obri­gado pela carona. Eu levarei Miranda até a mãe dela agora. Depois, prometi voltar ao Castelo. Max quer sair hoje à tarde. Talvez a senho­ra apareça dentro em breve, não?

            Muito obrigada, mas eu... Não. Duvido que vá até lá.

            Será uma pena. Enquanto estiver aqui, precisa ver o laranjal; é alguma coisa especial. Já ouviu falar das koúm koyàts... as árvores em miniatura? São muito interessantes — aquele rápido e encantador sorriso. — Eu gostaria de mostrá-las à senhora.

Talvez em alguma outra ocasião.

Espero que sim. Vamos, Miranda.

Engrenando o carro, vi-o introduzir a moça silenciosa pela porta da casa da mãe como se já fosse o dono do lugar. Suprimindo uma violenta — e, certamente, primitiva — inveja de alguém que simples­mente tinha os problemas retirados de suas mãos e resolvidos, quer quisesse quer não, coloquei o meu próprio independente e emancipado pé no acelerador e o pequeno Fiat saiu corcoveando pelos buracos da estrada, descendo a curva até a Villa Forli.

Se pelo menos Max Gale saísse eu poderia nadar em paz naquela tarde.

Desci após o chá, quando o calor diminuía e o penhasco lançava uma sombra em forma de crescente sobre a beira da praia.

Mais tarde, vesti-me, apanhei a toalha e comecei a subir lenta­mente o caminho de volta à vila.

Ao chegar à pequena clareira onde havia a pequena poça, parei um momento para recuperar a respiração. O gotejar do regato pareceu-me frio e belo. O sol pintalgava de ouro o chão através das folhas de jovens carvalhos. Uma ave cantou em alguma parte, mas somente uma. O bosque estava silencioso, encompridando-se pelas sombras rio calor de fim da tarde. Abelhas enxameavam junto à água, sobre uma praia de margaridas. Um chapim azul atravessou voando a clareira, obviamente muito apressado, com o bico cheio de insetos, a caminho do ninho familiar.

Um momento depois ouvi o guincho, um grito de terror de ave e, em seguida, as rápidas imprecações do papai chapim. Outras pe­quenas aves juntaram-se à algazarra. Os guinchos de terror corta­vam o bosque silencioso. Deixei cair a toalha na grama e corri para o ponto de origem do ruído.

Os chapins azuis, os pais, encontraram-me a meio caminho, ba­tendo as asas e guinchando, quase me tocando enquanto eu subia o caminho coleante e entrava num trecho aberto de grama rala, no palco da tragédia.

Não teria havido coisa mais fácil do que identificar o local. A primeira coisa que vi quando irrompi entre as moitas foi um magní­fico gato persa branco, pitorescamente agachado, pronto para o salto, a cauda balouçando para frente e para trás na grama rala. A dois metros do nariz dele, pipilando insanamente e incapaz de mover-se um centímetro, um pequeno chapim azul. Os pais emitindo gritos an­gustiados mergulhavam repetida e ineficazmente contra o gato, que não lhes dava a menor atenção.

Fiz a única coisa possível. Mergulhei sobre o gato numa interceptação de futebol, segurei-o levemente pelo corpo e levantei-o. Os chapins passaram por mim, com as asas tocando-me de raspão as mãos. O pequenino estava agora imóvel como um cadáver e nem mesmo pipilava.

Acho que poderia ter-me esfolado muito, mas o gato branco pos­suía nervos de aço e excelentes maneiras. Cuspiu furiosamente, o que era de ser esperado, e contorceu-se para livrar-se, mas sem me ar­ranhar nem de leve. Coloquei-o no chão, falando-lhe tranqüilamente até que ele se acalmou. Em seguida, levantei-o e voltei-me enquanto atrás de mim os pais mergulhavam para salvar o nenê.

Andando em rodeios pelas moitas levei apressadamente o cativo para fora da clareira antes que ele tivesse oportunidade de ver para onde iam as aves. Muito longe de queixar-se, o gato parecia agora muito satisfeito com a atenção: tendo sido obrigado a curvar-se a force majeure, ele conseguira à maneira de sua espécie dar a impres­são de que realmente preferia ser carregado... E quando, logo depois comecei a subir uma ribanceira de fetos que a cada passo tornava-se mais íngreme, ele começou mesmo a ronronar. Isto era demais. Parei.

— Vou-lhe dizer uma coisa — comecei — você pesa uma tonelada. Você pode muito andar, Butch, a partir de agora! E tenho a esperança de que saiba o caminho de casa, porque não vou deixar você voltar para pegar aqueles passarinhos!

Coloquei-o no chão. Ainda ronronando, ele se esfregou em mim umas duas vezes e, em seguida, subiu a ribanceira na minha frente, a cauda alta, até um lugar onde as moitas rareavam o bastante para deixar passar um brilhante raio de sol. Lá parou e virou-se para olhar-me lá embaixo antes de desaparecer em passos medidos.

Ele sabia o caminho, nenhuma dúvida a esse respeito. Esperando que houvesse um caminho lá em cima que me livrasse das moitas emaranhadas, subi penosamente atrás dele e cheguei a uma grande clareira, transbordante de luz, zumbidos de abelhas e uma explosão de flores que me fez estacar, boquiaberta.

Após a escuridão pintalgada de luz do bosque eu precisava de alguns momentos antes de fazer outra coisa que não pestanejar na­quele ofuscamento de cores. Diretamente a minha frente pendia uma cortina de glicínios de uns cinco metros, como que se derramando sobre as rosas, embaixo. De um dos lados, um magote de olaias purpurinas e flores de macieira brilhavam com as asas de ocupadas abelhas. Lilases copos-de-leite cresciam num canto úmido, além de outras varie­dades com pétalas que pareciam de pergaminho dourado, transpa­rentes à luz. E, por toda parte, rosas. Grandes moitas delas subiam pelas árvores; um abeto azul estava quase sufocado com os borrifos de rosas persas vívidas. Uma moita densa de rosas brancas e frisa­das devia ter uns três metros de altura. Havia rosas musgosas, rosas almiscaradas, rosas adamascadas, rosas pintalgadas e listradas, e uma velha rosa vermelha que parecia ter saído diretamente de um manus­crito medieval, hemisférica, como se uma faca a tivesse cortada em dia­gonal, com centenas de pétalas tão enroladas e coladas umas às ou­tras como as camadas de uma cebola. Haveria ali de vinte a trinta variedades, todas em plena eflorescência; velha rosas, plantadas havia anos e que voltaram ao estado selvagem, em algum secreto jardim cuja chave se perdera. O lugar mal parecia real.

Devo ter ficado absolutamente imóvel durante minutos, olhando em volta, ofuscada pela luz e pelo perfume. Eu esquecera que rosas podiam ser assim tão perfumadas. Um ramo cor de carmim pintal­gado raspou-me a mão. Cortei-o e levei-o ao rosto. Na profundidade das folhas, no buraco que abri, notei a borda de uma velha placa de metal. Cautelosamente, enfiei a mão entre os espinhos. Estava coberta de espessos liquens, mas o nome gravado sobressaía claramente: Belle de Crécy.

Eu sabia onde estava agora. Rosas: outras das diversões do avô de Leo. Phyl possuía alguns dos seus livros na vila e eu lhes virara as folhas preguiçosamente na noite passada, admirando as lâminas e ve­lhos nomes que elas evocavam, como poesia, dos jardins da França, Pérsia, Provença... Belle de Crécy, Bele Isis, Deuil du Roi de Rome, Rosemunde, Camaieux, Ispahan...

Os nomes todos estavam lá, profundamente oculto nas folhas luxuriantes onde algum predecessor de Adoni os havia colocado há um século. O gato branco, fazendo pose em frente a um elegante fundo de fetos escuros, observava-me benevolentemente enquanto eu as pro­curava, enchendo as mãos de rosas saqueadas. O perfume era tão in­tenso como um entorpecente. O efeito geral era o de ter saído do bos­que profundo e penetrado numa história de fadas. Quase que se es­perava que o gato falasse.

Ao ouvir a voz, inesperada, de algum lugar lá em cima, quase per­di a cabeça. Era uma voz bela que antes aprofundou do que quebrou o encantamento. E falou, além disso, em poesia, tão deliberadamente elegante como o gato branco:

"Com certeza a deusa a quem esses ares atendem! Concedei-me minha oração para que eu saiba se de fato estais nesta ilha.

Levantei cautelosamente os olhos, nada vendo de início. Em se­guida, a cabeça de um homem apareceu sobre a cortina de glicínios e somente então compreendi que a cortina de flores pendia realmente de alguma espécie de alto muro de apoio, que escondia. Vi entre as espessas moitas de flores partes da balaustrada do castelo. O jardim de rosas fora plantado em aclive diretamente ao lado. Quis voltar-me e fugir, mas a voz aprisionou-me. Não preciso dizer que não era Max Gale. Eu ouvira muitas vezes essa voz desenrolando guirlandas de en­cantamento na escuridão abafada dos teatros londrinos.

"A minha principal súplica" acrescentou Sir Julian Gale "que por último pronuncio", e que a senhora realmente julgar im­pertinente, oh maravilha! Sois uma donzela ou não?"

Acho que se o tivesse conhecido normalmente no terreno comum do teatro eu teria ficado talvez tão transida de respeito que pouco mais faria do que gaguejar. Mas, aqui, pelo menos, a resposta constava do texto e tinha, além disso, a vantagem de ser a verdade. Apertei os olhos contra a luz do sol e sorri para a cabeça.

 

"Não é de espantar, senhor,

Mas, certamente, uma donzela."

 

—            Minha própria linguagem! Céus! — o ator abandonou brus­camente o Bardo e pareceu satisfeitíssimo. — Eu tinha a certeza! Você é a intrusa de Max!

Senti-me ruborizar.

            Sinto muito, eu mesmo, e parece que estou invadindo nova­mente a propriedade. Sinto horrivelmente. Eu não sabia que o terraço ficava tão próximo. Eu não teria sequer mesmo sonhado em vir até aqui em cima, mas eu estava salvando uma ave do Butch aqui.

            De quem?

Do gato. É seu? Acho que ele tem algum nome terrivelmente aristocrático como Florizel, ou Cósimo del Fiori.

Para dizer a verdade — respondeu Tulian Gale — eu o chamo Nit. Sinto muito. É um apelido de Nitwit e quando você o conhecer bem, verá por quê. Ele é um cavalheiro, mas tem muito pouco cére­bro. Bem, agora que está aí, par que não sobe?      

Oh, não! — respondi rapidamente, recuando um pouco. — Muito obrigada de qualquer maneira, mas eu tenho de voltar.

Eu não posso acreditar que haja toda essa presa. Você não terá, por favor, um pouco de pena de mim e sacudirá um pouco esta calma de sábado? Ah! — ele se inclinou um pouco mais. — Não apenas intrusão, pelo que vejo, mas roubo também! Você esteve me roubando as rosas!

Essa declaração, pronunciada na voz cujo menor murmúrio era claramente audível nas últimas filas do balcão, revestia-se de toda a força de uma acusação feita diante do Alto Presidium. Sobressaltei-me, sentindo-me culpada, olhei para as flores esquecidas na mão e gaguejei:

            Bem, sim. Eu... eu. Oh, diabo... Eu jamais pensei. — Quero dizer, pensei que fossem flores silvestres. O senhor sabe, plantadas há séculos e deixadas. . . — hesitei e, olhando em volta, vi o que não observara antes, que as moitas, a despeito de sua aparência tumultua­da, eram bem formadas e que as bordas dos caminhos cobertos de mus­go estavam cuidadosamente podadas. — Acho que este jardim é agora seu ou coisa assim? Sinto terrivelmente!

            Ou coisa assim? Deus meu, ela colhe uma braçada das minhas belas Gallicas e então acha que elas vêm de meu jardim, ou coisa assim! Isto resolve o assunto, jovem. De acordo com todas as re­gras, você tem de pagar uma prenda. Se a bela entra por acaso no jardim da Fera, literalmente carregada de rosas, ela está querendo barulho, não? Venha, agora, e sem reclamar! Os degraus estão ali. Nit trará você. Nitwiti! Mostre o caminho à senhora.

O gato branco levantou-se, pestanejou em minha direção e, em seguida, trepou de maneira cuidadosamente descuidada pelos glicínios e mergulhou diretamente nos braços de Julian Gale. Ele se endireitou, sorrindo.

            Eu lhe disse que ele não tinha lá muito cérebro? Eu o calu­niei. Você acha que pode fazer alguma coisa parecida?

O seu encanto, o encanto que fizera Phyllida cair por ele "como uma tonelada de tijolos", estava produzindo efeito. Acho que esqueci inteiramente o que ele me contara a respeito dele.

No meu jeito cansado e esforçado, talvez pudesse — disse rindo.

Então, venha.

A subida era um lance de degraus rasos, meio ocultos por uma moita de Yorks Lancasters. Enrolavam-se em torno da base de uma estátua esverdeada pelo musgo e trouxeram-me por entre dois cipres­tes enormes até o terraço.

Julian Gale pôs o gato no chão e aproximou-se de mim.

            Entre, Srta. Lucy Waring. Como vê, já sei tudo a seu respeito. E este é o meu filho. Mas, naturalmente, vocês já se conhe­cem. ..

 

Pareceis, caro filho, um tanto inquieto, como quem sente medo.

Criai ânimo, Senhor...

Max Gale sentava-se à mesa coberta de papéis sob o pinheiro de pedra. Ao levantar-se, estaquei surpreendida.

Mas eu pensei que não o encontraria aqui! — comecei, sem saber como poderia ter dito coisa tão ingênua. Terminei ruborizando­-me violentamente e acrescentando, confusa: — Adoni disse...Eu pensei...Tenho certeza de que ele disse que você iria sair!

Eu estive fora, mas apenas até a hora do chá. Como está? Os seus olhos, mais indiferentes do que hostis, pousaram levemente "os meus e desceram para as rosas nas minhas mãos. Possivelmente apenas para dissipar a incómoda e embaraçosa pausa, êle perguntou: Adoni estava no jardim?

Notei que os olhos de Sir Julián passavam rapidamente de um rosto para outro.

            Não estava, ou a teria impedido de saqueá-lo! Ela fez uma boa colheita, não acha? Pensei que ela devia pagar uma prenda à la Bela e a Fera. Dispensaremos o beijo, sendo ela conhecida tão re­cente, mas ela terá de ficar e tomar uma bebida conosco, pelo menos!

Pensei que o jovem hesitava. Ele relanceou os olhos para a mesa como se nela procurasse encontrar logo uma desculpa. Não preci­sava olhar longe; a mesa estava coberta com garatujadas partituras manuscritas, cadernetas de notas, pilhas de papéis e, na cadeira ao lado, um gravador de onda corria um fio pelos grandes lajes do pátio até uma janela francesa aberta.

Muito obrigado disse eu rapidamente mas eu não posso, realmente...

Você não está em condições de recusar, jovem! — os olhos de Sir Tulian tinham um brilho de divertimento, mas era impossível saber se diante da minha relutância ou da do filho. Ora, meia hora divertindo um recluso é um pequeno preço a pagar pela pilhagem. Há xerez, Max?

Sim, naturalmente a inexpressividade da voz podia ser, afinal de contas, apenas resultado de comparação com a voz do pai. Acho que não podemos escolher muito, Srta. Waring. Gosta de xerez seco?

Bem... eu hesitei. Teria de ficar agora. Dificilmente po­deria dar-me ares com Sir Julian, que era, afinal de contas, o dono da casa e, além disso, eu não queria perder a oportunidade de conver­sar com um homem que estava no píncaro de minha profissão e que admirara e amara tanto quanto podia lembrar-me. — Na verdade, se houver, eu adoraria uma bebida longa, comprida e fria... Eu estive nadando até há pouco e estou realmente sedenta. Haveria por acaso suco de laranja, ou alguma coisa assim?

Você pergunta isto aqui? Naturalmente Max sorriu-me subitamente, com inesperado encanto, e entrou na casa.

Da mesma forma que na Villa Forli, altas janelas davam do ter­raço para alguma grande sala. Estavam todas fechadas para impe­dir a entrada do sol, menos aquela através da qual desaparecera Max Gale. Pela escura abertura pensei distinguir as silhuetas de um piano de cauda, o que parecia um grande gramofone e uma estante giratória. Nas duas prateleiras superiores empilhavam-se livros e discos.

            Sol ou sombra? perguntou Sir Julian, puxando uma espalhafatosa espreguiçadeira para mim. Escolhi o sol e ele se sentou ao meu lado, com a sombria parede de ciprestes além da balaustrada servindo-lhe de pano de boca da mesma maneira que os fetos haviam servido para o gato branco. Este, ronronando, saltou sobre os joelhos do ator, deu cuidadosamente duas voltas e acomodou-se, estirando as patas.

Os dois compunham um extraordinário quadro, Sir Julian não era — jamais fora — um homem bonito, mas era alto, do tipo físico a que as lágrimas podem acrescentar certo tipo de pesado esplendor. (Lembrava-me do seu Marco Antônio e de como. depois de inter­pretá-lo, todas as outras tentativas de encarnar o papel pareceram variações; tentativas, na verdade, de encarná-lo). Ele possuía o peito profundo e os ombros largos que costumam transformar-se em gordu­ra na meia-idade. A cabeça era o que comumente se chama de leonina — espesso cabelo grisalho, testa e nariz clássico e belos olhos cin­zentos — embora com uma ligeira sugestão de fraqueza no queixo, da qual nos distraía o encanto da boca rasgada. Os olhos pareciam in­chados e um pouco tensos. Notei também rugas de cansaço no rosto, que eu naturalmente jamais vira à luz do palco, linhas que podiam ser resultado de petulância ou vida desregrada, ou meramente conseqüên­cia da doença e perda de peso. Era difícil dizer em que ponto exato se localizava seu inegável magnetismo; seria, na verdade, difícil fazer uma descrição clara dele; o rosto era conhecido demais para isso, dissolvendo-se enquanto o olhávamos, em uma personagem depois de outra em que ele se transformava, como se ele existisse apenas como o víamos no palco — rei, louco, vendedor de seguros, soldado, almofadinha... como se ao deixar a moldura iluminada ele deixasse de existir. Era uma idéia inquietante quando nos lembrávamos de que ele, de fato, deixara a moldura. Se não podia ser ele mesmo agora, nada era.

Ele levantou os olhos pousados no gato, percebeu que eu o olhava fixamente e sorriu. Devia estar bastante acostumado a isso. O que ele não poderia compreender é que eu tentava encontrar-lhe no rosto e gestos alguma prova de tensão nervosa que justificasse os receios de Phyllida. Mas ele me pareceu absolutamente dono de si, relaxado, com as mãos (aquelas traidoras) imóveis e elegantemente postas — talvez postas com excessiva elegância — sobre o pêlo do gato.

Sinto muito — disse eu — por olhá-lo assim. Nunca estive tão perto do senhor antes. Geralmente quem fica são as pessoas das altas classes.

E eu elegantemente disfarçado por trás de vários quilos de barba postiça, envolvido em mantos e de cabeça coroada? Bem, aqui tem o próprio homem, a pobre e nua criatura que ele é. Não lhe per­guntarei o que pensa dele, mas você pelo menos deve dar-me sua opinião do ambiente onde o vê. O que é que pensa destes desmo­ronados esplendores?

O Castelo? Bem, desde que o senhor pergunta... Eu diria que não combina bem com o senhor. .. Seria um ambiente maravilho­so para uma peça gótica de suspense... Frankenstein. Os Mistérios de Rodolpho, ou coisas assim.

Seria mesmo, não? Tem-se a impressão de que o Castelo devia estar permanentemente envolvido em nevoeiro, com vampiros des­cendo pelas paredes... e não cercado de flores, da paz e do sol desta ilha encantada. Apesar disso, acho muito apropriado como local para onde retirar-se um ator decadente. E é realmente um céu de paz agora que Max proibiu a vinda de turistas por aqui.

Ouvi dizer que o senhor esteve doente. Lamento muito. Sen­timos uma falta enorme do senhor em Londres.

Sentiu, minha querida? Que gentileza a sua. Ah, Max, final-mente você chegou. A Srta. Waring pensa que esta casa constitui um ambiente perfeito para Frankenstein e o monstro.

Eu não pensei! Eu jamais disse... Eu certamente não me expressei dessa maneira!

Max Gale riu.

Eu ouvi o que você disse. De qualquer modo, você dificilmente poderia insultar este tipo de barroco amalucado. Loco rococo. Isto é laranjada fresca, serve?

Ótimo, muito obrigada.

Ele trouxera o mesmo para si e para o pai. Notei que a mão deste último, quando a estendeu para o copo, tremia violentamente. O filho colocou rapidamente uma pequena mesa de ferro ao seu al­cance, pôs o copo sobre ela, e encheu-o de suco gelado. Sir Julian voltou a pôr as mãos sobre o pêlo do gato, onde mais uma vez adquiriram a imobilidade de estátua. Eu tivera razão sobre o embaraço daquela pose. Mas não fora vaidade, a menos fosse o de ocultar uma fraqueza de que se sente vergonha.

Enquanto Max Gale serviu-me a bebida, fiz um gesto de colocar as rosas na mesa, mas ele descansou o jarro e estendeu a mão.

            Dê-me as rosas. Eu as colocarei na água até a hora de você

ir.

Então eu posso ficar com elas depois de pagar uma prenda?

Minha querida criança — disse Sir Julian — pode ficar com todas elas! Espero que não tenha levado a sério minha brincadeira. Foi apenas uma desculpa para que você subisse. Estou muito satis­feito de que tenha gostado tanto delas.

Eu as adoro. Parecem rosas de velhos quadros... o senhor sabe, rosas reais de velhos livros de história. O Jardim Secreto, A Bela Adormecida, de Andrew Lang, e As Mil e Uma Noites.

            É exatamente isso o que elas são. Essa aí foi encontrada num pavilhão da Pérsia onde Harum-al-Raschid talvez a tenha visto. Essa outra saiu do Romance da Rosa. E esta crescia no jardim da Fada Rosamunda, em Woodstock. E esta, segundo dizem, é a rosa mais antiga do mundo — as mãos estavam quase firmes quando as tocou uma por uma. — Você deve vir buscar outras quando estas morrerem. Eu as deixaria na sala de música, Max. É bastante frio lá... Agora, pague a prenda, Srta. Lucy Waring. Ouvi dizer que trabalha no tea­tro e uma das razões por que a atraí até aqui foi para ouvir os últimos mexericos. Os fatos eu posso ler nas revistas, mas os mexericos são muito mais divertidos... e, com muita freqüência, igualmente verdadeiros. Diga-me...

Não me lembro agora exatamente do que ele me perguntou e do que eu lhe contei, mas, embora eu andasse em círculos teatrais muito diferentes dos dele, eu sabia de muita coisa do que ocorria na cidade. E lembro-me de que, de minha parte, achei interessante ouvi-lo pro­nunciar, casualmente e de passagem, nomes que estavam tão acima do meu alcance como as nuvens sobre o Monte Pontokrator. Ele cer­tamente deu-me a impressão de que me considerava pessoa divertida, mas até quanto isso se devia ao seu próprio encanto, ainda hoje não sei. Sei apenas que, quando ele finalmente desviou a conversão para mim, pensei que este era o grande momento para onde ele conduzira toda a brilhante palestra.

E agora conte-me alguma coisa a seu respeito. O que é que está fazendo, e onde? E por que jamais nos encontramos antes?

Oh, céus, eu não estou absolutamente na sua divisão! Eu ape­nas cheguei ao West End, e como!

Parei. A última frase fora profundamente reveladora, não apenas dos fatos, mas também de sentimentos que eu não discutira nem mes­mo com Phyllida. Eu também tinha minhas vaidades.

            A peça saiu do cartaz? — enquanto a simpatia de um leigo teria doído, esse tom comum pareceu-me maravilhosamente consolador. — Qual era?

Disse-lhe e ele inclinou a cabeça.

            Exato. Era a predileta de McAndrew, não? Não uma aventura das mais sábias da parte de Mac, acho eu. Eu li a peça. Qual o seu papel? Qual era o nome dela, a garota que tinha aqueles ata­ques histéricos falsos durante todo o Segundo Ato.

Shirley. Sim. Eu estive podre.

— Nada havia na peça em que a gente pudesse se pegar. Aquele topo de fantasia disfarçando o realismo da classe operária precisa de uma seleção rigorosa e de sincronização perfeita... e não meramente

de um vômito verbal insopitável, se me desculpa a frase. E ele jamais pôde criar uma mulher. Notou isso?

E Maggie, em The Single End!

Você a considera uma mulher?

Bem... Acho que o senhor tem razão.

Sei o que digo quando lhe aconselho a não sentir-se culpada por causa de Shirley. O que virá em seguida?

Hesitei.

            Assim, então? — disse ele. — Bem, isto acontece. Você não sabe como foi sábia em deixar tudo e vir correndo para Corfu, en­quanto podia! Lembro-me... — ele mergulhou jeitosamente numas duas histórias maliciosas e muito engraçadas a respeito de um co­nhecido agente da década de trinta e um impudente jovem ator em quem reconheci sem dificuldade o próprio Sir Julian Gale. Quando ele ter­minou e todos nós rimos, descobri que estava replicando com algumas das minhas próprias experiências, que eu certamente jamais esperara achar engraçadas — e ainda menos contar a pessoa alguma. Bem, por alguma razão, senti uma espécie de libertação ao falar delas, até mesmo prazer, enquanto a sombra das seteiras do castelo avançava sobre as lajes cobertas de grama e Sir Julian Gale ouvia, comentava, e fazia perguntas, como se me tivesse atraído para seu terraço sem outro motivo do que o de ouvir a biografia de uma jovem atriz me­díocre que jamais desempenharia senão papéis secundários em toda sua vida.

Um ligeiro som interrompeu-me e levou-me a voltar-me rapida­mente. Esquecera Max Gale inteiramente. Não o vira sair novamente de casa, mas lá estava ele, sentado na balaustrada, bem ao alcance da voz. Eu não tinha a mínima idéia do tempo em que ele lá estava.

Somente então notei como a luz desmaiara. Minha prenda fora paga e era tempo de ir-me. Mas dificilmente poderia despedir-me em segundos, por assim dizer, depois de notar a presença de Max Gale. Inicialmente, deveria ter para ele algum gesto de civilidade.

Levantei os olhos para ele.

            Foi ver a procissão esta manhã, Sr. Gale?

Eu? Sim, fui. Vi-a na cidade. Conseguiu um bom lugar?

Fiquei na Esplanada, numa esquina junto ao Palácio.

Bastante... comovente, não achou?

            Muito — sorri. — Sendo músico, deve ter apreciado as ban­das.

Ele riu e imediatamente reconheci nele o pai.

            Muito. E quando as quatro tocam simultaneamente, é real­mente algo para se ouvir.

            O leitmotiv para a sua Tempestade, Max — disse o pai, aca­riciando o gato branco. — A ilha está cheia de ruídos.

Max sorriu levemente.

            Talvez. Embora eu tenha acanhamento de reproduzir alguns deles.

Sir Julian voltou-se para mim.

Meu filho está escrevendo a partitura da versão cinematográfica de A Tempestade.

É isso que vai ser? Que interessante! Acho também que o senhor veio ao lugar certo para escrevê-la. Foi por isso que escolheu Corfu depois de ter afogado seu livro em Stratford, Sir Julian?

Não, realmente. Foi tudo meramente fortuito. Conheço esta ilha de visitas ocasionais há trinta anos e tenho amigos aqui. Mas foi um acaso agradável que trouxe esse trabalho a Max enquanto estamos perdidos aqui.

O senhor pensa realmente que é a ilha de Próspero?

Por que não? — perguntou Sir Julian.

— Agora que você puxou o assunto... — disse Max, e riu.      Olhei-o, surpresa, e perguntei:

            O que é que eu disse de errado?

Nada. Absolutamente nada. Mas se você convida um homem para explicar uma teoria em que ele pensa há semanas, deve prepa­rar-se para uma conferência e, pelo brilho que vejo nos olhos de meu pai, nada pode salvá-la agora.

Mas eu adoraria ouvi-la! Além disso, o seu pai poderia fazer com que o catálogo telefônico parecesse com o Guerra e Paz, se qui­sesse. Assim, a teoria dele sobre A Tempestade deve ser alguma coisa! Não lhe dê atenção, Sir Julian! Por que é que o senhor pensa que esta ilha deve ser a de Próspero?

Você é uma moça encantadora — disse Sir Julian — e se quiser arrancar minhas rosas pela raiz e levá-las, mandarei Adoni ajudá-la. Não, pensando bem, Max pode fazer isso. Seria bom para ele fazer um pouco de autêntico trabalho em vez de flutuar por aí no limiar da insanidade, onde os músicos parecem viver... Quem foi que disse que o homem realmente sábio não é aquele que quer a coisa provada antes de acreditar nela, mas o homem que está disposto a acreditar em tudo até que se lhe prove a falsidade?

Eu não sei, mas parece-me a definição de um visionário ou de um gênio.

—            Todas as rosas — disse Sir Julian calorosamente. — Ouviu isso, Max? Minhas teorias sobre A Tempestade são as de um visionário e de um gênio.

            Oh, certamente respondeu o filho.

Êle se sentava ainda na balaustrada, inclinado contra a urna de pedra colocada num canto. Eu lhe observara disfarçadamente o rosto, procurando alguma semelhança com o pai, mas, exceto pelo porte e uma ou outra expressão ocasional, nada vi. Os olhos deles eram escuros, mais profundos nas órbitas, a boca mais reta e o rosto menos móvel. Pensei que havia também a sugestão de um temperamento neurótico nas leves rugas entre as sobrancelhas e na posição da boca. O cuida­doso apagamento em tudo o que ele dizia e fazia bem podia ser uma tentativa deliberada de controlar isso ou simplesmente evitar tirar vantagem do encanto do pai. Ao passo que Sir Julian parecia, por assim dizer, aproveitar automaticamente o máximo de suas palavras, Max despojava-se das suas. Pareceu-me que ele estava mesmo interessado em não despertar simpatias, enquanto o pai, conscientemente ou não, exibia a necessidade do ator de ser amado.

Não há prova de espécie alguma dizia Sir Julian a ligar esta ilha com a da peça, e não mais do que se quiséssemos provar que é a Scheria de Ulisses e Náusica. Mas em ambos os casos a tradição é forte e, quando as tradições persistem o suficiente, parece sensato concluir que talvez haja nelas algo que mereça investigação.

Schlieman e Tróia murmurou Max.

Exatamente — disse Sir Julian. Sorriu para mim naquele ines­perado sorriso tão parecido com o do filho. Bem, sendo como Schlieman um gênio e um visionário e estando resolvido a acreditar que Carfu é a ilha de Próspero, andei procurando evidências para provar minha tese.

E há alguma?

Talvez não evidências. Esta palavra é muito forte. Mas, logo que se começa a olhar, encontramos todos os tipos de paralelos fascinan­tes. Comecemos com os mais fáceis, a descrição dos detalhes natural da ilha, se é que consegue lembrá-los.

Acho que posso, com muita facilidade. A descrição do ambien­te é mais concreta do que as que encontramos habitualmente em Sha­kespeare, não acha?

Eu diria que mais do que em qualquer outra peça, com exceção de Vênus e Adônis. E a descrição que se pode depreender da peça ajusta-se perfeitamente a esta ilha: os pinheiros, terras lavradas, a fertilidade (poucas ilhas do Mediterrâneo são realmente férteis, como você sabe), as praias e baías, os laranjais do lado de fora da caverna de Próspero ele levantou a mão e apontou para um grupo de árvores verde-douradas ao lado dos pinheiros no promontório sul. São pequenas laranjeiras que crescem penhasco abaixo além da vila de Manning e toda a costa parece uma casa de abelhas de tantas caver­nas. Poder-se-ia dizer que todas essas coisas são encontradas em qual­quer ilha, mas, uma coisa não — os depósitos de sal de que Calibã falava, lembra-se?

Há alguns por aqui?

Sim, há em Korissia, ao sul. Existem há séculos.

E as castanhas e avelãs que ele prometeu desenterrar? Crescem por aqui?

Avelãs, certamente, e também castanhas, se ele tinha em mente o tipo inglês. E se ele se referia a trufas — como acredito — sim, elas também.

E os sagüis ? — perguntei acanhada, como alguém que faz uma pergunta de gosto duvidoso.

Sir Julian afastou os sagüis com um movimento da mão.

Uma confusão momentânea com os monstros bíblicos ainda existentes. Sem dúvida Ariel estava recitando uma bela frase de his­tórias de viagem e o pobre monstro ficou todo confuso.

Não se pode argumentar com um homem obcecado — disse Max. — Tenha paciência com ele, Srta. Waring.

Não farei nada disso! Se a teoria é válida, vale a pena defendê-la! E a história. Sir Julian? Comecemos do princípio, com o nau­frágio. Se o navio estava a caminho de Nápoles vindo de Túnis, não acha que Corfu ficaria um pouco longe da rota...

Ah, sim, encontramos a mesma dificuldade na história de Ulisses, onde supostamente ele remou — remou, preste atenção — de Scheria a Eubéia em uma única noite. Mas, na minha opinião, isto não elimina absolutamente a reivindicação de Corfu de ser Scheria. É uma verdade poética, o tipo de compressão que encontramos nos sete dias da Criação — supõe-se que os deuses ajudaram. O mesmo com o navio napolitano em A Tempestade. A tempestade foi tremenda, uma tempestade histórica. O navio foi desviado inteiramente da rota e poderia ter sido empurrado cegamente durante dias antes de chegar a estas costas rochosas. Não compreende que o que torna a história plausível é a sua própria improbabilidade?

Tenha piedade — disse o filho. — Claro que ela não pode compreender.

É muito simples. O fato de o navio ter terminado aqui, tão fantasticamente fora do curso, tornou necessário mais tarde explicar a tempestade como magia, ou, de alguma forma, sobrenatural.

Apenas um momento — disse eu rapidamente. — Os fatos? O senhor está querendo dizer que aquela história do naufrágio foi verdadeira?

Apenas que, como todas as lendas, poderia ter um fundo de verdade, da mesma forma que houve realmente um labirinto cretense e uma Tróia que queimou. Tenho o palpite estritamente como visio­nário de que houve realmente algum naufrágio espetacular por aqui, que deu fundamento à lenda.

Apenas um palpite? Não descobriu nenhuma história corfiota real, ou qualquer registro autêntico?

Não.

Então, por que aqui? Por que Corfu? Os seus detalhes geográficos não provam coisa alguma. Podem confirmar, mas dificilmente serão um ponto de partida.

Sir Julian inclinou a cabeça em assentimento, alisando a cabeça do gato com um dedo carinhoso.

            Eu comecei do lado errado. Eu devia ter começado não com os jatos, mas com a peça.. . a figura principal, Próspero. Na minha opinião, a concepção de caráter dele constitui a coisa mais notável na peça: êle usa uma espécie de resumo do ensaio de Shakespeare sobre o poder humano. Olhe só como ele é apresentado: uma figura paternal, um mágico que controla forças naturais como o vento e o mar, uma espécie de Maquiavel benevolente e sobrenatural que con­trola a ilha e todos os que nela vivem.

Ele concluiu com uma ligeira nota de indagação na voz e olhou-me com sobrancelhas levantadas, esperando minha resposta.

São Spiridion?

São Spiridion. Exatamente! — êle levantou os olhos para Max, como se exibisse a inteligência do aluno predileto. Notei que Max sorria levemente. Até mesmo o nome... Você notará a simi­laridade. E o apelido, Spiro, torna-o ainda mais parecido a sombra que lhe tocou o rosto desapareceu imediatamente. São Spiridion o seu corpo, isto é foi trazido para aqui em 1489 e logo depois fez reputação de realizar todos os tipos de mágicas, milagres, se quiser, especialmente mágica a respeito do tempo. Outro santo, uma mulher, foi trazida aqui com ele. A múmia dela está também na igreja na ci­dade, mas ela não arrebatou tanto a imaginação pública, e não con­segue nem uma procissão. Na verdade, nem mesmo me lembro do nome dela.

Eu tampouco ouvi falar nela.

Isto aqui é uma terra de homens disse ele com um sorriso. Mas ela pode muito bem ser a origem da idéia de Miranda, a filha do mágico. Ela dificilmente sobreviveria e passaria para a lenda meramente como companhia feminina, ou mesmo como esposa. Os mágicos não as possuem por motivos que acho que dariam um mara­vilhoso estudo, mas com as quais poderia discordar, Srta. Lucy.

            Eu sei, Dalila e companhia. Muito bem, não ficarei ressenti­da. É um mundo masculino. E se quer falar nisso, bruxas também não têm maridos, não as velhas e autênticas bruxas das histórias de fadas.

            Muito justo — concordou Sir Julian, reclinando-se na cadeira. - Bem, então você tem aí o seu ponto de partida, a ilha fabulosamente fértil de Corfu, sob a proteção de um Santo que se diz controlar o tempo. Agora, postulamos uma tempestade, uma tempestade histórica, em que algum importante navio — talvez mesmo levando alguns VIPs italianos a bordo — é afastado da rota e afunda por aqui, com os passageiros salvos do afogamento por algum evidente milagre que podia ser imputado ao Santo. A lenda, portanto, começa a crescer. Mais tarde, acrescentam-se os elementos germânicos das histórias de fada... a magia, a bela filha, os cararacteres imaginários — ele parou com um brilho travesso nos olhos que me encaravam. — Seria bom se pudéssemos ajustar os elementos aos fatos da história da ilha, não acha? Fiz o possível para compreender "essa bruxa maldita, Sycoraxe", de Argel, como uma espécie de personificação dos governantes maometanos que tinham aprisionado o poder celestial — Ariel — num pinheiro rachado até que o Santo mágico libertou-o... Mas acho que essa interpretação não convence.

Que pena! — disse eu, sem ironia alguma. Eu me estava divertindo imensamente. — E Calibã? Paganismo ou coisas assim?

Se quiser. Temos a brutalidade, a sexualidade e a poesia soberbamente sensível. E ele era certamente grego.

            Como é que conseguiu descobrir isso? — perguntei, surpresa. Ele deu uma risadinha.

Ele recebeu Próspero na ilha com "água em que boiavam amoras". Não conhece ainda o costume grego de receber a pessoa com geléia de morangos num copo de água?

Não, ainda não. Mas, realmente, essa explicação não convence! Podia ser até mesmo café! Em que é que isto o transformaria? Em francês!

Muito bem — replicou ele amavelmente — deixaremos o po­bre Calibã como um ser infernal em busca da graça. Bem isto é tudo — nesta altura o gato branco espreguiçou-se, flexionou as garras e bocejou alto. Sir Julian riu. — Você não devia ter-me encorajado. Nitwit ouviu toda esta história antes, e também, acho, o pobre Max.

Bem, eu não a tinha ouvido e é fascinante. A pessoa pode divertir-se interminavelmente. Terei de ler a peça novamente e procurar todas essas coisas. Eu gostaria de poder pensar que minha irmã tem um exemplar aqui.

Leve o meu — disse ele, imediatamente. — Deve estar em algum lugar em cima da estante, acho, Max... Muito obrigado — disse quando o filho saiu para ir buscá-lo.

Mas se o senhor está trabalhando nele... — disse eu rapidamente.

Trabalhando? — a palavra, distraidamente pronunciada como foi, pareceu-me fora de contexto. — Você acaba de ouvir com que serie­dade. De qualquer modo, eu uso uma edição Penguin quando traba­lho, uma que se pode marcar e arrancar as folhas... Ah, obrigado, Max. E eis aqui também as suas rosas. Este é o meu próprio exem­plar. Um pouco antigo e com uns rabiscos de anotações, mas acho que você talvez ignore isso.

Eu vira as notas a lápis. Segurando o livro como se fosse o exem­plar mestre da Blackfriars, com as anotações do autor nas margens, levantei-me. Sir Julian ergueu-se também. O gato branco, deslocado, saltou no chão e saiu do terraço em passos duros, com a dignidade ofendida, descendo novamente os degraus do jardim.

Eu tenho realmente de ir agora — disse-lhe. — Muito obri­gada pelo livro. Tomarei todo o cuidado com ele. Eu... eu sei que me demorei muito, mas, realmente, adorei estes momentos.

Minha querida criança, você nos fez realmente um grande bem. Gostei imensamente de sua visita e espero que volte brevemente. Como vê, há um limite ao volume de minhas conversas que Max e o gato suportam e é agradável ter novamente uma platéia de boas ma­neiras, e cativada. Bem, se tem mesmo de ir...

O bosque estava escuro com as sombras do anoitecer, que caíam rapidamente. O Sr. Gale acompanhou-me polidamente até o limite do jardim de rosas, e indicou o caminho que descia até a clareira onde estava a pequena lagoa. O belo Nitw estava lá, olhando sonhadora­mente para uma grande libélula que voejava em torno de algumas madressilvas. Max Gale levantou-o do chão, disse-me adeus e voltou rapidamente. Minutos depois, ouvi o som do piano. Logo depois, o bosque fechou-se sobre mim e nada mais ouvi.

O bosque era sempre tranqüilo, mas agora, com a escuridão a abafar o ruído dos galhos, ele parecia envolto numa silenciosa e pe­sada imobilidade que talvez anunciasse uma tempestade. O perfume das rosas pairava no ar como almíscar.

Descendo cuidadosamente o caminho, pensei na conversa que aca­bara de ter; não na teoria com que Sir Tulian estivera matando o tempo no exílio, mas nele mesmo e no que Phyl e Godfrey disseram a respeito dele.

O fato de ter havido e de haver ainda algo horrivelmente errado parecia evidente: não somente a evidência física, que até eu podia perceber, mas igualmente a atitude de vigilante tensão do jovem. Mas, contra isso podia-se contrapor a conversação recente, não o seu tom normal e mesmo alegre mas o uso de certas frases que me impressionaram. Falaria um homem que saíra recentemente de uma casa de doentes mentais tão casual e alegremente do limiar lunático habitado pelo filho? Um filho que, afinal de contas, tinha profundo interesse na sanidade do pai? E falaria o filho, por seu lado, da obses­são do pai e da necessidade de ter paciência com êle? Talvez, se a ne­cessidade fosse grande, seria esta a maneira de o Sr. Gale ladear uma situação potencialmente complicada? Será que aquele ar nervoso e atento dele era tanto por minha causa como por causa do pai?

Neste ponto, desisti. Mas não podia acreditar mais do que antes na idéia de Sir Julian vagueando armado de rifle pelo campo e repre­sentando um perigo para as pessoas. Antes disso, eu suspeitaria de Phyllida ou do próprio Godfrey Manning.

E (pensei) antes de qualquer pessoa, eu suspeitaria de Max Gale.

Ouvi o gotejar da água e vi em frente de mim a clareira entre as árvores e a pequena lagoa. No mesmo momento, percebi um ruído estranho, novo para mim, mais ou menos como o cacarejar e o pairar de um grupo de galinhas. Pareceu-me que o ruído provinha da cla­reira.

Comprendi então o que era: o coro noturno na lagoa o coaxar de inumeráveis rãs que deviam morar ali. Pensei na fímbria da clareira para apanhar a toalha. Algumas delas devem ter-me visto, pois o coaxar parou. Logo depois ouvi o chape-chape rítmico de pequenos corpos que mergulhavam na água. Intrigada, recuei para trás das moi­tas e dirigi-me silenciosamente, dando uma volta, para o lado oposto da lagoa, onde havia lugar onde podia esconder-me. Eu estava agora acima da margem. Suavemente afastei os ramos e olhei para baixo.

Inicialmente, nada pude ver na escuridão, salvo o brilho sombrio da água onde o reflexo do céu se filtrava entre os galhos superiores, os tapetes circulares das pequenas folhas dos lilazes e algumas ervas flutuantes. Vi, em seguida, uma rã, das grandes, sentada no tapete de lilazes, com a garganta distendida e latejante com a pequena e es­tranha canção. Tinha o corpo gordo e pintado à luz da lua como uma folha de loureiro. A luz refletia-se em seus olhos brilhantes como caroços de amoras pretas. Junto a ela cantava outra, e mais outra...

Divertida e interessada, fiquei absolutamente imóvel. Ganhando volume a cada momento, o coro continuou alegremente a coaxar:

O silêncio caiu tão súbito como se alguém tivesse pressionado um comutador. Logo depois, minha rã mergulhou. Em toda parte em torno do tapete de lilases o coro inteiro caiu na água. Vindo da baía alguém subia o caminho.

Durante um momento, perguntei-me se Phyllida fora até a praia procurar-me. Logo compreendi que o recém-vindo era um homem. Ouvi passos pesados e uma respiração difícil. Logo depois, ele limpou sua­vemente a garganta e cuspiu. Notei que era um som cauteloso, como se ele estivesse preocupado em não fazer muito ruído. Os passos pe­sados eram também cautelosos. A apressada e áspera respiração, que ele estava obviamente tentando controlar, parecia estranhamente in­quietante no bosque agora silencioso. Deixei que as moitas voltassem ao seu lugar e fiquei imóvel no local onde me encontrava, esperando que ele passasse.

A luz mortiça revelou-o quando entrou na clareira: grego, alguém que eu não vira antes, jovem, troncudo, de peito largo, calças escuras e uma suéter de gola alta de pescador. Levava em um dos braços uma velha jaqueta de cor mais clara.

Ele parou no outro lado da lagoa apenas para tirar do bolso um cigarro, que colocou entre os lábios. No próprio ato de acender o fósforo, controlou-se, encolheu os ombros, e guardou-o novamente, colocando o cigarro atrás da orelha. Ele não poderia ter indicado mais claramente a necessidade de sigilo do que se tivesse falado.

Ao voltar-se para continuar o caminho, vi-lhe claramente o rosto. Notei uma perturbadora excitação, furtiva e suada em seu rosto. Quando ele olhou em volta como se tivesse ouvido algum ruído, recuei para trás de minha tela de folhas, consciente também das batidas mais apressadas do meu coração.

Ele nada viu. Passou as costas da mão sobre a testa, mudou o casaco para o outro braço e continuou com apressada cautela a subir o íngreme caminho para o Castelo.

Acima de mim uma súbita lufada de vento passou pelas copas das árvores, soprando pelos troncos um ar frio com cheiro fresco e forte de chuva prestes a cair.

Permaneci absolutamente quieta até que o som dos passos do grego desapareceu a distância e, a meu lado, as rãs saíram da água, subiram nas suas almofadas de lilases e engorgitaram as pequenas gargantas como prelúdio de uma canção.

 

Não tem cara de que há de morrer afogado...

Por algum motivo que jamais me dei ao trabalho de analisar, não falei à minha irmã da visita aos Gales, nem mesmo quando, na manhã seguinte, ela resolveu pela primeira vez descer comigo até a baía e, quando passamos pela pequena lagoa, indicou o caminho que conduzia ao Castelo.

A clareira parecia muito diferente naquela manhã à luz clara e alta que a invadia. Caíra uma súbita e pequena tempestade durante a noite, acompanhada de forte vento, que morrera ao amanhecer. O fe­nômeno limpara o ar e refrescara o bosque. Na baía, a areia ofuscava ao sol da manhã e na sua esteira o vento deixara uma ondulação à beira do mar.

Estendi uma esteira sobre a sombra dos pinheiros na areia e despejei nela as nossas coisas.

            Você vai mergulhar também, não?

            Claro. Agora que estou aqui coisa alguma me impedirá de dar um mergulho no raso, mesmo que eu pareça uma elefoa à espera de gémeos. Esse maio é um estouro, Lucy. Onde o comprou?

Marks and Spencers.

Meu Deus!

Bem, eu não casei com um homem rico — disse-lhe alegremente, puxando as alças.

E que bem isto me faz nesta condição disse ela, observando-se tristemente. Suspirou, deixou cair a elegante saída de praia junto à bolsa cheia de loções de bronzear, revistas, cosméticos de Elizabeth Arden e outros petrechos sem os quais ela jamais sonharia em ir à praia. Não é justo. Olhe só para mim. E estas coisas eu comprei no Fabiani.

Pobrezinha — disse-lhe eu zombeteiramente. E, em nome de Deus, você vai tomar banho usando esse Koh-i-nor?

Meu Deus, não! respondeu ela tirando o enorme brilhante do dedo e lançando-o na sacola plástica que continha os cosméticos e fechando-a com o fecho-écler. — Bem, vamos entrar. Espero ape­nas que seu amigo não me tome por um golfinho e comece a atirar. Eu tenho mais ou menos a aparência geral deles, não acha?

Você está muito bem. Ele não usa amarelo.

Falando sério, não há ninguém olhando, há, Lucy? Eu simplesmente não gostaria de ter uma platéia.

Se você ficar perto da praia ninguém poderá vê-la, a menos que êle venha para junto da borda do terraço.

A água à sombra dos pinheiros era verde, verde profundo, clareando para um azul ofuscante no local onde um banco de areia corria para a baía. Caminhei pelo banco com água pelas coxas uns cinqüen­ta metros a partir da praia. Em seguida, voltei-me e olhei para o terraço do castelo. Não havia ninguém e fiz sinal a Phyllida para que me seguisse. Nadando e espadanando na água mantive-me alerta para o golfinho, mas, embora uma vez pensasse que vira algo brilhante girando muito longe, a criatura não se aproximou da baía. Após algum tempo voltamos à praia, onde ficamos tomando banho de sol e con­versando indolentemente até que as observações de Phyl, cada vez mais curtas e mais sonolentas, cessaram completamente.

Deixei-a dormir e voltei à água.

Embora tivesse mantido um olhar cauteloso na floresta e no ter­raço todas as vezes que me banhava, jamais vira pessoa alguma desde o primeiro dia. Por isso mesmo, notei com ligeira surpresa alguém sentado lá, à mesa sob o pinheiro de pedra. Cabelo grisalho. Sir Julian Gale. Ele levantou a mão em um cumprimento e eu acenei em resposta, sentindo-me absurdamente satisfeita por ele se ter dado a esse trabalho. Ele se virou imediatamente, mergulhando a cabeça num livro. Observei-o virar as páginas.

Não havia pessoa alguma com ele no terraço, mas quando me voltei para mergulhar em água profunda, algo me chamou a atenção.

Numa das janelas superiores, inteiramente aberta, vi uma espé­cie de relâmpago. E por trás do relâmpago vi movimento, como se alguém que estivesse observando lá levantasse o binóculo para foca­lizá-lo na baía...

Há algo especialmente irritante em ser observada dessa manei­ra. Eu gostaria imensamente de ter retribuído grosseria com gros­seria fazendo uma feia careta diretamente para a janela do Castelo, mas Sir Tulian poderia vê-la e pensar que era para ele. Em vista disso, voltei simplesmente, espadanando água, para o banco de areia onde levantei-me e, sem outro olhar, saí em expressivos passos duros (exercício da escola de teatro: banhista enfurecida obrigada a sair da água) em direção às pedras na margem sul da baía. Terminaria minha natação a partir dos rochedos embaixo daquele ponto, fora do alcance do Castelo.

Eu não imaginara que era tão difícil andar com dignidade atra­vés de noventa centímetros de água. No momento em que cheguei ao fim do banco de areia e da poça profunda nas proximidades dos rochedos, eu estava furiosa com Max Gale e desejando ter ido dire­tamente para a praia. Mas nada me levaria de volta agora. Mergu­lhei na água profunda e pouco depois agitava os braços sob os pi­nheiros.

Um caminho corria pelas pedras empilhadas aos pés do penhasco, conduzindo, ao que supunha, à vila de Godfrey Manning. A sua su­perfície parecia pedregosa, porém, e eu fiquei nas pedras lá embai­xo. Estas, tornadas brancas pelo mar e com poças de água aqui e ali, estendiam-se a partir do penhasco em pilhas e cristas, com suas raízes na água calma e cremosa.

Comecei a abrir caminho entre as poças. As pedras estavam quen­tes e eram macias aos pés. Havia fendas cheias de arbustos floridos que corriam até a beira da água, onde as ondas verdes subiam e desciam e, aqui e ali, uma projeção de penhasco adentrava-se pela água. No caminho em cima, moitas desciam até a margem, pendendo sobre o mar.

Neste ponto parei. Ali as pedras estavam ainda mais quebradas, como se as ondas tivessem batido violentas ao soprar o vento. Sob o penhasco, vi uma pilha de rochas quebradas e sargaços, parte dos quais parecia bastante fresca para ter vindo com o aguaceiro da noite passada. Mais além, após a curva seguinte do penhasco, notei um local onde se abria uma enseada ou braço de mar, profunda e estreita e flanqueada por grossas árvores que subiam pelas encostas. Reconhe­ci pinheiros, carvalhos e azevinhos e, entre eles, as laranjeiras de que me falara Sir Julián. Através dos galhos de jovens árvores emara­nhadas no sopé do penhasco, vi brevemente as telhas vermelhas do que devia ser a garagem de barcos de Godfrey.

Não vi pessoa alguma por ali. Resolvi terminar meu banho na água profunda em frente ao promontório e, em seguida, voltar pelo caminho.

Abri caminho cuidadosamente entre as pedras empilhadas e os sargaços. Aqui e ali uma poça rasa cortava-me o caminho e eu espa­danava a água com cautela, pensando preocupada nos ouriços do mar que, nessas águas (conforme lera), enfiam espinhos venenosos nos pés das pessoas. "Como ouriços que jazem no caminho que, de pés descalços piso, e que com espinhos me agridem..." Pobre Calibã. Teria razão Julián Gale? Fiquei em dúvida. Lera A Tempestade até tarde da noite, empenhada no fascinante jogo que ele sugerira, e eu mesmo tinha algumas idéias, coisas que teria de perguntar-lhe quando voltasse ao Castelo... se voltasse lá... Mas, naturalmente, eu teria de devolver o Shakespeare... se pudesse descobrir com Miranda, Adoni ou alguém quando Max Gale estivesse fora...

Voltei à beira do profundo braço de mar, uma enseada em miniatura que se abria entre as pedras. O lugar seria tão bom como qual­quer outro. Parei, olhando profundamente para a enseada, procuran­do ver qual o tipo de fundo que lá havia.

A água tinha cor de jade imperial. Pequenas criaturas que me pareceram camarões corriam apressadamente aqui e ali entre bexigas cor de azeitona e escarlate. Cardumes de pequenos peixes passavam em grande velocidade e mordiscavam coisas. As sombras lançadas pelo sol tinham uma tonalidade azul-escuro e pareciam vivas com os movimentos dos caranguejos que andavam pesadamente pelas algas pardas que revestiam o fundo. As algas moviam-se incessante, leve e continuamente, como um trapo numa onda. Um osso de peixe mostra­va sua brancura e nudez. "De ossos são feitos os corais. Eles são as pérolas..."

O corpo jazia metade dentro e metade fora da maior mancha da sombra. O sol, brilhando diretamente sobre os meus olhos, havia-o ocultado até então. O monte de carne e roupas não possuía tipo algum de forma humana. Apenas um monte de trapos enrolados repetidas vezes pelas ondas e ali lançados, empurrado de alguma maneira por baixo de uma saliência de pedra no fundo da poça.

Mesmo depois, com o sol ainda diretamente nos meus olhos, não pude ter certeza. Enojada e abalada, hesitei. Mas, naturalmente, eu teria de olhar. Mergulhei até o joelho na beira da poça e, protegendo os olhos, olhei para baixo.

Os trapos moveram-se na mansa onda como se fossem algas. Certamente, eram apenas algas...? Mas, em seguida, vi a cabeça, o rosto, uma forma indistinta e descorada sob o cabelo escuro. Criatu­ras do mar já o haviam atacado. Pequenos peixes nadavam ocupados para a frente e para trás na água verde.

Spiro, pensei, Spiro... E a mãe teria de ver isto. Sem dúvida era melhor nada dizer, deixar que a maré o levasse novamente; dei­xar que as laboriosas criaturas do mar o depurassem e limpasse, dando-lhe uma vestimenta marinha, como o osso branco que via junto ao cabelo escuro...

A razão, porém, jogou água gelada sobre a minha confusão. Ela teria de ser informada. Seria ainda mais cruel não lhe dizer. E não havia maré ali. Sem outra tempestade, a coisa ficaria presa ali du­rante dias até que alguém a achasse.

Alguma estranha corrente lançou um tentáculo de movimento pela poça. A água agitou-se e o morto moveu a cabeça. Com o movi­mento, reconheci-o. Não foi especificamente o rosto que reconheci; isto teria sido impossível; mas, de alguma maneira, as coisas se reu­niram no mesmo momento, forçando o reconhecimento a forma do rosto e da cabeça, as cores, vista melhor agora, dos molhados e amontoados trapos que haviam sido calças de marinheiros, suéter e jaqueta cinza-clara.

Não era Spiro, afinal de contas. Não, isto é, a menos que tivesse sido Spiro que eu vira no bosque na noite passada, vivo ainda e a caminho do Castelo.

Não podia haver dúvida a esse respeito, nenhuma dúvida possível. Este era o homem que eu vira na noite passada na clareira. Re­parei que me pusera de cócoras, inclinada sobre um dos lado, com a mão apoiada na superfície quente de uma pedra a meu lado. Era uma coisa encontrar um homem morto. Mas outra reconhecê-lo e saber onde ele estivera pouco antes de morrer.

Fechei os olhos com tanta força como a dos dedos que apertavam a pedra quente. A luz do sol ferveu e chiou contra as pálpebras cerradas. Mordi os lábios, respirei lenta e profundamente e concen­trei-me para não vomitar. Phyllida: o pensamento foi tão revigorante como amoníaco. Phyllida não devia ver isso e nem mesmo suspeitar do horror que estava ali no promontório, tão perto dela. Devia con­trolar-me decentemente, ir procurá-la e, de alguma maneira, conven­cê-la a deixar logo a praia. Em seguida, tranqüilamente, procurar o telefone e chamar a Polícia.

Abri os olhos com a tola esperança de que me tivesse enganado e não houvesse homem morto algum na água. Mas ele continuava na sombra cor de tinta, grotesco, movendo-se levemente, familiar. Le­vantei-me, procurei controlar-me, ali junto da pedra, durante um mi­nuto inteiro e, sem olhar para trás, voltei pelas rochas quebradas em direção às moitas que cercavam o caminho do penhasco. Somente ao chegar às moitas e me perguntar se podia puxar-me os dois metros e meio novamente até o caminho, algum som, ouvido vagamente há alguns momentos, e agora repetido, fez-me parar e olhar para a es­querda, em direção à garagem dos barcos. Alguém batera uma porta. Parecia haver algo defeituoso com o ferrolho, porque ouvi, clara­mente agora, uma exclamação de irritação, repetindo-se a batida. Desta vez a porta fechou-se firmemente e, um momento depois, ouvi passos e Godfrey Manning apareceu no caminho.

Eu não tinha certeza se ele vinha em minha direção ou se o caminho se bifurcava acima das árvores em direção à Villa Rotha. Abri a boca para chamá-lo, esperando que isto não trouxesse Phyllida, mas, no mesmo momento, Godfrey levantou a vista e viu-me lá embaixo sobre as pedras. Levantou uma mão num cumprimento, mas antes que ele pudesse falar, pus um dedo nos lábios e chamei-o urgentemente com um gesto.

Compreensivelmente, ele pareceu surpreso, mas sua expressão tornou-se logo séria quando ele se aproximou e parou no caminho em cima.

            Lucy? Houve alguma coisa? Está-se sentindo mal? O sol? — disse. Em seguida, sua voz modificou-se. — Não é novamente aquele maldito lunático com o rifle, é?

Sacudi a cabeça. Irritantemente, depois de ter-me controlado até aquele momento, descobri que não podia falar. Apontei com a mão.

Ele olhou em direção à poça, mas àquela distância coisa alguma era visível. Ele deslizou facilmente por entre as moitas até o lugar onde eu estava e pôs os braços em volta de mim, suavemente.

            É melhor você se sentar... Assim. Melhor?... Muito bem. Não tente falar agora. Alguma coisa a amedrontou lá embaixo na grande poça?... Relaxe-se agora durante um minuto. Vou até lá dar uma espiada, mas não olhe. Apenas sente-se aqui e não se preocupe. Não me demorarei.

Sentei-me com as mãos apertadas fortemente entre os joelhos e fiquei observando os pés. Ouvi os passos de Godfrey, rápidos e con­fiantes, cruzando as pedras em direção à poça. Logo depois, silêncio, prolongado. O mar murmurou e algumas gaivotas estridularam no alto enquanto iam e vinham lá por cima do caminho.

Levantei a vista. Ele estava absolutamente imóvel no lugar onde eu ficara, olhando para baixo. De perfil para mim, vi que ele estava profundamente abalado. Somente então ocorreu-me que ele também devia, no primeiro momento do choque, ter pensado que fosse Spiro. Se eu tivesse sido capaz de pensamento ou fala racionados, devia ter percebido isso e lhe poupado aquela situação.

Limpei a garganta.

Não... não é Spiro, é?

Não.

Sabe quem é ?

Acho que ele hesitou. Em seguida, inclinou a cabeça.

            O nome dele é Yanni Zoulas.

Oh. Você o conhece? — de alguma maneira, isto também me chocou, embora fosse razoável supor que o homem se afogara ali mesmo. — Ele mora por aqui?

Sim, na aldeia.

O que... o que é que você acha que aconteceu?

            Só Deus sabe. Algum acidente no mar. Isso é claro. Ele era pescador e habitualmente saía sozinho. Você de ter visto o barco dele. Estava sempre navegando de um lado para outro em frente a esta praia — um pequeno barco azul muito bonito, com velas marrom-escuro. Mas no mar à noite passada... Eu não teria pensado...

A voz dele morreu enquanto ele olhava carrancudo para a poça. Voltou-se então e se dirigiu para a pedra onde eu estava sentada.

Dois numa semana? — perguntei eu. As palavras saíram em forma de pergunta, feita como se Godfrey pudesse fornecer a resposta. Eu não queria dizer isto em voz alta e tive vontade de morder a língua de vexame logo que as pronunciei.

Dois numa semana? — falou ele numa voz tão inexpressiva que era evidente que minhas palavras não tinham feito sentido para ele. — Ah, compreendo.

Sinto muito. Foi uma coisa estúpida de dizer. Eu estava pen­sando em voz alta. Eu não lhe devia ter lembrado o fato. É apenas uma dessas horrendas coincidências.

Habitualmente — respondeu ele — eu digo que não acredito em coincidência. Na verdade, se eu não tivesse visto com meus pró­prios olhos o que aconteceu a Spiro, eu começaria realmente a per­guntar-me o que está acontecendo por aqui — parou e olhou nova­mente para a poça. — Da forma como estão as coisas, tudo o que aconteceu foi que dois jovens do mesmo distrito morreram esta se­mana de afogamento, e numa comunidade que vive principalmente do mar isto não poderia causar surpresa. Apenas... — e ele parou.

            Apenas o quê?

Ele me olhou com os olhos perturbados.

Apenas ninguém espera uma epidemia disso no verão.

Godfrey, o que é que há? Você dá a impressão de que pensa... — eu também me controlei, mordendo os lábios. Ele me olhou desolado, nada dizendo. Terminei, em voz bastante rouca: — Você está querendo dizer que isto não foi um acidente?

Meu Deus, não! Apenas que cria problemas. Mas nenhum com que você deva preocupar-se. De qualquer modo, eles poderão não surgir absolutamente.

Nenhum com que você deva preocupar-se... Somente Deus sabia o que ele teria dito se tivesse ainda a mais leve suspeita do pro­blema que isto me criara... Não estou ainda bem certa por que não falei, ainda naquele momento, do que vira na noite passada. Penso agora que este último incidente ocorreu num contexto de violência, antes sentida do que apreendida, que o tornou comum e que me obri­gou, por obra de algum instinto de conservação, manter-me calada. Era como se o primeiro tiro de rifle silencioso tivesse sinalizado o aparecimento de perigo e medo, como se, guardando silêncio, eu pudesse ainda afastar-me deles e permanecer dentro da minha própria bolha de segurança, conservar a minha própria ilha encantada livre de in­vasores do mundo violento de onde eu escapara para vir aqui.

Ele tem parentes? — perguntei, em vez disso.

Mulher. Moram com Os pais dele. Você provavelmente conhe­ce a casa. É aquela cor-de-rosa na encruzilhada.

Sim, conheço. Muito bonita. Lembro-me que pensava que as pessoas que moravam lá deviam ter boa situação financeira.

Eles têm. E vão sentir falta dele.

Olhei-o surpresa, não com as palavras, que eram banais, mas com a secura inteiramente despropositada da voz.

            Você está insinuando alguma coisa. Você sabe alguma coisa a esse respeito, não? Por que não me conta?

Ele hesitou e, então, sorriu subitamente.

Realmente, não sei por que não lhe dizer. Isto pouco me in­teressa e, certamente, não a aborrecerá. Apenas quando a Polícia co­meçar a investigar, podem surgir coisas embaraçosas.

Tais como?

Ele encolheu os ombros.

Nenhum pescador comum e simples podia viver tão bem como Yanni e a família. Havia boatos de que ele era contrabandista e que fazia viagens regulares à Albânia e que esse extra lhe dava bom di­nheiro.

Bem, mas certamente... Eu imagino que um bocado de pessoas fazem isso por aqui. Corfu é muito bem localizada, vizinha da Cortina de Ferro. Acho que todos os tipos de artigos de luxo seriam bem re­cebidos lá, não? Mas como é que uma pessoa como Yanni Zoulas poderia ser abastecido de coisas assim?

Como é que eu posso saber? Ele teria seus contatos, alguém na cidade de Corfu, talvez, com ligações em Atenas ou na Itália... Mas tenho a certeza que Yanni Zoulas não estaria metido nisso por iniciativa própria... Ele não era exatamente uma inteligência supe­rior. Provavelmente fazia isso mediante salário.

Passei a língua pelos lábios.

Mesmo assim... Você não estará sugerindo que pudesse ha­ver alguma ligação... que ele tenha sido morto por causa disso ? É isso o que você está insinuando? Isso... isso transformaria o caso em as­sassinato, Godfrey.

Não, não. Por Deus, eu não estava sugerindo coisa alguma assim! Deus meu, não! Não fique perturbada. Ora, você está branca como um lençol! Ouça, a idéia é puro absurdo. Eu duvido que o pobre Yanni tivesse sido suficientemente importante para ser as­sassinado! Esqueça-se disso. Mas ocorreu-se realmente que ele podia ter-se metido em encrencas do outro lado... encrenca com a Guarda Costeira: acho que eles são bastante eficientes do lado de lá, holofotes, metralhadoras, tudo isso. Se ele teve encrencas, foi ferido e fugiu para casa. Isto pode explicar um acidente ocorrido numa noite que não foi das mais tempestuosas. Ele pode ter desmaiado e caído no mar.

Compreendo. Mas mesmo que a Polícia descubra alguma coisa a respeito, a família não se meterá em encrencas, não?

Duvido. Mas não é isso...

O que é que o está preocupando?

Poderia levá-los para mais perto do jovem Spiro do que seria desejável — disse Godfrey tranqüilamente. — Eu tenho fortes sus­peitas de que ele saiu com Yanni mais de uma vez. O caso não me preocupou e eu não fiz perguntas. O rapaz tinha uma mãe e uma irmã para sustentar e a maneira como o fazia era assunto dele. Mas não quero que descubram isso agora. Não serviria a fim algum e poderia entristecer a mãe. Segundo ela, Spiro era uma pessoa sans peur et sans reproche e, de quebra, um bom cristão. Tenho certeza de que ela consideraria o contrabando como imoral, por mais levemente que você e eu o pudéssemos considerar.

Eu não diria que o consideraria sem importância. Acho que se a pessoa vive sob a proteção de um país deve obedecer-lhe as leis. Eu, simplesmente, não fiquei surpresa. Mas, sabe de uma coisa, mesmo que a Polícia descubra alguma coisa repreensível a respeito de Spiro, tenho certeza de que não dirão coisa alguma a Maria. Tudo descon­tado, os policiais são humanos e o rapaz está morto.

Você provavelmente tem razão. Ah, bem... — disse ele, espreguiçando-se e suspirando. — Diabo, que negócio horrível. É melhor irmos e resolvermos logo esse caso. Acho que gostaria de ir agora?

Oh, sim. Estou-me sentindo bem.

Ele me tomou o braço e ajudou-me a subir a acidentada ribancei­ra até o caminho.

Vou levá-la até minha casa agora, ao telefone — disse ele. — Fica mais perto e não há necessidade de alarmar sua irmã até que você se sinta um pouco melhor. A Polícia quererá ouvi-la e você pode falar com eles na minha casa, se quiser. Em seguida, eu a leva­rei pela estrada, no carro... Bem, você tinha alguma espécie de roupa, algum tipo de saída de praia e sapatos? Se esperar aqui um momen­to, vou buscá-los.

Eles estão na baía, mas acho que Phyl está lá, também. Deixei-a dormindo na praia. Ela provavelmente acordou agora e está-se pergun­tando onde é que eu estou.

Oh! — ele me pareceu indeciso. — Bem, isto altera as coisas, não? Nós teremos de dizer-lhe. Eu não sei muita coisa a respeito disso, mas, você acha que... bem, que a perturbará, ou coisa assim ?

Acho que ela agüentará bem enquanto não vir o corpo. Ela terá de saber logo, de qualquer maneira... Espere um momento. Vem algum por aí. Deve ser ela.

Um segundo depois, Phyl apareceu no caminho, dobrando a ponta do promontório. Devia estar acordada já há algum tempo, pois todos os traços do mar haviam desaparecido; apareceu recém-maquilada, com o cabelo brilhante, imaculada, e uma bela toalha presa ao maio. Usava também uma elegante saída de praia. Como sempre, ao vê-la, pensei imediatamente nas minhas próprias deficiências. Fiquei consciente pela primeira vez da aparência que devia ter, a pele coberta de sal, o cabelo úmido e o rosto — pensei — ainda branco com o choque.

            Pensei ter ouvido vozes! — disse ela alegremente. — Alô, Godfrey! Ia visitar-nos ou simplesmente desceu para nadar!

Nem uma coisa nem outra. Eu estava na garagem examinando o barco quando vi Lucy.

Esses sapatos são os meus que você trouxe? — perguntei. — Muito obrigada. Como é que você soube que eu ia precisar deles?

Bem, querida, conhecendo-a — disse Phyllida — quando acor­dei e descobri seu desaparecimento, tive certeza de que você estaria perdida por aí, mexendo nas poças entre as rochas e somente Deus sabe a que distância — ela riu e olhou para Godfrey. — Eu não ficaria absolutamente surpreendida de encontrá-la com um vidro de geléia inteiramente cheio de camarões sortidos e outras coisas para levar para casa. Lembro-me de que certa vez... — ela parou. Houve uma pausa durante a qual os olhos dela passearam de mim para Godfrey e vice-versa. Sua voz tornou-se subitamente seca. — Lucy. Godfrey. Há alguma coisa errada. O que foi?

Ele hesitou, um segundo demais.

            Sua irmã estava sentindo um pouco de calor e eu ofereci le­vá-la até minha casa para dar-lhe uma bebida. Ela me disse que você estava na praia e eu ia buscá-la. Vem também?

Ele falou em tom de voz perfeito, fácil e natural, mas minha irmã não era nenhuma tola. Ela vira tudo o que precisava no meu rosto e no fato de Godfrey ainda segurar-me o braço.

Ainda mais secamente, disse:

Há alguma coisa de errado. Lucy, você está com uma aparência horrorosa... e não é calor, tampouco. Não me venham com essa. Você jamais sentiu calor em sua vida. O que é que aconteceu? Você se feriu?

Não, não. Nada houve realmente comigo, palavra — soltei-me suavemente e levantei os olhos para Godfrey. Ocorreu-me subitamente, sem motivo, que ele era mais bonito do que eu pensara. A luz do sol destacava-lhe o bronzeado profundo da pele e o cabelo encaracolado desbotado até o louro. Contra o bronzeado da pele os olhos dele pa­reciam de um cinzento muito claro.

            Acho que pode dizer a ela, sem rodeios — disse-lhe.

Muito bem, Phyl. Acho que ocorreu uma coisa absolutamente horrível. Um dos pescadores locais afogou-se, deu à praia ali e Lucy encontrou o corpo.

Oh, meu Deus, que coisa mais lúgubre! Lucy, minha querida... Pobre criança! Acho que devia ter parecido... — os seus olhos se arregalaram e ela levou uma mão ao rosto. — Você o viu? Reconhe­ceu-o? Quero dizer... após uma semana.

— Não é Spiro — disse Godfrey rápida e quase asperamente.

Não é? — a mão caiu e ela soltou um longo suspiro de alívio. — Oh, eu tinha tanta certeza... Mas isto significa dois, em apenas alguns dias. Você tem idéia de quem seja?

Uma pessoa daqui, chamada Yanni Zoulas. Acho que você não o conhece. Ouça, nós íamos justamente dar um telefonema. Quer vir conosco? Se eu voltar exatamente agora à baía para trazer o resto das coisas...

Ela parou abruptamente e voltou-se. Uma sombra caiu sobre o local onde eu amarrava as alpercatas. Ouvi a voz de Max Gale exata­mente atrás de mim:

            O que é que houve?

Sei que saltei como se me tivesse batido. Os outros dois ficaram boquiabertos como se surpreendidos em algum ato culposo. Ele devia pesar quilos e quilos mais do que Phyllida, mas nenhum de nós ouvira som algum. Pensei que ele devia andar como um gato.

Durante segundos ninguém respondeu. Houve uma estranha pau­sa, dessas de arrepiar cabelo, durante a qual os dois homens olharam-se como cães inimigos que se cercam um ao outro. Eu fiquei com a alpercata na mão, observando-os.

            Que houve? — perguntou Godfrey.

Compreendi que ele não queria dizer a Gale o que acontecera. Essa certeza, de certa forma não surpreendente, chegou-me como um hálito frio na pele. O Sr. Gale relanceou os olhos de Godfrey para Phyl e para mim. Curvei rapidamente a cabeça, calcei a alpercata e comecei a prender a correia.

            É óbvio que aconteceu alguma coisa — disse ele impacien­temente. — Eu estava observando a baía com um binóculo e penso que vi alguma coisa estranha — restos ou alguma coisa flutuando muito longe. Não pude descobrir o que era. Em seguida, a Srta. Waring veio para este lado e eu a vi nas pedras que se projetam do promon­tório. Ela parou e olhou para uma das poças e as reações dela não deixaram dúvida de que havia realmente algum problema. Em se­guida, você foi até lá e a coisa tornou-se ainda mais clara. O que foi? Ou terei de ir e verificar por mim mesmo?

Foi Phyllida quem respondeu. Forçosamente não sentira os sub-tons que me encheram de calafrios... mas ela não sabia o que eu sabia. Falou, quase atropelando as palavras:

            É um cadáver. Afogado. Naquela poça, ali. Nós íamos justa­mente telefonar à Polícia.

Durante um momento pensei ouvir as gaivotas do penhasco, mui­to altas e agudas, exatamente sobre as nossas cabeças.

- Quem é? Sabe quem é? — perguntou Max Gale.

Godfrey ficou calado. Ele não tirara os olhos do rosto do outro. Mais uma vez, Phyllida respondeu:

- Eu me esqueci do nome. Godfrey disse que ele é da aldeia.

Yanni alguma coisa.

            Yanni Zoulas — disse eu.

Ele me olhou como se pela primeira vez percebesse realmente mi­nha existência. Mas tive a forte impressão de que nem mesmo nesse momento ele me viu. Ele permaneceu calado.

            Você o conhecia? — perguntei-lhe.

Os olhos escuros focalizaram-se em mim durante um momento. Em seguida desviou-os em direção ao poço.

            Sim, ligeiramente.

Você disse que observou alguma coisa flutuando, alguns restos — disse Godfrey. — Não sabe o que era? Poderiam ter sido os restos de um barco naufragado?

Hum? Bem, eu lhes disse que não pude ver daquela distância, mas poderia ter sido... Deus meu, sim, acho que poderia — su­bitamente Gale integrou-se em nosso grupo; os seus olhos se aguçaram e ele falou bruscamente. — Eu gostaria de saber a que horas ele saiu ontem à noite. Penso que ouvi o som de um barco depois de meia-noite, na direção nordeste — ele se voltou para Godfrey: — Você ouviu?

            Não.

Noite passada? — perguntou Phyllida. — Tão recente assim? Você poderia descobrir, Godfrey?

Eu não sou um especialista. Não sei. Acho que ele não está lá muito tempo. Não obstante, não será difícil descobrir qual a última vez em que foi visto.

Eu observava o rosto de Max Gale. Ele parecia agora pensativo, grave — tudo menos o que eu achava que ele devia parecer.

            Deve ter acontecido nas últimas quarenta e oito horas. Eu mesmo vi o barco dele no sábado. Passou pela baía a mais ou menos três da tarde.

Se eu não tivesse sabido o que sabia, jamais teria sabido que ele estava mentindo — ou melhor, deixando implícita uma mentira. Du­rante um momento cheguei a perguntar-me se Yanni estivera mesmo a caminho do Castelo na noite passada. Lembrei-me, porém, de que o Sr. Gale me dera nestes últimos minutos mais um motivo para duvidar de sua boa-fé. Ele baixou a vista rapidamente e surpreendeu-me observando-o. Curvei a cabeça novamente e comecei a mexer na segunda alpercata.

            Bem — disse Godfrey — será muito fácil descobrir com a família e, quanto mais cedo deixarmos os especialistas tomarem a frente, melhor. Vamos agora? Apenas uma coisa, ninguém precisa ficar com o corpo. Não há maré para movê-lo... Aonde é que você está indo?

Max Gale não se deu ao trabalho de responder. Descia já a rocha abaixo de nós. Godfrey fez um rápido e involuntário movimento como se para detê-lo. Em seguida, encolheu os ombros e disse-nos suave­mente:

            Vocês se importam? Não demoraremos muito — e desceu por seu turno pelas moitas.

Gale curvou-se sobre a poça. Da mesma forma que Godfrey, olhou para o corpo durante algum tempo em silêncio. Em seguida, fez o que nem Godfrey nem eu havíamos feito: deitou-se ao comprido na borda da pedra e estendeu a mão para a água como para tocar no cadáver. Notei que Godfrey fazia outro daqueles vivos e involuntários movi­mentos, mas ele deve ter concluído que a prova que porventura hou­vesse dificilmente seria prejudicada por mais um toque, pois nada disse e meramente se curvou para observar atentamente.

            O que é que eles estão fazendo? — perguntou Phyl com certa petulância.

Eu agarrava os joelhos e me abraçava fortemente a eles. A des­peito do sol, começara a sentir frio.

Eu não sei, e não me importo. Espero que eles acabem logo. Só isso. O que eu quero é arranjar uma roupa, chamar a Polícia e acabar com isso.

Oh, meu cordeirinho, você está com frio? Tome aqui o meu casaco — tirou o casaco e lançou-o sobre os meus ombros. Cheia de gratidão envolvi-me confortavelmente nele.

Muito obrigada. Isto é maravilhoso — ri um pouco. — Pelo menos me põe no concurso novamente! Eu gostaria de que você não parecesse sempre como se tivesse acabado de sair das mãos de Elizabeth Arden, quando eu me sinto como um pedaço dos restos do Sr. Gale. Ele provavelmente me viu flutuando. Se, isto é, ele viu alguma coisa.

Ela me olhou rapidamente.

O que é que significa isso? Pareceu-me uma frase cheia de insinuações.

Não, realmente.

Ela se sentou ao meu lado.

            Você não faz habitualmente observações sem motivo. O que é que você quis dizer com isso?

            Eu não me sinto bem a respeito de todo este caso. Somente isso.

— Bem, Deus meu, quem e que se sente? Mas é um caso?

— Não sei. Tenho uma impressão... uma impressão de que há alguma coisa em andamento. Não me posso explicar melhor, e estou provavelmente enganada, mas eu penso — eu penso Godfrey tam­bém sente isso. Por que é que ele e o Sr. Gale não se gostam?

            Eu não sabia que eles não se gostavam. Eles estavam um pou­co precavidos hoje, não? — Acho que Godfrey está mais perturbado do que deixa parecer... Afinal de contas, foi logo depois da história de Spiro... E Max Gale nenhum esforço faz para tornar-se encan­tador, não é?

            Ele tem certas preocupações — respondi.

Fiz a observação meramente como maneira de ladear o assunto, de dar a impressão de que as preocupações pessoais dele — a respeito do pai — tornavam-no pessoa difícil de se conhecer ou gostar, mas ela a entendeu como se referindo especificamente ao que acabara de acontecer. Inclinou a cabeça.

            Eu pensei nisso, também. Oh, nada de especial, apenas que ele parecia pensar em alguma outra coisa. Mas o que é que você tinha em mente? — Olhou-me novamente de esguelha. — Há alguma coisa realmente preocupando você, não há?

Hesitei.

Não lhe pareceu estranho a maneira como o Sr. Gale recebeu a notícia?

Bem, não, não pareceu. Talvez por que eu o conheça melhor do que você. Ele nunca se abre muito. A que tipo de estranheza você se refere?

Hesitei novamente e resolvi não ser específica.

Como se não se surpreendesse de encontrar um cadáver aqui na praia.

Acho que ele não se surpreendeu. Esperava que fosse o corpo de Spiro.

Oh, naturalmente — respondi. — Olhe, parece que eles estão voltando.

O Sr. Gale terminara o macabro exame e retirara a mão. Lavou-a na água salgada, levantou-se e enxugou-a com um lenço. Tanto quanto eu podia saber, os dois não haviam trocado uma única palavra. God­frey disse em seguida alguma coisa com um gesto em direção a Phyl e a mim. Ambos se voltaram e caminharam para onde está­vamos .

            Graças a Deus disse eu.

Você se sentirá melhor quando tomar uma bebida, minha ve­lhota disse minha irmã.

Café disse eu tão quente como o amor e tão doce como o inferno.

            Godfrey é bem capaz dè arranjar isso. Nunca se sabe.

Os dois subiram com esforço para o caminho e aproximaram-se de nós.

            Bem? perguntamos Phyl e eu.

Eles trocaram um olhar, que se poderia mesmo dizer que tinha ares de cumplicidade.

Gale tomou a palavra.

            Será interessante ouvir o que o médico tem a dizer. Ele parece ter sido bastante ferido na cabeça. Pensei que o pescoço estivesse que­brado, mas acho que não.

Os olhos de Godfrey encontraram-se com os meus. Levantei-me.

Então, quando o barco for encontrado, talvez haja algo nele para indicar o que aconteceu.

Tanto quanto sabemos disse Godfrey isto já foi feito e já há um clamor por justiça. Vamos, sim?

Graças a Deus. Eu quase me esqueci. Bem, esperem quatro minutos ou dois. Eu não me demorarei.

Naquela sua maneira brusca, quase agressiva, Max Gale disse:

            Vocês três podem subir o caminho. Vou lá embaixo buscar as suas coisas.

Ele fora tão claramente excluído do convite de ir conosco e tinha tão claramente dado a impressão de que queria ouvir tudo o que fosse dito à Polícia que pensei que Godfrey ia objetar. Phyllida, porém, le­vantou-se nervosamente.

Sim, vamos embora daqui. Está-me dando calafrios. Sr. Gale, se o senhor quiser ter essa gentileza... Eu deixei também algumas coisas. Elas estão sob os pinheiros.

Eu sei onde estão. Não me demorarei. Não esperem por mim. Eu os alcançarei.

Afastou-se rapidamente. Godfrey seguiu-o com olhos cinzas curio­samente frios. Viu, porém, que eu o observava e sorriu.

            Bem, por aqui.

O caminho acompanhava o penhasco até a garagem de barcos e em seguida subia em íngreme ziguezague através das árvores. Subi­mos com esforço, dando graças a Deus pela sombra.

 

Godfrey caminhava entre nós numa espécie de solicitude desajeita­damente dividida que, em outra ocasião, teria sido divertida. Mas naquele momento eu só pensava em um pouco de solidão no banheiro dele e em seguida, numa cadeira confortável e — se não houvesse uma bebida fria e comprida. Tive esperança de que Max Galeandasse depressa com as roupas. E pensei que ele provavelmente o faria: não quereria perder o que se dissesse à Polícia. Surpreendeu-me que ele se tivesse arriscado a perder tudo isso ao oferecer-se para voltar.

Godfrey parara para auxiliar Phyl a atravessar uma fossa que as chuvas do inverno haviam cortado no caminho. Eu andava alguns passos à frente deles e, quando cheguei a uma curva, uma abertura inesperada entre as árvores ofereceu-me uma vista do promontório lá embaixo.

Eu devia ter sabido que haveria uma boa .razão para o oferecimento de Max Gale. Ele voltara à poça entre as rochas, e estava deitado ao comprido como antes, com a mão dentro da água. Vi-lhe apenas a cabeça e os ombros. No exato momento em que o entrevi, ele retirou o braço e levantou-se rapidamente. Ao voltar-se, recuei para a sombra das árvores, e exatamente em tempo, pois ele relanceou os olhos rapidamente para cima antes de saltar até o caminho e desaparecer da vista.

            Cansada? — perguntou-me Godfrey exatamente atrás de mim. Sobressaltei-me.

Não, nem um pouco. Apenas recuperando o fôlego. Mas ficarei satisfeita quando isto acabar.

Todos nós ficaremos. Parece que eu passei a semana toda às voltas com a Polícia — e ele acrescentou com a amargura: — Pelo menos eles conhecem o caminho até aqui e a maioria das perguntas a fazer.

Phyllida tocou-lhe o braço suavemente.

            Pobre Godfrey. Mas nós lhe estamos terrivelmente gratas. E pelo menos desta vez não lhe diz respeito.

Os olhos dele encontraram-se com os meus. Tinham aquela ex­pressão desolada que eu começara a conhecer.

            Eu não acredito em coincidências — disse ele.

 

Olá! Que temos aqui?

É homem ou peixe?

Está vivo ou morto?

Ou ela ficara mais aflita do que nos dera a perceber ou a ida até a praia no calar, o banho e a subida até a Villa Rotha tinham sido demais para Phyllida. Embora passássemos o resto do dia tranqüila­mente e ela se deitasse após o almoço por umas duas horas, à tarde ela se mostrou cansada, inquieta e muito mais do que meramente ir­ritada. Não foi preciso muito para convencê-la a ir dormir cedo.

Maria e Miranda foram-se logo que terminou o jantar. Às dez horas a casa ficou silenciosa. Os próprios pinheiros na colina atrás da casa estavam imóveis e depois de fechada a janela não se ouvia som algum do mar.

Sentia-me cansada, mas inquieta e sabia que não dormiria tão cedo. Dirigi-me para a limpa e vazia cozinha, fiz um pouco mais de café, levei-o para o salloto, pus os pés numa cadeira e algum Mozart na vitrola e acomodei-me para uma noite sossegada.

As coisas, porém, não correram inteiramente dessa maneira. A tranqüila e bela sala e a própria música não conseguiram afastar pen­samentos que pediam atenção desde cedo. A despeito de mim mesmo.

Voltava incessantemente aos incidentes da manhã; a descoberta na poça, o visível antagonismo entre os dois, o longo e cansativo epílogo do interrogatório, com os novos problemas que colocara à luz.

A Polícia de Corfu fora gentil, eficiente e atenciosa. Chegou logo depois de termos alcançado a casa de Godfrey e dois homens foram imediatamente à praia para examinar o corpo. Logo depois um barco chegou de alguma parte e partiu em seguida com o fardo. Outro veio logo depois e dirigiu-se para o mar alto — procurando, segundo se podia supor, os restos que o Sr. Gale insistira em ter visto. Do terraço da Villa Rotha, Phyl e eu o víramos navegando para cima e para baixo a partir da terra, mas com um sucesso que, não tendo o binóculo do Sr. Gale, foi impossível determinar.

Os homens voltaram em seguida. As perguntas foram penetran­tes, mas de respostas muito fáceis de minha parte, porquanto ninguém, naturalmente, imaginava que eu jamais tivesse visto Yanni antes. Por isso mesmo, as únicas perguntas giraram em torno da descoberta do corpo.

E no momento em que Max Gale reiterou à Polícia que não pu­sera os olhos em Yanni Zoulas com exceção de um possível vislum­bre de seu barco na tarde de sábado, eu nada disse.

Era isso que me incomodava seriamente ali, sentada no salloto com a escuridão aprofundando-se do lado de fora das janelas e as ma­riposas batendo nas vidraças iluminadas. E eu começava a formar uma idéia clara demais. Bem, eu tampouco queria enfrentar aquilo. Afastei para o lado a cadeia de raciocínios e concentrei-me firmemente nos fatos.

À sua maneira, eles eram tranqüilizadores. Godfrey telefonara no fim da tarde para dar as últimas notícias. Parecia que o barco de Yanni fora encontrado à deriva e no botaló havia traços de cabelo e sangue no local em que atingido por inesperada rajada de vento, o barco o atingira e lançara na água. Uma garrafa quase vazia de ouso, que rolara para trás de uma pilha de carda e petrechos, apa­rentemente fornecia uma pista para o descuido do jovem pescador. O médico era de opinião (disse ele) que Yanni estava morto quando caíra na água. A Polícia não parecia inclinada a levar avante as investigações. Dos restos mencionados pelo Sr. Gale parte alguma fora encontrada.

Finalmente — Godfrey ficou um pouco misterioso sobre essa parte da mensagem desde que o telefone era uma extensão — nenhuma men­ção fora feita às atividades ilegais do morto. Presumivelmente, o barco fora revistado e nada surgira. A Polícia, por conseguinte (que prefe­ria fechar os olhos a pequenas transgressões a menos que dela se exi­gisse ação), estava convencida de que a viagem fatal fora uma roti­neira, de pesca, e que a morte de Yanni devia-se a um acidente. Era evidente que ela nenhuma intenção tinha de aprofundar as inves­tigações.

Aí acabavam as preocupações de Godfrey. As minhas iam mais além.

Transpirara, nas investigações da Polícia, que a família Yanni o vira pela última vez no domingo: passara o dia com ela, dissera, acompanhando-a para assistir à procissão e voltando em fins da tarde. Sim, ele parecia alegre. Sim, bebera muito. Comera alguma coisa e saíra. Não, não dissera aonde iria, por que deveria tê-lo feito? Eles pensa­ram que ele ia pescar, como sempre. Fora até o barco. Sim, sozinho; êle habitualmente ia sozinho. Fora essa a última vez em que o viram.

Fora a última vez em que alguém o vira, segundo o relatório da Polícia. E eu nada disse para que eles a modificassem. No momento em que Godfrey se preocupava com a possibilidade de o inquérito retroagir até Spiro, eu me preocupava com a possibilidade de envolver Julian Gale. Parecia óbvio que Max Gale estava implicado de alguma maneira, mas eu tinha minhas próprias teorias sobre o assunto. E elas dificilmente justificariam pôr a Polícia na pista das atividades de Yanni, arruinando a precária paz de Sir Julian. Considerada a morte de Yanni um acidente e eu não via motivo para duvidar disso não importava se ele realmente fizera uma visita furtiva ao Castelo antes de sair noite passada. Por isso mesmo, se Max Gale resolvera nada dizer a respeito, então eu nada tinha a ver com o assunto. Podia per­manecer na minha bolha encantada e continuar calada. Não impor­tava, nem de uma maneira nem de outra...

Mas eu sabia perfeitamente que me importava, e era esse conhe­cimento que me conservava insone na cadeira enquanto um disco se seguia o outro, ignorados e o relógio arrastava-se até meia-noite. Pelo menos por uma coisa, eu tinha informações que foram como que impos­tas ao meu conhecimento e que eu preferia não possuir. Por outra..

O disco parou. Com a sua lenta e deliberada série de estalos au­tomáticos, o toca-discos deixou cair outro no prato, estendeu um calmo braço sobre êle e derramou na sala o clarinete de Gervase de Peyer numa brilhante chuva de ouro.

Forcei novamente os pensamentos a voltar ao sulco dos fatos. Uma coisa de cada vez. A melhor maneira de esquecer como se pensa que se sente é concentrarmo-nos naquilo que sabemos que sabemos...

Godfrey estava convencido de que Yanni fora contrabandista e que forçosamente teria algum contato com alguém que era, provavel­mente, seu chefe. Afigurava-se evidente agora que o contato era Max

Gale. Tudo combinava: explicaria a visita furtiva pouco antes da via­gem de Yanni e o silêncio de Gale sobre o assunto. E explicaria tam­bém uma coisa que me preocupara tanto pela manhã — a reação de Gale à notícia da morte de Yanni. Não o surpreendera a notícia de que o corpo estava nas pedras, isto não porque, como supusera Phyl, ele julgasse que fosse Spiro. Na minha opinião, era evidente que ele jamais pensara em Spiro. A sua primeira pergunta fora "Quem é? Vocês sabem?", embora a suposição óbvia tivesse sido a que o resto de nós fizera, que devia ser o corpo do jovem.

Se meu palpite sobre ele estivesse certo, suas ações teriam sido perfeitamente coerente. Ele soubera que Yanni ia sair naquela noite; devia ter sabido que havia algum risco. Obviamente, não esperara pela morte de Yanni, mas, logo que soubera do cadáver, não teve dúvida sobre quem poderia ter sido. A história de restos flutuantes era mero absurdo, disto eu estava convencida: o que acontecera fora que ele me vira e, em seguida, Godfrey, junto à poça nas pedras, formara apressadamente conclusões, e arranjara uma desculpa para descer e observar pessoalmente. Houve aquele seco “Quem é?" e, logo depois, a reação pronta, imediata — examinar o corpo tão de perto quando pudesse, presumivelmente em busca de prova de violência. Sem dúvida se tal evidência existisse, ele teria de dizer a verdade, ou parte dela. Dia forma que ficaram as coisas, ele se conservou calado e sem dúvida compartilhava do alívio de Godfrey de que a questão não precisaria ser ventilada.

Sim, tudo combinava, até mesmo a furtiva volta de Gale à poça, presumivelmente para examinar o corpo mais atentamente do que ousara com Godfrey ali junto e para remover qualquer coisa que Yanni pudesse conduzir que o ligasse ao contato. E fora sorte de Gale que nada tivesse sido encontrado no barco: ou o pobre Yanni voltava para casa quando acontecera o acidente ou a saída da noite passada fora, realmente, apenas de rotina até o pesqueiro. O próprio ataque ao golfinho ajustava-se ao resto. Era evidente agora que Gale atirara na criatura porque ela podia atrair multidões de turistas que destruiriam a secretividade de que precisava tão urgentemente. Mas a irritação que esse ato me provocara não me dava o direito, concluí, de abrir um novo campo de investigações que, provavelmente, prejudicaria a famí­lia de Spiro e certamente a de Yanni. As duas desoladas famílias já tinham coisas demais para suportar. Não, ficaria calada e grata porque pudera permanecer na minha bolha encantada, com a consciência calma. E quanto a Max Gale...

O Concerto de Clarinete chegou ao fim, alteando-se a brilhante pompa, jubilosa, numa apoteose de acordes suaves. O toca-discos desli­gou-se. No silêncio ouvi sons no quarto de Phyllida. Ela estava acor­dada e ocupada.

Relanceei os olhos para o relógio. Doze e vinte. Ela devia estar dormindo há muito tempo. Fui até a porta do quarto dela.

Phyllida?

Oh, entre, entre!

Ela me pareceu profundamente nervosa e perturbada. Entrei e a encontrei fora da cama, mexendo numa gaveta, tirando de qualquer modo o conteúdo e lançando-o no chão. Ela parecia encantadoramente bela em um volumoso traje de nylon amarelo, cabelos caídos e olhos arregalados e orlados de escuro. Deu-me também a impressão de que estava a ponto de chorar.

            Que é que há? Está procurando alguma coisa?

            Oh, Diabo! — ela abriu violentamente outra gaveta e procurou algo nela. — Não que esteja aí. Eu não faria uma loucura assim, faria?

Olhei-a meio alarmada. Phyllida raramente pragueja.

            Assim como? Perdeu alguma coisa?

Meu anel. O de brilhante. O maldito diamante Forli. Quando estivemos lá na baía. Eu me lembrei somente agora, com tudo aquilo que aconteceu. Eu o usava, não usava? Não o usava?

Oh, Deus meu, sim, você o usava! Mas não me lembro bem. Você não o tirou antes de entrar na água? Ouça aqui, deixe de pro­curar dessa maneira, Phyl. Ele não se perdeu. Você o colocou na bolsa de maquilagem, aquela de pequenas flores e fecho-eclair. Eu vi quando você fez isso.

Ela estava no guarda-roupa agora, tateando os bolsos da saída de praia.

            Eu o coloquei ou não depois que saí da água?

            Acho que não. Não me lembro.. Não, tenho certeza de que não o pôs. Eu o teria notado em sua mão. Você não o usava quando estivemos tomando café na casa de Godfrey. Mas, querida, deve estar na pequena bolsa. Eu sei que você o colocou nela.

Ela empurrou a saída de praia para dentro e bateu com violência a porta do guarda-roupa.

            É aí que está a maldita coisa! Aquela miserável bolsa ainda está lá na praia?

            Oh, não!

            Tem que estar! Eu lhe estou dizendo que não está aqui. Pro­curei em toda parte — a porta do banheiro estava aberta e no chãovi a sacola de praia numa trouxa, juntamente com os chinelos e a toalha. Ela levantou a sacola no que era obviamente enésima vez, virou-a ao avesso, sacudiu-a e deixou-a cair. Deu um pontapé na toalha e em seguida voltou-se para mim com olhos trágicos, mãos separadas como um anjo desolado implorando uma bênção. — Está vendo? Eu deixei a maldita coisa na maldita praia.

            Sim, mas escute um pouco... — procurei lembrar-me rapida­mente. — Talvez você a tivesse guardado novamente. Afinal de contas, você usou a bolsinha de fecho-éclair quando arrumou o rosto. Será que colocou o anel nessa ocasião e o tirou novamente quando lavou o rosto na casa de Godfrey? Talvez você o tenha deixado no banheiro dele.

— Tenho certeza de que não deixei. Não me lembro de coisa

alguma e tenho a certeza de que se o usasse quando usei o banheiro eu teria sabido. Não se pode deixar de saber — disse ela ingênuamen-

jmente — quando se agita uma coisa faiscante daquelas na mão. Oh, que tola que fui! Eu não queria trazê-lo para aqui absolutamente, mas esqueci de colocá-lo no banco e fica mais seguro na minha mão do que fora dela... Ou pensei assim! Oh, diabo, diabo, diabo!

            Bem, ouça aqui — disse eu tranqüilamente — não comece a se preocupar ainda. Se você não voltou a usá-lo, está ainda na bolsinha. Quando é que você a viu pela última vez?

— No momento em que estivemos sentadas juntas. Deve ter caído para um dos lados sob as árvores e quando Max Gale voltou para bus­car as nossas coisas, ele provavelmente não a notou. Simplesmente agarrou as coisas e veio rapidamente atrás de nós.

Provavelmente. Ele devia estar apressado.

É isso o que estou querendo dizer — ela notou algo em meu tom de voz, mas falou com grande simplicidade, encarando-me com olhos arregalados e amedrontados. — A maldita coisa está simples­mente lá na praia e...

Bem, por amor de Deus, não fique assim! Estará tão seguro como numa casa! Ninguém irá até lá e, se for, quem é que irá apa­nhar uma bolsinha barata de plástico cheia de artigos de toalete?

Não era barata e foi Leo quem me deu — ela começou a cho­rar. — E por falar nisso, ele me deu também o maldito anel, que per­tence a sua maldita família, e se eu o perder...

— Você não o perdeu.

A maré vai levá-lo.

Não há maré.

— Então aquele seu nojento golfinho vai comê-lo. Alguma coisa acontecer com o anel, eu sei que vai — ela lançara aos ventos todo o bom-senso e chorava perdidamente agora. — Leo não tinha que medar nada daquilo e esperar que eu o vigiasse a vida toda. Brilhantes são um inferno; de qualquer maneira... Se eles não estão no banco, a gente se sente miserável, e se estão, a gente se sente frustrada. Assim, não se pode ficar satisfeita de maneira alguma. Não vale a pena tê-los e aquele anel custou milhares e milhares e vale, em liras, milhões — chorou Phyl ilogicamente — e eu tenho de enfrentar amãe dele, para não mencionar aquela lúgubre coleção de tias. E eu já lhe disse que o tio dele vai ser provavelmente Cardeal...

            Bem, querida, isto não arruinará exatamente as probabilidades dele. Por isso, é melhor começar a controlar-se e... Hei! O que é que você pensa que vai fazer?

Ela abrira violentamente a porta do guarda-roupa novamente e puxava um casaco.

Se você pensa que eu vou tirar uma pestana, uma única pesta­na com aquele anel lá embaixo...

Oh, não, você não vai! — disse-lhe com grande firmeza, tomando-lhe o casaco e colocando-o novamente no armário. — Não, não seja idiota! Claro que você está apavorada — quem não estaria? — mas você de jeito nenhum vai lá hoje à noite!

Mas eu tenho de ir! — a voz subiu e desceu enquanto ela procurava tirar novamente o casaco. Estava quase a ponto de ter um ataque histérico.

            Você não tem de ir — disse-lhe rapidamente. — Eu mesma vou.

            Você não pode! Você não pode ir sozinha. Passa da meia-noite!

Eu ri.

            Que é que tem isso? É uma bela noite e eu prefiro ir, do que ver você cair com um chilique. Eu não a censuro. Eu também estaria su­bindo pelas paredes! É bom que isso aconteça para você não andar mostrando aquele pedaço de gelo por aí, minha garota!

            Mas, Lucy...

            Estou falando sério. Vou lá diretamente e apanho aquela mal­dita coisa. E pelo amor de Deus, enxugue essas lágrimas ou você vai ficar tão nervosa que acaba tendo um aborto ou coisa assim. E, nesse caso, Leo terá alguma coisa para dizer, para não mencionar a mãe dele e as tias.

—- Eu vou com você.

            Você vai coisa nenhuma. Não discuta. Volte para a cama. Vamos... Eu sei exatamente onde estávamos sentadas, e eu levarei uma lanterna. Enxugue as lágrimas, vou fazer para você um ovomaltine ou alguma coisa e depois vou sair. Ande logo, meta-se na cama!

Eu raramente fico áspera com Phyllida, mas ela se torna surpreendentemente humilde quando a trato assim. Ela se deitou e sorriu trêmula.

Você é um anjo, de verdade. Eu me sinto tão envergonhada. Mas não adianta. Não descansarei até que o tenha novamente... Ouça, eu tive uma idéia. Não poderíamos simplesmente telefonar a Godfrey e pedir-lhe para ir lá? Oh, não, ele disse que ficaria até tarde fora, não? Bem, o que é que você acha de Max Gale? É, de certa maneira,, culpa dele porque não viu a bolsinha... Nós poderíamos telefonar-lhe e perguntar se ele a notara e então ele teria de oferecer-se para ir lá...

Eu não vou pedir favor nenhum a Max Gale.

Desta vez ela notou o meu tom de voz. Acrescentei apressadamente:

Eu prefiro ir sozinha. Palavra que não me importo.

Você não vai ficar com medo?

Que é que há por lá para me fazer medo? Eu não acredito em fantasmas. De qualquer modo, não está tão escuro como parece daqui. O céu está cheio de estrelas. Acho que você tem uma lanterna, não?

Há uma na cozinha, na prateleira ao lado da porta. Oh, Lucy, você é uma santa! Eu não poderei pregar olhos até que aquela maldita coisa esteja segura num cofre!

Eu ri.

Você devia ser como eu e comprar as suas jóias você sabe onde. Neste caso, poderia perder todas elas e não se preocuparia, com medo que Leo lhe desse uma surra.

Se eu pensasse que isto era tudo o que ia acontecer — disse Phyllida, recuperando algo de sua vivacidade habitual — eu prova­velmente gostaria. Mas é a mãe dele.

Eu sei. E as tias. E o Cardeal. Não me venha com isso novamente, garota, eu sei perfeitamente que eles matam você de mimos. Agora deixe de preocupar-se. Vou-lhe trazer o ovomaltine e você terá o brilhante do Grande Kham seguro debaixo do travesseiro antes que seu coração dê duas batidas. Até logo.

O bosque estava imóvel e silencioso; a clareira, iluminada pela luz das estrelas. As rãs mergulharam quando me aproximei; o único som que vinha da lagoa era o ruído leve e a agitação do tapete de lí­rios quando pequenas ondas passavam por eles e os ninavam de um lado para outro.

Parei durante um momento. Dissera a Phyllida que não acredita­va em fantasmas e sabia que não tinha motivo para ter medo, mas não pude deixar de olhar rapidamente para o lugar onde Yanni surgira na noite passada. Durante um momento, senti a minha pele enrugar-se e os cabelos encresparem-se como um pêlo de gato.

No momento seguinte, muito distante, ouvi o piano. Inclinei a cabeça para escutar a leve e decrescente linha melódica que se insinuava por entre as árvores. Reconheci frases que ouvira na noite passada, Fora isto, sem dúvida, que inconscientemente me fizera parar e atraí­ra até onde estivera o pobre Yanni.

O fantasma desaparecera. O caminho até a praia era simplesmente um caminho. Mas não o desci ainda: lentamente, como se tivesse abrindo caminho na água em vez de no ar, subi a trilha que conduzia ao castelo.

Parei à borda do jardim de rosas, e fiquei escondida na escuridão. Das rosas desprendia-se um perfume forte e doce. A música es­tava mais clara agora, embora abafada, e pensei que vinha da casa, e não do terraço. Reconheci outra passagem, uma linha simples, quase lírica, que subitamente se interrompeu e partiu-se ao meio, como um passo em falso no escuro. Achei isso inquietante. Após um momento, o pianista parou, recomeçou, tocou durante outro meio minuto antes de interromper-se e voltar a repetir alguns compassos. Em seguida, a mesma longa frase foi tocada várias vezes até desenrolar-se inteira­mente.

Ao parar na vez seguinte, escutei o murmúrio de vozes. O tom de Julian Gale chegava perfeitamente; Max replicou em voz indistinta. O piano recomeçou.

Ele estava lá, trabalhando. Ambos estavam ali. Como se eu tivesse tido a confirmação de alguma coisa — o que quer que fosse que viera ali buscar — voltei-me e, com a ajuda da lanterna elétrica, desci o próprio caminho do castelo, e atravessei a clareira onde encontrara Max Gale até os degraus arruinados que desembocavam na baía.

Após a pesada escuridão do caminho, o descampado da praia pa­receu-me tão claro como o dia. Senti firme e fácil aos pés o crescente branco da areia. Deixando o bosque, apaguei a lanterna e atravessei rapidamente a baía até o lugar onde nos sentáramos naquela manhã. Os ramos estendidos dos pinheiros lançavam uma mancha escura de sombra, tão escura que, durante um momento, pareceu-me que havia alguém deitado ali. Outro corpo.

Desta vez, porém, não parei. Sabia que era um truque das sombras, apenas isso: apenas outro fantasma para dar-me calafrios: uma imagem pintada na memória, não de Yanni vivo desta vez, mas da morte.

A música descia, muito baixa, lá de cima. Mantive a lanterna apagada para evitar que a luz atraísse a atenção de Gale e aproximei-me das árvores.

Alguma coisa estava deitada ali. Não uma sombra: era sólida, uma forma longa e escura, como a coisa na poça das pedras. E era real.

Desta vez o choque realmente abalou-me. Lembro-me ainda da contração do coração, da aguda e apavorante dor que pôs todo o sangue do meu corpo em movimento martelante, da mesma maneira que um pontapé liga um motor de motocicleta. O sangue martelou-me em   golpes dolorosos a cabeça, os dedos, a garganta. Apertei tão convulsivamente a lanterna que premi o interruptor e a luz surgiu, concentrando-se no que quer que estivesse ali sob os pinheiros.

Não era um corpo. Era uma trouxa comprida, jeitosamente amar­rada, de alguma coisa, maior do que um homem. Estava exatamente no lugar onde estivéramos naquela manhã.

Com a mão livre apertei fortemente as costelas, sob o seio esquerdo. É um gesto teatral, mas, como todos os clichês teatrais, ba­seia-se solidamente na realidade. Achei que devia impedir meu cora­ção aterrorizado de irromper pelas costelas. Devo ter ficado ali du­rante vários minutos, rígida, incapaz de mover-me ou fugir.

A coisa não se moveu. Não ouvi som algum senão as notas dis­tantes do piano e o baixo murmúrio do mar.

O terror passou lentamente. Corpo ou não, evidentemente não ia ferir-me e, pensei sombriamente, era melhor enfrentar uma dúzia de corpos duros do que voltar a Phyllida sem o diamante Forli.

Apontei a lanterna diretamente para a coisa sob as árvores e aproximei-me bravamente.

A trouxa moveu-se. Inalando violentamente vi à luz da lanterna o brilho de um olho vivo. Mas, numa fração de segundo que me im­pediu de gritar, percebi o quê — não, quem — isto era. Era o gol­finho.

O filho de Apolo. O querido de Anfitrite. O mágico do mar. E em terra seca.

O olho mexeu-se, observando-me. A cauda moveu-se novamente, como se quisesse extrair movimento da terra dura, como fazia na água. Bateu nas pequenas marolas da praia coin um som molhado que pareceu ecoar até o alto dos rochedos.

Aproximei-me nas pontas dos pés da escuridão sob ospinheiros. — Querido? — disse-lhe suavemente. — Que é que há? Você está ferido?

A criatura ficou imóvel, olhos fixos, líquidos e atentos. Era tolo esperar, como eu fazia, que fosse reconhecida, mas pelo menos não vi medo de mim. Passei a lanterna cuidadosamente pelo grande corpo. Não parecia haver ferimento, nenhuma marca. Examinei a areia em volta. Não havia sangue, apenas uma larga esteira por onde o animal tinha sido puxado ou lançado. Perto, na raiz do pinheiro, a lanterna captou o brilho pálido da bolsinha de maquilagem de Phyllida. Apa­nhei-a rapidamente. Nem mesmo a olhei. Enfiei-a rapidamente no bolso e esqueci-a. Presumivelmente, o brilhante estava seguro dentro dela, mas, muito mais importante agora era o golfinho, encalhado e desarvorado, presa fácil para quem o quisesse ferir. E aquele alguém queria realmente feri-lo. Eu sabia muito bem disso... Além do mais, a menos que ele pudesse voltar para água, morreria logo que o sol surgisse e lhe secasse o corpo.

Espiguei-me, tentando pôr violentamente ordem nos pensamentos e recordar alguma coisa que lera ou ouvira a respeito dos golfinhos. Era muito pouco. Eu sabia que à, semelhança das baleias, eles algu­mas vezes encalhavam sem motivo claro, mas que se não estivessem feridos e pudessem ser colocados logo na água, não sofreriam efeitos perigosos. Sabia também que eles deviam ser mantidos úmidos, pois de outra forma a pele racharia e apodreceria. E que respiravam atra­vés de um orifício na parte superior da cabeça e que este devia ser mantido limpo.

Acendi novamente a lanterna. Sim, lá estava o orifício de respira­ção, em forma decrescente, uma brilhante narina na parte superior da cabeça. Estava aberta, embora meio entupida com areia que se acumu­lara quando a criatura fora puxada para a praia. Prendi a lanterna tão bem quanto podia na forquilha de um pinheiro, trouxe nas mãos água do mar e suavemente limpei a areia do buraco.

Senti o quente hálito do golfinho nas minhas mãos e isto foi algo surpreendente: a criatura tornou-se simultaneamente menos estranha e a sua cordialidade e inteligência menos mágicas e mais comoventes. Não podia sequer pensar em vê-lo morrer.

Passei a mão sobre a pele dele, notando apavorada como estava áspera; a brisa secava-a. Tentei calcular a distância que teria de ar­rastá-lo. Aqui e ali uma pequena marola, impulsionada pela mesma brisa, chegava até a cauda do golfinho, mas apenas uma delgadíssima lâmina de água vinda do raso, a uns quatro metros de distância. Logo que pudesse fazê-lo flutuar um pouco, eu deveria facilmente poder prover-lhe o peso.

Apaguei a lanterna, pus os braços em torno do golfinho na maior extensão possível e tentei puxá-lo. Mas não pude segurá-lo; minhas mãos escorregavam pelas formas impecavelmente aerodinâmicas do seu corpo. Nem tampouco pude segurar a barbatana dorsal; quando tentei puxar-lhe as barbatanas natatórias, ele se mexeu pela primeira vez. Pensei que ele ia lutar e subir ainda mais a praia. Finalmente, ajoelha­da, encostei meu ombro nos flancos dele e tentei empurrá-lo para trás com toda a força que pude reunir. Ele, porém, não se moveu um único centímetro.

Recuei, sem fôlego, suada, e quase em lágrimas.

            Eu não consigo, doçura, não posso nem mesmo deslocar você! Os brilhantes olhos líquidos observaram-me silenciosamente. Atrás dele, a quatro metros, o mar levantava-se e sussurrava sob o vento. Quatro metros: vida ou morte. Tirei a lanterna da árvore.

            Eu vou arranjar uma corda. Se eu puder amarrá-la em torno de você, poderei puxá-lo. Arranjar um ponto de apoio em torno de uma árvore... alguma coisa! — Parei para acariciar-lhe o flanco, mur­murando. — Vou correr, amor. Vou correr o caminho todo.

A sensação da pele do golfinho, porém, seca e quase áspera, fez-me hesitar. Eu poderia levar algum tempo até encontrar a corda e trazer ajuda. Não adiantava procurar Godfrey: se ele não estivesse acordado, eu perderia tempo. E eu não podia subir ao Castelo. Teria de voltar até a casa. Era melhor lançar um pouco de água salgada sobre a pele dele antes de deixá-lo, mantê-lo seguro enquanto eu es­tivesse longe.

Tirei as sandálias com um pontapé e corri para o raso. Mas o borrifo que consegui lançar mal lhe alcançou a cauda e tão rasa era a água naquele ponto que veio cheia de areia e cascalho, que o secaria ainda mais perigosamente que antes.

Lembrei-me então da bolsinha plástica, estupidamente pequena, mas melhor do que nada. Sai correndo da água, tirei a bolsinha da saia, acendi a lanterna e esvaziei-a sobre a arca. O diamante Forli brilhou com um relâmpago e uma faísca. Apanhei-o rapidamente e coloquei-o no dedo, enfiei o resto das coisas na bolsa, justamente com a lanterna. Voltei correndo à beira mar e enchi uma quantidade pateticamente pequena de água para molhar o golfinho.

O trabalho pareceu levar uma existência. Curvar-me, espigar-me, correr, inclinar-me, curvar-me, correr, inclinar-me... Ao chegar na cabeçorra da criatura coloquei a mão no orifício de respiração e cuidadosamente derramei água em volta. Incrivelmente, golfinhos podem afogar-se e, nas circunstâncias, não se poderia esperar que os reflexos apropriados estivessem funcionando. Ao derramar água pela primeira vez sobre o focinho, ele pestanejou, o que me espantou um pouco. Mas logo depois fitou-me firmemente, movendo o olho mais perto de mim enquanto eu andava para a frente e para trás.

Finalmente ele me pareceu suficientemente úmido para ficar em segurança. Deixei cair a bolsa gotejante, enxuguei as mãos no casaco, que na certa já estava completamente estragado, calcei as alpercatas e acariciei novamente o flanco do golfinho.

— Eu voltarei, querido. Não se preocupe. Andarei com tanta rapidez quanto puder. Continue a respirar. E queira Deus que nin­guém apareça.

Isto foi o máximo que cheguei a admitir, até mesmo para mim mesma, o que estivera murmurando, e por que, tão logo não mais precisasse da lanterna, apaguei-a.

Corri de volta pela areia. O piano parara, mas eu via ainda uma réstia de luz filtrando-se pela janela aberta que dava para o terraço. Nada se movia sobre o próprio terraço. Cheguei à sombra do bosque, onde o caminho para a Villa Forli subia quase verticalmente. Usando a lanterna mais uma vez, galguei-o quase sem fôlego. A brisa, regular agora, enchera o bosque com um farfalhar de folhas que me abafava os passos.

Logo cheguei à clareira iluminada pela luz das estrelas. As rãs mergulharam na lagoinha. O regato brilhou no feixe da lanterna. Apaguei-a quando saí de sob as árvores e cruzei tranqüilamente o espaço aberto, parando numa das extremidades para recuperar a res­piração, encostada contra um jovem carvalho que se erguia no local onde o caminho afunilava-se novamente no buraco escuro do bosque.

Ao sair da beira do carvalho, algo moveu-se no caminho.

Parei. Com os dedos mexendo desajeitados na lanterna, ela se acendeu, mostrando parte de uma figura que procurava esquivar-se. Um homem, a apenas um metro ou pouco mais de distância. Eu me teria chocado diretamente com ele.

As moitas farfalharam junto a mim. Alguém saltou. A lanterna foi arrancada de minha mão. Virei-me violentamente e acho que teria gritado o suficiente para acordar os mortos, mas ele me agarrou, puxou-me brutalmente e tapou-me a boca com força.

 

Agora, por favor, pisai de leve, pisai de leve, para que a toupeira cega não perceba quando nos caem os pés. Estamos perto.

Ele era muito forte. Debati-me e lutei, necessariamente em silêncio, mas inutilmente. Devo tê-lo ferido, embora, arranhado-lhe as mãos, pois ele se contraiu e eu o ouvi inalar violentamente. Afastou-me as mãos e sibilou:

Fique quieta, ouviu? em inglês. E, em seguida, certificou-se disso puxando-me violentamente a cabeça contra meu peito. Fiquei, portanto, não apenas muda, mas cega também. O casaco estava úmido e cheirava a mar. Tive ligeira impressão de outro movimento nas pro­ximidades, mas nada ouvi além de minha própria respiração e a do assaltante, pontilhadas pelas batidas de meu coração. A pressão da mão na minha nuca começou a doer e um botão arranhou-me o rosto. As minhas costelas, apertadas no forte gancho do outro braço, pare­ciam prestes a rebentar.

Deixei de lutar e esmoreci. Imediatamente, o cruel aperto dimi­nuiu, mas êle ainda me conservou presa com ambos os braços agora. Eu estava absolutamente imobilizada. Quando a pressão relaxou, soltei a cabeça. Se gritasse, alguém me ouviria do terraço do castelo...

Eles poderiam descer em questão de segundos... Certamente, até Max Gale...

            Onde é que você esteve? — perguntou-me meu captor. Olhei-o boquiaberto. Logo que ele percebeu que eu não tinha

intenção de gritar, soltou-me.

Você? — disse eu.

Onde é que você esteve?

Levantei as mãos para o rosto, e comecei a esfregar a bochecha dolorida.

Que é que o senhor têm que ver com isso? — perguntei, furiosa. — O senhor foi um pouco longe demais, não, Sr. Gale?

Você esteve lá em cima no Castelo?

Não! E se eu estivesse estado...

Então foi à praia. Por quê?

Há algum motivo... — comecei, e em seguida parei. O medo e a fúria reunidos fizeram-me esquecer por um momento o que acon­tecera antes naquele dia. Max Gale talvez não tivesse razão para exigir um relato dos meus movimentos, mas poderia ter as melhores das razões para querer conhecê-los.

Nada ganharia em recusar-me. Falei, portanto, mal-humorada.

Eu desci para ir buscar o anel de Phyl. Ela o deixou lá na praia esta manhã. Não precisa dar a impressão de que não me acre­dita: estava numa pequena bolsa que você não viu. Aqui, vê? — mostrei-lhe o diamante faiscante e em seguida enfiei profundamente a mão no bolso do casaco, quase como se temesse que ele o arrancas­se de mim. — E agora talvez me diga qual é o seu jogo? Esse seu jogo passa um pouco da conta, é preciso que saiba! Acho que, da próxima vez, usará armadilhas. O senhor me feriu.

Lamento muito. Não foi minha intenção. Pensei que você ia gritar.

Deus meu, naturalmente que eu ia! Mas por que você se preo­cuparia com isso?

Bem, eu... — ele hesitou. — Alguém poderia ouvi-la... Meu pai... Poderia tê-lo sobressaltado.

Que consideração de sua parte! — disse-lhe mordazmente. — E não tinha importância tinha, que quase me deixasse louca de medo? Que filho modelo é você. Fico até surpresa de vê-lo sair tão tarde e deixar o pai sozinho! E por falar nisso, onde é que esteve que não quer que ninguém saiba?

Pescando.

Oh? A resposta profundamente irônica que me chegou aos lábios murchou e morreu. Disse-lhe lentamente: — Mas você estava no Castelo há meia hora.

O que é que você quer dizer com isso? Você não disse que não esteve lá, perto?

O barulho que você fez no piano — disse-lhe eu cruelmente podia-se ouvir do continente. Eu o ouvi de lá da praia.

Isto é impossível falou ele bruscamente, mas com uma tiota de dúvida.

Você estava tocando! Você estava tocando e em seguida falou com seu pai. Eu conheço as vozes de vocês dois. Era você.

Ele ficou silencioso durante um momento. Em seguida, disse len­tamente:

Acho que você ouviu uma sessão de trabalho gravada em fita, com comentários e tudo mais. Mas ainda não sei como isso poderia ser. Meu pai não está lá. Ele foi passar a noite na casa de um amigo.

Onde?

Se isto lhe interessa, Corfu.

Você deve pensar que eu grito como um apito de locomotiva

            disse-lhe secamente.

O quê? Oh, eu... ele teve o bom gosto de gaguejar ligeiramente. Acho que disse a primeira coisa que me veio à cabeça. Mas é verdade que ele está em casa.

E você também não estava? perguntei. Bem, quem quer que tocasse a fita, certamente arranjou um maravilhoso alibi.

Não seja tola o riso dele foi perfeitamente natural. Ele devia possuir parte do talento do pai. Possivelmente somente alguém com experiência de voz de atôres como eu poderia ter percebido que a fácil mudança foi feita sobre alguma preocupação mais urgente. A sua imaginação está trabalhando em regime extraordinário, Srta. Waring! Por favor, não transforme isto em mistério. O que aconteceu éque meu pai resolveu, por alguma razão, voltar para casa e estava-se divertindo com o gravador de fita. Quanto a mim, estive pescando com Adoni...E, se isto lhe dá alguma satisfação, você também quase me matou de medo. Lamento se minhas reações foram um pouco violentas. Sinto muito. Mas se alguém subitamente surge da escuri­dão e corre diretamente para nós, bem... a pessoa age de acordo com as circunstâncias.

De acordo com o quê? A lei da selva? eu estava ficando turiosa. Eu não diria que essas reações são exatamente normais, a menos que você estivesse esperando... O que era que o senhor es­tava exatamente esperando, Sr. Gale?

Não tenho certeza — isto pelo menos parecia verdade. _ Pensei ouvir alguém subindo da praia, com grande rapidez, embora tentando não ser ouvido, mas a brisa abafava a maioria dos sons e eu não tinha certeza. Em seguida, os sons pararam, como se a pessoa, quem quer que fosse, estivesse oculta, à espera. Naturalmente, isto me fez perguntar o que ela queria, e eu esperei também.

Eu parei apenas para recuperar o fôlego. A sua imaginação está trabalhando em regime extraordinário, Sr. Gale.

Com toda probabilidade — eu não estava certa se ele notara o sarcasmo. Ele tinha a cabeça baixa, e estudava uma das mãos, girando-a de um lado para outro. — Bem, no momento em que cheguei à conclusão de que me enganara, você saiu das árvores como um veado em fuga. Eu a agarrei. Puro reflexo.

Compreendo. E acho que foi puro reflexo que o levou a arrancar-me a lanterna antes que eu pudesse ver qualquer coisa.

            Naturalmente — disse ele em voz inexpressiva.

            E, mesmo quando descobriu quem eu era, o senhor agiu como... um soldado da Gestapo?

Ele não respondeu. Posso apenas supor que a excitação e o mo­mento de pavor injetaram adrenalina demais na minha corrente san­güínea. Acho que estava um pouco alta com a dosagem. Lembro-me de ter ficado vagamente surpresa por não sentir medo algum dele. Em algum nível, acho, eu pensava que ele (a despeito de sua duvidosa interferência naquilo que Godfrey chamara de "passar a moamba") dificilmente seria um criminoso perigoso e que não queria fazer-me mal; no nível consciente, queria que o diabo me carregasse se eu fosse hu­mildemente para casa sem descobrir exatamente o que é que estava acontecendo. O problema já me tocara fundo demais para permanecer ignorada. A bolha encantada jamais existira realmente. Eu começava a suspeitar que não existia tal coisa.

Perguntei, então, como se fosse questão de interesse meramente acadêmico:

            Eu ainda quero saber por que lhe importaria saber onde eu estive? Ou que eu pudesse reconhecê-lo? Ou eram os outros que eu não devia ver?

Pensei durante um momento que ele não responderia. De alguma parte no fundo do bosque uma coruja chamou baixo uma e outra vez. Na lagoinha, uma rã experimentou a voz durante um momento, perdeu a coragem e mergulhou novamente.

Outros? — pergunto Max Gale tranqüilamente.

Os homens que passaram enquanto você me segurava.

Você está enganada.

Não estou, não. Havia mais alguém lá. Vi-o ao lado do cami­nho quando você saltou sobre mim.

Então deve tê-lo reconhecido também. Aquele era Adoni, nosso jardineiro. Você o conhece, acho.

Ninguém teria pensado que ele admitia ter dito outra mentira, ou mesmo concedido um argumento. O tom era aquele frio, social, de quem meramente afasta um assunto. Senti a adrenalina subindo peri­gosamente quando ele acrescentou em voz calma:

            Ele habitualmente vai comigo quando saio para pescar. Que é que há? Não me acredita?

Consegui dizer, em voz bastante agradável:

Eu me estava perguntando por que não puxou o bote para a sua própria baía. Este caminho parece esquisito... se esteve pes­cando.

O vento estava aumentando e era mais fácil entrar pelo outro lado do promontório. E agora, se desculpar-me...

Você quer dizer — perguntei — que deixou seu barco em nosso lado do promontório? Até mesmo ancorado em nosso ancora­douro? Mas, isto não é uma gracinha? Acho que é melhor descer no­vamente e tirá-lo de lá, Sr. Gale. Nós não gostamos de intrusos na Villa Forli.

Houve uma curta e nervosa pausa. Inesperadamente, ele riu.

Muito bem. Um ponto para você. Mas não hoje à noite. É tarde e eu tenho coisas a fazer.

Acho que deve ir ajudar Adoni a levar o peixe para casa. Ou seria melhor dizer, a moamba.

Esta penetrou fundo. Pensar-se-ia que eu o tinha esmurrado. Ele fez um súbito movimento, não em minha direção, mas eu senti que os seus músculos ficaram tensos. Acho que ele recuou um passo. Perguntei-me por que jamais pensara nele como uma edição apagada do pai. E, de súbito, senti medo.

Falei rapidamente.

            Não precisa preocupar-se. Eu não o vou denunciar! Por que deveria fazê-lo? Isto nada significa para mim, mas você deve com­preender que é horrível estar no meio de alguma coisa sem saber o que está acontecendo! Oh, sim, eu sabia, era evidente. Mas eu não direi coisa alguma — eu penso demais em Miranda e na mãe dela e, Por falar nisso, em seu pai, para trazer a Polícia aqui com mais per­guntas. Por que é que deveriam interessar-me os negócios em que você se meteu? Mas eu me preocupo com Adoni... Você sabia que ele vai casar com Miranda? Por que é que teve de envolvê-lo nisto? Já não houve encrencas demais?

Após a primeira e incontrolável explosão, ele me ouviu sem mo­vimento ou comentário, mas notei-lhe os olhos sobre mim, apertados e atentos à luz mortiça.

De que é exatamente que você está falando? — perguntou ele tranqüilamente.

Você sabe muito bem. Acho que o pobre Yanni não conseguiu terminar o trabalho na noite passada, e assim você foi hoje a noite lá, na costa albanesa, para concluí-lo você mesmo. Não foi?

            Onde é que você formou essa... fantasia?

Fantasia, coisa nenhuma — disse-lhe secamente. — Godfrey Manning contou-me esta manhã.

O quê? — se eu conseguira sair-me bem antes, isto agora era inteiramente diferente. A simples palavra dele fez-me recuar um passo e desta vez ele se adiantou. Toquei numa árvore com as costas, virei-me cegamente — acho que para fugir — mas ele estendeu a mão e segurou-me o pulso, não com força, mas numa empunhadura de que eu não poderia soltar-me sem lutar e, provavelmente, nem dessa maneira. — Manning? Ele lhe disse isso?

            Solte-me!

            Não, espere um minuto. Eu não vou machucá-la. Não fique com medo. Mas você tem que me dizer. Que é que Manning lhe disse?

            Solte-me, por favor.

Ele me soltou o pulso imediatamente. Esfreguei-o, embora não estivesse absolutamente machucado. Mas eu tremia agora. Acontecera algo que mudara o tom da cena; em lugar da ironia ligeiramente agra­dável da anterior troca de palavras, havia agora alguma coisa urgente, séria e, sim, ameaçadora. E fora o nome de Godfrey que fizera isso.

Gale repetiu:

            Que é que ele lhe contou?

            Sobre Yanni? Que ele era contrabandista, e que provavelmente teria um contato, ou o que quer que seja, que conseguiria as mercadorias para ele, e que ele esperava que a Polícia não desco­brisse o caso acidentalmente, porque Spiro também estava metido na coisa e isto prejudicaria Maria se fosse sabido.

E isto foi tudo?

Sim.

Quando é que ele lhe contou tudo isto?

Esta manhã, no promontório, antes que você descesse.

           Ah! — ouvi-o exalar um suspiro. — Então você não esteve na casa de Manning ainda há pouco.

Claro que não! Você tem alguma idéia de que horas são?

           Eu... naturalmente. Sinto muito. Não pensei no que estava dizendo. Não quis ofendê-la. Manning lhe disse que eu era o contato de Yanni?

Não. Eu descobri por mim mesma.

Você? Como?

Hesitei. A sensação de medo desaparecera. O bom senso voltara e dissera-me que eu não corria perigo. Contrabandista ou não, ele dificilmente me assassinaria por isso. Respondi:

            Eu vi Yanni subir para o Castelo na noite passada.

            Compreendo... — eu quase senti a surpresa, a rápida avalia­ção da situação. — Mas você nada disse à Polícia.

            Não.

            Por que não? Respondi, cuidadosamente.

Não tenho certeza. Para começar, fiquei calada porque pensei que pudesse estar enganada e que Yanni talvez não tivesse ido abso­lutamente ao Castelo. Se eu pensasse que você teve alguma coisa com a morte dele, eu teria contado. Mais tarde compreendi que havia alguma ligação entre você e Yanni e que você sabia que ele ia sair na noite passada.

Como?

Porque você não ficou surpreso quando soube que ele se afogara...

Você notou isso, não? Falha minha. Continue.

Mas você ficou chocado. Eu notei isso.

Você vê demais — disse ele em voz sombria. — Que é que a fez pensar que eu não o matara?

Deus meu, não! Não me teria ocorrido que você pudesse matá-lo! Se eu tivesse pensado que fosse outra coisa que não um acidente eu teria contado logo! Mas não foi, foi?

Não que eu saiba. Continue. O que mais viu?

Vi quando você voltou ao corpo e examinou-o novamente.

Viu? Do caminho? Que descuido meu. Pensei que estava fora do alcance. Quem mais viu?

Ninguém.

Tem certeza?

Absoluta.

E você tampouco falou a esse respeito? Bem, bem. Então foi idéia inteiramente sua que eu estava fazendo contrabando junta­mente com Yanni?

Sim.

E agora confirmou sua suspeita. Ainda vai ficar calada? Respondi, sem desafio, mas por simples curiosidade.

Como é que você poderia ter certeza disso?

Ele respondeu, com igual simplicidade:

            Minha querida, eu não poderia sequer começar a tentar. Digo-lhe apenas que é da máxima importância que ninguém saiba que eu saí hoje à noite, ninguém absolutamente. Peço-lhe para ficar calada.

Então não se preocupe. Eu ficarei.

Fez-se outra pequena pausa.

Tão fácil assim? — perguntou ele em estranho tom de voz.

            Eu lhe disse... por causa de seu pai — respondi, talvez de­pressa demais — e por causa de Maria. A única coisa é...

           Sim...

            As coisas acontecem em trincas, segundo dizem, e se alguma coisa acontecer a Adoni...

Ele riu.

Nada lhe acontecerá. Eu lhe prometo isto! Eu não aceitaria a responsabilidade de danificar uma obra de arte como Adoni! Bem... — Percebi um mundo inteiro de alívio naquela palavra. Em seguida, a voz mudou e tornou-se viva, fácil, normal. — Eu não a quero deter mais. Só Deus sabe que horas são e você deve voltar para casa com esse tesouro. Sinto muito não tê-lo visto esta manhã e ter causado toda essa preocupação a sua irmã... E lamento tê-la amedrontado agora. Dizer-lhe que estou grato seria o eufemismo do ano. Posso acompanhá-la até em casa?

Não há necessidade, realmente, muito obrigada. De qualquer modo, não seria melhor ir ajudar Adoni?

            Ele está bem. Você ouviu o sinal?

            Sinal? Mas não houve... — parei e vi que ele sorria. — Não as corujas? Não, realmente! Como é que você pode ser tão anti­quado assim! Era realmente, Adoni?

Ele riu.

            Era. O companheiro do ladrão está no seco e em casa, juntamente com a moamba. Venha, vou levá-la até em casa.

            Não, realmente. Eu...

            Por favor. Afinal de contas este bosque é muito escuro e você estava nervosa, não?

Nervosa? Não, claro que não!

Ele olhou-me, surpreso.

Então por que, em nome de Deus, você corria tanto?

            Porque... — estaquei, quase morta. O golfinho. Eu esquece­ra o golfinho. A brisa, passando pela copa das árvores levantou cala­frios na minha pele. Pensei no golfinho, morrendo ali, secando, lá em­baixo, na praia. Respondi rapidamente. — Era tão tarde e Phyl estava preocupada. Não se incomode, por favor. Eu vou sozinha. Boa noite.

Mas logo que alcancei o túnel de árvores, ele se emparelhou comigo.

— É melhor que eu a leve em segurança até em casa. Além disso, você teve razão em dizer-me para tirar o barco de lá. Acho melhor deixá-lo mais à mão pela manhã. Eu o colocarei ao abrigo dos pinheiros.

Por mais que me esforçasse, não pude reprimir um movimento de apreensão. Ele o sentiu e parou.

            Espere um minuto.

Pôs a mão no meu braço. Voltei-me. Estava muito escuro sob as árvores.

Você descobriu mais a respeito de mim do que eu gostaria. Acho que é tempo para você ser um pouco honesta à seu próprio respeito. Encontrou alguém lá na baía?

Não.

            Viu alguém?         

— Não.

— Tem certeza? Isto é importante.

Sim.

Então por que não quer que eu vá até lá?

Eu nada disse. Senti a garganta tensa e seca como papelão. As lágrimas de tensão, medo e exaustão não estavam longe.

            Ouça — disse ele insistentemente, e não sem bondade. — Eu preciso saber. Algum dia, eu lhe direi por quê. Diabo, eu tenho de confiar em você. Por que você não confia em mim para variar? Acon­teceu alguma coisa lá para amedrontá-la, não? Foi por isso que você veio correndo como uma lebre que vê uma arma. O que foi? Diga-me, eu vou até lá embaixo e descubro por mim mesmo. Bem. Arriei todas minhas cartas. Disse em voz trêmula.

            O golfinho.

            O golfinho? — repetiu ele com expressão vazia. — Está na baía.

Ele falou após uma pausa com uma secura que era parte exasperação e parte alívio:

E você acha que eu vou lá embaixo atirar nele no meio da noite? Eu já lhe disse antes que jamais toquei naquele animal! — eacrescentou mais bondosamente. — Ouça, você teve um dia muito trágico e está amedrontada e perturbada. Vou levá-la até em casa agora. Ele pode cuidar de si mesmo, como você sabe.

Ele não pode. Ele está na praia.

Ele está o quê?

Encalhado. Ele não pode voltar para o mar.

Bem, meu Deus, você ainda pensa que eu iria fazer algum mal a ele... — ele parou, parecendo pela primeira vez compreender o que eu lhe dissera. — Encalhado? Você quer dizer que a criatura está realmente encalhada?

Sim, longe da água e no seco. Ele vai morrer. Eu tentei empur­rá-lo, mas não pude. Eu estava correndo para ir buscar uma corda. Era por isso. Se ele ficar fora da água muito tempo secará e morrerá. E nós estivemos perdendo este tempo todo...

Onde está ele?

Do outro lado, sob os pinheiros. O que você... Oh!— isto foi um grito involuntário que soltei quando ele me prendeu um braço e girou-me. — Que é que está fazendo?

Não se preocupe, isto não é outro assalto. Agora, escute. Há uma corda no meu barco. Vou descer e buscá-la e irei procurá-la ime­diatamente. Volte para o seu golfinho e espere por mim. Pode man­tê-lo vivo por mais vinte minutos?... Muito bem. Nós dois conse­guiremos dar um jeito, não se preocupe. Mas — uma ligeira pausa — fique bem calada, ouviu?

Antes que eu pudesse replicar ele desapareceu. Eu o ouvi voltar rápido, mas ainda furtivamente, pelo mesmo caminho em que viera.

 

...Sê livre nos elementos.

Não havia tempo para dúvidas ou indagações. Isto poderia vir de­pois. Obedeci-o e voei caminho abaixo até a praia, em direção à areia pálida onde jazia imóvel o grande fardo.

O olho escuro observou-me. Ele estava vivo. Sussurrei-lhe:

Está tudo bem agora. Ele está vindo e imediatamente voltei a apanhar água para molhá-lo. Se notei por acaso que não me tinha incomodado, nem mesmo em pensamento, em especificar quem era ele, isto era outra questão que poderia esperar até mais tarde.

Ele voltou mais cedo do que eu esperava. Um pequeno barco a motor fez a volta em torno da baía, com o motor desligado. Apenas com um espadanar de remos a embarcação foi suavemente empurrada para a frente. A brisa e as pequenas ondas sobre as pedras abafaram osom até o barco chegar a alguns metros da praia. Vi-o levantar-se e, usando uma espécie de alavanca, aproximá-lo ainda mais da pedra. A madeira raspou ligeiramente o fundo e êle desceu amarrando o barco em um jovem pinheiro. Logo depois, aproximou-se de mim na areia, com um rolo de corda no braço.

Deus meu! Como é que ele veio parar aqui?

Isto acontece — respondi. — Eu já li a esse respeito. Algumas vezes uma tempestade os lança na areia, mas, outras, o aparelho de radar deles fica confuso, ou alguma coisa assim, e eles vêm de alta velocidade e, quando menos esperam, estão encalhados. Nós temos sorte de que haja somente uns trinta centímetros de maré ou a água poderia estar a quilômetros dele agora. Acha que pode movê-lo?

Posso tentar — disse ele, inclinando-se sobre o animal. — A dificuldade é que não podemos segurá-lo firmemente. Você tem uma lanterna?

Eu a deixei cair quando você me atacou no bosque.

Então deixou-a cair! Há uma no barco... Não, talvez não. Podemos passar sem ela. Pode ir para o outro lado?

Juntos lutamos para agarrar e levantar o golfinho e, com algum sucesso, pois o puxamos e o empurramos uns trinta centímetros mais ou menos até a água. O próprio golfinho, porém, derrotou-nos. Pos­sivelmente amedrontado com a presença dele ou ferido pelos nossos puxões e o atrito da areia e dos seixos, começou a lutar, espasmódica, mas violentamente e, ao fim dos primeiros e penosos minutos, avan­çáramos apenas trinta centímetros. Eu estava exausta e Max Gale arquejava.

Não dá certo — disse ele, recuando. — Ele pesa uma tonelada e é como se a gente quisesse agarrar uma bomba encerada. Teremos que usar uma corda. Será que vai feri-lo?

Não sei, mas teremos de tentar. Ele morrerá se ficar aqui.

Isto é exato — disse ele, — muito bem, ajude-me a passá-la em torno da parte mais estreita da cauda.

O golfinho jazia como uma tora. Voltou lentamente os olhos para observar-nos quando nos ajoelhamos para amarrar-lhe a corda na cauda. Sem uma lanterna era impossível ter certeza, mas eu comecei a desconfiar que o olho não estava tão brilhante e observador como antes. A cauda pareceu-me pesada e fria, como alguma coisa já morta. Ele não contraiu músculo algum quando tentamos levantá-lo e pôr a corda em torno dele.

Ele está morrendo — disse eu com uma espécie de soluço. — Aquela luta deve tê-lo liquidado — passei as costas de minha mão sobre os olhos dele e comecei a chorar. A corda estava molhada e áspera e o golfinho tinha a cauda coberta de areia grossa.

Você prefere acabar-se de choro, não?

Levantei os olhos para ele e vi-o ocupado com o nó. O tom da voz dele não era grosseiro, mas eu fiquei com a impressão que ele tinha a mente parcialmente em outro lugar: ele não se importava em absoluto com o golfinho, queria apenas acabar com aquilo e voltar ao que quer que tivesse sido seu estranho e duvidoso trabalho noturno.

Bem, bastante justo. Fora uma bondade dele vir, afinal de contas. Mas algum velho instinto de defesa fez-me dizer um pouco amarga­mente.

Acho que você pode ser perfeitamente feliz nesta vida se ficar de lado, observar e preocupar-se com os seus próprios negócios e deixar que as outras pessoas façam o que quiserem, arruinando-se umas às outras. Você continua a enganar-se dizendo que é imparcial e tolerante e tudo isso, e então subitamente você compreende que está-morto e que jamais esteve vivo. Viver dói.

E então você parte o coração por causa de um animal que nem mesmo a conhece ou reconhece.

Alguém tem que se incomodar — respondi debilmente. — Além disso, ele me reconhece, ele me conhece perfeitamente.

Ele deixou passar esta e levantou-se, segurando a corda.

            Bem, está pronto, isto é melhor que podemos fazer. E Deus queira que possamos tirar a corda novamente antes que ele saia por aí a sessenta nós por hora mais ou menos. Bem, lá vamos. Pronta?

Lancei o casaco na areia, tirei com um pontapé as alpercatas e entrei na água rasa ao lado dele. Seguramos juntos a ponta da corda. Eu não julguei nem sequer estranho que estivéssemos ali, com as mãos se tocando, trabalhando juntos tão naturalmente como se o tivéssemos feito todos os dias de nossas vidas. Mas eu estava muito consciente do toque de sua mão contra a minha na corda.

O golfinho moveu-se uns dois centímetros; outro; deslizou lenta­mente uns trinta centímetros; e ficou preso. Pareceu-me que ele se tornou mais pesado de puxar, um peso morto na corda, que nos feria as mãos, e que o devia estar machucando abominavelmente, talvez mesmo cortando-lhe a pele...

Calma agora — disse Max Gale ao meu ouvido. Relaxamos o corpo. Soltei a corda e dirigi-me à praia.

Vou dar uma olhada nele. Estou com medo de que ele...

—            Diabo o carreguei — ouvi Gale gritar quando o golfinho le­vantou-se subitamente, batendo com a cauda, espadanando água e areia. Vi a corda estalar e correr através das mãos dele e outra violenta praga quando ele mergulhou para manter o pé.

Corri para ele.

            Sinto muito... Oh! O que é isso? — ele enrolara a corda em torno da mão e punho direitos e notei que mantinha o braço es­querdo alto, rígido, os dedos meio contraídos, como se estivessem feridos. Lembrei-me de que ele o havia examinado lá na clareira. Devia ser por isso que ele levara tanto tempo para amarrar a corda e fora incapaz de mover o golfinho.

A sua mão disse eu vivamente. Está ferida?

Não. Sinto muito, mas eu quase caí. Bem, pelo menos a besta está ainda viva. Vamos, vamos fazer outra tentativa antes que ele fique realmente com medo.

Ele segurou a corda mais uma vez e fizemos uma segunda tenta­tiva. Desta vez o golfinho ficou tranqüilo, peso morto novamente, e moveu-se lenta, lenta, lentamente, até que recuperamos o terreno per­dido. Ficou preso novamente, mais uma vez inamovível, ao que pa­recia .

Deve haver ali uma crista ou alguma coisa. Ele fica preso todas as vezes Gale parou para limpar o suor dos olhos. Notei que ele deixava cair a mão esquerda, agora pendente.

Ouça conjeturei eu isto vai levar a noite toda. Não po­deríamos... quero dizer, não poderia o barco rebocá-lo... com o motor ?

Ele ficou calado durante tanto tempo que eu perdi a calma e disse rapidamente.

Muito bem, eu compreendo. Eu apenas pensei...Se Adoni che­gou realmente em segurança, não importa. Esqueça isso. Foi maravi­lhoso de sua parte incomodar-se, com sua mão assim e tudo mais. Talvez...Talvez...se eu ficasse aqui a noite inteira e o mantivesse úmido e se você pudesse...Você acha que podia telefonar a Phy em meu nome e contar-lhe. Dizer que me viu aqui do terraço e desceu? E se você puder voltar pela manhã, quando não importará mais, com o barco ou com Adoni...ele se virara e olhava para mim. Eu nada vi senão uma sombra silhuetada contra as estrelas. Você se im­portaria? terminei.

Usaremos o barco agora disse êle bruscamente. Que é que vamos fazer...amarrar a corda ao casco e afastarmo-nos lenta­mente?

Inclinei vivamente a cabeça.

Eu ficarei ao lado dele até que êle flutue. Provavelmente terei de mantê-lo direito na água até que êle se recupere. Se ele rolar, vai afogar-se. O orifício de respiração ficará coberto e eles têm de respi­rar com muita freqüência.

Você vai ficar encharcada.

Eu já estou encharcada.

Bem, é melhor ficar com a minha faca. Tome aqui. Se cortar a corda, corte tão próxima da cauda como puder.

Enfiei a faca no cinto, à moda dos piratas, e voltei pela água até onde estava o golfinho. Não era imaginação minha. O belo olho escuro estava mais apagado e a pele pareceu-me novamente mais áspera e seca. Coloquei uma mão em cima dele e curvei-me.

            Somente um minuto agora, amor. Não tenha medo. Somente um minuto.

— Okay? — perguntou Max tranqüilamente do barco, que se balançava a alguns metros. Ele amarrara a corda; ela se estendia pela água, da cauda do golfinho até um anel no casco.

— Okay — respondi.

O motor pegou com uma espécie de tosse e as suas pulsações pa­receram encher a noite. Eu conservava a mão no corpo do golfi­nho... Nem mesmo um tremor; motores de barco não o assustavam. Em seguida, o motor desceu para um murmúrio e o barco começou a afastar-se lentamente da praia.

A corda levantou-se, vibrou, desprendendo um fino e brilhante borrifo; em seguida, retesou-se. O som do motor acentuou-se; a corda esticou-se mais, dela pingando em gotas a luz das estrelas. O nó, aper­tado justamente onde o grande arco da cauda abria-se horizontalmente a partir da espinha, pareceu cortar fundamente a carne do animal. Es­tava muito apertado; a pele estirada; devia doer horrivelmente.

O golfinho fez um movimento convulso e eu apertei o cabo da faca, mas permaneci imóvel. Os meus lábios sangraram onde os mor­dia e eu suava como se eu mesma sentisse a dor. O motor girava suave e firmemente; a luz das estrelas brilhava e gotejava da corda...

O golfinho moveu-se. Lenta e suavemente o enorme corpo come­çou a deslizar pela areia em direção à água. Com a mão ainda sobre o nó, acompanhei-o.

Está dando certo! — disse, quase sem fôlego. — Pode puxar bem lentamente?

Certo. Assim? Grite logo que ele flutuar e eu solto a âncora aqui.

O golfinho continuou a deslizar lentamente como um barco des­cendo as carreiras de lançamento. O rangido da areia e das conchas partidas sob o corpo emitia um som tão alto quanto o vibrante motor a alguns metros adentro. Finalmente, ele tocou na água... foi pu­xado através de agitadas marolas... e lenta, lentamente, começou a entrar no mar. Segui-o quando ele deslizou para um local mais fundo. As marolas lavaram-me os pés, os tornozelos, os joelhos; a mão que eu mantinha sobre o nó da corda estava agora sob a água até o punho.

Alcançamos finalmente um lugar onde o fundo do mar descia mais abruptamente. Num momento encontrei-me com ondas quase pelo peito, ofegante, enquanto a água subia no frio da noite. O golfinho, movendo-se comigo, balançou-se à medida que a água começou a deslocar-lhe o peso. Mais alguns segundos e ele começaria a flutuar. Ele se moveu apenas uma vez, empilhando-se convulsivamente num movi­mento que fez a corda emitir um som metálico e ferir-me dolorosamen­te a mão. Gritei e o motor desceu para um murmúrio. Max gritou vivamente:

Você está machucada?

Não. Continue. Eu o seguro.

Até que distância agora?

Está quase na profundidade. Ele está calmo agora. Eu penso que ele está...Oh, Deus, acho que ele está morto! Oh, Max...

Calma, querida, estou indo. Segure-o. Vamos fazê-lo flutuar primeiro. Diga quando.

            Está quase...Agora! Pare!

O motor parou tão subitamente como se tivesse sido fechado uma porta a prova de som. O corpo do golfinho passou flutuando ao meu lado, subindo na água e balançando-se Concentrei-me para segurá-lo. Max soltara a corda e estava rapidamente empurrando o barco para o lugar de amarração sob os pinheiros. Ouvi o ranger de uma corrente quando ele o prendeu. Um momento depois ele estava ao meu lado na água, com o rolo frouxo de corda no braço.

            Como é que estão as coisas? Ele está morto?

Eu não sei. Não sei. Eu o seguro enquanto você desamarra a corda.

Vire a cabeça dele para o mar, apenas por precaução... Vamos, rapaz, vire-se...Muito bem. Ótimo. Agora segure-o, querida. Vou ser tão rápido quanto puder.

O golfinho ficou imóvel nos meus braços, com o orifício de res­piração flácido e inteiramente aberto, exatamente acima da água, o corpo balançando pesadamente como um barco furado prestes a afun­dar.

Você está bem agora — disse-lhe eu num sussurro de agonia que ele certamente não poderia ouvir você está no mar...no mar. Você não pode morrer agora...não pode...

Deixe de preocupar-se — disse Max em voz alegre, do outro lado do golfinho. São Spiridion cuida de sua gente. Ele está um pouco abatido, o pobre, não? Contudo, queira Deus que ele fique imó­vel até que eu possa tirar essa maldita corda. Está com frio?

            Não muito respondi, com os dentes chocalhando.

No momento, em que ele se curvou novamente sobre a corda, pen­sei sentir o golfinho vibrar contra o meu corpo. No momento seguinte tive certeza. Os músculos flexionaram-se sob a pele, uma pequena onda de força percorreu-lhe as costas poderosas, uma barbatana tre­meu e agitou-se, sentindo a água, usando-a, deslocando o peso.

Ele está se movendo! — gritei excitada. — Ele está bem! Oh Max... rápido... se ele decolar agora...

Se decolar agora nós vamos com ele. A corda está úmida. Eu não posso fazer coisa alguma. Terei de cortá-la. A faca, por favor.

No momento em que enfiou a lâmina sob a corda e começou a serrá-la, o golfinho ressuscitou. Os poderosos músculos flexionaram-se suavemente uma, duas vezes, contra o meu corpo e eu notei os grandes flancos ondularem e engrossarem. O orifício de .respiração fechou-se.

            Depressa! — disse eu. — Ele está indo embora.

O golfinho soltou-se dos meus braços. Levantou-se uma inespe­rada onda que me encharcou toda até o peito quando o grande corpo arqueou-se e desceu num mergulho esplêndido, diretamente para o mar alto. Ouvi Max praguejar violentamente e sentimos um espadanar de água e uma onda mais próxima, secundária, quando o golfinho desa­pareceu completamente sob a água. A dupla onda cobriu-me e eu vacilei, quase perdendo o pé. Durante um horrível momento pensei que Max, segurando teimosamente a corda, fora rebocado diretamente para o mar alto na esteira do golfinho como uma piaba presa numa linha. Mas logo que me equilibrei, indo aos tropeços para a água mais rasa, ele subia à superfície ao meu lado, com água pela cintura, gotejante, com o nó cortado na mão e a corda pendurada.

Agarrei-lhe o braço, quase chorando de alívio e emoção.

Oh, Max! — tropecei novamente e senti o seu braço molhado em torno de mim. Mal notei. Olhava para o escuro e estrelado mar onde, lá longe, uma esteira de fogo queimava o explodia em longos e alegres saltos e curvas e desaparecia na escuridão...

Oh, Max... olhe, lá vai ele. Viu a luz?... Lá... desapareceu. Desapareceu. Não foi maravilhoso?

Pela segunda vez naquela noite senti-me agarrada e violentamente silenciada, mas desta vez pela boca de Max. Estava fria e tinha gosto de sal e o beijo pareceu durar para sempre. Estávamos ambos molha­dos até os ossos, gelados, mas os nossos corpos se encontraram e no lugar onde se prenderam um no outro eu senti o calor de sua pele e do seu sangue que pulsava quente contra o meu. Se estivéssemos nus a sensação seria a mesma.

Ele me soltou e ficamos ali, olhando um para o outro.

Consegui compor-me com esforço.

Que foi isso? A prenda pelas rosas?

Dificilmente. Chame a isso o clímax de uma noite infernal — ele empurrou o cabelo molhado para trás da testa e sorriu. — O re­pouso do guerreiro, Srta. Waring. Incomoda-se?

Não há de quê — leve isso em tom de brincadeira, pensei, em tom de brincadeira. — Você e Adoni devem ter levado muito tempo passeando.

Um bocado — ele não parecia considerar a coisa de qualquer maneira especial. Dava a impressão de simplesmente alegre e real­mente satisfeito consigo mesmo. — Para dizer a verdade, foram as emoções reprimidas de uma semana diabólica. Não sentiu o que estava para vir? Meu pai sentiu.

Seu pai? Após aquele primeiro encontro? Não acredito. Você me deu a impressão de que queria linchar-me.

Os meus sentimentos — disse ele cautelosamente — podiam ser mais bem descritos como confusos. E, diabo a carregue, se você continuar a aparecer meio nua todas as vezes que se aproximar de mim...

            Max Gale!

Ele riu.

            Alguém já lhe disse que os homens são apenas humanos, Lucy Waring? E alguns um pouco mais humanos do que outros?

            Se você chama isso de humano, você está me lisongeando.

Muito bem, querida, vamos chamá-lo de prenda pelas rosas. Você tomou um bocado, lembra-se? Esplêndido. Venha aqui.

Max, você é impossível... Entre todos os tipos de vaidosos... Isto é ridículo! Que ocasião escolher...

Bem, meu amor, desde que você lança fagulhas como um gato todas as vezes que eu me aproximo, o que é que eu pude fazer senão desviar-me de você da primeira vez?          

            Isto mostra bem o que você conhece de eletricidade.

Hum. Não, fique quieta um instante. Você carrega uma carga muito letal, não?

Você também podia queimar alguns fusíveis, já que estamos falando nisto... Meu Deus, nós devemos estar malucos — disse eu, empurrando-o. — Vamos sair. Eu adoraria morrer com você e ser enterrada na mesma cova, mas não de pneumonia. Não é nada ro­mântico ... Não, Max! Eu reconheço que lhe devo o que você quiser, mas vamos calcular isso lá no seco! Solte-me, pelo amor de Deus.

Ele riu e soltou-me.

            Muito bem. Vamos. Oh, Deus, deixei cair a corda... Não, está aqui. E isto também tem de ser pago, fique sabendo. Uma corda de sisal novinha em folha, vinte metros de corda...

Você não é o único. Este vestido custou cinco guinéus e as alpecartas três libras e dez xelins e eu acho que elas jamais serão as mes­mas novamente.

Eu pagarei por elas com o maior prazer — disse Max alegre­mente, parando em dezoito centímetros de água.

— Tenho certeza que sim, mas não será despesa sua. Oh, querido, não seja maluco, vamos sair!

— Que pena. E o que é que você pensa que liquida a conta do golfinho? Apolo, ou o Santo? Acho que escolheria Apolo, se fosse você. Naturalmente, se você perdeu o brilhante de sua irmã a conta subirá muito.

—            Demônio! Oh, não, está aqui — o grande brilhante faiscou azulado à luz das estrelas. — Oh, Max, falando sério, obrigada, imen­samente... você foi tão maravilhoso... Eu fui uma tola tão grande! Se você puder algum dia...

A sua mão fechou-se quente em torno do meu braço e, no mes­mo momento, vi uma luz, uma pequena luz dançante, como de uma lan­terna elétrica, dobrando o promontório no caminho que conduzia a Vila Rotha. A luz saltitou pelas pedras, parou no barco ancorado e, pela primeira vez, vi-lhe o nome, Ariel; em seguida, raspou pela água e fo­calizou-se em nós, gotejantes e encharcados, espadanando no raso. Nós também estávamos, no momento em que a luz nos atingiu, a metro e meio de distância um do outro.

            Deus meu! — disse a voz de Godfrey. — Que é que está ha­vendo? Gale... Lucy... vocês estão molhados como uns pintos... Outro acidente?

            Não — respondeu Max. — Que é que o trouxe aqui?

Ele falou num tom de voz tão informativo e tão cordial como um muro cheio de cacos de vidro em cima. Godfrey, porém, aparente­mente não notou. Já saltara com um leve movimento das pedras para a areia sob os pinheiros. Vi a lanterna parar novamente e varrer o lugar onde estivera o golfinho e a larga e cortada trilha por onde ele forapuxado até o mar. Meu casaco estava lá numa trouxa; as sandálias eu havia afastado com um pontapé para algum lugar.

            Pelo amor de Deus, o que é que houve? — a voz de Godfrey parecia evidentemente alarmada e profundamente curiosa. — Lucy, você não teve nenhum problema, teve? Encontrou o brilhante?

            Como é que soube disso? — perguntei com expressão vazia.

            Ora, Phyl telefonou, naturalmente. Ela disse que você desce­ra havia horas e que estava preocupada. Eu lhe disse que viria pro­curá-la. Eu acabei de chegar — a lanterna tocou-nos com o dedo do feixe e parou em cima de Max. — Que é que aconteceu?

Tire essa coisa do meu rosto — disse Max irritado. — Nada aconteceu, pelo menos não no sentido que você pensa. Aquele seu golfinho encalhou. A Srta. Waring estava tentando empurrá-lo para a água e não conseguia. Eu trouxe o barco e reboquei o animal até o mar. Ficamos molhados no trabalho.

Você está querendo dizer — Godfrey dava a impressão de total incredulidade — que trouxe o barco a esta hora da noite para salvar um golfinho?

Não foi uma grande bondade dele? — perguntei eu vivamente.

Muito — disse Godfrey, sem tirar os olhos de Max. — Eu poderia jurar que o ouvi chegar já há algum tempo.

Eu pensei que você tinha saído também — disse Max. — E que acabara de chegar.

Novamente a mesma coisa, pensei. Os tensos cães andando em círculos um em volta do outro. Mas talvez o tom de Max fosse assim reprimido apenas porque ele falava através de dentes cerrados — em virtude do frio e não da emoção — porque ele acrescentou com bas­tante civilidade: — Eu disse que trouxe o barco e não que cheguei. O fato é que saímos mais ou menos depois das dez. Chegamos lá há alguns minutos. Adoni acabara de subir quando a Srta. Waring apareceu correndo. Eu estava ainda no barco.

Godfrey riu.

Sinto muito. Eu não queria fazer pouco da bela façanha! Que sorte para Lucy e para o golfinho!

Foi, não foi? — perguntei. — Eu estava sem saber o que fazer quando ouvi o Sr. Gale. Eu teria ido procurá-lo, mas Phyl me disse que você não estaria lá.

Eu não estava — pensei que ele ia acrescentar mais alguma coisa, mas ele mudou de idéia e disse. — Eu saí mais ou menos às dez e meia e acabava de chegar quando o telefone tocou. Encontrou o anel?

Sim, obrigada. Oh, foi uma verdadeira saga. Você não pode fazer idéia!

— Sinto muito tê-la perdido — disse ele. — Eu teria gostado da festa.

            Eu gostei — disse Max. — Agora, escute, o diabo leve estas civilidades. Você ouvirá tudo em alguma outra ocasião. Se não qui­sermos morrer de pneumonia, temos de ir embora. Onde estão os seus sapatos, Srta. Waring?... Oh, obrigado — isto quando a lanterna de Godfrey os localizou e ele os entregou a mim. — Calce-os logo sim?

- Que é aquilo? — perguntou Godfrey com a voz bruscamente alterada.           

— Meu casaco — eu não dei muita importância ao tom de voz dele. Tremia muito agora e estava ocupada com o trabalho muito desagradável de calçar alpecartas em pés úmidos e cobertos de areia.

- Oh, é a bolsa de Phyl. Sr. Gale, o senhor se importaria...

            Isso é sangue! — disse Godfrey. Ele levantara o casaco e apontava a lanterna, poderosa como um farol de automóvel, para a manga. Levantei a vista, surpresa.

Era realmente sangue. Uma das mangas estava completamente molhada de sangue.

Senti mais do que vi Max tornar-se tenso a meu lado. A lanterna começou a mover-se em direção a ele.

Falei secamente:

Por favor, apague essa lanterna, Godfrey! Eu não me sinto decente neste vestido encharcado. Dê-me o casaco, por favor. Sim, é sangue... O golfinho cortou-se numa pedra ou alguma coisa. Sangrou em cima de mim antes que eu visse. Terei sorte se esta mancha sair.

Ande logo — disse Max bruscamente — você está tremendo. Ponha isto em torno de você. Vamos, temos de ir.

Ele pôs o casaco em torno dos meus ombros. Meus dentes cho­calhavam como uma máquina de escrever; o casaco não constituía con­forto algum sobre o vestido molhado e colado ao corpo.

S-sim — disse eu. — Estou indo. Eu lhe contarei tudo quando o vir novamente, Godfrey. Ob-obrigado por ter vindo aqui.

Boa noite — disse ele. — Irei lá amanhã saber como você está.

Ele se voltou e mergulhou na sombra dos pinheiros. Vi a lanter­na mover-se lentamente sobre o solo no local onde o golfinho estivera e subir novamente para iluminar as pedras.

Max e eu atravessamos apressadamente o trecho de areia. O vento soprava frio em nossas roupas molhadas.

O casaco custou nove libras e quinze xelins — disse-lhe —esta conta é sua. Aquele golfinho não estava sangrando. O que é que houve com sua mão?

Nada que não fique bom logo. Por aqui.

Estávamos ao pé dos degraus do Castelo e eu teria seguido cami­ão, mas ele estendeu a mão e deteve-me.

Você não pode ir até em casa vestida com essas coisas. Vamos até lá em cima.

Oh, não, penso que é melhor...

            Não seja tola. Por que não? Manning telefonará a sua irmã. E você pode fazer o mesmo, se quiser. Eu também não vou escoltá-laaté lá e voltar nestas roupas. E o que é mais, estas malditas botas estão cheias de água.

Você podia ter-se afogado.

Assim é. E quanto mais isto acrescentaria à conta de Apolo?

            Você sabe quanto — respondi, não levianamente, mas não tão alto que ele pudesse ouvir.

 

Está bêbado; mas como arranjou vinho?

O terraço estava vazio. Max conduziu-me por uma das longas janelas que se abriam para fora.

A sala, iluminada apenas por um pequeno abajur, parecia enor­me e misteriosa, uma caverna cheia de sombras. O piano mostrava os dentes, vagamente, próximo a uma janela escura e o enorme gra­mofone e a lareira apagada lembravam gigantescos sarcófagos de algum sombrio museu.

Sir Julian sentava-se numa espreguiçadeira junto ao abajur, que lançava um feixe inclinado de luz, quase melodramático, sobre o seu cabelo branco e as bastas sobrancelhas. O gato branco nos joelhos e a elegante mão que o acariciava completavam o quadro. O efeito era teatral ao extremo. O Corvo de Poe, pensei com conheci­mento de causa: ausentes apenas as cortinas púrpuras e o crocitar nas sombras sobre a porta...

No mesmo momento notei outros efeitos teatrais ainda menos confortadores. Na mesa ao lado, sob o abajur, vi uma garrafa de gim turco, quase dois terços vazia, um jarro de água e dois copos.

Sir Tulian falava consigo mesmo. Recitava um trecho de A Tempes­tade, aquele em que Próspero afoga o livro; pronunciava suavemente as palavras, um velho mágico falando tanto para si mesmo como para as potências celestiais a cujo reino abdicava. Jamais o ouvira dizê-lo melhor. E se alguém quisesse saber o que valia a pura técnica — em contraposição ao suor noturno e ao sangue em frente às gambiarras, ali estava a resposta. Duvidava que Sir Julian Gale soubesse mesmo o que dizia. Estava completamente bêbado.

Max parou interdicto ao entrar. Eu estava imediatamente atrás dele. Ouvi-o emitir um som abafado. Notei então que Sir Julian não estava sozinho. Adoni destacou-se da escuridão mais profunda além do abajur e aproximou-se. Vestia, como Max, um suéter de pescador e botas, roupas ásperas que realçavam-lhe a extraordinária aparência. Mas ele tinha o rosto contraído de preocupação.

            Max... — começou ele. Parou bruscamente quando me viu e o estado em que ambos estávamos. — Era você? Que é que acon­teceu ?

            Nada de importância — disse Max secamente.

O momento não era de escolher palavras e, de certo, não de res­senti-las. Quanta coisa tornou-se mais do que evidente quando ele entrou na zona iluminada. Eu o vi claramente pela primeira vez na­quela noite. O que quer que tivesse sido o espírito agressivo que condicionara o pequeno interlúdio no mar desapareceu abruptamente; ele parecia não apenas preocupado agora, mas furioso e envergonha­do. E certamente exausto. Mantinha a mão esquerda profundamente enfiada no bolso e eu notei um trapo — um lenço, talvez — enrolado em torno do pulso, manchado de sangue.

Sir Julian virou a cabeça no mesmo momento.         

            Ah, Max... — viu-me então também e a mão que acarinhava o gato levantou-se num gesto gracioso e experiente, tão natural como a respiração. — "Com toda certeza, a deusa, de quem..." Não. Não ouvimos isto antes? Mas que prazer vê-la novamente Srta. Lucy... Desculpe-me por não me levantar. O gato, como vê... — a voz mor­reu, incerta. Pareceu-me que ele compreendeu obscuramente que pre­cisava de desculpa mais convincente do que o gato podia fornecer. Um sorriso, incerto o suficiente para perturbar, perpassou-lhe pelos lábios.

            Eu estava ouvindo um pouco de música. Se quiser ouvir...A mão moveu-se, não muito firme, para o interruptor do gra­vador de fita colocado numa cadeira ao lado. Adoni, porém, incli­nou-se rapidamente e cobriu-o com a mão, pronunciando uma frase suave em grego. SirJulian desistiu da tentativa e reclinou-se ha ca­deira, inclinando a cabeça e sorrindo. Notei com horrorizada compaixão que o aceno transformara-se num tremor, que ele somente controlara com esforço.

            Quem é que esteve aqui, pai? — perguntou-lhe Max.

O ator levantou os olhos para ele e desviou-os com uma expres­são que, numa face menos nobre, poderia ter parecido furtiva.

— Esteve aqui? Quem poderia ter estado aqui?

            Sabe, Adoni?

O jovem encolheu os ombros.

Não. Ele estava assim quando cheguei. Eu não sabia que havia alguém em casa.

Não havia. Ele estava sozinho quando você chegou. De outra maneira, você não teria me dado o sinal de tudo claro — baixou os olhos para o pai, que nenhuma importância dava à conversação e que se retirara novamente para algum mundo privado somente seu, para alguma distância onde flutuavam os vapores do gim e que era apa­rentemente iluminado por fortes carvões e no qual nadava num nevoei­ro de poesia. — Por que é que ele voltou? Eu gostaria de saber. Ele não lhe disse por quê?

Disse-me alguma coisa a respeito de Michael Andiakis, que adoeceu. Mas não tive tempo de extrair mais coisa alguma dele... Ele não está no seu juízo... Continua querendo ligar o gravador. Estava funcionando quando subi até aqui. Fiquei amedrontado. Pensei que havia alguém aqui com ele.

Alguém certamente esteve — disse Max em voz tensa e som­bria. — Ele não disse como é que voltou da cidade?

Adoni sacudiu a cabeça.

            Eu pensei em telefonar à casa de Andiakis e perguntar, mas, a estas horas da noite...

            Não, você não pode fazer isso — disse ele, inclinando-se sobre a cadeira do pai, a quem falou suave e claramente — Pai, quem é que esteve aqui?

Sir Julian, saindo do sonho com um sobressalto, focalizou os olhos no filho e disse com dignidade:

            Havia assuntos a discutir.

A enunciação, como sempre, foi perfeita. A única coisa é que se podia vê-lo esforçando-se para falar assim. As mãos permaneciam imóveis sobre o pêlo do gato e ali também podia-se ver que controles estavam sendo ligados. O mesmo acontecia a Max, que se dominara completamente. Eu percebia, contudo, o esforço que o tom paciente lhe custava. Observando-os, senti-me tão abalada de compaixão eamor que parecia que era essa situação, e não as minhas roupas molhadas, que me faziam tremer.

            Naturalmente — disse Sir Julian com clareza — eu tive de convidá-lo a entrar quando ele me trouxe de carro até em casa. Foi muito gentil da parte dele.

Max e Adoni entreolharam-se.

            Quem o trouxe?

Nenhuma resposta.

— Ele não responde sensatamente a coisa alguma — disse Adoni. — Não adianta.

Tem que adiantar. Precisamos saber quem era e o que ele disse.

Duvido que ele tenha contado muita coisa. Ele não quis dizer-me coisa alguma. Tentou apenas ligar o gravador e falou sem parar da história para a qual você está escrevendo a música, você sabe, a velha história da ilha, que ele contava a Miranda e a Spiro.

Max empurrou o cabelo úmido da testa com um gesto quase de desespero.

Nós temos de descohrir... agora, antes que ele fique inconsciente. Ele sabia perfeitamente para aonde nós íamos. Ele concordou em ficar de fora. Meu Deus, eu tinha certeza de que podia confiar nele agora. Pensei que ele ficaria em segurança com Michael. Por que diabo ele teve de vir para casa?

O lar é onde está o coração — disse Sir Julian. — Quando a minha mulher morreu minha casa ficou vazia como a grande cozinha de um lorde sem um fogo aceso. Lucy sabe, não, minha querida?

Sim — respondi. — Vou agora, Max?

Não, por favor... se não se importar. Fique, por favor... Ouça aqui, pai, está tudo bem agora. Estamos aqui apenas eu, Adoni e Lucy. Você pode contar-nos. Por que não ficou na casa de Michael?

O pobre Michael estava jogando uma partida muito interes­sante. O gambito de Steinitz e eu perdi uma torre nos primeiros minutos. Você joga xadrez, minha querida?

Conheço os movimentos — respondi.

Cinco lances teriam sido suficientes. Brancas a jogar e mate em cinco lances, uma conclusão previamente determinada. Mas ele então teve o ataque.

Que tipo de ataque? — perguntou Max.

Eu não tinha idéia de que o coração dele não andava bem, pois ele não bebe nunca. Sei perfeitamente que esta é uma das razões por que você gosta que eu visite Michael, mas uma bebida ocasional, por motivos puramente sociais, jamais prejudica. Meu coração é tão farte como um sino. O coração — acrescentou Sir Julian com um ar de quem encerrava o assunto — está onde está o lar. Boa noite.

Espere um minuto. Você quer dizer que Michael Andiakis morreu de um ataque cardíaco? Compreendo. Sinto muito, pai. Não é de admirar que você pensasse que necessitava...

Não, Mão! Quem é que disse que ele morreu? Claro que não morreu. Eu estava lá. Eles não têm telefone. Assim, foi uma boa coisa, disse o médico, uma excelente coisa. Mas, se eu não tivesse estado lá, duvido que Michael tivesse tido o ataque. Ele sempre fica muito emo­cionado com o nosso pequeno jogo. Pobre Michael.

Você foi buscar o médico?

Eu já lhe disse — respondeu o pai impacientemente. — Por que é que não me escuta? Eu acho que gostaria de ir para a cama.

Que é que aconteceu quando o médico chegou?

Ele pôs Michael na cama e ajudou-o — era a primeira resposta direta que dava e ele parecia sentir obscuramente que alguma coisa estava errada, pois olhou de esguelha para o filho antes de prosseguir. — É bom que eu seja tão sólido como um sino, embora eu jamais tenha entendido por que os sinos devam ser especialmente... especialmente sólidos. Doces sinos dão notas erradas, desafinadas e roucas. Então, eu saí para chamar o médico — ele parou. — Quero dizer, a filha. Sim, a filha.

Ele tem uma filha casada que mora na Rua Capodistrias — disse Adoni. — Ela tem três filhos. Se ela fosse obrigada a trazer os filhos com ela, não haveria lugar para Sir Gale ficar.

Compreendo. Como é que você conseguiu carona de volta,

pai?

            Bem, fui a garage Karamanlis, naturalmente — Sir Julian pa­receu subitamente sóbrio e muito irritado. — Realmente, Max, eu não sei porque você fala como se eu fosse incapaz de cuidar de mim mesmo! Por favor, tente lembrar-se de que eu morei aqui antes de você nascer! Pensei que Leander podia fazer-me um favor, mas ele não estava. Havia apenas um rapaz de serviço, mas ele disse que ia chamar o irmão para trazer-me. Tivemos uma conversação interessante, muito interessante, realmente. Eu conheci o tio dele, Manoulis, era assim que se chamava. Lembro-me que certa vez, quando eu estava em Avra...

Foi Manoulis quem o trouxe para casa?

Sir Julian focalizou os olhos.

Casa?

            De volta para aqui? — emendou Max rapidamente.

O velho hesitou.

A coisa foi a seguinte: eu tive de convidá-lo a entrar. Quando ele entrou para comprar gasolina e me viu lá, poder-se-ia dizer queele se sentiria na obrigação de oferecer-me uma carona. Mas, apesar de tudo, a gente tem de ser cortês. Sinto muito, Max.

Está bem, compreendo. Claro que temos. Ele o trouxe aqui, o senhor achou que devia convidá-lo a entrar e comprou a garrafa de gim?

Gim? Sir Julian tornou-se vago novamente. Pensei ver algo lutando em seu rosto, alguma inteligência meio afogada pelo gim e pelo sono, resistindo graças a um lampejo de astúcia. — Isto aqui é gim turco, um troço terrível. Somente Deus sabe o que colocam nele... Foi disso que ele disse que gostava... Paramos naquela taverna — chamava-se Constantinos mas eu esqueci o nome agora — a três quilômetros de Ipsos. Acho que ele imaginou que não haveria bebida al­guma na casa. Max ficou silencioso. — Não pude ver-lhe o rosto. Adoni interrompeu o silêncio.

Max, olhe — disse. Eu vi que ele se inclinou e apanhou alguma coisa no chão, que nos mostrou na palma da mão: uma ponta de cigarro. — Estava ali, junto à lareira. Não é um dos seus, é?

Não — disse Max levantando a guimba e aproximando-a da luz.

É dele, não? — perguntou Adoni.

Obviamente — os seus olhos se encontraram novamente por cima da cabeça do ancião. Caiu um silêncio quebrado subitamente pelo ronronar do gato. — Coisas a discutir. — repetiu Max suavemente, mas com um tom de voz que achei apavorante. — Que diabo poderia ele querer discutir com meu pai?

Poderia essa reunião — perguntou Adoni — ter sido acidental?

Deve ter sido. Ele passava e deu-lhe uma carona. Puro acaso. Quem é que podia ter previsto isso? Maldição, maldição, maldição.

E fazendo-o ficar... assim?

Deixando-o ficar assim. Há uma diferença. Isto não pode ter sido deliberado. Ninguém sabia que ele era assim, salvo nós, Michael e os Karithises.

Talvez ele tenha falado essas bobagens a noite toda — disse Adoni. — Talvez ele não tenha tampouco conseguido extrair coisa nenhuma que fizesse sentido.

Ele não conseguiu extrair de mim coisa alguma que fizesse sentido — disse Sir Julian com intensa satisfação.

Oh, meu Deus disse Max esperemos que ele tenha razão - sacudiu a ponta de cigarro em direção à lareira e endireitou os ombros. Muito bem, vou levá-lo para a cama. Adónis seja um bom rapaz e cuide da Srta. Lucy, sim? Mostre-lhe o banheiro. O que o meu pai usa é o menos repulsivo, acho. Dê-lhe uma toalha e mostre-lhe o quarto de hóspedes... aquele em que Michael dorme... Há aquecimento elétrico lá.

            Muito bem, e a sua mão? Já cuidou dela?

            Ainda não, mas eu o farei num momento. Vá, homem, não fique aí atarantado. Acredite-me, eu também ficaria e muito, se pen­sasse que era sério. Eu sou um bom pianista, não se esqueça! Lucy, sinto muito a respeito de tudo isto. Quer acompanhá-lo agora?

Naturalmente.

Por aqui disse Adoni.

A maciça porta fechou-se sobre nós e nossos passos ressoaram nos retângulos de mármore do assoalho do saguão.

Teriam sido precisos Dali e Ronald Searle, trabalhando em ho­ras extras, abastecidos alternadamente de mescalina e benzedrina para projetar o interior do Castelo del Fiori. Na extremidade do saguão havia uma maciça escada em caracol com um corrimão de ferro fun­dido e degraus nus de pedra. As paredes eram apaineladas com o carvalho mais escuro possível e os pequenos tapetes, insulados no mar de mármore, apresentavam (tanto quanto eu podia julgar na escuridão) as mesmas tonalidades de cor de azeitona. Uma lareira colossal, construída para assar um boi inteiro, por homens que jamais os tinham assado, e jamais o assariam em suas vidas, enchia metade de uma parede. A parte de dentro estava eriçada de espetos, tenazes, caldeirões e centenas de outros aparelhos medievais de cozinha, cujas funções eu nem sequer podia imaginar. Pareciam e provavelmente eram instrumentos de tortura. No restante, a parede estava atravancada como um porão de loja de liquidação: os Gales deviam ter tirado a maior parte do mobiliário da grande sala de estar para me­lhorar-lhe a acústica ou talvez meramente no interesse de uma vida sadia e, em conseqüência, o saguão estava congestionado com enormes móveis estofados de várias tonalidades de barro, além de inumeráveis extras no gênero de mesas de bambu, biombos chineses e coisas variadas em madeira fina e muito brilhante. Pensei entrever um acordeão, mas devo ter-me enganado porque parecia um órgão em tamanho natural, com tubos de ressonância e tudo mais, além de uma penteadeira com ornatos de gregas e um cabide feito de chifres de veado. Havia certamente uma harpa e uma pequena floresta de Palha-de-penacho no que, tenho certeza, era o pé amputado de um elefante. Essas riquezas todas eram iluminadas com piedosa escuridão por uma única fraca lâmpada metida numa tocha erguida por um guerreiro javanês inteiramente armado e que parecia um bocado com um lagarto no cio.

Adoni subiu correndo graciosamente a escada à minha frente. Segui-o mais lentamente, atrapalhada pelas roupas frias e coladas ao corpo, com as sandálias deixando horríveis marcas molhadas na pas­sadeira. Ele parou para esperar-me e observou-me curiosamente.

            Que é que aconteceu a você e a Max?

O golfinho... o golfinho de Spiro... estava encalhado na praia e ele me ajudou a fazê-lo flutuar novamente. O golfinho nos puxou para a água.

Não! Ele fez realmente isso? — perguntou rindo. — Eu gos­taria de ter visto isso!

Tenho certeza de que gostaria — pelo menos a alegria dele não parecia ter diminuído com a cena recente na sala de música. Perguntei-me se ele estava acostumado a elas.

— Então, quando se chocou com Max vinha buscar ajuda? Compreendo! Mas por que esteve lá na praia à noite?

            Agora, não comece! — disse-lhe eu, esquentando-me. — Eu já ouvi demais dessas perguntas, feitas por Max! Fui lá buscar um anel — este anel — que minha irmã deixou lá esta manhã.

Ele arregalou os olhos e abriu a boca quando viu o brilhante.

—            Po po po! Isto deve valer um bocado de dracmas! Não é de admirar que você não se tenha importado de dar esse passeio na escuridão!

Valeu mais do que sua viagem? — perguntei inocentemente. Os belos olhos dançaram nas órbitas.

Eu não diria isso.

            Não? — perguntei, olhando-o pouco à vontade. O que em nome de Deus estiveram eles fazendo? Entorpecentes? Certamente que não! Armas? Ridículo! Mas, então, afinal de contas, o que é que eu sabia a respeito de Max? E a sua preocupação com a possibilidade de o pai ter falado não fora mero nervosismo: e sim medo. Quanto a Adoni... eu tinha poucas ilusões sobre o que o meu jovem santo bizantino seria capaz de fazer...

— Quando atravessou o bosque pela primeira vez, você viu al­guém? — perguntou ele.

Max perguntou-me a mesma coisa. Ouvi Sir Julian tocando o gravador, mas não tive a mínima idéia de que o visitante ainda estava lá; Acho que você sabe quem era, não?

            Acho que sim. É um palpite, mas penso que sim. Sir Gale talvez diga a Max quando estiverem a sós. Não sei.

- Max não tem habitualmente bebida em casa?

— Nenhuma que ele... nenhuma que possa ser encontrada.

            Compreendo.

Compreendia, realmente. Via agora como os boatos tinham sur­gido e como era falsa a idéia que Phyllida formara da situação. Ex­ceto na medida em que esse tipo de inclinação periódica era sintoma de tensão mental, Sir Julián Gale estava perfeitamente são. E, agora que me lembrava de coisas ainda mais remotas, houvera realmente murmúrios no mundo teatral, possivelmente fortes entre aqueles que o conheciam, mas no meu nível, meras sugestões... boatos liquidados de uma vez por todas pelo desempenho impecável de Sir Julián até o momento de sua aposentadoria. Bem, eu tivera uma demonstração pessoal naquela noite de como fora feito.

            Nós pensávamos que ele estivesse melhor — disse Adoni. — Ele não fica assim há muito, oh, muito tempo. Isto tornará Max... — ele procurou uma palavra e arranjou uma que, pareceu-me, não era inteiramente adequada — ...muito infeliz.

Lamento muito. Mas ele não parece ter sido forçado a isto desta vez.

Forçado? Oh, sim, compreendo. É verdade. Bem, Max dará um jeito nisso — soltou uma pequena risada. — Pobre Max, ele tem de tratar de tudo. Ouça, é melhor apressarmo-nos ou você vai apanhar um resfriado e então Max vai querer se haver comigo!

E ele poderia?

Facilmente. É ele quem me paga o salário.

Ele parou e premiu um interruptor na parede apainelada, invisí­vel exceto para os iniciados. Outra luz mortiça apareceu, desta vez erguida bem alta por uma impressionante figura de mármore rosado cor de carne, esculpida por algum robusto vitoriano com uma mente bem acima das folhas de parreira. Diante de nós abria-se agora um largo corredor, com um lado cheio de portas maciças revestidas de pregos de ferro e, de outro, o que seria, à luz do sol, vitrais de desenho especialmente repulsivos.

            Por aqui.

Ele me conduziu rapidamente pelo corredor. De cada lado a luz brilhava amarela sobre patéticas cabeças de cervos e cabritos monteses e caixa após caixa de entronizadas aves empalhadas e roídas pelas traças. Todo o espaço restante nas paredes estava recoberto de armas —machados, espadas, adagas e antigos paus de fogo que eu (que representara em algumas peças de épocas recuadas nos meus dias de teatro) identifiquei como mosquetões e carabinas de pederneira, provavelmente do tempo da Guerra da Independência da Grécia. Tinha esperança de que Sir Julian e o filho fossem tão cegos para a san­güinária decoração como Adoni parecia ser.

            O seu banheiro fica ali disse Adoni, apontando para uma enorme porta, ern frente da qual estava pendurada um desenho, de bom gosto, de chicote cruzados e esporas. Vou-lhe mostrar apenas onde estão as coisas e depois tenho de ir para cuidar do punho dele.

            Ele está muito ferido? Ele não quis dizer.

            Nada de grave. Penso que foi apenas um arranhão, embora tenha sangrado muito. Não se preocupe. Max é um homem sensato e tomará todo o cuidado que deve.

E você? perguntei.

Eu? ele me pareceu surpreso.

            Você também toma cuidado consigo mesmo? Oh, eu sei que nada tenho com isso, Adoni mas... bem, tome cuidado. Por causa de Miranda, se não por sua causa.

Ele riu para mim e tocou mima esguia corrente de prata no pes­coço onde devia ter pendurada uma cruz ou uma medalha.

Não se preocupe tampouco comigo, Srta. Lucy. O Santo cuida de sua gente um olhar muito vivo. — Acredite-me, ele toma.

Acha que ele tomou boa conta hoje à noite? — perguntei-lhe, um pouco secamente.

Acho que sim. Chegamos ele abriu a porta e premiu outro botão. Relanceei os olhos para os esplendores de mármore e mogno por trás dele. O dormitório fica ao lado, passando por ali. Vou-lhe arranjar uma toalha e mais tarde eu lhe darei alguma coisa quente. Acha que sabe voltar até lá embaixo?

Acho que sim. A única coisa é... tenho de mexer naquela coisa ?

A coisa era uma engenhoca de má aparência que, segundo tudo indicava, aquecia a água. Parecia uma mina encalhada e se engastava num painel de mostradores e interruptores que podiam ter vindo di­retamente da cabina de um avião de passageiros projetada por Emmett.

            Você é tão difícil como Sir Gale disse ele condescendentemente. Êle a chama de Lolita e recusa-se a tocar nela. É perfeita­mente segura. Foi Spiro quem a fez.

            Oh!

            Pegou fogo uma vez, mas está em perfeitas condições agora. Nós mudamos a fiação no mês passado, Spiro e eu.

Outro fascinante sorriso e a porta fechou-se suavemente. Fiquei sozinha com Lolita.

Era preciso subir três degraus para chegar à banheira, que tinha mais ou menos as dimensões de uma piscina, eriçada de aparelhos de latão escuro. Mas perdoei tudo no Castelo no momento em que abri a torneira marcada C e aágua esguichou numa fervente nuvem de vapor. Tive esperança de que não se passasse muito tempo antes que o pobre Max conseguisse entrar num estado análogo de felicidade — era de supor-se que houvesse outro banheiro e uma Lolita tão eficiente como a minha — mas, naquele momento, não lhe dediquei mais do que o mais transitório dos pensamentos e nenhum sequer sobre o resto das aventuras da noite. Tudo o que eu queria era sair daquelas hor­ríveis roupas molhadas e cair no banho glorioso...

Ao enxugar languidamente um corpo cozido até o rosado, as minhas roupas de baixo, principalmente de nylon, estavam quase secas. O vestido e o casaco pareciam ainda úmidos e eu os deixei sobre os canos quentes. Vesti um roupão que achei pendurado por trás da porta e entrei no quarto para cuidar do rosto e do cabelo.

Possuía o que conseguira salvar da bolsa de maquilagem de Phyl, incluindo um pente, e fiz o que podia com a inevitável luz mortiça e o espelho giratório que se movia entre dois pilares de mogno e que parecia destinado a pendurar-se eternamente de frente para o tapete até que encontrei no chão e coloquei em posição novamente uma cunha feita de jornal, que o mantinha naquela posição desde, aparentemente, 20 de julho de 1917.

No espelho esverdeado minha imagem flutuava como algo que podia muito bem ter arrebatado da Senhora de Shallot o pouco que lhe restasse de juízo. O roupão era evidentemente um dos adereços mais teatrais de Sir Julian: longo, grosso, de seda vermelho-escura. Fazia-me pensar nas comédias de Coward. Com o batom de Phyl, o cabelo curto, encaracolado e úmido e o enorme brilhante na mão, eu era um espetáculo digno de ver-se.

Bem, não era mais estranho do que a outras vestimentas em que ele me vira até então. Perguntei-me, ainda, se isto também me clas­sificaria como meio nua. Não que isso importasse, justamente agora que ele tinha outras coisas a preocupá-lo.

Fiz uma ligeira careta para a imagem no espelho e saí, percorrendo o Beco dos Assassinados até as escadarias.

 

No mesmo instante em que vos vi, voou-me do peito o coração, para servir-vos; razão de eu me ter feito vosso escravo...

A porta da sala de música estava aberta, mas, embora o abajur brilhasse ainda, não vi ninguém. O gim desaparecera e no seu lugar havia algo que parecia o resto de uma forte dose de Alka-Siltzer e uma xícara que, provavelmente, contivera café.

Lucy? Ah, pensei que era você. Você está bem? Aquecida agora ?

Otimamente, muito obrigada ele próprio parecia pessoa diferente agora. Notei que tinha uma bandagem nova no pulso e que as roupas secas outro espesso suéter e calças escuras — faziam-no parecer tão duro como antes, embora mais jovem, mais perto da divisão de Adoni. O mesmo acontecia com a expressão do rosto: parecia ainda cansado, mas com uma rigidez que me deu a impressão de possuir alguma afinidade com o brilho sombrio de excitação de Adoni. Um passeio valioso, sem dúvida.

Suas roupas... — disse-lhe apressadamente. Você certa­mente não está pensando em sair novamente.

Apenas para levá-la de carro até em casa. Não se preocupe. Venha até a cozinha, sim? Está quente lá e há café. Adoni e eu está­vamos comendo alguma coisa.

            Eu adoraria um pouco de café. Mas não sei se devo ficar ou não... Minha irmã já foi informada agora...

            Eu lhe telefonei e disse-lhe o que acontecera. ..mais ou menos ele sorriu como um garoto. Na verdade, Godfrey Manning já a chamara e contara-lhe a respeito do golfinho e que o anel estava em segurança. Ela ficou muito satisfeita e disse-me que a espera para quando você aparecer. Venha, portanto.

Segui-o pela porta de serviço e desci um corredor comprido e ressoante. Aparentemente, os empregados não tinham permissão para compartilhar das glórias dos seus melhores, pois, lá embaixo, o Castelo não possuía adornos de animais mortos e armas letais. Pessoalmente, eu teria trocado todo o edifício, com órgãos e tudo mais, pela cozinha, um maravilhoso lugar que parecia uma caverna, com uma caverna menor para a lareira onde grandes toras queimavam alegremente na grelha de ferro, acrescentando agridoces cheiros ao cheiro da comida e do café e iluminando a grande sala com um brilho vivo e vibrante. Pendurados dos caibros entre as altas e trêmulas sombras, molhos de ervas secas e résteas de cebolas agitavam-se e brilhavam na cor­rente ascendente do ar quente.

No centro da cozinha havia mais ou menos um hectare de mesa de madeira polida. Num lado da sala, Adoni fritava alguma coisa num fogareiro elétrico que fora construído ou, pelo menos, tivera a fiação colocada, por ele e Spiro. Espalhava-se um cheiro maravilhoso de bacon e café.

            Você na certa gosta de bacon e ovos? perguntou Max.

Ela tem de gostar disse Adoni brevemente sobre o ombro. Eu já os preparei.

Bem...disse eu. Max puxou uma cadeira para mim na extremidade da mesa mais perto do fogo, onde uma estranha coleção de pratos e talheres estava disposta num espaço que devia abranger mais ou menos um quinto da área total. Adoni colocou o prato à minha frente e eu compreendi que estava inesperada e maravilhosa­mente esfomeada.

            Você já comeu? perguntei.

Adoni, já, e eu apenas cheguei à fase do café respondeu Max. Quer tomar algum café logo?

Sim, por favor — perguntei-me se seria de bom gosto perguntar por Sir Julian e isto me fêz lembrar o refinado trajo tomado de empréstimo. — Minhas roupas estavam ainda molhadas e eu tomei emprestado o robe de seu pai. Acha que ele se importará? É enorme.

Foi usado em Present Laughter — disse Max. — Claro que ele não vai incomodar-se. Ele ficará satisfeitíssimo. Açúcar?

Sim, por favor.

Pronto. Se você puder acabar com tudo isso, duvido que os piolhos da pneumonia tenham uma oportunidade. Adoni é um bom cozinheiro quando se faz um pouco de pressão sobre ele.

É maravilhoso — disse eu, com a boca cheia. Adoni endere­çou-me aquele sorriso de partir corações e disse:

Foi um prazer — e em seguida algo a Max, algo que entendi (depois de uma semana de doloroso estudo de um livro de frases) como "Ela fala grego?"

Max sacudiu a cabeça naquele gesto curioso — como um camelo teimoso espirrando — que Os gregos usam para dizer "Não." O rapaz, à vista disso, despejou uma torrente de longas e ardentes palavras, inteiramente ininteligíveis para mim. Max escutou de cara amarrada, sem comentário, salvo nas duas vezes em que o interrompeu com uma frase em grego — a mesma cada vez — que deteve o fluxo e fez Adoni falar mais lenta e claramente. Comi tranqüilamente o meu bacon e ovos, procurando não notar a carranca cada vez mais profunda de Max ou a excitação cada vez maior da narrativa de Adoni.

Finalmente, Adoni espigou-se, olhou para o meu prato vazio e perguntou:

Quer um pouco mais? Ou queijo, talvez?

Oh, não, muito obrigada. Estava maravilhoso.

Café, então?

Há ainda?

Claro — Max serviu-o e empurrou o açucareiro. — Fuma?

Não, obrigada.

Ele punha o maço no bolso quando Adoni, que me tirava o prato, disse-lhe rápida e tranqüilamente alguma coisa em grego. Max esten­deu-lhe o maço. Adoni tirou três cigarros com um faiscante sorriso para mim quando me viu a observá-lo, disse alguma coisa em grego a Max, e acrescentou:

Boa noite, Srta. Lucy — e saiu por uma porta que eu não notara antes, num canto distante da cozinha.

Perdoe-me o mistério — disse Max tranqüilamente. — Nós estávamos pondo meu pai na cama.

Ele está bem?

— Ficará bom — disse ele me olhando de esguelha.                Será

que você sabia alguma coisa a respeito deste... problema?

            Não. Como podia ter sabido? Não tinha a menor idéia.

Mas você está metida no teatro... Eu pensei que isto forçosamente se espalharia.

Não me alcançou — respondi. — Sei que houve boatos, mas tudo o que eu soube foi que ele não estava bem. Pensei que fosse o coração, ou alguma coisa. E, falando sério, ninguém sabia aqui... pelo menos Phyl não sabia e se houvesse algum comentário pode ter certeza que ela seria a primeira a saber. Ela sabia apenas o que você contou a Leo, que ele esteve doente e numa clínica de repouso. Isto acontece sempre?

Se você me tivesse perguntado isso ontem — respondeu ele um pouco amargo — eu teria respondido que provavelmente jamais aconteceria.

Ele lhe falou quando o levou lá para cima?

Um pouco.

Disse-lhe quem foi?

Sim.

E de que falaram?

Nada, realmente. Continuou apenas a repetir que “ele não conseguiu extrair nada de mim". Isso, com variações. Ele parecia mais satisfeito e divertido do que qualquer outra coisa. Depois foi dormir.

Sabe de uma coisa — disse eu — eu acho que você deve deixar de preocupar-se. Eu apostaria que seu pai não disse coisa alguma.

Ele me olhou surpreso. Eu não notara antes como eram escuros os olhos dele.

            Por que é que você tem tanta certeza?

            Bem... — hesitei. — Lá na sala você ficou um tanto pertur­bado e eu nada tive a fazer senão observar. Vou-lhe dizer a impressão que ele me causou. Ele estava evidentemente bêbado, mas penso que se apegava a alguma coisa que sabia... Esquecera por que, mas sabia que tinha de ficar calado. Ele sabia que não poderia dizer coisa alguma a respeito... a respeito do que você e Adoni andavam fazendo. Ele ficou tão confuso que não pôde distinguir o que era seguro e o que não era, mas não ia revelar coisa alguma: chegou mesmo a embromar você e Adoni porque eu estava lá, e mesmo a respeito de coisas sem importância, como o que aconteceu ao Sr. Andiakis — sorri. — E então a maneira como ele recitava e mexia no gravador... Você não me vai dizer que ele dá representações particulares de Shakespeare em sua própria sala de visitas. Artistas não fazem isso. Podem repre­sentar até perder a cabeça fora do palco, mas usualmente não são maçantes. Pareceu-me que... Ouça, sinto muito, acho que eu me estou metendo onde não devo. Talvez você preferisse.. .

Não, não, continue.

            Pareceu-me que ele estava recitando porque sabia que, logo que conseguisse colocar-se — ou o gravador seguramente era fun­cionamento, poderia continuar sem perigo algum de ser forçado a dizer o que não devia. Quando o ouvi, ele estava provavelmente tocando o gravador para o visitante.

A boca de Max contraiu-se num momentâneo gesto de diverti­mento.

Foi bom para ele. E o que é mais, estou certo de que o encontro na garagem foi mero acaso. Se Adoni e eu estivéssemos sob suspeita, teríamos sido vigiados e talvez seguidos...ou interceptados na volta.

Bem, então você vê como foi. É evidente que se seu pai tivesse dito a ele alguma coisa, ou mesmo sugerido onde vocês estavam, ha­veria tempo de sobra para chamar a Polícia... ou alguma outra coisa.

Naturalmente disse ele, com um olhar não tão tranqüilo, segundo me pareceu.

Hesitei.

Eu, porém, estou preocupada com seu pai... Isto é diferente. Eu nada sei a respeito destas coisas, mas você pensa que elas podem, bem, tê-lo levado novamente a beber?

Ninguém pode ter certeza. Ele não é um alcoólatra, você sabe. Não era crônico e nem sequer se aproximava disso. Ele começou simplesmente a tomar essas bebedeiras periódicas para sair dos ataques de depressão. A única coisa que podemos fazer é esperar e observar.

Eu nada mais disse. Virei a cadeira para olhar o fogo e beber o meu café. As toras chiavam e sibilavam e a resina saiu borbulhante de uma delas em pequenos globos cor de opala que saltaram e incha­ram em cima da casca calcinada. O grande e ventilado aposento es­tava cheio dos sons agradáveis da noite; o borbulhar da resina, os esguichos e tremeluzir das chamas, o estalo de alguma antiga porta acomodando-se para a noite, a batida metálica do velho si tema de água quente. No momento em que espichei as chinelas de Sir Julian até perto do fogo um grilo trilou, súbita e claramente, a mais ou menos um metro de distância. Levantei-me sobressaltada e notei que Max me observava. Ambos rimos um para o outro. Nenhum de nós se moveu ou falou, mas parecia que ocorria uma conversação muda e eu me senti repleta de um súbito júbilo e alegria que me transbordou o coração como se o sol tivesse aparecido na manhã do meu aniver­sário e me tivessem dado o mundo de presente.

Em seguida, ele se voltou e olhou novamente para o fogo. Falou corno se estivesse recomeçando a conversação onde a interrompera:

Tudo começou há uns quatro anos, mais ou menos. Meu pai ensaiava na época para aquela peça algo espetacular que Hayward escrevera para ele, Tiger, Tiger. Você deve lembrar-se. Ficou em cartaz uma eternidade. Justamente oito dias antes da estréia, minha mãe e irmã morreram num desastre de automóvel. Minha irmã guiavaquando aconteceu o acidente. Não foi culpa dela, mas isso não con­solava. Minha mãe morreu imediatamente; minha irmã recuperou a consciência e sobreviveu durante um dia — o suficiente para descon­fiar do que acontecera, embora se tentasse ocultar-lhe o caso. Eu e tava longe nessa ocasião, nos Estados Unidos e, por má sorte, num hospital com apendicite e não pude voltar para casa. Eu lhe disse que isso aconteceu oito dias antes da estréia de Tiger, Tiger e a peça estreou. Eu não lhe preciso dizer o que uma situação daquelas faria a alguém como meu pai. Teria prejudicado qualquer pessoa e quase o matou.

Eu posso imaginar — respondi e imaginei também Max preso a uma cama estranha de hospital, sabendo das coisas pelo tele­fone, par cabograma, pelo correio...

Foi aí que ele começou a beber. Passaram-se quase dois meses antes de eu voltar e dano sério já fora feito. Naturalmente, eu com­preendia que o acidente ia abalá-lo, mas foi preciso o choque de voltar realmente para casa para compreender... — ele parou. — Você também pode imaginar: a casa vazia, parecendo abandonada, quase como se não tivesse sido espanada durante semanas, embora isto fosse tolice. Claro que tinha sido espanada. Mas parecia deserta... quase ecoando. Sally — minha irmã — sempre fora muito viva. E havia o meu pai, magro como um poste de telégrafo, com o cabelo muito mais branco, vagueando por aquela casa enorme como uma folha morta na corrente de ar de um celeiro. Sem dormir, naturalmente, e bebendo — ele se mexeu na cadeira. — Que é que ele disse a respeito de uma casa parecida com a cozinha de um lorde sem um fogo aceso?

É um trecho de uma peça, Revenger's Tragedy, de Tourser. "O inferno pareceria como a grande cozinha de um lorde sem um fogo aceso."

Inferno? — repetiu ele. — Sim, compreendo.

Mas não se aplicava — disse eu rapidamente. — Ocorreu-lhe apenas como uma espécie de imagem.

Do vazio? — perguntou ele, sorrindo subitamente. — Muito gentil de sua parte, mas não se preocupe, as coisas passam — disse, interrompendo-se por um momento. — Isto foi o começo. Melhorou, naturalmente; o choque se desgasta e comigo em casa ele não bebeu tanto, mas, vez por outra, quando se sentia cansado ou tenso demais ou simplesmente durante uma daquelas malditas depressões abismais que o tipo de pessoa que ele é sofre elas são tão reais como o sa­rampo, não preciso dizer-lhe isso ele bebia até cair, "só desta vez". Infelizmente é preciso muito pouco para levá-lo a esse estado Bem, se você ainda se lembra, a peça passou muito tempo em cartaz e ele desempenhou o papel por dezoito meses. Durante todo esse tem­po somente consegui levá-lo para longe durante três semanas e logodepois êle voltava a Londres. Depois de algum tempo, a casa come­çava a deprimi-lo, "apenas desta vez", ele tomava outra bebedeira.

            Você não conseguiu que êle vendesse a casa e se mudasse?

            Não. Ele nasceu nela, e o pai dele também. Era algo em que êle nem sequer pensaria. Bem, dois anos assim ele começou a descer um plano inclinado. Começaram então os colapsos nervosos, ainda assim, graças aos amigos dele, atribuídos publicamente à tensão e à estafa. Ele teve o bom-senso de reconhecer o que lhe ocorria e a ho­nestidade e o orgulho de afastar-se enquanto podia, deixando intata a lenda. Fez o que podia... entrou numa clinica e foi curado. Então, consegui trazê-lo para aqui para ter a certeza de que ele ficara curado. E para descansar. Agora ele se consome para voltar, mas sei que ele não poderá fazê-lo enquanto houver a possibilidade de tudo recome­çar concluiu ele com um pequeno suspiro. Eu pensei que ele tinha terminado com tudo isso, mas agora não sei mais. Não se trata de uma questão de força de vontade, como você sabe. Não o despreze.

            Eu sei. E como poderia desprezá-lo? Eu o amo.

            A especialidade de Lucy Waring. Entrega-se sem se importar e sem razão nenhuma. Não, não estou rindo de você, Deus sabe...Você me responderá uma coisa ?

O quê?

Você estava falando sério lá na praia?

A pergunta inesperada, quase casual, abalou-me durante um momento.

            Na praia? Quando? O que foi que eu disse?

            Eu sei que não era para eu ouvir. Nós começávamos justamente a subir os degraus.

Fez-se uma pausa. Uma tora caiu com um pequeno som e um jato de fogo sibilante.

Você não pergunta muito, não? — disse-lhe, com certa difi­culdade.

Sinto muito. Foi estúpido de minha parte. Esqueça-a. Deus meu, eu realmente escolho meus momentos, como você diz.

Ele se inclinou, apanhou um atiçador da base da lareira e se ocupou rearrumando os pedaços de madeira queimada. Olhei para seu rosto desviado, como uma espécie de camisa de força de timidez apertando-me e também com certa irritação com a obtusidade dele em perguntar-me aquilo. Eu não poderia ter falado, mesmo que qui­sesse.

Um jato de fogo, provocado pelo atiçador, subiu e pegou em outra tora. Iluminou-lhe a face, destacando durante breve momento os traços da excitação, dor e tensão da noite, as sobrancelhas contraídas,, tão parecidas com as do pai, a dura e interessante linha do rosto; a boca. E o mesmo breve relâmpago iluminou também algo em mim. Eu é que era a estúpida. Se uma pessoa faz uma pergunta é porque quer uma resposta. Por que deveria ele esperar e vazá-la de outra forma, no momento que me fosse conveniente?

Falei sem esforço, afinal de contas:

            Se você me tivesse perguntado uma coisa destas há três horas, penso que teria respondido que nem mesmo gostava de você e eu... penso que teria acreditado nisso... acho. E agora você se senta aí, olhando para mim, tudo o que faz é só me olhar — assim — e estes meus malditos ossos se dissolvem em água, e isto não é justo, nunca me aconteceu antes, e eu faria qualquer coisa no mundo por você, e você sabe disso, ou se não sabe, deve saber... Não, ouça... Eu não quis dizer... você me perguntou...

O beijo foi melhor desta vez, tirou-me também o fôlego, mas pelo menos estávamos secos e quentes e nos conhecíamos agora havia quase duas horas...

De algum lugar nas sombras ouvimos um seco estalido e um som sussurrante. Instantaneamente afastamo-nos um metro um do outro.

Uma baixa voz aflautada anunciou: Cuco, cuco, cuco, cuco; e com um estalido, recaiu no silêncio.

Esse maldito relógio! — disse Max, explosivamente. Em seguida, começou a rir. — Esse relógio sempre me apavora. Pareceu-me alguém se aproximando furtivamente com uma metralhadora. Sinto muito. Deixei-a cair com força demais?

Diretamente na terra — disse eu trêmula. — Quatro horas. Tenho de ir embora.

Espere somente um pouco. Não. Escute, há algo que você precisa saber. Eu procurarei não me demorar muito. Sente-se, por favor... Não preste atenção ao relógio — ele fechou um olho. — Por que é que você está-me olhando desse jeito?

            Para começar disse eu as pessoas não saltam subitamente quando ouvem um ruído parecido com o de uma metralhadora. A menos que a estejam esperando. Você estava?

            Talvez disse êle alegremente.

Deus meu! Então eu certamente ficarei aqui para ouvir tudo! — sentei-me e puxei hesitantemente a saia em torno de mim. Con­tinue.

Um momento. Vou colocar outra tora no fogo. Está bastante aquecida?

Sim, obrigada.

Não fuma? Nunca? Moça sabida. Bem...

Êle pôs os cotovelos nos joelhos e fitou novamente o fogo.

            ...Eu não estou certo por onde começar, mas tentarei ser breve. Você poderá saber dos detalhes mais tarde, aqueles que você mesmo não possa imaginar. Quero contar-lhe o que aconteceu hoje à noite e, especialmente, o que acontecerá amanhã... hoje, quero dizer... porque eu quero que você me ajude, se quiser. Mas, para tornar o assunto claro, tenho de retroagir ao começo da história. Acho que você pensará que começa com Yanni Zoulas. De qualquer maneira, é de onde eu começarei.

            Era verdade, então? Ele era contrabandista?

Era, sim. Yanni transportava regularmente moamba todos os tipos de mercadorias de que havia carência para a costa alba­nesa. Você tinha razão a respeito dos contatos: ele possuía um contato no outro lado, um homem chamado Milo, e pessoas aqui que lhe entre­gavam mercadorias e o pagavam. Mas não eu. O seu palpite falhou aí. Bem, o que é que você sabe a respeito da Albânia?

Quase nada. Tentei ler alguma coisa antes de vir para aqui, mas há tão pouca coisa. Sei que é comunista, naturalmente, e que tem problemas sérios com a Iugoslávia, de Tito e com a Grécia, na outra fronteira. Acho que é um país pobre, sem muita terra arável e nenhuma indústria. Apenas aldeias de camponeses a ponto de mor­rerem de fome, como algumas aldeias gregas. Não sei o nome de quaisquer cidades com exceção de Durazo, na costa, e Tirana, a Ca­pital. Acho que eles estavam mais ou menos na Idade da Pedra ao fim da guerra, mas se esforçando muito e procurando ajuda. Foi aí que a URSS interveio, não?

Sim. Forneceu implementos, tratores e sementes e outras coisas, tudo de que a Albânia precisava para fomentar a agricultura depois da guerra. Mas nem tudo correu às mil maravilhas. Não vou discutir o assunto agora na verdade, não tenho absolutamente cer­teza de que apreendi todos os detalhes — mas, há alguns anos, a Al­bânia rompeu com a Rússia e com o Cominfarm, mas, por necessitar ainda urgentemente de ajuda (e, possivelmente, de apoio contra a Rússia), aproximou-se da China Comunista. E a China, que estava na ocasião de ponta com a Rússia, interveio alegremente para bancar a fada madrinha, como a Rússia fizera antes... e presumivelmente para meter um pé nas portas traseiras da Europa. A situação é ainda aproximadamente a mesma e agora a Albânia fechou completamente as fronteiras, salvo para a China. Ninguém pode entrar e, por Deus, sair.

            Como o pai de Spiro?

            Eu desconfio que ele não quis sair. Mas você poderia dizer que ele nos levará ao ponto seguinte na história, que é Spiro. Acho que você ouviu falar de nossa ligação com Maria e a família dela?

            De certa maneira. Adoni falou-me.

Meu pai esteve aqui em Corfu durante a guerra e trabalhou com o pai de Spiro durante certo tempo. Ele era um tipo selvagem, segundo sei, mas bastante pitoresco e atraente. De qualquer modo, fascinou o lado romântico de meu pai — disse Max sorrindo. — Fico com a impressão de que os dois compartilharam de grandes choradei­ras. Quando os gêmeos nasceram, meu pai foi o padrinho. Você talvez não saiba. Mas isto aqui é uma relação levada muito a sério. O pa­drinho realmente assume responsabilidades — ele tem tanta influência sobreo futuro das crianças como o pai e, algumas vezes, mais.

Compreendi isso pelo que Adoni me disse. É evidente que ele teve, de qualquer maneira, influência no batizado!

Ele riu.

            Certamente que teve. A ilha de Corfu deslumbrou-o já naqueles dias. Graças a Deus eu nasci em Londres, ou, se não me engano, nada me teria salvo de chamar-me Ferdinando. Você se teria importado?

            Imensamente. Ferdinando faz-me pensar num tipo muito de­dicado de touro. Qual é o seu nome, por falar nisso? Maximilian?

            Graças a Deus, não. Maxwell. O nome de minha mãe.

            Acho que você teve um padrinho sem obsessões. Ele sorriu.

— Certíssimo. Na correta maneira inglesa, ele me deu uma colher de prata e, em seguida, desapareceu de minha vida. Mas não se pode fazer isto em Corfu. No dia em que o próprio pai de Spiro desapa­receu, o padrinho ficou virtualmente com os nenés nos braços.

- Ele estava aqui quando isso aconteceu?

Estava. Ele ficou aqui durante bastante tempo após o término da guerra na Europa e, durante esse tempo, sentiu-se mais ou menosresponsável pela família. Ele teria sentido, como fosse grego, desde que Maria não tinha parentes e eles eram paupérrimos. Responsabili. zou-se pela família e, mesmo depois de voltar para a Inglaterra, en­viava-lhe dinheiro todos os meses.

Deus meu! Mas, certamente, tendo filhos também...

Ele deu um- jeito disse Max em voz subitamente grave. - Nós não éramos ricos, Deus sabe...e a vida de um ator é, na melhor das hipóteses, terrivelmente incerta...mas é realmente surpreendente o pouco com que uma família grega pode viver alegremente. Ele os manteve de todo até que Maria começou a trabalhar e, mesmo depois disso, mais ou menos até que as crianças puderam trabalhar também ele estendeu um pé e empurrou a tora mais para o fundo da grelha de cinzas quentes. Nós vínhamos aqui de férias quase todos os anos; foi assim que aprendi grego e as crianças aprenderam inglês. Divertíamo-nos muito e meu pai sempre adorava a estada. Fiquei agradecido por ter um lugar como este para trazê-lo quando aconteceu o desastre...era como se eu tivesse outra família esperando. Ela o ajudou mais do que qualquer outra coisa poderia tê-lo feito. Sentir-se querido faz isso.

Oh Deus, e os milhares que o amam! Mas reconheço que é diferente. Assim, êle veio para aqui em busca de paz e para recuperar-se. Então, Spiro morreu. O fato deve tê-lo feito sofrer horrivelmente.

O problema é que disse Max Maria não queria acreditar que o rapaz estivesse morto. Ela jamais deixou de suplicar e rezar para que meu pai descobrisse o que realmente lhe acontecera e o trouxesse de volta. Aparentemente, ela fizera um pedido especial a São Spiridion em nome dele e simplesmente não acreditava que êle pudesse ter-se afogado. Ela teve a idéia de que êle fora procurar o pai e que devia ser trazido de volta para casa.

A segunda ponta de cigarro tomou o mesmo caminho que a pri­meira. Atingiu uma das barras da lareira e caiu na base. Max levan­tou-se, apanhou-a e lançou-a no fogo. Em seguida, ficou de pé com os ombros encostados na alta cornija.

            Sei que não era sensato, depois de Manning ter dito a ela o que ocorrera, mas as mães nem sempre escutam a voz da razão e havia sempre uma ligeira possibilidade de que o rapaz tivesse sobrevivido. Meu pai não se sentiu em condições de tratar do caso e eu sabia que nem ele nem Maria teriam paz de espírito até descobrir oque acontecera ao corpo. Assumi, portanto, a direção da busca. Estive fazendo indagações em todos os lugares possíveis, aqui e no conti­nente, a fim de descobrir, em primeiro lugar, se ele dera à praia, morto 01i vivo. Alguém procurou também em Atenas informar-se para mim no lado albanês. No local em que Spiro caiu na água, a corrente dirigi-se diretamente para a costa albanesa. Bem, ele conseguiu penetrar até lá finalmente, mas sem resultados. Ele não fora visto nem na costa e nem na albanesa.

— E eu lhe dei uma lição sobre a maneira de ajudar o próximo. Sinto muito.

Você não podia ter sabido que eu me interessava pela coisa.

Bem, não. Pensei que só interessava a Godfrey.

Acho que sim, mas os gregos daqui pensaram, de qualquer maneira, que cabia a meu pai — a mim — procurar encontrá-lo. A Polícia manteve-se em contato conosco e sabíamos que conseguiríamos qualquer informação que surgisse. No dia em que atravessou o es­treito, na viagem rotineira de contrabando na noite de sábado, e con­seguiu realmente algumas notícias de Spiro através de seu contato albanês, Yanni Zoulas veio diretamente procurar-nos. Ou melhor, tão diretamente como pôde. Você o viu a caminho na noite de domingo.

Espiguei-me, dura, na cadeira.

            Notícias de Spiro? Boas notícias?

Soube da resposta antes de ele falar. O brilho dos seus olhos lembrou-me súbita e vividamente a maneira como Adoni me olhara na escada, com olhos em brasa.

Oh, sim. Ele nos disse que Spiro estava vivo.

Max!

Sim, eu sei. Você pode imaginar como nos sentimos. Ele tinha dado à praia na costa albanesa, com uma perna quebrada e nas últi­mas fases da exaustão. Mas sobrevivera. As pessoas que o encontra­ram eram gente simples da costa, pastores, que não viram motivo al­gum para comunicar isso à Polícia Popular, ou o que quer que ela seja chamada lá. A maioria conhece o trabalho dos contrabandistas e eu acho que essas pessoas pensaram que Spiro estivesse metido em alguma coisa desse tipo. Ficaram, portanto, caladas a respeito dele. E o que é mais, informaram o contrabandista local que — naturalmente — conhecia Milo, o contato de Yanni, que, por seu lado, contou a Yanni no sábado.

Oh, Max, isto é maravilhoso! É, realmente! Yanni viu-o mesmo?

Não. Tudo chegou em terceira mão. Milo não fala bem o Srego, e assim tudo o que Yanni conseguiu foram apenas os fatos nus e uma mensagem urgente que Spiro, de certo modo, conseguiu transmitir, de que ninguém, ninguém absolutamente — nem mesmo Maria— devia ser informada de que ele estava vivo, salvo eu, meu pai Adoni... as pessoas que presumivelmente poderiam tirá-lo de lá dealguma maneira — ele fez uma curta pausa. — Bem, evidentemente não podíamos ir até a Polícia e trazê-lo de volta pelos canais com­petentes ou as pessoas que o salvaram seriam envolvidas numa en­crenca, para não mencionar Yanni e Milo. De modo que Yanni marcou um encontro para trazer o rapaz à noite.

            E ele voltou na noite passada, depois de ter falado com você chocou-se com a Guarda Costeira e foi ferido.

Ele sacudiu a cabeça.

            Ele não podia ter voltado sozinho. Tirar aquele rapaz não era trabalho de um homem só... Não esqueça de que ele estaria amar­rado numa maca. Não, quando Yanni veio aqui no domingo à noite, pediu-me para fazer a travessia com ele. O encontro estava marcado para hoje à noite; Milo e o amigo levariam Spiro até lá e Yanni e eu o tiraríamos. Assim, você vê...

Não ouvi o que ele ia dizer. Todas as peças dispersas reuniram-se finalmente e espantei-me com a minha estupidez em não ter per­cebido isso antes. Meus olhos voaram para a mão enfaixada dele à medida que os fatos da noite voltaram em atropelada: a secretividade da jornada pelo bosque, a impressão que tivera de mais de um ho­mem passando por mim, o grito da coruja, a vívida face de Adoni.

Levantei-me.

            A moamba! Adoni e a moamba! Você levou Adoni e foi lá, você mesmo, hoje à noite! Você quer dizer que foi feito? Você trouxe realmente Spiro para casa?

Os olhos dele dançavam nas órbitas.

            Trouxemos, sim. Ele está aqui neste momento, um pouco can­sado, mas vivo e bem de saúde. Eu lhe disse que o nosso trabalho hoje à noite valera à pena.

Sentei-me, algo pesadamente.

            Eu dificilmente posso compreender tudo isto. Isto é... ma­ravilhoso. Oh, Maria vai acender uma bela vela nesta Páscoa! Pense só nisto, Maria, Miranda, Sir Julian, Godfrey, Phyl... como todo mundo vai ficar feliz! Eu mal posso esperar até o amanhecer para ver a notícia espalhar-se.

O brilho desapareceu subitamente do rosto dele. Deve ter sido apenas imaginação, mas a alegre luz da lareira pareceu também mais amortecida.

Receio que a notícia não deva ser divulgada ainda nesta casa disse ele sombriamente.

Mas — fitei-o, confusa nem à mãe ou à irmã? Por que não, em nome de Deus, se êle está seguro em casa? É claro que desde que ele está fora da Albânia não tem mais coisa alguma a temer. E Milo não terá de ser absolutamente envolvido ninguém nem mes­mo sabe que Spiro jamais esteve em solo albanês. Podíamos inventar alguma história.. .

Eu pensei nisso. A história seria que ele dera à praia numa das ilhas do estreito, as Ilhas Peristeroi, e que conseguira atrair a nossa atenção quando estivemos lá pescando. Não enganaria a Polícia grega ou o médico, mas serviria para divulgação geral, por assim dizer. Mas o importante não é isso.

            Então o que é?

Ele hesitou um pouco e disse lentamente:

Spiro pode estar ainda em perigo...não do outro lado, mas aqui. O que o atingiu, atingiu Yanni também. E Yanni está morto.

Algo em seu rosto a sua própria relutância em falar — apavorou-me. Quando dei conta de mim protestava violentamente, com excessiva violência, como se, negando-o, pudesse afastar o conheci­mento indesejável.

            Mas nós sabemos o que aconteceu a Spiro! Ele caiu do bote de Godfrey! De que modo pode ele estar em perigo agora? E a morte de Yanni não foi um acidente? Você mesmo disse isso!

Parei. O silêncio tornou-se tão pesado que se podia ouvir o tique-taque maluco do relógio de cuco e o arranhar de seda sobre carne quando minhas mãos se cruzaram no colo.

Disse-lhe, tranqüilamente:

Continue. Diga sem meias palavras. Pode dizer. Você está insinuando que Godfrey Manning...

Eu não estou insinuando coisa nenhuma disse ele em voz seca, quase grosseira. Estou-lhe dizendo. Ouça. Godfrey Manning lançou-o pela borda e deixou-o afogar-se.

Silêncio novamente, um tipo diferente de silêncio.

Max... eu... eu não posso acreditar nisso. Sinto muito, mas não é possível.

É um fato, nem mais nem menos. Spiro é quem conta. Sim, acho que você esquece que eu falei com ele. Ele disse que foi Godfrey e eu acredito nele. Ele não tem motivo algum para mentir.

Os segundos passaram numa atmosfera de vingança. Agora que ele resolvera que devia contar-me, atirava os fatos como se fossem pedras. E eles doíam como pedras.

            Mas... por quê

            Eu não sei. Nem o rapaz sabe, o que, quando se pensa no caso, torna ainda mais provável que ele esteja contando a verdade. É algo que ele não tem motivo algum para inventar. Ele está tão atur­dido com o fato como você — e ele acrescentou, com mais gentileza: — Sinto muito, Lucy, mas receio que seja verdade.

Fiquei sentada em silêncio durante um minuto ou dois, sem pen­sar, olhando para as mãos, rodando o grande diamante e observando a luz da lareira refratar-se e reluzir entre suas facetas. Lentamente, o atordoamento passou e eu comecei a pensar...

            Você suspeitou de Godfrey antes?

Não — respondeu ele — por que deveria? Mas, quando recebi a mensagem de Yanni, fiquei a perguntar-me por que Godfrey não devia ser informado. Afinal de contas, parecia razoável ocultar a notícia da mãe e da irmã, porque elas ficariam tão alegres que pode­riam pôr tudo a perder antes que Yanni conseguisse salvá-lo. God­frey, porém, era diferente. Ele estaria presumivelmente preocupado com Spiro e tinha, sem dúvida, o melhor barco. E o que é mais, ele é um marinheiro experimentado e eu não sou. Eu esperaria que ele fosse convidado a participar do salvamento, em vez de mim e de Adoni. Não era muita coisa, mas fiquei com uma pulga atrás da orelha. E quando Yanni foi encontrado morto no dia seguinte, depois do es­tranho aviso de Spiro, fiquei ainda mais desconfiado.

Você não está sugerindo — disse eu — você não pode estar sugerindo que Godfrey Manning matou Yanni Zoulas? Max...

O que eu lhe disse a respeito de Spiro é a verdade: o que aconteceu a Yanni é mero palpite. Mas, no meu entender, uma as­sassinato segue-se a outro como a noite segue-se ao dia.

Assassinato... Acho que não pronunciei alto a palavra, mas ele inclinou a cabeça como se eu o tivesse feito.

Estou inteiramente convencido. O mesmo método, também. Ele recebeu uma forte pancada na cabeça e foi lançado ao mar. Achei que a garrafa de ouso foi um toque bem refinado.

Ele foi atingido pelo botaló. A Polícia disse que havia cabelos...

Ele podia ter sido também atingido com o botaló. Qualquer pessoa pode bater com a cabeça de um homem inconsciente sobre umpedaço de madeira como aquele, com força suficiente para matá-lo, antes de lançá-lo sobre a borda... e com força bastante para ocultar a rachadura com que ele foi tornado inconsciente. Não estou apre­sentando isto como uma teoria. Estou dizendo apenas que podia ter sido feito.

            Por que é que você voltou ao corpo depois que partimos?

            Depois que Yanni nos deixou no domingo à noite eu ouvi quando o barco dele saiu e perguntei-me se ele fora tão estúpido a ponto de ir sozinho e meter-se em complicações com a Guarda Cos­teira. Pelo que pudemos ver, ele bem poderia ter um buraco de bala em algum lugar, ou qualquer outra pista que daria início a uma in­vestigação séria. Fiquei muito preocupado com a possibilidade de que eles começassem a patrulhar as águas locais antes que eu trouxesse Spiro em segurança para casa.

            E o seu punho... foi a Guarda Costeira ?

            Sim, uma bala perdida, e sem força, por falar nisso. Falo sério, é apenas um arranhão. Vou mandar examinar o ferimento quan­do mandar trata da perna de Spiro. Eles devem ter ouvido alguma coisa e atiraram cegamente. Nós estávamos justamente longe do al­cance e muito além dos holofotes.

Disse-lhe, cansadamente:

Acho que você sabe realmente o que está dizendo, mas tudo isto parece tão... tão incrível para mim. E eu nem mesmo sei como é que isso começou.

Meu Deus, quem é que sabe? Mas, como lhe disse, são simples palpites a respeito de Yanni e não há proveito em discutir isto agora. A primeira coisa a fazer é conversar novamente com Spiro. Tive apenas tempo de ouvir uma pequeníssima declaração e quero ouvir o resto antes de resolver o que será melhor fazer. Ele deve estar em condições bastante boas agora para dizer-nos exatamente o que aconteceu. E, saiba ele ou não, ele talvez tenha algumas pista sobre o motivo por que Manning tentou matá-lo. Se ele tiver, isto talvez nos indique o motivo da morte de Yanni. E o que quer que seja, tornou necessário dois assassinatos — ele se espigou bruscamente, afastando os ombros da cornija da lareira. — Bem, você compreende que precisamos pô-lo em segurança nas mãos das autoridades com a história antes que Godfrey Manning tenha a menor suspeita de que ele não está tão morto como Yanni. Quer vir comigo agora para vê-lo?

Olhei-o, surpresa.

            Eu? Quer que eu vá?

Se quiser. Eu lhe disse que queria que você me ajudasse e— se concordar — é melhor que saiba tanto quanto nós sobre o caso

Claro, tudo o que eu possa fazer.

Querida. Venha aqui. Agora, desarme essa carranca e deixe de preocupar-se. É tudo impossível, como você diz, mas este tipo de situação forçosamente se dá quando a pessoa se envolve nela. Tudo que podemos fazer é procurar agir com cautela e isto significa, no momento, acreditar em Spiro. Certo?

Inclinei tanto quanto podia a cabeça, confortavelmente encostada no ombro dele.

            Então, ouça. O que temos de fazer, tanto quanto vejo, é levar o rapaz diretamente para Atenas pela manhã, ao hospital, e em seguida à Polícia. Uma vez tenha ele contado a história lá, poderá voltar em segurança para casa — ele me soltou. — Bem, vamos?

            Onde está ele?

Ele riu.

            Diretamente debaixo dos nossos pés, num cárcere muito gó­tico, mas razoavelmente seguro, com Adoni de guarda junto a ele com o único rifle eficiente deste grande e maldito arsenal de Leo. Venha. Diretamente por baixo do relógio do cuco e à direita em direção ao cárcere!

 

Minha adega fica num rochedo perto do mar.

Foi lá que eu escondi o vinho.

Um largo lance de degraus descia imediatamente depois da porta. Max tocou num interruptor e uma fraca luz amarela surgiu para mos­trar-nos o caminho. Ele fechou a imponente porta e eu ouvi uma chave arranhar a fechadura atrás de nós.

            Irei na frente, sim?

Segui-o curiosamente, olhando em volta. O resto de um edifício levara-me a esperar não sei que horrores lá embaixo: eu dificilmente teria ficado surpreendida se visse esqueletos caindo em pedaços de correntes presas nas paredes. Mas o corredor subterrâneo para onde as escadas nos conduziram era inocente de qualquer coisa salvo de prateleiras de garrafas — a maioria vazia — que flanqueavam o largo corredor. O assoalho estava limpo e as paredes surpreendentemente livres da poeira e das teias de aranha que se teriam acumulado num lugar idêntico na Inglaterra. O ar era fresco e ligeiramente úmido.

Contei essa impressão a Max e ele inclinou a cabeça, concordando.

            Você verá por que, dentro de um minuto. Esta é a adega oficial, mas que conduz a uma caverna natural mais adiante. Eu não sei onde fica a abertura — provavelmente não maior do que uma chaminé — mas o ar é sempre fresco e pode sentir-se o cheiro do mar. Há mais prateleiras para garrafas lá embaixo. No século pas­sado, quando a pessoa bebia suas quatro garrafas por dia, precisava-se de muito espaço. De qualquer modo, teria parecido natural usar as cavernas no penhasco quando construíram o Castelo.

É muito interessante. Acho que estas são as cavernas de que seu pai falava.

Sim. A maioria dos penhascos ao longo desta costa possui ca­vernas, mas, como você pode imaginar, ele adora pensar que a caverna do Castelo era a cela original de Próspero. Quando eu observo que ela não parece ter jamais aberto para o exterior, ele diz que isso não importa. Acho que é mais um caso de verdade poética, como os sagüis.

Bem, é uma bela história romântica e eu a prefiro. Afinal de contas, o que são os fatos? Nós os vemos todos os dias... Em que ponto estamos agora em relação ao exterior?

No momento, ainda sob os alicerces da casa. A caverna em si fica na praia sul, e é muito profunda. Desceremos alguns degraus logo e há uma passagem natural até a caverna. Espere, chegamos.

Ele parara a dois terços do caminho pelo corredor e pusera uma mão numa das prateleiras vazias. Observei-o, espantada. Ele segurou o que pareceu parte da parede de prateleiras e puxou alguma coisa. Pesadamente e, em absoluto silêncio, uma seção estreita girou para o corredor. No lugar onde estivera a seção abriu-se um buraco escuríssimo na parede.

Meu Deus! — exclamei e Max riu.

Maravilhoso, não é? Eu lhe digo, o Castelo tem de tudo! Para dizer a verdade, desconfio que o velho Forli mantinha aqui os melho­res vinhos, fora do alcance do mordomo... Cuidado, agora, não há luz em cima. Mas eu trouxe uma lanterna... aqui, segure-a por um momento enquanto eu fecho a porta atrás de nós. Não fique tão medrosa!

— Ela não ficará fechada e nos prenderá para sempre até os nossos ossos descorarem?

O segundo lance do degrau descia ainda mais verticalmente e, em vez de ser feito de lajes maciças, parecia cortada na sólida rocha. Ao pé dos degraus, uma passagem tosca curvava-se para a escuridão, descendo ainda. Max foi na frente, iluminando o caminho para mim. Aqui e ali as paredes mostravam um brilho de umidade e o ar fresco parecia mais forte e talvez visivelmente salgado, enquanto a rocha furada dava a impressão — talvez apenas na minha imaginação — de produzir um leve e ressoante zumbido tal como o mar passando pelas curvas de uma concha. Durante um momento pensei ouvi-lo, mas logo tudo desapareceu e senti apenas o ar parado, frio, e o som de nossos passos na pedra.

A lanterna amarela lançava nítidos clarões e sombras sobre o rosto de Max quando ele se virava para guiar-me, desenhando, mo­mentaneamente, o rosto de um estranho. A sua sombra movia-se enor­me e distorcida contra as ásperas paredes.

Fica muito longe ainda? — perguntei, em voz que me pareceu estranha, tal como um murmúrio numa câmara de eco.

Logo depois da esquina — disse Max — e de uma descida de cinco ou seis degraus. E há um cão de guarda.

Um relâmpago da lanterna mostrou a mancha indistinta, pálida, de um rosto voltado para cima e o cano de uma arma, brilhando azu­lado.

Adoni? Max. Eu trouxe a Srta. Lucy. Ele está bem?

Em forma agora. Está acordado.

Por trás de Adoni pendia uma cortina áspera de algum material que me pareceu aniagem e além dela vi um brilho mortiço e cálido. Adoni puxou a cortina para o lado e recuou. Max estendeu a lanterna e indicou-me com um gesto que passasse. Penetrei na caverna.

Era ampla, com um grande teto arqueado perdido nas sombras, de onde estalactites pendiam como pedaços de gelo. As paredes, po­rém, tinham sido caiadas até um metro de altura mais ou menos e estavam recobertas de prateleiras de garrafas, engradados e das formas confortáveis e proeminentes de barris. Num deles, virado de cabeça para baixo para servir de mesa, havia um velho candeeiro, talvez de uma carruagem de mais ou menos 1830, provavelmente tomado de empréstimo do museu lá em cima, que projetava uma fraca luz ala­ranjada e o alegre tremeluzir do latão. O ar era aquecido por um fogão de querosene situado no meio do aposento, com um bule de café em cima. Em alguma parte nas sombras a água gotejava inces­santemente — algum estalactite a pingar água fresca de uma abertura na pedra. O som era tão caseiro como uma torneira vazando. O efeito inesperado do aconchego era aumentado pelo cheiro de cigarros, café e a leve fumaça do fogão de querosene.

O ferido estava deitado numa cama na extremidade mais distante da caverna, contra uma fileira de engradados. A cama era uma coisa improvisada que, apesar disso, parecia extremamente confortável — uns dois colchões colocados um sobre o outro, grande número de cobertores, um travesseiro de penas e um enorme edredão. Alguma espécie de gaiola fora armada sob as roupas de cama para aliviar o peso da perna ferida.

Spiro, deitado ali, envolvido no que parecia um pijama de Sir Julian (seda azul pálida com frisos vermelhos escuros) parecia bas­tante confortável e, no momento, não muito doente. Apoiado contra os travesseiros, bebia café.

Ele nos olhou por cima da xícara, um pouco surpreso quando me viu. Fez uma rápida pergunta a Max, que respondeu em inglês.

            É a irmã de Kyria Forli. Ela é minha amiga, e sua. Ela vai ajudar-nos e eu quero que ouça sua história.

Spiro olhou-me firmemente, sem nenhuma mostra visível de boas vindas, com os olhos redondos e escuros, tão parecidos com os da irmã, cautelosos e calculadores. Reconheci o rapaz pelas fotografias, mas apenas isto. O cabelo espesso e ondulado, o corpo robusto e a força evidente nos omhros e no pescoço grosso eram os mesmos; desapa­recera, porém, as florescência da saúde e da luz solar e a felicidade, também. Ele me pareceu pálido e de pijama jovem e desamparado.

Max puxou um caixote para que eu me sentasse.

Como é que você está-se sentindo? perguntei ao rapaz. Está doendo?

Não disse Spiro. Que isto era mentira parecia evidente, mas ele não pronunciou a palavra com qualquer ar de bravata. Sim­plesmente um homem não admitia fraqueza e a dor era uma fra­queza.

            Ele dormiu disse Adoni.

Ótimo — Max empoleirou-se meio sentado no barril que sus­tentava o candeeiro. A sua sombra, projetada imensa contra as pa­redes, curvava-se, pensativa e gigantesca, por toda a caverna. Ele ob­servou o rapaz durante um minuto ou dois e depois disse vivamente:

Se você está-se sentindo melhor, eu gostaria de que nos con­tasse exatamente o que lhe aconteceu. Todos os detalhes desta vez, por favor.

            Tudo o quê?

Tudo de que puder lembrar-se — respondeu Max. Adoni, na cabeceira da cama, acrescentou uma suave explicação em grego.

Muito bem Spiro esvaziou a xícara de café e estendeu-a, sem olhar, para Adoni. Adoni apanhou-a, colocou-a rapidamente ao lado, voltou para cama e sentou-se enrodilhando-se perto da cabeceira, graciosa e naturalmente como um gato, longe da perna ferida. Enfiou a mão no bolso e tirou os dois cigarros que obtivera com Max, colocou-os na boca, acendeu-os e entregou um a Spiro. Spiro aceitou-o sem olhar ou palavra, mas não vi o menor sinal, como ocorrera comigo, de qual­quer reserva ou aborrecimento. Era evidente que os dois jovens se comheciam bem demais para necessitar de palavras. Ficaram lá senta­dos lado a lado, encostados nos travesseiros. Adoni relaxado e gracioso e, Spiro, quadrado e vigilante, fumando nervosamente, com a mão em forma de concha em torno do cigarro.

Ele me deu outra espiadela desconfiada e, em seguida, ignorou-me: concentrou toda a atenção em Max, quase como se ele o estivesse ligando — e fosse simultaneamente juiz, salvador e corte de apelação final. Max escutou-o sem se mover, com a sombra enorme e arqueada projetada diretamente sobre a parede e, em cima, até metade do teto da caverna.

O rapaz falou lentamente, mostrando sinais da fadiga que se apro­fundavam no seu rosto. Não me lembro agora em que língua ele falou: se o seu inglês era bom ou se Max e Adoni deram-me, aos poucos, a tradução. Suspeito que este último. Mas como quer que tenha sido, a história surgiu viva e nitidamente naquela escura caver­na, acompanhada da luz do candeeiro, fumaça de cigarros, dois ra­pazes enrodilhados na confusão de lençóis e o ligeiro e pungente cheiro das sedas do robe de Tulian Gale.

Acho que o ambiente estranho e secreto, a hora da noite, o meu próprio cansaço e o recente encontro emocional com Max, de alguma maneira emolduraram a cena. Mas ela parecia real apenas na medida em que um sonho é real. No sonho, descobri que já aceitara a culpa de Godfrey. Esperava apenas saber o que ele fizera. Talvez à luz da manhã as coisas tomassem dimensões diferentes. Mas, naquele mo­mento, tive a impressão de que qualquer história poderia ser verda­deira, até mesmo a velha teoria romântica do ancião de que esta era a caverna do Próspero, que neste áspero solo Os lordes napolitanos es­peraram para ouvir as histórias do Duque há tanto tempo afogado como eu esperava para ouvir a história de Spiro.

Nada houve, disse ele, que lhe parecesse estranho na viagem da­quela noite. A única coisa que o surpreendera fora que o céu não se mostrara muito claro e que, de acordo com o rádio, poderia tornar-se tempestuoso ao amanhecer. Disse isso a Godfrey, mas ele respondeu, um tanto bruscamente, que o tempo clarearia. Tiraram o barco e saí­ram pouco antes da meia-noite. Como Spiro esperara, a noite estava escura e abafada. Nada mais disse, porém, a Godfrey, que ficara na cabina, supostamente ocupado com a câmara e o equipamento.

— Ele estava como sempre? — perguntou Max.

Spiro contraiu as sobrancelhas, pensando na pergunta.

— Não posso dizer — respondeu finalmente. — Ele estava calado e ficou talvez um pouco áspero comigo quando lhe falei a respeito do tempo, mas durante todo o dia fora a mesma coisa. Pensei que estava ainda zangado comigo porque eu fora à garagem dos barcosnaquela manhã, por iniciativa própria, para cuidar do motor. Não disse coisa alguma, portanto, e não pensei em coisa alguma. Ele me pagava e isto era tudo.

            Apesar disso, talvez esse detalhe fosse interessante — disse Max lentamente. — Mas continue. Vocês chegaram ao estreito e a noite estava muito escura.

Spiro deu uma puxada rápida no cigarro e estendeu a mão, desa­jeitado, impedido pela perna, para bater a cinza no chão. Adoni puxou um pires de sob a xícara vazia de café e colocou-o ao seu alcance.

            Eu calculei que estávamos a meio caminho no estreito — disse Spiro — entre Kouloura e o continente. Havíamo-nos aproximado das Ilhas Peristeroi. A agitação do mar era suficiente para que eu visse claramente a espuma branca. Perguntei ao Sr. Manning se não devíamos ficar a favor das ondas e esperar que a nuvem passasse. Havia espaços abertos, porém, através dos quais podíamos ver as es­trelas. Ele, porém, disse que não, e que iríamos mais para fora. Fomos durante algum tempo até que eu calculei que estávamos a uns dois quilômetros e meio da praia. Ele saiu da cabina nessa ocasião e mandou que eu entrasse para fazer algum café — o rapaz olhou sob as grossas sobrancelhas para Max. — A câmara estava lá, sobre a mesa, mas acho que ele não a devia ter estado examinando, porque não havia luz acesa, e apenas uma lanterna de tempestade quase apa­gada. No momento não pensei nestas coisas. Nas ocasiões em que tirávamos fotografias à noite andávamos sempre — naturalmente — às escuras. Mas depois de tanto tempo deitado, sem nada para fazer, fiquei pensando... e então lembrei-me de todas as coisas que me pareceram estranhas. Era absolutamente estranho que estivéssemos indo naquela noite escura para tirar fotografias, era estranho que ele me tivesse mentido a respeito da câmara, e a coisa seguinte que acon­teceu foi mais estranha ainda.

Adoni sorriu.

            Eu sei, o motor falhou. E o que é que há de estranho nisso, já que você o desmontou naquela manhã, meu pequeno gênio?

Spiro sorriu pela primeira vez e disse alguma coisa em grego que ninguém se importou em traduzir para mim.

            Se isto tivesse acontecido — acrescentou ele com uma bela simplicidade — teria sido realmente estranho. Mas não aconteceu.

            Mas você nos disse antes...

            Eu disse que o motor parou. Não disse que falhou. Não havia defeito algum no motor.

Max mexeu-se e disse:

— Você tem certeza, naturalmente.

O rapaz inclinou a cabeça.

— E não era preciso um gênio em motores para saber que não havia defeito algum. Até mesmo você — um brilho de olhos em dire­ção a Adoni — até mesmo você teria sabido, minha beleza — ele se desviou do murro fingido de Adoni e sorriu. — Continue, esmurre-me, sem dúvida você agora pode fazer isso.

            Eu esperarei — respondeu Adoni.

Spiro voltou-se novamente para Max.

            Não, o motor estava em perfeitas condições. Ouçam. Ouvi-o parar e, em seguida, o Sr. Manning chamou-me. Enfiei a cabeça pela porta e gritei que daria uma olhada — o compartimento do motor fica debaixo dos degraus da cabina. Ele, porém, disse: "Eu acho que não é aí, Spiro. Acho que alguma coisa enredou-se na hélice e parou-a. Pode dar uma olhada?" Fui até a popa. Ele estava em pé, segurando o timão. Ele disse: "Devagar, rapaz, o barco está jogando um pouco. Dê-ma. Eu segurarei a lanterna para você." Entreguei-lhe a lanterna e inclinei-me para ver se o eixo estava preso. O barco jo­gava e a balaustrada estava escorregadia, mas eu me segurava com força. Eu estaria em completa segurança.

Ele parou e mexeu-se na cama, como se a perna o incomodasse. Adoni deslizou para o chão e arrastou-se até um lugar onde havia uma garrafa ao lado de dois copos vazios. Derramou um pouco de vinho no copo — parecia o vinho tinto adocicado que eles chamam de doméstica — e entregou-o ao rapaz. Em seguida, olhou interroga­tivamente para Max, que sacudiu a cabeça. Adoni repôs a garrafa no lugar e voltou para a cama, ajustando o corpo como um gato à nova posição tomada pelo ferido.

            As coisas aconteceram com grande rapidez. O barco saltou, violentamente, como se o Sr. Manning o tivesse virado com grande rapidez contra o vento. Fui lançado contra o corrimão, mas estava ainda em segurança, porque me segurara bem. Nessa ocasião, porém, alguma coisa me atingiu a cabeça, vinda de trás. Não me atordoou e eu acho que tentei virar-me e levantar o braço, mas, em seguida, o barco jogou novamente e antes que descobrisse o que estava acon­tecendo, comecei a cair. Tentei segurar-me no corrimão, mas a minha mão escorregou. Alguma coisa atingiu-me os dedos — aqui — e eu soltei o corrimão. Quando voltei à superfície na água, o barco estava ainda próximo de mim e eu vi o Sr. Manning na popa, procurando ver-me na escuridão. Eu gritei... não muito alto, compreende, porque estava molhado demais e com muito frio, procurando respirar. Masele deve ter-me ouvido.

Ele levantou rapidamente a vista para Max, subitamente esperto e desperto de puro ódio.

E se êle não me ouviu, êle me viu. Êle acendeu a lanterna efocalizou-a em mim ali no mar.

Sim? perguntou Max, com voz sem expressão, mas eu tive a impressão de que um vento frio levantava-se na adega. Adoni sentiu isso também. Olhou rapidamente para Max antes que seus olhos re­tornassem a Spiro.

Eu não fiquei com medo, compreende disse Spiro não dele. Não me ocorreu que tivesse sido ele que me atingira. Pensei que fora algum acidente. Não, não fiquei com medo. Eu sou bom nadador e embora o motor estivesse parado, o barco aproximava-se de mim e êle podia ver-me. Num momento ele poderia puxar-me novamente para cima. Chamei-o novamente e nadei em direção a ele. Notei que ele tinha o cabo de partida na mão, mas eu não sabia ainda para quê. Então, quando cheguei ao alcance dele, êle se inclinou e atingiu-me novamente. Mas o barco estava jogando, ele tinha de segurar-se no corrimão e não pôde orientar a lanterna devidamente. O golpe atingiu-me, mas desta vez vi-o chegar e desviei-me. Atingiu-me o braço e não a cabeça. Acho que êle sentiu o golpe, mas não o viu, porque a lanterna apagou-se e uma grande onda varreu-me para longe da popa do barco e de suas vistas. Vocês bem podem imaginar que, desta vez, eu deixei que a onda me levasse. Vi a luz acender-se nova­mente, mas não pronunciei palavra alguma e deixei-me ser levado para a escuridão. Ouvi em seguida o motor pegar ele esvaziou o copo e olhou para Max. Ele andou-me procurando durante algum tempo, mas a corrente me levou velozmente e as ondas me oculta­ram. Depois disso, êle virou o barco e deixou-me lá no mar.

Caiu o silêncio. Ninguém se mexeu. No meu caso, persistia a sensação onírica. A caverna pareceu-me mais escura, ressoando com os sons do mar, o murmúrio de um barco que se afastava, o sibilar vazio das ondas impulsionadas pelo vento da noite.

            Mas o santo o protegeu disse Adoni e a profunda satis­fação humana de sua voz afastou rapidamente as sombras. A caverna aqueceu-se novamente, inundada pela luz macia do velho candeeiro vitoriano.

Spiro entregou o copo vazio a Adoni, puxou os lençóis mais confortavelmente em torno de si e inclinou a cabeça.

            Sim, êle me protegeu. Quer ouvir o resto, Kyrie Max? Voce sabe o que aconteceu.

— Quero que a Srta. Lucy ouça a história. Continue, mas não

demore muito. Você está cansado e é muito tarde.

O resto da história foi um clássico puro, tornado previsível e convincente pela meia centena de histórias que começavam com a Odisséia e terminavam com São Paulo. Por azar do assassino, o vento naquela noite levantara uma forte corrente em direção à costa albanesa. Spiro era nadador hábil e o Mar Jónico é muito salgado, mas, mesmo assim, ele teria tido problemas para sobreviver se não tivesse sido lançado pela borda dentro da corrente. Juntando a flutuabilidade da água e a sua teimosia, ele conseguiu permanecer na tona da água por tempo suficiente para que o mar o lançasse na praia pouco antes do amanhecer.

Ao aproximar-se da praia estava quase exausto, toda a energia consumida pelo mero esforço de flutuar, e à mercê da maré. Nem per­cebeu que chegara à praia, mas quando uma forte onda lançou-o cruel­mente contra as pedras, reuniu forças suficientes apenas para agarrar-se nelas, resistindo a puxada para trás uma, duas, três vezes, antes de poder libertar-se e subir rastejando a pedra escorregadia.

Nesse momento a sorte mudou. São Spiridion, tendo-o acompa­nhado até a costa e já fora de seu próprio território, abandonou-o bruscamente. Spiro escorregou, caiu de costas na rocha pontiaguda, com a perna sob o corpo. Finalmente, desmaiou.

Ele não se lembrava de ter sido encontrado por um velho pastor que subira pesadamente àquela parte do rochedo em busca de um cordeiro tresmalhado e preso na pedra. Ao acordar, estava metido numa cama, maltratado, mas seco e quente, na cabana do pastor. Apa­rentemente, o pastor tinha alguma habilidade cirúrgica, pois a perna fora encanada e amarrada. A velha deu-lhe uma bebida que o fez dor­mir novamente e quando despertou pela segunda vez, a dor diminuíra muito e ele pôde lembrar-se e pensar...

— E o resto vocês sabem — ele bocejou inesperada e tremendamente como um animal e reclinou-se mais uma vez nos cobertores.

— Sim, o resto nós sabemos — disse Max se espreguiçando. — Bem, é melhor que você durma um pouco. Pela manhã — meu Deus, dentro de três horas mais ou menos! — vou tirá-lo daqui. Não me pergunte como, mas eu o farei de alguma maneira sem que Manning saiba de coisa alguma. Quero que essa perna seja devidamente tratada e então você terá de contar a história às autoridades apropriadas.

O rapaz levantou a vista, dando-lhe o cansaço e a confusão do rosto uma expressão mal-humorada e sombria.

Autoridade? Polícia. Quer dizer que vai acusar Kyrips Manning de tentar afogar-me Baseado apenas na minha palavra? Eles rirão de você.

Não se trata simplesmente de acusar Manning de lançá-lo pela borda. O que eu quero saber é por quê? Há alguma coisa aqui que precisa ser investigada, Spiro. Você tem de confiar em mim. Agora, apenas mais alguns minutos. Quero que você tente lembrar-se. Você deve ter pensado muito a esse respeito, deitado o tempo todo... Por que acha que ele fez isso? Tem alguma idéia? Você certamente não imagina que foi porque ele se irritou por você revisar o motor sem ordens.

Claro que não.

Houve alguma outra coisa? Aconteceu alguma coisa em outra ocasião?

Não. Pensei no caso. Pensei naturalmente. Não.

Então voltemos à manhã do passeio. Quando não temos com que nos apegarmos, procuramos qualquer fato, por mais banal que seja, que não se encaixe nas coisas... que seja diferente. Você ha­bitualmente revisava o barco por iniciativa própria?

Não, mas fiz isso antes Spiro mexeu-se e a perna incomodou-o. — E fiz isso sozinho antes.

Você sempre lhe pediu permissão?

Naturalmente.

Mas dessa vez não o fez. Por que foi trabalhar no barco dessa vez sem pedir a ele?

Porque ele me disse que ia sair e queria o motor revisado. Eu devia fazer isso pela manhã, após o café. Mas levantei-me muito cedo para nadar e, quando acabei, pensei que podia começar imedia­tamente. Sabia onde ele guardava a chave de reserva e por isso entrei, fiz algum café na cozinha de bordo, abri as grandes portas da gara­gem para que entrasse luz e comecei a trabalhar. Fazia uma boa ma­nhã, com o verão chegando e sentia-me bem. Trabalhei muito. Quando o Sr. Manning terminou o café da manhã e desceu, eu estava quase no fim. Pensei que ia ficar satisfeito, mas ele ficou muito zangado e perguntou como é que eu entrara. Não quis dizer que vira o lugar onde êle escondia a chave e, assim, disse que a porta não estava bem fechada. Ele acreditou porque a lingüeta fica dura às vezes. Mas ele continuava muito zangado e disse que mandaria mudar a fecha­dura. Eu fiquei zangado também e perguntei-lhe se êle pensava que eu era ladrão e, se pensava isso, era melhor contar o dinheiro da carteira que deixara na cozinha. Como se eu o tocasse! Eu estava muito zangado! — disse Spiro lembrando-se do caso com alguma satisfação. — E disse-lhe também que consertaria eu mesmo a fe­chadura para ele e que jamais chegaria perto da casa dele novamente, pepois disso, ele se mostrou delicado, disse que estava arrependido e que não tinha importância.

Max contraiu as sobrancelhas.

Foi então que ele lhe pediu que saísse com ele naquela noite?

Penso que. .. Sim, deve ter sido. Ele dissera antes que não queria que eu fosse, mas mudou de idéia... Achei que porque estava arrependido de ter-me falado daquele jeito — disse e acrescentou in­genuamente : — Era uma maneira de pagar-me dinheiro extra sem me ofender.

Então parece que foi nesse momento que ele resolveu levá-lo e livrar-se de você. Você compreende, isto faz sentido apenas se ele pensou que você viu alguma coisa que não devia... E isto significa o barco ou a garagem. Agora, pense bem, Spiro. Havia alguma coisa fora do comum a respeito do barco? Ou da garagem? Ou a respeito de alguma coisa que Manning disse, fez... ou levava com ele.

Não — repetiu o rapaz com uma espécie de cansada ênfase. — Pensei nisso também. Nada.

A carteira. Você disse que ele deixara a carteira. Onde a encontrou?

No chão, ao lado do fogão da cozinha de bordo. Escorregara para lá e ele não notara. Eu a coloquei na mesa da cabina.

Havia papéis nela? Dinheiro?

Como é que eu posso saber? — Spiro irritou-se novamente, como um pequeno galo de briga e, em seguida, acalmou-se com um sorriso sob o olhar de Max. — Bem, eu olhei, só um pouquinho. Havia dinheiro, mas não sei quanto. Vi apenas os cantos. Não era dinheiro grego, de qualquer maneira. Assim, por que é que ele pensou que poderia servir para mim? Mas mesmo que tivesse sido um milhão de dracmas eu não teria tocado nelas! O senhor sabe disso, Kyrie Max!

Claro que sei. Ele o deixou sozinho no barco depois disso?

Não. Quando terminei, pediu-me para ir até a casa ajudá-lo nas fotografias. Trabalhei lá o dia todo. Ele telefonou à casa Forli para dizer a minha mãe que eu sairia com ele naquela noite.

Na verdade, ele tomou todas as providências para que ninguém o visse naquele dia. Você teve por acaso alguma suspeita de que ele fizesse alguma coisa ilegal nessas expedições?

            Não... e por que me importaria? Eu não teria dito à Polí­cia — os olhos de Spiro brilharam ao fitar Max. — Ele não teria sido o único.

Max declinou de aceitar o gambito e meramente inclinou a cabeça.

Muito bem, Spiro. Não vou incomodá-lo mais. Adoni, vou trancar vocês dois enquanto levo a Srta. Lucy até a casa. Voltarei dentro de meia hora. Você tem a arma?

Sim.

E isto — disse Spiro, procurando alguma coisa debaixo do travesseiro e exibindo, com tanta teatralidade como se fosse um lenço, uma faca do comando afiada até adquirir um brilho as assino.

É assim que se faz — disse Max alegremente. — Agora, vá dormir e daqui a pouco vou levá-lo daqui — inclinou-se e pôs a mão durante um momento no ombro do rapaz. — Tudo correrá bem, Spiro mou.

Adoni seguiu-nos até a porta.

E Sir Gale? — perguntou suavemente.

Eu o deixarei fechado — prometeu Max. — Ele vai dormir como uma pedra, pode ficar certo disto. Ele não está em perigo e, por­tanto, deixe de preocupar-se e veja se dorme também. Quando eu voltar, passarei o resto da noite na cozinha. Se precisar de mim, basta subir até a porta lá em cima e gritar. Boa noite.

Boa noite, Adoni — disse eu.

Boa noite — Adoni endereçou-me aquele sorriso novamente, talvez um pouco cansado nos cantos da boca. Deixou a cortina cair, tapando a entrada da caverna e cortando o brilho cálido e deixando-nos, Max e eu, na escuridão do corredor rochoso.

Ele acendeu a lanterna e começamos a subir os degraus. As pa­redes ásperas, o corredor curvo, o lance de degraus cortados na pedra bruta passaram numa espécie de sonho cansativo, mas uma parte do meu cérebro estava ainda desperta e inquieta, atenta ao que ele dizia.

            Compreende agora por que estou escondendo o rapaz até que possa contrabandeá-lo para Atenas? Não é tanto porque ele esteja ainda em perigo real — embora bem possa estar — mas simplesmente que teremos oportunidade muito melhor de descobrir o que Manning tem em mente se ele não desconfiar que está sob suspeita. É algo im­portante... Isto parece óbvio... E eu tenho absoluta certeza do lugar por onde devo começar a procurar.

            O barco?

            O barco ou a garagem. Ele está metido em alguma coisa que envolve o barco e a excelente cobertura que as fotografias dão. E se você aceitar a história de Spiro, como eu aceito, a pequena discussão que teve com Manning naquela manhã fornece a única pequena pista. O único desvio do padrão que consigo ver... e poderia ajustar-se à piorte de Yanni também. Estive pensando nisso. Quando Yanni trouxe a mensagem de Spiro no domingo à noite nós a discutimos com grande franqueza e eu disse que julgava muito estranho que não devêssemos dizer a Manning. Yanni então me disse que vira o barco de Manning no mar em ocasiões estranhas e em estranhos lugares e que pensava havia algum tempo que ele estava metido em algum negócio escuso. Quando falei nas fotografias, ele simplesmente enco­lheu os ombros e tomou ares de cinismo. Bem, isto não é suficiente como ponto de partida. Um homem como Yanni pensaria que foto­grafar é ocupação muito esquisita para um homem. Mas ele pode muito bem ter ficado curioso e bastante desconfiado após nossa con­versa para descer naquela noite, espionar a garagem dos barcos ou algum lugar onde não tinha o direito de estar e acabou sendo assas­sinado. Acho que ele foi surpreendido e atingido de trás, em seguida carregado de qualquer jeito para seu próprio barco, com o escaler de Manning preso a ele, levado para o mar, amassado pelo botaló e lançado sobre a borda. Manning, em seguida, pôs o botaló em posição, derramou uma garrafa de ouzo em volta, deixou o barco à deriva e remou silenciosamente para casa. Oh, sim, isto poderia ter sido feito. Ele não podia tê-lo levado a uma grande distância desde que teria de remar de volta. E então caiu aquela tempestade que devolveu o corpo diretamente à praia..., mas funcionou. Ele teve sucesso. Um moço impulsivo, o nosso Godfrey... e com um bocado de coisas importan­tes em risco, isto é certo. Sim, eu gostaria de saber exatamente o que é.

Falei-lhe, numa apreensão súbita:

Você tem que me prometer uma coisa?

O quê?

Você não vai lá hoje à noite. Você não seria tão tolo assim! Ele riu.

            Você tem toda a razão, eu não iria, meu amor! Preciso levar Spiro em segurança aonde ele precisa estar antes de começar a discutir com alguém que tenha as estranhas idéias de Manning sobre vida e morte. Ele deve ter sido a pessoa que atirou no golfinho, você na certa compreende isso — ele inclinou a cabeça diante de minha ex­clamação. — Quem mais? Há apenas uma razão plausível, aquela que você me imputou, de que a notícia se espalhara e que pessoas começaram a vir a esta parte da costa para ver a criatura. No momento em que Manning a viu pela primeira vez na baía, deve ter pensado que era uma delas... uma estranha, aproximando-se demais do quequer que fosse que ele tentava conservar secreto. Como aconteceu com Spiro e Yanni.

            Mas... aquelas belas fotos! Elas são realmente belas, Max! Ele não podia destruir o golfinho depois de ter trabalhado com ele daquela maneira, podia? Ele devia gostar do golfinho!

Ele sorriu, ironicamente.

            E de Spiro, também? — fiquei silenciosa. — Bem. aqui estamos. Um momento só enquanto eu empurro as prateleiras para o lugar.

            Que é que você quer que eu faça?

            Uma coisa que sei que não envolverá perigo e que espero não seja fácil: dar cobertura à minha viagem de volta de Atenas com Spiro.

            Naturalmente, se puder. Como?

            Mantenha Manning afastado do porto de Corfu amanhã na ocasião em que eu provavelmente chegarei. Seria mais rápido ir de avião, mas não posso levar o rapaz daquele jeito sem que toda a ilha saiba. Assim, terei de levá-lo no meu carro, escondido sob uma manta ou alguma coisa, até o outro lado pela Igoumenitsa.

            O quê?

A barca até o continente. Irei de automóvel até Jannina e apanharei lá o avião até Atenas. Isto significa que não podemos ir e voltar no mesmo dia, mas tentarei voltar no dia seguinte. Telefonar-lhe-ei esta noite dizendo-lhe que barca tomaremos. A última só chega a um quarto para as onze. É muito escuro a essa hora e duvido que ele esteja por ali. Mas eu gostaria de voltar numa barca mais cedo, se puder, e chegar às cinco e quinze. Assim, se você puder convidá-lo para o chá ou fazer alguma coisa até depois das seis, para dar-me tempo de chegar de carro em casa...

Neste momento eu acho que isso me engasgaria, mas farei o melhor que puder — respondi-lhe.

Voltamos à cozinha. A luz, o calor e o cheiro agradável de comida fecharam-se em torno de nós como recordações de um mundo real, mas distante, algo seguro e brilhante além dos transes agitados dos sonhos da noite. Ele fechou a grande porta atrás de nós e ouvi a chave girar e a lingüeta correr com um som áspero.

Muito bem. Agora você precisa ir para casa. Vá até lá em cima e vista-se enquanto vou ver se meu pai está realmente dormindo.

Espero que Phyl esteja dormindo também, ou só Deus sabe que história terei de inventar! Tudo, menos a verdade, acho! — levantei os olhos para ele. — Eu não posso acreditar. Você compreende, não? Sei que é verdade, mas não posso acreditar. E pela manhã, à luz do sol, será inteiramente impossível. — Eu sei. Não pense nisso agora. Você teve uma noite horrível. Mas sentir-se-á diferente depois de ter dormido um pouco.

— Meu relógio parou. Oh, demônios, penso que entrou água nele. Que horas são, Max?

Ele olhou para o pulso.

-— O meu também. Diabo. Aquele pequeno banho de mar não parece ter-nos feito muito bem, não?

Eu ri.

— Houve algumas coisas que podiam ter sido mais bem expressadas, Sr. Gale?

Ele estendeu os braços e puxou-me para ele.

— Houve coisas que podiam ter sido feitas melhor — disse ele, e fez.

 

Enquanto dormes tranqüilo, a traição, como de estilo, está desperta.

Dormi até tarde naquele dia. A primeira coisa de que me lembro é de som das persianas enroladas e de súbito o quente clarão de sol batendo nos travesseiros e nos meus olhos.

            E que mais do que tempo, Rip Van Winkle! — disse a voz de Phyllida.

Enquanto eu murmurava alguma coisa, puxando-me das profun­dezas do sono, ela acrescentou:

            Godfrey telefonou.

            Oh? — perguntei, pestanejando para a luz. — Chamou-me? O que é que ele queria... Você disse, Godfrey? — a súbita recorda­ção despertou-me inteiramente e fez-me levantar tão violentamente do travesseiro que lhe notei uma expressão de surpresa. Isto me ajudou a controlar-me.

            Estava sonhando — disse, esfregando os olhos. — Que horas são?

Meio-dia, menina.

Oh, meu Deus! Que é que ele queria ?

Se você tinha chegado em segurança em casa, com o anel, naturalmente.

            Ele esperava que o Sr. Gale o roubasse no caminho? Tarde demais notei a secura de minha voz. Minha irmã olhou-me curiosamente, mas disse apenas:

Eu acordei você depressa demais. Não importa. Trouxe-lhe um pouco de café. Aqui!

Que anjo... Muito obrigada. Devo ter dormido como um ca­dáver... Seu anel está ali em cima da penteadeira. Oh, você já o apanhou!

Pode apostar a sua querida vida que já. Vim aqui há umas duas horas e o levei, mas não tive ânimo de acordá-la, você parecia esgotada, menina — ela virou a mão à luz e o brilhante faiscou. — Graças a Deus por isso! Deus a abençoe, Lucy. Estou-lhe profunda­mente grata! Eu teria ficado inteiramente demente se tivesse de ficar no quarto toda a noite pensando se alguém não andara por ali e achara o anel. E eu não teria ousado ir pessoalmente! Mas a que horas você chegou?

Não sei direito — respondi honestamente. — Meu relógio pa­rou. Pensei que tivesse entrado água nele, mas eu apenas tinha es­quecido de dar corda. Alguma lúgubre hora do amanhecer — disse-lhe com uma risada. — Houve complicações realmente. Godfrey não lhe falou?

Não compreendi bem aquela parte. Alguma coisa sobre o golfinho encalhado na praia e você e Max Gale lutando com ele na água. Devo dizer-lhe que tudo pareceu-me altamente improvável. Que é que aconteceu?

Mais ou menos isso — dei-lhe uma rápida — e apropriadamente expurgada — versão do salvamento do golfinho, terminando com a chegada de Godfrey à praia. — E receio que você encontrará os restos de sua preciosa bolsa plástica no banheiro. Sinto muito, mas teve de usar alguma coisa.

Oh, Deus, aquela ruína! Nada podia ter menos importância!

Estou aliviada. Da maneira em que você falou na noite passada, pensei que era praticamente uma relíquia santa.

Ela me atirou um olhar quando desapareceu pela porta do banheiro.

— Eu não estava no meu juízo na noite passada e você sabe disso.

            Bem, não — estendi a mão para o bule que ela colocara ao lado da cama e servi-me de mais café.

Ela saiu do banheiro segurando a bolsa entre o polegar e o indi­cador.

—            Ruína foi a palavra, não? Acho que você não sabe o que acon­teceu ao meu batom Lizzie Arden?

            Deus, uma relíquia santa também?

            Bem, era de ouro.

Bebi o café.

— Você o encontrará no bolso do robe de Sir Julian Gale. Esque­ci-o lá. Sinto muito, novamente. Você poderia dizer que eu também não estava no meu juízo perfeito na noite passada.

O robe de Julian Gale? A situação está ficando cada vez melhor! Que é que aconteceu? — perguntou, sentando-se na beira da cama. — Tentei como uma maluca ficar acordada até você chegar, mas aquelas malditas pílulas me puseram inteiramente nocaute. Logo que Godfrey telefonou eu deixei de preocupar-me. Continue. Quero saber o que perdi.

Oh, nada, realmente. Nós dois estávamos encharcados, e assim eu tive de subir até o Castelo para secar-me. Deram-me café e eu tomei um banho... Phyl, o banheiro! Você dificilmente acreditaria no lúgubre... Oh, sinto muito. Esqueci que é o lar ancestral dos Forlis. Bem, então você conhece o banheiro.

— Há dois — disse Phyl. — Não se esqueça de que há vinte quartos. A pessoa precisa dos seus confortos. Ora se conheço os banheiros! Foi o da banheira de alabastro ou de pórfiro?

— Você fala como se fosse a própria Nova Jerusalém. Não sei. Eu não vivo nesses níveis. Era de uma horrenda cor vermelho-escura, com pintas brancas, exatamente igual a um salame velho.

Pórfiro — disse minha irmã. — A água estava quente?

Fervendo.

            Estava? Então eles devem ter feito alguma coisa. Ela jamais chegava a mais do que morna e, de fato, lembro-me de que havia uma torneira de água salgada que era bombeada de alguma maneira esquisita lá das cavernas. Há cavernas sob o Castelo.

Há mesmo?

Eram usadas para guardar vinho.

Realmente? Que interessante!

            Apenas, camarões e outras coisas apareciam sempre, o que era desanimador e, uma vez, uma lula recém-nascida.

            Deve ter sido uma coisa!

Assim, Leo resolveu acabar com aquilo. Dizia-se que era tre­mendamente bom para a saúde, mas há limites.

Tenho certeza que há — respondi. — Camarões no vinho seria um deles.

Camarões no vinho! Em nome de Deus, do que é que você está falando?

Depositei a xícara na mesa.

Não estou inteiramente certa. Pensei que fossem as adegas.

Os banhos de água salgada, sua idiota! Leo acabou com aquilo. Oh, compreendo, você está zombando de mim. Bem, continue, de qualquer jeito. Você tomou um banho. Mas ainda não compreendo como você conseguiu água quente. Eles não podem ter posto as fornalhas a funcionar. Elas costumavam queimar mais ou menos uma tonelada de carvão por dia e praticamente precisávamos de três escravos para mantê-las abastecidas vinte e quatro horas por dia.

Adoni e Spiro inventaram um gêiser.

Deus — disse Phyl devotamente — e funciona?

Sim, eu já lhe disse, a água estava maravilhosa. E o que é mais, havia canos quentes para secar minhas roupas e, além disso, um aquecedor elétrico no quarto vizinho. Bem, enquanto minhas coi­sas secavam, eu vesti o robe-de-chambre de Sir Julian — o que explica por que deixei sua maquilagem no bolso dele — e tomei café com bacon com ovos na cozinha. Em seguida, Max Gale trouxe-me até em casa com o brilhante e isto é o fim da saga — reclinei-me e sorri para ela. — Para dizer a verdade, foi bastante engraçado.

Parece que foi! E Max Gale foi delicado?

Oh, sim. Muito.

Devo dizer-lhe que estou surpresa por ele tê-la ajudado. Acho que alguém pensava que ele queria livrar-se do golfinho.

Não deve ter sido ele, afinal de contas. Ele me ajudou logo que lhe pedi. E tampouco foi o pai dele, disto estou certa. Acho que deve ter sido algum bestial morador do lugar, divertindo-se com uma arma — sentei-me e empurrei as cobertas. — É melhor levantar-me.

Minha irmã olhou para o pulso e pôs-se de pé com uma exclamação.

Meu Deus, tenho de correr se quiser ficar pronta.

Aonde é que você vai?

Arrumar o cabelo. Tenho algumas compras para fazer e pensei em almoçar na cidade. Eu devia tê-la acordado antes para perguntar a você se queria ir, mas você parecia tão cansada... Há carne fria e um flan de frutas se você ficar em casa, mas venha, se quiser, podepreparar-se a tempo? Tenho de sair em mais ou menos vinte minutos Hesitei.

Godfrey está esperando que eu o chame ao telefone ou algumacoisa?

Oh, Deus, sim, esqueci-me. Ele está morrendo para saber em primeira mão, de tudo o que aconteceu ontem à noite, segundo imagino. Eu disse a ele que ia sair para almoçar fora ou o teria con­vidado a aparecer, mas acho que ele ia convidá-la para almoçar com ele — ela parou, com a mão na porta. — O telefone está chamando. Deve ser ele. Que é que eu digo?

Estendi a mão para as meias e sentei-me para calçá-las. O gesto disfarçou alguns raciocínios rápidos.

Godfrey estaria obviamente muito curioso para saber o que acon­tecera no Castelo na noite passada — o que Sir Julian nos dissera e as reações de Max. Se eu o pudesse evitar até amanhã, poderia usar-lhe a curiosidade para mantê-lo longe de Max.

            Diga que estou no banheiro ou alguma coisa e que não posso atender ao telefone agora. Diga-lhe também que vou sair com você, que não sei quando vou voltar, mas que lhe telefonarei... Não, ele pode chamar-me. De noite, qualquer hora.

Phyl levantou uma sobrancelha.

Bancando a figurinha difícil, não? Muito bem. Então vai co­migo?

Não. Jamais me prepararei em tempo. Obrigada, de qualquer maneira. Ficarei matando o tempo por aqui e descerei à praia mais tarde.

Muito bem — disse minha irmã amigavelmente e saiu para silenciar o telefone.

Eu não tinha a mínima intenção de descer até a praia, por falar nisso, sendo mais do que provável que Godfrey me visse lá e apa­recesse também. Eu queria, sim, ir até o Castelo descobrir se Max e Spiro tinham conseguido sair em segurança. Hesitei em usar a ex­tensão telefônica e, de qualquer modo, duvidava de que Sir Julian quisesse falar comigo naquela manhã. Tinha a esperança, todavia, de encontrar Adoni em algum lugar do jardim e de falar-lhe a sós.

Comi o almoço frio bem cedo e bastante apressada e, dizendo a Miranda que ia passar a tarde na praia, fui ao quarto apanhar minhas coisas.

Ela me esperava no saguão quando voltei, com um embrulho na mão.

            Para mim? — perguntei. — Que é?

            Adoni acaba de trazê-lo. São algumas coisas que a senhora deixou lá na noite passada.

Através do papel senti as formas pequenas e duras do batom e da caixa de pó de Pyhl.

Oh, que bondade dele. Eu estava pensando se teria de ir buscá-los. Ele ainda está aqui?

Não, senhorita. Ele não quis ficar. Mas disse-me para dizer-lhe que tudo estava bem.

Notei um traço muito leve de curiosidade na voz dela. Observei que os olhos estavam brilhantes e que o rubor voltara ao seu rosto e, durante um momento, perguntei-me se Adoni dera-lhe alguma suges­tão da verdade.

Ótimo. Ele lhe falou da aventura que tivemos na noite pas­sada?

O golfinho? Sim, contou-me. Deve ter sido estranho — a coisa mais estranha para a sua mente grega, isto eu podia ver, era que uma pessoa se tivesse dado àquele trabalho todo. — Mas o seu casaco, Srta. Lucy! Duvido que ele jamais venha a ser o que era!

Ficou um bocado estragado, não? — perguntei com uma risada. — Eu achei que você ia ficar querendo saber o que foi.

Eu sabia que a senhora devia ter caído no mar, porque o ves­tido e o casaco... e o banheiro, po po po. Eu lavei o vestido, mas o casaco deve ir para o tintureiro.

Oh, sim. Não se preocupe com isso. Muito obrigada por ter lavado o vestido, Miranda. Bem, quando encontrar Adoni, quer agra­decer-lhe em meu nome por ter trazido estas coisa? E pelo recado. Que tudo corria bem, não?

            Sim.

Isto é ótimo — disse-lhe alegremente. — Eu estava em dúvida. Sir Julian não se sentia bem na noite passada e eu estava preo­cupada.

Ele ficará bom esta manhã — disse ela com uma inclinação de cabeça.

Fitei-a por um momento e compreendi que ela sabia exatamente o que a minha cuidadosa alusão significava e isto não a perturbava. A mente grega novamente: se um homem resolvia embriagar-se vez por outra, a quem isso importava, salvo para ele mesmo? A mulher dele aceitaria o fato como aceitava tudo mais. A vida ali tinha dessas deliciosas simplicidades.

            Estou muito satisfeita — disse e caminhei em direção ao bos­que de pinheiros.

Logo que saí do alcance da casa deixei o caminho e subi pelo bosque para um ponto mais alto, onde as árvores rareavam e uns poucos pinheiros dispersos levantavam-se altaneiros na crista do pro­montório. Estendi a toalha na sombra e deitei-me. O chão estava atapetado de agulhas de pinheiro e aqui e ali nasciam macias folhas peludas de hera rasteira, belas orquídeas rosadas, desmaiadas, e lírios vermelhos pintalgados de branco. O Castelo estava oculto pelas árvores e dessa altura eu podia justamente ver, na praia sul, o telhado da Villa Rotha. A casa Forli era visível embaixo de mim. À distância, além do mar faiscante, distinguia as montanhas de Spiro. A neve que as coroava quase desaparecera, ainda que mais ao norte os picos alba­neses brilhassem brancos ainda. Ali, sob eles, estavam as pedras onde Spiro dera à praia e de onde Max o tirara sob as armas da Guarda Costeira. E lá, ao sopé das colinas violetas do Epiro, aquele conglome­rado dolorido devia ser Igoumenitsa, ponto terminal da barca...

Levara um livro, mas não conseguia ler. Não se passou muito tempo antes que eu visse o que esperava: Godfrey saindo com ar inten­cional, ao longo do caminho que circundava a praia. Ele não desceu para a baía; ficou apenas lá como se estivesse procurando alguma pessoa que pudesse ter estado na praia ou no mar. Esperou durante algum tempo. Em certo momento pensei que ele ia cruzar a praia e subir até a Vila Forli, mas ele não o fez. Ficou ali durante alguns minutos. Virou-se e voltou pelo caminho por onde viera.

Momentos depois, tive os olhos atraídos por um vislumbre de uma coisa branca móvel, um brilho além dos topos das árvores que emolduravam o mar. Logo depois, um barco saiu com as velas des­fraldadas da parte mais distante da praia, abrindo um sulco branco e curvo pelo azul reluzente.

Com o queixo nas mãos, fiquei a observá-lo.

Era parecido com um barco que Leo possuíra anos antes e no qual eu passara um feriado certo verão, no ano em que deixara a escola. Eia uma chalupa a motor, talvez de uns nove metros de com­primento, com velame do tipo Bermuda — tanto quanto eu sabia — com um mastro escamoteável. Parecia provável que assim fosse, pois, pelo que Godfrey dissera, era de construção holandesa e presumivel­mente podia ter sido adaptado para navegar em canais e passar sob pontes baixas. De qualquer modo, eu compreendera na noite passada que ela era habitualmente ancorada não na baía, mas na garagem dos barcos. E mesmo que esta fosse construída na mesma pródiga escala do Castelo e destinada a abrigar diversas embarcações, teria de ser um lugar muito vasto para nela caber o mastro de 14 metros da cha­lupa. O casco era de cinza marinho, com uma linha branca no sentido do comprimento. Era uma bela embarcação e, em qualquer outra ocasião eu teria admirado sonhadoramente as suas linhas elegantes e a beleza das suas velas. Naquele dia perguntei-me apenas qual seria a sua ve­locidade — sete ou oito nós, provavelmente — e apertei os olhos para observar a pequena figura preta no timão. Godfrey, sem dúvida.

O mar deslizava tremeluzindo pelo casco cinza (cinza no interesse da camuflagem?); a esteira branca parecia de leite; o barco girou, belo, entre mim e o sol e nada mais pude ver, salvo a forma alada que tomava o caminho do alto-mar e, em seguida, virava para o sul em direção à cidade de Corfu.

Lucy? — disse ele ao telefone.

Sim. Alô. Sua voz está muito distante.

Você recebeu o recado por Adoni?

Recebi. Apenas que tudo estava correndo bem. Presumi que você conseguira sair em segurança. Espero que tudo esteja ainda bem.

Até agora. Um pouco desencorajador, mas ainda tenho espe­rança. E você?

Estou ótima, muito obrigada, e tudo está bem aqui. Calmo e normal, tanto quanto se pode ver. Não se preocupe com o lado de cá.

Ah! — uma ligeira pausa. Embora eu soubesse que não havia ninguém em casa, olhei rapidamente em volta. Ouvi a voz de Max, distante no meu ouvido. — Lembra-se daquele libreto que eu vim aqui discutir com aquele amigo? Estivemos conversando sobre a his­tória toda a tarde e ele não está muito interessado. Diz que não é plausível. Não tenho certeza de que seja capaz de persuadi-lo a fazer muita coisa a respeito.

Compreendo — disse-lhe — mas, olhe aqui, acho que esta linha está segura. A minha irmã saiu e o mesmo aconteceu com o outro sócio da linha. Vi o barco dele sair, com ele a bordo, há bastante tem­po, e ele não voltou ainda. Estive observando até agora. Pode dizer o que quiser.

Bem, eu não tenho certeza de como é o inglês deles na central telefônica de Corfu — disse Max — mas você deve ter compreendido pelas minhas palavras que as notícias não são das melhores. Estive­mos com a Polícia toda a tarde. Eles escutaram com grande gentile­za, mas não estão inclinados a levar a coisa a sério — e certamente não vão tomar medida alguma contra nosso amigo sem alguma prova sólida.

Se ele fosse vigiado...

Eles inclinam-se a pensar que não vale a pena. A idéia geral é que constitui outro caso de comércio ilegal e ninguém está dis­posto a levá-lo a sério o suficiente para gastar dinheiro na investi­gação.

            Então eles não acreditam na história do rapaz? Ele hesitou.

Eu não pude compreender bem isso. Acho que não. Acham que ele talvez esteja enganado e inclinam-se para a idéia de um aci­dente.

Um excelente veredicto, sem problemas — disse eu, secamente — E a morte de Y foi também acidente?

Eles estão inclinados a aceitar o primeiro veredicto também neste caso. O problema, você compreende, é que eles estão furiosos comigo por causa do pequeno trabalho de ontem à noite, que eu tive de contar-lhes, e que poderia ter dado origem a alguns problemas. A fronteira grega-albanesa parece sempre um trem de dinamite com um detonador lento queimando. Oh, eles acabaram reconhecendo que eu dificilmente poderia ter chamado a Polícia para o encontro com Milo e seu amigo, mas eu também ocultei provas no inquérito de Y. Z., depois de eles terem sido tão úteis a meu pai e a mim no caso de Spiro... Sou obrigado a reconhecer que compreendo bem o argumen­to deles. O meu nome, porém, está sujo no momento e eles simples­mente não querem fazer coisa alguma à vista de minhas palavras, es­pecialmente se isto significar passar por cima da Polícia local. Como você vê, não há um motivo aceitável.

            Bem, mas... se fosse comércio ilegal?

            Isto dificilmente teria dado origem a um assassinato. Como você sabe, o assunto mal é levado a sério deste lado de cá da fron­teira.

            Compreendo.

            Assim, eles parecem aceitar o acidente pelos dois motivos. E, naturalmente, diabos os levem, nós não podemos provar coisa al­guma. Eu simplesmente não sei o que vai acontecer.

            Você pode trazê-lo de volta?... O rapaz?

            Tampouco sei disso. No que toca ao hospital, está tudo certo, mas será perigoso para ele... Se apenas pudéssemos encontrar um vestígio de uma idéia sobre o motivo, para não falar no porquê da coisa... Se eu não conhecesse o rapaz tão bem e não fosse a morte de Y, eu tomaria a mesma atitude que a Polícia, pode ficar certa. Você teve razão na noite passada quando disse que era incrível. À luz fria do dia a idéia é fantástica... embora no intimo eu saiba que é verdade... Ah, bem. Vou falar com eles novamente hoje à noite e há ainda amanhã. Talvez possamos conseguir ainda que eles façam alguma coisa.

            Quando é que você volta?

            Amanhã. Tentarei chegar naquela hora mais cedo que lhe disse.

Muito bem. Tenho quase certeza de que posso ter a situação sob controle. Ninguém o verá.

Bem, isto é um fardo a menos — ouvi-o rir. — Conseguimos sair sem problemas, mas o hospital colocou nele um maravilhoso apa­relho novo que não entra na mala do carro e desta vez será o assento traseiro e uma manta... Uma situação danada de desajeitada se hou­ver alguém por ali. Será difícil conseguir isto?

Facílimo... acho. Eu não tenho certeza sobre quem é a aranha e quem é a mosca, mas acho que não terei nem mesmo de tentar.

            Mas, por amor de Deus, tome cuidado.

            Não se preocupe. Ele não conseguirá coisa alguma de mim. Eu posso ser uma canastrona no palco, mas sou o máximo fora dele.

Ele riu novamente e disse:

            Quem é que está dizendo isso a quem? Mas não era isto o que eu queria dizer.

— Sei disso. Não tem importância. Tomarei cuidado.

Ouvi-o tomar uma profunda respiração.

            Sinto-me melhor agora. Vou sair e abordar esse grupo de policiais muito gentis, mas também danados de sensíveis. Tenho de ir agora. Deus a abençoe. Tome cuidado com você.

            Você também — disse eu.

O fone no outro lado foi posto no gancho e através do fio passou a sibilar crepitante dos quilômetros de mar e ar que nos separavam. Coloquei suavemente o telefone no gancho e olhei fixamente para a longa vidraça da porta que conduzia ao terraço. Ela emoldurava um oblongo de noite vazia, escura, com um planeta em chamas na esteira de estrelas empoeiradas. Fiquei ali durante minutos, sem me mover, com a mão ainda no telefone, sem pensar em coisa alguma, observando apenas o planeta brilhante, sentindo que se me imobilizavam todas as tensões, como se alguém tivesse colocado um dedo sobre uma corda vibrante de um instrumento musical.

Ao tocar o telefone mais uma vez, diretamente sob a minha mão, mal me sobressaltei. Reclinei-me na cadeira e coloquei o aparelho no ouvido.

            Sim? — disse. — Oh, alô, Godfrey. Sim, é Lucy. Você está em Corfu? Não, já cheguei há algum tempo. Eu me estava pergun­tando quando é que você telefonaria...

 

Nestas três horas ele não aparece.

Ele veio buscar-me no dia seguinte imediatamente após o almoço. Ele sugerira almoço e certamente parecera lisongeiramente ansioso por minha companhia, mas desde que eu sabia que êle não queria coisa alguma de mini, senão informações, e não tinha idéia de quanto tempo poderia detê-lo, aleguei um compromisso, mas permiti-me mos­trar convenientemente ansiosa por um passeio à tarde.

Consegui mesmo sugerir a rota. Não que houvesse muita escolha no assunto: a estrada para o norte mal era transitivei por automóvel e eu dificilmente poderia sugerir que Godfrey a escolhesse. Teríamos de ir para o sul pela estrada que Max e Spiro usariam eventualmente quando voltassem para casa, mas havia, felizmente, uma estrada secun­dária que saía da principal em direção a Palaiokastritsa, um lugar belo e famoso na costa ocidental que eu teria todos os motivos legí­timos para querer visitar. Era realmente verdade que chegara a examinar o lugar no mapa mas adiara a viagem porque a estrada parecia montanhosa e eu ficara ligeiramente nervosa em tentá-la no pequeno carro de Phyl. Comigo guiando (disse a Godfrey) seria muito grandea tensão e, com Phyl ao volante, praticamente suicídio. Mas se ele quisesse levar-me e se tivesse um carro que pudesse subir os gra­dientes...

Ele riu, parecendo satisfeito, e disse que seria uma delícia subir qualquer ladeira quç eu quisesse e, sim, tinha um carro que faria isso sem dificuldade alguma...

Ele certamente o possuía. Era um XK-150 preto, de nariz chato, poderoso, e tão tolerante nos estreitos caminhos quando uma foca macho no seu pedaço de praia. Enfiando impacientemente o nariz pelo caminho, zumbindo como uma colmeia de abelhas assassinas, passou com um solavanco pela estrada particular esburacada do Castelo e virou para descer pelo portão onde Maria tinha a cabana.

Vimo-la do lado de fora, curvada sobre uma lata enferrujada, mexendo com um pau o que parecia comida de galinhas. Ao ouvir-nos, ela se espigou com a lata apertada contra os seios, as galinhas caca­rejando e pairando em torno de seus pés. Godfrey, reduzindo a mar­cha para entrar na estrada principal, levantou a mão e gritou um cumprimento, que ela retribuiu com uma expressão de prazer mistu­rada com respeito, uma expressão tão cordial como a que eu lhe vira no rosto há uma semana mais ou menos. Eu notara a mesma expres­são, tímida, mas satisfeita no rosto de Miranda quando ela o intro­duzira no salotto um pouco antes, como se as duas estivessem gratas ao patrão de Spiro pela contínua bondade dele em seus sofrimentos.

Olhei-o de esguelha quando o carro fez a volta — com velocidade demais e um clangor das buzinas que fizeram as galinhas de Maria arrepiarem caminho numa barulhenta nuvem de poeira — para entrar na estrada principal. Eu não sabia exatamente o que esperava ver naquela tarde — algum monstro de pele macia, talvez, com cascos, chifres e uma cauda, bem visíveis para os conhecedores — mas ele me pareceu o mesmo, um homem inegavelmente atraente, que dirigia o maravilhoso carro com habilidade e evidente prazer.

E este homem, pensei, supostamente empurrara o rapaz — o filho e irmão amado — pela popa do barco como se ele fosse uma água-viva e seguira viagem, deixando-o a afogar-se. . .

Ele deve ter percebido que eu o observava, pois olhou-me de esguelha e sorriu. Eu sorri de volta, espontaneamente, e sem astúcia nenhuma. A despeito de mim mesma, a despeito de Max e da história de Spiro, eu não podia acreditar. A coisa era, como dissera a Max, impossível à luz do dia.

O que foi bom, também. Se eu tivesse de passar as próximas horas com ele, teria de fechar a mente a tudo o que soubera, apagar a cena da adega, esquecer Spiro, como se ele estivesse realmente morto. E, mais difícil ainda, squecer Max. Descobri um prazer secreto e curio­samente forte ao referir-me a ele como Sr. Gale nos tons descuidados que Godfrey e Phyllida usavam habitualmente, como faríamos a res­peito de um estranho a quem devemos um favor, mas em quem mal pensamos se simpatizamos ou não. Certa ocasião, quando mencionei de passagem o nome dele, os meus olhos baixos viram a ligeira marca de um ferimento no braço. O arrepio secreto de prazer que me subiu pela espinha surpreendeu-me um pouco. Passei a mio sobre a marca para ocultá-la e vi que pegava a carne como se fosse dele, e não minha. Olhei para fora do carro e fiz uma observação casual sobre a paisagem.

A estrada era muito bela. A nossa esquerda, o mar, azul e liso, interrompido apenas pelo pequenino crescente branco de uma vela, esguia como um prego e quase perdida na névoa seca. À direita, a cerca alta de macieiras e olaias, mergulhadas uns noventa centímetros num tapete de flores do campo, amarelas, púrpuras e brancas. Duas garotas, em vestidos vermelhos remendados e desmaiados, de pés descalços, pararam para nos ver passar, uma delas com um galho de laranjas não mão, como uma garota inglesa poderia segurar uma vara com um balão, as frutas sobressaindo, brilhantes, entre as folhas verdes.

A estrada estendeu-se reta em nossa frente e o XK-150 adiantou-se com uma suave explosão de velocidade. Senti-me animada. Ia ser fácil. Na verdade, não havia motivo para que eu simplesmente não me .relaxasse e apreciasse também o passeio. Reclinei-me e continuei a falar — esperei que com naturalidade — sobre bobagens: a paisagem, as pessoas que Phyl encontrara ontem em Corfu, as perspectivas da vinda de Leo e as crianças para a Páscoa. . .

Passamos como um relâmpago por uma bifurcação da estrada.

Espiguei-me vivamente.

Era ali a curva, não era? Tenho certeza de que o sinal dizia Palaiokastritsa!

Oh, sim, dizia. Sinto muito. Eu estava distraído. Eu devia ter-lhe dito. Eu não a estou levando lá hoje. É muito distante e quase não teríamos tempo. Iremos outro dia se você quiser, quando eu não tiver de voltar cedo.

            Mas nós teremos de voltar cedo?

A pergunta escapou-me da boca antes que eu pudesse controlar-me, ingênua no seu desânimo. Vi uma ligeira sombra de satisfeita sur­presa no rosto dele e pensei que, depois de todas as minhas evasivas ao telefone, ele tinha o direito de achá-la provocante.

            Receio que sim. Eu vou sair hoje à noite. Não quero dizer que não poderíamos ir até lá, mas é uma pena andar todo este caminho para uma estada curta. É um belo lugar e há muita coisa a ver. Além do mais, é um desperdício terrível ir lá e não almoçar. Há um res­taurante na própria praia onde eles mantêm lagostas vivas no mar.

A pessoa escolhe, e eles as tiram, fresquíssimas, para cozinhar - olhou-me de esguelha com um sorriso como se estivesse caçoando de mim. — Acho que você desaprova, mas posso dizer-lhe que são ma­ravilhosas. Eu levarei você lá brevemente se me prometer não me embromar quando a convidar para um almoço na próxima vez...

            Mas eu não.... Seria ótimo.

Passamos rapidamente por uma pequena aldeia, uma rua estreita de casas e uma igreja branca cozida pelo sol, encimada por um telhado vermelho. O rosnado do motor chegou-nos num rápido eco das pa­redes quentes. Passamos e enfiamos o nariz por uma variada coleção de cabritos, crianças, cachorrinhos esqueléticos e um jumento que ar­rastava a ponta gasta de uma corda. As crianças ficaram olhando-nos, admiradas e sem ressentimento.

            Há uma coisa — disse Godfrey alegremente — não precisa­mos planejar as saídas aqui de acordo com o tempo. O sol está sempre presente nesta abençoada ilha e qualquer dia é tão bom como outro.

Isto é que você pensa, disse selvagemente com meus botões. Mi­nhas mãos estavam agora muito apertadas no colo, tanto em virtude da maneira como ele guiava quando pela tentativa que fazia, em pâ­nico, de lembrar-me do mapa. De que modo sair desta estrada e des­viá-la de Corfu?

            Vou-lhe cobrar esse dia — disse em voz alta — e comerei as lagostas! Receio não sentir as coisas tão profundamente no to­cante a peixes! Para aonde é que estamos indo? Pellekas? — para ir para Pellekas teríamos que virar exatamente na extremidade norte de Corfu — a única outra volta antes da cidade.

Não. Achilleion.

Oh? Isto é que eu chamo uma idéia maravilhosa!

Era uma idéia simplesmente asquerosa e isto eu sabia muito bem. Para ir até lá teríamos de passar diretamente por Corfu — não exa­tamente pelo porto, mas muito perto — e, naturalmente, durante a volta para casa usaríamos a mesma estrada que Max. Bem, eu pre­cisava apenas providenciar para que não voltássemos até cinco e trinta e esperava que houvesse muita coisa a ver ao sul de Corfu. Enfiei a mão na bolsa e tirei o guia que trouxera, acrescentando com grande entusiasmo:

            Eu tinha planejado visitá-lo um destes dias, mas havia a mes­ma objeção. Phyl disse-me que ficava no cume de uma colina com uma horrenda estrada em ziguezague até em cima! Sim, eis aqui: "A vila de Achilleion, construída para a Imperatriz Elizabeth da Áus­tria... A vila, construída em estilo da Renascença italiana foi adqui­rida em 1907 pelo Imperador germânico. Os jardins estão abertos aos visitantes (ingresso uma dracma, com a renda aplicada em finsde beneficência)."

            O quê? O que diabo é isso?

            Um antigo Guia Baedeker que encontrei na estante de Phyl. Pertenceu a meu avô. Data: 1909. É realmente um excelente livro. Ouça a pequena parte no começo sobre a história da ilha. Diz que "entrou de posse dos romanos, em seguida caiu nas mãos dos vene­zianos, foi ocupada pelos franceses, esteve sob a influência turca e mais tarde russa, mas" — note o mas — "de 1815 a 1863 ficou sob a proteção britânica". A Grã-Bretanha governa as ondas. Eram assim aqueles dias.

— Certamente que eram — disse ele rindo. — Bem, você pode ver todo o palácio também, atualmente e custa muito mais do que uma dracma e eu acho que o dinheiro dos ingressos vai diretamente para o governo grego. Como sempre a caridade começa em casa... Eu gostaria que houvesse algumas relíquias clássicas para mostrá-las a você. Phyl disse-me que você se interessaria — mas não conheço nenhuma exceto algum templo ou a parte interna do Mon Repôs, que é particular. De qualquer modo você poderia dizer que Aquiles é o santo padroeiro de Achilleion e assim, talvez sirva! Falou-se em trans­formá-lo num cassino e esta talvez seja a última oportunidade de vê-lo mais ou menos no estado original. E a subida até lá é muito bela. Você vai gostar.

            Você é muito gentil — disse eu. E era tudo o que eu podia fazer para não o olhar fixamente. Ele falou tão fácil e encantadora­mente, sentado ali, relaxado e simpático no volante, com a luz do sol tirando lampejos do cabelo e uma fileira de sardas cobrindo-lhe braços bronzeados. Ele usava uma camisa aberta no pescoço, com um cachecol de seda amarela enfiado no peito — uniforme de verão do pessoal grã-fino — que lhe sentavam muito bem. Parecia calmo e contente e perfeitamente normal.

Bem, por que não? Quando não trabalha, o biltre precisa, no interesse próprio, parecer tão normal como qualquer pessoa. Acho que é perfeitamente possível a um homem afogar dois jovens numa única semana e desfrutar de um agradável passeio com uma moça na manhã seguinte, ter um bocado de trabalho para planejar o pas­seio e até mesmo apreciar a paisagem. . .

            E há uma vista maravilhosa — disse ele. — O palácio fica situado numa colina arborizada dando para o mar. Do belvedere pode-se ver praticamente todo o caminho até Vutrinto, na Albânia e até Perdika, ao longo da costa grega. Num dia claro, o porto de Igóulinenitsa fica claramente visível.

            Que coisa esplêndida.

            E agora, digamos que você me conte exatamente tudo o que aconteceu na noite passada no Castelo? 

precisei de cada migalha de disciplina e técnica para não saltar como um coelho baleado.

O que aconteceu? Bem. . . nada demais.. . O que deveria ter acontecido? Voltei para casa com o brilhante e você já sabe disso.

Oh, o diabo leve o brilhante. Você sabe perfeitamente o que eu quero dizer — ele me olhou novamente de relance com uma ex­pressão divertida. — Você viu Julian Gale?

            Oh, sim. Vi. Adoni estava com ele quando subi.

Ah, sim, o fiel cãozinho de guarda. Ele tinha de estar. Como estava Sir Julian?

Ele foi para a cama muito cedo — respondi, cautelosamente. Mantive os olhos na estrada e pelo pára-brisas vi que Godfrey relan­ceava os olhos para mim novamente. — Ele... ele estava cansado —disse.

— Diga o que você quer dizer — disse Godfrey. — Ele estava completamente bêbado.

— Como é que você sabe? — A pergunta saiu seca e quase acusa­doramente, mas desde que ele mesmo impulsionara a bola para o meio do campo com a última frase, não havia razão alguma para não a manter lá.

Ora, diga a verdade, eles sabiam quem esteve com ele, não sabiam ?

Bem... o assunto foi mencionado — reclinei-me no assento e deixei um tom de malicioso divertimento insinuar-se na minha voz. Pareceu-me tanto com a voz de Phyl que cheguei a surpreender-me.

            O Sr. Gale não ficou terrivelmente satisfeito com você, Godfrey.

Diabos o levem! Que é que eu tenho que ver com isso, se ele queria tomar um pifão? Mais ou menos na hora em que notei de que lado ficava a terra, ele já estava a meio caminho. Eles pensam que me cabia impedi-lo de beber?

Não sei nada disso. Mas eu observaria Sr. Gale se fosse você.

Assim? — perguntou ele com a boca encrespada. — Pistolas para dois e café apenas para um, ou apenas um rebenque? Bem, talvez ele me deva isso, afinal de contas.

Soube então. Não tive certeza do que era, algo na sua voz, ou o grau infinitesimal de satisfação nos cantos da boca; algo simul­taneamente cruel, alegre e totalmente apavorante. Todas as dúvidas do dia claro dissiparam-se de uma vez para sempre. Evidentemente, ele era um assassino. O homem era um destruidor nato. "Oh mal, o meu Deus..." E o instinto que lhe permitira tirar aquelas fotos não era nem mesmo incongruente: sem dúvida derivara tanto prazer de destruir Spiro como de fotografá-lo. Destruir Sir Julian dificilmente lhe ocasionaria um segundo pensamento.

Afastei os olhos e os pensamentos do mal que se sentava ao meu lado e concentrei-me na cena idílica de oliveiras prateadas e ciprestes pretos por onde o XK-15 cortava caminho numa nuvem de poeira.

            Que bela estrada.

Eu gostaria que fizessem alguma coisa com esses buracos. Não venha com evasivas, Lucy. O negócio chegou realmente a rebenque?

Eu não ficaria surpresa. Quero dizer, o Sr. Gale teve uma noite trabalhosa. Eu tive um ataque histérico com ele, puxei-o para auxiliar-me com o golfinho, ele caiu de chapa no mar e, coroando tudo isso, quando subimos até a casa encontramos o pai bêbado... e além disso, na minha frente. Você não deve censurá-lo se ele estiver querendo beber-lhe o sangue.

Acho que não — disse ele como se o asunto não o preocupasse muito. — Onde é que ele foi hoje?

Acho que ele disse que ia a Atenas. Apenas uma observação dirigida a Adoni... Não prestei muita atenção. Hoje, provavel­mente, não há perigo para você.

Ele riu.

            Respiro novamente, aliviado. Olhe só a cor do vestido daquela moça. a que está colhendo azeitonas ali, aquele vermelho empoeirado contra o verde forte.

            Não venha com evasivas. Eu quero saber o que aconteceu. Ele levantou as sobrancelhas.

Na verdade, coisa alguma. Vi o velho na garagem do porto e como ele estava procurando uma carona, levei-o até em casa. Gostei muito da oportunidade de conversar com ele, por falar nisso... Ja­mais podemos chegar perto quando ele está a sós e era uma oportuni­dade boa demais para perder.

E por que, em nome de Deus, você queria ficar com ele sozinho? Não me diga que está querendo uma ponta na próxima peça de Gale!

Ele sorriu.

— Haverá o dia... contanto, sempre, que haja a peça. Não. Havia certas coisas que eu queria saber e pensei que ele seria mais acessível. Max Gale e eu não somos exatamente os melhores amigos e o cãozinho de guarda não gosta de mim. Não sei por quê.

Godfrey! Você está-me dizendo que o embebedou de propósito?

Deus meu, não. Por que deveria fazê-lo? Eu não estava que­rendo saber dele segredos de Estado. Mas, depois de ele ter tomado uns dois copos, não havia maneira de interrompê-lo e não era minha obrigação interrompê-lo, era? Reconheço que nem tentei — o sorriso leve novamente, apagado num instante; um relâmpago de satisfação, e nada mais. — Foi muito divertido, até certo ponto.

Mas o que, afinal de contas, você queria saber dele.

Apenas o que a Polícia estava fazendo.

Polícia?

Ele me olhou com as sobrancelhas levantadas.

Não fique assim tão surpresa. Que é que você andou fazendo, que não sabe? Não, o fato é que nesta ilha tudo que acontece vai bater no ouvido dos Gales e de ninguém mais. Eu tive um trabalho danado ao tentar descobrir alguma coisa a respeito do caso de Spiro. .. Todo mundo parecia pensar que eu nada tinha com isso, mas estou inteiramente certo de que eles dizem aos Gales tudo o que acontece.

Bem, eu acho que existe alguma espécie de ligação familiar.

Eu também ouvi falar. Mas não sei por que isto lhes dá exclu­sividade sobre um inquérito policial que me envolveu tanto, como a morte de Spiro.

Concordo — disse-lhe compassivamente. — Deve ter sido um tempo de horrível tensão para você.

Ainda é — certamente, se eu não soubesse o que sabia nada teria ouvido na grave resposta senão aquilo que apropriadamente devia lá estar. Mas, sincronizada como eu estava, as duas curtas sílabas es­condiam um mundo inteiro de divertimento secreto. Descobri que as mãos no colo estavam fortemente apertadas e deliberadamente as afrouxei.

Sir Tulian tinha alguma notícia? Que é que foi apurado sobre Spiro?

Pode revistar-me. Ele não me quis dizer uma única palavra. Tomamos umas duas bebidas na taverna e eu pensei que as maneiras dele estavam um pouco estranhas. Pensei de início que ele estava sendo cauteloso e que havia alguma coisa que ele não me queria dizer.

Mas, após alguns momentos, desconfiei de que ele estava simplesmen­te ficando alto e tentando ocultar isso. Tenho a impressão de que o pobre velho não bebe nada mais forte do que meio cálice de xerez

há mais de um ano — sua boca contraiu-se. — Bem, depois disso receio que tenha dado à festa um empurrão, de acordo com o figuri­no... Eu queria comprar algumas garrafas para mim... Eu estava sem ouso, por falar nisso, e havia um novo licor de Koúm koyàt queeu queria experimentar, e assim comprei-o também. Mas quando su­geri que fôssemos a minha casa, o velho não concordou absolutamente Estava-se derretendo um pouco na ocasião e insistiu em levar-me até o Castelo e comprar uma garrafa de gim para fazer as honras da casa. Não foi preciso muito gim para que ele ficasse completamente alto, mas receio que tenha liquidado todas as oportunidades de extrair dele alguma palavra que fizesse sentido. Ele meteu na cabeça que a única razão por que eu fora ao Castelo era ouvir a gravação daquela nojenta partitura de filme — ele soltou uma pequena gargalhada, onde notei ainda um resto de exasperação. — Acredite-me, ouvi tudo, pa­lavras e tudo.

Oh, acredito! Pedaços de A Tempestade?

Ele também a tocou para você? Soltei uma gargalhada.

            Ele estava recitando quando o Sr. Gale e eu chegamos e eu subi até a casa. Para dizer a verdade, eu gostei. Ele o fez maravilho­samente, bêbado ou não.

            Ele tem muita prática.

As cruéis palavras foram pronunciadas com ar de pouco caso, mas penso que foi nesse momento que comecei a odiar Godfrey Manning. Lembrei-me do rosto de Max, tenso e cansado; Sir Julián, meio apagado e dissolvendo-se, apegando-se só Deus sabe a que palha de honestidade; os dois rapazes enrodilhados juntos na cama improvisada; a agradecida humildade de Maria. Até aquele momento eu estava contente em pensar que ajudava Max:a situação revelara um ato de fraude cujo fim eu não me permitira explorar. Mas agora eu o exploraria, e com prazer. Se fosse provado que Godfrey Manning era um assassino, ele presumivelmente seria punido. E eu iria ajudar tanto quanto pudesse. Algo se cristalizou dentro de mim, frio e duro. Sentei-me forte na sela e preparei-me para vencer a corrida.

Notei que ele me observava e corrigi a expressão do meu rosto.

Que é que realmente aconteceu quando você chegou à casa? — perguntou ele. — Que é que ele lhes disse, a Max e ao garoto modelo?

Nada, enquanto estive ali. Não, seriamente, Godfrey! — disse eu e fiquei satisfeita ao notar como parecia honesta. — Eles apenas desconfiaram de que era você porque você atirou uma ponta de Só­brame dentro da lareira.

Ele soltou uma gargalhada.

— Detetives Ilimitada! Você teve uma noite interessante não? Eles falaram alguma coisa em sua frente a respeito de Spiro?

Nada.

Ou de Yanni Zoulas?

Eu voltei os olhos arregalados e surpresos para ele.

            Yanni... Oh, o pescador que se afogou.

- Não, por quê?

Estive pensando. Pura curiosidade.

Nada mais disse e deixei que o silêncio pairasse no ar. Estávamos chegando a alguma parte... Era evidente que ele estava ainda incerto se a Polícia realmente aceitava o acidente como veredicto no caso de Spiro e Yanni. E pensei que era também óbvio que êle queria ur­gentemente saber. E desde que ele não era o tipo de homem capaz de sentir remorso pelo que fizera, devia ser o que teria ainda de fazer que o preocupava; ele precisava de campo livre e ninguém a observá-lo. A tentativa junto a Sir Julián, e agora comigo, mostrava que ele não suspeitava que estava sendo vigiado: apenas que precisava do sinal verde, e logo.

Bem, pensei alegremente, reclinada no assento, que sue um pouco mais. Nenhum sinal verde teria de mim.

A estrada subia agora, ziguezagueando quase na vertical por uma colina arborizada recoberta de vinhedos e aglomerados de oliveiras e milharais verdes que lançavam sombras cambiantes com suas eflo­rescencias.

            Você o viu voltar ao corpo depois que nós o deixamos? perguntou ele subitamente.

O quê? Viu quem?

Gale, naturalmente.

            Oh, sim... sinto muito. Eu estava olhando a paisagem. Sim, vi. Por quê?

            Não se perguntou por que ele fez isso?

            Penso que não. Achei que ele queria somente examinar mais uma vez o corpo senti um calafrio. Melhor ele do que eu. Você acha que êle notou alguma coisa que nós não vimos?

Ele encolheu os ombros.

            Ninguém lhe disse coisa alguma?

Nada, absolutamente. De qualquer maneira, eu mal os conhe­ço Êle não me diriam mais coisas do que diriam a você. Você esta­rá por acaso pensando que havia mais na morte de Yanni do que Parecia ?

Oh, não. Digamos que tenha sido apenas curiosidade de um Pequeno ressentimento humano natural por ver as coisas tiradas de minhas mãos. O homem afogou-se à minha porta — como Spiro afogou, se no meu barco — e eu acho que devia ter sido mantido informado Apenas isso.

Bem — disse-lhe eu — se alguma coisa tivesse surgido a res­peito de Spiro, Maria saberia e ela diria a minha irmã e a mim imediatamente. Se houver qualquer coisa, eu lhe direi. Eu compreendo como você está-se sentindo.

Tenho certeza de que sim. Ah, chegamos. Vamos ver se nos deixam entrar pagando apenas uma dracma?

Os portões estavam abertos, enferrujando-se nos vetustos pilares. Árvores enormes, já com a roupagem do verão, estendiam os galhos sobre os muros. Um zelador sonolento aliviou-nos de vinte dracmas mais ou menos e com uma inclinação de cabeça indicou-nos o caminho.

A casa ficava muito próxima do portão, aconchegada entre árvo­res frondosas. As portas estavam também abertas. Vagamente, eu esperara um museu de algum tipo, uma relíquia cuidadosamente con­servada do passado, mas isto era meramente uma casa vazia, uma re­sidência de verão de onde haviam partido os proprietários, deixando portas e janelas abertas por onde folhas mortas e insetos entraram ano após ano pelas salas desertas, assoalhos apodrecidos, pintura despelada e metal enferrujado... O lugar era uma ruína no meio de restos ar­ruinados de jardins e terraços e, além dos limites do jardim, acumu­lavam-se árvores e moitas de um parque que voltara ao estado sil­vestre .

Pouco me lembro da visita a Achilleion. Tenho certeza de que Godfrey foi um excelente guia. Recordo-me de que ele falou encanta­dora e informalmente durante todo o tempo e eu devo ter tido a reação apropriada. Mas eu estava tão obcecada pelo novo ódio que sentia dele, que achava que, forçosamente, o sentimento devia trans­parecer tão visivelmente como uma mancha. Em conseqüência, eu pos­sivelmente me mostrei até mesmo um pouco charmosa em retribuição. Eu sei que à medida que a tarde progredia, as suas maneiras torna­ram-se perceptivelmente mais cálidas. Foi um alívio escapar finalmente dos aposentos empoeirados e passar para o terraço.

No terraço pelo menos havia ar fresco e não era tão difícil demorar-me com gestos de admiração como andar pelas salas empoeira­das do palácio, com seus esplendores mal cuidados e baratos. O terraço tinha um horrível assoalho de lajes de cor de fígado e o acúmulo de árvores embaixo ocultava qualquer paisagem que porventura se pu­desse ver de lá. Fiz o melhor que pude, contudo, com as horrendas estátuas de metal nos cantos e uma fileira de sombrias Musas de már­more, fazendo tristemente pose ao longo da loggia. Eu era uma turista modelo. Parei diante de cada uma delas. Ter-se-ia pensado que eu estava admirando estátuas de Miguel Ângelo. Três e quinze... três e vinte... Mesmo que levasse três minutos por Musa isto nos man­teria ali apenas até as três e quarenta e sete.

Restava o jardim. Percorremo-lo detalhadamente; lírios, profundos entre as ervas ao pé das palmeiras; algumas infelizes peônias lutando para aparecer numa sombra úmida; uma horripilante estátua de Aquiles triunfante (três minutos) e uma pior ainda de Aquiles moribundo (quatro); alguns guerreiros teutônicos cortando compas­siva e reciprocamente os gasnetes no meio de uma confusão de sarças (um e meio). Eu teria mesmo me atrevido a penetrar nos espinhos emaranhados do bosque para admirar a estátua de Heine sentado numa cadeira se o portão não estivesse amarrado com arame farpado e eu não tivesse receio de esgotar até mesmo a paciência de Godfrey.

Mas eu não precisava ter-me preocupado. Ela era impregnável. Ele teve de arranjar o tempo de qualquer maneira e estou certo de que jamais lhe passou pela cabeça que um passeio com ele pudesse ser outra coisa do que um choque intenso de minha parte, do primeiro ao último minuto.

Choque que, para ser justa, foi certamente o que senti, e estou literalmente falando, quando ele me pegou pelo cotovelo e puxou-me gentilmente em direção ao portão e ao Jaguar à espera: percorreu-me o tutano dos ossos como se eles tivessem recebido fiação elétrica. Passavam apenas vinte minutos das quatro. Se partíssemos agora e se Godfrey, como parecia provável, sugerisse chá em Corfu, chegaría­mos justamente a tempo de encontrar a barca.

Havia mais uma estátua nas proximidades do portão, um peque­no pescador sentado num fragmento de bote, de pernas nuas, gor­ducho, sorrindo para alguma coisa, debaixo de um chapéu horroroso. Ela estava no mesmo nível de genialidade que as musas, mas, natu­ralmente, parei em frente dele extasiada, com o Baedker na mão e os olhos perscrutando insanamente a letra miúda para descobrir se havia outras atrações entre o palácio e Corfu que eu pudesse usar para retardar a volta do meu santamente bondoso guia.

            Você gosta dela? — perguntou-me Godfrey, em tom divertido e indulgente. Ele colocou um dedo no rosto infantil. — Notou? Se esta peça tivesse sido feita há sete anos em vez de setenta poderia ter sido Spiro. A gente fica a perguntar-se se o modelo não foi o avô dele. É muito parecido não acha?

Eu não conheci Spiro.

Naturalmente. Esqueci-me. Bem, Miranda, então.

Sim, talvez haja semelhança. Eu estava simplesmente pensando que é encantadora.

O rosto está quente — disse Godfrey passando a mão pelalinha da face. Voltei-me rapidamente, sentindo que o meu rosto devia revelar demais. Quatro e meia.

Ele deixou cair a mão.

Você não tira os olhos do relógio. Acho que você é como Phyil, fica ansiosa por um chá a esta hora. Vamos descer e tomá-lo em Corfu?

Que é que fica do outro lado? A costa pareceu-me tão bela do belvedere.

Nada demais, a bela estrada habitual e uma aldeia de pescadores chamada Benitses.

Mas lá haverá certamente um kafenéion, não? Isto seria agradável para variar. Não haverá também chá?

Ele riu.

            A grande variedade habitual. Nescafé ou limonada. Talvez haja mesmo algumas fatias de pão, grossas e esturricadas no fogão. Ja­mais descobri quem as come ou mesmo como. Eu não posso nem parti-las. Bem, você será a responsável. Entre no carro.

Conseguimos chá em Benitses, afinal de contas, num pequeno, asseado e simples hotel junto ao mar. Não poderia ter sido mais bem localizado — pelo menos para mim. Havia mesas do lado de fora e eu escolhi uma na praia arenosa sob uma grande pimenteira, de frente para o mar. Exatamente ao nosso lado, uma frota inteira de barcos coloridos, dormitava nas amarras, vermelho-escuro, turquesa e variadamente coloridos, com os mastros se balançando suavemente com o hálito do mar. Além deles, nada mais que uma velha dançando so­zinha em hectares e hectares vazios e faiscantes.

Godfrey olhou por cima do ombro.

Que é que há lá tão interessante?

Nada, realmente, mas eu poderia olhar o mar durante horas. Não acontece o mesmo com você? Esses barcos são tão belos. O seu é realmente lindo.

Quando é que o viu?

Ontem à tarde. Vi quando você saiu nele.

Oh! Onde é que você estava? Eu estive procurando por você na praia.

Que pena! Não, não desci, afinal de contas. Fiquei no bosque e dormi — soltei uma risada. — Eu certamente necessitava daquele sono.

— Você teve sem dúvida um tempo difícil. Eu gostaria de tê-la visto salvando o golfinho. Algumas fotos com um flash teriam sido interessantes — ele mexeu o chá pálido, espremendo uma fatia de limão contra a borda da xícara. — Eu li em alguma parte — acho que foi em Norman Douglas — que, quando morrem, os golfinhos mudam de cor. Acho que teria sido um espetáculo notável. Fascinante se pudéssemos conseguir a foto, não acha?

— Maravilhoso. Você disse que ia sair hoje à noite?

            Sim.

— Acha que podia agüentar uma tripulante?

Eu adoraria ir.

Muito valente de sua parte, nas circunstâncias. Não teria medo de servir de tripulante para mim?

Não, absolutamente. Eu adoraria. Quer dizer que eu posso ir? A que horas você vai sair?

Se ele tivesse aceito a oferta não tenho certeza do que teria feito. Quebrado pelo menos o tornozelo, acho. Ele, porém, disse:

Naturalmente que você pode, qualquer dia destes. Mas você se enganou. Eu não quis dizer que ia sair com o barco hoje à noite. Na verdade, eu vou sair de automóvel para visitar uns amigos.

Oh, sinto muito. Devo ter-me agarrado no lado errado da vara. Que pena! Eu estava ficando toda emocionada.

Eu lhe digo uma coisa — começou ele com um sorriso. — Leva-lá-ei para um passeio daqui a alguns dias... Sexta-feira, talvez? Ou sábado? Iremos até o Lago Kalikiopoulos e procuraremos o lugar — ou um dos lugares, melhor seria dizer — onde se pensa que Ulis­ses desembarcou e caiu nos braços de Nausica. Isto seria bastante clássico para você?

— Seria maravilhoso.

Vou ficar ansioso esperando... Olhe, lá vem a barca.

Barca? — a palavra saiu num grasnar surpreso e eu limpei a garganta. — Que barca?

A barca para o continente. Ela vai até Igoumenitsa e volta. Ali, está vendo? Não é fácil vê-la contra o brilho do sol. Ela chegará dentro de vinte minutos. — Olhou para o relógio e empurrou a ca­deira para trás. — Hummm, ela está atrasada. Vamos?

Eu gostaria de ir até lá em cima, por favor, se eles tiverem um...

O proprietário do hotel, ao lado de Godfrey com a conta, inter­pretou sem dificuldade a observação. Conduziu-me até em cima por uma escada externa e ao longo de um corredor bem esfregado até uma sala enorme, transformada em banheiro. Era impecavelmente limpa e bem instalada e, à parte os aparelhos habituais, decorada com uma pinacoteca inteira de estampas de santos. Talvez outros antes de mim tivessem chegado às pressas a este santuário para pensar

Mas era o Baedeker que eu queria estudar. Abri-o rapidamente e corri um dedo pela página. As letras eram miseravelmente minúsculas e dançavam sob os meus olhos. "Uma dracma por dia para o drago-mano é mais do que suficiente... valets-de-place, 5 dracmas por dia podem ser fornecidos com..."

E finalmente encontrei algo que possivelmente atrairia uma ávida amante dos clássicos como eu: "A Tumba de Menecrates, datando dos séculos 6 ou 7 a.C.", diretamente para casa depois dela. Bem, se eu pudesse apenas convencer Godfrey que meu dia ficaria arrui­nado se não visitasse a tumba, o que quer que ela fosse. ..

Consegui. E consegui pela razão muito simples de que ninguém sabia onde ficava. Perguntamos a todas as pessoas que encontramos e fomos orientados, com o maior entusiasmo e boa vontade, a unia prisão, a um campo de futebol, ao local do forte venesiano e a uma lagoa; e eu teria sentido pena de Godfrey se não visse claramente que ele pensava que eu tentava desesperadamente prolongar a tarde com ele. A armadura do homem estava completa. Em seu vocabulário, Godfrey era apelido de Deus.

Fui recompensada quando finalmente conseguimos conjurar Me­necrates no jardim de um posto policial. O zelador, recebendo-nos como se o último turista a visitá-la tivesse sido o próprio Herr Karl Baedeker em 1909, enfiou-me nas mãos um documento apagado para que eu lesse e daí em diante escoltou-me solenemente três vezes em torno da tumba, enquanto Godfrey, sentado contra o muro com um cigarro, esperava na bela penumbra que caía e os ponteiros do meu relógio deslizavam imperceptivelmente pelo mostrador e ultrapas­savam o momento decisivo...

            Já passa das seis horas — disse Godfrey, levantando-se. — Bem, espero que você tenha tempo para uma bebida comigo antes de levá-la até em casa.

            Isto seria maravilhoso — disse-lhe eu.

 

Só quero agora que me indiques o caminho, sem maior palavreado.

Já estava bastante escuro quando Godfrey finalmente levou-me de volta à Vila Forli. Despedi-me na porta da frente. Esperei até que o carro desaparecesse entre as árvores e corri apressadamente para dentro.

A luz na cozinha indicava que Miranda ou a mãe estavam lá; o salloto, porém, estava vazio e envolto em escuridão fria e acizentada e nenhuma luz saía por baixo da porta do quarto de Phyl. Num mo­mento descobri por quê: dirigi-me diretamente para o telefone e antes de levantar o fone vi o pálido oblongo de uma nota na mesinha ao lado. Acendi o abajur e li o recado de Phyl.

Lucy, querida, recebi um telegrama esta tarde dizendo que Leo e as crianças vêm no sábado e que ele pode passar duas semanas inteiras. Hurrah! De qualquer modo fui a Corfu para comprar umas coisas. Não espere por mim se estiver com fome. Há bastante para G. também, se ele quiser ficar. Beijos, Phyt.

Acabava de ler a nota, quando Miranda entrou no saguão.

Oh, é a senhorita Lucy! Pensei ter ouvido um carro. Viu a carta da Signora?

Sim, obrigada. Ouça, Miranda, não há necessidade de você ficar. O Sr. Manning foi para casa e minha irmã vai chegar tarde Assim, se houver alguma coisa fria que eu possa...

Vim aqui para lhe dizer. Ela acabou de telefonar há alguns minutos. Ela encontrou amigos em Corfu amigos italianos que vão passar aqui apenas uma noite e vai jantar com eles. Ela disse que se a senhora quiser ir, chame um táxi e vá encontrá-los no Corfu Palace, mas apareceu uma covinha no rosto dela nenhum deles fala inglês e ela pensa que é melhor a senhora ficar aqui, sim?

Eu ri.

Definitivamente, sim. Neste caso, vou tomar um banho e jan­tar logo que você conseguir prepará-lo. Mas eu posso cuidar facil­mente de mim. Se me disser exatamente onde está a comida, pode ir para casa se quiser.

Não, não, eu ficarei. Há lagosta fria e salada, mas estou fazendo uma sopa ela me endereçou seu amplo e faiscante sorriso. Eu faço uma sopa muito gostosa, Srta. Lucy. A senhora vai gostar.

Tenho certeza que sim. Obrigada.

Ela não se afastou. Ficou ali demorando-se na fímbria de luz lan­çada pelo pequeno abajur, as mãos ocupadas, quase nervosamente, fazendo pregas no vestido vermelho. Compreendi então, subitamente, o que a preocupação ocultara-me até agora: esta não era a controlada e chorosa Miranda da semana passada. Recuperara parte do brilho e havia um certo entusiasmo no seu rosto, como se ela estivesse a ponto de falar.

Mas ela disse apenas:

Naturalmente que eu ficarei. Eu tive folga hoje à tarde. Uma folga? Não é assim que a Signora a chama?

Exatamente. Uma tarde de folga. Que é que você faz quando tem uma tarde de folga?

Ela hesitou novamente e notei que o rosto dela se ruborizava e brilhava mais.

Algumas vezes Adoni também tem uma tarde de folga.

Compreendo eu não podia manter inteiramente a inquie­tação longe de minha voz. Ela passara a tarde com Adoni. Talvez fosse esse fato apenas que a fazia reluzir novamente, mas pergunta­va-me se pessoa tão jovem como Adoni podia possivelmente guardar segredo sobre Spiro. Até mesmo no meu caso fora grande a tentação contar a notícia à mãe e à garota, enquanto que com Adoni, de dezenove anos, ansioso, como alguém de sua idade, para bravatear sua participação nas aventuras da noite, a urgência devia ter sido insopitável. Acrescentei: — Não, não vá ainda, Miranda. Eu quero fazer uma chamada urgente e não sei como pedir o número. O Cas­telo, por favor. Sr. Max.

— Mas ele não está. Viajou.

            Eu sei, mas ele devia voltar depois das seis.

Ela sacudiu a cabeça.

Ele só chegará tarde. Adoni disse-me. O Sr. Max telefonou às cinco horas. Disse que chegaria hoje à noite, mas muito tarde, e que não esperassem por ele para o jantar.

Oh, — disse eu e derreei-me pesadamente na cadeira ao lado do telefone como se a notícia fosse realmente um peso insuportável. Não pensei, na ocasião, no esforço desperdiçado, mas simplesmente nos momentos vazios da noite que estava por vir, sem notícias... e sem ele. — Ele disse mais alguma coisa?

Apenas que "nada" mudara — disse ela pronunciando a palavra como entre aspas. Notei uma expressão confusa e indagadora no rosto dela que me disse o que eu queria saber. Adoni, afinal de contas, mantivera a palavra: a moça nenhuma idéia tinha de que havia alguma coisa em andamento.

Entrementes, teria de fazer o que pudesse com as migalhas que me restavam. "Nada mudara". Poderíamos presumivelmente esperá-lo na última barca, mas, se nada mudara, não parecia provável a es­colta policial e talvez ele não trouxesse tampouco Spiro. Mas não podia imaginar, mas a minha parte no caso estava decididamente ter minada naquele dia: eu não podia ter mantido Godfrey por mais tempo e não parecia agora que importasse mais.

De onde é que o Sr. Max falava?

Não sei. De Atenas, penso.

De Atenas? Às cinco horas? Mas se ele planejava voltar hoje à noite...

Esqueci-me. Não podia ter sido Atenas, podia? Adoni não disse. Falou apenas que era no continente — ela agitou a mão num gesto amplo. — Em algum lugar por lá, somente isso — e o tom de voz dela deixava implícito que não importava, desta ou daquela maneira. Fora de Corfu todos os lugares eram os mesmos e, de qual­quer maneira, não valia a pena visitá-lo.

Eu ri e ela riu comigo, o primeiro som espontâneo de prazer que ouvia de parte dela desde a notícia da morte do irmão. Disse-lhe:

            Que é que há, Miranda? Você parece agitada hoje à noite Aconteceu alguma coisa agradável?

Ela abria os lábios para responder quando um som qualquer vindo da cozinha, fê-la voltar-se rapidamente.

            A sopa! Tenho que ir! Desculpe-me — disse e desapareceu em direção à porta da cozinha.

Tomei banho e dirigi-me para a sala de jantar onde Miranda punha o conteúdo de uma grande bandeja junto a um prato isolado na cabeceira da mesa. Ela não mostrou desejo de sair, ficando por ali, nervosamente, enquanto eu provava a sopa, abrindo-se num sor­riso com os meus elogios. Falamos de comida durante toda a sopa e enquanto eu me servia de salada de lagosta. Não perguntei mais coisa alguma, comi apenas, escutei e perguntei-me novamente que mágica a tarde de folga com o jovem Adoni fizera com ela. (Devo dizer aqui que o inglês de Miranda, ao contrário do de Adoni, não era tão bom quanto disse. Mas era bastante fluente e perfeitamente compreensível e para ser claro ou o traduzi bastante livremente.)

            Isto aqui é um molho do livro da Signora — disse-me ela passando o prato. — Ela não gosta dos molhos gregos, e assim ex­perimentei este, tirado de um livro francês. Está bom? Divertiu-se bastante hoje, Srta. Lucy?

Bastante, obrigada. Fomos ao Achilleion.

Eu estive lá uma vez. É maravilhoso não acha?

Muito. Em seguida fomos tomar chá em Benitses.

Benitses? Por que foi lá? Nada em Benitses! É melhor em Corfu.

Eu quis ver o lugar e vir costeando o mar. Além disso, eu es­tava com muita vontade de tomar chá, Corfu era longe demais e eu queria ver algumas antiguidades no caminho de volta.

Ela contraiu as sobrancelhas.

Antiguidades? Oh, a senhora quer dizer estátuas, como aque­las na Esplanada, aquelas belas estátuas inglesas?

De certa maneira, embora aquelas não sejam suficientemente antigas. Significa realmente coisas que têm centenas de anos de idade como as coisas no museu de Corfu.

            Essas antiguidades são valiosas?

            Muito. Acho que não se pode dizer o que elas valem em termos de dinheiro, mas eu diria que elas são inestimáveis. Você já as viu?

Ela sacudiu negativamente a cabeça. Nada disse, mas porque mordia os lábios como se para impedir-se de falar. Os olhos dela brilhavam.

Parei com o copo a meio caminho da boca.

            Miranda, o que é? Alguma coisa aconteceu... você não pode fingir e você dá a impressão de que recebeu um presente. Não quer dizer-me?

Ela tomou uma profunda respiração, quase arquejando. Os dedos estavam novamente dobrando e desdobrando a saia.

            É alguma coisa... alguma coisa que Adoni encontrou. Depositei o copo na mesa com um estalo. E esperei.

Houve um silêncio que ela quebrou finalmente com uma torrente de palavras:

            Adoni e eu. Nós dois o encontramos esta tarde. Quando eu tenho uma tarde de folga eu vou até o Castelo disse ela com um olhar de esguelha. Algumas vezes, a senhora sabe, Adoni trabalha no jardim quando Sir Gale dorme, e então nós conversamos. Mas hoje o Sr. Karithis estava visitando Sir Gale e eles me disseram que Adoni fora nadar. Assim, eu desci à baía.

            Sim? ela tinha a minha atenção agora, toda ela.

            Eu não consegui encontrá-lo e depois de algum tempo fui pelo caminho em torno das pedras em direção à Villa Rotha. Vi-o nesse momento. Êle estava lá em cima no penhasco, saindo de uma moita.

            Saindo de uma moita?

            Era realmente uma caverna explicou Miranda. Todo mundo sabe que há cavernas no rochedo sob o castelo, que eram usa­das para guardar vinho. Adoni disse-me que olhou por uma greta, ouviu o barulho da água e soube que, portanto, devia haver mais cavernas lá embaixo. Esta ilha está cheia de cavernas. Ora, lá perto de Ermones...

            Adoni encontrou uma nova caverna.

Ela inclinou a cabeça.

            Ele não estivera naquela parte do penhasco antes. Eu não sabia que ele estava interessado em eu não conheço bem a palavra explorações?... Obrigada. Mas hoje ele disse que queria desco­brir onde ficava aquela água sob o castelo. Ele sabia que o Sr. Manning tinha saído com a senhora e portanto estava tudo bem. Eu penso novamente apareceu a covinha no rosto que ele não ficou muito satisfeito em ver-me. Acho que ele me ouviu e pensou que era o Sr. Manning de volta. Ele me pareceu muito amedrontado.

E bem poderia, pensei. Meu coração batia mais apressado. Continue. Que é que ele encontrou?

O rosto dela ficou simultaneamente solene e brilhante.

Ele encontrou a prova.

Pulei sobressaltada da cadeira.

Prova?

Foi isto o que ele disse. Eu pessoalmente acho que não precisamos de prova, mas foi isto o que ele disse.

Miranda! — percebi que minha voz subia violentamente na­quela palavra e controlei-me. — Por favor, explique-me. Eu não tenho a mínima idéia do que você está falando. Que prova Adoni encon­trou?

Prova de São Spiridion e de seus milagres.

Recostei-me na cadeira. Ela me fitou solenemente e à medida que o silêncio se prolongou o meu coração voltou ao normal. Senti um desejo quase histérico de soltar uma gargalhada, mas consegui con­trolar-me. Após algum tempo disse-lhe suavemente.

            Bem, continue. Diga-me... Não, não quero mais. Terminei, obrigada. Ouça, gostaria de trazer-me café, sentar-se aqui, tomá-lo comigo e contar-me tudo a respeito do que vocês descobriram?

Ela saiu apressadamente, mas, quando voltou com o café, recusou-se a bebê-lo comigo ou sentar-se. Ficou em pé, fortemente agar­rada ao espaldar da cadeira e evidentemente explodindo de desejo de falar.

Servi-me de mais café.

Continue. Que história é esta sobre o santo?

A senhora esteve na procissão de Domingo de Ramos?

Sim.

Então a senhora talvez tenha ouvido falar tudo a respeito do Santo, o patrono da ilha?

Sim. Ouvi falar a respeito dele. Li muito sobre a ilha antes de vir aqui. Ele era Bispo de Chipre e foi torturado pelos romanos. Depois de morto, seu corpo foi embalsamado e levado de lugar a lugar até chegar a Corfu. Nós também temos um santo assim na Inglaterra, chamado Cuthbert. Há muitas histórias sobre ele e sobre os milagres feitos pelo corpo dele.

Na Inglaterra também? — era claro que ela jamais dera a fria e enevoada terra o crédito de alguma coisa tão terna como um santo de verdade. — Então a senhora compreende que nós de Corfu ouvimos histórias sobre o Santo desde crianças, as numerosas histo­rias de milagres e maravilhas? E elas são verdadeiras. Sei disso.

Naturalmente.

Ela engoliu em seco.

            Mas há outras histórias — histórias que Sir Gale contou-me do Santo que eu jamais ouvira antes. Ele — meu koumbàros — contou-nos muitas histórias quando éramos crianças, a Spiro e a mim. Ele é um homem muito culto, tão culto como o papas — o padre — e sabe muitas histórias sobre a Grécia, as estórias de nossa história que aprendemos na escola, Péricles, Alexandre, Ulisses e Agamenon, e também histórias a respeito de nosso Santo, coisas que aconteceram há muito tempo, aqui mesmo neste lugar, coisas que o papás nunca nos disse e que não ouvimos antes.

Ela parou. Eu disse "sim?" e sabia o que estava para vir.

            Ele nos contou que o Santo viveu aqui, numa caverna, com a filha. Ela era uma princesa, muito bela. Ele tinha anjos e demônios que faziam o que ele queria, fazia muita mágica, levantava e acalmava tempestades e salvava os marinheiros de navios naufragados.

Ela se interrompeu, em dúvida.

Eu não acredito muito na filha. O Santo era um bispo e eles não têm filhas. Talvez ela fosse uma freira santa... Será possível que Sir Gale tenha compreendido mal a história?

De certa maneira — respondi e perguntei-me, com certa apreensão, que profunda e estranha confusão as teorias shakesperia-nas de Sir Julian poderiam ter criado. — Na história inglesa nós o chamamos de Próspero e ele era mágico — mas não bispo. Era um duque e viera de Milão, na Itália. Assim, você vê, é apenas uma...

Ele vivia numa caverna por trás de um laranjal no penhasco — ela indicou o norte com a mão e eu reconheci a alegre e arbitrá­ria colocação do cenário de A Tempestade por Sir Julian. E lá fazia toda a sua magia, mas, quando ficou velho, ele se voltou para Deus e afogou seus livros e a varinha mágica.

Mas Miranda... — comecei, e em seguida interrompi-me. Não era esta a ocasião para tentar mostrar a discrepância entre a his­tória dele e a do Bispo de Chipre, e que (pelo menos por isso) o santo já estava com Deus há alguns milhares de anos quando o corpo chegou à ilha. Tive a esperança de que houvesse alguma maneira de explicar que as lendas crescem em torno de alguma figura central como cristais de alumínio em torno de um fio. — Sim? — repeti.

Ela se inclinou sobre o espaldar da cadeira.

            Bem, Adoni diz que o Sr. Max está fazendo uma peça dessa história como... como... — ela procurou a palavra e, sendo grega, surgiu como a melhor — ... como Édipo (isto é, uma peça de velhos deuses que representam em Atenas). Perguntei a Sir Gale a respeito dessa peça e quando ele me contou a história, eu disse a ele que ospadres deviam saber disso, porque eu não a ouvira, que o papas da minha aldeia também não a ouvira e que era preciso contar a ele, paraque pudesse perguntar ao Bispo. Por que está sorrindo, Srta. Lucy?

            Nada — respondi, pensando que dificilmente precisaria preo­cupar-me. Os gregos, afinal de contas, inventaram o cinismo. E todos os gregos nascem com uma mente indagadora da mesma maneira que todos os rafeiros nascem com um bom nariz. — Continue. Que é que Sir Julian disse?

            Ele riu e disse-me que sua história — da magia e dos livros

não é verdadeira, ou, talvez, apenas um pouco, e que mudava com o tempo. E que o poeta que escrevera a história acrescentara coisas de outras histórias e de sua própria imaginação para torná-la mais bela

ela me olhou ansiosamente. — Isto acontece. Meu koumbàros dis­se-me que era parecida com a história de Ulisses — esta é outra his­tória desta ilha que aprendemos na escola, mas a senhora não a co­nheceria.

            Eu conheço a história.

Ela me olhou fixamente.

A senhora a conhece também? Todos os ingleses são tão cultos assim, Srta. Lucy?

É uma história muito famosa — disse eu rindo. — Nós a aprendemos na escola também.

Ela ficou boquiaberta. Isto era a fama, realmente.

            Nós aprendemos todas as histórias gregas — disse-lhe. — Bem, a história que Sir Julian conta do mágico pode ter algum peque­no fragmento de verdade, como as lendas sobre Ulisses, mas hones­tamente penso que pouco mais. Tenho certeza de que ele não quis que você acreditasse nela palavra por palavra. A história que ele contou, da qual o Sr. Max está fazendo um filme, é apenas uma coisa inventada por um poeta e provavelmente nada tem a ver com o São Spiridion real, absolutamente. E você deve compreender que aquela parte sobre a caverna e a princesa não pode ser possivelmente verda­deira. ..

            Mas é!

Mas olhe, Miranda, quando o Santo foi trazido aqui em 1489, ele tinha já...

Morrido há muitos anos, eu sei! Mas há alguma coisa verda­deira na história de Sir Gale e os padres precisam saber. Nós pode­mos prová-lo, Adoni e eu! Eu lhe disse que encontramos a prova hoje!

Prova de que A Tempestade é autêntica? e pela primeira vez olhei-a com expressão vazia. De algum modo, após a crescente excitação da narrativa de Miranda, isto ocorreu como um clímax da mais completa irrelevância.

Eu nada sei a respeito de tempestade alguma, mas hoje nós as encontramos na caverna por trás do laranjal. Há uma passagem e uma caverna, muito profunda no penhasco, cheia de água e foi lá onde êle afogou os livros ela se inclinou sobre o espaldar da cadeira.

- Foi isto o que Adoni encontrou hoje e levou-me para ver. Eles estão na água, à vista de todo mundo, no mesmo lugar onde Sir Gale nos disse os livros mágicos do Santo!

A voz dela elevou-se até um final dramático que Edith Evans poderia ter invejado. Tinha o rosto brilhante, iluminado, e nele trans­parecia profundo respeito. Durante meio minuto inteiro nada pude fazer senão fitá-la com expressão vazia, pensando em pequenas frases que poderiam explicar e pôr em dúvida sem ocasionar uma desilu­são cruel demais. Adoni esteve com ela, pensei impacientemente. Por que, diabo, deixara Adoni que essa fantasia continuasse a crescer? Ele, por certo, não compartilhava de suas crenças e ela teria aceito uma explicação dele, ao passo que de mim, agora...

Adoni. O nome penetrou através do nevoeiro de minha mente como uma ponta de lança em manteiga. Adoni habitualmente tinha bons motivos para fazer o que fazia. Endireitei-me na cadeira, per­guntando secamente:

Adoni encontrou essas...coisas...numa caverna do penhasco? Onde fica a entrada?

Em volta da ponta, a meia altura do penhasco, acima da gara­gem dos barcos.

            E poderia ser vista da baía... nossa baía?

Ela sacudiu a cabeça.

É preciso percorrer metade do caminho até a Villa Rotha. Ela fica em cima do caminho, nas pedras, por trás das moitas.

Compreendo o meu coração batia forte novamente. Bem, quando Adoni a viu o que é que ele disse? Tente lembrar-se exata­mente .

Eu lhe disse. Ele ficou zangado inicialmente e quis que eu fosse logo embora porque eu não devia estar lá. Então, ele parou e pensou e disse que não, que eu devia estar na caverna e ver o que ele encontrara. Ele me levou até lá. Era uma passagem íngreme, com­prida, muito comprida, descendo diretamente, mas ele tinha uma lan­terna e o lugar estava seco. No fundo havia a grande caverna, cheia de água, muito profunda, mas clara. Sob uma saliência da pedra, es­condida por pedras, ele viu os livros.

Um momento. O que fez vocês pensarem que eram livros?

Eles pareciam livros — disse Miranda sensatamente. — Velhos livros, coloridos. Os cantos apareciam sob os seixos. Podia ver o que estava escrito neles.

Escrito?

Ela inclinou a cabeça.

Sim, em língua estrangeira, desenhos e sinais mágicos.

Mas minha querida menina, livros? Em água salgada? Eles ficariam reduzidos a polpa em algumas horas!

A senhora esquece — disse ela simplesmente — que são livros santos. Eles não apodreceriam.

Deixei que esta passasse.

Adoni não tentou tirá-los?

Era fundo demais, muito frio, e, além disso, havia uma enguia — ela estremeceu. — E ele disse que não devíamos mexer neles. Ele diria a Sir Gale, disse ele, e ao Sr. Max, e eles viriam ver. Disse-me que eu era a testemunha de que ele os encontrara ali e que eu não devia falar a ninguém a respeito deles, exceto à senhora.

Ele lhe disse para contar-me?

Sim.

Miranda, você me disse antes que Adoni dissera que os livros eram a prova. Disse ele prova de quê?

Ela contraiu as sobrancelhas.

O que poderia ele pensar senão prova da história?

Compreendo — disse-lhe. — Bem, isto é maravilhoso, e obri­gada por ter-me contado. Eu mal posso esperar até vê-los, mas não conte a ninguém, ouviu, a ninguém absolutamente, nem mesmo a sua mãe? Se... se verificarmos que isto foi um engano, seria horrível ter despertado esperanças.

Eu não direi. Eu prometi a Adoni. É nosso segredo, dele e meu.

Naturalmente. Eu gostaria muito de perguntar a ele. Eu acho que vou até o Castelo agora. Acho que podia chamá-lo ao telefone para mim.

Ela olhou para o relógio de parede.

            Não há ninguém lá agora. Sir Gale ia a Corfu para jantar com o Sr. Karithis e Adoni foi com eles.

— Mas Max levou o carro. Adoni não teria de guiar, teria? — Não. O Sr. Karithis trouxe o carro dele. Mas Adoni queria ir a Corfu e foi com eles. E disse que voltaria mais tarde com o Sr. Flàx.

Naturalmente. O que quer que tivesse encontrado na caverna junto à Villa Rotha, qualquer que tivesse sido a prova, Adoni a comu­nicaria a Max na primeira ocasião possível e se ele estivesse certo a respeito da descoberta — eu não tinha dúvida a esse respeito — os mastins fechariam o cerco e o fim por que esperara naquela tarde ocorreria logo.

Relanceei os olhos para o relógio. Se a barca chegasse às dez e quarenta e cinco... suponhamos uma hora no máximo para que Max ouvisse a história de Adoni e pedisse ajuda a Polícia de Corfu... meia hora mais de automóvel... e, com folga, isto seria um quarto depois da meia-noite. Mesmo que Godfrey tivesse voltado do encontro, qualquer que fosse, ele poderia estar dormindo naquela ocasião, e não ouviria ou veria os exploradores sondando os segredos do penhasco...

Minhas mãos mexeram-se sem eu notar até a borda da mesa e se­guraram-na. Meus pensamentos, até então vagos e confusos, tomaram forma e cristalizaram-se.

Godfrey dissera que ia sair à noite e eu tive a impressão de negócio urgente e de campo livre. Não seria concebível que os ob­jetos tão misteriosamente escondidos sob a casa fizessem parte do ne­gócio daquela noite? Que, na verdade, na ocasião em que Max e a Polícia fossem conduzidos à caverna pela madrugada a prova tivesse desaparecido? E que mesmo com a palavra de Adoni e de sua teste­munha nada houvesse para mostrar do que ali jazera, ou para onde tinha ido? Possivelmente voltaríamos à estaca zero, com o negócio de Godfrey possivelmente concluído e ele sem coisa alguma que o incriminasse...

Relutantemente fiz o plano. Relutantemente cheguei à única e óbvia conclusão. Levantei-me.

            Você me mostrará a caverna e os livros? Agora?

Ela começara a pôr as louças na bandeja. Parou atônita.

— Agora senhorita?

Sim. Agora. Pode ser importante. Eu gostaria de vê-los eu mesma.

Mas está tão escuro. A senhora não quererá ir sozinha lá, na escuridão. Pela manhã, quando Adoni voltar...

Não me peça para explicar, Miranda, mas eu preciso ir agora Pode ser importante. Quero que você me mostre a caverna, a en­trada, somente isso.

Bem, naturalmente, senhorita — disse ela, mas com palavras arrastadas, de dúvida. — E o que acontecerá se o Sr. Manning descer?

Ele não aparecerá. Ele saiu, foi a algum lugar de automóvel Ele me disse isso e não é provável que esteja usando o caminho do penhasco. Mas verificaremos antes se ele está em casa. Telefonare­mos para ele... Posso fingir que deixei alguma coisa no carro. Quer chamar o número dele, por favor?

Em alguma parte da casa vazia de Godfrey o telefone tocou agu­damente durante muito tempo. Enquanto eu esperava Miranda ficava por ali, pouco à vontade, mas evidentemente lisonjeada pelo meu in­teresse por sua história.

Finalmente coloquei o fone no gancho.

Isto resolve. Ele saiu e, assim, não haverá perigo — olhei-a. — Você me mostra, Miranda? Por favor? Mostre-me apenas onde fica a caverna e então você pode voltar diretamente.

Bem, claro, se a senhora quer realmente... Se Kyrios Manning saiu, eu não me importo absolutamente. Vou buscar a lanterna, Srta. Lucy.

Sim, por favor. Dê-me cinco minutos para que eu arranje um casaco e calce outros sapatos. Você tem um casaco aqui, ou alguma coisa extra para usar? — nem pensei em perguntar se era de cor es­cura: por mercê do Santo as camponesas corfiotas jamais usavam outra coisa.

Três minutos depois eu usava sapatos leves de sola de borracha e casaco escuro e procurava na mesinha de cabeceira de Leo a arma que sabia que ele guardava lá.


É a boca da caverna. Entra sem bulha.

 

A baía estava escura e silenciosa; nenhum som, nenhum ponto de luz. Não tivemos dificuldade em ahrir caminho pela areia alva sem usar a lanterna. E logo que subimos para as sombras dos pinheiros, no lugar onde estivera o golfinho, e galgamos o caminho pedregoso ao longo da praia sul, descobrimos que podíamos novamente andar sem usar a traiçoeira luz.

Saímos da trilha e penetramos nas moitas antes de alcançar o ca­minho em ziguezague que conduzia até a Villa Rotha. Miranda ia à frente, diretamente para cima e, ao que parecia, sem hesitação para o mais espesso dos aglomerados de moitas que cobriam o penhasco. Acima de nós, as laranjeiras estendiam ramos pretíssimos e silencio­sos. Nem uma folha se movia. Mal podíamos ouvir o mar. Mas mesmo depois de ter acendido a lanterna para iluminar o caminho, a nossa marcha furtiva pelas moitas devia ter parecido a carga de uma dupla de sadios búfalos.

Felizmente não era longe. Miranda parou em frente a uma moita de sempre-vivas zimbro pelo cheiro aparentemente colado ao Penhasco.

            Aqui — murmurou ela e empurrou as moitas. Iluminei o interior.

Vi uma estreita abertura, pouco mais do que uma greta, abrindo para uma passagem que descia quase verticalmente, talvez por quatro metros, ponto em que era aparentemente bloqueada por um muro de pedra. O chão da passagem parecia plano e os muros estavam secos.

Hesitei. Uma lufada da brisa trouxe-nos o murmúrio das árvores e as moitas farfalharam. Senti a mesma brisa — ou seria realmente a mesma? — correr-me pela pele.

            A passagem dobra à esquerda ali — notei que o sussurro de Miranda nada traía, salvo alegre excitação — e novamente para baixo por um caminho muito comprido. Mas é fácil. A senhora entra pri­meiro, ou eu?

Eu tencionara de início ficar simplesmente oculta num lugar onde pudesse observar a entrada da caverna até que Adoni trouxesse a Polícia e mandar Miranda para casa, longe do perigo. Mas ocor­reu-me que se Godfrey viesse remover os livros antes que Max chegas­se, eu precisaria também de uma testemunha. Isto, no máximo. No mínimo, eu queria companhia. E mesmo que Godfrey nos descobris­se (o que parecia improvável na escuridão) não havia perigo de que tivéssemos o mesmo fim de Yanni. Eu estava preparada e tinha a arma — a arma, além do simples fato de que era duas vezes mais difícil dar cabo de duas pessoas do que de uma.

Mas hesitei ainda. Agora que estávamos lá, na escuridão silen­ciosa, com os sons e ares suaves da noite tão normais em torno de nós, eu nada queria tanto quanto ver, com os meus próprios olhos, o que Adoni descobrira. E se Godfrey viesse à noite para removê-los, eu não poderia vê-los, ou segui-los, e voltaríamos ao começo, em si­tuação nada melhor do que a anterior...

Três partes de bravata, três de vingança por aquelas pessoas que eu viera tão rapidamente a amar e admirar e três de pura e irrestrita curiosidade humana — foi essa mistura não muito honrosa de emo­ções que me levou a dizer com uma vivacidade que no escuro poderia passar por bravura.

            Há algum lugar onde nos possamos esconder quando estiver­mos dentro da caverna?

Vi-lhe o brilho nos olhos, mas ela respondeu simplesmente:

            Sim, muitos lugares, outras cavernas, cheias de rochas caídas, corredores...

            Ótimo. Vamos. Siga na frente.

A passagem conduzia diretamente para baixe? em ângulos tão retos que parecia até um labirinto. Imaginei que a massa da rocha fora transformada pelo tempo em grandes blocos retangulares e que a passagem cortara fendas entre eles. Aqui e ali as gretas tomavam outra direção, mas a rota principal era tão clara como uma rodovia cortando um labirinto de trilhas municipais.

Miranda andava sem hesitação: esquerda, direita, diretamente em frente por nove metros mais ou menos, direita novamente e em fren­te... bem até o centro do promontório, acho. No fim do último trecho parecia que o chão da passagem caía verticalmente para sombrias pro­fundidades.

Ela parou e apontou.

            A caverna é ali. Pode-se descer facilmente. Parecem degraus.

Momentos depois estávamos na borda do abismo tendo diante de nós uma espécie de escada subterrânea de gigantes — uma escada vasta e natural de rocha antiga descendo em blocos após blocos para uma saliência, que corria ao longo de todo o comprimento de uma longa caverna em forma de losango, cheia de água preta, projetando-se sobre as margens lisas.

Descemos lentamente a escada e eu iluminei o interior da caverna.

Era grande, mas não imensa. Na extremidade onde nos encon­trávamos o teto não era muito alto — talvez uns sete metros, mas, à medida que o feixe da lanterna adentrava-se mais, perdia-se nas sombras no local onde o teto arqueava-se e desaparecia na escuridão. Ali, pensei, estariam as fendas e chaminés afuniladas que transporta­vam ar fresco para as cavernas superiores e através das quais Adoni descobrira a existência daquela onde estávamos agora. Mais além da saliência vimos recantos e túneis que saíam da caverna principal e que prometiam um bom esconderijo se surgisse necessidade. As paredes eram de calcário pálido, estriadas e úmidas e eu imaginei que quando ventasse muito na praia o mar devia entrar através de outras fendas e gretas. Naquele momento a poça profunda de água salgada aos nossos pés estava imóvel e morta. O local cheirava a sal e pedra molhada.

Miranda segurou-me o braço.

            Ali embaixo! Ponha a luz ali. Lá embaixo!

Virei a lanterna para baixo. De início nada vi, salvo o vivo faiscar da água no feixe de luz. Em seguida, a luz pareceu embeber-se na água como uma mancha de seda e eu vi no fundo uma confusão de seixos macios e redondos, com suas cores transformadas pelo brilho da lanter­na em branco cor de osso, verde e pérola lavados. Algo moveu-se por elas, uma chicotada de sombras que deixou a luz e mergulhou numa fenda.

            Viu? — disse Miranda, agachada, apontando. — Sob a saliên­cia, onde as pedras foram afastadas. Lá!

Vi então, uma borda como a quina de um grande livro ou de uma caixa projetando-se entre os seixos. Parecia que o objeto, o que quer que fosse, tinha sido empurrado bem sob a saliência e coberto apres­sadamente de pedras.

Ajoelhei-me ao lado de Miranda, observando cuidadosamente. Al­gum movimento perdido do mar comunicou-se à lagoa e a água agi­tou-se, com sombras e reflexos fracionando-se e cristalizando-se sol) o feixe trêmulo da lanterna. A coisa era colorida, pensei, e tinha uma superfície lisa; uma mente simples, condicionada pelas histórias de Sir Julian, poderia ter muito bem pensado que era um livro. Quanto a mim, julguei que fosse a quina de uma caixa, com alguma etiqueta em cima. Vagamente, observei o que deviam ser letras.

Está vendo? — perguntou Miranda num sussurro que ecoou pela caverna.

Sim, estou vendo — quaisquer pensamentos que eu pudesse ter tido de enfrentar a enguia e a água gelada para apanhar o objeto morreram de morte natural e não lamentada. Mesmo que eu pudesse ter mergulhado na água e levantado a coisa, não poderia ter subido sem uma corda o metro e meio de lisas margens de pedra.

            É um livro, não é?

            Pode ser. Mas se for, acho que não é muito antigo. A única maneira de ser conservado lá embaixo é se estiver envolvido em politieno ou alguma coisa assim e isto significa...

Interrompi-me. Alguma coisa produzira um barulho, um novo ruído que não fazia parte do oco da caverna ou dos apagados mur­múrios da noite que nos chegavam através de gretas invisíveis no penhasco. Apaguei a lanterna e a escuridão caiu como um abafador espesso de lã negra. Coloquei a mão no braço da moça.

            Fique absolutamente imóvel. Eu ouvi alguma coisa. Escute. Entre as gotas da água no calcário o som reapareceu: sons de

passos cuidadosos em alguma parte da passagem lá em cima. Lá vinha êle. Deus meu, lá vinha ele. Miranda mexeu-se.

            Há alguma coisa vindo. Deve ser Adoni. Talvez... Silenciei-a com um toque e disse-lhe com os lábios no ouvido.

            Não é Adoni. Não podemos ser encontradas aqui. Temos de nos esconder. Rápido...

Segurei-lhe o braço e puxei-a para as profundidades da caverna, ela veio sem fazer pergunta alguma. Permanecemos junto da parede tateando o caminho centímetro por centímetro até chegarmos a um' canto que dobramos em segurança.

            Espere — ousei acender a lanterna apenas por um segundo e respirei aliviada. Estávamos num profundo recesso, ou túnel bloquea­do, de teto baixo, cheio de restos há muito tempo caídos de pedras que se estendiam até a crista acima do nível da água.

Apaguei a lanterna. Lenta, cuidadosa e quase silenciosamente des­lizamos para o esconderijo, aberto profundamente numa fenda sob um bloco de calcário em forma de cunha, achatando-nos nela como estrelas-do-mar que se ocultam do bicheiro do pescador.

Justamente no momento, uma luz espalhou-se e aqueceu o inte­rior da caverna. Eu estava enfiada demais nas profundidades da fenda para ver mais do que uma seção curva do teto e a extremidade oposta da caverna principal, mas, naturalmente, ouvia com a maior clareza, pois a caverna e a água ampliavam os sons; o ruído de botas na rocha; o estalido quando a poderosa lanterna foi depositada em algum lugar e a luz deixou de mover-se; a respiração do homem. Em seguida, o espadanar de alguma coisa — se o corpo dele ou alguma outra coisa, não sabia — dentro da água.

Uma pausa, enquanto a água lambia e sugava as pedras. A respiração pareceu-me alta e opressa como se ele fizesse um grande esforço. Logo em seguida, outro espadanar diferente, um arquejo e um estalo como se algo tivesse sido retirado da água. Outra pausa, seguida agora pelos sons de água a escorrer e gotejar. Finalmente a luz mo­veu-se, os passos lentos .retiraram-se enquanto os sons marinhos da lagoa perturbada, diminuindo lentamente, voltavam à caverna.

Senti Miranda mexer-se ao meu lado.

Ele levou o livro. Não podia ser Adoni, Miss Lucy? Talvez ele tenha voltado para apanhar o livro para Sir Gale? Quem mais saberia? Vamos agora?

Não — e dei ao sussurro uma nota de tanta urgência quanta fui capaz. — Não foi Adoni, tenho certeza disso. Há ainda outra coisa, Miranda. Não posso dizer-lhe agora, mas confie em mim, por favor. Fique aqui. Não se mova. Eu vou olhar.

Deslizei da fenda, liguei a lanterna, mas conservei a mão sobre o vidro de modo que a luz saísse amortecida entre os meus dedos. Vi o brilho dos olhos dela a observar-me, mas ela nem se moveu nem falou. Arrastei-me vagarosa e cautelosamente para a caverna princi­pal, parei no canto da saliência, desliguei a lanterna e escutei nova­mente. Nenhum som ouvi. Apenas o gotejar regular da água e oleve murmúrio residual da lagoa.

Acendendo novamente a lanterna, ajoelhei-me na margem e olhei para baixo.

Como esperara, a pilha de pedras fora rudemente afastada e, tanto quanto eu podia julgar, reduzira-se de tamanho. Mas devia ter havido mais do que um único objeto retangular ali, pois eu podia ver outra quina projetando-se dos seixos em ângulo diferente daquele que fora visível antes. E lá na beira, encostada no muro como se esperando pela volta dele, um gancho de ferro, uma longa vara em forma de anzol a gotejar preguiçosamente no calcário.

Levantei-me, pensando furiosamente. Isto esclarecia o assunto. Adoni tivera razão: encontrava-se ali a chave do que queríamos, a pista para os mortais negócios de Godfrey. E era certamente muito simples perceber o que eu teria de fazer em seguida. Não tinha meios de saber que proporção de tesouro escondido Godfrey levara, ou se ele voltaria naquela noite para buscar o resto. Mas, de qualquer modo, nada seria ganho com o risco tremendo de segui-lo agora. E se ele voltasse, poderíamos encontrá-lo no corredor. E se não voltasse bem, o resto da prova ficaria ainda seguramente ali a espera de Max.

Assim, teria de enfrentar os fatos, e eu...

Mal voltara ao nicho quando o ouvimos voltar, a luz crescendo e iluminando o caminho à frente até as paredes de calcário. O trabalho foi repetido quase exatamente da mesma maneira: o mergulho do gancho, o içamento, o arranhar dos seixos, a retirada, a pausa en­quanto a água escorria. . . e mais uma vez a luz retirou-se e ficamos na escuridão, acompanhada apenas da sucção da lagoa perturbada.

            Espere murmurei novamente.

Logo que voltei à caverna principal notei que o gancho desapare­cera. Agachei-me uma vez mais sobre a rocha gotejante e olhei para baixo. Como esperara, a pilha de seixos baixara mais, tão lisa agora como se aquilo que ocultara tivesse desaparecido. A lagoa estava agora vazia do tesouro.

Nenhuma necessidade havia desta vez para parar e pensar. A de­cisão era, infelizmente, tão clara como antes. Eu teria de segui-lo agora. E precisava apressar-me.

Em segundos aproximei-me de Miranda.

            Vamos sair agora. Rápido!

Ela materializou-se ao meu lado. A respiração dela estava rápida e rasa e ela tremia. Estava ainda tensa e de olhos brilhantes, mas a qualidade da excitação mudara. Parecia amedrontada.

            Que é isso, senhorita? Que é isso? Tentei mostrar-me calma e segura.

            Os livros desapareceram e foi o Sr. Manning quem os levou, tenho certeza. Eu preciso ver onde ele os colocou, mas ele não nos deve ver. Você compreende, ele não nos deve ver... Eu explicarei tudo depois, mas temos de apressar-nos agora. Vamos.

Subimos o último degrau da Escada do Gigante e arrastamo-nos de ângulo em ângulo pela passagem, iluminando cautelosamente o ca­minho e parando em cada esquina para escutar. Nada, porém, perturbou-nos e logo depois chegamos à boca da fenda, separando cautelo­samente os juníperos. O ar tinha um odor quente e doce depois da caverna, perfume de flores e cheiro acre de ervas amassadas. A brisa crescera de intensidade e movia as moitas, prontas para disfarçar os sons que fazíamos.

Descemos vagarosamente, passo a passo, tateando o caminho, através do emaranhado de arbustos e pequenas árvores. Embora a lua não estivesse visível, o céu estava iluminado de estrelas e cami­nhamos com bastante rapidez. Eu não ousei dirigir-me para a trilha. Abrimos um caminho cauteloso, curvadas sobre a cintura, por cima de um dos braços de ziguezague, do qual pensamos que podíamos ver a garagem dos barcos. Finalmente chegamos ao fim de uma crista onde madressilvas e (menos agradavelmente) espinheiros proporcio­navam espessa cobertura entre as jovens laranjeiras.

Estávamos justamente em cima da garagem dos barcos. O telhado silhuetava-se como uma cunha preta contra o mar mais claro adiante. Pensei, mas não pude ter certeza, que a porta que dava para a terra estava aberta.

Logo depois ela foi fechada suavemente com o estalo nítido de uma fechadura de lingüeta. Uma sombra deslizou pelo muro da ga­ragem e, em seguida, subiu calmamente o caminho. Ficamos silen­ciosas qual camundongos, mas respirando. Ele virou a curva embaixo de nós e subiu com um rápido e furtivo passo cuja graça reconheci e, no momento seguinte, quando passou a alguns metros de nós, reconheci-o perfeitamente. Ele mudara as roupas leves da tarde e usava agora calças escuras e um pesado suéter de jérsei. Nada levava nas mãos. Passou diretamente por nós e os seus passos ligeiros perde­ram-se no movimento da brisa.

Na escura sombra onde nos escondíamos eu não podia ver Mi­randa, mas sentia-a virar-se para olhar. Logo depois, ela estendeu a mão e tocou-me o braço. A mão tremia.

            Senhorita...senhorita, o que é isto?

Coloquei a minha mão sobre a dela e segurei-a.

            Você tem razão. Não é apenas um simples caso de sermos de­tidas, invadindo propriedade alheia, é algo muito mais sério e pode ser perigoso. Sinto que você esteja metida nisto, mas eu preciso de sua ajuda.

Ela nada disse. Tomei uma respiração e apertei minha mão em torno da mão dela.

            Ouça. Eu não lhe posso contar tudo agora mas aconteceram coisas e nós...O Sr. Gale e eu...pensamos que tem alguma coisa a ver com o acidente de seu irmão. Adoni também pensa assim. Nós queremos descobrir. Você simplesmente confia em mim e faz o que eu disser?

Houve uma pausa. Ela não falou, mas desta vez o ar entre nós estava tão carregado que eu o senti vibrar como a corda de um arco depois de disparada a flecha.

Sim.

Você viu quem era?

Naturalmente. O Sr. Manning.

Ótimo. Você pode ser perguntada...O que é?

Olhe ali ela se movera vivamente, apontando atrás de mim para o penhasco onde, acima das árvores escuras, uma luz acabara de ser acesa. A Villa Rotha.

Respirei aliviada.

Então ele vai ficar ali por algum tempo, graças a Deus. Eu gostaria de saber que horas são.

Não podemos acender a lanterna?

Não. Eu devia ter olhado antes. Não importa. Parece que êle colocou aquelas coisas na garagem dos barcos. Como eu gostaria de ir lá e examiná-las... Ele disse que ia sair hoje à noite, e não com o barco, mas êle pode ter simplesmente me desorientado para poder ir à caverna. Êle pode ficar por aqui toda a noite...ou pode ter mentido e voltar novamente e tomar o barco e isto será o fim — mexi-me inquieta, olhando com ódio o firme retângulo de luz. De qualquer maneira, a maldita coisa está fechada. Mesmo que...

Eu sei onde fica a chave.

Voltei-me com um repelão para olhá-la.

Você sabe?

            Spiro contou-me. Há uma chave de reserva que é guardada sob o assoalho no lugar onde a garagem toca na água. Eu conheço o lugar. Êle me mostrou.

Engoli em seco.

            Provavelmente não está lá agora.

Parei bruscamente. A luz desaparecera.

Minutos depois ouvimos o carro. Que era o carro de Godfrey não havia dúvida: acendeu os faróis e eles varreram o caminho numa larga curva, perfurando as árvores e, mergulhando no espaço, conti­nuaram e desapareceram na escuridão sobre o promontório à medi­da que o ruído do motor morria pelo bosque. Houve um som distante e gaguejante quando êle acelerou e, em seguida, o som morreu e vimos apenas a escuridão.

            Ele foi embora disse Miranda, desnecessariamente. Sentei-me. Fiquei furiosa ao notar que meus dentes chocalhavam, cerrei-os fortemente e enfiei a mão no bolso onde a arma de Leo pesava, desajeitada, contra minha coxa. Duas coisas eram evidentes: eu não queria aproximar-me de maneira alguma da garagem de barcos de Godfrey Manning; e se eu não me aproximasse, eu me desprezaria como uma covarde enquanto vivesse. Eu tinha a arma. Havia provavelmente uma chave. Eu teria pelo menos de tentar.

            Vamos, então disse eu, empurrando as moitas e saltando no caminho, com Miranda a meu lado. Enquanto corríamos ladeira abaixo dei instruções em voz entrecortada.

Você deve voltar diretamente para a casa. Pode entrar no Castelo?

Sim.

Então vá lá. Dessa maneira você os verá logo que eles chegarem em casa. Mas tente telefonar para Adoni em primeiro lugar. Sabe onde ele poderia estar ?

Algumas vezes ele come no Chrisomalis' ou no Corfu Bar. Então, tente-os. Se ele não estiver lá, alguns dos amigo dele podem saber onde ele está. Ele pode ter ido para o porto esperar, ou mesmo à Polícia...Tente, de qualquer maneira.

Havíamos chegado à garagem. Parei na porta, tentando abri-la... inutilmente, claro: estava bem fechada. Miranda passou por mim e eu a ouvi mexendo nas sombras em torno da esquina do edifício. Logo depois chegou ao meu lado e colocou-me na mão a forma fria de uma chave Yale.

            Aqui. O que é que eu digo a Adoni?

            Não lhe diga o que aconteceu. O Sr. Manning pode voltar à casa e levantar o telefone. Nunca se sabe. Diga apenas que ele deve voltar imediatamente, que é urgente, que a Srta. Lucy diz que é urgente. Ele compreenderá. Se não compreender, diga-lhe o que quiser — diga-lhe que eu estou doente e que você precisa de ajuda qualquer coisa para que ele volte. Ele não deve dizer a Sir Julian. Não saia do Castelo e não abra a porta para pessoa alguma salvo Max ou a Polícia... ou eu. Se eu não tiver voltado quando ele chegar, conte-lhe tudo o que aconteceu e que eu estou aqui embaixo. Certo?

Sim ela era uma aliada em um milhão. Confusa e amedron­tada como forçosamente estaria, obedeceu-me tão cegamente como antes. Ouvi-a dizer:

O Santo a proteja, senhorita e desapareceu, correndo com boa velocidade pelo caminho da praia em direção à baía do Castelo.

Com mais um olhar para o promontório escuro e uma oração por iniciativa própria, sondei a fechadura com uma chave vergonhosa­mente trêmula e finalmente consegui inseri-la.

A lingüeta correu, dura, e eu deslizei para dentro.

 

E agora, apenas olhos; ninguém fale!

A garagem dos barcos era uma enorme estrutura com um telhado muito alto perdido nas sombras onde os sons do mar ecoavam ocos como numa caverna. Correndo ao longo de três paredes vi uma plata­forma estreita de pranchas de madeira acima da água e, no lado mais próximo, a chalupa. A luz cada vez mais fraca da lanterna mostrou-me as belas e poderosas linhas e o nome pintado no lado do casco: Aleister. Mostrou-me também, encostada na parede junto à porta, o gancho da caverna.

Não havia outro esconderijo na garagem senão o próprio barco. Fechei a porta por trás de mim e subi no barco para tentar a porta da cabina.

Estava aberta, mas não entrei imediatamente. Havia uma janela na parte posterior da garagem, de frente para o rochedo, mostrando uma seção do caminho, a massa preta e poderosa do penhasco, árvo­res e na parte superior uma nesga mais pálida de céu, onde quei­mavam estrelas. Com os olhos agora ajustados à escuridão, eu podia distinguir o ângulo nítido de alguma parte do telhado da Villa Rotha.

Até agora, excelente. Se Godfrey voltasse cedo demais, eu teria oaviso do carro ou das luzes da casa.

Dentro da cabina, movi a lanterna em círculo uma, duas vezes

A disposição era muito parecida com o que eu lembrava do barco de Leo. Grandes janelas com cortinas de cada lado, sob as quais havia beliches com almofadas de chintz brilhante; entre elas, uma mesa escamoteável sobre a qual pendia uma lâmpada. Havia uma cortina puxada sobre a parta do anteparo da proa, mas, sem dúvida, encon­traria depois dela outro camarote, o WC, e os habituais sacos de velas, cordas, e uma âncora de reserva na proa. Imediatamente à minha direita, do lado de dentro da porta, a cozinha, e, no lado oposto, o beliche coberto — um espaço economizado com metade do compri­mento na cabina e a outra metade para dentro do barco, embarafustando-se, por assim dizer, pelo espaço além do anteparo, sob o assento de bombordo da carlinga.

E, em toda parte, gavetas e armários.

Comecei, metodicamente, por estibordo.

Nada na cozinha: o fogão, vazio, os armários cheios de trens de cozinha tão compactos que nenhum lugar havia para esconder coisa alguma. Nas gavetas, louças, material fotográfico, latas de alimentos, caixas de papelão cheias de inocentes coisas variadas. No guarda-roupas, casacos, impermeáveis, suéteres, uma prateleira para botas do mar e sapatos cuidadosamente arrumados, engraxados e lustrosos como o próprio Godfrey.

O mesmo em toda parte: tudo aberto à busca, todos os conteúdos normais e inocentes — roupas, cobertores sobressalentes, equipamen­tos fotográficos, ferramentas. O único lugar fechado era o armário no fim do beliche fechado. Mas — à vista de sua forma rasa e pelo que eu me lembrava do barco de Leo — imaginei isto apenas porque continha bebidas. Não havia bebidas em outros lugares e dificilmente ele seria espaçoso o bastante para armazenar os pacotes que eu pro­curava. Deixei-o e continuei, até mesmo cutucando os colchões e tateando sob os cobertores empilhados, mas tudo o que veio à luz foi um exemplar de brochura do Trópico de Câncer que coloquei de volta no lugar, rearrumando os cobertores como havia estado antes. Em seguida, tentei o assoalho.

Ali haveria, eu sabia, uns dois alçapões, ou partes dos assoalho que podiam ser retiradas para dar acesso ao interior do casco. Real­mente, sob a mesa, e preso nas pranchas, vi o brilho de um anel em­butido que, quando puxado, levantava um quadrado de dezoito pole­gadas do assoalho. Mas não havia nenhuma caverna do tesouro lá embaixo. Vi apenas o brilho da água que se infiltrava, balançando-Se entre os cavernames com o movimento do barco, e senti um ligeiro cheiro de gás. E o mesmo com o alçapão da proa.

O compartimento do motor sob os degraus da cabina dificilmente seria lugar para esconderijo. Apesar disso, olhei ali e levantei mesmo para examinar a tampa do tanque de água potável, nada vendo salvo o fantasmagórico reflexo da lanterna e a minha própria sombra tremen­do na superfície de quarenta galões de água. Nada aqui também...

Aparafusei a tampa com as mãos, suadas e trêmulas agora, apa­guei a lanterna e subi para o tombadilho.

A janela primeiro... Nenhuma luz do lado de fora, mas eu precisava ter certeza. Corri para a popa, esgueirei-me por baixo do botaló, subi no assento e olhei nervosamente para fora.

Escuridão e silêncio. Eu podia — devia — esperar um pouco mais.

Comecei na carlinga, usando a lanterna novamente, mas com um olho cauteloso na janela da garagem. Aqui, também, tudo parecia ino­cente. Sob o assento de estibordo o espaço estava ocupado por cilin­dros de gás. Calor e nada mais. Sob o assento da proa, nada, salvo oleados dobrados e equipamento de mergulho. O lado de bombordo simplesmente ocultava a extremidade do beliche fechado. Nem tam­pouco havia objetos estranhos amarrados do lado de fora da borda ou que fossem arrastados pelo Aleister no mar; a brilhante idéia foi abandonada em alguns segundos. Espiguei-me finalmente, acabando o exame e fiquei de lado, miseravelmente irresoluta, tentando pensar no meio da tensão que me aprisionava.

Ele devia ter trazido os embrulhos para ali. Não tivera tempo de levá-los para casa e dificilmente tê-los-ia escondido do lado de fora quando tinha o Aliester à mão e, além do mais, nenhuma idéia de que estava sendo vigiado. Ele poderia naturalmente, tê-los entregue a al­gum cúmplice e meramente ter colocado o gancho na garagem. Mas o cúmplice teria de ter algum meio de transporte, o que significava um jumento ou um barco. Se um jumento, Miranda e eu o teríamos certamente notado; não teríamos ouvido um barco a remo, mas por que deveria Godfrey usá-lo quando o Aleister e o seu próprio escaler estavam ali? Não, era evidente que não podia haver uma explicação inocente do uso da caverna oculta.

Mas eu olhara em toda parte. Eles não estavam no barco ou amarrados sob o barco; não estavam na plataforma ou na prateleira isolada em cima. Onde poderia ter ele escondido neste espaço vazio, tão rápido e eficazmente, esses volumosos e gotejantes objetos?

Ocorreu-me então a resposta — tão óbvia que chegou a ser insultosa. Ele devia tê-los simplesmente transferido do fundo da caverna para o fundo da baía. Deviam estar embaixo do Aleister, diretamente embaixo e, se eu pudesse apenas vê-los, havia o gancho à mão, com a água ainda gotejante e fazendo uma poça nas pranchas.

Eu passava pelas braçolas da carlinga, dirigindo-me para o lugar onde estava o gancho, quando compreendi a solução real, a óbvia e fácil solução que devia ter percebido imediatamente, que me teria economizado todos esses preciosos minutos, e quanta coisa mais; a trilha de gotas que conduzia através da porta da garagem e ao longo da plataforma; a trilha deixada pelos embrulhos gotejantes, tão óbvias ao olho inteligente como pegadas em neve fresca. Eu não tinha des­culpa, salvo a pressa e o medo, e (pensei amargamente) uma Nêmesis armada como uma bela e pesada arma não tinha motivo algum para temer.

E a trilha estava já desaparecendo. Eu me chamava nomes que nem eu mesmo pensava que sabia quando apontei o feixe amarelo e fraco da lanterna sobre as pranchas da plataforma.

Sim, lá estavam, as pegadas na neve: as duas apagadas e irregu­lares trilhas, cruzando-se como marcas de rodas de bicicleta, passando pela porta, ao longo da plataforma, até a borda...

Mas não para dentro d’água, afinal de contas. As marcas passavam pela borda do Aleister, cruzavam-lhe o tombadilho e dirigiam-se diretamente para a porta da cabina.

Segui-as com a rapidez de um relâmpago. Desci os degraus, che­guei à mesa... Eu nem mesmo olhara de leve para o tampo nu de mesa, mas agora via na superfície de fórmica o retângulo ainda úmido onde ele depositara os embrulhos.

E aí parava a trilha. Mas desta vez havia apenas uma resposta. E a trilha parara simplesmente porque tudo o que Godfrey precisava fazer era abrir o alçapão sob a mesa e descer diretamente as coisas.

Abri o alçapão em segundos. Afastei-a para o lado. O buraco quadrado abriu-se em toda extensão.

Subi novamente os degraus e olhei a janela. Nenhuma luz ainda. Ajoelhei-me ao lado do alçapão, acendi a lanterna e passei o pequeno olho amarelo, que era tudo o que restava da lanterna, sobre a água oleosa no porão do Aleister.

Nada. Nenhum sinal. Mas agora eu sabia que eles deviam estar lá... e estavam. Deitei-me sobre o assoalho e esgueirei-me meio para dentro da porta do alçapão antes de vê-los não no fundo, mas enfiados, tão perfeitamente como podiam, exatamente debaixo das pranchas do assoalho do barco, no que era evidentemente uma prateleira feita especialmente para transportá-los. Estavam fora da água e bem afastados das bordas do alçapão e era preciso que a pessoa — como eu ficasse meio para dentro do porão para vê-los.

Sai furtivamente, examinei a janela novamente e mergulhei mais uma vez no porão.

Dois suados minutos depois e eu o tinha na mão, um embrulho grande e pesado, embrulhado em polietileno. Levei-o para o assoalho, espalhando a barra da saia para colocar o pacote para que eu, por meu lado, não deixasse marca. Iluminei-o com a lanterna.

A lanterna me tremia agora na mão. O verme amarelo de luz arrastou-se e sondou a parte exterior do embrulho, mas o envoltório brilhante quase apagou a luz horrivelmente fraca e tudo o que con­segui, nos três segundos que me concedi, foi uma impressão de uma confusão de cores desmaiadas, algo parecido com um desenho, um escudo, e mesmo (se Miranda tivera razão? algumas palavras...) LEKE, li embaixo disso, algo que podia ser — eu não estava abso­lutamente certa — NJEMIJE.

Em alguma parte alguma coisa bateu, quase me fazendo perder completamente a cabeça de medo. A lanterna caiu com ruído e rolou num largo semicírculo e, por milímetros, deixou de cair no alçapão. Agarrei-a novamente e virei-me para olhar. Nada ali. Apenas es­curidão.

O que não teve maior importância, pensei, recuperando tortuosa­mente a calma. Mesmo que eu tivesse reagido apropriadamente e pu­xasse a arma em vez da lanterna, eu não poderia tê-la empunhado.

O             maldito livro de Próspero, ou o que quer que fosse, estava exata­mente em cima dela, nas fraldas do meu casaco. Eu teria de esfor­çar-me muito, pensei amargamente, antes de poder entrar na classe do James Bond.

O vento devia estar aumentando rapidamente. As grandes portas que davam para o mar sacudiram-se novamente como se alguém esti­vesse puxando o cadeado e outra porta bateu e chocalhou. A água correu sibilando e beijando as paredes, e as sombras, lançadas por algum pálido reflexo da luz das estrelas, tremeram nos caibros do telhado.

A janela estava escura ainda, mas eu tivera o meu aviso e era o bastante. A porta do alçapão voltou suavemente para o lugar, coloquei a lanterna no outro bolso e, segurando o pacote com ambas as mãos, desci cuidadosamente do Aleister.

No mesmo instante em que desci para a plataforma vi movimento no caminho embaixo da janela. Somente uma sombra, mas, como antes, não havia dúvida de que ela se movia. Nenhuma luz, coisa al­guma, mas lá estava ele, imediatamente em cima da garagem dos bar­cos, e descendo rapidamente.

E ali estava eu, com os braços carregados com a preciosa carga, pela qual ele quase certamente tentara cometer um duplo assassinato. E eu não podia sair do lugar mesmo que tentasse.

A primeira coisa a fazer era livrar-me do embrulho.

Agachei-me e deixei que a coisa escorregasse entre a plataforma e o barco. O barco estava ancorado bem junto da plataforma e du­rante um momento de pânico pensei que não houvesse espaço sufi­ciente ali; o pacote prendeu-se no meu casaco, escorregou e ficou preso na abertura. Eu não podia movê-lo para cima ou para baixo e, quando tentei retirá-lo, descobri que era impossível. Escorregadio como estava, não podia segurá-lo novamente.

Lancei-me no chão, coloquei um ombro contra o Aleister e em­purrei. O barco moveu-se a polegada mais ou menos de que eu neces­sitava e com um curto e violento esforço consegui empurrar o pacote para baixo.

Ele desapareceu com um leve som de água que se abre. E em se­guida, como um eco, o ruído mais leve, mas bastante final, da arma de Leo, deslizando do meu casaco e desaparecendo sob as águas.

Durante um selvagem e louco momento de medo pensei em ati­rar-me também na água, seguir a arma e o embrulho e esconder-me sob a plataforma, mas não pude descer até lá e não havia tempo para correr todo o comprimento do barco. De qualquer modo, êle teria me visto. Ele estava à porta. A chave arranhou a fechadura.

Havia apenas um lugar suficientemente grande para esconder-me e estava no centro do alvo. O próprio barco. Ocorreu-me que eu podia ficar imóvel e tentar vencer a custa de blefe, mas, mesmo que o Aleis­ter tivesse sido um barco inocente e Godfrey me encontrasse ali na­quela hora, dentro da garagem fechada, nenhum blefe teria dado certo. Com o barco literalmente carregado, eu não tinha esperança alguma. Era a cabina ou coisa alguma.

Já pulara para bordo e entrava tão silenciosamente como um fantasma na cabina quando a chave entrou na fechadura e virou com um estalo. Não ouvi a porta abrir. Eu já estava, como um camundon­go acuado, enrodilhada no beliche fechado, com uma pilha de co­bertores puxados para esconder-me.

Os cobertores cheiravam a poeira e a sabão medicinal. Cobriram-me com uma espessa e grossa escuridão que, pelo menos, deu-me uma sensação de segurança. O problema é que me impediam de ouvir, o

Único sentido que poderia dizer-me o que Godfrey fazia. Por mais que me esforçasse para abafar as batidas violentas do coração, conse­gui formar apenas a mais vaga das impressões de onde ele estava e do que fazia. Tudo o que eu podia fazer era ficar imóvel e rezar para que ele não entrasse na cabina.

O barco balançou-se vivamente e durante um momento pensei que ele já entrava, mas, outra vez, fora apenas o vento. Este parecia au­mentar ainda, em lufadas mais violentas que impulsionavam pequenas ondas contra o casco e lambiam os pilares onde se apoiava a plata­forma. Eu sentia o movimento irregular do Aleister contra o cabo de amarração. Subitamente, o barco inclinou-se viva e inconfundivel­mente: Godfrey subira.

Passaram-se minutos, cheios dos sons abafados da noite. Senti apenas, já que mal podia ouvir, o peso dele movendo-se pelo barco. Forcei os sentidos tentando descobrir onde ele estava e o que fazia. O barco pareceu-me mais firme agora, jogando brandamente com as pequenas marolas que deslizavam sob a quilha. Uma corrente de ar entrou pela cabina, cheirando a vento marinho e eu calculei que ele devia ter deixado aberta a porta da garagem e isto poderia significar que ele não pretendia permanecer ali muito tempo...

O vento devia estar bastante forte agora. O barco jogou e uma onda ciciante correu diretamente pela borda onde eu mantinha a ca­beça. O Aleister subiu com um estalo de madeira e eu ouvi o som in­confundível de pressão de cabos e ranger de metal.

Eu sabia o que acontecera. Não havia engano. Corda, metal e ma­deira estavam ativos e em movimento — o barco estava vivo e no mar vivo. Ele devia ter aberto as grandes portas sem que eu percebesse e, em seguida, puxara-o suavemente, e agora ele ressuscitara, com as velas desfraldadas, deslizando silenciosamente ao longo da praia, afas­tando-se da baía.

Não podia mover-me. Fiquei simplesmente lá, tremendo sob a carga de cobertores, todos os músculos encordoados e tensos com o esforço de manter a calma e tentar pensar...

Max certamente estaria de volta agora. E mesmo que continuasse ainda em Corfu, Adoni estaria provavelmente a caminho de casa... e teria deixado a mensagem de Miranda para Max. Ele não se demoraria na cidade, mas viria diretamente para casa e traria pro­vavelmente a Polícia. Quando descessem à garagem e vissem que o barco desaparecera, comigo, desconfiariam do que acontecera. Não havia — eu sabia disto — muita esperança de que encontrassem o Aleister na escuridão, mas pelo menos eu poderia ter uma carta ou duas para jogar se Godfrey me encontrasse. Nas circunstâncias, êle dificilmente poderia esperar ser bem sucedido também com o meu desaparecimento.

Ou pelo menos assim esperei. Sabia que se ele descobrisse algo a respeito do pacote desaparecido ele provavelmente revistaria a cha­lupa e me encontraria. Mas desde que nada havia que eu pudesse fazer a respeito, o único recurso era permanecer oculta e rezar porum mar picado que o mantivesse no tombadilho cuidando do Aleister. Ou, ele poderia nem mesmo descer absolutamente...

Exatamente três minutos depois ele abriu a porta da cabina.

 

Que é preciso fazer?

Dize,

Que mandas?

Ouvi o estalo e senti o súbito redemoinho de ar fresco, cortado quando a porta foi fechada novamente.

Ouvi o raspar de um fósforo; o cheiro acre penetrou até o meu recanto oculto e, com ele, a primeira baforada de um cigarro. Ele devia ter descido por isto e, em seguida, iria...

Mas não foi. Nenhum movimento ocorreu. Ele devia estar muito perto de mim. Senti, como um animal na presença de perigo, o cabelo eriçar-se ao longo de minha pele. Eu estava grata pelo mar picado, pelo sibilar da água e pelas centenas de estalos e ruídos do Aleister a abrir caminho pela escuridão. Sem eles, acho que ele teria escutado as batidas do meu coração.

Ele deve ter passado ali apenas alguns segundos, embora para mim fosse uma pausa que se prolongou até quase o ponto do grito histérico. Mas pareceu-me que ele esperara apenas para acender de­vidamente o cigarro: acendeu outro fósforo, deixou-o cair, e a caixa, sobre a mesa e saiu novamente, fechando a porta.

O alívio deixou-me fraca e suada. O lado fechado do beliche parecia um forno. Empurrei um pouco para trás as dobras do cober­tor para respirar e olhei cuidadosamente para a cabina.

Uma arma. Isto era a primeira coisa... Eu tinha a lanterna mas ela era leve e dificilmente seria armamento adequado contra um assassino. Não que fosse fácil nas circunstâncias pensar em qualquer outra coisa (a não ser na arma de Leo) que fosse adequada, embora eu tivesse ficado satisfeita com uma boa garrafa cheia se apenas o maldito armário não estivesse vazio. Mas não havia garrafa alguma. Procurei lembrar-me furiosamente do conteúdo da cabina... A co­zinha? Certamente a cozinha devia transbordar de implementos. Frigideiras eram desajeitadas demais. Devia ser algo que eu pudesse ocultar... Uma faca? Eu não abrira as gavetas rasas durante a busca, mas uma delas devia forçosamente conter uma faca. Havia também o cabo de partida do motor. Se eu pudese abrir silenciosa­mente a porta do compartimento e colocar-me ao lado da cozinha, junto à porta, a espera dele...

Cautelosamente, com o olho pregado à porta, estendi a mão para empurrar o cobertor para o lado e deslizar do beliche coberto.

Fiquei imóvel, olhando horrorizada para a extremidade do be­liche.

Até mesmo na semi-escuridão eu podia vê-lo e Godfrey, à luz do fósforo, devia tê-lo visto com a maior clareza ainda... o dedo grande do meu pé, calçado com o sapato de tênis amarelo, proje­tando-se do monte de cobertores. Eu estava quase tão bem escon­dida como uma avestruz com o bico profundamente enfiado na areia.

Agora eu sabia o que acontecera. Ele entrara rapidamente para acender o cigarro, ali onde não havia vento, vira o que pensara fosse um pé e acendera outro fósforo para certificar-se. Tendo a certeza, fizera o quê?

Tive imediatamente a resposta. O barco nivelou-se e firmou-se como se estivesse reduzindo a velocidade. Em seguida, aparentemen­te à meu lado, o motor pegou com uma sacudidela e um curto e gaguejado rugido que quase me lançou diretamente contra o tabique. Em seguida a marcha foi reduzida para um murmúrio, uma simples pulsação e uma vibração das pranchas enquanto o Alcister movia-se em marcha uniforme. Ele simplesmente pusera o barco de frente para o vento sem arriar a vela mestra e dera partida ao motor para que o barco se mantivesse firme no curso sem necessitar de atenção. Eu não precisava imaginar por quê. Os seus passos rápidos já haviam chegado à porta da cabina.

Deslizei de dentro do beliche, deixei cair o casaco úmido e endireitei o vestido. Não havia mais tempo para mergulhar pela cabina e abrir a gaveta das facas. No momento em que Godfrey abriu a porta eu me dirigia para a mesa e a caixa de fósforos, aparentemente sem outra intenção mais mortal do que acender o candeeiro. Lancei-lhe um cumprimento alegre par cima do ombro.

            Ei, você aí. Espero que não se importe de levar uma clandestina.

O pavio pegou e a luz espalhou-se. Coloquei a manga no lugar na terceira tentativa, mas talvez ele não tivesse notado minhas mãos trêmulas. Ele se moveu para puxar as cortinas.

Naturalmente que estou deliciado. Como é que soube que eu decidira sair, afinal de contas?

Oh, não sabia, mas tive esperanças — disse e acrescentei com o que tenho certeza foi um lúgubre cinismo. — Você me viu, não? Veio para desmascarar-me. Qual é a penalidade para o em­barque clandestino nestes mares?

            Trataremos disto mais tarde — disse Godfrey.

A voz e a maneira mostravam-se tão agradáveis como sempre, mas após aquele primeiro olhar de relance, eu não ousava permitir que ele me visse os olhos. Ainda não. Havia um espelho embutido na porta de um guarda-comidas. Dirigi-me para ele e fiz os gestos de arrumar o cabelo.

            Por que é que você veio até aqui? — perguntou-me ele.

            Bem, eu queria dar um passeio após a ceia e... Você tem um pente, Godfrey? Meu cabelo está parecendo um ninho de ratos!

Sem uma palavra ele tirou um pente do bolso e entregou-me. Eu comecei, com movimentos exagerados, a ajeitar o cabelo.

            Eu desci até a praia. Tinha uma vaga idéia de que o golfinho podia voltar... Eles voltam, acho. De qualquer modo, fui olhar, mas ele não estava lá. Andei um pouco pelo caminho, escutando o ruído do mar e desejando que você quisesse sair. Em seguida, ouvi-o — eu sabia que teria sido você — em cima da garagem de barcos e corri. Você sabe, vim aos pulos.

Ele se aproximara e estava diretamente atrás de mim, muito perto, observando-me o rosto no espelho. Sorri para ele, mas não obtive reação. Os claros olhos dele pareciam de pedra.

Você me ouviu na garagem?

Sim. Ouvi a porta.

Quando foi isso?

            Oh, só Deus sabe, meia hora? Menos? Eu não sou boa para calcular o tempo. Eu lhe teria chamado, mas você parecia apres­sado e...

            Você me viu?

A respiração dele no meu pescoço provocou-me pânico, apenas um relâmpago, como um espasmo cardíaco. Virei-me rapidamente entreguei-lhe o pente e sentei-me no pé do beliche, dobrando as pernas sob o corpo, fingindo-me à vontade.

            Vi. Você estava saindo da garagem e subia apressadamente o caminho para a casa.

Percebi um traço ligeiríssimo de relaxação quando ele compre­endeu que eu não o vira descendo da caverna com os embrulhos. Ele puxou uma baforada, lançando um longo jato de fumaça cinza que se enovelou em torno do candeeiro.

            E depois?

Sorri para ele... provocantemente, segundo esperava.

            Bem, eu ia chamá-lo, mas vi que você usava um suéter e outras coisas e que provavelmente ia sair, afinal de contas. Pensei que, se eu ficasse escondida por aqui, você voltaria e eu poderia pedir-lhe.

— Por que não pediu?

Pedir o quê?

A mim.

Dei uma impressão de estar embaraçada e mexi numa ponta do cobertor.

            Bem, sinto muito. Eu sei que devia ter pedido, mas você ficou longe muito tempo, eu fiquei entediada, tentei a porta, estava aberta e então...

A porta estava aberta?

Estava.

            Não é possível. Eu a fechei. Inclinei a cabeça, concordando.

            Eu sei. Eu o ouvi. Mas não pegou inteiramente, ou houve alguma coisa. Você sabe como são essas fechaduras de mola. Apenas tentei-a para fazer alguma coisa — você sabe como a gente se mexe quando não tem o que fazer — e, quando ela abriu, fiquei muito espantada.

Não havia maneira de saber se ele acreditava ou não em mim, mas, segundo Spiro, a fechadura estava defeituosa e Godfrey não teria idéia alguma de que eu pudesse ter sabido disso. Não julguei que ele tivesse mudado a fechadura como ameaçara, pois eu o vira lutando com ela na segunda-feira, mas isto era um risco que eu teria de correr.

Ele bateu a cinza num vaso colocado em cima do armário das bebidas e esperou. Ele me pareceu muito alto. O candeeiro, ligeiramente oscilante, estava ao nível de seus olhos. Pensei por um mo­imento em dar um súbito empurrão nele que o lançasse com força contra a cabeça de Godfrey, mas duvidei que pudesse levantar-me com suficiente rapidez. Mais tarde, talvez. Sorri para ele, em vez disso, deixando transparecer um traço de incerteza, e mesmo de desalento.

           Eu... eu sinto muito. Acho que fiz uma coisa horrível. Eu devia ter esperado, mas eu tinha a certeza de que você não se importaria se eu olhasse o barco...

— Então por que se escondeu quando eu desci?

— Eu não sei! — a nota de desesperada honestidade saiu-me da boca exatamente certa. — Honestamente, não sei! Mas eu es­tava no barco, mexendo nos armários e na cozinha, em toda parte...

            Querendo encontrar o quê?

            O quê? — cada fragmento de técnica que eu jamais possuí transpareceu nas minhas palavras. — Bem, o que é que uma mulher quer habitualmente encontrar quando mexe nas casas de outras pes­soas? E um barco é muito mais divertido do que uma casa. Queria ver como estava instalado, a cozinha... bem, tudo! — ri, procuran­do trazê-lo de volta aos bons modos com tudo o que eu possuía, bancando a ignorante: seria bom também que não o deixasse descon­fiar do quanto eu sabia da disposição da chalupa. — E é realmente notável, Godfrey! Eu não tinha a mínima idéia — hesitei, então, mordendo os lábios. — Você está aborrecido comigo. Você está. Acho... acho que foi muita petulância minha. Na verdade, eu sabia que era, e penso que foi por isso que me escondi quando o ouvi à porta... Pensei subitamente que impressão ia dar, que você pode­ria ficar furioso. Entrei em pânico e escondi-me. Eu tive uma vaga idéia de que, afinal de contas, você não ia sair. Eu podia deslizar para fora depois que você tivesse ido embora. Foi isso.

Reclinei-me, perguntando-me se lágrimas nesta altura seriam gemais e resolvi que provavelmente seriam. Em vez disso, por entre as pestanas, enderecei-lhe um olhar dissolvente — ou pelo menos foi ísto que tentei fazer, mas jamais acreditarei novamente nos escrito­res românticos. É uma impossibilidade física. Godfrey, de qualquer maneira, recusou-se a derreter-se. Abandonei a tentativa e usei um pequeno sorriso trêmulo e uma mão, autenticamente não muito forte, para enxugar os olhos.

— Sinto muito — disse-lhe. — Estou realmente sentida. Por favor, não fique zangado.

— Eu não estou zangado — pela primeira vez ele desviou os olhos de mim. Subiu um degrau para abrir a porta e olhou para a escuridão lá fora. O que viu aparentemente o agradou, pois, quando voltou, não fechou a porta.

Bem, agora que está aqui é melhor que desfrute da viagem. Eu não posso deixar o timão por muito mais tempo. Assim, venha comigo. Esse seu casaco não é muito grosso, é? ele abriu um armário e tirou um pesado capote de marinheiro, que me estendeu.

Não se preocupe, o meu servirá — levantei-me e estendi amão para o casaco, que tinha ainda a lanterna no bolso, mas lem­brei-me de como estava úmido. Por mais que me esforçasse eu não podia lembrar-me, assim de repente, de qualquer motivo para o ca­saco encharcado, que molhara quando me ajoelhara nas poças d’água. Deixei-o cair novamente no beliche.

Bem, muito obrigada. Esse aí deve ser mais quente, acho. Parece que está ventando muito hoje à noite.

Enquanto êle segurava o casaco para que eu o vestisse, sorri para ele por cima do ombro.

Você me perdoou? Eu fiz uma coisa tola e você tem o direito de estar furioso.

Eu não estou furioso disse Godfrey, sorrindo. Virou-me e beijou-me.

Bem, eu mesma pedira isto e o estava recebendo. Fechei os olhos. Se eu fingisse que era Max... não, isto era impossível. Bem, alguém que não importasse... por exemplo, aquele rapaz bonzinho com que tive um caso passageiro mas que não me interessou mais quando chegou o momento de ir adiante... Mas isto tampouco ser­via. O que quer que Godfrey fosse ou não fosse, ele não beijava como um rapaz bonzinho...

Abri os olhos e observei, sobre os ombros dele, o belo candeeiro balouçando-se a uns trinta centímetros de distância da cabeça. Se eu o pudesse colocar na órbita dele... Acho que há cicunstâncias em que é correto, e mesmo louvável, uma moça esmagar a cabeça de um homem com um candeeiro enquanto êle a beija...

O Aleister deu uma súbita guinada e jogou violentamente. Godfrey soltou-me como se eu o tivesse mordido.

Apague o candeeiro, sim?

Claro.

Ele subiu correndo os degraus. Apaguei o candeeiro com um sopro e fiquei com a manga nas mãos durante alguns segundos, mas o Aleister já se firmara novamente. Godfrey parou na porta sem entrar na cabina e estendeu a mão para mim.

            Venha para fora para ver as estrelas.

            Um momento só.

A voz dele endureceu ligeiramente. Ele não estava tão calmo como parecia.

Que é?

O meu lenço. Está no bolso do meu casaco — mexi desajeitadamente na escuridão do beliche fechado entre as dobras do casaco e dos cobertores. A lanterna entrou suavemente no bolso do casaco de marinheiro; puxei o lenço rapidamente, corri pelos degraus e pus a minha mão na dele.

Do lado de fora estendia-se a noite batida pelos ventos, estrelas, borrifos de água e um mar negro e brilhante a explodir em grandes leques de espuma. Obscuramente à esquerda distingui a linha da costa recortada contra o céu e uma massa de terras altas blo­queando as estrelas. Embaixo da massa notei luzes, fracas e poucas e, aparentemente, não muito distantes.

Onde é que estamos?

Mais ou menos a seiscentos metros de Glyfa.

Onde é que fica isso?

Como você sabe, a costa curva-se aqui para leste em torno do sopé do Monte Pantokrator, em direção ao continente. Nós es­tamos a meio caminho ao longo da curva...

Então estamos indo para o Leste?

Durante algum tempo. Ao largo de Kouloura entraremos no estreito.

("Acho que estávamos a meio caminho", disse Spiro, "no es­treito entre Kouloura e o continente.")

Você sentirá o vento um pouco mais forte quando deixarmos o abrigo do Pantokrator — disse Godfrey. — Está aumentando bas­tante agora. — Ele enfiou um braço em torno de minha cintura, cordial, inexorável — venha e sente-se aqui a meu lado. O barco não vai tomar conta de si mesmo a vida toda. Você conhece alguma coisa a respeito de navegação?

Nada absolutamente — enquanto ele me empurrava insistentemente para o assento na popa, meus olhos estavam ocupados examinando a carlinga escura. Eu sabia perfeitamente que não havia nenhuma arma conveniente por ali, mesmo que aquele braço cari­nhoso me deixasse alcançá-la. Mas olhei, apesar disso. Ocorreu-me que ele provavelmente levava uma arma e eu já descobrira que nada havia no bolso mais perto de mim, o esquerdo. Se ele ficasse amo­roso novamente, talvez fosse possível descobrir se estava no outro bolso... Quando ele me puxou para o assento da popa, envolvi-me mais no casaco de marinheiro para proteger-me das mãos dele e ao mesmo tempo, relaxei-me diretamente contra a curva do seu ombro. Pensei que se usasse um coldre sob a axila ele dificilmente me teria aconchegado tão jovialmente no seu lado esquerdo. Tive razão. Não havia arma ali. Reclinei-me confortavelmente e dispus-me a mostrar-lhe o quão pouco entendia de navegação.

Qual é a velocidade do barco?

Mais ou menos oito nós.

            Oh? — deixei transparecer que não tinha a mínima idéia do que eram nós, mas não quis expor minha ignorância. Ele não me esclareceu. Pôs o braço em torno de mim, lançou o cigarro pela borda, e acrescentou:

            A vela, isto é. Seis ou sete com o motor ligado.

            Oh? — tentei novamente a mesma entonação e tive êxito, aparentemente, porque ele riu indulgentemente quando se virou para beijar-me.

O Aleister inclinou-se e embicou para o mar picado. O botaló passou por nossas cabeças com a vela mestra estalando como um tiro de fuzil. Forneci-me uma desculpa para o recuo instintivo quando sua boca se fechou sobre a minha, mas, no momento seguinte, con­segui controlar-me e respondi com uma espécie de entusiasmo reser­vado, enquanto os meus olhos abertos observavam os movimentos de pêndulo do botaló sobre as nossas cabeças e eu tentava desprender minha mente de Godfrey e pensar.

Era bastante claro o que ele fazia: não estando convencido ainda de minha inocência, não quisera arriscar-se a deixar-me sem guarda enquanto recolhia a vela mestra e ligava o motor do Aleister. Tudo o que ele podia fazer era manter o barco como estava, de proa para o mar, o motor girando em ponto morto, a vela mestra impulsionando-o a cata-vento enquanto ele resolvia o que fazer de mim. Que sorte a minha, pensei amargamente, alisando-lhe o rosto com mão carinhosa, que o vento o levasse mais ou menos para aonde ele que­ria. Se ele se dirigia (como eu pensava) para o mesmo lugar em que tentara afogar Spiro naquela noite, então devia estar bem dentro da rota.

Uma súbita lufada de vento levantou o casco do Aleister em um ângulo que trouxe novamente o botaló ceifando por cima de nossa cabeça com um estalo e um som abafado. Godfrey soltou-se abruptamente e estendeu a mão direita para o timão. No momento em que ele se moveu, inclinando-se ligeiramente para a frente, vi a minha arma.

Exatamente atrás dele, pendurada num gancho por trás do assento da carlinga da popa, vi o salva-vidas da chalupa e, ligado a ele por um pedaço de corda, o sinalizador de fumaça... um tubo de metal de mais ou menos trinta centímetros de comprimento com uma bóia em forma de tambor, também de metal oco, de mais ou menos dois terços de seu comprimento. Era suficientemente pesado, tinha uma forma bastante letal e seria uma arma formidável se eu pudesse tirá-lo do gancho, a mais ou menos trinta centímetros de distância de onde me encontrava. A corda que o prendia estava levemente enrolada sobre o gancho e teria uns três ou quatro metros de com­primento — extensão suficiente para usá-lo como arma. Bastava que eu a agarrasse. Eu dificilmente poderia estender a mão por trás dele e certamente não teria oportunidade de usar a arma, mesmo que o conseguisse. Se eu pudesse pelo menos fazer com que ele se levantasse, por um breve momento, e se afastasse de mim. . .

Por que é que você deixa a vela içada? — perguntei. — Eu pensei que ela fosse amainada quando se liga o motor.

Não necessariamente. Eu vou navegar a vela dentro de alguns momentos e entrementes o barco tomará conta de si mesmo desta maneira.

— Compreendo — isto era tudo o que eu podia fazer, neste mo­mento. Dar a impressão de que não compreendia. Mas eu compre­endia perfeitamente bem. Ele usaria as velas pelo mesmo motivo por que saíra: para agir em silêncio. E era bastante claro para aonde ele ia. Estávamo-nos dirigindo para a costa albanesa com a carga. E en­trementes, disso eu não tinha dúvida, significava lançar-me ao mar como Spiro fora lançado. Depois de ter-me ido, ele podia dirigir o Aleister com as duas mãos.

Aspirei profundamente o ar salgado e reclinei confiantemente a cabeça no ombro dele.

Maravilhoso, não é? Estou tão satisfeita de ter vindo como clandestina. E você não está realmente zangado comigo. Olhe só para essas estrelas... Isto é uma coisa que nos faz uma falta enorme em Londres atualmente; nenhum céu noturno; apenas aquele hor­rível e sujo clarão de cinco milhões de lâmpadas de sódio. Você não devia navegar com luzes Godfrey?

Devia, mas não as vou usar. Enquanto eu não encontrar outra pessoa transgredindo a lei, nós os veremos, e assim não há nada de mal.

            Transgredindo a lei? Pensei que ele sorria.

Navegar sem luzes.

Oh. Você vai então tirar fotografias? Do amanhecer?              

soltei uma risadinha. O que será que Phyl vai dizer desta vez quando eu chegar em casa juntamente com o leiteiro?

Onde é que ela está hoje a noite? Ela sabia que você ia sair?

Ela está com amigos no Corfu Palace. Encontrei um recado dela quando cheguei. Era tarde demais para ir encontrá-los e eu simplesmente fiquei em casa...Eu...eu me senti um pouco de­primida. Nós tivemos um dia tão maravilhoso, você e eu, e eu sim­plesmente não podia permanecer em casa.

Pobre Lucy. E eu fui vil para com você. Sinto tanto. Alguém sabe onde você está?

A pergunta era casual, quase terna e ouvi-a como se fosse um alarma de incêndio. Hesitei talvez um segundo longo demais.

Miranda estava em casa. Eu disse a ela que ia sair.

Até a garagem dos barcos?

Bem, não. Nem eu mesma sabia que iria lá,

Ele não respondeu. Eu de maneira alguma podia saber se o meu miserável blefe funcionara. O frio tom imparcial bastante agra­dável, por falar nisso e a fria sensualidade de seus gestos amo­rosos nenhuma pista me davam do que ele sentia ou planejava fazer. Ele possuía uma personalidade pela qual os palpites humanos nor­mais simplesmente resvalavam. Mas estivesse ou não ele convencido de minha inocência, eu achava que nada que pudesse fazer teria im­portância alguma para o meu destino final. A única arma que eu possuía contra ele era o que eu sabia: que Spiro estava vivo, que Godfrey podia ser acusado do assassinato de Yanni, que Adoni e Miranda haviam visto os embrulhos, que Miranda vira quando ele os levara para a garagem dos barcos e que devia saber onde eu me encontrava naquele momento. E, finalmente, que Godfrey na volta en­contraria quase certamente Max, Adoni e (agora) a Polícia, que desta vez não estaria disposta a aceitar facilmente qualquer história que ele pudesse inventar. Sem meias palavras, se ele me assassinasse ou não, o jogo dele estava liquidado.

O problema é que a solução servia de duas maneiras. Se nenhu­ma diferença fizesse o que ele resolvesse a meu respeito, então evi­dentemente o seu melhor curso seria matar-me e tentar fugir (por certo, medida já planejada) sem voltar absolutamente para as mãos ansiosas de Max e da Polícia grega.

O silêncio, portanto, era o único curso a seguir. Era vagamente possível que, se me julgasse inocente, ele abandonasse a missão e me levasse para casa, ou que eu pudesse convencê-lo a relaxar a vigilância sobre mim durante tempo suficiente para eu agarrar a arma que via pendurada por trás do seu ombro direito.

            Ouça — disse eu rapidamente. — Que é que há com o mo­tor? Ouviu aquilo?

Ele virou a cabeça.

            O quê? O motor parece normal.

            Não sei... Pensei que tinha feito um ruído esquisito, uma espécie de batida.

Ele escutou durante um momento enquanto o motor continuava a ronronar. Em seguida, sacudiu a cabeça.

            Você deve ter ouvido aquele outro barco... há outro lá embaixo, a nordeste de nós, saindo de Kentroma. Você pode ouvi-lo entre as lufadas do vento — o braço dele endureceu-se quando contorci-me para olhar, afastando-me como se quisesse levantar-me. — Não é nada. Alguma velha chata saindo de Kentroma com um motor de antes da guerra. Fique quieta.

Forcei a vista sobre a água preta e agitada onde a luz, mortiça e oscilante, aparecia e desaparecia com os movimentos do mar. Contra o vento em relação a nós, pensei: eles jamais ouviriam coisa alguma e, se ouvissem, jamais alcançariam o Aleister com as suas belas linhas e motor macio como seda.

Subitamente, a uma curta distância de nós, um relâmpago des­pertou-me a atenção, uma curva e um espadanar de água onde algum peixe cortava uma esteira fosforescente como uma linha de fogo es­verdeado.

            Godfrey! Olhe!

Ele relanceou rapidamente os olhos para meu lado.

            O quê?

Eu estava meio fora do assento.

A luz, aquela bela luz verde, justamente ali no mar! Sério, estava justamente ali...

Um cardume ou alguma outra coisa — disse ele em voz quase impaciente e eu compreendi com um sobressalto que ele estava che­gando a alguma conclusão. — Freqüentemente vemos fosforescên­cia à noite por aqui.

Lá está novamente! Poderia ser fotografada? Oh, olhe! Solte-me por um momento. Godfrey, por favor, eu...

Não. Fique aqui — o braço dele pareceu-me uma barra de ferro. — Eu quero perguntar-lhe uma coisa.

            O quê?

— Você respondeu-me uma pergunta. Mas há outra. Por queveio aqui?

Eu lhe disse...

Eu sei o que você me disse. Você espera que eu acredite?

Eu não compreendo o que você. . .

Eu beijei mulheres antes. Não me peça para acreditar que veio porque queria ficar comigo.

Bem — disse eu — eu reconheço que não esperava que fosse assim.

Assim como?

Você sabe perfeitamente bem.

            Acho que sei. Mas se você segue um homem, esconde-se na cama dele e banca a Cleópatra enrolada num tapete, você dificilmente pode esperar que ele se declare por meio de cartões.

As palavras dele eram como ácido a derramar-se sobre uma superfície polida, para corroer a madeira e mostrá-la, bruta e feia. Eu sentira borrifos do mesmo corrosivo à tarde. Se tivesse havido luz suficiente, ele teria visto meus olhos arregalados.

            Você tem de ser tão grosseiro? Eu sabia que você estava aborrecido, mas pensei que tinha superado isso. E se você quer saber a verdade, eu não compreendo por que você fica tão furioso quando alguém olha para seu barco. Contei-lhe exatamente o que aconteceu e se você não acredita em mim e se pensa que eu devo ir direta­mente para a cama com você, aqui e agora, pode pensar novamente. Não é dos meus hábitos.

            Então por que se comportou como se fosse?

            Ouça aqui! — interrompi-me e ri. De qualquer modo, não devia forçá-lo a chegar ao acerto de contas comigo naquele momen­to. Eu teria de abafar a raiva e tentar uma desculpa mais adocicada. — Ouça, Godfrey, esqueça isso! Sinto muito. É tolice culpá-lo, e eu mesma é que provoquei isto... e eu estava realmente representando na cabina, reconheço. Aquilo foi tolice, também. Mas quando uma mulher se mete numa confusão e se vê frente a frente com um ho­mem furioso, é uma coisa instintiva usar o sexo para livrar-se. Eu não representei bem esta noite, não foi? Mas eu jamais pensei que você ficasse tão furioso ou tão... incompreensivo.

            Sexualmente ? Como você me conhece pouco!

            Bem, você já se vingou. Eu nunca me senti tão idiota e tão miserável na minha vida. E você não precisa preocupar-se com a possibilidade de que eu o siga novamente. .. Eu jamais o encararei à luz do dia enquanto viver!

Ele não respondeu, mas para os seus sentidos aguçados foi como se ele tivesse rido em voz alta. Senti a ironia de minhas palavras ressoar e cortar o ar agitado. Um pouco a estibordo a esteira defogo verde curvou-se, brilhou novamente e desapareceu. Disse-lhe:  — Bem, depois disso, acho que devo pedir-lhe que estrague final e irremediavelmente seu passeio e me leve para casa.

— Não adianta, querida — disse ele secamente, com um tom de voz inteiramente diferente. Senti um calafrio percorrer-me o corpo.

— Aqui você está e aqui você fica. Você vai até o fim.

— Mas você não pode querer que eu...

— Eu não quero. Você veio porque quis — ou pelo menos diz isso — e fica porque eu digo que fica. Eu não tenho tempo de levá-la de volta, mesmo que quisesse. Você já me desperdiçou tempo demais. BEu estou fazendo uma viagem urgente hoje à noite e de acordo com Hum horário...

Godfrey...

— Levando uma carga de moeda falsa para a costa albanesa. Está sob o assoalho da cabina. Setecentos mil lelts, ligeiramente usados, em pequenos valores. E danados de bons, também. Se eu for preso, serei fuzilado. Compreendeu?

— Eu não acredito. Você está brincando comigo.

— Longe disso. Quer vê-los?

—            Não. Não. Eu acredito, se você quiser, mas não compreendo. Por quê? Por que é que você faz uma coisa destas?

Kentroma estava diante de nós pelo través, a mais ou menos a mesma distância. Pensei ver uma leve sugestão de uma estranha espuma muito perto e uma massa de terra. Meu coração saltou dentro do peito. Mas desapareceu. Uma ilhota rochosa, na melhor das hipóteses, escura e varrida pelo vento. Quando por ela passamos, "senti o súbito levantar do vento, mais forte, vindo do leste, virando-nos e empurrando-nos em lufadas quando as montanhas, de cada lado do estreito, aprisionaram-no e lançaram-no em correntes de ar.

E ali, não tão distante agora, estavam as luzes de Kouloura, onde terminava a terra e começava o estreito.

Voltei com esforço a atenção para o que ele dizia.

           ... E no momento a situação na Albânia é de tal sorte que qualquer coisa pode acontecer, e interessa a certas pessoas — acho que me entende, não — que isto aconteça. A panela balcânica pode ser sempre posta a ferver desde que se aplique o calor no lugar certo. Temos a Iugoslávia, Grécia e Bulgária, de adagas na mão, em torno da fronteira albanesa, preparadas para encrencas e nenhu­ma delas ousando começá-las.

Ou querendo começá-las? — disse-lhe eu secamente. — Ng0 me venha com isto! A última coisa que a Grécia quer é um proble­ma na fronteira pelo qual possa ser responsabilizada... Oh!

Sim pensei que você compreenderia. Facílimo, não? Uma si­tuação maravilhosa. A China Comunista bem instalada na Albânia com uma pequena e linda base na Europa, o tipo de cabeça-de-ponte que o Irmão Mais Velho lá em cima daria tudo para possuir. E se o atual governo pró-chinês caísse e se a queda fosse atribuída à Gré­cia, haveria uma bela explosão balcânica, os chineses sairiam e os russos entrariam. E talvez entrassem na Grécia também. Compreen­deu agora?

Oh, Deus, sim. É um velho truque. Hitler tentou-o na última guerra. Enche-se o país de moeda falsa e o governo cai como um castelo de cartas. Há quanto tempo está acontecendo isto?

O transporte de moeda? Já há bastante tempo. Esta é a última carga. O Dia D é Sexta-Feira Santa. Começa nessa data, len­tamente, e acredite-me, a explosão vai ocorrer em questão de dias — ele soltou uma risada. — Eles verão a nuvem de cogumelo até mesmo em Washington.

—- E você? De onde a verá?

Eu terei um assento na primeira fila, não se preocupe com isso. Mas não será na Villa Rotha. "G. Manning, Esquire", desa­parecerá quase imediatamente. Você não teria saído comigo de qual­quer maneira no sábado, minha querida. Uma pena, pensei na ocasião. Eu gostei do nosso passeio. Nós temos muita coisa em comum.

Você precisa ser tão insultuoso assim?

As minhas palavras não fizeram nem mesmo uma mossa nele. Ele olhava fixamente para a escuridão ao norte.

            O que eu realmente lamento é que jamais poderei usar as fotografias. O pobre <